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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EU ESPIONO, TU ESPIONAS / Lou Carrigan
EU ESPIONO, TU ESPIONAS / Lou Carrigan

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

O Fiat 132 estava estacionado numa das avenidas da Villa Borghese, em Roma. De dentro do carro, dois homens contemplavam as casas ajardinadas daquele bairro elegante, cuja entrada era protegida por belas grades de ferro e por colunas arrematadas por cestos de flores. Dois homens atraentes, embora muito diferentes um do outro. Bastava olhar para eles e logo se compreenderia que não fazia sentido estarem juntos. Aparentemente, pelo menos. O que estava ao volante vestia um traje esporte. Tinha cabelos cor de cobre, olhos muito negros, boca firme e de lábios finos, queixo pronunciado.

Seu rosto queimado de sol era impressionantemente viril.

O outro também era atraente. Os cabelos louros combinavam com os olhos azuis e com a boca vermelha e bem desenhada. Suas feições eram doces. Isso mesmo: doces. O oposto do companheiro, que parecia talhado em granito.

A tarde do início de verão estava tempestuosa. O céu carregado de nuvens escuras e o ventinho davam um aspecto sombrio à cidade. Os dois homens pareciam aborrecer-se terrivelmente dentro do carro. O louro suspirou.

— Que foi? — perguntou o de feições mais duras.

— Estou chateado, Melvin. Chateado como uma puta numa cidade deserta.

— Vá dar uma volta, se quiser — disse Melvin, apontando a entrada da Villa Flávia. De onde estavam não viam o nome gravado na placa de mármore, mas ambos conheciam o nome daquela vila. — Em minha opinião, estamos perdendo tempo. Vá dar um passeio, homem.

— Está querendo me gozar, é? — protestou o louro.

— Gozar? Acha gozação aconselhá-lo a dar uma volta para esticar as pernas?

— Você me chamou de homem, não?

— Desculpe, Otto — murmurou Melvin Ramsey, enrugando a testa. Esboçando um sorriso, acrescentou: — Não quis ofender.

— Está sendo muito mau para mim — suspirou Otto, revirando os olhos. — Se quisesse...

— Pare com isso ou acabo lhe quebrando os dentes — cortou Melvin. — Nós nos conhecemos há menos de uma semana e você já me fez essa proposta várias vezes. Será que não entende as coisas?

— Você é que não entende — revoltou-se Otto. — Que tem de mau gostar de você?

— Olhe aqui, Otto — exclamou Melvin, fechando a cara.

— Fique quietinho, sim? Não me torre os culhões, ouviu bem?

— Você é mau, Melvin!

— Sou. E você é uma bicha insistente — disse Melvin Ramsey, seco. — Prefiro continuar com minha maldade. E chega de frescura, sim?

Ramsey desviou o olhar, por pura rotina, em direção à Villa Flávia. Otto Kuzner notou a mudança de expressão do companheiro. Também olhou para a entrada da Villa Flávia e viu o carro que acabara de estacionar diante das grades, colado ao meio-fio. Ficou imóvel e calado, observando o Giulietta creme. Ainda não tinham visto aquele carro.

 

 

 

 

Estavam vigiando Villa Flávia há vários dias. Conheciam praticamente todos os moradores e os três automóveis que utilizavam em suas idas e vindas. O Giulietta não era nenhum dos três carros.

 

Também não conheciam o personagem que desceu do Giulietta. Uma mulher alta, loura, vestida com elegância e dona de um corpo espetacular. Otto observou o companheiro com o canto dos olhos, esperando ver uma expressão de agrado na fisionomia de Melvin. Mas não viu. Melvin Ramsey olhava para a loura alucinante sem se alterar.

 

— Quem será? — murmurou Melvin, friamente.

 

— Uma loura nojenta, é claro.

 

— Talvez não vá para a Villa — prosseguiu Melvin, pensativo. — Pode ter estacionado o carro ali por acaso.

 

— Tem pinta de piranha — resmungou Otto.

 

— Nada disso — protestou Melvin. — É uma coisinha louca. Você fala assim porque está despeitado. Aposto como gostaria de ser igual a ela.

 

— Eu? Duvido. Detesto as louras.

 

Melvin Ramsey fixou a atenção na loura que descera do Giulietta. Metera metade do corpo dentro do automóvel e, ao voltar a erguê-lo, trazia na mão uma maletinha que parecia muito pesada. Fechou a porta do carro e foi andando lentamente até as grades. Olhou para o jardim bem tratado e procurou a campainha. Tocou-a.

 

— Vai para a Villa Flávia — murmurou Melvin. — E leva uma maleta pesada.

 

— Talvez esteja cheia de Tampax — rosnou Otto, com desprezo.

 

— Não creio — disse Melvin, sorrindo. — Uma maleta tão pequena, pesando tanto? Isso me sugere outro tipo de carga. Armas, por exemplo.

 

— Tolice! — exclamou Otto. — Sabemos que Stefan Orowitz está esperando armas, mas numa quantidade que não caberia naquela maleta. E não me venha dizer que a loura está levando apenas o mostruário. Orowitz sabe perfeitamente qual é o tipo de armas que lhe darão. Não precisa de amostras.

 

— O peso, portanto, não é de Tampax — disse Melvin, com ar malicioso.

 

— Existem uns tipos, feitos com fibras, que pesam mais — resmungou Otto.

 

— Pare de dizer besteira — cortou Ramsey. — Chega de pensar em sexo! Não estamos aqui em busca de divertimento sexual, hem?

 

— Porque você não quer, meu querido Melvin.

 

Ramsey ia responder com um palavrão, mas engoliu-o ao ver surgir outro personagem. A esse, conheciam. Era o mordomo da Villa Flávia. Apareceu diante da loura, por trás das grades, e perguntou qualquer coisa. A loura respondeu, apontando a maleta.

 

— Quer o binóculo? — perguntou Otto, num fio de voz.

 

Ramsey estendeu a mão direita, mantendo o olhar fixo nos personagens que conversavam no portão da Villa Flávia.

 

Kuzner pegou o binóculo no porta-luvas. Mas de nada adiantou. O mordomo abriu o portão e a loura entrou.

 

Segundos depois, os dois desapareceram do campo visual de Otto e de Melvin.

 

— Estariam esperando por ela? — murmurou Otto.

 

— Não sei. Talvez. De qualquer modo, é um personagem novo na brincadeira. Acho bom comunicarmos esse detalhe a Luc, o quanto antes.

 

— Não há telefone por perto. Por que não nos dão transmissores de bolso, hem? Quem pode ser essa mulher?

 

Melvin Ramsey não respondeu. Ficou pensativo com o olhar fixo na grade de ferro, segurando na direita o binóculo que não chegara a usar. Não parecia querer conversa e o belo Otto não insistiu. Ficaram em silêncio durante os vinte minutos que a loura levou para reaparecer, acompanhada pelo mordomo. O empregado abriu o portão e a visitante dirigiu-se para seu carro.

 

— Ainda está com a maleta — disse Otto. — Mas parece tão pesada como antes. Sendo assim, não deve ter deixado nada nas mãos de Orowitz. Bem, poderia ter enchido a maleta com qualquer outra coisa.

 

— Sim — concordou Melvin. — Mas não adianta quebrarmos a cabeça. Não conseguiremos adivinhar o que contém ou continha a maleta, nem quem é essa loura, nem o que veio fazer na Villa. E acho que deveríamos nos interessar por tudo isso.

 

— Podemos segui-la — propôs Otto.

 

Ramsey continuou imóvel, olhando para a loura, que parou junto do Giulietta. Pousou a maleta no chão e olhou para a entrada da vila vizinha à Villa Flávia. Vacilou ligeiramente. Consultou o relógio de pulso e tornou a vacilar.

 

Ramsey observou-a com o binóculo que assestara pouco antes. Passou-o para Otto. O belo louro rosnou um palavrão, ao ver de perto o rosto da desconhecida. Um rosto bonito e suave. Olhos grandes, boquinha tentadora e queixo firme.

 

Não tinha mais de vinte e cinco anos. Uma preciosidade.

 

— Está indecisa — murmurou Otto.

 

— Já reparei.

 

A loura tomou uma decisão. Tornou a pegar a maleta, contornou o carro pela frente, jogou a carga dentro do Giulietta e acomodou-se ao volante. Deu a partida. Otto Kuzner baixou o binóculo rapidamente e consultou o relógio.

 

Faltavam dez para as sete.

 

O Giulietta aproximou-se deles. Otto voltou a cabeça, enquanto Melvin coçava a orelha. Quando a loura passou a poucos metros deles, não pôde ver-lhes os rostos. Pelo espelho retrovisor externo, Melvin viu a loura se afastar.

 

Ligou o motor do Fiat. Manobrou rapidamente e deu a partida, seguindo o rastro do Giulietta.

 

— Não sei se fazemos bem — balbuciou Otto.

 

— Não está acontecendo nada na Villa. Já sabemos quase tudo que se pode tirar de lá. Vejamos o que conseguimos com a loura.

 

— Ficou assanhado com ela, hem?

 

— Se pudesse pegá-la nuazinha numa cama faria miséria, confesso — murmurou Melvin Ramsey, secamente. — Seja quem for, é sensacional.

 

— Mas usa Tampax e eu não. É uma porca.

 

— Seria porca se não usasse — respondeu Melvin, sarcástico. — E pare de falar bobagem, sim?

 

Avistaram o Giulietta perto do Viale di S. Paolo, na Piazzale Brasile. O carro seguiu na mesma velocidade e entrou na Via Vittorio Veneto. Depois continuou pela Via Bissolati até o largo de Santa Susanna. A partir dali, a perseguição ao Giulietta transformou-se num verdadeiro tormento pelas ruas de Roma. A loura dirigia com uma serenidade e uma ousadia que deixaram Otto Kuzner de boca aberta. Melvin Ramsey, de lábios contraídos, limitava-se a não perdê-la de vista, desprezando totalmente todas as normas de trânsito.

 

— Deve ser puta — rosnou Otto — Isso é modo de dirigir?

 

Ramsey não respondeu. Sua tarefa era difícil. Não era fácil seguir a loura em meio ao tráfego complicado de Roma.

 

Quando o Giulietta tornou a parar, o Fiat estava a trinta metros de distância.

 

— Onde estamos? — rosnou Otto.

 

— Em Roma — respondeu Melvin, com ironia.

 

— Sim, mas...

 

— Na Via Labicana — completou o homem de cabelos cor de cobre.

 

— Você parece conhecer bem a cidade, hem, querido?

 

Melvin Ramsey deu de ombros. A loura saiu do carro que estacionara num lugar absurdo, fazendo duas manobras apenas. Pegou a maleta, fechou o automóvel e afastou-se sem pressa. Não dava a impressão de ter percebido que a seguiam.

 

— Fique no volante — disse Ramsey. — E venha atrás de nós.

 

Sem dar explicações, Melvin saiu do Fiat. Otto Kuzner arrastou-se no banco e acomodou-se ao volante. Esperou que o companheiro e a loura estivessem a uma boa distância e reiniciou a marcha, com precaução. Não conteve um palavrão, segundos depois, ao ver a loura e Melvin desaparecerem numa das transversais da Via Labicana. Uma rua estreita onde Otto não podia entrar com o Fiat, por ser contramão.

 

Refletiu um instante, imaginando a descompostura que levaria de Melvin, se os perdesse de vista, e manobrou o volante, entrando na contramão. Deu de ombros, ao ouvir o ranger dos freios e as buzinas dos outros automóveis, e continuou avançando pela rua onde a loura entrara. Olhou para uma placa e leu: Via Celimontana.

 

Melvin ia andando a vinte metros do carro. A loura, um pouco adiante. De repente, a loura tornou a dobrar à esquerda e desapareceu num portal. Não. Não era um portal.

 

Era uma entrada ampla, sobre a qual havia uma placa luminosa com um “E”, indicando que ali era um estacionamento. Melvin voltou-se e fez sinal ao companheiro para parar. Otto freou. Melvin correu para o Fiat, sentou-se à direita, apontando para frente, e murmurou: — Entre no estacionamento.

 

Entraram. Otto retirou o talão da máquina e desceu pela rampa. Viram a loura aparecer na porta destinada aos pedestres. Otto deteve o Fiat numa vaga, mas não desligou o motor. Os dois homens giraram a cabeça e viram a loura continuar andando até um reboque ali estacionado. Parou diante da porta traseira, cujos vidros estavam enfeitados com cortinas azuis. Uma bela casa sobre rodas, sem dúvida. A loura meteu a chave na porta do reboque e abriu-a. Puxou para fora a escadinha de três degraus e subiu, desaparecendo no interior da casa rolante. Puxou a escadinha para cima e fechou a porta pelo lado de dentro. Pouco depois, as janelas enfeitadas com cortinas azuis se iluminaram.

 

— Que acha disso? — balbuciou Otto Kuzner, virando-se para Melvin Ramsey, de olhos arregalados.

 

Melvin olhava fixamente para o reboque. Contraiu levemente as sobrancelhas. Finalmente, balançou a cabeça, murmurando: — Talvez seja interessante fazer uma visitinha a essa loura.

 

— Não conte comigo para violentá-la — rosnou Otto.

 

— Pare de dizer besteira. Aonde vai? — perguntou Melvin, vendo o companheiro fazer menção de sair do Fiat.

 

— Você não disse que talvez fosse interessante fazer uma visita à loura?

 

— Claro. Mas tenha calma. Vamos esperar para ver se alguém vai ao encontro dela naquela linda casinha rolante. Esperemos uns dez minutos, amiguinho.

 

Os dez minutos se passaram sem novidade. Ninguém entrou no estacionamento. Melvin e Otto se entreolharam.

 

Melvin fez um sinal afirmativo com a cabeça e os dois saíram do Fiat ao mesmo tempo.

 

Uma casa sobre rodas

 

A loura estava inteiramente nua, quando tocaram a campainha do reboque. Voltou a cabeça na direção da entrada, mas não houve a menor alteração em seu lindo rostinho. Pegou o desabillée azul no armário, vestiu-o e só então perguntou: — Quem é?

 

— Um empregado do estacionamento, senhorita — disse uma voz de homem num italiano perfeito.

 

A loura abriu a porta e olhou com uma inexpressividade absoluta para a pistola apontada em direção a seu peito. Seu olhar ergueu-se para o rosto do homem que empunhava a arma. Viu que estava acompanhado por outro. Um louro que a contemplava de cara feia.

 

— Nem uma palavra — disse o da pistola.

 

— Baixe a escadinha, Otto.

 

O louro obedeceu. O de cabelos cor de cobre agitou a pistola significativamente e a loura recuou. O homem entrou no reboque. O louro o acompanhou e recolheu a escadinha, fechando a porta.

 

Melvin examinou o interior do reboque com um olhar rápido e avaliador. O reboque devia ter uns quatro metros de comprimento por dois de largura. Continha todo o necessário para se viver. Uma cozinha pequena, dois beliches, um armário embutido, um banheiro minúsculo, mas completo e um sofá dobrável que poderia ser encostado a uma das paredes, quando houvesse necessidade de espaço. Além das cortinas azuis, havia outras, mais grossas, que serviam, sem dúvida, para escurecer o reboque.

 

— Não são empregados do estacionamento — murmurou a loura espetacular, com os olhos faiscando.

 

— Claro que não, sua porca! — cortou Otto, com desprezo.

 

— É um assalto? — perguntou ela, tensa. — Querem dinheiro?

 

Melvin localizou a maleta que a loura carregara. Estava no sofá, fechada. Aproximou-se e abriu-a sem a menor dificuldade. Continha livros! Grossos e magnificamente encadernados.

 

— Vigie direito — resmungou, dirigindo-se a Otto.

 

Pegou um dos livros, depois de guardar a pistola.

 

Segurou-o com as mãos fortes e começou a virar as páginas.

 

O papel era de excelente qualidade. Havia mais três livros, todos da mesma coleção, com ótimas fotografias em papel cuchê. Encontrou livros menores e finalmente o que parecia ser um catálogo.

 

— Livros de arte — disse Melvin, voltando-se para Otto.

 

— Pintura.

 

— Só isso? — resmungou Otto, decepcionado.

 

— Aparentemente, sim — respondeu Melvin. Voltando-se para a loura, acrescentou: — Que significam estes livros?

 

— Você acabou de dizer — respondeu ela, surpresa. — São livros de arte. Uma coleção dedicada à pintura. Da Idade da Pedra aos nossos dias. São quatro volumes, dois pequenos apêndices e o índice, que está na sua mão.

 

— Que foi fazer com isto na Villa Flávia?

 

— Villa Flávia?

 

— A residência de Stefan Orowitz.

 

— Não sei quem é esse cavalheiro.

 

— Não sabe? — insistiu Melvin Ramsey secamente. — Esteve lá esta tarde.

 

— Estive em muitas casas, esta tarde, na Villa Borghese.

 

— Em muitas? Por quê?

 

— Se você fosse um pouquinho inteligente, não perguntaria. Fui para vender a coleção de arte, é claro!

 

— É vendedora de livros? — exclamou Otto.

 

— Está na cara, não é, queridinho? Por que tantas perguntas? São da polícia?

 

— Ouviu, Melvin? — resmungou Otto, contendo uma risadinha. — Espertinha, hem? Deve ser uma boa vendedora de livros.

 

— Não me queixo — murmurou a loura, esboçando um sorriso. — Os negócios não vão mal ultimamente.

 

— Tire o roupão — ordenou Melvin Ramsey.

 

— O quê?

