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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CELULAR / Stephen King
CELULAR / Stephen King

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

      A civilização entrou na sua segunda idade das trevas em um pouco surpreendente rastro de sangue, mas com uma rapidez que não poderia ser prevista nem mesmo pelo mais pessimista dos futurólogos. Era como se estivesse engatilhado. No dia 10 de outubro, Deus estava no céu Dele, a Bolsa de Valores estava em 10.140 pontos e a maioria dos aviões estava no horário (exceto os que chegavam e partiam de Chicago, o que era de se esperar). Duas semanas depois, os céus pertenciam aos pássaros novamente e a Bolsa de Valores era uma lembrança. Já no Dia das Bruxas, todas as grandes cidades, de New York a Moscou, fediam sob o céu vazio, e o mundo como ele havia sido antes era uma lembrança.

 

 

 

 

     O evento que veio a ser conhecido como O Pulso começou às 15h03, horário da costa leste, na tarde do dia 10 de outubro. O termo era inapropriado, é claro, porém, dez horas depois do evento, a maioria dos cientistas capazes de apontar isso estava morta ou louca. Seja como for, o nome não tinha importância. O importante foi o efeito.

     Às três da tarde daquele dia, um jovem sem grande importância para a história veio andando — quase quicando — na direção leste pela Boylston Street, em Boston. O nome dele era Clayton Riddell. Trazia uma expressão de inconfundível contentamento no rosto, que combinava com seu passo saltitante. Na mão esquerda, balançavam as alças de um portfolio, daquele tipo que fecha e prende para virar uma maleta. Enrolado nos dedos da mão direita, estava o cordão de uma sacola de compras de plástico marrom, com as palavras pequenos tesousos impressas nela para qualquer um que quisesse lê-las.

     Dentro da sacola, balançando para frente e para trás, havia um pequeno objeto redondo. Um presente, arriscaria você, e teria razão. Talvez você também arriscasse dizer que este Clayton Riddell era um jovem que queria comemorar alguma pequena (ou talvez não tão pequena assim) vitória com um pequeno tesouro, e teria razão novamente. O item dentro da sacola era um peso de papel consideravelmente caro com uma nuvem cinza de penugem de dente-de-leão no centro. Ele o comprara ao voltar do Copley Square Hotel para o muito mais modesto Atlantic Avenue Inn, onde estava hospedado, com medo da etiqueta de 90 dólares na base do peso de papel e, de certa forma, com mais medo ainda da noção de que ele não tinha condições de comprar uma coisa daquelas.

     Entregar o cartão de crédito para o balconista exigira quase coragem física. Achava que não teria conseguido se o peso de papel fosse para ele; teria balbuciado algo sobre ter mudado de idéia e saído correndo da loja. Mas era para Sharon. Sharon gostava daquele tipo de coisa, e ainda gostava dele — estou torcendo por você, querido, ela disse um dia antes de ele ir para Boston. Levando em conta os problemas que tinham causado um para o outro no decorrer do ano passado, aquilo tinha mexido com ele. Agora ele queria mexer com ela, se é que ainda era possível. O peso de papel era uma coisa pequena (um pequeno tesouro), mas ele tinha certeza que ela adoraria aquela delicada nuvem cinza enfiada no meio do vidro, como uma névoa de bolso.

     O tilintar de um caminhão de sorvete atraiu a atenção de Clay. Estava parado na calçada oposta ao Four Seasons Hotel (que era ainda mais grandioso do que o Copley Square) e próximo ao Boston Common, que segue pela Boylston por duas ou três quadras naquele lado da rua. As palavras MISTER SOFTEE estavam pintadas nas cores do arco-íris sobre uma dupla de sorvetes dançantes. Três garotos estavam amontoados na janela, mochilas no chão, esperando suas guloseimas. Atrás deles estava uma mulher de terninho com um poodle em uma coleira e duas adolescentes vestindo jeans de cós baixo, com iPods e fones de ouvido em volta dos pescoços, para que pudessem ficar cochichando — sérias, sem risadinhas.

     Clay ficou atrás delas, transformando o que era antes um pequeno grupo em uma fila curta. Comprara um presente para a sua ex-mulher; passaria na Comix Supreme no caminho de casa e compraria para o filho a nova edição do Homem-Aranha; talvez também se desse um presente. Estava louco para contar a novidade para Sharon, mas ela estaria fora de contato até chegar em casa, por volta das 15h45. Ele achou que ficaria no Inn pelo menos até falar com ela, basicamente andando de um lado para o outro no seu quarto pequeno e olhando para o portfolio aberto. Enquanto isso, o Mister Softee seria um passatempo aceitável.

     O cara no caminhão serviu aos garotos na janela dois Dilly Bars e um cascão enorme de chocolate e baunilha para o gastador do meio, que pelo visto estava pagando para todos. Enquanto ele arrancava um punhado de notas amassadas do bolso do seu jeans baggy da moda, a mulher com o poodle e o terninho de poderosa enfiou a mão na sua bolsa de ombro, tirou o celular — mulheres que vestem terninhos de poderosa já não saem de casa sem o celular do mesmo jeito que não saem sem seus cartões de crédito da Amex — e o abriu. Atrás deles, no parque, um cachorro latiu e alguém gritou. Não pareceu a Clay um grito de alegria, mas, quando olhou por sobre o ombro, tudo que pôde ver foram alguns pedestres, um cachorro correndo com um frisbee na boca (eles não deviam estar na coleira lá dentro?, pensou), acres de verde ensolarado e sombras convidativas. Parecia um bom lugar para um homem que acabara de vender sua primeira graphic novel — e a continuação dela, ambas por uma bela grana — se sentar e tomar uma casquinha de chocolate.

     Quando voltou a olhar, os três meninos de jeans baggy tinham ido embora e a mulher de terninho pedia um sundae. Uma das duas garotas atrás dela tinha um celular cor de hortelã preso à cintura e a mulher do terninho de poderosa trazia o dela enganchado na orelha. Clay pensou, como quase sempre pensava em algum nível da sua mente quando via uma variação daquele comportamento, que estava vendo um ato que no passado teria sido considerado de uma má educação quase intolerável — sim, mesmo durante uma pequena transação comercial com um completo estranho — se tornar um comportamento cotidiano aceitável.

     Coloque isso no Dark Wanderer, querido, disse Sharon. A versão dela que ele trazia na cabeça falava bastante e sempre tinha algo a di-zer. Isso valia para a Sharon do mundo real também, com separação ou sem separação. Mas não no celular dele. Clay não tinha celular.

     O cçlalar cor de hortelã tocou as primeiras notas daquela música do Crazy Frog que Johnny adorava — o nome era Axel P. Clay não conseguia lembrar, talvez porque a bloqueara da sua mente. A dona do telefone o tirou da cintura e falou:

     —      Beth? — Escutou, sorriu e então disse para a amiga: — É a Beth.

     Em seguida, a outra garota inclinou o corpo para frente e as duas ficaram ouvindo, os cabelinhos curtos quase idênticos (para Clay elas pareciam personagens de desenho animado, as Meninas Superpode-rosas, talvez) balançando juntos na brisa da tarde.

     —      Maddy? — disse a mulher vestindo o terninho de poderosa quase na mesma hora. O poodle dela estava sentado de modo contem plativo na ponta da coleira (a coleira era vermelha e salpicada de alguma coisa cintilante), observando o tráfego na Boylston Street. Do outro lado, no Four Seasons, um porteiro vestindo um uniforme marrom — eles sempre eram marrons ou azuis — acenava, provavelmente para um táxi. Um Duck Boat1 repleto de turistas passava, parecendo fora de lugar em terra, o motorista berrando em seu megafone sobre algo histórico. As duas garotas que ouviam o telefone cor de hortela olharam uma para a outra e sorriram por conta de alguma coisa que escutavam, mas ainda não deram risadinhas.

     —      Maddy? Está me ouvindo? Está me...

     A mulher de terninho ergueu a mão que segurava a coleira e meteu um dedo de unha longa na orelha livre. Clay estremeceu, temendo pelo tímpano dela. Imaginou-se a desenhando: o cachorro na coleira, o terninho de poderosa, o cabelo curto chique... e uma pequena gota de sangue pingando do dedo na orelha. O Duck Boat acabando de sair do quadro e o porteiro ao fundo, aquelas coisas emprestando ao desenho uma certa verossimilhança. Dariam; ele sabia que sim.

     —      Maddy, a ligação está caindo! Só queria dizer que cortei o cabelo naquele novo... meu cabelo?... MEU...

     O cara do Mister Softee se abaixou e estendeu uma taça de sundae. Um Alpe se erguia dela com calda de chocolate e morango escorrendo pelos lados. Seu rosto, com a barba por fazer, estava impassível. Dava para ver que ele já tinha visto aquilo antes. Clay tinha certeza que sim, e mais de uma vez. No parque, algtiém gritou. Clay voltou a olhar por sobre o ombro, dizendo a si mesmojque tinha que ser um grito de alegria. Às três da tarde, no Boston Common, tinha que ser um grito de alegria. Não tinha?

      A mulher disse algo ininteligível para Maddy e fechou o telefone celular com uma bem treinada virada do pulso. Largou-o de volta na bolsa e então ficou parada, como se tivesse se esquecido do que estava fazendo ou talvez até mesmo de onde estava.

     — São quatro dólares e cinqüenta — disse o cara do Mister Softee, ainda estendendo pacientemente o sundae. Clay teve tempo para pensar como tudo era caro pra cacete na cidade. Talvez a Mulher do Terninho de Poderosa também achasse... aquele, pelo menos, era seu primeiro palpite... porque ela continuou sem ação por um instante, simplesmente olhou para a taça com seu morro de sorvete e calda escorrendo como se nunca tivesse visto algo parecido.

     Então veio outro grito do Common, e daquela vez não era huma-no, mas algo entre um latido de surpresa e um uivo de dor. Clay se virou para olhar e viu o cachorro que estivera correndo com o frisbee na boca. Era um cão marrom de bom porte, talvez um labrador. Ele não conhecia cachorros direito; quando precisava desenhar um, pegava um livro e copiava a gravura. Um homem de terno estava ajoelhado ao lado do cão, usava uma gravata e parecia estar — com certeza não estou vendo o que acho que estou vendo — mastigando a orelha dele. Então o cachorro uivou novamente e tentou se desvencilhar. O homem de ter-no o segurou firme e, sim, aquela era a orelha do cão na boca do homem e, enquanto Clay continuava a olhar, ele a arrancou do lado da cabeça do animal. Desta vez, o cão soltou um grito quase humano, e vários patos que estavam flutuando em uma lagoa próxima alçaram vôo grasnando.

     "Rast.1", alguém gritou atrás de Clay. Pareceu rast. Poderia ter sido rato ou rastro, mas experiências futuras o fizeram se decidir por rast não uma palavra de verdade, apenas um som inarticulado de agressão.

     Ele se virou na direção do caminhão de sorvete a tempo de ver a Mulher do Terninho de Poderosa investir contra a janela em um esforço para agarrar o Cara do Mister Softee. Ela conseguiu pegá-lo pelas dobras soltas do avental, mas bastou um pulinho para trás para que ele se libertasse. Os saltos altos da mulher deixaram a calçada por um instante e ele ouviu o som de tecido se rasgando e o tilintar de botões, à medida que a frente do casaco dela subia pela beirada do balcão e depois escorregava de volta para baixo. O sundae caiu, sumindo de vista. Clay viu uma mancha de sorvete e calda no pulso esquerdo e no antebraço da Mulher do Terninho de Poderosa enquanto seus saltos altos batiam de volta na calçada. Ela cambaleou, joelhos dobrados. A expressão reservada, polida, estou-empúblico no seu rosto — que Clay chamava de cara inexpressiva-para-usar-narua — tinha sido substituída por um rosnado convulsivo que transformou seus olhos em frestas e expôs ambas as carreiras de dentes. O lábio superior estava completamente do avesso, revelando um tecido rosa e aveludado, tão íntimo quanto uma vulva. O poodle correu para a rua arrastando a coleira vermelha atrás de si com a alça na ponta. Uma limusine preta o atro-pelou antes de ele conseguir atravessar a metade da rua. Fofura em um instante, entranhas no outro.

     O pobrezinho já devia estar latindo no paraíso dos cãezinhos antes de descobrir que estava morto, pensou Clay. Compreendeu de uma maneira vagamente clínica que estava em estado de choque, mas aquilo não modificou a profundidade do seu assombro. Ficou parado com o portfolio pendendo de uma das mãos e a sacola de compras marrom da outra, boquiaberto.

     Em algum lugar — talvez na esquina da Newbury Street — algo explodiu.

     As duas garotas tinham o mesmíssimo corte de cabelo sobre os fo-nes de ouvido de seus iPods, mas a do celular cor de hortelã era loura e a amiga era morena; eram a Cabelinho Claro e a Cabelinho Escuro. A Cabelinho Claro deixou o telefone cair na calçada, onde ele se despedaçou, e agarrou a Mulher do Terninho de Poderosa pela cintura. Clay supôs (da melhor maneira que lhe era possível supor algo naqueles instantes) que ela queria impedir a Mulher do Terninho de Poderosa ou de ir atrás do Cara do Mister Softee de novo ou de sair correndo para a rua atrás do cachorro. Uma parte da sua mente chegou a aplaudir a presença de espírito da menina. A amiga dela, Cabelinho Escuro, estava se afastando dali, mãozinhas brancas juntas entre os seios, olhos arregalados.

     Clay largou seus próprios itens, um de caía lado, e deu um passo à frente para ajudar a Cabelinho Claro. Do outro lado da rua — viu isso apenas de soslaio — um carro perdeu a direção e disparou pela calçada em frente ao Four Seasons, fazendo o porteiro sair correndo do caminho. Gritos vieram do pátio do hotel. E, antes que Clay pudesse começar a ajudar a Cabelinho Claro com a Mulher do Terninho de Poderosa, a garota jogou o rostinho bonito para frente com a velocidade de uma cobra, mostrou os dentes jovens e sem dúvida fortes e os fincou no pescoço da mulher. Um enorme jato de sangue apareceu. A menina de cabelo curto enfiou a cara nele, parecendo banhar-se — talvez tenha até bebido (Clay tinha quase certeza que sim) —, e então sacudiu a Mulher do Terninho de Poderosa como uma boneca. A mulher era mais alta e devia ter uns 20 quilos a mais, mas a menina a sacudiu com força o suficiente para jogar a cabeça dela para frente e para trás, fazendo mais sangue jorrar. Ao mesmo tempo, ergueu o próprio rosto manchado de sangue para o céu azul-celeste de outubro e uivou de uma maneira que parecia triunfante.

     Ela está louca, pensou Clay. Completamente louca.

     A Cabelinho Escuro gritou:

     —      Quem é você? O que está acontecendo?

     Ao som da voz da amiga, a Cabelinho Claro virou a cabeça sanguinolenta. Sangue pingava das pontas de cabelo em forma de adaga que pendiam da sua testa. Olhos como lâmpadas brancas fitavam de órbitas salpicadas de sangue.

     A Cabelinho Escuro olhou para Clay, os olhos arregalados.

     —      Quem é você? — ela repetiu... e então: — Quem sou eu?

   A Cabelinho Claro largou a Mulher do Terninho de Poderosa, que desabou na calçada com a carótida aberta a dentadas ainda esguichando, e então saltou na direção da garota com quem ela estivera dividindo amigavelmente um telefone alguns poucos minutos atrás.

     Clay não pensou. Se tivesse pensado, a Cabelinho Escuro talvez tivesse acabado com a garganta aberta como a mulher vestindo o terninho de poderosa. Nem chegou a olhar. Simplesmente se abaixou, agarrou a parte de cima da sacola de compras da pequenos tesouros à sua direita e a girou contra a nuca da Cabelinho Claro, enquanto ela pulava em tima da sua ex-amiga com as mãos esticadas, formando garras contra o céu azul. Se ele errasse...

     Não errou; tampouco acertou a garota de leve. O peso de papel de vidro dentro da sacola atingiu a nuca da Cabelinho Claro em cheio, fazendo um barulho abafado. Ela deixou as mãos caírem, uma manchada de sangue, outra ainda limpa, e desabou na calçada aos pés da amiga como um saco de correio.

     —      Que porra é essa? — exclamou o Cara do Mister Softee. A voz dele era de um agudo improvável. Talvez o choque o tenha emprestado aquele alto tenor.

     —      Não sei — disse Clay. O coração dele estava retumbando. — Rápido, me ajude. Esta outra aqui está se esvaindo em sangue.

     De trás deles, na Newbury Street, veio o inconfundível som oco de batida e estilhaços de um acidente de carro, seguido de gritos. Os gritos foram acompanhados por outra explosão, mais alta, abaladora, martelando o dia. Atrás do caminhão do Mister Softee, outro carro perdeu a direção, atravessou três pistas da Boylston Street e entrou no pátio do Four Seasons, ceifou uma dupla de pedestres e por fim se enfiou na traseira do carro anterior, que acabara com a frente enroscada nas portas giratórias. Aquela segunda batida empurrou o carro mais para dentro das portas, entortando-as para o lado. Clay não conseguia ver se havia alguém preso lá dentro — nuvens de fumaça subiam do radiador aberto do primeiro carro —, mas os gritos aterrorizados nas sombras sugeriam coisas ruins. Muito ruins.

     O Cara do Mister Softee, que não conseguia ver aquele lado, estava debruçado na janela do caminhão, olhando para Clay.

     —      O que está acontecendo lá atrás?

     —      Não sei. Algumas batidas de carro. Pessoas feridas. Esqueça. Me ajude aqui, cara.

     Ele se ajoelhou ao lado da Mulher do Terninho de Poderosa no meio do sangue e os restos despedaçados do celular da Cabelinho Claro. Àquela altura, os espasmos da mulher já tinham ficado bem fracos.

     —      Tem fumaça subindo da Newbury — observou o Cara do Mister Softee, ainda sem abandonar a relativa segurança do seu caminhão de sorvete. — Alguma coisa explodiu lá. Coisa séria. Talvez sejam terroristas.

     Assim que a palavra saiu da boca dele, Clay teve certeza de que ele tinha razão.

     —      Me ajude.

     —      QUEM SOU EU? — a Cabelinho Escuro gritou de repente.

       Clay tinha se esquecido completamente dela. Ergueu os olhos a tempo de ver a garota bater na própria testa com a base da mão, e então dar três voltas rápidas em torno de si, ficando quase na ponta dos tênis ao fazê-lo. A visão trouxe à tona a lembrança de um poema que ele lera em uma aula de literatura na faculdade — Descreva um círculo ao redor dele três vezes. Coleridge, não era? Ela cambaleou e, em seguida, correu depressa pela calçada e bateu de frente em um poste. Não tentou desviar, nem mesmo levantou as mãos. Meteu a cara nele, ricocheteou, cambaleou e fez de novo.

     —      Pare com isso! — vociferou Clay. Ele saltou de pé, começou a correr na direção dela, escorregou no sangue da Mulher do Terninho de Poderosa, quase caiu, voltou a correr, tropeçou na Cabelinho Claro e quase caiu mais uma vez.

     A Cabelinho Escuro se virou para olhar para ele. O nariz dela estava quebrado e esguichava sangue até a parte inferior de seu rosto. Uma contusão vertical estava inchando na sobrancelha, como uma nuvem carregada em um dia de verão. Um dos olhos tinha se entortado na órbita. Ela abriu a boca, expondo os destroços do que provavelmente havia sido um tratamento dentário caro, e sorriu para ele. Ele nunca se esqueceu daquilo.

     Então ela saiu correndo pela calçada, gritando.

     Atrás dele, um motor deu partida e sinos amplificados começaram a badalar o tema de Vila Sésamo. Clay se virou e viu o caminhão do Mister Softee saindo rapidamente do meio-fio na hora em que, do último andar do hotel do outro lado da rua, uma janela se estilhaçava em uma ducha brilhante de vidro. Um corpo se atirava no dia de outubro. Caiu na calçada, onde mais ou menos explodiu. Mais gritos vindos do pátio. Gritos de horror; gritos de dor.

     —      Não!— gritou Clay, correndo do lado do caminhão do Mister Softee. — Não, volte e me ajude! Preciso que alguém me ajude aqui, seu filho-da-puta!

     Não houve resposta do Cara do Mister Softee, que talvez nem tenha escutado por conta da música alta. Clay conseguia lembrar a letra de uma época em que não tinha motivos para acreditar que seu casamento não duraria para sempre. Naquele tempo, Johnny assistia a Vila Sésamo todos os dias, sentado na sua cadeirinha azul e com as mãos em volta do seu copinho de neném. Algo sobre um dia ensolarado, que mantinha longe as nuvens.

     Um homem de terno veio correndo do parque, rugindo sons sem palavras a plenos pulmões, as abas do paletó batendo às suas costas. Clay o reconheceu por conta do cavanhaque de pêlo de cachorro. O homem foi correndo para a Boylston Street. Carros derrapavam ao redor dele, não o atropelando por pouco. Atravessou para o outro lado, sem parar de rugir e acenar com as mãos para o céu. Desapareceu nas sombras sob o toldo do pátio do Four Seasons e sumiu de vista, mas deve ter arranjado mais encrenca imediatamente, pois uma nova torrente de gritos irrompeu do lado de lá.

     Clay desistiu de perseguir o caminhão do Mister Softee e ficou com um pé na calçada e outro enfiado na sarjeta, observando-o seguir até a pista do meio da Boylston Street, com o sino ainda tocando. Estava prestes a voltar para a menina inconsciente e a mulher moribunda quando outro Duck Boat apareceu. Aquele não estava vindo devagar, e sim disparando à velocidade máxima e balançando loucamente de bombordo a estibordo. Alguns dos passageiros estavam sendo jogados para frente e para trás e berrando — implorando — para que o piloto parasse. Outros simplesmente se agarravam aos suportes de metal que corriam pelas laterais abertas do trambolho enquanto ele vinha na direção da Boylston Street de encontro ao tráfego.

     Um homem de suéter agarrou o motorista por trás e Clay ouviu outro daqueles gritos desarticulados através do sistema de amplificação primitivo do barco, enquanto o motorista atirou o cara longe, jogando os ombros para trás com força. Não foi Rastr daquela vez, e sim algo mais gutural, algo como Gluh! Então o motorista viu o caminhão do Mister Softee — Clay tinha certeza disso — e mudou de rumo, indo na direção dele.

     — Oh Deus, por favor, não!— gritou uma mulher sentada perto da frente na embarcação para turistas e, à medida que ela se aproximava do caminhão de sorvete, que tinha quase um sexto do seu tamanho, Clay se lembrou com clareza de estar assistindo ao desfile de vitória dos Red Sox na tevê no ano em que eles ganharam a WUUTKI Series. O time veio em uma procissão lenta daqueles mesmos Duck Boats, acenando para as massas delirantes enquanto uma garoa gelada de outono caía.

     —      Deus, por favor, não!— a mulher voltou a gritar e, do lado de Clay, um homem disse, quase com brandura: —   Jesus Cristo.

     O Duck Boat atingiu o caminhão de sorvete com a parte lateral e o virou como um brinquedo de criança. Ele caiu de lado com o seu próprio sistema de amplifícação ainda tilintando o tema de Vila Sésamo e deslizou para trás na direção do Common, atirando para cima rajadas de faíscas geradas pelo atrito. Duas mulheres que estavam observando saíram correndo do caminho, de mãos dadas, e escaparam por um triz. O caminhão do Mister Softee entrou quicando na calçada, ficou suspenso no ar por um instante, atingiu a cerca de ferro batido em torno do parque e se deteve. A música pulou duas vezes e cessou em seguida.

     Enquanto isso, o lunático que dirigia o Duck Boat perdera qualquer vago controle que tivera antes sobre o veículo. Ele disparou de volta pela Boylston Street com sua carga de passageiros aterrorizados, gritando e se agarrando às laterais abertas, subiu a calçada oposta a uns 50 metros do local onde o caminhão do Mister Softee tilintara pela última vez e se chocou contra o muro de sustentação debaixo da vitrine de uma loja de móveis chique chamada Citylights. Houve um estrondo enorme e dissonante à medida que a janela se despedaçava. A traseira grande do Duck Boat (Dama da Enseada estava escrito em letras rosa) subiu cerca de um metro e meio no ar. A força cinética queria que o trambolho sacolejante capotasse; a massa não permitia. Assentou-se de volta na calçada com o bico enfiado entre os sofás espalhados e as dispendiosas cadeiras de sala de estar, mas não sem antes atirar para frente pelo menos uma dúzia de pessoas, que desapareceram de vista.

     Dentro da Citylights, um alarme começou a soar.

      —      Jesus Cristo — repetiu a voz branda do lado direito de Clay. Ele se virou e viu um homem baixinho com cabelo preto ralo, bigodlnho preto e óculos com armação dourada. — O que está acontecendo?

     —      Não sei — respondeu Clay. Era difícil falar. Muito difícil. Ele se viu tendo que quase empurrar as palavras para fora. Imaginou que fosse o choque. Do outro lado da rua, pessoas corriam, algumas saídas de dentro do Four Seasons, outras do Duck Boat acidentado. Enquanto ele observava, um fugitivo do Duck Boat colidiu com um dos que escaparam do hotel e ambos se espatifaram na calçada. Clay teve tempo de se perguntar se tinha enlouquecido e se aquilo tudo não seria uma alucinação dele em algum manicômio. Juniper Hill, na região de Augusta, talvez, entre injeções de Torazina. — O cara no caminhão de sorvete disse que talvez fossem terroristas.

     —      Não estou vendo homens armados — disse o baixinho de bigode. — Nem gente com bombas amarradas nas costas.

     Clay também não, mas ele viu a sacola de compras da pequenos tesouros e o portfolio na calçada, e viu que o sangue da garganta aberta da Mulher do Terninho de Poderosa — bons deuses, pensou, tanto sangue— tinha quase alcançado o portfolio. Apenas uns dez desenhos seus do Dark Wanderer estavam lá dentro e era com os desenhos que ele estava preocupado. Ele começou a voltar para lá a passos rápidos e o baixinho o acompanhou no mesmo ritmo. Quando um segundo alarme contra roubos (bem, algum tipo de alarme) disparou no hotel, juntando seu zurro rouco ao som do alarme da Citylights, o sujeitinho deu um pulo.

     —      É o hotel — disse Clay.

     —      Eu sei, é só que... oh, meu Deus. — Ele acabara de ver a Mulher do Terninho de Poderosa, que estava deitada em um lago daquela coisa mágica que vinha fazendo tudo nela funcionar... há quanto tempo? Quatro minutos? Ou só dois?

     —      Ela está morta — Clay falou. — Tenho quase certeza. Aquela garota... — Apontou para a Cabelinho Claro. — Foi ela. Com os dentes.

     —      Tá brincando.

     —      Bem que eu queria.

     Uma outra explosão veio de algum lugar mais adiante na Boylston Street. Os dois homens se abaixaram. Clay notou que sentia cheiro de fumaça. Pegou a sacola da pequenos tesouros e o portfolio e os tirou de perto do sangue que se espalhava.

     —      Essas coisas são minhas — falou, se perguntando por que sentiu necessidade de explicar.

     O sujeitinho, que usava um terno de tweed — muito elegante, pensou Clay —, ainda estava olhando, aterrorizado, para o corpo enroscado da mulher que parará para comprar um sundae e perdera primeiro o cachorro e depois a vida. Atrás deles, três jovens passaram correndo pela calçada, rindo e fazendo algazarra. Dois estavam com bonés dos Red Sox virados para trás. Um deles estava segurando uma caixa de papelão contra o peito. Tinha a palavra panasonic escrita em azul na lateral. Este último pisou no sangue da Mulher de Terninho de Poderosa com o tênis direito e deixou uma trilha de um pé só desaparecendo atrás de si, enquanto ele e os colegas corriam para a extremidade leste do Common e além, em direção a Chinatown.

     Clay se agachou, apoiando-se em ura joelho, e usou a mão que não estava agarrando o portfolio (estava com mais medo ainda de perdê-lo depois que viu o menino correndo com a caixa de papelão da panasonic) para pegar o punho da Cabelinho Claro. Encontrou o pulso de imediato. Estava lento, mas forte e regular. Sentiu um grande alívio. Não importava o que ela tinha feito, era só uma menina. Não queria pensar que a matara com uma pancada do peso de papel que ia dar de presente para a mulher.

     —      Cuidado! Cuidado! — quase cantou o sujeitinho de bigode.

     Clay não teve tempo de ter cuidado. Por sorte, daquela vez não era nem perto deles. O veículo, um daqueles enormes utilitários esportivos a gasolina, saiu da pista da Boylston e entrou no parque a uns 20 metros de onde ele estava agachado, emaranhando-se na cerca de ferro batido e indo parar com o pára-choque enfiado na lagoa dos patos.

     A porta se abriu e um jovem saiu tropeçando de dentro do carro, gritando imprecações contra o céu. Caiu ajoelhado na água, bebeu um pouco dela com as duas mãos (um pensamento cruzou a cabeça de Clay sobre todos os patos que tinham cagado alegremente naquela lagoa anos a fio), então fez um esforço para se levantar e atravessou a água para o lado oposto. Desapareceu em um arvoredo, ainda brandindo as-jnãos e berrando seu sermão incoerente.

     —      Temos que encontrar ajuda para essa garota — disse Clay para o homem de bigode. — Está inconsciente, mas não corre risco algum de vida.

       —     O que temos que fazer é sair da rua antes de sermos atropelados — respondeu o homem e, como se para validar seu argumento, um táxi bateu em uma limusine perto do Duck Boat acidentado. A limusine estava na contramão, mas o táxi sofreu mais com o impacto; enquanto Clay olhava ainda ajoelhado na calçada, o motorista saiu voando pela janela subitamente sem vidro do carro e caiu na rua, segurando um braço ensangüentado para cima e gritando.

     O homem de bigode estava certo, é claro. A racionalidade que Clay conseguiu juntar — só um pouquinho dela conseguiu atravessar a cortina de choque que abafava seu raciocínio — sugeriu que a ação mais sensata, de longe, seria dar o fora da Boylston Street e procurar abrigo. Se aquilo fosse um ato terrorista, não parecia com nada que ele tivesse visto ou lido. O que ele — eles — devia fazer era se esconder e ficar escondido até a situação se esclarecer. Aquilo provavelmente envolveria encontrar uma televisão. Mas ele não queria deixar aquela menina inconsciente estirada em uma rua que de repente virará um manicômio. Todos os instintos do seu geralmente terno — e certamente civilizado — coração se ergueram contra essa idéia.

     —      Vá em frente — ele disse para o homenzinho de bigode. Falou aquilo com imensa relutância. Nunca vira o homenzinho mais gordo, mas pelo menos ele não estava berrando imprecações e jogando as mãos para o céu. Ou partindo para cima da garganta de Clay com os dentes para fora. — Procure algum abrigo. Eu vou... — Ele não sabia como terminar a frase.

     —      Vai o quê? — perguntou o homem e, em seguida, jogou os ombros para frente e se encolheu quando alguma outra coisa explodiu.

     Aquela explosão parecia ter vindo logo de trás do hotel e então fumaça negra começou a subir de lá, manchando o céu azul antes de ficar alta o suficiente para o vento levar embora.

     —      Vou ligar para a polícia — disse Clay, subitamente inspirado. — Ela tem um celular. — Ele apqntou com o polegar para a Mulher do Terninho de Poderosa, que estava deitada em uma piscina do próprio sangue. — Ela estava usando antes... sabe, logo antes de a merda...

     Ele se interrompeu, relembrando o que exatamente tinha acontecido antes de a merda bater no ventilador. Surpreendeu-se olhando primeiro para a mulher morta, depois para a garota inconsciente e então para os fragmentos do celular cor de hortelã da menina.

     Sirenes de dois timbres diferentes encheram o ar. Clay supôs que um dos timbres pertencia a carros de polícia e o outro a caminhões de bombeiros. Supôs que saberia a diferença se morasse na cidade, mas ele não morava, vivia em Kent Pond, no Maine, e desejou de todo coração estar lá naquele momento.

     O que aconteceu logo antes de a merda bater no ventilador foi que a Mulher do Terninho de Poderosa ligara para sua amiga Maddy para contar que tinha cortado o cabelo e uma das amigas da Cabelinho Claro tinha ligado para ela. A Cabelinho Escuro escutara essa última ligação. Depois disso, as três enlouqueceram.

     Você não está pensando...

     De trás deles, da direção leste, veio a maior explosão de todas: um som tremendo que mais parecia um tiro de escopeta. Clay saltou de pé. Ele e o homenzinho de terno de tweed se entreolharam desvairados e em seguida olharam na direção de Chinatown e do North End de Boston. Não conseguiam ver o que explodira, mas um penacho de fumaça muito mais largo e escuro subia para além dos prédios daquele lado do horizonte.

     Enquanto olhavam para ele, uma radiopatrulha da polícia de Boston e um caminhão de bombeiro com escada pararam em frente ao Four Seasons do outro lado da rua. Clay olhou para a outra calçada a tempo de ver um outro suicida sair voando do último andar do hotel, seguido por mais dois do telhado. Para Clay, parecia que os dois últimos estavam brigando enquanto caíam.

     —      Meu Deus do Céu, NÃO!— gritou uma mulher. — Oh, não, CHEGA, CHEGA!

     O primeiro do trio suicida caiu na traseira do carro de polícia, atirando cabelo e entranhas na lataria do portamala e estilhaçando a janela de trás. Os outros dois caíram no caminhão, enquanto bombeiros vestidpS com capotes amarelobrilhantes se espalhavam como pás-saros inverossímeis.

     —      NÃO!— berrou a mulher. — CHEGA! CHEGA! BOM DEUS, JÁ CHEGA!

     Mas então uma mulher se jogou do quinto ou sexto andar, às cambalhotas como uma acrobata louca, atingindo um policial que estava olhando para cima e com certeza matando-o ao mesmo tempo em que matou a si mesma.

     Do norte, veio outra daquelas explosões ensurdecedoras — o som do diabo atirando com uma escopeta no inferno —, e Clay olhou mais uma vez para o homenzinho, que olhava ansiosamente para ele. Mais fumaça subia até o céu e, apesar do vento forte, o azul estava quase encoberto.

     —      Eles estão usando aviões de novo — disse o homenzinho. — Os desgraçados estão usando aviões de novo.

     Como que para reforçar essa idéia, o som de uma terceira explosão monstruosa veio rolando na direção deles da parte nordeste da cidade.

     —      Mas... o aeroporto é para lá. — Clay estava tendo dificuldades para falar de novo e mais dificuldade ainda para pensar. Tudo o que parecia haver na sua cabeça era uma espécie de piada pela metade: Já ouviu aquela dos terroristas (insira aqui o seu grupo étnico favorito) que decidiram acabar com a América explodindo o aeroporto?

     —      E?... — perguntou o homenzinho, de um jeito quase truculento.

     —      E por que não o Hancock Building? Ou o arranha-céu do Prudential Center?

     O homenzinho curvou os ombros.

     —      Não sei. Só sei que quero sair dessa rua.

     Como se para dar ênfase a esse argumento, meia dúzia de jovens passaram correndo por eles. Boston era uma cidade de gente jovem, notou Clay — com todas aquelas universidades. Aqueles seis, três homens e três mulheres, pelo menos não tinham roubado nada, e com certeza não estavam rindo. Enquanto corriam, um dos rapazes tirou o celular e o colou na orelha.

     Clay olhou para o outro lado da rua e viu que uma segunda viatura preto-ebranca tinha estacionado atrás da primeira. Não havia necessidade de usar o celular da Mulher do Terninho de Poderosa, no fim das contas (o que era bom, já que ele decidira que não queria mesmo fazer aquilo). Poderia simplesmente atravessar a rua e falar com eles... só que não tinha certeza se teria coragem de atravessar a Boylston Street naquele instante. E mesmo que o fizesse, será que eles viriam para aquela calçada para atender uma garota inconsciente quando tinham só Deus sabe quantas mortes do lado de lá! E, à medida que observava, os bombeiros começaram a entrar de volta no caminhão; parecia que estavam indo para algum outro lugar. Para o aeroporto Logan, possivelmente, ou...

     —      Ai meu Jesus Cristo, olha só aquele — disse o homenzinho de bigode, falando com uma voz baixa e tensa. Estava olhando para o oeste, na Boylston em direção ao centro, de onde Clay tinha vindo quando seu maior objetivo na vida era conseguir ligar para Sharon. Ele até sabia como iria começar a ligação: Boas noticias, querida — não importa como as coisas estejam entre nós, sempre vai ter comida no prato para o garoto. Na cabeça dele, parecia alegre e engraçado — como nos velhos tempos.

     Não tinha nada de engraçado naquilo. Na direção deles — sem correr, mas andando a passos largos e decididos — vinha um homem de uns 50 anos, vestindo calça social e os restos de uma camisa e gravata. As calças eram cinza. Era impossível saber quais eram as cores da camisa e da gravata, pois ambas estavam em farrapos e manchadas de sangue. O homem carregava na mão direita o que parecia ser um cutelo com uma lâmina de uns 45 centímetros. Clay achava de verdade que tinha visto aquele cutelo, na vitrine de uma loja chamada Soul Kitchen, quando estava voltando da reunião no Copley Square Hotel. O jogo de facas na vitrine (AÇO SUECO! proclamava o pequeno cartão impresso na frente dele) brilhara sob a luz atraente dos spots escondidos, mas aquele cutelo já tinha sido bem usado desde que saíra de lá — ou mal usado — e estava embaçado de sangue.

     O homem de blusa esfarrapada brandiu o cutelo à medida que se aproximava dos dois com seus passos firmes, a lâmina descrevendo arcos curtos para cima e para baixo no ar. Ele quebrou o padrão somente uma vez, para golpear a si mesmo. Um novo córrego de sangue desceu pelo cqrte recém-aberto na camisa rasgada. Os restos da gravata se agitaram. Ao se aproximar, ele os intimidou como um pregador caipira falando no palavrório fervoroso de alguma revelação divina.

     — Ailá! — gritou. — Eilá-ailá-ababala nazi Ababala hein? Abunalu ué? Kazald! Kazald-VAli FiufXl-fiuf— E então levou o cutelo de volta ao quadril direito e além dele e Clay, cujo senso visual era superdesenvolvido, viu o golpe arrebatador que viria em seguida. O golpe nas entranhas, dado ao mesmo tempo em que o homem continuava sua marcha insana para lugar nenhum pela tarde de outubro naqueles passos firmes e declamatórios.

     — Cuidado! — gritou o homenzinho de bigode, mas ele não estava tomando cuidado, não o sujeitinho de bigode; o sujeitinho de bigode, a primeira pessoa normal com quem Clay Riddell falara desde o começo da loucura... que tinha, na verdade, falado com ele, que provavelmente juntara alguma coragem, dadas as circunstâncias... estava congelado, os olhos maiores do que nunca por trás das lentes dos seus óculos de aros dourados. E será que o maluco estava indo para cima dele porque, dos dois homens, o de bigode era menor e parecia uma presa mais fácil? Se fosse assim, talvez o senhor Palavrório-Fervoroso não fosse completamente louco, e de repente Clay ficou tanto com raiva quanto assustado, com a raiva que ficaria se tivesse olhado pelo portão do pátio de uma escola e visto um valentão batendo em um menino mais novo para se aquecer.

     — CUIDADO! — quase chorou o homem de bigode, ainda imóvel enquanto a morte vinha correndo na direção dele, a morte libertada de uma loja chamada Soul Kitchen, onde os cartões Diner's Club e Visa sem dúvida eram aceitos, e também o seu Cheque se Acompanhado do Cartão do Banco.

     Clay não pensou. Simplesmente pegou de volta o portfolio pela alça dupla e o enfiou entre o cutelo que se aproximava e seu novo amigo de terno de tweed. A lâmina o cortou inteiro com um som oco, mas a ponta se deteve a 10 centímetros da barriga do homenzinho. O sujeitinho finalmente se tocou e tomou um passo medroso pelo lado, na direção do Common, gritando por ajuda a plenos pulmões.

     O homem de camisa e gravata esfarrapadas — começando a ficar meio bochechudo e com papada, como se sua matemática pessoal de boa alimentação e bom exercício tivesse parado de dar certo há uns dois anos — interrompeu de súbito a peroração sem sentido. O rosto dele assumiu uma expressão de perplexidade vazia que parecia muito com surpresa, e mais ainda com assombro.

     O que Clay sentiu foi uma espécie de ultraje desolador. A lâmina cortara todos os seus retratos do Dark Wanderer (para ele aqueles eram retratos, jamais desenhos ou ilustrações), e lhe parecia que aquele som oco era o barulho da lâmina penetrando em uma câmara especial do seu coração. Era uma bobagem, pois ele tinha reproduções de tudo, incluindo as quatro splash-pages coloridas, mas isso não o fazia se sentir melhor. A lâmina do maluco rasgara John, o Feiticeiro (em homenagem ao seu filho, é claro), Flak, o Mago, Frank e os Posse Boys, Gene Dorminhoco, Sally Venenosa, Lily Astolet, a Bruxa Azul e, claro, Ray Damon, o próprio Dark Wanderer. As criaturas fantásticas dele, que viviam na caverna da sua imaginação e estavam prontas para libertá-lo da chatice que era ensinar arte em uma dúzia de escolas rurais do Maine, dirigir milhares de quilômetros e praticamente viver no carro.

     Ele poderia jurar que tinha ouvido os personagens gemerem quando a lâmina sueca do louco os perfurou enquanto dormiam o sono dos inocentes.

      Furioso, sem se preocupar com o cutelo (pelo menos por ora), ele empurrou o homem de camisa rasgada rapidamente para trás, usando o portfolio como uma espécie de escudo, ficando cada vez mais irado à medida que ele se entortava em um grande V ao redor da lâmina.

     —      Blet!— urrou o lunático e tentou puxar o cutelo de volta. Estava preso demais. — Blet qui-iã dô-rã kazalá ababalá!

     —      Eu vou meter o ababalá no seu a-kazalá, seu merda! — gritou Clay e enfiou o pé esquerdo atrás das pernas agitadas do lunático. Mais tarde ocorreu-lhe que o corpo sabe como lutar quando precisa. Que aquele é um segredo que o corpo guarda, do mesmo jeito que o faz com os segredos de como correr ou pular um riacho, ou dar uma trepada ou, muito possivelmente, morrer quando não há outra escolha. Que sob situações de estresse extremo, o corpo simplesmente assume o controle e faz o que tem que ser feito, enquanto o cérebro sai de cena, incapaz de fazer outra coisa que não assobiar, bater o pé e olhar para o céu. Ou então contemplar o som de um cutelo rasgando o portfolio que sua mulher dera para você no seu aniversário de 28 anos.

     O lunático tropeçou no pé de Clay na hora que o corpo esperto dele quis que o homem tropeçasse e caiu de costas na calçada. Clay ficou em cima dele, resfolegando, ainda agarrando o portfolio com as duas mãos, como um escudo entortado em uma batalha. O cutelo ainda estava preso nele, cabo para um lado, lâmina para o outro.

       O lunático tentou se levantar. O novo amigo de Clay veio em disparada e chutou-lhe o pescoço, com muita força. O sujeitinho estava chorando alto, as lágrimas jorrando pelas faces e embaçando as lentes dos seus óculos. O homem caiu de volta na calçada com a língua saindo da boca. Produziu sons de sufocação que Clay achou parecidos com o palavrório fervoroso de antes.

     —      Ele tentou nos matar! — chorou o homenzinho. — Ele tentou nos matar.

     —      Sim, sim — disse Clay. Ele estava ciente de que havia dito sim, sim para Johnny da mesmíssima forma na época em que eles ainda o chamavam de Johnny-Gee e ele vinha na direção dos dois pelo caminho de entrada da casa com as canelas ou cotovelos ralados berrando eu tenho SANGUE!

     O homem na calçada (que tinha bastante sangue) estava apoiado nos cotovelos, tentando se levantar de novo. Clay fez as honras daquela vez, tirando um dos cotovelos dele do chão com um chute e fazendo-o voltar para o asfalto. O chute parecia no máximo um quebra galho, e dos piores. Clay agarrou o cabo do cutelo, retraiu-se por conta da sensação pegajosa do sangue meio gelatinoso nele — era como passar a palma da mão por um pedaço de gordura fria de bacon — e puxou. O cutelo se soltou um pouco, mas depois ou ficou preso ou sua mão escorregou. Imaginava ter ouvido os personagens murmurando em agonia de dentro da escuridão do portfolio e ele mesmo produziu um som de dor. Não pôde evitar. E não pôde deixar de pensar no que pretendia fazer com o cutelo assim que o soltasse. Esfaquear o lunático até a morte com ele? Pensou que talvez tivesse conseguido fazê-lo no calor do momento, mas provavelmente não naquele instante.

     —      O que houve? — perguntou o homenzinho com uma voz lacrimosa. Clay, mesmo aflito, não pôde deixar de se sentir tocado pela preocupação que detectou naquela pergunta. — Ele te pegou? Você o tapou por alguns segundos e não consegui ver. Ele te pegou? Você está ferido?

     —      Não — respondeu Clay. — Estoij b...

     Outra explosão gigantesca veio do norte, quase certamente do aeroporto Logan, do outro lado do porto de Boston. Os dois curvaram os ombros e se encolheram.

     O lunático aproveitou para se sentar e estava lutando para ficar de pé quando o homenzinho de terno de tweed deu um desajeitado, porém eficiente, chute enviesado, cravando um sapato bem no meio da gravata esfarrapada do homem, nocauteando-o mais uma vez. O lunático rugiu e agarrou o pé do homenzinho. Poderia tê-lo derrubado no chão e talvez lhe dado em seguida um quebra-costelas, se Clay não tivesse pegado seu novo amigo pelo ombro e o puxado para longe.

     —      Ele pegou meu sapato!— gritou o homenzinho. Atrás deles, mais dois carros bateram. Houve mais gritos, mais alarmes. Alarmes de carro, alarmes de incêndio, alarmes contra roubos esporrentos. Sirenes soavam a distância. — O desgraçado pegou meu sa...

     De repente, lá estava um policial. Um dos que estiveram do outro lado da rua, Clay supôs, e, à medida que o policial se agachou apoiando-se em um joelho azul do lado do lunático tagarela, Clay sentiu algo muito parecido com amor pelo tira. Ele tinha se dado o trabalho de ir até lá! Ele tinha notado!

     —      É melhor tomar cuidado — disse o homenzinho nervosamente. — Ele é...

     —      Eu sei o que ele é — respondeu o policial, e Clay viu que ele estava com sua pistola automática na mão. Não fazia idéia se o policial a tirara depois de se ajoelhar ou se estivera com ela em punho o tempo todo. Clay estava muito ocupado se sentindo agradecido para notar.

     O policial olhou para o lunático. Aproximou-se do lunático. Pareceu quase se oferecer para o lunático.

     —      E aí, meu caro, como vai? — ele murmurou. — Quero dizer, tudo em cima?

     O lunático investiu contra o policial e colocou as mãos na garganta dele. No momento em que fez isso, o policial meteu a boca da arma na cavidade da têmpora do homem e puxou o gatilho. Um grande jato de sangue jorrou através do cabelo grisalho do outro lado da cabeça do lunático e ele caiu de volta na calçada, estirando os dois braços de forma melodramática: Olhe só mamãe, estou morto.

     Clay. olhou para o homenzinho de bigode e o homenzinho de bigode olhou para ele. Então os dois olharam de volta para o policial, que tinha colocado a arma no coldre e estava tirando uma carteira de couro do bolso da frente da blusa do uniforme. Clay ficou feliz em ver que a mão que ele costumava usar para fazer aquilo estava tremendo um pouco. Estava com medo do policial, mas teria ficado com mais medo ainda se as mãos dele estivessem firmes. E o que acabara de acontecer não era um caso isolado. O tiro parecia ter tido algum efeito na audição de Clay, limpado um circuito ou algo do gênero. Ele passou a ouvir outros tiros, estampidos isolados pontuando a cacofonia cada vez maior daquele dia.

     O policial tirou um cartão — Clay achou que fosse um cartão de apresentação — da carteira fina de couro e então a colocou de volta no bolso da frente. Segurou o cartão entre os dois primeiros dedos da mão esquerda enquanto a direita havia descido novamente para a coronha da arma. Perto dos seus sapatos bem polidos, sangue da cabeça estraçalhada do lunático empoçava na calçada. Próximo de lá, a Mulher do Terninho de Poderosa estava caída em outra poça de sangue, que começava a coagular e passar para um tom mais escuro de vermelho.

     —      Qual é seu nome, senhor? — perguntou o policial para Clay.

     —      Clayton Riddell.

     —      O senhor sabe me dizer quem é o presidente?

     Clay disse para ele.

     —      Senhor, sabe me dizer a data de hoje?

     —      É dia 10 de outubro. Você sabe o que está?...

     O policial olhou para o homenzinho de bigode.

     —      Seu nome?

     —      Eu sou Thomas McCourt, 140 Salem Street, Malden. Eu...

     —      Sabe me dizer o nome do homem que concorreu contra o presidente na última eleição?

     Tom McCourt disse.

     —      Quem é a mulher do Brad Pitt?

     McCourt jogou as mãos para cima.

     —      Como é que eu vou saber? Uma estrela de cinema qualquer, eu acho.

     —      Ok. — O policial entregou para Clay o cartão que estava entre seus dedos. — Eu sou o oficial Ulrich Ashland. Este é o meu cartão. Os senhores talvez sejam chamados para testemunhar sobre o que aconteceu aqui. O que aconteceu é que os senhores precisaram da minha ajuda, eu os ajudei, fui atacado e me defendi.

      —     Você quis matá-lo — disse Clay.

     —      Sim, senhor, estamos mandando-os dessa para a melhor o mais rápido possível — concordou o oficial Ashland. — E se o senhor disser para qualquer tribunal ou comitê de inquérito que eu falei isso, vou negar. Mas tinha que ser feito. Esse pessoal está aparecendo em tudo quanto é canto. Alguns apenas cometem suicídio. Muitos outros atacam. — Ele hesitou e então prosseguiu: — Até onde sei, todos os outros atacam. — Como se para reforçar aquele argumento, ouviu-se outro tiro do outro lado da rua, uma pausa e então mais três, em rápida sucessão, do pátio coberto de sombras do Four Seasons Hotel, que se tornara um emaranhado de vidro quebrado, corpos quebrados, veículos acidentados e sangue derramado. — É como a porra do A Noite dos Mortos-vivos. — O oficial Ulrich Ashland seguiu de volta para a Boylston Street com a mão ainda na coronha da arma. — Só que essas pessoas não estão mortas. Quero dizer, a não ser que a gente as ajude.

     —      Rick! — Era um policial do outro lado da rua, chamando insistentemente. — Rick, temos que ir para o Logan! Todas as viaturas! Vem para cá!

     O oficial Ashland olhou para ver se havia trânsito, mas não havia. Com exceção dos veículos acidentados, a Boylston Street estava momentaneamente deserta. Porém, o som de mais explosões e batidas vinha das cercanias. O cheiro de fumaça estava ficando mais forte. Ele começou a atravessar a rua, chegou até a metade do caminho e se virou.

     —      Procurem algum abrigo — falou. — Protejam-se. Já tiveram sorte uma vez. Talvez não tenham da próxima.

     —      Oficial Ashland — disse Clay. — O seu pessoal não usa telefones celulares, usa?

     Ashland o observou do meio da Boylston Street — um lugar não muito seguro para ficar, na opinião de Clay. Ele estava pensando no Duck Boat fora de controle.

     —      Não, senhor — respondeu ele. — Temos rádios nos nossos carros. Esses aqui — ele deu uma batidinha no rádio que carregava no cinto, no lado oposto ao coldre. Clay, um rato de histórias em quadrinhos desde que aprendera a ler, pensou brevemente no maravilhoso cinto de utilidades do Batman.

     —      Não os use — disse Clay. — Diga aos outros. Não usem os telefones celulares.

     —      Por que diz isso?

     —      Por que eles estavam usando. — Ele apontou para a mulher morta e para a garota inconsciente. — Logo antes de enlouquecerem. Aposto o que você quiser que o cara do cutelo...

     —      Rick! — o policial do outro lado da rua voltou a gritar. — Anda logo, porra!

     —      Procurem abrigo — repetiu o oficial Ashland e correu para a calçada do Four Seasons. Clay queria ter repetido o que falou sobre os celulares, mas no geral estava feliz de ver que o policial estava a salvo. Não que ele achasse que qualquer pessoa em Boston estivesse de fato, não naquela tarde.

     —      O que você está fazendo? — Clay perguntou a Tom McCourt. — Não encoste nele, pode ser, sei lá, contagioso.

     —      Não vou encostar nele — disse Tom —, mas preciso do meu sapato.

     O sapato, perto dos dedos abertos da mão esquerda do lunático, pelo menos estava longe de onde jorrava o sangue. Tom enganchou com cuidado os dedos na parte de trás dele e o puxou na sua direção. Então se sentou no meio-fio da Boylston Street — bem onde o caminhão do Mister Softee tinha estacionado no que parecia a Clay uma outra vida — e o calçou no pé.

     —      O cadarço está rasgado — ele disse. — Aquele maluco rasgou o cadarço. — E começou a chorar de novo.

     —      Faça o melhor que puder — falou Clay. Começou a tentar tirar o cutelo do portfolio. Ele tinha sido enfiado com uma força tremenda, e Clay descobriu que teria que sacudilo para cima e para baixo até soltá-lo. Saiu com relutância, após uma série de puxões, e com uns rangidos feios que lhe deram vontade de se encolher. Ele não parava de imaginar quem tinha sofrido mais lá dentro. Pensar naquilo era idiotice, tudo culpa do estado de choque, mas ele não conseguia evitar.

     —      Não dá para amarrar mais embaixo?

     —      É, acho que s...

     Clay começou a ouvir um zumbido de mosquito mecânico que aumentou até virar um ronco mais próximo. Tom levantou o pescoço do seu lugar no meio-fio. Clay se virou. A pequena caravana de carros do Departamento de Polícia de Boston que saía do Four Seasons parou em frente à Citylights e ao Duck Boat acidentado com suas luzes piscando. Policiais colocaram a cabeça para fora das janelas à medida que um avião particular — de tamanho médio, talvez um Cessna ou o tipo que chamam de Twin Bonanza, Clay não conhecia aviões direito — veio seguindo lentamente por sobre os prédios entre o porto de Boston e o Boston Common, caindo rápido. O avião fez uma curva trôpega sobre o parque, a asa inferior quase raspando o topo de uma árvore outonal, e então se estabilizou no desfiladeiro da Charles Street, como se decidisse que aquilo era uma pista. Depois, a menos de 6 metros do solo, se inclinou para a esquerda e a asa daquele lado se chocou contra a fachada de um prédio de ardósia cinza, talvez um banco, na esquina da Charles com a Beacon. Qualquer ilusão de que o avião se movia lentamente, quase deslizando, desapareceu naquele instante. Ele girou ao redor da asa presa com um tranco violento, bateu no prédio de tijolo vermelho do lado do banco e desapareceu por entre pétalas brilhantes de fogo laranja-avermelhado. A onda de choque martelou pelo parque. Patos levantaram vôo diante dela.

     Clay olhou para baixo e viu que estava segurando o cutelo na mão. Ele o havia soltado enquanto ele e Tom McCourt observavam o avião bater. Limpou primeiro um lado da lâmina e depois o outro com a parte da frente da camisa, tomando cuidado para não se cortar (agora as mãos dele estavam tremendo). Então o enfiou — com muito cuidado — no cinto, até o cabo. Ao fazer aquilo, uma das suas primeiras tentativas de criar uma história em quadrinhos lhe veio à mente... uma pequena nuvem, na verdade.

     — Joxer, o pirata, ao seu dispor, belezinha — ele murmurou.

     —      O quê? — perguntou Tom. Ele estava do lado de Clay, olhando para aquele inferno borbulhante que se tornara o avião no lado oposto ao Boston Common. Somente a cauda estava fora do fogo.

     Nela, Clay conseguia ler o número LN6409B. Encimando-a, havia algo que parecia um logotipo de alguma equipe esportiva.

       Então aquilo também desapareceu.

     Ele sentia as primeiras ondas de calor começando a bater contra o seu rosto.

     —      Nada — ele disse para o homenzinho de terno de tweed. — Vamos ralar.

     —      Hein?

     —      Vamos cair fora.

     —      Ah, ok.

     Clay começou a andar pelo lado sul do Common, na direção que estava indo às três da tarde, 18 minutos e uma eternidade antes. Tom McCourt apertou o passo para acompanhá-lo. Ele era um homem muito baixinho mesmo.

     —      Me diz uma coisa — ele falou —, você fala muita besteira?

     —      Sem dúvida — disse Clay. — Pergunte pra minha mulher.

     — Para onde estamos indo? — perguntou Tom. — Eu estava a caminho do metrô. — Ele apontou para um quiosque pintado de verde a cerca de uma quadra de distância. Uma pequena multidão se misturava lá. — Mas já não acho que estar debaixo da terra seja uma boa idéia.

     —      Eu também não — disse Clay. — Estou em um quarto em um lugar chamado Atlantic Avenue Inn, a umas cinco quadras mais adiante.

     Tom se animou.

     —      Acho que eu conheço. Fica na Louden, na verdade, saindo da Atlantic.

     —      Isso. Vamos para lá. Podemos ver a tevê. E eu quero ligar para a minha mulher.

     —      Do telefone do quarto.

     —      Do telefone do quarto, entendido. Eu nem tenho um celular.

     —      Eu tenho um, mas deixei em casa. Está quebrado. Rafe, meu gato, o derrubou de cima do aparador. Ia comprar um novo hoje mesmo, mas... peraí. Sr. Riddell...

     —      Clay.

       — Clay, então. Tem certeza que é seguro usar o telefone do seu quarto?

     Clay parou. Não tinha nem mesmo considerado essa possibilidade. Mas se os telefones fixos não estivessem ok, o que estaria? Ia dizer aquilo para Tom quando uma confusão começou de repente na estação do metrô logo adiante. Ouviam-se exclamações de pânico, gritos e mais daquele palavrório enlouquecido — agora ele reconhecia aquilo pelo que era, a assinatura mal traçada da loucura. O pequeno emaranhado de pessoas que se misturava ao redor do abrigo de ardósia cinza e dos degraus que desciam para o metrô se dispersou. Alguns correram para a rua, dois deles com os braços ao redor um do outro, lançando olhares furtivos por sobre os ombros no caminho. Outras pessoas — a maioria delas — correram para o parque, todas em direções diferentes, o que partiu um pouco o coração de Clay. Ele sentiu um pouco mais de simpatia pelos dois que se abraçavam.

     Ainda na estação do metrô e de pé estavam dois homens e duas mulheres. Clay tinha quase certeza de que eram eles que tinham saído da estação e afugentado os demais. Enquanto Clay e Tom observavam a meia quadra de distância, aqueles quatro restantes começaram a lutar entre si. Aquela briga possuía a crueldade histérica e assassina que ele já tinha visto antes, mas não havia um padrão discernível. Não eram três contra um, dois contra dois e certamente não eram meninos contra meninas; na verdade, uma das "meninas" era uma mulher que parecia ter uns 65 anos, com um corpo atarracado e corte de cabelo sisudo que fez Clay pensar em várias professoras que ele conhecera e que estavam perto de se aposentar.

     Eles brigavam com pés, punhos, unhas e dentes, grunhindo, gritando e circundando os corpos de talvez meia dúzia de pessoas que já estavam no chão desmaiadas, ou talvez mortas. Um dos homens tropeçou em uma perna esticada e caiu de joelhos. A mais jovem das duas mulheres se jogou em cima dele. O homem de joelhos pegou algo da calçada no patamar da escada — Clay notou sem surpresa alguma que era um celular — e golpeou o lado do rosto da mulher com ele. O celular se despedaçou, abrindo um rasgo na bochecha da mulher e fazendo um jato de sangue jorrar no ombro do seu casaco leve, mas seu grito foi mais de raiva do que de dor. Ela agarrou as orelhas do homem ajoelhado como se fossem um par de alças, enfiou os próprios joelhos no colo dele e o empurrou para trás, jogando-o na penumbra do fosso da escada do metrô. Eles saíram de vista encalacrados e se engalfinhando como gatos no cio.

     —      Vamos — murmurou Tom, puxando a camisa de Clay com uma estranha delicadeza. — Vamos. Para o outro lado da rua. Vamos.

     Clay se deixou ser levado pela Boylston Street. Imaginou que ou Tom McCourt estava atento ao caminho ou era sortudo, pois chegaram ao outro lado a salvo. Pararam novamente em frente à Colonial Books (Os Melhores Livros Antigos, os Melhores Livros Novos), observando a improvável vencedora da batalha da estação de metrô entrar no parque na direção do avião em chamas, com sangue pingando no colarinho, das pontas do seu cabelo grisalho estilo tolerância zero. Clay não ficou nem um pouco surpreso que a última pessoa de pé tivesse sido a senhora que parecia uma bibliotecária ou uma professora de latim a um ano ou dois da aposentadoria. Dera aulas com bastante senhoras daquele tipo e as que chegavam àquela idade eram muitas vezes quase indestrutíveis.

     Ele abriu a boca para falar algo do gênero para Tom — na cabeça dele, parecia muito espirituoso — e o que saiu foi um grasnido choroso. Sua visão também ficou tremida. Ao que parecia, Tom McCourt, o homenzinho de terno de tweed, não era o único tendo problemas com o sistema hidráulico. Clay esfregou um braço sobre os olhos, tentou falar mais uma vez e não conseguiu nada além de outro daqueles grasnidos chorosos.

     —      Está tudo bem — disse Tom. — É melhor deixar sair.

     E assim, de pé em frente a uma vitrine cheia de livros velhos em volta de uma máquina de escrever Royal que mandava suas saudações de uma época muito anterior à era das comunicações celulares, Clay deixou sair. Chorou pela Mulher do Terninho de Poderosa, pela Cabelinho Claro e pela Cabelinho Escuro e chorou por si mesmo, pois Boston não era seu lar, e seu lar nunca pareceu tão distante.

     Depois do Common, a Boylston Street se estreitou e ficou tão entu-lhada de carros — tanto acidentados quanto simplesmente abandonados — que eles não precisavam mais se preocupar com limusines kamicases ou Duck Boats fora de controle. O que era um alívio. Por todo lado, a cidade pipocava e explodia como um réveillon no inferno. Também havia muito barulho nas proximidades — alarmes de carro e contra roubo, em sua maioria —, mas a rua em si estava sinistramente deserta pelo momento. Protejam-se, disse o oficial Ulrich Ashland, já tiveram sorte uma vez. Talvez não tenham da próxima.

     Porém, duas quadras à direita da Colonial Books e ainda a uma quadra do hotel nem-tão-fuleiro-assim de Clay, eles tiveram sorte mais uma vez. Outro lunático, daquela vez um rapaz de uns 25 anos, com músculos que pareciam esculpidos por aparelhos de ginástica, irrompeu de um beco bem na frente deles e saiu correndo pela rua, saltando por cima dos pára-choques enganchados de dois carros e despejando um fluxo incessante daquela língua sem sentido no caminho. Segurava uma antena de carro em cada mão e as brandia rapidamente para frente e para trás no ar como adagas, enquanto seguia seu curso letal. Estava nu, com exceção do que parecia um par de Nikes novinho em folha, com seus logos vermelhos brilhantes. O pau dele balançava de um lado para o outro, como o pêndulo de um relógio antigo à base de anfetamina. Ele chegou à calçada oposta e dobrou para a esquerda, seguindo de volta para o Common, sua bunda subindo e descendo em um ritmo fantástico.

     Tom McCourt agarrou o braço de Clay, com força, até aquele último lunático desaparecer, e então o soltou devagar.

     —      Se ele tivesse visto a gente... — começou a falar.

     —      É, mas não viu — disse Clay. Ele sentiu de repente uma felicidade absurda. Sabia que a sensação iria passar, mas, por ora, a aproveitava com prazer. Sentia-se como um jogador conseguindo uma seqüência interna em uma partida de pôquer com o maior pote da noite bem na sua frente.

     —      Tenho pena de quem ele vir — disse Tom.

     —      E eu de quem o vir — disse Clay. — Venha.

     As portas do Atlantic Avenue Inn estavam trancadas.

     Clay ficou tão surpreso que por um instante tudo que fez foi ficar parado ali, tentando girar a maçaneta e sentindo-a escorregar pelos dedos, tentando fazer a idéia entrar na sua cabeça: trancada. As portas do seu hotel, trancadas contra ele.

     Tom foi para o seu lado, encostou a testa no vidro para evitar o reflexo e olhou para dentro. Do norte, certamente do Logan, veio outra daquelas explosões monstruosas e, dessa vez, Clay apenas se encolheu. Não achou que Tom McCourt houvesse tido reação alguma. Ele estava muito compenetrado no que estava vendo.

     —      Um cara morto no chão — anunciou por fim. — Com um uniforme, mas parece velho demais para ser o carregador.

