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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A JANELA QUEBRADA Jeffery Deaver
A JANELA QUEBRADA Jeffery Deaver

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

ALGUMA COISA A ESTAVA PREOCUPANDO, mas ela não sabia bem o quê.

Era como uma leve e recorrente sensação de dor em algum lugar do corpo.

Ou como um homem na rua caminhando atrás de você, enquanto você se aproxima de seu apartamento... Seria o mesmo que ficara observando você no metrô?

Ou então um ponto escuro movendo-se em direção à sua cama, mas que agora sumiu. Talvez uma aranha?

Mas o visitante acomodado no sofá da sala de estar de Alice Sanderson a olhou e ela esqueceu a preocupação — se é que era mesmo isso. Sem dúvida Arthur era um homem inteligente e corpulento, mas também tinha um sorriso adorável que valia muito mais.

— Que tal um pouco de vinho? — perguntou ela, entrando na pequena cozinha.

— Claro. Qualquer coisa que você tenha aí.

— Isto é divertido, sabe? Dois adultos matando o trabalho num dia de semana. Estou adorando.

— Rebeldes sem causa — brincou ele.

Para além da janela, do outro lado da rua, havia fileiras de casas, algumas pintadas e outras com a cor natural das pedras. Os dois podiam ver também uma parte da linha dos arranha-céus de Manhattan, um tanto coberta pelo nevoeiro naquele agradável dia de primavera. Ar fresco — ao menos para o padrão da cidade — entrava no ambiente, trazendo o aroma de alho e orégano de um restaurante italiano que ficava mais adiante na rua. Era o tipo de cozinha favorita dos dois, um dos muitos interesses em comum que haviam descoberto desde que tinham se conhecido numa sessão de degustação de vinho no SoHo. Era fim de abril e Alice fazia parte de um grupo de cerca de quarenta pessoas que ouviam a palestra de um sommelier sobre os vinhos da Europa, quando uma voz masculina fez uma pergunta sobre um tipo específico de vinho tinto espanhol.

 

 

 

 

Alice riu para si mesma. Por acaso possuía uma caixa daquele vinho (bem, parte de uma caixa agora), produzido por uma vinícola pouco conhecida. Talvez não fosse o melhor Rioja de todos os tempos, mas a bebida lhe oferecia um outro buquê: o de uma lembrança agradável. Na companhia de um namorado francês, ela havia consumido grandes quantidades durante uma viagem à Espanha. Era uma ligação perfeita, exatamente a necessária para uma jovem de pouco menos de 30 anos que acabara de romper com outro namorado. O romance de férias foi apaixonado, intenso e naturalmente destinado ao fracasso, o que o tornara ainda melhor.

 

Alice se curvara para a frente a fim de ver a pessoa que mencionara aquele vinho: era um homem de aparência comum, vestido de terno e gravata. Depois de alguns copos do vinho que estava sendo apresentado, ela se sentiu mais corajosa e atravessou a sala, equilibrando um prato de canapés, para conversar com o sujeito sobre o interesse dele no vinho espanhol.

 

Ele explicou que tinha feito uma viagem à Espanha poucos anos antes, com uma ex-namorada. Contou que gostara daquele vinho. Sentou-se com Alice e os dois conversaram por algum tempo. Aparentemente, Arthur gostava do mesmo tipo de comida e dos mesmos esportes que ela. Ambos faziam jogging e todas as manhãs passavam uma hora em academias caras.

 

— No entanto — disse ele —, eu uso os shorts e camisetas mais baratos que consigo encontrar na J. C. Penney. Nada daquele lixo de designers.

 

Em seguida enrubesceu, temendo tê-la ofendido.

 

Ela, porém, riu. Fazia o mesmo com as roupas que usava para se exercitar (em seu caso, comprava-as na Target, quando ia visitar a família em Nova Jersey). Reprimiu a vontade de confessar isso, no entanto, preocupada em não parecer empolgada demais. Ambos se dedicaram ao costumeiro jogo de primeiros encontros: as coisas que temos em comum. Deram notas a restaurantes, compararam episódios de Curb your enthusiasm e se queixaram dos respectivos analistas.

 

Encontraram-se novamente, e mais uma vez depois disso. Art era divertido e cortês; um pouco reservado, às vezes tímido, com tendência à reclusão, que ela atribuiu ao que ele chamou de “rompimento dos infernos”: o fim do relacionamento longo com uma namorada do mundo da moda. E ainda havia o exigente horário de trabalho de um homem de negócios. Tinha pouco tempo livre.

 

Aquela relação poderia ter algum futuro?

 

Ainda não poderia considerá-lo um namorado, mas havia muita gente menos interessante do que ele. Quando se beijaram, no encontro mais recente, ela sentiu o arrepio que definitivamente significava química; naquela noite, poderia descobrir até onde ela iria. Ela notara que Arthur havia prestado atenção — furtivamente, ele acreditava — no vestido cor de rosa que comprara na chique Bergdorf Goodman especialmente para aquele encontro. Alice, por sua vez, deixara o quarto preparado para o caso de irem além dos beijos.

 

Naquele momento reapareceu o vago mal-estar, a preocupação com a aranha.

 

O que a poderia estar incomodando?

 

Alice supôs que fosse apenas um vestígio do desconforto que sentira mais cedo naquele dia, quando um entregador trouxera uma encomenda. O homem tinha a cabeça raspada e fartas sobrancelhas, cheirava a cigarro e falava com carregado sotaque do Leste Europeu. Ela assinou o recibo, o homem a olhou de alto a baixo, sem dúvida tentando um flerte, e pediu um copo d’água. Ela foi buscar, com certa relutância, e o encontrou no meio da sala, olhando o sistema de som.

 

Alice disse que esperava visitas e o homem se retirou, franzindo a testa, como se tivesse ficado zangado por ser rejeitado. Ela observou pela janela e percebeu que se passaram dez minutos até que ele voltasse à van que deixara estacionada em fila dupla e se afastasse.

 

O que estaria fazendo dentro do prédio durante todo aquele tempo? Examinando...

 

— Ei, está aqui?

 

— Desculpe — disse ela, rindo, aproximando-se do sofá e sentando-se ao lado de Arthur, os joelhos roçando nos dele. Esqueceu-se do entregador. Fizeram um brinde, duas pessoas compatíveis em todos aos aspectos importantes: em política (contribuíam com importâncias parecidas para o partido Democrata e faziam doações durante as campanhas da rede pública de emissoras), filmes, restaurantes, turismo. Ambos eram de educação protestante, mas não eram praticantes.

 

Quando os joelhos se tocaram novamente, ele mexeu os dele, sedutoramente. Em seguida, sorriu e perguntou:

 

— Aquele quadro que você comprou, o Prescott? Já entregaram?

 

Os olhos dela brilharam ao assentir com cabeça.

 

— Já. Agora sou proprietária de um Harvey Prescott.

 

Alice Sanderson não era rica segundo os padrões de Manhattan, mas fizera bons investimentos e podia dedicar-se à sua verdadeira paixão. Acompanhara a carreira de Prescott, pintor do Oregon que se especializara em quadros foto-realísticos de famílias — não pessoas reais, e sim inventadas por ele. Alguns quadros eram tradicionais, outros não — pai ou mãe solteiros, mistura de raças ou gays. Praticamente não havia no mercado quadros de Prescott ao alcance dos recursos dela, mas Alice se registrara nas galerias que de vez em quando vendiam essas obras. No mês anterior ficara sabendo que uma tela pequena, da fase inicial, poderia estar disponível por 150 mil dólares. Quando o proprietário resolveu vender, ela tirou o dinheiro de seus investimentos para pagar à vista.

 

Era essa a entrega que tinha sido feita naquele dia. O prazer de possuir o quadro, porém, diminuíra com um novo surto de preocupação por causa do entregador. Ela se lembrou do cheiro dele, dos olhos lascivos. Sob o pretexto de abrir mais as cortinas, Alice se levantou e olhou para fora. Não havia vans de entrega nem homens de cabeça raspada parados na esquina, olhando para seu apartamento. Pensou em fechar e trancar a janela, mas isso pareceria paranoia e seria preciso explicar.

 

Voltou para junto de Arthur e correu o olhar pelas paredes, dizendo não ter certeza de onde iria pendurar o quadro no pequeno apartamento. Teve uma ligeira fantasia, com Arthur passando a noite de sábado com ela e ajudando-a, no domingo, a encontrar o lugar ideal para a tela.

 

Com a voz cheia de prazer e orgulho, perguntou:

 

— Quer vê-lo?

 

— Claro.

 

Levantaram-se e ela caminhou em direção ao quarto, com a sensação de ter ouvido passos lá fora, no corredor. Todos os demais moradores deveriam estar no trabalho àquela hora.

 

Poderia ser o entregador?

 

Bem, pelo menos ela não estava sozinha.

 

Chegaram à porta do quarto.

 

Foi quando ela sentiu o bote da aranha.

 

Com um sobressalto, Alice percebeu naquele momento o que a estivera preocupando, e não tinha nada a ver com o entregador. Não, o problema era com Arthur. Na véspera, ele perguntara em que dia ela ia receber o Prescott.

 

Ela havia dito que comprara um quadro, mas não mencionara o nome do artista. Reduziu o passo ao chegar à porta do quarto. As mãos suavam. Se ele havia descoberto o autor do quadro sem que ela tivesse dito, provavelmente descobrira outros detalhes da vida dela. E se todas as coisas que tinham em comum fossem mentira? Se ele tivesse sabido com antecedência do gosto dela por vinho espanhol? Se tivesse ido à degustação simplesmente para se aproximar dela? Todos os restaurantes que conheciam, as viagens, os programas de TV...

 

Meu Deus. Ali estava ela, levando um homem que conhecia havia poucas semanas a seu quarto. Com todas as defesas desligadas...

 

Ela ofegava, sentindo calafrios.

 

— Ah, o quadro — sussurrou ele, atrás dela. — É lindo.

 

Ouvindo a voz calma e agradável, Alice riu consigo mesma. Só podia estar louca. Certamente deveria ter mencionado o nome de Prescott a Arthur. Deixou de lado o mal-estar. Acalme-se. Já faz tempo demais que você está morando sozinha. Lembre-se dos sorrisos dele, dos gracejos. Ele pensa da mesma maneira que você.

 

Relaxe.

 

Um riso abafado. Alice olhou para a tela de 60 por 60 centímetros, as cores sóbrias, o retrato de seis pessoas em torno de uma mesa de jantar, algumas com expressão divertida, outras pensativas, outras preocupadas.

 

— Incrível — disse ele.

 

— A composição é ótima, mas o que ele capta com perfeição são as expressões. Não acha? — perguntou Alice, voltando-se para ele.

 

O sorriso fugiu-lhe dos lábios.

 

— Que é isso, Arthur? Que está fazendo?

 

Ele tinha calçado luvas de tecido bege e procurava alguma coisa no bolso. Ela o olhou nos olhos, que tinham assumido uma expressão dura e se reduzido a pontos negros sob as sobrancelhas, formando um rosto que ela mal reconhecia.

 

A PISTA LEVARA DE SCOTTSDALE a San Antonio e então a uma área de descanso à margem da estrada interestadual 95 cheia de caminhoneiros e famílias inquietas, e finalmente ao improvável destino em Londres.

 

O objeto da caçada ao longo dessa rota? Um assassino profissional que Lincoln Rhyme já vinha perseguindo havia algum tempo. Certa vez ele fora capaz de impedi-lo de cometer um horrível crime, mas o homem conseguira escapar da polícia poucos minutos antes de fechar-se o cerco. Nas palavras amargas de Rhyme, ele “saíra valsando para fora da cidade como um maldito turista que tivesse que voltar ao trabalho na segunda-feira de manhã”.

 

O rastro desapareceu como pó, e nem a polícia nem o FBI puderam descobrir onde ele se escondia e o que poderia estar planejando. Poucas semanas antes, no entanto, Rhyme ouvira de seus contatos no Arizona que esse mesmo indivíduo era o provável suspeito do assassinato de um soldado do exército norte-americano em Scottsdale. Os indícios eram de que ele seguira para o leste, primeiro para o Texas e depois para Delaware.

 

O nome do autor do crime, que poderia ser verdadeiro ou fictício, era Richard Logan. Provavelmente provinha do lado oeste dos Estados Unidos ou do Canadá. Buscas intensas revelaram diversas pessoas com esse nome, mas nenhuma se ajustava ao perfil do assassino.

 

Nesse ponto, por puro acaso (Lincoln Rhyme jamais usava a palavra sorte), ele ficou sabendo por intermédio da Interpol, instituição europeia de processamento de informações policiais, que um assassino profissional oriundo dos Estados Unidos tinha sido contratado para um serviço na Inglaterra. Ele havia matado alguém no Arizona a fim de obter acesso a certas informações e identidades militares, encontrara-se com capangas no Texas e recebera um adiantamento em dinheiro em alguma parada de caminhões na costa leste. Desembarcara no aeroporto de Heathrow e estava agora em algum ponto do Reino Unido, de localização desconhecida.

 

O objetivo do “plano bem-organizado de Richard Logan, que tivera origem em níveis elevados” — Rhyme não pode deixar de sorrir ao ler a descrição pomposa feita pela Interpol — era um pastor protestante oriundo da África, que dirigira um campo de refugiados e descobrira uma fraude de grandes proporções na qual remédios contra AIDS roubados eram vendidos para comprar armas. O eclesiástico fora transferido para Londres pelas forças de segurança, depois de escapar de três atentados contra sua vida na Nigéria, na Libéria e até mesmo de um na área de trânsito do aeroporto Malpensa em Milão, onde a Polizia di Stato, armada de metralhadoras leves, examina muita coisa e não deixa passar quase nada.

 

O reverendo Samuel G. Goodlight estava agora em um endereço seguro em Londres, sob os olhares vigilantes de funcionários da Scotland Yard, sede do Serviço Policial Metropolitano, ajudando as agências de inteligência britânica e estrangeiras a compreender melhor o esquema de troca de remédios por armas.

 

Por meio de mensagens por satélite codificadas e e-mails que passaram por diversos continentes, Rhyme e uma inspetora da Polícia Metropolitana, chamada Longhurst, haviam preparado uma armadilha para prender o autor do crime. O plano, que fazia jus às elaboradas maquinações de Logan, previa a participação de sósias e a ajuda vital de um importante ex-intermediário sul-africano no tráfico de armas, que trazia uma rede de informantes. Danny Krueger havia ganhado centenas de milhares de dólares vendendo armas com a mesma eficiência e isenção com que outros homens de negócios vendem aparelhos de ar condicionado e xaropes para a tosse. No ano anterior, no entanto, uma viagem a Darfur o abalara, ao ver a carnificina que seus brinquedinhos causavam. Desistira imediatamente do comércio de armas e se instalara na Inglaterra. Entre os demais membros da força-tarefa havia funcionários do MI5 e dos escritórios do FBI em Londres, além de um agente da versão francesa da CIA, a Direction Générale de la Sécurité Extérieure.

 

Ao planejar seus passos, eles nem sequer sabiam em que região da Grã-Bretanha ficava o esconderijo de Logan, mas o tempestuoso Danny Krueger tinha ouvido dizer que o assassino entraria em ação nos próximos dias. O sul-africano ainda mantinha numerosos contatos com o submundo internacional e espalhara boatos sobre uma localização “secreta” onde ocorreriam as reuniões entre Goodlight e as autoridades. O prédio possuía um pátio aberto que proporcionava uma perfeita zona de tiro para que o matador assassinasse o eclesiástico.

 

Era também o cenário ideal para localizar e aniquilar Logan. A vigilância tinha sido organizada e policiais armados, agentes do MI5 e do FBI permaneciam em estado de alerta 24 horas.

 

Rhyme estava agora sentado na cadeira de rodas motorizada vermelha no andar térreo de sua casa no lado oeste do Central Park, que já não era mais a pitoresca morada vitoriana do passado, e sim um laboratório criminal bem equipado e maior do que muitos outros em cidades de tamanho médio. Repetia o que vinha fazendo frequentemente durante os dias anteriores: olhar o telefone, cujo botão de número 2 ligava diretamente a uma linha em Londres.

 

— O telefone está funcionando, não? — perguntou ele.

 

— Haveria algum motivo para que não estivesse? — indagou de volta Thom, seu ajudante pessoal, em tom moderado, que pareceu a Rhyme um prolongado suspiro.

 

— Não sei. Os circuitos podem ficar sobrecarregados. As linhas telefônicas podem ser destruídas por relâmpagos. Tudo pode dar errado.

 

— Nesse caso, talvez você deva testar, para garantir.

 

— Comando — disse Rhyme, ativando o sistema de reconhecimento de voz ligado à sua unidade eletrônica de controle, que substituía de muitas maneiras o seu funcionamento físico. Lincoln Rhyme era tetraplégico, com movimentos limitados abaixo do ponto em que quebrara o pescoço em um acidente numa cena de crime, anos antes: a quarta vértebra cervical, na base do crânio. Em seguida pronunciou o comando: — Assistência de discagem.

 

O sinal de discar soou nos alto-falantes seguido por um bip-bip-bip. Isso irritou Rhyme mais do que se o telefone não funcionasse. Por que a inspetora Longhurst não tinha ligado?

 

— Comando — disparou. — Desligar.

 

— Parece estar tudo bem — disse Thom, colocando uma caneca de café no suporte da cadeira de rodas, que o criminalista sorveu por meio de um canudo. Olhou para uma garrafa de uísque Glenmorangie 18 anos, de malte único, que estava em uma prateleira próxima, mas, como sempre, fora de seu alcance.

 

— Ainda é de manhã — disse Thom.

 

— Claro que é de manhã. Estou vendo que é de manhã. Não quero beber... é só que... — Ele procurava uma razão para ralhar com seu ajudante. — Se bem me lembro, fui interrompido bastante cedo ontem à noite. Só dois cálices. Praticamente nada.

 

— Foram três.

 

— Se você somar o conteúdo, os centímetros cúbicos de que estou falando, era o mesmo que dois cálices pequenos.

 

A mesquinhez, assim como o álcool, pode ser igualmente intoxicante.

 

— Bem, nada de uísque pela manhã.

 

— Ele me ajuda a pensar com mais clareza.

 

— Não é verdade.

 

— É, sim, e com mais criatividade.

 

— Também não.

 

Thom vestia uma camisa perfeitamente bem passada, gravata e calças. As roupas estavam menos amarrotadas do que de costume. Grande parte do trabalho de um ajudante pessoal é de natureza física. Mas a nova cadeira de rodas de Rhyme, modelo Invacare TDX, que permitia “controle total na direção”, podia ser aberta em forma de cama, tornando muito mais fácil o trabalho de Thom. A cadeira era até mesmo capaz de subir degraus baixos e deslocar-se com a rapidez de um esportista de meia-idade.

 

— O que estou dizendo é que quero um pouco de scotch. Pronto. Já exprimi meu desejo. Que tal?

 

— Não.

 

Rhyme fez cara de desprezo e olhou novamente para o telefone.

 

— Se ele escapar... — A voz baixou. — Bem, não vai fazer o que todo mundo faz?

 

— Que quer dizer com isso, Lincoln? — O jovem trabalhava com Rhyme havia vários anos. Tinha sido despedido outras vezes, e demitira-se também, mas ainda estava lá, como prova da perseverança, ou perversidade, de ambos.

 

— Quando eu digo “se ele escapar...” você responde: “Não escapará. Não se preocupe.” Todos fazem isso, você sabe. Afirmam coisas quando nem sabem de que estão falando.

 

— Mas eu não disse nada. Estamos discutindo por causa de uma coisa que eu poderia ter dito, mas não disse? É como uma esposa zangada com o marido porque viu uma mulher bonita na rua e achou que ele poderia ficar olhando para ela, se estivesse ali.

 

— Não sei o que quer dizer — negou Rhyme, com ar desinteressado, pensando principalmente no plano para a captura de Logan na Grã-Bretanha. Haveria falhas? Como estava a segurança? Ele poderia confiar que os informantes não deixariam vazar informações que ajudariam Logan?

 

O telefone tocou e uma janela mostrando a identidade do interlocutor se abriu na tela do monitor ao lado de Rhyme. Este ficou desapontado ao ver que o número de onde vinha a chamada não era de Londres, e sim bem mais próximo — do Big Building, o apelido dado pelos policiais ao edifício no número 1 da Police Plaza, na parte central da cidade de Nova York.

 

— Comando: atender o telefone. — Houve um clique. Em seguida: — O que foi?

 

A 8 quilômetros dali uma voz murmurou:

 

— Está de mau humor?

 

— Ainda não tive notícias da Inglaterra.

 

— Você está no meio de um trabalho? — perguntou o detetive Lon Sellitto.

 

— Logan desapareceu. Pode agir a qualquer momento.

 

— É como um parto — comentou Sellitto.

 

— Se você diz. Que foi? Não quero que a linha fique ocupada.

 

— Com todo esse equipamento você não tem chamada em espera?

 

— Lon...

 

— Está bem. É uma coisa que você precisa saber. Houve um latrocínio na quinta-feira passada. A vítima é uma mulher que morava no Village. Alice Sanderson. O criminoso a matou com uma faca e roubou um quadro. Já pegamos o assassino.

 

— E está me ligando por causa disso? Um crime à toa e o criminoso já preso. Há algum problema com as provas?

 

— Não.

 

— Então por que eu estaria interessado?

 

— O detetive supervisor foi informado há meia hora.

 

— Lon, estou ocupado. — Rhyme olhava na tela o elaborado plano para pegar o assassino na Inglaterra. O esquema era complicado.

 

E, além disso, frágil.

 

Sellitto o fez esquecer suas reflexões.

 

— Escute. Lamento, Lincoln, mas preciso contar uma coisa. O autor do crime é seu primo, Arthur Rhyme. Homicídio doloso. Ele pode pegar vinte e cinco anos, e o promotor diz que não há como escapar.

 

Judy Rhyme estava sentada em uma cadeira no laboratório. De mãos juntas e rosto pálido, ela evitava obstinadamente olhar para qualquer outra coisa a não ser os olhos do criminalista.

 

Duas reações à sua condição física costumavam enfurecer Rhyme: quando seus visitantes se esforçavam desesperadamente para fingir que a deficiência não existia e quando a consideravam um motivo para se mostrarem afáveis, fazendo gracejos em assuntos sérios como se tivessem lutado juntos na guerra. Judy pertencia à primeira categoria, medindo cuidadosamente as palavras antes de apresentá-las delicadamente a Rhyme. Mesmo assim, ela era um espécie de membro da família, e Rhyme manteve a paciência enquanto procurava evitar olhar o telefone a cada instante.

 

— Muito tempo — concordou o criminalista.

 

Thom cuidava dos detalhes de hospitalidade, dos quais Rhyme sempre se esquecia. Ofereceu café a Judy, mas a xícara ficou intacta, como um elemento de cenário, na mesinha à frente dela. Rhyme olhou mais uma vez para o uísque, um longo olhar que Thom ignorou sem problemas.

 

A mulher atraente, de cabelos escuros, parecia estar em melhor forma, mais firme e atlética do que da última vez em que ele a vira, cerca de dois anos antes do acidente que o vitimara. Judy arriscou um olhar para o rosto dele.

 

— Lamento nunca termos vindo visitar você. Eu realmente queria ter feito isso.

 

Ela não se referia a uma visita social antes do acidente e sim a uma demonstração posterior de solidariedade. Os sobreviventes de catástrofes são capazes de perceber o que não se diz, com a mesma clareza que teriam as palavras.

 

— Você recebeu as flores?

 

Naquele tempo, logo após o acidente, Rhyme se sentia confuso — os remédios, o trauma físico e a luta psicológica com o inconcebível: o fato de que ele nunca mais poderia andar. Não se lembrava de flores, mas tinha certeza de que a família as mandara. Muita gente o fizera. As flores são fáceis, as visitas não.

 

— Claro, obrigado.

 

Silêncio. Um olhar involuntário, rápido como relâmpago, na direção das pernas dele. As pessoas acham que quem não pode andar deve ter algum problema nas pernas. Não, as pernas estão perfeitas. O problema é dizer-lhes o que devem fazer.

 

— Você parece bem — comentou ela.

 

Rhyme não sabia se isso era verdade. Nunca tinha pensado no assunto.

 

— Ouvi dizer que você se divorciou.

 

— Isso mesmo.

 

— Lamento.

 

Por quê?, pensou ele. Mas era uma ideia cínica e ele apenas assentiu com a cabeça, aceitando a gentileza.

 

— O que Blaine está fazendo da vida?

 

— Está morando em Long Island. Casou-se novamente. Não nos falamos muito. Sem filhos, geralmente é isso o que acontece.

 

— Gostei daquela vez em Boston, quando vocês dois vieram passar um fim de semana prolongado.

 

O sorriso não era realmente um sorriso; parecia estar pintado no rosto, uma máscara.

 

— Foi agradável, sim.

 

Um fim de semana na Nova Inglaterra. Compras, um passeio de carro a Cape Cod, um piquenique à beira-mar. Ao ver as pedras esverdeadas no litoral, ele teve a ideia de iniciar uma coleção de algas da região da cidade de Nova York para a base de dados do laboratório de criminalística da polícia metropolitana. Passara uma semana percorrendo de automóvel a área, coletando amostras.

 

Na viagem para visitar Arthur e Judy, ele e Blaine não tinham brigado uma vez sequer. Até mesmo a viagem de volta, com uma parada em Connecticut, tinha sido agradável. Ele se lembrava de terem feito amor no terraço do quarto, com um aroma avassalador de flores do campo.

 

Aquele havia sido seu último contato ao vivo com o primo. Haviam conversado brevemente uma outra vez, por telefone. Em seguida, veio o acidente e o silêncio.

 

— Arthur parece ter sumido da face da terra — disse ela, em um riso meio envergonhado. — Você sabia que nos mudamos para Nova Jersey?

 

— É mesmo?

 

— Ele estava dando aulas em Princeton, mas saiu.

 

— Que aconteceu?

 

— Era professor assistente e pesquisador. Resolveram não oferecer-lhe um contrato de professor titular. Art dizia que era uma questão de política. Você sabe como são as coisas nas universidades.

 

Henry Rhyme, pai de Art, era um renomado professor de Física na Universidade de Chicago. Aquele ramo da família Rhyme tinha em alto conceito as atividades acadêmicas. Durante o curso ginasial, Arthur e Lincoln conversavam sobre as virtudes da docência e da pesquisa universitária em comparação com a iniciativa privada.

 

— Na academia, é possível fazer uma contribuição relevante à sociedade — dissera Art, enquanto os dois compartilhavam duas cervejas, o que era proibido com aquela idade.

 

Os dois conseguiram não rir com o comentário seguinte de Lincoln:

 

— Isso é verdade. Sem contar que as professoras assistentes são bem gostosas.

 

Rhyme não se admirou ao ver Art procurar trabalho em uma universidade.

 

— Ele poderia ter continuado a ser professor assistente, mas pediu demissão. Estava muito irritado. Achou que conseguiria um novo emprego imediatamente, mas isso não aconteceu. Ficou desempregado durante algum tempo e acabou em uma empresa privada, fabricante de equipamento médico.

 

Judy deu outra olhada automática, desta vez para a sofisticada cadeira de rodas. Enrubesceu, como se tivesse feito uma piada de mau gosto.

 

— Não era o trabalho dos sonhos e ele não se sentia realmente feliz. Tenho certeza de que gostaria de ter vindo visitar você, mas provavelmente se envergonhava por não ter tido o mesmo sucesso. Quero dizer, você virou uma celebridade.

 

Finalmente tomou um gole do café.

 

— Vocês dois sempre tiveram muita coisa em comum. Eram como irmãos. Lembro-me de Boston, das histórias que você contava. Ficávamos acordados durante a maior parte da noite, rindo. Eram coisas a respeito dele que eu não sabia. E meu sogro, Henry, falava muito de você quando era vivo.

 

— Sério? Nós nos correspondemos muito. Tenho uma carta dele escrita poucos dias antes de morrer.

 

Rhyme tinha dezenas de lembranças inesquecíveis do tio, mas uma imagem se destacava: a de um homem alto, meio calvo, de feições rudes, dando um passo para trás, rindo alto e envergonhando toda a família no jantar de véspera de Natal — todos, menos o próprio Henry Rhyme, sua paciente esposa e o jovem Lincoln, que ria junto com ele. Rhyme tinha grande afeição pelo tio e ia muitas vezes visitar Art e a família, que moravam a cerca de 40 quilômetros de distância, nas margens do lago Michigan, em Evanston, estado de Illinois.

 

Naquele momento, porém, Rhyme não estava disposto a dedicar-se à nostalgia e sentiu-se aliviado ao ouvir a porta abrir-se e em seguida o som de sete passos firmes, da soleira ao tapete. Pelo andar ele sabia de quem se tratava. Logo depois, uma mulher alta e esbelta, vestida de jeans e camiseta preta sob uma blusa grená entrou no laboratório. A camiseta era folgada e podia se ver o ângulo pronunciado de uma pistola Glock no quadril dela.

 

Quando Amelia Sachs sorriu, beijando Rhyme na boca, o criminalista percebeu com a visão periférica a linguagem corporal da reação de Judy. A mensagem era clara e Rhyme ficou imaginando o que a poderia ter chocado: o erro em não perguntar se ele tinha alguma companhia feminina ou se ela presumira que um homem aleijado não poderia ter uma parceira romântica, ou pelo menos não uma tão atraente quanto Sachs, que tinha sido modelo antes de entrar para a academia de polícia.

 

Ele as apresentou. Sachs ouviu com interesse a história da prisão de Arthur Rhyme e quis saber como Judy estava levando a situação. Em seguida perguntou:

 

— Vocês têm filhos?

 

Rhyme se deu conta de que, enquanto notava as gafes de Judy, ele próprio havia cometido uma ao não perguntar pelo filho, cujo nome esquecera. Na verdade, a família tinha aumentado. Além de Arthur Junior, que estava no ensino médio, havia mais dois.

 

— Um de 9 anos, Henry, e uma filha, Meadow. Ela está com 6 anos.

 

— Meadow? — questionou Sachs, surpresa, por motivos que Rhyme não conseguiu deduzir.

 

Judy riu, um tanto constrangida.

 

— E moramos em Nova Jersey. Mas o nome dela nada tem a ver com o programa de TV. Ela nasceu antes que eu o tivesse visto.

 

Que programa seria esse?

 

Judy quebrou o breve silêncio.

 

— Tenho certeza de que você está imaginando por que motivo eu liguei para aquele agente a fim de conseguir seu número. Mas primeiro devo dizer que Art não sabe que vim aqui.

 

— Não sabe?

 

— Na verdade, para ser sincera, eu nem mesmo teria pensado nisso sozinha. Tenho andado muito aflita, não durmo bem e não consigo pensar com coerência. Mas há poucos dias estava conversando com Art no centro de detenção e ele disse: “Sei o que você está pensando, mas não ligue para Lincoln. Isto é um caso de identidade trocada, ou algo assim. Tudo vai dar certo. Prometa que não vai procurá-lo.” Ele não queria criar um problema para você... bem, sabe como Art é. Sempre bondoso, sempre pensando nos outros.

 

Rhyme assentiu com a cabeça.

 

— Mas quanto mais pensava nisso, mas sentido fazia. Não vou pedir que você use sua influência ou que faça coisas que não deve, mas achei que talvez pudesse dar um ou dois telefonemas. Diga-me o que acha.

 

Rhyme sabia como aquilo repercutiria no Big Building. Como consultor em criminalística para a polícia de Nova York, seu trabalho era descobrir a verdade, quaisquer que fossem as consequências, mas os chefões sem dúvida preferiam que ele ajudasse a condenar, e não a absolver os réus.

 

— Estive olhando alguns dos recortes dele...

 

— Recortes?

 

— Art colecionava notícias sobre a família. Recortou artigos de jornal sobre os casos em que você trabalhou. São dezenas. Você fez algumas coisas extraordinárias.

 

— Ah, eu sou só um funcionário público — discordou Rhyme.

 

Finalmente, Judy demonstrou emoção genuína: sorriu, olhando-o nos olhos.

 

— Art dizia que nunca acreditou em sua modéstia, nem por um minuto.

 

— Verdade?

 

— Mas só porque você também não acreditava nela.

 

Sachs deu uma risadinha.

 

Rhyme também riu, acreditando parecer sincero. Em seguida ficou sério.

 

— Não sei o que posso fazer, mas diga-me o que aconteceu.

 

— Foi na semana passada, na quinta-feira, dia 12. Ele foi correr no parque, uma corrida longa, no caminho de volta para casa. Art adora correr.

 

Rhyme lembrou-se de muitas ocasiões em que os dois meninos, cuja diferença de idade era de poucos meses, apostavam corridas em calçadas ou em prados verde-amarelados perto de suas casas no Meio Oeste, espantando gafanhotos com gravetos colados às peles suadas quando paravam para recuperar o fôlego. Arthur sempre parecia estar em melhor forma, mas Lincoln fazia parte da equipe de atletismo da escola. O primo não se interessara em participar das provas.

 

Rhyme deixou de lado as lembranças e concentrou-se no que Judy dizia.

 

— Ele saiu do trabalho por volta das 15h30 e foi fazer seus exercícios, voltando para casa lá pelas 19h ou 19h30. Não parecia diferente, estava se comportando normalmente. Tomou banho e depois jantamos. No dia seguinte, no entanto, a polícia bateu lá em casa. Dois homens de Nova York e um patrulheiro de Nova Jersey. Fizeram perguntas a ele e inspecionaram o carro. Encontraram traços de sangue. Não sei... — A voz dela ainda revelava o choque que deveria ter sentido naquela manhã difícil. — Revistaram a casa e levaram algumas coisas. Depois voltaram e o prenderam sob acusação de... homicídio.

 

Ela teve dificuldade em pronunciar a última palavra.

 

— Qual era a acusação, exatamente? — perguntou Sachs.

 

— Disseram que ele tinha matado uma mulher e roubado um quadro raro que ela possuía — respondeu ela, em um tom amargo. — Por que ele roubaria um quadro? E mataria alguém? Arthur nunca fez mal a ninguém durante toda a vida. Não seria capaz disso.

 

— E o sangue que encontraram? Fizeram um teste de DNA?

 

— Bem, isso eles fizeram. Aparentemente, combina com o da vítima. Mas esses testes podem falhar, não é verdade?

 

— Às vezes — disse Rhyme, pensando em quão raros eram os erros nesses testes.

 

— Ou então o verdadeiro assassino poderia ter colocado o sangue no carro.

 

— E esse quadro? — indagou Sachs. — Arthur tinha algum interesse especial nele?

 

Judy remexeu a larga pulseira preta e branca que trazia no pulso esquerdo.

 

— Na verdade, sim. Ele tinha um quadro do mesmo artista. Gostava da pintura. Mas teve que vendê-la quando perdeu o emprego.

 

— Onde encontraram o quadro?

 

— Não foi encontrado.

 

— Então como sabem que foi levado?

 

— Alguém, uma testemunha, disse ter visto um homem levando o quadro do apartamento para o carro mais ou menos na hora do crime. Ah, isso é simplesmente um grande confusão. Coincidências... Tem que ser isso, nada mais do que um estranho conjunto de coincidências.

 

A voz dela fraquejou.

 

— Ele a conhecia?

 

— Inicialmente Art disse que não, mas depois... bem, achou que talvez já a tivesse visto em uma galeria de arte aonde às vezes ele vai. Mas disse que nunca falou com ela, até aonde se lembra.

 

Os olhos dela encontraram a tela que mostrava o esquema do plano para capturar Logan na Inglaterra.

 

Rhyme recordava outras ocasiões em que estivera com Arthur.

 

Vamos apostar uma corrida até aquela árvore.. não, seu maricas, o bordo, lá longe. Tem que encostar no tronco! Quando eu disser três. Um... dois... vamos!

 

Você não disse três!

 

— Tem mais alguma coisa nisso, não é, Judy? — disse Sachs. — Pode contar para a gente.

 

Rhyme achou que ela tinha visto algo na expressão da outra mulher.

 

— Estou muito aflita, também por causa dos meninos. Para eles é um pesadelo. Os vizinhos estão nos tratando como se fôssemos terroristas.

 

— Sinto muito por insistir, mas é importante que estejamos a par de tudo o que aconteceu. Por favor.

 

Ela enrubesceu novamente, agarrando os joelhos com as mãos. Rhyme e Sachs tinham uma amiga, Kathryn Dance, que trabalhava na Agência de Investigações da Califórnia. Era perita em linguagem corporal. Rhyme considerava que aquela especialidade era secundária para a ciência criminalística, mas passara a respeitar Kathryn e aprendera alguma coisa sobre a atividade dela. Via facilmente que Judy era um poço de estresse.

 

— Continue — estimulou Sachs.

 

— É que a polícia encontrou outras pistas... bem, não eram realmente provas... e acham que talvez Art e aquela mulher estivessem tendo encontros.

 

— E o que você acha disso? — insistiu a outra.

 

— Não creio que seja verdade.

 

Rhyme notou a palavra usada por ela. Não era uma negação tão veemente quanto a que ela utilizara em relação ao homicídio e ao roubo. Ela desejava desesperadamente que a resposta fosse negativa, embora provavelmente tivesse chegado à mesma conclusão a que Rhyme chegara: se a mulher fosse amante de Arthur, isso o favoreceria. Era mais provável que você roubasse algo de uma pessoa desconhecida do que de alguém com quem estivesse tendo uma relação amorosa. Mesmo assim, como esposa e mãe, Judy esperava desesperadamente por uma resposta em particular.

 

Em seguida ela ergueu a vista, olhando agora menos cautelosamente para Rhyme, para a engenhoca em que ele estava sentado e os demais aparelhos que lhe definiam a vida.

 

— Seja o que for que estivesse acontecendo, ele não matou essa mulher. Não pode ter feito isso. Tenho certeza em meu coração... Você pode fazer alguma coisa?

 

Rhyme e Sachs se entreolharam e ele respondeu:

 

— Lamento, Judy, estamos neste momento muito atarefados com um caso importante. Estamos muito perto de capturar um assassino muito perigoso. Não posso deixar isso de lado.

 

— Não é isso o que estou pedindo. Apenas alguma coisa. Não sei o que mais eu poderia fazer. — Os lábios dela tremiam.

 

— Vamos dar alguns telefonemas — garantiu ele. — Vamos descobrir o que pudermos. Não posso dar a você informações que seu advogado não esteja em condições de fornecer, mas vou dar minha opinião sincera quanto às possibilidades de sucesso da promotoria.

 

— Obrigada, Lincoln.

 

— Quem é o advogado de Arthur?

 

Judy forneceu o nome e telefones. Rhyme já conhecia o renomado defensor em casos criminais, um profissional de alto nível e preços igualmente altos. Devia ser muito ocupado e era mais experiente em crimes financeiros do que em homicídios.

 

Sachs perguntou quem seria o promotor.

 

— Bernhard Grossman. Posso dar o número do telefone.

 

— Não é preciso — respondeu Sachs. — Eu tenho. Trabalhei com ele no passado. É um homem razoável. Imagino que tenha oferecido a seu marido um acordo para que ele se declare culpado.

 

— Foi o que fez, e nosso advogado acha que devemos aceitar. Art, porém, recusou. Ele continua dizendo que é apenas um engano e que tudo vai se esclarecer. Mas isso nem sempre acontece, não é? Às vezes as pessoas vão para a cadeia, mesmo que sejam inocentes, não é?

 

Isso era verdade, pensou Rhyme. Em seguida, reforçou:

 

— Vamos dar alguns telefonemas.

 

Judy levantou-se.

 

— Não posso dizer o quanto lamento que tenhamos nos afastado. — Para surpresa de Rhyme, ela caminhou diretamente para a cadeira de rodas e abaixou-se, encostando o rosto no dele. Rhyme sentiu o odor de suor nervoso e dois outros aromas diferentes, talvez desodorante e spray de cabelo. Ela não estava usando perfume. Não parecia usá-lo habitualmente. — Obrigada, Lincoln — agradeceu ela, caminhando até a porta, onde parou, dizendo a ambos: — Não me importo com o que quer que descubram sobre aquela mulher e Arthur. Tudo o que quero é que ele não seja preso.

 

— Farei o que estiver a meu alcance. Se encontrarmos algo concreto, ligo para você.

 

Sachs fechou a porta atrás dela. Ao voltar, Rhyme disse:

 

— Vamos falar com os advogados primeiro.

 

— Sinto muito, Rhyme — disse ela. Ele franziu a testa e Sachs acrescentou: — Quero dizer, deve ser difícil para você.

 

— Por que diz isso?

 

— Um parente próximo acusado de homicídio.

 

Rhyme deu de ombros, um dos poucos movimentos que podia fazer.

 

— Ted Bundy era filho de alguém. Talvez tivesse um primo também.

 

— Mesmo assim.

 

Sachs tirou o telefone do gancho. Finalmente conseguiu descobrir o advogado de defesa e deixou uma mensagem de voz. Rhyme ficou pensando em que buraco o homem estaria agora no campo de golfe.

 

Em seguida ela localizou o promotor assistente, Grossman, que não estava descansando, mas sim em seu escritório na cidade. Ele não tinha notado que o acusado e o criminalista tinham o mesmo sobrenome.

 

— Lamento muito, Lincoln — disse ele —, mas temo que as evidências estejam contra ele. Não estou inventando nada. Se houvesse incoerências, eu lhe diria, mas não há. O júri fatalmente o condenará. Se você puder convencê-lo a confessar, estaria fazendo um grande favor a ele. Provavelmente eu poderia reduzir a pena para 12 anos.

 

Doze anos, sem liberdade condicional. Arthur era capaz de morrer, pensou Rhyme.

 

— Obrigada — disse Sachs.

 

O promotor assistente acrescentou que tinha um caso difícil a tratar no tribunal no dia seguinte e por isso não podia continuar a conversar naquele momento. Dispunha-se, no entanto, a ligar para eles no meio da semana, se estivessem de acordo. Porém, forneceu o nome do detetive encarregado do caso, Bobby LaGrange.

 

— Eu o conheço — afirmou Sachs, ligando para o telefone da casa do policial. Foi direto para a caixa postal, mas quando ela tentou o celular o detetive atendeu imediatamente.

 

— Aqui é LaGrange.

 

O silvar do vento e o som de água batendo deixavam claro o que ele estava fazendo naquele dia morno e ensolarado.

 

Sachs se identificou.

 

— Ora, claro. Como vai, Amelia? Estou esperando uma chamada de um informante. Estamos fazendo uma busca aqui em Red Hook neste momento.

 

Não estava em seu barco de pesca, pelo visto.

 

— Talvez tenha que desligar de repente.

 

— Entendo. Liguei nosso telefone em conferência.

 

— Detetive, aqui é Lincoln Rhyme.

 

Houve uma hesitação, seguida de uma exclamação de reconhecimento. As pessoas prestavam atenção rapidamente quando se tratava de Lincoln Rhyme.

 

Rhyme explicou o assunto do primo.

 

— Espere... Rhyme. Sabe, bem que eu achei o nome meio engraçado, digo, incomum, mas não o liguei a você. Ele também não mencionou você em nenhum dos interrogatórios. É seu primo, então. Sinto muito.

 

— Detetive, não quero interferir nas investigações, mas prometi ligar para saber das circunstâncias. Sei que o caso já está com o promotor, acabei de falar com ele.

 

— Devo dizer que ele teve bons motivos para decretar a prisão. Já estou tratando de homicídios há cinco anos e, a não ser em casos de flagrante, nunca vi um caso tão claro.

 

— Quais são os detalhes? A mulher de Art só me deu as linhas gerais.

 

A voz do detetive assumiu o tom isento de emoção que os policiais usam quando relatam os detalhes de um crime.

 

— Seu primo saiu cedo do escritório e foi ao apartamento da mulher de nome Alice Sanderson, no Village. Ela também tinha saído cedo do trabalho. Não sabemos exatamente quanto tempo ele esteve lá, mas em algum momento perto das 18 horas ela foi esfaqueada e morreu. Um quadro foi roubado.

 

— Um quadro raro, pelo que ouvi dizer.

 

— Sim, mas não era nenhum Van Gogh.

 

— Quem é o artista?

