Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CORAÇÃO SELVAGEM Kay Thorpe
CORAÇÃO SELVAGEM Kay Thorpe

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

NA ÁFRICA SELVAGEM, A VIOLÊNCIA E A PAIXÃO MARCARAM A FOGO O DESTINO DE SARA!

”Você deve ser tratada como um animal selvagem e ganharia muito mais se fosse submissa aos meus desejos!”

As primeiras palavras de Steve, o novo sertanista na reserva de animais, no interior do Quênia, foram dirigidas à Sara, filha do ecologista da reserva. Era um ultimato daquele que estava acostumado a caçar predadores e a partir da sua chegada, começou a agir como tal, tendo agora como presa a indefesa Sara, que também precisou aprender a caçar, para conquistar aquele homem!

 

 

                             

 

 

O crocodilo estava meio submerso na lama — uma ilha de tonalidades verdes e marrons que forma­vam uma camuflagem perfeita junto à margem do rio. Ao ouvir o ruído da pedra na superfície da água, o animal acordou de repente, animou-se e deslizou por baixo da correnteza, arrastando a cauda pontuda e enrugada que parecia não ter fim.

Deve ter uns cinco metros e pouco de comprimento, pensou Sara no outro lado do rio. O maior que tinha visto até então.

Escorregou para longe da depressão coberta de mato e subiu pelo barranco: com um gesto displicente tirou a poeira e as folhas que estavam presas na camisa e na calça desbotada. Permaneceu sentada um momento olhando em direção aos picos cor de safira da escarpa Mara, enquanto os olhos percorriam as ondulações das planícies que se estendiam para o sul. Não muito longe os massais estavam pondo novamente fogo no mato. Faziam isso para ter pas­tagens novas para os rebanhos, mas, às vezes, o fogo ardia bem perto do caminho, o que era perigoso. Na semana anterior, seu pai fora obrigado a voltar para a Estação de Kambata, passando pelo meio do pasto incendiado, e a fumaça praticamente o sufocou. Hoje, pelo menos, o vento estava soprando na direção oposta.

Naquela hora, provavelmente, seu pai já estava no avião com destino à Inglaterra, onde iria tratar de uma herança deixada pelo único irmão. Sara morava na África oriental desde os oito anos de idade e lembrava-se vagamente do seu país natal. Os pais estavam sempre com a intenção de tirar férias e passar algum tempo na Inglaterra, mas o projeto nunca se concretizou realmente. Depois da morte da mãe, ocorrida quando Sara tinha doze anos, a intenção original foi cada vez se tornando mais remota e irreal. Graças ao interesse demonstrado por sou pai com respeito à ecologia da vida selvagem, ele foi chamado para trabalhar no Departamento de Ani­mais Selvagens. Sara estava ainda no colégio quando Dave foi no­meado chefe da Reserva Mara-Massai, encarregado da Estação de Kambata, e foi obrigada a aguardar o fim das aulas antes de poder reunir-se a ele. Sorriu, lembrando-se dos primeiros dias após sua chegada. Estava tão inexperiente, tão pouco preparada para aceitar a vastidão de tudo aquilo! A paisagem africana aterrorizou-a e fas­cinou-a ao mesmo tempo. Agora, três anos depois, ainda a fascina­va, mas o terror transformou-se em respeito. Havia ali uma qua­lidade do tempo que fora esquecida, um aguçamento dos sentidos que dava a cada coisa vista, a cada som ouvido uma claridade como nunca experimentara antes em nenhum outro lugar. Durante três anos só fizera uma vez a viagem circular de seiscentos quilómetros para Nairóbi, e não tinha nenhum desejo especial de repeti-la. Não agora, pelo menos. Gostava do tipo de vida que levava.

O sol descia rapidamente. Ela percebeu que estava na hora de voltar. Dissera a Ted que estaria de regresso no máximo dentro de uma hora. Não que ele se preocupasse com um pequeno atraso. Tanto Ted quanto o pai sabiam que Sara tinha bastante experiên­cia da selva para não correr riscos desnecessários. Apanhou a es­pingarda que estava deitada na grama e pôs-se em pé com um movimento ágil das pernas, passou em seguida os dedos por entre os cabelos desbotados pelo sol para tirar algum inseto que pudesse estar preso. Deixara o jipe Land-Rover estacionado no cinturão da floresta à beira do rio. Entrou no carro e retornou pela mesma trilha estreita que tomara na vinda. Tinha visto o que desejava ver e era sempre bom guardar essa lembrança na memória. O maior crocodilo que Kimani vira até então não passava de cinco metros. Acontece que ela nunca sabia quando Ted estava falando a verdade. Podia contar as histórias mais incríveis com a fisionomia mais séria do mundo.

Dois nativos massais caminhavam pela trilha em direção à al­deia, situada além do morro, as pernas compridas e esguias pisa­vam maciamente no chão de terra, enquanto as túnicas marrons ondulavam nas costas. Sara diminuiu a velocidade ao cruzar com eles: houve a troca cordial de jambos, como era habitual, o brilho de dentes magníficos e depois eles se afastaram. Amanhã iria no­vamente à aldeia. A terceira mulher de Mgari tivera um bebê e estava ansiosa para mostrá-lo aos conhecidos. Era seu quinto ou sexto filho? E olha que não tinha mais de dezenove anos! Kimani dissera alguns dias atrás que a tribo pretendia mudar-se de novo em breve. As pastagens próximas da aldeia estavam quase no fim. Sara não queria que os nativos fossem embora, mas era inevitável. Os massais eram nómades por natureza. Um belo dia recolhiam seus pertences e partiam com os rebanhos até encontrarem um local conveniente para construírem novas habitações, e as cabanas que deixavam atrás continuavam vazias até que o tempo e os cupins dessem cabo delas. Havia uma aldeia nestas condições a uns de-zesseis quilómetros da Escarpa Mara, abandonada pelos tribais antes de Sara chegar.

A trilha bifurcava-se na frente: a da direita levava à Escarpa, enquanto a da esquerda dava uma volta, subia um morro e passava por baixo das árvores. Sara seguiu-a com cuidado, evitando os bu­racos cavados pelas últimas chuvas. O caminho era sempre ruim naquele local, devido às raízes que sulcavam a terra, e não podia fazer nada para melhorá-lo. Certa vez a roda do jipe afundou em um buraco e Sara esperou mais de uma hora por socorro, enquanto uma manada de elefantes pastava a uns trinta metros de distância. É verdade que não correra um grande perigo, porque o vento estava a seu favor. Como a maior parte dos animais selvagens, os elefantes costumam observar um veículo parado sem desconfiança. Avistou o brilho da água na sua frente, outra volta do mesmo rio Mara onde observara o crocodilo uns vinte minutos antes. O caminho descreveu uma curva e correu paralelamente ao leito do rio durante alguns minutos, recuou em seguida e saiu mais uma vez do meio das árvores, indo dar em uma grande clareira que se estendia até o morro íngreme, de quinze metros de altura, que protegia a reta­guarda de Kambala.

Quando Sara chegou pela primeira vez à Estação, não ficou mui­to impressionada com o chalé coberto de folhas de palmeiras, cer­cado de varandas largas e mobiliado com móveis rústicos. Pouco mudara desde então. Havia as mesmas casas em volta, as mesmas cercas de arame. O orfanato construído anteriormente era seu pro-jeto especial, embora o único residente no momento fosse um filhote de antílope que Kimani encontrou no bosque ao lado da mãe morta. Kimani levou-o para casa a fim de ser tratado por Sara, até ficar bastante crescido para defender-se sozinho nas pastagens. Pelo menos era essa a intenção. O animalzinho a seguia por toda parte quando saía do cercado e observava todos os movimentos dela com seus olhos grandes. Sara gostaria que o antílope fizesse mais tarde companhia a Kiki, seu macaquinho, como um animal de estimação em vez de aventurar-se pelos campos abertos.

Absorta nesses pensamentos, estava quase cm casa quando per-cebeu que o jipe estacionado junto à escada não pertencia à Esta­ção, embora tivese o emblema do Departamento nas laterais. O substituto do seu pai era aguardado no dia seguinte, mas, pelo visto, chegara com um dia de antecedência. Sara conhecera Bruce Madden quando estivera com o pai em Nairóbi, e simpatizara mui­to ele. Não era nada mal que Bruce se ocupasse da Estação durante as próximas seis semanas.

Estava no meio da escada quando parou de repente ao ouvir um grito. No instante seguinte Kiki atravessou a porta da varanda, saltou nos braços dela e dali pulou nos ombros, onde ficou sentado, dando gritinhos de alegria e segurando nos cabelos com a mãozi-nha, enquanto com a outra apertava uma cigarreira contra o peito. Logo depois do macaquinho surgiu no alto da escada um homem de camisa e calça esporte, parou bruscamente ao avistar Sara com o macaquinho agarrado ao pescoço. Nesse momento de animação, dois olhos cinza percorreram-na de alto a baixo, apreciando visi­velmente o corpo jovem e esbelto, o rosto cheio de vida.

— Você é a filha do ecologista Dave Macdonald? — indagou o homem.

— Sou. Mas se você veio ver meu pai, ele embarcou ontem para a Inglaterra.

— Eu sei. Por que você não foi com ele? Jamais podia imaginar que fosse ficar aqui...

— Decidi que não queria ir — respondeu Sara lentamente. — Meu pai não tinha nenhum motivo particular para informar o pes­soal do escritório sobre minha permanência, Bruce Madden não vem para cá?

O homem levantou ligeiramente as sobrancelhas, atónito com a pergunta.

— Não, não vem. Sofreu uma crise de malária e foi internado no hospital. Eu sou Steve York. — Olhou por cima dela para o jipe estacionado adiante. — Você saiu sozinha?

— Saí. — Os olhos azuis brilharam. — Há algo errado nisso?

Claro que sim. É uma loucura deixar uma menina de sua idade circular por uma reserva de animais selvagens como se fosse um parque. Seu pai devia ter mais juízo. Ou foi você que se apro­veitou da ausência dele?

— Evidente que não! Além disso, não sou mais menina.

Seu coração afundava a cada segundo que passava. Teria que aguentar esse substituto durante as seis semanas? Examinou-o com o canto dos olhos, viu os ombros largos por baixo da camisa esporte, a força robusta do corpo alto, esbelto, as feições angulosas e morenas, os cabelos castanhos espessos. Que idade tinha? Trinta e dois? Trinta e três? De qualquer forma não tinha idade suficiente para assumir o tipo de autoridade dominadora que sua voz sugeria. E certamente não tinha nem de longe a experiência de Bruce Mad­den e de seu pai.

Percebeu de repente que o homem estava fitando-a com uma certa ironia no olhar, e enrubeceu sem querer. Teria ele lido seus pensamentos?

— Já encontrou Ted Willis?

— Ainda não encontrei ninguém, a não ser os dois empregados da casa. Mas também só faz uma hora que estou aqui. Talvez você saiba me dizer onde estão os outros.

— Kimani Ngogi saiu atrás de alguns caçadores sem licença e levou consigo quatro guardas florestais. Os outros estão fazendo a vigilância habitual. Ted deve estar por perto. Não deixaria a Es­tação abandonada...

— Espero que não.

Sara levantou o queixo com decisão.

— Posso entrar em casa, agora que você terminou a vistoria?

— indagou com ironia. — Estou morta de calor e de sede. — Retirou a cigarreira da mão apertada de Kiki, colocando o macaquinho no parapeito da varanda antes de subir os degraus da escada. — Isso é seu?

Steve pegou a cigarreira com um sorriso no canto dos lábios.

— Muito obrigado.

Sara passou por ele e entrou na sala sombria, o assoalho de tábuas estava coberto de peles de animais. Apanhou garrafas e copos no armário, pingou algumas gotas de gim no suco de laranja e sorveu um bom gole, antes de voltar a cabeça e perguntar fria­mente se ele desejava uma bebida.

Encostado no batente da porta, com as mãos nos bolsos da calca Steve balançou negativamente a cabeça e indagou:

— Que idade você tem?

— Dezenove.

— Verdade? Pensei que tivesse dezesseis. Não que isso faça diferença. Você não tem condições para sair da Estação sem uma proteção adequada.

— Se eu fosse homem você pensaria diferente! — disse Sara com agressividade.

— Pode ser. — Percorreu-a com a vista e sorriu sem graça.__

Faz tempo que você mora aqui?

— Três anos. O bastante para saber o que pode ou não ser feito. E sou perfeitamente capaz de tomar conta de mim,

— Tão capaz quanto a espingarda que você deixou distraidamente no carro?

Sara sentiu uma raiva imensa de si mesma e do homem na sua frente. Esquecera-se completamente da espingarda. Não adiantava dizer que era a primeira vez que isso acontecia. Ele não acreditaria. Colocou o copo em cima da mesa.

— Foi por sua causa que me esqueci. Vou apanhá-la agora mesmo. Steve estava na mesma posição quando ela voltou. Estendeu a

mão para segurar a arma, uma Winchester, e examinou-a com aten­ção. Fez uma cara irônica ao ver que estava descarregada, mas devolveu-a sem nenhum comentário,

— Você sabe atirar?

— Razoavelmente. Gostaria que fizesse uma demonstração, pa­ra acreditar no que digo?

Ele balançou a cabeça.

— Não é necessário.

— O que significa isso exatamente? — indagou Sara, fitando-o nos olhos.

— Significa que você não vai sair mais daqui sem a proteção de um dos homens, pelo menos enquanto for o encarregado da Estação. Para responsabilizar-me por você, durante a ausência de seu pai, você terá que seguir minhas normas.

— Ninguém está pedindo para você se responsabilizar por mim — exclamou Sara com bastante vivacidade e certa ironia. — Você pode ser muito importante para os outros, mas para mim não significa nada. Eu não sou empregada do Departamento, e vou aonde bem me agradar!

Fixou-a longamente antes de responder.

— Não conte com isso. Você pode ser uma abelha rainha na sua própria opinião, mas a meu ver não passa de uma garota mimada que necessita seriamente de disciplina. Mas não a culpo por isso. Como você tinha permissão para circular livremente por aí nesses três anos, não se pode esperar outra coisa. — Desencostou-se da porta. — Que tal se você indicasse meu quarto enquanto aguarda­mos a vinda de Ted?

— Descubra-o sozinho! — exclamou Sara furiosa. Saiu correndo pela porta da frente e quase derrubou o homem que subia a escada.

— Bem-vindo ao palácio — exclamou para Ted. — O príncipe coroado acabou de chegar!

Os traços enrugados de Ted Willis assumiram uma expressão de surpresa, os olhos passaram em seguida por cima dos ombros de Sara e a surpresa transformou-se em certeza.

— Você é o substituto? — indagou Ted ao homem em pé junto à porta. — Estávamos esperando Bruce Madden.

— Foi isso que imaginei — disse Steve com a voz seca, — Eu sou Steve York. Madden não pôde vir. Você é o Ted Willis?

— Sou — respondeu Ted sem manifestar muita alegria. — Des­culpe-me não estar aqui para lhe dar as boas-vindas. Estava exa­minando os mantimentos no depósito nos fundos. De lá não se ouve o ruído dos carros.

— Faço idéia. — Depois de uma breve pausa, acrescentou com delicadeza: — Gostaria que me indicasse o quarto onde vou dormir,

srta. Macdonald.

Sara hesitou, olhou para Ted, depois voltou-se lentamente em direção ao recém-chegado. Havia um brilho nos olhos cinza que a fitavam fixamente da porta. Ouvira certamente o que dissera para Ted. E daí? A culpa era dele. E ela não iria intimidar-se por sua

causa,

— Está bom — respondeu finalmente. — Vou mostrar seu quar­to, sr. York.

— Não precisa levar a espingarda. — ,O comentário foi sarcás­tico. — Ted pode guardá-la para você.

Sara entregou a arma a Ted sem dizer uma palavra, passou na frente de Steve e atravessou a sala em direção à porta dos fundos.

Havia cinco portas que davam para o corredor. Sara abriu a se­gunda à direita e afastou-se um pouco para deixar o homem passar.

— Este normalmente é o quarto do meu pai. É maior que o quarto de hóspedes. Eu durmo no quarto ao lado, Kimani no outro lado do corredor e Ted no quarto da frente. O banheiro é nos fundos.

Steve percorreu com a vista os poucos móveis do quarto e ba­lançou a cabeça.

— Está ótimo. A que horas vocês costumam jantar por aqui? —Às oito. — Eram cinco e meia. — Se quiser, posso providenciar alguma coisa agora,

— Com uma pitada de arsênico, imagino. — Voltou-se para en­cará-la, fez uma pausa e depois acrescentou: — Escuta, essas seis semanas vão custar muito a passar se você pretende manter essa atitude. Eu fiquei tão pouco emocionado ao encontrá-la aqui quanto você de me ver em lugar de Madden. Mas já que as coisas são assim, o melhor é tirar partido da situação. Tudo que lhe peço é um pouco de cooperação.

Sara fitou-o com os olhos frios.

— E assim que você chama isso?

Os maxilares do homem se enrijeceram.

— Está bom, então, se é assim que você quer. Gostaria apenas de adverti-la de uma coisa: há um limite para o que estou disposto a aceitar de menininhas que se julgam importantes. Enquanto eu estiver aqui, você vai fazer exatamente o que eu mandar! Está claro agora?

— Claro como água — retrucou Sara, saindo do quarto trémula de ódio.

Homem odioso! Um perfeito tirano! Basta dar um pequeno poder a um camarada desses e a coisa sobe diretamente à cabeça. Preferia morrer a ceder! Estava na hora de alguém mostrar a esse tal de Steve como as coisas são na realidade!

Ao apanhar a roupa limpa no guarda-roupa do quarto. Sara olhou-se no espelho e viu que estava com o rosto coberto de poeira. Teria ficado assim na hora em que desceu a encosta do rio. Os cabelos também estavam imundos! Agora entendia por que o ho­mem do quarto ao lado a tomara a principio por uma garota, em­bora a lembrança do comentário ainda lhe doesse.

Ouviu a porta do quarto dele abrir-se e os passos que se afas­tavam pelo corredor. Talvez fosse até o carro, para descarregar as malas. Gostaria que Ted não estivesse por perto para lhe dar uma mão.

Tomou um banho rápido de chuveiro, trocou de roupa e passou a escova nos cabelos úmidos. Depois jogou as roupas sujas na cesta de vime. Tinha certeza de que no dia seguinte estariam lavadas, passadas e dobradas em cima da cama. Maswi e Njorogi eram os melhores empregados que já tinham trabalhado na Estação. Sara gostaria muito que os dois ficassem, mas era problemático. Como Kambala era muito distante do território que habitavam, o orde­nado dos empregados estava bem acima do salário habitual, se bem que isso fosse uma pequena compensação para a falta de contato com os outros membros da tribo. A solução evidente seria convencer os massais a executar as tarefas domésticas, mas eles não demons­travam o menor interesse pelas coisas que o dinheiro podia com­prar. A riqueza deles estava nos rebanhos que criavam e que for­neciam tudo que necessitavam. Eram as pessoas mais alegres que Sara conhecia.

Ted estava no alto da caixa d'água examinando o nível. Sara apoiou-se em uma das vigas para observá-lo, com a perna levan­tada como um garça.

— Gastei muita água?

— Você sempre gasta água demais — disse Ted com um sorriso tolerante. — E impossível convencer as mulheres de que os chu­veiros consomem muita água. Você precisava ver a quantidade de água que nos era distribuída antigamente. Quem tinha sorte rece­bia uma concha para se lavar!

Sara riu.

— Você sempre conta isso. Se for verdade, imagino que os ani­mais sentiam sua aproximação a um quilómetro de distancia!

Sara gostava muito de Ted Willis. Ele era apenas alguns anos mais velho que seu pai, mas a vida passada ao ar livre tinha acen­tuado os traços do rosto, que se pareciam hoje com o mapa em relevo do Himalaia. Ted fora caçador na mocidade, excelente por sinal. Depois a vista começou a enfraquecer e, mais tarde, não podia competir com os outros organizadores de safáris que apon­tavam a caça para os clientes atirarem. Ele morava em Kambala quando Sara chegou, e passou muitas horas na companhia dela contando histórias dos velhos tempos, embora ela suspeitasse que muitas das aventuras narradas fossem mais antigas que o próprio Ted.

— Kimani já voltou? Ted balançou a cabeça.

— Deve ter ido ao pavilhão de caça.

— Quer dizer que não encontraram nada?

— Provavelmente não. Esses caçadores clandestinos são esper­tos. Atravessam os limites da reserva à noite e voltam de madru­gada. E não há outro vestígio da passagem deles a não ser as carca­ças dos animais mortos. A única maneira que existe de apanhá-los é descobrir onde passam o dia e aguardar que voltem para lá de madrugada.

— Eles só andam atrás dos chifres de rinocerontes?

— Pelo menos esse grupo. São bem pagos pelos homens que organizam essas caçadas, mas os que têm os maiores lucros são aqueles que não correm nenhum risco. Se alguém convencesse as pessoas que essa história de chifre de rinoceronte ser esti­mulante sexual é uma bobagem, a procura acabaria de um dia para o outro. Foi provado cientificamente que o chifre de rinoce­ronte moído não tem nada de afrodisíaco. Pode-se obter o mesmo resultado com uma pitada de sal, contanto que se acredite nisso! — Ted percebeu o sorriso de Sara e balançou a cabeça em sinal de reprovação. — Você pode rir, pequena, mas é verdade. Oferta e procura, tudo não passa disso. Se acabar com o último, não há dinheiro para o primeiro.

— Acredito, só que a pitada de sal me pareceu um pouco exa­gerada. — Fez uma pausa, olhou para a casa e perguntou com outra entonação de voz; — O que você achou de Steve, o substituto de papai?

Ted levantou os ombros.

— É muito cedo para dizer. De qualquer modo, isso não parece importante. Ele só vai ficar aqui seis semanas, não é mesmo?

— Tenho a impressão de que vão parecer seis longos anos — comentou Sara com certa melancolia. — Ele é tão pretensioso! Ima­gine que tentou me convencer a não sair da Estação sem um guarda.

— Sujeito corajoso — disse Ted com ironia. — E o que foi que você respondeu?

— O que você acha? Eu sempre... Ou será que você concorda com ele? — perguntou Sara, olhando com suspeita para o rosto de

Ted.

— Não acho má ideia. Aliás, eu mesmo disse isso a seu pai nos

dois últimos anos. Por mais cuidado que você tome, sempre pode acon-tecer alguma coisa. Imagine se você for mordida por uma cobra...

— Há soro no jipe.

— Mas pode ser que você não o tome a tempo. O veneno de uma mamba leva apenas alguns segundos para agir sobre o organismo. É verdade que os animais, em geral, preferem sair do caminho a atacar. Mas você pode topar um dia com um animal violento. Você acredita mesmo que possa derrubar um rinoceronte com sua es-

pingardinha?

— Eu nunca me aproximo deles a ponto de correr o risco de um ataque. — Sara deu um pontapé na pedra que estava na sua frente. — Pensei que você fosse ficar do meu lado.

— Não se trata de tomar partido ou não. Se o novo encarregado disser que você tem que sair com o guarda, não tem outro jeito. Ele é o chefe aqui até seu pai voltar. Se você não estava preparada para aceitar isso, era preferível ter viajado com seu pai.

— Não creio que ele quisesse que eu fosse. Pelo menos não in­sistiu muito. Você acha que ele tinha receio de que eu decidisse morar na Inglaterra?

Ted pensou um momento antes de responder,

— Talvez. O que os olhos não vêem o coração não sente. Ele não gostaria de perdê-la.

— Não há o menor perigo. Ele sabe perfeitamente como gosto daqui.

— Por enquanto, sim. Você não teve muitas oportunidades nos últimos anos de fazer comparações, não é mesmo? Sara levantou os olhos intrigada.

— O que você está querendo dizer, Ted?

— Nada especial. Apenas que chegará o dia em que você vai querer mais coisas do que este lugar pode oferecer, e seu pai terá que enfrentar a situação. Ele devia ter se casado de novo. Há mui­tas mulheres que aceitariam com alegria uma proposta de Dave MacDonald.

— Ele nunca quis se casar de novo. — Ela se afastou da viga com

os olhos brilhantes. — Papai está feliz assim. Nós dois estamos. Ted fitou-a com atenção.

— Tenho minhas dúvidas. Talvez esta seja a melhor coisa que aconteceu para vocês dois nos últimos anos... passar algumas se-manas longe um do outro. Ambos terão tempo para compreender que no fundo você é uma moça e não um rapaz.

Sara encarou-o sem jeito.

— Eu pensava que você fosse amigo de papai.

— E sou. Isso não quer dizer que deva ser cego. Dave é um grande sujeito, mas não deixa de ser tremendamente egoísta no que se refere a você. Ensinou-a a atirar como um homem, a agir como um homem, inclusive a pensar como um homem. Qual foi a última vez que você usou um vestido?

— Por que haveria de usar vestido? Eu me sinto melhor de calças compridas. São mais... — Interrompeu bruscamente o que dizia.

— Você não sabe o que está falando. Eu não sou diferente de nenhuma outra moça da minha idade!

— Não? — O sorriso enrugou seus traços. — Que tal pedir a opinião de Steve sobre o assunto?

— Não estou absolutamente interessada na opinião dele sobre coisa alguma. E como você parece ter a intenção de criticar o ca-ráter de papai na sua ausência, vou deixá-lo à vontade.

Sara foi até a cozinha com uma indiferença que estava longe de sentir, olhou para o interior esfumaçado e trocou algumas palavras com os africanos que trabalhavam ali, voltou em seguida para a casa grande e entrou no quarto. Ali, pela primeira vez em anos, examinou-se atentamente diante do espelho, passou a mão sobre os cabelos curtos e alisou as pontas, correu a ponta da língua sobre os lábios que não viam batom havia muitos e muitos anos e endi- reitou a gola da camisa. Pouco a pouco começou a suspeitar que Ted talvez tivesse razão. Parecia-se mais com um rapaz que com uma moça. Não sabia dizer por que aquilo a incomodava, mas a aborrecia assim mesmo. Não que fizesse alguma diferença, pensou com firmeza. Não iria modificar seus hábitos unicamente para agradar a Ted Willis ou a qualquer outra pessoa. Calças compridas e cabelos curtos eram mais confortáveis ali. Descobrira isso fazia muito tempo. E se o pai não ligava para sua aparência, que impor­tância tinha a opinião dos outros?

A noite caiu com a rapidez habitual. Às sete horas Sara foi à sala de estar e encontrou-a deserta. Folheou durante alguns minutos as revistas antigas que havia em casa, mas estava muito inquieta para se concentrar na leitura. Ficou contente quando ou­viu Kimani subir os degraus da escada e entrar na sala.

— Quando você voltou? — perguntou ao jovem africano que pre­parava um drinque. — Não ouvi seu carro.

— Faz uma hora. Desistimos da busca às quatro da tarde.

— Não encontraram nada?

— Somente algumas setas que largaram no chão. Ou foram em­bora do distrito ou estão escondidos para dar essa impressão,

— Ted acha que eles entram na reserva à noite.

— Difícil. Pelo menos não desta vez. O animal morto foi encon­trado muito longe. Penso que alguém vem à noite com condução para apanhar os chifres dos animais abatidos. Vimos sinais de um veículo em um ponto, mas não levava a lugar nenhum. Talvez os rastros sejam dos turistas que acamparam ali na semana passada. Estiveram alguns dias naquele setor.

— E agora, o que você vai fazer?

— Isso depende do novo chefe. — Os traços aquilinos estavam impassíveis. — Acho que ele vai se conduzir exatamente segundo as normas habituais. Disse-me que devia concentrar-me no meu trabalho e não me ocupar com outras coisas.

Sara admitiu que Steve tinha razão. Kimani estava ali como membro do Departamento de Pesquisa, e seus deveres eram bem claros: anotar as possíveis mudanças de distribuição dos animais naquela área. Passara dois meses em Mara e passaria outros dois em Kambala, Perseguir caçadores sem licença não era absoluta­mente sua tarefa.

— E qual é a sua opinião a respeito de Steve?

— Por que teria uma opinião? — retrucou Kimani no mesmo pé. — Ele está aqui para realizar um trabalho como todos nós. Seu desempenho é da conta exclusiva do Departamento.

— Esqueça o Departamento. Bwana York dirige seu próprio es-petáculo. — Ela sorriu com evidente contentamento. — Acho que não seria muito caridoso esperar que ele quebrasse o pescoço até a hora do jantar.

— Seria inútil — corrigiu uma voz irônica que parecia vir da outra porta —, além do mais as paredes têm ouvidos finos.

— E as pessoas que escutam a conversa dos outros raramente ouvem o que desejam — retrucou Sara com a voz aparentemente firme. — Você não quer que lhe peça desculpas, não é mesmo?

— Seria a última coisa que esperaria de você. — Steve entrou na sala, cumprimentou cordialmente Kimani e serviu-se de um uísque. — A sua saúde — disse, voltando-se para Sara.

Ela dirigiu-lhe um olhar de poucos amigos e voltou a atenção para a revista, procurando ignorar o corpo esguio que se sentou ao seu lado. Houve um momento em que pensou que Steve iria fazer um comentário qualquer, mas nesse momento exatamente Ted en­trou na sala e a atenção dele concentrou-se em outro ponto. Na meia hora seguinte, Steve dirigiu aos dois homens algumas per­guntas relativas ao sistema de trabalho na Estação, perguntas rá­pidas e inteligentes que visavam lhe dar um quadro da situação geral no menor tempo possível. Observando-o em silêncio atrás da revista, Sara percebeu sua insatisfação diante de algumas respos­tas, e sentiu amargamente que havia uma crítica velada ao traba­lho de seu pai. Um homem como Steve acharia sempre que seus métodos seriam os melhores. Seu pai dirigiu a Estação durante quase quatro anos, e nunca houve queixas.

Às oito em ponto Maswi trouxe a travessa com bolinhos de peixe e curry, colocou-a em cima da mesa e saiu da sala com a expressão tristonha. Ele e Njorogi eram irmãos, embora fossem completamen-te diferentes um do outro. Sara tinha a impressão de que muito breve Maswi ia conversar com o irmão sobre a questão de voltarem para casa. Ninguém podia impedi-los, naturalmente, mas de qual­quer modo seria uma longa caminhada levá-los de volta para a aldeia em que moravam na região de Narok.

Sentado na cabeceira da mesa, Steve parecia grande, muito con­fiante e agressivamente masculino. Sara jantou em silêncio, ouvin­do a conversa em volta sem fazer nenhum comentário. Ted olhou uma ou duas vezes na sua direção, mas não falou nada. Pelo visto, Steve não deu por sua falta, como se ela não estivesse presente. Estava muito interessado nas narrativas de Kimani sobre os dois últimos meses, envolvido até o pescoço nos assuntos da Estação.

— Amanhã cedo vou seguir essa trilha que você mencionou — disse a Kimani quando tomavam café na varanda. — Se vêm du­rante a noite, como você pensa, para apanhar os chifres, os rastros vão me ajudar a descobrir o local exato. Claro, podem ter sido feitos pelos tais turistas que você mencionou, mas pelo menos é uma

chance que temos. — Olhou para Sara, que estava espichada na cadeira, com um pé no parapeito, e acrescentou cordialmente. — Ainda tem café?

Ela se controlou para não dizer "Por que você não vai buscar?", levantou-se e apanhou a xícara estendida, encontrando o olhar dele dirigido para seu rosto. Se ele pensava que estava colocando-a no seu devido lugar, enganava-se redondamente. Na manhã seguinte iria ver que sua tática não funcionaria com ela. Já tinha feito pla­nos para o dia seguinte, e não pretendia alterá-los.

Kimani e Ted balançaram negativamente a cabeça quando Sara perguntou se queriam mais café. Tornou a encher a xícara de Steve, estendeu-a de volta sem uma palavra e desceu os degraus da es­cada. A noite estava gostosa para passear nas imediações da casa.

O filhote de antílope estava dentro do abrigo que ela construíra no canto do cercado. Levantou a cabecinha quando Sara se apro­ximou e encarou-a sem medo, movendo as narinas úmidas. Ela acariciou o focinho e o pescoço, pensando que estava na hora de escolher um nome para o animalzinho. Nunca fazia isso normal­mente. Não era seu costume apegar-se aos animais e pássaros de que cuidava, as despedidas eram sempre tristes.

Os grilos cantavam alto, o ar estava repleto de aromas já co­nhecidos. Os ruídos da selva eram ouvidos a quilómetros de dis­tância, cada um deles distinto e identificável. Podia ouvir o barulho da água na direção do poço dos hipopótamos, os berros das zebras nas planícies e, bem mais perto, o lamento insistente de uma hiena solitária. Sara lembrou-se do terror irracional que sentiu nas pri­meiras noites em que ficou acordada procurando identificar as di­ferentes vozes dos animais, os chamados, os gritos e rugidos com alguma forma real e viva. Curiosamente, o rugido do leão sempre a tranquilizava. Podia reconhecê-lo, visualizar o animal que o pro­duzia. Somente o desconhecido era assustador. Havia ainda alguns ruídos noturnos que não sabia identificar, mas perdera o medo. Ultimamente, era o silêncio que a deixava nervosa.

Como se respondessem ao seu pensamento, dois leões começa­ram a rugir um para o outro do outro lado do rio, e foram logo acompanhado por outro par mais longe. O filhote de antilope deu um pulo, e seu coração começou a bater violentamente sob os dedos dela. Conversou com ele para tranquilizá-lo, e o animalzinho logo se acalmou. Quando se afastou do cercado, pouco depois, estava quase dormindo, embora os leões continuassem rugindo em coro. Talvez o par pertencesse ao bando que avistara na planície alguns dias antes. Havia uns vinte animais juntos, inclusive diversos fi­lhotes de idades diferentes. Era sempre fascinante observar como as leoas amamentavam qualquer cria do bando sem preocupação de maternidade ou de responsabilidade. Aquele era o verdadeiro espírito de comunidade, seguido pelo instinto.

