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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O NAVIO FANTASMA / Alexandre de Bittencourt
O NAVIO FANTASMA / Alexandre de Bittencourt

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

       Esta história realmente aconteceu.

       Os fatos narrados neste livro são verídicos. Os nomes de lugares, reinos e nacionalidades foram alterados para se evitar problemas futuros acerca dos fatos que serão narrados neste livro.

       Os personagens também terão seus nomes substituídos por outros, para que não haja problemas de interpretação com estes e que não sejam identificadas as verdadeiras pessoas que participaram desta incrível aventura.

 

 

 

 

Já faz nove anos.

O marinheiro colocou as mãos na amurada e olhou para o horizonte tentando enxergar alguma coisa. Tudo o que conseguia ver eram as densas nuvens do forte nevoeiro, que vez por outra, se abriam permitindo ver o mar por algumas dezenas de metros.

       O homem então semicerrou os olhos. Estava uma noite muito calma para aquele experiente marinheiro. Respirou pausadamente, para sentir o cheiro do oceano, e seu perfume que inebria e apaixona os homens desde o início dos tempos.

       — Foi aqui. Foi aqui que aconteceu. — disse para si mesmo.

As velas dos mastros estavam recolhidas. Havia apenas uma leve brisa, que ia empurrando lentamente o navio para a frente. O mar estava calmo, parecendo um grande lago.

       Do navio, ouvia-se apenas os estalos e o rangido das amarras que seguravam os grandes mastros, prendendo-os no convés. Três marinheiros estavam na proa, fazendo o turno de guarda.

       A lua estava encoberta por algumas nuvens, dando as águas, um leve tom esbranquiçado.

       Calmamente, o navio ia avançando.

       Era um grande vaso de guerra, um dos maiores do Reino. Possuía grande quantidade de canhões, uma tripulação bastante treinada e um capitão com larga experiência no mar.

       — Noite calma. — disse um marinheiro, aproximando-se.

       — Sim. — respondeu o outro. ¾ Calma até demais.

       — Desde que entramos neste arquipélago e passamos pela ilha da morte, nos deparamos com este maldito nevoeiro e esta calmaria. Parece que estamos andando em círculos.

Sem tirar os olhos do mar, o marinheiro respondeu seriamente:

— Não estamos andando em círculos.

— Não?

— Estamos sendo atraídos por alguma coisa.

Naquele momento, um calafrio percorreu a espinha do jovem marinheiro. Em seguida, para quebrar o clima tenso que havia se formado, forçou uma leve gargalhada.

       — Não diga besteiras. Não vai me dizer que acredita na história do Vingador dos Mares.

O velho marinheiro encarou o jovem:

— É para isto que estamos aqui.

— Não, meu bom amigo. Estamos aqui para pegar os malditos piratas que estão atacando os nossos navios e matando toda a tripulação, inventando essa história absurda sobre o navio fantasma.

       — Você não estava lá, mas eu sim.

       E voltou a olhar para o mar, dizendo:

       — Os gritos daqueles homens amaldiçoados ecoam na minha mente até hoje.

       Fez uma pausa. Procurava enxergar por entre a névoa, que parecia brotar do mar.

¾ Era uma tripulação incrível, navegando a máquina de guerra mais poderosa que já cruzou estes mares. O capitão era o homem mais valente que já ocupou tal posto em todo o Reino.

— Você esteve lá? Lutou contra o Vingador dos Mares?

O velho marinheiro balançou afirmativamente a cabeça:

— E alguns que estão neste navio também estiveram. Quando nós finalmente o encontramos, houve uma batalha que durou horas. Sozinho, ele conseguiu afundar quatro dos nossos melhores navios.

O jovem olhava com ar assustado para o velho marinheiro, que continuava de costas.

       — Perdi muitos amigos naquele dia.

Virou-se e encarou o outro.

Este navio em que estamos, Os Sete Mares, perdeu mais de trinta homens. Foi a batalha mais feroz que já participei. Somente com muito custo e a perda de muitos homens é que conseguimos vencê-lo.

Mas você nunca me disse que havia participado daquela luta.

Mas eu estava lá. E quando estávamos para afundá-lo, surgiu uma grande tempestade, que o afastou de nós. Ondas de mais de dez metros caíam sobre o convés. Alguns homens foram atirados ao mar. Dizem que o capitão Átila fez um pacto com o demônio e invocou aquela tempestade.

O jovem estava estarrecido com aquelas revelações.

Mas eu achei que isto fosse apenas fantasia.

E isto não é tudo. O Vingador dos Mares estava bastante avariado. Tinha o velame, as amarras e o convés bastante danificados, mas o capitão Átila continuava firme no leme. O que restou de nossa esquadra   perseguiu aquele navio por horas naquela tempestade infernal, como se ele estivesse nos levando para um lugar específico.

E estava?

O marinheiro encarou o jovem no olhos.

¾ Estava. De repente, a tempestade parou. O ventou e o mar se acalmaram de uma forma com eu com nunca havia visto em toda a minha vida. Nós nos preparamos para um ataque final. Quando conseguimos alcançá-lo, já era noite, e um forte nevoeiro apareceu e o encobriu. Mas estávamos muito perto. Seguindo as ordens do capitão, disparamos com tudo o que ainda tínhamos. Foi aí que ouvi os gritos mais aterrorizantes de toda a minha vida.

O marinheiro fez uma pausa. Seus olhos ficaram inertes, com se estivesse revendo aquela cena.

— O que aconteceu em seguida, homem?

— O capitão deu ordens para cessar fogo. Ficamos ali por longos minutos ouvindo os gritos dos homens.

Uma nova pausa. O marinheiro baixou levemente a cabeça.

Parecia que suas almas estavam sendo arrancadas de seus corpos.

E o que aconteceu?

Quando finalmente amanheceu e a névoa se dissipou, não havia mais nenhum navio a nossa volta. Ele havia sumido. Não encontramos destroços que pudesse indicar que ele tivesse afundado. Não encontramos um único corpo sequer.

       Voltou a encarar o marinheiro.

Não encontramos nada.

O jovem, de repente, empalideceu. Seu olhar estava fixo no mar. Lentamente, ele levantou a mão e apontou para a frente da proa.

       __ Meu Deus!

       O amigo virou na direção em que a mão apontava. A cerca de cinqüenta metros, surgiu um nevoeiro diferente. Tinha uma cor esverdeada brilhante, que seguia em direção contrária a da brisa.

       Vinha na direção do navio.

       De repente, surgiu uma proa. Pelo seu tamanho, podia-se claramente concluir que era um grande navio. O casco era negro. Estava bastante avariado. Havia pedaços de algas espalhados pelo pouco que podia se observar. Os mastros apareceram e tinham o velame completamente rasgado. Uma espécie de musgo negro cobria as amarras. Em sua passagem pela água, ele não deixava nenhum sinal. Também não emitia nenhum som de um navio em movimento, madeiras rangendo, cordas retesadas.

       Nada.

       A névoa continuava cobrindo o navio, dificultando qualquer tentativa de observá-lo melhor. Era como se ela acompanhasse o seu movimento.

       O jovem ficou completamente paralisado.

O outro baixou lentamente a cabeça e murmurou apenas uma única frase:

       __ Meu Deus, faça com que eu tenha uma morte rápida.

 

Os navio se chocaram lateralmente. A névoa envolveu ambos. Ouviu-se, inicialmente, o grito de vários homens. Alguns disparos de pistolas ecoaram pela noite.

       De repente, mais nenhum som se ouviu. Tudo ficou quieto por alguns instantes.

       Um urro voltou a quebrar o silêncio. Vários outros o acompanharam. Não eram sons emititos pelos marinheiros do Os Sete Mares, nem nada que pudesse parecer com a voz humana.

Em seguida, vários gritos começaram a sair da névoa. Eram as vozes dos marinheiros do navio abordado.

Podia-se distinguir também, em meio aos sons que tomaram conta da noite, o choque de espadas e alguns disparos de pistolas e fuzis. Com certeza, os homens estavam lutando, só que não se conseguia saber contra o que ou contra quem.

Preces, frases de despedida e outras sem nenhum sentido eram levadas pela brisa. A névoa continuava cobrindo os navios, impedindo que se visse o que se passava.

Os gritos se seguiram por vários minutos, no qual sobressaiam-se urros e gargalhadas sobrenaturais. O barulho de espadas se chocando agora era intenso, o que indicava que estava acontecendo uma luta feroz. Também aumentou o número de vozes pedindo socorro e clemência. O que quer que estivesse atacando aqueles homens era algo terrível, até mesmo para os homens mais corajosos.

O som de homens caindo na água, para serem atacados e devorados pelos tubarões que infestavam aquela região só aumentava o pânico daqueles momentos que pareciam intermináveis.

Lentamente, os gritos foram diminuindo até cessarem completamente.

Apenas o barulho de golpes de espada continuou ainda por um longo tempo, bem como os gritos ensandecidos.

Duas horas depois, a névoa esverdeada começou a se afastar, e o Os Sete Mares pôde novamente ser visto.

Nada se movia no convés. Novamente, os sons do casco rangendo e das amarras voltaram a aparecer, como se naqueles momentos terríveis, o navio tivesse ficado completamente parado no mar.

Vagarosamente, o navio começou a se mover. Não havia ninguém no leme, que girava lentamente ora para um lado, ora para outro.

A brisa que levava o navio trazia consigo mais uma notícia trágica. Uma prova incontestável de que algo inacreditável estava acontecendo naquelas águas.

E de que alguma coisa precisava ser feita.

 

       Eram cinco horas da madrugada, quando alguém bateu forte à minha porta. Levantei-me assustado e olhei em volta. Abri e fechei os olhos. Teria ouvido ou não aquele som? Aguardei meio sonolento que a batida se repetisse.

       Novamente, bateram à porta. Aí, sim, tive certeza de que não fora um sonho. Dirigi-me até ela, com os olhos ainda acostumando-se com a escuridão que reinava na minha casa. Ao abri-la, finalmente acordei. Havia três militares do forte Rochedo bem à minha frente. Estavam fardados elegantemente, sendo um deles capitão e os outros dois soldados.

       ¾ Entrem. ¾ falei um pouco assustado e bastante surpreso. Não podia compreender o que aqueles soldados estavam fazendo em minha residência, ainda mais no meio da noite.

       Assim que entraram, tranquei a porta. Dirigi-me então à mesa e acendi um lampião. A sala clareou um pouco. Era pequena, assim como a casa em que morava. Havia poucos móveis na sala. A mesa, de madeira com seis cadeiras, duas estantes com livros e anotações que eu costumava fazer, um tapete e um quadro de um navio sendo castigado por uma tempestade. Olhei novamente para os soldados e convidei:

       — Por favor, sentem-se.

       — Não, obrigado. ¾ disse o capitão.

       Tinham uma expressão bastante séria em suas faces. Algo de muito grave havia acontecido.

     — Em que posso ajudá-los então? ¾ perguntei com grande surpresa.

       — Doutor David, sou o capitão Kurchov, e venho aqui sob ordens do almirante Dimitri, que o chama imediatamente ao forte.

       — Mas o que aconteceu? Alguém está doente? Houve algum naufrágio?

       Várias possibilidades passavam pela minha mente.

       — Não, senhor. Não se trata de nada disso.

       ¾ Mas então, do que se trata?

       ¾ Trata-se do Vingador dos Mares. Ele apareceu novamente e atacou o Os Sete Mares.

       Meus olhos quase saltaram ao ouvir aquilo.

       Sou um jovem médico que trabalho há muito pouco tempo nesta cidade. Tenho vinte e oito anos, um metro e setenta e cinco, pele e olhos claros, cabelos loiros que vão até os ombros. Um porte atlético, mas não musculoso, devido as lições de esgrima que tive na Universidade e que ainda pratico sempre que posso.

       Eu conhecia a história do navio mencionado pelos militares.

— Quando foi? Onde está o navio?

       O capitão olhou para mim fixamente e disse:

       — Não tenho ordens para lhe fornecer qualquer outra informação, apenas de escoltá-lo até o forte onde o almirante lhe dará maiores detalhes.

       O fato de um homem importante, como um capitão da nossa marinha vir bater à minha porta tão cedo já havia me deixado espantado. Somado a este fato, o motivo pelo qual ele acabava de relatar, fiquei mais intrigado ainda.

       Por que precisavam de um jovem médico para tal situação, que deveria ser no mínimo, de segurança nacional?

       Resolvi que ficar perguntando para mim mesmo não iria solucionar aquele mistério.

       — Por favor, esperem um pouco para que eu possa me trocar. ¾ disse afinal.

       — Sim, senhor. Temos uma carruagem nos esperando ali embaixo. O almirante também pediu que o senhor levasse seus instrumentos médicos. Rogo-lhe apenas que não demore.

       — Está bem. Vestirei as roupas o mais rápido possível.

       Dirigi-me para o meu quarto. Peguei uma calça preta, sapatos também da mesma cor e uma camisa branca de linho puro que guardava para ocasiões especiais e aquela era, com certeza, uma ocasião especial. Por fim, fui ao banheiro, lavei o rosto com água fria e ajeitei o meu cabelo. Em cima da mesa, estava a minha valise, onde eu costumava guardar os meus instrumentos para visitar pacientes em suas casas. Peguei-a e disse para os três homens, que ainda continuavam de pé:

       — Senhores, estou pronto.

       — Muito bem. — disse o capitão.

 

       Descemos a escada do pequeno prédio onde eu morava. Na parte debaixo, ficava meu consultório médico. Entramos na carruagem e o cocheiro imediatamente seguiu rumo ao forte. A estrada por onde seguíamos era de pedra e fazia margem à baía de Livid. Observei a penumbra que a cobria e pude ver alguns navios ancorados. Havia navios mercantes, navios pesqueiros e também navios de guerra. Perguntei mais alguma coisa ao capitão, mas este, educadamente, não me respondeu mais nada. Apenas limitou-se a repetir a frase que já havia me dito antes:

       — O Almirante lhe dará os detalhes.

       Como a viagem até o forte levaria cerca de trinta minutos, eu teria tempo de analisar com mais calma essa história toda, verificando as informações que eu tinha sobre ela.

 

       Tudo começou no ano de 1769, ou seja, há doze anos atrás, quando três navios mercantes, próximos de nossa costa, foram atacados e pilhados por piratas. O Rei, muito preocupado com a segurança das nossas rotas comerciais, imprescindível para o abastecimento do reino, ordenou a construção de um tipo de embarcação imbatível.      Nossa experiência tecnológica em construção de navios, tanto mercante como de guerra supera qualquer outra nação existente no mundo.

       As embarcações deveriam ser de grande porte e com enorme poder de fogo, sendo ainda extremamente velozes. Sua função seria a de patrulhar o nosso litoral, escoltar os nossos navios e varrer de uma vez por todas os piratas de nossos mares. O primeiro navio construído desse tipo foi chamado o Vingador dos Mares, um colosso flutuante com enorme poder de fogo e extremamente veloz. Demorou dois anos para ser construído. Um estaleiro foi especialmente preparado para aquele tipo de embarcação. Os melhores engenheiros foram recrutados para elaborarem o projeto do casco. Toda a madeira foi especialmente trazida do oriente, tratada e cortada com a tecnologia mais avançada da época. Os canhões, um grande problema para as embarcações devido ao seu peso, foram desenvolvidos com uma liga especial de metal, reduzindo o seu peso em dois terços. O velame foi feito pelas mais hábeis “mãos do mar”, a Escola Nacional de Navegação, localizada na capital do reino, em conjunto com tecelões chineses, trazidos especialmente para este fim.

       Muitos outros fatores que eu desconheço criaram a arma mais mortífera já lançada ao mar.

       No dia 16 de fevereiro de 1771, estava pronto o primeiro e único navio desta categoria: o Vingador dos Mares.

       Para comandar esta arma mortal foi designado o melhor e mais audacioso capitão do reino. Seu nome era Átila e toda a tripulação fora escolhida pessoalmente por ele. Havia participado de duas guerras e nunca havia naufragado ou perdido qualquer combate. Também era conhecido por seus estudos na área de química, onde tinha diversos trabalhos publicados. Uma outra particularidade sua, era a liderança perante a sua tripulação. Era um homem ponderado, sábio e consciente de seus atos, mas também era um homem muito corajoso. À frente do Vingador dos Mares, junto com sua tripulação, podia-se afirmar com certeza que era imbatível no mar.

       A ordem do rei era clara e direta. Todo navio pirata encontrado devia ser afundado. Em caso dos piratas se renderem, deveriam ser levados para a ilha prisão. Caso contrário, não deveria haver sobreviventes.

       As demonstrações de seu poder de fogo logo foram realizadas. Um mês após ter sido lançado ao mar, o navio atacou uma esquadra de quatro navios piratas. Três navios foram destruídos rapidamente. O último tentou escapar, e mesmo sendo menor e mais leve, não teve a menor chance. O Vingador dos Mares caiu sobre ele como uma tubarão.

       As ordens do rei foram seguidas à risca.

       Não houve nenhum sobrevivente.

       Em menos de um ano, os navios piratas desapareceram de nossa costa.

       Mas as ordens do Rei não foram seguidas conforme havia sido estabelecido.

       Após o sucesso das primeiras expedições, notícias começaram a chegar falando de atrocidades cometidas pelo navio de guerra. Elas falavam de verdadeiros massacres cometidos pelos homens comandados por Átila.

       Boatos sobre navios piratas que se rendiam assim que avistavam o Vingador dos Mares, e tinham a sua tripulação completamente massacrada pelo homens que deveriam prendê-los, começaram a chegar aos portos.

       Elas falavam de tripulações inteiras enforcadas, degoladas, queimadas ou mortas de outras formas atrozes.

       A morte passou a fazer parte da tripulação daquele navio.

       Após presenciar essas e várias outras tragédias, o primeiro imediato fugiu do Vingador dos Mares e foi resgatado por um navio mercante.

       Toda a tripulação era leal a Átila, mas o que desertara, alegara não concordar mais com as atitudes de seu capitão e dizia que toda a sua tripulação estava enlouquecida e haviam se tornado homens sangüinários e sem fé.

       A história piorou depois que o navio atacou um navio mercante, matando toda a tripulação e saqueando-o. Outros dois navios surgiram completamente destruídos, à deriva, muito próximos de nossa costa.

       O Rei, diante de tais fatos, tomou a seguinte decisão: o navio precisava ser destruído.

       Uma esquadra real composta por oito navios de guerra passou a procurá-lo.

       O Vingador dos Mares foi encontrado na noite tempestuosa de 25 de maio de 1772, na arquipélago de Luger, um local com centenas de ilhas e recifes, onde se acreditava que ele estivesse escondido. Trata-se de um lugar com muito nevoeiro, que aparecem e desaparecem sem que, até hoje se saiba exatamente as suas causas.

       Houve um intenso combate e quatro navios da esquadra Real foram afundados. O navio comandado por Átila estava bastaste avariado, e ondas violentas varriam seu convés atirando os homens ao mar para um destino certo: as mandíbulas dos inúmeros tubarões que infestam aquela região.

       Os marinheiros que voltaram daquela missão diziam que podia-se ver o capitão manobrando o leme, ordenando a seus homens que ficassem em seus postos, mas o navio já estava bastante danificado.

       Foi nessa tempestade que o navio conseguiu afastar-se. Quando o mar finalmente se acalmou e o Vingador dos Mares foi finalmente alcançado, surgiu uma imensa neblina e começou a esconder a grande embarcação, que já dava sinais de começar a afundar. O Os Sete Mares, um dos navios que saíra em sua caça, disparou mais uma salva de canhões sobre a última posição do navio e várias explosões foram ouvidas. Gritos ensandecidos ecoaram de dentro da espessa camada de neblina.

       No outro dia, o mar estava mais calmo e a neblina se dissipara. Não se encontrou qualquer sobrevivente ou mesmo um único pedaço de madeira proveniente do navio.

       Os homens não acreditavam que um navio daquele tamanho não deixasse um vestígio qualquer de sua existência.

       Muitos falaram que o capitão Átila havia feito um pacto com o demônio para se salvar. Ele e sua tripulação. Em troca, ficariam vagando pelos mares, atacando os navios que encontrassem pelo seu caminho.

       O capitão que liderava a esquadra escreveu em seu diário de bordo:

Diário de bordo do dia 26 de maio de 1772. O Vingador dos Mares afundou sobre intenso combate. Perdemos o Galvez, o Vingança, o Crepúsculo e o Amanhecer. Estamos bastante avariados. Perdi trinta homens em combate e tenho outros dez gravemente feridos. O Vitória, o Tubarão e Os Sete Mares também estão bastante avariados e perderam homens de suas tripulações, mas estão em condições de navegar, assim como nós.

Não encontramos nenhum sinal do navio que perseguimos, nem mesmo um único pedaço de madeira, mas os gritos da noite anterior e as explosões que ouvimos não deixam dúvidas sobre o naufrágio do mesmo.

Retorno para à Pátria com minha missão cumprida, mas a alma desse capitão nunca entenderá o que levou à loucura todos os homens de uma mesma embarcação e um dos melhores comandantes que conheci e com quem aprendi tanto.

Que Deus acolha a alma de todos eles e que encontrem a paz.

 

       Depois desse incidente e o retorno de quatro dos oito navios que partiram para o combate, a tranqüilidade voltou para as rotas de navegação em nossa costa.

       O Rei, temeroso que a situação se repetisse, cancelou o projeto de construção de navios de guerra tão potentes quanto o Vingador dos Mares. Apenas navios de guerra convencionais passaram a ser construídos.

       A situação, nos dois anos seguintes, foi extremamente calma, até que algo de estranho começou a acontecer...

       Primeiro, foi o navio comercial Imperatriz, que numa noite de calmaria dentro do arquipélago de Luger, viu aparecer, de repente, bem à sua frente um navio completamente destruído, com marcas de fogo e balas de canhão. O velame estava bastante avariado e o convés completamente destruído. O capitão do navio, extremamente assustado, observou pela sua luneta e escreveu no diário de bordo:

 

Diário de bordo do dia 12 de abril de 1774. Avistamos um navio semi destruído. O casco era negro e possuía três grandes fileiras de canhões. Os mastros estavam inteiros, mas o velame estava completamente rasgado. Várias amarras estavam arrebentadas.

       O barco estava à deriva. Com certeza, tratava-se de um grande vaso de guerra e que havia participado de uma grande batalha, a julgar pelo seu estado. Uma névoa esverdeada cobria a embarcação, mas pude ter a impressão nítida de ter visto vultos andando sobre o convés. Do mesmo modo que o navio apareceu a nossa frente, sumiu na neblina.

       Assim que o navio comercial aportou, a história veio à tona. Houve grande comentário entre os marinheiros e as velhas histórias de navios fantasmas e tripulações amaldiçoadas começaram a ser contadas, principalmente pelos mais velhos. Mas como não houve provas, e devido ao forte nevoeiro, acreditou-se tratar-se de uma alucinação por parte do capitão e de outros cinco marinheiros que estavam no convés e que também juraram terem visto o navio.

       Histórias como aquela não são incomuns de se ouvir nos portos de todo o mundo. Foi, como todas as outras, tratada como uma visão dos marinheiros.

 

      Eles estavam errados...

 

       Duas semanas depois, o navio de guerra Tubarão encontrou um navio à deriva e completamente arrasado. Os três mastros estavam completamente destruídos e parecia que uma tormenta havia passado no seu convés.

       Abordado pelo vaso de guerra, o navio mostrou a tragédia que havia se instalado a bordo.

       Toda a tripulação estava morta. Os corpos foram completamente mutilados. Havia marcas de tiros por todo o convés. O seu comandante, um capitão muito conhecido e com bastante experiência relatou, em seu diário de bordo:

 

Diário de bordo do dia 26 de abril de 1772.

       Avistamos um navio bastante avariado. Inicialmente tentamos fazer contato e não obtivemos resposta. Fizemos então uma aproximação e abordamos o mesmo.

       Pudemos constatar uma verdadeira tragédia. Encontramos quarenta e dois corpos dilacerados por espadas. Nenhum deles tinha marca de tiros de pistola, apesar de haver perfurações de balas por todos os lados do convés.

       Sou um velho capitão do mar, e já vi várias coisas estranhas, mas nada se compara a uma tripulação morta dessa maneira. A carga do navio, uma grande quantidade de prata, estava intacta. Não encontramos nenhum outro marinheiro de outra embarcação.

       Duas coisas me impressionaram bastante: a expressão de terror nos olhos do marinheiros mortos e uma frase escrita com os dedos ensangüentados de um dos marinheiros, “Vingador Mares”.        Encontramos o capitão na cabine de comando sentado à frente do seu diário de bordo. A última coisa escrita nele era ...

 

“O Inferno abriu suas portas e veio diretamente a nós. Espero que Deus tenha piedade de nossas almas...”

 

       Por ordem da marinha, o navio foi incendiado logo após a sua carga de prata ter sido retirada do porão. Os corpos dos marinheiros não puderam ser vistos pelas suas famílias e tiveram destino incerto.

       O alvoroço dessa vez foi muito maior. A forma semelhante dos ataques ao navio abordados há tempos atrás pelo Vingador dos Mares trouxe o medo e a insegurança novamente para o nosso reino.

       Várias companhias mercantes foram obrigadas a aumentar os salários do marinheiros para que pudessem navegar naquela região.

 

       Um mês depois, outro navio, desta vez um vaso de guerra, o Estrela do Mar, sumiu dentro do arquipélago, para ser encontrado mais tarde no mesmo estado do navio de carga.

       Segundo a descrição do capitão do navio que o encontrou, a dilaceração dos corpos era coisa impressionante. Parecia que uma turba de sádicos havia entrado no navio. Outro fato chamou a atenção do comandante: três corpos não tinham nenhum ferimento.