 

— Não ouviu? — atalhou Otto, rindo. — Tire a roupinha. Melvin vai violentar você, beleza!

 

A loura olhou de um para outro e, pelo jeito, chegou a uma conclusão tranquilizadora. Ao menos quanto à violação, porque tirou o desabilée sem a menor preocupação e deixou-o no sofá. Os dois homens a contemplaram atentamente.

 

Otto, com ar de desprezo. Melvin, impávido, apesar de se sentir excitado diante daquela maravilha da natureza. Os seios rijos e empinados deixavam-no doidão. A barriguinha macia, as coxas perfeitas e aquele ponto escuro na bifurcação das pernas seriam capazes de levar qualquer homem à loucura.

 

— Vire de costas — ordenou.

 

Ela obedeceu. Melvin e Otto a contemplaram pelas costas. As costas de Marie Bovet eram retas, macias, perfeitas. Não se notava um ossinho fora do lugar, apesar de não ser gorda. Era espetacular. Uma verdadeira obra de arte. As nádegas redondas, bem feitas, excitantes.

 

— Que lombo bem feito, hem! — exclamou Otto, assanhado.

 

Melvin aproximou-se pela retaguarda de Marie Bovet e passou a mão pelo baixo-ventre, tocando o ponto máximo da sensibilidade feminina para certificar-se de que não escondia ali uma pequena arma. A loura não se mexeu. Nem mesmo quando a mão forte e musculosa tocou aquela parte tão íntima de seu corpo.

 

— Sente-se e fique quieta — disse Melvin, contendo o desejo de agarrá-la.

 

Marie Bovet sentou-se no sofá, ao lado da maleta aberta e do desabilée transparente.

 

— Posso me vestir? — perguntou, sem se alterar.

 

— Pode.

 

A loura se vestiu sem pressa, com toda a naturalidade, sob o olhar lascivo de Melvin.

 

— O que fazemos? — murmurou Otto.

 

— Não a perca de vista — respondeu Melvin, seco.

 

Virando-se para a loura, perguntou: — Como é seu nome?

 

— Marie Bovet.

 

— Pois muito bem. Sabe o que me surpreendeu, senhorita Bovet? Acho este reboque grande demais para ser puxado por um carrinho pequeno como o Giulietta.

 

— Não costumo viajar com o Giulietta — respondeu ela, impassível. — E sim com um Mercedes.

 

— E quem dirige o Giulietta, quando a senhorita usa o Mercedes?

 

— Ninguém — respondeu Marie Bovet. — Vendo livros de arte por toda a Itália. Viajo no Mercedes. Quando chego a uma cidade, estaciono o reboque, alugo um automóvel pequeno e faço meu trabalho sem chamar tanta atenção como se estivesse circulando num Mercedes.

 

— Bem bolado. Então o Giulietta é alugado?

 

— Sim.

 

— E onde está o Mercedes? Espere. Vi um, grená, estacionado à direita do reboque. É esse?

 

— É. Estaciono os dois paralelamente e mantenho a conexão com a bateria.

 

— Como vão as vendas?

 

— Ótimas — exclamou a loura, esboçando um sorriso. — Os italianos são grandes admiradores de arte.

 

— É francesa, hem?

 

— Sou.

 

— Mas fala um italiano perfeito.

 

— Como vocês dois, que também não são italianos.

 

Melvin tornou a contrair a fisionomia, mas balançou a cabeça numa afirmativa. Mandou Marie ficar de pé e examinou a parte de baixo do sofá. Bateu com os nós dos dedos pelas paredes. Abriu o armário e remexeu entre as roupas.

 

— Vamos fazer um trato — disse, finalmente, voltando-se novamente para Marie Bovet. — Um trato conveniente para você. Abra o fundo falso do armário, sim? Evitará que eu o estrague dando um tiro com minha pistola, entendeu?

 

— Não há ninguém no fundo falso — murmurou a loura, sem se alterar.

 

Melvin voltou para junto do armário e começou a bater com a culatra da pistola na parede do fundo.

 

— Espere — exclamou Marie. — Eu abro.

 

Melvin afastou-se um passo. A loura pressionou um dos lados do armário e o fundo correu. A mão delicada de Marie Bovet movimentou-se com rapidez, agarrando a pistolinha de cabo de madrepérola que estava presa à parede do fundo do armário. Empunhou-a e virou-se rapidamente. A mão forte de Melvin Ramsey segurou-a pelo pulso, desviando a arma, enquanto a direita lhe assestou um tremendo bofetão, que a teria jogado no chão se não estivesse presa pela mão direita do homem de cabelos cor de cobre.

 

Melvin Ramsey apoderou-se da pistolinha. Otto Kuzner avançou agitando a arma.

 

— Calma — ordenou Melvin. — Continue vigiando.

 

Pode haver mais truques nesse fundo falso do armário.

 

— Eu disse que era uma porca — rosnou Otto, com desprezo.

 

— Bico fechado! — cortou Melvin.

 

Empurrou Marie Bovet, jogando-a no sofá. Contemplou o rosto da moça, onde deixara a marca de seus dedos. Ramsey balançou a cabeça e dedicou sua atenção a examinar o armário embutido. Tirou duas caixas forradas de preto, luvas também pretas, uma lanterna, uma corda de náilon com um gancho na extremidade e mocassins também pretos. Colocou tudo diante de Marie Bovet. Acocorou-se e abriu uma das caixas. Sorriu, ao deparar com a coleção de gazuas. Na outra caixa havia mais uma coleção. Melvin não deu importância às exclamações de espanto de Otto.

 

Abriu um dos álbuns que trouxera junto com o resto do material. Cada duas páginas continha fotografias da mesma casa. Casas suntuosas como Villa Flávia, por exemplo.

 

Fotografias do exterior, do jardim, e também do interior.

 

Melvin examinou o segundo álbum. Fechou os dois e encarou Marie Bovet com uma expressão mais agradável, dizendo: — Tenho a impressão de que já entendi. Mas gostaria de ouvir sua versão, senhorita.

 

— Nada tenho a dizer — respondeu ela.

 

— Não? Pois então eu direi. A senhorita é tão vendedora de livros como nós. Talvez venda, não nego. Essa atividade é uma tapeação para sua atividade principal, muito mais rendosa: o roubo. Na sua condição de vendedora de livros de arte, visita as mais afamadas mansões, bate fotografias do exterior e do interior e, conhecendo o terreno, conhecendo mesmo os possíveis sistemas de alarme que possam existir, espera o momento oportuno para entrar na casa e roubar. Não é isso?

 

— Está louco?

 

— Vamos, senhorita Bovet. Não está falando com um santo, compreende? Seja razoável. Guarda no fundo falso do armário um material meio esquisito. Gazuas, fotografias, corda para pequenas escaladas, luvas, mocassins. Permita-me dizer que está usando coisas ultrapassadas. Sabe o que me surpreende em tudo isso? As fotos. Como consegue batê-las? As do exterior são fáceis. Mas as do interior, não. Duvido que as bata diante do nariz dos moradores. Como consegue?

 

— Não são policiais, mesmo? — murmurou Marie.

 

— Palavra de honra! — disse Melvin, levantando a mão e ficando de pé.

 

— Bem, uso meu relógio de pulso.

 

Otto e Melvin olharam para o reloginho, único objeto que Marie usava além do desabilléé.

 

— Tirou fotos do interior da Villa Flávia? — perguntou Melvin, após um segundo de reflexão. — Refiro-me à última casa que visitou hoje.

 

— Claro. Mas não me pareceu um lugar adequado para mim.

 

— Por que não?

 

— Há homens demais lá dentro. Isso não me agradou.

 

— Bateu algumas fotos?

 

— Bati. Mas não me lembro bem o que fotografei. Vou batendo conforme posso.

 

— Compreendo. E onde as revela? Seria comprometedor entregar o serviço a um laboratório.

 

— Tenho o meu laboratório — disse Marie, de má vontade.

 

— Gostaria de ver as fotos que bateu na Villa Flávia, senhorita Bovet. Se fizer nossa vontade, será o início de uma agradável amizade.

 

— E se me recusar?

 

— É inteligente e esperta demais para procurar complicações — murmurou Melvin Ramsey, sorrindo. — Aposto que prefere nossa amizade a duas balas cravadas em sua fonte de prazer. Não estou brincando. Sou capaz de encher esse ninho de amor com chumbo. Vamos, estou esperando uma resposta.

 

Marie Bovet mordeu os lábios um instante e fez um gesto afirmativo. Levantou-se e foi para a parte dianteira do reboque. Correu uma placa de madeira que havia na parede e Melvin e Otto viram um laboratório em miniatura instalado naquele nicho.

 

As fotografias ainda estavam úmidas quando Melvin e Otto as examinaram. O trabalho era bom. Vinte e quatro chapas ao todo. Sete ficaram meio desfocadas. Via-se nelas apenas a parede, o chão e os pés de alguns homens. As outras dezessete estavam excelentes. Mostravam o mordomo, o vestíbulo, um gabinete de trabalho e homens.

 

Stefan Orowitz aparecia numa porção delas. Inconfundível.

 

Alto, forte, quase calvo, bronzeado pelo sol, poderoso, com os olhinhos miúdos e brilhantes. Usava temo de passeio e estava sem gravata. Em quase todas as fotos estava sentado na escrivaninha do mesmo gabinete em que Marie fizera outras fotografias. Naturalmente para estudá-las mais tarde e descobrir onde ficava o cofre.

 

— Aqui estão Lazlo e Toniek — rosnou Melvin, apontando dois homens que apareciam nas fotografias.

 

— Porcos! — resmungou Otto.

 

— O senhor Orowitz comprou alguma coleção de arte? — perguntou Melvin, pensativo.

 

— Não — respondeu Marie Bovet. — Foi muito gentil, mas não se mostrou interessado. Imagino que o senhor Orowitz seja o calvo que me recebeu no gabinete.

 

— Sim. Nunca o tinha visto antes?

 

— Não. Cheguei a Roma há pouco tempo e escolhi Villa Borghese como campo de ação. Comecei a estudar várias casas.

 

— E se alguém comprar uma coleção?

 

— Mando o pedido para a editora em Milão, para quem trabalho, e eles fazem a remessa. É uma editora muito séria.

 

— Espertinha, hem? — exclamou Otto, rindo. — Prevê tudo! Mas deve ganhar mais dinheiro roubando essas mansões luxuosas que vendendo livros.

 

— É preciso pensar no futuro — murmurou Marie.

 

— Uma pequena corajosa e inteligente como você não deve se preocupar com ele — balbuciou Ramsey, passando a língua pelos lábios. — Só trabalha na Itália?

 

— Oh, não. Na França, também. A editora de Milão tem sociedade com uma editora de Lyon. A mesma coleção é publicada em francês. Quando me chateio de falar italiano, volto para a França e trabalho por lá durante uma temporada. Também já fiz uns servicinhos na Suíça e na Bélgica.

 

— Vigarista internacional, hem? — exclamou Otto, dando um assovio de admiração. — Uma verdadeira joia!

 

— E vocês? A que se dedicam? — perguntou Marie Bovet. — Talvez me tenham enganado e sejam policiais, mesmo. Não me lembro de ter cometido alguma falha, mas...

 

Melvin e Otto trocaram um olhar de compreensão.

 

Melvin fez um sinal ao companheiro e ambos se dirigiram à porta de entrada do reboque.

 

— Que é? — perguntou Otto, num cochicho.

 

— Que podemos fazer com ela? — murmurou Melvin Ramsey, no mesmo tom.

 

— Só podemos fazer duas coisas — opinou Otto Kuzner. — Ou deixá-la em paz ou matá-la.

 

— Qual, Otto, você às vezes é tão rudimentar! Não imaginou que pode ser uma jogada especial de Stefan Orowitz? Bem, há uma solução intermediária entre as duas que você sugeriu. Podemos levá-la para o Neron Pub.

 

— Luc não vai gostar.

 

— Não acho conveniente irmos embora, deixando a pequena tranquilamente — disse Melvin. — Para matá-la, qualquer tempo será bom. Antes disso, seria aconselhável nós a pressionarmos um pouquinho, mas em lugar seguro. Se Orowitz estiver tramando algo especial, é bom ficarmos sabendo.

 

— Acho tudo isso absurdo, Melvin.

 

— É? Bem, eu lhe direi como estão as coisas. Stefan Orowitz aguarda um bom lote de armas, para com elas realizar uma ação que por enquanto ignoramos. Nosso chefe, Luc Perrier, descobriu uma parte da história e nos contratou, a você, a mim e a outros mais, para agirmos quando chegar a hora. Por enquanto, devemos apenas vigiar a Villa Flávia. E eu me pergunto: Orowitz não terá percebido que alguém vigia a casa? Orowitz não é idiota. Qual é a sua opinião?

 

— Não me parece que seja — murmurou Otto.

 

— Sendo assim, desconfiou de qualquer coisa. Podia, portanto, ter mandado alguém nos crivar de balas dentro do Fiat, por exemplo. Ou nos mandar seguir até o Neron Pub. Podia ter feito uma porção de coisas. Mas não fez. Em troca, aparece uma loura espetacular que nos serve de bandeja fotografias dele e de alguns de seus homens, do exterior e do interior da casa. Por quê? Que pretende Orowitz?

 

— Tudo isso são suposições suas, Melvin.

 

— Não acha mais inteligente verificarmos se são apenas suposições em vez de nos limitarmos a matar a loura e cair fora?

 

Otto Kuzner vacilou um segundo. Finalmente, dando de ombros, acrescentou: — Está certo. Vamos levá-la para Luc. Num ponto, você tem razão: para matá-la, sempre haverá tempo.

 

— Ou para violentá-la — balbuciou Melvin, com um sorriso libidinoso.

 

— Você e ela são dois imbecis! — rosnou Otto. — Uns porcos!

 

Compatriotas

 

Luc Perrier tinha uma pinta de rapagão simpático, másculo, alegre e jovial. Apesar de já passar dos trinta. Era alto, elegante, atlético, de olhos grandes, escuros e inteligente. Serviria para galã de qualquer filme romântico e açucarado. Depois de informado de tudo, observou o material encontrado no reboque e que estava em cima de sua casa. Voltou a atenção para a loura espetacular que, por sua vez, também o observava com interesse.

 

Marie Bovet acompanhara Melvin e Otto até a rua onde ficava o Neron Pub. Só que não entraram pela porta do bar e sim pela de outro do mesmo gênero, chamado Neron Disc, que estava repleto de jovens. Atravessaram a pista de danças onde os casais se sacudiam ao ritmo frenético da música e saíram pela porta dos fundos. Chegaram a um corredor.

 

Seguiram por ele e entraram em outra porta. Marie Bovet ficou sabendo, portanto, que o NeronPub e o Neron Disc se comunicavam.

 

— Eu me chamo Luc Perrier — disse o belo exemplar do sexo masculino, observando-a atentamente. — Pelo jeito, somos compatriotas.

 

— Sim — murmurou Marie. — Parece.

 

— Não está inventando uma história de fadas?

 

— Não. Não faço a menor ideia de quem sejam vocês, nem de quem seja o tal senhor Orowitz a quem nunca tinha visto antes. Já contei tudo a Melvin e a Otto. Nada mais tenho a dizer, exceto que gostaria de ir embora sossegada.

 

Luc Perrier contemplou-a mais um pouco, com um sorriso amável nos lábios. Pegou o fone e discou um número.

 

—...?

 

— Padrone — murmurou Luc Perrier.

 

—...

 

— Luc Perrier ao aparelho — prosseguiu, em italiano. — Aconteceu algo e preciso instruções a respeito. Podemos falar agora?

 

—...

 

— Muito bem. Temos aqui no meu escritório do NeronPub uma mulher chamada Marie Bovet.

 

Enquanto Perrier falava ao telefone, Marie Bovet observou disfarçadamente a mulher sentada no sofá.

 

Lânguida, como uma gatinha de luxo. Usava vestido de noite, que combinava com o smoking de Perrier. Pelo jeito, estavam preparados para sair. Era muito branca e tinha um pouco de sardas nos ombros. Os seios fartos espocavam pelo decote audacioso. Até aquele momento, mantivera-se calada, acompanhando a conversa com o olhar insinuante e sensual.

 

Marie captou a expressão de desejo que havia nos olhos da ruiva, quando fixou a figura máscula de Melvin Ramsey.

 

Melvin estava imóvel, como uma estátua de granito.

 

Não havia mais ninguém no escritório. Marie, a ruiva, Otto, Melvin e Luc Perrier, que acabou de dar as explicações necessárias à pessoa com quem estava falando.

 

— Não — disse de repente. — Não recorremos à violência por enquanto.

 

—...?

 

— Não, não parece assustada — murmurou Perrier.

 

Sorriu, dirigindo-se à Marie, e perguntou: — Está assustada?

 

— Um pouco — respondeu ela.

 

— Um pouco — repetiu Perrier.

 

—...

 

— Podemos dar-lhe um bom tratamento, se o senhor quiser, Padrone.

 

—...

 

— Ah, bem. O senhor talvez tenha uma ideia melhor, é claro. Além disso, é o senhor quem manda. Qual é a ideia?

 

Luc Perrier ouviu durante três ou quatro minutos, balançando a cabeça afirmativamente. Quando as instruções terminaram, sorriu e acrescentou: — Não estou querendo puxar o saco, Padrone, mas sua ideia me parece excelente. Faremos conforme me indicou.

 

Mais alguma coisa?

 

—...

 

— Prestarei atenção. Adeus.