Estava com as costas apoiadas em um dos mourões do cercado, ouvindo os ruídos da noite, quando pressentiu a presença de al­guém perto dali. Ao voltar a cabeça, viu Steve encostado tranqui­lamente na cerca a alguns metros de distância, observando-a. Os dois estavam fora do círculo de luz que provinha da casa, na escu­ridão, ele parecia maior do que antes. Sentiu uma impressão es­tranha, que a deixou subitamente inquieta e tensa. Instintivamen­te procurou a defesa no ataque.

— Mesmo aqui, perto de casa, você me vigia como se fosse meu pai? Ou tem alguma outra razão para me seguir?

Ele não se moveu.

— Qual seria, por exemplo?

Ela afastou-se da cerca e enfiou as mãos nos bolsos da calça.

— Como poderia saber? Faz quanto tempo que você está me observando?

— Há alguns minutos. — Levou o cigarro à boca e acendeu o isqueiro, que clareou brevemente o sorriso irônico nos lábios. — Gostaria de conversar com você.

Fitou-o com o canto dos olhos.

— A respeito do quê?

— A seu respeito. — Fez uma pausa e soprou uma baforada fina de fumaça. — Tenho uma irmã de sua idade que está hospe­dada na vasa de amigos em Nairóbi. Que tal se você fosse passar algumas semanas com eles? Jill ficaria muito contente com sua companhia e seria uma distração para você.

Ela sentiu o coração bater descompassado.

— Não necessito de distração nem de mudança. Se você está querendo se ver livre de mim, por que não diz claramente?

— Se fosse por isso, não lhe oferecia a casa dos meus amigos — foi a resposta seca. — Acho que a mudança de ambiente seria bom para você.

— Andou conversando com Ted, pelo visto — disse Sara, tensa.

— Exatamente. As circunstâncias exigiam.

— As circunstâncias não têm nada de especial.

— Não? —- Examinou-a à luz do luar. — Qual foi a última vez que você pôs um vestido bonito, deixou os cabelos crescer ou ouviu uma conversa que não fosse estritamente masculina?

— Eu não escuto apenas. Em geral, participo, E minha roupa e meus cabelos se adaptam ao tipo de vida que levo aqui.

— Eu sei disso. É exatamente esse o ponto. Enfurnada neste lugar, você está perdendo uma parte essencial do seu amadureci­mento. Você precisa manter contato com outras pessoas de sua idade. Rapazes e moças.

— Com o objetivo, naturalmente, de encontrar um marido e levar uma vida de felicidade conjugal. Ele sorriu sem graça.

— Há coisas piores que isso,

— Você é casado?

— Não, mas com os homens o caso é diferente.

— Você quer dizer que pode ser individualista e que eu não

posso, é isso?

— Até agora você não teve muitas oportunidades de saber o que deseja. — O olhar dele era especulativo. — Você podia ser uma moça maravilhosa, Sara, se parasse de fazer o papel de jovem in­dependente. Você não pensa nunca no que está perdendo?

— No momento não creio que esteja perdendo nada. Tenho cer­teza de que muitas moças dariam tudo para que alguém como você se interessasse pelo bem-estar delas. Quanto a mim, não quero ir para Nairóbi, e você não pode me obrigar.

— Não disse que podia. Foi apenas uma sugestão. — A voz dele acentuou-se. — Mas vamos deixar uma coisa pelo menos bem clara. Se pretende permanecer na Estação, vai ter que aprender a se conduzir como um adulto racional. Você já viveu muito tempo como um menino levado. Agora está na hora de ouvir a voz da razão. Já basta todo o trabalho que vou ter aqui... Só faltava agora preocu­par-me estupidamente com você!

Com os punhos cerrados, Sara observou-o afastar-se em direção à casa. Já tinha bastante trabalho, então era isso? Se ainda nem mesmo tinha começado!

 

Sara acordou antes do amanhecer. Pulou rapida­mente da cama, vestiu a calça jeans e a camisa esporte que usara na noite anterior, pôs o pulôver por cima e calçou as botas velhas e confortáveis de andar a cavalo, dentro das quais enfiou as pernas da calça.

O céu estava de uma tonalidade azul-pálida quando ela saiu de casa, e as copas das árvores pareciam douradas sob os raios oblí­quos do sol nascente. Começou a enxergar tudo com mais detalhes quando subiu no alto do morro atrás da casa. Algo se moveu no mato embaixo, e então avistou de relance um pêlo amarelo com manchas — depois mais nada. Uma hiena, pensou, ajeitando a caixa do binóculo em cima dos ombros. As hienas costumavam aproximar-se da Estação, atraídas pelo odor de comida. Certa vez um casal de hienas tentou entrar no depósito de mantimentos. As pegadas estavam visíveis na manhã seguinte, bem como os danos causados pelos animais.

Chegou à fenda estreita, que era seu objetivo, e olhou em volta com atenção, como era seu costume, para ver se não havia nenhu­ma cobra por perto, depois sentou-se de costas para a pedra alta. Ia frequentemente ali de manhã cedo. Era um local magnífico para apreciar a paisagem de que tanto gostava. Além do rio, cujas mar­gens davam para a floresta, a planície estendia-se até o horizonte, interrompida apenas por montes de térmitas e por acácias, cujas folhas eram muito apreciadas pelas girafas. Quando a neblina da manhã se dispersava, era possível enxergar as extremidades da terra, todos os detalhes da paisagem pareciam tão acentuados que a cena se tornava quase irreal. A escarpa Mara, com seus trezentos metros de altura, parecia pintada sobre o fundo pálido do céu, a uns cinquenta quilómetros de distância.

Do alto do morro, Sara podia avistar todas as casas da Estação. Viu Ted sair do chalé e examinar rapidamente o jipe de Steve York antes do café da manhã. Alguns minutos depois Steve apareceu no pátio: os dois conversaram um momento antes de entrar de novo em casa. Sara lembrou-se da noite anterior, da conversa com Steve, e sentiu os nervos tensos. Não fazia ainda vinte e quatro horas que chegara e já estava estragando tudo. Se Bruce Madden tivesse vin­do no lugar dele... Melhor ainda se o pai não tivesse viajado... Ela não gostava de mudanças, sobretudo quando ocorriam na forma de um homem autoritário como Steve York.

Voltou-se para admirar mais uma vez a paisagem antes de des­cer do morro. Havia algumas zebras ao longe, um bando de gnus e, perto das moitas de árvores copadas, algumas girafas que co­miam delicadamente as folhas mais altas. De repente puseram-se a correr, afastando-se com uma elegância altiva que sugeria reser­va mais do que medo.

Sara moveu o binóculo para saber o que assustara as girafas, viu um movimento entre o mato alto, à direita das árvores, e cor­rigiu o foco das lentes. Três africanos vestidos com túnicas e as capas marrons de pastores massais apareceram lenta e cautelosa­mente na extensão aberta de mato queimado que se estendia até o morro próximo, enquanto os raios de sol brilhavam sobre os canos das espingardas que seguravam. Os três pararam e conversaram durante um instante, um deles levantou a mão em direção ao mor­ro, como se indicasse o caminho que deveriam seguir. Parecia que estavam discutindo: em seguida, os três desapareceram no meio do mato alto de onde tinham saído.

Iam dar a volta no perímetro da clareira, pensou Sara, em vez de correrem o risco de ser vistos no campo aberto por alguém que passasse por ali. Levantou-se rapidamente e tornou a colocar o binóculo na caixa. Os três não eram massais, disso ela tinha cer­teza. Eram pequenos demais, e tinham a pele mais clara. Sabiam que estavam bem perto da Estação? E por que andavam na floresta tão cedo? Não que os motivos fossem importantes no momento. Havia coisas mais sérias para pensar.

A descida foi bem mais rápida que a subida. Ao chegar embaixo do morro, saiu correndo em direção à casa por entre as moitas altas.

Steve estava fumando um cigarro na varanda. Viu quando Sara pulou a cerca e se aproximou a passos rápidos. Endireitou-se e atirou o toco de cigarro fora.

— De onde você vem?

— Estava lá no morro — disse Sara, ofegante, apontando para o penhasco. — Posso deixar a explicação para mais tarde? Eu vi os caçadores clandestinos, ou alguns deles, pelo menos.

— Onde? — indagou Steve imediatamente interessado.

— Vou lhe mostrar — disse ela, indo em direção ao canto da casa. — Teremos que correr ou vamos perdê-los de vista.

— Você vai ficar aqui.

Steve gritou instruções em swahili para os dois africanos que estavam no pátio, passou a perna por cima do parapeito e saltou na frente de Sara.

— Em que direção? Depressa!

— Você não conhece a região tão bem quanto eu. Levaria muito tempo para explicar. E quanto mais tempo discutirmos o assunto, mais chance eles têm de sumir.

A expressão nos olhos de Steve não augurava nada de bom para o futuro próximo, mas a verdade era evidente demais para ser ignorada.

— Está bom. Entre no jipe.

Sara subiu no banco da frente e cumprimentou os dois guardas que iam atrás com o alegre Jambo. Steve sentou-se ao lado dela, após ter parado um instante para informar a Ted aonde iam. En­grenou o jipe e fez uma volta ampla para pegar o caminho que descia pelo rio.

Levaram bem uns dez minutos para chegar ao local onde Sara supunha que deveriam estar os três africanos, e uns outros seis ou sete minutos para darem a volta ao morro. Adiante estendiam-se as savanas, divididas em campos pelas linhas retas de vegetações chamadas dongas. Steve parou o veículo e ficou em pé para exa­minar o terreno com o binóculo, movendo-o de um lado para o outro a fim de cobrir todas as direções. O calor já se fazia sentir, e os pontos distantes tremulavam e dançavam sob o vapor. Havia mi­lhares de locais onde os africanos podiam estar escondidos se ti-

vessem ouvido o ruído do carro. Sara achava que não podiam ter ido muito longe. Não houvera tempo.

Ouviram um movimento nas moitas próximas e uma forma cin­za e maciça caminhou lentamente para o local aberto, enquanto a cabeça enorme com chifres pontudos levantou-se para farejar o ven­to. O rinoceronte sabia que havia alguma coisa por perto, mas sua vista era insuficiente para identificar o objeto. Aproximou-se mais do jipe, parou e hesitou, depois a curiosidade foi mais forte que a cautela, e aproximou-se num trote lento. Steve tornou a sentar-se sem pressa no banco e manobrou o jipe para a direita. Ao olhar para trás, Sara viu o rinoceronte que fazia um esforço para arre­meter, depois voltou a andar a passo, abaixando a cabeça para pastar. Os rinocerontes eram tão imprevisíveis! Nunca se sabia a maneira como iam reagir. Estúpidos, costumava dizer Dave Mac-donald. Incrivelmente estúpidos. Mesmo assim, uma investida po­dia destruir um jipe em um instante. Ela mesma tinha presenciado uma cena semelhante.

Estavam agora no meio das moitas de espinho, os espinhos gros­sos e compridos riscavam as laterais do jipe, da mesma forma que arranhavam a couraça dos rinocerontes. Não havia vento soprando, nada se movia, ouvia-se apenas o ruído do motor e o ruído que os espinhos faziam ao voltar à posição primitiva. Se os caçadores es­tavam escondidos por ali, a situação deles não era nada confortável. O jipe saiu novamente para o campo aberto, passando no capim alto que podia abrigar uma centena de homens. A uns setenta metros adiante, duas cabeças levantaram-se de repente, assustan­do os pássaros que estavam por perto, eram rinocerontes, que se voltaram, entraram de repente em uma moita densa de espinhos e desapareceram.

— Vamos voltar — disse Steven. — Não há nada por aqui. Sara olhou rapidamente para ele.

— Tenho certeza que foi esta a direção que tomaram. Vi um deles apontando para o morro. — Examinou o perfil magro e au­toritário e sentiu uma raiva repentina. — Você não acredita em mim, não é mesmo? Acha que inventei essa história!

— Não sei o que pensar — respondeu Steve. — Tente me con­vencer de que é verdade.

Os olhos dela brilharam de raiva.

— Vá para o inferno! — disse furiosa. — Você pode pensar o que quiser! É a última vez...

— Já sei, já sei — a voz dele era áspera e autoritária.

Os guardas ouviam atentamente todas as palavras, embora en­tendessem provavelmente apenas algumas, e sorriam um para o outro. Sara mordeu os lábios e ficou sentada em silêncio no banco.

Fizeram a viagem de volta sem dizer uma palavra. Antes de o jipe parar completamente, Sara pulou fora e dirigiu-se para a casa. Estava a meio caminho da escada quando a mão de Steve segurou com força seu braço, virando-a na sua direção.

— Se você falar de novo desse jeito na frente dos guardas vou lhe dar alguma coisa para pensar. E isso é uma promessa!

Sara abriu a boca, percebeu seu olhar e tornou a fechá-la abrup-   tamente. Fitou-o com ódio e subiu os degraus, dirigindo-se para o local da varanda onde estava servido o café. Ted e Kimani já es­tavam sentados, e era visível pelo rosto deles que tinham ouvido as palavras de Steve. Fingindo uma indiferença que estava longe de sentir, Sara serviu-se de café e apanhou uma torrada. Sentou-se   na cadeira mais próxima e colocou os dois pés em cima do para­peito. No momento em que Steve apareceu na varanda, ela masti­gava tranquilamente a torrada, como se nada tivesse ocorrido.

— Não tiveram sorte? — perguntou Ted.

— Não. — A resposta breve não foi muito animadora. — Você está planejando a inspeção aérea para hoje? — perguntou a Kima-ni. A resposta foi afirmativa, e ele continuou: — Talvez você pu­desse levar Sara para passar o dia no Pavilhão de Caça. Ontem de manhã, quando sai de Nairóbi, havia um grupo de ingleses viajando para lá.

— Muito obrigada, mas eu prefiro ficar aqui — disse Sara. Depois de uma pequena pausa, ele acrescentou:

— Muito bem. Estou vendo que você prefere.

Se não fosse esse comentário, talvez ela mudasse de idéia, mas a deliberação na voz dele irritou-a profundamente. Terminou sem pressa o café, continuou sentada alguns minutos ouvindo distraída a conversa, depois levantou-se e passou pelos três homens.  

Kiki pulou de um galho da enorme Candelabra euphorbia que cobria um lado da casa e foi parar no ombro dela, dando gritinhos de protesto junto de seu ouvido. Ainda não comera nada aquela

manhã. Sara levou-o à sala de estar e deu-lhe uma banana que estava no prato em cima da mesa. Deixou-o ali enquanto foi fazer uma visita ao filhote de antílope.

Estava no cercado quando ouviu o jipe afastar-se. Não levantou os olhos para vê-lo passar entre as árvores e desaparecer no cami­nho. Kimani saiu pouco depois com destino ao aeroporto do Pavi­lhão, onde um pequeno avião era mantido pelo Departamento. Era um piloto exímio, com mais de cem horas de vôo. Sara já voara diversas vezes em sua companhia e apreciara muito a experiência. Do alto, Kimani podia avistar os animais marcados entre os diver­sos rebanhos, controlando assim os movimentos com muito mais precisão do que do solo. Sara podia perfeitamente ter voado com Kimani. Ele não se importava de levar um passageiro, contanto que conhecesse o trabalho e o ajudasse, em vez de atrapalhar. Por um instante arrependeu-se de não ter aceito a sugestão de Steve, mas agora era tarde.

Ted estava consertando um dos jipes quando ela saiu de casa com a espingarda na mão. Limpou as mãos em um pedaço de estopa ao vê-la entrar no jipe de reserva, com o olhar resignado no rosto.

— Vou até a aldeia — disse Sara com um sorriso nos lábios. — Se não voltar antes de entardecer, diga ao chefe que me tornei uma nativa.

— Olha que ele vai lhe torcer a orelha — comentou Ted com um sorriso sem graça, — A menos que não seja outra coisa mais dolorida!

— Tudo bem! — exclamou Sara ligando o motor, antes que Ted pudesse fazer outro comentário.

Tomou o mesmo caminho do dia anterior e passou pelo rio onde observara o crocodilo. Ao se aproximar do local onde a encosta era íngreme e onde terminava o mato alto, avistou uma leoa com dois filhotes. A fêmea estava de guarda em um ponto mais alto, en­quanto os filhotes andavam pelo capim ralo. Sara diminuiu a mar­cha para ver melhor os animais, sentindo-se bastante segura a uma distância de uns cento e cinquenta metros. A leoa não lhe deu atenção e olhou em outra direção com o mesmo ar de indiferença de um gato doméstico. Sara sabia, no entanto, que se pusesse um pé no chão a indiferença aparente se transformaria em questão de segundos. Respeitando a intimidade do grande felino, pôs-se nova­mente a caminho, feliz de ter visto de tão perto uma cena como aquela.

Os pastores já tinham saído havia muito tempo da aldeia com os rebanhos no momento em que Sara chegou lá, mas os guardas habituais estavam do lado de fora, na entrada do boma, homens altos, com lanças mais altas ainda, imóveis, como estátuas de bron­ze. O kroal central estava repleto de gente, havia duas cabanas novas sendo construídas e todas as pessoas disponíveis ajudavam na obra. Uma cabana só tinha a armação de troncos, mas a outra já estava com as paredes cobertas de barro, faltando apenas colocar a cobertura. Ambas estariam prontas antes do anoitecer.

Sara foi recebida com muita alegria por todos, como uma amiga. Levava guloseimas para as crianças que se reuniam em volta dela como abelhas em torno de um pote de mel, dividiu-as meticulosa­mente, colocando uma bala em cada palminha estendida na sua direção. Não houve empurrões nem reclamações, mas apenas uma roda de rostos sorridentes e de dentes mastigando.

Mgari estava sentado como sempre ao lado da cabana. Levantou a cabeça orgulhosa e aquilina quando ela se aproximou. Sua sau­dação era própria de um chefe, digna e calma. Sara agachou-se ao lado dele para conversar numa mistura de swahili e massai, até o instante em que o africano chamou as mulheres para cumprimen­tá-la. Era um privilégio receber tanta atenção de um chefe de tribo. Em geral, as mulheres de Mgari não apareciam em público. Eram mantidas no seu devido lugar. Como Kimani podia ter vivido em uma aldeia como aquela?, pensou Sara. O jovem africano tinha avançado no tempo, aprendido a língua dos homens brancos, rece­bido uma educação universitária e obtido um lugar para si mesmo no mundo exterior. Era difícil saber se era mais feliz ou não que os nativos que viviam na aldeia havia milhares de anos, daquela mesma forma. Eles não faziam questão de adquirir nada, eram adaptados à vida que levavam, não se perturbavam com as com-plexidades do mundo moderno. Em muitos pontos despertavam inveja.

Lawino trouxe finalmente o último filho para Sara conhecer Era um menino, nascido na semana anterior, com o corpinho cor de bronze enfeitado de contas coloridas e de ornamentos feitos com conchas de caurim. Quando o bebê começou a chorar, a mãe deu-lhe o peito, agachando-se ao lado de Sara e sorrindo timidamente. La­wino era bonita, os traços finamente modelados e serenos, a cabeça raspada de uma forma perfeita. Em volta do pescoço usava anéis de contas coloridas semelhantes aos do filho, e os braços estavam cobertos de pulseiras. Mgari olhava com tolerância para a mulher, e até mesmo com indulgência. Era evidentemente sua favorita.

Passava do meio-dia quando Sara se preparou para voltar. Um grupo de nativos acompanhou-a até o jipe, despediu-se dela com o habituai sere sere, enquanto outros sorriam e acenavam as mãos até desaparecer de vista. Sentia-se feliz e contente. Como acontecia sempre após uma visita à aldeia dos massais. Ao se aproximar do local onde avistara a leoa e os filhotes, decidiu encurtar caminho pela planície, indo dar na Estação pelo braço raso do rio que corria a uns dois quilómetros dali.

Fizera bem por ter levado o chapéu. A capota de lona do jipe não era suficiente para protegê-la do sol do meio-dia. A grande manada de gnus que avistara do alto do morro pastava pelas re­dondezas. Passou lentamente nas proximidades dos animais e viu alguns levantarem a cabeça na sua direção. Deixara a manada para trás e estava a uns cinco quilómetros de casa quando a roda da frente caiu no buraco aberto por algum roedor — e foi por pura sorte que o carro não virou! Recuperando-se do terror momentâneo, tentou retirar o jipe do buraco. Foi então que ouviu um ronco es­tranho, com um nó na garganta. Devido ao ângulo incrível formado pela roda da frente, era provável que um dos rolamentos tivesse quebrado, mas não era isso certamente que estava causando todo aquele ronco. Com o conhecimento superficial adquirido ao obser­var o trabalho de Ted na oficina, só podia imaginar uma explicação: o diferencial da roda da frente tinha pifado. Isso queria dizer que estava em maus lençóis.

Não sabia dizer quanto tempo passou ali aguardando uma so­lução. Havia um silêncio imenso em toda a planície, interrompido apenas pelo pio estridente de um casal de picanços vindo da direção do rio. Naquela hora a maior parte dos animais descansava à som­bra das árvores e das moitas, enquanto esperavam o cair da tarde para retomar às atividades. Sara sentiu-se totalmente sozinha e impotente. Era a primeira vez que lhe acontecia um acidente nos últimos anos e tinha que ser justamente agora! Nem queria pensar no que Steve diria ao saber do ocorrido...

Finalmente tomou coragem e entrou em ação. Não adiantava ficar se lastimando mais tempo. Tinha que entrar em contato com Ted pelo rádio e pedir para vir rebocá-la, contanto naturalmente que o outro jipe estivesse em condições de andar. Ligou o rádio do jipe e chamou a Estação, esperando que alguém estivesse próximo do aparelho receptor para ouvi-la. Qual foi sua surpresa, no entan­to, quando o próprio Steve York ouviu seu chamado em algum lugar da mata.

— Onde você está? — perguntou sem preâmbulo.

Sara suspirou fundo, antes de responder. Teria que passar por isso mais cedo ou mais tarde, e era preferível que fosse logo.

— Estou a uns cinco quilómetros a leste da Estação. A roda da frente afundou em um buraco. Parece que o diferencial pifou.

Houve uma breve pausa.

— Você está machucada?

— Não.

— Então aguarde aí. Estamos a uns vinte quilómetros do local. Estaremos aí dentro de uns quarenta minutos. Mantenha o rádio ligado e não saia do interior do jipe. Está ouvindo?

Era impossível não ouvi-lo quando gritava daquele jeito, mas dessa vez não fez nenhum comentário.

— Está certo. Não seria mais rápido pedir ao Ted para vir me rebocar?

A resposta não foi muito animadora.

— A vez dele será mais tarde.

Os minutos se arrastavam lentamente. No ponto onde as costas se apoiavam no banco do jipe a camisa de Sara estava encharcada de suor, podia sentir as gotas que desciam pelo pescoço. Sem o vento criado pelo movimento, o carro era um forno àquela hora, um verdadeiro quarto de tortura. Sara sonhou com a sombra fresca de uma árvore, mas não queria dividi-la com um possível casal de leões, ou com um guepardo solitário. Somente um idiota correria um risco desses em busca de conforto. Steve não voltou a falar no rádio, devia estar a caminho. Gostaria que se apressasse. Qualquer que fosse o comentário dele ao chegar ali seria preferível àquela espera interminável.

Avistou finalmente o Land-Rover quando estava ainda a alguns quilómetros de distância, saltando por cima das ondulações do ter­reno à velocidade recomendada de 35 quilómetros por hora. Steve York seguia o regulamento à risca. Provavelmente sabia-o de cor! Sara esperou até que o outro veículo estivesse apenas a uns metros de distância para sair do interior do jipe e esticar os membros doloridos.

Steve parou o carro, lançou-lhe um olhar frio e dirigiu-se para a frente do jipe acidentado, que examinou atentamente por baixo. Depois de levantar-se, as coisas começaram a acontecer rapida­mente. Um dos guardas apanhou a corda do outro veículo e pren­deu-a na frente do jipe de Sara, que foi puxado do buraco. Como era um veículo de tração nas quatro rocias, podia ser dirigido com cuidado a pequena velocidade. Os dois africanos receberam a in­cumbência de levá-lo à Estação, enquanto um deles caminhava na frente para escolher o melhor caminho. Somente então Steve voltou a atenção para Sara.

— Suba — disse, apontando para o carro.

Sara obedeceu. Não tinha alternativa. Não era preciso muita perspicácia para perceber que Steve estava uma fera. Sara sentou-se em silêncio ao lado dele enquanto rumavam para casa pela se­gunda vez naquele dia, apreensiva com o que iria acontecer quando chegassem lá. Ele não tocaria nela, pensou. Não ousaria. Seu pai faria certamente uma cena se ousasse! Mas o pai estava a milhares de quilómetros de distância, e não voltaria antes de umas seis semanas, pelo menos. Ela estava sozinha.

Quando chegaram à Estação, Ted continuava trabalhando no carro desmontado. Levantou-se surpreso ao avistar os dois veículos que se aproximavam.

— O que aconteceu?

— Muita coisa. Espero que tenhamos algumas peças de reserva

— foi breve a resposta de Steve. — Gostaria de ter uma conversa com você depois de acertar as contas com esta Princesa das Selvas.

— Segurava Sara pelo braço, apertando-o fortemente com os dedos.

— Você não tomou conta desta fugitiva como lhe pedi!

Sem esperar pela resposta, Steve empurrou Sara em direção à casa. Sentou-se em uma cadeira da sala e fechou a porta da frente. Depois ficou de costas para a entrada, fitando-a friamente,

— Se você fosse alguns anos mais moça, eu lhe daria uma surra

— disse por fim. — Aliás, eu estou fortemente tentado a fazer isso.

— Foi um acidente — murmurou ela. — Podia acontecer com qualquer um.

— Podia. Mas não teria acontecido se você tivesse permanecido na Estação. — Enfiou as mãos nos bolsos como se tivesse receio de fazer algo impulsivo. — O problema com você, mocinha, é não ligar a mínima para nada, a não ser para o que lhe convém. Você é uma garota completamente mimada, e teimosa, além do mais! Você se pavoneia por aí com ares de importância e não percebe que não passa de uma guria levada! Se tivesse realmente necessidade de sair hoje da Estação, podia ter levado um dos rapazes junto, mas seria pedir demais, não é mesmo? E Sara Macdonald nunca faz nada por obrigação! — Fez uma pausa para respirar fundo, fitou-a com rancor e acrescentou asperamente: — Está mais do que na hora de você ouvir algumas verdades, Eu falei ontem a noite de mandá-la para Nairóbi, onde passaria algumas semanas com mi­nha irmã. Só que agora não sei mais se você saberia comportar-se devidamente lá. Seu pai vai ouvir umas boas quando chegar! — Voltou-se e abriu a porta da frente, depois acrescentou por cima dos ombros: — Vou deixá-la aqui para pensar em tudo o que acon­teceu. Só lhe peço para não me importunar mais durante o resto do dia...

Sara continuou sentada, imóvel, ao ouvir a porta bater atrás de si. Não chorava havia muitos anos, e estava prestes a soluçar agora. Era assim que todos a viam — uma garota desmiolada sem nenhu­ma qualidade? Tremia só de pensar nos comentários ásperos e agres­sivos que ouvira. Steve conhecera-a apenas nas últimas vinte e quatro horas e já sentia desprezo por ela. Doía perceber isso. Doía tremendamente. O que podia esperar, afinal? Tinha decidido en­frentá-lo deliberadamente e diante dos homens que estavam sob suas ordens! Os africanos respeitavam a autoridade. O que pensa­riam de um homem que era desrespeitado daquele jeito por uma moça? Steve pelo menos não lhe deu uma lição no meio do mato, onde os homens pudessem ver e apreciar. Tinha concedido a ela a intimidade de uma sala fechada para dar vazão a sua ira. Sentiu-se pequena e envergonhada. Não dera uma única chance ao homem desde o momento em que chegara.

Ted estava sentado nos degraus da escada, fumando um cigarro, quando Sara finalmente recuperou-se do choque e preparou-se para enfrentar o mundo de novo. Ted olhou para ela, balançou de leve a cabeça e fez sinal para sentar-se ao lado dele.

— Está muito deprimida, filha?

— Você ouviu? — perguntou Sara, com a voz sumida.

— Uma parte. Não pude fazer nada. — Balançou de novo a cabeça, com um sorriso irônico nos lábios. — Eu também recebi minha cota, por ter deixado você sair com o jipe. Ele não poupa palavras, o nosso chefe!

— Desculpe-me, Ted— murmurou Sara. Hesitou antes de acres­centar: — Será que eu sou tão ruim quanto pintam? Refiro-me às coisas que ele disse...

— Ele tem razão num certo ponto — admitiu Ted, após alguns instantes. — Mas, a meu ver, foi um pouco longe demais. — Seu sorriso era familiar, bondoso, confortador. — Você tem mais qua­lidades que os olhos vêem, Sara. Precisa apenas polir certas ares­tas, só isso, e não é necessário usar uma lixa grossa...

Ela passou o braço em volta da viga do canto e apoiou o rosto na madeira lisa e macia. Não sabia exatamente como se sentia naquele momento. Tinha a impressão de ter um buraco dentro de si com uma interrogação no meio. Durante seus dezenove anos de vida, nunca refletira sobre si mesma. Steve estava certo em uma coisa pelo menos: não refletia, reagia apenas. E reagira violenta­mente diante de sua presença na casa.

— Ele falou alguma coisa a respeito dos caçadores clandestinos? — perguntou após um instante.

— Disse que perderam a pista deles antes de você ter chamado no rádio. Já estavam de volta. — Olhou de soslaio para ela. — Você realmente viu os três hoje de manhã?

Ela balançou afirmativamente a cabeça.

— Será que não eram os mesmos? — perguntou após um instante.

— Pouco provável. A menos que andassem a toda velocidade. O que não entendo é por que se deixaram ver em pleno dia. Sabiam certamente que a Estação ficava nas imediações.

— Imagino que estavam procurando algum lugar para se escon­der durante o dia. — Sara olhava para longe, com os olhos pensa­tivos. — Tenho certeza que não estavam na savana, senão teríamos encontrado algum vestígio. Mas estou certa que estavam indo na­quela direção. — Voltou de repente a cabeça. — Ted, tive uma idéia. Lembra-se que contei a você no ano passado que avistei um leopardo perto do morro e que você e papai disseram que era um serval?

Ted olhou interrogativamente para ela.

— Lembro, por quê?

Pois bem, eu encontrei depois um local que me pareceu ser a toca do leopardo. É uma pequena caverna bem no fundo do morro.

Estava coberta de espinhos e não era muito visível de longe, mas creio que os caçadores a encontraram hoje de manhã, Se estavam lá quando demos a batida, isso explica por que desapareceram sem deixar vestígio, não concorda?

— Talvez. — Ted não parecia muito convencido. — Você men­cionou isso hoje de manhã ao Steve?

— Só me lembrei agora. Talvez fosse bom informar o fato agora, enquanto há tempo de se dar uma espiada. Se os três se refugiaram na caverna, só vão sair à noite, quando for mais seguro, O que você acha?

— Acho que você tem razão — disse Ted, após um momento. Sara deu um suspiro.

— Sabia que você ia dizer isso. — Afastou-se da viga. — Lã vou eu enfrentar de novo o leão. Você promete que vai me dar um enterro decente?

Ted deu um sorriso sem graça.

— Pode contar comigo. Você está voltando à tona. Steve está lá nos fundos, Steve estava conversando com um pequeno grupo de guardas quando Sara deu a volta na casa. Observou a aproximação dela sem nenhuma alteração visível na fisionomia, nem interrompeu o que dizia. Somente quando estava a alguns metros do grupo vol­tou-se para ela com as sobrancelhas levantadas,

— Posso falar um instante com você? — disse Sara. Fez uma pausa e depois acrescentou: — Por favor.

— A respeito de quê? — perguntou Steve, procurando controlar sua impaciência.

— Dos caçadores clandestinos. — Ela percebeu o queixo tenso e acrescentou rapidamente: — Juro que não estou brincando.

Steve examinou-a durante um comprido momento antes de in­clinar a cabeça.

— Está bem. Vamos ouvir o que você tem a dizer. Sara contou em poucas palavras o que dissera a Ted e foi re­compensada pelo olhar brilhante que notou nos olhos dele.

— Você diz que a caverna fica na extremidade do morro? Que distância mais ou menos? Que referências existem? Ela havia pensado nisso.

— Há uma árvore seca quase diretamente em linha com a entrada, mais ou menos a uns quatrocentos metros ao sul de onde paramos hoje de manhã. Se virem você se aproximar e saírem da caverna, terá chance mesmo assim de avistá-los. A vegetação mais próxima fica longe dali.

— Se é que estão lá.

Era evidente pelo tom da voz que não confiava inteiramente nela. Deu instruções mesmo assim aos dois guardas para apanha­rem as armas, depois voltou-se para ela.

— E você...

— Já sei... Vou ficar aqui. Não se preocupe, não levo isso a mal. Ele sorria com o rosto aberto.

— Nem eu também. Dê uma ajudazinha ao Ted, tá? Estendeu a mão o roçou de leve nos cabelos dela quando se afastou.

Fazia uma hora que Steve e os guardas tinham saído. Sara es­tava no pátio com Ted, que continuava trabalhando em um dos jipes da Estação, quando ouviu o carro de Steve ao longe. Aguardou com ansiedade que surgisse no meio das árvores e sentiu-se frus­trada quando viu no interior os mesmos passageiros de antes. Ti­nha tanta certeza a respeito da caverna! Steve nunca mais acredi­taria nela.