 

— Um sujeito chamado Prescott. Também encontramos alguns prospectos sobre Prescott que certas galerias mandaram pelo correio a seu primo. Isso não é bom para ele.

 

— Fale mais sobre o que aconteceu no dia 12 de maio — pediu Rhyme.

 

— Por volta das 18 horas, uma testemunha ouviu gritos e poucos minutos depois viu um homem levando um quadro para uma Mercedes azul-clara estacionada na rua. O carro se afastou rapidamente. A testemunha viu somente as primeiras três letras da placa. Não viu de que estado era, mas nós pesquisamos toda a região metropolitana. Fizemos uma lista dos proprietários e os entrevistamos. Um deles era seu primo. Fui com meu colega a Nova Jersey para conversar com ele e levei também um homem da polícia estadual, você conhece as regras. Vimos uma coisa que parecia sangue na porta e no assento traseiros. Havia uma toalha ensanguentada debaixo do assento, do mesmo jogo de toalhas do apartamento da vítima.

 

— E o DNA foi positivo?

 

— Sim, o sangue era dela.

 

— A testemunha identificou visualmente o suspeito?

 

— Não, foi uma chamada anônima, vinda de um telefone público, de alguém que não quis deixar o nome. Disse que não queria envolver-se. Mas não precisávamos de testemunhas. O pessoal da cena do crime achou tudo de que necessitava. Encontraram uma pegada na entrada do apartamento, do mesmo tipo de sapato usado por seu primo, e acharam algumas outras provas.

 

— Provas firmes?

 

— Sim, bastante. Restos de creme de barbear, de comida, fertilizante de jardim vindo da garagem dele. Coisas que batiam com o que havia no apartamento da vítima.

 

Não, não batiam, pensou Rhyme. Há diversas categorias de provas. As “individualizadoras” são as que somente podem provir de uma única fonte, como o DNA ou as impressões digitais. As “firmes” compartilham certas características com materiais semelhantes, mas não provêm necessariamente da mesma fonte. As fibras de tapetes, por exemplo. Um teste de DNA com sangue encontrado na cena de um crime pode sem dúvida revelar-se “igual” ao DNA do sangue do criminoso. Mas fibras de tapete encontradas na cena de um crime somente podem ser consideradas “semelhantes” às existentes na casa de um suspeito, permitindo ao júri inferir que ele esteve presente na cena.

 

— O que apurou sobre se ele a conhecia ou não? — perguntou Sachs.

 

— Ele afirma que não, mas encontramos duas anotações dela. Uma no escritório e outra em casa. A primeira dizia “Art — bebidas”. A outra somente “Arthur”. Nada mais. E também encontramos o nome dele no livro de endereços dela.

 

— O número do telefone da casa dele também? — questionou Rhyme, franzindo a testa.

 

— Não. Era um celular pré-pago, sem registros.

 

— Então você acredita que eles fossem mais do que amigos?

 

— Pensamos nisso. Por que alguém daria a ela um número de telefone pré-pago, e não o de casa ou do escritório? — O detetive riu. — Ao que parece, ela não se importou com isso. A gente sempre se admira ao ver o que as pessoas aceitam sem questionar.

 

Rhyme não se admirava tanto.

 

— E o telefone?

 

— Sumiu. Nunca foi encontrado.

 

— E você acha que ele a matou porque ela o estava pressionando para deixar a esposa?

 

— Isso é o que promotor vai argumentar. Alguma coisa nessa linha.

 

Rhyme comparou aquelas informações com o que sabia sobre o primo, a quem não via há mais de dez anos. Não conseguiu confirmar nem negar as alegações.

 

— Alguém mais poderia ter motivos para assassiná-la? — indagou Sachs.

 

— Absolutamente não. A família e os amigos dizem que ela saía com alguns homens, mas sempre sem compromisso. Não houve rompimentos dramáticos. Eu cheguei até a pensar que a esposa, Judy, podia ser a assassina, mas ela estava em outro lugar na hora do crime.

 

— E Arthur tinha algum álibi?

 

— Não. Ele diz que tinha ido correr, mas ninguém confirma tê-lo visto. Foi no Parque Estadual Clinton, que é muito grande e bastante deserto.

 

— Estou curiosa — comentou Sachs — em saber como ele se comportou durante o interrogatório.

 

LaGrange riu.

 

— É interessante que você fale nisso; é a parte mais estranha de todo este caso. Ele parecia estar atordoado. Ficou inteiramente surpreso ao nos ver chegar. Já prendi muita gente no passado, alguns até profissionais. Gente que conhecia o ofício. E Arthur, sem sombra de dúvida, foi o melhor de todos ao defender sua inocência. Muito bom ator. Lembra-se dessa característica dele, detetive Rhyme?

 

O criminalista não respondeu, mas perguntou:

 

— O que aconteceu com o quadro?

 

Houve uma pausa.

 

— Isso também é estranho. Nunca foi recuperado. Não estava na casa dele, nem na garagem, mas o pessoal da equipe da cena do crime encontrou terra no assento traseiro do carro e na garagem dele. Era a mesma terra do parque onde ele ia correr todas as noites, perto de casa. Imaginamos que ele o tenha enterrado em algum lugar.

 

— Uma pergunta, detetive — disse Rhyme.

 

Houve uma pausa do outro lado da linha, durante a qual uma voz sussurrou palavras ininteligíveis e o vento silvou novamente.

 

— Sim.

 

— Posso ver o processo?

 

— O processo? — Não era realmente uma pergunta, apenas uma forma de ganhar tempo. — O caso é firme. Seguimos todas as regras.

 

— Não duvidamos disso nem por um minuto — declarou Sachs. — O fato é que, pelo que sabemos, ele se recusou a aceitar um acordo.

 

— E então vocês querem convencê-lo a aceitar? OK, entendi. Para ele, é o melhor. Bem, o que tenho são cópias, o resto está no escritório do promotor, inclusive as provas. Mas posso conseguir os relatórios, dentro de um ou dois dias. Está bem?

 

Rhyme sacudiu negativamente a cabeça. Sachs insistiu:

 

— Se você puder convencer o pessoal dos Registros e eles autorizarem, posso ir até lá retirar pessoalmente os documentos.

 

O vento encheu novamente o fone e depois parou abruptamente. LaGrange deve ter se abrigado em algum lugar.

 

— Está bem. Vou ligar para lá agora.

 

— Muito obrigado.

 

— Não há problema. Boa sorte.

 

Depois de desligarem, Rhyme sorriu.

 

— Foi uma boa ideia, falar em acordo.

 

— A gente precisa saber com quem está lidando — explicou Sachs, pondo a bolsa a tiracolo e caminhando para a porta.

 

SACHS RETORNOU DA POLICE PLAZA muito mais depressa do que o normal, caso tivesse usado o transporte público ou respeitado os sinais vermelhos. Rhyme sabia que ela colocara uma sirene no teto do carro, um Camaro SS 1969, que havia mandado pintar de carmim brilhante poucos anos antes, de modo a combinar com a cor preferida dele para as cadeiras de rodas. Como uma adolescente, ela ainda aproveitava qualquer pretexto para acelerar o potente motor e arrancar, queimando a borracha dos pneus.

 

— Copiei tudo — anunciou ela, mostrando uma grossa pasta e fazendo uma careta ao colocá-la na mesa de trabalho.

 

— Está se sentindo bem?

 

Amelia Sachs sofria de artrite e consumia glucosamina, condroitina e Advil ou Naprosyn como se fossem caramelos, mas raramente admitia a doença, temendo que os chefes, caso descobrissem, a confinassem a uma escrivaninha por ordem médica. Mesmo quando estava sozinha com Rhyme ela ocultava a dor. Naquele dia, porém, confessou:

 

— Algumas pontadas são piores do que outras.

 

— Não quer se sentar?

 

Ela balançou negativamente a cabeça.

 

— Muito bem. O que temos aí?

 

— Relatório, lista de evidências e cópias das fotos. Não havia vídeos. Estão com o promotor.

 

— Vamos colocar tudo no quadro. Quero ver a cena do crime e a casa de Arthur.

 

Ela foi ao quadro branco, um dos muitos que havia no laboratório, e transcreveu as informações sob o olhar de Rhyme.

 

ASSASSINATO DE ALICE SANDERSON

 

APARTAMENTO DE ALICE SANDERSON

 

  • Traços de creme de barbear Edge Advanced com aloe

 

  • Migalhas identificadas como de batatas Pringles, sem gordura, sabor churrasco

 

  • Faca da Cutelaria Chicago (MW)

 

  • Fertilizante TruGro

 

  • Pegada de sapatos Alton EZ-Walk, tamanho 42

 

  • Fragmento de luva de látex

 

  • Referências a “Art” e número de celular pré-pago no livro de endereços. Número já desativado. Irrastreável (possível caso amoroso?)

 

  • Duas anotações: “Art — bebidas” (escritório) e “Arthur” (residência)

 

  • Testemunha viu Mercedes azul-clara, placa parcial NLP

 

CARRO DE ARTHUR RHYME:

 

  • Sedã Mercedes 2004 classe C, placa de Nova Jersey NLP745, em nome de Arthur Rhyme

 

  • Sangue no chão, porta traseira (combina com DNA da vítima)

 

  • Toalha ensanguentada, igual ao conjunto encontrado no apartamento da vítima (DNA igual ao da vítima)

 

  • Terra de composição semelhante à do Parque Estadual Clinton

 

CASA DE ARTHUR RHYME

 

  • Creme de barbear Edge Advanced com aloe, semelhante ao encontrado na cena do crime

 

  • Batatas Pringles, sem gordura, sabor churrasco

 

  • Fertilizante TruGro (garagem)

 

  • Pá contendo terra semelhante à do Parque Estadual Clinton (garagem)

 

  • Facas da Cutelaria Chicago, mesmo tipo da MW

 

  • Sapatos Alton EZ-Walk, tamanho 42, pisada semelhante à da cena do crime

 

  • Convites da Galeria Wilcox, Boston, e Anderson Billings Fine Arts, Carmel, de exposições de quadros de Harvey Prescott

 

  • Caixa de luvas de látex Safe-Hand, borracha de composição semelhante ao do fragmento encontrado na cena do crime (garagem)

 

— Cara, é muito comprometedor, Rhyme — comentou Sachs, dando um passo atrás, com as mãos na cintura.

 

— E o uso de um celular pré-pago, ou as referências a “Art”? Não há endereço da casa ou do escritório dele. Isso poderia sugerir um caso amoroso... Há outros detalhes?

 

— Não. Somente as fotos.

 

— Pregue-as no quadro — instruiu ele, enquanto olhava as outras informações, lamentando não ter processado a cena do crime pessoalmente; um modo de dizer, na verdade, pois era Amelia Sachs quem costumava ir ao local, usando um microfone auricular ou câmera de alta definição.

 

Parecia uma investigação competente de cena de crime, mas não extraordinária. Não havia fotos dos cômodos não diretamente ligados à cena. Quanto à faca... Ele olhou a foto da arma ensanguentada, debaixo da cama. Um agente levantava a ponta da colcha para proporcionar melhor visão. Ficaria invisível com a colcha abaixada (o que significava que na agitação do momento o criminoso a tivesse esquecido) ou estaria visível, sugerindo que tinha sido deixada ali intencionalmente, como pista plantada?

 

Rhyme inspecionou a foto do material de embalagem no chão, aparentemente usado para embrulhar o quadro de Prescott.

 

— Alguma coisa está errada — murmurou ele.

 

Sachs, junto ao quadro branco, o encarou.

 

— A pintura — explicou Rhyme.

 

— O que tem ela?

 

— LaGrange sugeriu dois motivos para o crime. Primeiro, Arthur roubou o quadro de Prescott para acobertar o fato de que queria matar Alice para tirá-la de sua vida.

 

— Exato.

 

— Porém — prosseguiu Rhyme —, para fazer com que um homicídio pareça ter sido consequência involuntária de um assalto, um criminoso inteligente não roubaria a única coisa no apartamento capaz de ligá-lo ao crime. Lembre-se, Arthur fora dono de um Prescott e recebera convites de exposições do pintor.

 

— Claro, Rhyme, isso não faz sentido.

 

— Vamos dizer que ele realmente quisesse o quadro mas não tivesse recursos para comprá-lo. Bem, seria muito mais seguro e fácil arrombar a casa durante o dia e levar o quadro enquanto a proprietária estivesse no trabalho, em vez de matá-la por causa disso.

 

O comportamento do primo, embora não parecesse tão importante a Rhyme para aferir a culpa ou inocência, também o preocupava.

 

— Talvez ele não estivesse se fazendo de inocente. Talvez fosse mesmo inocente. Você achou muito comprometedor? Eu digo que não; é comprometedor demais.

 

Rhyme pensou, considerando a possibilidade de que ele não fosse mesmo o criminoso. Nesse caso, as consequências eram importantes, pois não se trataria simplesmente de um caso de erro de identidade. As evidências eram bastante indicativas, inclusive uma ligação conclusiva entre o sangue da vítima e o carro de Arthur. Não; se ele era inocente, nesse caso alguém fizera um grande esforço para incriminá-lo.

 

— Estou achando que ele foi propositalmente incriminado — disse Rhyme.

 

— Por quê?

 

— O motivo? Neste ponto, não importa. O importante agora é saber como. Se respondermos a esta pergunta, poderemos ter uma ideia de quem. Podemos descobrir o porquê à medida que progredirmos, mas essa não é nossa prioridade. Por isso, partimos da premissa de que uma outra pessoa, o Sr. X, assassinou Alice Sanderson e roubou o quadro, incriminando Arthur em seguida. Agora me diga, Sachs, como ele poderia ter feito isso?

 

Ela fez uma careta — outra vez a artrite — e sentou-se. Pensou durante alguns instantes e depois disse:

 

— O Sr. X acompanhou os passos de Arthur e de Alice. Verificou que ambos tinham interesse por arte, juntou-os na galeria e descobriu as identidades deles.

 

— O Sr. X sabe que Alice possuía um Prescott. Deseja ter um, mas não tem recursos suficientes.

 

— Isso mesmo — disse ela, acenando com a cabeça para o quadro de evidências. — Então ele invade a casa de Arthur, vê que ele tem batatas Pringles, creme de barbear Edge, fertilizante TruGro e facas da Cutelaria Chicago. Leva um pouco dessas coisas para plantá-las. Sabe que sapatos Arthur usa e portanto é capaz de deixar a pegada. Põe um pouco da terra do parque na pá de Arthur...

 

— Agora, vejamos o dia 12 de maio. De alguma forma, o Sr. X sabe que Arthur costuma sair do escritório cedo às quintas-feiras para correr no parque estadual, normalmente deserto, e assim ele não terá um álibi. Vai ao apartamento da vítima, mata-a, rouba o quadro e liga de um telefone público para falar dos gritos e de ter visto um homem levar o quadro a um carro muito parecido com o de Arthur, informando o número parcial da placa. Em seguida vai à casa de Arthur em Nova Jersey e deixa os traços de sangue, a terra, as toalhas e a pá.

 

O telefone tocou. Era o advogado de defesa de Arthur. Parecia estar com pressa ao repetir tudo o que o promotor explicara. Nada do que disse os ajudava, e, na verdade, por diversas vezes, tentou sugerir que eles fizessem pressão sobre Arthur para se declarar culpado.

 

— Eles querem condená-lo — disse o advogado. — Ajude-o. Eu posso conseguir quinze anos.

 

— Isso acabará com ele — discordou Rhyme.

 

— Menos do que uma pena de prisão perpétua.

 

Rhyme despediu-se friamente e desligou. Olhou novamente para o quadro com as evidências.

 

Nesse momento, outra ideia lhe ocorreu.

 

— Que foi, Rhyme? — Sachs notara que ele agora olhava para o teto.

 

— Você acha que ele já fez isso antes?

 

— Como assim?

 

— Vamos presumir que o objetivo... a motivação... tenha sido roubar o quadro. Bem, não parece ser um golpe milionário. Não é como um Renoir, que ele pode vender no mercado negro por dez milhões e depois desaparecer para sempre. Parece mais uma espécie de empreendimento. O criminoso encontrou uma forma esperta de cometer um crime e não ser apanhado. E vai continuar a fazer isso até que alguém o detenha.

 

— Faz sentido. Então teremos que investigar outros roubos de quadros.

 

— Não. Por que ele roubaria somente quadros? Pode ser qualquer outra coisa. Mas há um elemento comum.

 

Sachs franziu a testa e depois deu a resposta.

 

— Homicídio.

 

— Exatamente. Como o criminoso incrimina outra pessoa, tem que matar as vítimas, porque elas poderiam identificá-lo. Ligue para alguém na delegacia de homicídios. De casa, se for preciso. Estamos procurando um cenário semelhante: um crime secundário, talvez um roubo, a vítima assassinada e fortes provas circunstanciais.

 

— E talvez uma conexão de DNA plantada.

 

— Muito bem — elogiou ele, com entusiasmo, como se tivessem descoberto alguma coisa. — E se ele mantiver a fórmula, haverá uma testemunha anônima dando informações específicas de identificação pelo disque-denúncia.

 

Sachs foi até uma mesa num canto do laboratório, sentou-se e fez a chamada.

 

Rhyme recostou-se na cadeira de rodas, observando a parceira ao telefone. Notou que havia sangue seco na unha dela. Havia uma marca quase invisível acima da orelha, semioculta pelos cabelos ruivos e lisos. Ela coçava frequentemente o couro cabeludo, enterrando as unhas, ferindo-se levemente de várias formas, tanto por hábito quanto para indicar a tensão que a impelia.

 

Enquanto tomava notas, meneava a cabeça, o olhar focado no que escrevia. O coração de Rhyme batia mais depressa, embora ele não o percebesse. Ela descobrira alguma coisa importante. A tinta da caneta acabou e ela a jogou ao chão, pegando outra com a mesma rapidez com que sacava a pistola nas competições de tiro.

 

Após dez minutos, desligou.

 

— Escute isto, Rhyme — disse ela. — Falei com Flintlock.

 

— Boa ideia.

 

Joseph Flintick, como era o apelido que lhe tinham dado, intencionalmente ou como referência às antigas armas de pederneira, era detetive de homicídios nos tempos de calouro de Rhyme. O idoso e obstinado ex-policial conhecia todos os homicídios ocorridos na cidade de Nova York e nos arredores durante sua longa carreira. Na idade em que deveria estar aproveitando a companhia dos netos, Flintlock trabalhava aos domingos, o que não era surpresa para Rhyme.

 

— Contei tudo e ele imediatamente se lembrou de dois casos que poderiam se ajustar a nosso perfil. Um foi um roubo de moedas raras, que valiam aproximadamente 50 mil dólares. O outro foi um caso de estupro.

 

— Estupro? — Aquilo acrescentava um elemento novo e muito mais perturbador ao caso.

 

— Isso mesmo. Em ambos os casos uma testemunha anônima ligou para denunciar o crime e deu informações que foram importantes para identificar o autor, assim como a testemunha que ligou para falar do carro de seu primo.

 

— E ambas as testemunhas eram homens, naturalmente.

 

— Claro. O governo municipal ofereceu uma recompensa, mas nenhum dos dois se apresentou.

 

— E as provas?

 

— Flintlock não se lembra bem, mas disse que os indícios e as provas circunstanciais eram incontestáveis. O mesmo que acontece com seu primo: cinco ou seis tipos de provas consistentes ligadas entre si, na cena dos crimes e nas casas dos criminosos. E em ambos os casos foi encontrado sangue das vítimas em um trapo ou peça de vestuário, na residência do suspeito.

 

— E aposto que não havia fluidos corporais para teste, no caso de estupro.

 

A maioria dos estupradores acaba condenada por deixarem traços dos Três S — saliva, sêmen ou suor.

 

— Não. Nenhum.

 

— E os informantes anônimos? Falaram em placas de carro com números incompletos?

 

Ela conferiu as notas.

 

— Isso mesmo. Como você sabia?

 

— Porque nosso criminoso precisava ganhar um pouco de tempo. Se informasse o número completo a polícia iria diretamente para a casa da pessoa incriminada e ele não teria tempo de plantar as pistas. — O assassino pensara em todas as possibilidades. — E os suspeitos, negaram tudo?

 

— Negaram, totalmente. Arriscaram-se a ir a julgamento e perderam a parada.

 

— Não, não, não, é muita coincidência — murmurou Rhyme. — Quero ver...

 

— Pedi a um amigo que recuperasse os arquivos dos casos encerrados.

 

Rhyme riu. Ela estava um passo adiante dele, como ocorria frequentemente. Lembrou-se de quando tinham se conhecido, muitos anos antes. Sachs era uma patrulheira desiludida, pronta para desistir da carreira policial. Rhyme estava disposto a renunciar a muito mais. Desde então, ambos tinham ido bem longe.

 

Rhyme falou ao microfone:

 

— Comando. Ligar para Sellitto.

 

Estava entusiasmado. Sentia o frenesi do início de uma caçada. Atenda o maldito telefone, pensou ele, irritado. Pelo menos não estava mais com a mente na Inglaterra.

 

— Ei, Linc — disse a voz de Sellitto com sotaque do Brooklyn, enchendo a sala. — O que...

 

— Escute. Tem um problema...

 

— Estou meio ocupado aqui.

 

O ex-parceiro de Rhyme, tenente-detetive Lon Sellitto, não andava de muito bom humor. Um caso importante, em cuja força-tarefa ele participara, tinha dado errado. Vladimir Dienko, capanga de um chefão de quadrilha russo de Brighton Beach, havia sido indiciado no ano anterior por extorsão e assassinato. Rhyme ajudara na parte forense. Para o abatimento de todos, o caso contra Dienko e três outros capangas havia sido arquivado na sexta-feira anterior, quando as testemunhas se calaram ou desapareceram. Sellitto e agentes do FBI haviam trabalhado durante o fim de semana, tentando localizar novas testemunhas e informantes.

 

— Vou ser breve — disse Rhyme, explicando o que ele e Sachs tinham descoberto sobre o primo e sobre os casos de estupro e roubo de moedas.

 

— Dois outros casos? Muito estranho. O que seu primo diz?

 

— Ainda não falei com ele, mas ele nega tudo. Quero investigar isso mais de perto.

 

— Investigar mais de perto? Que diabo você quer dizer com isso?

 

— Acho que Arthur não é o culpado.

 

— Ele é seu primo. Claro que você acha que não foi ele. Mas o que conseguiu de concreto?

 

— Por enquanto, nada. Por isso preciso de sua ajuda. Preciso de pessoal.

 

— Estou enterrado até o pescoço no caso Dienko em Brighton Beach. Aliás, você bem que podia ajudar, mas não, está ocupado demais, tomando chá com os ingleses.

 

— Esse caso pode se tornar importante, Lon. Dois casos que gritam provas plantadas? Aposto que existem outros. Sei o quanto você gosta desses clichês. “Assassino a solta” não é motivação suficiente?

 

— Pode usar a metáfora que quiser, Linc. Estou ocupado.

 

— O que eu disse foi apenas uma expressão. Metáforas têm um sentido figurado.

 

— Seja lá que merda for. Estou tentando salvar a conexão russa. Na Prefeitura e no governo federal ninguém está contente com o que aconteceu.

 

— Minhas profundas condolências. Arranje outro caso.

 

— É um caso de homicídio. Eu sou da Divisão de Casos Especiais.

 

A Divisão de Casos Especiais do Departamento de Polícia de Nova York não investigava homicídios, mas a desculpa de Sellitto provocou um riso cínico em Rhyme.

 

— Vocês investigam homicídios quando querem. Desde quando você passou a se importar com o protocolo do Departamento?

 

— Vou lhe dizer o que farei — balbuciou o detetive. — Há um capitão que está de serviço hoje, no centro da cidade, Joe Malloy. Você o conhece?

 

— Não.

 

— Eu conheço — interrompeu Sachs. — É um homem sério.

 

— Oi, Amelia — cumprimentou Sellitto. — Está sobrevivendo à frente fria de hoje?

 

Sachs riu. Rhyme retrucou, ríspido:

 

— Muito engraçado, Lon. Como é esse cara?

 

— É esperto. Não faz concessões. Também não tem senso de humor. Você vai gostar.

 

— Estou lidando com piadistas demais hoje — murmurou Rhyme.

 

— Ele é boa gente. E é dedicado. A mulher morreu num latrocínio, cinco ou seis anos atrás.

 

— Eu não sabia. — Sachs fez uma careta.

 

— Pois é. Ele se dedica ao trabalho cento e cinquenta por cento. O boato é que ele vai ser promovido em breve, ou talvez passe para o prédio ao lado.

 

Isso significava um cargo na Prefeitura.

 

— Ligue e veja se ele consegue dispensar alguns agentes para ajudar você — continuou Sellitto.

 

— Quero que ele dispense você.

 

— Não vai dar, Linc. Estou dirigindo uma merda de um cerco. É um pesadelo. Mas mantenha-me informado e...

 

— Preciso desligar, Lon.... Comando, desligar telefone.

 

— Você desligou sem se despedir — disse Sachs.

 

Rhyme resmungou e ligou para Malloy. Se caísse na caixa postal, ficaria furioso.

 

Mas o homem atendeu no segundo toque. Era mais um policial graduado que trabalhava em um domingo. Bem, Rhyme também fizera isso muitas vezes, como provava seu divórcio.

 

— Aqui é Malloy.

 

Rhyme identificou-se.

 

Houve uma breve hesitação. Em seguida:

 

— Bem, Lincoln... Creio que nunca nos conhecemos pessoalmente, mas sei tudo a seu respeito, naturalmente.

 

— Estou aqui com uma de suas detetives, Amelia Sachs. Nossa conversa está no viva voz, Joe.

 

— Boa tarde, detetive Sachs — cumprimentou a voz, formalmente. — Em que posso ajudar vocês dois?

 

Rhyme explicou o caso e disse achar que Arthur estava sendo incriminado injustamente.

 

— É seu primo? Lamento.

 

Malloy, porém, não parecia lamentar de verdade. Estava preocupado com a possibilidade de que Rhyme lhe pedisse para intervir a fim de reduzir a acusação. No mínimo, uma suspeita de comportamento irregular e no máximo uma investigação interna com publicidade. Do outro lado da balança, pesava a recusa em ajudar alguém que proporcionava serviços valiosíssimos à polícia de Nova York. E que, além disso, era inválido. O governo da cidade gostava do que era politicamente correto. Mas o pedido de Rhyme, naturalmente, era mais complicado.

 

— Há uma boa probabilidade de que o assassino tenha cometido outros crimes — acrescentou Rhyme, fornecendo detalhes do roubo de moedas e do estupro.

 

Portanto, não era apenas uma pessoa, e sim três, que tinham sido presas injustamente pela polícia de Malloy. Isso significava que três crimes na verdade não tinham sido resolvidos e que o verdadeiro criminoso ainda estava à solta. Isso poderia se tornar um pesadelo na área de relações públicas.

 

— Bem, isso é bastante estranho. Você sabe que é contra os regulamentos. Compreendo a lealdade para com seu primo...

 

— Minha lealdade é com a verdade, Joe — respondeu Rhyme, sem medo de parecer pedante.

 

— Bem...

 

— Preciso apenas de um par de agentes para trabalhar conosco e examinar novamente as provas deste caso. Talvez seja preciso algum trabalho de campo.

 

— Bem, compreendo... mas lamento, Lincoln. Simplesmente não temos pessoal para uma coisa como essa. Mas amanhã tratarei do assunto com o subchefe de polícia.

 

— Será que podemos ligar para ele agora?

 

Outra hesitação.

 

— Não. Ele hoje está ocupado.

 

Brunch. Churrasco. Um espetáculo vespertino de Young Frankenstein ou Spamalot.

 

— Apresentarei o assunto na reunião de amanhã. É uma situação curiosa, mas não faça nada até que eu volte a falar com você ou mande um recado.

 

— Claro que não.

 

Desligaram. Rhyme e Sachs ficaram em silêncio por um bom tempo.

 

Uma situação curiosa...

 

Rhyme olhou o quadro branco, no qual jazia o cadáver de uma investigação, morta tão logo saltara para a vida.

 

Quebrando o silêncio, Sachs disse:

 

— Queria saber o que Ron anda fazendo.

 

— Vamos descobrir, que tal? — disse Rhyme, com um sorriso genuíno e raro.

 

Ela pegou o celular e teclou um número gravado na memória, ligando em seguida o viva voz.

 

Uma voz juvenil surgiu.

 

— Sim, Sra. detetive.

 

Há anos Sachs dissera ao jovem patrulheiro Ron Pulaski que a chamasse pelo primeiro nome, mas na maior parte das vezes ele não conseguia.

 

— O viva voz está ligado, Pulaski — avisou Rhyme.

 

— Sim, senhor.

 

Aquele “senhor” aborreceu Rhyme, mas não estava disposto a ralhar com o jovem naquele momento.

 

— Como vai? — perguntou Pulaski.

 

— Não importa — respondeu Rhyme. — O que está fazendo agora? É alguma coisa importante?

 

— Neste momento?

 

— Foi o que perguntei.

 

— Estou lavando pratos. Eu e Jenny acabamos de almoçar com meu irmão e minha cunhada. Fomos ao mercado rural com as crianças. É muito agradável. O senhor e a detetive Sachs já...

 

— Então você está em casa, e não está fazendo nada.

 

— Bem, estou lavando os pratos.

 

— Deixe os pratos e venha para cá.

 

Rhyme, que era civil, não tinha autoridade sobre nenhum policial de Nova York, nem mesmo os guardas de trânsito.

 

Sachs, porém, era detetive de classe três. Embora não pudesse ordenar que ele os ajudasse, formalmente podia solicitar uma troca de serviço.

 

— Precisamos de você, Ron — explicou ela. — E talvez amanhã também.

 

Ron Pulaski costumava trabalhar com Rhyme, Sachs e Sellitto. Rhyme se divertira em saber que ter sido designado para trabalhar com ele, um criminalista quase célebre, havia elevado o status do jovem no Departamento de Polícia. Tinha certeza de que o supervisor concordaria em emprestar Pulaski por alguns dias, desde que não ligasse para Malloy ou alguma outra pessoa na chefatura e descobrisse que aquele caso, na verdade, não chegava a ser um caso.

 

Pulaski forneceu a Sachs o nome do comandante que estava na delegacia. Em seguida, perguntou:

 

— Por favor, senhor, o tenente Sellitto também está trabalhando neste caso? Devo ligar e coordenar-me com ele?

 

— Não — disseram juntos Rhyme e Sachs.

 

Seguiu-se um breve silêncio, depois do qual Pulaski arriscou, com certa hesitação:

 

— Bem, nesse caso irei para aí logo que puder. Posso enxugar os copos primeiro? Jenny detesta copos manchados.

 

Coleciono tudo o que você puder imaginar. Se eu gostar de alguma coisa e puder enfiá-la na minha mochila, ou na mala de meu carro, eu guardo. Não sou um roedor como muitos poderiam dizer, daqueles que costumam deixar algo no lugar do que levam consigo. Quando eu encontro uma coisa, isso me pertence. Nunca me separo dela. Nunca.

 

Domingo é meu dia preferido porque é o dia de descanso para as massas, os dezesseis que habitam essa extraordinária cidade. Homens, mulheres, crianças, advogados, artistas, ciclistas, cozinheiros, ladrões, esposas e amantes (também coleciono DVDs), políticos, corredores e curadores de museus.... É surpreendente quanta coisa os dezesseis são capazes de fazer para se divertir.

 

Percorrem a cidade, os parques de Nova Jersey e Long Island e o norte do estado de Nova York, como antílopes felizes.

 

E eu posso caçá-los à vontade.

 

Isso é o que pretendo fazer agora, depois de deixar de lado todas as atividades entediantes dos domingos: o brunch, o cinema e até mesmo um convite para jogar golfe. Ah, e também uma atividade religiosa, que os antílopes sempre apreciam, desde que a ida à igreja seja seguida pelo já mencionado brunch ou nove buracos para enfiar a bolinha.

 

Caçadas...

 

Neste momento estou pensando em minha transação mais recente, com a memória mergulhada em minha coleção mental: a transação com a jovem Alice Sanderson, 3895-0967-7524-3630, que estava bonita, bem bonita. Até que veio a faca, claro.

 

Alice 3895, com aquele bonito vestido cor-de-rosa, que realçava seus seios, acentuava os quadris (também penso nela como 98-66-91, mas isso é uma piada minha). Era bonitinha, com um perfume que lembrava flores asiáticas.

 

Meus planos para ela tinham uma relação apenas parcial com o quadro de Harvey Prescott que ela tivera a sorte de conseguir comprar (ou falta de sorte, considerando o desfecho). Logo que me certificasse de que ela recebera a encomenda, usaria a fita adesiva plástica e passaria algumas horas com ela no quarto. Mas ela estragou tudo. Logo quando eu ia chegando por trás, ela se voltou e deu aquele grito de horror. Não tive outra opção senão cortar seu pescoço como se corta um tomate, agarrar meu belo Prescott e escapar — pela janela, por assim dizer.

 

Não, não consigo parar de pensar em Alice 3895, que era bem bonitinha no vestido cor de rosa leve, a pele perfumada de flores como uma casa de chá. Para resumir, preciso de uma mulher.

 

Vou caminhando pelas calçadas, observando os dezesseis através de meus óculos escuros. Por sua vez, eles realmente não me veem. É isso o que quero; preparo-me para ser invisível e não há lugar melhor que Manhattan para ficar invisível.

 

Viro esquinas, entro em becos, faço alguma compra — em dinheiro, é claro — e em seguida mergulho em uma parte deserta da cidade, antigamente industrial, agora virando residencial e comercial, perto do SoHo. É uma região tranquila. Isso é bom. Quero que tudo esteja calmo para minha transação com Myra Weinburg. 9834-4452-6740-3418, uma dezesseis que venho observado há algum tempo.

 

Myra 9834, conheço você muito bem. Os dados me revelaram tudo. (Lá vem novamente o debate. Ainda que corrente, a utilização da palavra “dados” para designar informações depende, de acordo com dicionários, de um sentido figurado. Eu, enquanto isso, tenho tendência a ser purista e me ater ao sentido literal. Mas se o uso corrente aceita de bom grado a figuração, acabo tendo que me adequar. A língua é como um rio: vai para onde quer e se você nadar contra a corrente as pessoas reparam. Isso, é claro, é a última coisa que desejo.)

 

Vejamos os dados sobre Myra 9834: mora em Waverly Place, Greenwich Village, em um prédio cujos apartamentos o dono quer vender no sistema de condomínio exclusivo, por meio de um plano de despejo. (Eu sei disso, mas os pobres inquilinos ainda não, e a julgar pelas rendas e registros de crédito, a maioria está completamente ferrada.)

 

A bela e exótica Myra 9834, de cabelos escuros, diplomou-se na universidade de Nova York e trabalhou durante vários anos em uma agência de publicidade da cidade. A mãe ainda está viva, mas o pai já morreu. Foi um atropelamento, o culpado fugiu e ainda está sendo procurado depois de tanto tempo. A polícia não faz muito esforço para resolver crimes desse tipo.

 

No momento, Myra 9834 está sem namorado, e amizades devem ser um problema, pois em seu recente trigésimo segundo aniversário a celebração foi a encomenda de uma única porção de carne de porco moo shu do restaurante chinês Dinastia Hunan na West Fourth (não foi má escolha) e uma garrafa de vinho branco Caymus Conundrum (28 dólares na Village Wines, que cobra caro). Depois, uma ida a Long Island no domingo, que coincidiu com a vinda de outros membros da família, conhecidos e uma conta alta, com vários Brunello, num restaurante de Garden City, elogiado pela revista Newsday, compensou aquela noite solitária, imagino.

 

Myra 9834 dorme com uma camisola da Victoria’s Secret, fato que eu deduzo porque ela possui cinco delas, de um tamanho demasiado grande para ser usado em público. Acorda cedo, já pensando em um pão doce da marca Entenmann (nunca de baixa caloria, o que me faz sentir orgulho dela) e café Starbucks feito em casa. Raramente vai tomar café da manhã fora. É uma pena, porque gosto de observar pessoalmente o antílope que escolhi, e o Starbucks é um dos melhores lugares do pasto para isso. Por volta das 8h20 ela sai do apartamento e vai para o trabalho na parte central de Manhattan, na agência de publicidade Maple, Reed & Summers, onde exerce o cargo de contadora assistente.

 

Continuo caminhando neste domingo, usando um boné de beisebol comum (87,3% dos homens na área metropolitana usam esses bonés). Como sempre, mantenho os olhos baixos. Se você pensa que um satélite não é capaz de gravar seu rosto sorridente a 45 quilômetros de distância no espaço, é melhor rever seus conceitos: em algum lugar, em dezenas de servidores espalhados pelo mundo, há centenas de fotos suas tiradas lá de cima, e só podemos torcer para que você estivesse apenas piscando para a luz do sol ao olhar para um balão da Goodyear, ou para uma nuvem em forma de carneiro, quando a câmera disparou.

 

Minha paixão por coleções não se limita a esses fatos cotidianos, mas também às mentes dos dezesseis que me interessam. Myra 9834 não é exceção. Com certa frequência, ela costuma sair para tomar drinques com amigas depois do trabalho. Notei que muitas vezes é ela quem faz questão de pagar a conta — e faz isso demais, na minha opinião. Sem dúvida está comprando a afeição de todas, não é verdade, Dr. Phil? Talvez ela tivesse acne no rosto durante uma adolescência difícil. De vez em quando ainda vai a um dermatologista, mas as contas não saem muito caras, como se o médico estivesse apenas pensando em fazer um peeling (completamente desnecessário, pelo que vi) ou tomando precaução para que as espinhas não reapareçam, como ninjas durante a noite.

 

Depois, após três rodadas de Cosmopolitan com as amigas, ou uma ida à academia de ginástica, ela volta para casa para telefonar, acessar o onipresente computador ou ver TV a cabo, com a programação básica e não a premium. (Gosto de acompanhar os hábitos televisivos dela. As escolhas de programas mostram extrema lealdade: trocou de estação quando Seinfeld mudou para outra emissora e recusou dois encontros para passar a noite com Jack Bauer.)

 

Em seguida, é hora de dormir, e ela às vezes se diverte um pouco (o tanto de pilhas AA que compra certamente significa algo, considerando que sua câmera digital e o iPod são recarregáveis).

 

Naturalmente, esses são os dados da vida cotidiana dela. Mas hoje é um belo domingo, e os domingos são diferentes. É o dia em que Myra 9834 monta em sua querida — e cara — bicicleta e parte para um passeio pelas ruas da cidade.

 

Os itinerários variam. O Central Park pode ser um deles, assim como o Riverside Park e o Prospect Park, no Brooklyn. Mas qualquer que seja a rota, Myra 9834 nunca deixa de fazer uma escala específica próximo ao fim do percurso: a Delicatessen Gourmet Hudson, na Broadway. Dali em diante, mal podendo esperar por um banho de chuveiro e o almoço, ela toma o caminho mais curto para casa, e, levando em conta o pesado tráfego na parte sul da cidade, passa justamente pelo lugar em que me encontro neste momento.

 

Estou diante de um pátio que leva a um apartamento térreo, de propriedade de Maury e Stella Griszinski (imagine, comprado dez anos atrás por 278 mil dólares). O casal Griszinski não está em casa, no entanto, porque foi fazer um cruzeiro de primavera na Escandinávia. Deram instruções para que a correspondência fosse interrompida e não contrataram ninguém para molhar as plantas e cuidar dos animais de estimação. Além disso, não há sistema de alarme.

 

Ela ainda não apareceu. Estranho. Será que houve algum imprevisto? Posso estar enganado.

 

Mas isso é raro.

 

Passam-se cinco angustiantes minutos. Tiro de minha coleção mental o quadro de Harvey Prescott. Revejo-o com prazer durante algum tempo e depois guardo-o novamente. Olho em volta e resisto ao impulso ansioso de esquadrinhar a lata de lixo a fim de ver que tesouros poderá conter.

 

Fique na sombra.... fique fora dos lugares movimentados. Especialmente em momentos como aquele. Evite as janelas a todo custo. Você ficaria admirado em saber como a atividade de voyeur é atraente e quanta gente está observando você do outro lado da vidraça, quando o que você está vendo parece ser apenas um reflexo ou um raio de sol.

 

Onde ela está? Onde?

 

Se eu não fizer logo minha transação...

 

Mas de repente sinto o coração bater mais forte ao vê-la: Myra 9834.

 

Movimenta-se devagar, com as belas pernas subindo e descendo. Uma bicicleta de 1.020 dólares. Mais cara do que meu primeiro carro.

 

A roupa de ciclista é bem justa. Minha respiração acelera. Preciso muito dela.

 

Olho para ambos os lados da rua. Vazia, a não ser por uma mulher que se aproxima e vem chegando perto, a 10 metros de mim. Com o celular desligado, mas encostado ao ouvido, segurando uma sacola de supermercado, olho para ela uma vez. Fico próximo ao meio-fio, simulando uma animada conversa no telefone, e faço uma pausa para deixá-la passar. Com a testa franzida, a observo novamente e digo, sorrindo:

 

— Myra?

 

Ela reduz a marcha. A roupa é muito justa. Controle-se, controle-se. Aja naturalmente.

 

Não há ninguém nas janelas vazias que dão para a rua. Não há tráfego.

 

— Myra Weinburg?

 

Os freios da bicicleta rangem.

 

— Oi.

 

A saudação e a tentativa de mostrar reconhecimento se devem apenas ao fato de que as pessoas fazem praticamente qualquer coisa para não demonstrar embaraço.

 

Assumo totalmente o papel de homem de negócios experiente ao caminhar na direção dela, dizendo a meu amigo invisível que ligarei novamente e fechando o telefone.

 

Ela responde:

 

— Desculpe. — Sorrindo com ar interrogativo. — O senhor é...?

 

— Mike. Sou da empresa Ogilvy. Creio que nos conhecemos em... ah, sim, claro. Na sessão de fotos para a campanha nacional de alimentação, no David. Nós dois estávamos no segundo estúdio. Eu entrei e fui apresentado a você e a... como era mesmo o nome? Richie. Vocês tinham contratado um bufê melhor do que o nosso.

 

Ela sorri amplamente.

 

— É claro.

 

Lembrava-se de David, da sessão fotográfica, de Richie e da comida do almoço. Mas não podia lembrar-se de mim, porque eu não estava lá. Tampouco havia alguém chamado Mike, mas ela não prestará atenção nisso, porque é o nome de seu pai falecido.

 

— Que bom te encontrar — eu digo, com meu melhor sorriso para coincidências. — Você mora por aqui?

 

— No Village. E você?

 

Faço um aceno na direção da casa dos Griszsinki.

 

— Moro ali.

 

— Nossa, um loft. Bacana.

 

Pergunto pelo trabalho dela, e ela pergunta pelo meu. Em seguida faço uma careta.

 

— É melhor entrar. Saí só para comprar limões — digo, mostrando a sacola. — Uns amigos vêm me visitar. — Abaixo a voz, como se tivesse de repente uma ideia brilhante. — Ei, não sei se você tem programa, mas vamos fazer um brunch mais tarde. Que vir também?

 

— Ah, obrigada, mas estou um horror.

 

— Por favor... eu e meu parceiro passamos a manhã toda fora, numa passeata para angariar fundos para um hospital. — Achei esse toque muito adequado, e foi inteiramente improvisado. — Estamos mais suados do que você, acredite. É tudo muito informal. Assim é mais divertido. Vem um dos diretores da Thompson e dois amigos da Burston. Uns gatos, mas héteros. — Dou de ombros, displicentemente. — E vem também um ator, de surpresa. Não vou dizer quem é.

 

— Bem...

 

— Ah, por favor. Você parece estar precisando de um Cosmopolitan. Lembra que na sessão de fotos nós concordamos que era nossa bebida preferida?

 

Bem, não era mais O Túmulo, o original, do século XIX. O prédio fora demolido há muito, mas todos ainda usavam esse nome para falar daquele lugar: o Centro de Detenção de Manhattan, na parte sul da cidade, onde Arthur Rhyme agora se encontrava, com o coração acelerado, como estava desde que fora preso.

 

Para ele, ali era simplesmente o inferno, qualquer que fosse o nome que lhe dessem: o Túmulo, o Centro Municipal de Detenção ou o Centro Bernard Kerik (como havia sido até recentemente, antes que o antigo chefe de polícia e diretor de penitenciária morresse queimado).