 

Desligou.

 

— Que disse o chefão? — perguntou Melvin Ramsey, ansioso.

 

— Mandou prendê-la num dos quartos vazios — respondeu Perrier, apontando Marie Bovet. — Cumpram a ordem e depois voltem aqui. Tenho um servicinho para vocês dois.

 

— E a vigilância de Villa Flávia? — perguntou Melvin, enrugando a testa.

 

— Mandarei Tumar e Alberto. Embora, segundo disse o Padrone, não seja necessário vigiar nada por lá, esta noite.

 

De qualquer forma, eles irão. Cuidem de tudo para que a senhorita Bovet não nos crie problemas.

 

Melvin Ramsey fez um movimento afirmativo de cabeça.

 

Pegou Marie pelo braço e encaminhou-se para a porta. Otto Kuzner o seguiu.

 

Atravessaram o corredor e Melvin abriu uma porta.

 

Empurrou a loura para o interior do quarto. Um quarto pequeno, onde havia um sofá, duas poltronas e uma estante de livros empoeirados.

 

— Procure uma corda, Otto.

 

— Agora mesmo, Melvin.

 

Ramsey indicou uma das poltronas. Marie sentou-se. Os dois se entreolharam fixamente, com expressões herméticas.

 

Marie olhou ao redor como se procurasse qualquer coisa e tornou a voltar o rosto para Ramsey, que continuava a contemplá-la. Otto Kuzner voltou antes de um minuto, trazendo um rolo de corda. Sempre em silêncio, Melvin amarrou Marie na poltrona onde estava sentada.

 

— Não vai amordaçá-la? — perguntou Otto.

 

— Por muito que grite, só quem for do grupo poderá ouvi-la. Se ouvirem, virão ver o que está acontecendo aqui e ela passará maus momentos. E isso, ela não há de querer, imagino. Não é, Marie?

 

— Não gritarei — murmurou a loura. — Que vão fazer comigo? Que significa tudo isso? Quem é esse Padrone?

 

— Vamos sair daqui — rosnou Otto, bufando. — Não suporto mulheres! Principalmente mulheres fingidas.

 

Os dois saíram do quarto, deixando a luz acesa. A poucos passos dali, Melvin tornou a parar diante de outra porta e disse: — Vou mijar. Daqui a pouco, estarei com vocês.

 

Empurrou a porta e entrou no toalete. Dirigiu-se a uma das cabinas e fechou a porta por dentro. Ficou imóvel quase um minuto, ouvindo atentamente. Em seguida, tirou o sapato direito, girou o salto e retirou algo parecido com uma caixinha de fósforos. Apertou com a unha um botãozinho minúsculo. Puxou depois a antena e aproximou o aparelhinho da boca, sussurrando: — Contato?

 

— Sim — respondeu uma voz distante. — Fale.

 

— Temos...

 

A porta do banheiro bateu. Melvin baixou rapidamente a antena do radinho portátil, ao ouvir a voz de Otto Kuzner dizendo: — Não demore, Melvin.

 

Mordendo os lábios de raiva, Melvin tornou a guardar o aparelhinho no salto do sapato, desceu o zíper da calça e saiu da cabina, fechando-o e fulminando Otto com um olhar homicida.

 

— Que é que há com você? — exclamou, furioso. — Não posso mais mijar sossegado?

 

— Para isso precisa se trancar aí dentro? É mais simples no mictório. Depois que você entrou, me deu vontade também.

 

Aproximou-se de um dos mictórios e esvaziou a bexiga.

 

Voltou-se para Melvin, ainda com a calça aberta. Ramsey enrugou mais a testa, girou nos calcanhares e saiu dos toaletes, ouvindo à retaguarda a voz irritante de Otto: — Antipático!

 

Kuzner saiu em seguida e acompanhou Ramsey ao escritório de Luc Perrier. A ruiva continuava sentada no sofá, lânguida e sensual como uma gatinha ao sol.

 

— Coco irá com vocês — disse Perrier, apontando a ruiva.

 

— Não sei como, mas o Padrone soube que Orowitz vai sair esta noite. Aproveitou esta circunstância para elaborar rapidamente um plano.

 

— Como pode o Padrone saber de tanta coisa a respeito de Orowitz? — cortou Melvin. — Ele está fazendo praticamente tudo sozinho, já que nos orienta a cada instante.

 

Como é que o Padrone descobre tudo isso, hem?

 

— Nós aceitamos um trabalho, Ramsey — respondeu Luc Perrier, sem se alterar. — Deram uma parte do dinheiro adiantado. E o pagamento é bom. É só o que nos interessa.

 

Além de obedecer ao Padrone, é claro. Entendido? Por outro lado, eu sou o chefe do grupo. Fui eu que recrutei vocês.

 

Logo, se houver perguntas a fazer a ele, eu farei. Mais alguma dúvida?

 

— Não — rosnou Ramsey.

 

— Ótimo. Como acabei de dizer, Coco irá com vocês. Ela lhes será de grande utilidade. Vão a uma boate elegante, chamada Cesar’s. É lá que Orowitz pretende ir esta noite para encontrar-se com alguém. Mas o encontro pode não acontecer. O Padrone disse que a pessoa com quem Orowitz vai se entrevistar tanto pode aparecer hoje, amanhã ou depois de amanhã.

 

— O Padrone conhece a tal pessoa.

 

— Parece, Ramsey — murmurou Perrier, procurando ser paciente. — Mais alguma pergunta?

 

— Não.

 

Luc Perrier balançou a cabeça, frio e seco. Pegou as fotografias batidas por Marie Bovet e foi sentar-se no sofá, ao lado da ruiva, a quem mostrou as fotos, dizendo com voz suave: — Vá olhando, enquanto eu explico o que vocês devem fazer, Coco. Preste bastante atenção em todas porque um desses homens vai ser a sua peça.

 

Melvin Ramsey estacionou o carro perto da boate Cesar’s. Desligou o motor e ficou olhando para o letreiro luminoso azul e vermelho. Otto Kuzner estava sentado ao lado dele. Do banco de trás, chegou a voz macia e envolvente de Coco Bauer.

 

— Vá dar uma olhada, Otto — disse ela. — Mas com cuidado.

 

Otto saiu do carro e aproximou-se da porta da boate.

 

Melvin fez menção de acender um cigarro, mas a voz de Coco o interrompeu: — Venha sentar-se perto de mim, Melvin.

 

— Estou bem aqui — respondeu ele, sem se alterar.

 

— Estará melhor junto de mim.

 

Melvin Ramsey hesitou, mas acabou tornando a guardar o cigarro. Saiu do carro e foi sentar-se no banco de trás, ao lado da ruiva. Ela o enlaçou com os braços e avançou o rosto, sussurrando: — Por que é tão esquivo comigo?

 

— Não gosto de complicações nos grupos onde trabalho — respondeu Ramsey.

 

— Pois evite-as.

 

— É o que estou tentando fazer. Você é a garota de Luc.

 

Faço o possível para não me esquecer desse detalhe.

 

— Se eu quisesse, faria com que Luc se aborrecesse com você, sabe? Bastaria dizer a ele que você quis ir para a cama comigo e as coisas se complicariam para o seu lado. Mas há um meio de me impedir de falar com Luc.

 

— Eu sei. Basta que eu não vá para a cama com você.

 

— Ao contrário — murmurou Coco Bauer, sorrindo. — Se dormirmos juntos, eu ficarei caladinha. Mas, se continuar a me desprezar, direi a Luc que você tentou agarrar-me à força.

 

— Nojenta! — grunhiu Melvin.

 

— Fale o que quiser — prosseguiu Coco, insinuante. — Não me importo. Só me importo com o que você fizer.

 

Aproximou os lábios dos de Ramsey. Apertou-o num abraço e colou sua boca de fêmea insaciável à do macho atraente. Segurou a mão esquerda de Ramsey e pousou-a em seus seios arfantes. Não houve a menor reação por parte do homem. Coco Bauer baixou o decote, deixando um dos seios à mostra. Apertou a mão de Ramsey de encontro à sua carne macia e quente. Em seguida, pousou sua mãozinha pequena na coxa de Ramsey e acariciou-a. Escorregou com a mão para cima. Ramsey ficou tenso, quando Coco apertou seu instrumento de prazer. O beijo tornou-se mais ardente. Os lábios vermelhos da ruiva pareciam querer fundir-se com os do macho que a excitava. O ruído de um zíper ecoou no carro. Melvin Ramsey ficou mais tenso ainda, vendo-a meter a mão por dentro de suas calças e segurar seu pau.

 

— Você me agrada — balbuciou Coco Bauer, sensual. — Por que não me acaricia? Não diga que não o excito. Estou vendo que está em ponto de bala, rijo como um aríete. Vou sentar no seu colo.

 

— Está louca? — exclamou Melvin. — Estamos na rua.

 

No centro de Roma!

 

— Ninguém olha para dentro dos carros estacionados.

 

Coco Bauer movimentou-se com agilidade e sentou-se nos joelhos de Ramsey. Seu seio nu encostou-se no rosto do homem a quem tentava conquistar com seus encantos.

 

Esfregou as nádegas no feixe de músculos. A virilidade de Melvin Ramsey deixava-a excitada.

 

— Aí vem Otto — disse Melvin, livrando a boca de mais um beijo alucinante.

 

Coco Bauer estremeceu como se tivesse levado uma chicotada. Melvin a empurrou para o banco. Ela o mordeu nos lábios e ficou tensa. Imobilizou-se um instante, atingindo o orgasmo que provocara, esfregando-se no macho. Relaxou de repente e voltou para seu lugar. O ruído do zíper tornou a ecoar no interior do Fiat. Coco recostou-se, deixando a cabeça pender para trás, com uma expressão de gozo.

 

Abriu os olhos, ao ouvir o barulho da maçaneta da porta dianteira. Otto entrou no carro e sentou-se em seu lugar, à direita do volante. Voltou-se e um brilho tomou conta de suas pupilas, ao captar a expressão da ruiva.

 

— Estão aí — murmurou, olhando para Melvin, com um olhar de ódio, como se quisesse fulminá-lo. — Orowitz está em companhia de dois dos homens dele. Douglas e o porco do Toniek! Não vi nenhum dos outros. Se esperam alguém, a pessoa pode aparecer a qualquer momento. Que foi, Coco?

 

Aconteceu alguma coisa, querida?

 

— Não — respondeu a ruiva, sorrindo. — Nada de mau, pelo menos.

 

— Cuidado, hem? Luc ficaria furioso, se soubesse que você anda se divertindo por aí, querida. Não é, Melvin?

 

Ramsey limitou-se a rosnar qualquer coisa. Coco ajeitou o cabelo e saiu do Fiat, encaminhando-se com passos miúdos para a entrada da boate.

 

Dos três, Stefan Orowitz foi o primeiro a vê-la. Seu olhar foi bastante expressivo. Toniek e Douglas voltaram-se para a entrada e viram a ruiva acomodar-se num dos tamboretes do bar. Douglas, como bom americano, não conteve um assovio de admiração.

 

— Que fêmea! — comentou Toniek, num sussurro.

 

Stefan Orowitz enrugou a testa. Consultou o relógio de pulso. Faltavam doze minutos para se esgotar o prazo máximo de espera previsto. Se no fim dos doze minutos o contato não aparecesse, nada mais teriam a fazer ali.

 

Deveriam voltar no dia seguinte. Ergueu o copo de uísque com gelo e tomou um gole. Esqueceu-se da ruiva. Mas tornou a pensar nela, ao ver a expressão de seus companheiros, que não conseguiam afastar os olhos do bar.

 

A ruiva continuava lá. Pediu uma bebida ao garçom e acendeu um cigarro enquanto esperava. Ao soltar a primeira baforada, passeou os olhos pela boate. Seu sorriso ampliou-se, ao perceber que estava sendo devorada pelos olhares dos três homens.

 

— É piranha! — murmurou Douglas.

 

— Num lugar como este? — protestou Toniek.

 

— De modo algum, meu chapa. É uma pequena entediada e nada mais.

 

— Calma, Hugo! — rosnou Orowitz. — Não sabemos se ela está sozinha. Também acho elegante demais para ser uma piranha à cata de macho. Por isso, insisto que não deve estar só.

 

— É pena — balbuciou Toniek. — Se nosso contato não viesse, eu poderia dar uma paquerada. Estou farto de ficar preso na vila.

 

— O caso não deve passar de dois ou três dias mais — lembrou Douglas, rindo. — Depois levaremos um vidão na Côte d’Azur. Lá, você encontrará fêmeas iguais a essa, aos montes, meu chapa.

 

Hugo Toniek não respondeu. Continuou contemplando a ruiva. Ela o encarou de longe e esboçou um sorrisinho de satisfação. Os lábios grossos e apetitosos se entreabriram levemente. A linguinha vermelha os umedeceu. Toniek remexeu-se na cadeira, inquieto. Viu o garçom trazer a bebida da ruiva. Toniek estava fascinado pelos lábios daquela mulher espetacular. Ela sorveu um golinho de champanha e os lábios se movimentaram como num beijo.

 

Os lábios da ruiva pareciam beijar a taça.

 

— Que horas são? — perguntou Toniek, ansioso.

 

Douglas deu uma risadinha e permaneceu calado.

 

Orowitz também. Como se não tivesse ouvido a pergunta.

 

Um homem alto e elegante aproximou-se da ruiva e disse qualquer coisa. Ela o encarou e sorriu. Tornou a olhar para Toniek. O homem disse outra coisa ao ouvido dela. A ruiva respondeu com ar aborrecido, como se o sujeito a estivesse incomodando. O homem vacilou e afastou-se. O olhar da ruiva dirigiu-se imediatamente para Toniek.

 

— Ela gostou de você, hem? — resmungou Douglas. — Se fosse puta, teria aceitado o convite daquele cavalheiro, sem a menor dúvida. Qual! Mas não entendo o que ela viu em você, meu chapa.

 

Toniek olhou para o companheiro, fechando a cara. Não era tão atraente como o americano, mas era muito mais viril.

 

As mulheres sabem apreciar essa qualidade. Ele era alto, forte, musculoso, cabeludo. Ah! As mulheres!

 

— Que horas são? — insistiu Toniek.

 

— Passam dois minutos do limite — respondeu Orowitz.

 

— Tratemos de voltar para a Villa Flávia.

 

— Ora, Stefan...

 

— Está bem — cortou Orowitz. — Mas esteja na Villa antes do dia clarear. E cuidado com o que vai fazer.

 

— É isso mesmo — apoiou Douglas, gozador.

 

— Cuidado para não apanhar uma carga de sífilis, hem?

 

Orowitz e Douglas levantaram-se e encaminharam-se para a saída. Um minuto depois, Toniek deixou algumas cédulas em cima da mesa, ficou de pé e aproximou-se do balcão. A ruiva o contemplou através do champanha borbulhante da taça.

 

— Eu não me teria lembrado de pedir champanha — murmurou ele, sorrindo para ela. — Pedi uísque. Mas o champanha é muito mais refrescante, não há dúvida.

 

— Claro — concordou a ruiva, também sorrindo. — E mais leve. Eu acho. Adoro champanha!

 

— Posso convidá-la para tomar outra taça? Ou duas são demais para você?

 

— De modo algum — respondeu ela, com voz envolvente. — Meu limite é mais extenso. Aceito o convite.

 

Você é muito gentil.

 

Neron Pub

 

Toniek pagou a corrida, desceu do táxi e foi abrir a porta para a ruiva. Estendeu a mão, convidando-a a sair. Ela pousou a mãozinha delicada na dele. Entraram no edifício e subiram ao primeiro andar. Coco tirou a chave da bolsa e abriu a porta do apartamento. Hugo Toniek sorriu. Enlaçou-a pela cintura e entraram juntos. Empurrou a porta com o pé e beijou-a na boca, ansioso para possuí-la. Vibrou, ao sentir a língua da fêmea tocar a sua com pancadinhas ligeiras.

 

As carícias que Coco Bauer começou a fazer deixaram Toniek arrepiado. Apertou-a com mais força. Ela soltou-se dos braços dele, murmurando: — Que barbaridade! Você é enorme.

 

— Não é assim que você gosta? — perguntou ele, baixando as alças do vestido da ruiva.

 

— É melhor irmos para o quarto — disse ela.

 

— Já que está tão esfaimado, não percamos tempo, querido.

 

Coco segurou a mão de Toniek e levou-o para o quarto.

 

Acendeu o abajur e começou a despir-se.

 

— Você é uma fêmea sensacional! — balbuciou ele, contemplando aquele monumento de feminilidade.

 

— Mostre que sabe apreciar o que é bom — murmurou ela, passando a língua pelos lábios, numa provocação.

 

Toniek não esperou mais nada. Tirou o paletó e Coco fingiu espanto, ao ver o revólver que ele usava sob a axila esquerda.

 

— Anda armado? — gaguejou ela. — É da polícia?

 

— Não se preocupe com isso, beleza. Vamos começar?

 

— Ah, não! — cortou a ruiva. — Com isso aí, não. Tire esse revólver. Quero você nuzinho, como estou.

 

— Tem toda a razão. É muito mais gostoso.

 

Toniek livrou-se da arma, da camisa, das calças, da sunga, dos sapatos, de tudo. Surgiu diante de Coco em toda a sua virilidade. Aproximou-se da cama e deitou-se, puxando a fêmea por cima. Rolaram abraçados e Toniek murmurou: — Vai ver o que é um macho!

