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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MORTE E O SEU MISTÉRIO V.1° Camille Flammarion
A MORTE E O SEU MISTÉRIO V.1° Camille Flammarion

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

I - PODE SER ATUALMENTE RESOLVIDO O MAIOR DOS PROBLEMAS

II - O MATERIALISMO

Doutrina errônea, incompleta e insuficiente.

III - QUE E O HOMEM? EXISTE A ALMA?

IV - FACULDADES SUPRANORMAIS DA ALMA, DESCONHECIDAS OU POUCO ESTUDADAS, PROVANDO A SUA EXISTENCIA INDEPENDENTE DO ORGANISMO MATERIAL.

Pressentimentos. Adivinhações. Premonições. Sensações em sonhos. Chamadas misteriosas.

V - A VONTADE AGINDO SEM A PALAVRA E SEM QUALQUER SINAL, E A DISTANCIA.

Magnetismo - Hipnotismo - Sugestão mental - Auto-sugestão 

VI - A TELEPATIA

As transmissões psíquicas à distância. - Vista e audição telepáticas

VII - A VISTA SEM OS OLHOS, PELO ESPÍRITO, FORA DAS TRANSMISSÕES TELEPÁTICAS - A LUCIDEZ

VIII - ISTO DOS ACONTECIMENTOS FUTUROS. - O FUTURO PRESENTE - O JA VISTO

IX - CONHECIMENTO DO FUTURO

O fatalismo. - O determinismo e o livre arbítrio. - Problema do tempo e do espaço

 

 

 

 

 

I - PODE SER ATUALMENTE RESOLVIDO O MAIOR DOS PROBLEMAS

 

Resolvo-me a oferecer hoje à atenção dos homens que pensam uma obra começada há mais de meio século, apesar de ela me não satisfazer completamente. O método científico experimental, o único que vale para a pesquisa da verdade, tem exigências a que não podem nem devemos eximir-nos O grave problema exposto neste ensaio é o mais complexo de todos os problemas e participa tanto da constituição geral do Universo como da do ser humano, microcosmo no grande todo.

E nas horas da mocidade que se empreendem estes estudos sem fim, porque de nada se duvida e temos diante de nós uma longa vida em perspectiva; mas a vida mais longa passa como um sonho, com suas luzes e suas sombras. Se podemos desejar alguma coisa de melhor e útil no curso desta existência, é o de servir da algum modo ao progresso lento, mas todavia real da Humanidade, essa raça bizarra, crédula e céptica, indiferente e curiosa, boa e má, virtuosa e criminosa, aliás incoerente e ignorante no seu conjunto, saída apenas dos casulos da crisálida animal.

Quando foram publicadas as primeiras edições do meu livro A Pluralidade dos Mundos Habitados (1862-1864), certo número de leitores pareceu aguardar a sua natural continuação aparente: A Pluralidade da Existência da Alma. Se o primeiro problema foi julgado resolvido pelos meus trabalhos seguintes (Astronomia Popular, O Planeta Marte, Urânia, Lúmen, Esteia, Sonhos Estrelados, etc.), o segundo ainda o não está (1) e a sobrevivência da alma, seja no espaço, seja-nos outros mundos, seja pelas reencarnações terrestres, põe sempre diante de nós o mais formidável dos pontos de interrogação.

Átomo pensante, levado sobre um átomo material através das imensidades da Via-Láctea, o homem pode perguntar a si mesmo se existe pelo espírito tão insignificante como pelo corpo, se a lei do Progresso não o deve elevar numa ascensão indefinida e se há um sistema do mundo moral harmoniosamente associado ao sistema do mundo físico.

O espírito não será superior à matéria? Qual é a nossa verdadeira natureza? Qual é o nosso futuro destino? Somos apenas chamas efêmeras brilhando um instante antes de nos extinguirmos para sempre?          Não tornaremos mais a ver os que amamos e que nos precederam no túmulo? As separações são eternas? Tudo se extingue em nós? Se alguma coisa fica, em que se torna esse elemento imponderável, invisível, mas consciente, que constituiria a nossa duradoura personalidade? Sobreviverá muito tempo? Sobreviverá para sempre?

Ser ou não ser? Eis a grande, a eterna questão, formulada pelos filósofos, os pensadores, os pesquisadores de todos os tempos e de todas as crenças. A morte será um fim ou uma transformação? Existem provas, testemunhos da sobrevivência do ser humano após a destruição do organismo vivo? Até hoje, o assunto tem permanecido fora do quadro das observações científicas. Será permitido tratá-lo pelos princípios do método experimental, ao qual a Humanidade deve todos os progressos realizados pela Ciência? Será lógica esta tentativa? Estaremos diante dos arcanos de um mundo invisível diferente daquele que cai sob os nossos sentidos e é impenetrável aos nossos meios de investigação positiva? Não será possível ensaiar, procurar, se certos fatos, correta e escrupulosamente observados, são suscetíveis de serem analisados cientificamente e aceitos como reais pela crítica mais severa? Dispensemos mais frases, mais metafísica. Aos fatos! Aos fatos!

Trata-se da nossa sorte, do nosso destino, do nosso futuro pessoal, da nossa existência.

Não é somente a razão fria que indaga; não é somente o espírito; é também o sentimento; é também o coração.

E' pueril e pode parecer vaidoso que eu entre em cena; mas é algumas vezes difícil abster-me e, como é sobretudo para responder às dores de corações ulcerados que tenho prosseguido nestas pesquisas laboriosas, parece-me que o prefácio mais lógico deste livro seria oferecido por algumas das inumeráveis confidencias que tenho recebido durante meio século, para reclamar angustiosamente a solução do mistério.

Aqueles que nunca viram morrer um ente adorado, não conhecem a dor, não caíram no abismo do desespero, não tropeçaram com a porta fechada do túmulo. Quer-se saber, e um muro impenetrável ergue-se inexoravelmente diante do pavor. Tenho recebido centenas de adjurações às quais quisera poder dar resposta. Devo tornar conhecidas estas confidências?... Hesitei muito tempo... Mas são tão numerosas, representam com tanta sinceridade o intenso desejo de chegar a uma conclusão, que o meu caminho está traçado, visto tratar-se do interesse geral. Tais manifestações são a introdução natural desta obra, pois foram elas que me determinaram a escrevê-la. Peço desculpa, entretanto, de reproduzir estas páginas sem as modificar, pois se revelam o estado da alma dos seres sensíveis que as conceberam, exprimem a meu respeito conceitos elogiosos cuja publicação neste lugar poderia dar ensejo a crer-se numa falta de modéstia da minha parte. Isto não passa de particularidade pessoal, e, portanto, insignificante, tanto mais que um astrônomo, que se considera átomo diante do Universo infinito e eterno, é inacessível e: hermeticamente fechado às sensações da vaidade mundana. Os que me conhecem já me julgaram, a este respeito, faz longos anos.

A minha absoluta indiferença por todas as honrarias prova-o suficientemente.

Que me chamem grande ou pequeno, que me louvem ou que me censurem, sou espectador longínquo desses atos.

A seguinte carta foi escrita por desolada mãe, e transcrita textualmente. Ela mostra quanto seria desejável tentar, ao menos, aliviara miséria da Humanidade sofredora. Mais do que a medicina do corpo, é a medicina da alma que se deveria criar.

 

AO NOSSO GRANDE FLAMMARION

Reinosa (Espanha), 30 de Março de 1907.

 

Senhor:

Quisera ajoelhar-me diante do senhor e beijar-lhe os pés, pedindo que me ouça e que não repila a minha súplica. Não sei nem posso exprimir-me; desejava inspirar-lhe lástima, interessá-lo na minha dor, mas era preciso vê-lo, contar-lhe a minha desgraça, pintar-lhe o horror do que se passa em minha alma, e então não lhe seria possível deixar de sentir imensa compaixão. E' necessário que eu padeça muito para chegai a cometer um ato de audácia e de indiscrição que parece uma loucura! Como me lembrei de dirigir-me ao nosso ilustre Flammarion para pedir-lhe que console uma desconhecida que não tem outro titulo a sua benevolência senão o de compatriota? E' porque sofro! Venho de perder um filho, o meu único filho. Sou viúva e toda a minha felicidade consistia nesse filho e numa filha. Para que me pudesse compreender, Senhor Flammarion, seria preciso que tenha conhecido o filho adorado que acabo de perder e que eu lhe descrevesse os trinta e três anos de sua existência.

Condenado por todos os médicos célebres de Madrid e de Paris, na idade de cinco anos, em virtude duma coxalgia, sacrifica, eu e meu pobre marido, uma bela situação em Madrid, retirando-nos para triste campina espanhola, a fim de salvarmos a idolatrada criança. Esteve doente durante oito anos e ficou coxo! Quanto me custou de cuidados, de aflições, de noites de insônia, de angústias, de sacrifícios, é impossível dizer! Mas como era gentil! Criado num carrinho, coberto de carícias e de beijos, era a criança mais adorável que se podia sonhar! Ah! essa infância! Se ela perdurasse ainda! Aos doze anos já não sofria da perna, mas não podia andar sem muletas. Que pesar para mim, que o havia dado ã vida, forte e bem constituído! Mais tarde, aos dezessete anos, caminhava com uma única muleta e uma bengala. Aos vinte, era o mais belo moço que se possa imaginar. Se não temesse ser ousada, enviar-lhe-ia o retrato, para lhe mostrar que o amor materno nada exagera. O seu encanto subjugava toda a gente. Possuía esse dom de agradar que não se explica nem se define! Homens, mulheres, crianças, velhos e novos, deixavam-se seduzir por qualquer coisa inexplicável, que irradiava da sua pessoa. Em toda parte onde fosse com ele, recebia felicitações pela beleza e pela bondade de meu filho! Invejavam-no'. Porque era tão belo como bom. Em sua alma tudo era nobreza, grandeza, generosidade.

Inteligente, espirituoso, de caráter igual e terno, a vida com ele era um sonho celeste, um perpétuo encantamento! E poderá avaliar-lhe o mérito, Senhor Flammarion, quando eu lhe disser que aos vinte anos teve uma cistite - provavelmente um retrocesso à sua primeira doença - que foi o ponto de partida de longa série de sofrimentos, dos quais só o inferno dará idéia! Não posso compreender que Deus, nosso Criador, permita que a carne humana seja assim martirizada Sobretudo, quando esse martírio é imposto a um ser inocente e bom como era meu filho.

Todos os grandes especialistas foram novamente consultados; mas, infelizmente! Nenhum o pôde curar. Passou treze anos em alternativas de melhorar e piorar, conservando, no meio de dores atrozes, a mesma igualdade de caráter, a mesma doçura, a mesma bondade e a alegria de sempre, para não entristecer os outros.

Fazia quatro anos que pouco sofria; e o ano passado encontrava-se tão bem que se julgara curado! Desde a morte de meu pobre marido, falecido em 1902, que meu filho era o chefe de nossa pequena família: mãe, irmã e ele. Como éramos felizes! Ainda que obrigados a trabalhar para angariarmos o nosso pão, a vida parecia-nos tão bela! Minha filha não quis casar-se para se consagrar inteiramente ao irmão, a quem adorava. Via os meus dois filhos amarem-se tanto que não receava a morte, certa de que seriam inseparáveis, vivendo um para o outro.

Que lhe dizer senhor, da ternura de meu filho para sua mãe e da desta por seu filho? Procure no Céu, entre os anjos, lá bem alto, nesses mundos onde a sua vista penetra tudo o que a ternura pode produzir de mais suave, de melhor, e terá, perfeita idéia do amor filial e do amor materno desses dois entes! Nem quero pensar nisso! Não ouso lembrar-me dos olhos, da voz de meu filho quando, fitando-me, dizia: Querida mãe!

O ano passado, em Agosto, propuseram-lhe visitar uma mina (ele se interessava por esses negócios e deles se ocupava havia algum tempo) e quis levar-me com ele. Chegados a certo sítio, diseram-nos que era preciso montar a cavalo para chegarmos até ã mina. A principio recusei, sabendo que a equitação lhe era proibida devido ao sofrimento da bexiga; mas meu filho me garantiu que poderia fazer esse trajeto sem perigo; hesitei, parlamentou-se; cedi.

Ah! não ser possível remediar o mal praticado!... Essa excursão fatigou tanto meu filho que ele adoeceu com febre gástrica. Entregue aos cuidados de médicos ignorantes e estúpidos que não conheceram os seus estado e levaram meses a dizer que não era nada, um tumor invadiu-lhe a bexiga e, não podendo as membranas suportar essa prova, ela rebentou!

Os suplícios do inferno nada são comparáveis às torturas experimentadas por meu infortunado filho! Foi chamado um cirurgião célebre; chegaram vinte e duas horas depois do acidente, quando o enfermo já estava prestes a partir para o outro mundo!

Foi operado, mas era tarde. O infeliz sobreviveu treze dias ã operação; o cirurgião só lhe dava vinte e quatro horas de vida. Compreendendo, porém, a dor de sua mãe e de sua irmã, resistiu, lutou corajosamente, apesar de tudo. Ah! que treze dias, senhor! Durante esse tempo, deu-nos a medida da grandeza de sua alma.

Não pensando senão em nós, nas conseqüências da sua morte para as duas mulheres que ficavam sós, sem apoio em terra estranha, a chorar eternamente o filho adorado, um irmão, procurou por todos os meios suavizar a crueldade desta situação. O que nos disse nesses momentos supremos não é de um moço de trinta e três anos, mas de um santo, de um anjo, de um ente sobre-humano! Oh! aquele rosto torturado pelos sofrimentos! Aqueles olhos que pareciam ver alguma coisa do Além!

E a sua boca, contraída pela dor, procurando ainda Sorrir; a sua mão apertando a minha, enquanto me dizia: 'Adeus, mãe querida! adeus! Amava-te tanto! Não te esqueças de mim!

Senhor todo poderoso, dizia ele, não deste maior cruz a teu filho que era Deus, do que a mim que sou um pobre homem! A morte! A morte por piedade! Se me quereis, mãe, pedi a Deus que me envie a morte!

E foi assim durante treze dias.

O Flammarion! tenha compaixão de mim! Em nome de sua, mãe, seja misericordioso! Estou louca de dor. Há trinta e dois dias que ele morreu e, depois disso, não consegui dormir dez horas. À noite, fico de pé até as quatro da manhã, e quando, vencida pelo cansaço, me deito, vestida, no meu leito e fecho os olhos, a idéia fixa continua durante o penoso sono; não perco a lucidez um só minuto e, quando abro os olhos, experimento a obsessão que perdura durante o dia. E' tão assustador o que sinto, e tão atroz, que a mim mesmo pergunto se o inferno não será preferível ao que sofro!

E possível que seja Deus o criador de seres destinados a suportar semelhantes misérias?

O senhor, astrônomo e pensador, que pesa os sóis e os mundos e cuja vista penetram nessas regiões misteriosas onde o nosso espírito se perde, oh! Diga-me, suplicá-lo de joelhos, se as almas sobrevivem se posso conservar a esperança de tornar a ver meu filho e se ele me vê! Existirá algum meio de comunicar com ele?

Ao senhor, que sabe tantas coisas sobre o céu, sobre os Espíritos, sobre as maravilhas do Universo, peço, por piedade, que me diga uma palavra que deixe um raio de esperança, por fraco que seja, no meu coração despedaçado, magoado, martirizado! Não pode compreender o excesso da minha dor! Quisera morrer dela, e assim o espero, mas... Minha filha implora-me que viva que a não deixe só no mundo, e vejo-me obrigada a viver e a sofrer! Que horror! Quando penso que num só instante podia pôr fim a este suplício!... Se fosse possível pesar a dor, medi-la como 0 senhor media os mundos, seria tal o peso da minha, tamanha a extensão, que o assustaria pensar que uma alma possa atingir tal grau de tormento. E' preciso que haja para isso alguma coisa de infernal no meu destino! Nem ferros em brasa, nem tenazes de tortura são capazes de produzir semelhantes sofrimentos! Meu filho, meu filho adorado! Desejo vê-lo. Não quero o Céu sem ele! Oh! Meu Emmanuel, idolatrado filho das minhas entranhas! Alegria da minha vida! Felicidade de mãe, para sempre perdida! Há um Deus? Será ele quem permite estes horrores sobre a Terra? Por piedade, Senhor Flammarion, em nome dos que ama e que o amam, não seja insensível à maior dor humana que jamais supliciou um coração; diga-me alguma coisa, o senhor que possui o segredo dos céus! Que muito sabe, pois nós, simples mortais, não o sabemos nem o compreendemos. Diga-me se as almas sobrevivem em alguma parte, se elas se recordam, se elas amam ainda os que ficam na Terra, se nos vêem, se podemos chamá-las para junto de nós!

Ah! Se pudesse visitá-lo e ajoelhar a seus pés! Perdoe este proceder insensato; estou louca de dor, não sei se sonho ou se estou acordada! Sei que sinto uma dor aguda que parece ferro em brasa posto sobre uma chaga!

Perdoe Senhor Flammarion! Os seus sóis, as suas estrelas, tão belas e maravilhosas, não sofrem, não sentem, e eu sinto uma dor maior que todos os mundos que se agitam no espaço! Ser tão pequena coisa, tão miúda, e, entretanto sentir uma dor tão intolerável! Que é isso? Que mistério é esse? Um ser tão fraco, tão limitado e... Sofrer tanto!

Perdoe mais uma vez, Mestre, em nome de sua mãe! Perdoe-me e tenha compaixão de sua infeliz compatriota.

VIUVA N. BOFFARD

(Reinosa (Espanha), Província de Santander.).

 

 

Aí está a carta angustiada que reproduzo textualmente para mostrar todo o horror de semelhante situação. Que me desculpem, mais uma vez, as expressões ditirâmbicas que me dizem respeito. A única significação que têm é a de fazerem sentir com exatidão essas dores imensas, duplicadas pela esperança ardente de se verem dissipar as trevas.

Seria preciso ter um coração de pedra para não nos comovermos, até às lágrimas, diante dessas súplicas lancinantes do amor materno, para ficarmos surdos ante a angústia de tais desesperos e para não experimentarmos o desejo ardente de consagrar a vida a dar-lhes remédio.

Os padres recebem diariamente suplicações desta ordem, porque são considerados ministros de Leus, dotados do poder de penetrar o enigma do sobrenatural e de resolvê-lo. Respondem a essas dores levando-lhes os confortos da Religião. O sacerdote afirma em nome da Fé, da Revelação; mas a fé não se impõe nem é tão geralmente aceita quanto se imagina. Conheço padres, bispos, cardeais que a não têm, apesar de a indicarem como benefício social. Há, na Terra, umas cinqüenta religiões diferentes, úteis talvez, mas inaceitáveis sob o ponto de vista filosófico. Em face dos espetáculos que acabamos de relembrar, poderão seus ministros convencer-nos de que um Deus bom e justo rege a Humanidade? O homem de ciência não se senta nem no confessionário nem na cátedra evangélica e só pode dizer o que sabe. É, antes de tudo, leal, franco, independente, racional. O seu dever é estudar, pesquisar. Procuramos ainda e não afirmamos ter encontrado e muito menos ter recebido do Céu a revelação da Verdade. Foi tudo quanto pude responder à desconhecida, dando-lhe a esperança de tornar a ver um dia seu filho e de ficar doravante em relação espiritual com ele. Quanto eu estimaria levar à sua alma uma convicção libertadora! Mas não tenho, como Augusto Comte, Saint-Simon ou Enfim, a ilusão de ser o grande sacerdote de uma nova religião. Entretanto, não há dúvida de que a religião universal do futuro será fundada na Ciência e em particular na Astronomia associada aos conhecimentos psíquicos.

Procuremos humildemente e todos juntos. Perdoem-me ainda por reproduzir as linhas elogiosas desta epístola: mas suprimi-las seria suprimir ao mesmo tempo a expressão dessa angústia, dessa confiança e dessa fé.

A morte de um filho inspirou a carta precedente. A de uma filha ditou a seguinte:

Theil-sur-Vanne, Novembro, 1899.

 

Mestre:

Tenho a honra de conhecê-lo suficientemente pelas suas obras, para saber que é bom e para esperar, embora me não conheça o seu assentimento em ler-me com indulgência e que se compadecera moralmente com a minha desgraça, concedendo-me o socorro espiritual de que tanto preciso.

Em 19 de Setembro findo passei pela dor terrível de perder uma encantadora criança de dezesseis anos e meio, de grande inteligência, de esquisita delicadeza de sentimento. E como era bela!

Pensávamos que tínhamos diante de nós uma criatura imaterial, tanto o seu corpo casto era de ninfa como o seu rosto angélico eram idealmente lindos.

A minha queridinha. Com seus magníficos olhos azuis, tão expressivos, franjados de pestanas negras, assim como as sobrancelhas tão delicadamente arqueadas, o nariz um pouco longo, fino, direito, a boca talvez grande, mas de expressão tão meiga, o rosto de oval tão harmonioso, uma tez de lírio branco! , Gentil covinha no mento imprimia destaque ao seu sorriso, iluminando-lhe o rosto ordinariamente bastante sério.

Esplêndidos cabelos louros castanhos, anelados naturalmente e finamente encrespados qual musgo de ouro, ornavam-lhe a fronte virginal; as orelhas, mimosas conchas escondidas nos cabelos, eram ninhos de beijos em que jamais pousarei os lábios ávidos de ternura...

Minha filha bem-amada já não vive meus olhos nunca mais descansarão amorosamente no seu rosto adorado, só a posso chorar.

Tantas perfeições morais e físicas aniquiladas brutalmente, estupidamente, cruelmente, barbaramente! A morte desapiedada tudo me roubou. A minha Renata estremecida partiu e eu vivo.        A vida...           Que terrível galé!...

Com ela acabaram as nossas interessantes conversas, os nossos colóquios sobre as questões mais abstratas do Além, pois minha filha, apesar de moça, era pensadora, uma preciosa amiga, a minha confidente e minha companheira amada Era tudo para mim, essa bela flor ceifada antes ai desabrochar. Por quê? Que problema!

Depois da sua morte, pensei muitas vezes no suicídio para reunir a ela... , mas (seria intuição de seu próximo fim?) na véspera de expirar, disse, beijando-me com carinho: A mamã não se hão de suicidar; devemos esperar, não é assim?Fiquei surpreendida e só compreendi tudo no dia seguinte, quando, branca como um lírio admirável, ela fechou seus belos olhos para sempre, dando-me um último beijo.

Ah! Este beijo derradeiro! Pós nele o resto de sua vida. Sinto-o sempre. Que momentos!... Que torturas!

Hora suprema e inolvidável, que revivo sempre! Amo o meu sofrimento. Vejo a minha querida morta que havia adivinhado o meu desespero: ela quis que eu ficasse, para chorá-la. O meu pesar é feito de saudades estéreis, de decepção amarga, de revolta contra todos e tudo; barafusto contra o próprio Deus que me levou mais do que mil vezes a vida. Agora, só posso viver da recordação de minha filha, meu pensamento constante, meu culto, minha adoração.

Quisera encontrar, se isso fosse possível, uma suavização à minha dor, no Espiritismo; refugiar-me nele com fé, esperança e amor...

Mas sou bem pouco iniciada neste estudo.

Meu marido e eu temos tentado a experiência da mesa, sem resultado, apesar de empregarmos todos os esforços para conseguir, colocando nela o retrato de nossa querida filha, um anel de seus cabelos, uma página de sua escrita, e de termos evocado com toda a força de nossa vontade. Mas as nossas lágrimas, os nossos apelos, os nossos desejos, tudo foi inútil! Quero continuar, perseverar, e é com esse fim, caro e ilustre Mestre, que lhe suplico o seu auxilio.

Ainda existe aquela cuja vida em flor foi tão brutalmente ceifada, que era tão pura, que teve apenas o tempo de amar sua mãe?

Sua mamãe, palavra tão doce na sua querida boca! Eu era demasiadamente feliz! Há quanto tempo já que não ouço o suave som da sua voz! Para ouvi-lo ainda, daria de bom grado os anos que me restam de vida.

Desejo avidamente ter provas da sobrevivência da alma querida e bela de minha adorada Pilha, saber, sobretudo se ela pode comunicar comigo. Se alcançasse esta felicidade, dirigida pelo meu caro Mestre, tal fonte perene de consolação seria para mim indizível. Confundi-lo-ia no mesmo pensamento com minha filha e Deus. A leitura das suas obras admiráveis sugeriu-me o pensamento de por em si as minhas esperanças, com a certeza de que pode satisfazer o que lhe peço, e a confiança em que acolherá favoravelmente a súplica duma pobre mãe que exulta à esperança de tornar a encontrar sua filha desaparecida e não morta. Seja benévolo para esta mãe triste e ignorante. Já que possui a luz, alumie-a, socorra-a na sua miséria moral: é a mais bela esmola que lhe pode fazer.

O meu grande desejo de aprofundar esses mistérios não é vã curiosidade: é necessidade poderosa, real, única, da qual só a morte me poderá libertar. Aguardo, com confiança, mas também com impaciência, a sua resposta, e, se assim o julga conveniente, irei de boa vontade a Paris, ou a outro qualquer sítio que me designar.

Digne-se, senhor e ilustre sábio, receberem os meus agradecimentos antecipados e os melhores sentimentos da sua humilde criada.

  1. PRIMAULT (2)

Reproduzi exatamente esta carta, como a precedente, sem eliminar os termos elogiosas a meu respeito, porque, como já disseram em outro lugar, as sensações de vaidades pueris são-me desconhecidas, e, além disso, estou acostumado, há mais de meio século, a louvores que me deixam indiferente. A convicção absoluta de um astrônomo é a de que somos apenas átomos da última insignificância. Todavia, essas expressões de admiração de leitores a um autor, seja ele quem for, justificam a confiança e a fé exprimidas e devem ser respeitadas.

A lealdade científica obriga-nos a dizer só o que sabemos. Não devemos enganar ninguém, nem mesmo na melhor das intenções e com o fim de oferecermos uma satisfação transitória. Não pude dar à pobre mãe uma certeza absoluta. Foi há vinte anos. Desde essa época, não interromperam as minhas pesquisas. Este livro é escrito para expor os resultados do meu trabalho.

Tomei a liberdade de reproduzir, textualmente também, a carta tão terna da minha correspondente desconhecida, porque é a expressão da dor de todas as mães que perderam o seu filho, de todos os que perderam um ente querido e para os quais até o nome de bom Deus parece um insulto à realidade. Explica-se perfeitamente a revolta dessas almas. Possuo muitas outras cartas mais severas ainda para as falsas consolações religiosas, as quais me foram dirigidas por católicos, protestantes, judeus, espiritualistas de todas as crenças, livres-pensadores, materialistas, ateus, aproveitando as injustiças observadas para negarem a existência dum Princípio inteligente na organização do mundo. Os homens consolam-se muitas vezes pelo cepticismo, pela submissão ao irrevogável, pela verificação da indiferença da Natureza para com as impressões humanas. As mulheres não. Essas não se resignam. Não aceitam o Nada. Sentem que há quaisquer coisas de desconhecido, mas de real. Querem saber.

E raro passar-se uma semana sem que eu receba cartas deste gênero. Mas, qual é a inteligência universal? Somos inclinados a imaginar que Deus pensa como nós, que o nosso sentimento da justiça está de acordo com o dele, que o seu pensamento é da mesma natureza que o nosso, apesar de infinitamente superior. E' talvez outra coisa. O inseto pensa pesadamente quando se transforma em crisálida e quando rompe este invólucro para abrir as asas que acaba de adquirir; o nosso pensamento está presumivelmente tão longe do de Deus como o da lagarta o está do nosso.

Encontramo-nos em pleno mistério! Mas o nosso dever é de o perscrutar.

Durante a infame guerra alemã que suprimiu na flor da idade uns quinze milhões de homens, com direito à vida, criados pelos pais, pelas mães, muitas vezes à custa de sacrifícios enormes, recebi centenas de cartas acusando a injustiça e a barbaria das instituições humanas, lastimando que o ódio pela Guerra, que um grupo de amigos da Humanidade prega há tanto tempo, não tenha sido compreendido pelos governantes, revoltando-se contra Deus que permite estas pavorosas destruições, e declarando as suas existências despedaçadas para sempre, pelos lutos irreparáveis.

Mais que nunca, o problema atroz dos destinos ergue-se diante de nós.

Será verdadeiramente insolúvel? O véu não poderá afastar-se, levantar-se mesmo ligeiramente?

Ah! As religiões, apesar de terem todas por origem esta necessidade das nossas almas, este desejo de conhecer, a dor de ver diante de si o cadáver mudo de um ente querido, não nos deram as provas que prometiam. As mais belas dissertações teológicas nada comprovam. Não são frases que queremos, são fatos demonstrativos. A morte é o maior problema que jamais tem ocupado o pensamento dos homens, o problema supremo de todos os tempos e de todos os povos. Ela é fim inevitável para o qual nos dirigimos todos; faz parte da lei das nossas existências sob o mesmo título que o do nascimento. Tanto uma como outro são duas transições fatais na evolução geral, e, entretanto a morte, tão natural como o nascimento, parece-nos contra a Natureza.

A esperança na continuação da vida é inata na alma humana; é de todos os tempos e de todos os países. A cultura das ciências nada tem com esta crença universal, que repousa em aspirações pessoais e não se apóia em bases positivas.

Eis aí um fato cuja averiguação tem seu valor.

O sentimento não é uma quantidade omissível, igual a zero, seu coeficiente científico.

As duas comunicações já reproduzidas pertencem a uma série começada há muito tempo e que os meus leitores conhecem. O número das cartas recebidas, aceita e inscritas nesta coleção de documentos, de observações, de pesquisas, de perguntas motivadas, eleva-se, no meu registro, desde o inquérito começado em 1899 (ver minha obra <O Desconhecido e os Problemas Psíquicos, página 90) até Julho de 1919, à cifra de 4.106, à qual devo acrescentar aproximadamente 500 recebidas antes do inquérito. Poderia citar aqui algumas centenas, análogas às duas precedentes. Eis aqui outra que há de, sob outro aspecto, surpreender mais de um leitor. E' uma súplica veemente que me foi endereçada de La Rochelle, em 15 de Agosto de 1904. E' um pouco grosseira, mas publico-a integralmente, como as anteriores.

Grande Irmão,

Meus olhos sofrem de cataratas, mas é preciso que lhe escreva. Sou um céptico, um zombeteador empedernido, mas necessito crer em alguma coisa. Uma terrível catástrofe, irreparável, acaba de destruir quatro existências. Minha filha, cujo encanto, índole, gracilidade haviam seduzido toda a cidade de Rochefort, em 1902, desde as mães das rivais às próprias rivais para o casamento, acaba de seguir para o manicômio em Niort, onde vai aguardar a morte... Foi uma agonia de dezoito meses para a mártir e para sua pobre mãe, que a levou a Paris, Bordéus, Saujon, onde especialistas ambiciosos mostraram a incapacidade radical de sua pretensa ciência. E aqui estou sozinho com meu filho, vitima da mesma catástrofe. A idéia do suicídio persegue-me. O meu cérebro repete o estribilho: sua filha está doida. E penso nas misérias gerais, no imenso logro que é a vida para a maioria das criaturas. Trazemos, ao nascer, a tara dos nossos ascendentes (com que direito se metem nisto?). Qual será a nossa personalidade paralisada, afundada na espessa massa carnal? Pelo seu jogo molecular, pelo exemplo da educação dos parentes, pela linha de vida obrigatória, pelas condições da situação física e moral dos pais, essa ganga seria então a poderosa diretriz da personagem que acaba de encarnar-se, ou antes, de fundir-se num agregado de que será escrava por toda a vida. Que quer dizer tudo isto?

As asneiras e as imbecilidades declamadas nos púlpitos da igreja acabaram por me revoltar. Apenas quero crer em qualquer coisa de aceitável. Os espíritas, com sua credulidade ingênua, são também tolos. Serviram-me páginas de Pitágoras, Buda, Abelardo, Fénélon, Robespierre, que não têm senso comum. E' grotesco.

Há trinta e três anos que não lia. O drama que me feriu levou-me a ler alguns livros em que esperava encontrar o que procuro.

Enfim, eis O Desconhecido!

Confesso-lhe que o religiosamente. Admito em princípio as manifestações e aparições que o senhor assinala principalmente as que foram entendidas por animais, como por exemplo, à história do gato da Dra. Maria de Tilo (página 166). O medo do gato, que viu o fantasma, parece ser uma excitação de natureza elétrica. Mas, o senhor, meu Grande Irmão, porque não vê aí senão moribundos?

Nada prova que o último suspiro, o último pensamento humano daquele que se vai sejam a causa de manifestações, produzidas sem ciência dele. Não se tratará, pelo contrário, dum primeiro passo no Além, no momento da ruptura carnal? Pertenço seguramente a grande multidão dos seus amigos desconhecidos, daqueles que simpatizam com o senhor.

Eles esperam, agora, um livro definitivo que concluirá as suas investigações psíquicas. Os Espíritos? Os médiuns? Que tem verificado cientificamente com o seu método de astrônomo, de matemático, para o qual 2 e 2 são 4 e não 5? Numa palavra, com a sua autoridade unanimemente reconhecida, a que ponto chegou?

Queremos sabê-lo! E' a um homem como o senhor (isto sem lisonjas) que cabe esclarecer tantas inteligências ávidas, sedentas. Não se decidirá? Tem a obrigação de nada poupar para isso. Que serviço prestará, escrevendo este livro leal e concludente! Basta de prédicas evangélicas, de dissertações de médiuns, de neuroses e de subterfúgios. Suplicam-lhe que diga o que sabe!

(Carta 1. 465.)

Compreender-se-á que eu não revele a assinatura desta carta, de que é autor um alto funcionário do Estado. Compreender também que não tenha publicado esta obra a mais tempo, aguardando que ela estivesse à altura do grave assunto de que trata.

Já havia sido principiada quando recebi esta súplica, em 1904; fora mesmo em 1861, como se pode verificar pelas minhas Memórias. Estas obras não se redigem num ano.

De resto, não é um livro só que tive de compor em resposta a estes pedidos; é uma dezena! Sairão um dia à luz? Trabalhando neles há um quarto de século, estão em via de conclusão.

Mas comecemos por este.

Os leitores das minhas obras muito me auxiliaram nesta pesquisa, enviando-me, desde há muito, observações de natureza a preparar uma solução reclamada talvez com demasiada confiança.

Possa os nossos esforços dar em resultado que seja projetada alguma luz nas trevas seculares do problema da morte!

 

*

 

Na minha infância, durante as lições de Filosofia e de Instrução Religiosa dada na sala de estudos, ouvia freqüentemente um discurso periódico, tendo por tema estas quatro palavras: Porro unam est necessarium; em português: uma só coisa é necessária. Esta coisa única era a salvação da nossa alma. O orador, o professor, falava-nos das guerras de Alexandre, de César, de Napoleão, e concluía: De que serve ao homem conquistar o Universo, se acaba perdendo a alma?

Descreviam-nos também as labaredas do inferno e aterravam-nos com quadros medonhos onde os danados eram torturados pelos demônios num fogo inextinguível que os queimava sem consumi-los - e isto eternamente. Sejam quais forem às crenças, estes argumentos, tomado como texto, tem o seu valor. E' incontestável que o único ponto realmente capital para nós é o de saber o que nos está reservado depois de soltarmos o último suspiro. To be or not to be!: Ser ou não ser! A cena de Hamlet no cemitério repete-se todos os dias. A vida do pensador é a meditação da morte.

Se as existências humanas não conduzem a nada, que comédia é esta? Quer a encaremos ou quer afastemos a sua imagem, a Morte é o desenlace supremo da Vida. Não querer estudá-la é uma puerilidade infantil, porque o precipício está diante de nós e nele cairemos, um dia, inexoravelmente. Imaginarmos que o problema é insondável, que nada podemos saber que perdemos o nosso tempo - e com curiosidade um pouco temerária - procurando ver claro, é uma desculpa ditada por preguiça absurda e por temor injustificado.

Os aspectos fúnebres da morte provêm principalmente do que a cerca, do luto que a acompanha, das cerimônias religiosas que a envolvem, do Dies irae, do De profundis. Quem sabe se o desespero dos sobreviventes não daria lugar à esperança, se tivéssemos a coragem de examinar esta última fase da vida terrestre, esta transformação, com o mesmo cuidado que consagramos a uma observação astronômica ou psicológica? Quem sabe se às preces dos agonizantes não sucederia a serenidade do arco-íris depois da tormenta?

E' difícil não desejar resposta ao formidável ponto de interrogação que se ergue diante de nós, quando pensamos em nosso próprio destino e quando a morte cruel nos arrebata um ente querido.

Como não perguntar se tornará a encontrar-nos ou se é eterna a separação? Existe um Deus bom? A injustiça, as maldades dominam a marcha da Humanidade, sem nenhum respeito pelos sentimentos de coração com que nos dotou a Natureza? Que será esta Natureza? Tem ela uma vontade, um fim? Haverá mais espírito, justiça, bondade, idéias, em nossos ínfimos cérebros do que no Universo imenso? Quantos problemas associados ao mesmo enigma!

Morremos: nada mais certo. Quando a Terra onde estamos tiver dado umas cem voltas ao redor do Sol, nenhum de nós, caros leitores, será já deste mundo.

Devemos temer a morte por nós ou pelos que amamos?

O terror da morte é uma palavra sem sentido.

De duas coisas uma: ou morremos definitivamente, ou continuamos a existir para além do túmulo. Se morrermos inteiramente, nada saberemos, jamais, acerca disso, e, por conseqüência, não o sentiremos. Se continuarmos a existir, o assunto merece examinado.

Que o nosso corpo acaba, um dia, de viver, não há dúvida alguma; ele se dissociará em milhões de moléculas que se incorporarão, em seguida, em outros organismos, plantas, animais e homens; a ressurreição dos corpos é um dogma obsoleto que ninguém pode aceitar. Se o nosso pensamento, a nossa entidade psíquica, sobrevive à decomposição do organismo material, teremos a alegria de continuar a viver, pois que a vida consciente continuará também sob outra forma de existência, superior a esta, sendo o progresso a lei da Natureza e manifestando-se em toda a história da Terra, único planeta que podemos estudar diretamente.

Sobre este grande problema podemos dizer com Marco Aurélio: Que é a morte? Considerando-a em si mesma, e separando-a das imagens de que a cercamos, vê-se que não passa de simples obra da Natureza. Ora, quem tem receio de uma obra da Natureza é uma criança. s Bacon repetiu o mesmo pensamento quando disse:

A pompa da morte assusta mais do que a própria morte.

O que temos a fazer escrevia ainda o sábio imperador romano, é esperar a morte de coração plácido e não ver nela mais do que uma dissolução dos elementos que compõem cada ser. Isto é conforme a Natureza: ora, nunca é mau o que é conforme a Natureza.

Mas o estoicismo de Epíteto, de Marco Aurélio, dos Árabes, dos Muçulmanos, dos Budistas, não nos satisfaz. Queremos saber. Além disso, afirmar que a Natureza nunca procede mal é uma proposição discutível. Todo homem que pensa não pode deixar de ser perturbado, nas suas horas de meditações pessoais, por esta perspectiva: Que será feito de mim? Morrerei inteiramente?

Disse-se, não sem razão aparente, que havia nisso, da nossa parte, obra de ingênua vaidade. Atribuímo-nos certa importância; imaginamos que seria um desastre se cessássemos de existir; supomos que Deus deve ocupar-se de nós, e que não somos, na Criação, uma quantidade que se possa desprezar. Decerto, sob o ponto de vista astronômico, não somos grande coisa, e a Humanidade inteira mesmo não tem também grande importância. Não devemos, portanto raciocinar hoje como no tempo de Pascal; os sistemas geocêntrico e antropocêntrico caíram.

Átomos perdidos sobre um átomo igualmente perdido no infinito! Mas afinal existimos, pensamos, e desde que os homens pensam sempre se preocuparam com as mesmas questões, às quais as religiões mais diversas pretenderam responder, sem nenhuma delas o ter conseguido.

O mistério diante do quais tantos altares e tantas estátuas de deuses foram levantados conserva-se ainda tão formidável como nos tempos dos Assírios, dos Caldaicos, dos Egípcios, dos Gregos, dos Romanos, dos Cristãos da Idade Média. Os deuses antropomorfos e antropófagos foram derruídos. As religiões desapareceram, mas a religião fica: pesquisa as condições da imortalidade. Somos aniquilados pela morte, ou continuamos a existir?

Francisco Bacon (mais popular e mais célebre do que Roger Bacon, mas que não possuía o seu gênio) havia previsto, ao expor os fundamentos do método cientifico experimental, o triunfo progressivo da observação e da experiência, a vitória do fato judiciosamente comprovado sobre as idéias teóricas, para todos os domínios dos estudos humanos, menos o das coisas divinas, do sobrenatural que abandonou à autoridade religiosa e à Fé.

Isto era um erro (partilhado ainda atualmente por certo número de sábios). Não há razão valiosa para não estudar tudo, para não sujeitar tudo ao critério da análise positiva, e nunca se há de saber senão o que se aprendeu. Se a Teologia se enganou quando pretendeu que esses estudos lhe eram reservados, a Ciência enganou-se identicamente, desdenhando-os como indignos dela ou alheios à sua missão.

O problema da imortalidade da alma não recebeu ainda solução positiva da ciência moderna, mas também não recebeu como por vezes se pretende uma solução negativa:

Em geral se pensa que o enigma da esfinge de além-túmulo está fora da nossa alçada e que o espírito humano não tem o poder de penetrar este segredo... Entretanto, não há outro assunto que lhe toque de mais perto do que este. Como não havemos de interessar-nos pela nossa própria sorte?

O estudo perseverante deste grande problema leva-nos a pensar hoje que o mistério da morte é menos obscuro e sombrio do que se acreditava até agora, e que ele pode iluminar-se, aos olhos do nosso espírito, de certas claridades reais e experimentais que não existiam há meio século. Não deve causar admiração o fato de se ver as pesquisas psíquicas ligadas às pesquisas astronômicas. E' o mesmo problema. O universo físico e o universo moral são um apenas. A Astronomia foi sempre associada à Religião. As ignorâncias da ciência antiga, baseada nas aparências enganadoras, tiveram suas conseqüências inevitáveis nas crenças errôneas de outrora; o céu teológico deve harmonizar-se com o céu astronômico, sob pena de decadência. O dever de todo homem honesto é o de procurar lealmente a verdade.

Na época atual, de livre discussão, a ciência pode estudar tranqüilamente, em plena independência, o mais grave dos problemas.

Havemos de lembrar-nos, não sem azedume, de que durante os séculos intolerantes da Inquisição, essas pesquisas do livre pensamento levaram os seus apóstolos ao cadafalso. Milhares de homens foram queimados vivos pelas suas opiniões: a estátua de Giordano Bruno faz-nos relembrar deles na própria Roma... Passaremos nós diante dela, ou diante da de Savonarola, em Florença, ou da de etienne Dolet, em Paris, sem sentirmos um calafrio de horror contra a intolerância religiosa? E Vaníni, queimado em Tolosa? E Miguel Servet, queimado por Calvino em Genebra? Etc.etc.

Afirmou-se o que se ignorava; foi imposto silêncio aos pesquisadores. Eis o que atrasou o progresso das ciências psíquicas. Sem dúvida este estudo não é indispensável à vida prática. Em geral os homens são estúpidos. Não há um que pense, entre cem. Vivem na Terra sem saber onde estão e sem a curiosidade de o perguntarem a si mesmos. São brutos que comem, bebem, gozam, se reproduzem, dormem e se ocupam principalmente de ganhar dinheiro. Tive a grande satisfação, durante uma carreira já longa, de difundir entre as diversas classes da Humanidade inteira, em todos os países e em todas as línguas, as noções essenciais dos conhecimentos astronômicos e estou em situação de apreciar a estatística dos seres que se interessa por conhecer o mundo que habitam e por formar uma idéia rudimentar das maravilhas da Criação. Nas dezesseis centenas de milhões de seres humanos que povoam o nosso planeta, existe aproximadamente um milhão nestas condições, isto é, um milhão de homens que lêem as obras de Astronomia por curiosidade ou por outro qualquer motivo. Quanto aos que estudam e se iniciam pessoalmente na ciência, pondo-se a par das descobertas pela leitura das revistas especializadas e anuários, o seu número calcula-se em cinqüenta mil, em todo o mundo, sendo seis mil franceses.

Pode concluir-se que há um ser humano entre anil e seiscentos que sabe, de modo vago, em que mundo habita, e um, em cento e sessenta mil, que o conhece bem.

Quanto ao ensino primário e secundário, escolas, colégios, liceus (laicos ou culturais), em matéria astronômica, o resultado é este: - nada ou quase nada. Em psicologia positiva, nada igualmente. A ignorância universal é a lei da nossa Humanidade terrestre desde o seu nascimento simiesco.

As deploráveis condições da vida em nosso planeta, a obrigação de comer, as necessidades da existência material, explicam a indiferença filosófica dos habitantes da Terra, sem desculpá-los inteiramente; pois milhões de homens e mulheres dispõem de tempo suficiente para distrações fúteis, para ler folhetins e romances, jogar as cartas, sentar-se à mesa dos cafés, preocupar-se com os negócios alheios, continuar a história antiga da palha e da viga, espiar e criticar em torno de si, fazer politicagem, encher as igrejas e os teatros, sustentar as lojas de luxo, fatigar as costureiras e as modistas, etc.

A ignorância universal deriva do pobre individualismo humano que se basta a si mesmo. Viver pelo espírito não é necessário a ninguém ou pouco menos. Os pensadores constituem a exceção. Se essas investigações nos levam a ocupar melhor o nosso espírito, a saber o que viemos fazer a Terra, poderemos estar satisfeitos com tal trabalho, porque, realmente, a vida da Humanidade terrestre parece bem obtusa.

O habitante da Terra é ainda tão estúpido e tão animal, que até agora, e em toda a parte, foi à força brutal quem fundou o Direito e que o manteve; que o principal ministério de cada nação é o ministério da guerra; e que os nove décimos dos recursos financeiros dos povos são consagrados às matanças periódicas internacionais.

E a morte continua a reger soberanamente os destinos da Humanidade.

Na realidade, a soberana é ela... O seu cetro nunca exerceu um poder dominador com violência tão feroz e tão selvagem como nestes últimos anos. Derrubando milhões de homens nos campos de batalha, fez surgir milhões de pontos de interrogação, dirigidos ao destino. Estudemos este fim supremo. E' assunto digno da nossa atenção.

 

*

 

O plano desta obra é traçado pelo próprio fim a que visa: Certificar-se das provas positivas da sobrevivência. Nela não se encontrarão nem dissertações literárias, nem belas frases poéticas, nem teorias mais ou menos cativantes, nem hipóteses, mas unicamente fatos observados, com suas deduções lógicas.

Morremos inteiramente? Eis a questão. Que fica de nós? Dizer, pensar que a nossa imortalidade consiste em nossos descendentes, em nossas obras, no progresso que podemos trazer à Humanidade, é puro gracejo. Se morrermos de todo, nada saberemos dos serviços que prestamos e, por outro lado, o nosso planeta acabará e a Humanidade perecerá. Tudo será, pois, aniquilado.

Para saber se a alma sobrevive ao corpo, é necessário saber primeiro se ela existe independentemente do organismo físico.        Devemos, pois, estabelecer esta existência sobre as bases científicas da observação positiva, e não sobre belas frases ou em argumentos ontológicos com os quais as teologias de todos os tempos se contentaram até agora. E em primeiro lugar teremos de dar-nos conta da insuficiência das teorias fisiológicas geralmente aceitas e classicamente ensinadas.

 

 

II

 

O MATERIALISMO

 

Doutrina errônea, incompleta e insuficiente.

 

“Desconfiemos das aparências.”

COPÉRNICO

 

 

Todos conhecemos a Filosofia Positiva de Augusto Comte e a sua judiciosa classificação das ciências, descendo gradualmente do Universo ao Homem, da Astronomia à Biologia.

Ninguém desconhece também Littré, continuador de Augusto Comte. O seu Dicionário encontra-se em todas as bibliotecas e as suas obras. Foram difundidas por toda à parte. Conheci-o pessoalmente (3). Era um homem eminente, sábio, enciclopedista, pensador profundo, aliás, materialista e ateu convicto e absolutamente sincero. A estética do seu rosto não correspondia à beleza de sua alma. Era difícil vê-lo sem pensarmos em nossa origem simiesca, e, entretanto o seu espírito era da mais alta nobreza e o seu coração duma generosidade rara.

Morava perto do Observatório; sua esposa era muito devota: ele mesmo a acompanhava, aos domingos, à missa de S. Sulpício, por meiga e pura bondade e sem entrar na igreja. Le Dantec, ateu e materialista, que lhe sucedeu, teve exéquias religiosas para não magoar sua mulher, muito religiosa também, de quem se pode deplorar este último gesto. Preferir-se-ia que as companheiras da vida dos grandes homens pensassem como seus maridos. Este professor de ateísmo era igualmente muito bom. Tudo isto é bastante paradoxal. O mesmo se deu com Jules Soury, esse devorador de padres sepultado por eles, entre preces litúrgicas. A lógica não é deste mundo. Mas as doutrinas nem sempre orientam as obras. Pode-se ser católico praticante - e mentiroso, explorador do próximo, assim como se pode ser materialista - e perfeito homem de bem.

Conheci ainda o excelente Ernesto Renan que, por nobre sinceridade e para se libertar lealmente de toda hipocrisia, recusara o sacerdócio para o qual o levavam os seus estudos teológicos.

Estes eminentes espíritos são respeitáveis nas suas honestas convicções, que devemos respeitar como eles respeitaram as dos outros; mas podem-se discutir as suas idéias, e de resto nunca eles tiveram pretensões de infalibilidade.

Littré ocupou-se das questões psíquicas que temos em mira estudar neste livro. Tomaremos os seus argumentos, assim como os de Tainá, seu êmulo, por base das afirmações materialistas modernas. Não temamos combatê-las face a face.

Na sua obra A Ciência sob o ponto de vista filosófico encontram-se num capítulo sobre a fisiologia psíquica as seguintes declarações:

Talvez pareça insólita a expressão de fisiologia psíquica. Poderia escolher a de psicologia para designar o estudo das faculdades intelectuais e morais. Eu próprio já a empreguei muitas vezes e, devido ao uso comum que dela se faz, quando o texto não deixar nenhuma obscuridade no meu pensamento, Empregá-la-ei ainda. A raiz grega que a compõe, é, de fato, apropriada à Teologia e a Metapsíquica, mas também pode ser adaptado à Fisiologia, dando-lhe o sentido de conjunto das faculdades intelectuais e morais, locução muito longa e complexa para ser substituída com vantagem por uma expressão mais simples.

Entretanto, sendo certo que a Psicologia foi na sua origem e ainda é o estudo do espírito, considerado independentemente da substância nervosa, não devo nem quero servir-me de expressão que pertence a uma filosofia muito diferente daquela que empresta o seu nome às ciências positivas. Nestas ciências não se conhece nenhuma propriedade sem a matéria, não porque a priori se tenha a idéia preconcebida de que não existe qualquer substância espiritual independente, mas porque a posteriori jamais se encontrou a gravitação sem corpo pesado; o calor sem corpo quente; a eletricidade sem corpo elétrico; a afinidade sem substâncias de combinação, vida, sensibilidade; pensamento sem ser vivo, sensível e pensante.

Julguei necessário fazer figurar a palavra fisiologia no título deste trabalho. Bem podia servir-me da de fisiologia cerebral, mas esta envolve assunto mais vasto. O cérebro possui diversas formas de ação de que não pretendo ocupar-me, limitando-me à parte que ele tem na impressão de que resulta a noção do mundo exterior e do eu.

Eis o motivo por que escolhi a locução fisiologia psíquica ou mais concisamente psicofisiologia. Psíquico, isto é, relativo aos sentimentos e às idéias; fisiologia, isto é, formação e combinação destes sentimentos e destas idéias em relação à constituição e à função do cérebro. Não tenho a pretensão de introduzir uma nova expressão na ciência: tudo quanto aqui pretendo é, duma parte, limitar nitidamente o meu assunto, e doutra, inculcar que a descrição dos fenômenos psíquicos, com sua subordinação e seu encadeamento, é pura fisiologia e o estudo de uma função e de seus efeitos. Os progressos realizados pela Psicologia, pelo menos a que deriva da escola de Locke, que rompeu com as idéias inatas, aproximaram-na da Fisiologia. Quanto mais esta se deu conta da extensão do seu domínio, menos se assustou com os anátemas da Psicologia que interditava as altas especulações. Hoje não resta dúvida de que os fenômenos intelectuais e morais são fenômenos pertencentes ao tecido nervoso; que o caso humano não é senão um anel, embora o mais considerável, duma cadeia que se prolonga, sem limite bem nítido, até aos últimos animais; e que, sob qualquer título que se proceda, contanto que se empregue o método descritivo, de observação e de experiência, ser-se-á um fisiologista.

Não concebo uma fisiologia onde a teoria dos sentimentos e das idéias, no que ela tem de mais elevado, não ocupe grande lugar (4).

Esta é à base do sistema materialista da alma. Convido o leitor a pesar escrupulosamente este gênero de raciocínio.

Não devemos admitir a existência da alma porque não se conhece nenhuma propriedade sem matéria, porque jamais se encontrou a gravitação sem corpo pesado, calor sem corpo quente, eletricidade sem corpo elétrico, afinidade sem substâncias de combinação, a vida, a sensibilidade, o pensamento, sem ser vivo, sentindo e pensando.

Ora, só há neste raciocínio uma petição de princípio, fundada sobre a palavra propriedade.

Assimilar o pensamento à gravitação, ao calor, aos efeitos mecânicos, físicos, químicos, dos corpos materiais, é igualar duas coisas muito diferentes, que estão precisamente dentro da questão: o espírito e a matéria.

À vontade de um ser humano, mesmo a da criança, é pessoal, consciente, ao passo que a gravitação, o calor, a eletricidade, são impessoais, inconscientes, conseqüências de certos estados da matéria, fatais, cegas, essencialmente materiais por si mesmo. E' grande a diferença entre os dois objetos comparados: o dia e a noite.

O próprio raciocínio científico erra pela base. O calor, por exemplo, nem sempre provém de um corpo quente: o movimento, que não tem temperatura alguma, produz calor. O calor é um modo de movimento. A luz é também um modo de movimento. A natureza da eletricidade continua desconhecida.

Confesso que não sei explicar como um homem do valor de Littré, chefe da Escola Positivista, tenha aceitado este raciocínio, sem perceber que não havia nele mais do que uma petição de princípio, quase um trocadilho, pois esta argumentação baseia-se na palavra propriedade. O que seria preciso provar positivamente é que o pensamento é propriedade da substância nervosa, que o inconsciente pode produzir o consciente, o que é, em princípio, contraditório.

Não se ousaria comparar um pedaço de pau com um pedaço de mármore ou de metal, e compara-se tranqüilamente o espírito, a razão pensante, o sentimento da liberdade, da justiça, da bondade, à vontade, com uma função da substância orgânica! Taine assegura que o cérebro segrega o pensamento como o fígado segrega a bílis. Parece que nestas inteligências a sede do raciocínio é feita, de antemão, com a mesma cegueira que a dos teólogos. Não haverá nisto idéia preconcebida, convicção sistemática? Deixemos as palavras vãs, no começo desta discussão. Que é a matéria? Ë, sua opinião geral, o que nossos sentidos distinguem o que se vê o que se toca o que se pesa. Pois bem! As páginas seguintes vão demonstrar que existe no homem outra coisa além daquilo que se vê, se toca ou se pesa; que há no ser humano um elemento independente dos sentidos materiais, um princípio mental pessoal, que pensa, que quer, que atua, que se manifesta à distância, que vê sem olhos, escuta sem ouvidos, descobre o futuro ainda inexistente, revela fatos ignorados. Supor que esse elemento psíquico, invisível, intangível, imponderável, é lima propriedade do cérebro, é proclamar uma afirmação sem provas, um raciocínio contraditório em si mesmo, como se dissesse que o sal pode produzir açúcar e que os peixes podem ser cidadãos da terra firme. O que queremos mostrar, aqui, é que a própria observação positiva (não temos outro método além do de Littré, Taine, Le Dantec e outros professores do Materialismo, e repudiamos as teorias bizantinas de raciocínios sobre palavras, puras divagações) é, dizemos, que a observação dos fatos e a experiência provam que o ser humano não é somente um corpo material dotado de várias propriedades, mas também um ser psíquico, dotado de propriedades diferentes das do organismo animal.

Como puderam imaginar intelectuais eminentes, tais como Comte, Littré, Berthelot, que a realidade é circunscrita ao círculo de impressão de nossos sentidos, tão limitados e imperfeitos? Um peixe poderia acreditar que nada existe fora da água; um cão que fizesse uma classificação dos conhecimentos caninos classificá-los-ia não pela vista, como os homens, mas pelo olfato; um pombo correio observaria especialmente o sentido de orientação; uma formiga o sentido antenal, etc.

O espírito sobrepuja o corpo; os átomos não regem; são regidos. O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Universo inteiro, aos mundos que gravitam no espaço, aos vegetais, aos animais. A folha da árvore é organizada, um ovo fecundo é organizado. Esta organização é de ordem intelectual.

O espírito universal está em tudo; ele enche o mundo, e isto sem cérebro.

E' impossível analisar o mecanismo do olho e da visão, do ouvido e da audição, sem concluir que os órgãos visuais e auditivos são construídos com inteligência. Esta conclusão deriva com maior evidência ainda da análise da fecundação de uma planta, de um animal, de um ser humano. A evolução progressiva do ovo feminino fecundado, o papel da placenta, a vida do embrião e do feto, a criação deste pequeno ser no seio da mãe, a transformação orgânica da mulher, a formação do leite, o nascimento, a amamentação, o desenvolvimento físico e psíquico da criança, são outras tantas manifestações irrecusáveis de uma força diretriz inteligente, organizando tudo e dirigindo as mínimas moléculas com a mesma ordem que as esferas planetárias ou siderais na imensidade dos céus.

Este espírito não procede de um cérebro. Disse-se, com razão, que se Deus fez o homem à sua imagem, o homem por seu lado lhe pagou na mesma moeda.

Se os besouros imaginassem um criador, esse criador seria para eles um grande besouro.

O Deus antropomorfo dos hebreus, dos cristãos, dos muçulmanos, dos budistas, nunca existiu. Deus, Jeová, Júpiter, não são mais do que palavras simbólicas.

Se a geração é admiravelmente organizada sob o ponto de vista fisiológico, está longe da perfeição no que respeita às sensações da maternidade. Para que sofrimentos? Para que as dores atrozes do fim? A Igreja vê nisso o castigo da culpa de Eva. Que gracejo! Adão e Eva existiram? As fêmeas dos animais não sofrem? A Natureza pouco se preocupa com as épocas dolorosas da mulher e com a brutalidade da expulsão; peca certamente por falta de sensibilidade; o bom Deus não é meigo para as suas criaturas; nem sequer é humano, e as irmãs de caridade são melhores do que ele. Problema grave, apesar da certeza da existência do espírito na Natureza. Não compreendemos Deus, é evidente. Que prova isto? A nossa inferioridade espiritual.

Que o espírito, a inteligência, a ordem mental existem em tudo, é inegável. A ciência experimental detém-se no seu caminho quando ensina que todos os fenômenos do Universo se reduzem, em última análise, ao dualismo - matéria e movimento, ou mesmo ao monismo - matéria e propriedades. A História Natural, a Botânica, a Fisiologia Animal, a Antropologia, apresentam à observação um elemento distinto da matéria e do movimento: a vida.

O fisiologista Claude Bernard não nos mostrou já que a vida não é um produto das moléculas materiais? Além disso, o Universo manifesta-se-nos como dinamismo, pois o movimento é inerente aos próprios átomos, e este dinamismo não é de ordem material, porque há nele a organização de tudo: - seres e coisas (5).

A doutrina que faz do pensamento uma função cerebral, ou que vê entre o trabalho do cérebro e o do pensamento um paralelismo, uma equivalência, é totalmente insuficiente, podemos dizê-lo com o psicólogo Bérgson.

Ensina-se que as recordações são acumuladas no cérebro sob a forma de modificação impressa em tal ou tal grupo de elementos anatômicos. Desaparecem-se da memória é porque os elementos anatômicos, sobre que repousam, são alterados ou destruídos. As impressões deixadas pelos objetos exteriores subsistiriam no cérebro, como na placa sensibilizada ou no disco fonográfico. Estas comparações são verdadeiramente superficiais. Se a recordação visual de um objeto, por exemplo, fosse uma impressão causada por esse objeto sobre o cérebro, não haveria a recordação de um só objeto, mas de milhares de milhões deles, pois o objeto mais simples e mais estável muda de forma, de dimensão, de matizes, segundo o ponto de que se avista, a não ser que eu me condene a uma fixidez absoluta, contemplando-o. A menos que os vossos olhos se imobilizem nas suas órbitas, imagens inúmeras, de modo algum sobrepostas, desenhar-se-ão alternativamente em vossa retina e se transmitirão ao vosso cérebro. O que será, tratando-se da imagem visual de uma pessoa, cuja fisionomia muda, cujo corpo é móvel e de quem o vestuário e tudo quanto a rodeia varia cada vez que a vemos? E' incontestável, portanto, que a nossa consciência guarda em reserva uma imagem única, ou quase única, uma recordação praticamente invariável do objeto ou da pessoa, prova evidente de que houve outra coisa e bem diferente duma ação mecânica de registro. Outro tanto se pode observar quanta à recordação auditiva. A mesma palavra articulada por pessoas diferentes, ou pelo mesmo indivíduo, em momentos diferentes, em frases diferentes, dá-nos fonogramas que não coincidem entre si: como seria, pois, a recordação comparável a um fonograma? Esta única consideração bastaria para tornar suspeita a teoria que atribui as moléstias da memória das palavras à alteração ou à destruição das próprias recordações, registradas automaticamente pela película cerebral.

Mas vejamos, com o mesmo autor, o que se dá nestas moléstias.

Ali, onde a lesão cerebral é grave e onde a memória das palavras é atacada profundamente, acontece que uma excitação mais ou menos violenta, uma emoção, por exemplo, faz reaparecer repentinamente a recordação que parecia para sempre perdida. Seria isto possível se a recordação fosse depositada na matéria cerebral alterada ou destruída? As coisas produzem-se de preferência como se o cérebro servisse para lembrar a recordação e não conservá-la. O afásico torna-se incapaz de reencontrar a palavra quando tem necessidade dela: parece andar a volta, não possuir força suficiente para pôr a dedo no ponto preciso; no domínio psicológico, com efeito, o sinal externo da força é sempre a precisão. Mas a recordação parece estar ai; e às vezes, depois de substituir por perífrases a palavra que procurava em vão, o afásico emprega-a numa delas.

Reflitamos agora no que se dá na afasia progressiva, isto é, quando o esquecimento de vocábulos se vai agravando sempre. Em geral, as palavras desaparecem então numa ordem determinada, como se a doença conhecesse a gramática; eclipsam-se primeiro os nomes próprios, depois os nomes comuns, em seguida os adjetivos, e finalmente os verbos constituiriam outras tantas camadas sobrepostas, por assim dizer, e a lesão atingi-las-ia sucessivamente. Sim, mas a enfermidade pode derivar das causas mais diversas, tomar as formas mais variadas, começar num ponto da região cerebral interessada e progredir em qualquer direção: a ordem do desaparecimento das recordações fica sendo a mesma. Seria isto possível se a moléstia atacasse as próprias recordações?

Se a recordação não foi armazenada no cérebro, onde se conserva? A pergunta onde terá de resto um sentido quando se refere à outra coisa que não seja um corpo?

Os clichês conservam-se numa caixa, os cilindros fonográficos nas estantes; mas, por que razão as recordações, que não são coisas visíveis e tangíveis, necessitariam de um continente, e como poderiam tê-lo? Essas recordações existem noutra parte que não seja no espírito? Ora, o espírito humano é a própria consciência, e consciência significa, primeiramente, memórias (6).

Podemos dizer, com o eminente pensador, que tudo ocorre como se o corpo fora simplesmente utilizado pelo espírito. Por conseguinte, não há motivo para supor que o corpo e o espírito sejam inseparavelmente ligados um ao outro.

Eis aqui um cérebro que trabalha. Eis ali uma consciência que sente que pensa e que quer. Se o trabalho do cérebro correspondesse à totalidade da consciência, se houvesse equivalência entre o cerebral e o mental, a consciência poderia seguir os destinos do cérebro e a morte ser o fim de tudo: pelo menos, a experiência não diria o contrário, e o filósofo que afirma a sobrevivência teria de apoiar a sua tese em qualquer construção metafísica, base geralmente frágil. Mas, se a vida mental ultrapassa a vida central, se o cérebro se limita a traduzir por movimentos uma pequena parte do que se passa na consciência, a sobrevivência então se torna tão provável que a obrigação da prova caberá mais ao que nega do que ao que afirma, pois a única razão que possamos ter para admitir uma extinção da consciência depois da morte é a de que vemos o corpo desorganizar-se, e esta razão desvaloriza-se se a independência, pelo menos parcial, da consciência para com o corpo é, também, um fato de experiência.        

Bérgson, apesar de metafísico, parece mais positivo do que o físico Littré. O espírito não é a matéria. Não está demonstrado que a alma seja função do cérebro, propriedade da substância cerebral, destinada a morrer com ela.

Pergunta-se mesmo como é que uns raciocinados da envergadura de Taine, por exemplo, que aprecia no seu justo valor a concepção e a composição dum trabalho, o seu plano, a sua execução, e que escreveu precisamente um livro especial sobre a Inteligência, pode atribuir à criação duma obra filosófica à secreção duma combinação molecular das partes materiais constitutivas dum cérebro. A ação do espírito pessoal é aí tão evidente e irrecusável que é preciso uma verdadeira auto-sugestão sistemática para obscurecê-la.

O cérebro é o órgão do pensamento, sem dúvida alguma, e ninguém o contesta. Mas contrariamente ao que outrora ainda se admitia a totalidade do cérebro não é necessária ao pensamento nem à vida.

Aos exemplos extraídos das doenças da memória, que acabamos de relembrar, poderíamos acrescentar muitos outros que levam à mesma conclusão. O meu sábio amigo Edmond Perrier apresentou à Academia das Ciências, na sessão de 23 de Dezembro de 1913, uma observação do Dr. Róbson, respeitante a um homem que viveu um ano, quase sem sofrimento, sem nenhuma perturbação mental aparente, com o cérebro reduzido ao estado de papas, formando vasto abscesso purulento. Em Julho de 1914, o Doutor Hallopeau fez, na Sociedade de Cirurgia, a exposição de uma operação praticada no Hospital Necker numa rapariga caída do Metropolitano. Na trepanação, verificou-se que notável porção de matéria cerebral estava reduzida a papa. Fez a limpeza, drenou-se, fechou-se; a doente restabeleceu-se. Em 24 de Março de 1917, na Academia das Ciências, o Dr. Guépin mostrou, operando um soldado ferido, que a ablação parcial do cérebro não impedia as manifestações da inteligência. Outros casos idênticos poderiam ser citados. Às vezes, restam bem modestas parcelas: o espírito serve-se engenhosamente do que pode.

Se os anatomistas não encontram a alma na ponta de seus escalpelos, quando dissecam os corpos, é porque lá não está. Quando os médicos, os fisiologistas não vêem em nossas faculdades psíquicas senão propriedades da matéria cerebral enganam-se grosseiramente. Há também no ser humano outra coisa mais do que a substância branca ou cinzenta do cérebro.

Pode-se objetar que, em geral, a faculdade de pensar parece acompanhar o estado do cérebro e que ela enfraquece com a idade, como com o próprio cérebro acontece. Mas não seria o instrumento, o corpo, que enfraqueceria, e não o espírito? Muitas vezes, nos grandes labutadores do pensamento, o espírito mantém-se integro até ao último dia da vida. Todos os meus contemporâneos conheceram em Paris escritores como Vitor Hugo, Lamartine, Legouvé; historiadores como Thiers, Mignet, H. Martins eruditos como Barthélemy-Saint-Hilaire (1805-1895); sábios como Chevreuil (1786-1889), que mostraram até uma idade muito avançada a virilidade e a juventude de suas almas.

Homo sapiens, o homem pensante: eis o título pelo qual certos fisiologistas definem há muito tempo à espécie humana. Podiam, porventura, criar esta designação para agregados de átomos materiais formando um cérebro?

Uma associação química de moléculas de hidrogênio, de carbono, de azoto, de oxigênio, etc., poderia pensar? A Biologia é uma ciência recente. A biologia determinista é uma filosofia. E' próprio desta filosofia considerar os fenômenos mentais e psíquicos como efeitos de reações fisiológicas. Ora, as explicações fisiológicas não são, sob a forma de expressões figuradas, senão confissão de incompetência. Considera-se a invenção duma palavra como descoberta e a narração hipotética dum fato como explicação!

A sensação e o princípio vital conservam-se tão misteriosos como nos séculos passados, apesar das descobertas modernas sobre a origem puramente físico-química dos movimentos musculares. Não se pode deixar de reconhecer em cada um de nós, ao lado, ou melhor, acima dos fenômenos fisiológicos, um princípio intelectual ativo, autônomo, sem o qual nada se explica e com o qual tudo se compreende.

Digamos desde já, além disso, que as manifestações normais e bem conhecidas da alma, de que acabamos de falar, desaparecem diante das que vamos pôr em evidência nos capítulos seguintes.

A Medicina teria grande interesse em tomar em linha de conta estas considerações, agindo não somente sobre o organismo físico, mas também sobre o dinamismo intelectual. Um certo número de doenças rebeldes aos processos farmacêuticos pode ser curado pela ação mental. Temos, de resto, como testemunhos, as curas pelo magnetismo, pela sugestão, e os pretensos milagres da fé religiosa, desde o templo de Epidauro e o culto de Esculápio até Lourdes e seus concorrentes. Os glóbulos homeopáticos da vigésima solução não atuam um pouco por persuasão? A fé move montanhas.

O espírito não é o corpo nem emanação dele, afirmando-se como muito diferente. À vontade do homem é apreciada por toda gente. A perseverança neste, vontade, boa ou má, o espírito de sacrifício, o heroísmo, o desprezo da dor, a insensibilidade orgânica dos mártires que desafiaram os suplícios mais atrozes, a abnegação, a dedicação, as virtudes e os vícios, a caridade e a inveja, a amizade e o ódio, não são outras tantas provas da independência da alma relativamente ao cérebro?

Há seres que em nada pensam. Encontram-se alguns deles pela Terra.

Mas, em geral, o homem, mesmo o mais inculto, sente que existe qualquer coisa mais elevada que comer, beber, e acasalar-se, que este mundo efêmero dos sentidos não é o seu próprio fim, sendo somente a manifestação de um princípio superior de que não vemos senão a sombra confusa. E' este sentimento que as religiões quiseram atender.

Se estudarmos o corpo humano e as suas funções naturais, somos forçados a reconhecer que, apesar dos encantos que oferece às nossas sensações, é, em última análise, um objeto assaz vulgar, quando nele se considera somente a matéria. A verdadeira nobreza está no espírito, no sentimento da inteligência, no culto da Arte e da Ciência; e o valor do homem não reside no seu corpo tão pouco duradouro, tão mutável, tão frágil, mas na sua alma que se mostra, nesta vida, dotada da faculdade de existir.

Esse corpo não é, aliás, uma massa inerte, um autômato; é um organismo vivo. Ora, a organização dum ser, dum homem, dum animal, duma planta, atesta a existência duma força organizadora, dum espírito na Natureza, do princípio intelectual que rege os átomos e que não é propriedade deles. Se houvesse somente moléculas materiais desprovidas de direção, o mundo não caminharia, um caos qualquer subsistiria indefinidamente, sem leis matemáticas, e a ordem não regularia o Cosmos.

Na teoria mecânica do Universo, o conjunto das coisas é um efeito fatal das combinações inconscientes; a criação é um nada intelectual que vem a ser alguma coisa e acaba por pensar! Pode-se imaginar hipótese mais absurda em si, e mais contrária à observação?

A misteriosa Natureza pôs espírito em tudo e mostra-se mesmo dotada de uma malignidade geralmente insuspeita. Que é a garridice da moça que a leva a tornar-se mulher, a sofrer no seu belo corpo, a perpetuar a espécie humana, a ser feliz com a dolorosa maternidade? Que é o amor, esse laço adorável? Que é o sofrimento das corações? Que é o sentimento? A muda linguagem da Natureza não se faz ouvir bastante? Que é a construção de um ninho por dois pássaros... a ave choca alimentada pelo companheiro... O biscato levado pelos pais aos pequenos famintos? Que são a galinha e os seus pintainhos? Haveis refletido já sobre a primeira palpitação do coração num ovo, numa criança? Haveis analisado algum dia a fecundação das flores? Não ver nisto uma ordem raciocinada, uma intenção, um plano, um intuito geral, uma finalidade, uma organização que nos domina todos; não ver na vida o fim supremo da organização dos mundos, é não ver a luz em pleno dia.

Aonde nos conduz esta força misteriosa? Ignoramo-lo. Ao passo que a vida nos impõe suas leis, o planeta em que habitamos leva-nos pelo espaço com a velocidade de 107.000 quilômetros por hora, joguete ele mesmo das forças diretrizes do sistema do mundo e de catorze movimentos diferentes. Somos átomos pensantes sobre um átomo móvel, um milhão de vezes menor que o Sol que é um milhão de vezes menor do que Canopo, o qual, por sua vez, é um átomo da nossa gigantesca nebulosa estelar, que não é senão um universo, cercado de outros até ao infinito. Imensidade sem limites! Movimentos prodigiosos! Velocidades assombrosas!