     —      Não quero que ninguém carregue a minha bagagem, porra — disse Clay. — Só quero subir para o meu quarto.

     Tom deu uma bufadinha esquisita. Clay achou que ele talvez estivesse começando a chorar de novo, mas então percebeu que o som era de uma risada abafada.

     As portas duplas traziam ATLANTIC AVENUE INN escrito em um dos vidros e uma mentira cabeluda — O MELHOR HOTEL DE BOSTON — escrita no outro. Tom espalmou a mão sobre o vidro da esquerda, entre O MELHOR HOTEL DE BOSTON e uma série de adesivos de cartões de crédito.

     Agora Clay também estava olhando lá para dentro. O saguão não era muito grande. À esquerda ficava o balcão da recepção. À direita, dois elevadores. No chão, havia um tapete vermelho-alaranjado. O velho de uniforme estava em cima dele, de bruços, com um pé sobre uma poltrona e uma gravura emoldurada de um veleiro sobre a bunda.

     Os bons sentimentos de Clay o deixaram rapidamente e, quando Tom começou a esmurrar o vidro em vez de só bater nele, ele pousou a mão sobre o punho de Tom.

     —      Não vai adiantar — ele falou. — Eles não vão nos deixar entrar, mesmo se estiverem vivos e sãos. — Pensou sobre aquilo e assentiu. — Especialmente se estiverem sãos.

     Tom olhou para ele, pensativo.

     —      Você não entende, não é?    

     —      Hein? Não entendo o quê?

     —      As coisas mudaram. Eles não podem deixar a gente aqui fora.

     — Ele tirou a mão de Clay de cima da dele, mas, em vez de esmurrar, encostou a testa no vidro de novo e gritou. Clay achou que ele gritava bem para um cara tão pequeno. — Ei! ô de casa!

     Uma pausa. Nada mudou no saguão. O velho carregador continuou morto com uma gravura em cima da bunda.

     —      Ei, se vocês estão aí, é melhor abrirem a porta! O homem que está comigo é um hóspede do hotel e eu sou convidado dele! Abram ou eu vou pegar um paralelepípedo e quebrar o vidro, estão me ouvindo?

     —      Um paralelepípedo — disse Clay. Ele começou a rir. — Você disse paralelepípedo} Que supimpa. — Riu mais forte. Não conseguia evitar. Então notou um movimento à esquerda com o canto do olho. Olhou em volta e viu uma adolescente parada um pouco mais à frente na rua. Estava olhando para eles com os olhos azuis abatidos de uma vítima de desastre. Usava um vestido branco e havia um grande babador de sangue na parte da frente dele. Mais sangue estava incrustado debaixo do nariz, da boca e do queixo. Fora o nariz sangrando, ela não parecia estar ferida, nem tampouco louca, apenas chocada. Chocada quase até a morte.

     —      Você está bem? — perguntou Clay. Deu um passo na direção dela e ela respondeu com um passo para trás. Dadas as circunstâncias, não podia censurá-la. Ele parou, mas levantou uma das mãos para a garota como um guarda de trânsito: Fique parada.

     Tom olhou brevemente em volta e então voltou a esmurrar a porta, daquela vez com força o bastante para chocalhar o vidro na moldura de madeira velha e fazer seu reflexo tremer.

     —      Ultima chance, depois nós vamos entrar!

     Clay se virou e abriu a boca para falar que aquele tom de ordem não iria adiantar nada, não naquele dia, e então uma cabeça careca subiu lentamente de trás do balcão. Era como olhar um periscópio saindo da água. Clay reconheceu aquela cabeça mesmo antes de enxergar o rosto; era do recepcionista que fizera o registro dele no dia anterior e que carimbara o seu tíquete do estacionamento, que ficava a uma quadra de distância; o mesmo recepcionista que lhe dera informações sobre como chegar ao Copley Square Hotel naquela manhã.

     Ele ainda ficou pelo balcão por um instante, e Clay ergueu a chave do quarto com o pingente de plástico verde do Atlantic Avenue Inn. Então ergueu também o portfolio, achando que o recepcionista poderia reconhecê-lo.

     Talvez tenha reconhecido. Era mais provável que houvesse apenas decidido que não tinha escolha. Fosse como fosse, ele levantou a parte com dobradiça do final do balcão e veio rapidamente na direção da porta, dando a volta no corpo. Clay Riddell pensou que talvez estivesse vendo a primeira disparada relutante da sua vida. Quando o recepcionista chegou ao outro lado da porta, olhou de Clay para Tom e de volta para Clay. Embora não parecesse particularmente tranqüilizado pelo que viu, retirou um molho de chaves de um bolso, passou os dedos depressa por ele, encontrou uma e a usou no seu lado da porta. Quando Tom foi pegar a maçaneta, o recepcionista careca levantou a mão quase da mesma maneira que Clay levantara a sua para a menina suja de sangue atrás deles. O recepcionista encontrou uma segunda chave, a utilizou em outra tranca e abriu a porta.

     —      Entrem — ele falou. — Rápido. — E então viu a garota, parada um pouco mais adiante e observando. — Ela não.

     —      Ela sim — disse Clay. — Venha, querida.

     Mas ela não vinha, e quando Clay deu um passo na direção dela, a menina deu meiavolta e começou a correr, a saia do vestido balançando às suas costas.

     — Ela pode morrer lá fora — disse Clay.

     —      Não é problema meu — disse o recepcionista. — Vai entrar ou não, sr. Riddle?

     Ele tinha um sotaque de Boston, não o tipo proletariado-de-South-Boston a que Clay estava mais acostumado no Maine, onde de cada três pessoas que você encontrava uma parecia ter sido expatriada de Massachusetts, mas um sotaque metido, do tipo eu-bem-que-queria-ser-inglês.

     —      É Riddell.

     Ele iria entrar sim, aquele cara não iria deixá-lo de fora de jeito nenhum agora que a porta estava aberta, mas ficou mais um tempo parado na calçada, procurando a garota.

     — Entre — disse Tom baixinho. — Não podemos fazer nada.

     E ele estava certo. Não podiam fazer nada. Aquela é que era a agonia. Ele entrou depois de Tom e o recepcionista voltou a fechar as duas trancas do Atlantic Avenue Inn atrás deles, como se aquilo bastasse para protegê-los do caos nas ruas.

     — Aquele era o Franklin — disse o recepcionista enquanto ia à frente, dando a volta no homem uniformizado estirado de bruços no chão.

   Ele parece velho demais para ser um carregador, Tom havia dito, enquanto olhava pela janela, e Clay pensou que parecia mesmo. Era um homem pequeno, com cabelos brancos bastos e viçosos. Para o azar dele, a cabeça na qual eles ainda cresciam (cabelos e unhas demoravam a receber a notícia, pelo que Clay tinha lido em algum lugar) estava virada em um terrível ângulo torto, como a de um enforcado.

     —      Ele trabalhava há 35 anos no hotel, como tenho certeza que disse a todos os hóspedes que registrou. Quase sempre duas vezes.

     O sotaquezinho forçado dava nos nervos em frangalhos de Clay. Ele pensou que se fosse um peido, seria do tipo que faz o som de uma cometa soprada por uma criança com asma.

     —      Um homem saiu do elevador — disse o recepcionista, voltando para trás do balcão, de volta ao local em que parecia se sentir em casa. A luz da lâmpada do teto bateu no seu rosto e Clay notou que ele estava muito pálido. — Um dos malucos. Franklin deu o azar de estar parado bem na frente das portas...

     —      Pelo visto não passou pela sua cabeça ao menos tirar a droga da gravura de cima da bunda dele — disse Clay. Agachou-se, pegou o quadro e o colocou sobre o sofá. Aproveitou para empurrar o pé do recepcionista morto da almofada, onde ele havia parado. O pé caiu com um som que Clay conhecia muito bem. Já o tinha transcrito em várias revistas em quadrinhos como CLUMP.

     —      O homem do elevador só acertou um soco nele — falou o recepcionista. — Fez o pobre Franklin sair voando até a parede. Acho que ele quebrou o pescoço. De qualquer forma, foi isso que fez a gravura cair, a batida de Franklin na parede.

       Na cabeça do recepcionista, aquilo parecia justificar tudo.

     —      E o que aconteceu com o homem que bateu nele? — perguntou Tom. — O maluco? Para onde ele foi?

     —      Para a rua — respondeu o recepcionista. — Foi quando achei que trancar a porta seria de longe a atitude mais sensata. Depois que ele saiu. — Ele olhou para os dois com uma mistura de medo e avareza lasciva e linguaruda que Clay achou especialmente de mau gosto. — O que está acontecendo lá fora? É muito grave?

     —      Parece que você tem uma boa idéia do que está acontecendo — falou Clay. — Não foi por isso que trancou a porta?

     —      Sim, mas...

     —      O que estão falando na tevê? — perguntou Tom.

     —      Nada. A tevê a cabo está fora do ar... — Ele olhou para o relógio. — Há quase meia hora.

     —      E o rádio?

     O recepcionista lançou um olhar afetado que dizia você só pode estar brincando. Clay estava começando a pensar que aquele sujeito poderia escrever um livro: Como Ser Detestado em Três Tempos.

     —      Rádio neste lugar? Em qualquer hotel do centro? Você só pode estar brincando.

     Lá de fora, veio um urro agudo de dor. A garota de vestido manchado de sangue voltou a aparecer na porta e começou a bater nela com a palma da mão, olhando por sobre o ombro ao fazê-lo. Clay foi para lá, depressa.

     —      Não, ele trancou a porta de novo, lembra? — Tom gritou para ele.

     Clay não tinha se lembrado.

     —      Destranque-a.

     —      Não — disse o recepcionista e cruzou os dois braços com firmeza sobre o peito estreito para mostrar como se opunha a agir daquela forma. Do lado de fora, a menina de vestido branco olhou por sobre o ombro de novo e bateu com mais força. Seu rosto raiado de sangue retesado de terror.      

     Clay tirou o cutelo do cinto. Tinha quase se esquecido dele e ficou um tanto espantado com a velocidade e a naturalidade com que ele lhe voltou à mente.

     —      Abra a porta seu filho-da-puta — ele falou para o recepcionista —, ou vou cortar sua garganta.

     — Não vai dar tempo — gritou Tom e pegou uma das cadeiras Queen Anne falsas de espaldar alto que ladeavam o sofá do saguão. Enfiou-a nas portas duplas com as pernas para cima.

     A garota notou que ele estava vindo e se afastou encolhida, erguendo as duas mãos para proteger o rosto. No mesmo instante, o homem que a perseguia apareceu na frente da porta. Fazia o tipo peão, enorme, com um bom pedaço da barriga saltando da frente da camisa amarela e um rabo-de-cavalo grisalho e seboso subindo e descendo às suas costas.

     As pernas da cadeira se chocaram com os painéis das portas duplas, as duas da esquerda estilhaçando o vidro que dizia ATLANTIC AVENUE INN, e as duas da direita, o que dizia O MELHOR HOTEL DE BOSTON. As da direita atingiram o ombro carnudo e vestido de amarelo do peão no momento em que ele agarrava a garota pelo pescoço. A parte de baixo do assento da cadeira bateu na junção sólida em que as duas portas se encontravam e Tom McCourt foi cambaleando para trás, atordoado.

     O peão estava rugindo aquele palavrório desconexo e sangue começara a descer pela carne sardenta do seu bíceps esquerdo. A garota conseguiu se livrar dele, mas tropeçou nos próprios pés e caiu, metade na calçada e metade na sarjeta, gritando de dor e medo.

     Clay estava emoldurado em um dos painéis de vidro estilhaçados, sem se lembrar de ter atravessado o saguão e apenas com uma vaga lembrança de ter tirado a cadeira do caminho.

     —      Ei, babaca! — gritou, e se sentiu um pouquinho encorajado quando a torrente de palavras sem sentido do homenzarrão parou por um instante e ele se deteve. — É, você mesmo — gritou Clay. — Estou falando com você. — E então, por ser a única coisa em que conseguiu pensar: — Eu comi a sua mãe, e foi uma trepada e tanto!

     O maníaco enorme de camisa amarela gritou algo que parecia sinistramente com o que a Mulher do Terninho de Poderosa gritara logo antes de morrer — parecia sinistramente com Rast!— e se virou de volta para o prédio que tinha criado de repente dentes e voz para atacá-lo. O que quer que tenha visto, não pode ter sido um homem feroz e suado com um cutelo na mão saindo de dentro de um painel retangular que antes era envidraçado, pois Clay nem precisou atacá-lo. O homem de camisa amarela pulou em cima da lâmina projetada para frente do cutelo. O aço sueco deslizou com facilidade para dentro da papada queimada de sol sob seu queixo, liberando uma cascata vermelha. Ela inundou a mão de Clay com uma quentura surpreendente — quase tão quente quanto uma xícara de café recém-servida —, obrigando-o a refrear um impulso de se afastar. Em vez disso, fez força para frente, sentindo por fim que a faca encontrava resistência. Ela hesitou, mas aquela belezinha não empenava. Varou a cartilagem e então saiu pela nuca do homenzarrão. Ele caiu para frente — Clay não tinha como segurá-lo com um braço, de jeito nenhum, o cara devia ter uns 115 quilos, talvez até uns 130 — e por um instante ficou apoiado na porta como um bêbado em um poste, com os olhos castanhos saltando para fora, a língua manchada de nicotina pendendo de um canto da boca e o pescoço cuspindo sangue. Então os joelhos dele falharam e ele desabou. Clay segurou o cabo do cutelo e ficou impressionado com a facilidade com que ele se desprendeu. Muito mais fácil do que arrancá-lo do couro e do aglomerado reforçado do portfolio.

     Com o lunático no chão, ele podia ver a garota novamente, um joelho na calçada e outro na sarjeta, gritando por trás da cortina de cabelo que pendia sobre o seu rosto.

     — Querida — ele disse. — Querida, pare — mas ela continuou gritando.

     O nome da menina era Alice Maxwell. Pelo menos isso ela conseguiu dizer a eles. E também que tinha vindo de trem junto com a mãe para Boston — de Oxford, ela disse — para fazer umas compras. Isso costumavam fazer nas quartas, que chamavam de "dia curto" na escola secundária que freqüentava. Ela falou que as duas tinham descido do trem na South Station e pegado um táxi. Disse que o motorista estava usando um turbante azul, e o turbante era a última coisa de que conseguia se lembrar até o recepcionista careca finalmente destrancar as portas duplas estilhaçadas do Atlantic Avenue Inn e deixá-la entrar.

     Clay achava que ela se lembrava de mais. Baseou esse palpite na maneira como a garota começou a tremer quando Tom McCourt perguntou se ela ou a mãe estavam com celulares. Ela disse que não se lembrava, mas Clay tinha certeza que uma delas estava, ou as duas. Parecia que todo mundo tinha um naqueles dias. Ele era a exceção que confirmava a regra. E havia Tom, que talvez devesse a vida ao gato que derrubara o dele de cima do balcão.

     Eles conversaram com Alice (a conversação consistiu basicamente em Clay fazer perguntas enquanto a garota ficava calada, baixando os olhos para os joelhos ralados e balançando a cabeça de vez em quando) no saguão do hotel. Clay e Tom tinham levado o corpo de Franklin para trás do balcão, ignorando o protesto veemente e bizarro do recepcionista careca de que "assim eu vou ficar pisando nele". Desde então, o recepcionista, que dissera se chamar simplesmente Sr. Ricardi, havia se retirado para o seu escritório particular. Clay o seguira o suficiente para se certificar de que o Sr. Ricardi tinha dito a verdade sobre a tevê estar fora do ar, e então o deixou sozinho. Sharon Riddell diria que o Sr. Ricardi estava meditando na sua tenda.

     No entanto, o homem não deixou Clay ir embora sem uma provocação de despedida.

     —      Agora estamos vulneráveis — disse ele com azedume. — Espero que você esteja feliz.

     —      Sr. Ricardi — disse Clay, o mais pacientemente possível —, eu vi um avião cair do outro lado do Boston Common há menos de uma hora. Parecia que mais aviões, aviões grandes, estavam fazendo a mesma coisa no Logan. Talvez eles até estejam realizando ataques suicidas nos terminais. Explosões estão acontecendo em todo o centro. Eu diria que esta tarde toda a cidade de Boston está vulnerável.

     Como que para frisar esse argumento, um baque muito pesado soou sobre a cabeça deles. O Sr. Ricardi não olhou para cima. Apenas fez um gesto com a mão que dizia vá embora na direção de Clay. Sem tevê para assistir, ele se sentou à mesa e ficou olhando severamente para a parede.

    

     Clay e Tom colocaram as duas cadeiras Queen Anne falsas contra a porta, e seus espaldares altos taparam bem as molduras estilhaçadas que antes sustentavam os vidros. Embora Clay tivesse certeza que obstruir a entrada do hotel ofereceria uma segurança frágil ou completamente inútil, achou também que bloquear a vista da rua seria uma boa idéia, e Tom concordara. Uma vez que as cadeiras estavam no lugar, eles baixaram a persiana da janela principal do saguão. Isso escureceu bastante o local e fez com que sombras fracas na forma de barras de cela de prisão marchassem pelo tapete vermelho-alaranjado.

     Com aquelas coisas resolvidas e a história radicalmente resumida de Alice Maxwell contada, Clay finalmente se dirigiu ao telefone atrás do balcão. Ele olhou para o relógio. Eram 16h22; uma hora perfeitamente lógica, exceto que qualquer sensação normal de tempo parecia ter sido eliminada. Horas pareciam ter passado desde que ele vira o homem mordendo o cachorro no parque. Também era como se não houvesse tempo algum. Mas havia tempo, da maneira como os humanos o mediam, pelo menos, e, em Kent Pond, Sharon com certeza já teria voltado para a casa na qual ele ainda pensava como lar. Precisava falar com ela. Para se certificar de que ela estava bem e dizer que ele também estava; mas aquilo não era o importante. Certificar-se de que Johnny estava bem, isso sim é que importava, mas havia uma coisa mais importante ainda. Vital, na realidade.

     Ele não tinha um celular e estava quase certo de que Sharon também não. Imaginava que talvez ela tivesse comprado um desde que eles se separaram em abril, mas os dois ainda viviam na mesma cidade, ele a via quase todos os dias e achou que se Sharon tivesse comprado um, ele saberia. Para começo de conversa, ela teria lhe dado o número, certo? Certo. Mas...

     Mas Johnny tinha um celular. Foi aquilo que o pequeno Johnny-Gee, que já não era tão pequeno assim, 12 anos não era tão pequeno, quis no seu último aniversário. Um celular vermelho que tocava o tema do programa de tevê favorito dele quando chamava. É claro que ele era proibido de ligá-lo ou até mesmo tirá-lo de dentro da mochila enquanto estivesse na escola, mas as aulas já tinham terminado àquela hora. E, além disso, Clay e Sharon na verdade o incentivaram a levar o aparelho para o colégio, em parte por causa da separação. Poderiam acontecer emergências ou pequenos contratempos, como perder um ônibus. A esperança de Clay era que Sharon tinha falado que, quando entrava no quarto de Johnny ultimamente, quase sempre via o celular esquecido em cima da mesa ou no peitoril da janela ao lado da cama, fora do carregador e morto como um cocô de cachorro.

     Ainda assim, a idéia do celular vermelho de John tiquetaqueava na cabeça dele como uma bomba.

     Clay tocou o telefone fixo no balcão do hotel e então tirou a mão. Lá fora, algo explodiu, mas aquela explosão foi longe dali. Era como ouvir um projétil explodir quando se está bem longe das linhas inimigas.

     Não levante essa hipótese, ele pensou. Nem mesmo levante a hipótese de existirem linhas inimigas.

     Ele olhou através do saguão e viu Tom se agachando ao lado de Alice enquanto ela se sentava no sofá. Estava murmurando algo baixinho, tocando um de seus mocassins e erguendo os olhos para o rosto dela. Aquilo era bom. Ele era bom. Clay se sentia cada vez mais grato por ter encontrado Tom McCourt... ou por Tom McCourt tê-lo encontrado.

     Provavelmente, não teria problema usar os telefones fixos. A questão era se provavelmente era bom o bastante. Ele tinha uma esposa pela qual ainda se sentia de certa forma responsável, e quanto ao filho, não havia essa história de "de certa forma". Simplesmente pensar em Johnny era perigoso. Todas as vezes que sua mente se voltava para o garoto, Clay sentia um rato surtar na sua cabeça, pronto para se libertar da gaiola frágil que o prendia e sair mordendo tudo que encontrasse pela frente com seus dentinhos afiados. Se ele conseguisse se certificar de que Johnny e Sharon estavam bem, poderia manter o rato na gaiola e planejar o que fazer em seguida. Mas se fizesse alguma idiotice, não serfa capaz de ajudar ninguém. Na verdade, tornaria as coisas mais difíceis para as pessoas que estavam ali. Pensou um pouco naquilo e então chamou o nome do recepcionista.

     Quando não obteve resposta do escritório, chamou de novo. Quando continuou sem resposta, disse:

     —      Sei que está me ouvindo, Sr. Ricardi. Se me obrigar a ir buscá-lo, vou ficar chateado. Talvez fique chateado o bastante para considerar a hipótese de jogar você na rua.

     —      Não pode fazer isso — disse o Sr. Ricardi em um tom rude de ordem. — Você é um hóspede deste hotel.

     Clay pensou em repetir o que Tom dissera para ele quando ainda estavam lá fora — as coisas mudaram. Em vez disso, algo o fez ficar calado.

     —      O que é? — disse o Sr. Ricardi finalmente. Soando mais rude do que nunca. Do andar de cima, veio um baque mais alto, como se alguém tivesse derrubado uma mobília pesada. Uma escrivaninha, talvez. Daquela vez, até mesmo a garota olhou para cima. Clay achou que tinha ouvido um grito abafado, ou talvez um uivo de dor, mas, se fosse o caso, não houve continuidade. O que ficava no segundo piso?

     Não era um restaurante, ele se lembrava que alguém lhe disse (o próprio Sr. Ricardi, quando Clay chegara) que o hotel não tinha restaurante, mas o Metropolitan Café ficava logo ao lado. Salas de reunião, ele pensou. Tenho quase certeza de que são salas de reunião com nomes indianos.

     —      O que é?— perguntou novamente o Sr. Ricardi. Parecia mais rabugento do que nunca.

     —      Você tentou ligar para alguém depois que tudo isso começou?

     —      Mas é claro. — disse o Sr. Ricardi. Ele apareceu na porta entre o escritório e a área atrás do balcão, com seus escaninhos, monitores do circuito de segurança e computadores. Então olhou indignado para Clay. — Os alarmes de incêndio dispararam, eu os desliguei, Doris falou que uma lixeira tinha pegado fogo no terceiro andar, e eu liguei para os Bombeiros para dizer que não precisavam se preocupar. A linha estava ocupada! Ocupada, imagine só!

     —      Você deve ter ficado bastante irritado — disse Tom.

     O Sr. Ricardi pareceu ficar mais calmo pela primeira vez.

     —      Liguei para a polícia quando as coisas lá fora começaram a... bem... a degringolar.

     —      Sim — falou Clay. Degringolar era uma bela maneira de colocar a questão. — Conseguiu falar com eles?

     —      Um homem disse que eu tinha que desocupar a linha e desligou na minha cara — disse o Sr. Ricardi. A indignação estava voltando à sua voz. — Quando liguei de novo, depois de o maluco ter saído do elevador e matado Franklin, uma mulher atendeu. Ela disse... — A voz do Sr. Ricardi começou a tremer e Clay viu as primeiras lágrimas descerem pelos desfiladeiros estreitos que marcavam os lados do nariz do homem — ... disse...

     —      O quê? — perguntou Tom, naquele mesmo tom de solidariedade. — O que ela disse, Sr. Ricardi?

     —      Ela disse que se Franklin estava morto e o homem que o matara tinha ido embora, eu não tinha problemas. Foi ela quem aconselhou que eu me trancasse aqui dentro. Também me disse para chamar os elevadores do hotel para o saguão e desligá-los, o que eu fiz.

     Clay e Tom trocaram um olhar que expressava um pensamento: Boa idéia. Clay vislumbrou uma imagem vivida de insetos presos entre uma janela fechada e uma tela, zumbindo furiosamente, mas sem conseguirem sair. Aquela imagem tinha algo a ver com os baques que tinham vindo de cima das cabeças deles. Ele imaginou brevemente quanto tempo levaria para a pessoa — ou pessoas — que estava fazendo o barulho lá em cima achar a escada.

     —      Então ela desligou na minha cara. Depois disso, liguei para minha mulher em Milton.

     —      Você conseguiu falar com ela — disse Clay, querendo esclarecer bem aquele ponto.

     —      Ela estava muito assustada. Me pediu para ir para casa. Falei que tinham me aconselhado a ficar no hotel com as portas trancadas. A polícia tinha me aconselhado. Falei para ela fazer o mesmo. Tranque as portas e fique... bem, fique na encolha. Ela implorou que eu fosse para casa. Disse que tinha ouvido tiros na rua e uma explosão a uma rua de distância. Falou que viu um homem nu correndo pelo quintal dos Benzyck. Os Benzyck são nossos vizinhos.

     —      Sim — disse Tom com brandura. Docemente, até. Clay não falou nada. Estava um pouco envergonhado pela raiva que sentira do Sr. Ricardi, mas Tom ficara com raiva também.

     —      Ela disse que achava que o homem nu talvez... talvez, ela só disse talvez... estivesse carregando o corpo de uma... mmm... uma criança nua. Mas provavelmente era só uma boneca. Ela me implorou de novo para deixar o hotel e voltar para casa.

     Clay já tinha conseguido o que precisava. Os telefones fixos eram seguros. O Sr. Ricardi estava em estado de choque, e não louco. Clay colocou a mão no aparelho. O Sr. Ricardi colocou a mão sobre a dele antes de Clay levantar o fone. Os dedos do Sr. Ricardi eram longos, pálidos e muito frios. Ele ainda não terminara. Estava inspirado.

     —      Ela me chamou de filho-da-puta e desligou. Sei que estava com raiva de mim e é claro que entendo o porquê. Mas a polícia me disse para trancar tudo e ficar onde estava. A polícia me disse para ficar fora das ruas. A polícia. As autoridades.

    Clay assentiu.

     —      As autoridades, claro.

     —      Você veio de metrô? — perguntou o Sr. Ricardi. — Eu sempre uso o metrô. Fica a duas quadras daqui. É muito conveniente.

     —      Não seria conveniente nesta tarde — falou Tom. — Depois do que acabamos de ver, nada me faria ir lá para baixo.

     O Sr. Ricardi olhou para Clay com uma impaciência chorosa.

     —      Está vendo?

     Clay assentiu mais uma vez.

     —      Você está mais seguro aqui — falou. Sabendo que queria ir para casa ver o filho. Sharon também, é claro, mas principalmente o filho. Sabendo que não deixaria nada impedi-lo, a não ser que fosse inevitável. Era como um peso na sua mente que lançava uma sombra real sobre seus olhos. — Muito mais seguro.

     Então pegou o fone e discou 9 para uma linha externa. Não tinha certeza se iria conseguir uma, mas conseguiu. Discou 1, depois 207, que era o código de área para todo o Maine, e então 692, que era o prefixo para Kent Pond e para as cidades vizinhas. Discou três dos quatro números — quase alcançando a casa na qual ainda pensava como lar — antes de os característicos três toques o interromperem. Uma voz feminina gravada entrou em seguida. "Desculpenos. Todos os circuitos estão ocupados. Por favor, tente fazer sua chamada mais tarde."

     Logo em seguida, veio um tom de discagem, como se um circuito automático o tivesse desconectado do Maine... se é que era de lá que vinha a voz da máquina. Clay deixou o fone cair até a altura do ombro, como se tivesse ficado muito pesado. Então o colocou de volta no gancho.

    

     Tom disse que ele era louco de querer sair dali.

     Em primeiro lugar, apontou Tom, eles estavam relativamente seguros no Atlantic Avenue Inn, especialmente com os elevadores desativados e o acesso ao saguão pelas escadas bloqueado. Tinham feito isso empilhando caixas e malas que estavam na sala de bagagens em frente à porta no fim do corredor curto depois da área dos elevadores. Mesmo se alguém dotado de uma força extraordinária empurrasse a porta do outro lado, conseguiria apenas arrastar a pilha até a parede oposta, criando uma brecha de talvez 15 centímetros. Insuficiente para uma pessoa passar.

     Em segundo lugar, o tumulto na cidade além do porto seguro deles parecia estar aumentando. Havia uma zoeira constante de alarmes que se misturavam, gritos e berros, motores em disparada e, às vezes, o cheiro apavorante de fumaça, embora parecesse que o vento forte do dia estivesse levando a maior parte dela para longe dali. Até agora, pensou Clay, mas não disse em voz alta, pelo menos não por ora — não queria deixar a garota mais assustada do que já estava. Havia explosões que nunca pareciam vir individualmente, e sim em espasmos. Uma delas foi tão perto que todos se agacharam, certos de que a janela da frente iria explodir. Não aconteceu, mas, depois daquilo, eles foram para o santuário do Sr. Ricardi.

     O terceiro motivo que Tom deu para achar que Clay estava louco de simplesmente pensar em deixar a precária segurança do hotel era que já eram 17hl5. O dia estava para terminar. Ele argumentou que tentar sair de Boston de noite seria loucura.

     — Dê uma olhada lá fora — ele disse, gesticulando para a pequena janela do Sr. Ricardi, que dava para a Essex Street. A Essex estava repleta de carros abandonados. Havia pelo menos um corpo, de uma jovem vestindo jeans e uma camiseta dos Red Sox. Estava de bruços na calçada, com os dois braços estirados, como se tivesse morrido tentando nadar. VARITEK, dizia a camiseta. — Você está pensando que vai conseguir dirigir seu carro? Se estiver, é melhor pensar de novo.

     —      Ele está certo — disse o Sr. Ricardi. Ele estava sentado atrás da mesa com os braços cruzados mais uma vez sobre o peito estreito, um estudo em desalento. — O seu carro está no estacionamento da Tamworth Street. Acho que você não vai conseguir nem recuperar as chaves.

     Clay, que já havia considerado o carro uma causa perdida, abriu a boca para dizer que não estava pensando em dirigir (pelo menos não em um primeiro momento), quando outro baque veio do andar de cima, daquela vez, forte o bastante para fazer o teto tremer. Alice Maxwell, que estava sentada na cadeira em frente à mesa do Sr. Ricardi, olhou nervosa para cima e então começou a se encolher mais ainda.

     —      O que tem lá em cima? — perguntou Tom.

     —      Logo acima da gente fica a Sala Iroquois — respondeu o Sr. Ricardi. — A maior das nossas três salas de reunião e onde guardamos todas os nossos materiais: cadeiras, mesas, equipamento audiovisual. — Ele fez uma pausa. — E, embora não tenhamos um restaurante, organizamos bufês ou coquetéis, se os clientes requisitarem esse tipo de serviço. O último baque...

     Ele não completou a frase. Na opinião de Clay, não precisava. Aquele último baque foi de um carrinho com uma pilha de utensílios de vidro sendo virado no chão da Sala Iroquois, onde vários outros carrinhos e mesas já tinham sido derrubados por algum louco que estava andando de um lado para o outro furiosamente lá em cima. Zunindo pelo segundo andar como um inseto preso entre a janela e a tela, algo sem inteligência para descobrir a saída, algo que só sabia correr e parar, correr e parar.

     Alice falou pela primeira vez em quase meia hora e, pela primeira vez desde que a encontraram, sem que alguém a incitasse.

     —      Você disse alguma coisa sobre uma mulher chamada Doris.

     —      Doris Gutierrez. — O Sr. Ricardi assentia com a cabeça. — A chefe da limpeza. Excelente funcionária. Provavelmente a melhor. Ela estava no terceiro andar na última vez que falei com ela.

     —      Ela estava com... — Alice não falou. Em vez disso, fez um gesto que se tornara quase tão familiar para Clay quanto o indicador na frente dos lábios indicando Shh. Alice colocou a mão direita do lado do rosto com o polegar perto da orelha e o dedinho na frente da boca.

     —      Não — disse o Sr. Ricardi, quase afetadamente. — Os funcionários são obrigados a deixá-los nos seus armários durante o expediente. Uma violação e eles ganham uma advertência. Duas e podem ser despedidos. Digo isso a eles quando são contratados. — Ele meio que deu de ombros com um só ombro magro. — A política é da casa, não minha.

     —      Ela poderia ter descido para o segundo andar para investigar aqueles sons? — perguntou Alice.

     —      Provavelmente — disse o Sr. Ricardi. — Não tenho como saber. Só sei que não tive notícias de Doris desde que fui comunicado do fogo na lata de lixo, e ela não respondeu ao bipe. Eu a bipei duas vezes.

     Clay não queria dizer: Viram, aqui também não é seguro, em voz alta, então olhou para Tom, que estava atrás de Alice, tentando passar para ele a idéia básica com os olhos.

     Tom falou:

     —      Quantas pessoas você diria que ainda estão nos andares de cima?

     —      Não tenho como saber.

     —      Se tivesse que adivinhar.

     —      Não muitas. Em se tratando do pessoal da limpeza, provavelmente só Doris. Os funcionários do dia saem às três e os da noite só chegam às seis. — O Sr. Ricardi apertou os lábios com força. — É um gesto de economia. Não se pode dizer medida, porque não funciona. Quanto aos hóspedes...

     Ele pensou.

     —      A tarde é parada para nós, muito parada. Os hóspedes da noite anterior já saíram todos, é claro, a diária acaba ao meio-dia no Atlantic Inn, e os hóspedes da noite não começam a se registrar antes das quatro, mais ou menos, em uma tarde comum. O que certamente não é o caso desta. Os hóspedes que ficam vários dias geralmente estão aqui a negócios. Como imagino que você esteja, Sr. Riddle.

     Clay assentiu sem se preocupar em corrigi-lo.

       —     No meio da tarde, os homens de negócio geralmente estão fazendo o que quer que os trouxe até Boston. Então, como pode ver, estamos quase sozinhos.

     Como que para contradizer aquela afirmação, outro baque soou sobre a cabeça deles, mais vidro quebrando e um rosnado feroz baixo. Todos olharam para cima.

     —      Clay, ouça — disse Tom. — Se o cara lá de cima encontrar as escadas... Não sei se essa gente é capaz de raciocinar, mas...

     —      A julgar pelo que vimos nas ruas — disse Clay —, até chamá-los de gente pode estar errado. Estava pensando que o cara lá em cima é mais como um inseto preso entre uma janela e uma tela. Um inseto assim pode sair, se achar um buraco, e o cara lá em cima pode até achar as escadas, mas se isso acontecer, acho que vai ser por acidente.

     —      E quando ele descer e descobrir que a porta para o saguão está travada, vai usar a porta de incêndio do corredor — falou o Sr. Ricardi com o que, para ele, era um tom de animação. — Vamos escutar o alarme, está programado para soar sempre que alguém empurra a barra, e saberemos que ele foi embora. Menos um doido para nos preocuparmos.

     Em algum lugar ao sul de onde estavam, algo grande explodiu e todos se encolheram. Clay pensou que agora sabia como devia ser viver em Beirute durante a década de 1980.

     —      Estou tentando provar uma coisa — disse Clay com paciência.

     —      Eu não acho — disse Tom. — Você vai sair de qualquer jeito, porque está preocupado com sua mulher e seu filho. Está tentando nos convencer porque quer companhia.

     Clay soltou um suspiro de frustração.

     —      É claro que quero companhia, mas não é por isso que quero convencê-los a vir comigo. O cheiro de fumaça está ficando mais forte, mas quando foi a última vez que vocês ouviram um alarme?

     Ninguém respondeu.

     —      Eu também não — falou Clay. — Não acho que as coisas vão melhorar em Boston, não por agora. Vão piorar. Se foram os telefones celulares...

     —      Ela tentou deixar uma mensagem para papai — disse Alice. Falou depressa, como se quisesse garantir que as palavras todas saíssem antes que a lembrança fosse embora. — Só queria confirmar que ele tinha pegado a roupa na lavanderia, porque precisava do vestido amarelo de lã para a reunião do comitê e eu precisava do meu uniforme extra para o jogo fora de casa do sábado. Isso foi no táxi. E então nós batemos! Ela estrangulou o homem e mordeu o homem e o turbante dele caiu e o rosto dele estava cheio de sangue e nós batemos!

     Alice olhou em volta para os três rostos que a observavam, então colocou o próprio rosto entre as mãos e começou a soluçar. Tom fez menção de confortá-la, mas o Sr. Ricardi surpreendeu Clay ao dar a volta na mesa e passar um braço magrelo em volta da garota antes de Tom a alcançar.

     —      Passou, passou — ele disse. — Tenho certeza de que foi tudo um mal-entendido, minha jovem.

     Ela levantou a cabeça para olhar para ele, os olhos arregalados e furiosos.

     —      Mal-entendido?— Ela indicou o babador de sangue seco na frente do vestido. — Isso parece um mal-entendido? Usei o caratê que aprendi nas aulas de defesa pessoal da escola. Dei golpes de caratê na minha própria mãe! Quebrei o nariz dela, acho... tenho certeza... — Alice balançou a cabeça rapidamente, o cabelo se agitando. — E mesmo assim, se eu não tivesse conseguido esticar o braço para trás para abrir a porta...

     —      Ela teria matado você — disse Clay categoricamente.

     —      Ela teria me matado — concordou Alice com um sussurro. — Ela não sabia quem eu era. Minha própria mãe. — A garota olhou de Clay para Tom. — Foram os celulares — ela disse com o mesmo sussurro. — Foram os celulares, sem dúvida.

     — Quantas dessas pragas existem em Boston? — perguntou Clay. — Qual é a penetração de mercado?

     — Considerando o grande número de estudantes universitários, eu diria que é enorme — respondeu o Sr. Ricardi. Ele voltara ao seu lugar atrás da mesa e agora parecia um pouco mais animado. Deve ter sido por ter confortado a garota, ou talvez por conta da pergunta sobre negócios. — No entanto, o alcance vai muito além dos jovens abastados, é claro. Li um artigo na Inc. há um ou dois meses que afirmava que hoje em dia o número de celulares na China continental é igual à população da América. Dá pra imaginar uma coisa dessas?

     Clay não queria imaginar.

     —      Certo. — Tom assentia com relutância. — Estou vendo aonde você quer chegar com isso. Alguém, alguma organização terrorista, dá um jeito de manipular os sinais de celular. Se você fizer ou receber uma ligação, recebe um tipo de... o quê?... um tipo de mensagem subliminar, sei lá... que te deixa maluco. Parece ficção científica, mas acredito que há 15 ou vinte anos os telefones celulares como eles são hoje em dia pareceriam ficção científica para a maioria das pessoas.

     —      Tenho quase certeza de que é algo do gênero — disse Clay. — basta entreouvir uma ligação e você está completamente ferrado. — Ele estava pensando na Cabelinho Escuro. — Mas o mais traiçoeiro é que quando as pessoas vêem algo de errado ao redor...

     —      O primeiro impulso delas é pegar o celular e tentar descobrir a causa — disse Tom.

     —      Exatamente — falou Clay. — Eu vi gente fazer isso.

     Tom olhou para ele com desânimo.

     —      Eu também.

     —      O que tudo isso tem a ver com você sair da segurança do hotel, principalmente com a noite chegando, eu não sei — disse o Sr. Ricardi.

     Como se para responder à pergunta, houve outra explosão. Seguida por outra meia dúzia, marchando para o sudeste como as passadas de um gigante indo embora. De cima deles veio outro baque e um grito fraco de raiva.

     —      Não acho que os malucos sejam inteligentes o bastante para sair da cidade da mesma forma que o cara lá de cima não consegue achar o caminho para as escadas — disse Clay.

     Por um instante ele pensou que a expressão no rosto de Tom fosse de choque, mas então percebeu que era de outra coisa. Estupefação, talvez. E uma esperança nascente.

     —      Oh, meu Deus — ele disse e chegou a dar um tapa no rosto com uma das mãos. — Eles não vão sair. Não tinha pensado nisso.

       —     Acho que tem outra coisa — falou Alice. Estava mordendo o lábio e com os olhos baixados para as mãos, que estavam embaralhadas em um nó inquieto. Ela se forçou a erguer os olhos para Clay. — Talvez seja mais seguro sair à noite.

     —      Por que, Alice?

     —      Se não conseguirem te ver, se você for para trás de alguma coisa, se conseguir se esconder, eles esquecem de você quase na mesma hora.

     —      O que te faz pensar assim, querida? — perguntou Tom.

     —      Eu me escondi do homem que estava me seguindo — ela disse baixinho. — O cara de camisa amarela. Foi logo antes de eu ver vocês. Me escondi em um beco. Atrás de uma daquelas caçambas. Fiquei com medo porque achei que estava sem saída se ele viesse atrás de mim, mas foi a única coisa que consegui pensar em fazer. Eu o vi parado na entrada do beco, olhando em volta, andando de um lado para o outro... fazendo círculos de preocupação, como diria meu avô... e primeiro achei que ele estava de sacanagem comigo, sabe? Porque ele tinha que ter me visto entrar no beco, eu estava a poucos centímetros dele... só alguns centímetros... quase ao alcance da mão... — Alice começou a tremer. — Mas, assim que entrei ali, era como se eu estivesse... sei lá...

     —      Longe dos olhos, longe da mente — disse Tom. — Mas se ele estava tão perto, por que você parou de correr?

     —      Por que eu não agüentava mais — respondeu Alice. — Simplesmente não agüentava mais. Minhas pernas pareciam de borracha e era como se eu fosse despedaçar por dentro. Mas acabou que nem precisava correr. Ele fez mais alguns círculos de preocupação, murmurando aquela falação maluca, e foi embora. Mal pude acreditar. Achei que ele estivesse tentando blefar... mas ao mesmo tempo sabia que era louco demais para uma coisa daquelas. — Ela olhou de relance para Clay e então voltou a baixar os olhos para as mãos. — Meu azar foi encontrar com ele de novo. Devia ter ficado com vocês na primeira vez que os vi. Às vezes eu sou uma idiota.

     —      Você estava assus... — Clay começou a falar, e então a maior explosão até o momento veio de algum lugar a leste de onde estavam, um KER-WHAM ensurdecedor, que fez com que todos se abaixassem e tapassem os ouvidos. Ouviram a janela do saguão se estilhaçar.

       —     Meu... Deus— disse o Sr. Ricardi. Para Clay, aqueles olhos arregalados debaixo da careca deixaram-no parecido com Daddy Warbucks, o preceptor de Annie, a Pequena Órfã. — Deve ter sido aquele novo posto da Shell que eles construíram na Kneeland. Aquele que todos os táxis e Duck Boats usam. Veio da direção dele.

     Clay não fazia idéia se Ricardi tinha razão, não sentia cheiro de gasolina (pelo menos ainda não), mas sua mente visualmente direcionada podia ver um triângulo de concreto urbano queimando como um maçarico no entardecer.

     —      Uma cidade moderna pode se incendiar? — ele perguntou para Tom. — Uma cidade feita quase toda de concreto, metal e vidro? Ela pode se incendiar como Chigaco depois que a vaca da Sra. O'Leary derrubou o lampião2 ?

     —      Essa história de vaca derrubando o lampião não passa de uma lenda urbana — disse Alice. Ela esfregava a nuca como se estivesse ficando com uma dor de cabeça forte. — Foi o que a Sra. Myers disse, na aula de história americana.

     —      Claro que pode — disse Tom. — Veja o que aconteceu com o World Trade Center, depois que aqueles aviões o atingiram.

     —      Aviões cheios de combustível — disse o Sr. Ricardi incisivamente.

     Como se o recepcionista careca o tivesse invocado, o cheiro de gasolina queimando chegou a eles, soprando pelas janelas estilhaçadas do saguão e deslizando por baixo da porta do escritório como sinal de más vibrações.

     —      Parece que você acertou na mosca em relação ao posto da Shell — observou Tom.

     O Sr. Ricardi foi até a porta que separava o escritório do saguão. Ele a destrancou e abriu. O que Clay conseguia ver do saguão à sua frente já parecia deserto, sombrio e, de certa forma, irrelevante. O Sr. Ricardi deu uma fungada ruidosa e então fechou a porta e a trancou novamente.

     —      Já está mais fraco — falou.

     —      Bem que você queria — disse Clay. — Ou o seu nariz já está se acostumando com o cheiro.

     —      Acho que ele pode ter razão — disse Tom. — Um vento forte está vindo do oeste lá fora, o que quer dizer que o ar está se movendo na direção do mar, e se o que acabamos de ouvir foi o novo posto que eles colocaram na esquina da Kneeland com a Washington, em frente ao New England Medical Center...

     —      É esse mesmo — disse o Sr. Ricardi. Seu rosto registrando uma satisfação abatida. — Oh, os protestos! O dinheiro deu um jeito neles, pode cre...

     Tom passou por cima dele.

     —      ... então o hospital deve estar pegando fogo a essa altura... junto com todo mundo que ainda estiver dentro dele, é claro...

     —      Não — disse Alice, e em seguida cobriu a boca com a mão.

     —      Acho que sim. E o Wang Center vai ser o próximo. O vento pode parar quando acabar de escurecer, mas, se não parar, até as dez da noite tudo que estiver a leste da Mass Pike vai virar churrasco.

     —      Nós estamos a oeste — observou o Sr. Ricardi.

     —      Então estamos a salvo — disse Clay. — Pelo menos disso.

     Ele foi até a janelinha do escritório, ficou na ponta dos pés e olhou para a Essex Street.

     —      O que está vendo? — perguntou Alice. — Está vendo gente?

     —      Não... sim. Um homem. Do outro lado da rua.

     —      É um dos malucos? — ela perguntou.

     —      Não dá para saber. — Mas Clay achava que sim. Pelo jeito que ele andava e a maneira convulsiva como ficava olhando por sobre o ombro. Uma vez, logo antes de dobrar a esquina para a Lincoln Street, o cara quase bateu em um arranjo de frutas em frente a uma mercearia. E, embora Clay não pudesse ouvi-lo, conseguia ver os lábios do homem se mexendo. — Agora ele sumiu.

     —      Mais ninguém? — perguntou Tom.

     —      Não no momento, mas tem fumaça. — Clay fez uma pausa. — Fuligem e poeira também. Não dá para saber quanto. O vento está soprando tudo.

     —      Ok, você me convenceu — disse Tom. — Sempre fui devagar para aprender as coisas, mas nunca fui burro. A cidade vai queimar e só os malucos vão ficar por aqui.

      

     —      Acho que vai ser isso mesmo — falou Clay. E ele não achava que aquilo valia só para Boston, mas, por ora, Boston era tudo que suportaria levar em conta. Depois, poderia até ser capaz de ampliar sua visão, mas não antes de Johnny estar em segurança. Ou talvez o quadro mais amplo ficasse sempre fora do seu alcance. Afinal de contas, ele desenhava quadrinhos para viver. Porém, apesar de tudo, o sujeito egoísta que ficava agarrado na sua mente como um carrapato teve tempo de enviar um pensamento claro. Ele veio em azul e dourado cintilante. Por que isso teve que acontecer justamente hoje? Logo depois de eu finalmente dar uma dentro?

     —      Posso ir com vocês, se vocês forem? — perguntou Alice.

     —      Claro — respondeu Clay. Olhou para o recepcionista. — Você também pode vir, Sr. Ricardi.

     —      Eu vou ficar no meu posto — disse o Sr. Ricardi. Ele falou com arrogância, mas, antes de se afastarem do olhar de Clay, seus olhos pareceram doentes.

     —      Não acho que você vai ter problemas com a gerência se fechar o hotel e ir embora sob essas circunstâncias — disse Tom. Ele falou daquele jeito cavalheiro de que Clay estava começando a gostar bastante.

   —      Eu vou ficar no meu posto — ele repetiu. — O Sr. Donnelly, o gerente do dia, saiu para fazer o depósito da tarde no banco e me deixou responsável pelo hotel. Se ele voltar, talvez...

     —      Por favor, Sr. Ricardi — falou Alice. — Ficar aqui não vai adiantar.

     Mas o Sr. Ricardi, que tinha mais uma vez cruzado os braços sobre o peito estreito, apenas balançou a cabeça.

     Eles tiraram uma das cadeiras Queen Anne do caminho e o Sr. Ricardi destrancou as portas da frente. Clay olhou para fora. Não via pessoas se movendo em nenhuma direção, mas era difícil ter certeza, pois o ar estava cheio de poeira fina e preta. Ela bailava no vento como neve negra.

     —      Vamos — ele disse. Para começar, eles iriam apenas para o prédio vizinho, o Metropolitan Café.

     —      Vou trancar de novo a porta e colocar a cadeira de volta no lugar — disse o Sr. Ricardi —, mas estarei ouvindo. Se tiverem problemas, se mais daquelas... pessoas... estiverem escondidas no Metropolitan, por exemplo, e vocês tiverem que voltar, lembrem-se de gritar: "Sr. Ricardi, Sr. Ricardi, precisamos de ajuda!" Assim eu fico sabendo que é seguro abrir a porta. Entendido?

     —      Sim — disse Clay. Ele apertou o ombro magro do Sr. Ricardi. O recepcionista se retraiu, e então ficou firme (embora não tenha demonstrado sinal algum de prazer por ter sido cumprimentado daquela forma). — Você é gente boa. Não achei que fosse, mas estava errado.

     —      Tento fazer o melhor que posso — disse o careca com austeridade. — Lembre-se...

     —      Nós vamos lembrar — falou Tom. — E vamos ficar lá uns dez minutos. Se alguma coisa der errado por aqui, você grita.

     —      Certo.

     Mas Clay não achou que ele gritaria. Não sabia por que pensou isso, não fazia sentido pensar que um homem não gritaria para salvar a própria vida se estivesse encrencado, mas Clay pensou.

     Alice disse:

     —      Por favor, mude de idéia, Sr. Ricardi. Boston não é seguro, o senhor já deve ter percebido isso.

     O Sr. Ricardi apenas desviou o olhar. E Clay pensou, não sem espanto: É assim que um homem fica ao decidir que correr o risco de morrer é melhor do que correr o risco de mudar.

     —      Venham — disse Clay. — Vamos fazer uns sanduíches enquanto ainda temos eletricidade para enxergar.

     —      Algumas garrafas de água mineral seriam uma boa, também — disse Tom.

     A luz oscilou enquanto eles embrulhavam o último sanduíche na cozinha bem perfumada e de azulejos brancos do Metropolitan Café. Àquela altura, Clay já havia tentado ligar mais três vezes para o Maine: uma para sua antiga casa, outra para a Escola Primária de Kent Pond, onde Sharon dava aulas, e outra para a Escola Secundária Joshua Chamberlain, que Johnny freqüentava. Nenhuma das vezes conseguiu ir além do código de área 207.

     Quando as luzes do Metropolitan se apagaram, Alice gritou no que a princípio pareceu a Clay uma escuridão total. Então as luzes de emergência se acenderam. Isso não tranqüilizou muito Alice. Ela se apoiava em Tom com um braço. Na outra mão, empunhava a faca de pão que usara para cortar os sanduíches. Os olhos dela estavam arrega-lados e, de certa forma, apáticos.

     —      Alice, largue essa faca — disse Clay, com um pouco mais de rispidez do que queria. — Antes que você corte um de nós com ela.

     —      Ou a si mesma — disse Tom com aquela sua voz branda e confortante. Seus óculos cintilavam com o brilho das luzes de emergência.

     Ela largou a faca e então a apanhou de volta.

     —      Quero ficar com ela — falou. — Quero tê-la comigo. Você tem uma, Clay. Eu também quero.

     —      Tudo bem — ele disse —, mas você não tem um cinto. Vamos fazer um com uma toalha de mesa. Por enquanto, só tenha cuidado.

     Metade dos sanduíches era de rosbife e queijo, a outra de presunto e queijo. Alice os embrulhou com filme de PVC. Debaixo da caixa registradora, Clay encontrou uma pilha de sacos e ele e Tom jogaram os sanduíches em dois deles. Em um terceiro, colocaram três garrafas d'água.

     As mesas haviam sido preparadas para um jantar que nunca iria acontecer. Duas ou três tinham sido viradas, mas a maioria estava per-feita, com as taças e talheres brilhando na luz dura das lâmpadas de emergência nas paredes. Algo naquela ordenação calma partiu o coração de Clay. A brancura dos guardanapos dobrados e as pequenas lâmpadas elétricas em cada mesa. Os abajurzinhos estavam apagados e ele imaginava que demoraria bastante para as lâmpadas dentro deles se acenderem novamente.

     Ele viu Alice e Tom olhando em volta com rostos tão infelizes quanto o seu parecia estar, e um desejo de animá-los — quase frenético de tão urgente — o invadiu. Lembrou-se de um truque que costumava fazer para o filho. Voltou a pensar no celular de Johnny e o rato surtado deu uma outra mordida nele. Clay esperava de todo coração que o maldito telefone estivesse esquecido debaixo da cama de Johnny-Gee entre bolinhas de poeira, com a bateria mortamortamorta.

     —      Preste bastante atenção nisso — ele falou, largando o seu saco de sanduíches —, e note que em nenhum momento minhas mãos saem do lugar. — Ele pegou a ponta de uma toalha de mesa.

     —      Não é hora para truques de mágica.

     —      Eu quero ver — disse Alice. Pela primeira vez desde que eles a encontraram, ela estava com um sorriso no rosto. Era pequeno, mas estava lá.

     —      Precisamos da toalha de mesa — disse Clay —, vai ser rápido e, além do mais, a dama quer ver. — Ele se virou para Alice. — Mas você vai ter que falar uma palavra mágica. Shazam serve.

     —      Shazam — ela disse, e Clay puxou com força com as duas mãos.

     Não fazia o truque há dois, talvez três, anos e quase deu errado. Porém, ao mesmo tempo, o erro — uma pequena hesitação na hora de puxar, sem dúvida — acabou acrescentando charme à coisa. Em vez de ficar onde estavam enquanto, debaixo deles, a toalha simplesmente desaparecia, todos os utensílios na mesa andaram uns 10 centímetros para a direita. Na verdade, a taça mais próxima de onde Clay estava ficou com metade da sua base circular na mesa e outra metade fora dela.

     Alice aplaudiu, agora rindo. Clay fez uma mesura com as mãos estendidas.

     —      Podemos ir agora, ó grande Vermicelli? — perguntou Tom, mas até ele estava sorrindo. Clay conseguia ver seus dentes pequenos sob as luzes de emergência.

     —      Assim que eu ajeitar isso — respondeu Clay. — Ela pode carregar a faca de um lado e um saco de sanduíches do outro. Você pode levar a água.

     Ele dobrou a toalha em um triângulo e então a enrolou rapidamente na forma de um cinto. Passou o cinto pelas alças de um dos sacos de sanduíches e então o colocou em volta da cintura fina da garota, precisando dar uma volta e meia e amarrar o nó nas costas dela para deixar firme. Arrematou enfiando a faca serrada de pão no seu lugar, do lado direito.

     —      Ei, você é bem jeitoso — disse Tom.

     —      Jeitoso é vistoso — falou Clay, e então alguma outra coisa explodiu lá fora, próximo o bastante para fazer o Café tremer. A taça que estava metade na mesa, metade fora dela, perdeu o equilíbrio, caiu no chão e quebrou. Os três olharam para ela. Clay pensou em dizer que não acreditava em presságios, mas aquilo só pioraria as coisas. E além do mais, ele acreditava.

     Clay tinha seus motivos para querer voltar ao Atlantic Avenue Inn antes de eles partirem. Um deles era reaver seu portfolio, que deixara no saguão. Outro era ver se conseguiam achar algum tipo de bainha improvisada para a faca de Alice — ele calculou que mesmo um estojo de barbear serviria, se fosse longo o bastante. O terceiro era dar ao Sr. Ricardi mais uma chance de se juntar a eles. Ele ficou surpreso ao descobrir que queria isso mais do que o portfolio de desenhos esquecido. Desenvolvera uma simpatia estranha e relutante pelo homem.

     Quando confessou isso a Tom, este o surpreendeu com um assentimento.

     — É assim que eu me sinto em relação a anchovas na pizza — ele falou. — Digo a mim mesmo que há algo de nojento em uma combinação de queijo, molho de tomate e peixe morto... mas às vezes um impulso vergonhoso toma conta de mim e não consigo enfrentá-lo.

     Uma tempestade de cinza preta e fuligem soprava pela rua e entre os prédios. Alarmes de carro trinavam, alarmes contra roubo zurravam e alarmes de incêndio grasniam. Não parecia haver calor no ar, mas Clay ouvia fogo estalando nas direções sul e leste. O cheiro de queimado estava mais forte, também. Eles ouviram vozes gritando, mas elas vinham do caminho de volta para o Common, onde a Boylston Street se alargava.

     Quando chegaram ao Atlantic Avenue Inn, Tom ajudou Clay a empurrar uma das cadeiras Queen Anne da frente de um dos painéis de vidro quebrados. O saguão se tornara um mar de escuridão no qual o balcão e o sofá do Sr. Ricardi eram apenas sombras mais escuras se Clay já não tivesse estado ali, não faria idéia do que aquelas sombras representavam. Sobre os elevadores, uma única luz de emergência piscava, a bateria na caixa atrás dela zumbindo como uma mosca.

     —      Sr. Ricardi? — chamou Tom. — Sr. Ricardi, nós viemos ver se você mudou de idéia.

     Não houve resposta. Um instante depois, Alice começou a derrubar os dentes de vidro que ainda se projetavam da armação da janela.

     —      Sr. Ricardi!— Tom chamou novamente e, quando continuou sem resposta, virou na direção de Clay. — Você vai entrar, não vai?

     —      Sim. Para pegar meu portfolio. Meus desenhos estão nele.

     —      Você não tem cópias?

     —      Aqueles são os originais — disse Clay, como se aquilo explicasse tudo. Para ele, explicava. E, além do mais, havia o Sr. Ricardi.

     Ele disse: Estarei ouvindo.

     —      E se o Barulhento do andar de cima o tiver pegado? — perguntou Tom.

     —      Se fosse o caso, acho que o teríamos escutado fazendo barulho aqui embaixo — disse Clay. — Além disso, ele viria correndo na direção do som das nossas vozes, tagarelando como o cara que tentou nos retalhar lá no Common.

     —      Você não tem como saber isso — disse Alice. Ela estava mordendo o lábio inferior. — É cedo demais para achar que sabe todas as regras.

     É claro que ela estava certa, mas eles não podiam ficar parados lá discutindo, aquilo também não iria adiantar nada.

     —      Vou ter cuidado — ele falou e passou uma perna por sobre a parte de baixo da janela. Era estreita, mas larga o suficiente para ele passar. — Vou só enfiar a cabeça dentro do escritório. Se ele não estiver por lá, não vou sair atrás dele como uma menina de filme de terror. Só vou pegar meu portfolio e a gente cai fora.

     —      Fique gritando — disse Alice. — Diga apenas: "Ok, estou bem", ou algo do gênero. O tempo todo.

     —      Certo, mas se eu parar de gritar, vão embora. Não venham atrás de mim.

     —      Não se preocupe — ela disse, sem sorrir. — Eu também vi todos esses filmes. A gente tem Cinemax lá em casa.

       — Estou bem — gritou Clay, pegando o portfolio e colocando-o no balcão. Prontinho, ele pensou. Mas ainda não.

     Ele olhou por sobre o ombro ao dar a volta no balcão e viu a única janela desbloqueada tremeluzir, parecendo flutuar na escuridão cada vez mais densa, com duas silhuetas recortadas na última luz do dia.

     —      Estou bem, ainda estou bem, só vou dar uma olhada no escritório agora, ainda estou bem, ainda es...

     —      Clay? — a voz de Tom estava inquieta, mas por um instante Clay não pôde responder para acalmá-lo. Havia um lustre no meio do teto alto do escritório. O Sr. Ricardi estava pendurado nele pelo que parecia ser uma corda para amarrar cortinas. Seu rosto estava coberto por uma sacola branca. Clay achou que fosse o tipo de saco plástico que o hotel dá para os hóspedes colocarem a roupa suja e para lavagem a seco. — Clay, você está bem?

     —      Clay?— A voz de Alice saiu esganiçada, à beira da histeria.

     —      Estou bem. — Clay ouviu a própria voz dizer. Sua boca parecia estar funcionando sozinha, sem ajuda do cérebro. — Ainda estou bem aqui. — Ele estava pensando na expressão do Sr. Ricardi quando disse: Eu vou ficar no meu posto. As palavras foram arrogantes, mas os olhos estavam assustados e, de certa forma, humildes, os olhos de um guaxinim encurralado em um canto da garagem por um cachorro grande e furioso. — Já estou saindo.

     Ele se afastou andando de costas, como se o Sr. Ricardi pudesse tirar o garrote improvisado do pescoço e vir atrás dele no instante em que Clay virasse. De repente, sentiu mais medo por Sharon e Johnny; a saudade deles era tão profunda que o fez pensar no seu primeiro dia na escola, a mãe o deixando no portão do playground. Os outros pais tinham entrado com os filhos. Entre lá, Clayton, é a primeira sala, vai dar tudo certo, meninos têm que fazer essa parte sozinhos. Antes de fazer o que ela mandou, ele a observou ir emSora, subindo de volta a Cedar Street. O casaco azul dela. Agora, parado no escuro, ele se deparava novamente com a idéia de que as pessoas não diziam morrer de saudade à toa.

     Tom e Alice eram legais, mas ele queria as pessoas que amava.

      

     Assim que deu a volta no balcão, ele ficou de frente para a rua e atravessou o saguão. Chegou perto o bastante da longa janela quebrada para ver os rostos assustados dos seus novos amigos, e então se lembrou que tinha esquecido a porra do portfolio de novo e teria que voltar. Ao alcançar o portfolio, teve certeza de que a mão do Sr. Ricardi sairia da escuridão cada vez maior atrás da mesa e se fecharia sobre a dele. Isso não aconteceu, mas outro daqueles baques veio do andar de cima. Algo ainda estava lá em cima, algo ainda andava às cegas no escuro. Algo que havia sido humano até as três da tarde daquele dia.

     Daquela vez, quando ele estava a meio caminho da porta, a solitária luz de emergência à bateria do saguão piscou brevemente e então se apagou. Isto é uma violação do Código de Incêndio, pensou Clay. Eu deveria fazer a denúncia.

     Ele estendeu o portfolio. Tom o pegou.

     —      Onde está ele? — perguntou Alice. — Ele não estava lá dentro?

     —      Morto — disse Clay. Passara pela cabeça dele mentir, mas não achou que seria capaz. Estava chocado demais pelo que vira. Como um homem poderia se enforcar sozinho? Ele nem conseguia entender como era possível. — Suicídio.

     Alice começou a chorar e ocorreu a Clay que ela nem sabia que, se dependesse do Sr. Ricardi, provavelmente ela mesma estaria morta àquela altura. Na verdade, ele próprio sentiu um pouco de vontade de chorar. Porque Sr. Ricardi acabara sendo gente boa. Talvez a maioria das pessoas o fosse, tendo a chance.

     Um grito que pareceu forte demais para ter saído de pulmões humanos veio da direção do Common, a oeste de onde eles estavam na rua cada vez mais escura. Clay achou que parecia quase um barrido de elefante. Não havia dor nele, tampouco alegria. Apenas loucura. Alice se apertou contra Clay, que passou o braço em volta dela. A sensação do corpo da garota era como a de um fio elétrico conduzindo uma corrente forte.

     —      Se vamos dar o fora daqui, é melhor irmos logo — disse Tom.

     — Se a gente não se meter em muito problema, consegue chegar até Malden e pode passar a noite na minha casa.

     —      Excelente idéia — disse Clay.

     Tom sorriu com cautela.

     —      Você acha mesmo?

     —      Com certeza. Quem sabe, talvez o oficial Ashland já esteja lá.

     —      Quem é o oficial Ashland? — perguntou Alice.

     —      Um policial que encontramos no Common — disse Tom. — Ele... bem, ele nos ajudou. — Os três estavam andando para o leste na direção da Atlantic Avenue, em meio às cinzas que caíam e o som de alarmes. — Mas ele não vai estar por lá. Clay só está tentando fazer graça.

     —      Ah — ela disse. — Que bom que alguém está tentando.

     Um celular azul com a capa quebrada estava caído na calçada do lado de uma lata de lixo. Alice o chutou para a sarjeta sem alterar o passo.

     —      Bom chute — disse Clay.

     Alice deu de ombros.

     —      Cinco anos de futebol — ela falou e, naquele mesmo instante, as luzes da rua se acenderam, com uma promessa de que nem tudo estava perdido.

    

      

     MALDEN

      

     Milhares de pessoas pararam na ponte do Mystic River e observaram tudo entre a Commonwealth Avenue e o porto de Boston ser consumido pelo fogo. O vento oeste continuou forte e quente mesmo depois de o sol se pôr, e as chamas rugiam como em uma fornalha, borrando as estrelas. A lua nascente estava cheia e basicamente hedionda. Por vezes, a fumaça a escondia, mas a maior parte do tempo aquele olho de dragão saliente voava livre e olhava para baixo, projetando uma luz laranja turva. Clay achou que ela parecia uma lua de revista em quadrinhos de horror, mas não falou nada.