 

Coco não viu. Mas sentiu. Não conteve um gemido, quando ele a penetrou com seu dardo pujante. De um só golpe, numa loucura desenfreada. Mas o ataque durou apenas alguns segundos. Toniek notou algo duro e frio em suas costas. Não deu importância, mas a coisa fria tornou a encostar-se em sua carne ardente. Várias vezes. E uma voz de homem ecoou no quarto em penumbra: — A farra acabou, amigo. É o que chamam de coitus interruptus.

 

Hugo Toniek soltou um palavrão e voltou a cabeça rapidamente. Viu o homem. Alto. Atlético. De cabelos cor de cobre e olhos negros. Apontava para ele uma pistola munida de silenciador. Forçando o pescoço para trás, viu o segundo, que encostava a arma em suas costas. Era mais baixo que o outro. Menos atlético, louro, de olhos azuis.

 

— Tirem-no de cima de mim — exclamou Coco. — É Melvin Ramsey aproximou-se de Toniek. Agarrou-o pelos cabelos e arrancou-o de cima da loura. Toniek caiu de joelhos no tapete junto da cama. Levantou-se rapidamente com a fisionomia alterada pela dor e pela raiva.

 

— Veja como está esse nojento! — gritou Otto. — Que bárbaro! Que horror! Tem uma coisa enorme!

 

Melvin aproximou-se de Toniek, impassível. De repente, ergueu o joelho direito e Toniek urrou de dor, ao receber a pancada nos órgãos genitais. Cambaleou como se fosse cair novamente. Em vez disso, atirou-se sobre Ramsey. O homem de cabelos cor de cobre recuou tranquilamente, esquivando-se do ataque. Quando Toniek passou por ele, assestou-lhe uma pancada na altura dos rins. Toniek tornou a cair de joelhos. Sua força era extraordinária, pois conseguiu levantar-se novamente. Um pontapé brutal acertou entre as pernas, obrigando-o a ajoelhar-se no meio do quarto. O punho esquerdo de Ramsey atingiu-o no queixo.

 

Hugo Toniek revirou os olhos e desabou, sem sentidos.

 

— Isso é que é lutar, meu querido Melvin — exclamou Otto, entusiasmado.

 

— Ajude-me a levá-lo lá para baixo — disse Melvin Ramsey, sem se alterar.

 

— É melhor — rosnou Otto, lançando um olhar de desprezo em direção a Coco Bauer, que continuava deitada na cama, nua. — O que vejo aqui me dá náuseas.

 

A primeira coisa que Hugo Toniek viu, ao abrir os olhos, foi uma mulher. Mas não era a ruiva espetacular. Estava diante de uma loura ainda mais bonita e atraente. Ela o olhava com uma expressão neutra. Toniek abriu a boca para falar, mas uma dor terrível no queixo o impediu de articular as palavras. Movimentou o maxilar lentamente e não conteve um gemido. Sua situação mudara radicalmente. Continuava nu, mas num quarto pequeno, amarrado a uma poltrona. E com uma loura à sua frente, em vez de uma ruiva sob o corpo. Um relâmpago de compreensão iluminou seu cérebro.

 

— Você é a vendedora de livros? — balbuciou, espantado.

 

— Sou — respondeu Marie Bovet, imperturbável.

 

— Que significa isso? — perguntou, olhando ao redor.

 

— Acalme-se, rapaz — disse a loura, sem se alterar. — Você esteve em perigo, mas como vê, cheguei a tempo de ajudá-lo.

 

— Ajudar-me? Você?

 

— Naturalmente. Para isso somos amigos, não é?

 

— Amigos? — balbuciou Hugo Toniek, atordoado. — Nós dois? Ei, escute aqui, beleza, não sei o que está pretendendo, mas seja o que for, meteu-se numa enrascada, ouviu?

 

— Vamos, vamos, Toniek. Calma. Sou Marie. Sua amiguinha Marie. Não se lembra mais de mim?

 

— Pare com isso. Chega de brincadeira. Você tramou alguma coisa, camuflando suas atividades com aquela história de vender livros. É lógico! Mas não vou entrar nessa dança, como um idiota, fique sabendo!

 

— Quer dizer que não somos amigos, hem, Toniek?

 

— Vá à merda. Pare de me gozar, sim? Só mesmo sendo idiota, para pensar que basta dizer, somos amigos e pronto, arrancaria de mim o que quisesse! Enganou-se!

 

— Estão convencidos? — perguntou Marie Bovet, recuando dois passos.

 

Toniek sacudiu a cabeça, espantado. Viu surgir três homens de trás do sofá. Dois já eram seus conhecidos. O terceiro também era alto, elegante, com um físico sedutor.

 

Um extraordinário trio masculino.

 

O que não conhecia aproximou-se e o encarou fixamente, perguntando: — Então não conhecia Marie?

 

— Vão para o inferno, você e ela! — respondeu Toniek.

 

— Estou compreendendo a jogada. Vocês a mandaram à vila com alguma intenção. Quem são vocês?

 

Luc Perrier gastou alguns segundos contemplando Toniek, pensativo. De repente, puxou uma cadeira e sentou-se diante do prisioneiro, apresentando-se: — Meu nome é Luc Perrier. Fui contratado para dissolver certa ação preparada por seu chefe, Stefan Orowitz. Sabemos que ele organizou um grupo e que se encontra na Villa Flávia à espera do momento de iniciar essa ação. Momento que chegará quando receber as armas proporcionadas por alguém. Perfeitamente. Agora você vai responder às minhas perguntas. Quem contratou o grupo de Orowitz?

 

— Não sei — respondeu Hugo Toniek, sem sair de seu espanto.

 

— Quando, de onde e como chegarão as armas?

 

— Não sei.

 

— Qual é a ação que devem realizar?

 

— Não sei.

 

— Pelo jeito, não sabe de nada, hem, Toniek?

 

— Não sei de nada disso que você me perguntou. Você sabe muito mais que eu!

 

— Isso significa que você não tem a menor utilidade para mim.

 

— Não sei. Fui contratado. Isso é tudo.

 

— Nunca ouviu falar no Padrone?

 

— Não.

 

— Talvez saiba, ao menos, quem seus amigos e você esperavam no lugar onde uma ruiva atraente o agarrou.

 

— Não. Também não sei. Quem são vocês? Polícia? Serviço Secreto?

 

— Nada disso. Disse, há pouco, que fomos contratados para atacar vocês. Recebemos instruções de um homem a quem chamamos de Padrone. Ele, sim, parece saber de tudo sobre vocês. Mas só nos diz o essencial. Na verdade, estamos agindo às cegas. Obedecemos às ordens, e pronto. Mas gostaríamos de saber um pouco mais. Gostaríamos de saber algo que o Padrone não nos quer dizer. Ele paga muito bem, mas eu desejo saber o que espera de mim e de meus homens, antes que ele próprio o diga. Gosto de pisar em terreno firme. Por isso, decidi ter uma entrevista com um de vocês, para ver se me podem dizer as coisas que o Padrone não quer dizer. Compreendeu, Toniek?

 

— Sim. Mas não sei de coisa alguma. Nunca ouvi falar nesse tal Padrone.

 

— Nem conhece esta loura espetacular.

 

— Sim — murmurou Toniek, desviando os olhos na direção de Marie Bovet. — Eu a vi esta tarde. Esteve na Villa Flávia. Queria vender uns livros. É só o que sei.

 

— Não sabe por que o capturamos, Toniek?

 

— Para me interrogar.

 

— Sim. Em primeiro lugar, nós o capturamos por ordem de nosso chefe. Precisávamos usá-lo para verificar se a senhorita Bovet também faz parte do grupo de Orowitz, ou se o aparecimento dela foi casual. Para verificar se ele não faz parte de uma jogada de Orowitz. Talvez a tivesse usado com alguma intenção. Pode tê-la contratado para se insinuar entre nós e descobrir certas coisas. O Padrone estava desconfiado que Orowitz havia percebido nossa vigilância. Felizmente, graças às suas informações, isso não é verdade. A senhorita Bovet não é uma isca jogada por Orowitz. Muito bem. Considerando que não sabe de mais nada capaz de nos auxiliar, pergunto: para que serve você?

 

— Posso dar mais informações — balbuciou Hugo Toniek, compreendendo o sentido das palavras de Luc Perrier.

 

— Ficou bem claro que sabemos muito mais a respeito de Orowitz que você, não é mesmo? Enfim, não perco nada lhe dedicando mais um minuto de atenção. Vamos ver: quais sãos as informações que nos pode fornecer?

 

Toniek pigarreou. Gaguejou, procurando as palavras. Luc Perrier balançou a cabeça negativamente, murmurando: — Desista, Toniek. Não se esforce. Nada mais nos pode dizer. Sinto muito.

 

— Não atir...

 

Plop. Plop. Toniek emitiu um grito abafado, que se cortou bruscamente, transformando-se num grunhido gutural. Em seguida, os músculos se relaxaram e o prisioneiro ficou imóvel, com a cabeça pendurada para o peito, onde as manchas de sangue começaram a aparecer. Duas que logo se juntaram numa só, sobre o coração.

 

— Tornem a amarrar a senhorita Bovet — ordenou Luc Perrier, guardando a pistola. — Levem o cadáver daqui. Lastrem bem e joguem no Tibre, de uma ponte qualquer. Hans vai ficar vigiando a senhorita Bovet.

 

— Por que não a matamos também? — perguntou Otto.

 

— Pare de ser cretino — cortou Melvin. — Luc pode encontrar um meio de usá-la, seu idiota. Como vendedora de livros. Assim ela terá oportunidade de entrar novamente na Villa Flávia.

 

Luc Perrier olhou para Ramsey e sorriu. Pouco depois, saiu do quarto. Marie Bovet foi amarrada novamente.

 

Enrolaram Toniek num cobertor e o prenderam com cordas bem seguras. Um sujeito alto e forte, mal-encarado, apareceu na porta e entrou. Tinha o rosto picado de bexigas, olhos verdes e queixo quadrado. Otto Kuzner começou a falar com ele em alemão.

 

— Não pode falar em francês ou em italiano? — cortou Melvin Ramsey, irritado.

 

— Não estávamos dizendo nada de importante — desculpou-se Otto. — Eu pedia a ele para não fazer porcarias com a loura.

 

— Para que mais podemos querê-la — rosnou Hans, sorrindo libidinosamente.

 

— Vocês são uns porcos! — exclamou Melvin. — Só pensam em sexo. É melhor tratarem de ir jogar o cadáver no rio. Eu fico vigiando a senhorita Bovet.

 

— Nada disso — protestou Hans. — Luc mandou que eu ficasse.

 

— Vou falar com ele — atalhou Melvin, fazendo menção de sair do quarto.

 

— Já saiu — disse Hans, sorrindo. — Foi à Villa Flávia falar com Tumar e com Alberto para saber se há alguma novidade, ou se observaram qualquer coisa interessante. Ora, Ramsey, por que defende tanto essa mulher? Vá cuidar do seu trabalho e me deixe em paz!

 

Melvin Ramsey olhou para Marie Bovet. Depois para Hans. Finalmente, sem tornar a abrir a boca, abaixou-se para segurar o cadáver de Hugo Toniek. Otto o ajudou, segurando pelos pés. Saíram do quarto. Hans foi sentar-se numa poltrona. Acendeu um cigarro e contemplou Marie. A música do Neron Disc chegava até ali, abafada, em surdina.

 

— Bom material! — balbuciou o vigia. — Você é uma parada, hem, pequena?

 

Marie Bovet o encarou, levemente inquieta. Olhou para a porta, mas permaneceu impassível.

 

— Não virá ninguém — prosseguiu Hans, com uma risadinha sinistra. — O restante do grupo está ocupado.

 

Tumar e Alberto vigiam a Villa Flávia. Luc e Coco foram para lá. Ramsey e Otto estão a caminho do rio para se livrarem daquele lixo. Estou sozinho, com você.

 

Jogou o cigarro no chão e apagou-o com o salto do sapato. Levantou-se e deu dois passos, parando diante da poltrona onde se encontrava Marie. Acariciou-lhe os seios.

 

Não se conformou de tocá-los por cima do vestido.

 

Desabotoou a blusa e alisou-os com as mãos grossas.

 

— Que maravilha! — balbuciou Hans, alucinado. — Vou dar uma mordidinha neles.

 

Inclinou-se, rindo. Abriu a boca para dar a primeira mordida. Marie Bovet continuou imóvel. Não resistia. Não se debatia. Parecia uma estátua. Uma extraordinária e belíssima estátua. Hans, sim, não parava quieto. Suspendeu a saia da prisioneira, acariciando-lhe as coxas rijas. Tentou colocar-se sobre ela, mas a posição de Marie não facilitava coisa alguma.

 

— Avance com o corpo — ordenou, arquejante, desabotoando a calça.

 

— Não posso — respondeu ela, impassível.

 

Hans meteu as mãos por trás dela e puxou-a para si.

 

Ajeitou-se melhor para cobri-la com seu corpo musculoso.

 

Não notou que a mão direita da prisioneira conseguiu libertar-se de repente. Não viu aquela mãozinha pequena e delicada agitar-se com uma velocidade inacreditável em direção à sua cabeça, dura, rija. Nem sentiu o golpe preciso de caratê que ela lhe assestou. O impacto daquela mão pequena deixou Hans atordoado. Teve a sensação de que algo havia explodido em seu cérebro. Tudo aconteceu numa fração de segundo. Depois um poço escuro e sem fim abriu-se diante dele. Quando rolou no chão, nada mais poderia interessá-lo, porque já estava morto.

 

Marie Bovet o contemplou com a fisionomia contraída.

 

Vendo que Hans não se mexia, usou a mão direita que soltara, quando ele mexera nas cordas para abraçá-la. Com precisão e sem se afobar, desamarrou-se inteiramente, em poucos minutos.

 

Levantou-se e examinou Hans. Tirou-lhe o coldre com a pistola e seus seios à mostra se balançaram perto do nariz do homem caído a seus pés. Hans, porém, já não se interessava mais pelos atrativos físicos da loura. Marie tirou a blusa e afivelou o coldre sob a axila. Vestiu-se, mas a arma fazia um volume muito visível. Retirou-a. Experimentou escondê-la sob a saia, entre as coxas. Baixou a saia e fez um gesto de aprovação.

 

Pegou todo o dinheiro que havia no bolso de Hans e saiu do quarto. O corredor estava deserto. O escritório de Luc Perrier também. Marie Bovet parou na porta e contemplou o quadro que havia atrás da escrivaninha. Mas balançou a cabeça numa negativa. Que poderia encontrar no cofre de Luc Perrier mais interessante do que as informações que já possuía? Além disso, não era Luc Perrier quem interessava.

 

Tinha um objetivo muito mais atraente. E importante, sem dúvida.

 

Atravessou o corredor em sentido contrário ao da chegada. Entrou, pouco depois, no Neron Pub, onde a animação não diminuíra. Foi andando por entre os dançarinos solitários. Pelo menos, era a ideia que davam, dançando separados. Como se ignorassem uns aos outros.

 

Marie Bovet encaminhou-se para a saída como se fizesse parte das sombras avermelhadas da boate, que parecia estourar sob o impacto do som forte e barulhento da música.

 

Minutos mais tarde, estava na rua.

 

O Padrone

 

Encontrou o que procurava: uma pizzeria típica. Ficava na Via Genovesi. O proprietário, gordo e bigodudo, ouviu-a com atenção. Estava na hora de fechar o estabelecimento, pois era quase meia-noite. Mas a ragazza loura, de olhos brilhantes, conseguiu convencê-lo sem dificuldade. Ela precisava de um telefone particular para fazer uma ligação de caráter sentimental, de uma pizza e de uma garrafa de vinho.

 

Se possível, Valpolicella.

 

Enquanto o proprietário punha a pizzeria em ordem para o dia seguinte, Marie Bovet ficou sentada no escritório, onde estava o telefone. Diante dela, além do aparelho, estavam a pizza e a garrafa de vinho. Entre um pedaço e outro, entre um gole e outro, discava números que anotava num papel.

 

Gravara na memória o som do disco do telefone de Luc Perrier, quando ele fizera a ligação para o Padrone. Por isso, foi marcando os números que lhe pareceram adequados.

 

Pouco a pouco, reconheceu o som que ficara em sua memória auditiva. Anotou tudo num pedaço de papel. No fim de alguns minutos, conseguiu o número completo de um telefone. Discou-o sem pressa, depois de acabar de comer a pizza e de saborear o último gole de vinho. Ouviu o ruído de chamada. Uma, duas, três, seis, sete vezes. Finalmente, atenderam:

 

—...?

 

— O Padrone, por favor — disse Marie, com voz suave.

 

Um silêncio prolongado seguiu-se do outro lado do fio. E logo outra voz de homem atendeu, para saber com quem ela queria falar.

 

— Perguntei pelo Padrone — insistiu a loura. — Se vai dizer que disquei o número errado e que não sabe quem é o Padrone perde seu tempo. E complicará a vida. Prefere falar comigo ou com a polícia, por exemplo?

 

—...?

 

— Eu sou Marie Bovet — murmurou a loura, sorrindo.

 

— Fugi do Neron Disc. Um de seus empregados, chamado Hans, tentou violentar-me. Mas escolheu o momento errado. Eu já estava quase desamarrada e o matei.

 

—...?

 

— Luc Perrier e os outros estão ocupados com diversas coisas. Foi fácil sair de lá. Olhe, não percamos tempo em tolices, sim? Se eu der seu número à polícia, ela o encontrará em poucos minutos. Escolha: isso ou um bate-papo comigo.