       Suas faces tinham uma expressão de terror que indicava, provavelmente, terem morrido devido a um grande susto ou emoção.       

       Os canhões da banda esquerda haviam sido disparados e havia marcas de incêndio em algumas partes do mesmo.

       Novamente boatos sobre o Vingador dos Mares surgiram, mesmo sem que nenhuma prova concreta fosse apresentada. Duas grandes companhias de importação ameaçaram parar de trazer materiais e produtos alimentícios, caso a segurança não fosse redobrada.

       O arquipélago de Luger era muito utilizado, e facilitava bastante a rota de navios mercantes devido ao reabastecimento em algumas ilhas estratégicas. Nelas era possível encontrar mantimentos e água potável, imprescindível para viagens marítimas de longa duração.

       A coisa piorou quando um mês e meio depois, um pequeno bote foi encontrado no arquipélago maldito, como passou a ser chamado.        De dentro dele, foi retirado um marinheiro moribundo que balbuciava algumas palavras sem sentido. Seu uniforme indicava que ele pertencia a uma grande companhia de transporte de cereais, que mais tarde declarou ter perdido um grande navio de carga, e que o moribundo encontrado era um de seus tripulantes.

       O marinheiro foi trazido para a cabine do capitão. As luzes não podiam ser apagadas em volta dele sem que este começasse a gritar feito louco. Seus olhos esbugalhados e sua feição de medo indicavam que havia passado por uma experiência extremamente assustadora. O capitão do navio passou a anotar suas frases para que pudessem ser analisadas mais tarde.    

       Um dia antes de chegar ao porto, o marinheiro começou a dizer que seu fim iria chegar e que a morte viria lhe buscar. Durante a madrugada, um forte grito se ouviu na sua cabine, que era vigiada por dois marinheiros. Ao entrarem, depararam-se com o marinheiro olhando pela escotilha e seu braço parecia apontar para o mar. Seu corpo estava rijo como uma pedra. Ao olharem pela pequena escotilha, que estava aberta, os marinheiros tiveram a impressão de terem visto uma névoa esverdeada se afastando do navio.

       Devido a esses acontecimentos, muitas companhias marítimas pararam de importar ou exportar mercadorias, o que nos está fazendo passar por uma grande crise.

       As relações com nossos reinos vizinhos também não estão muito boas, pois apesar de não estar formalizada a natureza exata dos ataques, eles acreditam que isto não passa de um ataque de piratas e que nossa marinha não consegue detê-los, muito menos proteger as embarcações no arquipélago.

       O primeiro imediato de Átila, que desertara do navio, desapareceu de sua casa três semanas depois, sem levar qualquer pertence. Nenhum dos vizinhos o viu sair de casa, mas um morador afirmou ter visto três vultos envoltos em um névoa esverdeada andarem em volta de sua casa no exato dia em que ele desapareceu.

       Somando-se a todos estes fatores que acabei de lembrar, temos este fato novo.

       Mais um navio destruído: Os Sete Mares. Um dos navios de guerra mais imponentes do reino, que cheguei inclusive a conhecer e que havia participado da perseguição ao Vingador dos Mares. Só não entendi porque me chamaram.

       Eu era um jovem médico que acabara de se formar. O Forte Rochedo já possuía um excelente médico, o Dr. Roberto, amigo de meu pai, com o qual tive a oportunidade de conversar e a quem devo vários favores, tendo em vista sua prestativa ajuda para minhas acomodações. Suas indicações para que vários de seus clientes passem a utilizar o meu pequeno e modesto consultório foram muito importantes.

       Olhei novamente pela janela e pude ver que nos aproximávamos do forte. Era um grande complexo militar, feito de pedras na parte de cima de um morro. Seus enormes e poderosos canhões protegiam a baía de ataque de piratas ou da invasão de reinos estrangeiros. Seu contingente era sempre de um grande número de soldados, bem armados e municiados. Em caso de guerra, o forte servia com base estratégica para operações da marinha.

       A carruagem parou diante do grande portão. Houva uma troca de saudações militares e no momento seguinte, seguimos por uma rua de pedras e pude ver as instalações. O alojamento dos soldados, dos oficiais, o grande depósito de armas. Uma rápida olhada na amurada e pude ver os temíveis canhões que protegiam nossa baía.

       Finalmente, a carruagem parou e pude descer juntamente com os soldados. Dirigimo-nos então para a ala médica. Observei as luzes de alguns lampiões em uma sala no segundo andar de um bonito prédio de tijolos. Subimos por uma escada e nos deparamos com dois guardas à porta. O que mais me impressionou foi que o forte estava em completa calmo.

       Mais uma troca de saudações e finalmente entramos na sala. Somente eu e o Capitão Kurchov passamos pela porta.

       Até aquele momento eu não tinha a menor idéia de que ao abrir aquela porta eu estaria entrando na aventura mais espetacular da minha vida.

 

       Assim que entrei na sala, vi que não era muito grande, mas possuía móveis finos, todos de madeira trabalhada. Tinha uma grande mesa e cadeiras com vários detalhes feitos à mão.

       Havia também duas cristaleiras muito bonitas, também feitas com madeira negra e muito rica em entalhes. Tinha ainda três quadros com as figuras de nossa realeza. Uma de sua Majestade, outra da rainha e a terceira do príncipe, uma criança de oito anos. Já estivera naquela sala. Era a sala de estudos do doutor Roberto.

       Em cima da mesa, existiam dois lampiões acesos e que, com mais outros quatro que ficavam em locais estratégicos na parede, clareavam muito bem a sala.

       Seis figuras estavam sentadas na mesa. À luz do lampião, passavam um ar sombrio e tenebroso. Eu conhecia apenas três delas. A primeira, sentada na cabeceira da mesa, era o almirante Dimitri, trajando sua vestimenta militar. Era um homem forte, de aproximadamente uns cinqüenta anos, cabelos e barba grisalho com a pele bronzeada pelos dias a bordo de navios. Ele fora um grande amigo de meu pai, quando o mesmo era vivo. O segundo homem era o doutor Roberto, que também estava usando um traje militar. Tinha cinqüenta e oito anos e era considerado um dos melhores médicos de nosso Reino. Era um homem moreno, de estatura mediana e falava sempre de maneira calma e pausada. Usava óculos e tinha um grande bigode. Fui recebido por ele quando me decidi estabelecer na cidade.

       Como já havia mencionado, ajudou-me a abrir meu consultório, emprestando inclusive alguns de seus aparelhos médicos. Indicou também uma série de pessoas para se consultarem comigo. Eu já havia conhecido todas as suas vinte publicações e me baseava muito em seus ensinamentos.

       O terceiro homem era uma lenda.

       Doutor Július era seu nome. Professor de Ciências Físicas e Químicas em nossa melhor universidade, era uma assumidade em diversos assuntos, desde literatura, passando por Geografia, Ciências Políticas, Física e Química.

       Iniciara seus trabalhos na marinha como capitão e participou de muitas batalhas. Aos quarenta anos, solicitou sua baixa para dedicar-se aos estudos, sua grande paixão.

       Dizem os marinheiros que serviram ao seu lado, que ficara triste ao ver os horrores das guerras que tinha participado. Vários anos de estudos nas mais diversas áreas, acabaram por torná-lo o maior sábio de nosso Reino, fazendo-o lecionar atualmente em nossa melhor Universidade. Trocou informações com estudiosos de várias partes do mundo e era conhecido e respeitado em muitos lugares. Havia boatos, que eu acredito serem verdadeiros, que o próprio Rei o consultava constantemente.

       Um dos dois homens que eu não conhecia era um bispo, devido ao seu traje. Tinha os olhos redondos, nariz chato e era calvo. Era um homem de idade avançada.

       O outro deveria ser de grande importância dado aos seus trajes nobres. Tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo, aparentava ter uns quarenta e cinco, cinqüenta anos.

       Provavelmente era um conselheiro real.

       Eu tinha certeza do que aqueles grandes e importantes homens faziam ali: estavam discutindo sobre o Vingador dos Mares. O que eu não entendia era o que eu estava fazendo ali.

       — Doutor David, — disse o Almirante — , aproxime-se e sente-se em uma das cadeiras. Capitão Kurchov, o senhor também. Gostaria que o senhor conhecesse algumas destas pessoas, pois acredito que já conheça outras. Doutor Roberto, nosso médico, o Bispo Paulo, professor Július e o conselheiro Magnus.

       Fiquei muito entusiasmado ao cumprimentar aqueles homens, e especialmente o professor Július. Tinha muita admiração por ele. Todos me cumprimentaram acenando com a cabeça.

       — Doutor, o senhor sabe dos fatos ocorridos a respeito do vaso de guerra Vingador dos Mares?

       — Sim, senhor. Mas sei o que acredito que todos os civis sabem. Dos boatos e das histórias que são contadas pelos marinheiros e das notícias nos jornais.

       — Pois muito bem. O senhor pode acreditar nelas, no que diz respeito a perda de dois navios de guerra, o Estrela do Mar e Os Sete Mares, o navio mercante Gaivota e o desaparecimento de uma grande navio de carga, O Imperador do Mar. Ao todo, trezentos e cinqüenta pessoas já morreram, somando-se as mortes das pessoas encontradas, mais a dos desaparecidos, que, ou se atiraram na água ou afundaram junto com o navio.

       Eu, particularmente, não acreditava que estava ficando a par daqueles fatos extremamente secretos.

       — Retiramos um sobrevivente do mar, e ele relatou uma história muito estranha que por motivos de segurança foi guardada por nós para não tornar a situação ainda mais grave. Em seu relato, ele falou de uma calmaria no mar, o surgimento de uma névoa esverdeada que tomou conta do navio em instantes e deixou os homens atordoados. Dessa névoa, ele viu surgir um navio semi destruído que o senhor já sabe o nome e que fez uma abordagem. O pânico tomou conta da tribulação quando homens com as roupas em trapos, a pele carcomida e apodrecida começam a saltar para dentro do convés.

       Eu não acreditava no que o almirante estava me dizendo.

       — O senhor está falando que esse sobrevivente viu homens mortos caminhando como se estivessem vivos?

       — Sim. — respondeu o almirante. — E empunhavam espadas enferrujadas e corroídas pelo mar. Alguns tentaram reagir com disparos de suas pistolas mas essas não tiveram o menor efeito contra esses homens, se é que posso chamá-los assim.

       O almirante olhou seriamente para todos os presentes.

       — A tripulação entrou em pânico. Alguns se atiraram na água e foram mortos rapidamente pelos tubarões que infestam a região. Os outros que ficaram no navio foram mortos com extrema crueldade.

       — É uma história incrível a que está nos contando, almirante.

       — Sei disso conselheiro, mas os poucos relatos que obtivemos até agora falam exatamente essa mesma história.

       — E como esse homem conseguiu se salvar? — perguntou o professor.

       — Ele soltou um bote salva-vidas. Atirou-se no mar e conseguiu entrar nele. A correnteza se encarregou de afastá-lo do local da tragédia. Quando o encontramos, ele parecia ensandecido. Com muito custo, conseguimos acalmá-lo para que nos contasse a história que estou lhes relatando agora. Dias depois ele acabou morrendo. O seu coração não agüentou.

       Fiquei pasmo ao ouvir essas notícias, mas como todos estavam calmos, procurei fingir meu nervosismo. Ainda mais quando todos se voltaram para mim, para que eu fizesse o meu comentário.

       — Senhor, realmente é uma história impressionante. Os boatos e as histórias que correm, dizem, não exatamente com as mesmas palavras, mas falam coisas muito parecidas.

       —E o senhor, como doutor, acha possível que mortos vivos possam voltar a vida?

       Dessa vez, quem perguntava era o conselheiro real.

       — Como médico, posso lhe assegurar, que uma vez morto, o ser humano não pode voltar a vida.

       — Sabemos que quando se morre, as unhas continuam crescendo, bem como os pêlos do corpo, os cabelos e até mesmo o bigode. E se alguém tivesse encontrado uma forma, uma maneira de ressussitar os mortos? — perguntou o professor Július.

       — Quando um homem morre, — voltei a falar, — o seu corpo automaticamente se altera. Apesar do que o senhor acabou de dizer ser verdade, os músculos do corpo de atrofiam. Sem a circulação do sangue, os órgãos internos começam a se deteriorar. Ocorre a necrose do cérebro, o que por si só já tornaria completamente impossível uma pessoa morta retornar à vida. Ainda mais andar em navio e atacar outros homens.

       O professor me olhou nos olhos por alguns momentos.

       — Muito obrigado por essas explicações, doutor.

       — Mas as histórias dos navios fantasmas não se resumem somente ao Vingador dos Mares. O senhor sabe, almirante, de vários relatos, feitos por capitães de nossa marinha. Só o Holandês Errante já foi visto por pelo menos quatro de nossos capitães. E são todos homens sérios que não são de se deixarem impressionar facilmente.

       — Holandês Errante? Que navio é este? — perguntei, bastante curioso.

       — Boa pergunta, doutor? — disse o conselheiro —, alguém poderia nos esclarecer melhor?

       — Pois muito bem, — disse o professor —, o Holandês Errante, ou Flying Dutchman, tinha como comandante Hendrik Vanderdeken, um homem muito corajoso e bastante respeitado pela sua tripulação. Em 1641, ele estava atravessando o cabo da Boa Esperança para retornar à Amsterdã, quando foi pego por uma grande tempestade. Segundo a lenda, durante a tempestade, ele desafiou Deus, que o condenou a vagar pelos mares com uma tripulação de esqueletos até o dia do juízo final.

       — Július, isso não seria mais uma lenda, dessas que são contadas nos portos de todos os reinos?

       O professor, sem dizer uma única palavra, vasculhou em seus papéis e após selecionar um, começou a ler.

       — Diário de Bordo do Navio Resistência, no ano de 1760.

       “Às quatro da madrugada, o “Holandês Errante” cruzou nossa proa. Emitia uma estranha luz fosforescente, como a de um navio fantasma, toda embraseada, e no meio da luminosidade, os mastros, vergas e velas de um brigue de duzentos metros de distância ressaltavam em forte relevo. Quando a embarcação apareceu a bombordo da proa, também foi vista pelo vigia que se encontrava na ponte, além do aspirante no tombadilho, que foi enviado imediatamente para a proa. Lá chegando, porém, não havia nenhum vestígio ou sinal de qualquer navio concreto, fosse perto ou em direção ao horizonte, embora a noite estivesse clara e o mar calmo.

       — E quem era o capitão desse navio? - perguntou o conselheiro Magnus.

       — Capitão Ivã. Era uma grande amigo meu. Posso assegurar a todos que ele era uma homem sério e bastante cético. Não se impressionava facilmente. Eu acredito em seu relato. — disse o professor em tom calmo e bastante sereno.

       Não sei quanto aos outros mas eu fiquei perplexo.

       — E onde ele está agora? — voltou a perguntar o conselheiro.       

       —   Seu navio afundou na grande batalha da baía Glória. Nenhum homem pertencente a sua tripulação sobreviveu.

       Novo silêncio se fez na sala.

       — Muito bem, senhores, — voltou a falar o almirante, — agora perdemos outro navio, o Os Sete Mares, e novamente temos um sobrevivente que está sendo mantido em segredo em nosso forte. Doutor David, antes que ordene que ele venha aqui, gostaria de saber se é verdade a história de que o senhor acompanhou o regresso do navio mercante Lua Crescente há mais ou menos dois anos?

       A partir daquele momento entendi porque havia sido chamado.

       — Sim, senhor. Eu já havia teminado a Universidade e trabalhava como médico auxiliar no Porto de Sares. Naquele final de semana, o médico havia partido para o interior para visitar seus familiares e eu havia ficado só. Meu trabalho era observar, juntamente com um destacamento militar a chegada de navios e verificar a chegada se os marinheiros apresentavam algum sintoma   que indicasse a presença de doenças infecciosas. Foi quando chegou um navio rebocado que havia sido encontrado à deriva. A tripulação do outro navio, não conseguindo fazer contato, e temendo um doença contagiosa, o trouxe até o porto. Fui averiguar juntamente com um destacamento de soldados e pudemos verificar que os dezesseis tripulantes estavam todos mortos. Três deles tinham marcas de projéteis e outros nove haviam sido trespassados por espadas. Tinham os rostos transfigurados e seu estado de decomposição não era muito avançado. Imediatamente, pedi que não fosse permitida a entrada de mais ninguém no navio. Os soldados falavam de maldição do mar, bruxas, sereias que enlouqueciam os homens, mas eu não acreditei nisso. Preferi o ceticismo, já que sou um médico. A minha primeira suspeita era que havia acontecido algum tipo de contaminação ou mesmo um grande motim que acabou resultando na morte de todos.

       — E o que o senhor concluiu? — perguntou o conselheiro bastante interessado, como todos os demais.

       — Ao investigarmos o interior do navio, constatei a presença de cravagem no centeio.

       — Cravagem? Mas o que é isso?

       — Cravagem, senhor Magnus, quando ingerido pelo homem provoca o ergotismo. Ele afeta o sistema nervoso causando loucura violenta e morte, precedida por um comportamento irracional. Uma insanidade coletiva provocada por essas condições induziu a tripulação a um ataque entre si. Os que não morreram no combate, morreram depois.

       — Muito interessante, meu jovem. Uma atitude muito inteligente observar que todos morreram por um motivo e que para isso foram expostos todos, sem exceção. A comida é servida a todos e na mesma hora. Uma dedução simples mas muito astuciosa.

       Era o professor Július que falava.

       — Muito obrigado, professor.

       ­— Apenas relatei a verdade. Mas agora que você já sabe da situação que está afligindo nosso Reino e que deve ter uma opinião como todos nós aqui presentes nesta sala, gostaria que nos revelasse a sua teoria sobre estes fatos que o senhor acabou de ter conhecimento.

       Parei por um instante. Um homem com aquele, queria que eu expressasse meus pensamentos. Fiquei, não pude negar, muito orgulhoso.

       — Pois muito bem. Apesar de não ter tido contato, nem analisar os corpos dos homens, posso dizer que existe a possibilidade de um navio ter sido vítima de cravagem em sua alimentação, mas os nossos navios de guerra não. O Doutor Roberto e o senhor mesmo, que já esteve na marinha pode dizer melhor do que eu. Toda a alimentação que é enviada para a nossa frota é regularmente verificada. Os militares cuidam muito bem da alimentação e acho muito pouco provável que dois de nossos navios tenham sido contaminados com cravagem em tão pouco espaço de tempo.

       — Muito interessante. Mas o que está havendo na sua opinião?

       Agora, finalmente eu poderia expressar o que eu achava de toda aquela história.

       — Eu tenho uma teoria. Todos falam de uma nuvem esverdeada. Não tenho certeza, mas acredito que essa nuvem possa ser a chave do problema. Este nevoeiro poderia ser tóxico, o que provocaria as alucinações e que, devido à fantástica história do Vingador dos Mares, causaria pânico à tripulação. Com o pânico, eles acabariam lutando entre si achando que estavam combatendo fantasmas, ou mortos vivos se preferirem.

       O professor Július me olhou fixamente.

       — Não é possível! — disse o Almirante Dimitri. — É a mesma teoria que a sua, Július.

       — Sim. A do jovem David é um tanto quanto mais simples, mas sim, é a mesma que a minha. A hipótese pirata foi descartada, pois os navios encontrados estavam com todas as cargas intactas. E depois, eles não teriam nenhum interesse em afastar os navios mercantes da região. A hipótese de intoxicação também, devido a dois dos três navios serem militares.

       Fiquei muito impressionado com o fato de minha teoria ter sido a mesma do professor. Era óbvio, que tanto ele como eu, não acreditávamos nessa história de navios fantasmas percorrendo os mares em busca de vingança, ou mesmo de cadáveres assassinando toda a tripulação dos navios.

       — Senhores, — retrucou o Capitão Kurchov, — e se estivermos às voltas com um novo capitão Átila, disposto a atacar todos os navios que encontrar?

       — Também já pensei nisto, caro Capitão, mas por que todos os navios alegam terem visto o Vingador dos Mares semi-destruído?

       — Talvez porque realmente ninguém o viu afundar.

       — E o senhor, bispo Paulo, o que acha desta história? É possível que um navio e toda a sua tripulação retorne da morte e provoque esses estranhos acontecimentos?

       O bispo, que até então não havia se pronunciado, olhou-nos fixamente e começou a falar com muita calma.

       — Sem dúvida é uma história bastante intrigante, mas devemos refletir com muita prudência. Às vezes, nos deparamos com fatos que nos parecem inexplicáveis, mas não devemos nos deixar levar pelo medo ou ignorância. Em meus estudos acerca do sobrenatural, viajei por muitos lugares e pude comprovar a existência de muitas histórias inexplicáveis, mas muitas foram reveladas como tratando-se de fenômenos da natureza ou mesmo truques provocados por pessoas inescrupulosas. Mas uma pequena parte realmente nos questiona até hoje. A igreja é cética no que diz respeito ao retorno dos mortos, principalmente da maneira como estão se desenrolando os fatos e ...

       — Por favor, senhores, — retrucou o conselheiro real. — Essa discussão não irá nos levar a nada. O que temos em mãos, sendo um navio de amaldiçoados ou não, é um problema de ordem internacional. Navios estão sendo destruídos naquele lugar. Marinheiros estão sendo mortos. Após a nossa difícil vitória na guerra, conseguimos a muito custo estabelecer estas rotas comerciais e os senhores sabem da dificuldade que é mantê-las. Muitos reinos fazem comércio conosco e também precisamos constantemente negociar com eles.

       O modo preocupado que o conselheiro falava mostrava total conhecimento sobre a política atual do Reino.

       — Talvez um dia, as especiarias sejam apenas um simples meio de dar um toque de originalidade à comida. Mas hoje, as dificuldades de transporte e a falta de refrigeração fazem com que a maior parte da carne que os homens utilizam ou é salgada ou se estraga facilmente. Por isso, existe a necessidade de importá-las do oriente, para tornar os alimentos mais comestíveis, e não apenas mais saborosos. Este é apenas um item. Poderia falar de metais preciosos, tecidos, madeira, e muitos outros. Mas agora, com esses acontecimentos, alguns deles já ameaçam comercializar com nossos antigos inimigos, alegando falta de segurança, sem contar o clima tenso que paira sobre nossos inimigos, nesta trégua extremamente frágil.

       Ao ouvir as palavras do conselheiro, foi que finalmente tomei conhecimento da gravidade da situação, que estava muito além de navios com tripulações fantasmas.

       — Nenhuma grande companhia se arrisca mais a viajar por Luger e se esta situação não for resolvida, sabem o que poderá acontecer: teremos um caos em nosso Reino. Se perdermos o controle de nossas importações e exportações ficaremos a mercê de nossos inimigos e Sua Majestade jamais desejou isso. É essa preocupação que está deixando muito apreensivo e não essa história de navio fantasma.

       — Senhores, — disse o Almirante Dimitri. — Nós os chamamos aqui porque temos um sobrevivente junto de nós. Foi encontrado também em um bote à deriva e neste momento está em uma sala no hospital ...

       Neste momento, a conversa foi interrompida por uma grito, que mais pareceu um urro de medo.

       Eu fiquei perplexo. Parecia que alguém estava sendo brutalmente torturado. Imediatamente o Capitão Kurchov saltou da cadeira.

       — O marinheiro sobrevivente!

       Em seguida, saiu em disparada pela porta. O forte já estava em polvorosa. Levantei-me e fui atrás dele. Não queria perder os acontecimentos por nada deste mundo. Descemos a escada rapidamente e nos deparamos com soldados correndo para o ambulatório. Alguns portavam fuzis, outros pistolas. Dirigimo-nos para lá. Muitos estavam aglomerados em uma das portas. Kurchov os empurrou e entrou na sala.

       Entrei em seguida.

       No chão da sala, iluminada por um lampião jazia um homem com um grande ferimento no peito. Em outro lado, havia um soldado, provavelmente o homem que tomava conta do marinheiro. Tinha os olhos esbugalhados e olhava pela janela que dava para o mar. Embaixo desta, pelo outro lado, um paredão inacessível de mais de 40 metros que dava para o mar revolto.

       O Capitão dirigiu-se para o marinheiro. Ajoelhou e o segurou pelos braços.

       — Está vivo! Doutor David, depressa!

       Aproximei-me do homem.

       — Preciso de um pano, rápido. Imediatamente me passaram um toalha e fiz pressão junto ao ferimento. Só então pude repararar na fisionomia do marinheiro, que não aparentava mais de vinte e cinco anos.

       — Quem fez isso a você? — perguntou o Capitão.

       Neste momento, entraram na sala o Almirante e todos os outros que estavam a pouco em reunião. Olhou para os soldados e ordenou secamente:

       — Esvaziem imediatamente esta sala e tranquem a porta!

       A porta foi fechada e todos os soldados saíram.

       O marinheiro tinha a boca ensangüentada. Olhou fixamente para mim. Jamais esquecerei aquele rosto. Não havia muito o que eu podia fazer. O ferimento era muito grande, e o sangue não parava de escorrer.

       — Eles vieram me buscar... — balbuciou.

       — Quem? — perguntou o Capitão.

       — Nós, nós os matamos. Agora eles estão de volta e querem vingança.

       — Quem, homem? Por Deus, quem fez isto com você?

       — Os homens do Vingador dos Mares. Não podemos escapar de sua ira.

       Aquele jovem marinheiro estava morrendo. Disso eu sabia. Sua pulsação ia enfraquecendo cada vez mais.

       — O que você viu?

       — Um deles, a espada. Que Deus tenha piedade de nossas almas. De todos nós ...

       O marinheiro fechou os olhos.

       O Capitão olhou para mim e lhe fiz um aceno negativo.