     Ninguém tinha muito a dizer. As pessoas na ponte simplesmente olhavam para a cidade que tinham acabado de abandonar, observando as chamas alcançarem os condomínios luxuosos de frente para o porto e começarem a engoli-los. Do outro lado da água, vinha uma intricada tapeçaria de alarmes — alarmes de incêndio e de carros na sua maioria, com diversas sirenes barulhentas para completar. Por algum tempo, uma voz amplificada disse aos cidadãos para SAIR DAS RUAS e, em seguida, outra voz os aconselhou a ABANDONAREM A CIDADE A PÉ PELAS PRINCIPAIS AVENIDAS AO OESTE E AO NORTE. Esses dois conselhos contraditórios competiram por vários minutos e então o aviso para SAIR DAS RUAS cessou. Cinco minutos depois, o que dizia para as pessoas ABANDONAREM A CIDADE A PÉ também foi interrompido. Agora havia apenas o rugido faminto do fogo impulsionado pelo vento, os alarmes e um estampido distante e contínuo que Clay imaginou ser de janelas implodindo por conta do calor enorme.

     Ele imaginou quantas pessoas estariam presas do lado de lá. Entre o fogo e a água.

     —      Lembra quando você perguntou se uma cidade moderna podia se incendiar? — disse Tom McCourt. Sob a luz do fogo, seu rosto pequeno e inteligente parecia cansado e doente. Havia uma mancha de cinza em uma de suas bochechas. — Lembra?

     —      Ah, cale a boca — disse Alice. Ela estava claramente irritada, mas, como Tom, falou em voz baixa. Parece que estamos em uma biblioteca, pensou Clay. E depois, Não... em uma funerária. — Vamos embora, por favor? Isso está me deixando louca.

     —      Claro — disse Clay. — Pode crer. A que distância fica a sua casa, Tom?

     —      Daqui, pouco mais de 3 quilômetros — ele disse. — Mas sinto dizer que ainda não deixamos tudo para trás.

     Eles tinham virado para o norte, e Tom apontou para frente e para a direita. O brilho que vinha de lá poderia até ser o da luz alaranjada das lâmpadas de sódio dos postes em uma noite nublada, só que a noite estava limpa e os postes de luz estavam apagados. De qualquer forma, postes não soltavam colunas de fumaça.

     Alice gemeu e então cobriu a boca, como se esperasse que aiguém em meio à multidão silenciosa que observava Boston queimar a repreendesse por fazer muito barulho.

     —      Não se preocupe — disse Tom com estranha calma. — Nós estamos indo para Malden, e aquilo parece Revere. Do jeito que o vento está soprando, ainda deve estar tudo bem em Malden.

     Pare de falar agora mesmo, Clay exigiu em silêncio, mas Tom não parou.

     —      Por enquanto — ele acrescentou.

     Havia dezenas de carros abandonados na pista de baixo e um caminhão dos bombeiros com EAST BOSTON escrito na sua lateral verde-abacate, que tinha sido atingida por um caminhão de cimento (os dois estavam abandonados), mas no geral aquele nível da ponte pertencia aos pedestres. Só que agora provavelmente vamos ter que chama-los de refugiados, pensou Clay, e então percebeu que não fazia sentido falar na terceira pessoa. Nós. Nos chamar de refugiados.

     Ainda não havia muita conversa. A maioria das pessoas ficava parada olhando a cidade queimar em silêncio. Os que estavam se mexendo o faziam muito devagar, olhando com freqüência por sobre os ombros. Então, quando eles chegaram ao final da ponte (ele enxergava o Old Ironsides3 — pelo menos achava que era o Old Ironsides — ancorado no porto, ainda a salvo das chamas), Clay notou uma coisa estranha. Muitos deles também estavam olhando para Alice. A princípio, a idéia paranóica de que as pessoas estivessem pensando que ele e Tom tinham raptado a garota e a estavam levando para Deus sabe que tipo de intenções imorais lhe passou pela cabeça. Então ele teve que lembrar a si mesmo que aqueles fantasmas na ponte estavam em estado de choque, que haviam sido arrancados de suas vidas normais com mais violência do que os refugiados do furacão Katrina — aqueles infelizes pelo menos tiveram algum aviso — e possivelmente não seriam capazes de reflexões tão elaboradas. Muitos deles estavam muito imersos nos próprios pensamentos para fazer juízos morais. Então a lua subiu mais um pouco, apareceu com um pouco mais de clareza e ele entendeu: ela era a única adolescente à vista. Mesmo o próprio Clay era jovem, se comparado à maioria dos seus colegas refugiados. A maioria das pessoas que olhava embasbacada para a tocha que havia sido Boston ou que se arrastava em direção a Malden e Danvers tinha mais de 40 anos, e muitos pareciam poder utilizar a fila de idosos no supermercado. Ele viu poucas pessoas com crianças e uns dois bebês em carrinhos, mas o grupo de jovens se resumia praticamente a isso.

     Um pouco mais adiante, ele notou outra coisa. Havia telefones celulares largados pela rua. Eles passavam por um depois do outro, e nenhum estava inteiro. Tinham sido ou esmagados ou pisoteados até virarem um monte de fios e lascas de plástico, como cobras perigosas aniquiladas antes que voltassem a morder.

     —      Qual é o seu nome, querida? — perguntou uma mulher gorducha que cruzou a rua na direção deles. Isso foi cerca de cinco minutos depois de terem deixado a ponte. Tom disse que mais 15 e eles chegariam à saída da Salem Street e, de lá, estariam a apenas quatro quadras da sua casa. Ele falou que o gato ficaria felicíssimo em vê-lo e aquilo trouxe um sorriso abatido ao rosto de Alice. Clay pensou que um sorriso abatido era melhor do que nada.

     Alice olhava com desconfiança reflexiva para a mulher gorducha que havia se separado dos grupos mais silenciosos e das pequenas fileiras de homens e mulheres — pouco mais que sombras, na realidade, alguns com malas, outros carregando sacolas de compras ou mochilas -      que atravessaram a ponte e seguiam na direção norte pela Route One, para longe do grande incêndio ao sul e plenamente conscientes do outro que se formava em Revere, mais adiante ao nordeste.

     A mulher gorducha retribuiu o olhar com um interesse terno. Seu cabelo grisalho estava arrumado em cachinhos de salão de beleza bem feitos. Ela usava óculos de gatinha e o que a mãe de Clay chamaria de "casaquinho". Carregava uma sacola de compras em uma das mãos e um livro na outra. Parecia inofensiva. Certamente não era um daqueles fonáticos — eles não viram um deles que seja desde que saíram do Atlantic Avenue Inn com seus sacos de comida —, mas Clay sentiu que estava na defensiva de qualquer jeito. Serem abordados como se estivessem em uma festinha em vez de fugindo de uma cidade em chamas não parecia normal. Mas, sob aquelas circunstâncias, o que era normal? Ele provavelmente estava ficando doido, mas, se fosse o caso, Tom também estava. Ele lançava para a mulher gorducha e maternal o mesmo olhar de "cai fora".

     —      Alice — disse finalmente Alice, na hora em que Clay tinha decidido que a garota não iria falar nada. Ela soava como uma criança com medo de responder a uma pergunta que podia ser uma pegadinha, em uma aula que era difícil demais para ela. — Meu nome é Alice Maxwell.

     —      Alice — disse a mulher gorducha, e os lábios dela se curvaram em um sorriso maternal tão terno quanto o seu interesse. Não havia motivo para aquele sorriso deixar Clay mais desconfiado do que ele já estava, mas deixou. — É um nome adorável. Significa "abençoado por Deus".

     —      Na verdade, senhora, significa "da realeza", ou "de berço nobre" — disse Tom. — Agora, a senhora nos dá licença? A garota perdeu a mãe hoje e...

     —      Todos nós perdemos alguma coisa hoje, não é Alice? — falou a mulher gorducha sem olhar para Tom. Ela acompanhou o ritmo de Alice, seus cachinhos de salão de beleza pulando a cada passo. Alice a olhava com uma mistura de inquietude e fascinação. Ao redor deles, algumas pessoas andavam, apertavam o passo e, na maioria das vezes, se arrastavam cabisbaixos, pouco mais que fantasmas naquela escuridão pouco familiar, e Clay continuava sem ver gente jovem, exceto por algumas crianças, alguns bebês e Alice. Nenhum adolescente, porque a maioria dos adolescentes tinha celulares, como a Cabelinho Claro no caminhão do Mister Softee. Ou seu próprio filho, que tinha um Nextel vermelho com um toque do Clube dos Monstros e uma mãe professora workaholic que pode estar com ele ou em praticamente qualquer out...

     Pare. Não deixe aquele rato sair. Aquele rato não pode fazer nada além de correr, morder e perseguir o próprio rabo.

     Enquanto isso, a mulher gorducha continuava assentindo. Seus cachinhos seguiam saltitantes.

     —      Sim, todos nós perdemos alguém, porque esta é a hora da grande Tribulação. Está tudo lá, no Apocalipse.

     Ela ergueu o livro que estava carregando, e é claro que era uma Bíblia; Clay achou que estava entendendo melhor o brilho nos olhos por trás dos óculos de gatinha da mulher gorducha. Não era interesse bondoso, era loucura.

     —      Ah, já chega, pode ir tirando o cavalinho da chuva — disse Tom. Clay notou na voz dele uma mistura de revolta (consigo mesmo, muito provavelmente por ter deixado a mulher gorducha se aproximar para começode conversa) e desânimo.

     A gorducha não deu ouvidos, é óbvio; grudara os olhos em Alice, e quem poderia tirá-la dali? A polícia estava ocupada com outros assuntos. Havia apenas os refugiados que se arrastavam em estado de choque, e eles pouco se importavam com uma velha maluca com uma Bíblia e um permanente.

     —      O Véu da Insanidade recaiu sobre a mente dos maus e a Cidade do Pecado foi incendiada pela chama purificadora de Je-o-vá! — gritou a mulher gorducha. Ela usava batom vermelho. Os dentes eram certinhos demais para não serem dentaduras. — Agora vemos os impenitentes fugirem, sim, é fato, como os vermes fogem da barriga aberta de...

     Alice colocou as mãos sobre os ouvidos.

     —      Faça-a parar! — ela gritou, e os vultos fantasmagóricos dos ex-moradores da cidade continuaram passando, apenas alguns lançando um olhar apático e sem curiosidade, para em seguida voltarem a olhar para a escuridão onde, mais adiante, em algum lugar, ficava New Hampshire.

     A mulher gorducha estava começando a suar, Bíblia erguida, olhos acesos, cachinhos de salão de beleza assentindo e balançando.

     —      Baixe as mãos, garota, e ouça a Palavra de Deus antes de deixar esses homens te levarem embora e fornicarem com você diante dos próprios portões do Inferno! "Pois eu vi uma estrela arder no céu e o nome dela era Absinto, e todos aqueles que a seguiam, seguiam Lúcifer, e aqueles que seguiam Lúcifer o seguiam até a fornalha do..."

     Clay bateu nela. Ele retraiu o soco no último segundo, mas ainda foi um belo golpe no queixo, e ele sentiu o impacto subir até o seu ombro. Os óculos da gorducha saltaram do nariz de buldogue e então caíram de volta no lugar. Atrás deles, os olhos perderam o brilho e rolaram para cima nas órbitas. Seus joelhos falharam e ela se curvou, a Bíblia caindo da mão cerrada. Alice, embora ainda parecesse estar chocada e horrorizada, tirou as mãos de cima das orelhas com rapidez o bastante para pegar a Bíblia. E Tom McCourt agarrou a mulher pelas axilas. O soco e as duas pegadas que se seguiram foram tão caprichadas que poderiam ter sido coreografadas.

     Clay de repente estava mais perto de um colapso do que nunca, desde que as coisas começaram a dar errado. Porque aquilo era pior do que a adolescente vampira ou do que o homem de negócios com o cutelo, pior do que encontrar o Sr. Ricardi enforcado em um lustre com um saco sobre a cabeça, ele não sabia, mas era. Ele chutara o homem de negócios com o cutelo, Tom também, mas aquele homem era um outro tipo de maluco. A velha com cachinhos de salão de beleza era só...

     —      Meu Deus — disse Clay. — Ela era só uma doida e eu a nocauteei. — Ele estava começando a tremer.

     —      Ela estava aterrorizando uma jovem que perdeu a mãe hoje — disse Tom, e Clay notou que não era calma o que ouvia na voz do homenzinho, mas uma extraordinária frieza. — Você fez exatamente a coisa certa. Além do mais, é impossível derrubar um boi desses por muito tempo. Ela já está acordando. Ajude-me a carregá-la até o acostamento.

     Eles tinham chegado à parte da Route One — chamada às vezes de estrada dos Milagres e às vezes de beco da Cafonice — em que a via de acesso limitado dava lugar a um amontoado de hipermercados de bebida, lojas de roupas com descontos, pontas de estoque de artigos esportivos e estabelecimentos de comida com nomes como Fuddruckers. Lá, as seis pistas estavam abarrotadas, se não congestionadas, de veículos que tinham engavetado ou simplesmente sido abandonados quando seus motoristas entraram em pânico, tentaram usar os celulares e enlouqueceram. Os refugiados traçaram suas diversas rotas em silêncio por entre os destroços, fazendo Clay imaginar um grupo de formigas evacuando um formigueiro que tivesse sido demolido pela pisada desatenta de algum humano.

     Havia uma placa verde com refletores, que dizia MALDEN SALEM ST. SAÍDA A 400M pertinho de um prédio rosa baixo que fora invadido; a fachada era um rodapé de vidros quebrados pontiagudos, e um alarme contra roubo a bateria continuava soando seus últimos estertores. Um olhar para a placa apagada no telhado bastou para Clay entender o que fez daquele estabelecimento um alvo na esteira do desastre: MERCADÃO DE BEBIDAS MISTER BIG.

     Ele pegara um dos braços da gorducha. Tom pegara o outro e Alice segurava a cabeça da mulher murmurante à medida que eles a colocavam sentada com as costas apoiadas contra um dos suportes da placa. Assim que a baixaram, a mulher abriu os olhos e olhou para eles desnorteada.

     Tom estalou os dedos na frente do rosto dela, duas vezes, rapidamente. Ela piscou e olhou para Clay.

     —      Você... me bateu — ela disse. Seus dedos subiram para tocar a parte do queixo que inchava depressa.

     —      Sim, eu sint... — começou a falar Clay.

     —      Ele pode sentir muito, mas eu não — disse Tom. Ele falou naquele mesmo tom enérgico e frio. — Você estava aterrorizando nossa pupila.

     A mulher gorducha riu baixinho, mas havia lágrimas nos seus olhos.

     —      Pupila! Eu já ouvi muitas palavras para isso, mas é a primeira vez que ouço esta. Como se eu não soubesse o que homens como vocês querem com uma garota meiga como ela, especialmente numa hora dessas. "Eles não se arrependeram pelas fornicações, ou pelas sodomias, ou pelas..."

     —      Cale a boca — disse Tom —, ou eu mesmo vou te dar uma porrada. E, diferentemente do meu amigo, que parece ter tido a sorte de não crescer entre carolas e, portanto, não reconhece você pelo que é, não vou retrair meu soco. Está avisada... mais uma palavra. — Ele ergueu o punho diante dos olhos da mulher e, embora Clay já tivesse concluído que Tom era um homem educado, civilizado e provavelmente não muito bom de soco em circunstâncias normais, não pôde deixar de se sentir abatido diante daquele punho pequeno, cerrado, como se estivesse vendo um presságio dos tempos vindouros.

     A mulher olhou e ficou calada. Uma lágrima gorda desceu pela sua bochecha avermelhada de ruge.

     —      Já chega, Tom, eu estou bem — disse Alice.

     Tom depositou a bolsa de compras da mulher gorducha no seu colo. Clay nem tinha percebido que Tom a resgatara. Então ele pegou a Bíblia de Alice, agarrou uma das mãos cheias de anéis da mulher e enfiou o livro nela, cora a lombada para dentro. Começou a se afastar e então voltou.

     —      Tom, já chega, vamos embora —- disse Clay.

     Tom o ignorou. Inclinou-se na direção da mulher recostada no suporte da placa. As mãos dele estavam nos joelhos e, para Clay, os dois — a gorducha de óculos que olhava para cima e o homenzinho de óculos que se apoiava nos joelhos — pareciam gravuras de alguma paródia enlouquecida das ilustrações antigas dos romances de Charles Dickens.

     —      Vou te dar um conselho, irmã — disse Tom. — A polícia não vai mais protegê-la como nas passeatas que você e seus amigos hipócritas e papa-hóstias fizeram nos centros de planejamento familiar ou na Clínica Emily Cathcart em Waltham...

     —      Aquela fábrica de abortos! — ela exclamou e ergueu a Bíblia, como se bloqueasse um golpe.

     Tom não bateu nela, mas estava sorrindo com ferocidade.

     —      Não sei quanto ao Véu da Insanidade, mas com certeza tem beatos malucos por aí esta noite. Fui claro? Os leões estão soltos e pode acreditar que eles vão comer os cristãos desbocados primeiro. Alguém anulou seu direito à liberdade de expressão por volta das três da tarde de hoje. Só estou dando um conselho. — Ele olhou para Alice e Clay, e Clay viu que seu lábio superior sobre o bigode tremia um pouco. — Vamos?

     —      Sim — disse Clay.

     —      Uau — disse Alice, quando eles já haviam voltado a andar em direção à rampa para Salem Street, deixando o Mercadão de Bebidas Mister Big para trás. — Você se criou com alguém assim?

     —      Minha mãe e as duas irmãs dela — disse Tom. — Primeira Igreja de Cristo Redentor da Nova Inglaterra. Elas viam Jesus como um salvador particular, enquanto a igreja as considerava seus trouxas particulares.

     —      Onde está sua mãe agora? — perguntou Clay.

     Tom olhou brevemente para ele.

     —      No céu. A não ser que aqueles desgraçados a tenham enganado sobre isso também. Tenho quase certeza que sim.

     Perto do semáforo no pé da rampa, dois homens brigavam por um barril de chope. Se tivesse que adivinhar, Clay diria que ele provavelmente fora roubado do Mercadão de Bebidas Mister Big. Agora estava no acostamento, esquecido, amassado e vazando espuma, enquanto os dois homens — ambos fortes e ambos sangrando — se esmurravam.

     Alice apertou o corpo contra Clay e ele passou o braço ao redor dela, mas havia algo quase tranqüilizador naqueles brigões. Eles estavam com raiva — furiosos —, mas não loucos. Não como aquelas pessoas na cidade.

     Um deles era careca e usava um casaco dos Celtics. Ele acertou um gancho de cima para baixo no outro que esmagou os lábios do oponente e o nocauteou. Quando o homem de casaco dos Celtics avançou sobre o homem caído, ele se arrastou para longe e então se levantou, ainda se afastando. Cuspiu sangue.

     —      Pode ficar, seu merda! — ele gritou com um sotaque gutural e choroso de Boston. — Tomara que morra engasgado.

     O careca de casaco dos Celtics fez menção de atacá-lo e o outro subiu correndo a rampa na direção da Route One. O Casaco dos Celtics começou a se abaixar para apanhar seu prêmio, notou a presença de Clay, Alice e Tom, e se empertigou de novo. Eram três contra um, ele estava com um olho roxo e sangue descia pelo seu rosto de uma orelha estraçalhada, mas Clay não viu medo na expressão dele, embora só tivesse a luz cada vez mais fraca do incêndio de Revere para poder enxergar. Ele pensou que seu avô teria dito que a sorte daquele cara tinha acabado, o que combinava bem com o trevo nas costas do casaco.

     —      Tá olhando o quê, caralho? — ele perguntou.

     —      Nada... só estou de passagem, se não tiver problema — disse Tom com brandura. — Moro na Salem Street.

     —      Para mim, você pode ir pra Salem Street ou para o inferno — disse o careca com o casaco dos Celtics. — Ainda é um país livre, não é?

     —      Hoje à noite? — falou Clay. — Livre até demais.

     O careca refletiu e então gargalhou, um rá-rá duplo sem humor.

     —      O que aconteceu, porra? Cês tão sabendo?

     Alice disse:

     —      Foram os celulares. Eles deixaram as pessoas malucas.

     O careca pegou o barril. Ele o manujeou com facilidade, inclinando-o para cessar o vazamento.

     —      Essas merdas — falou. — Nunca quis ter um. Programa de minutos acumulados. Que porra é essa?

     Clay não sabia. Talvez Tom, sim — ele tinha celular, então era capaz de saber —, mas não falou nada. Provavelmente não queria entrar em uma discussão longa com o careca, o que provavelmente era uma boa idéia. Clay pensou que aquele homem tinha algumas das características de uma granada não detonada.

     —      A cidade tá queimando — disse o careca. — Não tá?

     —      Está sim — respondeu Clay. — Acho que os Celtics não vão jogar no Fleet este ano.

     —      Eles estão uma merda mesmo — falou o homem. — Doe Rivers não serve pra treinar nem a Liga Atlética da Polícia. — O homem ficou olhando para eles, barril no ombro, sangue descendo por um lado do rosto. No entanto, parecia bastante pacífico, quase sereno. — Vão — ele disse. — Mas não fiquem tão perto da cidade por muito tempo. A coisa vai piorar antes de melhorar. Vai haver muito mais incêndios, pra começo de conversa. Vocês acham que todo mundo que fugiu para o norte lembrou de desligar o gás da cozinha? Eu duvido.

     Os três começaram a andar, e então Alice parou. Ela apontou para o barril.

     —      Isso era seu?

     O careca lançou um olhar sensato para ela.

     —      Não tem mais era numa hora dessas, docinho. Não tem mais essa de era. Só tem o agora e o amanhã-quem-sabe. Agora ele é meu e, se tiver mais algum sobrando, vai ser meu também amanhã-quem-sabe. Agora, vão. Caiam fora.

     —      Até loguinho — disse Clay, e ergueu a mão.

     —      Não queria estar na pelinha de vocês — respondeu o careca, sem sorrir, mas levantou a própria mão em resposta. Eles tinham passado do semáforo e estavam atravessando para a outra calçada do que Clay supunha ser a Salem Street quando o careca os chamou de novo: —       Ei, bonitão.

     Tanto Clay quanto Tom viraram para olhar, e então trocaram olhares, achando graça. O careca com o barril já tinha virado apenas um vulto na ladeira; podia ser um homem das cavernas carregando um tacape.

     —      Onde foram parar os doidos? — perguntou o careca. — Não venha me dizer que estão todos mortos. Porque eu não vou acreditar.

     —      Essa é uma boa pergunta — disse Clay.

     —      Pode crer que sim. Tomem conta dessa belezinha aí. — E, sem esperar resposta, o homem que vencera a batalha do barril de cerveja deu meia volta e se misturou às sombras.

     — Cá estamos — disse Tom, menos de dez minutos depois, e a luz surgiu de trás das nuvens e fumaça esparsas que a haviam escondido por cerca de uma hora, como se o homenzinho de óculos e bigode tivesse dado uma deixa para o Diretor de Iluminação Celestial. Seus raios, agora prateados, em vez daquele terrível laranja infecto, iluminavam a casa que era ou azul-escura, ou verde, ou até mesmo cinza; sem a ajuda das luzes da rua, era difícil ter certeza. O que Clay conseguia ver era que a casa era bem conservada e bonita, embora não tão grande quanto a primeira impressão dava a entender. O luar ajudava a criar a ilusão, mas ela era causada principalmente pela maneira como os degraus subiam do gramado bem cuidado de Tom McCourt até a única varanda coberta da rua. Havia uma chaminé de pedra à esquerda. De cima da varanda, uma água-furtada dava para a rua.

     — Oh, Tom, ela é linda — disse Alice com uma voz extasiada demais. Para Clay, ela parecia exausta e à beira da histeria. Ele próprio não a achava linda, mas certamente parecia a casa de um homem que tinha um celular e todos os outros apetrechos do século XXI. Assim como todas as demais casas naquela parte da Salem Street. E Clay duvidava que muitos moradores tivessem tido a fantástica sorte de Tom. Ele olhou apreensivo à sua volta. Todas as casas estavam escuras, não havia energia, e talvez estivessem desertas, embora ele tivesse a sensação de que olhos os observavam.

     Os olhos dos lunáticos? Dos fonáticos? Ele pensou na Mulher do Terninho de Poderosa e na Cabelinho Claro; no louco de calças cinza e gravata em frangalhos; no homem de terno que arrancara com os dentes a orelha do cachorro. Pensou no homem nu brandindo as antenas de carro para frente e para trás enquanto corria. Não, tocaiar não fazia parte do repertório dos fonáticos. Eles simplesmente vinham para cima de você. Mas, se houvesse pessoas normais escondidas naquelas casas — algumas delas, pelo menos —, onde estavam os fonáticos? Clay não sabia.

     —      Não sei se eu a chamaria de linda — disse Tom —, mas ainda está de pé, e isso já está de bom tamanho para mim. Eu já tinha metido na cabeça que a gente ia chegar aqui e encontrar um buraco fumegante no chão. — Ele enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno molho de chaves. — Entrem. Mesmo sendo um lar humilde, e por aí vai.

     Eles foram andando pela passagem e tinham subido apenas uma meia dúzia de degraus quando Alice gritou:

     —      Esperem!

     Clay deu meia volta, sentindo-se ao mesmo tempo assustado e exausto. Ele achou que estava começando a entender um pouco a fadiga de combate. Até sua adrenalina parecia combalida. Mas não havia ninguém lá — nenhum fonático, nenhum careca com sangue escorrendo pelo rosto de uma orelha rasgada, nem mesmo uma velhinha tagarelando sobre o Apocalipse. Só Alice, apoiando-se em um joelho no local onde a entrada da casa de Tom saía da calçada.

     —      O que foi, querida? — perguntou Tom.

     Alice se levantou e Clay viu que ela segurava um tênis muito pequeno.

     —      É um Nike de bebê — ela disse. — Você tem...

     Tom balançou a cabeça.

     —      Eu moro sozinho. Fora Rafe, quero dizer. Ele acha que é o rei do pedaço, mas é só o gato.

     —      Então quem o perdeu? — Ela olhou de Tom para Clay com um olhar pensativo e cansado.

     Clay balançou a cabeça.

     —      Impossível saber, Alice. É melhor jogar fora.

     Mas Clay sabia que ela não o faria, era um déjà-vu na sua forma mais desconcertante. Ela ainda o trazia nas mãos, enroscado contra a cintura, quando foi para trás de Tom, que estava nos degraus, passando os dedos devagar pelas chaves na luz escassa.

     Agora vamos ouvir o gato, pensou Clay. Rafe. E, sem dúvida, lá estava o gato que tinha sido a salvação de Tom McCourt, miando boas-vindas do lado de dentro.

     Tom se agachou e Rafe ou Rafer — ambos diminutivos de Rafael — pulou nos braços dele, ronronando alto e esticando a cabeça para cheirar o bigode bem aparado do dono.

     —      É, eu também senti sua falta — disse Tom. — Tudo está perdoado, acredite.

     Ele carregou Rafer pela varanda coberta, acariciando o topo da cabeça do gato. Alice o seguiu. Clay entrou por último, fechando e trancando a porta antes de ir atrás dos outros dois.

     —      Sigam-me até a cozinha — falou Tom quando eles já estavam dentro da casa propriamente dita. Havia um cheiro agradável de lustra móveis e, Clay pensou, couro, um cheiro que ele associava a homens que viviam vidas tranqüilas que não necessariamente envolviam mulheres. — Segunda porta à direita. Fiquem juntos. O corredor é largo e não tem nada no chão, mas há mesas dos dois lados e está um breu. Como vocês podem ver.

     —      Por assim dizer — disse Clay.

     —      Rá-rá.

     —      Você tem lanternas? — perguntou Clay.

     —      Lanternas e um lampião que deve servir melhor ainda, mas vamos chegar à cozinha antes.

     Eles o seguiram pelo corredor, Alice andando entre os dois homens. Clay podia ouvi-la respirar rápido, tentando não ficar apavorada com o ambiente desconhecido, mas era obviamente difícil. Diabos, era difícil para ele. Desorientador. Seria melhor se eles tivessem pelo menos um pouquinho de luz, mas...

     Ele topou com o joelho em uma das mesas que Tom mencionara e algo que parecia muito propenso a quebrar fez um barulho de dentes tiritando. Clay se preparou para ouvir a coisa se despedaçar e para o grito de Alice. Era quase garantido que ela iria gritar. Então, o que quer que fosse, um vaso ou alguma quinquilharia, decidiu viver um pouco mais e ficou no lugar. Ainda assim, pareceu que eles andaram bastante até Tom falar: 

     —      Aqui, ok? Virem à direita.

     A cozinha estava quase tão escura quanto o corredor, e Clay teve apenas um instante para pensar em todas as coisas de que estava sentindo falta e de que Tom devia estar sentindo mais falta ainda: o painel digital do microondas, o zumbido da geladeira, talvez uma luz da casa vizinha entrando pela janela sobre a pia e fazendo reflexos na torneira.

     —      Aqui está a mesa — disse Tom. — Alice, vou pegar na sua mão. Aqui está uma cadeira, ok? Desculpe se parece que estou brincando de cabra-cega.

     —      Tudo b... — ela começou a falar, então soltou um gritinho que fez Clay pular. Sua mão foi parar no cabo do seu cutelo (agora Clay pensava no cutelo como dele), antes mesmo de ele perceber que o havia alcançado.

     —      O quê? — perguntou Tom bruscamente. — O quê?

     —      Nada — ela respondeu. — Foi só... nada. O gato. O rabo dele... na minha perna.

     —      Oh. Desculpe.

     —      Tudo bem. Que idiota — ela acrescentou com um ódio de si mesma que fez Clay se encolher no escuro.

     —      Não — ele disse. — Não seja tão dura consigo mesma, Alice. Foi um dia difícil no escritório.

     —      Um dia difícil no escritório! — repetiu Alice, e riu de uma maneira que Clay não gostou, pois o fez lembrar da voz dela quando chamou a casa de Tom de linda. Ele pensou: Ela vai ter que deixar disso, mas o que eu posso fazer? Nos filmes, a garota histérica leva uma bofetada e isso sempre coloca a cabeça dela no lugar, mas nos filmes a gente consegue enxergá-la.

     Ele não teve que estapeá-la, sacudi-la ou abraçá-la, o que seria, provavelmente, a sua primeira opção. Ela talvez tenha escutado aquela inflexão na própria voz, controlou-a e a subjugou: transformando-a primeiro em um gargarejo sufocado, depois em um arquejo e, por fim, em silêncio.

     —      Sente-se — disse Tom. — Você deve estar cansada. Você também, Clay. Vou trazer uma luz para cá.

     Clay saiu em busca de uma cadeira e sentou-se em uma mesa que mal conseguia enxergar, embora seus olhos já estivessem totalmente habituados ao escuro àquela altura. Sentiu algo roçar a perna da sua calça por um instante. Um miado baixinho. Rafe.

     —      Ei, adivinha só? — ele falou para o vulto da garota à medida que os passos de Tom se afastavam. — O velho Rafe acabou de me dar um susto também. — Embora não tivesse sido o caso, não exatamente.

     —      Temos que perdoá-lo — ela disse. — Sem o gato, Tom estaria tão maluco quanto aqueles outros. E isso seria uma pena.

     —      Seria mesmo.

     —      Estou com tanto medo — ela disse. — Você acha que vai melhorar amanhã, à luz do dia, essa coisa de sentir medo?

     —      Não sei.

     —      Você deve estar morrendo de preocupação com a sua mulher e o garotinho.

     Clay suspirou e esfregou o rosto.

     —      A pior parte é suportar a sensação de impotência. Nós estamos separados, sabe, e... — Ele parou de falar e balançou a cabeça. Não teria prosseguido se ela não tivesse pegado a sua mão. Os dedos dela estavam firmes e gelados. — Nós nos separamos na primavera. Ainda moramos na mesma cidadezinha, o que minha mãe chamaria de casamento de portão. Minha mulher é professora primária.

     Ele se inclinou para frente, tentando ver o rosto dela na escuridão.

     —      Sabe o que é pior? Se isso tivesse acontecido um ano atrás, Johnny estaria com ela. Mas nesse setembro ele passou para o ensino médio, e a escola fica a 8 quilômetros de distância. Fico tentando calcular se ele já estava em casa quando tudo foi pelos ares. Ele e os amigos vêm de ônibus. Acho que ele já devia estar em casa. E acho que teria ido direto atrás da mãe.

     Ou tirado o celular da mochila e ligado para ela!, sugeriu alegremente o rato surtado... e então mordeu. Clay sentiu seus dedos apertarem a mão de Alice e se forçou a parar. Mas não conseguia impedir o suor de brotar no rosto e nos braços.

     —      Mas você não tem certeza — ela disse.

     —      Não.

     —      Meu pai tem uma loja de reproduções e molduras em Newton — ela disse. — Tenho certeza de que ele está bem. Papai sabe se virar bem sozinho, mas deve estar preocupado comigo. Comigo e com a minha. A minha você-sabe-quem.

     Clay sabia.

     —      Não paro de pensar em como ele fez para jantar — ela disse. — Sei que é loucura, mas ele não sabe fritar um ovo.

     Clay pensou em perguntar se o pai dela tinha celular, mas algo o avisou para não fazê-lo. Em vez disso, perguntou:

     —      Você está bem agora?

     —      Sim — ela falou e deu de ombros. — O que aconteceu com ele aconteceu. Não posso fazer nada.

     Ele pensou: Preferia que você não tivesse dito isso.

     —      Já contei que o meu filho tem um celular? — A voz dele soou tão rouca quanto o grasnido de um corvo aos seus próprios ouvidos.

     —      Sim, contou. Antes de cruzarmos a ponte.

     —      É verdade. — Ele estava mordendo o lábio inferior e se forçou a parar. — Mas ele não estava sempre carregado. Eu devo ter falado isso também.

     —      Falou.

     —      Não tenho como saber. — O rato surtado tinha saído da gaiola. Correndo e mordendo.

     As duas mãos dela se fecharam sobre as de Clay. Ele não queria sucumbir ao consolo da garota — era difícil abdicar do autocontrole e sucumbir —, mas o fez, achando que talvez ela precisasse mais dar do que ele receber. Eles estavam daquele jeito, as mãos unidas perto do saleiro e do pimenteiro de metal na mesa da pequena cozinha de Tom McCourt, quando Tom voltou do porão com quatro lanternas e um lampião ainda na caixa.

     A luz do lampião era forte o bastante para tornar as lanternas desnecessárias. O brilho era intenso e branco, mas Clay gostava dele, da ma-neira como ele acabava com todas as sombras, exceto as deles próprios e a do gato — que saltou de um jeito fantástico parede acima como uma decoração de Dia das Bruxas feita de papel crepom preto.

     — Acho que você devia fechar as cortinas — disse Alice.

     Tom estava abrindo um dos sacos plásticos do Metropolitan Café. Ele parou e olhou para ela com curiosidade.

     —      Por quê?

     Ela deu de ombros e sorriu. Clay achou que aquele era o sorriso mais estranho que já vira no rosto de uma adolescente. Ela limpara o sangue do nariz e do queixo, mas havia olheiras de cansaço debaixo dos seus olhos e o lampião descoloriu-lhe o restante do rosto, deixando-o pálido como o de um cadáver, e a artificialidade adulta daquele sorriso, que mostrava um pedacinho dos dentes entre lábios trêmulos que já não tinham mais batom algum, era desconcertante. Ele pensou que Alice parecia uma atriz de cinema do fim da década de 1940 fa-zendo o papel de uma socialite à beira de um colapso nervoso. O tênis em miniatura estava diante dela na mesa. Ela o girava com um dedo. A cada volta, os cadarços rodavam com um estalo. Clay começou a dese-jar que ela desmoronasse logo. Quanto mais segurasse as pontas, pior seria quando finalmente se entregasse. Ela havia deixado um pouco daquilo vir à tona, mas ainda estava longe de ser o suficiente. Até o momento, quem tinha deixado vir mais à tona era Clay.

     —      Não acho que as pessoas deviam ver que estamos aqui, só isso — ela disse. Girou o tênis. O que ela chamava de Nike de bebê. Ele deu uma volta. Os cadarços rodaram com um estalo na mesa bem lustrada de Tom. — Talvez seja... ruim.

     Tom olhou para Clay.

     —      Ela pode ter razão — disse Clay. — Não gosto da idéia de sermos a única casa iluminada no quarteirão, mesmo sendo a luz dos fundos.

     Tom se levantou e fechou as cortinas sobre a pia sem falar mais uma palavra. Havia outras duas janelas na cozinha e ele fechou as cortinas delas também. Começou a voltar para a mesa, mas então mudou de rumo e fechou a porta entre a cozinha e o corredor. Alice girou o Nike de bebê à sua frente. Sob o brilho intenso e profuso do lampião, Clay pôde ver que ele era rosa e púrpura, cores que só mesmo uma criança gostaria. E ele rodou. Os cadarços saltaram com um estalo. Tom olhou para ele com a cara fechada ao sentar, e Clay pensou: Diga para ela tirar o tênis da mesa. Diga que ela não sabe por onde ele andou e que você não o quer em cima da mesa. Isso deve bastar para ela explodir e então poderemos começar a tirar essa parte do caminho. Diga a ela. Acho que é isso que ela quer. Acho que é por isso que está girando o tênis.

     Porém, Tom apenas tirou os sanduíches da sacola — rosbife e queijo, presunto e queijo — e os distribuiu. Ele pegou um jarro de chá gelado do refrigerador ("Ainda está bem gelado", ele disse) e então colocou os restos de uma caixa de hambúrgueres crus no chão para o gato.

     —      Ele merece — ele falou, quase na defensiva. — Além do mais, ia acabar estragando com a falta de energia.

     Havia um telefone pendurado na parede. Clay o testou, mas era apenas uma formalidade, e daquela vez não conseguiu nem um tom de discagem. A coisa estava morta feito... bem, a Mulher do Terninho de Poderosa, lá no Boston Common. Ele voltou a sentar e se ocupou do seu sanduíche. Estava com fome, mas sem vontade de comer.

     Alice largou o dela depois de apenas três mordidas.

     —      Não consigo — ela disse. — Agora não. Acho que estou cansada demais. Quero dormir. E quero tirar esse vestido. Acho que não dá pra lavar, não muito bem, mas daria qualquer coisa para poder jogar essa porra de vestido fora. Está fedendo a suor e sangue. — Ela girou o tênis. Ele rodou do lado do papel amassado embaixo do sanduíche quase intocado. — Sinto o cheiro da minha mãe nele também. Do perfume dela.

     Por um instante, ninguém falou nada. Clay se sentia desconfortável. Ele visualizou momentaneamente Alice sem o vestido, vestindo sutiã e calcinhas brancas, com aqueles olhos arregalados e fundos fazendo-a parecer uma boneca de papel. Sua imaginação de artista, sempre obediente e prestativa, acrescentou alças nos ombros e na parte de baixo das pernas da figura. Era perturbador não por ser sexy, mas por não ser. Ao longe — muito baixinho — algo explodiu com um foomp surdo.

     Tom quebrou o silêncio, e Clay lhe agradeceu por isso.

     —      Aposto que um jeans meu serviria em você, se enrolar as pontas. — Ele se levantou. — Sabe, acho que você vai até ficar bonitinha com ele, como Huck Finn em uma montagem de Big River em uma escola para meninas. Vamos subir. Vou separar umas roupas para você usar de manhã e pode passar a noite no quarto de hóspedes. Tenho um monte de pijamas, minha casa é infestada de pijamas. Quer ficar com o lampião?

     —      Só... acho que posso ficar só com uma lanterna. Tem certeza?

     —      Claro — disse ele. Tom pegou uma lanterna e entregou outra para ela. Deu a impressão de estar prestes a falar alguma coisa sobre o tênis em miniatura quando a garota o pegou, mas pareceu reconsiderar. O que disse foi: — Pode se lavar, também. Talvez não tenha muita água, mas deve sair um pouco da torneira mesmo sem energia, e tenho certeza de que podemos gastar uma bacia. — Ele olhou por sobre a cabeça dela para Clay. — Sempre deixo um engradado de garrafas d'água no porão, então não vai faltar, para beber.

     Clay assentiu.

     —      Durma bem, Alice — falou.

     —      Você também — ela respondeu vagamente. E depois, mais vagamente ainda: — Foi um prazer.

     Tom abriu a porta para ela. As luzes das lanternas oscilaram e então a porta voltou a fechar. Clay escutou passos na escada e depois no andar de cima. Ouviu água corrente. Esperou o barulho do ar nos canos, mas o fluxo de água parou antes que o ar começasse. Clay também queria lavar sangue e sujeira do corpo — assim como Tom, ele imaginava —, mas achou que deveria ter outro banheiro no primeiro piso. E se Tom fosse tão caprichoso em relação à higiene quanto o era consigo mesmo, a água da privada estaria limpa. E havia também a água do tanque, é claro.

     Rafer pulou na cadeira de Tom e começou a lamber as patas sob a luz branca do lampião. Mesmo com o zumbido baixo e constante do lampião, Clay conseguia ouvi-lo ronronar. Na opinião de Rafe, a vida ainda era tranqüila.

     Ele pensou em Alice girando o tênis em miniatura e imaginou, quase distraidamente, se era possível para uma garota de 15 anos ter um colapso nervoso.

      —      Não seja idiota — ele falou para o gato. — É claro que sim. Acontece o tempo todo. Eles fazem filmes sobre isso.

     Rafer olhou para ele com olhos verdes e sábios e continuou lambendo a pata. Conte-me mais, aqueles olhos pareciam dizer. Você apanhava quando era criança? Tinha pensamentos sssexuais sobre a mãe?

     Sinto o cheiro da minha mãe nele. Do perfume dela.

     Alice é uma boneca de papel, com alças saindo dos ombros e das pernas.

     Não ssseja bobo, os olhos de Rafer pareciam dizer. As alças das etiquetasss ficam nas roupas, não na boneca. Que tipo de artista você é?

     — O tipo desempregado — ele disse. — Por que você não cala a boca?

     Ele fechou os olhos, mas foi pior. Os olhos de Rafer flutuavam descarnados no escuro, como os do Gato Risonho de Lewis Carroll: Somos todos loucos aqui, querida Alice. E sob o zumbido constante do lampião, ele ainda conseguia ouvir o ronronar.

     Tom demorou 15 minutos. Quando voltou, empurrou Rafe para fora da cadeira sem cerimônia e deu uma mordida grande e convincente no seu sanduíche.

     —      Ela está dormindo — ele disse. — Se enfiou em um dos meus pijamas enquanto eu esperava no corredor e então jogamos o vestido no lixo juntos. Acho que ela apagou quarenta segundos depois de bater no travesseiro. Estou convencido de que jogar o vestido fora foi o que resolveu o problema. — Uma pequena pausa. — Estava fedendo mesmo.

     —      Enquanto você estava lá em cima — disse Clay —, nomeei Rafe presidente dos Estados Unidos. Ele foi eleito por unanimidade.

     —      Ótimo — falou Tom. — Boa escolha. Quem votou?

     —      Milhões. Todo mundo que ainda está são. Eles mandaram os votos por telepatia. — Clay arregalou bem os olhos e cutucou as têmporas. — Eu leio meeentesss.

     Tom parou de mastigar, então voltou... porém lentamente.

     —      Sabe — ele disse —, dadas as circunstâncias, isso não é tão engraçado assim.

     Clay suspirou, bebericou um pouco de chá gelado e se forçou a comer um pouco mais do sanduíche. Ele disse a si mesmo para pensar na comida como gasolina para o corpo, se era o que precisava para empurrá-la goela abaixo.

     —      Não. Acho que não. Desculpe.

       Tom fez um gesto com o copo dele na direção de Clay antes de beber.

     —      Tudo bem. Agradeço o esforço. Ei, onde está o seu portfolio?

     —      Deixei na varanda. Queria estar com as duas mãos livres enquanto passávamos pelo Corredor da Morte de Tom McCourt.

     —      Então está tudo bem. Ouça, Clay, lamento mesmo pela sua família...

     —      Não lamente ainda — disse Clay, com um pouco de rispidez. — Não há nada para lamentar ainda.

     —      ... mas fico muito feliz por ter encontrado você. Era só o que eu queria dizer.

     —      Igualmente — falou Clay. — Agradeço pelo lugar tranqüilo para passar a noite e tenho certeza de que Alice também.

     —      Contanto que Malden não fique turbulenta e queime à nossa volta.

     Clay assentiu, sorrindo um pouco.

     —      Contanto que isso não aconteça. Você tirou aquele sapatinho sinistro dela?

     —      Não. Ela foi para cama com ele como... sei lá, um ursinho de pelúcia. Ela vai estar melhor amanhã se dormir a noite inteira.

     —      Você acha mesmo?

     —      Não — disse Tom. — Mas se acordar assustada no meio da noite, vou dormir com ela. Entrar na cama junto, se for preciso. Você sabe que eu não faria nada com ela, não é?

     —      Claro. — Clay sabia que ele também não, mas entendeu sobre o que Tom estava falando. — Vou para o norte amanhã assim que o dia raiar. Talvez seja uma boa idéia vocês dois virem comigo.

     Tom pensou sobre a proposta por um instante, então perguntou:

     —      E o pai dela?

     —      Ela falou que o pai, abre aspas, "sabe se virar bem sozinho". A maior preocupação dela era sobre como ele fez para jantar. O que entendi disso é que Alice não está pronta para saber. É claro que teremos que esperar para ver a reação dela, mas prefiro mantê-la com a gente e não quero ir para aquelas cidades industriais do oeste.

     —      Você não quer ir para o oeste de jeito nenhum?

     —      Não — admitiu Clay.

       Clay pensou que Tom talvez fosse discutir sobre aquilo, mas não discutiu.

     —      E hoje à noite? Você acha que devemos ficar vigiando?

     Clay não tinha pensado sobre o assunto até aquele momento. Ele disse:

     —      Não sei se vai adiantar muito. Se uma turba enlouquecida descer a Salem Street brandindo armas e tochas, o que nós poderemos fazer a respeito?

     —      Descer para o subsolo?

     Clay pensou naquela opção. Descer para o subsolo lhe parecia terrivelmente extremo — o refúgio final do bunker como defesa —, mas havia a possibilidade de a hipotética turba enlouquecida em questão achar que a casa estivesse deserta e passar direto. Ele imaginou que seria melhor descer do que ser massacrado na cozinha. Talvez depois de ver Alice ser estuprada por um grupo de homens.

     Não vai chegar a esse ponto, ele pensou, apreensivo. Você está se deixando levar pelas hipóteses, só isso. Ficando apavorado no escuro. Não vai chegar a esse ponto.

     Só que Boston estava em chamas atrás deles. Lojas de bebidas estavam sendo saqueadas e homens se esmurravam até sangrar por barris de alumínio de cerveja. Já tinha chegado àquele ponto.

     Enquanto isso, Tom o observava, deixando-o digerir a idéia... o que significava que Tom talvez já tivesse feito isso. Rafe pulou no colo dele. Tom largou o sanduíche e acariciou as costas do gato.

     —      Por que a gente não faz o seguinte? — falou Clay. — Se você tiver umas mantas para eu me enrolar, posso passar a noite lá fora, na varanda. Ela é coberta e mais escura do que a rua. O que significa que é mais provável que eu veja qualquer pessoa vindo bem antes de ela notar que eu estou observando. Principalmente se for um daqueles fonáticos. Eles não me pareceram ser muito bons de tocaia.

     —      Não, eles não são do tipo que atacam de surpresa. Mas e se alguém vier pelos fundos? A Lynn Avenue fica a uma quadra daqui.

     Clay deu de ombros, tentando indicar que eles não tinham como se defender de tudo — ou mesmo de muita coisa — sem precisar dizer em voz alta.

      

     —      Tudo bem — disse Tom, depois de comer um pouco mais do seu sanduíche e dar um pedaço de presunto para Rafe. — Mas você poderia me chamar lá pelas três. Se a Alice não tiver acordado até essa hora, é bem provável que durma a noite inteira.

     —      Vamos esperar para ver o que acontece — disse Clay. — Veja bem, acho que sei a resposta para essa pergunta, mas você não teria uma arma?

     —      Não — falou Tom. — Nem uma solitária lata de spray de pimenta. — Ele olhou para o sanduíche e o largou. Quando ergueu os olhos para Clay, eles estavam extraordinariamente tristes. Falou baixinho, como as pessoas falam quando conversam assuntos secretos. — Você se lembra do que o policial falou logo antes de atirar naquele maluco?

     Clay assentiu. E aí, meu caro, como vai? Quero dizer, tudo em cima? Ele jamais se esqueceria daquilo.

     —      Sei que não foi igual nos filmes — disse Tom —, mas nunca imaginei que tivesse um poder tão enorme, ou que fosse tão brusco... e o barulho quando os miolos... os miolos...

      Ele se inclinou para frente de súbito, uma das mãos pequenas enroscada sobre a boca. O movimento assustou Rafe, que pulou para o chão. Tom emitiu três sons de náusea baixos e guturais, e Clay se preparou para o vômito que quase certamente viria em seguida. Ele não queria começar a vomitar também, mas achava que não ia ter jeito. Sabia que estava perto de fazê-lo, muito perto. Pois ele sabia do que Tom estava falando. O tiro e, depois, o borrifo líquido e pegajoso no asfalto.

     Ninguém vomitou. Tom se controlou e ergueu a cabeça com os olhos úmidos.

     —      Desculpe — ele falou. — Não devia ter falado sobre isso.

     —      Não precisa se desculpar.

     —      Acho que, se quisermos passar pelo que quer que seja que nos espere, é melhor acharmos um jeito esconder nossas sensibilidades mais nobres. Acho que as pessoas que não conseguirem fazer isso... — Ele se interrompeu e então voltou a falar. — Acho que as pessoas que não conseguirem fazer isso... — Parou uma segunda vez. Na terceira, conseguiu terminar. — Acho que as pessoas que não conseguirem fazer isso podem morrer.

     Eles se encararam sob a luz do lampião.

     — Depois que deixamos a cidade, não vi ninguém armado — disse Clay. — No começo, não estava prestando atenção, mas depois passei a prestar.

     —      Você sabe por quê, não sabe? Com exceção talvez da Califórnia, Massachusetts tem a lei mais rigorosa para armas do país.

     Clay se lembrava de ter visto outdoors anunciando aquilo na divisa do estado alguns anos atrás. Então eles foram substituídos por outros que diziam que, se você fosse pego dirigindo alcoolizado, passaria a noite na prisão.

     Tom disse:

     —      Se os policiais encontrarem uma arma escondida no seu carro, tipo no porta-luvas com os seus documentos, você pode pegar sete anos de prisão, eu acho. Se for parado com um rifle na sua picape, mesmo na temporada de caça, pode ganhar uma multa de 10 mil dólares e dois anos de serviço comunitário. — Ele pegou o resto do sanduíche, deu uma olhada nele e o largou de novo. — Você pode ter uma arma em casa se não for um criminoso, mas uma licença de porte? Pode até conseguir a assinatura do padre O'Malley4 do Boys' Club, mas talvez nem assim.

     —      A falta de armas pode ter salvado algumas vidas, quando as pessoas estavam saindo da cidade.

     —      Concordo plenamente com você — disse Tom. — Aqueles dois caras brigando pelo barril de cerveja. Graças a Deus que nenhum dos dois tinha um calibre 38.

     Clay assentiu.

     Tom recostou na cadeira, cruzou os braços sobre o peito estreito e olhou ao redor. Seus óculos cintilaram. O círculo de luz que o lampião emitia era brilhante, mas pequeno.

     —      Só que agora eu bem que gostaria de ter uma arma. Depois de ver o estrago que elas fazem. E eu me considero um pacifista.

     —      Há quanto tempo você mora aqui, Tom?

     —      Quase 12 anos. Tempo suficiente para ver Malden descer boa parte da ladeira até a Merdolândia. Ainda não chegou lá, mas está perto.

     —      Certo, então pense bem. Quais dos seus vizinhos podem ter armas em casa?

     Tom respondeu de imediato.

     —      Arnie Nickerson, do outro lado da rua, três casas mais adiante. Adesivo da NRA55 no pára-choque do carro, junto com umas duas fitinhas amarelas de apoio às nossas tropas decalcadas e um adesivo Bush-Cheney antigo...

     —      Não precisa falar mais nada...

     —      E na picape dois adesivos da NRA, que ele equipa com um bagageiro para acampar em novembro, e vai caçar lá na sua terra.

     —      E nós ficamos felizes em receber a renda da licença de caça para os que moram fora do estado — disse Clay. — Vamos arrombar a casa dele amanhã e pegar as armas.

     Tom McCourt olhou para Clay como se ele estivesse louco.

     —      Esse cara não é paranóico como aqueles sujeitos metidos a paramilitares em Utah... quero dizer, ele mora em Massachusetts, o reino dos impostos... mas tem um daqueles alarmes contra roubo com sensores no gramado que diz basicamente TÁ SE SENTINDO SORTUDO, VAGABUNDO?, e tenho certeza de que você conhece a política do NRA a respeito de quando vão conseguir tirar as armas deles.

     —      Acho que tem a ver com arrancá-las de seus dedos mortos...

     —      É isso mesmo.

     Clay se inclinou para frente e expôs o que para ele tinha ficado óbvio desde o instante em que desceram a rampa da Route One: Malden havia se tornado apenas mais uma cidade ferrada nos Estados Unicelulares da América, e que o país estava fora de área, desligado, sentimos muito, tente mais tarde. Salem Street estava deserta. Ele tinha sentido isso quando eles estavam chegando... não tinha?

     Não. Mentira. Você se sentiu observado.

     É mesmo? E mesmo que aquilo fosse verdade, seria aquele o tipo de intuição em que se podia confiar, se basear para agir, depois de um dia como aquele? A idéia era ridícula.

     —      Ouça, Tom. Um de nós vai até a casa desse tal de Nackleson amanhã, assim que o dia estiver claro.

     —      É Nickerson, e não acho que seja uma idéia muito boa, o vidente McCourt o vê ajoelhado atrás da janela da sala de estar com um rifle automático que estava guardando para o fim do mundo. Que parece ter chegado.

     —      Eu vou — disse Clay. — Mas não vou se escutarmos tiros da casa de Nickerson hoje à noite ou amanhã de manhã. Certamente não vou se vir corpos no gramado do sujeito, com ou sem ferimentos de bala. Eu também assisti a todos aquele episódios antigos de Além da Imaginação, aqueles em que se descobre que a civilização não passa de uma fina camada de verniz.

     —      Se é isso — disse Tom de modo sombrio. — Idi Amin, Polpot, dou o caso por encerrado.

     —      Vou até lá com as mãos levantadas. Vou tocar a campainha. Se alguém atender, falarei que só quero conversar. O pior que pode acontecer é ele me mandar cair fora.

     —      Não, o pior que pode acontecer é ele te matar bem em cima da porra do capacho de Boas-vindas e me deixar sozinho com uma adolescente órfã — disse Tom com rispidez. — Pode fazer quantas piadinhas quiser sobre episódios antigos de Além da Imaginação, mas não se esqueça daquelas pessoas que viu hoje, brigando em frente à estação de metrô em Boston.

     —      Aquilo foi... não sei o quê foi aquilo, mas aquelas pessoas estavam loucas de pedra. Não tenha dúvida, Tom.

     —      E quanto à Papa-hóstias Maluca? E os dois homens brigando pelo barril? Eles estavam loucos?

     Não é claro que não, mas se houvesse uma arma naquela casa do outro lado da rua, ele ainda a queria. E se tivesse mais de uma, queria que Tom e Alice ficassem com elas também.

     —      Estava pensando em ir uns 150 quilômetros para o norte — disse Clay. — Talvez a gente possa roubar um carro e dirigir um pedaço, mas acho que vamos ter de andar todo o caminho. Você quer ir protegido só com facas? Estou perguntando de um homem sensato para outro, porque algumas das pessoas que vamos encontrar estarão armadas. Você sabe disso.

     —      Sim — disse Tom. Ele passou a mão pelo cabelo bem aparado, despenteando-o de um jeito engraçado. — E sei que Arnie e Beth provavelmente também estão fora de casa. Eles são tão doidos por engenhocas quanto por armas. Arnie vivia tagarelando no celular quando passava naquela picape Dodge Ram grande e fálica dele.

     —      Está vendo? Prontinho.

     Tom suspirou.

     —      Tudo bem. Vai depender de como as coisas vão estar pela manhã. Ok?

     —      Ok. — Clay pegou o sanduíche de novo. Sentia um pouco mais de vontade de comer agora.

     —      Onde eles foram parar? — perguntou Tom. — Os que você chama de fonáticos. Onde eles foram parar?

     —      Não sei.

     —      Vou dizer o que eu acho — disse Tom. — Acho que eles entraram nas casas e edifícios depois do pôr do sol e morreram.

     Clay olhou para ele com incredulidade.

     —      Pense com calma sobre a coisa e você vai ver que eu tenho razão — falou Tom. — Isso foi quase certamente algum tipo de ato terrorista, concorda?

     —      Essa parece ser a explicação mais provável, embora não faça a menor idéia de como qualquer sinal, por mais subversivo que seja, possa ter sido programado para fazer o que esse fez.

     —      Você é cientista?

     —      Você sabe que não. Sou um artista.

     —      Então quando o governo diz que é capaz de guiar bombas inteligentes computadorizadas de porta-aviões que podem estar a mais de 3 mil quilômetros de distância até a porta de bunkers debaixo do deserto, tudo o que você pode fazer é oihar para as fotos e aceitar que a tecnologia existe.

     —      Tom Clancy não mentiria para mim — disse Clay, sem sorrir.

     —      E se esse tipo de tecnologia existe, por que não aceitar essa outra, pelo menos provisoriamente?

    —      Ok, pode falar. Em poucas palavras, por favor.

     —      Por volta das três da tarde, uma organização terrorista, talvez até um governo de meia tigela, gerou um tipo de sinal ou pulso. Por ora, temos que supor que este sinal foi transmitido por todas as operadoras de celular do mundo. Vamos torcer para que não seja o caso, mas, por ora, acho que temos que supor o pior.

     —      A transmissão acabou?

     —      Não sei — disse Tom. — Quer pegar um celular para descobrir?

     —      Tuchim — falou Clay. — É assim que o meu filhinho fala touché. — E, por favor Deus, é assim que ele continua falando.

     —      Mas, se esse grupo pode transmitir um sinal que deixaria todos que o ouvissem loucos — prosseguiu Tom —, não haveria a possibilidade de que o sinal também contivesse uma diretriz que mandasse todos os que o recebessem se matarem cinco horas depois? Ou talvez simplesmente irem dormir e pararem de respirar.

     —      Eu diria que isso é impossível.

     —      Eu teria dito que um louco vir para cima de mim do Four Seasons Hotel com uma faca é impossível — disse Tom. — E que Boston ser consumida pelo fogo enquanto toda a população... quero dizer, a parcela da população que tem a sorte de não ter celulares... foge pelas pontes Mystic e Zakim.

     Ele se inclinou para frente, olhando para Clay com atenção. Ele quer acreditar nisso, Clay pensou. Não desperdice muito tempo tentando dissuadi-lo, porque ele quer muito acreditar, muito mesmo.

     —      De certa forma, isso não é diferente do bioterrorismo que o governo tanto temia depois do 11 de setembro — ele disse. — Através dos celulares, que se tornaram a forma cotidiana de comunicação dominante, é possível transformar a população em um exército particular, um exército que literalmente não tem medo de nada, porque é louco, ao mesmo tempo em que destrói a infra-estrutura. Onde está a Guarda Nacional hoje à noite?

     —      No Iraque? — arriscou Clay. — Na Louisiana?

     Não foi uma piada muito boa e Tom não sorriu.

     —      Em lugar nenhum. Como se usa uma força interna que hoje em dia depende quase totalmente da rede de celulares até para se mobilizar? Quanto aos aviões, o último que vi voando foi aquele pequeninho que caiu na esquina da Charles com a Beacon. — Ele fez uma pausa e então prosseguiu, olhando através da mesa direto para os olhos de Clay. — Tudo isso que eles fizeram... quem quer que sejam eles. Eles olharam para nós de onde quer que vivam e adorem seus deuses, e o que viram?

     Clay balançou a cabeça, fascinado pelos olhos de Tom, que brilhavam por trás dos óculos. Eram quase os olhos de um visionário.

     —      Eles viram que tínhamos reconstruído a Torre de Babel... e sustentada apenas por teias eletrônicas. E, em questão de segundos, eles varreram essas teias e nossa Torre caiu. Eles fizeram tudo isso, e nós três somos como insetos que calharam, por pura sorte, de evitar o pisão de um gigante. Eles fizeram tudo isso, e você acha que não poderiam ter codificado um sinal que mandasse os afetados simplesmente irem dormir e pararem de respirar? Qual é o mistério, se comparado com o primeiro? Não muito grande, eu diria.

     Clay disse:

     —      Acho que está na hora de irmos dormir.

     Por um instante, Tom ficou como estava, um pouco curvado sobre a mesa, olhando para Clay como se incapaz de entender o que ele tinha dito. Então riu.

     —      É — ele disse. — É, você está certo. Eu me empolguei. Desculpe.

     —      Sem problema — disse Clay. — Espero que tenha razão quanto aos lunáticos estarem mortos. — Fez uma pausa e então falou: — Quero dizer... a não ser que meu filho... Johnny-Gee... — Não conseguiu terminar. Em parte, ou principalmente, porque se Johnny tivesse tentado usar o telefone naquela tarde e tivesse recebido a mesma ligação que a Cabelinho Claro e a Mulher do Terninho de Poderosa, Clay não tinha certeza se queria que o filho ainda estivesse vivo.

     Tom estendeu o braço até o outro lado da mesa e Clay envolveu com as duas mãos a mão delicada e de dedos longos do outro homem. Ele viu isso acontecer como se estivesse fora do corpo e, quando falou, não parecia ser ele mesmo falando, embora sentisse a boca se mexendo e as lágrimas que haviam começado a cair dos seus olhos.

     —      Estou com tanto medo por ele — sua boca dizia. — Estou com medo pelos dois, mas principalmente pelo meu filho.

     — Vai ficar tudo bem — disse Tom, e Clay sabia que a intenção dele era boa, mas as palavras encheram-lhe o coração de terror da mesma forma, pois era apenas uma daquelas coisas que você fala quando não resta mais nada a dizer. Como Você vai superar, ou ele está em lugar melhor.

    

     Os gritos de Alice acordaram Clay de um sonho confuso mas agradável em que ele estava em uma Tenda de Bingo na Feira Estadual de Akron. No sonho, voltara aos 6 anos de idade — com certeza não mais que isso, mas talvez fosse até mais novo —, agachado debaixo da mesa em que a mãe estava, olhando para uma floresta de pernas femininas e sentindo o cheiro de serragem enquanto o locutor entoava: "B12, jogadores, B12! É a vitamina da luz solar!

     Por um instante o seu subconsciente tentou integrar os gritos da menina ao sonho, insistindo que o que ele ouvia era o apito de meio-dia de sábado, mas apenas por um instante. Clay se permitira dormir na varanda de Tom depois de uma hora de vigília, pois estava convencido de que nada iria acontecer lá fora, pelo menos não naquela noite. Porém, ele deveria estar convencido também de que Alice não dormiria a noite toda, pois não ficou confuso quando sua mente identificou os gritos pelo que eram e tampouco precisou se esforçar para saber onde estava ou o que estava acontecendo. Em um momento ele era um garotinho agachado debaixo de uma mesa de bingo em Ohio; no outro, estava saindo do sofá confortavelmente longo na varanda coberta de Tom McCourt com o cobertor ainda enroscado nas pernas. E, em algum lugar da casa, Alice Maxwell, berrando em um registro quase agudo o bastante para quebrar cristal, articulava todo o horror do dia que acabara de passar, insistindo com um grito depois do outro que tais poisas não deveriam ter acontecido de forma alguma e precisavam ser negadas.

     Clay tentou desembaraçar as pernas do cobertor sem sucesso. Ele se viu pulando na direção da porta e agitando a maçaneta em uma espécie de pânico, enquanto olhava para a Salem Street, convicto de que as luzes começariam a acender por todo o quarteirão, mesmo sabendo que não havia energia, convicto de que alguém — talvez aquele sujeito que tinha armas e adorava engenhocas, o Sr. Nickerson, que morava mais adiante — sairia para o gramado e gritaria para alguém pelo amor de Deus calar a boca daquela menina. Não me obrigue a ir até aí! Berraria Arnie Nickerson. Não me obrigue a ir até aí dar um tiro nela!

     Ou os gritos atrairiam os fonáticos como mariposas para uma luz. Tom poderia achar que eles estavam mortos, mas Clay acreditava nisso tanto quanto na fábrica do Papai Noel no Pólo Norte.