 

Puro inferno.

 

Arthur vestia uniforme alaranjado como todos os demais, mas ali terminava a semelhança com os outros detidos. Aquele homem de 1,78m e 86 quilos, de cabelos cortados como os de executivos, era completamente diferente das demais almas que esperavam ir a julgamento. Não era corpulento nem tatuado, não tinha cabeça raspada, não era bruto, nem negro e nem latino. Os criminosos com quem Arthur pareceria — os homens de negócios acusados de falcatruas financeiras — não ficavam no Túmulo até irem para o tribunal; saíam sob fiança. Quaisquer que fossem as infrações que tivessem cometido, elas não valiam os 2 milhões de dólares estipulados para Arthur.

 

Por isso, o Túmulo era o seu lar desde o dia 13 de maio, o período mais longo e miseravelmente difícil de sua vida.

 

E também o mais confuso.

 

Arthur poderia ter encontrado alguma vez a mulher que era acusado de ter matado, mas não conseguia lembrar-se dela. Era verdade que tinha ido àquela galeria no SoHo, onde aparentemente ela também estivera algumas vezes, embora não se lembrasse de ter falado com ela. Era também verdade que gostava do trabalho de Harvey Prescott e tinha lamentado muito precisar vender o quadro que possuía, quando perdeu o emprego. Mas roubar um quadro? Matar uma pessoa? Essa gente estava louca? E eu por acaso pareço um assassino?

 

Era um mistério insondável para ele, como o teorema de Fermat, a prova matemática que ele continuava a não entender, mesmo depois de explicada. Sangue dela em seu carro? Claro que alguém tentara incriminá-lo. Achava até que podia ter sido a própria polícia.

 

Após dez dias no Túmulo, a defesa de O. J. Simpson não parecia tanto um episódio de Além da imaginação.

 

Por que, por que, por quê? Quem estaria por trás daquilo? Pensou nas cartas raivosas que escrevera quando a universidade de Princeton o preterira. Algumas eram tolas, mesquinhas e ameaçadoras. Bem, havia muita gente instável no meio acadêmico. Talvez quisessem vingar-se dos problemas que ele causara. Também havia aquela aluna que se aproximara dele. Ele dissera que não, não queria ter um caso com ela. A moça ficara furiosa.

 

Atração Fatal.

 

A polícia investigara e chegara à conclusão de que ela nada tinha a ver com o crime, mas teriam realmente verificado o álibi dela?

 

Olhou em volta do pátio comum, para as dezenas de presos que estavam por ali. Inicialmente, ele era visto com curiosidade. Seu prestígio pareceu aumentar quando souberam que ele tinha sido preso por assassinato, mas depois diminuiu com a notícia de que a vítima não havia tentado roubar drogas dele e nem o traíra — dois motivos aceitáveis para matar uma mulher.

 

Depois ficou óbvio que ele era um daqueles caras brancos que botavam tudo a perder, cuja vida tinha ido ladeira abaixo.

 

Provocações, desafios. Por exemplo, tirar-lhe a ração de leite; era como na escola. Em matéria de sexo, não era o que se dizia. Não ali. Todos estavam presos fazia pouco tempo e por enquanto conseguiam manter o pau dentro do macacão. Mas os novos “amigos” lhe haviam assegurado que sua virgindade não duraria muito quando ele fosse para uma penitenciária como Attica, especialmente se a pena fosse de 25 anos ou até prisão perpétua.

 

Já tinha levado quatro tapas na cara, duas rasteiras e sido atacado pelo louco Aquilla Sanchez, que derramara suor em seu rosto enquanto gritava, misturando espanhol e inglês, até que algum dos guardas o arrancasse dali.

 

Arthur já tinha urinado nas calças duas vezes e vomitado mais de uma dúzia. Era um verme, um merda que não merecia ser fodido.

 

Pelo menos até mais tarde.

 

O coração batia tão forte que ele esperava que explodisse a qualquer momento. Isso era o que tinha acontecido com Henry Rhyme, seu pai, embora o famoso professor não tivesse morrido em um lugar infame como o Túmulo, e sim em uma conveniente calçada universitária em Hyde Park, Illinois.

 

Como aquilo aconteceu? Uma testemunha e provas... não fazia sentido.

 

— Declare-se culpado, Sr. Rhyme — aconselhara o promotor assistente. — É a minha recomendação.

 

Seu advogado aconselhara o mesmo:

 

— Conheço isso por dentro e por fora, Art. É como se estivesse vendo um mapa de GPS. Posso dizer exatamente para onde isto está caminhando, e não será a pena de morte, que não existe em Nova York. Mas ainda temos que pensar em 25 anos. É o melhor que você pode conseguir.

 

— Mas não fui eu.

 

— Entendo. Mas isso não significa nada para muita gente, Arthur.

 

— Mas não fui eu mesmo!

 

— Entendo.

 

— Bem, eu não vou assumir a culpa. O júri vai entender. Eles vão me ver. Saberão que não sou assassino.

 

Silêncio. Em seguida:

 

— Tudo bem. Mas nada estava bem. Claro que o advogado estava contrariado, apesar dos mais de seiscentos dólares por hora que cobrava; e de onde vinha o maldito dinheiro para isso? Ele...

 

Arthur ergueu de repente os olhos e viu dois presos que o observavam. Eram latinos. Olhavam-no com rostos sem qualquer expressão. Não eram amistosos, nem desafiadores, nem ameaçadores. Pareciam curiosos.

 

Quando eles se aproximaram, Arthur ficou pensando se devia levantar-se ou permanecer como estava.

 

Fique firme.

 

Mas abaixe os olhos.

 

Olhou para baixo. Um dos homens ficou de pé diante dele, com os sapatos maltratados diretamente na linha de visão de Arthur.

 

O outro deu a volta pelas costas.

 

Arthur Rhyme sabia que ia morrer. Que fosse tudo rápido, tudo rápido.

 

— Ei — disse o que estava atrás, com voz aguda.

 

Arthur levantou os olhos para o outro, que estava na frente. O homem tinha olhos injetados, um brinco na orelha e dentes podres. Arthur não conseguia falar.

 

— Você aí — chamou a voz novamente.

 

Arthur engoliu em seco. Apesar de tentar, mas não pôde controlar-se.

 

— A gente está falando com você, eu e meu amigo. Cadê a sua educação? Vai bancar o metido por quê?

 

— Desculpe. Eu... oi.

 

— Ei. Você ganha a vida com o quê? — perguntou o da voz aguda, atrás dele.

 

— Eu... — Era como se a mente de Arthur tivesse congelado. Que deveria dizer? — Sou... sou cientista.

 

— Cacete! Cientista? Que é que você faz? Foguetes? — falou o homem de brinco.

 

Os dois riram.

 

— Não. Equipamento médico.

 

— Tipo aquela merda que eles usam? Para dar choque no peito? Igual a Plantão Médico?

 

— Não, é uma coisa complicada.

 

O homem do brinco franziu a testa.

 

— Não foi isso o que eu quis dizer — corrigiu-se Arthur, rapidamente. — Não é que você não fosse entender, mas é difícil explicar. Sistema de controle de qualidade para diálise. E também...

 

— Você ganha um bom dinheiro, não? Ouvi dizer que você estava bem-vestido quando chegou aqui — disse o da voz aguda.

 

— Como? Ah, não sei. Comprei o terno na Nordstrom.

 

— Nordstrom. Que porra é essa de Nordstrom?

 

— Uma loja.

 

Arthur olhou novamente para os pés do homem do brinco, que continuou.

 

— Eu disse, você ganha bem. Quanto ganha?

 

— Eu...

 

— Vai dizer que não sabe?

 

— Eu...

 

Era isso o que ele ia dizer.

 

— Quanto você ganha?

 

— Não sei, acho que uns cem mil.

 

— Merda.

 

Arthur não sabia se aquela quantia era grande ou pequena para eles.

 

— Você tem família? — riu o da voz aguda.

 

— Não vou falar sobre isso.

 

— Você tem família?

 

Arthur Rhyme olhava para a parede próxima, onde havia um prego na argamassa entre dois tijolos, provavelmente para pendurar alguma coisa que havia sido removida ou roubada anos antes, pensou ele.

 

— Deixem-me em paz. Não quero falar com vocês.

 

Tentou mostrar energia na voz, mas parecia uma mocinha abordada por um nerd no baile.

 

— Estamos tentando conversar educadamente, cara.

 

Foi isso mesmo o que ele disse? Conversar educadamente? Depois, pensou: que merda, talvez eles estejam realmente querendo ser gentis. Talvez pudessem ficar amigos, protegê-lo. Que merda, ele precisava de todos os amigos que pudesse ter. Seria possível emendar?

 

— Desculpem, mas isto para mim é muito estranho. Nunca tive esses problemas antes. Apenas...

 

— Que é que sua mulher faz? É cientista também? É esperta?

 

— Eu.... — A resposta que ele pretendia dar sumiu.

 

— Tem peitos grandes?

 

— Você come o cu dela?

 

— Escute aqui, cientista de merda. Escute o que vou dizer. Sua mulher esperta vai tirar um dinheiro do banco. Dez mil. Depois vai encontrar com meu primo no Bronx. E então...

 

A voz de tenor se calou.

 

Um preso negro, de 1,90m, todo músculos e gordura, com as mangas arregaçadas, aproximou-se dos três. Olhava os dois latinos com cara feia.

 

— Ei, Chihuahuas. Caiam fora.

 

Arthur Rhyme ficou imóvel. Não seria capaz de mexer-se ainda que alguém atirasse contra ele, o que não o surpreenderia.

 

— Vá tomar no rabo, crioulo — disse o de brinco.

 

— Seu merda — disse o de voz aguda, fazendo o negro rir e abraçar o outro, afastando-se com ele e murmurando alguma coisa ao ouvido. Os olhos do latino brilharam e ele acenou para o amigo, que foi para perto dele. Os dois caminharam para um canto, fingindo-se ofendidos. Se Arthur não estivesse tão assustado, acharia aquilo divertido: dois brutamontes da escola obrigados a recuar.

 

O negro espreguiçou-se e Arthur ouviu uma articulação estalar. O coração batia ainda mais forte. Uma oração incompleta passou-lhe pela mente, uma prece para que as coronárias o levassem embora, ali mesmo.

 

— Obrigado.

 

O negro falou:

 

— Foda-se. Aqueles dois são uns merdas. Eles têm que aprender. Entendeu o que estou dizendo?

 

Não, Arthur não entendia nada, mas disse:

 

— Meu nome é Art.

 

— Sei qual é seu nome, porra. Todo mundo sabe tudo aqui. Só você não sabe. Você não sabe merda nenhuma.

 

Mas Arthur Rhyme sabia uma coisa, e tinha absoluta certeza. Ia morrer ali mesmo. Por isso, disse:

 

— OK, então me diga quem é você, seu crioulo de merda.

 

O rosto grande se virou para ele, com cheiro de suor e mau hálito. Arthur pensou na família, primeiro nos filhos e depois em Judy. Nos pais, primeiro a mãe e depois o pai. Em seguida, surpreendentemente, pensou no primo, Lincoln, lembrando-se de uma corrida que tinham apostado num campo em Illinois, no verão, quando eram adolescentes.

 

Vamos apostar uma corrida até aquele carvalho. Está vendo, aquele lá. Vou contar até três. Um... dois... três, já!

 

Mas o homem simplesmente se virou e caminhou, atravessando o pátio, até outro preso negro. Os dois bateram as mãos e Arthur Rhyme ficou esquecido.

 

Permaneceu sentado, vendo-os confraternizar, sentindo-se cada vez mais abandonado. Arthur Rhyme era cientista. Acreditava que a vida progredia por meio do processo de seleção natural; a justiça divina não tinha qualquer influência.

 

Agora, porém, mergulhado em uma depressão tão implacável quanto as marés de inverno, não podia deixar de conjeturar se não existiria algum sistema de retribuição, real e invisível como a gravidade, que agora o punia pelas perversidades que cometera na vida. Mas também tinha feito muita coisa boa. Criara filhos, ensinara-lhes coisas importantes, como ter a mente aberta e ser tolerante, tinha sido bom companheiro para a esposa, amparando-a durante um câncer, e contribuíra para o grande acervo científico que enriquecera o mundo.

 

No entanto, havia coisas ruins também. Sempre há.

 

Ali sentado, vestindo o uniforme alaranjado malcheiroso, esforçou-se por acreditar que, por meio dos pensamentos e votos adequados — e fé no sistema que apoiara devidamente a cada eleição —, poderia lutar para chegar ao outro lado da balança da justiça e reunir-se com a família e a vida.

 

Com espírito e intenção corretos, poderia vencer o destino com o mesmo esforço obstinado com que havia ganhado a corrida com Lincoln naquele campo morno e poeirento, correndo com todas as forças em direção ao carvalho.

 

Talvez pudesse ser salvo. Talvez...

 

— Saia daí.

 

Sobressaltou-se ao ouvir a palavra, embora a voz fosse macia. Outro preso, branco, de cabelos revoltos, cheio de tatuagens, mas de dentes muito claros, com os tiques provocados pela droga que lhe vazava pelos poros, se aproximara, por trás dele. Olhava o banco onde Arthur estava sentado, embora pudesse ter escolhido outro lugar. Os olhos eram pura maldade.

 

A esperança momentânea de Arthur em algum sistema científico e mensurável de justiça moral esvaiu-se de um golpe. Uma palavra daquele homem franzino, mas machucado e perigoso, fora suficiente para liquidá-la.

 

Saia daí...

 

Fazendo esforço para não chorar, Arthur Rhyme saiu de onde estava.

 

O TELEFONE TOCOU E LINCOLN Rhyme irritou-se com a distração. Estava pensando no Sr. X e na forma de plantar pistas falsas, se é que isso era o que realmente acontecera, e não queria se distrair.

 

Mas a realidade veio com tudo e ele viu o número 44 na identificação do interlocutor, o código telefônico da Inglaterra.

 

— Comando, atender telefone — disse ele, instantaneamente.

 

Clique.

 

— Alô. Inspetora Longhurst?

 

Rhyme preferia não usar os primeiros nomes. As relações com a Scotland Yard exigiam certa formalidade.

 

— Oi, detetive Rhyme — saudou ela. — Tivemos algum movimento aqui.

 

— Continue — disse Rhyme.

 

— Danny Krueger recebeu um recado de um de seus antigos traficantes de armas. Parece que Richard Logan saiu de Londres para buscar alguma coisa em Manchester. Não temos certeza do que seja, mas sabemos que Manchester está cheia de vendedores de armas no mercado negro.

 

— Tem ideia de onde ele esteja, exatamente?

 

— Danny ainda está tentando localizá-lo. Seria ótimo se pudéssemos agarrá-lo lá, em vez de esperar até que volte para Londres.

 

— Danny está sendo discreto?

 

— Rhyme recordava ter visto na videoconferência um sul-africano corpulento, queimado de sol e espalhafatoso. A pronunciada barriga e um anel de ouro com pedra cor de rosa brilhavam assustadoramente. Ele cuidara de um caso que tinha a ver com Darfur e tanto ele quanto Krueger haviam conversado por algum tempo sobre o trágico conflito naquela região.

 

— Ah, ele sabe o que faz. É sutil quando precisa, e feroz como um mastim quando a situação exige. Se houver alguma maneira, ele conseguirá os detalhes. Estamos trabalhando com nosso time em Manchester para organizar uma equipe de ataque. Ligarei quando tiver outras notícias.

 

Rhyme agradeceu e desligou.

 

— Nós o pegaremos, Rhyme — afirmou Sachs, não apenas para animá-lo. Ela tinha interesse em encontrar Logan, pois quase morrera em um dos esquemas criados por ele.

 

Sachs recebeu um telefonema. Ouviu atentamente e disse que chegaria em dez minutos.

 

— Os documentos sobre os dois outros casos que Flintlock mencionou estão prontos. Vou buscá-los... Ah, e Pam talvez dê um pulo aqui.

 

— O que ela tem feito?

 

— Estudando com um amigo em Manhattan... um namoradinho.

 

— Ótimo. Quem é ele?

 

— Um rapaz da mesma escola. Estou ansiosa para conhecê-lo. Ela não fala em outra coisa. Pam certamente merece uma pessoa séria em sua vida, mas não quero que ela se envolva depressa demais. Vou me sentir melhor quando o conhecer e tiver oportunidade de fazer o interrogatório pessoalmente.

 

Hyme acenou com a cabeça quando Sachs saiu, mas estava pensando em outra coisa. Enquanto olhava o quadro que continha as informações sobre o caso de Alice Sanderson, deu a ordem para iniciar uma nova chamada telefônica.

 

— Alô? — disse uma voz masculina suave. Ouvia-se uma valsa tocando alto.

 

— É você, Mel?

 

— Lincoln?

 

— Que diabo de música é essa? Onde é que você está?

 

— Estou no Concurso de Danças de Salão da Nova Inglaterra — respondeu Mel Cooper.

 

Rhyme suspirou. Lavar a louça, matinês de teatro, danças de salão. Detestava domingos.

 

— Bem, preciso de você. Tenho um caso aqui. Bem único.

 

— Para você, todos são únicos, Lincoln.

 

— Este é mais que muitos dos outros, se é que é possível dizer isso. Pode vir até aqui? Você disse Nova Inglaterra. Não me diga que está em Boston ou no Maine.

 

— Estou no centro. E, creio, livre. Eu e Gretta acabamos de ser eliminados. Rosie Talbot e Bryan Marshall vão vencer. Um escândalo. É tudo questão de fazer barulho — completou ele, com certa veemência. — Quando quer que eu vá?

 

— Agora.

 

Cooper riu.

 

— Por quanto tempo vai precisar de mim?

 

— Talvez por algum tempo.

 

— Como até 18 horas? Ou até quarta-feira?

 

— É melhor ligar pra seu supervisor e dizer que você está sendo designado para outra tarefa. Espero que não passe de quarta-feira.

 

— Preciso dar algum nome a ele. Quem está encarregado da investigação? Lon?

 

— Vamos combinar assim: seja um pouco vago.

 

— Bem, Lincoln, você se lembra de seus tempos na polícia, não? “Vago” não funciona. É preciso ser muito específico.

 

— Não existe realmente um detetive encarregado do caso.

 

— Você está tratando disso sozinho? — O tom de voz era um tanto hesitante.

 

— Não exatamente. Tenho Amelia e Ron.

 

— Só?

 

— Você também.

 

— Sei. Quem é o suspeito?

 

— Na verdade, já estão presos. Dois foram condenados e um aguarda julgamento.

 

— E você tem dúvidas de que sejam os verdadeiros culpados.

 

— É mais ou menos isso.

 

Mel Cooper, detetive da Unidade de Cena do Crime da polícia de Nova York, especializara-se em trabalho de laboratório e era um dos agentes mais brilhantes, além de ser um dos mais astutos.

 

— Então você quer que eu ajude a descobrir como meus chefes se enganaram e prenderam os indivíduos errados e depois os convença a abrir novas e dispendiosas investigações contra os verdadeiros culpados, que provavelmente não ficarão muito satisfeitos quando souberem que não vão escapar tão facilmente. É uma espécie de situação em que todos perdem, não é, Lincoln?

 

— Diga à sua namorada que eu peço desculpas, Mel. E venha logo.

 

Sachs já estava na metade do caminho para o Camaro cor de carmim quando ouviu um grito:

 

— Ei, Amelia!

 

Voltou-se e viu uma jovem bonita, de longos cabelos castanhos com mechas ruivas e alguns piercings de bom gosto em ambas as orelhas. Carregava duas bolsas de lona. O rosto, coberto de sardas delicadas, irradiava felicidade.

 

— Você está saindo? — perguntou ela a Sachs.

 

— Um caso importante. Vou ao sul de Manhattan. Quer uma carona?

 

— Claro. Posso pegar o metrô na Prefeitura — disse Pam, entrando no carro.

 

— Como vão os estudos?

 

— Você sabe.

 

— E onde está seu amigo? — questionou Sachs, olhando em volta.

 

— Estava comigo até agora pouco.

 

Stuart Everett era aluno do mesmo colégio que Pam frequentava em Manhattan. Os dois já estavam namorando havia alguns meses. Tinham se conhecido na aula e imediatamente descobriram uma afeição mútua pelos livros e pela música. Ele fazia parte do Clube de Poesia da escola, o que tranquilizava Sachs. Não queria um motoqueiro nem um atleta sem modos.

 

Pam jogou no assento traseiro uma das bolsas, que continha livros escolares, e abriu a outra. Um cachorro de pelo emaranhado as olhou.

 

— Ei, Jackson — chamou Sachs, afagando a cabeça do animal.

 

O pequeno cão agarrou o biscoito em forma de osso que a detetive oferecia. Ela tinha retirado de um pote cuja única finalidade era servir de depósito para guloseimas caninas. As acelerações e freadas bruscas habituais de Sachs não eram propícias a manter líquidos em copos.

 

— Stuart não acompanhou você até aqui? Que tipo de cavalheiro ele é?

 

— Ele tinha um jogo de futebol. Gosta muito de esportes. Os homens não são quase todos assim?

 

Entrando no tráfego, Sachs deu uma risada vaga.

 

— São, sim.

 

A pergunta parecia estranha para uma adolescente, considerando que a maioria delas sabia tudo sobre rapazes e esportes. Mas Pam Willoughby não era como a maioria das jovens. Quando ela era menina, o pai morrera em uma missão de paz das Nações Unidas. Enquanto isso, a mãe, uma mulher instável, mergulhara nas atividades clandestinas de organizações políticas e religiosas de extrema-direita, cada vez mais militante. Estava cumprindo pena de prisão perpétua por assassinato (tinha sido responsável por um atentado à bomba contra as Nações Unidas, no qual seis pessoas morreram). Amelia Sachs a conhecera nessa época, quando a detetive salvara a jovem de um raptor maníaco. Ela então desaparecera novamente e, por pura coincidência, Sachs a salvara outra vez, não fazia muito tempo.

 

Livre da família de sociopatas, Pam foi alocada em uma família adotiva no Brooklyn, não sem antes Sachs ter feito uma verificação completa do casal, como um agente secreto que planeja uma visita presidencial. Pam gostava da vida com a família, mas ela e Sachs continuaram a se encontrar e ficaram bastante ligadas. Como a mãe adotiva de Pam estava sempre muito ocupada com outros cinco filhos, Sachs assumiu o papel de irmã mais velha.

 

Isso foi bom para ambas. Sachs sempre quisera ter filhos, mas havia complicações. Planejara constituir família com o primeiro dos namorados com quem morou, embora o rapaz, também policial, tivesse se mostrado uma das piores escolhas possíveis (para começar, extorsão, assalto e finalmente prisão). Depois disso, ficara sozinha até conhecer Lincoln Rhyme, com quem estava desde então. Rhyme não fazia questão de filhos, mas era um homem bom, sincero e inteligente, capaz de distinguir entre o estrito profissionalismo e a vida doméstica. Muitos homens não conseguiam.

 

Iniciar uma família, porém, seria difícil naquele ponto das vidas de ambos; eles precisavam lidar com os perigos e as exigências do trabalho da polícia e com o esgotamento físico que os dominava — fora as incertezas sobre o futuro da saúde de Rhyme. Também havia uma barreira física a vencer, embora, pelo que verificaram, o problema era com Sachs e não com Rhyme (ele era perfeitamente capaz de tornar-se pai).

 

Portanto, a relação com Pam era suficiente por enquanto. Sachs gostava de seu papel e o desempenhava com seriedade. A moça, por sua vez, ia reduzindo as reticências no trato com adultos. Rhyme também gostava genuinamente da companhia dela. Auxiliava-a no planejamento de um livro sobre sua experiência na organização clandestina de ultradireita, que teria o título de Cativeiro. Thom lhe dissera que ela tinha possibilidade de participar do conhecido programa da Oprah.

 

Ultrapassando um táxi, Sachs disse:

 

— Você não respondeu ao que perguntei. Como foi sua tarde de estudo?

 

— Foi ótima.

 

— Está preparada para a prova na quinta-feira?

 

— Já olhei a matéria. Tudo certo.

 

Sachs deu uma risada.

 

— Você nem sequer abriu o livro hoje, não foi?

 

— Ah, Amelia. O dia está tão bonito! O tempo andou muito ruim a semana inteira. Nós precisávamos sair.

 

O impulso de Sachs foi recordar a ela a importância de tirar boas notas nas provas finais. Pam era inteligente, com QI elevado e apetite voraz para leitura, mas após as mudanças de escola seria difícil entrar para uma boa universidade. Mas a moça parecia tão contente que Sachs não insistiu.

 

— Então, o que fizeram?

 

— Só caminhamos. Andamos até o Harlem, dando a volta no reservatório. Estava tendo um show na Boat House, era uma banda cover, mas eles arrasaram tocando Coldplay. — Pam refletiu por um instante e prosseguiu: — Mas eu e Stuart basicamente conversamos. Sobre bobagens. Para mim, essa é a melhor parte.

 

Amelia não tinha como discordar.

 

— Ele é bonito?

 

— Ah, se é! Muito bonito.

 

— Você tem uma foto?

 

— Amelia! Isso seria muito constrangedor.

 

— Depois que terminarmos o caso em que estamos trabalhando, que tal jantarmos juntos, os três?

 

— Você quer mesmo conhecê-lo?

 

— Qualquer rapaz que esteja saindo com você precisa saber que há alguém tomando conta. Alguém que carrega uma pistola e um par de algemas. Vamos, segure o cachorro; hoje estou com vontade de dirigir.

 

Sachs reduziu e então acelerou, deixando dois pontos de exclamação de borracha no asfalto.

 

DESDE QUE AMELIA COMEÇARA A passar algumas noites ocasionais e fins de semana na casa de Rhyme, o ambiente de estilo vitoriano sofrera algumas mudanças. No período em que morou sozinho, depois do acidente e antes de Sachs, a casa era mais ou menos arrumada — dependendo da frequência com que ele despedia seus ajudantes e empregados domésticos —, mas não podia ser considerada um “lar”. Nada pessoal adornando as paredes, nenhum dos certificados, diplomas, comendas e medalhas que ele recebera durante sua elogiada chefia da unidade de cena do crime da polícia de Nova York. Tampouco havia retratos de seus pais, Teddy e Anne, e da família de seu tio Henry.

 

Sachs não concordava com aquilo.

 

— Seu passado, sua família, são coisas importantes — sentenciou ela. — Você está eliminando sua própria história, Rhyme.

 

Ele não conhecia o apartamento dela — não era acessível para uma cadeira de rodas —, mas sabia que os cômodos estavam repletos de lembranças da história dela. Naturalmente já tinha visto muitas fotos de Amelia Sachs: a menina bonitinha (com sardas que há muito haviam desaparecido) e que não sorria muito; na época da escola, segurando ferramentas mecânicas; a jovem universitária, ladeada pelo pai sorridente e mãe de cara fechada; como modelo fotográfica e publicitária, com a expressão chique de frieza que era a moda na época (mas que Rhyme sabia tratar-se de desprezo pela maneira como as modelos eram consideradas simples cabides de roupas).

 

Havia centenas de outras fotos, tiradas principalmente pelo pai, que sempre tinha a Kodak preparada.

 

Sachs observara as paredes nuas de Rhyme e explorara o que os empregados e ajudantes — até mesmo Thom — tinham deixado de lado: as caixas de papelão no porão, que eram provas da vida anterior dele, artefatos escondidos e não mencionados, como se evitasse contar à segunda esposa a respeito da primeira. Muitos daqueles certificados, diplomas e fotos de família decoravam agora as paredes e o topo da lareira, inclusive a que Rhyme naquele momento contemplava: ele próprio, ainda adolescente e esbelto, com uniforme de atleta, tirada logo após uma competição escolar. Mostrava-o com os cabelos revoltos e o nariz proeminente como o de Tom Cruise, curvado para a frente e apoiando-se nas mãos e nos joelhos, exatamente ao final de uma prova, provavelmente de 1.500 metros. Rhyme nunca fora velocista: gostava do lirismo e elegância das distâncias longas. Considerava a competição de corrida um “processo”. Às vezes não parava de correr, mesmo depois de cruzar a linha de chegada.

 

A família costumava assistir às competições. O pai e o tio moravam em subúrbios da cidade de Chicago, embora a certa distância um do outro. A casa de Lincoln ficava a oeste, na planície pouco povoada que na época era ocupada na maior parte por fazendas, na mira de especuladores imobiliários e tornados assustadores. Henry Rhyme e sua família estavam mais ou menos imunes às duas coisas, pois viviam às margens do lago, em Evanston.

 

Henry se deslocava a Chicago duas vezes por semana a fim de dar aulas nos cursos avançados de Física na universidade da cidade. Era uma longa viagem de trem que atravessava diferentes áreas sociais da cidade. A mulher, Paula, ensinava na universidade Northwestern. O casal tinha três filhos: Robert, Marie e Arthur, todos batizados com nomes de cientistas, dos quais Oppenheimer e Curie eram os mais conhecidos. O nome de Art vinha de Arthur Compton, que em 1942 dirigia o famoso Laboratório de Metalurgia na universidade de Chicago, fachada para o projeto de criação da primeira reação nuclear controlada em cadeia do mundo. Todas as crianças tinham frequentado boas escolas: Robert, a faculdade de medicina da Northwestern; Marie, a universidade da Califórnia em Berkeley; e Arthur, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

 

Robert morrera anos antes em um acidente industrial na Europa. Marie trabalhava na China, em assuntos do meio-ambiente. Quanto aos quatro Rhyme mais velhos, somente um ainda vivia: tia Paula morava em uma comunidade de pessoas idosas com assistência médica e mantinha lembranças vívidas e coerentes de sessenta anos antes, embora o presente tivesse se transformado em fragmentos desconexos.

 

Rhyme continuou a olhar a foto de si mesmo. Não conseguia desviar os olhos, recordando a competição de atletismo. Nas aulas, o professor Henry Rhyme demonstrava a aprovação por meio de um sutil movimento de sobrancelhas. Nas competições, porém, sempre saltava nas arquibancadas, assobiando e gritando para Lincoln que fizesse mais esforço, vamos, você vai vencer! Estimulava-o para que atravessasse em primeiro lugar a linha de chegada, o que acontecia com frequência.

 

Depois da competição, Rhyme costumava sair com Arthur. Os dois rapazes se juntavam sempre que podiam, completando o grupo juvenil. Robert e Marie eram bem mais velhos do que Arthur, e Lincoln era filho único.

 

Assim, os dois se tornaram inseparáveis. Na maioria dos fins de semana e durante todo o verão eles saíam como irmãos para suas aventuras, muitas vezes na Corvette de Arthur (o tio Henry, embora fosse professor, ganhava muito mais do que o pai de Rhyme. Teddy também era cientista, embora se sentisse mais à vontade na obscuridade). Os interesses dos rapazes eram típicos dos adolescentes: garotas, jogos de futebol, cinema, longas discussões, comer hambúrgueres e pizza, tomar cerveja escondidos e explicar o mundo. E mais garotas.

 

Agora, sentado na cadeira de rodas ultramoderna, Rhyme tentava recordar onde ele e Arthur tinham ido naquele dia, depois da competição.

 

Arthur, o primo que parecia seu irmão. E que nunca tinha ido visitá-lo depois que a coluna dele se quebrara como um pedaço de madeira de má qualidade.

 

Por que, Arthur? Diga-me por quê...

 

As recordações se perderam ao toque da campainha na porta de entrada da casa. Thom surgiu no corredor e um instante depois um homem franzino e calvo, vestido de smoking, entrou na sala. Mel Cooper colocou no nariz os óculos de lentes grossas e acenou para Rhyme.

 

— Boa tarde.

 

— Por que essa roupa? — perguntou Rhyme.

 

— O concurso de dança. Se tivéssemos passado para a final, você sabe que eu não teria vindo aqui. — Tirou o paletó e a gravata borboleta e enrolou as mangas da camisa de babados. — Então, o que temos nesse caso original de que você me falou?

 

Rhyme explicou do que se tratava.

 

— Lamento por seu primo, Lincoln. Acho que você nunca me falou nele.

 

— Que acha do modus operandi do assassino?

 

— Sem dúvida é brilhante — respondeu Cooper, olhando no quadro branco a relação de provas do assassinato de Alice Sanderson.

 

— Tem alguma ideia? — perguntou Rhyme.

 

— Bem, metade das provas contra seu primo estava no carro dele ou na garagem. É muito mais fácil plantá-las ali do que na casa dele.

 

— Exatamente o que eu estava pensando.

 

A campainha soou novamente. Logo depois, Rhyme ouviu os passos de seu ajudante, voltando sozinho. O detetive pensou que talvez fosse algum entregador, mas logo depois percebeu: era domingo. Algum visitante usando tênis, que não fariam ruído no assoalho do vestíbulo.

 

Claro.

 

O jovem Ron Pulaski apareceu, sorrindo um tanto acanhado. Não era mais um calouro, já trabalhava havia alguns anos como patrulheiro uniformizado, mas se comportava como novato, e portanto Rhyme o via dessa forma. Provavelmente ele seria sempre um novato.

 

Os tênis eram realmente silenciosos, da marca Nike, mas ele vestia uma camisa havaiana espalhafatosa por cima dos jeans. Os cabelos louros estavam estilosamente espetados para cima com gel, e na testa era claramente visível uma cicatriz, herança de um ataque quase fatal durante o primeiro caso em que trabalhara com Rhyme e Sachs. O golpe tinha sido tão violento que ele sofrera uma concussão cerebral e quase tivera que abandonar a polícia. Resolvera, porém, conquistar seu lugar novamente, passando pela reabilitação, e permanecer no departamento, em grande parte inspirando-se em Rhyme (coisa que Ron somente confessara a Sachs, é claro, e não ao próprio criminalista, mas ela revelara o fato a Rhyme).

 

Um tanto surpreso pelo smoking de Cooper, Rhyme fez um aceno de cabeça, saudando os dois homens.

 

— Lavou bem os pratos, Pulaski? Pôs água nas flores? Guardou bem os restos do almoço na geladeira?

 

— Eu saí logo depois do telefonema, senhor.

 

Os três já tinham começado a conversar sobre o caso quando ouviram a voz de Sachs, que vinha da porta de entrada.

 

— Parece uma festa à fantasia — disse ela, olhando o smoking de Cooper e a camisa berrante de Pulaski e dizendo ao primeiro: — Você está muito elegante. É isso o que se diz de alguém que usa smoking, certo? Elegante.

 

— Infelizmente, fui apenas semifinalista; é a única coisa em que sou capaz de pensar.

 

— E Greta, está lidando bem com isso?

 

Conforme contou Cooper, sua bela namorada escandinava tinha “saído com amigas para afogar as mágoas em Aquavit, bebida nacional de sua terra. Na minha opinião, é impossível beber aquilo.”

 

— Como vai sua mãe?

 

Cooper morava com a mãe, uma mulher bastante ativa.

 

— Está muito bem. Saiu para almoçar no Boat House.

 

Sachs perguntou também pela mulher e os dois filhos de Pulsaki. Depois acrescentou:

 

— Obrigada por virem em pleno domingo. — Voltando-se para Rhyme, observou: — Você naturalmente já disse a eles que ficamos muito gratos.

 

— Claro que sim — murmurou ele. — Agora, podemos começar a trabalhar? O que você tem aí? — prosseguiu, olhando o grosso envelope pardo que ela carregava.

 

— Lista de provas e fotos do roubo de moedas seguido por estupro.

 

— Onde está o resultado do exame preliminar da polícia?

 

— Arquivado no depósito de Long Island.

 

— Bem, vamos ver o que você trouxe.

 

Assim como tinha feito com o arquivo relativo ao primo de Rhyme, Sachs pegou um marcador e começou escrever em outro quadro branco.

 

HOMICÍDIO/ROUBO — 27 de março

 

27 de março

 

Crime: homicídio, roubo de seis caixas de moedas raras.

 

Causa mortis: perda de sangue, e choque devido a múltiplos ferimentos de faca

 

Local: Bay Ridge, Brooklyn

 

Vítima: Howard Schwartz

 

Suspeito: Randall Pemberton

 

LISTA DE PROVAS NA CASA DO SUSPEITO

 

  • Graxa

 

  • Fragmentos secos de spray de cabelo

 

  • Fibras de poliéster

 

  • Fibras de lã

 

  • Pegada de sapato tamanho 9½, marca Bass Walker

 

Testemunha informou que homem de colete bege fugiu em Honda Accord preto

 

LISTA DE PROVAS NA CASA E NO CARRO DO SUSPEITO

 

  • Graxa em guarda-chuva no pátio, semelhante à encontrada na casa da vítima

 

  • Par de sapatos Bass Walker tamanho 9½

 

  • Spray de cabelos Clairol, semelhante a fragmentos encontrados na cena do crime

 

  • Faca/traços no cabo — resíduos diferentes dos encontrados na cena do crime e na casa do suspeito

 

  • Fragmentos de papelão velho

 

  • Faca/traços na lâmina: sangue da vítima, identificação positiva

 

  • Suspeito tem Honda Accord 2004 preto

 

  • Uma moeda identificada como proveniente da coleção da vítima

 

  • Colete da Culberton Outdoor Company bege, semelhante à fibra de poliéster encontrada na cena do crime

 

  • Cobertor de lã no carro. Semelhante à fibra de lã encontrada na cena do crime

 

Nota: antes do julgamento, investigadores entrevistaram muitos comerciantes de moedas, na cidade e na internet. Ninguém tentou vender as moedas roubadas.

 

— Portanto, se nosso criminoso roubou as moedas, ele as conservou. E temos o “resíduos diferentes dos encontrados na cena do crime e na casa do suspeito”. Isso provavelmente significa que veio da casa do criminoso. Mas que diabo de resíduos serão esses? Eles não os analisaram? — questionou Rhyme, balançando a cabeça. — Certo, quero ver as fotos. Onde estão?

 

— Vou buscá-las. Um momento.

 

Sachs pegou uma fita adesiva e pregou as cópias das fotos em um terceiro quadro branco. Rhyme manobrou sua cadeira para chegar mais perto e olhou atentamente as dezenas de fotos das cenas do crime. A casa do colecionador de moedas era bem arrumada, mas a do criminoso nem tanto. A cozinha, onde a moeda e a faca tinham sido encontradas sob a pia, estava atravancada, com a mesa coberta de pratos sujos e embalagens de alimentos. Na mesa havia uma pilha de correspondência, a maior parte aparentemente inútil.

 

— O próximo, vamos — pediu ele, tentando evitar demonstrar impaciência na voz.

 

HOMICÍDIO/ESTUPRO — 18 de abril

 

18 de abril

 

Crime: homicídio, estupro

 

Causa mortis: estrangulamento

 

Local: Brooklyn

 

Vítima: Rita Moscone

 

Suspeito: Joseph Knightly

 

LISTA DE EVIDÊNCIAS NA CASA DO SUSPEITO

 

  • Preservativos Durex com lubrificante idêntico ao encontrado na vítima

 

  • Rolo de corda, fibras semelhantes às encontradas na cena do crime

 

  • Pedaço de 60 centímetros da mesma corda, com sangue da vítima, e fragmento de náilon BASF B35 6, 5 centímetros, origem mais provável: o cabelo de uma boneca

 

  • Sabonete suave Colgate-Palmolive

 

  • Fita adesiva plástica, marca American Adhesive

 

  • Luvas de látex, semelhantes ao fragmento encontrado na cena do crime

 

  • Meias de homem, lã/poliéster, semelhantes à fibra encontrada na cena do crime. Outro par idêntico na garagem, contendo traços do sangue da vítima

 

  • Tabaco de cigarros Tareyton (ver nota abaixo)

 

LISTA DE EVIDÊNCIAS NA CASA DA VÍTIMA

 

  • Traços de sabonete suave Colgate-Palmolive para as mãos

 

  • Lubrificante para preservativo

 

  • Fibras de cordas

 

  • Resíduos em fita adesiva, sem semelhança com amostras no apartamento

 

  • Fita adesiva, marca American Adhesive

 

  • Fragmento de látex

 

  • Fibras de lã/poliéster, pretas

 

  • Tabaco na vítima (ver nota abaixo)

 

— O suposto criminoso guardou meias com sangue e levou-as para a própria casa? Besteira. Isso foi plantado — afirmou Rhyme, lendo novamente a lista. — E o que diz a tal “nota abaixo”?

 

Sachs a encontrou: alguns parágrafos sobre possíveis problemas naquele caso, escritos pelo promotor ao detetive encarregado. Mostrou-as a Rhyme:

 

Stan,

 

Há algumas falhas potenciais que a defesa pode tentar levantar.

 

— Questão de possível contaminação: fragmentos de tabaco semelhantes encontrados na cena do crime e na casa do criminoso, mas nem a vítima nem o suspeito eram fumantes. Os agentes que efetuaram a prisão e que estiveram na cena do crime foram interrogados, mas afirmaram ao detetive encarregado que o resíduo de tabaco não era deles.

 

— Não foi encontrado material para exame de DNA, exceto o sangue da vítima.

 

— O suspeito tem um álibi. Uma testemunha ocular o viu do lado de fora de sua própria casa, a cerca de 6 quilômetros, por volta da hora do crime. A testemunha é um sem-teto a quem o suspeito dá esmolas de vez em quando.

 

— Ele tinha um álibi — disse Sachs —, mas evidentemente o júri não acreditou.

 

— Que acha, Mel? — perguntou Rhyme.

 

— O mesmo que disse antes. Tudo parece muito certinho.

 

Pulaski concordou com a cabeça.

 

— O spray de cabelo, o sabonete, as fibras, o lubrificante... tudo.

 

— São coisas óbvias para serem plantadas — concluiu Cooper. — E vejam o DNA: o que foi encontrado na cena do crime não era do suspeito, e sim o da vítima que foi encontrado na casa dele. É muito mais fácil de plantar.

 

Rhyme continuou a examinar as listas, lendo-as lentamente.

 

— Mas nem todas as provas se encaixam — considerou Sachs. — O papelão velho e o resíduo não têm relação com nenhum dos dois locais.

 

— O tabaco tampouco — completou Rhyme. — Nem a vítima nem o homem que foi incriminado fumavam. É possível que tenham vindo do verdadeiro criminoso.

 

— E o cabelo de boneca? — questionou Pulaski. — Poderá significar que ele tinha filhos?

 

— Pregue as fotos disso — ordenou Rhyme. — Vamos olhar.

 

Como os demais locais, o apartamento da vítima e a casa e garagem do suspeito tinham sido bem documentados pela Unidade de Cena do Crime. Rhyme examinou as fotos.

 

— Não há bonecas. Nenhum brinquedo. Talvez o verdadeiro assassino tenha filhos, ou algum contato com brinquedos. Além disso, fuma, ou tem acesso a cigarros e tabaco. Ótimo. Acho que temos alguma coisa aqui.

 

— Vamos fazer um perfil. Até agora o temos chamado de Sr. X. Precisamos de outra coisa para nosso criminoso. Que dia é hoje?

 

— 22 de maio — respondeu Pulaski.

 

— Ótimo. Pessoa desconhecida 522. Sachs, por favor... — disse ele, indicando outro quadro branco com um aceno de cabeça. Vamos começar o perfil.

 

PERFIL DE 522

 

Sexo masculino

 

Possivelmente fumante ou mora/trabalha em companhia de fumantes ou próximo a uma fonte de tabaco

 

Tem filhos ou mora/trabalha próximo a crianças ou a brinquedos

 

Tem interesse por arte, por moedas?

 

PROVAS NÃO PLANTADAS

 

  • Resíduo não identificado

 

  • Papelão velho

 

  • Cabelos de boneca, BASF B35 náilon 6

 

  • Tabaco de cigarros Tareyton

 

Bem, já era um começo, pensou ele, mesmo que fosse um muito capenga.

 

— Devemos chamar Lon e Malloy? — perguntou Sachs.

 

— Para dizer isso a eles? — tornou Rhyme com uma risada, apontando para o quadro branco. — Creio que nossa pequena operação clandestina seria encerrada muito rapidamente.

 

— Quer dizer que o que estamos fazendo não é oficial? — perguntou Pulaski.

 

— Bem-vindo à clandestinidade — cumprimentou Sachs.

 

O jovem agente teve que digerir essa informação.