A força parece mesmo inerente ao átomo, pois não se nota em parte nenhum átomo imóvel. Um ser vivo que não possuísse em si mesmo a sua força diretriz, não poderia viver, cairia em ruínas, como edifício abandonado. Renan e Berthelot, estes dois amigos inseparáveis, dissertavam às vezes sobre o problema que aqui nos interessa. Um e outro pareceram sem esperança duma vida futura, mas com sentimentos um pouco antagônicos. Em 25 de Agosto de 1892, Berthelot escrevia a Renan, que definhava dia a dia e morreu um mês depois: Consolemo-nos, vendo crescer nossos netos; é a única sobrevivência que nos é dado conhecer de ciência certa. Este modo de dizer não encerra, no seu espírito, uma negação absoluta e respondia, sem dúvida, a algumas preocupações do autor da Vida de Jesus.

Em 20 de Julho precedente, Renan havia escrito a Berthelot (7)

O ato mais importante de nossa vida é o da nossa morte. Este ato cumprimo-lo, geralmente, em circunstâncias detestáveis. A nossa escola, cuja essência é a de não carecer de iludir-se, tem, creio eu, nessa hora solene, vantagens particulares.

Trabalho atualmente na correção das provas do meu quarto e quinto volume de Israel. Quisera rever tudo. Se um outro interviesse nisto, sentiria algumas impaciências no fundo do purgatório: a maior parte dos melhoramentos que tenciono fazer, ninguém, entretanto, salvo o Eterno e eu, os conhecerei. Seja feita a vontade de Deus! In utrumque paratus.

O filósofo, o antigo teólogo, está preparado. Subsiste a sua crença em Deus. Pode-se ser anticlerical e deísta (como Voltaire): Renan não estava longe de admitir uma sobrevivência indeterminável.

Segundo seu genro, o Sr. Psichári, que lhe assistiu à morte, Renan teria declarado que nada subsistiria dele, nada, nada, nada. Foi esta a impressão da sua hora derradeira. Acerca da sobrevivência da alma, cem outros grandes espíritos tiveram o mesmo cepticismo. Preocupavam-se com ela, todavia. Esta opinião é oriunda unicamente da nossa ignorância. Ptolomeu nada conhecia de mais estúpido que a hipótese do movimento da Terra, soberanamente ridícula.

Que é o pensamento? Que é a alma? O sobrenatural não existe; e a alma, se existe individualmente, é tão natural como o corpo.

Chega-se enfim a admitir a unidade de força e a unidade de substância (8).

Tudo é dinamismo. O dinamismo cósmico rege os mundos. Newton deu-lhe o nome de atração. Mas esta interpretação é insuficiente: se só houvesse atração no Universo, os astros formariam um único bloco, pois ela há muito tempo os teria reunido; há, além disso, o movimento. O dinamismo vital rege os seres: no homem que evolucionou, o dinamismo psíquico é constantemente associado ao dinamismo vital. No fundo, todos estes dinamismos formam um só: é o espírito na Natureza, surdo e cego para nós no mundo imaterial e mesmo no instinto dos animais, inconsciente na maior parte das obras humanas, consciente em um pequeno numero delas.

Já escrevi na Urânia (1888): Aquilo a que chamamos matéria esvai-se quando a análise científica crê agarrá-la. Encontramos como sustentáculo do Universo, e princípio de todas as formas, a força, elemento dinâmico. O ser humano tem por princípio essencial a alma. O Universo é um dinamismo inteligente incognoscível.

Escrevi também nas Forças Naturais Desconhecidas (1906): As manifestações psíquicas confirmam a que sabemos doutra parte, que a explicação puramente mecânica da Natureza é insuficiente e que há outra coisa mais no Universo que a pretensa matéria. Não é a matéria que rege o mundo: é um elemento dinâmico e psíquico.

O progresso realizado nas observações psíquicas depois da data em que estas linhas foram compostas, confirmou-as de sobejo.

Uma força mental regula silenciosamente, soberanamente, os instintos dos insetos, assegurando-lhes a existência e a perpetuidade, como regula também o nascimento dum pássaro e a evolução dos animais superiores, inclusive o próprio homem.

E' este dinamismo que leva o inseto lagarta a tornar-se massa informe na crisálida e depois em borboleta. E' ele que do organismo de médiuns especiais emite uma substância, transformando-se em órgãos vivos de duração efêmera, mas reais, dinamismo que cria instantaneamente materializações transitórias.

Afirmamo-lo: o Universo é um dinamismo. Uma força invisível e pensante rege mundos e átomos. A matéria obedece.

A análise das coisas mostra em tudo a ação dum espírito oculto. Este espírito universal está em tudo, regula cada átomo, cada molécula, mesmo impalpável, imponderável, infinitamente pequeno, invisível, constituindo pela sua agregação dinâmica as coisas visíveis e os seres; e este espírito é indestrutível, eterno.

O Materialismo é doutrina errônea, incompleta e insuficiente que nada explica o nosso contento (9). Admitir só a matéria dotada de propriedades é hipótese que não resiste à análise. Os positivistas laboram em erro, existem provas positivas de que a hipótese da matéria, dominando e regendo tudo, pelas suas propriedades, está ao lado da verdade.

Não adivinharam o dinamismo inteligente que anima os seres e mesmo as coisas.

Podemos dizer com o Dr. Geley que os fatores clássicos são impotentes para resolver a dificuldade geral de ordem filosófica relativa à evolução que do menos faz sair o mais (10 ).

O materialismo, tão difundido, consciente ou inconscïentemente, em todas as classes da sociedade, não é senão teoria de aparência, a superfície das coisas não analisadas. Quod terra immobilis, in medio coeli, si ego contra assererem terram moveri... Escrevia Copérnico na primeira página de sua obra imortal, na dedicatória ao papa. E ele prova que o que se julgava demonstrado é absolutamente falso. Devemos hoje proceder da mesma forma para com a fisiologia psíquica.

E pelo próprio método experimental que lhe demonstraremos a fraqueza. Vamos pôr em evidência o erro absoluto do materialismo clássico. Toda a fisiologia psíquica oficial é errônea, contrária à realidade. Há no ser humano outra coisa mais do que moléculas químicas dotadas de propriedades: há um elemento não material, um princípio espiritual. O exame imparcial dos fatos vai comprová-lo e vê-lo-erros mesmo atuar independentemente dos sentidos físicos.

 

 

 

III

 

QUE E O HOMEM? EXISTE A ALMA?

 

“Devemos procurar a verdade com plena independência de espírito, livres de toda idéia preconcebida.”

DESCARTES

 

 

 

Verificamos que as teorias materialistas não estão inteiramente demonstradas. Não assentam em base tão sólida quanto se imagina; têm lacunas; deixam de lado muitas coisas inexplicadas; estão longe de poderem ser comparadas, como se pretende, a teoremas geométricos, a certezas matemáticas. Está, pois a questão inteiramente aberta ao nosso livre exame.

Antes de procurar saber se a alma sobrevive à dissolução do corpo, é indispensável indagar, primeiro, se realmente nossas almas existem. Discutir a duração duma coisa que não existisse seria perder tempo ingenuamente. Se o pensamento fosse produto do cérebro, extinguir-se-ia com ele.

Esta noção só se pode adquirir pela observação científica positiva, pelo método experimental. Entretanto, até hoje, a Psicologia tem sido mais uma convenção de palavras, de meditações teóricas, de hipóteses, do que outra coisa.

E' tradição que não seguiremos aqui. Vamos procurar determinar a natureza da alma, por observações práticas, e conhecer as suas faculdades.

E' lamentável que essas faculdades sejam quase ignoradas ainda. A nova psicologia deve ser firmada sobre a Ciência. Lembremo-nos da origem da palavra metafísica, depois da física na classificação de seu fundador, Aristóteles.

Foi demasiadamente esquecida esta circunstância.

Para continuar a viver depois da destruição do corpo é necessário existir espiritualmente. O nosso espírito subsiste individualmente? Temos uma alma? Para falar com mais exatidão, o homem é uma alma? Eis a primeira questão a resolver, o primeiro ponto a estabelecer. Já apuramos que os materialistas, os positivistas, os ateus, os regadores do espírito na Natureza, laboram em completo erro, pensando e ensinando que não há no Universo senão a matéria e suas propriedades, e que todos os fatos da Humanidade se explicam por esta teoria, ao mesmo tempo erudita e vulgar. Eis aqui uma hipótese inexata. Mas é preciso provar a tese contrária.

Que é a alma? Donde provém mesmo esta palavra? Que significa?

A crença na alma foi estabelecida até agora sobre dissertações metafísicas e sobre pretensas revelações divinas não comprovadas. A religião, a fé, o sentimento, o desejo, o temor, não são provas.

Como se apresentou ao espírito dos homens a noção da alma?

A palavra alma e seus equivalentes em nossas línguas modernas (espírito, por exemplo) ou nas línguas antigas, como anima, animus (transcrição latina do grego), spiritus, atroa, alma (vocábulo sânscrito ligado ao grego, vapor), etc. implicam todas a idéia de sopro; e não há dúvida de que a idéia da alma e de espírito exprimiu primitivamente a idéia de sopro nos psicólogos da primeira época. Psyche, mesmo, provém do grego, soprar.

Estes observadores, identificando a essência da vida e do pensamento com o fenômeno da respiração, e, por outra parte, tendo de conciliar o fato patente, irrecusável, da decomposição do corpo morto, do corpo privado de sopro, privado da alma, com a crença nas aparições dos mortos, isto é, a vida persistente daqueles cujo cadáver ai jazia inanimado, ou, o que é mais, dissolvido e reduzido a cinzas - imaginaram que o sopro, a alma, era alguma coisa que abandonava o corpo na hora do decesso, para ir viver em outra parte da sua própria vida.

Ainda hoje, o último suspiro designa a morte.

Se uns admitiam esta persistência da vida sob forma invisível, outros só viam nisso uma impressão de sentimento, de saudade, de afeição dos sobreviventes, e, desde a origem dos diversos grupos humanos, vemos duas teorias distintas e mesmo opostas compartilharem as opiniões: o Espiritualismo e o Materialismo. Mas tanto uns como outros raciocinam superficialmente.

O sentido das palavras alma e espírito devem ser mudados, discutido, examinado. Há distinções fundamentais a determinar. As propriedades do organismo vivo e os elementos psíquicos são essencialmente diferentes.

Em geral, os homens pensam, com uma convicção perfeita, que só há no mundo uma única realidade incontestável, a realidade dos objetos, da matéria, isto é, do que se vê, do que se toca, do que cai sob a apreciação dos sentidos. O resto para eles não passa de abstração, quimera, coisa nenhuma.

Este modo de ver tem por si a imensa maioria dos sábios e de toda a gente. Mas as maiorias e os sábios podem errar, e é o que se dá.

A Física, a própria Física, ensina-nos que a afirmação de aparência, mesmo quando tem toda ,a força da evidência mais irresistível, deve ter-se por suspeita e, direi como o meu saudoso amigo Durand de Gros, verificada severamente. Há nada mais patente do que a marcha do Sol e do céu inteiro por cima de nossas cabeças? Esta evidência tem sido proclamada em todos os tempos e lugares pelos olhos humanos. Haverá outra mais imponente? Entretanto, não passa de uma ilusão, como a Astronomia demonstrou.

Quantas vezes os doutrinários, raciocinando sobre a única observação aparente, se mostram superficiais na sua crítica do conhecimento, julgando ver o fato experimental no ponto em que o mostram? O Sol é um disco luminoso que gira sobre nessas cabeças, de leste a oeste, desde que nasce até que desaparece: eis aí uma verdade observada, e que o testemunho unânime dos homens proclamou durante milhares de anos. Como é possível, entretanto, que a Ciência ouse afirmar que esta verdade, firmada pela observação, é um erro irrecusável? E como é possível que todo o mundo saiba hoje que isto é um erro?

O que se pode afirmar rigorosamente, o que é um fato de verdadeira observação e que se compreende bem não é aquele que se enuncia dizendo: o Sol é um disco... Etc. é o fato que se deveria enunciar assim Tenho a sensação dum disco brilhante que designo pelo nome de Sol, fazendo-me tal sensação aparecer o mesmo disco como se movendo de leste para oeste,. etc

E' nestes termos que o experimentalista deve limitar a afirmação da sua experiência, se quiser manter-se nos domínios estritos da afirmação experimental, isto é, da certeza absoluta.

E esse disco mesmo não é mais do que uma falsa aparência, pois o Sol é um globo.

Consideremos as sensações e as percepções, todavia não as confundamos com a realidade. Esta precisa ser demonstrada. Vejo um relâmpago; um tiro de canhão ressoa ao meu ouvido. Rigorosamente, devemos pensar: tenho a sensação de haver visto um relâmpago, tenho a sensação de haver ouvido um tiro de canhão. Entretanto, os fisiologistas desconhecem muitas vezes esta distinção essencial. O que eles nos apresentam como fatos observados não são muitas vezes, em rigor, senão fatos conjeturados; não são observações, são induções extraídas da observação, sem que eles se dêem conta desta operação do seu espírito. Tenho a sensação dum disco luminoso de certo diâmetro aparente, caminhando no céu do nascente para o poente: eis o que é absolutamente verdadeiro, o que posso afirmar com segurança, segundo o princípio estabelecido pela doutrina experimental da certeza. Mas se digo: um disco caminha no céu, etc. afirmo mais do que sei, estou sujeito a enganar-me; e a prova é que estou em erro, neste caso.

Seria supérfluo multiplicar os exemplos em apoio desta tese. Sentimos tal e tal sensação; temos tal e tal idéia; tal e tal emoção; eis o único conhecimento imediato e certo, a única verdade propriamente experimental e digna de crença absoluta.

A noção de objeto supõe, pois, uma sensação, uma percepção, uma concepção. Mas que é tudo isso? Outros tantos atributos do próprio objeto? Não. Esta sensação, esta concepção provam que, em face da coisa sentida, percebida, concebida, há uma coisa que sente, percebe, concebe.

Falando rigorosamente, o fato de sentir, perceber, conceber, constitui só por si um fato absolutamente fundamental, o único que nos impõe a observação imediata.

Raciocina-se assim desde as discussões de Berkeley (1710) e mesmo desde as de Malebranche (1674). Tal raciocínio não é de ontem (11).

Só julgamos o Universo, as coisas, os seres, as forças, o espaço, o tempo, pelas nossas sensações, e tudo o que podemos pensar sobre a realidade está na nossa idéia, em nosso espírito, em nosso cérebro. Mas é um raciocínio singular concluir daí que as nossas idéias constituem a realidade. Estas impressões têm uma causa, esta causa é exterior aos nossos olhos, aos nossos sentidos. Somos espelhos que se dão conta das imagens recebidas.

O idealismo puro de Berkeley, de Malebranche, de Kant, de Poincaré, vai demasiadamente longe no cepticismo; mas não percamos nunca de vista o seu princípio.

E' urgente, na verdade, protestar contra a aparência vulgar e proclamar que o mundo exterior não é o que nos parece ser. Se não fôssemos dotados de olhos e de ouvidos, parecer-nos-ia diferente. A retina poderia ser de conformação diversa, o nervo óptico poderia vibrar perceber as vibrações, não entre 380 e 760 trilhões de vibrações por segundo, do vermelho extremo ao violeta extremo, mas para além do infravermelho ou do ultravioleta, ou ser substituído por nervos que recebessem as radiações elétricas ou as ondas magnéticas ou as forças invisíveis que nos são desconhecidas. Para estes seres (que talvez existam em outros mundos) o Universo seria diferente do dos nossos sistemas científicos.

Incorreríamos, portanto num erro, tomando as nossas sensações como realidades. A Natureza real é outra, não a conhecemos; mas o espírito deve estudá-la.

Sinto, penso: tal é nossa única certeza, imediata, realmente experimental, aquela que merece este qualificativo. Deste fato primitivo, o único de observação real, de certeza indubitável, um grande fato secundário deriva por via de indução: o fato de uma causa da qual procedem esta sensação e este pensamento.

Esta causa desdobra-se em dois fatores: o sujeito e o objeto; isto é: o que sente e pensa, o que é sentido e pensado.

Certos filósofos da escola idealista, como Berkeley, no século XVII e H. Poincaré, no século XX, chegaram a pretender que apenas existe o sujeito pensante, que somente as nossas sensações são experimentadas por nós, e que o objeto, o mundo exterior, poderia muito bem não existir. E um exagero contrário ao dos materialistas radicais e também errôneos.

O que é certo, irrecusável, é que sabemos que pensamos e que ignoramos a verdadeira realidade, a essência das coisas e do mundo exterior, do qual as nossas percepções só nos comunicam a aparência.

Supor que conhecemos a realidade é anticientífico. Sabemos que os nossos sentidos nos revelam apenas uma parte dela, e isso mesmo à maneira de prismas modificando a realidade. Se o nosso planeta estivesse constantemente coberta de nuvens, não conheceríamos nem o Sol, nem a Lua, nem os planetas, nem as estrelas, e o sistema do mundo ficaria ignorado, de sorte que o saber humano seria condenado a irremediável falsidade. Ora, o que conhecemos nada é comparado com o que ignoramos; o nosso próprio nervo óptico não é senão intérprete parcial.

A ilusão é a base pouco sólida das nossas idéias, das nossas sensações, das nossas crenças. A primeira e a mais sentimental destas ilusões é a imobilidade da Terra. O homem sente-se fixado no centro do Universo e tudo imaginou conseqüentemente. Apesar das demonstrações da Astronomia, por mais que procuremos perceber, tocar a verdade, não o conseguimos. Suponhamos que nos encontramos no declínio de um belo dia de verão; o ar é calmo, o céu puro, e tudo estão absolutamente tranqüilos em redor de nós. E, entretanto estamos, de fato, num automóvel que corre no seio dos céus com velocidade vertiginosa.

A Humanidade vive em profunda ignorância e não sabe que a nossa organização natural nada nos revela da realidade. Os nossos sentidos enganam-se em tudo. Só a análise científica esclarece o nosso espírito.

Assim, por exemplo, nada sentimos dos movimentos formidáveis do planeta, sobre o qual pousamos os pés. Parece-nos estável, imóvel, com direções fixas; alto, baixo, esquerda, direita, etc. Entretanto, corre no espaço, leva-nos à velocidade de 107.000 quilômetros por hora, no seu curso anual ao redor do Sol, o qual se desloca também através da imensidade, de tal sorte que a trajetória da Terra não é uma curva fechada, mas uma espiral sempre aberta, e que o nosso globo errante não passou duas vezes pelo mesmo caminho desde que existe.

Ao mesmo tempo, este globo gira sobre si mesmo em vinte e quatro horas, de sorte que o que chamamos o alto há certa hora, são o baixo doze horas mais tarde.

Este movimento diurno faz-nos percorrer 305 metros por segundo na latitude de Paris, 465 metros no Equador.

O nosso planeta é o joguete de catorze movimentos diferentes, dos quais nenhum nos é sensível, mesmo os que nos tocam de perto, por exemplo, o das marés da crosta terrestre, que eleva o solo duas vezes por dia sob os nossos pés, à altura de 30 centímetros! Nenhum ponto de mira fixo nos permite observá-lo diretamente.

Se não houvesse costas, as marés do oceano também não seriam visíveis.

Apercebemo-nos, mesmo, do ar que respiramos, do seu peso? A superfície do corpo humano suporta um peso de ar de 16.000 kg., contrabalançado exatamente pela pressão interior. Não se suspeitava do peso do ar antes de Galileu, Pascal e Torricelli. A Ciência comprova-o; a Natureza não no-lo faz sentir.

Este ar é atravessado por eflúvios variados que ignoramos. A eletricidade tem aí um papel perpétuo, do qual só percebemos a manifestação durante as trovoadas ou nas violentas rupturas de equilíbrio. O Sol envia-nos constantemente radiações magnéticas que, a 150 milhões de quilômetros de distância, atuam sobre a agulha magnética sem que os nossos sentidos revelem esta ação. Só algumas organizações delicadas sentem estes eflúvios elétricos e magnéticos.

A nossa vista só distingue o que chamamos luz, pelas vibrações do éter compreendidas entre 380 trilhões por segundo (vermelho-extremo) e 760 (violeta extremo); mas, as vibrações lentas do infravermelho, abaixo de 380, existem e atuam na Natureza, assim como as vibrações rápidas, abaixo de 760, do ultravioleta, invisíveis à nossa retina.

O nosso ouvido não percebe o que chamamos sons senão a partir de 32 vibrações por segundo, para os mais graves, até 36.000 (os silvos mais agudos)

O nosso olfato não sente o que chamamos odores senão a uma grande proximidade e somente para determinado número de emanações. O olfato dos animais difere do olfato humano.

De resto, na Natureza, fora de nossos sentidos, não há de fato nem luz, nem som, nem cheiro; fomos nós que criamos estas palavras correspondentes às nossas impressões. A luz é um modo de movimento, como o calor, e há tanta luz no espaço à meia-noite como ao meio-dia, isto é, as mesmas vibrações etéreas atravessando a imensidade dos céus. O som é outro modo de movimento, e só é um ruído para o nosso nervo auditivo. Os odores provêm de partículas em suspensão no ar, que afetam especialmente os nossos nervos olfativos. São estes os três únicos sentidos que, em nossa organização terrestre, nos põem em relação com o mundo exterior ao nosso corpo. Os outros dois, o tato e o gosto, só atuam por contacto.

E' pouco, e não nos dão, em todos os casos, o conhecimento da realidade.

Há ao redor de nós vibrações, movimentos, etéreos ou aéreos, forças, coisas invisíveis que não percebemos. E' esta uma afirmação de ordem absolutamente científica e incontestavelmente racional.

Podem existir à nossa volta, não somente coisas, mas também seres invisíveis, intangíveis, com os quais os nossos sentidos não nos põem em comunicação. Não digo que existam, mas digo que podem existir, e que esta afirmação é o corolário rigorosamente científico e racional das demonstrações precedentes.

Estando verificado que os nossos órgãos de percepção não nos revelam o que existe e nos dão indicações falsas ou erradas (movimento da Terra, peso do ar, radiações, eletricidade, magnetismo, etc.), não podemos pensar que a única realidade seja representada pelo que vemos e somos mesmo convidados a admitir o contrário.

Podem existir em torno de nós seres invisíveis. Quem teria adivinhado os micróbios antes de sua descoberta? Entretanto, é por milhares de milhões que pululam e representam papel considerável na vida de todos os organismos.

As aparências não nos revelam a realidade. Há uma única realidade apreciada diretamente por nós: , é o nosso pensamento. E o que há de mais insofismavelmente real no homem é o espírito.

As minhas obras precedentes conduzem já a esta conclusão. Esta de agora é destinada a prová-la com maior evidência ainda. Que os leitores me perdoem o eu haver repetido aqui o que publiquei no Lúmen, em 1867, e nas Forças Naturais Desconhecidas, em 1907, mas era indispensável relembrar estas noções.

Henri Poincaré, idealista e não espiritualista, apesar do cepticismo da sua conversação, escreveu a seguinte página a respeito dos últimos anos do sábio francês, Potier, professor da Escola Politécnica:

O mal a que sucumbiu foi demorado e cruel. Ficou doze anos estendido num leito ou numa poltrona, privado do uso de seus membros e muitas vezes torturado pela dor. A invasão do mal era lenta e contínua, as crises, de ano em ano, eram mais freqüentes. Por fim, seu corpo não era coisa alguma, e, na cama de que não podia sair só se lobrigavam dois olhos. Sua alma era mais forte que o poder cego duma enfermidade brutal; ela não vergou. Fazia-se conduzir à Escola Politécnica ou à Escola de Minas. Tudo o que outrora havia amado, continuou a interessá-lo cada vez mais nos momentos de repouso que o sofrimento lhe deixava. E neste corpo de dia para dia mais imobilizado, a inteligência mantinha-se sempre luminosa. Tal qual fortaleza cujas muralhas caem aos pedaços sob os obuses inimigos e que a energia do chefe mantém ainda temível! Algumas semanas antes de morrer, pediam-me livros de Matemática para empreender um estudo novo para ele. Até ao seu último dia, mostrou-nos que o pensamento é mais forte que a morte (12).

Não, quem escreveu estas linhas não foi espiritualista, mas professor de cepticismo. Isto prova que a verdade se impõe por si mesma e resplandece impagável, como Sírio no meio da noite estrelada.

De resto, Henri Poincaré afirmou-me muitas vezes e pessoalmente, em nossas numerosas e longas conversas, que, duvidando da própria realidade do nosso mundo exterior, só acreditava no espírito. Era excessivo. Existe alguma coisa mais do que o espírito. Não devemos exagerar.

Afinal, sabemos bem que o sentimos em nós mesmos. Enquanto componho este livro, concebo um plano, distribuo os capítulos, sinto rigorosamente, exatamente, sem parcialidade de sistema, sem qualquer dogma, simplesmente, diretamente, que só faço este trabalho, o meu espírito e não o meu corpo. Tenho um corpo. Não sou eu que pertenço ao corpo. Esta consciência de nós é a nossa impressão imediata, e é sobre as nossas impressões que podemos e devemos meditar: elas são já base de todos os nossos raciocínios.

Como se ousa afirmar que a definição do ser humano cabe nestas palavras: Um tecido de carne em redor dum esqueleto... , ou nestas: Uma combinação de moléculas de oxigênio, de azoto, de carbono... , ou ainda nestas: Um homem é constituído por 6 quilos de ossos, 15 de albumina e fibrina e 50 de água... , ou, por último: E' um feixe de nervos!...

Preferimos a definição de Bonald: O homem é uma inteligência servida por órgãos.

Declaremo-lo: o homem é essencialmente espírito, quer o saiba ou quer o ignore. Não possui cada um de nós o sentimento da justiça? Uma criança, justamente castigada por uma falta, não sabe que mereceu o castigo e, injustamente castigada, não se revolta? Donde vem a consciência moral? O homem teve por antepassados os animais das épocas geológicas terciária, secundária e primária, evoluídos gradualmente dos reptis aos símios. Não foram os seus cérebros que criaram a consciência moral, e principalmente o sentimento da justiça inata na criança. Pode-se pretender que proveio dos antepassados e depois da educação. Mas donde veio esta educação? E' o mundo do espírito.

Não há um padrão entre este mundo intelectual, espiritual, moral, e as operações físico-químicas da substância cerebral.

A vontade é, certamente, uma energia de ordem intelectual. Tomemos um exemplo entre mil. Napoleão quer conquistar o mundo e tudo sacrifica a esta ambição. Examinai todos os seus atos, mesmo os menores, desde a campanha do Egito até Waterloo. Nem a Fisiologia, nem a Química, nem a Física, nem a Mecânica, explicará esta personalidade, esta continuidade de idéias, esta perseverança, esta teimosia. Vibrações cerebrais? Não é suficiente. No fundo do cérebro há um ser pensante do qual esse cérebro não é senão o instrumento. Não é o olhar que vê. Não é o cérebro que pensa.

O estudo de um astro, no telescópio, não se pode atribuir legitimamente nem ao instrumento, nem ao olhar, nem ao cérebro, mas ao espírito do astrônomo que procura e encontra.

A vontade humana bastaria por si só para provar a existência do mundo psíquico, do mundo pensante, diferente do mundo material visível, tangível.

A ação duma vontade manifesta-se em tudo. Podem-se fazer sobre isto observações muito simples:

Estou sentado numa poltrona, às mãos nos joelhos; com a direita entretenho-me em levantar um por um os dedos da esquerda; eles caem naturalmente; mas se quiser que eles não caíssem, não cairão. Quem mandou neste caso sobre os músculos? Simplesmente a minha vontade. Há, pois aqui uma força mental que atua sobre a matéria. Esta força é associada ao meu cérebro, bem entendido. Mas, afinal, é uma idéia, e esta idéia age sobre a matéria. A causa inicial não é o cérebro, cujas vibrações não são mais do que efeitos.

O homem que exercita a sua vontade é o obreiro do seu destino.

Consideremos agora especialmente o pensamento no homem.

E' a demonstração perpétua da existência da alma. Quando meditamos, quando dizemos simplesmente eu penso ou eu quero, quando calculamos um problema, quando exercitamos o nosso poder de abstração e de generalização, afirmamos a existência da alma.

O pensamento é o que o homem possui de mais precioso, de mais pessoal, de mais independente. Sua liberdade é inatacável. Podeis torturar o corpo, encarcerá-lo, dirigi-lo pela força material: nada podereis contra o pensamento. Tudo o que fizerdes tudo quanto disserdes, não o forçará. Ele ri-se de tudo, desdenha tudo, domina tudo. Quando quer iludir, quando a hipocrisia mundana ou religiosa o obriga a mentir, quando a ambição política ou comercial o faz revestir de máscara enganadora, conserva-se o mesmo e sabe o que quer. Não é isto a prova flagrante da existência do ser psíquico independente do cérebro?

Não é a matéria, não é um conjunto de moléculas que pode pensar. E' tão infantil, tão ridículo admitir que o cérebro sente e pensa, como atribuir às pilhas geradoras de eletricidade do telégrafo a geração das idéias expressas no telegrama.

O espírito, o pensamento, a direção mental, não são nem a matéria, nem a força. A Terra que gravita em torno do Sol, a pedra que cai, a água que corre, o calor que dilata ou comprime os laços entre os átomos, representam-nos, duma parte, a matéria, doutra parte, a energia. O pensamento, o raciocínio, a direção, segundo uma intenção determinada, são outra coisa. Há ali um princípio muito diverso.

Todos conhecem os versos clássicos de Vergílio, no magnífico canto sexto da Eneida

Sptiritus intus altit, totamque infusa per artus,

Mens agitat molem, et magno se corpore miscet.

Tudo quanto existe no Universo é penetrado pelo mesmo princípio, alma animando a matéria, que ai mescla com este grande corpo.

O poeta exprimiu a verdade. O Universo é dirigido pelo espírito, e, quando estudamos este espírito no homem, verificamos que ele não é nem a energia psíquica nem a matéria. Utiliza-se dos dois e rege-os freqüentemente à sua vontade.

As provas da existência da personalidade humana são inúmeras: seria necessário um volume especial para expô-las. Cada um de nós, além disso, as terá já apreciado muitas vezes.

Temos todos os dias estas provas sob os olhos: - o estoicismo na adversidade, a energia desenvolvida para fugir da miséria, a dedicação às causas nobres; o sacrifício da vida à salvação da pátria,, à vontade de vencer, o apostolado científico ou religioso, o martírio pela vitória do que se crê ser a verdade. Não haverá em tudo isto outras tantas manifestações da existência da alma? Como seria possível que as secreções materiais do cérebro, análogas, como se pretende, às dos rins ou do fígado, possam produzir personalidades intelectuais?

Uma demonstração muito original da realidade da alma pelo estudo dos efeitos do clorofórmio e do curare sobre a economia animal foi apresentada há já muito tempo (em 1868) sob este título, por um sábio distinto que eu conheci naquela época, o Sr. Ramon de la Sagra, membro correspondente do Instituto (Academia das Ciências Morais e Políticas), falecido em 1871, na ilha de Cuba.

A inspiração dos vapores de éter ou de clorofórmio elimina a sensibilidade geral, de modo que as pessoas mergulhadas neste estado fisiológico extraordinário podem ser submetidas, sem sofrimento, às mais graves operações. E não só os pacientes eterizados ou cloroformizados não sentem dor alguma enquanto os instrumentos cortantes separam, cortam, torturam os tecidos, os nervos; não somente se conservam por inteiro insensíveis às lacerações, às feridas, às chagas que, no estado normal, arrancariam gritos de padecimento e de pavor, mas muitas vezes acontece que a alma, neste sono surpreendente, experimenta sensações agradáveis, esquisitas, deliciosas.

Ramon de la Sagra mostra este fenômeno como demonstração científica da existência da alma. A alma e, o corpo não são certamente a mesma coisa, pois neste caso estão patentemente separados; graças à influência do éter ou do clorofórmio, a alma continua a pensar individualmente, enquanto o corpo é torturado pelo ferro. Estes dois elementos do agregado humano estão aqui como que desunidos pelo agente anestésico. O sábio espanhol havia observado que sua mulher, nos momentos de insensibilidade, sob a ação do clorofórmio, guardava o pensamento intacto e que a inteligência não era nela afetada. Conversava tranqüilamente com o cirurgião Verneuil, enquanto ele cortava as carnes e os nervos com o bisturi. E contava depois ao marido que as suas idéias tinham sido agradáveis em vez de dolorosas. Recordemos também que a dor foi suprimida pelo hipnotismo na escola de Nancy.

A distinção da alma e do corpo, a sua própria separação, observadas em diversas circunstâncias e em certos estados de hipnose, de sonambulismo, de magnetismo, de desdobramento da personalidade, etc. As hipóteses fisiológicas apresentadas para explicar estas manifestações da individualidade psíquica, independente do organismo, são de todo insuficientes. A nossa concepção atual da vida e do pensamento está em vésperas de ruir.

Tudo nos prova que a alma humana é uma substância distinta do corpo. Ao contrário da sua etimologia, a alma não é um Sopro; é uma entidade intelectual.

Quantas palavras, de resto, já mudaram de sentido, como a eletricidade, por exemplo, que deriva da palavra âmbar.

Vamos fixar esta personalidade pela averiguação de faculdades supranormais, que nada têm de comum com as propriedades da matéria.

 

 

 

IV

 

FACULDADES SUPRANORMAIS DA ALMA, DESCONHECIDAS OU POUCO ESTUDADAS, PROVANDO A SUA EXISTENCIA INDEPENDENTE DO ORGANISMO MATERIAL.

 

 

Pressentimentos. Adivinhações. Premonições. Sensações em sonhos. Chamadas misteriosas.

 

“Quando eu era criança falava como criança, raciocinava como criança; mas, quando me tornei homem, libertei-me de tudo o que conservava da criança.”

  1. PAULO (13)

 

 

 

Supor-se que num estudo qualquer pode ser alcançada a certeza, fora das matemáticas puras, é ser-se um pouco ingênuo: de nada temos a certeza; nossos sentidos, nossos métodos de observação, nosso entendimento não são suficientes para descobrir a realidade absoluta. A mais positiva ciência, a Astronomia, atinge a certeza nas suas medidas; é uma ciência exata, como a Aritmética, a Álgebra, a Geometria. Sabemos que o nosso planeta gira em torno do Sol, em 365 dias, 6 horas, 9 minutos, 9 segundos, a 149.500.000 quilômetros de distância; que o Sol é 1.301.000 vezes maior do que ele e 322.000 vezes mais pesado; que Marte gravita a 228 milhões de quilômetros do Sol, num ano de 686 dias, 23 horas, 30 minutos, 40 segundos e que se move sobre si mesmo em 24 horas, 37 minutos, 22 segundos, etc. A física, a Química, a Zoologia, a Botânica, a Geologia estão longe desta precisão; a fisiologia humana e a Medicina, igualmente, se encontram longe, e a Psicologia ainda mais.

Todo o ensino psicológico das escolas e dos tratados clássicos deve ser completado e mesmo reformado.

Não tendo as faculdades normais da alma - o entendimento, o raciocínio, à vontade, objeto do ensino clássico, cujas manifestações são habituais e permanentes - estabelecido à prova indiscutível da independência da alma para com o cérebro e a certeza da sobrevivência, acabamos de colocar o problema sob novo aspecto e devemos ir mais longe. O homem é, em primeiro lugar, uni ser pensante. O pensamento é um fato. Ao lado deste fato primordial, não poderemos apurar se certas faculdades da alma, desconhecidas ou pouco estudadas, não nos oferecerão assuntos de investigação cuja análise cuidadosa nos ajude a dissipar uma ignorância muito duradoura, a esclarecer o problema da nossa constituição psíquica, a aumentar o nosso saber ainda tão limitado e a fixar enfim uma ciência psicológica aceitável, correspondendo aos nossos desejos, depois de tantos discursos estéreis num mesmo quadro e tantas dissertações inúteis ao redor de um mesmo círculo? Talvez que a Humanidade pensante seja apta para se libertar da sua prisão.

Que a alma existe em si mesma, independentemente do corpo, é o que o capítulo precedente nos incita a estudar experimentalmente. Se existe, como um átomo de ferro, de oxigênio, de hidrogênio ou de rádio, por exemplo, (átomo que seria dotado da faculdade de pensar, átomo psíquico), ela sobrevive à desagregação orgânica, atravessa mesmo, no curso da vida corporal, as modificações materiais do cérebro assim como das idéias. O princípio anímico fica; só a forma é perecível.

Acabamos de reconhecer, pelas considerações precedentes, a probabilidade da existência pessoal da alma, 8siològicamente estabelecida. Podemos ir mais além e pôr em evidência esta existência pessoal pelas manifestações de faculdades da alma que não podem ser atribuídas às propriedades materiais do cérebro, às combinações orgânicas, químicas, mecânicas, faculdades intrínsecas.

A Vontade, prova especial da individualidade do espírito, será examinada no capítulo seguinte, assim como outras faculdades demonstrativas. Mas quero primeiro assinalar certas faculdades inexploradas ou pouco estudadas, faculdades metapsíquica, na feliz expressão de Charles Richet.

Por exemplo, o poder mental de sentir as coisas desconhecidas, ou, antes, de pressentir.

Que é o pressentimento? Qual é a natureza desta faculdade da alma, muitas vezes tão certa?

Neste estudo, há muito tempo começado, reuni, comparei, discuti centenas de observações.

Alguns dos meus leitores hão de lembrar-se de que, no curso do ano de 1899, empreendi um inquérito analítico sobre as faculdades da alma e suas manifestações, de que publiquei os primeiros resultados na minha obra O Desconhecido e os Problemas Psíquicos. Vinte anos decorreram e continuei a receber de um grande número de observadores _notas que tenho procurado verificar o melhor possível, visto que, apesar da memória mais fiel e da mais incontestável lealdade, as recordações se modificam inevitavelmente e tornam os testemunhos mais ou menos suspeitos. Devemos, pois empregar a maior severidade na aceitação destes fatos, muitas vezes extraordinários. Outro excesso seria rejeitá-los de antemão. A verdade fica no meio dos extremos, é preciso não esquecer que pode às vezes não ser a verdade aceitável.

Conseguiram-se observar; na obra que mencionei, pressentimentos que tiveram determinada causa; por exemplo: à pág. 124, um colegial lamentando-se dolorosamente, na hora em que seu pai morria longe dele; à pág. 324, um estudante de Medicina encontrando um doutor que não via há muito e no qual acabava de pensar; à pág. 326, uma senhora oprimida por grande mal-estar, na hora em que seu pai morria separado dela; à pág. 332, um operário abandonando o seu trabalho e correndo para junto de sua mulher que vinha de ser derribada por um carro; à pág. 333, um homem deixando os seus amigos numa festa, a fim de voltar para casa, onde encontrou seu filho atacado de crupe e cercado de quatro médicos, etc. Estes pressentimentos provinham de transmissões, quando não de pensamentos e de chamadas, pelo menos de ondas psíquicas. Vamos estudá-las especialmente neste lugar.

 

*

 

O pressentimento, de que se vai ler à narrativa, é particularmente digno de meditação. Convido os meus leitores mais recalcitrantes a examiná-lo em todos os sentidos.

O Senhor Constans, Ministro do Interior e Presidente do Conselho, jantando um dia comigo no meu observatório de Juvisy, assim como a Senhora Consta, contou-me o seguinte fato com ele ocorrido.

Era em 1889, na época de sua grande luta contra o General Boulanger (14) e contra o partido boulangista da revisão da Constituição francesa. Certo dia, de manhã, foi-lhe entregue, no gabinete ministerial, um livro entre a sua correspondência. Com pressa de dirigir-se ao Conselho de Ministros, atirou o volume para cima duma mesa, pedindo a Sra. Comtans para examiná-lo, e saiu. A Sra. Constans, que a sua criada de quarto penteava colocou o livro nos joelhos e procurou abri-lo, pensando, tratar-se de um missal enviado por sua prima: Mas, três dias antes, havia recebido algumas infâmias que a tornaram cautelosa. Quando, com muito cuidado, chegou a entreabrir o tomo, pareceu-lhe ver uma porcaria. Entregou-o logo à criada, dizendo-lhe: Leve isto para a sala de espera; é ainda uma infâmia...

Apenas a serva acabava de sair, a Senhora Constaras, despenteada, meia-nua, correu para a sala, gritando: Não o abra, não lhe toque! (Por quê?).

Mandou chamar o Senhor Cassei, Diretor da Segurança Geral, e recomendou-lhe que examinasse o objeto, pressentindo algum mistério. O Sr. Cassei, mexendo no livro, viu cair pequenas partículas esbranquiçadas sobre a mesa. Chegou-lhes lume e' elas arderam. Compreendeu o perigo, tomou o volume de baixo do braço e partiu para a Prefeitura, dirigindo-se ao laboratório do Sr. Girard. Uma hora depois, o Sr. Cassei voltava, dizendo a Sra. Constaras que o livro continha dinamite em quantidade suficiente para fazer voar a parte do Ministério em que o ministro residia. A Senhora Constaras desmaiou e esteve doente oito dias.

Foi esta a narrativa que me fizeram, à mesa, o Sr. e a Sra. Constaras, diante de uma dúzia de pessoas.

A esposa do ministro havia adivinhado o perigo; mais ainda, havia-o sentido com intensidade, a tal ponto que correu meio vestida, até à sala de espera do Ministério, para evitar que os empregados abrissem o pacote.

Não há aqui uma espécie de visão interna do espírito que não se relaciona, de resto, com a vista normal Poderíamos comparar esta impressão ao faro canino. Mas que abismo entre as duas sensações! Haver suspeitado duma ameaça, explica-se, dadas as circunstâncias; mas haver sentido violentamente o perigo iminente?

Volvidos dias, o meu amigo Girard, Diretor do Laboratório da Prefeitura de Polícia, confirmou-me a sua análise especial da carga de dinamite.

Neste mesmo jantar, a Sra. Constaras comunicou-me um outro pressentimento, não menos digno de atenção, experimentado também por ela.

Dentro do meu princípio de tudo verificar por inquéritos documentados, consegui obter a confirmação do fato que se vai ler, pelo clínico que a ele foi associado, o Dr. Rosséguet, de Tolosa, médico da família Constaras, nesta carta que foi transcrita textualmente como as precedentes:

 

CARTA DO DR. RESSÉGUET

Tolosa, 16 de Março de 1901

Caro grande Mestre:

 

Cumpro o dever de responder às suas perguntas, a respeito do pressentimento da Senhora Constaras sobre a sua recusa de tomar um remédio enviado pelo farmacêutico. Eis o caso, que eu conto impessoalmente, como um historiador:

A Sra. Constaras tinha vinte e três anos; vivia em Tolos; um dia, teve uma angina. O Doutor Rosséguet, morador ainda em Tolos, foi chamado para a tratar. Mandou pincelar a garganta com ácido clorídrico diluído. A mãe da Senhora Constaras deu-lhe o frasco que continha o suposto ácido; mas a doente, muito fraca, recusou-se a aplicá-lo, dizendo que iam matá-la!... E que aquele liquido não era ácido clorídrico... Após algumas tentativas infrutíferas, o médico quis provar ã sua doente que o medicamento era bom. Pós no frasco um fósforo, que imediatamente se carbonizou. Era ácido sulfúrico!...

Eis do que me lembro. Não guardei outros pormenores na memória, mas não esqueci que houve um erro grave do farmacêutico, numa das minhas receitas, e que a Senhora Constaras, num pressentimento seguro, entendeu que devia repelir o emprego do remédio.

Procurei obter outros pormenores, e não o consegui; se! Porém que se tratava de uma angina, segundo os meus livros de apontamentos daquela época. A minha receita devia ser aviada em dois frascos, sendo um para cauterização e outro pára uso interno, e o erro do farmacêutico consistiu numa troca de rótulos; mas afirmo ter conservado a lembrança do feliz pressentimento que salvou a Senhora Constaras dos efeitos terríveis da ingestão de um cáustico.

Permita-me agora que lhe diga senhor e grande Mestre, que pertenço ao número daqueles que muito admiram os seus doutos e interessantes escritos sobre a Pluralidade dos mundos e que sou, de há muito, um seu discípulo na teologia científica que vem salvar as aspirações religiosas da Humanidade contra o materialismo.

Ligue-se aceitar a homenagem de meu profundo e sincero reconhecimento, homenagem bem merecida.

(Carta 980.)

 

Aqui temos duas observações de pressentimentos experimentais incontestáveis e de que a fisiologia materialista não dará certamente nenhuma explicação. Poderia ajuntar uma centena de observações análogas, demonstrando a existência de faculdades internas ainda desconhecidas e a estudar para a nossa instrução pessoal.

Não há aqui nem ato de raciocínio, nem transmissão de pensamento, nem telepatia. E' uma espécie de adivinhação. A transmissão de pensamento, a telepatia, serão objeto de capítulos especiais. Entramos na análise de todo um mundo desconhecido, e devermos distinguir, com cuidado, a natureza intrínseca dos fenômenos.

Teremos de estudar fatos idênticos nos capítulos da vista sem a intervenção dos olhos, da telepatia e da previsão do futuro. Limitemos-nos por agora a estes restritos pressentimentos no estado de vigília, sem ocuparmos por enquanto do que acontece nos sonhos.

Já contei algures que Delaunay, Diretor do Observatório de Paris, tinha o pressentimento do que a água lhe seria fatal e se recusou sempre a viajar por mar. Um dos seus parentes, o Sr. Millaud, porém, em 1872, pediu-lhe que descansasse dos seus trabalhas, durante uma semana. Dirigiram-se ambos a Cherburgo e afogaram-se quando voltavam de visitar a baía, em virtude de o navio se voltar, impelido pela ventania. Nas suas

Confissões (tomo IV, pág. 425), Arsène Houssaye Garra a seguinte história análoga:

Sua irmã Cecília havia fugido da invasão Prússia, na de 1870, retirando-se para uma cidade da beira-mar. Um dia, propuseram-lhe um passeio pelo Oceano, mas logo minha irmã gritou: Não, não quero andar sobre as ondas. v Perguntaram-lhe a razão disto e ela contou que uma vez, em Toulon, ao subir para um barco, uma italiana que lia as sinas a aconselhara a ficar em terra: Caríssima senhora, o mar far-vos-ia mal. p Minha irmã não fez caso da profecia e deu-lhe circo francos; mas apenas chegou ao mar, uma rajada de vento atirou-a a água, sendo salva da morte. No dia seguinte, a cigana apresentou-se no hotel da sob-prefeitura. Não quiseram recebê-la, mas minha irmã dirigiu-se-lhe. A velha sibila fitou-a e vaticinou-lhe que o mar lhe seria fatal.

'Eis porque não quis refugiar-se na Inglaterra, onde era esperada por uma das suas amigas.

Em vez de um passeio pelo mar, decidiram um passeio por terra firme.

Era a 10 de Outubro; o prefeito, sua mulher, sua filha, duas sobrinhas e minha irmã dirigiram-se alegremente à ponta de Penmarch, promontório eriçado de rochedos ciclópicos. Penmarch quer dizer cabeça de cavalo, porque todos os bretões têm a linguagem figurada de Chateaubriand. O mar vem arrebentar aí com fragor de tempestade; tudo são abismos e turbilhões; de sorte que de baixo da cabeça de cavalo está à furna do inferno. O prefeito levou, portanto, as mulheres, moças e belas, à ponta de Teul-an-Ifern, para que elas vissem o medonho espetáculo do mar em fúria. Todas iam risonhas ao chegarem ao rochedo, como se entrassem num camarote da ópera. Enquanto se sentavam aqui e ali, o prefeito fumava um charuto, próximo da porta do atelier dum pintor de marinhas. As mulheres chamaram-no para que ele contemplasse a esplêndida vista do mar sitiando o rochedo. Nada temiam, porque o assalto das vagas detinha-se muito longe delas.

Eram horas de voltar, mas minha irmã, empolgada pela áspera beleza do espetáculo, pediu cinco minutos mais de espera. De repente, um vagalhão, uma dessas ondas terríveis que surgem como um raio, salta, escala o rochedo e arrasta para o mar as cinco damas espavoridas.

O prefeito empalidece, vendo o turbilhão e uma sombrinha atirada para junto dele.

Um único grito: Minha mãe! Corre como para combater as vagas, mas a onda já descera, levando a sua colheita. E depois, mais nada! Só o mar que abrandou, cantando o De Profundis, com o seu ramalhete de mulheres no seio.

O Oceano ciumento guardou minha irmã na voragem, sem a lançar à praia. Nada reapareceu dela, nem o seu corpo esbelto, nem os seus cabelos demonstrados pelas ondas, nem o seu guarda-sol, nem o seu leque. Só ficou dela o grito: Minha mãe!

Foi um pombo branco que me trouxe esta notícia lúgubre. Ai! de mim'. Os pombos do cerco de Paris não traziam nunca boas notícias.

Os pressentimentos, as advertências desta ordem são demasiadamente numerosos para serem fortuitos, e não deve surpreender-nos o interesse que há em procurar explicá-los. Fazem parte dos nossos fenômenos psíquicos a estudar. Uma coincidência do acaso, sim; mas dez, vinte, cem, mil? Não! Não há nenhuma superstição na análise destes mistérios.

Esta outra narrativa mostra-nos um homem perfeitamente ponderado que, achando-se de visita em casa de amigos onde devia passar a noite e que ficava situada a 20 quilômetros da sua, experimenta a sensação duma desgraça indeterminada, e, mudando de projeto, volta logo para a sua vivenda, onde encontra a mãe jogando as cartas, deitando-se em seguida como de costume e aparecendo-lhe, depois, no fim dessa noite, para o avisar de que morre, na mesma hora em que, de fato, morria da ruptura de um aneurisma, num quarto do outro extremo da moradia. Há aqui dois fatos distintos: 1° sensação à distância de uma desgraça imprevista e iminente; 2° aparição na hora da morte.

Eis a carta:

 

Caro Mestre:

 

Importam só conhecimentos que revela ao mundo que eu lhe comunique o que me aconteceu, há cinco anos, sem que disso possa duvidar, apesar do seu severo método de observações. Em primeiro lugar, vou dizer-lhe quem sou.

Atualmente (1899) tenho 35 anos, gozo de boa saúde, nunca tive alucinações e fui sempre céptico no que diz respeito a visões e pressentimentos

Sou proprietário e moro na minha herdade. Ocupo-me dá gestão de minhas terras e sou também funcionário ao serviço do Estado. Sou semsky natchalnik - o que se pode traduzir por administrador e juiz territorial - no distrito de Kolman, província de Pskoff.

Às 7 horas e meia da manhã, em 20 de Abril de 1894, minha mãe, Olga Nikoloiewna Arboussoff, falecia. Nada deixava prever esta morte, pois minha mãe contava 58 anos e gozava saúde. Eu morava com ela na propriedade que habito ainda: aldeia Tnoukouvo, distrito de Kolngdepskof.

No ano de 1894, o dia 20 de Abril (dia do falecimento de minha mãe) caia na semana de Páscoa (estilo antigo), e a 19 estava eu de visita em casa de amigos para cumprimentá-los na ocasião desta festa.

Viviam a 20 quilômetros da minha herdade e freqüentemente eu passava a noite com eles, voltando a essa no dia seguinte. Dispunha-me a fazer o mesmo desta vez. Entretanto, um pressentimento indefinível impediu-me de me demorar e, apesar de instantes rogos, pus-me a caminho já de noite. Durante a marcha, não me sentia bem, atormentava-me o pressentimento duma desgraça próxima. Só experimentei alguma tranqüilidade quando, ao chegar a casa, e encontrei alguns amigos jogando as cartas com minha mãe.

Ela sofria de violentas enxaquecas e, quando eu lhe perguntei como estava, respondeu-me que a cabeça lhe doía um pouco. Ao retirar-me para o meu quarto, dei-lhe as boas noites, como de costume, e não tardei a adormecer.

A minha casa é vasta e o meu quarto era bastante afastado do de minha mãe; separavam-nos duas paredes de pedra.

No dia seguinte (20 de Abril) acordei, coberto de suor frio e todo tremulo pelo pesadelo terrível que me havia acometido. A bem dizer, não era um pesadelo, era uma visão.

No momento de acordar, às 7 horas e meia precisas (pois consultei logo o relógio), vi minha mãe distintamente aproximar-se da minha cama. Beijou-me na testa e disse-me: - Adeus, eu morro, eu morro!

Dispunha-me a levantar-me e a ir ao seu quarto, quando ouvi de repente grande alvoroço na casa. Toda gente corria. A camareira de minha mãe precipitou-se na minha alcova, chorando e gritando:

- A senhora acaba de falecer!

Segundo a versão dos criados, parece que minha mãe se havia levantado, nesse dia, pelas 7 horas, dirigindo-se a quarto dos netos. Beijou sua netinha, voltou à sua câmara, ajoelhou diante dos ícones para recitar, como costumava, as rezas da manhã. Quando se prosternava ante as imagens sagradas, faleceu repentinamente. A morte fora motivada pela ruptura de um aneurisma: congestão fulminante.

Foi, pois, exatamente às 7 horas e meia, a hora da minha visão, que ela morreu.

Eis, caro Mestre, o fato que entendo dever comunicar-lhe. Se desejar fazer-me algumas perguntas, apressar-me-ei a responder a elas, no interesse das suas preciosas pesquisas tão documentadas. Parece-me, de resto, que já lhe escrevi uma vez.

 

(Carta 814.)

ALÉXIS ARBOUSSOFF

 

Kolm, Governo de Pskoff (Rússia) (16)

 

Há aqui duas coisas notáveis a interpretar para nossa instrução.

Seja qual for à narrativa do observador - que pode variar, nas expressões, segundo sua memória - e seja qual for à ortografia das línguas estrangeiras, os fatos existem em si.

Em primeiro lugar, o relato é cientificamente admissível. Ele vem de um homem refletido, na força da vida e do raciocínio, e o nosso dever é considerá-lo com o cuidado com que consideraríamos uma observação astronômica, meteorológica, química, ou outra qualquer observação positiva.

Dois fatos, dizíamos nós, merecem examinados.

O Sr. Aléxis Arboussoff, de trinta anos de idade, em 1894, vivendo com sua mãe, que contava cinqüenta e oito anos, vai visitar amigos a 20 quilômetros da sua herdade, na intenção de aí passar a noite e voltar no dia seguinte. Ora, nessa mesma noite, é assaltado por doloroso pressentimento que o impede de pôr em execução o seu projeto: sentiu-se forçado a regressar apressadamente a casa. Ao chegar, ficou surpreendido por não encontrar a explicação do seu pressentimento, vindo encontrar tudo tão sossegado como habitualmente. Alguns amigos jogavam as cartas com sua mãe.

Seria interessante determinar de que proveio a causa desta sensação telepática.

Não parece que seja da parte da mãe, pois ela parecia tranqüila acerca de sua saúde, apesar da enxaqueca de que sofria. Conhecemos circunstâncias em que se fizeram chamadas dolorosas, físicas ou mentalmente, sendo ouvidas ao longe sob uma forma qualquer. Neste caso, adivinhamos principalmente uma intuição no espírito do filho. A comunicação psíquica entre os dois seres não é, todavia, duvidosa, e implica uma previsão singular do futuro. A Senhora Arboussoff ia falecer dentro de poucas horas, sem que nem ela e seu filho nisso pensassem. Mas há em nós alguma coisa mais do que a consciência normal aparente. Seja qual for o seu nome: - inconsciente, subconsciente, subliminal, essa coisa existe. Disto é que não podemos sair.

Pois bem: tal coisa é o nosso ser íntimo, transcendente, permanente, anterior ao nosso corpo material e que não depende dele; é a nossa alma, cujas faculdades são desconhecidas da ciência clássica.

Vejamos agora o segundo ponto.

O narrador, proprietário e juiz territorial, deitam-se e adormece no sono do homem honrado e satisfeito com a sua sorte. Mas, no dia seguinte, acorda coberto de suor, sobressaltado por terrível pesadelo. Que seria? Sua mãe, falecida repentinamente no seu quarto, muito distante, separado do dele por dois outros compartimentos, aproxima-se-lhe do leito, beija-o na fronte e diz-lhe: - Adeus! Eu morro!

A ação pessoal da moribunda não é duvidosa, neste caso. E' preciso que o seu espírito tenha atuado sobre o do filho, a ponto de representar-lhe a sua imagem. Não devemos concluir disto que qualquer coisa de material ou semi material, uns corpos etéreos, vestidos como a defunta, se transportasse do quarto da mãe para o do filho; tal interpretação não é necessária. Mas, esta mãe, contudo, mostrou realmente ao filho, anunciando-lhe a sua morte. E' este o fato incontestável que não podemos negar.

Não existe aqui a prova da existência dum espírito no organismo humano, espírito pensante, afeição, personalidade mental? A observação é tão positiva e irrecusável como a dum bólido, dum raio, dum fenômeno físico verificado com exatidão.

Esta mãe agiu em espírito sobre o filho, e a ação psíquica do seu cérebro traduziu-se pela sua imagem. A observação seguinte oferece certa analogia com a precedente, e põe também em evidência uma faculdade da alma supranormal a estudar:

Minha mãe faleceu em 4 de Outubro de 1888, em sua casa, a 5 quilômetros de Ozark (Missouri). Tinha cinqüenta e oito anos. Eu morava então em Fordland, a 28 quilômetros da habitação de minha mãe. Havia dois meses que não a via, escrevia-me, porém, todas as semanas.

Na noite da sua morte, assistíamos, eu, minha mulher e um filhinho de um ano, a uma cerimônia religiosa. Pelas 10 horas da noite, antes dessa cerimônia acabar, enquanto a congregação cantava, experimentei o desejo de ver minha mãe, pensamento que me foi sugerido por pessoas que pareciam sentir muito calor, recordando-me que minha mãe sofria de sufocações durante as quais carecia de ar. Nos seus rostos pareceu-me ver minha mãe sofrendo. De repente, Pui assaltado por uma vontade impulsiva e tão violenta de correr para ela que confiei meu filhinho a uma vizinha e deixei a igreja sem avisar minha mulher, que estava em outro ponto do templo. Acelerei a marcha para tomar o comboio, mas perdi-o. Com a impaciência de chegar sem demora perto de minha mãe, segui a pé pela via - férrea, num percurso de 11 quilômetros, e, tomando depois outro caminho, entrei na vivenda materna pelas 3 horas da manhã. Tinha mais de quatro horas de marcha.

Minha mãe acabava de expirar! Bati ninguém respondeu. Consegui abrir a porta e encontrei minha irmã, que o barulho acordara. Perguntei-Ihe onde estava nossa mãe e ela respondeu-me

- Está no seu leito.

- Ah! Ela morreu! -- exclamei.

Era verdade. Dirigimo-nos ã sua cama; tinha morrido algumas horas antes, certamente! Deitaram-se as 10, sentindo-se melhor que de costume e combinando com minha irmã levantar-se cedo para ir a Ozark.

 

TOMAS GARRISON.

 

Um inquérito a que procedeu a Sociedade Inglesa de Investigações Psíquicas tornou públicos os pormenores da verificação desta narrativa pela irmã do narrador, sua mulher e vizinhos (17).

Eis, pois, um homem que, sem causa conhecida, sem razões normais, abandona um ofício religioso em que tomava parte, entrega o filhinho de um ano a uma vizinha, não previne sua mulher, e anda quilômetros a pé, de noite, para ir ver sua mãe que acabava de falecer!

Que o espírito da agonizante impressionou o seu, parece-me indubitável. Foi também o espírito do narrador que sentiu esta emoção tão imperiosa como incompreensível. Por parte da mãe, foi tal ação consciente ou inconsciente? Não o sabemos. Mas, que houve entre mãe e filho uma comunicação psíquica, uma correspondência mental, não se pode deixar de admitir. E' o que classificamos de faculdades supranormais pertencentes à alma, fora dos sentidos físicos.

Continuemos o nosso livre exame.

Devemos incluir o fato que se segue na categoria dos pressentimentos trágicos? Ele é, em qualquer caso, dos mais extraordinários.

Em centenas e milhares de fenômenos psíquicos desta ordem, só nos sentimos embaraçados na escolha, pára certificar a existência, no homem, de faculdades desconhecidas e de enigmas a resolver. Aqui temos um, por exemplo, de observação bastante recente, que me foi contado de viva voz pela pessoa com quem se deu:

Uma senhora que vivia em Paris (Sra. Marichal, Rua Custine, 20, XVIII Distrito) acordou na noite de quinta-feira, 26 de Março de 1914, sob a impressão de terrível pesadelo. Uma espécie de espectro, vago, sem forma, chegou-se perto de sua cama, apertou-lhe os braços e murmurou entre ameaças terríveis:

- Teu marido ou tua filha - um dos dois - tem de morrer. Escolhe!

- Escolher, disse ela, entre meu marido e minha filha? E' impossível. Nem um nem outro - respondeu, toda tremula.

- E' preciso que escolhas - replicou a aparição. - Um dos dois há de morrer. Decide! Qual deve ser sacrificado?

Presa das mais dolorosas angústias, a paciente debateu-se longamente, sem poder decidir. Louca de dor nega-se a responder. Que sofrimento indizível lhe apertava a alma Adivinha-se. Seu marido, de 46 anos, gozando de perfeita saúde, estava ao lado dela. Sua filha, que a acompanhava quando me contou esta alucinação singular, é, no momento em que escrevo estas linhas (Junho de 1918), uma bela rapariga de 17 anos. Compreende-se o estado de agitação da Senhora Marichal. Sentia por ambos afeição idêntica.

Finalmente, vencida por vontade mais forte que a sua, e insistindo a visão em receber uma resposta, acabou por confessar a si própria que o amor materno deve dominar tudo, e que sacrificaria seu esposo de preferência à sua filha.

Volvidos cinco dias, o Sr. Marichal, a quem ela não tinha contado o seu pesadelo e que nunca estivera doente, sentia-se cansado, ao voltar do seu escritório (Cabos Submarinos) e deitava-se. O médico, chamado na quarta-feira, não descobriu nenhum sintoma de moléstia e diagnosticou uma gripe ligeira. Na quinta-feira, o seu estado agravou-se. No sábado, o condenado estava morto. O coração parara de súbito, segundo declaração do médico. Nenhum indicio de doença cardíaca havia sido observado nele.

Interroguei, juntas e separadamente, a Sra. Marchal e sua filha para confrontação desta história singular, e, na minha opinião, não há dúvida alguma quanto à autenticidade.

Podemos acrescentar este sonho premonitório aos 76 análogos publicados em O Desconhecido. Mas, que forma sinistra! E como explicá-lo?

A maneira mais simples é supor que o Senhor Marichal devia morrer naquela data, sem que desconfiasse do seu estado de saúde. Quando morremos, não é, em certas circunstâncias, senão ao cabo de uma doentia evolução, de que não nos apercebemos. Julga-se gozar saúde: um mal desconhecido enfraquece-nos gradualmente. O subconsciente da esposa, muito sensitiva, pode ter percebido inconscientemente este estado mórbido e, o desfecho fatal... A nossa personalidade psíquica é dotada de faculdades ainda pouco analisadas.

E' esta uma hipótese explicativa, mas não passa de hipótese.

Se a aceitássemos, seria preciso, para completá-la, adivinhar como esta intuição tomou o aspecto de aparição anunciadora.   Outra hipótese:

O mundo invisível em que vivemos não conterá seres tão invisíveis como as forças que governam a Natureza: a atração, a eletricidade, o magnetismo solar e planetário, etc. , seres, espíritos, pensamentos que poderiam possuir uma consciência rudimentar assim como a faculdade de ver o que se passa num organismo vivo, e manifestar-se? E' esta uma hipótese ousada, mas que nos ajudaria a compreender a observação que acabamos de relatar, assim como muitas outras inexplicadas. Um ser invisível tornado visível teria, por assim dizer, imposto a Sra. Marichal o jogo da carta obrigada. Todos temos visto prestidigitadores que nos apresentam um baralho de cartas, convidando-nos a escolher uma delas, livremente. Ora, escolhemos sempre a carta que eles querem (com exceção das substituições). O espírito que imaginamos teria sabido é visto que o condenado devia morrer a breve prazo e forçaria a própria esposa a designá-lo.

Imaginando esta hipótese, confesso que me parece pouco verossímil; mas não é inaceitável. Ela lembra, sob outro aspecto, o anjo guardião que a religião cristã nos designa como sendo o companheiro invisível do crente. Que isto seja ou não aplicável ao caso, o fato a explicar aí está diante de nós e inatacável.

Não poderemos admitir também, por uma série bastante rica de observações concordantes, que a atmosfera, ou, melhor, o éter, contém um elemento psíquico ainda não descoberto? A composição química do ar, em que entram o oxigênio e o azoto, só foi descoberta no século XVIII. Julgava-se conhecer inteiramente esta composição, quando há vinte anos se descobriram elementos sutis ignorados, o néon, o crípton, o árgon, o xênon. E' possível que exista outros mais tênues ainda e de essência superior. Cada segundo uma alma humana abandona um corpo. Aniquilar-se-á? Nada o prova. O número destas almas é de 86.000 a 100.000 por dia, pouco mais ou menos, um milhão em dez dias, dez milhões em cem dias, 36 milhões por ano. Pensar, como Vitor Hugo, que está tudo cheio de almas, talvez não seja só uma ficção poética. Quem sabe se este elemento psíquico não estará em jogo na explicação dos fenômenos que estudamos?

Todavia, no caso que aqui nos interessa, a primeira hipótese parece-nos a mais provável, sobretudo se refletirmos que o nosso ser mental pode exteriorizar-se, sair de nós, tomarmos forma alheia ao nosso eu consciente, e mesmo conversar conosco, como acontece nos sonhos. Trata-se justamente dum sonho, primeiro inconsciente, e que, ao despertar, se tornou alucinatório.

Vê-se por isto quanto é complexo o problema que estudamos. Este exemplo, que acabo de apresentar entre mil, visa unicamente, por enquanto, justificar o título deste capítulo: Faculdades da alma desconhecidas ou pouco estudadas. Ele tem o n° 4.033 no inquérito a que já aludi.

Uma história que alguma forma se relaciona com a da Sra. Marichal foi relatada no Ainslee's Magazine, de Março de 1892, pelo Dr. Minot Savage. Ei-la

Num arrabalde de Nova Iorque, morava um moço que acabava de terminar os seus estudos no estrangeiro, na Universidade de Heidelberg. Seu temperamento era muito imaginativo. Alto e robusto, gozava da fama de atleta. Seus estudos preferidos eram as matemáticas, as ciências físicas, a eletricidade. Chegava do estrangeiro e, tanto quanto se podia avaliar, dispondo de excelente saúde. Vivia então com sua mãe na casa de campo que ela possuía naquela região. Tinha por hábito dar um passeio todos os dias, depois do jantar, fumando o seu cachimbo. Uma noite, voltou tranqüilamente e deitou-se sem nada dizer a ninguém. No dia seguinte de manhã foi ao quarto de sua mãe antes de ela se levantar, passando-lhe brandamente a mão pelo rosto para despertar; depois, exclamou:

- Mãe, tenho uma coisa triste a comunicar-te. E preciso que te armes de coragem para poderes suportar a minha má notícia.

Ela ficou, naturalmente, atônita e perguntou-lhe aonde queria chegar.

- Mãe, sei o que digo; morrerei em breve.

Perturbada e angustiada, como bem se pode imaginar, pediu ao filho que se explicasse.

- Ontem à noite - respondeu-lhe ele - quando fazia o meu passeio, apareceu-me um Espírito e começou a andar a meu lado. Fui prevenido. Devo morrer.

Muito impressionada, a mãe mandou chamar um médico e contou-Lhe o fato. Ao cabo de atento exame, o clínico nada encontrou de anormal no estado do moço e garantiu que tudo o que lhe acontecera não passava de um mau sonho, pura alucinação em que não devia pensar mais, e que, dentro de alguns dias, a mãe e o filho se ririam dos seus sustos imaginários.

No dia seguinte, o rapaz não se mostrava tão bem disposto como de costume, e o médico, reclamado pela segunda vez, zombou novamente dos seus receios.

Ao terceiro dia, o estado de doente agravou-se, o doutor teve de voltar e foi então obrigado a diagnosticar um caso de apendicite. O enfermo foi operado e faleceu 48 horas depois. Cinco dias apenas haviam decorrido entre a visão e a morte.

Tem-se por hábito substituir, inconsideradamente, estes fenômenos pela palavra alucinação, imaginando-se, assim, resolver o problema. Isto não é sério.

Nos inúmeros documentos deste inquérito, ser-me-ia fácil encontrar outros, de natureza diversa dos precedentes, mostrando a extensão do domínio desconhecido que temos de explorar. Ao acaso, encontro uma carta bem diferente da precedente comunicação e não menos curiosa. Foi-me endereçado de Constantinopla, em 22 de Setembro de 1900. E a seguinte

Senhor Professor:

Cumpro o dever de lhe assinalar dois casos observados por mim para o inquérito científico experimental a que consagra lealmente tantas horas ocupadas no desenvolvimento da instrução geral.

Um homem do meu conhecimento estava certo dia, em minha casa, em Constantinopla, pelas 11 horas e meia da manhã, e dizia-me:

- Não sei qual a razão disto; mas, durante toda a manhã, tem-me perseguido o pensamento de que minha tia faleceu em Gênova.

Perguntei-lhe então se sabia que ela estivesse doente, e ele respondeu-me que tinha cortado as relações, havia dez anos, com sua família e nenhuma notícia recebera. Enquanto conversávamos e eu procurava provar-lhe que tal pressentimento era imaginário, o seu criado chegou e entregou-lhe um telegrama de Gênova, no qual o avisavam da morte repentina de sua tia, naquela manhã.

Este mesmo homem, na noite de 31 de Julho passado, acordou em sobressalto e disse a sua mulher:

- Mataram o rei da Itália.

A esposa, julgando que ele estivesse a sonhar, nada replicou. No dia seguinte, falou-lhe no caso, mas ele respondeu que não se tratava de um sonho e que havia proferido aquelas palavras sem saber como nem por que.

Da janela, avistava-se o porto, e ele disse a sua mulher: - A melhor prova de que o rei da Itália não morreu é que os navios ancorados içaram as suas bandeiras.

Uma hora depois, voltou à janela e observou que, desta vez, os navios tinham as bandeiras à meia-haste. Surpreendido com tal mudança, procurou informações, e em breve soube que, durante a noite, o Rei Humberto fora assassinado. Sobressaltado por esta coincidência, acaba de vir consultar-me, como médico alienista, perguntando-me se esta visão não denota algum sintoma grave para o seu cérebro! Tranquilizei-o, mas não me esqueci de tomar nota do fato, tanto mais que este homem perfeitamente equilibrado é digno de fé a todos os respeitos.

Aguardando a sua resposta, peço-lhe que desculpe a ousadia de me dirigir ao senhor sem ter a honra de conhecê-lo pessoalmente, e que aceite as minhas respeitosas homenagens.

(Carta 943.)

  1. L. MOUGERI

Médico alienista do Real Hospital Italiano - Rua Cabristan, 20, Constantinopla.

 

Aí têm, como se vê dois casos análogos de telepatia, apesar de diferentes:

1° - uma morte percebida a distância, de Constantinopla a Gênova, em estado de vigília; 2° - assassinato do rei da Itália, conhecido durante o sono. A percepção dos dois acontecimentos não é duvidosa. Será a explicação igual para ambos? No primeiro, há probabilidades duma corrente particular entre a tia e o sobrinho; no segundo, uma transmissão em ondas esféricas gerais. E' difícil decidir. Em virtude desta dificuldade é que o número de observações tem valor real.

Agradeci ao probo médico esta comunicação que juntarei a tantas outras. Ninguém tem o direito de duvidar de tais fatos. Não querer ver em tudo senão ilusões é insensato, é negar o Sol ao meio-dia. O ser humano é ainda para nós um mistério inexplorado, a ciência das escolas seguiu um rumo errado até hoje, e quem procurar a verdade deve, em diante, convencer-se de que existem faculdades desconhecidas da alma, as mais importantes, para serem descobertas, determinadas e explicadas.

E opinião minha que devemos estudar tudo sem parcialidade. Francisco Sarcey teve um dia à gentileza de me transmitir uma carta, que acabava de receber, sobre quiromancia, datada de 22 de Março de 1899, e que começava assim.

Ninguém mais do que eu, talvez, admiro o seu bom senso, os princípios excelentes que professa e os conselhos prudentes que espalha nas suas crônicas. Mas, não se pode saber tudo e o alto bom senso que é o seu atributo (coisa rara) não lhe permite, concordo sondar o que parece insondável à primeira vista. O senhor é nisso diametralmente oposto a Flammarion que possui o verdadeiro bom senso científico: ele nada rejeita sem Prévio exame.

 

22 de Março de 1899.

 

(Carta 841.)

  1. DE M.

 

Esta carta continua por uma dissertação sobre a quiromancia, que não entra aqui em discussão. Se reproduzi este trecho, é simplesmente para lembrar o cuidado que devemos ter em não desdenhar nada, com o fim de conseguirmos, sem obstáculos criados por idéias preconcebidas, determinar o que há já de verdadeiro, de real, nos fenômenos psíquicos. Sarcey foi tanto mais amável em comunicar-me a mencionada carta quanto ele não acreditava absolutamente nestes fenômenos.

E, no entanto, como são numerosos! Como são irrecusáveis, tais fenômenos! Não os desprezemos mais.

Nem sempre é fácil averiguar e discutir as faculdades supranormais da alma. O seguinte caso, que me comunicaram de Cette, em 20 de Janeiro de 1912, 4oi um dos que me provaram quanta razão tive em convidar, pela imprensa, as pessoas que haviam experimentado estas impressões a trazê-las ao meu conhecimento, no interesse do progresso da nossa instrução geral:

Certa noite saí do Grande Café, em Cette, deixando ali um dos meus bons amigos, cheio de saúde; era meia-noite em ponto. Deitei-me de muito bom humor e adormeci no sono do justo, disposto a gozar um descanso bem ganho.