     Porém, a Salem Street — pelo menos o quarteirão em que estavam, logo a oeste do centro e depois da parte de Malden que Tom chamava de Granada Highlands — permaneceu escura, silenciosa e sem movimento. Até o brilho do fogo em Revere parecia ter diminuído.

     Clay finalmente se livrou do cobertor, entrou e ficou ao pé da escada, olhando para a escuridão acima. Agora conseguia escutar a voz de Tom — não as palavras, mas o tom, baixo, calmo e tranqüilizador. Os gritos arrepiantes da garota começaram a ser cortados por arquejos, e então por soluços e exclamações inarticuladas que se tornaram palavras. Clay entendeu uma delas: pesadelo. Tom continuou falando sem parar, contando mentiras em uma ladainha reconfortante: estava tudo bem, ela iria ver só, as coisas pareceriam melhores pela manhã. Clay os visualizava sentados lado a lado na cama do quarto de hóspedes, os dois vestindo pijamas com monogramas com as iniciais TM nos bolsos da frente. Poderia tê-los desenhado daquela forma. A idéia o fez sorrir.

     Quando teve certeza de que ela não recomeçaria a gritar, Clay voltou para a varanda, que estava um pouco fria, mas confortável assim que ele se enrolou no aconchego do cobertor. Sentou-se no sofá, inspecionando o que conseguia ver da rua. À esquerda, a leste da casa de Tom, havia um centro comercial. Ele achou que podia ver o semáforo que marcava a entrada da praça central. Do outro lado — que era o caminho pelo qual tinham vindo —, mais casas. Todas ainda naquela escuridão profunda.

     — Onde estão vocês? — ele murmurou. — Sei que alguns foram para o norte ou para o oeste ainda com a cabeça no lugar. Mas para onde foram os outros?

     Nenhuma resposta veio da rua. Poxa, talvez Tom tivesse razão — os celulares mandaram uma mensagem para as pessoas enlouquecerem às três e caírem mortas às oito. Parecia bom demais para ser verdade, mas ele se lembrava que tinha pensado o mesmo sobre CDs graváveis.

     Silêncio vindo da rua à frente dele; silêncio vindo da casa às suas costas. Um instante depois, Clay recostou no sofá e deixou os olhos se fecharem. Pensou que talvez pudesse cochilar, mas não achava que conseguiria pegar no sono novamente. Porém, acabou conseguindo, e desta vez sem sonhos. Logo antes do dia raiar, um vira-lata subiu pela entrada de Tom McCourt, olhou para ele roncando no seu casulo de cobertor e voltou a seguir adiante. Não estava com pressa, não faltavam restos de comida nas ruas de Malden naquela manhã e continuaria sendo assim por muito tempo.

    

     — Clay. Acorde.

     A mão de alguém, sacudindo-o. Clay abriu os olhos e viu Tom, usando jeans e uma camisa de botão cinza, inclinando-se sobre ele. A varanda estava iluminada por uma luz pálida e forte. Clay olhou para seu relógio de pulso à medida que tirava o pé de cima do sofá e viu que eram 6h20.

     —      Você tem que ver isto — disse Tom. Ele estava pálido, ansioso e com os dois lados do bigode grisalhos. Um dos lados da ponta da camisa estava para fora do cinto e a parte de trás do cabelo ainda estava de pé.

     Clay olhou para a Salem Street, viu um cachorro com algo na boca passando aos trotes por alguns carros abandonados a meia quadra na direção oeste; era a única coisa que se mexia. Sentia um cheiro fraco de fumaça no ar e imaginou que fosse de Boston ou Revere. Talvez de ambos, mas pelo menos o vento parará. Virou-se para Tom.

     —      Aqui não — disse Tom. Ele manteve a voz baixa. — No quintal dos fundos. Vi quando fui para a cozinha fazer café, antes de lembrar que não dá para ligar a cafeteira, pelo menos por enquanto. Talvez não seja nada, mas... cara, não estou gostando disso.

     —      Alice ainda está dormindo? — Clay estava tateando sob o cobertor, atraí das meias.

     —      Sim, e isso é bom. Esqueça as meias e os sapatos, não vamos jantar no Ritz. Venha.

     Ele seguiu Tom, que usava um par de chinelos que pareciam confortáveis, pelo corredor até a cozinha. Havia um copo meio vazio de chá gelado no aparador.

     Tom falou:

     —      Não consigo começar o dia sem um pouco de cafeína de manhã, sabe? Então me servi de um copo daquela coisa, aliás, pode pegar, ainda está bom e gelado, e abri a cortina em cima da pia para dar uma olhada no jardim. Sem motivo, só queria ter contato com o mundo exterior. E vi... olhe você mesmo.

     Clay olhou para fora pela janela da pia. Nos fundos, havia um bem cuidado pátio de ladrilhos com uma grelha a gás. Depois do pátio, ficava o quintal de Tom, metade gramado, metade jardim. Mais além, havia uma cerca alta e larga com um portão. O portão estava aberto. Pelo visto, estivera fechado a ferrolho, pois agora ele estava caído de lado, parecendo a Clay um pulso quebrado. Ocorreu-lhe que Tom poderia ter feito o café na grelha, não fosse pelo homem sentado no jardim, ao lado do que só podia ser um carrinho de mão ornamental, comendo a polpa de uma abóbora partida e cuspindo as sementes. Usava um macacão de mecânico e um boné seboso com um B apagado nele. Escrito em letras vermelhas apagadas no bolso esquerdo do macacão estava o nome tye&upe. Clay ouvia os sons baixos de sucção que o rosto dele fazia toda vez que o enfiava na abóbora.

     —      Merda — disse Clay baixinho. — É um deles.

     —      É. E se tem um, pode haver vários.

     —      Ele arrombou o portão para entrar?

     —      Claro que sim — disse Tom. — Não o vi fazendo, mas garanto que estava trancado quando eu saí ontem. Não tenho o melhor relacionamento do mundo com Scottoni, o cara que mora do outro lado. Ele não precisa de "sujeitinhos como eu", como já me disse várias vezes. — Ele fez uma pausa, então prosseguiu com a voz mais baixa. Já estava falando baixo antes, mas agora Clay tinha que chegar perto dele para ouvir. — Sabe o que é mais esquisito? Eu conheço aquele cara. Ele trabalha no posto Texaco, lá no Centro Comercial. É o único posto de gasolina da cidade que ainda faz consertos. Ou fazia. Ele trocou uma mangueira de radiador para mim uma vez. Me contou que foi com o irmão para o estádio dos Yankees no ano passado e viu Curt Schilling acabar com o Big Unit6. Parecia um sujeito legal. Agora olhe só para ele! Sentado no meu jardim comendo uma abóbora crua!

     —      O que está acontecendo, gente? — perguntou Alice atrás deles.

     Tom se virou, aparentando desânimo.

     —      Você não vai querer ver isso — ele disse.

     —      Não senhor — disse Clay. — Ela tem que ver.

     Ele sorriu para Alice, o que não era tão difícil assim. Não havia monograma no bolso do pijama que Tom lhe emprestara, mas ele era azul, como Clay tinha imaginado, e ela ficava terrivelmente bonita nele, descalça, com a bainha da calça levantada até as canelas e o cabelo desgrenhado pelo sono. Apesar dos pesadelos, Alice parecia mais descansada do que Tom. Clay poderia apostar que ela parecia mais descansada do que ele também.

     —      Não é um acidente de carro nem nada — falou ele. — É só um cara comendo uma abóbora no quintal do Tom.

     Ela se enfiou entre os dois, colocando as mãos na beirada da pia, e ficou na ponta dos pés para olhar pela janela. O braço dela roçou o de Clay e ele sentiu a quentura do sono que ainda irradiava da sua pele. Alice ficou olhando por um bom tempo e então se virou para Tom.

     —      Você disse que todos eles tinham se matado — ela falou, e Clay não soube dizer se estava acusando Tom ou dando uma bronca de mentirinha. Provavelmente ela mesma não sabe, ele pensou.

     —      Eu não falei com certeza — respondeu Tom, soando pouco convincente.

     —      Você me pareceu ter bastante certeza. — Ela voltou a olhar para fora. Pelo menos, pensou Clay, ela não está surtando. Na verdade, Alice parecia extraordinariamente tranqüila, até mesmo chapliniana, naquele pijama um pouco grande demais. — Uh... gente?

     —      O quê? — eles falaram juntos.

     —      Olhem o carrinho de mão do lado dele. Vejam só a roda.

     Clay já tinha visto o que ela estava falando — os restos de casca, polpa e sementes de abóbora.

     —      Ele bateu com a abóbora na roda para abri-la e comer o que estava dentro — disse Alice. — Acho que é um deles...

     —      Ah, ele é um deles com certeza — disse Clay. George, o mecânico, estava sentado no jardim com as pernas abertas, revelando a Clay que desde a tarde de ontem esquecera tudo que mamãe tinha ensinado sobre baixar as calças antes de fazer xixi.

     —      ... mas ele usou aquela roda como ferramenta. Não acho que um doido faria uma coisa dessas.

     —      Um deles estava usando uma faca ontem — disse Tom. — E tinha outro cara brandindo duas antenas de carro.

     —      Eu sei, mas... isso parece diferente.

     —      Mais pacífico, você quer dizer? — Tom olhou de volta para o intruso no jardim. — Não estou a fim de ir lá fora para descobrir.

     —      Não, não é isso. Não quis dizer pacífico. Não sei bem como explicar.

     Clay achou que entendia o que ela estava falando. A agressão que eles haviam testemunhado no dia anterior fora uma atitude cega, impulsiva. Uma coisa do tipo o-que-cair-na-minha-mão-eu-uso. Sim, teve o homem de negócios com a faca e o rapaz musculoso brandindo as antenas enquanto corria, mas também teve o homem no parque que arrancou a orelha do cachorro com os dentes. A Cabelinho Claro também usara os dentes. Aquilo parecia muito diferente, e não só porque ele estava comendo em vez de matando. Mas, assim como Alice, Clay não conseguia entender como era diferente.

     —      Oh, meu Deus, mais dois — disse Alice.

     Pelo portão aberto dos fundos entrou uma mulher de cerca de 40 anos com um terninho cinza sujo e um idoso vestindo um short de caminhada e uma camiseta com GRAY POWER escrito na frente. A mulher de terninho usava uma blusa verde em frangalhos, revelando as taças de um sutiã verde claro. O idoso estava mancando bastante, jogando os ombros para frente enquanto fazia uma espécie de sapateado a cada passo para manter o equilíbrio. Sua esquelética perna esquerda estava coberta de sangue seco e o pé estava sem o tênis de corrida. Os restos de uma meia atlética, encardida de sujeira e sangue, pendiam do tornozelo esquerdo. O cabelo branco um tanto longo do velho lhe caía sobre o rosto inexpressivo como um capuz. A mulher de terninho emitia um barulho repetitivo que soava como "Goom! Goom!" enquanto examinava o quintal e o jardim. Olhou para George, o Comedor de Abóbora, como se ele nem existisse, e então passou por ele em direção aos pepinos restantes. Ajoelhou-se diante deles, arrancou um da sua haste e começou a comê-lo. O velho com a camiseta GRAY POWER marchou até o final do jardim e então ficou parado um instante, como um robô cujo óleo finalmente acabara. Usava óculos dourados minúsculos — óculos de leitura, pensou Clay — que cintilavam na luz da manhã. Para Clay ele parecia como alguém que um dia fora muito inteligente e agora era muito idiota.

     As três pessoas na cozinha se espremeram, olhando pela janela, mal respirando.

     O olhar do velho parou em George, que jogou para longe um pedaço de casca de abóbora, examinou o resto e então meteu o rosto de volta nele, retomando o café-da-manhã. Em vez de se portar agressivamente em relação aos recém-chegados, nem mesmo pareceu notá-los.

     O velho mancou para a frente, se agachou e começou a puxar uma abóbora do tamanho de uma bola de futebol. Estava a menos de um metro de George. Clay, recordando a batalha campal em frente à estação do metrô, prendeu a respiração e esperou.

     Ele sentiu Alice agarrar seu braço. Toda a quentura do sono desaparecera da mão dela.

     —      O que ele vai fazer? — ela perguntou baixinho.

     Clay apenas balançou a cabeça.

     O velho tentou morder a abóbora e só conseguiu bater com o nariz. Era para ser engraçado, mas não foi. Seus óculos ficaram tortos e ele os colocou de volta no lugar. Foi um gesto tão normal que por um breve momento Clay teve certeza de que era ele que estava louco.

     —      Goom!— gritou a mulher de blusa rasgada e atirou longe o pepino meio comido. Divisara alguns tomates temporões e rastejou na direção deles com o cabelo caído sobre o rosto. A parte de trás da sua calça estava toda suja.

     O velho achara o carrinho de mão ornamental. Levou a abóbora até ele, então pareceu notar George, que estava sentado ao lado. Olhou para o homem, com a cabeça torta. George gesticulou com a mão pintada de laranja para o carrinho, um gesto que Clay já tinha visto milhares de vezes.

     —      A vontade — murmurou Tom. — Minha nossa.

     O velho se ajoelhou no jardim, um movimento que obviamente lhe causou muita dor. Fez uma careta, ergueu o rosto vincado para o céu resplandecente e proferiu um grunhido de aborrecimento. Então segurou o fruto sobre a roda. Estudou o ângulo de descida por vários segundos, bíceps velhos tremendo, e lançou a abóbora para baixo, partindo-a. Ela se abriu em duas metades polpudas. O que aconteceu em seguida foi rápido. George largou sua própria abóbora quase completamente devorada no colo, se jogou para frente, agarrou a cabeça do velho com as mãos grandes e manchadas de laranja e a torceu. O barulho do pescoço do velho quebrando atravessou o vidro da janela e chegou aos ouvidos dos três. O cabelo branco e longo dele voou. Os pequenos óculos desapareceram no que Clay achava que eram beterrabas. O corpo sofreu um espasmo, e então ficou flácido. George o largou. Alice começou a gritar e Tom cobriu a boca da menina. Ela ficou observando por sobre a mão dele com os olhos arregalados. Lá fora, no jardim, George pegou um pedaço fresco de abóbora e começou a comer com tranqüilidade.

     A mulher de blusa rasgada olhou ao redor por um instante, casualmente, e então arrancou outro tomate e o mordeu. Suco vermelho desceu pelo seu queixo e escorreu pelo vinco sujo do pescoço. Ela e George ficaram sentados no jardim dos fundos de Tom McCourt comendo legumes e, por algum motivo, o nome de um dos quadros favoritos de Clay veio-lhe à mente: O Reino Pacífico.

     Clay não percebera que havia falado alto até Tom olhar para ele com frieza e dizer:

     —      Não mais.

    

     Os três ainda estavam em pé diante da janela da cozinha cinco minutos depois quando um alarme começou a soar a alguma distância dali. Parecia fraco e rouco, como se estivesse prestes a cessar.

     — Alguma idéia do que pode ser? — perguntou Clay. No jardim, George tinha abandonado as abóboras e desenterrado uma batata grande. Isso o levou mais para perto da mulher, mas ela não despertou seu interesse. Pelo menos não por ora.

     —      Meu palpite seria que o gerador do Safeway no Centro Comercial acabou de parar — disse Tom. — Eles provavelmente têm um alarme a bateria caso isso aconteça, por conta de todos os alimentos perecíveis. Mas é só um palpite. Até onde eu sei, pode ser o First Malden Banke...

     —      Olhem! — disse Alice.

     A mulher parou de arrancar um outro tomate, se levantou e saiu andando em direção ao lado direito da casa de Tom. George se ergueu quando ela passou, e Clay teve certeza de que ele pretendia matá-la como matou o velho. A expectativa fez Clay se encolher e ele viu Tom se preparando para desviar Alice da cena. Mas George apenas seguiu a mulher, dando a volta na casa atrás dela e sumindo de vista.

     Alice se virou e saiu correndo para a porta da cozinha.

     —      Não deixe que eles vejam você — exclamou Tom em uma voz baixa e urgente, seguindo-a.

     —      Não se preocupe — ela disse.

     Clay os acompanhou, preocupando-se com todos.

     Eles alcançaram a sala de jantar a tempo de ver a mulher com seu terninho sujo e George com seu macacão mais sujo ainda passarem pela janela, os corpos segmentados pelas venezianas que estavam baixadas, mas não fechadas. Nenhum dos dois olhou para dentro da casa, e George estava tão perto da mulher que poderia morder sua nuca. Alice, seguida por Tom e Clay, subiu o corredor até o pequeno escritório de Tom. Lá, as venezianas estavam fechadas, mas Clay viu as sombras dos dois passarem rapidamente por elas. Alice continuou seguindo pelo corredor, em direção à porta aberta que dava para a varanda. O cobertor estava metade em cima e metade fora do sofá, como Clay o havia deixado. A luz brilhante da manhã inundava a varanda. Parecia queimar o assoalho.

     —      Alice, tenha cuidado! — disse Clay. — Tenha...

     Mas ela parara. Estava apenas olhando. E então Tom estava ao lado dela, quase da mesma altura que a menina. Vistos daquela maneira, poderiam ser irmãos. Nenhum dos dois se preocupou em tentar se esconder.

     —      Puta merda — disse Tom. Parecia ter levado um balde de água fria. Ao lado dele, Alice começou a chorar. Era o tipo de choro sem fôlego que uma criança cansada choraria. Uma criança que está se acostumando a ser castigada.

     Clay os alcançou. A mulher de terninho estava cruzando o gramado de Tom. George ainda estava atrás dela, seguindo-a passo a passo. Estavam quase marchando em fileira. O ritmo quebrou um pouco no meio-fio, quando George foi para a esquerda da mulher, deixando de ser uma sombra para ladeá-la.

     Salem Street estava cheia de loucos.

     À primeira vista, Clay achou que poderia haver centenas deles, ou mais. Então seu lado observador assumiu o controle — o olho frio do artista — e ele percebeu que aquilo era um exagero, causado pela surpresa de se deparar com uma pessoa que fosse quando esperava ver uma rua vazia e pelo choque de perceber que todos eram eles. Era impossível não reconhecer os rostos vazios, os olhos que pareciam ver através de tudo, as roupas sujas, manchadas de sangue, desalinhadas (em muitos casos não havia roupa alguma), os ocasionais grasnidos ou gestos convulsivos. Havia o homem vestindo apenas uma cueca apertadinha e uma camisa pólo e que parecia estar acenando sem parar; a mulher gorda cujo lábio inferior estava partido, formando dois bifes que pendiam revelando todos os dentes de baixo; o adolescente alto de bermuda jeans que andava até o meio da Salem Street carregando o que parecia ser uma chave de roda ensangüentada em uma das mãos, um senhor indiano ou paquistanês que passou pela casa de Tom mexendo a mandíbula de um lado para o outro e ao mesmo tempo batendo os dentes, um menino — meu Deus, um menino da idade de Johnny — que caminhava sem o mínimo sinal de dor, embora um dos seus braços estivesse balançando da junta deslocada do ombro, uma bela jovem de minissaia e top sem mangas que parecia estar comendo do estômago vermelho de um corvo. Alguns gemiam, outros emitiam sons que talvez tenham sido palavras um dia, e todos seguiam para o leste. Clay não fazia idéia se eles estavam sendo atraídos pelo alarme ou pelo cheiro de comida, mas estavam todos indo na direção do Centro Comercial de Malden.

     —      Meu Deus, é o paraíso dos zumbis — disse Tom.

     Clay não se deu o trabalho de responder. As pessoas lá fora não eram exatamente zumbis, mas Tom quase acertou. Se qualquer um deles olhar para cá, nos enxergar e decidir vir atrás da gente, estamos ferrados. Não vamos ter a mínima chance. Nem se nos entrincheirarmos no porão. E quanto àquelas armas do outro lado da rua? Pode esquecer.

     A idéia de que sua esposa e filho poderiam estar — muito possivelmente estavam — tendo que lidar com aquele tipo de criatura o encheu de horror. Mas aquilo não era uma história em quadrinhos e ele não era herói: não podia fazer nada. Os três talvez estivessem seguros na casa, mas, em se tratando do futuro próximo, ele, Tom e Alice não iriam para lugar nenhum.

     —      Eles são como pássaros — disse Alice. Ela limpou as lágrimas do rosto com as mãos. — Um bando de pássaros.

     Clay entendeu o que ela queria dizer e a abraçou impulsivamente. Ela identificara algo que ele tinha percebido quando observou George, o mecânico, seguir a mulher em vez de matá-la, como fizera com o velho. Os dois eram obviamente cabeças-ocas, mas pareciam ter ido lá para frente mediante algum tipo de acordo tácito.

     —      Não estou entendendo — disse Tom.

     —      Você não deve ter visto A Marcha dos Pingüins — disse Alice.

     —      Na verdade eu vi — respondeu Tom. — Se quiser ver alguém andar engraçado de smoking, vou a um restaurante francês.

     —      Mas você já notou como os pássaros se comportam, especialmente na primavera e no outono? — perguntou Clay. — Já deve ter visto. Eles ficam todos pousados na mesma árvore, ou no mesmo fio de um poste...

     —      Às vezes são tantos que o fio chega a envergar — disse Alice. —        E então todos saem voando na mesma hora. Meu pai diz que eles devem ter um líder, mas o Sr. Sullivan, meu professor de ciências, quer dizer, quando eu estava no ginásio, disse que é uma espécie de consciência coletiva, tipo quando as formigas saem todas juntas de um formigueiro, ou quando as abelhas saem da colméia.

     —      O bando faz curva para a direita ou para a esquerda, todos ao mesmo tempo, e os pássaros nunca batem um no outro — falou Clay.

     — Às vezes eles deixam o céu preto e o barulho é de enlouquecer. — Ele fez uma pausa. — Pelo menos onde eu moro, no interior. — Outra pausa. — Tom, você... você reconhece alguma dessas pessoas?

     —      Algumas. Aquele lá é o Sr. Potowami, da padaria — ele disse, apontando o indiano que balançava a mandíbula e batia os dentes. — Aquela moça bonita... acho que ela trabalha no banco. E lembra que eu falei sobre o Scottoni, o meu vizinho de quadra?

     Clay assentiu.

     Tom, que ficara muito pálido, apontou para uma mulher visivelmente grávida usando apenas um guarda-pó sujo de comida que ia até a parte de cima das coxas. Cabelo loiro caía sobre suas bochechas cheias de espinhas e um piercing brilhava no nariz.

     —      Aquela é a nora dele — ele falou. — Judy. Ela já fez questão de ser gentil comigo. — Ele acrescentou em um tom casual: —     Me dá um aperto no coração.

     Da direção do centro da cidade, veio um som alto de tiro. Alice gritou, mas desta vez Tom não precisou cobrir-lhe a boca, ela mesma o fez. De qualquer forma, nenhuma das pessoas da rua olhou para lá. Nem o estrondo — Clay achava que tinha sido um tiro — pareceu incomodá-los. Eles simplesmente continuaram andando, nem mais rápido, nem mais devagar. Clay esperou outro tiro. Em vez disso, ouviu um grito, muito breve; durou só um instante, como se tivesse sido interrompido.

     Os três nas sombras logo atrás da varanda ficaram observando, sem conversar. Todos que passavam estavam indo para o leste, e, embora não andassem exatamente em formação, havia sem dúvida uma espécie de ordem. Para Clay, o que deixava isso claro não era a visão dos próprios fonáticos, que quase sempre mancavam e às vezes se arrastavam, que balbuciavam e faziam gestos esquisitos, e sim a passagem silenciosa e ordeira das suas sombras no asfalto. Elas o fizeram pensar naqueles cinejornais sobre a Segunda Guerra Mundial que tinha visto, nos quais um grupo de bombardeiros depois do outro cruzava o céu. Ele contou 250 antes de desistir. Homens, mulheres, adolescentes. Um bom número de crianças da idade de Johnny, também. Mais crianças do que velhos, embora tenha visto umas poucas crianças com menos de 10 anos. Não gostava de pensar sobre o que deveria ter acontecido com os garotinhos e garotinhas que não tinham ninguém para cuidar deles quando o Pulso aconteceu.

     Ou com os garotinhos e garotinhas que estavam aos cuidados de pessoas com celulares.

     Quanto às crianças com o olhar vazio que via, Clay imaginou quantas delas tinham infernizado os pais pedindo celulares com toques especiais no ano anterior, como o fizera Johnny.

     —      Uma só mente — disse após um instante. — Você acredita mesmo nisso?

     —      Eu meio que acredito — falou Alice. — Porque... tipo... que mente própria eles têm?

     —      Ela tem razão — disse Clay.

     A migração (uma vez que se via aquilo daquela maneira, era difícil imaginar que fosse outra coisa) diminuiu, mas não parou, mesmo depois de meia hora, três homens passaram ombro a ombro — um vestindo uma camisa de jogador de boliche, um com os restos de um terno e outro com o pouco que sobrou da parte de baixo do rosto transformado em uma massa de sangue seco — e, em seguida, dois homens e uma mulher andando em fila, como se dançassem uma conga desajeitada, e então uma mulher de meia-idade que parecia uma bibliotecária (quer dizer, se você ignorasse o seio nu que balançava ao vento) enfileirada com uma adolescente desengonçada que poderia ser uma auxiliar de biblioteca. Houve um intervalo e então apareceu mais uma dúzia deles, parecendo formar uma espécie de quadrado, como uma unidade militar das Guerras Napoleônicas. E, ao longe, Clay começou a ouvir sons de guerra — o barulho de tiros de pistola ou rifle e uma vez (perto deles, talvez do bairro vizinho de Medford ou de Malden mesmo) o rugido longo e rascante de uma arma automática de alto calibre. E também mais gritos. A maioria vinha de longe, mas Clay tinha, certeza de que eram gritos.

     Ainda havia outras pessoas sãs por ali, muitas delas, e algumas tinham conseguido pegar em armas. Era muito provável que aquela gente estivesse atirando nos loucos. Outros, porém, não tiveram a sorte de estarem abrigados quando o sol nasceu e os malucos apareceram. Ele pensou em George, o mecânico, pegando a cabeça do velho em suas mãos laranja, a torção, o estalo, os pequeninos óculos de leitura voando para cima das beterrabas, onde ficariam. E ficariam. E ficariam.

     —      Acho que vou para a sala me sentar — disse Alice. — Não quero mais olhar para eles. Nem ouvir. Está me fazendo mal.

     —      Claro — disse Tom. — Pode ir. Eu vou ficar aqui observando mais um pouco. Acho que um de nós tem que ficar observando, não acha?

     Clay assentiu. Ele achava que sim.

     —      Então daqui a uma hora mais ou menos a gente reveza. Podemos fazer um rodízio.

     —      Ok. Combinado.

     Enquanto eles voltavam pelo corredor, Clay com os braços em volta dos ombros de Alice, Tom disse:

     —      Mais uma coisa.

     Eles olharam para trás.

     —      Acho melhor descansarmos o máximo que pudermos hoje. Quero dizer, se ainda quisermos ir para o norte.

     Clay olhou para ele com atenção, para se certificar de que Tom ainda estava com a cabeça no lugar. Parecia que sim, mas...

     —      Você notou o que está acontecendo lá fora? — ele perguntou.

     — Ouviu os tiros? Os... — Clay não queria dizer os gritos na frente de Alice, embora obviamente fosse um pouco tarde para tentar proteger as sensibilidades que ainda restavam nela — ... os berros?

     —      Claro que sim — disse Tom. — Mas os loucos se abrigaram na noite passada, não foi?

     Por um instante, nem Clay nem Alice se mexeram. Então Alice começou a bater as mãos em um aplauso baixinho, quase inaudível. E Clay começou a sorrir. O sorriso pareceu duro e estranho em seu rosto, e a esperança que ele trazia era quase dolorosa.

     —      Tom, você deve ser um gênio — ele falou.

     Tom não retribuiu o sorriso.

     —      Não aposte nisso — ele disse. — Nunca me dei muito bem no vestibular.

     Sentindo-se claramente melhor — e aquilo só podia ser uma coisa boa, calculou Clay —, Alice foi até o andar de cima procurar algo para vestir entre as roupas de Tom. Clay se sentou no sofá, pensando em Sharon e Johnny, tentando decidir o que eles teriam feito e para onde teriam ido, sempre supondo que tiveram a sorte de se encontrar. Ele cochilou e os viu com clareza na Escola Primária de Kent Pond, o co-légio em que Sharon dava aula. Estavam entrincheirados no ginásio, com mais duas ou três dúzias de pessoas, comendo sanduíches do refeitório e bebendo aquelas caixinhas de leite. Eles...

     Alice o acordou, chamando do segundo andar. Ele olhou para o relógio de pulso e viu que dormira no sofá por quase vinte minutos. Seu queixo estava babado.

     —      Alice? — Ele foi até o pé da escada. — Está tudo bem? — Notou que Tom também estava olhando.

     —      Sim, mas você pode subir um instante?

     —      Claro.

     Ele olhou para Tom, deu de ombros e subiu as escadas.

     Alice estava em um quarto de hóspedes que não parecia ter sido muito usado, embora os dois travesseiros sugerissem que Tom passara a maior parte da noite com ela, e as roupas de cama reviradas sugerissem, além disso, um sono muito agitado. Encontrara uma calça caqui quase do tamanho certo e uma blusa com CANOBIE LAKE PARK escrito na frente, sob o desenho de uma montanha russa. No chão, havia o tipo de aparelho de som portátil grande que um dia Clay e seus amigos desejaram ardentemente, do mesmo jeito que Johnny-Gee desejara aquele celular vermelho. Clay e seus amigos chamavam aqueles rádios de estoura tímpanos.

     —      Estava no armário e parece que as pilhas estão novas — ela disse. — Pensei em ligá-lo e procurar por uma estação de rádio, mas fiquei com medo.

     Ele olheu para o estoura tímpanos no belo chão de madeira de lei do quarto de hóspedes e também teve medo. Poderia ter sido uma arma carregada. Mas ele sentiu um ímpeto de esticar a mão e passar o botão de CD para FM. Imaginou que Alice tivesse sentido o mesmo e que o chamara por isso. O ímpeto de tocar uma arma carregada não teria sido nem um pouco diferente.

     —      Minha irmã me deu dois aniversários atrás — disse Tom da porta, e os dois deram um pulo. — Coloquei pilhas nele julho passado e o levei para a praia. Quando éramos crianças, costumávamos ir todos à praia e ficar ouvindo rádio, só que eu nunca tive um desse tamanho.

     —      Nem eu — disse Clay. — Mas bem que eu queria.

     —      Eu fui com ele para Hampton Beach em New Hampshire com um monte de CDs do Van Halen e da Madonna, mas não foi a mesma coisa. Nem de longe. Está parado desde então. Imagino que todas as rádios estejam fora do ar, vocês não acham?

     —      Aposto que algumas ainda estão no ar — disse Alice. Ela mordia o lábio inferior. Clay pensou que se ela não parasse logo com aquilo ele começaria a sangrar. — As que os meus amigos chamam de estações robôs. Elas têm nomes bonitinhos tipo BOB e FRANK, mas todas vêm de um computador gigante em Colorado e são transmitidas via satélite. Pelo menos é o que dizem os meus amigos. E... — Ela passou a língua no lugar em que mordera. O sangue brilhava logo embaixo da pele. — E é assim que os sinais de celular são enviados, não é? Via satélite?

     —      Não sei — disse Tom. — Acho que os de longa distância sim... e os que fazem chamadas transatlânticas com certeza... e imagino que um certo gênio poderia enviar o sinal de satélite errado para todas aquelas torres de microondas que existem por aí... aquelas que espalham os sinais...

     Clay sabia de que torres eles estavam falando, esqueletos de aço cobertos de pratos que mais parecem ventosas cinza. Elas pipocaram em todo canto nos últimos dez anos.

     Tom falou:

     —      Se conseguirmos sintonizar uma rádio local, talvez possamos conseguir informação. Alguma idéia sobre o que fazer, para onde ir...

     —      Sim, mas e se o rádio também estiver transmitindo aquilo? — disse Alice. — É disso que eu estou falando. E se a gente sintonizar na freqüência que a minha... — Ela passou a língua nos lábios mais uma vez, e então voltou a mordiscar. — ... a minha mãe ouviu? E meu pai? Ele também, ah, sim, ele tinha um celular novinho em folha, com tudo a que tinha direito, vídeo, autodiscagem, conexão com a Internet, ele adorava aquela coisinha! — Ela deu uma risada que era ao mesmo tempo histérica e triste, uma combinação desconcertante. — E se vocês sintonizarem no que eles escutaram? Meus pais e aquelas pessoas lá fora? Vocês querem arriscar?

     A princípio, Tom ficou calado. Então falou, cuidadosamente, como se estivesse testando a idéia:

     —      Um de nós poderia arriscar. O outro sairia e esperaria até...

     —      Não — disse Clay.

     —      Por favor, não — disse Alice. Ela estava quase chorando de novo. — Eu quero vocês dois. Preciso de vocês dois.

     Eles ficaram diante do rádio, olhando para ele. Clay se viu pensando nos romances de ficção científica que lera quando adolescente (às vezes na praia, ouvindo Nirvana em vez de Van Halen no rádio). Em boa parte deles, o mundo acabava. E então os heróis o reconstruíam. Não sem lutas e contratempos, mas sim, eles usavam os apare-lhos e as tecnologias disponíveis e o reconstruíam. Não se lembrava de nenhum em que os heróis ficavam plantados em um quarto olhando para um rádio. Mais cedo ou mais tarde alguém vai usar um aparelho ou ligar um rádio, ele pensou, porque alguém vai ter que fazer isso.

     Sim. Mas não naquela manhã.

     Sentindo-se um traidor de algo maior do que podia entender, Clay pegou o estoura tímpanos de Tom, colocou-o de volta no armário e fechou a porta.

    

     Mais ou menos uma hora depois, a migração ordeira para o leste começou a se desmantelar. Clay estava de vigia, e Alice, na cozinha, comendo um dos sanduíches que eles haviam trazido de Boston — ela disse que eles tinham que acabar de comê-los antes de partirem para os enlatados na despensa de Tom, pois não sabiam quando encontrariam carne fresca de novo —, e Tom dormia na sala de estar, no sofá. Clay podia ouvi-lo roncar alegremente.

     Ele notou algumas pessoas andando contra o fluxo para o leste e então percebeu que a ordem se afrouxara um pouco na Salem Street. Era uma mudança tão sutil que seu cérebro registrou o que os olhos viram apenas como uma intuição. A princípio, ele achou que era uma falsa impressão causada pelos poucos errantes — mais desorientados ainda do que os outros — que seguiam na direção oeste, em vez de para o leste, mas então olhou para as sombras. O padrão que tinha observado antes começara a se distorcer. E logo já não havia padrão algum.

     Mais pessoas começaram a seguir na direção oeste, e algumas estavam mastigando comida roubada de algum mercado, provavelmente o Safeway que Tom mencionara. A nora do Sr. Scottoni, Judy, carregava um tubo gigante de sorvete de chocolate derretido, que cobria a frente do seu guarda-pó, lambuzando-a dos joelhos ao piercing no nariz; todo aquele chocolate no rosto a deixava parecida com aqueles atores brancos com a cara pintada de preto dos shows de antigamente. E, àquela altura, qualquer crença vegetariana que o Sr. Potowami possa ter tido um dia desaparecera, pois ele andava se refestelando em um grande punhado de carne de hambúrguer crua. Um gordo de terno sujo carregava o que parecia ser uma perna de carneiro parcialmente degelada e, quando Judy Scottoni tentou pegá-la, o gordo a usou para dar-lhe uma bela porrada no meio da testa. Ela caiu tão silenciosa quanto um bezerro abatido, batendo primeiro com a barriga grávida, em cima do tubo de chocolate Breyers praticamente destruído.

     Havia bastante pancadaria àquela altura, e bastante violência para acompanhar, mas nada que remetesse à selvageria da tarde anterior. Pelo menos não ali. No Centro Comercial de Malden, o alarme, que começara fraco, já tinha parado de soar há muito. Ao longe, tiros continuavam a pipocar esporadicamente, mas ele não ouvira nada próximo desde aquele disparo isolado vindo do centro da cidade. Clay ficou de olho para ver se algum dos lunáticos tentaria invadir uma das casas, mas, embora às vezes andassem pelos gramados, nenhum deu sinal de evoluir de invasão de propriedade para invasão de domicílio. Na maior parte do tempo, limitavam-se a vagar, às vezes tentavam roubar a comida um do outro e, de vez em quando, brigavam e se mordiam. Três ou quatro — a nora de Scottoni entre eles — estavam caídos na rua, mortos ou inconscientes. Clay imaginava que, graças a Deus, a maioria dos que tinham passado pela casa de Tom mais cedo ainda estava na praça central, fazendo um baile de rua ou talvez o Primeiro Festival Anual de Carne Crua de Malden. Porém, a maneira como aquele ar de propósito — aquele ar de bando — parecia ter afrouxado e desaparecido era estranha.

     Depois do meio-dia, quando Clay começou a se sentir muito sonolento, ele foi até a cozinha e encontrou Alice cochilando na mesa com a cabeça entre os braços. Ela segurava com os dedos frouxos o pequeno tênis, aquele que chamara de Nike de bebê. Quando ele a acordou, ela olhou grogue para o sapatinho e o trouxe para junto do peito, agarrando-o como se temesse que Clay tentasse levá-lo embora.

     Ele perguntou se Alice poderia vigiar um pouco do fim do corredor sem pegar no sono de novo ou ser vista. Ela disse que sim. Clay confiou na palavra da garota e levou uma cadeira para ela. Alice parou por um instante na porta da sala de estar.

     —      Olhe só — ela disse.

     Clay olhou para dentro da sala por sobre o ombro dela e viu que Rafe, o gato, estava dormindo na barriga de Tom. Clay resmungou, achando divertido.

     Alice se sentou onde ele colocara a cadeira, longe o bastante da porta para que quem olhasse para a casa da rua não conseguisse vê-la. Depois de olhar para fora só uma vez, ela falou:

     —      Eles não estão mais em bando. O que aconteceu?

     —      Não sei.

     —      Que horas são?

     Ele olhou para o relógio.

     —      Meio-dia e vinte.

     —      Que horas você percebeu que eles estavam em bando?

     —      Não sei, Alice. — Estava tentando ser paciente com ela, mas mal conseguia manter os olhos abertos. — Seis e meia? Sete? Não sei. Qual é a importância?

     —      Seria muito bom se pudéssemos calcular o padrão deles, você não acha?

     Ele respondeu que pensaria naquilo depois de dormir um pouco.

     —      Só algumas horas, então me acorde ou ao Tom — ele disse. — Mais cedo, se acontecer alguma coisa de errado.

     —      Não pode dar muito mais errado do que isso — ela falou baixinho. — Vá lá pra cima. Você está um trapo.

     Ele subiu até o quarto de hóspedes, tirou os sapatos e se deitou. Pensou por um instante no que ela falara. Se pudéssemos calcular o padrão deles. Talvez fosse uma boa idéia. Pouco provável, mas talvez...

     Era um quarto agradável, muito agradável, bem ensolarado. Deitado em um quarto como aquele, era fácil esquecer que havia um rádio no armário que você não tinha coragem de ligar. Já não era tão fácil esquecer que a sua mulher, que você ainda amava apesar da separação, poderia estar morta, e seu filho — que você não só amava, mas adorava — poderia estar louco. Ainda assim, o corpo tem seus imperativos, não é mesmo? E aquele era o quarto ideal para uma soneca à tarde. O rato surtado se contorceu, mas não fincou os dentes, e Clay dormiu quase imediatamente após fechar os olhos.

    

     Daquela vez foi Alice quem o acordou. Enquanto ela o sacudia, o pequeno tênis roxo balançava para frente e para trás. Ela o amarrara em volta do pulso esquerdo, transformando-o em um talismã muito sinistro. A luz no quarto havia mudado. Fora para o outro lado e diminuíra. Ele tinha virado na cama e precisava urinar, um sinal confiável de que dormira por um bom tempo. Sentou-se depressa e ficou surpreso — quase pasmo — ao ver que eram 18hl5. Tinha dormido mais de cinco horas. Porém, a noite anterior não havia sido a primeira de sono entrecortado; também dormira mal na noite retrasada. Nervosismo, por conta da reunião com o pessoal da Dark Horse comics.

     —      Está tudo bem? — ele perguntou, pegando-a pelo pulso. — Por que me deixou dormir tanto?

     —      Porque você precisava — ela respondeu. — Tom dormiu até as duas e eu dormi até as quatro. Ficamos vigiando juntos até agora. Desça e venha ver. É bem impressionante.

     —      Eles estão em bando de novo?

     Ela assentiu.

     —      Mas agora estão indo para o outro lado. E não é só isso. Venha ver.

     Ele esvaziou a bexiga e desceu correndo as escadas. Tom e Alice estavam parados na porta da varanda com os braços em volta um do outro. Já não havia necessidade de se esconder; o céu se encobrira e a varanda de Tom estava imersa em sombras. De qualquer maneira, havia poucas pessoas na Salem Street. Todas estavam indo para o oeste, sem correr, mas num ritmo constante. Um grupo de quatro passou pelo meio da rua, marchando sobre vários corpos esparramados e um monte de sobras de comida, que incluíam a perna de carneiro, agora roída até o osso; um mar de sacolas de celofane rasgadas e caixas de papelão, além de frutas e vegetais jogados fora. Atrás deles, veio um grupo de seis, os últimos usando as calçadas. Não olhavam uns para os outros, mas estavam tão perfeitamente juntos que, quando passaram pela casa de Tom, pareceram por um instante ser um homem só, e Clay notou que até seus braços balançavam em uníssono. Depois deles, veio um rapaz de uns 14 anos, mancando, soltando mugidos inarticulados e tentando alcançá-los.

     —      Eles deixaram para trás os mortos e os que estavam completamente inconscientes — disse Tom —, mas ajudaram alguns que estavam se mexendo.

     Clay procurou a grávida e não a viu.

     —      E a Sra. Scottoni?

     —      Foi uma das que eles ajudaram — disse Tom.

     —      Então eles voltaram a agir feito gente?

     —      Não se engane — disse Alice. — Um dos homens que eles tentaram ajudar não conseguia andar e, depois que ele caiu algumas vezes, um dos caras que o estava levantando cansou de fazer papel de escoteiro e simplesmente...

     —      Matou o sujeito — disse Tom. — E não foi com as mãos, como o cara no jardim. Foi com os dentes. Rasgou a garganta dele.

     —      Eu vi o que estava para acontecer e desviei o olhar — disse Alice —, mas ouvi. Ele... guinchou.

     —      Calma — disse Clay. Ele apertou o braço dela com delicadeza. — Acalme-se.

     As ruas tinham ficado quase vazias. Mais dois homens aparece-ram e, embora estivessem andando quase lado a lado, mancavam tanto que não havia impressão de uníssono entre eles.

     —      Para onde eles estão indo? — perguntou Clay.

     —      Alice acha que estão procurando abrigo — respondeu Tom, parecendo empolgado. — Antes de anoitecer. Talvez ela tenha razão.

     —      Onde? Onde fica o abrigo deles? Vocês viram algum entrar nas casas deste quarteirão?

     —      Não — os dois falaram juntos.

     —      Nem todos voltaram — disse Alice. — Com certeza nem todo mundo que desceu a Salem Street hoje de manhã voltou. Então um monte ainda deve estar no Centro Comercial de Malden, ou mais adiante. Talvez tenham sido atraídos para locais públicos, como quadras esportivas escolares.

     Quadras esportivas escolares. Clay não gostou daquilo.

     —      Você viu aquele filme, Despertar dos Mortos! — ela perguntou.

     —      Vi — respondeu Clay. — Não vai me dizer que deixaram você ver.

     Ela olhou para Clay como se ele fosse maluco. Ou velho.

     —      Um dos meus amigos tem o DVD. A gente assistiu quando estava na oitava série. — Na época em que o Correio ainda era a cavalo e as planícies eram cheias de búfalos, dizia o tom dela. — Nesse filme, todos os mortos... bem, nem todos, mas um monte deles... voltam para o shopping depois que acordam.

     Por um instante, Tom McCourt olhou para ela com os olhos arregalados, então disparou a rir. E não era uma risadinha, e sim uma série de gargalhadas, um riso tão forte que ele teve que recostar no muro para se apoiar, e Clay achou que seria melhor fechar a porta entre o corredor e a varanda. Não dava para saber quão bem aquelas criaturas que subiam a rua escutavam; tudo em que conseguia pensar naquele momento era na audição extremamente aguçada do narrador louco do conto "O coração delator", de Poe.

     —      Era o que eles faziam — disse Alice, colocando as mãos nas cadeiras. O tênis de bebê balançou. — Iam direto para o shopping.

     Tom riu mais forte ainda. Os joelhos dele dobraram e ele escorregou lentamente até o chão do corredor, urrando e batendo com as mãos na camisa.

     —      Eles morreram... — falou arquejando — ... e voltaram... para ir ao shopping. Jesus Cristo, será que Jerry F-Falwell...7 — Teve outro acesso de riso. Lágrimas desciam aos borbotões pelo seu rosto. Ele conseguiu se controlar o bastante para terminar a piada: — Será que Jerry Falwell sabe que o paraíso fica no shopping Newcastle?

     Clay também começou a rir. Alice também, embora Clay achasse que ela estava um pouco irritada por sua referência não ter sido recebida com interesse ou mesmo com risos comedidos, mas com gargalhadas. Porém, quando as pessoas começam a rir, é difícil não se juntar a elas. Mesmo quando se está irritado.

     Quando estavam quase parando, Clay disse, sem motivo aparente:

     —      If heaven ain't a lot like Dixie, I don't want to goes.8

     E começaram a rir de novo, todos os três. Alice ainda estava rindo quando falou:

     —      Se eles estão em bando e indo passar a noite em quadras esportivas, igrejas e shoppings, é possível metralhálos às centenas.

     Clay foi o primeiro a parar de rir. Depois Tom parou e olhou para ela, secando o bigodinho bem aparado com a mão.

     Alice assentiu. As risadas tinham corado suas faces e ela ainda estava sorrindo. Havia passado de bonitinha para uma verdadeira beldade.

     —      Talvez aos milhares, se estiverem todos indo para o mesmo lugar.

     —      Meu Deus — disse Tom. Ele tirou os óculos e começou a limpá-los também. — Você não brinca em serviço.

     —      É uma questão de sobrevivência — disse Alice casualmente. Ela baixou os olhos para o tênis amarrado no pulso e então olhou para os homens. Assentiu mais uma vez. — Temos que calcular o padrão deles. Descobrir se eles estão em bando e quando estão em bando. Se estão buscando abrigo e onde estão se abrigando. Porque se pudermos calcular o padrão...

    

     Clay os conduzira para fora de Boston, mas quando os três saíram da casa na Salem Street cerca de 24 horas mais tarde, não havia dúvida de que era Alice Maxwell, de 15 anos de idade, quem estava no comando. Quanto mais Clay pensava naquilo, menos surpreso ficava.

     Não faltava a Tom o que os primos ingleses dele chamavam de colhões, mas ele não era e nunca seria um líder nato. Clay tinha algumas qualidades de liderança, mas naquela tardinha Alice tinha uma vantagem a mais, além da inteligência e desejo de sobreviver: sofrerá perdas e começava a superá-las. Ao deixar a casa na Salem Street, os dois homens estavam lidando com novas privações. Clay começara a sentir uma depressão bastante assustadora que, a princípio, creditou simplesmente à decisão — inevitável, é verdade — de deixar o portfolio para trás. No entanto, à medida que a noite avançava, ele percebeu que era um medo profundo do que poderia encontrar se e quando chegasse a Kent Pond.

     Para Tom, era mais simples. Ele odiava ter que abandonar Rafe.

     —      Deixe a porta aberta para ele — disse Alice, a nova e mais durona Alice, que a cada minuto que passava parecia mais decidida. — É muito provável que ele fique bem, Tom. Têm mantimentos de sobra por aí. Vai demorar muito até os gatos morrerem de fome ou os fonáticos terem que recorrer à carne de gato.

     —      Ele vai ficar selvagem — disse Tom. Estava sentado no sofá da sala de estar, elegante e triste com sua capa de chuva com cinto e chapéu de feltro. Rafer estava no colo dele, ronronando e parecendo entediado.

     —      É, é isso que eles fazem — disse Clay. — Pense em todos os cachorros, os pequenininhos e os grandes demais, que vão simplesmente morrer.

     —      Ele está comigo há tanto tempo. Desde que era filhote, na verdade. — Tom ergueu os olhos, e Clay viu que o homem estava à beira das lágrimas. — E além disso, acho que penso nele como meu amuleto da sorte. Meu talismã. Ele salvou minha vida, lembra?

     —      Agora nós somos o seu talismã — disse Clay. Não quis lembrar que ele também quase certamente já salvara a vida de Tom, mas era verdade. — Certo, Alice?

     —      Sim, senhor — ela disse. Tom tinha encontrado um poncho para Alice, e ela carregava uma mochila nas costas, embora não tivesse nada dentro além de pilhas para as lanternas... e, Clay tinha quase certeza, aquele sapatinho sinistro, que pelo menos não estava mais amarrado no pulso dela. Clay também estava carregando pilhas na sua mochila, e um lampião. Alice sugeriu que não levassem mais nada. Disse que não havia motivo para carregar o que poderiam pegar no caminho. — Nós somos os Três Mosqueteiros, Tom; um por todos e todos por um. Agora vamos até a casa dos Nickleby ver se conseguimos arranjar uns mosquetes.

     —      Nickerson. — Ele ainda estava acariciando o gato.

     Ela era esperta o suficiente, e talvez sensível o suficiente também, para não dizer algo como "tanto faz"; mas Clay notou que a paciência dela estava chegando ao limite. Ele disse:

     —      Tom. Temos que ir.

     —      É, acho que sim. — Ele começou a afastar o gato, então o apanhou e deu-lhe um beijo forte entre as orelhas. Rafe suportou aquilo apertando um pouco os olhos. Tom o largou no sofá e ficou parado. — Dose dupla de ração na cozinha, do lado do fogão, amigo — ele falou. — E mais uma tigela grande de leite, com o resto do creme nele de lambuja. A porta dos fundos está aberta. Tente se lembrar onde fica a sua casa, e talvez... ei, talvez a gente volte a se ver.

     O gato pulou para o chão e foi em direção à cozinha com o rabo levantado. E, fiel à sua natureza, não olhou para trás.

     O portfolio de Clay, envergado e com um vinco horizontal que ia para os dois lados a partir do meio, onde a faca tinha cortado, estava recostado na parede da sala. Clay olhou para ele no caminho e resistiu à vontade de tocá-lo. Pensou por um instante nas pessoas lá dentro que viviam com ele há tanto tempo, tanto em seu pequeno estúdio quanto no território muito mais amplo (modéstia à parte) da sua imaginação: Flak, o Mago; Gene Dorminhoco; Jumping Jack Flash; Sally Venenosa. E o Dark Wanderer, é claro. Dois dias atrás, ele achou que aqueles personagens seriam estrelas. Agora eles tinham um buraco no meio e o gato de Tom para fazer companhia.

     Ele pensou em Gene Dorminhoco saindo da cidade montado em Robbie, o Cavalo-robô, dizendo: Até lo-logo amimigos! Tatatalvez eu vo-volte um um-dia!

     —      Até logo, amigos — ele falou em voz alta; um pouco constrangido, mas não muito. Afinal de contas, não era o fim do mundo. Não era uma grande despedida, mas teria que servir... E Gene Dorminhoco também teria dito: Dó-dói mamais que u-um fefer-ferrete em brabrasa bebem no o-olho.

     Clay saiu para a varanda atrás de Alice e Tom, adentrando o som da chuva fraca de outono.

    

     Tom estava com o seu chapéu de feltro, o poncho de Alice tinha capuz, e Tom achara para Clay um boné dos Red Sox que manteria sua cabeça seca pelo menos por um tempo, se a chuva não ficasse mais forte. E se ficasse... bem, havia mantimentos de sobra, como apontara Alice. Isso certamente incluía acessórios para tempo ruim. Do altinho da varanda, eles conseguiam ver quase duas quadras inteiras da Salem Street. Era impossível ter certeza com o dia escurecendo, mas ela parecia completamente deserta, exceto por alguns corpos e restos de comida que os lunáticos tinham deixado para trás.

     Cada um dos três carregava uma faca nas bainhas que Clay tinha feito. Se Tom estivesse certo em relação aos Nickerson, logo estariam mais bem fornidos. Clay esperava que sim. Talvez conseguisse usar de novo o cutelo da Soul Kitchen, mas ainda não tinha certeza se conseguiria fazê-lo a sangue frio.

     Alice trazia uma lanterna na mão esquerda. Ela olhou para se certificar de que Tom também estava com uma e assentiu.

     —      Ok — ela disse. — Leve a gente até a casa dos Nickerson, certo?

     —      Certo — respondeu Tom.

     —      E, se virmos alguma pessoa no caminho, paramos no ato e jogamos a luz em cima dela. — Ela olhou um pouco nervosa para Tom e depois para Clay. Já tinham passado por aquilo. Clay imaginou que ela agia daquele mesmo jeito obsessivo antes de provas importantes... e sem dúvida aquela era uma delas.

     —      Certo — disse Tom. — Nós falamos: "Nossos nomes são Tom, Clay e Alice. Somos normais. Como vocês se chamam?"

     Clay falou:

     —      Se eles tiverem lanternas iguais às nossas, podemos praticamente supor...

     —      Nós não podemos supor nada — ela disse agitada, quase se exaltando. — Meu pai diz que supor é coisa de gente idiota.

     —      Tudo bem — disse Clay.

     Alice esfregou os olhos, e Clay não soube dizer se foi para limpar a água da chuva ou lágrimas. Ele imaginou, por um doloroso instante, se Johnny estaria em algum lugar chorando por ele naquele momento. Clay esperava que sim. Esperava que o filho ainda fosse capaz de chorar. E de se lembrar das coisas.

     —      Se eles responderem e falarem os nomes, estão bem e provavelmente podemos confiar neles — disse Alice. — Certo?

     —      Certo — respondeu Clay.

     —      É — concordou Tom, um pouco distante. Estava olhando para a rua, onde não havia ninguém e nenhuma luz de lanterna se mexendo, perto ou longe de onde estavam.

     Em algum lugar mais afastado, tiros pipocaram. Pareciam fogos de artifício. O ar fedia a queimado e coisas carbonizadas, e tinha sido assim o dia todo. Clay achou que o cheiro estava mais forte por conta da chuva. Ele imaginou quanto tempo levaria para o bafio de carne em decomposição que pairava sobre a Grande Boston se transformar em uma fedentina. Calculava que iria depender do calor que fizesse nos próximos dias.

      —      Se encontrarmos pessoas normais e elas perguntarem quem somos, o que estamos fazendo ou para onde estamos indo, lembrem-se do que combinamos — ela falou.

     —      Estamos procurando sobreviventes — disse Tom.

     —      Isso mesmo. Porque eles são nossos amigos e vizinhos. Qualquer pessoa que encontrarmos vai estar só de passagem. Ela vai querer seguir adiante. Mais tarde, talvez seja melhor nos juntarmos a outras pessoas normais, porque quanto mais gente, mais segurança, mas por enquanto...

     —      Por enquanto nós vamos pegar aquelas armas — disse Clay.

     — Se elas estiverem lá. Vamos logo com isso, Alice.

     Ela olhou com preocupação para ele.

     —      O que houve? O que eu fiz de errado? Pode me falar, eu sei que sou só uma menina.

     Calmamente, com toda a paciência que nervos que pareciam cordas de guitarra esticadas demais permitiram, Clay falou:

     —      Não tem nada de errado, querida. Eu só quero resolver isso logo. De qualquer maneira, não acho que vamos encontrar ninguém. Acho que está cedo demais pra isso.

     —      Espero que você tenha razão — ela disse. — Meu cabelo está horrível e eu quebrei uma unha.

     Os dois olharam para Alice em silêncio por um instante e então riram. Depois daquilo as coisas melhoraram entre eles e continuaram boas até o fim.

    

     — Não — disse Alice. Ela golfou. — Não. Não vou conseguir. — Uma golfada mais forte. — E então: — Vou vomitar, desculpe.

     Ela se afastou correndo da luz do lampião e adentrou a escuridão da sala de estar dos Nickerson, que era separada da cozinha por um grande arco. Clay ouviu o som abafado dos joelhos de Alice batendo no carpete, seguido por mais golfadas. Uma pausa, um arquejo e ela estava vomitando. Ele se sentiu quase aliviado.

     —      Oh, Cristo — disse Tom. Ele inspirou longamente, com muito esforço, e então falou em um jorro de ar vacilante que era quase um uivo. — Oh, Criiiiiisto.

     —      Tom — disse Clay. Ele viu que o homenzinho estava cambaleando e prestes a desmaiar. Por que não? Aqueles restos sanguinolentos tinham sido seus vizinhos.

     —      Tom! — Ele pisou entre Tom e os dois corpos no chão da cozinha, entre Tom e a maior parte do sangue derramado, que parecia tão preto quanto nanquim sob a luz branca e inclemente do lampião. Deu tapinhas no rosto de Tom com a mão livre. — Não desmaie!— E quando viu que Tom estava com os pés firmes, baixou um pouco a voz. — Vá até a sala e cuide de Alice. Deixe a cozinha comigo.

     —      Por que você quer entrar lá? — perguntou Tom. — Aquela é Beth Nickerson com os miolos... com os mimiolos espalhados... — Ele engoliu saliva. A garganta dele fez um clique alto. — O rosto dela está quase todo destruído, mas dá pra reconhecer o avental azul com flocos de neve. E aquela é a Heidi caída na ilha do meio. A filha deles. Posso reconhecê-la, mesmo com... — Ele balançou a cabeça, como se quisesse clareá-la, e então repetiu: — Por que você quer entrar lá?

     —      Tenho quase certeza de que estou vendo o que a gente veio pegar — disse Clay. Ele estava pasmo com a calma que parecia transmitir.

     —      Na cozinha!

     Tom tentou olhar mais adiante, e Clay saiu da frente.

     —      Confie em mim. Vá cuidar de Alice. Se ela tiver condições, vocês dois podem começar a procurar mais armas. Gritem se acharem alguma coisa. E tenham cuidado, o Sr. Nickerson também pode estar por aqui. Quero dizer, podemos supor que ele estava no trabalho quando tudo isso aconteceu, mas como diz o pai da Alice...

     —      Supor é coisa de gente idiota — disse Tom. Ele conseguiu sorrir debilmente. — Beleza. — Começou a ir para o outro lado, e então voltou. — Não quero saber para onde vamos, Clay, mas não quero ficar aqui mais do que o necessário. Não morria de amores por Arnie e Beth Nickerson, mas eles eram meus vizinhos. E me tratavam muito melhor do que aquele babaca do Scottoni.

     —      Combinado.

     Tom ligou sua lanterna e seguiu para a sala de estar dos Nickerson. Clay o ouviu murmurando para Alice, tranqüilizando-a.

     Criando coragem, Clay foi em direção à cozinha com o lampião erguido, desviando das poças de sangue no piso de madeira. Ele já tinha secado, mas mesmo assim Clay queria pisar no mínimo possível.

     A garota deitada de costas na ilha do meio era alta, mas tanto os rabos-de-cavalo quanto as extremidades do corpo sugeriam que se tratava de uma criança dois ou três anos mais nova do que Alice. A cabeça dela estava em um ângulo forçado, quase imitando um sinal de interrogação, e seus olhos mortos estavam arregalados. O cabelo era de um louro sujo, mas as mechas do lado esquerdo da cabeça — o lado que havia levado a pancada que a matara — tinham ficado todas da mesma cor marrom-escura das manchas no chão.

     A mãe dela estava recostada debaixo do balcão à direita do fogão, onde os simpáticos armários de cerejeira se juntavam, formando um ângulo. As mãos estavam fantasmagoricamente brancas de farinha e as pernas ensangüentadas e mordidas, abertas de maneira indecorosa. Uma vez, antes de começar a trabalhar em uma revista de tiragem limitada chamada Inferno da Guerra, Clay acessou uma série de fotos de mortes por armas de fogo na Internet, achando que poderia encontrar algo de útil. Não encontrou nada. As lesões por armas de fogo possuíam uma terrível linguagem própria, e lá acontecia a mesma coisa. Beth Nickerson era basicamente uma mistura de líquidos e cartilagem do olho esquerdo para cima. O olho direito rolara até a parte de cima da órbita, como se ela tivesse morrido tentando olhar dentro da própria cabeça. O cabelo da nuca e uma boa quantidade de massa encefálica estavam emplastados no armário de cerejeira no qual ela recostara em seus breves instantes de agonia. Algumas moscas voavam ao seu redor.

     Clay começou a golfar. Virou a cabeça e cobriu a boca. Disse a si mesmo para manter o controle. Na sala, Alice tinha parado de vomitar — na verdade, ele conseguia ouvi-la conversando com Tom enquanto os dois entravam mais na casa — e Clay não queria que ela voltasse por causa dele.

     Pense neles como manequins, bonecos em um filme, ele disse a si mesmo, mas sabia que era impossível.

     Quando se virou de volta, procurou olhar para as outras coisas no chão. Aquilo ajudou. Já tinha visto a arma. A cozinha era espaçosa e a arma estava na outra extremidade, entre a geladeira e um dos armários, com o tambor para fora. O primeiro impulso que teve ao ver a mulher e a menina mortas foi desviar o olhar; ele parou no tambor da arma por acidente.

     Mas talvez eu já soubesse que tinha que haver uma arma ali.

     Ele até viu onde ela ficava antes: em um suporte na parede entre a tevê embutida e o abridor de latas industrial. Eles são tão doidos por engenhocas quanto por armas, Tom tinha dito, e uma arma pendurada em um suporte na cozinha pronta para pular na sua mão... ora, se aquilo não era o melhor de dois mundos, o que era?

     —      Clay? — Era Alice. Chamando de longe.

     —      O quê?

     Em seguida veio o som de pés subindo depressa um lance de escadas, e depois Alice chamando da sala de estar.

     —      Tom falou que você pediu pra gente avisar se achasse alguma coisa. Acabamos de achar. Deve ter uma dúzia de armas no gabinete do andar de baixo. Tanto rifles quanto pistolas. Estão em um armário com um adesivo de uma empresa de alarmes, então a gente vai acabar sendo preso... foi uma piada. Você está vindo?

     —      Já vou, querida. Não venha para cá.

     —      Não se preocupe. Você é que tem que sair daí para não passar mal.

     Ele estava além de passar mal, muito além. Havia dois objetos caídos no chão de madeira ensangüentado da cozinha dos Nickerson. Um era um rolo de massa, o que fazia sentido. Havia uma forma de torta, uma tigela e uma lata amarela com FARINHA escrito na ilha do meio. O outro objeto no chão, que estava mais ou menos perto de uma das mãos de Heidi Nickerson, era um celular de que somente uma adolescente poderia gostar; azul e cheio de margaridas laranja e grandes decalcadas.

     Clay conseguia entender o que tinha acontecido, por menos que quisesse. Beth Nickerson está fazendo uma torta. Será que ela sabe que algo terrível começou a acontecer na Grande Boston, na América, talvez no mundo? Está passando na tevê? Se estiver, a tevê não enviou uma mensagem para ela enlouquecer, Clay estava certo disso.

     Porém, a filha recebeu uma daquelas mensagens. Ah, recebeu. E Heidi atacou a mãe. Será que Beth Nickerson tentou discutir com a filha antes de derrubá-la com uma pancada do rolo de massa? Ou simplesmente bateu? Não por ódio, mas por conta da dor e do medo. Em todo caso, não foi suficiente. E Beth não estava de calças. Estava usando um vestido, e as pernas estavam nuas.

     Clay baixou a saia da morta. Com cuidado, cobrindo a calcinha simples, de ficar em casa, que ela sujara no fim.

     Heidi, que certamente não tinha mais de 14 anos, talvez 12, devia estar rosnando naquela língua selvagem e sem sentido que eles pareciam aprender imediatamente depois de receber a dose completa de Sai-Pra-Lá-Juízo dos celulares, dizendo coisas como rast e eilá e kazalá. O primeiro golpe do rolo de massa derrubou a menina, mas não a fez perder os sentidos, e ela começou a morder as pernas da mãe. E não foram mordidinhas, mas dentadas fundas, dilacerantes; algumas chegaram até o osso. Clay não via apenas marcas de dentes, mas também tatuagens apagadas, que deviam ter sido feitas pelo aparelho ortodôntico de Heidi. E então — provavelmente gritando, sem dúvida em agonia, e quase certamente sem se dar conta do que fazia — Beth Nickerson dera outro golpe, muito mais forte. Clay quase podia ouvir o som abafado do pescoço da menina quebrando. A filha adorada, morta no chão da cozinha moderna, com aparelho nos dentes e o celular moderno na mão estendida.