       — O soldado também está morto, parece que teve uma parada cardíaca por uma emoção muito forte. — disse o Doutor Roberto.

       Imediatamente, o Capitão saiu da sala e correu para junto dos soldados, ordenando especificamente para alguns que fizessem uma busca completa no forte atrás do autor daquele crime. Levantei-me e fiquei olhando aquele corpo no chão. Já tinha visto outros antes, mas nunca vi alguém morrer em minhas mãos.

       Senti-me inútil.

       Todos os anos que estudei não serviram para nada. Fiquei perplexo e não consegui reagir. Minhas mãos estavam ensangüentadas. Olhei para o professor. Ele não se abateu por nenhum momento com o que acabara de presenciar. Primeiro observou calmamente o soldado e a posição em que estava. Depois, vagarosamente, veio em minha direção e observou o corpo. Retirou a toalha e rasgou a camisa do marinheiro.

       Observou o ferimento por alguns instantes. Limpou-o várias vezes.

       — Doutores, o que me dizem sobre esta perfuração?

       Eu e o Doutor Roberto nos aproximamos.

       — Um ferimento com três centímetros de largura, que trespassou o corpo, falei virando o corpo para constatar o que acabara de falar.

       O professor rasgou a camisa do outro lado, para que pudesse verificar melhor o ferimento.

       — Que tipo de objeto poderia fazer isto?

       — Uma espada ou algo muito semelhante. — pronunciou o Doutor Roberto.

       — Doutor David?

       — Foi uma espada. Sua lâmina estava enferrujada, devido às pequenas marcas na roupa e em volta do corte. Veja, limpando o sangue, pode-se ver que o ferimento tem traços que indicam um objeto que não possuía uma lâmina muito afiada. O corte tem início aqui mas ao sair daqui está um tanto mais acima, talvez um centímetro, um centímetro e meio, o que indica ser uma espada militar e não uma espada qualquer.

       Eu estava olhando para o ferimento e fazendo a minha análise. Não podia ver as expressões de espanto do Conselheiro e do bispo. Apenas o Almirante e o professor não se surpreenderam com o que eu estava falando.

       — Ela também possuía ranhuras — continuei —, que podem ser observadas no ferimento. Diabos! Mas é claro!

       — O que foi, doutor? — perguntou o professor. — O que você descobriu?

       Eu não acreditava no acabara de descobrir.

       —   Estas espadas foram feitas sob medida para um tipo de embarcação especial. Uma embarcação que representasse respeito e admiração a todos que a observassem.

       — Sim! — retrucou o professor. — Foram feitas cento e trinta e cinco espadas assim. Seu nome era ...

       — Espada Lassimer! — completei.

       — Isso mesmo! — retrucou o professor.

       — Como sabe disso? — perguntou o Conselheiro Magnus.

       — Fui primeiro colocado em esgrima durante os anos passados na Universidade. Conheço muitas espadas, desde sua fabricação até os tipos de ferimentos que causam.

       — Não é possível! — retrucou o Almirante Dimitri.

       — O que não é possível? — perguntou o Conselheiro.

       — Doutor David, por favor, esclareça para o conselheiro.

       — Sim, professor. Estamos abismados porque essa espada foi fabricada somente para ser utilizada pelo navio de guerra Vingador dos Mares. Não existem espadas como essa e fabricá-las é quase impossível, já que o senhor que as fabricava faleceu dois meses depois de as ter confeccionado.

       O Conselheiro engoliu em seco. Ninguém acreditava muito no que eu acabara de dizer. Como aquela espada, que deveria estar no fundo do mar, a centenas de quilômetros dali, poderia ter matado aquele homem? Mas eu tinha absoluta certeza de que o meu diagnóstico estava correto.    E o professor concordava comigo em gênero, número e grau.

       A morte daquele soldado era mais uma que iria somar-se ao grande número de mistérios que cada vez mais se acumulava naquela história sem precedentes.

       Saímos daquele local e nos dirigimos novamente para a sala de discussões.

       A busca no Forte se revelou infrutífera. Ninguém além de nós tínha entrado nele.

       O Conselheiro Magnus começou a falar sobre qual era o verdadeiro motivo de sua presença ali.

       — Senhores, não há dúvidas que precisamos encontrar uma solução para este mistério, seja ela sobrenatural ou não. Vou lhes dizer o que Sua Majestade me incubiu de lhes dizer, caso o marinheiro que está morto lá embaixo não fosse capaz de fazê-lo.

       Compreendi, naquele momento, que o nosso Rei já havia definido, caso o marinheiro não conseguisse esclarecer de uma vez por todas aquele mistério.  

       — A situação é insustentável e precisamos resolvê-la o mais rápido possível. Senão, ao invés de termos marinheiros mortos de olhos esbugalhados e trespassados por espadas enferrujadas que jazem no fundo do mar, poderemos ter uma guerra entre Reinos, caso navios continuem a ser afundados e a nós recaia a responsabilidade. O que tenho a lhes dizer é o seguinte ...

 

       Era uma bela manhã de sábado, quando cheguei à maravilhosa casa. O céu estava claro, com poucas nuvens. Podia-se ver a lua competindo com o astro rei no firmamento.

      Abri o portão de ferro e passei pelo belo jardim, todo gramado, com flores de várias cores, que cercavam várias árvores frondosas. Estas, dispunham-se ao redor da grande casa, feita de tijolos maciços, rebocados com uma massa fina e pintada de branco. As janelas eram de madeira, grandes e resistentes, definidas com uma cor azul-escuro. Possuía uma grande varanda, que tomava toda a sua frente.

       O jardim era muito bem cuidado. Não havia folhas secas pelo chão e a grama estava muito bem aparada. Havia um casal sentado em cadeiras confortáveis na varanda da casa, conversando em um tom despreocupado. Ao me verem, o homem levantou-se e veio em minha direção.

       Tratava-se do Doutor Roberto e de sua esposa. Apesar de não querer demonstar, notei que sua expressão era bastante apreensiva.

       Ele sabia o motivo da minha visita.

       — David, — falou com um expressão preocupada, — veio conversar com Caroline?

       Assim que me estabeleci na cidade, tive a ajuda daquele homem, como já mencionei, para o início da minha atividade como médico. Sem conhecer muito as pessoas daquele local, passei a freqüentar a sua casa, vindo a conhecer a sua esposa e a sua filha, Caroline. Ela era a coisa mais linda que já tinha visto, e posso garantir, não estou exagerando nem um pouco. Era uma moça de traços delicados, fina e bastante culta. Em pouco tempo, ela passou a ser o principal motivo de minhas idas àquela residência. E eu era correspondido pelo amor que comecei a demonstrar por aquela   linda jovem. Até que, após dez meses de namoro, pedi a sua mão em casamento. O Doutor Roberto e sua esposa ficaram muito contentes com a minha atitude e abençoaram a nossa união.

       — Você foi convidado?

       — Sim, senhor. Recebi a visita de um mensageiro ontem à tarde, em meu consultório. Ele trazia uma convocação real.

       — Sabe que sua convocação foi solicitada pelo professor Július?

       — Eu sei.

       — E você foi obrigado a aceitá-la?

       — Não, senhor. A convocação falava que se eu desejasse ficar, minha decisão seria respeitada e acatada.

       — E posso ver em seus olhos que já tomou a sua decisão.

       Olhei para aquele homem e pude ver em seu rosto a expressão de meu pai, que já falecera.

       — Sim, eu irei. Pensei muito e não pude recusar o convite para embarcar nesta expedição. Sinto que devo prestar esta contribuição para o Reino.

       O doutor parou por um instante. Olhou-me firmemente.

       — Sabe, David, eu o tenho como um filho, e não posso impedi-lo. No fundo, eu o compreendo. Sim, entendo esta alma de aventura em busca desta história inacreditável. Mas ouça, meu filho, quero que tome muito cuidado e que volte o mais breve, são e salvo.

       Ao observar aquele homem falando, senti o quanto se preocupava comigo. E não era só pelo fato de eu estar prestes a casar com sua filha. Ele fora um grande amigo de meu pai.

       — Esta viagem, — continuou — não será apenas uma aventura. Seu destino é incerto e seu retorno não é garantido. — Olhou-me nos olhos e continuou — Quero que saiba que se não quiser ir, continuarei tendo o mesmo respeito e admiração que sempre tive por você. Não pretendo conceder-lhe a mão de minha filha somente porque tenho apreço e uma grande amizade por seu pai e por você. Eu lhe quero como um membro de nossa família porque sei do seu caráter, de sua responsabilidade e o mais importante, o quanto você ama a minha filha.

       — Fico muito honrado que o senhor tenha tais pensamentos a meu respeito. Sinto um grande pesar em ter que deixar sua filha, a quem amo de todo o meu coração, mas não tenho coragem de dizer não a estes homens que arriscarão suas vidas pela nossa pátria. Se eu não for, sinto que jamais conseguirei olhar para sua filha, tampouco para o senhor.

       Doutor Roberto olhou para mim e colocou as mãos sobre os meus ombros.

       — Você tem todo direito de seguir com estes homens. Se fosse eu em seu lugar, faria a mesma coisa. Só posso pedir que Deus abençoe esta viagem.

       — Ele abençoará, e irá nos proteger do mal, seja ele qual for.

       Ficamos por um instante parados. Eu respeitava muito aquele homem. Era como meu segundo pai e naquele momento, estava sentindo toda a sua preocupação comigo.

       Finalmente, resolvi quebrar o silêncio.

       — Agora eu gostaria de saber se poderia conversar com Caroline.

       — Claro que sim. Está no jardim dos fundos. Você já conhece muito bem o lugar.

       — Sim, senhor.

       Despedi-me do Doutor Roberto. Acenei para a sua esposa, que retribuiu o gesto. Segui por uma calçada feita de pedras, que contornava a casa. Na parte de trás, o jardim continuava. Também era repleto de árvores e completamente gramado. Também havia flores de várias espécies, que davam um perfume adocicado ao ambiente. Pássaros cantavam e voavam de um lado para outro. Caminhei mais um pouco e pude ver uma jovem sentada em um banco de madeira. Usava um vestido longo, de cor branca. Tinha os cabelos longos, encaracolados, de cor castanho-claro. Aproximei-me lentamente por trás e coloquei minhas mãos sobre seus olhos. Ela não ficou nenhum pouco assustada. Levantou suas mãos e tocou suavemente as minhas.

       — É você, David?

       — Sim. — respondi.

       Ela se levantou e abraçou-me.

       — David, meu amor. A cada dia que passa meu coração se torna cada vez mais seu.

       Eu a segurei pelos ombros e olhei para seu rosto. Aquela visão fazia com que eu me esquecesse de todo o resto de minha vida. Era de uma beleza insuperável. A pele era clara, os olhos castanhos que transmitiam uma alegria e uma vontade de viver que nunca havia visto em outra mulher. O seu sorriso era meigo de uma ternura sem par.

       — Poderão se passar séculos, mas meu coração será sempre seu.

       — Não vejo a hora de chegar o dia em que eu serei sua mulher. Não consigo mais ficar um minuto sem você.

       — Eu também estou contando os dias para que possamos finalmente ficar juntos.

       Ao dizer isto, ela olhou profundamente em meus olhos. Existe um ditado que fala que os olhos são as janelas da alma. Acho que isso é uma grande verdade.

       — O que você tem?

       Olhei para ela e respondi:

       — Tenho que lhe contar uma coisa.

       Sua expressão mudou instantaneamente de alegria para preocupação.

       — Sobre o que se trata? Não quer mais casar comigo?

       — Caroline, o meu amor por ti é a única certeza que tenho em minha vida. Por favor, vamos sentar. Vim aqui para lhe dizer que tenho que cumprir uma missão extremamente importante para mim e para nosso reino.

       — Missão? Mas que tipo de missão?

       — Parto dentro de dois dias para o arquipélago de Luger numa expedição secreta.

       Sua fisionomia se alterou. Dessa vez sua expressão, passou para triste, além de preocupada.

       — Mas o que você fará lá? Navios estão aparecendo com as tripulações mortas ou desaparecidas e há boatos que falam de um navio fantasma cheio de esqueletos assassinos.

       — É por isso que iremos para lá. Recebi uma convocação real, solicitada pelo professor Július para desvendar os segredos dessa estranha história.

       — Professor Július, o sábio?

       — Ele mesmo.

       — Eu o conheço. Ele é amigo de meu pai. Quando ele vem para nossa cidade, costuma sempre jantar conosco uma ou duas vezes.

       — Parto com ele em um navio de guerra comandado pelo Capitão Kurchov e o mais seleto grupo de marinheiros para desvendar este mistério. Sua Majestade não quer que nossa expedição seja divulgada para não trazer mais pânico para a população e evitar que os navios mercantes deixem de navegar por aquela área. Ele não acredita nestas histórias de navios fantasmas, como também o professor Július. Mas temos de descobrir do que se trata ou isto pode acabar em uma guerra.

       — Guerra? Mas acabamos de assinar vários tratados de paz há poucos meses atrás.

       — É difícil para mim explicar a gravidade da situação, mas se alguma coisa não for feita urgentemente, temo que acabaremos entrando em uma outra guerra.

       A jovem baixou a cabeça lentamente. Depois, balançou-a negativamente.

       — Não quero que vá. Sinto que se você for, nunca mais o verei. Não é justo que eu lhe perca dessa forma, David.

       Gentilmente, coloquei a mão em seu queixo e levantei a sua cabeça. Duas pequenas lágrimas escorriam pelo seu rosto.

       — Eu te amo.

       Naquele momento, pensei em recusar a convocação real. Caroline significava tudo para mim e se eu pudesse imaginar o que me aguardaria, teria desistido naquele momento. Mas eu sentia que não podia. Não poderia viver sem partir junto com aquela expedição.

       — Eu lhe asseguro, que voltarei. Casarei contigo como prometi para seus pais e teremos lindos filhos.

       — Não posso impedir que parta?

       Olhei fixamente para aquela jovem. Trocamos um longo e apaixonado beijo. Senti-la em meus braços fazia com que eu me esquecesse de todos os meus problemas, de todas as minhas obrigações. Senti sua respiração, o calor de seu corpo, as mãos quentes e úmidas. O seu perfume era doce e suave como o de uma flor.

             — Não, mas pode desejar-me boa sorte.

       Seus lábios estremeceram. Segurei firme em suas mãos, que agora estavam trêmulas.

       — Você não deve ficar triste, nem chorar. Afinal, os homens mais audaciosos do mundo estarão naquele navio.

       Novamente ela me olhou. Finalmente, esboçou um sorriso.

       — Meu coração irá contigo.

       — Eu sei.

       Ela colocou as mãos no pescoço.

       — Pegue. — disse ela retirando uma fina corrente de ouro dele.

       Era uma jóia bastante delicada, e muito bem trabalhada. Tinha um pequeno crucifixo preso a ele.

       — É seu. Quero leve contigo e sempre quando o vir, saiba o quanto eu te amo e como desejo que volte para mim o mais rápido possível.

       Imediatamente, coloquei-a no meu pescoço.

       — Eu olharei para ela todos os dias, até meu regresso.

       Trocamos um forte abraço.

       — Agora, gostaria que trocássemos de assunto. É verdade que você está ajudando as crianças no colégio das freiras?

       A jovem sorriu.

       — É verdade.

       — Foi idéia sua?

       — Eu sempre tive vontade e com apoio de minha mãe ...

       Conversamos toda a manhã. Almocei junto com aquela adorável família. Na parte da tarde, conversei com o Doutor Roberto sobre os detalhes da partida do navio e a tripulação que eu não fazia a menor idéia de quem seria. Sabia apenas que os melhores homens estavam sendo recrutados de todos os navios de guerra da Marinha.

       Estava começando a anoitecer quando me despedi e resolvi ir finalmente para a minha casa.

       Lembro-me de que, ao fechar o portão olhei para a casa e os vi na varanda. Acenei para eles. Daquela distância, não pude ver as lágrimas que caíram dos olhos de Caroline.

       — Minha mãe, tenho a impressão que não o verei nunca mais.

       — Não diga isso, minha filha. Ele é jovem, valente e irá voltar para casa.

       — Eu sinto isso, minha mãe, sinto que não o verei mais. E não me conformo em deixar a minha felicidade ir embora assim dessa forma.

       — Não digas isto minha filha. Sua mãe tem razão. Se lhe amar como penso que ama, ele voltará.

       Não era esse o pensamento que a jovem tinha ao saber que o seu grande amor iria partir para uma jornada incerta. Mesmo que no navio estivessem os homens mais corajosos e bem treinados daquele Reino.

       Ela sabia que aqueles homens iriam correr grande perigo naquela aventura.

       E tinha razão.

 

       Passei dois dias em grande alvoroço. Corria para explicar a meus clientes que iria fazer um curso de aperfeiçoamento em outra cidade e ficaria um tempo indeterminado fora. O doutor Roberto, conforme havia combinado antecipadamente, os atenderia até meu regresso.

       Por outro lado, tratei de arrumar as minhas coisas. Levei roupas dos mais variados tipos para enfrentar o frio e o calor, pois não sabia que condições climáticas encontraria naquela viagem. Separei alguns livros que eu considerava interessantes e que ainda não havia tido tempo para ler. Cuidadosamente, coloquei a espada que havia ganho de meu pai na bagagem. Era linda, com uma lâmina bastante afiada. Eu já havia ganho alguns torneios importantes de esgrima e havia estudado com um dos melhores espadachins do mundo: um senhor que morava próximo da universidade, a quem tinha curado de um problema de coluna que o incomodou por anos. Em troca, concordou em ensinar-me seus segredos com as espadas. Treinei técnicas de diversos tipos, até mesmo algumas que não eram de nosso reino, mas que ele fez questão de me ensinar. Também não poderia deixar de levar meus instrumentos de trabalho. Um dos fatores que tinham favorecido minha entrada nesta expedição era o fato do professor Július necessitar de um médico a bordo. O doutor Roberto seria o mais indicado, mas devido a sua idade mais avançada e também as minhas opiniões e o meu diagnóstico sobre o marinheiro assassinado no Forte, fizeram com que o professor me fizesse o convite.

       No fim do terceiro dia, após minha conversa com Caroline, uma carruagem chegou a minha casa exatamente no horário combinado. Tinha dois soldados vestidos com trajes civis. A charrete também não tinha nenhuma indicação que pertencia à Marinha do reino. Ajudei a colocar as minhas coisas e partimos direto para o Forte. Lá, despedi-me do Almirante Dimitri e, em uma pequena embarcação, nos dirigimos para um navio de guerra, ancorado em local mais afastado da baía, e protegidos por outros dois, para evitar a aproximação de estranhos ou curiosos.

       No pequeno bote, além de mim, iam mais cinco marinheiros. À medida que nos aproximávamos, notei que se tratava de um grande navio, de três mastros e mais duas velas na proa. Nas laterais dele, podia-se ver duas linhas de canhões. A de cima, tinha o calibre mais fino que a debaixo. Cada canhão tinha uma janela para protegê-lo. Estavam todas abertas. Pela forma como havia sido desenhado o casco, podia-se ter a certeza de que se tratava de uma embarcação muito veloz. Outros quatros botes também iam na sua direção, provavelmente levando provisões para o seu abastecimento.

       Notei a movimentação no convés e pude ver o Capitão Kurchov dando ordens para os homens. Outros estavam em cima dos mastros ou manuseando as amarras, ou mesmo desdobrando a velas, que eram enormes.

       O mar estava calmo, com alguns bandos de gaivotas circundando o navio. Aproximamo-nos devagar. Uma teia de cordas nos foi jogada e subi por ela. Minhas bagagens foram içadas por cordas. Enquanto observava as feições dos homens, os meus pertences foram levados para o meu camarote. Todos, sem exceção eram fortes, de pele bronzeada, o que com certeza indicava que se tratavam de bons marinheiros.

       Todos trajavam uniforme da Marinha. Calça de linho, camisa branca, com um casaco verde-escuro. O Capitão Kurchov estava vestido com farda de oficial da marinha: calça azul, com uma listra negra, uma camisa branca, coberta por um bonito paletó também azul. Os cabelos compridos estavam presos mostrando um bonito rabo de cavalo. Tinha na cintura uma espada fina.

       — Vamos, homens! — ordenava. — Temos que partir esta noite, para aproveitarmos a maré.

       Ao me ver, pronunciou ordens para o primeiro imediato, um jovem que devia ter a mesma idade que eu, e dirigiu-se para mim.

       — É uma honra tê-lo a bordo do Tempestade, meu amigo doutor. Este barco é muito veloz e possui excelente poder de fogo.

       — A honra é minha também, Capitão. E espero retribuir com meus conhecimentos esse convite. — disse apertando a mão daquele que parecia ser um excelente comandante.

       — Eu também espero. — disse uma voz conhecida.

       Virei-me rapidamente e pude ver o professor Július e o bispo Paulo aproximando-se de mim.

       — Doutor David...

       — Professor Július. Bispo.

       — Filho. — disse o bispo.

       Cumprimentei-os. O bispo trajava uma batina negra e carregava um rosário nas mãos. O professor vestia calça e paletó cinza. Usava um par de botas, que pude notar, apesar de estar meio escondido pela calça. Eu vestia uma calça marrom e uma camisa branca, de mangas compridas, devido ao receio de queimar-me ao sol durante o início da expedição, e botas de cor marrom bastante resistentes, que escondiam a parte da calça dentro delas

       — Vou deixar que conversem, pois tenho que preparar o navio para partir.

       — Sim, capitão. Doutor David, Bispo, caminhemos pelo navio para esticarmos nossas pernas.

       Andávamos junto às laterais da embarcação. Na popa havia dois lances de escada, que nos permitiram atingir o comando do navio. Nessa parte, situava-se o leme onde um marinheiro já estava próximo, verificando os últimos detalhes para o início da viagem. Ao todo existiam oitenta marinheiros a bordo, sem contar com o professor, o bispo, o Capitão, o primeiro imediato e eu.

       A tripulação se dividia em grupos e cada um tinha uma determinada função. Havia o grupo responsável pelas velas, navegação, artilharia, limpeza, organização e alimentação.

       Era um navio extremamente organizado.

       No três mastros, havia cordas emaranhadas em forma de rede que vinham desde a parte superior até as laterais do navio. Alguns marinheiros subiam e desciam por elas. Outros estavam em cima dos mastros, sentados, verificando as amarras. Toda a madeira do navio era nova, de cor escura, apesar da tinta, uma espécie de verniz, estar gasta em alguns lugares.

       Mas o navio fora construído há pouco tempo, disso não restava dúvida.

       — O que o senhor acha, professor, deste navio?

       — Você já deve saber, doutor, que antes de ser professor, também fui capitão durante longo tempo em nossa Marinha e participei de muitos combates no mar.

       — Sim, eu sei.

       — Pois muito bem. Observando este navio, posso lhe garantir que trata-se de um dos melhores de nossa frota. Mesmo deixando a Marinha há vários anos, participei pessoalmente de sua construção, como também do Vingador dos Mares, junto com o capitão Átila.

       — Espere um momento, professor. O senhor participou da construção do Vingador dos Mares?

       — Se eu participei? Eu ajudei a projetá-lo.

       Eu desconhecia aquela informação.

       — E ele é tudo aquilo que dizem, professor?      

       — Uma outra hora vou lhe contar toda a tecnologia que envolveu a construção daquela maravilha. Agora sobre o Tempestade, posso assegurar que ele é muito ágil e bastante eficiente para se navegar, sob quaisquer condições climáticas. Responde com extrema agilidade aos comandos do leme e seu poder de fogo é extremamente forte. Poucos navios, tanto de nosso reino quanto de outros, são como este.

       — E a tripulação?

       — A tripulação que compõe esta embarcação foi selecionada de dez outros navios.

       — Dez! — não contive a minha surpresa.

       — Sim. Homens escolhidos um a um, por mim e pelo Capitão Kurchov. São todos valentes, fortes, com larga experiência no mar e todos vieram de livre e espontânea vontade. Assim com o senhor.

       — Mas então...

       — Isso mesmo. O melhor de nossa Marinha está neste navio meu bom amigo. E isso não é tudo.

       — Não? Mas o que mais me falta saber sobre a tripulação?

       — Também solicitei a Sua Majestade que cinco outros marinheiros fossem localizados e que viessem a estar nesta embarcação. São homens que lutaram comigo e tenho extrema confiança em suas ações.

       — E eles foram encontrados?

       — Com uma certa dificuldade, mas todos estão a bordo.Tratarei de apresentá-los quando tiver oportunidade.

       — Terei muito prazer em conhecê-los.

       — O senhor deve saber de outro fato importante. Para a Marinha e para a população, iremos fazer exercícios de guerra ao longo da costa. Sua Majestade não quer causar um falso sensacionalismo, nem informar para ninguém que estamos partindo para investigar e talvez   enfrentar um suposto navio fantasma com uma nau de guerra tripulada com homens do Reino.

       O professor parou e olhou para o Forte e depois para o cais.

       — Isso seria um ato imprudente.

       — Professor, o senhor também não acredita nesta história de navio fantasma?

       — Teremos muito tempo para discutir sobre isto. Por hora, devemos entrar em nossas cabines, para não atrapalharmos o trabalho da tripulação. Quando o navio tiver zarpado e a situação a bordo estiver mais tranqüila, nos reuniremos na sala de comando para o jantar. Então poderemos discutir essas e outras prováveis hipóteses com mais calma.

       Dirigi-me para minha cabine.

       Eu não sabia, mas assim que cheguei ao local onde ficaria instalado naquele navio, descobri, como agradável surpresa, que dividiria o alojamento com o primeiro imediato.