De repente, às 3 horas da manhã, acordado por terrível pesadelo, ergui-me na cama. Vi o meu companheiro com o crânio aberto, agonizante, dizendo-me adeus e beijando-me. Era horroroso! Ainda tenho esta visão clara na memória. Espavorido, vesti-me e esperei o dia, contando que as distrações do vaivém fariam desaparecer do meu cérebro o horrível pesadelo que o atormentava.

Às 7 horas da manhã, sai de casa. Vinha avisar-me de que o meu lastimado amigo, Théaubon, ao visitar uma amiga, havia saltado por uma janela, devido a circunstancia que não interessam ao caso, e fendido o crânio, morrendo instantaneamente. Atordoado, abatido e sempre sob a impressão de meu pesadelo, quase desmaiei.

O que relato é a expressão da verdade, pois tenho tanta veneração e respeito pelo grande sábio que no senhor admiro que não lhe dissesse uma coisa que não fosse rigorosamente exata.

 

(Carta 2.220.)

 

Louis Perier

Empregado na Municipalidade de Cette.

 

Como interpretar esta visão?

Foi o espírito do narrador que vislumbrou o desastre, à distância? Ou, pelo contrário, foi o individuo que veio mostrar-se?

Conhecemos tão grande número de exemplos à distância que a primeira explicação parece a mais exata. Entretanto, o autor não viu o desastre, viu o seu amigo com o crânio aberto, agonizando e beijando-o. Mas, por outra parte, se a morte foi instantânea e num momento tão trágico, como supor que ele pensasse no amigo?

Não é provável, mas é possível, afinal, pois o tinha deixado três horas antes.

Vê-se quanto à questão é complexa.

Aqui temos agora um caso muito notável de sensação telepática de acidente a distância, por uma mulher sobre o.marido, extraído dos Phantasms of the Living. Trata-se do Dr. Olivier, médico em Huelgoat (Finisterra):

Em 10 de Outubro de 1881, escreve ele, fui chamado para um serviço médico na aldeia, a três léguas de minha casa. À noite, muito escura, tinha-se fechado. Tomei um caminho estreito dominado por árvores que formavam abóbada. A escuridão era tão cerrada que nem sequer para guiar o meu cavalo. Deixava o animal dirigir-se por seu próprio instinto. Eram aproximadamente 9 horas; o trilho que eu seguia neste momento estava semeado de grossas pedras redondas e apresentava declive muito intenso. O cavalo ia a passo, lentamente. De repente, as patas dianteiras do animal tropeçaram e ele caiu com as ventas no solo. Fui projetado naturalmente por cima da sua cabeça, o meu ombro bateu na terra e fraturei a clavícula.

Neste momento, minha mulher, que se despia e se preparava para deitar-se, teve a sensação intima de que eu acabava de sofrer um desastre; um tremor nervoso apoderou-se dela; veio a chorar e chamou a criada:

- Venha depressa, tenho medo, aconteceu uma desgraça a meu marido; morreu ou está ferido.

Até que regressei, reteve a criada perto de si e não cessou de chorar. Queria mandar um homem à minha procura, mas ignorava a que localidade eu tinha ido. Cheguei a casa gela 1 hora da manhã. Chamei a serva para me dar luz e desaparelhar o meu cavalo.

- Estou ferido -disse-lhe -, não posso mexer o ombro. Estava confirmado o pressentimento de minha esposa.

  1. Olliver

Médico de Huelgoat (Finisterra)

 

Tenho, na minha coleção, certo número de fatos idênticos, sensações de desastres, de acidentes a distância. Mencionarei mais adiante um deles, quase igual a este e experimentado três quartos de hora antes.

A existência real da alma manifesta-se pelos testemunhos de faculdades psíquicas que não podem ser atribuídos à matéria e que por enquanto não estudamos suficientemente. O homem não conhece ainda a sua verdadeira natureza. E' dotado de faculdades apenas suspeitadas, que serão desenvolvidas pela sua evolução gradual. As escolas de ensino clássico seguiram um trilho errado.

Vê-se, toca-se, analisa-se, disseca-se, no organismo humano, somente o que há de mais aparente, mais superficial, mais grosseiro. O que ele possui, intimamente de sutil, ainda é ignorado e seria, no entanto o mais essencial a conhecer.

O estudo analítico experimental das faculdades da alma deve, doravante, substituir as idéias da metafísica antiga e as palavras que as representam. O pretenso conhecimento da alma consistia, efetivamente, em palavras.

Há pouca coisa de real nas expressões que satisfizeram os seres durante séculos e que nada ensinaram. Para o futuro, impõe-se outro método. Este exame das faculdades da alma humana vai-nos levar a compreender, o mais exatamente possível, as observações positivas que as revelam e que porão em evidência a realidade de fatos paradoxais muito contestados ainda, como estes.

À vontade atuando sem a palavra, e a distancia; As transmissões psíquicas: telepatia;

A vista sem os olhos, pelo espírito; A previsão do futuro;

As manifestações de defuntos, tanto no momento da morte como depois.

Observações diversas e independentes concorrem para afirmar que há no homem um elemento psíquico ativo, diferente dos sentidos materiais.

Entramos aqui num mundo imenso, mais novo que o de Cristóvão Colombo quando descobriu as pretensas Índias ocidentais.

E' do seu cérebro que o indivíduo magnetizado pode tirar o que diz, quando fala de coisas que não conhece, visita casas por ele ignoradas, trata de questões que lhe são alheias, responde a perguntas formuladas em línguas desconhecidas, ouve o pensamento e não a palavra sente o que pensa uma pessoa próxima ou afastada, ou transporta o seu espírito à distância, descrevendo cenas que nunca viu?

Deixemos de fundamentar os nossos juízos nas aparências materiais, na Fisiologia clássica.

Em geral, não se ousa encarar de face o desconhecido, apresentamo-lo, na pedra, como um problema, uma equação, porque somos levados a pensar que sabemos tudo (!) e que não merece exame o que está fora do quadro da Ciência

Há muito tempo, aí por 1865, era eu quase o único, em França, a asseverar a conexão entre a atividade solar e as oscilações diurnas da agulha magnética. Os astrônomos, entre os quais o Senhor Fase, o mais célebre com Le Verrier, diziam que eu errava. Para eles, as correlações apontadas eram apenas obras do acaso.

A sentença de Kepler, comparando o Sol a um ímã Corpus Solis esse magnetismo (18) era a minha, humilde discípulo: os físicos não a admitiam. Proclamava-se que o Sol não podia ser magnético, porque o magnetismo duma barra de ferro suprimia-se quando se aquecia.

Ora, o Sol, apesar de seus 6.500 graus, é um foco magnético, e, hoje (1919), achou-se o meio de medir até o magnetismo individual das manchas.

E assim que a Ciência se transforma por si mesma. Estamos longe de conhecer, seja como for à realidade.

Acerca das observações constantes que cada um pode fazer quanto à diferença entre a realidade e a aparência, acabo de encontrar a seguinte nota, que escrevi no meu Observatório de Juvisy, em 13 de Novembro de 1917:

Por esta fria manhã, o disco solar é dum vermelho ardente. A atmosfera está impregnada de bruma semitransparente. Bela paisagem de inverno, apesar de numerosas árvores conservarem ainda a sua folhagem verde. Muitas destas árvores são amarelas e roxas. Outras já não têm folhas. Se, devido às condições atmosféricas, o Sol se mostrasse sempre assim vermelho, pensaríamos que era esta a sua cor normal. Ninguém o teria visto branco.

Acontece justamente o mesmo com outras coisas. As nossas impressões são a bases naturais dos nossos juízos. E provavelmente a centésima vez que vejo assim o Sol e que faço as mesmas reflexões. Com todas as nossas sensações pode acontecer o mesmo.

Transcrevendo esta nota, acrescentar-lhe-ei o que já disse muitas vezes, durante cinqüenta anos: Se a atmosfera fosse mais opaca ainda, ou constantemente coberta de nuvens, o Sol e as estrelas teriam ficado invisíveis, o sistema do mundo seria desconhecido, e a espécie humana conservar-se-ia na mais absoluta ignorância da realidade.

Que devemos pensar dos seres sensitivos? Eles são mais numerosos do que se imagina. Goethe e Schumann foram tipos notáveis. Falaremos adiante de Goethe, a respeito dos duplos. Assinalemos, de passagem, uma observação telepática curiosa de Schumann. Numa carta de 1838 a Clara Wìek, diz o seguinte

Devo contar-vos um pressentimento que tive, e que me perseguiu de 24 a 27 de Março, enquanto andei ocupado com as minhas novas composições.

Havia nelas um certo trecho que me obsidiava e em que alguém parecia dizer-me, do fundo do coração Ach Gott (Ai! meu Deus). Enquanto compunha, via coisas fúnebres, esquifes, rostos aflitos... Quando acabei, procurei um titulo. O único que me acudiu foi Leichenphantasie (Fantasia fúnebre). Não é extraordinário? Estava de tal maneira perturbado que me vieram as lágrimas aos olhos, sem saber porquê; não pude encontrar a razão desta tristeza. Chegou, então, uma carta de Teresa e tudo se explicou. A cunhada noticiava-Ihe que seu irmão Eduardo acabava de falecer.

Schumann deu o título de Nachtstücke ( Noturnos ) a esta série que quis primitivamente denominar ILeichenphantasie (19).

Os pressentimentos revestem todas as formas. Seu exame formaria enorme volume (20). Mencionarei ainda um dos mais extraordinários, experimentado por Lady Eardley, distinta dama de Além-Mancha, que assim o transmitiu ao Sr. Myers ( 21)

Quando rapariga, na idade de dezesseis anos, tive um ligeiro ataque de sarampo. Morava com meus avós. Após dois ou três dias de cama, disseram-me que poderia tomar um banho quente. Satisfeita e sentindo-me melhor, dirigi-me ao quarto de banho, fechei a porta e despi-me; mas, no momento de entrar na água, ouvi uma voz dizendo-me: Abre a porta. A voz era nítida, bem exterior, e entretanto parecia vir de mim mesma. Não posso afirmar se era de homem ou de mulher. Surpreendida, olhei em torno de mim: naturalmente não vi ninguém. Segunda vez ouvi: Abre a porta; comecei a ter medo, julgando de mim para mim: estou doente ou Nuca; mas não me sentia mal. Decidi não pensar mais nisso, e já estava no banho, quando ouvi uma terceira vez - e creio que uma quarta - as mesmas palavras! Dei um pulo, abri a porta e reentrei na banheira... Nessa ocasião, desmaiei e caí na água. Mas, felizmente, pude agarrar ao mesmo tempo a campainha pendurada perto da banheira. A criada de quarto acudiu, declarando ter-me encontrado com a cabeça debaixo dágua. Tomou-me nos braços e levou-me dali. A minha cabeça bateu contra a porta e logo recobrei os sentidos. Se essa ponta estivesse fechada, ter-me-ia, de certo, afogado.

Que singularidade! Que voz seria aquela'? Donde vinha? Provavelmente da própria menina, que teria pensado num possível delíquio. Quanta variedade nestes avisos incompreensíveis! Sim, a alma humana é dotada de faculdades desconhecidas da ciência atual.

A nossa mentalidade psíquica, em geral submergida pelo nosso ser material, manifesta-se evidentemente em certos exemplos históricos bem conhecidos, mas mal explicados pelo cego cepticismo fisiológico das escolas modernas. Lembremos, entre outros, na vida de Joana d'Arc, estes fatos:

Joana disse ao soldado de Chinon, que a injuriava quando ela entrou no castelo: Ah! tu renegas Deus, e, no entanto, estás prestes a morrer! Na mesma tarde, o soldado afogava-se acidentalmente.

Noutras ocasiões, e a maior parte das vezes - é a própria Joana quem o afirma - era ela prevenida pelas suas vozes. Em Vaucouleurs, sem nunca o ter visto, dirige-se diretamente ao Senhor de Beaudricourt: Reconheci-o, explica ela, graças à minha voz; foi ela que me disse: Ei-la!

Em Chinon, levada à presença do rei, Joana não vacila em conhecê-lo no meio de trezentos cortesãos entre os quais ele se ocultava, com um trajo emprestado.

Solicitou-lhe uma audiência íntima, em que lhe lembrou, para convencê-lo da sua missão, os termos da prece mental que ele havia dirigido a Deus, só, no seu oratório, sobre a sua contestada legitimidade.

Foram ainda as vozes que a informaram de que a espada de Charles Martel estava escondida na igreja de Santa Catarina de Fierbois; - que a acordaram em Orleães, quando, esgotada de cansaço, ela se deitara, ignorando o ataque da basílica de Sannt-Loup; - que a preveniram de que seria ferida por uma seta, em 7 de maio de 1429, no ataque de Tournelles.

No cerco de Orleães, ela avisa Glandale de que perecerá sem sangue dentro de três dias, e com efeito, na tomada de Tournelles, Glandale cai no Loire, e se afoga. Etc.etc.

Donde provinham estas vozes? Dela mesma segundo todas as probabilidades. Mas tocavam de perto o mundo invisível.

Joana d'Arc foi um tipo raro destes seres sensitivos dotados de faculdades supra-normais; e muitos outros se aproximam mais ou menos de tal estado.

As manifestações da alma começam apenas a ser estudadas pelo método experimental; devemos consignar que, nesta ordem de fatos, não podemos quase nunca experimentar, mas somente observar, o que restringe consideravelmente o campo dos estudos. E as condições da vida orgânica terrestre são tão grosseiras que nos encontramos pouco mais ou menos na situação dum homem que tivesse observações astronômicas a fazer numa região em que o céu permanecesse constantemente anuviado.

Estas condições excepcionais são tanto mais lamentáveis quanto o problema da alma, sendo o mesmo que o da sobrevivência, é, sem dúvida, a mais interessante e a mais importante das questões, pois se trata de nós mesmos, da nossa natureza íntima, de nossa imortalidade ou da nossa extinção.

Estudaremos nos próximos capítulos fatos incontestáveis de vista sem os olhos, pelo espírito, assim como a visão de acontecimentos futuros, que ainda não existem, e teremos aí também provas evidentes das faculdades transcendentes da alma.

Que haverá de mais inacreditável - e no entanto de mais certo! - de que ver o futuro com exatidão e ver também o que se passa à distância de mil quilômetros?

A faculdade de ver o futuro será estudada neste livro, em capítulo especial. Que é o tempo? Como se 'produz o futuro?

Os problemas que merecem a nossa atenção são tão numerosos e tão vastos que nunca se acaba de elucidá-los e a nossa curiosidade se renova constantemente pelo estudo. As vulgaridades diárias da vida não bastam aos seres intelectuais, porque eles sabem que viver intelectualmente é viver duplamente, e gostam de viver pelo pensamento. Continuemos o nosso estudo comparativo.

Um mestre-escola erudito, o Sr.Savélli, de Costa (na Córsega), escrevia-me, em 1912:

E' evidente que estas questões interessam aos leitores nos mais altos graus, e estou certo de interpretar o desejo deles, rogando-lhe que prossiga no seu ensino.

A questão da natureza do tempo deve ser bem difícil de resolver. Um matemático notável respondeu a um investigador que lhe pedia que explicasse tal assunto: Falemos doutra coisa. Entretanto, julgo do meu dever oferecer ao seu exame algumas observações muito perturbadoras e de que se não pode duvidar:

1 - Uma noite, pelas 11 horas, meu pai, voltando para sua casa com um amigo, ouviu, com surpresa, gritos angustiosos. Mulheres choravam e gritavam. Pensaram que acabava de dar-se um desastre, que talvez houvesse morrido alguém. Procuraram o prédio donde vinham os lamentos e pararam; mas, às vociferações, seguiu-se silêncio completo. No dia seguinte, à noite, às mesmas horas, passando de novo em frente da mesma casa, meu pai ouviu os mesmos gemidos. Desta vez eram reais. Uma criança, que na véspera estava de saúde, acabava de falecer quase repentinamente com um ataque de difteria. Este fato ocorreu em Ville-de-Paraso, localidade vizinha daquela em que sou mestre-escola.

2 - O Senhor Napoleoni, sargento aposentado, contou-me o seguinte fato:

- Regressávamos, à meia-noite, quando, ao passarmos em frente de duas casas insuladas, no meio do maior silêncio, ouvimos grandes pancadas com intervalos regulares. Tínhamos a impressão de que se batia com um martelo em madeira sonora. Confesso que se me eriçaram os cabelos e que entrei em casa muito impressionado por este fenômeno inexplicável. Dois dias depois, o acaso quis que encontrasse no mesmo lugar em que os ruídos estranhos me haviam impressionado, e escutei-os novamente: era o marceneiro da aldeia que pregava o caixão do pastor que morrera na véspera.

3 - No dia em que os bandidos Massoni assassinaram o Dr. Malaspina, de Costa, meu tio Costa Michel-Ange, que ainda vive, e que era então (1850) aluno do Liceu de Bastia, teve a impressão de ser agarrado por um abraço invisível que lhe tolhia todos os seus movimentos. A avó materna de meu tio era a irmã do Dr. Malaspina.

(Carta 2.230.)

Destes três fatos, os dois primeiros são premonições (22), e o terceiro é uma sensação telepática, como as que se podem ler às centenas na minha obra O Desconhecido. São inexplicadas - e inexplicáveis no estado atual da Ciência. Mas são irrecusáveis e confirmam-se uns pelos outros; estudando-os, esclarecemos o nosso próprio conhecimento, ainda tão pouco adiantado, pois que o que mais ignoramos é a nossa própria natureza. Não os desdenhemos, portanto.

Começamos a conceber as transmissões telepáticas pela descoberta da telegrafia sem fios: mas nada nos põe ainda no rastro da explicação dos fatos premonitórios, tão difíceis de admitir, embora inegáveis. A principal dificuldade está na contradição que parece impor-se entre a vista dos acontecimentos vindouros, tal como o verificaremos aqui com segurança, e o nosso sentimento do livre arbítrio.

Sem nos preocuparmos, neste momento, com os casos particulares, e para nos cingirmos à questão de princípio, direi desde já que não podemos doravante duvidar de que os acontecimentos futuros foram vistos e descritos de antemão, em certas circunstâncias, exata e explicitamente, e a tal afirmação julgo poder acrescentar, em segundo lugar, que este fato de observação deve conciliar-se com o livre arbítrio.

O tempo não é o que nos parece. Não existe em si mesmo. A eternidade é imóvel e atual. Um dia, certo cardeal francês, muito ligado com o Papa Leão XIII, discutiu comigo esta questão, durante o passeio que fizemos num jardim de Nancy, e sustentava que as premonições não se conciliavam com o livre arbítrio.

- Acreditais na existência de Deus? - perguntei-lhe. - Espero que o senhor não duvide disso - respondeu ele.

- Pensais como todos os teólogos e como Cícero, assim como o vosso predecessor, o Bispo d'Hipônia, que Deus conhece o futuro?

- Sim, certamente.

- Admitis também o livre arbítrio e a responsabilidade dos cristãos?

- Sim.

- Então, que diferença existe entre os fatos premonitórios e esta doutrina? - retorqui.

Enquanto ao tempo, o passado já não existe, o futuro ainda não existe: só existe o presente. Ora, que é o presente? A hora atual? Não. O minuto atual? Não. Um segundo? Não. Um décimo de segundo? Não. Um centésimo de segundo? Também não. Um milésimo de segundo? Ainda é muito para um eletricista. Mas, enfim, aceitemo-lo, se assim quereis. Eis, pois, o presente, a realidade. Confessai que não é muito substancial.

Não existindo o tempo em si mesmo e não sendo medido em nosso espírito, a não ser pelas nossas sensações, o encadeamento dos acontecimentos é como um presente que se desenrola, e este desenrolamento não impede a vontade humana de nele representar o seu papel.

O problema não deixa, todavia, de ser, ao mesmo tempo, muito complexo e muito curioso. Esta visão do futuro será provada especialmente nos capítulos VIII e IX.

Repetimos que vivemos no meio dum mundo do qual só conhecemos a aparência, e mal podemos adivinhar-lhe as realidades internas. Há entre estas realidades e as nossas almas analogias, relações, trocas ainda desconhecidas.

Terminarei este capítulo com uma carta recebida no momento em que classificava os documentos manuscritos desta obra. Ela emana dum espírito eminente, cujo caráter é friamente positivo, antigo aluno da Escola Politécnica, engenheiro-chefe de Pontes e Calçadas, membro perpétuo da Sociedade Astronômica de França, e que julga com exatidão os grandes ou pequenos acontecimentos. Eis essa carta:

 

GOVIILNO MARROQUINO

Obras públicas Engenheiro-chefe

Meu caro Mestre.

Tanger, 6 de Julho de 1918.

 

Já que estudou muito particularmente as forças naturais desconhecidas, peço licença para levar ao seu conhecimento, sem comentários nem pedido de explicações, dois fatos, dos quais um ocorreu ontem e o outro, há um ano, e cujo interesse para mim está em que posso garantir a sua autenticidade, pois fui deles o único autor.

Primeiro fato: Possuo, para as minhas observações do céu, um pendulo elétrico de Leroy, o qual, como sabe, se move por meio duma pilha durante quatro anos, detendo-se somente quando a referida pilha se esgota; este pendulo encontra-se no meu gabinete de trabalho, há três anos e meio, e nunca esteve parado.

Ontem, eu tinha alguns amigos em casa e fazia-se música numa sala que não era aquela em que o pêndulo está. De repente, vi o meu relógio e verifiquei que marcava 11 horas e 40 minutos: não sei por que, em seguida, e pela primeira vez desde que possuo o pêndulo referido, lembrei-me de que a pilha estava carregada apenas mais alguns meses, e que teria de substituí-la por outra, pois era possível que ela não chegasse aos quatro anos de marcha. Em seguida, não pensei mais nisto.

Meia hora depois, como os meus amigos tivessem saído, entrei no meu gabinete de trabalho e qual não foi a minha surpresa quando vi o pêndulo elétrico, em movimento havia três anos e meio, parado exatamente nas 11 horas e 40 minutos! De resto, a pilha não estava esgotada e bastou dar um impulso ao balanceiro, para que o pendulo continuasse a mover-se.

 

PARCHÉ-BANÈS

 

Assim como o observador, não encontro nenhuma explicação para este fato singular, a não ser a de que o nosso espírito percebe certas coisas por faculdades ainda desconhecidas. Poderíamos supor que, tendo o pêndulo parado realmente, o sábio engenheiro foi surpreendido, inconscientemente, por esta paragem, e, também inconscientemente, olhou para o relógio e pensou no aludido pêndulo, tudo isto por acaso!... Mas não; a sensação foi experimentada numa outra sala, onde as pancadas do pêndulo se não ouviam. Além disso, que é o acaso? Um véu perante explicações desconhecidas. Porque se deteve o pêndulo, se não estava esgotada a pilha? Grão de areia? Falta de lubrificação? Fadiga elétrica? Outras hipóteses ainda? Para a correspondência psíquica a interpretar, estas explicações não satisfazem.

Eis o segundo fato apontado na mesma carta

Há um ano, no leve sono do fim duma noite, vi em sonho uma pessoa de Tunes que mal conhecia, por havê-la encontrado duas vezes durante oito anos que passei na Tunísia. Havia nove anos que eu já não residia naquela região e, portanto, dez a quinze, que eu não via pessoa em que, repito, nunca tinha pensado; era para mim um indiferente, com o qual não mantinha relações. Tornava-se, pois, extraordinário que a sua lembrança me acudisse em sonho.

Ora, nessa manhã mesmo, urna hora depois da minha chegada ao escritório, entregaram-me o cartão de visita dessa pessoa que, viajando em Marrocos e recordando-se, tão vagamente como eu, de me ter visto em Tunes, vinha saber, de passagem, se eu continuava ainda aqui. Na hora em que tive o sonho, o navio que trazia o indivíduo mencionado a Tanger estava no porto, mas eu nem sequer disso desconfiava e ainda menos que esta personagem estivesse a bordo.

Não sei se estas duas anedotas o interessarão, mas asseguro-lhe a sua autenticidade absoluta.

Sabe também que sou um cientista e que relaciono as minhas sensações.

Se calcular a probabilidade de que um destes fatos, ou ainda a reunião dos dois, seja produzida pelo acaso, achar-se-á que ela é infinitamente pequena.

( Carta 4.041. )

Parche-Banes

 

Para este segundo caso, temos um começo de explicação pelas ondas etéreas, das quais falaremos adiante, no capítulo Telepatia.

O que devemos aceitar, sem a menor dúvida, é que à ciência do futuro caberá explicar as faculdades da alma, desconhecidas ainda pela ciência atual ou insuficientemente estudadas.

As páginas seguintes vão tratar destes estudos, introduzindo-lhes as distinções necessárias: Vontade atuando por sugestão mental - Telepatia e transmissões psíquicas à distância - Visão sem os olhos, pelo espírito - Visão do futuro.

Estes documentos positivos demonstrarão, todos eles, a existência espiritual da alma independente das propriedades físicas dos sentidos.

A alma e o corpo são duas substâncias distintas, dotadas de atributos diferentes.

 

V

A VONTADE AGINDO SEM A PALAVRA E SEM QUALQUER SINAL, E A DISTANCIA.

 

Magnetismo - Hipnotismo - Sugestão mental.

- Auto-sugestão.

 

 

“A Ciência é obrigada, pela lei eterna da honra, a encarar de frente todo problema que a ela francamente se apresenta.”

SIR WILLIAM THOMSON.

 

 

 

 

Entre as diversas manifestações do nosso ser psí­quico, uma das mais notáveis, é, seguramente, a ação da vontade humana sem o concurso da palavra ou de algum sinal, e a distância.

A vontade é uma faculdade essencialmente imate­rial, diferente do que se entende geralmente por pro­priedades da matéria.

Podeis atuar sobre o cérebro de outra pessoa pela tensão de vosso espírito. Num teatro, numa igreja, a alguns metros atrás dela, podereis obrigá-la a voltar-se sem que suspeite da vossa ação, sem conhecer a vossa presença. A experiência é muito vulgar, e, excluindo os casos provenientes do acaso, ainda fica um número respeitável de averiguações certas. Acontecerá o mesmo pelo que respeita a uma pessoa desconhecida.

Tratando-se de individualidade do conhecimento do operador, já relacionada com ele, a averiguação é incom­paràvelmente mais freqüente. Nem por isso prova me­nos a ação da vontade a distância.

A crítica materialista alegará que se trata aqui da ação dum sentido ignorado pertencente ao cérebro e que tal ação não prova a sua origem espiritual. E' fácil replicar à objeção. O cérebro é um órgão material. E' sempre a história do aparelho elétrico. Atrás do apa­relho, no fundo do cérebro, há uma personalidade. Quan­do falo, é porque penso falar; a linguagem é efeito e não causa. Imaginar um aparelho, um cérebro dotado de uma personalidade mental responsável, voluntária, caprichosa, raciocinante, refletida, é criar uma hipótese sujeita à demonstração. Não teremos nós a nossa pró­pria sensação para nos revelar a verdade?

No exercício dos cinco sentidos - a vista, o ouvido, o olfato, o gosto, o tato - o movimento vibratório vai do mundo exterior ao cérebro, transmitindo-se pelos ner­vos óptico, auditivo, olfativo, tátil; na vontade atuando a distância, na transmissão do pensamento, o movimen­to mencionado vai, pelo contrário, do cérebro ao mundo exterior. No fundo do cérebro existe a causa ativa, o espírito.

Têm-se escrito obras completas sobre a sugestão mental, e os exemplos que a comprovam são inúmeros. Nas experiências realizadas por Charcot, na Salpetrière, e pelo Dr. Luys, na Charité, eu mesmo observei, outra em muitos. Um dos casos mais notáveis é talvez ainda o das experiências de Pierre Janet, no Havre, numa ex­celente camponesa, mãe de família e não neuropata. O que ele lhe ordenava, a muitos quilômetros de distância, recebia-o ela mentalmente, obedecendo-lhe com uma pre­cisão absoluta e sem que disso pudesse ser avisada por outra qualquer maneira (23).

Indica a vontade uma personalidade psíquica, uma individualidade, um espírito, uma alma? E esta inter­pretação mais certa que a das propriedades físico-quí­micas pertencentes à matéria cerebral? Existe e eu? Exposta a questão, cabe resolvê-la.

Vamos verificar que, nos fatos, observados rigoro­samente, de sugestão mental, de ordens transmitidas de um ser a outro pelo pensamento, sem palavras, sem gesto, pela pura vontade, manifesta-se, com evidência, a personalidade humana.

As experiências muito conhecidas do Dr. Ochoro­wicz permitem que o leitor faça o seu juízo imparcial­mente, com conhecimento de causa.

O clínico referido tratava uma senhora padecente de hístero epilepsia, cuja enfermidade já antiga se com­plicava com acessos de mania suicida.

Esta dama, de vinte e sete anos, forte e bem cons­tituída, aparentava perfeita saúde. O seu temperamento ativo e elegre aliava-se a uma extrema sensibilidade moral interior, isto é, sem sinais externos. Caráter fran­co por excelência, profunda bondade, propensão para o sacrifício. Inteligência pouco vulgar, muita prendada, sentido de observação, por vezes falta de vontade, indecisão penosa, depois firmeza excepcional; a menor fadiga moral, uma impressão inesperada de pouca importância, agradável ou desagradável, reflete sobre os vasos mo­tores, ainda que lenta e insensivelmente, e motiva um ataque, acesso ou síncope nervosa.

Um dia, ou antes, uma noite -escreve o Dr. Ochoro­wicz - terminado o seu ataque (incluindo a fase do delírio), a doente adormece tranqüilamente. Acordando de súbito e vendo-nos sempre perto dela, a mim e à sua amiga, pede-nos que partamos que nos não cansemos inutilmente por ela. Tanto insistiu nisto que, para lhe evitarmos uma crise ner­vosa, saímos. Descia a escada vagarosamente (ela morava no 3ª andar) e parei algumas vezes, aplicando 0 ouvido, tur­bado por mau pressentimento (dias antes se havia ferido bastante). Já no pátio, parei ainda urna vez, pensando se devia partir ou não. De repente, abriu-se a janela com fra­gor e vi que o corpo da doente se debruçava sobre o peitoril; num movimento rápido. Precipitei para o lugar onde ela podia cair, e maquinalmente, sem ligar ao fato a menor importância, concentrei a minha vontade com o fim de me opor ã queda. Era uma insensatez; irritava com isto os jogadores de bilhar que, prevendo que vai falhar a carambola, tentam deter a bola com gestos ou palavras.

Entretanto, a doente, já inclinada para o vácuo, parou e recuou lentamente, em movimentos bruscos.

A mesma manobra repetiu-se cinco vezes seguidas, ai que a doente, fatigada, ficou imóvel, as costas apoiadas con­tra a janela sempre aberta.

Não me podia ver; eu estava na sombra; era noite. Neste momento, a Srta. X., amiga da enferma, acudiu e prendeu-a pelos braços. Ouvi-as debaterem-se e subi depressa as escadas para socorrê-las. A doente tinha um acesso de loucura. Não nos reconheceu, tomando-nos por ladrões. Não consegui retirá-la da janela senão fazendo-lhe a pressão dos ovários que a forçou a cair de joelhos. Procurou morder-me em diversos momentos, e só depois de muito lutar, vinguei conduzi-la ao leito. Por fim adormeci-a.

Caída em sonambulismo, as suas primeiras palavras foram estas:

- Obrigada e perdão!

Contou-me então que queria a todo transe atirar-se pela janela, mas que sempre que isso tentava se sentia detida por uma força que partia debaixo.

- Como assim? - Não sei...

- Suspeitava da minha presença?

- Não. Era justamente porque o julgava longe que eu queria realizar o meu intento. Parecia-me, entretanto, por momentos, que o senhor estava a meu lado ou atrás de mim, e que se opunha a que eu caísse.

Eis outra experiência do mesmo autor:

Tinha por costume adormecer a doente de dois em dois dias e de deixá-la mergulhada em sono profundo, enquan­to tomava as minhas notas. Adquirira a certeza, depois de dois meses de experiência, de que não se mexeria antes que eu me aproximasse dela para provocar o sonambulismo, prò­priamente dito. Mas nesse dia, depois de fazer algumas ano­tações e sem mudar de posição (conservava-me a alguns metros dela, fora do seu campo visual, com o meu caderno nos joelhos e a cabeça apoiada na mão esquerda), fingi que escrevia, fazendo correr a pena, mas, interiormente, concen­trei a minha vontade numa ordem, dada mentalmente.

1- Levantar a mão direita.

(Olhava a doente através dos dedos da mão esquerda, apoiada na fronte.).

1ª minuto: ação nula.

2ª minuto: agitação na mão direita.

3ª minuto: aumento da agitação, a doente franze as so­brancelhas e levanta a mão direita.

Confesso que esta experiência me comoveu mais da que qualquer outra. Recomeço:

2 - Levantar-se e dirigir para mim. Reconduzi-a ao seu lugar sem nada dizer.

Ela carrega as sobrancelhas, agita-se, levanta-se dificilmente avança para mim, de mão estendida.

3 - Tirar a pulseira da mão esquerda e entregue. Ação nula.

Ela estende a mão esquerda, levanta-se e dirige-se para a Srta. X. e depois para o piano.

Toco-lhe no braço direito e, provavelmente, puxo-o um pouco na direção do seu braço esquerdo, concentrando o meu pensamento na ordem dada.

Ela tira a pulseira, parece refletir e entrega-me.

4 - Levantar-se, aproximar a poltrona da mesa e sentar-se ao nosso lado.

Franze as sobrancelhas, levanta-se e caminha para mim. - Devo ainda fazer alguma coisa - diz ela. Procura..., toca no tamborete, remove uma xícara de chá, recua, toma a poltrona, puxa-a para a mesa com um sorriso satisfeito, e senta muito cansada.

Todas essas ordens foram dadas mentalmente e sem gestos, sem uma palavra.

Há na obra de Ochorowicz 41 experiências da mes­ma ordem, em seguida a esta.

Os meus leitores já conhecem as que publiquei em no desconhecido, no capítulo que trata da ação psíquica dum espírito sobre outro, principalmente de páginas 29G a 316.

As experiências concludentes feitas sobre a ação da vontade e a sugestão mental podem ser atribuídas à matéria, a combinações químicas, a movimentos mecâ­nicos: elas têm como fonte um pensamento, uma causa mental, um princípio espiritual agindo sob forma ainda desconhecida, mas da qual a telegrafia e a telefonia sem fios representam imagem a interpretar.

Esses fatos de sugestão mental foram estudados, há muito tempo, por Mesmer, e antes dele por Van Hel­mont. Eis, entre outras, uma experiência notável rela­tada por uma testemunha judiciosa, o sábio Seifert, que depois de tratar Mesmer de charlatão (sob a influência, principalmente, dos fatos a que nos vamos referir) acei­tou por fim a sua teoria.

A cena passa-se em 1775, na Hungria, num velho castelo do Barão Horetcky de Horka. Mesmer, tratando o barão pelo magnetismo, socorria ao mesmo tempo ou­tros doentes que vinham consultá-lo. Seifert julgava tudo isso uma blague.

Um dia, trouxeram-lhe os jornais; num deles, en­controu uma narrativa sobre Mesmer, segundo a qual ele provocava convulsões em alguns epilépticos, apesar de escondido num quarto próximo e movendo apensa um deda na direção dos doentes.

Seifert chega ao castelo com o jornal na mão, e encontra Mesmer cercado de fidalgos. Perguntou-lhe se era exato o que dele contava a gazeta e Mesmer respon­deu afirmativamente. Então, muito nervoso, Seifert exi­ge, ou pouco menos, uma prova experimental da ação através dum muro.

Mesmer conservou-se de pé, a três passos da pa­rede, enquanto Seifert se colocou à entrada da porta entreaberta, a fim de poder observar o magnetizados e o magnetizado ao mesmo tempo.

Mesmer fez primeiro diversos movimentos retilíneos dum lado para o outro, com o dedo indicador da mão esquerda, na direção presumida do enfermo, que come­çou logo a queixar-se, apalpando as costas e parecendo sofrer.

Seifert perguntou-lhe: - Que sente?

- Não estou bem.

Seifert, pouco satisfeito com esta resposta, exige uma descrição mais clara dos seus males.

- Parece-me - diz o paciente - que tudo oscila em mim de través, à direita e à esquerda.

Para evitar perguntas, ordena-lhe que declare as mudanças que o seu corpo ia experimentando, sem esperar as suas ordens nesse sentido. Alguns minutos de­pois, Mesmer fez movimentos ovais com o dedo:

- Agora, tudo dá voltas em redor de mim, como num círculo - disse o doente.

Mesmer detém-se, e o doente declara, no mesmo ins­tante, que nada mais sente. E assim de seguida. Todas estas declarações se correlacionavam perfeitamente, não só com os momentos de ação ou dos intervalos, mas ain­da com o caráter das sensações que Mesmer queria pro­vocar (24).

Vi realizar as mesmas experiências pelo meu sau­doso amigo, o Coronel de Rochas, na Escola Politécnica de Paris, pelo Dr. Barety, em Nice, e por outros inves­tigadores. A ação da vontade a distância não é duvi­dosa, como o sabem os que estudaram este assunto.

Van Helmont, grande médico e grande sonhador do século XVII, já haviam apresentado a mesma questão antes de Mesmer, e é muito explícito neste ponto Ele acredita que todo homem é capaz de influir nos seus semelhantes à distância, mas que geralmente esta força se conserva adormecida em nós e abafada pela carne. Para ter bom êxito, carece de certa concordância entre 0 operador e o paciente. Este último deve ser sensível e exercitado na sua sensibilidade, a qual vai ao encontro da ação sob a influência de sua imaginação interior.

E' principalmente na cavidade de estômago que esta ação mágica se faz sentir, pois tal sensação nesse lugar é mais delicada de que nos dedos e mesmo nos olhos. Às vezes, o paciente nem pode até suportar a aposição da mão no sítio mencionado.

Adiei até agora, escrevia ele, o trabalho de des­vendar um grande mistério; é que existe no homem tal energia que, por sua única vontade e pela sua imaginação, ele pode atuar fora de si, exercer influência durável num objeto muito distante. Só este mistério esclarece suficientemente muitos fatos difíceis de se com­preenderem e que se prendem, com o magnetismo de todos os corpos, ao poder mental do homem e à sua dominação do Universo (25).

Van Helmont viveu de 1577 a 1644. Se abrirmos a obra de Kírcher, Magnes, de Arte magnética, publicada em Roma em 1641, no capítulo sobre o Magnetismo animal, encontramos exemplos de Simpatia e Antipatia, da faculdade magnética dos membros hu­manos, das aplicações à medicina do magnetismo da imaginação e do magnetismo da música.

Estas experiências psíquicas não si o de hoje. Elas remontam a Jesus-Cristo, a Pitágoras, vão mais longe ainda.

Mas que vem a ser sugestão mental?

Os magnetizadores pensam que a sua vontade con­centra o fluido e em seguida o projeta exteriormente numa direção aproximativa, como um pacote de ópio.

Esse fluido é tão inteligente e tão amável que corre mui­to, encontra o seu caminho, contorna as paredes e atinge o indivíduo sugestionado. Invade-o, e desde que ele está convenientemente saturado, declara-se o sono, tanto ao longe como ao perto. E' claro! - tão claro como a an­tiga explicação da ação do ópio, o qual adormecia por­que possuía uma virtude soporífera, dizia Molière.

Mas, para isto, seria preciso provar primeiro que o fluido existe, escreve a tal respeito Ochorowicz, pois que pode ser projetado, que sabe encontrar, em seguida, o seu caminho e por fim que se deterá exatamente no sistema nervoso do sugestionado. Parece-me prudente limitarmo-nos a expressão força psíquica que propus antes de 1865 (26).

A ação psíquica de um espírito sabre outro não é duvidosa, seja qual for o modo de transmissão.

As idéias viajam? Elas transmitem-se, por vibrações, no éter. Sabemos já que as idéias derramam por toda parte o seu correlativo dinâmico: isto é, ao redor da emissão. Não é uma substância que se transporta, é onda que se propaga. A ação é geral, mas mantém-se mais ou menos insensível, antes de encontrar um meio análogo e todas as condições necessárias para a trans­formação reversiva. A onda parte de uma vontade A; um cérebro B reúne estas condições: a idéia correspon­dente atua nele, que adormece, se o seu magnetizador assim o ordenar.

Poder-se-ia objetar que com todos os cérebros sen­síveis que se encontrassem no círculo da ação se haveria de dar o mesmo. Não se dá, porque todos os cérebros não são regulados nem se encontram em relação com o operador. Essa relação consiste no fato de a tensão di­nâmica de o sugestionado corresponder à do operador.

Propôs-se, para explicar a transmissão do pensa­mento e a sugestão mental, a hipótese da transmissão por indução, semelhante à duma corrente elétrica sobre outra, sem contacto material, ou à das ondas hertzianas, como na telegrafia sem fios.

A ação mental a distância pode ser consciente ou inconsciente.

O que os psicologistas propunham com timidez, há trinta anos, como casos de observação a discutir, e doa quais mais de um céptico, certo de seu saber, sorria com desdém, não se discute hoje, porque vemos produzirem­-se transmissões análogas na prática da telegrafia sem fios, de mais recente invenção, que vamos resumir:

Nessa telegrafia, talvez ainda mais maravilhosa do que os fenômenos telepáticos, utilizam-se as ondas hert­zianas produzidas pela descarga oscilante de poderoso condensador, alimentado por potente gerador de energia elétrica. Estas ondas propagam-se no espaço com a ve­locidade de 300.000 quilômetros por segundo, irradiam da antena ligada ao aparelho transmissor e são recebi­das, à distância, por meio de outra antena.

A antena consiste essencialmente em um ou mui­tos fios perfeitamente isolados eletricamente de qualquer contacto com objetos exteriores, e em comunicação so­mente com o aparelho transmissor ou receptor.

As ondas hertzianas não atuam sobre nós; nenhum dos nossos sentidos pode percebê-las. E' preciso, pois, um aparelho especial para ouvi-las: esse aparelho é um detector. Neste detector, a onda hertziana transforma­-se, por assim dizer, e torna-se sensível ao nosso ouvido por meio dum receptor telefônico.

Essas ondas são afastadas uma das outras - como as encíclicas produzidas na superfície da água pela queda dum corpo sólido - por uma certa distância chamada extensão de onda, a qual se pode fazer variar no posto transmissor por meio de dispositivos especiais. Ora, para obter na recepção a maior intensidade possível e nitidez perfeita de som, é necessário que os aparelhos receptores sejam uníssonos ou estejam de acordo com os apa­relhos transmissores. Na T.S.F. diz-se que os apare­lhos devem ser sintonizados. Este fenômeno é idêntico ao da ressonância em acústica.

Tal acordo faz-se, no posto receptor, intercalando entre a antena e o detector uma bobina de semi-indutor, com cursor regulador.

Encontram-se por esta forma as posições correspon­dentes ao som máximo do posto que se queira receber e, nas montagens de precisão, consegue-se perfeitamente eliminar os outros postos que enviam as suas mensagens ao mesmo tempo, mas com extensões de ondas diferen­tes. Estas ondas agem sobre o aparelho receptor em posições diversas dos cursores das bobinas de self e em capacidades variadas dos condensadores.

As diferentes transmissões enviadas com extensões de ondas várias percorrem o espaço simultaneamente, sem que nenhum ouvido as possa perceber; mas inter­ceptam-se as mensagens que se quiser, regulando o cur­sor, e ouve-se o que se pretende ouvir, excluindo o resto, como duas pessoas conversando juntas se ouvem entre si.

Esta moderna invenção da telegrafia sem fios - e agora da telefonia sem fios - ajuda-nos a compreender o modo de transmissão do pensamento a distância.

A Ciência fará ainda outras descobertas, que modi­ficarão as nossas interpretações. O que é certo é que se procede erradamente, negando-se o que não se pode explicar. Mesmo sem estas invenções da Física contem­porânea, a vontade humana poderia exercer-se a distân­cia e provar assim que existe, servindo-se do cérebro como aparelho.

Um dia, durante a guerra alemã de 1914-1938, comunicava-me do meu observatório de Juvisy com a Torre Eiffel, pela telegrafia sem fios, quando fui surpreendido por uma conversa entre dois interlocutores situados não sei em que ponto. A voz era tão clara como num salão ou numa sala de conferências. Essa telefonia sem con­dutor, então desconhecida, pareceu-me mais surpreendente e mais estupenda que a transmissão dos pequenos choques telegráficos do sistema Morse, porque era uma transmissão pelas ondas hertzianas através do éter, a distâncias em que o som não podia ser ouvido e, como no telefone (ninguém pensa nisto), não é a palavra que se transmite, mas uma onda elétrica que se transforma em palavra!

Sabemos, por outro lado, que a transmissão de pen­samentos entre duas pessoas mais ou menos afastadas uma da outra é experimentalmente certa.

Sabemos também, pelas observações telepáticas, que o espírito dum moribundo, à distância, atua às vezes com tal intensidade que o cérebro ao qual o seu pensa­mento é destinado se impressiona a ponto não só de ouvi-lo, mas ainda de vê-lo, sob forma reconstituída por essa sensação, e às vezes com acompanhamento de ruí­dos formidáveis.

Há nisso, para nossa contemplação filosófica, todo um novo aspecto do Universo de que não se suspeitava há apenas trinta anos.

A matéria inerte desaparece sob a radiação invisível da energia; o que existe, na vida cósmica, é a energia, a força etérea, o movimento.

Escrevi em O Desconhecido (pág. 378)

A nossa força psíquica dá sem dúvida origem a um movimento etéreo, que se transmitem ao longe como todas as vibrações do éter, e se torna sensível para os cérebros em harmonia com o nosso. A transformação de uma ação psíquica em movimento etéreo, e reciprocamente, pode ser análoga à que se observa no telefone, onde a placa receptiva, idêntica à placa de transmissão, reconstitui o movimento sonoro transmitido, não pelo som, mas pela eletricidade. Mas isto são apenas simples comparações.

A ação dum espírito sobre outro, à distância, so­bretudo em circunstâncias tão graves como a da morte, e da morte repentina em particular, a transmissão do pensamento, a sugestão mental, a comunicação à dis­tância, não são mais extraordinárias que a ação do ímã sobre o ferro, a atração da Lua sobre o mar, a trans­missão da voz humana pela eletricidade, a revelação da constituição química de uma estrela pela análise da sua luz, e todas as maravilhas da ciência contemporânea. Apenas as transmissões psíquicas são de ordem mais elevada e podem colocar-nos no caminho do conhecimento do ser humano.

Estas linhas datam de 1899. O mesmo podemos hoje pensar exatamente, reforçando ainda estas compa­rações, confirmadas e desenvolvidas pelas descobertas recentes da telegrafia sem fios, e, sobretudo pela trans­missão da palavra, na telefonia sem fios.

Uma ação da vontade, agindo unicamente pelo pen­samento, manifesta-se na seguinte experiência realiza­da pelo meu colega e amigo, o Sr. Schmoll, sobre sua mulher.

Em 9 de Julho de 1887, por um tempo quente e tor­mentoso, fazia eu a sesta balouçando-me numa rede suspensa na sala de jantar e lendo uma brochura do Sr. Edmundo Gurney. Eram três horas da tarde. Perto de mim, minha mulher descansava numa poltrona e dormia profundamente. Vendo-a assim, ocorreu-me a idéia de ordenar-lhe mental­mente que despertasse.

Olhei-a fixamente e, concentrando toda a minha vontade numa ordem imperiosa, gritei-lhe pelo pensamento: Acor­da! Quero que acordes? Passados três ou quatro minutos sem nada conseguirem - pois ela continuava a dormir sossegadamente -, renunciei à experiência sem a menor surpresa do seu mau êxito. Entretanto, volvidos alguns minutos mais, recomecei a experiência, sem obter melhor resultado do que da primeira vez. Continuei, pois, a ler depressa, esquecendo por completo a minha tentativa infrutuosa.

De repente, dez minutos mais tarde - minha mulher despertou, esfregou os olhos, e, fitando-me de modo sobres­saltado e mesmo aborrecido, disse-me.

- Que me queres?

Porque me acordas?

- Eu? Não te disse nada.

- Disseste, sim! Estiveste a atormentar-me para que eu me levantasse.

- Gracejas! Não abri a boca..

- Então, teria eu sonhado? - exclamou, numa hesita­ção. - Espera! E' verdade, lembro-me agora; sonhei isto simplesmente.

- Vejamos. Que é que sonhaste? Talvez seja interes­sante! - acudi eu, sorrindo.

- Tive um sonho bem desagradável... - recomeçou ela. - Achava-me na Praça de Courbevoie. Fazia muito vento e o tempo estava pesado. De súbito, vi uma forma humana (não sei se homem ou mulher) envolvida num len­çol branco, rolar pelo declive. Esforçava-se inutilmente por levantar-se; quis correr em seu socorro, mas uma influência de que não dava conta, e que só compreendi depois, impe­diu de fazê-lo. Eras tu que querias que abandonasse absolutamente as imagens de meu sonho. Vamos, acorda gritavas, com força; mas eu resistia e tinha a consciência de lutar com vantagem contra o despertar que me querias impor. Entretanto, quando acordei, há pouco, a tua ordem: Vamos! acorda! ainda soava aos meus ouvidos.

Minha mulher ficou espantada quando soube que eu lhe havia ordenado, realmente, pelo pensamento que acordasse. Não sabia que livro eu lia, e os problemas psíquicos nunca tiveram grande interesse para ela. Nunca f8ra hipnotizada nem por mim nem por outros.

 

  1. SCHMOLL

6, Rua de Fourcroy, Paris.

 

 

Possuo muitas observações do mesmo gênero nos meus documentos. Certamente que nem tudo se explica, Por que motivo haveria dez minutos de intervalo entre a ordem e o resultado? O Sr. Schmoll tem o hábito do método científico. A ele se devem excelentes obser­vações acerca do Sol; foi meu colaborador na fundação da Sociedade Astronômica de França, em 1887. Este fato não pode ser posto em dúvida, nem atribuído a uma coincidência fortuita.

Ver, pelo pensamento, no pensamento, é freqüente nos sonâmbulos, como se pode verificar nas obras de Deleuze, Dupotet, Lafontaine, Charpignon.

O último é até muito afirmativo neste ponto

Temos formado em diversas ocasiões, em nosso pensamento, imagens fictícias, e os sonâmbulos que interrogamos vêem estas imagens. Obtivemos muitas vezes uma palavra, um sinal, uma ação, segundo uma pergunta mental. Outros, dirigindo aos sonâmbulos perguntas, em línguas estrangeiras ignoradas dos magnetizados, obti­veram respostas que indicavam não o conhecimento do idioma, mas o do pensamento daquele que interrogava, pois se o experimentador falava sem compreender, o so­nâmbulo era incapaz de apanhar o sentido da pergunta.

O fato de se adormecer a distância um indivíduo e de se lhe sugerir, neste estado, atos de que ele se desempenha da mesma forma que sob a influência duma sugestão verbal, foi muitas vezes experimentado com êxito pelos antigos magnetizadores.

O meu amigo de há cinqüenta anos, o Dr. Macário, conta (27) que uma tarde o Dr. Gromier, depois de haver adormecido pela magnetização uma senhora histérica, pediu ao marido dessa mulher licença para fazer uma experiência, e eis o que se deu: Sem uma palavra, levou-a para o mar, mentalmente bem entendido; a doen­te manteve-se quieta enquanto o mar esteve calmo; mas, depois que o magnetizador lhe inculcou o pensamento de terrível tempestade, a doente pôs-se a gritar deses­peradamente, agarrando-se aos objetos que a cercavam; a voz, as lágrimas, a expressão da fisionomia, denota­vam terror profundo. Então, fiz abrandar sucessiva­mente as vagas, sempre pelo pensamento, diminuindo com lentidão o movimento do navio, e a calma voltou ao espírito da sonâmbula, apesar de conservar a respi­ração ofegante e dum tremor nervoso lhe agitar os mem­bros. Não me torne a levar ao mar - exclamou ela pouco depois; - tenho muito medo, e o miserável comandante não me queria deixar subir ao tombadilho! Esta exclamação surpreendeu-me tanto mais, diz o Dr. Gromier, quanto eu não tinha pronunciado uma única palavra que pudesse indicar-lhe a natureza da experiên­cia que tencionava fazer.

Esta faculdade, a transmissão do pensamento, ob­serva o Dr. Macário, explica um grande número de fenômenos de sonambulismo, que sem ela seríamos levados a atribuir a influências de ordem sobrenatural: explica, por exemplo, a aptidão para as línguas que se observa algumas vezes, ao que se afirma, em alguns sonâmbulos, isto é, a faculdade de compreenderem o que se lhes diz num idioma por eles ignorado, ou de responderem com expressões pertencentes a uma língua que não co­nhecem, pois, se é exato que o sonâmbulo percebe o nosso pensamento, pouco importa que se lhe fale grego, Iatim ou árabe, visto não serem aos vocábulos que ele atende. Lê em nosso pensamento, e conseguintemente deve compreender da mesma forma que se lhe falassem na linguagem materna. Os fatos confirmam esta teoria. O Sr. Gromier, já citado, fez por diversas vezes per­guntas em língua desconhecida do sonâmbulo. Este não compreendeu imediatamente; mas, persistindo a vontade do magnetizador, acabou por entender, respondendo con­venientemente à interrogação que lhe era formulada. E quando o magnetizador se lhe dirigia em linguagem que ela mesma ignorava, isto é, por expressões de que não conhecia o sentido, o sonâmbulo nada respondia, devido ao fato de o magnetizador aludido não ligar nenhum sentido às palavras que pronunciava.

Reuni, pela minha parte, testemunhos irrecusáveis desta compreensão, muito contestada, das línguas desco­nhecidas do sugestionado.

Outra forma de transmissão experimental do pen­samento consiste em fazer, fora da vista do magnetizado, um desenho que este deve reproduzir.

Estas experiências são numerosas. (Ver O Desco­nhecido, págs. 349-354.)

O fenômeno da transmissão do pensamento é fato averiguado e aceito hoje pela unanimidade dos psicólogos que se dão ao trabalho de submetê-lo a estudo consciencioso e profundo, e só espíritos pertinazes e su­perficiais podem persistir em contestá-lo, depois de tan­tas experiências e provas decisivas.

A telepatia consiste essencialmente no fato de uma impressão física intensa, manifestando-se em geral im­previstamente numa pessoa normal (isto é, não sujeita a perturbações funcionais ou a alucinações), seja du­rante o estado de vigília, seja durante o sono, impressão que se encontra em concordância com um acontecimento ocorrido a distância.

Observamos que, na telepatia espontânea, aquele que recebe a impressão está geralmente em seu estado normal, ao passo que quem a envia atravessa um esta­do de crise anormal: acidente, angústia, desfalecimento, letargia, morte, etc.

As observações anteriores comprovam a ação da vontade humana sem a palavra, sem a colaboração dos sentidos físicos.

A ação do espírito sobre a matéria, de há muito estudado, não se mostra talvez com tanta evidência como nos fenômenos produzidos pela auto-sugestão sobre cer­tas perturbações da circulação do sangue, tais como ru­bores, congestão cutânea, vesicação, hemorragias, cica­trizes sanguinolentas, etc. Que a alma seja diferente do corpo, que ela o dirija que o espírito atue sobre a matéria, que o pensamento, a idéia, mesmo a mais sutil, produzam efeitos materiais, que a imaginação men­tal baste em certas condições para criar órgãos ou al­terá-los, é o que se torna evidente por tão numerosos e variados exemplos, que é impossível conservar a menor dúvida sobre este ponto capital. Podemos notar, entre estes exemplos, os estigmas marcados sobre a pele, com afluxo sanguíneo, só pela idéia, a fé, a convicção. Eis aí S. Francisco de Assis, alma mística, de piedade ex­traordinária, que renuncia ao mundo material, retira-se para uma floresta, consagra-se à prece, reúne alguns homens piedosos aos quais dá, por humildade, o nome de Irmãos Menores (Franciscanos), vai pregar na Síria, no Egito, volta à Itália, submete-se a jejum rigoroso, a uma vida ascética, em virtude da qual é vítima de visões (imaginárias) nas quais, entre outras, lhe apa­rece um Serafim de asas matizadas que o fascina e lhe imprime no corpo os sinais da crucificação de Jesus: seus pés e suas mãos são varados por pregos, o seu flanco abre-se como se houvesse recebido um ferimento de lança, e estes estigmas persistem.

E evidente que há nisto ação psíquica da alma so­bre o organismo, e este fato é de importância tal, sob o ponto de vista da fisiologia materialista, que foi negado redondamente. Lenda religiosa dizia-se: E exa­gerado; não é verdade. Como isto se deu em 1220, atribuía-se à credulidade da Idade Média. Quem o ates­ta? Perguntava-se: são devotos, crentes que tudo aceita de olhos fechados.

Ora, este exemplo de um santo canonizado, ao qual foi atribuído mais de um milagre, não é único no gênero. O estudo que pretendo realizar nesta obra forneceu-me muitos outros.

O poder da vontade da força mental, da alma, da idéia, da auto-sugestão, a manifestação da ação do espí­rito sobre a matéria, patenteiam-se com toda a evidên­cia nos fenômenos fisiológicos dos estigmatizados. Ne­garam-se estes fenômenos, viu-se neles apenas fraude, velhacaria, credulidade. Era um erro. Tais estigmas produzem-se, realmente. Formam-se buracos na palma das mãos destes alucinados, nos pés, nas costas, e as chagas, imagens das do Crucificado, sangram, na reali­dade. Estes exemplos são numerosos, incontestáveis e sobejamente verificados.

Eis alguns deles:

Uma rapariga, nascida em 16 de Outubro de 1812, em Kaltom (Tirol), próximo de Botzen, Maria Marl, era dum misticismo igual ao de São Francisco de Assis.

Admiravam-na tanto na sua aldeia que fez sua pri­meira comunhão aos dez anos, e com tal fervor, escreve um seu biógrafo, que, apenas recebeu o pão eucarístico, possuída das doçuras celestes além das forças naturais, caiu desfalecida nos braços de sua mãe e desmaiou. De ano para ano, a sua devoção foi mais ardente. Pas­sou a vida em preces, em adoração, comungou constan­temente, fez voto de castidade.

Há justamente, em Kaltom, um convento de S. Fran­cisco, com irmãs da Ordem Terceira (não claustrado), onde se fez inscrever o nome de Teresa, em honra da mística Santa Teresa. Aos 18 anos, seu corpo sofre e é feliz oferecendo seus sofrimentos a Deus. Vítima pri­vilegiada tem êxtases quase diàriamente, lança-se de joelhos à beira do leito e aí ficam insensíveis, dias inteiros, as mãos erguidas, os olhos levantados para o céu, contemplando estaticamente o divino Crucificado. A par­tir de 2 de Fevereiro de 1834, festa da Purificação, os estigmas aparecem-lhe nas mãos, nos pés, no tronco, atestados por sua família, pelo seu confessor, pelo seu médico, pelo bispo primaz de Trento, que procede a um inquérito em nome do Governo, e por numerosas pessoas mais. O sangue goteja todas as sextas-feiras, dia em que assiste pelo pensamento, com convicção absoluta, à paixão de Jesus-Cristo.

Um caso análogo de estigmas foi atestado, no Tirol igualmente, em Maria Dominica Lazzári, nascida em 16 de Março de 1815, em Capriana de Fiemme, próximo de Cavaléri, a dez horas de Trento, visionária extática, su­jeita a freqüente convulsões. Desde os 19 anos que ela sentiu e apresentou as chagas da Paixão que contem­plava por visão interna. O sangue gotejava das mãos, dos pés, do lado, do peito, como nos estigmas de S. Fran­cisco, e, além disso, da fronte, marcada pela coroa de espinhos, donde corria, principalmente às sextas-feiras, com abundância tal, que lhe banhava o rosto. (Relató­rio do cirurgião, Dr.Dei-Cloche. )

Uma terceira virgem do Tirol, célebre na mesma época, Crescenzia Nieklutsch, nascida em 15 de Junho de 1816 em Cana, que residiu em Meran, Trento e Verona, apresentou os mesmos sintomas, era extática como as duas precedentes. Foi aos 19 anos que os estigmas lhe apareceram nas mãos (na festa de Pentecostes, 7 de Junho), dias depois nos pés, em seguida na fronte, finalmente, no lado do peito. De todas estas chagas corria grande quantidade de sangue, principalmente às sextas-feiras (28).

Sempre que procurarmos conhecer estes exemplos de auto-sugestão, encontramo-los em número muito maior do que se pensa.

O poder da imaginação mostra-se, com particular evidência, nos estigmas de Catarina Emmerich. Como não ver ai a idéia atuando sobre a matéria?

Apesar dos médicos, que disso nada compreendiam, e apesar dos doutores em ciências físicas e naturais, que negavam tudo com superioridade, os estigmas de Catarina Emmerich são tão verídicos como as folhas dos olmos sob as quais esses cientistas peroravam.

Examinemos o caso curioso. Extraio este documen­to duma obra em três volumes que me entregou, em Janeiro de 1889, a Sra. Sofia Funck-Brentano, sobrinha do escritor das visões, Clemente Brentano de la itoche (29).

Ana Catarina Emmerich nasceu na aldeia de Flam­ske, próximo da pequena cidade de Coesfeld, na Wést­phalia, em 8 de Setembro de 1774 Mostrou, desde a sua primeira infância, uma piedade extraordinária.

Um dia, diz ela, procurava meditar sobre o pri­meiro artigo do símbolo creio em Deus, o Pai todo Po­deroso (contava então cinco ou seis anos). Apresentaram-se aos olhos de minha alma quadros do Universo a queda dos anjos, a criação da Terra e do paraíso, a de Adão e Eva e a sua desobediência; tudo me foi mos­trado.

Imaginei que todos viam estas coisas da mesma for­ma que se vêem os objetos que nos cercam.

(A sua imaginação era precoce!).

Eis agora o que ela conta do começo de suas visões. Foi aproximadamente quatro anos antes de sua entrada no convento, e por conseqüência em 1798, aos 24 anos de idade.

Ajoelhada diante de um crucifixo, na capela dos Jesuítas de Coesfeld, rezava com todo o fervor de que era capaz, entregue a uma contemplação cheia de doçu­ra, quando de repente, afirma ela, vi o meu noivo ce­leste sair do tabernáculo, na figura de um moço todo cercado de esplendor. Segurava na mão esquerda uma coroa de flores, e na direita uma coroa de espinhos, e ofereceu à escolha. Pedi a coroa de espinhos, que ele mesmo pôs na minha cabeça e que eu enterrei com minhas mãos até à fronte. Depois, desapareceu e eu senti desde logo dores violentas em torno da cabeça. Imediatamente apareceram feridas, como picadas de espinhos, das quais escorria sangue. Para que o seu so­frimento se mantivesse ignorado, Ana Catarina lembrou­-se de descer mais a sua touca sobre a fronte.

Entrou no convento de Dulmen em 1802 e daí em diante teve uma vida de êxtases.

Um dia, apareceu-lhe o seu noivo celeste e fez sobre ela o sinal da cruz. Logo o seu peito ficou marcado por dupla cruz vermelha, de três polegadas de comprimento e meia polegada de largura. Em 29 de Dezembro de 1912, estavam eles na cama, os braços em cruz, imóvel, extática. O seu rosto queimava. Contemplava a paixão do Redentor e na sua prece implorava a graça de par­tilhar tantos sofrimentos. De súbito, baixou sobre: ela uma luz, no centro da qual distinguia Jesus Cristo crucificado, com suas cinco chagas resplandecentes como sóis. O coração de Ana Catarina estava hesitante entre a dor e a alegria; à vista dos estigmas sagrados, o seu desejo de sofrer as dores do Filho de Deus foi tão vio­lento, que lhe pareceu, revestindo forma sensível, pene­trar nas chagas do Salvador. Bem depressa de cada uma delas jorrou três raios dum vermelho púrpura, terminados em setas, que lhe vararam os pés, as mãos. Das feridas produzidas gotejava sangue. Desde então, ela sofreu todas as dores internas e externas do Cristo na paixão.

 

*

 

A autenticidade destes fatos não se pode negar. Foram verificados por inúmeros visitantes da Alemanha e doutos países. Como tal acontecimento se tornasse conhecido na ocasião em que os franceses acabavam de estabelecer o seu governo, o Prefeito de Munster e um oficial de polícia dirigiram-se a Dulmen para se certifi­carem da realidade das coisas. Verificaram que estes fatos - fisiológicos ou doutra natureza - desconcerta­vam qualquer explicação científica. O prefeito enviou oito médicos e cirurgiões militares a visitar a vidente, dando-lhes ordem para empregarem todos os recursos da arte, no intuito de cicatrizarem as chagas; elas, po­rém, de novo se formaram todas as sextas-feiras.

Poderíamos comparar muitos outros exemplos aná­logos , como os de Santa Teresa, Santa Catarina de Ricci, Arcângela Tardero, Santa Gertrudes, Santa Lid­wina, Santa Helena da Hungria, Santa Ozona de Mân­tua, Santa Ida de Lovaina, Santa Cristina de Strumbé­len, Santa Joana da Cruz, Santa Lücia de Márni, Santa Catarina de Siena, Pascthis e Clarisse de Cógis, Catarina de Ranconioso, Verônica Giulâni, Colombo Schanolt, Ma­dalena Lorger, Rosa Serra (31), e mesmo com os de vários homens piedosos; mas, não pretendemos escrever uma obra sobre este assunto e limitamo-nos a acrescen­tar, aos casos precedentes, o de Luísa Lateau, a célebre estigmatizada de Bois-d'Haine (Bélgica), estudada em 1869 pelo professor Delboeuf, da Universidade de Liège, um dos que mais atraíram a atenção dos sábios contem­porâneos.

Na sexta-feira, 24 de Abril de 1868, doze dias de­pois da Páscoa, Luísa Lateau, de 18 anos (nascida em 30 de Janeiro de 1850), entrada na nubilidade cinco dias antes, doente e lânguida havia mais dum ano, extática, de imaginação ardente e mística, viu aparecer o seu pri­meiro estigma, o do lado esquerdo; na sexta-feira se­guinte, aparecia-lhe outro estigma no pé esquerdo, e foi na terceira sexta-feira que ela observou os cinco estig­mas no seu corpo. Estes estigmas da coroa de espinhos apenas sangraram cinco meses mais tarde.

Tais fatos, dizíamos precedentemente, em completa oposição com a fisiologia comum, que considera o pen­samento como propriedades materiais do organismo, são forçosamente negadas pelos professores clássicos. Em 1877, o notável Herr Dr. Professor Virchow, falando dos estigmas de Luísa Lateau, proclamava enfaticamente este dilema: Embuste ou milagre, suprimindo o milagre, com razão, e não admitindo senão o embuste. Ora, po­demos afirmar, em nome da ciência livre, que não há no fato mencionado nem embuste nem milagre.

Tenho o gosto de contar bastantes primaveras para haver sido contemporâneo da criação de Lourdes, em 1858, e ter conhecido, por testemunhas que habitavam aquela região, a história amorosa da Sra. P. e do Te­nente G. (saído de Sannt-Cyr em 1857, então colocado no Regimento n° 42 de Infantaria, em Lourdes, morto depois no posto de major no Tonkim), que deu origem ao incidente da gruta da pequena Bernadette Soubiroux - uma pobre de espírito - na quinta-feira gorda da­quele ano, incidente cujas conseqüências foram maravi­lhosas, apesar da primeira recusa do honesto pároco de Lourdes, o Padre Peyramale (confessor da Sra. P. ), em admitir a aparição da Virgem (32). O meu amigo Comandante Mantin, nascido como eu em 1842, atualmente em Pau, ainda vive para afirmá-lo, assim como outros contemporâneos: o Capitão de G., o Sr. Pelizza. Os milagres de Lourdes, aos quais tenho assistido, assim como milhares de outras testemunhas, são certamente uma das manifestações mais curiosas e evidentes do po­der da idéia, da exaltação mental, da fé.

O mesmo se deu com os de Nossa Senhora de la Sallette, que floresceram durante uns vinte anos, apesar dá sentença do Tribunal Civil de Grenoble, de 15 de Abril de 1855, provando que esta Virgem, aparecida a duas crianças em 19 de Setembro de 1846, era Senhora la Merlière, representando voluntàriamente a comé­dia. A água de la Salette também curava o que veri­fiquei, com meus próprios olhos, na diocese de Langres, em 1854.

Estes diversos milagres, produzidos pela auto suges­tão, foram observados, tanto na antiguidade como em nossos dias, e tanto entre os pagãos como entre os cristãos. Pode ver-se, no museu de Dijon, ex-votos ofere­cidos pelos Romanos à deusa Sequana, à nascente do Sena, encontrados no templo erigido a esta divindade, num vale que visitei ainda há pouco, perto da aldeia de Sannt-Seine. Conta Dr.Sermyn, além disso, que foram descobertas, não há muito tempo, nas escavações feitas pelo Sr. Cawadias, nas ruínas do templo do Asclépio, esteias com inscrições comemorativas das prin­cipais curas milagrosas que então se deram, as quais representam os arquivos sagrados. Esta esteia são do século III e IV antes de Jesus-Cristo. Depreende-se daí que, naquela época, os sacerdotes ao serviço de Asclépio, no santuário, nenhum remédio prescreviam, ao con­trário do que se acreditava geralmente. Era o deus que curava. Os doentes viam-no operar em seus corpos com grande afoiteza. As pessoas saradas declaravam ter avis­tado a divindade quando ela vinha abrir-lhes o ventre, arrancar-lhes os tumores e explorar-lhes os intestinos.

Assim, por exemplo, um homem que tinha um can­cro no estômago, conta que foi a Epidaure, adormecendo e tendo uma visão. Pareceu-lhe que o deus ordenava aos criados que o acompanhavam que o agarrassem e segurassem bem, enquanto ele lhe abriria o ventre. O homem, apavorado, fugiu, mas os criados alcançaram-no e dominaram-no. Então, Asclépio abriu-lhe o abdômen, praticou a excisão do cancro e libertou o doente, depois de lhe haver cosido a abertura do ventre com cuidado. Volvidos instantes, o homem acordou e achou-se curado.

Vê-se que é sempre, e em toda parte, a mesma coisa. E' a visão que opera que age sobre o corpo do enfermo como agiria um cirurgião em nossos dias.

Todos os doentes que vão a Lourdes desejam sa­rar, e levam, conseguintemente, no cérebro a imagem da cura; mas são poucos os que saram, porque nem todos são dotados de uma organização nervosa suficiente para ver os seus desejos transformados em realidade e atuar como teria atuado um ser sobre-humano, dotado de fa­culdades maravilhosas.

O ardor da convicção religiosa é um Proteu que muda de forma, que se torna Apoio, Asclépio, Jesus, o Diabo, a Virgem Maria, um bom ou um mau Espírito segundo as convicções, as idéias preconcebidas do eu consciente.

Acrescentarei que talvez não seja unicamente a auto­-sugestão em jogo; forças psíquicas ambientes influem por vezes. E todo o mundo a descobrir.

Continuemos o estudo da vontade.

O que se não deve negar de futuro é que a vontade possa atuar a distância, sem a palavra, sem comunicação telegráfica ou telefônica material, pela sua própria energia. Pode-se mesmo aparecer. Será a alma que se desloca e muda de lugar? Será uma ação sobre o cére­bro produzindo alucinação verdadeira? E' esta a questão e o nosso dever é o de examiná-la livremente, sem parcialidade. Vamos resolvê-la experimentalmente com exemplos.

Entre diversas observações instrutivas, vou pôr aqui sob os olhos dos meus leitores o seguinte fato referido pela Sra. Russell, de Balgaum (índia), esposa do inspetor da Instrução Pública na Presidência de Bombaim. Eis essa experiência muito notável (33)

Eu vivia na Escócia, e minha mãe e minhas irmãs es­tavam na Alemanha. Morava em casa duma amiga muito querida, e todos os anos ia à Alemanha ver os meus parentes. Aconteceu que durante dois anos não pude visitar minha família, como tinha por costume. Resolvi de repente partir sem que os meus soubessem de tais intenções. Não tinha ido vê-loa no começo da primavera e faltava-me o tempo para avisar por carta. Também não queria prevenir por tele­grama, com receio de assustar minha mãe. Veio-me a idéia de querer, com todas as minhas forças, aparecer a uma das minhas irmãs, de modo a avisá-la de minha chegada, e pensei nisto com a maior intensidade possível, não concentrando, creio eu, o meu pensamento mais de dez minutos. Tomei um vapor em Leith, num sábado ã tarde, em fins de Abril de 1859, e desejei fazer a minha aparição neste mesmo sá­bado, são seis horas da tarde.

Cheguei a casa pelas seis da manhã da terça-feira se­guinte. Entrei sem ser vista, pois a porta estava aberta. Meti-me no quarto. Uma das minhas irmãs estava de costas para a porta; voltou-se, ouvindo passos, e quando me viu, olhou-me fixamente, ficou muito apática e deixou cair o que tinha na mão. Não havia pronunciado uma só palavra. En­tão falei

- Sou eu; porque estás assim assustada? Ela respondeu-me

- Pensei ver-te como Stinchen te viu no sábado. (Stinchen é outra minha irmã).

Respondendo às perguntas que eu lhe formulava, con­tou-me que no sábado à, tarde, pelas seis horas, minha irmã me tinha visto distintamente entrar, por uma porta, no quar­to onde ela estava abrir a porta dum outro quarto onde estava nossa mãe, e fechar essa porta atrás de mim. Correu para quem supunha ser eu, chamando-me pelo nome, e ficando absolutamente pasmada quando não me viu com mi­nha mãe, que não podia compreender a nervosidade de minha irmã. Procuraram-me por toda a parte, e naturalmente não me encontraram.