     E será que a mãe refletiu antes de arrancar a arma do suporte entre a tevê e o abridor de latas, onde estivera esperando há sabe-se lá quanto tempo por um ladrão ou estuprador aparecer naquela cozinha limpa e bem iluminada? Clay achava que não. Clay achava que ela não hesitou, que quis alcançar a alma da filha enquanto a explicação para o que fez ainda estava na ponta da sua língua.

     Clay andou até a arma e a pegou. De um fissurado em engenhocas como Arnie Nickerson, ele esperava uma automática — talvez até com mira a laser —, mas aquele era um bom e velho revólver Colt calibre 45. Clay pensou que fazia sentido. A mulher dele talvez se sentisse mais à vontade com aquele tipo de arma; sem aquela história de se certificar de que estava carregada se precisasse dela (ou perder tempo resgatando um pente de trás das espátulas ou dos temperos se não estivesse), e depois puxar o ferrolho para garantir que tem uma bala pronta na câmara. Não, com aquela belezinha bastava girar o tambor para fora, o que Clay fez sem problemas. Ele desenhara milhares de variações daquela mesma arma para o Dark Wanderer. Como tinha imaginado, apenas uma das seis câmaras estava vazia. Ele balançou o tambor para tirar uma das balas, sabendo exatamente o que iria encontrar. O calibre 45 de Beth Nickerson estava carregado com balas mortíferas altamente ilegais. Projéteis de ponta oca. Não era de se admirar que o topo da cabeça dela tivesse explodido. O impressionante era a cabeça ainda estar lá. Ele baixou os olhos para os restos da mulher recostada no canto e começou a chorar.

     —      Clay? — Era Tom, subindo as escadas do porão. — Cara, Arnie tinha de tudo! Tem uma automática que aposto que garantiria a ele umas férias na cadeia... Clay? Você está bem?

     —      Já estou indo — disse Clay, limpando os olhos. Travou o revólver e o enfiou no cinto. Então tirou a faca e a deixou no balcão de Beth Nickerson, ainda na sua bainha improvisada. Parecia que estavam fazendo uma troca. — Me dê mais dois minutos.

     —      Yo.

     Clay ouviu os passos de Tom descendo de volta para o depósito de armas de Nickerson e sorriu, apesar das lágrimas que desciam pelo seu rosto. Aquilo sim era algo digno de nota: mostre um porão cheio de armas para brincar a um gay bonzinho de Malden e ele começa a falar yo igual ao Sylvester Stallone.

     Clay começou a vasculhar as gavetas. Na terceira que abriu encontrou uma caixa vermelha pesada com os dizeres IM2-PENDEI! CALIBRE 45 50 TIROS. Estava embaixo dos panos de prato. Ele colocou a caixa no bolso e foi se juntar a Tom e Alice. Queria sair de lá naquele instante, e o mais rápido possível. O difícil seria tirá-los de lá sem que tentassem levar toda a coleção de armas de Nickerson junto.

     Quando chegou à metade do arco, ele parou e olhou para trás, segurando alto o lampião e fitando os corpos. Baixar a saia do avental da mulher não ajudou muito. Eles ainda eram apenas cadáveres, as feridas tão nuas quanto Noé quando seu filho o pegou de porre. Clay podia encontrar alguma coisa para cobri-los, mas se começasse a cobrir corpos, quando aquilo iria acabar? Quando? Quando chegasse a vez de Sharon? Do seu filho?

     —      Deus me livre — sussurrou Clay, duvidando que Deus o faria só porque ele pediu. Baixou a lanterna e seguiu os fachos de luz de Tom e Alice, que dançavam no andar de baixo.

    

     Os dois usavam cintos com pistolas de alto calibre nos coldres e aquelas eram automáticas. Tom também jogara uma cartucheira sobre o ombro. Clay não sabia se ria ou se começava a chorar de novo. Parte dele tinha vontade de fazer os dois ao mesmo tempo. É claro que se fizesse aquilo eles achariam que ele estava tendo um ataque histérico. E é claro que estariam certos.

     A tevê de plasma presa na parede do porão era grande — muito grande —, irmã da que estava na cozinha. Outra tevê, um pouco menor, tinha uma entrada para vários tipos de videogame que Clay, em um passado distante, adoraria ter examinado. Babado em cima, talvez.

     Para equilibrar, havia uma jukebox Seeberg no canto perto da mesa de pingue-pongue dos Nickerson, com todas as suas cores fabulosas apagadas e mortas. E, obviamente, havia os armários com as armas, dois, ainda trancados, mas com os vidros da frente quebrados.

     —      Eles tinham barras de proteção, mas Nickerson guardava uma caixa de ferramentas na garagem — disse Tom. — Alice usou um pé-de-cabra para quebrá-las.

     —      Foi moleza — disse Alice com modéstia. — Isso aqui estava na garagem atrás da caixa de ferramentas, enrolado em um pedaço de cobertor. É o que eu acho que é?

     —      Puta merda — falou Clay. — Isso é... — Ele apertou os olhos para ler as letras em altorelevo sobre o guardamato. — Acho que é russo.

     —      Tenho certeza que sim — disse Tom. — Você acha que é uma Kalashnikov?

     —      Sei lá. Vocês acharam balas para ela? Quero dizer, caixas com a mesma coisa que está escrita na arma?

     —      Meia dúzia. Caixas pesadas. É uma metralhadora, não é?

     —      Pode-se dizer que sim. — Clay moveu uma alavanca. — Tenho quase certeza de que uma dessas posições é para um tiro e a outra é para rajada.

     —      Quantos tiros ela dá por minuto? — perguntou Alice.

     —      Não sei — disse Clay —, mas acho que o certo é tiros por segundo.

     —      Uau. — Ela arregalou os olhos. — Será que você consegue aprender a usá-la?

     —      Alice, tenho certeza de que eles ensinam matutos de 16 anos de idade a usá-las. Sim, consigo aprender. Posso gastar uma caixa de munição, mas consigo aprender. — Por favor, Deus, não deixe que ela exploda nas minhas mãos, ele pensou.

     —      Um negócio desse é legal em Massachusetts? — ela perguntou.

     —      Agora é, Alice — disse Tom sem sorrir. — Vamos?

     —      Sim — disse ela, e então, talvez não se sentindo ainda totalmente confortável em ser a pessoa encarregada das decisões, olhou para Clay.

     —      Sim — disse ele. — Para o norte.

     —      Por mim, tudo bem — disse Alice.

     —      Isso — disse Tom. — Norte. Vamos nessa.

    

    

     ACADEMIA GAITEN

      

     Quando o dia chuvoso nasceu na manha seguinte, Clay, Alice e Tom estavam acampados no celeiro anexo a um haras abandonado em North Reading. Eles observaram da porta os primeiros grupos de gente doida aparecerem, formando bandos na rota 62 em direção a Wilmington. As roupas deles estavam uniformemente encharcadas e surradas. Alguns estavam descalços. Ao meio-dia, tinham sumido. Por volta das quatro, à medida que o sol surgiu por entre as nuvens em raios longos e entrecortados, eles começaram a se juntar novamente, voltando pelo caminho que tinham ido. Muitos estavam mastigando. Alguns ajudavam os que tinham dificuldade de andar sozinhos. Se houve assassinatos naquele dia, Clay, Tom e Alice não viram.

     Cerca de meia dúzia de lunáticos arrastava objetos grandes que Clay achava familiares; Alice encontrara um no armário do quarto de hóspedes de Tom. Os três tinham ficado parados diante dele, com medo de ligá-lo.

     —      Clay? — perguntou Alice. — Por que alguns deles estão carregando rádios?

     —      Não sei — respondeu ele.

     —      Não gosto disso — disse Tom. — Não gosto do fato de eles se juntarerm em bando, de estarem ajudando uns aos outros e muito menos de vê-los com esses mini systems.

     —      Só alguns estão com... — começou a falar Clay.

     —      Olhe só aquela lá — interrompeu Tom, apontando para uma mulher de meia-idade que mancava pela rodovia 62 abraçando um rádio/CD-player do tamanho de um pufe. Ela o segurava contra os seios como se fosse um bebê adormecido. O fio saía da parte de trás do aparelho e se arrastava na rua às suas costas. — E você não está vendo nenhum deles carregando lustres ou torradeiras, ou está? E se eles foram programados para montar rádios a pilha, ligá-los e começarem a transmitir aquele tom, pulso, mensagem subliminar ou o que quer que seja? E se quiserem pegar os que se safaram da primeira vez?

     Eles. O sempre popular e paranóico eles. Alice tirara o seu sapatinho de algum lugar e o apertava com a mão, mas quando falou a voz saiu calma o bastante.

     —      Não acho que seja o caso — disse ela.

     —      Por que não? — perguntou Tom.

     Ela balançou a cabeça.

     —      Não sei dizer. Mas não me parece que seja isso.

     —      Intuição feminina? — Ele estava sorrindo, mas sem tirar sarro.

     —      Talvez — disse ela —, mas acho que uma coisa é óbvia.

    

     —      O quê, Alice? — perguntou Clay. Ele tinha uma idéia do que ela iria falar e estava certo.

     —      Eles estão ficando mais espertos. Não individualmente, mas porque estão pensando juntos. Isso pode parecer loucura, mas acho mais provável do que eles estarem juntando um monte de mini systems a pilha para deixar todo mundo biruta.

     —      Pensamento coletivo por telepatia — disse Tom. Alice o observou enquanto ele considerava a hipótese. Clay, que já havia decidido que ela tinha razão, observou o fim do dia pela porta do celeiro. Estava pensando que precisavam parar em algum lugar para pegar um mapa rodoviário.

     Tom assentia.

     —      Ei, por que não? Afinal, é provavelmente isso que significa se movimentar em bando: pensamento coletivo por telepatia.

     —      Você acha mesmo ou está só falando para me...

     —      Acho mesmo — disse ele. Esticou o braço para tocar a mão dela, que passara a apertar o sapatinho depressa. — Acho mesmo, de verdade. Dê um descanso para essa coisa, sim?

     Ela deu um sorriso fugidio e distraído. Clay o viu e pensou mais uma vez em como ela era bonita, bonita de verdade. E como estava perto de um colapso.

     —      Aquele monte de feno parece macio e eu estou cansada. Acho que vou tirar um bom cochilo.

     —      Vai fundo — disse Clay.

     Clay sonhou que estava fazendo um piquenique com Sharon e Johnny-Gee nos fundos da casinha deles em Kent Pond. Sharon estendera seu cobertor navajo na grama. Comiam sanduíches e bebiam chá gelado. De repente, o dia ficou escuro. Sharon apontou para trás de Clay e disse: "Cuidado! Telepatas!" Mas quando ele se virou, viu apenas um bando de corvos, um deles tão grande que tapou o sol. Então uma melodia começou a soar. Parecia o caminhão do Mister Softee tocando o tema de Vila Sésamo, e Clay ficou apavorado no sonho. Virou-se e Johnny-Gee tinha sumido. Quando perguntou a Sharon onde ele estava — já com medo, sabendo qual seria a resposta —, ela disse que Johnny se enfiara embaixo do cobertor para atender o celular. Havia uma protuberância no cobertor. Clay entrou debaixo dele, sentindo o cheiro esmagador de feno. Gritou para Johnny não atender e esticou o braço para pegá-lo, mas encontrou apenas a circunferência fria de uma bola de vidro: o peso de papel que comprara na Pequenos Tesouros, o que tinha uma penugem de dente-de-leão enfiada bem no meio, flutuando como uma névoa de bolso.

     Então sentiu Tom sacudi-lo, dizendo que já passava das nove no relógio dele, que a lua estava no céu e que se quisessem andar mais um pouco, era melhor começarem logo. Clay nunca se sentira tão feliz em acordar. No geral, preferia os sonhos com a Tenda de Bingo.

     Alice estava olhando esquisito para ele.

     —      O que foi? — disse Clay, conferindo se as armas automáticas deles estavam travadas; aquilo já se tornara um hábito.

     —      Você falou dormindo. Ficou dizendo: "Não atenda, não atenda."

     —      Ninguém devia ter atendido — disse Clay. — Estaríamos todos muito melhor.

     —      Ah, mas quem resiste a um telefone tocando? — perguntou Tom. — E aí pronto, acabou a festa.

     — Assim falou a porra do Zaratustra — disse Clay.

     Alice riu até chorar.

     Com a lua entrando e saindo de trás das nuvens — como uma ilustração num livro infantil sobre piratas e tesouros escondidos, pensou Clay —, eles deixaram o haras para trás e retomaram a caminhada para o norte. Naquela noite, voltaram a encontrar outras pessoas iguais a eles.

     Porque essa é a nossa hora, pensou Clay, trocando o rifle automático de mãos. Totalmente carregado, era pesado pra cacete. O dia é dos fanáticos; quando as estrelas aparecem, é a nossa vez. Somos como vampiros. Fomos banidos para a noite. De perto, nos reconhecemos porque ainda conseguimos falar; a poucos passos, nos identificamos sem erro por conta das mochilas e das armas que cada vez mais de nós carregamos; porém, a distância, a única garantia é a luz oscilante de uma lanterna. Três dias atrás, não só dominávamos a Terra, como trazíamos a culpa dos sobreviventes em relação a todas as espécies que exterminamos na nossa escalada em direção ao nirvana dos canais de notícia a cabo 24 horas e da pipoca de microondas. Agora somos o Povo das Lanternas.

     Ele olhou para Tom.

     —      Para onde eles vão? — ele perguntou. — Para onde vão os lunáticos depois que o sol se põe?

     Tom olhou feio para ele.

     —      Para o pólo norte. Todos os gnomos morreram da doença da rena louca e esses caras estão dando uma força até a nova leva chegar.

     —      Meu Deus — disse Clay. — Alguém levantou pelo lado errado do monte de feno hoje.

     Porém, Tom continuou sem sorrir.

     —      Estou pensando no meu gato — disse ele. — Imaginando se ele está bem. Tenho certeza de que você deve achar isso uma idiotice.

     —      Não — disse Clay, embora achasse um pouco, já que tinha um filho e uma mulher para se preocupar.

      

     Conseguiram um mapa rodoviário em uma papelaria na cidade de dois semáforos de Ballardvale. Estavam seguindo na direção norte e bastante satisfeitos por terem decidido ficar no V mais ou menos bucólico entre as rodovias interestaduais 93 e 95. Os outros viajantes que encontraram — a maior parte deles indo para o oeste, para longe da I-95 — falavam de engarrafamentos e acidentes terríveis. Um dos poucos peregrinos que estavam indo para o leste disse que um carro tanque tinha batido perto da saída da I-93 para Wakefield e o fogo causara uma série de explosões que incineraram mais de um quilômetro e meio de carros que seguiam para o norte. O fedor, ele disse, era como "o de um churrasco no inferno".

     Encontraram mais membros do Povo das Lanternas à medida que se arrastavam pelos arredores de Andover e ouviram um boato tão recorrente que já era repetido com a segurança de um fato: a fronteira para New Hampshire estava fechada. A polícia estadual de New Hampshire e agentes especiais estavam atirando primeiro e fazendo perguntas depois. Sem se importarem se você estava maluco ou são.

     —      É só uma nova versão da porra do lema que eles têm naquelas merdas de placas de carro desde sempre — disse um idoso de expressão amarga que andou junto com eles por um tempo. Ele carregava uma pequena mochila em cima de um sobretudo caro e tinha uma lanterna de cilindro longo. A coronha de uma pistola saía do bolso do seu sobretudo. — Se você estiver em New Hampshire, tem o direito de viver livremente. Se quiser ir para New Hampshire, tem o direito é de morrer.9

     —      Isso é... difícil de acreditar — disse Alice.

     —      Acredite no que quiser, senhorita — falou o companheiro temporário deles. — Eu encontrei algumas pessoas que tentaram ir para o norte como vocês, e eles voltaram correndo para o sul quando viram algumas pessoas sendo alvejadas indiscriminadamente enquanto tentavam entrar em New Hampshire pelo norte de Dunstable.

     —      Quando? — perguntou Clay.

     —      Na noite passada.

     Clay pensou em fazer várias outras perguntas, mas, em vez disso, segurou a língua. Em Andover, o homem de expressão amarga e a maioria das pessoas que havia dividido com eles a mesma rota repleta de veículos (mas possível de atravessar) viraram para a rodovia I-33, em direção a Lowell e outros lugares a oeste. Clay, Tom e Alice ficaram na rua principal de Andover — deserta à exceção de alguns transeuntes com lanternas — com uma decisão a tomar.

     —      Você acredita nisso? — Clay perguntou a Alice.

     —      Não — respondeu ela e olhou para Tom.

     Tom balançou a cabeça.

     —      Nem eu. Para mim, a história dele é tipo aquela do crocodilo no esgoto.

     Alice assentia.

     —      As notícias já não se espalham tão rápido. Não sem telefones.

     —      É — disse Tom. — Essa é definitivamente a lenda urbana da próxima geração. Ainda assim, estamos falando sobre o que um amigo meu chama de New Hamster. O que me faz pensar que devíamos cruzar a fronteira pelo local mais escondido que conseguirmos achar.

     —      Boa idéia — disse Alice e, depois daquela conversa, eles voltaram a andar, usando a calçada enquanto ainda estavam na cidade e ainda havia uma calçada para usar.

     Nos arredores de Andover, um homem com um par de lanternas amarradas na cabeça por uma espécie de arreio (uma em cada têmpora) saiu da vitrine quebrada do supermercado IGA. Após acenar de maneira amistosa, veio em direção a eles, atravessando um congestionamento de carrinhos de compra enquanto jogava enlatados no que parecia uma sacola de jornaleiro. Parou do lado de uma picape virada de lado, se apresentou como Sr. Roscoe Handt, de Methuen, e perguntou para onde estavam indo. Quando Clay disse Maine, Handt balançou a cabeça.

   — A fronteira de New Hampshire está fechada. Encontrei duas pessoas há menos de meia hora que foram obrigadas a voltar. Disseram que eles estão tentando diferenciar os fonáticos das pessoas como a gente, mas sem se esforçarem muito.

     —      Essas duas pessoas viram isso acontecer com os próprios olhos? —    perguntou Tom.

     Roscoe Handt olhou para Tom como se ele fosse louco.

     —      A gente tem que acreditar na palavra dos outros, cara — disse ele. — Quero dizer, não dá para ligar para ninguém e verificar, não é? — Fez uma pausa. — Eles estão queimando corpos em Salem e Nashua, foi o que esses caras me disseram. E está fedendo feito um churrasco. Eles me falaram isso também. Estou levando um grupo de cinco para o oeste e queremos rodar alguns quilômetros antes de o sol nascer. O caminho para o oeste está livre.

     —      É o que estão dizendo por aí? — perguntou Clay.

     Handt olhou para ele com um leve desprezo.

     —      E o que estão dizendo, sim. E uma palavra basta para o sábio, minha mãe costumava dizer. Se quiserem mesmo ir para o norte, é melhor chegarem à fronteira no meio da noite. Os lunáticos não saem depois do anoitecer.

     —      Nós sabemos — disse Tom.

     O homem com as lanternas presas nos lados da cabeça ignorou Tom e continuou falando com Clay. Tomara-o como líder do trio.

     —      E eles não carregam lanternas. Balancem as suas. Falem. Gritem. Eles também não fazem essas coisas. Duvido que as pessoas na fronteira deixem vocês passarem, mas, se tiverem sorte, também não vão ser fuzilados.

     —      Eles estão ficando mais espertos — disse Alice. — O senhor sabe disso, não sabe Sr. Handt?

     Handt riu com desdém.

     —      Eles estão se deslocando em grupo e não estão mais matando uns aos outros. Não sei se isso os torna mais espertos ou não. Mas eles ainda estão matando a gente. Disso eu sei.

     Handt deve tér notado a dúvida no rosto de Clay, porque sorriu. A luz das lanternas transformou o sorriso em algo desagradável.

     —      Eu os vi pegarem uma mulher hoje de manhã — falou ele. — Com meus próprios olhos, certo?

     Clay assentiu.

     —      Certo.

     —      Acho que sei por que ela estava na rua. Foi em Topsfield, a uns 15 quilômetros daqui. Eu e o meu grupo estávamos em um Motel. Ela estava indo para lá. Mas não estava andando normal. Estava apertando o passo. Quase correndo. Olhando para trás. Eu a vi porque não conseguia dormir. — Ele balançou a cabeça. — Se acostumar a dormir de dia é foda.

     Clay pensou em dizer para Handt que todos eles iriam se acostumar, mas ficou quieto. Ele viu que Alice estava segurando seu talismã de novo. Não queria que ela ouvisse aquilo, mas sabia que era inevitável. Em parte porque era informação útil para a sobrevivência (e, ao contrário dos boatos sobre a fronteira de New Hampshire, ele tinha quase certeza de que aquela informação era verdadeira); em parte porque o mundo estaria cheio de histórias como aquelas por um tempo. Se ouvissem um bom número delas, algumas talvez começassem a convergir e gerar padrões.

     —      Provavelmente estava só procurando um lugar melhor para ficar. Nada mais que isso. Viu o Motel e pensou: "Ei, um quarto com cama. Bem ali, perto do posto Exxon. A uma quadra de distância." Mas antes de chegar à metade do caminho, um monte deles apareceu na esquina. Estavam andando... sabe como eles estão andando agora?

     Roscoe Handt veio na direção deles com o corpo duro, como um soldado de chumbo, com a sacola de jornaleiro balançando. Não era daquele jeito que os fonáticos andavam, mas eles sabiam o que ele queria mostrar e assentiram.

     —      E ela... — Ele recostou na picape virada e esfregou brevemente o rosto com as mãos. — É isso que eu quero que vocês entendam, ok? É por isso que vocês não podem se deixar enganar, não podem achar que eles estão ficando normais porque de vez em quando um deles dá a sorte de apertar os botões certos de um mini system e bota um CD para tocar...

     —      Você viu isso acontecer? — perguntou Tom. — Ouviu isso acontecer?

     —      Sim, duas vezes. O segundo cara que eu vi estava andando com um rádio, balançando o treco de um lado para o outro com tanta força que o CD estava pulando pra cacete, mas estava tocando. Então eles gostam de música, e é claro, talvez estejam reavendo alguns de seus parafusos, mas é por isso mesmo que vocês têm que ter cuidado, entendem?

     —      O que aconteceu com a mulher? — perguntou Alice. — A que se deixou enganar.

     —      Ela tentou fingir que era um deles — disse Handt. — E eu pensei, parado em frente à janela do quarto onde eu estava: "É isso aí, garota, talvez você tenha uma chance se continuar fingindo que é um deles para depois fugir, entrar em algum lugar." Porque eles não gostam de entrar nos lugares, já perceberam isso?

     Clay, Tom e Alice assentiram. O homem fez o mesmo.

     —      Eles entram, já vi acontecer, mas não gostam.

     —      Como identificaram a mulher? — Alice voltou a perguntar.

     —      Não sei direito. Sentiram o cheiro dela, sei lá.

     —      Talvez tenham conseguido ouvir os pensamentos dela — disse Tom.

     —      Ou não tenham conseguido — disse Alice.

     —      Disso eu não sei — falou Handt —, mas sei que eles a despedaçaram na rua. Quero dizer, literalmente fizeram picadinho dela.

     —      E quando isso aconteceu? — perguntou Clay. Ele viu que Alice estava vacilando e colocou um braço em volta dela.

     —      Às nove da manhã de hoje. Em Topsfield. Então, se você vir um bando deles subindo a estrada de Tijolos Amarelos com um mini system tocando Why Can't We Be Friends... — Ele os examinou com a cara fechada sob a luz das lanternas presas na cabeça. — Eu não sairia gritando sabe, é só o que tenho a dizer. — Ele fez uma pausa. — E também não iria para o norte. Mesmo se eles não atirarem em você na fronteira, é uma perda de tempo.

     Porém, depois de uma pequena conferência na entrada do estacionamento do IGA, eles foram para o norte assim mesmo.

     Eles pararam perto de North Andover, na passarela sobre a rota 495. As nuvens estavam voltando a ficar mais espessas, mas o luar as atravessava o suficiente para revelar seis pistas de tráfego silencioso. Perto da ponte em que eles estavam, nas pistas ao sul, um caminhão capotado jazia como um elefante morto. Estava cercado por cones laranja, o que mostrava que alguém pelo menos tomara uma atitude simbólica, e havia duas viaturas policiais depois deles, uma de cada lado. O caminhão estava estorricado da metade para trás. Não havia sinal de corpos, não sob a luz momentânea da lua. Algumas pessoas seguiam para o oeste pelo acostamento, mas mesmo lá o movimento era devagar.

     —      Isso meio que deixa as coisas mais reais, não é? — disse Tom.

     —      Não — disse Alice. Ela soava indiferente. — Para mim parece um efeito especial em algum filme arrasa quarteirão. Compre um balde de pipoca e uma Coca e veja o mundo acabar em... como eles chamam mesmo? Imagem gerada por computador? CGI? Fundo azul? Uma porra dessas. — Ela ergueu o sapatinho por um dos laços. — Isso é tudo o que preciso para deixar as coisas mais reais. Uma coisa pequena o bastante para carregar na mão. Vamos.

     Havia um monte de veículos abandonados na rodovia 28, mas comparada à 495 ela estava vazia. Às quatro, eles se aproximavam de Methuen, a cidade do Sr. Roscoe Handt, o homem das lanternas estéreo. Os três acreditavam na história de Handt o suficiente para quererem encontrar abrigo bem antes de o dia nascer. Escolheram um motel na interseção da 28 com a 110. Cerca de uma dúzia de carros estava parada em frente aos vários apartamentos, mas Clay achava que eles pareciam abandonados. E por que não estariam? Dava para passar pelas duas estradas, mas somente a pé. Clay e Tom pararam na entrada do estacionamento, balançando as lanternas no ar.

     —      Estamos bem! — gritou Tom. — Pessoas normais! Estamos entrando!

     Eles aguardaram. Não houve resposta do que a placa identificava como sendo o Sweet Valley Inn, Banheira Aquecida, HBO, Diárias Especiais.

     —      Vamos — disse Alice. — Meus pés estão doendo. E o dia está para nascer, não está?

     —      Olhem só isso — disse Clay. Ele pegou um CD da entrada para carros do motel e o iluminou com a lanterna. Era Love Songs, de Michael Bolton.

     —      E você ainda diz que eles estão ficando mais espertos — disse Tom.

     —      Não se precipite — disse Clay ao começarem a andar em direção aos apartamentos. — Quem quer que fosse o dono, jogou fora, não jogou?

     —      É mais provável que tenha perdido — disse Tom.

     Alice jogou a luz da lanterna dela sobre o CD.

     —      Quem é esse cara?

     —      Minha querida — disse Tom —, nem queira saber.

     Ele pegou o CD e jogou por sobre o ombro.

     Eles arrombaram as portas de três apartamentos contíguos — com o maior cuidado possível, para que pudessem pelo menos correr o ferrolho depois que entrassem — e, com camas para dormir, dormiram o dia quase inteiro. Não foram incomodados, embora Alice tenha dito naquela tarde que pensara ter ouvido música vindo de longe. Porém, ela admitiu, poderia ter sido de um sonho.

    

     Havia mapas mais detalhados do que o mapa rodoviário à venda no saguão do Sweet Valley Inn. Estavam dentro de um armário com porta de vidro que havia sido quebrado. Clay pegou um de Massachusetts e outro de New Hampshire, enfiando a mão com cuidado para não se cortar, e viu um rapaz deitado do outro lado do balcão da recepção ao fazê-lo. Os olhos dele fitavam sem ver. Por um instante, Clay achou que alguém tinha colocado um buquê de cor estranha na boca do cadáver. Então viu as pontas esverdeadas saindo das bochechas do rapaz morto e percebeu que elas eram da mesma cor dos estilhaços de vidro que cobriam as prateleiras do armário dos mapas. O cadáver usava um crachá que dizia MEU NOME É HANK, PERGUNTE-ME SOBRE OS PACOTES SEMANAIS. Clay pensou brevemente no Sr. Ricardi enquanto olhava para Hank.

      

     Tom e Alice esperavam por ele logo em frente à porta do saguão. Eram 21hl5 e estava um breu lá fora.

     —      O que você achou? — perguntou Alice.

     —      Esses aqui devem ajudar — disse ele. Entregou os mapas a Alice e então ergueu o lampião para que ela e Tom pudessem analisá-los, compará-los com o mapa rodoviário e planejar a viagem da noite. Ele estava tentando cultivar um senso de fatalidade em relação a Johnny e Sharon, tentando focar a mente na verdade nua e crua da situação atual da sua família: o que aconteceu em Kent Pond aconteceu. Ou o filho e a mulher estavam bem, ou não. Ou ele os encontraria, ou não.

     Nem sempre esse tipo de pensamento semi mágico dava resultado.

     Quando começava a falhar, ele dizia a si mesmo que tinha sorte de estar vivo, e isso sem dúvida era verdade. O que depunha contra a sua boa sorte era o fato de que ele estava em Boston, a mais de 150 quilômetros de Kent Pond pela via mais rápida (que definitivamente não era a que eles estavam pegando) quando o Pulso aconteceu. Mas ainda assim, encontrara pessoas boas. Isso não podia negar. Pessoas que ele podia considerar amigas. Várias outras — o Cara do Barril de Cerveja e a Senhora Gorducha da Bíblia, e o Sr. Roscoe Handt de Methuen também — não tiveram essa sorte.

     Se ele encontrou você, Share, se Johnny encontrou você, você tem que estar cuidando bem dele. Tem quê.

     Porém, e se ele estivesse com o telefone? E se tivesse levado o celular vermelho para a escola? Ele não poderia estar levando o aparelho com mais freqüência ultimamente? Porque quase todos seus coleguinhas levam os deles?

     Deus.

     —      Clay? Você está bem? — perguntou Tom.

     —      Claro. Por quê?

     —      Não sei. Você parece um pouco... soturno.

     —      O cara morto atrás do balcão. Não era nada bonito.

     —      Olhem só — disse Alice, seguindo uma linha no mapa. Ela serpeava pela fronteira do estado e então parecia se juntar à rota 38 de New Hampshire um pouco ao leste de Peham. — Acho que é uma boa. Se pegarmos essa rodovia aqui na direção oeste por uns 12 ou 14 quilômetros — ela apontou para a 110, onde a garoa fazia tanto os carros quanto o asfalto emitirem um brilho fraco —, a gente chega lá. O que vocês acham?

     —      Acho uma boa idéia — disse Tom.

     Ela olhou de Tom para Clay. Tinha guardado o sapatinho — provavelmente na mochila —, mas Clay percebia que ela queria apertá-lo. Ele pensou que ainda bem que Alice não era fumante, ela estaria à base de quatro maços por dia.

     —      Se a fronteira estiver vigiada... — ela começou a falar.

     —      Vamos nos preocupar com isso se houver necessidade — disse Clay, mas ele não estava preocupado. Ele iria para o Maine de qualquer maneira. Se isso significasse se arrastar no mato como um trabalhador ilegal cruzando a fronteira com o Canadá para colher maçãs em outubro, ele faria. Se Tom e Alice decidissem ficar para trás, azar. Ele ficaria triste em deixá-los... mas seguiria adiante. Porque tinha que saber.

     A tortuosa linha vermelha que Alice achara nos mapas do Sweet Valley tinha um nome — Dostie Stream Road — e estava quase toda livre. Era uma caminhada de pouco mais de 6 quilômetros até a fronteira, e eles não encontraram mais de cinco ou seis veículos abandonados e apenas um acidente. Também passaram por duas casas em que viram luzes acesas e ouviram o barulho de geradores. Pensaram em parar nelas, mas logo desistiram.

     —      Acabaríamos trocando tiros com algum sujeito a fim de defender a família e o lar — disse Clay. — Isso supondo que tenha alguém lá dentro. Aqueles geradores provavelmente estavam programados para ligar quando a energia do município caiu e vão continuar ligados até o gás acabar.

     —      Mesmo que tivessem pessoas sãs lá dentro e elas nos deixassem entrar, o que não seria nada sensato, o que a gente iria fazer? — disse Tom. — Pedir para usar o telefone?

     Eles discutiram a possibilidade de parar em algum lugar e pilhar um carro (pilhar foi a palavra que Tom usou), mas acabaram desistindo dessa idéia também. Se a fronteira estivesse sendo protegida por policiais ou vigilantes, chegar a ela em um Chevy Tahoe talvez não fosse a melhor saída.

     Então eles andaram e, obviamente, não havia nada na fronteira além de um outdoor (pequeno, adequado a uma estrada de asfalto de duas pistas que cruzava o interior) com os dizeres VOCÊ ESTÁ ENTRANDO EM NEW HAMPSHIRE e BIENVENUE! Os únicos sons que ouviam era o gotejar do orvalho nos bosques que os cercavam e o ocasional suspiro do vento. Talvez o ruído de algum animal se movendo. Eles pararam por um instante para ler a placa e seguiram em frente, deixando Massachusetts para trás.

     Qualquer sensação de estarem sozinhos acabou junto com a Dostie Stream Road, em uma placa que dizia ROTA 38 NH e MANCHESTER 30KM. Ainda havia poucos viajantes na 38, mas quando eles foram para a 128 — uma estrada larga, repleta de destroços, que levava quase diretamente ao norte —, meia hora depois, aquele fio d'água se transformou em um fluxo constante de refugiados. Em sua maioria, eles seguiam em pequenos grupos de três e quatro, com o que pareceu a Clay um desinteresse mesquinho por qualquer outra pessoa que não eles mesmos.

     Encontraram uma mulher de cerca de 40 anos e um homem talvez vinte anos mais velho empurrando carrinhos de compras, cada um com uma criança dentro. O que estava no carrinho do homem era um menino, grande demais para o transporte, embora tenha achado um jeito de se enrolar dentro dele e dormir. Enquanto Clay e seu grupo passavam por aquela família improvisada, uma roda se soltou do carrinho do homem. Ele tombou de lado, cuspindo o menino para fora, que parecia ter uns 7 anos de idade. Tom o agarrou pelo ombro e evitou o pior da queda, mas o garoto ralou um dos joelhos. E é claro que estava assustado. Tom o levantou do chão, mas o menino não o conhecia e tentou fugir, chorando mais forte ainda.

     —      Está tudo bem, obrigado. Nós o pegamos — disse o homem.

     Ele apanhou a criança e sentou no meio-fio com ela, onde o menino fez um escândalo sobre o que chamava de dodói, um termo que Clay achava que não ouvia desde que ele tinha 7 anos. O homem disse:

     —      Gregory vai dar um beijo e o dodói vai sarar.

     Ele beijou o machucado da criança e o menino deitou a cabeça no ombro do homem. Já iria voltar a dormir. Gregory sorriu para Tom e Clay e assentiu. Ele parecia quase morto de cansaço, um homem que na semana passada talvez fosse um sessentão em boa forma estava com a aparência de um judeu de 70 anos de idade, tentando dar o fora da Polônia enquanto ainda dava tempo.

     —      Nós vamos ficar bem — disse ele. — Podem ir agora.

     Clay abriu a boca para dizer: Por que não vamos todos juntos? Por que não nos juntamos? O que você acha, Greg? Era o tipo de coisa que os heróis dos romances de ficção científica que ele lera quando adolescente sempre diziam: Por que não nos juntamos?

     —      É, vão embora, o que vocês estão esperando? — perguntou a mulher antes que ele pudesse dizer aquilo ou qualquer outra coisa. No carrinho de compras dela, uma garota de uns 5 anos ainda dormia. A mulher ficou do lado do carrinho com um ar protetor, como se tivesse pegado um produto fabuloso em uma loja e temesse que Clay ou um de seus amigos tentassem arrancá-lo das suas mãos. — Estão achando que a gente tem alguma coisa que vocês querem?

     —      Pare, Natalie — disse Gregory com uma paciência cansada.

     Mas Natalie não parou, e Clay percebeu o que era tão deprimente naquela pequena cena. Não era o fato de estar levando um esporro — na calada da noite — de uma mulher cujo esgotamento e terror levara à paranóia; isso era compreensível e perdoável. O que acabou com o ânimo dele foi a maneira como as pessoas simplesmente continuavam andando, balançando as lanternas e falando baixo entre si em seus grupinhos, trocando as malas de uma mão para outra. Algum pitboy em uma minimoto elétrica subiu a rua desviando dos destroços e passando por cima dos entulhos, e as pessoas abriram caminho para ele, resmungando de raiva. Clay pensou que não faria diferença se o garotinho tivesse caído do carrinho e quebrado o pescoço, em vez de apenas ralado o joelho. Pensou que tampouco faria diferença se aquele gordo lá na frente, andando ofegante pelo acostamento com uma mochila sobrecarregada, desabasse por conta de uma trombose coronária.

     Ninguém nem se deu o trabalho de gritar: É isso aí, moça! ou Ei, cara, por que você não manda essa mulher calar a boca? Simplesmente continuaram andando.

     —      ... porque essas crianças são tudo o que eu tenho, uma responsabilidade que não pedimos quando mal conseguimos tomar conta de nós mesmos. Ele tem um marca-passo, você pode me dizer o que a gente vai fazer quando a pilha acabar? E agora essas crianças! Você quer uma criança? — Ela olhou ao redor freneticamente. — Ei! Alguém quer uma criança?

     A garotinha começou a se mexer.

     —      Natalie, você está perturbando Portia — disse Gregory.

     A mulher chamada Natalie começou a rir.

     —      Bem, azar o dela! O mundo é perturbador pra cacete!

     Em volta deles, as pessoas continuaram fazendo o Passo dos Refugiados. Ninguém prestava atenção, e Clay pensou: Então é assim que nós agimos. É isso que acontece quando a coisa fica preta. Quando não tem nenhuma câmera filmando, nenhum prédio em chamas, nenhum Anderson Cooper dizendo: "Agora voltamos aos estúdios da CNN em Atlanta." Então é assim quando o Departamento de Segurança Nacional é fechado por falta de sanidade.

     —      Me dêem o menino — disse Clay. — Posso carregá-lo até vocês acharem algo melhor para ele ficar. Esse carrinho já era. — Ele olhou para Tom. Tom deu de ombros.

     —      Fique longe de nós — disse Natalie e, de repente, ela estava com uma arma na mão. Não era grande, provavelmente uma calibre 22, mas até uma calibre 22 poderia dar conta do recado se a bala entrasse no lugar certo.

     Clay ouviu o som de armas sendo sacadas dos dois lados dele e compreendeu que Tom e Alice estavam apontando as pistolas que pegaram da casa de Nickerson para a mulher chamada Natalie. Pelo jeito, era assim também.

     —      Guarde a arma, Natalie — ele disse. — Nós estamos indo embora agora.

     —      Pode apostar que sim — ela disse, tirando um cacho de cabelo rebelde de cima da vista com a mão livre. Não parecia se dar conta de que o rapaz e a moça que acompanhavam Clay estavam apontando armas para ela. Naquele momento, as pessoas que passavam olharam, mas a única reação que tiveram foi se afastar do local do confronto e potencial derramamento de sangue um pouco mais depressa.

     —      Vamos, Clay — disse Alice baixinho. Ela colocou a mão livre no pulso dele. — Antes que alguém leve um tiro.

     Eles começaram a andar novamente. Alice caminhava com a mão no pulso de Clay, quase como se ele fosse seu namorado. Um simples passeio à meia-noite, pensou Clay, embora não fizesse idéia de que horas eram e tampouco se importasse. O coração dele batia forte. Tom os acompanhava, mas, até dobrarem a curva seguinte, ele andou de costas, com a arma ainda apontada. Clay imaginou que Tom queria estar preparado para atirar de volta caso Natalie decidisse usar sua arma de brinquedo. Porque era isso mesmo atirar de volta, uma vez que o serviço de telefonia havia sido interrompido até segunda ordem.

    

     Nas horas que precederam o amanhecer, enquanto andavam pela rota 102 ao leste de Manchester, eles começaram a ouvir música, tocando muito baixinho.

     —      Meu Deus — disse Tom, parando de andar. — É a Baby Elephant Walk.

     —      É o que? — perguntou Alice. Ela parecia ter achado aquilo divertido.

     —      Um jazz instrumental da época em que a gasolina custava 25 centavos. Les Brown & His Band of Renown, se não me engano. Minha mãe tinha o disco.

      Dois homens os alcançaram e pararam para recuperar o fôlego. Ambos eram velhos, mas pareciam estar em boa forma. Como uma dupla de carteiros recém-aposentados caminhando pelas Cotswolds, pensou Clay. O que quer que elas sejam. Um deles carregava uma mochila — e não era uma mochilinha qualquer, e sim do tipo que ia até a cintura, com armação — e o outro estava com uma bolsa pendurada no ombro direito. Pendurado no esquerdo, via-se o que parecia ser uma calibre 30.

     O Mochileiro limpou o suor da testa enrugada com o antebraço e disse:

     —      A sua mãe podia ter uma versão de Les Brown, filho, mas é mais provável que fosse a de Don Costa ou Henry Mancini. Essas é que eram populares. A que está tocando — ele inclinou a cabeça em direção à melodia fantasmagórica — é a de Lawrence Welk 10, tenho certeza absoluta.

     —      Lawrence Welk — disse Tom com um suspiro, em um tom quase reverente.

     —      Quem?— perguntou Alice.

     —      Ouça aquele elefantinho andar — disse Clay, rindo. Estava cansado e se sentindo palhaço. Ocorreu a ele que Johnny adoraria aquela música.

     O Mochileiro lançou um olhar de desprezo momentâneo para Clay e então voltou a olhar para Tom.

     —      É o Lawrence Welk mesmo — falou ele. — Meus olhos já não prestam pra nada, mas meu ouvido está ótimo. Minha mulher e eu costumávamos assistir ao programa dele todo santo sábado.

     —      Dodge também se divertia à beca — disse o Cara da Bolsa. Foi a única coisa que ele acrescentou à conversa, e Clay não fazia idéia do que aquilo significava.

     —      Lawrence Welk e a Champagne Band — disse Tom. — Vejam só.

     —      Lawrence Welk e os Champagne Music Makers — falou o Mochileiro. — Jesus Cristo.

     —      Não se esqueça das Lennon Sisters e da adorável Alice Lon — disse Tom.

     Ao longe, a música fantasmagórica mudou.

     —      Essa é Calcutta — disse o Mochileiro. Ele suspirou. — Bem, nós vamos indo. Foi um prazer passar um pedaço do dia com vocês.

     —      Da noite — disse Clay.

     —      Não — disse o Mochileiro. — Estes são os nossos dias agora. Você não notou? Tenham um bom dia, rapazes. Você também, senhorita.

     —      Obrigada — a senhorita entre Clay e Tom falou com a voz fraca.

     O Mochileiro voltou a andar. O Cara da Bolsa o seguiu com passos firmes. Ao redor deles, um desfile constante de fachos de lanterna oscilantes conduzia as pessoas mais para dentro de New Hampshire. Então o Mochileiro parou e se virou para dizer uma última coisa.

     —      É melhor não ficarem na rua por muito mais tempo — disse ele. — Encontrem uma casa ou um motel e entrem. Você sabe dos sapatos, certo?

     —      O que têm os sapatos? — perguntou Tom.

     O Mochileiro olhou com paciência para ele, da maneira que provavelmente olharia para qualquer pessoa que não conseguia deixar de ser uma imbecil. Bem ao longe na estrada, Calcutta — se é que era essa música mesmo — dera lugar a uma polca. Ela parecia uma loucura naquela noite nevoenta e chuvosa. E, para completar, aquele velho com uma mochila enorme nas costas falando sobre sapatos. —      Quando entrarem em algum lugar, deixem os sapatos em frente à porta — disse o Mochileiro. — Não se preocupem que os malucos não vão pegá-los. Isso serve para mostrar às outras pessoas que o lugar está ocupado e elas devem procurar outro. Evita... — Ele baixou os olhos para a arma automática pesada que Clay estava carregando.

     —      Evita acidentes.

     —      Houve acidentes? — perguntou Tom.

     —      Oh, sim — respondeu o Mochileiro, com uma indiferença gélida. — Do jeito que as pessoas são, sempre acontecem acidentes. Mas têm lugares de sobra. Então não há necessidade de vocês sofrerem um acidente. Apenas deixem os sapatos do lado de fora.

     —      Como o senhor sabe disso? — perguntou Alice.

     O Mochileiro abriu um sorriso que melhorou incrivelmente a cara dele. Mas era difícil não sorrir para Alice; ela era jovem e, até as três da manhã, ainda era bonita.

     —      As pessoas falam, eu escuto. Eu falo e às vezes as outras pessoas escutam. Você escutou?

     —      Sim — disse Alice. — Escutar é um dos meus maiores talentos.

     —      Então espalhe a notícia. Já basta termos que lutar contra eles. — O Mochileiro não precisava ser mais específico. — Não precisamos de acidentes., entre nós ainda por cima.

     Clay pensou em Natalie apontando a arma. Ele falou:

     —      O senhor tem razão. Obrigado.

     Tom disse:

     —      Essa que está tocando é The Beer Barrel Polka, não é?

     —      Isso mesmo, filho — respondeu o Mochileiro. — Myron Floren no acordeão. Deus o tenha. Talvez seja melhor vocês pararem em Gaiten. É um vilarejo simpático a uns 3 ou 4 quilômetros mais adiante.

     —      É para lá que os senhores estão indo? — perguntou Alice.

     —      Oh, eu e Rolfe devemos ir um tiquinho mais longe — respondeu ele.

     —      Por quê?

     —      Porque nós podemos, senhorita, só por isso. Tenha um bom dia.

     Daquela vez eles não o contradisseram e, embora os dois homens já devessem estar perto dos 70, logo sumiram de vista, seguidos pelo facho da única lanterna, que o Cara da Bolsa — Rolfe — carregava.

     —      Lawrence Welk e os Champagne Music Makers — admirou-se Tom.

     —      Baby Elephant Walk — disse Clay, rindo.

     —      Por que Dodge também se divertia à beca? — quis saber Alice.

     —      Acho que é porque ele podia — disse Tom e disparou a rir da perplexidade no rosto dela.

    

     A música vinha de Gaiten, o vilarejo simpático em que o Mochileiro tinha recomendado que eles parassem. Não era nem de perto tão alta quanto o show do AC/DC a que ele assistira em Boston na adolescência — que o havia deixado com os ouvidos zumbindo por dias —, mas era alta o bastante para fazê-lo pensar nos concertos de verão da banda municipal a que assistira com os pais em South Berwick. Na verdade, Clay estava achando que eles descobririam que a música vinha da praça municipal de Gaiten — provavelmente algum velho, não transformado em fonático, mas apenas abalado pelo desastre, que enfiara na cabeça usar um monte de alto-falantes a pilha para presentear aquele êxodo com uma serenata de músicas antigas.

     Havia uma praça municipal em Gaiten, mas estava deserta, a não ser por algumas pessoas jantando tarde, ou tomando café-da-manhã cedo, à luz de lanternas e lampiões. A música vinha de algum lugar mais ao norte. Àquela altura, Lawrence Welk dera lugar a alguém tocando um trompete tão suavemente que chegava a dar sono.

     —      É Wynton Marsalis, não é? — perguntou Clay. Estava pronto para fechar o expediente e achou que Alice parecia quase morta de cansaço.

     —      Ou ele ou Kenny G — disse Tom. — Sabe o que o Kenny G falou quando saiu do elevador?

     —      Não — disse Clay —, mas tenho certeza de que você vai me dizer.

     —      "Cara, que puta som!"

     Clay falou:

     —      Isso foi tão engraçado que acho que o meu senso de humor acabou de implodir.

     —      Não entendi — disse Alice.

     —      Nem vale a pena explicar — disse Tom. — Pessoal, temos que parar por hoje. Estou pregado.

     —      Eu também — disse Alice. — Achei que o futebol tinha me deixado em forma, mas estou exausta.

     —      É — concordou Clay. — Eu também.

     Já tinham passado pelo centro comercial de Gaiten e, de acordo com as placas, a Main Street — que também era a rota 120 — tinha se tornado a Academy Avenue. Aquilo não surpreendeu Clay, pois a placa nos arredores da cidade proclamava Gaiten lar da Histórica Academia Gaiten, uma instituição sobre a qual Clay ouvira vagamente falar. Ele imaginava que fosse uma daquelas escolas preparatórias da Nova Inglaterra para crianças que não conseguem entrar para Exeter ou Milton. Supunha que logo os três estariam de volta à terra dos Burger Kings, lojas de conserto de amortecedores e cadeias de motéis, mas aquela parte da rota 102 de New Hampshire era ladeada por casinhas muito bonitas. O problema era que havia sapatos — às vezes chegando até a quatro pares — em frente à maioria das portas.

     O número de transeuntes diminuíra consideravelmente à medida que outros viajantes encontravam abrigo para o dia que ia nascer. Porém, quando eles passaram pelo posto de gasolina Citgo da Academia Grove e se aproximaram dos pilares de pedra que flanqueavam a entrada da Academia Gaiten, começaram a alcançar um trio que estava logo adiante: dois homens e uma mulher, todos bem avançados na meia-idade. Enquanto andavam lentamente calçada acima, aqueles três inspecionavam cada casa, buscando uma sem sapatos em frente à porta. A mulher mancava muito, e um dos homens estava com o braço em volta da cintura dela.

     A Academia Gaiten ficava à esquerda, e Clay percebeu que era de lá que a música saía (naquele momento, uma versão monótona, repleta de cordas, de Fly Me to the Moori). Ele notou mais duas coisas. Uma era que havia muito mais lixo naquela parte — sacolas rasgadas, vegetais comidos pela metade, ossos roídos —, e a maior parte do lixo seguia pela entrada de cascalho da Academia. A outra era que havia duas pessoas paradas lá. Uma era um velho curvado sobre uma bengala. O outro era um menino com uma lanterna a pilha posicionada entre os sapatos. Não parecia ter mais de 12 anos e cochilava recostado em um dos pilares. Usava o que parecia ser um uniforme escolar: calças cinza, suéter cinza e um paletó marrom com um brasão.

     À medida que o trio na frente de Clay e seus amigos se aproximou ombro a ombro da entrada da Academia, o velho — que vestia um paletó de tweed com cotoveleiras — dirigiu-lhes a palavra em uma voz forte, do tipo vão “me ouvir até a última fileira da sala de aula".

     —      Olá, olá, meus caros! Por que vocês não entram aqui? Podemos oferecer abrigo, porém, o mais importante é que temos que...

     —      Não "temos que" nada, senhor — disse a mulher. — Estou com quatro bolhas, duas em cada pé, e mal consigo andar.

     —      Mas temos espaço de sobra — começou a falar o velho. O homem em que a mulher se apoiava lançou um olhar para ele que deve ter sido feio, pois o velho se calou. O trio passou pela entrada, pelos pilares e pela placa em um suporte de ferro antiquado com ganchos em forma de S que dizia: ACADEMIA GAITEN, FUNDADA EM 1846 " Uma Mente Jovem É uma Luz na Escuridão."

     O velho voltou a se curvar sobre a bengala, então viu Clay, Tom e Alice chegando e se empertigou mais outra vez. Esteve a ponto de saudá-los, mas pelo jeito decidiu que a sua abordagem de palestrante não estava dando resultado. Em vez disso, cutucou seu companheiro nas costelas com a ponta da bengala. O menino se endireitou com uma expressão desnorteada, enquanto atrás dos dois, onde prédios de tijolos se erguiam na escuridão da encosta de uma pequena colina, Fly me to the Moon dava lugar a uma versão igualmente lerda de algo que um dia talvez tenha sido Get a Kick out of You.

     —      Jordan! — ele disse. — Sua vez! Convide-os.

     O menino chamado Jordan deu um pulo, pestanejou para o velho e então olhou para o novo trio de estranhos que se aproximava com uma desconfiança melancólica. Clay pensou na Lebre de Março e no Rato do Campo em Alice no País das Maravilhas. Talvez aquilo fosse errado — provavelmente era —, mas ele estava muito cansado.

     —      Ah, com eles não vai ser diferente, senhor — disse o menino. — Eles não vão entrar. Vamos tentar de novo na noite que vem. Estou com sono.

     E Clay soube que, apesar do cansaço, eles tinham que descobrir o que o velho queria — isto é, a não ser que Tom e Alice se recusassem terminantemente. Em parte porque o companheiro do velho fazia com que ele se lembrasse de Johnny, sem dúvida, mas principalmente porque o menino enfiara na cabeça que ninguém iria ajudar naquele nada admirável novo mundo — ele e o homem que chamava de senhor estavam sozinhos porque era assim que as coisas eram. Só que se aquilo fosse verdade, logo não haveria mais nada que valesse a pena salvar.

     —      Fale — o homem o incentivou. Ele cutucou Jordan com a ponta da bengala mais uma vez, porém sem força. Sem machucar. — Diga-lhes que podemos oferecer abrigo, que temos bastante espaço, mas que eles precisam ver antes. Alguém tem que ver isso. Se eles se recusarem, nós desistimos por hoje.

     —      Certo, senhor.

     O velho sorriu, expondo uma boca cheia de dentes de cavalo enormes.

     —      Obrigado, Jordan.

     O menino veio na direção deles completamente sem ânimo, arrastando os sapatos sujos, com a ponta da camisa aparecendo debaixo da bainha ao suéter. Ele segurou a lanterna em uma das mãos e ela chiou baixinho. Jordan estava com olheiras pretas sob os olhos e precisava lavar o cabelo com urgência.

     —      Tom? — perguntou Clay.

     —      Vamos ver o que ele quer — disse Tom —, porque estou vendo o que você quer, mas...

     —      Senhores? Com licença, senhores.

     —      Só um segundo — disse Tom ao menino, e então se virou para Clay. O rosto dele estava sério. — O dia vai nascer dentro de uma hora. Talvez menos. Então é melhor o velho estar falando sério sobre ter lugar para a gente.

     —      Oh, temos sim, senhor — disse Jordan. Ele parecia não querer mostrar esperança, mas não conseguia evitar. — Muitos lugares. Centenas de dormitórios, isso sem contar com a Casa Cheatham, Tobias Wolff veio aqui no ano passado e ficou lá. Veio dar uma palestra sobre o livro dele, Meus Dias de Escritor.

     —      Eu li esse livro — disse Alice, soando desconcertada.

     —      Os meninos que não tinham celulares fugiram todos. Os que tinham...

     —      Nós sabemos o que aconteceu com eles — disse Alice.

     —      Eu sou bolsista. Morava em Holloway. Não tinha celular. Tinha que usar o telefone do dormitório sempre que queria ligar para casa e os outros meninos ficavam me zoando.

     —      Me parece que você riu por último, Jordan — falou Tom.

     —      Sim, senhor — disse ele respeitosamente, mas à luz da lanterna que chiava Clay não viu alegria, apenas desgosto e cansaço. — Os senhores não querem entrar para conhecer o Diretor?

     E, embora também estivesse bastante cansado, Tom respondeu com perfeita educação, como se estivessem em uma varanda ensolarada — talvez em um Chá para os Pais — em vez de na beira cheia de lixo da Academy Avenue às 4hl5 da manhã.

     —      O prazer será todo nosso, Jordan. — disse ele.

    

     — Eu costumava chamá-los de interfone do diabo — disse Charles Ardal, que era presidente do Departamento de Inglês da Academia Gaiten há 25 anos e diretor interino de toda a Academia no momento do Pulso. Agora ele manquejava com surpreendente rapidez colina acima, mantendo-se na calçada e evitando o rio de lixo que cobria o acesso à Academia. Jordan andava atento ao lado dele, os outros três o seguiam. O menino estava com medo de que o velho perdesse o equilíbrio. Clay estava com medo de o homem ter um enfarto ao tentar conversar ao mesmo tempo em que subia uma colina, por menos íngreme que fosse.

     —      Não falava sério, é claro; era uma piada, um chiste, um exagero cômico, mas, para dizer a verdade, nunca gostei daquelas coisas, especialmente em um ambiente acadêmico. Eu poderia ter tentado proibir o uso deles na escola, mas naturalmente sairia derrotado. Seria mais fácil tentar legislar contra a subida da maré, não é mesmo? — Ele bufou rapidamente várias vezes. — Meu irmão me deu um de aniversário de 65 anos. A bateria acabou. — Mais bufadas e arquejos. — E nunca mais recarreguei. Sabiam que eles emitem radiação? É verdade que a quantidade é minúscula, mas ainda assim... uma fonte de radiação tão perto da cabeça de uma pessoa... do cérebro...

     —      Senhor, talvez seja melhor esperar até chegarmos ao Tonney — disse Jordan. Ele endireitou Ardal quando a bengala do Diretor derrapou em um pedaço de fruta podre e ele pendeu momentaneamente (mas em um ângulo preocupante) para bombordo.

     —      Essa é provavelmente uma boa idéia — disse Clay.

     —      Sim — concordou o Diretor. — Só que... eu nunca confiei neles, é aí que quero chegar. Com o meu computador foi diferente. Acostumei-me a ele como um pato à água.

     No topo da colina, o caminho principal do campus se dividia em um Y. A bifurcação esquerda serpeava até prédios que quase certamente serviam de dormitórios. A da direita seguia em direção a salas de aula, um grupo de prédios administrativos e um arco cuja brancura brilhava no escuro. O rio de lixo e embalagens descartadas passava por baixo dele. O Diretor Ardal os conduziu por aquele caminho, contornando os entulhos da melhor forma possível, com Jordan segurando-lhe o cotovelo. A música — agora era Bette Midler cantando Wind Beneath My Wings — vinha de além do arco, e Clay viu dezenas de CDs no chão entre os ossos e sacos de batata frita vazios. Ele estava começando a ter um mau pressentimento em relação àquilo.

     —      Hã, senhor? Diretor? Talvez seja melhor a gente...

     —      Vamos ficar bem — respondeu o Diretor. — Você brincou de dança das cadeiras quando era criança? É claro que brincou. Bem, enquanto a música estiver tocando, não temos com que nos preocupar. Vamos dar uma olhadinha rápida e então vamos para a Casa Cheatham. É a residência do Diretor. Fica a menos de 200 metros do estádio Tonney. Pode confiar em mim.

     Clay olhou para Tom, que deu de ombros. Alice assentiu. Jordan calhou de estar olhando para trás (bastante ansioso) e viu aquela interação colegial.

     —      Vocês precisam ver — disse ele. — O Diretor tem razão. Enquanto não virem, não têm como saber.

     —      Ver o quê, Jordan? — perguntou Alice.

     Mas Jordan apenas olhou para ela — os olhos grandes e jovens na escuridão.

     —      Espere — respondeu ele.

    

     — Puta merda — disse Clay. Na mente dele, aquelas palavras soavam como um brado a plenos pulmões de surpresa e horror, talvez com uma pitada de ultraje, mas na verdade saíram mais como um débil gemido. Parte disso talvez se devesse ao fato de que àquela distância a música estivesse quase tão alta quanto o show do AC/DC de anos atrás (embora Debby Boone cantando You Light Up My Fire como uma colegial fosse bem diferente de Hell’s Bells, mesmo no volume máximo), mas o maior culpado era um estado de puro choque. Clay tinha pensado que depois do Pulso e da subseqüente fuga de Boston estava preparado para tudo, mas se enganara.

     Ele não imaginava que escolas preparatórias como aquela se permitissem algo tão plebeu (e tão vulgar) quanto futebol americano, mas, pelo jeito, lá eles davam bastante importância ao futebol de bola redonda. As arquibancadas que se estendiam por ambos os lados do estádio Tonney pareciam capazes de comportar umas mil pessoas, e eram enfeitadas com bandeiras que só agora começavam a ficar com um aspecto sujo, por conta do tempo chuvoso dos últimos dias. Havia um placar caprichado na extremidade do campo com letras grandes enfileiradas em cima. Por conta da escuridão, Clay não conseguia ler o que estava escrito, e provavelmente também não teria conseguido à luz do dia. Mas havia luz o bastante para enxergar o campo propriamente dito, e era isso que importava.

     Cada centímetro de grama estava coberto por fonáticos. Eles estavam deitados de costas como sardinhas enlatadas, perna a perna, cintura a cintura e ombro a ombro. Os rostos deles fitavam o céu escuro de antes do amanhecer.

     —      Meu Senhor Jesus Cristo — disse Tom. A voz saiu abafada, pois ele apertava um punho contra a boca.

     —      Segurem a garota! — gritou o Diretor. — Ela vai desmaiar!

     —      Não... eu estou bem — disse Alice, mas quando Clay a enlaçou com um braço, ela se curvou contra o corpo dele, respirando rápido. Estava com olhos abertos, porém fixos, como se estivesse drogada.

     —      Tem mais deles debaixo das arquibancadas também — disse Jordan. Ele falou com uma calma estudada, quase exibida, na qual Clay não acreditou nem por um minuto. Era a voz de um menino garantindo aos amigos que não estava com nojo dos vermes que pululavam nos olhos de um gato morto... logo antes de dobrar os joelhos e botar o almoço para fora. — A gente acha que é ali que eles colocam os feridos que não vão melhorar.

     —      Nós achamos, Jordan.

     —      Desculpe, senhor.

     Debby Boone alcançou a catarse poética e se calou. Houve uma pausa, e então os Champagne Music Makers de Lawrence Welk voltaram a tocar Baby Elephant Walk. Dodge também se divertia à beca, pensou Clay.

     —      Quantos desses mini systems eles conseguiram ligar juntos? — ele perguntou ao Diretor Ardal. — E como fizeram isso? Pelo amor de Deus, eles são idiotas; são zumbis! — Uma idéia terrível lhe veio à mente, ao mesmo tempo ilógica e persuasiva. — Foi o senhor! Para mantê-los quietos, ou... sei lá...

     —      Não foi ele — disse Alice. Ela falou baixinho, de dentro da proteção que o braço de Clay oferecia.

     —      Não, e as duas premissas estão erradas — falou o Diretor.

     —      As duas? Não estou...

     —      Eles devem adorar música mesmo — refletiu Tom —, porque não gostam de entrar em locais fechados. Mas é neles que estão os CDs, não é?

     —      Isso sem falar nos mini systems — disse Clay.

     —      Não há tempo para explicações agora. O céu já está começando a clarear e... diga a eles, Jordan.

     Jordan falou com obediência, com o ar de quem recita uma lição que não compreende:

     —      Todo bom vampiro deve entrar antes de o galo cantar, senhor.

     —      Isso mesmo, antes de o galo cantar. Por enquanto, apenas olhem. É tudo o que precisam fazer. Vocês não sabiam da existência de lugares como esse, sabiam?

     —      Alice sabia — disse Clay.

     Eles olharam. E, como a noite tinha começado a clarear, Clay percebeu que os olhos em todos aqueles rostos estavam abertos. Ele tinha quase certeza de que não viam nada; estavam apenas... abertos.

     Observar os corpos espremidos e os rostos inexpressivos (a maioria deles branca, afinal, eles estavam na Nova Inglaterra) era horrível, mas os olhos vazios fitando o céu noturno o encheram de um horror irracional. Em algum lugar, não muito distante, o primeiro pássaro da manhã começou a cantar. Não era um corvo, mas o Diretor se assustou e então perdeu o equilíbrio. Daquela vez foi Tom quem o segurou.

     —      Vamos — falou o Diretor. — A Casa Cheatham fica perto daqui, mas é melhor irmos andando. A umidade deixa minhas juntas mais duras do que nunca. Segure meu cotovelo, Jordan.

     Alice soltou Clay e foi para o outro lado do velho. Ele abriu um sorriso um tanto intimidador e balançou a cabeça.

     —      Jordan consegue tomar conta de mim sozinho. Nós cuidamos um do outro agora; certo, Jordan?

     —      Sim, senhor.

     —      Jordan? — perguntou Tom. Eles se aproximavam de uma residência enorme (e um tanto pretensiosa), estilo Tudor, que Clay imaginava ser a Casa Cheatham.

     —      Senhor?

     —      A mensagem em cima do placar; não consegui lê-la. O que dizia?

     —      BEM-VINDOS AO FIM DE SEMANA DOS ALUMNI. —Jordan quase sorriu, mas então se lembrou de que não haveria Fim de Semana dos Alumni naquele ano, as bandeiras nas arquibancadas já tinham começado a esfarrapar, e o brilho abandonou o rosto dele. Se não estivesse tão cansado, talvez tivesse conseguido manter a compostura, mas era muito tarde, quase de manhã, e enquanto eles subiam a passarela que levava à casa do Diretor, o último aluno da Academia Gaiten, ainda vestido de marrom e cinza, desatou a chorar.

    

     — Estava uma delícia, senhor — disse Clay. Ele assumira muito naturalmente o modo de falar de Jordan. Tom e Alice também. — Obrigado.

     —      É mesmo — disse Alice. — Obrigada. Nunca tinha comido dois hambúrgueres de uma vez na vida... pelo menos não tão grandes assim.

     Eram três da tarde do dia seguinte. Eles estavam na varanda dos fundos da Casa Cheatham. Charles Ardal — o Diretor, como Jordan o chamava — havia preparado os hambúrgueres em uma pequena grelha a gás. Ele disse que podiam comer a carne sem medo porque o gerador que alimentava o freezer do refeitório funcionara até o meio-dia do dia anterior (e, de fato, os hambúrgueres que ele tirara do refrigerador, e que Tom e Jordan tinham trazido da despensa, ainda estavam brancos de gelo e duros como discos de hóquei). Ardal disse que não haveria problema em grelhar a carne até as cinco da tarde, embora a prudência os obrigasse a comer cedo.

