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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CENTELHA MORTAL / Jeffery Deaver
CENTELHA MORTAL / Jeffery Deaver

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

No centro de controle do vasto complexo da companhia Algonquin Consolidated Power and Lighting, à margem do East River, no Queens, em Nova York, o supervisor do turno da manhã franziu a testa ao ver as palavras em vermelho piscando na tela do computador.

 

            FALHA CRÍTICA

 

Abaixo delas estava indicada a hora exata do acontecimento: 11:20:20:003.

Ele baixou o copo descartável de café, feito de papelão azul e branco com representações de atletas gregos, e endireitou o corpo na cadeira giratória que rangia.

Os funcionários encarregados do centro de controle se sentavam diante de postos de trabalho individuais, como controladores de tráfego aéreo. Um grande monitor de tela plana dominava a sala ampla e bastante iluminada, informando o fluxo da corrente elétrica na rede de transmissão conhecida como Interconexão Nordeste, que fornecia energia para Nova York, Pensilvânia, Nova Jersey e Connecticut. A arquitetura e a decoração do centro de controle eram muito modernas — caso fosse 1960.

O supervisor estreitou os olhos para observar o quadro que mostrava a energia que vinha das usinas geradoras de vários pontos do país: turbinas a vapor e reatores, além da represa da usina hidrelétrica nas cataratas do Niágara. Havia algo errado em um pequeno ponto do emaranhado de traços que representavam as linhas de transmissão. Um círculo vermelho piscava.

— O que está acontecendo? — perguntou o supervisor.

 

 

 

 

Ele tinha cabelos grisalhos e um abdômen atlético sob a camisa branca de mangas curtas, além de trinta anos de experiência no ramo da energia elétrica. Estava mais curioso que qualquer outra coisa. Embora sinais luminosos de indicadores de incidentes críticos surgissem de vez em quando, era muito raro que efetivamente ocorressem.

 

Um técnico jovem explicou:

 

— Parece que os disjuntores da MH-12 desarmaram completamente.

 

A escura, suja e automatizada subestação 12 da Algonquin, localizada no Harlem — o código “MH” se refere a Manhattan —, era uma das principais da região. Recebia uma tensão de cento e trinta e oito mil volts e a enviava para os transformadores, que então a reduzia a dez por cento do nível original para, em seguida, dividi-la e distribuí-la.

 

Um novo aviso surgiu na tela maior, piscando em vermelho embaixo da hora e do aviso da falha crítica.

 

MH-12 FORA DE SERVIÇO.

 

O supervisor digitou no computador, lembrando-se do tempo em que o trabalho era feito por meio de rádio, telefone e comutadores com isolamento, em meio ao cheiro de óleo, latão e baquelita aquecida. Ele leu o texto denso e complexo que apareceu na tela.

 

— Por que os disjuntores desarmaram? A carga é normal — comentou em voz baixa, quase consigo mesmo.

 

Outra mensagem apareceu na tela.

 

MH-12 FORA DE SERVIÇO. REDIRECIONAMENTO DE MH-17, MH-10, MH-13 E NJ-18 PARA A REGIÃO AFETADA.

 

— A carga foi redirecionada — declarou alguém, sem necessidade.

 

Nos subúrbios e no campo, é possível ver a rede de transmissão de energia elétrica — são os cabos de alta-tensão, os postes e a fiação que leva a energia para as casas. Quando uma linha cai, não é muito difícil encontrar e resolver o problema. Em muitas cidades, como Nova York, a eletricidade segue por cabos subterrâneos com isolamento. Como o material isolante se deteriora com o tempo e sofre danos causados pela água no subsolo, o que ocasiona curtos-circuitos e a interrupção do fornecimento, as companhias elétricas costumam manter uma dupla redundância ou até mesmo tripla na rede de distribuição. Quando a subestação MH-12 parou, o computador passou a satisfazer a demanda dos consumidores automaticamente, redirecionando o fornecimento de outros lugares.

 

— Não houve interrupção nem redução da carga — acrescentou outro técnico.

 

Na rede de distribuição, a eletricidade é como a água que entra em uma casa por um único cano principal e escoa por muitas torneiras abertas. Quando uma delas é fechada, a pressão nas demais aumenta. O mesmo ocorre com a eletricidade, embora ela se mova numa velocidade bem maior que a água — pouco mais de um bilhão de quilômetros por hora. E, como Nova York consome muita energia, a voltagem — o equivalente elétrico à pressão da água — crescia nas subestações sobrecarregadas.

 

Porém, o sistema estava preparado para suportar essa situação e os indicadores de voltagem ainda apareciam em verde.

 

O que preocupava o supervisor, no entanto, era o que havia feito os disjuntores desarmarem na subestação MH-12. Em geral, isso acontecia por causa de um curto-circuito ou de uma demanda inusitadamente elevada em horários de pico — no início da manhã, nas horas do rush e no início da tarde, ou então quando a temperatura subia e os famintos aparelhos de ar condicionado exigiam seu alimento.

 

Nada disso acontecia às 11:20:20:003 numa agradável manhã de abril.

 

— Mande um operador de emergência ao MH-12. Pode ser um cabo com defeito ou um curto-circuito em...

 

Nesse instante, uma segunda luz vermelha começou a piscar.

 

FALHA CRÍTICA.

 

NJ-18 FORA DE SERVIÇO.

 

Outra subestação da região, localizada perto de Paramus, em Nova Jersey, tinha acabado de desligar. Era uma das que haviam entrado em linha para suprir a ausência da MH-12.

 

O supervisor emitiu um som, algo entre uma risada e uma tosse. Seu rosto assumiu uma expressão perplexa.

 

— O que diabo está acontecendo? O fluxo está dentro dos limites de tolerância.

 

— Todos os sensores e indicadores estão funcionando — disse um dos técnicos.

 

— Será um problema no SCADA? — indagou o supervisor.

 

O império energético da Algonquin era monitorado por um complexo sistema de supervisão e aquisição de dados — ou Supervisory Control and Data Acquisition, em inglês —, um programa que rodava em enormes computadores Unix. O lendário apagão de 2003 no nordeste dos Estados Unidos, o mais extenso na história do país, foi causado em parte por uma série de erros na programação dos computadores. Os sistemas atuais não permitiriam que algo assim acontecesse, embora não fosse impossível que novos problemas surgissem.

 

— Não sei — respondeu lentamente um dos auxiliares. — Mas acho que tem que ser isso. Os diagnósticos dizem que não há problemas físicos nas linhas nem no equipamento de comutação.

 

O supervisor olhou para a tela, esperando pelo próximo passo da sequência lógica: a informação de qual nova subestação — ou subestações — preencheria a lacuna deixada pela perda da NJ-18.

 

Mas nenhuma mensagem apareceu.

 

As três subestações de Manhattan — 17, 10 e 13 — continuaram sozinhas a fornecer energia às duas áreas da cidade que passaram a servir e que de outra forma ficariam às escuras. O programa SCADA não estava fazendo o que devia: trazer energia de outras estações para ajudar no esforço. Agora, a quantidade de eletricidade que entrava e saía de cada uma daquelas três subestações crescia consideravelmente.

 

O supervisor coçou a barba e, após esperar inutilmente que outra subestação entrasse em linha, deu uma ordem ao seu principal ajudante.

 

— Passe manualmente o suprimento da Q-14 para a área leste servida pela MH-12.

 

— Sim, senhor.

 

Logo depois, ele exclamou:

 

— Faça isso, agora!

 

— Hmm. Estou tentando.

 

— Como assim “tentando”?

 

O procedimento exigia apenas alguns toques no teclado.

 

— O sistema de transposição não está respondendo.

 

— Isso é impossível!

 

O supervisor foi até o computador do técnico e digitou o comando, que sabia de cor.

 

Nada.

 

Os indicadores de voltagem estavam no limite do verde. O amarelo já estava prestes a aparecer.

 

— Isso não é bom — murmurou alguém. — É um problema.

 

O supervisor voltou para sua escrivaninha e se jogou na cadeira. A barra de cereal e o copo com atletas gregos caíram ao chão.

 

Então, mais uma pedra de dominó tombou. Um terceiro ponto vermelho, como o centro de um alvo, começou a tremer e, com sua indiferença habitual, o computador que rodava o programa SCADA anunciou:

 

FALHA CRÍTICA.

 

MH-17 FORA DE SERVIÇO.

 

— Não, mais uma, não! — murmurou alguém.

 

E, assim como antes, nenhuma subestação se apresentou para satisfazer a voraz demanda de energia dos habitantes de Nova York. Duas estavam fazendo o trabalho de cinco. A temperatura dos cabos elétricos de entrada e de saída dessas subestações aumentava e o nível da voltagem na tela grande já estava no amarelo.

 

MH-12 FORA DE SERVIÇO. NJ-18 FORA DE SERVIÇO.

 

MH-17 FORA DE SERVIÇO. REDIRECIONAMENTO DE

 

MH-10 E MH-13 PARA A REGIÃO AFETADA.

 

O supervisor mandou, abruptamente:

 

— Arranjem mais suprimento para essas regiões. Não importa como. De qualquer lugar.

 

Uma mulher, em um dos postos de controle, levantou-se rapidamente.

 

— Tenho aqui quarenta quilowatts. Estou trazendo linhas de alimentação do Bronx.

 

Isso não era muito, e seria complicado fazer os quarenta mil volts passarem pelas linhas de alimentação, que eram feitas para suportar um terço disso.

 

Outro assistente conseguiu trazer um pouco de energia de Connecticut.

 

O indicador de voltagem continuava a subir, porém mais lentamente.

 

Talvez fosse possível controlar a situação.

 

— Mais!

 

Entretanto, nesse instante, a mulher que tinha puxado a energia do Bronx disse, com voz embargada:

 

— Espera, a transmissão se reduziu a vinte mil. Não sei por quê.

 

Isso estava acontecendo em toda a região. Assim que um técnico conseguia trazer um pouco mais de corrente para aliviar a pressão, o suprimento vindo de outro lugar se extinguia.

 

Todo esse drama se desenrolava numa velocidade estonteante.

 

Mais de um bilhão de quilômetros por hora...

 

E então surgiu outro círculo vermelho, outro ferimento de bala.

 

FALHA CRÍTICA.

 

MH-13 FORA DE SERVIÇO.

 

Um sussurro.

 

— Isso não pode estar acontecendo.

 

MH-12 FORA DE SERVIÇO. NJ-18 FORA DE SERVIÇO.

 

MH-17 FORA DE SERVIÇO. MH-13 FORA DE SERVIÇO.

 

REDIRECIONAMENTO DE MH-10 PARA AS ÁREAS AFETADAS.

 

Isso equivalia a um imenso reservatório de água tentando escoar seu conteúdo por um único cano bem fino, como aqueles de onde sai água gelada na porta da geladeira. A voltagem que passava pela MH-10, localizada em um prédio antigo na rua 57, oeste, no bairro de Clinton, em Manhattan, já era quatro ou cinco vezes maior que a carga normal e continuava aumentando. Os disjuntores desarmariam a qualquer momento, impedindo uma explosão e um incêndio, mas levariam boa parte da ilha aos tempos coloniais.

 

— O norte parece estar funcionando melhor. Tenta o norte, tenta trazer alguma energia de lá. Experimenta Massachusetts.

 

— Tenho uns cinquenta, sessenta quilowatts. De Putnam.

 

— Ótimo.

 

Em seguida, alguém gritou:

 

— Meu Deus!

 

O supervisor não viu quem tinha sido. Todos estavam de olhos fixos nas telas, de cabeça baixa, imóveis.

 

— O que foi? — perguntou, irritado. — Não quero ficar ouvindo isso! Alguém me diz o que aconteceu!

 

— Os disjuntores da MH-10! Olha! Os disjuntores!

 

Ah, não, não...

 

Os disjuntores da MH-10 tinham voltado ao normal. Eles deixariam passar uma carga dez vezes maior que a segura.

 

Se o centro de controle da Algonquin não conseguisse reduzir logo a pressão da voltagem que atingia a subestação, os cabos e os comutadores dentro da instalação iriam permitir a passagem de uma torrente mortal de eletricidade. A subestação explodiria. Antes que isso acontecesse, porém, a energia correria pelas linhas de alimentação até os transformadores subterrâneos nos quarteirões ao sul do Lincoln Center e entraria nas redes de edifícios de escritórios e grandes arranha-céus. Alguns fusíveis interromperiam o circuito, mas transformadores e painéis mais antigos simplesmente derreteriam, virando uma massa de metal altamente condutora que permitiria à corrente prosseguir seu caminho, deflagrando incêndios e explodindo em arcos elétricos, com centelhas capazes de matar qualquer pessoa perto de um aparelho elétrico ou de uma tomada de parede.

 

Pela primeira vez o supervisor pensou: terroristas. É um ataque terrorista.

 

— Liguem para a segurança nacional e para a polícia de Nova York — gritou. — E armem os malditos disjuntores! Armem os disjuntores!

 

— Eles não estão respondendo. Não consigo controlar a MH-10.

 

— Como é possível não conseguir controlar essa merda?

 

— Eu não...

 

— Tem alguém lá dentro? Meu Deus! Se tiver operários... Faça com que eles saiam agora!

 

As subestações eram automatizadas, mas, de vez em quando, técnicos faziam visitas para realizar operações rotineiras de manutenção.

 

— Claro, vou fazer isso.

 

Os indicadores já estavam no vermelho.

 

— Senhor, devemos esgotar parte da carga?

 

Rangendo os dentes, o supervisor pensava justamente nisso. Também conhecido como blecaute sistemático, o esgotamento da carga era uma medida extrema no setor de energia elétrica. A “carga” era a quantidade de energia que os clientes estavam consumindo. O esgotamento significava o fechamento controlado de certas partes da rede de distribuição a fim de impedir uma falha mais ampla do sistema.

 

Era o último recurso de uma empresa elétrica na luta para manter a rede em funcionamento e teria consequências desastrosas na parte densamente povoada de Manhattan que estava em risco. Seria impossível ligar para a emergência. Com os sinais de trânsito apagados, ambulâncias e carros de polícia ficariam presos no tráfego. Elevadores parariam. Haveria pânico. Assaltos, pilhagens e estupros invariavelmente aumentavam durante apagões, mesmo à luz do dia.

 

A eletricidade mantém as pessoas comportadas.

 

— Senhor? — perguntou o técnico, desesperado.

 

O supervisor olhava para os indicadores de voltagem em movimento. Ele pegou o telefone e ligou para seu superior, o vice-presidente da Algonquin.

 

— Herb, temos um problema — avisou ele, e explicou rapidamente.

 

— Como isso aconteceu?

 

— A gente não sabe. Estou pensando em terroristas.

 

— Meu Deus! Você ligou para a segurança nacional?

 

— Ainda há pouco. Nós estamos tentando levar mais energia para as áreas afetadas. Sem muito sucesso.

 

Ele olhava para os indicadores que subiam na zona vermelha.

 

O vice-presidente perguntou:

 

— Alguma recomendação?

 

— Não temos muita escolha. Esgotar a carga.

 

— Boa parte da cidade vai ficar no escuro pelo menos por um dia.

 

— Mas não vejo outra opção. Com toda aquela energia entrando, a subestação vai acabar explodindo se a gente não fizer nada.

 

O vice-presidente pensou por um momento.

 

— Há uma segunda linha de transmissão que passa pela Manhattan-10, não é?

 

O supervisor olhou para a tela. Um cabo de alta voltagem passava pela subestação em direção ao oeste a fim de levar energia a partes de Nova Jersey.

 

— É verdade, mas não está ligada. Ela simplesmente passa por um duto na subestação.

 

— Mas você não poderia dividir a linha em dois e usá-la para suprir as outras?

 

— Manualmente? Acho que sim, mas... para isso seria preciso que alguém entrasse na MH-10. E, se a gente não conseguir controlar o fluxo até o serviço ser terminado, vai haver um arco elétrico. Todos que estiverem lá vão morrer, ou pelo menos sofrer queimaduras de terceiro grau no corpo inteiro.

 

Houve uma pausa.

 

— Espera. Vou ligar para Jessen.

 

CEO da Algonquin ou, como chamavam os funcionários sem que soubesse, “O Ser Onipotente”.

 

Enquanto esperava, o supervisor olhou para os técnicos que o rodeavam e para a tela, vendo os pontos vermelhos piscando.

 

Falha crítica...

 

Finalmente, o chefe do supervisor voltou ao telefone. Sua voz estava falhando. Ele pigarreou e disse, depois de um tempo:

 

— Você deve mandar alguém até lá para dividir manualmente o cabo.

 

— Foi isso que Jessen disse?

 

Outra pausa.

 

— Foi.

 

O supervisor murmurou:

 

— Eu não posso mandar ninguém para lá. É suicídio.

 

— Então arranje voluntários. Jessen disse que você não deve, repito, não deve esgotar a carga sob hipótese nenhuma.

 

O motorista do ônibus M70 se aproximou da calçada com cuidado para chegar ao ponto da rua 57, perto de onde a Décima Avenida se transforma na avenida Amsterdam. Ele estava de bom humor. O novo ônibus tinha um mecanismo que baixava os degraus até a calçada, facilitando a entrada de passageiros. Tinha também uma rampa para cadeirantes, direção hidráulica e, o mais importante, um assento confortável para a bunda do motorista.

 

Só Deus sabia o quanto ele precisava disso, passando oito horas sentado ali.

 

O motorista não se interessava pelos metrôs, pela linha férrea de Long Island nem pelo Metro-North. Nada disso; ele adorava os ônibus, apesar da loucura do trânsito, da hostilidade, das atitudes negativas e do mau humor. Gostava do quão democrático era viajar de ônibus; via-se todo mundo, de advogados a músicos se esforçando para ganhar a vida a entregadores de encomendas. Táxis eram caros e fediam, trens nem sempre iam ao destino que os passageiros queriam. Quanto a caminhar... Bem, estávamos em Manhattan. Era ótimo, quando se tinha tempo, mas quem tinha? Além disso, ele gostava de pessoas e de poder acenar com a cabeça ou cumprimentar cada uma que entrava em seu veículo. Os nova-iorquinos não eram desagradáveis, como se dizia. Às vezes, eram apenas tímidos, inseguros, cautelosos, preocupados.

 

Com frequência, porém, bastava um sorriso, um aceno, uma única palavra... E eles se transformavam em novos amigos.

 

E ele gostava desse papel.

 

Ainda que durasse apenas uns seis ou sete quarteirões.

 

O cumprimento também lhe dava a oportunidade de reconhecer os desajustados, os bêbados e os provocadores e resolver se apertava ou não o botão de emergência.

 

Afinal, isso era Manhattan.

 

O dia estava lindo, claro e fresco. Abril, um dos seus meses favoritos. Eram quase onze e meia da manhã e o ônibus estava lotado de gente que seguia até o lado leste para seus compromissos de almoço ou para resolver algum problema na hora de folga. O trânsito estava lento conforme ele aproximava o grande veículo do ponto, onde quatro ou cinco pessoas esperavam perto do poste com a placa.

 

Ao se aproximar do ponto de ônibus, olhou por acaso para além das pessoas que aguardavam, observando o velho prédio marrom que ficava logo atrás. A construção datava do início do século XX e tinha diversas janelas com grades, mas sempre parecia escuro do lado de dentro. Ele nunca tinha visto ninguém entrando nem saindo. Era um lugar assustador, como uma prisão. Na fachada havia uma tabuleta desgastada, com letras brancas sobre um fundo azul.

 

ALGONQUIN CONSOLIDATED LIGHT AND POWER COMPANY

 

SUBESTAÇÃO MH-10

 

PROPRIEDADE PARTICULAR

 

PERIGO. ALTA VOLTAGEM. PROIBIDA A ENTRADA

 

Ele raramente prestava atenção no edifício, mas, naquele dia, algo atraiu seu olhar, algo fora do comum. Pendurado fora da janela, a cerca de três metros de altura, havia um cabo de pouco mais de um centímetro de diâmetro. Estava coberto de fita isolante até a ponta, onde o plástico, ou a borracha, tinha sido retirado, revelando as tranças prateadas dos fios afixadas a uma peça plana de latão. Era um pedaço bem grande de cabo, pensou ele.

 

E estava pendurado, saindo pela janela. Isso era seguro?

 

Parou o ônibus e acionou a alavanca que abria as portas. O mecanismo que baixava os degraus entrou em ação, e o grande veículo se inclinou para a calçada, seus degraus a poucos centímetros do chão.

 

O motorista virou o rosto largo e corado para a porta, que se abriu com um alegre silvo hidráulico. As pessoas começaram a subir.

 

— Bom dia — disse o motorista, animadamente.

 

Uma mulher de uns 80 anos, com uma velha sacola de compras da Henri Bendel na mão, correspondeu ao cumprimento, e, apoiando-se em uma bengala, caminhou com dificuldade para a traseira do ônibus, sem dar atenção aos assentos vazios na parte da frente, reservados a idosos e deficientes físicos.

 

Como era possível não amar os nova-iorquinos?

 

Houve um movimento repentino no espelho retrovisor. Luzes amarelas piscando. Uma caminhonete da Algonquin Consolidated se aproximava por trás. Três operários saltaram e ficaram de pé juntos, conversando. Traziam caixas de ferramentas e usavam luvas grossas e jaquetas. Não pareciam estar contentes ao caminhar lentamente para o prédio, encarando-o com suas cabeças muito próximas, debatendo alguma coisa. Uma das cabeças balançava negativamente, um mau presságio.

 

O motorista se virou para o último passageiro, um jovem latino que segurava o cartão para entrar no ônibus, ainda parado do lado de fora. Ele encarava a subestação. De testa franzida. O motorista notou que ele tinha levantado a cabeça, como se estivesse farejando o ar.

 

Sentiu um odor acre. Tinha alguma coisa queimando. O odor o fez se lembrar do curto-circuito que havia ocorrido no motor elétrico da máquina de lavar roupa da sua esposa, o que queimou o material isolante. Dava náuseas. Um fio de fumaça surgiu na porta da subestação.

 

Então era isso que o pessoal da Algonquin tinha vindo fazer.

 

Devia ser um problema grave. O motorista ficou pensando se haveria um apagão e se os semáforos seriam desligados. Era uma perspectiva desagradável. Atravessar a cidade, um percurso que normalmente levaria vinte minutos, tomaria várias horas. Bem, de qualquer forma, era melhor tirar o ônibus dali, para dar lugar aos bombeiros. Ele fez um gesto, chamando o passageiro.

 

— Ei, senhor, eu preciso partir. Entra, entra...

 

Quando o homem, ainda de testa franzida por causa do cheiro, se virou e colocou um pé no degrau para entrar no veículo, o motorista ouviu o que pareciam ser estalos fortes vindo de dentro da subestação. Eram sons agudos, quase como tiros. Em seguida, um clarão de vários sóis encheu a calçada entre o ônibus e o cabo pendurado na janela.

 

O passageiro simplesmente desapareceu em meio a uma nuvem de labaredas brancas.

 

A visão do motorista se reduziu a imagens acinzentadas. O ruído se assemelhava simultaneamente a estalos sucessivos e a tiros de escopeta, aturdindo seus ouvidos. Embora estivesse preso ao assento pelo cinto de segurança, ele se sentiu arremessado na janela lateral.

 

Quase ensurdecido, escutou os ecos dos gritos dos passageiros

 

Quase cego, viu chamas.

 

Ao perder os sentidos, o motorista imaginou que ele próprio poderia ser a origem do incêndio.

 

— Eu preciso contar uma coisa: ele já saiu do aeroporto. Foi visto uma hora atrás no centro da Cidade do México.

 

— Não! — exclamou Lincoln Rhyme com um suspiro, fechando brevemente os olhos. — Não...

 

Amelia Sachs, sentada ao lado da cadeira de rodas motorizada, cor de maçã do amor, de Rhyme, curvou-se para a frente e falou para a caixa negra do microfone.

 

— O que aconteceu? — perguntou, puxando seus longos cabelos ruivos e enrolando-os em um apertado rabo de cavalo.

 

— Quando recebemos as informações de Londres sobre o voo, o avião já tinha aterrissado — disse uma voz feminina que surgia com nitidez do alto-falante. — Parece que ele se escondeu em um caminhão e saiu do aeroporto por um portão de serviço. Posso mostrar a vocês a gravação da câmera de segurança que recebemos da polícia mexicana. Tenho um link aqui. Esperem um instante.

 

A voz sumiu enquanto ela conversava com um colega, dando instruções para a transmissão do vídeo.

 

Era pouco mais de meio-dia. Rhyme e Sachs estavam no primeiro andar da casa dele, na sala de estar transformada em laboratório de criminalística, no lado oeste do Central Park. Era um prédio gótico da era vitoriana onde — Rhyme gostava de imaginar — possivelmente residiram alguns vitorianos pouco notáveis. Homens de negócios implacáveis, políticos ardilosos, criminosos da classe alta. Talvez um chefe de polícia incorruptível que gostava de uma boa discussão. Rhyme havia escrito um livro sobre os crimes na antiga Nova York e tinha utilizado suas fontes para pesquisar a genealogia do prédio. No entanto, não encontrou nada relevante.

 

A mulher com quem eles conversavam estava num edifício muito mais moderno, pelo que Rhyme imaginava, a quase cinco mil quilômetros de distância: o escritório do California Bureau of Investigation, o CBI, em Monterey. Anos antes, a agente Kathryn Dance havia trabalhado com Rhyme e Sachs num caso que envolvia o mesmo homem que agora ambos tentavam capturar. Acreditavam que seu nome verdadeiro fosse Richard Logan, embora Lincoln Rhyme se referisse a ele pelo apelido: o Relojoeiro.

 

Era um assassino profissional que planejava seus crimes com a precisão que dedicava a sua paixão e a seu passatempo: construir relógios. Os caminhos de Rhyme e do assassino se cruzaram diversas vezes. O perito criminal havia impedido a execução de um dos seus planos, mas não tinha conseguido evitar outro. Lincoln Rhyme se considerava em desvantagem, porque o Relojoeiro ainda não estava preso.

 

Rhyme se recostou na cadeira de rodas, recordando a figura de Logan. Já o tinha visto de perto, em pessoa. Corpo esbelto, cabelos escuros, jeito infantil, parecia sutilmente entretido ao ser interrogado pela polícia, sem revelar nenhuma pista do assassinato em massa que planejava. Sua serenidade parecia inata e constituía talvez a qualidade que Rhyme achava mais perturbadora nele. As emoções geram erros e descuidos, mas ninguém jamais poderia acusar Richard Logan de ser emotivo.

 

Ele aceitava contratos para roubos, tráfico ilegal de armas ou qualquer outro esquema que exigisse planejamento complexo e execução impecável, mas, em geral, alugava seus serviços para assassinatos — matar testemunhas ou delatores, ou ainda figuras do mundo político e empresarial. Informações recentes indicavam que ele aceitara um contrato de homicídio em algum lugar do México. Rhyme havia ligado para Dance, que tinha muitos contatos ao sul da fronteira dos Estados Unidos — e que quase tinha sido morta por um cúmplice do Relojoeiro poucos anos antes. Por causa dessa conexão, ela representava a polícia norte-americana na operação que visava prendê-lo e extraditá-lo, trabalhando com um investigador sênior da polícia federal mexicana, um agente jovem e ativo chamado Arturo Diaz.

 

Bem cedo, naquela manhã, eles ficaram sabendo que o Relojoeiro aterrissaria na Cidade do México. Dance tinha ligado para Diaz, que tentou organizar rapidamente um grupo de policiais para interceptar Logan. De acordo com a última comunicação dela, eles chegaram tarde demais.

 

— Está pronto para o vídeo? — perguntou ela.

 

— Vai em frente.

 

Rhyme estendeu um dos poucos dedos que tinham movimento, o indicador da mão direita, e aproximou a cadeira de rodas da tela. Era tetraplégico nível C4, quase completamente paralisado dos ombros para baixo.

 

Na tela plana de um dos diversos monitores do laboratório surgiu a imagem noturna de um aeroporto. Dos dois lados da cerca que aparecia em primeiro plano havia lixo, caixas de papelão, latas e tambores vazios. Um jato de carga particular surgiu taxiando e, assim que parou, uma porta traseira se abriu e dela saiu um homem.

 

— É ele — indicou Dance, em voz baixa.

 

— Não consigo ver com clareza — rebateu Rhyme.

 

— Sem dúvida é Logan — assegurou ela. — Tem uma impressão digital parcial... Daqui a pouco você vai poder vê-la.

 

O homem se alongou e se orientou. Colocou uma bolsa a tiracolo e correu, abaixando-se e se escondendo atrás de um barracão. Poucos minutos depois, um funcionário do aeroporto trouxe um pacote do tamanho de duas caixas de sapato. Logan o cumprimentou e trocou o pacote por um envelope. O operário olhou em volta e se afastou rapidamente. Um caminhão da manutenção se aproximou. Logan subiu na traseira, escondendo-se debaixo de lonas. O caminhão desapareceu da imagem.

 

— E o avião? — perguntou Rhyme.

 

— Continuou viagem para a América do Sul, contratado por uma empresa. O piloto e o copiloto afirmam não saber sobre um clandestino. É claro que estão mentindo, mas não temos jurisdição para interrogar nenhum dos dois.

 

— E o funcionário? — insistiu Rhyme.

 

— A polícia federal o pegou. Era só um empregado qualquer do aeroporto. Ele disse que alguém que ele não conhecia prometeu pagar duzentos dólares se entregasse o pacote. O dinheiro estava no envelope. Foi dele que recuperaram a impressão digital.

 

— O que havia no pacote? — indagou Rhyme.

 

— Ele disse que não sabia, mas também está mentindo. Eu vi o vídeo do interrogatório. Nosso pessoal do DEA o está interrogando. Eu queria ter tentado obter informações dele pessoalmente, mas conseguir a permissão ia demorar demais.

 

Rhyme e Sachs se entreolharam. Dizer que queria “tentar” obter informações era modéstia da parte de Dance. Ela era perita em cinésica — linguagem corporal — e uma das principais interrogadoras do país. Mas o relacionamento entre México e Estados Unidos era tão complicado que seria necessário vencer muita burocracia para permitir que uma policial da Califórnia atravessasse a fronteira para realizar um interrogatório formal, ao passo que o DEA já estava legalmente presente no país vizinho.

 

— Em que parte da capital Logan foi visto? — quis saber Rhyme.

 

— Em um bairro comercial. Ele foi seguido até um hotel, mas não se hospedou lá. Era uma reunião, ou pelo menos é o que acreditam os homens de Diaz. Quando organizaram o grupo de vigilância, Logan já tinha desaparecido, mas todos os agentes policiais e hotéis agora têm uma foto dele. — Dance acrescentou que o chefe de Diaz, um policial graduado, iria se encarregar da investigação. — É animador eles estarem levando esse caso a sério.

 

Sim, animador, pensou Rhyme. No entanto, sentia-se frustrado. Estar prestes a dar o bote na presa, tendo tão pouco controle sobre o caso... Notou que sua respiração estava mais rápida. Ele revisitava a última vez que tinha se defrontado com o Relojoeiro. Logan havia enganado a todos e matado com facilidade o homem que havia sido contratado para assassinar. Rhyme tivera em mãos todos os fatos necessários para perceber o que Logan planejava, mas se equivocara completamente quanto à estratégia do assassino.

 

— Aliás, como foi aquele fim de semana romântico? — ouviu Sachs perguntar a Kathryn Dance.

 

Ao que parecia, Sachs estava se referindo a um interesse amoroso de Dance. Ela tinha dois filhos e morava sozinha, e havia ficado viúva anos antes.

 

— Foi muito divertido — respondeu a policial.

 

— Aonde vocês foram?

 

Rhyme não sabia por que Sachs fazia perguntas sobre a vida particular de Dance, mas ela não deu atenção ao seu olhar de impaciência.

 

— Santa Barbara. Paramos no castelo Hearst... Escuta, ainda estou esperando a visita de vocês. As crianças querem muito conhecer vocês. Wes preparou um trabalho sobre criminalística na escola e mencionou você, Lincoln. O professor dele morou em Nova York e leu tudo o que há sobre você.

 

— Sim, seria agradável — disse Rhyme, pensando exclusivamente na Cidade do México.

 

Sachs sorriu, notando a ansiedade na voz dele, e disse a Dance que precisava desligar.

 

Depois disso, ela enxugou algumas gotas de suor da testa de Rhyme, que não tinha percebido a umidade, e ambos ficaram em silêncio por um tempo, observando o voo de um falcão-peregrino que tinha aparecido na janela, em direção ao seu ninho no segundo andar da casa de Rhyme. Embora não fossem incomuns em cidades grandes — havia muitos pombos gordos e saborosos —, essas aves de rapina costumavam fazer os ninhos em lugares mais elevados. Por algum motivo, no entanto, várias gerações de pássaros escolheram a casa de Rhyme para morar. Ele gostava da presença das aves. Eram espertas, observá-las o fascinava e, além disso, eram visitas perfeitas, que não pediam nada a ele.

 

Uma voz masculina se intrometeu.

 

— Afinal, você o pegou?

 

— De quem você está falando? — perguntou Rhyme, abruptamente. — E quão versátil é o verbo “pegar”?

 

Era Thom Reston, o ajudante de Rhyme.

 

Ele explicou:

 

— O Relojoeiro.

 

— Não — resmungou o perito criminal.

 

— Mas está perto, certo? — perguntou o jovem, que vestia calças pretas, camisa amarela engomada e gravata florida.

 

— Ah, estou perto — murmurou Rhyme. — Muito perto. Isso ajuda muito. Da próxima vez que você for atacado por um puma, Thom, o que acharia se o guarda florestal atirasse perto do animal? Em vez de, não sei, acertar o bicho?

 

— Os pumas não estão entre as espécies em extinção? — perguntou Thom, sem se importar com a inflexão irônica.

 

Ele era imune ao sarcasmo de Rhyme. Já trabalhava com o perito criminal havia muitos anos, um convívio que durava mais que muitos relacionamentos. Estava tão bem treinado quanto um cônjuge obstinado.

 

— Ha-ha. Muito engraçado. Espécie em extinção.

 

Sachs caminhou para trás da cadeira de rodas de Rhyme, segurou os ombros dele e improvisou uma massagem. Era alta e estava em melhor forma que muitos detetives do Departamento de Polícia de Nova York de sua idade. Embora a artrite atacasse com frequência seus joelhos e suas extremidades inferiores, seus braços e mãos eram fortes e não sentiam dor.

 

Ambos vestiam as roupas de trabalho: Rhyme usava calça de moletom preta e uma camisa de tricô verde-escura. Sachs havia tirado a jaqueta azul-marinho, mas vestia uma calça larga do mesmo tom e uma blusa branca de algodão, de botão aberto no colarinho, exibindo o colar de pérolas. Trazia a Glock na altura do quadril, em um coldre de plástico, preparada para apontar rapidamente, com os pentes em uma cartucheira própria, além de um taser.

 

Rhyme sentia a pressão dos dedos dela, pois sua sensibilidade estava inalterada acima do ponto em que havia sofrido uma fratura quase fatal na coluna, anos antes, na quarta vértebra cervical. Embora em certo momento tivesse considerado uma arriscada cirurgia para melhorar suas condições, tinha preferido outro caminho para a reabilitação. Por meio de um exaustivo regime de exercícios e terapia, havia conseguido recuperar parte do uso dos dedos e da mão. Também era capaz de utilizar o dedo anelar esquerdo, que, por algum motivo, permanecera funcional depois que ele tinha quebrado o pescoço ao cair no trilho do metrô.

 

Gostava de sentir os dedos dela se enterrando em sua carne. Era como se isso aumentasse o pequeno percentual de sensações remanescentes em seu corpo. Olhou para baixo, para as pernas inúteis, e fechou os olhos.

 

Thom o encarou com uma expressão cuidadosa.

 

— Você está se sentindo bem, Lincoln?

 

— Bem? Desconsiderando o fato de que o criminoso que venho perseguindo há anos escapou das nossas mãos e agora está escondido na segunda cidade mais populosa desse hemisfério, eu me sinto muito bem.

 

— Não é disso que estou falando. Você não parece bem.

 

— Você tem razão. Na verdade, eu preciso de um remédio.

 

— Remédio?

 

— Uísque. Eu vou me sentir melhor com um pouco de uísque.

 

— Não, não é verdade.

 

— Bem, por que não fazemos uma experiência? Ciência. Cartesianismo. Racionalidade. Quem pode discordar? Eu sei como me sinto agora. Depois de tomar um pouco de uísque, farei um relatório para você.

 

— Não. É cedo demais — retrucou Thom, calmamente.

 

— Já é de tarde.

 

— Há apenas alguns minutos.

 

— Merda.

 

Rhyme parecia rabugento, como sempre, mas na verdade estava se deixando levar pela massagem de Sachs. Alguns fios de cabelo ruivo haviam escapado do rabo de cavalo e roçavam o rosto dele. Rhyme não se afastou. Como aparentemente havia perdido a batalha do uísque, ele ignorou Thom, mas o ajudante chamou sua atenção ao dizer:

 

— Quando você estava ao telefone, Lon ligou.

 

— Ligou? Por que você não me avisou?

 

— Você disse que não queria ser interrompido quando estivesse falando com Kathryn.

 

— Bem, sobre o que era a ligação?

 

— Ele vai ligar de novo. É sobre algum caso. Algum problema.

 

— Sério?

 

O caso do Relojoeiro saiu um pouco de sua mente com essa notícia. Rhyme compreendeu que havia outro motivo para seu mau humor: o tédio. Havia acabado de examinar as pistas de um caso complicado de crime organizado e diante de si dispunha de várias semanas com muito pouco a fazer. A perspectiva de um novo trabalho o animou. Assim como Sachs era louca por velocidade, Rhyme precisava de problemas, desafios, dados. Uma das dificuldades resultantes de ter uma deficiência grave, e poucos se dão conta disso, é a ausência de novidades. O mesmo ambiente, as mesmas pessoas, as mesmas atividades... e os mesmos lugares-comuns, as mesmas promessas vazias, as mesmas conclusões de médicos impassíveis.

 

O que havia salvado sua vida depois do desastre — literalmente, já que ele tinha começado a pensar em suicídio assistido — foram os passos cautelosos para voltar a sua paixão anterior: usar a ciência para resolver crimes.

 

Nunca se fica entediado ao enfrentar um mistério.

 

Thom insistiu:

 

— Tem certeza de que é isso o que quer? Você está um pouco pálido.

 

— Eu não tenho ido à praia ultimamente, como você sabe.

 

— Tudo bem, eu só queria saber. Ah, Arlen Kopeski vai passar aqui mais tarde. A que horas você quer que ele venha?

 

O nome parecia familiar, mas deixou um gosto estranho na boca.

 

— Quem?

 

— Ele trabalha com aquele grupo de direitos dos deficientes. Quer tratar do prêmio que você ganhou.

 

— Hoje?

 

Rhyme se lembrava vagamente de algumas ligações. Quando não se tratava de um caso, ele raramente prestava muita atenção ao que acontecia ao seu redor.

 

— Você disse que receberia hoje.

 

— Ah, eu realmente preciso de um prêmio. O que eu vou fazer com ele? Usar como peso de papel? Você conhece alguém que use pesos de papel? Você já usou algum?

 

— Lincoln, você vai receber o prêmio por ter inspirado jovens com deficiência.

 

— Ninguém me inspirou quando eu era jovem, mas acabei dando certo.

 

Isso não era totalmente verdade — no que dizia respeito à inspiração —, mas Rhyme se tornava mesquinho quando apareciam distrações, principalmente em forma de visitas.

 

— Isso só vai levar meia hora.

 

— Não tenho esse tempo todo a perder.

 

— Tarde demais. Ele já está na cidade.

 

Às vezes era impossível derrotar o ajudante.

 

— Vamos ver.

 

— Kopeski não vai vir até aqui e ficar sentado como um cortesão esperando a audiência com o rei.

 

Rhyme gostou da metáfora.

 

Todas as ideias de prêmios e realeza, no entanto, desapareceram quando o telefone tocou e o número do detetive Lon Sellitto apareceu na tela de identificação de chamada.

 

Rhyme usou o dedo que funcionava da mão direita para atender.

 

— Lon.

 

— Linc, escuta, eu tenho uma coisa aqui.

 

Sellitto parecia preocupado e, a julgar pelo som que vinha do telefone, dirigia o carro rapidamente em direção a algum lugar.

 

— Talvez a gente tenha uma situação envolvendo terrorismo se desenrolando.

 

— Situação? Você não está sendo muito específico.

 

— Bem, então escuta. Alguém andou se metendo com a companhia de eletricidade, disparou uma centelha de cinco mil volts contra um ônibus e apagou seis quarteirões ao sul do Lincoln Center. Isso é específico o suficiente para você?

 

A comitiva chegou vindo do centro da cidade.

 

O representante do Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos era um típico agente jovem, porém de grau hierárquico elevado, provavelmente nascido e criado nos clubes exclusivos de Connecticut ou Long Island, embora, para Rhyme, isso constituísse apenas um dado demográfico, não necessariamente um defeito. O brilho e a intensidade do olhar do homem ocultavam o fato de que ele não devia saber muito bem sua posição na hierarquia dos agentes encarregados da aplicação da lei, mas isso valia para quase todos os funcionários da Segurança Nacional. Seu nome era Gary Noble.

 

O FBI também estava presente, é claro, na figura de um agente especial com quem Rhyme e Sellitto frequentemente trabalhavam: Fred Dellray. O fundador do FBI, J. Edgar Hoover, ficaria espantado ao ver aquele agente afro-americano, em parte porque suas raízes sem dúvida não vinham da Nova Inglaterra; na verdade, ele se sentiria consternado pela falta de “estilo da rua 9”, uma referência à localização da sede do escritório em Washington, D.C. Dellray só usava camisa branca e gravata quando suas missões secretas o obrigavam, o que considerava um disfarce como outro qualquer no guarda-roupa. Naquele dia, vestia-se como o Dellray autêntico: terno quadriculado verde-escuro, camisa cor-de-rosa que poderia pertencer a algum executivo ousado de Wall Street e uma gravata alaranjada que Rhyme rapidamente jogaria fora.