 

—...

 

— De acordo. Mas não por telefone. Quero uma entrevista pessoal.

 

—...?

 

— Agora. Ou tem alguma dificuldade para sair daí?

 

— Va bene. Tem um guarda-chuva?

 

—...

 

— Ótimo. Pegue-o, saia daí e encontre-se comigo daqui a vinte minutos na Piazza Farnese, diante do Palazzo. Não se esqueça do guarda-chuva, hem? Eu o identificarei por ele.

 

Até logo, Padrone.

 

Marie desligou. Pegou o prato, os talheres e o copo e saiu do escritório. O proprietário obeso voltou-se, ao ouvir os passos da freguesa.

 

— Tudo bem, senhorita? — perguntou ele, sorrindo.

 

— Tudo. Quanto lhe devo?

 

— Um beijo — respondeu Mário, rindo. — Se acha caro demais não pague.

 

Marie também riu. Pousou os pratos no balcão e deu um beijo nas bochechas do proprietário da pizzeria, murmurando em seguida.

 

— Por este preço, ficarei freguesa assídua do estabelecimento.

 

— Volte quando quiser — exclamou Mário, sem parar de rir. — Quando quiser!

 

Padrone chegou a pé à Piazza Farnese. Marie o viu aparecer, vindo da Piazza Campo dei Fiori, usando o guarda-chuva como se fosse uma bengala. Ela continuou imóvel.

 

Observou-o mais um pouco, vendo o recém-chegado olhar para todos os lados. Era um homem alto, de cabelos fartos, vestido com elegância. Jovem ainda. Não teria mais de trinta anos. Dois minutos mais tarde, Marie convenceu-se de que o Padrone viera realmente sozinho. Logo, se queria falar com ele, deveria aproximar-se.

 

Saiu de seu esconderijo e avançou em direção a ele, lentamente. O Padrone a viu. Era muito bonito de rosto. Os olhos grandes a contemplaram com um brilho intenso. Marie Bovet imaginou que o Padrone era o tipo do homem do qual nada de ruim se poderia esperar. A julgar pela aparência, pelo menos.

 

— É você? — murmurou ela, encarando-o fixamente.

 

— Senhorita Bovet? — perguntou ele por sua vez.

 

— Sim — respondeu Marie. — Devo preveni-lo, antes de tudo, que estou com a pistola de Hans. Se me preparou uma armadilha, será o primeiro a morrer.

 

— Por que quis ver-me? — disse o Padrone, sem se alterar, esboçando um sorriso no qual mostrou os dentes muito brancos.

 

— Qual é seu nome verdadeiro? — insistiu Marie.

 

— Não seja infantil. Nada de nomes. E pare de me ameaçar com a polícia. Seria tolice sua, procurá-la.

 

— É da polícia, por acaso?

 

— Talvez.

 

— Do SID?1

 

— Não seja absurda.

 

— Está certo. Devo entender, então, que embora não pertença a nenhum organismo oficial italiano tem importantes ligações com eles e considera-se a salvo de denúncias.

 

— Que tipo de denúncia poderia fazer contra mim?

 

— Luc Perrier assassinou um homem chamado Toniek diante dos meus olhos. E Perrier trabalha para você, não é?

 

— Que mais? — murmurou o Padrone.

 

— Luc Perrier dirige um grupo com o qual pretende atacar outro grupo comandado por um tal Stefan Orowitz. Orowitz por sua vez está à espera de armas para realizar determinada ação. A polícia ou o SID se interessariam por estas informações?

 

— Os dois organismos me agradeceriam o fato de eu estar disposto a eliminar um animal daninho da qualidade de Stefan Orowitz.

 

— Por que não o denuncia então? Isso simplificaria muito as coisas, não acha? Em lugar de denunciar o suposto terrorista ao serviço secreto, você organizou um grupo para eliminar o grupo de Orowitz. Por quê, Padrone? Por que quer eliminá-lo em vez de avisar o SID? Que está Orowitz tramando, exatamente? Você sabe. Não negue. Nada revelou a Luc Perrier, mas sabe. Em lugar de atacar Orowitz, espera que ele receba as armas e se encontre com alguém. Com quem? Que está acontecendo?

 

— Quem é você afinal? — murmurou o Padrone, depois de alguns segundos de silêncio. — E o que deseja exatamente?

 

— Pelo jeito, não quer responder às minhas perguntas, hem, Padrone?

 

— Não pretendo, é claro.

 

— Muito bem — balbuciou Marie, sorrindo. — Neste caso, falemos de dinheiro. Luc Perrier já lhe explicou quem eu sou e a que me dedico, além de vender livros. Eu poderia ser classificada como uma ladra de luvas brancas. Concorda?

 

— Quer dinheiro para guardar silêncio?

 

— Seria meu golpe mais simples — concordou Marie, sempre sorrindo.

 

— Quanto quer?

 

— Um quarto de milhão.

 

— De liras?

 

— Deus me livre! — exclamou Marie, dando uma gargalhada. — Ora, vamos, Padrone! Há muito tempo deixei de comprar caramelos. Com duzentas e cinquenta mil liras, era só o que poderia comprar: caramelos. Falei em dólares.

 

Dólares americanos, naturalmente.

 

— É muito dinheiro.

 

— Sei disso. Aceita?

 

— Ligue para o mesmo telefone, amanhã ao meio-dia — disse o Padrone, após alguns segundos de reflexão. — Darei a resposta.

 

— Perfeitamente. Foi um prazer conhecê-lo, Padrone.

 

Deu meia-volta e afastou-se, sem sequer cumprimentar a loura aventureira. Marie Bovet ficou imóvel até perdê-lo de vista. Quando o viu dobrar a esquina para a Piazza Campo dei Fiori, correu atrás dele. Avistou-o ao longe, atravessando a praça em direção a uma ruela que a ligava com o Corso Vittorio Emanuelle II. A perseguição realizou-se sem contratempo algum para Marie Bovet. O Padrone voltava a cabeça de vez em quando, mas Marie colava-se à parede, fugindo do olhar dele.

 

Chegaram à Via Panisperna. O Padrone parou no cruzamento com a Via Cavour, perto da igreja de Santa Maria Maggiore. Tornou a olhar para trás, deu mais alguns passos e desapareceu num portal escuro. Um minuto depois, Marie estava no portal. Atravessou-o, olhando para o interior. A porta de vidro estava aberta, mas o vestíbulo do prédio continuava na mais completa escuridão. Marie não se preocupou. Precisava apenas ver o número do prédio da Via Panisperna e mais tarde fazer investigações sobre seus moradores.

 

Parou de repente, ao ver surgir diante dela um homem cuja mão direita estava metida no bolso do paletó, numa indicação bastante sugestiva. Marie passou a língua nos lábios, reconhecendo o homem. Era Otto. Voltou a cabeça e viu à sua retaguarda mais dois homens: Padrone e Melvin Ramsey. Ao olhar para a esquerda, não se espantou ao ver mais dois atravessando a rua e se aproximando dela. Todos com a mão direita no bolso. Otto deu mais alguns passos. O cerco se fechou ao redor de Marie Bovet. A loura sorriu, balançando a cabeça, num sinal de autorreprovação, por ter sido tão desprecavida.

 

— Venha, senhorita Bovet — disse o Padrone. — Não vale a pena tomar o elevador.

 

Recuou até o portal onde o Padrone havia entrado. Os homens a imitaram. O Padrone segurou a loura pelo braço e entrou no prédio. Apertou um botão e a luz se acendeu.

 

— É um andar só — explicou o Padrone. — Vamos pela escada.

 

Melvin Ramsey adiantou-se a eles. Quando chegaram ao primeiro andar, já havia aberto a porta do apartamento e acendido a luz. Padrone convidou Marie a entrar, com um gesto amável. Otto foi o último a chegar. Fechou a porta e juntou-se aos outros na sala onde Coco Bauer os esperava, tendo Luc Perrier a seu lado.

 

— Já conhece Coco Bauer e Luc Perrier, não é mesmo? — disse o Padrone. — Kuzner e Ramsey, também. Os outros dois são Tumar e Alberto.

 

— E você? — murmurou Marie, sorrindo.

 

— Eu? O Padrone. Por sua causa estou numa situação difícil, senhorita Bovet. Muito difícil.

 

— Compreendo. Só Luc Perrier o conhecia. Agora todo o grupo o conhece. Isso não é conveniente para você, hem?

 

— Não. Não é.

 

— Não se preocupe demais. Afinal, conseguiu capturar-me. Isso prova que não sou tão esperta como imaginava.

 

Devia ter calculado que você imaginaria a minha jogada.

 

Compreendeu logo que eu ia segui-lo e preparou esta armadilha.

 

— Isso acontece, às vezes. Ninguém é mais esperto que os outros, em tudo. Muito bem, senhorita Bovet — balbuciou o Padrone, cruzando os braços e contemplando a prisioneira com um olhar penetrante. — Que vou fazer agora? Não me agradaria ser obrigado a matá-la. Mas você complicou a minha vida. Complicou tudo. Por sua causa, abandonamos a excelente base que era o Neron Pub. Um dos homens de Orowitz morreu e você matou um dos meus. E agora, além de você, meus homens me conhecem pessoalmente. Não havia a menor necessidade disso. Só me resta este apartamento e uma prisioneira. Teria sido muito mais simples, se você não se metesse nessa história, entendeu?

 

— Sua base do Neron Pub continua sendo utilizável — disse Marie, num tom cordial. — Ninguém mais tomou conhecimento dela. Toniek morreu e eu estou em suas mãos.

 

— Trabalha sozinha? — perguntou Melvin Ramsey.

 

— Absolutamente sozinha. E não falei com pessoa alguma durante essa confusão toda. Não me interessava.

 

— Por quê? — exclamou o Padrone. — Explique-se.

 

— Porque podemos chegar a um acordo. Afinal de contas, pelo que entendi até agora, Luc Perrier não se meteu em nada capaz de complicar as coisas para a França.

 

Todos fixaram o olhar nela, espantados. Menos Ramsey, que permaneceu impassível.

 

— Complicar as coisas para a França? — balbuciou Luc Perrier, no fim de alguns segundos.

 

— Que quer dizer com isso?

 

— Meu nome é Marie Bovet. De verdade — explicou a prisioneira. — Mas não sou vendedora de livros e, muito menos, ladra. Trabalho para o SDECE francês. Mais ou menos o equivalente do SID italiano, Padrone.

 

— É espiã francesa? — perguntou o chefe do grupo, intrigado.

 

— Sou contraespiã, digamos assim — murmurou Marie, sorrindo. — Nosso centro de informações em Paris recebeu dados assegurando que Luc Perrier, que já se metera em complicações anteriormente, estava organizando um grupo em Roma. Passamos a vigiá-lo e descobrimos que ele e seus homens vigiavam a Villa Flávia. O SDECE resolveu enviar-me para saber o que estavam tramando em Roma com a intervenção de Luc Perrier. Tive a sorte dele e sua gente se interessar por mim. Isso me poupou muitas manobras pessoais de aproximação do grupo.

 

— Fantástico! — exclamou o Padrone. — Por que esse interesse por Luc, senhorita Bovet?

 

— Não sabe? — murmurou Marie, sorrindo. — Luc é muito discreto, estou vendo.

 

— De que ela está falando, Perrier? — perguntou o Padrone.

 

— Refere-se, sem dúvida, ao tempo em que trabalhei para o SDECE — respondeu Luc.

 

— Foi agente francês? — balbuciou o Padrone, empalidecendo. — Por que se afastou?

 

— Aborrecia-me terrivelmente. Não gosto de levar uma vida muito rígida, pertencendo a certas organizações. Sinto-me melhor agindo por conta própria.

 

O Padrone passou a mão pela testa e deixou-se cair numa poltrona. Olhou para o telefone e murmurou: — Há coisas que não posso decidir sozinho. Preciso consultar o Padrone.

 

— Padrone? — rosnou Melvin Ramsey. — O Padrone não é você?

 

— Tenho mais uma pergunta a fazer — disse Marie Bovet, em meio ao espanto geral que dominara todos os presentes. — Que fará Stefan Orowitz quando o dia amanhecer e Toniek não voltar à Villa Flávia?

 

— Sem a sua interferência, nada teria acontecido — respondeu o Padrone, fulminando a espiã com um olhar homicida. — Tudo seguiria o curso normal.

 

— O que está feito não pode ser mudado — sugeriu Melvin Ramsey, serenamente. — Tratemos de encontrar um modo de solucionar o problema que Marie apontou.

 

— Tenho uma solução — disse a francesa.

 

— Qual? — resmungou o Padrone.

 

— Devemos partir da base de que Stefan Orowitz não é um débil mental. Logo, quando der por falta de Toniek, também precisará tomar novas providências. Seria muito conveniente descobrirmos quais as providências que ele vai tomar.

 

— Nós? Fala como se fizesse parte de meu grupo, senhorita Bovet.

 

— De que se espanta? Meu ex-companheiro Luc Perrier está em seu grupo, não é? Segundo todos os índices, é Orowitz e não você quem prepara uma ação armada. Minha posição pessoal não poderia ser mais clara: desejo impedir o uso de armas. Impedir que essa ação se realize, evitando assim que haja mortos e que o nome de Luc Perrier possa ser envolvido, prejudicando o SDECE, ou mesmo a França.

 

Logo, não se espante por eu me colocar ao seu lado, Padrone.

 

— Que faria para descobrir que novas decisões Orowitz vai tomar? — rosnou Ramsey.

 

— Posso fazer outra visitinha à Villa Flávia e perguntar ao senhor Orowitz se já decidiu se compra ou não minha coleção de livros de arte. Direi que anotei em minha agenda que ele ficara de dar a resposta no dia seguinte ao de minha primeira visita. Ele dirá que não está interessado e eu irei embora.

 

— Que ganharemos com essa comédia? — perguntou Ramsey, o único a não demonstrar espanto em todo o grupo.

 

— Quando eu sair do gabinete de Stefan Orowitz, um de meus minúsculos microfones ficará escondido numa poltrona. Bastará ligarmos o receptor e saberemos de tudo que ele falar com os homens dele.

 

— Tem um equipamento sortido, hem? — balbuciou Melvin Ramsey. — Onde?

 

— No reboque — disse Marie, sorrindo. — Num esconderijo que não mostrarei a você e a Otto. Então? Que tal minha proposta de fazermos uma aliança?

 

O Padrone tornou a olhar para o telefone. Depois, fixou o olhar em Marie, enrugando a testa. Levantou-se e disse com voz tensa: — Alberto e Tumar voltarão a ficar de vigia diante da Villa Flávia. Passarão a noite lá. Luc e Coco voltarão para o Neron Pub, a fim de se certificarem se está tudo bem por lá.

 

Ramsey e Kuzner ficarão aqui, vigiando a senhorita Bovet.

 

Não a deixem escapar desta vez. Ligarei para Luc, quando tiver tomado uma decisão.

 

— Você? — perguntou Marie. — Ou o grande Padrone?

 

O jovem Padrone encarou-a, de sobrancelhas arqueadas.

 

Em seguida, sem acrescentar uma palavra, saiu da sala.

 

Pouco depois, ouviram a porta do apartamento bater com violência.

 

1 SID — Servizio di Informazione e Difensa — serviço secreto italiano, dedicado a proteger o país de invasores, espiões, traidores, sabotadores, terroristas políticos etc...

 

Erotismo

 

Um minuto mais tarde, no apartamento de Via Panisperna, restaram apenas Marie Bovet, Otto Kuzner e Melvin Ramsey. O último olhava fixamente para Marie e disse de repente: — Levante a saia.

 

Ao falar, esgrimiu a pistola, apontando-a para os seios da loura.

 

— Francamente! — protestou Otto Kuzner. — Você escolhe cada momento para essas coisas!

 

Calou-se ao ver que Marie obedeceu à ordem. Ergueu a saia e deixou à vista a pistola que carregava presa às coxas.

 

— Você é muito esperto, Melvin! — murmurou ela. — Esperto demais para trabalhar sob ordens de um tolo como Luc Perrier.

 

— É melhor tirar isso, para ficar mais à vontade — disse Melvin, sério como de costume.

 

Marie livrou-se da arma. Manteve a saia levantada, enquanto desafivelava o coldre em que estava a arma. Olhou para os dois homens e balbuciou: — Parece que aqui as coisas vão bem diferentes do que foram com Hans, hem? Estou em companhia de dois homens, mas não corro perigo sexual. Um deles é fresco. O¨outro... Que é você, Melvin? De pedra?

 

— Está querendo me provocar? — perguntou ele secamente.

 

— Não faça caso! — exclamou Otto. — E uma nojenta!

 

— Nada disso — atalhou Marie, sorrindo. — Melvin me agrada. Só isso.

 

— Não diga! — rosnou Otto. — Também me agrada.

 

— Sendo assim, deixemos que ele escolha com quem prefere passar a noite. Suponho que não vamos ficar aqui sentados, como idiotas. Eu, pelo menos, prefiro me deitar.

 

Você vem comigo, Melvin?

 

— Que nojo de mulher! — grunhiu Otto Kuzner. — Não dê ouvidos a ela, Melvin.

 

— Por que não? — disse Ramsey, sorrindo de repente. — Não sei que brincadeira a bela Marie pretende fazer. O começo, porém, é muito agradável para mim. Nunca fui para a cama com uma espiã. Talvez seja interessante. Muito bem, Marie. Vamos para o quarto. De acordo?