Ao descer do jipe, Steve parou para dizer algumas palavras aos homens, aproximou-se em seguida de Sara e empurrou o chapéu para trás da cabeça.

— Você tinha razão. Eles estiveram realmente na caverna, mas devem ter saído depois que visitamos o local esta manhã. — Sorriu com o canto da boca. — Pena que você não tenha se lembrado da caverna mais cedo...

— Pois é. — Não lhe ocorreu dizer outra coisa.

— Deixaram alguma pista? — indagou Ted.

— Não descobrimos nada, Eles estão de olho aberto agora, e assustados...

— Será que vão arriscar outra caçada nesta região?

— Provavelmente. Ao cair da noite vão se sentir seguros para tentar mais uma vez. — Steve deu um tapa num mosquito que andava em seu pescoço. — Vou levar alguns rapazes comigo depois do jantar e dar uma olhada por aquelas bandas. Se não os apa­nharmos em flagrante, pelo menos vamos assustá-los... — Olhou para o jipe que estava com o amortecedor avariado, — Quanto tempo você vai levar para endireitar isso?

Ted balançou os ombros.

— Amanhã. Está tarde para começar agora.

— Ótimo. Se não houver contratempo, eu lhe darei uma ajuda. Que tal tomar um drinque?

— Boa idéia. Estou quase terminando este serviço.

— Vou trazer a bebida aqui na varanda.

Steve subiu a escada, passou por Sara e entrou na sala. Ela ouviu o ruído dos copos, o jato de sifão de soda. Steve voltou pouco depois, sem chapéu com a bandeja na mão. Colocou-a em cima da mesinha, apanhou um dos copos e estendeu-o para Sara com um sorriso quase imperceptível nos lábios.

— Suco de laranja com umas gotas de gim. Está bom? Recebeu o copo das mãos dele com as mãos trémulas e fez um esforço para manter a voa serena.

— Quer dizer que posso me reunir aos adultos? — Toda vez que você souber se conduzir como um adulto. Ele sentou-se, bebeu um gole longo e olhou pensativamente pa­ra ela.

— Gostaria de saber o que estão pensando estes olhos inocentes? Sara mexeu a bebida no copo.

— Pensei que você já soubesse tudo a meu respeito.

— Oh! Está bom, admito que fui meio indelicado com você. Mas você tem que reconhecer que tinha um pouco de razão.

— Nunca disse que não. — Pensou nas palavras de Ted e os olhos se iluminaram com uma alegria súbita. — Você precisa en­tender que há mais coisas em uma maçã do que a primeira mordida.

Ele riu, dando ao olhar uma expressão diferente.

— Você é imprevisível, não é mesmo, Sara?

— Apenas incompreendida. E não assuma esse ar paternal por­que não sou mais criança.

— O suficiente, em todo caso, para me fazer sentir um velho, — A boca torceu-se de novo diante do olhar aprovador dela, mas dessa vez com um brilho de ironia. — Não se trata de uma questão de anos. Um dia você vai entender a que estou me referindo.

— No dia em que eu fizer as coisas que me faltam agora, é isso? Vai ver que não estou perdendo tanta coisa assim. — Voltou a cabeça e dirigiu um sorriso inocente para Ted. — Steve sente-se acabado, e você Ted?

— Em forma para os próximos dez minutos — foi a resposta divertida. Levantou o copo para os dois: — Saúde!

— A que horas Kimani costuma voltar? — perguntou Steve, após um instante de silêncio.

— Pouco antes de escurecer — disse Sara. — Por quê? Você pretende convidá-lo para a busca da noite?

— Não.

— Ah, bom.

— Tampouco estou pensando em convidar outra pessoa. Sara olhou para o copo de suco de laranja.

— Você não cede nunca?

— Não, quando isso significa sinal de fraqueza. Os hábitos cus­tam a morrer. Sou desconfiado por natureza.

— Estou vendo! — Bebeu o resto do suco e colocou o copo em cima da mesa. — Vou fazer o possível para obedecer os regulamen­tos. Posso me levantar?

Os olhos dele piscavam.

— Não cante vitória antes do tempo. Ainda vou continuar algum tempo aqui.

Essa afirmação pareceu a Sara muito menos desanimadora do que teria sido algumas horas antes. Até mesmo um homem como Steve York podia ser manobrado, se soubesse levá-lo com cuidado.

A noite pareceu incrivelmente longa depois que Steve saiu para continuar a busca. Sara passou a maior parte do tempo na varanda, pensando nos homens que estavam, no mato, desejando fazer parte da excursão. Seu pai jamais diria para ficar em casa em uma situa­ção semelhante. Mas a verdade é que a conhecia muito melhor que Steve. Como estaria se sentindo na Inglaterra? Se o tio Geoffrey tivesse deixado um testamento, tudo se resolveria em alguns dias. Infelizmente não deixara, e o pai deveria permanecer lá durante semanas, a fim de assinar os diversos documentos do inventário.

Sara sentiu-se inquieta na cadeira e olhou em direção a Kimani Ngogi, que escrevia uma carta na mesinha de vime. Seus pais mo­ravam em Mombasa, e Kimani não os visitava com muita frequên­cia, mas escrevia uma carta todas as semanas.

— Você tem uma namorada, Kim? — perguntou Sara de repen­te. — Uma namorada especial, quero dizer.

— Não — disse Kim com um sorriso. — Nunca tive tempo.

— Mas você está com vinte e oito anos — insistiu Sara. — Pro­vavelmente não pretende ficar solteiro a vida inteira... Nunca pen­sou nisso?

— Às vezes penso. Mas não tenho muita pressa. Acho que ainda tenho bastante tempo pela frente. Por que esse desejo repentino de me ver amarrado?

Sara não sabia tampouco por que fizera a pergunta. Sorriu para Kim.

— Por que os homens sempre falam assim do casamento?

— Foi um costume que adquiri na Inglaterra. Talvez porque não esteja habituado com a idéia de ter uma única mulher. Veja Mgari, por exemplo. Tem três mulheres que cuidam dele. Talvez eu sinta falta disso, apesar de minha família morar na cidade há três gerações. Antes era bem diferente...

— Você lastima não ter tido outra escolha?

— Eu tive escolha. Podia perfeitamente ter voltado para minha tribo, se quisesse. — Balançou os ombros. — Mas a verdade é que não poderia mais viver em uma casa de terra batida, por mais que quisesse. Fui educado de forma diferente e ensinado a necessitar de mais coisas que a aldeia pode oferecer. Uns cem anos pelo menos me separam de Mgari, e não há meios de transpor essa distância. A gente pode permanecer como está ou avançar, mas é impossível regredir.

Sara sentiu-se emocionada ao ouvir essa afirmação. Disse len­tamente:

— Eu fui à aldeia hoje.

— Eu sei. — Depois de um silêncio breve acrescentou: — Steve cem razão... você não deve ir lá sozinha.

— Por quê?

— Porque eles não estão acostumados a ver moças brancas an­dando desacompanhadas. As mulheres que visitam a tribo estão sempre na companhia dos homens. Mgari concede a você alguns privilégios que não dá às mulheres da tribo porque reconhece a diferença essencial que existe entre você e elas. Mas percebe tam­bém que essa indulgência vai contra o costume dos séculos e pode ser prejudicial à vida da tribo.

Sara guardou o silêncio durante um longo momento. — Nunca pensei nisso antes — confessou finalmente, com a voz sumida. — Aliás, estou começando a admitir que nunca pensei antes em nada com muita atenção. — Levantou-se da cadeira. — Vou para a cama meditar em tudo isso que conversamos. A gente

se vê amanhã.

Talvez estivesse ouvindo inconscientemente, ou talvez fosse al­gum ruído anterior que a despertara do sono. Seja como for, acor­dou instantânea e imediatamente quando o carro atravessou o ca­minho ao longo do rio. Os ponteiros do relógio marcavam três e trinta, e a noite lá fora estava negra como breu. A chuva martelava o telhado, corria pelas vidraças e fazia um barulho forte nas fendas do deck na varanda, embebendo a terra seca embaixo. Não havia vento, apenas água escorrendo, e os estalos nos degraus da escada quando os homens subiram.

Sara levantou-se rapidamente da cama e foi até a porta do quar­to. O ruído de garrafas e copos atraiu-a em direção à sala, onde parou, hesitante, junto à soleira. Steve deixara o casaco e as botas do lado de fora, mas suas calças estavam encharcadas até os joe­lhos. Voltou-se ao afastar o copo dos lábios, avistou-a em pé perto da porta e encostou-se no armário das bebidas, enquanto a exami­nava com as sobrancelhas levantadas.

— Você está acordada a esta hora? E de pés no chão?

Sara abaixou os olhos para o pijama de algodão e sentiu um calor no rosto. Esquecera-se de calçar os chinelos. Pulara da cama

como estava.

— Como foi? — perguntou com curiosidade.

— Melhor do que esperava. Pegamos dois deles. O outro fugiu, mas creio que não será mais problema agora. Perdemos um rino­ceronte...

— Parabéns — exclamou Sara sem muita convicção. — Onde

eles estão?

— Vão ficar detidos no Pavilhão até amanhã, quando serão em­barcados para Nairóbi.

— Tudo acabou bem, então.

— Pelo menos desta vez. Eles não são os primeiros e certamente não serão os últimos. — Tomou outro gole de uísque. — São os homens que estão por trás que gostaria realmente de pegar. Quan­do estes três não aparecerem com a mercadoria, vão contratar ou­tros para fazer o serviço.

— Os dois capturados não podem denunciar os mandantes?

— Talvez não conheçam. Apenas levam a mercadoria a deter­minado local e recebem uma quantia por ela. A única esperança são as armas de setas que carregavam, embora seja difícil descobrir a procedência delas. — Balançou os ombros. — Mas isso é problema das autoridades. Não está na hora de você ir para a cama?

— Eu vou quando você for — disse sem pensar, e percebeu o sorriso irônico no canto dos lábios.

— Mais alguns anos e uma resposta desse tipo pode lhe criar problemas. Se você está com vontade de me fazer companhia, sen­te-se ali. Queria mesmo conversar com você e tanto pode ser agora como amanhã.

Sara sentou-se na cadeira mais próxima e fitou-o surpresa.

— Conversar sobre o quê?

— Se você me ouvir em silêncio durante cinco minutos vai ficar sabendo. — Examinou-a um instante. — Estive pensando na suges­tão que fiz para você passar algumas semanas com Jill em Nairóbi.

— Eu não estou... — Ela se conteve e emendou a resposta. — Eu não quero ir a Nairóbi.

— Eu sei que você não quer. — Sorria com o canto da boca. — Vai me deixar acabar? O ponto é o seguinte: eu pretendia passar algumas semanas com Jill há tempos. Depois surgiu este trabalho e não terei outra oportunidade tão cedo. Que tal seria convidar Jill para vir até aqui? Ela nunca esteve no interior da África antes e seria uma experiência agradável antes de voltar para Mombasa no fim da estação.

As reações de Sara foram confusas. Tinha curiosidade de conhe­cer a irmã mais moça de Steve, mas não tinha certeza se iria gostar da companhia de uma moça de sua idade que passara a vida inteira em um ambiente muito diferente do seu. Se Jill fosse parecida com o irmão, as duas não se dariam nada bem.

— Por que você me pergunta isso? — murmurou. — Você tem o direito de convidar quem você quiser enquanto for o chefe aqui.

Ele levantou os olhos para o teto.

— Meu Deus, você esgota a paciência de um santo! Estou per­guntando isso porque não quero ter problemas depois. O que gos­taria de saber é se você ficaria contente com a visita dela. No fundo, aguardo simplesmente uma decisão sua.

— Receberei sua irmã de braços abertos. Se é isso que você deseja. Sua família mora na Inglaterra?

— Não temos mais família. Somos apenas Jill e eu. — Colocou o copo em cima da mesa e afastou-se do armário de bebidas. — Vou providenciar a vinda dela amanhã cedo. Poderia vir na próxi­ma semana no avião de mantimentos. — Passou a mão na calça encharcada. — Se não tirar esta roupa logo, ela vai secar no meu corpo. Está na hora de dormir e quero vê-la primeiro bem protegida no seu quarto.

Sara levantou-se prontamente.

— Não estou mais nessa idade, muito obrigada.

— Claro. Você já é uma moça. Mas, no que me diz respeito, continua sendo uma menina. Por isso não precisa se preocupar. Gosto de mulheres com mais de vinte e cinco anos... e dóceis.

— Casadas, de preferência, aposto. As solteiras têm muitas idéias na cabeça.

—Acertou em cheio. Você não perde uma chance, hein? — Sorriu diante dos olhos brilhantes de Sara. — Vamos, pirralha, enquanto estou de bom humor.'..   .

Sara saiu da sala e bateu as duas portas atrás de si com toda a força, esperando que ele fosse ao seu encalço e encontrasse a porta trancada. Pirralha uma ova!

 

Steve não mencionou mais a visita da irmã nos dias seguintes. Saía depois do café para fazer suas ron­das e só voltava no fim da tarde. Acostumada à liberdade que des­frutava antes, Sara sentiu-se meio constrangida diante das restri­ções que lhe eram feitas, especialmente quando Ted recusou-se a lhe entregar a chave do armário das armas.

— Desculpe-me, Sara, mas o chefe disse que, como você tem companhia para dar seus passeios, não iria necessitar de arma no momento.

— Eu nunca necessitei até agora — retrucou Sara de mau hu­mor. — Simplesmente estou acostumada a levá-la comigo. Aposto que ele também não se afastaria da Estação sem uma espingarda na mão.

— Bem, no caso dele é diferente. Não vou correr o risco de ouvir outro sermão. Se você insiste, é melhor discutir o assunto com Steve.

— Está bem. É o que eu vou fazer.

Não ia discutir o caso com Steve, e Ted sabia disso. Era com-pletamente inútil discutir com ele qualquer coisa que lhe dissesse respeito. Passou por isso o dia na companhia de Kimani, procuran­do uma manada de elefantes que fora localizada de avião. No dia seguinte, foi tomar banho de piscina no Pavilhão de Caça acompa­nhada de um guarda da Estação. A piscina estava vazia na parte da manhã, os grupos de turistas passeavam com os guias nas pla­nícies. Foi somente na hora do almoço que alguns visitantes come­çaram a aparecer.

Sentada na beira da piscina com os pés dentro da água morna,   Sara observou o movimento de gente entre o restaurante e o bar. "Será que alguma daquelas pessoas sorridentes e alegres tinha ganhado algo especial com a excursão às selvas africanas?", pensou consigo. Para a maioria, a reserva era simplesmente um zoológico fabuloso, com a diferença que o visitante ocupava as jaulas, en­quanto os animais, as feras, andavam em liberdade. Na semana seguinte, ou no mês seguinte, todos voltariam para suas casas, onde contariam animados histórias de leões, elefantes e rinoceron­tes vistos no seu ambiente natural, mostrando orgulhosamente as fotografias tiradas das janelas dos jipes, enquanto o guia procurava manobrar o carro no melhor ângulo possível. Um ou dois, talvez, se lembrariam das noites repletas de ruídos estranhos, de alvora­das espetaculares, como jamais veriam em outro lugar do mundo, da imagem maravilhosa do uma manada de impalas em plena cor­reria, ou da majestade de um leão isolado contra o sol poente. Essas impressões, contudo, não podiam ser transmitidas. As palavras não seriam suficientes.

Sara ia abrigar-se à sombra de uma árvore quando um rapaz afastou-se das imediações do restaurante, onde fazia parte de um grupo familiar, e foi passear na grama onde estava sentada. Ao observá-lo mais de perto, Sara percebeu que era provavelmente um ano ou dois mais velho que ela, embora exibisse um ar de segurança que lhe dava idade. Sorria de maneira simpática, com as mãos en­fiadas casualmente nos bolsos da calça, enquanto os cabelos louros ondulavam sob a brisa que soprava naquele momento.

— Olá, você é nova aqui? — perguntou o rapaz. — Chegou hoje de manhã?

Sara balançou a cabeça.

— Eu moro aqui.

— Aqui? — repetiu o rapaz, surpreso. — No pavilhão de Caça? — A uns trinta quilómetros daqui. — Passou os braços em volta

dos joelhos. — Meu pai é o responsável pela Estação de Kambala.

— Ah, é? — exclamou o rapaz vivamente interessado, sentan­do-se na grama ao lado dela. — Puxa, deve ser fantástico! Imagine alguém vivendo aqui! Você deve ser do tipo aventureiro de verdade. Eu me chamo Travis Willard, e sou de Detroit.

— Eu me chamo Sara. Nunca conheci ninguém de Detroit antes.

— Bem, não se parece nada com isso aqui. Moramos em um prédio de apartamentos, no décimo sexto andar. Em um dia claro você avista a rua embaixo...

— Nós?

— Minha família. Mamãe, papai e meu irmão menor. Essa via­gem era para ser o presente de aniversário de meus dezenove anos... mas preferimos adiar um ano e vir todos juntos.

— E valeu a pena?

— Se valeu! Não trocaria por nada deste mundo. — Parecia genuinamente entusiasmado. — Visitamos Aberdare, Amboseli, Nai-róbi e agora viemos até aqui. Nem quero pensar na volta...

— Vocês viajaram bastante. Há quanto tempo estão na África? — Há um mês. Tirei rolos e mais rolos de filme e vou ter pelo menos algumas recordações quando voltar, — Olhou por cima dos ombros em direção ao local onde a família estava sentada no ter­raço. — Escuta, por que você não vem comigo conhecer o pessoal? Eles vão adorar a companhia.

Olhou indecisa para a roupa de banho.

— Não seria melhor me trocar primeiro?

— Não vejo por quê. — O olhar dele era de admiração sincera. — Você está ótima assim. Gostaria de ter um bronzeado como o seu, mas eu fico vermelho quando tomo sol, por isso só posso espiar da sombra.

— E preferível então irmos para o terraço — disse Sara com um sorriso, — Eu também gostaria muito de conhecer sua família.

Os outros Willard eram tão simpáticos quanto o filho mais velho, e logo Sara sentiu-se à vontade no meio deles. O irmão mais novo tinha dez anos e foi apresentado pelo apelido de Chipper. Arregalou os olhos quando Travis contou que Sara morava na reserva.

— Você sabe montar em elefante? — perguntou sem preâmbulos. Sara sorriu e balançou a cabeça com pena.

— Não, não sei.

— Mas você tem um filhote de leão em casa?

— Não, não tenho.

O menino pareceu decepcionado.

— Puxa vida, você tem que ter alguma coisa! Você não...

— Chipper, modos! — exclamou a mãe, acostumada a cortar as perguntas embaraçantes do filho pequeno. Olhou para Sara como quem se desculpa. ~ Ele anda vendo muitos filmes de Tarzan na televisão. Imagina que todo mundo aqui vive pulando de galho em galho.

— Mas eu tenho um macaquinho — disse Sara para Chipper, indagando consigo mesma se um macaco era um substituto adequado para um leão. Pelo jeito tinha algum merecimento, porque o rosto de Chipper se iluminou de alegria.

— De que raça? Um chimpanzé?

— Não, é um sykes.

O menino enrugou a testa larga.

— Nunca ouvi falar desse macaco.

— Provavelmente você já o viu no zoológico. Às vezes é chamado de macaco-azul ou kima, em swahili.

— Você sabe falar swahili?

O pai levantou os olhos para o céu.

— Meu Deus, que interrogatório! Você já fez mais perguntas do que uma enciclopédia pode responder em uma semana!

— Não tem importância — disse Sara. — Eu sei falar um pou­quinho — acrescentou para o menino. — Eu tenho também um filhote de antílope na Estação, um dik-dík, É o menor do mundo.

— Puxa! — Os olhos do menino se arredondaram. — Posso vê-lo... e o macaquinho também?

— Chipper, quantas vezes já disse que é feio a gente se fazer convidar desse jeito? — interrompeu a mãe. — Claro que não pode.

Sara viu o brilho dos olhos sumir e não perdeu tempo em reflexões.

— Pode sim, se quiser. Por que vocês todos não vão à Estação, amanhã cedo? Podiam pedir ao guia para conduzi-los até lá...

— Oba! — gritou Chipper. — Podemos mesmo? Oba, oba, ima­gine quando os meninos ouvirem isso na escola! Uma reserva de animais ferozes!

— Você tem certeza de que não vai criar problemas? — pergun­tou o sr. Willard a Sara. — Seu pai não vai se importar?

— Ele está viajando no momento — disse Sara, meio arrepen­dida do convite, mas não vendo maneira de voltar atrás. — Claro que não vai haver problema. Se você gosta de lugares altos, Chip­per, posso levá-lo a um morro de onde se avistam todos os tipos de animais.

— E eu? — exclamou Travis com uma surpresa fingida.

— Você também, se quiser.

Ela sorriu para o rapaz, afastando um cacho de cabelo que caía sobre a testa. Ao olhar por cima dos ombros, avistou um homem que se aproximava pelo terraço coberto em direção ao grupo.

Steve parou junto ao círculo de cadeiras. Todos se voltaram para o homem alto e moreno, de short e camisa esporte, com o chapéu caído para trás da cabeça. Lançou um olhar curioso sobre a roupa de banho sumária de Sara e disse com o rosto alegre:

— Pensei que você estivesse pronta para voltar, mas não há pressa se quiser esperar que Temu a leve de carro. — O sorriso que dirigiu à sra. Willard era simpático e à vontade. — Fico con­tente de vê-la em tão boa companhia. Em Kambala não temos mui­ta distração para uma moça.

Sara controlou-se para não dar uma resposta. Não era o mo­mento oportuno, pensou. Murmurou as apresentações, explicou a posição de Steve na Estação.

— Sara sugeriu que fôssemos conhecer a Estação amanhã cedo para ver seus animais de estimação — disse o pai. — Aprova o convite?

— Ótima idéia. — respondeu Steve. — Vai ser um prazer para todos nós.

— Está combinado, então. — O pai apontou para a cadeira livre.

— Não gostaria de tomar alguma coisa conosco?

Sara ficou meio decepcionada quando Steve aceitou o convite e sentou-se na cadeira vazia enquanto o pai chamava o garçom. Não podia passar um dia livre dele?, pensou furiosa, esquecendo-se dos três últimos dias em que mal vira Steve antes do jantar, "Ele está fazendo isso de propósito", pensou, observando o seu olhar irónico. Voltou-lhe as costas com deliberação e dirigiu um sorriso a Travis. Os olhos do rapaz brilharam de alegria.

— Você estava me contando o que faz em casa — mentiu ela. Travis não se deu por rogado. Contou que estudava arquitetura

e que estava fascinado com os estudos. Sara ouviu-o com atenção, enquanto o rapaz elogiava os diversos estilos arquitetônicos. Aprendeu alguma coisa sobre as técnicas novas empregadas por Wren e a maneira como foram adotadas na arquitetura moderna

— e fez todo o possível para parecer bem impressionada com as explicações. Enquanto isso, Steve respondia às perguntas casuais que lhe eram dirigidas pelo casal. Peio visto, Steve simpatizara com a família e não fazia o menor esforço para ser agradável. Ao se lembrar da maneira seca como respondera às suas perguntas algumas noites antes, Sara sentiu-se magoada.

Meia hora depois, quando Steve anunciou que precisava partir, ela tomou uma decisão rápida antes de ser interrogada.

— Eu vou com você para evitar que Temu venha me buscar mais tarde.

— Nesse caso, é melhor trocar de roupa. Mas não se demore muito. Tenho que mandar algumas mensagens pelo rádio antes do

anoitecer.

Sara foi apanhar suas coisas no quartinho que usava habitual­mente, vestiu a calça e a camisa esporte por cima do biquini e passou a mão nos cabelos, como era seu costume. Ao voltar, a fa­mília Willard conversava com Steve no canto do terraço, observa­vam uma manada de zebras que se dirigia para o poço de água a uns duzentos metros de distância. Chipper tinha desaparecido du­rante o início da conversa com Steve, mas tornou a aparecer e lembrou a promessa da visita na manhã seguinte.

— Não esquecemos, não, garotão — disse Steve. — Já está tudo

combinado.

Sara esperou que estivessem no jipe para dizer:

— Muito obrigada.

— De quê? — perguntou Steve surpreso.

— Você sabe. Por não se zangar de convidá-los para ir à Estação.

— Não era isso que você queria?

— Era... — Fez um pequeno movimento com os ombros. — Você gosta de se meter na minha vida, não?

Ele pensou um instante antes de responder.

— Somente quando sou forçado e acho que não aconteceu isso esta tarde... a menos que os tenha convidado com a intenção de me aborrecer.

— Claro que não! Se quisesse aborrecê-lo não iria recorrer aos outros para me ajudarem! Ele sorriu sem jeito.

— Isso eu sei. A própria Miss Independência!

Sara controlou-se para não dizer um desaforo. Ele estava pro­curando irritá-la deliberadamente, mas não aceitaria o desafio. Não dessa vez.

— O que você preferia? Uma adoração perpétua?

— Deus me livre! — Olhou para ela com a expressão divertida. — Você cede um momento para atacar em seguida. Espero que não esteja preparando uma das suas de novo...

— Nem sonhando. Temos que preservar sua imagem.

— Ainda bem. De qualquer maneira, você sabe mexer seus pau­zinhos. — Sara ficou surpresa com o comentário.

— Você recebeu um coice outro dia e não gostou nada. Agora está procurando esquecer-se da desvantagem inicial e tentando me convencer que minhas opiniões não têm muita importância, em um sentido ou no outro...

— Não é verdade!

— Ah, não? Quer dizer que elas têm importância?

— Não! Pelo menos... — Interrompeu-se e disse com irritação: — Será que você tem sempre que estar com a razão?

— Só quando tenho razão. E não se irrite. Não é muito educado.

— De qualquer maneira, eu não sou muito educada, na sua opinião.

— Isso não quer dizer que não possa ser, com um pequeno es­forço. Por que você não me dá uma grande surpresa esta noite e põe um vestido para o jantar?

— Não, muito obrigada. Sobretudo porque você já deve ter uma reação preparada para isso.

— O problema com você, Sara, é desconfiar dos outros. Você não gosta de confiar nas pessoas.

— Confiaria, se merecessem confiança.

Percebeu um movimento estranho com o canto dos olhos e se­gurou de leve no braço de Steve.

— Olha, elefantes lá na frente.

— Eu já tinha visto.

Steve diminuiu a marcha. Parou o carro em seguida enquanto os primeiros animais saíam lentamente do meio das árvores, ba­lançando as orelhas, a tromba levantada para sentirem a direção do vento. Atrás vinham as fêmeas e os filhotes, seguidos por um par de machos jovens, que se empurravam um ao outro, como es­tudantes que discutem. Um dos filhotes deu um berro quando a mãe o apressou com um movimento brusco da tromba e começou a trotar com as orelhas achatadas sobre a cabeça, indo sumir no meio das árvores do outro lado da estrada, como os demais com­panheiros. No momento em que a última forma cinzenta afastou-se silenciosamente, Sara respirou aliviada e voltou os olhos brilhantes para Steve.

— Eles não são os mais...

— Silêncio — disse ele em voz baixa. — Os últimos ainda não passaram.

Ouviram um movimento na moita à esquerda do caminho, uns vinte metros mais perto dessa vez, e outros três machos atraves­saram lenta e solenemente a trilha atrás dos companheiros. Por último apareceu uma das maiores fêmeas que Sara já tinha visto. A cabeça do animal balançava de um lado para o outro até que parou bem no meio do caminho, olhou diretamente para o jipe a uns quinze metros de distância. Era evidente que o animal perce­bera a presença deles, porque levantou de repente a tromba e lan­çou um chamado alto, enquanto as orelhas levantadas anunciavam um ataque iminente.

Steve ligou o motor com um movimento rápido do pulso, engatou marcha à ré e voltou pelo mesmo caminho a uma velocidade cons­tante, sem afastar os olhos do animal na frente. A fêmea deu uma pequena corrida e berrou de novo, sacudiu em seguida a cabeça, como se não valesse a pena investir contra o jipe, e entrou na mata balançando as enormes pernas traseiras.

— Ainda bem que você não enfrenta tudo que é fêmea — co­mentou Sara com ironia.

Steve mudou a marcha e seguiu em frente.

— Quando são desse tamanho, sempre cedo a passagem. O que você estava dizendo mesmo?

— Esqueci. Fiquei muito excitada com o desfile dos elefantes.

— Não seja esnobe. Você viu perfeitamente que estavam perto e que havia perigo. Aquela fêmea podia nos alcançar daquela distância.

— Ela não sabia que era você.

— Por falar nisso, aquele rapaz gostou muito da conversa. Você entende de arquitetura?

— Ele muito mais do que eu. Ouvi uma verdadeira conferência sobre o assunto.

— Parece-me um rapaz simpático.

— Muito! — Fitou-o com os olhos brilhantes. — Você acha que seria um bom marido?

Steve deu uma risada.

— Ficaria completamente zonzo se passasse uma semana com você. O homem para ser seu marido tem que andar com os pés no chão.

— O que seria terrivelmente incômodo. Mas, já que você me conhece tão bem, por que não escolhe alguns candidatos quando voltar para Nairóbi? — Coçou distraidamente uma mordida de mos­quito na nuca, surpreendeu o olhar divertido de Steve e mudou de conversa de repente — Jill tem algum namorado? Ele levantou as sobrancelhas.

— Não sei. Pergunte a ela quando chegar aqui.

— Vou perguntar. — Depois de um instante acrescentou: — Desculpe-me, não quis ser irónica à custa de sua irmã. Jill tem muitos amigos?

— Creio que sim. Ela mora com amigos da família em Mombasa, e como o casal tem duas filhas e um filho, ela deve ter um bom círculo de amizades. Você já esteve em Mombasa?

— Há muito tempo, antes de papai vir para cá.

— Quando sua mãe era viva?

— É.

— Você ainda sente falta dela?

— Mamãe morreu há muito tempo, e papai tem sido maravi­lhoso para mim.

— Seria melhor para vocês dois se ele tivesse se casado de novo. Uma moça precisa tanto da mãe quanto do pai. Você faria alguma objeção?

— Não, se ele conhecesse alguém de que gostasse. Aceitaria qualquer escolha dele.

Steve torceu ligeiramente os lábios.

— A vida nem sempre é fácil assim.

— Bem, eu não teria ciúme, se é isso que você está sugerindo. Não sou tão egoísta assim.

— O que eu quis dizer é que nem sempre é possível gostar de alguém somente porque o outro gosta. As qualidades que o homem procura na mulher nem sempre incluem um forte instinto maternal.

— Ah, é? — Voltou a cabeça na direção dele. — E você, gosta de crianças?

— Nunca pensei muito no assunto. For que você pergunta?

— Pela maneira como você falou do que o homem procura na mulher.

— Não disse que era uma regra geral. Talvez gostasse de ter alguns filhos, como muitos homens que conheço.

— Mas como você é um solteiro convicto, essa situação é pouco provável.

— Nunca disse que era um solteiro convicto. Só porque não me casei até agora não quer dizer que não vá casar um dia. É pena que você não seja um pouco mais velha. Com um pequeno treina­mento, você estaria perfeita.

Sara sentiu o coração disparar, mas conservou o mesmo sorriso nos lábios.

— Provavelmente poria arsênico no seu uísque na primeira semana.

— Não duvido. Nada como viver perigosamente! — Suspirou. — É uma pena...

— Preferiria que você não me tratasse como uma menina de doze anos — disse ela, sem afastar os olhos do caminho.

— Como você gostaria de ser tratada? Como uma mulher? Ela levantou o queixo.

—Pelo menos seria uma mudança. Você receberia inclusive uma resposta de adulto!

Os pneus guincharam com a parada brusca. Steve voltou-se no banco e fitou-a de frente, com um braço apoiado de leve na direção.

— Está bom. Vamos ser adultos. Venha mais para perto. Sara encolheu-se involuntariamente no canto do assento.

— Não seja ridículo!

— Não há nada de ridículo em um beijo entre um homem e uma mulher.

Afastou o braço da direção e puxou-a para perto de si. Com a outra mão alisou os cabelos que caíam em cima da testa, depois percorreu com a ponta do dedo a linha do rosto e dos lábios. Ela viu o brilho nos olhos dele no momento em que inclinou a cabeça na sua direção, sentiu o roçar dos lábios no canto da boca. Steve afastou-a em seguida e examinou sua face corada com um sorriso irônico.

— Acho que você não está preparada ainda para este tratamento. Os olhos dela lampejavam.

— Você... você...

— Não diga nada de que se arrependerá depois. Os adultos sabem se controlar. Talvez da próxima vez levaremos a experiência um pouco mais longe.

— Se você me tocar de novo... vai se arrepender. Vou contar... vou contar ao seu diretor!

O sorriso dele foi sarcástico.

— A mesma menina de sempre! Você vai se comportar até che­garmos em casa ou vamos conversar um pouco mais sobre esse assunto agora?

Ela afundou no banco com os lábios cerrados e não se dignou a responder. Era inútil, pensou, furiosa. Ele sempre tinha a palavra final. No momento em que pararam na frente de casa, Sara saiu do jipe sem dizer uma palavra e foi diretamente para o quarto. Com a porta trancada, sentou-se na cama e apertou a mão em cima do ponto em que Steve beijara. Era odioso o que ele tinha feito, sobretudo daquele jeito... levando-a a dizer coisas que não inten-cionava somente para divertir-se à sua custa. Odiara o beijo, mas, ao mesmo tempo, criara uma fome desconhecida dentro dela, a necessidade de saber o que seria ser beijada de verdade por um homem como Steve. O tratamento completo, como ele dissera. Sara   levou as duas mãos às faces quentes e procurou controlar as batidas apressadas do coração. Era ridículo. Afinal, não gostava tanto dele assim.