 

— Por isso é que estamos disfarçados — disse Cooper, apontando para a faixa de cetim nas calças de seu smoking. Talvez tivesse arriscado uma piscadela, mas Rhyme não percebeu por causa das lentes grossas dos óculos. — Quais serão nossos próximos passos?

 

— Sachs, chame a Unidade de Cena do Crime no Queens. Não vamos conseguir acesso a todas as provas no caso de meu primo. O julgamento está próximo e tudo estará sob a guarda do gabinete do promotor. Veja, porém, se alguém dos arquivos poderia nos mandar as provas dos crimes anteriores: o do estupro e o do roubo de moedas. Quero o resíduo, o papelão e a corda. Pulaski, vá até o Big Building. Quero que você examine os registros de todos os assassinatos nos últimos seis meses.

 

— Todos os assassinatos?

 

— Você não sabia que o prefeito limpou a cidade? Dê graças a Deus por não estar em Detroit ou em Washington. Flintlock se lembrou desses dois casos. Aposto que existem outros. Procure um crime secundário, talvez roubo, talvez estupro, que tenha terminado em homicídio. Procure provas firmes e um telefonema anônimo logo depois do crime. E também um suspeito que jure ser inocente.

 

— Está bem, senhor.

 

— E nós? — perguntou Mel Copoper.

 

— Vamos esperar — murmurou Rhyme, como se estivesse dizendo um palavrão.

 

FOI UMA ÓTIMA TRANSAÇÃO.

 

Agora me sinto satisfeito. Caminho pela rua feliz e contente, recordando as imagens que acabo de incorporar à minha coleção. Imagens de Myra 9834. As imagens visuais estão arquivadas em minha memória. As outras estão no gravador digital.

 

Caminho pela rua, olhando os dezesseis a meu redor.

 

Vejo-os passando pelas calçadas ou dentro de carros, ônibus, táxis, caminhões.

 

Vejo-os do outro lado de janelas, sem saberem que os estou observando.

 

Dezesseis... naturalmente eu não sou o único que se refere a seres humanos dessa forma. Absolutamente não. É uma abreviatura comum nessa atividade. Mas eu talvez seja o único que prefira pensar em pessoas como sendo dezesseis e que se sinta à vontade com essa ideia.

 

Um número de dezesseis algarismos é muito mais exato e eficiente do que um nome. Os nomes me fazem ficar nervoso. Não gosto disso. Ficar nervoso não é bom para mim nem para ninguém. Nomes... ah, coisa terrível. Por exemplo, cerca de 0,6 por cento da população dos Estados Unidos tem o sobrenome Jones ou Brown; 0,3 por cento se chama Moore, e o nome favorito, Smith, é o de incríveis 1 por cento. Existem cerca de 3 milhões de Smith no país. (Quanto aos nomes de batismo, se estiver interessado, fique sabendo que o mais comum não é John. Este é o segundo, com 3,2 por cento. O vencedor é James, com 3,3 por cento.)

 

Pensemos nas consequências disso. Se ouvir alguém dizendo “James Smith”, não saberei a qual deles se refere, porque existem centenas de milhares. E isso somente os que estão vivos. Se somarmos todos os James Smith da história...

 

Ah, meu Deus.

 

Fico louco só em pensar.

 

Nervoso...

 

As consequências dos erros podem ser graves. Digamos que estamos em Berlim, em 1938. Herr Wilhelm Frankel é o judeu ou o não judeu do mesmo nome? Isso fazia uma grande diferença, e qualquer que seja a opinião que você tenha a respeito daqueles rapazes de camisas pardas, eles eram geniais em fazer identificações (e usavam computadores para isso!).

 

Os nomes levam a erros. Os erros são como ruídos. Os ruídos são uma contaminação, e as contaminações devem ser eliminadas.

 

Poderia haver dezenas de Alice Sanderson, mas somente uma Alice 3895, que sacrificou a própria vida para que eu pudesse ter um quadro da Família Americana de autoria do prezado Sr. Prescott.

 

Myra Weinburg? Não deve haver muitas, certamente, porém talvez mais de uma. No entanto, somente Myra 9834 se sacrificou para que eu me satisfizesse.

 

Aposto que existem muitos DeLeon Williams, mas somente 6832-5794-8891-0923 vai ficar preso pelo resto da vida por havê-la estuprado e matado de modo que eu possa continuar livre para fazer isso novamente.

 

Neste momento estou a caminho da casa dele (tecnicamente é a casa da namorada, pelo que descobri), levando comigo provas suficientes para que o pobre homem seja condenado por estupro e assassinato em cerca de uma hora de deliberações.

 

DeLeon 6832...

 

Já liguei para o número de emergência, 911, denunciando um Dodge antigo, de cor bege — mesmo modelo do carro dele — saindo da cena do crime com um homem negro dirigindo.

 

— Vi as mãos dele! Estavam cheias de sangue! Mandem alguém para lá, depressa! Os gritos eram horríveis.

 

Você vai ser um suspeito perfeito, DeLeon 6832. Mais ou menos metade dos criminosos cometem estupro sob influência do álcool ou drogas (ele agora bebe cerveja moderadamente, mas há alguns anos frequentou os Alcoólicos Anônimos). A maioria das vítimas de estupro conhece o atacante (DeLeon 6832 certa vez executou serviços de carpintaria no mercadinho onde Myra 9834 costumava fazer compras, e portanto é lógico presumir que se conhecessem, embora provavelmente não fosse o caso).

 

A maior parte dos estupradores têm até 30 anos de idade (exatamente a idade de DeLeon 6832, como se verá). Ao contrário dos traficantes e usuários de drogas, não costumam ter histórico criminal, a não ser por violência física doméstica (e o meu amigo foi condenado por agredir uma namorada — veja só que perfeição). A maioria dos estupradores vêm de classes sociais menos elevadas ou de baixa renda (ele está desempregado há meses). Agora, senhores e senhoras membros do júri, peço o favor de observar que dois dias antes do estupro o réu comprou uma caixa de preservativos Trojan-Enx, iguais aos dois que foram encontrados junto ao corpo da vítima. (Quanto aos dois que foram efetivamente utilizados — naturalmente meus —, já foram destruídos há muito tempo. Essa história de DNA é muito perigosa, especialmente agora que as autoridades vêm colecionando amostras provenientes de várias cenas de crime, e não apenas de estupro. Em breve, na Inglaterra, isso vai ser normal até mesmo para quem for intimado porque o cachorro sujou a calçada ou por ter feito uma manobra arriscada no trânsito.)

 

Há outro fato que a polícia poderá levar em consideração, se trabalhar como deve. DeLeon 6832 é veterano do Iraque. Quando foi desmobilizado, houve dúvidas sobre o paradeiro de sua pistola calibre 45. Ele não a devolveu, afirmando que tinha sido “perdida” em combate.

 

Curiosamente, há poucos anos ele comprou munição de calibre 45.

 

Se a polícia ficar sabendo disso, o que poderá facilmente acontecer, poderá também concluir que o suspeito anda armado. Se investigarem um pouco mais, descobrirá que ele recebeu tratamento para a síndrome de estresse pós-traumático em um hospital para ex-combatentes.

 

Um suspeito armado e desequilibrado?

 

Qual policial não se sentiria tentado a atirar primeiro?

 

Vamos esperar. Nem sempre me sinto completamente confiante em relação aos dezesseis que escolho. Nunca se sabe se surgirão álibis inesperados, ou júris incompetentes. Talvez DeLeon 6832 acabe no necrotério da polícia ainda hoje. Por que não? Não mereço um pouquinho de sorte pra compensar a inquietação que Deus me deu? Nem sempre a vida é fácil, como você sabe.

 

Devo levar ainda uma meia hora para chegar à casa dele no Brooklyn. Ainda com a gostosa sensação de satisfação devido à transação com Myra 9834, a caminhada é um prazer. A mochila pesa em minhas costas. Não apenas contém as pistas que vou plantar e o sapato que deixou a pegada incriminadora de DeLeon, mas também está cheia de alguns tesouros que encontrei caminhando pelas ruas hoje. Em meu bolso, infelizmente, tenho somente um pequeno troféu de Myra 9834: um pedaço de unha da mão. Gostaria de ter alguma coisa mais pessoal, mas as mortes em Manhattan são importantes, e despertam muito interesse quando falta alguma parte do corpo.

 

Começo a caminhar um pouco mais depressa, curtindo o som da mochila batendo. Curtindo o domingo luminoso de primavera e as lembranças de minha transação com Myra 9834.

 

Curtindo a completa segurança de saber que, embora eu seja provavelmente a pessoa mais perigosa de Nova York, sou também invulnerável, invisível para todos os dezesseis que poderiam prejudicar-me.

 

A luz atraiu a atenção dele.

 

Um lampejo vindo da rua.

 

Vermelho.

 

Outro lampejo. Azul.

 

O telefone escorregou na mão de DeLeon Williams. Estava ligando para um amigo, procurando o homem para quem ele trabalhara antes e que saíra da cidade quando sua firma de serviços de carpintaria fracassou e ele ficou somente com as dívidas, inclusive mais de 4 mil dólares que devia a seu empregado mais confiável, DeLeon Williams.

 

— Leon — disse a pessoa do outro lado da linha. — Eu também não sei onde aquele desgraçado está. Ele me deve...

 

— Ligo de volta para você.

 

Clique.

 

Sentindo o suor nas mãos, olhou através da cortina que ele e Janeece tinham acabado de pendurar no sábado anterior (e Williams se sentia envergonhado porque foi ela quem teve que pagar por elas — ele detestava ficar desempregado). Notou que os lampejos vinham das luzes de dois carros da polícia, sem identificação. Dois detetives desceram, desabotoando os paletós, e não porque o dia de primavera estivesse cálido. Os dois carros partiram para bloquear as duas esquinas.

 

Os policiais olharam em volta cautelosamente e em seguida, destruindo a última esperança de que fosse alguma estranha coincidência, caminharam até o Dodge bege de Williams, anotaram a placa e olharam para dentro do carro. Um dos dois disse alguma coisa no rádio.

 

William baixou os olhos, desanimado, enquanto suspirava de desgosto.

 

Era ela, outra vez.

 

Ela...

 

No ano anterior ele tivera um caso com uma mulher que não apenas era sexy, mas também inteligente e bondosa. Pelo menos assim parecia, no início. No entanto, pouco depois que a relação se tornou mais séria, ela se transformou em uma megera raivosa. Mostrou-se volúvel, ciumenta, vingativa. Era instável... Já fazia quatro meses que estavam juntos e aquela foi a pior época de sua vida. Williams se dedicou a proteger os filhos dela da própria mãe.

 

Mas suas boas ações acabaram por levá-lo à cadeia. Certa noite, Leticia ameaçou bater na filha por não ter limpado bem uma panela. Williams instintivamente agarrou-lhe o braço, enquanto a menina se afastava, soluçando. Ele acalmou a mulher e tudo parecia haver terminado ali. Horas depois, porém, quando ele se encontrava sozinho na varanda pensando em como poderia tirar as crianças dali, talvez mandando-as para os cuidados do pai, a polícia chegou e ele foi detido.

 

Leticia o tinha denunciado por agressão, mostrando o braço que ficara machucado quando ele o agarrou. Williams ficou surpreso. Explicou o que tinha acontecido, mas os policiais o prenderam assim mesmo. O caso foi julgado e Williams não permitiu que a menina testemunhasse em sua defesa, embora ela quisesse fazê-lo. Foi considerado culpado de agressão e condenado a serviços comunitários.

 

Durante o julgamento, porém, ele falou da crueldade de Leticia. O promotor acreditou nele e informou o Departamento de Serviço Social. Uma assistente social a visitou em casa para investigar o bem-estar das crianças, que foram afastadas da mãe e colocadas sob a custódia do pai.

 

Leticia começou a perseguir Williams. Isso durou muito tempo, mas em seguida ela desaparecera, meses antes. Ele achou que estava salvo...

 

Mas agora, aquilo. Era certamente obra dela.

 

Jesus, meu Senhor, o quanto um homem é obrigado a aguentar?

 

Olhou novamente. Não! Os detetives tinham sacado as armas.

 

Sentiu-se horrorizado. Teria ela machucado uma das crianças e afirmado que fora ele? Isso não o surpreenderia.

 

As mãos de Williams tremiam e lágrimas começaram a escorrer pelo rosto largo. Sentiu o mesmo pânico que o assaltara durante a guerra no deserto, quando o sorridente colega a seu lado foi atingido por uma granada inimiga, transformando-se em uma massa sangrenta. Até aquele momento, Williams estivera mais ou menos normal. Tinha sido alvo de tiros, vira-se coberto de areia e desmaiara com o calor. Mas ver o amigo Jason transformado em uma coisa o afetou profundamente. O estresse pós-traumático com o qual ele vinha lutando desde então se agravou.

 

Sentiu medo, muito medo.

 

— Não, não, não, não — murmurou ele, sem fôlego. Meses antes tinha parado de tomar os remédios, achando que já estava melhor.

 

Agora, vendo os detetives cercarem a casa, DeLeon Williams só pensava em uma coisa: Desapareça daqui, corra!

 

Era preciso afastar-se. Desapareceria, para mostrar que Janeece não tinha ligação com ele, para salvá-la juntamente com o filho — duas pessoas que ele realmente amava. Passou a corrente na porta, trancou-a por dentro, correu ao quarto e pegou uma bolsa, metendo dentro dela tudo o que pôde. Nada fazia sentido: creme de barbear, mas não gilete; roupa de baixo, mas não camisas; sapatos, mas não meias.

 

Pegou mais um objeto no armário.

 

A pistola militar, a Colt 45. Estava descarregada — ele não se imaginava capaz de atirar em quem quer que fosse —, mas poderia usá-la para escapar da polícia ou sequestrar um carro, se fosse necessário.

 

Só pensava numa coisa: Corra! Desapareça!

 

Olhou pela última vez a foto com Janeece e o filho dela, num passeio a Six Flags. Começou a chorar novamente, mas logo enxugou os olhos, pôs a bolsa a tiracolo e tratou de descer as escadas, apalpando o cabo da pesada pistola.

 

— O PRIMEIRO ATIRADOR JÁ está em posição?

 

Bo Haumann, ex-sargento instrutor e agora chefe da Unidade de Serviço de Emergência — a divisão SWAT do Departamento de Polícia de Nova York — gesticulou para indicar um prédio que dominava o pequeno quintal da casa onde morava DeLeon Williams, localização perfeita para um atirador.

 

— Sim, senhor — confirmou um policial próximo a ele. — E Johnny também está cobrindo a retaguarda.

 

— Ótimo.

 

De cabelos grisalhos cortados rente e ar severo, Haumann ordenou às duas outras equipes da divisão que tomassem posição.

 

— E fiquem fora do campo de visão dele.

 

Haumann estava no quintal de sua própria casa, não longe dali, tentando fazer com que carvão do ano anterior pegasse fogo, quando recebeu um chamado sobre um caso de estupro/homicídio e uma pista consistente que levava ao suspeito. Entregando a missão incendiária ao filho, vestiu o uniforme e saiu às pressas, agradecendo ao Senhor por ainda não ter tomado a primeira cerveja. Haumann até dirigiria depois de tomar algumas, mas nunca usava a arma nas oito horas seguintes à bebida.

 

Naquele belo domingo, havia a possibilidade de tiroteio.

 

Houve um ruído no rádio, precedendo o anúncio que veio através do fone:

 

— S e S1 para a Base, K. — Uma equipe de Busca e Vigilância se posicionara do outro lado da rua, com o segundo atirador.

 

— Base. Adiante, K.

 

— Recebemos algumas leituras térmicas. Pode haver alguém lá dentro. Não se ouve nada.

 

Pode haver, pensou Haumann, irritado. Sabia quanto custara aquele equipamento. Deveria ser capaz de dizer com certeza se havia alguém na casa, e até mesmo detectar o tamanho do sapato e saber se a pessoa tinha escovado os dentes naquela manhã.

 

— Verifique novamente.

 

Depois de um intervalo que parecia uma eternidade, ouviu novamente:

 

— S e S1. É isso mesmo, há somente uma pessoa dentro. Tivemos um contato visual pela janela. Sem dúvida é DeLeon Williams, como aparece na foto que você nos passou, K.

 

— Muito bem. Desligo.

 

Haumann contatou as duas equipes táticas que iam tomando posição em torno da casa, mantendo-se quase invisíveis.

 

— Certo, não tivemos muito tempo para alinhar a ação. Mas escutem bem. Esse criminoso é estuprador e assassino. Queremos pegá-lo vivo, mas ele é perigoso demais para que o deixemos escapar. Se ele fizer qualquer gesto hostil, é carta branca para atirar.

 

— Líder B. Entendido. Estamos em posição. O beco e as ruas para o norte estão cobertos, e também a porta dos fundos, K.

 

— Líder A para Base. Entendida a carta branca. Estamos em posição na porta da frente e cobrindo todas as ruas ao sul e a leste.

 

— Atiradores — disse Haumann em seu rádio. — Ouviram sobre a carta branca?

 

— Sim.

 

Os atiradores acrescentaram a informação de que estavam “travados e carregados”. (Essa expressão era uma das coisas que irritavam Haumann, porque se aplicava unicamente ao antigo rifle M-1 do exército, no qual era preciso armar o gatilho e carregar um pente de balas pela parte superior; os rifles modernos não precisavam ser travados para serem carregados. Mas aquele não era o momento para dar aulas).

 

Haumann tirou a Glock da cartucheira e entrou no beco atrás da casa, onde outros agentes se juntaram a ele. Naquele idílico domingo de primavera, tinham sido obrigados a mudar rápida e dramaticamente de planos, assim como o ex-sargento.

 

Naquele momento, outra voz soou em seu fone:

 

— S e S2 para Base. Acho que temos alguma coisa.

 

Ajoelhado, DeLeon Williams espreitou cuidadosamente por uma fresta da porta — uma fenda na madeira, que ele pretendia consertar — e viu que os agentes já não estavam ali.

 

Não, disse para si mesmo, ele só não conseguia mais vê-los. Havia uma grande diferença. Notou um reflexo de metal ou de vidro na vegetação. Talvez um daqueles ornamentos de jardim que o vizinho gostava de exibir.

 

Ou então um policial armado.

 

Puxando a bolsa, arrastou-se até os fundos da casa. Espiou de novo. Desta vez, arriscou-se a olhar pela janela, esforçando-se para controlar o pânico.

 

O quintal e o beco estavam vazios. Mas teve que se corrigir novamente: pareciam vazios.

 

Sentiu outro arrepio da síndrome pós-traumática e um impulso de sair correndo pela porta, puxar a arma e atravessar o beco, ameaçando qualquer pessoa que visse e gritando para que recuassem.

 

Impulsivamente, com a cabeça rodando, estendeu a mão para a maçaneta.

 

Não.

 

Seja esperto.

 

Sentado no chão, encostou a cabeça na parede, procurando controlar a respiração.

 

Após um momento, acalmou-se e resolveu tentar outra coisa. No porão havia uma janela que dava para uma pequena área lateral. A 2,5 metros, do outro lado de um gramado sem vida, havia outra janela, a do porão do vizinho. A família Wong tinha ido passar o fim de semana fora — DeLeon concordara em molhar as plantas — e imaginou que poderia esgueirar-se para lá e depois sair pela porta dos fundos. Se tivesse sorte, a polícia não estaria vigiando a área lateral. Em seguida, correria pela rua principal até a estação do metrô.

 

Não era um plano perfeito, mas dava-lhe uma chance melhor do que simplesmente ficar esperando. Novas lágrimas. Mais pânico.

 

Pare com isso, soldado. Vamos.

 

Levantou-se e desceu cambaleando os degraus para o porão.

 

Bastava sair dali. Os policiais invadiriam a casa pela porta da frente a qualquer momento.

 

Abriu a janela e saiu, começando a arrastar-se em direção à janela do porão da casa dos Wong. Olhou para o lado e sentiu-se gelar.

 

Oh, Senhor Jesus Cristo...

 

Dois policiais, um homem e uma mulher, com armas na mão direita, estavam agachados na área estreita. Não olhavam para ele e sim na direção da porta dos fundos e do beco.

 

O pânico o atacou novamente. Pensou em puxar a Colt e ameaçá-los. Forçaria os dois a sentarem-se, depois os algemaria e pegaria os rádios. Detestava ter que fazer isso; aí sim estaria cometendo um crime de verdade. No entanto, não tinha escolha. Os policiais sem dúvida estavam convencidos de que ele fizera alguma coisa horrível. Ele pegaria as armas deles e fugiria. Talvez houvesse um carro sem placa perto dali. Ele pegaria as chaves.

 

Haveria alguém cobrindo os dois policiais, alguém que ele não era capaz de ver? Talvez um atirador oculto?

 

Bem, ele teria que arriscar. Silenciosamente, colocou a bolsa no chão e estendeu a mão, procurando a arma.

 

Naquele momento a mulher se voltou para ele. Williams engoliu em seco. Estou morto, pensou.

 

Janeece, eu te amo...

 

Mas a mulher olhou para uma folha de papel e em seguida encarou-o.

 

— DeLeon Williams?

 

Ele gaguejou:

 

— Eu... — concordou com a cabeça, os ombros baixos em resignação. Tudo o que podia fazer era encarar o rosto bonito dela, o cabelo ruivo em rabo de cavalo, os olhos frios.

 

Ela mostrou um distintivo que trazia pendurado no pescoço.

 

— Somos policiais. Como conseguiu sair da casa? — Foi quando ela percebeu a janela, balançando afirmativamente a cabeça. — Sr. Williams, estamos no meio de uma operação. Poderia voltar para dentro? O senhor estará mais seguro lá.

 

— Eu... — O pânico o impedia de falar. — Eu...

 

— Entre agora — insistiu ela. — Nós o resgataremos assim que tudo estiver resolvido. Mantenha-se em silêncio. Não tente sair novamente, por favor.

 

— Claro. Eu... claro.

 

Deixando a bolsa, começou a esgueirar-se pela janela.

 

— Aqui é Sachs — falou a mulher no rádio. — Expandir o perímetro, Bo. Ele vai ser muito cauteloso.

 

Que diabo estava acontecendo? Williams não perdeu tempo com especulações; em vez disso, voltou desajeitadamente ao porão e subiu as escadas. Uma vez no andar de cima, foi diretamente para o banheiro. Levantou a tampa do vaso e deixou cair a pistola. Depois seguiu até a janela, pensando em espreitar mais uma vez. No entanto, parou e voltou correndo ao banheiro, a tempo de aliviar o enjoo.

 

É curioso dizer isto em um dia tão bonito, e depois do que passei com Myra 9834, mas sinto falta do escritório.

 

Primeiro porque gosto do trabalho; sempre gostei. Gosto da atmosfera, da camaradagem com os dezesseis em volta de mim, quase como uma família.

 

Há também a sensação de produtividade, de fazer parte do clima agitado dos negócios em Nova York. (Ouve-se falar em “eficiência”, mas não gosto desse jargão empresarial — e esse é outro jargão, aliás. Não, os grandes líderes — Franklin Roosevelt, Truman, César, Hitler — não precisavam abrigar-se com o manto da retórica simplista.)

 

O mais importante, naturalmente, é que meu trabalho me ajuda em meu passatempo. Não, mais do que isso: é vital para ele.

 

Minha situação em particular é boa, muito boa. Geralmente posso sair quando bem entender. Organizando minha agenda com cuidado, encontro tempo durante a semana para dedicar-me à minha paixão. E tendo em vista quem sou em público — minha fisionomia profissional, por assim dizer —, seria muito improvável que alguém suspeitasse de que no íntimo sou uma pessoa muito diferente.

 

Muitas vezes trabalho também nos fins de semana. Esses momentos estão entre meus preferidos, desde que, naturalmente, eu não esteja ocupado em uma transação com uma moça bonita como Myra 9834 ou adquirindo um quadro, revistas em quadrinhos, moedas ou uma peça rara de porcelana. Mesmo quando há poucos outros dezesseis no escritório, num feriado, sábado ou domingo, os corredores estão tomados pelo ruído das rodas em movimento, levando lentamente a sociedade ao progresso, em direção a um mundo novo e ousado.

 

Ah, cá está uma loja de antiguidades. Dou uma parada para olhar a vitrine. Há alguns quadros e pratos, taças e cartazes que me atraem. Infelizmente não poderei voltar aqui para fazer compras porque fica muito perto da casa de DeLeon 6832. A possibilidade de que alguém me ligue ao “estuprador” é mínima, mas para que arriscar? (Somente faço compras em lojas ou remexo o lixo. É divertido pesquisar o eBay, mas é preciso ser louco para comprar alguma coisa pela internet). Por enquanto, o dinheiro vivo ainda funciona, mas em breve será possível seguir seu rastro, como tudo o mais. Encontrarão uma forma de implantar identificadores de alta frequência nas notas. O banco saberá qual foi a nota de 20 dólares que você retirou no caixa eletrônico ou em outro banco. E vai saber se você a usou para comprar um refrigerante ou um sutiã para sua amante, ou se deu como sinal para um pistoleiro. Às vezes penso que deveríamos voltar a usar ouro.

 

Fora. De. Vista.

 

Pobre DeLeon 6832. Conheço o rosto dele pelo retrato na carteira de motorista, seu olhar amável para a câmera burocrática. Posso imaginar a cara dele quando a polícia bater à sua porta e mostrar a ordem de prisão sob acusação de estupro e homicídio. Também posso visualizar o olhar de horror para a namorada, Janeece 9810, e o filho dela de 10 anos, se estiverem em casa quando isso acontecer. Pergunto-me se ele é do tipo que chora.

 

Estou a três quarteirões de distância. E...

 

Espere. Há alguma coisa estranha.

 

Dois carros novos Crown Victoria estacionados nesta rua secundária cheia de árvores. As estatísticas informam ser improvável que carros desse tipo, em tão bom estado, possam estar neste bairro. Dois carros idênticos é algo especialmente difícil, além do fato de estarem estacionados juntos, sem sinal de folhas e nem pólen, como os demais. Chegaram aqui recentemente.

 

Uma olhada rápida para dentro, como faria qualquer transeunte curioso, revela que se trata de carros da polícia.

 

Procedimento incomum em caso de uma briga doméstica ou de um assalto. É verdade que, segundo as estatísticas, essas coisas ocorrem com bastante frequência nesta área do Brooklyn, mas também é comprovado por dados que elas raramente acontecem nesta hora do dia, antes que o pessoal comece a tomar suas cervejas. Provavelmente, também, você não veria carros da polícia sem marcas de identificação; somente viaturas comuns, pintadas de azul e branco. Vamos pensar um pouco. Estão a três quarteirões da casa de DeLeon 6832. Preciso avaliar isto. Não seria inconcebível que o chefe de polícia dissesse a seus agentes: “Ele é estuprador. É perigoso. Vamos invadir a casa dentro de dez minutos. Estacionem o carro a três quarteirões de distância e voltem aqui, depressa.”

 

Olho com ar desinteressado o beco mais próximo. As coisas estão piorando. Estacionada na sombra há uma viatura do Serviço de Emergência. Muitas vezes essa unidade auxilia a detenção de gente como DeLeon 6832. Mas como chegaram aqui tão depressa? Faz apenas meia hora que dei o telefonema. (Há sempre um risco, mas, se você demorar muito a chamar após uma transação, a polícia pode desconfiar do porquê de tanto atraso em relatar ter ouvido gritos ou visto um homem em atitude suspeita.)

 

Bem, há duas explicações para a presença da polícia. A mais lógica é que após minha ligação anônima eles tenham pesquisado todos os Dodge bege de mais de cinco anos existentes na cidade (ontem eram 1.357) e deram sorte vindo atrás justamente deste. Estão convencidos, mesmo na ausência das provas que eu ia plantar na garagem dele, que DeLeon 6832 é o estuprador e assassino de Myra 9834, de forma que neste momento ele está sendo preso, ou a polícia preparou uma emboscada para agarrá-lo.

 

A outra explicação é mais preocupante. A polícia chegou à conclusão de que ele está sendo incriminado injustamente, e preparou uma emboscada para mim.

 

Estou suando. Isso não é bom, isso não é bom, não é bom...

 

Mas não entre em pânico. Seus tesouros estão a salvo, seu Armário está a salvo. Relaxe.

 

Mesmo assim, preciso descobrir o que aconteceu. Se a presença da polícia aqui for apenas uma coincidência perversa, que nada tem a ver com DeLeon 6832 ou comigo, nesse caso eu plantarei as provas e voltarei depressa para meu Armário.

 

Mas, se souberem de minha existência, saberão também dos demais: Randall 6794, Rita 2907, Arthur 3480...

 

Puxo o boné um pouco mais sobre os olhos, ajusto os óculos escuros mais por cima no nariz e mudo completamente de direção, dando a volta em torno da casa e passando por becos, jardins e quintais. Mantenho uma distância de três quarteirões, que eles gentilmente determinaram ser minha zona de segurança ao estacionar os Crown Victoria como marcos desse limite.

 

Esse caminho me faz girar em semicírculo até um barranco coberto de grama que leva à estrada principal. Subindo, posso ver os pequenos quintais e varandas do quarteirão de DeLeon 6832. Vou contando as casas até chegar à dele.

 

Não que isso seja necessário. Vejo claramente um policial no telhado de um prédio de dois andares atrás do beco onde está a casa dele. O homem tem um rifle. É um atirador! Vejo outro, que usa um par de binóculos. Outros mais, vestidos de terno ou em roupas esportivas, se escondem atrás de moitas, próximo à casa.

 

Dois policiais estão apontando em minha direção. Vejo outro, no telhado da casa do outro lado da rua, também apontando para mim. Como eu não tenho 1,87m e nem peso mais de cem quilos, é claro que não estão esperando DeLeon 6832. Estão esperando por mim.

 

Minhas mãos começam a tremer. Imagine se eu entrasse de repente no meio deles, com as provas na mochila.

 

Uma dúzia de agentes corre para os carros ou em minha direção. Correm como lobos. Viro-me e subo o barranco, resfolegando, em pânico. Nem bem chego ao topo e já escuto a primeira sirene.

 

Não, não!

 

Meus tesouros, meu Armário...

 

A estrada de quatro pistas está engarrafada, o que é bom, porque os dezesseis não vão conseguir avançar rapidamente. Consigo prosseguir desviando sem problemas, mesmo com a cabeça abaixada, e acho que ninguém vê bem meu rosto. Depois salto a divisória e desço o barranco do outro lado. Minha atividade de colecionador, e mais algumas outras, me mantêm em boa forma física, e já me vejo correndo pela rua para a estação de metrô mais próxima. Faço apenas uma pausa para calçar luvas de algodão e arrancar da minha mochila o saco plástico que contém as pistas que ia plantar, atirando-o em uma lata de lixo. Não posso ser apanhado com ele. Não posso. A meia quadra do metrô, entro em um beco, nos fundos de um restaurante. Viro minha jaqueta reversível ao contrário, mudo de chapéu e saio novamente à rua, com a mochila dentro de uma sacola de compras.

 

Finalmente estou dentro da estação e — aleluia — sinto o deslocamento de ar no túnel com a aproximação de um trem. Em seguida, ouço o ruído da chegada da composição, os guinchos de metal contra metal.

 

Mas paro antes de passar pela catraca. Já não sinto o choque, que foi substituído pela inquietação. Compreendo que não posso ir embora já.

 

A importância do problema me atinge em cheio. Podem não saber minha identidade, mas entenderam o que eu estava fazendo.

 

Isso significa que querem tomar algo que me pertence. Meus tesouros, meu Armário... tudo.

 

Isso, naturalmente, é inaceitável.

 

Tendo o cuidado de ficar fora do alcance das câmeras de vigilância, subo tranquilamente as escadas, procurando algo na sacola, enquanto saio da estação do metrô.

 

— Onde? — questiona a voz de Rhyme através do fone de Sachs. — Pra onde ele foi?

 

— Ele nos viu e escapou.

 

— Tem certeza de que era ele?

 

— Bastante. A vigilância viu alguém a alguns quarteirões de distância. Ele parece ter notado alguns dos carros dos detetives e mudou de direção. Nós o vimos observando a ação, e ele saiu correndo. Mandamos equipes para persegui-lo.

 

Sachs estava no jardim da frente da casa de DeLeon Williams com Pulaski, Bo Haumann e meia dúzia de outros agentes do Serviço de Emergência. Alguns técnicos da Divisão de Cena do Crime e patrulheiros uniformizados pesquisavam a rota de fuga, em busca de pistas, e procuravam testemunhas.

 

— Algum indício de que ele tenha carro?

 

— Não sei. Estava a pé quando o vimos.

 

— Meu Deus. Avise-me quando souber alguma coisa.

 

— Eu...

 

Rhyme desligou.

 

Ela fez uma careta para Pulaski, que mantinha o walkie-talkie ao ouvido, acompanhando a perseguição. Haumann também estava na escuta. Pelo que ela podia ouvir, não havia progressos. Ninguém na estrada o tinha visto, ou não estava disposto a admitir tê-lo visto. Sachs voltou-se para a casa e viu DeLeon Williams que olhava por uma janela, com expressão muito confusa e preocupada.

 

Um misto de acaso e bom trabalho policial havia evitado que ele se tornasse mais um entre os incriminados por 522.

 

Ron Pulaski era quem merecia os agradecimentos. O jovem agente, vestido com a berrante camisa havaiana, fizera o que Rhyme lhe pedira. Partira imediatamente para o número 1 da Police Plaza e começara a procurar outros casos semelhantes ao modus operandi de 522. Não encontrou nenhum, mas, conversando com um detetive da Seção de Homicídios, recebeu um relatório da Central sobre um telefonema anônimo. Um homem tinha ouvido gritos em um loft perto do SoHo e vira um negro fugindo do local em um velho Dodge bege. Um patrulheiro foi verificar e viu que uma jovem, Myra Weinburg, havia sido estuprada e morta.

 

Pulaski se lembrara da ocorrência de telefonemas anônimos nos casos anteriores e imediatamente ligara para Rhyme. O criminalista raciocinou que se 522 fosse o autor dos crimes, provavelmente seguiria seus planos: iria plantar provas para incriminar um inocente. Era preciso verificar qual dos mais de 1.300 Dodges bege antigos seria o que 522 escolheria. Naturalmente, poderia não ser 522, mas ainda assim eles teriam a possibilidade de pegar um estuprador e assassino.

 

Instruído por Rhyme, Mel Cooper cruzou os registros do Departamento de Trânsito com os arquivos criminais e descobriu que sete afro-norte-americanos tinham sido condenados por crimes mais graves do que simples violações de regras de trânsito. Um, porém, parecia mais provável: a acusação era de agressão contra uma mulher. DeLeon Williams seria uma escolha perfeita para ser incriminado.

 

Acaso e bom trabalho policial.

 

A fim de autorizar uma apreensão tática, era preciso autorização de um tenente ou de agente de hierarquia mais elevada. O capitão Joe Malloy ainda não tinha conhecimento da operação clandestina sobre 522, por isso Rhyme ligou para Sellitto, que resmungou, mas concordou em telefonar para Bo Haumann e autorizar uma operação da divisão.

 

Amelia Sachs se juntara a Pulaski e ao restante da equipe na casa de Williams, onde ficaram sabendo, pela unidade de Vigilância, que somente ele estava dentro da casa, e não 522. Portanto, prepararam-se para deter o assassino quando ele chegasse para plantar as provas. O plano era arriscado, improvisado às pressas, e evidentemente não tinha funcionado, embora eles tivessem conseguido evitar que um inocente fosse preso por estupro e homicídio e talvez descoberto alguns indícios úteis para levá-los ao verdadeiro criminoso.

 

— Alguma coisa? — perguntou Haumann, que passara certo tempo conferindo a situação com alguns dos agentes.

 

— Nada.

 

O rádio fez um ruído e Sachs ouviu a transmissão.

 

— Unidade 1, estamos do outro lado da estrada. Parece que ele escapou mesmo. Deve ter entrado no metrô.

 

— Merda — murmurou ela.

 

Haumann fez uma careta, mas nada disse. O agente prosseguiu:

 

— Mas seguimos a rota que ele provavelmente tomou. É possível que tenha jogado alguma coisa em uma lata de lixo no caminho.

 

— Isso seria útil — afirmou Sachs. — Onde? — Ela então tomou nota do endereço fornecido pelo agente. — Diga para isolarem a área. Já vou para lá. — Em seguida, bateu na porta da frente da casa. DeLeon Williams abriu e ela disse: — Desculpe, não tive oportunidade de explicar. Estávamos querendo pegar um homem que vinha para sua casa.

 

— Minha casa?

 

— Achamos que sim. Mas ele escapou.

 

Sachs contou o que acontecera com Myra Weinburg.

 

— Ah, meu Deus. Ela está morta?

 

— Infelizmente, está.

 

— Que pena, sinto muito.

 

— O senhor a conhecia?

 

— Não, nunca ouvi falar.

 

— Achamos que o assassino pretendia incriminar o senhor.

 

— Eu? Mas por quê?

 

— Não fazemos ideia. Depois que investigarmos um pouco mais, talvez precisemos entrevistar o senhor.

 

— Quando quiser — declarou DeLeon, fornecendo os números de telefone de casa e do celular. Depois, franziu a testa. — Posso perguntar uma coisa? Vocês parecem estar certos de que não fui eu. Como sabem que sou inocente?

 

— Os agentes revistaram seu carro e sua garagem e não encontraram nenhuma evidência da cena do crime. Estamos convencidos de que o assassino pretendia plantar provas lá, para incriminar o senhor. É claro que se tivéssemos vindo depois que ele fizesse isso, o senhor estaria em apuros. — Saches acrescentou: — Mais uma coisa, Sr. Williams.

 

— Que é, detetive?

 

— Só uma coisinha que talvez lhe interesse. Sabe que possuir uma arma não registrada é um crime grave na cidade de Nova York?

 

— Acho que já ouvi falar.

 

— Outra coisa é que existe um programa de anistia na delegacia deste distrito. Quem entrega uma arma não precisa dar explicações... Muito bem, cuide-se. Aproveite o resto de seu fim de semana.

 

— Vou tentar.

 

ESTOU OBSERVANDO A POLICIAL QUE examina a lata de lixo onde joguei as provas. Inicialmente fiquei surpreso, mas depois achei que não havia motivo para isso. Se eles foram suficientemente inteligentes para me descobrir, certamente são inteligentes para encontrar o lixo.

 

Duvido que tenham me visto com clareza, mas estou tendo muita cautela. Naturalmente, não estou na cena em si, mas em um restaurante do outro lado da rua, comendo com esforço um hambúrguer e bebendo água. A polícia tem esse destacamento chamado “Anti-crime”, que sempre me pareceu absurdo. É como se todos os outros fossem “a favor do crime”. Os agentes anticrime se vestem à paisana e percorrem as cenas de crimes a fim de encontrar testemunhas e até mesmo criminosos que voltam ao local, por burrice ou porque se comportam irracionalmente. Mas eu estou aqui por dois motivos específicos. O primeiro é que compreendi que tenho um problema. Não posso conviver com ele e por isso preciso de uma solução, e é impossível resolver um problema sem conhecimento. Já fiquei sabendo algumas coisas.

 

Por exemplo, conheço algumas das pessoas que estão à minha procura. Como aquela policial de cabelos ruivos, de macacão plástico branco, que se concentra na cena do crime como eu me concentro em meus dados.

 

Vejo-a sair da área isolada por fitas amarelas, trazendo algumas sacolas, que coloca em caixas cinzentas de plástico. Depois, tira o macacão branco. Apesar do horror que ainda sinto com o desastre desta tarde, sinto um arrepio dentro de mim ao ver os jeans apertados dela. A satisfação com minha transação anterior com Myra 9834 já está desaparecendo.

 

Quando os policiais se retiram para seus carros, ela dá um telefonema.

 

Pago minha conta e caminho sem pressa, saindo para a rua, como qualquer outro cliente nesta bela tarde de domingo.

 

Fora de perigo.

 

E a segunda razão pela qual estou aqui?

 

Muito simples. Para proteger meus tesouros, proteger minha vida, o que significa fazer qualquer coisa que seja necessária para que Eles desapareçam.

 

— O que foi que 522 deixou na lata de lixo? — perguntou Rhyme, falando em seu telefone que dispensa o uso das mãos.

 

— Não muita coisa, mas temos certeza de que era dele. Toalhas de papel ensanguentadas e um pouco de sangue em um saco plástico, para que pudesse deixar uma parte no carro ou na garagem de Williams.

 

Já mandei uma amostra ao laboratório para um exame preliminar de DNA. Uma reprodução de uma foto da vítima, impressa em computador. Um rolo de fita adesiva, da marca Home Depot, e um tênis de corrida. Parece novo.

 

— Só um?

 

— Só. O direito.

 

— Talvez ele o tenha roubado da casa de Williams para deixar uma pegada na cena do crime. Alguém conseguiu vê-lo?

 

— Um dos atiradores e dois rapazes da equipe de Vigilância. Mas ele estava um pouco longe. Provavelmente é branco ou de pele clara, estatura mediana. Estava usando boné, óculos escuros e uma mochila. Não sabemos a idade, nem a cor dos cabelos.

 

— Só isso?

 

— Só.

 

— Bem, mande tudo para cá. Depois quero que você vá até a cena do crime de Weinburg. Estão esperando que você chegue.

 

— Tenho outra pista, Rhyme.

 

— Sério? O que é?

 

— Encontramos uma folha de bloco colada na base do saco plástico que continha as evidências. O 522 queria jogá-lo fora, mas não sei se queria desfazer-se também dessa anotação.

 

— Qual é?

 

— Um número de quarto de um apart hotel no Upper East Side. Quero ir lá verificar.

 

— Você acha que é lá que ele mora?

 

— Não. Liguei para a portaria e fui informada de que o inquilino ficou no quarto o dia inteiro. A pessoa se chama Robert Jorgensen.

 

— Bem, precisamos revistar a cena do estupro, Sachs.

 

— Mande Ron. Ele sabe o que fazer.

 

— Prefiro que você vá.

 

— Eu realmente acho que precisamos saber se existe uma ligação entre esse Jorgensen e nosso 522. E temos que fazer isso depressa.

 

Rhyme não tinha como deixar de dar razão a ela. Além disso, ambos haviam sido insistentes ao ensinar Pulaski a examinar uma cena de crime segundo a técnica da retícula: termo usado por Rhyme que significava caminhar sistematicamente pela cena como se fosse dividida em quadrados contíguos. Essa era a maneira mais eficiente para encontrar evidências.

 

Rhyme, que se sentia tanto chefe quanto pai, sabia que mais cedo ou mais tarde o rapaz teria que fazer sua primeira investigação em uma cena de homicídio.

 

— Está bem — resmungou ele. — Vamos ver se essa pista do quarto de hotel serve de alguma coisa. — Rhyme não conseguiu se conter: — E tomara que não seja uma completa perda de tempo.

 

Ela riu.

 

— Não é isso que sempre esperamos, Rhyme?

 

— E diga a Pulaski que não faça bobagens.

 

Assim que desligaram, Rhyme disse a Cooper que as evidências estavam a caminho. Olhando os quadros brancos, murmurou:

 

— Ele escapou.

 

Mandou Thom colocar num dos quadros brancos a vaga descrição de 522: Provavelmente branco ou de pele clara...

 

Como se isso fosse útil!

 

Com o Camaro estacionado, Amelia Sachs ficou sentada no banco dianteiro com a porta aberta. O ar do fim da tarde de primavera arejava o veículo, que cheirava a couro velho e óleo. Fazia anotações para o relatório sobre a cena do crime. Sempre fazia isso tão logo possível, após verificar uma cena. É extraordinário o que somos capazes de esquecer em pouco tempo. As cores mudam, a direita se transforma em esquerda, as portas e janelas passam de uma parede a outra ou desaparecem completamente.

 

Fez uma pausa, mais uma vez distraída pelos estranhos fatos daquele caso. Como poderia o assassino ter chegado tão perto de incriminar um homem inocente por um estupro e assassinato estarrecedores? Ela nunca tinha visto um criminoso como aquele. Plantar evidências para desorientar a polícia não era incomum, mas aquele sujeito era um gênio em apontar para a direção errada.

 

A rua deserta e sombreada onde ela estacionara ficava a dois quarteirões de onde estava a lata de lixo.