 

Dellray vinha acompanhado de seu chefe recém-nomeado, Tucker McDaniel, agente especial assistente encarregado do escritório do FBI em Nova York, que havia começado a carreira em Washington e em seguida tinha aceitado missões no Oriente Médio e na Ásia Meridional. O agente especial assistente era atarracado, de cabelos escuros e espessos e pele morena, apesar dos olhos azuis brilhantes que focalizavam o interlocutor como se este estivesse mentindo ao dizer “olá”.

 

Era uma postura útil para um agente da lei, que o próprio Rhyme às vezes assumia quando a ocasião exigia.

 

O principal agente do Departamento de Polícia de Nova York presente era o corpulento Lon Sellitto, de terno cinza e, o que era incomum para ele, um camisa azul-bebê. A gravata — cujas manchas eram próprias do tecido, não de algum desleixo — era a única peça que não estava amarrotada. Provavelmente um presente de aniversário da namorada, Rachel, que morava com ele, ou do filho. Era detetive de casos importantes e seus auxiliares eram Sachs e Ron Pulaski, o loiro e eternamente jovem policial patrulheiro que oficialmente era ligado a Sellitto, mas extraoficialmente trabalhava com Rhyme e Sachs nas investigações de cenas de crime. Pulaski vestia o uniforme azul-escuro da polícia, com a camiseta visível através da gola V.

 

Naturalmente, os dois agentes federais, McDaniel e Noble, já tinham ouvido falar de Rhyme, porém nenhum dos dois o conhecia pessoalmente e demonstraram surpresa, comiseração e desconforto em diversos graus ao ver o consultor em criminalística tetraplégico se movendo com destreza no laboratório, sentado na cadeira de rodas. A novidade e o embaraço logo se dissiparam, como em geral acontecia com todos os visitantes, exceto com os mais cerimoniosos, e ambos passaram a se demonstrar impressionados com outra presença mais bizarra: a quantidade de aparelhos e equipamentos que qualquer unidade forense de uma cidade de tamanho médio sem dúvida invejaria.

 

Depois das apresentações, Noble assumiu a posição principal. A Segurança Nacional seria a responsável pela condução da conversa.

 

— Sr. Rhyme...

 

— Lincoln — corrigiu ele.

 

Rhyme ficava irritado quando alguém se colocava em posição inferior à sua e considerava o uso de seu sobrenome uma forma sutil de lhe dar um tapinha na cabeça, dizendo: “Pobrezinho, lamento que seja obrigado a passar o resto da vida numa cadeira de rodas. Por isso eu vou ser extremamente educado.”

 

Revirando os olhos sutilmente, Sachs mostrou ter entendido o significado da correção. Rhyme se esforçou para não sorrir.

 

— É claro, Lincoln — recomeçou Noble, pigarreando. — Eis o cenário: o que você sabe sobre a rede de distribuição de energia?

 

— Não muito — confessou Rhyme.

 

Ele havia estudado ciências na faculdade, mas não tinha dado muita atenção à eletricidade a não ser quanto à existência do eletromagnetismo na física, como uma das quatro energias fundamentais da natureza, junto da gravidade e das forças nucleares fortes e fracas. Isso, porém, no nível acadêmico. Na prática, o principal interesse de Rhyme pela eletricidade era que ela continuasse a ser enviada a sua casa para fazer o equipamento do laboratório funcionar. As máquinas eram especialmente famintas e ele já havia substituído a fiação da casa duas vezes, aumentando a amperagem a fim de suportar a carga.

 

Tinha também plena consciência de que se encontrava vivo e ativo exclusivamente por causa da eletricidade: um ventilador havia mantido o oxigênio circulando nos seus pulmões logo depois do acidente. Agora ele dependia da bateria da cadeira de rodas, da corrente controlada pelo toque e da unidade de controle de ambiente ativada por voz. Além disso, é claro, dependia também dos computadores.

 

Sua vida não seria grande coisa sem todos aqueles fios. Provavelmente ele não teria vida alguma.

 

Noble continuou:

 

— O cenário básico é que o nosso indivíduo desconhecido entrou numa das subestações da companhia elétrica e colocou um cabo pendurado do lado de fora do prédio.

 

— Um indivíduo desconhecido? No singular? — perguntou Rhyme.

 

— Ainda não sabemos.

 

— Um cabo do lado de fora. Muito bem.

 

— Depois, ele se infiltrou no computador que controla a rede de distribuição e desviou para a subestação uma voltagem mais elevada do que ela era capaz de suportar. — Noble mexia nas abotoaduras em forma de animais.

 

— A eletricidade aumentou — acrescentou McDaniel, do FBI. — Basicamente, ela procurava a terra e ocorreu o que se chama de combustão súbita generalizada. Uma explosão, como a de um relâmpago.

 

Uma centelha de cinco mil volts...

 

O agente especial assistente prosseguiu:

 

— É tão poderosa que cria plasma, um estado da matéria que...

 

— ... não é gás, nem líquido, nem sólido — completou Rhyme, impaciente.

 

— Exato. Uma combustão relativamente pequena tem o poder explosivo de cerca de quatrocentos gramas de TNT, e essa não foi pequena.

 

— O alvo era o ônibus? — perguntou Rhyme.

 

— Parece que sim.

 

— Mas os ônibus têm pneus de borracha. Os veículos são o lugar mais seguro em uma tempestade com relâmpagos. Eu aprendi isso num programa qualquer que eu vi — interveio Sellitto.

 

— É verdade — concordou McDaniel —, mas nosso indivíduo tinha previsto isso. Era um daqueles ônibus com um mecanismo para baixar os degraus. Ele esperava que o degrau tocasse a calçada ou que alguém estivesse com um pé no chão e o outro no ônibus. Isso seria o suficiente para atrair o arco elétrico.

 

Noble novamente mexeu no mamífero de prata da abotoadura.

 

— Mas alguma coisa não deu certo: o timing, o alvo, não sei. A centelha atingiu o poste de metal com a placa que indicava o ponto, perto do ônibus. Matou um passageiro, deixou os que estavam perto surdos, lançou estilhaços de vidro nos outros e provocou um incêndio. Se tivesse atingido o ônibus diretamente, teria sido muito pior. Acho que metade dos passageiros teria morrido ou pelo menos sofreria queimaduras de terceiro grau.

 

— Lon falou de um apagão — comentou Rhyme.

 

McDaniel voltou a participar da conversa.

 

— O indivíduo usou o computador para desligar quatro outras subestações da região, fazendo com que toda a energia passasse pela subestação da rua 57. Assim que o acidente aconteceu, a subestação saiu de linha, mas o pessoal da Algonquin fez as demais funcionarem novamente. Nesse momento, tem uns seis quarteirões da região de Clinton sem energia. Você não viu no jornal?

 

— Eu não costumo assistir — respondeu Rhyme. — O motorista ou outra pessoa viu alguma coisa?

 

— Nada de útil. Havia alguns operários da Algonquin no local. Eles receberam a ordem de entrar e redirecionar as linhas ou algo assim. Graças a Deus ainda não tinham entrado quando o arco elétrico se formou.

 

— Não havia ninguém lá dentro? — perguntou Dellray. O agente parecia um tanto desinformado e Rhyme imaginou que não tinha havido tempo para que McDaniel fizesse um relato completo.

 

— Não. Nas subestações em geral há apenas equipamentos, sem ninguém, a não ser em caso de manutenção ou reparos.

 

— Como ele hackeou o computador? — quis saber Sellitto, fazendo muito barulho ao se sentar numa cadeira de vime.

 

— Não temos certeza — respondeu Gary Noble. — Estamos investigando possíveis cenários. Nossos técnicos tentaram reproduzir uma situação de terrorismo, mas não conseguiram entrar no programa. Sabe como é: os criminosos estão sempre um passo à frente do ponto de vista técnico.

 

— Alguém reivindicou a autoria? — perguntou Pulaski.

 

— Até agora, não — respondeu Noble.

 

— Nesse caso, por que terrorismo? Estou achando que essa é uma boa forma de desligar alarmes e sistemas de segurança. Houve algum assassinato ou assalto? — questionou Rhyme.

 

— Até agora, não — observou Sellitto.

 

— Existem alguns motivos que nos fazem pensar em terroristas — disse McDaniel. — Nosso software com o perfil de padrões e relacionamentos obscuros nos sugere isso, para começar. E, logo depois do acontecimento, mandei meu pessoal verificar sinais recebidos em Maryland.

 

Ele fez uma pausa, como se ninguém devesse repetir o que estava prestes a dizer. Rhyme imaginou que se referisse ao submundo da inteligência, as agências governamentais de espionagem que, do ponto de vista técnico, poderiam não ter jurisdição no país, mas que manobravam por meio de brechas na legislação a fim de se manter informadas sobre possíveis crimes dentro de suas fronteiras. A Agência de Segurança Nacional, o melhor de todos os postos de escuta clandestina, ficava em Maryland. McDaniel continuou:

 

— Um novo sistema SIGINT trouxe algumas informações interessantes.

 

SIGINT era a sigla em inglês de Signal Intelligence, que monitorava celulares, comunicações via satélite, e-mails... Parecia um recurso adequado para lidar com alguém que usava eletricidade para armar um ataque.

 

— Registramos referências ao que acreditamos ser um novo grupo terrorista que opera nessa região, nunca antes catalogado.

 

— Qual? — perguntou Sellitto.

 

— O nome começa com “Justice” e tem a palavra “For” — respondeu McDaniel.

 

Justice For...

 

— Mais nada? — indagou Sachs.

 

— Não. Talvez queiram justiça para Alá ou para os oprimidos. Qualquer coisa. Não temos pistas.

 

— As palavras são em inglês? — indagou Rhyme. — Não em árabe, somali ou indonésio?

 

— Isso mesmo — concordou McDaniel. — Mas nós criamos programas de monitoramento multilíngue e multidialetos sobre todas as comunicações que interceptamos.

 

— Legalmente — acrescentou Noble. — As que interceptamos legalmente.

 

— Mas a maioria das comunicações deles ocorre na nuvem — completou McDaniel, sem maiores explicações.

 

— Bem, o que é isso, senhor? — quis saber Pulaski, numa variante da pergunta que Rhyme estava prestes a fazer, porém de forma muito menos respeitosa.

 

— Nuvem? — repetiu o agente especial. — A expressão vem da mais recente técnica de computação, na qual os dados e os programas ficam armazenados em servidores em outro lugar, e não no próprio computador. Eu escrevi um ensaio analisando essa tendência. Utilizo o termo agora para significar novos protocolos de comunicação. Os atores negativos quase não usam celular e e-mail. As pessoas que nos interessam estão explorando novas técnicas, como blogs, Twitter e Facebook para mandar mensagens. Também embutem códigos ao baixar ou subir músicas e vídeos. Eu particularmente acho que elas têm alguns novos sistemas, telefones modificados, rádios e frequências alternativas com modificações.

 

Nuvem... Atores negativos...

 

— Por que você acha que o Justice For está por trás do ataque? — perguntou Sachs.

 

— Não achamos, necessariamente — respondeu Noble.

 

— Simplesmente houve alguns sinais de SIGINT sobre despesas em dinheiro nos últimos dias, movimento de pessoal e a frase “Vai ser algo grande”. Por isso, quando o ataque aconteceu, pensamos que poderia ser esse o caso — explicou McDaniel.

 

— E o Dia da Terra está perto — observou Noble.

 

Rhyme não sabia muito bem o que era o Dia da Terra. Não tinha opinião negativa ou positiva a respeito, a não ser o reconhecimento, com certa petulância, de que era como outros feriados ou efemérides, com multidões e protestos atravancando as ruas e exaurindo os recursos do Departamento de Polícia de Nova York, dos quais ele poderia precisar para tratar de casos.

 

— Pode ser mais que coincidência. Um ataque à rede de energia antes do Dia da Terra? O presidente está preocupado — disse Noble.

 

— O presidente da República? — questionou Sellitto.

 

— Exatamente. Ele está participando de uma reunião de cúpula sobre fontes renováveis de energia, fora do Distrito de Columbia.

 

— Alguém quer mandar um recado. Ecoterrorismo.

 

Não se viam coisas como essa em Nova York. As indústrias madeireiras e mineradoras não eram importantes na cidade.

 

— Talvez queiram justiça para o meio ambiente — arriscou Sachs.

 

— Tem outro detalhe — disse McDaniel. — Um dos sinais do SIGINT encontrou uma conexão de Justice For com o nome Rahman. Nenhum sobrenome. Temos oito pessoas chamadas Rahman na nossa lista de possíveis terroristas islâmicos sob observação, e não sabemos onde se encontram. Achamos que poderia ser um desses Rahmans, mas não sabemos qual.

 

Noble tinha deixado de lado os ursos e os peixes-boi das abotoaduras e agora mexia numa caneta.

 

— Nós, da Segurança Nacional, achamos que Rahman pode fazer parte de uma célula dormente que existe há muitos anos, talvez desde a época do 11 de Setembro, sem seguir o estilo de vida islâmico, frequentando mesquitas moderadas e evitando se comunicar em árabe.

 

— Chamei uma equipe de T e C de Quantico — acrescentou McDaniel.

 

— T e C? — indagou Rhyme, com ar aborrecido.

 

— Tecnologia e Comunicações. Ela está aqui para fazer a vigilância. E tenho especialistas para fazer grampos, se for preciso, além de dois advogados do Departamento de Justiça. Além disso, disponho de mais duzentos agentes suplementares.

 

Rhyme e Sellitto se entreolharam. Era uma força-tarefa surpreendentemente numerosa para um incidente isolado, que não fazia parte de nenhuma investigação em curso. Além disso, tinha sido mobilizada com incrível rapidez. O ataque havia acontecido menos de duas horas atrás.

 

O homem do FBI percebeu a reação dos dois.

 

— Estamos convencidos de que o terrorismo adotou um novo perfil e por isso temos que mudar a nossa forma de combatê-lo. Sabe os drones no Oriente Médio e no Afeganistão? Os pilotos ficam em uma base em Colorado Springs ou em Omaha.

 

A nuvem...

 

— Com o pessoal de T e C, em breve vamos ter a chance de coletar mais sinais. Mesmo assim, ainda precisamos dos métodos tradicionais — disse ele, observando o laboratório ao redor. Métodos como os da criminalística forense, pensou Rhyme. Em seguida, o agente especial olhou para Dellray. — E também precisamos do trabalho de rua, embora Fred tenha me informado que não obteve muito êxito.

 

O talento de Dellray como operador secreto só era superado pela sua habilidade de lidar com informantes confidenciais. Desde o 11 de Setembro ele tinha passado a cultivar contatos em um amplo grupo de informantes da comunidade islâmica e havia aprendido árabe, indonésio e farsi. Colaborava regularmente com a impressionante unidade antiterrorismo da polícia de Nova York. No entanto, confirmou o comentário do chefe. Com expressão grave, disse:

 

— Eu não ouvi nenhuma referência ao Justice For ou a Rahman. Falei com muita gente no Brooklyn e em Jersey, Queens e Manhattan.

 

— Isso acabou de acontecer — recordou Sellitto.

 

— Exato — confirmou McDaniel. — Naturalmente, uma coisa como essa precisaria de muito tempo para ser planejada. Quanto tempo, vocês acham? Um mês?

 

— Acho que sim. Pelo menos isso — concordou Noble.

 

— Vejam, esse é o problema da nuvem.

 

Rhyme também percebeu a crítica de McDaniel a Fred Dellray: os informantes devem saber das coisas antes que aconteçam.

 

— Bem, continue assim, Fred — disse McDaniel. — Você está fazendo um bom trabalho.

 

— Certo, Tucker.

 

Noble tinha deixado de brincar com a caneta e agora consultava o relógio de pulso.

 

— Então, a Segurança Nacional vai se coordenar com Washington e com o Departamento de Estado, inclusive com as embaixadas, se for necessário. Agora, Lincoln, todos conhecem sua perícia ao trabalhar com cenas de crime, e por isso esperamos que você possa fazer uma análise das pistas no local. Estamos organizando uma equipe. Em vinte minutos, no máximo trinta, os homens devem chegar à subestação.

 

— É claro que vamos colaborar — disse Rhyme. — Mas vamos examinar a cena inteira, do início ao fim, e todas as cenas secundárias; não apenas as pistas. Vamos querer ver o novelo inteiro.

 

Olhou para Sellitto, que balançou a cabeça afirmativamente, com firmeza, para dizer que concordava.

 

No embaraçoso momento de silêncio que se seguiu, todos compreenderam as entrelinhas: a definição de quem estaria encarregado da investigação. No atual trabalho policial, geralmente quem controlasse a criminalística forense seria também responsável pela investigação. Era uma consequência prática do progresso das técnicas de investigação de cenas de crime nos últimos dez anos. Por meio da análise do que fosse encontrado no local, os investigadores criminais conseguiam entender melhor a natureza do crime e dos possíveis suspeitos, e eram os primeiros a desenvolver as pistas.

 

O trio — Noble e McDaniel na esfera federal e Sellitto pelo Departamento de Polícia de Nova York — tomaria as decisões estratégicas. No entanto, caso os homens acreditassem que Rhyme era imprescindível à perícia, isso o tornaria o principal investigador. Fazia sentido. Ele já resolvia crimes na cidade havia muito mais tempo que qualquer um dos outros, e, como até aquele momento não foram encontrados suspeitos nem outras pistas significativas, a não ser o que fosse possível encontrar na cena, era indicado usar um especialista em perícia criminal.

 

O mais importante é que Rhyme queria muito se ocupar com esse caso. Era o fator tédio...

 

Bem, um pouco de ego também.

 

Por isso ele apresentou o melhor argumento que era capaz de usar: ficou em silêncio. Simplesmente encarou Gary Noble, o homem da Segurança Nacional.

 

McDaniel hesitou um pouco, pois era a sua equipe que teria a relevância abreviada, e Noble olhou para ele, então perguntou:

 

— O que você acha, Tucker?

 

— Eu conheço o trabalho do Sr. Rhyme... Quero dizer, de Lincoln. Não me importo que ele se ocupe da cena do crime, desde que haja cem por cento de coordenação conosco.

 

— Claro que sim.

 

— E precisamos ter alguém presente. Além disso, queremos ser notificados imediatamente de tudo. — Fitava os olhos de Rhyme, não seu corpo. — O mais importante é reagir o mais rápido possível.

 

Nas entrelinhas da afirmação, pensou Rhyme, ele questionava se alguém nas suas condições físicas seria capaz de trabalhar adequadamente. Era uma pergunta legítima, que o próprio Rhyme teria feito.

 

— Entendido — respondeu.

 

— Ótimo. Vou dizer ao meu pessoal que ajude você da forma que achar necessária — assegurou o agente especial.

 

Noble interveio:

 

— Bem, quanto à imprensa, a essa altura estamos procurando dar menos força à possibilidade de terrorismo. Vamos fazer com que pareça um acidente, mas já houve boatos de que não foi bem assim. O público está preocupado.

 

— Não há dúvida — concordou McDaniel. — No meu escritório há monitores que verificam o tráfego na internet. Houve um grande aumento em buscas por “eletrocussão”, “arcos elétricos” e “apagões”. Milhares de pessoas procuraram cenas de combustões súbitas no YouTube. Eu mesmo pesquisei. As imagens são assustadoras. Dois operários trabalham em um painel elétrico e, de repente, um clarão enche a tela e um deles aparece caído no chão, com metade do corpo em chamas.

 

— Além disso — acrescentou Noble —, as pessoas têm medo de que ocorram arcos em outros lugares que não sejam uma subestação. Por exemplo, em suas casas e escritórios.

 

— Isso é possível? — perguntou Sachs.

 

Aparentemente, McDaniel não havia pesquisado tudo que podia sobre o assunto.

 

— Creio que sim, mas não tenho certeza de qual deve ser a intensidade da corrente para que isso aconteça — confessou. Os olhos dele se desviaram para uma tomada de duzentos e vinte volts próxima.

 

— Bem, é melhor começarmos a trabalhar — decretou Rhyme, olhando para Sachs.

 

— Ron, venha comigo. — Ela se dirigiu para a porta. Pulaski a acompanhou e, no momento seguinte, a porta se fechou. Logo ouviram o poderoso motor do carro dela que arrancava.

 

— Precisamos ter em mente uma coisa: um dos cenários que construímos no computador — disse McDaniel — indica que o indivíduo desconhecido estava só fazendo um teste, verificando se a rede de transmissão poderia servir para um ato terrorista. O resultado foi um tanto desastroso e só uma pessoa morreu. Carregamos essa hipótese no sistema e os logaritmos responderam sugerindo que ele poderia tentar algo diferente. Existe até mesmo a possibilidade de que essa tenha sido uma singularidade.

 

— Uma... o quê? — perguntou Rhyme, irritado com a expressão.

 

— Singularidade; um acontecimento que ocorre uma única vez. Nosso programa de análise de ameaças atribuiu a esse incidente um fator de não repetição da ordem de cinquenta e cinco por cento. Não é a pior coisa do mundo.

 

— Mas isso não é o mesmo que dizer que existe quarenta e cinco por cento de chance de que alguma outra pessoa na cidade de Nova York corre o risco de ser eletrocutada? E de que isso poderia estar acontecendo nesse instante? — observou Rhyme.

 

A subestação MH-10 da Algonquin Consolidated Power era um castelo medieval em miniatura numa área tranquila ao sul do Lincoln Center. Era feita de arenito rudemente lapidado, escuro e esburacado após décadas de poluição e fuligem da cidade de Nova York. A inscrição na pedra fundamental estava gasta, mas era possível ler a data: 1928.

 

Pouco antes das duas da tarde, Amelia Sachs estacionou o Ford Torino Cobra bordô diante do prédio, atrás dos destroços do ônibus. O veículo, cujo cano de escape ainda lançava estertores, atraiu olhares curiosos de transeuntes, policiais e bombeiros. Ela saltou do carro, colocou uma placa do Departamento de Polícia de Nova York no painel e ficou observando a cena com as mãos na cintura. Ron Pulaski emergiu do assento do passageiro e fechou a porta com um estrondo.

 

Sachs notou a incongruência do panorama. Edifícios modernos, de pelo menos vinte andares, cercavam a subestação, que, por algum motivo, tinha sido projetada com torreões. As pedras estavam sujas de branco por causa dos pombos residentes, diversos dos quais haviam regressado depois do tumulto. As janelas tinham vidraças amareladas e grandes, pintadas de preto.

 

A espessa porta de metal estava aberta, e o interior, às escuras.

 

Com o gemido de uma sirene eletrônica, um veículo da perícia do Departamento de Polícia de Nova York surgiu na área. A van estacionou e três técnicos, vindos da sede do Queens, desceram do carro. Sachs já havia trabalhado com eles em outras ocasiões e acenou para o homem de origem latina e para a mulher de ascendência asiática sob a direção de uma agente mais graduada, a detetive Gretchen Sahloff. Sachs cumprimentou com a cabeça, recebendo um aceno como resposta. Com um olhar grave para a fachada da subestação, ela caminhou até a traseira da grande van, de onde os agentes recém-chegados começavam a descarregar o equipamento.

 

A atenção de Sachs se deslocou para a calçada e para a rua, isoladas com fita amarela, além da qual um grupo de cerca de cinquenta pessoas observava o que estava acontecendo. O ônibus que tinha sido alvo do ataque continuava estacionado diante da subestação, vazio e tombado, com os pneus do lado direito vazios. Na frente do veículo, a tinta mostrava sinais de que tinha sido queimada. Metade das janelas estava acinzentada e opaca.

 

Uma médica negra e atarracada do serviço de emergência se aproximou e cumprimentou Sachs.

 

— Olá — respondeu Sachs.

 

A mulher assentiu com a cabeça. O pessoal do serviço médico estava habituado a ver carnificinas, mas ela parecia abalada.

 

— Detetive, é melhor você dar uma olhada.

 

Sachs a seguiu até a ambulância, onde havia um cadáver em uma maca, esperando para ser levado ao necrotério. Estava coberto por uma lona verde encerada.

 

— Parece que era o último passageiro a embarcar — disse ela. — Pensamos que poderíamos salvar a vida dele, mas não foi possível.

 

— Morreu eletrocutado?

 

— É melhor você ver — murmurou ela, erguendo a lona.

 

Sachs se sentiu gelar quando o odor de pele e cabelos queimados chegou às narinas. Ela olhou para a vítima, um latino vestido de terno e gravata — ou o que restava de suas roupas. Por causa das queimaduras, as costas e grande parte do lado direito eram uma mistura de pele e pano. Sachs imaginou que fossem queimaduras de segundo e terceiro graus, mas não era isso o que mais a impressionava. Durante sua carreira ela já tinha visto queimaduras graves, tanto acidentais quanto intencionais. O que mais a horrorizou foi a carne exposta nos lugares em que a equipe médica havia removido o tecido do terno. Dezenas de ferimentos profundos cobriam seu corpo, como se ele tivesse recebido uma rajada de uma escopeta enorme.

 

— A maioria dessas feridas vai de um lado ao outro — comentou a médica.

 

Tinham atravessado o corpo?

 

— O que teria causado uma coisa dessas?

 

— Eu não sei. Nunca vi nada igual em todos esses anos.

 

Sachs percebeu outra coisa. Todos os ferimentos eram distintos e claramente visíveis.

 

— Não tem sangue.

 

— O que quer que tenha sido, cauterizou as feridas. Por isso... — A voz dela quase sumiu. — Por isso ele permaneceu consciente por tanto tempo.

 

Sachs era incapaz de imaginar a dor.

 

— Como? — perguntou, um pouco para si mesma.

 

Logo obteve a resposta.

 

— Amelia — chamou Ron Pulaski.

 

Ela olhou para o colega.

 

— Dá uma olhada na placa do ponto de ônibus. Imagina...

 

— Meu Deus — murmurou ela, aproximando-se da fita amarela que limitava a cena do crime. A quase dois metros do chão, havia um buraco de pouco mais de dez centímetros de diâmetro atravessando o poste de metal, que tinha derretido como plástico sob um maçarico. Em seguida, ela se concentrou nas janelas do ônibus e em um caminhão de entregas estacionado bem próximo. O vidro parecia ter ficado opaco com o fogo, mas, na verdade, o que havia atingido ambos os veículos eram pequenos estilhaços; os mesmos que mataram o passageiro. As chapas de metal também apresentavam buracos estreitos.

 

— Olha — murmurou ela, apontando para a calçada e para a fachada da subestação. Havia dezenas de pequenas crateras no pavimento e na pedra.

 

— Teria sido uma bomba? — indagou Pulaski. — Talvez não tenha sido percebida inicialmente.

 

Sachs abriu uma bolsa de plástico e retirou luvas azuis de látex. Calçando-as, abaixou-se e recolheu um pequeno disco de metal em forma de lágrima, na base do poste. Estava tão quente que quase derreteu a luva.

 

Ao compreender do que se tratava, ela estremeceu.

 

— O que é isso? — perguntou Pulaski.

 

— A combustão derreteu o poste — respondeu Sachs, olhando em volta e vendo mais de cem gotas semelhantes no chão ou incrustadas na lateral do ônibus, nas paredes dos prédios e nos carros próximos.

 

Era isso que tinha matado o jovem passageiro. Uma chuva de gotas de metal derretido voando a milhares de metros por segundo.

 

O jovem oficial expirou lentamente.

 

— Imagina ser atingido por uma coisa como essa... queimando e atravessando seu corpo.

 

Sachs estremeceu de novo, imaginando a dor e pensando na devastação que o ataque poderia ter causado. Essa parte da rua estava relativamente deserta. Se a subestação fosse localizada mais perto do centro de Manhattan, dez ou quinze transeuntes certamente teriam morrido.

 

Sachs ergueu o olhar para a arma usada pelo indivíduo. De uma das janelas da fachada sobre a rua 57, via-se pouco mais de meio metro de cabo elétrico pendurado. O cabo estava coberto por material isolante preto, removido na extremidade de forma que os fios expostos haviam sido aparafusados a uma placa de latão chamuscada. Parecia uma instalação industrial comum, e não algo que poderia produzir uma explosão terrível.

 

Sachs e Pulaski se juntaram ao grupo de mais de vinte agentes da Segurança Nacional, do FBI e da polícia de Nova York na van que servia de posto de comando do FBI. Alguns usavam equipamentos táticos, outros vestiam macacões para perícia forense. Outros usavam apenas ternos ou uniformes padrão. Ocupavam-se da distribuição de tarefas. Procurariam testemunhas e verificariam a ocorrência de bombas após o incidente ou qualquer outra armadilha, técnicas comuns de terroristas.

 

Um homem de olhar solene e rosto magro, de cerca de 50 anos, olhava para a subestação de pé, com os braços cruzados. Usava no pescoço um crachá da Algonquin Consolidated, preso por uma correntinha. Era o representante mais graduado da empresa no local: o supervisor encarregado daquela seção da rede de distribuição. Sachs pediu a ele que relatasse o acontecimento de forma detalhada e anotou em seu bloco de notas o que o homem disse.

 

— Havia câmeras de segurança?

 

— Infelizmente, não. Não costumamos usar câmeras. As portas têm muitas trancas e na verdade não tem nada no interior que possa ser roubado. De qualquer forma, a eletricidade é uma espécie de cão de guarda. Um cão bem grande.

 

— Como você acha que ele pode ter entrado? — perguntou Sachs.

 

— A porta estava trancada quando chegamos. Os cadeados têm segredo.

 

— Quem conhece as combinações?

 

— Todos os empregados. Mas o intruso não entrou pela porta. Os cadeados têm um chip que registra a data e a hora de abertura. Tem dois dias que não há acessos. E aquilo — continuou, apontando para o cabo pendurado na janela — não estava aqui dois dias atrás. Ele deve ter entrado de alguma outra forma.

 

Sachs se virou para Pulaski.

 

— Quando você acabar aqui, verifica os fundos, as janelas e o telhado. — Dirigindo-se novamente ao funcionário da Algonquin, perguntou: — Existe algum acesso subterrâneo?

 

— Não que eu saiba. Os cabos elétricos que entram e saem dessa subestação vêm através de dutos onde um ser humano não caberia. No entanto, pode existir algum túnel que eu não conheça — respondeu o supervisor.

 

— Verifica mesmo assim, Ron — pediu Sachs, passando a interrogar o motorista do ônibus, que havia recebido tratamento para os cortes causados pelos estilhaços de vidro e para a concussão. Sua visão e audição também foram temporariamente afetadas, mas ele tinha feito questão de permanecer no local e auxiliar a polícia tanto quanto fosse possível. Apesar disso, não podia ajudar muito. Ele relatou que havia ficado curioso ao ver o cabo saindo da janela, coisa que jamais presenciara antes. Tinha sentido cheiro de fumaça e ouvido estalos no interior. Em seguida, a aterradora centelha.

 

— Foi muito rápido — murmurou ele. — Nunca vi uma coisa tão rápida em toda a minha vida.

 

Ele tinha sido arremessado na janela do ônibus e recuperado os sentidos dez minutos depois. Ficara em silêncio, contemplando o ônibus destroçado. Sua expressão exibia decepção e tristeza.

 

Então Sachs se virou para os agentes e policiais e avisou que ela e Pulaski fariam a análise da cena. Ficou pensando se Tucker McDaniel, o homem do FBI, teria realmente repassado essa autorização aos homens. Já tinha ouvido casos em que dirigentes de alta patente das forças da lei concordavam sorridentes com alguma coisa e logo esqueciam intencionalmente que a conversa havia acontecido. Mas os agentes federais sabiam do trato. Alguns dos homens pareciam irritados porque a polícia de Nova York estava desempenhando aquela tarefa essencial, mas outros — principalmente os responsáveis pela coleta de evidências do FBI — não pareciam em desacordo e chegavam a olhar para a detetive com um misto de curiosidade e admiração. Afinal, Sachs fazia parte do grupo liderado pelo lendário Lincoln Rhyme.

 

Virando-se para Pulaski, ela disse:

 

— Vamos começar o trabalho.

 

Logo depois, dirigiu-se à van enquanto juntava os cabelos ruivos num coque a fim de se arrumar adequadamente.

 

Pulaski hesitou, lançando um olhar para as centenas de discos de metal ainda quentes que enchiam a calçada e se incrustaram na fachada do prédio, e, em seguida, para o cabo pendurado pela janela.

 

— Espero realmente que tenham desligado a energia lá dentro.

 

Sachs se limitou a fazer um sinal para que ele a seguisse.

 

Usando o macacão azul-escuro sóbrio dos operários da Algonquin Consolidated Power, boné de beisebol e óculos de segurança, um homem trabalhava no painel de serviço nos fundos de uma academia no bairro de Chelsea, em Manhattan.

 

Enquanto fazia o serviço, montando equipamentos, cortando e emendando fios, pensava no incidente daquela manhã. O jornal só falava disso.

 

Um homem morreu e diversas pessoas ficaram feridas nesta manhã quando uma sobrecarga em uma subestação da empresa de energia elétrica de Manhattan produziu uma imensa centelha que saltou da subestação para o poste de um ponto de ônibus, quase atingindo um coletivo da empresa metropolitana de transportes públicos.

 

“Parecia um relâmpago”, disse uma testemunha, um passageiro do ônibus. “Pegou a calçada toda. Eu fiquei cego. Não sei como descrever o som que eu ouvi. Parecia um ronco forte e, em seguida, veio uma explosão. Estou com medo de chegar perto de qualquer coisa elétrica. Eu fiquei realmente apavorado. Qualquer pessoa que viu aquela coisa deve ter ficado apavorada.”

 

Você não está sozinho, pensou o operário. Há mais de cinco mil anos os seres humanos sentem respeito e temor pela eletricidade. A palavra vem do termo grego que significa âmbar, numa referência a essa resina vegetal solidificada que os antigos esfregavam para criar descargas elétricas. Os efeitos paralisantes da eletricidade causada por enguias e outros peixes, nos rios e no litoral de Egito, Grécia e Roma, foram descritos em tratados científicos desde muito antes da era cristã.

 

Os pensamentos do operário passaram a se ocupar de criaturas aquáticas, pois, enquanto trabalhava, observava furtivamente as cinco pessoas que nadavam na piscina do clube. Três mulheres e dois homens, todos já aposentados.

 

Um dos peixes que o fascinavam era a raia-elétrica, cujo gênero Torpedo tinha dado o nome aos projéteis lançados por submarinos. A palavra latina torpore — paralisia, ou rigidez — dera origem ao nome. Na verdade, o corpo da raia continha duas baterias compostas por centenas de placas gelatinosas que geravam eletricidade, transmitida através de um complexo conjunto de nervos, como fios. A corrente elétrica era usada para defesa mas também tinha um emprego ofensivo, para a caça. As raias ficavam à espreita e, de repente, usavam uma descarga para aturdir a próxima refeição, e, às vezes, matá-la de uma vez. As raias maiores conseguiam gerar até duzentos volts e uma amperagem maior que a de uma furadeira elétrica.

 

Era fascinante...

 

O operário terminou a montagem do painel e apreciou o trabalho. Como todos os eletricistas do mundo, orgulhava-se de seu capricho. Ele achava que trabalhar com eletricidade era mais que um ofício; era uma ciência e uma arte. Fechando a porta, dirigiu-se ao lado oposto do ginásio, perto do vestiário masculino. Ali, escondido, esperou.

 

Como uma raia-elétrica.

 

Aquela parte da cidade, do lado oeste, era residencial. Naquele momento, no início da tarde, não havia frequentadores correndo, nadando ou jogando squash, embora as instalações ficassem cheias após o horário de trabalho, com centenas de moradores das vizinhanças ansiosos para se livrarem das tensões do dia.

 

Por enquanto, porém, ele não precisava de muita gente. Isso ficaria para mais tarde.

 

Para que as pessoas imaginassem que se tratava simplesmente de um operário qualquer e não lhe dessem atenção, ele passou a se ocupar de um painel de controle de incêndio. Retirou a tampa e examinou o conteúdo sem grande interesse. Pensou novamente nas raias-elétricas. As que viviam em águas salgadas tinham os fios arrumados em circuitos paralelos e produziam voltagens menos intensas porque a água salgada é melhor condutora que a doce — a descarga não precisa ser muito forte para matar a presa. As raias-elétricas que habitavam rios e lagos, por sua vez, tinham os fios arranjados em série e produziam voltagens maiores, compensando a baixa condutividade da água doce.

 

Para ele, isso era não apenas fascinante mas também relevante naquele momento, para o teste sobre a condutividade da água. Ficou imaginando se teria feito os cálculos corretamente.

 

Precisou esperar apenas dez minutos até ouvir passos e ver um dos nadadores, um homem calvo de mais de 60 anos, calçando chinelos. Então entrou no chuveiro.

 

O funcionário olhou disfarçadamente para o homem que abria o chuveiro e se colocava sob a cascata de água quente, sem perceber que era observado.

 

Três minutos, cinco. Ensaboando-se, lavando-se...

 

Impaciente por causa do risco de ser surpreendido, o funcionário empunhou o controle remoto — semelhante a uma chave eletrônica de carros, porém maior — e sentiu os músculos dos ombros se enrijecerem.

 

Torpore. Riu silenciosamente. E relaxou.

 

Por fim, o nadador saiu do chuveiro e começou a se enxugar com uma toalha. Vestiu um robe e calçou novamente os chinelos, caminhando até a porta do vestiário e segurando a maçaneta.

 

O operário apertou simultaneamente dois botões do controle remoto.

 

O idoso deu um gemido e seu corpo ficou rígido. Imediatamente, recuou, olhando para a maçaneta. Depois olhou para os dedos e tocou novamente o metal.

 

Uma estupidez, é claro. Ninguém pode ser mais rápido que a eletricidade.

 

Mas dessa vez não houve choque, e o homem ficou imaginando que talvez uma aresta do metal ou uma dor artrítica tivesse sido responsável pelo que tinha sentido.

 

Na verdade, a armadilha continha uma corrente de apenas alguns miliamperes. A intenção do técnico de macacão não era matar ninguém. Tratava-se simplesmente de uma experiência para verificar duas coisas: a primeira era saber se o comutador de controle remoto que ele havia criado funcionaria àquela distância, através do concreto e do aço. Funcionou. A segunda, qual seria exatamente o efeito da água sobre a condutividade. Engenheiros especializados em segurança costumavam estudar esse assunto, mas ninguém nunca tinha conseguido quantificá-la em um sentido prático, isto é, saber qual a mínima quantidade de corrente necessária para aturdir uma pessoa usando calçados úmidos de couro, fazendo-a passar à fibrilação e à morte.

 

A resposta era que seria preciso uma corrente extremamente pequena.

 

Ótimo.

 

Fiquei apavorado...

 

O homem de macacão se dirigiu às escadas e à saída dos fundos.

 

Pensou novamente nos peixes e na eletricidade. Desta vez, no entanto, não a respeito da criação de eletricidade, mas sim em sua detecção. Especialmente pelos tubarões. Eles possuíam, literalmente, um sexto sentido: a surpreendente capacidade de perceber a atividade bioelétrica no corpo de presas a quilômetros de distância, muito antes de chegar a vê-las.

 

Olhou para o relógio e imaginou que a investigação na subestação já estaria adiantada. Era lamentável, para quem quer que estivesse examinando a cena, que seres humanos não possuíssem o mesmo sexto sentido dos tubarões.

 

Logo também seria lamentável para muitas outras pessoas na pobre cidade de Nova York.

 

Sachs e Pulaski vestiram os macacões azul-claros com capuz da Tyvek, além de máscara, botas e óculos protetores. Conforme as instruções de Rhyme, passaram uma fita de borracha em volta dos pés, a fim de diferenciar facilmente suas pegadas das de qualquer outra pessoa. Em seguida, contornando a cintura com um cinturão no qual estavam afivelados um transmissor de rádio/vídeo e a arma, Sachs ultrapassou a fita amarela, o que provocou algumas pontadas resultantes da artrite em suas juntas. Nos dias mais úmidos, ou depois de examinar uma cena de crime mais complexa, ou ainda após uma perseguição a pé, os joelhos e os quadris latejavam de dor e ela invejava secretamente a insensibilidade de Lincoln Rhyme. Nunca comentava isso em voz alta, naturalmente, nem sequer se ocupava dessa ideia louca por mais de um ou dois segundos, mas ela existia. Todas as condições tinham suas vantagens.

 

A detetive parou na calçada, sozinha dentro do perímetro mortal. Quando Rhyme era diretor de Recursos Investigativos — a unidade do Departamento de Polícia de Nova York encarregada das cenas de crime —, ele instruía seu pessoal a fazer a análise a sós, a menos que a cena fosse especialmente ampla. Ele recomendava isso porque as pessoas têm uma tendência psicológica a ser pouco cuidadosas quando outros investigadores estão presentes, já que assim haveria alguém capaz de encontrar o que passasse despercebido. Além disso, assim como criminosos deixam evidências para trás, os peritos também o fazem, por mais que se revistam de equipamento de proteção. Quanto maior o número de pesquisadores, maior é o risco.

 

Sachs olhou o vão da porta aberta, de onde ainda saía fumaça, e pensou na arma que tinha à cintura. Metal.

 

As linhas estão desligadas...

 

Bem, vamos em frente, disse a si mesma. Quanto mais cedo a cena for investigada depois do crime, melhor a qualidade das pistas. Gotas de suor cheias de DNA evaporavam e ficavam impossíveis de serem vistas. Fibras e fios de cabelo valiosos eram levados pelo vento, enquanto outros, irrelevantes, vinham flutuando para a cena e causavam confusão e enganos.

 

Ela ajustou o fone auricular, dentro do capuz, preparando também o microfone de haste. Verificou o transmissor e ouviu a voz de Rhyme:

 

— Você já está aí, Sachs? Está... bem, já vi que está na linha. Fiquei sem saber. O que é aquilo?

 

Ele via o mesmo que ela graças a uma pequena câmera de alta definição na altura da testa de Sachs. Ela percebeu que, involuntariamente, observava o buraco aberto no poste do ponto de ônibus. Explicou a Rhyme o que havia acontecido: a centelha, as gotas de chuva derretidas.