Evitou-o tanto quanto possível durante o resto do dia e fez um esforço especial na hora do jantar para mostrar-se indiferente. Uma ou duas vezes surpreendeu o olhar interrogativo dele, mas Steve não fez nenhum comentário que pudesse ser interpretado, mesmo remotamente, como uma referência ao incidente da tarde. Sara ficou contente quando o relógio bateu dez horas e pôde retirar-se para o quarto com a desculpa plausível de que estava cansada. Mas só dormiu realmente quando ouviu a voz de Steve despedin­do-se de Kimani no corredor e o ruído da porta trancada a chave.

A família Willard apareceu na manhã seguinte, às nove horas, com o guia do Pavilhão de Caça. Chipper saltou do jipe com os olhos brilhantes quando viu Kiki sentado no ombro de Sara. An­sioso por companhia, Kiki seguiu o menino na visita rápida pelos arredores da Estação, e ficou enciumado quando Chipper demons­trou interesse pelo filhote de antílope, mordendo a orelha do me­nino e dando gritinhos de indignação, até que todos se afastaram do cercado.

Enquanto o pai e a mãe tomavam refrescos com os três homens na varanda, Sara foi mostrar a Chipper a vista do alto do morro. Levou o binóculo consigo, e Travis não escondeu sua alegria ao percorrer o horizonte de um lado a outro com uma atenção crescente. Chipper estava mais interessado no momento em descobrir as cobras que Sara mencionara, e ficou muito decepcionado quando não encontrou nenhuma por perto.

— Elas fogem quando ouvem barulho — explicou Sara —, e escondem-se nos buracos das pedras...

— Isso sim é vida! — exclamou Travis, encostado em uma rocha. — Vou odiar ter que partir amanhã. Mais uma noite aqui, outra em Nairóbi e depois voltar para casa...

— Infelizmente você não pode estudar arquitetura em uma re­serva — disse Sara. — A menos que se especialize em cabanas de terra batida ou de madeira. Quando você voltar para casa, vai es­quecer logo de tudo isso aqui.

— De tudo não! — corrigiu Travis olhando para ela com admi­ração, — Nunca conheci antes nenhuma moça como você, Sara. Minhas conhecidas só pensam em comprar roupas e namorar. Aposto que você nunca se deu ao trabalho de olhar-se em um es­pelho e, no entanto, você é mais bonita que a maioria das moças que passam horas se pintando. — Observou a expressão no rosto dela e pareceu surpreso. — Eu não sou certamente o primeiro que lhe diz isso. E os outros que você conheceu no Pavilhão, o que eles disseram?

Sara sorriu e balançou os ombros.

— Não costumo ir lá frequentemente. E nunca conheci ninguém que se interessasse especialmente por mim.

— Talvez porque você os afaste antes que possam se aproximar. Ontem de manhã você olhou para mim como se eu fosse um réptil rastejando pela grama...

— Verdade? Não percebi isso. Travis riu.

— Ah, não tem importância. Não me incomodei a mínima. Papai diz que eu não tenho sensibilidade. Você acha que ele tem razão?

Teria que conhecê-lo melhor, para saber.

— O que não acontecerá, provavelmente. Ou você pretende vi­sitar um dia os Estados Unidos?

— Dificilmente.

Ela não sabia explicar o motivo, mas não sentia nenhum entu­siasmo em conversar com Travis. No entanto, ali estava um rapaz bonito e agradável, que lhe daria o tipo de atenção que toda moça gosta de receber. Mesmo assim, não via nenhuma diferença entre conversar com Travis e com seu irmão menor. A verdade é que Travis era muito criança. A atmosfera entre os dois não provocava nela a menor excitação. No dia anterior, quando voltou de carro com Steve, seu coração disparou antes mesmo de ele tocar no seu rosto. Não era medo, mas antes uma antecipação febril, Steve, con­tudo, não era nem de longe tão simpático quanto Travis. Irritava-a, zombava dela e ameaçava-a com sua maneira rude. Não entendia realmente a razão de sua frieza.

Quando acordou do seu devaneio, Travis estava olhando fixa- mente para seu rosto.

— Normalmente não costumo fazer esse pedido, Sara, mas gos­taria muito de beijá-la. Posso?

Ela sentiu um frio na boca.

— Chipper...

— Ele está distraído explorando as pedras. Provavelmente va­mos ter que procurá-lo antes de voltar, — Segurou-a pelo braço com o rosto ligeiramente corado. — Você é tão diferente! Nunca senti o mesmo por ninguém.

Sara olhou para ele sem saber o que dizer nem o que fazer. Se dissesse não, era provável que aceitasse a recusa sem insistir. Foi isso talvez que a levou a decidir-se — isso e uma certa curiosidade. Sorriu para ele com o rosto alegre. — Por que não?

A boca que a beijou era fria e delicada, e tinha gosto de hortelã. Sara achou a experiência agradável e confortadora, e não sentiu o menor desejo de interrompê-la. Foi somente quando os braços do rapaz começaram a apertá-la com força e que os lábios dele move­ram-se sobre os seus que procurou libertar-se.

Travis soltou-a imediatamente. Parecia meio encabulado.

— Desculpe-me — murmurou. — Eu me entusiasmei demais. Você nunca foi beijada antes?

— Quando era menina, por um menino da mesma idade que eu,   por isso não fomos muito longe, — Afastou os cabelos do rosto e esboçou um sorriso. — Você não precisa se desculpar, Travis. Não fez nada errado. Mas acho melhor procurarmos Chipper antes que ele se perca.

Não foi difícil encontrar o menino. Sua voz respondeu do outro lado da pedra grande em que havia subido um momento antes.

— Ei gente, venham aqui! Encontrei uma grande!

— Não chegue perto, Chipper! — gritou Sara de longe. Correu em direção ao menino, escorregou sobre os cascalhos

soltos e caiu pesadamente sobre uma pedra que estava atrás. Sen­tiu uma sensação de ardor no ombro esquerdo e uma pontada de dor quando procurou levantar-se.

— Você se machucou? — perguntou Travis com ansiedade.

— Não, estou bem. Vamos buscar Chipper antes que ele faça uma bobagem.

Encontraram o menino olhando decepcionado para uma fenda da rocha.

— Foi embora. Você precisava ter visto, Travis. Era realmente grande e com um desenho gozado nas costas. Não sei que cobra era.

— Há muitas cobras parecidas — disse Sara com calma, procu­rando afastar a imagem assustadora que julgava será real. —Você nunca deve chegar perto de uma cobra, Chipper, a menos que tenha certeza de que não é venenosa. Elas costumam fugir, mas sabem se defender quando são encurraladas. — As costas doíam tanto que tinha dificuldade em ocultar a dor. — Vamos descer. Está na hora de vocês voltarem.

A descida do morro foi penosa. Sara sentia a camisa grudada nas costas e não sabia se era suor ou sangue. Procurou andar atrás de Travis e de Chipper ao atravessarem as moitas em direção à casa, e dessa vez preferiu entrar pelo portão em vez de pular a cerca.

Steve continuava conversando com o casal Willard na varanda, Ted Kimani tinham saído. Sara afundou-se na cadeira com um copo de bebida na mão, mas não conseguiu esconder uma careta de dor quanto as costas roçaram no vime. Tão logo a família Willard fosse embora iria ao quarto examinar o ferimento e passar algum remédio. Estava doendo terrivelmente.

Chipper contava o encontro com a cobra que tinha visto e exa­gerava naturalmente o tamanho, que havia dobrado desde a des­cida do morro.

— Talvez fosse uma cobra-cipó — disse Steve, procurando tran­quilizar os país. — Elas não são venenosas.

— Ah, não? — exclamou o menino desapontado.

Steve, no entanto, sabia tão bem quanto Sara que a cobra era venenosa, pela descrição do menino, e iria certamente chamar a atenção dela mais tarde por ter deixado Chipper andar sozinho pelas pedras. Ela podia ler tudo isso na fisionomia impassível dele. Meia hora depois a família Willard despediu-se deles, contando chegar ao Pavilhão antes do almoço. A tarde haveria uma última excursão pelos arredores para tirar fotografias. O casal agradeceu efusivamente a hospitalidade na Estação, e Travis não escondeu sua tristeza em ter que partir. Ficou segurando a mão de Sara mais tempo do que era necessário para uma simples despedida. A última lembrança que Sara guardou dele foi a da cabeça loura que se debruçou na janela do jipe e a da mão que acenou repetidas vezes quando o carro desapareceu por entre as árvores.

— Família simpática — comentou Steve, acendendo um cigarro. — Seria realmente uma pena estragar as férias deles.

— Já sei... — Eu deveria ter tomado mais cuidado com o menino.

— Imagino que você estivesse ocupada com outras coisas. Pelo visto, você pôs o rapaz a nocaute.

— Travis é muito atencioso. Não se aproveita dos novatos. Steve sorriu sem graça.

— Você pode ser novata em certas coisas, mas quando se trata de dar respostas é uma veterana. Um dia desses... — Interrompeu o que dizia ao vê-la afastar-se alguns passos, com uma careta de dor. — O que aconteceu?

— Nada. — Fitou-o diretamente nos olhos. — Estou meio dolorida da excursão ao morro.

— Eu sei disso! — Estendeu rapidamente a mão e segurou-a   pelo pulso, virando-a de lado para ver suas costas. — Você está sangrando. Que diabo aprontou desta vez?

— Não grite comigo! — retrucou Sara irritada. — Eu disse que não foi nada. Escorreguei e caí nas pedras. Foi só um arranhão. Vou passar alguma coisa.

— Como você vai se tratar sozinha? — perguntou com sarcasmo,   Soltou o pulso. — Vamos entrar que vou dar urna olhada no ma­chucado.

— Eu não deixaria você tocar em mim por nada desse mundo! Eu posso me tratar sozinha, muito obrigada.

Steve murmurou algo explosivo entre os dentes e disse em voz   alta:

— Eu não estou perguntando se você quer ou não! Entre em casa e tire a camisa, enquanto vou apanhar a caixa de remédios.

Ela continuava em pé junto à porta quando ele voltou com os remédios. Olhou exasperado para ela e fez um sinal em direção à cadeira mais próxima.

— Pelo amor de Deus, Sara, sente-se de costas para mim se faz tanta questão de ser pudica! Não vou ver mais do que ontem, quan­do você estava de roupa de banho.

— Não é a mesma coisa. Estou só com esta camisa no corpo.

— Estou vendo. E daí?

— Por isso não vou tirar a camisa. Eu sei que a vida não tem nenhuma novidade para você, mas eu tive uma educação diferente. — Apesar de seu controle, sua voz tremeu um pouco ao pronunciar as últimas palavras. — Vou me tratar sozinha.

— Você não vai conseguir. Pelo visto você se cortou ou se arra­nhou bem embaixo do ombro. Deite-se de bruços na cama se for o caso... De qualquer maneira vou dar uma espiada nesse ferimento.

Entendido?

Ela cedeu finalmente. Não havia outro jeito. De cabeça erguida, passou na frente dele e atravessou o corredor em direção ao quarto, tirou a camisa e sentou-se na beira da cama, com as costas voltadas para a porta, segurando o pano da camisa contra o peito.

Steve lançou um olhar rápido para as costas morenas e assobiou entre os dentes.

— Que arranhão! Vai ser preciso fazer um curativo até que pare de sangrar. Pelo menos está limpo.

Sara sentiu o colchão afundar no momento em que Steve se sentou ao lado dela e abriu o estojo de medicamentos, depois o toque leve dos dedos e o ardor do anti-séptico. Com o lábio apertado entre os dentes, permaneceu imóvel enquanto ele fazia o curativo. Podia sentir a respiração dele nas costas, no pescoço, entre os fios de cabelos que ondulavam sobre a nuca. Queria dizer alguma coisa para quebrar o silêncio mas não lhe ocorreu nada. Respirou alivia­da quando o último esparadrapo foi posto sobre o curativo.

— Pronto. Não foi tão ruim assim, hein?

— Não, não foi — respondeu com a voz serena.

Steve passou as costas dos dedos sobre sua nuca, como fazia provavelmente com a irmã quando estava de bom humor. Um sim­ples gesto de ternura no momento em que suas emoções estavam tão confusas. Ele estava sendo apenas fraternal.

— Vai doer um pouco quando começar a cicatrizar — disse, levantando-se da cama. — Não se pode fazer nada. Pelo menos você não aprontará nenhuma bobagem durante uns dois ou três dias. Pode se vestir.

Sara esperou que Steve saísse do quarto e fechasse a porta para levantar-se e ir ao guarda-roupa, onde torceu o pescoço para ver o curativo. Steve tinha razão: não poderia tratar-se sozinha. Olhou distraidamente para sua imagem no espelho, com a camisa aper-tada contra o peito. Steve não dera a mínima atenção a ela. Podia inclusive sentar-se ali completamente nua que ele não reagiria de outra forma. Era apenas uma criança com quem gostava de brincar às vezes, mais nada. Era bom não se esquecer nunca disso.

 

Sara recebeu uma carta do pai alguns dias depois, confirmando o telegrama que passara imediata­mente após desembarcar em Londres. O tempo estava horrível, dizia, mas as coisas caminhavam bem. Ia passar alguns dias com velhos amigos em uma cidadezinha do interior e talvez fossem pes­car se o tempo melhorasse. Londres não mudara muito nos últimos anos. Havia um movimento mais intenso nas ruas, naturalmente, e alguns lugares tradicionais tinham desaparecido, mas essencial­mente continuava a mesma cidade de sempre. Não sabia se Bens-ton sofrera muitas transformações desde a última vez em que es­tivera lá. Esperava que não. Houve uma época em que intencionava

ir morar lá.

— Minha menina, você está com saudade de seu pai? — per­guntou Kimani, ao ver o olhar distraído de Sara com a carta aberta na mão. O rapaz tinha se aproximado sem fazer barulho, e Sara levou um susto, levantou a cabeça no degrau da escada onde estava sentada e encontrou seu olhar sorridente.

— O quê... Ah, sim, acho que sim, Parece que faz um tempão que ele embarcou.

— Você devia ter ido com ele — disse Kimani, sentando-se ao lado dela e acendendo um cigarro. — Ele teria gostado de sua companhia, e você da mudança de ambiente, revendo a velha Europa.

— Se mais alguém disser que preciso de mudança... — começou Sara, fez uma pausa e acrescentou sem jeito: — Me desculpe. Não queria agredi-lo, Kim. Acho que estou perdendo meu senso de humor.

— Você está entediada — comentou o rapaz com franqueza. Talvez as coisas melhorem quando a irmã de Steve chegar. Você está a par da data?

— Não. Ele não falou mais no assunto desde a primeira vez. Quando foi que lhe contou?

— Alguns dias atrás. O avião de mantimentos deverá chegar sex-ta-feira. Provavelmente ela virá junto, talvez goste dessa companhia.

— Pode ser. — Sara não estava certa se desejava a companhia da outra moça na Estação. Aliás, não tinha certeza de nada ulti­mamente. Preferiu mudar de assunto evitando comentários. — Vo­cê vai sair hoje?

— Daqui a pouco. Você quer ir comigo?

— Depende de onde você for.

Os dentes muito brancos do rapaz brilharam.

— Vamos caçar búfalos, É bastante excitante para você?

— Talvez seja. Posso guiar o jipe? Balançou os ombros com bom humor,

— Por que não? A gente só morre uma vez.

Sorriu para ele, guardou a carta no bolso da calça e levantou-se. Escreveria para o pai naquela noite e mandaria a carta pelo avião de sexta-feira. Lembrou-se de que podia ter pedido a Travis para pôr uma carta no correio de Nairóbi. Já deviam ter embarcado para lá àquela hora. Será que ainda estava pensando nela?

Levaram um dos guardas no jipe com uma merenda reforçada e partiram em direção à escarpa Mara. Andaram uns quinze qui­lómetros, mais ou menos, antes de entrarem no mato alto à procura dos búfalos pretos, animais ariscos e extremamente perigosos. Ki­mani avistara duas manadas separadas dos animais naquela re­gião alguns dias antes e desejava verificar a direção que eles es­tavam tomando.

Somente duas horas depois encontraram uma das manadas. Foi Kimani quem avistou primeiro um dos touros de guarda na orla de uma vegetação cerrada. Manobrou o carro na direção do vento e deixou Sara no seu interior, enquanto aproximava-se, cautelosa­mente, na companhia de Temu, do corpo principal da manada, a fim de fazer a contagem. Sara observou com binóculo, durante al­guns minutos, o movimento dos dois homens, até que a vegetação os ocultou de sua vista. Não tinha outra coisa a fazer senão aguar­dar o momento em que tornassem a reaparecer.

A uns quinhentos metros dali uma manada de gazelas passava tranquilamente, abanando o rabo e procurando alimentos. Sara olhava distraidamente para a paisagem, sem pensar com atenção em nada de especial, quando um movimento no mato, a meio ca-minho entre o jipe e a manada, alertou-a subitamente. Havia um animal que se aproximava cautelosamente das gazelas, tentando chegar o mais perto possível antes de atacar. Avistou de relance uma pele coberta de manchas e uma cabeça pequena. Um guepardo! Um dos poucos predadores que caçava de dia e o mais rápido em ação, O animal que fora escolhido como presa não tinha muita chance de escapar se o grande felino chegasse a uma distância razoável sem ser descoberto.

A manada no entanto estava alerta, os animais de guarda que se mantinham na beira do rebanho estavam voltados naquela di­reção, com os corpos tensos, as cabeças levantadas para avaliar a natureza da ameaça. O guepardo saiu do mato alto com um pulo de vários metros e foi parar no terreno de relva rasteira que o separava do rebanho: depois partiu a toda velocidade ao encalço da manada, que largou na disparada, ignorando todos os outros animais a não ser aquele que escolhera como presa. Tudo terminou em questão de segundos. O guepardo saltou como um raio prateado sobre o pescoço do animal que fugia, a gazela foi derrubada no chão, e o resto daquela violência, tão comum nas selvas, foi enco­berto pelas moitas.

Nesse momento ouviram-se tiros, um atrás do outro. Sem refle-tir um instante. Sara apanhou a espingarda no jipe e saiu em direção ao ruído da detonação, sem prestar atenção aos galhos que se prendiam na roupa ao caminhar no meio da trilha estreita por que os dois homens tinham seguido alguns momentos antes. Ela os encontrou de repente, quando menos esperava: Temu mostra­va-se muito nervoso e ajoelhado sobre o corpo prostrado de Kimani Ngogi, enquanto a uns três metros dali estava o cadáver de um búfalo preto adulto. Os chifres magníficos fechavam completamen-te a trilha.

Kimani estava consciente e se contorcia de dor, a perna direita estava dobrada sob o corpo em um ângulo absurdo. O búfalo atacou os dois homens de uma maneira totalmente inesperada, surgindo de um dos lados da trilha, e obrigou Kimani a atirar em defesa própria. Ao ver que o primeiro tiro não tinha detido o animal, dis­parou um segundo, enquanto saltava para o lado, a fim de evitar o ímpeto da investida do animal moribundo, que caiu a seus pés. Kimani ouviu o osso da perna quebrar e sentiu a dor violenta do membro torcido embaixo do corpo na queda.

— Vocês vão ter que fazer uma tala para a minha perna e me ajudar a sair daqui de qualquer maneira — disse Kimani estoicamente.

Sara ficou ao seu lado enquanto Temu dirigiu-se à árvore mais próxima, algumas centenas de metros adiante, e arrancou os galhos mais retos que encontrou. A parte mais difícil do trabalho foi esticar a perna. O rosto de Kimani estava coberto de suor no momento em que a perna finalmente foi presa na tala improvisada com tira de pano da camisa de Temu. Não foi nada fácil tampouco levantá-lo do chão. Por fim Kimani conseguiu agarrar-se nos ombros largos de Temu, e os três voltaram para o jipe. Sara ia na frente com a espingarda, pronta para qualquer eventualidade. Ela respirou ali­viada quando chegaram ao carro.

Não havia espaço atrás do jipe para estender Kimani ao com­prido, e ele foi obrigado a viajar entre os bancos com a perna na tipóia esticada. A dor que sentia era tão forte, especialmente du­rante o transporte na mata, que o lábio inferior estava sangrando com a mordida provocada pela contração dos dentes. Sara estava ansiosa para aliviar a dor do jovem africano, mas a caixa de pri­meiros socorros do jipe não tinha nenhuma injeção de morfina que pudesse usar.

Ela voltou deliberadamente as costas para Kimani quando Te­mu tomou a direção e ligou o motor. Sara sabia que os homens da tribo massai consideram uma indignidade o fato de uma mulher presenciar demonstrações de fraqueza.

Kimani perdeu os sentidos algumas vezes durante a viagem de volta para a Estação de Kambala, que se prolongou durante cin­quenta minutos. Sara sentia com ele todos os buracos e ondulações do terreno, embora Temu fizesse o possível para escolher o caminho mais plano e rápido. Nunca a vista da casa foi tão bem recebida.

Steve saíra para fazer a ronda habitual, e só era esperado ao anoitecer. Carregado por Temu e por outro guarda da Estação, Kimani foi levado para a cama do quarto, enquanto Ted pedia so­corro pelo rádio.

Logo depois Ted voltou com a notícia de que um avião seria enviado imediatamente para transportar o ferido de volta para a civilização, onde receberia tratamento adequado.

— E como vai ser durante a viagem de avião? — perguntou Sara, preocupada. — Ela vai levar pelo menos uma hora, e ele está quase exausto de dor.

— Temos morfina aqui — disse Ted prontamente. — Eu já apli­quei antes em um caso de emergência. Seria melhor você ficar aqui e contar a Steve o que aconteceu, no caso de ele voltar mais cedo. Meia hora depois o jipe estava a caminho de novo, andando em velocidade normal. Kimani tinha sido colocado da forma mais con­fortável possível na parte de trás. Sara observou o veículo desapa­recer no caminho e voltou desconsoladamente para casa. Tudo ti­nha acontecido tão depressa que não tivera tempo para refletir sobre o caso antes. Agora compreendia pela primeira vez que pas­saria muito tempo sem que tornasse a ver seu amigo Kimani Ngogi. O Departamento mandaria outra pessoa para terminar o trabalho iniciado. Ela sentiria muita falta do jovem africano. Mais do que tudo, teria saudade do seu permanente bom humor e das vezes em que o ajudara em seu trabalho.

A tarde passou sem novidades. Ted não tinha voltado ainda quando o outro jipe Land-Rover avançou lentamente pelo caminho. Steve desceu do carro, atirou o chapéu para dentro da cabine e esticou os membros doloridos. Foi somente então que avistou Sara nos degraus da escada.

— Você está com uma cara tão séria... E porque estou de volta?

— Kim quebrou a perna — respondeu. — Deve estar a caminho de Nairóbi agora.

O sorriso desapareceu do rosto dele.

— Como foi que isso aconteceu?

Ela contou o acidente com detalhes, e Steve balançou a cabeça tristemente.

— Ainda bem que não foi pior. Kimani arriscou-se muito seguin­do aquela manada de búfalos na vegetação cerrada. Você toma alguma coisa?

Sara acompanhou-o à sala e permaneceu junto à porta enquanto

Steve abria o armário das bebidas.

— É assim que você reage?

Ele se voltou e examinou-a durante um instante.

— Do que você está falando?

— Kim podia ter morrido, e você ainda diz que ele se arriscou

muito!

— O que eu podia dizer?

— Podia demonstrar um pouco de simpatia, pelo menos.

— De que adiantaria se ele não está mais aqui? Pense bem, de que serviria minha simpatia na ausência dele? — Terminou de servir o uísque, pingou umas gotas de suco de laranja e tornou a encará-la com os lábios ligeiramente franzidos. — E seu machuca­do, melhorou?

— Melhorou — foi a resposta breve.

— Pelo visto, você não vai me deixar fazer outro curativo. Aliás, não haveria necessidade, a menos que piorasse, o que não é pro­vável. — Sentou-se na cadeira, passou a perna por cima do braço e bebeu um longo gole. — Ah, agora estou me sentindo melhor!

Ao ver que Sara não fazia nenhum movimento, demonstrou uma certa impaciência.

— Ou bem você se senta e conversa socialmente ou dá o fora e vai se divertir com seus brinquedos! Que diabo você tem?

Não podia responder porque não tinha certeza do que era. Tudo o que sabia era que as tensões que se acumulavam lentamente nos últimos dias chegaram ao ponto de erupção um momento atrás, quando Steve passara por ela sem manifestar o menor interesse. Nada o tocava, essa era a verdade. Não possuía a menor delicadeza de sentimento. Desejava desesperadamente magoá-lo, mas não sa­bia como.

— Eu não tenho nada — respondeu finalmente. — Simplesmen-   te não gosto de ver as pessoas e as coisas que eu aprecio serem tratadas desse jeito. Com essa indiferença. Você, provavelmente, nunca cometeu um erro na vida!

— Cometi muitos. Mas nunca o mesmo duas vezes. Vamos mu­dar de conversa, tá?

— Senão você vai me mandar para a cama sem jantar, é isso? — exclamou com ímpeto. — Você banca o pai autoritário com Jill também?

— Só quando ela era muito criança. Eu pedi para mudar de   conversa...

— Vá para o inferno!

Ela percebeu pela transformação de sua fisionomia que dessa vez tinha ido longe demais, mas não estava disposta a voltar atrás. Houve um breve momento de silêncio durante o qual ele perma­neceu sentado fixando-a atentamente, colocou em seguida o copo em cima da mesa e levantou-se com deliberação,

— Foi você quem pediu.

Sara aguentou firme durante uns três segundos ao vê-lo apro­ximar-se em sua direção, depois voltou-se bruscamente e saiu cor­rendo pela varanda, desceu as escadas à toda e foi parar no pátio. Deu a volta na casa com o coração batendo, atravessou o gramado, pulou a cerca no ponto mais próximo e continuou correndo em di­reção às árvores. Ao chegar ali, percebeu que ele estava no seu encalço e, antes que desse mais alguns passos, ele a agarrou pelo cinto e obrigou-a a encará-lo.

Ela virou uma fera, começou a dar pontapés e socos com os punhos fechados, contorcendo-se furiosamente para se soltar dos seus braços. Ele retirou a mão do cinto, segurou-a pela cintura e levantou-a no alto. Apertada contra o peito de Steve, Sara fixou indefesa os olhos cinza-brilhantes, esperando pelo pior.

— O que você me diz agora? — perguntou ele.

— Ponha-me no chão!

Mal podia respirar, mas seus pés estavam livres. Steve enco­lheu-se todo quando ela apertou fortemente o bico do sapato em cima do seu queixo, e ela sentiu um enorme prazer no sofrimento dele. Ele agarrou-a em seguida pelos joelhos e balançou-a nos bra­ços, obrigando-a a afundar a cabeça nos seus ombros com um aper­tão que doía.

— Acho que não adiantaria muito eu lhe dar uma surra — disse, em tom de zombaria. — Mas há outras maneiras de se amansar uma leoa.

Sua boca encontrou a dela e forçou os lábios a se abrirem para um beijo violento e impiedoso. Ela lutou desesperadamente para libertar-se, mas estava indefesa contra sua força e sua intenção. Depois perdeu completamente a vontade de lutar e abandonou-se toda trêmula nos braços dele. Quando ele tornou a levantar a ca­beça, ela sentiu o calor que lhe inundava o rosto e sabia que ele tinha consciência das batidas alucinadas do seu coração. Naquele momento ela odiou aquele homem selvagem com tudo que lhe res­tava de forças.

— Isso vai lhe ensinar a controlar sua língua — disse ele com ironia. — Estamos entendidos agora?

— Solte-me — murmurou em voz baixa.

— Com todo o prazer, — Tornou a colocá-la no chão e afastou-se para o lado como se indicasse o caminho por onde tinham vindo. — Por favor, as mulheres primeiro.

Sara passou na frente dele perfeitamente consciente de sua ati­tude gozadora. Desejava matá-lo, destruí-lo, não tanto pelo que tinha feito como pela maneira como agira. Desejou de repente, com paixão, ser uma mulher de mais idade, sofisticada, capaz de levar um incidente daqueles na brincadeira — mas se fosse mais velha aquilo não teria certamente acontecido, pelo menos não daquela forma.

O jipe estava se aproximando pelo caminho no momento em que ela deu a volta na casa, seguida de perto por Steve. Ted não estava sozinho. A seu lado ia uma figura morena, que acenou as mãos pelo lado de fora da janela, com vivacidade e alegria. Sara ouviu a exclamação de Steve e viu que corria em direção ao carro para receber a moça esbelta e cheia de vida que se jogou da porta nos seus braços.

— Uma surpresa! — exclamou ela alegremente. — Fomos infor­mados de que um avião vinha para cá, por isso aproveitamos a viagem. Não é maravilhoso que Don e Diane tenham vindo também?

Steve soltou-se e dirigiu o olhar para o casal que vinha no banco de trás, seu sorriso alterou-se sutilmente no instante em que os olhos encontraram os da jovem alta, morena, vestida com um lindo conjunto cor de areia.

— Jamais poderia imaginar que você fosse aparecer aqui, Diane. O sorriso da jovem foi lento e confiante, e acentuou os planos e ângulos dos seus traços interessantes e finos.

— Eu nunca me imaginei fazendo uma viagem dessa, mas a curiosidade venceu minha relutância. Reservamos quartos no Pa­vilhão por alguns dias. Você tem algum tempo livre para nos mos­trar os arredores?

— Claro que sim. — Voltou-se para o homem que estava ao lado dela. — Você veio por livre e espontânea vontade ou foi arrastado à força?

— Porque tive preguiça de encontrar uma desculpa para dar — respondeu o outro com tranquilidade. — Gostaria de ser apresen­tado à sua amiguinha.

Até aquele momento Sara não percebera que olhava admirada para o pequeno grupo. No instante em que Steve voltou a cabeça em sua direção, sentiu novamente o rosto quente, como se não soubesse o que fazer. Devia parecer muito acanhada aos olhos dos recém-chegados.

— Sara Macdonald — disse Steve com a voz serena. — A filha do encarregado permanente da Estação. Venha conhecer um casal de amigos meus, Sara.

— E eu também — exclamou Jill. Sorriu para Sara, os olhos cinza-azulados brilhando. — Somos da mesma idade, não?

— Somos. — Foi tudo que encontrou no momento para dizer. Jill York era de sua idade mas, à primeira vista, era a única coisa que tinham em comum. Era linda mesmo de camisa esporte e calça jeans, os cabelos castanhos, de uma tonalidade escuro-bri-Ihante, caíam quase em cima dos ombros com o penteado de pajem. Entre ela e Diane Milson, Sara sentiu-se deselegante, sem jeito e nada feminina,

Se Jill estava pensando a mesma coisa, não deixou transparecer naquele instante.

— Steve contou que você mora aqui desde que saiu do colégio — disse Jill. — Você me desculpe a minha ignorância, mas eu não sei distinguir uma cobra de uma lagartixa!

Sara sorriu sem querer.

— Não tem importância — respondeu, enfiando as mãos nos bolsos. — Seu irmão sabe muito bem.

Don Milson deu uma risadinha repentina.

— Isso quer dizer que ele vai ficar de olho em você, Jill. — Dirigiu um olhar divertido e interrogativo para Sara. — Imagino que o nosso amigo aqui vem ditando as regras desde que chegou. Ele costuma fazer isso especialmente com o sexo frágil, como já observei. Mantém o mulherio sob controle como o resto dos animais ferozes.

— Não seja maldoso — interrompeu Diane com um sorriso. De­pois para Sara: — Não leve meu irmão muito a sério, Sara. Ele não prima pelas boas maneiras.

Então os dois eram irmãos! Sara pensou que fossem marido e mulher. Ela sentiu os olhos de Steve fixados nela, mas por nada deste mundo devolveria o olhar.

— Vocês não querem entrar? — sugeriu com animação, decidida a manifestar pelo menos um pouco de iniciativa na sua própria casa. — Devem estar morrendo de vontade de tomar alguma coisa.

— Essa foi a melhor sugestão que ouvi até agora! — disse Don, caminhando em direção à casa.

Nos minutos que se seguiram, Sara percebeu que Don Milson podia atrair até os passarinhos que cantavam nas árvores. Dois ou três anos mais moço que Steve, sua sedução estava no humor ir­reprimível que se ocultava no fundo dos olhos e que desmentia o ar ligeiramente cínico do rosto. O fato de um homem como aquele encontrar prazer na sua conversa foi um verdadeiro bálsamo para sua alma dolorida. Ela respondeu brilhantemente à atenção que Don lhe dava, ignorando as observações sardônicas de Steve.

Ted sugeriu mais tarde, no meio da conversa, que Don e Diane poderiam hospedar-se em Kambala durante os dias em que pre­tendiam ausentar-se da fazenda que administrava em Nairóbi, e da qual eram os donos.

— Temos dois quartos vazios no momento — disse Ted. — O de Kimani e o dos hóspedes. Isso no caso de Diane não se importar de dormir com outra pessoa no quarto.

Era difícil calcular a reação de Steve por sua expressão. Puxou uma tragada comprida e soltou lentamente a fumaça antes de se pronunciar a respeito.

— É preferível que as duas moças durmam juntas. — Voltou-se   para Sara. — Você tem alguma objeção?

Sara encontrou os olhos de Jill e sorriu.

— Absolutamente não. Há muito espaço no quarto para colocar­mos outra cama.

— Ótimo — Steve fez sinal para Ted. — Você podia mandar Temu ir buscar as malas. Estará de volta antes do anoitecer se sair agora. — Levantou o copo em direção a Diane com um sorriso imperceptível nos lábios. — Infelizmente não podemos oferecer to­do o conforto que você teria no Pavilhão.

— Mas há outras compensações — foi a resposta delicada de Diane.