 

— Não faça isso comigo, Melvin — gemeu Otto. — Não seja tão cruel para com seu amiguinho!

 

Marie levantou-se e dirigiu-se para a saída da sala.

 

Ramsey a seguiu. Otto segurou-o pelo braço, mas o britânico soltou-se com um gesto brusco. Encarou o companheiro friamente e disse: — Já está me enchendo, Otto. Não sabe aceitar as coisas?

 

Fique aqui. Luc pode telefonar. E nos deixe em paz, ou lhe quebro a cara e ninguém mais o achará bonito. Está claro?

 

Otto Kuzner mordeu os lábios e permaneceu em silêncio.

 

Melvin aproximou-se de Marie, que o esperava no portal.

 

Enlaçou-a pela cintura com um dos braços musculosos e foram andando pelo corredor. Entraram num dos quartos.

 

Ramsey fechou a porta pelo lado de dentro. Em seguida, enlaçou Marie pela cintura e fechou-a num abraço apertado.

 

Beijou-a na boca, um beijo ardente e demorado. Quando se separaram, ela sorriu e murmurou: — Então?

 

— Muito gostoso! Você se despe ou eu devo despi-la?

 

— Como quiser.

 

Melvin Ramsey concordou com um movimento de cabeça e começou a despir a loura espetacular, que o contemplava sorridente. Quando terminou, ela se pendurou no pescoço dele e procurou novamente os lábios quentes que a tinham beijado pouco antes. Marie segurou Melvin pela mão e puxou-o para a cama. Recostou-se nela e ergueu os olhos para o inglês, que voltara a cabeça para a porta. Ela olhou na mesma direção. Sorriu mais uma vez e estendeu-lhe os braços num convite. Melvin Ramsey tirou a roupa e deitou-se ao lado dela, inteiramente nu. Acariciou os seios deliciosos da loura espiã. Percorreu o corpo com a ponta dos dedos. Marie estremeceu.

 

— Então? — perguntou ele. — Qual é o truque desta vez?

 

— Truque? — balbuciou ela, surpresa.

 

— Vai querer convencer-me de que não está tramando alguma coisa? Tome cuidado, hem? Eu não sou Hans.

 

— Sei disso. Por isso gostei de você. É diferente. É mais forte, mais másculo. Por que não acredita que me agrada simplesmente?

 

— Deita-se com todos os homens que lhe agradam?

 

— Nem sempre — respondeu ela, acariciando-o mais intimamente, — Se as coisas correrem mal para mim, se o grande Padrone decidir eliminar-me, pelo menos terei gozado meus últimos instantes de vida. É preciso aceitar a vida como ela se apresenta, Melvin. Não devemos deixar escapar nada. Não concorda comigo?

 

— Inteiramente. Por falar em gozar...

 

Começaram a beijar-se novamente. As carícias tornaram-se mais ousadas. Do lado de fora, Otto Kuzner, colando o ouvido à porta, ouviu os suspiros e os gemidos de prazer dos dois no quarto. O belo alemão estava branco como um fantasma. Continuou preso à porta, ouvindo os ruídos do casal que se entregava por completo aos jogos do amor. O toque do telefone chamou-o de volta à realidade. De cara feia, Otto Kuzner foi atender. Correu pelo corredor, entrou na sala e pegou o fone.

 

— Pronto — disse, com sua voz aguda.

 

—...?

 

— Ah, olá! Sim, sou eu, Otto. Quê...?

 

—..?

 

— Está na cama com a francesa.

 

—...?

 

— Que estão fazendo? — quase gritou o alemão. — Ela o levou para a cama e estão fazendo o que se espera de um homem e uma mulher.

 

—...?

 

— Como? — exclamou Otto, dando um pulinho de satisfação. — Farei com imenso prazer! Com muito prazer!

 

Pousou o fone e foi para o corredor. Sacou a pistola, verificou se o silenciador estava ajustado, segurou a maçaneta com a esquerda e empurrou a porta. Entrou com a arma apontada para a cama. Melvin e Marie voltaram-se para ele.

 

— Afaste-se dela, Melvin! — rosnou o alemão. — Vou matá-la!

 

Melvin Ramsey protegeu Marie Bovet com seu corpo atlético, gritando, furioso: — Está louco? Guarde essa pistola. Não me chateie mais ou direi a Luc que você está complicando as coisas.

 

— Recebi ordem de matá-la. Afaste-se. Terei o prazer de liquidar essa puta asquerosa.

 

Otto movimentou-se deixando Ramsey fora da linha de tiro. Mas não foi o único a se movimentar. Marie e Melvin também o fizeram. Ela, rolando velozmente para a beira da cama, e ele para onde haviam ficado suas roupas e a pistola.

 

No momento em que a bala de Otto se enterrou no colchão, no lugar onde estiveram Marie e Melvin abraçados, a espiã já estava no chão, rolando pelo tapete, e Melvin chegava à cadeira onde deixara sua arma. Empunhou-a rapidamente e voltou-se para Otto. Apontou para ele, mas Otto nada percebeu. Via apenas parte do corpo escultural de Marie Bovet, do outro lado da cama. Mudou de posição para tornar a atirar contra a bela francesa.

 

Plop! A arma de Melvin entrou em ação. A bala enterrou-se na fronte esquerda de Otto Kuzner, arrebentando-lhe aquele lado da cabeça. O alemão rodopiou, lançando salpicaduras de sangue ao redor. Caiu no chão, indo ficar aos pés da cama. Melvin Ramsey permaneceu imóvel, mantendo a pistola voltada para o companheiro. A cabeça de Marie Bovet apareceu, assomando por um dos lados da cama. Seu olhar se fixou em Otto e logo ergueu-se para Melvin.

 

— Vista-se — sussurrou ele. — Depressa.

 

Os dois vestiram-se num piscar de olhos. Foram para a sala. Marie recolocou a pistola de Hans entre suas coxas macias.

 

— Que vamos fazer? — perguntou, num fio de voz.

 

— Dar o fora daqui. Se Otto tinha realmente ordem para matar você, eu acabei de complicar a vida do grupo. Mas...

 

A campainha da porta obrigou-o a deixar a frase pela metade. Trocaram um olhar apreensivo e, sem comentários, Melvin Ramsey dirigiu-se à porta de entrada do apartamento.

 

— Quem é? — perguntou.

 

— Abra, Melvin. Sou eu, Luc.

 

Melvin Ramsey enrugou a testa. Abriu a porta, colocando-se de lado. Luc Perrier entrou apressado e se desconcertou, vendo o hall vazio. Ao localizar Melvin junto à porta, murmurou: — Temos muito o que fazer. Está tudo bem por aqui?

 

— Sim — respondeu Melvin, impassível.

 

Foram para a sala. Luc Perrier sorriu para Marie ao entrar e aproximou-se do sofá onde ela se sentara. Sentou-se ao lado dela, dizendo: — De acordo. O Padrone aceita seu plano. Vamos buscar seu equipamento. Precisamos acertar todos os detalhes para sua incursão à Villa Flávia.

 

— Ótimo! — exclamou a espiã, esboçando um sorriso.

 

— Em marcha. Onde está Otto?

 

— Eu o matei — disse Melvin.

 

— Por quê? — perguntou Luc Perrier, voltando-se para o inglês, atordoado.

 

— Telefonaram para cá e deram ordem a ele para matar Marie. E a mim também, sem dúvida. Não gostei dessa parte do plano. Por que deu ordem a ele para nos matar?

 

— Eu? — exclamou Perrier, arregalando os olhos. — Não telefonei para cá.

 

— Alguém o fez — murmurou Marie suavemente. — Eu ouvi a campainha. Depois, Otto entrou no quarto é disse que tinha ordem para me matar.

 

— Estão brincando comigo? — rosnou Luc Perrier, furioso. — Não telefonei, repito! Estive o tempo todo com o Padrone. Mandamos Coco à boate e o Padrone e eu procuramos um telefone de onde ele pudesse ligar discretamente. Falou com alguém e mandou-me vir até aqui dizer a vocês que o plano fora aceito e que preparássemos tudo. Por que eu haveria de mentir? Além do mais, se eu tivesse dado essa ordem...

 

A campainha da porta tocou pela segunda vez. Os três se entreolharam.

 

— Talvez eu me engane — murmurou Melvin. — Mas, pelo jeito, vamos esclarecer as dúvidas. Aconselho você a se esconder atrás do sofá, Luc.

 

— Que tolice!

 

— Obedeça. Que perde com isso?

 

Melvin Ramsey saiu da sala. Quando voltou, acompanhado por Coco Bauer, a ruiva sorria suavemente.

 

Mas seu sorriso congelou-se, ao deparar com Marie Bovet sentada no sofá.

 

— Onde está Otto? — perguntou, com voz tensa.

 

— Morto! — respondeu Melvin. — Quis matar-me e fui obrigado a atirar nele. Deve ter ficado louco de ciúmes, sabendo que Marie e eu estávamos juntos na cama.

 

— Não! — balbuciou Coco, encarando Melvin Ramsey com um olhar fixo. — Não era você que ele queria matar.

 

Era ela. Eu dei a ordem.

 

— Sinto muito — rosnou o inglês, impassível.

 

— Tive a impressão que ele queria acabar comigo. Pobre Otto! Mas por que Luc decidiu que matássemos Marie?

 

— Não foi Luc. Fui eu. Ainda não compreendeu, Melvin?

 

As coisas se complicaram demais. O serviço secreto francês está interferindo. Aconteça o que acontecer, eles se meterão conosco. Complicarão nossa vida. Resolvi, portanto, que nós dois iríamos embora juntos. Telefonei para lhe dizer isso.

 

Quando Otto me informou que você estava na cama com ela, fiquei cega de ciúmes. Calculei que, eliminando-a, ficaríamos livres do SDECE e que nós dois poderíamos ir embora daqui.

 

— E seu amado Luc? — sussurrou Melvin.

 

— Oh, ele me agradou até você aparecer. Prefiro ficar ao seu lado. Quando Luc me mandou ir para a boate, abri o cofre e tirei todo o dinheiro. Podemos levar um vidão, longe daqui. Nunca nos encontrarão. Mate a francesa e vamos dar o fora. Depressa, antes que Luc vá à boate e descubra que limpei o cofre.

 

Melvin Ramsey não se mexeu de onde estava. Continuou olhando fixamente para Coco Bauer. De repente, olhou para Marie. Tornou a voltar sua atenção para a ruiva. Coco empalideceu, ao ver Luc se levantar de trás do sofá, desfigurado, como um fantasma, como um morto-vivo. Na mão direita, empunhava a pistola.

 

— Traidora! — balbuciou Luc Perrier, ofegante.

 

Levantou a arma. Quando Coco Bauer abriu a boca para gritar, ele puxou o gatilho. O tiro ecoou apagado, por causa do silenciador. A bala enterrou-se no peito da ruiva, empurrando-a de costas. Caiu, batendo com a cabeça no chão, e seu corpo estremeceu. Rolou de lado e imobilizou-se, de bruços no tapete. Luc Perrier a contemplou um instante.

 

— Vamos — murmurou, voltando-se para Melvin e para Marie. — Eu e ela iremos no reboque, Melvin. Vá apanhar Tumar e Alberto. Estão de vigia perto da Villa Flávia. Diga a eles para abandonarem a vigilância e virem para cá, limpar o apartamento. Depois, vão à boate apanhar o cadáver de Hans. Quando acabarem, voltem para Villa Flávia e retomem o posto. Quando eles voltarem, você irá ao nosso encontro e seguirá comigo e com Marie, no reboque. Entendido?

 

— Sim.

 

— Pois então em marcha. Certamente, teremos muito o que preparar antes de Marie ir à Villa Flávia amanhã de manhã fazer uma visitinha a Stefan Orowitz.

 

Villa Flávia

 

Stefan Orowitz, sentado em sua escrivaninha, contemplava sorridente a bela Marie Bovet, que folheava a agenda de notas.

 

— Oh, tem razão, senhor Orowitz! — disse ela, no fim de alguns segundos. — Não foi o senhor quem me mandou voltar hoje de manhã. Foi outro cliente. Fiz confusão de nomes. Desculpe, sim? Não imagina o quanto lamento tê-lo incomodado tão cedo.

 

— Cedo? Às nove e meia da manhã, todas as pessoas honradas estão de pé, preparadas para trabalhar. Ou quase todas.

 

— Agradeço sua compreensão. Bem, não quero incomodá-lo mais, senhor Orowitz. É pena um cavalheiro tão distinto como o senhor não ter uma coleção de livros de arte.

 

Enfim, paciência.

 

— Vou acompanhá-la até a porta — disse Stefan Orowitz, levantando-se. Saíram do gabinete e seguiram em direção ao vestíbulo. Orowitz segurou-a pelo braço, dizendo com um sorriso: — Quero mostrar-lhe a biblioteca. Tenho certeza de que vai gostar de vê-la, senhorita Bovet.

 

Marie sorriu. Em seu cérebro, porém, tocou um sinal de alarme. Alarme que ficou plenamente justificado, ao entrarem na biblioteca. Três homens se encontravam lá sentados. Os três olharam para a francesa, enquanto Orowitz fechou a porta. Ao voltar-se apontou os três sujeitos, murmurando: — A senhorita já os viu ontem, mas não sabe como se chamam. São Douglas, Jean e Lazlo. Trabalham para mim.

 

Como mais outro homem, chamado Hugo Toniek, sobre cuja sorte receio o pior. Mas sente-se, por favor.

 

Apontou o sofá, onde um dos homens estava sentado.

 

Marie Bovet olhou ao redor. Viu os livros, os móveis confortáveis e a janela com as cortinas corridas.

 

— Oh, não posso, senhor Orowitz — protestou Marie. — Tenho muito trabalho esta manhã.

 

— Compreendo. Sendo assim, vamos direto ao assunto.

 

Quem é o Padrone?

 

— Padrone? — gaguejou a loura, enrugando a testa. — Não compreendo.

 

Stefan Orowitz aproximou-se de uma mesinha redonda onde estava um telefone. Apontou o aparelho, sem segurá-lo, e disse: — Ontem, meus amigos e eu estávamos aqui, tomando um drinque, quando o telefone tocou. Pensamos que fosse Toniek. Não era. Era uma mulher. Disse chamar-se Coco Bauer. Conhece-a?

 

— Não. Não sei quem possa ser.

 

— Esquisito. Ela a conhece. Disse que é espiã francesa e que viria hoje de manhã visitar-me para colocar um microfone em meu gabinete, na poltrona onde se sentasse.

 

Disse também que a senhorita fez um trato com Luc Perrier, o sujeito contratado para acabar comigo e com o meu grupo.

 

Acrescentou, sempre com a voz muito clara e muito segura, que a base de operações de Perrier é uma boate chamada Neron Pub, onde se encontrava o cadáver de Hugo Toniek, a quem uma noiva provocante apanhara numa armadilha.

 

Muito bem, senhorita Bovet. Para que falar mais, não acha?

 

Já deve ter compreendido que estou a par de tudo. Nada tem a dizer?

 

— Sim — balbuciou a loura. — É espantoso que o senhor, sabendo disso, não tenha ido ao Neron Pub liquidar Perrier e os homens dele.

 

— Seria uma tolice — retrucou Orowitz. — Por que demonstrar que conhecia a jogada? Com isso, só conseguiria fazer com que o SDECE interferisse diretamente, pois o serviço secreto francês não há de estar longe da senhorita, sem dúvida. Não sou idiota a ponto de pensar que posso vencer um serviço secreto como o francês. O melhor era fazer papel de bobo, enquanto preparava um plano.

 

— Que plano?

 

Stefan Orowitz sorriu com uma frieza de arrepiar. Marie sentiu um frio na espinha. A seguir, Orowitz pegou o fone, voltou-se de costas para a espiã, ocultando o aparelho com o corpo, e discou um número. Segundos depois, um telefone começou a tocar em outro ponto da Villa Flávia. Parou de tocar, quando atenderam: — Stefan falando — disse Orowitz. — Tudo preparado?

 

—...

 

— Ótimo. Também estamos prontos. Onde recolheremos as armas?

 

—...

 

— Iate Amore, no Lido di Ostia. Perfeito. Não haverá inconveniente fazermos a viagem nesse iate, suponho.

 

—...

 

— Muito bem. Sairemos imediatamente.

 

—...

 

— Oh, não há problema, signore. Mesmo de dia poderemos fazer o trabalho. Se fosse necessário, esperaríamos pela noite. Não se preocupe.

 

O olhar de Orowitz desviou-se para Marie e acrescentou: — Fique tranquilo. Muito breve lerá nos jornais que as Brigadas Vermelhas tornaram a entrar em ação. Mais alguma ordem suplementar?

 

—...

 

— Então, até à vista, signore.

 

Desligou e voltou-se inteiramente para Marie, que o contemplava fixamente.

 

— As Brigadas Vermelhas? — perguntou a loura. — O senhor pertence às Brigadas Vermelhas?

 

— Isso a surpreende?

 

— Que pretendem? Que pensam fazer com essas armas?

 

— Vá ver se há realmente um microfone na poltrona onde a senhorita Bovet esteve sentada — ordenou Orowitz, dirigindo-se a Jean. — Verifique apenas. Não toque nele. E não faça o menor ruído. Esses aparelhinhos são terrivelmente sensíveis.

 

Jean saiu da biblioteca e voltou segundos mais tarde. Fez um movimento afirmativo com a cabeça.

 

— Não posso confiar nessa tal Coco Bauer — murmurou Orowitz. — Quem é ela?