       Era um quarto pequeno, que possuía um beliche rústico de madeira preso firmemente à parede, aliás como todos os outros móveis. Tinha também uma pequena mesa redonda com duas cadeiras e um pequeno criado-mudo de madeira bastante escura, sobre o qual estavam alguns livros e um pequeno lampião. Havia ainda um pequeno guarda-roupa para acomodar as vestimentas e os pertences. Ao abri-lo, pude notar que havia um espaço vago, para que eu pudesse acomodar as minhas roupas.    

       Toda a minha bagagem estava disposta sobre as duas camas do beliche.

       Comecei o árduo trabalho de desfazer as malas, onde estavam depositadas todas as minhas coisas. Coloquei a espada de meu pai atrás do guarda-roupas. Os livros, eu ajeitei ao lado do beliche. A minha mala com os meus instrumentos médicos, coloquei sobre a mesa. Com as roupas é que tive mais trabalho, pois não cabiam no pequeno móvel destinado a elas. Ajeitei o que podia e o resto deixei dentro das malas. Em seguida, coloquei-as embaixo do beliche, para que pudessem desocupar as camas.

       Não havia levado mais do que meia hora para executar toda essa tarefa.

       De repente, a porta se abriu e o primeiro imediato entrou.

       — Doutor David, muito prazer. Sou o primeiro imediato. Meu nome é Sebastian.

       — O prazer é meu. Mas tire esse doutor. Pode me chamar somente de David.

       Era um jovem da mesma idade que eu, aproximadamente. Tinha os ombros largos, uma expressão de sinceridade e um certo ar aventureiro. Seus olhos era miúdos e os lábios eram finos. Seu rosto era bronzeado devido à intensa exposição ao sol. Os cabelos eram cortados bem curtos, de cor castanho-escuro. Falava em tom calmo e pausado.

       — O Capitão Kurchov me pediu para verificar se o senhor está em boas acomodações.

       — São ótimas. Diga ao Capitão que tenho aqui tudo o que preciso.

       — Então está bem. Caso venha a necessitar de alguma coisa, por favor, não hesite em falar diretamente comigo. Tenho ordens para atendê-lo no que for possível.

       — Não se preocupe. Só gostaria de acertar com você em qual cama deseja dormir.

       — Para mim tanto faz, mas sugiro que o senhor escolha a debaixo.

       — E posso saber por quê?

       — Em caso de tempestade, balança menos. E como o senhor já deve ter notado, todos os móveis deste quarto estão firmemente presos ou ao chão ou às paredes.

       — Já pude notar isso também. Acredito que seja para o caso de uma ...

       — Tempestade. — dissemos praticamente juntos.

       — Então está bem. Ficarei com a parte debaixo.

       — Irei me retirar para o convés. Devemos partir muito em breve.

       — O capitão tem uma previsão?

       — Sim, não mais que meia hora.

       — Está bem.

       O primeiro imediato saiu do quarto, enquanto eu fiquei ali, mexendo nas minhas coisas e cerca de meia hora depois, ouvi claramente a voz do capitão, dando início a aventura mais incrível que participei em minha vida:

       — Zarpar!

       Eu não estava no convés, mas conhecia os procedimentos.

       Alguns homens içavam a âncora, enquanto outros soltavam as enormes velas. Senti um leve tremor, seguido de um ranger de madeira.

       Estávamos navegando.

       Dirigi-me então para o convés. A situação já estava mais calma. As velas dos três mastros estavam erguidas. O capitão gritou algumas ordens para um grupo de marinheiros. Localizava-se no posto de comando, junto ao marinheiro que dirigia o leme. Conversou com ele, indicando o rumo que o navio deveria tomar e, em seguida, colocou as mãos para trás e respirou fundo.

       O capitão Kurchov era uma figura imponente.

       Não era homem para ficar atrás de uma escrivaninha e sim para estar em ação. Se colocassem um homem desses para serviços burocráticos, com certeza seria o seu fim.

       E era o homem ideal para comandar aquele navio.

       Eu penso que cada homem nasce para um tipo de atividade, e caso ele não venha a executá-la, sua vida perderá o sentido. Eu próprio não conseguiria executar nenhum outro serviço que não o da Medicina.

       Olhei para a costa, que se afastava aos poucos. Não sentia mais enjôo quando viajava em navios. Isso já era coisa do passado. Aliás, eu adorava viajar em embarcações, sejam elas de qualquer tipo. Olhei para as velas. Estavam ligeiramente infladas, e nos levavam diretamente para mar aberto.

       E quantos mistérios este universo de águas ainda reservaria para os homens...

     Entre esses e outros pensamentos, acabei fatalmente encontrando a bela figura de Caroline. Sorri, por um breve momento. E, neste momento, senti mais forte do que nunca o amor que eu tinha por aquela jovem.

 

       Não sabia eu que naquele exato momento, ela estava em pé na varanda de sua casa, olhando para o céu. Seus pensamentos estavam voltados para mim. A sua expressão era de tristeza e apreensão.

       — Que Deus o proteja, David. E que ele não permita que sua vida se afaste da minha.

       Uma pequena lágrima rolou pela sua bela face.

       — Eu não suportarei.

 

       Retornei para minha cabine, para continuar a arrumar umas poucas coisas que eu ainda não tinha dado um destino final. Não era um homem completamente organizado, mas gostava de ter as coisas nos seus devidos lugares.

       Às sete horas da noite, Sebastian foi ao quarto e avisou-me que era hora do jantar.

       O navio seguia firme em seu curso.

       A noite já havia caído por completo. Alguns lampiões foram colocados em locais estratégicos no convés. Este, não ficava todo iluminado, mas podia-se caminhar e distinguir as peças que se encontravam nele. Dirigi-me para a cabine de comando. Lá o bispo, o professor e o Capitão me aguardavam.

       Assim que entrei, senti o aroma da comida. O ar do mar abre o apetite de qualquer um, e eu, decididamente não era uma exceção. Saudei-os e sentei-me na única cadeira vazia, ao lado do professor.

       Era uma mesa para seis pessoas. A sala ainda possuía dois armários. Estavam repletos de mosquetes, pistolas e espadas, todas já carregadas previamente. Somente o Capitão tinha as chaves daquela mobília. O que não pude deixar de notar, foi uma agradável coincidência. Preso a uma das paredes, como em minha casa, havia um quadro de um navio rompendo uma tempestade. Não era exatamente o mesmo quadro, mas era muito semelhante. A embarcação que estava lutando contra a fúria da natureza era muito parecida com o que navegávamos.

       Uma escotilha estava aberta, deixando entrar o ar agradável da brisa do mar.

       — Senhores. — saudei.

       Todos retribuíram com um aceno movimentado a cabeça, ou deixando escapar um leve sorriso.

       O mar estava calmo. Servi-me de uma ração simples, a mesma servida para todos os marinheiros. Mais tarde, fiquei sabendo que o Capitão Kurchov fazia questão de comer a mesma comida que seus homens. Havia também um pouco de run, que era a bebida que eu mais adorava.

       Conversamos pouco durante a refeição. Depois que os talheres e pratos foram retirados, o professor quebrou o silêncio com uma pergunta que interessava a todos.

       — Capitão Kurchov, qual rota iremos seguir?

       O comandante olhou para o professor.

       — Não seguirei a rota dos navios mercantes. Tenho ordens de evitar ao máximo o contato com outras embarcações. Pelo menos até chegarmos ao arquipélago.

       — Então seguirá a rota mais ao sul?

       — Sim, professor. Essa mesma.

       Não me contive ao verem falando de um assunto que tinha muitas dúvidas.

       — O arquipélago é composto de uma grande quantidade de ilhas, ou isso é mais uma invenção?

       — São centenas, — retrucou o professor. — Algumas não são mais que um amontoado de pedras, outras têm alguns quilômetros de extensão. Destas, muito poucas possuem água potável ou uma pequena vegetação, o que é de grande valia para nossas viagens de patrulhas e a de navios mercantes. Há também aquelas que possuem densos nevoeiros que cobrem toda a sua extensão. A chegada de navios é quase impossível, devido às fortes correntes que arrastam os navios para os rochedos.

       — Nevoeiros? — perguntei. — O senhor está se referindo a nevoeiros fixos?

       — Sim. Posso lhe citar várias ilhas. A maior, chamamos de ilha da morte.

       — Por que possui esse nome?

       — Porque, meu bom amigo, três navios já afundaram lá e nenhum marinheiro sobreviveu. O último afundou há cerca de dez anos, durante a guerra. Era um navio inimigo, que foi pego pela correnteza.

       — E não é possível ver a sua costa?

       — Como já lhe disse, nem a dela, nem a de várias. Ela fica sempre com um forte nevoeiro em toda a sua extensão, cobrindo recifes e rochedos, e há uma forte correnteza que cerca a ilha, impedindo manobras de aproximação.

       — O senhor conhece bastante aquele local, professor?

       — Sim, doutor. No tempo que estávamos em guerra, combati muito naquela área. As maiores batalhas navais foram travadas lá. E, em um certo momento, tive como missão vasculhar e catalogar o maior número possível de ilhas, para determinar as que poderiam servir como depósitos de munição ou servir como posto avançado.

       O Capitão se levantou e colocou um mapa sobre a mesa. Ao abri-lo, podia-se verificar que se tratava de uma mapa do arquipélago.

       — Este documento contém todas as maiores ilhas catalogadas, feitas pela nossa Marinha, muitas das quais pelo professor Július no período que ele era capitão. É um material muito valioso para nós. Foi imprescindível em nossa última guerra.

       O mapa era muito detalhado, com as posições de várias ilhas, com marcações de latitude e longitude, bem como a direção das corrente marítimas, extremamente traiçoeiras naqueles locais.

       — Minha intenção, senhores, é navegar por onde os navios foram atacados pelo Vingador dos Mares. Com as informações obtidas, delimitamos a rota e o local aproximado de onde os navios foram abordados.

       Com o dedo, o Capitão mostrou a indicação da rota que iríamos seguir. A rota incluía uma parada em uma ilha para reabastecimento de víveres e também uma passagem próxima da famosa ilha da morte, na qual fiquei interessado.

       O professor trocou uma série de informações com o capitão. Sua experiência no mar, principalmente naqueles lugares, era de muita importância.

       Conversamos mais um pouco sobre navegação, assunto que me interessava. Depois, me despedi e fui para meu quarto descansar. Acendi o lampião e li um pouco. Quando o primeiro imediato entrou no quarto, já estava dormindo. Dormir em um navio, após ter-se acostumado com o seu balanço, é muito agradável.

       Levantei-me cedo no dia seguinte. Comi um pouco e fui para o convés. A agitação que tinha presenciado no dia anterior havia passado. Os homens estavam mais dispersos. Alguns, em grupos, observavam o horizonte.

       Já não havia sinal algum de terra.

       A água, no oceano, estava clara e azul. Um vento forte nos empurrava para nosso destino. Atrás do navio ficava um rastro branco de espuma, causado pela sua passagem.

       O sentimento de liberdade ao se navegar em mar aberto é indescritível.

       Observei melhor a tripulação. Como no dia anterior, todos os homens trajavam calças e botas de soldados da marinha. Alguns tinham uma bandoleira junto ao peito, para afivelar uma espada. Eram realmente homens com uma ótima saúde, a julgar pelo seu porte físico. Todos, segundo questionei com o capitão, sabiam previamente da missão e a eles foi concedida a opção de recusar a convocação.

       Nenhum recusou.

       Dirigi-me ao castelo da proa. Pude ver o professor, solitário, observando o mar a sua frente com uma luneta.

       — Sente saudades da época que era capitão? — falei apenas para iniciar a conversa.

       — Doutor ... — virou-se em minha direção, — sim, tenho saudades. Mas a maior saudade que sinto e deste aroma que vem do mar. Deus criou muitas coisas impressionantes, meu amigo, mas o mar, em minha opinião, está entre as mais incríveis. A quantidade de vida, a harmonia entre os seus animais, o seu ecossistema é simplesmente fabuloso.

       — Mas e quanto a comandar navios?

       O professor me olhou fixamente. Sua expressão se alterou.

       — Comandar navios, meu caro doutor, envolve diretamente o comando de homens. E comandar homens é um dom que não é dado a todos.

      Fez uma pausa e olhou para os homens que estavam no convés.

       — Mas comandá-los para a morte é um absurdo. Ninguém tem esse direito.

       — Nem mesmo pelo reino?

       — Eu penso que não, e já expressei meus pensamentos para Sua Majestade.

       — Por isso o senhor deixou sua carreira militar?

       — Essse foi um dos motivos. Os outros, sem querer ofendê-lo, dizem respeito somente a mim.

       — Desculpe, professor. Não quis me intrometer em seus assuntos particulares.

       — E não se intrometeu. Mas agora falemos de outras coisas. Diga-me, o que o levou a seguir a carreira de Medicina?

       — Meu pai era médico na cidade de Asfim e sempre tive muita vontade de também exercer essa profissão.

       — Asfim. Sim, eu a conheço. É uma bela cidade. Pequena, mas muito bonita. Infelizmente, seu pai, eu não conheci.

       Imediatamente, ao ouvir aquilo, a figura de meu bom e velho pai veio a minha mente.

       — Ele era um bom homem. Morreu de um ataque fulminante do coração.

       — A morte , meu amigo, é a única certeza que temos na vida.

       — Também concordo, professor. Depois que tomei a decisão, passei a me dedicar exclusivamente aos estudos. E o fiz durante um bom tempo, até conseguir entrar para a faculdade. Apesar de meu pai também ser um médico, nossos recursos não eram muitos na época, mas consegui concluí-los, que para mim foi uma grande vitória. Após a faculdade, trabalhei em alguns lugares e conheci, através de meu pai, o doutor Roberto, que me ajudou muito para que conseguisse montar um consultório e atender pacientes. E é nisso que venho dedicando-me atualmente.

       — Hum, muito interessante, mas vi entre os seus pertences uma espada, ou o senhor pensa em fazer algum assado a bordo trazendo algum espeto?

       — É verdade. É tradição em nossa família que devemos aprender a arte da esgrima. Meu pai era um bom espadachim. Ele me ensinou tudo o que sabia. Mas na época em que estudava na faculdade, conheci um senhor a quem curei de uma doença. Em troca, me ensinou e aperfeiçoou minhas técnicas. Com elas, ganhei alguns torneios, mas não cheguei a concluir meus estudos com ele. Ele faleceu três anos depois, de uma doença misteriosa.

       O professor ficou pensativo por alguns instantes.

       — E qual seria o nome desse mestre espadachim?

       — Senhor Jonathan.

       — Aquele velho! Não acredito que o senhor o curou de seu problema nas costas.

       — O senhor o conheceu?

       — Insisti para que ensinasse alguns de meus oficiais, mas após a morte do filho ele parou de ensinar esgrima.

       — Sim, é verdade. Mas, uma vez, ele me disse que eu lembrava seu filho em alguns aspectos.

       — Se o doutor teve aulas de esgrima com o velho Jonathan, então temos aqui um excelente espadachim.

       — Agora me diga, qual é a espada de seu pai ...

       — A espada é ...

 

       Conversamos longamente sobre armas brancas, depois sobre medicina, filosofia, e astronomia, o que já não era o meu forte. O que mais me impressionava era como um capitão da marinha havia largado suas funções e se tornado um grande conhecedor desses assuntos. O professor Július era um homem fantástico. Tinha grande conhecimento também sobre política e defendia nossa prática de combate à pirataria, apesar de alguns reinos vizinhos terem adotado esta técnica de pilhagem de tesouros alheios como meio para enriquecer.

       Os dias passavam calmos e tranqüilos. Às vezes, mas muito raramente, o Tempestade passava por alguma frota mercante, ou mesmo um brigue solitário. Sempre identificávamos o navio, que era colocado no diário de bordo. Passamos também por uma tempestade, que demonstrou a força da natureza no mar, mas também mostrou a robustez e a manobralidade do navio. Nesses dias de tempestade, fiquei praticamente o tempo todo dentro de meu quarto. Algumas ondas, às vezes atingiam o convés e os marinheiros andavam amarrados, para não serem atirados ao mar. Todas as velas haviam sido arriadadas e amarradas. Ao fim do terceiro dia de tempestade, o mar acalmou e parou de chover.

       Na outra manhã, o sol surgiu novamente. Como ele, vieram todos os movimentos intensos no convés. Após um estudo de nossa posição, o Capitão ordenou que alterássemos o nosso rumo.

       Seguíamos, então, diretamente para o arquipélago maldito, como alguns o chamavam agora.

       O mar ainda estava agitado, com ondas altas e o navio seguia firme, mostrando sua grande capacidade de romper as ondas e seguir o caminho determinado por aqueles homens.

       Por um instante, tive a impressão de fazer parte daquele quadro que eu tinha em minha casa. Mas era real.

       Como reais eram os perigos que nos aguardavam.

 

       No caminho para o arquipélago, fizemos uma parada em uma ilha, que era na verdade um posto avançado da Marinha. Lá, aproximadamente oitenta homens montavam guarda em uma guarnição que visava única e exclusivamente o reabastecimento de navios militares. Tivemos nosso suprimento de água potável renovado e também uma nova provisão de víveres.

       O Tempestade continuou sua viagem.

       O Capitão Kurchov uma vez, em uma das muitas conversas que tivemos, declarou:

       — Sabe, doutor, em um navio de guerra, você encontrará um terço da tripulação com estas características: homens que não se amedrontam facilmente diante do perigo. Foram escolhidos a dedo, com exceção de cinco deles.

       — Por que cinco deles?

       — Vieram junto com o professor. São homens que ele próprio escolheu. Não são homens de nosso Reino, mas ele os recrutou e os colocou sob meu comando. E eles seguem rigorosamente as minhas ordens. Trabalham junto com todos os outros.

       — Estranho ele ter recrutado homens.

       — Então o senhor não conhece o professor, ou as suas histórias quando ele era capitão?

       — Não. Eu não conheço.

       — Em sua última guerra, a tripulação de seu navio não era formada somente por soldados de nosso Reino. Ele tinha quase metade da tripulação de homens de outras nacionalidades, com costumes e maneiras de lutar que a maioria de nossos capitães jamais tinha visto. Ele era admirado por todos nós, e até nossos inimigos o temiam. Alguns, mais que a própria morte. Ele era o Vingador dos Mares vivo.

       Olhei para o convés e o vi na proa, com a sua luneta, observando o horizonte.

       — Não era um capitão cruel, — disse o Capitão, — mas era extremamente astuto e habilidoso. Conhecia o navio que comandava, prego por prego, tábua por tábua. Sabia o número de balas de canhão existente no navio, bem como a quantidade de pólvora disponível, o número de mosquetes, chamava cada marinheiro pelo nome. Lutava, em um combate, lado a lado com seus homens.

       — Mas por que ...

       — Saiu da marinha? Por dois motivos. Um foi perder sua esposa, que afundou em um navio, quando ia a seu encontro. Ficou bastante transtornado com sua morte. Aí a situação se agravou quando perdeu seu único filho em combate. O navio em que lutava foi afundado pelo inimigo.

       Até aquele momento, eu não fazia idéia do que o homem que eu estava observando havia passado.

       — Eu não sabia. — falei em voz baixa.

       O capitão voltou a falar.

       — Dizem que chegou para Sua majestade e disse “Vossa Majestade, se não consegui proteger os bens mais preciosos que tive, não sirvo para proteger o Reino”. E, após entregar sua espada ao seus pés, virou as costas e desapareceu. Aí, começou a dedicar-se somente aos estudos, o que passou a ser uma obsessão.

       Fiquei ali, observando aquele homem, que eu admirava muito. Agora eu entendia porque era sempre tão solitário. Perdeu a esposa e o único filho. Lembrei-me de Caroline. A idéia de perdê-la quase me fez enlouquecer. Eu não saberia viver sem ela. A minha vida perderia o sentido. Afastei tais pensamentos de minha mente. Eu lutaria com todas as minhas forças para que isso jamais acontecesse.

       Nem que tivesse de enfrentar um navio fantasma.

 

       A cada dia que passava, conhecia melhor a tripulação. Às vezes, conversava com a equipe responsável pelas velas, às vezes com o pessoal da artilharia. Eu pretendia aprender tudo sobre o funcionamento daquele fantástico navio de guerra e sua seleta tripulação.

 

       Outra figura interessante era o bispo. Homem extremamente reservado e que tinha pensamentos bastante definidos sobre o navio fantasma e os fatos sobre aquela fantástica história.

       Em uma conversa que tive com ele, pude ter certeza que suas opiniões eram totalmente divergentes das do Capitão e do professor.        Enquanto ambos acreditavam que não se tratava de um fato sobrenatural, o bispo tinha suas dúvidas. E em uma das conversas que tive a sós com ele, em seus aposentos, pude ter uma idéia melhor de suas opiniões.

       — Então o senhor acredita em fatos sobrenaturais?

       — O que você entende por sobrenatural, meu jovem. Fantasmas? Ou serão “fatos” que o homem, com seus parcos conhecimentos de hoje, não consegue explicar, então são considerados sobrenaturais? Os milagres de Jesus podem ser explicados cientificamente? São sobrenaturais? O senhor mesmo já deve ter presenciado algum doente, moribundo e desenganado da vida ganhar saúde, mesmo após Medicina ter esgotado todos os seus recursos.

       — Já sim senhor. Já vi homens que eu considerava mortos voltarem à vida.

       O homem sorriu.

       — Agora me diga, se o senhor tem certeza do que diz: eles estavam mortos e voltaram à vida?

       Fiquei confuso com aquelas indagações. Aquele homem que estava diante de mim não era um leigo no assunto. Eu havia tido conhecimento através do Capitão que o bispo era uma das maiores autoridades da Igreja, destinado a estudar os fatos sobrenaturais que aconteciam no Reino.

       E ele já havia se deparado com uma grande quantidade de fatos que fogem à compreensão humana.

       — Então o senhor acredita que os mortos podem voltar?

       — A Igreja de nosso Reino possui vários documentos e relatos, e eu inclusive já presenciei vários, sobre casos muito estranhos, que fogem à nossa explicação racional.

       Arrependi-me de ter começado aquela conversa. Foi quando o bispo voltou a falar.

       — Eu, em meus poucos conhecimentos, acredito no que Jesus disse: “A morte não é o fim, mas o início”. E creio que nem todos os segredos foram revelados aos homens. Para mim, o que aconteceu com esse navio que estamos procurando e com todas as almas que nele estavam é um mistério.

       — Mas estamos falando de mortos vivos. Eu sou um médico e para mim é impossível acreditar que um pessoa morta possa caminhar ou até mesmo abrir o olhos, quanto mais fazer parte de uma tripulação e atacar os navios da forma como vem acontecendo.

       — Eu conhecia o Capitão Átila. E o conhecia muito bem. Jamais acreditarei nessa história de loucura, que tomou conta de seus homens e de seus navios. Ele era um homem muito ponderado, justo e de excelente caráter. O professor Július também o conheceu. Eles lutaram juntos na guerra e pode confirmar o que estou lhe dizendo.

       — Mas o que o senhor acha que aconteceu, e o que está acontecendo agora?

       Essa conversa foi noite adentro e confesso que nunca um diálogo me esclareceu tanto acerca de vários temas, como morte e ressurreição.

       Para o bispo, um homem que acreditava nas escrituras, era tudo muito claro. Para mim, que acreditava na ciência, as coisas eram mais difíceis de compreender, ou mesmo aceitar.

       Aquele homem era uma pessoa que tinha uma força e uma paz interior muito grande. Seus discursos sempre traziam esperança e alegravam o espírito de quem quer que fosse. Ele próprio havia pedido para o rei para participar desta expedição. Sempre que o mar estava calmo e que o Capitão concedia, uma missa era rezada a bordo. Não era uma prática comum em navios militares, mas a tripulação parava para ouvir as suas pregações e confesso que até mesmo eu me sentia calmo com as leituras da bíblia ou com as orações que realizávamos.      Para toda a tripulação, a figura do bispo representava uma proteção espiritual.

       Uma proteção que não tínhamos certeza se seria suficiente para nos proteger dos perigos que ainda enfrentaríamos em nossa jornada.

 

       O Capitão Kurchov observava sempre com uma luneta o horizonte à frente.

       No mastro principal, um jovem marinheiro observava, do ninho das gaivotas, a aparição de algum navio no horizonte. Há dias que não tínhamos contato com nenhuma embarcação.

       Era o reflexo da história do Vingador dos Mares. Nenhum navio se atrevia a percorrer aquelas águas.

 

       Num desses dias bonitos, com mar calmo e com poucas ondas, sentei-me a sós com o professor em um pequeno banco que ficava na proa.

       — O senhor me falou que o Vingador dos Mares era uma íncrivel máquina de guerra, e que o senhor pessoalmente havia participado de sua construção. Como era o navio?

       — Ele era uma construção à frente do seu tempo. Eu realmente participei e acompanhei a sua construção. Outro capitão também ajudou a projetá-lo.

       — E quem era esse Capitão?

       — Era Átila. 

       — Então o senhor o conheceu ?

       — Ele era meu grande amigo. E esse é um dos motivos pelo qual estou nesta embarcação. Para saber o verdadeiro destino daquela embarcação e a de seus homens. Mas voltemos a falar do navio.

       O professor fez uma pausa, como se estivesse recordando os dias em que ainda era capitão e que havia participado da construção daquela máquina de guerra.

       — Primeiramente, meu jovem, você tem algum conhecimento sobre embarcações?

       — Muito pouco.

       — Então, antes de falar sobre o Vingador dos Mares é preciso que você saiba um pouco mais sobre os navios. Talvez um dia, meu amigo, o homem seja até capaz de voar. Mas hoje, o navio é o melhor meio de locomoção para grandes distâncias. Nenhuma das necessidades materiais relacionadas com a pressão pela exploração poderia ter sido satisfeita sem navios capazes de navegar, apropriados à descoberta, e sem marinheiros competentes para fazê-la. E nessa época, a Europa era a única entre as comunidades marítimas do mundo todo, que dispunha de ambas as coisas.