Sara também pensava da mesma forma, mas o conhecimento disso fez com que sentisse um peso repentino em cima do peito. Quando levantou os olhos, Don fixava-a com uma expressão de entendimento. Sorriu sem jeito para o recém-chegado e suspirou aliviada quando Kiki apareceu no peitoril da janela, desviando a atenção das pessoas na sala.

Jill estava encantada com o macaquinho e adorou té-lo em cima do ombro enquanto comia a banana que Sara lhe dera. Diane ob­servava a cena com uma expressão de tolerância, mas balançou negativamente a cabeça quando lhe ofereceram para pegar no pêlo macio do animal.

— Os macacos me dão coceira — confessou. — Espero que não entre nos quartos.

— Ele não vai mais entrar na sala enquanto você estiver aqui — disse Steve rapidamente. — Os macacos são divertidos, mas às vezes se tornam um incômodo. Por que você não aproveita, Sara, e mostra a Jill o quarto onde ela vai dormir?

Jill fez cara feia para o irmão.

— Você já está querendo se ver livre de mim?

— De jeito nenhum — respondeu com um sorriso, — Mas quanto mais cedo vocês duas se conhecerem na intimidade, tanto melhor será.

Sara levantou-se sem olhar para Steve.

— Ele tem razão, Jill. Vamos aproveitar a companhia uma da outra.

Ted, ao passar pela cozinha, encarregara Njorogi de montar a cama de armar no quarto de Sara. Njorogi recebeu as duas moças visitantes com um sorriso de dentes brilhantes, enquanto punha o travesseiro em uma fronha limpa e passada, que arrumou na ca­beceira da cama.

— Pode deixar que nós arrumamos o resto — disse Sara em swahili, começando a desdobrar os lençóis no momento em que a porta se fechou atrás dela. — Njorogi sabe fazer maravilhosamente a cama, só que leva um tempão para encontrar o meio exato dos lençóis e das colchas antes de enfiá-los embaixo do colchão. Se você encontrar sua roupa arrumada em pilhas perfeitas dentro do ar­mário, já sabe quem foi... É uma verdadeira obsessão. Meu pai media às vezes os espaços que Njorogi deixa entre as fileiras ar­rumadas e descobriu que a diferença nunca passa de milímetros!

— Que tipo extremamente curioso — comentou Jill com um sorriso. — Diane está sempre se queixando dos empregados. Você precisa tomar cuidado senão ela vai levar o Njorogi embora quando regressar.

— Faz tempo que você conhece Don e Diane? — perguntou Sara,

enquanto terminava de arrumar a cama.

— Há uns três meses. Foi Steve quem os conheceu primeiro, e depois eles nos convidaram para passar algumas semanas na fa­zenda. Fazia uma semana que estávamos lá quando Steve foi cha-mado pelo Departamento para substituir seu pai.

— Mas se Steve estava de férias, não precisava ter aceitado o convite...

— Pelo visto não havia mais ninguém disponível, e Steve sempre gostou especialmente desta região. — Jill estava sentada na outra cama, observando Sara trabalhar, e não lhe ocorreu oferecer-se para ajudá-la. — O clima aqui é muito mais agradável do que no litoral. Você não faz idéia como Mombasa é úmida nesta época do ano...

— Você gosta de Nairóbi?

— Muito. Aliás, temos a intenção de nos mudar para lá em breve. Steve está interessado em uma fazenda perto da de Don e Diane, do outro lado do vale.

— Eu não imaginava que ele estivesse disposto a se estabelecer a tualmente em algum lugar.

— Ah, eu não sei. Steve sempre disse que os homens devem ganhar dinheiro suficiente nos primeiros trinta anos para depois fazerem o que têm vontade... A verdade é que ele andou bastante para cima e para baixo. — Ela deu um sorriso. — Eu gostaria que ele comprasse essa fazenda para que a gente se visse mais frequen­temente. Em geral só passamos juntos apenas alguns meses do ano.

— Imagino que vocês dois se dêem muito bem.

— Sim, nos damos. — Jill olhou com curiosidade para Sara. — Corrija-me se estou errada, mas tenho a impressão de que você não simpatiza muito com ele.

Sara pareceu confusa com a pergunta. Não sabia dizer o que sentia exatamente por Steve.

— Faz pouco mais de duas semanas que ele está aqui. Posso dizer que mal o conheço. Talvez ele me pareça um pouco autoritário demais.

— E é realmente — concordou Jill com uma risada estridente. — Diane, por sinal, é da mesma opinião e já disse isso na frente dele, mas ela é a primeira a reconhecer que foi exatamente esse ar autoritário que a atraiu nele. Você não acha que ela é fabulosa?

— Diria antes que é bonita de uma maneira original. — Sara procurou manter a voz serena. — Ela e Steve... quero dizer, você acha que os dois vão se casar?

— Quem sabe? Ele tem uma porção de outras amigas que são tão bonitas quanto Diane, mas nenhuma delas despertou seu in­teresse durante tanto tempo. Você reparou como ela é segura e fria? A gente nunca sabe o que ela está pensando.

— Você sente admiração por ela, não é mesmo?

— Sinto, sim. — Franziu ligeiramente a testa como indagação. — Por outro lado, não tenho muita certeza se gostaria de tê-la como cunhada.

— Por alguma razão particular?

— Exatamente. — Um sorriso desmanchou o rosto sério. — A vaidade. Quando Diane está presente, ninguém mais recebe um olhar dos outros. Basta ela entrar na sala para se tornar o centro das atenções. —Jill olhou com desconfiança para a cama de armar no momento em que Sara terminou de arrumá-la. — Ela é um pouco baixa. Você acha que não tem perigo?

— Nenhum. — Sara encontrou os olhos azuis e acrescentou com resignação: — Você pode dormir na minha, se preferir, e eu durmo

nesta.

— Realmente? — a pergunta foi puramente retórica. — Confesso que gosto de dormir perto da janela. — Jill experimentou as molas da cama de Sara, depois levantou-se e foi até a penteadeira. — É seu pai? — perguntou, segurando a fotografia emoldurada.

— É,

— Você se parece muito com ele.

— É o que todos dizem. Vamos tirar as malas do carro? Talvez você queira arrumar suas coisas.

— Ah, ainda temos tempo de sobra. — Jill estava perto da ja­nela, olhando para o morro atrás. — O que você costuma fazer durante o dia aqui? Não há muitas distrações, não é mesmo?

— Eu tinha algumas até seu irmão vir para cá — respondeu Sara com a voz seca. — Ele certamente vai passear com você pelos arredores depois que seus amigos forem embora,

— Espero que ele tenha tempo para sair com todos nós. Don trouxe seu equipamento de filmar. — Fez uma pausa e mudou sutilmente de entonação. — Don também é um tipo diferente. Ex­teriormente, ninguém dá nada por ele, mas interiormente... — Interrompeu-se e acrescentou em um outro tom: — Ele foi casado, mas a mulher fugiu com outro homem... — Diane morava com o casal?

— Não sei. Penso que sim. Como Steve e eu, os dois não têm família, Sabe de uma coisa, Diane é muito auto-suficiente. Acho que não se importaria de viver sozinha se fosse preciso.

Mas Jill não gostaria de viver sozinha, pensou Sara, e a moça realmente admitiu que Diane não aceitaria em sua casa nenhuma outra mulher que necessitasse de muita atenção do seu marido. Se Diane se casasse com Steve, Jill seria certamente afastada de casa. E ora unicamente por causa de Jíll, pensou Sara rapidamente, que ela se preocupava tanto com aquele possível casamento.

Poucos minutos depois Njorogi entrou no quarto com as malas de Jill. Sara deixou-a ocupada com suas coisas e voltou para a sala, onde encontrou Don sozinho. Steve tinha saído com Diane para dar uma volta pelos arredores.

— Você não quis ir com eles? — perguntou Sara com inocência, e recebeu um risinho irônico em resposta.

— Você nunca ouviu dizer que dois é bom e três é demais? Diane teria me cortado ao meio se tivesse feito menção de acompanhá-los. Você e Jill já resolveram tudo?

— Praticamente. Ela está arrumando suas coisas. Posso lhe ofe- recer outra bebida, Don?

— Prefiro sua companhia. Sente-se aqui e me fale a seu respeito.

— Pensei que já tivesse contado tudo.

— Ah, aquilo foi uma simples conversa social. Eu quero saber a respeito da moça que deu a volta na casa correndo com um ho­mem no seu encalço. Steve estava fazendo alguma coisa que não devia?

— Não, nada. — A menção foi muito rápida, podia perceber isso peio sorriso do homem ao lado. — Foi apenas uma pequena dis­cussão que tivemos, mais nada. Ele pensa que eu ainda sou uma criança.

— Engano dele. Eu diria que você tem muito mais segurança e juízo do que muitas moças da sua idade. Talvez a vida que você levou aqui nos últimos anos tornou-a mais independente, para início de conversa. Provavelmente é isso que ele condena. Na opi­nião dele, as mulheres devem obedecer aos homens, em seu próprio benefício.

— Incluindo sua irmã?

— Exatamente. Diane sabe perfeitamente quando deve adular a vaidade masculina. Ela aceita certas coisas de Steve que jamais toleraria em nenhum outro homem.

— Quer dizer que ela gosta dele? Don deu uma risada.

— Isso realmente eu não sei dizer. Faz muito tempo que não sou mais o confidente dos sentimentos dela, se é que algum dia eu fui. Direi apenas que se sentiu realmente atraída e interessada para fazer esta viagem contra seus instintos naturais. Minha irmã é mais uma planta de estufa que do ar livre. Está fora do seu elemento aqui e sabe disso, mas nem por isso deixará de continuar o jogo até o fim. Se decidir-se realmente a conquistar Steve é bem capaz de mudar todo seu modo de vida a fim de alcançar o objetivo. Mas já falamos demais desses dois. Prefiro mesmo conversar sobre nós.

— Nós?

— Você e eu. — Observava-a com um sorriso irónico, mas que não a incomodava tanto quanto e de Steve, quando este sorria dessa forma para ela. — Gostaria que fôssemos amigos.

Sara sentiu a pulsação acelerar-se involuntariamente. Don Mil-son era sem dúvida alguma um homem muito atraente e, ao con­trário de Steve, não a julgava uma simples criança. Sem ter que refletir, encontrou o tom certo da resposta.

— Tudo depende do que significa amizade para você. O sorriso dele transformou-se em apreciação.

— Tanto quanto o que deseja... Eu me contento em seguir os outros. Você podia começar, por exemplo, mostrando-me alguns locais interessantes para eu filmar.

Os outros estavam de volta. Sara ouviu a risada alta de Diane quando subiam a escada.

— Não custa nada tentar — disse com um sorriso aberto para Don.

A noite desceu quase imperceptível mente. Às sete horas Temu voltou do pavilhão de caça com as malas que fora buscar, e Diane foi ao quarto para trocar de roupa. Quando voltou à sala, pouco antes do jantar, estava com um vestido de linho, simples mas muito elegante, de uma tonalidade verde-cintilante que combinava ma­ravilhosamente com seus cabelos. Sara ficou contente ao ver que Jill tinha apenas trocado a camisa esporte. Pela primeira vez sentiu o desejo de ser bera feminina em certas ocasiões, embora jamais pudesse competir com Diane em sedução visual.

Ela sentiu a falta de Kimani na varanda depois do jantar. Àque­la hora ele já deveria estar no hospital de Nairóbi, com a perna devidamente engessada. De seu lugar junto ao parapeito, observou Diane conversar com os homens, admirou a maneira tranquila e segura com que tomava parte na conversa, como se nada mais, merecesse sua atenção.

Mas os outros, evidentemente, não podiam deixar de perceber o olhar atento que Steve dirigia para a mulher jovem, o sorriso que ia e vinha sobre os lábios dele, como se saboreasse recordações evocadas pela visão dos lábios vermelhos da jovem. Quando Steve beijava Diane, pensou Sara, o beijo não tinha nada a ver com o que lhe dera aquela tarde. Esse pensamento fez com que se levan­tasse repentinamente da cadeira.

— Ainda não visitei meus queridos animais hoje — disse em voz alta, sem olhar para o rapaz,

— Eu vou com você — exclamou Don com a voz serena de sem­pre. — Gosto de dar uma volta antes de dormir.

No momento em que os dois estavam a uma certa distância do grupo, acrescentou:

— E assim que vocês costumam passar o tempo livre aqui, sen­tados na varanda e conversando?

— É — respondeu Sara após um momento. — Pelo menos a maior parte do tempo. — Fitou-o ao luar. — Por que, você está entediado? Tão cedo? — ela indagou com um sorriso e mostrando-se surpresa.

— Não, não estou. Mas estou surpreso é que você não se canse Vou lhe confiar uma coisa: Jill não vai se adaptar muito bem este ambiente aqui.

— Por que não?

— Simplesmente porque está acostumada a levar uma vida cheia de programas excitantes. Ela é um foguete, sem brincadeira. Muito mais do que Steve imagina.

Ela me pareceu muito contente esta tarde.

— Porque é novidade... e ela adora as mudanças e qualquer ocasião de fazer uma visita ao irmão. Quanto tempo ela vai ficar aqui?

Não tenho certeza. Talvez até a volta do meu pai, daqui a um mês, mais ou menos.

— Nesse caso, parece que Steve vai ter que inventar alguma coisa.

— Não vejo muito bem o que ele pode fazer — comentou Sara com bom senso. — Depois de um dia passado no mato, os homens não desejam outra coisa senão esticar as pernas e beber um drin­que. — Aguardou um instante antes de acrescentar casualmente: — Ele se comporta de maneira diferente na cidade?

— Bem, nunca notei que fosse contra os programas organizados. Talvez Diane passe a vê-lo de outra forma depois desta viagem. Não acredito que ela aceite ficar todas as noites da semana em casa, nem que seja na companhia de um homem como Steve.

Sara também não gostaria. Se bem que Steve não pretendia continuar nesse tipo de trabalho durante muito tempo, como ex­plicara Jill. Don certamente não estava a par de sua intenção. E Diane, sabia alguma coisa? Talvez estivesse disposta a aceitar al­guns dias de repouso forçado apenas para ter certeza de que Steve não se esquecia dela.

Don aguardou fora do cercado enquanto Sara cuidava do filhote de antílope. Quando ela voltou ao pátio, Don estava fumando um cigarro e ouvindo os ruídos da noite.

— Certa vez ouvi uma gravação feita no mato e nunca pensei que fosse verdadeira até este momento — comentou. — E sempre assim?

— Às vezes é bem mais alto — disse Sara com um sorriso. — Os babuínos estão bastante quietos esta noite. Quando eles come­çam a guinchar, você não faz idéia do barulho que é!

— Façamos votos de que nada os perturbe esta noite! — Don encostou-se no mourão da cerca, e Sara lembrou-se da primeira noite em que Steve passou na casa. — Ninguém tem pressa de voltar, não é mesmo? Vamos aproveitar para conversar um pouco.

— Eles vão ficar intrigados se demorarmos muito.

— Que fiquem! Talvez seja bom para eles. De minha parte, pro-meto controlar minhas inclinações naturais e não fazer nada que possa aborrecê-la.

Sara olhou indecisa para Don, viu o sorriso no seu rosto e des­contraiu-se repentinamente.

— Que bom ouvir isso! Eu pensei que você fosse do gênero de homens que não perdem tempo.

— As aparências enganam, minha querida.

— Ah, é? — acrescentou com ingenuidade: — Jill acha que você não é absolutamente tão cínico quanto parece.

— Ela falou isso? — Don parecia surpreso. — Nunca imaginei que ela refletísse muito sobre esse assunto. O que mais ela comen­tou a meu respeito?

— Somente que você foi casado e que... — Sara interrompeu-se a tempo, consciente de que tinha falado demais.

— E que mais? — insistiu ele. — Tenho certeza de que ela não deixou a frase pelo meio...

— Não, não deixou. Ela mencionou que sua mulher... Foi embora.

— O que não deixa de ser uma maneira delicada de abordar o caso, A versão habitual é mais rude: "Encontrou um outro homem".

Algo na voz dele fez com que Sara o fitasse com muita atenção. — Não foi isso que aconteceu?

Don ficou em silêncio tanto tempo que ela acrescentou enver­gonhada:

— Desculpe-me. Não devia ter perguntado. Não é da minha conta.

— Não tem nada. Fui eu que insisti. — Bateu a cinza da ponta do cigarro. — Às vezes é mais fácil deixar os outros aceitarem o óbvio, mas a verdade é que Caroline me deixou porque ressentia-se do fato de Diane morar na mesma casa,

— Diane não podia ter mudado para outra casa?

— Penso que sim, mas por que faria isso? A fazenda é tanto dela quanto minha, meio a meio, o que incluí a casa, naturalmente. Não podia pedir que se mudasse nessas circunstâncias. Só que Caroline não entendeu a coisa nesses termos. — Deu um suspiro. — Ah! As mulheres! — Manteve-se em silêncio durante alguns segundos, depois atirou a ponta do cigarro no chão e pisou-a com 0 salto do sapato. — Este é um assunto longo de conversa. Vamos encerrá-lo dizendo que houve erros dos dois lados. Mas muitas águas já passaram sobre tudo isso nos últimos cinco anos.

Sara ficou contente quando Don deu o caso por encerrado e sen­tiu apenas tê-lo introduzido na conversa. Don fora profundamente magoado no passado e sofria evidentemente tom a breve invasão de sua intimidade. Ela iria esquecer-se do caso, bem como da pe­quena voz que se queixou da insensibilidade da mulher que presenciou o casamento do irmão soçobrar e que não fez um pequeno sacrifício para salvá-lo.

Steve olhou de cara fechada para os dois quando voltaram para casa, mas não comentou nada. Pouco depois Jill confessou que es­tava exausta após os acontecimentos do dia e devido à mudança de ambiente, Sara aproveitou a oportunidade para despedir-se doa outros e acompanhou a outra moça ao quarto.

Mais tarde, deitada na cama estreita de armar, enquanto Jill respirava profunda e serenamente na outra, Sara ouviu os sussur­ros suaves das vozes que entravam pela janela aberta, e pensou que Steve estivesse sozinho na varanda com Diane. Dois adultos que sabiam exatamente o que desejavam da vida. Tinha que ad­mitir que combinavam bem um com o outro.

 

A presença dos três convidados introduziu algumas mudanças na vida da estação de Kambala, como Sara percebeu nos dias seguintes. Até mesmo Ted deu-se ao luxo de pôr gravata estampada para o jantar, em vez de vestir a camisa esporte habitual de colarinho aberto. Sara limitou-se a olhar com indecisão para o guarda-roupa e foi forçada a reconhecer que invejava os vestidos alegres e curtos que Jill usava de noite e tam­bém as roupas mais simples de passeio. Os poucos vestidos que tinha não cabiam mais no corpo e não eram absolutamente da mesma classe. Mesmo há três anos ela não manifestara muito in­teresse por questões de vestuário.

O grupo inteiro saía todos os dias num único jipe para visitar o local, enquanto Ted ficava encarregado cie cuidar da Estação. Steve era um guia excelente, e estava sempre apontando para um lado e para outro:

— Casal de chacais à direita.

— Leões à esquerda do morrinho.

Havia dias em que atravessavam lentamente as savanas e as planícies, às vezes no meio do mato alto, que quase cobria o jipe, em outros circulavam por regiões queimadas onde não se avistava   nenhum tipo de vida. No segundo dia passaram uma hora inteira observando um grande bando de girafas na orla da floresta, en- quanto eram examinados por sua vez com a mesma curiosidade, até que um movimento brusco de Diane fez com que os animais debandassem com passos longos e desajeitados, que são uma parte de seu encanto.

Para Diane, os melhores momentos do dia eram as horas do fim da manhã que passavam no Pavilhão, ocasião em que ela brilhava seu charme especial. Ao contrário de Don, Diane achava can­sativo e monótono o desfile interminável de animais selvagens, embora aceitasse a obrigação com excelente humor. Quaisquer que sejam seus defeitos, pensou Sara um dia, observando-a sair da piscina no biquini minúsculo, ela desperta realmente a admiração dos outros. No fundo, Sara desejaria muito ter a segurança infalível de Diane em circunstâncias tão diferentes de sua vida habitual.

Don mergulhou, deu algumas braçadas e foi sair perto do lugar onde Sara estava sentada, afastou os cabelos dos olhos, ergueu-se na borda da piscina e foi deitar-se na grama ao lado dela.

— Estou fora de forma — disse ofegante. — Perdi o fôlego depois das duas voltas que dei na piscina. Você vai cair de novo?

— Acho que não.

Sara estava de frente para Steve, que conversava com Diane no outro lado da piscina, e os dois pareciam gostar daquele isolamento e riam de alguma história engraçada. O corpo dele, bronzeado e bem feito, não tinha um quilo de excesso. Sara voltou-se de repente para Don e comentou:

— Pensei que Jill estivesse com você.

— E estava realmente, até que o francezinho apareceu e levou-a embora sem a menor cerimônia. Os dois devem estar tomando café no terraço, pelo menos foi isso que ele sugeriu. Meu francês é um pouco deficiente. Mudando de conversa, você não teria um cigarro por acaso?

Sara riu.                                                                     .

— Eu tenho cara de quem anda com cigarro embaixo do maiô?

— Não, não tem — disse Don percorrendo-a com certo fascínio de alto a baixo. — Não há muito lugar no seu biquini para guardar um maço de cigarros. — Deu um sorriso irônico. — Gostaria muito de ter dezenove anos de novo, com toda a vida pela frente.

— Acha que as coisas seriam diferentes?

— Talvez. Se encontrasse alguém como você as chances seriam bem maiores, e poderia ser feliz. Eu sou de opinião que, quando a gente gosta de alguém, é pra valer, independente de qualquer in­fluência exterior. — Adotou deliberadamente um tom mais leve. — Você pensa que trinta anos é muita idade para começar tudo de novo?

— De jeito nenhum.

— Que bom! Só assim tenho mais esperança...

Levantou-se e estendeu a mão gentilmente para erguê-la do chão. — Vamos trocar de roupa e tomar um drinque antes do voltar­mos para casa?

Passava das quatro horas quando retornaram para a estação de Kambala, O percurso foi rápido, e quase não conversaram. Diane foi diretamente para o quarto trocar as roupas sujas de poeira e não se deu ao trabalho de perguntar se alguém ia tomar banho antes dela. Jill afundou em uma cadeira na varanda e olhou com alegria para o irmão.

— É uma vida fantástica se a gente não prega! Talvez seja mais cômodo ver os animais atrás das grades no zoológico. Pelo menos não cansa tanto...

— Você está se queixando porque a separei à força do seu ami-guinho francês — disse Steve. — Ele não perdeu tempo em passar uma bela cantada, hein?

Jill deu uma risadinha.

— Seu francês deve ser melhor que o meu. Não entendi nem metade do que disse.

— Você não precisa conhecer a língua na perfeição para receber a mensagem que ele estava mandando, Tenho certeza de que não gostou nada de me ver. Você costuma ser cantada normalmente desse jeito?

— Claro que não — retrucou Jill, com o rosto sério. — Só quando eu sei que meu irmãozinho está por perto para vir em meu socorro. De qualquer maneira, Henri vai embarcar amanhã. Isso pelo me­nos eu entendi. Pelo jeito, os turistas passam à toda por aqui, não?

— É o que parece. — Steve estava sorrindo. — E você já está à espera do próximo grupo?

— Pode ser. O que você acha, Sara? Duas é mais seguro que uma. Nós duas podíamos facilmente passar pelas Belas da Floresta.

Olhos azuis encontraram olhos cinza por um breve instante.

— Sara não está interessada em garotos — disse Steve.

— Eu tampouco! Nada com menos de vinte e três anos, tá?

— É o limite máximo? — perguntou Don com displicência. Jill lançou um olhar rápido para ele, enquanto a expressão do rosto sofreu uma mudança leve e indecifrável.

Não pensei nisso. Deveria ter um limite?

— Apenas para manter a lista correta.

Ted subiu a escada da casa rapidamente e reuniu-se aos outros.

— Então, aproveitaram bem o dia? — perguntou.

— Bastante — respondeu Steve. — Alguma novidade aqui?

— Um dos rapazes foi ferido na perna por um javali, mas já foi medicado. Fora isso, tudo na mais perfeita calma.

Fez menção de entrar em casa para preparar uma bebida, parou junto à porta e acrescentou:

— Quase ia me esquecendo da coisa mais importante. Mgari enviou um mensageiro e convidou todos nós para um ngoma hoje à noite.

Sara levantou prontamente a cabeça.

— Em benefício de quem?

— Não disse. Talvez não haja nenhuma razão particular para a cerimônia. Você sabe como é. Talvez seja em homenagem aos nos­sos convidados — acrescentou Ted, com um sorriso que abrangia Jill e Don especialmente. — Vamos saber quando chegarmos lá.

Os dois convidados pareciam devidamente interessados na notícia.

— Uma dança festiva? — perguntou Don. — Você acha que posso bater algumas fotos ou filmar?

— Tem que pedir permissão primeiro ao chefe da tribo — ex­plicou Steve. — Essas cerimônias são muito íntimas. É uma grande honra ser convidado. — Fixou o olhar em Sara. — Você conhece Mgari melhor do que eu. O que ele vai pensar de tirar fotografias?

— Depende muito do que estiverem comemorando — respondeu Sara com a voz serena. — Eu não sabia que você tinha conhecido Mgari.

— Eu passei há uma semana na aldeia e me apresentei. Mgari foi muito atencioso, se bem que se mostrou mais interessado em saber o paradeiro da kidoga memsahib. — Os olhos cinza de Steve brilharam. — Pelo visto você criou uma forte impressão na tribo inteira.

Sara sorriu com ar inocente.

— Mgari é um homem muito perspicaz... além de ser um grande admirador do meu pai. Esta não é a primeira cerimônia a que eu vou, embora possa ser provavelmente a última. Kiniani disse que a tribo pretendia se mudar em breve.

— É bem possível. As boas pastagens estão se tornando raras e cada vez mais distantes da aldeia. — Steve afastou-se do para­peito da varanda. — Preciso providenciar algumas coisas antes de partir.

Desceu em silêncio a escada e tomou a direção do pátio, uma figura alta e magra de camisa esporte e bermuda, cabeça desco­berta sob o sol da tarde.

— A que horas vai ser a festa? — indagou Don durante o breve silêncio que se seguiu.

— Bem, provavelmente vamos sair daqui às nove, depois do jantar... a menos que você queira provar o sangue de boi e o leite dos nativos.

— Deus me livre! — exclamou Jill, torcendo o nariz de nojo. — Espero que você esteja realmente brincando...

— De jeito nenhum. Os massais não comem carne normalmente. E os alimentos deles não são tão ruins quanto você imagina.

— Quer dizer que você provou? — perguntou Jill de olhos arre­galados.

— Comi uma vez, quando a tribo veio aqui. Papai disse que era uma questão de cortesia.

— Não conte comigo para esse tipo de banquete! — O rosto alegre mudou de expressão. — Você acha que nós vamos ter que provar também?

— Bem... se lhe oferecerem uma iguaria preparada pela tribo, seria muito indelicado recusar.

— Nesse caso acho que eu não vou. Não posso nem pensar nisso!

— Ela está brincando com você — disse Don com a voz indolente.

— É verdade, Sara?

— Um pouquinho — respondeu. Sara com uma risada. — Mgari sabe perfeitamente que os europeus têm uma alimentação diferen­te. Você não precisa se preocupar. Basta ficar sentada bem quieta observando a dança dos nativos... e dar a entender que você está gostando. — Sara fez uma pausa. — Talvez fosse bom avisar a Diane para ir de calças compridas. Vamos nos sentar em esteiras, no chão, e haverá certamente formigas e outros insetos em volta.

Jill levantou-se

— Vou falar com ela. Assim não terá o trabalho de se trocar de novo depois do jantar.

Ted ouvia a conversa atentamente perto da porta da varanda com um sorriso no rosto enrugado. Afastou-se para deixar Jill pas­sar e sentou-se na cadeira que a moça tinha acabado de desocupar, como se fosse muito trabalho dar alguns passos em direção à outra.

— Por falar em formigas, não sei se já contei da vez que armamos uma barraca bem no caminho de uma coluna de soldados?...

— Ted não aguardou a resposta de Sara. — Começaram a passar às duas da manhã e não tinham terminado ainda até às cinco. parecia uma vaga negra... Entravam por um lado da barraca e saíam pelo outro. Ainda bem que nenhuma delas teve a idéia de me subir pelas pernas...

— Pensei que as formigas soldados comessem tudo que há pelo caminho — disse Don. — li certa vez uma história que elas trans­formaram num esqueleto, em poucos minutos, um homem que dormia.

— Ele devia estar amarrado ou completamente bêbado — foi a resposta rápida de Ted. — Ninguém consegue ficar deitado com formigas em cima. A única coisa a fazer nesse caso é tirar as roupas e se atirar no primeiro riacho que encontrar. Claro, é preciso tomar cuidado com os hipopótamos e rinocerontes...

— Não sei como você ainda está vivo depois dessas aventuras— comentou Sara. — Conta para o Don a vez que você lutou com um leão!

Ted deu um sorriso sem graça.

— Eu vou guardar essa para um bobo que vier da cidade. — Ted apanhou no ar a almofada que Sara atirou em sua direção e colocou-a confortável mente atrás da cabeça. — Antes que me es­queça, há uma carta de seu pai para você. Deixei-a em cima da cama no seu quarto.

— Por que você não me disse antes! — exclamou Sara, dando um pulo da cadeira, o rosto banhado de alegria. — Não esperava receber outra tão cedo!

Steve estava entrando em casa pela porta dos fundos quando Sara atravessou o corredor. Estava com os cabelos molhados e uma toalha na mão. Sara tomou coragem e olhou com admiração para a bermuda e a camisa bem passada.

— Você disse que tinha trabalho, hein? Você foi é se botar todo elegante! Mgari vai ficar muito envaidecido com seu traje de festa.

Steve deu um sorriso sardônico.

— Que bom você ter voltado ao normal! Eu estava ficando preocupado...

— Ah, você não precisa mais se preocupar comigo. Estou vaci­nada praticamente contra tudo.

— Ainda bem — disse Steve entrando no quarto e trancando a porta.

A carta fora escrita em Benston, onde Dave Macdonald estava hospedado na casa de amigos. Nada mudara nos últimos anos, contava o pai com entusiasmo. A igreja, as casas à beira do rio, até mesmo os cisnes continuavam Já. Nada absolutamente tinha mudado. Era incrível acreditar que isso fosse possível. A casa onde estava hospedado era de uns amigos de infância que conhecera em Benston. Sara não se lembrava mais deles, naturalmente, embora os tivesse visto várias vezes quando era criança pequena. Molly, a amiga de Dave, depois da morte do marido, uns seis anos atrás, voltara para Benston e fora morar com o irmão, que era fazendeiro. Ela sempre se sacrificou pelos outros, dizia a carta. Uma mulher como esta merece mais da vida do que já recebeu até agora. Você gostaria dela, Sara.

Sara leu e releu o último parágrafo, uma ligeira ruga franzia sua testa. Dave devia casar-se de novo, dissera Ted algumas semanas atrás, e Ted era o amigo mais íntimo do pai. Era possível que Ted reconhecesse uma necessidade que ela própria não tinha percebido? Ela e o pai tinham sido tão felizes nos últimos três anos... se bem que uma filha não seja a mesma coisa que uma mulher em questão de companhia. Agora essa carta, a maneira como o pai falava da mulher que conhecera tão bem em criança.

Se Dave se casasse de novo, o que ela, Sara, faria? Não teria mais necessidade dela. Havia um terrível sentimento de solidão neste pensamento.

A festa dos nativos estava animadíssima quando o pequeno gru- po de convidados chegou à aldeia. Mgari os recebeu com muita alegria, e todos se sentaram nas esteiras de palha juntamente com   o chefe e os outros anciãos da tribo. Sara ocupava uma ponta, e Steve a outra. As danças não paravam nunca, no momento em que   um grupo de dançarinos cansava, outro tomava seus lugares, às   vezes as mulheres, outras vezes os homens, ocasionalmente todos   juntos. A vitalidade dos nativos era contagiante: os olhos lampeja­vam, os dentes brilhavam, os corpos realizavam variações infinitas de movimentos ao ritmo dos tambores, as roupas que usavam eram muito coloridas. Em diversas ocasiões os dançarinos inclinavam-se de repente e apanhavam punhados de terra que deixavam escorrer por entre os dedos.

— O que significa isso? — perguntou Don em voz baixa a Sara,   depois de transcorrida uma hora. — E quanto tempo vai levar essa dança?

— Estão rezando para obter fertilidade — murmurou Sara, sur­preendendo o olhar malicioso de Don, e acrescentou com um sorriso: — Fertilidade da terra. Boas pastagens para os rebanhos na pró­xima estação. Essa dança pode durar horas a fio, mas não preci­samos ficar até o fim. O importante foi ter aceito a convite que nos fizeram.

— Nesse caso, não posso perder tempo se quiser filmar a ceri­mônia. Você não quer pedir autorização ao chefe da tribo?

Sara hesitou um instante antes de fazer o pedido a Mgari, apon­tando para Don e a filmadora com um gesto da mão. Houve um momento em que pensou que Mgari fosse recusar; no entanto, após algumas breves palavras trocadas com os outros anciãos, ele deu permissão.

Don já tinha preparado a máquina para a filmagem noturna e aproveitou a luz forte das fogueiras enquanto acompanhava as vol­tas dos dançarinos. Retornou pouco depois com o rosto brilhando de alegria, mas esqueceu-se de dizer asante para Mgari pelo pri­vilégio concedido.