 

— A amante de Luc Perrier.

 

— Amante de Perrier? — balbuciou Orowitz, espantado.

 

— Por que então o denunciou?

 

— Pergunte a ela — exclamou a loura.

 

— Estou perguntando à senhorita. Responda.

 

— Era amante de Perrier, mas se enrabichou por um dos homens do amante e limpou o cofre para fugir com o sujeito.

 

Para ter certeza de que Perrier não a seguiria, delatou-o ao senhor. Desse modo, ele seria eliminado.

 

— De qualquer modo, já preparei minha ação — disse Orowitz, sorrindo secamente. — Duvido que o SDECE ou Luc Perrier possam cortar-me a passagem. Não dormi a noite toda, pensando, e creio ter encontrado uma solução de minha conveniência. Chame os outros, Lazlo.

 

Entregou o telefone a Lazlo e deu um passo em direção à Marie, prosseguindo com as explicações: — Daqui a alguns minutos, os rapazes que Lazlo está chamando chegarão à Villa Flávia. Quem estiver nos vigiando compreenderá logo que estamos reunindo o pessoal para dar início à ação. Continuarão de guarda, portanto, atentos ao que se passar aqui. Mas estarão perdendo tempo.

 

Villa Flávia é uma base ocasional de operações. Quando eu sair, nada haverá nela de importante, nem os homens. Se a polícia ou o serviço secreto francês ou italiano nos atacarem, conseguirão apenas matar alguns infelizes que não sabem de coisa alguma. Só ficarão sabendo que caíram num logro, quando o rádio der a notícia. Aí, eu e meus homens mais fiéis já estaremos longe daqui e, possivelmente, da Itália.

 

— É um plano inteligente! — murmurou Marie. — Mas como sairá da Villa Flávia sem ser visto, levando em conta que a casa está sendo vigiada?

 

— Antes de sua chegada, senhorita Bovet, chegou a esta vila a camioneta de um famoso supermercado de Roma, Entrou pelos fundos para descarregar as compras, pela porta de serviço. Quem nos vigia ficaria espantado vendo a camioneta ir embora? Não creio. Iremos nela. Todos. A menos que não queira dar um passeio por mar e prefira ficar aqui como um fiambre igual ao que meus homens trarão.

 

— Sempre adorei passeios marítimos — respondeu Marie Bovet, esboçando um sorriso.

 

— Viu só? Continuo sendo gentil com a senhorita.

 

— Não — disse ela, imperturbável. — Quer ter-me a seu lado, para negociar com minha vida, caso as coisas não deem certo.

 

— É uma moça inteligente, não há dúvida. Bem, nada mais temos a dizer. Vamos deixar seus amigos do SDECE e Luc Perrier de queixo caído, hem?

 

Voltou-se para Lazlo e perguntou: — Chamou todos?

 

— Sim. Chegarão daqui a cinco minutos.

 

— Perfeito. Vamos para a camioneta. Ah, uma coisa, senhorita Bovet: está armada?

 

— Não — mentiu a francesa.

 

— Reviste-a, Lazlo.

 

Jean e Douglas apontaram as armas, enquanto o companheiro apalpava o corpo espetacular da espiã. Orowitz abriu a maleta e encontrou a pistola.

 

— Amarre-a com as mãos para trás — ordenou Orowitz.

 

— A senhorita Bovet é encantadora, mas não convém facilitar. Procurem uma corda.

 

— Que estão tramando, afinal? — perguntou a loura.

 

— Vamos liquidar meia dúzia de pessoas que se reúnem hoje — respondeu Orowitz, sem se alterar. — Ou que estão reunidas numa casa perto da praia do Lido di Ostia, alguns quilômetros ao sul de Roma.

 

— Quem são essas pessoas?

 

— Políticos — murmurou Orowitz, sorrindo. — Já deve saber que o presidente italiano Giovanni Leone foi demitido.

 

Pois bem. Numa casa de frente para o mar no Lido di Pini, alguns homens, os mais significativos na política italiana, estão reunidos para dizer quem será elevado ao cargo do qual o senhor Leone foi destituído. Trata-se de uma manobra clandestina desse grupo de políticos. Vão decidir quem será o próximo homem de palha, o próximo presidente da Itália.

 

Talvez estejam na tal casa uns seis ou oito. Ou dez. Não importa. Quem estiver lá será eliminado.

 

— Se fizerem isso, provocarão um verdadeiro caos político na Itália, capaz de trazer péssimas consequências.

 

Esses assassinatos acarretarão uma instabilidade geral e possivelmente uma luta aberta entre os partidos políticos, o povo, as forças armadas...

 

— Sabemos disso — concordou Orowitz, impassível. — Não achamos que será tão ruim. É o mesmo que dar um laxante a uma pessoa doente. Ela expele todas as impurezas do organismo, compreende?

 

— Milhares de pessoas podem morrer!

 

— As Brigadas Vermelhas não calculam as ações pelo número de mortos, senhorita Bovet, e sim pelos resultados a obter. Todos os políticos são corruptos. Sabia?

 

— Sim, mas...

 

— Acabou-se a brincadeira — atalhou Orowitz. Vamos expurgar a merda que há na política italiana, matando os homens reunidos na casa da praia, no Lido di Pini. Está bem amarrada, Jean?

 

Jean, que se encarregara da tarefa, fez um movimento afirmativo com a cabeça. Orowitz encaminhou-se para a porta. Marie Bovet não se mexeu. Limitou-se a dizer: — Escute, Orowitz, já foi horrível o assassinato de Aldo Moro. Por que piorar as coisas? A morte desses políticos, corrompidos ou não, acarretará o caos em toda a Itália.

 

— Não vou discutir isso agora, senhorita — disse Orowitz, indo até uma das janelas e afastando ligeiramente a cortina. Voltou-se, sorrindo, e acrescentou: — O primeiro carro com alguns rapazes está chegando. A máquina está em ação. Vamos dar o fora daqui. Sairemos pela porta dos fundos. A camioneta do supermercado nos espera.

 

Passeio de iate

 

De um dos carros, Luc Perrier e Melvin Ramsey viram chegar um automóvel com vários homens. Viram também sair a camioneta de um supermercado, cujo nome estava escrito na carroceria em letras azuis e vermelhas. Melvin Ramsey continuou atento ao receptor que tinha sobre os joelhos. Ouvira pouco antes a conversa entre Marie e Stefan Orowitz. Ouvira quando ele se oferecera para acompanhar Marie até à porta. Mas Marie não saíra da casa. Devia, portanto, continuar lá.

 

Ou não? O olhar sombrio de Melvin desviou-se para a camioneta do supermercado, quando ela passou junto ao carro em que ele se encontrava com Luc Perrier. De repente, entregou o receptor a Perrier e murmurou, apressado: — Vá para o carro de Alberto e Tumar com este aparelhinho e continue na escuta. Voltarei logo. Preciso deste carro e não podemos ir juntos, pois o receptor tem um limite de alcance. Continue na escuta, do outro carro, sim?

 

— Que aconteceu?

 

— A camioneta — rosnou Melvin. — Não me agradou.

 

Quero verificar para onde vai.

 

Perrier desceu do automóvel e Ramsey deu a partida, seguindo a camioneta. Provou mais uma vez que o tráfego de Roma não o assustava. Nem o emaranhado das ruas.

 

Mantendo uma distância adequada, não perdeu de vista a camioneta com as letras azuis e vermelhas na carroceria.

 

Saíram dos limites da cidade, pelo Viale Trastevere.

 

— Ou vão para o aeroporto ou para o Lido di Ostia — rosnou o inglês. — Para o supermercado é que não vão.

 

Melvin Ramsey não pensou na possibilidade de voltar à Villa Borghese para prevenir Luc Perrier. Só estava interessado em não perder de vista a camioneta. E não perdeu. Seguiram pela estrada do Lido di Ostia. Melvin aumentou a distância. Ainda assim pôde ver quando a camioneta freou, depois de circular pelo cais. Resmungando, Melvin deixou o automóvel num lugar onde era proibido estacionar, mas onde não atrapalharia a passagem. Desligou o motor e ficou olhando para a camioneta que estava a setenta e poucos metros.

 

As portas de trás se abriram. Quatro homens e uma mulher desceram. Melvin Ramsey empalideceu. Ficou tentado a sair do automóvel e correr em direção ao grupo. Se o fizesse, porém, estaria pondo em perigo a vida da loura.

 

Por isso, Melvin Ramsey permaneceu imóvel, com o olhar fixo no corpo escultural da francesa. Enquanto os cinco personagens avançaram para a beira do cais, a camioneta deu marcha à ré, estacionando numa das alamedas. Mais dois homens saíram de dentro dela, sem o uniforme branco com letras azuis e vermelhas do supermercado. Reuniram-se aos que se encaminhavam para um dos iates ancorados.

 

Melvin Ramsey saiu do automóvel e também se aproximou do iate. Marie Bovet, Stefan Orowitz e seus homens já haviam subido para a embarcação. Melvin viu o nome do iate: Amore. O nome não combinava com os que acabavam de subir a bordo. Exceto com um. Com a loura de corpo alucinante.

 

Os dois últimos homens a sair da camioneta chegaram ao iate e subiram pela rampa, que logo foi recolhida. E o iate começou a se movimentar lentamente.

 

Melvin Ramsey tornou a empalidecer. Seus pés ficaram cravados no chão. Pensou em correr para o iate, mas isso seria perigoso para Marie. E absurdo. Tratou, portanto, de voltar correndo para o carro, sentou-se ao volante, tirou um sapato e deslocou o salto, de onde retirou um minúsculo receptor-emissor, cuja antena levantou rapidamente.

 

— Contato — murmurou, ansioso.

 

— Sim. Avanti, signore.

 

— Enrico, ouça com toda a atenção...

 

A atenção de todos estava presa às últimas explicações dadas por Stefan Orowitz. Marie Bovet também o ouvia com interesse, sentada no sofá, sob o envidraçado que dava para o convés. Pelo envidraçado, junto ao qual passara o dia inteiro, de pés e mãos amarrados, vira a chegada da noite. Há várias horas pararam de navegar e o iate estava ancorado. Mas não sabia onde. Num ponto muito próximo ao Lido di Pini, sem dúvida.

 

 

Jean, Lazlo, Douglas e os dois falsos empregados do supermercado observavam o mapa que Orowitz estendera à mesa.

 

— Estamos aqui — disse o chefe, apontando para o mapa. — Daqui a alguns minutos, passaremos para a lancha pequena e seguiremos rumo à praia. Desembarcaremos a uns duzentos metros da casa onde estão reunidos os políticos.

 

Cada um dos vocês receberá as armas e a munição necessárias. Muito cuidado com os morteiros, hem, Sérgio e Ditter — acrescentou, dirigindo-se aos falsos empregados do supermercado. — Não podemos errar um só disparo, embora tenhamos granadas suficientes para reduzir a casa a pó.

 

Devemos, porém, acertá-la com os primeiros disparos, entendido? E bem no centro.

 

— Acertaremos — assegurou Ditter friamente.

 

— Espero. Bem, aqui está traçada a rota que cada um de nós seguirá depois do desembarque. Nos reuniremos aqui — prosseguiu, apontando um ponto no mapa. — Começaremos com os morteiros. Calculem tudo direitinho. Uma vez iniciado o ataque, não podemos mais parar de atirar, enquanto a casa não estiver arrasada. Ditter e Sérgio farão os lançamentos. Lazlo e eu carregaremos os morteiros. Jean e Douglas protegerão a operação com as metralhadoras. Quem se aproximar deverá ser crivado de balas. Nada de perguntas nem de hesitações. Alguma dúvida?

 

— Não — rosnou Sérgio.

 

— Ótimo! Vou ver se a lancha está preparada. Mirec descerá para vigiar a francesa, enquanto estivermos fora. O comandante e o outro ficarão no convés para ligarem os motores quando voltarmos com a lancha. Depois de terminado o serviço, seguiremos mar afora em rumo sul.

 

Afundaremos o iate e seguiremos na lancha para desembarcar no lugar combinado, antes do amanhecer. É tudo.

 

Orowitz subiu ao convés. Os outros ficaram trocando impressões sobre o mapa e sobre suas tarefas. Agiam como se Marie Bovet não estivesse ali. Minutos mais tarde, um homem desceu do convés. Todos se voltaram para ele e Jean perguntou: — Que é, Mirec?

 

— Podem subir. Ele os está esperando. Eu fico com a pequena.

 

Obedeceram sem hesitar. Mirec devia ter instruções bem claras a respeito de Marie Bovet porque nem sequer tentou aproximar-se dela. Sentou-se num tamborete, a certa distância, e ficou imóvel, observando-a. O motor de uma lancha ecoou do lado de fora. Logo se afastou do iate.

 

— Estamos muito longe da costa? — perguntou Marie.

 

— A uma distância conveniente — respondeu Mirec.

 

— Vocês, das Brigadas Vermelhas, são muito esquisitos, hem? — disse Marie, num fio de voz.

 

— Acha? Por quê?

 

— Bem, não sou um pavor. No entanto, não olharam para mim o dia inteiro. Ficaram o tempo todo revisando as armas, revendo os mapas e coisas assim. Nenhum tentou me violentar.

 

— Fazemos cada coisa a seu tempo — respondeu Mirec, com ironia. — Quando meus companheiros voltarem, iremos embora daqui. E todos nós a violentaremos, antes de lhe cortar o pescoço, beleza. Vai se divertir um bocado com as nossas safadezas, garanto. Mas cada coisa a seu tempo, já disse.

 

— Compreendo. Não gostaria de aproveitar enquanto estamos sozinhos, para gozar as delícias de meu corpo? Podíamos passar bons momentos, acredite.

 

— Seria amável comigo?

 

— Claro! Faria todas as suas vontades.

 

— Cretina! — exclamou Mirec, explodindo numa gargalhada. — Acha que sou idiota para acreditar nessas lorotas?

 

De repente, uma coisa estranha aconteceu. A cabeça de Mirec agitou-se, como se fosse pular do pescoço. Mas não pulou. Depois de um tremor, pendeu para o peito, com um furo na testa. Perdeu o equilíbrio e desabou do tamborete, rolando pelo chão. Marie olhou para os degraus que ligavam o salão ao convés do iate. Viu Melvin Ramsey, encolhido, de pistola em punho.

 

— Você está bem? — perguntou ele, correndo para junto dela.

 

Melvin Ramsey usava apenas uma sunga creme e seu corpo molhado brilhava intensamente. Meteu a pistola munida de silenciador no saco de plástico que trazia na mão esquerda e desamarrou a francesa.

 

— Pode andar? — perguntou, ajudando Marie a ficar de pé.

 

— Creio que sim.

 

— Espero que consiga nadar.

 

— Onde estão Orowitz e os outros?

 

— Acalme-se — murmurou Ramsey. — Preparei tudo. Enrico e alguns rapazes estão à espera deles. Não se preocupe por esse lado. Localizamos o iate e, quando vimos que ancoravam aqui, tomamos todas as medidas necessárias. Tenho tanta gente nas imediações que poderíamos controlar dez iates iguais a este. Nada acontecerá. Por falar nisso, o que ia acontecer?

 

— São das Brigadas Vermelhas — explicou a loura. — Há um grupo de políticos reunidos numa casa aqui perto.

 

Marie Bovet contou a Ramsey o que sabia, enquanto ele a ajudou a chegar ao convés. Deitaram-se no chão. Naquele momento, começaram a ouvir os tiros. Longe. Muito longe.

 

O tiroteio aumentou de intensidade. Depois foi cessando, pouco a pouco. Finalmente, o silêncio voltou a imperar.

 

— Enrico? — chamou Melvin Ramsey, aproximando da boca o receptor transmissor que tirara do saco de plástico.

 

— Caíram todos, signore — informou uma voz grave e sonora. — Idiotas! Nós avisamos que estavam cercados. Mesmo assim, começaram a atirar.

 

— Tivemos alguma baixa?

 

— Nenhuma. Foi como um exercício de tiro ao alvo. E a signorina está bem?

 

— Sim. Obrigado, Enrico.

 

— Arrivederci.

 

Melvin Ramsey cortou a comunicação, guardou o radinho na sacola e voltou-se para Marie, que o contemplava, sorridente, dizendo: — Não precisaremos mais nadar. Podemos voltar para o Lido de Ostia no iate. De lá, seguiremos para Roma de automóvel. Espero que possamos convencer o Padrone a encerrar este caso de uma vez. Ele está à nossa espera.

 

— O Padrone? À nossa espera? — murmurou Marie, surpresa.

 

— Ele, Perrier e os outros. Enquanto vigiávamos o iate, chamei o Padrone, ligando para aquele telefone que você memorizou, quando Perrier discou para falar com ele.

 

Expliquei como estavam as coisas e sugeri a ele mandar Perrier e os outros se afastarem da Villa Flávia. Ele concordou. Creio que chegou a hora de uma explicação definitiva, não concorda?

 

— Tenho outro número de telefone — balbuciou Marie.

 

— Outro? De quem?

 

— Da pessoa que deu instruções e que facilitou as armas a Orowitz. Ele ocultou o aparelho com o corpo, mas ouvi o barulhinho do disco girando e calculei os números que discou.

 

— Não acha preferível nos reunirmos ao Padrone e ao resto do grupo, antes de tentarmos localizar esse telefone?

 

Estou curioso para saber como o Padrone descobriu que as Brigadas Vermelhas planejavam esse assassinato coletivo no Lido di Pini. Por que não passou a informação ao SID?