       — Tudo se originou, então, da necessidade de exploração?

       — Sim, meu jovem, e aí está a explicação pelo qual o ímpeto da exploração partiu das nações européias e não de nenhuma outra.

       O professor fez uma pausa.

       — Veja. É claro, que quase qualquer coisa que flutue e tenha alguma espécie de vela pode percorrer imensas distâncias. Os nórdicos fizeram no século X, a travessia do atlântico norte em barcos abertos, provavelmente com uma única vela. Mas eles lutavam desesperadamente pela falta de espaço em sua terra e estavam dispostos a enfrentar os riscos para ter uma vida melhor, emigrando para um novo lugar. Já os exploradores do século XV, estavam mais ansiosos para voltar para aos países, do que para sair deles, considerando que o principal motivo de suas viagens era o lucro, não a colonização. E muito pouco adiantaria tais expedições se a descoberta de um novo mercado ou mesmo de uma fonte de riquezas se a notícia não pudesse ser levada para a pátria. Em contrapartida, vários outros navegadores estavam fazendo viagens notáveis em vários outros pontos do mundo. Grandes barcos a vela com balancim cruzavam o oceano Índico entre Madagascar e a Índia e iam de uma ilha do Pacífico para outra. Mas havia um problema.

       — E qual seria? — perguntei muito interessado por aquela aula de história naval.

— Eles dependiam de ventos favoráveis e de correntes conhecidas. Não podiam navegar contra o vento, como um verdadeiro navio de exploração tem de fazer. Outro tipo de embarcação encontrado no oceano Índico era dhow árabe. Muitos deles navegavam em torno da Índia, do mar Vermelho e da África Oriental. Mas não prestavam para a exploração. As suas tábuas eram cosidas com fibra de casca de coco e carregavam a vela latina triangular, que é comumente vista no oriente. Um casco cosido é muito mais fraco em alto mar do que um pregado, e a grande vela latina exigia uma tripulação maior do que as velas quadradas dos navios europeus, ponto da maior importância quando se iniciavam viagens de duração incerta.

       — Como a nossa?

       — Exatamente. Nesse contraste, os barcos contruídos pelos europeus no século XV podiam ir a qualquer ponto e voltar. Resultavam de uma situação particularmente européia, a existência de duas tradições diversas de construções navais - a primeira delas produzia barcos de comércio resistente, largo e de velas quadradas do mar do Norte e da costa do Atlântico; a outra, as galeras a remos e os barcos de cabotagem das velas latinas do mediterrâneo. O incremento do comércio entre o norte e o sul da Europa determinou uma mistura dos tipos, com o aproveitamento das melhores características dos navios feitos para navegar num mar interior e em nosso caso, daqueles que se destinavam ao alto mar.

       — Muito interessante, professor.

       — E isso não é tudo, meu jovem. Havia um outro ponto em que os navios europeus eram superiores, eram armados com canhões da popa e da proa, e também os que que atiravam do costado, através de escotilhas nos altos flancos do navio. Graças a isso, a artilharia naval era espantosamente eficiente. Esse poder de fogo superior era essencial à exploração em grande escala, pois os governos jamais financiariam a procura de novos mercados ou mesmo de novas rotas de comércio se não tivessem a confiança de poder controlá-los.

       — Então os canhões tiveram importância fundamental.

       — Sim. Os navios lutavam muito melhor, ficando à distância. Os seus comandantes não tinham que depender da grande guarnição de remadores necessária a um junco chinês, por exemplo, para atingir a proa de um adversário com impacto suficiente, ou de um grande número de soldados auxiliares exigidos pelas táticas de abordagem. Também não tinham de ter grandes quantidades de provisões, para ter de alimentar um enorme contingente a bordo.

       — Muito interessante. Dessa forma, os mesmos marinheiros que defendiam e controlavam o navio, podiam atacar.

       — Perfeitamente, meu amigo.

       — Mas e os canhões? Vieram de onde?

       — Ah, sim os canhões. Um capítulo à parte. Na Antigüidade, as armas da artilharia eram as catapultas, capazes de arremessar pedras ou dardos. Armas que disparavam projéteis, com a funda e o arco e flecha, eram utilizados em combates corpo a corpo. O papel da artilharia era atingir alvos como muralhas ou grupos de indivíduos da Infantaria ou Cavalaria inimiga.

       — Entendo, mas ...

       — Paciência, meu jovem. Primeiro devemos falar da pólvora. Ela é uma invenção chinesa, usada na Europa no século XIV. Como sabe, os gases da explosão da pólvora colocada num tubo de metal provocam a expulsão do projétil, pedra ou bola de metal, pela boca do mesmo.

       — Um funcionamento bastante simples. — conclui.

       — E mortal. Em 1537, um matemático italiano, Niccolo Tartaglia, descreve a trajetória das balas de canhão, criando a balística.

       — Balística?

       — É uma ciência que estuda o movimento dos corpos impelidos no espaço. Mas não vamos nos ater a ela agora. Estamos falando dos canhões, que por sinal, eram muito pesados. Os primeiros foram empregados contra fortalezas. O uso deles em batalhas se deve, principalmente     a um rei sueco, se não me falha a memória, Gustavo Adolfo II. Ele utilizou canhões menores, mais ágeis e em maior número.

       O professor era um livro de História, Geografia, Matemática e todas as ciências que tinha conhecimento juntas.

       — Dai para utilizá-los em navios foi apenas uma questão de tempo. Mas apareceu um problema.

       — Que problema? — perguntei.

       — Vamos do início. O canhão do século XVI, por exemplo, era muito pesado. Um canhão grande daquela época pesava mais ou menos 3.500 quilos. Portanto, uma embarcação que transportasse 400 toneladas, armada com 50 canhões grandes, tinha que carregar um peso morto de 175 toneladas. Se a este peso adicionar-se o da munição, ter-se-á uma idéia das dificuldades impostas a um navio de guerra movido à vela. Eram necessários ótimos pilotos, que fizessem navegar, à vela, o peso do navio, adicionado ao dos canhões, da munição e da tripulação, tirando do vento o melhor proveito possível.

       — Nunca havia parado para pensar nisso.

       Ao ouvir o professor falando, comecei a ter noção da dificuldade de se projetar um navio. Balancear navegação com armamento, provisões, alojamentos, e ainda o tipo de velas.

       Construir um excelente navio envolvia vários fatores. E agora eu estava tomando conhecimento de alguns.

       — Sem contar um outro detalhe. O canhão era um trambolho que roubava espaço e peso da carga útil à embarcação. Para pô-lo em funcionamento, então, é que as dificuldades se multiplicavam. Já ouviu falar da salsugem?

       — Não, senhor.

       — Pois muito bem. Salsugem é o iodo, que contém substâncias salinas, e nem preciso dizer o resto.

       — O mar o corroía facilmente.

       — Exatamente. Dai, duas conclusões podem ser tiradas: além da operação de carregá-lo ser muito complexa, sua conservação exigia muitos cuidados especiais.

       — Sinceramente, professor, vejo que seus conhecimento vão muito além dos meus.

       — Isso se deve somente a minha intensa atividade de pesquisa.

       — E sobre tipo de navio, professor? Sempre que vou aos portos, vejo embarcações de várias formas. Eles são divididos por categorias?      

       — Boa pergunta. Antigamente, durante centenas de anos, era muito difícil, e quase sempre impossível identificar o tipo de cada navio. A rigor, não havia diferença entre navio mercante e navio de guerra. Pelo número de mastros, pelo tipo de armação, pela altura do castelo-de-popa, pelo aspecto geral do barco, um marujo experimentado podia de longe calcular mais ou menos a sua tonelagem, mas nunca o seu número de canhões. As palavras fragata, galeão e carraca tinham significado bastante elástico.

       — Mas, então, não são divididos em categorias?

       — Hoje a situação é outra. Posso lhe descrever alguns tipos. Por exemplo, a caravela. Já ouviu falar?

       — Sim. É um navio essencialmente português.

       — Sim, mas e quanto as suas características?

       — Não faço a menor idéia.

       — Bom. Farei uma breve descrição. Navio que deslocava de ordinário 50 a 60 toneladas, tinha de 20 a 30 metros de comprimento por 6 de boca. Possuía três mastros, chamados de traquete, mastro-grande e mastro-de-mezena. Um dos grandes aperfeiçoamentos estava no seu duplo velame. Além das velas quadradas para os ventos de popa, tinha um sistema de pequenas velas triangulares que permitia facilmente a navegação a barlavento (direção do navio de onde sopra o vento). Era um navio dócil ao manejo. Opunha pouca resistência à deriva, tendo dessa forma, grande facilidade de mudar de direção, como se fosse um barco a remo.

       — Muito bem, professor. Vejo que isso é muito mais que uma breve descrição.

       — Bem, talvez para o senhor. Mas não para homens como eu, que fui durante um bom tempo capitão de uma das melhores, se não a melhor Marinha do mundo. Vou lhe falar agora sobre as naus. Vamos agora para o século XVI. Nesse período, a capacidade da caravela foi aumentando para 100, 150, 200 e mais toneladas. Nas naus antigas, a superfície externa e mais alta da proa encerrava esculturas de madeira, em relevo. Eram verdadeiras obras de arte, de anjos, querubins, sereias, entre os mais diversos motivos ornamentais. Havia uma outra parte sempre artisticamente bem trabalhada: era a “grinalda-de-popa”, uma grande área triangular feita de madeira de lei, nas superfície externa e mais alta do castelo-de-popa, onde os pintores da época faziam telas maravilhosas, com cenas mitológicas, bíblicas ou paisagísticas. Encimando a grinalda-da-popa, aparecia uma haste de madeira que se projetava obliquamente para trás e para cima, e da qual pendiam as lanternas.  

       — Devia ser uma embarcação imponente.   

       — Ah, sim. O castelo-de-popa era a sua parte mais cuidada e luxuosa. Ali se reuniam os nobres e os maiorais da tripulação. Quando esta tocava um porto, o piloto-mor, o comandante, o escrivão, o padre e outras pessoas de alto grau hierárquico, podiam ser vistos em magníficas poltronas ou conversando, em atitude solene, na grande sala do castelo da popa. Havia nisso alguma ostentação intencional. Os recém-chegados precisavam sempre dar a impressão de poderio, opulência e nobreza. Enfim, o castelo-de-popa era um local de muitos privilégios. Além de bem ventilado e arejado, quando havia combate naval, constituía o melhor refúgio contra os tiros de canhão.

       — E quanto ao castelo da proa?

       — Este, meu caro amigo, era um local de trabalho, freqüentado mais por marujos subalternos e expostos diretamente aos tiros do inimigo.

       — E os galeões, professor?

       — Não poderia deixar de falar sobre eles. São grandes navios armados para a guerra, mas também são utilizados para transportar ouro, prata e até mesmo mercadorias preciosas das colônias.

       O professor fez uma pausa.

       — Muito bem, doutor, — voltou a falar, — vejo que já lhe disse sobre as embarcações. Agora devo lhe falar sobre o Vingador dos Mares. Você tem conhecimento da guerra em que nosso reino esteve envolvido há alguns anos atrás?

       — Sim, senhor.

       — Logo após a guerra, as rotas comerciais voltarm a ser novamente utilizadas. Nós, que fomos os vitoriosos, tivemos muitos privilégios e passamos a exercer grande influência comercial, comprando e vendendo as mais variadas mercadorias. Só que, com o aumento das atividades comerciais, surgiram também os piratas, que começaram a atacar e pilhar os navios mercantes. A nossa frota, após a guerra, estava sob condições precárias. Muitos navios haviam sido ou afundados ou estavam em estaleiros, para reparos. Além do efetivo da Marinha ter sido reduzido, devido à paz que havia sido restabelecida.

       — E os ataques piratas começaram a atrapalhar o comércio?

       — Isso foi uma conseqüência óbvia. Sem a devida proteção, as grandes companhias ameaçaram negociar com outros reinos, desabastecendo o nosso de muito produtos imprescindíveis para as nossas necessidades internas. A menos que ...            

       —   A menos que ... — repeti a última frase.

       — A menos que algo fosse feito. Então, Sua majestade nos ordenou que construíssemos a melhor e mais poderosa embarcação. Devíamos projetar o navio, construí-lo e colocá-lo em operação o mais rápido possível.

       — Então foi assim que nasceu o Vingador dos Mares ...

       — Sim. E para serem os responsáveis pelo projeto foram destacados dois capitães de nossa marinha.

       Notei que um ar de tristeza se abateu sobre o professor. Mas ele se refez rapidamente e voltou a falar.

       — Contratamos os melhores projetistas sobre cascos e mastros de navios. Trouxemos a melhor e mais resistente madeira para a sua construção. Recrutamos hábeis tecelões chineses para confeccionarem as velas, com material resistente e de fácil manuseio. Também trouxemos os melhores mestres de fundição, para construírem os canhões. Foram produzidos a partir de uma liga especial de bronze, altamente resistente à corrosão e bem mais leves que os tradicionais. As amarras vieram da costa nórdica. A tinta utilizada em seu acabamento foi obtida após vários testes, para que obtivéssemos a melhor. Todos os pregos do navio receberam tratamento especial para resistirem à intensa exposição à água salgada.

       O professor ficou com os olhos parados, com se estivesse vendo o navio a sua frente.

       — Quando ficou pronto, era a coisa mais incrível, mais perfeita e mortal, posso garantir sem exageros, que o homem já havia colocado no mar.

       Uma breve pausa.

       — Então, meu jovem amigo, despedi-me da Marinha, apesar dos pedidos insistentes para que ficasse. Mas eu não podia mais.

       Uma nova pausa.

       — Eu não podia mais lutar. Então, o Capitão Átila foi designado para o comando do Vingador dos Mares.

       A medida que o professor ia contando aqueles fatos, as lacunas daquela história iam sendo preenchidas.

       — Era desejo de Sua Majestade que eu comandasse aquele navio. E, às vezes, me pergunto se tivesse sido eu, provavelmente hoje o Capitão Átila estaria sentado aqui, conversando com o senhor.

       Eu não havia pensado naquela hipótese, que seria bastante provável.

       — Então, Átila assumiu o comando do navio. Toda a tripulação foi escolhida por ele. Homens selecionados um a um. Todos com larga experiência no mar e com grande sentimento de lealdade para com seu capitão.

       O professor parou de falar, como se as lembranças daquela época o angustiassem bastante.

       — Homens mortais no comando de uma arma letal.

       — E depois que o navio entrou em operação, professor, o senhor chegou a conversar com o Capitão Átila?

       — Eu tive uma rápida conversa com ele, após ter navegado algumas vezes naquela maravilhosa embarcação. Ele me disse que ele era como um tubarão. Veloz e mortal. O seu poderio de fogo era algo impressionante e logo os navios piratas foram afastados das nossas rotas comerciais. Os que teimaram em ficar foram afundados.

       — O Vingador dos Mares finalmente fazia jus a seu nome.

       O professor olhou para mim.

       — A história, daqui para a frente, o senhor conhece.

       Era com grande pesar que o professor me falava aquelas palavras. Eu não sabia, mas naquele momento pude compreender que aquele homem se sentia de certa forma culpado pelo que estava acontecendo. Ela havia ajudado a construir o “monstro”, que agora o estávamos caçando. E o comandante dessa “coisa” era, vivo ou morto, o seu melhor amigo.

       Não prolonguei mais a conversa. Retirei-me e deixei-o só, com seus pensamentos. Acho que, às vezes, o melhor remédio para um homem é a solidão. O professor era um homem transtornado pelo passado.

       Um passado que estava de volta para cobrar a sua dívida.

       Um dívida de sangue.

 

       Era madrugada quando acordei repentinamente.

       A minha bolsa com instrumentos médicos que estava em cima da mesa caiu pesadamente no chão. O navio estava balançando de um lado para outro de maneira muito forte. O ranger das madeiras era intenso.

       Ouvi um forte trovão.

       Sebastian não estava em sua cama, o que concluí que devia estar lá fora. Me vesti rapidamente. Abri a porta e subi as escadas, que davam para o convés. Tinha que segurar no corrimão para não me desequilibrar.

       A porta que dava para o convés estava fechada.

       Outro trovão ecoou nos céus. Esse fora bem mais perto.

       Ao abrir a porta, foi como se alguém me atirasse um balde cheio de água. Fiquei completamente ensopado. Estava caindo a maior tempestade que eu já havia visto em minha vida. O mar estava na mais completa fúria.   As ondas, gigantescas, vinham de todas as direções como enormes massas escuras e atingiam o navio em cheio.

       O céu estava carregado de nuvens, extremamente baixas e carregadas. Os clarões dos raios iluminavam a noite e mostravam a fúria em que o mar se encontrava. O vento, naquele momento, atingia uma velocidade impressionante. O barulho que ele fazia ao passar pelas amarras era um zunido muito forte.

       Caminhei com muita dificuldade pelo convés. Vários homens tentavam se equilibrar nele. Estavam fixando o velame, para que não fosse danificado pelos fortes ventos.

       Neste instante, uma enorme onda atingiu o navio e varreu o convés.

       Segurei-me com todas a forças que possuía em uma corda presa ao mastro. Um marinheiro não teve a mesma sorte. Ele passou ao meu lado, eu lhe estendi a mão, mas ele não conseguiu alcançá-la. Jamais esquecerei a sua expressão de desespero. Ele foi levado para dentro do oceano revolto.

       — Homem ao mar! — gritei com toda a força dos meus pulmões.       

       Nenhum dos homens que estavam no convés pareceu dar importância para o que eu havia acabado de dizer.

       Não era verdade.

       O que eles sabiam e eu ainda não tinha tomado conta era que, uma vez atirado ao mar naquelas condições, era impossível qualquer tentativa de salvação por parte da tripulação. O perigo que nós estávamos correndo naquele momento era extremo.

       Mais do que lutarmos contra a tempestade, estávamos lutando por nossas vidas.

       Senti o gosto da água salgada. Estava completamente apavorado com a situação. O barco parecia que ia se esfacelar a qualquer momento.

       Olhei na direção do leme. Um raio caiu bem naquela direção e pude ver a figura imponente do capitão Kurchov. Ele procurava manter um curso ao navio, e evitar que ele ficasse a mercê da fúria da natureza.

       Gritava e dava ordens para os homens no convés. Sebastian estava com ele.

       Ouvi então um forte estalo bem acima de mim. Olhei na direção do barulho e vi uma parte do mastro se partindo e vindo em direção ao convés. Um grande pedaço de madeira veio caindo rapidamente, seguido por uma grande quantidade de cordas enroladas nele. Dois marinheiros foram atingidos em cheio e ficaram presos entre a madeira e as cordas. No mastro, a vela se rompeu e começou a agitar-se perigosamente, desgovernando ainda mais o navio.

       A situação era muito desesperadora. Uma nova onda invadiu o convés e cobriu os dois homens presos às amarras por alguns instantes.

       O Capitão Kurchov ordenou e um marinheiro começou a subir o mastro para cortar a vela que estava fazendo o navio descontrolar-se perigosamente. O homem tinha um machado em uma das mãos.

       Ouvi os gritos dos dois homens. Estavam a aproximadamente dez metros de onde eu estava.

       Esqueci do perigo que estava correndo e fui na direção deles. Assim que cheguei perto, uma nova onda invadiu o navio e tive tempo somente de me segurar nas cordas que serpenteavam pelo chão. Fiquei debaixo d’água por alguns instantes. Quando a água baixou, fui me agarrando às cordas e seguindo na direção dos dois homens.

       — Por favor, me ajude! — gritou um deles.

       O outro estava inconsciente.

       Olhei rapidamente para eles. Um deles, estava ferido na perda. Ela estava quebrada e mostrava uma parte do osso. O sangue deixava a água avermelhada. O pânico do marinheiro era tanto que ele não parecia estar sentindo a dor.

       — Calma, homem! — gritei para tentar acalmá-lo. Mas ambos estávamos apavorados.

       Tentei levantar a madeira com todas as minhas forças.

       Foi inútil.

       Era muito pesada. Retirei um pedaço de madeira que estava solto e fiz uma alavanca.

       Nada.

       Eu não conseguia mover a madeira para retirar os marinheiros. O desespero tomou conta de mim. Olhei para o mar e vi uma onda aproximando-se. Era enorme e vinha diretamente para nós. Olhei para o lado eu vi, com os olhos semicerrados por causa da forte chuva, três vultos se aproximando.

       Um era nórdico, a julgar pela cor do cabelo e pelo seu enorme tamanho. O outro era um negro, também muito grande e forte. O terceiro era um árabe.

       Eram os homens recrutados pelo professor Július.

       Sem dizer uma palavra, eles pegaram o pedaço de mastro e juntos tentamos removê-lo. As veias de nossos pescoços pareciam que iam estourar. A madeira se moveu um pouco, e, finalmente conseguimos libertar os dois homens. O árabe e o africano colocaram os marinheiros nas costas e juntos caminhamos para a segurança. No exato momento em que nos afastamos, a onda varreu o convés violentamente. Os homens foram levados para o interior do navio. Eu encarei aqueles homens que haviam me ajudado. Eles apenas sorriram, como que reconhecendo a minha coragem.

       O marinheiro encarregado de cortar as velas já estava executando a tarefa, cortando as cordas que ainda a prendiam ao mastro, quando perdeu o equilíbrio e ficou preso apenas por uma corda, que segurava firmemente com as mãos. Estava distante do convés cerca de trinta metros.

       Foi quando um raio caiu perto do navio e clareou a noite por alguns instantes. Consegui enxergar claramente e ver a figura de um homem subindo o mastro. Tinha um grande machado de lâmina dupla preso às costas. Era mais um homem recrutado pelo professor. E era também um nórdico.

       Ele conseguiu, com muita dificuldade, segurar na mão do marinheiro e colocá-lo em segurança. Este, por sua vez, começou a descer para o convés deixando a tarefa de cortar as cordas para o homem que tinha salvado sua vida. Com golpes potentes de machado, ele cortou as cordas e soltou a vela, que foi rapidamente levada pela ventania.

       O Tempestade saiu daquela situação perigosa que se encontrava.

       Eu voltei para o interior do navio para cuidar dos dois feridos. Aqueles dois homens precisavam muito mais de mim do que os hábeis marinheiros que estavam lá fora.

       Os dois homens foram colocados em duas camas. Havia dois marinheiros com eles. Dirigi-me para um deles.

       — Vá até a minha cabine e traga a minha sacola com os meus instrumentos.

       — Sim, senhor.

       Primeiro examinei o homem desacordado. Havia recebido uma pancada na cabeça. Tinha um ferimento próximo à testa. Estava somente desmaiado e após um rápido exame, constatei que não tinha nenhum osso quebrado.

       Olhei o homem que estava com a perna quebrada. Ela estava enrolada por um pano branco encharcado de sangue. Lentamente, fui afastando o pano para ver o ferimento. Estava bastante feio. O osso estava exposto.

       —   Doutor, — ele falou segurando firmemente a minha mão. — Não corte a minha perna!

       Ele estava em estado de choque. Os olhos estavam vermelhos.

       — Não vou cortá-la. Mas vou precisar colocá-la no lugar. E vai doer um bocado.

       O marinheiro sorriu.

       — Não me importa a dor. Somente lhe peço que não corte a minha perna.

       — Não vou cortá-la.

       O marinheiro trouxe a minha sacola. Retirei o bisturi, duas talas e um pedaço de couro.

       — Tome, mastigue, porque no momento que eu mexer em sua perna, você vai ter que morder algo, senão irá quebrar os dentes.

       O marinheiro já não dizia mais nada. Coloquei o couro em sua boca, e com o bisturi cortei a calça na região do ferimento. Olhei para a ponta do osso que brotava da perna. O navio balançava forte, o que tornava difícil a precisão das minhas mãos.

       Respirei fundo. Abri um corte na perna. A sua face se alterou. Ele mordeu firmemente o couro e fez sinal para que eu prosseguisse. Cortei um pouco mais e fiz sinal para que os marinheiros o segurassem. Segurei em sua perna e num gesto rápido a coloquei no lugar. O paciente se contorceu e desmaiou. Limpei o sangue, fiz um curativo firme e fixei as duas talas em sua perna. Fiquei ali por aproximadamente duas horas, observando o meu paciente. O sangue havia finalmente parado de correr e o seu quadro geral era bem melhor. Nesse meio tempo, voltei minhas atenções para o outro ferido. Fiz um curativo em sua cabeça e o acordei com uma solução que utilizava para reanimar pessoas desmaiadas. Também o coloquei de repouso. Só então chegaram o Capitão e Sebastian.

       — Como estão os feridos?

       — Um possui apenas escoriações na cabeça. Levou três pontos. O outro fraturou a perna. Coloquei o osso no lugar e fixei a região com duas talas. Vai ficar bom, mas terá que usar muletas por um bom tempo.

       O Capitão pensou um pouco.

       — Agradeço a sua atenção, doutor, e sei dos atos de coragem que fez há pouco no convés. Sem dúvida, o senhor é de grande valia nesta expedição.

       — Muito obrigado, Capitão. E como está o tempo lá fora?

       — A tempestade ainda é forte, mas já está perdendo força. A situação é perigosa, pois existem vagas muito altas, mas daqui para a frente a tendência é que diminuam. Vou deixá-lo aqui com os feridos. Preciso retornar ao comando, pois ainda não estamos em total segurança.

       — Está bem. — afirmei.

       — Venha, Sebastian.

       O meu companheiro fez um gesto para mim e seguiu o Capitão.