     —      Eles sentiriam o cheiro da comida? — perguntou Clay.

     —      Digamos que não estamos interessados em descobrir — respondeu o Diretor. — Estamos, Jordan?

     —      Não, senhor — disse Jordan e deu uma mordida em seu segundo hambúrguer. Estava comendo mais devagar, mas Clay achou que ele conseguiria dar conta do recado. — A gente quer estar dentro de casa quando eles acordam e dentro de casa quando eles voltam da cidade. É pra lá que eles vão, para a cidade. Estão limpando tudo, como pássaros em um milharal. É o que diz o Diretor.

     —      Eles estavam voltando em bando para casa mais cedo quando estávamos em Malden — disse Alice. — Não que soubéssemos onde era a casa deles antes. — Ela estava olhando para uma bandeja com formas de pudim. — Posso comer um desses?

     —      É claro. — O Diretor empurrou a bandeja na direção dela. — E outro hambúrguer também, se quiser. O que não comermos logo vai estragar.

     Alice gemeu e balançou a cabeça, mas pegou um pudim. Tom fez o mesmo.

     —      Eles parecem sair no mesmo horário todas as manhãs, mas têm mesmo voltado para casa mais cedo — disse Ardal, pensativo. — Por que será?

     —      Menos comida? — perguntou Alice.

     —      Talvez... — Ele deu uma última mordida no hambúrguer e então cuidadosamente cobriu o resto com um guardanapo. — Existem muitos bandos. Talvez uma dúzia em um raio de 80 quilômetros. Pessoas que estavam indo para o sul nos informaram que há bandos em Sandown, Fremont e Candia. Durante o dia, eles saem procurando quase a esmo, talvez não só por comida, mas também por música, e então voltam para o lugar de origem.

     —      Isso o senhor sabe com certeza — falou Tom. Ele terminou um pudim e partiu para outro.

     Ardal balançou a cabeça.

     —      Não podemos ter certeza de nada, Sr. McCourt. — O cabelo dele, um emaranhado de fios longos e brancos (sem dúvida o cabelo de um professor de inglês, pensou Clay), balançou um pouco na brisa suave da tarde. As nuvens tinham sumido. A varanda dos fundos tinha uma boa vista para o campus, que até então estava deserto. Jordan dava a volta na casa a intervalos regulares para inspecionar a colina que descia até a Academy Avenue e declarava que tudo estava tranqüilo daquele lado também. — Vocês não viram nenhum dos outros locais de aglomeração?

     —      Não — disse Tom.

     —      Mas estávamos viajando no escuro — Clay o recordou —, e agora o escuro é escuro de verdade.

     —      Sim — concordou o Diretor. Ele falava quase como se devaneasse. — Como le Moyen Age. Traduza, Jordan.

     —      A Idade Média, senhor.

     —      Muito bem. — Ele deu um tapinha no ombro do menino.

     —      Mesmo os bandos grandes passariam despercebidos — disse Clay. — Nem precisariam estar escondidos.

     —      Não, eles não estão se escondendo — concordou o Diretor Ardal, juntando os dedos em forma de triângulo. — Ainda não, pelo menos. Eles se agrupam... procuram comida... e a consciência coletiva talvez se desfaça um pouco enquanto estão procurando... mas talvez em menor escala. Talvez em menor escala a cada dia.

     —      Manchester queimou inteira — disse Jordan de repente. — Dava pra ver o fogo daqui, não dava, senhor?

     —      Dava — concordou o Diretor. — Foi muito triste e assustador.

     —      É verdade que as pessoas que estão tentando entrar em Massachusetts estão levando tiros na fronteira? — perguntou Jordan. — É o que estão falando por aí. As pessoas estão dizendo que o melhor é ir para Vermont, só por lá é seguro.

     —      Isso é bobagem — disse Clay. — Ouvimos a mesma coisa sobre a fronteira de New Hampshire.

     Jordan o encarou com os olhos arregalados por um instante, então disparou a rir. O som soava límpido e bonito no ar parado. Então, ao longe, uma arma disparou. E, mais próximo de lá, alguém gritou de raiva ou horror.

     Jordan parou de rir.

     —      Conte-nos sobre aquele estado esquisito em que eles estavam na noite passada — falou Alice baixinho. — E sobre a música. Todos os outros bandos escutam música à noite?

     O Diretor olhou para Jordan.

     —      Sim — disse o menino. — Eles só escutam músicas lentas, nada de rock, country...

     —      Imagino que nada de música clássica, também — acrescentou o Diretor. — Não as mais desafiadoras, pelo menos.

     —      São as canções de ninar deles — disse Jordan. — É o que a gente acha, não é senhor?

     —      Nós achamos, Jordan.

     —      Isso, nós achamos, senhor.

     —      Mais é isso mesmo que achamos — concordou o Diretor. — Embora eu suspeite que exista algo mais além disso. Sim, muito mais.

     Clay estava bestificado. Mal sabia como continuar. Olhou para os amigos e viu nos rostos deles o que ele estava sentindo — não só perplexidade, mas uma terrível relutância em aceitar aquele esclarecimento.

     Inclinando-se para frente, o Diretor Ardal disse:

     —      Posso ser franco? Preciso ser franco; é um hábito que me acompanhou a vida toda. Quero que vocês nos ajudem a fazer uma coisa terrível aqui. Acredito que temos pouco tempo para fazê-lo, e embora uma ação solitária como essa possa não dar em nada, nunca se sabe, não é mesmo? Nunca se sabe que tipo de comunicação pode surgir entre esses... bandos. Seja como for, não vou ficar parado enquanto essas... coisas... roubam de mim não só a escola, mas a própria luz do dia. Já teria tentado antes, mas sou velho e Jordan é muito jovem. Jovem demais. O que quer que sejam agora, eles eram humanos há pouco. Não vou deixar que o menino se envolva nisto.

     —      Eu posso fazer a minha parte, senhor! — disse Jordan. Ele falou com a convicção, pensou Clay, de qualquer adolescente muçulmano que já afivelou um cinto suicida cheio de explosivos.

     —      Saúdo a sua coragem, Jordan — o Diretor disse a ele —, mas acho melhor não. — Ele olhou para o menino com afeto, mas quando se virou para os demais, seus olhos tinham endurecido consideravelmente. — Vocês têm armas, armas boas, e eu tenho apenas um rifle calibre 22 de um tiro só que talvez nem funcione mais, embora o cano esteja desobstruído, eu olhei. Mesmo que funcione, os cartuchos que tenho talvez não disparem. Mas tenho uma bomba de gasolina na garagem da nossa pequena frota de veículos, e gasolina talvez sirva para matá-los.

     Ele deve ter visto o horror nos rostos dos seus companheiros, porque assentiu. Para Clay, Ardal não parecia mais o adorável Mr. Chips; estava mais para um velho puritano em uma pintura a óleo. Do tipo que condenaria um homem ao tronco sem pestanejar. Ou mandaria uma mulher para a fogueira para ser queimada como bruxa.

     Ele assentiu para Clay em especial. Clay tinha certeza disso.

     —      Tenho consciência do que estou falando. Sei como soa aos ouvidos de vocês. Mas não seria assassinato, não exatamente; seria extermínio. E não tenho poder para forçá-los a fazer nada. Mas, de qualquer forma... quer vocês queiram me ajudar a queimá-los, quer não, precisam passar uma mensagem adiante.

     —      Para quem? — perguntou Alice com a voz fraca.

     —      Para todas as pessoas que encontrarem, Srta. Maxwell. — Ele se inclinou sobre os restos da refeição, aqueles olhos inquisidores penetrantes, pequenos e inflamados. — Precisam dizer o que está acontecendo com eles; com os que receberam a mensagem infernal do interfone do diabo. Precisam passar isto adiante. Todos que foram privados da luz do dia têm que ouvir, e antes que seja tarde demais. — Ele passou uma das mãos sobre a parte debaixo do rosto e Clay notou que seus dedos tremiam um pouco. Seria fácil considerar aquilo um sinal da idade do homem, mas ele não tinha visto nenhuma tremedeira antes. — Tememos que logo vai ser. Não é, Jordan?

     —      Sim, senhor. — Jordan sem dúvida parecia saber de algo; ele parecia aterrorizado.

     —      O quê? O que está acontecendo com eles? — perguntou Clay.

     — Tem alguma coisa a ver com a música e com aqueles mini systems ligados juntos, não tem?

     O velho se curvou, aparentando de repente cansaço.

     —      Eles não estão ligados juntos — falou. — Não se lembra que eu disse que as duas premissas estavam erradas?

     —      Sim, mas não entendo o que o senhor quer...

     —      Tem um aparelho de som com um CD dentro, quanto a isso você tem razão. Uma coletânea, segundo Jordan, e por isso as mesmas músicas se repetem.

     —      Sorte a nossa — murmurou Tom, mas Clay mal o escutou. Ele estava tentando compreender o que Ardal acabara de falar: eles não estão ligados juntos. Como aquilo era possível? Não havia como.

     —      Os aparelhos de som, ou mini systems, como quiser, estão todos em volta do campo — prosseguiu o Diretor —, e estão todos ligados. A noite, dá para ver as pequenas luzes vermelhas...

     —      É verdade — disse Alice. — Eu vi algumas luzes vermelhas, mas não me toquei.

     —      ... só que eles estão vazios... sem nenhum CD ou fita cassete... e nenhum fio que os conecte. São apenas escravos que recebem o áudio do CD mestre e retransmitem.

     —      Se eles estiverem de boca aberta, a música sai de dentro deles também — disse Jordan. — Sai baixinho... menos que um sussurro... mas dá pra ouvir.

     —      Não — falou Clay. — É imaginação sua, garoto. Só pode ser.

     —      Eu não ouvi isso — disse Ardal —, mas é claro que minha audição não é a mesma de quando eu era fã do Gene Vicent e os Blue Caps. "Já era", como diriam Jordan e seus amigos.

   —      O senhor é muito velha guarda — disse Jordan. Ele falou com uma solenidade gentil e com um afeto inconfundível.

     —      É Jordan, sou mesmo — concordou o Diretor. Ele deu um tapinha no ombro do garoto e voltou a atenção aos demais. — Se Jordan diz que ouviu, eu acredito nele.

     —      Não é possível — disse Clay. — Não sem um transmissor.

     —      Eles estão transmitindo — respondeu o Diretor. — É uma habilidade que parecem ter adquirido desde o Pulso.

     —      Espere — disse Tom. Ele ergueu a mão como um guarda de trânsito, a abaixou, começou a falar, ergueu-a mais uma vez. Do seu lugar vagamente seguro do lado do Diretor Ardal, Jordan o observou com atenção. Por fim, Tom disse:

     —      Estamos falando de telepatia?

     —      Imagino que esse não seja exatamente le mot juste para este fenômeno em particular — respondeu o Diretor —, mas por que nos prendermos aos detalhes técnicos? Eu apostaria todos os hambúrgueres que restam no freezer que vocês já tinham usado a palavra entre si antes.

     —      O senhor ganharia o dobro de hambúrgueres — disse Clay.

     —      Bem, é verdade, mas essa coisa de se juntar em bando é diferente — falou Tom.

     —      E por quê? — O Diretor ergueu as sobrancelhas desgrenhadas.

     —      Bem, porque... — Tom não conseguia terminar, e Clay sabia por quê. Não era diferente. Formar bandos não era comportamento humano e eles sabiam disso desde o instante em que observaram George, o mecânico, seguir a mulher de calças sujas pelo jardim da frente de Tom na Salem Street. Ele andara tão perto da mulher que poderia ter mordido o pescoço dela... mas não mordeu. E por quê? Porque, para os fonáticos, a hora de morder já tinha acabado; era hora de formar bandos.

     Pelo menos, a hora de morder os seus iguais. A não ser que...

     —      Professor Ardal, no começo eles matavam qualquer um...

     —      Sim — concordou o Diretor. — Tivemos muita sorte de escapar, não tivemos, Jordan?

     Jordan estremeceu e assentiu.

     —      Os meninos saíram correndo para todo lado. Até alguns professores. Matando... mordendo... falando coisas sem sentido... Eu me escondi em umas das estufas por um tempo.

     —      E do sótão desta casa aqui — acrescentou o Diretor —, eu observei da pequena janela lá em cima o campus, o campus que eu amo, ir literalmente para o inferno.

     Jordan falou:

     —      A maioria dos que não morreram fugiu em direção ao centro. Agora um monte deles está de volta. Lá do outro lado. — Ele meneou a cabeça na direção do campo de futebol.

     —      E o que podemos concluir disso tudo? — perguntou Clay.

     —      Acho que sabe a resposta, Sr. Riddell.

     —      Clay.

     —      Clay, certo. Acho que o que está acontecendo é mais do que uma anarquia temporária. Acho que é começo de uma guerra. Vai ser curta, mas extremamente violenta.

     —      O senhor não acha que está exagerando...

     —      Não. Embora só possa me basear nas minhas próprias observações, e nas de Jordan, tivemos a oportunidade de estudar um bando bem numeroso, e os vimos ir e vir, e também... digamos, descansar. Eles pararam de matar uns aos outros, mas continuam matando pessoas que classificaríamos como normais. Eu chamo isso de comportamento militar.

     —      O. senhor os viu matando pessoas normais com os próprios olhos? — perguntou Tom. Atrás dele, Alice abriu a mochila, tirou o Nike de bebê e o segurou na mão.

     O Diretor olhou para ele com gravidade.

     —      Vi. Sinto dizer que Jordan também.

     —      Não teve jeito — disse Jordan. Lágrimas saíam dos olhos dele. —        Eles eram muitos. Foi um homem e uma mulher. Não sei o que eles estavam fazendo no campus tão perto do anoitecer, mas com certeza não sabiam sobre o estádio Tonney. Ela estava machucada. Ele estava ajudando a moça a andar. Então encontraram com uns vinte deles voltando da cidade. O homem tentou carregar a moça. — A voz de Jordan começou a falhar. — Se estivesse sozinho, talvez tivesse conseguido escapar, mas com ela... só conseguiu chegar até o Horton Hall. É um dos dormitórios. Lá ele caiu e eles os pegaram. Eles...

     Jordan enterrou repentinamente a cabeça no casaco do velho — ele vestia uma peça cinza-escuro naquela tarde. A mão grande do Diretor acariciou a nuca macia de Jordan.

     —      Eles parecem saber quem são seus inimigos — refletiu o Diretor. — Talvez faça parte da mensagem original que receberam, vocês não acham?

      —      Talvez — disse Clay. Fazia uma espécie de sentido perverso.

     —      Quanto ao que eles estão fazendo à noite deitados tão quietos e com os olhos abertos, ouvindo aquela música... — O Diretor suspirou, tirou um lenço de um dos bolsos do casaco e secou os olhos do menino de modo casual. Clay viu que ele estava ao mesmo tempo muito assustado e muito convencido de qualquer que fosse a conclusão à qual chegara. — Acho que eles estão reiniciando — disse.

    

     —      Vocês estão vendo as luzes vermelhas, não estão? — perguntou o Diretor com sua voz arrebatadora, do tipo "vão me ouvir até a última fileira do auditório". — Contei no mínimo sessenta e tr...

     —      Fale baixo!— sibilou Tom. Só faltou tapar a boca do velho com a mão.

     O Diretor olhou para ele com calma.

     —      Você se esqueceu do que eu falei na noite passada sobre a dança das cadeiras?

     Tom, Clay e Ardal tinham acabado de passar das roletas, com o arco do estádio Tonney às suas costas. Alice concordara em ficar na Casa Cheatham com Jordan. A música que saía do campo de futebol da escola preparatória era uma versão instrumental em ritmo de jazz de Garota de Ipanema. Clay achava que, se você fosse um fonático, aquilo era a coisa mais vanguarda do mundo.

     —      Não — disse Tom. — Enquanto a música estiver tocando, não temos com que nos preocupar. Só não quero acabar com a garganta rasgada por uma exceção insone a essa regra.

     —      Isso não vai acontecer.

     —      Como pode ter tanta certeza, senhor? — perguntou Tom.

     —      Porque eles não estão dormindo de verdade. Venha.

     Ele começou a descer a rampa de concreto que os jogadores usavam para chegar ao campo, viu que Tom e Clay tinham ficado para trás e olhou para eles com paciência.

     —      Não se ganha muito conhecimento sem correr riscos — ele disse —, e a essa altura, eu diria que conhecimento é essencial, concordam? Venham.

     Eles desceram a rampa, seguindo as batidas da bengala do velho em direção ao campo, Clay um pouco na frente de Tom. Sim, eles estavam vendo as luzes vermelhas dos mini systems circundando o gramado. Devia haver sessenta ou setenta delas. Viam-se aparelhos de som bem grandes a cada 3 ou 4 metros de distância, cada qual cercado de corpos. À luz das estrelas, eles eram uma visão estarrecedora. Não estavam empilhados — cada um tinha sua própria vaga —, mas não sobrava nem um centímetro. Até os braços estavam entrelaçados, de modo que davam a impressão de cobrir o campo como bonecas de papel enfileiradas, enquanto a música — Que parece do tipo que se ouve em supermercados, pensou Clay — subia na escuridão. Uma outra coisa também subia no ar: um cheiro insalubre de terra e vegetais podres, com um odor mais forte de dejetos humanos e putrefação por baixo.

     O Diretor desviou do gol, que tinha sido tirado do lugar, virado e cuja rede fora estraçalhada. Lá, onde o lago de corpos começava, jazia um rapaz de uns 30 anos com mordidas subindo pelo braço até a manga da sua camisa da NASCAR. As mordidas pareciam estar infeccionadas. Ele segurava em uma das mãos um boné vermelho, o que fez Clay se lembrar do tênis de estimação de Alice. O rapaz olhava estupidamente para as estrelas enquanto Bette Midler cantava mais uma vez sobre o vento que inflava suas asas.

     —      Olá — exclamou o Diretor com sua voz esganiçada e penetrante. Ele cutucou o rapaz animadamente com a ponta da bengala, empurrando a barriga até ele peidar. — Olá, meu caro!

     —      Pare com isso! — Tom quase gemeu.

     O Diretor olhou para ele com desdém e então enfiou a ponta da bengala no boné que o rapaz estava segurando. Atirou-o longe. O boné voou uns 3 metros e foi parar na cara de uma mulher de meia-idade. Clay observou, fascinado, o boné escorregar um pouco para o lado, revelando um olho extasiado e impassível.

     O rapaz ergueu o braço com uma lentidão sonolenta e fechou a mão que segurara o boné em um punho. Então a deixou cair.

     —      Ele acha que está segurando o boné de novo — sussurrou Clay, fascinado.

     —      Talvez — respondeu o Diretor, sem muito interesse. Ele cutucou as mordidas infeccionadas do rapaz com a bengala. Deveria doer pra cacete, mas o rapaz não reagiu, apenas continuou olhando para o céu à medida que Bette Midler dava lugar a Dean Martin. — Eu poderia enfiar minha bengala na goela dele e ele não tentaria me impedir. E nenhum dos que estão em volta se levantaria para defendê-lo, embora à luz do dia não tenho dúvidas de que me esquartejariam.

     Tom estava agachado diante de um dos estoura tímpanos.

     —      Este aqui está com pilhas — disse ele. — Dá pra saber pelo peso.

     —      Sim. Todos estão. Eles parecem mesmo precisar de pilhas. — O Diretor refletiu e então acrescentou algo que Clay preferiria não ter ouvido. — Pelo menos por enquanto.

     —      Nós poderíamos cair dentro, não poderíamos? — disse Clay. — Poderíamos acabar com eles do jeito que os caçadores exterminaram pombos nos anos 1880.

     O Diretor assentiu.

     —      Eles espalharam os miolos daqueles pombos pelo chão, não foi? Boa analogia. Mas eu demoraria muito com a minha bengala. Temo que demoraria até com a sua automática.

     —      De qualquer forma, não tenho balas o suficiente. Deve haver... — Clay correu os olhos por sobre os corpos amontoados mais uma vez. Olhar para eles lhe dava dor de cabeça. — Deve haver uns seiscentos ou setecentos. Isso sem contar os que estão debaixo das arquibancadas.

     —      Senhor? Sr. Ardal? — Era Tom. — Quando o senhor... como o senhor descobriu?...

     —      Como determinei a profundidade deste estado de transe? É isso que quer saber?

     Tom assentiu.

     —      Eu vim observar na primeira noite. O bando era muito menor, é claro. Fui atraído a eles por uma simples, porém esmagadora, curiosidade. Jordan não estava comigo. Passar para a existência noturna tem sido muito difícil para ele.

     —      O senhor sabe que arriscou a vida — disse Clay.

     —      Não tive muita escolha — respondeu o Diretor. — Era como se estivesse hipnotizado. Entendi logo que eles estavam inconscientes, embora os olhos estivessem abertos, e algumas poucas experiências com a ponta da minha bengala confirmaram a profundidade do transe.

     Clay pensou em como o Diretor mancava e considerou perguntar se o velho havia pensado no que teria acontecido se estivesse enganado e eles viessem atrás dele, mas segurou a língua. Sem dúvida o Diretor reiteraria que não se obtém conhecimento sem riscos. Jordan estava certo: aquele era um cara muito velhaguarda. Clay certamente não gostaria de ter 14 anos e estar diante da palmatória daquele homem.

     Enquanto isso, Ardal balançava a cabeça para ele.

     —      Seiscentos ou setecentos é uma estimativa muito modesta, Clay. Este é um campo de futebol oficial. São 500 metros quadrados.

     —      Quantos, então?

     —      Do jeito que eles estão amontoados? Eu diria no mínimo mil.

     —      E eles não estão aqui de verdade, estão? O senhor tem certeza disso.

     —      Tenho. E os que voltam, um pouco mais a cada dia, e Jordan concorda comigo, e ele é um ótimo observador, pode confiar em mim, não são mais o que eles eram antes. Quero dizer, não são mais humanos.

     —      Podemos voltar para a Casa agora? — perguntou Tom. Ele parecia estar passando mal.

     —      Claro — concordou o Diretor.

     —      Só um segundo — disse Clay. Ele se ajoelhou ao lado do rapaz com a camisa da NASCAR. Não queria fazer aquilo, não conseguia deixar de imaginar que a mão que agarrara o boné tentaria agarrá-lo, mas se obrigou. Ao nível do chão, o fedor era pior. Clay pensara que estava se acostumando, mas tinha se enganado.

     Tom começou a falar:

     —      Clay, o que você está...

     —      Silêncio. — Clay se inclinou sobre a boca do rapaz, que estava semi-aberta. Depois de hesitar, forçou-se a chegar mais perto, até conseguir ver o brilho fraco da saliva no lábio inferior do homem. A princípio, ele pensou que era só imaginação, mas, ao se aproximar mais 5 centímetros, quase próximo o bastante para beijar a criatura não-adormecida com Ricky Craven estampada no peito, viu que estava errado.

     — Sai baixinho..., — dissera Jordan, — menos que um sussurro... mas dápra ouvir.

     Clay ouviu; a voz de alguma forma uma ou duas sílabas à frente do som que saía dos mini systems interligados: Dean Martin cantando Everybody Loves Somebody Sometime.

     Ele se levantou, quase gritando ao som de disparo dos seus próprios joelhos estalando. Tom ergueu a lanterna e o encarou com os olhos arregalados.

     —      O quê? O quê:'Você não vai me dizer que aquele garoto estava...

     Clay assentiu.

     —      Venha. Vamos voltar.

     Na metade da subida da rampa, ele colocou a mão com força sobre o ombro do velho. Ardal se virou para encará-lo, sem parecer incomodado em ser agarrado daquela forma.

     —      O senhor está certo. Precisamos nos livrar deles. O máximo que conseguirmos e o mais rápido possível. Essa talvez seja a nossa única chance. Ou o senhor acha que estou errado?

     —      Não — respondeu o Diretor. — Infelizmente, não acho. Como disse, isto é uma guerra, pelo menos acredito que sim, e o que se faz na guerra é matar os inimigos. Por que não voltamos e discutimos isso? Podemos tomar um chocolate quente. Eu sou um bárbaro e gosto de um pouco de bourbon no meu.

     No topo da rampa, Clay dedicou um último olhar para trás. O estádio Tonney estava escuro, mas a luz forte das estrelas do norte o permitia ver o tapete de corpos espalhados de cima a baixo e de uma ponta a outra. Ele pensou que talvez não fosse possível entender o que era aquilo logo de cara, mas depois que você entendia... depois que você entendia...

     Os olhos dele pregaram-lhe uma peça e, por um instante, Clay pensou tê-los visto respirar — todos os oitocentos ou mil deles — como um só organismo. Aquilo o assustou de tal forma que ele se virou para alcançar Tom e o Diretor Ardal, quase correndo.

    

     O Diretor preparou chocolate quente na cozinha, e o beberam na sala de visitas, à luz de dois lampiões a gás. Clay achou que o velho sugeriria que fossem até a Academy Avenue mais tarde, arrastar mais voluntários para o Exército de Ardal, mas ele parecia satisfeito com o que tinha.

     A bomba de gasolina na garagem da frota de veículos, o Diretor contou para eles, era alimentada por um tanque suspenso de 1.500 litros; bastava puxar um plugue. E também havia pulverizadores de 110 litros na estufa. Pelo menos uma dúzia. Eles poderiam carregar uma picape com eles, talvez, e descer de ré uma das rampas...

     —      Espere — disse Clay. — Antes de começarmos a montar estratégias, se o senhor tem alguma teoria sobre o que está acontecendo, eu gostaria de ouvi-la.

     —      Nada muito formal — disse o velho. — Mas Jordan e eu observamos, temos nossa intuição e, juntos, temos bastante experiência com...

     —      Eu sou um rato de computador — disse Jordan por sobre a caneca de chocolate quente. Clay achou a confiança emburrada do garoto estranhamente charmosa. — Um completo McNerd. Sempre fui, a vida inteira. Aquelas coisas estão reiniciando, com certeza. Eles poderiam ter INSTALANDO SOFTWARE, POR FAVOR, AGUARDE piscando na testa.

     —      Não estou entendendo — disse Tom.

     —      Eu estou — disse Alice. — Jordan, você acha que o Pulso foi mesmo um Pulso, não acha? E ele... apagou o disco rígido de todo mundo que o escutou.

     —      É claro — respondeu Jordan. Ele era educado demais para dizer: Dã.

     Tom olhou perplexo para Alice. Mas Clay sabia que Tom não era burro e não achava que ele fosse tão lento assim.

     —- Você tinha um computador — disse Alice. — Eu vi no seu escritório.

     —      Tinha...

     —      E instalava softwares neles, certo?

     —      Claro, mas... — Tom parou, olhando fixamente para Alice. Ela devolveu o olhar. — Os cérebros deles? Você quer dizer os cérebros...

     —      O que você acha que é um cérebro? — disse Jordan. — Um disco rígido gigante. Um conjunto de circuitos orgânicos. Com ninguém sabe quantos bytes. Talvez um giga elevado à enésima potência. Uma infinidade de bytes. — Ele colocou as mãos nas orelhas, que eram pequenas e bem-feitas. — Bem aqui no meio.

     —      Não acredito — disse Tom, mas ele falou com uma voz fraca e dava a impressão de estar enjoado. Clay achou que ele acreditava sim.

     Pensando na loucura que tinha estourado em Boston, ele tinha que admitir que a idéia era tentadora. E era também terrível: milhões, talvez bilhões, de cérebros apagados ao mesmo tempo, do mesmo jeito que se pode apagar um disquete antigo com um ímã poderoso. Clay se viu recordando da Cabelinho Escuro, a amiga da garota com o celular cor de hortelã. Quem é você? O que está acontecendo? Gritara a Cabelinho Escuro. Quem é você? Quem sou eu? Então ela bateu várias vezes na própria testa com a base da mão e enfiou a cara em um poste, duas vezes, despedaçando seu caro tratamento dentário.

     Quem é você? Quem sou eu?

     Não tinha sido o telefone dela. A Cabelinho Escuro estava ouvindo por tabela e não recebeu uma dose completa.

     Clay, que na maior parte do tempo pensava em imagens em vez de palavras, tinha na cabeça a imagem muito clara de uma tela de computador repleta das seguintes frases: QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU e, para terminar, no fundo, tão frio e indiscutível quanto o destino da Cabelinho Escuro: FALHA NO SISTEMA.

     A Cabelinho Escuro como um disco rígido apagado pela metade? Era horrível, mas parecia a verdade nua e crua.

     —      Sou formado em inglês, mas quando jovem li bastante sobre psicologia — o Diretor disse a eles. — Comecei com Freud, é claro, todo mundo começa com Freud... depois Jung... Adler... a partir deles, fui passando por todo o campo de batalha. Por trás de todas as teorias de como a mente funciona, existe uma teoria maior: a de Darwin. No vocabulário freudiano, a idéia da sobrevivência como diretriz primária é expressa pelo conceito do id. Em Jung, pela idéia um tanto mais grandiosa da consciência do sangue. Creio que ninguém discordaria da hipótese de que se todo o pensamento consciente, toda a memória, toda a habilidade de raciocínio fossem apagados da mente humana em um determinado momento, o que sobrasse seria puro e terrível.

     Ele fez uma pausa, olhando em volta à espera de comentários. Ninguém falou nada. O Diretor assentiu como se estivesse satisfeito e concluiu.

     —      Embora nem os freudianos nem os jungianos digam isso com todas as letras, eles sugerem vigorosamente que talvez tenhamos um núcleo, uma freqüência básica em comum ou, usando a linguagem com a qual Jordan está mais habituado, uma linha de código que não pode ser apagada.

     —      A DP — disse Jordan. — A diretriz primária.

     —      Sim — concordou o Diretor. — No fundo, não somos nem um pouco Homo sapiens. Nossa diretriz primária é matar. O que Darwin foi educado demais para dizer, meus amigos, é que dominamos a Terra não porque éramos os mais inteligentes, ou mesmo os mais cruéis, e sim porque sempre fomos os mais loucos, os mais desgraçados homicidas da floresta. E foi isso que o Pulso demonstrou cinco dias atrás.

     —      Eu me recuso a crer que éramos lunáticos e assassinos antes de qualquer coisa — disse Tom. — Meu Deus, cara, e o Parthenon? E o Davi de Michelangelo? E aquela placa na lua que diz: "Viemos em paz para toda a humanidade."

     —      Aquela placa também tem o nome de Richard Nixon escrito nela — disse Ardal com aspereza. — Um quacre, mas dificilmente um homem de paz. Sr. McCourt, Tom, meu intuito não é acusar a humanidade. Se fosse, diria que para cada Michelangelo existe um Marquês de Sade, para cada Ghandi, um Eichmann, para cada Martin Luther King, um Osama Bin Laden. Vamos nos limitar ao seguinte: o homem dominou o planeta graças a dois traços essenciais. Um é a inteligência. O outro é a completa disposição para matar tudo e todos que possam vir a impedi-lo.

     Ele se inclinou para frente, estudando-os com aqueles olhos brilhantes.

     —      A inteligência humana finalmente conseguiu superar o instinto assassino, e a razão dominou os impulsos mais insanos. Isso também foi uma questão de sobrevivência. Creio que a batalha final entre os dois se deu em outubro de 1963, por conta de um punhado de mísseis em Cuba, mas isso é conversa para outra ocasião. O fato é: a maioria das pessoas sublimou o que há de pior nelas até o Pulso chegar e apagar tudo, exceto aquele núcleo vermelho.

     —      Alguém tirou o diabo-da-tasmânia de dentro da jaula — murmurou Alice. — Quem?

     —      Isso também não é do nosso interesse — respondeu o Diretor.

     —      Imagino que eles não tinham idéia do que estavam fazendo... ou da magnitude do que estavam fazendo. Tomando como base o que devem ter sido experiências feitas às pressas nos últimos anos, ou talvez nos últimos meses, é possível que tenham pensado que iriam desencadear uma onda destrutiva de terrorismo. Em vez disso, desencadearam um tsunami de violência inenarrável, que está em processo de mutação. Por mais horríveis que os dias de hoje pareçam, é provável que mais tarde os consideremos uma calmaria entre duas tempestades. Talvez eles sejam a nossa única chance de causar algum impacto.

     —      O que o senhor quer dizer com processo de mutação? — perguntou Clay.

     Porém, o Diretor não respondeu. Em vez disso, voltou-se para o menino de 12 anos.

     — Quando quiser, meu jovem.

     —      Certo. Bem. — Jordan parou para pensar. — A mente consciente usa apenas uma pequena percentagem da nossa capacidade cerebral. Vocês sabem disso, certo?

     —      Sim — disse Tom, com certa complacência. — Já li sobre isso.

     Jordan assentiu.

     —      Mesmo se acrescentarmos todas as funções automáticas que ele controla, e mais as coisas inconscientes, ou seja, os sonhos, os pensamentos involuntários, o impulso sexual, toda essa conversa, nosso cérebro trabalha muito pouco.

     —      Holmes, você me impressiona — disse Tom.

     —      Não banque o espertinho, Tom — falou Alice, e Jordan olhou para ela com os olhos decididamente brilhando.

     —      Não estou bancando o espertinho — disse Tom. — O garoto é bom.

     —      Ele é mesmo — disse o Diretor secamente. — Jordan às vezes escorrega no inglês, mas não ganhou bolsa por ser um ás no dominó. — Ele notou o desconforto do menino e despenteou carinhosamente o cabelo de Jordan com os dedos ossudos. — Prossiga, por favor.

     —      Bem... — Clay viu que o garoto se esforçou para conseguir retomar o ritmo. — Se o nosso cérebro for mesmo um disco rígido, estaria quase vazio. — Ele percebeu que somente Alice havia entendido. —   Em outras palavras: a barra de informações diria algo como 2% em uso, 98% de espaço livre. Ninguém sabe ao certo para que servem os 98%, mas o potencial deles é grande. Por exemplo, vítimas de derrame... às vezes elas acessam áreas do cérebro que estavam dormentes para voltarem a andar e falar. É como se o cérebro delas se conectasse em volta da área danificada. Áreas semelhantes do cérebro são ativadas, mas do outro lado.

     —      Você estuda essas coisas? — perguntou Clay.

     —      É um produto natural do meu interesse por computadores e cibernética — disse Jordan, dando de ombros. — E eu também leio bastante ficção científica cyberpunk. William Gibson, Bruce Sterling, John Shirley...

     —      Neal Stephenson? — perguntou Alice.

     Jordan abriu um sorriso radiante.

     —      Neal Stephenson é um deus.

     —      Voltando ao assunto... — ralhou o Diretor... mas com ternura.

     Jordan deu de ombros.

     —      Se você formatar o disco rígido de um computador, ele não pode se regenerar espontaneamente... exceto talvez em um romance de Greg Bear. — Ele sorriu de novo, mas desta vez apenas por um instante e, pensou Clay, com nervosismo. A culpa era em parte de Alice, que obviamente deixava o menino gamado. — Com pessoas é diferente.

   —      Mas há uma grande diferença entre voltar a andar depois de um derrame e ser capaz de ligar um monte de mini systems por telepatia — disse Tom. — Uma diferença monstruosa. — Ele olhou em volta constrangido quando a palavra telepatia saiu da sua boca, como se esperasse que rissem dele. Ninguém riu.

     —      É verdade, mas uma vítima de derrame, mesmo se for grave, é muito diferente do que aconteceu com as pessoas que estavam usando o celular durante o Pulso — retorquiu Jordan. — A gente acha, quer dizer, nós achamos, que, além de limpar o cérebro das pessoas até aquela linha de código impossível de apagar, o Pulso também ativou alguma outra coisa. Algo que provavelmente estava lá dentro há milhões de anos, enterrado naqueles 98% de disco rígido inativo.

     A mão de Clay se moveu furtivamente para a coronha do revólver que ele pegara no chão da cozinha de Beth Nickerson.

     —      Um gatilho — disse ele.

     Jordan abriu um sorriso.

     —      Isso, exatamente! Um gatilho de mutação. Não poderia acontecer sem essa... tipo, limpeza total em grande escala. Porque o que está emergindo, o que está surgindo naquelas pessoas lá fora... só que elas não são mais pessoas, o que está surgindo é...

     —      Um único organismo — interrompeu o Diretor. — Essa é a nossa teoria.

     —      Sim, mas é mais do que um simples bando — disse Jordan. — Porque o que eles conseguem fazer com os CD-players pode ser apenas o começo, como uma criancinha aprendendo a amarrar os sapatos. Imaginem o que eles podem conseguir fazer em uma semana. Ou em um mês. Ou em um ano.

     —      Você pode estar errado — disse Tom, mas a voz dele saiu tão seca quanto palha.

     —      Ele também pode ter razão — disse Alice.

     —      Oh, eu tenho certeza de que ele tem razão — atalhou o Diretor. Ele bebericou seu chocolate quente batizado. — É claro que eu sou um velho e meu tempo está se esgotando de qualquer maneira. Acatarei qualquer decisão que vocês tomarem. — Ele fez uma pequena pausa. Seus olhos bruxulearam de Clay para Alice e então para Tom. — Desde que seja a decisão correta, obviamente.

     Jordan falou:

     —      Os bandos vão tentar se unir. Se eles já não conseguem ouvir uns aos outros, vão conseguir logo, logo.

     —      Besteira — disse Tom, apreensivo. — Histórias de fantasmas.

     —      Talvez — disse Clay —, mas vamos pensar no seguinte: agora, as noites são nossas. E se eles decidirem que precisam de menos horas de sono? Ou que não têm tanto medo assim do escuro?

     Ninguém falou nada por vários instantes. O vento estava ficando mais forte lá fora. Clay bebericou o chocolate quente, que nunca tinha estado mais do que morno e já estava quase frio. Quando voltou a erguer os olhos, Alice tinha deixado de lado sua caneca e estava com o talismã da Nike nas mãos.

     —      Eu quero exterminá-los — disse ela. — Os que estão no campo de futebol, quero exterminá-los. Não digo matá-los porque acho que Jordan tem razão, e não quero fazer isso pela raça humana. Quero fazer pela minha mãe e pelo meu pai, porque ele está morto também. Sei que está, posso sentir. Quero fazer pelas mihhas amigas Vicky e Tess. Elas eram boas amigas, mas tinham celulares, não saíam para lugar nenhum sem eles, e tenho certeza de que estão como eles agora, e que estão dormindo: em algum lugar igual àquela porra de campo de futebol. — Ela olhou para o Diretor, corando. — Perdão, senhor.

     O Diretor afastou a desculpa dela com um gesto.

     —      Podemos fazer isso? — ela perguntou ao velho. — Podemos exterminá-los?

     Charles Ardal, que estava encerrando sua carreira como diretor interino da Academia Gaiten quando o mundo acabou, revelou seus dentes carcomidos em um sorriso que Clay daria muito para ter capturado em um desenho; não havia uma gota de piedade nele.

     —      Srta. Maxwell, nós podemos tentar — disse.

    

     Às quatro da manhã do dia seguinte, Tom McCourt sentava-se em uma mesa de piquenique entre as duas estufas da Academia Gaiten, que haviam sido bastante danificadas desde o Pulso. Os pés dele, agora usando os Reeboks que calçara ainda em Malden, estavam em cima de um dos bancos e a cabeça estava pousada nos braços, que descansavam sobre o joelho. O vento jogava seu cabelo primeiro para um lado, depois para o outro. Alice sentava-se na frente dele, com o queixo apoiado nas mãos e fachos de várias lanternas desenhando ângulos e sombras no seu rosto. A luz dura a deixava bonita, apesar do cansaço evidente; na idade dela, qualquer luz ainda era lisonjeira. O Diretor, sentado ao lado de Alice, parecia apenas exausto. Na estufa mais próxima, dois lampiões a gás flutuavam como espíritos inquietos.

     Os lampiões convergiram na saída da estufa. Clay e Jordan passaram pela porta, embora enormes buracos tivessem sido abertos nas paredes de vidro em ambos os lados. Pouco depois, Clay se sentou perto de Tom e Jordan retornou ao seu posto habitual ao lado do Diretor. O menino cheirava a gasolina e fertilizante; cheirava ainda mais a desânimo. Clay largou vários molhos de chave na mesa em meio às lanternas. Para ele, as chaves poderiam ficar ali até algum arqueólogo as descobrir quatro milênios mais tarde.

     —      Desculpem-me — disse baixinho o Diretor Ardal. — Parecia tão simples.

     —      Pois é — falou Clay.

     Parecia simples: bastava encher os pulverizadores da estufa com gasolina, colocar os pulverizadores na traseira de uma picape, dar a volta no estádio Tonney, encharcando os dois lados no caminho, e acender um fósforo. Ele pensou em falar para Ardal que a aventura de George W. Bush no Iraque também devia ter parecido simples — carregar os pulverizadores, acender um fósforo — e não era. Seria uma crueldade sem sentido.

     —      Tom? — perguntou Clay. — Você está bem? — Ele já tinha percebido que Tom não tinha grandes reservas de energia.

     —      Tudo bem, só estou cansado. — Ele ergueu a cabeça e sorriu para Clay. — Não estou acostumado com o turno da noite. O que a gente faz agora?

     —      Vamos para cama, eu acho — disse Clay. — Vai amanhecer daqui a uns 40 minutos. — O céu já começara a clarear ao leste.

     —      Não é justo — disse Alice. Ela esfregou com raiva as bochechas. — Não é justo, a gente se esforçou tanto.

     Eles tinham se esforçado muito, mas nada era fácil. Cada pequena (e, no fim das contas, inútil) vitória tinha sido o tipo de luta encarniçada que a mãe de Clay chamava de ralação bolchevique. Parte de Clay queria muito culpar o Diretor... e também a si mesmo, por não ter ouvido a idéia do pulverizador de Ardal com um pouco mais de malícia. Agora, parte dele achava que acatar a idéia de um professor de inglês de incendiar um campo de futebol era meio como levar uma faca para um tiroteio. Ainda assim... bem, parecera uma boa idéia.

     Isto é, até descobrirem que o tanque de gasolina da garagem da frota de veículos estava dentro de um barraco trancado. Eles passaram quase meia hora no escritório revirando à luz de lanternas um monte de chaves irritantemente sem etiquetas em um mural atrás da mesa do supervisor. Foi Jordan quem finalmente encontrou a chave do barraco.

     Então eles descobriram que "basta puxar um plugue" não era exatamente o caso. Havia uma tampa, e não um plugue. E, como o barraco em que o tanque estava, a tampa estava fechada à chave. Voltaram ao escritório, remexeram mais à luz de velas e finalmente encontraram uma chave que parecia servir. Foi Alice quem observou que, uma vez que a tampa estava no fundo do tanque, para garantir que a força da gravidade empurrasse a gasolina caso faltasse energia, eles iriam entornar tudo se não usassem uma mangueira ou um sifão. Passaram então uma hora procurando uma mangueira que servisse e não acharam nada que fosse remotamente parecido. Tom encontrou um pequeno funil, o que deixou todos levemente histéricos.

     E, uma vez que nenhuma das chaves das picapes estava etiquetada (pelo menos não de maneira que não-funcionários da frota de veículos pudessem entender), localizar o molho certo se tornou outro processo de tentativa e erro. Pelo menos isso foi mais rápido, pois havia apenas oito picapes estacionadas atrás da garagem.

     Por fim, as estufas. Lá eles encontraram apenas oito pulverizadores, e não uma dúzia, com capacidade não de 110 litros, mas de 35. Talvez até conseguissem enchê-los com a gasolina do tanque, mas o processo os deixaria encharcados e o resultado seria menos de 300 litros de gasolina útil. Foi a idéia de exterminar mil lunáticos dos celulares com menos de 300 litros de gasolina comum que levara Tom, Alice e o Diretor à mesa de piquenique. Clay e Jordan ainda rodaram mais um pouco, procurando por pulverizadores maiores, porém não encontraram nada.

     —      Mas encontramos alguns pulverizadores de jardim — disse Clay. — Sabem, aqueles que as pessoas costumavam chamar de bombas de Flit.

     —      E além disso — disse Jordan —, os pulverizadores grandes lá de dentro estão todos cheios de fertilizante, adubo ou algo do gênero. Primeiro teríamos que jogar tudo fora, e ainda precisaríamos de máscaras para não nos intoxicar, ou sei lá o quê.

     —      Que dureza — disse Alice, emburrada. Ela olhou para o tênis de bebê por um instante e então o enfiou no bolso.

     Jordan pegou as chaves que eles descobriram servir em uma das picapes.

     —      Podemos ir até o centro — disse ele. — Tem uma loja de ferragens lá. Eles devem ter pulverizadores.

     Tom balançou a cabeça.

     —      Fica a quase 2 quilômetros daqui e a pista principal está cheia de carros acidentados e veículos abandonados. Talvez a gente consiga desviar de alguns, mas não de todos. E dirigir pelos gramados está fora de questão. As casas são muito grudadas. As pessoas estão todas viajando a pé por um motivo. — Eles haviam visto algumas pessoas de bicicleta, mas não muitas. Mesmo as que tinham farol eram perigosas se você acelerasse o mínimo que fosse.

     —      Será que um caminhão pequeno conseguiria passar pelas ruas laterais? — perguntou o Diretor.

     Clay disse:

     —      Imagino que a gente possa explorar essa possibilidade na noite de amanhã. Poderíamos antes inspecionar um caminho a pé e voltar para pegar o caminhão. — Ele refletiu. — Provavelmente uma loja de ferragens também tem mangueiras de todo tipo.

     —      Você não me parece muito animado — disse Alice.

     Clay suspirou.

     —      Qualquer coisa pode bloquear uma rua pequena. Acabaríamos fazendo muito trabalho de burro de carga mesmo se tivermos mais sorte do que hoje à noite. Talvez a idéia pareça melhor depois que eu descansar um pouco.

     —      É claro que vai parecer — concordou o Diretor, mas não soou convincente. — Para todos nós.

     —      E o posto de gasolina em frente à escola? — perguntou Jordan, sem muita esperança.

     —      Que posto de gasolina? — perguntou Alice.

     —      Ele está falando do Citgo — respondeu o Diretor. — O mesmo problema, Jordan: muita gasolina nos tanques embaixo das bombas, mas nenhuma energia. E duvido que os contêineres deles possam encher mais do que algumas latas de gasolina de 8 ou 20 litros. O que eu acho mesmo é... — Mas o velho não disse o que achava mesmo. Ele parou de falar. — O que foi, Clay?

     Clay estava se lembrando do trio à frente deles, que passara mancando por aquele posto de gasolina, um dos homens com o braço em volta da cintura da mulher.

     —      Citgo da Academia Grove — disse ele. — É este o nome, não é?

     — É...

     —      Mas acho que eles não vendem apenas gasolina. — Ele não só achava, tinha certeza. Por conta dos dois caminhões parados em frente do posto. Ele os tinha visto e não achara nada de mais. Não naquela hora. Não tinha motivo.

     —      Não sei o que você... — o Diretor começou a falar e então se interrompeu. Os olhos dele encontraram os de Clay. Seus dentes carcomidos apareceram mais uma vez naquele sorriso excepcionalmente impiedoso. — Oh — ele disse. — Oh. Minha nossa. Minha nossa, é claro.

     Tom olhava de um para outro com uma perplexidade cada vez maior. Alice também. Jordan apenas aguardava.

     —      Vocês se importariam de dividir com a gente o que estão pensando? — perguntou Tom.

     Clay estava prestes a fazê-lo — ele já via claramente como iria funcionar, e era bom demais para não compartilhar com os demais — quando a música no estádio Tonney cessou. Ela não parou com um clique, como geralmente acontecia quando eles acordavam pela manhã; o som despencou, como se alguém tivesse chutado a fonte para o fundo de um poço de elevador.

     —      Eles acordaram cedo — disse Jordan em voz baixa.

     Tom agarrou o antebraço de Clay.

     —      Está diferente — disse ele. — E um daqueles malditos estoura tímpanos ainda está tocando... Dá para ouvir, bem baixinho.

     O vento estava forte, e Clay sabia que ele vinha da direção do campo de futebol por conta dos cheiros pungentes que trazia: comida em decomposição, carne em decomposição, centenas de corpos sem banho. Trazia também o som fantasmagórico de Lawrence Welk e os Champagne Music Makers tocando Baby Elephant Walk.

     Então, vindo de algum lugar a noroeste — talvez a 15 ou 50 qui-lômetros de distância, era difícil saber desde onde o vento conseguia carregá-lo —, veio um gemido espectral, de alguma forma parecido com o som de mariposas. Depois silêncio... silêncio... e, em seguida, as criaturas não-despertas e não-adormecidas no campo de futebol Tonney responderam da mesma forma. O gemido delas era muito maís alto, um grunhido espectral, surdo e retumbante que subia em direção ao céu escuro e estrelado.

     Alice cobriu a boca. O tênis de bebê saltou das suas mãos. Ela arregalou os olhos para ele. Jordan jogará os braços em volta da cintura do Diretor e enterrara o rosto nas costelas dp velho.

     —      Veja, Clay! — disse Tom. Ele se levantou e cambaleou até o gramado entre as duas estufas destruídas. — Está vendo? Meu Deus, está vendo?

     Um brilho laranja-avermelhado tingira o horizonte a noroeste, de onde o grunhido distante tinha surgido. Ficou mais forte à medida que ele observava; o vento trouxe aquele som terrível novamente... e mais uma vez foi respondido com um grunhido semelhante, porém muito mais alto, vindo do estádio Tonney.

     Alice se juntou a eles, seguida pelo Diretor, que andava com os braços em volta dos ombros de Jordan.

     —      O que fica para lá? — perguntou Clay, apontado em direção ao brilho. Ele já tinha começado a enfraquecer novamente.

     —      Pode ser Glen's Falls — respondeu o Diretor. — Ou talvez Littleton.

     —      Seja o que for, está rolando um churrasco — disse Tom. — Eles estão queimando. E o nosso bando sabe disso. Eles ouviram.

     —      Ou sentiram — disse Alice. Ela estremeceu, se empertigou e arreganhou os dentes. — Espero que sim!

     Como se para responder à afirmação de Alice, outro grunhido veio do estádio Tonney: várias vozes se ergueram em uníssono em um grito de solidariedade e, talvez, agonia compartilhada. O único mini system que restara — era o mestre, imaginava Clay, o que estava com um CD dentro — continuou tocando. Dez minutos depois, os demais voltaram a se unir a ele. A música — daquela vez, Close to You, dos Carpenters — aumentou da mesma forma que tinha despencado antes. Àquela altura, o Diretor Ardal, visivelmente mancando com sua bengala, já os havia levado de volta para a Casa Cheatham. Logo em seguida, a música parou de novo... mas daquela vez com um clique, como na manhã anterior. Ao longe, trazido pelo vento por Deus sabe quantos quilômetros, ouviu-se o som fraco de um tiro. Então um silêncio sinistro e absoluto caiu sobre o mundo, enquanto ele aguardava a noite dar lugar ao dia.

    

     À medida.qae os primeiros raios vermelhos do sol começavam a trespassar as árvores no horizonte ao leste, eles observaram os fonáticos deixarem mais uma vez o campo de futebol em formação de ordem-unida e seguirem para o centro de Gaiten e para os bairros mais próximos. Mudaram de direção no caminho, descendo rumo à Academy Avenue como se nada de inconveniente tivesse acontecido perto do fim da noite. Mas Clay não levou fé naquilo. Ele pensou que, se quisessem fazer o que tinham que fazer no posto Citgo, era melhor que fosse depressa, naquele dia mesmo. Sair à luz do sol poderia significar ter que atirar em alguns deles, mas enquanto estivessem se movendo em grupo apenas no começo e no fim do dia, ele estava disposto a correr o risco.

     Eles observaram o que Alice chamou de "o despertar dos mortos" da sala de jantar. Mais tarde, Tom e o Diretor foram para a cozinha. Clay os encontrou sentados à mesa em uma nesga de sol, bebendo café morno. Antes de Clay começar a explicar o que ele queria fazer mais tarde, Jordan tocou o pulso dele.

     —      Alguns dos lunáticos ainda estão aqui — disse ele. — Eu estudei com alguns deles.

     Tom falou:

     —      Achei que a essa altura eles estivessem fazendo compras no Kmart, procurando pelas ofertas especiais.

     —      É melhor dar uma conferida — disse Alice da porta. — Não sei bem se é outro... como é que vocês chamam?... outro passo evolutivo, mas pode ser que sim. Provavelmente.

     —      Com certeza é — disse Jordan em um tom sombrio.

     Os fonáticos que tinham ficado para trás — Clay achava que era um pelotão de cerca de cem deles — estavam retirando os mortos debaixo das arquibancadas. A princípio, simplesmente os carregaram até o estacionamento ao sul do campo e para trás de um prédio de tijolos longo e baixo. Voltaram de mãos vazias.

     —      Aquele prédio é a pista de atletismo coberta — o Diretor contou a eles. — É também onde guardamos o material esportivo. Tem um barranco atrás dele, imagino que estejam jogando os corpos pela beirada.

     —      Pode apostar que sim — disse Jordan. Ele parecia enojado. —Tem um pântano lá embaixo. Eles vão apodrecer.

     —      Eles já estavam apodrecendo de qualquer jeito, Jordan — disse Tom delicadamente.

     —      Eu sei — falou ele, parecendo mais enojado do que nunca —, mas vão apodrecer mais rápido ainda no sol. — Uma pausa. — Senhor?

     —      O que foi, Jordan?

     —      Eu vi Noah Chutsky. Do seu Clube de Leitura.

     O Diretor deu tapinhas no ombro do menino. Estava muito pálido.

     —      Esqueça.

     —      Com prazer — sussurrou Jordan. — Ele tirou uma foto minha uma vez. Com o... com o senhor-sabe-o-quê dele.

     Então, um novo desdobramento. Duas dúzias de abelhas operárias se destacaram do grupo principal sem parar para conversa e foram em direção às estufas destruídas, movendo-se em formação de V, que fazia os observadores se lembrarem de gansos em migração. O que Jordan identificou como Noah Chutsky estava entre eles. O resto do pelotão de remoção de corpos os observou partirem por um instante e então voltou a descer as rampas, três ombro a ombro, e continuaram resgatando corpos debaixo das arquibancadas.

     Vinte minutos depois, o grupo da estufa retornou, andando em fila única. Alguns ainda estavam com as mãos vazias, mas a maioria adquirira carrinhos de mão do tipo usado para transportar sacas de cal ou fertilizante. Logo, os fonáticos estavam usando os carrinhos para se livrarem dos corpos, e o trabalho andou mais rápido.

     —      É um passo evolutivo, com certeza — disse Tom.

     —      Mais que um — acrescentou o Diretor. — Limpar a casa; usar ferramentas para fazer o serviço.

     Clay falou:

     —      Não estou gostando disso.

     Jordan ergueu os olhos para ele, o rosto pálido, cansado e muito mais velho do que devia.

     —      Bem-vindo ao clube — disse.

    

     Eles dormiram até úma da tarde. Depois de confirmarem que o destacamento dos corpos havia terminado o trabalho e ido ao encontro dos demais catadores, desceram até os pilares de pedra que marcavam a entrada da Academia Gaiten. Alice zombara da idéia de Clay de que ele e Tom deveriam fazer aquilo sozinhos.

     —      Podem ir tirando essa idéia de Batman e Robin da cabeça — disse ela.

     —      Que pena, sempre quis ser o Menino Prodígio — disse Tom, ceceando um pouco, mas quando ela o encarou com um olhar sisudo, agarrando o tênis (que já estava ficando meio surrado) com uma das mãos, ele ficou sério. — Desculpe.

     —      Vocês podem ir até o posto de gasolina sozinhos — disse ela. — Até aí, tudo bem. Mas o restante de nós vai ficar vigiando do outro lado da rua.

     O Diretor sugeriu que Jordan ficasse na Casa. Antes de o menino poder responder — e ele parecia prestes a fazê-lo com fervor —, Alice perguntou:

     —      Como é a sua vista, Jordan?

     O menino abriu um sorriso para ela, mais uma vez acompanhado daquele olhar um tanto brilhante.

     —      Boa. Ótima.

     —      E você joga bastante videogame? Daqueles de tiro?

     —      Claro, de montão.

     Ela entregou sua pistola para o menino. Clay notou que ele estremeceu um pouco, como um diapasão, quando seus dedos se tocaram.

     —      Se pedir para você apontar e atirar, ou se o Diretor Ardal pedir, você atiraria?

     —      Claro.

     Alice olhou para Ardal com uma mistura de rebeldia e pedido de desculpas.

     —      Precisamos da ajuda de todos.

     O Diretor aceitara aquilo, e lá estavam eles e lá estava o Citgo da Academia Grove, do outro lado da rua e só um pouquinho mais perto da cidade. De onde estavam, dava para ler a outra placa, um pouco menor: GÁS LP DA ACADEMIA. O único carro parado em frente às bombas, com a porta do motorista aberta, já tinha uma aparência empoeirada, de algo há muito abandonado. A janela panorâmica de vidro do posto estava quebrada. Mais à direita, estacionado na sombra do que só podia ser um dos últimos olmos que restaram depois da praga no norte da Nova Inglaterra, havia dois caminhões no formato de botijões de gás gigantes. As seguintes palavras estavam escritas na lateral de ambos: GÁS LP DA ACADEMIA e Servindo Southern New Hampshire desde 1982.

     Não havia sinal de fonáticos catadores naquela parte da Academy Avenue e, embora a maioria das casas que Clay conseguia ver estivesse com sapatos na frente, muitas estavam sem. O fluxo de refugiados parecia estar diminuindo. Cedo demais para ter certeza, ele advertiu a si mesmo.

     —      Senhor? Clay? O que é aquilo? — perguntou Jordan. Ele apontava para o meio da avenida, que obviamente ainda era a rota 102, embora aquilo fosse fácil de esquecer naquela tarde ensolarada e silenciosa, em que os sons mais próximos eram os de pássaros e do farfalhar do vento nas folhas. Havia algo escrito em giz rosa choque no asfalto, mas, de onde estavam, Clay não conseguia ler. Ele balançou a cabeça.

     —      Você está pronto? — ele perguntou a Tom.

     —      Claro — respondeu ele. Tom estava tentando soar casual, mas uma pulsação batia rapidamente do lado do seu pescoço não barbeado.

     — Você Batman, eu Menino Prodígio.

     Eles atravessaram a rua a passos rápidos, com os revólveres em punho. Clay deixara a arma automática russa com Alice, mais ou menos convencido de que ela a faria rodar como um peão se a garota tivesse que usá-la.

     A mensagem rabiscada em giz rosa no asfalto era

     KASHWAK=SEM-FO

     —      Isso significa alguma coisa para você? — perguntou Tom.

     Clay balançou a cabeça. Não significava e, naquele momento, ele não dava a mínima. Tudo o que queria era sair do meio da Academy Avenue, onde se sentia tão exposto quanto uma formiga em uma vasilha de arroz. Ocorreu-lhe, subitamente e não pela primeira vez, que ele venderia a alma só para saber que o filho estava bem, em um lugar onde as pessoas não estavam colocando armas nas mãos de crianças que jogavam bem videogame. Era estranho. Clay imaginara que tinha definido suas prioridades, que estava lidando com seu baralho pessoal carta a carta, mas então surgiam esses pensamentos, cada qual tão fresco e doloroso quanto uma dor não superada.

     Saia daqui Johnny. Não é aqui que você deve estar. Esse não é o seu lugar nem a sua hora.

     Os caminhões de gás estavam vazios e trancados, mas isto não foi problema; naquele dia, a sorte estava do lado deles. As chaves estavam penduradas em um mural no escritório do posto, sob uma placa com os dizeres: PROIBIDO REBOQUE ENTRE MEIA-NOITE E 6 DA MANHÃ SEM EXCEÇÕES. Um botijão de gás em miniatura pendia de cada chave. No meio do caminho de volta para a porta, Tom tocou o ombro de Clay.

     Dois fonáticos subiam pelo meio da rua, lado a lado, mas de maneira nenhuma em marcha. Um estava comendo uma caixa de bolinhos Ana Maria; o rosto dele estava coberto de creme, farelos e cobertura. O outro, uma mulher, segurava diante de si um livro de deixar na mesa da sala. Para Clay, ela parecia uma corista segurando um hinário gigante. A capa do livro parecia ter a foto de um collie saltando por dentro de um balanço de pneu. O fato de a mulher estar segurando o livro de cabeça para baixo aliviou um pouco Clay. As expressões vazias e perplexas em seus rostos — e o fato de estarem andando sozinhos, o que significava que meio-dia ainda era uma hora em que eles não se agrupavam — o aliviaram mais ainda.

     Porém, ele não estava gostando daquele livro.

     Não, não estava gostando nem um pouco daquele livro.

     Eles passaram pelos pilares de pedra e Clay podia ver Alice, Jordan e o Diretor à espreita, de olhos arregalados. Os dois lunáticos andaram por cima da mensagem em código escrita a giz na rua — KASHWAK=SEM-FO — e a mulher tentou pegar os bolinhos do seu companheiro. O homem afastou a caixa dela. A mulher atirou o livro longe (ele aterrissou com o lado direito para cima, e Clay viu que era Os 100 Cães mais Amados do Mundo) e tentou de novo. O homem a esbofeteou com tanta força que o cabelo sujo dela voou, o som muito alto no silêncio do dia. Eles não pararaín de andar um instante. A mulher produziu um som:

     —      Aw!

     O homem respondeu (Clay achava que era uma resposta):

     —      Eeeen!

     A mulher tentou pegar a caixa de bolinhos Ana Maria. Àquela altura, eles passavam pelo Citgo. O homem bateu no pescoço daquela vez, descrevendo um arco com a mão espalmada, e então enfiou a mão na caixa para pegar outro bolinho. A mulher parou. Olhou para ele. E, logo em seguida, o homem parou. Afastara-se um pouco, de modo que estava praticamente de costas para ela.

     Clay sentiu algo no silêncio aquecido pelo sol do escritório do posto de gasolina. Não, ele pensou, não no escritório, em mim. Falta de ar, como quando você sobe um lance de escadas muito depressa.

     Só que talvez também fosse no escritório, porque...

     Tom ficou na ponta dos pés e sussurrou no ouvido dele:

     —      Você sentiu isso?

     Clay assentiu e apontou para a mesa. O ar estava parado, eles não sentiam vento nenhum, mas os papéis em cima da mesa estavam tremulando. E, no cinzeiro, as cinzas tinham começado a rodopiar lentamente, como água descendo pelo ralo de uma banheira. Havia duas guimbas nele — não, três —, e as cinzas em movimento pareciam empurrá-las para o centro.

     O homem se virou para a mulher. Olhou para ela. Ela devolveu o olhar. Eles ficaram se olhando. Clay não conseguiu detectar nenhuma expressão no rosto deles, mas sentia os cabelos do braço se eriçarem e ouviu algo tilintar baixinho. Eram as chaves no mural debaixo do cartaz que dizia PROIBIDO REBOQUE. Elas também estavam vibrando; batendo discretamente umas contra as outras.

     —      Awl — disse a mulher. Ela estendeu a mão.

     —      Eeen! — disse o homem. Ele vestia os restos desbotados de um terno. Calçava sapatos pretos sem brilho. Seis dias atrás, talvez fosse um gerente intermediário, um vendedor ou um gerente de condomínio. Agora, a única propriedade com que se importava era a sua caixa de bolinhos Ana Maria. Ele a apertava contra o peito, mastigando com a boca melada.

     —      Awl — insistiu a mulher. Ela estendeu as duas mãos em vez de apenas uma, naquele gesto imemorial que significa me dá, e as chaves tilintaram mais alto. Acima da cabeça deles, houve um bztk à medida que uma lâmpada fluorescente para a qual não havia energia piscou e voltou a apagar. A mangueira caiu da bomba de gás do meio e bateu na ilha de concreto com um barulho de metal morto.

     —      Aw — disse o homem. Os ombros dele se curvaram e toda a tensão o abandonou. A tensão abandonou o ar. As chaves no mural silenciaram. As cinzas deram uma última volta em seu relicário de metal talhado e pararam. Era como se nada tivesse acontecido, pensou Clay, exceto pela mangueira caída lá fora e o pequeno bolo de guimbas de cigarro no cinzeiro em cima da mesa.

     —      Aw — disse a mulher. Ainda estava com as mãos estendidas.

     O homem andou até o raio de alcance delas. Ela pegou um bolinho em cada mão e começou a comê-los, com embalagem e tudo. Clay ficou mais uma vez aliviado, mas só um pouco. Eles voltaram a se arrastar lentamente em direção à cidade, a mulher parando para cuspir um pedaço de celofane lambuzado de recheio. Não demonstrou interesse no livro Os 100 Cães mais Amados do Mundo.

     —      O que foi aquilo? — perguntou Tom em uma voz baixa e tremida quando os dois estavam quase fora de vista.

     —      Não sei, mas não estou gostando — disse Clay. Ele estava com as chaves dos caminhões de gás. Entregou um molho para Tom.