O pequeno grupo preparou-se para voltar após as despedidas prolongadas que tiveram lugar na entrada da aldeia. Como acon­tecera na viagem de ida, Diane foi na frente com Steve, enquanto os outros iam apertados atrás. Encolhida no banco ao lado de Don, voltada para Jill e Ted, que iam no banco oposto, Sara evitou olhar para os dois que iam na frente, embora ouvisse por momentos al­gumas palavras ligeiramente ríspidas que trocavam. Os dois gos­tavam desse tipo de diálogo. Diane não se mostrava nem um pouco agredida pelos comentários irónicos de Steve.

Sara foi a última a descer do jipe quando chegaram à Estação, atrasando-se deliberadamente do grupo que caminhava em direção à casa.

— Vou ver se está tudo bem com Kiki antes de entrar — disse em voz alta. — Você vêm comigo, Don?

Ela teve a satisfação de ver Steve se voltar no momento em que dava o braço a Don.

— É sempre bom ter a proteção de um homem — disse com um sorriso.

— É é a primeira vez que alguém me pede para desempenhar esse papel — retrucou Don, bem-humorado, acompanhando-a em direção aos cercados. — Por que você não guarda o macaquinho em um lugar mais apropriado?

— Porque é a única maneira de evitar que entre em casa en­quanto sua irmã estiver por aqui. Normalmente, eu o deixo solto.

— Também não será por muitos dias. Infelizmente, Diane não se dá bem com os animais.

— Eu sei — disse Sara, arrependida pelo comentário de antes. — De qualquer maneira, alguns dias não fazem nenhuma diferen­ça. Eu fui meio maldosa.

Don deu uma risada.

— E tremendamente franca! Nunca conheci uma moça como você antes, Sara Macdonald.

Ela lançou um olhar malicioso na direção dele.

— Você é a segunda pessoa que me diz isso.

— Quem foi a primeira, um outro homem?

— Um rapaz. Um rapaz simpaticíssimo, por sinal. Queria que eu fosse visitá-lo nos Estados Unidos.

— E você aceitou o convite?

— Pretendo ir algum dia. Pretendo fazer um mundo de coisas algum dia. — Mudou ligeiramente de tom. — Na opinião de certas pessoas, eu perdi muitas coisas vivendo todo este tempo na selva. Você me acha desatualizada, Don?

— Para mim você é uma bruxinha fascinante que eu não quero perder por nada deste mundo — disse ele com decisão. Segurou-a pelos ombros e voltou-a na sua direção, com um sorriso brilhante na escuridão da noite. — Kiki pode esperar alguns minutos, não?

— Se for preciso. — Sara hesitou, depois murmurou: — Don, acho preferível não. Eu... Eu não estou com vontade de ser beijada agora. Não é por nada, juro, só que eu não...

— Só que você não sabe se gosta ou não de mim, não é isso? — Balançou os ombros com indolência. — Tudo bem, não vou forçá-la. Mas não me provoque mais, se você não quer sofrer as consequên­cias... Pode ser que da próxima vez eu não esteja disposto a ceder.

— Prometo que não vou provocá-lo mais. Você é tão bonzinho, Don!

— Ah, só faltava essa! — Seu tom era realmente irônico. — Agora estou com uma auréola de santo na cabeça... Escute, vamos terminar de uma vez com esses animais e voltar para casa antes que eu mude de idéia!

Steve estava esperando na varanda quando os dois subiram a escada.

— Tudo bem? — perguntou a Sara.

Ela olhou fixamente para ele, sem piscar.

— Tudo ótimo. Você não precisava ter esperado.

— Não estava esperando. Eu tenho que escrever um relatório antes de dormir. Boa noite.

Os dois se despediram de Steve e entraram em casa juntos, cada um indo em seguida para seu respectivo quarto,

Jill continuava dormindo quando Sara se levantou no dia seguinte às seis da manhã. Ao sair na varanda encontrou Steve apoiado no parapeito, exatamente como o deixara no dia anterior, só que estava com roupa de trabalho. Cumprimentou-a com o olhar distante.

— Jill não acordou ainda?

— Não. — Hesitou entre ir embora e ficar mais um pouco. — Vou subir no alto do morro.

— Eu imaginava. — Olhou para a pedra recortada contra o céu pálido da manhã. — Você passa muito tempo lá em cima.

— Você acha?

Ele se animou subitamente.

— Posso lhe fazer companhia?

Sara não voltou a cabeça, com receio de revelar sua alegria,

— Não posso impedir que você venha — disse, depois corou porque não pretendia ser tão indelicada. — Claro que sim — acres­centou rapidamente. — Seria um prazer.

Estava muito consciente do corpo alto e forte de Steve quando atravessaram o mato rasteiro em direção ao pé do morro, e sentiu-se mais à vontade ao perceber que ele não lhe dava a mão para ajuda-la a subir, como fizera Travis. Ao chegarem ao seu local pre-dileto, Steve apoiou-se sobre o rochedo para admirar a paisagem e apanhou automaticamente o maço de cigarros no bolso da camisa.

— Você fuma demais — comentou Sara sem pensar. Fitou-a com

a expressão divertida.

— Não basta Jill? Agora são duas que se preocupam com minha

saúde?

— E com razão — retrucou Sara com uma entonação leve na voz. — Eu sou uma intrometida nata. — Apontou para a paisagem que se estendia até o horizonte. — O que você acha da vista?

— Belíssima. Agora entendo por que você vem sempre aqui... especialmente a esta hora. — Fez uma pausa. — Você sentiria falta de tudo isso, não?

— Muita — murmurou.

— Mas você não passará provavelmente o resto da vida aqui. Um dia vai casar, e seu marido talvez não queira morar na reserva.

— Por que é a mulher que deve fazer sempre todos os sacrifícios? — perguntou, com a voz subitamente emocionada.

— Porque é o homem que sustenta a família e cabe a ele escolher onde quer morar e trabalhar.

— Ainda mesmo que a mulher seja infeliz? — Sua boca franziu ligeiramente.

— Se ela gostar dele de verdade, o local não faz nenhuma dife­rença. A mulher deve estar pronta para acompanhar o homem ao fim do mundo, se for necessário.

Estava pensando em Diane? refletiu Sara. Teria ela deixado bem claro que alguns dias passados na selva eram o limite que estava preparada para tolerar? Talvez a idéia de comprar a fazenda fosse um compromisso, a maneira de obter a mulher que desejava   enquanto conservava uma certa independência. Ela nunca tinha   imaginado, no entanto, que Steve fosse um homem de aceitar com­promissos. Ou será que não queria pensar nele nesses termos de- vido às implicações que decorriam? Sara sentiu uma secura desa­gradável na garganta e rapidamente procurou desviar a mente des­ses pensamentos.

Houve silêncio entre os dois durante o espaço de alguns minutos. Steve terminou o cigarro e apagou a ponta no chão, tornou a se ajeitar sobre a pedra e indagou com a voz serena:

— Você sabe que Don foi casado?

Ela fitou-o rapidamente e afastou o olhar.

— Sei. Jill me contou.

Os olhos dele estavam ligeiramente cerrados devido à claridade do sol nascente.

— Você se sente atraída por ele?

— Don é um homem muito atraente, e eu tenho idade suficiente para perceber.

— Não estou negando. — Seu olhar percorreu os traços finos e delicados de Sara. — Mesmo assim, eu não daria uma importância exagerada ao que ele possa lhe dizer. Don é ótimo a seu modo, mas não está interessado em sentimentos mais puros.

— Não entendo o que você está querendo realmente dizer — retrucou com uma ligeira impaciência na voz. — Será que você o conhece tão bem assim?

— Melhor do que você. Estou tentando ser diplomático, por isso não pule na minha garganta antes que eu termine. Don atribuiu o malogro do casamento inteiramente à atitude da mulher e, mes­mo que não tenha consciência disso, procura se vingar nas outras mulheres que aparecem no seu mundo. Eu não gostaria que você fosse ferida.

Sara levantou a cabeça.

— Não vou ser ferida por ninguém. Por mais estranho que pareça, eu sei agora que um beijo ou dois não têm nenhuma importância.

— Quer dizer que ele a beijou?

Sara mordeu o lábio, mas o orgulho não permitiu que voltasse atrás.

— Que mal tem isso? Você também não me beijou?

— Eu não me esqueci. Mas há uma grande diferença entre mi­nha intenção e a dele.

— Você não precisa me dizer... Há um mundo de diferença entre você e Don. Antes de mais nada, você deveria tentar saber a razão verdadeira que levou a mulher dele a abandoná-lo, em vez de fazer alusões maldosas!

Steve examinou-a atentamente, com os maxilares tensos.

— Por que você não me conta?

— Isso não cabe a mim. — Estava arrependida das palavras irrefletidas que dissera. — Pergunte a alguém mais íntimo.

— Diane, por exemplo? Ela teve alguma coisa a ver com a separação?

Sara afastou-se rapidamente. O assunto fora longe demais. Não tinham o direito de discutir o caso de Don dessa forma.

— Eu vou descer.

— Não, você não vai! — exclamou com rispidez Steve sem sair do lugar. — Eu quero saber o que você está pretendendo.

— Pois fique querendo.

O músculo do queixo contraiu-se.

— Nunca conheci ninguém que gostasse tanto de criar problemas quanto você. Ainda bem que eles vão ficar aqui somente mais alguns dias... Seria muito do seu gênero encorajar Don somente para se vingar de mim.

Embora estivesse trêmula, Sara procurou controlar a voz. — Não seja pretensioso! Se gosto da companhia de Don é apenas porque ele aprecia um pouco minha maneira de ser! — Era injusto o que dizia, mas ela não estava em condições de medir as palavras. — Desde que chegou a Kambala, você agiu como se ninguém mais entendesse absolutamente nada do trabalho na reserva... inclusive meu pai! Você conseguiu destruir inclusive este lugar para mim! — Terminou? — perguntou impassível após um curto silêncio.

— Já que estamos trocando algumas verdades esta manhã, vamos abordar algumas outras... Eu não conheço seu pai, mas um homem que viaja para a Inglaterra e deixa a filha sozinha em um lugar tão distante como este não me parece possuir nenhum sentido de responsabilidade...

— Ele não me deixa sozinha — protestou Sara. — Havia Ted e Kimani.

— Nenhum dos dois tinha a menor autoridade sobre você,

— Não foi isso que você disse a Ted no dia em que caí no buraco com o jipe!

— Eu sei que não foi isso que disse a Ted. Eu estava uma fera e não medi minhas palavras. Eu fui mandado aqui para fazer um trabalho específico e não para servir de governante da filha de ninguém. Se você tivesse se comportado bem desde o início, tería­mos nos dado otimamente, mas você é tão difícil de ser tratada quanto um porco-espinho! Quando você vai aprender a diferença   entre solicitude e bom senso?

O bom senso não tinha nada a ver com o que se discutia no momento, pensou Sara meio tonta.

— Você tem certeza de que sabe a diferença? Talvez fosse bom eu me apaixonar por Don, nem que fosse para aprender a lição que   você diz que me faz falta. Fora isso, quem sabe se eu não sou exatamente o que ele necessita?

— Não duvido nada. Alguns homens adoram ensinar a uma moça inocente os fatos da vida. —A boca estava cerrada como uma linha reta, — Felizmente ele não terá essa oportunidade. Se for necessário, trocarei algumas palavrinhas com ele.

O rosto dela pegou fogo.

— Você não tem o direito de fazer isso! Esse assunto não diz respeito aos regulamentos da Estação. Além do mais, por que você acha que Don ouviria seus conselhos?

— Se não ouvir, vai sair daqui muito antes do que esperava! — Examinou-a com olhar inflexível. — A escolha é sua. O que você prefere: desencorajá-lo de uma vez ou deixar isso por minha conta?

A situação tinha tomado proporções absurdas, mas aquele não era o momento oportuno de discutir esse assunto. Steve era per­feitamente capaz de fazer o que dizia. Se isso acontecesse, Don pensaria certamente que ela fora se aconselhar com Steve. Com as mãos caídas ao lado do corpo, úmidas e contraídas, ela respondeu finalmente:

— Isso não é uma escolha, é um ultimato.

— Como você quiser.

— Não. — Engoliu em seco. — Não fale nada com Don. Eu não vou mais sair sozinha com ele. Posso voltar para casa?

— Vamos descer juntos — disse com frieza.

Njorogi estava servindo a mesa do café na varanda quando en­traram em casa. Cumprimentou alegremente os dois e continuou a pôr a mesa da forma metódica que lhe era habitual: passava um pano limpo em cada xícara antes de colocá-la de boca para baixo em cima do pires. Steve saiu pela porta dos fundos, e Sara sentou-se exausta em uma cadeira. Pela primeira vez desejou desesperada-mente ter acompanhado o pai na viagem à Inglaterra, se soubesse que teria a presença daquele homem na Estação.

 

ofim de semana foi tranquilo. Após dois dias de pulos no jipe rodando para cima e para baixo, os convidados pareciam contentes com a perspectiva de passar algu­mas horas descansando em casa e na varanda. Com exceção de uma saída breve no domingo de manhã, Steve também permaneceu na Estação, o que levou Sara a pensar que decidira vigiar pessoal­mente o comportamento dela e de Don, como se não confiasse em sua palavra. Sob a vigilância permanente dele. Sara sentiu-se sem jeito na presença de Don, e percebeu que este parecia intrigado com a mudança súbita de sua atitude. No fundo, iria respirar ali­viada no dia em que Diane e Don fossem embora.

No domingo à tarde desabou uma tempestade pouco antes do jantar. O forte temporal, acompanhado de relâmpagos e de trovoa­das, afastou-se lentamente em direção ao norte. A temperatura caiu tanto depois da chuva que não foi possível tomar o café na varanda. Todos reuniram-se, por isso, na sala de estar.

Sentada em um dos tapetes, com a cabeça apoiada no espaldar   da cadeira de Ted, Sara observou, sem querer, que Diane e Steve   estavam bem juntos um do outro e que ele descansou os dedos morenos com intimidade no seu braço quando ela se inclinou para pôr a xícara em cima da mesa. Tudo que Diane fazia era calculado, pensou Sara, mas imediatamente censurou-se por um tipo de co­mentário maldoso que não lhe era natural. A presença de Diane sempre fora agradável.

Jill estava irrequieta dentro de casa, andava de janela em janela e, vez por outra, folheava distraidamente as pilhas de revistas ve­lhas. Finalmente, como se não suportasse por mais tempo a inati-vidade, levantou-se e pós um disco na vitrola antiga, deu corda na manivela e ficou ouvindo a música desafinada durante um instante, até que se voltou para Don com um sorriso repentino,

— Dance comigo — pediu. — Vou enlouquecer se continuar sen­tada mais tempo nesta sala.

Don sorriu-lhe e levantou-se. Os dois dançaram lentamente em torno do espaço aberto no meio da sala, um homem alto e indolente abraçando uma jovem bonita e cheia de vitalidade. Agiam com tanta naturalidade que davam a impressão de terem dançado jun­tos muitas vezes antes. Como é possível, pensou Sara, se Jill só conhecia Don havia três semanas no máximo? Lembrou-se da pri­meira noite em que os três chegaram a Kambala, Don acompanha­ra-a ao cercado e fizera alguns comentários a respeito das reações prováveis de Jill durante a estada na Estação. Não dera importân­cia ao caso no momento, mas agora lhe parecia que Don conhecia muito melhor a moça do que dera a entender. Ao olhar para Steve, notou que observava o par com os olhos ligeiramente pensativos. Evidentemente não ocorrera a Steve que a irmã podia estar em perigo de se envolver com o belo homem, talvez porque atribuísse mais juízo a ela. Como reagiria diante dessa situação nova? Teria uma conversa com Jill nos mesmos termos da que tivera com ela na manhã anterior? Era pouco provável. O amor que sentia por Jill, em vez da simples responsabilidade, como era seu caso, levaria Steve a adotar uma atitude mais compreensiva e carinhosa.

No momento em que a música terminou, Jill afastou-se dos bra­ços de Don e colocou outro disco na vitrola. Don aproximou-se ime­diatamente do local onde Sara estava sentada e ergueu-a do chão, sem levar em conta seus protestos de que não sabia dançar direito.

— Basta acompanhar meus passos — insistiu.

Na realidade, Sara sabia dançar perfeitamente, embora se sen­tisse sem jeito sob os olhares atentos dos outros, diante do sorriso fixo de Jill, que estava em pé ao lado da vitrola, e da total falta de expressão de Steve. Ficou contente quando o disco enguiçou no meio da música, o que lhe serviu de desculpa para voltar ao seu lugar.

— Não foi nada mal para quem está começando — comentou Diane. — Com um pouquinho de prática você dançará tão bem como qualquer outro. É uma pena que esteja tão longe das distra-ções aqui. Você precisa passar algum tempo conosco na fazenda e nós vamos lhe mostrar como as outras pessoas vivem. — Fez uma pausa como se lhe ocorresse uma idéia no momento. — Escuta, por que você não vem conosco na terça-feira? Seu pai só vai voltar daqui a três semanas...

— Você estará em Nairóbi para recebê-lo no aeroporto e poderia passar um tempo agradável até lá. Tenho certeza de que Jill gos­taria de ter uma companhia da mesma idade por uma ou duas semanas, até Steve voltar novamente de férias.

Houve um breve silêncio na sala. Jill estava vermelha, e Steve levantou-se de repente, com o olhar fixo no rosto da irmã.

— Jill? — perguntou surpreso.

Diane olhou para um e para outro e sua expressão se alterou.

— Você não tinha contado nada ainda?

— Contado o quê? — A voz de Steve era calma mas tensa. — Pensei que você fosse passar uma ou duas semanas aqui, Jill.

— Eu ia... — Hesitou, depois balançou os ombros com um sorriso sem graça. — Mas não sabia que seria... tão cansativo assim. Sara está acostumada a levar essa vida, mas eu... olhe, vou ficar louca se passar os dias e as noites fazendo as mesmas coisas. Desculpe-me, Steve, realmente não aguento. Você sabe que nada me dá tanto prazer quanto estar na sua companhia.

— Contanto que não interfira com seu prazer pessoal — disse com secura. — Bem, é compreensível. Devia ter pensado nisso an­tes. — Olhou para Sara. — O que você decide?

Ela não sabia o que responder, nem muito menos o que desejava dizer. Steve podia fazer algumas reservas sobre a intimidade dela com Don em Kambala, mas era evidente que temia mais ainda os contatos da irmã com Don longe dos seus olhos. Se Don costumava criar conflitos entre as pessoas, como parecia estar fazendo essa noite, sua presença na fazenda não iria agradar certamente a Jill. Mas se não fosse para lá, por outro lado, havia maiores possibili­dades de Don tirar partido da atração que exercia sobre Jill. Sara julgara no início que Jill era mais sofisticada e experiente que ela. Agora, ao vê-la rogar a atenção de Don, não estava tão certa assim. Quanto a Don, sua opinião passara por uma reviravolta completa após a maneira deliberada como deixara Jill de lado. Steve talvez tivesse razão. Don gostava realmente de ferir os outros.

Todos na sala pareciam aguardar com ansiedade sua resposta. — Acho que não tenho roupas para usar na cidade — disse lentamente. — Você pode comprá-las quando chegar lá — observou Ted. Era a primeira vez que falava nos últimos vinte minutos. — Você nunca movimentou a conta que Dave abriu em seu nome em Nairóbi. Fora isso, você podia aproveitar e fazer uma visita a Kimani. Ele ainda vai ficar alguns dias no hospital com a perna engessada...

Os motivos pareceram suficientes. Sara olhou para Diane e dei­xou transparecer que estava contente com o convite.

— Você foi muito gentil em me convidar. Muito obrigada.

— Então está combinado. — Havia uma nota de satisfação na voz de Diane. — Eu vou lhe mostrar as melhores lojas para fazer compras. Não que haja necessidade de comprar muita coisa além de algumas roupas que poderão servir também aqui. — Os olhos dela encontraram os de Steve, e sorriu com um ar de intimidade. — E daqui a três semanas estaremos esperando por você na cidade.

— Irei sem falta. — Levantou-se bruscamente. — Alguém acom­panha em um drinque?

Na segunda-feira à noite, Sara aceitou finalmente a viagem co­mo algo inadiável e definitivo. Não desejava partir e não adiantava fingir que queria, mas agora era tarde demais para voltar atrás.

Desde domingo, lutara silenciosamente com a suspeita de que iria sentir mais falta de Steve do que da própria reserva em Kam­bala — lutara e perdera. O convívio dos dois fora breve, tempes­tuoso e, muitas vezes, irritante, mas a vida inteira dela tinha mu­dado no dia em que Steve chegou. Não adiantava querer se consolar imaginando que ele sentia alguma atração por ela. Steve continua­va julgando-a uma criança mimada e não sentiria certamente a falta de sua companhia. Diane era o tipo de mulher que ele dese­java, Diane era o tipo de mulher que todo homem desejava.

Continuava acordada às três da madrugada quando ouviu a por­ta do quarto de Steve abrir e fechar de mansinho. Sem pensar duas vezes, levantou em silêncio da cama e abriu a porta do quarto, permaneceu um momento ali, com o ouvido atento. Escutou um ruído de copos vindo da sala, embora não visse nenhuma luz acesa. Lembrando-se da noite em que Steve saíra de casa à procura dos caçadores clandestinos, Sara caminhou na ponta dos pés pelo cor­redor e abriu com todo o cuidado a porta da sala, sem saber exa-tamente o que fazia. Como não avistasse ninguém nas proximida­des do armário das bebidas, empurrou um pouquinho mais a porta e quase caiu no chão ao ouvi-lo perguntar:

— Foi a curiosidade que a trouxe aqui... ou você é sonâmbula?

Steve estava sentado em frente à porta, como se soubesse que ela iria segui-lo e aguardasse deliberadamente sua aparição. Ainda bem que a sala estava escura, pensou Sara. Se não podia enxergar perfeitamente o rosto dele, era natural que Steve também não visse o seu com nitidez. Esse fato lhe deu confiança.

— Ouvi um barulho — disse. — Não sabia que era você.

— Quem você gostaria que fosse?

Ela levou um instante para responder à pergunta.

— Ted costuma andar às vezes no meio da noite.

— Ah, é? Pelo visto, todos sofrem de insônia nesta casa. — Fez uma pausa e acrescentou em um tom ligeiramente diferente: — Seria bom você vestir algum agasalho se pretende andar à noite pela casa dos outros. — Referia-se naturalmente à fazenda de Dia-ne, pensou Sara. — Se não você vai acabar pegando um resfriado...

— Não estou com frio — disse. — E não tenho manta. De qual­quer maneira, eu...

— De qualquer maneira, o quê? — insistiu.

— Nada. — Fez menção de sair pela porta do corredor. — Des­culpe-me por tê-lo incomodado.

— Você não fez outra coisa desde que cheguei aqui — comentou com secura. — Está animada com a viagem de amanhã?

— Acho que sim. — Estava indecisa, sem saber o que pensar da reação de Steve. — Pelo menos não vou incomodá-lo mais.

— Pois é.— O tom era enigmático. — Vai ser um alívio. No momento em que nos encontrarmos de novo, você não sentirá mais tanta antipatia por mim.

Sentiu um nó na garganta.

— Não sinto antipatia por você — conseguiu dizer. — É a impressão que você me dá, às vezes.

— Só quando você me provoca.

— Ah, é? — Examinou-a um instante em silêncio e depois acres­centou com um sorriso súbito e inesperado:

— Talvez você tenha razão. Há alguma coisa em você que pro­voca reações nos homens. Antes de mais nada, você é independente demais. Você só teria a ganhar se fosse mais submissa...

Era fascinante conversar com Steve nesse tom. As respostas ocorriam com vivacidade em sua boca.

— Submissa a você? Talvez seja um pouco tarde demais.

— Nunca é tarde demais. — A voz dele mudou de novo sutilmente. — Sara, gostaria que você me prometesse uma coisa.

— O quê?

— Que não vai deixar que Don se intrometa entre Jill e você. Até sábado à noite vocês duas estavam se dando maravilhosamente bem. De lá para cá, mal trocaram uma palavra uma com a outra. Ele não merece isso.

— Você disse a mesma coisa a Jill?

— Não adiantaria dizer nada a Jill no momento. Ela está gos­tando dele e não ouviria nenhum comentário desfavorável.

— Há dois dias você disse a mesma coisa de mim — lembrou Sara — e, nem por isso, deixou de me falar umas boas...

— Você é diferente. Você não reage a um tratamento delicado. No fundo, eu penso que você viu quem Don era desde o início e, em vez de ouvir a voz do instinto, ficou encantada com a atenção que ele lhe dirigiu. — Inclinou-se para a frente na cadeira e apoiou os cotovelos nos joelhos, enquanto segurava o copo nas mãos. — Queria que você me ajudasse, Sara.

Ela permaneceu em silêncio por um longo momento.

— Pelo que entendi — disse finalmente —, você gostaria que eu convencesse sua irmã de que Don não serve. Para isso, deveria mantê-lo a distância...

— Mais ou menos isso.

— Por que você não diz diretamente a ele para afastar-se de Jill? Ou, melhor ainda, por que você não a manda de volta para Mombasa, onde Don não poderá se aproximar dela?

Balançou ligeiramente os ombros.

— Porque nenhuma das duas adiantaria. Eu quero que Jill re­solva o caso sozinha, e a maneira mais rápida de fazer isso é dar a ela uma visão clara de Don.

— Digamos que ele esteja realmente apaixonado por ela, e ela por ele? Ainda assim você seria contra?

Levantou a cabeça.

— Por ela, sim, seria contra. Primeiro porque as idades não combinam...

— Não vejo por que isso haveria de contar.

— Mas conta — respondeu com rispidez, — De qualquer forma, isso não vem ao caso. Não tire o corpo fora, Sara. Você viu perfei­tamente bem quem é Don no sábado à noite, e poderia abrir os olhos de Jill se estivesse realmente disposta. Tudo depende de você querer ou não.

— Posso tentar — disse finalmente. — Mas não ponha a culpa   em mim se não for bem-sucedida. Jill se parece muito com você para aceitar de bom grado minha interferência.

— Você não resiste a uma ferroada de leve, não é mesmo? — disse Steve com ironia. — Você é uma ingrata em não reconhecer a liberdade que lhe dei nas últimas semanas...

A irritação habitual passou por cima de todas as outras emoções.

— Se eu tenho idade suficiente para tratar desse assunto, eu tenho idade também para ser considerada adulta, por isso vamos parar com essa atitude paternalista, está bom? Estou farta disso!

Fez meia-volta em direção à porta, esbarrou com a canela em   um banquinho e deu um grito abafado de dor.

Steve estava de pé, ao lado dela, antes que Sara pudesse sair, levantou-a nos braços e sentou-a na cadeira onde estivera até en­tão. Ajoelhou-se em seguida na sua frente e esfregou o local dolorido com a palma da mão por cima do pijama. Feito isso, deixou-se cair em cima dos calcanhares e olhou para ela com um sorriso no canto dos lábios.

— Você é um verdadeiro foguete, Sara Macdonald! Devia andar com um aviso no peito: explosivo, mantenha distância! E a dor, passou?

Vendo-o na sua frente, naquela posição, Sara experimentou uma sensação que era ao mesmo tempo de dor e de prazer. Controlou-se ao máximo para não estender a mão e tocar com a ponta dos dedos aquela boca forte e sensual.

— Acho melhor voltar para a cama — disse com a voz rouca. — Eu... Temos um longo dia pela frente.

— Boa idéia — disse Steve levantando-se. — Não se esqueça do que conversamos.

— Não vou esquecer. — Estava de pé e sentiu de repente o desejo desesperado de afastar-se dele. — Boa noite, Steve.

— Sonhe com os anjos.

Havia um leve cunho de ironia na voz. Ao vê-la atravessar a porta, apanhou o copo em cima da mesa e levou-o à boca, como se já tivesse afastado da memória a lembrança dela.

 

A fazenda de Don e Diane estava situada a uns dezesseis quilómetros de Nairóbi, aos pés das co­linas Ngong. A casa, de estilo espanhol, era ampla e imponente. Acostumada ao aspecto rústico do chalé em Kambala, Sara ficou impressionada com o luxo dos objetos e com o piso soberbo de la­jotas de cerâmica. Era evidente que os dois irmãos não dependiam unicamente dos rendimentos da fazenda para viver, o que explicava as ausências e as viagens que faziam de tempos em tempos.

Sara simpatizou imediatamente com Barry Seymour, o admi­nistrador, que tomara conta da fazenda na última semana, e notou que os olhos do rapaz seguiam Jill por toda parte, embora a moça não lhe desse a menor atenção.

Nairóbi estava repleta de turistas, e as ruas principais apinha­das de carros. Orientada por Diane e Jill, Sara comprou três ves­tidos de algodão para o dia e um longo, em diversos tons de azul, com o decote redondo e mangas curtinhas, no caso de irem uma noite ao clube. Quanto ao resto, seu guarda-roupa atual era mais do que suficiente, e recusou-se terminantemente a gastar mais di­nheiro com roupas que não teriam utilidade em Kambala.

Sara visitou Kimani no hospital e encontrou-o resignado com a perspectiva de permanecer ainda uma semana ou duas internado. A fratura fora mais séria do que imaginara a princípio, e a perna estava na tração. Kimani, por sua vez, não mantinha ilusões a respeito de voltar em breve para Mara. Sara despediu-se do jovem africano e prometeu visitá-lo novamente antes de embarcar.

Foi Jill quem sugeriu irem ao cabeleireiro. O cabelo de Sara era de uma tonalidade tão rara e bonita, comentou Jill, que era uma pena não penteá-lo adequadamente quando havia a oportunidade.

Sara aceitou a sugestão, e as duas foram ao salão Schoutens, de onde ela saiu uma hora depois com um penteado liso e rente à cabeça, que alterou sutilmente os traços do rosto, despertando in­clusive a admiração de Don quando a avistou de volta em casa.

— Você está linda com esse penteado! — comentou. — Agora vamos preparar uma festa...

— Por que vocês não vão ao clube? — sugeriu Diane. — Jill já esteve lá antes, mas tenho certeza de que Sara vai gostar muito de conhecer os frequentadores. — O tom de sua voz era levemente desalentador. — Don pode acompanhá-las. Eu tenho um compro­misso para este fim de semana.

— E Barry? — perguntou Sara. — Faríamos dois pares...

— Barry? — Diane pareceu surpresa. O olhar que dirigiu ao irmão tinha um elemento de ironia velada. — Bem, vocês é que sabem...

— Por mim está ótimo — disse Don, — Vou conversar com ele   hoje à tarde, a menos que Jill prefira convidá-lo pessoalmente...

— Não acho que seja o caso. — A voz dela tinha um tremor quase imperceptível. — Vou deitar um pouco antes do almoço. Es­tava um forno no carro.

Houve um breve silêncio depois que Jill saiu da sala. Diane foi a primeira a se manifestar.

— Eu tenho que fazer algumas coisas — murmurou, saindo da sala e deixando Sara e Don a sós.

— Por que convidar Barry? — perguntou Don sem preâmbulos. Sara encarou-o nos olhos.

— Por que não? Ele me pareceu muito simpático.

— É em Jill que Barry está interessado.

— Eu sei disso. Foi por isso que sugeri convidá-lo. O sorriso dele foi inesperado.

— Que bela casamenteira você está se revelando! Mas quem lhe disse que isso vai modificar o sentimento que Jill nutre por mim?

— Pelo menos ela poderá avaliar a diferença que existe entre os dois — retrucou Sara prontamente. — Barry, pelo visto, não tem a intenção de brincar com ela,

— E eu tenho? — Fitou-a com interesse. — Aparentemente, você andou pesquisando o assunto. Que conclusões tirou?

— Somente as que você já sabe. Você encorajou o amor de Jill a fim de satisfazer seu próprio ego. No momento em que ela começou a dar demonstrações muito evidentes, você virou as costas, entediado. Essa versão é sua ou dela?

— Minha, naturalmente. Jill nunca conversou comigo sobre vo­cê... a não ser na primeira tarde em que nos conhecemos, quando me disse que você tinha sido casado.

— Bem, vamos esclarecer a situação de uma vez por todas. Jill é uma moça encantadora, e eu senti muito prazer em sair com ela durante as semanas que passou aqui. Mas eu nunca lhe dei motivos para pensar que nutria sentimentos sérios a seu respeito.

— Mas você a beijou, provavelmente.

— Claro. Ela esperava por isso. Inclusive pediu... como outra pessoa que não quero mencionar.

Sara enrubesceu.

— Foi diferente.

— Eu sei. — Os olhos azul-claros fitaram-na com argúcia. — Você me usou para despertar o ciúme em Steve. Pensa que não percebi? Não sei exatamente até que ponto as coisas chegaram entre vocês dois, mas eu notei desde o início o que você sentia por ele. Da mesma forma que você me usou, eu a usei. Sabia que Jill ficaria enciumada se lhe desse atenção. O problema é que passei a me interessar demais por você. Na verdade, Sara, você é um caso muito especial.

Sara estava absolutamente perplexa, sem saber se acreditava ou não nas palavras dele. Entretanto, tudo que disse soava verda­deiro. De fato, só passou a ter suspeitas sobre Don depois de ouvir os comentários malévolos de Steve.

— E agora, como ficamos? — perguntou após uma longa pausa.

— Depende tudo de você. Para mim seria simples continuar a trilhar o mesmo caminho.

Olhou com indecisão para Don.

— Em outras palavras, fingir interesse pelas duas e passar Jill para trás?

— Só que no meu caso não seria um puro fingimento. Mas você não precisa se preocupar — acrescentou com um sorriso. — Não vou me aproveitar disso.

Ironicamente, pensou Sara, a solução evidente era no sentido oposto ao pedido que Steve lhe fizera.

— Eu não quero perder a amizade de Jill — disse lentamente.