 

O perito criminal ficou em silêncio por um instante. Então, disse:

 

— Bem, é uma arma e tanto. Mas vamos trabalhar. Pode varrer a área.

 

Havia várias maneiras de percorrer uma cena de crime. Uma das formas mais usadas era começar em um canto externo e caminhar em círculos concêntricos cada vez menores até chegar ao centro.

 

Lincoln Rhyme, porém, preferia o padrão de varredura. Às vezes dizia aos alunos que pensassem no itinerário como se estivessem manejando um cortador de grama de um jardim, mas fazendo-o duas vezes. Eles deviam caminhar em linha reta ao longo da cena até chegar ao outro lado, dar meia-volta, afastar-se uns trinta centímetros para a direita ou para a esquerda e começar de novo, seguindo na direção de onde tinham vindo. Depois, ao chegar ao fim, virar-se em sentido perpendicular ao caminho percorrido e começar de novo, no mesmo vai e vem.

 

Rhyme fazia questão de que houvesse essa redundância porque a primeira verificação de uma cena de crime é crucial. Caso a primeira análise fosse feita de forma apressada, o investigador ficaria convencido de que não existia nada a encontrar. As buscas subsequentes seriam, em grande parte, inúteis.

 

Sachs refletiu sobre a ironia da situação. Teria que fazer uma varredura linear e precisa justamente num lugar de fios emaranhados e maleáveis. Lembrou-se de dizer isso a Rhyme, porém mais tarde. Agora precisava se concentrar.

 

O trabalho dos investigadores na cena do crime era como o de um catador de lixo. O objetivo era simples: encontrar alguma coisa, qualquer coisa, que tivesse sido deixada pelo criminoso. Certamente haveria algo. Quase cem anos antes, o perito criminal francês Edmond Locard já havia observado que sempre que um crime acontece, há uma transferência de evidências entre o criminoso e a cena do crime, ou entre ele e a vítima. Mesmo que fosse algo virtualmente impossível de ser visto, era algo que existia e poderia ser encontrado caso se soubesse onde procurar e se fosse paciente e diligente.

 

Amelia Sachs iniciou a busca, começando pelo lado de fora da subestação e pela arma do crime: o cabo pendurado.

 

— Parece que ele...

 

— ...ou eles — emendou Rhyme pelo fone auricular. — Se o Justice For for o responsável, deve ter uma boa quantidade de membros.

 

— Boa observação, Rhyme.

 

Ele queria ter certeza de que ela não seria vítima do principal problema que os investigadores de cenas de crime costumam encontrar: não manter a mente aberta. Um cadáver, sangue e uma pistola sugeriam que a vítima havia morrido com um tiro; mas, caso seja presumido que esse era o caso, pode-se deixar de ver a faca que efetivamente tinha sido usada.

 

— Bem, ele, ou eles, prepararam tudo do lado de dentro, mas imagino que, em algum momento, tenha sido necessário vir aqui à calçada a fim de verificar a distância e o ângulo — prosseguiu ela.

 

— Para mirar no ônibus?

 

— Exatamente.

 

— Muito bem, continue. Examine a calçada.

 

Foi o que ela fez, olhando com atenção para o chão.

 

— Bitucas de cigarro, chapinhas de cerveja, mas nada que esteja perto da porta ou da janela onde está o cabo.

 

— Não se preocupe com essas coisas. Ele não devia estar fumando nem bebendo enquanto agia. É uma pessoa competente, considerando todo esse planejamento. Mas deve haver algum vestígio no ponto onde ficou, mais perto do prédio.

 

— Existe uma saliência aqui, está vendo? — perguntou ela, olhando para uma espécie de prateleira baixa de pedra, quase um metro acima da calçada. Na face superior havia pontas de ferro para evitar que pombos, ou seres humanos, pousassem, mas podiam servir de degraus para alguém que quisesse alcançar alguma coisa na janela. — Vejo marcas de sapatos na superfície, mas não suficientes para uma análise eletrostática.

 

— Vamos ver de perto.

 

Ela se curvou, baixando a cabeça. Rhyme via o mesmo que ela: marcas que podiam ser de bicos de sapatos, perto da parede.

 

— Você não consegue a marca das pegadas?

 

— Não. Não estão claras o suficiente. Mas olhando para elas eu diria que são masculinas. São largas, com pontas quadradas, mas é tudo o que consigo ver. Não vejo solas nem saltos. Mas isso nos diz que, se os criminosos são eles, provavelmente quem preparou a armadilha do lado de fora foi só um ele.

 

Sachs continuou examinando a calçada e não viu pistas físicas que lhe parecessem relevantes.

 

— Recolha os vestígios, Sachs, e depois verifique o interior da subestação.

 

Ela instruiu os dois técnicos, que colocaram poderosas lâmpadas halógenas do lado de dentro da porta. Tirou fotos e depois recolheu os traços existentes na calçada e na saliência da parede, perto do cabo.

 

— E não esqueça... — começou Rhyme.

 

— Os substratos.

 

— Muito bem, você está um passo à minha frente.

 

Na verdade, não, pensou ela, porque Rhyme já era seu mentor havia vários anos e, se até agora ela não tivesse absorvido os procedimentos indicados por ele para fazer a varredura, não estaria em condições de executar um bom trabalho. A detetive se dirigiu a uma área fora do perímetro e recolheu um segundo grupo de indícios — o substrato, isto é, amostras para controle, para servirem de base de comparação com as primeiras. Qualquer diferença entre o que tinha sido recolhido a certa distância da cena e no lugar onde se sabia que o indivíduo havia estado poderia ser referente a ele ou a sua localização.

 

Naturalmente, também poderia não ser... mas essa era a natureza do trabalho da perícia. Nunca haveria certeza absoluta, mas era preciso fazer o possível, fazer o que era necessário.

 

Sachs entregou aos técnicos as bolsas contendo as evidências e acenou para o supervisor da Algonquin, com quem havia falado antes.

 

Com o mesmo ar solene, o supervisor se apressou em sua direção.

 

— Pois não, detetive?

 

— Vou examinar lá dentro. Pode me dizer exatamente o que devo procurar? De que forma ele preparou o cabo? Preciso descobrir o ponto em que ele esteve, as coisas em que tocou.

 

— Me deixa chamar o responsável pela manutenção — disse o homem, olhando para os operários. Chamou um deles, vestido com o macacão azul-escuro da Algonquin Consolidated Power e capacete amarelo. O operário jogou fora o cigarro e se juntou aos dois. O supervisor o apresentou e o informou sobre o pedido de Sachs.

 

— Sim, senhora — disse o homem, desviando os olhos da subestação e observando demoradamente o tórax de Sachs, embora os contornos dela estivessem em grande parte ocultos pelo folgado macacão azul. Ela pensou em olhar para a barriga proeminente dele, mas naturalmente não o fez. Cães urinam onde não queremos; não é possível adverti-los o tempo todo.

 

— Eu vou conseguir ver o lugar em que ele ligou o cabo à fonte da corrente? — perguntou.

 

— Tudo está à vista, claro — respondeu o homem. — Imagino que ele tenha feito a ligação perto dos disjuntores. Eles estão no térreo, à direita de quem entra.

 

— Pergunte se o cabo tinha corrente quando o indivíduo o ligou — sugeriu Rhyme. — Isso nos dará alguma informação sobre a competência dele.

 

Sachs obedeceu.

 

— Claro, a linha tinha carga — foi a resposta.

 

Sachs ficou admirada.

 

— Como ele pôde fazer isso?

 

— Usou equipamento de proteção e tomou bastante cuidado para manter o isolamento adequado.

 

Rhyme acrescentou:

 

— Tenho outra pergunta para ele. Eu quero saber como consegue trabalhar passando o tempo todo olhando para os seios das mulheres.

 

Sachs conteve um sorriso.

 

Mas ao se aproximar da entrada, caminhando pela calçada, o bom humor desapareceu. Ela fez uma pausa, virando-se para o supervisor.

 

— Eu só quero confirmar mais uma vez. A corrente está desligada, certo? — disse, apontando para a subestação. — As linhas estão apagadas.

 

— Claro.

 

Sachs deu meia-volta.

 

— Menos as baterias — acrescentou o supervisor.

 

— Baterias? — perguntou ela, parando e se virando.

 

O supervisor explicou:

 

— É o que faz os disjuntores funcionarem. Mas as baterias não estão ligadas à rede. Não vão estar ligadas ao cabo.

 

— Muito bem, as baterias. Elas podem ser perigosas?

 

Sachs se lembrava dos ferimentos redondos no corpo do passageiro.

 

— Bem, com certeza. — A pergunta era aparentemente ingênua, e ele acrescentou: — Mas os terminais estão cobertos com capas isolantes.

 

Sachs se virou novamente e caminhou para a subestação.

 

— Eu vou entrar, Rhyme.

 

Ela se aproximou da porta e notou que, por alguma razão, as luzes tornavam o interior ainda mais ameaçador do que quando ficava às escuras.

 

É a porta do inferno, pensou ela.

 

— Eu estou ficando tonto, Sachs. O que você está fazendo?

 

Ela percebeu que hesitava e olhava em volta, tornando a focalizar a porta aberta. Também se deu conta de que esfregava compulsivamente o indicador na ponta do polegar. Às vezes, quando fazia isso, chegava a se ferir e se surpreendia ao ver o sangue surgir. Já seria desagradável, mas ela com certeza não queria rasgar a luva e contaminar a cena com seus próprios vestígios. Esticou os dedos e disse:

 

— Eu estou só olhando ao redor.

 

Mas eles já se conheciam há tempo demais para que caíssem nessa.

 

— Qual é o problema? — perguntou ele.

 

Sachs respirou fundo. Por fim, respondeu:

 

— Eu estou com um pouco de medo, tenho que confessar. Por causa daquele arco. A morte da vítima. Foi horrível.

 

— Quer esperar um pouco? Chama um dos peritos da Algonquin para entrar com você.

 

Pelo tom de voz dele, pelos intervalos entre as palavras, ela percebia que Rhyme não queria que chamasse alguém. Era uma das coisas de que gostava nele — o respeito que demonstrava, sem a proteger demais. Em casa, à mesa de jantar, na cama, as coisas eram diferentes. Ali, eles eram o perito criminal e a detetive.

 

Ela se lembrou de seu lema pessoal, herdado do pai: “Enquanto você estiver em movimento, eles não podem te pegar.”

 

Por isso, movimente-se.

 

— Não, eu estou bem.

 

Amelia Sachs deu um passo para dentro do inferno.

 

— Está vendo bem?

 

— Estou — respondeu Rhyme.

 

Sachs tinha verificado a lâmpada halógena presa a sua testa. Pequena, porém poderosa, lançava um facho brilhante na escuridão. Mesmo assim, havia vários pontos na penumbra. O interior da subestação era cavernoso, embora visto de fora o prédio parecesse menor e mais estreito, diminuído pelos edifícios altos de ambos os lados.

 

Ela sentiu os olhos e o nariz arderem por causa dos resíduos de fumaça. Rhyme fazia questão de que os examinadores das cenas cheirassem o ar: os odores podiam revelar muita coisa sobre o criminoso e a natureza do delito. Ali, no entanto, o único aroma era um odor acre, como o de borracha queimada, óleo e metal, que lembrava a Sachs o dos motores de automóvel. Lembrou-se das tardes de domingo que passava na companhia do pai, com as costas doendo, ambos debruçados sobre o motor de um Chevrolet ou de um possante Dodge, tentando reanimar os sistemas nervoso e vascular mecânicos. Outras memórias mais recentes lhe trouxeram à mente Pammy, a adolescente que havia se tornado uma sobrinha postiça, regulando o Torino Cobra junto com ela, enquanto Jackson, o cãozinho da jovem, observava pacientemente o trabalho das duas cirurgiãs, sentado na bancada de ferramentas.

 

Virando a cabeça para iluminar o trecho mais escuro com a lâmpada, ela notou diversos equipamentos enfileirados; alguns eram bege ou cinza e pareciam novos, outros eram verde-escuros e datavam do século passado, com placas metálicas que exibiam o nome do fabricante e a cidade de origem. Alguns continham endereços sem código postal, revelando a época de seu nascimento.

 

O andar térreo da estação era circular, seis metros acima do subsolo, que podia ser visto de uma plataforma com balaustrada feita de canos de metal. O piso do térreo era de concreto, mas algumas das plataformas e escadas também eram de aço.

 

Metal.

 

Uma das coisas que ela sabia a respeito de eletricidade era que o metal costuma ser um bom condutor.

 

Sachs localizou o cabo posto pelo indivíduo, que vinha da janela até um dos equipamentos que o supervisor tinha mencionado. Viu o lugar onde o criminoso provavelmente se posicionou para ligar os fios. Começou a varrer a área, dirigindo-se àquele ponto.

 

— O que é aquilo no chão? Parece alguma coisa brilhante — quis saber Rhyme.

 

— Parece graxa ou óleo — respondeu ela, com a voz falhando. — O fogo causou fissuras em algumas das máquinas, ou talvez tenha havido um segundo arco desse lado.

 

Ela notou cerca de uma dúzia de manchas circulares de queimado, que pareciam ter sido causadas por centelhas batendo nas paredes e nas máquinas em volta.

 

— Ótimo.

 

— Por quê?

 

— As pegadas devem estar bastante nítidas.

 

Era verdade. Mas, ao observar os resíduos oleosos no chão, Sachs se perguntava se o óleo também seria um bom condutor, assim como o metal e a água.

 

E onde estavam as merdas das baterias?

 

Encontrou pegadas nítidas perto da janela onde o criminoso tinha feito um buraco pelo qual passou o cabo mortífero e também perto de onde ele o havia ligado à linha da Algonquin.

 

— Podem ter sido deixadas pelos operários — comentou ela —, quando entraram depois da centelha.

 

— Bem, isso nós vamos ter que descobrir.

 

Ela e Ron Pulaski iriam tirar fotos dos calçados dos operários para compará-los às pegadas e eliminá-los como suspeitos. Mesmo que o Justice For realmente fosse responsável, o grupo poderia ter recrutado alguém da empresa para executar seus planos terroristas.

 

Porém, enquanto numerava e tirava fotos das marcas existentes, ela disse:

 

— Eu acho que são do nosso indivíduo, Rhyme. São todas iguais, e o bico do sapato é semelhante ao da marca na saliência do lado de fora.

 

— Excelente — disse Rhyme.

 

Sachs fez impressões eletrostáticas das marcas e colocou as chapas perto da porta. Depois, examinou o cabo, que era mais fino do que ela imaginava, com pouco mais de um centímetro de diâmetro. Estava encapado com algum tipo de fita isolante e era composto por fios prateados enrolados em forma de trança. Ela se surpreendeu ao ver que não eram de cobre. No total, tinha cerca de cinco metros. Estava conectado à linha principal da Algonquin por meio de parafusos de latão ou de cobre com furos de quase dois centímetros.

 

— Essa é a arma do crime? — perguntou Rhyme.

 

— Isso mesmo.

 

— É pesada?

 

Ela ergueu o cabo, tocando o pedaço revestido pela fita isolante.

 

— Não. É de alumínio.

 

Era perturbador perceber que, assim como uma bomba, uma coisa tão pequena e tão leve era capaz de causar tamanha destruição. Examinou os parafusos e as porcas, pensando nas ferramentas de que precisaria para desmontar a engenhoca. Voltou à calçada para pegar a caixa na mala do carro. Conhecia melhor as próprias ferramentas, que usava no carro e em pequenos reparos em casa, do que as que estavam na van dos peritos. As suas eram velhas amigas.

 

— Como está indo? — perguntou Pulaski.

 

— Bem — murmurou ela. — Descobriu como ele fez para entrar?

 

— Eu olhei o telhado. Não existe nenhum acesso. Mesmo que o pessoal da Algonquin diga que não, eu acho que ele deve ter entrado pelo subsolo. Vou examinar os bueiros e os porões nas proximidades. Não há caminhos óbvios, mas isso é uma boa notícia. Ele devia estar bem confiante. Se tivermos sorte, podemos encontrar alguma coisa interessante.

 

Rhyme sempre dizia aos seus subordinados que havia muitas cenas ligadas a um crime. Claro, talvez o delito em si tivesse ocorrido em apenas um lugar. Contudo, era preciso considerar as vias de entrada e de saída, que poderiam ser diferentes, e até mesmo diversas, quando eram vários criminosos envolvidos. Poderia haver lugares específicos para os preparativos ou pontos de encontro. Poderia haver um hotel onde os criminosos se reunissem para confraternizar e dividir o lucro após o crime. Nessas cenas secundárias ou terciárias, nove em cada dez vezes os criminosos se esqueciam de usar luvas ou de eliminar os vestígios. Às vezes deixavam até mesmo seus nomes e endereços.

 

Rhyme ouviu o comentário pelo microfone de Sachs e observou:

 

— Muito bem, novato. Mas não confie na sorte.

 

— Sim, senhor.

 

— E pode tirar esse sorriso do rosto. Não pense que eu não vi.

 

O rosto de Pulaski ficou sério. Ele tinha esquecido que Amelia Sachs servia de olhos, ouvidos e pernas para Rhyme. Ele se virou e se afastou para continuar a busca pelo acesso do criminoso à subestação.

 

Voltando ao interior com as ferramentas, Sachs as recobriu de fita adesiva para eliminar a contaminação por resíduos. Depois, dirigiu-se ao disjuntor, onde o cabo estava preso com os parafusos e estendeu a mão para tocar a parte de metal. Involuntariamente, a mão se deteve antes de encostar no fio. Ela olhou fixamente para o metal nu que brilhava sob a luz da lâmpada de seu capacete.

 

— Sachs? — A voz de Rhyme a sobressaltou.

 

Ela não respondeu, lembrando-se do buraco no poste, as partículas mortíferas de aço derretido, os ferimentos no corpo da jovem vítima.

 

As linhas estão desligadas...

 

E se ela colocasse a mão no metal e alguém a dois ou três quilômetros dali tivesse resolvido religá-las? Se alguém ligasse uma chave, sem saber que a busca por evidências no local estava em curso?

 

E onde estavam as merdas das baterias?

 

— Precisamos das evidências — disse Rhyme.

 

— Certo.

 

Ela cobriu a ponta da chave inglesa com um pedaço de náilon para que a ferramenta não deixasse marcas que se confundissem com as do criminoso nas porcas e nos parafusos. Sachs hesitou por um instante, mas logo se curvou e ajustou a chave em torno do primeiro parafuso. Soltou-o com certo esforço, trabalhando com rapidez e esperando a cada momento sentir a dor de uma queimadura, embora suspeitasse que não fosse sentir nada ao ser eletrocutada com uma voltagem tão elevada.

 

Ela afrouxou o segundo parafuso e puxou o cabo, envolvendo-o em uma capa de plástico. Os parafusos e as porcas foram colocados em um saco de evidências. Sachs deixou o material do lado de fora da subestação para que Pulaski ou os técnicos o recolhessem e prosseguiu na busca. Olhando para o chão, viu outras marcas que pareciam semelhantes às pegadas que ela acreditava ser do indivíduo.

 

Inclinou a cabeça.

 

— Você está me fazendo ficar tonto, Sachs.

 

— O que foi isso? — perguntou para si mesma e para Rhyme.

 

— Ouviu alguma coisa?

 

— Sim. Você também?

 

— Se tivesse ouvido, eu não perguntaria.

 

Parecia ser algo tamborilando. Ela caminhou até o centro da subestação e olhou por cima da balaustrada para a escuridão lá embaixo.

 

Seria imaginação sua?

 

Não, o som era inconfundível.

 

— Agora eu estou ouvindo — avisou Rhyme.

 

— Vem lá de baixo, do porão.

 

Era uma batida regular, não parecia produzida por um ser humano.

 

Seria o tique-taque de um detonador?, pensou ela. Talvez fosse uma armadilha, imaginou. O criminoso era esperto. Sabia que uma equipe de peritos faria uma varredura completa na subestação. Poderia querer impedi-los. Sachs fez esses comentários para Rhyme.

 

— Mas, se ele colocou uma armadilha, por que não fez isso perto do cabo? — questionou.

 

Ambos chegaram à mesma conclusão, mas foi Rhyme quem falou.

 

— Porque no porão existe alguma ameaça maior a ele. — Em seguida, Rhyme observou: — Mas se a energia está desligada o que está causando o barulho?

 

— O intervalo não parece ser de um segundo, Rhyme. Talvez não seja um dispositivo de tempo. — Sachs examinava a escuridão por cima da balaustrada, tendo cuidado para não tocar no metal.

 

— Está escuro. Não consigo ver bem — falou Rhyme.

 

— Vou descobrir o que é.

 

Ela começou a descer a escada em espiral.

 

Uma escada de metal.

 

Três, cinco, sete metros. Fachos de luz da lâmpada halógena passavam a esmo pelas paredes do porão, mas apenas nas partes superiores. Embaixo, tudo estava na escuridão. Os resíduos de fumaça ainda eram espessos. A respiração de Sachs estava ofegante e ela se esforçava para não engasgar. Ao se aproximar da base, dois andares abaixo do pavimento térreo, era difícil ver qualquer coisa. O reflexo da luz da lanterna do capacete voltava aos seus olhos. Mesmo assim, era a única fonte de luz de que dispunha, e ela virava a cabeça de um lado para o outro, observando as caixas, as engrenagens, os fios e os painéis que recobriam as paredes.

 

Sachs hesitou, apalpando a arma, e desceu o último degrau.

 

Ela se sobressaltou quando um arrepio percorreu seu corpo.

 

— Sachs! O que foi?

 

Ela não havia percebido que o chão estava coberto com mais de meio metro de água salobra. A fumaça tinha impedido que ela visse.

 

— É água, Rhyme. Eu não esperava isso. E olha — disse ela, jogando o facho de luz em um cano que pingava.

 

O barulho vinha dali. Não era uma batida, e sim água gotejando. Em uma subestação elétrica, a água era um elemento incongruente — e tão perigoso que ela não havia imaginado que fosse a causa do ruído.

 

— Foi resultado da explosão?

 

— Não. Ele abriu um buraco, Rhyme. Estou vendo daqui. Dois buracos. E a água também está escorrendo pela parede. Por isso está enchendo o porão.

 

Água não conduzia eletricidade tão bem quanto metal?, pensou Sachs, vendo-se de pé em meio a uma grande poça, com uma variedade de fios, chaves e conexões acima de uma placa que dizia:

 

PERIGO: 138.000 VOLTS

 

A voz de Rhyme a assustou.

 

— Ele está inundando o porão para destruir pistas.

 

— Isso.

 

— Sachs, o que é aquilo? Não consigo ver direito. Aquela caixa grande. À direita... Ali. O que é?

 

Finalmente...

 

— É a bateria, Rhyme. A bateria de reserva.

 

— Está carregada?

 

— Eles disseram que sim, mas não sei...

 

Caminhando dentro da água, ela se aproximou. Um mostrador na bateria indicava que, de fato, estava carregada. A agulha passava de cem por cento. Em seguida, Sachs se lembrou de outra coisa que o pessoal da Algonquin tinha dito: não devia se preocupar porque os bornes estariam cobertos com capas isolantes.

 

No entanto, não estavam. Ela sabia como eram as capas de bornes de baterias, e naquela não havia nenhuma. Os dois terminais de metal, ligados a cabos grossos, estavam expostos.

 

— A água está subindo. Em poucos minutos vai chegar aos terminais.

 

— Tem corrente suficiente para produzir uma combustão como a outra?

 

— Eu não sei, Rhyme.

 

— Tem que ter — murmurou. — Ele vai usar uma combustão para destruir alguma coisa que nos levaria a ele. Algo que não teve como levar consigo nem destruir enquanto estava aí. É possível fechar o fluxo de água?

 

Ela olhou em volta.

 

— Não vejo registros... Espera um minuto. — Continuou observando o porão. — Não vejo o que ele poderia querer destruir.

 

Naquele momento, porém, ela reparou que por trás da bateria, a cerca de um metro e vinte do chão, havia uma porta de acesso. Não era muito grande; tinha pouco mais de sessenta centímetros de lado.

 

— Ali, Rhyme. Foi por ali que ele entrou.

 

— Deve ter um esgoto ou um túnel de serviço do outro lado. Mas deixa para lá. Pulaski pode investigar vindo pela rua. Você precisa sair daí.

 

— Não, Rhyme. Olha a abertura. É realmente estreita. Ele teria que se esgueirar por ela. Deve ter alguma pista ali. Fibras, cabelos, talvez DNA. Por que outro motivo ele tentaria destruir a passagem?

 

Rhyme hesitava. Sabia que ela tinha razão quanto à necessidade de preservar as evidências, mas não queria que Sachs fosse vítima de um novo arco elétrico.

 

Ela se aproximou da abertura. Mas, ao caminhar, uma pequena onda se elevou com o movimento das pernas e quase cobriu a bateria.

 

Ela parou de imediato.

 

— Sachs!

 

— Shh! — Ela tinha que se concentrar. Movimentando-se devagar, conseguiu manter a água abaixo da fonte de energia, mas sabia que em poucos minutos ela cobriria os bornes.

 

Começou a retirar a moldura da porta com uma chave de fenda.

 

A água já estava perto do topo da bateria. Cada vez que ela se curvava para chegar mais perto da porta, outra onda se formava e a água se aproximava da parte superior da bateria, antes de recuar.

 

A voltagem da bateria certamente era menor que a da linha de mais de cem mil volts que havia produzido o arco do lado de fora, mas o indivíduo provavelmente não precisava provocar um grande dano ali dentro. Queria apenas causar uma explosão poderosa o suficiente para destruir a porta de acesso e as evidências que pudesse conter.

 

Sachs queria levar a porta consigo.

 

— Sachs? — sussurrou Rhyme.

 

Ela não lhe deu atenção. Tampouco pensou nos ferimentos cauterizados na carne da vítima, nas lágrimas de aço derretido...

 

Finalmente, o último parafuso se soltou. A tinta antiga ainda mantinha a moldura da porta no lugar. Ela usou a chave de fenda como alavanca, enfiando a ponta na base da moldura. Com um estalo, o metal se soltou em suas mãos. A porta e a moldura eram mais pesadas do que ela imaginava, e Sachs quase as deixou cair. Conseguiu se endireitar sem provocar um tsunami por cima da bateria.

 

Pela abertura, viu o estreito túnel de serviço que o suspeito devia ter usado para entrar na subestação.

 

— Entra no túnel! Você vai ficar em segurança. Rápido! — murmurou Rhyme, com urgência na voz.

 

— Eu estou tentando!

 

Mas a porta não passava pela abertura, nem mesmo na diagonal, porque a moldura ainda estava presa nela.

 

— Eu não consigo passar — avisou ela, explicando a situação. — Vou voltar pela escada.

 

— Não, Sachs! Deixa a porta. Entra no túnel.

 

— É uma pista boa demais.

 

Segurando a porta com ambas as mãos, ela iniciou a fuga, caminhando dentro da água em direção à escada e olhando para trás de vez em quando, vigiando a bateria. Seus movimentos eram extremamente lentos. Mesmo assim, cada passo provocava uma nova onda que quase atingia os terminais da bateria.

 

— O que está acontecendo, Sachs?

 

— Estou quase lá — murmurou ela, como se falar em voz mais alta pudesse criar uma turbulência na água.

 

Já estava na metade do percurso quando a água subiu mais um pouquinho e cercou os terminais.

 

Não houve centelha.

 

Nada.

 

Ela relaxou os ombros, o coração batendo forte.

 

— É um alarme falso, Rhyme. Não precisamos nos preocup...

 

Um clarão de luz branca encheu seu campo de visão, acompanhado de um estrondo. Amelia Sachs foi lançada para trás, abaixo da superfície daquele oceano cinzento.

 

— Thom!

 

O ajudante entrou correndo na sala, observando Rhyme cuidadosamente.

 

— O que foi? O que está sentindo?

 

— Não é nada comigo — disse o chefe abruptamente, de olhos arregalados, acenando com a cabeça para a tela em branco. — Amelia... estava na cena do crime. Uma bateria... Houve outro arco. O áudio e o vídeo apagaram. Chame Pulaski! Chame alguém!

 

Os olhos de Thom Reston mostravam preocupação, mas já fazia muito tempo que ele praticava a arte da enfermagem. Por maior que fosse a crise, executaria com frieza as tarefas necessárias. Pegou um telefone fixo calmamente, observou a lista de números e apertou um botão de chamada direta.

 

O pânico não reside nos intestinos nem corre pela espinha como... bem, como a eletricidade em um fio carregado de energia. O pânico sacode o corpo e a alma por toda parte, ainda que esse corpo não sinta nada. Rhyme estava furioso consigo mesmo. Devia ter mandado Sachs sair no momento em que ambos viram a bateria e a maré montante. Isso sempre acontecia: ele ficava tão focado no caso, no objetivo, na busca por um pedaço de fibra, por um fragmento de pegada, qualquer coisa que o aproximasse do criminoso, que esquecia as consequências — brincava com vidas humanas.

 

O exemplo era sua própria condição física. Tinha sido capitão do Departamento de Polícia de Nova York, diretor de Recursos Investigativos, e fazia pessoalmente a busca na cena de um crime, abaixando-se para recolher uma fibra em um cadáver, quando uma trave desabou sobre si, mudando para sempre sua vida.

 

E, agora, essa mesma atitude que ele havia instilado em Amelia Sachs poderia ter resultado em algo ainda pior. Ela poderia estar morta.

 

Thom tinha conseguido fazer a ligação.

 

— Com quem? — quis saber Rhyme, encarando o ajudante. — Com quem você está falando? Ela está bem?

 

Thom levantou uma das mãos.

 

— O que significa isso? O que diabo isso pode significar?

 

Rhyme sentiu o suor escorrer pela testa. Percebeu que tinha ficado ofegante. O coração batia forte, embora ele o sentisse no queixo e no pescoço, e não no peito, claro.

 

Thom falou:

 

— É Ron. Ele está na subestação.

 

— Eu sei onde ele está! Que merda. O que está acontecendo?

 

— Houve... um incidente. É o que eles estão dizendo.

 

Incidente...

 

— Onde Amelia está?

 

— Estão procurando. Tem gente lá dentro. Ouviram uma explosão.

 

— Eu sei que houve uma explosão. Eu vi! Que merda!

 

Os olhos do ajudante se voltaram para Rhyme.

 

— Você... Como você está se sentindo?

 

— Para de perguntar isso. O que está acontecendo na subestação?

 

Thom continuou a fitar o rosto de Rhyme.

 

— Você está muito nervoso.

 

— Eu estou bem — respondeu o perito criminal, com calma, para que Thom se concentrasse no telefone. — De verdade.

 

O ajudante se virou para o lado, e Rhyme viu, horrorizado, que ele contraía os músculos do corpo, levantando ligeiramente os ombros.

 

Não...

 

— OK — disse Thom, ao telefone.

 

— OK o quê? — perguntou abruptamente.

 

Thom não deu atenção ao chefe.

 

— Pode passar a informação. — Mantendo o telefone preso entre o pescoço e o ombro, começou a digitar no teclado do computador principal do laboratório.

 

A tela se iluminou.

 

Rhyme tinha deixado de fingir calma e estava prestes a perder completamente o controle quando surgiu na tela a imagem de Amelia Sachs, aparentemente sem ferimentos, embora encharcada. Mechas de cabelo ruivo escondiam seu rosto, que parecia o de um mergulhador coberto de algas.

 

— Lamento, Rhyme, perdi a câmera quando mergulhei — disse ela, num acesso de tosse. Enxugou a testa com a mão e depois olhou para os dedos com ar de nojo. Ela se mexia desajeitadamente.

 

O alívio tomou o lugar do pânico, ainda que Rhyme continuasse furioso consigo mesmo.

 

Sachs o encarava de um jeito sombrio, seus olhos concentrados apenas na direção dele.

 

— Estou usando a câmera de um dos laptops da Algonquin. Você está me vendo bem?

 

— Vejo, vejo sim. Mas você está bem?

 

— Eu só engoli um pouco daquela água nojenta pelo nariz. Mas estou bem.

 

— O que aconteceu? O arco elétrico...

 

— Não era um arco elétrico. A bateria não tinha sido preparada para isso. O homem da Algonquin me disse que não tinha voltagem suficiente. O que o indivíduo desconhecido fez foi uma bomba. Parece que é possível fazer isso com as baterias fechando os respiradores e deixando que elas sobrecarreguem. Isso produz gás de hidrogênio. Quando a água atinge os terminais, provoca um curto-circuito que inflama o hidrogênio. Foi isso o que aconteceu.

 

— Os médicos examinaram você?

 

— Não, não foi preciso. A explosão fez barulho, mas não foi muito forte. Alguns pedaços de plástico me acertaram, porém não me feriram. O impacto me derrubou, mas consegui manter a porta acima da água. Acho que não ficou muito contaminada.

 

— Que bom, Ame... — A voz de Rhyme vacilou. Por alguma razão, anos antes, ambos adotaram uma superstição de forma tácita: nunca usavam o primeiro nome. Ele ficou preocupado por quase tê-lo feito. — Ótimo. Então foi por lá que ele entrou.

 

— Deve ter sido.

 

Só então Rhyme percebeu que Thom se encaminhava até uma das paredes. O ajudante pegou o aparelho de medir a pressão e o enrolou no braço do perito criminal.

 

— Não faça isso...

 

— Silêncio — disse Thom, fazendo-o se calar. — Você está agitado e transpirando muito.

 

— Por causa da merda do incidente na cena do crime, Thom.

 

— Você está com dor de cabeça?

 

Rhyme estava, mas disse que não.

 

— Não mente.

 

— Só um pouquinho. Não é nada.

 

Thom bateu com o estetoscópio no braço dele.

 

— Desculpa, Amelia. Eu preciso que ele fique quieto durante trinta segundos.

 

— Claro.

 

Rhyme ia começar a protestar novamente, mas depois achou que, quanto mais rápido o deixasse medir a pressão, mais rápido poderia voltar ao trabalho.

 

Sem sensibilidade no braço, observou a borracha inflando. Thom esgotou o ar do esfigmomanômetro, abrindo o velcro.

 

— A pressão está alta. Não quero que suba mais. Tenho que cuidar de outras coisas agora.

 

Era um eufemismo para o que Rhyme costumava descrever objetivamente como “merda e mijo”.

 

— O que está acontecendo aí, Thom? Está tudo bem? — perguntou Sachs.

 

— Está — respondeu Rhyme, esforçando-se para manter a voz calma, escondendo o fato de que se sentia estranhamente vulnerável, embora não soubesse atribuir esse sentimento ao acidente quase fatal ou à própria condição emocional.

 

Além disso, sentia-se também um tanto sem jeito.

 

— A pressão subiu um pouco. Quero que ele pare de falar ao telefone — disse Thom.

 

— Vou levar as evidências, Rhyme. Daqui a mais ou menos meia-hora estaremos aí.

 

Thom ia desligar o telefone, mas Rhyme, de repente, sentiu uma espécie de toque na cabeça — cognitivo, não físico.

 

— Espera! — exclamou. Era uma ordem, tanto para Thom quanto para Sachs.

 

— Lincoln... — protestou o ajudante.

 

— Por favor, Thom. Só dois minutos. É importante.

 

Embora suspeitasse daquele apelo delicado, Thom concordou, relutante.

 

— Ron estava procurando o lugar por onde o criminoso entrou no túnel, não é?

 

— Isso mesmo.

 

— Ele está aí?

 

A imagem de Sachs fez uma volta, com movimentos bruscos.

 

— Sim.

 

— Ponha-o na câmera.

 

Ele ouviu Sachs chamar o policial. No momento seguinte, ele já aparecia na tela do monitor.

 

— Pronto, senhor.

 

— Descobriu por onde ele entrou no túnel atrás da subestação.

 

— A-hã.

 

— A-hã? Parece que você está pigarreando, novato.

 

— Desculpa. Eu descobri, sim.

 

— Onde fica?

 

— Tem um bueiro da Algonquin em um beco perto daqui. Servia para acessar a tubulação de vapor. Não levava à subestação. Mas, depois de uns seis metros, encontrei uma grade. Alguém a tinha cortado, abrindo uma passagem larga o suficiente para se esgueirar. Foi colocada de volta no lugar, mas vi que tinha sido cortada.

 

— Recentemente?

 

— Sim.

 

— Você viu se as pontas não estavam enferrujadas?

 

— Isso mesmo. A passagem dava para aquele túnel. Era muito antiga. Talvez servisse para despejar carvão, há muitos anos. Era o que passava pela porta de acesso que Amelia retirou. Eu estava dentro do túnel e vi a luz quando ela soltou a porta. Ouvi o estrondo da explosão e o grito dela. Continuando pelo túnel, cheguei rapidamente até onde ela estava.

 

Rhyme abandonou o tom rude.

 

— Obrigado, Pulaski.

 

Era um momento embaraçoso. Os elogios de Rhyme eram tão raros que as pessoas pareciam não saber muito bem como recebê-los.

 

— Tive cuidado para não contaminar demais a cena.

 

— Para salvar vidas, pode contaminar à vontade. Lembre-se disso.

 

— Claro.

 

— Você examinou o acesso ao bueiro e a grade cortada? O túnel também? — continuou o perito criminal.

 

— Sim, senhor.

 

— Alguma coisa importante?

 

— Só pegadas. Mas recolhi alguns resíduos.

 

— Vamos ver o que podem nos revelar.

 

Thom sussurrou, com firmeza:

 

— Lincoln?

 

— Só mais um minuto. Agora preciso que você faça outra coisa, novato. Está vendo aquele restaurante ou café, do outro lado da rua, em frente à subestação?

 

O policial olhou para a direita.

 

— Estou vendo... Espera, como você sabia que tem um restaurante aqui?

 

— Ora, pelas minhas caminhadas pelo local — disse Rhyme, contendo o riso.

 

— Eu... — O jovem agente estava atrapalhado.

 

— Eu sei porque tem que ter alguma coisa assim. Nosso indivíduo precisava observar a subestação para atacá-la. Não podia ser um quarto de hotel, porque teria que preencher o registro, nem algum escritório, porque despertaria suspeitas. Tinha que ser um lugar onde pudesse ficar à vontade.

 

— Entendi. Quer dizer que ele se diverte vendo os fogos de artifício que criou.

 

Já não era mais hora de elogios.

 

— Meu Deus, novato, você já está traçando um perfil. Sabe qual é minha opinião a respeito de perfis?

 

— Bem, você não é exatamente um entusiasta, Lincoln.

 

Rhyme viu a imagem de Sachs atrás de Pulaski, sorrindo.

 

— Ele precisava ver como estava funcionando o dispositivo que tinha armado. O que criou foi algo extraordinário. Era um tiro de canhão com eletricidade, que ele não podia ter testado em outro lugar. Era preciso fazer ajustes na voltagem e nos disjuntores ao longo dos preparativos. Ele tinha que se certificar de que a descarga ocorreria no exato momento em que o ônibus chegasse. Ele começou a manipular o computador de controle da rede de distribuição às onze e meia, e em dez minutos tudo já tinha terminado. Vá falar com o gerente do restaurante...

 

— É um café.

 

—... do café, e veja se alguém estava lá dentro, perto de alguma janela, por um tempo antes da explosão. Ele deve ter saído pouco antes de a polícia e os bombeiros chegarem. E também verifique se eles têm banda larga e qual é o provedor.

 

Thom, já com luvas de borracha, fazia gestos impacientes.

 

O mijo e a merda...

 

— Vou fazer isso, Lincoln — disse Pulaski.

 

— E também...

 

— Vou mandar fechar o restaurante para fazer uma varredura na área.

 

— Exatamente, novato. Depois, vocês dois corram para cá, depressa.

 

Com um tremor de um de seus dedos úteis, Rhyme desligou, um milissegundo antes que Thom fizesse o mesmo.

 

Fred Dellray pensava na nuvem.

 

Lembrava-se da palestra que o agente especial Tucker McDaniel tinha dado aos seus subordinados sobre o tema que pouco antes havia abordado no laboratório de Rhyme: os novos métodos de comunicação dos criminosos e o fato de que o progresso acelerado da tecnologia vinha tornando as coisas mais fáceis para eles e mais difíceis para nós.

 

A nuvem...

 

Naturalmente, Dellray compreendia o conceito. Não era possível hoje em dia trabalhar do lado da lei e não conhecer as ideias de McDaniel sobre como descobrir e prender criminosos. Mas isso não significava que ele gostasse delas. Não gostava nem um pouco, em grande parte pelo que aquela expressão significava: era um símbolo de mudanças fundamentais, talvez cataclísmicas, na vida de todos.

 

Mudanças em sua própria vida, também.

 

No metrô, a caminho do centro da cidade naquela tarde clara, Dellray se lembrava do pai, professor no Marymount Manhattan College e autor de diversos livros sobre filósofos e críticos culturais norte-americanos de origem africana. Ele tinha se dedicado a estudos acadêmicos aos 30 anos e nunca mais tivera outra ocupação. Havia morrido na mesma escrivaninha que durante décadas tinha considerado como seu lar, desabando sobre as provas tipográficas da revista que fundara quando o assassinato de Martin Luther King ainda era recente na lembrança do mundo.

 

Durante a vida do pai, a política havia mudado drasticamente — o fim do comunismo, a ruptura da segregação racial, o surgimento de inimigos não estatais. Os computadores substituíram as máquinas de escrever e as bibliotecas. Os carros passaram a ter airbags. Os canais de TV se multiplicaram, passando de quatro — além do UHF — para centenas. Pouquíssimo, porém, havia mudado fundamentalmente na vida dele. O pai de Dellray tinha prosperado em seu próprio mundo acadêmico isolado, principalmente no campo da filosofia. Desejara muito que o filho seguisse seu exemplo, estudando a natureza da existência e a condição humana. Ele procurara instilar no filho o amor por esses mesmos temas.

 

Até certo ponto, tinha conseguido. O jovem Fred, questionador, brilhante e perceptivo, havia se sentido realmente fascinado pela humanidade em todas as suas encarnações: metafísica, psicológica, teológica, epistemológica, ética e política. Adorava tudo isso, mas bastou um mês como pesquisador assistente para perceber que enlouqueceria se não utilizasse seu talento de forma prática.