     — Você sabe dirigir um carro com câmbio manual?

     —      Eu aprendi a dirigir em um. Você sabe?

     Clay sorriu pacientemente.

     —      Eu sou hétero, Tom. Héteros sabem dirigir carros com câmbio manual sem precisar aprender. É uma coisa instintiva.

     —      Muito engraçado. — Tom não estava prestando muita atenção. Procurava a dupla que tinha ido embora e a pulsação do lado do pescoço dele batia mais rápido do que nunca. — Fim do mundo, temporada de caça às bichas, por que não?

     —      Isso mesmo. Vai ser temporada de caça aos héteros também, se eles conseguirem controlar aquela merda. Vamos resolver isso logo.

     Ele começou a sair pela porta, mas Tom o segurou por um instante.   

     —      Ouça. Talvez os outros tenham sentido aquele negócio do lado de lá, talvez não. Se não sentiram, talvez a gente não deva falar nada por enquanto. O que você acha?

     Clay pensou em como Jordan não deixava o Diretor sair de vista e como Alice sempre mantinha aquele pequeno tênis sinistro ao alcance da mão. Pensou nas olheiras deles e então sobre o que eles planejavam fazer naquela noite. Armagedon talvez fosse uma palavra forte demais, mas nem tanto. O que quer que fossem agora, os fonáticos já tinham sido seres humanos, e queimar mil deles vivos já era um belo fardo. Até pensar naquilo feria-lhe a imaginação.

     —      Por mim, tudo bem — disse ele. — Suba aquela colina em marcha lenta, certo?

     —      Na mais lenta que eu encontrar — disse Tom. Estavam seguindo em direção aos enormes caminhões em forma de garrafa. — Quantas marchas você acha que um caminhão desses tem?

     —      A primeira já deve dar conta do recado — disse Clay.

     —      Pelo jeito que estão estacionados, acho que vamos ter que começar dando uma ré.

     —      Que se foda — disse Clay. — Pra que serve o fim do mundo se você não pode passar por cima de uma porra de uma cerca?

     E foi isso que eles fizeram.

    

     A Ladeira da Academia era como o Diretor Ardal e seu último aluno chamavam a longa e sinuosa colina que descia do campus até a estrada principal. A grama ainda era de um verde brilhante e estava apenas começando a ser coberta pelas folhas que caíam. Quando a tarde deu lugar à noitinha e a Ladeira da Academia ainda estava vazia — nenhum sinal de fonáticos voltando —, Alice começou a andar pelo hall principal da Casa Cheatham, parando a cada volta para olhar pela janela de sacada da sala de estar. Ela oferecia uma boa vista da ladeira, dos dois principais auditórios e do estádio Tonney. Estava novamente com o tênis amarrado ao pulso.

     Os dernais estavam na cozinha, bebericando latas de Coca-Cola.

     —      Eles não vão voltar — Alice falou para eles ao terminar uma de suas voltas. — Ficaram sabendo do nosso plano, leram nossas mentes ou algo do gênero, e não vão voltar.

     Mais duas voltas no longo hall do andar de baixo, ambas com uma pausa para olhar pela janela grande da sala de estar, e então voltou a olhar para dentro da cozinha.

     —      Ou talvez seja uma migração generalizada, vocês já pensaram nisso? Talvez eles vão para o sul no inverno como aqueles malditos tordos.

     Ela foi embora sem esperar resposta. Subindo do hall e descendo para o hall. Subindo do hall e descendo para o hall.

     —      Ela parece o capitão Ahab atrás de Moby — observou o Diretor.

     —      O Eminem pode ser um idiota, mas ele tinha razão quanto a esse cara — disse Tom, emburrado.

     —      Desculpa, não entendi, Tom — disse o Diretor.

     Tom gesticulou, encerrando o assunto.

     Jordan olhou para o relógio.

     —      A essa hora, ontem à noite, ainda faltava quase meia hora para eles voltarem — disse ele. — Se vocês quiserem, posso descer e falar isso para ela.

     —      Não acho que vá adiantar muito — disse Clay. — É uma coisa que ela precisa fazer, só isso.

     —      Ela está bem apavorada, não é, senhor?

     —      E você não está, Jordan?

     —      Estou — disse Jordan baixinho. — Estou superapavorado.

     Na próxima vez que Alice apareceu na cozinha, ela disse:

     —      Talvez seja melhor eles não voltarem. Não sei se estão reiniciando o cérebro de algum outro jeito, mas certamente tem alguma macumba braba rolando. Senti isso com aqueles dois hoje à tarde. A mulher com o livro e o homem com os bolinhos Ana Maria? — Ela balançou a cabeça. — Macumba braba.

     Ela voltou correndo para a patrulha do hall antes que alguém pudesse responder, o tênis balançando no pulso.

     O Diretor olhou para Jordan.

     —      Você sentiu alguma coisa, filho?

     Jordan hesitou e então disse:

     —      Eu senti alguma coisa. O cabelo da minha nuca tentou se levantar.

     O Diretor desviou o olhar para os homens do outro lado da mesa.

     —      E quanto a vocês dois? Vocês estavam muito mais perto.

     Alice os salvou da obrigação de responder. Ela entrou correndo na cozinha, as faces coradas, os olhos esbugalhados, as solas do sapato cantando nos ladrilhos.

     —      Eles estão vindo — disse ela.

    

     Da janela da sacada os quatro observaram os fonáticos subirem a Ladeira da Academia em fileiras convergentes, as sombras longas formando um catavento gigante na grama verde. Ao se aproximarem do que Jordan e o Diretor chamavam de arco Tonney, as fileiras se juntaram e o catavento pareceu rodar sob a luz dourada do fim do dia, ao passo que se contraía e se solidificava.

     Alice não conseguia mais deixar de segurar o tênis. Ela o arrancara do pulso e o apertava compulsivamente.

     —      Eles vão ver o que fizemos e dar a volta — disse ela, falando baixo e depressa. — Eles ficaram espertos o bastante para isso; se voltaram a apanhar livros, devem ter ficado.

     —      Veremos — disse Clay. Ele tinha quase certeza de que os lunáticos dos celulares entrariam no estádio Tonney, mesmo se o que vissem perturbasse sua estranha mente coletiva; logo iria escurecer e eles não teriam nenhum outro lugar para ir. Um pedaço de uma canção de ninar que a mãe de Clay costumava cantar para ele passou-lhe pela cabeça: Homenzinho, você teve um dia cheio.

     —      Espero que eles entrem e que fiquem lá dentro — ela disse, mais baixo do que nunca. — Parece que eu vou explodir. — Ela deu uma risadinha desvairada. — Só que são eles que têm que explodir, não é? Eles. — Tom se virou para olhar para Alice e ela disse: — Estou bem. Estou bem, vou ficar quieta.

     —      Eu só ia dizer que o que tiver que ser, será — disse ele.

     —      Lengalenga New Age. Parece até o meu pai. O "Rei das Molduras".

     Uma lágrima desceu por uma de suas bochechas e ela a limpou impacientemente com a base da mão.

     —      Acalme-se, Alice. Fique olhando.

     —      Vou tentar, certo? Vou tentar.

     —      E largue esse tênis — disse Jordan, em um tom que, para ele, era de irritação. — Esse nhec, nhec está me tirando do sério.

     Ela baixou os olhos para o tênis, como se estivesse surpresa, e então o colocou em volta do pulso, amarrando-o novamente. Eles observaram os fonáticos convergirem no arco Tonney e passarem por baixo dele evitando empurra-empurra e tumulto de um jeito que nenhuma platéia que viesse para a partida de futebol do Fim de Semana dos Alumni conseguiria igualar — Clay estava certo disso. Observaram os lunáticos voltarem a se espalhar mais adiante, atravessando o pátio e descendo as rampas em fila. Aguardaram aquela marcha diminuir de ritmo e parar, mas isso não aconteceu. Os retardatários — a maioria ferida e se ajudando mutuamente, mais ainda assim andando em grupos fechados — entraram bem antes de o sol avermelhado passar pelos dormitórios a oeste do campus da Academia Gaiten. Eles haviam retornado mais uma vez, como pombos correios para seus ninhos ou como andorinhas para Capistrano. Menos de cinco minutos depois de a estrela vespertina surgir no céu que escurecia, Dean Martin começou a cantar Everybody Loves Somebody Sometime.

     —      Eu me preocupei à toa, não foi? — disse Alice. — Às vezes eu sou uma idiota. É o que o meu pai diz.

     —      Não — o Diretor disse a ela. — Todos os idiotas tinham celulares, querida. É por isso que eles estão lá fora e você está aqui, conosco.

     Tom falou:

     —      Fico imaginando se Rafe ainda está bem.

     —      Eu fico imaginando se Johnny está — disse Clay. — Johnny e Sharon.

    

     Às 22h daquela noite de ventania de outono, sob uma lua que entrava em seu último quarto, Clay e Tom estavam parados no nicho da banda no lado do time da casa do campo de futebol Tonney. Logo à frente deles, havia uma barreira de concreto que ia até a cintura e tinha sido bastante acolchoada na lateral do campo. Na lateral, havia alguns suportes de partitura enferrujados e um tapete de lixo que chegava aos calcanhares; o vento jogara sacos rasgados e pedaços de papel para lá, e lá eles ficaram. Atrás e acima deles, na altura das roletas, Alice e Jordan ladeavam o Diretor, um vulto alto apoiado na haste fina da bengala.

     A voz de Debbie Boone rolava pelo campo em ondas amplificadas de uma imponência cômica. Normalmente, depois dela viria Lee Ann Womack cantando Hope You Dance, voltando em seguida a Lawrence Welk e os Champagne Music Makers, mas talvez não naquela noite.

     O vento era refrescante. Trazia o cheiro dos corpos em decomposição do pântano atrás do prédio da pista de atletismo e o aroma de sujeira e suor das criaturas vivas empilhadas no campo em frente ao nicho da banda. Se é que se pode chamar isso de vida, pensou Clay, e abriu um pequeno e amargo sorriso interno. A racionalização é um grande esporte humano, talvez o maior deles, mas ele não queria se enganar naquela noite: é claro que eles chamavam aquilo de vida. Independentemente do que fossem ou estivessem se tornando, chamavam aquilo de vida do mesmo jeito que ele chamava a sua.

     —      O que você está esperando? — murmurou Tom.

     —      Nada — Clay murmurou de volta. — É só que... nada.

     Do coldre que Alice encontrara no porão de Nickerson, Clay sacou o antiquado Colt calibre 45 de Beth Nickerson, que estava mais uma vez totalmente carregado. Alice oferecera a ele o rifle automático — que até então não haviam nem mesmo testado —, mas Clay recusara, dizendo que se o revólver não desse conta do recado, provavelmente nada daria.

     —      Não sei se a automática não seria melhor, já que ela dispara trinta ou quarenta balas por segundo — disse ela. — Você poderia transformar aqueles caminhões em raladores de queijo.

     Ele concordara que era possível, mas lembrou Alice de que o objetivo naquela noite não era destruição per se, e sim combustão. Então explicou a natureza altamente ilegal da munição que Arnie Nickerson arranjara para a esposa. Balas de ponta oca calibre 45. Que no passado eram chamadas de balas dundum.

     —      Ok, mas se não funcionar, você pode tentar o Sr. Ligeirinho — disse ela. — A não ser que os caras lá fora decidam, você sabe... — Ela não chegou a usar a palavra atacar, mas imitou duas perninhas andando com os dedos da mão que não estava segurando o tênis. — Nesse caso, sebo nas canelas.

     O ventou arrancou uma bandeirola esfarrapada do Fim de Semana dos Alumni do placar e a fez dançar sobre os dorminhocos amontoados. Em volta do campo, parecendo flutuar no escuro, estavam os olhos vermelhos dos mini systems, todos tocando sem precisar de CDs, menos um. A bandeira ficou agarrada no pára-choque de um dos caminhões de gás, balançou ao vento por alguns segundos e então se soltou e saiu voando noite adentro. Os caminhões estavam estacionados lado a lado no meio do campo, erguendo-se da massa de formas comprimidas como estranhas plataformas de metal. Os fonáticos dormiam debaixo deles e tão próximos dos veículos que alguns estavam grudados nas rodas. Clay pensou novamente nos pombos selvagens e em como os caçadores do século XIX espalharam os miolos deles pelo chão. Pelo começo do século XX, toda a espécie já estava extinta... mas é claro que eram apenas aves, com pequenos cérebros de pássaros, incapazes de reiniciar.

     —      Clay? — perguntou Tom baixinho. — Tem certeza de que quer fazer isso?

     —      Não — respondeu Clay. Agora que estava diante daquela situação, havia muitas perguntas sem respostas. O que fariam se aquilo falhasse era uma delas. Porque os pombos foram incapazes de se vingar. Aquelas coisas lá fora, por outro lado... —     Mas vou fazer.

     —      Então faça — disse Tom. — Porque, além do mais, You Light Up My Fire é chata pra diabo.

     Clay ergueu a calibre 45 e segurou firme o pulso direito com a mão esquerda. Apontou a mira para o tanque do caminhão à esquerda. Atiraria duas vezes naquele e duas vezes no outro. Assim, sobraria mais uma bala para cada, se necessário. Se aquilo não desse certo, ele poderia experimentar a arma automática que Alice passara a chamar de Sr. Ligeirinho.

     —      Abaixe-se caso o fogo venha pra cima da gente — ele disse a Tom.

     —      Não se preocupe — respondeu ele. Fazia uma careta, antecipando o estrondo da arma e o que quer que viesse em seguida.

     Debby Boone estava chegando a um grand finale. E de repente passou a ser muito importante para Clay chegar primeiro. Se você errar a essa distância, é um retardado, ele pensou, e apertou o gatilho.

     Não houve chance para um segundo tiro e tampouco necessidade. Uma flor vermelho vivo se abriu no meio do tanque e a luz dela revelou a Clay uma rachadura profunda na superfície antes lisa de metal. O inferno parecia estar lá dentro, e crescendo. Então a flor se transformou em um rio, o vermelho virando laranja branco.

     —      Abaixe-se!— gritou ele e puxou o ombro de Tom. Caiu em cima do homem menor no instante em que a noite se tornou um deserto ao meio-dia. Houve um rugido sibilante e enorme seguido de um BANG dilacerador que Clay sentiu em cada osso do corpo. Estilhaços voaram por sobre a cabeça deles. Ele achou que tinha ouvido Tom gritar, mas não tinha certeza, pois houve outro daqueles rugidos sibilantes e de repente o ar estava ficando cada vez mais quente.

     Ele agarrou Tom meio pelo cangote e meio pelo colarinho da camisa e começou a arrastá-lo para trás até a rampa de concreto que dava nas roletas, os olhos praticamente fechados contra o brilho descomunal que jorrava do centro do campo de futebol. Algo enorme caiu nas arquibancadas extras à direita. Ele achou que talvez fosse um bloco de motor. Tinha quase certeza de que os pedacinhos retorcidos de metal sob os seus pés eram o que restava dos suportes de partitura da Academia Gaiten.

     Tom gritava e seus óculos estavam tortos, mas se encontrava de pé e parecia ileso. Os dois subiram correndo a rampa como fugitivos de Gomorra. Clay podia ver as sombras deles, longas e finas como patas de afanha, e notou que objetos caíam por todo lado: braços, pernas, um pedaço de pára-choque, a cabeça de uma mulher com o cabelo em chamas. De trás deles, veio um segundo BANG estrondoso — ou talvez ura terceiro — e daquela vez foi ele quem gritou. Clay tropeçou nos próprios pés e saiu aos trambolhões. O mundo inteiro estava rapidamente gerando calor e uma luz incrível: era como se ele estivesse na ilha de som particular de Deus.

     Não sabíamos o que estávamos fazendo, pensou ele, olhando para uma barra de chiclete, uma caixa de Júnior Mints amassada e um boné azul da Pepsi. Não tínhamos idéia do que estávamos fazendo e agora vamos pagar com a vida.

     —      Levante-se! — Era Tom, e Clay achou que ele estava gritando, mas a voz parecia vir de quilômetros de distância. Sentiu as mãos delicadas e de dedos longos de Tom puxando-o pelo braço. E então Alice estava lá também. Ela puxava o outro braço e brilhava sob a luz. Clay conseguia ver o tênis amarrado no pulso dela dançando e indo pra lá e pra cá. Ela estava coberta de sangue, retalhos de tecido e pedacinhos de carne fumegante.

     Clay se levantou com esforço, voltou a se apoiar em um joelho e Alice o ergueu novamente à força. Atrás deles, o gás rugia como um dragão. E então Jordan chegou, com o Diretor cambaleando no seu encalço, com o rosto rosado e cada ruga pingando suor.

     —      Não, Jordan, não, só tire o Diretor do caminho! — berrou Tom, e Jordan puxou o velho de lado para eles, agarrando-o com força pela cintura quando ele vacilou. Um tórax em chamas com um piercing no umbigo aterrissou aos pés de Alice e ela o chutou para fora da rampa. Cinco anos de futebol, Clay se lembrou dela falando. O pedaço incandescente de uma camisa caiu na nuca de Alice e Clay o jogou longe antes que pudesse queimar o cabelo dela.

     No topo da rampa, um pneu de caminhão em chamas ainda preso à metade de um eixo partido estava apoiado na última fileira de cadeiras especiais. Se tivesse caído no meio do caminho, talvez eles tivessem virado churrasco — no caso do Diretor, era quase certo que sim. Do jeito que estava, conseguiram passar por ele, prendendo a respiração contra as ondas de fumaça oleosa. Logo depois, eles estavam passando por baixo da roleta, Jordan de um lado e o Diretor e Clay do outro, os dois quase carregando o velho. Clay levou duas porradas da bengala do velho na cabeça, mas trinta segundos depois de passarem pelo pneu estavam parados debaixo do arco Tonney, olhando para a imensa coluna de fogo que se erguia sobre as arquibancadas e a tribuna de imprensa no centro com expressões idênticas de estupefata incredulidade.

     Um retalho em chamas de uma bandeirola flutuou até o chão perto da bilheteria principal, deixando um pequeno rastro de faíscas antes de se apagar.

     —      Você sabia que isso ia acontecer? — perguntou Tom. O rosto dele estava branco em volta dos olhos, vermelho na testa e nas bochechas. Metade do bigode parecia ter sido arrancada pelo fogo. Clay conseguia ouvir a voz dele, mas soava distante. Tudo soava distante.

     Era como se estivesse com as orelhas cheias de bolas de algodão, ou com os tampões de ouvido que Arnie, o marido de Beth Nickerson, sem dúvida a obrigara a usar quando a levava ao tiro ao alvo favorito do casal. Onde provavelmente atiravam com os celulares presos em um lado da cintura e os bipes no outro.

     —      Você sabia?— Tom tentou chacoalhá-lo, conseguiu pegar só um pedaço da camisa dele, rasgando a frente toda.

     —      Claro que não, porra, está maluco? — A voz de Clay estava mais do que rouca, mais do que seca; parecia assada. — Você acha que eu teria ido pra lá com um revólver se soubesse? Se não fosse por aquela barreira de concreto, teríamos sido cortados ao meio. Ou vaporizados.

     Incrivelmente, Tom começou a sorrir.

     —      Rasguei sua camisa, Batman.

     Clay teve vontade de arrancar a cabeça dele. Também teve vontade de abraçá-lo e beijá-lo por ele ainda estar vivo.

     —      Quero voltar para a Casa — disse Jordan. O medo na voz dele era inconfundível.

     —      Vamos por favor nos deslocar para uma distância segura —concordou o Diretor. Ele tremia muito com os olhos fixos no inferno que se erguia acima dos arcos e das arquibancadas. — Graças a Deus está ventando na direção da Ladeira da Academia.

     —      O senhor consegue andar? — perguntou Tom.

     —      Sim, obrigado. Se Jordan me ajudar, tenho certeza de que consigo andar até a Casa.

     —      Acabamos com eles — disse Alice. Ela estava limpando respingos de tripas do rosto quase distraidamente, deixando manchas de sangue. Seus olhos não pareciam com nada que Clay tivesse visto na vida, exceto em algumas fotografias e na arte de algumas revistas em quadrinhos inspiradas das décadas de 1950 e 1960. Ele se lembrou da vez em que foi a uma convenção de quadrinhos quando era apenas uma criança e ouviu Wallace Wood falar sobre suas tentativas de desenhar algo que chamou de Olhar do Pânico. Agora Clay via aquele olhar no rosto de uma colegial suburbana de 15 anos.

     —      Vamos, Alice — disse ele. — Temos que voltar para a Casa e juntar nossas coisas. Temos que dar o fora daqui.

     Logo depois que as palavras saíram da boca dele, Clay teve que dizê-las novamente e ver se elas soavam verdadeiras. Da segunda vez, soaram mais do que isso; soaram apavoradas.

     Talvez Alice não as tenha escutado. Ela parecia exultante. Inflada de triunfo. Farta dele, como uma criança que comeu doces do Dia das Bruxas demais no caminho de casa. As pupilas dos seus olhos estavam cobertas pelo fogo.

     —      Nada poderia sobreviver a isso.

     Tom agarrou o braço de Clay. Doeu do jeito que uma queimadura de sol doeria.

     —      Qual é o problema?

     —      Acho que cometemos um erro — disse Clay.

     —      Igual no posto de gasolina? — perguntou Tom. Atrás dos óculos tortos, o olhar dele era penetrante. — Quando o homem e a mulher estavam brigando por conta daqueles malditos bolinhos...

     —      Não, só estou achando que cometemos um erro — disse Clay. Na verdade, era mais do que isso. Ele sabia que tinham cometido um erro. — Vamos, temos que partir hoje à noite.

     —      Se você diz, tudo bem — disse Tom. — Venha, Alice.

     Ela desceu junto com eles um pedaço do caminho em direção à Casa, onde haviam deixado dois lampiões a gás acesos na grande janela da sacada, e então se virou para olhar mais uma vez. Àquela altura, a tribuna de imprensa estava em chamas, e as arquibancas também. As estrelas sobre o campo de futebol tinham desaparecido; mesmo a lua não passava de um fantasma dançando freneticamente na fumaça quente que encimava aquele jato de gás feroz.

     —      Eles estão mortos, estão aniquilados, viraram churrasco — disse ela. — Queimem, baby, quei...

      Foi então que ouviram o grito. Porém, não vinha de Glen's Falls ou Littleton a 15 quilômetros dali. Também não tinha nada de espectral ou fantasmagórico. Era um grito de agonia, o grito de algo — uma única entidade, e consciente, Clay tinha certeza — que acordara de um sono profundo e descobriu que estava sendo queimado vivo.

     Alice soltou um berro e cobriu os ouvidos, seus olhos se esbugalhando à luz do fogo.

     —      Vamos voltar atrás! — disse Jordan, agarrando o pulso do Diretor. — Senhor, temos que voltar atrás!

     —      Tarde demais, Jordan — falou Ardal.

     Uma hora mais tarde, as sacolas recostadas na porta da frente da Casa Cheatham estavam um pouco mais gordas. Havia algumas camisas em cada, sacos de granola, caixinhas de suco e pacotes de Slim Jims, além de pilhas e lanternas extras. Clay azucrinou Tom e Alice para que juntassem as coisas o mais rápido possível, e agora era ele quem corria para a janela grande da sala para espiar.

     O jato de gás no estádio finalmente começava a queimar com menos intensidade, mas as arquibancadas ainda estavam em chamas, assim como a tribuna de imprensa. O fogo chegara até o próprio arco, que brilhava na noite como uma ferradura em uma forja. Nada que estivesse naquele campo poderia estar vivo ainda — Alice tinha razão quanto a isso, sem dúvida —, mas, no caminho de volta para a Casa (o Diretor trôpego como um velho bêbado, apesar dos esforços dos demais para ampará-lo), eles escutaram duas vezes o vento carregar aqueles gritos fantasmagóricos de outros bandos. Clay disse a si mesmo que não ouvia raiva neles, que era só imaginação — sua imaginação cheia de culpa, sua imaginação de assassino, sua imaginação de assassino em massa —, mas não conseguiu se convencer.

     Foi um erro, mas o que mais poderiam ter feito? Ele e Tom tinham sentido os lunáticos acumularem energia naquela mesma tarde, tinham visto, e foram apenas dois deles. Como poderiam ter deixado aquilo continuar? Deixado aquilo crescer?

     —      Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come — disse ele baixinho e deu as costas para a janela. Não saberia dizer quanto tempo ficou olhando para o estádio em chamas e resistiu à tentação de consultar o relógio. Seria fácil deixar o rato surtado tomar conta dele, faltava pouco para isso, e, se deixasse, o rato atacaria os outros num piscar de olhos. A começar por Alice. Ela conseguira recuperar algum controle, mas ele era tênue. Da finura de uma página de jornal, sua mãe jogadora de bingo diria. Embora também fosse uma criança, Alice foi capaz de se manter otimista, mais por conta do outro menino, para que ele não entregasse os pontos por completo.

     O outro menino. Jordan.

     Clay voltou correndo para o hall de entrada, notou que ainda não havia uma quarta sacola recostada na porta e viu Tom descendo as escadas. Sozinho.

     —      Onde está o garoto? — perguntou Clay. A audição dele tinha começado a clarear, mas sua voz ainda soava muito distante e como a de um desconhecido. Imaginava que continuaria daquele jeito por um tempo. — Você deveria estar ajudando Jordan a juntar algumas coisas pra levar... Ardal falou que ele trouxe uma mochila daquele dormitório...

     —      Ele não quer ir. — Tom esfregou um lado do rosto. Parecia cansado, triste, distraído. Sem metade do bigode, parecia também ridículo.

   —      O quê?

     —      Fale mais baixo, Clay. Eu não faço as notícias, só transmito.

     —      Então me diga o que isso quer dizer, pelo amor de Deus.

     —      Jordan não vai sem o Diretor. Ele falou: "Você não pode me obrigar." E se você estiver falando sério sobre ir embora hoje à noite, acho que ele tem razão.

     Alice irrompeu da cozinha. Tinha tomado um banho, prendido o cabelo e colocado uma blusa nova — que ia quase até os joelhos —, mas a pele dela irradiava a mesma queimação que Clay sentia na sua. Ele imaginou que deveriam se considerar sortudos por não estarem cheios de bolhas.

     —      Alice — ele começou a falar. — Preciso que você exerça seus poderes femininos sobre Jordan. Ele está...

     Ela passou batida, como se ele não tivesse falado nada, ajoelhou-se, apanhou sua mochila e a abriu. Clay observou, perplexo, Alice começara a tirar coisas de dentro da bagagem. Ele olhou para Tom e viu uma expressão de compreensão e solidariedade surgir no rosto do outro.

     —      O que foi? — perguntou Clay. — O que foi, pelo amor de Deus? — Ele sentira aquele mesmo incômodo exasperado em relação a Sharon no decorrer do último ano em que viveram juntos, com muita freqüência, e se odiou por aquilo ter vindo à tona logo naquela hora. Mas cacete, outra complicação era a última coisa de que precisavam. Ele passou as mãos pelo cabelo. — O que foi?

     —      Olhe para o punho dela — disse Tom.

     Clay olhou. O pedaço sujo de cadarço ainda estava lá, mas o tênis sumira. Ele teve uma sensação de absurdo. Ou talvez não fosse tão absurdo assim. Se era importante para Alice, então ele imaginava que era mesmo importante. E daí que fosse apenas um tênis?

     A blusa extra e a camiseta que ela havia guardado (GAITEN BOOSTERS' CLUB estampado na frente) saíram voando. As pilhas rolaram pelo chão. A lanterna sobressalente bateu no assoalho e a tampa da lente rachou. Aquilo foi suficiente para convencer Clay. Não era igual a um dos ataques de Sharon Riddell porque o café de sabor avelã ou o sorvete Chunky Monkey tinham acabado; aquilo era puro terror.

     Ele foi até Alice, ajoelhou ao lado dela e pegou seus punhos. Conseguia sentir os segundos voando, tornando-se minutos que eles deveriam estar usando para deixar aquela cidade para trás, mas também conseguia sentir a velocidade alucinante da pulsação de Alice sob seus dedos. E conseguia ver os olhos dela. Já não havia pânico neles, e sim agonia, e ele compreendeu que a menina colocara tudo naquele tênis: a mãe e o pai, os amigos, Beth Nickerson e a filha, o inferno do estádio Tonney, tudo.

     —      Não está aqui! — gritou ela. — Achei que tinha guardado, mas não guardei. Não estou achando em lugar nenhum!

     —      Não? querida, eu sei. — Clay ainda segurava os punhos dela. Então ergueu o que estava com o cadarço em volta. — Está vendo? —

     Ele esperou até ter certeza de que os olhos de Alice tinham focado e balançou as pontas embaixo do nó, onde antes havia um segundo nó.

     —      Está muito longo agora — disse ela. — Não estava tão longo antes.

     Clay tentou se lembrar da última vez em que vira o tênis. Disse a si mesmo que era impossível lembrar uma coisa daquelas, levando em conta todas as coisas que estavam acontecendo, mas então percebeu que se lembrava. E com muita clareza, também. Foi quando ela ajudara Tom a levantá-lo depois que o segundo caminhão explodira. Naquela hora, ele estava pendurado no cadarço, balançando. Ela estava coberta de sangue, retalhos de tecido e pedacinhos de carne, mas o tênis ainda estava no pulso. Ele tentou se lembrar se ainda estava lá quando ela chutou o tórax em chamas da rampa. Achava que não. Talvez estivesse enganado, mas achava que não.

     —      Ele se soltou, querida — disse ele. — Se soltou e caiu.

     —      Eu o perdi. — Os olhos dela, incrédulos. As primeiras lágrimas. — Tem certeza.

     —      Tenho certeza, sim.

     —      Era o meu talismã — sussurrou ela, as lágrimas transbordando.

     —      Não — disse Tom, colocando um braço em volta dela. — Nós somos o seu talismã.

     Alice olhou para ele.

     —      Como você sabe?

     —      Porque você nos encontrou primeiro — disse Tom. — E nós ainda estamos aqui.

     Ela abraçou os dois e eles ficaram daquele jeito por um tempo, os três, nos braços uns dos outros no hall, com os poucos pertences de Alice espalhados pelo chão em volta.

     O incêndio se espalhou até um auditório que o Diretor identificou como Hackery Hall. Então, por volta das quatro da manhã, o vento diminuiu e ele não foi mais além. Quando o sol nasceu, o campus Gaiten fedia a propano, madeira carbonizada e inúmeros corpos queimados. O céu claro de uma perfeita manhã de outubro da Nova Inglaterra foi coberto por uma coluna de fumaça cinza-escuro. E a Casa Cheatham ainda estava ocupada. No fim das contas, foi um efeito dominó: o Diretor só poderia viajar de carro, e isso era impossível, e Jordan não iria sem o Diretor. Tampouco Ardal foi capaz de persuadi-lo. Alice, embora resignada com a perda do seu talismã, se recusou a ir sem Jordan. Tom não iria sem Alice. E Clay relutava em partir sem os dois, embora a idéia de que aqueles recém-conhecidos parecessem, pelo menos temporariamente, mais importantes do que seu próprio filho o horrorizasse, e embora continuasse convencido de que pagariam um preço alto pelo que fizeram no estádio Tonney se ficassem naquela cidade, quanto mais na cena do crime.

     Ele achou que talvez fosse se sentir melhor a respeito disso ao raiar do dia, mas não se sentiu.

     Os cinco observaram e esperaram diante da janela da sala de estar, mas, obviamente, nada saiu das ruínas fumegantes. O único som era o estalar baixo do fogo devorando as entranhas dos escritórios e vestiários do Departamento de Atletismo, ao mesmo tempo em que terminava de consumir as arquibancadas superiores. Os cerca de mil fonáticos que tinham se agrupado ali tinham virado, como dissera Alice, churrasco. O cheiro deles era forte e horrível, do tipo que não sai da garganta. Clay vomitara uma vez e sabia que os demais também o fizeram — até o Diretor.

     Cometemos um erro, ele voltou a pensar.

     —      Vocês deveriam ter ido embora — disse Jordan. — Nós ficaríamos bem... ficamos antes, não foi, senhor?

     O Diretor Ardal ignorou a pergunta. Estava estudando Clay.

     —      O que aconteceu ontem quando você e Tom estavam no posto de gasolina? Acredito que alguma coisa aconteceu lá para deixar você como está agora.

     —      Ah, é? E como eu estou, senhor?

     —      Como um animal que fareja uma armadilha. Aqueles dois na rua viram vocês?

     — Não foi bem isso — disse Clay. Não gostava de ser chamado de animal, mas não podia negar que era isso mesmo: entram oxigênio e comida, saem dióxido de carbono e merda, e bingo.

     O Diretor começara a esfregar com impaciência o lado esquerdo do diafragma com uma de suas mãos grandes. Clay achou que, como muitos dos gestos do velho, aquele possuía uma estranha teatralidade; não exatamente forçado, mas feito para ser visto da última fileira do auditório.

     —      Então o que exatamente aconteceu?

     E, uma vez que proteger os demais já não parecia mais ser uma questão de escolha, Clay contou ao Diretor exatamente o que tinham visto no escritório do posto Citgo — uma luta por uma caixa de doces velhos que de repente virou outra coisa. Ele contou sobre os papéis tremulantes, as cinzas que começaram a girar no cinzeiro como água descendo pelo ralo de uma banheira, as chaves tilintando no mural, a mangueira que caiu da bomba de gasolina.

     —      Isso eu vi — disse Jordan, e Alice assentiu.

     Tom mencionou a sensação de falta de ar, e Clay concordou. Os dois tentaram explicar a impressão de que algo poderoso se acumulava na atmosfera. Clay disse que era a mesma sensação de antes de uma tempestade. Tom disse que o ar parecia de alguma forma carregado. Pesado demais.

     —      Então ele deixou a mulher pegar um pouco daquela merda e tudo isso parou — disse Tom. — As cinzas pararam de girar, as chaves pararam de tilintar e o ar já não parecia estar mais carregado. — Ele olhou para Clay em busca de confirmação. Clay assentiu.

     Alice falou:

     —      Por que vocês não contaram isso pra gente antes?

     —      Porque não teria mudado nada — disse Clay. — Nós tentaríamos queimar o ninho de qualquer maneira.

     —      É verdade — disse Tom.

     Jordan falou de repente:

     —      Você acha que os fonáticos estão virando psiônicos, não acha?

     Tom disse:

     —      Não sei o que essa palavra significa, Jordan.

     —      Pessoas que conseguem mover objetos só com o pensamento, por exemplo. Ou por acidente, quando as emoções delas fogem do controle. Habilidades psiônicas como telecinese e levitação...

     —      Levitação?— Alice quase gritou.

     Jordan não deu atenção.

     —      ... são apenas ramificações. O tronco da árvore psiônica é a telepatia, e é disso que você está com medo, não é? Da telepatia.

       Tom levou os dedos até o local em cima da sua boca em que metade do bigode sumira e tocou a pele avermelhada.

     —      Bem, o pensamento passou pela minha cabeça. — Ele fez uma pausa, inclinando a cabeça. — Essa frase foi engraçada. Não foi?

     Jordan ignorou aquilo também.

     —      Digamos que eles sejam. Quero dizer, que eles sejam telepatas de verdade, e não apenas zumbis com um instinto coletivo. E daí? O bando da Academia Gaiten está morto, e eles morreram sem fazer idéia de quem os queimou, porque morreram durante o que chamam de sono, então, se você estiver preocupado com o fato de eles terem enviado um fax telepático com nossos nomes e descrições para os colegas nos estados vizinhos da Nova Inglaterra, pode ficar tranqüilo.

     —      Jordan... — começou a falar o Diretor. Ainda estava esfregando o diafragma.

     —      Sim? O senhor está bem?

     —      Estou. Pegue o meu Zantac do banheiro do andar debaixo, sim? E uma garrafa de água mineral. Bom menino.

     Jordan saiu correndo para cumprir a ordem.

     —      Não é uma úlcera, é? — perguntou Tom.

     —      Não — respondeu o Diretor. — É estresse. Um velho... eu não chamaria de amigo... conhecido?

     —      O seu coração é bom?

     —      Imagino que sim — concordou o Diretor, arreganhando os dentes num sorriso de uma jovialidade desconcertante. — Se o Zantac não funcionar, podemos imaginar outra coisa... mas, até agora, o Zantac tem funcionado, e não preciso me preocupar em arranjar problemas com tantos à disposição. Ah, Jordan, obrigado.

     —      Disponha, senhor. — O menino entregou o comprimido e o copo para ele com o sorriso de sempre.

     —      Acho que você deveria ir com eles — disse Ardal para o menino depois de engolir o Zantac.

     —      Senhor, com todo o respeito, eles não têm como saber, de jeito nenhum.

     O Diretor lançou um olhar inquisidor para Tom e Clay. Tom ergueu as mãos. Clay apenas deu de ombros. Ele poderia dizer o que achava em voz alta, poderia articular o que eles certamente sabiam que ele sentia — cometemos um erro, e ficarmos aqui significa pactuar com ele —, mas não via motivo. Uma camada de determinação e inflexibilidade escondia o pavor no rosto de Jordan. Eles não conseguiriam persuadi-lo. E, além do mais, era dia novamente. O dia era a hora deles. Ele despenteou o cabelo do menino.

     —      Se você diz, Jordan. Vou tirar uma soneca.

     Jordan demonstrou um alívio quase sublime.

     —      Boa idéia. Acho que eu também.

     —      Vou tomar uma caneca do mundialmente famoso chocolate morno da Casa Cheatham antes de subir — disse Tom. — E acho que vou raspar o resto deste bigode. Os choros e lamentos que vocês vão ouvir serão meus.

     —      Posso ver? — perguntou Alice. — Sempre quis ver um homem feito chorar e se lamentar.

    

     Clay e Tom dividiam um pequeno quarto no terceiro andar; Alice tinha ficado com o único que sobrara. Enquanto Clay tirava os sapatos, ouviu uma batida rápida na porta, seguida imediatamente pelo Diretor. Duas manchas coradas ardiam nas suas faces. Fora isso, o rosto dele estava pálido como a morte.

     —      O senhor está bem? — perguntou Clay, levantando-se. — Então é mesmo o coração?

     —      Fico feliz que tenha feito essa pergunta — respondeu o Diretor. — Não estava convencido de que tinha plantado a semente, mas parece que sim. — Ele olhou por sobre os ombros para o corredor, então fechou a porta com a ponta da bengala. — Ouça com atenção, Sr. Riddell... Clay... e não pergunte nada a não ser que ache absolutamente necessário. Vocês irão me encontrar morto na minha cama no fim desta tarde ou no começo da noite, e você dirá que então era mesmo o meu coração, e que o que fizemos na noite passada deve ter sido o estopim. Entendido?     

     Clay assentiu. Ele entendeu e refreou o protesto automático. Talvez fizesse sentido no mundo antigo, mas não fazia nenhum naquele lugar. Ele sabia por que o Diretor estava propondo aquilo.

     —      Se Jordan ao menos suspeitar que tirei minha própria vida para livrá-lo do que ele, de forma admirável e pueril, considera uma obrigação sagrada, talvez faça o mesmo. No mínimo, mergulharia no que os anciãos da minha infância chamariam de fuga negra. Ele irá sofrer profundamente de qualquer maneira, mas isso é admissível. A idéia de que cometi suicídio para tirá-lo de Gaiten, não. Você compreende isto?

     —      Sim — disse Clay. E então: — Senhor, espere mais um dia. O que o senhor tem em mente... pode não ser necessário. Pode ser que consigamos sair dessa. — Ele não acreditava naquilo e, fosse como fosse, Ardal estava convencido do que iria fazer; toda a verdade de que Clay precisava estava no rosto abatido daquele homem, nos lábios cerrados e nos olhos brilhantes. Ainda assim, ele tentou mais uma vez. — Espere mais um dia. Talvez nenhum deles venha.

     —      Você ouviu aqueles gritos — respondeu o Diretor. — Aquilo era raiva. Eles virão.

     —      Talvez, mas...

     O Diretor ergueu a bengala para impedi-lo.

     —      E se vierem, e se puderem ler nossas mentes da mesma forma que lêem as deles próprios, o que lerão na sua, se a sua ainda estiver aqui para ser lida?

     Clay não respondeu, apenas fitou o rosto do Diretor.

     —      Mesmo que não possam ler mentes — prosseguiu o diretor —, o que você sugere? Ficarmos aqui, dia após dia, semana após semana? Até a neve cair? Até que eu morra de velhice? O meu pai viveu até os 97 anos. Por outro lado, você tem mulher e filho.

     —      Minha mulher e meu filho ou estão bem, ou não estão. Já estou conformado em relação a isso.

     Aquilo era mentira, e talvez Ardal a tenha notado no rosto de Clay, pois sorriu aquele sorriso perturbador.

     —      E você acredita que seu filho está conformado em não saber se o pai está vivo, morto ou louco? Depois de apenas uma semana?

     —      Isso foi um golpe baixo — disse Clay. Sua voz já não estava tão firme.

     —      É mesmo? Não sabia que estávamos brigando. Seja como for, não existe juiz. Só a gente para contar história, como dizem. — O Diretor olhou para a porta fechada, então voltou a olhar para Clay. — A equação é bem simples. Você não pode ficar e eu não posso ir. É melhor Jordan ir com você.

     —      Mas abater o senhor como um cavalo com a perna quebrada...

     —      Não é nada disso — interrompeu o Diretor. — Cavalos não fazem eutanásia, pessoas sim. — A porta se abriu, Tom entrou e, quase sem hesitar, o Diretor prosseguiu: — E você já considerou fazer arte publicitária, Clay? Quero dizer, para livros?

     —      Meu estilo é muito espalhafatoso para a maioria das casas editoriais — disse Clay. — Eu fiz capas para algumas editoras pequenas de fantasia, como Grant e Eulalia. Alguns livros de Marte de Edgar Rice Burroughs.

     —      Barsoom! — exclamou o Diretor e brandiu a bengala vigorosamente no ar. Então esfregou o plexo solar e fez uma careta. — Maldita azia! Com licença, Tom, só vim bater um papinho antes de me deitar.

     —      Toda — disse Tom e o observou ir embora. Quando o som da bengala do Diretor ficou bem distante no corredor, ele se virou para Clay e disse: — Ele está bem? Estava muito pálido.

     —      Acho que sim. — Ele apontou para o rosto de Tom. — Pensei que você fosse raspar a outra metade.

     —      Desisti com Alice por perto — falou Tom. — Gosto dela, mas ela pode ser cruel de vez em quando.

     —      É paranóia sua.

     —      Obrigado, Clay, estava precisando disso. Faz só uma semana e já estou sentindo falta do meu analista.

     —      Combinada com mania de perseguição e delírios de grandeza. — Clay passou os pés para cima de uma das camas estreitas do quarto, colocou as mãos atrás da cabeça e olhou para o teto.

     —      Você queria que estivéssemos fora daqui, não é? — perguntou Tom.

     —      Pode apostar. — Ele falou em um tom monocórdio.

     —      Vai ficar tudo bem, Clay. De verdade.

     —      É o que você diz, mas tem mania de perseguição e delírios de grandeza.

     —      É — disse Tom —, mas isso é compensado por uma péssima auto-imagem e menstruação de ego a mais ou menos cada seis semanas. E, de qualquer forma...

     —      ... tarde demais, pelo menos por hoje — concluiu Clay.

     —      Isso mesmo.

     Havia até uma certa concórdia em relação àquilo. Tom disse algo mais, parem Clay só ouviu "Jordan acha..." e então adormeceu.

    

     Ele acordou gritando, pelo menos foi o que pensou a princípio. Somente depois de olhar alucinadamente para a outra cama, onde Tom ainda dormia em paz com algo dobrado sobre os olhos — uma toalha de rosto, talvez —, Clay se convenceu de que o berro tinha sido dentro da cabeça dele. Talvez algum tipo de grito tenha escapado da sua boca, mas, se fosse o caso, não havia sido alto o suficiente para acordar o colega de quarto.

     O quarto não estava nem um pouco escuro — estavam no meio da tarde —, mas Tom baixara a cortina antes de cair no sono, e havia pelo menos uma penumbra. Clay ficou do jeito que estava por um instante, deitado de barriga para cima, com a boca seca como serragem, os batimentos cardíacos rápidos no peito e entre os ouvidos, onde pareciam passos em disparada numa superfície de veludo. Fora isso, a casa continuava silenciosa. Talvez ainda não tivessem trocado completamente a noite pelo dia, mas a noite anterior fora extraordinariamente estafante e, naquele momento, não se ouvia um ruído sequer na Casa. Lá fora, um pássaro cantou e, em algum lugar bem afastado — fora de Gaiten, ele pensou —, um alarme teimoso soava sem parar.

     Será que já tivera um sonho pior? Talvez um. Cerca de um mês depois de Johnny nascer, Clay sonhou que pegava o bebê do berço para trocar as fraldas e o corpinho gorducho de Johnny simplesmente se despedaçava em suas mãos como um boneco mal montado. Aquele ele conseguia entender: medo da paternidade, medo de estragar tudo. Um medo com o qual ele ainda convivia, como notara o Diretor Ardal. Mas como deveria interpretar o sonho de agora?

     O que quer que significasse, ele não queria esquecê-lo e sabia por experiência própria que, para que isso não acontecesse, teria que agir rápido.

     Havia uma mesa no quarto e uma caneta esferográfica enfiada em um dos bolsos do jeans que Clay deixara embolado ao pé da cama. Ele pegou a caneta, foi descalço até a mesa, sentou-se e abriu a gaveta sobre o espaço para os joelhos. Encontrou o que queria, um pequeno maço de papéis de carta com o cabeço ACADEMIA GAITEN e "Uma Mente Jovem É uma Luz na Escuridão” em cada folha. Pegou uma delas e a colocou sobre a mesa. A luz estava fraca, mas iria servir. Fez a ponta da esferográfica saltar para fora com um clique e hesitou apenas por um instante, relembrando o sonho com o máximo de clareza possível.

     Ele, Tom, Alice e Jordan estavam enfileirados no centro de um campo. Não um campo de futebol, como o estádio Tonney — um campo de futebol americano, talvez? Havia uma espécie de construção no esqueleto ao fundo com uma luz vermelha piscando nela. Não fazia idéia do que era, mas sabia que o campo estava cheio de pessoas olhando para eles, pessoas com rostos retalhados e roupas rasgadas que ele reconhecia bem até demais. Clay e os amigos estavam... enjaulados? Não, estavam em plataformas. Elas eram jaulas do mesmo jeito, mas não tinham barras. Não sabia como aquilo era possível, mas era. Já estava se esquecendo dos detalhes do sonho.

     Tom era o último da fila. Um homem foi até ele, um homem especial, e colocou a mão na sua cabeça. Clay não se lembrava como o homem conseguiu fazer aquilo, já que Tom — assim como Alice, Jordan e o próprio Clay — estava em uma plataforma, mas ele fez. E disse: Ecce homo... insanus. E a multidão — milhares deles — rugiu em uníssono: "NÃO TOQUE!" O homem se aproximou de Clay e repetiu aquilo. Com a mão em cima da cabeça de Alice, disse: Eccefe-mina... insana E em cima da cabeça de Jordan: Ecce puer... insanus. Todas as vezes, a resposta foi a mesma: "NÃO TOQUE!"

     Nem o homem — o anfitrião? O mestre de cerimônias? — nem as pessoas na multidão abriram a boca durante o ritual. O diálogo tinha sido inteiramente telepático.

     Então, deixando sua mão direita pensar sozinha (a mão e o cantinho especial do cérebro que a comandava), Clay começou a desenhar uma imagem no papel. O sonho inteiro fora horrível — toda aquela calúnia, aquela sensação de acuamento —, mas nada tinha sido pior do que o homem que se aproximou de cada um deles, colocando a mão aberta sobre suas cabeças como um leiloeiro se preparando para vender gado em uma feira. Clay pensava que, se conseguisse passar a imagem daquele homem para o papel, passaria também o terror.

     Era um negro com uma cabeça nobre e um rosto ascético que encimava um corpo magricela, quase esquálido. O cabelo era um gorro justo de caracóis pretos, com um horrível buraco triangular de um lado. Os ombros eram estreitos, a cintura, quase inexistente. Sob o gorro de caracóis, Clay esboçou a testa larga e bonita — a testa de um erudito. Então a transfigurou com outro traço e sombreou o pedaço de pele solto que cobria uma sobrancelha. A bochecha esquerda do homem havia sido rasgada, possivelmente por uma mordida, e o lábio inferior também estava aberto daquele lado, pendendo em um sorriso cansado de escárnio. Os olhos deram trabalho. Clay não conseguia acertá-los. No sonho, eles eram ao mesmo tempo cheios de energia e de alguma forma mortos. Após duas tentativas, desistiu e desceu até o moletom, antes que se esquecesse dele: era do tipo que as crianças chamam de "capuzinho" (VERMELHO, ele escreveu, fazendo uma seta), com letras de forma brancas na frente. Era grande demais para o corpo magro do homem, e um pedaço de tecido tampava a metade superior das letras, mas Clay tinha quase certeza de que elas diziam HARVARD. Estava começando a escrever aquilo quando o choro começou, baixinho e abafado, de algum lugar abaixo de onde estava.

    

     Era Jordan: Clay soube de imediato. Ele deu uma olhada por sobre o ombro para Tom enquanto colocava os jeans, mas Tom não se mexera. Fora de combate, Clay pensou. Abriu a porta, deslizou para fora e a fechou.    

     Alice, vestindo uma blusa da Academia Gaiten como camisola, estava sentada no patamar do segundo piso com o menino aninhado nos braços. Jordan pressionava o rosto contra o ombro dela. Ela ergueu os olhos ao ouvir o som dos pés descalços de Clay na escada e falou antes de ele dizer algo de que talvez se arrependesse mais tarde: É o Diretor?

     —      Ele teve um pesadelo — disse ela.

     Clay falou a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Naquela hora, parecia de vital importância.

     —      Você também teve?

     Ela franziu o cenho. Com as pernas nuas, o cabelo amarrado em um rabo-de-cavalo e o rosto queimado de sol como se tivesse passado um dia na praia, ela parecia a irmã de 11 anos de idade de Jordan.

     —      O quê? Não. Eu o ouvi chorando no hall. Acho que já estava acordando e...

     —      Só um minuto — disse Clay. — Não saia daí.

     Ele voltou para o seu quarto no terceiro andar e pegou o esboço de cima da mesa. Daquela vez, os olhos de Tom saltaram. Ele olhou em volta com uma mistura de pavor e desorientação, então se deteve em Clay e relaxou.

     —      De volta à realidade — disse ele. Então, esfregando o rosto com uma das mãos e apoiando-se em um cotovelo: — Graças a Deus. Cruzes. Que horas são?

     —      Tom, você sonhou? Teve um pesadelo?

     Tom assentiu.

     —      Acho que tive, sim. Ouvi alguém chorando. Era Jordan?

     —      Sim. Como era o sonho? Você se lembra?

     —      Alguém estava nos chamando de loucos — disse Tom, e Clay sentiu o estômago despencar. — O que é provavelmente verdade. Não me lembro do resto. Por quê? Você?...

     Clay não esperou para ouvir mais. Saiu correndo pela porta e desceu as escadas novamente. Jordan olhou em volta com uma espécie de timidez atordoada quando Clay se sentou. Já não havia mais sinal do gênio da informática; se Alice parecia ter 11 anos com o rabo-de-cavalo e bronzeada daquele jeito, Jordan regredira aos nove.

     —      Jordan — disse Clay. — O seu sonho... o seu pesadelo. Você se lembra dele?  

     —      Já estou esquecendo — respondeu Jordan. — Eles colocaram a gente em plataformas. Estavam olhando pra gente como se fôssemos... sei lá, animais selvagens... só que disseram...

     —      Que estávamos loucos.

     Jordan arregalou os olhos.

     —      Isso!

     Clay ouviu passos às suas costas à medida que Tom descia as escadas. Não olhou em volta. Mostrou o esboço a Jordan.

     —      Este homem estava no comando?

     Jordan não respondeu. Não precisava. Afastou-se duas vezes do desenho, tateando em busca de Alice e enfiando o rosto contra o peito dela mais uma vez.

     —      O que é isso? — perguntou Alice, perplexa. Ela estendeu a mão para pegar o desenho, mas Tom o apanhou antes.

     —      Cristo — disse ele, e o devolveu. — Já quase esqueci do sonho, mas lembrome dessa bochecha rasgada.

     —      E do lábio — disse Jordan, as palavras abafadas contra o peito de Alice. — O jeito que o lábio dele fica pendurado. Era esse homem quem mostrava a gente para eles. Para eles. — Ele estremeceu. Alice esfregou as costas do menino e então juntou as mãos sobre suas espátulas para abraçá-lo com mais força.

     Clay pôs o desenho na frente de Alice.

     —      Faz você lembrar algo? O homem dos seus sonhos?

     Ela balançou a cabeça e começou a dizer não. Antes que pudesse fazê-lo, eles ouviram um matraquear alto e demorado e uma série de baques vindos da frente da porta de entrada da Casa Cheatham. Alice gritou. Jordan a agarrou com mais força, como se quisesse se esconder dentro dela e soltou um berro. Tom apertou o ombro de Clay.

     —      Ah, cacete, que porra é...

     O barulho veio mais uma vez de trás da porta, alto e demorado. Alice gritou mais uma vez.

     —      Armas! — berrou Clay. — Armas!

     Por um instante, os três ficaram paralisados no patamar ensolarado; então, ouviu-se outro daqueles barulhos longos e altos, um som como o de ossos rolando. Tom subiu correndo para o terceiro andar e Clay o seguiu, derrapando por causa das meias e agarrando o corrimão para recuperar o equilíbrio. Alice empurrou Jordan para longe e foi correndo para o seu quarto, a bainha da blusa esvoaçando entre as pernas, deixando o menino abraçado ao pilar da escada, olhando para o hall de entrada com os olhos arregalados e úmidos.

      

     — Calma — disse Clay. — Vamos manter a calma, certo?

     Os três estavam ao pé da escada menos de dois minutos depois do primeiro daqueles barulhos longos e irregulares que tinham vindo de trás da porta de entrada. Tom estava com o não testado rifle de assalto russo que eles passaram a chamar de Sr. Ligeirinho; Alice estava com uma automática de 9 milímetros em cada mão e Clay com o calibre 45 de Beth Nickerson, que conseguira de alguma forma não largar na noite anterior (embora não se lembrasse de tê-lo enfiado de volta no cinto, onde o encontrou mais tarde). Jordan ainda estava encolhido no patamar. De lá de cima, ele não conseguia ver as janelas do andar de baixo, e Clay achava isso uma boa coisa.

     Estava mais escuro porque havia fonáticos em cada uma das janelas que podiam ver, amontoados contra os vidros e olhando para eles: dezenas, talvez centenas daqueles rostos estranhos e vazios, a maioria marcada pelas batalhas que tinham lutado e pelas feridas que haviam sofrido durante a última e anárquica semana. Clay viu olhos e dentes faltando, orelhas rasgadas, machucados, queimaduras, pele chamuscada e talhos de carne escurecida. Estavam em silêncio. Havia uma espécie de sofreguidão agourenta neles, e aquela sensação voltara a preencher o ar, aquela atmosfera sufocante de alguma energia enorme e rotativa, contida por um triz. A todo momento, Clay esperava ver as armas saírem voando de suas mãos e começarem a atirar sozinhas.

     Na gente, ele pensou.

     —      Agora sei como as lagostas se sentem no tanque do Harbor Seafood no Pague Uma Leve Duas da terça-feira — disse Tom em uma voz fraca e tensa.

     —      Calma — repetiu Clay. — Vamos deixá-los dar o primeiro passo.

     Porém, não houve primeiro passo. Ouviu-se outro daqueles barulhos demorados — que pareciam a Clay o som de algo sendo descarregado na varanda da frente —, e então as criaturas nas janelas se afastaram, como se comandadas por um sinal que apenas elas conseguiam ouvir. Fizeram isso em filas bem ordenadas. Aquela não era a hora do dia em que normalmente se juntavam em bando, mas as coisas tinham mudado. Era óbvio.

     Clay andou até a janela da sacada na sala de estar, segurando o revólver do lado do corpo. Tom e Alice o seguiram. Eles observaram os fonáticos (que já não pareciam nem um pouco lunáticos para Clay, pelo menos não na interpretação dele) baterem em retirada, andando para trás com uma calma sinistra e ágil, jamais perdendo o pequeno espaço que havia entre eles. Pararam entre a Casa Cheatham e as ruínas fumegantes do estádio de futebol Tonney, como um batalhão militar maltrapilho em uma praça de armas coberta de folhas. Cada olhar nem-tão-vazio-assim pairava sobre a residência do Diretor.

     —      Por que as mãos e os pés deles estão tão sujos? — perguntou uma voz insegura. Eles olharam em volta. Era Jordan. Clay não notara a fuligem e as manchas pretas nas mãos das centenas de criaturas silenciosas lá fora, mas antes de conseguir falar isso, Jordan respondeu à própria pergunta. — Eles foram ver, não foram? É claro. Foram ver o que fizemos com os amigos deles. E estão furiosos. Dá pra sentir. Estão sentindo?

     Clay não queria dizer que sim, mas é claro que sentia. Aquela atmosfera pesada, carregada, aquela sensação de uma descarga contida por um triz em uma rede de eletricidade: aquilo era raiva. Ele pensou na Cabelinho Claro avançando no pescoço da Mulher do Terninho de Poderosa e na senhora idosa que vencera a Batalha da Estação de Metrô da Boylston Street, a que tinha entrado no Boston Common com sangue pingando do cabelo cinza-escuro curto. No rapaz, nu com exceção dos tênis, brandindo as antenas de carro para frente e para trás enquanto corria. Toda aquela raiva — se ele achava que ela havia simplesmente desaparecido depois que eles começaram a se juntar em bando, estava muito enganado.

     —      Estou sentindo — disse Tom. — Jordan, se eles têm poderes psíquicos, por que não fazem a gente se matar, ou matar uns aos outros?

     —      Ou fazem nossas cabeças explodirem — disse Alice. A voz dela tremia. — Vi isso em um filme antigo, uma vez.

     —      Não sei — disse Jordan. Ele ergueu os olhos para Clay. — Onde está o Homem Esfrangalhado?

     —      É assim que você o chama? — Clay olhou para o esboço, que ainda estava em suas mãos: a carne rasgada, a manga rasgada do agasalho, o jeans largo. Não achava Homem Esfrangalhado um nome ruim para o cara com o moletom de Harvard.

     —      Eu o chamo de encrenca, isso sim — disse Jordan com um fiapo de voz. Ele olhou novamente para os recém-chegados, trezentos no mínimo, talvez quatrocentos, vindos de Deus sabe quais cidades vizinhas, e então de volta para Clay. — Você o viu?

     —      Sem ser em pesadelo, não.

     Tom balançou a cabeça.

     —      Para mim, ele é só um desenho em um pedaço de papel — disse Alice. — Não sonhei com ele e não estou vendo ninguém de moletom lá fora. O que eles estavam fazendo no campo de futebol? Você acha que eles tentaram identificar os mortos? — Ela parecia ter dúvidas quanto a isso. — E ainda não está quente lá? Só pode estar.

     —      O que eles estão esperando? — perguntou Tom. — Se não vão nos atacar, nem fazer a gente enfiar facas de cozinha uns nos outros, o que estão esperando?

     De repente, Clay descobriu o que estava acontecendo, e também onde estava o Homem Esfrangalhado de Jordan — aquele era o que o Sr. Devani, seu professor de álgebra do ginásio, chamaria de um momento ard! Ele se virou e foi na direção do hall de entrada.

     —      Aonde você está indo? — perguntou Tom.

     —      Ver o que eles deixaram para nós — disse Clay.

     Eles o seguiram correndo. Tom o alcançou antes, enquanto a mão de Clay ainda estava na maçaneta.

     —      Não sei se isso é uma boa idéia — disse Tom.

     —      Talvez não, mas é o que eles estão esperando — disse Clay. — E sabe de uma coisa? Acho que se quisessem nos matar, já estaríamos mortos.

     —      Acho que ele tem razão — disse Jordan com uma voz baixa e fraca.

     Clay abriu a porta. A longa varanda de entrada da Casa Cheatham, com sua confortável mobília de vime e vista para a Ladeira da Academia, que descia até a Academy Avenue, fora feita para tardes ensolaradas de outono como aquela, mas, naquele momento, a ambientação era a menor das preocupações de Clay. Parado ao pé da escada, havia um grupo de fonáticos em formação de ponta de lança: um na frente, dois atrás do primeiro, três atrás deste, e então quatro, cinco e seis. Vinte e um ao todo. O que estava na frente era o Homem Esfrangalhado do sonho de Clay, seu desenho tornado realidade. As letras na frente do moletom vermelho em farrapos diziam mesmo HARVARD. O rasgo na bochecha esquerda fora puxado para cima e preso ao lado do nariz por dois pontos brancos malfeitos, que, antes de se firmarem, tinham aberto cortes em forma de lágrimas na pele negra e indiferente à sutura. Havia talhos onde um terceiro e um quarto ponto tinham se soltado. Clay achou que talvez tivessem sido dados com linha de pescar. O lábio caído revelava dentes que pareciam ter sido tratados por um bom dentista há pouco, quando o mundo era um lugar mais gentil.

     Na porta da frente, soterrando o capacho e se espalhando pelos dois lados, havia uma pilha de objetos escuros e disformes. Quase podia ser a idéia de arte de algum escultor meio doido. Clay precisou apenas de um instante para perceber que olhava para os restos derretidos dos estoura tímpanos do bando do estádio Tonney.

     Então Alice gritou. Alguns dos mini systems derretidos tinham caído quando Clay abriu a porta, e algo que muito provavelmente estivera bem equilibrado no topo caíra junto com eles, parando entre o chão e a pilha. Ela deu um passo à frente antes que Clay pudesse impedi-la, derrubando uma das automáticas e agarrando a coisa que vira. Era o tênis. Ela o aninhou entre os seios.

     Clay olhou para Tom, que estava atrás dela. Tom devolveu o olhar. Eles não eram telepatas, mas naquele instante bem que poderiam ser. E agora?, perguntavam os olhos de Tom.

     Clay voltou a atenção para o Homem Esfrangalhado. Imaginava se era possível sentir alguém lendo sua mente se ela estivesse sendo lida naquele instante. Estendeu as mãos na direção do homem. Ainda estava com a arma em uma delas, mas nem o Homem Esfrangalhado nem os integrantes do pelotão pareciam intimidados por ela. Clay colocou as palmas para cima: O que vocês querem?

     O Homem Esfrangalhado sorriu. Não havia humor no sorriso. Clay achou que conseguia ver raiva nos olhos castanho-escuros, mas parecia ser uma coisa superficial. Para além da superfície, não havia brilho algum, pelo menos não que Clay pudesse notar. Era quase como ver um boneco sorrir.

     O Homem Esfrangalhado entortou a cabeça e ergueu um dedo: Espere. E, abaixo deles, na Academy Avenue, como se esperassem a deixa, vieram muitos gritos. Gritos de pessoas numa agonia mortal. Alguns sons guturais e predatórios se seguiram a eles. Não muitos.

     —      O que você está fazendo? — perguntou Alice. Ela deu um passo à frente, apertando o pequenino tênis convulsivamente na mão. Os nervos do antebraço saltavam a ponto de fazer sombras na sua pele como riscos a lápis longos e retos. — O que você está fazendo com as pessoas lá embaixo?

     Como se pudesse haver alguma dúvida, pensou Clay.

     Ela ergueu a mão que ainda carregava uma arma. Tom a agarrou, arrancando-a dela antes que Alice pudesse apertar o gatilho. Ela o atacou, arranhando-o com a mão livre.

     —      Devolva a arma para mim! Não está ouvindo isso? Não está ouvindo?

     Clay a empurrou para longe de Tom. Durante todo esse tempo, Jordan observava da entrada com olhos arregalados e aterrorizados, e o Homem Esfrangalhado ficava parado na ponta da lança, sorrindo com um rosto cujo humor escondia a raiva, e cuja raiva escondia... nada, até onde Clay podia ver. Absolutamente nada.

     —      De qualquer maneira, estava travado — disse Tom depois de checar rapidamente. — Graças a Deus pelos pequenos favores. — E para Alice: — Você quer nos matar?

     —      Você acha que eles vão deixar a gente ir embora? — Ela chorava com tanta força que era difícil entender o que dizia. Ranho escorria pelas suas narinas em dois filetes claros. Lá debaixo, da avenida ladeada por árvores que seguia para além da Academia Gaiten, vieram mais gritos. Uma mulher berrou: Não, por favor, não, por favor, não, e então as palavras se perderam em um terrível urro de dor.

     —      Não sei o que eles vão fazer com a gente — disse Tom com uma voz que lutava para se manter calma —, mas se quisessem nos matar, não estariam fazendo isso. Olhe para ele, Alice: o que está acontecendo lá embaixo é para o nosso bem.