 

Um movimento atraiu a atenção dela. Pensando em 522, sentiu um arrepio de inquietação. Ergueu os olhos para o retrovisor e viu alguém que caminhava em sua direção. Apertou os olhos, observando o homem mais cuidadosamente, embora parecesse uma pessoa inofensiva, um homem de negócios bem vestido. Trazia uma bolsa de papel em uma das mãos e falava ao telefone celular com um sorriso no rosto. Era um morador típico que saíra de casa para ir buscar o jantar em algum restaurante mexicano ou chinês.

 

Sachs voltou a prestar atenção nas anotações.

 

Finalmente terminou, guardando-as na pasta. Nesse momento, teve um sobressalto. Havia uma coisa estranha. O homem que vinha pela calçada já devia ter passado pelo Camaro. Mas isso não acontecera. Teria entrado em algum dos prédios? Ela se voltou para a calçada por onde ele viera.

 

Não!

 

O que via era o saco de papel, colocado na calçada à esquerda, atrás do carro. Era apenas um chamariz.

 

Procurou a Glock, mas antes que pudesse pegá-la a porta da direita se abriu de repente e ela viu o rosto do assassino, de olhos apertados, erguendo uma pistola para ela.

 

A campainha da porta soou e um momento depois Rhyme ouviu passos conhecidos, pesados.

 

— Aqui, Lon.

 

O detetive Lon Sellitto fez um cumprimento com a cabeça. O corpo atarracado estava vestido de jeans e camisa roxa. Calçava tênis, o que surpreendeu Rhyme. Ele raramente o via em roupas esportivas. Impressionou-o também o fato de que, embora todas as roupas de Sellitto estivessem sempre terrivelmente amarrotadas, aquelas pareciam ter saído diretamente da tábua de passar. Os únicos desvios eram as marcas de estiramento do tecido no lugar onde a barriga passava por cima do cós da calça e o pano embolado nas costas, que não escondia inteiramente a pistola.

 

— Ouvi dizer que ele escapou.

 

— Desapareceu completamente — reforçou Rhyme, com raiva.

 

O assoalho rangeu sob o peso daquele homem volumoso enquanto ele percorria os quadros brancos, examinando as anotações.

 

— É esse o nome que vocês deram a ele? Cinco Dois Dois?

 

— Maio, quinto mês, dia 22. Que aconteceu no caso russo?

 

Sellitto não respondeu

 

— Esse Sr. O 522 deixou alguma coisa para trás?

 

— Estamos a ponto de descobrir. Ele jogou fora um saco de evidências que pretendia plantar. Estão trazendo para cá.

 

— Foi muita gentileza dele.

 

— Quer chá gelado, café?

 

— Quero — murmurou o detetive para Thom. — Obrigado. Café. Tem um pouco de leite desnatado?

 

— Dois por cento.

 

— Ótimo. E algum daqueles biscoitos da última vez? Os de chocolate?

 

— Só de aveia.

 

— Também são bons.

 

— Quer alguma coisa, Mel? — perguntou Thom.

 

— Se eu comer ou beber alguma coisa perto de uma mesa de exame de laboratório, alguém se zangará.

 

— Não tenho culpa se alguns advogados de defesa fazem questão de impugnar provas contaminadas — retorquiu Rhyme. — Não fui eu quem redigiu os regulamentos.

 

— Vejo que seu humor não melhorou — comentou Sellitto. — O que está acontecendo em Londres?

 

— Esse é um assunto sobre o qual não quero falar.

 

— Bem, para melhorar seu ânimo, temos um novo problema.

 

— Malloy?

 

— Isso mesmo. Ele ouviu dizer que Amelia estava investigando uma cena e que eu tinha autorizado uma operação da divisão. Ficou feliz, pensando que se tratava do caso Dienko, e muito triste quando viu que não era isso. Perguntou se você tinha algo a ver com o assunto. Sou capaz de levar um soco na cara por você, Linc, mas não um tiro. Delatei você... Ah, obrigado — agradeceu quando Thom trouxe o café. O ajudante colocou uma xícara semelhante em uma mesa não muito longe da de Cooper, que calçou luvas de látex e começou a comer um biscoito.

 

— Um pouco de scotch, por favor — pediu Rhyme, em voz baixa.

 

— Não — respondeu Thom, afastando-se.

 

Franzindo a testa, Rhyme voltou ao assunto.

 

— Eu achei que Malloy ia nos atrapalhar quando soubesse que divisão tinha sido acionada. Mas agora precisamos de apoio das autoridades, porque o caso ficou mais sério. O que faremos?

 

— Melhor pensar depressa, porque ele quer que a gente ligue para ele. E isso há pelo menos meia hora.

 

Sellitto tomou mais um pouco do café e com alguma relutância pousou o restante do biscoito, aparentemente decidido a não acabar de comê-lo.

 

— Bem, preciso de apoio superior. Temos que mandar policiais atrás daquele sujeito.

 

— Então vamos ligar. Você está preparado?

 

— Claro, claro.

 

Sellitto discou um número e apertou o botão VIVA VOZ.

 

— Abaixe o volume — sugeriu Rhyme. — Imagino que vai haver barulho.

 

— Aqui é Malloy. — Rhyme ouvia o zumbir do vento, o som de vozes e o tilintar de pratos e copos. Talvez Malloy estivesse em um café.

 

— Capitão, o senhor está numa chamada de conferência com Rhyme e eu.

 

— Muito bem, que merda está acontecendo? Você podia ter me dito que a ligação anterior de Lincoln tinha a ver com essa operação da divisão. Não sabia que eu tinha adiado até amanhã a decisão sobre qualquer operação?

 

— Não, ele não sabia — respondeu Rhyme.

 

— É verdade, mas eu sabia o suficiente para perceber — disse o detetive.

 

— Acho tocante que cada um de vocês assuma a culpa pelo outro, mas a questão é: por que não me disseram?

 

— Porque tínhamos uma boa chance de pegar um estuprador e assassino. Achei que não podíamos esperar mais.

 

— Não sou criança, tenente. Você me apresenta os motivos e eu tomo as decisões. Assim é que funciona.

 

— Peço desculpas, capitão. Naquele momento, essa parecia ser a melhor decisão.

 

Houve um silêncio.

 

— Mas ele escapou.

 

— É verdade — concordou Rhyme.

 

— Como?

 

— Organizamos um cerco o mais rapidamente possível, mas não foi bem preparado. O sujeito estava mais perto do que supúnhamos. Acho que viu um carro sem identificação, ou alguém da equipe. Tratou de sumir. Mas jogou fora algumas evidências que podem ser úteis.

 

— E estão sendo levadas ao laboratório do Queens ou ao seu?

 

Rhyme olhou para Sellitto. Nas instituições como o Departamento de Polícia de Nova York, progredir na carreira depende de experiência, esforço e rapidez mental. Malloy estava pelo menos meio passo adiante deles.

 

— Eu pedi que as mandassem para cá, Joe — respondeu Rhyme. Desta vez não houve silêncio, e sim um suspiro resignado do outro lado da linha.

 

— Lincoln, você entende o problema, não entende?

 

Conflito de interesses, pensou Rhyme.

 

— Há um evidente conflito de interesses entre você como consultor do departamento e a tentativa de inocentar seu primo. Além disso, há a presunção de que alguém foi preso indevidamente.

 

— Mas foi exatamente isso o que aconteceu, além de duas condenações injustas — insistiu Rhyme, recordando a Malloy os casos de estupro e roubo de moeda que Flintlock havia revelado. — Eu não me surpreenderia se isso acontecesse novamente... você conhece o Princípio de Locard, Joe?

 

— O que está em seu livro, do tempo da academia, não é?

 

O criminalista francês Edmond Locard afirmou que sempre que um crime é cometido há uma transferência de provas entre o criminoso e a cena do crime ou a vítima. Referia-se especificamente a resíduos, mas a regra se aplica a muitas substâncias e tipos de provas. Talvez seja difícil encontrar a ligação, mas ela existe.

 

— O Princípio de Locard orienta nossa ação, Joe, mas neste caso um criminoso o está usando como arma. Esse é o modus operandi dele. Mata e escapa porque outra pessoa é condenada por seu crime. Sabe exatamente onde deve atacar, que tipo de prova deve plantar e quando. Ele vem usando todo mundo, as equipes de cena do crime, os detetives, o pessoal dos laboratórios, os promotores e os juízes... transforma todos em cúmplices. Isso nada tem a ver com meu primo, Joe. O que está em jogo é a possibilidade de deter um homem muito perigoso.

 

Desta vez o silêncio não foi acompanhado por um suspiro.

 

— Está bem, vou autorizar.

 

Sellitto ergueu as sobrancelhas.

 

— Com uma condição. Você me manterá informado de todo o desenvolvimento do caso. Isso quer dizer: de tudo.

 

— Sem dúvida.

 

— E você, Lon, se não for transparente comigo outra vez, vou te transferir para a Seção de Orçamento. Entendeu bem?

 

— Sim, capitão. Perfeitamente.

 

— E já que está trabalhando com Lincoln, Lon, presumo que queira ser afastado do caso Dienko.

 

— Peter Jimenez está à altura da tarefa. Trabalhou mais nos bastidores do que eu e preparou as operações pessoalmente.

 

— E Dellray está cuidando dos roubos, não? E da jurisdição federal?

 

— Isso mesmo.

 

— OK, você está dispensado, temporariamente. Abra um procedimento formal sobre esse criminoso desconhecido... isto é, mande um memorando sobre o procedimento que você já iniciou, secretamente. E escute bem: não vou levantar a questão de inocentes sendo condenados injustamente. Não vou falar disso com ninguém. Você também não fará isso. Esse ponto não está em jogo. O único crime que você está investigando é um estupro/homicídio que aconteceu hoje à tarde. Ponto final. De acordo com seu modus operandi o criminoso pode ter tentado culpar outra pessoa, mas isso é tudo o que você está autorizado a dizer, e só se alguém tocar no assunto. Não comece você mesmo e, pelo amor de Deus, não diga nada à imprensa.

 

— Eu não falo com a imprensa — disse Rhyme. Quem faria isso, podendo evitar? — Mas precisaremos estudar os outros casos para ter uma ideia de como ele opera.

 

— Eu não disse que você não poderia fazer isso — respondeu o capitão, com firmeza, mas sem alarde. — Mantenha-me informado.

 

Malloy desligou.

 

— Bem, agora temos um caso — afirmou Sellitto, rendendo-se ao último pedaço do biscoito e engolindo-o com o café.

 

De pé na calçada, junto com outros três homens à paisana, Amelia Sachs falava com o indivíduo que abrira a porta do Camaro e lhe apontara uma arma. Não era 522 e sim um agente federal que trabalhava na DEA, a agência antidrogas.

 

— Ainda estamos tentando entender — explicou ele, olhando para o chefe, um agente especial assistente encarregado do escritório da DEA no Brooklyn.

 

— Daqui a pouco teremos mais informações — anunciou o chefe.

 

Poucos minutos antes, dentro do carro, com o revólver apontado para sua cabeça, Amelia Sachs tinha levantado as mãos lentamente e se identificado como policial. O agente lhe tomara a arma e verificara duas vezes a carteira de identidade. Em seguida devolveu a pistola, balançando a cabeça.

 

— Não estou entendendo — alegou. Pediu desculpas, mas a expressão do rosto não mostrava arrependimento. Na verdade, denotava apenas que ele simplesmente não estava entendendo.

 

Um momento depois chegou o chefe, com outros dois agentes.

 

Ele recebera uma chamada pelo telefone e ficou ouvindo por algum tempo. Logo fechou o celular e explicou o que parecia ter ocorrido. Pouco antes, alguém ligara anonimamente de um telefone público para denunciar que uma mulher, com a descrição de Sachs, tinha acabado de atirar em alguém durante o que parecia ser uma disputa de traficantes.

 

— Estamos justamente fazendo uma operação nesta área — esclareceu ele. — Investigando assassinatos de traficantes e fornecedores. — Fez um gesto, indicando o agente que tentara prender Sachs. — Anthony mora a uma quadra daqui. O diretor de operações o enviou para avaliar a situação enquanto ele reunia as tropas.

 

— Pensei que você fosse fugir e por isso peguei umas sacolas de papel e entrei em ação. Meu Deus...

 

Somente agora ele começava a compreender o que quase fizera. Estava pálido e Sachs refletiu que as Glock têm o gatilho muito sensível, percebendo que tinha estado muito perto de levar um tiro.

 

— Que é que você estava fazendo aqui? — perguntou o chefe.

 

— Temos um estupro/homicídio — respondeu ela, sem explicar a prática de 522 de incriminar inocentes. — Imagino que nosso suspeito me viu e fez a chamada anônima a fim de retardar a perseguição.

 

Ou então fazer com que eu levasse um tiro de fogo amigo.

 

O agente federal balançou a cabeça, franzindo a testa.

 

— O que foi? — perguntou Sachs.

 

— Estou achando esse sujeito muito inteligente. Se tivesse chamado a polícia de Nova York, como a maioria das pessoas teria feito, eles saberiam de sua operação e quem é você. Por isso ligou pra gente. Tudo o que sabíamos era que você estava armada e nos aproximaríamos com cuidado, prontos para liquidar você caso puxasse uma arma. — Franzindo novamente a testa, acrescentou: — Muito inteligente.

 

— Muito assustador também — disse Anthony, ainda pálido.

 

Os agentes se retiraram e ela deu um telefonema.

 

Quando Rhyme atendeu, ela relatou o incidente.

 

— Ele ligou para a polícia federal? — questionou o criminalista, depois de ponderar por um instante.

 

— Ligou.

 

— Parece até que sabia que estava ocorrendo uma operação anti-drogas e que o agente que tentou prender você morava ao lado.

 

— Ele não podia saber disso — retrucou ela.

 

— Talvez não. Mas certamente sabia uma coisa.

 

— O quê?

 

— Sabia exatamente quem era você. Isso significa que a estava observando. Tenha cuidado, Sachs.

 

Rhyme explicara a Sellitto a cilada que o criminoso armara contra Sachs no Brooklyn.

 

— Ele fez isso?

 

— É o que parece.

 

Os dois conversavam sobre como ele poderia ter obtido aquela informação, sem chegar a conclusões úteis, quando o telefone tocou. Rhyme conferiu o identificador de chamadas e atendeu rapidamente.

 

— Inspetora?

 

A voz de Longhurst encheu o alto-falante:

 

— Como vai, detetive Rhyme?

 

— Tudo bem.

 

— Excelente. Só queria avisá-lo que encontramos a casa onde Logan se escondia. No fim das contas, não fica em Manchester, e sim em Oldham, que é próximo, a leste da cidade.

 

Em seguida ela explicou que Danny Krueger tinha ficado sabendo, por intermédio de seu pessoal, que um homem que se acreditava ser Richard Logan havia feito perguntas sobre a possibilidade de adquirir algumas peças para armamento.

 

— Veja, ele não perguntou pelas armas. Mas quem tem as peças certas para consertar armas pode também montá-las.

 

— Rifles?

 

— Sim, de grosso calibre.

 

— Temos algum nome?

 

— Não, embora eles pensassem que Logan fosse militar dos Estados Unidos. Aparentemente ele prometeu conseguir descontos em grandes quantidades de munições no futuro. Parecia estar de posse de documentos oficiais do exército sobre inventários e especificações.

 

— Então, as coisas estão ficando quentes em Londres.

 

— Assim parece. Agora, a casa. Temos contatos na comunidade indiana em Oldham. Eles são impecáveis. Ouviram falar de um norte-americano que alugou uma casa antiga nos arredores da cidade. Conseguimos localizá-la. Ainda não a revistamos. Nossa equipe poderia ter feito isso, mas achamos melhor falar com o senhor primeiro.

 

“Bem, detetive, minha impressão é de que ele não sabe que encontramos a casa. Suspeito de que deve haver provas úteis lá dentro. Liguei para algumas pessoas no MI5 e eles me emprestaram um brinquedinho caro. É uma câmera de vídeo de alta definição. Queremos que um dos nossos agentes a use, e o senhor o guiaria pelo local, dizendo o que acha. Podemos ter o equipamento preparado lá em quarenta minutos, mais ou menos.”

 

Uma busca adequada na casa, inclusive as entradas e saídas, gavetas, vasos sanitários, armários embutidos, colchões... consumiria a maior parte da noite.

 

Por que aquilo estava acontecendo agora? Rhyme estava convencido de que 522 era uma ameaça verdadeira. Na verdade, a julgar pelo tempo entre eles — os casos anteriores, o do primo e o assassinato daquele dia — os crimes pareciam estar acelerando. E Rhyme se sentia especialmente perturbado pelo acontecimento mais recente: 522 partindo para o ataque e quase conseguindo que Sachs levasse um tiro.

 

Sim ou não?

 

Após um momento de angustiante debate interno, ele disse:

 

— Inspetora, lamento dizer que aconteceu uma coisa aqui. Estamos às voltas com uma série de homicídios. Preciso me concentrar neles.

 

— Compreendo. — Impecável sobriedade britânica.

 

— Terei que entregar o caso a seu comando.

 

— Claro, detetive. Compreendo.

 

— A senhora está livre para tomar quaisquer decisões.

 

— Agradeço a confiança. Vamos ver o que faremos e eu o manterei informado. É melhor desligar agora.

 

— Boa sorte.

 

— Para o senhor também.

 

Era difícil para Lincoln Rhyme desistir de uma caçada, especialmente quando a caça era aquele criminoso específico.

 

A decisão, porém, tinha sido tomada. 522 era agora seu único objetivo.

 

— Mel, pegue o telefone e descubra onde está aquele maldito material do Brooklyn.

 

OK, ISSO É UMA SURPRESA.

 

O endereço na parte nobre do Upper East Side e o fato de Robert Jorgensen ser cirurgião ortopédico levaram Amelia Sachs a imaginar que a Henderson House Residence, que aparecia na nota escrita no papel, fosse muito mais elegante.

 

No entanto, era um lugar repugnante, uma hospedaria, habitada por gente drogada e bêbados. O saguão esquálido, cheio de móveis descombinados e mofados, cheirava a alho, desinfetante barato, purificador de ar inútil e suor humano azedo. Os abrigos para sem-teto eram em geral mais agradáveis.

 

Chegando à porta de entrada, bastante suja, ela parou e voltou-se. Ainda se sentindo insegura quanto à possível vigilância de 522 e à facilidade com que ele enganara os agentes federais no Brooklyn, correu cuidadosamente os olhos pela rua. Ninguém parecia estar prestando atenção nela, mas também era verdade que não percebera a presença do assassino quando ele estivera nos arredores da casa de DeLeon Williams. Observou um prédio abandonado do outro lado da rua. Haveria alguém vigiando-a de alguma das janelas cobertas de sujeira?

 

Ou então no segundo andar, onde havia uma janela grande com a vidraça quebrada. Ela tinha certeza de que vira movimento na penumbra. Seria um rosto? Ou luz vinda de algum buraco no telhado?

 

Sachs aproximou-se e examinou o prédio mais de perto. No entanto, ao não ver ninguém, chegou à conclusão de que seus olhos a estavam enganando. Voltou à hospedaria e entrou, prendendo a respiração. No balcão da portaria mostrou o distintivo ao atendente obeso, que não demonstrou surpresa nem preocupação ao ver uma policial. Indicou-lhe o elevador, cuja porta se abriu para um ambiente mal cheiroso. Melhor subir pelas escadas.

 

Sentindo a dor incômoda da artrite nas juntas, ela chegou ao sexto andar e encontrou o quarto 672. Bateu à porta e deu um passo para o lado, dizendo:

 

— Polícia. Sr. Jorgensen, por favor, abra a porta.

 

Como não sabia a relação que poderia existir entre aquele homem e o assassino, manteve a mão próxima da Glock, uma excelente arma, absolutamente confiável.

 

Não houve resposta, mas ela acreditou ter ouvido o som da tampa de metal do olho mágico.

 

— Polícia — repetiu.

 

— Passe sua identificação por baixo da porta.

 

Sachs obedeceu.

 

Houve uma pausa e depois o ruído de várias correntes sendo retiradas. Em seguida, uma tramela. A porta se abriu em uma fresta, mas foi detida por uma barra de segurança. O espaço era maior do que o normalmente permitido por uma corrente, mas não o suficiente para que alguém passasse.

 

Surgiu a cabeça de um homem de meia-idade, de cabelos compridos que precisavam ser lavados e rosto coberto por uma barba rebelde. Os olhos piscavam constantemente.

 

— O senhor é Robert Jorgensen?

 

O homem olhou para o rosto dela e depois para a identificação, virando-a para o outro lado e erguendo-a para a luz, embora o retângulo laminado fosse opaco. Devolveu-a e removeu a barra de segurança. A porta se abriu. Ele perscrutou o corredor por trás dela e em seguida fez um gesto convidando-a a entrar. Sachs entrou cautelosamente, sempre com a mão na arma. Verificou o quarto e os armários embutidos. Não havia mais ninguém e o homem estava desarmado.

 

— O senhor é Robert Jorgensen? — insistiu ela.

 

Ele concordou com a cabeça.

 

Sachs olhou o quarto miserável com mais atenção. Havia uma cama, mesa e cadeira, uma cadeira de braços e um sofá ensebado. Uma única lâmpada espalhava luz amarelada e as cortinas estavam fechadas. Aparentemente, tudo o que ele possuía eram quatro malas grandes e uma bolsa de ginástica. Não havia cozinha, mas em uma parte da sala via-se um frigobar e dois fornos de micro-ondas, além de uma cafeteira. A alimentação parecia consistir principalmente em sopa e macarrão instantâneo. Uma centena de envelopes pardos estavam cuidadosamente alinhados contra um parede.

 

As roupas que vestia vinham de uma época diferente em sua vida, uma época melhor. Pareciam caras, mas estavam desgastadas e manchadas. O solado dos sapatos de boa qualidade estava gasto. Hipótese: ele perdeu a clínica médica devido a um problema com drogas ou com bebida.

 

Naquele momento, ele se ocupava da estranha tarefa de dissecar um livro volumoso, de capa dura. Uma lente de aumento trincada estava presa a um suporte na mesa, e várias páginas do livro tinham sido arrancadas e cortadas em tiras.

 

Talvez uma doença mental fosse a causa daquela decadência.

 

— Você está aqui por causa das cartas. Já era tempo.

 

— Cartas?

 

Ele a olhou com desconfiança.

 

— Não é por isso?

 

— Não sei de carta alguma.

 

— Mandei-as para Washington. Mas você fala, não fala? Todos vocês, policiais e agentes, essa gente que trabalha com segurança pública. Claro que sim. Têm que fazer isso, todos falam. As bases de dados criminais e tudo o mais...

 

— Realmente, não sei sobre o que o senhor está falando.

 

Ele pareceu acreditar no que ouvia.

 

— Bem, nesse caso... De repente os olhos se arregalaram, fitando os quadris dela. — Espere! Seu telefone celular está ligado?

 

— Ué, está.

 

— Meu Deus do céu! Que diabo está fazendo?

 

— Eu...

 

— Por que não corre nua pela rua revelando seu endereço a todos os desconhecidos que encontrar? Tire a bateria. Não basta desligar. Tire a bateria!

 

— Não vou fazer isso.

 

— Tire a bateria, ou então saia já daqui. Tire também a do palmtop. E do pager.

 

Isso parecia ser uma condição inquestionável. No entanto, ela respondeu, com firmeza:

 

— Não vou mexer na memória. Vou tirar as baterias do telefone e do pager.

 

— OK — resmungou ele, observando enquanto ela retirava as baterias dos dois aparelhos e desligava o palmtop.

 

Em seguida, ela pediu um documento de identidade. Ele demorou, mas mostrou uma carteira de motorista. O endereço era Greenwich, Connecticut, uma das cidades mais elegantes na área metropolitana.

 

— Não estou aqui por causa de carta alguma, Sr. Jorgensen. Quero apenas fazer algumas perguntas. Não vou tomar muito do seu tempo.

 

Ele fez um gesto indicando o sofá mal cheiroso e sentou-se na cadeira bamba junto à mesa. Como se fosse impossível não fazer, virou-se para o livro e cortou um pedaço da lombada com o estilete. Manejava bem a lâmina, com destreza e segurança. Sachs sentiu-se bem por ter a mesa entre os dois e sua arma bem ao alcance.

 

— Sr. Jorgensen, vim aqui por causa de um crime que foi cometido hoje de manhã.

 

— Ah, claro, naturalmente — disse ele, apertando os lábios e olhando novamente para Sachs com expressão de evidente resignação e desagrado. — O que eu supostamente fiz dessa vez?

 

Dessa vez?

 

— Foi um estupro seguido de homicídio. Mas sabemos que o senhor nada teve a ver com ele. O senhor estava aqui.

 

O homem deu um sorriso cruel.

 

— Ah, estão me vigiando. Muito bem. — O rosto então se torceu em uma expressão desconfortável. — Droga — resmungou em reação a alguma coisa que encontrou, ou não encontrou, no pedaço de lombada que dissecava. Jogou-o no lixo. Sachs notou sacos de lixo semi-abertos que continham restos de roupas, livros, jornais e pequenas caixas que também tinham sido desmontadas. Em seguida olhou para o forno micro-ondas maior e viu que havia um livro lá dentro.

 

Fobia de germes, pensou ela, e ele notou o olhar da policial.

 

— O micro-ondas é a melhor maneira de destruí-los.

 

— Bactérias, vírus?

 

Ele riu da pergunta, como se fosse uma piada, indicando com um movimento de cabeça o livro que tinha diante de si.

 

— Mas às vezes é muito difícil achá-los. Só que é necessário, de qualquer jeito. É preciso saber como é o inimigo. — Indicou o micro-ondas em seguida. — E logo logo eles vão começar a fazer alguns que você não conseguiria destruir nem com uma bomba atômica.

 

Eles... eles... Sachs tinha sido patrulheira durante alguns anos — uma móvel, como esses guardas eram chamados na gíria policial. Havia patrulhado Times Square quando o lugar ainda era Times Square, e não a Disneylândia do Norte em que se transformou. A patrulheira Sachs tinha acumulado muita experiência com os sem-teto e gente emocionalmente perturbada. Reconhecia sinais de personalidade paranoide e até de esquizofrenia.

 

— Conhece um homem chamado DeLeon Williams?

 

— Não.

 

Citou os nomes das outras vítimas e pessoas incriminadas, inclusive o primo de Rhyme.

 

— Não, nunca ouvi falar de nenhum deles. — Jorgensen parecia estar dizendo a verdade. O livro absorveu toda a sua atenção durante trinta longos segundos. Retirou uma página e a ergueu, fazendo uma careta outra vez. Depois jogou-a fora.

 

— Sr. Jorgensen, o número deste quarto foi encontrado em um bilhete perto da cena do crime, hoje.

 

A mão que segurava o estilete parou no ar. Ele a olhou com olhos assustados e brilhantes. Sem fôlego, perguntou:

 

— Onde? Onde vocês encontraram isso?

 

— Numa lata de lixo no Brooklyn. Estava colada em algumas evidências. É possível que o assassino a tenha jogado fora.

 

— E ele tem nome? Como ele é? Diga-me — exigiu Jorgensen, em um sussurro horrorizado. O homem fez um movimento de levantar da cadeira, o rosto enrubescido e os lábios trêmulos.

 

— Calma, Sr. Jorgensen. Tranquilize-se. Não temos certeza de que foi ele quem deixou a nota.

 

— Ah, mas é ele. Aposto que é. Aquele filho da mãe! — Curvando-se para a frente, insistiu: — Você sabe o nome dele?

 

— Não.

 

— Diga-me, que merda! Faça alguma coisa por mim, para variar, e não contra mim!

 

— Se puder ajudá-lo, ajudarei — retrucou ela, com firmeza. — Mas o senhor precisa ficar calmo. De quem está falando?

 

Jorgensen deixou cair o estilete e recostou-se na cadeira, os ombros caídos. Um sorriso amargo encheu-lhe o rosto.

 

— Quem? Quem? Ora, Deus, é claro.

 

— Deus?

 

— E eu sou Jó. Sabe quem é Jó? O inocente que Deus atormentou. Sabe das provações que Ele lhe infligiu? Não são nada comparadas com o que sofri. Ah, é ele. Descobriu onde estou e anotou nesse seu papel. Pensei que havia escapado, mas ele me pegou novamente.

 

Sachs teve a impressão de que havia lágrimas nos olhos dele.

 

— O que significa tudo isso? — perguntou. — Por favor, me diga.

 

Jorgensen esfregou o rosto.

 

— Está bem. Alguns anos atrás eu era médico e tinha uma clínica. Morava em Connecticut. Tinha mulher e dois filhos maravilhosos. Dinheiro no banco, plano de aposentadoria, casa de veraneio. Uma vida confortável. Eu era feliz. Mas uma coisa estranha aconteceu. Nada demais, pelo menos não a princípio. Pedi um novo cartão de crédito, para ganhar milhas no programa de voos. Eu estava ganhando trezentos mil dólares por ano. Nunca deixei de pagar uma só conta dos cartões de crédito, nem uma mensalidade da hipoteca. Mas fui rejeitado. Algum engano, pensei. Mas a firma disse que eu era um cliente de risco porque tinha me mudado três vezes nos seis meses anteriores. Só que eu não tinha me mudado. Alguém tinha usado o meu nome, meu número do seguro social e os dados do meu crediário para alugar apartamentos como se fosse eu. Depois, parou de pagar os aluguéis, mas primeiro comprou quase cem mil dólares em objetos e mandou entregá-los nesses endereços.

 

— Roubo de identidade?

 

— Ah, era a mãe de todos os roubos de identidade. Deus obteve cartões de crédito em meu nome, criou dívidas imensas e deu endereços diferentes para onde deviam ser enviadas as contas. Nunca as pagou, naturalmente. Tão logo eu conseguia resolver uma situação, ele arquitetava outra coisa. E continuou a obter todas as informações a meu respeito. Deus sabia de tudo! O nome de solteira de minha mãe, o dia do aniversário dela, o nome de meu primeiro cachorro, a marca de meu primeiro carro... tudo o que as firmas querem saber para servir de senha. Descobriu meus números de telefone e o número de meu cartão telefônico. Deixou uma conta de telefone de dez mil dólares. Como? Ligava para o número que dá a hora certa e a temperatura em Moscou, Cingapura ou Sydney, deixando o telefone ligado durante horas.

 

— Por quê?

 

— Por quê? Porque é Deus. E eu sou Jó... O filho da mãe comprou uma casa no meu nome. Uma casa inteira! Depois, não pagou a hipoteca. Só descobri quando um advogado de uma agência de recuperação de dívidas me encontrou na clínica em Nova York e propôs um acerto para o pagamento dos trezentos e setenta e cinco mil dólares que eu devia. Deus também acumulou dívidas de jogo de mais de duzentos e cinquenta mil dólares.

 

“Reivindicou pagamentos falsos de seguros em meu nome, e a companhia que me atendia me cortou. Não era possível trabalhar na minha clínica sem seguro, mas ninguém aceitava me assegurar. Tivemos que vender a casa, e naturalmente todo o dinheiro foi usado para pagar as dívidas que eu contraíra — na época quase dois milhões de dólares.”

 

— Dois milhões?

 

Jorgensen fechou os olhos por um instante e depois continuou.

 

— Mas as coisas só pioraram. Durante todo esse tempo minha mulher me acompanhou. Foi difícil, mas ela estava a meu lado até que Deus começou a mandar presentes — presentes caros — em meu nome a algumas ex-enfermeiras da clínica, comprados com meu cartão de crédito, inclusive convites e comentários sugestivos. Uma delas deixou um recado em minha casa agradecendo e dizendo que adoraria passar um fim de semana comigo. Minha filha encontrou o recado e contou para a minha mulher, chorando incontrolavelmente. Acho que ela acreditava em minha inocência, mas mesmo assim me deixou há quatro meses e mudou-se para a casa da irmã no Colorado.

 

— Sinto muito.

 

— Sente? Poxa, muito obrigado, mas ainda não acabei. Nada disso. Logo depois que minha mulher me deixou, as prisões começaram. Aparentemente, armas compradas em meu nome com um cartão de crédito e uma carteira de motorista falsa foram usadas para assaltos à mão armada no leste de Nova York, New Haven e Yonkers. Um caixa de banco foi gravemente ferido. O FBI de Nova York me prendeu. Acabaram me soltando, mas tenho uma passagem pela polícia. Isso vai ficar lá para sempre. Mais ou menos na mesma época, a Agência Antidrogas me deteve porque um cheque meu havia sido usado para comprar remédios importados ilegalmente.

 

“Cheguei a ficar na prisão por algum tempo — bem, não era realmente eu, e sim alguém a quem Deus vendera cartões de crédito e uma carteira de motorista falsa em meu nome. Naturalmente, o preso era alguém completamente diferente. Quem sabe qual seria seu nome verdadeiro? Mas, para o mundo, os registros do governo mostram que Robert Samuel Jorgensen, com o número de seguro social 923674182, ex-morador de Greenwich, Connecticut, foi presidiário. Isso também está em meus registros. Para sempre.”

 

— O senhor devia ter agido, devia ter chamado a polícia.

 

Ele deu uma risada de desprezo.

 

— Ora. Por favor. Você é policial. Sabe qual é a prioridade de um caso desses no trabalho da polícia? Logo acima de atravessar a rua fora da faixa.

 

— O senhor descobriu alguma coisa que pudesse nos ajudar? Alguma coisa a respeito dele? Idade, raça, grau de instrução, localização?

 

— Não, nada. Em tudo o que pesquisei havia somente uma pessoa: eu. Ele me roubou de mim mesmo... Dizem que há salvaguardas, que há proteção. Mentira. Claro, se você perder um cartão de crédito, talvez esteja protegido até certo ponto. Mas se alguém pretende destruir sua vida, não há nada que você possa fazer. As pessoas acreditam no que os computadores dizem. Se disserem que você deve dinheiro, você é devedor. Se disserem que você é um risco para a companhia de seguros, você se transforma em risco. O relatório diz que você não tem crédito e portanto você não tem crédito, mesmo que seja multimilionário. Nós acreditamos nos dados, e não queremos saber a verdade.

 

“Quer saber qual foi meu último emprego?”

 

Jorgensen se levantou de um salto e abriu o armário, mostrando o uniforme de uma cadeia de fast-food. Depois voltou à mesa e recomeçou a trabalhar no livro, murmurando:

 

— Vou encontrar você, seu filho da mãe. — Ergueu os olhos. — Quer saber da pior parte?

 

Ela fez que sim.

 

— Deus nunca morou no apartamento que alugou em meu nome. Nunca recebeu os remédios ilegais e nem as mercadorias que encomendou. A polícia recuperou tudo. Nem morou na bela casa que comprou. Compreende? Seu único objetivo era me atormentar. Ele é Deus. Eu sou Jó.

 

Sachs notou uma foto na mesa. Era Jorgensen com uma mulher loura mais ou menos da idade dele, ambos abraçando uma menina adolescente e um menino mais jovem. A casa que aparecia no fundo era bonita. Ela ficou pensando por que motivo 522 faria tanto esforço para destruir a vida de alguém, se efetivamente fosse ele o responsável. Estaria experimentando as técnicas usadas para se aproximar das vítimas e incriminar inocentes? Robert Jorgensen seria uma cobaia?

 

Ou 522 era um sociopata cruel? O que fizera com Jorgensen podia ser considerado um estupro não sexual.

 

— Acho que o senhor deveria arranjar outro lugar para morar, Sr. Jorgensen.

 

Ele sorriu, resignadamente.

 

— Sei disso. É mais seguro assim. Sempre procurar um lugar mais difícil de encontrar.

 

Sachs se lembrou de uma expressão que o pai costumava usar, e que se resumia bem à maneira com que ela própria via a vida. “Quando você está em movimento, não podem te pegar...”

 

Jorgensen indicou o livro com um movimento de cabeça.

 

— Sabe como ele me encontrou aqui? Sinto que foi isto. Tudo começou a piorar depois que o comprei. Continuo achando que a resposta está aqui. Detonei ele, mas não deu certo, é claro. Tem que ter uma resposta dentro dele. Tem que ter!

 

— O que o senhor está procurando, exatamente?

 

— Não sabe?

 

— Não.

 

— Bem, dispositivos de rastreamento, é claro. Eles os colocam dentro de livros e em roupas. Em breve estarão em toda parte.

 

Então não eram germes.

 

— Os fornos de micro-ondas destroem esses dispositivos? — perguntou ela, seguindo a mesma linha de raciocínio.

 

— A maioria deles. Também é possível quebrar as antenas, mas hoje em dia são muito pequenas. Quase microscópicas.

 

Jorgensen ficou em silêncio e ela percebeu que ele a olhava atentamente enquanto meditava. De repente, ele disse:

 

— Fique com ele.

 

— O quê?

 

— O livro. — Os olhos dele percorriam desvairadamente o quarto. — A resposta está aqui, a resposta para tudo o que me aconteceu... Por favor! Você é a primeira que não fez um ar cético quando contei, a única que não me olhou como se eu fosse louco. — Curvou-se para a frente. — Você quer pegá-lo, tanto quanto eu. Vocês têm todo tipo de equipamento, aposto. Microscópios de varredura, sensores... Vocês podem encontrá-lo! E isto os levará a ele. É claro! — completou, empurrando o livro para ela.

 

— Bem, não sei exatamente o que estamos procurando.

 

Ele balançou a cabeça, em sinal de entendimento.

 

— Não é preciso dizer isso para mim. Esse é o problema. Eles mudam as coisas o tempo todo. Sempre estão um passo adiante de nós. Mas por favor...

 

Eles.

 

Sachs pegou o livro, ponderando se deveria colocá-lo dentro de um saco de evidências e prender um cartão de inviolabilidade. Depois pensou que cairia no ridículo ao chegar à casa de Rhyme. Provavelmente era melhor levá-lo na mão.

 

Ele se inclinou e apertou a mão dela com força.

 

— Obrigado — disse, começando a chorar outra vez.

 

— Então o senhor vai se mudar? — perguntou ela.

 

Ele concordou e deu o nome de outra hospedaria, que ficava no Lower East Side.

 

— Não tome nota. Não diga a ninguém. Não mencione meu nome ao telefone. Eles estão sempre na escuta, você sabe.

 

— Ligue para mim caso se lembre de alguma coisa mais sobre... Deus — pediu ela, entregando-lhe um cartão.

 

Jorgensen decorou os dados e em seguida rasgou o cartão. Entrou no banheiro, jogou a metade no vaso sanitário e deu descarga. Notando a curiosidade dela, explicou:

 

— Mais tarde jogarei a outra metade. Jogar tudo de uma vez é uma burrice tão grande quanto deixar dinheiro na caixa de correio aberta. As pessoas são muito tolas.

 

Levou-a até a porta, aproximando-se dela. Sachs sentiu o cheiro de roupas não lavadas. Os olhos avermelhados dele a observavam fixamente.

 

— Sra. Policial, escute. Sei que você tem essa grande pistola no cinto. Mas isso não adianta nada contra alguém como ele. Tem que chegar bem perto para poder atirar. Ele, no entanto, não precisa chegar perto. Pode estar sentado em um quarto escuro em algum lugar, tomando vinho e destruindo sua vida.

 

Indicando o livro que ela tinha nas mãos, finalizou:

 

— E agora que você está com isso, também ficou infectada.

 

TENHO PRESTADO ATENÇÃO NO NOTICIÁRIO — hoje em dia existem muitas formas eficientes de obter informações — e nada vi sobre uma policial de cabelos ruivos abatida a tiros por agentes federais no Brooklyn.

 

Mas pelo menos eles estão com medo.

 

Devem estar nervosos.

 

Melhor assim. Por que só eu deveria passar por essa aflição toda, afinal?

 

Enquanto caminho, reflito. Como isso aconteceu? Como é possível que tenha acontecido?

 

Isso não é bom, isso não é bom, isso...

 

Eles pareciam saber exatamente o que eu estava fazendo e quem era minha vítima.

 

Sabiam que eu estava a caminho da casa de DeLeon 6832 exatamente naquele momento.

 

Como?

 

Examinando os dados, permutando-os, analisando-os. Não, não entendo como conseguiram.

 

Ainda não. Preciso pensar um pouco mais.

 

Não tenho informação suficiente. Como posso tirar conclusões se não tiver os dados? Como?

 

Ah, devagar, devagar, digo a mim mesmo. Quando os dezesseis caminham rapidamente, deixam cair dados, revelando todo tipo de informações, pelo menos para quem é esperto, para quem é capaz de fazer boas deduções.

 

Vou caminhando para cima e para baixo pelas ruas cinzentas da cidade. O domingo já não é belo. Um dia feio, estragado. A luz do sol fere e marca. A cidade está fria, esgarçada. Os dezesseis são debochados, falsos e pomposos.

 

Eu odeio todos eles!

 

Mas mantenha a cabeça baixa, finja aproveitar o dia.

 

E, acima de tudo, pense. Seja analítico. Como faria um computador para analisar os dados, se fosse confrontado com um problema?

 

Pense. Como eles podem ter descoberto?

 

Um quarteirão, dois quarteirões, três, quatro...

 

Não há respostas. Somente uma conclusão: eles são competentes. E outra pergunta: quem exatamente são eles? Creio que...

 

Um pensamento terrível me abala. Por favor, não... Paro e procuro em minha mochila. Não, não, não, ele desapareceu! O post-it colado na bolsa de evidências, que esqueci de retirar antes de jogar tudo fora. O novo endereço de meu dezesseis preferido: 3694-8938-5330-2498, meu bichinho de estimação, conhecido no mundo como Dr. Robert Jorgensen. Eu tinha acabado de descobrir o lugar para onde ele fugira, procurando esconder-se, e tomei nota num pedaço de papel. Fico furioso por não ter decorado e jogado a anotação fora.

 

Odeio a mim mesmo, odeio tudo. Como posso ter sido tão descuidado?

 

Quero chorar, quero gritar.

 

Meu Robert 3694! Durante dois anos ele vem sendo minha cobaia, minha experiência humana. Registros públicos, roubo de identidade, cartões de crédito...

 

Mas acima de tudo, causar a ruína dele foi uma grande emoção. Uma onda de prazer indescritível, como cocaína ou heroína. A emoção de tomar um homem perfeitamente normal, feliz chefe de família, bom e afetuoso médico, e destruí-lo.

 

Bem, não posso me arriscar. Tenho que presumir que alguém encontrou minha anotação e entrou em contato com ele. Ele vai fugir... e vou ter que deixá-lo ir embora.

 

Outra coisa também foi arrancada de mim hoje. Não posso descrever o que sinto quando isso acontece. Dói como uma queimadura, um temor cego de pânico, como estar em queda livre e saber que vai se chocar contra a terra a qualquer momento, mas... ainda... não.

 

Caminho às cegas por entre as manadas de antílopes, esses dezesseis que vagam no dia de descanso. Minha felicidade está destroçada, meu sossego desapareceu. Enquanto há apenas poucas horas eu olhava para todos com curiosidade benigna ou com desejo sexual, agora simplesmente tenho vontade de atacar alguém e rasgar-lhe as carnes pálidas, finas como casca de tomate, com uma de minhas 89 navalhas.

 

Talvez com o modelo Krusius Brothers, do fim do século XIX. Lâmina extra-longa e um belo cabo de chifre de veado. É o orgulho de minha coleção.

 

— São as evidências, Mel. Vamos dar uma olhada.

 

Rhyme referia-se ao material retirado da lata de lixo perto da casa de DeLeon Williams.

 

— Digitais?

 

Os primeiros itens que Cooper examinou em busca de impressões digitais foram os sacos plásticos — a que continha as evidências que 522 presumivelmente pretendia plantar e as que estavam dentro dela, onde havia sangue ainda úmido e uma toalha de papel ensanguentada. Mas não havia impressões no plástico — o que era uma pena, considerando quão bem o material as preserva. (Muitas vezes são visíveis, e não latentes, e podem ser observadas sem qualquer agente químico ou iluminação especial.) Cooper encontrou indícios de que 522 havia tocado nos sacos com luvas de algodão, que os criminosos experientes preferem às luvas de látex, que conservam de maneira eficiente as impressões digitais no interior.

 

Usando diversos produtos químicos e fontes alternativas, Mel Cooper examinou o restante dos itens e também não encontrou impressões.