 

Sua audácia fez com que buscasse a aplicação prática da filosofia mais crua e intensa que foi capaz de imaginar.

 

Ele entrou para o FBI.

 

Mudança...

 

O pai se reconciliou com a deserção do filho, e ambos compartilharam cafés e longas caminhadas no Prospect Park, durante as quais chegaram ao entendimento de que, embora usassem laboratórios e técnicas diferentes, suas visões e percepções eram as mesmas.

 

A condição humana... observada e transformada em texto pelo pai, vivida em primeira mão pelo filho.

 

Em seu trabalho como policial infiltrado, a intensa curiosidade e as percepções de Fred sobre a natureza humana o transformaram em um homem capaz de incorporar qualquer personagem. Ao contrário da maioria dos policiais infiltrados, cuja capacidade de atuação e repertório eram limitados, Dellray podia realmente se transformar nas pessoas que representava.

 

Certa vez, disfarçado de sem-teto nas ruas de Nova York, perto do edifício que abriga as repartições federais, o homem que na época era agente especial assistente no escritório do FBI em Manhattan — na verdade, o chefe de Dellray — passou por ele e jogou uma moeda de vinte e cinco centavos, sem o reconhecer.

 

Foi um dos melhores elogios que Dellray já recebeu.

 

Era um camaleão. Em uma semana personificava um drogado desesperado por metanfetamina. Na seguinte, um diplomata da África do Sul querendo vender segredos nucleares. Depois, auxiliar de um imame somali que odiava os Estados Unidos e sabia uma centena de citações do Corão.

 

Possuía dezenas de trajes, adquiridos ou montados por ele mesmo, que agora enchiam o porão da casa que havia comprado com Serena há alguns anos, no Brooklyn. Tinha avançado na carreira, o que era inevitável para alguém com sua vontade, habilidade e absoluta falta de desejo de apunhalar os colegas pelas costas. Atualmente, sua principal atividade era coordenar outros agentes secretos do FBI e informantes confidenciais — também conhecidos como delatores —, embora de vez em quando ainda fizesse trabalhos de campo, atividade da qual continuava a gostar como antes.

 

Mas aí veio a mudança.

 

A nuvem...

 

Dellray não deixava de perceber que tanto os mocinhos quanto os bandidos iam ficando mais espertos e mais tecnológicos. A mudança era óbvia: HUMINT — os frutos da coleta de inteligência por meio do contato entre seres humanos — cedia espaço à SIGINT.

 

No entanto, ele simplesmente não se sentia à vontade diante desse fenômeno. Quando jovem, Serena havia tentado ser cantora de baladas românticas. Tinha talento para todas as formas de dança, do balé ao jazz e à dança moderna, mas simplesmente não possuía capacidade para ser cantora. O mesmo acontecia com Dellray no novo trabalho policial por meio de dados, números, tecnologia.

 

Continuou trabalhando com seus delatores e como policial infiltrado, obtendo bons resultados. Mas, na companhia de McDaniel e sua equipe de tecnologia e comunicações, o velho Dellray se sentia, como dizer, velho. O chefe atual era incansável, trabalhando sessenta horas por semana, além de ser destemido dentro do departamento. Se fosse preciso, defenderia seus homens até contra o presidente da República. Além disso, suas técnicas davam certo: na semana anterior, o pessoal de McDaniel tinha recolhido, por meio de ligações codificadas, detalhes suficientes para descobrir uma célula fundamentalista nos arredores de Milwaukee.

 

O recado a Dellray e aos agentes mais velhos era claro: seu tempo já passou.

 

Ainda se ressentia do golpe, provavelmente involuntário, desferido na reunião no laboratório de Rhyme.

 

Bem, continue assim, Fred. Você está fazendo um bom trabalho.

 

Ou seja, ele nem esperava que você descobrisse pistas que os levassem ao Justice For e a Rahman.

 

Talvez McDaniel estivesse certo em suas críticas. Afinal, Dellray tinha em mãos uma boa rede de informantes para acompanhar atividades terroristas. Encontrava-se regularmente com eles e os manipulava como podia, protegendo os mais temerosos, consolando os que tinham remorsos, pagando bem aos que viviam de dar informações e pressionando impiedosamente os que, como a avó de Dellray costumava dizer, tinham ficado metidos demais.

 

Mas em todas as informações que tinha conseguido sobre planos terroristas, até mesmo embrionários, nada havia sobre o Justice For nem sobre a merda daquela centelha.

 

E aí o pessoal de McDaniel identificou a ameaça sem nem levantar a bunda da cadeira.

 

Sabe os drones no Oriente Médio e no Afeganistão? Os pilotos ficam em uma base em Colorado Springs ou em Omaha.

 

Dellray também tinha outra preocupação, que havia surgido mais ou menos junto com o jovem McDaniel: talvez já não fosse tão competente quanto antes.

 

Rahman poderia ter estado debaixo do seu nariz. Os membros da célula do Justice For poderiam ter estudado engenharia elétrica no Brooklyn ou em Nova Jersey, assim como os sequestradores do 11 de Setembro estudaram aviação.

 

Outra coisa: precisava confessar que ultimamente andava um pouco distraído. Tinha a ver com sua outra vida, como ele dizia, a vida com Serena, que ele mantinha tão distante das ruas quanto uma chama da gasolina. Era uma coisa muito importante: Dellray se tornara pai. Serena tinha tido um filho no ano anterior. Ambos debateram o assunto e ela fez questão de que, mesmo depois do nascimento da criança, o marido não mudasse de atividade, ainda que isso acarretasse alguns perigos como agente secreto. Ela compreendia que o trabalho o definia, assim como a dança definia a si mesma, e passar a trabalhar dentro de um escritório poderia ser ainda mais perigoso para ele.

 

Mas a paternidade o teria mudado como agente? Dellray ansiava por levar Preston a um parque ou a uma loja, dar comida ao garoto, ler para ele. (Serena tinha ido ao quarto do menino, rido e suavemente tirado das mãos de Dellray o manifesto existencialista de Kierkegaard, Temor e tremor, substituindo-o por um livro infantil. Dellray não havia percebido a importância das palavras, mesmo naquela tenra idade.)

 

O metrô parou em Greenwich Village e muitos passageiros entraram.

 

Instintivamente, seu faro de agente secreto percebeu quatro pessoas interessantes: duas que muito provavelmente eram batedoras de carteira, um rapazinho armado com uma faca e um jovem executivo suado que apertava um dos bolsos com a mão, numa atitude protetora tão firme que poderia rasgar o pacote de cocaína que trazia oculto.

 

As ruas... Fred Dellray adorava as ruas.

 

Mas aqueles quatro nada tinham a ver com sua missão e por isso ele os deixou escapar de sua percepção, conforme disse a si mesmo: Bem, você se deu mal. Não achou Rahman e não achou o Justice For. No entanto, as perdas e os danos eram mínimos. McDaniel tinha sido condescendente, mas não transformou você num bode expiatório, pelo menos por enquanto. Outro chefe poderia ter feito isso em um segundo.

 

Dellray ainda poderia encontrar alguma pista para identificar o indivíduo e detê-lo antes que acontecesse outro ataque terrível como aquele. Ainda poderia se redimir.

 

Ele desceu na parada seguinte do metrô e caminhou para o leste. Em pouco tempo chegou a um trecho onde havia bodegas e prédios residenciais baratos, clubes de má fama, restaurantes rançosos, empresas de táxi com funcionários que falavam espanhol, árabe ou farsi. Não eram profissionais liberais ativos como no West Village; ali, as pessoas não se movimentavam muito, simplesmente permaneciam sentadas, na maioria homens, em cadeiras desconjuntadas ou em degraus na entrada das casas; os mais jovens eram esbeltos, os mais velhos, gordos. Todos observavam com cautela.

 

Era ali que se fazia o verdadeiro trabalho de rua. Ali ficava o escritório de Fred Dellray.

 

Caminhou até a vitrine de um café e olhou para dentro com certa dificuldade, porque fazia meses que o vidro tinha sido limpo pela última vez.

 

Sim, ali estava. Viu o que poderia ser sua ruína ou sua salvação.

 

Sua última oportunidade.

 

Encostando um calcanhar no outro para ter certeza de que a pistola presa à perna não tinha saído do lugar, abriu a porta e entrou.

 

— Como você está se sentindo? — perguntou Sachs ao entrar no laboratório.

 

Rhyme deu uma resposta seca:

 

— Muito bem. Onde estão as evidências?

 

Aparentemente, as duas frases foram ditas sem pontuação.

 

— Os técnicos e Ron estão trazendo. Eu vim sozinha no Cobra.

 

Ele entendeu que Sachs tinha vindo dirigindo feito uma louca.

 

— E você, como está? — perguntou Thom.

 

— Molhada.

 

Não precisava dizer. Os cabelos dela estavam secando, mas as roupas ainda continuavam encharcadas. O estado dela não era um problema. Todos sabiam que estava bem. Isso já tinha sido informado antes. Rhyme havia ficado abalado naquele momento, mas agora ela estava bem e ele queria começar a trabalhar nas evidências.

 

Mas isso não é o mesmo que dizer que existe quarenta e cinco por cento de chance de que alguma outra pessoa na cidade de Nova York corre o risco de ser eletrocutada? E de que isso poderia estar acontecendo nesse instante?

 

— Bem, onde estão...?

 

— O que aconteceu? — perguntou ela a Thom, olhando para Rhyme.

 

— Eu já disse que estou bem.

 

— Estou perguntando a ele.

 

Sachs também tinha temperamento forte.

 

— Ele estava com a pressão alta. Bastante.

 

— Mas agora não está, não é, Thom? — disse Lincoln Rhyme, com teimosia. — Está ótima, bem normal. É como dizer que os russos mandaram mísseis para Cuba. Aquilo foi um problema. Mas, como Miami não virou uma cratera radioativa, creio que a situação já tenha se resolvido, não é mesmo? Está no passado. Chame Pulaski e os técnicos do Queens. Eu quero as evidências.

 

O ajudante não lhe deu atenção e disse a Sachs:

 

— Ele não precisou de medicação, mas estou atento.

 

Ela fitou Rhyme mais uma vez e disse que ia subir para trocar de roupa.

 

— Algum problema? — perguntou Lon Sellitto, que tinha chegado da cidade alguns minutos antes. — Você não está se sentindo bem, Linc?

 

— Meu Deus do céu — cuspiu Rhyme. — Vocês estão surdos? Estão me ignorando? — Então se virou para a porta. — Ah, finalmente. Chegou mais um. Que merda, Pulaski, pelo menos você está sendo produtivo. O que temos aí?

 

O jovem policial, outra vez uniformizado, trazia caixas que encarregados da perícia costumam usar para transportar evidências.

 

No momento seguinte, dois técnicos da sede do Queens trouxeram um objeto envolto num plástico volumoso: o cabo. Era a arma mais estranha que Rhyme já tinha visto em um caso. Era também uma das mais mortíferas. Eles também carregavam a porta de acesso ao porão da subestação, igualmente embrulhada em plástico.

 

— Pulaski? E o café?

 

— O senhor tinha razão. Eu trouxe algumas coisas de lá.

 

O perito criminal ergueu uma sobrancelha para mostrar ao policial que o tratamento cerimonioso não era necessário. Rhyme era capitão aposentado do Departamento de Polícia de Nova York. O direito dele de ser chamado formalmente de “senhor” não era maior que o de qualquer outra pessoa na rua. Vinha tentando fazer com que Pulaski deixasse de lado a insegurança que, às vezes, transparecia por causa da juventude, claro. Existia, porém, outro aspecto. O jovem policial tinha sofrido uma grave lesão na cabeça no primeiro caso em que ambos trabalharam juntos. Isso quase acarretou o fim de sua carreira na polícia, mas ele havia continuado na corporação, apesar do ferimento e dos consequentes surtos de confusão e desorientação que ainda o assaltavam ocasionalmente. (A decisão de permanecer na polícia tinha sido em grande parte inspirada pela determinação de Rhyme em fazer o mesmo.)

 

Dando sequência ao seu projeto de transformar Pulaski em um agente de primeira linha, a coisa mais importante que Rhyme precisava instilar no rapaz era um ego à prova de bala. Pode-se ter todos os dotes do mundo, mas eles serão inúteis se não tiver coragem de sustentá-los. Antes de morrer, ele queria ver Pulaski subir na hierarquia dos peritos criminais da cidade de Nova York. Ele sabia que isso poderia acontecer. Sua esperança era que Pulaski e Sachs comandassem juntos aquela unidade. Seria o legado de Rhyme.

 

Ele agradeceu aos técnicos ao vê-los se retirarem com cumprimentos respeitosos e expressões que pareciam indicar a tentativa de memorizar como era o laboratório. Não eram muitos que iam até ali para ver Rhyme em pessoa. Ele ocupava um lugar especial na hierarquia do Departamento de Polícia de Nova York. Tinha ocorrido uma mudança recente e o diretor da Unidade de Criminalística havia sido transferido para o município de Dade, em Miami. Agora, vários detetives graduados comandavam as operações até que um novo diretor fosse designado. Havia até mesmo rumores de que Rhyme poderia voltar.

 

O subchefe da polícia conversara com ele a respeito, mas Rhyme tinha dito que poderia ter problemas no teste para assumir o cargo. O exame de capacidade física exigia que os candidatos completassem um percurso com obstáculos num tempo determinado: correr até um muro de um metro e oitenta e passar por cima dele, dominar um bandido falso, subir escadas correndo, arrastar um manequim de oitenta quilos para um lugar seguro e puxar o gatilho da arma dezesseis vezes com a mão hábil e quinze com a outra.

 

Rhyme recusou o convite, explicando ao funcionário que veio visitá-lo que jamais passaria nesse teste. Talvez fosse capaz de saltar a barreira se ela tivesse um metro e meio. Mesmo assim, ficou lisonjeado com o interesse.

 

Sachs voltou ao primeiro andar vestindo jeans e um suéter azul-claro por dentro da calça, com os cabelos lavados e ainda úmidos presos num rabo de cavalo e amarrados com um elástico.

 

Nesse momento, Thom foi atender à porta e outra figura surgiu no vestíbulo.

 

O homem magro cujo aspecto reservado fazia com que ele parecesse um contador ou um vendedor de meia-idade era Mel Cooper, que, na opinião de Rhyme, era um dos melhores técnicos de laboratório de criminalística do país. Tinha diplomas de matemática, física e química orgânica e era membro sênior da Associação Internacional de Identificação e da Associação Internacional de Análise Sanguínea. O quartel-general da Unidade de Criminalística o convocava constantemente; porém, como Rhyme era responsável por tê-lo raptado de um cargo no estado de Nova York, anos antes, trazendo-o para a polícia de Nova York, o combinado era que ele deixaria o que estivesse fazendo e viria para Manhattan, caso Rhyme e Sellitto estivessem ocupados com um caso e precisassem dele.

 

— Mel, que bom que você estava disponível.

 

— Disponível... Não foi você quem ligou para o meu chefe e o ameaçou se ele não me liberasse do caso Hanover-Sterns?

 

— Eu fiz isso para o seu bem, Mel. Você estava sendo desperdiçado num caso de corrupção financeira.

 

— E eu agradeço pela oportunidade.

 

Cooper cumprimentou os presentes com um aceno de cabeça. Ajeitou os óculos no nariz e atravessou o laboratório até a mesa de exames, caminhando silenciosamente com seus sapatos marrons acolchoados. Embora fosse um dos homens menos atléticos que Rhyme já tinha visto, exceto por si próprio, Mel Cooper se movia com a graça de um jogador de futebol, e o perito criminal se lembrou de que ele era profissional em dança de salão.

 

— Eu quero saber os detalhes — disse Rhyme, voltando-se para Sachs.

 

Ela folheou o bloco de notas e explicou o que tinha ouvido do funcionário da companhia de eletricidade.

 

— A Algonquin Consolidated Power fornece eletricidade à maior parte dessa região. Pensilvânia, Nova York, Connecticut e Nova Jersey.

 

— As chaminés no East River são dela?

 

— Exatamente — respondeu a Cooper. — Além de uma usina geradora de vapor e eletricidade, a sede também fica lá. O supervisor da Algonquin disse que o indivíduo poderia ter entrado na estação a qualquer momento nas últimas trinta horas para preparar o cabo. As subestações, em geral, não têm funcionários. Pouco depois das onze da manhã de hoje, ele, ou eles, entrou nos computadores da Algonquin, começou a desligar subestações em toda a área e redirecionou toda aquela eletricidade para a subestação da rua 57. Quando a voltagem chega a um certo ponto, ela precisa completar um circuito. É impossível evitar. Ou ela salta para outro cabo ou para alguma coisa na terra. Normalmente, os disjuntores da subestação se abririam, mas ele os tinha preparado para suportar uma carga dez vezes maior. Por isso ela se acumulou naquilo — Sachs apontou para o cabo —, esperando o momento de estourar. Como uma represa. A pressão foi subindo e o “suco” tinha que ir para algum lugar. A rede de distribuição de eletricidade em Nova York funciona da seguinte maneira. Um dos funcionários desenhou para mim e foi muito útil.

 

Sachs pegou uma folha de papel na qual havia um diagrama. Aproximou-se de um dos quadros brancos e, com um marcador azul-escuro, escreveu:

 

Usina geradora, ou fonte de alimentação (345.000v)

 

(através de cabos de alta-tensão)

 

Subestação de transmissão (reduz de 345.000v para 138.000v)

 

(através das linhas regionais de transmissão)

 

Subestação local (reduz de 138.000v para 13.800v)

 

(através de cabos de alimentação)

 

  1. Redes secundárias em grandes edifícios comerciais (reduz de 13.800v para 120/208v) ou

 

  1. Transformadores de rua (reduz de 13.800v para 120/208v)

 

(através de linhas de serviço)

 

Residências e escritórios (120/208v)

 

Sachs continuou:

 

— A MH-10, a subestação da rua 57, é uma subestação local. A linha de entrada é de alta voltagem. Ele poderia ter preparado o cabo em qualquer lugar em uma linha regional de transmissão, mas isso é difícil, imagino, porque a voltagem é muito elevada. Por isso ele trabalhou na saída da subestação local, de apenas treze mil e oitocentos volts.

 

— Ufa! — murmurou Sellitto. — “Apenas”.

 

— Depois de preparar o cabo, ele modificou a capacidade dos disjuntores para uma voltagem maior e inundou a subestação com eletricidade.

 

— E aí explodiu — completou Rhyme.

 

Ela pegou um dos sacos de evidências que continha as lágrimas metálicas.

 

— E aí explodiu — repetiu ela. — Essas coisas estavam por toda parte, como estilhaços.

 

— O que são? — quis saber Sellitto.

 

— Gotas derretidas do poste do ponto de ônibus. A explosão as espalhou por toda parte. Abriram buracos no concreto e atravessaram as chapas de alguns carros. A vítima sofreu queimaduras, mas não foi isso que a matou. — Rhyme notou que a voz dela havia assumido um tom grave. — Foi como uma grande rajada de tiros de escopeta. Cauterizou as feridas — prosseguiu Sachs, fazendo uma careta. — Isso a manteve consciente durante algum tempo. Vejam — concluiu, olhando para Pulaski.

 

O jovem policial colocou os cartões de memória em um computador próximo e criou arquivos para o caso. Logo as fotos surgiram nos monitores de alta definição. Após muitos anos de trabalho em cenas de crime, Rhyme estava praticamente imune às imagens mais horripilantes, mas aquelas o abalaram. O corpo do jovem vitimado tinha sido atravessado pelos pingos de metal derretido. Havia pouco sangue graças ao poder de cauterização dos projéteis. Será que o criminoso já sabia que sua arma causaria aquilo, cauterizando os ferimentos? Mantendo as vítimas conscientes, para que sentissem dor? Seria isso parte de seu modus operandi? Rhyme compreendia a emoção de Sachs.

 

— Meu Deus — murmurou o detetive corpulento.

 

Rhyme afastou a imagem de sua mente e perguntou:

 

— Quem era ele?

 

— O nome dele era Luís Martin. Era subgerente de uma loja de artigos musicais. Tinha 28 anos. Sem registros criminais.

 

— Ele tinha alguma ligação com a Algonquin ou com a empresa metropolitana de transportes? Algum motivo para que alguém quisesse matá-lo?

 

— Nada — respondeu Sachs.

 

— Estava no lugar errado na hora errada — resumiu Sellitto.

 

— Ron, e o café? O que você descobriu lá? — perguntou Rhyme.

 

— Por volta das dez e quarenta e cinco, um homem de macacão azul-escuro entrou com um laptop e acessou a internet.

 

— Macacão azul? — perguntou Sellitto. — Algum logotipo ou identificação?

 

— Ninguém reparou. Mas o pessoal da Algonquin usa uniformes do mesmo tom de azul.

 

— Você conseguiu uma descrição? — insistiu o policial.

 

— Provavelmente era branco e devia ter uns 40 anos, óculos, boné escuro. Algumas pessoas disseram que não usava óculos nem boné. Cabelos loiros ou pretos ou ruivos.

 

— Testemunhas — murmurou Rhyme, com desprezo.

 

Um atirador sem nada da cintura para cima poderia matar alguém diante de dez testemunhas e cada uma o descreveria usando uma camiseta de dez cores diferentes. Nos últimos anos, as dúvidas dele sobre o valor das testemunhas se atenuaram um pouco por causa da habilidade de Sachs nos interrogatórios e também porque Kathryn Dance tinha provado que a análise da linguagem corporal era um método suficientemente científico e capaz de produzir resultados constantes em muitos casos. Mesmo assim, ele não conseguia abandonar completamente o ceticismo.

 

— O que aconteceu com o homem do macacão? — perguntou Rhyme.

 

— Ninguém tem certeza. A situação estava bastante caótica. Só disseram ter ouvido uma grande explosão, a rua inteira ficou branca com a luz do arco elétrico e todos correram para fora. Ninguém se lembrava de ter visto o homem depois disso.

 

— Ele levou o copo de café? — perguntou Rhyme. Ele adorava recipientes de bebida. Eram como carteiras de identidade, contendo informações sobre o DNA e impressões digitais, além de outros vestígios que ficavam aderidos aos recipientes por causa da característica viscosa do leite, do açúcar e de outros aditivos.

 

— Parece que levou — respondeu Pulaski.

 

— Merda. O que você encontrou na mesa?

 

— Isso — respondeu Pulaski, tirando um envelope plástico da caixa.

 

— Está vazio — disse Sellitto, examinando-o de perto enquanto coçava a imponente barriga, talvez para aliviar uma coceira ou para mostrar decepção com a falta de resultados da última dieta da moda.

 

Rhyme, porém, olhou para o plástico e sorriu.

 

— Bom trabalho, novato.

 

— “Bom trabalho”? — murmurou o tenente. — Não tem nada aí dentro.

 

— Esse é meu tipo preferido de pista, Lon. Os fragmentos invisíveis. Daqui a um minuto vamos cuidar disso. Estou pensando em hackers — prosseguiu Rhyme. — Pulaski, tinha Wi-Fi no café? Eu estava pensando nisso e aposto que não tinha.

 

— Tem razão. Como você sabe?

 

— Ele não podia arriscar que estivesse fora do ar. Provavelmente fez a conexão por meio do celular. Mas precisamos saber como ele entrou no sistema da Algonquin. Lon, chama o pessoal de Cibercrimes. Eles precisam entrar em contato com alguém do Departamento de Segurança da Algonquin. Veja se Rodney está disponível.

 

A Unidade de Cibercrimes do Departamento de Polícia de Nova York era um grupo de elite composto por cerca de trinta detetives e pessoal de apoio. De vez em quando Rhyme trabalhava com um deles, o detetive Rodney Szarnek. Achava-o jovem, mas, na verdade, não fazia ideia da idade dele por causa de sua atitude despojada, das roupas casuais e dos cabelos desgrenhados, como os de um hacker — uma imagem e uma vocação que costumam fazer a pessoa parecer uns anos mais nova.

 

Sellitto fez a ligação e desligou após um breve diálogo, explicando que Szarnek ligaria imediatamente para a equipe de tecnologia da informação na Algonquin para verificar se tinha havido alguma invasão dos servidores da rede de distribuição de energia.

 

Cooper observava o cabo elétrico com reverência.

 

— Então é isso? — disse, erguendo outro dos sacos que continham estilhaços retorcidos dos discos de metal. — Felizmente, não tinha nenhum pedestre passando por ali. Se isso acontecesse na Quinta Avenida, poderia haver dezenas de mortes.

 

Ignorando a observação desnecessária do técnico, Rhyme concentrou a atenção em Sachs. Ele notou que os olhos dela estavam fixos nos pequenos discos.

 

Com a voz talvez mais rude do que o necessário, para fazê-la esquecer os estilhaços, disse:

 

— Vamos, pessoal. Vamos começar a trabalhar.

 

Sentando-se à mesa, Fred Dellray se viu diante de um homem pálido e franzino, que poderia ter 30 anos mal-vividos ou 50 bem-preservados.

 

O homem vestia uma jaqueta esportiva grande demais, comprada num brechó mambembe ou roubada de algum cabideiro quando ninguém estivesse prestando atenção.

 

— Jeep — disse Dellray.

 

— Esse não é mais o meu nome.

 

— Não é o seu nome? Parece marca de queijo. Qual é o seu queijo agora?

 

— Não entendi...

 

— Eu quero saber qual é o seu novo nome — disse Dellray, franzindo a testa e desempenhando o papel que geralmente encarnava com gente como aquela.

 

Jeep, ou Não Jeep, era um traficante sádico que ele mesmo tinha prendido durante uma operação secreta em que precisou gargalhar enquanto o outro descrevia com detalhes a tortura de um jovem universitário que havia atrasado o pagamento da droga. Depois de preso e de ter cumprido parte da sentença, houve uma negociação e ele se tornou um dos animais de estimação de Dellray.

 

Era um cabresto curto que de vez em quando ele precisava apertar.

 

— Era Jeep, mas resolvi mudar. Agora eu sou Jim, Fred.

 

Mudanças. A palavra mágica do momento.

 

— Já que estamos falando em nomes... Fred? Eu sou seu amigo, seu melhor amigo? Eu não me lembro de ter sido comunicado, de termos passado um tempo juntos, de ter conhecido seus pais.

 

— Desculpe, senhor.

 

— Sabe de uma coisa? Pode me chamar de Fred mesmo. Eu não acredito em você quando me chama de “senhor”.

 

O sujeito era um trapo de gente desprezível, mas Dellray sabia que precisava ter cuidado. Nunca demonstrar desprezo mas também nunca hesitar em aplicar pressão, a pressão do medo.

 

O medo gera respeito. O mundo é assim.

 

— Eis o que eu quero que você faça. Isso é importante. Eu lembro que você tem um encontro marcado.

 

Era uma audiência para sair da jurisdição. Dellray não se preocupava em perder o informante. A utilidade de Jeep já era quase nula. Assim é a natureza dos delatores: duram tanto quanto iogurte fresco na prateleira do mercado. Jeep, ou Jim, estava apelando à junta de livramento condicional do estado de Nova York a fim de obter permissão para se mudar para a Georgia. Logo a Georgia.

 

— Se você pudesse ajudar, Fred, senhor, seria ótimo — disse ele, fitando o agente com olhos marejados.

 

Wall Street devia aprender algumas lições com os informantes confidenciais. Não havia derivativos, nem perdão por inadimplência, nem seguro, nem adulteração de registros contábeis. Era tudo muito simples. Você dá a ele algo de valor e recebe em troca uma informação igualmente importante.

 

Se ele não correspondesse, estava fora. Se você não pagasse, receberia merda em troca.

 

Tudo era muito transparente.

 

— Tudo bem — disse Dellray. — O que você quer é possível. Agora ouça o que eu quero. E o que preciso dizer é perecível. Entendeu o que isso significa, Jim?

 

— Alguém vai se foder muito rápido.

 

— Isso mesmo. Agora escuta com atenção. Eu preciso achar o Brent.

 

Houve uma pausa.

 

— William Brent? E como eu vou saber onde ele está?

 

Jeep-Jim, Jim-Franzino fez essa pergunta quase sem levantar a voz, mas o suficiente para que Dellray percebesse que ele tinha pelo menos alguma ideia de onde encontrar o homem.

 

— Eu estou com a Georgia na cabeça — disse Dellray.

 

Passou-se um minuto enquanto Jeep negociava consigo mesmo.

 

— Quero dizer, talvez eu possa... Existe uma possibilidade...

 

— Você vai terminar essas frases ou eu posso deixar pra lá?

 

— Preciso checar uma coisa.

 

Jeep-James-Jim se levantou e se dirigiu a um canto do café, começando a mandar uma mensagem de texto. Dellray achou engraçada a paranoia de que ele pudesse ouvir uma mensagem de texto. Jeep provavelmente se daria melhor na Georgia.

 

Dellray tomou um gole da água que o garçom havia trazido. Tinha esperança de que o interlocutor franzino conseguisse a informação. Um dos seus maiores êxitos tinha sido conseguir controlar William Brent, um homem branco de meia-idade, de aparência descuidada, que lembrava um vendedor do Walmart. Ele tinha sido decisivo para a descoberta de uma conspiração perigosa. Um grupo terrorista doméstico — racista e separatista — planejava explodir algumas sinagogas em uma tarde de sexta-feira, colocando a culpa em fundamentalistas islâmicos. O grupo tinha dinheiro, mas não os meios necessários, e por isso procurou uma família criminosa local, que tampouco apreciava judeus e muçulmanos. Brent havia sido contratado pela família para ajudar na execução do plano e tinha confiado no personagem representado por Dellray — um traficante de armas haitiano que oferecia lança-granadas-foguete.

 

Brent foi preso e Dellray o fez mudar de lado. Surpreendendo a todos, ele se dedicou à informação confidencial como se tivesse se preparado a vida inteira para essa atividade. Infiltrou-se no comando do grupo racista e na família, fazendo com que a conspiração fracassasse. Mesmo tendo quitado sua dívida, continuou trabalhando com as várias encarnações de Dellray — um assassino de aluguel, um ladrão de joias e bancos, um ativista radical antiaborto. Revelou-se um dos mais espertos entre os delatores controlados pelo agente, além de um eficiente camaleão. Era como o outro lado de Fred Dellray (anos antes houvera uma suspeita, nunca comprovada, de que Brent controlava uma rede de informantes — no interior do Departamento de Polícia de Nova York).

 

Dellray usou seus serviços durante um ano, até que Brent ficou superexposto e se retirou sob o manto confortável da proteção a testemunhas. Dizia-se, no entanto, que em uma de suas encarnações ele continuava a manter boas conexões e frequentava as ruas.

 

Como nenhuma das fontes costumeiras de Dellray havia trazido informações sobre o Justice For ou Rahman, ou sobre o ataque à rede elétrica, ele se lembrou de William Brent.

 

Jimmy-Jeep voltou e ocupou o assento que rangia.

 

— Acho que consigo. Mas isso é sobre o que, cara? Eu não quero que ele me pegue.

 

Dellray refletiu que aquela era uma diferença importante entre Wall Street e o mundo das informações confidenciais.

 

— Não, Jimmy querido, você não me entendeu. Eu não quero que você descubra nada. Basta servir de casamenteiro. Consiga um encontro com ele e em breve vai estar comendo pêssegos na Georgia.

 

Dellray estendeu ao outro um cartão onde havia apenas um número de telefone. — Ele deve ligar para esse número. Consiga isso.

 

— Agora?

 

— Agora.

 

Jeep olhou para a cozinha.

 

— E o meu almoço? Eu ainda não comi nada.

 

— Que diabo de lugar é esse? — questionou Fred de repente, olhando em volta, com ar horrorizado.

 

— Do que você está falando, Fred?

 

— Não pode pedir comida para viagem?

 

Cinco horas já tinham se passado desde o momento do ataque e a tensão aumentava na casa de Rhyme. Nenhuma das pistas dava resultados.

 

— O cabo — disse ele, ansioso. — De onde veio?

 

Cooper ajustou novamente os óculos no nariz. Colocou as luvas de látex para o exame, mas, antes de tocar no objeto, limpou as mãos com um rolo de papel adesivo e jogou fora a parte usada. Rhyme instruía sua equipe a tomar essa precaução desde o dia em que havia analisado um caso para a polícia do estado de Nova Jersey e descoberto que um fragmento de fibra não tinha vindo do suspeito detido, e sim do bolso do paletó de um dos detetives. Esse investigador havia colocado as luvas de borracha no bolso, porque tinha visto um policial numa série popular de TV fazendo o mesmo. A possibilidade de contaminação era pequena, mas a busca e a análise de pistas eram apenas uma parte do trabalho de um detetive perito criminal; ele também precisava fazer com que elas permanecessem intocadas a fim de poder condenar os criminosos num julgamento cheio de advogados de defesa espertos.

 

Após o triste caso da fibra de Nova Jersey, ele passou a fazer questão de que seus agentes limpassem as luvas depois de colocá-las, caso não estivessem em bolsas ou caixas livres de contaminação.

 

Com uma tesoura cirúrgica, Cooper cortou fora o isolamento plástico, expondo o interior. Tinha cerca de quatro metros e meio de comprimento e a maior parte estava coberta com uma fita isolante. O cabo propriamente dito não era compacto, e sim constituído por muitos fios prateados. Em uma extremidade estava aparafusada a placa de latão, espessa e um tanto chamuscada. Na outra ponta havia dois grandes parafusos de cobre, duplamente perfurados no meio.

 

— O nome é parafuso fendido, como disse o cara da Algonquin — informou Sachs. — É usado para dividir os fios. Foi assim que ele ligou o cabo à linha principal.

 

Depois ela explicou de que forma ele havia pendurado a placa do lado de fora da janela, conforme o funcionário da Algonquin tinha lhe contado. A placa estava presa ao cabo com dois parafusos de seis milímetros. O arco elétrico havia partido da placa até a fonte aterrada mais próxima, o poste do ponto de ônibus.

 

Rhyme olhou para o polegar de Sachs, arranhado e enegrecido por um pouco de sangue coagulado. Ela costumava roer as unhas e esfregar os dedos no couro cabeludo. A tensão dentro dela havia crescido tanto quanto a voltagem na subestação da Algonquin. A detetive arranhou novamente o dedo e, em seguida, como se fizesse um esforço para evitá-lo, colocou luvas de látex.

 

Lon Sellitto falava ao telefone com os policiais que buscavam testemunhas na rua 57. Rhyme olhou para ele interrogativamente, mas a expressão de desagrado do tenente — ainda mais intensa que a costumeira — revelou que até ali as tentativas foram inúteis. O perito criminal voltou a atenção para o cabo.

 

— Passe a câmera sobre ele, Mel. Lentamente.

 

Usando uma câmera de vídeo portátil, o técnico escaneou o cabo de cima a baixo, virou-o ao contrário e repetiu a operação. O que a câmera captava era transmitido em alta definição numa grande tela diante de Rhyme. Ele observava atentamente.

 

— Bennington Electrical Manufacturing, Chicago, Illinois, modelo AM-MV-60, espessura zero, capaz de suportar sessenta mil volts — murmurou.

 

Pulaski riu.

 

— Como você sabe disso, Lincoln? Onde aprendeu a identificar cabos elétricos?

 

— Está escrito no fio, novato.

 

— Ah, não reparei.

 

— Claramente. E o nosso criminoso o cortou nesse comprimento, Mel. O que acha? Não foi cortado à máquina.

 

— Creio que não.

 

Com uma lupa, Cooper examinava a extremidade do metal que tinha sido aparafusada na linha da subestação. Em seguida, focalizou a câmera na ponta cortada.

 

— Amelia?

 

A mecânica amadora prestou atenção.

 

— Serra manual — sugeriu.

 

Os parafusos fendidos eram usados unicamente na indústria de eletricidade, mas poderiam ter vindo de vários lugares. Os que ligavam o cabo à placa também eram impossíveis de identificar.

 

— Vamos começar nossos quadros — disse Rhyme.

 

Pulaski trouxe diversos quadros brancos de um canto do laboratório. No topo de um deles Sachs escreveu: Cena do crime, subestação Manhattan-10 da Algonquin, rua 57, oeste. No outro pôs: Perfil do indivíduo desconhecido. Anotou o que haviam descoberto até ali.

 

— Ele conseguiu o cabo na subestação? — perguntou Rhyme.

 

— Não. Não havia cabos armazenados lá — respondeu o jovem policial.

 

— Então descubra onde ele o conseguiu. Ligue para Bennington.

 

— Certo.

 

— Muito bem — prosseguiu Rhyme. — Temos metais e ferramentas. Isso significa que deve haver marcas. A serra. Vamos olhar o cabo de perto.

 

Cooper levou o material para o microscópio destinado a objetos de grande porte, também ligado ao computador, e examinou o ponto em que o cabo havia sido cortado, usando uma lente de aumento.

 

— Foi uma serra nova, afiada.

 

Rhyme olhou com inveja para a destreza das mãos do técnico ao modificar o foco e a distância do microscópio. Em seguida, prestou novamente atenção à tela.

 

— Parece nova, sim, mas com um dente quebrado.

 

— Perto do cabo.

 

— Isso mesmo.

 

Antes de começar a serrar, as pessoas em geral apoiam a lâmina no local que desejam cortar, três ou quatro vezes. Esse gesto, especialmente em metais mais moles como o do cabo, pode revelar dentes quebrados ou tortos na serra, ou outras características próprias capazes de estabelecer uma ligação entre ferramentas encontradas em poder do criminoso e as usadas para cometer um crime.

 

— E os parafusos fendidos?

 

Cooper encontrou marcas de arranhões em todos os parafusos, dando a impressão de que teriam sido causadas pela chave inglesa do criminoso.

 

— Eu adoro metais maleáveis — murmurou Rhyme. — Eu realmente adoro... Então, ele tem ferramentas que já foram bastante usadas. Cada vez mais parece que se trata de alguém de dentro.

 

Sellitto finalizou a ligação.

 

— Nada. Talvez alguém tenha visto alguém de macacão azul, mas isso deve ter sido uma hora depois da explosão, quando todo o quarteirão já estava cheio de operários da Algonquin vestindo uniformes azuis.

 

— E você, novato, o que encontrou? — questionou Rhyme. — Eu quero saber de onde veio o cabo.

 

— Estou esperando que me atendam.

 

— Diga que é a polícia.

 

— Eu já disse.

 

— Diga que você é o chefão. O mandachuva.

 

— Eu...

 

Mas Rhyme já estava prestando atenção em outra coisa: a grade de ferro que barrava a entrada do túnel de acesso.

 

— Como foi que ele a cortou, Mel?

 

Um exame cuidadoso revelou que o intruso não tinha usado uma serra, e sim um alicate de pressão.

 

Cooper examinou as extremidades das barras por meio de um microscópio com câmera digital e tirou fotos. Prontamente, transferiu as imagens para o computador central e as montou na tela.

 

— Alguma marca característica? — perguntou Rhyme.

 

Assim como o dente da serra quebrado e os arranhões em parafusos e porcas, qualquer marca específica deixada pelo alicate ligaria seu dono à cena do crime.

 

— Que tal aquela? — perguntou Cooper, apontando para a tela.

 

Havia um pequeno arranhão em forma de meia-lua mais ou menos na mesma posição na superfície dos cortes de várias barras.

 

— Serve. Ótimo.

 

Pulaski inclinou a cabeça e preparou a caneta quando alguém na Bennington Wire atendeu ao telefone para falar com o jovem policial em sua nova posição como imperador do Departamento de Polícia de Nova York.

 

Após um breve diálogo, ele desligou.

 

— O que diabo você ficou sabendo sobre o cabo, Pulaski?

 

— Primeiro, o cabo é de um modelo muito comum. Eles...

 

— O quanto é comum?

 

— Eles vendem milhões de metros por ano. Serve principalmente para distribuição de voltagem mediana.

 

— Sessenta mil volts são medianos?

 

— Acho que sim. Dá para comprar em atacadistas de material elétrico. Ele disse que a Algonquin compra em grandes quantidades.

 

— Qual departamento da Algonquin faz a encomenda? — quis saber Sellitto.

 

— O de Suprimentos Técnicos.

 

— Vou ligar para lá — avisou Sellitto. Fez a ligação e desligou depois de uma breve conversa. — Eles vão verificar se alguma coisa está faltando no almoxarifado.

 

Rhyme observava a grade.

 

— Então ele entrou pelo bueiro mais cedo e passou para o espaço de serviço da Algonquin, no subsolo do beco.

 

— Ele pode ter descido pelo bueiro do túnel das tubulações de vapor para fazer algum serviço e viu a grade que dava acesso ao túnel — sugeriu Sachs.

 

— Definitivamente, parece ser um dos funcionários. — Rhyme tinha esperança de que esse fosse o caso. Os crimes cometidos internamente eram mais fáceis para a polícia. — Vamos continuar. As botas.

 

— Existem pegadas semelhantes tanto no túnel de acesso quanto perto do lugar onde o cabo tinha sido preparado na subestação — falou Sachs.

 

— Alguma pegada no café?

 

— Aquela — respondeu Pulaski, apontando para uma imagem eletrostática. — Debaixo da mesa. Acho que são da mesma marca.

 

Mel Cooper as examinou e concordou. O jovem policial continuou:

 

— Amelia me fez verificar as botas dos trabalhadores da Algonquin que estavam no local. Todas eram diferentes.

 

Rhyme voltou a atenção para a bota.

 

— Qual é a marca, na sua opinião, Mel?

 

Cooper estava acessando a base de dados de calçados da polícia de Nova York, que continha amostras de milhares de sapatos e botas, a grande maioria masculinos. Os crimes mais graves, com presença física na cena, eram em geral cometidos por homens.

 

Rhyme tinha sido parte importante da criação da base ampliada de dados sobre calçados, anos antes. Tinha feito acordos com os principais fabricantes para que mandassem regularmente ao Departamento de Polícia de Nova York amostras de seus modelos.