A irmã que me tinha visto (isto é, em aparição) safra na manhã da minha chegada. Sentei-me num degrau da escada, para me dar conta, quando voltasse, do que sentiria ao avistar-me. Quando levantou os olhos e me viu sentada na escada, pronunciou o meu nome e quase desmaiou. Minha irmã nunca viu nada de sobrenatural, nem antes nem depois; e não renovei estas experiências desde esse momento. Nem as renovarei, pois aquela de minhas irmãs que foi a primeira a avistar-me, quando cheguei realmente a casa, caiu bastante doente, devido ã comoção que havia experimentado.

 

 

  1. M. RUSSEL.

 

 

Quando tratarmos da duplicação dos vivos, volta­remos a este assunto. Consignemos apenas, neste mo­mento, que o inquérito feito pela Sociedade Inglesa de Pesquisas Psíquicas e a respeitabilidade da signatária, assim como a de sua família, que confirmou o que ela disse, não permitem duvidar da autenticidade da narra­ção. Como as outras, ela prova que a vontade à toa à distância.

As interrogações precedentes podem também apli­car-se ao seguinte caso, afirmado pelo pastor Dutton, de Leeds (Inglaterra) (34)

No meado de Junho de 1863, passeava eu, de dia, na grande rua de Huddersfield, quando vi aparecer diante de mim, à distância de poucos metros, um amigo querido, que tinha motivos para julgar gravemente enfermo, em sua resi­dência de Staffordshire.

Dias antes, alguns amigos me tinham informado da sua doença. Como ele se aproximasse mais, foi-me fácil exami­ná-lo; e notando que a sua cura havia sido rápida, não du­vidava de que não fosse, realmente, o meu amigo. No mo­mento em que nos encontramos, olhou-me com expressão triste e enternecida e, com grande surpresa minha, não par teceu ver que eu lhe estendia a mão, nem respondeu ao meu afetuoso cumprimento, e continuou o seu caminho sossegadamente. Fiquei intrigado e incapaz de falar ou de andar du­rante segundos. Não me certifiquei de que tivesse proferido qualquer palavra, mas ficou-me no espírito esta impressão muito nítida: Precisava tanto de ver-te e não aparecias.

Quando tornei a ruim, voltei-me para olhar ainda a fi­gura que se afastava, mas tudo se havia dissipado. O meu primeiro ímpeto foi o de telegrafar, pois me veio à idéia, que pus logo em execução, de verificar se o meu amigo estava realmente vivo ou morto, apesar da quase certeza de que esta última hipótese era a verdadeira. Quando cheguei a sua casa, no dia seguinte, encontrei-o vivo, mas num estado semiconsciente. Havia perguntado por mim o seu espírito tinha-se apegado provavelmente ao pensamento de que eu não iria vê-lo.

Tanto quanto pude apurar, ele devia dormir na hora em que me apareceu, na véspera. Disse-me, depois, que lhe pa­recia ter-me visto, sem saber onde nem como. Não posso explicar-me como o meu amigo me apareceu vestido nem como estava naquele morrendo. O meu espírito achava-se muito preocupado com outros assuntos, nessa ocasião, e não pensava nele. Posso acrescentar que viveram ainda alguns meses.

 

 

W.E. DUTTON.

 

 

Sendo o autor interrogado se tivera outras alucinações, declarou que esta fora à única.

Todos estes fatos de magnetismo, hipnotismo, trans­missões mentais, auto-sugestões, duplicações de vivos, que acabamos de tocar de leve para afirmar simples­mente aqui o princípio de sua realidade, e aos quais voltaremos, estabelecem, sem dúvida, a ação do espírito sobre o organismo físico e levam-nos a concluir cate a alma existe independentemente do corpo.

Continuemos o nosso estudo experimental.

Mas, antes de prosseguir, queria responder à obje­ção que acode naturalmente ao espírito analítico do mé­todo científico. Pode-se pensar que as coincidências não têm o valor que lhes atribuí, visto cada caso observado, mil sonhos e mil pressentimentos não têm qualquer seguimento.

Esta objeção seria aceitável se não se tratasse, nes­te caso, de sensações especiais, de fatos precisos, de pormenores circunstanciados, de incidentes imprevistos, às vezes de cenas contempladas e tão reais como se ti­vessem sido fotografadas. Não se pode aplicá-la, por exemplo, ao pressentimento da Sra. Constans, recusan­do, a despeito das ordens do médico, tomar uma poção que a teria envenenado - nem aos de Delaunay e da Srta. Houssaye, afogados - nem à morte dramática da Sra. Arboussoff -, nem à marcha noturna do Sr. Garrison, correndo para junto de sua mãe que estava moribunda e residia a 28 quilômetros de distância, etc., etc., todos relatados páginas atrás.

A nossa convicção acerca das transmissões psíquicas vai, aliás, fortificar-se gradualmente pelos próprios fatos, em absoluto característicos.

 

 

VI

 

A TELEPATIA

 

As transmissões psíquicas à distância. - Vista e audição telepáticas

 

 

“Nada de frases! Fatos.”

 

 

Se a ação da vontade, sem auxílio da palavra e de qualquer sinal, é uma manifestação da existência pes­soal da alma, a telepatia e as comunicações mentais, à distância, constituem outras provas não menos demonstrativas.

As percepções instantâneas e inesperadas de desas­tres, doenças, mortes, pressentidas a dezenas, centenas e milhares de quilômetros de distância, contam-se em tão elevado número que pertencem hoje normalmente à ba­gagem habitual dos estudos psicológicos. Negadas ou incompreendidas durante séculos, elas constituem para o futuro um capítulo quase clássico destes estudos.

Os meus leitores conhecem-nas, e não quero repetir o que já publiquei sobre este assunto (35); limitar-me-ei a relembrar, em princípio, este fenômeno importante de telepatia, porque ele prova a existência da alma, pondo simplesmente sob os seus olhos alguns novos fatos bem característicos.

Num capítulo de O Desconhecido, sob a vista a distância, em sonho, de fatos atuais creio ter dado pro­vas incontestáveis, pelos autênticos exemplos apresenta­dos, principalmente a vista e a audição, pelo escritor Pierre Conil, de seu tio moribundo; a vista da cabeça ensangüentada de seu irmão, por um capitão de mar e guerra, ao entrar em Marselha; a vista de um navio que trazia seu pai e sua mãe, pelo engenheiro Palmero; a vista de uma rapariga que caía duma janela, pelo Sr. Martin Halle; a vista e a descrição de um ope­rado pelo Dr. Cloquet, etc.; ao todo, 49 comprovações de transmissões telepáticas de vista a distância ou no interior do corpo, sobre as quais não insistiremos aqui, com esta conclusão: A vista a distância, em sonho e em sonambulismo, não mais pode ser negada. Leu-se, entre outros, o episódio bem conhecido da Princesa de Cônti vendo, em sonhos, que uma ala do seu palácio, em que seus filhos estavam deitados, longe dela, ia desabar e precipitando-se para salvá-los.

Mais fatos vai passar à nossa vista, confirmando ainda tal afirmação.       

Aqui temos um, bem curioso, dos mais pessoais - e dos mais indiscretos - entre um vivente acordado e uma pessoa adormecida, que me foi comunicado, em Agosto de 1904, pelo Sr. A. d'Argy, Comissário da Ma­rinha, reformado, da ftochelle (rogando-me que não revelasse os nomes).

A Sra. S., da Rochelle, morava, em 1887, na Vendes com sua família. Era noiva do Sr. F. Afeição recíproca muito intensa. Ativa correspondência.

Uma noite, pelas 11 horas, a Sra. S. acorda, ao ser chamada com desespero pelo seu nome de batismo. Reconhe­ceu instantaneamente a voz; sentiu o sopro duma respiração no seu rosto. Estendeu a mão maquinalmente para certifi­car-se, crendo numa presença real. Nada sente nada adi­vinha. Assustada, chama sua mãe, que dormia em quarto contíguo e conta-lhe esta alucinação. Ao mesmo tempo, tem a sensação duma desgraça que acaba de ocorrer, nos Baixos Pírineus. Escreve ao seu noivo no dia seguinte e não recebe resposta. Outras cartas suas tem a mesma sorte. Passam­-se alguns meses sem qualquer noticia. Por acaso, a Sra. S. é informada de que o seu amigo foi levado para uma prisão, na mesma noite em que ela despertou sobressaltada, - para se evitar o escândalo numa pequena cidade - por mo­tivos muito graves. Um médico que o acompanhava afirmou que o infeliz, aflito, ao ver os seus projetos de felicidade destruídos, chamava a sua noiva com voz desesperada.

As relações romperam-se definitivamente. O Sr. T., en­trando depois numa outra família, morreu há três ou qua­tro anos.

A presente narrativa é escrupulosamente exata.

 

(Carta 1.068. )

 

ARGY

 

Esta comunicação de vivo para vivo lembra outras, também observadas com segurança, entre as quais a duma senhora (Sra. Wilmot) que foi visitar seu marido a bordo dum navio, e realizando a visita, com efeito, (O Desconhecido, pág. 489), e centenas de transmissões telepáticas da mesma ordem.

Os testemunhos variados de comunicações análogas entre viventes, a distâncias consideráveis, são inúmeros. Entre os que me foram assinalados por observadores idôneos, citarei particularmente o seguinte, proveniente de um confrade da imprensa científica, o Sr. Warrington Dawson, atualmente adido à embaixada americana de Paris, o qual dirigia, em 1901, uma agência americana de grandes jornais parisienses. Eis a sua carta, de De­zembro de 1901 - (Paris, rua Feydeau, 18)

 

Caro Mestre:

 

E' para mim um dever levar ao seu conhecimento um caso bastante singular de telepatia que acaba de se dar co­migo, e que pode contribuir para o adiantamento das maias importantes e perspicazes investigações.

Na terça-feira passada, 8 de Outubro, estava no meu es­critório, Rua Feydeau, 18, escrevendo um artigo sobre a sua jovem colega a Srta. Klumpke (36) , astrônoma do Obser­vatório; mas tive de interrompê-lo por falta de notas acerca duma entrevista que ela me havia concedido. Lembrando-me de que essas notas se achavam numa gaveta da minha ban­ca de trabalho, em meu domicílio, Rua de Varenne, 32, fui buscá-las. Subi ao meu quarto andar, deixando, como de costume, o chapéu sobre a mesa, na sala de espera. Dei-me conta então de que não havia ninguém nos meus aposentos, quando a criada devia lá estar, na minha ausência. Tive um movimento de despeito, dizendo: Isto há de acabar; de­pois, lembrando-me de que minha mãe devia voltar a Paris dentro em breve e que trataria disso melhor do que eu, não dei mais importância ao caso e dirigi-me para o meu gabi­nete de trabalho, atravessando um corredor estreito, e sen­tando-me à minha secretária, carregada de papeladas, sobre a qual estava colocada uma lâmpada.

Eram duas horas da tarde, do dia 8, e estou certo disto porque enviei naquela noite, para a América, o artigo sobre a Srta. Klumpke, do qual lhe remeto cópia impressa, em data de 8 de Outubro.

Pode ler, nesse artigo, que ela lhe deve a sua iniciação astronômica, e que, com as suas obras, foi o senhor o seu primeiro mestre.

Qual não foi a minha surpresa, ao receber, pelo correio da América, na semana seguinte, uma carta de minha mãe, contando-me os fatos que venho de expor, tais como foram vistos por uma nossa amiga, a Sra. George M. Coffin, de Nova Iorque! A carta de minha mãe é de 11 de Outubro e datada de Nova Iorque, e o sobrescrito tem o carimbo pos­tal da mesma data; foi, portanto, três dias depois do inci­dente que a carta entrou no correio, e como são precisos oito dias para uma carta chegar de Paris a Nova Iorque, não haveria modo algum de tornar conhecidos estes fatos em menos de três dias, salvo por cabograma, mas ninguém se lembraria de gastar um franco e vinte e cinco cêntimos por palavra para pormenores de somenos importância. Mi­nha mãe escrevia na sexta-feira, 11 de Outubro, e dizia ter visto a Sra. Coffin na quarta-feira, isto é, no dia 9. Fato curioso: a Sra. Coffin, procurando ver-me às 2 da tarde, hora de Nova Iorque, viu não o que eu fazia naquele mo­mento, mas o que fazia na véspera, duas da tarde, hora de Paris.

Verificará, pela leitura da carta, que a Sra. Coffin co­meçou por descrever os aposentos. Esses aposentos nunca foram fotografados, e a Sra. Coffin só viu minha mãe, pela primeira vez, depois de sua volta da Europa, alguns momen­tos apenas antes de descrevê-los, sem poder conhecer a dis­posição dos mesmos. Isto se poderia explicar pela sugestão, pois que minha mãe os conhecia; mas, com seus hábitos pa­risienses, nem sequer pensaria em designá-los senão como um quarto andar, por estarem quatro andares acima do chão, ao passo que para uma habitante de Nova Iorque, que não conhece sobreloja e que chama rés-do-chão ao pri­meiro andar, os nossos aposentos ficariam num sexto andar, como diz a Sra. Coffin.

Deduz-se deste fato que a Sra. Coffin viu bem os aposentos. Além disso, é a única vez, há perto dum ano, que me acontece ir para casa àquela hora. O que também prova a exatidão, que é familiar ã Sra. Coffin nas visões a distancia, é a surpresa que teve quando avistou a estufa de por­celana, objeto ignorado na América.

Há longos anos que minha família conheceu a Sra. Coffin. Tema-nos divertido muitas vezes a pedir-lhe para ver o que se passa em casa de pessoas que nos interessam, ou para responder às perguntas que fazíamos em pedacinhos de papel fechados, em que ela pegava sem os ler. As suas respostas foram sempre claras e exatas, quando foi possível verificar.

Aceite, etc.

 

(Carta 1.003.)

 

FRANGIS WARRINGTON

 

Esta carta era acompanhada por uma outra da mãe do Sr. Dawson, datada de Nova Iorque, a 11 de Outubro, descrevendo com exatidão, sob o ditado da Sra. Coffin, os aposentos de Paris, no sexto andar, a visita feita a esses aposentos pelo Sr. Dawson, a sua irritação pela ausência da criada, a colocação de seu chapéu sobre uma mesa, a busca dos seus papéis, o arranjo do escritório, a sua instalação para escrever, numa palavra, todas as particularidades do que ele tinha feito em Paris.

Esta vista a distância, muito minuciosa, é absolu­tamente espontânea e incontestável. Mais curioso ainda, é que a visão se refere à véspera, e não ao dia e ao momento, de modo que houve um duplo fenômeno de telepatia, no espaço e no tempo.

As transmissões telepáticas entre vivos não são tão raras como se supõe, quando as ignoramos. Eis aqui uma delas que é digna de atenção.

O Comandante T. W. Aylesbury, residente em Sut­ton, Condado de Surrey (Inglaterra), escrevia em Dezembro de 1882:

Caí dum barco, aos treze anos, quando o meu navio chegava à ilha de Bali, a este de Java, e quase morri afo­gado. Após diversos mergulhos, voltando à tona dágua, cha­mei minha mãe, o que não deixou de divertir a tripulação do barco, e me valeu, depois, mais de uma vez, as suas zombarias. Volvidos meses, de volta à Inglaterra, contei a história a minha mãe e disse-lhe logo:

- Quando estava debaixo dágua, avistei-vos a todas, sen­tadas neste mesmo compartimento, e trabalhando em qual­quer coisa de cor branca. A todas vi: à mãe, à Emilia, à Elisa e à Ellen.

Ora, a mãe confirmou esta narração; dizendo-lhe. Ouvi-te chamar-me e mandei Emília ver a janela.

A hora, considerando a diferença de longitude, cor­respondia àquela em que foi ouvida a voz.

Uma outra carta do comandante completa a história:

Vi as feições delas (as feições de minha mãe e de mi­nhas irmãs), o quarto e a mobília, sobretudo as janelas venezianas de forma antiga. Minha irmã mais velha estava sentada ao lado de minha mãe.

Quanto à hora em que ocorreu o acidente, foi pela ma­drugada. Lembro-me de que um barco havia soçobrado na véspera, sendo atirado à praia. O oficial deu-nos ordem para irmos procurá-lo logo de manhã, mas não me lembro exa­tamente da hora. A situação era terrível e os vagalhões furiosos. O nosso barco virou-se da popa para a proa. Nun­ca me vi tão próximo da morte, e, no entanto, já passei por muitas situações perigosas; mas este acidente produziu tal impressão no meu espírito que não posso esquecer ne­nhum dos seus pormenores nem as zombarias dos marujos:

- Rapaz, porque chamavas tua mãe? Pensavas que ela podia tirar-te das garras do diabo? - etc., e outras expres­sões que não posso referir.

Por outra parte, o inquérito foi confirmado por esta carta da irmã do comandante:

Lembro-me distintamente do incidente; fez tal im­pressão que jamais o esquecerei. Uma tarde estava sentada e trabalhávamos tranquilamente. Ouvimos primeiro um débil grito de mãe! Entreolhamo-nos e dissemos:

- Ouvistes? Alguém grita: mãe!

Acabávamos apenas de dizer isto quando a voz excla­mou ainda seguidamente: Mãe! Mãe! O último grito deno­tava terror, era um grito de angústia. Levantámo-nos todas e a mamã disse-me:

- Vai ã porta e vê o que é isso.

Corri para a rua e investiguei durante alguns minutos, mas estava tudo em silêncio e não se via ninguém; a tarde era bela, não corria vento. A mamãe ficou perturbada e triste com este incidente (37).

Estes casos de transmissões de pensamentos entre vivos nada têm de comum com a vida normal e estão fora da ação dos nossos sentidos físicos. Evidentemente, é o espírito que neles atua.

Seria fácil citar muitos exemplos, principalmente, entre outros, o de uma jovem amazona que, debruçan­do-se demasiadamente para abrir uma cancela, caiu do cavalo e soltou um grito que foi ouvido por cinco pes­soas, a sete quilômetros de distância (38).            Etc.

Recebi cartas ferozes de damas de bons princípios, inspiradas visivelmente por seus diretores espirituais, censurando-me por não acreditar nos dogmas cristãos e por aceitar os contos ridículos da telepatia, das sen­sações à distância e dos anúncios de mortes, e notarei neste momento, sobretudo, uma delas quase injuriosa, escrita por uma senhora de Salins, e que chegou pelo mesmo correio que me trouxe as seguintes: (são as car­tas 913 e 914 de minha coleção). EIas contradizem-se e completam-se singularmente.

A carta 913 afirma ser fado falso na telepatia, e que eu não mereço desculpa, por tomar essas histórias a sério. Foi-me impassível continuar a leitura do vosso livro O Desconhecido, por tal forma ele é ridículo! E' verdadeiramente grotesco!u

A carta 914 dizia:

Cumpro o dever de concorrer com uma contribuição pessoal para o estudo que o senhor empreendeu na sua im­portante obra O Desconhecido e os Problemas Psíquicos, ca­pital para a Ciência futura.

Morava em Aurillac no inverno de 1878, tendo deixado em Saint-Servan (Ille-et-Vilaine) minha mulher e minha filha.

Em 22 de Dezembro, entrando num café, pelas 8 horas e meia, senti irresistível angústia. O sofrimento foi tão in­tenso, que saí e voltei para casa, escrevendo a minha mulher uma carta que começava assim.

Domingo, 22 de Dezembro, 9 horas.

Estava no café, com os meus companheiros do costume, quando me levantei de repente e sai, apesar de muito ins­tado para ficar. Havia escutado um apelo irresistível. Devias pensar em mim, chamar-me com veemência, com angústia talvez. Era aflição? Era perigo? Oh! Dize-me o que querias naquele momento! Voltei, pois para casa todo angustiado, todo comovido. Chamavam-me urgentemente; precisava estar só e de escrever-te para te confiar a minha aflição...

A continuação da epistola é inútil para o caso.

Ao receber esta comunicação, no dia 24 pela manhã, mi­nha mulher ficou espantada. Escreveu no alto da minha carta estas palavras: Dia do acidente de bebe.

Eis o que se tinha passado em Saint-Servan

No dia 22, pelas 8 horas da noite, minha filhinha, de seis semanas de idade, foi deitada com uma botija dágua quente aos pés. Sua mãe deitou-se também pouco depois. Passados alguns instantes, a criança rompeu em gritos dolorosos, ve­rificando-se que, como a botija deixasse escapar a água, lhe queimara os pés, torcendo-se a inocente em convulsões.

Minha mulher perdeu a cabeça e sossegou de­pois da visita do médico, que certamente demorou ainda uma hora.

A coincidência dos fatos e a sua perfeita concordância pode ser fixada graças ao sobrescrito de minha carta - 22 de Dezembro, 9 horas.

Havia jantado, como de costume, das 7 para as 8 ho­ras; no café joguei uma partida de cartas: o tempo material para ir do café, a cento e cinqüenta metros do meu aposen­to, para casa e para me instalar a escrever, tudo prova que a chamada foi ouvida por mim, pelas 8 e meia, pouco mais ou menos.

A criança fora deitada às 8 horas, e as queimaduras produziu-se aproximadamente às 8 e meia, pois, se isso se desse mais tarde, a água esfriada não teria determinado a empola instantânea que se verificou. Minha mulher não se recorda, atualmente, se o seu pensamento, naquele instante, se dirigiu para mim com angústia, nem se me chamou. Está convencida de que sim, mas as suas recordações não são nítidas.

Ainda assim, a observação da minha carta de 22 de De­zembro parece-me das mais rigorosas.

Acrescentarei que a natureza do meu espírito, e a de minhas ocupações, me leva sempre para o estudo das reali­dades cientificas de preferência aos fatos de ordem misterio­sa do mundo psíquico. Nunca mais tive impressões da mesma natureza.

GIGON

Subintendente de l4 classe.

 

Não oferecerá esta curiosa história a maior analogia com a do Sr. Arboussoff e com a do Sr. Garrison, e também com a do Dr. Ollivier? Faculdades supranormais da alma. Continuemos.

Aqui temos ainda fatos de transmissão telepática do pensamento de que é impossível duvidar. Extraí-os duma carta que me foi endereçada de Passavant (flaute Saone) pelo Dr. Poirson, da Faculdade de Paris.

Remeto-lhe a relação de três fatos de natureza um pouco diferente, mas que lhe podem ser úteis para os seus estudos sobre os fenômenos psíquicos. Garanto-lhe a sua autenticidade, pois tenho por costume, nesta ordem de assun­tos, atribuir importância apenas ao que observo pessoal­mente.

  1. a) Há dois meses pouco mais ou menos, achando-me em Belfort, arrabalde de França (sic), lembrei-me de repente e com singular insistência dum dos meus confrades do Jura, no qual não penso nem uma vez por ano, pois só tive com ele relações profissionais há treze anos, e nunca mais o vi. Passados alguns minutos, encontrava-me frente a frente com ele, numa encruzilhada, e como ele viesse de bicicleta, por uma rua perpendicular, era-me impossível tê-lo avistado an­tes, e de longe. Eis aqui um fato: Não o explico, mas sur­preendeu-me.
  2. b) Médico profissional posso ser chamado frequente­mente de noite. Pela minha porta passa bastante gente. Se aparece qualquer pessoa que deve puxar a campainha, des­perto sozinho quando ela está ainda a uns vinte metros de minha casa. Sei de antemão que ela vai tocar.

Isto já eu o verifiquei, não uma vez, mas uma centena de vezes, há doze anos a esta parte. Para ser ainda mais fiei, devo dizer que, se não durmo, o que me acontece muitas vezes, sou de todo incapaz de vaticinar se um transeunte vai ou não parar; acrescentarei também que, se durmo profun­damente, depois de uma jornada exaustiva, o fenômeno não se produz.

  1. c) Conto na minha clientela uma rapariga histérica de quem obtenho o sono hipnótico e a sugestão com extraordi­nária facilidade. Acontece-me muitas vezes determinar-lhe à hora do despertar e do levantar, o que ela observa com exatidão rigorosa. Para quem pratica um pouco o hipnotis­mo, isto nada tem de extraordinário; - mas eis um fato que o é e muito: - um dia, o marido dessa mulher, impaciente por que ela acordasse, lembrou-se de adiantar os ponteiros do relógio colocado na mesa de cabeceira. Devendo esperar ainda uma e meia hora, às 6 e meia da manhã pós o relógio às 7 e meia, hora fixada. Ficou surpreendido ao ver que ela se erguia de repente, no mesmo momento em que o pon­teiro marcava 7 horas. Este homem veio informar-me de tal fato. Fiquei incrédulo e quis verificá-lo, o que consegui, efe­tivamente, diversas vezes.

Devo esclarecer que esta pessoa, adormecida ou de olhos fechados, lê fàcilmente à hora no meu relógio, mesmo quan­do a faço variar, mas com a condição de que veja eu mes­mo os ponteiros. Da mesma forma, ela diz com facilidade o nome dum objeto que apanho atrás dela, contanto que o tome em minhas mãos.

Tudo isto são fatos a explicar: deixo-lhe o cuidado de interpretar. Poderiam ser confirmados pelos interessados, se não fossem de espírito um pouco retrógrado quanto ao nosso ponto de vista. Consideram-me um tanto feiticeiro, e teriam receio de se verem implicados nestas histórias. Pode fazer da minha carta o uso que lhe convier; auto­rizo-o mesmo a publicar o meu nome, pois não temo absolutamente os gracejos dos ignorantes, e desejo os dos imbecis. Sou, etc...

 

Passavant (flaute Saône), 9 de Outubro de 1916.

 

(Carta 3.482.)

 

  1. POIRSON.

 

O primeiro destes três casos não é muito raro, e é um dos que nos convidam a considerar a transmissão de cérebro a cérebro como onda etérea. O segundo con­duz à mesma conclusão. O terceiro mostra-nos uma su­gestão operando, apesar dum subterfúgio. A transmis­são do pensamento é evidente, sobretudo na experiência do relógio ao qual o doutor faz variar os ponteiros. Que se encontre bastante amiúde, por acaso aparentemente, uma pessoa em quem se pensa, é um fato conhecido de toda gente. Por toda parte se deparam exemplos. Entre outros, o Dr. Foissac menciona (39) algumas destas coincidências que o surpreenderam particularmente. Não são raras, apesar de pouco analisadas até hoje. Elas provam as radiações psíquicas.

As vistas e as audições telepáticas são mais carac­terísticas.

Entre as numerosas observações que me foram co­municadas, citarei a seguinte, de vista a distância num acidente - que não teve conseqüências graves pessoalmente experimentadas pela Sra. Barthés, viúva da Dr. Barthés, de Ivry (carta n. 4.075, de 12 de Feve­reiro de 1919). O fato passou-se em 1874, na România:

O doutor tinha partido, a cavalo, para o seu serviço, e a esposa fora passar a tarde a casa de pessoas amigas. De repente, durante uma conversação qualquer, viu seu ma­rido cair do cavalo, na estrada, e soltou um grito de pavor. Riram-se dela, naturalmente. Mas, quando o doutor voltou à noite, sua mulher, ainda sob a influência da visão, perguntou-lhe, com grande espanto do cavaleiro, se estava ferido. Ele tomou-lhe que, depois de uma subida muito rude, metera o cavalo a passo, e enfiara as rédeas no braço, para fazer um cigarro. De súbito, o animal tropeçou, caindo sobre os joelhos, e atirou-o ao chão, onde se feriu no rosto, no ombro e no braço. O médico, a par da telepatia, não se mostrou surpreendido com a visão.

Narrarei outra sensação a distância da mesma na­tureza.

Lombroso publicou a seguinte carta que lhe foi di­rigida pelo seu colega da Universidade, o professor de Sânctis

Achava-me em Roma, sem minha família, que ficara no campo. Como a casa fora saqueada no ano anterior, meu irmão ia lá dormir. Uma tarde avisou-me de que iria ao Teatro Costanzi. Fiquei sozinho e, ao começar uma leitura, senti-me de repente tomado de pavor. Procurei reagir e prin­cipiei a despir-me, mas continuei atormentado com a idéia de que meu irmão corria perigo, com um incêndio no teatro. Apaguei a luz e, cada vez mais angustiado, reacendi-a con­tra meus costumes, disposto a esperar, acordado, o regresso de meu irmão. Estava apavorado como uma criança. Meia hora depois da meia-noite, ouvi abrir a porta, e imaginem a minha surpresa quando meu irmão me contou o pânico produzido por um começo de incêndio que havia coincidido exatamente com a hora de minha inquietação!

Um caso de transmissão de pensamento bem notável é o que me foi relatado pelo Dr. Quintard, na Sociedade de Medicina de Angers (40).

Uma criança de menos de sete anos, Ludovico, era do­tada para o cálculo, faculdade análoga à do célebre Inau­di (41). O pai do pequeno acabou por observar: 1 - que ele pouca atenção prestava a leitura dos problemas que lhe apre­sentavam; 2 - que a presença da mãe era condição expressa para bom êxito da experiência. Ela devia ter sempre sob os olhos ou no pensamento a solução pedida.

Dai, deduziu que o filho não calculava, mas que adivi­nhava, ou antes, que sua mãe lhe transmitia seu pensamento, do que quis certificar-se. Para isso, pediu ã esposa que abris­se um dicionário e perguntasse ao rapaz qual a página que ela fitava ao que ele respondeu logo: é a página 456, o que era exato. Recomeçou dez vezes e dez vezes obteve re­sultado idêntico.

Uma frase escrita sua extensão, logo que repetida pela criança, num caderno, qualquer que fosse a estivesse sob os olhos maternos, era mesmo quando interrogada por um estranho.

Todas estas observações contribuem para nos de­monstrar as comunicações de espírito para espírito. Uma vista, em sonho, a distância, e uma audição formal foram-me relatadas por um dos meus correspon­dentes, o Sr. Maurício Rollinet, informado pelo Sr. Dou­taz, pároco de Domdidier, cantão de Friburgo ( Suíça). Ei-la, um pouco resumida (42).

Era em meados de Novembro de 1859. Tinha então 18 anos. Deitei-me e adormeci.

Há quanto tempo me embalava nos braços de Morfeu? Ignoro-o. De repente, apresentou-se ao meu espírito uma vi­são estranha. Vi o rosto contristado de meu velho e querido pai, dirigindo-se da casa paterna para mim. Essa casa ficava a distância de 24 quilômetros da cidade que habita­va, perto de Friburgo: Venho dizer-te, meu caro José, com imensa aflição que tua pobre irmã Josefina está moribunda em Paris.

Despertado por esta visão, disse comigo: Ora! É um sonho! E adormeci de novo.

Eis, porém, que a mesma visão se me apresenta ainda, como anteriormente, com a mesma aparência lamentável e as palavras: Meu caro José, etc.; mas tua mãe não sabe ainda da triste notícia.

Desta vez, pensei eu, saltando da cama, não se trata dum sonho; e, sob a penosa impressão de dolorosa realidade, vesti-me e consultei o meu relógio: era meia hora depois da meia-noite.

No dia seguinte, fui para o liceu. Precisando de alguns objetos que estavam no meu quarto, abordei a casa, guar­dada por um porteiro idoso. Veio o bom velho para mim com um pacote na mão, dizendo-me.

- Um senhor que chegou de sua terra encarregou-me de lhe entregar isto, com a maior urgência, da parte de seu pai.

Abri logo o pacote, no qual encontrei uma carta de meu pai, escrita ã pressa, e que dizia:

Caro José. - E com imenso desgosto que venho dizer­-te: tua pobre irmã está à morte em Paris... Mas tua mãe são sabe da triste noticia. O telegrama chegou-me pelas 10 horas da noite e julguei preferível não., avisar tua mãe por enquanto. São agora 11 horas. Depois da meia-noite, o nos­so deputado partirá para o grande Conselho. Juntarei a mi­nha carta ao pacote que tua querida mãe preparou para esta ocasião. Procura reunir-te a nós, sem falta, amanhã de noi­te... Na minha idade, não posso cumprir este doloroso dever. Tomarás o meu lugar?...

Esta narração é acompanhada do seguinte certifi­cado, assinado pelo narrador:

O abaixo assinado afirma em sua consciência que a narrativa é perfeitamente exata e que guarda recordação pre­cisa deste acontecimento, como se fora de ontem.

Domdidier, 18 de Abril de 1918.

 

JOS. DOUTAZ, Cura

 

E' impossível invocar aqui o acaso duma coincidên­cia fortuita entre este sonho e o acontecimento, e somos obrigados a admitir que o pensamento do pai fosse levado ao filho no próprio texto da carta que lhe dirigia (43). Vê-se que tudo concorre para provar o valor absoluto da tese aqui sustentada: a ação da alma, indepen­dente do corpo.

A seguinte sensação telepática foi relatada pelo Dr. Foissac (Chance et Destinéem, pág. 599), e passou-se com ele próprio. Não se cogitava então da importância destes fatos:

Quando eu era estudante de Medicina e interno no Hos­pital Dupuytren, escreve ele, sonhei que via meu pai atacado por uma enfermidade que o levava ao túmulo. Despertei muito perturbado, procurando dominar a minha inquietação dizendo-me, a mim mesmo, que havia deixado meu pai, no domingo anterior, de perfeita saúde; estava numa quarta-fei­ra. Convenci-me de que era uma verdadeira infantilidade ter receio de um sonho e resolvi não fazer caso dele. Mas, a imagem de meu pai moribundo continuava sempre presente no meu pensamento, e para me libertar desta obsessão, ape­sar de envergonhado da minha fraqueza, segui para Saint­-Germain, onde encontrei meu pai atacado da congestão pul­monar que o arrebatou em cinco dias.

A telepatia toma todas as formas.

Não é muito raro ver os jornais diários receberem os ecos de observações desse gênero. O Daily Tele­graph de 23 de Agosto de 1906 publicou, entre outras, a narração de uma sua correspondente, relatando que sua filha, uma pequenina de três anos, que orava todas as noites, recusou uma vez rezar pelo êxito feliz da via­gem de sua avó, a caminho da Rússia para a Inglaterra.

- Não, dizia ela, não rezarei hoje para que minha avó chegue de boa saúde, porque ela já chegou. - Que dizes? - Sim, eu vi o navio no porto, e ela está bem.

A correspondente acrescenta que tomou nota da data, e que, quando recebeu notícias de sua mãe, veri­ficou que tinha realmente chegado, como a criança viu no seu sonho, na véspera do dia em que ela se recusara a pronunciar a prece habitual. Observa a mesma cor­respondente que essa faculdade de vista a distância, em sonho, existe na sua família, e que ela mesmo viu, cer­ta noite, a explosão a bordo do Great Wastern, de que seu marido zombou quando ela lhe contou, mas que foi forçado a reconhecer no dia seguinte, à chegada dos jornais.

Foi-me comunicada por uma amiga de longa data, a Sra. Dobelmann, uma vista telepática, em sonho, de Estrasburgo a Paris, nos seguintes termos:

Não sei caro mestre, se lhe fiz menção de um caso de telepatia que me aconteceu em Janeiro de 1901. Vivíamos já em Paris. Em fins de Janeiro, fomos chamados a Estras­burgo, eu e meu marido, para o enterro de minha pobre mãe. Vossos filhos não puderam acompanhar-nos, devido às leis de exceção. Bastante impressionada pelas muitas saudades, pela temperatura, pelas tempestades de neve, tinha sonhos noturnos agitados. Uma noite, principalmente, senti uma an­gustia aguda, e sonhei que via meu filho mais novo apertado entre duas fileiras de tábuas que sobre ele haviam caído, não podendo desprender-se e chamando: Mamã! Falei disso a minha irmã, ainda sob a impressão deste pesadelo, mas nem eu nem ela ligamos importância ao caso.

Alguns dias depois, de regresso a Paris, a criada disse­-nos, ao avistar-nos:

- O Sr. Juliano está muito melhor, já foi trabalhar. - Então, esteve doente?

- Sim, teve de ficar alguns dias em casa, por se ter ferido numa perna. Ele não vos escreveu?

Quando meu filho chegou, respondeu às perguntas que lhe fizemos. Havia sofrido um acidente, em virtude dum montão de pranchas que sobre ele caíra: mas que era inútil assustarmo-nos, pois nada de grave acontecera.

- Eu já o sabia - disse-lhe - com isso sonhei uma noite; mas, fato curioso, não reconheci a tua oficina; estavas entre pranchas, sem poderes levantar-te, num grande pátio desconhecido em que o Sol brilhava.

- E' exato - respondeu-me ele - o Sol brilhava na­quele dia, e isto aconteceu no pátio do vizinho, que des­creves bem, sem nunca o teres visto. Mas, não me recordo de haver-te chamado.

Meu filho ter-me-ia chamado em sonho, de noite? E' pos­sível; costumava sonhar em alta voz.

Devo acrescentar que foi a única vez que semelhante coisa me aconteceu.

 

(Carta 2.320.)

 

 

VALERIE DOBELMAM Rua Linné, 12, Paris.

 

 

Vê-se que a variedade esmalta todas estas narrações sinceras, singelas e autênticas.

Documentam-se umas com as outras para nos pro­var que a anatomia não encerra a realidade.

Eis ainda outro exemplo de vista a distância, em sonho, de um incidente preciso.

Uma pessoa de minhas relações, a Sra. Izouard, de Marselha, onde sua família e muito conhecida há mais de meio século, contou-me um sonho muito curioso que, a meu pedido, resumiu em algumas linhas, na carta seguinte.

13 de Dezembro de 1901.

 

Caro Mestre:

 

Morava em Marselha, quando o acontecimento se deu em Sorgues, pequena cidade do Departamento de Vaucluse. Vi, em sonho, uma amiga, nas mãos dum homem que lhe cortava a sua bela cabeleira, e acordei muito impressionada.

Volvidos meses, soube que a senhora em quem vi fazer esta desagradável operação, tinha de fato não só os cabelos cortados, mas a cabeça inteiramente rapada, em conseqüência de grave doença. Meu sonho ocorreu no mesmo momento dessa doença; por tal motivo, conservei inesquecível recor­dação dele.

 

(Carta 1. 021.)

 

  1. Izouaxn.

 

Não há distância para o espírito. Tem-se formulado a questão de saber se a alma dos videntes se transporta para o lugar visto, se a pessoa avistada atua a distância sobre o vidente, ou também se não existe simultanei­dade de sensação das duas partes. Mas, que é o espaço para o pensamento?

Ver um desastre, a doença, a morte a distância não é fato tão raro como parece. Teremos ocasião de exa­minar adiante certo número de casos de vistas de mortos, exatas e precisas. Citemos, a respeito de tele­patia, a surpreendente observação seguinte, extraída do livro de Mrs. Crowe, Os Lados Obscuros da Natureza (44):

Certa Sra. H., residente em Limerick, tinha, há alguns anos, ao seu serviço uma criada que muito estimava chamada Nelly Hanlon. Era pessoa de confiança que rara­mente solicitava licenças, e a Sra. H. estava, por isso, dis­posta a atendê-la quando Nelly lhe pediu, uma vez, que a dispensasse para ir a feira que se realizava a algumas mi­lhas de distância. Mas o Sr. H., ao voltar a casa e conhe­cendo os desejos de Nelly, declarou que não podia ser aten­dida naquele dia, porque tinha convidados para o jantar, e que s6 a ela podia confiar às chaves da adega, pois os seus que fazeres não lhe permitiriam voltar a tempo de ele mesmo ir buscar o vinho.

A Sra. H., não querendo contrariar Nelly, a quem já tinha dado o seu consentimento, disse que ela mesmo se en­carregaria disso, e a criada partiu de manhã, muito alegre, prometendo voltar ã noite se lhe fosse possível, ou o mais tardar na manhã seguinte.

Passou-se o dia sem incidente e ninguém pensou em Nelly. Quando foi necessário ir ao vinho, a Sra. H. tomou as chaves, e dirigiu-se para a porta da adega em companhia de uma criada que levava um cesto com garrafas.

Havia começado apenas a descer os primeiros degraus da escada, quando soltou um grito e caiu sem sentidos. Le­vada para a cama, a serva que a acompanhava disse aos outros criados, assustados, que ela e a ama tinham visto Nelly, em baixo da escada e inteiramente molhada. Quando o Sr. H. chegou, repetiram-lhe a mesma história: ele ralhou com a criada, pela sua tolice. A Sra. H., voltando a si de­pois de alguns cuidados, abriu os olhos, suspirou profunda­mente, e exclamou:

- Oh! Nelly Hanlon!... - e, logo que pode falar, confirmou os dizeres da criada: tinha visto Nelly, ao fundo da escada, escorrendo água.

O Sr. H. fez tudo quanto lhe era possível para conven­cê-la de que tudo aquilo era uma ilusão, mas embalde!

- Nelly - disse ele - voltará em breve e há-de rir-se com o caso.

Anoiteceu e amanheceu de novo, e Nelly não deu sinal de si. Passaram-se dois ou três dias. Tiraram-se informa­ções, apurando-se que Nelly fora vista na feira, donde par­tiu à noite para voltar a casa. Desse momento em diante nada mais se sabia a seu respeito. Afinal, o seu corpo foi encontrado no rio, ignorando-se, porém, como tinha ocorrido o desastre.

Pode pensar-se que a criada, ao afogar-se, acidentalmente sem dúvida, se transportou em espírito para junto de seus patrões, a quem era muito afeiçoada. Esta vista telepática é particularmente notável por sua pre­cisão e sua clareza.

Às vezes, estas sensações telepáticas a distância tomam uma forma simbólica que não se adivinha desde logo. Recebi a se uma carta com a narração de um sonho que se deu no Berry, a 240 quilômetros de Paris.

Na noite de 29 para 30 de Agosto de 1892, fui particu­larmente emocionado por um sonho. Uma jovem de minhas relações havia casado com um funcionário, cinco anos antes.

O casal morava em Neuilly, e o seu segundo filho, de quinze meses, achava-se em estado melindroso, devido a uma ente­rite, tendo seus pais pouca esperança de salvá-lo.

A minha imaginação dirigiu-se, pois, para esse pequeno ser, que de resto, ã força de cuidados, veio a sobreviver e é hoje uma criança encantadora.

Assim, eis o meu sonho:

Estava no quarto da minha amiga; ela permanecia de pé, em traje caseiro, os cabelos quase soltos; dos seus olhos caíam lágrimas abundantes; de toda a sua pessoa se irradiava profundo desespero. No entanto, tinha ao colo, como que maquinalmente e por hábito, uma criança cujo rosto e corpo emagrecidos caíam no seu ombro. Esta criança, ima­gem do sofrimento, vivia e soltava alguns débeis vagidos.

Em breve a minha atenção era atraída pela entrada de dois homens que traziam um objeto atravancador que colo­caram no meio do quarto. Primeiro, este objeto pareceu-me um caixão de criança, e fiquei perturbada ao pensar que o pequenino enfermo ainda estava vivo nos braços de sua mãe. Passado certo tempo, julguei que o fúnebre caixão se alon­gava muito vagarosamente, tornando-se capaz de encerrar avultado corpo. Com efeito, não tardava que os dois homens instalassem nele um grande cadáver, coberto com um len­çol branco.

A jovem amiga redobrava de prantos, de soluços deses­perados, e repelia com a mão que tinha livre os assistentes, que procuravam arrancá-la a este triste espetáculo. Tudo recusava: crianças, família. Não existia para si, senão o querido morto que lhe arrebatavam e que nada no mundo podia substituir, dizia ela.

Como tantos outros sonhos, o meu acabou em confusão, e ao despertar só me restava uma impressão penosa, com a recordação bem nítida, entretanto, das minúcias da prin­cipal cena. Disse à minha criada, enquanto arrumávamos o quarto, que havia acontecido qualquer coisa em casa dos nossos amigos, que ela bem conhecia. Pensava eu que o ter­ceiro filhinho esperado chegaria antes do prazo.

No dia 1 de Setembro pela manhã, meu marido entrou no quarto trazendo na mão uma carta tarjada, e, muito emo­cionado, parecendo-lhe que era joguete duma alucinação, lia, ou antes, balbuciava um convite para o enterro do nosso amigo falecido, em 30 de Agosto, com trinta e seis anos.

O infeliz havia sucumbido a um ataque de cólera, vitima, em plena mocidade e ventura, do flagelo pouco mortífero do verão de 1892, como devem estar lembrados, e que se desen­volveu em algumas localidades situadas a oeste de Paris.

Durante as poucas horas que durou o desespero de sal­var o doente, sua mulher (soube depois que foram estas as suas aspirações) havia pensado no médico amigo que meu marido era para eles, o qual, na sua idéia, teria encontrado um remédio libertador.

Quem explicará esta misteriosa atração?

O fato bem real é que vi, em espírito, pôr o nosso amigo no caixão e que tudo se deu como acabo de narrar. O corpo, como medida de higiene, foi colocado no ataúde há uma hora adiantada da noite, tendo-se dado à morte entre as quatro e cinco horas da tarde.

 

Dun-sur-Auron (Cher), 6 de Junho de 1899.

 

  1. FÉRON.

(Carta 671.)

 

Como não nos convencerão todas estas observações, ao mesmo tempo variadas, positivas e concordantes?

A respeito da vista a distância, em sonho, recebi dum correspondente (o Sr. Egisto dei Parto, de Sesto Fiorentino, Itália) esta curiosa nota:

Num trem de Tolosa a Paris viajei com um cavalheiro de meia idade, de maneiras distintas, com o qual não tardei a entabular conversação. Falamos acerca de filosofia, de so­cialismo, de religião, e ele deu-me a entender que era muito crente, e que a isso o tinha levado uma grande infelicidade que o ferira pouco tempo antes.

Declarou-me ser a primeira vez que revelava à pessoa estranha a horrível desgraça que o atingira. Se bem me lembro, toda a sua família perecera numa inundação, em Tolosa. Pois bem! Este cavalheiro que me pareceu ser um professor, declarou-me que poucos dias depois daquele doloroso aconte­cimento, tinha visto em sonho o lugar onde se achava, na água, o cadáver de um dos seus filhos afogados, e que, indo procurá-lo no dia seguinte, o encontrou exatamente nesse sitio. Não seria incrível que uma excelente pessoa de cinqüenta anos, de cultura superior, me tivesse contado, com lágrimas nos olhos, uma história falsa.

 

( Carta 1. 013. )

 

Eis um exemplo muito notável de vista a distân­cia, em sonho, dum desastre inteiramente particular. Extrai-o da obra Phantasms of the Living, tomo 1°, pág. 338, e da sua tradução francesa, As Alucinações Telepáticas, pág. 107. O Cônego Warburton, de Win­chéster, escrevia em 16 de Julho de 1883:

Partira de Oxford para ir passar um ou dois dias com meu irmão, Acton Warburton, advogado. Quando cheguei a sua casa encontrei um aviso dele sobre a mesa. Desculpa­va-se por estar ausente, dizia-me que tinha ido a um baile para os lados de West End, e que tencionava estar de volta pouco depois da uma hora. Em vez de ir para a cama, fiquei a dormitar numa poltrona. Exatamente à uma hora, des­pertei sobressaltado, exclamando: Por Júpiter! Ele caiu! Via meu irmão saindo duma sala para um patamar profusa­mente iluminado e tropeçar no primeiro degrau da escada, caindo de cabeça para frente e amortecendo o choque com o auxilio dos cotovelos e das mãos. Eu não conhecia a casa, nem sabia para que lado ficasse. Não ligando importância ao incidente, readormeci. Meia hora depois, fui acordado pela chegada brusca de meu irmão, que exclamou.

- Ah! Estás aqui! Escapei de boa! Ia quebrando a ca­beça. Ao deixar o salão de baile, tropecei e despenhei-me pela escada.

Tal é a narração do cônego, que declara, conjunta­mente, que nunca sofreu de alucinações.

Parece-me que houve, aqui, não uma transmissão telepática pròpriamente dita do irmão do narrador (o qual, entretanto podia ter pensado nele de repente e com intensidade), mas antes uma vista sem os olhos pra votada por essa comoção telepática, tanto mais que o reverendo Warburton afirma em seguida que viu um patamar profusamente iluminado, um relógio e mesas preparadas para refrescos, tudo conforme a realidade.

Publiquei um caso muito semelhante a este (queda numa escada também) em o Desconhecido (XXXI, pág. 479), e um outro do mesmo gênero, no mesmo li­vro (XLVI, pág. 432).

Estudaremos especialmente este fato curioso da vis­ta sem os olhos, no capítulo seguinte. Ele demonstrará com evidência ainda mais formal que os precedentes, a existência das faculdades transcendentais da alma.

Estas vistas a distância, estas impressões telepáti­cas, observam-se também fora dos sonhos, ou pelo menos em espécies de entorpecimentos. Vamos ler, por exem­plo, a seguinte observação do advogado Richard Searle comunicada à Sociedade de Pesquisas Psíquicas, em 2 de Novembro de 1883:

Uma tarde me redigia um memorial, sentado ã minha secretária, no Templo. Esta secretária está colocada entre uma das janelas e a chaminé; a janela dá para o Templo.

De repente, notei que olhava através da vidraça inferior, que estava ã altura de meus olhos, e que via a cabeça de minha mulher, caída para trás, com os olhos fechados e o rosto pá­lido e lívido, como se estivesse morta.

Agitei-me na cadeira, procurei voltar a mim; depois, le­vantei-me e olhei pela janela: só vi as casas em frente. Concluí que havia adormecido. Dei algumas voltas pelo quar­to, para despertar completamente, e voltei ao meu trabalho, sem mais pensar no incidente.

Voltei para casa ã hora do costume. Enquanto jantava com minha mulher, ela contou-me que havia merendado em casa duma amiga que morava em Gloucester Gardens e que tinha levado com ela uma menina (uma sobrinha que morava conosco), mas que durante a merenda, ou pouco depois, a criança caíra, ferindo-se no rosto. O sangue jorrara. Minha mulher acrescentou que desmaiara. Voltou-me ao espírito a visão da janela e perguntei-lhe a que horas ocorrera o fato. Respondeu-me:

- Às 2 horas e poucos minutos.

Fora naquele momento que eu vira a cena. Devo dizer ainda que fosse esta a única vez que minha mulher desmaiou. Contei, nessa ocasião, a história a diversos amigos.

RICHARD SEARLE.

 

Confirmando este incidente, escreve o Sr. Paul Pier­rard, 27, Gloucester Gardens, em Londres:

Pode ser interessante haver uma narração exata do fato extraordinário que aconteceu na minha casa de Gloucester Gardens.

Senhoras e crianças estavam reunidas, uma tarde, em minha casa. A Sra. Searle, de Home Lodge, Herne Hill, ti­nha vindo com sua pequena sobrinha Luísa Como as crian­ças brincassem ruidosamente, correndo muito a volta duma mesa, a pequena Luisa caiu da cadeira e feriu-se ligeira­mente. O receio de um acidente grave provocou viva emoção na Sra. Searle, que desmaiou. No dia seguinte, encontramos o Sr. Searle que nos contou que na véspera, de tarde, en­quanto examinava um negócio no seu escritório, 6, Pump Court, no Templo, sentira singular impressão e vira, distin­tamente como num espelho, a imagem de sua mulher des­maiada.

Essa visão coincidiu com o acidente. O fato é irrecusável.

Parece que houve aqui comunicação instantânea en­tre os dois espíritos, do marido e da mulher.

A vista sem os olhos, à distância, pela telepatia, de fatos que se dá a dez, vinte, cinqüenta, cem, duzen­tos quilômetros e mais, não é duvidosa para os que estudam este assunto.

Aqui temos um exemplo, relatado em Fevereiro de 1901, nos Proceedings da Sociedade Inglesa de Pes­quisas Psíquicas, que os investigadores desses estudos já viram citado diversas vezes depois (45). Trata-se de visão muito nítida, à distância de 230 quilômetros. O autor, o Sr. Davíd Fraser Harris, autor de conferências magistrais na Universidade de Santo André, relata-a nos seguintes termos:

Há alguns anos, um negócio urgente impediu-me de voltar para casa, em Londres, no fim da semana. Pouco dis­posto a passar o domingo em Manchester, fui, na tarde do sábado, a Matloch Bath, para gozá-lo aí tranquilamente, e regressar na segunda-feira pelo comboio da manhã.

Chegando ao meu destino, um pequeno hotel familiar pró­ximo a estação, pediu logo uma chávena de chá e entrei no salão para me aquecer, pois corria um dia de Janeiro muito frio, caía neve com abundância e o termômetro marcava muitos graus abaixo de zero.

Como era o único viajante que estava no hotel naquele momento, enquanto esperava pelo chá, instalei-me mui con­fortàvelmente em boa poltrona, diante do fogo que me res­tituía a alegria. Não eram horas ainda de acender o gás e, no entanto, já não se via para ler. Estava de costas para a janela e não pensava em nada de particular. Encontra­va-me em perfeito estado de tranqüilidade e de passividade. De repente, perdi a noção do meio em que estava. Em vez da parede e dos quadros que nela se viam suspensos, achei­-me em frente da fachada de minha casa de Londres: minha mulher, que estava à porta, falava com um operário que ti­nha vassoura nas mãos.

Parecia muito aflita e tive instantaneamente a certeza de que o homem estava em grande miséria. Não entendia a conversa, mas um palpite dizia-me que o infeliz pedia a minha mulher que o socorresse. Neste momento, o criado trouxe o chá: a minha visão dissipou-se, mas a impressão que me deixou foi tão profunda e fiquei de tal modo conven­cido de ter visto alguma coisa de real, que depois de tomar o chá escrevi a minha mulher, participando-lhe o que aca­bava de acontecer-me. Pedia-lhe que se informasse a res­peito desse homem e que o auxiliasse tanto quanto possível.

Ora, eis o que havia ocorrido em Londres: Um rapaz batera ã porta de minha casa (que dista 230 quilômetros do lugar em que eu me encontrava), falara ã criada e ofere­cera-se-lhe para varrer, por dez centavos, a neve que atu­lhava o passeio e a soleira da casa. Enquanto o rapaz com­binava este serviço, chegou um pobre diabo coberto de far­rapos, que disse:

- Dê-me a preferência a mim, por favor: este moço gastará provàvelmente os dez centavos que lhe derem, em doces, ao passo que eu preciso desse dinheiro para Comprar pão. Tenho mulher e quatro filhos, todos doentes, sem nada para acender o lume e para lhes dar de comer...

A criada pediu ao homem que esperasse e foi avisar minha mulher, que veio falar com o infeliz. Repetiu que estivera doente, que sua família se encontrava em profunda miséria, mas que antes de se dirigir à assistência pública, queria procurar um trabalho qualquer.

Foi esta a cena que eu vira no momento exato em que se passava; era provàvelmente a impressão que a miséria do pobre homem produzira no espírito de minha mulher que se havia transmitido ao meu.

Eis como a história acabou: Minha mulher prometeu ao homem que iria a casa dele, à noite, para ver o que poderia fazer. O homem falara verdade. Minha mulher deu-lhe o que pode em dinheiro, roupas, comida e combustível. Inútil seria acrescentar a surpresa que lhe causara a minha carta - recebida na segunda-feira de manhã. Alguns dias depois, eu próprio vi o homem; era o mesmo exatamente que tinha observado na minha visão. Encontrou mais tarde um em­prego numa leiteria e veio distribuir leite no nosso quartei­rão, durante mais de dois anos.

DAVID FRASER HARRIS.

 

Não há, nesta observação positiva, provam absoluta da faculdade da alma que nada tem de comum com o olho material, a retina, o nervo óptico e o cérebro? Não estará neste caso só o espírito em ação? Transmissão psíquica à distância, porque o observador não só viu a cena, mas percebeu ainda a natureza da conversa entre o mendigo e sua mulher.

As comunicações psíquicas, mentais, entre vivos, to­mam de quando em quando a forma auditiva, como já mencionamos. Ouve-se uma voz, uma chamada urgente, e essa voz, essa chamada corresponde a um desejo, a uma intenção, a um projeto, a uma espécie de ordem longínqua a que é prudente obedecer.

Eis aqui um caso absolutamente notável, experimen­tado pelo Dr. Nicolas, Conde Gonemys, de Corfu (46)

Era médico militar do Exército grego, em 1869. Por ordem do Ministério da Guerra, fui destacado para a guar­nição da ilha de Zante. Quando me aproximava da ilha, onde ia desempenhar meu novo cargo (estava a cerca de duas horas do litoral), ouvi uma voz interior dizer-me repetidas vezes em italiano: Vai ver Volterra.

Esta frase foi tantas vezes repetida que fiquei atordoa­do; apesar do meu bom estado de saúde, alarmei-me, acre­ditando numa alucinação auditiva. Nenhum motivo tinha para pensar no Sr. Volterra, morador em Zante, que não conhe­cia, apesar de tê-lo visto uma vez, dez anos antes. Procurei tapar os ouvidos, conversar com meus companheiros de via­gem. Tudo foi inútil; a voz continuava a fazer-se ouvir da mesma forma. Enfim, desembarcamos, e eu fui direitinho para o hotel e tratei de desfazer as malas, mas a voz con­tinuou a atormentar-me. Pouco depois, um criado entrou e preveniu-me de que me procurava um cavalheiro que dese­java, falar-me imediatamente.

- Quem é? - perguntei.

- O Sr. Volterra - responderam-me.

Ele entrou muito choroso e muito aflito, suplicando-me que o acompanhasse para ver seu filho que estava doente.

Encontrei o moço sofrendo ataques de loucura, em delírio, nu, fechado num quarto, abandonado por todos os médi­cos de Zante, havia cinco anos. Tinha um aspecto hediondo, que se tornava ainda mais assustador com os acessos contínuos, acompanhados de silvos, uivos, latidos, e outros gritos de animais. Umas vezes estorcia-se sobre o abdômen, como uma serpente; outras caia de joelhos em êxtase. De quando em quando, falava e brigava com entes imaginários. As crises violentas seguiam-se, em certas ocasiões, sincopes prolongadas, e completas. Quando eu abri a porta do seu quarto, atirou-se furioso contra mim; mas fiquei imóvel e agarrei-o pelo braço, olhando-o fixamente. Depois de alguns instantes, o seu olhar perdeu a força, pós a tremer e caiu de olhos fechados. Fiz-lhe passes magnéticos, e em menos de meia hora encontrava-se em estado de sonambulismo. A cura le­vou dois meses e meio, durante os quais observei mais de um fenômeno interessante. Depois do seu restabelecimento, não teve mais recaído.

Uma carta do Sr. Volterra ao Conde Gonemys, em data de 7 (19) de Junho de 1885, de Zante, confirma completamente o que se acaba de ler, relativamente à família Volterra. A carta referida termina assim:

Antes da sua chegada a Zante, não tinha quaisquer relações com o senhor, apesar de ter passado alguns anos em Corfu como deputado da Assembléia Legislativa. Nunca lhe tinha falado, nem dirigido uma palavra a respeito de meu filho.

Jamais havíamos pensado no senhor, nem pedido o seu auxilio, senão quando o fui ver à sua chegada a Zante, como médico militar, suplicando-lhe que salvasse o doente.

Ao senhor em primeiro lugar, e depois ao magnetismo, devo a vida desse filho. Julgo da minha obrigação afirmar­-lhe o meu reconhecimento sincero e assinar-me

Seu muito afetuoso e grato

DEMETRIO VOLTERRA (Conde Crissoplévri.).

 

Assinaturas adicionais:

Dionísio D. Volterra (Conde Crissoplévri)

Lauta Volterra (esposa do Sr. Volterra)

Anastksio Volterra (o doente curado)

  1. Vassapoulos, Lorenzo Merckti, Demétrio, Conde guerino (testemunhas).

 

Outro caso de audição à distância:

 

O Dr. Balme, de Nancy, tratava a Senhora Condessa de L., que sofria de dispepsia. A enferma não faltava a nenhuma das suas consultas e nunca entrou na sua residência, situada fora da cidade. Três dias depois de uma das suas visitas, em 19 de Maio de 1899, ao entrar em casa e atravessar a sala de espera, ouviu ele estas palavras: Como me sinto mal! Não está aqui ninguém para me socorrer? Escutou, em seguida, o choque dum corpo que caía. A voz era a da Senhora de L. Ninguém em casa, segundo verificou, tinha visto ou ouvido esta senhora. Retirou-se para o seu gabinete de trabalho, concentrou-se e, pondo-se em ligeiro estado de hipnose, transportou-se para casa da doente. Percebeu todos os seus gestos e fatos e notou-os com minúcia.

A Sra. L. veio visitá-lo e comunicou-lhe as suas impressões, que eram conformes, em todos os pontos, às do médico:

- Depois de se ter recolhido ao seu quarto - per­guntou-lhe - que procurava a senhora ao seu derredor? - Parecia-me que me fitavam - respondeu ela. Este caso, que tem o mérito de haver sido registrado por observador experimentado, levou o Sr. Primot às seguintes reflexões:

Parece bem uma chamada telepática partida da sua doente - chamada que explica a angústia desta, e que se traduzia, para quem a percebeu, por uma impressão de forma auditiva exercida sobre o seu subconsciente - a que o Dr. Balme respondeu, colocando-a em estado de hipnose suficiente para tornar possível a exterioriza­ção do seu centro psíquico de percepção, por um esforço de auto-sugestão, e, por assim dizer, a sua excursão telestésica ao domicílio da sua cliente. Essa interpre­tação é confirmada pelo fato de a enferma declarar que teve a sensação da presença do médico. Parecia-me, disse ela, que me fitavam.

Por outras palavras: houve, duma parte, transmissão de pensamento, ou de sensação, isto é, ação telepática, da doente ao médico, e doutra parte, em resposta ao pensamento transmitido, exterio­rização pelo médico, em estado de semi-sonambulismo, e traspasse para perto da doente, do seu centro psíquico de percepção, isto é, ação telestésica.

Este termo de traspasse será exato e representará as condições reais do fenômeno? Talvez que o organismo psíquico nem careça de se transmitir dum ponto para outro, para agir e sentir eficazmente, apesar da distância. O que podemos afirmar com certeza é que os fa­tos ocorrem como se houvesse realmente transmissão. No fundo, isto pouco importa, pois, interpretando-os de qualquer maneira, eles são a prova patente e vivaz das faculdades e forças extraordinárias que pertencem ao organismo psíquico (47).

A audição à distância, que vou apresentar, é inad­missível se não se quiser admitir como verdadeiro que o espírito, 8; alma, a nossa entidade psíquica, (seja qual for o nome empregado) atua fora do corpo e do alcance dos sentidos.

O Senhor Fryer, autor da narração ( Alucinações Telepáticas, pág. 293), escreve:

Janeiro, 1883 - Ocorreu acontecimento estranho no ou­tono de 1879.

Um dos meus irmãos estava ausente de casa, quando uma tarde, pelas 5 horas e meia, ouvi admirado, chamarem­-me distintamente pelo meu nome. Reconheci com tanta cla­reza a voz de meu irmão que percorri toda a casa para en­contrá-lo; mas, não o encontrando e sabendo que estava a 40 milhas de distância (64 quilômetros), acabei por acreditar numa ilusão e não pensei mais nisso. Quando meu irmão voltou, seis dias depois, contou-me que havia escapado de um acidente bastante sério. Ao descer dum comboio, o pé escor­regara-lhe, e tinha caído no cais...

- O que é curioso - disse ele - é que quando senti que ia cair, chamei por ti.

Este fato não solicitou a minha atenção no momento, mas quando perguntei a que horas se tinha dado o desastre, indicou-me um instante correspondente em absoluto àquele em que eu o tinha ouvido.

O Sr. John E. E. Fryer, a vítima do acidente, in­terrogado, escreveu o seguinte:

Newbridge Road, 16 de Novembro de 1885.

 

Viajava em 1879 e tive de deter-me em Gloucéster. Quan­do desci do comboio, caí, e um empregado do caminho de ferro ajudou-me a levantar. Perguntou-me se estava ferido, e se alguém viajava comigo; respondi negativamente as duas perguntas e pedi-lhe que me dissesse por que se interessava tanto por isso.

- Porque o senhor mencionou o nome de Rod - res­pondeu-me.

Ao chegar a casa, contei o acidente, e meu irmão pediu­-me a hora e o dia em que ele ocorrera. Disse-me então que me havia ouvido chamá-lo naquele momento. Estava certís­simo de que era a minha voz e que me procurara por toda a casa.

E' tal a coincidência que a correlação se impõe. Esta voz atravessou o espaço 'como no telefone.

São outros tantos fenômenos de telepatia, de trans­missão psíquica, incontestáveis, que põem em evidência as faculdades transcendentes da alma, diferentes do que aprendemos na psicologia fisiológica clássica: vista e audição a distância, por ondas psíquicas.

Não voltarei ao que já escrevi a respeito da trans­missão dos pensamentos. O próprio fato da leitura do pensamento já foi muitas vezes certificado por sérias experiências. Aqui temos ainda uma dessas experiências, relatada pelo Dr. G. de Messimy e observada num indi­víduo em estado de sonambulismo.

A lucidez do meu sujet estendia-se até à própria leitura do pensamento dos assistentes... Pedindo a doze pessoas da sociedade para se colocarem diante dele..., aconselhamos a cada uma delas que pensasse numa flor escolhida livremente, sem comunicar o nome a quem quer que f8sse... Voltando­-me então para o sujet, ordenei-lhe que nomeasse, em alta voz, a flor em que pensara cada pessoa, e ele nomeou-as todas, sem hesitação nem erro, lendo como num livro o pen­samento humano.

Trata-se duma experiência entre cem do mesmo gênero (48).

A transmissão do pensamento é tão certa como a transmissão do calor, da luz, da eletricidade, do magne­tismo solar.

A visão telepática produz-se sem o auxílio dos olhos. À distância, os obstáculos materiais não a prejudicam. O tempo é muitas vezes para ela tão indiferente como o espaço. Vê-se um acontecimento presente, passado ou futuro. Este fato psicológico põe em jogo uma facul­dade do espírito independente do nosso organismo.

Se à dedução aqui afirmada de que estes pressen­timentos, estas sensações telepáticas comprovam a exis­tência da alma independente do corpo, se objetasse a hipótese de que essas faculdades normais podem per­tencer ao cérebro e não a um princípio mental, e não provam melhor a individualidade da alma que o faro dum cão ou o instinto do pombo correio, responderíamos que uma análise cuidadosa dos fatos conduz todo espíri­to livre a uma dedução contrária, porque se trata, neste caso, de exercícios do pensamento e não do organismo físico: Estou aqui inteiramente num mundo invisível de ordem psíquica.

Que se atribuam estas percepções ao inconsciente, ao subconsciente, ao subliminal, o nome pouco im­porta: o que sentimos aqui, é uma entidade espiritual em ação, é a alma.

Não é nem a retina, nem o nervo óptico, nem seu confinante no cérebro que estão em jogo. Todas as fun­ções imagináveis duma substância cerebral qualquer não podem ler no espírito, perceber um fato que se dá nos antípodas, ou uma cena que ainda não ocorreu.

Estas transmissões realizam-se pelo éter? Assemelham-se à luz como fenômenos de ordem vibratória, diferem dela, entretanto no que a luz diminui em razão do quadrado da distância, ao passo que o pensamento parece transmitir-se integralmente, com a mesma inten­sidade. Um meio apropriado favorece a transmissão?

A teoria moderna das ondas etéreas está provada; mas estará anulada realmente a antiga teoria newto­niana sobre as emissões? Não se manifestam certas emissões? A ação repulsiva do Sol sobre as caudas dos cometas não deporá em seu favor? As auroras boreais não têm por origem uma emissão solar? Os íons, os elétrons, não atravessam o espaço?

Examinaremos, no capítulo seguinte, observações irrecusáveis da vista sem os olhos, pelo espírito, fora das transmissões telepáticas; mas é assaz difícil deci­dir, em muitos casos, se a telepatia - a correspondên­cia do pensamento - é inteiramente estranha à vista a distância. Eis, entre cem também, uma vista de fale­cimento à qual o morto parece alheio; mas estamos próximos da fronteira entre os dois domínios.

O autor da carta abaixo reproduzida relata-nos como ouviu, em sonho, a morte de seu pai.

Les Montiers; Outubro de 1911.

 

Faz já dois anos que tenho a intenção de lhe comunicar o fato seguinte, semelhante em muitos pontos aos que o se­nhor relata nas suas abras.

Peço-lhe a fineza de não revelar o meu nome.

Em Janeiro de 1909, era tabelião em Saint-Martin des Noyers (Vendea) e acabava de adquirir o notariado de Mon­tiers les Maufaits, onde moravam meus parentes e do qual me tornei, mais tarde, proprietário.

Em 9 de Janeiro (1909) fui a Montiers passar algumas horas com minha família, deixando-a de boa saúde. Dias depois, minha mãe mandou-me noticias suas e de meu pai. Passavam bem.

Na noite de 30 para 31 de Janeiro, sonhei que chegava ã casa familiar. Na sala de visitas, noto muitas pessoas debruçadas num leito improvisado. Afasto-as para abrir pas­sagem e vejo meu pai morto, deitado num colchão colocado sobre dois cavaletes.

Soluço, o que desperta minha mulher, deitada a meu lado. Ela acorda-me, perguntando-me o que tinha. Respon­di-lhe

- Não é nada; acabo de ter um sonho insensato; sonhei que meu pai morreu.

Adormecemos novamente sem inquietações, depois de eu verificar que eram 5 horas e meia da manhã.

No dia seguinte, soube que meu pai, que se encontrara um pouco indisposto pelas 11 horas da noite anterior, fale­cera às 5 horas e meia, justamente no momento em que tive o sinistro pesadelo: havia-no-no deitado num leito igual ao que eu tinha visto em sonho, e na sala, como mo havia mos­trado a aparição.

Qual foi o papel da telepatia nesta vista a distân­cia? A nossa documentação é demasiadamente rica... A árvore da nossa ciência possui tal quantidade de ramos que cada um reclama estudo especial.

Aqui temos um caso de vista à distância, de notável precisão, por uma criança de sete anos, comunicada ao professor Richet pelo Dr. Jean, médico-ajudante duran­te a última guerra (49).

Vai para dez anos, me tratava, na minha aldeia, em Cogolis (Var), um doente, rapaz de cerca, de 7 anos de ida­de... Fui chamado com urgência certa manhã para perto do pequeno enfermo. A mãe, assustada, contou-me que a criança tivera de repente um acesso de delírio. Deitara como de costume e tudo parecia ir bem, quando pelas 10 ho­ras se levantou da cama, apavorado por uma alucinação. Via água por toda a parte e começou a pedir socorro, dizen­do que seu pai se afogava. O pai estava ausente, tinha ido a Nice, onde vivia seu irmão, e devia demorar-se ai alguns dias. Quando cheguei, o pequeno estava tranqüilo, mas per­sistia em dizer que tinha visto seu pai afogar-se.

Um telegrama do irmão, em breve, chamava com urgên­cia a viúva (pois o era, com efeito) a Nice, e nesta cidade soube ela que seu marido se afogara de manhã, pelas dez horas, procurando salvar seu irmão que, tomado de câimbras, corria risco de perecer no mar, e as suas últimas palavras haviam sido: Meus pobres filhos...

Outro fato ainda: Um mestre-escola do Departa­mento do Var, que me pede para não publicar o seu nome, escrevia-me;

De manhã, ao despertar, um homem das minhas rela­ções disse à mulher, deitada a seu lado:

- E' preciso que me levante já; acabo de ver que ladrões entraram em nossa casa de campo. Eles comem e bebem: vou lá.

Sua mulher exclamou':

- Mas estais doido! Como podes ver isso daqui? Torna a deitar-te, vamos!

- Não, não, eu vi!

Persiste na sua afirmativa, veste-se, pega numa espin­garda, corre à sua casa de campo e traz preso dois vaga­bundos que lhe haviam arrombado a vivenda e os entrega à autoridade.

 

(Carta 2.217.)

 

F S. (Var), 23 de Janeiro de 1912.    

 

Qual é aqui a parte das transmissões de pensamen­tos? Sem dúvida, os ladrões deveriam ter receio do dono e pensar em não serem presos. Talvez se trate, também, duma vista a distância, sem ação telepática, e podería­mos inscrevê-la no capítulo seguinte. Tudo se prende nesta documentação.

Imagina-se, geralmente, que as observações de co­municações telepáticas são modernas; é um erro. Pode-se ler, por exemplo, numa obra impressa em 1752 ( Dis­sertações, de Langlet-Dufresnoy, tomo II, 2' parte, pá­gina 88) esta frase: Nos sonhos, os objetos dirigem-se para nós, nos lugares afastados, pela afinidade do espírito com o ar exterior. Há pessoas que, a cem léguas de distância, souberam da morte dos seus amigos, no momento em que eles morreram.

Vemos por isto que os fatos consignados nos escri­tos de Petrarca e outros observadores já estavam ge­neralizados por certos filósofos do século XVIII como fazemos hoje. Não admitimos as suas interpretações; as nossas, sem dúvida, valem um pouco mais, mas não nos iludamos demasiadamente com o seu valor intrínseco.

Imagina-se também que essas observações são ra­ras, raríssimas, duvidosas, incertas. E' igualmente um erro. Há meio século que as minhas práticas me mos­tram que há, pelo menos entre cada dez pessoas, uma que conhece, seja por si, seja por parentes, um fato de telepatia, de premonição, de aviso de morte, de vista do futuro, numa palavra, de ação psíquica; mas, em geral, e não sei por que, calam-se, escondem-nos, dissimulam­-nos, velam-nos como coisa inconfessável. Conseqüência duma educação falsa e de receios imaginários.

A telepatia tem mais fundamento, uma base mais universal e mais segura, que qualquer religião.

Os fatos sobre os quais se baseou a religião cristã nas suas diferentes seitas (Catolicismo, Protestantismo, Ortodoxia, etc.) ou os que formam a base do Judaís­mo, do Islamismo, do Budismo, e das outras religiões que a Humanidade professa, foram menos comprovados, observados com menos cuidado, demonstrados menos ni­tidamente que os atos psíquicos que estudamos nesta obra. Explica-se, pois, perfeitamente, que certas almas que desejam aproximar-se da Verdade se tenham dedi­cado aos estudos positivos que prosseguimos neste livro, como outras pessoas, às religiões.