— Não creio que isso vá acontecer. Jill é basicamente uma moça encantadora. Ela não irá culpá-la pela atração que sinto por você. Talvez sinta-se magoada, mas logo esquecerá. Ela estava pronta a se apaixonar por alguém quando veio passar uns tempos aqui, e por um simples acaso ela escolheu a mim. Como podia ter sido Barry, ou qualquer outro homem que conhecesse na mesma época. A proximidade muitas vezes influencia as emoções. Sara olhou fixamente para Don.

— O que você quer dizer exatamente com isso?

— Que seus sentimentos por Steve são semelhantes aos de Jill por mim, com a diferença que eu não sei exatamente como ele reagiu a essa situação. Mas agora que está longe dele, você tem a possibilidade de esquecê-lo mais rapidamente, sobretudo depois de ter constatado o que existe entre ele e Diane.

Um frio desceu sobre as emoções de Sara. Don acreditaria, pro­vavelmente, se negasse que havia alguma coisa entre Steve e ela, mas isso não fazia nenhuma diferença na situação atual. Talvez ele estivesse com a razão ao afirmar que a distância criava um certo desencanto entre as pessoas.

— Bem — disse por fim. — Ainda acho que você deu mais es­perança a Jill do que está disposto a admitir, mas isso não tem importância no momento. Você pretende contar tudo isso a Diane?

— Para quê? Ela não se interessa pelos outros. Essa conversa vai ficar entre nós dois. É melhor assim.

A semana seguinte foi repleta de festas e reuniões. Como não estava habituada com esse tipo de atividade, Sara sentia-se por momentos completamente tonta diante da quantidade incrível de pessoas, lugares e programas que surgiam à sua frente, embora apreciasse ao mesmo tempo essa agitação porque a distraía de ou­tros pensamentos. Foi com alívio que viu Jill aproximar-se cada vez mais de Barry ao perceber que Don não lhe dava atenção. Jill procurava ocultar sua mágoa atrás de uma alegria aparente que só se dissipava nas raras ocasiões em que julgava que ninguém a observava. Sara simpatizava com essa atitude. Ela também se in­teressara por um homem que parecia ser o supra-sumo de tudo que era maravilhoso, e o conhecimento de que os ídolos têm os pés de barro não é uma realidade fácil de aceitar.

No que lhe dizia respeito, Don comportava-se com uma correção que a surpreendia e intrigava ao mesmo tempo. Para o homem que professava um interesse que crescera a despeito de suas inclinações,

a atitude dele parecia bastante inusitada, mais fraternal do que apaixonada, por assim dizer. Iam juntos a toda parte, às vezes com Jill e Barry, outras vezes sozinhos, e até o momento Don não ten­tara nem mesmo beijá-la.

Não que desejasse ser amada por ele, pensou Sara no segundo sábado à noite, quando se preparava para ir ao clube. Era simples­mente porque queria ter a certeza de que Don ainda a julgava atraente, bem como uma companhia agradável. Fora por esse mo­tivo especialmente que comprara outro vestido de noite. Estava realmente muito bonita com os ombros descobertos e os quadris estreitos embaixo da saia macia e brilhante de crepe marrom-es-curo, que acentuava-lhe a cor da pele. Se Steve pudesse vê-la na­quele momento, não diria mais que era uma garota, pensou Sara, atirando água na súbita chama da saudade, antes que pegasse fogo realmente.

Diane recusou novamente o convite para ir ao clube naquele fim de semana, se bem que se ofereceu para levar os quatro até lá no carro de Don. Sara já conhecia a maior parte dos frequentadores e sentia-se perfeitamente à vontade ao dirigir-se para o bar na companhia de Don, enquanto Jill e Barry vinham alguns passos atrás. O fato de o vestido novo chamar a atenção dos homens e mulheres deu a ela uma confiança inteiramente nova. No instante em que Don a levou à pista de dança, parecia que estava pisando no ar.

— Está gostando? — murmurou ele. Os olhos dele estavam brilhantes.

— Muito! Todos são tão simpáticos.

— Inclusive eu?

Olhou para Don por baixo dos cílios compridos.

— Claro que sim!

— Então está na hora de mudar minha imagem. Quando uma moça bonita diz que um homem é simpático nas barbas dele, é a morte do ego!

— E sou eu essa moça bonita?

— Agora sim. Antes você era apenas interessante.

— Antes do quê?

— Antes de você realizar seu potencial — disse com deliberação. — Você mudou muito nestas últimas semanas, Sara. Seria presun­ção da minha parle achar que contribuí um pouco para isso?

Deu um sorriso provocante.

— Absolutamente sim. Se não fosse você e Diane, ainda estaria em Kambala agora. Vocês dois foram muito gentis.

— Simpático e agora gentil — murmurou com uma decepção fingida. — Precisamos sacudir suas ideias, jovem!

— Ah, sim? — Fitou-o com os olhos brilhantes. — Quando?

— Agora mesmo. Vamos ao terraço.

Sara foi sem protestar, carregada na crista da onda que não desejava evitar. Estava frio lá fora, e ela sentiu um arrepio invo­luntário quando pararam um momento, olhando para as luzes da cidade que se estendiam no horizonte. Don puxou-a para perto de si e girou-a nos braços com um sorriso dirigido para seu rosto. Ela recebeu o beijo com franqueza e desejo, passando os braços em volta do pescoço dele e sentindo a pressão do abraço contra seu corpo.

— Deu certo — murmurou ao soltá-la. — Tive que me controlar para não fazer isso antes, mas meu palpite estava certo. Você só deseja as coisas quando tem que lutar para obtê-las, Sara Macdo-nald. Foi por isso que você pós esse vestido esta noite, não? Para ser admirada e desejada por mim.

— Foi — confessou.

Ela estava consciente de um vago sentimento de frustração que não sabia explicar. Desejara que Don a beijasse, apreciara o beijo enquanto durou e, no entanto, parecia que alguma coisa faltava agora que tinha terminado. Sentia-se muito calma e tranquila a respeito de tudo, mas não queria ter esse sentimento. Desejava estar apaixonada por Don da mesma forma que acreditara estar apaixonada por Steve, com violência, excitação, inclusive sofrimen­to. Mas o que sabia no fundo a respeito do amor? Talvez fosse dessa forma que o amor verdadeiro surgisse: gostar de alguém, apreciar sua companhia bem como seus carinhos, até que pouco a pouco o sentimento se transformasse em uma emoção apaixonada. O que sentira por Steve não passara de um ardor juvenil, como provava o fato de havê-lo esquecido tão rapidamente. Steve não fizera outra coisa senão despertá-la para a compreensão de necessidades dife­rentes daquelas que experimentava em Kambala, iniciando dessa maneira seu amadurecimento. Era-lhe agradecida por isso.

— Ei! — Don tocou-a de leve no queixo. — Você está muito pensativa. — Havia uma nota inusitada de incerteza na voz dele. — Está decepcionada?

— Não. — Sorriu com os olhos brilhantes. — Como alguém pode se decepcionar com você, Don? Você é o homem com quem todas as moças sonham. O homem mais bonito e ativo do mundo de que todas desejam fazer parte.

— É uma ironia isso? — Olhava para Sara com uma expressão estranha. — Ou foi por que você tem dúvidas do que sou no fim das contas?

— Talvez. — Afastou-se ligeiramente dele. — O que você deseja afinal, Don?

As mãos dele estavam quentes nos seus ombros no momento em que inclinou a cabeça e beijou-a de leve na nuca.

— Poder dizer que desejo o casamento, mas não seria inteira­mente verdadeiro. Ainda não. Não estou certo de poder confiar de novo, a esse ponto, em alguém. Não seria possível dizer apenas que você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos e deixar o resto vir depois? Ou seria muito egoísmo da minha parte desejar guardá-la nestes termos?

— Não, não seria — respondeu Sara com suavidade. — Acho que é muito honesto de sua parte e bom para nós dois.

— Então é assim que será.

— Meu pai vai estar de volta na próxima semana — lembrou Sara. — Isso quer dizer que voltaremos os dois para Kambala. Conversaremos a esse respeito quando for o momento. Muita coisa pode acontecer em uma semana. — O sorriso dele era levemente irónico.

— Afinal, você se esqueceu de Steve em menos tempo.

— Verdade. — Fez uma pausa. — Don, nunca houve nada entre Steve e eu. Foi tudo unilateral.

— Como não? — Observou-a com atenção. — Ele nunca a beijou?

— Bem... sim, beijou. Mas...

— Então certamente não foi unilateral. Não estou criticando-o, veja bem. Aliás, eu também julguei a tentação irresistível. — Passou o braço pelos ombros dela e voltou-a em direção à porta. — Você está começando a sentir frio, sem falar que vamos despertar algu­mas suspeitas por termos vindo aqui sozinhos. Não se esqueça de que você está na companhia de um homem de princípios duvidosos...

— Eles não sabem quem você é na realidade — disse Sara. — Fora isso não me preocupo a mínima com o que os outros possam pensar.

— Mas devia. As mulheres em geral se preocupam.

— Não entendo por quê. As pessoas pensam o que estão com vontade de pensar, independentemente do que você faça ou não.

— Deu uma risada e passou o braço no dele no momento em que abriam a porta do salão.

— Estou sendo circunspecta demais?

O grupo que estava a alguns passos dali voltou-se ao mesmo tempo na direção deles. A risada de Sara morreu subitamente nos lábios no momento em que avistou o homem alto, de smoking, que tinha a boca apertada como uma linha reta. Dor, contraiu o corpo no primeiro instante, depois relaxou-o e exclamou com a voz alegre: — Que surpresa, Steve! Não esperávamos por você antes da semana que vem...

— Eu sei. — A resposta foi fria. — Bruce Madden decidiu subs­tituir-me. Achou que o ar das montanhas lhe faria bem depois de   sua convalescença.

— Quando você chegou?

— Há uma hora mais ou menos — respondeu Diane, com um vestido lindo, verde-esmeralda. Estava com a mão no braço de Ste­ve, possessivamente. — Decidimos vir até aqui à procura de vocês. Afinal, é a primeira vez em semanas que Steve tem a oportunidade de distrair-se um pouco.

— Para alguém que hoje à tarde chamou o clube de velório, não deixa de ser uma mudança rápida — comentou o irmão com mor­dacidade, recebendo de volta um sorriso perfeitamente sereno.

— São as pessoas que fazem o lugar, querido, como você bem sabe. Estávamos inquietos a respeito do fim que você e Sara tinham levado.

— Fomos respirar o ar da noite — disse Sara.

— Sem uma manta? — Os olhos de Steve percorreram os ombros   nus, voltaram para o rosto e se fixaram ali inexoravelmente. — Você vai acabar se resfriando, saindo lá fora desse jeito. Você devia ter mais juízo, Don.

— Eu sei. Percebi isso um momento atrás. — Don voltou-se para Sara. — Que tal tomar alguma coisa para esquentar o corpo?

— Eu... — Hesitou um segundo, mas ao avistar de novo o olhar de Steve levantou o queixo. — Boa idéia! Por que nós todos não vamos beber alguma coisa para festejar a volta de Steve ao mundo civilizado?

Os seis reunidos ocuparam um bom espaço no balcão do bar. Sara provou o suco de laranja com gim que pedira e julgou que a mistura era muito forte para seu gosto. Não disse nada, porém, ao perceber que Steve continuava observando-a atentamente. Quando ele a convidou para dançar, ficou na dúvida se devia sentir-se ale­gre ou preocupada, porque sabia perfeitamente o que iria ouvir no momento em que estivessem a sós.

Steve e Don eram da mesma altura, pensou Sara, quando foram para a pista de dança; com os dois os olhos dela ficavam exatamente no nível do segundo botão da camisa. Mas terminava ali a seme­lhança. Enquanto Don estreitava-a nos braços, a ponto de sentir a respiração dele nos seus cabelos, Steve mantinha alguns centíme­tros de espaço entre os dois, e as mãos dele passavam em suas costas. Dançava com a boca apertada, os olhos cinza duros como granito. .

— Você está se saindo melhor do que eu esperava! Em uma semana passou de pintinho a cisne...

— Dez dias, exatamente — corrigiu ela, sentindo os dedos de Steve apertarem dolorosamente as suas costas.

— Não tente a providência. Diante do que sinto no momento, poderia fazer algo drástico com você!

Segura na pista de dança. Sara esboçou um sorriso bem inocente.

— Eu gostaria?

Ele deu um suspiro fundo.

— Não se faça de ingênua. Você pode ter aprendido muita coisa durante o tempo que passou na fazenda, mas não é esse vestido decotado que vai me impedir de lhe dar uma surra.

— Seria um espetáculo novo no salão... O que você acha do meu vestido? Bem melhor do que as calças compridas, não?

A música terminou. Steve segurou-a com firmeza pelos ombros, atravessou o salão cheio de gente e caminhou em direção à mesma porta por onde ela tinha entrado alguns momentos antes com Don. O terraço continuava vazio. Após fechar a porta atrás de si, Steve encarou-a com o rosto sério.

— Tente ser engraçada agora.

Ao se lembrar da última vez em que ele a tinha encurralado daquele mesmo jeito, Sara pensou que nunca tinha sentido menos vontade de ser engraçada na vida. Entretanto, não tinha medo dele, a menos que o medo assumisse formas diferentes. Não estava absolutamente certa, porém, das emoções que experimentava na-quele momento. Tudo que sabia era que nada mudara desde a última vez que o vira. Continuava sendo a mesma garota de sempre que ele podia maltratar quando lhe desse na veneta.

— Eu continuo sem manta — comentou com um arrepio de frio. Ele tirou o casaco e passou-o em volta dos ombros dela, segurando-o pelas lapelas de modo a obrigá-la a encará-lo.

— Agora vamos ao que interessa — disse com o rosto fechado. — O que há exatamente entre você e Don?

Fitou-o nos olhos frios.

— Por que você não pergunta a ele?

— Estou perguntando a você!

— Você acreditaria se dissesse que não há nada?

— Acreditaria uma ova!

— Então não vou dizer. — A despeito de si mesma, sentia que perdia o controle. Steve era tão imprevisível... ninguém sabia o que faria em um momento de desespero. — Mas haja o que houver, isso é entre nós dois.

— Não quando Jill está envolvida. Você acha graça em mostrar a Jill a facilidade com que pode conquistar o Don?

— Não! — exclamou com ardor. — Isso não me diverte a mínima. Posso impedir que ele me prefira à sua irmã?

— Não, mas pode desencorajá-lo. Pelo visto, você está fazendo exatamente o contrário.

— Pelo visto, você pretende dizer uma porção de coisas que não   são verdadeiras! — retrucou com ardor. — Nunca lhe ocorreu que eu possa ter-me apaixonado por Don?

Houve uma longa pausa antes de Steve responder, e quando falou, finalmente, sua voz tinha uma entonação singular.

— Não, não me ocorreu. Nunca me ocorreu tampouco que você tenha idéia do que é o amor. Penso que você está atravessando a mesma fase que atravessou comigo.

Olhou fixamente para ele, primeiro com frieza, depois com ardor.  

— Com você?

— Sim, comigo. — Seu sorriso era triste. — Eu fui o primeiro homem que você conheceu na intimidade, em uma época em que você necessitava de mais coisas que as experiências habituais na reserva. Você sentiu prazer em brigar comigo, Sara. Inclusive, até certo ponto, o prazer da derrota. Eu representava o sentimento que estava faltando no relacionamento com seu pai e Ted: a excitação sexual. Não faça essa cara. É uma emoção perfeitamente natural. Mas não a confunda com o amor.

— Eu não confundo. Estava lutando agora para salvar seu or­gulho, ou o que restava dele. Você disse que eu me sinto atraída por Don porque ele é uma extensão do que eu vi em você, é isso? Bem, você sabe o que sinto, ou senti, por você, naturalmente, mas isso não quer dizer que não tenha feito progressos desde então. Se há uma vantagem que Don tem sobre você, é a integridade. Ele nunca beijou contra a vontade!

Steve torceu os lábios de maneira deliberada e cruel.

— Nem eu. Você sabia exatamente o que ia acontecer... Aliás, você preparou tudo para aquilo acontecer. Se eu quisesse, poderia ter feito qualquer outra coisa, naquele momento, com você. — Se­gurou a mão, que se levantou involuntariamente no ar, e apertou-a com força na sua. — É um fato simples da vida, filha. Não adianta a gente negar. Eu só queria que você entendesse que eu também tenho meu código de ética, a despeito de tudo o que você possa ter pensado.

Com o corpo trêmulo, soltou a mão da dele.

— O que eu entendi é que você é o homem mais insuportavel­mente arrogante que já conheci na vida — ela exclamou. — Don é três vezes melhor do que você!

— É? — Havia um brilho perigoso nos olhos cinza, uma súbita tensão nos maxilares fortes. — Se é essa sua opinião, eu não tenho nada a perder.

A boca e as mãos dele foram brutais, sem nenhuma ternura, se bem que exigindo uma resposta. Sara não fez nenhuma tentativa para se defender. Não era capaz. Tinha provocado aquilo também. Steve sabia disso tão bem quanto ela. Quando a soltou, finalmente, ela não podia encará-lo nos olhos.

— Eu o odeio — murmurou rapidamente.

Depois de um momento, ele comentou com aspereza:

— Se isso é um consolo, eu também não estou muito contente comigo, no momento. Um desses dias você vai me obrigar a feri-la realmente, Sara, e nós dois vamos nos arrepender depois. Aceite que você não vai levar a melhor comigo e pare de tentar, está bem? Eu já tive tudo o que podia receber. Se Don é o que você deseja ele é seu. — Apanhou o casaco caído no chão. — Vamos entrar.   Os outros continuavam no bar e não se mostravam surpresos com a demora dos dois, se bem que Diane dirigiu a Sara um olhar meio enigmático. Sara passou o resto da noite dançando com Don e uma vez com Barry, mas evitou até mesmo uma troca de olhares com Steve. O que não foi difícil. Desde o momento em que marcara um ponto, desinteressara-se dela. Ela fingiu que não dava nenhu-ma importância ao fato, sorriu e conversou com os outros como se não tivesse nenhum problema no mundo. Foi somente mais tarde, na intimidade do quarto, que pôde relaxar a pose e reconhecer o fato de que Steve estava certo em um ponto pelo menos. Ela não sabia o que era o amor. Somente agora estava começando a apren-der seu significado, e doía mais do que tudo o que experimentara antes.

O fim de semana passou sem novidades. Sara esperava uma carta do pai na segunda-feira, mas não havia nada no correio para ela, a não ser um bilhete de Ted.

Tudo tinha transcorrido normalmente, desde a partida deles, dizia Ted. Tanto Kiki quanto Mimi estavam com saudade dela e se mostravam meio inquietos, mas o macaquinho continuava leva­do como sempre... Steve já tinha provavelmente informado isso a ela. Steve, pensou Sara com secura, tem outros pensamentos na cabeça. Bruce Madden tinha se recuperado inteiramente da crise de malária e aproveitara a oportunidade para passar uma semana ou mais em Kambala, antes de assumir seu novo cargo ao norte das Quedas Murchison — o que era uma promoção na carreira. Quanto ao mais, Ted pedia a Sara que comunicasse a Steve que um dos guardas descobrira um novo bando de caçadores sem licen- ça, no fim de semana, e que havia a grande possibilidade de apa- nharem o chefe da organização dessa vez.

Steve demonstrou um grande interesse pelas notícias, como se o assunto fosse de extrema importância, e manifestou a esperança de que, com um pouco de sorte, um dos canais de negócios ilegais seria em breve desbaratado. Ao ouvi-lo falar, Sara indagou consigo mesma como era possível a alguém que estava tão envolvido com os assuntos do Departamento, pensar na possibilidade de abando­nar tudo isso em troca do tipo de vida que os dois irmãos levavam na fazenda. Até o momento, nada fora comentado sobre a aquisição da fazenda vizinha, mas ela continuava à venda. Steve, natural­mente, não se contentaria em deixar um administrador tomar con­ta da fazenda. Ele costumava dedicar uma atenção integral a tudo o que faria.

Don levou-a para dar um passeio de carro aquela tarde, dirigin­do-se para o oeste, pelas estradas que atravessavam as fazendas e plantações do distrito de Kikuqu. A população inteira do lugarejo parecia estar nas estradas, passaram por uma procissão intermi­nável de mulheres que carregavam trouxas pesadas nas costas com a facilidade e a tranquilidade de um antigo hábito, por velhos que levavam animais domésticos em uma corda, por crianças, bois, ca­britos. Era aquela mesma estrada que dava mais adiante em Kam­bala, a uns trezentos quilómetros para o interior, caminho que Sara não percorria havia uns três anos, quando o pai decidira ir para a Estação de jipe, a fim de mostrar a ela os diversos aspectos do sertão africano. Talvez pudessem tomar novamente essa estrada na semana seguinte, pensou Sara, sentindo uma grande saudade daquele tempo que ficara para trás. Seria gostoso experimentar novamente a excitação e o entusiasmo dos dezesseis anos de idade.

— Por que você escolheu esse trahalho na fazenda, Don? — perguntou, durante uma pausa que fizeram para deixar passar um rebanho de cabras.

— Eu não escolhi — explicou Don. — Era uma cláusula do tes­tamento do meu pai. Devíamos continuar a trabalhar na fazenda e morar na casa pelo menos durante nove meses do ano. Um dos dois, ou eu ou Diane.

— Então não faria diferença se Diane fosse morar em outro lugar quando você se casou?

— Não. — Lançou um olhar para ela. — Você se importa com o fato de eu ter sido casado?

— Absolutamente não. Apenas me pergunto, às vezes, como era sua mulher.

— Morena... pequena, cabelos escuros e cheios de vitalidade. Tinha vinte anos, quando nos conhecemos, e não passamos mais que um ano juntos.

— Imagino que devia adorar os programas bem movimentados, com essa idade...

— Ela era animadíssima e muito sociável. O único problema é que morria de ciúme de Diane e não suportava que ela atraísse a atenção dos convidados, nas reuniões que dávamos. O homem com quem ela foi viver, mais tarde, era um dos admiradores de Diane. Às vezes eu me pergunto se agiu assim porque gostava realmente dele, ou apenas para provar a si mesma que podia tirar um homem de Diane.

— Ela se casou com ele?

— Penso que sim. Nunca me dei ao trabalho de saber. Quando o divórcio foi concedido, ela estava morando em Kampala. — Don engrenou o carro e seguiu em frente pela estrada livre   Depois acrescentou: — E sejam quais forem as idéias que possam passar por sua cabeça, continuo negando que encorajei ou incentivei o interesse de Jill por mim. Talvez ela tenha alguma coisa de Caro-line, mas eu já superei tudo isso há muito tempo...

— Mesmo assim, você ainda não está em condições de confiar noutra pessoa — lembrou Sara com a voz terna.

— E verdade, não estou. — Depois, com uma entonação dife­rente: — Eu pensei que estivesse até o momento em que vi seu rosto, quando Steve apareceu inesperadamente, no sábado à noite. Eu tinha me enganado de novo. Você está apaixonada por ele.

— Juro que não estou! — disse ela com ardor.

— Você pode ser honesta comigo. Eu não estou tão envolvido a ponto de sofrer cruelmente.

Ela ficou em silêncio durante um longo momento, cora um nó na garganta.

— Está bem — disse finalmente, com a voa abafada. — É ver- dade. Não percebi isso até vê-lo de novo.

— Você sabia, mas estava querendo ocultar de si mesma. — Sorriu sem graça. Se isso servir de consolo, creio que nem Diane vai ter o que deseja.

Sara estava sentada muito quieta.

— Não?

— Não. Houve uma época em que pensava que ela estivesse preparada para ceder muita coisa e ser a mulher de Steve. Mas depois de ver as reações dela em Kambala, creio que as concessões devem vir da parte dele, se isso for possível.

— Então por que ele está pensando em comprar a fazenda perto da de vocês?

— É Jill que gostaria que ele comprasse a fazenda. É ela que deseja ter o irmão estabelecido em um lugar. Pessoalmente, não acredito nessa possibilidade. Steve não é do tipo que aceita compromissos. Sara podia concordar com isso, se bem que o resto não fosse muito consolador. Quer Steve se casasse com Diane, quer não, isso faria pouca diferença com respeito à posição que ocupava na estima dele. Claro, Steve respiraria aliviado quando seu pai finalmente voltasse e assumisse a responsabilidade que ele não podia aban­donar com a consciência em paz.

— Você é uma pessoa excepcional, Don. Não entendo por que não sinto o mesmo por você. Há momentos em que odeio Steve.

— Provavelmente porque você se parece muito com ele. Se Steve tivesse o mínimo de percepção, veria que você é a companheira ideal para ele. Infelizmente, não é isso que acontece.

— Não. — Não havia mais nada a acrescentar.

Era tarde quando voltaram. Steve estava na varanda com Dia­ne, segurando um copo na mão. Observou os dois saírem do carro e subirem a escada com a fisionomia séria, lançou um olhar irônico para o vestido de verão de Sara e apontou para um envelope que estava em cima da mesa, perto de seus joelhos.

— Chegou há uma hora.

Sara foi obrigada a debruçar-se sobre ele para apanhar o tele­grama. Abriu-o rapidamente e desdobrou o papel. Quando tornou a levantar a cabeça, todos os outros a observavam com expressões diversas. Foi Steve quem dirigiu a pergunta óbvia:

— O que aconteceu?

— É do meu pai — respondeu, com a voz tranquila e sem emo­ção. Ele se casou hoje de manhã e pretende morar na Inglaterra. Pede para encontrar-me com ele lá.

No silêncio que se seguiu a essa notícia, Sara acompanhou com os olhos o vôo de uma borboleta que ia de flor em flor, em um jacarandá embaixo da varanda. Imaginou que havia borboletas na Inglaterra, especialmente em lugares do interior como Benston. Nada mudara, dissera o pai na última carta. Mas não mudara em relação a quê? Campos tratados, divididos por cercas igualmente bem cuidadas e cobertas por rebanhos de vacas jersey, limpas e sadias, um riacho correndo ativamente por baixo da ponte, em di-reção a uma cidadezinha de casas de pedras com roseiras em volta das portas. Sara vira muitas fotografias de cidades do interior da Inglaterra e sabia que eram lindas... mas bem pequenas, quase miniaturas. Como seu pai podia pensar em residir em um lugar, desses, após ter conhecido a imensidão de Mara?!

Steve apanhou o telegrama de sua mão, leu-o com atenção e olhou para ela.

— Diz que já mandou uma carta.

— É! — Sara foi até a cadeira mais próxima e sentou-se, surpreen­deu o olhar interrogativo de Don e fez um esforço para pôr ordem nos pensamentos. — Não sei se o Departamento já foi informado...

— Se ele não pretende voltar aqui, imagino que deva ter tomado providências nesse sentido — comentou Steve com secura. — Você gostaria que confirmasse?

— Talvez não. Se a demissão dele não chegou ainda ao Depar­tamento, não seria aconselhável que fossem informados por seu intermédio.

Sara não conseguia entender. O Quênia era sua casa. Como poderia deixar tudo para trás? Por outro lado, como podia perma­necer na África nessas circunstâncias? Não possuía qualificações... pelo menos nenhuma que a ajudasse a encontrar um emprego. Era obrigada a partir. Não havia alternativa.

— Imagino que vou ter de ir a Kambala para arrumar todas as nossas coisas...

— É melhor esperar e ver o que ele diz na carta — comentou Steve com a voz fria e dura. — Certamente vai lhe dar todas as instruções nesse sentido. — Levantou-se da cadeira. — Tenho de ir à cidade e vou aproveitar para ver se há alguma coisa para você no correio. Estarei de volta daqui a uma hora mais ou menos.

Diane viu-o sair com uma expressão estranha no olhar, fez um gesto com os ombros à intenção de Don e dirigiu pela primeira vez a palavra a Sara desde sua volta do passeio.

— Você vai ficar conosco, naturalmente, até tudo estar resolvido. Tem alguma idéia do que levou seu pai a agir desse modo?

— Papai mencionou a mulher com que se casou hoje em uma das cartas anteriores. Chama-se Molly. Conheceu-a muitos anos atrás, em Benston, bem antes de embarcar para a África. Mas jamais podia pensar que fosse morar na Inglaterra...

— Bem, alguns homens colocam a mulher em primeiro lugar. — Diane levantou-se, esticou os braços dormentes e olhou para o céu. — Acho que vai chover.., Espero que Barry tenha percebido isso também. Eles foram fazer um piquenique no meio do mato.

De fato, poucos minutos depois desabou um temporal. A chuva caía torrencialmente quando Steve voltou da cidade, e os ombros da camisa ficaram encharcados na corrida que deu do carro até a porta de casa. Trazia diversas cartas na mão e estendeu a que estava em cima para Sara. Felizmente, Steve e Don tiveram bom-senso e saíram da varanda, deixando-a sozinha para abrir o enve­lope e ler o conteúdo.

"Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo novamen­te", escrevera o pai. "Ou que isso significasse mais para mim do que a vida que construí nos últimos anos. Molly teria partido co­migo, se pedisse, mas estaria fazendo um outro sacrifício, e está mais do que na hora de alguém fazer um sacrifício por ela. Sempre tive lembranças agradáveis de Benston, como você sabe, e como não fica muito distante de Windsor, posso arrumar um trabalho ali, no Parque de Safári. Não é como na África, naturalmente, mas oferece também certas compensações. No momento em que você receber esta carta, estarei casado. Passarei um telegrama no dia porque nós dois queremos que você tenha sua parte de alegria. Molly está ansiosa para revê-la, depois de todos esses anos, ela sempre quis ter uma filha. Já informei o Departamento de que não vou voltar e providenciei tudo o que era necessário. Quanto à casa em Kambala, você pode separar o que deseja guardar e deixar o resto para o meu substituto. Imagino que isso não vá levar muito tempo, e espero que você esteja aqui pelo fim do mês. Talvez você prefira viajar de navio e tirar alguns dias de férias. Compre tudo o que for necessário para a viagem. Está na hora de você começar a se interessar por roupas e coisas semelhantes."

Sara estava sentada na varanda, com a carta aberta na mão, quando Steve entrou na sala. Tinha trocado de camisa e passado uma escova pelos cabelos úmidos, que brilhavam como madeira envernizada sob o raio de sol que atravessara corajosamente as nuvens altas. Acendeu um cigarro e encostou-se na parede, perto da porta da varanda.

— Então?

— Diz para tomar um navio para a Inglaterra e aproveitar bas­tante a viagem — comentou Sara em um tom uniforme. — Se hou­ver um avião amanhã cedo, para Mara, terei tempo para arrumar nossas coisas em Kambala, enquanto Bruce Madden está lá. Não queria incomodar o novo substituto... se é que vão encontrar um substituto em tão pouco tempo.

— Já encontraram. — O tom de voz era sereno. — Vou viajar para lá no fim da semana. Você pode ir comigo. Alguns dias não vão fazer muita diferença.

Sara olhou para ele, com a garganta doendo.

— Você não perde tempo, hein? Foi por isso que foi à cidade, para ter certeza de que ninguém tomara seu lugar? Você não pre­cisava ter receio. Kambala é longe demais para ter popularidade.

— Não tire conclusões precipitadas. Pediram-me apenas para ficar lá mais algum tempo. Posso prolongar ou não esse período. Tudo depende de como as coisas vão correr. A caça clandestina é séria demais naquela região e exige a presença de um coordenador.

Pelo visto, pensou Sara, a decisão final de Steve dependia de Diane. A mulher jovem, naturalmente, não aceitaria viver em um lugar tão remoto quanto Kambala, mas isso não queria dizer que recusaria uma proposta mais favorável. Nesse meio tempo, Steve voltaria para Kambala. O negócio da fazenda tinha sido definiti­vamente posto fora de cogitação. Os homens que estavam habitua­dos com os espaços abertos dificilmente se adaptavam às atividades rurais, pensou Sara. O pai era uma exceção à regra.

— Desculpe-me — disse para Steve. — Estou um pouco nervosa.

— É natural, Você acha que vai gostar da Inglaterra?

— Por que não? Meu pai está lá.

— O que demonstra uma verdadeira dedicação paterna. — Es­tendeu a mão ao vê-la abrir a boca para negar a afirmação. — Está certo, todas as pessoas têm o direito de decidir sobre o futuro delas. Estou estranhando apenas a maneira como seu pai agiu, encarre­gando-a de providenciar as coisas aqui. — Fez uma pausa, deu uma baforada e acrescentou: — Você não pensou em permanecer na África?

— Fazendo o quê? — Balançou os ombros.

— Pode arrumar um trabalho. O Departamento de Caça a aju­daria nesse sentido.

— Ficar sentada em um escritório, preenchendo formulários? — Balançou a cabeça com desânimo. — Morreria de falta de ar.

— Há outras coisas que você pode fazer.

— Não vejo o quê. De qualquer maneira.. — fez uma pausa e   olhou para as mãos apertadas em cima do colo— ...você não precisa mais sentir-se responsável por mim. Estritamente falando, sua res­ponsabilidade terminou quando vim para Nairóbi.

Não quando você está hospedada na casa de amigos meus. Minha responsabilidade só vai terminar no dia em que você tomar o navio ou o avião, ou sei lá o quê. — Afastou-se bruscamente. — Vamos viajar para Mara na sexta-feira de manhã. Antes disso vou ver se há algum navio saindo pelo fim do mês. Assim você terá uma semana para ocupar-se de suas coisas na casa. Você acha que basta?

— De sobra. — Não sabia o que dizer. — Vou fazer todo o pos­sível para não incomodá-lo.

Steve sorriu com ironia.

— Eu lhe agradeço desde já. — Ouviram o barulho de um carro no pátio, e Steve afastou-se da porta. — Deve ser Jill.