 

Ao voltar ao trabalho de perícia criminal, depois do acidente, Rhyme continuou colaborando com a manutenção da base de dados de produtos e materiais da polícia de Nova York, inclusive a de calçados. Quando trabalhou em um caso recente relacionado à mineração de dados, ele teve uma ideia que agora era usada em muitos departamentos de polícia em todo o país. Havia pedido (na verdade, exigido) que o Departamento de Polícia de Nova York contratasse um programador a fim de criar imagens gráficas em computador reproduzindo as solas de cada calçado da base de dados em estágios diferentes de uso — novos, com seis meses, um ano e dois anos. Em seguida, imagens de solas de calçados usados por quem tinha pisada pronada ou supinada. Fez também com que o técnico em informática indicasse tipos de desgaste em função da altura e do peso da pessoa.

 

O projeto era dispendioso, mas foi relativamente fácil de ser carregado nos computadores e resultou em respostas quase imediatas a perguntas quanto à marca e à idade do calçado, e quanto à altura, ao peso e à forma de caminhar característicos da pessoa que o usava.

 

A base de dados já tinha auxiliado a identificação de três ou quatro criminosos.

 

Com os dedos sobrevoando as teclas, Cooper disse:

 

— Achei um tipo que serve. Albertson-Fenwick Botas e Luvas, Inc. Modelo E-20. — Observou a tela com mais atenção. — Não é de estranhar que essas botas possuam um isolamento especial. São para trabalhadores que têm contato constante com fontes elétricas carregadas. Elas obedecem ao padrão F2413-05 da ASTM. As que estamos examinando são tamanho 43.

 

Rhyme as examinou com olhos semicerrados.

 

— As marcas são profundas. Ótimo.

 

Isso queria dizer que conservariam quantidades significativas de resíduos.

 

Cooper continuou:

 

— Essas são bastante novas e por isso não existem marcas de desgaste que possam nos dar indícios sobre a altura dele, o peso e outras características.

 

— No entanto, eu diria que ele caminha em linha reta. Você concorda?

 

Rhyme olhava para as pegadas projetadas em sua tela, transmitidas pela câmera que estava sobre a mesa de exames.

 

— Concordo.

 

Sachs fez a anotação no quadro.

 

— Muito bem, Sachs. Agora, novato, quais foram as evidências invisíveis que você encontrou?

 

Rhyme se referia ao envelope de plástico com o rótulo Café em frente à explosão: mesa onde o suspeito se sentou.

 

Cooper examinava as evidências.

 

— Um fio de cabelo loiro. Dois centímetros e meio de comprimento. Natural, sem tintura.

 

Rhyme adorava os cabelos como instrumento de criminalística. Muitas vezes podiam ser usados para colher amostras de DNA — quando a raiz estivesse aparente — e podiam revelar muita coisa sobre a aparência do suspeito, por meio da cor, da textura e da forma. Também era possível determinar a idade e o sexo com certo grau de exatidão. O exame dos cabelos era cada vez mais utilizado como instrumento de criminalística forense e de determinação de hábitos, porque retinha traços de drogas por mais tempo que a urina ou o sangue. Dois centímetros conservavam o histórico de dois meses de uso de drogas. Na Inglaterra, os cabelos eram usados frequentemente para testes de abuso de bebidas alcoólicas.

 

— Não temos certeza de que seja dele — observou Sellitto.

 

— É claro que não — murmurou Rhyme. — Nesse momento, não temos certeza de nada.

 

Mas Pulaski interveio:

 

— Mas é muito provável. Eu falei com o proprietário. Ele faz questão de que os ajudantes limpem as mesas depois que cada cliente as desocupa. Ninguém a limpou depois que o criminoso esteve no café por causa da explosão.

 

— Muito bem, novato.

 

Cooper continuou falando do fio de cabelo.

 

— Não tem cachos naturais nem artificiais. É liso. Não há mostras de despigmentação, e, por isso, eu diria que ele tem menos de 50 anos.

 

— Eu quero uma análise de presença de substâncias tóxicas.

 

— Eu vou mandar o fio para o laboratório.

 

— Um laboratório comercial — recomendou Rhyme. — Prometa pagar mais para ter resultados rápidos.

 

— Não temos muito dinheiro e o laboratório do Queens é perfeitamente adequado — resmungou Sellitto.

 

— Não vai ser adequado se não me mandar o resultado antes que o criminoso mate mais alguém, Lon.

 

— Que tal o Uptown Testing? — perguntou Cooper.

 

— Ótimo. Lembre-se: ofereça pagar mais.

 

— Meu Deus, a cidade não gira em torno de você, Linc.

 

— Não? — perguntou Rhyme, com um brilho de surpresa no olhar, ao mesmo tempo fingido e genuíno.

 

Por meio do microscópio de escaneamento por elétrons e do espectroscópio de raios X com dispersão de energia — instrumentos conhecidos pela sigla em inglês SEM-EDS —, Mel Cooper analisou os resíduos que Sachs havia coletado no lugar onde o indivíduo preparou o cabo.

 

— Eu identifiquei um tipo de mineral, diferente dos que existem em torno da subestação.

 

— Do que é feito?

 

— Cerca de setenta por cento feldspato, e também quartzo, magnetita, mica, calcita e anfibólio. Também um pouco de anidrito. Curiosamente, uma grande porcentagem de silício.

 

Rhyme conhecia bem a geologia da região de Nova York. No tempo em que podia caminhar, passeava pela cidade, recolhendo amostras de terra e pedras e criando bases de dados que pudessem ajudá-lo a identificar locais por onde um criminoso tivesse passado. Aquela combinação de minerais era um mistério para ele. Sem dúvida não vinha dos arredores.

 

— Precisamos de um geólogo — disse Rhyme. Pensou um pouco e em seguida fez uma ligação com a tecla de discagem rápida.

 

— Alô — respondeu uma voz masculina suave.

 

— Arthur — disse Rhyme ao primo, que morava em Nova Jersey, não muito longe.

 

— Oi! Como vai?

 

Rhyme achou que todos pareciam querer saber de sua saúde naquele dia, embora Arthur estivesse apenas sendo educado.

 

— Eu estou bem.

 

— Foi bom ver você e Amelia na semana passada.

 

O perito criminal havia refeito recentemente os laços com Arthur Rhyme, que tinha sido uma espécie de irmão e companheiro de infância e juventude, na região de Chicago. Embora a ideia de passar fins de semana fora da cidade não o empolgasse, ele havia surpreendido Sachs ao sugerir que os dois aceitassem o convite para visitar o primo e a mulher, Judy, na casa de praia deles. Arthur informou que tinha preparado uma rampa para cadeirantes para tornar a casa mais acessível. Rhyme e Sachs foram passar uns dias lá, junto com Pammy e o cachorro dela, Jackson.

 

Rhyme tinha gostado do passeio. Enquanto as mulheres e o cão caminhavam na praia, ele e o primo conversaram sobre ciência, assuntos acadêmicos e acontecimentos mundiais. As opiniões de ambos iam ficando cada vez mais confusas, na mesma proporção do consumo de uísque puro malte. Assim como o perito, Arthur tinha uma bela coleção de garrafas.

 

— Você está no viva-voz, Arthur. Aqui estão... bem, muitos policiais.

 

— Eu vi o jornal. Aposto que você está cuidando daquele acidente elétrico. Foi terrível. A imprensa diz que provavelmente foi um acidente, mas... — Arthur riu com ceticismo.

 

— Não, não foi um acidente, com certeza. Não sabemos se foi um funcionário descontente ou um terrorista.

 

— Posso ajudar em alguma coisa?

 

Arthur também era cientista, com um repertório um pouco maior que o de Rhyme.

 

— Na verdade, pode. Eu tenho uma pergunta rápida. Pelo menos, assim espero. Encontramos alguns resíduos na cena do crime que não correspondem ao que existe nos arredores. Na verdade, não correspondem a nenhuma formação geológica que eu conheça na região de Nova York.

 

— Peguei uma caneta. Me diz o que você encontrou.

 

Rhyme relatou o resultado dos testes.

 

Arthur ficou em silêncio. Rhyme pensou no primo com ar taciturno, olhando para a lista de elementos que havia rabiscado e conjecturando sobre as possibilidades. Finalmente, perguntou:

 

— Qual era o tamanho das partículas?

 

— Mel?

 

— Alô, Art, aqui é Mel Cooper.

 

— Oi, Mel. Tem dançado muito ultimamente?

 

— Ganhamos o concurso de tango em Long Island na semana passada. Vamos disputar o campeonato regional no domingo. A menos que eu fique preso aqui, naturalmente.

 

— Mel? — disse Rhyme, insistente.

 

— As partículas? Eram muito pequenas. Cerca de um quarto de milímetro.

 

— OK, tenho quase certeza de que é tefra.

 

— O que é isso? — quis saber Rhyme.

 

Arthur soletrou a palavra.

 

— É matéria vulcânica. A palavra vem do grego e significa “cinza”. Quando flutua no ar, depois de expelida por um vulcão, é chamada de piroclasto, fragmentos de fogo, mas no chão se chama tefra.

 

— É nativa? — perguntou Rhyme.

 

Com ar divertido, Arthur respondeu:

 

— É nativa de algum lugar, mas, se quer saber se é daqui, vou dizer que já não é o caso. É possível encontrar traços minúsculos no nordeste do país, se houver uma grande erupção vulcânica na Costa Oeste e ventos fortes vierem em nossa direção, mas nada disso aconteceu ultimamente. Nessas proporções, creio que a fonte mais provável seja o noroeste, na costa do Pacífico.

 

— Então, para que isso aparecesse na cena do crime, precisaria ter sido trazida pelo criminoso ou por outra pessoa.

 

— É o que eu posso imaginar.

 

— Obrigado. Em breve vamos voltar a nos falar.

 

— Ah, Judy está dizendo que vai mandar por e-mail para Amelia aquela receita que ela queria.

 

Rhyme não tinha ouvido essa parte da conversa durante o fim de semana. Devia ter ocorrido nos passeios na praia.

 

— Não tem pressa — disse Sachs.

 

Depois de desligar, Rhyme não pôde deixar de olhar para ela com as sobrancelhas erguidas.

 

— Você agora resolveu cozinhar?

 

— Pammy vai me ensinar — respondeu ela, encolhendo os ombros. — Será que é muito difícil? Eu acho que deve ser como montar um carburador, só que com peças perecíveis.

 

Rhyme observou o quadro branco.

 

— Tefra. Talvez nosso criminoso tenha estado recentemente em Seattle, em Portland ou no Havaí. Mas duvido que tantos resíduos pudessem resistir a uma viagem longa. Aposto que ele esteve em algum museu, escola ou exposição geológica, ou nas proximidades de algum desses lugares. A cinza vulcânica é usada em alguma atividade comercial? Talvez para polimento de pedras semipreciosas, como o carborundum.

 

— É uma rocha muito variada e irregular para ter uso comercial. Também creio que seja mole demais — comentou Cooper.

 

— Hmm. E joias? A lava é usada para fazer joias?

 

Mas ninguém tinha ouvido falar disso. Rhyme concluiu que a fonte teria de ser uma exibição ou exposição que o criminoso tivesse visitado ou que ficasse perto de onde ele morava ou do local de um futuro alvo.

 

— Mel, peça a alguém no Queens que comece a ligar procurando exposições permanentes ou temporárias na região que tenham a ver com vulcões ou lava. Primeiro, verifiquem em Manhattan. — Ele olhou para a porta de acesso ao túnel, envolvida em plástico e disse: — Vamos ver o que Amelia trouxe depois do mergulho. É sua vez de entrar em campo, novato. Quero sentir orgulho de você.

 

Passando o rolo adesivo para limpar as luvas de látex — e atraindo um olhar de aprovação de Rhyme —, o jovem oficial ergueu a porta de acesso, ainda com a moldura. Tinha cerca de cento e dez centímetros quadrados, com mais cinco da moldura. Estava pintada de cinza escuro.

 

Sachs tinha razão. Era bem apertado. O indivíduo desconhecido deve ter precisado se livrar de algumas coisas para conseguir entrar na subestação.

 

Havia quatro pequenas tramelas de ambos os lados. Seria difícil abri-las com a mão enluvada, por isso era possível que ele tivesse usado os dedos nus, especialmente porque pretendia explodir a porta com a bomba da bateria, destruindo as evidências.

 

As impressões digitais se dividem em três categorias. As visíveis (como a marca de um polegar ensanguentado numa parede branca), as impressas (deixadas em material flexível, como explosivos plásticos) e as latentes (ocultas a olho nu). Havia muitas boas formas de recuperar as deste tipo, mas uma das melhores, especialmente em superfícies de metal, era usar cianoacrilato, a supercola que se compra em lojas. Coloca-se o objeto em um ambiente de vácuo junto com uma vasilha com a cola, que era aquecida até se tornar gasosa. Os vapores se juntavam a diversas substâncias deixadas pelo dedo — aminoácidos e ácido láctico, glicose, potássio e trióxido de carbono. A reação resultante criava uma impressão digital visível.

 

O processo era capaz de operar milagres, tornando aparentes impressões que antes eram invisíveis.

 

Nesse caso, porém, isso não aconteceu.

 

— Nada — disse Pulaski, desanimado, olhando para a porta de acesso por uma lupa que parecia a do Sherlock Holmes. — Só manchas de luvas.

 

— Isso não me surpreende. Até agora ele se mostrou muito cuidadoso. Bem, junte resíduos do interior da moldura, onde ele fez contato.

 

Foi o que Pulaski fez, usando um pincel macio sobre as folhas de papel-jornal da mesa de análise e retirando amostras. Ele colocou o que havia encontrado — e que parecia muito pouco para Rhyme — dentro de sacos plásticos, organizando-os para que Cooper os analisasse.

 

Sellitto recebeu uma ligação e disse:

 

— Espera. Estamos ligando o viva-voz.

 

— Alô? — disse uma voz.

 

— Quem é? — murmurou Rhyme para Sellitto.

 

— Szarnek.

 

Ele era o perito da Unidade de Cibercrimes do Departamento de Polícia de Nova York.

 

Ouvia-se rock ao fundo.

 

— Eu posso garantir quase com certeza que a pessoa que entrou nos servidores da Algonquin simplesmente usou as senhas. Na verdade, eu garanto. Em primeiro lugar, não encontramos nenhuma prova de que houve alguma tentativa de invasão. Não houve um ataque com força bruta. Nenhum código apagado de rootkit, controladores suspeitos, módulos do kernel...

 

— Diga logo a conclusão, se não se importa.

 

— OK. O que estou dizendo é que investigamos todas as portas... — Szarnek hesitou ao ouvir o suspiro de Rhyme. — Bem, a conclusão. Foi e não foi um trabalho interno.

 

— E isso significa...?

 

— O ataque foi feito de fora do prédio da Algonquin.

 

— Isso nós já sabemos.

 

— Mas o criminoso precisou conseguir as senhas na sede da empresa no Queens. Ele ou um cúmplice. Elas ficam registradas em papel e em um gerador aleatório de senhas, que fica separado das redes.

 

— Portanto — disse o perito criminal, para resumir —, não houve hackers, nem domésticos nem internacionais.

 

— É praticamente impossível. Eu estou falando sério, Lincoln. Nem um só rootkit...

 

— Eu já entendi, Rodney. Algum indício na linha que ele usou no café?

 

— Era um celular pré-pago ligado a uma porta USB. Um servidor na Europa.

 

Rhyme tinha conhecimento técnico suficiente para saber que a resposta a sua pergunta era negativa.

 

— Obrigado, Rodney. Como você consegue trabalhar com essa música?

 

O rapaz riu.

 

— Quando precisar, é só chamar.

 

O barulho estridente desapareceu quando o telefone foi desligado.

 

Cooper também estava ao telefone. Ele encerrou a ligação e disse:

 

— Eu encontrei uma pessoa na seção de Análise de Materiais na sede. Ela entende de geologia. Conhece várias escolas que sempre têm exposições abertas ao público. Está procurando as que exibem cinza vulcânica e lava.

 

Pulaski, que observava atentamente a porta, franziu a testa.

 

— Eu acho que tem alguma coisa aqui — disse ele, apontando para um ponto próximo à tramela superior. — Parece que ele limpou aqui — continuou, pegando a lupa. — Tem uma aresta de metal... bem afiada. Ele deve ter se cortado e sangrou.

 

— Mesmo? — indagou Rhyme, ansioso. Nada como uma amostra de DNA no trabalho de criminalística.

 

— Mas, se ele limpou, do que nos adianta? — perguntou Sellitto.

 

Antes que Rhyme pudesse dizer alguma coisa, Pulaski especulou, ainda olhando atentamente para o que havia encontrado.

 

— Mas o que ele poderia ter usado para limpar? Talvez saliva. É tão boa quanto sangue.

 

Essa também tinha sido a conclusão de Rhyme.

 

— Use as fontes de luz alternativas.

 

Esse método é capaz de revelar fluidos corporais, como traços de saliva, sêmen e suor; todos contêm DNA.

 

Todas as agências de polícia passaram a coletar amostras de DNA de suspeitos em certos tipos de delitos — crimes sexuais, por exemplo — e muitas iam ainda mais longe. Se o indivíduo tivesse cometido alguma contravenção que tivesse levado a polícia a coletar seu DNA, ele estaria incluído na base de dados do Sistema Combinado de Índices de DNA — o CODIS.

 

Pouco depois, Pulaski, usando óculos de proteção, passou um bastão luminoso sobre a parte da porta de acesso onde havia reparado na mancha. Houve um pequeno clarão amarelado.

 

— Sim, senhor, achei alguma coisa. Não é muito — exclamou ele.

 

— Novato, sabe quantas células existem no corpo humano?

 

— Bem... Não, eu não sei.

 

— Mais de três trilhões.

 

— Isso é muito...

 

— E sabe quantas são necessárias para ter uma amostra útil de DNA?

 

— Conforme está no seu livro, Lincoln, umas cem.

 

Rhyme ergueu uma sobrancelha.

 

— Impressionante. — Depois acrescentou: — Você acha que pode haver cem células aí nessa mancha?

 

— Eu acho que sim, provavelmente.

 

— Isso mesmo. Sachs, parece que você não se molhou à toa. Se a bateria tivesse explodido, teria destruído a amostra. Muito bem, Mel, mostre a ele como fazer a coleta.

 

Pulaski entregou a delicada tarefa a Cooper.

 

— STR? — perguntou Rhyme ao técnico. — Ou a amostra está degradada?

 

O método de reação em cadeia com polímeros mediante repetição a intervalos curtos, ou STR, era o teste padrão de DNA nos casos criminais. Era o sistema mais rápido e mais confiável, com grau de precisão de um bilhão contra um. Também era capaz de determinar o sexo da pessoa de quem tinha vindo a amostra. Porém, embora a amostra pudesse ser muito pequena, ela precisava estar em bom estado. Se tivesse sido deteriorada pela água ou pelo calor na subestação, teria que ser usado um teste diferente e mais demorado — o de DNA mitocondrial.

 

— Eu acho que vai dar certo — disse o técnico, coletando o DNA e ligando para o laboratório para que viessem buscar a amostra. — Já sei: o mais rápido possível — disse ele a Rhyme quando o perito criminal já se preparava para ordenar.

 

— E não se importe com as despesas.

 

— Você vai pagar com seus honorários, Lincoln? — resmungou Sellitto.

 

— Eu vou dar um desconto a você, Lon. Pulaski, você descobriu uma coisa importante.

 

— Obrigado, eu...

 

Tendo distribuído elogios suficientes, Rhyme prosseguiu.

 

— E os resíduos na parte de dentro da porta, Mel? Não estamos caminhando muito depressa com a investigação.

 

Cooper coletou as amostras e as examinou na mesa ao microscópio.

 

— Nada que não esteja de acordo com as amostras de fora do perímetro e o que havia em volta, a não ser isso.

 

Era um pequeno ponto cor-de-rosa.

 

— Passe no cromatógrafo gasoso — pediu Rhyme.

 

Pouco tempo depois, Mel já recebia os resultados desse teste e da análise com o espectrômetro de massa e várias outras informações.

 

— Temos aqui um pH ácido, por volta de dois, além de ácido cítrico e sacarose. E ainda... Bem, eu vou mostrar na tela.

 

As palavras apareceram: quercetina 3-O-rutina-7-O-glucosídeo e crisoeriol 6, 8-di-C-glucosídeo (stelarina-2).

 

— Ótimo — disse Rhyme, impaciente. — Suco de fruta. Com esse pH, provavelmente de limão.

 

Pulaski não conseguiu conter o riso.

 

— Como você sabe isso? Sério, como você sabe?

 

— Só se consegue resultados com esforço, novato. Faça o seu dever de casa. Lembre-se disso.

 

Rhyme se voltou para Cooper novamente.

 

— Também tem algum tipo de óleo vegetal, muito sal e algum composto que não consigo identificar.

 

— Composto de quê?

 

— É rico em proteínas. Os aminoácidos são arginina, histidina, isoleucina, lisina e metionina. Também há muitos lipídios, principalmente colesterol e lecitina, além de vitamina A, vitaminas B2, B6, B12, niacina, ácido pantotênico e ácido fólico. Grande quantidade de cálcio, magnésio, fósforo e potássio.

 

— Deve ser gostoso — comentou Rhyme.

 

Cooper assentiu.

 

— É comida, sem dúvida. Mas o que será?

 

Embora o sentido de paladar de Lincoln Rhyme não tivesse se modificado depois do acidente, o alimento era para ele essencialmente um combustível e não lhe dava grande prazer, a não ser, naturalmente, o uísque.

 

— Thom? — Não houve resposta e por isso ele respirou fundo. Antes que chamasse novamente, a cabeça do ajudante apareceu na porta e disse:

 

— Você está bem?

 

— Por que você sempre pergunta isso?

 

— O que você quer?

 

— Suco de limão, óleo vegetal e ovos.

 

— Está com fome?

 

— Não, não, não. Em que alimento podemos encontrar esses ingredientes?

 

— Maionese.

 

Rhyme olhou para Cooper, que balançou negativamente a cabeça.

 

— É uma coisa meio encaroçada e cor-de-rosa.

 

O ajudante pensou um pouco.

 

— Então deve ser taramasalata.

 

— O que é isso? Um restaurante?

 

Thom riu.

 

— É um aperitivo grego. Uma coisa pastosa.

 

— Como caviar, não é? Come-se com pão.

 

Thom respondeu a Sachs:

 

— Bem, são ovas de peixe, mas de bacalhau, e não de esturjão. Portanto, tecnicamente, não é caviar.

 

Rhyme concordou.

 

— Claro, o teor salino é elevado. Peixe. É comum?

 

— Em restaurantes, mercearias e mercadinhos gregos.

 

— Existe algum lugar onde seja mais comum que em outros? Um bairro grego da cidade?

 

— Queens — respondeu Pulaski, que morava nessa parte de Nova York. — Astoria. Tem muitos restaurantes gregos por lá.

 

— Posso voltar para dentro? — perguntou Thom.

 

— Claro, claro.

 

— Obrigada — disse Sachs.

 

O ajudante acenou com uma das mãos, com luva de plástico amarelo, e desapareceu.

 

— Talvez ele esteja preparando algum novo ataque no Queens — sugeriu Sellitto.

 

Rhyme encolheu os ombros, um dos poucos gestos que ainda era capaz de fazer. Refletiu consigo mesmo que sem dúvida o criminoso precisaria preparar o local do ataque. Mesmo assim, ele estava mais inclinado a acreditar numa hipótese diferente.

 

Sachs olhou para ele.

 

— Você está pensando. A sede da Algonquin fica em Astoria, não?

 

— Exatamente. E tudo parece indicar que se trata de alguém de dentro. Quem manda na empresa? — perguntou ele.

 

Ron Pulaski informou que tinha conversado com funcionários do lado de fora da subestação.

 

— Eles falaram do presidente e CEO. O nome dele é Jessen, Andy Jessen. Todos pareciam ter medo dele.

 

Rhyme ficou olhando para os quadros durante um tempo e depois disse:

 

— Sachs, que tal dar uma voltinha no seu maravilhoso carro novo?

 

— Eu vou adorar.

 

Ela fez uma ligação e combinou com a assistente do CEO um interrogatório para dali a meia hora.

 

O celular de Sellitto tocou. Ele o tirou do bolso e verificou o autor da chamada.

 

— É da Algonquin — disse, apertando um botão. — Aqui é o detetive Sellitto. — Logo depois, acrescentou: — Tem certeza? Está bem. Quem teria acesso? Obrigado. — Ele desligou e disse: — Que filho da mãe.

 

— O quê?

 

— Era o supervisor da divisão de suprimentos da Algonquin. Ele disse que houve um roubo na semana passada em um dos armazéns da empresa, na rua 118. Eles acham que foi algum empregado. O intruso tinha uma chave. Ele não precisou arrombar a porta.

 

Pulaski perguntou:

 

— E o ladrão roubou o cabo?

 

Sellitto fez que sim com a cabeça.

 

— E os parafusos fendidos também.

 

Pela expressão no rosto redondo do detetive, Rhyme percebeu que havia ainda outra mensagem.

 

— Quanto? — perguntou ele, num sussurro. — Quantos metros de cabo ele roubou?

 

— Você acertou na mosca, Linc. Vinte e três metros de cabo e doze parafusos. O que McDaniel estava dizendo mesmo? Que era um caso isolado? Besteira. O INDES vai continuar a agir.

 

Cena do crime: subestação Manhattan-10 da Algonquin, rua 57, oeste

 

  • Vítima (falecida): Luís Martin, subgerente de loja de artigos musicais

 

  • Não há impressões digitais em nenhuma superfície

 

  • Estilhaços de metal derretido, resultantes de arco elétrico

 

  • Cabo de alumínio trançado, 8 milímetros, com isolamento

 

– Bennington Electrical Manufacturing, AM-MV-60, capacidade de até 60 mil volts

 

– Cortado com serra manual, lâmina nova, dente quebrado

 

  • Dois parafusos fendidos, buracos de 2 centímetros.

 

– Não rastreável

 

  • Marcas de ferramentas nos parafusos

 

  • Placa de latão presa ao cabo com dois parafusos de 6 milímetros

 

– Não rastreável

 

  • Pegadas de botas

 

– Albertson-Fenwick, modelo E-20 para eletricistas, tamanho 43

 

  • Grade de metal cortada para entrada na subestação, marcas do instrumento de corte

 

  • Porta de acesso e moldura no porão

 

– DNA coletado; enviado para teste

 

– Comida grega, taramasalata

 

  • Fio de cabelo loiro, 2,5cm, natural, de pessoa abaixo de 50 anos, descoberto no café em frente à subestação

 

– Enviado para teste toxicológico

 

  • Resíduos minerais, cinza vulcânica

 

– Não encontrada em estado natural na região de Nova York

 

– Exibições, museus, escolas de geologia?

 

  • Acesso feito ao Centro de Controle da Algonquin por meio de códigos internos, sem invasão por hackers

 

Perfil do indivíduo desconhecido

 

  • Sexo masculino

 

  • Cerca de 40 anos

 

  • Provavelmente branco

 

  • Possivelmente usava óculos e boné

 

  • Possivelmente tem cabelos loiros e curtos

 

  • Macacão azul-escuro, semelhante ao usado por operários da Algonquin

 

  • Conhece bem os sistemas elétricos

 

  • Pegada de bota sugere ausência de característica física que modifique a postura ou o caminhar

 

  • Possivelmente a mesma pessoa roubou 23 metros de cabo Bennington semelhante ao do ataque e 12 parafusos fendidos. Mais ataques em mente? Acesso com chave ao armazém da Algonquin onde ocorreu o roubo

 

  • É provável que seja empregado da Algonquin ou tenha contato com algum empregado

 

  • Conexão terrorista? Relação com o grupo Justice For [desconhecido]? Grupo terrorista? Envolvimento do indivíduo chamado Rahman? Referências codificadas a desembolsos financeiros, movimentos de pessoal e alguma coisa “grande”

 

Prestes a acontecer.

 

Essas foram as palavras que vieram à mente de Amelia Sachs quando ela saltou de seu Torino Cobra no estacionamento da Algonquin Consolidated Power and Light, em Astoria, no Queens. As instalações se estendiam por vários quarteirões, mas o prédio principal era complexo e alto, coberto de painéis vermelhos e cinzentos, com cerca de sessenta metros de altura. O imenso edifício fazia com que os empregados que saíam ao fim do expediente parecessem anões atravessando portas de uma casinha de boneca.

 

Tubulações partiam do prédio em muitos pontos e, como ela esperava, havia fios por toda parte, embora “fio” não fosse a denominação adequada. Eram cabos grossos e rígidos, alguns com isolamento, outros de cor acinzentada e descobertos, que brilhavam sob lâmpadas de segurança. Provavelmente transportavam centenas de milhares de volts vindos do interior do prédio, atravessando uma série de barras metálicas, e outras que ela imaginou serem feitas de cerâmica ou outro material isolante, e chegando a novas estruturas, suportes e torres ainda mais complicadas. Elas se separavam e corriam em diversas direções, como o tronco de uma árvore se dividindo em diversos galhos.

 

Olhando para trás, ela viu acima as quatro chaminés altas, também de um vermelho sujo de fuligem, munidas de luzes de advertência que brilhavam em meio ao nevoeiro do crepúsculo. Naturalmente, ela as tinha visto ao longo de muitos anos; ninguém que passasse por Nova York, ainda que uma única vez, poderia deixar de notá-las, pois constituíam a característica dominante da margem industrial do East River. Porém, nunca havia estado tão próxima delas, e se sentia fascinada pela forma como perfuravam o céu nublado. Lembrava-se de ter visto fumaça ou vapor saindo delas no inverno, mas agora nada escapava, a não ser calor ou algum gás invisível que distorcia a tranquila planície do céu.

 

Ouviu vozes e olhou para além do estacionamento, vendo um grupo de cerca de cinquenta manifestantes que protestavam. Erguiam cartazes e cantavam, provavelmente se queixando da empresa elétrica perversa que engolia óleo. Eles não repararam que Sachs tinha chegado dirigindo um carro que consumia cinco vezes mais petróleo que um dos Toyota Prius deles.

 

Ela acreditou sentir um tremor debaixo dos pés, como o provocado por grandes máquinas do século XIX que rosnavam. Ouvia um leve zumbido.

 

Fechou a porta do carro e se aproximou da entrada principal. Dois guardas a observavam, visivelmente curiosos com aquela ruiva alta que havia chegado num carro possante, mas pareciam também se divertir vendo a reação dela ao prédio. As expressões deles diziam: “Claro, é realmente impressionante, não? Depois de todos esses anos a gente ainda não consegue se acostumar.”

 

Em seguida, quando ela exibiu a identidade e o distintivo, os dois guardas assumiram uma atitude alerta — talvez esperassem um policial, mas não exatamente alguém como ela — e imediatamente a acompanharam pelos corredores das instalações executivas da Algonquin Consolidated.

 

Ao contrário do edifício elegante de uma grande empresa de mineração de dados em Manhattan, envolvida em um caso recente no qual ela havia trabalhado, o da Algonquin parecia uma reprodução do panorama da vida na década de cinquenta: móveis de madeira clara, grandes fotos emolduradas das instalações e das torres de transmissão, carpete marrom. A indumentária dos funcionários, quase todos homens, era ultraconservadora: camisas brancas e ternos escuros.

 

Prosseguiram pelos corredores sem atrativos, decorados com quadros que mostravam capas de revistas com artigos sobre a Algonquin: “A era da energia”, “Almanaque da transmissão elétrica”, “A rede”.

 

Eram quase seis e meia e mesmo assim havia dezenas de funcionários, com as gravatas afrouxadas, mangas arregaçadas e rostos preocupados.

 

No fim do corredor, o guarda a fez entrar no gabinete de A. R. Jessen. Embora tivesse corrido até chegar ali — com velocidades acima de cem por hora em uma parte da estrada —, Sachs tinha conseguido fazer uma breve pesquisa. O nome de Jessen não era Andy, e sim Andi, abreviação de Andrea. Sachs sempre fazia questão de fazer o dever de casa antes de uma missão, para saber o que fosse possível a respeito dos principais indivíduos envolvidos. Era importante conservar o controle nas conversas e nos interrogatórios. Ron havia presumido que fosse um homem. Sachs ficou pensando que sua credibilidade seria reduzida caso, ao chegar, tivesse perguntado pelo Sr. Jessen.

 

Diante do gabinete, Sachs fez uma pausa na porta da antessala. Uma secretária ou assistente pessoal, de blusa preta colada ao corpo, equilibrando-se precariamente na ponta dos sapatos de saltos muito altos, procurava algo em um arquivo. Era loira, tinha 30 e muitos ou 40 e poucos anos e parecia frustrada por não conseguir encontrar o que a chefe havia lhe pedido.

 

De pé, na porta do gabinete propriamente dito, estava outra mulher, de porte imponente e cabelos grisalhos, vestida de terno marrom sóbrio e blusa fechada até o pescoço. Tinha a testa franzida, observando a busca no arquivo, de braços cruzados.

 

— Eu sou a detetive Sachs. Liguei mais cedo — avisou a policial, quando a mulher se virou com ar sério.

 

Nesse momento, a mais jovem das duas puxou uma folha da gaveta do arquivo e a entregou à outra, dizendo:

 

— Encontrei, Rachel. O erro foi meu. Eu arquivei quando você saiu para almoçar. Por favor, faça cinco cópias.

 

— Sim, Srta. Jessen — disse a assistente, aproximando-se de uma copiadora.

 

A CEO se adiantou, caminhando sobre os perigosos saltos, olhou Sachs nos olhos e lhe deu um aperto de mão firme.

 

— Entre, detetive — disse ela. — Parece que temos muito a conversar.

 

Sachs olhou para a assistente vestida de terno marrom e seguiu a verdadeira Andi Jessen, entrando no gabinete

 

É bom se dedicar mais ao dever de casa, pensou, com certo arrependimento.

 

Andrea Jessen tinha se dado conta de que uma gafe quase havia sido cometida.

 

— Eu sou a segunda mais jovem aqui e a única mulher CEO de uma empresa elétrica importante no país. Mesmo sendo eu quem toma decisões sobre a contratação de funcionários, a Algonquin tem dez vezes menos mulheres que a maioria das grandes companhias norte-americanas. É a natureza da indústria.

 

Sachs ia perguntar por que ela se dedicava àquele tipo de atividade quando Jessen disse, antecipando-a:

 

— Meu pai trabalhava nisso.

 

A detetive quase revelou que tinha seguido a profissão exclusivamente por causa do pai, que havia sido policial de rua do Departamento de Polícia de Nova York durante muitos anos. Mas se conteve.

 

O rosto de Jessen era anguloso, com pouquíssima maquiagem. Havia rugas, porém tênues, que surgiam timidamente no canto dos olhos verdes e dos lábios pouco expressivos. O restante da pele era liso. Não era uma mulher acostumada ao ar livre.

 

Ela também observou Sachs atentamente e, em seguida, fez um gesto indicando a mesa ampla, rodeada por cadeiras de escritório. A detetive se sentou enquanto Jessen pegava o telefone.

 

— Me desculpe por um momento — disse, discando com dedos de unhas bem cuidadas, porém sem esmalte.

 

Ligou para três pessoas diferentes, falando com todas sobre o ataque. Uma das ligações foi para um advogado, pelo que a detetive pôde entender, outra para o Departamento de Relações Públicas da Algonquin ou para uma empresa de RP. A terceira ligação foi a mais longa, aparentemente certificando-se de que haveria segurança reforçada em todas as subestações da empresa e em outras instalações. Tomando notas com um lápis folheado a ouro, falava frases curtas e em staccato, sem nenhum contato com função fática como “quer dizer” ou “você sabe”. Enquanto ela disparava instruções, Sachs observou o escritório, notando na escrivaninha de madeira uma foto de Andi Jessen ainda adolescente, com a família. Pelas várias fotos das crianças, deduziu que a CEO tinha um irmão alguns anos mais jovem. Ambos se pareciam, embora ele tivesse cabelos castanhos e ela, loiros. Fotos recentes mostravam que era bonito e atlético, vestindo um uniforme do Exército. Havia outras fotos dele durante viagens, às vezes abraçando uma mulher bonita, que era sempre diferente em cada imagem.

 

Não havia fotos de Jessen com parceiros românticos.

 

As paredes eram cobertas com estantes de livros e quadros com gravuras e mapas antigos que poderiam ter vindo de alguma exposição de um museu sobre a história da energia. Uma era intitulada A primeira rede e mostrava uma área da parte sul de Manhattan, perto da rua Pearl. Em letras legíveis aparecia o nome de Thomas A. Edison, e Sachs entendeu que deveria ser a assinatura do inventor.

 

Jessen desligou e se empertigou, com os cotovelos sobre a mesa e olhos avermelhados, mas o queixo e a boca se mantiveram firmes.

 

— Já se passaram mais de sete horas desde... o incidente — disse ela. — Eu esperava que vocês já tivessem detido alguém. Acho que, se isso tivesse acontecido — murmurou —, vocês teriam ligado e não mandado alguém pessoalmente.

 

— Não, eu vim para fazer algumas perguntas sobre coisas que surgiram na investigação.

 

Novamente, a CEO a observou com atenção.

 

— Eu falei com o prefeito, com o governador e com o chefe do escritório do FBI em Nova York. Ah, e também com a Segurança Nacional. Eu esperava que um deles viesse, não uma policial.

 

Não era um menosprezo intencional, e Sachs não se sentiu ofendida.

 

— A polícia de Nova York está tratando da cena do crime nesse caso. Minhas perguntas têm a ver com isso.

 

— Isso explica sua visita. — A expressão dela ficou um pouco mais suave. — De mulher para mulher, devo dizer que às vezes fico na defensiva. Eu achei que os chefões não estavam me levando a sério. — Sorriu, com ar conspiratório. — Isso acontece com mais frequência do que você pensa.

 

— Eu sei muito bem.

 

— Imagino que sim. Você é detetive, não?

 

— Isso mesmo. — Pensando na urgência do caso, Sachs disse: — Podemos tratar das perguntas?

 

— É claro.

 

O telefone tocou várias vezes, mas, conforme Jessen tinha instruído sua assistente, que havia entrado pouco antes na antessala, o aparelho emitia som apenas uma vez e depois ficava em silêncio, enquanto esta se ocupava das chamadas.

 

— Primeiro, um esclarecimento preliminar. As senhas de acesso ao software das redes foram mudadas?

 

Jessen franziu a testa.

 

— Naturalmente. Foi a primeira coisa que fizemos. O prefeito ou a Segurança Nacional não informaram vocês?

 

Elas não foram mudadas, refletiu Sachs.

 

A CEO prosseguiu:

 

— Também colocamos mais uma barreira eletrônica. Nenhum hacker vai ter como invadir.

 

— Provavelmente não foi trabalho de um hacker.

 

Jessen inclinou a cabeça.

 

— Hoje de manhã, Tucker McDaniel disse que é provável que tenha sido terroristas. Ele é agente do FBI.

 

— Temos informações mais recentes.

 

— De que outra forma isso poderia ter acontecido? Alguém de fora estava redirecionando o suprimento e alterando os disjuntores da MH-10, a subestação da rua 57.

 

— Mas nós temos certeza de que ele conseguiu as senhas dentro da empresa.

 

— Isso é impossível. Tem que ter sido um ataque terrorista.

 

— Essa definitivamente é uma possibilidade e eu quero fazer algumas perguntas a você sobre isso. Mesmo que tenham sido terroristas, eles usaram alguém de dentro. Um agente da nossa divisão de Cibercrimes conversou com o seu pessoal de informática. Eles disseram que não havia indícios de tentativas de invasão.

 

Jessen ficou em silêncio, olhando para a escrivaninha. Não parecia contente. Era por causa da possibilidade de que o responsável fosse alguém da empresa? Ou porque algum dos seus subordinados tinha falado com a polícia sem que ela soubesse? Ela rabiscou uma nota e Sachs ficou pensando se seria um lembrete para repreender alguém na seção de Segurança da Tecnologia.

 

— O suspeito foi visto usando um uniforme da Algonquin, ou pelo menos um macacão muito semelhante ao que os seus operários usam — prosseguiu Sachs.

 

— Existe um suspeito?

 

— Um homem foi visto em um café em frente à subestação, por volta da hora do ataque. Ele estava com um laptop.

 

— Vocês conseguiram algum detalhe sobre ele?

 

— Era do sexo masculino e branco, provavelmente tinha cerca de 40 anos. Nada mais.

 

— Bem, quanto ao uniforme, é possível comprar ou mandar fazer.

 

— Claro. Mas tem mais: o cabo que ele usou para preparar o arco elétrico era da Bennington. É o que a sua empresa costuma usar.

 

— É verdade. A maioria das empresas de geração de energia também usa essa marca.

 

— Na semana passada, vinte e três metros de cabo da Bennington, do mesmo diâmetro, foram roubados de um dos seus armazéns no Harlem, junto com uma dúzia de parafusos fendidos. Eles são usados para dividir...

 

— Eu sei para o que servem — interrompeu Jessen, acentuando as rugas do rosto.

 

— A pessoa que entrou no armazém usou uma chave. E entrou no túnel de acesso no subsolo da subestação por um bueiro da Algonquin para as tubulações de vapor.

 

— Isso quer dizer que ele não usou o código eletrônico para entrar na subestação? — disse rapidamente Jessen.

 

— Não.

 

— Então existem indícios de que não é um funcionário.

 

— É uma possibilidade, como eu disse. Porém, tem mais uma coisa.

 

Sachs revelou que encontraram traços de comida grega, o que poderia indicar uma conexão próxima à sede da empresa.

 

Aparentemente atônita diante da extensão do que já havia sido descoberto, a CEO disse, em tom exasperado:

 

— Taramasalata?

 

— Há cinco restaurantes gregos nas proximidades do seu escritório e mais vinte e oito num raio de dez minutos de táxi. Como os traços são bastante recentes, faz sentido supor que se trate de um funcionário ou que tenha obtido as senhas de alguém daqui. Talvez eles tenham se encontrado em um desses restaurantes.