 

— Esquisito, realmente. Um homem que sabe que a ação das Brigadas Vermelhas poderia lançar a Itália num caos total, em vez de dar o alarme, limita-se a contratar um grupo de aventureiros para liquidar o grupo das Brigadas Vermelhas.

 

— Talvez tenha ficado com receio de que não aceitássemos. Afinal, as Brigadas Vermelhas não são para brincadeira.

 

— Onde o Padrone nos espera? — perguntou Marie Bovet, enlaçando Ramsey pelo pescoço.

 

— No apartamento da Via Panisperna. Dirija o iate. Vou descer para ver se encontro o que vestir. Pensava voltar a nado e deixei as roupas na praia.

 

O telefone

 

O telefone do apartamento tocou. Os quatro homens reunidos na sala voltaram-se para o aparelho. Voltaram-se em seguida para Luc Perrier e para o Padrone, que fez um gesto, mandando Perrier atender. Perrier obedeceu e passou o fone ao chefe, dizendo: — É Ramsey. Está no Lido di Ostia e quer falar com você.

 

O Padrone pegou o fone e conversou com Melvin durante alguns minutos. Quando desligou, um brilho de satisfação iluminava suas pupilas. Pousou o fone e murmurou, pensativo: — Correu tudo bem. Ramsey não forneceu detalhes, mas alcançou nosso objetivo. Vem para cá. Daqui a meia hora, saberemos como as coisas se passaram.

 

Tornou a pegar o fone, voltou-se de costas para seus homens e discou um número. Quando atenderam, disse com voz firme: — Sou eu. Posso falar?

 

—...

 

— Conseguimos. Estou no apartamento da Via Panisperna com Perrier e os outros dois sobreviventes, esperando o inglês. Não conheço os detalhes, mas alcançamos nosso objetivo. Stefan Orowitz não conseguiu realizar o plano.

 

—...

 

— Perfeitamente.

 

Desligou e ficou pensativo. Luc Perrier e os companheiros se entreolharam, apreensivos.

 

— Vou ao banheiro — murmurou o Padrone, no fim de alguns segundos.

 

Saiu da sala, atravessou o corredor e entrou no banheiro.

 

Em lugar de usá-lo adequadamente, sacou a pistola e tirou do bolso um silenciador. Colocou-o no cano da arma e empunhou-a com a mão direita. Com a esquerda, puxou a descarga do vaso sanitário. Saiu do banheiro e apareceu na porta da sala. Em silêncio, sem fazer o menor ruído. Alberto e Tumar estavam sentados no sofá, de costas para ele. Perrier, apoiado ao braço de uma poltrona, acendia um cigarro. Viu o chefe, ao soltar a primeira baforada. O Padrone estava parado no umbral, apontando a pistola, com a fisionomia contraída e os olhos duros, como pedras de gelo. O cigarro escapuliu dos lábios de Luc Perrier. Abriu a boca para falar, mas não teve tempo. A bala o atingiu no peito, derrubando-o de costas. Rolou pelo tapete e imobilizou-se. Isso foi tudo.

 

Tumar e Alberto levantaram-se rapidamente e voltaram-se para a porta, atordoados. O segundo tiro acertou o olho direito de Tumar. Os outros três atingiram Alberto, que tentava sacar a pistola. Não teve tempo sequer de dar um grito, pois a primeira carga de chumbo cravou-se em seu coração, derrubando-o já sem vida.

 

O Padrone entrou na sala e aproximou-se de Luc Perrier.

 

Abaixou-se para arrastá-lo até atrás do sofá.

 

— É inútil! — disse uma voz, vinda da porta da sala. — Já o vi. Está morto.

 

O Padrone soltou um grito abafado e ergueu-se, movimentando a mão para tornar a sacar a pistola que guardara pouco antes. Diante dele, porém, havia uma arma apontada. Também com silenciador. O Padrone suspirou e deixou cair os braços, ao longo do corpo.

 

— Ponha as mãos na cabeça — ordenou Marie Bovet.

 

— Vocês acabaram de ligar do Lido di Ostia — balbuciou o Padrone, obedecendo.

 

— Não — respondeu a loura espetacular. — Telefonamos de uma cabina ali da esquina. Enquanto vocês conversavam, eu abri a porta sem fazer barulho e me escondi no vestíbulo, esperando.

 

— Esperando? O quê?

 

— Melvin. Que pretendia, quando marcou esse encontro aqui conosco? Não adianta mentir. Melvin e eu somos macacos velhos, ouviu? Estamos habituados a sentir o cheiro da podridão. Por que nos queria juntos, neste apartamento?

 

Melvin ficou desconfiado. Telefonou dizendo que ainda estávamos no Lido di Ostia e me mandou na frente para ver de que se tratava, realmente.

 

— Ele também é espião?

 

— Só faremos declarações a pessoas importantes, Padrone — murmurou Marie, com um sorriso seco. — Ouvi o ruído do disco do telefone, quando você ligou para seu chefe. Seja gentil e nos poupe a demora de fazer tentativas para acertar com os números, sim? A quem telefonou e onde podemos encontrar essa pessoa? Sabemos que você não passa de um assassino profissional, muito bem pago, que concordou em bancar o fantoche para alguém importante. De quem se trata? Qual é a verdade sobre tudo isso, afinal?

 

— Que farão comigo, se eu responder às suas perguntas?

 

— Depende.

 

O Padrone pensou que havia distraído Marie Bovet com a conversa. Quando movimentou a mão direita, porém, a espiã já sabia quais eram as intenções dele. E agiu com uma velocidade espantosa. Um tiro abafado ecoou na sala. O Padrone estremeceu e levou as duas mãos ao peito. Ergueu o corpo como se quisesse ficar na ponta dos pés e caiu de joelhos. Seus ossos estalaram. Caiu de lado e nessa posição ainda teimou em sacar a arma.

 

Outro tiro ressoou e um filete de sangue escorreu do canto da boca do Padrone, quando a bala enviada por Marie Bovet se enterrou na testa dele. Caiu espetacularmente, batendo com a cabeça no chão e levantando as pernas. Na queda, perdeu um dos sapatos e a vida.

 

Quando Melvin entrou no apartamento, Marie Bovet estava discando os números, em busca do telefone do grande Padrone.

 

Visita de madrugada

 

— Faltam quinze para as três da madrugada — disse o homem.

 

Marie Bovet e Melvin o observaram atentamente. Ainda estavam impressionados pelo fato do telefone obtido pertencer a Ettore Trementi, que morava num luxuoso palacete de Corso d’Italia, com criados, garagem, jardim, etc. E mais ainda, pelo fato de Ettore Trementi ser um dos mais importantes políticos da Itália. Ou melhor: fora um dos mais importantes. Na atualidade, Ettore Trementi parecia um pobre ancião, incapaz de fazer coisa alguma, sozinho. Era a imagem da senectude, da derrocada física. Um trapo! Mas seu nome constava no catálogo. Era o dono do número que Marie Bovet ouvira o Padrone discar no apartamento da Via Panisperna.

 

— E então? — resmungou o velho, com voz azeda. — Espero que tenham uma explicação capaz de justificar essa invasão à minha residência, fazendo-me sair da cama às três da madrugada.

 

— O senhor é Ettore Trementi? — murmurou Melvin.

 

— Sou.

 

Marie e Melvin trocaram um olhar significativo. Melvin aproximou-se do ancião e lhe estendeu uma carteira, dizendo: — Pertencia a um homem chamado Luigi Servola, que se fazia chamar de Padrone. O senhor o conhecia?

 

— Não.

 

— Está mentindo — cortou Marie, suavemente.

 

— Saiam de minha casa — exclamou o ancião, furioso.

 

— Saiam, ou chamarei a polícia!

 

— Chame — disse Ramsey, sem se alterar.

 

— Não creio que tenha coragem — balbuciou Marie. — Não vai fazer semelhante disparate, hem?

 

— Quem são vocês? — perguntou o velho político, respirando fundo.

 

Marie e Melvin tornaram a se entreolhar. Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça e Melvin respondeu à pergunta, dizendo: — Ela é a agente “Baby” da CIA e eu sou Número Um.

 

Não sei se isso esclarece alguma coisa.

 

— Estão brincando comigo — gaguejou Ettore Trementi.

 

— Já ouvi falar de Número Um e da agente da CIA. São vocês?

 

— Senhor Trementi, um de meus amigos e colaboradores de Roma, cujo nome não vamos citar, informou-me de algo que se preparava aqui e que lhe pareceu importante — explicou Número Um, aliás, Melvin Ramsey. — Vim para cá, adotando a personalidade de um aventureiro inglês, e juntei-me ao grupo de Luc Perrier, cujas atividades meu amigo detectara. Quando recebi a informação, não estava sozinho em minha casa. Fui obrigado, portanto, a aceitar a colaboração da agente da CIA. Em resumo: nós dois fizemos nossa parte na brincadeira. Eu, com o nome de Melvin Ramsey, e ela como Marie Bovet, agente do SDECE francês. Mas a brincadeira acabou e queremos saber, exatamente, de que estivemos brincando.

 

— Por que vieram perguntar a mim?

 

— Por vários motivos. Porque muitas pessoas morreram nessa confusão, porque o senhor contratou um assassino de primeira categoria para reunir um grupo ao qual, depois do trabalho feito, deveria eliminar. O trabalho era impedir que um comando das Brigadas Vermelhas assassinasse um grupo de políticos que se reuniria esta noite numa casa em Lido di Pini. Ainda não compreendemos o alcance da sua jogada, senhor Trementi. Por isso, viemos visitá-lo. Se tomou conhecimento desse comando das Brigadas Vermelhas e do que estava tramando, por que não informou ao SID ou à polícia? Por que recorreu a um assassino profissional, dando-lhe ordens de eliminar o grupo encarregado de acabar com o comando das Brigadas Vermelhas?

 

— Pelo jeito, não quer dizer, meu amor — murmurou Marie Bovet, no fim de alguns segundos, vendo Ettore Trementi imóvel, de lábios apertados.

 

— Por quê? — insistiu Número Um, dando um passo para o ancião. — O senhor é um político muito conhecido na Itália. Não tem futuro por causa da idade, mas sempre foi um homem íntegro e útil à sua pátria. Por que agiu desse modo?

 

— Não direi — balbuciou o ancião, tremendo. — Mesmo que me matem.

 

— Ninguém falou em matá-lo — disse Brigitte Montfort, aliás, Marie Bovet. — Queremos apenas conhecer seus motivos.

 

— Eu direi — exclamou uma voz vinda da porta do salão.

 

Os dois espiões voltaram-se rapidamente. O dono da voz aproximou-se, apontando uma automática. Ettore Trementi deixou cair a cabeça no peito, arrasado. Melvin e Marie se entreolharam e voltaram-se para o recém-chegado, que estava de pijama.

 

— Este cavalheiro é seu filho? — perguntou Marie, dirigindo-se a Ettore Trementi.

 

O ancião não respondeu. Mas não havia necessidade. A semelhança entre os dois homens, um com mais de oitenta anos, e o outro com quarenta e poucos, era evidente.

 

— Sim — respondeu Leonardo Trementi, tomando o centro do salão. — E estava a ponto de obter algo positivo. Mas vocês estragaram tudo.

 

— Não foram eles, Leonardo — balbuciou o ancião, encarando o filho. — Fui eu. Meus ouvidos ainda estão bons. Quando soube o que você e seus amigos estavam preparando, tentei evitar.

 

— Não devia ter interferido, pai.

 

— Vocês estavam loucos! Como poderia ficar de braços cruzados? Não podia denunciar o bando de loucos que ia assassinar os políticos reunidos numa casa em Lido di Pini, porque você estava envolvido. Mas não podia, também, permitir que vocês, com suas loucuras, privassem a Itália de um grupo de homens que foram àquela casa exatamente em busca de soluções rápidas e prudentes para resolver o problema da demissão de Leone. Que queriam, afinal? Matar todos eles e distribuir os cargos políticos entre vocês?

 

— Exatamente! — respondeu Leonardo Trementi, empalidecendo. — E você atrapalhou tudo!

 

— Fiz isso para ajudá-lo, meu filho. A polícia e o SID acabariam descobrindo a verdade. Veriam que Orowitz e seus homens não pertenciam às Brigadas Vermelhas, como vocês fizeram acreditar. Desta vez, agiriam com decisão, procurando os verdadeiros responsáveis. E acabariam encontrando. E eu não queria ver meu filho acusado de traição à pátria!

 

— Traição? — gritou Leonardo, fora de si. — O poder ficaria nas nossas mãos. Velho caduco! Por sua causa, está tudo perdido!

 

— É muito feio falar assim com um pai — disse Marie Bovet, sem se alterar. — Ele agiu com o intuito de protegê-lo. Não pode reprovar seu pai por isso.

 

— Cale-se, idiota — exclamou Leonardo Trementi, apontando a pistola para a espiã.

 

— Além de canalha, você é mal-educado. Não notou que está falando com uma dama? Enfim, não alonguemos a conversa. Vamos causar-lhe um pequeno desgosto, senhor Trementi: Número Um e eu não estamos sozinhos nesta brincadeira. Meus companheiros da CIA, que me ajudaram a encontrar o endereço referente ao telefone de vocês, e uns amigos de Número Um estão lá fora. Cercando a casa. Está tudo perdido para você e seu grupo, acredite. Sabe o que tem a fazer? Confesse. Denuncie o resto do bando de traidores e procure sair dessa enrascada do melhor modo possível. Se está pensando em nos dar um tiro para não dizer os nomes de seus amigos, desista. Orowitz telefonou para um deles e eu conseguirei localizá-lo, refazendo o número do telefone, como fiz com o desta casa. Acabarei encontrando quem dava ordens a Stefan Orowitz. Logo, raciocine como um bom sujeito e responda. Guarde essa pistola. Chame o SID e diga a quem atender que tem uma confissão a fazer e quer dar uns nomes. De acordo, Leonardo?

 

— Não — gritou Leonardo Trementi, branco de ódio.

 

Ao gritar, virou-se de frente para Marie, erguendo a pistola. Era exatamente o que a espiã desejava. Quando Leonardo fez o movimento, deu as costas um instante para Melvin Ramsey e o homem dos cabelos cor de cobre pôde sacar sua arma. Leonardo Trementi ainda não tinha afinado a pontaria e Número Um já havia atirado.

 

A bala enterrou-se na fronte esquerda de Leonardo Trementi, que caiu como um fantoche desarticulado, derrubando uma mesinha e uma cadeira.

 

A pistola de Ramsey virou-se para o ancião.

 

Desnecessariamente. Ettore Trementi já estava velho demais e sua atitude fora tomada apenas para salvar o filho.

 

— É melhor irmos embora — murmurou Marie Bovet. — Quando o senhor Trementi se recuperar da dor causada pela morte do filho, compreenderá que você não podia agir de outro modo, querido. Compreenderá também que deve informar o SID, dando o nome dos traidores. Afinal, nada de ruim pode acontecer ao filho dele, não é mesmo? Adeus, Padrone.

 

Mas o velho Padrone não respondeu. Continuou imóvel, contemplando o cadáver do filho a quem queria proteger. Mesmo causando a destruição de inúmeras vidas.

 

O caso estava encerrado. Nada mais havia a fazer.

 

Lugar para se viver

 

Brigitte suspirou quando Número Um acomodou-se sobre ela, na grama perfumada. Ficou de olhos fechados, sentindo que ele lhe beijava os seios arfantes. Só então abriu os olhos azuis como dois pedaços de céu e fixou os olhos negros e penetrantes do homem a quem amava.

 

— Tudo bem? — perguntou ele, com um sorrisinho libidinoso.

 

— Tudo ótimo! — respondeu ela.

 

— Quer mais? — murmurou Angelo Tomasini, aliás Número Um, aliás Melvin Ramsey, aliás muitos outros nomes.

 

— Oh, não! — balbuciou a divina, estremecendo ao contato do dardo pujante do homem de cabelos cor de cobre.

 

— Não sei se suportaria tanto prazer num dia só, querido.

 

— Podemos fazer uma experiência.

 

— Quer que fiquemos mortos aqui, por acaso?

 

— Não seria um mau lugar para morrer.

 

Brigitte se calou, pensativa. Não, não era um mau lugar para morrer, realmente. Estavam na Villa Tartaruga, na ilha de Malta, na residência particular do melhor espião de todos os tempos. A grama macia lhes servia de tapete. As flores do jardim perfumavam o ar. No alto, no céu azul do Mediterrâneo, brilhava o sol. E dentro deles só existia amor.

 

— Não — disse Brigitte, finalmente. — É o melhor lugar para viver.

 

— Um dia desses ficaremos aqui para sempre — murmurou Número Um, mordendo o seio esquerdo da mulher a quem tanto amava.

 

— Por que pensar nisso agora, meu amor? Estamos aqui. Vivos. E juntos. Vim para ficar dois dias e já estou há cinco. Contando os que passamos juntos em Roma.

 

— Em Roma? — exclamou Número Um, protestando. — O que você chama estar juntos? Lá, só fizemos trabalhar. Espionando. Eu espionando, você espionando...

 

— Tem razão, querido. Mas agora não estamos espionando. Que tal se em vez de conjugar o verbo espionar, aproveitássemos o tempo conjugando o verbo amar?

 

Em resposta, Número Um colou os lábios nos da divina e penetrou em seu corpo macio, de seda e ouro, transportando-a ao mundo do gozo eterno.

 

 

                                                                                                    Lou Carrigan

 

 

 

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