       Passei o resto da noite com aqueles homens. Mas confesso que não consegui dormir. O navio balançava e o rangido da madeira era forte, mas o Tempestade era um navio muito robusto.

      

       O Capitão Kurchov tinha razão.

       O dia amanheceu nublado, com nuvens mais claras. Não chovia mais desde o fim da madrugada. O vento havia diminuído consideravelmente. As ondas ainda continuavam altas, mas o navio seguia firme por entre as mesmas, deixando um rastro de espuma por onde passava.

       O marinheiro que tinha um ferimento na cabeça foi liberado. O outro ficou onde estava. E por lá deveria ficar por um bom tempo. Providenciei para que recebesse refeições e cuidados periódicos e fui para a minha cabine descansar um pouco.

       Toda a tripulação estava no convés, tentando consertar o mastro que havia partido. Alguns utilizavam serrotes, outros machadinhas e martelos e havia vários no alto dos mastros, verificando as amarras.

       Passei o dia descansando e cuidando do paciente. No final da tarde, o Capitão perfilou toda a tripulação no convés e rendeu homenagem aos quatros homens que haviam morrido na tempestade. Eles haviam sido carregados pelas ondas.

       A expressão do que tentei salvar não saiu de minha mente até hoje.

       Aquela noite passou sem maiores problemas e ao amanhecer fomos surpreendidos por um belo dia de sol. O mar estava bem mais calmo. Caminhei um pouco pelo convés, para me aquecer ao sol. Os reparos do navio foram realizados com muito sucesso e o navio voltava a seguir o seu curso. Encontrei, como de costume, o professor junto à amurada observando o horizonte com sua luneta. Questionei-o a respeito dos cinco homens que ele havia recrutado para esta missão.

       — Quando eu era Ccapitão, — disse-me com um olhar de solitário que se perdia em seus pensamentos, — eu conheci vários reinos, e deles recrutei alguns homens para que lutassem comigo e ensinassem técnicas de luta para meus homens. Eu tinha o aval do rei. A idéia era treiná-los para diversos tipos de combate e o manuseio de vários tipos de armas. Quando saí da Marinha, alguns homens, de reinos estrangeiros, que estavam sob meu comando, também a abandonaram. Cinco deles mantiveram contato comigo. São homens em quem confio. São inteligentes, sabem manusear várias armas, desde uma faca até um mosquete, de uma lança indígena até uma besta árabe. E armas que até eu desconheço o nome. Solicitei ao rei que me permitisse trazê-los a bordo.

       — Pude perceber a sua importância durante a luta contra a tempestade.

       — Sim e eu o apresentarei a todos. Veja aquele. Seu nome é Chi Yang Li, mas eu o chamo somente de Li. Seu pai era uma espécie de guerreiro muito especial em seu Reino. Pertencia a uma estirpe de guerreiros denominada Samurai. Seus ensinamentos acerca de lutas impressionariam muitos homens. Não o subestime pela pouca estatura ou pelo seu físico franzino. Com as mãos nuas é capaz de derrotar muitos homens que conheço com o dobro do seu tamanho ou físico. Possui uma espada diferente da nossa, não utilizada para a Marinha ou para o mar. Suas características a diferenciam em muito de nossas armas, mas é extremamente mortal.

       — Interessante, vou pedir para me deixar testá-la.

       — Jamais a tocará. É inadmissível para um guerreiro de sua estirpe que outro toque em sua espada. Eles também utilizam outras armas bastante exóticas. Pedirei que as mostre quando não estiver ajudando a tripulação.

       — Aqueles dois são dos reinos frios.

       — Eu pude notar, professor. São nórdicos. Pelo seu tamanho, físico, pele clara e cabelos loiros.

       — O que está usando a blusa branca se chama Ezra e o que está usando a cinza se chama Luvic. São fortes e valentes. São Descendentes dos vikings. Manejam um machado muito bem. Em uma abordagem que sofremos durante a guerra, os dois deram cabo de mais de quarenta homens, causando tanto medo ao navio inimigo que eles bateram em retirada.

       — Acho que o negro que está descendo pela rede, também é um dos seus marinheiros.

       O homem descia pela rede que ia do meio do convés até a parte de cima do mastro principal. Era um negro alto e forte, com cabelos curtos e que trajava uma calça e botas de cano comprido. Estava sem camisa, mas usava uma bandoleira para espada.

       — Ah sim, Bitaka. Pertencia a uma tribo no continente negro. Ele foi comprado por mim em um leilão de escravos, que abomino veementemente. Comprei-o e lhe dei a sua liberdade. Aí, então, ele decidiu que me deve gratidão eterna e sempre que eu precisar dele bastará chamá-lo. Eu o recrutei em minha tripulação e o ensinei nosso idioma e a esgrima. Hoje posso afirmar com certeza que é um excelente marinheiro e honra nosso reino como se pertencesse a ele. O último marinheiro é Abdu Ali, um muçulmano que encontramos náufrago. Sua embarcação fora vítima de um navio pirata. Ali está ele, com aqueles rolos de corda. É um excelente espadachim. Sua cimitarra defendeu nossa nação em muitos episódios, mas é uma pessoa bastante reservada e extremamente culta. Usa o turbante negro por ser uma tradição de seu antepassados.

       Abdu Ali passou por nós e cumprimentou o professor e a mim, baixando levemente a cabeça. Seus olhos eram serenos e escuros. Tinha um bigode fino, seu rosto era magro, suas roupas eram coloridas e de seda. Usava um cinto largo com uma fivela dourada e um par de botas com o bico ligeiramente levantado.

       — Professor, sem dúvida, seu navio era algo assim parecido com uma babilônia do mar ...

       — Não. A maioria da tripulação era composta de homens do nosso Reino, mas esses homens que recrutei ao longo de minha jornada, tinham o objetivo de tornar nosso navio e nossas técnicas de combate diversificadas.

       — E o senhor conseguiu algum resultado?

       — Oh, sim. Meu navio, como o doutor deve saber, era um dos mais temidos. Mas isso não se devia somente ao número de canhões ou ao tamanho e velocidade que podia infringir, mas sim, ao excelente grupo de marinheiros que tive sob o meu comando e que, quando em combate, mostrava toda a sua destreza e habilidade, deixando o inimigo perplexo. Eu utilizava técnicas de combate mesclando tipos diversos de aproximação e ataque a navios, bem como estratégias diferentes para abordagem. Após a minha saída, as minhas técnicas foram todas elaboradas em trabalhos que deixei na Marinha como documentação confidencial, mas nenhum Capitão resolveu utilizá-las.

       — E onde está essa documentação?

       O professor suspirou.

       — Deve estar em algum lugar de algum um Forte, guardado em segredo.

       — É uma pena, professor.

       — Eu também acho, mas temos bons navios, boas tripulações e nossos capitães e almirantes são pessoas sensatas e que também possuem experiências próprias, que por sinal fazem de nossa Marinha uma das melhores do mundo.

       A conversa se prolongou por mais tempo. Quanto mais eu conversava com aquele homem, mais eu o admirava. Várias vezes eu vi sua figura no convés caminhando sozinha, observando o horizonte com sua luneta. Acho que ele tinha suas próprias idéias acerca do navio fantasma. Idéias que ele, eu acho, não gostava de compartilhar com ninguém. Algumas vezes, ele juntava seus homens, sempre quando estavam de folga e conversava longamente. Era uma conversa alegre e calma, mas às vezes, falavam baixo, como se estivessem mantendo algum tipo de segredo. Conheci todos os homens pessoalmente e me impressionei muito com Li. Era um oriental de estatura baixa, em torno de um metro e sessenta, sessenta e cinco no máximo. Tinha o corpo esguio, o que indicava que devia fazer exercícios de maneira regular. Às vezes, ele ia para o castelo da proa, ao cair da tarde, e fazia uma série de movimentos com as mãos e com os pés. Parecia uma espécie de meditação. Nas primeiras vezes, os marinheiros riram, mas depois se acostumaram. Parecia um felino andando, tal a leveza que demonstrava. Pedi-lhe para mostrar sua espada. Nunca havia visto algo parecido, mas como o professor havia me dito, não me deixou tocá-la. Li era uma pessoa bastante culta, assim como Abdu Ali. Tinha conhecimento sobre vários assuntos, principalmente Filosofia e Religião. Os outros três, Ezra, Luvic e Bitaka eram mais alegres e mais simples em suas frases. Gostavam de rir e contar histórias divertidas dos portos por onde passaram, as confusões que aprontaram em diversos locais que estiveram. Mas de uma coisa eu não tinha dúvida: eram guerreiros natos, quer seja pelo seus físicos avantajados, quer pelo ar de liberdade e coragem que inspiravam.

       Quanto a mim, lia meus livros, fazia algumas anotações que achava importante em um pequeno caderno e conversava muito com Sebastian, meu companheiro de quarto. Era um jovem como eu. Tinha também uma namorada e pretendia casar-se quando voltar. Chegou a convidar-me, juntamente com Caroline para a festa. Nos tornamos grandes amigos. Era um jovem simples, que obedecia prontamente as ordens do Capitão Kurchov, e apesar de sua idade, demonstrava bastante experiência e habilidade nas atividades que lhe diziam respeito.

       — Sabe, — dizia ele —, já comprei um terreno. Quero plantar uma árvore bem frondosa para poder me sentar ao fim da tarde com minha esposa e podermos conversar sobre a vida. Quero deitar em seu colo e deixar que ela acaricie os meus cabelos. Quero poder dormir em seus braços e fazer amor com ela em sua sombra.

       — Boa idéia.

       — Quem sabe, doutor, minha esposa possa vir a ser amiga da sua. Podemos combinar piqueniques juntos. Quero que o senhor freqüente a minha casa. Tenho certeza que Melissa irá adorar a sua companhia e a de Caroline. Sim. Vamos beber run e conversar até o fim da noite.

       — Já está combinado.

 

       Às vezes, ao final da tarde, me sentava em algum lugar do convés e ficava a observar a corrente que Caroline havia me dado. Parecia, não sei dizer de que maneira, que ela, naquele exato momento também estava pensando em mim. O meu coração dizia isso. E, às vezes, a brisa parecia trazer o seu perfume até mim.

       Eu a amava muito.

       Olhei para o pôr do sol. Ele parecia afundar no mar. O navio seguia o seu rumo e me distanciava do meu amor cada vez mais. Mas nenhuma distância me impediria de retornar. Nem que tivesse de viajar até os confins do mundo.

       Até mesmo enfrentar um navio de fantasmas.

       E foi num momento desses que o professor se aproximou de mim para conversar.

       — Qual o nome dela?

       — O nome de quem? — perguntei.

       — Da jovem que lhe deu essa corrente que leva no pescoço. Nunca vi ninguém observar tanto uma jóia, a menos que fosse dada por uma pessoa muito especial, normalmente uma pessoa amada.

       Fiquei admirado com o poder de observação do professor.

       — Seu nome é Caroline.

       — A filha do Doutor Roberto. Eu a conheço. É uma bela jovem. Muito bonita e muito simpática. Pelo presente que lhe deu, creio que o seu coração já lhe pertence.

       — Assim espero.

       — Filho, vou lhe dizer uma coisa. Se você a ama, jamais a abandone. O futuro é incerto e nunca devemos nos afastar das pessoas que amamos.

       A maneira com que me disse essas palavras me levaram a crer que ele carregava consigo uma culpa e que nutria ainda um grande sentimento de amor por sua família. Após me dizer isso, retirou-se para sua cabine e não saiu pelo resto do dia.

 

       Na semana seguinte o navio finalmente entrou no arquipélago de Luger, também conhecido com arquipélago da morte. Não houve nenhum fato extraordinário, exceto que não encontramos nenhum navio em uma área que normalmente deveria possuir um tráfego intenso. Até mesmo o clima a bordo se alterou. Os homens ficaram mais quietos e as brincadeiras já não eram feitas com tanta freqüencia. Era como se algo estivesse pairando no ar. E que impregnava tudo ao seu redor.

       Eu passava os dias cuidado da perna do marinheiro ferido. Ele estava bem melhor. Duas muletas foram preparadas para que ele pudesse caminhar. Apesar da tranqüilidade e da rotina do navio, pairava, com toda certeza, uma forte tensão entre os homens.

       Dizem que os animais podem pressentir o sobrenatural. O homem também é um animal.

 

       Dois dias depois, passávamos próximos da ilha da morte. Realmente, sua costa ficava coberta por um nevoeiro e podia-se ver alguns recifes. Era, também, na minha opinião, impossível chegar àquela ilha.

       Ao final da tarde, retirei-me para minha cabine para ler um pouco. A vista para o mar estava difícil. Parecia que ele fora coberto por uma névoa pardacenta, que hora era espesso, ora podia-se enxergar por um ou dois quilômetros. Tanto o professor quanto o capitão disseram que a região era propícia a nevoeiros. Havia uma calmaria que eu não via há vários dias. Mesmo com as velas içadas, o navio viajava lentamente. Eu estava em minha cabine fazendo algumas anotações quando ouvi um grito do marinheiro que estava no ninho de gaivotas.

       — Navio à vista!

       A princípio, a notícia não me causou espanto, mas houve um grande alvoroço entre a tripulação. Levantei-me então e fui para o convés. Marinheiros corriam de um lado para outro.

       O capitão gritava com o homem que havia visto o navio.

       — É um dos nossos?

       — Não, senhor! É um navio inimigo! Está parado bem a nossa frente!    Nós, que estávamos no convés não víamos o navio, mas o termo inimigo indicava que o navio pertencia ao Reino com o qual estivéramos em guerra há pouco tempo.

       — Senhor, — gritou o marinheiro, — o navio está avariado!

       Neste momento, surgiu um navio a nossa frente. Era tão grande quanto o que viajávamos, com três mastros, mas as velas estavam recolhidas. O casco do navio estava intacto, mas, devido a neblina, não se podia ver o convés.

       — O que aconteceu? — perguntei ao professor.

       —Também não estou entendendo, parece que não há ninguém a bordo, mas como chegou aqui então? É um navio de guerra, veja as escotilhas dos canhões e o desenho do casco. Não poderia estar nestas águas, pois foi assinado um tratado que o impede de navegar por aqui. Mas um navio desses não viaja sozinho.

       O Tempestade passava vagarosamente a uns vinte metros de distância. O outro estava parado, ao sabor das ondas. O Capitão Kurchov gritou:

       — Alguém a bordo?

       Não houve resposta. Novamente o capitão gritou e novamente não houve resposta.

       — Timoneiro, meia volta. Sebastian, içar âncora. Desça dois escaleres. Quero cinco homens bem armados em cada um deles. Professor, doutor, gostaria que fossem comigo.

       Nos prontificamos imediatamente e dez minutos depois rumávamos em direção ao navio. Todos os cinco homens convocados pelo professor estavam nos barcos. Nos aproximamos do navio. Dois ganchos foram atirados e se prenderam à sua amurada. A corda tinha um nó a cada meio metro, para facilitar a subida. O primeiro a subir foi o capitão. Todos os homens tinham espadas e pistolas. Até mesmo eu recebi uma. Quando eu comecei a subir, senti um forte cheiro de carne estragada, putrefada. Como um abatedouro, só que bem mais forte. Quando cheguei e coloquei minhas mãos na amurada, fiquei aterrorizado.

       Toda a tripulação estava no convés. Todos mortos. Havia corpos por todos os lados. Calculei mais de setenta homens. Em alguns faltavam membros, como braços, pernas, algumas cabeças estavam à distância dos corpos. Os olhos de alguns dos mortos estavam abertos. O cheiro era intenso. Dois marinheiros vomitaram. Venci o impacto inicial e aproximei-me de um dos corpos. Tinha uma cicatriz grande no peito, causada por uma espada. Atingira diretamente o coração. Virei o corpo e constatei que havia atravessado o mesmo. Abri a camisa para retirar uma dúvida.

       Ninguém dizia uma só palavra. Somente se ouvia o ranger da madeira e das cordas. Parecia que até o navio estava morto.

       — Doutor, disse o Capitão aproximando-se de mim, juntamente com o professor, — o que matou toda esta tripulação?

       Olhei fixamente para aqueles homens.

       — Este marinheiro morreu por um objeto cortante. Uma espada. Seu ferimento é igual ao do marinheiro do Forte Rochedo. Pelo estado do corpo posso afirmar que ele morreu há não mais que dois dias.

       O Capitão não se conteve.

       — É impossível! Fantasmas não podem fazer isso!

       — Calma capitão, — ponderou o professor. — Ninguém disse que foram fantasmas.

       — Então como o senhor me explica um navio armado como esse, com homens treinados terem um fim desses? E por que não há nenhum corpo além da tripulação? Por que todos os mortos estão com as espadas nas bainhas? Não houve resistência. Olhe a expressão daqueles homens. Parece com combateram algum outro marinheiro? O senhor, como eu, já presenciou homens mortos em batalha. Jamais tiveram essa expressão.

       — Capitão, disse um marinheiro, aproximando-se. Todos os canhões da banda direita foram disparados. Existem algumas pistolas com os mortos que também foram disparadas.

       O Capitão se acalmou.

       — Quero que verifiquem cada canto deste navio. Qualquer objeto estranho deve ser trazido imediatamente até nós. Verifiquem a tripulação, para o caso de haver algum sobrevivente.

       — Sim, senhor.

       O marinheiro virou as costas e deu as ordens para os outros, que saíram em várias direções.

       — Eu conheço este navio, — disse o professor, — é o Ciclone. E aquele ali, falou apontando para um corpo vestido de oficial, mas com o rosto todo deformado, é o seu oficial.

       — O senhor o conhecia?

       — Não pessoalmente. Mas conheci seu pai. Também é um capitão. Já lutei contra ele. Se seu filho era como ele, estão este navio era uma fortaleza, com homens destemidos e audazes. E o que aconteceu aqui é realmente um mistério ...

       — Vivo! Vivo! — gritou Li. — Este aqui está vivo!

       Imediatamente corri naquela direção, desviando dos corpos que estavam espalhados. O professor e o capitão me seguiram. Aproximei-me do moribundo e pus meu ouvido em seu peito. Podia-se ouvir, ainda que bem fracas, as batidas do seu coração. Tinha um grande ferimento no tórax.

       — Realmente está vivo. A espada resvalou em uma costela. Capitão, precisamos fazer uma padiola. A vida deste marinheiro é fundamental para desvendarmos este mistério. Preciso também de cordas e tiras de pano para imobilizá-lo e levá-lo o quanto antes para o navio.

       — Concordo plenamente.

      O capitão deu ordens e alguns marinheiros se dirigiram ao porão e quinze minutos depois voltaram com uma padiola improvisada com tábuas retiradas de uma cama, um rolo de cordas e alguns lençóis já em tiras. Vinte minutos depois, o marinheiro era descido para um escaler de maneira bem vagarosa. Procurei cuidar ao máximo para que ele não viesse a falecer. Rumamos rapidamente para o navio. O Capitão, o professor e quatro marinheiros ficaram no Ciclone.

       O marinheiro foi colocado na mesma cabine onde fora tratado os feridos pela tempestade. Limpei o seu ferimento. Ele havia perdido muito sangue e era um milagre que ainda estivesse vivo. Coloquei alguns medicamentos, fiz uma bandagem que cobria todo o seu peito. Ele aparentava ter uns cinqüenta anos. Uma barba rala cobria o seu rosto e o seu cabelo meio avermelhado era longo, indo até os ombros.

       O capitão, assim que chegou ao navio, veio para minha cabine. Uma turma de marinheiros se aglomerava diante de minha porta. Com duas frases dele, todos sumiram.

       — Como ele está?

       — Perdeu muito sangue, mas continua vivo. Seu coração bate fraco. Coloquei os remédios que disponho. Só nos resta esperar.

       — Doutor, a vida desse homem é muito importante. Nele pode estar a chave deste mistério.

       — Eu sei disso e farei todo o possível para salvá-lo ...

       Ocorreu então uma grande explosão. Depois outra e mais outra.

       — O que foi isso?

       — Foram ordens minhas. Mandei colocar todos os corpos no porão do Ciclone e acendemos barris de pólvora próximos ao casco do navio. Eu e o professor, juntamente com Sua Majestade, decidimos que um navio desaparecido é muito melhor do que um navio encontrado nessas condições, principalmente em nossas águas.

       Dirigi-me para o convés. Muitos marinheiros estavam na amurada. O navio afundava rapidamente. Em pouco tempo, havia no local apenas alguns barris e umas tábuas. O quarto estava vigiado por dois marinheiros fortemente armados. Somente eu, o professor e o Capitão tínhamos permissãopara entrar nele. Passei aquela noite em claro, velando por aquele que podia por luz a este mistério.

       Nos dois dias seguintes, o marinheiro deu sinais de melhora. Seus batimentos melhoraram. Sua temperatura também aumentou. O alimento era líquido, uma sopa que era dada boca abaixo. Cuidava do ferimento diariamente, que por sua aparência indicava não possuir sinais de infecção. No terceiro dia, o marinheiro começou a delirar e a pronunciar algumas frases.

       Então, mandei chamar o capitão.

 

       Kurchov, juntamente com o professor, entraram no quarto apressadamente.

       — Está um forte nevoeiro lá fora. Nunca vi o mar desse jeito. — falou o Capitão. — Como está o marinheiro?

       — Teve febre alta o dia todo, mas ela já começou a ceder. Até poucos instantes atrás, pronunciava algumas palavras sem sentido.

       — Que palavras? — perguntou o professor.

       O marinheiro estava deitado, com o rosto umedecido pelo pano com água fria que estava em sua testa e que, de tempos em tempos, eu passava sobre seu rosto para aliviar o calor da febre. Sob a pequena mesa, havia uma tina de água com alguns remédios que misturei para tentar refrescar o paciente.

       — Pronunciou muitas vezes a palavra Vingador.

       — O doutor acredita em sua recuperação?

       — Pelos conhecimentos que tenho, capitão, este homem tanto pode dormir por dois ou mais dias como pode acordar daqui a meia hora. Seu estado, apesar da febre, não é dos piores. A ferida não infeccionou e o sangue já foi estancado. O ferimento não atingiu nenhum órgão seriamente.

       — Os canhões ... — o marinheiro voltou a falar.

       O professor fez sinal para que ficássemos quietos.

       — Os canhões não fizeram efeito ... Ele vem para cima de nós ... Estão pulando para dentro do convés ... É o inferno que recai sobre nossas cabeças... Que Deus tenha piedade de nossas almas ...

       E voltou a ficar calado.

       Olhei para os dois homens. Sem dúvida aquele homem havia presenciado algo terrível. Por um momento ficamos em silêncio esperando que o marinheiro voltasse a se pronunciar. Até que finalmente quebrei o silêncio.

       — O que os senhores acham?

       — Acredito que este homem deve ter presenciado algo extraordinário, e sua vida é de vital importância para o desenlace desta história. — disse o professor.

       — Sim, — falou o Capitão. Devemos procurar saber o que realmente aconteceu no convés daquele navio.

 

       Em nossa conversa, não sabíamos que a verdade vinha até nós.

       — Navio à vista!

       O grito fez o Capitão e professor saírem correndo. Fiquei observando o marinheiro. Que segredos trazia consigo? O que realmente ele havia visto? O que havia atacado tão ferozmente aquela embarcação?

       Um pouco da neblina do mar havia se dissipado, mas havia uma espécie de nuvens baixas, que hora ofuscavam a vista completamente, hora nos permitiam ver por uns quinhentos, mil metros. Era sempre assim quando encontrávamos um nevoeiro. Pareciam rolos de fumaça, que vinham em nossa direção.

       — Que tipo de navio? — gritou o capitão para o marinheiro que estava no ninho das gaivotas.

       — É um navio de guerra! É enorme! Está vindo vagarosamente, bem a nossa frente! As velas estão rasgadas, o costado está bastante avariado!

       — Qual a cor do castelo da popa? — perguntou aos gritos o professor.

       — Negra, senhor! E parece um pouco queimada!

       —Consegue ver se há alguém no convés?

       — Um único marinheiro, no timão. 

       — Quantas linhas de canhões.

       — Duas! Não espere! Três!

       O professor e o capitão se entreolharam. Somente um tipo de navio de guerra tinha o castelo da popa de cor escura e três linhas de canhões.

       — Capitão Kurchov. O mistério dos ataques dos navios está a nossa frente. É o Vingador dos Mares.

       —   Quero ver se este navio maldito vai resistir aos tiros de nossos canhões. Sebastian! — gritou.

       — Sim, capitão!

       — Ordene que a artilharia fique a postos e carregue os canhões! Distribua os mosquetes e as espadas!

       — Tanto os canhões, quanto os mosquetes já saíram carregados do forte.

       — Melhor! Ordene que fiquem a postos e atentos ao meu sinal.

       Houve grande polvorosa no convés do navio. Homens corriam de um lado para outro. Até mesmo eu recebi ordens de subir armado ao convés. Peguei a espada de meu pai e subi as escadas. Lá, recebi uma pistola. Os homens se prepararam para disparar os canhões. As escotilhas eram abertas e os canhões eram carregados. Tochas de fogo eram acesas.

       Ainda não conseguíamos ver o navio que se aproximava. Havíamos entrado em uma espessa nuvem. Quando saímos, nos deparamos com uma grande embarcação a nossa frente.

       Finalmente encontramos o nosso objetivo. Não posso falar pelos homens, e sim pelo que eu senti naquele momento. A minha garganta ficou seca. A minha espinha endureceu. Eu nunca, em toda a minha vida, havia sentido tanto pavor como o que estava sentindo naquele momento.

       A cena era de horror sobrenatural. Algumas velas estavam rasgadas. O convés estava avariado. Havia marcas de queimaduras em vários lugares. As escotilhas dos canhões estavam fechadas. Tinha uma espécie de limo que cobria todo o costado. Era como se o navio tivesse ficado afundado bastante tempo, até que algo o fez sair das profundezas do mar.