 

— Ah, por favor, existem muitos restaurantes gregos na cidade.

 

— Vamos presumir que as senhas dos computadores tenham vindo de dentro. Quem teria acesso a elas? — perguntou Sachs. — Essa é realmente a questão inicial.

 

— É muito limitado e controlado — respondeu Jessen rapidamente, como se estivesse sendo julgada por negligência. Parecia uma frase ensaiada.

 

— Quem são?

 

— Eu tenho. Meia dúzia de funcionários seniores. Só isso. Mas, detetive, são pessoas que estão na empresa há muitos anos. Não é possível que tenham feito isso. É inconcebível.

 

— Pelo que entendo, as senhas não ficam armazenadas nos computadores.

 

Ela pareceu surpresa diante da revelação do que a polícia já sabia.

 

— Isso. Elas são definidas aleatoriamente pelo supervisor principal do centro de controle. E ficam guardadas num cofre na sala ao lado.

 

— Eu gostaria de saber os nomes e também se houve algum acesso não autorizado a essa sala.

 

Jessen, visivelmente, resistia à ideia de que o criminoso fosse algum funcionário da empresa, mas respondeu:

 

— Vou chamar o chefe de segurança. Ele deve ter essa informação.

 

— Também preciso do nome dos operários que foram designados nos últimos meses para executar reparos nas tubulações de vapor daquele bueiro atrás da subestação. Fica em um beco cerca de dez metros ao norte do prédio.

 

A CEO levantou o fone e pediu à assistente que chamasse dois funcionários ao seu gabinete. O pedido foi feito com polidez. Embora algumas pessoas na mesma posição pudessem ter dado uma ordem seca, Jessen se mantinha controlada e moderada. Isso fez com que Sachs a considerasse ainda mais firme. Os fracos e inseguros são os que perdem a calma. Era algo que acontecia constantemente na polícia.

 

Quase imediatamente, um dos funcionários chamados chegou. Era um homem de negócios gorducho, de meia-idade, vestindo calça cinza e camisa branca.

 

— Alguma novidade, Andi?

 

— Algumas. Sente-se. — Em seguida ela se voltou para Sachs. — Esse é Bob Cavanaugh, vice-presidente sênior de Operações. Essa é a detetive Sachs.

 

Ambos se cumprimentaram com um aperto de mãos.

 

— Algum progresso? Algum suspeito? — perguntou ele a Sachs.

 

Antes que a detetive pudesse responder, Jessen disse, em tom estoico:

 

— Eles acham que é alguém de dentro, Bob.

 

— De dentro?

 

— É o que parece — reforçou Sachs, explicando o que tinham descoberto até então. Cavanaugh pareceu consternado com a ideia de que pudesse haver um traidor na companhia.

 

Jessen perguntou:

 

— Você poderia descobrir na Manutenção de Vapor quem foi designado para inspecionar a tubulação no bueiro perto da MH-10?

 

— Desde quando?

 

— Dois, três meses — respondeu Sachs.

 

— Eu não sei se eles vão ter todos os registros guardados, mas vou verificar.

 

Ele fez uma ligação pedindo a informação e depois se voltou para as duas mulheres.

 

— Vamos conversar mais um pouco sobre a conexão terrorista — disse Sachs.

 

— Eu pensei que você estava acusando um funcionário.

 

— Não é incomum que uma célula terrorista recrute alguém de dentro.

 

— Devemos procurar entre os funcionários muçulmanos? — perguntou Cavanaugh.

 

— Eu estava pensando no grupo de manifestantes lá fora — respondeu Sachs. — O que acha de ecoterrorismo?

 

Cavanaugh encolheu os ombros.

 

— A Algonquin foi criticada na imprensa por não se preocupar o suficiente com o meio ambiente.

 

Ele disse isso com delicadeza, sem olhar para Jessen. Aparentemente era um assunto conhecido e cansativo.

 

A CEO disse a Sachs:

 

— Nós temos um programa de energia renovável. Mas estamos sendo realistas, e não perdendo tempo. É politicamente correto agitar a bandeira das fontes renováveis, mas a maioria das pessoas não sabe nada a respeito do assunto — concluiu ela, com um gesto de desprezo.

 

Lembrando-se de alguns incidentes graves de terrorismo ecológico que ocorreram recentemente, Sachs pediu a ela que elaborasse os comentários.

 

Foi como se tivesse apertado um botão.

 

— Combustíveis à base de células de hidrogênio ou de matéria orgânica, painéis solares, geração geotérmica com metano, energia das ondas... Você sabe quanta energia isso produz? Menos de três por cento de toda a energia consumida no país. Metade do fornecimento de eletricidade dos Estados Unidos vem do carvão. A Algonquin usa gás natural, que representa vinte por cento. As fontes nucleares fornecem dezenove. As hidrelétricas, sete. É claro que as fontes renováveis continuarão crescendo, porém muito, muito lentamente. Durante os próximos cem anos, vão ser como uma gota num balde cheio d’água, se eu puder citar minhas próprias palavras. — Ela prosseguiu, parecendo cada vez com mais raiva. — Os custos iniciais são imensos, a aparelhagem para criar a eletricidade é ridiculamente dispendiosa e pouco confiável, e, como os geradores em geral ficam longe dos grandes centros, a transmissão também tem um custo elevado. Veja as baterias dos geradores solares. São a onda do futuro, não é? Você sabia que estão entre os que mais utilizam água em toda essa indústria? E onde ficam localizados? Onde tem mais sol e, portanto, menos água. No entanto, quem disser isso em voz alta vai ser imediatamente atacado pela mídia e pelo pessoal de Washington e de Albany. Você ouviu falar dos senadores que estão vindo para cá para comemorar o Dia da Terra?

 

— Não.

 

Jessen continuou:

 

— Eles fazem parte da Subcomissão Mista de Recursos Energéticos e trabalham com o presidente em temas ambientais. Vão estar presentes num grande comício no Central Park, na noite de quinta. E o que eles vão fazer? Vão nos atacar. Claro, não vão mencionar a Algonquin pelo nome, mas tenho certeza de que vão falar de nós. Do parque é possível ver as chaminés. Eu tenho certeza de que foi por isso que os organizadores escolheram a posição do palanque... Bem, essas são as minhas opiniões. Mas será o suficiente para que a Algonquin seja um alvo? Eu não consigo entender. Eu entendo alguns fundamentalistas políticos ou religiosos atacando a infraestrutura norte-americana, mas não ambientalistas.

 

Cavanaugh concordou.

 

— Ecoterrorismo? Nunca tive problemas com isso, pelo que me lembro. E já estou aqui há trinta anos; trabalhei com o pai de Andi quando ele era o diretor aqui. Naquela época queimávamos carvão. Sempre esperávamos que o Greenpeace ou alguns liberais viessem nos sabotar. Mas nada aconteceu.

 

Jessen confirmou.

 

— Não, em geral são boicotes e manifestações.

 

Cavanaugh sorriu com amargura.

 

— E essas pessoas não percebem a ironia de que metade delas vem para cá de metrô, que funciona graças à corrente elétrica gerada pela Algonquin, depois de terem visitado a exposição Novas Energias no centro de convenções. Ou então confeccionaram seus cartazes ontem à noite, com a luz que nós fornecemos. Nem é ironia. Na verdade, é hipocrisia.

 

— Até que venha alguma comunicação de alguém ou que fiquemos sabendo de mais alguma coisa, eu continuo considerando a hipótese de ecoterroristas — observou Sachs. — Vocês já ouviram falar algo sobre um grupo que se chama Justice For?

 

— Justice For o quê? — perguntou Cavanaugh.

 

— Não sabemos.

 

— Bem, eu nunca ouvi falar — respondeu Jessen.

 

Cavanaugh tampouco. Porém, ele disse que verificaria com os escritórios regionais da Algonquin para ver se conheciam.

 

Cavanaugh recebeu uma ligação. Ele olhou para Andi Jessen enquanto ouvia e, ao desligar, disse a Sachs:

 

— Há mais de um ano não são executados serviços no bueiro de acesso às tubulações de vapor. A tubulação está fechada.

 

— Tudo bem. — A notícia desanimou Sachs.

 

— Se não precisarem de mim, vou entrar em contato com os escritórios regionais agora — avisou Cavanaugh.

 

Depois que ele saiu, um homem alto, afro-americano, apareceu à porta. Era o segundo dos que foram chamados. Jessen acenou para que ele se sentasse e fez as apresentações. O chefe de segurança Bernard Wahl era, pelo que Sachs notou na empresa, o único funcionário não branco a não usar o macacão azul dos operários. Era um homem forte, de terno escuro e camisa branca, muito engomada. Sua gravata era vermelha. A cabeça raspada brilhava com as luzes do teto. Olhando para cima, Sachs reparou que apenas metade das lâmpadas estava acesa. Seria por economia? Ou Jessen teria decidido, por causa de sua posição antiecológica, que a redução do uso de energia seria vantajosa do ponto de vista de relações públicas?

 

Wahl trocou um aperto de mão com Sachs, olhando de relance para a protuberância no quadril dela, onde ficava a Glock. Um ex-policial não se interessaria pela arma, por representar nada mais que um instrumento de trabalho, como celulares ou canetas. Os amadores, ao contrário, eram fascinados pelo armamento.

 

Jessen explicou do que se tratava e perguntou como era o acesso às senhas dos computadores.

 

— As senhas? Pouquíssima gente tem acesso. Só funcionários seniores. Na minha opinião, seria muito óbvio. Tem certeza de que não foi um hacker? Hoje em dia esses meninos são muito espertos.

 

— Temos noventa e nove por cento de certeza — retrucou Sachs.

 

— Bernie, mande alguém verificar os acessos à sala do cofre ao lado do centro de controle.

 

Wahl pegou o celular e fez uma ligação, pedindo a um subordinado que se ocupasse do assunto. Desligou e disse:

 

— Eu esperava que algum grupo terrorista se pronunciasse. Mas vocês acham que foi alguém de dentro?

 

— Achamos que ou foi alguém de dentro ou houve ajuda de alguém de dentro. Mas também queremos saber se houve ameaças de ecoterroristas.

 

— Nunca nos quatro anos em que trabalho aqui. Só manifestações — disse ele, fazendo um gesto para a janela.

 

— Você já ouviu falar de um grupo chamado Justice For alguma coisa? Algo que tenha a ver com temas ambientais?

 

— Não, senhora. — Wahl falava com tranquilidade, sem expressar nenhuma emoção.

 

— Houve algum problema com funcionários que tenham sido despedidos recentemente, que tenham alguma queixa contra a companhia? — continuou Sachs.

 

— Contra a companhia? — questionou Wahl. — O atentado foi contra um ônibus metropolitano. O alvo não era a companhia.

 

— Nossas ações caíram oito por cento, Bernie — interveio Jessen.

 

— Ah, claro. Eu não tinha pensado nisso. Tem alguns funcionários assim. Posso fornecer os nomes.

 

— Eu também gostaria de ter informações sobre funcionários com problemas mentais, ou que tenham demonstrado sentir raiva da direção da empresa, ou com sintomas de instabilidade — pediu Sachs.

 

— Em geral, o Departamento de Segurança não anota o nome dessas pessoas, a menos que o problema seja grave, com algum risco de violência contra eles próprios ou terceiros — respondeu Wahl. — Eu não seria capaz de mencionar ninguém imediatamente, mas vou verificar com o RH e com o pessoal do serviço médico. Alguns detalhes podem ser confidenciais, mas vou informar os nomes. Vocês podem partir dessa base.

 

— Obrigada. Agora, achamos que ele pode ter roubado o cabo e as ferragens de um dos armazéns da Algonquin, na rua 118.

 

— Eu me lembro disso — falou Wahl, com uma expressão de desagrado. — Fizemos uma investigação, mas o prejuízo era de apenas algumas centenas de dólares. Não encontramos pistas.

 

— Quem poderia ter as chaves?

 

— São chaves padronizadas. Todos os nossos trabalhadores de rua têm um conjunto. Umas oitocentas pessoas, além dos supervisores.

 

— Algum funcionário foi despedido ou é suspeito de furto ou roubo recentemente?

 

Wahl olhou para Jessen para ter certeza se deveria responder à pergunta. A mensagem sutil foi positiva.

 

— Não. Pelo menos não é do conhecimento do meu departamento. — O celular dele tocou e Wahl olhou para a tela. — Me desculpem... Aqui é Wahl. — Sachs observou a expressão no rosto do homem e viu que ele estava recebendo notícias perturbadoras. Ele encarou as duas e desligou. Pigarreou, um tom de barítono. — É possível, embora eu não tenha certeza, que tenha havido uma quebra de segurança.

 

— O quê? — perguntou Jessen, enrubescendo.

 

— Os registros da ala 9, leste — explicou ele, olhando para Sachs. — O setor onde ficam o centro de controle e a sala do cofre.

 

— E então? — perguntaram simultaneamente Sachs e Jessen.

 

— Existe uma porta de segurança entre a sala de controle e a do cofre. Ela deveria fechar automaticamente, mas fomos informados pelos registros de que ela ficou aberta durante duas horas, poucos dias atrás. Ou foi algum defeito ou foi impedida de fechar.

 

— Duas horas? Sem supervisão? — questionou Andi Jessen, furiosa.

 

— Isso mesmo — respondeu ele, comprimindo os lábios. Esfregou o couro cabeludo reluzente e continuou: — Mas não parece que tenha sido alguém de fora. Não houve arrombamento na entrada do prédio.

 

— Vocês têm câmeras com filmagens de segurança? — perguntou Sachs.

 

— Não naquela sala.

 

— Alguém trabalha perto dessa sala?

 

— A porta fica num corredor vazio. Nem sequer está identificada, por medida de segurança.

 

— Quantas pessoas poderiam ter entrado?

 

— Todas as que tenham autorização para a ala 9 através da 11, leste.

 

— E isso são quantas pessoas?

 

— Muitas — confessou ele, baixando o olhar.

 

A notícia era desanimadora, mas exatamente o que Sachs esperava.

 

— Você pode fazer uma lista das pessoas que entraram nesse dia?

 

Wahl fez outra ligação, enquanto Jessen repreendia alguém ao telefone. Poucos minutos depois, uma jovem de blusa dourada e cabelos eriçados surgiu à porta, com ar tímido. Olhou uma só vez para Andi Jessen e entregou algumas folhas a Wahl.

 

— Bernie, são as listas que você pediu e também a que veio do RH.

 

A moça deu meia-volta, feliz por escapar da cova da leoa.

 

Sachs observou a expressão de Wahl enquanto ele percorria a lista. Aparentemente, a compilação não havia exigido muito tempo, no entanto, os resultados não pareciam ser bons. Ele explicou que quarenta e seis pessoas poderiam ter tido acesso à sala.

 

— Quarenta e seis? Meu Deus! — exclamou Jessen, afundando na cadeira e olhando pela janela.

 

— Muito bem, o que precisamos descobrir é quais dessas pessoas da lista têm álibis e quais possuem conhecimento técnico suficiente para redirecionar o computador e preparar o cabo no ponto de ônibus.

 

Jessen contemplava a escrivaninha imaculada.

 

— Eu não sou perita em questões técnicas. Herdei do meu pai o tino comercial nas atividades relacionadas à energia, como geração, transmissão e comercialização. — Ficou pensativa por um instante e depois disse: — Mas conheço alguém que pode nos ajudar.

 

Ela fez outra ligação e em seguida ergueu o olhar.

 

— Ele vai estar aqui em poucos minutos. O escritório dele fica do outro lado do Forno.

 

— Forno?

 

— A sala da turbina — explicou ela, fazendo um gesto para a janela, em direção às chaminés. — É lá que produzimos o vapor para movimentar os geradores.

 

Wahl estava lendo a lista mais curta.

 

— Aqui estão os nomes dos funcionários que tivemos que repreender ou demitir por diversos motivos durante os últimos seis meses. Alguns por problemas mentais, outros por uso de drogas, outros ainda por bebida.

 

— São só oito — acrescentou Jessen.

 

Havia um tom de orgulho na voz dela?

 

Sachs comparou as duas listas. Ninguém da lista mais curta — os funcionários problemáticos — tinha acesso às senhas do computador. Ela ficou decepcionada, porque tinha imaginado que haveria uma pista ali.

 

Jessen agradeceu a Wahl.

 

— Qualquer coisa que eu possa fazer, detetive, pode contar comigo.

 

Sachs também agradeceu ao chefe da segurança, que saiu da sala. Então, disse a Jessen:

 

— Eu gostaria de ter cópias do currículo de todas as pessoas da lista, com perfis profissionais, qualquer coisa.

 

— Claro, eu posso conseguir isso. — Jessen pediu à assistente que copiasse a lista e reunisse informações pessoais de todos os nomes.

 

Outro homem entrou no gabinete da CEO, um tanto sem fôlego. Sachs estimou que ele tivesse entre 40 e 50 anos. Era um pouco gorducho e seus cabelos eram castanhos e revoltos, levemente grisalhos. “Fofo” era um bom adjetivo para descrevê-lo. Tinha um ar simpático e algo de juvenil. Olhos vivos, sobrancelhas erguidas, atitude inquieta. As mangas da camisa amarrotada e listrada estavam arregaçadas. Parecia ter restos de migalhas na calça.

 

— Detetive Sachs — disse Jessen —, esse é Charlie Sommers, gerente da Divisão de Projetos Especiais.

 

O homem apertou a mão da policial.

 

A CEO olhou para o relógio de pulso, levantou-se e vestiu uma jaqueta escolhida em um amplo armário de roupas. Sachs ficou pensando se ela costumava passar noites no escritório. Jessen espanou poeira ou caspa dos ombros.

 

— Eu tenho uma reunião com a nossa empresa de relações públicas e depois uma coletiva de imprensa. Charles, você poderia levar a detetive Sachs para sua sala? Ela tem algumas perguntas a fazer. Ajude no que puder.

 

— É claro, com prazer.

 

Jessen olhava pela janela, contemplando seu legado — o grande prédio, a superestrutura de cabos, torres e andaimes. Com a correnteza do East River como pano de fundo, ela parecia a capitã de um grande navio. Esfregava obsessivamente o polegar direito no indicador, gesto que denotava estresse e que Sachs reconheceu imediatamente, porque costumava fazer o mesmo.

 

— Detetive Sachs, qual era o comprimento do cabo usado no ataque?

 

Sachs deu a informação.

 

A CEO assentiu, ainda olhando pela janela.

 

— Então ele ainda tem o suficiente para mais seis ou sete ataques. Isso é, caso não possamos detê-lo.

 

Andi Jessen não parecia estar esperando uma resposta. Nem sequer dava a impressão de estar falando com as outras pessoas que estavam na sala.

 

Depois do trabalho, um público diferente tomava conta do Parque Tompkins Square, no East Village. Casais jovens, alguns com roupas da Brooks Brothers, outros com piercings e tatuagens, passeavam com os filhos pequenos. Músicos, namorados, grupos de pessoas de 20 e poucos anos voltavam para casa depois de passar o dia em empregos que detestavam e se enchiam do crescente entusiasmo com as perspectivas da noite. Os aromas dominantes eram o da água usada para cozinhar as salsichas dos cachorros-quentes, maconha, curry e incenso.

 

Fred Dellray estava sentado em um banco perto de uma árvore grande com uma copa ampla. Ele tinha lido a placa ao chegar e ficara sabendo que ali o fundador do movimento Hare Krishna havia cantado o mantra do grupo pela primeira vez fora da Índia, em 1966.

 

Ele jamais saberia disso. Dellray preferia a filosofia secular à teologia, mas havia estudado as principais religiões e sabia que a seita Hare Krishna tinha quatro regras principais necessárias para seguir o dharma, o caminho da virtude: compaixão, autocontrole, honestidade e limpeza de corpo e alma.

 

Refletia sobre essas qualidades e sobre a forma como elas eram entendidas na atual cidade de Nova York versus na Ásia meridional quando ouviu passos atrás dele.

 

Sua mão não havia chegado à metade do caminho até a arma quando soou:

 

— Fred.

 

Dellray se sentiu embaraçado por ter sido pego de surpresa. William Brent não representava uma ameaça, mas poderia facilmente ser um risco.

 

Seria outro sinal de que estava perdendo a capacidade de tratar com seus informantes?

 

Ele acenou para que o outro se sentasse. Vestido com um terno preto que já conhecera dias melhores, Brent tinha aparência comum, com a pele do queixo um tanto flácida e olhos vivos sob os cabelos negros penteados para trás e fixados com gel. Usava óculos de aros de metal que já estavam fora de moda desde a época em que ele havia trabalhado para Dellray. No entanto, eram práticos, típicos de William Brent.

 

O informante cruzou as pernas e olhou para a árvore. Usava meias coloridas e mocassins.

 

— Está tudo bem, Fred?

 

— Tudo bem. Tenho andado ocupado.

 

— Você está sempre ocupado.

 

Dellray não se importou em perguntar o que Brent pretendia, qual era o nome que estava usando no momento e o que estava fazendo. Teria sido um desperdício de energia e tempo.

 

— Jeep é uma criatura estranha, não acha?

 

— É, sim — concordou Dellray.

 

— Quanto tempo você acha que ele ainda vai ficar vivo?

 

Dellray fez uma pausa e depois respondeu, com sinceridade:

 

— Três anos.

 

— Aqui. Mas, se Atlanta der certo, ele ainda deve durar um tempo, se não fizer bobagem.

 

Dellray se sentiu estimulado pela informação de Brent. Ele próprio não sabia o destino exato de Jeep.

 

— Fred, agora eu sou um trabalhador honesto. Legítimo. O que eu vim fazer aqui?

 

— Você veio porque sabe escutar.

 

— Escutar?

 

— Por isso eu gostava de trabalhar com você. Você sempre escutava. Ouvia muita coisa. Eu acho que ainda ouve.

 

— Isso tem a ver com a explosão no ponto de ônibus?

 

— Sim.

 

— Algum defeito elétrico — disse Brent, sorrindo. — Foi o que saiu no jornal e eu sempre penso nessa obsessão que temos com a mídia. Por que eu deveria acreditar? Eles falam do mau comportamento de atores sem talento e de estrelas peitudas de 29 anos viciadas em cocaína. Por que isso mereceria mais que um milissegundo da nossa atenção? O que aconteceu naquele ponto de ônibus, Fred, foi outra coisa.

 

— Foi outra coisa — concordou Dellray. Com Jeep, ele tinha representado um papel. Era como um filme melodramático, feito para a TV. Mas ali, com William Brent, passava a ser um ator que encarnava o personagem de maneira sutil e real. As falas tinham sido escritas ao longo dos anos, mas o desempenho vinha do coração. — Eu realmente preciso saber o que aconteceu — completou.

 

— Gostei de trabalhar com você, Fred. Você às vezes era... difícil, mas sempre foi honesto.

 

Muito bem, ele já havia progredido no caminho de iluminação do dharma. Dellray prosseguiu:

 

— Vamos continuar trabalhando juntos?

 

— Eu já me aposentei. Ser informante pode fazer mal à saúde.

 

— Muita gente volta a trabalhar depois de se aposentar. A economia anda mal. O dinheiro da previdência não é o suficiente para levar a vida. — Dellray repetiu: — Vamos continuar trabalhando juntos?

 

Brent ficou encarando a árvore durante longos quinze segundos. Por fim, disse:

 

— Vamos continuar, sim. Diga alguns detalhes e vou pensar se vale a pena perder tempo e me arriscar. Aliás, isso serve para nós dois.

 

Para nós dois?, pensou Dellray. Depois, continuou:

 

— Não temos muitos detalhes, mas existe um grupo terrorista chamado Justice For, não sei para quê. O chefe pode ser um homem chamado Rahman.

 

— Eles são responsáveis pelo que aconteceu no ponto de ônibus?

 

— É possível. E também alguém ligado à companhia de eletricidade. Não sabemos quem. Pode ser um homem ou uma mulher.

 

— O que o jornal não revelou? Foi uma bomba?

 

— Não. O criminoso manipulou a rede de distribuição de energia.

 

Brent ergueu as sobrancelhas por trás dos óculos arcaicos.

 

— A rede... A eletricidade... Imagina só. É pior que uma engenhoca explosiva improvisada. Na rede, o explosivo já existe, nas residências e nos escritórios de todo mundo. Basta ligar algumas chaves. Eu morro e você também. E não é uma boa forma de se despedir do mundo.

 

— Por isso eu estou aqui.

 

— Justice For alguma coisa... Tem alguma ideia de quais possam ser os planos deles?

 

— Não. Pode ser uma organização islâmica, ariana, política, doméstica, estrangeira, ecológica. Não sabemos.

 

— De onde veio esse nome? Uma tradução?

 

— Não. O que foi interceptado era “Justice” e “For”. Havia outras palavras, mas eles não conseguiram pegar.

 

— “Eles”. — Brent esboçou um sorriso e Dellray ficou imaginando se ele sabia o que o agente secreto estava fazendo ali, ou se sabia que o admirável mundo da eletrônica o havia ultrapassado. SIGINT.

 

— Alguém reivindicou a autoria? — perguntou Brent, em sua voz suave.

 

— Ainda não.

 

Brent refletiu com interesse.

 

— É preciso muito planejamento para fazer uma coisa dessas. Muitos fios para juntar.

 

— Sem dúvida.

 

Um pequeno movimento dos músculos do rosto de Brent mostrou a Dellray que algumas peças do quebra-cabeça estavam se encaixando. Ele ficou entusiasmado ao perceber isso, mas, naturalmente, não expressou nada.

 

Brent confirmou, com um sussurro.

 

— Eu ouvi alguma coisa, sim, sobre alguém fazendo uma grande travessura.

 

— Me conta. — Dellray procurou não parecer muito ansioso.

 

— Não há muito o que contar. Só fumaça. — Em seguida acrescentou: — E sabe as pessoas que poderiam me contar? Não posso deixar que você entre em contato com elas.

 

— Pode ter a ver com terrorismo?

 

— Eu não sei.

 

— Isso significa que você também não pode afirmar que não.

 

— É verdade.

 

Dellray estava inquieto. Ele trabalhava com informantes havia muitos anos e sabia quando estava perto de alguma coisa importante.

 

— Se esse grupo, ou o que quer que seja, continuar a agir... muita gente pode sair ferida. Ou muito mais que isso.

 

Brent assobiou. Isso significava que ele não se importava, que os apelos ao patriotismo e à virtude não adiantariam.

 

Wall Street devia aprender a lição...

 

Dellray acenou com a cabeça, indicando que a negociação estava em curso.

 

Brent continuou:

 

— Eu posso fornecer nomes e locais. Tudo o que eu descobrir, você vai saber, mas só eu vou fazer o trabalho.

 

Ao contrário de Jeep, o próprio Brent havia demonstrado várias qualidades de iluminação do dharma, quando Dellray utilizara seus serviços. Autocontrole, pureza de alma... bem, pelo menos do corpo.

 

Além da importantíssima honestidade.

 

Dellray achava que podia confiar nele. Olhou-o nos olhos, intensamente.

 

— Nós vamos nos entender. Posso concordar com que você faça o trabalho. Posso concordar em não interferir. Mas não posso concordar com lentidão.

 

— Essa é uma das coisas que você precisa pagar para ter. Respostas rápidas — declarou Brent.

 

— Isso nos leva a...

 

Dellray não tinha problemas para pagar seus informantes. Ele preferia barganhar favores — redução de sentenças, tratos com agentes do serviço de livramento condicional, arquivamento de processos —, mas dinheiro também funcionava.

 

Pagar por informações valiosas, receber informações valiosas.

 

— O mundo está mudando, Fred — comentou William Brent.

 

Ah, vamos voltar a esse tema?, perguntou Dellray a si mesmo.

 

— E eu tenho alguns projetos que preciso realizar. Mas qual é o problema? Qual é o problema de sempre?

 

Dinheiro, naturalmente.

 

— Quanto? — perguntou Dellray.

 

— Cem mil, adiantados. E dou a você a garantia de que eu vou conseguir algo.

 

Dellray tossiu para disfarçar o riso. Nunca tinha pago mais de cinco mil a um informante. Mesmo assim, essa soma extravagante tinha sido objeto de questionamento judicial em um caso importante de corrupção.

 

Cem mil dólares?

 

— Não temos tanto dinheiro, William — disse ele, sem se preocupar com o nome, que Brent provavelmente já não usava havia muitos anos. — Isso é mais do que toda a nossa verba para informantes. Mais do que a verba de todas as agências policiais juntas.

 

— Hmm — fez Brent, sem acrescentar nada. Era exatamente como Dellray teria agido se estivesse na outra ponta da negociação.

 

O agente se curvou para a frente, juntando as mãos ossudas.

 

— Preciso de um minuto.

 

Assim como havia feito com Jeep no restaurante fedorento, Dellray se levantou e passou por um patinador, duas jovens asiáticas risonhas e um homem que entregava panfletos, com uma atitude surpreendentemente racional e otimista para quem se via diante de um problema insolúvel. Perto da árvore do dharma ele pegou do bolso o celular e fez uma ligação.

 

— Tucker McDaniel — disse a voz áspera que atendeu.

 

— Aqui é Fred.

 

— Descobriu alguma coisa? — respondeu o agente especial assistente, em tom de surpresa.

 

— Talvez. Um dos meus informantes antigos. Nada concreto. Mas no passado ele costumava dar boas dicas. Só que ele quer dinheiro.

 

— Quanto?

 

— Quanto temos?

 

McDaniel fez uma pausa.

 

— Não muito. O que ele tem vale ouro?

 

— Eu não sei nada ainda.

 

— Nomes, lugares, atos, números? Migalhas? Alguma coisa?

 

Era como um computador imprimindo uma lista de dados.

 

— Não, Tucker. Eu não tenho nada ainda. É uma espécie de investimento.

 

Finalmente, o agente disse:

 

— Talvez eu possa arranjar seis ou oito mil.

 

— Só isso?

 

— Quanto é que o diabo do homem quer?

 

— A gente está negociando.

 

— A verdade é que tivemos que remanejar os recursos para esse caso, Fred. A gente foi pego de surpresa, você sabe.

 

A relutância de McDaniel em gastar ficou evidente. Ele havia passado todo o dinheiro das verbas de operação do FBI para as equipes de SIGINT e de T e C. Naturalmente, um dos primeiros lugares para onde olhou foi a verba para pagar informantes.

 

— Comece com seis. Veja o que ele tem a oferecer em troca. Se valer a pena, talvez eu possa chegar a nove ou dez. Mesmo assim, já é um exagero.

 

— Eu acho que ele pode ter algo importante, Tucker.

 

— Bem, vamos ver alguma prova... Espera... OK, Fred, estou com T e C na outra linha. É melhor desligar.

 

Clique.

 

Dellray fechou o celular e ficou parado por um momento, encarando a árvore. Ele ouviu alguém dizer: “Ela era gostosa, mas alguma coisa não estava certa... Não, é o calendário maia, quer dizer, talvez Nostradamus... isso é uma merda... onde você tem andado?”

 

Mas o que realmente escutava eram as palavras do seu companheiro do FBI, anos antes: Não tem problema, Fred. Deixa comigo. O colega seguiu em uma missão que inicialmente havia sido destinada a Dellray.

 

Dois dias depois, o agente especial encarregado do escritório de Nova York lhe contou que o companheiro tinha sido um dos mortos em uma operação terrorista que detonou uma bomba no edifício das repartições federais em Oklahoma City. Ele estava na sala que Dellray deveria estar ocupando.

 

Naquele momento, Fred Dellray se encontrava em um confortável escritório com ar-condicionado a muitos quilômetros de distância da cratera fumegante. Tomou a decisão de que dali em diante a prioridade em sua carreira de policial seria perseguir terroristas e qualquer outra pessoa que matasse inocentes em nome de seus ideais, fossem eles políticos, religiosos ou sociais.

 

Claro, o agente especial o havia ignorado. Nem sequer o levava a sério. Mas o que Dellray estava prestes a fazer tinha pouquíssimo a ver com uma vingança pessoal ou com seu prestígio do passado.

 

Estava prestes a impedir o que lhe parecia ser o pior dos males: a matança de inocentes.

 

Voltou para perto de William Brent e se sentou.

 

— Está bem — disse. — Cem mil.

 

Eles trocaram números de telefones descartáveis — celulares pré-pagos que seriam inutilizados em um ou dois dias. Dellray olhou para o relógio de pulso.

 

— Hoje à noite. Washington Square. Perto da faculdade de direito, junto aos tabuleiros de xadrez.

 

— Nove horas? — perguntou Brent.

 

— Nove e meia.

 

Dellray se levantou e saiu sozinho da praça, conforme o ritual do mundo dos informantes confidenciais, deixando que Brent fingisse ler o jornal ou que parecesse contemplar a árvore de Krishna.

 

Ou então que pensasse em como iria gastar o dinheiro.

 

Mas logo o informante mergulhou em seus próprios pensamentos, enquanto Fred Dellray imaginava como poderia levar seus planos adiante. Que papel o camaleão deveria desempenhar, para onde mirar, como convencer, persuadir, conseguir favores? Tinha quase certeza de que conseguiria; afinal, durante anos havia aperfeiçoado suas habilidades.

 

Nunca havia pensado, no entanto, em empregar o talento para roubar cem mil dólares de seu patrão — o governo e o povo dos Estados Unidos.

 

Enquanto seguia Charlie Sommers até seu escritório do outro lado do prédio do Forno, na sede da Algonquin Consolidated, Amelia Sachs sentia o calor aumentar conforme avançavam pelo caminho complicado que ele tomava. O ruído surdo que enchia os corredores também crescia a cada passo.

 

A detetive estava completamente perdida, subindo e descendo escadas. Durante o trajeto, mandou e recebeu diversas mensagens no BlackBerry, porém, à medida que descia mais e mais, precisou se concentrar no caminho; os corredores se mostravam cada vez mais hostis aos visitantes. Quando o celular perdeu completamente o sinal, ela guardou o aparelho.

 

A temperatura aumentou.

 

Sommers parou diante de uma porta grossa, ao lado da qual havia um cabide com capacetes de operário.

 

— Está preocupada com o cabelo? — perguntou ele, levantando a voz, porque o ronco do outro lado da porta estava muito forte.

 

— Eu não quero que caiam — respondeu ela —, mas, fora isso, tudo bem.

 

— Só vão ficar um pouco bagunçados. Esse é o caminho mais curto para o meu escritório.

 

— Quanto mais curto, melhor — disse ela, pegando um capacete e colocando-o na cabeça.

 

— Está pronta?

 

— Acho que sim. O que tem do outro lado, exatamente?

 

Sommers pensou por um instante e respondeu:

 

— O inferno. — E fez um gesto para que ela seguisse em frente.

 

Sachs se lembrou dos ferimentos cauterizados que cobriam o corpo de Luís Martin. Ela começou a respirar mais rápido e percebeu que a mão se estendia lentamente para a maçaneta. Agarrando-a, abriu a porta de aço pesada.

 

Era mesmo o inferno. Fogo, enxofre e tudo mais.

 

A temperatura na sala era avassaladora, bem acima de quarenta graus. Sachs sentiu não apenas uma penosa coceira na pele, mas também uma redução curiosa da sensação nas juntas doloridas, quando o calor atenuou a artrite.

 

Já era tarde, quase oito da noite, mas uma equipe completa ainda trabalhava no Forno. A fome de eletricidade podia aumentar e diminuir durante o dia, mas nunca se extinguia completamente.

 

O amplo espaço, com cerca de sessenta metros de altura, era cheio de andaimes e centenas de peças de equipamento. No centro ficava uma série de máquinas verde-claras. A maior delas era comprida, com o dorso arredondado, como uma enorme cabana pré-fabricada, da qual saíam muitos tubos, dutos e cabos elétricos.

 

— Essa é a MOM — explicou Sommers, apontando para a máquina. — Foi produzida pela Midwest Operating Machinery, em Gary, Indiana, na década de sessenta.

 

Tudo isso foi dito em voz alta, num tom respeitoso. Sommers acrescentou que era o maior dos cinco geradores de eletricidade existentes no complexo do Queens. Prosseguiu explicando que, quando tinha sido instalada, a MOM era o maior gerador elétrico do país. Além dos demais geradores, que não tinham nomes, apenas números, havia quatro unidades que forneciam vapor superaquecido à cidade de Nova York.

 

Amelia Sachs ficou fascinada pelas grandes máquinas. Passou a caminhar mais devagar enquanto olhava para os enormes componentes e procurava entender para que serviriam. Era extraordinário o que a mente humana era capaz de conceber e o que as mãos humanas eram capazes de construir.

 

— Aqui estão as caldeiras — disse ele, apontando para o que parecia ser um outro prédio dentro do prédio. Deviam ter a altura de dez ou doze andares. — Elas produzem vapor, mais de duzentos quilos por centímetro quadrado. — Sommers respirou fundo e continuou: — O vapor passa para as turbinas, uma de alta pressão e outra de baixa pressão. — Apontou para uma parte da MOM. — Depois, entra no gerador, que produz continuamente trinta e quatro amperes, dezoito mil volts, mas aumenta ao sair para as linhas de transmissão até mais de trezentos mil.

 

Apesar do calor esmagador, ela sentiu um arrepio, ouvindo aqueles números e lembrando-se de Luís Martin, com a pele perfurada por gotas de metal derretido.

 

Sommers acrescentou com certo orgulho, pelo que Sachs detectou, que a energia produzida pelas instalações do Queens — pela MOM e por diversas outras turbinas — era de cerca de dois mil e quinhentos megawatts, aproximadamente um quarto do consumo da cidade inteira.

 

Ele mostrou uma série de outras máquinas.

 

— Ali o vapor é condensado, se transforma em água e é bombeado de volta às caldeiras. O ciclo começa outra vez. — Quase gritando, informou, orgulhosamente: — Tem quinhentos e oitenta quilômetros de tubos e encanamento, trezentos e quatro mil e oitocentos metros de cabos.

 

Nesse momento, apesar de seu fascínio pela escala enorme do maquinário, Sachs começou a se sentir esmagada pela claustrofobia. O ruído e o calor eram implacáveis.

 

Sommers demonstrou compreensão.

 

— Vamos em frente.

 

Ele fez um gesto para que ela o seguisse e em cinco minutos ambos saíram por outra porta, deixando os capacetes. A respiração de Sachs estava ofegante. O corredor, embora ainda morno, era misericordiosamente fresco após os minutos passados no inferno.

 

— A gente se impressiona, né?

 

— Realmente.

 

— Você está se sentindo bem?

 

Ela enxugou um fio de suor e assentiu com a cabeça. Sommers ofereceu uma toalha de papel de um rolo aparentemente preparado para enxugar rostos e pescoços, que ela utilizou.

 

— Venha por aqui.

 

Ele a levou por mais corredores até outro prédio. Mais escadas e finalmente chegaram ao escritório de Sommers, que estava cheio de computadores e instrumentos que ela não conseguiu reconhecer, centenas de aparelhos, ferramentas, fios, componentes eletrônicos, teclados, objetos de plástico e madeira de diversas formas e cores.

 

Também havia várias toneladas de batata frita, pretzel e refrigerante, além de bolinhos cobertos de açúcar, o que explicava o pó nas roupas dele.

 

— Desculpa. É assim que a gente trabalha na Projetos Especiais — disse ele, empurrando pilhas de papel impresso para que ela pudesse se sentar numa cadeira. — Bem, pelo menos é assim que eu trabalho.

 

— Qual é o seu trabalho, exatamente?

 

Um tanto envergonhado, ele explicou que era inventor.

 

— Eu sei que isso parece coisa do século XIX, mas é o que eu faço. Sou o homem mais sortudo do mundo. Minha profissão é justamente a que eu queria ter quando era menino, fazendo dínamos, motores e lâmpadas...

 

— Você fazia as próprias lâmpadas?

 

— Eu só coloquei fogo no meu quarto duas vezes... bem, três, mas só em duas foi preciso chamar os bombeiros.

 

Sachs olhou para um quadro na parede com a figura de Edison.

 

— É o meu herói. Um homem fascinante — comentou Sommers.

 

— Jessen também tinha alguma coisa dele na parede. Uma foto da primeira rede de transmissão.

 

— É a assinatura original de Thomas Alva. Mas acho que Jessen é mais como Samuel Insull.

 

— Quem?

 

— Edison era o cientista e Insull, o homem de negócios. Foi presidente da Consolidated Edison e criou a primeira grande empresa monopolista de serviço público. Eletrificou o sistema de bondes de Chicago e praticamente forneceu de graça os primeiros aparelhos elétricos, como os ferros de passar, para que as pessoas se acostumassem com a eletricidade. Era um gênio, mas acabou em desgraça. Isso parece comum? Contraiu dívidas elevadas; quando veio a Grande Depressão, a companhia faliu e centenas de milhares de acionistas perderam tudo. Um pouco como a Enron. Quer saber algumas informações triviais? A empresa de contabilidade Arthur Andersen trabalhou tanto com Insull quanto com a Enron. Eu, porém, deixo que outros tratem de negócios. O que faço são coisas. Noventa e nove por cento acabam não servindo para nada, mas tenho vinte e oito patentes no meu nome e criei quase noventa processos ou produtos na Algonquin. Muita gente se senta diante da TV ou joga videogame para se divertir. Eu... bem, eu invento coisas. — Ele apontou para uma caixa de papelão grande, cheia de retângulos e quadrados de papel. — Ali é o Arquivo de Guardanapos.

 

— O quê?

 

— Quando estou num café ou num restaurante e tenho uma ideia, rabisco num guardanapo e depois venho para cá para fazer um desenho adequado. Mas guardo o original naquela caixa.

 

— Então, quando fizerem um museu sobre você, vai haver uma Sala dos Guardanapos.

 

— Eu já pensei nisso.

 

Sommers enrubescia, da testa ao queixo.

 

— O que você inventa, exatamente?

 

— Acho que minha especialidade é o contrário da de Edison. Ele queria que as pessoas usassem a eletricidade, e eu quero que não usem.

 

— Sua chefe sabe desse objetivo?

 

Ele riu.