Uma palavra mais

Da mesma forma que a análise espectral da luz nos permite hoje descobrir, nas ondulações luminosas, a constituição química dos corpos situados na atmosfera, de astros distantes de nós milhares de milhões de quilô­metros, não é impossível que uma análise de radiações psíquicas permita entrar-se um dia em comunicação com a vida e o pensamento dos seres que habitam essas lon­gínquas paragens.

O fato, hoje verificado da propagação do pensamen­to pela sugestão mental a grandes distâncias, indica a possibilidade duma espécie de irradiação da consciência humana, dum astro para outro, por meio de ondulações de especial sutileza.

 

 

VII

 

A VISTA SEM OS OLHOS, PELO ESPÍRITO, FORA DAS TRANSMISSÕES TELEPÁTICAS. - A LUCIDEZ

 

Criptoscopia

 

 

“Os fatos são mais úteis quando con­tradizem do que quando apóiam as teorias aceitas.”

HUMPHRY DAVY

 

 

 

Se fatos incontestáveis, que provam a ação da von­tade sem o auxílio da palavra nem de qualquer sinal exterior, assim como a transmissão do pensamento à distância, mostram que há em nós um ser mental que pensa, quer, e leva sua ação além da periferia dos sen­tidos orgânicos, as observações, não menos certas, da vista sem os olhos irão oferecer-nos o mesmo testemu­nho, independente dos precedentes, mas confirmando e completando-os.

Este assunto especial é por si tão rico e documen­tado que, analisando-o, há alguns anos, fui levado a consagrar-lhe uma obra inteira, que ainda não foi publicada. Escolherei alguns documentos significativos, fora das transmissões telepáticas que acabamos de examinar, e que, no entanto, podem ser-lhes às vezes associados. Há aqui uma categoria curiosa de fatos especiais a es­tudar.

E' seguramente uma das mais interessantes facul­dades desconhecidas da alma, a ser examinada. Certas personalidades são dotadas delas em seu estado normal, fora dos sonhos ou do sonambulismo natural ou artifi­cial; mas é principalmente nesses estados do sono que observamos a produção de tais fenômenos. Esta vista a distância, diretamente ou pela leitura do pensamento num cérebro, parece-me um testemunho da existência em nós dum princípio lúcido imaterial, bem pessoal. Pre­tender que a matéria cerebral segrega o pensamento é já singularmente audacioso; mas acrescentar que o cé­rebro expede o pensamento para ir procurar o dos ou­tros homens, compreendê-lo e comentá-lo, ainda é mais extravagante. E' confundir o efeito com a causa, pois neste ponto, ainda, o pensamento se mostra como causa e não como efeito. A sua atividade pessoal é evidente.

Se há um conjunto de palavras capaz de provocar um brado de indignação no espírito do homem de ciên­cia, é seguramente este: a vista sem os olhos, pela fron­te, pelo ouvido, pelo estômago, pela ponta dos dedos, pelos pés, pelos joelhos, pela visão interior, através dos corpos opacos ou a longas distâncias quilométricas. Que afirmação insustentável e que paradoxo!

A fronte, o estômago, as mãos, os pés, os joelhos não são órgãos de visão: não é por aí que ela se opera; é o espírito que vê.

O biologista que conhece o maravilhoso aparelho óptico do olho, tão perfeitamente adaptado à recepção das imagens, não pode admitir que essas imagens sejam distinguidas sem esse mecanismo apropriado, obra-pri­ma da evolução orgânica secular, desde o olho rudimen­tar do trilobite das idades geológicas primordiais até o homem.

Pela minha parte, levei anos e anos sem querer empreender nenhum exame desta questão, apesar das afirmações dos meus amigos psicólogos e das que eu tinha encontrado nas obras dos magnetizadores. Um as­trônomo é o último dos humanos disposto a acolher o estudo dum tal problema, e eu não podia deixar de pen­sar nos sonâmbulos das feiras e nas truques dos preten­sos leitores de pensamentos, cujos exercícios de salão nos divertem.

Entretanto, depois do meu inquérito de 1899 sobre os fenômenos psíquicos, fui levado a publicar, no capí­tulo VIII de minha obra O Desconhecido, quarenta e nove observações dignas de fé sobre a vista a distân­cia, em sonho, e tomei o partido de estudar livremente, e sem nenhuma idéia preconcebida, este assunto de ta­manha importância. Julguei poder afirmar nesta obra a seguinte declaração: Pode-se ver sem os olhos, ouvir sem os ouvidos, não por hiperestesia do sentido da vista ou do ouvido, pois estas observações provam o contrário, mas por um sentido interior, psíquico, mental.

A vista a distância e a lucidez são testemunhos irrecusáveis dessa faculdade transcendente, pertencente à alma e não ao arranjo molecular químico e mecânico do cérebro.

Abrimos os dicionários e nada encontramos nas palavras: mista, segunda vista, dupla vista, penetração, senão o cepticismo mais completo, na ignorância total dos fenômenos.

Os fatos que vamos apreciar confirmam as premis­sas publicadas por mim há vinte anos. As objeções que alegamos para fazer intervir o erro, a ilusão; o embuste, a simulação, a fraude, a empalmação, e tudo quanto se possa imaginar, dissipam-se em fumo e deixam brilhar, para o futuro, a verdade com toda a sua luz.

O mesmo se dá com a explicação pelo tato, que só se pode admitir em certos casos especiais.

A tese que aqui sustento é capital, sob o ponto de vista filosófico, pois tem por conseqüência a supressão do famoso princípio de Aristóteles, de Locke, de Con­dillac, e da escola sensualista: Nil est in iniellectu quis prias fuerit in sensu, ou seja: Tudo o que é entendi­mento nos chega pelos sentidos. Ora, se pode ver sem os olhos, é por um ato de faculdades psíquicas in­ternas, por uma força desconhecida independente do sen­tido da visão normal. O entendimento recebe assim conhecimentos que não vieram pelos sentidos.

Verificamos que muitos casos de vista a distância, ou de coisas ocultas, não são leituras do pensamento no cérebro de outrem; entretanto, também nestes casos, ler no pensamento ainda é uma vista sem os olhos.

Não gosto muito de neologismos, e parece que se criam excessivas palavras novas nas ciências psíquicas, muito rudimentares ainda; mas, já que se trata aqui da vista de coisas ocultas aos nossos olhos, a palavra criptosco­pia está naturalmente indicada para definir este gênero de estudos.

O primeiro fato de observação positiva que chamou minha atenção, de há muito, para este curioso assunto psicológico, foi a narração circunstanciada da palavra sonambulismo, na célebre Enciclopédia de Diderot e d'Alembert.

Esta narração tem a garanti-la uma testemunha que encontramos neste lugar, sem surpresa: o arcebispo de Bordéus. Eis a própria narrativa do enciclopedista

Este prelado contou-me que, no seminário, tinha conhecido um jovem eclesiástico sonâmbulo.

Desejoso de conhecer a natureza desta doença ia todas as noites ao seu quarto, quando o sabia adorme­cido, e observava o que ocorria. Ora, este eclesiástico le­vantava-se, tomava papel, compunha e escrevia sermões. Quando uma página estava acabada, ele a lia em voz alta do princípio ao fim (se pode chamar leitura à ação efetuada sem o auxílio dos olhos); se qualquer coisa lhe não agradava, suprimia-a e escrevia por cima das correções, com muita precisão.

Vi o começo dum destes sermões, o de Natal. Pareceu-me bem composto e corretamente escrito; más, havia uma emenda curiosa. Tendo posto num período - Ce divin enfant - entendeu, na segunda leitura, que devia substituir a palavra divin por adorable. Para isto, riscou o primitivo vocábulo e colocou o segundo exatamente por cima. Verificou depois que o termo ce, em perfeita concordância com divin, não concordava com adorable. Acrescentou, portanto, com muito jeito, um t a ce, para que se pudesse ler: cet adorable enfant.

A testemunha ocular destes fatos, para certificar-se de que o sonâmbulo não se servia dos olhos, pôs um pedaço de cartão por baixo do seu queixo, a fim de es­conder-lhe à vista o papel que estava sobre a mesa; o sonâmbulo continuou a escrever sem se aperceber disso.

Cito esta observação, já antiga, principalmente para chamar a atenção dos meus leitores para os inúmeros fatos observados, desde essa época, sobre a vista a dis­tância, independente do órgão visual, pelos sujets em estado de sonambulismo natural ou provocado. Ela data de 1778 e eu li-a em 1856 (na própria terra de Diderot).

Estes exemplos de vista na obscuridade por sonâm­bulos não são duma tal raridade que os faça completa­mente ignorados. Conhecem-nos muitas pessoas. Pes­soalmente, tive ocasião de encontrar, em 1866, no castelo de Clefmont (Haute-Marne), uma rapariga de uns vinte anos, que, sem o saber, levantava-se muitas vezes de noite, e continuava, em plenas trevas, urna obra come­çada durante o dia - costura ou bordado. Se compa­rarmos esta faculdade visual à dos gatos, dos morcegos, doa mochos, das corujas, neste caso não seria uma visão ai os olhos. Mas, a retina destes animais é especial, e alguns deles são cegos, durante o dia. Não poderemos também perguntar - o anteparo interceptor nada in­terceptando - se tais vistas não trespassariam os cor­pos opacos, como o olho fotográficos para os raios X? Isto seria já uma hipótese pouco ousada. Vamos ver que ela se, não aplica às seguintes observações.

Demoremo-nos ainda um pouco no século XVIII. Realmente, a Ciência é vagarosa na sua marcha.

Em 1785, ao tempo de Mesmer, o Marquês de Puységur fez curiosas e pacientes experiências sobre o so­nambulismo artificial produzido pelo magnetismo. Recor­demos uma delas.

O marques tinha magnetizado um rapaz de catorze anos, chamado Amé. Eis o que ele escreve a este res­peito

A pergunta que parte do corpo que Ihe doía, respondeu-me que, havia um ano, carregando pedras sobre o estomago, se tinha molestado, e que havia seis meses se formara nesse sítio um tumor cheio de pus, que lhe cau­sava as dores habituais.

Perguntei-Ihe

-Espera curar-te em breve?

- Sim, senhor? - respondeu-me ele, tomando a minha mão -; depois de amanhã, às quatro horas e meia da tarde, estarei curado.

Devido às suas indicações, só foi necessário magnetizar­-lo duas vezes; no dia seguinte, pelas dez horas e meia, e ainda uma outra.

Sofria de dores de cabeça. Perguntando-lhe de que de­rivava este mal, respondeu.

- Do estômago.

- Há uma comunicação entre o estômago e o cérebro? - Sim.

- Como é ela? - E' um canal. - Qual é o seu caminho?

Como resposta, indicou o traçado do grande simpático esquerdo. Interrogado acerca da forma como via o seu mal, exclamou.

- Pela ponta dos dedos.

- E' necessário, pois, tateares-te gera conheceres a tua doença?

- Sim.

O rapaz deu no dia seguinte certa informações so­bre as propriedades magnéticas distintas dos diversos dedos da mão. Não temos de examinar aqui esta ques­tão, mas escutemos Puységur:

Surpreendeu-me singularmente o que me disse este moço sobre as diferentes propriedades que a mão possui para fazer sentir a um doente uma impressão maior ou menor. Mesmer afirmara a mesma coisa, e certamente que este jovem nada sabia a tal respeito. Se este fenômeno se dá realmente, será pela conformidade dos relatórios dos sonâmbulos que pode­remos adquirir uma certeza completa.

Quanta visão dos sonâmbulos é muito variável. Por exemplo, o pequeno Amé dizia que precisava de seus dedos para ver, ou antes, para sentir onde estava o seu mal. E o único que ofereceu esta particularidade; todos os outros, sem este recurso, conhecem-se bem, e usam da palavra ver, em vez de saber ou sentir tal e tal coisa. E' preciso não esquecer que nesta casa são campônios que falam. Quando tive ocasião de pôr em estado de sonambulismo magnético pessoas instruídas ou de certa educação, ouvi-as sempre quei­xarem-se da pobreza da linguagem para exprimirem as suas sensações, e servirem-se da expressão saber, estarem bem certas do que me diziam, sem encontrarem palavras bastan­te significativas para exteriorizarem as suas idéias.

Seja qual for à espécie de sensação que a classe mais simples dos homens designa pela palavra ver, em estado de sonambulismo, creio que os fenômenos da nossa visão, no es­tado natural, podem dar-nos ligeira apreciação dela. A nossa visão não passa de sensação proveniente dos objetos exterio­res: é pelo canal dos nervos que recebemos todas as sensa­ções; e, de todos os nossos nervos, é somente o que se chama óptico que, pela sua organização, nos pode causar a sensa­ção da visão.

Todos os objetos exteriores se apresentam também aos outros nervos; mas, salvo um fato imediato, não produzem neles o menor efeito. Se, pois, em estado de sonambulismo, acontece o contrário, se o sonâmbulo, apesar dos olhos her­mèticamente fechados, caminha, lê, escreve, evita os obs­táculos que encontra e faz enfim tantas ou mais coisas do que poderia fazer em estado natural, é preciso certamente que ele veja, não pelo nervo óptico, pois que ele está fechado à vista, mas por outros nervos tornados tão suscetíveis, que lhe transmitam à alma uma sensação absolutamente análoga ã da visão. Como se opera esta visão? Quais são os nervos que a produzem neste estado singular? E' o que não posso aventurar-me a determinar; mas incontestàvelmente existe este fenômeno, pois sem ele os sonâmbulos não poderiam ver.

Ora, creio que ninguém pode negar-lhes esta proprie­dade (50).

Assim fala o Marquês de Puységur, amigo de Mesmer. Veremos mais longe que essa assimilação de vista com o tato será ensaiada por outros experimentadores sem que, ao que parece, duvidem das precedentes con­siderações.

Pela minha parte, não discutirei neste momento hipóteses explicativas; contentar-me-ei em dizer, como Newton: Hypotheses non fingo. Examinemos primeiro os fatos, ainda hoje tão discutidos.

Estas observações continuaram durante os cento e trinta e quatro anos que nos separam da época prece­dente. Muitas delas são mal verificadas, não têm inte­resse, estão cheias de erros; mas outras possuem um valor irrecusável. Elas provam que existem processos de informação diferentes dos normais.

Os meus leitores já conhecem os exemplos deste gênero, publicados na minha obra, O Desconhecido. Alguns são tão característicos que não posso deixar de resumi-los neste lugar.

Pode-se ler (pág. 496, XLIII) a observação anatô­mica incontestável da ablação do seio, operada pelo Dr. Cloquet na Sra. Plantin, a qual, magnetizada, nenhuma dor sentiu e conversou tranquilamente com o operador, enquanto sua filha, a Sra. Lagandée, também magne­tizada., via o interior do corpo de sua mãe falecida no dia seguinte, e cuja autópsia provou até às minúcias a exatidão da vista sem os olhos.

- Acredita - perguntou o doutor - que possa­mos manter por muito tempo a vida de sua mãe?

- Não, extinguir-se-á amanhã muito cedo, sem ago­nia, sem sofrimento.

- Quais são, pois, as regiões afetadas?

- O pulmão direito está contraído, desviado sobre si mesmo e rodeado duma membrana parecida com gru­de; flutua no meio de muita água. Mas é principalmente neste sítio - disse a sonâmbula, indicando o ângulo inferior da omoplata - que minha mãe sofre. O pulmão direito já não respira, morreu; o pulmão esquerdo está são; ë por ele que minha mãe ainda vive. Há um pouca d'água no envoltório do coração (o pericárdio).

- Como estão os órgãos do ventre?

- O estômago e os intestinos estão sãos; o fígado é branco e descorado no exterior.

No dia seguinte, efetivamente, a doente faleceu e fez-se a autópsia. A Sra. Lagandée, adormecida, repe­tiu, com voz firme e sem hesitação, o que já havia de­clarado aos Srs. Cloquet e Chapelain. Este último le­vou-a então à sala contígua ao quarto onde ia proceder à autópsia, e cuja porta foi fechada, e dali ela seguia os movimentos do bisturi na mão do operador e dizia às pessoas presentes:

- Porque se faz a incisão no meio do peito, desde que o derramamento é à direita?

Verificou-se que as indicações da sonâmbula eram exatas e o auto da autópsia foi escrito pelo Dr. Dronsart. As testemunhas deste fato acrescentavam o narrador Brière de Boismont, estão todas vivas; elas ocupam, no mundo médico, situação honrosa. As suas comunicações foram interpretadas de diversos modos, mas nunca se duvidou de sua veracidade. Entretanto, vi sábios gra­ves rirem alto, quando ouviam essas futilidades.

Temos, pois, aqui uma observação incontestável de vista sem os olhos. Poderíamos associá-la à história duma camareira, posta em estado magnético, que, en­quanto seu patrão descia à adega a procurar uma gar­rafa de vinho, gritou que ele havia escorregado e caído na escada. Quando tornou a subir, já a esposa conhecia todos os pormenores de sua viagem subterrânea e da sua queda, contados pela sonâmbula à medida que ocor­riam ( O Desconhecido, pág. 499).

A mulher dum coronel de Cavalaria, magnetizada por seu marido, ficou sonâmbula; durante o tratamento, uma indisposição obrigou-o a pedir o auxílio dum oficial de seu Regimento, por espaço duns oito ou dez dias. Pouco tempo depois, durante uma sessão de magnetismo, estando à dama em estado de sonambulismo, o marido convidou-a a ocupar-se deste oficial, do qual não tinha notícias.

- Ah! O infeliz - exclamou ela. - Vejo-o; está em X., quer suicidar-se; pega numa pistola! Corre de­pressa!...

O coronel montou a cavalo e partiu, mas, quando chegou, o suicídio estava consumado. (Id., pág. 500.) Conhece-se também a história duma rapariga ope­rada em 1868, em Estrasburgo, pelo Dr. Koeberlé, que havia descrito a este cirurgião, muito incrédulo, com minúcias, um quisto que tinha no ovário, e que foi en­contrado pelo operador exatamente no sítio indicado por ela.

As experiências muito diversas, numerosas, múlti­plas, desde a época de Mesmer até nossos dias, constituem verdadeira biblioteca, sobre a qual não quero in­sistir. Mas, apesar de todas as reservas, discussões, negações e pugnas entre as academias de Medicina de todos os países, estas experiências são instrutivas. Te­nho-as acompanhado, há mais de meio século, em diver­sas circunstâncias.

Continuo, nesta exposição, a ordem cronológica. Quando eu tinha cerca de vinte anos, idade em que se imagina que se vai conquistar o mundo, e em que se tem uma sede insaciável de tudo saber e aprofundar gostava muito de conversas com um homem bastante esquisito, o escritor Henrique Delaage, sonhador místico, ocultista iniciado da seita de S. Martinho, o filósofo desconhecido, neto do ministro de Napoleão, Chaptal; a sua conversação era sempre agradável e muitas ve­zes instrutiva. Ele estudava havia muito, e com grande atenção, os fenômenos do magnetismo.

Eis alguns fatos que conhecia em primeira mão, e que ele mesmo consignou nas suas obras:

Alfonse Esquiros - o menciona, entre outros - divertindo-se um dia a magnetizar sua própria mãe, perguntou-lhe:

- Existe o azar? Ser-vos-ia possível, por exemplo, indicar o número que sairá premiado numa loteria?

- Não o creio; seria muito difícil - respondeu ela. - Experimenta!

Aqui a magnetizada pareceu violentar-se e com mui­tos esforços deu uma resposta tardia e trabalhosa:

- Vejo um número - disse, afinal. - Qual?

- O 89, é bom, vai ter prêmio. - Não vêem outros?

- Não.

- Por quê?

- Deus não quer.

Com efeito, o número 89 saiu premiado na extração seguinte (51).

As fórmulas variam. Isto ocorria em 1848. Hoje não se diria Deus não quer, mas simplesmente: Nada mais vejo.

Talvez que o azar fosse o único fator em jogo neste caso; mas veremos adiante; no capítulo sobre Conhe­cimento do futuro, uma leitura premonitória de 4 números (!) pelo Barão Larrey. Existe aqui uma proba­bilidade contra 2.555.189.

Delaage também relata a seguinte história que se deu em casa da Viscondessa de Saint-Mars, com o afa­mado Aléxis, sujeito perspicaz, então muito célebre magnetizado por Marcillet:

Vitor Hugo assistia à sessão, e, com a sua natural curiosidade, havia preparado em casa um pacote selado no meio do qual se achava uma única palavra impressa em caracteres graúdos. O embrulho foi primeiro virado e revirado em todos os sentidos pela sonâmbula, que um instante depois soletrou.

- P... O...l... I... POLI. Não vejo a letra seguinte acrescentou ela - mas vejo as que seguem: I... Q...U...E... , oito letras, não nove... , T...POLITIQUE, é isto mesmo; a palavra é impressa em papel verde claro, o Sr. Hugo cortou-a duma brochura que vejo em sua casa.

Marcillet perguntou a Vitor Hugo se isto era ver­dade, e o poeta apressou-se a reconhecer a lucidez do sujeito. A partir desta época, a segunda vista tem em Vitor Hugo um dos seus mais ilustres defensores.

Presentemente, chamamos a este exercício leitura de pensamento, e pensamos ter encontrado com isto uma explicação! Admitimos se assim o quisermos que seja uma transmissão de ondas cerebrais: mas não é uma vista sem olhos.

Delaage que relatou esta história, no livro já citado, continua com a seguinte, que também põe em cena um dos nossos contemporâneos do século passado, que eu igualmente conheci:

Alfonse Karr, um dos homens cuja mistificação parece absolutamente impossível, pois é proverbial na Europa a agudeza do seu espírito, contou o que lhe acon­teceu com o sonâmbulo Aléxis:

Tinha ido com alguns amigos jantar a casa de um deles. Ao deixar essa casa, cortei um ramo de azaléias brancas que coloquei numa garrafa de champanha vazia. O amigo com que tínhamos jantado disse ao sonâmbulo: - Quer ir a minha casa?

- Sim.

- Que observa o senhor na minha sala de jantar? - Uma mesa cheia de papéis, pratos e copos.

- Há também nela alguma coisa que lá deixei por sua causa: procure vê-la.

- Vejo uma garrafa - disse Aléxis - e nela há lume; não, não é lume, mas parece... A garrafa está vazia, mas há nela qualquer coisa brilhante... Ah! É uma garrafa de champanha... Tem em cima alguma coi­sa, que não é a sua rolha... É mais delgada pela ponta que está dentro da garrafa do que por fora. E' branca, é como papel... Assim... - Desenhou uma garrafa com o ramo de azaléia, e exclamou: - Ah! É uma flor, um ramo de flores; lindos ramos.

E' difícil não aceitar que, nestas duas experiências, o sonâmbulo tenha visto a distância sem os seus olhos, seja no cérebro de Vitor Hugo ou de Alfonse Karr, seja douta maneira.

Continuemos um instante a leitura do pequeno livro de Delaage, que é quase um auto daquela época inte­ressante. Registremos os fatos de observação, sem nos preocuparmos com as teorias.

A Presse de 17 de Outubro de 1847 - escreve ele - publicou longo artigo sobre uma sessão de magnetismo na qual o sonâmbulo Aléxis tinha lido, não somente livros fechados, através de muitas paginam, mas ainda cartas fecha­das, demonstrando que o fluido magnético, iluminando duma claridade sobrenatural o magnetizado, permitia à sua alma penetrar os corpos mais opacos com uma facilidade que dei­xava a perder de vista tudo quanto a imaginarão atribuía à magia.

Esta sessão, firmada com o nome de Alexandre Dumas, realizou-se na sua casa de campo em presença de homens honrados que atestavam com a sua assinatura a verdade dos fatos relatados no auto.

O espanto foi geral. Dumas queria provocar por si próprio os fenômenos que acabava de testemunhar. Conven­cemo-lo a magnetizar, ele mesmo, Aléxis. O espírito do sonâmbulo contou a história dum anel que lhe tinham apre­sentado, disse o dia e à hora em que o seu possuidor o havia adquirido. Em seguida, semelhante a essas aves que atra­vessam invencivelmente os ares, a sua alma, levada na asa duma vontade estranha, descreveu com precisão admirável Turres e seus arredores, de que, em estado de vigília, só co­nhecia o nome; numa palavra, vencera o espaço e o tempo.

Muitos jornais publicaram a narrativa dessas sessões; os outros protestaram.

Não podendo atacar a probidade dos homens que atesta­vam ter verificado tais prodígios com seus olhos, procuraram torná-los ridículos, apresentando-os como criaturas honestas de quem se iludira a candura. Declararam que Robert Hou­din produzia as mesmas maravilhas todas as noites no Palais Royal, com o auxílio de hábil combinação. Infelizmente o ilustre prestidigitador, em carta escrita, anteriormente, ao Marquês de Mirville, reconhecia a impotência da sua arte para produzir estes prodígios e garantia pela sua honra que estes fenômenos não provinham de qualquer sutileza de pres­tidigitação engenhosa.

Eis o extrato desta carta:

Numa sessão, em casa de Marcillet, passou-se o seguin­te fato:

Abro um baralho de cartas, trazido por mim, do qual tinha marcado o invólucro, para não ser trocado... Emba­ralho-as. Sou eu a dar. Dou com todas as precauções de homem acostumado as finuras da sua arte. Trabalho inútil. Aléxis manda-me parar, apontando uma carta que eu aca­bava de colocar à sua frente sobre a mesa:

- Tenho o rei - disse-me ele.

- Não o sabe, pois que não foi ainda marcado qual seja o trunfo!

- Vai ver - respondeu-me -; continue.

Efetivamente, tirei para trunfo o oito de ouros; e Aléxis tinha o rei de ouros! O jogo prosseguiu dessa maneira extravagante, pois ele dizia-me quais as cartas com que eu ia jogar, apesar de escondê-las por debaixo da mesa e telas seguras nas mãos. Aléxis colocava uma carta das suas, sem voltá-la, diante de cada uma das minhas, e sempre essa car­ta estava conforme com a que eu jogava.

Regressei, portanto, desta sessão realmente maravilhado e convencido de que o azar ou a destreza não podem produzir efeitos tão prodigiosos.

Queira aceitar etc.

 

ROBERT HOUDIN.

 

Paris, 15 de Maio de 1847.

 

O célebre prestidigitador desforçava assim o magnetismo das investidas de que era alvo constante, declarando publicamente que a sua arte seria incapaz de realizar estas espé­cies de milagres. Proclamava a sua convicção, obediência à consciência.

Assim fala Delaage. Certamente, o sonâmbulo via, e não com seus olhos, as cartas escondidas debaixo da mesa por um parceiro prevenido, cujo valor crítico é indiscutível.

Estas reminiscências das recordações de Delaage não são falhas de interesse, apesar das suas idéias e das suas expressões obsoletas. Estava longe de partilhar todas as suas opiniões. Ele escreve, por exemplo, (página 144): No número das prerrogativas perdidas pelo ho­mem, após o pecado original, devemos citar em primeiro lugar a possibilidade de ficarmos em relação com os es­píritos. Ora, quem pode aceitar hoje o pecado original? Mais adiante, declara inatacável o dogma da divindade de Jesus. Ele era católico de muito boa fé, apesar do seu misticismo cabalístico pouco ortodoxo.

Não falamos já hoje a linguagem daquela época (1847 -1867), não empregamos as mesmas palavras flui­do magnético - diabo - alma levada na asa duma vontade estranhai - divinação sobrenatural - ex­pressões caducas; mas estudamos os mesmos problemas. A dificuldade, neste estudo, é conservar uma inde­pendência absoluta e manter-se imparcial. Não é este, geralmente, o caso que ocorre. Cada um concorre a este exame com idéias preconcebidas que prejudicam a liber­dade do raciocínio.

A respeito da leitura das cartas num baralho es­condido, eis o que se pode ler na obra de Podmore Apparitions and Thought-Transference, publicada em 1894 e reimpressa em 1915. (E' desta edição que tra­duzo):

O célebre Aléxis Didier pretendia ler com os olhos vendados num envoltório de algodão, jogava uma par­tida de “écarté” designando as cartas postas na mesa, decifrava palavras dentro de envelopes fechados ou em livros que lhe levavam, descobria o que se encerrava em embrulhos. Foi tão grande o seu êxito que o afa­mado prestidigitador Robert Houdin visitou-o em 1847 e declarou-se convencido. Mas Aléxis era profissional e tinha um associado na pessoa de seu magnetizador Mar­cillet. Não há sombra de dúvida de que todos estes fatos devem ser atribuídos ao exercício duma visão normal, operando em condições inusitadas e imperfeitamente com­preendidas. E provável que nos exercícios deste gênero, os próprios sujets fossem, muitas vezes, inconscientes acerca do modo como lhes chegava o conhecimento, de­clarando-se com toda a boa fé senhores de poderes supranormais (52).

Frank Podmore, autor psíquista bem conhecido, um dos fundadores da Society for Psychical Research está convencido de que todos os fenômenos, inclusive as apa­rições, se explicam pela transmissão do pensamento, e são todos conexos com esta teoria. Para ele, Aléxis re­cebia a comunicação do seu magnetizador Marcillet ou do seu parceiro, os quais, sem trapaças, mas olhando-o, transmitiam inocentemente as suas impressões cerebrais.

Um psíquista americano, tão conhecido como Pod­more, James Hyslop, professor na Universidade de Co­lúmbia, ocupando-se também desta partida de cartas, deu-lhe a seguinte interpretação (53):

Aléxis Didier mistificou o próprio Robert Houdin, o príncipe dos prestidigitadores e dos ilusionistas. Di­dier era empregado dum homem que tinha a reputação de gentleman. Lia, aparentemente, cartas voltadas contra a mesa, frases dum livro fechado, etc. Mas, à falta de autos sobre as cautelas tomadas para impedir a fraude, não temos realmente motivo para ver nisso qualquer coisa de extraordinário: é simplesmente um exemplo da maneira por que se pode iludir um público crédulo.

Assim, Podmore e Hyslop imaginam que Vitor Hugo, que estudava Aléxis para se documentar, Alfonse Karr, de quem conheci o espírito crítico e perspicaz, Alexandre Dumas, Henri Delaage, Robert Houdin, observou mal e se deixaram iludir. Em sua opinião, Marcillet via as cartas, lia as palavras e comunicava-as ao seu sujeito, ou habilidosamente ou por transmissão de pensamento inconsciente. Ora, não foi assim que se deram os fatos. Supôs-se também que houve nisso prestidigitação. E' uma conjectura inadmissível, segundo o próprio Robert Houdin.

A prestidigitação de que falo é de resto bem co­nhecida e tive ocasião de vê-la muitas vezes, no meu próprio salão, pelos sucessores de Robert Houdin, e Jacobs. Neste caso, o prestidigitador ganha sempre ao seu adversário, sem nenhum mistério de vista dupla, porque o baralho é preparado e as cartas dispos­tas numa certa ordem; é o prestidigitador quem as ba­ralha, com muita habilidade, sem lhes alterar a ordem; é o parceiro quem corta, mas o primeiro faz saltar o corte, e, finalmente, tudo isto é muito simples para de­dos esguios como os de Jacobs, e mesmo para dedos grossos como os de Cazeneuve. Vi, no meu salão, bons observadores como o Almirante Mouchez, Félix Tisse­rand, diretores do Observatório, o General Parmentier, Hervé Faye, sábios eminentes que jogavam muito bem as cartas, apesar dos seus títulos científicos (eu nunca soube jogar), estupefatos pelo parceiro, que ràpidamen­te ganhava e pela certa, conhecendo os seus jogos de antemão. Mas esta habilidade não se pode fazer com um baralho trazido do estabelecimento e não aberto, e a afirmação de que Marcillet era o cúmplice de Aléxis é uma conjectura inaceitável para os que conheceram as faculdades de Aléxis em hipnose (das quais podemos dar contas nas Memórias de Lafontaine).

E' certo que os métodos de observação nem sempre foram rigorosos, e que as relações nem sempre foram bem ponderadas; mas isso não é suficiente para rejeitar tudo e para não separar o joio do trigo. As faculdades supranormais de Aléxis são incontestáveis.

Em resumo, para Podmore, esses vistas sem os olhos dependem da transmissão do pensamento; para Hyslop, o caso atual é muito duvidoso; os outros casos exami­nados por ele parecem-lhe conjuntamente certos e inex­plicáveis por nenhuma teoria, inclusive a telepatia, e há uma tendência para atribuí-los a comunicações de almas de defuntos spiritistic elements are generally associated with clairvoyant incidents.

Não quero inclinar-me a favor de nenhuma hipótese, porque as observações ainda não são suficientes; a Ciên­cia não se faz num dia, e a Astronomia errou durante milhares de anos antes de chegar à verdade. Parece-me que o que importa em primeiro lugar é estabelecer a realidade absoluta dos fatos ainda tão discutidos. Não é impossível que, em muitos casos, estejam em jogo à transmissão do pensamento subconsciente ou as ondas telepáticas cerebrais.

A vista das cartas em estado de hipnose não é con­testável, apesar de todas as contestações. Foi muitas vezes verificada. Encontra-se em diversos relatórios, merecedores de toda a confiança, a averiguação destes jogadores de cartas, de olhos vendados radicalmente.

Nas suas Cartas sobre o magnetismo e o sonam­bulismo, publicadas em 1840: o Dr. Frapart escreve o seguinte a um amigo.

Disse-lhe que o Sr. Ricard me havia prometido trazer provisòriamente a minha casa Calyste, o seu me­lhor sonâmbulo, adormecê-lo diante dos meus convidados e fazê-Io jogar as cartas com os olhos vendados: em seguida, se estivesse bem disposto, far-lhe-ia efetuar outras experiências tão incompreensíveis quão maravi­lhosas.

Pois, ontem, realizou-se a sessão prometida pelo Sr. Ricard, na presença de sessenta pessoas, todas incrédulas, com exceção do Dr. Teste. Vou contar-lhe como se passaram os fatos.

Depois de adormecido ou parecendo-o estar é porque não conhecendo nenhum sinal incontestável do sono - dois estranhos puseram em cada um dos olhos de Ca­lyste um pedaço de algodão, e por cima um grande lenço de seda cujas extremidades foram atadas junto do nariz. Verificou-se em seguida que a venda estava bem apertada, bem posta, e que na sua margem inferior - precaução importante - o algodão formava grosso barrete que impedia absolutamente a vista. Logo oito baralhos intactos foram trazidos; tomou-se deles um, ao acaso; rasgou-se o envoltório e começa-se a sessão. O Sr. Ricard não toca no seu sonâmbulo, não fala com ele e coloca-se de modo a não perceber o jogo da pessoa que faz a partida. Assim dispostas às coisas, corre tudo como entre dois hábeis jogadores bem acordados: o so­nâmbulo designa as cartas que tem na mão e as que seu adversário possui.

E este o fato. Repetiu-se com três pessoas, cada uma jogando duas partidas, de modo que umas cem car­tas passaram por diante de Calyste que as designou e as viu sempre, pois jogava constantemente o que de­via jogar.

Esta experiência será o resultado duma pelotica? Ora, estivemos de sobreaviso, tudo esquadrinhamos, apalpamos, analisamos?

A venda, por exemplo, nada deixava transparecer, porque a sua preparação, já descrita, feita por incrédu­los de mãos hábeis, era perfeita. As cartas não eram preparadas, pois os envoltórios dos baralhos tinham o selo da administração. O sonâmbulo não podia reconhe­cer as cartas pelo tato, pois que designava as do seu adversário sem nelas tocar. O magnetizador nenhum meio de comunicação tinha com o sonâmbulo, porque não falava não se mexia, não tocava em Calyste e não olhava para as cartas.

Finalmente, ninguém, de maneira alguma, podia indicar a Calyste o seu próprio jogo e o do seu adver­sário, porque cada um de nós guardava silêncio, numa expectativa um pouco ansiosa, à qual se seguiu logo o espanto e a admiração.

Portanto, quer do lado da venda quer do das car­tas, do sonâmbulo, do magnetizador ou do próprio adver­sário, estamos absolutamente certos de que não fomos iludidos.

Vê-se que esta experiência é anterior à de Robert Houdin, relatada por Delaage. Poderíamos citar mui­tas outras, porque todas se parecem no sentido que os negadores sem imparcialidade sustentavam sempre que os experimentadores são iludidos por pessoas mais há­beis que eles. As discussões inúteis far-nos-iam perder tempo.

Um magistrado bastante céptico, o Sr. Séguier (54) apresentou-se incógnito em casa de Aléxis.

- Onde estava eu do meio-dia às duas horas? - perguntou ele.

- No seu gabinete... Ele está abarrotado de pa­péis, de rolos de desenhos... e de pequenas máquinas... Há uma linda campainha em sua escrivaninha.

- Não; não há campainha sobre minha secretária. - Não me engano; o senhor tem lá uma... Vejo-a... À esquerda da escrivaninha... Sobre a secre­tária...

- Na verdade... Vou tirar isso a limpo.

O Sr. Séguier correu a casa e encontrou sobre a secretária uma campainha que a Sra. Séguier havia aí posto, de tarde.

Tal é esta singela narração. Vista a distância. Não havia, certamente, neste caso, leitura no cérebro do in­quiridor, nem sugestão de pensamento, o que parece ter-se dado no exemplo seguinte.

Delaage conta depois que o Conde de Saint-Aulaire, diplomata conhecido, depois de haver alcunhado o mag­netismo de parvoíce, vinha de retratar-se. Havia apos­tado sobre a impossibilidade de Aléxis ler uma nota bem escondida, e foi ele mesmo entregar-lha dentro dum envelope diplomàticamente lacrado e selado.

- Que está dentro deste sobrescrito? - perguntou o embaixador.

- Um papel dobrado em quatro. - E no papel?

- Meia linha escrita. - Podeis lê-la?

- Certamente. E quando a tiver lido o senhor há de retratar-se de tudo quanto escreveu.

- Não creio.!

- Tenho a certeza.

- Se o conseguir promete-lhe que de hoje em dian­te acreditarei em tudo quanto quiser.

- Então, acredite desde já, porque o senhor es­creveu estas palavras: não creio.

Explica-se fàcilmente a celebridade deste vidente e compreende-se que Delaage tenha escrito o seu peque­no livro especial (1857): O sono magnético explicado pelo sonâmbulo Aléxis. Podemos ler nesta brochura al­gumas epígrafes curiosas: Absorvido, num sono fictício, o homem vê através dos corpos opacos a certas distâncias. Assinado: Le Pére Lacordaire. E esta ou­tra' Se existe no mundo uma ciência que torna a alma invisível, essa ciência é sem contradita o magnetismo. Assinado: Alexandre Dumas. Trata-se unicamente das faculdades de Aléxis, nesta obra.

A lucidez do sonâmbulo Aléxis, magnetizado por Dlarcillet, foi apreciada por todos os que estudaram es­tas questões. Aqui temos uma das suas mais notáveis revelações. E' o testemunho quase oficial dum adminis­trador do Monte Pio, que, nesta qualidade, foi vítima dum roubo, do qual foi descoberto e preso o autor, gra­ças às indicações do afamado sonâmbulo.

A narrativa deste fato encontra-se na carta que o próprio Sr. Prevost dirigiu ao jornal Le Pays, nos seguintes termos.

Era em Agosto de 1849; um dos meus emprega­dos acabava de desaparecer, apossando-se de importante quantia. As ativas indagações da polícia não tinham dado nenhum resultado, quando um amigo meu, o Sr. Linstant, jurisconsulto, foi consultar Aléxis, sem me co­municar o seu projeto.

A quantia roubada, disse o sonâmbulo, é muito im­portante; eleva-se quase a 200.000 francos.

Era exato. Aléxis prossegue, dizendo que o caixeiro infiel se chamava Dubois, que o via em Bruxelas, no Hotel dos Príncipes, onde se alojara.

Linstant seguiu para Bruxelas... A sua chegada, soube que Dubois estivera efetivamente no hotel, mas que acabava de deixar a cidade, havia poucas horas.

Aléxis declara então que via Dubois no Cassino de Spa, onde perdia muito dinheiro e que no momento de sua prisão já nada teria.

Na mesma noite, o narrador parte, mas em Bru­xelas foi retardado pelas formalidades administrativas necessárias à captura do gatuno, e sô chegou a Spa para ser informado de que Dubois havia deixado a cidade dias antes.

De volta a Paris, foi ter novamente com Aléxis. Não teve paciência, disse ele há poucos dias, na verdade, Dubois foi para Aix-la-Chapelle, onde continuou a jogar e perdeu muito; voltou novamente a Spa onde vai acabar de perder o pouco que lhe resta.

Escrevi imediatamente às autoridades de Bruxelas e de Spa. Alguns dias depois, Dubois foi preso em Spa. Havia perdido tudo no joga (55).

Vê-se que o hipnotizado não somente sabia ler, com os olhos fechados, num livro fora do seu alcance, mas que podia acompanhar de longe as peregrinações dum ladrão.

Aléxis gozava duma tal fama de vidente que o mag­netizador Lafontaine, tendo muitas vezes dissabores com os seus sujets improvisados, mandava-o vir de Lião para Paris, para assegurar o bom êxito das suas repre­sentações.

Encontra-se a narração destas verificações nas Me­mórias de Lafontaine (tomo II, págs. 160-171). Elas confirmam mais ou menos o que já escrevemos.

O que nos surpreende ainda mais é que esta vista sem os olhos esteja verificada há muito tempo, e que quase ninguém a admita. A ignorância é universal. Não quero supor que haja nisto uma falta de lealdade.

O naturalista Sir Alfred Russell Wallace assina­lou (56) catorze sessões do Dr. Edwin Lee, em Brigh­ton, com o referido Aléxis Didier, em casas particulares.

Nestas sessões, Aléxis jogou as cartas com os olhas ven­dados, designando muitas vezes tanto as cartas dos seus adversários como as suas; leu diversas cartas escritas pelos visitantes e fechadas em envelopes, decifrou qual­quer linha pedida, fosse o livro qual fossem, oito ou dez páginas além da folha aberta, e descreveu o conteúdo duma quantidade de caixinhas, estojos e outros reci­pientes.

O Dr. Lee relata também a experiência do jogo de cartas do célebre Robert Houdin com Aléxis e acrescenta mais estas

Houdin tirou um livro do bolso é abrindo-o, pediu a Aléxis que lesse uma linha situada em certo nível par­ticular, oito páginas antes. O clarividente cravou um alfinete para marcar a linha e leu quatro palavras que foram encontradas na linha correspondente, na nona pá­gina anterior.

Houdin classificou isto de pasmoso e no dia se­guinte assinou esta declaração: Não posso deixar de afirmar que os fatos aqui relatados são escrupulosamen­te exatos; quanto mais reflito neles mais acho impossí­vel classificá-los entre os truques que constituem a mi­nha arte.

Russell Wallace aponta ainda (pág. 90) outros fatos de visão certificados pelo Dr. Gregori, na sua obra Lettres sur le Magnetisme. Por exemplo, pessoas que se dirigiam para uma sessão, a fim de assistir aos fenô­menos, compram em qualquer loja, à sua escolha, algu­mas dúzias de divisas impressas, encerradas em cascas de nozes. Põem-se as cascas num saco; o clarividente tira uma e lê a divisa fechada. A casca é quebrada e examinada; e assim foram lidas corretamente dúzias de divisas. Uma delas continha 98 palavras.

Wallace acrescenta que, possuindo os depoimentos do Dr. Gregori, do Dr. Mayo, do Dr. Lee, do Dr. Had­dock e de centenas de outras personalidades não menos qualificadas e honestas, afirmando fatos similares, não se pode supor que todas fossem vítimas de fraudes impossíveis de descobrir, principalmente tratando-se de médicos cépticos que vieram para diagnosticar e dum professor de prestidigitação tão perspicaz como Robert Houdin. Ou cada uma das manifestações de vista trans­cendente, relatada pelos observadores (e elas ascendem certamente a milhares) é o resultado duma trapaça, ou temos a prova irrefutável de que certas pessoas possuem um sentido interno a estudar. Se a visão normal fosse tão rara como a dupla vista, seria tão difícil demonstrar a sua realidade como o é agora estabelecer a existência desta maravilhosa faculdade.

A evidência a favor dela é absolutamente conclu­dente para qualquer que a tenha examinado sem se deixar iludir peia idéia infantil de que podemos separar a priori o que é possível do que é impossível.

Estas experiências foram repetidas cem vezes, prin­cipalmente de 1820 a 1850. Basta ler as obras do Dr. Bertrand (pai de Joseph Bertrand, o célebre secretário perpétuo da Academia de Ciências), de Pététin, do Ge­neral Noizet, de Lafontaine, do Dr. Comet e de nume­rosos experimentadores daquela época para nos conven­cermos do seu valor e da sua absoluta certeza. Um dos mais ativos, o Dr. Frapart, teria desejado muito con­vencer um pontífice da ciência oficial, o Dr. Bouillaud, professor da Faculdade de Medicina, adversário declara­do, e dirigiu-lhe uma espécie de mandato imperativo. O grande homem respondeu-lhe no mesmo tom: que tinha o direito de ser incrédulo e que não admitia as ordens do energúmeno Frapart.

Quanto ao novo sujets magnético do qual me fala - escreveu ele - e que lhe parece destinado a conse­guir a grande obra de minha conversão, não me recuso a assistir aos seus milagres.      Todavia, se me aconte­cesse, depois de vê-los, responder-lhe com a famosa dou­trina dum filósofo da minha espécie: creio porque o senhor viu, mas se eu tivesse visto não acreditaria se, repito, se acontecesse eu responder-lhe assim, que pode­ria objetar-me? A experiência que me anuncia não po­derá provar efetivamente uma impossibilidade física, tal como a da visão sem o auxílio dos olhos, e, como já o disse na Academia, quando se trata de fatos desta or­dem, é preciso comportar da mesma forma que a Academia de Ciências quando se lhe anuncia que se descobriu à quadratura do círculo.

Pode pensar-se que, com o caráter leal e agressivo de Frapart, a frase: Se tivesse visto, não acreditaria, porque é uma impossibilidade física não caiu no ouvido dum surdo. Por isso, meteu-a a ridículo sem nenhuma consideração pelo caráter oficial do douto professor, o qual replicou por sua vez:

Aqui tem a minha última palavra: não acredito - e nunca acreditarei - que se veja sem o auxílio dos olhos. Não é como o senhor diz pelo fato de semelhan­te coisa ser extraordinária que eu não creio e nunca crerei, mas porque é sobrenatural e, ainda mais, contra a Natureza. Creio, pelo contrário, em muitos fatos ex­traordinários. Se não creio neste, não é porque o não compreenda, é porque é evidentemente, claramente, fi­siològicamente impossível.

A estes argumentos, Frapart responde, em 1838, como todo homem de bom senso responderia hoje:

Não pertence a quem quer que seja, nem ao maior gênio, traçar os limites do possível, porque o possível é infinito como o espaço e o tempo; e apesar de o termos encerrado, por assim dizer, em nossas teorias, ele ultra­passa-as e zomba de nós. De resto, a experiência ensi­na-nos que o impossível, de hoje, será talvez a evidência de amanhã... Assim aconteceu com a descoberta da América, com a palavra, com a circulação do sangue, com o galvanismo, com a bússola, com a imprensa, com o pára-raios, com os aeróstatos, com a vacina, com os medicamentos infinitesimais, etc., etc.          E não nos diz à razão que nada há de absolutamente falso senão o que é contraditório, e de absolutamente verdadeiro senão 0 que é evidente?...

Nestes termos, pode afirmar-se que é forçosamente impossível haver um triângulo sem três ângulos ou um pau sem duas extremidades, porque estes fatos são con­traditórios; mas não se pode dizer que é forçosamente impossível haver um homem que leia pela nuca, um ou­tro que ouça peio epigástrio, um terceiro que veja a cem léguas de distância, um quarto que vaticine o futuro, um quinto que seja insensível à dor, um sexto que des­creva o seu mal e o dos outros, finalmente, um sétimo que possua o instinto dos remédios. Não, ninguém pode asseverar, sob pena de lesa-razão, que tais fatos sejam evidentemente impossíveis, porque ninguém tem o direi­to nem o poder de dizer ao possível: Não irás até aí!

Na verdade, estes fenômenos são muito extraordi­nários; todavia serão mais surpreendentes, mais mara­vilhosos, mais inexplicáveis que os observados cada dia? Não é tudo mistério, não é tudo maravilha da Natu­reza? Mas, há maravilhas que correm as ruas, e outras que são pouco comuns. Julgamos compreender as pri­meiras porque as vemos constantemente, negamos as últimas porque não às vemos senão raras vezes; entre­tanto, não se explicam nem umas nem outras; regis­tam-se, eis tudo.

Este raciocínio do Dr. Frapart, então incompre­endido, era, sem dúvida, superior à cegueira do Dr. Bouillaud, apesar da superioridade oficial deste sobre seu modesto confrade. A Academia de Medicina, da qual ele representava a idéia dominante, mantinha-se obsti­nadamente ao lado da verdade.

O professor Bouillaud, que foi membro da Academia de Medicina, da Academia de Ciências e de todas as so­ciedades sábias de maior crédito, era um tipo particu­larmente notável desses espíritos minúsculos encerrados em cérebros mais acanhados que se possa imaginar. Duma religiosidade convicta, era, ao mesmo tempo, abso­lutamente incapaz de raciocinar livremente. Foi a seu respeito que contei em O Desconhecido a história da invenção do fonógrafo. Em 11 de Março de 1878 assis­tia à sessão da Academia de Ciências, naquele dia, de hilariante memória, em que o físico Du Moncel apre­sentou o fonógrafo de Édison à douta assembléia. Feita a apresentação, pôs-se o aparelho dòcilmente a recitar a frase registrada no cilindro. Viu-se, então, um aca­dêmico de idade madura, o espírito penetrado e mesmo saturado das tradições de sua cultura clássica, revoltar­-se nobremente contra a audácia do inovador, atirar-se ao representante de Édison e agarrá-lo pela gola, gri­tando: Miserável! Não nos deixaremos ludibriar por um ventríloquo! Este membro do Instituto chama-se Bouillaud! O mais curioso ainda, é que seis meses de­pois, em 30 de Setembro, numa sessão análoga, ele tim­brou em declarar que, após judicioso exame a que pro­cedera, ficara convencido de que, no fonógrafo, não havia para ele senão ventríloqua e que não se podia aceitar a substituição do nobre aparelho da fonação hu­mana por um vil metal. Em sua opinião, o fonógrafo não era senão uma ilusão de acústica.      Esta gente...

Ao carro do progresso é jungida por trás e tudo atrasa, refreando a marcha, e conseguindo es­conder a luz com a peneira, pela influência de seus títulos oficiais sobre as massas acarneiradas.

Este grande homem era o médico de Arsène Hous­saye, e pode-se ler nas Confissões deste escritor en­cantador que foi eIe a causa da morte de sua deliciosa esposa e de seu filho - e também de sua segunda mulher.

E' este o raciocínio científico de certos sábios. Seria para desejar que o título de membro do Instituto conferisse inteligência e abrisse o espírito dos seus mem­bros. Estas críticas provocadas por Bouillaud poderiam aplicar-se aos seus colegas da Academia Chevreul e Ba­binet, no que toca ao problema psíquico.

O meu saudoso amigo Dr. Macário escrevia, em 1857 (57), que a vista através dos corpos opacos, a distâncias ilimitadas, não aceita pelos sábios e que é inexplicável e contrária a todas as leis fisiológicas co­nhecidas, parece, no entanto certa; e apresentava os seguintes testemunhos.

O Dr. Bellenger convenceu-se por experiências re­petidas. Diversas vezes escreveu, em sua casa, sem tes­temunhas, fora de todas as vistas, uma frase qualquer numa folha de papel dobrada e redobrada, fechando-a em duplo, triplo envoltório, cuidadosamente lacrado, e o sonâmbulo leu através das folhas opacas a frase ocul­ta e transcreveu-a no verso do envelope.

Este fenômeno já foi verificado, em 1831, pela Co­missão da Academia de Medicina. Lê-se, com efeito, no seu relatório: O Sr. Ribes, membro da Academia, apre­senta um catálogo que tira do seu bolso. O sonâmbulo (era o Sr. Petit, d'Athis, magnetizado pelo Sr. du Po­tet), depois de alguns esforços que parecem cansá-lo, lê muito claramente estas palavras: Lavater. E' bem difícil conhecer os homens. Estas últimas palavras eram impressas em tipo muito miúdo. Puseram debaixo dos olhos (fechados, bem entendidos) um passaporte; ele reconhece-o e designa-o sob o nome de passa-homem. Troca-se o passaporte por uma licença de uso e porte de armas, muito parecida com um passaporte, e apre­sentam-lha do lado branco. O Sr. Petit pôde somente reconhecer que se tratava de um documento parecido com o primeiro. Volta-se o papel, e então, após algu­ma hesitação, ele diz o que é, e lê distintamente estas palavras: Pela lei, e à esquerda: Licença de porte de armas. Mostra-se-lhe ainda uma carta aberta; ele res­ponde não a poder ler, por não saber inglês. Era, efe­tivamente, uma carta escrita naquela língua.

Todas estas experiências fatigavam muito o Sr. Petit; deixaram-no descansar um instante; depois, como gostava muito de jogar, propuseram-lhe, para se dis­trair, uma partida de cartas. Um dos assistentes, o Sr. Reynal, antigo inspetor da Universidade, jogou com ele o Jogo dos centos e perdeu-o.

Experimentou-se diversas vezes fazê-lo enganar, ti­rando ou trocando cartas, mas foi inútil.

Um estudante de Direito, Paul Villegrand, paralíti­co do lado esquerdo, posto em estado de sonambulismo pelo Dr. Foissac, lia também com os olhos fechados. Os experimentadores, mantendo-lhe as pálpebras cerra­das constante e alternadamente, apresentaram-lhe um baralho novo. Rasgando a cinta selada, embaralham-no e Paul reconhece fácil e sucessivamente o rei , o ás de paus, o sete de ouros, a dama de ouros e o oito de ouros.

Apresentam-lhe ainda, tendo ele as pálpebras fe­chadas pelo Sr. Segalas, um volume trazido pelo Sr. Husson. Lê no título: História de França; não pode ler as duas linhas intermediárias e lê na quinta linha somente o nome d'Anquetil, o qual é precedido da pre­posição por. Abre-se o livro na página 89 e ele lê na primeira linha: o número de soas... Deixa passar a palavra tropas, e continua: no momento em que o jul­gavam mais entretido com os divertimentos do carna­val, etc. (58).

Estes fatos, nitidamente estabelecidos no relatório redigido em nome duma Comissão da Academia de Me­dicina pelo Sr. Husson, trazem em si a sanção da Ciên­cia e da imparcialidade. Mas, em rigor, poder-se-ia sus­tentar que os sonâmbulos surpreenderam estas frases no pensamento dos experimentadores. Isto pode ser ver­dadeiro para algumas das experiências acadêmicas; mas esta explicação não se pode adaptar aos seguintes fatos, pois aqui nem mesmo os experimentadores conheciam a frase que fizeram ler aos sonâmbulos:

Recentemente, um dos meus amigos, o Dr. N., que é certamente incapaz de pretender mistificar, achava-se numa “soirée” onde estavam diversos artistas e homens de letras; todas estas pessoas se conheciam intimamente. Entre elas, achava-se Aléxis, o célebre sonâmbulo. O Sr. Marcillet magnetizou-o, e eis o que se passou: O meu amigo Dr. N. foi buscar ao próximo compartimento um livro cujas folhas ainda não estavam cortadas; de­pois, sem o abrir, pediu ao sonâmbulo que lesse tal Iinha de tal página. O sonâmbulo vacilou um instante, pare­ceu empregar um esforço e seguidamente reclamou uma caneta e reproduziu a linha indicada; cortaram-se as folhas do livro, procurou-se a página e a linha designa­das, e toda a gente, com pasmo, verificou que á expe­riência tivera êxito perfeito; somente a frase estava es­crita em inglês no livro, e o sonâmbulo, transcrevendo-a, traduziu-a em francês. Fato original! Este mesmo so­nâmbulo, poucos minutos depois; não pôde ler a palavra Paris, escrita em letras graúdas numa folha de papel dobrada em quatro.

Não se pode certamente apelar aqui para a trans­missão do pensamento, pois ninguém tinha aberto o li­vro cujas folhas nem sequer haviam sido cortadas. Assim falava o Dr. Macário, há mais de meio século. E pois conhecido há muito tempo aquilo de que somos acusados, às vezes, de afirmar audaciosamente. Se mencionar estes fatos antigos, de 1850, 1840, 1830, e mes­mo de 1786 (Puységur) e 1778 (Enciclopédia, tomo XXXI) foi para mostrar que os fenômenos psíquicos foram comprovados há muitos anos (poderíamos dizer desde bastantes séculos). Mas continuemos. A fonte é rica..

Tive, pela parte que me tocam, bastantes ocasiões de ouvir narrar experiências sobre a vista sem os olhos e de observá-las pessoalmente.

No decorrer do verão de 1865, residi, durante um mês de férias, em Sainte Adresse, na vertente do cabo de la Hève, a oeste do Havre (Rue des Pecheurs n. 5) e morava em frente a mim um médico célebre, de nome um pouco astronômico: o Dr. Comet. Sua mulher ha­via-lhe fornecido exemplos curiosos desta faculdade. Era acometida, em certos períodos, de acessos sonambúlicos, durante os quais ela lia de olhos fechados, através dos corpos opacos, designava os menores objetos que lhe apresentavam, fechados na mão, adivinhava os pensa­mentos, percebia os atos improvisados que se passavam nos aposentos contíguos ao seu, indicava com precisão os dias e horas em que devia ter novos acessos e desig­nava os medicamentos que a deviam curar.

Pode-se ler a história da cura da Sra. Comet por suas próprias revelações hipnóticas, assim como a vista de seus órgãos internos, nas Cartas sobre o Magne­tismo do Dr. Frapart, que não deixam a menor dúvida sobre a realidade destes fatos. As observações do Dr. Comet são acompanhadas de outras análogas, feitas pelo Dr. Alphonse Teste, também em sua mulher. Todos estes estudos são de 1840. O autor escreve que serão necessários cinqüenta anos para que a ciência oficial lhes reconheça o valor. Enganou-se. Em 1890, os pre­conceitos da ignorância antiga não estavam dissipados, e não o estão ainda.

O tempo foge depressa, de resto; e a Humanidade é lenta na sua marcha. Disse, na primeira página desta obra, que tinha começado o presente estudo há mais de meio século. As linhas que se acabam de ler e o ano de 1865 assim o comprovam.

 

*

 

Entre as numerosas experiências que podem auxiliar­-nos na solução do problema que estudamos aqui, citarei uma bastante curiosa relatada pelo Dr. Gibier, ex-inter­no dos hospitais de Paris, numa das suas obras (59). Realizou-se em Abril de 1885, e reproduziu-a diversas vezes na presença de testemunhas que indica. Esta lei­tura independente do órgão da vista foi conseguida em estado de hipnotismo (nome moderno do magnetismo e do mesmerismo). Eis o relato da observação:

O “sujet” era uma rapariga de vinte anos, de ori­gem judaica. Depois de adormecida, e num estado in­termediário de materialização que não era nem letar­gia, nem sonambulismo, nem tão-pouco êxtase falante, mas antes o que os magnetizadores de profissão chamam sonambulismo lúcido, punha-lhe uma pasta de algodão em cada olho e depois uma larga e espessa toalha ou um lenço de seda que se amarravam atrás da nuca. A primeira vez que tentei a prova de que vou falar, fiquei bem surpreendido com o seu êxito: devo dizer que na­quela ocasião não tinha a experiência que adquiri depois de numerosas investigações, nem tinha, devo dizê-lo tam­bém, estudos sérios e contínuos sobre a questão.

Tomei na minha biblioteca o primeiro livro que me veio à mão: abri-o ao acaso. Suspendendo-o sobre a cabeça do sujet, sem olhar, a capa para baixo, a dois centímetros aproximadamente dos cabelos da rapa­riga hipno-magnetizada, ordenei-lhe que lesse a primei­ra linha da página que se achava à sua esquerda. Vol­vido um momento de espera, ela respondeu:

- Ah! Sim, vejo, espere.

Depois, continuou:

- A identidade reconduz à unidade, pois se a alma... - parou e disse ainda - Não posso mais, basta; isto me fatiga.

Anuí ao seu desejo, sem insistir; voltei o livro. Era um volume de Filosofia, e a primeira linha, menos duas palavras, havia perfeitamente sido vista e lida pelo In­visível materializado da minha adormecida.

E' natural que não se aceite estas afirmações se­não com muita prudência. Eu mesmo, por muito tempo, atribuí o êxito destas experiências a simples embustes, e verifiquei-o diretamente em minha própria casa, prin­cipalmente num dia em que uma senhora da sociedade, muito elegante, fazendo o papel de médium, achou meios, pretextando uma enxaqueca, de descansar na minha bi­blioteca, aproveitando o ensejo para consultar uma obra antiga que mencionou, depois, durante uma pretensa so­nolência (leitura a tal linha e tal página de tal obra). Mas, é certo que não se trapaceia sempre, e não pode tratar-se disso nas experiências de que acabo de ofe­recer uma seleção. Não sejamos cegos!

Reconhecer-se-á que são observações variadas e mui­to diferentes, que todas comprovam o fato da vista pelo espírito, por uma faculdade mental independente da vis­ta normal. Não falta onde escolher para nos certificar­mos destes fenômenos.

Comparemos ainda outras experiências.

Abramos, por exemplo, a obra muito documentada de Sir Oliver Lodge referente à Sobrevivência Huma­na (pág. 110) e citemos a curiosa comunicação espírita de Stainton Moses (que abrevio).

O Sr. Stainton Moses, professor no University Col­lege de Londres, adquirira o hábito de escrever auto­màticamente, como médium, na solidão de cada manhã. Grande número dos escritos assim conseguidos foi publicado e são conhecidos dos que estudam estes pro­blemas: mas o incidente seguinte é de caráter surpre­endente e oferece exemplo singularmente notável do poder da leitura à distância.

O texto que reproduzo foi conseguido pelo Sr. Stain­ton Moses, quando estava em sessão na biblioteca do Dr. Speer e que a sua mão escrevia automàticamente em conversa suposta com interlocutores invisíveis. Eis esse episódio.

Stainton Moses dirigindo-se ao pretenso Espírito: - Podes ler?

Resposta: - Não, amigo, não posso, mas Zacharias Legray e Réctor podem.

Stainton Moses: - Há aqui qualquer desses Es­píritos?

Resposta: -. Vou procurar um (Espera-se algum tempo.).

- Réctor está aqui.

Stainton Moses: - Pode ler.

Resposta: (muda a letra) - Sim, amigo, mas di­ficilmente.

Stainton Moses: - Quer escrever a última linha do primeiro livro da Eneida?

Resposta: - Espere...

 

Omnibus emantem terris et flnetibus sestas.

 

Stainton Moses verifica que a citação é exata, mas pensa também que o Espírito podia conhecê-la e havê-la conservado inconscientemente na memória.

Apresentou então uma outra pergunta:

Pode ir à biblioteca ver o antepenúltimo volume da segunda estante e ler-me o último parágrafo da pá­gina 94? Não sei qual é a obra, e até ignoro o seu título. A Poucos momentos depois, o Sr. Stainton Moses, es­crevendo sempre automàticamente, traçava as seguintes palavras.

Provarei por uma breve narração histórica que o Papado é uma novidade que se elevou gradualmente e ai engrandeceu desde os tempos primitivos do puro Cris­tianismo, não só depois da idade apostólica, mas também depois da união deplorável da Igreja e do Estado por Constantino.

O volume citado era uma obra extravagante e com título bastante fantástico: Antipopopriestian, or attemp to liberate and purity Christianity from popery politildr­Iralaty and priestule, de Roger (60).

Se isto não é leitura pelo espírito, que será? Negar o fato verificado experimentalmente é de todo impos­sível.

Agora, quem foi que leu? Seria o próprio Stainton Moles, inconscientemente? Mas como? Seria um espírito diferente dele, guiando-lhe a mão? Limitemo-nos a ve­rificar o fato. Não foi o olho material, foi o espírito quem leu.

Lembremos aqui (61), a tal respeito, a experiência de Sir William Crookes na leitura de frases desconheci­das tanto dele como do médium. Este médium (uma senhora) recebia comunicações por meio duma pranche­ta, à qual estava fixo um lápis, que deslizava no papel, dirigido pelas suas mãos.

Eu desejava, escreve Crookes, descobrir o meio de provar que o que ela escrevia não provinha da ação in­consciente do seu cérebro. A prancheta, como o costu­mava fazer, indicava que, apesar de ser movimentada pela mão e pelo braço desta dama, era dirigida pela inteligência dum ser invisível, que tocava com o cérebro da senhora como se fosse um instrumento de música e assim fazia mover seus músculos. Disse então a esta Inteligência:

- Vê o que está neste quarto? - Sim - escrevia a prancheta.

- Vê este jornal e pode lê-lo? - acrescentei, pon­do meu dedo sobre um número do Time que se acha­va numa mesa, atrás de mim, mas sem o olhar.

- Sim - respondeu a prancheta.

- Bem - exclamei -, se pode ver, escreva a pa­lavra que cubro agora com meu dedo e acreditarei no que afirma.

A prancheta começou a mover-se lentamente e, não sem muita dificuldade, escreveu a palavra however. Vol­tei-me e vi que era essa a palavra que estava coberta pela ponta de meu dedo.

Quando fiz esta experiência, evitei propósito olhar o jornal, e era impossível à dama, mesmo que assim o quisesse ver uma única das palavras impressas, pois estava sentada a uma mesa e o jornal achava-se nou­tra mesa por trás de mim, encobrindo-o eu com o meu corpo.

Essas leituras pelos médiuns parecem mostrar a ação de inteligências exteriores. Mas, não nos apressemos a tirar conclusões.

Uma vista supranormal bem característica foi apre­ciada pelo Sr. Maxwell, doutor em Medicina, procurador geral no Tribunal de Apelação de Bordéus, com um sujet muito sensível, a Sra. Agullana, que acabava de magnetizar pessoalmente para fazer experiências (62). A Sra. Agullana supunha estar fora de casa.

Pedi-lhe, disse ele, para ver o que fazia um dos meus amigos, M. B., muito conhecido dela. Eram 10 ho­ras e 20 da noite. Com grande surpresa minha, disse-me que via M. B. em trajes menores, passeando de pés des­calços sobre a pedra. Isto me pareceu não ter nenhum sentido. Entretanto, tive ocasião de ver o meu amigo no dia seguinte. Apesar de estar muito a par dos fenô­menos, M. B. mostrou-se bastante surpreendido e disse­-me textualmente.

- Ontem, não estava bem disposto: um amigo meu, que mora em minha casa, aconselhou-me a experimentar o método Kneipp, e tanto insistiu que, para satisfazê-lo, ensaiei pela primeira vez, ontem à noite, passear, de pés descalços, na pedra fria.

 

*

 

A estas variadas observações, acrescentarei a se­guinte, muito recente, do célebre físico americano Édison, cujo valor crítico experimental ninguém pode con­testar. Eis um relatório escrito por ele (63)

A personagem de quem vou falar-lhe foi-me enviada por um velho amigo que me disse, em forma de apresen­tação:

- Este homem, Reese, realiza certas coisas singulares Desejo que o conheça. Talvez consiga explicar a sua facul­dade.

Marquei-lhe uma entrevista. Reese chegou ao meu labo­ratório no dia indicado. Mandei chamar alguns dos meus operários para realizar experiências com eles. Reese pediu a um, que era norueguês, para passar ao quarto contíguo e escrever, num pedaço de papel, o nome da filha mais nova de sua mãe, o lugar em que ela nascera e diversas coisas mais. O norueguês obedeceu, dobrou o papel e guardou-o na mão fechada. Reese revelou exatamente o conteúdo desse pa­pel e acrescentou mais que o rapaz tinha no bolso uma moe­da de 10 coroas, o que era exato.

Depois de diversas experiências similares com outros em­pregados, pedi-lhe para fazer também outras comigo. Passei então para outro compartimento e escrevi estas palavras Há alguma coisa de superior ao hidróxido de níquel para uma bateria de matérias alcalinas.

Procedia nessa ocasião a experiências com a minha ba­teria elétrica alcalina e receava bastante não estar no ver­dadeiro caminho. Depois de haver escrito a frase menciona­da, propus-me um outro problema e apliquei toda a minha atenção a resolvê-lo de forma a desnortear Reese, se ele pro­curasse ler no meu pensamento o que havia escrito. Voltei em seguida ao quarto em que o tinha deixado. No momento em que eu entrava, disse ele:

- Não, não ha. Nada melhor que o hidróxido de níquel para uma bateria de matérias alcalinas.

Tinha lido com exatidão a minha pergunta.

Não pretendo de maneira alguma explicar esta facul­dade. Estou convencido de que as necessidades da Civiliza­ção produzirão qualquer grande descoberta por meio de ho­mens dotados destes dons. Os raros videntes da atual geração virão a ser multidão nas gerações próximas. A inteligência normal futura desenvolver-se-á e completara ràpidamente a obra de inteligência normal de hoje.

Cerca de dois anos depois das experiências que acabo de contar, o porteiro do meu laboratório entrou e anunciou-me que Reese estava na sala de espera e desejava falar-me.

Tomei um lápis e escrevi em letras microscópicas: “Keno”. Dobrei o papel e meti-o no bolso. Disse então ao criado para introduzir Reese.

- Reese, tenho um pedaço de papel no meu bolso: que está escrito nele?

Sem a menor hesitação, respondeu:

- Keno.

Volvidos tempos sobre a experiência do laboratório, o conhecido alienista, Dr. James Hanna Thompson, organizou, em sua casa, uma sessão contraditória. Foi ã sua biblioteca, escreveu várias perguntas em pedacinhos de papel e escon­deu-os. Reese ficou a conversar no salão até que Thompson voltasse, e, então, lhe disse.

- No fundo da gaveta esquerda da sua secretária está um pedaço de papel no qual foi escrita a palavra Opsonic. Debaixo do livro que está em cima da mesa há um pedaço de papel com outra palavra Ambiceptor. Numa outra peque­na folha está escrita a palavra Antigen.

As designações que o vidente deu sem hesitação eram inteiramente exatas. Thompson ficou estupefato e declarou­-se convencido.

Há alguns anos empreendi uma série de experiências para procurar transmitir o pensamento duma pessoa para outra por todos os meios, mas sem nenhum resultado. Pro­curei resolver o fenômeno com o auxílio de aparelhos elétri­cos aderentes à cabeça dos operadores. Quatro de nós ocupa­ram quatro compartimentos diferentes, ligados pelos sistemas elétricos de que falei. Sentamos depois nos quatro can­tos do mesmo quarto, aproximando gradualmente as nossas cadeiras umas das outras, para o centro da sala, até que os nossos joelhos se tocassem, contudo, não conseguimos ne­nhum resultado.

Mas Reese não precisa de aparelho algum nem de nenhu­ma condição especial para operar.

Assim fala Edison. Todos os experimentadores que têm estado em relações com Reese depõem no mesmo sentido, principalmente o Sr. Schrenck-Notzing que dele fez um estudo especial.

Um episódio curioso da vida deste vidente é a pendência que teve com a Justiça, na qual, sendo acusado de embuste, convidou, no começo da audiência, o juiz a escrever, ele mesmo, algumas palavras em pedaços de papel e a guardá-los na mão, lendo integralmente as inscrições feitas pelo juiz. E' inútil dizer que foi absolvido.

 

*

 

Reuni por centenas estas comprovações da vista sem os olhos.

Uma das mais notáveis é, certamente, a do pro­fessor Grasset, de Montpellier, o qual, tendo escondido quatro linhas escritas por ele num envelope opaco her­mèticamente fechado, viu essas linhas lidas a trezentos metros de distância, pelo sujet lúcido do Dr. Ferroul (Anais de Ciências Psíquicas, 1897, pág. 722).

Há aí uma mina de que não se suspeita a riqueza. Assinalarei ainda neste lugar a seguinte narrativa que me foi comunicada pelo meu erudito colega da Sociedade Astronômica de França, o Sr. H. Daburon, com esta profissão de fé.

Não conheço matéria mais atraente ao estudo da alma empreendido na sua obra O Desconhecido, e desejo, como todos os leitores sedentos de verdade, que esta grande obra continue. Por isso, parece-me interessante assinalar-lhe, se já o não conhece um fato extraído da Correspondência da Duquesa de Orleães, Princesa Palatina. Ei-lo:

Há dez anos, um fidalgo francês que foi pajem do Ma­rechal d'Humieres e que desposou uma das minhas açafatas, trouxe com ele para a França um índio do Canadá. Um dia, durante a refeição, o índio pôs a chorar e fazer caretas. Longueil (era este o nome do fidalgo) perguntou-lhe o que tinha e se estava doente. O índio desatou em maior choro. Longueil insistiu com energia e o índio lhe disse

- Não me obrigues a falar, pois isto é contigo e não comigo.

Instada com mais veemência, acabou por declarar:

- Vi, pela janela, que teu irmão foi assassinado em tal lugar, no Canadá.

Longueil pôs a rir e respondeu-lhe - Endoideceste.

O índio replicou:

- Não endoideci, não; escreve o que acabo de dizer e verás que não me engano.

Longueil escreveu, e passados seis meses, quando che­garam os navios do Canadá, soube que a morte de seu irmão ocorrera no momento exato e no lugar em que o índio 0 tinha visto pela janela. E' uma história muito verdadeira esta.

 

Versalhes, 2 de Março de 1719.

 

A Princesa Palatina não tinha fama de ingênua na corte de seu marido, o Duque de Orleães, regente do Reino, e, no tempo da Regência, Paris e Versalhes esta­vam certamente afastados de qualquer misticismo. O fato aqui relatado deve ser tomado como autêntico. Como via no ar o vidente canadiano? Como se lia numa bola de cristal ou num copo d'água ou antes, era o espírito do adivinho que atuava. Parece que não se pode tirar outra conclusão destas observações.