     Houve alguns tiros na medida em que as pessoas tentavam se defender, mas não muitos. Em sua maioria, eram apenas gritos de dor e terrível surpresa, todos vindo da área próxima à Academia Gaiten, onde o bando fora queimado. Aquilo certamente não durou mais do que dez minutos, mas às vezes, pensou Clay, o tempo era mesmo relativo.

     Pareceram horas.

    

     Quando os gritos finalmente cessaram, Alice ficou parada em silêncio entre Clay e Tom, com a cabeça baixa. Ela deixara as duas automáticas em uma mesa para malas e chapéus logo depois da porta de entrada. Jordan segurava a mão dela, olhando para o Homem Esfrangalhado e seus colegas de pé na beirada da calçada. Até então, o menino não notara a ausência do Diretor. Clay sabia que ele notaria logo, e então a próxima cena daquele dia terrível começaria.

     O Homem Esfrangalhado deu um passo adiante e fez uma pequena mesura com as mãos esticadas dos dois lados, como se dissesse: Às ordens. Então ergueu os olhos e estendeu uma das mãos em direção à Ladeira da Academia e à avenida mais além. Ao fazê-lo, olhou para o pequeno grupo amontoado na porta aberta atrás da escultura de mini systems derretidos. Para Clay, o significado era claro: A estrada é de vocês. Podem pegá-la.

     —      Talvez — disse Clay. — Enquanto isso, vamos deixar uma coisa bem clara. Tenho certeza de que vocês podem acabar com a gente se quiserem, obviamente estão com a vantagem numérica, mas alguma outra pessoa vai assumir o comando amanhã, a não ser que você decida ficar no quartel-general. Porque vou garantir pessoalmente que você seja o primeiro a cair.

     O Homem Esfrangalhado levou as mãos às bochechas e arregalou os olhos: Ai, que medo! Os outros atrás dele estavam tão inexpressivos quanto robôs. Clay ficou olhando por mais um instante, então fechou a porta lentamente.

     —      Desculpe — disse Alice com desânimo. — Não estava agüentando ouvir aqueles gritos.

     —      Tudo bem — disse Tom. — Não tem problema. E olhe só, eles trouxeram de volta o Sr. Sapatinho.

     Alice olhou para ele.

     —      Foi assim que descobriram que foi a gente? Eles sentiram o cheiro, do mesmo jeito que um cão de caça fareja uma pista?

     —      Não — disse Jordan. Ele estava sentado em uma cadeira de espaldar alto do lado do vaso para guarda-chuvas, parecendo pequeno, abatido e exausto. — Essa é a maneira de eles dizerem que conhecem você. Pelo menos, é o que eu acho.

     —      Concordo — disse Clay. — Aposto que eles sabiam que fomos nós antes mesmo de chegarem aqui. Pescaram isso nos nossos sonhos do mesmo jeito que vimos o rosto dele.

     —      Eu não... — começou a falar Alice.

     —      Porque você estava acordando — disse Tom. — Imagino que uma hora ele vá falar com você. — Ele fez uma pausa. — Isto é, se ainda tiver algo a dizer. Não estou entendendo, Clay. Nós fizemos. Nós fizemos e eles sabem disso, tenho certeza.

     —      Sim — disse Clay.

     —      Então por que estão matando um bando de viajantes inocentes quando poderiam sem o menor esforço, bem, com algum esforço, invadir a casa e matar a gente? Quero dizer, entendo o conceito de retaliação, mas não vejo sentido nisso...

     Neste momento, Jordan saiu da cadeira e, olhando em volta com uma expressão de súbita preocupação, perguntou:

     —      Cadê o Diretor?

    

     Clay alcançou Jordan, mas não antes de o menino ter chegado até o patamar do segundo piso.

     —      Espere, Jordan — disse ele.

     —      Não — respondeu o garoto. O rosto dele estava mais branco e chocado do que nunca. Seu cabelo estava revolto, e Clay imaginou que era só porque ele estava precisando de uma tesoura, mas era como se estivesse tentando ficar em pé. — Com toda essa comoção ele devia estar com a gente! E estaria com a gente, se estivesse bem. — Os lábios dele começaram a tremer. — Lembra de como ele estava se esfregando? E se não fosse só aquele negócio de refluxo gástrico?

     —      Jordan...

     Jordan não deu atenção, e Clay podia apostar que ele esquecera completamente do Homem Esfrangalhado e seus companheiros, pelo menos por ora. Livrou-se da mão de Clay e desceu correndo o corredor, gritando: "Senhor! Senhor!", enquanto Diretores que remontavam ao século XIX baixavam os olhos graves para ele das paredes.

     Clay olhou escada abaixo. Alice não tinha condições de ajudar — estava sentada ao pé da escada com a cabeça torta, olhando para aquela porra de tênis como se fosse a caveira de Yorick —, mas Tom começou a subir com relutância para o segundo andar.

     —      Qual vai ser o tamanho do estrago? — ele perguntou para Clay.

     —      Bem... Jordan acha que o Diretor teria se juntado a nós se estivesse bem e eu tendo a pensar que ele...

     Jordan começou a se esgoelar. Era um som agudo penetrante que varou a cabeça de Clay como uma lança. Foi Tom quem se mexeu primeiro, Clay ficou enraizado nos primeiros degraus da escada por pelo menos três segundos, e talvez até sete, imobilizado por um único pensamento: Não é assim que uma pessoa grita quando descobre algo parecido com um ataque de coração. O velho deve ter feito alguma besteira. Talvez tenha usado o tipo errado de comprimidos. Estava na metade do corredor quando Tom gritou, chocado: "Oh meu Deus Jordan não olhe", quase como se fosse uma só palavra.

     —      Espere! — gritou Alice de trás dele, mas Clay não esperou. A porta para a pequena suíte do Diretor estava aberta: o escritório com os livros e o agora inútil fogareiro, o quarto mais adiante com a porta escancarada, deixando a luz vazar. Tom estava de frente para a mesa, segurando a cabeça de Jordan contra a barriga. O Diretor estava sentado atrás da mesa. O peso dele jogara a cadeira giratória para trás e o velho parecia estar olhando para o teto com o olho que restava. Seu cabelo branco revolto pendia do espaldar. Para Clay, ele parecia um pianista que acabara de tocar o acorde final de uma composição difícil.

     Ele ouviu Alice dar um grito estrangulado de horror, mas quase não prestou atenção. Sentindo-se como um passageiro dentro do próprio corpo, Clay andou até a mesa e olhou para a folha de papel que jazia sobre o mataborrão. Embora estivesse manchada de sangue, ele conseguia decifrar as palavras; o Diretor as escrevera com uma letra bonita e clara. Velha guarda até o fim, Jordan teria dito.

      

     aliene   geisteskrank

     insano elnebajos   vansinnig   fou

     atamagaokashii   gek   dolzinnig

     hullu

     gila

     meschuge   nebun dement

    

     Clay só sabia falar inglês e um pouco de francês que aprendera na escola, mas sabia muito bem o que era aquilo, e o que significava. O Homem Esfrangalhado queria que eles fossem embora e sabia de alguma forma que o Diretor Ardal estava velho e artrítico demais para acompanhá-los. Então, o obrigou a sentar-se à mesa e escrever a palavra louco em 14 línguas diferentes. E, quando ele terminou, o fez enfiar a ponta da caneta tinteiro que usara no olho direito até o cérebro velho e inteligente que ficava atrás dele.

     — Eles o fizeram se matar, não foi? — perguntou Alice, com a voz falhando. — Por que ele e não a gente? Por que ele e não a gente? O que eles querem?

     Clay pensou no gesto que o Homem Esfrangalhado fizera em direção à Academy Avenue — Academy Avenue, que também era a rota 102 de New Hampshire. Os fonáticos, que não eram mais exatamente lunáticos — ou o eram de um jeito bem diferente —, queriam que eles voltassem para a estrada. Mais do que isso ele não sabia, e talvez fosse melhor assim. Talvez fosse para o bem. Talvez aquilo fosse misericórdia.

    

    

     AS ROSAS MURCHARAM, O JARDIM MORREU

      

     Havia meia dúzia de toalhas de mesa de linho fino em um armário no fim do corredor dos fundos, e uma delas serviu de mortalha para o Diretor Ardal. Alice se dispôs a costurá-lo, mas caiu no choro quando nem seu talento como costureira nem seus nervos se mostraram à altura da missão. Tom assumiu a tarefa; esticou a toalha, fez um ponto duplo e arrematou com golpes rápidos e quase profissionais. Clay achou que era como observar um boxeador bater em um saco invisível com a mão direita.

     —      Não faça piadas — disse Tom sem erguer os olhos. — Agradeço pelo que você fez lá em cima, eu jamais conseguiria ter feito aquilo, mas não vou agüentar uma piada que seja agora. Nem aquelas mais inofensivas, do tipo Willand Grace. Mal consigo manter a cabeça no lugar.

     —      Tudo bem — disse Clay. Fazer piadas era a última coisa em que ele estava pensando. Quanto ao que havia feito lá em cima... bem, a caneta tinha que ser tirada do olho do Diretor. Não iriam deixar aquilo lá de forma alguma. De modo que Clay resolveu o problema, desviando o olhar para o canto do quarto enquanto a arrancava, tentando não pensar no que estava fazendo ou por que aquela merda estava tão presa. Na maior parte do tempo, conseguiu não pensar, mas a caneta raspou o osso da órbita do velho quando finalmente se soltou, e Clay ouviu um som mole, como um pedaço de carne fazendo plop, quando algo caiu do bico de aço torto da caneta em cima do mata-borrão. Ele achou que se lembraria daqueles sons para sempre, mas conseguira tirar a maldita caneta, e era isso que importava.

     Lá fora, havia quase mil fonáticos no gramado entre as ruínas fumegantes do campo de futebol e a Casa Cheatham. Eles tinham ficado lá a maior parte da tarde. Então, por volta das cinco, seguiram em bando silenciosamente na direção do centro de Gaiten. Clay e Tom desceram o corpo amortalhado do Diretor pela escada dos fundos e o colocaram na varanda de trás. Os quatro sobreviventes se reuniram na cozinha e fizeram a refeição que haviam se acostumado a chamar de café-damanhã enquanto as sombras começavam a se alongar lá fora.

     Jordan comeu surpreendentemente bem. Estava corado e falava com animação. A conversa resumia-se a reminiscências da sua vida na Academia Gaiten e à influência que o Diretor Ardal tivera no coração e na mente de um viciado em computadores sem amigos e introvertido de Madison, Wisconsin. A magnífica lucidez das recordações do menino deixava Clay cada vez mais desconfortável e, quando olhou nos olhos primeiro de Alice e depois de Tom, viu que eles sentiam o mesmo. A mente de Jordan estava rateando, mas era difícil saber como lidar com aquilo; mandá-lo para um psiquiatra estava fora de cogitação.

     Em um determinado momento, depois do anoitecer, Tom sugeriu que Jordan deveria descansar. Jordan disse que iria, mas não antes de enterrarem o Diretor. Poderiam colocá-lo no jardim atrás da Casa, disse ele. E falou que o Diretor costumava chamar a pequena horta de vegetais de "jardim da vitória", embora jamais tenha dito por quê.

     —      É o melhor lugar — disse Jordan, sorrindo. As faces dele estavam afogueadas. Seus olhos, fundos nas órbitas escuras, brilhavam com o que poderia ser entusiasmo, bom humor, loucura ou os três juntos. — Não só o solo é macio, como é o lugar que ele sempre gostou mais... quero dizer, lá fora. Então, o que vocês acham? Eles foram embora, ainda não saem à noite, isso não mudou, e podemos usar os lampiões quando formos cavar. O que vocês acham?

     Depois de refletir, Tom perguntou:

     —      Temos pás?

     —      Pode apostar que sim, no barraco dos jardineiros. Nem precisamos ir até as estufas. — E, por incrível que pareça, Jordan riu.

     —      Então, pronto — disse Alice. — Vamos enterrá-lo e acabar logo com isso.

     —      E depois você vai descansar — disse Clay, olhando para o garoto.

     —      Claro, claro — exclamou Jordan com impaciência. Ele se levantou da cadeira e começou a andar pela sala. — Vamos, pessoal! — Como se estivessem brincando de pique.

     Então eles abriram a cova no jardim atrás da Casa e enterraram o Diretor entre os feijões e tomates. Tom e Clay baixaram o vulto amortalhado no buraco, que tinha cerca de um metro de profundidade. O exercício os manteve aquecidos, e eles só perceberam que a noite ficara muito fria depois que pararam. As estrelas brilhavam no céu, mas uma névoa baixa e espessa rolava ladeira abaixo. A Academy Avenue já tinha sido engolida por aquela maré branca e apenas os telhados pontiagudos das maiores entre as casas antigas lá embaixo vinham à tona.

     —      Bem que alguém poderia saber alguma boa poesia — disse Jordan. As faces dele estavam mais vermelhas do que nunca, mas os olhos se afundaram nas cavidades circulares e ele tremia, apesar de estar com dois suéteres. Sua respiração saía em pequenas baforadas. — O Diretor adorava poesia, achava a coisa mais foda do mundo. Ele era... — A voz de Jordan, que soara estranhamente alegre a noite toda, finalmente cedeu. — Ele era totalmente velhaguarda.

     Alice o envolveu com os braços. Jordan resistiu, mas depois deixou.

     —      Vamos fazer o seguinte — disse Tom. — Vamos cobri-lo direitinho, para protegê-lo do frio, e então declamamos um pouco de poesia. Está bom assim?

     —      Você conhece mesmo alguma?

     —      Conheço, sim — respondeu Tom.

     —      Você é tão inteligente, Tom. Obrigado. — E Jordan sorriu para ele com uma gratidão esgotada, horrível.

     Cobrir a cova foi rápido, embora no fim tivessem precisado pegar um pouco de terra emprestada de outras partes do jardim para nivelá-la. Quando terminaram, Clay já estava suando de novo e sentia o próprio fedor, fazia tempo que não tomava banho.

    Alice tentou evitar que Jordan ajudasse, mas o menino se livrou dela e se pôs a trabalhar, atirando terra no buraco com as próprias mãos. Quando Clay acabou de socar a terra com a parte de trás da pá, o menino tinha os olhos vidrados de cansaço e cambaleava feito um bêbado.

     Mesmo assim, olhou para Tom.

     —      Vamos. Você prometeu.

     Clay quase esperou que ele acrescentasse: E capriche, senor, senão eu meto uma bala em você, como um bandido assassino em um faroeste de Sam Peckinpah.

     Tom foi até uma das pontas da cova — Clay achou que era a da cabeça, mas estava tão cansado que não conseguia lembrar. Nem conseguia lembrar com certeza se o nome do Diretor era Charles ou Robert. Tiras de névoa se enroscavam nos pés e tornozelos de Tom, enrolando-se nos caules de feijão mortos. Ele retirou o boné de beisebol e Alice tirou o dela. Clay levou as mãos à cabeça e se lembrou de que não estava usando nada.

     —      Isso mesmo! — exclamou Jordan. Estava sorrindo, enlouquecido pela compreensão dos fatos. — Tirem os chapéus! Tirem os chapéus para o Diretor! — Ele próprio estava com a cabeça descoberta, mas fingiu tirar um chapéu assim mesmo. Tirou-o e o agitou no ar, e Clay temeu novamente pela sanidade do garoto. — Agora o poema! Vamos, Tom!

     —      Certo — disse Tom —, mas você tem que ficar quieto. Demonstre respeito.

     Jordan colocou um dedo entre os lábios para mostrar que entendeu, e Clay viu nos olhos cheios de mágoa sobre o dedo erguido que o menino ainda não tinha perdido a cabeça. Perdera o amigo, mas não a cabeça.

     Clay esperou, curioso para ver como Tom prosseguiria. Esperava algo de Frost, talvez um fragmento de Shakespeare (certamente o Diretor aprovaria Shakespeare, mesmo que fosse apenas "Quando nós três nos reencontraremos"), talvez até algum improviso de autoria de Tom McCourt. Mas não esperava os versos que saíram da boca de Tom em uma voz baixa e precisa.

     —      Não nos prive da tua misericórdia, senhor; que teu amor e tua verdade sempre nos protejam. Pois males sem-fim nos cercam; fomos rodeados pelos nossos pecados e não podemos ver. Eles são mais numerosos do que os cabelos das nossas cabeças, e nossos corações desfalecem. Digna-te a salvar-nos Senhor; Senhor, apressate em nosso auxílio.

     Alice segurava o tênis e chorava diante da cova. Estava com a cabeça abaixada. Seus soluços eram rápidos e baixos.

     Tom continuou, com uma das mãos esticadas sobre a cova fresca, a palma para a frente, os dedos enrolados.

     —      Que todos aqueles que queiram tomar nossas vidas como esta vida foi tomada caiam em vergonha e agonia; que todos aqueles que desejam nossa ruína sejam expulsos e caiam em desgraça. Que aqueles que nos escarnecem sejam confundidos pela própria vergonha. Aqui jaz o morto, pó da terra...

     —      Sinto muito, Diretor! — gritou Jordan em uma voz tremida e aguda. — Sinto muito, não está certo, senhor, sinto muito que o senhor esteja morto... — Seus olhos rolaram para cima e ele caiu sobre a cova fresca. A névoa o cobriu com seus dedos brancos e vorazes.

     Clay o ergueu e mediu a pulsação no pescoço do menino; estava forte e regular.

     —      Foi só um desmaio. O que era aquilo que você estava falando, Tom?

     Tom parecia encabulado.

     —      Uma adaptação bem livre do Salmo 40. Vamos levá-lo para dentro.

     —      Não — disse Clay. — Se não for muito longo, termine.

     —      Sim, por favor — disse Alice. — Termine. É lindo. Como bálsamo em uma ferida.

     Tom se virou e ficou de frente para a cova novamente. Deu a impressão de estar se recompondo, mas talvez estivesse apenas voltando para o lugar.

     —      Aqui jaz o morto, pó da terra, e aqui estamos nós, os vivos, pobres e necessitados. Senhor, cuida de nós. Tu és nosso arrimo e nosso provedor. Senhor, não tardes a vir. Amém.

     —      Amém — Cfay e Alice disseram juntos.

     —      Vamos levar o garoto para dentro — disse Tom. — Está um gelo aqui fora.

     —      Você aprendeu isto com as carolas da Primeira Igreja de Cristo Redentor da Nova Inglaterra? — perguntou Clay.

     — Ah, sim — disse Tom. — Quanto mais salmos decorados, sobremesas extras. Também aprendi a mendigar nas esquinas e encher um estacionamento da Sears inteiro com panfletos do tipo Um Milhão de Anos no Inferno sem um Copo d'Água. Vamos colocar esse menino na cama. Aposto que ele vai dormir direto até as quatro da tarde de amanhã e acordar se sentindo muito melhor.

     — E se o homem da bochecha rasgada voltar e descobrir que ainda estamos aqui depois de ele ter nos mandado ir embora? — perguntou Alice.

     Clay pensou que aquela era uma boa pergunta, mas não achava que valesse a pena remoê-la por muito tempo. Ou o Homem Esfirangalhado daria mais um dia para eles, ou não. Enquanto levava Jordan para a cama no andar de cima, Clay descobriu que estava cansado demais para se importar com qualquer uma das hipóteses.

     Por volta das quatro da manhã, Alice deu um boa-noite sonolento para Clay e Tom e se arrastou para a cama. Os dois homens ficaram sentados na cozinha, bebendo chá gelado, sem conversarem muito. Não parecia haver muito a dizer. Então, logo antes da aurora, outro daqueles grunhidos altos, proferidos ao longe de modo fantasmagórico, veio do noroeste através do ar nebuloso. Oscilava como o som de um theremin em um filme de terror antigo e, quando estava começando a sumir, um grito de resposta muito mais alto veio de Gaiten, para onde o Homem Esfrangalhado levara seu novo e mais numeroso bando.

     Clay e Tom saíram pela frente, empurrando de lado a barreira de mini systems derretidos para descer os degraus da varanda. Não conseguiam enxergar nada; o mundo inteiro estava branco. Ficaram lá por um tempo e voltaram para dentro.

     Nem o grito da morte nem a resposta de Gaiten acordaram Alice e Jordan; eles podiam se sentir gratos por isso. O guia de ruas, já dobrado e com as pontas amassadas, estava na bancada da cozinha. Tom o folheou e disse:

     — Aquilo pode ter vindo de Hooksett ou Suncook. As duas são cidades de um tamanho razoável a noroeste daqui... quero dizer, de um tamanho razoável para New Hampshire. Imagino quantos eles pegaram. E como fizeram.

     Clay balançou a cabeça.

     —      Espero que tenham sido muitos — disse Tom com um sorriso fraco e insosso. — Espero que tenham sido pelo menos mil, e que tenham cozinhado bem devagar. Fico pensando numa cadeia de restaurantes qualquer que costumava anunciar "galinha assada". Nós vamos partir amanhã à noite?

     —      Acho que, se o Homem Esfrangalhado nos deixar viver o dia de hoje, não temos escolha. Você não acha?

     —      Não vejo outra saída — disse Tom —, mas vou lhe dizer uma coisa, Clay... estou me sentindo como uma vaca sendo conduzida por um corredor de zinco até o abatedouro. Quase posso sentir o cheiro do sangue dos meus irmãos bovinos.

     Clay sentia o mesmo, mas a mesma pergunta voltava à baila: se um massacre era o que eles tinham em sua mente coletiva, por que não logo ali? Poderiam tê-lo realizado na tarde do dia anterior, em vez de largarem mini systems derretidos e o tênis de estimação de Alice na varanda.

     Tom bocejou.

     —      Vou pra cama. Você consegue ficar acordado mais algumas horas?

     —      Talvez — disse Clay. Na verdade, nunca sentira tão pouca vontade de dormir na vida. Seu corpo estava exausto, mas sua mente não parava quieta. Logo começaria a se acalmar, e ele se lembraria do som que a caneta fez ao sair da órbita do Diretor: o guincho de metal contra o osso. — Por quê?

     —      Porque se eles decidirem matar a gente hoje, prefiro ir do meu jeito do que do jeito deles — respondeu Tom. — Já vi como é o deles. Concorda?

     Clay pensou que se a mente coletiva que o Homem Esfrangalhado representava tivesse realmente feito o Diretor enfiar uma caneta tinteiro no olho, os quatro inquilinos restantes da Casa Cheatham poderiam descartar suicídio como uma das opções. Porém, Tom não merecia ir para cama com aquele pensamento. De modo que ele assentiu.

     —      Vou levar todas as armas lá para cima. Você está com aquele bom e velho calibre 45, certo?

     —      O preferido de Beth Nickerson. Estou.

     —      Então, boa-noite. E, se os vir se aproximando, ou se sentir que eles estão se aproximando, grite. — Tom fez uma pausa. — Isto é, se tiver tempo. E se eles deixarem.

     Clay observou Tom sair da cozinha, pensando que ele sempre esteve um passo à sua frente. Pensando em como gostava de Tom. Pensando que gostaria de conhecê-lo melhor. Pensando que isso não era muito provável. E Johnny e Sharon? Eles nunca pareceram tão distantes.

     Às oito daquela manha, Clay se sentou num banco em um canto do jardim da vitória do Diretor, dizendo a si mesmo que, se não estivesse tão cansado, levantaria a bunda morta e faria uma espécie de lápide para o velho. Não duraria muito, mas o cara merecia, mesmo que fosse só por ter tomado conta do seu último aluno. O problema era que ele nem tinha certeza se conseguiria se levantar, cambalear para dentro da casa e acordar Tom para que ele ficasse de vigia.

     Logo eles teriam um belo e frio dia de outono — feito para colher maçãs, preparar cidra e jogar futebol americano no quintal dos fundos. Por ora, a névoa ainda estava espessa, mas o sol da manhã a atravessava vigorosamente, emprestando uma brancura deslumbrante ao pequeno mundo em que Clay estava sentado. Gotículas suspensas pendiam no ar, e centenas de pequenos arco-íris circulavam diante dos seus olhos pesados.

     Algo vermelho se materializou, saindo daquele branco incandescente. Por um instante, o moletom do Homem Esfrangalhado parecia flutuar sozinho, e então, na medida em que atravessava o jardim em direção a Clay, o rosto pardo e as mãos do seu ocupante se materializaram em cima e embaixo dele. Naquela manhã, o capuz estava levantado, emoldurando a deformidade sofridente do rosto e aqueles olhos mortos-vivos.

     Testa larga de erudito, transfigurada por um rasgo. Jeans sujos e disformes, rasgados nos bolsos e vestidos há mais de uma semana.

     HARVARD escrito no peito estreito.

     O calibre 45 de Beth Nickerson estava no cinto de Clay, guardado no coldre lateral. Ele nem chegou a tocá-lo. O Homem Esfrangalhado parou a cerca de 3 metros dele. Ele — a criatura — estava parado em cima da cova do Diretor, e Clay não achava que fosse por acaso.

     —      O que você quer? — ele perguntou ao Homem Esfrangalhado, e respondeu a si mesmo imediatamente: — Quero. Dizer.

     Clay ficou olhando para o homem, mudo de surpresa. Esperara telepatia ou nada. O Homem Esfrangalhado sorriu, da melhor forma que podia com aquele corte feio no lábio inferior, e espalmou as mãos como se dissesse: Ora, coisa fácil.

     —      Fale o que quer falar, então — disse Clay e tentou se preparar para ter a voz invadida uma segunda vez. Ele descobriu que não dava para se preparar. Era como se tivesse se transformado em um pedaço de madeira sorridente no colo de um ventríloquo.

     —      Vá. Hoje à noite. — Clay se concentrou e disse: — Cale a boca, pare!

     O Homem Esfrangalhado esperou, era a encarnação da paciência.

     —      Acho que consigo bloquear você se me esforçar — disse Clay. — Não tenho certeza, mas acho que consigo.

     O Homem Esfrangalhado esperou, o rosto dizendo: Já terminou?

     —      Prossiga — disse Clay, e então falou: — Poderia ter trazido. Mais. Vim. Sozinho.

     Clay refletiu sobre a força de vontade do Homem Esfrangalhado unida à de um bando inteiro e se deu por vencido.

   —      Vá. Hoje à noite. Norte. — Clay esperou e, quando teve certeza de que o Homem Esfrangalhado havia terminado de usar a voz dele por ora, disse: — Para onde? Por quê?

     Não houve palavras daquela vez, mas uma imagem surgiu de repente diante de Clay. Era tão clara que ele não sabia se estava em sua mente ou se o Homem Esfrangalhado a havia invocado de alguma forma na tela brilhante da névoa. Era o que eles tinham visto rabiscado em giz rosa no meio da Academy Avenue:

     KASHWAK=SEM-FO

     —      Não entendo — disse ele.

     Mas o Homem Esfrangalhado estava indo embora. Pôde ver o moletom vermelho por um instante, parecendo mais uma vez flutuar sozinho contra a névoa reluzente; então ele sumiu também. Clay ficou apenas com a pífia consolação de saber que eles iriam para o norte de qualquer maneira e que tinham ganhado mais um dia. O que significava que não havia necessidade de vigiar. Decidiu ir para cama e deixar os outros continuarem dormindo também.

    

     Jordan acordou com a cabeça no lugar, mas a lucidez nervosa desaparecera. Ele mordiscou metade de um bagel duro igual pedra e escutou com desânimo Clay contar sobre o encontro com o Homem Esfrangalhado naquela manhã. Quando Clay terminou, Jordan pegou o guia de ruas, consultou o índice no final e então abriu na página do oeste do Maine.

     —      Aqui — disse ele, apontando uma cidade em cima de Fryeburg. — Esta é Kashwak, ao leste, e Little Kashwak, a oeste, quase na divisa Maine New Hampshire. Sabia que eu tinha reconhecido o nome. Por causa do lago. — Jordan o cutucou. — Quase tão grande quanto Sebago.

     Alice aproximou o rosto para ler o nome do lago.

     —      Kash... Kashwakamak, acho que é isso.

     —      E um território não-incorporado chamado TR-90 — disse Jordan. Ele cutucou aquilo também. — Sabendo disso, fica fácil adivinhar o que significa Kashwak igual a Sem-Fo, vocês não acham?

     —      É uma zona morta, certo? — disse Tom. — Sem torres de telefonia celular, sem torres de microondas.

     Jordan abriu um sorriso fraco para ele.

      —      Bem, imagino que tenha um monte de gente com antenas parabólicas, mas fora isso... bingo.

     —      Não estou entendendo — disse Alice. — Por que eles nos mandariam para uma área sem cobertura celular onde todo mundo deve estar mais ou menos bem?

     —      Pensando assim, é melhor perguntar por que eles nos deixaram vivos pra começo de conversa — disse Tom.

     —      Talvez eles queiram nos transformar em mísseis teleguiados vivos e nos usar para bombardear o pedaço — disse Jordan. — Se livrar da gente e deles. Dois coelhos com uma cajadada só.

     Eles consideraram a hipótese em silêncio por ura instante.

     —      Vamos descobrir — disse Alice —, mas eu não vou bombardear ninguém.

     Jordan a encarou com frieza.

     —      Você viu o que eles fizeram com o Diretor. Se chegar a esse ponto, acha que vai ter alguma escolha?

    

     Ainda havia sapatos na maioria das soleiras da calçada oposta aos pilares de pedra que marcavam a entrada da Academia Gaiten, mas as portas das casas simpáticas ou estavam abertas, ou tinham sido arrancadas das dobradiças. Alguns dos mortos que eles viram espalhados naqueles gramados ao retomarem a viagem para o norte eram fonáticos, mas a maioria consistia em peregrinos inocentes, que calharam de estar no lugar errado, na hora errada. Eram os que estavam descalços, mas nem havia necessidade de olhar para os pés deles; muitas das vítimas da retaliação tinham sido literalmente desmembradas.

     Depois da escola, onde a Academy Avenue voltava a se tornar a rota 102, havia uma carnificina em ambos os lados por quase um quilômetro. Alice andava com os olhos resolutamente fechados, deixando Tom guiá-la como se fosse cega. Clay se ofereceu para fazer o mesmo por Jordan, mas ele apenas balançou a cabeça e seguiu com teimosia pelo meio da rua, um garoto magricela com uma mochila nas costas e cabelo demais na cabeça. Depois de alguns olhares rápidos para a matança, ele baixou os olhos para os tênis.

     — São centenas — disse Tom uma vez. Eram oito da noite e a escuridão era total, mas eles conseguiam ver muito mais do que queriam. Enrolada no chão em volta de uma placa de "pare" na esquina da Academy com a Spofford, havia uma garota de calças vermelhas e blusa de marinheiro branca. Não parecia ter mais de 9 anos, e estava descalça. A menos de 20 metros de distância, via-se a porta aberta da casa de onde ela provavelmente tinha sido arrastada, gritando por misericórdia. — Centenas.

     —      Talvez nem tanto — disse Clay. — Alguns da nossa gente estavam armados. Eles atiraram em uma boa quantidade desses desgraçados. Esfaquearam outros tantos. Cheguei até a ver um com uma flecha saindo da...

     —      Nós causamos isso — disse Tom. — Você acha que existe gente como nós?

     A resposta a essa pergunta veio quando eles pararam para comer o almoço frio em uma beira de estrada quatro horas mais tarde. Àquela altura, já estavam na rota 156 e, de acordo com a placa, aquilo era um mirante, com vista para a histórica Flint Hill a oeste. Clay pensou que era uma boa vista, se você estivesse almoçando lá ao meio-dia, em vez de à meia-noite, com lampiões em cada uma das quatro pontas da mesa de piquenique para poder enxergar.

     Já tinham começado a comer a sobremesa — biscoitos Oreo pas-sados — quando um grupo de meia dúzia veio andando com dificuldade, todos mais velhos. Três empurravam carrinhos de compras cheios de suprimentos e os seis estavam armados. Eram os primeiros viajantes que viam desde que haviam voltado para a estrada.

     —      Ei — chamou Tom, acenando para eles. — Tem outra mesa de piquenique aqui, se vocês quiserem sentar um pouquinho.

     Eles olharam. A mais velha das duas mulheres do grupo, estilo vovó, com montes de cabelo branco e fofo que brilhava à luz das estrelas, começou a acenar. Mas então parou.

     —      São eles — disse um dos homens, e Clay não deixou de notar a repulsa e o medo na voz dele. — É o bando de Gaiten.

     Um dos homens disse:

     —      Vá pro inferno, amigo.

     Eles seguiram caminho, andando até um pouco mais rápido, embora a vovó estivesse mancando e o homem ao lado dela tenha precisado ajudá-la a passar por um Subaru que tinha enganchado o pára-choque no de um Saturn abandonado.

     Alice saltou de pé, quase derrubando um dos lampiões. Clay agarrou o braço dela.

     —      Deixe para lá, menina.

     Ela o ignorou.

     —      Pelo menos nós fizemos alguma coisa. — gritou ela na direção do grupo. — O que vocês fizeram? O que vocês fizeram, porra?

     —      Vou dizer o que nós não fizemos — falou um dos homens. O pequeno grupo já havia passado do mirante, e ele teve que olhar por sobre os ombros para falar com Alice. Podia fazer aquilo porque a estrada estava livre de veículos abandonados por algumas centenas de metros dali em diante. — Não matamos um monte de normies. Não sei se você notou, mas existem mais deles do que da gente...

     —      Conversa fiada, você não sabe se isso é verdade! — gritou Jordan. Clay percebeu que era a primeira vez que o menino falara desde que tinham passado dos limites de Gaiten.

     —      Talvez seja, talvez não seja — disse o homem —, mas eles fazem uns trecos muito estranhos e poderosos. Isso você não pode negar. Eles dizem que vão nos deixar em paz se nós os deixarmos em paz... e se deixarmos vocês em paz. E a gente disse "tudo bem".

     —      Se você acredita no que eles dizem, ou enviam por pensamento, então é um idiota — disse Alice.

     O homem virou o rosto para frente, ergueu as mãos no ar, fez um gesto que era uma mistura de "vá à merda" e "até logo", e não disse mais nada.

     Os quatro observaram as pessoas dos carrinhos de compra sumirem de vista, então trocaram olhares na mesa de piquenique com suas iniciais antigas entalhadas.

     —      Bem, agora já sabemos — disse Tom. — Somos proscritos.

     —      Talvez não, se o povo dos celulares quer que a gente vá até onde o resto dos... do que ele os chamou?... o resto dos normies está indo — disse Clay. — Talvez sejamos outra coisa.

     —      O quê? — perguntou Alice.

     Clay tinha uma idéia, mas não gostaria de colocá-la em palavras. Não à meia-noite.

     —      Agora estou mais interessado em Kent Pond — disse ele. — Quero... preciso ver se encontro minha mulher e filho.

     —      Não é muito provável que eles ainda estejam lá, é? — perguntou Tom com sua voz baixa e gentil. — Quero dizer, independentemente de como estejam, normais ou fonóides, eles provavelmente seguiram caminho.

     — Se estiverem bem, terão deixado algum recado — disse Clay. — De qualquer forma, é um lugar para se ir.

     E, enquanto não tivessem chegado e terminado aquela etapa, ele não precisaria imaginar por que o Homem Esfrangalhado os mandaria para um lugar seguro se as pessoas lá os odiavam e temiam.

     Ou como Kashwak Sem-Fo poderia ser seguro, uma vez que o povo dos celulares sabia da existência do local.

     Eles estavam seguindo lentamente para o leste, aproximando-se da rota 19, uma estrada que os levaria para além da fronteira do estado até o Maine, mas não chegaram lá naquela noite. Todas as estradas daquela parte de New Hampshire pareciam cortar a pequena cidade de Rochester, que tinha sido consumida pelo fogo. O núcleo do incêndio ainda estava vivo, irradiando um brilho quase radioativo. Alice assumiu o comando, liderando um meio círculo para o oeste que contornava a pior parte das ruínas flamejantes. Eles viram muitas vezes KASHWAK=SEM-FO rabiscado nas calçadas; e uma vez pichado na lateral de uma caixa de correio.

     —      Isso dá uma fiança de um zilhão de dólares e prisão perpétua na baía de Guantánamo — disse Tom com um sorriso fraco.

     Aquele caminho acabou obrigando-os a atravessar o enorme estacionamento do shopping Rochester. Muito antes de chegarem, podiam ouvir o som amplificado de um trio de jazz New Age pouco inspirado tocando o tipo de coisa que Clay considerava música para fazer compras. O estacionamento estava soterrado de rios de lixo em decomposição; os carros restantes estavam até a calota de entulho. Eles sentiam o cheiro podre e orgânico de cadáveres no ar.

     —      Tem algum bando por aqui — comentou Tom.

     O bando estava no cemitério prqximo ao shopping. Eles passariam ao sul e a oeste dele, mas, quando saíram do estacionamento do shopping, estavam perto o bastante para verem os olhos vermelhos dos mini systems através das árvores.

     —      Talvez devêssemos matá-los — propôs Alice de repente quando eles voltaram para a North Main Street. — Deve ter um caminhão de gás enguiçado aqui por perto.

     —      É isso aí, baby. — disse Jordan. Ele ergueu os punhos até os lados da cabeça e os brandiu, parecendo vivo pela primeira vez desde que saíram da Casa Cheatham. — Pelo Diretor!

     —      Acho melhor não — disse Tom.

     —      Está com medo de testar a paciência deles? — perguntou Clay. Ele ficou surpreso de se ver mais ou menos a favor da idéia maluca de Alice. Não tinha dúvidas de que incendiar um outro bando era uma idéia maluca, mas...

     Ele pensou: Eu poderia fazer isso pelo simples motivo de que esta é a pior versão de "Misty" que já ouvi na vida. Não precisa nem torcer meu braço pra me convencer.

     —      Não é isso — disse Tom. Ele parecia estar pensando. — Está vendo aquela rua ali? — Ele apontava para uma avenida que seguia entre o shopping e o cemitério. Estava entulhada de carros parados. Quase todos estavam apontando na direção oposta ao shopping. Clay não teve dificuldade nenhuma para imaginar aqueles carros cheios de pessoas tentando ir para casa depois do Pulso. Pessoas que queriam saber o que estava acontecendo, e se suas famílias estavam bem. Que pegariam os telefones dos carros, os telefones celulares, sem pensar duas vezes.

     —      O que tem ela? — perguntou ele.

     —      Vamos descer um pouquinho naquela direção — disse Tom.

     — Com muito cuidado.

     —      O que você viu, Tom?

     —      Prefiro não dizer. Talvez nada. Afastem-se da calçada, fiquem debaixo das árvores. Aquele foi um belo dum engarrafamento. Vai haver corpos.

     Havia dúzias de cadáveres apodrecendo para se tornarem novamente parte do grande esquema infinito das coisas entre a Twombley Street e o cemitério West Side. Misty tinha dado lugar a uma versão melosa de Left My Heart in San Francisco quando se aproximaram das árvores, e eles conseguiam ver novamente os olhos vermelhos dos mini systems. Então Clay viu algo mais e parou.

     —      Meu Deus — ele sussurrou. Tom assentiu.

    —      O quê? — sussurrou Jordan. — O quê?

     Alice não falou nada, mas Clay percebia pela direção em que ela olhava e pelo curvar derrotado dos seus ombros que ela vira o mesmo que ele. Havia homens com rifles fazendo uma barreira de segurança em volta do cemitério. Clay virou a cabeça de Jordan e viu os ombros do menino também se curvarem.

     —      Vamos embora — sussurrou o garoto. — Esse cheiro está me deixando enjoado.

    

     Em Melrose Corner, a uns 6 quilômetros ao norte de Rochester (eles ainda conseguiam ver o brilho vermelho da cidade oscilar no horizonte ao sul), eles encontraram outra área para piquenique, daquela vez com um círculo para fogueira além de mesas. Clay, Tom e Jordan cataram lenha seca. Alice, que afirmava ter sido escoteira, provou suas habilidades fazendo uma bela fogueira e depois esquentando três latas do que chamava de "feijão de mendigo". Enquanto comiam, dois pequenos grupos de viajantes passaram por eles. Ambos olharam, ninguém em nenhum dos dois grupos acenou ou falou.

     Depois que o lobo dentro de sua barriga se acalmou um pouco, Clay disse:

     —      Você viu aqueles caras, Tom? Lá do estacionamento do shopping? Estou pensando em mudar seu nome para Olho de Águia.

     Tom balançou a cabeça.

     —      Foi pura sorte. Isso e a luz que vinha de Rochester. Das brasas.

     Clay assentiu. Todos sabiam do que ele estava falando.

     —      Calhei de olhar para o cemitério na hora certa e do ângulo certo e vi o brilho em alguns canos de rifle. Disse a mim mesmo que não podia ser o que parecia, que eram provavelmente as hastes da cerca de ferro ou algo do gênero, mas... — Tom suspirou, olhou para o resto do feijão e o empurrou de lado. — É isso aí.

    —      Talvez fossem fonáticos — disse Jordan, mas Clay notava na voz do menino que ele não acreditava naquilo.

     —      Fonáticos não fazem o turno da noite — disse Alice.

     —      Talvez precisem de menos horas de sono agora — falou Jordan. — Talvez isso faça parte da nova programação deles.

     Ouvi-lo falar daquele jeito, como se o povo dos celulares fosse composto de computadores orgânicos em algum tipo de upload cíclico, sempre arrepiava Clay.

     —      Eles também não usam rifles, Jordan — disse Tom. — Não precisam deles.

     —      Então arranjaram alguns colaboradores para cuidar deles enquanto descansam a beleza — disse Alice. Havia um desprezo frágil na voz dela, e lágrimas logo abaixo. — Espero que apodreçam no inferno.

     Clay não disse nada, mas se viu pensando nas pessoas que tinham encontrado mais cedo naquela noite, os que estavam com carrinhos de compras — no medo e repulsa na voz do homem que os chamou de bando de Gaiten. Poderiam bem ter nos chamado de gangue de Dillinger, pensou Clay. E então: Já não penso mais neles como fonáticos, e sim como um povo, o povo dos celulares. Por que isso? O pensamento que se seguiu a este foi ainda mais desagradável: Quando um colaborador deixa de ser um colaborador? Parecia-lhe que a resposta era quando os colaboradores se tornavam a maioria absoluta. Então, os que não eram colaboladores se tornavam...

     Bem, se você for um romântico, chama essas pessoas de "a resistência". Se não for, os chama de fugitivos. Ou talvez simplesmente de criminosos.

     Eles andaram até a aldeia de Hayes Station e passaram a noite em um motel caindo aos pedaços chamado Whispering Pines. De lá, dava para ver uma placa que dizia ROTA 19 11KM SANFORD THE BERWICKS KENT POND. Não deixaram os sapatos na soleira dos apartamentos que escolheram.

     Já não parecia haver necessidade.

    

     Ele estava em cima plataforma no meio daquele maldito campo novamente, de alguma forma imobilizado, o alvo de todos os olhares. A construção no esqueleto com a luz vermelha piscando no topo erguia-se no horizonte. O lugar era maior do que o estádio de Foxboro. Seus amigos estavam junto dele, em fila, mas daquela vez não estavam sozinhos. Plataformas parecidas estendiam-se pelo campo aberto. À esquerda de Tom havia uma grávida com uma camisa Harley-Davidson com as mangas cortadas. À direita de Clay, um cavalheiro idoso — não do naipe do Diretor, mas quase lá — com cabelo grisalho preso em um rabo-decavalo e uma expressão assustada no rosto longo e inteligente. Atrás dele, estava um homem mais jovem, com um boné surrado dos Miami Dolphins.

     Clay não ficou surpreso em reconhecer algumas das centenas de pessoas que via — não é assim que as coisas são nos sonhos? Em um instante, você está espremido numa cabine de telefone com a sua professora da primeira série; no outro, está transando com as três cantoras do Destiny's Child no observatório do Empire State.

     O trio do Destiny's Child não estava no sonho, mas Clay viu o rapaz nu que havia brandido as antenas de carro no ar (vestindo no sonho calças de sarja e uma camisa branca limpa), o cara de mochila que chamara Alice de senhorita e a mulher estilo vovó que mancava. Ela apontou para Clay e seus amigos, que estavam mais ou menos na linha de 50 jardas, e então falou com a mulher ao seu lado... que era, Clay notou sem surpresa, a nora grávida do Sr. Scottoni. Aquele é o bando de Gaiten, disse a vovó, e a nora grávida do Sr. Scottoni ergueu o carnudo lábio superior em um sorriso de escárnio.

     Socorro!, gritou a mulher na plataforma ao lado de Tom. Ela estava gritando para a nora do Sr. Scottoni. Eu também quero ter o meu bebê! Ajude-me!

     Você devia ter pensado nisso enquanto ainda havia tempo, respondeu a nora do sr. Scottoni; e Clay percebeu, como percebera no outro sonho, que ninguém estava de fato falando. Usavam telepatia.

     O Homem Esfrangalhado começou a subir a fila, colocando a mão na cabeça de cada pessoa que alcançava. O gesto era o mesmo que Tom fizera sobre a cova do Diretor: palma estendida, dedos enrolados. Clay pôde ver um tipo de bracelete de identificação "brilhando no pulso do Homem Esfrangalhado, talvez uma daquelas pulseiras de identidade para emergências médicas, e percebeu que havia luz ali — os holofotes estavam acesos. Viu outra coisa também. O Homem Esfrangalhado conseguia alcançar o topo da cabeça deles, embora estivessem em plataformas, porque não estava no chão. Estava andando, mas em pleno ar, a um metro de altura do solo.

     — Ecce homo... insanus — disse ele. — Eccefemina... insana. — E, todas as vezes, a multidão rugia a resposta em uníssono: "NAO TOQUE", tanto o povo dos celulares quanto os normies. Pois não havia mais diferença. No sonho de Clay, eles eram todos iguais.

     Ele acordou no fim da tarde, com o corpo enrolado em uma bola e abraçando um travesseiro de motel. Saiu e encontrou Alice e Jordan sentados no meio-fio que separava o estacionamento dos apartamentos. Alice estava com um braço em volta do menino. Jordan, com a cabeça no ombro dela, a enlaçava pela cintura. O cabelo dele estava de pé na nuca. Clay se sentou com os dois. Diante deles, a estrada que le-vava à rota 19 e ao Maine estava deserta, exceto por um caminhão da Federal Express morto na faixa branca com as portas de trás abertas e uma motocicleta acidentada. Clay se sentou com os dois.

     —      Vocês?...

     —      Eccepuer... insanus— disse Jordan, sem levantar a cabeça do ombro de Alice. — Sou eu.

     —      E eu sou a femina— disse Alice. — Clay, tem algum estádio de futebol americano enorme em Kashwak? Porque, se tiver, não vou chegar nem perto desse lugar.

     Uma porta se fechou atrás deles. Passos se aproximaram.

     —      Eu também não — disse Tom, sentando-se. — Sou o primeiro a admitir que tenho muitos problemas, mas desejo de morte nunca foi um deles.

     —      Não tenho certeza, mas não acho que exista muita coisa além de uma escola primária lá — disse Clay. — As crianças com idade para o ensino médio provavelmente vão de ônibus para Tashmore.

     —      É um estádio virtual— disse Jordan.

     —      Hein? — disse Tom. — Você quer dizer como em um jogo de computador?

     —      Quero dizer como em um computador. — Jordan ergueu a cabeça, ainda olhando para a estrada vazia que levava até Sanford, the Berwicks e Kent Pond. — Esqueça, estou me lixando para isso. Se eles não vão tocar na gente, o povo dos celulares, as pessoas normais, quem vai tocar? — Clay jamais vira uma dor tão adulta nos olhos de uma criança. — Quem vai tocar na gente?

     Ninguém respondeu.

     —      O Homem Esfrangalhado vai tocar na gente? — perguntou Jordan, erguendo um pouco a voz. — O Homem Esfrangalhado vai tocar na gente? Talvez. Porque ele está observando, eu sinto que ele está.

     —      Jordan, você está se deixando levar — disse Clay, mas a idéia tinha uma certa lógica interior estranha. Se eles receberam aquele sonho, o sonho das plataformas, então talvez ele estivesse mesmo observando. Não se manda uma carta sem ter o endereço.

     —      Não quero ir para Kashwak — disse Alice. — Pouco me importa se é uma área sem telefones ou não. Prefiro ir para... Idaho.

     —      Eu vou para Kent Pond antes de ir para Kashwak, Idaho ou qualquer outro lugar — disse Clay. — Consigo chegar lá a pé em duas noites. Gostaria que vocês me acompanhassem, mas se não quiserem, ou não puderem, vou entender.

     —      O homem precisa de uma resolução, vamos dar isso a ele — disse Tom. — Depois, podemos pensar no que fazer em seguida. A não ser que alguém tenha outra idéia.

     Ninguém tinha.

    

     As duas vias da rota 19 estavam completamente livres em alguns pequenos trechos, que às vezes chegavam a quase meio quilômetro, e isso incentivava os sprinters. Este foi o termo que Jordan cunhou para os carros semi-suicidas que passavam zunindo em alta velocidade, geralmente no meio da rua, sempre com os faróis altos acesos.

     Clay e os outros conseguiam ver as luzes se aproximando e saíam da rua depressa, pulando a mureta e entrando no mato, caso vissem acidentes ou carros parados mais adiante. Jordan passou a chamar esses obstáculos de barreiras de sprinters. O sprinter passaria voando, as pessoas dentro dele muitas vezes aos berros (e quase certamente embriagadas). Se tivesse apenas um carro parado, uma pequena barreira de sprinter, o motorista provavelmente escolheria contorná-la. Se a rua estivesse completamente bloqueada, ele talvez ainda tentasse fazer o contorno, porém, o mais provável era que o motorista e os passageiros simplesmente abandonassem o veículo e voltassem a seguir para o leste a pé, até encontrarem alguma outra coisa que valesse a pena usar como sprinter; isto é, algo rápido e temporariamente divertido. Clay pensou que viajar daquele jeito era uma babaquice... mas a maioria dos sprinters era mesmo babaca, mais um pé no saco no que se tornara um mundo pé no saco. Isso também parecia valer para Gunner.

     Ele foi o quarto sprinter na primeira noite deles na rota 19, e os viu parados no acostamento sob o brilho dos faróis. Viu Alice. Gunner colocou a cabeça para fora, cabelos negros ondeando para trás, e gritou:

     —      Chupa o meu pau, putinha adolescente!— enquanto varava a estrada em um Cadillac Escalade preto.

     Os passageiros fizeram algazarra e acenaram. Alguém gritou:

     —      Podicrê!

     Para Clay, aquilo parecia um êxtase absoluto exprimido em um sotaque de South Boston.

     —      Que lindo — foi o único comentário de Alice.

     —      Algumas pessoas não têm... — começou a falar Tom, mas antes que pudesse contar a eles o que algumas pessoas não tinham, o som de pneus cantando veio da escuridão logo à frente, seguido por um estampido alto e surdo e o tilintar de vidro.

     —      Puta merda — disse Clay e começou a correr. Antes de ele avançar 20 metros, Alice o ultrapassou.

     —      Calma, eles podem ser perigosos! — exclamou ela.

     Tom alcançou Clay, já ofegante. Jordan, correndo ao lado dele, nem suava.

     —      O que... vamos... fazer... se eles estiverem... gravemente feridos? — perguntou Tom. — Chamar... uma ambulância?

     —      Não sei — disse Clay, mas ele estava pensando em como Alice erguera uma das automáticas. Ele sabia.

      

     Eles alcançaram Alice na próxima curva da estrada. Ela estava parada atrás do Escalade. O carro estava virado de lado, com os airbags acionados. A história do acidente não era difícil de entender. O Escalade fizera a curva cega a toda, talvez a mais de 90 quilômetros por hora, e deu de cara com um caminhão de leite abandonado. O motorista, babaca ou não, conseguiu evitar bem o desastre. Estava andando zonzo em volta do utilitário esportivo arruinado, tirando o cabelo de cima do rosto. Sangue jorrava do seu nariz e de um corte na testa. Clay andou até o Escalade, os tênis raspando nos pedacinhos de vidro de segurança, e olhou para dentro. Estava vazio. Passou a lanterna pelo interior e viu sangue apenas no volante. Os passageiros tinham sido espertos o bastante para fugir do acidente, e todos, exceto um, tinham abandonado a cena, provavelmente por puro reflexo. O que ficara com o motorista era um pós-adolescente nanico, dentuço, com marcas feias de acne e cabelo ruivo longo e sujo. A falação dele fazia Clay lembrar o cachorrinho que idolatrava o Spike nos desenhos da Warner Bros.

     —      Cê tá bem, Gunnah? — perguntou ele. Clay imaginava que era assim que se pronunciava Gunner em South Boston. — Puta merda, cê tá sangrando feito um desgraçado. Caralho, achei que cê tava morto. — Então, para Clay. — Tá olhando o quê?

     —      Cala a boca — disse Clay; e, dadas as circunstâncias, até com alguma educação.

     O ruivo apontou para Clay e virou para o amigo ensangüentado.

     —      Ele é um deles, Gunnah! É um bando deles!

     —      Cala a boca, Harold — disse Gunner. Sem educação nenhuma. Então olhou para Clay, Tom, Alice e Jordan.

     —      Vamos dar um jeito na sua testa — disse Alice. Ela havia recolocado a arma no coldre e tirado a mochila. Então começou a revirá-la. — Tenho band-aids e chumaços de gaze. E também peróxido de hidrogênio, que vai arder, mas é melhor uma ardidinha do que uma infecção, certo?

     —      Levando em conta o que esse rapaz lhe chamou no caminho, você é uma melhor cristã do que eu fui no meu auge. — disse Tom.

     Ele sacara o Sr. Ligeirinho e olhava para Gunner e Harold segurando-o pela alça.

     Gunner devia ter uns 25 anos. O cabelo longo e preto de vocalista de rock estava coberto de sangue. Ele olhou para o caminhão de leite, depois para o Escalade, depois para Alice, que estava com um chumaço de gaze em uma das mãos e o frasco de peróxido de hidrogênio na outra.

     —      Tommy, Frito e aquele cara que estava sempre enfiando o dedo no nariz ralaram. — Ele inflou o pouco peito que tinha. — Mas eu fiquei! Puta merda, mermão, cê tá sangrando feito um porco.

     Alice colocou peróxido de hidrogênio no chumaço de gaze e deu um passo em direção a Gunner. Ele recuou imediatamente.

     —      Fique longe de mim. Você é veneno.

     —      São eles! — gritou o ruivo. — Dos sonhos! Num falei?

     —      Fique longe de mim — disse Gunner. — Sua puta. Todos vocês.

     Clay sentiu uma súbita vontade de atirar nele, e não ficou surpreso. Gunner tinha a aparência de um cachorro acuado e agia como tal: dentes arreganhados e preparados para morder. E não é isso que se faz com cães perigosos, quando não há outra alternativa? Você não atira neles? Porém, eles obviamente tinham uma alternativa e, se Alice podia bancar a Boa Samaritana para com o vagabundo que a chamou de putinha adolescente, ele achava que conseguiria se privar de executá-lo. Mas queria descobrir uma coisa antes de deixar aqueles dois rapazes adoráveis seguirem o caminho deles.

     —      Estes sonhos — disse ele. — Você tem um... sei lá... um tipo de guia espiritual neles? Um cara de moletom vermelho, talvez?

     Gunner deu de ombros. Rasgou um pedaço da camisa e o usou para limpar o sangue do rosto. Estava recuperando um pouco os sentidos, parecia um pouco mais consciente do que acontecera.

     —      Harvard, pode crer. Certo, Harold?

     O ruivo assentiu.

     —      É. Harvard. O negro. Mas eles não são sonhos. Se você não sabe, não adianta porra nenhuma te contar. São transmissões. Transmissões nos nossos sonhos. Se vocês não recebem, é porque são veneno. Não são, Gunnah?

     —      Vocês fizeram uma merda grossa — disse Gunner com uma voz absorta e limpou a testa. — Não toquem em mim.

     —      A gente vai ter nosso próprio lugar — disse Harold. — Não vamos, Gunnah? Lá no Maine. Todo mundo que não recebeu o Pulso tá indo pra lá, e a gente não vai ficar pra trás. Caçar, pescar, viver da porra da terra. É o que Harvard diz.

     —      E você acredita nele? — disse Alice. Ela parecia fascinada.

     Gunner ergueu um dedo que tremia um pouco.

     —      Cala a boca, sua puta.

     —      Acho melhor você calar a sua — disse Jordan. — Nós estamos armados.

     —      É melhor nem pensarem em atirar na gente! — disse Harold com a voz esganiçada. — O que você pensa que Harvard faria se vocês atirassem na gente, seu tampinha de merda?

     —      Nada — disse Clay.

     —      Você não... — começou a falar Gunner, mas, antes que pudesse prosseguir, Clay deu um passo à frente e bateu no queixo dele com o calibre 45 de Beth Nickerson. A mira na ponta do cano abriu um novo rasgo no queixo de Gunner, mas Clay esperava que aquilo fosse um remédio mais eficiente do que o peróxido de hidrogênio que o homem recusara. Nisso ele se enganou.

     Gunner caiu contra a lateral do caminhão de leite abandonado, olhando para Clay com uma expressão chocada. Harold deu um passo à frente por impulso. Tom apontou o Sr. Ligeirinho para ele e balançou a cabeça uma única e proibitiva vez. Harold se retraiu e começou a roer as pontas dos dedos sujos. Acima deles, seus olhos estavam arregalados e úmidos.

     —      Nós estamos indo — disse Clay. — Eu os aconselho a ficarem aqui pelo menos uma hora, porque não vão querer nos encontrar de novo. Estamos dando as vidas de vocês de presente. Se aparecerem na nossa frente mais uma vez, vamos tirá-las. — Ele andou de costas em direção a Tom e aos demais, ainda olhando para aquele rosto afogueado e incrivelmente cheio de sangue. Sentiu-se um pouco como o velho domador de leões Frank Buck, tentando dar conta do recado por pura força de vontade. — Mais uma coisa. Não sei por que o povo dos celulares quer todos os normies em Kashwak, mas sei o que geralmente acontece quando o gado é arrebanhado. Pensem nisso quando receberem a próxima transmissão noturna.

     —      Vá se foder — disse Gunner, mas desviou o olhar de Clay e olhou para os próprios sapatos.

     —      Venha, Clay — disse Tom. — Vamos.

     —      Não nos deixe encontrar vocês de novo, Gunner — disse Clay, mas eles deixaram.

    

     Gunner e Harold devem ter se adiantado a eles de alguma forma, talvez se arriscando a viajar 8 ou 16 quilômetros à luz do dia enquanto Clay, Tom, Alice e Jordan dormiam no State Line Motel, que ficava uns 200 metros depois da divisa do Maine. A dupla deve ter parado na área de repouso de Salmon Falls, Gunner escondendo seu novo veículo entre a meia dúzia de carros que havia sido abandonada lá. Mas isso não tinha importância. O que importava era que os dois se adiantaram a eles, os esperaram passar e então atacaram.

     Clay mal registrou o som do motor se aproximando ou o comentário de Jordan: "Lá vem um sprinter." Aquele era o seu torrão natal e, à medida que passavam por cada familiar ponto de referência — o Depósito de Lagostas Freneau a 3 quilômetros do State Line Motel, a sorveteria Shaky's Tastee Freeze do outro lado da rua, a estátua do general Joshua Chamberlain na pequena praça municipal —, ele se sentia cada vez mais como um homem tendo um sonho muito real. Só percebeu quão pouca esperança tivera de chegar em casa quando viu o grande cone de sorvete que ficava sobre a Shaky's. Ele parecia ao mesmo tempo banal e exótico, como algo saído do pesadelo de um louco, com sua ponta espiralada se erguendo em direção às estrelas.

     —      A estrada está atravancada demais para um sprinter — comentou Alice.

     Eles foram para o acostamento quando faróis se acenderam na colina às suas costas. Havia uma picape capotada pela faixa branca. Clay achou bem provável que o veículo que se aproximava fosse bater nela, mas os faróis desviaram para a esquerda um segundo depois de passar pelo topo da colina; o sprinter evitou a picape com facilidade, raspando a mureta por alguns segundos antes de voltar à estrada. Clay imaginou mais tarde que Gunner e Harold provavelmente tinham passado por aquele trecho antes, mapeando as barreiras de sprinters com atenção.

     Eles ficaram olhando, Clay mais perto das luzes que se aproximavam. Alice do lado esquerdo dele. A esquerda dela estavam Tom e Jordan. Tom com os braços casualmente em volta dos ombros de Jordan.

     — Nossa, ele está pisando fundo — disse Jordan. Sua voz não soava alarmada; era apenas uma observação. Clay também não estava alarmado. Não conseguiu prever o que estava por vir. Havia se esquecido completamente de Gunner e Harold.

     Um carro esportivo, talvez um MG, estava parado com uma metade dentro e a outra fora da estrada a uns 15 metros a oeste de onde estavam. Harold, que estava dirigindo o sprinter, desviou para evitá-lo. Foi um desvio pequeno, mas talvez tenha atrapalhado a pontaria de Gunner. Ou talvez não. Talvez Clay nunca tenha sido o alvo. Talvez ele tivesse mirado em Alice o tempo todo.

     Naquela noite, eles dirigiam um seda Chevrolet comum. Gunner estava ajoelhado no banco de trás, com o corpo para fora da janela até a cintura, segurando um bloco de concreto lascado nas mãos. Ele soltou um grito inarticulado que poderia ter vindo direto de um balão de uma das revistas em quadrinhos que Clay desenhara como freelance — Yahhhhhh!— e atirou o bloco. O pedaço de concreto descreveu sua rota curta e mortal pela escuridão e acertou Alice no lado da cabeça. Clay nunca se esqueceu do som que ele fez. A lanterna que ela segurava — que teria feito dela um alvo perfeito, embora todos estivessem com uma — caiu da sua mão relaxada e desenhou um cone de luz sobre o asfalto, iluminando cascalhos e um pedaço de vidro de lanterna traseira que reluziu como um rubi falso.

     Clay caiu de joelhos ao lado de Alice, chamando o nome dela, mas não conseguia se ouvir em meio ao rugido súbito do Sr. Ligeirinho, que finalmente estava sendo testado. Os flashes do cano da arma entrecortaram a escuridão, permitindo-o ver o sangue jorrando do lado esquerdo do rosto — oh, Deus, que rosto — dela.

     Então os tiros pararam. Tom estava gritando: "O cano foi pra cima, não conseguia baixá-lo, acho que atirei a porra do cartucho inteiro para o céu", e Jordan gritava: "Ela está machucada? Ele acertou?", e Clay pensou em como ela se oferecera para colocar o peróxido de hidrogênio na testa de Gunner para depois enfaixá-la. Melhor uma ardidinha do que uma infecção, certo?, dissera Alice, e ele tinha que estancar o sangue. Tinha que estancá-lo imediatamente. Clay tirou a jaqueta que estava vestindo e então o suéter. Usaria o suéter, o enrolaria em volta da cabeça dela como a porra de um turbante.

     A lanterna oscilante de Tom caiu sobre o bloco de concreto e parou. Estava coberto de sangue e cabelos. Jordan o viu e começou a berrar. Clay, ofegante e suando desesperadamente, a despeito do ar frio da noite, começou a enrolar o suéter em volta da cabeça de Alice. Ficou encharcado na mesma hora. Ele parecia estar usando luvas quentes e úmidas. Então, a lanterna de Tom encontrou Alice, a cabeça dela envolvida no suéter até o nariz, deixando-a parecida com um prisioneiro de extremistas islâmicos em uma foto da Internet — a bochecha (o que restava da bochecha) e o pescoço imersos em sangue —, e Clay também começou a gritar.

     Ajudem-me, ele queria dizer. Parem com isso vocês dois e me ajudem aqui. Mas a voz não saía e tudo o que Clay podia fazer era pressionar o suéter ensopado contra o lado esponjoso da cabeça dela, lembrando-se de que Alice também estava sangrando quando eles a conheceram, pensando que se ela tinha ficado bem daquela vez também ficaria nessa.

     As mãos dela estavam se contorcendo desvairadamente, os dedos respingando sangue na poeira do acostamento. Alguém dê a ela aquele tênis, pensou Clay, mas o tênis estava na mochila e Alice estava deitada em cima dela. Deitada com o lado da cabeça esmagado por alguém que tinha uma pequena dívida para acertar. Ele viu que os pés dela também estavam se debatendo, e ainda conseguia sentir o sangue jorrar, atravessando o suéter e cobrindo suas mãos.

     Aqui estamos nós, no fim do mundo, pensou Clay. Ele ergueu os olhos para o céu e viu a estrela vespertina.

    

     Ela nunca chegou a desmaiar e tampouco recuperou completamente a consciência. Tom conseguiu se controlar e ajudou a carregá-la ladeira acima no lado da rua em que estavam. Havia árvores ali — o que Clay lembrava ser um pomar de macieiras. Ele achava que já tinha vindo ali com Sharon uma vez para colher maçãs, quando Johnny era bem pequeno. Quando as coisas estavam bem entre eles e não havia discussões sobre dinheiro e ambições para o futuro.

     —      Não se d