 

— Acho que eu deveria ter dito que quero que a usem com mais eficiência. Eu sou o perito em negawatts da Algonquin. É “nega”, com n.

 

— Nunca ouvi falar disso.

 

— Muita gente nunca ouviu, o que é uma pena. Foi ideia de um cientista e ambientalista brilhante, Amory Lovins. A teoria é criar incentivos para reduzir a demanda e usar a eletricidade de forma mais eficiente, em vez de tentar construir novas usinas para aumentar a oferta. Uma usina geradora típica desperdiça quase metade da energia produzida, inclusive na chaminé. Metade! Imagina isso. Mas nós temos uma série de coletores térmicos nas chaminés e nas torres de resfriamento. Na Algonquin, só perdemos vinte e sete por cento.

 

“Tenho trabalhado com propostas de geradores nucleares portáteis, montados em barcaças, para que possam ser transportados de uma região para outra — Sommers se curvou para a frente, com os olhos brilhando novamente. — E também com o grande desafio do armazenamento de energia. A energia não é como os alimentos. Não é possível produzi-la e deixá-la na prateleira durante um mês. Ou é usada ou se perde, imediatamente. Estou criando novas formas de armazená-la, com volantes, sistemas de pressão de ar, novas tecnologias para baterias.

 

“Além disso, ultimamente, passo metade do meu tempo viajando pelo país, fazendo conexões entre pequenas companhias que usam fontes de energia alternativas e renováveis para que possam ser ligadas às grandes redes, como a Interconexão Nordeste, a nossa, e nos vendam a energia, em vez de nós a vendermos para pequenas comunidades.”

 

— Eu pensava que Andi Jessen não fosse entusiasta das fontes renováveis e alternativas.

 

— É verdade, mas ela também não é louca. É a onda do futuro. Creio que apenas discordamos quanto ao momento em que o futuro chegará. Acho que será mais cedo — disse, com um sorriso enigmático. — Claro, você deve ter notado que o escritório dela é do tamanho de todo o meu departamento, e que fica no nono andar, com uma bela vista de Manhattan. Eu fico no porão — completou, com ar solene. — Bem, diga o que posso fazer para ajudar você.

 

— Eu tenho uma lista de pessoas da Algonquin que poderiam ser responsáveis pelo ataque desta manhã — respondeu Sachs.

 

— Alguém daqui? — Sommers assumiu uma expressão incrédula.

 

— É o que parece. Ou pelo menos gente que ajudou o criminoso. Bem, provavelmente é um homem, embora possa estar agindo com uma mulher. Ele, ou ela, teve acesso às senhas do computador que permitem a entrada no software de controle da rede de distribuição. Fechou várias subestações para que a eletricidade fosse reorientada para a da rua 57. Além disso, alterou os disjuntores em um grau mais elevado do que deveria ser.

 

— Então foi assim que aconteceu — disse ele, com ar apreensivo. — Imaginei que tivesse a ver com os computadores, mas não sabia os detalhes.

 

— Algumas dessas pessoas devem ter álibis, nós mesmos vamos verificar. Mas eu quero que você me dê uma ideia sobre quem teria o conhecimento necessário para redirecionar a eletricidade e criar o arco elétrico.

 

Sommers parecia animado.

 

— Estou lisonjeado. Eu não sabia que Andi tinha ideia do que fazemos aqui embaixo. — Em seguida, a expressão inocente desapareceu, substituída por um sorriso oblíquo. — Eu estou entre os suspeitos?

 

Sachs tinha visto o nome de Sommers na lista quando Jessen o havia mencionado. Olhou firmemente para ele e respondeu:

 

— Seu nome está na lista.

 

— Hmm. Tem certeza de que pode confiar em mim?

 

— Você estava em uma teleconferência entre as dez e meia e o meio-dia de hoje, quando ocorreu o ataque, e estava fora da cidade no intervalo de tempo em que o criminoso poderia ter obtido as senhas. Os dados de frequência mostram que você não entrou na sala do cofre em nenhuma outra ocasião.

 

Sommers ergueu uma sobrancelha.

 

Ela mostrou o BlackBerry.

 

— Era sobre isso que eu estava trocando mensagens no caminho para cá. Mandei alguém do Departamento de Polícia de Nova York verificar seus movimentos. Portanto, você está fora de suspeita.

 

Ela achou que falava em tom de desculpas, por não ter confiado nele. Sommers, porém, retrucou, com os olhos brilhando:

 

— Thomas Edison teria aprovado.

 

— O que você quer dizer?

 

— Ele disse que um gênio é apenas uma pessoa talentosa que faz o dever de casa.

 

Amelia Sachs não queria mostrar a Sommers a lista propriamente dita, pois ele poderia conhecer algum dos funcionários e talvez descartar a possibilidade de que fossem suspeitos; por outro lado, poderia chamar a atenção dela para alguém simplesmente por imaginar que haveria motivos para suspeita.

 

Ela não explicou a relutância. Simplesmente disse que desejava saber o perfil de alguém que pudesse ter planejado o ataque e usado o computador.

 

Sommers abriu um pacote de Doritos e ofereceu a Sachs. Ela recusou, enquanto ele comia um punhado. Não tinha jeito de inventor. Parecia mais um redator publicitário de meia-idade, com seus cabelos revoltos e sua camisa de listras azuis e brancas ligeiramente puxada para fora das calças. Era um pouco barrigudo. Os óculos eram estilosos, embora Sachs suspeitasse que do lado de dentro estivessem as palavras made in seguidas do nome de algum país asiático. Somente de perto era possível perceber as rugas nos olhos e na boca.

 

Depois de comer, tomou um gole de refrigerante e disse:

 

— Primeiro, como fazer para reorientar a energia para a subestação da rua 57? Isso vai reduzir a lista de suspeitos. Nem todos os que trabalham aqui saberiam fazer isso. Na verdade, pouquíssimos seriam capazes. A pessoa teria que conhecer bem o SCADA, nosso programa de Controle de Supervisão e Aquisição de Dados. Funciona por meio de computadores Unix. Provavelmente também precisaria conhecer os EMPs, os programas de gerenciamento da energia. O nosso se chama Enertrol. Também é baseado em Unix. É um sistema operacional bem complexo, usado nos grandes roteadores da internet. Não é como o Windows e a Apple. Não é possível aprender a mexer simplesmente pesquisando on-line. Seria preciso estudar o SCADA e os EMPs, fazer cursos sobre o funcionamento. No mínimo, uma aprendizagem de seis meses ou um ano em uma sala de controle.

 

Sachs anotou várias coisas e perguntou:

 

— E o arco elétrico? Quem saberia provocá-lo?

 

— Preciso saber exatamente o que ele fez.

 

Sachs falou do cabo e da placa de latão.

 

— Estava apontado para a janela, como uma arma de fogo? — perguntou ele.

 

Ela assentiu.

 

Sommers ficou em silêncio por um momento. Estava pensando em outra coisa.

 

— Isso podia ter matado dezenas de pessoas... e as queimaduras... terríveis.

 

— Quem poderia ter feito isso? — insistiu Sachs.

 

Sommers parecia outra vez distraído, o que acontecia com frequência, conforme ela reparou. Depois de algum tempo, respondeu:

 

— Eu sei que você está perguntando por funcionários da Algonquin, mas precisa saber que a primeira coisa que todo eletricista aprende são os arcos elétricos. Eles aprendem as normas, seja trabalhando como particulares, em construções, em fábricas, no Exército ou na Marinha, em qualquer campo de atividade, desde que tenham contato com linhas de transmissão com energia suficiente para que os arcos sejam um problema.

 

— Então você está dizendo que qualquer pessoa que saiba como evitar ou prevenir os arcos também sabe como criar um?

 

— Exatamente.

 

Ela tomou nota rapidamente e, em seguida, ergueu o rosto.

 

— Mas vamos falar um pouco sobre os funcionários.

 

— Tudo bem. Quem daqui poderia preparar uma coisa como essa? A pessoa saberia que os cabos estavam carregados de corrente e, portanto, teria que ser alguém com diploma de eletricista que trabalhasse por conta própria, ou um operário de linha ou um operador de emergência de alguma companhia de serviços públicos.

 

— Um operador de emergência?

 

Sommers riu.

 

— É um nome interessante para uma profissão, né? São os supervisores que organizam os reparos quando uma linha deixa de funcionar, quando há um curto-circuito ou quando surgem outros problemas. Lembre-se de que há muitos funcionários antigos aqui que subiram na hierarquia da profissão. Eles podem estar agora trabalhando como corretores de energia ou fazendo serviços de escritório, mas isso não significa que não saibam refazer de olhos fechados a fiação de um painel trifásico.

 

— E produzir um arco elétrico.

 

— Exatamente. Por isso, você deve procurar alguém experiente com Unix e com programas de gerenciamento de energia. Além disso, um profissional de eletricidade como operário de linha, operador de emergência ou contratista. Pode também ser um militar. O Exército, a Marinha e a Aeronáutica formam muitos eletricistas.

 

— Obrigada pela ajuda.

 

A conversa foi interrompida por uma batida na porta. Surgiu uma jovem trazendo um envelope volumoso.

 

— A Srta. Jessen disse que a senhora queria esse material do RH.

 

Sachs pegou os currículos e os demais dados e agradeceu.

 

Sommers comeu a sobremesa, um pequeno bolo com caramelo, e depois outro. Tomou mais refrigerante.

 

— Quero dizer uma coisa.

 

Sachs ergueu as sobrancelhas.

 

— Posso dar uma aula?

 

— Uma aula?

 

— Sobre segurança.

 

— Eu não tenho muito tempo.

 

— Vou ver rápido. É importante. Eu só estava pensando que você está em desvantagem procurando esse... Como é que vocês dizem?

 

— Usamos “perp”. Para “perpetrador”.

 

— “Perp” soa mais sexy. Vamos dizer que vocês estejam procurando um perp comum. Um ladrão de banco, um assassino. Sabem que ele pode ter uma faca, ou uma arma de fogo. Vocês estão acostumados com isso. Sabem como se proteger. Há procedimentos estabelecidos sobre como lidar com esse tipo. Mas usar eletricidade como arma, ou como armadilha, é outra coisa. As características da energia são ser invisível e estar por toda parte. Realmente, por toda parte.

 

Sachs recordou as gotas de metal derretido, os horríveis ferimentos redondos na pele morena de Luís Martin. Tinha a lembrança do odor das áreas queimadas na cena do crime. Ela estremeceu de horror.

 

Sommers indicou com um gesto a tabuleta afixada à parede.

 

LEMBRE-SE DA ORIENTAÇÃO Nº 70 DA

 

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PROTEÇÃO CONTRA INCÊNDIOS

 

LEIA E MEMORIZE

 

A ORIENTAÇÃO 70 PODE SALVAR SUA VIDA!

 

Ela sabia que precisava tratar do caso com urgência mas também queria saber o que ele tinha a dizer.

 

— Eu não tenho muito tempo, mas, por favor, continue.

 

— Primeiro, você precisa saber que a eletricidade é muito perigosa. Tem que entender a amperagem, ou corrente. Você sabe o que é isso?

 

— Eu... — Sachs achava que sabia, mas percebeu que era incapaz de defini-la. — Não.

 

— Vamos comparar a eletricidade com um sistema hidráulico no qual a água é bombeada por meio de canos. A pressão da água é criada pela bomba, que empurra certa quantidade de água pelos canos a certa velocidade. Ela se move com maior ou menor facilidade segundo o diâmetro e o estado dos canos.

 

“Um sistema elétrico é semelhante. A diferença é que há elétrons em vez de água, cabos ou outro material condutor em vez de canos e um gerador ou bateria em vez de bomba. A pressão que impele os elétrons é a voltagem. A quantidade de elétrons que se move ao longo do cabo é a amperagem, ou corrente. A resistência, chamada de ohm, é determinada pela natureza e pelas condições dos cabos ou qualquer material percorrido pelos elétrons.”

 

— Até agora, tudo bem. Nunca tinha ouvido essa explicação antes.

 

— Agora vamos falar dos amperes. Lembre-se, é a quantidade de elétrons em movimento.

 

— Muito bem.

 

— Qual amperagem é necessária para matar uma pessoa? Com cem miliamperes de corrente alternada, ocorre a fibrilação do coração e a pessoa morre. Isso corresponde a um décimo de ampere. Um secador de cabelo comum exige dez amperes.

 

— Dez? — murmurou Sachs.

 

— Sim, senhora. Um secador de cabelo. Dez amperes, quantidade que também é a necessária para uma cadeira elétrica.

 

Ela já se sentia muito inquieta.

 

Sommers continuou:

 

— A eletricidade é como o monstro criado pelo Dr. Frankenstein; aliás, ele ganhou vida por meio de um relâmpago. A eletricidade é uma coisa ao mesmo tempo tola e inteligente. É tola porque, uma vez gerada, ela só deseja encontrar um caminho para a terra. É inteligente porque, instintivamente, sabe a melhor maneira de consegui-lo. Sempre toma o caminho onde há menos resistência. É possível segurar com a mão um cabo com cem mil volts, mas, se for mais fácil para a eletricidade seguir pelo fio, você vai estar perfeitamente a salvo. Mas, quando você é o melhor condutor para a terra...

 

O eloquente gesto dele explicou as consequências.

 

— Bem, agora vem a lição. Três regras para lidar com a energia elétrica. Primeiro, evitá-la sempre que possível. Esse sujeito sabe que está sendo perseguido e pode estar preparando armadilhas com linhas carregadas. Evite metais: corrimãos, portas e maçanetas, pisos sem carpete, aparelhos elétricos, maquinário, assim como porões molhados, água parada. Você já viu transformadores e chaves de comutação na rua?

 

— Não.

 

— Já viu, sim, mas não reparou porque os nossos governantes os escondem e disfarçam. As peças que fazem os transformadores funcionar são feias e assustam. Na cidade, elas ficam no subsolo, em prédios de aparência inócua, ou são disfarçadas com pintura neutra. É possível estar ao lado de um transformador que recebe treze mil volts sem se dar conta. Por isso, preste atenção em tudo o que tiver a palavra Algonquin, e, se puder, fique longe. Agora, ainda que você acredite estar evitando a eletricidade, mesmo assim pode estar em perigo. Existe uma coisa chamada “ilha”.

 

— Ilha?

 

— Digamos que a eletricidade tenha sido desligada em alguma parte da cidade. Você pensaria que todos os circuitos estão fora do ar, não é verdade? Claro que estaria em segurança. Bem, talvez sim, talvez não. Andi Jessen gostaria que a Algonquin monopolizasse a distribuição de energia na cidade, mas isso não acontece. Hoje em dia, a energia é fornecida por meio do que se chama de geração distribuída, na qual pequenos produtores de energia a mandam para nossa rede. Uma “ilha” acontece quando o suprimento da Algonquin está desligado, mas alguma fonte menos importante continua mandando energia para a rede: é uma ilha de eletricidade em meio ao vazio. Existe também a alimentação secundária. Você pode cortar os disjuntores em uma linha, para poder trabalhar, mas as linhas de baixa voltagem podem começar a mandar energia para o transformador, e...

 

Sachs compreendeu.

 

— E o transformador aumenta a voltagem.

 

— Exatamente; a linha que você pensou estar morta volta à vida, e com muita potência.

 

— Suficiente para causar um estrago.

 

— Claro que sim. E também existe a indução. Mesmo quando todos os circuitos estão desligados, tudo está completamente morto, não é possível que haja ilhas nem alimentação secundária, o fio em que se está trabalhando ainda pode ficar carregado com uma voltagem letal, caso haja outro cabo com energia viva nas proximidades. Isso é por causa da indução. A corrente de um cabo pode passar para outro, mesmo que ele esteja desligado, se a distância for suficientemente pequena.

 

“Portanto, a primeira norma é evitar a corrente elétrica. Qual é a segunda? Se não puder evitá-la, proteja-se dela. Use equipamento de proteção pessoal: botas de borracha e luvas, não aquela bobagem que usam no CSI. Luvas industriais grossas, de trabalho. Use ferramentas isoladas ou, melhor ainda, um bastão de fibra de vidro, como um taco de hóquei, com a ferramenta na extremidade. Nós usamos para trabalhar nas linhas carregadas.

 

“Proteja-se. Lembre-se da regra do caminho de menor resistência. A pele humana é má condutora, quando está seca. Se estiver molhada, especialmente suada, por causa do sal, a resistência diminui drasticamente. Caso haja um ferimento ou queimadura, a pele se torna excelente condutora. As solas de couro dos sapatos, quando secas, são bons isolantes. O couro molhado é como a pele, sobretudo se você estiver de pé em uma superfície condutora, como o piso ou o pavimento de um porão molhados. As poças de água também.

 

“Por isso, se você tiver que tocar em alguma coisa que possa estar carregada, por exemplo, se precisar abrir uma porta de metal, se certifique de que seus sapatos ou botas são isolantes. Use um bastão de fibra de vidro ou uma ferramenta isolada e somente uma das mãos, a direita, que é mais distante do coração, conservando a outra mão no bolso para não tocar em nada por acidente, o que fecharia o circuito. Preste atenção no lugar onde colocou os pés.

 

“Você já viu pássaros pousados em fios de alta-tensão? Eles não usam equipamento de proteção. Como podem pousar em um cabo de metal que transporta cem mil volts? Porque não caem pombos assados do céu?”

 

— Eles não tocam o outro cabo.

 

— Exato. Enquanto não tocarem outro cabo ou a torre, estarão a salvo. Eles vão estar tão carregados quanto o cabo, mas não há corrente, não há amperagem passando por seus corpos. Você tem que fazer como os pássaros pousados no cabo.

 

Sachs se sentiu extraordinariamente frágil.

 

— Tire tudo que é de metal quando tiver que trabalhar com eletricidade, especialmente joias. A prata pura é o melhor condutor que existe. O cobre e o alumínio também são excelentes. O ouro não fica muito atrás. Na outra extremidade estão os dielétricos, os isolantes. Vidro e Teflon, e em seguida cerâmica, plástico, borracha, madeira. Todos são maus condutores. Estar de pé em alguma coisa feita de um desses materiais, ainda que seja um pedaço pequeno, pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

 

“Essa é a norma número dois: proteção. Finalmente, a terceira norma. Se não puder evitar a eletricidade nem se proteger dela, corte a cabeça. Todos os circuitos, pequenos ou grandes, podem ser desligados. Todos têm chaves, todos têm disjuntores ou fusíveis. É possível deter a corrente instantaneamente desligando a chave ou o disjuntor, ou retirando o fusível. E não é preciso saber onde está o disjuntor para desligá-lo. O que acontece quando você encosta dois pedaços de arame numa tomada doméstica e toca as pontas?”

 

— O disjuntor desliga.

 

— Exato. Você pode fazer o mesmo com qualquer circuito. Mas não se esqueça da segunda norma. Proteja-se quando fizer isso, porque em uma voltagem mais elevada os dois arames produzirão uma centelha muito grande, que pode ser um arco elétrico.

 

Sommers começou a comer novamente, dessa vez pretzels. Depois de mastigar fazendo bastante barulho, ele engoliu com a ajuda de mais refrigerante.

 

— Eu poderia falar durante uma hora, mas o que eu disse é o básico. Você entendeu bem?

 

— Entendi, sim. Isso é muito útil, Charlie. Obrigada.

 

Os conselhos dele pareciam bastante simples, mas, embora Sachs tivesse prestado atenção ao que ele tinha dito, não podia deixar de considerar que essa ainda era uma arma muito estranha.

 

Como Luís Martin podia tê-la evitado, ter se protegido dela ou ter cortado a cabeça do monstro? A resposta, naturalmente, era que não podia.

 

— Se precisar de mim para algum outro assunto técnico, é só ligar — disse ele, dando a ela dois números de telefone. — Ah, espera... Outra coisa. — Sommers entregou uma caixa de plástico com um botão lateral e uma tela de LCD no alto. Parecia um telefone celular alongado. — Essa é uma das minhas invenções. É um detector de corrente sem contato. A maioria registra apenas um máximo de mil volts e é preciso estar bem perto do cabo ou do terminal para que o aparelho indique. Esse aqui vai até dez mil e é muito sensível. Detecta a voltagem a um metro ou um metro e meio de distância e informa o nível.

 

— Obrigada. Isso vai ajudar — disse Sachs, rindo um pouco ao examinar o instrumento. — É uma pena que não existam aparelhos assim para indicar se uma pessoa na rua está portando uma arma.

 

Sachs estava brincando, mas Charlie Sommers fez que sim com a cabeça, e sua expressão denotava concentração. Ele parecia estar pensando seriamente nas últimas palavras dela. Enquanto se despedia, Sommers colocou na boca algumas tortilhas de milho e começou freneticamente a desenhar um diagrama num pedaço de papel. Ela notou que a primeira coisa que ele pegou foi um guardanapo.

 

— Lincoln, esse é o Dr. Kopeski.

 

Thom estava na entrada da casa com um visitante.

 

Lincoln Rhyme ergueu o olhar, indiferente. Eram mais ou menos oito e meia da noite e, embora a urgência do caso Algonquin reverberasse na sala, havia pouco a fazer enquanto Sachs não voltasse do interrogatório com a diretora da companhia de energia. Por isso, tinha concordado com relutância em receber o representante do grupo dos direitos de pessoas com deficiência que pretendia homenagear Rhyme.

 

Kopeski não vai vir até aqui e ficar sentado como um cortesão esperando a audiência com o rei.

 

— Pode me chamar de Arlen, por favor.

 

Com voz macia e vestindo um terno sóbrio, camisa branca e gravata listrada alaranjada e branca, ele se aproximou do perito criminal, cumprimentando-o com a cabeça. Não fez menção de estender a mão nem olhou para as pernas ou para a cadeira de rodas. Como trabalhava para uma organização voltada para os direitos de pessoas com deficiência, a condição de Rhyme não abalava Kopeski. O perito aprovava essa atitude. Ele achava que todos tinham alguma forma de deficiência, de cicatrizes emocionais a artrite ou doença de Lou Gehrig. A vida era em si mesma uma grande deficiência. A questão era simples: o que fazer diante disso? Rhyme raramente pensava no assunto. Nunca havia sido defensor dos direitos de pessoas com deficiência. Isso lhe parecia um desvio do trabalho. Era um perito criminal com mais dificuldade de se mover que a maioria e compensava esse fato da melhor forma possível, a fim de prosseguir em sua ocupação.

 

Ele olhou para Mel Cooper e indicou com um aceno de cabeça a sala de estar, que ficava do outro lado do vestíbulo. Thom levou Kopeski para lá e Rhyme os seguiu na cadeira de rodas. O ajudante fechou a porta parcialmente e desapareceu.

 

— Sente-se, se preferir — disse o perito criminal. A segunda oração qualificava a primeira, transmitindo a esperança de que o homem continuasse de pé, tratasse do assunto e saísse. Ele carregava uma pasta, onde talvez estivesse o peso de papel. Poderia entregá-lo, tirar uma foto e ir embora. Tudo terminaria ali.

 

O médico se sentou.

 

— Venho acompanhando sua carreira há um tempo.

 

— É mesmo?

 

— Você conhece o Conselho de Recursos para Deficiências?

 

Thom havia falado do assunto. Rhyme pouco se lembrava do monólogo.

 

— Vocês fazem um excelente trabalho.

 

— Excelente, sim.

 

Houve um momento de silêncio.

 

Se pudermos apressar isso..., pensou Rhyme, olhando intensamente para a janela, como se uma nova missão estivesse voando para casa, assim como tinha feito o falcão. Desculpe, tenho de deixá-lo, o dever me chama...

 

— Eu trabalhei com muitas pessoas com deficiências ao longo dos anos. Lesões da medula, espinha bífida, esclerose amiotrófica e muitos outros problemas. Câncer, também.

 

Era uma ideia curiosa. Rhyme nunca havia considerado essa doença como uma deficiência, mas imaginava que algumas formas poderiam se ajustar à sua definição. Olhou para o relógio na parede, que avançava lentamente. Nesse momento, Thom entrou com uma bandeja de café e — pelo amor de Deus — biscoitos. O olhar que lançou ao ajudante, que queria dizer que aquela entrevista não era como um chá entre amigos, passou por ele como uma nuvem de vapor.

 

— Obrigado — disse Kopeski, erguendo uma xícara. Rhyme ficou desapontado porque ele não se serviu de leite, o que teria esfriado a bebida, permitindo a ele que a tomasse e partisse mais rapidamente.

 

— E você, Lincoln?

 

— Obrigado, agora não — respondeu, com frieza, ao que Thom deu tão pouca atenção quanto tinha dado ao olhar de Rhyme pouco antes. O ajudante pegou a bandeja e voltou à cozinha.

 

O médico se acomodou na poltrona de couro.

 

— Ótimo café.

 

Fico muito contente. Uma inclinação de cabeça.

 

— Você é um homem ocupado, e por isso vou direto ao assunto.

 

— Obrigado.

 

— Detetive Rhyme... Lincoln. Você é religioso?

 

O grupo de apoio às pessoas com deficiência deveria ter alguma filiação religiosa. Não desejaria homenagear um pagão.

 

— Não, eu não sou.

 

— Acredita na vida após a morte?

 

— Não vi prova objetiva de que isso exista.

 

— Muitas pessoas pensam assim. Então, para você, a morte seria equivalente, digamos, à paz.

 

— Depende de como eu morrer.

 

Um sorriso iluminou o rosto bondoso.

 

— Eu não me apresentei corretamente ao seu ajudante nem a você. Mas existe um bom motivo para isso.

 

Rhyme não ficou preocupado. Se ele estivesse fingindo ser outra pessoa para me matar, eu já estaria morto. Ergueu as sobrancelhas, o que significava: “Muito bem. Faça sua confissão e vamos em frente.”

 

— Eu não sou membro do conselho.

 

— Não?

 

— Não. Mas às vezes digo que pertenço a um grupo ou outro, porque de vez em quando eu sou expulso da casa das pessoas por causa da minha verdadeira organização.

 

— Testemunhas de Jeová?

 

Ele deu um risinho.

 

— Pertenço à entidade Morte com Dignidade. É uma organização que promove a eutanásia, baseada na Flórida.

 

Rhyme já tinha ouvido falar.

 

— Você já pensou em auxílio para o suicídio? — prosseguiu Kopeski.

 

— Já, há alguns anos. Resolvi não me matar.

 

— Mas manteve como opção.

 

— Não é o caso de todos, tenham alguma deficiência ou não?

 

— É verdade — concordou Kopeski, com um aceno de cabeça.

 

— É claro que eu não vou ganhar um prêmio por escolher a forma mais eficiente de acabar com a minha vida — comentou Rhyme. — Portanto, em que posso ser útil?

 

— Nós precisamos de advogados. Pessoas como você, que possuem reconhecimento público. Pessoas que possam pensar na transição.

 

Transição. Era um bom eufemismo.

 

— Você podia gravar um vídeo para o YouTube. Dar algumas entrevistas. Achamos que talvez algum dia você pudesse aproveitar nossos serviços...

 

Kopeski tirou um folheto da pasta. Era sóbrio, impresso em papel de boa qualidade e tinha flores na capa. Rhyme notou que não eram lírios nem margaridas. Eram rosas. O título, acima das flores, era: “Escolhas.”

 

Colocou-o na mesa, perto de Rhyme.

 

— Se estiver interessado em permitir que nós façamos de você uma celebridade-patrono, poderemos não apenas fornecer os nossos serviços gratuitamente como também certa remuneração. Acredite ou não, temos recursos, embora sejamos um grupo pequeno.

 

Deviam pagar antecipadamente, pensou Rhyme.

 

— Eu realmente não acho que eu seja a pessoa adequada para vocês.

 

— Tudo o que você teria que fazer é falar um pouco sobre a maneira como sempre pensou na possibilidade de um suicídio assistido. Faríamos alguns vídeos. E também...

 

Uma voz vinda da porta fez Rhyme se sobressaltar.

 

— Vai embora daqui!

 

Ele notou que Kopeski tinha dado um salto na cadeira ao ouvir o som.

 

Thom irrompeu na sala, enquanto o médico voltava a se sentar, derramando café ao deixar cair a xícara, que se espatifou no chão.

 

— Espera, eu...

 

O ajudante, geralmente calmo e controlado, tinha o rosto em chamas. Suas mãos tremiam.

 

— Eu já disse, fora daqui!

 

Kopeski se levantou, mantendo-se calmo.

 

— Escuta, eu estou conversando com o detetive Rhyme — disse ele, sem se alterar. — Não há motivo para se exaltar.

 

— Fora! Agora!

 

— Eu não vou demorar.

 

— Você vai sair agora.

 

— Thom... — começou Rhyme.

 

— Silêncio — murmurou o ajudante.

 

A expressão no rosto do médico dizia: “Como você permite que seu ajudante fale assim com você?”

 

— Eu não vou repetir o que já disse.

 

— Eu vou sair quando tiver terminado — declarou Kopeski aproximando-se do ajudante. Como muitos profissionais da saúde, o médico estava em boa forma física.

 

Thom, porém, era ajudante de enfermos, o que significava colocar e tirar Rhyme de camas, cadeiras e equipamentos de exercício o dia inteiro. Era também fisioterapeuta. Ele avançou para Kopeski.

 

O confronto, porém, durou apenas alguns segundos. O médico recuou.

 

— Está bem, está bem — concedeu ele, erguendo as mãos. — Meu Deus, não precisa...

 

Thom pegou a pasta e a empurrou no peito dele, levando-o para a saída. Pouco depois, o perito criminal ouviu a porta da rua bater. Alguns quadros balançaram na parede.

 

O ajudante surgiu logo em seguida, evidentemente mortificado. Ele recolheu os cacos da xícara e limpou o café no chão.

 

— Desculpa, Lincoln. Eu verifiquei. Era uma organização real. Ou assim eu imaginava.

 

A voz dele estava embargada. Thom balançou a cabeça, seu belo rosto fechado, as mãos tremendo.

 

Voltando ao laboratório na cadeira de rodas, Rhyme disse:

 

— Tudo bem, Thom. Não se preocupe. E há uma vantagem.

 

Thom voltou para Rhyme os olhos cheios de preocupação e viu o chefe sorrindo.

 

— Eu não vou ter que perder tempo preparando um discurso de aceitação do diabo do prêmio. Posso voltar ao trabalho.

 

A eletricidade nos mantém vivos: o impulso do cérebro ao coração e aos pulmões é uma corrente elétrica como qualquer outra.

 

A eletricidade também mata.

 

Às nove da noite, apenas nove horas e meia depois do ataque à subestação MH-10 da Algonquin, o homem vestido com o macacão azul-escuro da Algonquin Consolidated observou o cenário diante de si: a área onde cometeria um homicídio.

 

Eletricidade e morte...

 

Estava de pé em uma construção, ao ar livre, mas ninguém lhe dava atenção porque era mais um operário entre os colegas. Uniformes diferentes, capacetes diferentes, empresas diferentes. Uma coisa, porém, os unia: aqueles que ganhavam a vida com o trabalho manual eram desprezados pelas “pessoas de verdade”, os que dependiam dos serviços prestados, os ricos, os que viviam confortavelmente, os ingratos.

 

Em segurança por causa de sua invisibilidade, ele estava instalando uma versão muito mais poderosa do dispositivo que havia experimentado anteriormente na academia. Na nomenclatura dos serviços de eletricidade, a “alta voltagem” começava a partir de setenta mil volts. Para fazer o que tinha planejado, precisava ter certeza de que todos os sistemas suportariam pelo menos duas ou três vezes a mesma quantidade de energia.

 

Olhou novamente para o local do ataque do dia seguinte. Ao fazer isso, não pôde deixar de pensar em voltagem, amperagem... e morte.

 

Tinha havido muita publicidade equivocada sobre Benjamin Franklin e aquela história da chave no meio da tempestade. Na verdade, Franklin permaneceu em terreno seco, dentro de um celeiro, segurando uma fita de seda amarrada ao fio da pipa. E ela nunca foi atingida por um relâmpago; simplesmente recolheu a descarga de eletricidade estática de uma tempestade que se aproximava. O resultado não foi um verdadeiro raio, e sim centelhas azuis elegantes que dançavam nas costas da mão de Franklin como peixes que se alimentam na superfície de um lago.

 

Um cientista europeu repetiu a experiência pouco tempo depois. Ele não sobreviveu.

 

Desde os primeiros dias da geração de energia, muitos operários morreram queimados ou vítimas de ataques cardíacos. As primeiras redes de transmissão liquidaram diversos cavalos por causa das ferraduras de metal em paralelepípedos molhados.

 

Thomas Alva Edison e seu famoso assistente Nikola Tesla tiveram constantes embates sobre a superioridade da corrente contínua (Edison) em relação à corrente alternada (Tesla), procurando impressionar o público com histórias horrendas. O conflito ficou conhecido como a Batalha das Correntes, e frequentou as primeiras páginas dos jornais. Edison usava o argumento da eletrocussão, advertindo que quem usasse a corrente alternada corria o perigo de morrer de forma muito desagradável. É verdade que é preciso uma quantidade menor de corrente alternada para matar alguém, embora qualquer tipo de corrente suficientemente poderosa para ser útil também fosse capaz de matar.

 

A primeira cadeira elétrica foi construída por um empregado de Edison, usando de forma um tanto tática a corrente alternada de Tesla. A primeira execução com esse aparelho ocorreu em 1890, sob a direção não de um carrasco, e sim de um “eletricista do Estado”. O condenado efetivamente morreu, ainda que o procedimento tivesse durado oito minutos. Pelo menos ele já devia estar desmaiado quando pegou fogo.

 

E também havia as armas de eletrochoque. Dependendo de quem fosse o alvo e de qual parte do corpo fosse atingida, elas podiam ser letais. E o maior temor de todos na indústria: o arco elétrico, como o do ataque que ele tinha preparado naquela manhã.

 

Eletricidade e morte...

 

Ele caminhou pelo local da construção, fingindo o cansaço do fim do dia. Havia uma equipe reduzida de trabalhadores noturnos. Aproximou-se, mas ainda assim ninguém o notou. Usava óculos de segurança de aros muito grossos e o capacete amarelo da Algonquin. Estava tão invisível quanto a eletricidade passando por um fio.

 

O primeiro ataque tinha sido notícia de primeira página, embora as reportagens se limitassem a mencionar um “incidente” numa subestação no centro da cidade. Os jornalistas falavam de curtos-circuitos, centelhas e apagões temporários. Havia muita especulação sobre terroristas, mas ninguém havia encontrado uma conexão.

 

Ainda.

 

Em algum momento, alguém pensaria na possibilidade de que um operário da Algonquin Power estivesse por aí preparando armadilhas que resultavam em mortes muito dolorosas e desagradáveis, mas isso ainda não havia acontecido.

 

O homem saiu do local da construção e foi para o subsolo, ainda sem ter sido notado. O uniforme e a identificação eram como chaves milagrosas. Ele entrou em outro túnel de acesso quente e sujo e, após vestir o equipamento de proteção, continuou a preparar os cabos.

 

Eletricidade e morte.

 

Era muito mais elegante ceifar uma vida dessa maneira, em comparação, por exemplo, com um tiro na vítima a quinhentos metros de distância.

 

Era tão puro, tão simples e natural.

 

É possível deter a eletricidade e também direcioná-la, mas não se pode enganá-la. Uma vez criada, a eletricidade iria seguir seu instinto e fazer o possível para retornar à terra, e, se a maneira mais direta exigisse acabar com uma vida humana, ela o faria num segundo.

 

A eletricidade não tem consciência nem sentimento de culpa.

 

Essa era uma das coisas que ele havia passado a admirar em sua arma. Ao contrário dos seres humanos, a eletricidade permanecia sempre fiel a sua natureza.

 

A cidade ganhava vida àquela hora da noite.

 

Nove horas: era como a largada de uma corrida de carros.

 

Nova York não dormia durante a noite, e sim nos momentos em que ficava anestesiada, que ironicamente eram os de maior movimento: nas horas do rush. Somente depois disso as pessoas esqueciam as inutilidades do dia de trabalho, recuperavam o foco, passavam a viver.

 

Tomavam decisões da maior importância: a que bar ir, com que amigos, com que camisa? Usar sutiã ou não?

 

Levar camisinha?

 

Em seguida, sair para a rua.

 

Fred Dellray caminhava ao ar fresco da primavera, sentindo sua energia crescer como a que corria com um sussurro nos cabos elétricos sob seus pés. Não costumava dirigir um carro, nem sequer tinha um, mas o que sentia agora era semelhante a pisar num acelerador e queimar a gasolina freneticamente, com a potência da máquina levando-o a caminho de seu destino.

 

Estava a duas quadras do metrô, três, quatro...

 

Outra coisa também queimava: os cem mil dólares no bolso.

 

Enquanto caminhava pela calçada, Fred Dellray não podia deixar de pensar no que havia feito. Será que estraguei tudo? Não, estou fazendo o que é moralmente certo. Vou arriscar minha carreira, vou arriscar ir para a cadeia se essa tênue pista acabar revelando a identidade do criminoso, quem quer que seja o responsável; o Justice For ou alguma pessoa ou associação. Tudo para salvar a vida dos cidadãos. Claro que os cem mil dólares pouco ou nada significavam para a entidade da qual ele os havia furtado. Graças à miopia burocrática, talvez a falta não fosse notada. No entanto, mesmo que isso não acontecesse e ainda que a pista de William Brent desse resultados e eles tivessem êxito em evitar novos ataques, a contravenção praticada por Dellray poderia provocar remorso, fazer com que o sentimento de culpa aumentasse cada vez mais, como um tumor maligno?

 

Ele iria se sentir tão culpado a ponto de sua vida se alterar para sempre, tornando-se cinzenta, sem valor?

 

Mudança...

 

Viu-se prestes a dar meia-volta e regressar ao prédio de repartições federais para devolver o dinheiro.

 

Mas não, estava fazendo o que devia e teria de arcar com as consequências, fossem quais fossem.

 

Que diabo, William, é melhor você ser honesto comigo.

 

Dellray cruzou a rua no Village e caminhou diretamente para William Brent, que piscou os olhos um tanto surpreso, como se achasse que ele não viria. Os dois ficaram de pé, juntos. Não era uma operação clandestina nem um recrutamento. Apenas dois homens se encontrando na rua para fazer algum negócio.

 

Atrás deles, um adolescente pouco asseado, dedilhando um violão e com o lábio sangrando por causa do piercing recente, entoava uma música melancólica. Dellray fez um gesto para que Brent caminhasse com ele pela calçada. O cheiro e o som foram desaparecendo.

 

— Descobriu mais alguma coisa? — perguntou o agente.

 

— Descobri, sim.

 

— O que foi? — Mais uma vez, procurava não demonstrar desespero.

 

— Não vale a pena dizer nada a essa altura. É uma pista que leva a outra. Garanto que até amanhã vou ter novidades.

 

Garantia não era uma palavra muito usada no mundo dos delatores confidenciais.

 

William Brent, no entanto, era o Giorgio Armani dos informantes. Além disso, Dellray não tinha opção.

 

— Você já terminou de ler esse jornal? — perguntou Brent, em tom tranquilo.

 

— Claro. Fica com ele.

 

Dellray entregou o New York Post dobrado.

 

Eles já tinham feito isso antes, é claro, centenas de vezes. O informante enfiou o jornal na pasta sem sequer apalpá-lo para ver se o envelope estava dentro e muito menos abri-lo para contar as notas.

 

Dellray viu o dinheiro desaparecer como se estivesse vendo um caixão submergir em uma sepultura.

 

Brent não perguntou de onde viera o pagamento. Por que faria isso? Para ele, não tinha importância.

 

O informante resumiu o que tinha a dizer, como se estivesse meditando.

 

— Homem branco, bastante competente. Funcionário ou conexão interna. Justice For alguma coisa. Rahman. Terrorismo, possivelmente. Mas pode ser outra coisa. Conhece eletricidade. Muito planejamento.

 

— Isso é tudo o que temos, por enquanto.

 

— Eu acho que não preciso de mais nada — disse Brent, sem nenhuma demonstração de orgulho. Dellray interpretou as palavras e a atitude como encorajamento. Normalmente, mesmo ao se despedir com uma gratificação típica ao informante, uns quinhentos dólares, mais ou menos, a sensação era de que estava sendo roubado. Agora, tinha a sensação de que Brent cumpriria o trato.

 

— Me encontra amanhã. Carmella. No Village. Conhece? — disse Dellray.

 

— Conheço. Que horas?

 

— Meio-dia.

 

Brent franziu o rosto já cheio de rugas.

 

— Cinco.

 

— Três?

 

— Está bem.

 

Dellray já ia murmurar “por favor”, coisa que jamais tinha dito a um informante. Controlou o desespero, mas teve dificuldade em tirar os olhos da pasta, cujo conteúdo poderia muito bem serem as cinzas de sua carreira, e, na verdade, de toda a sua vida. Surgiu a imagem do rosto risonho do filho, que ele se esforçou para apagar.

 

— É um prazer trabalhar com você, Fred — disse Brent, sorrindo e se despedindo com um aceno de cabeça. A luz do poste brilhou, refletida nos óculos grandes demais, e, em seguida, ele desapareceu.

 

— Deve ser Sachs.

 

O ronco de um motor de carro soou do lado de fora e logo cessou.

 

Rhyme falava com Tucker McDaniel e Lon Sellitto, que chegaram pouco antes, separadamente, mais ou menos no momento em que o Médico da Morte se retirava abruptamente.

 

Sachs devia estar colocando o cartão de “Missão oficial do Departamento de Polícia de Nova York” no painel e caminhando para casa. Dito e feito; um momento depois, a porta se abriu e seus passos, espaçados por causa das pernas longas e da urgência que ela carregava como uma arma, ressoaram no assoalho.

 

Cumprimentou com a cabeça os presentes e passou um segundo a mais observando Rhyme, notando a expressão dele: ternura mesclada ao olho clínico típico das pessoas com graves deficiências físicas. Ela havia estudado a quadriplegia mais que ele e era capaz de executar todas as tarefas de sua rotina diária íntima, coisa que de vez em quando fazia. No início, Rhyme se sentia embaraçado com isso, mas, quando ela observou, com bom humor e talvez um pouco de flerte, que “Não é diferente de nenhum casal idoso, Rhyme”, ele se calou. “Tem razão”, foi a única resposta dele.