Um escritor notàvelmente céptico e irônico, que ri­diculizou a história do espectro de Plínio como o do assassínio de Cícero, Gratien de Semur, publicou em 1843 um livro bastante divertido, com o título Tratado dos erros e dos preconceitos, no qual abria exceção para uma sensação telepática ocorrida com pessoas da sua roda. (Ele nem sequer desconfiava da futura criação desta palavra e do valor de tais sensações.) Aqui lhe temos a narração e o comentário:

Na infância, vimos por diversas vezes, em nossa famí­lia, uma senhora de seus quarenta anos que se chamava Sra. Saulce. Seu marido era um rico colono de São Do­mingos. Na época da Revolução vieram estabelecer-se am­bos em França. O Sra. de Saulce fez diversas viagens às ilhas, durante as quais sua mulher ficava em Paris. A Sra. de Saulce era excelente criatura, muito simples, nada ner­vosa, avessa a imaginações que impressionam fàcilmente. Durante a última viagem de seu marido, estando uma noite jogando as cartas em companhia de várias pessoas, excla­mou de repente, caindo de costas.

- O Sr.Saulce morreu!

Acudiram-lhe, mostraram-lhe que semelhante visão era certamente errada e ela voltou à razão. Todavia, quando estava só, não conseguia afastar inteiramente o pressenti­mento que a angustiava, e aguardava novas de seu marido, numa temerosa ansiedade. Recebeu notícias favoráveis, mas anteriores ao dia da sua visão. Finalmente, chegou uma carta de São Domingos, tarjada de preto, e que não fora subscritada por seu marido. A carta referida era de um colono e dirigida a uma terceira pessoa, para minorar a violên­cia do choque. A Sra.Saulce havia sido assassinado pelos pretos, no mesmo dia em que a Sra. Saulce sentira o sinistro golpe. Este duplo acontecimento, certificado por mais de vinte pessoas de qualidade, foi um dos que maior impres­são me causaram quando eu era criança.

Só depois de dez anos tornamos a ver a Sra. Saulce, sempre vestida de luto eterno, ao qual se tinha consagrado.

Que dizer depois de semelhantes fatos? Acrescenta o narrador. Nada pode demonstrar a exatidão ou pro­var a falsidade; é preciso crer ou não crer. Entretanto, pode-se apoiá-los em presunções provenientes de exem­plos análogos e que a autoridade de Sully pôs ao abrigo de qualquer contestação.

E' indubitável, diz Sully em suas Memórias, que Henrique IV teve o pressentimento de seu fatal destino. Quanto mais via aproximar-se a hora da sagração, mais sentia redobrar em seu coração o temor e o pavor, abrin­do-se inteiramente comigo, neste estado de amargura e de prostração de que eu o repreendia como duma fra­queza imperdoável. As suas próprias palavras produzi­rão mais impressão que tudo quanto eu possa dizer

- Ah! Meu amigo - exclamou - quanto me de­sagrada esta sagração! Não sei por que, mas o coração anuncia-me que me vai acontecer qualquer desgraça.

Sentou-se, ao pronunciar estas palavras e, entregue s toda a tristeza de suas idéias, batia com os dedos na caixa dos seus óculos, sonhando profundamente.

A declaração de Sully seria suficiente para se não duvidar do pressentimento que fez sentir ao coração de Henrique IV a ponta do punhal que o devia assassinar; poderíamos, entretanto apoiá-la em outras autoridades dignas do mesmo apreço. L'Estoile e Basompierre, em suas Memórias, contam as mesmas particularidades. Apressamo-nos, todavia, a acrescentar que os raros exem­plos de pressentimentos justificados não devem ser aco­lhidos senão como exceções (64).

E' esta a narração de Gratien de Semur, e perce­be-se que a publicou com certo constrangimento. Estas recordações têm aqui o seu lugar. Ele é mais inclinado a negar tudo que a tudo aceitar. Os dois extremos são falsos. A razão incita-nos a seguir uma via independen­te, à igual distância dos dois erros humanos habituais.

Outras observações, ainda, não menos curiosas:

O professor Gregori, de Edimburgo, havia visitado um conhecido numa cidade distante 30 milhas (48 qui­lômetros), encontrando ai uma senhora, que lhe era des­conhecida, magnetizada ou hipnotizada pelo seu amigo. Deram-se o caso de ela descrever, com precisão extraor­dinária, todos os pormenores da sua casa. Ocorreu por isso a Gregori a idéia de tentar a seguinte experiência:

Pediu-lhe que se transportasse em espírito a Gre­enock, distante 70 quilômetros, onde estava seu filho. Ela encontrou-o, pintou-o exatamente, sem nunca o ter visto nem ter ouvido falar dele, e descreveu a quinta onde estava brincando com um cão. Este cão, disse ela, é um terra-nova, preto, com duas manchas brancas. O rapaz e o cão pareciam divertir-se ambos, e o animal furtou-lhe o chapéu. Estava na quinta um senhor, moço ainda, mas de cabelos brancos, clérigo presbiteriano, lendo um livro. Pedindo-lhe Gregori que entrasse na casa, a vidente descreveu o salão, a sala de jantar, a cozinha onde uma criada nova preparava a refeição e onde havia um quarto traseiro de carneiro que tostava ao fogo, mas ainda não assado. Também havia aí outra criada. O cavalheiro chegou perto da porta, o rapaz continuava a brincar com o cão e depois foi para a co­zinha, situada no andar superior, e pôs-se a comer.

O professor escreveu logo todos os pormenores e enviou-os ao amigo, que os reconheceu exatos na sua maior parte. Não podia dar-se observa ele, nenhuma transmissão de pensamento, pois não conhecia o lugar onde estava seu filho e para onde havia mandado a mag­netizada (65).

Tenho muitas observações análogas às precedentes, na minha mesa de trabalho. Mas é preciso deter-me. O resultado desta pesquisa é a afirmação de que o ser humano pode ver sem os olhos, pelo espírito.

Confesso que, admitindo esta vista transcendente, estou em desacordo com sábios que conheci pessoalmente e estimei com sinceridade, entre outros, Alfredo Maury, do Instituto (v. as minhas Memórias). Ele não aceita esta faculdade. Não acredita numa hiperestesia do sen­tido da vista, observada por ele em sonâmbulos (66), o que existe, com efeito, mas não pode ser generalizado e não se aplica aqui inteiramente.

De certo podemos, em determinados casos, assimilar esta função da vista à faculdade visual dos animais no­turnos, que vêem muito bem durante a noite, como os gatos, as corujas, os morcegos, as falenas, os reptis das cavernas, os peixes do fundo dos mares.

A luz tem seus graus e parece não baixar jamais até zero.

Certos homens são nictalopes. O Imperador Tibério estava neste caso. Quando acordava, durante a noite, distinguia, no seu quarto, todos os objetos; tinha olhos muito grandes: Erat praegrandibus aculis - lemos em Suetônio - qui, cum mirum est, noctu etiam et in te­nebris viderent; ab breve et cum a somno potuissent deinde nebescebant.

O Abade Mussaud, professor no Colégio de La Ro­chelle em 1820, autor do curioso livrinho intitulado: Roman d'Optique relata que conheceu naquela cida­de uma senhora cujos olhos tinham esta propriedade e viam muito bem na escuridão, não só alguns instantes, como Tibério, mas muito tempo, distinguindo mesmo um alfinete caído no chão. Também seus olhos eram muito grandes. Todavia, esta faculdade visual não era perma­nente e só se manifestava em certas épocas de padecimentos e de fraqueza.

Em 3 de Janeiro de 1899, jantando em casa de meu amigo Barthôldi, o grande estatuário, a filha do Dr. Chaillou, a Sra. Peytel, informou-me de que sua prima, a Srta. Varanne, era dotada desta virtude. Uma noite, ouvindo-a falar em alta voz, verificou que, sentada na cama e sem nenhuma luz, ela lia um panfleto de P. Louis Courier, que fora buscar a biblioteca do doutor. Era sonâmbula.

Poderia indicar, nas minhas relações científicas, uma senhora distinta e instruída, dotada de faculdades psí­quicas extraordinárias, a Senhora d'Espérance, sócia da Sociedade Astronômica de França, que, além dessas faculdades, via, escrevia e desenhava em plena escuridão. Quando era criança, na época dos seus estudos clássicos, escrevera a sua composição, como sonâmbula, durante a noite, sem dar por isso (67).

A sua amiga e colega a Sra. Hoemmerlé, tradutora de Carl du Prel, conhece mais dum exemplo análogo.

O Dr. Liébault, que tratou muito deste assunto na sua douta obra sobre: O sono provocado e os estados análogos parecem admitir somente uma hiperestesia do órgão da vista, e cita a este respeito experiências feitas por ele, assim como por A. Bertrand, Encontre, Macário, Archambault, Mesnet, em sonâmbulos que liam na escuridão, graças à dilatação da pupila e à acumulação da força de atenção no nervo óptico. Esta vista noturna pelos olhos não é duvidosa, mas só se aplica a uma parte restrita do nosso problema, pois não corresponde nem à descrição duma casa longínqua ou duma ação passan­do a mil quilômetros, nem à leitura dum livro fechado, nem à maior parte dos nossos exemplos.

Os sujets magnetizados que vêem sem os olhos e imaginam ver pela fronte, pelo epigástrio ou pelo pé, iludem-se: é seu espírito que vê.

Pretendem também ver pelo ouvido. Conta Lom­broso que, em 1892, teve de haver-se, na sua prática mé­dica, com um fenômeno que nunca testemunhara.

Tive de tratar - escreve ele – a uma filha de alto funcio­nário da minha cidade natal; esta personagem foi muitas vezes acometida, na época da puberdade, de violentos aces­sos histéricos, acompanhados de sintomas que nem a Patolo­gia nem a Fisiologia podiam explicar. Em certos momentos, seus olhos perdiam de todo a faculdade da vista e, em com­pensação, a doente via pelos ouvidos. Eram capazes de ler, com os olhos vendados, algumas linhas impressas, que lhe apre­sentavam ao ouvido. Quando se lhe colocava uma lente entre a orelha e a luz solar, sentia como que uma queimadura nos olhos e gritava que a queriam cegar. Profetizava parti­cularmente, com exatidão matemática, tudo o que lhe ia acontecer. Disse uma vez que, dentro dum mês e três dias, sentiria o desejo irresistível de morder. Observei-a com aten­ção, procurei distrai-la, atrasei todos os relógios da casa para iludi-la acerca da hora, e, apesar disso, no dia designado e na hora anunciada, foi tomada da vontade de morder, acal­mando-se somente depois de haver despedaçado com os den­tes alguns quilos de papel.

Apesar de esses fatos não serem novos, eram, en­tretanto muito singulares, e inexplicáveis pelas teorias fisiológicas e patológicas estabelecidas.

Temos muita razão em dizer que o novo mundo, que aqui exploramos, é ainda mais inesperada que o de Cris­tóvão Colombo! Quanto à vista pelo ouvido... Parece­-me haver aí um fenômeno essencialmente psíquico, ao qual o nervo acústico é tão estranho como o nervo óptico.

Porque seria de preferência a fronte, o nariz, o queixo, o estômago, o umbigo, a perna ou o pé que ve­riam e não o ser mental, dotado dum órgão interno, espécie de órgão de sonho real? Os raios X penetram através dos corpos. Colocai-vos inteiramente vestidos diante do écran radiográfico e o vosso esqueleto apa­recerá nesse écran.

Qual é esta faculdade interior? Podemos atribuí-la ao cérebro, ou devemos ver nela uma faculdade da alma independente da anatomia orgânica. Assentemos ainda a questão.

O cérebro é, sem contradita, associado a todos os nossos pensamentos. O sentimento da virtude mais pura, o espírito de sacrifício, a abnegação absoluta, a adora­ção mística da divindade, tudo o que pudermos imaginar de mais desprendido da matéria, não é pensado pelo ser humano senão com auxílio do cérebro. Mas o cérebro não é o autor dos pensamentos: é apenas d instrumento. Se quero levantar o braço, se pretendo fazer um jura­mento, se tomo uma deliberação, é o meu espírito que atua. A causa da ação está nele e não no sistema ner­voso e muscular que lhe obedece automàticamente.

E' o nosso espírito que pensa que quer que ame que procura que resolve. Não é a nossa carne molecu­lar cerebral.

A vista sem os olhos exerce-se pelo espírito, pela alma. As faculdades que aqui operam são ainda desco­nhecidas. Supus primeiro que o cérebro poderia ser a causa produtora de todos esses fenômenos, que emitiria ondas invisíveis transmitindo-se a distância, e que essas manifestações não provariam à existência individual de nosso ser mental. Mas, esta hipótese é de todo insufi­ciente, pois a ação pessoal do espírito revela-se com evi­dência nessas análises.

Observamos anteriormente que diversos ensaiadores, e não dos menores, atribuem esta faculdade supranor­mal de ler textos ocultos a um espírito estranho que se comunicaria por meio do médium experimentador. Isto não é inadmissível. Mas é ir procurar bem longe, é re­tardar as dificuldades; e qual seria a natureza desse espírito desconhecido?

Como os meus leitores sabem, já enunciei o mesmo em diversas de minhas obras, a título de pura hipótese, claramente, pois está longe de ser demonstrada. O mé­todo científico não tem por princípio estabelecer expli­cações mais ou menos imaginárias; procura sempre man­ter-se no círculo do que é evidente. Mas é forçado a confessar-se incapaz perante fatos incompreensíveis e depois de haver substituído a teoria fisiológica das alucinações pela negação dos fenômenos, não se declara satisfeito e vê-se obrigado a procurar outra coisa. Parece, entretanto, que o nosso espírito, tal como o conhecemos, nem sempre basta para uma explicação real­mente satisfatória, e que estão em jogo forças ocultas. As minhas diversas obras estabeleceram, com argu­mentação positiva, aceita geralmente, que o Universo é um dinamismo e que os átomos são regidos por forças imateriais.

Franck Podmore, autor psíquico bem conhecido, do qual já falamos, está convencido de que todos os fenô­menos, incluídas as aparições, se explicam pela trans­missão do pensamento e se relacionam todos com esta teoria. Confesso não perceber qualquer transmissão de pensamento no ato de o seminarista de Bordéus escrever o seu sermão em plena escuridão e com os olhos tapados por um anteparo, ou na sonâmbula a descrever a mo­léstia interna e avistar, dum quarto fechado, as minúcias da dissecação do corpo de sua mãe, ou em Aléxis ao ler as cartas de jogar antes de serem voltadas, e jogar partidas e ganhá-las sempre, apesar de ter os olhos ven­dados hermèticamente, ou num sujet acompanhar um gatuno de Paris a Bruxelas e a Spa, ou na experiência de Stainton Moses escrever uma frase inserta num livro que não conhece, ou na de Crookes sobre uma palavra desconhecida adivinhada, etc., etc.

Estamos longe de saber tudo. Não pretendemos tudo explicar. Conhece-te a ti mesmo, dizia Sócrates. Deve ser esta ainda a nossa divisa: Não conhecemos hoje melhor o nosso ser íntimo do que era conhecido há dois ou três mil anos.

Ora, nossa alma não parece tão simples quanto no-lo ensinam. O polipsíquismo não é uma palavra vã. Que são os desdobramentos de personalidade? Que é o inconsciente, o subconsciente, o subliminal?

Um exemplo muito antigo e incontestável de vista a distância, certificado por numerosas testemunhas cujas asserções foram longamente discutidas, é-nos oferecido pelo historiador Filóstrato, na sua vida de Appollônius de imane, contemporâneo de Jesus Cristo. Estando em Éfeso, viu, com sua vista interior, o assassinato do Im­perador Domiciano, em Roma.

Sabe-se como morreu este extravagante sangui­nário tirano. Foram os seus libertos mais queridos que, de acordo com sua mulher, a Imperatriz Domícia Longina, o assassinaram em sua própria residência, julgan­do-o tão temível nas suas amizades como nos seus ódios. A visão de Apollônius deu-se no momento em que se realizava o trágico atentado. Eis a narração, admirà­velmente circunstanciada:

Era meio-dia - conta-nos Filóstrato - Appollônius achava-se num dos pequenos parques dos arrabaldes de Éfe­so, discreteando sobre assuntos filosóficos graves, perante centenas de ouvintes. Num dado momento, sua voz baixou como presa de súbita e profunda emoção. Continuou, todavia, sua dissertação, mas mais de vagar, visivelmente per­turbado pela afluência de idéias que o desviavam daquelas a que devia dedicar-se.

Depois, deteve-se completamente; parecia que lhe faltavam às expressões, como quando um homem procura ver o êxito dum acontecimento. Finalmente exclamou:

- Tende coragem, Efesianos! O tirano foi morto hoje. Que me digo? Hoje? Por Minerva! Acabava de ser morto no próprio instante em que interrompi o meu discurso.

Os Efesianos pensaram que Apolônio tinha perdido a razão; desejavam vivamente que a sua revelação fosse ver­dadeira, mas receavam que daquelas palavras lhes proviesse qualquer perigo.

- Não me surpreende - disse Apolônio - que não me acreditem por enquanto. A própria Roma não o sabe ainda inteiramente. Mas vai sabê-lo, porque a notícia se es­palha pela voz de milhares de cidadãos, e isto exalta de ale­gria o duplo destes homens... e o quádruplo... E todo o povo. O clamor ressoará, aqui. Podeis não acreditar-me - até que chegue aos nossos ouvidos a narrativa do fato - e adiar até esse instante o sacrifício que deveis oferecer aos deuses nessa ocasião; por minha parte, vou agradecer-lhes o que vi.

Os Efésios continuaram incrédulos; mas, pouco depois, mensageiros veio anunciar-lhes a boa nova e prestar testemunho em favor da adivinhação de Apolônio, porque a morte do tirano, o dia e a hora em que foram consumados, todos os pormenores eram conformes aos que os deuses lhe haviam mostrado quando proferia o seu discurso.

Assim fala Filóstrato.

Não era preciso mais, naquela época, para que Ap­pollônius fosse considerado como um semideus. Invo­cou-se, de resto, o mesmo milagre ao ativo do Papa.

Pio V, quando foi santificado: avista duma janela do Vaticano, a batalha de Lepanto, em 7 de Outubro de 1571, e exclama para os que o rodeavam.

- Vamos agradecer a Deus perante o altar; o nos­so exército acaba de alcançar uma grande vitória. Estes exemplos de lucidez não faltam na História. Comines, cronista de Luís XI, relata que, na hora em que Carlos, o Temerário, foi morto na batalha de Nancy, o rei ouvia a missa na igreja de S. Martinho de Tours e que o capelão do rei, Ângelo Cato, depois arcebispo de Viena, lhe disse, dando-lhe a beijar. A Paz.

- Deus vos dá a paz; vosso inimigo, o Duque de Borgonha, acaba de ser morto e o seu exército está em fuga.

Estas histórias de Apollônius, de Pio V, de Comines e cem outras, tiveram a sorte de todas as coisas huma­nas. No século XVIII, negaram-se. No século XIX eram simples alucinações. Hoje, segundo os fatos reunidos aqui, não nos é possível recusarmo-nos a admitir esta vista à distância, pois conhecemos com exatidão grande número de casos análogos.

Estas observações, mais antigas e mais numerosas do que se supõe, são ignoradas geralmente. - Os pen­samentos viajam através do espaço. Como? Emissão ou ondas? Do Sol a Terra circulam partículas elétricas lançadas pelo astro central, produzindo os fenômenos magnéticos, as auroras boreais, as perturbações telefônicas. São emissões. Um projétil disparado arrasta com ele uma energia. A transmissão das ondas sonoras atra­vés da atmosfera ou das ondas luminosas através do éter, ondas que não são em si mesmo nem sonoras nem luminosas, provêm duma fonte de energia. Qual é a natureza dessas energias? Como se transmite a gravi­tação através do espaço? Esta força é prodigiosa: ela sustenta todos os mundos: a Terra, que pesa 5 septiliões 990 sextiliões de toneladas; Júpiter, trezentas vezes mais pesado; o Sol, trezentas mil vezes mais pesado que o nosso globo.

Do maior ao menor, estes mundos agem e reagem todos uns sobre os outros, e Sírius, a 83.000 bilhões de quilômetros, exerce influência longínqua sobre o nosso próprio planeta. Qual é a natureza desta telepatia fí­sica? Não existem ondas de gravitação. E' possível que o pensamento não tenha medida comum com a matéria, o espaço e o tempo, de que não podemos, aliás, formar nenhuma idéia exata. As nossas células cerebrais mer­gulham no desconhecido. Andamos ligados inconsciente­mente a tudo o que existe, a todas as forças naturais conhecidas e desconhecidas, por uma rede inextricável de ondas e de vibrações, e o próprio pensamento é um agente que atua através do espaço.

Não há nestas narrações nem imaginação, nem ilu­são, nem embuste.

São tão exatas, como uma observação meteorológica ou astronômica.

Têm, pois estes estudos direito de cidade na Ciência. O nosso ser espiritual, o nosso ser mental pode ver sem os olhos do corpo.

Reuni, durante muitos anos, estas observações para me convencer, e, como suponho que os meus leitores são tão exigentes como eu, insisto em mostrar-lhes a con­tinuação de minhas pesquisas.

Só nos embaraça a escolha, para estas observações tão variadas como inegáveis. Eis aqui ainda uma outra que eu sentiria em não ajuntar às anteriores como prova não menos convincente da nossa argumentação. Esta vista sem os olhos foi publicada pelo Dr. Fanton, de Cannet (Alpes Marítimos) nos Anais de Ciências Psí­quicas, do mês de Dezembro de 1910. Trata-se duma senhora, nova, louca pela dança, que se tornou, após diversos acidentes, abominàvelmente histérica e sem vergonha, e gravemente enferma. Morava em Marselha, e seu marido residia em Genebra.

Eis o fato:

O Dr. Fanton, que a tratava (Outubro de 1885), rece­beu um telegrama do marido dela, avisando-o da sua partida de Genebra, de tarde, pelo comboio das 7 horas, o qual devia passar em Culoz às 9 horas, chegar a Lião às 10 horas e a Marselha no dia seguinte, pelas 5 horas da manhã. Na redação do telegrama, podiam-se adivinhar as palavras mi­nistro da guerra, apesar de cobertas em parte por um bor­rão de tinta.

Eram 7 horas da noite e o doutor foi chamado pela família da doente que se debatia numa crise violenta. Não se apressou em atender a chamada e tomou a sua refeição, durante a qual, diz ele, lhe serviram uma omelette aicx fi­nes herbes.

A residência da cliente distava cerca de 350 metros da sua. Ao chegar, diz ele, vi ao redor da doente oito pessoas, das quais seis ainda vivem que testemunharam os fatos seguintes.

Acabava de dizer: Ele não tem muita pressa. Enfim, resolve-se. E pouco depois: Está ã porta, tocou a cam­painha. Quando entrei no quarto, a doente acolheu-me com grande risada e interpelou-me por esta forma: Ah! Quando o chamo, o senhor nunca tem pressa de vir. Mandou dizer que não estava em casa, e, no entanto, estava a jantar, co­mendo uma omelette aux fines herbes.

Prosseguiu: E' inútil que apresente desculpas. Sei o que fez. Dê-me antes o telegrama de Alfredo que tem em seu poder e que ele bem poderia ter-me dirigido. Um mo­mento depois, a doente disse em voz alta e clara o conteúdo do telegrama que estava no meu bolso e que ninguém conhe­cia, entre as pessoas presentes. Este lance ocorreu com tal rapidez, eu fiquei de tal modo confuso, e as testemunhas tão admiradas, que levei um momento a recuperar a serenidade antes de explicar ã assistência que era exato tudo quanto a doente dizia e de mostrar-lhe o telegrama que tinha recebido meia hora antes.

Como podia a Senhora A. que não estava prevenida da volta de seu marido e ainda menos das horas e do itinerário 'de sua viagem, conhecer o conteúdo do despacho telegráfico? E' o que procurávamos explicar-nos sem consegui-lo. De re­pente, apoderou-se da enferma uma nova crise de riso mais jovial e estridente, interrompida por estas palavras: Ele dorme, não acorda! Não! Não! Seguidamente, o riso chegou quase a sufocá-la e ela acabou, balbuciando, com bastante nitidez: Ele dorme, fica no comboio, não chegará. Eram nove horas.

De manhã, ã hora da chegada do comboio que devia tra­zer seu marido, fui ao encontro dele com dois amigos nossos. Recomendei muito particularmente as pessoas que ficaram perto da doente que tomassem com cuidado nota de todos os pormenores que poderiam ocorrer durante a nossa ausência, e por nossa parte propusemo-nos observar escrupulosamente todos os nossos feitos e gestos. Chegamos ã estação sem in­cidente. O marido não estava no comboio vindo de Lião, e voltamos para perto da minha cliente.

Pouco depois de nossa saída, um telegrama enviado de Grenoble avisava-nos de que o marido só chegaria ã tarde, por ter perdido o comboio...

Deixei a doente pelas 11 horas.

De tarde, fui à procura do marido antes que ele visse alguém, e, sem preveni-lo, interroguei-o: soube por ele que às 9 horas da noite passara em Culoz sem acordar, numa carruagem que foi enviada para Chambery e só nesta cidade despertou. Verificando que, com esta mudança de direção, não poderia chegar a Marselha senão com sete horas de atra­so, tinha telegrafado. Fi-lo repetir esta narração diante de diversas pessoas que haviam permanecido perto de sua mu­lher na noite anterior e foi-nos fácil verificar, pela narrativa que lhe fizemos por nossa vez, que ela o tinha acompa­nhado durante a sua viagem, fazendo-nos assistir as suas peripécias.

O Dr. Fanton, que relata estes fatos, não conhecia então o assunto que aqui estudamos, da vista sem os olhos à distância, e ficou realmente admirado. Hoje, sabemos que essa faculdade da alma é inegável: pode-se ver pelo espírito, não pelo nervo óptico da retina. Vamos ouvir também o Dr. Osty sobre certos fatos recentes, estudados por ele:

No mês de Fevereiro de 1914, a Sra. Camille, adivinha profissional em Nanci, deu, em sono hipnótico, indicações que permitiram encontrar o corpo do Sr. Cadiou, desaparecido desde 30 de Dezembro, sem que nenhum indício tivesse fornecido previamente a menor indicação. Isto foi muito comen­tado nos jornais. Os policiais e os magistrados mostraram­-se descontentes. Os espíritos fortes, os finórios, aqueles cuja superior inteligência brilha no olhar, não trepidaram um instante em acusar a sonâmbula de ser uma comparsa paga pelos interessados para iludira Justiça.

O professor Bernheim, entrevistado por um repórter do Mat4n, declarou que não existia a adivinhação.

- Nunca pude obter - disse ele - no curso do meu longo tirocínio, fenômenos de vista a distancia ou de adivi­nhação; toda a minha educação científica se insurge contra a existência de semelhantes fenômenos e contesto-lhes a ve­racidade até mais séria verificação...

Entretanto, nada era mais certo que esta revelação hipnótica. (68).

Volvido um mês, em 19 de Março de 1914, desaparecia O Sr. André Rifaut, guarda do castelo de Boursault. Procu­rou-se nas matas e nos lagos do Marne, que transbordara. Os policiais e a brigada móbil de agentes fizeram pesquisas ativas, e o inquérito judiciário não deu resultado. Como a família Cadiou, os irmãos Rifaut recorreram a diversos sonâmbulos que, de comum acordo, declararam que o guarda havia sido morto a pancadas e atirado ã água. A Sra. Ca­mille, que foi uma das trás, falou assim, em 24 de Março, segundo Le Journal:

- Procurais um parente. Vejo-o. Depois de trocar pa­péis com um homem que envergava uma farda, caminha de noite por uma estrada deserta. Um pouco mais longe há um rio; aproxima-se de sua casa. Chega um homem e, com uma clava, atira-lhe uma pancada ã cabeça. O infeliz cai. O seu assassino lhe pega e vai atirá-lo ao rio. Vejo o corpo será encontrado dentro de alguns dias, bem longe daquele sitio.

Em 12 de Abril, o corpo do Sr. Rifaut foi apanhado por pescadores que o viram à tona d'água, em Jaulgonne (Ais­ne). O Dr. Petit, médico legista, concluiu formalmente por uma morte violenta. Segundo as suas observações, o guarda do castelo de Boursault foi assassinado a pancadas; a caixa craniana havia-lhe sido fendida e o infeliz morrera antes de ser atirado a água (89).

O seguinte fato é talvez ainda mais demonstrativo

Em 18 de Março de 1914, o Dr. Osty recebia uma carta comunicando-lhe que, numa pequena povoação do Cher, um ancião de oitenta e dois anos, o Sr. Etienne Lerasle, havia desaparecido, e que todas as pesquisas para encontrar fo­ram infrutíferas. Uma pessoa lúcida, a Sra. Morel, residen­te em Paris (que tive pessoalmente ocasião de interrogar), a quem o doutor levara um lenço que pertencera ao Sr. Le­rasle, seguiu-lhe o passeio através dum bosque e viu o morto sobre o solo no ponto onde se tinha detido cansado, esgo­tado, e, aliás, disposto a morrer. Era a 2 de Março. Havia quinze dias que sua família, a gente da povoação, oitenta homens, a pedido do intendente municipal, haviam explorado a floresta sem nada encontrarem. Graças às indicações pormenorizadas da vidente, seguiram-se as pistas apontadas por ela e encontrou-se o cadáver, na posição em que a vidente o tinha visto: ele encaminhara-se para ali, batendo com a ben­gala, como era seu costume, e estendeu-se perto duma gran­de árvore e de um regato, para não mais se levantar (70).

A Sra. Morel nunca tinha ouvido falar nem do bom velho nem daquela região do Cher. A sua faculdade psíquica, que aqui assinalamos como uma das provas da existência do nosso elemento mental independente do organismo físico pode atingir o velho a sair de casa, ver o passado e sentir o acontecimento. Tudo isto não estava encerrado, de certo, nas dobras do lenço; mas esse lenço serviu para estabelecer a comunicação entre a vidente e o homem que se pretendia encontrar. Não há aqui nem telepatia nem transmissão de pensamento. Ninguém sabia nada. Há aqui vista a distan­cia, sem os olhos, como em todos os exemplos narrados neste capitulo.

Trata-se, neste caso, de fatos observados que não se podem confundir com as banalidades ordinárias das videntes extra lúcidas e das cartomantes. Não sejamos exclusivos em nada, e examinemos tudo. Ve-se sem os olhos. A Criptoscopia deve ser aceita como um novo ramo da árvore da Ciência.

Sabe-se que um cego pode ver ler, desenhar, pin­tar? Eis um exemplo observado em 1849, na povoação de Saint-Laurent-sur-Sèvres (Mame et Loire), por um médico que indica as testemunhas que o presentearam. Um clínico da região tinha ido visitar, naquele po­voado, dois conventos, um de homens, outro de mulheres.

Fomos recebidos, escreve ele, de um modo muito cor­dial pelo Padre Dallain, superior do primeiro, e que também possuis autoridade sobre o segundo. Depois de visitarmos os dois conventos, ele nos disse:

- Quero agora, meus senhores, mostrar-lhes uma das coisas mais curiosas do mosteiro das mulheres.

Mandou trazer um álbum onde admiramos, efetivamen­te, aquarelas de grande perfeição. Eram flores, paisagens e marinhas.

- Estes desenhos tão perfeitos - disse-nos - são duma de nossas jovens religiosas que é cega.

E eis o que ele nos contou acerca dum encantador ra­malhete de rosas, das quais um botão era azul:

- Há tempo, estando presente o Sr. Marquês de La Rochejaquelein e outros visitantes, chamaram a religiosa cega e pedi-lhe para se sentar a uma mesa e desenhar qualquer coisa. Diluíram-se-lhe cores, deram-lhe papel, lápis, pincéis, e ela começou logo a aquarelar o ramalhete que estão vendo. Durante o seu trabalho, colocaram por diversas vezes um corpo opaco, cartão ou tabuinha, entre os seus olhos e o papel, e nem por isso o pincel deixou de deslizar com a mesma regularidade. Observando-lhe que o ramalhete era um pouco escasso, ela disse: Pois bem! Vou fazer sair um botão deste ramo. Enquanto trabalhava nesta retificação, trocaram-lhe a cor carmim pela azul; não deu pela troca, e aí está porque os senhores vêem um botão azul.

O Senhor Abade Dallain, acrescenta o narrador, era tão notável pela sua ciência, a sua grande inteligência, como pelo seu alto sentimento religioso, e nunca encontrei alguém que me despertasse mais simpatia e veneração ( 71).

Pela linguagem da jovem cega, é certa que ela via; de outro modo, não teria dito: Vou pôr um botão neste ramo. O que não é menos certo, é que ela não via pelos olhos, pois que prosseguia no seu trabalho apesar do obstáculo que lhe opunham; via pela vista da alma, fei­ta abstração da vista do corpo. Ora, se é assim que os sonâmbulos vêem, porque não veria um cego em con­dições análogas?... Não estava ela em estado de so­nambulismo acordado?

Quanto à cor azul posta em lugar da vermelha, pode não ter prestado atenção senão à colocação do botão, ou não observá-la, ou não vê-la como cor.

 

*

 

Diante de todos estes fatos, não se deve negar mais em diante a possibilidade da vista sem os olhos, tanto através dos corpos opacos como através do espaço e do tempo, pelo organismo humano (72).

Os regadores divertem-nos quando afirmam douto­ralmente que não há nisto senão ilusões, erros e falsificações, alucinações e outras parvoíces; que eles conhecem as leis da Natureza; que o Universo não tem segredo para eles; que a alma não existe que não há espírito nem no homem nem no Cosmos e que tudo se explica pela Matéria e suas propriedades.

Estes raciocinadores não são muito cândidos.

Os fatos, relatados neste capítulo, da vista sem os olhos, pelo espírito, são tão certos como as observações astronômicas, meteorológicas, físicas, geológicas, antro­pológicas, e outras de que se compõe à ciência mais exi­gente; tão certos e irrecusáveis como os fenômenos psí­quicos, mediúnicos, espíritas, observados rigorosamente e registrados pela fotografia (73), apesar de estes exi­girem atenção especialmente severa, por estarem em de­sacordo com as nossas noções atuais sobre a Física, sobre a gravidade dos corpos, sobre a fisiologia humana,             etc.

Quais são as forças em jogo? Incontestàvelmente, indisçutìvelmente, há aí alguma coisa.

E alguma coisa de transcendente, fora da nossa pe­quena vida ordinária de carne e de sangue, de músculos e de nervos. A nossa existência corporal e material pode deslocar-se, desagregar-se, sem implicar a destruição des­te elemento psíquico que é independente. E' esta uma possibilidade cientificamente admissível. O que pode pa­recer realmente estranho e por completo extraordinário é que os fatos aqui relatados são observados há muito tempo, desde séculos, sem que isso se tenha em conta; é que a realidade da existência da alma, independente do corpo, foi estabelecida principalmente em 1819, pelo Abade Faria, sobre estes mesmos fatos, no seu livro A causa do sono lúcido; e é que, na hora atual, ainda tenhamos o ar de fazer descobertas! Os homens que se instruem continuam, pois, a formar minúscula minoria?

A vista do futuro, o conhecimento dos acontecimentos vindouros vai fornecer-nos demonstração ainda mais irrecusável do que tudo o que precede.

 

 

 

 

VIII

 

A VISTO DOS ACONTECIMENTOS FUTUROS. - O FUTURO PRESENTE. - O JA VISTO

 

 

“Um cepticismo vaidoso, que rejeita os fatos sem examinar se eles são reais,

é, a certos respeitos, mais repreensível que a credulidade desarra­zoada.”

 

 

  1. DE HUMBOLDT.

 

 

 

Entre as faculdades da alma, desconhecidas e a estudar, se tivermos algum cuidado de constituir uma psicologia experimental baseada em fatos de observação positiva, indicarei agora a que permite ver o futuro, ver o que ainda não existe!

Da mesma forma que a alma vê através do espaço, ela vê através do tempo.

Escrevi uma obra (não impressa ainda) sobre este assunto: A Visão do Futuro, premonições precisas autenticamente verificadas, sonhos premonitórios, fatos vistos antecipadamente com a mais minuciosa exatidão, dilema da visão do futuro e da liberdade humana, do determinismo e do livre arbítrio. Não tenho a intenção de me alargar aqui sobre este copioso assunto. Mas, como se trata de afirmar as faculdades especiais da alma é oportuno juntar as observações precedentes da vista sem os olhos às que vão seguir e que não são menos merecedoras de atenção, e principalmente o fato do que se chama o já visto muito controvertido, dis­cutido, mas incontestável para os que estudaram suficientemente a questão e que tiveram tempo de comparar rigorosamente as observações.

Os acontecimentos futuros podem ser vistos de an­temão, muito exata e incontestàvelmente.

Não é com considerações metafísicas, mas pelo mé­todo experimental, que devemos tratar aqui deste grave problema.

Foi chamada pela primeira vez a minha atenção sobre este fato, inadmissível na aparência, na primavera do ano de 1870, pela narrativa que se vai ler, duma observação feita por pessoa dotada de espírito esclarecido e judicioso, a Princesa Ema Carolath, que, muito amiga da França, vinha, naquela época, todos os anos a Paris e gostava de entreter-se comigo acerca destes assuntos. A inesperada guerra entre a Alemanha e a França feriu a sua viva sensibilidade, e essa jovem se­nhora pouco sobreviveu a este desastre internacional (prefácio do cataclismo de 1914). Esta carta é uma das últimas que dela recebi, e esse sonho premonitório é notavelmente explícito.

Já o assinalei na minha obra “O Desconhecido” ele data de uns dez anos antes de 1870. Ei-lo, em resumo.

Acabava de adormecer, muito preocupada com a saúde duma pessoa querida, e achei-me transportada em sonho para um castelo desconhecido, num gabinete octogonal alcatifado de damasco vermelho. Dormia ai num leito a pessoa cuja saúde me inspirava cuidado. Uma lâmpada suspensa do teto inundava-lhe de luz o rosto pálido, mas sorridente, cercado de opulenta cabeleira negra. A cabeceira da cama, vi um quadro cujo assunto se gravou de tal modo no meu pensa­mento que poderia desenhá-lo ao despertar: era um Cristo coroado de rosas por um gênio celeste, com versículos de Schiller, que li.

Dois anos mais tarde, chamada a residir num castelo da Hungria, parei, estremecendo, ao penetrar nos aposentos que nos eram destinados: achei-me no gabinete octogonal alcatifado de damasco vermelho, diante do leito e diante do quadro do Cristo coroado de rosas, com versículos de Schiller. Este quadro nunca foi copiado ou reproduzido, e era impossível que o tivesse visto de outro modo que não fosse em sonho, assim como, de resto, o gabinete octogonal.

 

Wiesbaden, 5 de Março de 1870.

 

EMMA, Princesa Carolath.

 

 

Desde aquela época já longínqua de 1870, a minha atenção tem sido muitas vezes chamada para esta ordem de fatos, que fui levado a examinar com cuidado muito especial. O trabalho que exponho hoje à vista do leitor representa, pois quase cinqüenta anos de observações va­riadas, e apresento-o com toda a confiança que pode justificar esta demorada elaboração.

Há de objetar-se a este sonho, como a outros aná­logos, que ele não foi escrito e datado por um selo postal obliterado antes de sua verificação, o que seria certamente uma garantia absoluta, e que pode ter-se engendrado no espírito da narradora de conformidade com o acontecimento observado, de maneira que seria ilusória a sua verificação. Mas, pouco valor tem este argumento, pois, pelo contrário, foi essa verificação ines­perada que feriu a observadora.

Não se liga importância a estes sonhos senão quando se realizam, e não se tem o cuidado de escrevê-los de antemão. Pode-se objetar também que se vê em so­nhos países e cenas que nunca mais se tornam a ver na realidade, que só se observam coincidências, mais ou menos aproximadas, acontecendo por acaso, e que, por coincidência que se apresenta, há mil que não se produzem. Supor, ao ver um quarto, uma casa, uma paisagem, que uma espécie de sonho repentino e fugaz pode atravessar o cérebro neste momento e dar a im­pressão do já visto, é outra hipótese, tendo sido já propostas explicações para estas exteriorizações aparen­tes. Discutiremos mais adiante estas objeções e examinaremos todos os comentários. Por agora, observemos que há diversas espécies de sonhos fisiológicos, e que se trata aqui não de sonhos mais ou menos vagos, mas de vistas precisas que ferem bastante a atenção para serem conservadas na memória com todos os pormeno­res. Mas não discutamos neste momento. Vamos expor os fatos e o leitor imparcial será o melhor juiz. O nosso dever é o de examinar as coisas livremente e sem idéia preconcebida. Não são as hipóteses que constituem a ciência; são as observações, tanto nas ciências psíquicas, como nas ciências físicas e naturais.

Não quero repetir aqui os exemplos numerosos (195) e demonstrativos da previsão do futuro publicados no O Desconhecido. Desde essa época (1899) tenho recebido muitos outros que podem interessar os leitores ciosos dos mesmos problemas.

O já visto faz parte dos fenômenos ainda inexplicadas da previsão do futuro que estudamos neste capítulo como faculdade da alma e como prova da sua realidade intrínseca.

Considera-se geralmente esta impressão do já vis­to como ilusão; deram-lhe os nomes de falso reco­nhecimento, falsa reminiscência, perversão da memória,          paramnésia,   memória ancestral      e outras denominações hipotéticas. Convido os pesquisadores que desejem conhecer exatamente a verdade a meditar so­bre o conjunto das seguintes questões.

E em primeiro lugar, esta, que, por si só, seria suficiente para provar tal realidade:

O já visto, anunciado nitidamente e estritamente por sonhos premonitórios, é um fato que não pode ser negado, apesar de inexplicável ainda, no estado atual de nossa psicologia. Eis, por exemplo, uma relação leal e irrecusável escrita por um digno sacerdote da diocese de Langres (74), o Cônego Garnier, antigo professor no pequeno seminário, na qual se verá uma cena desse gênero de que é impossível duvidar:

Era em 1846, no segundo ano dos meus estudos supe­riores no seminário. Uma noite, enquanto dormia, viajava em espírito. A estrada que percorria branda, lisa e bordada de árvores, muito distantes umas das outras, parecia descer das encostas duma serra, em declive suave, e alcançar uma planície, espraiando-se a perder de vista.

O Sol baixava no horizonte, entre as quatro e as cinco horas da tarde, e derramava a sua plácida luz sobre a cam­panha, com matizes mais fáceis de imaginar que de des­crever.

Encontrei parado de repente, sem saber como nem por que, num ponto onde outra estrada corta em ângulo reto a que eu seguia. Nada havia de extraordinário que pudesse atrair o olhar do viajante, nem mesmo solicitar-lhe a atenção. Entretanto, ainda me vejo parado, hirto como uma estátua, contemplando, com satisfação especial, um quase nada, uma destas cenas campestres que se nos deparam to­dos os dias.

À esquerda, observo que a estrada corta a minha, con­torna o monte e tem pequeno muro aproximadamente de um metro de altura que ladeia a via para sustentar a terra.

Ao longo deste muro estão plantadas três grandes árvo­res que fornecem uma sombra densa.

A uns trinta passos do ponto em que eu estava, na minha frente e em terreno bem nivelado, erguia-se, à beira do caminho, uma casa bem elegante, caiada de branco e toda exposta ao Sol: A única janela que dava pira a estrada estava aberta: atrás dela via-se sentada uma senhora bem vestida, mas com simplicidade. Entre as cores garridas do seu vestido sobressaía o vermelho. Na cabeça tinha um gorro branco de pano muito leve, cuja forma me era desconhecida. Esta mulher parecia ter trinta anos.

Diante dela, de pé, permanecia uma menina de dez a doze anos que pensei ser sua filha, pois olhava sua mãe que fazia tricô e lhe ensinava o seu mister: estava despenteada e descalça, vestindo quase como à senhora. Ao lado desta menina, três crianças rolavam-se no chão; um menino de quatro a cinco anos, ajoelhado, mostrava um objeto a seus dois irmãos menores, para diverti-los. Estes se debruçavam diante do mais velho e todos três se achavam muito absor­vidos na sua contemplação. As duas mulheres haviam-me olhado rapidamente quando me perceberam postado no caminho e, ao fixá-las, não se mexeram. E' que estavam acos­tumadas a ver passarem viajantes.

Um cão muito grande encontrava-se deitado ao lado delas, e, de vez em quando, coçava as pulgas.

Pela porta aberta avistei ap redor da mesa, no fundo da sala, três homens sentados em bancos, dois dum lado e um do outro, jogando e bebendo. Pareciam ser operários da vizinhança. Usavam avental de tela e o chapéu preto e pontiagudo dos Abruzos.

Da outra banda, à direita, três carneiros comiam uma erva pouco viçosa e para passar o tempo davam-se cabeça­das. Perto deles, dois cavalos, um alazão e um branco, esta­vam presos à parede.

Um lindo potro corria de um lado para o outro, e, para distrair-se, distribui a mesa dos jogadores, sem devida para receber uma lição e passar-lhes o focinho pelos cabelos. O inocente recebeu um violento murro, como recompensa.

Havia ainda quatro ou cinco galinhas e um galo com magnífica cauda, cujas penas verdes e pretas adornam os chapéus dos bersaglieri italianos. Essas aves procuravam a sua pitança na erva seca do pátio.

Tal era a modesta paisagem que eu contemplava, muito satisfeito, durante dez minutos talvez, e que desapareceu repentinamente como tinha aparecido. Antes, nada via; de­pois, nada mais vi, e julguei que tudo se havia afundado eternamente no rio do esquecimento.

Eis como ressurgiu, impresso para sempre na minha me­mória e na minha imaginação:

Vejo ainda hoje esse caminho de terra como vejo o cam­panário de minha aldeia.

Em 1849 realizei, com dois amigos, uma viagem à Itália. Escala em Marselha, em Gênova, em Livorno, Siena, Floren­ça, e depois marcha bastante rápida para Roma.

Atravessamos uma aldeia dos Apeninos. Um bom coche recebe as nossas augustas pessoas. Os cinco fortes cavalos que puxavam o carro partem como um relâmpago, fazendo retinir seus mil guisos; o postilhão, com seu chapéu de Ar­lequim, faz estalar o látego continuamente, de modo a fazer que os curiosos da rua lhe admirassem a importância. O nosso coche não anda, voa, não dando tempo a sermos vistos.

Mas, ao sair da vila, desaparece este ardor, caímos na calmaria e atingimos o alto da serra. Paragem de cinco mi­nutos; quatro robustos corcéis substituem os nossos cavalos, e descemos como um furacão, recomendando nossa alma a Deus. Isto não era inútil, pois não sei como ficamos inteiros, depois de tal corrida.

Enfim, o carro entra em marcha razoável e chega a muda sem avarias.

Durante esta paragem, olho pela portinhola e, de súbito, o suor cobre-me o rosto, meu coração bate com violência e levo maquinalmente à mão ao rosto, como para afastar um véu que me incomoda e me impede de ver. Esfrego o nariz e os olhos, como o adormecido que acorda de repente, depois dum sonho. Julgo sonhar realmente, e, entretanto os meus olhos se encontram bem abertos; certifico-me de que não estou doido, nem sou vitima duma ilusão singular. Tenho diante da vista a pequena paisagem que outrora tinha admi­rado em sonho. Nada havia mudado!

O primeiro pensamento que me ocorreu depois de recu­perar a serenidade, num momento perturbada, foi este: já vi isto, com certeza, mas não sei onde. Entretanto, nunca vim aqui, pois é a primeira vez que viajo pela Itália. Coma pode ser isto?

Cá estão as duas estradas que se cruzam, o pequeno muro que sustenta as terras do lado do pátio, as árvores, a casa branca, a janela aberta, a mãe que faz tricô, a filha que olha os três pequeninos que se divertem com o cão, os três operários que bebem e jogam o potro que quer receber uma lição e leva uma palmada, os dois cavalos, os carneiros, nada mudou; as personagens são exatamente como as vi, realizando as mesmas coisas, na mesma atitude, com os mes­mos gestos, etc. Como se operou tudo isto? Ignoro-o! Nelas o fato é certo, e, há 50 anos, pergunto-o a mim mesmo! Mis­tério! 1° Vi em Sonho, e 2° vi em realidade três anos depois.

(Carta 901.)

 

ABADE: GARNIER, Ch.

 

 

E' esta a narração textual. Dei-a por extenso em vez de resumi-la, porque cada pormenor é interessante.

Se admitimos esta narrativa - parece bem difícil recusá-la, pois o seu autor é alguém, e não um farsista, nem um visionário -, temos diante de nós dois fatos observados: 1°, um sonho experimentado em condições desconhecidas, num quarto do grande seminário de Lan­gres e 2°, uma vista do panorama deste sonho, três anos mais tarde.

Os psicólogos que ensinam que o já visto é uma ilusão laboram em erro. A cena observada foi na ver­dade já vista anteriormente.

Pode-se pensar, sem dúvida, que, em cinqüenta anos, fez naturalmente, no espírito do narrador, uma asso­ciação mais completa das duas cenas, a do sonho e a da viagem. Mas, fica o essencial. Houve bem duas vis­tas sucessivas, uma em sonho, outra em realidade, e a primeira havia impressionado suficientemente o jovem padre para que dela se possa duvidar.

Esta história lembra-nos o sonho premonitório de Niort a Sannt-Maixent que os meus leitores já conhecem. O Sr. Groussard, cura de Santa Radegonda, estando numa pensão em Niort, aos quinze anos, sonhou estar em Sannt-Maixent (cidade que só conhecia de nome), com o dono da sua pensão, numa pequena praça, perto dum poço em frente do qual havia uma farmácia e vendo avançar para ele uma senhora da localidade, que reco­nheceu por tê-la visto uma única vez em Niort. Esta senhora, abordando-o, falou-lhe de negócios que achou tão extraordinários que, logo de manhã, os comunicou ao patrão. (Assim se apelidava o chefe da instituição.) Este, muito surpreendido, fez-lhe repetir a conversa, e, poucos dias depois, tendo que ir a Sannt-Maixent, levou-o consigo. Apenas chegaram, acharam-se na praça vista em sonho, nos dois pontos marcados numa planta que me remeteu, e vira aproximar-se a tal senhora, que teve com o patrão, palavra por palavra, a mesma con­versação que o aluno havia relatado.

Tais fatos são mais freqüentes do que se pensa. Pela minha parte, tenho recebido comunicação de muitos. Eis aqui um, no qual uma vista precisa da cena a pro­duzir-se se manifesta bem claramente:

Em Junho de 1898 eu vivia junto dum tio a quem que­ria muito. Como a sua saúde estivesse abalada, julgamos conveniente mudarmos de aposentos e irmos para uma casa exposta ao Sol e cercada por grande jardim.

Na véspera da mudança, às 11 horas da noite, eu pen­sava (estando acordada) sozinha no meu quarto, na pena que sentia em deixar o aposento de que tanto gostava, quan­do de repente vi o jardim de nossa nova vivenda desenhar-se, tal qual era então, muito umbroso e florido; depois, tornou­-se mais claro, maior, aparecendo-me como devia ser no in­verno. Só subsistia como verdura o caramanchão de hera. E vi, ao mesmo tempo, dois empregados funerários, um alto e outro baixo, descendo o caminho que levava à rua.

Esta visão, muito intensa, impressionou-me primeiro bas­tante; depois a esqueci, com as preocupações que o estado de saúde de meu tio me causava. Ora, volvidos sete meses, em Janeiro, falecia meu tio, e no dia do enterro, alguns ins­tantes antes da saída do corpo, vi os dois empregados fune­rários, um alto e outro baixo, descendo o caminho no mesmo lugar onde a minha visão anterior mos havia mostrado. Queira desculpar caro mestre, a liberdade que tomei de lhe escrever, etc.

 

(Carta 920.)

 

MARIA LEBAS

Rue Corneille 15, Le Havre

 

Esta carta não tinha evidentemente senão um fim muito desinteressado: o de assinalar um fato de vista do - futuro exatamente verificado. Podemos supor que o autor dela previa a morte de seu tio, mas nada mais. Ter visto o que se dariam sete meses mais tarde, a pai­sagem de inverno, os dois homens fúnebres, está fora do quadro racional normal. Este já visto não se po­deria explicar, como se pretende, por uma visão no momento da ocorrência, atendendo a que o autor a expe­rimentou por uma noite de Junho de 1898 e a que o fato se passou em Janeiro de 1899.

As observações do já visto são muito numerosas. Esta me foi enviada. Por uma leitora da “Nouvelle Mode” (26 de Maio de 1918), artigo La Glane

Sonhei estar em férias, no lugar em que costumo pas­sar, mas o quarto que me ofereciam era diferente do meu, e, atrás dum armário, via subir as chamas. Sonho banal de que me esqueci.

Seis meses depois, parti para o meu destino. Levaram­-me para pequeno pavilhão. Apesar de nunca o ter visto, reconheço o caminho que me deram. O armário, colocado no mesmo lugar, faz-me lembrar do incêndio. Revelo o so­nho que tive e tranquilizam-me. Há dez anos que não houve fogo algum na localidade. Finalmente, já começava a nada recear, quando, pela quarta semana da minha estada ali, houve alarme. Um incêndio imenso, que consumia a quinta próxima de nossa morada era ativado pela palha e a forra­gem, e lambia o muro onde se encontrava o referido armário.

 

  1. ROGÉ.

 

Ainda uma vez, estas premonições não são nem ex­cepcionais nem tão incertas como se supõe.

Na sua obra largamente documentada sobre os Fenômenos Premonitórios, o sábio italiano E. Bozzano relata o seguinte fato, realmente típico na parte con­cernente ao já visto.

O cavaleiro Giovanni de Figueiroa, um dos mestres de esgrima dos melhores e mais afamados de Palermo, conta o que lhe aconteceu:

Uma noite do mês de Agosto do ano de 1910, acordei sob a impressão dum sonho tão intenso que despertei minha, murar e logo lho contei com todos os pormenores estranhos, curiosos e precisos.

Estava num lugar campestre, numa estrada branca de pó, pela qual penetrei em vasto campo de cultura. Ao centro desse campo, erguia-se uma construção rústica, com loja para armazéns e estábulos. A direita da casa, via eu uma espécie de cabana formada por braçadas de folhas e paus secos, um carro do quais os lados eram rebaixados, e, sobre ele, esta­vam arreios para animal de carga.

Nesse sítio, um camponês, cuja fisionomia guardo bem viva e nítida, de calça escura e de chapéu mole, preto, na cabeça, aproximou-se, convidando-me a acompanhá-lo, ao que acedi. Levou-me para os fundos da construção, e entramos por uma parta estreita e baixa num pequeno estábulo de quatro ou cinco metros quadrados, cheio de lodo e de es­trume. No estábulo havia uma curta escada de pedra, por cima da porta da entrada. Um solípede estava preso a uma manjedoura móvel e obstruía, com a sua parte posterior, a passagem para os primeiros degraus da escada aludida. Como o camponês me assegurasse que o animal era manso, fi-lo sair do lugar que ocupava e subi a escada, no alto da qual entrei em pequeno quarto ou celeiro, assoalhado de madeira, onde havia pendurados no teto, melancias, cachos de toma­tes, cebolas e milho.

Neste mesmo quarto que servia de antecâmara, acha­vam-se duas mulheres e uma menina. Destas mulheres, uma era velha, a outra moça. Supus que esta fosse à mãe da criança. As feições das três pessoas ficaram gravadas em minha memória. Da porta que dava entrada para o quarto contíguo via-se uma cama de casal, mais alta que as que eu tinha visto.

Eis o sonho!

No mês de Outubro seguinte, tive de ir a Nápoles para assistir a um duelo do nosso conterrâneo Amadeu Brucato. Não cabe aqui expor os incidentes e desgostos que esta assistência me acarretou; direi somente pelo que toca ao so­nho, que este incidente me levou a um duelo pessoal.

Este duelo realizou-se em 12 de Outubro. Neste dia, com minhas testemunhas, o Capitão Bruno Palamenghi, do 4ª Re­gimento de bersaglieri, aquartelado em Nápoles, e Francesco Busardo, fui de automóvel para Morano, onde nunca tinha estado e cuja existência não conhecia. Penetrando apenas algumas centenas de metros no campo, a primeira coisa que me impressionou foi à estrada Larga e branca de poeira, que reconheci por já a ter visto; mas quando? Em que oca­sião? Paramos à beira dum campo que não me era desconhecidos porque já o tinha visto também! Descemos do auto­móvel e entramos nesse campo por uma vereda bordejada de sebes e de plantas, e disse ao Capitão Bruno Palaménghi, que seguia a meu lado:

- Conheço este lugar, não é a primeira vez que aqui venho; ao fim da vereda deve haver uma casa; à direita dessa casa, está uma cabana.

Assim era efetivamente! Até lá estava o carro com os lados rebaixados, com os arreios para animal de carga,

Um instante depois, um campônio de calça escura, cha­péu mole e preto, o mesmo que eu vira em sonho, dois meses antes, convidou-me a acompanhá-lo, e, em vez de segui-lo, fui adiante dele, dirigindo-me para a porta do estábulo, que já conhecia. Ao entrar, tornei a ver o solípede amarrado à manjedoura; olhei então o camponês, como para perguntar­-lhe se o animal era inofensivo, porque as suas ancas me impediam de subir a pequena escada de pedra, e, como no sonho, assegurou-me que não havia perigo. Súbito, encon­trei-me no celeiro, onde reconheci as melancias, os tomates, as cebolas, o milho, e no pequeno quarto, no angulo da di­reita, lá estavam as três mulheres, a velha, a moça, a criança, como as tinha visto em sonho.

No quarto vizinho, onde entrei depois para me despir, reconheci a cama que tanto me havia surpreendido pela sua altura, no meu sonho, e nela coloquei o meu paletó e o meu chapéu.

Já tinha falado antes a alguns amigos deste sonho, na sala de esgrima e em outros pontos, e disto podem dar fé: o Capitão Palamênghi, o advogado Tommaso Forcási, Ama­deu Brucato, o Conde Dentale Diaz e o Sr. Roberto Gianni­na, de Nápoles, testemunhas da descrição precisa que eu fizera dos lugares e das pessoas que figuravam nos inciden­tes deste duelo.

A minha palavra de cavalheiro bastara, creio eu, para garantir a verdade do que digo; entretanto, se for necessá­rio recorrer à prova, não terei dúvida em escrever, um por um, aos amigos acima designados, os quais estou certo, não deixarão de atender-me.

Aqui estão os fatos, deixo aos sábios a sua interpretação.

 

Assinado: GIOVANNI DE FIGUEIROA.

Este episódio escreve Bozzano, merece toda a aten­ção, porque não pode ser posta em dúvida a sua auten­ticidade, sendo o relator pessoa que conhece u valor duma palavra de honra, e a circunstância de ele haver contado o sonho antes de sua realização, excluindo a hipótese de que a impressão do já vistos podia redu­zir-se a um fato de mnemônica.

Bozzano é espiritualista e um convicto da reencarnação. Para ele, a vida do espírito concilia as contra­dições aparentes.

Não me parece que seja dada atualmente à expli­cação do mistério. Ainda temos de estudar muito. Ver o que não existe, o que só existirá no futuro (três anos depois, três meses ou três dias, pouco impor­ta), mas que não existe atualmente, é inadmissível para os que não estão a par dos nossos estudos, embora seja certo para nós. Os meus documentos acerca deste as­sunto são numerosos. Aqui está mais um:

O Sr. Pletneff, funcionário do Governo de Tver (Rússia), adjunto do colégio, escrevia-me em 1899 (car­ta 777) que vira em sonho o seu amigo Oseroff colocado num esquife, cercado de parentes e amigos, acrescen­tando que ignorava nessa ocasião onde ele morava e qual era o seu estado de saúde, e que quase no mesmo dia ele morria em Victni-Valotchek, cidade do Gover­no de Tver.

A referida carta relata que um dos criados da Chan­celaria do Governo de Tver, o Sr. Ivan Sasonoff, muito estimado pelo autor da epístola, viu um dia, estando de todo acordado, ao passar em frente duma casa, uma escada de pedra que era exterior, e que não existia.

O Sr. Pletneff, passando por lá duas vezes no mes­mo dia, verificou que, com efeito, tal escada não estava lá. Mas, passando três ou quatro dias depois, observou que haviam carregado para esse ponto pedras brancas, que se demolia uma escada antiga, e que se construía uma outra, nova.

Assim, esta escada não existente foi vista antes de construiria, e o observador, passando pelo sítio em que ela fora construída, ter-se-ia convencido, naturalmente, de tê-la visto já.

Eis um outro fato não menos estranho:

O professor Boehm, que ensinava matemáticas em Mar­burg, estando uma noite com amigos, teve de repente a con­vicção de que devia regressar a sua casa. Mas, como tomasse tranquilamente o seu chá, resistiu a esta impressão, a qual, todavia tornou a arrastá-lo com tanta força que se viu obri­gado a obedecer. Chegado à sua morada, encontrou aí tudo como o havia deixado; mas sentia-se obrigado a mudar o seu leito de lugar. Por mais absurda que lhe parecesse esta imposição mental, entendeu que a devia cumprir, chamou a criada e com auxilio dela colocou a cama do outro lado do quarto. Feito isto, ficou satisfeito e voltou para junto de seus amigos a acabar o serão. Despediu-se deles às dez ho­ras, voltou para casa, deitou-se e adormeceu. Foi despertado, durante a noite, por grande fragor e verificou que grossa viga tinha desabado, arrastando uma parte do teto e caindo no lugar que o seu leito havia ocupado.

Qual é a força misteriosa que nos previne desta maneira?

Sim, repito-o, tudo isto parece inadmissível. Ver o que não existe? A cena avistada pelo Abade Garnier em 1849 não existia em 1846; essa jovem mulher era então mais nova três anos; um dos seus filhós não tinha nascido; o tio da Sra. Lebas não estava num caixão sete meses antes da sua morte; a cena do mês de Ou­tubro, em Marano, não existia no mês de Agosto, etc. Mas, podemos negar fatos de observação?

Já se estava imprimindo esta obra, quando recebi a seguinte carta, em resposta à comunicação verbal que me havia interessado particularmente. Segundo o prin­cipio adotado em geral, havia pedido ao autor que acompanha a sua narração de certificados, estabelecendo a prioridade do sonho sobre a visão real. Eis aqui essa carta

Paris, 9 de Setembro de 1919.

 

Como prometera, remeto-lhe, acompanhada de dois certificados, a narrativa do sonho premonitório que havia manifestado desejo de publicar. Sou feliz em submeter-lhe esta observação muito precisa, e peço-lhe aceite, etc.

 

  1. SAUREL

 

Em 1911, encontrei-me, em sonho, no meio duma paisa­gem nova, em terra para mim desconhecida.

Sobre pequena elevação, de brandas ondulações cobertas de relvas, eu via um grande edifício de aspecto medieval, misto de solar e de herdade fortificada. Grandes muros o cercavam duma cintura continua e marcada pela pátina dos tempos.

Quatro torres maciças, de pequena altura, flanqueavam­-lhe os ângulos. Diante da porta principal, e na campina, corria lindo regato de águas límpidas e murmurantes.

Homens, ou antes, soldados, vinham aí tirar água. Ou­tros acendiam fogos próximo das armas ensarilhadas ao lon­go dos muros. Estes homens estavam vestidos com farda bizarra de cor azul clara que eu não conhecia, e usavam capacete de forma estranha.

Eu mesmo me via fardado de oficial e dava ordens para o acampamento.

Por um desses fenômenos que muitas pessoas já senti­ram, eu pensava no meio das minhas ocupações: Que situa­ção original! Que me faço aqui e com este uniforme?

Como este sonho me deixasse, quando despertei, uma impressão nítida, interessei-me pela ausência desses porme­nores incoerentes ou ridículos que produz o nosso sono e por esta aparência de harmonia e de lógica no absurdo - pois me parecia absurda tal situação de oficial num exército des­conhecido.

Durante o dia, falei desse sonho e dos soldados azuis, que o animavam, as pessoas intimas, e, depois, não pensei mais nisso.

Ora, a guerra, que transtornou tantas existências, fez de mim, após muitas peripécias, um tenente de Infantaria. O meu Regimento achava-se, em 1918, em descanso a reta­guarda, no Aube. Aí me instruía os meus recrutas da classe de 1919.

Desde o romper da manhã que o batalhão marchava. O calor, que empalidecia o verde tenro dos grandes centeios, fazia sofrer duramente os meus pobres soldados. A nuvem de poeira, levantada na estrada pelos milhares de pés pesa­dos, não me permitia ver onde estávamos. Recebi ordem para fazer alto sob os muros do castelo que, ao que me disse o furriel, estava a duzentos metros à direita. Depois de dar instruções nesse sentido aos chefes de seção, fui en­contrar-me com o comandante.

Alguns minutos depois, encontrei a minha Companhia na volta duma alameda de choupos que encobria o castelo.

A paisagem que me apareceu, após a última árvore in­terposta, surpreendeu-me imediatamente. Era a campina em declive suave, esmaltada pelas flores de Junho; os muros, as torres, tudo era semelhante ao que eu tinha visto em so­nho, sete anos antes. Faltava, entretanto, o lindo regato e a porta monumental.

Quando eu observava esta diferença entre o sonho e a realidade, um ajudante veio perguntar-me onde se devia fazer aguada.

- Mas, no rio - disse eu, rindo.

O ajudante olhou-me, admirado. Acrescentei:

- Sim! Se ele não está deste lado, estará decerto da outra banda do edifício. Venha comigo.

Contornando a torre do angulo norte, avistei sem sur­presa o claro regato a correr sobre as pedras musgosas e, ao meio do muro, a grande porta, tal qual a tinha visto, em sonho, com seus pilares de tijolos.

As duas seções da frente já tinham resolvido o problema da água; as armas ensarilhadas formavam perto dos muros, e à sombra deles muitos dos meus soldados gozavam o re­pouso tão almejado.

O quadro assim formado era o do sonho de 1911. Nada de sensacional devia ocorrer nesses lugares; o sonho não constituía, pois, senão visão surpreendente do porvir, mos­trando-me principalmente a minha futura situação de oficial, que não podia pressentir em 1911.

(Carta 4.106.)

 

  1. SAUREL.

 

ATESTAÇÃO DA SRA. SAUREL

 

Lembro-me de que meu marido me tinha falado deste sonho, cujos pormenores precisos o haviam surpreendido ns época em que se deu.

 

1 de Setembro de 1919.

HELENA SAUREL

 

ATESTAÇÃO DO SR. SAUREL, PAI.

 

Declaro que meu filho Alfredo Saurel, na época em que teve este sonho, me contou os seus pormenores, e que a nar­ração que dele Paz é bem exata.

 

4 de Setembro de 1919.

SAUREL

 

Este sonho premonitório é particularmente preciso. O Sr. Saurel viu, em 1911, um episódio da guerra de 1914-1918, ao qual foi associado como militar.

E um caso análogo ao que está descrito O Des­conhecido (pág. 555): - O Sr. Regnier vendo-se, em sonho, em 1869, num episódio da guerra de 1870.

Nestes termos e em outros idênticos, a questão ë esta: Se viu, um ano, ou sete anos, ou três anos an­tes, como no casa do Abade Garnier, citado há pouco, uma cena que devia ser vivida na época em que se deu, é porque tal cena devia forçosamente acontecer, que o livre arbítrio do homem não existe, e que a verdadeira doutrina é o fatalismo absoluto. Em tal data de 1849, a italiana devia estar naquela casa da estrada de Roma, com três criancinhas, operários a beberem, um potro a pular, etc.; em tal data de 1870, o Sr. Regnier devia ser soldado, combatendo contra prussianos e bávaros e atirar-se à baioneta contra o agressor; em tal data de 1918, o Sr. Saurel devia mandar soldados à procura de água diante da torre desconhecida. E o mesmo acon­tece com centenas de casos semelhantes de visão do futuro. Que resta para nosso livre arbítrio, para nossa liberdade pessoal? Não há nisto absoluta contradição? Será possível admitir ao mesmo tempo a liberdade dos nossos atos e a vista do futuro?

Esta questão será discutida amplamente no capítulo seguinte. Bastará dizer, neste momento, que ela é duma extrema sutileza, mas que pode, entretanto, ser resol­vida pela conciliação de duas antinomias, muito contrá­rias na aparência, se imaginarem que a vontade humana é um dos fatores que atuam na produção dos aconteci­mentos, que sempre acontece alguma coisa, mas que nem por isso é fatal, e que se vê simplesmente o que acon­tecerá, o pensamento transcendente suprimindo o tempo, o tempo não existindo em si mesmo, e o passado como o futuro podendo co-existir num presente eterno.

Recusando-nos a admitir esta conciliação, seríamos levados a afirmar, a respeito da guerra de 1870, por exemplo, que Bismarck não é responsável por ter fal­sificado o telegrama d'Ems para precipitar a França no abismo germânico aberto por ele, e que, em 1914, Guilherme II não tem nenhuma responsabilidade tam­bém na patifaria austríaca da exploração do assassínio de Sarajevo. Douto modo seria preciso admitir que não haja homens maus, velhacos, impostores, assassinos e que também não há homens bons, humanitários, dedicados, honestos, sacrificando-se ao progresso moral e intelec­tual da Humanidade.

Tratarei deste assunto, minuciosamente, no próximo capítulo, a respeito da comunicação que me fez, em 1911, Frederico Passy.

No espanto em que nos lança este gênero de obser­vações, procuram-se todas as hipóteses contrárias à sim­ples admissão dos fatos. Imagina-se, por exemplo, para explicar a sensação do já visto, que a impressão pro­duzida sobre a retina por uma paisagem ou uma cena qualquer, é simultaneamente registrada na memória e na consciência, e supõe-se que, em conseqüência duma demora mesmo ligeira (uma fração de segundo), a ar­mazenagem se faz na memória antes que seja res­sentida a percepção consciente.

Neste caso, sendo o sentido da memória impressio­nado um instante fugitivo antes do da visão real, pen­sa-se ter visto antes a cena presente, num tempo anterior indeterminado, pois mesmo um décimo de segundo pode dar a impressão dum espaço de tempo muito longo, como se verifica nos sonhos.

Uma outra hipótese imagina que a percepção duma cena, que se julga haver-se vivido, pode ser comparada ao fenômeno óptico da dupla refração que faz refletir sobre dois planos diferentes a mesma imagem, proje­tando-se nas duas faces dum prisma: haveria uma pro­jeção na planta do passado e uma outra na planta atual; durante um instante a nossa alma veria em duplicado.

Estas explicações são engenhosas; mas, por uma parte, não estão provadas e pertencem ao domínio da pura imaginação, o que nada tem do rigor científico, e, por outra parte, os fatos contradizem-nas quando são narrados com antecipação, como no caso da Praça de Saint-Maixent, vista muitos dias antes por um colegial de Niort que não a conhecia; da criança atacada de crupe, acidente visto de véspera (O Desconhecido, pág. 550); do desespero do Dr. LiebauIt, e da eleição de Casimir Perier, citados mais adiante, etc. Nestes ca­sos, a explicação precedente não tem senso comum. Talvez se possa aplicá-la algumas vezes, mas excepcio­nalmente, mesmo se for verdadeira.

Deve-se, pois, procurar outra coisa (75).

O professor Ribot, do Instituto, tratou subsidiariamente deste assunto na sua obra sobre as Moléstias da Memória.

Acontece, quando se viaja em país estrangeiro, escreve ele, que a volta brusca dum caminho ou dum rio nos põe em frente de algumas paisagens que nos parecem contempladas outrora. Apresentado pela primeira vez a uma pessoa, julga havê-la visto já. Len­do num livro de pensamentos novos, sente-se que já foram presentes ao nosso espírito anteriormente.

Pensa o autor que esta ilusão se explica pela se­guinte hipótese:

A impressão recebida evoca, em nosso passado, impressões análogas, incertas, confusas, apenas entrevis­tas, mas suficientes para levar-nos a crer que o novo estado é a repetição delas. Há um fundo de semelhança percebido ràpidamente entre dois estados de consciên­cia, que leva a identificá-las. E' um erro; mas só em parte, porque há, efetivamente, em nosso passado, algu­ma coisa que se parece com uma primeira experiência.

Esta explicação não é certamente satisfatória. Não se aplica a nenhum dos fatos que acabamos de registrar. O autor observa, aliás, muito sinceramente, que não se adapta também a casos como o seguinte, que ele mesmo cita.

Um doente, diz Sander, ao ter notícia da morte duma pessoa que conhecia, foi tomado de pavor incom­preensível, porque lhe pareceu haver já experimentado esta impressão. Sentia que já anteriormente, estando deitado aqui neste mesmo leito, X. tinha vindo e me havia dito: Muller morreu há alguns dias; não podia morrer duas vezes.

Ribot não deixará de ver-se embaraçado para expli­car fisiològicamente estes fatos curiosos. Menciona o exemplo seguinte, que se parece muito com o precedente.

Wigan, no seu livro sobre a Dualidade dos Espíritos, que ele pretende explicar pelos nossos dois hemis­férios cerebrais, relata que enquanto assistia ao serviço fúnebre da Princesa Carlota, na capela de Windsor, teve de repente a sensação de haver já assistido ao mesmo espetáculo. Foi uma ilusão passageira.

Nenhuma hipótese é aceitável. Supôs-se também que a ilusão do já visto poderia resultar de lembranças inconscientes provenientes de hereditariedade de ante­passados que teriam conhecido o que se vê atualmente. E' também inadmissível.