       Não se podia ver nenhum homem naquele convés bastante avariado, mas havia um vulto no timão do navio. Isso era claro.

       — Professor? — perguntou o Capitão.

       Július observava o navio com sua luneta.

       — Vem para cima de nós! Atire com os canhões!

       — Atenção, homens! Na linha da água! Para afundar. Fogo!

       Grandes estrondos se ouviu e o navio se encheu de uma fumaça branca, de pólvora. Toda a banda direita havia sido disparada de forma precisa, e quase à queima-roupa.

       O navio que recebesse uma carga dessas na linha d’água, naquela distância, iria a pique sem qualquer sombra de dúvidas. Após a cortina de fumaça ser levada pela brisa, verificamos o impossível.

       O navio não recebera nenhum tiro. Nada o havia atingido. Ele não não havia sofrido nenhuma avaria.

       Era como se as balas de canhão tivessem atravessado a embarcação.

       Ele vinha para cima de nós.

       — Vai bater! — gritou um marinheiro.

       Os navios se chocaram lateralmente. O barco todo estremeceu. Os homens, todos, sem exceção estavam assustados. Foi quando um gancho, bastante enferrujado, caiu no convés. A corda estava cheia de um limo esverdeado. Depois outro, e mais outro, estavam sendo jogados do navio fantasma. Esses tipos de ganchos eram utilizados para abordagem. Vários deles foram atirados e depois começaram a ser puxados, para que os dois navios fossem unidos. O mais incrível era que uma fumaça parecia sair do convés, impedindo que víssemos o que se passava nele.

       Os dois navios já estavam unidos.

       Os ganchos estavam fortemente presos na lateral do Tempestade. Observei, por um momento, o olhar dos homens. Estavam apavorados e não acreditavam no que estavam vendo. Todos estavam paralizados. Era como se estivéssemos congelados ou tivéssemos perdido a nossa capacidade de movimentação.

       Era impossível que um navio pudesse resistir a um ataque desses. Era inacreditável o que estávamos presenciando.

       Foi aí que aconteceu o inimaginável.

       Um homem pulou do Vingador dos Mares para o nosso convés.

       Estava na proa. A tripulação estava do convés para a popa. Todos ficaram estarrecidos.

       Era uma visão dantesca. Trajava um uniforme igual ao nosso, só que usava uma jaqueta, especialmente desenhada para aquela embarcação. Mas   havia um detalhe: estava completamente corroída. As mãos tinham partes da pele soltas. A direita segurava uma espada enferrujada. O rosto estava completamente desfigurado. Eram poucos os cabelos sob a cabeça.

       Era um cadáver vivo.

       Sua fisionomia tinha a morte estampada no rosto. Os olhos estavam esbugalhados e tinham uma cor avermelhada. Outras duas figuras saltaram atrás dele. Os marinheiros começaram a recuar, à medida que mais e mais cadáveres começaram a sair do meio da fumaça.

       — Homens! — gritou o Capitão. — Preparar mosquetes!

       Por um momento, os homens reagiram à situação. Uma fileira de homens abaixados e outra de pé se formou. Até mesmo eu fiz pontaria com minha pistola naquele grupo de “criaturas”.

       — Ao meu sinal!

       Já havia mais de vinte mortos vivos no convés do navio.

       Eu, como médico, não podia acreditar no que os meus olhos estavam vendo. Era impossível o que estávamos presenciando. Um corpo humano no mais completo estado de decomposição andando perfeitamente.

       — Fogo!

       Uma nova cortinha de fumaça se elevou sobre nós. Quando se dissipou, não havia mais vinte, e sim uns trinta moribundos, que caminhavam em nossa direção. Um deles, que havia saltado primeiro e que parecia liderar o grupo abriu a boca e soltou um gritou aterrorizante.

       — Veja a roupa daquele. É a roupa de um capitão. — disse um marinheiro.

       — Então, — concluiu o capitão Kurchov, aquele é ...

       — Átila! — pronunciou o professor.

       A tripulação ia se amontoando na proa enquanto mais e mais criaturas desciam para o convés do navio. Algumas portavam espadas, outras machados e maças.

       De repente, uma figura saiu do meio dos marinheiros e foi na direção das criaturas. Era o bispo Paulo, que murmurava frases em latim e tinha um crucifixo numa das mãos. Ele passou por dois marinheiros que estavam de joelhos, petrificados pelo medo. O bispo ia se aproximando cada vez mais.

       O suposto capitão Átila parou por um instante e observou o bispo, que continuava a pronunciar frases que quase ninguém ouvia. Percebia-se apenas o movimento de seus lábios. Por um instante, as criaturas pararam. O Capitão Átila pareceu baixar a cabeça de medo e recuou. Todas a criaturas recuaram. O bispo, que também estava atemorizado, respirou fundo e foi em frente.

       Ele se aproximou do Capitão dos mortos vivos, que parecia amedrontado com a sua figura. Eu pensei naquela hora que aquelas criaturas haviam saído do inferno e que a figura do bispo representava para elas a fé em Deus. Os homens ficaram esperançosos que aquele homem corajoso pudesse expulsar aquelas criaturas do nosso navio e enviá-las para onde nunca deviam ter saído.

       O Capitão Átila recuou até que o bispo chegou a uma certa distância. Então a espada que ele tinha nas mãos zuniu no ar e atingiu-o diretamente no coração. O bispo soltou um grito de dor. Seu corpo extremeceu e caiu pesadamente no convés. O Capitão dos cadáveres se aproximou dele, abriu a boca e soltou um grito que parecia uma gargalhada vinda dos infernos. Retirou a espada do corpo do bispo. Instantes depois, ele morria.

       As criaturas voltaram a caminhar em nossa direção. Os dois outros marinheiros que não conseguiam se mexer foram decapitados pelos homens do navio fantasma, que agora avançavam lentamente. Cinco marinheiros saltaram no mar e foram mortos rapidamente pelos tubarões que infestavam aquelas águas. O pânico começou a tomar conta da tripulação, que começou a gritar. Alguns caiam de joelhos, outros choravam, rezavam. Alguns imploravam por piedade. Eu olhava tudo aquilo sem poder esboçar qualquer reação. Estava petrificado. Homens chorando, pedindo piedade, murmurando preces.

       O professor ficou calado, parecia não acreditar no que via. A violência da morte do bispo e dos dois marinheiros havia aumentado o desespero da tripulação.

       “Vai ser um massacre.” pensei. “Estamos todos mortos”.

       — Deus nos abandonou! — gritou um dos homens, que correu de espada em punho na direção dos marinheiros, que o mataram a golpes de machado.

       Já deviam estar a bordo uns quarenta marinheiros do Vingador dos Mares.

       — Cuidado...

       A voz era fraca, mas todos a ouviram. Na porta que dava para os alojamentos, estava o marinheiro que eu estava cuidando. Tinha uma mancha vermelha no peito, o que indicava que o ferimento voltara a abrir. Ele se segurava na porta com dificuldade, tamanho o esforço que fez para subir as escadas. Todo aquele esforço era para dizer uma única frase.

       — Eles ... são... homens ...

       E caiu morto no chão do convés.

       Por um momento, ficamos abismados. Até que Abdu Ali saiu do meio dos marinheiros, colocou a mão para trás de suas costas e retirou uma adaga, que ficava presa ao seu cinto.

       — Que Alá, meu Senhor, me perdoe.

       E atirou a faca na direção de um moribundo que se aproximava. A lâmina girou no ar, passou muito perto do capitão Átila e atingiu o pescoço de uma das criaturas. Toda a lámina penetrou na carne.

       Ela parou.

       O sangue começou a jorrar do ferimento. Lentamente ela colocou as mão no cabo da adaga e a retirou. Olhou para nós, soltou um grito e caiu de joelhos, vindo a tombar pesadamente, em uma poça de sangue. Os outros pararam por um instante. Ficamos atônitos. O morto-vivo se debatia em espasmos. O sangue escorria aos esguichos. Lentamente, ele parou de se mexer até que seu corpo relaxou.

       Estava morto.

       Acho que o mesmo pensamento que eu tive, todos os marinheiros do Tempestade também tiveram na mesma hora.

       — Homens! — gritou Abdu Ali. — Eles podem morrer como nós. E sacou uma grande cimitarra. Um dos marinheiros fantasmas teve seu braço arrancado com espada e tudo pelo golpe de Ali. Ele soltou um grito de dor.

       Um grito humano.

       A seguir, sua cabeça foi arrancada com um violento golpe. Seu corpo caiu pesadamente no chão. Os homens então sacaram suas espadas e foram para cima das marinheiros do navio fantasma. O convés se encheu de homens lutando para todos os lados. Corpos iam caindo um a um. Estávamos com ódio. Todo o nosso medo havia se transformado em um forte sentimento de vingança.

       Dirigi-me para o marinheio atingido pela adaga de Addu Ali. Notei algo estranho em seu rosto. Puxei-o pelos cabelos e seu rosto veio junto. Usava uma máscara, muito bem feita. Por trás dela havia um jovem marinheiro.

       Mas então o que significava tudo isto?

 

       Saquei minha espada e dirigi-me para a luta. Um dos marinheiros que veio em minha direção, já não andava de maneira vagarosa, ou imitando cadáveres. Tinha nas mãos uma espada enferrujada. Eu jamais havia matado um homem. Ele tentou atingir meu ombro, mas desviei e atingi-lhe rapidamente o braço. Ele soltou um grito e me atingiu com um soco. Fui jogado para trás e fiquei tonto por alguns instantes. Percebi que vinha em minha direção e então, levantei a espada e num impulso para a frente, perfurei seu peito, atingindo-lhe o coração em cheio. O homem caiu do meu lado. Levantei-me e observei melhor com o que lutávamos. Não me parecia mais um morto vivo. Fiz novamente o que havia feito da primeira vez. Coloquei a mão em sua cabeça e puxei. Ela começou a se movimentar e saiu, até ficar em minhas mãos. Era outra máscara, que com a fumaça, a distância e o medo, fazia com que pensássemos estar diante de um fantasma. Também surgiu, a minha frente, o rosto de um jovem marinheiro, que provavelmente tinha a minha idade, ou um pouco mais. Os homens lutavam com muita experiência e destreza. Os nórdicos varriam tudo a sua frente com seus machados.

       — Odin! Conte os mortos! — gritavam.

       Li desferia golpes certeiros e precisos atingindo seus oponentes de maneira impiedosa. Bitaka usava uma lança e nem por isso era menos mortal. O professor, a quem estava acontumado a ver calmamente caminhando pelo convés, mostrou muita habilidade com a espada. Aos poucos, os homens que haviam invadido o navio começaram a ser derrotados.

       — Vamos mandá-los de volta para o Inferno! — gritou um dos marinheiros.

             De repente, vários homens, também vestidos como os outros saíram do navio fantasma armados com mosquetões e começaram a atirar nos nossos homens. Deviam ser uns trinta ou quarenta, que disparavam em sincronia. Primeiro atiravam metade, e enquanto carregavam suas armas, os outros atiravam.

       Os nossos homens já haviam derrotado quase todos os falsos fantasmas que estavam a bordo. Como estavam armados somente com espadas, começaram a cair frente aos disparos. Abdu Ali recebeu três tiros e caiu fulminado. Bitaka também foi atingido, mas teve tempo de lançar uma lança que atingiu em cheio o peito de um dos marinheiros. Luvic jazia no chão sem vida. Tinha um ferimento no pescoço, causado por um disparo. Havíamos deixado os mosquetes de lado e estávamos lutando com armas brancas. Os disparos mataram muitos de nossos homens. Acho que não passávamos de vinte lutando contra um número bem maior de inimigos. Foi então que uma voz irrompeu do meio das névoas.

       — Július! Faça seus homens baixarem suas armas!

       A princípio, em meio ao barulho dos disparos e os gritos dos homens pareceu estarmos ouvindo coisas. Foi então que a voz voltou a se pronunciar:

       — Homens, cessar fogo. Július! Faça seus homens baixarem suas armas agora!

       Imediatamente os disparos cessaram. O professor Július tinha o olhar perplexo. Olhou para o Capitão Kurchov e os homens que ainda estavam de pé. Em seguida, observou os mosquetes apontados para eles e viu que não havia outra saída senão a rendição. Largou a espada. Seu gesto foi seguido por todos os outros homens, inclusive eu.

       Houve, por um momento, um silêncio no navio, quebrado apenas pelas lamúrias de alguns marinheiros, que jaziam feridos no chão. Este, por sua vez, estava repleto de corpos e sangue havia manchado todo o convés.

       Neste instante, três figuras surgiram do meio da fumaça. Trajavam roupas de marinheiros comuns. Dois deles tinham pistolas nas mãos e o terceiro tinha uma espada na cintura. Não usavam máscaras. Tive a impressão de serem os comandantes do navio fantasma, o que mais tarde se comprovou como verdade.

       Olhei fixamente para o homem que estava no centro. Era um homem alto, que devia aparentar aproximadamente uns cinqüenta e cinco anos, com cabelos loiros e bigodes compridos.

       — Almirante Haloram!

       — Július. — falou aproximando-se. — Somente um navio sob seu comando poderia fazer o que vários outros não fizeram. Enfrentar meus mortos-vivos.

       — Não estão sob meu comando e sim do capitão Kurchov.

       — Então devo parabenizá-lo, capitão. Agora quero que todos os homens se entreguem sob o nosso comando. Não faço prisioneiros, mas abrirei uma exceção neste caso, devido a sua presença.

       Imediatamente, os homens nos cercaram armados com bistolas e mosquetões.

       — Capitão Random!

       O suposto Capitão Átila se aproximou. Retirou a máscara.

       — Leve os prisioneiros para o Vingador dos Mares. Acomode-os no porão número um.

       — Sim, Almirante.

       — Mas ...

       — Sem perguntas, Július. Depois conversaremos. Agora o tempo urge e não podemos ficar aqui.

       Fomos forçados a ir para o outro navio. Somente quando saltei para o convés é que percebi a ilusão com que todos nós havíamos sido enganados. O navio que nos atacara não havia passado por nenhum combate. As velas não estavam rasgadas, mas panos cortados foram amarrados a ela. As cordas, as madeiras queimadas, tudo havia sido feito para parecer que o navio tinha seu convés avariado. Até mesmo a fumaça era feita com fogareiros colocados estrategicamente no convés, que deveriam ter algum material químico que não consegui identificar. Esse material fazia aquela fumaça. Fomos revistados e colocados em um porão escuro, trancados com uma porta de madeira maciça. Dois marinheiros ficaram do lado de fora. Observei, por um instante, os homens que haviam sobrevivido. Todos tinham uma expressão de espanto e medo. Somente os homens que tinham ferimentos leves vieram. Os feridos gravemente ou que não podiam deixar o navio foram deixados para trás. Umas cem perguntas passavam na cabeça de todos nós. Quem eram aqueles homens? Porque atacavam? Quem era o Almirante Haloram? Porque tinham deixado-nos vivos?

       Foi quando ouvimos alguns gritos. Éram os homens feridos que haviam ficado no Tempestade.

       — Malditos canalhas! — gritou o capitão Kurchov esmurrando a porta.

       Logo os gritos cessaram. Vozes de comando começaram a ser dadas. O navio ia partir. Sentimos os ganchos serem soltos e os navios se separaram. Alguns instantes depois, uma explosão se ouviu.

       — Acalmem-se, — disse o professor. — Esta explosão foi no nosso navio. Teve o mesmo fim que demos ao navio que encontramos há poucos dias atrás.

       — Mas por quê? — perguntei. — Por que afundá-lo e não deixar que ele fique à deriva para ser encontrado por outro navio?

       — Porque, meu caro doutor, encontrar um navio com marinheiros mortos é uma coisa, mas encontrar um navios com trinta, talvez quarenta homens do Vingador dos Mares mortos é outra.

       — E nossos companheiros?

       — Os gritos que ouvimos há pouco não nos deixam a menor dúvida.

       — Mas por que toda essa encenação? — exclamou Kurchov.

       — Professor, — indaguei com um pouco mais de calma, — acredito que escapamos da morte somente porque seu provável Almirante, cujo nome é Haloram, reconheceu o senhor e deve ter uma grande admiração pela sua pessoa. Gostaríamos, se fosse possível, que o senhor nos contasse quem é esse homem.

       O professor olhou para todos os marinheiros.

       — Harolam é um dos mais impiedosos almirantes com quem já lutei. Combatemos contra ele em nossa última guerra. Nos enfrentamos no mar por três vezes e ninguém venceu os combates. Os homens sob o seu comando, como puderam ver, são altamente treinados, fortes e seguem suas ordens à risca. Já o presenciei punir severamente quem as desobedecesse. É um líder nato, astuto e muito inteligente. Mas após a guerra, ele desapareceu. Já faz algum tempo que tive as últimas notícias a seu respeito. Uma doença desconhecida o havia levado a morte em uma viagem de exploração na África.

       — Mas o desgraçado está mais vivo do que nunca!

       — Sim, capitão Kurchov. E muito bem vivo. Fico pensando e também gostaria de saber seus planos. Mas dados os últimos acontecimentos pode-se suspeitar que nos querem vivos, pelo menos por algum tempo, ou já teriam dado cabo de nós como fizeram com os feridos.

       Conversamos ainda sobre várias questões que nos intrigavam. Os últimos acontecimentos haviam alterado todo o enredo desta aventura. Discutimos muito, mas sem chegar a nenhuma conclusão. Com o passar do tempo, íamos nos acalmando mais. Tratei de alguns ferimentos superficiais que alguns dos marinheiros tinham conseguido durante o combate. Ficamos ali o resto do dia. Já era noite quando a porta se abriu e o capitão de nome Random entrou, seguido de cinco marinheiros armados com pistolas. Já não vestiam as roupas de homens mortos e sim vestimentas de marinheiros comuns.

       — Professor Július. O Almirante solicita sua presença e de seus oficiais em sua cabine.

       O professor chamou o Capitão para perto e murmurou:

       — Kurchov, — disse o professor. — Seria interessante deixar aqui Sebastian para acalmar os homens. Leve o doutor conosco. É um homem ponderado e confio em seus atos.

       O Capitão deu ordens para Sebastian e falou para a tripulação que se acalmasse. Em seguida, convidou-me para segui-los. O convés do Vingador dos Mares era maior do que o do Tempestade. Observei a tripulação. Eram homens em plena forma, o que indicava, provavelmente, que pertenciam à Marinha. Todos portavam pistolas ou espadas em suas cinturas. Observei os canhões. Pelo quantidade e calibre podia-se dizer sem medo que o navio era uma fortaleza flutuante. Uma obra de engenharia incrível, magnífica para a sua época.

       — Este aqui não é o Vingador dos Mares.

       A afirmação do professor fez parar meus pensamentos. Seguíamos a frente da coluna, sempre sob a mira das pistolas.

       — Como assim? — perguntou o Capitão Kurchov.

       — Observe os acabamentos. A madeira. Eu participei diretamente da contrução do navio e estive algumas vezes em seu convés. Este aqui é uma cópia fiel, mas não é o nosso navio. Posso afirmar com certeza.

       — Então o que aconteceu com o verdadeiro, o capitão Átila e a sua tripulação?

       — Não faço a menor idéia. Talvez o Almirante possa nos dizer alguma coisa.

       Entramos na cabine do Capitão. Era espaçosa, com móveis finos. Sob uma mesa, jaziam alguns mapas. Debruçado sobre eles, o Almirante Haloram usava uma régua e fazia alguns cálculos.

       — Július. Meu eterno adversário ...

       Entramos na sala, seguidos do Capitão Random e de dois marinheiros. O professor o olhava fixamente.

       — Não sei como pôde fazer uma atrocidade destas, Haloram. Somente um homem sem caráter iria atacar esses navios dessa forma.

       — Meu amigo ...

       — Por favor, — retrucou —, rogo-lhe que não me chame de seu amigo. Somente concordei em estar aqui para ver se consigo colocar luz sob esta história de crimes e assassinatos.

       — Crimes! O que sabe sobre crimes? Por acaso o ataque de seus navios em nossa costa não foi um crime? Sabe quantos civis morreram?

       O Almirante falava em tom de fúria.

       — Do mesmo modo, tivemos vários navios mercantes afundados. Tanto eu quanto o Capitão Átila atacamos somente os fortes, mas estávamos em guerra. Houve perdas em ambos os lados. Mas agora a guerra acabou. Acabamos de assinar um tratado de paz. Nada justifica seus atos.

       O Almirante Haloram se acalmou.

       — Sugiro que se sentem cavalheiros. Não vai me apresentar seus oficiais?

       Observamos o professor. Este nos acenou para que nos sentássemos. Puxei uma cadeira e sentei-me. O Capitão Kurchov fez o mesmo. Os outros marinheiros ficaram atrás de nós, de pistolas em punho. O Capitão Random também sentou-se à mesa.

       — Este aqui é o Capitão Kurchov. Este é o doutor David, nosso especialista em Medicina.

       — Hum, pois muito bem. Tiveram suas vidas poupadas porque tenho consideração por você, Július. É o maior adversário que combati e pretendo que tenha conhecimento de meu triunfo diante de seu reino.

 

       — Como deves saber, Július, enquanto estávamos em guerra, esta área foi palco de grandes combates. É uma região estratégica devido às ilhas e provisões que pode fornecer. Perto do final e com nossa Marinha já tendo dificuldades de se locomover até aqui para combater e regressar para nosso reino para reabastecimento, demos início à busca de uma ilha onde pudéssemos reabastecer e nos rearmarmos sem ter que voltarmos. Infelizmente, a guerra acabou e saímos derrotados. Mas uma ilha, localizada aqui no arquipélago foi descoberta. E, nessa ilha, era possível a construção de um Forte e de um arsenal sem que ninguém tivesse conhecimento.

       — Isso é impossível. — disse o professor. — A construção de um Forte seria avistada por nós mais cedo ou mais tarde.

       — Não se a ilha fosse coberta de uma névoa espessa.

       Os olhos do professor se abriram.

       — A ilha da morte!

       — Essa mesma. Em um dos combates, já no fim da guerra, um dos nossos navios ficou com o velame todo comprometido e pôs-se à deriva. Foi quando uma correnteza o puxou para a ilha. Os marinheiros que estavam a bordo se apavoraram. Mas o navio passou por entre os rochedos e lançou âncoras em uma grande baía. Os homens puderam então desembarcar. É uma ilha grande com água potável. A neblina cobre somente as sua sextremidades. O navio foi reparado e após içar as âncoras a correnteza o levou para mar aberto. Voltando a nosso reino, o segredo foi revelado. Dois navios foram enviados para constatar o que havia por trás dessas correntes. Um deles, tentando entrar com as velas içadas, bateu num rochedo e afundou. O outro, somente ao sabor da maré, passou novamente pelos rochedos e aportou na baía em segurança. Ficou constatado então tratar-se de um fenômeno de marés. Uma maravilha da natureza. Só que havíamos descoberto um tanto tarde. Nossa Marinha não dispunha de recursos para um projeto desta natureza. Então, para não comprometer o Reino, o rei preferiu um acordo. Foi então que chegou em nossas mãos um projeto de um tipo de navio revolucionário. Um navio veloz, com canhões potentes e que poderia alterar o equilíbrio naval. Era um projeto que tinha muitas inovações, no casco, mastros e velas. Uma verdadeira maravilha de engenharia. Iniciamos a construcão quase que no mesmo tempo que vocês e os nossos Vingadores dos Mares ficaram prontos três meses depois que o seu primeiro foi inaugurado pelo Capitão Átila.

       — Como assim Vingadores dos Mares? — perguntou o Capitão Kurchov.

       — Foram construídos dois navios. Um deles, comandado pelo capitão Ivanov, rumou para o arquipélago.

       — O capitão Ivanov, o carniceiro.

       O Almirante Haloram sorriu.

       — Sim. Trajavam vestimentas de seus marinheiros e tinha a bandeira de seu Reino. Abordaram o verdadeiro Vingador dos Mares em uma manhã. Invadimos o navio e o Capitão Átila foi feito prisioneiro. A tripulação se rendeu mesmo com os pedidos de Átila para que se rebelassem. Todos os homens lhe eram muito fiéis. Átila se juntou a seus homens no porão do navio. Então o capitão Ivanov o afundou.

       — Loucura! — gritou o professor, levantando-se. — Que o capitão Ivanov era um sanguinário eu já sabia. Mas matar o Capitão Átila e toda a sua tripulação afogados. Que Deus amaldiçoe todos vocês!

       O Almirante Haloram fez uma pausa. Sentia prazer e ver seu inimigo sofrer. Depois continuou.

       — Gostaria que se acalmasse Július e continuasse a me ouvir. Após o ataque, Ivanov começou o plano para causar uma série de incidentes que causasse a declaração de guerra dos três reinos que fazem fronteira e que utilizam estas rotas contra o seu, o que nos seria de grande ajuda. O plano ia indo bem, até que ele foi surpreendido por uma esquadra sua. Não havíamos tido conhecimento de sua viagem a tempo de avisar o Capitão Ivanov, que foi combatido e afundou muito próximo daqui.

       — Como ficaram sabendo dos passos de nossa esquadra, a localização do Vingador dos Mares? Como abordaram o navio? O Capitão Átila era muito esperto. Não deixaria jamais que outro navio se aproximasse do seu sem ser identificado. A menos que uma pessoa o traísse.

       — Excelente dedução. Um dos traidores era o seu primeiro imediato que contou aquela história de que Átila havia ficado louco. Foi morto por nossos agentes após ter cumprido sua missão.

       — Um fim digno de um traidor. — falou o Capitão Kurchov.