 

Rhyme percebeu que esse caso, como outros cujo autor ele suspeitava que fosse 522, era diferente da maioria, porque apresentava duas categorias de evidências. Primeiro, as falsas, que o assassino pretendia plantar a fim de incriminar DeLeon Williams; sem dúvida ele se assegurara de que nenhuma delas comprometeria a si próprio. Segundo, as verdadeiras, que ele deixara acidentalmente e que poderiam muito bem levar ao lugar onde morava, como o tabaco e o cabelo de boneca.

 

A toalha de papel ensanguentada e o sangue fresco pertenciam à primeira categoria, e deveriam ter sido plantadas. Da mesma forma, a fita plástica, que provavelmente teria sido colocada na garagem ou no carro de Williams, sem dúvida seria a mesma usada para amordaçar ou amarrar Myra Weinburg. No entanto, certamente nunca teria estado na casa de 522, e portanto nenhum vestígio se agarrara a ela.

 

O tênis tamanho 45, marca Sure Track, provavelmente não seria deixado na casa de Williams, mas também era uma das evidências “plantadas”, pois 522 certamente o usara para deixar uma marca de pegada semelhante à dos sapatos do homem a ser incriminado. Mesmo assim, Mel Cooper examinou-o e encontrou traços de cerveja. Segundo a base de dados de ingredientes de bebidas fermentadas que Rhyme havia criado no Departamento de Polícia anos antes, era muito provavelmente da marca Miller. Poderia estar em qualquer das duas categorias: plantada ou real. Teriam que esperar o que Pulaski iria recuperar na cena do crime de Myra Weinburg para ter certeza.

 

O saco plástico continha ainda uma impressão de computador de uma foto de Myra, provavelmente incluída para sugerir que Williams a vinha seguindo on-line. Portanto, era bem possível que a intenção fosse plantá-la também. Rhyme fez Cooper verificá-la cuidadosamente, mas um teste com ninidrina não revelou impressões digitais. As análises microscópica e química mostraram papel genérico, impossível de ser rastreado, impresso em uma máquina Hewlett Packard, também irrastreável.

 

No entanto, uma das descobertas poderia ser útil. Rhyme e Cooper encontraram algo embebido no papel: traços de mofo Stachybotrys chartarum. Era o infame mofo dos prédios condenados. Como as quantidades encontradas no papel eram muito pequenas, era pouco provável que 522 pretendesse plantá-las. Mais provavelmente vinham da residência do assassino ou de seu local de trabalho. A presença desse mofo, encontrado quase exclusivamente em ambientes fechados, denotava que pelo menos uma parte da casa ou do local de trabalho seria escura e úmida. O mofo não brota em lugares secos.

 

O post-it com a anotação era da marca 3M, não o tipo mais barato, mas também de origem irrastreável. Cooper não encontrou nada nele além de alguns esporos do mofo, o que indicava que provavelmente a origem era 522. A tinta era de uma caneta descartável, vendida em inúmeras lojas em todo o país.

 

E isso era tudo o que as evidências ofereciam. Enquanto Cooper anotava os resultados, um técnico de um laboratório externo que Rhyme usava para acelerar análises médicas ligou para avisar que o teste preliminar confirmava que o sangue encontrado nas bolsas era o de Myra Weinburg.

 

Sellitto recebeu um telefonema, conversou rapidamente e desligou.

 

— O DEA verificou que a ligação sobre Amelia foi feita de um telefone público. Ninguém viu a pessoa que ligou e ninguém na estrada viu qualquer pessoa correndo. As câmeras das duas estações de metrô mais próximas também não mostraram ninguém em atitude suspeita na hora em que ele escapou.

 

— Bem, ele não iria fazer nada suspeito, não é? Que poderíamos esperar? Que um assassino fugitivo pulasse a catraca ou tirasse a roupa para vestir um uniforme de super-herói?

 

— Eu só estou relatando o que eles disseram, Linc.

 

Com um ar de desagrado, ele pediu a Thom que escrevesse no quadro branco os resultados da pesquisa.

 

RUA PRÓXIMA À CASA DE WILLIAMS

  • Três sacos plásticos, do tipo Zip-Lock para congelador, 3,8 litros.

 

  • Um tênis de corrida, pé direito, tamanho 45, marca Sure Track, com cerveja seca na sola (provavelmente da marca Miller) e sem traços de uso. Nenhum outro elemento perceptível. Comprado para deixar pegada na cena do crime.

 

  • Toalha de papel com sangue no saco plástico. Teste preliminar confirma que o sangue é da vítima.

 

  • Pedaço de post-it com endereço do Residencial Henderson House, quarto 672, ocupado por Robert Jorgensen. Anotação e caneta impossíveis de rastrear. Papel idem. Indícios de Stachybotrys chartarum no papel.

 

  • Foto da vítima, aparentemente impressa de um computador, a cores, tinta de impressora Hewlett Packard. Nada mais perceptível. Papel idem. Indícios de Stachybotrys chartarum no papel.

 

  • Fita adesiva. Marca Home Depot, irrastreável a qualquer localização específica.

 

  • Nenhuma impressão digital.

 

A campainha da porta tocou e Ron Pulaski entrou rapidamente na sala, carregando duas caixas contendo sacos plásticos com evidências do local do assassinato de Myra Weinburg.

 

Rhyme notou imediatamente que a expressão dele tinha mudado. O rosto estava imóvel. Pulaski muitas vezes fazia caretas ou denotava perplexidade e de vez em quando se mostrava orgulhoso — até mesmo enrubescia —, mas agora os olhos pareciam ocos, sem a expressão decidida de antes. Olhou para Rhyme com um aceno de cabeça e caminhou em silêncio até a mesa de exame, entregando as evidências a Cooper e também os papéis de cadeia de custódia, que o perito assinara.

 

O novato recuou, olhando para o que Thom escrevera no quadro branco. Com as mãos nos bolsos dos jeans e a camisa para fora das calças, não parecia estar lendo palavra alguma.

 

— Você está bem, Pulaski?

 

— Claro.

 

— Não parece — disse Sellitto.

 

— Não é nada.

 

Mas isso não era verdade. Ao percorrer sozinho uma cena de assassinato, alguma coisa o perturbara.

 

— Ela estava deitada, com o rosto para cima, olhando para o teto — disse ele, finalmente. — Era como se estivesse viva, procurando alguma coisa. Com a testa franzida, um ar de curiosidade. Acho que eu esperava que ela estivesse coberta.

 

— É, bem, você sabe que não fazemos isso — murmurou Sellitto.

 

Pulaski olhou pela janela.

 

— Tudo isso é meio louco. Achei que ela se parecia um pouco com Jenny. — Esse era o nome da mulher dele. — Meio esquisito.

 

Lincoln Rhyme e Amelia Sachs eram parecidos em relação à profissão. Tinham necessidade de penetrar emocionalmente o exame das cenas de crime, e assim sentir o mesmo que o criminoso e a vítima haviam sentido. Isso ajudava a entender melhor a cena e encontrar indícios que de outra maneira passariam despercebidos.

 

Quem tinha essa capacidade, por mais assustadoras que fossem as consequências, estava entre os melhores na investigação da cena.

 

Mas Rhyme e Sachs tinham diferenças importantes. Sachs acreditava que nunca se devia ficar inteiramente indiferente ao horror do crime. Era preciso senti-lo cada vez que entrava em uma cena, e mesmo depois. Se não for assim, dizia ela, o coração endurece e você se aproxima cada vez mais da escuridão que há dentro dos criminosos que persegue. Rhyme, por outro lado, achava que devia ser tão insensível quanto possível. Somente deixando a tragédia friamente de lado você conseguiria ser o melhor policial possível, além de mais eficiente em impedir que futuras tragédias ocorressem. (“Não é mais um ser humano” dizia ele a seus recrutas. “É uma fonte de provas. Uma fonte muito eficiente.”)

 

Pulaski tinha o potencial para ser mais parecido com Rhyme, ou assim pensava o criminalista, mas naquele estágio inicial de sua carreira ele estava mais para o lado de Amelia Sachs. Rhyme teve compaixão do jovem naquele momento, mas era preciso resolver o caso. Em casa, naquela noite, Pulaski poderia abraçar a mulher e chorar silenciosamente pela morte da moça com quem ela se parecia.

 

Com voz rude, perguntou:

 

— Está prestando atenção, Pulaski?

 

— Sim, senhor. Estou bem.

 

Não era verdade, mas Rhyme tinha deixado claro o que pensava.

 

— Você examinou o corpo?

 

Ele fez que sim.

 

— Eu estava lá junto com o médico legista. Fizemos o exame juntos. Fiz questão que ele cobrisse as botas com a proteção de borracha.

 

Para evitar confusão nas pegadas, Rhyme costumava fazer com que os peritos de cenas de crime cobrissem os sapatos com plástico, mesmo quando vestiam os macacões usados para impedir contaminação com seus próprios cabelos, células da pele e outros elementos.

 

— Muito bem — elogiou Rhyme, olhando ansiosamente para as caixas de papelão. — Vamos começar. Já atrapalhamos um dos planos dele. Talvez ele tenha ficado furioso e esteja preparando outro golpe. Talvez esteja comprando uma passagem para o México. Seja como for, temos que andar depressa.

 

O jovem policial abriu o bloco de anotações.

 

— Eu...

 

— Thom, venha cá. Thom, onde diabos você se meteu?

 

— Claro, Lincoln — disse o ajudante, entrando na sala com um sorriso satisfeito. — Estou sempre pronto para deixar qualquer outra tarefa diante de uma chamada delicada como essa.

 

— Precisamos de você outra vez. Temos que usar outro quadro branco.

 

— Precisa mesmo?

 

— Por favor.

 

— Você não pediu de coração.

 

—Thom!

 

— Está bem.

 

— Anote: Cena do crime — Myra Weinburg.

 

O ajudante escreveu o título e ficou preparado com a caneta marcadora, enquanto Rhyme perguntava:

 

— Então, Pulaski. Aquele não era o apartamento dela, certo?

 

— Isso mesmo, senhor. Era de um casal que está em férias num cruzeiro. Consegui entrar em contato com eles. Nunca ouviram falar em Myra Weinburg. Vocês precisavam ouvir o que eles disseram. Ficaram muito perturbados. Não têm a mínima ideia de quem possa ter sido o autor do crime. Para entrar, o assassino arrombou a porta.

 

— Então ele sabia que o apartamento estava vazio e que não havia alarmes — concluiu Cooper. — Interessante.

 

— No que você está pensando? — perguntou Sellitto, balançando a cabeça. — Que ele simplesmente escolheu este lugar ao acaso?

 

— Estava bastante deserto por lá — apontou Pulaski.

 

— E ela, o que estava fazendo?

 

— Encontrei a bicicleta do lado de fora e ela tinha uma chave no bolso, que serviu no cadeado.

 

— Estava andando de bicicleta, então. Pode ser que ele tenha acompanhado o percurso dela e soubesse que ela estaria ali em certo momento. E também sabia que o casal estaria longe e não haveria dificuldades... OK, novato. Vá dizendo o que encontrou. Thom, por favor, seria extremamente gentil da sua parte anotar para nós.

 

— Você está começando a exagerar.

 

— Qual foi a causa da morte? — indagou Rhyme a Pulaski.

 

— Pedi ao legista que acelerasse o resultado da necropsia.

 

Sellitto riu.

 

— E ele, o que disse?

 

— Algo como “claro, com certeza”. Outras coisas, também.

 

— Você precisa ficar um pouco mais engomadinho antes de fazer pedidos como esse. Mas valeu o esforço. Qual foi o resultado preliminar?

 

Pulaski consultou suas anotações.

 

— Ela sofreu vários golpes na cabeça. O legista acredita que foi para subjugá-la.

 

O jovem agente se calou, talvez recordando ferimentos parecidos que sofrera anos antes. Depois prosseguiu:

 

— A causa da morte foi estrangulamento. Nos olhos e dentro das pálpebras havia petéquias, pequenos pontos de hemorragia...

 

— Sei o que são petéquias, novato.

 

— Ah, claro. Está bem. Havia também distensão venosa no couro cabeludo e no rosto. Esta provavelmente é a arma do crime — prosseguiu, erguendo uma sacola que continha um pedaço de corda de cerca de 1,20m de comprimento.

 

— Mel?

 

Cooper pegou a corda e cuidadosamente a estendeu sobre uma grande folha de papel branco, escovando para separar outros elementos. Em seguida examinou o que encontrara e tirou algumas amostras das fibras.

 

— E então? — perguntou Rhyme, impaciente.

 

— Estou examinando.

 

O novato refugiou-se outra vez nas anotações.

 

— Quanto ao estupro, foi vaginal e anal. Post mortem, na opinião do legista.

 

— O corpo foi colocado em alguma posição específica?

 

— Não... mas notei uma coisa, detetive — acrescentou Pulaski. — Todas as unhas dela eram longas, exceto uma. Era realmente muito curta.

 

— Sangue?

 

— Sim, foi cortada até o sabugo. — Após uma hesitação, Pulaski acrescentou: — Provavelmente antes da morte.

 

Então 522 tem um quê de sádico, pensou Rhyme.

 

— Ele gosta de dor.

 

— Veja as outras fotos da cena do crime, do estupro anterior.

 

O jovem agente correu para buscar as fotos. Procurou-as e separou uma, examinando-a.

 

— Veja isto, detetive. Ele também cortou uma unha. Do mesmo dedo.

 

— Nosso garotão gosta de troféus. Bom saber disso.

 

Polaski acenou entusiasticamente com a cabeça.

 

— E pensem nisto: é sempre o dedo anelar da mão esquerda. Pode ser alguma coisa do passado dele. Talvez a mulher o tenha abandonado, talvez a mãe o tenha deixado de lado, ou uma figura materna...

 

— Boa dedução, Pulaski. Isso me lembra de que esquecemos uma coisa.

 

— Que foi, senhor?

 

— Você verificou seu horóscopo hoje de manhã, antes de começar a investigação?

 

— Meu...?

 

— Ah, e quem tinha ficado de conferir as folhas de chá? Já esqueci.

 

Sellitto ria disfarçadamente. Pulaski enrubescera.

 

Repentinamente, Rhyme explicou:

 

— Traçar um perfil psicológico não vai ajudar. O que nos ajuda quanto à unha é saber que 522 agora possui uma conexão de DNA com o crime. Sem levar em conta o fato de que se conseguirmos descobrir que tipo de instrumento ele usou para retirar o troféu, poderemos rastrear a compra e encontrá-lo. Provas, novato. Nada de blá-blá-blá psicológico.

 

— Claro, detetive. Entendi.

 

— Pode me chamar de Lincoln.

 

— Sim. Claro.

 

— A corda, Mel?

 

Cooper percorria a base de dados das fibras.

 

— Cânhamo genérico. Existe em milhares de lojas de varejo em todo o país. — Em seguida fez uma análise química. — Nenhum vestígio.

 

Merda.

 

— Que mais, Pulsaki? — perguntou Sellitto.

 

O calouro percorreu a lista. Linha de pescar para amarrar as mãos, cortando a pele, o que provocou sangramento. A boca foi tapada com fita adesiva. A fita era da marca Home Depot, retirada do rolo que 522 tinha jogado fora, e as pontas rasgadas se ajustavam perfeitamente. Dois preservativos intactos tinham sido encontrados perto do cadáver, explicou o jovem agente, erguendo a bolsa. Eram da marca Trojan-Enz.

 

— Aqui estão as amostras.

 

Mel Cooper pegou a bolsa de plástico que continha o material e verificou as amostras retais e vaginais. O médico legista faria um relatório mais detalhado, mas era claro que entre as substâncias havia traços de um lubrificante espermicida, semelhante ao usado nos preservativos. Não havia sêmen em lugar algum da cena do crime.

 

Outra amostra, coletado no chão, onde Pulaski encontrara a pegada de um tênis de corrida, revelou cerveja. Verificou-se que era da marca Miller. A imagem eletrostática da pegada, naturalmente, era de um tênis de corrida Sure-Track tamanho 45, o mesmo que 522 tinha atirado na lata de lixo.

 

— E os proprietários do apartamento não tinham cerveja em casa, não é? Você verificou a cozinha e a copa?

 

— Isso mesmo, senhor. Não achei cerveja.

 

Lon Sellitto meneou a cabeça afirmativamente.

 

— Aposto dez dólares que Miller é a marca preferida de DeLeon.

 

— Não vou apostar contra você dessa vez, Lon. O que mais havia lá?

 

Pulaski ergueu um saco plástico que continha um fragmento marrom que havia encontrado junto à orelha da vítima. A análise mostrou que se tratava de tabaco.

 

— Que sabemos sobre isso, Mel?

 

O exame técnico revelou que era um fragmento fino, do tipo usado em cigarros, porém não o mesmo que a amostra de Tareyton na base de dados. Lincoln Rhyme era um dos poucos não fumantes do país que não gostava das proibições de fumar: o tabaco e as cinzas eram ótimos indícios para ligar os criminosos aos locais do crime. Cooper não foi capaz de descobrir a marca. Mas supôs, no entanto, que o fumo provavelmente era velho, considerando o quão ressecado estava.

 

— Myra fumava? Ou os moradores do edifício?

 

— Não vi nada que indicasse isso. E fiz o que o senhor sempre nos diz. Farejei a cena ao chegar. Não havia cheiro de cigarro.

 

— Muito bem. — Até aquele ponto, Rhyme estava satisfeito com a investigação. — E as digitais?

 

— Verifiquei as amostras de impressões digitais dos proprietários, desde o armário de remédios até as coisas que estavam na mesinha de cabeceira.

 

— Então você não estava dormindo. Realmente leu meu livro.

 

No volume sobre criminalística Rhyme dedicara alguns parágrafos à importância de coletar impressões para controle nas cenas de crime, e sobre os lugares onde encontrá-las.

 

— Li, sim, senhor.

 

— Fico contente. Ganhei alguma coisa por direito autoral?

 

— Pedi emprestado o exemplar do meu irmão. — O irmão gêmeo de Pulaski era policial no Sexto Distrito, em Greenwich Village.

 

— Espero que pelo menos ele tenha pagado pelo livro.

 

A maior parte das impressões digitais encontradas no apartamento pertencia ao casal, conforme eles verificaram pelas amostras. As demais eram provavelmente de visitantes, mas não era impossível que 522 tivesse se descuidado. Cooper rodou todas no sistema integrado automático de identificação de impressões digitais. O resultado viria em pouco tempo.

 

— OK. Diga-me, Pulaski, qual foi sua impressão da cena do crime?

 

A pergunta pareceu confundi-lo.

 

— Impressão?

 

— Estas são as árvores — disse Rhyme, olhando os sacos de evidências. — O que achou da floresta?

 

O jovem agente refletiu um pouco.

 

— Bem, pensei uma coisa. Mas é bobagem.

 

— Você sabe que eu seria o primeiro a dizer alguma coisa caso você viesse com uma teoria idiota, novato.

 

— É só que logo que cheguei minha impressão foi de que não tinha havido luta.

 

— Que quer dizer com isso?

 

— Veja, a bicicleta dela estava acorrentada em um poste do lado de fora do loft. Ela parece ter achado que tudo estava bem.

 

— Então ele não a atacou na rua.

 

— Isso. E para entrar no loft é preciso passar por um portão e depois por um longo corredor até a porta de entrada. É um corredor muito estreito e cheio de coisas do casal: frascos e latas, artigos esportivos, coisas para mandar reciclar, ferramentas do jardim. Nada, porém, foi mexido. — Pulaski bateu com a ponta do dedo em uma das fotos. — Mas veja o interior: foi lá que a luta começou. A mesa e os vasos, logo junto à porta de entrada. — A voz dele ficou outra vez suave. — Parece que ela lutou muito, mesmo.

 

Rhyme concordou.

 

— Muito bem. Então 522 a atrai para dentro do loft, com algum tipo de conversa mole. Ela acorrenta a bicicleta. Caminha pelo corredor e entra com ele no loft. Para no vestíbulo, vê que ele está mentindo e tenta sair.

 

“Então ele sabia o suficiente a respeito de Myra para tranquilizá-la, fazer com ela confiasse nele... Claro, veja só! Ele tem todas as informações sobre quem são as pessoas, o que compram, quando saem de férias, se têm alarmes, onde vão estar... Nada mau, novato. Agora sabemos alguma coisa de concreto sobre ele.”

 

Pulaski fez força para não sorrir.

 

O computador de Cooper tilintou. Ele leu a tela.

 

— Nada sobre as impressões. Zero.

 

Rhyme encolheu os ombros, sem mostrar surpresa.

 

— Estou interessado nessa ideia, a de que ele sabe muita coisa. Um de vocês, ligue para DeLeon Williams. 522 estava certo sobre todas as provas?

 

A breve conversa de Sellitto com o marceneiro revelou que realmente Williams usava tênis número 45 da marca Sure-Track, costumava comprar preservativos Trojan-Enz, tinha linha de pescar de 18 quilos em casa, gostava de cerveja Miller e fora recentemente ao Home Depot para comprar fita adesiva e corda de cânhamo.

 

Olhando o quadro branco do estupro anterior, Rhyme notou que os preservativos usados por 522 naquele crime eram de marca Durex. O assassino os preferira porque Joseph Knightly usava aquela marca.

 

Perguntou a Williams, viva voz:

 

— Um de seus tênis desapareceu?

 

— Não.

 

— Então ele comprou um par — concluiu Sellitto — do mesmo tipo e do mesmo tamanho dos seus. Como poderia saber disso? Viu alguém em volta de sua casa recentemente, talvez em sua garagem, examinando seu carro, ou o lixo? Algum estranho entrou em sua casa ultimamente?

 

— Não, tenho certeza de que não. Estou desempregado e passo a maior parte do tempo cuidando da casa. Eu teria notado. A vizinhança aqui não é a mais pacata do mundo; temos alarme. Sempre o deixamos ligado.

 

Rhyme agradeceu e desligou.

 

Virando a cabeça para trás, olhou o quadro branco e ditou a Thom o que deveria escrever.

 

CENA DO CRIME — MYRA WEINBURG

  • Causa mortis: estrangulamento Aguardando relatório final do legista

 

  • Não havia mutilação nem arrumação do corpo, mas a unha do dedo anelar esquerdo estava cortada. Possível troféu. Provavelmente antes da morte.

 

  • Lubrificante para preservativo, da Trojan-Enz

 

  • 2 preservativos na embalagem, Trojan-Enz

 

  • Nenhum preservativo usado, nem fluidos corporais

 

  • Traços de cerveja Miller no chão (origem diversa da cena do crime)

 

  • Linha de pescar, 18 quilos, monofilamento, marca genérica

 

  • Pedaço de corda de cânhamo marrom, 1,20 m

 

  • Fita adesiva na boca

 

  • Fragmento de tabaco, antigo, marca não identificada

 

  • Pegada, tênis de corrida de homem, tamanho 45

 

  • Nenhuma impressão digital

 

— Nosso homem ligou para o número de emergência da polícia, não foi? — perguntou Rhyme. — Para denunciar o Dodge?

 

— Foi — confirmou Sellitto.

 

— Verifique a chamada. O que ele disse, como era a voz.

 

O detetive acrescentou:

 

— O mesmo quanto aos casos anteriores... o de seu primo, o do roubo de moedas e o do estupro anterior?

 

— Isso mesmo, é claro. Eu não tinha pensado nisso.

 

Sellitto entrou em contato com a mesa telefônica central. Os chamados para o 911 são gravados e conservados por períodos de tempo variáveis. Pediu a informação. Dez minutos depois recebeu a resposta. As gravações do caso de Arthur e do assassinato daquele dia ainda estavam no sistema, disse o supervisor, e tinham sido mandadas para o endereço de e-mail de Cooper em formato de áudio. Os dos primeiros casos estavam nos arquivos, gravados em CD. Poderiam precisar de alguns dias para encontrá-los, mas um assistente já enviara uma solicitação.

 

Quando os arquivos de áudio chegaram, Cooper os abriu e todos ouviram uma voz masculina dizendo à polícia que se dirigisse urgentemente a um endereço de onde tinha ouvido gritos. A pessoa descreveu os veículos de fuga do presumido criminoso. As vozes pareciam idênticas.

 

— Registro de voz? — perguntou Cooper. — Se tivermos um suspeito, podemos fazer a comparação.

 

Os registros de voz eram mais respeitados no mundo da criminalística do que os detectores de mentira. Alguns tribunais os admitiam como prova, dependendo do juiz. Rhyme, no entanto, balançou negativamente a cabeça.

 

— Ouça bem. Ele está usando um dispositivo de alteração da voz. Não percebe?

 

Esses dispositivos disfarçam a voz de quem fala. Não produzem um som estranho, como o da voz de Darth Vader; o timbre é normal, embora um tanto oco. Muitos serviços de informação das listas de assinantes e de ajuda a clientes os utilizam, a fim de que as vozes de seus locutores fiquem uniformes.

 

Nesse momento a porta se abriu e Amelia Sachs entrou no vestíbulo, trazendo um objeto volumoso debaixo do braço. Rhyme não conseguia ver o que era. Ela fez um aceno com a cabeça e em seguida olhou o quadro branco, dizendo a Pulaski:

 

— Parece que você fez um bom trabalho.

 

— Obrigado.

 

Rhyme notou que o que ela trazia era um livro, aparentemente meio desconjuntado.

 

— O que é isso?

 

— Um presente de nosso amigo médico, Robert Jorgensen.

 

— O que é? Alguma pista?

 

— É difícil dizer. Na verdade, conversar com ele foi uma experiência estranha.

 

— O que quer dizer com isso, Amelia? — perguntou Sellitto.

 

— É um pouco como se o Pé-Grande, Elvis e alienígenas fossem responsáveis pelo assassinato de Kennedy. Muito estranho, mesmo.

 

Pulaski riu alto, ganhando um olhar severo de Lincoln Rhyme.

 

SACHS RELATOU A HISTÓRIA DE um homem perturbado, cuja identidade tinha sido roubada, e a vida arruinada. Um homem que se referia a seu inimigo mortal como Deus e a si próprio como Jó.

 

Era claramente desequilibrado; “estranho” não era suficiente para descrever. Mesmo que fosse apenas parcialmente verdadeira, a história era comovente e difícil de contar. Era uma vida completamente destroçada, e o crime parecia não ter objetivo.

 

Mas Rhyme só passou a prestar total atenção no que Sachs falava quando ela disse:

 

— Jorgensen afirma que o sujeito por trás disso tem conseguido mantê-lo sob vigilância desde que ele comprou este livro, há dois anos. Aparentemente, o homem sabe tudo o que ele faz.

 

— Ele sabe tudo — repetiu Rhyme, olhando os quadros brancos. — Nós estávamos falando sobre isso há pouco. Ele obtém todas as informações de que precisa a respeito das vítimas e das pessoas que incrimina.

 

Ele compartilhou com Sachs o que o grupo já havia descoberto. Ela, por sua vez, entregou o livro a Mel Cooper, dizendo que Jorgensen achava que havia um dispositivo de rastreamento nele.

 

— Dispositivo de rastreamento? — questionou Rhyme, incrédulo. — Ele deve ter visto muitos filmes de mistério... Bem, examine o quanto quiser, mas não vamos deixar de lado as pistas de verdade.

 

Sachs ligou para os Departamentos de Polícia nas diversas jurisdições onde Jorgensen havia sido vitimado, mas não obteve resultados. Claro, sem dúvida era um caso de roubo de identidade.

 

— Mas você faz ideia de quantas vezes isso acontece? — perguntou um policial da Flórida. — Descobrimos um endereço falso e vamos ao local, mas já está tudo vazio quando chegamos. Eles pegam tudo o que encomendaram na conta da vítima e partem para o Texas ou Montana.

 

A maioria já tinha ouvido falar de Jorgensen (“ele escreve muitas cartas”) e demonstrou boa vontade. Ninguém, no entanto, tinha pistas específicas sobre algum indivíduo ou quadrilha que estivesse por trás dos crimes, e não podiam dedicar às investigações desses casos tanto tempo quanto gostariam.

 

— Poderíamos ter mais cem agentes aqui e ainda assim seria difícil progredir.

 

Após desligar, Sachs explicou que, como 522 conhecia o endereço de Jorgensen, ela pedira ao recepcionista que a avisasse imediatamente caso alguém fosse procurá-lo ou perguntasse por ele, por telefone ou pessoalmente. Sachs prometeu que se o recepcionista concordasse, ela não iria sugerir à repartição da cidade encarregada de vistorias em edifícios que fizesse uma visita à hospedaria.

 

— Muito bem — elogiou Rhyme. — Você notou irregularidades?

 

— Só quando ele concordou na velocidade da luz.

 

Em seguida, ela foi examinar as informações que Pulaski trouxera do loft perto do SoHo.

 

— Alguma ideia, Amelia? — perguntou Sellitto.

 

Ela ficou de pé diante do quadro branco, tamborilando com os dedos enquanto tentava encontrar algum sentido naquele conjunto de pistas dispersas.

 

— Como ele conseguiu isto? — indagou, pegando a bolsa que continha a impressão da foto de Myra Weinburg, que mostrava uma expressão doce e satisfeita, olhando para a câmera. — Precisamos descobrir.

 

Era uma boa sugestão. Rhyme não tinha pensado na origem da impressão; simplesmente imaginara que 522 a baixara de algum site na internet. Estava mais interessado no papel como fonte de pistas.

 

Na foto, Myra Weinburg estava de pé ao lado de uma árvore florida, de frente para a câmera, com um sorriso nos lábios. Tinha na mão uma bebida rosada em um cálice de martíni.

 

Rhyme percebeu que Pulaski também olhava a foto, um quê perturbado no olhar.

 

Achei que ela se parecia um pouco com Jenny.

 

Rhyme notou que havia uma borda na foto e algo semelhante a partes de letras à direita, que passavam além dos limites do quadro.

 

— Ele certamente conseguiu on-line, para fazer com que parecesse que DeLeon Williams estava fazendo pesquisas sobre Myra.

 

— Talvez a gente consiga chegar até ele pelo site de onde ele baixou a foto — interveio Sellitto. — Como poderemos saber onde ele a conseguiu?

 

— Procure o nome dela no Google — sugeriu Rhyme.

 

Cooper tentou e encontrou uma dúzia de respostas, diversas delas sobre outras pessoas de nome Myra Weinburg. As ocorrências relacionadas à vítima eram todas de organizações profissionais. Nenhuma das fotos, porém, era semelhante à que 522 havia imprimido.

 

— Tenho uma ideia — anunciou Sachs. — Vou ligar para uma pessoa perita em computadores.

 

— Quem é? Aquele cara do Departamento de Crimes Virtuais? — questionou Sellitto.

 

— Não, é alguém ainda melhor que ele.

 

Ela pegou o telefone e discou um número.

 

— Alô, Pammy. Onde você está? Ótimo. Tenho um servicinho para você. Fique on-line para conversarmos em grupo. Faremos o áudio pelo telefone.

 

Sachs voltou-se para Cooper.

 

— Pode ligar sua webcam, Mel?

 

O perito apertou uma tecla e no instante seguinte surgiu em sua tela a imagem do quarto de Pam na casa dos pais adotivos, no Brooklyn. O belo rosto da adolescente apareceu quando ela se sentou, levemente distorcido pela lente grande angular.

 

— Oi, Pam.

 

— Oi, Sr. Cooper — respondeu a voz agradável que vinha do auto-falante.

 

— Deixe que eu cuido disso — falou Sachs, tomando o lugar de Cooper no teclado. — Querida, encontramos uma foto e achamos que veio da internet. Você pode dar uma olhada e nos dizer se sabe qual foi a origem?

 

— Claro.

 

Sachs ergueu a foto diante da câmera.

 

— Há um reflexo. Pode tirá-la do plástico?

 

A detetive calçou luvas de látex e retirou cuidadosamente a capa plástica, erguendo novamente a foto.

 

— Assim é melhor. Com certeza vem do OurWorld.

 

— O que é isso?

 

— É uma rede social, como Facebook e MySpace. É nova, está na moda. Todo mundo participa.

 

— Você conhece esses sites, Rhyme? — perguntou Sachs.

 

Ele fez que sim. Curiosamente, vinha pensando no assunto recentemente. Tinha lido um artigo no New York Times sobre redes sociais e mundos virtuais como o Second Life. Supreendera-se ao saber que havia pessoas que passavam menos tempo no mundo real do que no virtual — desde os avatares às redes sociais, até home office. Aparentemente, nos dias de hoje os adolescentes passam menos tempo ao ar livre do que em qualquer outro período da história dos Estados Unidos. Ironicamente, graças a uma rotina de exercícios que estava melhorando sua condição física e mudando sua maneira de agir, o próprio Rhyme estava ficando menos virtual e saindo de casa por mais tempo. A linha divisória entre fisicamente apto e inapto ia ficando indistinta.

 

— Você tem certeza de que vem desse site? — perguntou Sachs a Pam.

 

— Claro. Eles têm uma moldura especial. Se olhar de perto, verá que não é apenas uma linha, e sim globos, como a Terra, que se repetem indefinidamente.

 

Rhyme olhou com atenção. Realmente, a moldura era tal como ela a descrevera. Recordou o que lera no artigo sobre o OurWorld.

 

— Pam... Essa rede tem muitos usuários, não é verdade?

 

— Oi, Sr. Rhyme. É isso mesmo. Uns trinta ou quarenta milhões de pessoas. De quem é aquele perfil?

 

— Perfil? — perguntou Sachs.

 

— É assim que eles chamam a página. É o seu “perfil”. Quem é ela?

 

— Infelizmente ela foi assassinada hoje — respondeu Sachs, com voz pausada. — É o caso sobre o qual eu falei antes.

 

Rhyme não falaria sobre um homicídio a uma adolescente, mas como a pessoa em questão era ligada a Sachs, a policial saberia o que dizer e o que não dizer.

 

— Ah, sinto muito. — Pam não demonstrou estar chocada ou impressionada ao saber do que se tratava.

 

— Pam, qualquer pessoa pode acessar o perfil de outra?

 

— Bem, normalmente a pessoa teria que se inscrever. Mas se não quiser deixar nenhuma mensagem e nem abrir um perfil próprio, é possível entrar só para dar uma olhada na página.

 

— Então pode-se dizer que a pessoa que imprimiu essa foto sabe usar computadores.

 

— Bem, creio que sim. Mas essa pessoa não imprimiu a foto.

 

— O que?

 

— Não é possível imprimir nem baixar nada do site, nem mesmo com o comando da impressora. Há um filtro no sistema, para impedir algum obcecado. Também não é possível quebrar a segurança. É o mesmo princípio usado para proteger os direitos autorais de livros on-line.

 

— Então, como ele conseguiu a foto? — questionou Rhyme.

 

Pam riu.

 

— Ah, provavelmente fez o que todos nós fazemos na escola quando queremos a foto de um garoto bonito ou de alguma menina gótica esquisita. Fotografamos a tela com uma câmera digital. Todo mundo faz isso.

 

— Claro — concordou Rhyme, balançando a cabeça. — Eu não teria pensado nisso.

 

— Não se preocupe, Sr. Rhyme. Muitas vezes não pensamos na resposta óbvia.

 

Sachs olhou para Rhyme, que sorriu com a observação da jovem.

 

— Está certo, Pam. Obrigado. Até mais tarde.

 

— Até logo.

 

— Vamos complementar o perfil do nosso amigo.

 

Sachs pegou o marcador e aproximou-se do quadro branco.

 

PERFIL DE 522

Sexo masculino

 

Possivelmente fumante ou mora/trabalha em companhia de fumantes ou próximo a uma fonte de tabaco

 

Tem filhos ou mora/trabalha próximo a crianças ou a brinquedos

 

Tem interesse por arte, por moedas?

 

Provavelmente branco ou de pele clara

 

Estatura mediana

 

Forte, capaz de estrangular as vítimas

 

Acesso a equipamento de disfarce de voz

 

Possivelmente experiente no uso de computador. Conhece OurWorld. Outras redes sociais?

 

Retira troféus das vítimas. Sádico?

 

Parte da residência/local de trabalho morna e úmida

 

PISTAS NÃO PLANTADAS

 

  • Resíduo não identificado

 

  • Papelão velho

 

  • Cabelos de boneca, BASF B35 náilon 6

 

  • Tabaco de cigarros Tareyton

 

  • Presença de mofo Stachybotrys chartarum

 

Rhyme examinava os detalhes quando ouviu o riso de Mel Cooper.

 

— Ora, ora, ora.

 

— O quê?

 

— Isso é interessante.

 

— Seja específico. Não preciso de coisas interessantes. Preciso de fatos.

 

— Mesmo assim é interessante. — O perito estava examinando a lombada do livro de Robert Jurgensen com uma lâmpada potente. — Vocês acham que o médico estava louco ao falar em dispositivos de rastreamento? Pois adivinhem... Oliver Stone talvez pudesse ter um roteiro aqui: há alguma coisa implantada nele, na lombada.

 

— Jura? — disse Sachs, balançando a cabeça. — Achei que ele fosse maluco.

 

— Deixe-me ver — pediu Rhyme, com a curiosidade aguçada, esquecendo temporariamente o ceticismo.

 

Copper trouxe uma câmera de alta definição para mais perto da mesa e colocou o livro sob uma lâmpada infravermelha. Por baixo da costura da lombada apareceu um pequeno retângulo de linhas entrecruzadas.

 

— Tire-o daí — disse Rhyme.

 

Cuidadosamente, Cooper cortou a lombada e retirou o que parecia ser um pedaço de papel plastificado, de cerca de 2,5 centímetros de comprimento, onde se via o que pareciam ser as linhas de um circuito de computador. Havia também uma série de números e o nome do fabricante, DMS.

 

— Que merda é essa? — perguntou Sellitto. — É mesmo um dispositivo de rastreamento?

 

— Não sei como é possível. Não tem baterias nem fontes de energia — disse Cooper.

 

— Mel, procure o fabricante.

 

Uma rápida pesquisa revelou que se tratava da empresa Data Management Systems, baseada nos arredores de Boston. Leu em voz alta uma descrição da companhia, da qual uma divisão fabricava aqueles pequenos aparelhos, conhecidos como etiquetas RFID, para identificação por radiofrequência.

 

— Já ouvi falar nisso — comentou Pulaski. — Vi alguma coisa na CNN.

 

— Ah, a fonte definitiva para a ciência da criminalística — provocou Rhyme, em tom cínico.

 

— Não, isso é o CSI — retrucou Sellitto, provocando outra risada entrecortada de Ron Pulaski.

 

— Para que mais ela serve? — perguntou Sachs.

 

— Isso é interessante.

 

— Outra vez, interessante.

 

— Essencialmente, é um chip que se pode programar para ser lido por uma varredura de rádio. Não é necessário ter bateria; a antena recebe as ondas de rádio e isso lhe fornece energia suficiente para funcionar.

 

— Jorgensen falou em quebrar antenas para inutilizar os dispositivos de rastreamento — disse Sachs. — Também disse que podiam ser destruídos em um forno de micro-ondas. Mas esse aí ele não conseguiu inutilizar — comentou ela, indicando o chip com um gesto. — Pelo menos foi o que disse.

 

— Essas etiquetas são usadas por indústrias e lojas para controle do estoque — prosseguiu Cooper. — Em poucos anos, praticamente todos os produtos vendidos nos Estados Unidos terão uma etiqueta RFID. Alguns dos grandes varejistas já as exigem antes de comprar as mercadorias.

 

— Foi justamente o que Jorgensen me disse. Talvez ele não seja tão lunático quanto imaginei.

 

— Todos os produtos? — perguntou Rhyme.

 

— Exatamente. Assim as lojas podem localizar as mercadorias no estoque, as quantidades que possuem, quais são as que vendem melhor, quando refazer os estoques, quando pedir novas encomendas. As etiquetas são usadas também pelas companhias aéreas no manuseio de bagagens, para que possam saber onde está cada mala sem precisar escanear manualmente o código de barras. São empregadas, além disso, em cartões de crédito, carteiras de motorista, identificação de empregados. Nesse caso são chamadas de “cartões inteligentes”.

 

— Jorgensen pediu para ver minha credencial. Examinou-a com muita atenção. Talvez estivesse procurando por isso.

 

— Isso existe por toda parte — continuou Cooper. — Nas etiquetas de desconto que vemos nos supermercados, nos cartões de programas de milhagem, nos pedágios nas pistas de passagem expressa.

 

Sachs fez um gesto, indicando os quadros brancos.

 

— Pense nisto, Rhyme. Jorgensen estava dizendo que esse homem, a quem ele chama Deus, sabe tudo sobre a vida dele. Sabe o suficiente para roubar-lhe a identidade, comprar coisas em seu nome, fazer empréstimos, conseguir cartões de crédito e descobrir seu paradeiro.

 

Rhyme sentia a emoção do progresso na caçada.

 

— E 522 sabe o suficiente sobre suas vítimas para aproximar-se delas, passar além das defesas delas. — completou ele — Sabe o suficiente sobre aqueles a quem pretende incriminar, a fim de plantar pistas idênticas ao que eles têm em suas casas.

 

— Além disso — disse Sellitto —, ele sabe exatamente onde se encontravam no momento do crime, para que não tenham álibi.

 

Sachs olhou novamente a pequena etiqueta.

 

— Jorgensen disse que a vida dele começou a desmoronar por volta da época em que comprou este livro.

 

— Onde ele comprou? Temos algum recibo ou etiqueta de preço?

 

— Nada. Se havia, ele retirou.

 

— Ligue para Jorgensen. Vamos trazê-lo aqui.

 

Sachs puxou o celular e ligou para o hotel onde tinha estado com ele. Franziu a testa.

 

— Já? — questionou ao ouvir a resposta do atendente.

 

Não é bom sinal, pensou Rhyme.

 

— Ele já saiu de lá — anunciou ela, desligando. — Mas sei para onde vai.

 

Procurou uma anotação e fez outra chamada. Após breve conversa, no entanto, desligou, suspirando. Jorgensen também não estava no outro hotel, disse, e nem sequer havia feito uma reserva.

 

— Tem o número do celular dele?

 

— Ele não tem telefone. Não confia nos telefones. Mas tem meu número. Se tivermos sorte, ele irá me ligar. — Sachs aproximou-se do pequeno dispositivo. — Mel, corte o fio. A antena.

 

— O quê?

 

— Jorgensen disse que agora que o livro está conosco, nós também estamos infectados. Corte-a fora.

 

Cooper deu de ombros e olhou para Rhyme, que achava a ideia absurda. Porém, Amelia Sachs não era de se assustar facilmente.

 

— Ok, vá em frente. Ponha uma anotação no cartão de acompanhamento do material de prova: “Evidência declarada segura”.

 

Era uma expressão normalmente reservada para bombas e armas de fogo.

 

Rhyme perdeu o interesse pela RFID. Ergueu os olhos.

 

— Muito bem. Vamos especular, até que ele entre em contato... Vamos, meus caros. Sejam ousados. Preciso de ideias! Temos um criminoso capaz de obter todas essas informações sobre as pessoas. Como? Ele sabia tudo o que as pessoas incriminadas compravam. Linha de pescar, facas de cozinha, creme de barbear, fertilizante, preservativos, fita adesiva, corda, cerveja. Houve quatro vítimas e quatro inocentes incriminados, pelo menos. Ele não pode seguir todos o tempo inteiro, e não invade as casas deles.

 

— Talvez trabalhe em uma dessas grandes redes de varejo — sugeriu Cooper.

 

— Mas DeLeon comprou alguns dos artigos no Home Depot, e lá não se vendem preservativos e alimentos.

 

— Talvez 522 trabalhe em alguma companhia de cartões de crédito — arriscou Pulaski. — Assim ele pode saber o que as pessoas compram.

 

— Boa sugestão, novato, mas pelo menos em certos casos as vítimas podem ter pago em dinheiro.

 

Surpreendentemente, foi Thom quem deu a melhor resposta. Pescou seu molho de chaves no bolso.

 

— Ouvi Mel mencionar cartões de desconto — disse ele, mostrando diversos pequenos cartões de plástico presos ao chaveiro. Um era da loja APP e outro do supermercado Food Emporium. — Passando este cartão na máquina, recebo um desconto. Mesmo quando pago em dinheiro a loja sabe o que comprei.