De certo que toda explicação é quase impossível. Ribot qualifica estas coincidências de atos de falsa me­mória. Mas isto não é uma explicação. Ele aponta mais longe o exemplo seguinte, tirado dum trabalho do Dr. Arnold Pick e que é igualmente inexplicável:

A um homem instruído, raciocinando bem sobre a sua doença, e que dela deu notícia escrita, caiu num estado mental particular, na idad8 de trinta e dois anos. Se assistia a uma festa, se visitava qualquer lugar, se fazia qualquer encontro, parecia-lhe tão familiar este aconte­cimento, com todas as suas circunstâncias, que se sentia seguro de haver já experimentado as mesmas impres­sões, estando cercado das mesmas pessoas e dos mesmos objetos, com o mesmo céu, o mesmo tempo, etc. Se realizava qualquer trabalho novo, parecia-lhe já o haver feito nas mesmas condições. Este sentimento produziu­-se umas vezes no mesmo dia, ao cabo de alguns minu­tos ou de algumas horas, e outras vezes no dia seguinte somente, mas com clareza perfeita (76).

E' este, certamente, um caso patológico.

Há nestes fenômenos de falsas memórias, escreve Ribot, uma anomalia do mecanismo mental que nos es­capa. Mas esta designação de falsa memória nada nos explica. O sábio fisiologista procura, todavia com­preender e tem razão para tentar. Pode-se admitir, diz ele, que o mecanismo da localização no tempo funciona às avessas, e propõe esta explicação:

A imagem assim formada é muito intensa, de natu­reza alucinatória; impõe-se como realidade, porque nada retifica esta ilusão. Por conseqüência, a impressão real passa para o segundo plano, com o caráter apagado das lembranças; localiza-se no passado, sem razão, se observam os fatos subjetivamente, e com razão se esses fatos são observados objetivamente. Este estado alucinatório, apesar de muito vivo, com efeito, não apa­ga a impressão real; mas, como se afasta dela, como foi produzido por ela fora de tempo, deve aparecer como segunda experiência. Toma o lugar da impressão real, parece ser mais recente, e o é de fato. Para nos, que ajuizamos de fora e conforme ao que se deu exterior­mente, é falso que a impressão fosse recebida duas ve­zes; para o paciente que julga pelas premissas de sua consciência, é exato que a impressão foi recebida duas vezes, e, nestes limites, sua afirmação é incontestável.

Reconhecer-se-á que estas explicações do sábio professor nada explicam. Há aqui uma série de fenô­menos psíquicos muito diferentes uns dos outros e aos quais não se pode aplicar a mesma teoria.

Para Ribot, a memória é essencialmente um fato biológico e, por acidente, um fato psicológico. Variando o número de células entre 600 e 1.200 milhões, e sendo avaliada em 4 a 5 bilhões das fibras nervosas do cé­rebro, o encéfalo pode ser considerado qual laboratório cheio de movimento onde se fazem conjuntamente mil trabalhos: a memória, ou, para dizer melhor, as memó­rias têm com que se gravar na mente. Mas certas im­pressões são como acabamos de ver, mais psíquicas do que físicas. Se for só acidentalmente que a memória per­tence ao mundo psíquico, este acidente é talvez o es­sencial para a descoberta do mundo invisível, como as desordens aparentes, as perturbações em Astronomia, são a fonte mais fecunda de descobertas na gravitação universal. Tivemos disto a prova com a descoberta do planeta Netuno segundo as perturbações de Urano, na do companheiro de Sírio, etc.

Não, o já visto não é um fato fisiológico cerebral; é um fenômeno metafísico: vista anterior realizada.

Vamos entrar agora no problema do conhecimento do futuro.

 

 

IX

 

O CONHECIMENTO DO FUTURO

 

O fatalismo. - O determinismo e o livre arbítrio. - Problema do tempo e do espaço

 

“A Verdade está ao lado do Destino como potencia diretriz.”

 

Versos dourados de Pitágoras.

 

 

O que acabamos de apreciar relativamente ao já visto é a introdução natural do que se seguirá. Estudaremos, agora, as observações, examinando as vistas premonitórias que estabelecem o conhecimento do faturo.

Publiquei, com este título, na La Revue (77) de 1 de Março e de 1 de Abril de 1912, os principais documen­tos comprobatórios de que, em certas condições, o futuro foi visto e conhecido de antemão. Diversos escritores prosseguiram, desde aquela publicação, no mesmo assun­to (e reproduziram estes documentos sem sempre terem a cortesia de citarem o meu trabalho, minúcia, aliás, in­significante). O que aqui nos interessa particularmente é saber que o futuro foi visto, descrito, anunciado mui­tas vezes com precisão pormenorizada, e que, por con­seguinte, existe no ser humano um princípio psíquico dotado de faculdades independentes das propriedades da matéria, uma alma diferente do corpo.

Apontarei em primeiro lugar o fato de premonição em sonho, que já publiquei em 1911, nos Anais de Ciên­cias Psíquicas, e, em 1912, na mesma revista, do que dou aqui a curiosa narração.

O Sr. Frederico Passy, o venerável membro do Ins­tituto, cuja longa carreira foi tão honrosamente consa­grada ao apostolado do pacifismo contra a imbecilidade guerreira humana (78), veio visitar-me um dia de Ja­neiro de 1911, subindo com galhardia os meus cinco andares, apesar dos seus oitenta e nove anos. Foi uma das suas últimas visitas, e a relação que me levou me­recia realmente a sua escolha.

Não a encontrei, disse-me ele, na sua obra O Desco­nhecido e tenho a certeza de que o interessará, pois procede dum escritor escrupuloso, dum homem de integridade incon­testável, o quaker Etienne de Grelet. Dou ao senhor a nar­rativa, tal como a transcrevi da relação da sua viagem ã Rússia. Durante a sua permanência em S. Petersburgo, a Condessa Toutschkoff contou ao quaker viajante o seguinte:

Uns três meses antes da entrada dos franceses na Rús­sia, o general, seu marido, estava com ela no seu domínio de Toula. Achando-se num hotel, em cidade desconhecida, ela sonhou que seu pai entrara, levando o filho único pela mão e dizendo-lhe estritamente:

- A tua felicidade acabou. Teu marido Caiu em Borodino.

Acordou muito perturbada, mas, vendo seu marido junto dela, compreendeu que sonhava e adormeceu novamente.

O mesmo sonho se repetiu, e ela sentiu tanta tristeza que levou muito tempo a recuperar a serenidade.

O sonho voltou terceira vez. Experimentou tão grande angústia que despertou seu marido, perguntando-lhe:

- Onde é Borodino?

Ele não o sabia. Durante a manhã, ambos, com seu pai, e puseram a procurar este nome no mapa, sem encontrá-lo. Borodino era então lugar muito obscuro; mas tornou-se de­pois afamado, pela batalha sangrenta que se feriu nas suas cercanias. Entretanto, a impressão causada, na condessa, era profunda, e grande sua inquietação... O teatro da guerra era longe então, mas rapidamente se aproximou.

Antes da chegada dos exércitos franceses a Moscou, o General Toutschkoff foi posto ã testa do exército russo de reserva. Certa manhã, o pai da condessa, levando seu filho pela mão, entrou no quarto do hotel em que ela se hospedara. Estava triste, como a condessa o tinha visto em seu sonho, e dizia-lhe:

- Ele caiu, ele caiu em Borodino.

A condessa viu-se, como no sonho que tivera, no quarto, cercada dos mesmos objetos.

Seu marido foi, efetivamente, uma das numerosas víti­mas da renhida batalha que se pelejou perto do rio de Boro­dino, que deu o seu nome a uma aldeia.

 

FREDERICO PASSY.

 

Este sonho premonitório, tão tràgicamente preciso, é certamente dos mais característicos.

Pode-se supor que fosse arranjado mais tarde no espírito da narradora? Não, pois a sua realização a ti­nha impressionado com inesquecível emoção, e três meses antes da realização ela e o morto haviam procurado o lugar no mapa da Rússia.

Apresenta todos os caracteres de autenticidade.

Fiz observar então que se a morte do general em Borodino (batalha da Moscowa) foi vista alguns meses antes, tal morte e tal batalha eram, pois inevitáveis. E, neste caso, que é feito do livre arbítrio? Napoleão devia, portanto, empreender fatalmente a campanha da Rússia e não era responsável por ela. A liberdade e a responsabilidade humanas não são mais que ilusão? Analisaremos daqui a pouco estas conseqüências seguramente perturbantes. Que pensar? O fatalismo pa­rece estar em desacordo com todos os progressos da Humanidade. Mas é erro pensar que o fatalismo e o determinismo sejam idênticos.

A este respeito, uma rapariga de Nápoles, a Srta. Vera Kunzler, dirigiu-me, em Abril de 1917, uma carta angustiosa sobre algumas frases minhas, concernentes a fatos incontestáveis da visão do futuro, suplicando-me que lhe explicasse como é possível conciliar estes fatos de observação, dos quais me declaro fiador, com o livre arbítrio, o nosso sentimento de liberdade e a nossa res­ponsabilidade. Ela insistia tanto porque estava sob a impressão duma emoção profunda, produzida por trágica predição que se havia realizado recentemente, na sua própria família.

Respondi-lhe que o fatalismo e o determinismo são duas doutrinas absolutamente diferentes uma da outra, e que convém não confundi-las, como geralmente se faz.

Na primeira, o homem é um ser passivo que aguarda os acontecimentos que são inevitáveis. Na segunda, pelo contrário, o homem é ativo e faz parte das causas que atuam. Não se vê o que deve acontecer, mas o que acon­tecerá. Ocorre sempre alguma coisa. E' essa coisa que vemos, sem que isso seja fatal. E' certo que a distinção é muito sutil; mas pareceu-me que a sua juvenil alma de dezessete anos, livre e pura de qualquer idéia pre­concebida, e duma finura que, na sua correspondência, me pareceu extremamente delicada, perceberia tal dis­tinção, prestando-lhe a atenção necessária. Pedi-lhe ao mesmo tempo que me desse a conhecer a predição rea­lizada e que tanto a havia perturbado. Eis a sua carta, transcrita textualmente.

 

 

Nápoles, 10 de Junho de 1917.

 

Caro grande Mestre:

 

Quanta alegria me deu a sua amável carta! Foi recebida com duplo agrado, primeiro pela sua procedência e segundo porque me trouxe um pouco de luz sobre as idéias que se agitavam no meu cérebro. Refleti longamente sobre essa carta e compreendi bem o que nela teve a bondade de me explicar: o que acontecerá pode ser visto, mas não é fatal. Experimentei um alivio imenso, pois acabrunhava-me a idéia de que não somos senhores de nada - nem mesmo de nossos pensamentos.

Deseja saber, caro Mestre, qual foi o acontecimento que me levou a crer na predestinação? Vou contá-lo o melhor que puder.

Era na primavera de 1910, há sete anos. Estávamos em relações muito intimas com uma senhora alemã, chamada Helena Schmid. Era médium de força extraordinária, e como minha mãe se interessava muito pelas sessões espíritas, pe­di-lhe um dia que realizasse uma dessas sessões.

Eu era então uma criança de dez anos e ia para a es­cola; por isso, não assisti a tal sessão; mas minha mãe e a nossa velha criada contaram-me muitas vezes a cena.

Bastou que Helena Schmid pousasse as mãos ligeira­mente na mesa para que ela logo balançasse com violência. Conheço caro Mestre, a maneira de comunicar com os es­píritos - se é que os há. Quando a mesa, grande e maciça mesa de sala de jantar, que a simples força muscular não teria conseguido erguer, bateram as pancadas regulamentares, anunciando a presença dum espírito, a mamã pediu que lhe dissesse o nome: pelas letras do alfabeto se revelou, dizen­do chamar-se Anton. A médium ignorava inteiramente tal nome e também não sabia de quem se tratava, quando ele foi chamado. Direi que se tratava de Anton Fiedler, aus­tríaco, o primeiro marido de minha tia, irmã de minha mãe, que havia desposado em segundas núpcias Adolfo Riesbeck. Helena Schmid desconhecia até a existência de toda esta gente. Como esse Anton Fiedler havia sido o parente mais próximo de minha tia, a mamã pensou em solicitar-lhe al­gumas revelações acerca do futuro dela. A primeira pergun­ta, que foi a seguinte: Riesbeck conservará sempre a sua fortuna? - o espírito respondeu redondamente: Não.

- Quantos anos levarão a perdê-la? A mesa bateu duas pancadas:

- Dois anos.

Minha mãe perguntou depois:

- Quanto tempo sobreviverá ele à perda de sua fortuna? A resposta foi nítida e precisa:

- Cinco anos!

A mamã desejou então saber como morreria, mas o espírito afirmou apenas que meu tio morreria repentinamente. As perguntas se morreria de doença, de desastre, suicídio, de naufrágio, ou vitima de um crime, ele respondeu

- Não.

Foi impossível saber qual seria a sua morte: ninguém pensava então numa guerra, motivo por que se não formulou tal interrogação. A única coisa que se conseguiu mais de Anton Fiedler, foi a resposta a esta pergunta:

- Quando falecer Riesbeck, que idade terá seu filho? E a mesa respondeu nitidamente

- 17 anos.

Em seguida, tudo acabou.

Caro Mestre, abstenho-me de qualquer comentário; rela­to simplesmente o que se deu. Minha mãe não contou tudo isto desde logo a minha tia, com receio de que o disse a seu marido. De resto, ele não acreditava em tal. Infelizmente, tudo quanto havia sido predito se realizou com a mais terrível exatidão: na primavera de 1912, isto é, exa­tamente dois anos após a profecia, meu tio Riesbeck perdeu a sua fortuna numa arriscada especulação na Bolsa; pouco tempo depois, a mamã prevenia minha tia, que se achava e ainda se acha em Genebra, da predição e contou-lhe a se­gunda parte da mesma.

Minha tia respondeu-lhe como o teria feito qualquer ou­tra pessoa no seu lugar: que essa predição não passava duma tolice que nenhuma atenção merecia.

Entretanto, também se realizou a segunda parte da pro­fecia: a mamã e eu conversávamos muitas vezes acerca da­quela sessão e eu dizia-lhe: Se o espírito falou verdade, meu tio morrerá no começo de 1917.

Pois, Mestre, Adolfo Riesbeck morreu no front em 12 de Fevereiro de 1917 com uma bala na cabeça, repentinamente, quando meu primo Mário completava os seus dezessete anos!

E esta morte que o espírito não pode precisar que não era produzida por doença, nem por desastre, nem por crime, era a morte na guerra, na qual ninguém pensava então.

Remeto-lhe, incluso, caro Mestre, um fragmento da carta que minha pobre tia nos escreveu, quando morreu seu marido. E' escrita em alemão, mas creio que conhece esta lín­gua e pedirei a minha mãe para assiná-la.

Espero que esta estranha predição leve um tributo modesto às suas pesquisas. Aguardo o grande prazer da lei­tura do livro que prometeu publicar depois da guerra, sobre a Previsão do futuro.

Sou feliz, caro Mestre, em saber que nem tudo é fatal, pois o pensamento que me atormentava era este: a morte de meu querido tio estava predestinada ao tempo em que nem havia sido ainda fundida a bala que teria de matá-lo.

Perdoe-me por ter abusado do seu precioso tempo. E' justamente por temer que seja importuna que muitas vezes me abstenho de escrever-lhe, como era meu desejo. Mas fui muito feliz com o ensejo de responder, por minha vez, a sua pergunta. Tudo quanto lhe disse é a absoluta verdade.

Cumprimento-o, Mestre, respeitosamente e caramente (palavra italiana que decerto compreenderá).

Sua afilhada da Sociedade astronômica de França,

VERA KUNZLEB.

 

Certifico que a narração de minha filha é exata em todos os seus pormenores.

 

VIUVA E. KUNZLER

 

 

Seria supérfluo para os nossos leitores acrescentar qualquer comentário a esta narração, que não deixará a menor dúvida acerca da sua completa sinceridade. Os sentimentos de angústia profunda e de infinita curiosi­dade expressos na primeira carta que me fora dirigida pela narradora, já me haviam convencido disto mesmo. Temos aí um exemplo típico da previsão do futuro.

Quanto ao seu acordo, em aparência paradoxal, com o determinismo, falaremos dele.

Estes fatos não podem, para o futuro, ser negados. Toda negativa seria prova flagrante de ignorância ou de outro estado d'alma, ainda menos desculpável.

A este respeito, como, a premonição do General Tout­schkoff e os meus comentários tivessem sido publicados pela La Revue de Março e Abril de 1912, Frederico Passy escreveu-me a seguinte carta:

 

 

Neuilly, 27 de Abril de 1912.

Meu caro Flammarion:

 

Sou dos que vacilam em acreditar na possibilidade das premonições de que fala nos seus artigos, porque me pare­cem à negação da liberdade que deixa de existir se os fatos são absolutamente determinados de antemão. Entretanto, já lhe forneci um desses fatos, que mencionou.

Devo dizer-lhe que encontrará um outro no livro do Sr. G. Lenotre, O Marqués de la Rouerie e a Conjuração Bretd de 1790-1793.

A Sra. de Sainte Aulaire, filha do Senhor de Noyau, um dos conjurados, anunciou certa manhã a seu pai, que não quis acreditá-la, que ia ser preso e levado a Paris perante o tribunal revolucionário, mas que conseguiria salvar-lhe a vida. O fato é atestado não só por ela - falecida muito mais tarde - mas por seu filho, o qual tinha então quinze anos, e que foi uma personagem importante na Restauração e no reinado de Luis Filipe (membro da Academia Francesa). Esta premonição (79) realizou-se pontualmente.

O senhor decidirá o que devemos pensar deste fato.

 

 

FREDERIC PASSY.

 

 

A questão da liberdade humana merece analisada.

Lemos sempre com verdadeiro prazer estético as obras do nosso grande geômetra Laplace, um dos maio­res e mais penetrantes espíritos de que a França se pode orgulhar e ao mesmo tempo um dos nossos mais puros escritores.

Eis o que ele escrevia acerca do livre arbítrio, no seu Ensino filosófico sobre as probabilidades (2° edi­ção, de 1814):

Todos os acontecimentos, mesmo aqueles que, pela sua pequenez, parecem não se relacionar com as grandes leis da Natureza, são seqüência tão necessária dessas leis como as revoluções do Sol. Devido à ignorância dos vínculos que os associam ao sistema inteiro do Universo, fizeram-nos depen­der das causas finais ou do acaso, segundo aconteciam ou se sucediam com regularidade, ou sem ordem aparente; mas estas causas imaginárias foram sucessivamente retardadas com os limites de nossos conhecimentos, e desaparecem por inteiro diante da sã filosofia, que não vê nelas senão a expressão da ignorância em que estamos das causas verdadeiras.

Os acontecimentos atuais têm, com os precedentes, uma conexão fecunda no princípio evidente de que uma coisa não pode existir sem causa que a produza. Este axioma, conhe­cido sob o nome de princípio da razão suficiente, estendo-se às ações, mesmo as mais indiferentes. A mais livre vontade não pode, sem motivo determinante, dar-lhe origem; porque, se dadas as circunstancias de serem exatamente as mesmas duas posições, ela atuasse numa, e deixasse de fazê-lo na outra, a sua escolha era um efeito sem causa: seria então, como diz Leibnitz, o acaso cego dos epicuristas. A opinião contrária é uma ilusão do espírito que se convence de que se determinou por si mesmo e sem motivos, perdendo de vis­ta ás razões fugitivas da escolha da vontade nas coisas indiferentes.

Devemos, pois, encarar o estado presente do Universo como o efeito do seu estado interno, e como a causa do que vai continuar. Uma inteligência que por um instante conhe­cesse todas as forças que animam a Natureza e a respectiva situação dos seres que a compõem se fosse bastante extensa para submeter estes dados ã análise, encerraria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do Universo e os do mais leve átomo: nada seria incerto para ela, e tanto o futuro como o passado seriam o presente a seus olhos. O espírito humano oferece um fraco esboço desta inteligência na perfeição que soube imprimir ã Astronomia (80).

Discutiremos em breve este raciocínio.

Costuma-se atribuir a Laplace a sua paternidade, mas todos os pensadores o haviam enunciado antes dele e nada mais natural: é quase La Palice. A primeira edição deste livro sobre as probabilidades é um curso de Laplace na Escola Normal, fundada pela Convenção, em 1795.

Ora, em 1787, Emmanuel Kant escrevia na sua Crí­tica da Razão prática: Sob o ponto de vista do tempo e da sua ordem regular, se pudéssemos penetrar a alma dum homem tal como se manifesta por atos tanto in­ternos quanto externos, conhecer todas as causas, mes­mo as mais leves, e levar em conta ao mesmo tempo todas as influências externas, poderíamos calcular a fu­tura conduta deste homem com a mesma certeza com que calcularíamos um eclipse da Lua ou do Sol (81).

Kant também não é o criador deste raciocínio. E' encontrado nos autores mais antigos, até nos Romanos, até em Cícero, por exemplo. No seu tratado sobre a Adivinhação (82), ele faz expor por seu irmão, Quín­tus, a conexão entre a visão do futuro e a fatalidade.

Para se dar conta da adivinhação, diz ele, é preciso remontar à Divindade, ao destino, à Natureza. A razão obriga-nos a confessar que tudo se governa pelo desti­no. Chamo destino ao que os gregos chamam uma or­dem, uma série de causas ligadas entre si, produzindo efeitos. Eis esta verdade perpétua cuja fonte está na própria eternidade. Depois disto, nada há no futuro cuja natureza não contenha já as causas eficientes. Deste modo, o destino seria a causa eterna de todas as coisas, causa que explica os fatos realizados, os fatos presentes e os fatos vindouros. E' assim que por meio da obser­vação se podem saber quais sejam, muitas vezes, as conseqüências de cada causa. E' sem dúvida este encadea­mento de causas e de efeitos que a inspiração e os sonhos revelam.

Acrescentaremos que, se pudesse existir um mortal capaz de conceber a conexão de todas as causas, sendo tudo regulado pelo destino, nunca erraria. Com efeito, aquele que conhecesse as causas dos acontecimentos não poderia deixar de conhecer todo o futuro.

Este raciocínio é impecável em si mesmo, e, repi­to-o, é quase uma verdade do Sr. de La Palice. Que não há efeitos sem causa, é evidente. Mas a conclusão da fatalidade ou do determinismo necessário, não tem a mesma evidência que esta reflexão de simples bom senso.

Apesar da minha profunda admiração por Laplace, nas obras de quem fui educado, confesso que não posso partilhar a sua negativa absoluta do livre arbítrio. Os meus leitores já sabem o que escrevi sobre este ponto escabroso, nas minhas Memórias.

A vontade mais livre não pode atuar sem motivo determinante. Sem dúvida.. Mas, entre as causas em ação na escolha, a nossa própria personalidade existe, e isto não é uma causa sem importância.

Dir-se-á que essa personalidade agiu de acordo com o motivo predominante e provém de causas anteriores. E' incontestável. Todavia, ela existe como o nosso caráter, e o que há talvez ainda nisto de mais capital, de mais irrecusável, é que nos sentimos muito bem, que examinamos, pesamos, discutimos conosco quando o caso vale a pena, e que decidimos, apreciando a nossa responsabilidade.

Há algumas vezes, creio-o, uma balança cujos pratos estão em perfeito equilíbrio e que vai pender sob o me­nor peso; mas, este pequeno peso pode ser a nossa fan­tasia, o nosso capricho, a nossa vontade, o nosso desejo de contrariar um efeito previsto, numa palavra, justamente o exercício da nossa liberdade. Ilusão do nosso espírito? Ninguém está autorizado a afirmar esta hipótese como verdade demonstrada. O princípio da razão suficiente está em nós mesmo, quando discutimos em nossa consciência.

Tomar uma decisão de acordo Com o motivo predo­minante não prova que não façamos uma escolha segun­do o nosso caráter. A nossa própria vontade está asso­ciada a esse caráter sem nada lhe escravizar. No seu Tratado do Céu, Aristóteles escreve (II 13): E' o caso de um homem esfomeado e sedento, mas achando-se a igual distância dum alimento e duma bebida: ficará imóvel forçosamente. O mesmo diz Dante, no 4° livro do Paraíso: cIntra duo Gibi, distanti e moventi. D'un modo prima si morria di fame. - che líber uomo t'un recasse à denti. Buridan passa por ter feito o mesmo raciocínio, pondo um asno no lugar do homem.

Ninguém duvida de que nem o homem nem o asno morrerão de fome. Não há só mecânica na Natureza.

 

*

 

Haverá incompatibilidade absoluta entre a previsão do futuro e o livre arbítrio? E' o que se diz geralmente e o que os escritores antigos afirmam com os modernos.

O autor da História da Adivinhação na Antiguidade, Bouché Leclercq, do Instituto, escreve que um futuro incerto dependente de vontades livres não se har­moniza com a idéia de leis fixas sugerida pelo espetáculo da ordem universal, e que o instinto popular, antecipando-se às teorias filosóficas, foi levado invencivelmente a considerar o futuro como inelutável (I, pá­gina 15); que o futuro só pode prever-se por ser ine­vitável (id., pág. 16); que há um conflito sem solução entre a presciência e a liberdade, e que uma suprime a outra (id., pág. 16). Sêxtus Empíricus demonstrou que devendo ser os acontecimentos vindouros, ou necessários ou fortuitos, ou produzidos por agentes livres, a adivinhação era inútil no primeiro caso e impossível nos dois outros (id). Pág.79

No Ensaio sobre o livre arbítrio, Schopenhauer escreve também: Se não admitimos a necessidade rigo­rosa de tudo quanto acontece em virtude duma casuali­dade que encadeia todos os acontecimentos sem exceção, toda previsão do futuro é impossível e inconcebível (pág. 124).

Evidentemente, acredita-se, em geral, que há incom­patibilidade, contradição insolúvel, entre a presciência e o livre arbítrio, porque se confunde presciência divi­na com necessidade. E' um erro.

Nas conversas de Goethe com Eckermann, podemos ler, com data de 13 de Outubro de 1825:

Que sabemos nós, com todo o nosso espírito, do ponto a que chegamos até agora?

O homem não nasceu para resolver o problema do mundo, mas para procurar dar-se conta da extensão do problema e manter-se depois no limite extremo do que pode conceber.

As suas faculdades não são capazes de medir os movimentos do Universo, e é trabalho inútil o de querer abranger o conjunto das coisas com a inteligência, quando ela tem apenas um ponto de vista restrito. A inte­ligência do homem e a inteligência da divindade são duas coisas muito diferentes.

Logo que concedemos ao homem a liberdade, aca­bamos com a onisciência de Deus; e se, por outro lado, Deus não ignora o que farei, não sou livre de fazer coisa diversa da que ele sabe. Cito este dilema apenas como um exemplo do pouco que sabemos, e para mos­trar que não é bom tocar nos segredos divinos.

Nestes termos, só devemos exprimir, entre as ver­dades mais elevadas, aquelas que podem servir ao bem do mundo. As outras, teremos de guardá-las conosco, mas, semelhantes aos doces clarões dum sol velado, elas podem espalhar e espalharão o seu brilho sobre o que fazemos.

Goethe não ousou prosseguir. Por quê? Examinemos. Os acontecimentos e as circunstâncias conduzem­-nos com mais amplitude do que, em geral, se pensa. Que cada um analise com atenção os atos de sua vida e reconhecê-lo-á sem custo. Nosso livre arbítrio limita-se a um quadro muito diminuto de atividade. O homem agita-se e Deus o conduz diz um antigo adágio. Não é inteiramente exato. Deus, ou o Destino, Fatum como lhe chamavam os latinos, deixa-nos alguma liberdade. O provérbio contrário do precedente - todo pro­vérbio tem um outro que lhe é oposto - diz por sua vez Deus ajuda os que trabalham.

Sim, o homem agita-se e os acontecimentos conduzem; mas somos, ao mesmo tempo, os obreiros de nosso próprio destino.

Em suma, a verdade não está na metafísica dos filósofos, dissertando sobre a fatalidade do destino, mas no bom senso vulgar e prático que se resume no adágio universal, nas cinco palavras que acabo de mencionar.

A minha explicação procura essencialmente manter­-se no domínio exclusivo dos fatos de observação posi­tiva, sem recorrer a nenhuma hipótese. Quando nos dizem que o nosso sentimento do livre arbítrio é uma ilusão, trata-se de afirmativa hipotética. Estou sentado à minha escrivaninha, pergunto a mim mesmo o que vou fazer, comparo, raciocino, e decido-me par isto ou por aquilo. Declaram-me que sou vítima de circunstâncias alheias à minha vontade. Sustento, pelo contrário, que, se não raciocinasse, deixaria correr os acontecimentos, e que a liberdade consiste justamente em escolher o que nos parece preferível. Isto não é absoluto, é relativo; somos constantemente contrariados em nossos projetos; há mesmo dias em que tudo corre mal; isto é muito im­perfeito, mas é a nossa sensação incontestável, e não temos o direito de suprimi-la, substituindo-a por uma hipótese. Ela é evidente como o dia. E' uma exteriori­dade, pode-se dizer: sim, uma exterioridade como o Sol, como uma paisagem, como uma árvore, como uma pol­trona, como uma casa, coisas que conhecemos pelas im­pressões que nos dão; mas esta aparência confunde-se com a realidade.

Há aí um fato de observação diária, constante, legítima, irrecusável.

Oh!      Certamente,    muitas vezes   somos passivos          e não tomamos nenhuma resolução radical. Objeta-se que, quando discutimos conosco e que nos decidimos, após madura reflexão, é sempre segundo o motivo predominante, de maneira que a nossa pretensa liberdade é com­parável a uma balança, da qual um dos pratos desce segundo os pesos que nele se puserem. E' incontestável que, quando raciocinamos pausadamente, pesando o pró e o contra, resolvemos a favor do que nos parece pre­ferível. Ora, é justamente nisto que intervém o nosso raciocínio, e nenhum sofisma suprimirá em nós esta con­vicção. Cremos mesmo que, no caso contrário, não se­rmos razoáveis, e, quando às vezes somos levados a agir em desacordo com as nossas opiniões, sentimos que a isso' somos relativamente obrigados.

Pelo que se refere à vontade arbitrária, a seguinte declaração que Juvenal põe na boca duma mulher im­periosa não será ainda o melhor argumento?

Sic volo; sic jubeo; sit pro ratione volantes.

Assim quero; assim o ordeno; a minha vontade é a minha única razão.

Porque assim nos apraz, diziam igualmente Luís XIV e Luís XV, com um orgulho que devia perder a realeza.

Replicar-me-ão, sem dúvida, que somos dotados de certa liberdade de ação, que podemos escolher resolver segundo o motivo preponderante; mas onde fica o livre arbítrio absoluto?

Não será cada um de nós levado segundo o seu temperamento, os seus gostos, as suas idéias, as suas preferências e também segundo as circunstâncias e a conexão dos acontecimentos? Como nos libertaremos des­ta escravidão?

Iniciamos as obras, grandes ou pequenas, sem sabermos aonde nos levarão. Que cada um examine a sua vida e verifique quanto é fraca a sua liberdade pessoal. Somos arrastados num turbilhão. O homem agita-se e o destino impele-o. Este destino é o espírito universal, do qual nada mais somos que minúsculas rodagens. Mas também somos espíritos.

Livre arbítrio absoluto? Não. Livre arbítrio relativo. A nossa liberdade é, sem contradição, muito menos extensa do que parece aos espíritos superficiais. A mar­cha cósmica do Universo conduz-nos.

Vivemos sob a influência do estado astronômico, e meteorológico, do calor, do frio, do clima, da eletricidade, da luz, do meio que nos cerca, das heranças an­cestrais, da nossa instrução, do nosso temperamento da nossa saúde, da potência da nossa vontade, etc., etc. A nossa liberdade é comparável à dum passageiro do navio que o leva da Europa para a América. A sua via­gem é antecipadamente traçada. A sua liberdade não vai além da amurada do navio. Pode passear sobre o tombadilho, conversar, ler, fumar, dormir, jogar, etc.; mas não pode sair da sua casa móvel. O esboço de nossa existência é traçado de antemão, como o movimento dos órgãos de qualquer máquina, e temos um papel a desempenhar, com certo jorro individual. Esta liber­dade condicionada é, certamente, muito estreita, mas ain­da assim existe.

Suponhamos que jantais em casa dum amigo Ofere­cem-vos certos pratos, preferireis vinho branco ou vinho tinto, Borgonha ou Bordéus, cerveja ou água pura e sabeis perfeitamente que podeis escolher à vontade, to­mando em linha de conta o vosso estômago e servindo­-vos de vossa razão.

Se observarmos com cuidado, num momento qual­quer, os nossos menores atos, verificamos que a nossa liberdade é em extremo limitada, que aquilo que resol­vemos fazer de manhã, ao acordar, vai ser dificultado por mil causas, mas que entretanto a nossa intenção principal se realizará mais ou menos, e que a nossa es­colha atuará.

O que se dá em grande, dá-se igualmente em pe­queno: os nossos atos mais importantes são determinados conjuntamente pelas circunstâncias e por nossa vontade.

Pode-se admitir a vista premonitória do futuro sem por isso comprometer o princípio do livre arbítrio e da responsabilidade humana. O presente nunca se detém: continua constantemente pelo futuro. Ocorre sempre qualquer coisa; nem por isso é fatal, visto a vontade humana tomar parte no encadeamento dos fatos e esta vontade gozarem duma liberdade relativa; o que ela resolve torna-se real, mas poderia não resolver nada; o futuro é a continuação do passado, e não há diferença essencial entre a vista de um e de outro. Este fato não impede absolutamente o admitir que a vontade humana seja uma das causas de ação nos acontecimentos. Poderia suceder outra coisa diversa da que sucede, e é esta ou­tra coisa que veríamos nas premonições.

O que acontece é o produto do encadeamento das causas, seja uma força vingativa que manda fuzilar ou guilhotinar os seus adversários, como se viu em 1793 e 1871, em Paris (e como se tem visto um pouco em toda a parte, em nosso lindo planeta), seja a ação dum filantropo que intervém no meio duma revolução para dirigir a sua marcha ou pôr termo aos seus excessos. O que sucede não impede a existência do bom e do mau, do tirano e da vítima, do justo e do injusto, do brutal e do ponderado, do inteligente e do idiota, do carnívoro e do pacifista, dos exploradores e dos explorados, dos ladrões e dos roubados.

Perceber, por processo qualquer, o que deve acon­tecer pela sucessão dos efeitos e das causas, é coisa que se pode conciliar com a existência de todas as causas atuantes, mesmo a liberdade.

O futuro não é mais misterioso que o passado. Se calculo hoje que o movimento da Lua em torno da Terra e o movimento da Terra em torno do Sol conduzirão o nosso globo e o seu satélite em linha reta (Sol-Lua­-Terra) com a França na passagem da sombra da Lua, em, 11 de Agosto de 1999, às dez horas e meia da ma­nhã, e que um eclipse total do Sol será observado ao norte de Paris durante dois minutos, não haverá mais mistério nesta predição do que no cálculo retrospectivo do eclipse total do Sol que passou sobre Perpignan, em 8 de Julho de 1842. Quando se deu este eclipse de 1842, que se tornou célebre pelas observações de Arago, na sua cidade natal, tinha eu quatro meses e onze dias; quando se der o de 11 de Agosto de 1999, terei morrido há muito tempo, o que não tem a mínima importância: o que é o futuro hoje para mim, para vós, para os vivos atuais, será para outros o presente e tornar-se-á depois o passado.

Há de objetar-se que a assimilação dos fatos astronômicos aos acontecimentos humanos não é integral, visto não existir nenhuma liberdade nos movimentos dos astros e ser aí absoluto o fatalismo. Mas pode-se responder que se o livre arbítrio é uma das causas atuan­tes, nem por isso deixam de produzirem-se os seus efeitos.

Que tudo o que acontece seja o resultado necessário das causas em ação, não há dúvida, mesmo os crimes mais abjetos, mesmo o incêndio de Roma, o martírio dos cristãos por Nero, a violação da Bélgica pelos ale­mães, o assassínio dos cidadãos, o incêndio de Lovaina, o bombardeamento da catedral de Reims e os morticínios vergonhosos da última guerra germânica. Mas cada ator faz parte das causas operosas e é parcialmente responsável. Os acontecimentos são uma série mecânica, mesmo a condenação de Joana d'Arc à fogueira pelo Bispo Cauchon, sob a acusação de feitiçaria, e a sua canonização, depois, por outros bispos; mesmo o químico Lavoisier, o astrônomo Bailly, o filósofo Condorcet, o poeta André Chénier, vítimas de ferozes e obcecados revolucionários. Tudo isto é motivado por causas determinantes, mas não é fatal, e poderia ter sido diferente o curso dos acontecimentos. Daí à conclusão de que não existem as responsabilidades há um abismo. O Impera­dor da Alemanha, desencadeando a guerra de 1914 e causando a morte de doze milhões de seres humanos, não se parece com S. Vicente de Paulo; nem um nem outro são autômatos, escravos do fatalismo (83)

Suprimir a liberdade seria suprimir toda a respon­sabilidade, todo o valor moral, igualar o mau ao bom, ao que se opõe a nossa certeza íntima. Neste caso, de­veríamos renunciar aos nossos pensamentos mais claros e evidentes.

Cada um de nós tem diante de si a sua sorte des­conhecida; mas, produzir-se-ão todos os acontecimentos, apesar do livre arbítrio mais ou menos desenvolvido de cada indivíduo, e mesmo por causa deste livre arbítrio. Na vida humana, todos os homens atuam, em diversos graus, e disso resultam as conseqüências.

Há loucos e ajuizados (talvez haja mesmo mais doi­dos do que gente de juízo; certamente, a razão não domina, sobretudo na direção dos Estados).

Apesar de termos diante de nós a nossa sorte des­conhecida, cada um de nós faz o seu destino: atuamos segundo as nossas faculdades, as nossas possibilidades, a nossa roda, a nossa hereditariedade, a nossa instrução, o nosso juízo, o nosso espírito, o nosso coração, e saben­do muito bem, aliás, que gozamos duma liberdade rela­tiva e que podemos tomar resoluções. Somos os autores da nossa sorte.

Por mais que fizermos, a hora de nossa morte já está marcada. Por quê? Porque os acontecimentos se­guir-nos-ão, incluindo os nossas caprichos, as nossas sugestões, as nossas fraquezas, as nossas imprudências, os nossos erros, e também tudo o que ocorrer em torno de nós. Procedemos naturalmente segundo as nossas pos­sibilidades e nossas mentalidades. Não se fará mentir um homem leal; não se tornará um avarento em gene­roso. A ação de cada um, limitada às suas faculdades, não deixa de existir, e há casos em que semanas e meses de reflexão são necessários para tomar uma decisão. Todavia, os atos encadeiam-se e a circunstância de per­cebê-los de antemão não impede este encadeamento.

Parece-me que o laborioso analista dos fenômenos psíquicos, Bozzano, definiu racionalmente também esta aparente antinomia, escrevendo: Nem livre arbítrio nem determinismo absolutos durante a existência encarnada do espírito, mas liberdade condicionada.

Podeis ainda objetar, talvez, que, se acontece o que deve necessariamente acontecer, é supérfluo atormentar­mo-nos para termos bom êxito em qualquer coisa, em trabalharmos para vencermos num concurso, em procu­rarmos um médico para um doente, em lutarmos contra a adversidade, etc. Esta objeção prova justamente a nossa ação na ordem das coisas. Por mais fatalista que penseis ser, ireis, com. mais ou menos pressa, procurar o médico, servir à pátria contra o invasor, chamar os bombeiros para apagar um incêndio, combater o fogo que uma faísca tiver ateado nos vossos papéis, no gabi­nete de trabalho, etc. Possuis uma razão, fazeis uso dela. Isto não demonstra, de modo algum, que careceis dela e que são autômatos.

A prova melhor que temos ainda da nossa liberdade, das nossas faculdades de livre escolha, de determinações conscientes, existe no sentimento íntimo, absoluto, de que os possuímos, e contra ele não pode prevalecer nenhum sofisma. Sentis muito bem que podeis fazer o gesto que mais vos agrade. Embora vos digam que o capricho de levantar o dedo, por exemplo, é precedido duma série de idéias anteriores, este capricho mesmo é real e provém unicamente do nosso espírito dotado de liberdade mental.

O futuro é determinado pelas circunstâncias, incluin­do a liberdade humana, incluindo mesmo os rancores dum animal maltratado injustamente, e mil influências particulares nas quais nem sequer se pensa.

A personalidade humana faz parte das causas em sua na marcha dos acontecimentos terrestres. Eis a solução do problema exposto por Cícero, Santo Agostinho, Laplace e seus êmulos.

 

*

 

Há aqui uma distinção muito sutil a fazer, para não confundir o encadeamento inevitável dos acontecimentos humanas com o fatalismo. O que acontece não é fatal, apesar de ser a seqüência necessária das causas. Um homem leva um murro, pelas costas, dum transeunte que passa apressadamente, no meio da multidão: podia não levá-lo,.ou por não ter saído de casa naquele dia, ou por não seguir naquela direção, e por até os seus agres­sor se não cruzar com ele. Os fatos ter-se-iam passados por outra forma e o acontecimento seria diferente: uma visão premonitória teria visto, da mesma forma, o que aconteceria, sem que esta vista anterior provasse por isso a ausência do Iivre arbítrio nos dois atores. Coope­ramos na marcha dos acontecimentos. E' falta de mo­déstia falar de si mesmo, mas são nisto que somos os melhores juizes e permitir-me-ei apresentar um exemplo. que conheço com exatidão: Há longos anos que me es­forço para difundir pelo mundo conhecimentos astronô­micos, e bastante tenho conseguido. Amigos ilustres da Ciência e do progresso trouxeram-me um concurso na fundação e na organização gradual da Sociedade Astronômica de França. Ninguém poderia apagar de meu espírito as diversas lutas que tive de sustentar e convencer-me de que não houve nisto um trabalho pes­soal; a este respeito, sei alguma coisa e todos os traba­lhadores, todos os organizadores estão no mesmo caso. A vontade não é uma palavra vã. Cada um pode fazer as mesmas considerações, pelo que lhe toca. Nós pra cedemos, e o futuro é feito das nossas ações consecutivas. Isto não é fatalismo. É, mesmo, o contrário. O fatalismo é a doutrina dos sonolentos, os fatalistas aguardam os acontecimentos, o que eles supõem que há­-de produzir-se, apesar de tudo. Ora, nós trabalhamos e cooperamos na marcha dos acontecimentos. Somos ativos e não passivos e nós mesmos construímos o edifício do futuro. Não se deve confundir determinismo com fatalismo. Este representa a inércia, o primeiro repre­senta a ação (84).

O fatalista é o oriental, o turco; o determinista é o europeu. Há um abismo entre as duas civilizações. Ver o futuro é ver simplesmente o que acontecerá. Não é prever, é ver. Na Astronomia, calculamos a ór­bita dum cometa, por exemplo, a órbita normal, teórica, a curva elíptica, parabólica ou hiperbólica, na espaço. Mas pode suceder que o cometa passe na vizinhança dum grande planeta e seja influído pela sua atração. Esta perturbação modificará o seu curso, e a nossa vis­ta do futuro sobre a posição do cometa não será exata e precisa, se não tomarmos em conta esta influência per­turbadora.

Todas as influências atuam nos acontecimentos. A do homem merece a mesma atenção que as perturbações planetárias, ainda que frua duma certa independência. Não é, pois impossível conciliar o nosso sentimento de liberdade com o conhecimento premonitório dos futu­ros acontecimentos.

Suponhamos um observador postado no cume duma serrania, ao pé da qual se alongue vasta planície. Ele vê um homem trilhar o caminho que o leva a uma loca­lidade, e adivinha que esse viajante vai tratar, no lugar mencionado, dum negócio qualquer. Em que contradiz a liberdade do indivíduo o fato de ver a sua ação?

O livre arbítrio do ator não está em contradição com a vista do observador, a visão antecipada dum aconte­cimento não influi sobre ele. Da montanha em que su­pomos estar, vemos, por exemplo, dois comboios corre­rem velozmente um. Contra outro, devido a um engano de agulha. Está iminente um desastre. A nossa vista, a nossa previsão nada têm com isso; o fato de ver é inteiramente estranho ao fato do acontecimento.

Ver os acontecimentos desenrolar-se no futuro como se vê os que se desenrolaram no passado não obsta a que as causas determinantes atuem, incluída a vonta­de humana. 

Nunca vos aconteceu, ao ler um romance, adivinhar exatamente o seguimento da história? E a maior habi­lidade do escritor não consistirá em dar uma tal apa­rência de verdade às suas personagens imaginárias e de interessar tão vivamente nisso o leitor que ele se impa­ciente por conhecer a seqüência?

Por exemplo, o príncipe dos contistas, Alexandre Dumas, ofereceu-nos a leitura de José Bálsamo, e da sua continuação, O Colar da Rainha. Percorrendo a lista das inúmeras produções desse autor, podeis notar o título da Condessa de Charny. Pois bem, sem ha­verdes lido este último romance, sem saberdes quem é essa condessa, lendo o capítulo XII d'O Colar da Rai­nha e o quadro que faz Maria Antonieta das belas qualidades do Sr. de Charny em presença de Andréa de Taverney, pálida e comovida, vereis, repentinamente, que a Srta de Taverney, apaixonada, virá a ser a Con­dessa de Charny. Adivinhastes o futuro.

Certas dissidentes poderiam observar-me que as per­sonagens de Alexandre Dumas são bonecos que ele ma­nobra segundo lhe convém e que a minha comparação nenhum valor terra, pois poderia ser interpretada para demonstrar justamente o contrário da minha tese e le­var-nos-ia a concluir que os homens e as mulheres, em vez de serem indivíduos livres, são apenas bonecos na mão do autor, chame ele de Deus, Destino ou Acaso.

Esta objeção não seria muito sólida. Alexandre Du­mas fez certamente o que quis, o que lhe agradou, o que lhe pareceu mais interessante para os seus leitores, e a sua imaginação pessoal teve o maior papel no arran­jo dos seus romances.

As suas personagens, imaginárias ou reais, Andréa de Taverney, o Condessa de Charry, o bailio de Suffren e seu sobrinho Charny, Maria Antonieta, o Cardeal de Rohan, representam na cena, segundo os caprichos do seu prodigioso talento de conteur. Conheci Alexandre Dumas, com sua gorda face e a sua cabeleira emara­nhada e vejo-o rir às gargalhadas, com o seu bom riso, se algum psicólogo da Escola viesse opor o grave deter­minismo às suas divertidas fantasias e declarar-lhe que foi forçado fatalmente a escrever o que imaginou.

 

*

 

Deste conjunto de considerações, podemos segundo me parece, tirar uma conclusão indiscutível. Os fatos de visão espontânea dos acontecimentos futuros são em tão grande número e de precisão tal, que a hipótese das coincidências fortuitas é hipótese sem valor e a rejeitar absolutamente. Esta vista subliminal não é duvidosa para os que estudaram suficientemente a questão. Atualmente, não tem explicação científica, mas não anula a li­berdade.

Apesar da aparência, e seja qual for o pensamen­to dos filósofos que não fizeram exame suficientemente aprofundado desta questão especial, a vista do futuro não está em contradição com a liberdade humana e o livre arbítrio, por mais extensão que lhe queiram dar e vê o que acontecerá, suprime-se o tempo, que, de resto, não existe em si, sendo resultado transitório dos movimentos do nosso planeia, pois, simplesmente uma aparência que se suprime. Vê-se o que acontecerá como ai pode ver o que aconteceu. Se à vontade, o capricho, as circunstâncias tivessem conduzido à outra coisa, seria assa outra coisa que se teria visto. O conhecimento do futuro não empenha nem a liberdade nem o conhecimen­to do passado.

No espaço absoluto, o tempo não existe. Se a Terra girasse duas vezes mais depressa, os dias seriam reduzi­dos à metade do que são. Estas medidas são relativas, são fundamentais (85). Não confundamos a sucessão dos acontecimentos, o que constitui o tempo para as nossas impressões humanas, com o absoluto. A Astro­nomia convida-nos a esta distinção. Olhai, de noite, por exemplo, Sírio, Vega e Aldebarã e vela não como justamente são, mas como não tornarão a ser, como foram: a primeira a oito anos, a segunda há vinte e cinco, a terceira há trinta e dois. O nosso presente atual coexiste com o passado delas. Vimos no céu, em 22 de Fevereiro de 1901, um incêndio sideral que se produziu cerca de 1551. Certas estrelas que observamos neste momento já não existem. O tempo atual de Júpiter e de Saturno não é o da Terra.

Os metafísicos costumam associar o espaço e o tem­po que, com efeito, têm certas relações entre si, e atri­buem-lhes propriedades comuns. E' um erro. O espaço existe em si. E' absoluto, infinito, eterno, mesmo no vácuo, pois o vácuo ainda é espaço puro. O tempo, pelo contrário, não existe em si. E' criado pelos movimentos dos astros e a sucessão das coisas. Se a Terra fosse imóvel, se os astros não fossem dotados de qualquer movimento, não haveria tempo; mas haveria sempre es­paço. No espaço absoluto, entre os mundos, o tempo não existe.

Ocupei-me mais duma vez desta questão, de cinqüenta anos a esta parte, com os nossos eminentes filósofos contemporâneos (86), e pude verificar que na sua maio­ria preferem sacrificar a possibilidade da previsão do futuro à liberdade. Não adivinharam que possa existir um acordo entre os dois. Espero que este acordo seja estabelecido aqui. De qualquer forma, não se devem não se podem negar fatos de observação. Voltemos a estes fatos.

Foi só em 1912 que se publicou uma tradução fran­cesa dos escritos do filósofo alemão Shopenhauer sobre o magnetismo animal e a magia, dados à luz por ele em Frankfurt, em 1836, assim como os relativos aos es­píritos e aos sonhos premonitórios aparecidos em Berlim, em 1851. Eis o que se pode ler nesta obra:

Os sonhos anunciam freqüentemente acontecimentos de importância, mas às vezes também coisas insignificantes, cuja realização não deixa de merecer a atenção do pensador.

Convenci-me disto por uma experiência irrecusável. Quero comunicar esta experiência, porque ela põe ao mesmo tempo em plena luz a rigorosa necessidade do que acontece, mesmo do que é mais acidental.

Certa manhã escrevia, com grande atenção, longa e mui­to importante carta de negócios, em inglês. Chegado ao fim da terceira página, tomei, em vez do areeiro, o tinteiro, e derramei-o sobre a carta; a tinta escorreu da escrivaninha para o soalho. A criada, acudindo ao toque da campainha, tomou um balde d'água e pôs-se a lavar o soalho para tirar as manchas. Enquanto procedia a esta operação, disse-me:

- Sonhei esta noite que tirava manchas de tinta deste sito, esfregando o soalho.

- Isso não é verdade - respondi-lhe.

- E verdade, sim senhor, e já o contei à outra criada que dorme comigo.

Chega, por acaso, esta outra criada, de dezessete anos talvez, para chamar a que lavava o soalho. Dirigi-me a ela e perguntei-lhe

- Que foi que ela sonhou esta noite? Resposta:

- Não sei. Eu acudi

- Entretanto, ela contou-te o sonho, ao despertar. A rapariga então exclamou

- Ah sim, ela havia sonhado que tiraria uma grande mancha de tinta deste soalho.

Esta história, cuja autenticidade absoluta garanto, põe fora de dúvida à realidade destas espécies de sonhos. Não é menos digna de atenção pelo fato de tratar-se aqui dum ato que se pode qualificar de involuntário, pois que se pro­duziu inteiramente contra minha vontade, em conseqüência duma insignificante inadvertência da minha mão. E entre­tanto, este ato era tão necessário e tão inevitàvelmente de­terminado que, muitas horas antes, o seu efeito existia, no estado de sonho, na consciência dum outro. E' aqui que apa­rece claramente a verdade da minha proposição: tudo quanto acontece, acontece necessàriamente (87).

Não seria classificada esta narrativa no número dos meus documentos positivos, deixando-a na categoria dos duvidosos (pela suspeição que merece o testemunho dos criados, visto muitos sentirem um verdadeiro prazer em enganar os seus patrões), se Schopenhauer não fosse o autor e não o tivesse apresentado em apoio de suas con­vicções sobre a Necessidade. Declara-se convencido da veracidade das suas duas criadas, e para ele a realidade do sonho premonitório não oferece dúvida alguma.

Mas erra na interpretação. Não era obrigado a en­tornar o tinteiro. Viu-se o fato, porque aconteceu. Esta história da criada do filósofo alemão lembra­-me a duma outra criada, contada na revista Ueber­ainnliche Welt, de Berlim, de Agosto de 1904, que teve visão análoga.

O Sr. Buchberger, Conselheiro de Justiça, achava-se em Obermais. Uma manhã, pelas cinco horas, teve um sonho que lhe mostrou a sua casa de Olmutz e a sua criada com os vestidos em chamas, sobre os quais alguém lançava um jacto de água; depois viu o corpo da infeliz, cuja pele, entretanto, estava branca.

Pouco tempo depois, o Sr. Buchberger voltou para casa, e, ao chegar, sua mulher contou-lhe que a criada morrera, em conseqüência de queimaduras. No mesmo dia em que ele teve o sonho, mas pelas 10 horas da manhã, como a criada quisesse aquecer um verniz, este inflamara, pegando-lhe fogo ao vestuário. Socorrida quando corria no quarto, lançada só chão, conseguiu-se apagar o lume com água; mas, levada ao hospital, morria alguns dias depois.

Deve-se observar que este sonho ocorreu pelas 5 horas da manhã, ao passo que o desastre aconteceu às 10 horas. Sensivelmente, o caso de Schopenhauer.

A narração é assinada pelo Sr. Buchberger, Conse­lheiro de Justiça, em Graz-Rucherlberg.

O fato capital que deve chamar a nossa atenção e tomar aos nossos olhos o caráter da certeza é simples­mente a afirmação paradoxal de que o futuro, que ainda não existe e que se originará do encadeamento duma série de pequenas causas consecutivas, pode, entretanto ver-se como se estivesse já realizado.

Não é somente nos sonhos premonitórios que pode ser visto o futuro, mas também em certos estados difíceis de definir. Um dos exemplos mais curiosos desta visão precisa do futuro, que conheço, é a observação relatada pelo meu sábio colega do Instituto Metapsíqui­co, o Dr. Geley, cujos trabalhos são bem conhecidos de meus leitores. Ei-lo textualmente (88):

Em 27 de Junho de 1894, pelas nove horas da manhã, o Dr. Gallet, então estudante de!Medicina em Lião, traba­lhava no seu quarto, em companhia dum camarada de estu­dos, atualmente o Dr. Varay, médico também em Annecy.

Gallet estava então muito ocupado e preocupado com a preparação do exame próximo: primeiro exame de doutoran­do, e não pensava senão nele.

Particularmente, não se interessava em absoluto pela política, olhava distraidamente os jornais, e só incidentalmente havia conversado, nos dias precedentes, sobre a eleição do presidente da República que se devia realizar naquele dia o congresso eleitoral reunir-se-ia pelas 12 horas, em Ver­salhes.

De repente, Gallet, entregue ao seu trabalho, foi impe­riosamente distraído por um pensamento importuno. Uma frase inesperada impunha-se ao seu espírito com força tal, que não pode deixar de escrevê-la imediatamente no seu ca­derno. Esta frase era, textualmente: C Sr. Casimir Périer é eleito Presidente da República por 451 votos.

Isto se passava, repito-o, antes da reunião do Congresso. Observar-se-á que, entretanto - fato curioso - a frase de que o Dr. Gallet conserva a lembrança mais nítida, indica o presente e não o futuro.

Gallet, atônito, exclama ao seu camarada, Varay, e apresenta o papel no qual acabava de escrever.

Varay leu, encolheu os ombros e, como o seu amigo in­sistia muito interessado, declarando que acreditava na pre­monição, pediu-lhe, com certa dureza, que o deixasse traba­lhar sossegado.

Depois do almoço, Gallet saiu para assistir às aulas, na Faculdade. No caminho, encontrou dois outros estudantes, os Srs. Bouchet, atualmente médico em Cruseilles (Alta Sabóia), e Deborne, ao presente farmacêutico em Thonon. Anunciou­-lhes que Casimir Périer seria eleito por 451 votos. Apesar dos risos e das mofas dos seus camaradas, continuou a afir­mar, por diversas vezes, a sua convicção.

Ao sair da Faculdade, os quatro amigos juntaram-se e foram tomar refrescos num café vizinho.

Nesse momento, chegaram os vendedores de edições es­peciais de jornais, anunciando o resultado da eleição presi­dencial e gritando:

- O Sr. Casromir Périer foro eleito por 451 votos.

Poderíamos, certamente, acreditar na palavra do Dr. Geley, mas ele entendeu que devia comprovar a fideli­dade da sua narrativa com confirmações irrecusáveis e atestados de testemunhas:

1° Atestado do Dr. Varay, antigo interno dos hos­pitais de Lião;

2° Atestado do Sr. Deborne, farmacêutico em Tho­non;

3° Atestado do Dr. Bouchet, médico em Cruseilles. Ninguém pode, pois, contestar este fato.

Deve-se observar que a eleição de Casimir Périer, que só teve uma maioria de 28 votos (89), foi inespera­da, e que se contava mais com a eleição do Sr. Brisson ou a do Senhor        Dupuy.

Ver aqui também uma simples coincidência fortuita seria ir além, certamente, dos limites dum cepticismo razoável. Estes fatos fortificam-se uns com os outros. Se houvesse apenas um, insulado, perdido na soma das possibilidades, poderia duvidar-se. Mas um numero tal como o que estabelecemos aqui deixa nos espíritos a certeza absoluta da realidade dessas previsões, por mais inexplicáveis que sejam, no estado atual da Ciência.

Neste caso, também o vidente involuntário viu o que aconteceria; mas a eleição de Casimir Périer não era fatal, por tal circunstância. Cada um dos 845 votantes concorreu certamente para isso muito mais do que Scho­penhauer, entornando o seu tinteiro; cada um agiu se­gundo o seu critério. Este exemplo é típico contra a fatalidade.

Continuemos o nosso livre exame.

O Sr. César de Vesme, o erudito diretor dos Anais de Ciências Psíquicas, comunicou-me, em 1901, a se­guinte extraordinária predição

Nos primeiros dias do ano 1865, um certo Vicent Sassa­róli foi residir para Sarteano, povoação de 6.000 habitantes. Nesse pais existia excelente banda de música composta de 34 executantes, de que era presidente o Sr. Joseph Frontíni, o qual, tendo de exilar-se por causa da política, convi­dou-o a encarregar-se da sua direção.

O Sr. Sassaróli aceitou o oferecimento, sendo imedia­tamente apresentado aos músicos na sala em que se faziam os ensaios, no terceiro andar de uma casa que pertencia ao Cônego D. Bacheríni. Em seguida ao ensaio e na presença de toda a assistência, anunciou ao Sr. Frontíni que a sala onde se encontravam abateria juntamente com o edifício, das águas-furtadas ao rés-do-chão. Acrescentou que lhe pa­recia ver os escombros da casa sepultarem e esmagarem todos os assistentes e até ele próprio.

A estas palavras, entreolharam-se, espantados, todos os presentes, perguntando-se se o novo diretor gracejava ou se não estaria maluco. O Sr. Sassaróli, imperturbável, insistiu, precisando mesmo o dia e a hora em que se daria a ca­tástrofe.

Ante tais afirmativas, os assistentes não duvidaram mais do estado mental do professor. Toda a gente se retirou, troçando-o.

Como é natural, esta esquisita história espalhou-se por toda a região, fazendo rir às gargalhadas.

O Sr. Frontíni então, vendo que Sassaróli tinha caído no ridículo e persuadido igualmente que a sua idéia fixa o arrastaria à loucura, fez quanto estava em sua mão para chamá-lo à realidade. De acordo com o Cônego Joseph Bache­rini, mandou examinar cuidadosamente, por arquitetos com­petentes, o edifício, desde o teto até os alicerces, afirmando eles que a casa não apresentava o menor indício de dete­rioração. Escudado por essa opinião, o Sr. Frontíni procurou Sassaróli e aconselhou-o a não insistir na sua louca predi­ção, desejando-lhe uma vida tão longa como a da sólida cons­trução de que se tratava. Foi trabalho perdido, porque o Sr. Sassaróli redargüiu que não podia aceitar tal voto, pois se o fizesse não teria mais do que quatro dias de existência.

Uma tal obstinação só serviu para radicar as suspeitas da loucura do maestro. Começaram então a vigiá-lo com o receio de que, de um para outro instante, praticasse qual­quer tolice.

Nos cafés, nas reuniões, não se falava senão dessa par­lapatice que divertia toda a região.

Enfim, chegou o momento. À noite, como tivessem de repetir os ensaios, os músicos reuniram-se, conforme o ha­bito, na sala, e, enquanto esperavam o diretor, fartaram-se de troçá-lo. O Sr. Sassaróli não se fez demorar, mas não quis ouvir falar de trabalho nessa noite, de tal forma se sen­tia agitado ã medida que a hora se aproximava. Tanto fiz que conseguisse que todos os assistentes saíssem. Descendo as escadas assentes sobre arcos maciços, o Sr. Sassaróli, que havia tomado a dianteira, não cessava de recomendar:

- De vagar, desçam de vagar porque o nosso peso po­deria apressar o desastre.

Calculem-se as zombarias, os motejos, as gargalhadas dessas 34 pessoas persuadidas de que seguiam um louco e de que se prestava a uma comédia, descendo uns após ou­tros a longa fila de degraus. Por fim, encontraram-se na rua. Alguns instantes depois, e precisamente ã hora anun­ciada, a casa derrui de alto a baixo.

Podem calcular a impressão que esse acontecimento produziu em toda a parte.

O relatório donde extraímos esta breve narrativa foi escrito pelo Sr. Joseph Frontíni, cujo pai, presidente da Municipalidade, foi um dos primeiros a felicitar o Sr. Sassaróli no dia seguinte ao da catástrofe.

Além disso, três testemunhos: 1° de todos os mem­bros da família onde residia o Sr. Sassaróli; 2° do guar­da do Teatro e 3° da família que habitava a casa contí­gua ao teatro, certificam o fato.

Em boa verdade, como duvidar-se ainda diante desse acontecimento tão absolutamente afirmativo? Não seria

o caso de aplicar-se aos incrédulos a, estigmatizarão bí­blica: Oeulos habent et non vident; sores habent et non audinnt? Eles têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem. r Negar, negar sempre, negar apesar de tudo, que é que isso prova?

Pois bem! Não nos mostremos satisfeitos; não é ain­da suficiente para o nosso caso. Eis outros exemplos. Um deles, o mais estupendo de clarividência que eu co­nheço um dos mais estranhos e dos mais característi­cos, devido à lucidez magnética, é o que foi relatado pelo Dr. Alphonse Teste no seu Manual prático do magnetismo universal. Essa obra não é de hoje, foi publicada em 1841; mas não vale menos por isso, por­que, como diz Molière, o tempo nada vale para o caso. E' este o acontecimento verdadeiramente fantástico:

No dia 8 de Maio último, numa sexta-feira, eu magneti­zava a Sra. Hortence M. Nesse dia, aquela senhora estava de admirável lucidez. Encontrava-me só com ela e o marido. Parecia-me preocupada, sobretudo com o seu futuro pessoal. Entre outras coisas inesperadas, disse-nos o seguinte:

- Estou grávida de 15 dias; mas não chegarei ao termo e isso me causa um desgosto inigualável. Terça-feira próxi­ma, 12 do corrente, qualquer coisa me causará medo; e le­varei uma queda de que resultará um aborto.

Confesso que, apesar de tudo o que já tinha visto, um dos pontos dessa profecia me revoltou.

- Medo de que, minha senhora? - perguntei com uma expressão de interesse que estava longe de ser simulada. - Não sei.

- Onde lhe sucederá isso? Onde sofrerá a queda?

- Não o posso explicar; não sei absolutamente nada. - E não haverá qualquer meio de evitar tal coisa? - Nenhum.

- E se nós, no entanto, não a abandonássemos? - Seria o mesmo.

- Ficará bastante doente? - Sim, durante três dias. - Pode dizer-nos ao certo o que sentirã?

- Terça-feira, pelas 3 horas e meia, logo depois dum susto, sentirei um desfalecimento de alguns minutos. Assal­tar-me-ão a seguir violentas dores nos rins que durarão 0 dia todo e se prolongarão pela noite dentro. Quarta-feira de manhã terei uma hemorragia. A perda sanguínea aumen­tará rapidamente, tornando-se muito abundante. Não have­rá, contudo, motivo para receios, porque não morrerei disso. Quinta-feira de manhã sentir-me-ei muito melhor, poderei mesmo levantar-me quase todo o dia, mas ã tarde, aí pelas 5 horas e meia, terei nova hemorragia, seguida de delírio. A noite de quinta para sexta-feira será boa; mas na sexta­-feira à tarde perderei a razão.

A Sra. Hortence H. calou-se e, sem, todavia acreditar­mos em tudo quanto nos disse, sentíamo-nos de tal forma impressionados que não pensamos mais em prosseguir o in­terrogatório. Entretanto, seu marido, profundamente emocio­nado, perguntou-lhe, com indescritível ansiedade, se ela se conservaria louca por muito tempo.

- Três dias - respondeu perfeitamente calma.

Em seguida, acrescentou com doçura cheia de graça:

- Vamos! Não vale a pena afligir-te; não ficarei lou­ca nem morrerei. Apenas sofrerei, mais nada.

Acordamos a Sra. Hortence, e, como sempre sucede não se recordou de coisa alguma. Ficando só com o marido, re­comendei-lhe expressamente que guardasse segredo, sobretu­do com sua esposa, a propósito dos acontecimentos que, em­bora quiméricos, poderiam concorrer para a oprimir, se deles tivesse conhecimento. Principalmente no interesse da Ciência, tornava-se importante que ela os ignorasse. O Sr. H. prometeu calar-se. Possuía suficientes provas do seu caráter para saber que cumpriria a sua palavra. No que me dizia respeito, tinha escrupulosamente tomado apontamentos de todas as circunstancia preditas e delas tive ocasião, no dia seguinte, de dar parte ao Dr. Amadeu Latour.

Ao chegar à terça-feira fatal, só uma coisa me preocu­pava: o medo da Sra. Hortence.

Quando entrei em sua casa, ela almoçava com o marido e pareceu-me muito bem disposta.

- Meus bons amigos - disse-lhes ao entrar -, hoje ficarão convosco, se isso os não contraria.

- Com o maior prazer - respondeu-me a Sra. Horten­ce -; mas, com uma condição. E' que o senhor não falará demasiadamente de magnetismo.

- Não falarei mesmo nada, se consentir, no entanto, em adormecer durante dez minutos.

A Sra. Hortence concordou, e, algum tempo depois do almoço, adormeci-a.

- Minha senhora, como se sente?

- Muito bem, mas não por muito tempo. - Ora essa! Por quê?

Ela repetiu a frase sacramental de sexta-feira, a saber: que entre as três e as quatro horas, teria medo de qualquer coisa e levaria uma queda, da qual lhe resultaria uma hemor­ragia.

- Que é que lhe provocará medo? - Não o sei dizer.

- No entanto... Tente...

- Não, não sei absolutamente nada.

- Onde se encontra o objeto que lhe causará medo? - Não sei.

- Não há nenhum meio de se subtrair a essa fatalidade? - Nenhum.

- Esta tarde tenho a certeza de provar-lhe o contrário. - Esta tarde, doutor, o senhor estará inquieto pelo es­tado da minha saúde, porque me encontrarei muito doente. Diante disto não tinha que responder. Era necessário esperar; foi o que fiz.

Depois de despertada, a Sra. Hortence não se recordou de coisa alguma; o rosto, atemorizado pelas visões do seu sono, retomou a serenidade habitual. Conversou e gracejou como antes de adormecer, sem qualquer idéia preconcebida, recomeçando com os seus ditos espirituosos tão naturais em si, e que, como ninguém, sabe empregar. Eu é que me sentia numa situação de espírito que não saberei descrever; per­dia-me em conjunturas e hipóteses que por momentos aba­lavam a minha fé: duvidava de tudo; cheguei a duvidar de mim mesmo. Decididos, como estávamos a não a abandonar um segundo, observávamos os seus menores movimentos com atenção, chegando a fechar hermèticamente às portadas das janelas, com receio de que qualquer incidente passado na rua, ou nas casas próximas, concorresse para realizar a profecia. Tocaram à campainha; um de nós foi ver quem batia.

Pouco depois das 3 horas e meia da tarde, a Sra. Hor­tence, que estava espantada com os cuidados de que era objeto e não compreendia a causa das nossas precauções, disse-nos, erguendo-se da cadeira em que a tínhamos feito sentar:

- Os senhores permitem que me esquive um momento a esta incompreensível solicitude?

- Aonde vais? - exclamei com um ar de inquietação que não consegui dissimular.

- Por amor de Deus, doutor, julga acaso que eu tenho idéias de suicidar-me?

- Certamente não, mas... - Diga; o quê?

- O que? Na verdade, sou indiscreto, mas é que a sua saúde interessa-me.

- Nesse caso, doutor - exclamou ela, sorrindo - mais uma razão para me deixar sair...

Calei-me. O motivo era tão natural que não insisti. En­tretanto, o meu amigo quis ir até ao fim e disse à esposa: - Dás-me licença que te acompanhe?

- Com que, então, é uma aposta?

- Precisamente; é uma aposta que fizemos os dois e estou certo de que a ganharei embora a senhora faça o pos­sível por que eu a perca.

A Sra. Hortence olhou-nos intrigada. E, aceitando o bra­ço do marido, saiu da sala, rindo com gosto.

Eu também ria, apesar de experimentar não sei que pressentimento que me dizia que o momento decisivo tinha chegado.

De tal forma essa idéia me preocupava que eu não pen­sava mesmo em voltar à sala e fiquei como de guarda à entrada da porta, onde não era precisamente o meu lugar.

De repente, ouviu-se um grito agudo, seguido do ruído da queda de um corpo no soalho. Subi as escadas a correr. A porta da retraite, o meu amigo segurava nos braços a es­posa desfalecida.

Tinha sido ela realmente que havia gritado e o ruído que ouvira fora motivado pela queda. Precisamente no momento em que deixava o braço do marido para entrar na retratite, um rato, onde há vinte anos não se tinha visto um único, surgiu de repente, causando-lhe um terror tão vivo e tão sú­bito que caiu desamparadamente, sem que seu marido tivesse tempo de segurá-la. Tudo se passou depois como fora pre­visto. Diante de semelhantes fatos, quem ousará, acrescen­tou o Dr. Teste, opor limites ao possível e definir a vida humana?

Não se pode pôr em dúvida a veracidade com que o autor fala.

De tal forma ficou impressionado por essa pasmosa clarividência, que não podemos deixar de nos sentir impressionado também. Negar tudo, como tantas vezes sucede, seria negar toda a história da Humanidade.

Não tinha razão em afirmar que era este um dos casos mais extraordinários de toda a série que estuda­mos neste momento e cuja variedade tão rica é? Aqui, a objeção banal do acaso fica sem aplicação possível. Quando muito, poder-se-ia supor que a imaginação doen­te da narradora produziu isso tudo por auto-sugestão subconsciente e que foi ela quem criou e viu o que lhe ia acontecer; mas é uma hipótese insustentável!

Hipótese, além disso, diametralmente oposta ao caso precedente da derrocada do teatro e aos seguintes.

Não se deve, certamente, aceitar sem prevenção as narrativas de pessoas que afirmam ter previsto aconte­cimentos extraordinários: há, no entanto, testemunhos que se não podem pôr em dúvida; está neste caso o do meu amigo, Coronel de Rochas, que nos referiu um fato, aliás, banal, mas bastante curioso acontecido ao nosso célebre cirurgião, Barão Larrey, que lho contou. Numa só noite sonhou com quatro números da loteria. No dia seguinte, como tivesse pressa de fazer as suas visitas, pediu a Sra. Larrey para comprar os bilhetes com esses números. Qual não foi, porém, a sua contrariedade, quan­do regressou a casa, ao saber que os números haviam sido premiados - e que o seu pedido fora esquecido!

E' inaceitável atribuir esta coincidência ao acaso; o jogador tinha 2.555.189 probabilidades contra si. Um número vá; dois ainda passam; mas quatro! Sabemos hoje que o futuro pode ser previsto.

Este fato é tão interessante como os precedentes. Eu conheci o Barão Larrey, homem de sociedade e tão distinto como sábio leal. O seu testemunho é o de uma pessoa honesta.

Notemos, a este propósito, que os exemplos que eu aqui submeto à atenção imparcial dos meus leitores têm as mais diversas origens. Não se trata apenas de so­nhos premonitórios, de profecias no estado sonambúlicos, de cartomancia ou de quaisquer outras séries especiais. Todas as formas de atividade cerebral estão representadas, como todas as situações sociais e todos os países. Não se poderia, pois, objetar com al­guma influência sugestiva de qualquer gênero que seja. Continuemos o nosso estudo.

Um dos exemplos mais trágicos de sonhos premo­nitórios de mortes, que conheço, é o do Dr. Sermyn sobre a morte de seu próprio filho. Ouçamos a sua nar­rativa pessoal (90)

O meu primeiro filho entrava no seu quarto ano de existência. Eu sentia por ele uma afeição particular, que não senti nunca por nenhum dos meus outros filhos. O seu olhar e o seu sorriso pareciam-me possuir uma expressão Angélica e tinha a impressão de que a sua inteligência era ex­cepcional para a sua idade. Era a minha alegria e a minha consolação. O simples pensamento de que o ia ver e falar­-lhe, quando entrasse em casa, enchia-me de alegria. Esque­cia então todas as minhas fadigas e todos os meus cuidados.