 

Isso não significava que os cuidados dela, como os de qualquer outra pessoa, às vezes não irritassem. Ele a fitou rapidamente e se voltou para os quadros.

 

Sachs olhou em volta.

 

— Onde está o prêmio?

 

— Houve um certo elemento de falsidade ideológica.

 

— O que isso quer dizer?

 

Rhyme explicou a isca usada pelo Dr. Kopeski e o verdadeiro objetivo dele.

 

— Eu não acredito!

 

Rhyme assentiu.

 

— Eu não ganhei nenhum peso de papel.

 

— Você o expulsou?

 

— Foi Thom. Aliás, ele se comportou muito bem. Mas não quero falar disso agora. Temos trabalho a fazer. — Olhou para a bolsa a tiracolo dela e perguntou: — O que temos aí?

 

Tirando vários arquivos de dentro dela, Sachs respondeu:

 

— Eu tenho a lista das pessoas que têm acesso às senhas do computador da Algonquin, além dos seus currículos e arquivos pessoais.

 

— Há funcionários insatisfeitos ou com problemas mentais?

 

— Nenhum que seja importante.

 

Ela forneceu mais detalhes da conversa com Andi Jessen. Não havia registro de funcionários designados para trabalhar no túnel das tubulações de vapor perto da subestação da rua 57. Não ocorreram ameaças terroristas explícitas, mas um dos colegas estava investigando essa possibilidade.

 

— Bem, eu conversei com uma pessoa que trabalha na Divisão de Projetos Especiais, basicamente energias alternativas, chamado Charlie Sommers. É gente boa. Ele me forneceu o perfil do tipo de pessoa capaz de preparar um arco elétrico. Um eletricista competente, um eletricista militar, um operário de linha ou um operador de emergência...

 

— Essa última é uma descrição que serve para você — observou Sellitto.

 

— Na verdade, é uma pessoa que lida com imprevistos. É preciso ter experiência prática para provocar uma centelha como aquela. Não dá para aprender na internet.

 

Rhyme indicou o quadro e Sachs escreveu um resumo do que tinha dito, acrescentando:

 

— Quanto ao computador, seria preciso ter feito um curso ou pelo menos ter aprendido na prática. Também não é fácil.

 

Ela explicou os programas SCADA e EMP que o INDES teria que conhecer bem e depois incluiu esses detalhes no quadro.

 

— Quantos nomes tem na lista? — perguntou Sellitto.

 

— Mais de quarenta.

 

— Cacete — murmurou McDaniel.

 

Rhyme supôs que um dos nomes da lista pudesse ser o do criminoso e que talvez Sachs ou Sellitto pudessem reduzi-la a um número mais razoável. No entanto, naquele momento, ele queria pistas. Eles não tinham muitas, ou pelo menos poucas pareciam levar a algum lugar.

 

Quase doze horas tinham se passado desde o ataque e eles não progrediram na busca do homem que tinha estado no café, nem de nenhum outro suspeito.

 

A falta de pistas era frustrante, porém mais perturbadora era uma simples anotação no quadro que continha o perfil do INDES: “Possivelmente a mesma pessoa roubou 23 metros de cabo Bennington semelhante ao do ataque e 12 parafusos fendidos. Mais ataques em mente?”

 

Estaria ele preparando alguma coisa naquele exato momento? Não houvera aviso do ataque ao ônibus. Talvez aquele fosse o modus operandi dos crimes. A qualquer momento, os canais de TV poderiam anunciar que dezenas de pessoas teriam morrido em uma nova explosão com um arco elétrico.

 

Mel Cooper fez uma cópia da lista e todos dividiram os nomes entre si. Sachs, Pulaski e Sellitto ficaram com a metade e McDaniel com o restante, para que seus agentes federais cuidassem disso. Sachs percorreu então os arquivos pessoais que havia recolhido na Algonquin, conservando aqueles cujos nomes correspondiam aos funcionários selecionados e entregando os demais a McDaniel.

 

— Você confia nesse Sommers? — perguntou Rhyme.

 

— Confio. Verifiquei os passos dele. E ele me deu isso — completou ela, tirando do bolso um pequeno aparelho eletrônico. Apontou-o para um fio próximo a Rhyme, apertou um botão e leu a tela.

 

— Hmm. Duzentos e quarenta volts.

 

— E eu, Sachs? Eu também estou carregado de energia?

 

Ela riu, apontou o aparelho para ele, com ar brincalhão, e depois fez o que ele pensou ser uma expressão sedutora. O celular tocou, ela olhou para a tela e atendeu. Após uma breve conversa, desligou.

 

Era Bob Cavanaugh, vice-presidente de Operações. Tinha verificado conexões terroristas em todas as filiais da empresa no país. Não encontrou ameaças de grupos ecoterroristas à Algonquin nem ataques às usinas geradoras. Houve, porém, um relato de invasão em uma das principais subestações na Filadélfia. Um homem branco, de cerca de 40 anos, tinha penetrado nas instalações. Ninguém sabe quem era ou o que estava fazendo lá. Não havia gravação das câmeras de segurança e ele escapou antes que a polícia chegasse. Isso ocorreu na semana passada.

 

Raça, sexo, idade...

 

— É o nosso sujeito. Mas o que ele queria?

 

— Ninguém invadiu as outras instalações da companhia.

 

Será que o criminoso queria obter informações sobre a rede ou a segurança nas subestações? Rhyme só podia especular e, portanto, deixou o incidente de lado por enquanto.

 

McDaniel recebeu uma ligação. Ficou olhando para os quadros com ar ausente e desligou.

 

— O pessoal de T e C interceptou mais conversas sobre o grupo terrorista Justice For.

 

— O que foi? — perguntou Rhyme, ansioso.

 

— Nada importante, mas uma coisa é interessante. Eles estão usando palavras em código que no passado foram empregadas em relação a armas de grande porte. “Papel e suprimentos” foram as que os nossos logaritmos isolaram.

 

Ele explicou que as células clandestinas muitas vezes agiam dessa forma. Recentemente um ataque na França havia sido desmantelado quando se reparou que o palavreado, em meio a frases inócuas, continha as palavras gâteau, farine e beurre, que em francês significam “bolo”, “farinha” e “manteiga”. Na verdade, referiam-se a uma bomba e seus ingredientes: explosivos e detonador.

 

— A Mossad informou que as células do Hezbollah às vezes usam “material de escritório” ou “artigos para festas” para significar mísseis ou explosivos. Além disso, também achamos que outras duas pessoas podem estar envolvidas, além de Rahman. Um homem e uma mulher, conforme nos diz o computador.

 

— Você informou Fred? — perguntou Rhyme.

 

— Boa ideia — disse McDaniel, pegando o celular e fazendo uma chamada no viva-voz.

 

— Fred, aqui é Tucker. Você está sendo ouvido pelo viva-voz do laboratório de Rhyme. Conseguiu alguma coisa?

 

— Um informante meu está trabalhando. Ele está seguindo algumas pistas.

 

— Só seguindo? Nada mais concreto que isso?

 

Houve uma pausa. Dellray disse:

 

— Não tenho mais nada, por enquanto.

 

— Bem, T e C encontrou algumas coisas. — Tucker informou ao agente sobre as palavras em código e sobre o fato de que provavelmente havia um homem e uma mulher envolvidos.

 

Dellray respondeu que passaria a informação ao seu contato.

 

— Então ele concordou em trabalhar dentro do nosso orçamento? — perguntou McDaniel.

 

— Isso mesmo.

 

— Eu sabia que ele ia concordar. Essa gente sempre tira vantagem quando nos deixamos levar, Fred. É assim que os informantes agem.

 

— Isso acontece — disse Dellray, em tom sombrio.

 

— Mantenha contato — completou McDaniel, desligando e se espreguiçando. — Esse diabo dessa nuvem. Não estamos conseguindo aspirar tanto quanto queríamos

 

Aspirar?

 

Sellitto bateu com o punho na pilha de arquivos pessoais da Algonquin.

 

— Eu vou até a cidade. Mande alguém começar esse trabalho. Vai ser uma noite longa.

 

Já eram onze e dez.

 

Rhyme refletiu que para ele a noite também seria longa, especialmente porque, naquele momento, ele não tinha muito o que fazer, exceto esperar.

 

Ele detestava esperar.

 

Com os olhos fitando as esparsas pistas no quadro branco, pensou: Estamos caminhando muito devagar. E queremos encontrar um criminoso que ataca na velocidade da luz.

 

Perfil do indivíduo desconhecido

 

  • Sexo masculino

 

  • Cerca de 40 anos

 

  • Provavelmente branco

 

  • Possivelmente usava óculos e boné

 

  • Possivelmente tem cabelos loiros e curtos

 

  • Macacão azul-escuro, semelhante ao usado por operários da Algonquin

 

  • Conhece bem os sistemas elétricos

 

  • Pegada de bota sugere ausência de característica física que modifique a postura ou o caminhar

 

  • Possivelmente a mesma pessoa roubou 23 metros de cabo Bennington semelhante ao do ataque e 12 parafusos fendidos. Mais ataques em mente? Acesso com chave ao armazém da Algonquin onde ocorreu o roubo

 

  • É provável que seja empregado da Algonquin ou tenha contato com algum empregado

 

  • Conexão terrorista? Relação com o grupo Justice For [desconhecido]? Grupo terrorista? Envolvimento do indivíduo chamado Rahman? Referências codificadas a desembolsos financeiros, movimentos de pessoal e alguma coisa “grande”

 

– Possível relação com intruso na Algonquin da Filadélfia

 

– Indícios de SIGINT: referência em código a armas, “papel e material de escritório” (armas, explosivos?)

 

– Pode haver um homem e uma mulher

 

  • Teria estudado o SCADA (sistema de supervisão e aquisição de dados). Também EMP (programas de gerenciamento de emergia) e Enertrol, da Algonquin. Ambos baseados em Unix

 

  • Para criar um arco elétrico poderia ser antigo ou atual operário de linha, operador de emergência, técnico licenciado, construtor de geradores, eletricista competente, militar

 

A luz oblíqua matinal invadiu a casa. Lincoln Rhyme piscou e manobrou a cadeira de rodas motorizada, afastando-se do facho que o cegava e saindo do pequeno elevador que ligava o quarto ao laboratório no térreo.

 

Sachs, Mel Cooper e Lon Sellitto haviam chegado uma hora antes.

 

Sellitto estava ao telefone, dizendo:

 

— Tudo bem, entendi.

 

Ele cortou outro nome da lista e desligou. Rhyme não sabia se ele havia trocado de roupa. Talvez tivesse dormido no gabinete ou no quarto do primeiro andar. Cooper tinha ido para casa, ao menos por algum tempo. Sachs tinha dormido ao lado de Rhyme durante uma parte da noite. Havia se levantado às cinco e meia para continuar a ler o arquivo dos funcionários e reduzir a lista de suspeitos.

 

— Em que pé estamos agora? — perguntou Rhyme.

 

— Acabei de falar com McDaniel. Eles conseguiram seis e nós, outros seis — murmurou Sellitto.

 

— Quer dizer que chegamos a doze suspeitos? Vamos...

 

— Não, não, Linc. Nós eliminamos doze.

 

— O problema é que muitos funcionários da lista são de alto nível na empresa — disse Sachs. — Não incluíram o início da carreira deles no currículo nem os cursos de computação que fizeram depois de concluir o nível superior. Vamos ter que investigar muito para descobrir se são competentes o suficiente para manipular a rede e preparar a armadilha.

 

— Onde diabo está o DNA? — perguntou Rhyme, abruptamente.

 

— Não deve demorar muito — respondeu Cooper. — Eles estão correndo.

 

— Ah, como lesmas — foi o comentário sarcástico de Rhyme, num murmúrio. Os novos testes em geral podiam ser feitos em um ou dois dias, ao contrário dos antigos, que levavam uma semana. Ele não compreendia por que os resultados já não estavam disponíveis.

 

— Nada mais sobre o Justice For?

 

— Nosso pessoal examinou todos os arquivos — respondeu Sellitto. — McDaniel também, assim como a Segurança Nacional e a Interpol. Não tem nada sobre essa organização nem sobre Rahman. Muito estranha essa porra de nuvem. Parece ter saído de um livro do Stephen King.

 

Rhyme ia ligar para o laboratório que estava fazendo a análise do DNA, mas o telefone tocou no momento em que esticou um dedo para fazer a chamada. Ele ergueu as sobrancelhas e apertou o botão de atender.

 

— Aqui é Kathryn. Bom dia. Você acordou cedo.

 

Na Califórnia, eram cinco da manhã.

 

— Um pouco cedo.

 

— Algo mais?

 

— Logan foi visto de novo, perto do lugar onde tinha aparecido antes. Acabei de falar com Arturo Diaz.

 

Ela também havia acordado cedo. Era um bom sinal.

 

— O chefe dele também está cuidando do caso agora. É a pessoa que mencionei, Rodolfo Luna.

 

Luna ocupava um cargo muito elevado: era o segundo mais importante na Polícia Federal mexicana, o equivalente ao FBI. Embora extremamente ocupado com a hercúlea tarefa de comandar as operações de combate às drogas — e vencer a corrupção nas agências do próprio governo —, Luna tinha aceitado de bom grado a oportunidade de enfrentar o Relojoeiro, explicou Dance. A ameaça de mais um homicídio no México não era grande novidade e não exigiria alguém com o grau hierárquico de Luna, mas ele era ambicioso e achava que a cooperação com a polícia de Nova York renderia dividendos com os escorregadios aliados ao norte do México.

 

— Ele é uma figura. Dirige seu próprio SUV Lexus, carrega duas armas... É um verdadeiro caubói.

 

— Mas é honesto?

 

— Arturo me disse que ele joga com as regras do sistema, mas é honesto o suficiente. É um veterano, com vinte anos de serviço, e às vezes vai pessoalmente às ruas para trabalhar em um caso. Até mesmo coleta pistas por conta própria.

 

Rhyme ficou impressionado. Ele fazia o mesmo quando era capitão na polícia e diretor de Recursos Investigativos. Lembrava-se de que muitas vezes algum técnico jovem se sobressaltava ao ouvir uma voz e se virar para ver o chefe dos seus chefes com uma pinça na mão enluvada, examinando uma fibra ou um fio de cabelo.

 

— Ele ficou famoso resolvendo crimes econômicos, tráfico de pessoas e terrorismo. Colocou alguns figurões atrás das grades.

 

— E ainda está vivo — acrescentou Rhyme. Não era um comentário sarcástico. O chefe de polícia da Cidade do México tinha sido assassinado não muito tempo antes.

 

— Ele organizou um grande esquadrão de segurança — explicou Dance. Depois acrescentou: — E quer falar com você.

 

— Me diga o número.

 

Dance obedeceu, falando devagar. Já conhecia Rhyme pessoalmente e sabia de sua deficiência. Com o dedo indicador direito na placa especial, digitou os números, que surgiram na tela do computador diante dele.

 

Ela informou então que o DEA ainda estava interrogando o homem que havia entregado um pacote a Logan.

 

— Ele está mentindo quando diz não saber o que havia dentro. Eu assisti ao vídeo e dei alguns conselhos aos agentes que estão fazendo o interrogatório. O homem deve ter achado que eram drogas ou dinheiro, e sem dúvida deu uma olhada. Como ele não roubou o conteúdo, significa que não era nenhuma dessas duas coisas. Vão começar a interrogá-lo novamente em breve.

 

Rhyme agradeceu.

 

— Mais uma coisa.

 

— O quê?

 

Dance deu a ele o endereço de um site, que Rhyme digitou com igual lentidão em seu computador.

 

— Acesse esse site. Acho que você vai gostar de ver Rodolfo. Eu acho mais fácil entender uma pessoa quando a gente a vê.

 

Rhyme não sabia se deveria fazer isso ou não. Em seu tipo de trabalho, não costumava ver muita gente. As vítimas, em geral, estavam mortas e os assassinos já haviam desaparecido muito antes de ele entrar em cena. Na verdade, preferia não ver ninguém.

 

No entanto, acessou o site após desligar o telefone. Era uma notícia de um jornal mexicano, em espanhol, sobre uma grande operação de confisco de drogas, pelo que Rhyme deduziu. O agente responsável era Rodolfo Luna. A foto que acompanhava a reportagem mostrava um homem corpulento rodeado por outros policiais federais. Alguns usavam máscaras de esquiador pretas a fim de ocultar suas identidades e outros tinham a expressão dura e vigilante das pessoas cuja ocupação os havia transformado em homens marcados para morrer.

 

Luna tinha rosto largo e pele negra. Usava quepe militar, mas parecia ter raspado a cabeça sob o boné. O uniforme verde-oliva era mais militar que policial e ostentava muitas medalhas no peito. O bigode preto era farto, circundado por rugas. Com expressão intimidadora, empunhava um cigarro e apontava para alguma coisa à esquerda da cena.

 

Rhyme fez a ligação para a Cidade do México, usando novamente a placa. Poderia ter empregado o sistema de reconhecimento de voz, mas, como tinha recuperado alguns movimentos da mão direita, preferia se valer dos meios mecânicos.

 

A ligação exigiu apenas um esforço suplementar para digitar o código do país e, em pouco tempo, ele conversava com Luna, que tinha uma voz surpreendentemente delicada, com um leve sotaque que Rhyme não conseguia identificar. Era mexicano, naturalmente, mas as palavras pareciam ter uma coloração francesa.

 

— Ah, Lincoln Rhyme. É um grande prazer. Já li muito a seu respeito e, claro, tenho seus livros. Fiz questão de colocá-los na bibliografia do curso para investigadores. — Ele fez uma pausa breve e perguntou: — Desculpa, mas você vai atualizar a parte que trata do DNA?

 

Rhyme não conseguiu evitar uma risada. Havia pensado nisso justamente alguns dias antes.

 

— Pretendo fazer isso assim que terminar esse caso, inspetor... Você é um inspetor?

 

— Inspetor? Lamento — disse ele, com bom humor. — Por que todo mundo pensa que os policiais de outros países que não os Estados Unidos são inspetores?

 

— É assim na fonte definitiva de treinamento e procedimentos da polícia — respondeu Rhyme. — Filmes e televisão.

 

Uma risadinha.

 

— O que faríamos nós, pobres policiais, sem a TV a cabo? Mas não, eu sou comandante. Aqui no México, a polícia e o Exército muitas vezes são intercambiáveis. E, pelo que li no seu livro, você é um capitão AP. Fiquei me perguntando que cargo é esse.

 

Rhyme deu uma gargalhada.

 

— Não é um cargo. Significa apenas que eu estou aposentado.

 

— É isso? E mesmo assim aqui está você, trabalhando.

 

— É verdade. Agradeço sua ajuda nesse caso. Ele é um homem muito perigoso.

 

— Fico feliz em ser útil. Sua colega, a Sra. Dance, tem ajudado muito em conseguir a extradição de alguns criminosos para o México diante de uma enorme pressão contrária.

 

— Sim, ela é ótima. — Rhyme chegou ao tema principal da conversa. — Pelo que entendo, Logan foi visto aí.

 

— Meu assistente, Arturo Diaz, e sua equipe o localizaram duas vezes. Uma delas ontem, em um hotel, e depois, não muito tempo atrás, nas proximidades. Estava entre os prédios da avenida Bosque de la Reforma, na área comercial, tirando fotos dos edifícios. Isso despertou suspeitas, pois não são maravilhas arquitetônicas, e um guarda de trânsito o reconheceu pela foto. Os homens de Arturo chegaram rapidamente, mas o nosso Relojoeiro desapareceu antes. Ele é muito ardiloso.

 

— Isso o descreve perfeitamente. Quem são os ocupantes dos prédios que ele estava tirando foto?

 

— Dezenas de empresas e algumas repartições secundárias do governo, companhias comerciais e de transporte. Tem um banco no térreo de um dos prédios. Isso seria importante?

 

— Ele não foi ao México para fazer um assalto. Nossa inteligência acha que ele planeja um assassinato.

 

— Estamos investigando as pessoas e o que funciona em cada um dos escritórios dos prédios para ver se existe alguma vítima provável.

 

Rhyme conhecia o delicado jogo da política, mas não tinha tempo para sutilezas, e achava que esse também era o caso de Luna.

 

— Você precisa manter suas equipes escondidas, comandante. Precisa ser muito mais cauteloso do que de costume.

 

— Claro, naturalmente. Esse homem tem um olho bom, não é?

 

— Olho bom?

 

— Sim, como um sexto sentido. Kathryn Dance diz que ele é como um gato. Sabe reconhecer o perigo.

 

Não é isso, pensou Rhyme; ele é apenas muito esperto e capaz de antecipar os movimentos dos adversários, como um campeão de xadrez. No entanto, respondeu:

 

— É isso mesmo, comandante.

 

Rhyme olhou para a foto de Luna no computador. Dance tinha razão: as conversas pareciam ter mais significado quando era possível visualizar o interlocutor.

 

— Nós também temos gente assim aqui — disse ele, rindo outra vez. — Na verdade, eu mesmo sou um deles. Por isso é que ainda estou vivo e muitos colegas, não. Vamos continuar a vigilância de forma sutil. Quando a gente o capturar, capitão, talvez você queira vir para tratar da extradição.

 

— Eu não costumo sair muito de casa.

 

Outra pausa. Em seguida, com seriedade, ele disse:

 

— Ah, perdão. Eu me esqueci da sua condição física.

 

Rhyme refletiu, com igual sobriedade, que essa era a única coisa que ele jamais poderia esquecer.

 

— Não precisa se desculpar.

 

Luna acrescentou:

 

— Bem, como posso dizer? Nós somos muito acessíveis aqui na Cidade do México. Você seria bem-vindo e teria muito conforto. Posso hospedá-lo na minha casa e minha mulher cuidaria da cozinha. Não tem escadas para atrapalhar.

 

— Pode ser.

 

— Temos comida boa e eu coleciono mescal e tequila.

 

— Nesse caso, talvez possamos fazer um jantar de comemoração — disse Rhyme, para animá-lo.

 

— Eu vou tentar ser merecedor da sua presença capturando esse homem... e talvez você possa fazer uma palestra para os meus agentes.

 

Rhyme riu, dessa vez para si mesmo. Não havia percebido que aquilo era uma negociação. A presença dele no México seria um troféu para aquele homem. Era um dos motivos para que ele se mostrasse tão cooperativo. Provavelmente era assim que todos os negócios, tanto da polícia quanto do comércio, funcionavam na América Latina.

 

— Seria um prazer — disse Rhyme, erguendo os olhos e vendo Thom, que gesticulava indicando o vestíbulo.

 

— Comandante, preciso desligar agora.

 

— Agradeço o contato, capitão. Ligo assim que souber de alguma coisa. Ainda que seja insignificante, eu aviso.

 

Thom acompanhou novamente ao laboratório o atlético e ativo agente especial assistente Tucker McDaniel. Com ele vinha um colega, bem vestido e jovem, cujo nome Rhyme imediatamente esqueceu. Era mais fácil pensar nele como o Garoto, com inicial maiúscula. Ele olhou uma vez para o tetraplégico, piscou e desviou a atenção.

 

O agente especial assistente anunciou:

 

— Eliminamos mais alguns nomes da lista. Porém, tem mais uma coisa. Recebemos uma carta de exigências.

 

— De quem? — perguntou Lon Sellitto, sentado à mesa de análise, onde parecia uma bola murcha. — Terroristas?

 

— Anônima e não especificada — disse McDaniel, pronunciando claramente cada sílaba. Rhyme imaginou que ele não gostasse de Sellitto, tanto quanto ele próprio não apreciava o agente. Em parte era por causa da forma como ele havia tratado Fred Dellray. Em parte, por causa de seu estilo. Às vezes, é claro, não era preciso ter motivo.

 

Nuvem...

 

O agente prosseguiu:

 

— Parece que se trata de um desequilibrado, fala em temas ecológicos, mas também pode ser alguém que sabe o que diz.

 

— A gente tem certeza de que é ele? — perguntou Sellitto.

 

Após um ataque aparentemente sem motivo, não era incomum que várias pessoas reivindicassem a autoria, ameaçando repetir o incidente caso certas exigências não fossem cumpridas, ainda que essas pessoas nada tivessem a ver com o incidente.

 

McDaniel disse, com formalidade:

 

— Ele confirmou detalhes do ataque ao ônibus. Nós, naturalmente, verificamos isso.

 

O tom condescendente explicava a má vontade de Rhyme.

 

— Quem a recebeu? E como? — perguntou Rhyme.

 

— Andi Jessen. Ela vai fornecer os detalhes. Eu só queria trazer a notícia a você o mais rápido possível.

 

Pelo menos o agente não estava empenhado em uma disputa territorial. A má vontade diminuiu um pouco.

 

— Eu avisei o prefeito, Washington e a Segurança Nacional. Discutimos o assunto enquanto eu vinha para cá.

 

Sem a nossa presença, notou Rhyme.

 

McDaniel abriu a pasta e tirou uma folha de um envelope de plástico transparente. Rhyme acenou com a cabeça para Mel Cooper, que, com a mão enluvada, retirou a folha e a colocou na mesa de exame. Primeiro ele a fotografou e, pouco depois, o texto escrito à mão surgiu nos monitores da sala.

 

Para Andi Jessen, CEO, e para a Algonquin Consolidated Power:

 

Por volta de onze e meia da manhã de ontem, houve um incidente com um arco elétrico na subestação MH-10 da rua 57 em Manhattan, isso aconteceu mediante a ligação de um cabo Bennington e uma placa a uma linha munida de disjuntores, por meio de parafusos fendidos. A causa da centelha foi o desligamento de quatro estações e a elevação do limite dos disjuntores da MH-10 para uma sobrecarga de quase duzentos mil volts.

 

Os culpados desse incidente são unicamente vocês, por causa de sua cobiça e seu egoísmo. Isso é típico da indústria elétrica, além de altamente reprensível. A Enron destruiu a vida financeira de muitas pessoas e sua empresa destrói nossas vidas e a vida da Terra. Explorando a eletricidade sem considerar as consequências, vocês estão destruindo nosso planeta, penetrando insidiosamente em nossas vidas como um vírus até que nos tornemos dependentes daquilo que está nos matando.

 

As pessoas têm que aprender que não precisam de tanta eletricidade quanto vocês dizem. Vocês têm que mostrar o caminho a elas. Vocês devem executar um semiapagão progressivo na rede de serviço de Nova York no dia de hoje, reduzindo os níveis a cinquenta por cento da carga normal fora das horas de pico durante meia hora, a partir do meio-dia. Se não fizerem isso, à uma hora mais gente morrerá.

 

Rhyme acenou com a cabeça para o telefone e disse a Sachs:

 

— Ligue para Andi Jessen.

 

Sachs obedeceu e pouco depois a voz dela soou no viva-voz.

 

— Detetive Sachs? Você já soube?

 

— Já. Eu estou aqui com Lincoln Rhyme e alguns agentes do FBI e da polícia de Nova York. Eles trouxeram a carta.

 

Rhyme percebeu a raiva e a exasperação na voz da mulher.

 

— Quem está por trás disso?

 

— Não sabemos — respondeu Sachs.

 

— Vocês devem ter alguma ideia.

 

McDaniel se identificou e disse:

 

— A investigação está em curso, mas ainda não temos um suspeito com clareza.

 

— E o homem de uniforme no café, ontem de manhã, perto do ponto de ônibus?

 

— Não temos a identidade dele. Estamos percorrendo a lista que a senhorita nos forneceu. Ainda não temos um suspeito.

 

— Srta. Jessen, aqui é o detetive Sellitto, do Departamento de Polícia de Nova York. A senhorita pode fazer isso?

 

— Fazer o quê?

 

— O que ele está exigindo. Reduzir a carga.

 

Rhyme não via problemas em negociar com criminosos, caso uma pequena negociação desse mais tempo para analisar as pistas ou preparar uma operação de vigilância. Mas a decisão não cabia a ele.

 

— Aqui é Tucker novamente, Srta. Jessen. Somos firmemente contra negociações. Em longo prazo, isso simplesmente os estimula a elevar as exigências.

 

Ele fitava o detetive corpulento, que sustentou o olhar.

 

Sellitto insistiu:

 

— Isso poderia nos dar algum espaço de manobra.

 

O agente especial assistente hesitava, talvez pensando no quanto era contraproducente não apresentar uma única opinião. Mesmo assim, repetiu:

 

— Aconselho fortemente a não negociar.

 

Então Jessen disse:

 

— Isso nem é uma questão. Uma redução de cinquenta por cento da carga em toda a cidade, fora das horas de pico? Isso não é coisa que se possa fazer apertando um botão. Isso provocaria uma baixa dos padrões de carga em toda a Interconexão Nordeste. Haveria falhas e apagões em dezenas de localidades. E existem milhões de clientes que têm sistemas automáticos que simplesmente desligariam com essa queda de energia. Dados seriam perdidos e sistemas retornariam à configuração inicial. E não é possível simplesmente religar; seriam necessários vários dias de reprogramação e muitos dados se perderiam por completo.

 

“Mas o pior é que parte da infraestrutura crítica tem baterias ou geradores de emergência, mas nem toda. Os hospitais têm recursos limitados e alguns desses sistemas de emergência não funcionam bem. Muita gente morreria por causa disso.”

 

Bem, pensou Rhyme, em uma coisa o autor da carta tinha razão. A eletricidade, a Algonquin e as empresas elétricas haviam realmente passado a fazer parte das nossas vidas. Todos dependiam de energia elétrica.

 

— Então é isso — disse McDaniel. — É impossível fazer o que ele quer.

 

Sellitto pareceu não gostar disso. Rhyme olhou para Sachs.

 

— Parker?

 

Ela assentiu e procurou no BlackBerry o telefone e o e-mail de Parker Kincaid em Washington, D.C. Ele era um ex-agente do FBI, agora consultor particular e, na opinião de Rhyme, o melhor perito em análise de documentos do país.

 

— Vou mandar agora. — Sachs se sentou diante de uma das estações de trabalho, escreveu um e-mail, escaneou a carta e enviou ambos.

 

Sellitto abriu o celular e entrou em contato com a Unidade Antiterror da polícia de Nova York e com a Unidade de Emergência — a versão da SWAT na cidade —, informando que outro ataque estava planejado para uma da tarde.

 

Rhyme voltou ao telefone.

 

— Srta. Jessen, aqui é Lincoln novamente. A senhorita se lembra da lista que deu à detetive Sachs ontem? A de funcionários?

 

— Sim?

 

— A senhorita pode nos fornecer amostras de letra de próprio punho deles?

 

— De todos?

 

— Do maior número possível. O mais rápido possível.

 

— Acho que posso. Temos declarações de confidencialidade assinadas por praticamente todo mundo. E provavelmente formulários de saúde, solicitações, registros de despesas.

 

Rhyme desconfiava do uso de assinaturas como amostras da letra das pessoas. Embora não fosse perito em análise de documentos, não é possível chefiar uma unidade de Criminalística Forense sem adquirir algum conhecimento do assunto. Ele sabia que as pessoas tendem a rabiscar seus nomes sem cuidado (uma prática perigosa, pelo que também ficou sabendo, porque uma assinatura descuidada é mais fácil de falsificar do que uma que seja precisa). Mas as pessoas também fazem anotações e redigem memorandos de maneira mais legível, e isso dava uma ideia melhor da forma com que escrevem. Ele avisou isso a Jessen, que respondeu ter instruído diversos assistentes a procurar tantos exemplos de escrita que não fossem assinaturas quanto possível. Ela não parecia satisfeita, mas estava aceitando melhor a ideia de que algum funcionário da Algonquin pudesse estar envolvido.

 

Rhyme deixou o telefone e chamou:

 

— Sachs! Encontrou Parker? O que está acontecendo?

 

Ela sacudiu afirmativamente a cabeça.

 

— Ele está em algum tipo de evento. Vão me colocar em contato com ele.

 

Kincaid era pai solteiro de dois filhos, Robby e Stephanie, e equilibrava cuidadosamente a vida pessoal e a profissional. Por causa dos filhos tinha abandonado o FBI e havia se tornado consultor, como Rhyme. Este, porém, sabia que, para um caso como aquele, Kincaid se juntaria a eles imediatamente e faria o possível para ajudar.

 

O perito criminal voltou ao telefone.

 

— Srta. Jessen, poderia escanear as amostras e mandá-las para...

 

Uma sobrancelha erguida para Sachs a fez dizer o endereço de e-mail de Kincaid.

 

— Já anotei — avisou Jessen.

 

— Imagino que estes termos sejam usados na atividade de geração de eletricidade: “semiapagão progressivo”, “rede de serviço”, “carga fora do pico” — disse Rhyme.

 

— É verdade.

 

— Isso nos revela algum detalhe sobre ele?

 

— Na verdade, não. São aspectos técnicos da nossa atividade, mas se ele é capaz de programar o computador e preparar um dispositivo para produzir um arco elétrico também conhece esses termos. Qualquer pessoa que trabalhe no ramo os conheceria.

 

— Como a senhorita recebeu a carta?

 

— Entregaram no meu prédio.

 

— Seu endereço é público?

 

— Eu não estou na lista telefônica, mas acho que não seria impossível me localizar.

 

Rhyme insistiu.

 

— Como a senhorita recebeu a carta, exatamente?

 

— Meu prédio tem porteiro. Fica no Upper East. Alguém tocou a campainha da entrada dos fundos. O porteiro foi ver. Quando voltou, a carta estava em cima do balcão dele. Estava endereçada assim: “Emergência. Entregar imediatamente a Andi Jessen.”

 

— Tem câmera de segurança? — perguntou Rhyme.

 

— Não.

 

— Quem tocou na carta?

 

— O porteiro. Mas só no envelope. Mandei um mensageiro do escritório para buscá-la. Ele também deve ter tocado, assim como eu, naturalmente.

 

McDaniel ia dizer alguma coisa, mas Rhyme se adiantou.

 

— A carta continha uma mensagem urgente, e, portanto, quem a deixou sabia que o prédio tinha porteiro. Era preciso que ela chegasse imediatamente à senhora.

 

McDaniel assentia com a cabeça. Aparentemente, esse seria seu comentário. O Garoto, de olhos brilhantes, também assentiu, como um cachorro de plástico na janela traseira de um carro.

 

Pouco depois, Jessen falou:

 

— Acho que isso faz sentido. — Sua voz expressava preocupação. — Significa que ele tem informações a meu respeito. Talvez ele saiba muito sobre mim.

 

— A senhorita tem segurança pessoal? — perguntou Sellitto.

 

— Nosso chefe de segurança, no escritório, é Bernie Wahl. Você o conheceu, detetive Sachs. Ele tem quatro guardas armados em cada turno. Mas não em casa. Nunca pensei...

 

— Vamos mandar um patrulheiro para vigiar seu apartamento, do lado de fora — avisou Sellitto.

 

Enquanto ele fazia a ligação, McDaniel perguntou:

 

— A senhorita tem família nessa região? Podemos mandar alguém para proteger seus familiares.

 

Houve um silêncio momentâneo no alto-falante. Em seguida:

 

— Por quê?

 

— Ele pode tentar usá-los para chantagear a senhorita.

 

— Meu Deus. — A voz de Jessen, normalmente rude, soou diminuta ao pensar na possibilidade de que alguma pessoa próxima a ela pudesse ser machucada. No entanto, explicou: — Meus pais moram na Flórida.

 

— A senhorita tem um irmão, não é? — perguntou Sachs. — Foi a foto dele que vi na sua escrivaninha?

 

— Meu irmão? A gente não tem muito contato. E ele não mora aqui...

 

Outra voz a interrompeu. Jessen voltou ao telefone.

 

— Desculpem, o governador está chamando. Ele acabou de saber da notícia.

 

Com um clique, Jessen desligou.

 

— E então — disse Sellitto, erguendo as mãos espalmadas. Seus olhos passaram por McDaniel mas se fixaram em Rhyme. — Isso torna tudo muito mais fácil.

 

— Fácil? — indagou o Garoto.

 

— Claro — respondeu Sellitto, indicando o relógio digital na tela plana de um dos monitores. — Se não podemos negociar, basta encontrá-lo em menos de três horas. Moleza.

 

Mel Cooper e Rhyme se dedicaram à análise da carta. Ron Pulaski havia chegado alguns minutos antes. Lon Sellitto se dirigia às pressas para o centro da cidade para coordenar a ação com a Unidade de Emergência caso identificassem um suspeito ou descobrissem o possível alvo do ataque.

 

Tucker McDaniel examinou a carta como se fosse algum tipo de comida que ele nunca tinha visto antes. Rhyme supôs que era porque uma folha de papel escrita à mão não se ajustava ao trabalho policial na nuvem. Era a antítese das comunicações de alta tecnologia. Os computadores e os sistemas de monitoramento sofisticados eram inúteis diante de papel e tinta.

 

Rhyme observou a letra. Sabia, por causa do próprio treinamento e por ter colaborado com Parker Kincaid, que a maneira de escrever nada revela sobre a personalidade da pessoa que escreve, qualquer que seja a opinião daqueles livros na fila do supermercado e dos jornalistas analíticos. Naturalmente, a análise podia ser esclarecedora desde que houvesse outro espécime identificado para comparar com o inicial a fim de determinar se os autores eram, na verdade, a mesma pessoa. Parker Kincaid deveria estar executando essa tarefa nesse momento, realizando uma comparação preliminar entre a caligrafia de suspeitos de terrorismo e as oriundas dos funcionários da Algonquin que estavam na lista feita pela empresa.

 

A letra e o conteúdo também podiam sugerir se o suspeito era canhoto ou não, o grau de instrução, a origem nacional ou regional, afecções mentais e físicas e estado de intoxicação com álcool ou drogas.

 

O interesse de Rhyme pela carta, porém, era mais básico: a origem do papel, da tinta, impressões digitais ou traços que pudessem estar mesclados às fibras.

 

Tudo isso, depois da diligente análise de Cooper, resultou em um grande nada.

 

As fontes do papel e da tinta eram genéricas; podiam ser provenientes de milhares de lojas. As impressões de Jessen eram as únicas da carta. As do envelope eram do porteiro e do mensageiro. Os agentes de McDaniel recolheram amostras de ambos e enviaram a Rhyme.

 

Inútil, refletiu Rhyme amargamente. Tudo o que se podia deduzir era que o criminoso era esperto e tinha um grande senso de preservação.

 

Dez minutos depois, porém, houve certo progresso.

 

Parker Kincaid ligou do gabinete de análise de documentos de sua casa, em Fairfax, Virginia.

 

— Lincoln.

 

— Parker, o que temos?

 

— Primeiro a comparação das letras — respondeu Kincaid. — Não vieram muitas amostras de controle da Algonquin, e por isso não pude completar a análise como gostaria.

 

— Compreendo.

 

— No entanto, reduzi a lista a doze funcionários.

 

— Doze. Ótimo.

 

— Eis os nomes. Está preparado?

 

Rhyme olhou para Cooper, que assentiu com a cabeça. O técnico anotou os nomes enquanto Kincaid ditava.

 

— Agora, posso dizer algumas coisas sobre o criminoso. Primeiro, ele é destro. Em seguida, isolei algumas características da linguagem e da escolha de palavras.

 

— Continue.

 

Rhyme fez um sinal com a cabeça para que Cooper se dirigisse ao quadro que continha o perfil do criminoso.

 

— Ele tem grau de instrução secundária e talvez tenha cursado faculdade. Ele frequentou escolas nos Estados Unidos. Há alguns erros de ortografia, gramática e pontuação, mas, em geral, em relação a palavras ou construções mais complexas. Atribuí isso à tensão que deve estar sentindo. Provavelmente nasceu nos Estados Unidos. Não posso dizer com certeza se a origem familiar é estrangeira, mas o inglês é a sua primeira língua, e quase posso afirmar que é a única.

 

Cooper tomou nota.

 

— Ele também é bastante inteligente — prosseguiu Kincaid. — Não escreve na primeira pessoa e evita a voz ativa.

 

Rhyme compreendeu.

 

— Ele não fala de si mesmo.

 

— Exatamente.

 

— Isso sugere que pode haver outras pessoas agindo com ele.

 

— É uma possibilidade. Além disso, existe certa variação de traços ascendentes e descendentes. Isso ocorre quando o sujeito está inquieto, emotivo. Quando se escreve sentindo ira ou preocupação, os traços amplos são acentuados.

 

— Muito bem — disse Rhyme, com um sinal para Cooper, que fez a anotação no quadro do perfil.

 

— Obrigado, Parker. Vamos trabalhar.

 

Ambos desligaram.

 

— Doze... — suspirou Rhyme. Olhou para os quadros das evidências e do perfil e depois para a lista com o nome dos suspeitos. Não seria possível reduzi-la mais rápido?, pensou, com acidez, vendo o relógio avançar mais um minuto em direção ao fim do prazo fatal.

 

Cena do crime: subestação Manhattan-10 da Algonquin, rua 57, oeste

 

  • Vítima (falecida): Luís Martin, subgerente de loja de artigos musicais

 

  • Não há impressões digitais em nenhuma superfície

 

  • Estilhaços de metal derretido, resultantes de arco elétrico

 

  • Cabo de alumínio trançado, 8 milímetros, com isolamento

 

– Bennington Electrical Manufacturing, AM-MV-60, capacidade de até 60 mil volts

 

– Cortado com serra manual, lâmina nova, dente quebrado

 

  • Dois parafusos fendidos, buracos de 2 centímetros

 

– Não rastreável

 

  • Marcas de ferramentas nos parafusos

 

  • Placa de latão presa ao cabo com dois parafusos de 6 milímetros

 

– Não rastreável

 

  • Pegadas de botas

 

– Albertson-Fenwick, modelo E-20 para eletricistas, tamanho 43

 

  • Grade de metal cortada para entrada na subestação, marcas do instrumento de corte

 

  • Porta de acesso e moldura no porão

 

– DNA coletado. Enviado para teste

 

– Comida grega, taramasalata

 

  • Fio de cabelo louro, 2