 

— Muito bem — elogiou Rhyme. — Mas aonde isso nos leva? Ainda temos dezenas de locais diferentes onde as vítimas e as pessoas incriminadas fizeram compras.

 

— Ah!

 

Rhyme olhou para Sachs, que olhava o quadro branco com um leve sorriso no rosto.

 

— Acho que descobri.

 

— O quê? — perguntou Rhyme, esperando a aplicação inteligente de algum princípio de criminalística.

 

— Sapatos — disse ela, simplesmente. — A resposta está nos sapatos.

 

— A QUESTÃO NÃO É saber o que as pessoas compram em geral — explicou Sachs. — A questão é saber o que é específico para todas as vítimas e pessoas incriminadas. Vejamos três desses crimes, o caso de seu primo, o de Myra Weinburg e o roubo de moedas. 522 não apenas sabia o tipo de sapato que as pessoas usavam, mas também o tamanho.

 

— Muito bem — disse Rhyme. — Vamos descobrir onde DeLeon Williams e Arthur compram sapatos.

 

Uma ligação para Judy Rhyme e outra para Williams mostraram que os sapatos eram encomendados pelo correio — um por meio de um catálogo, outro pela internet, mas ambos diretamente dos fabricantes.

 

— Ótimo — ponderou Rhyme. — Escolha um, ligue e veja como funciona esse comércio de sapatos. Pode escolher no cara ou coroa mesmo.

 

A vencedora foi a Sure-Track. Bastaram quatro telefonemas para chegar a uma pessoa ligada à empresa, nada menos do que o presidente.

 

Havia som de água caindo, crianças rindo. O homem perguntou, com voz incerta:

 

— Um crime?

 

— Não tem a ver com sua empresa, diretamente — assegurou Rhyme. — Um de seus produtos é uma das pistas.

 

— Que nem aquele sujeito que tentou explodir um avião com uma bomba no sapato? — O homem parou de falar, como se até mesmo relembrar aquele assunto fosse um atentado contra a segurança nacional.

 

Rhyme explicou a situação: o assassino obtinha informações pessoais sobre suas vítimas, inclusive dados específicos sobre os sapatos Sure-Track, além dos de seu primo, da marca Alton, e dos Bass da outra pessoa incriminada.

 

— Vocês vendem para lojas de varejo?

 

— Não. Somente pela internet.

 

— Compartilham informações com os competidores? Informações sobre os clientes?

 

Houve uma hesitação.

 

— Alô? — falou Rhyme.

 

— Não, não podemos compartilhar informações. Isso seria uma violação das regras antitruste.

 

— Bem, como alguém poderia ter tido acesso a dados sobre clientes de sapatos Sure-Track?

 

— É uma situação complexa.

 

Rhyme torceu o rosto em desagrado, o que levou Sachs a intervir.

 

— Senhor, o homem que estamos procurando é um assassino e estuprador. O senhor tem alguma ideia de como ele pode ter ficado sabendo quem eram seus clientes?

 

— Na verdade, não.

 

— Então vamos arranjar uma merda de uma ordem judicial e investigar seus registros, linha por linha.

 

Essa atitude brutal, ao contrário da maneira sutil de Rhyme, deu certo. O homem gaguejou:

 

— Espere, espere. Talvez eu saiba como.

 

— Como? — questionou Sellitto.

 

— Talvez ele... bem, se ele obteve informação de companhias diferentes, pode ter conseguido em alguma das mineradoras de dados.

 

— Que é isso? — perguntou Rhyme.

 

A pausa do outro lado da linha deu impressão de surpresa.

 

— Nunca ouviu falar dessas empresas?

 

— Não — respondeu Rhyme, revirando os olhos. — O que elas fazem?

 

— O que o nome diz. São serviços de informação; procuram dados sobre consumidores, suas compras, casas e carros, histórico de crédito, tudo a respeito deles. Analisam essas informações e as vendem. Isso auxilia as indústrias a perceber tendências do mercado, encontrar novos clientes, promover vendas pelo correio, planejar as campanhas publicitárias e outras coisas do tipo.

 

Tudo a respeito deles...

 

Talvez isso nos leve a algum lugar, pensou Ryhme. Ele perguntou:

 

— Eles conseguem informações por meio de etiquetas RFID?

 

— Com certeza. Essa é uma das principais fontes de dados.

 

— Qual é a mineradora de dados que sua empresa usa?

 

— Não sei. Várias.

 

O tom de voz era reticente.

 

— Precisamos realmente saber — disse Sachs, agora fazendo o papel do policial simpático em contraposição à truculência de Sellitto. — Não queremos que ninguém mais se machuque. Esse homem é muito perigoso.

 

Um suspiro revelou a hesitação do outro lado da linha.

 

— Bem, acho que a SSD é a principal. É uma empresa enorme. Mas se estão pensando que alguém de lá esteja envolvido em um crime, isso é impossível. Eles são os caras mais legais do mundo. E têm dispositivos de segurança, têm...

 

— Onde é a sede? — perguntou Sachs.

 

Outra hesitação. Droga, vamos logo, pensou Rhyme.

 

— Em Nova York.

 

Era o território de 522. O criminalista olhou para Sachs e sorriu. Aquilo era promissor.

 

— Há outras na mesma área?

 

— Não. As outras grandes, Axcionm, Experian e Choicepoint não são daqui. Mas acredite, ninguém da SSD poderia estar metido nisso, juro.

 

— O que significa SSD? — perguntou Rhyme.

 

— Strategic Systems Datacorp.

 

— O senhor tem um contato na firma?

 

— Ninguém, especificamente — disse ele, rapidamente. Rápido demais.

 

— Não mesmo?

 

— Bem, nós tratamos com representantes de vendas. Não recordo nomes no momento. Posso verificar e descobrir.

 

— Quem dirige a empresa?

 

Outra pausa.

 

— Andrew Sterling, fundador e diretor executivo. Olhe, garanto que ninguém de lá poderia estar fazendo uma coisa ilegal. É impossível.

 

De repente, Rhyme percebeu uma coisa. O homem estava com medo. Não com medo da polícia, e sim da própria SSD.

 

— Por que está tão preocupado?

 

— É que... — O tom era de confissão. — Não poderíamos funcionar sem eles. Na verdade... Somos parceiros deles.

 

No entanto, a julgar pela forma como o homem falava, o que parecia querer dizer era “dependemos desesperadamente deles”.

 

— Seremos discretos — garantiu Sachs.

 

— Obrigado. Fico muito grato, realmente.

 

O alívio era claro.

 

Sachs agradeceu delicadamente pela cooperação, provocando um olhar atravessado de Sellitto.

 

Rhyme desligou.

 

— Alguém já ouviu falar em mineradoras de dados?

 

— Nunca ouvi falar na SSD, mas já ouvi falar nas mineradoras de dados — respondeu Thom. — É o negócio do século XXI.

 

Rhyme olhou para os quadros brancos.

 

— Então, se 522 trabalha para a SSD ou é um dos clientes dela, poderia descobrir tudo o que precisa saber sobre quem comprou creme de barbear, corda, preservativos, linha de pescar... todas as provas que pretende plantar. — Em seguida, teve outra ideia. — O diretor da empresa de sapatos disse que eles vendem os dados para mailing lists. Arthur recebeu prospectos sobre os quadros de Prescott pelo correio, estão lembrados? 522 poderia ter ficado sabendo disso por meio das listas de endereços. Talvez Alice Sanderson fizesse parte da mesma lista.

 

— E vejam as fotos das cenas dos crimes — sugeriu Sachs, mostrando diversas fotografias da cena do crime de roubo de moedas no quadro branco respectivo. Havia diversos prospectos enviados pelo correio, nas mesas e no chão.

 

— Além disso, senhor, o detetive Cooper mencionou os passes eletrônicos para pedágio — disse Pulaski. — Se essa SSD procura esses dados, nesse caso o assassino teria como descobrir exatamente em que momento seu primo se encontrava na cidade e quando partiu para sua casa no subúrbio.

 

— Meu Deus — murmurou Sellitto. — Se isso tudo for verdade, esse sujeito encontrou um modus operandi genial.

 

— Verifique essa atividade entre as mineradoras de dados, Mel. Quero saber com certeza se essa SSD é a única que opera nesta área.

 

Alguns momentos e várias teclas adiante, Mel respondeu:

 

— Achei mais de 20 milhões de sites para “mineradoras de dados”.

 

— Vinte milhões?

 

Durante a hora seguinte, a equipe ficou observando enquanto Cooper ia reduzindo a lista das principais empresas de mineração de dados do país — cerca de meia dúzia. Baixou centenas de páginas de informações contidas nos sites oficiais delas, além de outros detalhes. Na comparação das listas de clientes das várias mineradoras de dados com os produtos usados como prova no caso de 522, a SSD surgia como a mais provável e única fonte de todas as informações e de fato era a única com sede em Nova York ou nas proximidades.

 

— Se quiserem — ofereceu Cooper — posso baixar o prospecto de vendas deles.

 

— Claro que queremos, Mel. Vamos dar uma olhada.

 

Sentando-se junto de Rhyme, Sachs e ele observaram a tela quando apareceu o site da SSD, a começar pelo logotipo da empresa: uma torre de vigia com uma janela, da qual partiam raios de luz.

 

 

“Conhecimento é poder”. A mercadoria mais valiosa no século XXI é a informação, e a SSD é a líder no uso do conhecimento para montar suas estratégias, redefinir seus objetivos e ajudar você a estruturar soluções a fim de enfrentar os milhares de desafios do mundo de hoje. Com mais de 4 mil clientes nos Estados Unidos e no exterior, a SSD é o padrão nesse ramo de atividade como importante fornecedora de serviços de conhecimento no mundo.

 

O BANCO DE DADOS

 

innerCircle© é a mais ampla base de dados privada do mundo, com informações-chave sobre 280 milhões de norte-americanos e 130 milhões de cidadãos de outros países. innerCircle© faz parte de nosso Massive Parallel Computer Array Network (MPCAN©), o mais poderoso sistema comercial de computação já organizado.

 

innerCircle© possui atualmente mais de 500 pentabytes de informação — o mesmo que trilhões de páginas de dados — e nossa previsão é de que em breve o sistema armazenará um hexabyte de dados, quantidade tão vasta que seriam necessários apenas cinco hexabytes para armazenar a transcrição de todas as palavras pronunciadas por todos os seres humanos ao longo da história!

 

Possuímos uma vasta coleção de informação pública e privada: números de telefone, endereços, registros de veículos, licenciamento, histórico de compras e preferências, perfis de viajantes, arquivos e estatísticas governamentais vitais, históricos de crédito e renda, e muito, muito mais. Reunimos esses dados em mãos com a velocidade da luz, em formato facilmente acessível e utilizável instantaneamente, adaptado exclusivamente para suas necessidades específicas.

 

innerCircle© cresce à razão de centenas de milhares de novos dados a cada dia.

 

FERRAMENTAS

  • Watchtower DBM©, o sistema de gerenciamento de dados mais detalhado do mundo. Watchtower©, seu parceiro no planejamento estratégico, ajuda a definir seus objetivos, extrai os dados mais significativos do innerCircle© e fornece uma estratégia vencedora diretamente a seu escritório, 24 horas por dia, sete dias por semana, por meio de nossos servidores super seguros, altamente velozes. Watchtower© iguala e excede os padrões estabelecidos por SQL anos atrás.

 

  • Xpectation©, software de análise de comportamento, baseado no que há de mais moderno em inteligência artificial e tecnologia de modelos. Industriais, provedores de serviços, atacadistas e varejistas: querem saber em que direção está caminhando o mercado e o que seus clientes desejarão no futuro? Nesse caso, este é o produto de que necessitam. Agentes da lei, tomem nota: com Xpectation© é possível prever onde e quando ocorrerão crimes, e mais importante, quem provavelmente os cometerá.

 

  • FORT© (Finding Obscure Relationships Tool), o Instrumento de Busca de Relações Obscuras é um produto revolucionário que analisa milhões de fatos aparentemente sem relação entre si a fim de descobrir conexões que os seres humanos não seriam capazes de perceber por si próprios. Tanto faz que sua organização seja uma empresa comercial que deseja conhecer melhor o mercado (ou seus competidores) ou uma agência de aplicação da lei diante de um caso criminal difícil, FORT© lhe dará uma vantagem!

 

  • ConsumerChoice© (Escolha do Consumidor), software e equipamento de monitoramento, permite a você descobrir com exatidão as reações dos consumidores a publicidade, programas de marketing e produtos novos ou projetados. Esqueçam as opiniões subjetivas de pesquisas de grupo. Agora, por meio do monitoramento biométrico, é possível obter e analisar os verdadeiros sentimentos de cada um sobre os planos potenciais de sua empresa — na maior parte das vezes sem que eles percebam que estão sendo observados!

 

  • Hub Overvue©, software para consolidação de informações. Este produto de fácil utilização permite o controle de todas as bases de dados de sua organização e, em circunstâncias adequadas, também o de outras empresas.

 

  • SafeGard©, software e serviço de verificação de identidade. Ameaças terroristas, sequestros empresariais, espionagem industrial ou roubo por parte de funcionários ou clientes, não importa qual é seu temor: SafeGard© dá a certeza de que suas instalações permanecerão seguras, permitindo que você se concentre em seus negócios principais. Essa divisão emprega a mais avançada técnica de verificação de antecedentes e companhias de segurança e rastreamento, utilizada por clientes empresariais e governamentais em todo o mundo. A Divisão SafeGard© da SSD é também a sede da BioCheck©, líder na produção de hardware e software para biometria.

 

  • NanoCure©, software e serviços de pesquisa médica. Venha para o mundo dos sistemas microbiológicos inteligentes para o diagnóstico e tratamento de enfermidades. Trabalhando com médicos diplomados, nossos nanotecnologistas estão preparando soluções para os problemas comuns de saúde enfrentados pela população. Desde o monitoramento de questões genéticas até o desenvolvimento de etiquetas injetáveis para ajudar na detecção e cura de doenças resistentes e mortais, nossa Divisão NanoCure© trabalha para criar uma sociedade saudável.

 

  • On-Trial©, sistemas e serviços de apoio a litígios civis. Da defesa ao consumidor a casos antitruste, On-Trial© simplifica os processos de documentação, testemunho e controle de evidências.

 

  • PublicSure©, software de apoio aos agentes da lei. Este é o sistema essencial para a consolidação e o gerenciamento de registros criminais públicos e suas ramificações, armazenados em bases de dados internacionais, federais, estaduais e locais. Por meio da PublicSure©, os resultados de pesquisas podem ser baixados para escritórios, computadores de carros de patrulha, palmtops ou telefones celulares, poucos segundos após o pedido, ajudando os investigadores a concluir rapidamente os casos e aumentando a eficiência e segurança dos agentes no campo.

 

  • EduServe©, software e serviços de apoio educativo. Gerenciar o aprendizado das crianças é essencial em uma sociedade bem-sucedida. EduServe© ajuda diretores de escolas e professores, em classes desde o jardim de infância até o final do segundo ciclo, a utilizar seus recursos com maior eficiência e oferece serviços que garantem a melhor educação pelo menor custo.

 

Rhyme riu, incrédulo.

 

— Se 522 conseguir obter todas essas informações... Bem, ele é o homem que sabe tudo.

 

— Muito bem, escutem isto. — disse Cooper. — Estive olhando as empresas que a SSD controla. Adivinhem qual é uma delas.

 

— Para mim, é aquela com as iniciais DMS — respondeu Rhyme. — A que fabrica a etiqueta de RFID que está no livro, correto?

 

— Exatamente. Você acertou.

 

Ninguém disse nada durante alguns instantes. Rhyme notou que todos na sala olhavam para o logotipo da SSD na tela do computador.

 

— E então? — questionou Sellitto, voltando os olhos para o quadro branco. — Para onde vamos?

 

— Vigilância? — sugeriu Pulaski.

 

— Isso faz sentido — afirmou Sellitto. — Vou chamar a divisão de vigilância e organizar algumas equipes.

 

Rhyme fez uma expressão cética.

 

— Vigiar uma empresa que tem pelo menos mil funcionários? — Balançou a cabeça e depois perguntou: — Você já ouviu falar na navalha de Occam, Lon?

 

— Quem diabo é Occam? Algum barbeiro?

 

— Um filósofo. A navalha é uma metáfora; significa cortar fora todas as explicações desnecessárias para um fenômeno. A teoria dele é que quando existem múltiplas possibilidades, a mais simples é quase sempre a correta.

 

— Então qual é sua teoria simples, Rhyme?

 

Olhando o prospecto na tela, o criminalista respondeu a Sachs:

 

— Acho que você e Pulaski deveriam fazer uma visita à SSD amanhã de manhã.

 

— E fazer o quê?

 

Ele simplesmente deu de ombros.

 

— Perguntem se alguém que trabalha lá é o assassino.

 

FINALMENTE CHEGO EM CASA.

 

Fecho a porta.

 

Deixo o mundo trancado lá fora.

 

Respiro profundamente e coloco minha mochila no sofá, dirigindo-me à cozinha impecável para tomar um pouco de água pura. Não quero estimulantes, por enquanto.

 

Sinto novamente aquela inquietação.

 

É uma casa muito boa. Construída antes da guerra, é bem grande (tem que ser assim para quem vive como eu, com minhas coleções). Não foi fácil encontrar o lugar perfeito. Levei algum tempo. Mas aqui estou, praticamente sem ser notado. É obscenamente fácil ser virtualmente anônimo em Nova York. Que cidade maravilhosa! Aqui, o modo normal de existência é fora do circuito. Muitos dezesseis fazem isso, naturalmente. Mas é verdade que o mundo sempre teve um número mais que suficiente de idiotas.

 

Mas vejam bem, mesmo assim é preciso manter as aparências. Os cômodos na entrada de minha casa são decorados com simplicidade e bom gosto (obrigado, Escandinávia). Não socializo muito aqui, mas é preciso uma fachada de normalidade. Senão, os dezesseis começam a achar que alguma coisa está errada, que você é uma pessoa diferente do que parece.

 

Em breve surge alguém, bisbilhotando em seu Armário e levando tudo o que é seu. Tudo o que custou tanto trabalho.

 

Tudo.

 

E isso é o pior de tudo.

 

Por isso, garanta que seu Armário seja um segredo. Certifique-se de que seus tesouros estão ocultos atrás de janelas bloqueadas e com cortinas, enquanto mantém sua outra vida em plena vista, como o lado iluminado da Lua. Para ficar fora do circuito o melhor é ter um segundo espaço. Você faz o que eu fiz: mantém limpa e em ordem essa pátina moderna dinamarquesa de normalidade, mesmo quando ficar ali faz com que seus nervos vibrem como o aço riscando uma pedra.

 

Você tem uma casa normal, porque isso é o que todo mundo tem.

 

Você mantém também relações agradáveis com colegas e amigos, por que é isso o que todo mundo faz.

 

De vez em quando arranja uma companhia feminina, convence-a a passar a noite e fazer o que se costuma fazer.

 

Isso porque também é o que todo mundo faz. Não importa que ela não entenda você tão bem como nas vezes em que você enrolou uma garota para conseguir chegar ao quarto dela, sorrindo, falando que são almas gêmeas, mostrando tudo o que vocês têm em comum, com um gravador e uma faca no bolso do paletó.

 

Agora fecho as cortinas das janelas e caminho para os fundos da sala de estar.

 

Poxa, esta casa é realmente acolhedora... Parece maior do lado de fora.

 

É, é engraçado como isso acontece.

 

Ei, estou vendo uma porta aqui na sala. O que tem do outro lado?

 

Ah, nada. É só um depósito. Um armário. Quer um pouco de vinho?

 

Bem, o que tem do lado de lá, Debby Sandra Susan Brenda, é o lugar para onde estou indo agora. Meu verdadeiro lar. Eu o chamo de meu Armário. É como uma fortaleza, o último ponto defensável de um castelo medieval, o santuário central. Quando tudo mais falhasse, o rei e a família se refugiariam na fortaleza.

 

Entro na minha por aquele portal mágico. É na verdade um armário embutido no qual se pode entrar, e do lado de dentro estão roupas e caixas de sapatos. Mas eu as afasto e encaro uma segunda porta que dá para o resto da casa, que é muito, muito maior do que aquele horrível e louro minimalismo sueco.

 

Meu Armário...

 

Entro, tranco a porta por dentro e acendo a luz.

 

Procuro me acalmar depois do que aconteceu hoje. Depois do desastre, é difícil vencer a inquietação.

 

Isso não é bom isso não é bom isso...

 

Sento-me na cadeira da escrivaninha e ligo o computador olhando o quadro de Prescott diante de mim, graças a Alice 3895. Que toque maravilhoso tem esse artista! Os olhos das pessoas da família são fascinantes. Prescott conseguiu dar um olhar diferente a cada um. É evidente que todos são parentes: as expressões são semelhantes. No entanto, são também diferentes, como se cada qual estivesse imaginando um aspecto diverso da vida em família: feliz, conturbado, raivoso, perplexo, controlador, controlado.

 

Assim são as famílias.

 

É o que suponho.

 

Abro a mochila e retiro os tesouros que consegui hoje. Um estojo de estanho, um conjunto de lápis, um velho ralador de queijo. Por que motivo alguém jogaria fora essas coisas? Tiro também alguns artigos práticos que usarei nas próximas semanas: algumas cartas de pré-aprovação de crédito, que as pessoas jogaram fora descuidadamente, canhotos de pagamentos com cartões de crédito, contas de telefone... Idiotas, como eu estava dizendo.

 

Naturalmente há outra peça para minha coleção, mas cuidarei do gravador mais tarde. Não é tão extraordinário quanto poderia ser, porque os gritos roucos de Myra 9834 tiveram que ser abafados com a fita adesiva enquanto eu cortava a unha (eu estava preocupado com as pessoas na rua). Mas nem tudo na coleção pode ser uma joia inigualável, é preciso que exista o comum para que o excepcional possa brilhar.

 

Caminho por meu Armário, depositando os tesouros nos lugares apropriados.

 

Parece maior vista de fora...

 

Hoje possuo 7.403 jornais, 3.234 revistas (a National Geographic é a principal, claro) e, deixando os números de lado, tenho cabides de roupa, utensílios de cozinha, caixas de lanche, garrafas de refrigerante, caixas vazias de cereais, tesouras, aparelhos de barbear, formas de sapato, botões, caixas de abotoaduras, pentes, roupas, instrumentos úteis e instrumentos já obsoletos. Discos de fonógrafo, coloridos e pretos. Garrafas, brinquedos, potes de geleia, velas e castiçais, pratinhos de caramelos, armas. Muita, muita coisa mais.

 

Em que mais consiste o Armário? Dezesseis galerias, como as de um museu, que vão desde as que ostentam brinquedos alegres (embora aquele boneco de ventríloquo seja bastante assustador) até salas de algumas coisas que para mim são tesouros, mas que a maioria das pessoas consideraria desagradáveis. Cabelos e unhas cortados e algumas lembranças já envelhecidas de várias transações. Como a desta tarde. Deposito a unha de Myra 9834 em um lugar de destaque. Embora isso me traga prazer suficiente para me proporcionar uma nova onda de tesão, o momento agora é triste e foi arruinado.

 

Eu os odeio tanto...

 

Com as mãos trêmulas fecho a caixa de charutos, sem retirar nenhum prazer de meus tesouros neste momento.

 

Ódio ódio ódio...

 

De volta ao computador, começo a refletir. Talvez não haja ameaça. Talvez seja apenas um estranho conjunto de coincidências o que os levou à casa de DeLeon 6832.

 

Mas não posso correr riscos.

 

Eis o problema: a possibilidade de que meus tesouros me sejam arrancados é o que me consome agora.

 

Eis a solução: Fazer o que comecei no Brooklyn. Retaliar. Eliminar novas ameaças.

 

O que a maioria dos dezesseis, inclusive meus perseguidores, não compreende, e o que os coloca em patética desvantagem, é o seguinte: creio na verdade imutável de que nada existe de moralmente reprovável em extinguir uma vida. Isso porque sei que há uma existência eterna completamente independente dessas bolsas de pele e órgãos que transportamos temporariamente. Tenho provas. Basta ver o tesouro de dados sobre sua vida, que começam a acumular-se desde o momento em que você nasce. Tudo é permanente, armazenado em milhares de sítios, copiado, recopiado, invisível e indestrutível. Depois que o corpo desaparece, como é inevitável para todos os corpos, os dados sobrevivem para sempre.

 

E se essa não é a definição da alma imortal, não sei o que é.

 

O QUARTO ESTAVA SILENCIOSO.

 

Rhyme falara para Thom passar a noite de domingo com Peter Hoddins, seu companheiro de muitos anos. Sentia que às vezes atormentava demais seu assistente; não conseguia evitar e às vezes se arrependia. Mas procurava compensar, e quando Amelia Sachs ficava para passar a noite, como naquele domingo, ele mandava Thom sair. O rapaz precisava ter uma vida fora daquela casa, na qual cuidava de um velho aleijado e rabugento.

 

Rhyme ouviu ruídos suaves que vinham do banheiro, sons de uma mulher que se prepara para dormir. Tilintar de vidros, baques de tampas de plástico, chiado de aerossol, água corrente, fragrâncias que se evaporavam na atmosfera úmida do banheiro.

 

Ele gostava daqueles momentos. Faziam-no recordar sua vida de Antes.

 

O que também trazia lembranças das fotos que estavam no andar de baixo, no laboratório. Ao lado de uma de Lincoln usando um agasalho esportivo, havia outra, em preto e branco. Mostrava dois homens esbeltos, de pouco mais de 20 anos, lado a lado, vestidos de terno e gravata. Os braços pendiam ao longo dos corpos, como se estivessem em dúvida quanto a se abraçar ou não.

 

Eram o pai e o tio de Rhyme.

 

Ele pensava muito no tio Henry, mas nem tanto no pai. Tinha sido assim durante toda a vida. Mas não que houvesse algo de reprovável em Teddy Rhyme: o mais jovem dos irmãos era simplesmente reservado, muitas vezes tímido. Adorava a rotina burocrática e estável de empregado, fazendo cálculos em diversos laboratórios. Gostava de ler, o que fazia todas as noites confortavelmente sentado em uma poltrona já bastante gasta, enquanto a mulher, Anne, costurava ou assistia à televisão. Teddy gostava de temas históricos, especialmente a Guerra de Secessão — interesse que, pelo que Rhyme supunha, era a origem de seu próprio nome de batismo.

 

O menino e o pai tinham uma relação agradável, embora Rhyme se lembrasse de muitos silêncios embaraçosos quando se viam a sós. Aquilo que perturba também nos surpreende. Aquilo que nos desafia também faz sentir que estamos vivos. Mas Teddy nunca perturbava nem desafiava.

 

Já o tio Henry, sim. Completamente.

 

Não era possível estar na mesma sala com ele por mais de alguns minutos sem que a atenção dele se voltasse para você, feito um farol. Em seguida vinham as piadas, as curiosidades, as notícias recentes da família. E sempre as perguntas. Algumas eram formuladas porque ele realmente queria saber a resposta; a maioria, no entanto, tinha como objetivo provocar uma discussão. Henry Rhyme adorava um embate intelectual. Você podia encolher-se, enrubescer, ficar furioso; mas também se enchia de orgulho quando ele lhe dirigia um de seus raros elogios, porque você sabia que merecera. Nunca um elogio falso ou um encorajamento injustificado escapavam dos lábios de Henry Rhyme.

 

— Você está perto. Faça um esforço! Você é capaz. Com um pouco mais de idade do que você, Einstein já tinha feito tudo o que é importante em sua obra.

 

Se você acertasse, era recompensado com uma sobrancelha erguida em aprovação, gesto tão valioso quanto ganhar o prêmio Westinghouse na Feira de Ciências. Mas na maior parte das vezes a sua argumentação era deficiente, suas premissas capengas, seus fatos torcidos... O que estava em jogo, no entanto, não era a vitória dele sobre você: o único objetivo era atingir a verdade e ter certeza de que você havia compreendido o caminho. Depois de ter triturado os seus argumentos e se certificado de que você percebia o porquê, o assunto estava encerrado.

 

Então, entendeu onde errou? Calculou a temperatura com um conjunto incorreto de premissas. Exatamente! Agora, vamos dar alguns telefonemas — vamos juntar um grupo e ir assistir ao jogo do White Sox no sábado. Quero comer um cachorro-quente de carrocinha, e tenho certeza de que não conseguiremos achar um no Comiskey Park nessa época do ano.

 

Lincoln gostava do embate intelectual e muitas vezes ia em seu carro até o distante Hyde Park para participar dos seminários do tio ou dos grupos informais de debate na universidade; na verdade, fazia isso com mais frequência do que Arthur, que em geral estava ocupado com outras atividades.

 

Se o tio ainda estivesse vivo, certamente entraria agora na sala de Rhyme sem sequer olhar o corpo imóvel dele, apontaria para o cromatógrafo a gás e perguntaria por que ele ainda estava usando aquela porcaria. Em seguida, sentando-se diante dos quadros brancos com evidências, começaria a interrogar o sobrinho sobre a maneira de conduzir o caso de 522.

 

Sim, mas é lógico esse indivíduo se comportar dessa forma? Vamos, repasse suas conclusões para mim mais uma vez.

 

Pensou na noite que recordara anteriormente: a véspera de Natal do último ano do ensino médio, na casa do tio em Evanston. Estavam lá Henry e Paula, além dos filhos Robert, Arthur e Marie; Teddy e Anne levaram Lincoln, e ainda participaram alguns tios e tias e outros primos, mais um ou dois vizinhos.

 

Lincoln e Arthur tinham passado a maior parte da tarde jogando sinuca no andar de baixo e conversando sobre os planos para o outono seguinte e a faculdade. Lincoln pretendia ir para o MIT e Arthur também queria ir para lá. Ambos tinham certeza de que seriam aprovados e naquela noite estavam discutindo se deveriam dividir um quarto no alojamento ou procurar um apartamento fora do campus (camaradagem masculina versus a chance de levar garotas para casa).

 

Mais tarde a família se reuniu em torno da grande mesa da sala de jantar do tio, às margens do lago Michigan, com o vento silvando por entre os galhos desfolhados e acinzentados do quintal. Henry presidia a mesa da mesma forma como fazia nas suas aulas, comandando tudo e ciente de tudo, com um leve sorriso sob os olhos espertos, prestando atenção em todas as conversas à sua volta. Contava piadas e anedotas, fazendo perguntas sobre a vida de seus convidados. Era interessado, curioso, e às vezes manipulador.

 

— Então, Marie, agora que estamos todos juntos, fale daquela bolsa em Georgetown. Creio que concordamos que seria excelente para você. Jerry poderá visitar você nos fins de semana, naquele novo carro chique dele. Aliás, quando termina o prazo para as inscrições? Acho que está perto, se não me engano.

 

A filha de cabelos revoltos evitava olhá-lo nos olhos, dizendo que, por causa do Natal e dos exames finais, ainda não havia terminado de reunir a documentação, mas que certamente o faria. Sem a menor dúvida.

 

A intenção de Henry, naturalmente, era fazer com que a filha se comprometesse diante de testemunhas, mesmo que isso significasse separar-se do noivo por mais seis meses.

 

Rhyme sempre achara que o tio daria um excelente advogado ou político.

 

Depois que os restos do peru e da torta de carne eram retirados e o licor Grand Marnier, café e chá trazidos, Henry levava todos para a sala de estar, dominada por uma grande árvore de Natal, labaredas na lareira e uma pintura de ares severos do avô de Lincoln — professor em Harvard com três doutorados.

 

Era o momento da competição.

 

Henry fazia uma pergunta sobre ciência e o primeiro a responder ganhava um ponto. Os três primeiros recebiam prêmios escolhidos por Henry e cuidadosamente embrulhados por Paula.

 

As tensões eram palpáveis — sempre era assim quando Henry assumia o comando — e todos competiam a sério. O pai de Lincoln invariavelmente acertava muitas das perguntas sobre química. Quando o tema eram números, a mãe, professora de matemática em meio-expediente, respondia algumas antes mesmo que Henry acabasse de formulá-las. Os que mais se distinguiam ao longo da competição, no entanto, eram os primos — Robert, Marie, Lincoln e Arthur, além do noivo de Marie.

 

Ao aproximar-se o fim do desafio, perto das 20 horas, os competidores já estavam todos na beira de suas cadeiras, ansiosos. As colocações mudavam a cada pergunta. As mãos suavam. Quando faltavam apenas alguns minutos no relógio com que Paula marcava o tempo, Lincoln respondeu a três perguntas seguidas e passou adiante de Marie para terminar no primeiro lugar. A prima ficou em segundo e Arthur em terceiro.

 

Em meio às palmas, Lincoln fez uma reverência, como um ator de teatro, e recebeu o prêmio principal das mãos do tio. Ainda recordava a surpresa ao desembrulhar o papel verde escuro: era uma caixa de plástico transparente que continha um cubo de concreto de 2,5 centímetros de lado. Mas não se tratava de um prêmio de brincadeira. O que Lincoln tinha nas mãos era um pedaço do Stagg Field da Universidade de Chicago, onde ocorrera a primeira reação atômica em cadeia, sob a direção do xará de seu primo, Arthur Compton, e de Enrico Fermi. Henry aparentemente obtivera uma das pedras quando o estádio fora demolido na década de 1950. Lincoln se sentira emocionado com o prêmio histórico e feliz por haver competido com seriedade. Ainda guardava o pequeno bloco de concreto em algum lugar, escondido em uma caixa de papelão no porão.

 

Mas Lincoln não teve tempo para admirar o prêmio que ganhara, porque mais tarde, naquela noite, tinha marcado um encontro com Adrianna.

 

Assim como a família, que inesperadamente invadira seus pensamentos naquele dia, a bela ginasta de cabelos ruivos também fazia parte de suas lembranças.

 

Adrianna Waleska — o sobrenome germânico remetia às raízes familiares em Gdansk — trabalhava na sala de aconselhamento universitário da escola de Lincoln. No início do último ano, ao entregar algumas inscrições, ele vira sobre a mesa dela um exemplar já bastante gasto de Um Estranho Numa Terra Estranha, romance de Robert A. Heinlein. Os dois passaram a hora seguinte conversando sobre o livro, concordando em quase tudo, discutindo aqui e ali. O resultado foi que Lincoln acabou matando a aula de química. Não tinha importância. Primeiro, as prioridades.

 

Ela era alta, esbelta, tinha um aparelho invisível nos dentes e corpo atraente sob o suéter felpudo e as pantalonas jeans. O sorriso ia de entusiasmado a sedutor. Logo começaram a namorar, para ambos a primeira aventura em matéria de um relacionamento mais sério. Sempre iam às competições esportivas do outro, frequentavam as exposições do Instituto de Artes e às vezes passavam um tempo no banco traseiro do Chevrolet Monza dela, que era bastante apertado e por isso mesmo extremamente útil. Nos parâmetros de um corredor como Lincoln, o trajeto da casa de Adrianna até a sua seria uma corrida rápida, mas era algo que ele nunca faria — nada de aparecer todo suado —, e por isso pedia emprestado o carro da família para encontrá-la.

 

Passavam horas conversando. Como acontecia com o tio Henry, Adie e ele se desafiavam.

 

Claro que havia obstáculos. No ano seguinte ele partiria para a faculdade em Boston e ela para San Diego, iria estudar biologia e trabalhar no jardim zoológico. Mas isso não passava de uma complicação e, naquela época, tanto como agora, Lincoln Rhyme não aceitava complicações como desculpas.

 

Tempos depois — depois do acidente e do divórcio com Blaine — Rhyme frequentemente imaginava o que poderia ter acontecido se ele e Adrianna tivessem ficado juntos e levado adiante o que haviam começado. Naquela véspera de Natal, na verdade, ele esteve perto de pedi-la em casamento. Tinha pensado em oferecer-lhe não um anel com um brilhante, e sim, como sabiamente ensaiara, “uma pedra diferente”: o prêmio que recebera na competição conduzida pelo tio.

 

Mas voltou atrás, graças ao mau tempo. Abraçados em um banco de jardim, a neve começou a cair pesadamente do céu silencioso do Meio-Oeste, e em questão de minutos os cabelos e casacos ficaram cobertos com um manto branco e úmido. Eles conseguiram voltar cada um para sua casa logo antes que as estradas fossem bloqueadas. Naquela noite, deitado na cama, tendo ao lado a caixa de plástico que continha o bloco de concreto, ele ensaiou um discurso para pedir a mão dela.

 

A proposta, no entanto, nunca chegou a ser feita. Os acontecimentos se intrometeram nas vidas de ambos, levando cada um para um lado. Pareciam coisas mínimas, pequenas como átomos invisíveis levados à fissão em um frio estádio esportivo, modificando o mundo para sempre.

 

Tudo teria sido diferente.

 

Rhyme viu Sachs de relance, escovando os longos cabelos ruivos. Ficou olhando para ela durante algum tempo, contente porque ela ia passar a noite ali — mais contente do que de costume. Rhyme e Sachs não eram inseparáveis. Eram pessoas obstinadamente independentes, que muitas vezes preferiam estar separadas. Naquela noite, porém, ele a queria ali. Feliz com o corpo dela junto ao seu, com a sensação — nas poucas partes do corpo onde conseguia sentir — ainda mais intensa por ser tão rara.

 

O amor que sentia por ela era uma das motivações de seu programa de exercícios, que ele realizava em uma esteira computadorizada e em uma bicicleta Electrologic. Se a ciência finalmente atravessasse a última fronteira, permitindo que ele voltasse a andar, seus músculos estariam preparados. Também cogitava submeter-se a uma nova operação que poderia significar uma melhora até que o dia chegasse. Experimental e polêmica, a cirurgia era conhecida como reorientação periférica dos nervos. Durante anos falou-se nela, algumas tentativas foram realizadas, sem muitos resultados positivos. Recentemente, porém, médicos estrangeiros haviam executado a operação com certo grau de êxito, apesar das reservas da comunidade médica norte-americana. O procedimento consistia em unir cirurgicamente nervos acima do ponto danificado com nervos abaixo dele. Na prática, era como fazer um desvio em volta de uma ponte destruída.

 

A maioria dos casos bem-sucedidos tinha ocorrido em corpos menos danificados do que o de Rhyme, mas os resultados foram notáveis: recuperação do controle da bexiga, movimento de membros e até mesmo a capacidade de caminhar. No caso de Rhyme, esse último resultado seria impossível, mas as conversas com um médico japonês que havia sido o pioneiro no procedimento e com um colega em um hospital de treinamento numa universidade de ponta permitiam alguma esperança de melhora. Possivelmente a volta da sensação e do movimento dos braços, mãos e bexiga.

 

O sexo também.

 

Homens paralíticos, inclusive os tetraplégicos, são perfeitamente capazes de executar o ato sexual. Se o estímulo for apenas mental — ver um homem ou mulher que nos atrai — o ato não é possível, porque a mensagem não atravessa o lugar em que a medula está danificada. Mas o corpo humano é um mecanismo extraordinário: existe uma região mágica de nervos que funcionam sozinhos, abaixo do ponto de interrupção. Com um pouco de estímulo local, até mesmo homens com invalidez severa muitas vezes são capazes de fazer amor.

 

A luz do banheiro se apagou e ele viu a silhueta dela chegar perto e subir no que há muito tempo dizia ser a cama mais confortável do mundo.

 

— Eu... — começou ele, mas a voz foi imediatamente abafada pela boca de Sachs, num beijo apertado.

 

— Que foi que você disse? — murmurou ela, movendo os lábios para o queixo dele e descendo ao pescoço.

 

Ele não se lembrava mais.

 

— Esqueci.

 

Rhyme prendeu a orelha dela com a boca e percebeu que os cobertores estavam sendo afastados. Isso exigiu certo esforço de parte dela; Thom tinha feito a cama como um soldado temeroso da inspeção do sargento. Não demorou, porém, até que ele visse as cobertas enroladas no chão, a camiseta de Sachs logo indo se juntar a elas.

 

Ela o beijou novamente e ele retribuiu, com força.

 

Naquele momento o telefone dela tocou.

 

— Ah, não — sussurrou ela. — Não ouvi isso.

 

Depois de quatro toques, a ligação foi para a abençoada caixa postal. Um instante depois, porém, o telefone tocou de novo.

 

— Pode ser sua mãe — disse Rhyme.

 

Rose Sachs estava em tratamento, com um problema cardíaco. O prognóstico era favorável, mas recentemente ela vinha passando por algumas dificuldades.

 

Sachs concordou com um grunhido e abriu o aparelho, banhando os corpos de ambos em uma luz azulada.

 

— É Pam. Melhor eu atender.

 

— Claro.

 

— Oi. O que foi?

 

Embora ouvindo apenas um lado da conversa, Rhyme deduziu que alguma coisa não estava bem.

 

— Tudo bem... Claro... Mas estou na casa do Lincoln. Quer vir para cá? — Olhou para Rhyme, que acenava positivamente com a cabeça. — Está bem, querida. Estamos acordados, sim.

 

Fechou o telefone e Rhyme perguntou:

 

— Que foi?

 

— Não sei. Ela não quis dizer. Só disse que Dan e Enid tiveram que receber duas crianças emergencialmente, e por isso todos os meninos mais velhos precisavam dormir juntos. Ela não queria ficar lá, mas também não gosta de ficar sozinha na minha casa.

 

— Por mim, tudo bem. Você sabe disso.

 

Ela se deitou novamente, fazendo uma exploração enérgica com a boca. Murmurou:

 

— Fiz as contas. Ela terá que arrumar uma mochila e tirar o carro da garagem... Vai levar uns 45 minutos para chegar aqui. Temos algum tempo.

 

Curvando-se para a frente, ela o beijou novamente.

 

Bem na hora, a campainha disparou em um ruído alto e o interfone fez um estalo.

 

— Sr. Rhyme? Amelia? Oi, é Pam. Vocês podem abrir pra mim?

 

Rhyme riu.

 

— Ou então ela pode ter ligado da entrada.

 

Pam e Sachs foram para um dos quartos do andar superior.

 

O cômodo ficava preparado para quando a adolescente quisesse vir. Abandonados na prateleira, havia um ou dois bichos de pelúcia (para quem tem a mãe e o pai como fugitivos do FBI, os brinquedos não significam muita coisa na infância), mas ela tinha algumas centenas de livros e CDs. Graças a Thom, sempre havia muitos suéteres, camisetas e meias lavadas. Além disso, um rádio, um toca-discos e também tênis de corrida para ela. Pam adorava correr pela alameda de 2,5 quilômetros que circundava o reservatório do Central Park. Corria pelo prazer de correr e por necessidade de exercício.

 

Sentada na cama, a jovem pintava cuidadosamente as unhas dos pés com esmalte dourado, os dedos separados com chumaços de algodão. A mãe havia proibido esmalte, assim como a maquiagem (“por respeito a Cristo”, o que quer que isso significasse) e, tão logo se libertou dos subterrâneos da extrema direita, Pam começou a acrescentar alguns enfeites ao visual, como pintar os cabelos de cores vivas e usar três piercings nas orelhas. Sachs ficou aliviada ao ver que ela não exagerava, pois Pamela Willoughby teria todos os motivos para se lançar na esquisitice.

 

Tomando chocolate quente, Sachs se acomodou em uma cadeira com as pernas para cima, as unhas dos pés sem esmalte. Uma brisa trazia para dentro do quarto a complexa mistura de aromas primaveris do Central Park: terra, folhagens úmidas de orvalho, gases de escapamento de automóveis.

 

Pam se aproximou e provou a bebida dela.

 

— Gostoso, bem quente. — Voltou então a tratar das unhas. Ao contrário da expressão anterior de sua fisionomia, o rosto agora mostrava preocupação.

 

— Sabe como é o nome disso? — perguntou Sachs, apontando.

 

— Os pés? Os dedos?

 

— Não, as solas.

 

— Claro, são as solas dos pés e dos dedos.

 

Ambas riram.

 

— Não; são as plantas. Elas também deixam impressões, como os polegares. Lincoln certa vez conseguiu uma condenação porque o criminoso deu um pontapé em alguém com os pés descalços, fazendo-o perder os sentidos. Errou um dos golpes e acertou uma porta, onde ficou a impressão plantar.

 

— Interessante. Ele devia escrever outro livro.