Era de fato. Ela entrou rindo às gargalhadas, encharcada até os ossos. Barry tinha ido em casa trocar de roupa. Estavam a urna boa distância do carro quando o temporal desabara, e mal conse­guiam avistá-lo no meio da chuvarada. Depois o carro não quisera pegar e foram obrigados a ficar no interior, com as roupas molha­das, até a chuva passar um pouco, quando Barry saíra para dar uma espiada no motor.

Que diferença enorme havia no comportamento de Jill, pensou Sara, olhando para seus olhos brilhantes e as faces coradas e sa­dias. Ela estava se esquecendo rapidamente de Don, se é que já não estivesse completamente esquecida do homem que julgara amar. Sara gostaria de saber se conduzir da mesma forma.

 

Partiram para Kambala na sexta-feira de manhã, —   uma hora depois do amanhecer, e tomaram a mes-ma estrada em direção a oeste, em que Sara passeara com Don alguns dias antes. Jill e Don levantaram-se cedo para despedir-se dos viajantes, mas Diane só apareceu no último instante, vestida com um quimono preto e dourado que combinava com a elegância esbelta do seu corpo.

Ficara combinado durante a semana que Diane e Jill viajariam juntas de avião para Mombasa, mas Diane não disse quanto tempo permaneceria ausente, tampouco explicou a razão exata da viagem. Sara, pessoalmente, era de opinião que Diane pretendia mostrar a Steve que não tinha a intenção de esperar a vida toda por ele, e que havia outras atrações na costa ao seu alcance. Se era essa a intenção dela, não foi muito bem-sucedida, porquanto Steve mos- trou-se inteiramente alheio ao assunto. Talvez os dois pensassem em romper o namoro, e cada um aguardava apenas que o outro tomasse a iniciativa. Para Sara, a decisão partiria de Steve. Por mais que gostasse de Diane, não permitiria que uma mulher interferisse na sua vida.

Pouco conversaram, durante a primeira parte da viagem. Sara mantivera a atenção voltada para a paisagem, consciente de ser a última vez que via Steve. Já reservara passagem no navio qual partia de Mombasa na semana seguinte. No dia anterior à viagem, voaria de Mara para o porto e passaria a noite com Jill antes de embarcar. Não tinha a menor vontade de pensar, no momento, nos sete dias que a separavam do embarque.

Como Ted recebera a notícia da demissão do Dave Macdonald? Permaneceria na reserva sob a direção de Steve? Ted morava em Kambala havia mais de dez anos, e Sara não podia conceder que fosse arrancar suas raízes dali naquela época da vida, embora sou­besse que Steve olhava com impaciência para a atitude bonachona do velho. Ted e Dave eram amigos porque se pareciam em muitos pontos, rnas Steve provavelmente não iria tolerar aquele ritmo de trabalho durante muito tempo. Não era o tipo de pessoa que se deixava influenciar pelo sentimento.

Pouco a pouco, as fazendas foram ficando para trás, surgiam em seu lugar os ranchos com cercas e, finalmente, as terras abertas além do Grande Vale do Rift, com vista para as montanhas dis­tantes. Animais selvagens começaram a aparecer: girafas, antílo­pes, bandos ocasionais de zebras pastando tranquilamente e, uma única vez, uma manada de javalis que trotavam em direção ao mato, com o rabo levantado. Pararam na estrada para comer san­duíches e frutas, e, pelas duas da tarde, estavam em Narok, a última povoação de Kambala.

Havia um pequeno grupo de nativos sentados na grama, catando caurins alegremente. Steve parou para cumprimentá-los, estendeu a mão pela janela aberta e sentiu o calor e a alegria dos massais, para quem Mara era o torrão natal. No momento em que se puseram no­vamente a caminho, Steve pareceu mais descontraído e afável.

— Agora estamos perto — comentou, quando entraram nos por­tões da reserva. — Mais duas horas e estaremos em casa. — Olhou de lado para Sara. — Cansada?

— Um pouco... Vai ser gostoso voltar de novo para casa... — In­terrompeu-se bruscamente e corrigiu o fim da frase; — Chegar lá.

— E ainda sua casa, até o momento de você deixá-la — observou Steve. — Hoje, pelo menos, não vamos pensar nisso. Espero que Maswi esteja inspirado para o jantar, senão vamos ter bolinhos de peixe com curry.

Sara riu.

— Por ele, serviria todos os dias esse prato. É mais fácil de fazer. Não creio que seja por preguiça, mas simplesmente porque a dieta deles é monótona, e Maswi não entende por que a nossa tem que ser variada. Espero que ele permaneça os próximos seis meses com você, mas tenho minhas dúvidas. Os dois estão ansiosos

para rever as famílias.

— Estão com saudade das mulheres. O que é muito natural... A estrada se estreitou e passou a correr ao longo da Escarpa

385Coração Selvagem

Mara, A partir dali as planícies estendiam-se a perder de vista um mar dourado que rolava para o sul, formando desenhos varia­dos ao vento. O sol estava declinando rapidamente quando chega-ram ao rio, a Escarpa Mara ficou para trás, negra e ameaçadora recortada sobre um fundo de nuvens que se amontoavam a leste Em seguida, atravessaram as matas, e Kambala surgiu diante de­les, o mesmo chalé familiar de sempre,

Ted deu volta à casa, no momento em que pararam em frente à escada.

— Fizeram boa viagem?

— Mais ou menos. — Steve saiu do jipe e esticou os membros doloridos, depois perguntou a Sara, — Vamos beber alguma coisa?

Ela balançou a cabeça negativamente.                              

— Prefiriria primeiro tomar um banho.

— Vou tirar suas malas. Mais tarde Ted vai me dar uma mão para levar o resto das coisas.

Foi Ted quem levou as malas para o quarto, minutos depois, colocou-as em cima da cama e afastou-se com um sorriso alegre.

— Antigamente você levava todas as suas coisas em uma sacola — comentou. — Aprendeu finalmente como as outras pessoas virem?

— Acho que sim. — O sorriso dela não tinha alegria, e percebeu que os olhos de Ted se apertavam pensativamente. Sem demora, procurou mudar de assunto. — Você já decidiu o que vai fazer, Ted?

— Depende do chefe. Nas últimas semanas nós discordamos em alguns pontos, e a gente precisa de harmonia para morar em um lugar desses. Eu posso ir para o litoral e adquirir um barco barato. Em suma, negociar um pouco pelos portos. A gente pode ganhar algum dinheiro, se souber usar a cabeça.

— Você foi sempre um homem da terra! — exclamou Sara. — Não conhece nada do mar!

— Não preciso saber muita coisa para andar junto à costa, e tenho muita experiência de comércio, embora esteja meio desatua-lizado. Vou dar um jeito.

Ted nunca gastara muito consigo mesmo, e era possível que tivesse economias suficientes para comprar um barco, pensou Sara. Mas o resto do plano foi inventado no momento para tranquilizá-la. Ela apertou os lábios com força. Ted não iria de forma alguma sair da única casa que tinha, e Steve teria de compreender isso!

Kiki apareceu na janela aberta do quarto com a saudação habi­tual de guinchos de alegria. No momento seguinte, Sara estava com as mãos e os braços tomados pelo macaquinho, que saltou como um esquilo na sua camisa. Rindo às gargalhadas, ela caiu para trás, na cama, defendendo-se do animalzinho, até que a alegria dele diminuísse um pouco e ele passasse a examinar com curiosi­dade os objetos que ela levava na bolsa a tiracolo, agora espalhados pelo chão.

Ao ver o macaquinho brincar com o estojo de batom, Sara com­preendeu pela primeira vez que Kiki era uma das coisas que per­deria, quando voltasse para a Inglaterra. Lágrimas brotaram dos seus olhos, e ela piscou rapidamente para dispersá-las. Não podia se entregar ao sentimentalismo, a viagem era inadiável, e tinha que aceitá-la. Durante os próximos dias, devia enfrentar o fato com coragem e mostrar-se resignada, porque não queria que Steve sou­besse como se sentia realmente. Ele era muito perspicaz e enten­deria logo que Kambala não era a única razão que Sara tinha para desejar desesperada mente permanecer na África. Steve percebera, naturalmente, a atração que Sara sentia por ele, mas não suspei­tava que houvesse algum envolvimento profundo. Ela pretendia manter o caso nesse pé.

Maswi estava com excelente disposição e preparou uma deliciosa torta de carne acompanhada de ervilhas e aspargos que tinham comprado em Nairóbi. Para a sobremesa havia um pudim de fruta com creme chantili. Steve abriu duas garrafas de vinho para co­memorar a volta, sugeriu conhaque com o café e fez votos imperio­sos de que os bolinhos de peixe com curry fossem banidos para sempre do menu.

— Você podia fazer uma lista de pratos e dá-la a Maswi — sugeriu Steve. — Isso tornaria a vida aqui infinitamente mais agradável.

— Não sabia que você gostava tanto de comer — comentou Sara. — Papai e Ted nunca deram a mínima importância.

— Eu não sou exigente — observou Ted, com a voz cansada. Afastou o copo e levantou-se, parecendo de repente muito velho e fatigado. — Se vocês me dão licença, vou me recolher mais cedo.

Houve uma longa pausa depois de sua saída. Sara estava com a cabeça apoiada nas costas da cadeira, olhando para as estrelas que brilhavam entre as nuvens. Os babuínos estavam com toda a corda, e seus gritos angustiados encobriam todos os outros ruídos da noite. Mas nem mesmo eles perturbavam a tranquilidade ex-cepcional que reinava ali. Naíróbi fora bastante agradável, e Sara aprendera muitas coisas úteis, mas nada se comparava a esse sen­tido de familiaridade, de totalidade. Poderia mais tarde esquecer-se de Steve, mas, aonde quer que fosse, uma parte dela permaneceria ali, em Kambala.

— Quer mais um gole de conhaque? — perguntou Steve.

Voltou do devaneio e viu-o na sua frente, com a garrafa de co­nhaque sobre o copo vazio que segurava na mão, virando-o incons­cientemente entre os dedos.

— Não, muito obrigada — disse rapidamente. — Já bebi bastante. Não sei se vou dormir, depois de tomar esse café com conhaque...

— Não são dez horas ainda... Há tempo de sobra para passar o efeito dos dois. — Observou o corpo esguio estendido na cadeira. — Imaginava que você fosse voltar aos seus antigos hábitos, agora que não há mais ninguém em volta para impressionar.

— Descobri que os hábitos são mais fáceis de mudar que as pessoas — respondeu com a voz leve. — Eu me acostumei a usar vestido à noite. Nada mais simples.

— Com você, nada é simples — comentou Steve com a voz irô­nica. — Pelo menos não atualmente. Houve uma época em que você era completamente franca, antes de aprender as maneiras civilizadas. Agora você se parece com todas as outras mulheres que conheço.

— Ainda bem!

— Não me refiro aos atributos físicos. — Percorreu-a de novo com os olhos, dessa vez com fria deliberação. — Embora não lhe falte nada nesse sentido também, como sei por experiência. — Ao vê-la corar, acrescentou: — É bom saber que você não se tornou indiferente a tudo.

— Você falou alguma coisa sobre maneiras civilizadas? — per­guntou com a voz tensa. — E você, há quanto tempo não mantém conta to com a civilização?

— Talvez você tenha razão. Não sou certamente um bom exem­plo para ninguém. — Levantou o copo com um ar de zombaria. — Paz.

Isso eles nunca teriam, pensou Sara. Não durante muito tempo, pelo menos. Pareciam ter provado isso nos últimos minutos. Toda vez que conversavam a sós, era a mesma batalha de sempre. Não

tinha certeza de quem era a culpa, se é que isso importava. Eram de temperamentos incompatíveis, e não havia nada a fazer.

— O que você vai fazer com Ted? — perguntou durante a pausa, depois mordeu o lábio superior com os dentes, irritada consigo mes­ma por ter abordado esse assunto no momento inoportuno. Não pretendia falar nisso, a frase ocorrera sem querer.

A expressão de Steve não ajudava nada.

— O que deveria fazer com ele?

Não havia outro remédio senão continuar, pensou rapidamente Sara.

— Ele pensa que você pretende substituí-lo.

— Ah, é? — Serviu-se de outro cálice de conhaque, tornou a tampar a garrafa e levantou novamente o copo. — Você foi incum­bida de defender a causa dele?

Ela se controlou para não dar uma resposta desaforada.

— Não, não fui. Ted não pediria isso a ninguém. Pensei sim­plesmente que eu devia saber em que pé está sua situação aqui.

— Ele vai saber no momento oportuno. — A voz dele era decep-donantemente calma. — E você ficará sabendo... quando ele lhe

disser.

Steve estava certo, naturalmente, mas o fato de saber isso não ajudava em nada. Sara não tinha refletido sobre esse aspecto par­ticular do caso, antes de tomar o partido de Ted.

— Vou procurar me lembrar — disse com frieza, e levantou-se da cadeira. — Estou certa de que você não vai se incomodar, se o deixar. Afinal, você tem o resto da garrafa de conhaque como companhia.

Estava a meio caminho da porta quando ouviu seu nome ser pronunciado por uma voz calma, mas bastante autoritária para fazê-la parar e voltar-se lentamente em direção àquele apelo. Os olhos dele estavam mergulhados no copo, a boca era uma linha apertada.

— Há um limite para todos os testes de resistência —, disse, sem se mover. — E você quase o atingiu. Pensei que houvesse a possibilidade de chegarmos a um entendimento durante essa pró­xima semana. No momento isso me parece bastante remoto. Talvez a.s coisas andassem melhor se você não fizesse pouco-caso de tudo o que eu digo.

Sara engoliu com dificuldade, lutando contra o desejo imperioso de abandonar toda prudência, aproximar-se dele, deitar a cabeça no seu peito e pedir para deixá-la ficar. Como ele podia querer entendê-la quando nem ela própria se compreendia? Ela o amava certamente, mas por cima disso havia a necessidade de ferir e ma­goar. Maneiras civilizadas... Comparada com a raça humana, a vida selvagem estava a quilómetros de distância na frente.

— Acho que você tem razão — ouviu-se dizer, com um sentido de aceitação fatalista. —A possibilidade parece remota. Ele não disse nada, ao vê-la sair da sala.

Na manhã seguinte. Sara tinha tomado uma decisão. Seria in­tolerável manter aquele clima durante mais uma semana, Se es­tivesse disposta, poderia arrumar todas as coisas em poucos dias e estaria pronta para voltar. Havia ainda um saldo razoável na sua conta bancária em Naíróbi, o suficiente para hospedar-se em um hotel até o momento do embarque. Sem falar que Steve respi­raria aliviado com sua partida antecipada.

Não que tivesse a intenção de contar a ele sua resolução, ou a qualquer outra pessoa. Provavelmente, tentaria impedi-la de par­tir. Se quisesse ser bem-sucedida, teria que planejar tudo cuidado­samente, sem dizer nada a ninguém. E tinha que ser bem-sucedida! Tinha que partir antes que se rendesse a ele. Podia suportar tudo, menos isso.

Steve já tinha saído quando Sara apareceu na saía, mas Ted lhe fez companhia e tomou outra xícara de café fresco do bufe. Parecia infinitamente mais alegre, aquela manhã, quase do seu jeito antigo,

— Você se tornou preguiçosa durante essa estada em Nairóbi — comentou Ted. — Antes você era a primeira a acordar e a pular da cama, lembra?

— Estava cansada da viagem de ontem e das noites em que fui dormir tarde. — Olhou-o interrogativamente, do outro lado da me­sa. — Você pensou mais alguma coisa a respeito do que me falou ontem à noite?

Ted balançou a cabeça e deu um sorriso.

— Eu estava me antecipando aos acontecimentos. Pela maneira como Steve conversou comigo hoje de manhã, acho que ainda vou ficar mais algum tempo aqui. Talvez a gente se entenda melhor, agora que Steve não está mais de passagem...

Mas ele está, Sara ia dizer, quando se calou a tempo. Ela tinha certeza por acaso? Nem o próprio Steve sabia. Talvez houvesse concedido a si mesmo um prazo, antes de aproximar-se novamente de Diane, ou então iria simplesmente aguardar que ela o procu­rasse de novo, antes de decidir o tipo de compromisso que podia oferecer a ela. Sara, pessoalmente, era mais favorável à última alternativa. O orgulho de Steve nunca cederia além de um certo nível.

Começou a arrumar suas coisas imediatamente depois do café. Njorogi levou dois caixotes à sala, onde ia guardar os livros e papéis do pai. Ao meio-dia as estantes estavam vazias e a sala tinha aparência desolada, com as paredes gastas e esburacadas pelos quadros que tinham estado pendurados ali durante anos, com o intuito de alegrar um pouco a peça. Sara deixou onde estavam os tapetes de peles de animais, juntamente com as cortinas e as al­mofadas. Sentia pena, afinal, de abandonar o chalé completamente vazio.

Estava ajoelhada no chão, escolhendo alguns discos no meio de uma pilha de outros, quando Steve apareceu, por volta das quatro. Parou junto à porta e percorreu com os olhos incrédulos os caixotes cheios.

— Que trabalhadora e tanto você está me saindo! Talvez fosse melhor conservá-la aqui, no final das contas. O que você vai fazer no resto da semana?

— Ainda não terminei — respondeu, sem olhar para cima. — Você quer a vitrola? E muito velha, mas funciona ainda.

— Claro. Por que não? Vai nos fazer companhia quando Ted e eu não tivermos assunto de conversa. — Atravessou a sala e ser­viu-se de um copo de uísque, depois acrescentou, sem voltar a ca­beça: — A tribo está se preparando para partir amanhã cedo. Se você quiser, posso levá-la até lá para se despedir de Mgari e das suas mulheres.

Sara sentou-se em cima dos calcanhares. Tudo terminava ao mesmo tempo. De certa forma, era bom que fosse assim. Os massais pertenciam a um capítulo de sua vida que jamais esqueceria, iria sempre lembrar-se deles como os vira pela última vez, no dia da festa.

— Eles não gostam das despedidas — disse.

— Você é quem sabe. — Pelo tom de sua voz, ele não se impor­tava que ela fosse ou não. Oferecera-se apenas para levá-la até lá, mais nada. Terminou a bebida e saiu da sala.

No domingo à noite Sara tinha terminado toda a mudança. Os caixotes e bagagens estavam prontos e devidamente rotulados para ser embarcados no avião de sexta-feira. Conforme seu plano ia fazer a viagem de volta em um dos jipes da Estação. Como Kimani estava fora, os outros três carros atendiam suficientemente às ne­cessidades do trabalho na reserva. Alguém, naturalmente, teria que trazer o jipe emprestado de volta, mas Sara não quis pensar nesse detalhe. Era a única maneira que tinha de sair dali antes do fim da semana, por isso, nào havia outro jeito.

A noite pareceu insuportavelmente longa. Depois do jantar. Sara tentou se interessar por algum livro, mas as palavras pulavam sem cessar diante dos seus olhos. Podia ouvir o sussurro das vozes dos dois homens que conversavam na varanda, mas não queria reunir-se a eles, com receio de trair-se por alguma palavra ou gesto inoportuno. Era a última vez que se sentava naquela sala, a última vez que ouvia os ruídos familiares da noite flutuando no meio da escuridão. No dia seguinte estaria de volta a Nairóbi, sozinha em um quarto de hotel, onde ficaria hospedada até a hora do embarque. Qualquer coisa porém era preferível a ficar naquela casa. Qualquer coisa!

Steve apareceu alguns minutos depois para servir os dois copos. Olhou rapidamente para ela, de passagem, e só lhe dirigiu a pala­vra depois de ter recolocado a garrafa no lugar.

— O que vou fazer com o filhote de antílope? — perguntou brus­camente. — Você quer que o envie para algum zoológico?

Levantou os olhos perplexa.

— Você não faria uma coisa dessas!

— Talvez não tenha alternativa. É muito pequeno para ser solto no mato, sem falar que está muito dependente de você, muito ha­bituado à companhia das pessoas. É sempre um erro permitir que os animais selvagens se apeguem demais à gente. Você devia ter pensado nisso.

— Por que ele não pode ficar simplesmente aqui na Estação — perguntou ela com a voz trêmula. — Não daria trabalho a ninguém. Ted cuidaria dele.

— Ted já tem muito que fazer para estar tomando conta de seus animais. O macaco pelo menos sabe se defender sozinho.

— Um filhote de antílope não vai atrapalhar o horário de nin­guém. — Sara colocou o livro no braço da cadeira e fixou-o um instante antes de dizer em voz baixa: — Você quer que eu suplique, é isso?

— Seria uma novidade... — comentou com ironia. — Sara Macdonald obrigada finalmente a se ajoelhar no chão! Seria fantástico, mas não é isso exatamente o que estou querendo. Estou pensando unicamente no animal!

Os olhos de Sara encontraram os de Steve: dois olhos azuis e luminosos e dois olhos cinza, frios, enigmáticos.

— Faça como você achar melhor — disse, com uma firmeza for­çada. — Estritamente falando, isso não me diz mais respeito. Há mais alguma coisa que deseja acertar?

Um músculo moveu-se subitamente no maxilar; ele deu um pas­so à frente e depois se controlou com o lábio torcido.

— Ah, não, você não vai! Não vou tentar de novo. A partir deste momento, você pode praticar seus joguinhos perversos em outra parte! Mas tome o cuidado de escolher cuidadosamente os parcei­ros, mocinha, caso contrário você vai acabar recebendo exatamente o que deseja, um desses dias!

Sara não se moveu, no momento em que Steve apanhou os dois copos e passou por ela em direção à varanda. Sentia-se mortalmen­te cansada e meio enjoada, além do mais. Ah, como desejava o dia seguinte!

Uma chuva pesada caiu durante a noite, mas o dia amanheceu claro e seco. Sara aguardou a saída de Steve antes de levantar-se da cama, ouviu o jipe afastar-se de casa com uma absoluta indife­rença emocional.

Ted estava ocupado com o trabalho na oficina. Ela tomou café sozinha. Não estava com a menor fome, mas sabia que era a última refeição até a noite, além dos tabletes de chocolate e algumas frutas que levava na bolsa. A perspectiva da longa viagem pela frente não a preocupava muito, embora fosse certamente o maior trajeto que já percorrera sozinha de carro. De Narok em diante a viagem seria bem mais agradável.

O jipe que escolhera era aquele que estava estacionado no alto do caminho. Pouco depois das oito e meia, aproveitando o momento em que Ted se afastara para uma das casas do fundo, Sara saiu cautelosamente da sala, carregando a mala de mão com os objetos de uso pessoal. Após arrumar a pouca bagagem que levava, havia lugar de sobra, na parte de trás, para o cobertor que estendeu no chão para o filhote de antílope. Ela foi ao cercado e apanhou rapi­damente o pequeno animal, apertando o rosto contra o pêlo macio ao colocá-lo dentro do jipe. Não sabia ainda o que faria com o filhote quando chegasse a Nairóbi, mas não o doaria certamente a nenhum zoológico. Talvez Don a ajudasse. Havia muito espaço na fazenda onde um filhote de antílope pudesse crescer em liberdade, sobre­tudo porque estava habituado aos contatos humanos, como dissera Steve.

Não havia ninguém por perto quando subiu finalmente no jipe. E ninguém apareceu quando ligou o motor e atravessou o portão. Aliás, não havia muita importância se alguém a visse naquele mo­mento. Se Ted avistasse alguma coisa dos fundos do quintal, pen­saria certamente que tinha saído para dar um passeio pela reserva. Só ficaria sabendo da verdade quando encontrasse a carta que ela deixara em cima do travesseiro dele. Mas se havia ama coisa de que Sara realmente sentia pena era não ter podido despedir-se do homem que fora seu melhor amigo durante todos esses anos... se bem que isso fosse impossível. Se Ted soubesse de sua intenção, não hesitaria um instante em comunicar o fato a Steve.

Ela evitou olhar pelo espelho até dobrar à direita e passar por entre as árvores que a separavam definitivamente da estação de Kambala. Levou mais de uma hora para chegar à Escarpa Mara. O sol já estava então bem alto no céu, e o calor dentro do jipe começou a se tornar desconfortável. Sara parou alguns minutos para dar de beber ao filhote de antílope de uma garrafa que levava consigo na bolsa. Despejou um gole de água na palma da mão e aproximou-a do focinho preto do animalzinho. Se mantivesse a mesma velocidade durante todo o percurso, estaria em Nairóbi antes do anoitecer, pensou. Isso no caso de não surgirem contratempos im­previstos. Se tudo corresse bem, poderia ir diretamente para a fa­zenda de Don com o filhote ou poderia deixá-lo, à noite, no jipe, no caso de hospedar-se em algum hotel. Decidiria sobre a melhor so­lução quando chegasse lá, pensou, após um momento.

Mais ou menos uns quarenta minutos depois, avistou uma nu­vem de poeira que se levantava na estrada, a alguns quilómetros de distância. O carro que a perseguia avançava rapidamente, sem se preocupar a mínima com os buracos e depressões do caminho. Com o coração batendo no peito, Sara apertou o acelerador e viu o ponteiro do velocímetro chegar à marca dos sessenta quilómetros horários e permanecer oscilante ali. Só podia ser Steve que seguia no outro jipe. Ninguém mais correria àquela velocidade na estrada de terra.

Ele estava se aproximando pouco a pouco, e logo a alcançaria. A partir do momento em que avistara pela primeira vez a poeira, o outro jipe tinha diminuído em alguns quilómetros a distância que o separava de Sara. Ela aumentou mais ainda a velocidade, sem pensar em outra coisa a não ser na necessidade de manter a maior distância possível entre os dois carros. Acontecesse o que fosse, pensou exaltada, não voltaria para lá. Tinha terminado para sem­pre com aquela parte de sua vida!

Apesar de todos os seus esforços, o outro jipe continuou se apro­ximando gradativamente, escondido às vezes pelas curvas do ca­minho, rnas sempre mais perto quando tornava a aparecer. Logo depois ela avistou, no espelho, o homem sentado diante da direção, embora estivesse muito distante ainda para ser identificado. Mas ela tinha certeza de quem era.

Algo tinha que acontecer, naturalmente, e o que estava previsto ocorreu rapidamente. No momento em que fazia uma curva acen-tuadamente fechada, Sara deu de repente com um bando de ba-buínos espalhados pela estrada. Instintivamente, pisou com toda força no freio e deu uma guinada na direção, rumando diretamente para a fileira de árvores e de moitas que cercavam a estrada na­quele trecho. Houve um momento de angústia em que pensou que não fosse parar a tempo de evitar uma colisão, depois a roda da frente chocou-se contra uma pedra escondida no mato alto e o jipe virou de lado, quase capotou completamente, antes de tornar a cair pesadamente, com um tranco que lhe sacudiu os ossos do corpo e arrancou a direção das mãos dela. Mas felizmente tinha parado.

Os babuínos tinham desaparecido entre as árvores no momento em que o outro jipe fizera a curva. Steve brecou rapidamente, ar­rastando os pneus pela terra, pulou fora do banco e caminhou a passos largos em direção ao local onde Sara estava sentada. Estava com o rosto fechado, os olhos cinza gelados.

— Você está querendo se matar? — perguntou, olhando rapida­mente para os estragos. — Não sei como você não capotou ao fazer a curva naquela velocidade!

— Você não devia ter me perseguido — respondeu ela com voz calma. — E você estava indo mais depressa do que eu, quando fez aquela curva.

— Eu sei controlar o carro — comentou de mau humor. — Mas não vamos perder tempo discutindo esse assunto. — Foi até a tra­seira do jipe e olhou surpreso para o filhote de antílope, que tremia de susto e de medo. — Vamos, leve o animal para o meu carro. Vou pegar sua mala.

— Eu não vou voltar para Kambala com você — disse Sara com decisão.

Os olhos de Steve brilharam ame amadoramente.

— Não?

— Não. — Estava perdendo rapidamente a calma, e a emoção voltava a circular por seus sentidos adormecidos. Com a voz trê­mula acrescentou: — Não quero passar outros quatro dias como os dois últimos. Não quero e não vou! O carro não sofreu muito. Posso continuar daqui.

— Para onde? — ele perguntou. — Para a fazenda de Don?

— Ah, vá para o inferno com Don! — exclamou com fúria re­pentina. — Não faço a menor questão de encontrá-lo de novo! Vou para Nairóbi, porque não aguento ficar na mesma casa com você mais tempo, porque estou doente e cansada de ser tratada como uma adolescente que não sabe o que quer! Você não fez outra coisa senão infernizar minha vida, desde o primeiro dia... além de se divertir à minha custa. — Era impossível deter a torrente de pa­lavras que jorravam da boca de Sara como as águas de uma represa que se rompeu. — Coitada de Diane, se um dia se casar com você! Sim, coitada dela! Não que você tenha muita chance. Ela é inde­pendente demais para sujeitar-se à sua tirania! Faço votos de que ela encontre alguém nos dias que está passando na praia. Um ho­mem capaz de um sentimento verdadeiro. Você não consegue sentir nada profundamente, ainda que tente! Tudo o que você deseja é que os outros andem na linha: Sim, Steve! Não, Steve, três sacos cheios, Steve! — Ela estava começando a se tornar ridícula, sabia disso e não conseguia parar. — Você não quer uma mulher, você quer um capacho!

— Você está se repetindo — disse ele com delicadeza.

Sara fitou-o atentamente. Uma mudança completa tinha ocor­rido em sua fisionomia. Os lábios estavam repuxados, os olhos bri­lhantes de alegria, como se ele fosse cair na risada de um momento para o outro.

— Que bom ter o modelo original de volta! Agora eu sei com quem estou falando.

Ela corou no primeiro instante e voltou ao normal no momento seguinte. Dessa vez ela dissera tudo o que pensava, Steve sabia disso e parecia divertido. Ela se afastou alguns passos,

— Vá embora — disse com decisão. — Vá embora e deixe-me em paz.

Depois de ter chegado até aqui? — Estava atrás dela, segu­rou-a pelos braços e manteve-a a contragosto voltada para si. — Por que você acha que é Diane que eu quero?

Sara olhou fixamente para ele, recusando-se a admitir as im­plicações da pergunta,

— É... evidente — conseguiu balbuciar.

— Para mim não é. Como eu posso pensar nela quando você me obriga a correr a toda velocidade? — Sua voz era sincera. — Eu não consigo nem mesmo me concentrar mais no meu trabalho. Foi por isso que voltei para casa hoje de manhã, para resolver todas as coisas pendentes entre nós dois. Quando Ted encontrou sua car­ta, pulei dentro do jipe e saí correndo atrás de você, sem pensar duas vezes. Você não vai embarcar para a Inglaterra, Sara. A não ser quando nós dois formos juntos.

Ela foi tomada por um sentimento estranho de leveza.

— Não vou?

— Não. Você vai ficar em Kambala e aprender a me conhecer melhor, Você está a ponto de sentir por mim o que eu sinto por você, mas eu posso fazer alguma coisa para apressar isso. — O olhar dele iluminou-se de repente, ao fixar os olhos azuis atordoa­dos. — Agora. Assim.

Sara voltou à vida no momento em que os lábios dele tocaram nos seus — e dessa vez não houve resistência. Quando ele final­mente afastou-a, estava sem ar, com o rosto brilhante, e compreen­deu finalmente o que significava para ele.

— Por que você não me disse isso antes? Você foi tão... cruel nos últimos dias.

— Posso imaginar! — Continuava segurando-a pelos braços en­quanto estudava seu rosto com uma expressão singular. — Não podia mais entendê-la, não sabia o que você estava pensando ou sentindo. Fiz tudo para penetrar a pele que você adquiriu nos dias que passou em Nairóbi, a fim de encontrar de novo a Sara verdadeira, mas parece que não dei com o ponto certo. — Fez uma pausa. — Talvez tenha usado o tempo todo a tática errada. Talvez pudesse ter poupado a nós dois todo esse sofrimento, se tivesse agido de outro modo, na noite de sexta-feira. O que eu disse há pouco, a respeito de você estar começando a sentir algo por mim...

— Você se enganou também nesse caso — disse ela com delica­deza. — Eu sou tão capaz quanto você de experimentar emoções. Eu sinto amor por você, Steve, e sei muito bem o que isso significa. Aprendi isso na última semana. Por isso, é bom você não pensar mais em mim como uma criança e passar a me tratar como uma mulher real.

— Eu deixei de pensar em você como uma criança na noite em que fui ao clube e a encontrei com Don... Você não tinha absoluta­mente a aparência de uma criança.

— Foi então que começou a sentir da maneira como sente agora? Ele deu um sorriso terno.

— Pelo menos foi quando comecei a admitir para mim mesmo. Você sempre foi a pessoa mais torturante, irritante e fascinante que conheci, mas eu não conseguia esquecer que você tinha a idade de Jill, e que lhe faltava muita experiência de vida. Penso, aliás, que isso ainda me preocupa, mas não vou mais levar em conta. O que você pensa de casar com um tirano?

— Acho que saberia levá-lo... Quando?

— O mais cedo possível. — Olhou para o rosto voltado para si e exclamou: — Por favor, Sara, não olhe para mim desse jeito ou não sou responsável pelas consequências! Lembre-se de que a re­pressão faz mal para a saúde, e não me tente demais nos próximos dias, está bem? — Beijou-a demoradamente mais uma vez e depois a afastou com firmeza. — Vamos voltar. Vou mandar alguém vir buscar o jipe.

Passaram as bagagens e o filhote de antílope para o outro carro e se prepararam para partir. Sara voltou a cabeça para admirar a fisionomia enérgica do homem sentado ao seu lado, encontrou o olhar sorridente e sentiu o coração se transformar em uma felici­dade pura e inebriante. Ainda uma vez Steve a levava de volta para casa. Mas dessa vez era para sempre.

   

 

                                                                  Kay Thorpe

 

 

              Voltar à “Página do Autor"

 

 

                                                   

O melhor da literatura para todos os gostos e idades