Uma noite, vi em sonho que conservava a criança entre os meus braços, diante do fogão aceso. De repente, não sei como, ela resvalou-me dos braços e caiu no meio das laba­redas. Em vez de me apressar a retirá-lo do fogão, deixei-o ficar. O que me forçava a proceder desta maneira era o ra­ciocínio que a mim próprio fazia: se o tiro do fogo morrerá dentro de alguns dias, no meio de sofrimentos atrozes, em conseqüência das suas queimaduras; se o deixo ficar, mor­rerá depressa, num minuto, talvez. Em todo o caso, não sofrerá por muito tempo.

Estranho, estúpido raciocínio este, mas, no meu sonho, esta idéia pareceu-me luminosa e o ato que praticava um dever.

Fechando as grades do fogão, eu ouvia, com angústia inexprimível, a criança agitar-se lá dentro, assando ao fogo. Oh! Deus meu, exclamava, fazei que morra depressa; eu não posso ouvi-lo sofrer assim!

Despertei em sobressalto; um suor frio inundava-me a fronte; o coração batia descompassadamente. Ergui-me a meio na cama e murmurei: Deus louvado! Não foi mais que um sonho!

Corri ao quarto do meu filho, que dormia tranquila­mente. A respiração era regular, a epiderme fresca. Era em vão, entretanto, que eu procurava sossegar. De nada valia eu dizer comigo mesmo: Imbecil, estúpido; trata-se apenas de um sonho; teu filho goza esplêndida saúde. Volta a deitar-te, dorme - dizia-me a voz da razão. Voltei para a cama, sem, contudo poder dominar a minha inquietação nem conseguir desembaraçar-me do mau pressentimento. A primeira coisa que fiz, ao levantar-me de manhã, foi exami­nar meu filho. Ele tagarelava, ria, parecia vender saúde.

Vai à tua vida - parecia dizer a voz escarninha do meu eu -; a criança não tem nada, o teu sonho é absur­do. Com que então, arremessa-se uma criança ao fogo, qual bacorinho, e, para que morra mais depressa, fecham-se as grades da estufa?

Como adivinhar que a minha mentalidade subconsciente, passiva, que se calava, mas que me atormentava, estava den­tro da verdade, sabia o que ia suceder?

A criança acordara de manhã, alegre, satisfeita como de ordinário. Almoçou com esplêndido apetite. Eu saí tranqüilo. Regressei a casa por volta do meio-dia. Meu filho estava deitado num canapé, amorrinhado. O pulso batia apressado, a pele queimava, a respiração era agitada. Senti-me inquieto. Minha mulher, que o adivinhou, fez várias perguntas a que respondi, procurando serenar e fazendo esforços para ocultar a minha inquietação. Auscultei cuidadosamente o meu filho, verificando a existência de catarro generalizado nos dois pulmões, e nas bases como que uma crepitação mui­to leve. Não pude impedir-me de exclamar:

- E' grave! E' muito grave! Julgo que meu filho está perdido.

Nessa ocasião, passava, a cavalo, um médico das nossas relações. Minha mulher precipitou-se para janela e chamou-o. - Doutor - exclamou ela assim que ele entrou -, peço­-lhe para examinar o meu filho que está doente. Meu marido diz que ele está perdido.

O Dr. W. estava então no galarim. Era apreciável con­versador, suficientemente espirituoso. E no que respeita aos médicos novos, não se mostrava muito amável com eles, pa­recendo não os ter em grande estima.

Examinou a criança, sorrindo.

- Desde quando está ele doente?

- Apenas há, uma hora, doutor - exclamou minha mu­lher -; ainda esta manhã estava perfeitamente bem.

- E este senhor julga então que está perdido? - res­pondeu ele, voltando-se para mim. - Ah! Estes médicos no­vos! Vejamos - retomou ele, dirigindo-se-me -, o senhor não pode ter uma razão séria para alarmar a tal porto esta mãe. Há apenas uma hora que a criança adoeceu, e já for­mulou o seu diagnóstico e o seu prognóstico? Isso não é razoável. Sossegue, minha senhora -- ajuntou, dirigindo-se a minha mulher -; deite seu filho na cama, de lhe bebidas quentes, cubra-o, e faça o possível para que transpire. Vol­tarei logo.

Eu compreendia perfeitamente o absurdo da minha con­duta e como deveria parecer ridículo aos olhos desse médico célebre. Mas podia eu confessar que procedia, assim, sob a influencia de um sonho? Ter-me-ia tomado por louco. Curvei a cabeça sem responder às justas censuras que me fazia; mas, no momento em que o doutor se retirava, exclamei:

- Peço-lhe, por favor, doutor, que se não esqueça de voltar logo!

Seria o som da minha voz que o impressionava? O certo é que se deteve, fixou os olhos em mim durante alguns se­gundos e dirigiu-se lentamente para o doente, que examinou com mais atenção que da primeira vez.

Certamente, dissera consigo: Aqui está um pai, médico, que parece extremamente inquieto com o estado do filho; terá ele descoberto algum sintoma aterrador que me tenha a mim escapado?

Depois do exame feito, declarou:

- Ouve-se perfeitamente, aqui e ali, nos dois pulmões, certo estertor que lhe pareceu, decerto, que uma grave bronca-pneumonia estava em vias de declarar-se. Não nos podemos pronunciar, por enquanto, por tal eventuali­dade. Tudo quanto é licito dizer agora é que existe um li­geiro catarro pulmonar que pode fàcilmente dissipar-se dentro de alguns dias. Admitindo mesmo um começo de bronco­pneumonia, que razões têm o senhor para declarar a criança perdida? Nem todas as broncas pneumonias são mortais. Vá, seja razoável; eu voltarei logo.

Apesar de todos os cuidados do Dr. W., o estado de meu filho agravou-se de hora para hora. Ao quarto dia su­focava atrozmente.

Vendo-o sofrer tão cruelmente e prevendo o seu fim, eu experimentava as mesmas angústias do sonho. E murmu­rava ainda: Meu Deus fazei que morra depressa; esta ago­nia, se prolonga, dá comigo em louco.

     Desde que o sonho me anunciara a morte de meu filho Jorge, nada conseguiu tirar-me a convicção de que o nosso espírito adquire, durante o sono, a faculdade de prever cer­tos acontecimentos futuros. Donde vem, porém, a forma sob a qual se produziu a predição da morte de meu filho? Por­que esse fogão, aonde arremessei o meu filho? Porque essa cena tão estranha? De onde veio esse pensamento de fechar as grades do fogão para que ele morresse mais depressa? Tal ato não se concilia de forma nenhuma com o terror que eu sentia, praticando-o. Muitas vezes tenho pensado nisto tudo e a explicação mais racional a que cheguei é a seguinte.

Havia-me deitado demasiadamente tarde nessa noite. Li algum tempo, estirado numa poltrona, em face do fogão, cuja chama eu avivava de vez em quando. Os meus neurônios tinham evidentemente conservado a impressão dos tições em brasa e de um fogão com grade que se podia abrir e fechar Facilmente.

E' a esta excitação cerebral que, parece-me, deve ser atribuída à ilusão dum fogão em chama no qual se contorcia o meu filho e que eu procurava fechar para abreviar a sua agonia.

O sonho premonitório põe claramente em evidência a dualidade da nossa mentalidade. Não se quer dar cré­dito a um sonho, sobretudo quando nos prediz alguma coisa de desagradável. Num caso destes, a razão revol­ta-se, sem contudo chegar a dominar o sentimento pro­fundo e angustioso, proveniente da subconsciência.

O Dr. Sermyn ajunta que muitas vezes meditei sobre essa luta entre o seu <eu> e a subconsciência. Está certo de que o sonho devia cumprir-se fatalmente, enquanto a razão se revoltava contra essa idéia, agar­rando-se a uma esperança vacilante como o destroço flutuante a que um náufrago se agarra no mar.

As nossas intuições secretas têm muitas vezes a sua razão de ser e é erro desdenhá-las sem descobrir-lhes a causa. Um pressentimento poderá ser, às vezes, um sonho premonitório esquecido. Seja qual for a explica­ção que se pretenda dar, o caso observado evidencia-se irrefutável. Esse pai foi impressionado pelo estado fi­siológico, então desconhecido, de seu filho e acreditou de antemão na sua morte inevitável. Há aqui uma pro­va bem característica da faculdade de premonição da alma humana e da existência de um mundo psíquico real, sugerindo a conclusão de que o organismo vital apa­rente não é tudo. Existe em nós alguma coisa de inde­finível que nós próprios não conhecemos.

 

*

 

Um fato abominàvelmente dramático de clarividên­cia, no sonho, exatamente com seis dias de antecedência, referente à morte de seu filho esmagado por um auto­móvel, no próprio dia em que se bacharelava, depois de brilhantes estudos e gozando de excelente saúde, foi-me contado, em extensa carta, por um dos meus antigos leitores, com a descrição do sonho, dando-lhe todos os pormenores do acidente, a remoção do cadáver, o aspecto dos ferimentos, o desespero da família, exatamente como uma fotografia ou, para dizer melhor, como uma cine­matografia.

 

 

       (Carta 2.218.)

 

 

A pedido da infortunada família, limito-me aqui a indicar o fato da premonição, sem consignar nomes nem circunstâncias demasiadamente dolorosas. Devo dizer, no entanto, que este drama real é suficiente para eliminar todas as explicações de pretensas coincidências fortuitas e bastaria para provar que o futuro é entrevisto, algu­mas vezes, com a mais categórica das previsões. Julgo que os meus leitores estarão todos de acordo comigo, afirmando que a negação destes acontecimentos apenas pode provar a ignorância dos que os negam ou a sua despropositada teimosia.

Um pressentimento premonitório, igualmente digno de nota, de um acontecimento a dar-se, foi-me assina­lado por um observador atento a esses fenômenos a esclarecer.

Isto é uma espécie de sonho desperto premonitório, es­creve ele, e julgo-me no dever de assinalá-lo porque pode ser um documento mais a ajuntar àqueles que o senhor reúne para as suas tão importantes investigações. Por isso mesmo avaliará do seu valor. Recentemente, numa reunião, a con­versa derivou para os problemas psíquicos de que o senhor tem feito tão documentado estudo, quando uma senhora das nossas relações nos comunicou o seguinte caso:

- Encontrava-me encostada a uma varanda, quando subitamente me vi na rua, de luto pesado, seguindo um coche fúnebre. A impressão que recebi foi tão intensa que nesse dia mesmo fui encomendar um vestido à minha modista, não cessando de pensar comigo mesma: Vai suceder uma gran­de desgraça. Quatro dias depois, meu filho, uma crianci­nha de quatro anos, caiu do alto da escada, morrendo logo.

Eis o que eu ouvi, pelos meus próprios ouvidos, da boca de uma senhora vestida de luto e que estava ainda sob a impressão do que lhe sucedera. Não pode existir, neste fato, nem erro, nem farsa, nem impostura.

 

(Carta 985. )

 

  1. DREVET

Tenente do 144 Regimento de Caçadores de Grenoble

 

 

Este elemento toma, às vezes, a aparência duma comunicação do espírito por um médium, como se esse espírito visse exatamente o futuro, no que respeita, so­bretudo, à morte do indivíduo de que se trata. O meu colega e saudoso amigo William Stead, diretor da Re­view of Reviews, que pereceu no naufrágio do Titanic, recebeu um dia, de seu espírito Júlia, uma predição singularmente estupenda.

Há de haver alguns anos, escrevia ele, eu tinha como empregada uma senhora possuidora de talento verdadeira­mente notável, mas com um caráter desigual e uma saúde que deixava muito a deseja. Tornou-se de tal forma insu­portável que, em Janeiro, pensei seriamente em separar-me dela, quando Júlia escreveu por minha mão.

- Seja paciente com E. M. Ela virá encontrar-se co­nosco antes do fim do ano.

Fiquei estupefato, pois nada me autorizava a supor que ela ia morrer. Recebi o aviso, sem dar parte da mensagem e continuei a utilizar os serviços dessa senhora. Foi, se a memória me não falha, entre 15 a 16 de Janeiro, que recebi esse aviso. Em Fevereiro, Março, Abril, Maio e Junho foram-me novamente repetido:

- Não se esqueça de que E.M. terá cessado de viver antes do fim do ano.

Em Julho, ela engoliu, por descuido, um pequeno prego que se alojou no intestino. Caiu então gravemente doente. Os dois médicos que a tratavam não tinham esperança de salvá-la. No intervalo, Júlia escreveu pela minha mão:

- E' isso sem dúvida - perguntei-lhe - o que previa quando predisse que ela morreria?

Com grande surpresa minha, a resposta foi esta:

- Não. Ela curar-se-á disto, mas, apesar de tudo, su­cumbirá antes do fim do ano.

E.M. curou-se de repente, com grande estupefação dos médicos e pode, dentro em pouco, retomar as suas ocupações habituais.

Em Agosto, Setembro, Outubro e Novembro o aviso do seu próximo fim foi-me comunicado de novo com a ajuda da minha mão. Em Dezembro ela foi atacada pela influenza. - E' agora? - perguntei eu a Júlia.

- Não. Ela não virá para aqui por um meio natural; mas de qualquer maneira virá antes de findar o ano. Sentia-me alarmado, e compreendendo que não podia im­pedir o acontecimento. O ano passou e ela encontrava-se ainda viva. Júlia replicou:

- Eu posso ter-me enganado em alguns dias; mas o que afirmei é verdade.

Em 10 de Janeiro Júlia escreveu:

- Amanhã verá E. M.   Faça-lhe as suas despedidas. Tome as disposições que julgar necessárias. Não voltará a vê-la mais na Terra.

Fui procurá-la. Encontrei-a com febre e tosse de mau caráter. Ia ser conduzida para o hospital.

Dois dias depois, recebi um telegrama informando que, num acesso de delírio, ela se havia precipitado de uma ja­nela do 4° andar e que a tinham levantado da rua, morta. A data não havia ultrapassado, senão de alguns dias, os doze meses a que se referira o primeiro aviso.

Posso provar a autenticidade desta exposição pelo pró­prio manuscrito das mensagens originais e pelo atestado as­sinado pelos meus dois secretários.

Podia-se supor, na verdade, que o espírito tivesse conhecido com antecedência a época da morte e mesmo sabido que essa morte era acidental. Deve por isso a predição ser atribuída a um espírito? Não está provado; conheci suficientemente Stead, para ter tido ocasião de notar as suas raras faculdades psíquicas, ainda que ele não as tenha aplicado na sua própria segurança.

Esta premonição é, sem a menor dúvida, das mais notáveis. Quem é esta Júlia tão conhecida dos psiquis­tas conhecedores dos escritos de Stead? Espírito? Sub­consciência? Faculdades mentais especiais? Ignoramo-lo. Mas não é a matéria cerebral que vê assim o futuro. No seu livro tão judiciosamente meditado e tão ri­camente documentado, Lucidez e Intuição, o Dr. Eu­gênio Osty nota, por sua vez, o fato seguinte de auto­-percepção intuitiva:

A Sra. D. criatura lúcida, de escrita automática, admi­rou-se, em determinada época da sua vida, de ver, por mo­mentos, a sua mão traçar espontaneamente a palavra R..., nome que ela nunca tinha ouvido, parecendo-lhe não ter isso qualquer significação. Durante alguns meses, no meio de suas ocupações, desde que a sua mão pousava sobre uma mesa ou que se preparava para escrever uma carta, a mes­ma palavra aparecia. Acabou por considerar esse movimen­to involuntário como um tic, deixando de preocupar-se com esse fato.

Uma tarde, seu marido anunciou-lhe que acabava de fe­char imprevistamente um contrato com um engenheiro em R..., pequena povoação da Província de Orã.

Mais tarde, foi Junho que a sua mão começou a escre­ver. A Sra. D. esforçou-se então por conseguir, por meio da escrita automática, a explicação dessa palavra.

A única resposta. Aos seus esforços foi sempre Junho. O mês de Junho chegou e a Sra. D. teve o desgosto de ver morrer seu marido.

Um pouco mais tarde, a sua mão obstinadamente traçou esta outra data: Março. Pode depreender-se qual seria o terror desta desventurada vidente que a si mesmo pergun­tava que outro terrível golpe do destino iria atingi-la. Jul­gando que a sua mão, na escrita automática, estava escra­vizada a um Espírito desencarnado, dirigiu à entidade oculta as mais instantes súplicas, implorando-lhe que lhe fosse pou­pada à angústia da misteriosa ameaça. E a sua mão, em resposta às torturas do seu coração, traçava sempre esta única palavra: - Março.

A época fatídica e temida chegou. No mesmo mês, a Sra. D. perdeu sua filha e sua mãe.

Esta misteriosa história assemelha-se muito à pre­cedente. Há ainda outras análogas que não reproduzo aqui por me faltar o espaço. Explicam-se umas pelas outras? Subconsciência? Força psíquica? Espírito exte­rior? Destino? Com que palavra a poderemos denomi­nar? O singular aviso que em seguida exponho foi-me assinalado por um jovem estudante de Morbihan:

Caro Mestre

E' meu dever comunicar-lhe o fato de premonição acon­tecido na minha família.

Em 1896, meu avo, o Comandante Dufilhol, Oficial da Legião de Honra que V. Exa. conheceu em casa do Sr. Allan Kardec, em 1862, vivia com minha mãe, próximo de Vannes.

Certa ocasião descia sozinha a escadaria do castelo para se encontrar com a filha que fora ver as cavalariças. De repente, uma voz murmurou-lhe ao ouvido:

- Uma morte na família.

Meu avô, surpreendido e comovido, pensou consigo mes­mo: Devo ser eu, que sou o mais velho.

- Não - respondeu a voz - Adolfo Planes.

Meu avô chegou às cavalariças com tão grande palidez que minha mãe indagou se estava indisposto. Ele respon­deu negativamente e deu-lhe parte do aviso que acabava de receber.

Ambos ficaram muito contristados, escrevendo imediata­mente a Adolfo Planes, meu jovem tio, então professor de inglês em Nice.

A resposta foi satisfatória, o que tranqüilizou um tanto minha mãe e meu avô.

Dois meses depois, meu tio submetia-se a concurso de admissão a uma escola de Paris. As provas tinham sido duras e fatigantes. No momento em que o examinador lhe participava que seria aprovado e lhe dirigia as suas felicitações, o meu infeliz tio cambaleou, caindo sem sentidos. Oito dias depois, expirava nos braços de meu avo, vítima de meningite.

Contava apenas vinte e seis anos. A voz não se tinha enganado.

A recordação da morte prematura de seu irmão é ainda tão cruel para minha mãe que ela não me teria nunca auto­rizado a escrever-lhe se não fora para auxiliá-lo nas suas investigações.

 

Saint-Raoul-Quer, 3 de Agosto de 1918.

 

ADRIEN DUFILHOL.

(Carta 4.042.)

 

As audições premonitórias são mais raras que as visões premonitórias, mas seu número é ainda suficien­temente grande para que as ponhamos de parte. Atri­buí-las ao acaso não é coisa que de modo algum nos satisfaça.

No mês de Agosto diversos leitores escreveram-me de Nova Iorque afirmando-me que o acidente acontecido a tal William Cooper, fabricante célebre, esmagado por um tramway, tinha sido visto por sua mãe, a Sra. Ella Cooper.

Nessa mesma noite, ela sonhou duas vezes que via o filho arremessado por terra e esmagado e esse sonho repetido de tal forma a enervou que resolveu tomar em Filadélfia o comboio para Nova Iorque. Precisamente, à hora em que chegou, da parte da manhã, depois de entrar num tramway para se dirigir à 33° rua, em Broadway, viu, quando atravessava a 7° avenida, um ajuntamento ao redor dum indivíduo que acabava de ser derrubado por um tramway. Esse indivíduo era seu filho.

Essas cartas acrescentam: accident which will pro­bably result in the death of M. William Cooper. A morte ter-se-ia seguido ao acidente? Ignoro-o; mas nem por isso deixa de ser menos notável o sonho premonitório. Não há a menor dúvida de que essa mãe tenha sido advertida do que se ia passar. Como? Por quem? Para quê? Por que processo? E' este o objetivo das investi­gações do presente livro.

Temos o caso de uma mãe que vê o seu filho esmagado. Eis outra sensação análoga, sob a forma in­termediária: A exposição seguinte foi-me enviada de Biarritz, no dia 9 de Julho de 1817, em resposta ao dese­jo que eu havia manifestado a Sra. Storms Castelot - erudita colega da Sociedade Astronômica de França que me contou o sonho - de recebê-la diretamente da pessoa que o observara. E' o conhecimento, com três dias de antecedência, de morte repentina.

Extrato

Apesar da tristeza que tal comunicação possa despertar em mim, devo garantir-lhe que a morte de meu filho João me foi anunciada na quinta-feira que precedeu o domingo em que o meu querido filho, que se encontrava então no es­trangeiro com seu irmão Luís, nos deixou para sempre. Este sonho muito simples, aqui o tem.

Eu via, numa casa desconhecida, o meu filho Luís ba­nhado em lágrimas, e como eu lhe perguntasse a cansa do seu desespero, respondeu:

- Oh! mamã, é o João que morreu!

O meu querido filho contava dezenove anos, tinha uma saúde esplêndida, e nada fazia pressentir tão fulminante fim! Uma embolia, durante tranqüilo passeio de bicicleta, na com­panhia de seu irmão e de seu tio. Muito tempo depois, soube que na quinta-feira em que tive o horroroso pressentimento meu filho tivera uma síncope provocada por um corte num dedo: coincidência estranha!

Outra coincidência estranha, mas essa me dizendo res­peito.

Achava-me em Hamburgo, durante uma das minhas nu­merosas tournée de concertos, quando me sobreveio um torcicolo que ameaçou impedir-me de cumprir o meu contrato naquela noite: corri rapidamente ao consultório de um mé­dico especialista que tratava estes pequenos e desagradáveis acidentes por meio da eletricidade. Sob a influência da cor­rente elétrica, desmaiei. Nesse mesmo dia, recebi de Paris um telegrama de minha mãe, no qual me dizia à inquietação que sentia por me ter visto, em sonho, desmaiada! Fiquei espantada'. De resto minha mãe teve sempre durante toda a sua vida um verdadeiro dom de vista dupla, segundo a ex­pressão corrente.

 

 

(Carta 3.750.)

 

  1. MARX-GOLDSCHMIDT.

 

Esta carta era confirmada pelo irmão do falecido.

Como vêem estas espécies de intuições não são ra­ras numa família. O mesmo sucede no que se segue. E' da República Argentina que me vem a relação deste sonho premonitório singularmente minucioso.

 

Rosário de Santa Fé, 15 de Setembro de 1899.

 

Julgo de meu dever, meu ilustre mestre, assinalar-lhe o seguinte fato sucedido com minha família e irrefutavelmente certo e que, creio, pode trazer bastante luz, do qual dareis conhecimento aos vossos leitores.

Uma das minhas tias-avós era conhecida pelos seus pres­sentimentos e pela sua vista mental.

Em 1868 ela viu em sonho uma cena de interior que era toda uma revelação. Este quadro representava uma depen­dência onde uma das suas amigas, a Sra. B.assentada numa poltrona, perto de um fogão no qual ardia intenso lume, acariciava uma criancinha que conservava nos braços, enquanto a criada secava os cueirinhos junto ao fogo. Este sonho foi contado a diversas pessoas, sem que qualquer delas lhe prestasse qualquer atenção, visto que a Sra. B., mãe de numerosa família e tendo já passado os quarenta anos e não tendo, para mais, nenhum filho desde há sete anos, não pa­recia, por isso, suscetível de ter outros. Entretanto, o que então parecia impossível, realizou-se um a.no depois. No dia em que minha tia-avó foi visitar a parturiente para felicitá-la pela sua délivrance, viu, na realidade, o sonho que ti­vera. O aposento, a disposição dos objetos, o fogão aceso, a criada ocupada em secar os cueirinhos diante do fogo, en­fim, todos os pormenores do sonho estavam fielmente repro­duzidos. A revelação cumprira-se inteiramente.

Queira caro mestre, aceitar os respeitos do seu longín­quo leitor e os mais profundos votos de ventura pela nossa querida França.

 

(Carta 799.)

 

 

EMILI0 BECHER.

 

Outro fato ainda:

Recebi da Suécia, em Dezembro de 1899, a seguinte exposição dum sacerdote protestante muito conhecido

Neste momento deve realizar-se uma visita pastoral. Uma das entidades que havia de assistir, na semana que fin­dou, a essa visita (que começaria na terça-feira, 3 de De­zembro), no presbitério de Sjustorp, em Medelpad, sonhou, durante a noite de sábado, que a tinham chamado ao tele­fone e que um padre de Medelpad lhe dissera que a visita pastoral não se realizaria naquele dia porque morreria uma pessoa. Aquele que do mundo dos sonhos veio telefonar-lhe não lhe declarou o nome da pessoa que morreria. O sonha­dor lembrava-se perfeitamente do que se passara no dia se­guinte de manhã. E qual não foi a sua estupefação quando, por volta do meio-dia, lhe comunicaram efetivamente pelo telefone que a esposa do bispo havia falecido repentinamente nessa mesma manhã, o que impedia o prelado de proceder à visita.

 

 

(Carta 845).

 

 

Qual foi o agente deste fenômeno psíquico? A mor­te? Não é provável. O sacerdote com quem, em sonho, se comunicou por um suposto telefone? Talvez. Mas por meio de que corrente mental, por qual assimilação? O próprio pensamento do bispo, irradiando ao longe? Mis­térios da telepatia.

Ainda outro caso, tão trágico como o do Dr. de Sermyn.

O Dr. Foissac conta (91) que numa tarde de prima­vera, em 1854, o Padre Deguerry, abade de Madeleine, o Conde de Las Cazes, e os Senadores Longet e Marshall, da Academia de Ciências, tiveram, numa reunião, aca­lorada discussão sobre o maravilhoso e as vistas pro­féticas, tendo a última destas personagens feito a se­guinte comunicação.

Há de haver um ano, em Edimburgo, dirigi-me, numa povoação dos arredores, a casa de um dos meus velhos ami­gos, o Sr. Hohnes. Encontrei todos os rostos compungidos. Holmes tinha, nesse dia mesmo, assistido a um enterro, num castelo próximo; contou-me então que o filho dos donos do castelo tinha, por mais de uma vez, aterrorizado a família por manifestar os fenômenos que são atribuídos à segunda vista. Viam-no ora alegre, ora triste, isto sem causa apa­rente, o olhar abstrato e melancólico, e pronunciando, por vezes, palavras desconexas quando não descrevia estranhas visões. Procuraram, mas inutilmente, combater esta disposi­ção por meio de exercícios violentos e por uma série de es­tudos variados, para o que se socorreram dos conselhos de hábil médico.

Uns oito dias antes do acontecimento a que me refiro, a família, que se encontrava reunida, viu, de repente, o pe­queno William que apenas contava doze anos, empalidecer e ficar imóvel. Prestam atenção ao que o pequeno diz e ou­vem estas palavras: Eu vejo uma criança adormecida deitada num caixão de veludo e coberta com um pano branco tendo em volta coras e flores. Por que razão choram seus pais?Esta criança sou eu!

Convulsionados pelo terror, o pai e a mãe agarraram no filho, cobrindo-o de beijos e lágrimas. O pequeno voltou então a si, continuando a brincar como antes. A semana não findara ainda, quando a família, assentada à sesta, de­pois do almoço, procura o pequeno William que havia pou­co ali se encontrava. Não o vê, e chama-o: nenhuma voz responde.

A família, o mordomo, o médico, o capelão, os criados procuram-no; mil gritos de desespero se cruzam; percorrem o parque em todos os sentidos: William tinha desaparecido.

Somente uma hora depois de pesquisas e de angústias, é que a criança foi encontrada num lago onde havia caído ao pre­tender agarrar um barco que o vento tinha afastado da mar­gem. Fez-se tudo, durante algumas horas, para reanimá-lo. O fatal presságio havia-se cumprido.

Teremos ocasião, na segunda parte desta obra, sa­turada de documentos, de voltar a estes fenômenos, seguidos da morte. Fiquemos agora por aqui, no estudo dos fatos metapsíquicos, atestando as faculdades trans­cendentes da alma. Esta criança tinha, sem a menor dúvida, visto o seu caixão.

Uma premonição de morte das mais singulares igual­mente, pode ler-se na autobiografia do Barão Lázaro Hellembach. Ei-la tal qual a encontramos nos Anais de Ciências Psíquicas, de 1877, pág.124

Eu tinha a intenção de pedir a colaboração do diretor da seção de química da Escola de Geologia de Viena, Hauer, engenheiro de minas, para o assunto de algumas investiga­ções que havia feito sobre a cristalização. Já tinha inciden­talmente falado com ele sobre isto, visto que o laboratório ficava perto da minha residência e que Hauer é conhecido no mundo científico - pode-se mesmo dizer na Europa inteira - como especialista neste assunto. Adiava sempre a mi­nha visita, até que me resolvi a realizá-la no dia seguinte. Nessa mesma noite, sonhei que via um homem pálido e des­falecido, amparado, pelas axilas, por outros dois homens. Não dei importância de maior a este sonho e, como havia resolvido, dirigiu-me a Escola de Geologia: como, porém, o laboratório se encontrava num outro ponto do edifício, dife­rente dos anos anteriores, enganei-me na porta e, encontran­do a verdadeira porta fechada, vi, olhando por uma janela, a imagem exata do meu sonho: Hauer, que se havia enve­nenado com cianureto de potássio, amparado por dois ho­mens que o transportavam para o vestíbulo. Era exatamente como tinha sonhado.

O Barão Hellembach acrescenta aqui as observações seguintes

Se eu tenho chegado alguns minutos antes, poderia ter certamente impedido que o suicídio se desse, motivado por preocupações de família e de fortuna, visto que ofereceria a Hauer nova colocação e algum alívio material. Esta cir­cunstância impressionou-me profundamente; e tanto mais quanto compreendi tudo o que vinha de perder sob o ponto de vista das minhas idéias e dos meus projetos e pensando igualmente que as minhas investigações estavam para sempre interrompidas.

E' natural que a morte de Hauer, desfazendo os meus projetos, me tivesse impressionado muito; e é talvez por essa razão que a minha consciência guardou um resto de vista dupla.

Sob o ponto de vista da telepatia, poder-se-ia julgar que o suicida, tendo provavelmente premeditado esse ato de desespero na noite que o precedeu, provocou o sonho do Barão Hellembach. Mas isto não explicaria o elemento essencial do sonho, o espetáculo dum homem de rosto lívido, agonizando, e amparado peixe axilas por dois outros homens.

Fazer intervir ainda a hipótese das circunstâncias fortuitas, seria verdadeiramente o cúmulo.

Poderíamos notar aqui que todos estes fatos são, de mais em mais, demonstrativos da nossa afirmação de que a alma vê o futuro por meio de poderes ocultos. Um outro caso ainda, e não menos comovente, de pre­monição, foi observado, em 1905, na República de San Marinho.

Um certo Marino Tonëlli, de vinte e sete anos, negociante de ovos, percorria, nesta qualidade, os , merca­dos dos arredores, entre os quais o de Rímini. Na tarde de 13 de Junho, encontrando-se nesta última localidade, entrou demasiadamente nas bebidas - o que nele era para admirar. Regressou depois a casa na carroça em que transportava os cestos dos ovos, felizmente vazios. Parece que, pelo caminho, se deixou adormecer, porque num sítio conhecido pelo nome de Goste di Borgo, onde a estrada faz tortuosa e íngreme curva, o moço negociante foi sacudido do veículo, encontrando-se es­tendido num campo, no fundo de pequena ribanceira, para onde havia sido projetado.

Reparou que a carroça se encontrava meio voltada na borda da estrada, enquanto o cavalo, que ficara quase suspenso no ar, se debatia em posição crítica. Depois de verificar que não estava ferido, o nosso homem se­gurou o cavalo e, com o auxílio de alguns camponeses que haviam acorrido, conseguiu igualmente retirar a carroça da beira da estrada. Estava entregue a estes trabalhos, quando lhe surgiu diante dos olhos uma figura de mulher que, à claridade da Lua, lhe pareceu ser a sua mãe. Grande espanto do negociante, que não pode duvidar de que assim fosse ao ouvir a sua voz adorada e ao sentir-se abraçado por sua velha mãe que chorava de alegria ao perguntar-lhe se não se achava ferido, acrescentando.

- Eu tinha-te visto. Tua mulher e os dois pequenos dormiam já. Eu, porém, sentia um mal-estar, uma agitação extraordinária que não conseguia explicar. De repente, vi aparecer diante de mim este caminho, exatamente o mesmo sítio com a ribanceira de um dos lados; vi a carroça voltar-se e seres precipitado no campo. Chamavas por que te acudisse, e parecias morrer!... Esta última circunstância não é Deus louvado! Exata; mas o resto é tal como vi. Por fim, experimentei um desejo irresistível de vir aqui, e sem acordar pessoa alguma, e reagindo contra o medo que me causava a solidão, a treva e a tempestade, vim até aqui, depois de caminhar quatro quilômetros; e teria andado mil para vir em teu socorro.

O redator do Mensageiro, que publicou esta ex­posição, termina dizendo.

Tal é o fato exato que recolhi dos lábios ainda trêmulos de comoção dessa boa gente.

Em seguida a essa notícia, publicada no Mensageiro, foi feito um inquérito pelo professor A. Fran­císci, no qual pedi para submeter os heróis desta aven­tura a pequeno questionário destinado a esclarecer certos pontos que a notícia do jornal deixara na sombra. Eis as perguntas, com as respostas que lhe foram feitas

1° - Foi o primeiro acidente em viagem que sucedeu a L. Tonélli, sobretudo nestes últimos tempos?

Resposta - Sim.

2° - O local chamado Coste di Borgo é o único ponto perigoso da estrada? E' pelo menos o mais perigoso de to­dos? Nas estradas que o Senhor Tonélli percorre geralmente, no regresso dos mercados, há outros sítios igualmente peri­gosos?

Resposta - Nessa estrada há outros sinos bem mais perigosos, assim como em outros caminhos que o Senhor Tonélli percorre habitualmente.

3° - Quando a Sra. Maria Tonélli começou a sentir-se inquieta, tinha já passado à hora costumada do regresso de seu filho? Tinha, pelo menos, passado, quando ela se decidiu a dirigir-se ao local?

Resposta - À hora habitual tinha passado havia pouco.

4° - A inquietação da mãe e a visão do acidente não se produziram quando Tonélli tinha já sido projetado fora do carro?

Resposta - A inquietação da mãe precedeu de algumas horas a visão do acidente, sucedendo-se este três quartos de hora depois da visão, de maneira que deu tempo a que ela percorresse a pé os quatro quilômetros que separam a casa deles do sítio conhecido por Coste di Borgo.

5° - Recorda-se Tonélli de ter pensado em sua mãe no momento do acidente

Resposta - Ele garante que pensou nela com grande enternecimento, assim como em todos os membros da família; mas principalmente em sua mãe.

6° - Nenhum outro fato anormal sucedera Senhora To­nélli ou a seu filho?

Resposta - Não.

Esta confrontação, feita pelo professor Francísci, estabelece, fora de qualquer suspeita, a autenticidade do ocorrido (92), que se aproxima muito daquele que há pouco acabamos de relatar. Esta visão de acidente antes de ele se ter dado é uma visão do espírito da mãe. O que acima relatamos, da criança vendo o seu caixão, é uma espécie de pressentimento pessoal.

Recordei anteriormente (cap. IV) o pressentimento do astrônomo Delaunays, que foi diretor do Observató­rio de Paris numa interinidade (1870-1872), e que mor­reu afogado na baía de Cherburgo, aonde fora contra a sua vontade, e fiz seguir esta recordação da irmã de Arsênio Houssaye, arrebatada por uma vaga na mar­gem de Penmarc'h. Eis um caso da mesma ordem, ain­da mais significativo e mais notável como precisão. O Barão José Kronhelm, de Podólia (Rússia), redigiu a seguinte narrativa sobre a morte de um alto funcionário do Ministério da Marinha russa, caso sucedido no mês de Junho de 1855, em seguida à colisão entre dois na­vios, no Mar Negro.

No começo do ano de 1855 a Sra. Lukawski foi des­pertada uma noite pelos gemidos que seu marido soltava a dormir, gritando conjuntamente: Socorro! Acudam-me! Debatendo-se ao mesmo tempo com os movimentos de uma pessoa que está prestes a afogar-se. Ele sonhava com terrí­vel catástrofe no mar e, despertando, contou que se julgara a bordo de grande vapor que ràpidamente se afundara, em seguida a ter abalroado com outro. Lançara-se ao mar, sen­do engolido pelas ondas.

Depois de contar o sonho que tivera, exclamou:

- Estou agora convencido de que morrerei tragado pelo mar.

E tal foi a sua convicção que começou imediatamente a pôr os seus negócios em ordem, como homem consciente de ter os seus dias contados. Tinham-se passado dois meses

e a impressão do sonho começava a dissipar-se, quando rece­beu uma ordem do Ministério para partir com todos os seus subordinados para um porto do Mar Negro. No momento de despedir-se de sua mulher, na estação de Petrogrado, Lu­kawski disse-lhe:

- Lembras-te do meu sonho? - Porque mo perguntas?

- E' porque tenho a certeza de que não voltarei mais e de que nunca mais nos veremos.

A Sra. Lukawski esforçou-se por tranqüilizá-lo, mas ele, com acentuação de profunda tristeza, acrescentaram:

- Podes dizer o que quiseres; a minha convicção não mudará. Sinto que o meu fim está próximo e que nada po­derá impedir que isso suceda... Sim. Eu vejo o porto, o navio, o momento da colisão, o pânico a bordo... a minha morte... Tudo surge aos meus olhos...

E, depois de curta pausa, ajuntou:

- Quando receberes o telegrama com a notícia de mi­nha morte e tiveres de tomar luto, peço-te não pôr sobre o rosto o véu comprido, que detesto.

Sem poder responder, a Sra. Lukawski desatou a cho­rar. O silvo da locomotiva anunciou o sinal da partida. Lu­kawski abraçou ternamente sua mulher, enquanto o comboio se punha em movimento.

Depois de duas semanas de extrema inquietação, a Sra. Lukawski soube, pelos jornais, que uma catástrofe entre dois vapores - o Wladimir e o Síreus - acabava de dar-se no Mar Negro. Cheia de inquietação, enviou um telegrama ao Almirante Zelenoi, em Odessa, pedindo notícias. A resposta não se fez esperar: Não temos até gera nenhuma infor­marão de seu marido, mas não há dúvida de que ele se encontrava a bordo do Wladimir. A noticia da sua morte veio uma semana depois.

E' preciso acrescentar que, no sonho, Lukawski tinha-se visto a lutar, para salvar-se, com outro passageiro, incidente que se realizou com escrupulosa exatidão. Ao dar-se a catástrofe, um passageiro do Wladimir - o Sr. Henicke - havia-se lançado ao mar com uma bóia de salvação. Lu­kawski, que já se debatia no mar, ao ver a bóia de salvação, dirigiu-se para o sitio onde se encontrava o passageiro, que ai gritou.

- Não se agarre porque a bóia não pode com duas pes­soas. Afogar-nos-erros ambos!

Apesar do aviso, Lukawski agarrou-se à bóia, dizendo que não sabia nadar.

- Então fique com ela - exclamou Henicke - eu sou bom nadador e sempre conseguirei salvar-me.

Nesse momento, uma onda separou-os. Henicke conse­guiu salvar-se, enquanto se cumpria o destino de Lukawski. (Light, 1899, pág. 45.)

Citando esta narrativa Ernesto Bozzano (93) faz notar que a convergência de circunstâncias, que não po­dem ser previstas, elimina totalmente a hipótese de coincidências fortuitas, e compara, a este propósito, outras teorias explicativas: a reencarnacionista, a fatalista, a espírita.

Por agora, não nos ocupemos senão de fatos. Que­remos, simplesmente, convencer-nos da existência, em nós, de um elemento psíquico dotado da faculdade supranormal de ver o futuro.

A questão é de averiguar que o futuro existe vir­tualmente nas causas que o fazem agir e que pode, na realidade, ser visto exatamente em certas situações psi­cológicas.

Em todos os tempos se encontram estes exemplos da percepção do futuro; mas nunca os interpretaram como mereciam nem nunca vira neles a manifestação das faculdades internas da alma humana.

Eis um exemplo, pouco conhecido, do famoso Capi­tão Montluc e que se pode ler no final do IV livro dos seus Comentários. Sabe-se que ele recebeu o bastão de Marechal de França e ainda se não esqueceu que Henrique II ficou mortalmente ferido em 1559, num tor­neio contra Montgomery. Montluc conta assim a sua visão

Na véspera do torneio, à noite, durante o meu primeiro sono, sonhei que via o rei assentado no seu trono com o rosto coberto de gotas de sangue e parecia-me que era assim que pintaram Jesus Cristo quando os judeus lhe puseram a co­roa de espinhos e que ele conservava as mãos erguidas. Olhei-o; via-lhe apenas a face e não podia descobrir o seu sofrimento nem ver outra coisa mais do que sangue no ros­to. Parecia-me ouvir dizer a uns: Ele esta morto; e a outros: ainda não morreu. Via os médicos e os cirurgiões entrarem no quarto e dele saírem. E julgo que o meu sonho durou muito tempo, porque ao despertar notei uma coisa em que nunca havia pensado e é que um homem pudesse chorar enquanto sonha, pois tinha a cara banhada de pranto e os olhos teimavam em lacrimejar e assim longamente cho­rei. Minha mulher procurava confortar-me, mas nada con­seguia afastar a idéia da morte do soberano. Muitos dos que ainda vivem sabem bem que o que relato não é uma história, pois logo que acordei lhes disse o que se passara comigo.

Quatro dias depois, um correio chegou a Nérac, trazendo uma carta do Condestável ao Rei de Navarra, na qual ai dava parte do ferimento do Rei Henrique e da nenhuma es­perança de salvá-lo.

O que nos pode, parece chamar mais a atenção para o trabalho que estamos a fazer aqui, é que tudo isto tenha passado despercebido desde há tantos séculos e haja sido mesmo negado, desdenhado, ridicularizado e desprezado.

Encontrei uma curiosa carta, datada de 1615, de Nicólas Pasquier, dirigida a seu irmão, conselheiro do rei e almotacé da cidade de Paris, respeitante à morte de seu pai, Estevão Pasquier, morte prevista por um sonho premonitório um ano antes, dia a dia. Eia o do­cumento em questão (94)

'Recebi as suas cartas hoje, trás de Setembro de 1815, participando-me a morte de nosso pai, sucedida no dia 30 de Agosto pelas duas horas da madrugada. Quero contar-lhe uma história extraordinária a este propósito. No ano passa­do, s 30 do mesmo mês de Agosto e na mesma noite, cerca das 5 horas da manhã, sonhei que estava junto de nosso pai, que se encontrava deitado na sua cama. Levantando-se, ajoe­lhou para fazer as suas orações e fé-lo com grande recolhi­mento, as mãos postas e os olhos erguidos para o céu. Logo que acabou de orar, mudou de cor e caiu morto nos meus braços. Quando terminou o sonho, acordei, tremendo como se tivesse frio, contando logo o que se passara a minha mu­lher. E como tinha a memória fresca do que acontecera, re­digi tudo por escrito. Mas há mais: considere os dois fatos sobre o caso que exponho: um de que eu vi a morte de nosso pai um ano antes, dia a dia; e o outro de que no próprio dia em que morreu, eu tinha encontrado o papel em que não havia mais pensado. Faça a anatomia deste sonho e reconhecera que tudo o que sucedeu com a sua morte fora por mim previsto; que ele não estaria doente por muito tempo, e a verdade é que não o esteve mais de dez horas; que mor­reria como bom cristão e assim sucedeu; e que todos os sen­tidos se conservariam sãos e intactos até ao ultimo suspiro. Em conclusão, a sua morte foi o reflexo da sua vida, que tão calma decorreu durante 86 anos, 2 meses e 23 dias: e, tal qual, a sua morte decorreu docemente, sem trabalhos nem dor.

Sim. Todos estes acontecimentos psíquicos são conhe­cidos desde há séculos. Os autores latinos contam-nos que o assassínio de Júlio César lhe havia sido anunciado de manhã por sua mulher Calpúrnia; que Brútus viu a derrota da batalha de Filipos predita pelo seu gênio, que Artérios Rúfus tinha visto em sonho, de manhã, o reciário que devia apunhalá-lo, etc., etc. (95)

Tudo isto, porém, conservou-se incompreendido. E a premonição da morte de Henrique IV, contada pelo seu confidente Sully? E tantos outros?

A Astronomia teve o seu Copérnico, o seu Kepler, o seu Newton. As ciências psíquicas não tiveram ainda senão o seu Hiparco, o seu Ptolomeu, o seu Aristarco; elas esperam ainda o seu Copérnico.

Basta ler-se para se encontrar um pouco por toda a parte estas observações que só agora tomamos a sério.

Um dos sábios mais profundos e mais originais do século XVII, Pedro Gassêndi, amigo de Galileu e de Pe­reisch, dá parte do seguinte sonho premonitório.

Pereisch partiu um dia para Nimes com um amigo, um certo Rainier. Este, durante a noite, notando que Pereisch falava a dormir, acordou-o, perguntando-lhe o que tinha. Pe­reisch respondeu:

- Sonhava que já tínhamos chegado a Nimes e que um ourives me oferecia uma medalha de Júlio César pelo preço de quatro escudos. Ia justamente entregar-lhe o dinheiro, quando, a meu grande pesar, você me acordou.

Chegados a Nimes e como dessem algumas voltas pela cidade, Pereisch reconheceu a loja do ourives que tinha visto em sonho. Entrando, perguntou se não teria qualquer objeto curioso para vender, ao que o ourives respondeu:

- Tenho, sim; uma medalha de Júlio César.

Como lhe perguntasse quanto custava, o ourives replicou: - Quatro escudos.

Encantado por ver o seu sonho realizar-se, Perevsch apressou-se a pagar os escudos pedidos.

Aqui, a realização da premonição parece ter sido de­terminada pela recordação da própria premonição, visto que Pereisch reconheceu a loja do joalheiro que havia visto em sonho.

O Dr. E. Osty, de particular competência neste estudo da lucidez, fez, sobre este assunto, uma confe­rência documentada no Instituto Geral de Psicologia, no dia 24 de Março de 1919. Da sua conferência extrairei o relato seguinte, que a ele se refere (96):

Em 1912, expõe ele, um médium lúcido, que pela primei­ra vez utilizei, e que descreveu assim a minha vida de então: -... O senhor residia numa pequena cidade no centro da França... Eu vejo sua casa... De habitação. Dando para uma praçazinha... Mas não é aí que estão as suas ocupa­ções... O senhor dirigia-se para o seu trabalho numa casa onde tinha o seu escritório... lá remexia em muitas folhas de papel... Em quantas folhas o senhor tocava!... Trazem­-vos outras mais de um gabinete ao lado do vosso, onde se encontram várias pessoas a escrever... É uma perpétua ida e vinda entre o compartimento onde estão e o vosso... O senhor, depois de olhar para as folhas que lhe trazem, tor­na-as a entregar... Outras pessoas de fora vêm também trazer papéis... o senhor toma-os, escreve neles e torna a entregá-los. Em quantas folhas o senhor toca! Quanta pa­pelada!...

Tudo isto era falso. A minha existência, então, limita­va-se, em grande parte, à prática da medicina pura, e tam­bém ao meu trabalho pessoal sobre Psicologia. Tudo isto se torna verdadeiro a partir de Agosto de 1914. Médico chefe do hospital em Vierson durante os dois primeiros anos de guerra, a visão fragmentária do caso exposto transformou-se num aspecto, direi mesmo, no aspecto principal, característico de minha vida cotidiana. Eu fiquei submergido pela pa­pelada burocrática.

Esta percepção do futuro apresentava-se tão clara e precisa como uma janela aberta sobre uma cena futura. E' de notar que estas percepções individuais são bas­tante freqüentes, enquanto os acontecimentos gerais, e, nomeadamente, a espantosa catástrofe social da guerra alemã de 1914 a 1918 não tivessem sido objeto de qual­quer previsão característica deste gênero; do que pode­ria inferir-se que se trata unicamente de sensações de alma para alma.

O meu laborioso e muito saudoso amigo, o Dr. Moutin, que fez em minha casa, em 1889, notáveis ex­periências de magnetismo, das quais terei ocasião de falar mais adiante, ocupou-se, em 1903, de estudos ana­líticos sobre o Espiritismo, entre os quais podemos notar o singular anúncio que segue.

Numa sessão que se realizou em 19 de Agosto, da qual ele guardou os respectivos autos conforme o seu excelente costume, um espírito manifestou-se por meio de uma mesa. Afirmando ser uma senhora de nome Hermância V. , recen­temente falecida. O doutor conhecia de longa data essa se­nhora e o marido. A declaração seguinte deixou-o comple­tamente espantado:

- Meu marido vai casar-se novamente em Setembro próximo. Antes do seu casamento há de vir a Paris, mas não terá, tempo de visitá-lo.

- O que me diz é impossível. Conheço V. Sei bem a afeição que dedicava a sua mulher e não posso crer que se case quatro meses depois do seu falecimento.

- No entanto é a pura verdade e dentro de alguns dias receberá a confirmação do que digo.

- E' então o interesse que o guia e não a afeição?

-- O interesse não entra neste assunto; mas, como sabe, Luciano (é o nome de batismo de V. ) não pode viver sozinho.

- Casar-se-á com uma senhora da idade dele?

- Não; com uma menina de vinte e três anos e pouco. Depois do casamento deixará a Provença para vir para Paris. - Como pode ser isso, com a posição que ele ocupa na Provença? E' absolutamente inadmissível.

- Circunstâncias desastrosas e, sobretudo, uma grande perda de dinheiro, obrigá-lo-ão a vir para Paris, a fim de encontrar uma nova situação.

- Veremos se o seu vaticínio se realiza, o que duvido; aceitando, porém, o que me acaba de dizer, veria com des­prazer essa união?

- Pelo contrário, visto que Luciano não pode viver só. Findas estas palavras, a mesa ficou imóvel. Depois de alguns minutos de espera, perguntei se a comunicação havia terminado: sim, foi a resposta.

A Sra. V. nunca mais se apresentou e foi à única ma­nifestação que nos deu.

No caso presente, notou Moutin, ninguém devia duvidar de tais revelações, nada podia fazer tomar a sério esta co­municação. Apenas eu e as pessoas de minha família conhe­cíamos a morta e estávamos bem longe de acreditar no que acabava de ser-nos dito. As outras personalidades que assis­tiam às nossas reuniões nunca tinham ouvido pronunciar o nome de V.

Dias depois, a 27 de Agosto, recebi uma carta do meu amigo V. , na qual me anunciava para o mês de Setembro o seu casamento com a Srta. X. e me dava alguns esclarecimentos sobre a sua futura esposa - esclarecimentos que coincidiam exatamente com os que me tinham dito a 19 de Agosto.

Em Março de 1904, o Sr. V. veio ver-nos, informando­-nos de que acabava de instalar-se em Paris; transmiti-lhe a comunicação de Hermância e ele ficou por tal forma sur­preendido que, embora não duvidasse das nossas afirmações, quis conhecer a ata desta sessão e pode assim verificar que tudo quanto tinha dito sua primeira esposa era duma exa­tidão rigorosa: - a sua viagem a Paris, antes de consor­ciar-se segunda vez, a sua mudança de situação. Ficou pe­trificado, e afirma a realidade dos fatos concludentes que não hesitamos em oferecer como prova da conservação do eu depois da morte e ainda como prova patente da identidade da Sra. Hermância V.

O Dr. Moutin apresenta este fato como o mais im­portante dos que influíram para a sua convicção es­pírita. Possuirá na verdade o valor categórico e absoluto que lhe atribui?

Está demonstrado que os nossos pensamentos po­dem agir, quer consciente quer inconscientemente, para produzirem estes ditados tiptológicos. O Dr. Moutin e sua família conheciam a Sra. Hermância V.; a idéia de que seu marido, ficando viúvo, se tornasse a casar, nada tem de extraordinário. Por outra parte, o pensa­mento do viúvo pode não ter sido alheio à experiência, pois que já estava na intenção de voltar a casar-se e que assim o anunciava aos seus amigos, oito dias de­corridos desta sessão. Não lhe ocuparia também o es­pírito, nesse momento, o projeto de trocar a província por Paris.

Parece-me que a identidade da morta não é de todo exata e que a sua manifestação poderia ser determinada por outras causas psíquicas. Julgo-a, no entanto, pro­vável. Não é este o lugar próprio para a discussão de importante problema e apenas assinalo tal fato como exemplo de anúncio preciso dum acontecimento futuro.

Acrescentarei, porém, que tanto neste caso parti­cular como em outros análogos, a primeira esposa do amigo do Dr. Moutin poderia ter, mesmo enquanto vi­veu, a intuição deste segundo consórcio, aprovando-o até, o que depõe a favor da identidade. Voltaremos a este assunto na terceira parte da obra presente, ao dis­cutirmos as manifestações de mortos.

O afamado pároco d'Ars, o Padre Vianney (1786­-1859), ofereceu muitos exemplos da sua faculdade de ver o futuro.

Eis um de tais exemplos, que eu reproduzo da sua: biografia (97)

Sóror Maria Vitória, fundadora dum Recolhimento para raparigas, estava em Ars, nos começos da sua obra, com mais duas companheiras, das quais uma é a sua atual assis­tente. Certa manhã, quando as três se dispunham a ouvir a missa do Rev. Vianney, antes de saírem de Ars, o pároco aproximou-se delas e, dirigindo-se à sóror Maria Vitória, ain­da secular, disse-lhe:

-- E' preciso partir imediatamente!

- Mas, Senhor pároco - respondeu ela, surpreendida -­queríamos, antes disso, ouvir a santa missa.

- Não, minha filha, partam sem tardança, porque uma de vós irá adoecer. Se demoram, serão obrigadas a ficar aqui.

Com efeito, a uma curta distancia da região que habi­tavam uma das três viajantes, a que deveria depois ser sóror Maria Francisca, encontrou-se de tal maneira indisposta que as suas duas companheiras se viram forçadas a trans­portá-la nos braços até à residência dela. Foi este o início da enfermidade que nada deixava prever.

O Padre Vianney era dotado de faculdades psíquicas transcendentes. Atribuía ao diabo certas manifestações de ordem inferior, como os ruídos inexplicáveis; mas nada há menos demonstrado do que a existência de Satanás.

Esta premonição era útil. Na maior parte dos ca­sos, as premonições não servem para nada e nada evi­tam. Eis aqui uma, no entanto, que salvou a vida duma criança: - A Sociedade Inglesa de Investigações Psíqui­cas relatou, entre outras, uma advertência muito precisa de visão ao futuro, salvando a vida duma pequenita que ia brincar num sítio próximo do caminho de ferro de Edimburgo, onde a queda duma locomotiva matou três homens e a teria esmagado a ela. A propósito deste curioso salvamento, a mãe escreve o seguinte.

Tinha dito a minha filha que das três para as quatro horas lhe concedia a liberdade de ir passear; e, como estava só, aconselhou-a a dirigir-se ao jardim do caminho de ferro (nome que ela dava a uma estreita faixa de terreno entre o mar e a via - férrea). Poucos minutos depois da sua par­tida e ouvi distintamente uma voz interior que me observava: Manda-a buscar sem demora, ou suceder-lhe-á alguma coisa terrível.

Imaginei que se tratava de estranha auto-sugestão e a mim mesma perguntei o que, na realidade, poderia aconte­cer-lhe num tão lindo dia e não a mandei procurar. Passado um momento, contudo, a mesma voz recomeçou a falar-me com palavras idênticas, mas mais imperiosamente. Resisti ainda e dei tratos ã imaginação para adivinhar o que poderia ter acontecido à criança: - pensei no encontro de um cão raivoso, mas isto era de tal modo improvável que seria absurdo chamá-la só tal pretexto; e, se bem que principias­se a sentir-me inquieta, decidi nada fazer, tentando pensar noutra coisa, o que consegui, durante instantes; mas, em breve, a voz renovava a sua insinuação, em idênticos termos: - Manda buscá-la imediatamente ou suceder-lhe-á alguma coisa terrível. Ao mesmo tempo, fui assaltada por violenta tremura e por uma impressão de intenso pavor. Levantei-me bruscamente, toquei a campainha e ordenei à criada que fosse procurar, sem a menor delonga, a minha filha, repetindo automàticamente as palavras da insinuação - doutra for­ma, suceder-lhe-á alguma coisa terrível.

Ao cabo dum quarto de hora, a serva aparecia com a criança que, desapontada por eu a mandar buscar tão de­pressa, me perguntou se eu pretendia retê-la em casa duran­te todo o dia.

- Não - respondi e se me prometes que não vais para o jardim do caminho de ferro podes ir para onde quiseres, por exemplo, para a casa do teu tio, onde brincara com os teus priminhos, no quintal.

Pensei que, entre essas quatro paredes, ela estaria em segurança; porque, embora minha filha tivesse regressado sã e salvo, eu sentia nitidamente que, no ponto em que perma­necia anteriormente, o perigo continuava a existir e desejava impedir que para lá voltasse.

Ora, foi precisamente nesta altura que a locomotiva e o tênder descarrilaram, destruindo os parapeitos e indo des­pedaçar-se contra os próprios rochedos em que a pequenita costumava sentar-se.

Este salvamento extraordinário foi confirmado pelos depoimentos da família e dos vizinhos. Ocorreu no mês de Julho de 1860 e publicou-se no Jornal da Sociedade de Investigações Psíquicas            (t. VIII, Março de 1897). Também eu o publiquei na Revista, de Maio de 1912. A sua exatidão é insofismável.

Acrescentar-lhe-ei, com Bozzano, uma premonição não menos notável que salvou a vida de toda uma fa­mília, e igualmente produzida por via misteriosa. E' re­produzida do Jornal da Sociedade de Investigações Psí­quicas (pág. 283). O Capitão Mac Gowan narrou ao professor Barrett o seguinte fato ocorrido com ele:

Em Janeiro de 1877, encontrando-me em Brooklyn, com meus dois filhos ainda muito crianças, e que estavam em férias, prometi-lhes que, em determinada noite, os levaria ao teatro. Na véspera dessa noite fui escolher os três lugares e comprar os bilhetes.

Na manhã do dia fixado para irmos assistir ao espetáculo, comecei a ouvir uma voz interior que me dizia com insistência: - Não vás ao teatro; leva os teus filhos para o colégio. Apesar dos esforços que empreguei para me dis­trair, não podia impedir esta voz de continuar a repetir as mesmas frases, num tom mais imperioso que anteriormente: a coisa chegou a tal ponto que, pelo meio-dia, decidi informar tanto os meus amigos como os meus filhos de que não deviemos ir ao teatro. Os meus amigos admoestaram­-me por esta decisão, observando-me que era cruel privar as crianças de diversão tão nova para eles, e tão impaciente­mente esperada, depois da promessa formal que lhes fizera: isto me levou, ainda, a mudar de resolução.

Contudo, durante toda à tarde, essa voz interior não dei­xou de repetir a ordem, com tão imperiosa insistência, que, chegada a noite, e uma hora antes do princípio do espetáculo,

Anunciei peremptòriamente a meus filhos que, em vez de ir­mos ao teatro, iríamos antes à Nova Iorque: - e partimos.

Ora, sucederam que, nessa mesma noite, o teatro foi intei­ramente destruído por um incêndio, morrendo queimadas pe­las chamas 305 pessoas.

Se eu tivesse ido ao espetáculo, minha irmã que fora ao teatro, e não, teríamos perecido, porque sairíamos por uma escada em que foi esmagada toda a gente que por ai preten­deu salvar-se.

Jamais na minha vida tive outro pressentimento, não costumo mudar de resolução sem razões sérias, e, nesta oca­sião, fi-lo com a maior repugnância e absolutamente contra minha vontade.

Qual foi, pois, a causa, que me forçou, contra o meu próprio desejo, a não ir ao teatro depois de ter pagado os trás bilhetes e na boa disposição de passar a noite agradavelmente?

O Capitão Mac Gowan explicou ao professor Barrett que a voz interior (98), ressoava nitidamente para ele, como se tratasse de alguém que efetivamente lhe falasse do interior de seu próprio corpo e que ela in­sistira nos seus avisos desde o momento do primeiro almoço até o instante em que partira para Nova Iorque com seus filhos... Sua irmã conserva. Os três bilhetes adquiridos por ele no dia precedente ao do incêndio do teatro (99). Todos esses fatos são de tal maneira con­vincentes e tão altamente demonstrativos que se confir­mam por completo uns com os outros, formando um bloco que nenhuma força vingará destruir.

Parece-me supérfluo juntar mais exemplos aos pre­cedentes. No entanto, existem outros tão típicos que seria lamentável não os recordar, para fixar inteiramente a sensação da verdade nos espíritos mais recalcitrantes. A nítida observação narrada pelo rigoroso experimenta­dor Liébault (100), na sua Terapêutica Sugestiva, é especialmente notável.

O sábio médico de Nancy conta que a 7 de Janeiro de 1886, pelas 4 horas da tarde (segundo o seu canhe­nho diário autêntico), um dos seus clientes, o Sr. de Ch... , foi consultá-lo, num estado de nervosidade bem compreensível. Ouçamos a história

Seis anos antes, a 26 de Dezembro de 1879, passeando numa rua, este moço vira escrito numa porta estas palavras: Sra. Lenormand, nigromante. Espicaçado pela curiosidade, entrara.

Examinando-lhe a mão, a profetisa dissera-lhe:

- Dentro dum ano, contado dia a dia, perderá seu pai. Em breve será soldado (tinha então dezenove anos); não se conservará durante muito tempo nas fileiras. Casará novo. Do seu casamento nascerão dois filhos. Morrerá aos vinte e seis anos.

Esta profecia assombrosa que o Sr. de Ch... Confiou a alguns amuos e a várias pessoas de sua família, não foi por ele tomada a sério a princípio; mas, seu pai morria a 27 de Dezembro de 1880 ao cabo de curta enfermidade - justamente um ano depois da entrevista com a nigromante - e esta desgraça arrefeceu um pouco a sua incredulidade. Quando chamado à vida militar, passados sete meses somente - e quando casado pouco tempo depois, foi pai de dois filhos, próximo ao atingir os seus vinte e seis anos, sentiu-sé abalado definitivamente pelo medo, julgando que poucos dias de vida lhe restavam. Foi então consultar o Dr. Liébault, interrogando-o se não seria passível conjurar a sorte, porque, pensava ele, tendo-se realizado os quatro primeiros aconte­cimentos anunciados pela predição, o quinto devia fatalmente realizar-se também.

Nesse mesmo dia e nos seguintes - diz o médico - ten­tei mergulhar o Sr. de Ch... Num sono profundo, com o fim de dissipar a negra obsessão do seu espírito: a da sua morte próxima, morte que ele julgava dever dar-se a 4 de Fevereiro, dia do aniversário do seu nascimento, embora a nigromante nada houvesse precisado acerca deste assunto. Estava por tal forma agitado que me foi impossível produ­zir-lhe a mais ligeira sonolência. Entretanto, como urgia seqüestrá-lo à influência da sua convicção, pois se tem visto realizarem-se inteiramente certas predições por auto-suges­tão, propus-lhe que fôssemos consultar um dos meus sonâm­bulos, um velho chamado o Profeta, por ter anunciado a épo­ca exata da sua cura do reumatismo que havia quatro anos o torturava, e também a época da cura de sua filha.

O Sr. de Ch... Aceitou àvidamente a miara proposta e não faltou à consulta. Posto em relações com o sonâmbulo, as suas primeiras palavras foram estas:

- Quando morrerei?

O sonâmbula, avisado, e avaliando a perturbação deste moço, respondeu-lhe, depois de tê-lo feito esperar:

- Morrerá... Morrerá, dentro de quarenta e um anos. O efeito causado por estas palavras foi maravilhoso. O consultante tornou-se imediatamente alegre, expansivo e cheio de esperança, e quando passou o dia 4 de Fevereiro, por ele tão temido, julgou-se salvo.

Já não pensava em nada disto, quando, em princípios de Outubro, recebi uma carta tarjada de negro, comunican­do-me que o meu infeliz cliente acabava de sucumbir, a 30 de Setembro de 188ó, aos vinte e sete ares incompletos de Idade, como lho havia profetizado a Sra. Lenormand. E para que se não suponha que houve aqui qualquer erro da minha parte, conservo tanto essa carta como as anotações: são dois testemunhos escritos e inegáveis.

Tal é a narrativa do Dr. Liébault, cujos trabalhos são conhecidos. Analisem, dissequem esta série de fatos consecutivos, com todo o cepticismo imaginável, com o mais severo rigor cirúrgico, e então, mesmo que se pen­se que nada de surpreendente existe no fato de a ni­gromante haver anunciado a este rapaz dezenove anos que seria soldado, que em seguida se casaria, res­tarão ainda, para justificar, quatro coincidências: - 1°, a morte de seu pai, no espaço dum ano contado dia a dia; 2°, a sua baixa do serviço militar, antes de termi­nado o tempo habitual; 3°, o nascimento de dois filhos; 4°, a sua própria morte, na idade de vinte e sete anos incompletos. Julgo que bastaria unicamente esta narrativa para estabelecer a nossa convicção. E bastaria a mesma narrativa também para nos mostrar que é imprudente apoiarmo-nos nestas questões, mesmo que se não creia nelas, atendendo a que a nossa tranqüilidade sofre inevitavelmente e que é desnecessário criar­mo-nos inquietações.

Mas, poderemos dominar-nos sempre? Devemos con­fessar que todo este estudo das condições da morte é eriçado de pontos de interrogação.

O seguinte fato é um dos mais bizarros. Como ex­plicá-lo também?

Na noite de 24 para 25 de Maio de 1900, o Sr. Renou, de vinte e oito anos de idade, vivendo numa grande cidade do norte da França, sonhou que, estando em casa do seu cabeleireiro, a mulher deste lhe deitava cartas. (Digamos, de passagem, que a personagem mencionada nunca dera provas de possuir este dom.) Nessa ocasião, ela dizia-lhe tex­tualmente: - Seu pai morrerá a 2 de Junho.

A 25 de Maio, pela manhã, o Sr. Renou contou este sonho a sua família. Vivia então com os seus, e todas estas pessoas, muito cépticas acerca de tal gênero de advertência,, se riram, sem ligarem ao caso a menor importância.

O Sr. Renou, pai, tivera alguns acessos de asma, com longos intervalos; mas, nesse momento, passava muito bem de saúde. No dia 1 de Junho, assistindo ao enterro de pessoa sua conhecida, contou o referido sonho a um amigo, con­cluindo alegremente.

- Se hei de morrer amanhã, não tenho muito tempo a perder.

O dia inteiro passou, sem que se sentisse indisposto. À noite, um dos seus filhos, soldado da guarnição de Verdun, apareceu em casa, com licença. Toda a família reunida con­versou alegremente até altas horas.

Pelas onze e meia, o Sr. Renou, pai, deitou-se, bem disposto. A meia-noite assaltou-o bruscamente um ataque de opressão: dispnéia intensa, tosse violenta, expectoração es­pumosa e sanguinolenta. Correu-se à procura dum médico: - era muito tarde, tudo havia acabado. Vinte minutos de­pois da meia-noite - 2 de Junho, conseqüentemente - ele morria.

Esta narrativa, à qual apenas se modificou o nome, a pedido da família, foi publicada em Os Novos Horizontes da Ciência (Douai, Junho de 1905. ) O Dr. Sa­mas, que assinala o fato, procura-lhe uma explicação. Os cépticos resolverão fàcilmente o assunto - diz ele - objetando que não houve nisto mais do que simples coincidência: o Sr. Renou, cardíaco, e por conseqüência impressionada pelo sonho; o regresso de seu filho, se­gunda emoção; a sua imaginação, já sobre excitada, de­terminam, por ação reflexa, a última crise. Mas, vimos há pouco que nem ele nem qualquer membro de sua família tinham ligado a menor importância a este sonho estranho. E sendo assim?...

Consideremos também este sonho premonitório de morte, ao qual se associa uma aparição.

A 8 de Março de 1913, recebi a importante narrativa seguinte da Sra. Susana Bonnefoy, presidente da União das Mulheres de França, Cruz Vermelha francesa, em Cherburgo, mulher do médico-chefe do Hospital Marítimo.

E' necessário, meu caro mestre, que eu lhe conte um fato de premonição pessoal, que deve juntar-se com utilidade lista dos seus documentos psíquicos.

No dia 18 de Janeiro último, pelas 8 horas da manhã, a criada do Sr. Féron, advogado, Rua Cristiana, e primeiro adjunto da cidade de Cherburgo, vieram anunciar-me a morte súbita de seu amo, ocorrida dez horas antes. A afeição que me ligava ao Sr. Féron era mais a de irmã que a de pes­soa amiga. Muito comovida, apressei-me a ir oferecer os meus serviços ã sua viúva. A Sra. Féron, casada havia vinte e oito anos com um homem que por ela tinha cons­tantemente as maiores atenções estava consternada, desejava morrer.

- E pensar - exclamou ao ver-me - que há um mês eIe dizia continuamente que não chegaria ao fim de Janeiro. Há poucos dias, foi ao enterro dum seu amigo e teve, na noite seguinte, um sonho muito estranho, no qual este amigo eai aparecera, dizendo-lhe: Tal dia virá juntar-te comigo.

Quando a Sra. Féron terminava esta narrativa entre soluços, a Sra. Laflambe, que mora nesta cidade, na Praça Napoleão, entrava em sua casa. A Sra. Féron ainda acres­centou:

- Meu marido tinha profetizada, em seguida aos seus sonhos, não só a morte de sua mãe como ainda a do seu esposo, minha senhora. Quando partiram para Vichy (em (1911), onde o Sr. Laflambe quis que a senhora fosse tra­tar da saúde, meu marido disse-me: O nosso amigo Laflam­be vai a Vichy por causa da saúde de sua mulher, mas não voltará.

O Sr. Laflambe, muito bem disposto no momento da partida, foi atacado, em Vichy, duma congestão pulmonar mortal.

Ao regressar desta visita que eu lhe conto muito sim­plesmente, deparou-se-me a criada e perguntei-lhe

- E' verdade ter o Sr. Féron estado ainda ontem de tarde na mairtie, gozando boa saúde e não pensando em mor­rer tão cedo?

- Oh! Senhora - respondeu ela - o Sr. Féror. Dizia­-nos, pelo contrário, ter sonhado que não chegaria ao fim de Janeiro e parecia muito impressionado por isso.

O Sr. Féron sentiu-se subitamente enfermo, ao passar na rua, e sucumbiu meia hora depois, levada por uma embolia do coração. Muito estimado em Cherburgo, possuía bela fortuna, excelente saúde e tudo lhe sorriam na vida.

Ontem, 5 de Março, conversaram de novo com a Sra. Fé­ron, acerca desta singular premonição. Disse-me que seu marido estava persuadido de ter vivido já uma outra existência diferente desta.

 

 

(Carta 2. 325.)

 

SUSANA BONNEFOY

Rua de la Palle, 13, Cherburgo.

 

 

Encontrando-me em Cherburgo, em Setembro de 1914, o Senhor e a Sra. de Bonnefoy confirmaram-me este caso tão curioso, e tive dele, além disso, uma confirma­ção independente e espontânea pelo Senhor, 13iard, diretor do Despertar da Mancha, a quem a morte súbita do adjunto do Maire de Cherburgo impressionara e que não ignorava as circunstâncias em que ocorrera.

Estes fatos existem. De nada serviria negar. De­vem, pelo contrario, servir para elucidar-nos.

Eis aqui um outro caso da mesma natureza:

O Sr. Hurlay, negociante em Pont-Audemar (Eure), escrevia-me, a 13 de Abril de 1918 (carta 4.024) que o Dr. Cantara vira, uma noite, um homem afastar os cortinados do seu leito e anunciar-lhe: 1°, uma bela si­tuação e 2°, a sua morte aos quarenta anos; que, na data anunciada, reuniu os seus amigos a um grande jantar, fazendo parte dos convivas seu avô e sua avó, felicitando-se pela terminação do prazo do pesadelo, e que, à meia-noite, foi acometido por uma forte dor de dentes e caiu morto.

Ainda outro fato:

O naturalista bem conhecido, Edwin Reed, diretor do Museu de História Natural da cidade de Conceição (Chile), gozava de excelente saúde ainda pouco tempo antes da sua morte. Dois meses antes do seu falecimen­to, sonhou que, ao chegar ao fim duma avenida em que passeava, via um túmulo com uma cruz, em que se lia a seguinte inscrição: Reed, naturalista, 7 de Novembro de 1910. O Sr. Reed contou, gracejando, este sonho estranho a muitos amigos, em várias ocasiões. Pouco tempo depois, a Senhora de R. , nora do Sr. Reed, que re­sidia em Mendonza, sonhou, uma noite, no momento em que se preparava para festejar o aniversário do seu casamento, que passaria no mesmo dia 7 de Novembro, que todos os presentes, que nessa data lhe ofereciam, eram coroas funerárias...

Ora, o Sr. Reed faleceu a 7 de Novembro de 1910. Nos dias que precederam a sua morte, lembrava aos que o cercava a data anunciada, sem parecer ligar a isso a menor importância (101).

Poderia mencionar numerosos casos análogos, pro­batórios todos de que o futuro pode ser visto. Não é esse, porém, o intuito deste livro, e eu já lhes consagrei um volume especial que será brevemente publicado. Os exemplos que se acabam de ler são mais que suficientes para este capítulo, destinado simples e expressamente e assinalar, como os antecedentes, a existência de fa­culdades da alma independentes do exercício dos senti­dos materiais. Não seriam mais nitidamente provadas tais faculdades se eu juntasse outros depoimentos aos que aí ficam.

 

*

 

Julgo que o leitor atento destas páginas não pode duvidar da existência da alma e das suas faculdades puramente psíquicas.

Antes do conhecimento da telepatia, nos séculos pas­sados, estas espécies de advertências eram a