 

— Também digo isso a ele — concordou Sachs. — Então, o que está acontecendo?

 

— Stuart.

 

— Continue.

 

— Talvez eu nem devesse ter vindo para cá. É besteira.

 

— Vamos. Lembre-se que sou da polícia. Posso fazer você confessar.

 

— Bem, Emily ligou, e eu achei esquisito porque ela nunca liga aos domingos, então pensei que tudo bem, devia ter algo de errado acontecendo. E parecia que ela não queria dizer nada, mas acabou falando. Disse que viu Stuart hoje com outra pessoa. Uma menina da escola. Depois do jogo de futebol. Mas ele tinha me dito que ia para casa.

 

— Bem, quais são os fatos? Estavam apenas conversando? Não tem nada de errado nisso.

 

— Ela disse que não tinha certeza, mas que parecia que ele estava abraçando a garota. Quando notou que tinha alguém olhando, se afastou rapidamente com ela, como se quisesse se esconder. — A tarefa de pintar as unhas terminou abruptamente, ainda pela metade. — Eu gosto mesmo dele, de verdade. Seria uma droga se ele não quisesse mais nada comigo.

 

Sachs e Pam haviam ido juntas a uma psicóloga e, com o consentimento da jovem, a detetive conversara a sós com a terapeuta. Pam estava passando por um longo período de estresse pós-traumático, não apenas devido ao prolongado cativeiro com a mãe psicopata, mas também por causa de um episódio específico no qual o pai quase a fizera perder a vida enquanto tentava matar policiais. Um incidente como aquele envolvendo Stuart Everett, por menor que parecesse para a maioria das pessoas, ficara amplificado na mente dela e podia ter efeitos devastadores. Sachs fora aconselhada a não aumentar os temores da menina, porém tampouco tentar minimizá-los; olhar cada um deles cuidadosamente, procurando analisá-los.

 

— Vocês conversaram sobre a possibilidade de saírem com outras pessoas?

 

— Ele disse... bem, há um mês ele disse que não estava saindo com ninguém. Eu também não, e foi o que disse a ele.

 

— Tem mais algum indício?

 

— Indício?

 

— Digo, alguma outra amiga contou mais alguma coisa?

 

— Não.

 

— Você conhece algum dos amigos dele?

 

— Mais ou menos, mas não o suficiente para perguntar essas coisas. Isso não seria legal.

 

Sachs sorriu.

 

— Então não podemos usar espiões. Bem, o que você devia fazer era perguntar a ele. Diretamente.

 

— Você acha?

 

— Acho.

 

— E se ele disser que está saindo com ela?

 

— Nesse caso você deveria ficar grata por ele estar sendo sincero com você. É um bom sinal. E depois você o convence a largar a vaca. — Ambas riram. — O que você tem que fazer é dizer que só quer sair com uma única pessoa. — A mãe em potencial dentro de Sachs acrescentou rapidamente: — Não estamos falando em casamento, em ir morar com alguém. Só em sair juntos.

 

Pam concordou.

 

— Claro, sem dúvida.

 

— E que ele é a pessoa com quem você quer sair — prosseguiu Sachs, aliviada. — E que você espera reciprocidade. Vocês dois têm uma coisa importante: têm um bom relacionamento, uma ligação forte, gostam de conversar... Isso não acontece com frequência.

 

— Como você e o Sr. Rhyme.

 

— É assim mesmo. Mas se ele não quiser, então está bem.

 

— Não, não está — discordou Pamela, franzindo a testa.

 

— Eu só estou dizendo o que você deve falar. Diga a ele que você também vai, então, sair com outras pessoas. Ele não pode querer exclusividade sua.

 

— Acho que não. Mas e se ele responder que está tudo bem por ele? — O rosto dela se tornou sombrio com esse pensamento.

 

Sachs riu, balançando a cabeça.

 

— É, é uma droga quando o outro paga para ver. Mas acho que ele não fará isso.

 

— Está bem. Vou falar com ele amanhã, depois da aula. Vou conversar com ele.

 

— Ligue para mim. Conte-me como foi — disse Sachs, levantando-se e pegando o vidro de esmalte para fechá-lo. — Durma um pouco. Está tarde.

 

— Mas não acabei de fazer as unhas.

 

— Não use sandálias amanhã.

 

— Amelia?

 

Sachs fez uma pausa na porta.

 

— Você vai se casar com o Sr. Rhyme?

 

Sachs sorriu e fechou a porta.

 

Com incrível precisão, computadores preveem o comportamento examinando montanhas de dados sobre os clientes, coletados pelas empresas. Chamada de análise preditiva, essa bola de cristal automatizada se transformou em um negócio de 2,3 bilhões de dólares nos Estados Unidos e está a caminho de atingir 3 bilhões em 2008.

 

Sentada no saguão de pé direito altíssimo da Strategic Systems Datacorp, Amelia Sachs refletia que a descrição da empresa de mineração de dados feita pelo diretor executivo da fábrica de sapatos era... bem, bastante modesta.

 

O prédio tinha trinta andares. Era um monolito cinzento e pontudo, as paredes laterais de granito que faiscava com mica. As janelas eram como seteiras estreitas, coisa surpreendente diante da estonteante visão da cidade que se descortinavam das alturas. Ela conhecia o edifício, apelidado de Rocha Cinzenta, mas não sabia a quem pertencia.

 

Juntos, ela e Ron Pulaski — já não mais com roupas esportivas e sim trajando, respectivamente, um terninho e um uniforme da polícia, ambos em azul-marinho — olhavam uma imensa parede onde se lia a localização dos escritórios da SSD em todo o mundo, entre os quais Londres, Buenos Aires, Mumbai, Cingapura, Pequim, Dubai, Sydney e Tóquio.

 

Uma empresa enorme.

 

Acima da lista de filiais ficava o logotipo da empresa: a janela na torre de vigia.

 

Ela sentiu um nó no estômago ao recordar as janelas do prédio abandonado do outro lado da rua onde ficava o hotel-residência de Robert Jorgensen. Lembrou-se das palavras de Lincoln Rhyme sobre o incidente com o agente federal no Brooklyn.

 

Ele sabia exatamente onde você estava. Isso significa que estava vigiando. Cuidado, Sachs...

 

Olhando em volta do saguão, viu meia dúzia de homens de negócios esperando por ali, muitos deles aparentemente pouco à vontade, e recordou a preocupação do diretor da fábrica de sapatos com a possibilidade de perder os serviços da SSD. Em seguida, percebeu que as cabeças de todos eles se viraram, quase simultaneamente, para um ponto além da recepcionista. Olharam um homem baixo, de aspecto juvenil, que entrara no saguão, caminhando sobre o tapete preto e branco diretamente para onde estavam Sachs e Pulaski. Tinha postura perfeita e passo largo. O homem de cabelos claros acenava com a cabeça e sorria, cumprimentando pelo nome quase todas as pessoas que ali estavam.

 

A primeira impressão de Sachs foi que se tratava de um candidato a presidente.

 

Mas o homem não interrompeu a caminhada até chegar aos dois agentes.

 

— Bom dia. Sou Andrew Sterling.

 

— Detetive Sachs. Este é o agente Pulaski.

 

Sterling era vários centímetros mais baixo do que Sachs, mas parecia em boa forma, com ombros largos. A camisa branca imaculada tinha colarinho engomado e abotoaduras. Os braços eram fortes e o paletó com caimento perfeito. Não usava joias. Nos cantos de seus olhos verdes formavam-se rugas quando o sorriso fácil aparecia em seus lábios.

 

— Vamos ao meu escritório.

 

Era chefe daquela empresa imensa... mas tinha ido recepcioná-los, em vez de mandar um subordinado acompanhá-los a seu trono.

 

Sterling caminhava tranquilamente pelos corredores amplos e silenciosos. Cumprimentava todos os funcionários, às vezes fazendo perguntas sobre como tinham passado o fim de semana. Por sua vez, eles prestavam atenção ao sorriso dele diante dos relatos de um descanso agradável e à sua expressão de consternação ao ouvir notícias de parentes doentes ou de passeios cancelados. Havia dezenas de funcionários e Sterling fazia comentários pessoais a cada um deles.

 

— Oi, Tony — cumprimentou um servente que despejava documentos triturados em um grande saco. — Assistiu ao jogo?

 

— Não, Andrew. Não pude. Tive muito o que fazer.

 

— Talvez possamos começar a fazer fins de semana de três dias — brincou.

 

— Estou de acordo, Andrew.

 

Continuaram caminhando pelo corredor.

 

Sachs não conhecia tantas pessoas no Departamento de Polícia de Nova York quanto as que Sterling cumprimentou em cinco minutos de trajeto.

 

A decoração da empresa era minimalista: algumas fotografias pequenas e desenhos de bom gosto, nenhum deles colorido — desapareciam nas paredes impecavelmente brancas. A mobília, também em preto e branco, era simples, mas do tipo que se encontra em lojas especializadas em design de móveis. Sachs imaginou que aquilo deveria significar alguma coisa, mas o conjunto da obra lhe pareceu sem vida.

 

Enquanto caminhavam, ela repassou o que tinha descoberto na noite anterior, depois de dar boa noite a Pam. A biografia do anfitrião, recolhida na internet, era escassa. Andrew era uma pessoa extremamente reclusa — um Howard Hughes e não um Bill Gates. Sua vida pregressa era um mistério. Sachs não encontrou nenhuma referência à infância e nem aos pais. Alguns recortes lacônicos de jornais revelavam fatos de sua vida a partir dos 17 anos, quando ele começara a trabalhar, principalmente como vendedor, primeiro de porta em porta e depois no telemarketing, cada vez com produtos maiores e mais caros. Finalmente, passou a trabalhar com computadores. Para um rapaz com “sete oitavos de um diploma em uma escola noturna”, conforme disse à imprensa, Sterling descobriu-se um vendedor de sucesso. Voltou à faculdade a fim de terminar o oitavo que lhe faltava e emendou com um mestrado em ciência e engenharia da computação, rapidamente concluído. As histórias a seu respeito recordavam as de Horatio Alger e somente continham detalhes que serviam para elevar sua inteligência e seu status como empresário.

 

Depois, já na casa dos 20 anos, chegara seu “grande despertar”, como ele dizia, o que fazia lembrar um ditador comunista chinês. Sterling estava vendendo muitos computadores, mas não o suficiente para sentir-se satisfeito. Por que não conseguia mais sucesso? Não era preguiçoso e nem burro.

 

Foi então que compreendeu o problema: era ineficiente.

 

O mesmo acontecia com muitos outros homens de vendas.

 

Assim, passou a estudar programação de computadores e durante várias semanas trabalhou durante 18 horas por dia em uma sala às escuras, desenvolvendo um software. Penhorou tudo o que tinha e lançou sua própria empresa, baseada em um conceito que ou era tolo ou era brilhante: a parte mais valiosa não seria de propriedade da empresa e sim de milhões de outras pessoas, em boa parte obtida gratuitamente — informações a respeito delas próprias. Sterling começou a compilar uma base de dados na qual estavam inclusos consumidores potenciais de inúmeros mercados de serviços e de produtos industriais, as características demográficas da região em que se localizavam, sua renda, estado civil, boas e más notícias sobre suas finanças e situação fiscal e jurídica, além de tantas outras informações — pessoais e profissionais — quantas lhe foi possível comprar, roubar ou obter por outros meios. “Se existe um fato, quero saber”, tornou-se uma de suas frases de efeito.

 

O software que ele concebeu, primeira versão do sistema Watchtower de gerenciamento de base dados, era revolucionário na época, um salto exponencial em relação ao famoso sistema SQL, cuja pronúncia seria “sequel”, conforme Sachs descobriu. Em poucos minutos, o Watchtower determinava quais consumidores valia a pena contatar e como seduzi-los, e ainda quais não mereciam o esforço (mas cujos nomes podiam ser vendidos a outras companhias para outros propósitos).

 

A empresa cresceu como um monstro de filme de ficção científica. Sterling mudou a razão social para SSD, transferiu a sede para Manhattan e começou a adicionar a seu império empresas menores no ramo da informação. Embora as organizações defensoras do direito à privacidade se aborrecessem, nunca houve sequer uma suspeita de escândalo na SSD, como o que aconteceu com a Enron. Os funcionários trabalhavam duro para ganhar seus salários — nada de bônus escandalosamente elevados como os de Wall Street —, mas lucravam com os lucros da empresa. A SSD oferecia pagamento de taxas escolares, ajuda para compra de casa própria e creche, e pais tinham direito a um ano de licença maternidade ou paternidade. A empresa era famosa pela maneira de tratar seus funcionários como se fossem uma família e Sterling encorajava a contratação de cônjuges, pais e filhos. Todos os meses ele patrocinava retiros para estimular a motivação e o trabalho de equipe.

 

O diretor executivo era reservado sobre sua vida pessoal, mas Sachs ficou sabendo que ele não fumava nem bebia e ninguém nunca o ouvira dizer um palavrão. Vivia de forma modesta, recebia um salário surpreendentemente baixo e mantinha suas aplicações em ações da SSD. Evitava participar da vida social de Nova York. Não possuía carros rápidos nem jato particular. Apesar do respeito pela unidade familiar entre os funcionários da SSD, Sterling tinha se divorciado duas vezes e no momento estava solteiro. Havia relatos desencontrados sobre filhos que teria tido na juventude. Tinha diversos endereços, mas sempre mantinha seu paradeiro longe dos olhares do público. Talvez por conhecer o poder dos dados, Andrew Sterling também reconhecia seus perigos.

 

Sterling, Sachs e Pulaski chegaram ao final do longo corredor e entraram em uma antessala, onde havia lugar para dois assistentes em duas escrivaninhas cobertas de pilhas perfeitamente organizadas de documentos, pastas de arquivo e papéis impressos. Somente um dos assistentes estava naquele momento, um jovem de boa aparência vestindo um terno sóbrio. Numa placa lia-se seu nome: Martin Coyle. A mesa dele era a mais organizada; até mesmo os muitos livros na prateleira por trás da escrivaninha estavam arrumados em ordem descendente de tamanho, fato que divertiu Sachs.

 

— Andrew — disse ele, cumprimentando o chefe com um aceno de cabeça, ignorando os policiais assim que percebeu que não tinham sido apresentados. — Os recados estão em seu computador.

 

— Obrigado — agradeceu Sterling, olhando para a outra mesa. — Jeremy foi verificar o restaurante para o encontro com a imprensa?

 

— Ele já fez isso de manhã. Foi levar alguns papéis à firma de advocacia. Sobre aquele outro assunto.

 

Sachs ficou impressionada por Sterling ter dois secretários particulares, aparentemente um para o trabalho interno e outro para assuntos externos ao escritório. No Departamento de Polícia vários detetives tinham que compartilhar os serviços de uma secretária, quando conseguiam.

 

Seguira para o escritório do próprio Sterling, que não era muito maior do que outros que ela vira na empresa. Além disso, as paredes não tinham decoração. Apesar do logotipo da SSD, com a janela de vigilância no alto da torre, as janelas de Andrew Sterling eram fechadas com cortinas, impedindo o que seria uma vista magnífica da cidade. Ela sentiu um arrepio de claustrofobia.

 

Sterling sentou-se em uma cadeira simples de madeira, não um trono giratório forrado de couro. Indicou com um gesto as cadeiras que eles deveriam ocupar; eram semelhantes à dele, mas estofadas. Atrás, havia prateleiras baixas repletas de livros, curiosamente arrumados com as lombadas para cima. Os visitantes só conseguiriam saber o que ele lia passando além de Sterling e olhando os livros de cima para baixo, ou então tirando da prateleira.

 

O diretor executivo indicou uma jarra e meia dúzia de copos emborcados.

 

— Podem se servir de água, mas se quiserem café ou chá posso pedir.

 

— Não, obrigada.

 

Pulaski balançou negativamente a cabeça.

 

— Por favor, me deem licença só por um instante — disse Sterling, tirando o telefone do gancho e discando. — Andy? Você me ligou.

 

Pelo tom de voz Sachs deduziu que se tratava de uma pessoa com quem ele tinha intimidade, embora fosse uma ligação de negócios sobre algum problema. Apesar disso, Sterling falava sem demonstrar emoção.

 

— Ah, sim, acho que você terá que fazer isso. Precisamos desses números. Como você sabe, eles não estão esperando passivamente. Vão tomar uma atitude a qualquer momento... Ótimo.

 

Desligou, notando que Sachs o observava de perto.

 

— Meu filho trabalha na empresa — disse ele, indicando uma foto na escrivaninha, na qual ele próprio aparecia junto de um rapaz bonito e esguio, parecido com o diretor executivo. Ambos vestiam camisetas com o logotipo da SSD em alguma excursão com os funcionários, talvez um dos retiros em busca de inspiração. Estavam juntos, porém sem contato físico. Nenhum dos dois sorria.

 

Pelo menos uma pergunta sobre a vida pessoal dele acabava de ser respondida.

 

— E então — começou ele, voltando os olhos verdes para Sachs —, do que se trata? A senhora falou em um crime.

 

Sachs explicou:

 

— Nos últimos meses ocorreram alguns homicídios na cidade. Nós achamos que alguém pode ter utilizado informações existentes em seus computadores para aproximar-se das vítimas e matá-las, e depois usou esses e outros dados a fim de incriminar pessoas inocentes.

 

O homem que sabe tudo...

 

— Informações? — repetiu ele. Parecia sinceramente preocupado, mas também se mostrava perplexo. — Não sei como isso pode ter acontecido, mas por favor continue.

 

— Bem, o assassino sabia exatamente quais eram os produtos de uso pessoal que as vítimas usavam e plantou indícios desses produtos como evidências nas casas de inocentes a fim de ligá-los aos crimes.

 

Enquanto Sterling ouvia, suas sobrancelhas se estreitavam acima das íris cor de esmeralda. Parecia estar genuinamente abalado enquanto ela desfiava os detalhes sobre o roubo do quadro e das moedas e os dois ataques sexuais.

 

— Isso é horrível... — Perturbado pelo que ouvia, desviou os olhos dos dela. — Estupros?

 

Ela confirmou com lástima e explicou que a SSD parecia ser a única empresa da região que tinha acesso a todas as informações que o assassino utilizara.

 

Sterling enxugou o rosto, acenando com a cabeça lentamente.

 

— Compreendo sua preocupação... Mas não seria mais fácil o assassino simplesmente seguir as pessoas que atacou e descobrir o que compraram? Ou até mesmo invadir os computadores delas, violar a correspondência, entrar sorrateiramente na casa delas ou anotar a placa do carro olhando da rua?

 

— Esse é justamente o problema. Ele poderia ter feito isso, mas teria que dar todos esses passos para reunir a informação de que precisava. Foram pelo menos quatro crimes — achamos que provavelmente houvesse mais — e isso significa informação atualizada sobre as quatro vítimas e os quatro homens que ele incriminou. A maneira mais eficiente de obter essas informações seria por meio de uma empresa de mineração de dados.

 

Sterling sorriu, ainda que fosse mais uma manifestação de nervosismo.

 

Sachs franziu a testa, inclinando a cabeça.

 

— Não há problema com essa expressão, “mineração de dados” — esclareceu ele. — A imprensa a usa constantemente e ela aparece por toda parte.

 

Milhões de resultados numa ferramenta de buscas...

 

Logo depois, prosseguiu:

 

— Mas eu prefiro dizer que a SSD é provedora de serviços de conhecimento —, uma PSC.

 

Sachs teve a estranha sensação de que ele ficara quase ofendido pelo que ela dissera. Queria assegurar-lhe que não usaria novamente aquela expressão.

 

Sterling ajeitou uma pilha de papéis na escrivaninha organizada. A princípio, ela pensou que estivessem em branco, mas logo notou que estavam virados para baixo.

 

— Bom, acredite, quero descobrir, tanto quanto a senhora, se alguém da SSD tem algo a ver com isso. Seria muito ruim para nós... nos últimos tempos os provedores de serviços de conhecimento não têm sido bem-tratados pela imprensa e pelo Congresso.

 

— Antes de mais nada — interrompeu Sachs —, estamos convencidos de que o assassino deve ter comprado a maioria dos produtos com dinheiro.

 

Sterling concordou.

 

— Ele não iria querer deixar qualquer rastro.

 

— Exatamente, mas comprou os tênis pelo correio ou pela internet. O senhor teria uma lista das pessoas que compraram estes modelos de calçados nestes tamanhos específicos, na área de Nova York? — perguntou Sachs, entregando a ele a relação dos calçados Alton, Bass e Sure-Track. — O mesmo homem comprou todos.

 

— Qual período de tempo?

 

— Últimos três meses.

 

Sterling fez uma ligação. Iniciou uma breve conversa e não mais de sessenta segundos depois já olhava a tela de seu computador. Virou-a para que Sachs pudesse ver, embora ela não soubesse bem o que via — uma fileira de informações e códigos de produtos.

 

O diretor executivo balançou a cabeça.

 

— Foram vendidos aproximadamente oitocentos Alton, mil e duzentos Bass e duzentos Sure-Track, mas nenhuma pessoa comprou as três marcas. Nem mesmo dois pares.

 

Rhyme havia suspeitado de que o assassino tentaria disfarçar suas ações caso tivesse usado informações da SSD, mas esperava que aquela pista desse resultado. Contemplando os números, Sachs ficou pensando se o assassino teria usado, para encomendar os calçados, as técnicas de roubo de identidade que aperfeiçoara à custa de Robert Jorgensen.

 

— Lamento.

 

Ela meneou a cabeça.

 

Sterling tirou a tampa de uma caneta prateada um tanto usada e puxou para si um bloco de notas. Com letra muito regular escreveu várias anotações que Sachs foi incapaz de decifrar. Olhou para o que escrevera e balançou afirmativamente a cabeça.

 

— Imagino que vocês estejam pensando que o problema seja um intruso, um funcionário, um de nossos clientes ou um hacker, não é verdade?

 

Ron Pulaski olhou para Sachs e respondeu:

 

— Exatamente.

 

— Muito bem. Vamos a fundo nisso — ofereceu Sterling, consultando o relógio de pulso Seiko. — Vou chamar outras pessoas aqui, mas pode levar alguns minutos. Temos nosso Círculo Espiritual toda segunda-feira, mais ou menos a esta hora.

 

— Círculo Espiritual? — perguntou Polaski.

 

— Reuniões motivacionais dos líderes de equipes. Deve terminar daqui a pouco. Começamos às 8 em ponto, mas algumas levam mais tempo do que as outras, dependendo do líder. — Fez uma pausa e disse: — Comando: intercomunicação, Martin.

 

Sachs sorriu para si mesma. Ele usava o mesmo sistema de reconhecimento de voz que Rhyme empregava.

 

— Sim, Andrew? — disse uma voz vinda de uma pequena caixa sobre a escrivaninha.

 

— Quero que Tom, o da segurança, e Sam venham aqui. Eles estão no Círculo Espiritual?

 

— Não, Andrew, mas Sam provavelmente ficará em Washington a semana inteira. Só voltará na sexta-feira. Mas Mark, assistente dele, está em sua sala.

 

— Então mande Mark.

 

— Sim, senhor.

 

— Comando: intercomunicação, desconectar. — Voltando-se para Sachs, falou: — Eles devem chegar em um instante.

 

Ela imaginou que as pessoas apareciam rapidamente quando eram chamadas por Andrew Sterling. O diretor executivo fez mais algumas anotações enquanto Sachs olhava o logotipo da companhia na parede. Quando ele terminou de escrever, ela indagou:

 

— Estou curiosa com aquilo. A torre e a janela. O que significam?

 

— Superficialmente, representam apenas a observação de dados, mas existe um segundo significado. — Ele sorriu, satisfeito em dar a explicação. — Conhece o conceito da janela quebrada, na filosofia social?

 

— Não.

 

— Aprendi há alguns anos e nunca mais esqueci. A essência é que, para aperfeiçoar a sociedade, é preciso concentrar-se nas pequenas coisas. Se você as controlar, ou as consertar, as mudanças maiores ocorrerão. Por exemplo, um projeto habitacional que tenha problemas de alta criminalidade. Você pode gastar milhões de dólares com um maior número de patrulhas policiais e câmeras de segurança, mas se os conjuntos residenciais ainda tiverem aparência desleixada e perigosa, continuarão desleixados e perigosos. Em vez de milhões de dólares, é melhor gastar alguns milhares consertando as janelas, pintando as paredes, limpando os corredores. Pode até parecer simplesmente estético, mas as pessoas notarão. Terão orgulho do lugar onde moram e começarão a denunciar as pessoas que constituem ameaças e que não cuidam do que lhes pertence. Tenho certeza de que a senhora sabe que essa foi a essência da prevenção ao crime em Nova York na década de 1990. E deu certo.

 

— Andrew? — chamou a voz de Martin, no intercomunicador. — Tom e Mark estão aqui fora.

 

— Mande-os entrar — ordenou Sterling, colocando diretamente diante de si a folha de papel na qual acabara de tomar notas. Sorriu para Sachs com certa gravidade.

 

— Vamos ver se alguém está espreitando pela nossa janela.

 

A CAMPAINHA SOOU E THOM abriu a porta para um homem que devia ter pouco mais de 30 anos, de cabelos castanhos desarrumados, vestindo jeans e camiseta do cantor Weird Al Yankovic, e um casaco marrom bastante surrado por cima.

 

Não é possível fazer pesquisa criminal hoje em dia sem saber trabalhar com o computador, mas tanto Rhyme quanto Cooper conheciam as próprias limitações. Quando ficou claro que o caso de 522 tinha ramificações no campo da informática, Sellitto pediu auxílio à Unidade de Crimes Digitais do Departamento de Polícia de Nova York, um grupo de elite composto de 32 detetives e pessoal de apoio.

 

— Oi — saudou Rodney Szarnek ao entrar na sala, encarando o monitor mais próximo como se o cumprimento fosse dirigido ao aparelho. Da mesma forma, ao olhar para Rhyme, não demonstrou o menor interesse pela condição física do detetive, apenas pela unidade de controle de ambiente sem fio ligada ao braço da cadeira de rodas. Parecia estar impressionado.

 

— Hoje é seu dia de folga? — perguntou Sellitto, olhando as roupas do outro e deixando claro, pelo tom de voz, que não as aprovava. Rhyme sabia que o colega era conservador e achava que os policiais deviam vestir-se de maneira adequada.

 

— Dia de folga? — questionou Szarnek, sem entender a reprovação. — Não. Por que eu teria um dia de folga?

 

— Perguntei por perguntar.

 

— Hum. Então, qual é o jogo agora?

 

— Precisamos montar uma armadilha.

 

A teoria de Lincoln Rhyme sobre entrar na SSD e simplesmente perguntar se havia algum assassino não era tão ingênua quanto parecia. Ao ver na internet que a divisão PublicSure da empresa dava apoio a Departamentos de Polícia, ele imaginou que o de Nova York provavelmente seria usuário daquela tecnologia. Se fosse o caso, o assassino teria acesso aos arquivos policiais, e uma rápida conversa ao telefone revelou que o DPNY era mesmo um dos clientes. O PublicSure e os consultores da SSD forneciam serviços de gerenciamento de dados ao governo da cidade, inclusive a consolidação de informações, relatórios e registros para cada caso. Se um patrulheiro de rua precisasse verificar um mandado de busca, ou se um detetive novato em homicídios precisasse de um histórico de casos, o PublicSure auxiliava na busca para que a informação chegasse em poucos minutos à escrivaninha ou ao computador da viatura, e até mesmo ao palmtop ou celular.

 

Com a ida de Sachs e Pulaski à empresa para perguntar quem poderia ter acessado os arquivos de dados sobre as vítimas e os inocentes incriminados, 522 poderia ficar sabendo que eles estavam à sua procura e tentar entrar no sistema do departamento de polícia por meio do PublicSure para ler os relatórios. Se isso acontecesse, eles poderiam descobrir quem havia entrado nos arquivos.

 

Rhyme explicou a situação a Szarnek, que meneou positivamente a cabeça, como se todos os dias preparasse uma armadilha como aquela. Ficou surpreso, no entanto, ao saber o nome da empresa à qual o assassino poderia estar ligado.

 

— A SSD? Maior mineradora de dados do mundo. Eles sabem de tudo sobre todos os filhos de Deus.

 

— Isso é um problema?

 

Por um momento, a máscara de geek descolado caiu.

 

— Espero que não — respondeu suavemente.

 

Começou então a trabalhar na armadilha, explicando o que estava fazendo. Tirou dos arquivos todos os detalhes sobre o caso que não deveriam cair nas mãos de 522 e transferiu manualmente esses arquivos confidenciais para um computador sem acesso à internet. Em seguida, colocou um programa de rastreamento visual com alarme diante do arquivo “Myra Weinburg — Homicídio com agressão sexual” no servidor do DPNY, acrescentando outros subarquivos para atrair o assassino, tais como “Paradeiro dos suspeitos”, “Análise criminológica” e “Testemunhas”, todos os quais continham somente anotações gerais sobre procedimentos de cena de crime. Se alguém os acessasse, fosse por invasão ou por meio de canais autorizados, Szarnek receberia uma notificação com o provedor de internet da pessoa e sua localização física. Assim, poderiam saber imediatamente se quem estivesse consultando o arquivo era um policial legítimo buscando uma resposta ou alguém fora da polícia. Neste último caso, Szarnek notificaria Rhyme ou Sellitto, que mandariam imediatamente uma equipe ao local. Szarnek acrescentou também grande quantidade de material e de dados complementares, como a informação pública sobre a SSD, mas sempre em código, para fazer com que o assassino passasse muito tempo ligado no sistema, decifrando os dados e fornecendo à polícia uma chance melhor de encontrá-lo.

 

— Quanto tempo isso vai levar?

 

— Quinze ou vinte minutos.

 

— Ótimo. E quando você acabar, também quero saber se alguém de fora poderia ter invadido.

 

— Invadido o sistema da SSD?

 

— Isso.

 

— Bem, eles têm firewalls nos firewalls dos firewalls.

 

— Mesmo assim, precisamos saber.

 

— Mas se algum dos funcionários da SSD for o assassino, presumo que o senhor não queira que eu ligue para a empresa e me coordene com eles, certo?

 

— Correto.

 

A expressão de Szarnek tornou-se sombria.

 

— Vou tentar invadir, então.

 

— Pode fazer isso legalmente?

 

— Sim e não. Vou apenas experimentar as barreiras de segurança. Não estarei cometendo um crime caso não entre realmente no sistema deles e não o derrube, criando um incidente embaraçoso que acabe nos jornais e que leve nós todos para a cadeia. — Fez uma pausa e acrescentou, a ameaça pairando em suas palavras: — Ou coisa pior.

 

— Está bem, mas primeiro quero que você monte a armadilha, o mais rápido possível. — Rhyme olhou o relógio. Sachs e Pulaski já estariam espalhando a notícia do caso na Rocha Cinzenta.

 

Szarnek tirou da mochila um pesado laptop e colocou-o sobre uma mesa próxima.

 

— Será possível tomar um... ora, obrigado.

 

Thom já ia trazendo a chaleira e as xícaras.

 

— É exatamente o que eu ia pedir. Muito açúcar, sem leite. Uma vez geek, sempre geek, mesmo quando se é policial. Se tem um hábito que eu nunca tive, é esse tal de sono. — Encheu a xícara de açúcar, mexeu e tomou metade, com Thom parado diante dele. O ajudante serviu novamente o café. — Obrigado. Bem, o que temos aqui? — prosseguiu, olhando a mesa de trabalho de Cooper. — Nossa.

 

— Que foi?

 

— Você está rodando com um modem a cabo, com 1,5 MBP? Só pra constar, hoje em dia fazem telas de computador a cores, e existe um negócio chamado internet.

 

— Muito engraçado — resmungou Rhyme.

 

— Volte a falar comigo quando resolvermos o caso. Posso fazer umas modificações e reajustar a LAN, colocar um FE.

 

Weird Al, AI, FE, LAN...

 

Szarnek colocou óculos de lentes escuras, conectou seu computador ao de Rhyme e começou a digitar. Rhyme notou que certas letras estavam bastante gastas e que o touchpad tinha manchas fortes de suor. O teclado parecia estar coberto de migalhas.

 

Sellitto olhou para Rhyme como quem diz: existe louco para tudo.

 

O primeiro dos dois homens a entrar no escritório de Andrew era magro, de meia-idade e rosto inescrutável. Parecia um policial aposentado. O outro, mais jovem e mais cauteloso, tinha a aparência típica de executivo ainda no início da carreira. Parecia o irmão loiro daquela comédia da TV, Frasier.

 

Quanto ao primeiro, Sachs quase acertara; não tinha sido policial, mas era ex-agente do FBI e agora chefiava a segurança da SSD. Chamava-se Tom O’Day. O segundo era Mark Whitcomb, subchefe do Departamento de Conformidade.

 

Sterling explicou:

 

— Tom e os rapazes da segurança cuidam para que ninguém de fora faça algo que nos prejudique. Já o departamento de Mark garante que nós não façamos nada de errado contra o público em geral. Nós trabalhamos em um campo minado. Tenho certeza de que a pesquisa que vocês fizeram sobre a SSD mostrou que estamos sujeitos a centenas de leis estaduais e federais sobre privacidade: o Ato Graham-Leach-Bliley sobre uso indevido de informações pessoais, o Ato de Registros Honestos de Crédito, o Ato de Responsabilidade sobre Titularidade de Seguros Médicos, o Ato de Proteção da Privacidade dos Motoristas e muitas leis estaduais. O Departamento de Conformidade assegura que nós tenhamos pleno conhecimento das regras e nos mantenhamos dentro delas.

 

Ótimo, pensou Sachs. Aqueles dois seriam as pessoas ideais para espalhar a notícia da investigação sobre 522 e estimulá-lo a vir farejar a armadilha que estava sendo montada no servidor do DPNY.

 

Rabiscando num bloco de notas amarelo, Mark Whitcomb disse:

 

— Nós fazemos o possível para não sermos os personagens principais quando Michael Moore fizer um filme sobre empresas fornecedoras de dados.

 

— Não diga isso nem brincando — interrompeu Sterling, rindo, mas com a preocupação estampada no rosto. Em seguida perguntou a Sachs: — Posso dizer a eles o que a senhora me contou?

 

— Claro que sim, por favor.

 

Sterling fez um relato correto e sucinto. Tinha registrado tudo o que ela dissera, até mesmo as marcas dos diversos artigos usados como prova.

 

Whitcomb franzia a testa enquanto ouvia. O’Day prestou atenção em silêncio e sem sorrir. Sachs estava convencida de que, para ele, a discrição típica do FBI não foi um comportamento aprendido, e sim algo que veio de berço.

 

— Portanto, esse é o problema que enfrentamos — disse Sterling, com firmeza. — Se houver qualquer maneira de a SSD estar envolvida, quero saber de tudo e quero soluções. Identificamos quatro possíveis fontes de risco. Hackers, invasores, funcionários e clientes. O que vocês acham?

 

O ex-agente O’Day voltou-se para Sachs.

 

— Bem, vamos tratar primeiro dos hackers. Nós temos os melhores firewalls existentes, superiores aos da Microsoft e da Sun. Usamos ICS baseados fora de Boston para a segurança da internet. Nós somos como patos em um jogo de tiro ao alvo em um parque de diversão, todos os hackers do mundo adorariam nos derrubar. Desde que nos mudamos para Nova York, há vários anos, ninguém conseguiu essa proeza. Alguns chegaram a entrar em nossos serviços administrativos durante dez ou quinze minutos, mas nunca houve uma brecha no innerCircle, e isso é o que o seu suspeito teria que fazer para encontrar a informação necessária para cometer esses crimes. Além disso, não poderia entrar por uma única brecha; teria que atacar pelo menos três ou quatro servidores diferentes.

 

— Também seria impossível para um invasor externo — acrescentou Sterling. — As proteções físicas de nosso perímetro são as mesmas usadas pela Agência de Segurança Nacional. Temos quinze seguranças em tempo integral e vinte em meio-expediente. Além disso, nenhum visitante conseguiria chegar perto dos servidores do innerCircle. Registramos por escrito todos os que entram em nosso edifício e não deixamos ninguém caminhar desacompanhado, nem mesmo os clientes.

 

Sachs e Pulaski tinham sido escoltados até o saguão principal por um desses seguranças, um jovem de cara soturna que não deixou de vigiá-los constantemente, embora soubesse que eram policiais.

 

— Tivemos um incidente, há cerca de três anos, mas desde então nada mais aconteceu — completou O’Day, que então olhou para Sterling e disse: — O repórter.

 

O diretor executivo fez que sim.

 

— Foi um repórter de um dos jornais sensacionalistas da cidade. Estava preparando um artigo sobre roubo de identidade e achou que nós éramos a encarnação do demônio. A Axciom e a Choicepoint tiveram o bom-senso de não permitir a entrada dele em suas sedes. Eu sou partidário da liberdade de imprensa, por isso o recebi. Ele foi ao banheiro e afirmou que tinha se perdido. Voltou ao meu escritório com uma expressão muito alegre. Alguma coisa, porém, parecia estar errada. Nosso pessoal de segurança revistou a pasta dele e encontrou uma câmera fotográfica, na qual havia fotos de planos comerciais protegidos por sigilo profissional e até mesmo senhas.

 

— O repórter não apenas perdeu o emprego como foi processado com base nos dispositivos criminais sobre invasão de propriedade — completou O’Day. — Ficou seis meses preso na penitenciária do estado e, até onde sei, não conseguiu mais trabalho fixo como jornalista.

 

Sterling inclinou ligeiramente a cabeça e disse a Sachs:

 

— Nós levamos a segurança muito a sério.

 

Um jovem surgiu à porta. Inicialmente ela pensou que fosse Martin, o assistente, mas logo percebeu que era por causa da semelhança do porte físico e do terno preto.

 

— Andrew, desculpe interromper.

 

— Ah, Jeremy.

 

Era o segundo assistente. Ele reparou no uniforme de Pulaski e olhou para Sachs. Em seguida, assim como Martin, ao perceber que não estava sendo apresentado, passou a ignorar todos os presentes, com exceção de seu chefe.

 

— Preciso falar com Carpenter hoje — avisou Sterling.

 

— Sim, Andrew.

 

— E quanto aos funcionários? — perguntou Sachs, assim que o funcionário saiu. — O senhor teve problemas disciplinares com alguém?

 

— Nós verificamos a fundo o histórico do nosso pessoal. Eu não libero a contratação de ninguém que tenha tido alguma condenação, a não ser por infrações de trânsito. A verificação de antecedentes é uma de nossas especialidades. Mas mesmo que algum funcionário pretendesse entrar no innerCircle, seria impossível roubar dados. Mark, fale das celas.

 

— Pois não, Andrew — disse Mark, voltando-se para Sachs. — Nós temos “firewalls” de concreto aqui.

 

— Desculpe, eu não entendo jargões técnicos — falou Sachs.

 

— Não, não, isso não tem nada a ver com tecnologia — Whitcomb riu. — Concreto de verdade, como o das paredes e pisos. Quando recebemos os dados, nós os dividimos e armazenamos em lugares fisicamente separados. A senhora entenderá melhor se eu explicar como funciona a SSD. Partimos da premissa de que os dados são nosso principal bem. Se alguém conseguisse duplicar o innerCircle, estaríamos arruinados em uma semana. Por isso, a regra número um é “proteger nossos bens”, como dizemos aqui. Certo, mas de onde vêm todos esses dados? De milhares de fontes: empresas de cartões de crédito, bancos, repartições governamentais, lojas de varejo, operações on-line, funcionários de tribunais, departamentos de trânsito, hospitais, companhias de seguros. Consideramos que cada acontecimento que cria dados é uma transação, e isso pode ser uma chamada para um 0800, o registro de um carro, um pedido de seguro de saúde, o início de um processo judicial, um nascimento, um casamento, uma compra, a devolução de uma mercadoria, uma queixa... Em sua esfera de atividade, uma transação poderia ser um estupro, um assalto, um homicídio, qualquer crime. Da mesma forma, a abertura de um inquérito, a seleção de um júri, um julgamento, uma condenação.

 

— No momento em que um dado sobre uma transação chega à SSD, segue inicialmente para o Centro de Entrada, onde é avaliada — completou Whitcomb. — Por questões de segurança, mascaramos os dados, isto é, separamos o nome da pessoa e atribuímos um código.

 

— O número de inscrição na Previdência Social?

 

Por um instante, alguma emoção passou pelo rosto de Sterling.

 

— Não, não. Esse número foi criado somente para as contas de aposentadoria do governo, muito tempo atrás. Foi por acaso que passou a servir de identificação. É inexato, fácil de ser roubado ou comprado. E é perigoso, como manter em casa uma pistola carregada e destravada. Nosso código é um número de dezesseis dígitos. Noventa e oito por cento dos norte-americanos adultos possuem códigos da SSD. Atualmente, qualquer criança cujo nascimento seja registrado na América do Norte recebe um código da SSD.

 

— Por que dezesseis dígitos? — perguntou Pulaski.

 

— Isso nos dá margem para expansão — explicou Sterling. — Nunca tivemos que nos preocupar que os números se esgotem. Somos capazes de atribuir quase um quintilhão de códigos. Antes que a SSD esgote os números, o espaço vital estará esgotado na Terra. Os códigos tornam nosso sistema muito mais seguro e o processamento de dados é muito mais rápido do que se usássemos nomes ou o número de previdência social. Da mesma forma, o uso do código neutraliza o elemento humano e livra a equação de qualquer preconceito. Psicologicamente, todos temos opiniões sobre Adolf, Britney, Shaquilla ou Diego, antes mesmo de os conhecermos, por causa do nome. O número elimina esse preconceito e aumenta a eficiência. Por favor, continue, Mark.

 

— Pois não, Andrew. Tão logo o nome é substituído pelo código, o Centro de Entrada avalia a transação, decide a categoria a que pertence e o envia a uma ou mais de três áreas distintas, nossas celas de dados. A cela A é onde ficam guardadas as informações sobre a vida pessoal. A cela B é a financeira. Ali ficam o histórico salarial, os dados bancários, relatórios de crédito e de seguros. Na cela C armazenamos os dados públicos: arquivos e registros governamentais.

 

— A partir daí, os dados são depurados — completou Sterling, mais uma vez tomando a palavra. — Limpamos as impurezas e uniformizamos a apresentação. Por exemplo, em alguns formulários seu sexo aparece com um F, em outros “feminino”, por extenso. Outras vezes o sexo é designado com um algarismo, 1 ou 0. É preciso ser uniforme. Além disso, eliminamos os ruídos, os dados impuros. Podem ser errôneos, demasiadamente minuciosos ou conter poucos detalhes. O ruído significa contaminação, e a contaminação precisa ser eliminada. — Sterling pronunciou aquelas palavras com firmeza, novamente demonstrando emoção. — Os dados depurados ficam guardados nas celas até que um cliente precise de um vidente, de uma previsão do futuro.

 

— Como assim? — perguntou Pulaski.

 

— Nos anos 1970, os softwares de base de dados forneciam às empresas uma análise do desempenho passado — explicou Sterling. — Nos anos 1990, os dados mostravam qual era a performance a cada momento dado. Era mais útil. Agora, somos capazes de prever o que os consumidores irão fazer e orientar nossos clientes para que tirem partido disso.

 

— Nesse caso, vocês não estão apenas prevendo o futuro; estão tentando modificá-lo.

 

— Exatamente. Mas que outro motivo existe para consultar um vidente?

 

O olhar dele era tranquilo, com uma expressão de quase divertimento. Sachs, porém, sentia-se pouco à vontade, pensando no incidente da véspera com o agente federal no Brooklyn. Era como se 522 tivesse feito exatamente o que ele descrevera: como se tivesse previsto um tiroteio entre ambos.

 

Sterling fez um gesto para Whitcomb, que prosseguiu:

 

— Muito bem. Então os dados que não contêm nomes, e sim apenas números, seguem para essas celas diferentes, em andares diferentes e em zonas de segurança diferentes. Os funcionários da cela de registros públicos não têm acesso aos dados da cela da vida pessoal e nem aos da cela financeira. Tampouco ninguém que trabalhe nas celas pode acessar os dados do Centro de Entrada e ligar os nomes e endereços aos códigos de dezesseis dígitos.

 

— Foi isso o que Tom quis dizer quando observou que um hac