       — O segundo ficarão conhecendo mais tarde. Mas, continuando nossa história, o plano era que o capitão Ivanov atacasse outros navios para causar um incidente de tamanhas proporções, que fizesse eclodir uma guerra, da qual nosso reino não tomaria parte. Mas, com a sua derrota, houve uma mudança de planos. Criamos então o navio fantasma, com a idéia de afastar os navios mercantes da região e podermos construir o Forte na ilha da morte, que por sinal, como terão o prazer de testemunhar, está pronto.

       — Não vejo como a construção desse Forte pode causar a guerra.

       — Veja, meu bom amigo. Com essa história, nós somos o único navio nesta região. Dentro de um mês, o príncipe, filho do rei que lidera os três reinos, passará por aqui, com destino a sua capital, para selar um acordo de comércio e paz entre seu Reino e o deles.

       — E o que esperam? — argumentou Kurchov. — Atacar um navio do príncipe com este? Jamais a culpa será atribuída a nosso reino.

       — Também concordo, mas neste momento, temos dois navios escondidos na baía da ilha da morte. São navios construídos idênticos aos da sua Marinha, com marinheiros com as suas roupas e a sua bandeira. O navio que atacarão não deve ser afundado, mas o príncipe deve ser morto, o que fará eclodir uma guerra. Como já estarão debilitados em materiais devido ao navio fantasma ter espantado todos os seus parceiros em comércio, sua esquadra, por melhor que seja, não poderá enfrentar a força dos três reinos.

       Houve, por um momento, um silêncio mortal. Até que o professor Július começou a falar:

       —Sacrificar a tripulação inteira de um navio já foi um ato de loucura, mas causar uma guerra nessas proporções somente por poder! Veja a que ponto chegou. Você e seus homens chegaram a atacar e matar seus próprios marinheiros...

       — Está falando sobre o Ciclone.

       — Sim. Nós o encontramos. Era um navio de sua Marinha.

       — Sim, mas foi mal necessário. Mas não é somente pelo poder. Há riquezas em suas terras que são escassas nas nossas. Precisamos ter novamente o comércio com os reinos, que após a guerra, deixaram de fazê-lo conosco. E, há também um sentimento de vingança, de vê-los de joelhos clamando rendição.

       Os olhos do Almirante inimigo brilhavam a cada frase que pronunciava.

       — Não existe glória no que estão fazendo. Vão causar a morte de milhares de homens apenas pelo poder.

       Neste momento, alguém entrou. Vestia um capa negra e um chapéu largo, que impedia que víssemos o seu rosto.

       — Ah, sim. Senhores, gostaria que conhecessem uma figura ilustre.

       O homem retirou o chapéu. Era o Conselheiro Magnus. O homem tinha um leve sorriso no rosto.

       — Senhores. Como vão de viagem?

       — Canalha! Como pôde trair seu Reino?

       O Capitão Kurchov, num movimento rápido pulou no pescoço do Conselheiro e arrastou seu corpo até a parede. Com o braço, apertava o pescoço do homem, que já estava ficando vermelho. Random sacou a pistola e apontou para a cabeça do Capitão.

       — Não! — gritou o professor. — Kurchov, solte-o! Vamos homem, já disse! Precisamos de você vivo!

       O Capitão largou o conselheiro, que caiu no chão. O clima ficou tenso na sala.

       O professor foi o único a manter o equilíbrio. Olhou para os mapas sobre a mesa.

       — O Conselheiro pode ter ajudado vocês em muitas coisas, mas não poderia sabotar os nossos canhões, os nossos mosquetes, ou mesmos lhe conseguir estes mapas confidenciais, tampouco o projeto do Vingador dos Mares. Seria preciso que alguém da Marinha fizesse isso, alguém muito importante.

       O comandante inimigo mostrou um leve sorriso.

       — Vejo que a sua astúcia não diminuiu.

       A porta se abriu novamente e o Almirante Dimitri apareceu. Eu simplesmente não acreditava. Dois homens da mais alta confiança de nosso reino estavam envolvidos. Todos nós olhamos para aquele homem com desprezo.

— Como pôde, Dimitri? — disse negativamente o professor — como pode nos trair? Seu maldito canalha!

       E desferiu um soco no Almirante, que caiu pesadamente no chão. Levantou-se, de pistola em punho. Um filete de sangue escorria do canto de sua boca.

       — Você é que é um idiota, Július! Um idiota morto! — falou engatilhando a arma e apontou para seu rosto.

       — Já chega! Capitão Random, leve estes homens para junto dos seus. Tenho assuntos a tratar com eles mais tarde.

       Fomos levados para junto dos nossos homens. O capitão explicou para todos o plano do Almirante Haloram de semear uma guerra envolvendo a nossa pátria. Eu quase não acreditava que um conselheiro real pudesse trair o rei. Ainda mais dessa forma, colaborando para a morte de tantos dos seus. E o Almirante Dimitri, um homem que sempre aprendi a respeitar e que demonstrava tanta lealdade. Agora, nos encontrávamos à beira de uma guerra. Os três reinos formavam uma união sólida e juntos formavam um exército de homens de quantidade cinco vezes superior ao nosso. Suas esquadras eram em seis para uma em relação aos nossos navios. Se o plano de Haloram de assassinar o príncipe, forjando um ataque dos nossos navios, tivesse êxito, teríamos uma guerra sem escala de proporções, fazendo muitas vítimas de ambos os lados. Mas, mesmo com as declarações do almirante, alguns pontos nesta história não faziam sentido.

       — Professor, mesmo com as explicações do Almirante, alguns pontos nesta história ainda não estão claros.

       — E quais seriam estes pontos, doutor?

       — Primeiro: como conseguiram reproduzir um navio igual ao nosso, se sua construção foi mantida sob segredo absoluto?

       — Cada navio tem seus projetos definidos, como madeira, tamanho de calado, dimensões de compartimentos, peças de artilharia, enfim, todo um esquema para poder reproduzi-lo quantas vezes e sempre com a mesma forma. O canalha do Almirante Dimitri teve ter feito uma cópia desses documentos e enviado para que construíssem os navios. Havia vários mapas com rotas de navios mercantes em cima daquela mesa. Pertenciam todos a nossa Marinha.

       — E como explicar a morte do marinheiro no navio, e no próprio Forte? Nós estávamos com ele o tempo todo.

       — O do navio não tenho uma idéia concreta. Os marinheiros afirmam que viram uma fumaça afastando-se. Talvez um bote com alguns marinheiros. Haloram é um homem inteligente. Participou de uma invasão de uma ilha selvagem há algum tempo atrás. Nessa ilha, segundo ouvi relatos, foi extraído e levado para seu Reino uma espécie de veneno fatal, utilizado pelos nativos através de espinhos lançados por zarabatanas. Percebi aqui no navio dois nativos a bordo. Não posso afirmar com certeza, mas acredito nessa possibilidade. Quanto à morte do marinheiro no Forte, ele, realmente fora todo revistado, centímetro por centímetro, menos a carruagem de Magnus e o alojamento do Almirante. Provavelmente o assassino se escondeu em um dos dois locais e matou o marinheiro, voltando para lá em seguida.

       — E os nossos canhões? — retrucou Kurchov. — Por que não funcionaram?

       — Simplesmente porque não tinham balas. Ouvi quando o marinheiro afirmou que eles haviam sido carregados no Forte. Isso não é um procedimento normal e esse navio, antes de nossa tripulação assumir, veio da capital do Reino. Não é difícil imaginar que um dos dois traidores tenha preparado mais essa traição, presumindo com certeza que enfrentaríamos o navio fantasma. O que eles não tinham previsto foi nossa reação.

       — Mas somente eles teriam feito tudo isso sozinhos?

       — Não. É claro que não. Seu dinheiro e influência devem ter comprado todos estes homens, e que se Deus permitir terão a justiça que merecem.

       — E o que farão conosco? — perguntou Sebastian.

       — Não faço a menor idéia. Estamos completamente a sua mercê. Devemos ter paciência e torcer para que cometam um deslize.

       Não sei exatamente quantos dias passamos naquele porão. Dois, talvez três. Comíamos duas refeições, bastante racionadas. Até que fomos chamados novamente para ter com o almirante. Dessa vez, não fomos para sua cabine, mas sim para o convés. A névoa continuava, e às vezes clareava, e permitia ver a alguns quilômetros, os contornos da ilha da morte.

       — Professor, senhores. Pedi que subissem para acompanhar nossa chegada em nossa fortaleza.

       O Conselheiro Magnus estava com o Capitão.

       As velas do navio foram todas recolhidas e o navio ficou à deriva, começando a rumar para um rochedo, que cada vez ficava mais perto. Posso jurar ainda hoje que tinha a exata impressão de o navio estava sendo puxado para as pedras. O professor e o capitão Kurchov ficaram preocupados.

       — É loucura, vai bater! — disse o capitão.

       De repente, o navio mudou de direção e passou ao lado do grande rochedo, a assim fez com mais quatro. Realmente havíamos encontrado a tal corrente que o Almirante Haloram havia falado. O navio rumou por entre a névoa. O silêncio da tripulação era total. Somente o ranger da madeira ou o retesar das cordas podia-se ouvir. Até que a ilha surgiu à nossa frente. A névoa havia ficado para trás, mostrando uma grande baía iluminada por um sol forte. Dois navios de guerra estavam ancorados.

       — Posso afirmar com certeza, professor, que são navios de nossa frota.

       — Realmente, Capitão. É o que eles querem que pareça. Olhe ali. Veja o castelo da proa. O que ele lhe diz?

       — É o Serpente. Não tenho dúvidas.

       — Sim, está correto. E o outro. Observe o velame e os canhões. Ali, veja a listra branca no casco. A esquadra real tem dois navios assim. Mas com o mastro ...

       — É o Tufão, não há dúvida.

       — É isto que querem. Que não haja dúvida. Assim como o reconhecemos, o navio do príncipe também o irá reconhecer.

       O professor olhou o Conselheiro Magnus nos olhos.

       — Por que você traiu os seus homens? Por que levou a morte tantos inocentes?

       Ele apenas sorriu

       — Você não é um nobre. Jamais entenderá a nobreza. O poder. Quando a guerra acabar, o rei deverá se suicidar. Quem tomará o seu lugar e fará a paz?

       O professor balançou a cabeça.

       — O povo jamais o seguirá.

       — Eu farei com que o povo me siga, pois eu conseguirei a paz e melhor, que nosso antigo inimigo nos ajude a reconstruir um novo reino.

       — Entregando tudo o que possuímos de valor?

       — Nada se consegue de graça.

       — Se seus pensamentos são nobres, então ficarei para sempre sendo um homem sem nobreza.

       O conselheiro sorriu com um ar de arrogância. Quanto a mim, obervava a paisagem que surgia a minha frente.

       Havia uma grande número de instalações construídas na enseada. Era realmente um Forte. Casas de madeira reforçada, algumas casamatas com canhões apontados para a baía. Não poderia afirmar com certeza, mas provavelmente deveria haver mais de trezentos homens instalados ali. O sol aparecia forte, dando um tom paradisíaco à praia de águas calmas e cristalinas. Havia alguns coqueiros espalhados ao longo da mesma. A baía era bloqueada por dois grandes rochedos e na parte detrás havia um outro. O único acesso àquele lugar era pelo mar, como havíamos feito.

       O navio passou pelos outros dois barcos, e lançou âncora. Os botes foram descidos e todos os prisioneiros foram levados para a praia. Lá pudemos constatar melhor as dimensões da fortaleza. Havia quatro casamatas com dois canhões cada uma. Barris de pólvora e balas de canhão estavam dentro delas. Seis homens ficavam constantemente de sentinelas, prontos para entrar em ação. Uma torre fora construída e mais quatro soldados se revezavam para vigiar a linha da névoa, e verificar a entrada de um navio inimigo. Havia várias casas, algumas maiores, provavelmente alojamentos, refeitório, ambulatório, etc. As menores deveriam ser depósitos de armas e munições, ferramentas, madeira. O telhado era feito de barro e palha. Havia até mesmo algumas ruas de chão de areia batida. Era um pequeno vilarejo. Os homens andavam armados, seja com pistola, ou com espada na cintura, nos observando com arrogância e indiferença. Pelo visto, éramos os primeiros prisioneiros e estrangeiros a ver o Forte No centro, havia uma círculo feito de pedras, parecendo uma praça com algumas arquibancadas.

       Mais tarde, ficaria sabendo que era uma espécie de arena. Fomos levados para uma casa mais afastada e trancafiados lá. Três guardas ficaram à porta.

       — Professor, isso não é um forte! É uma fortaleza! — disse o Capitão.

       — Sim. Estamos diante de um inimigo poderoso. Muito poderoso.

       — O que vamos fazer? — perguntou um dos marinheiros.

       — Vamos atacá-los e morrer dignamente! — gritou outro.

       — Isso mesmo! Com certeza vamos todos morrer aqui. — bradou outro marinheiro.

       O alvoroço tomou conta dos homens. Alguns eram contra, outros a favor.

       — Senhores! — falou o professor. — É uma situação bastante difícil. Somos menos de vinte homens desarmados contra mais de trezentos. Possuem três navios fortemente armados. Não duvidei jamais de sua coragem, mas precisamos usar nossa inteligência e aproveitar o melhor momento. Nosso reino não sabe o que se passa nesta ilha. Não sabe da existência desta fortaleza, tampouco dessa trama monstruosa que pretente jogar nossos exércitos para uma guerra sem sentido. Agora, devemos guardar nossas forças e esperar o melhor momento para agirmos. E o prazo para agirmos é menos de um mês. Somos a única esperança de acabarmos com esta loucura e devemos aproveitar o momento certo.

       Todos os homens se entreolhavam. O professor tinha dito exatamente as palavras certas. De nada adiantaria uma rebelião. Seríamos mortos prontamente. Éramos muito poucos, estávamos cansados e desarmados.

       — Devemos agora procurar descansar um pouco e guardar nossas forças para o momento certo de agir.

       Os homens foram se acomodando no chão, que era coberto por algumas esteiras. Todos estavam exaustos. Os últimos dias haviam sido terríveis. Pensei em Caroline, em tudo o que havia se passado. Eu senti naquele momento que dificilmente a veria novamente. Fiquei angustiado com esses pensamentos.

       Mas as nossas expectativas de sobreviver eram muito pequenas.

 

       Ficamos três dias na mesma situação. A comida era trazida até nós duas vezes ao dia, como também a água. A ração era pouca e dividida de maneira igual para todos. Comíamos sentados no chão e encostados na parede. Nenhum de nós havia saído daquela prisão. Não sabíamos o que se passava lá fora.

       Até que certa noite começou a acontecer uma grande movimentação no centro da fortaleza. Ouvimos cantos de alegria e gritos eufóricos entre os homens.

       — O que diabos está havendo? — disse um dos marinheiros.

       — Parece uma festa. — respondeu outro.

       Havia algumas frestas na madeira e podíamos observar o clarão das fogueiras.

       — Acho que é alguma comemoração. Ou algum tipo de cerimônia festiva. — Falou o professor. — Espere. Um grupo de soldados vem para cá.

       Realmente era verdade. Logo a porta se abriu e irrompeu por ela um grupo de soldados de pistolas em punho. Um deles começou a falar.

       — Façam uma fila. O almirante deseja vê-los.

       Fomos levados para a praça, também conhecida como arena. Acho que todos os marinheiros da fortaleza estavam lá. Abriram um corredor e fomos colocados na beira da arena. Na arquibancada, estavam os almirantes Haloram e Dimitri, os dois capitães dos navios e o Conselheiro Magnus. Estavam cercados pelos oficiais dos seus navios. Não vi o capitão Random entre eles.

       — Professor, — perguntei, — conhece os outros capitães?

       — Conheço um deles. Ele participou da guerra.

       Fez uma pausa para ter certeza.

       — Seu nome, — continuou o professor, — é Dubolski, capitão Dubolski e ...

       — Homens ! — era o Almirante Haloram que havia se levantado.

       Houve um silêncio total. Somente o crepitar das fogueiras podia-se ouvir.

       — Estamos aqui em missão especial, buscando a glória de nossa pátria!

       Os homens gritaram de alegria.

       — Mas, em nossa missão, capturamos inimigos! Inimigos valentes e que colocaram o nosso objetivo em risco! Olhem para eles! O ódio está em seus olhos!

       Os homens gritaram novamente. Diziam ofensas. Confesso que a princípio eu não entendia o que iria acontecer.

       — Professor, — perguntou Kurchov, — o que está acontecendo?

       — Chame Sebastian. — respondeu.

       — Por quê?

       — Por favor Capitão, chame Sebastian.

       O jovem se aproximou do professor.

       — Olhe para mim, marinheiro. Vou lhe dar uma ordem.

       — Sim, senhor.

       — Aconteça o que acontecer, não lute!

       — Como?

       — O que eu acabei de dizer. Não lute!

       O Almirante Haloram que fazia um discurso inflamado, notou a movimentação entre nossos homens.

       — Então, como é costume de nossa marinha testar nossos homens contra outros marinheiros, vamos fazê-lo! Como eles precisam de seu capitão, seu representante hoje será seu imediato. Homens tragam-no para a o meio da arena.

       Alguns homens foram até Sebastian e o levaram para onde o almirante havia ordenado.

       Eu nunca havia visto nada parecido com aquilo. E creio que todos os homens que faziam parte de nossa tripulação também não. Exceto pelo professor, que pelo ar de preocupação sabia exatamente o que iria acontecer. Os homens gritavam como loucos. Alguns pareciam embriagados. De repente, do meio dos homens surgiu o capitão Random. Estava sem camisa, trajando somente uma calça de bucaneiro e botas compridas. Era um homem forte com uma musculatura bem definida. O corpo era bronzeado pelo sol. Tinha uma espada em cada mão. Atirou uma nos pés de Sebastian.

       — Pegue, marinheiro. E mostre como um homem de sua Marinha luta.

       Todos nós estávamos atônitos. O marinheiro olhou para o professor, que fez um sinal negativo.

       Os homens faziam grande algazarra. O capitão Random ria com eles.

       — Vamos, homem! Ou será que não tem coragem suficiente para me enfrentar?

       Sebastian suava frio. Sua fisionomia demonstrava uma raiva, que era contida pelo olhar do professor.

       — Covarde! Covarde! — Era o coro dos marinheiros.

       O suor escorria de sua face, que estava transfigurada de ódio. Olhava novamente para o professor, que continuava a fazer sinal negativo. O capitão Kurchov gritou.

       — Capitão Random, é comigo que deve lutar, e não com esse jovem.

       — Acalme-se capitão. Seus homens precisam de ti por hora. E, ora, ora, vejo que tem uma aliança de noivado, imediato. Posso lhe assegurar que quando invadirmos seu Reino um de nossos homens irá se casar com sua amada, ter filhos e ...

       Aquilo havia sido a gota d’água. Sebastian apanhou a espada.

       — Venha, canalha!

       O Capitão Random abriu um sorriso. O professor Július baixou a cabeça. Os homens foram ao delírio incitando o jovem para o duelo.

       Sebastian investiu com a espada, tentanto acertar o peito de Random, que num giro evitou o golpe e desferiu um soco com o cabo da espada no rosto do jovem marinheiro. Ele quase caiu no chão. Um risco vermelho apareceu em sua face. Os homens pareciam enlouquecidos. Random tinha um sorriso nos lábios. Um sorriso arrogante. Era um homem forte, musculoso e sabia manejar a espada como ninguém. Investiu contra Sebastian, que desviou seus golpes e tentou também atingi-lo. Por alguns instantes, a luta pareceu igual, ora Random atacando, ora defendendo-se. Mas o capitão era mais forte e aos poucos o jovem marinheiro foi ficando cansado. Até que num encontro, Random desferiu-lhe um chute no estômago. Sem ar, Sebastian caiu de joelhos. Já tinha alguns ferimentos no ombro e no peito, conseqüência de golpes precisos do Capitão, que estava bastante suado, mas não tinha um ferimento sequer. Nossos homens permaneciam incentivando Sebastian a lutar. Eram espadachins e sabiam dos riscos de uma luta como essa. Sebastian se levantou e olhou a sua volta. Parte de sua face estava ensangüentada. Tentou atingir seu oponente e recebeu um golpe de espada no braço, seguido de um soco no rosto.

       A espada do inimigo girou no ar e atingiu sua barriga, perfurando o estômago. Ele gritou de dor e caiu no chão.

       Aquele tipo de ferimento provocava uma dor insuportável.

       Levantou-se com muito custo. Seus pensamentos estavam obscuros. Olhou a sua volta e depois para o capitão Random. Devido ao ferimento, ele já não conseguia pensar direito. Foi em sua direção para o golpe final. Rápido com um gato, Random se desviou e feriu-o bem no coração. A espada entrou profundamente, atravessando o corpo.. Num gesto rápido, retirou-a.

       Sebastian soltou um grito agudo e caiu no chão.

       Neste momento, nada mais passou pela minha cabeça senão a figura de meu amigo, que jazia agonizante no chão. Saí correndo para o meio da arena. Não sei se fui tomado pela dor do marinheiro ou se pela amizade que possuíamos um pelo outro.

       Ajoelhei-me a seu lado. Sua respiração já estava ofegante.

       — Acalme-se, Sebastian. Deixe-me ver seu ferimento. Talvez possamos fazer alguma coisa e ...

       Ele me segurou pela camisa e olhou fixamente em meus olhos. Tanto eu como ele sabíamos que ele estava morrendo. Os meus olhos se encheram de lágrimas. Era o grande amigo que eu havia conhecido naquela viagem. Sentia pesar, ódio, raiva, medo, angústia por não poder fazer nada por ele.

       — Diga ao capitão que tentei ...

       — Nós sabemos. Você fez o melhor que pôde. E ...

       Novamente ele me interrompeu. Acredito que já estava delirando quando disse as últimas palavras:

       — Diga para Melissa que eu sempre a amarei ...

       O seu coração parou de bater. O corpo estremeceu e seu rosto pendeu para o lado. Fiquei ali parado. Os homens continuavam gritando. Naquele momento, tive a nítida impressão que iríamos todos morrer. Que não havia salvação para nós. Que eu nunca mais veria meu grande amor.

       — Que loucura. — disse em voz baixa.

       Então, o almirante Haloram, muito contente com o resultado da luta, levantou-se e ordenou que nos levassem para a casa-prisão. O corpo do jovem ficou ali no chão. Random foi levado pelos seus homens, que cantavam uma canção que eu não conseguia entender muito bem, mas que deveria falar de vitória ou coisas desse tipo.

       Ficamos o resto da noite em claro. Ninguém comentou nada sobre o que acabara de se passar. A moral dos homens estava baixa. A perda de Sebastian foi sentida por todos.

       O dia amanheceu ensolarado. Podia-se ver devido aos raios do sol que entravam pelas frestas da casa. Ouvia-se também nitidamente o grito dos pássaros e o barulho do mar. Sentei-me junto ao professor para conversar.

       — O senhor sabia o que aconteceria ontem.

       — Sim. Quando estávamos em guerra, um navio nosso foi aprisionado com dezesseis sobreviventes. Quando resgatamos a tripulação, somente dois estavam vivos. Eles nos relataram acerca de uma arena feita no convés do navio, e que, a cada dois ou três dias, um marinheiro era submetido a uma luta.

       — Quer dizer que o senhor acha que este tipo de luta acontecerá novamente?

       — É quase certo.

       — Será que iremos morrer um por um sem tentarmos uma fuga, um combate digno? Não somos gladiadores para lutarmos desta maneira. Sebastian não merecia aquele fim.

       — Eu sei disto. Mas não estamos exatamente em uma civilização. Para aqueles homens que estão lá fora, estão em guerra conosco há muito tempo.

       O professor balançou a cabeça negativamente.

       — Já passei várias noites em claro e não consegui uma única idéia de como poderemos fugir. É uma ilha cercada de rochedos e somente uma única saída, que é vigiada dia e noite por poderosos canhões.

       — O capitão Kurchov se aproximou de nós.

       — Senhores, os homens preferem lutar a continuar esperando uma oportunidade. O inimigo já mostrou o fim que nos aguarda.

       — Também concordo, mas ainda devemos esperar um pouco mais. Faltam alguns dias para a chegada do navio do príncipe, portanto devemos ser pacientes. Se não conseguirmos encontrar uma saída, então só nos resta, e eu também estou de acordo, uma morte digna e honrada para homens como nós.

       Novamente o professor conseguiu acalmar os ânimos dos marinheiros. Mas nem ele, desta vez, sabia até quando. Quanto a mim, fiquei preocupado com as afirmações que o professor havia feito.

       Se era verdade que a arena seria utilizada mais uma vez, então quem seria o escolhido?

 

       As crianças estavam dançando, sendo que cada uma estava segurando a mão da outra, formando um círculo.

       A jovem Caroline se aproximou, abriu o círculo e segurou nas mãos das crianças, participando da brincadeira e cantando junto com elas. Ela adorava brincar porque isso fazia com se esquecesse por alguns momentos a saudade de seu grande amor. Já fazia bastante tempo que David havia partido e a cada dia a saudade aumentava mais. Queria poder abraçá-lo, acariciar os seus cabelos, contar-lhe suas alegrias e quanto o amava.

       Estavam no colégio da freiras, uma construção toda de pedra que tinha como uma de suas finalidades cuidar de crianças carentes. Elas brincavam em um pátio gramado e com árvores frondosas.

       O doutor Roberto surgiu em um corredor e perguntou por sua filha junto a uma freira. Ela indicou a direção do pátio.

       Assim que a jovem viu o pai, acenou e veio em sua direção, deixando que as crianças continuassem com a brincadeira. Havia outras que corriam de um lado para outro.

       — Papai, o que o traz aqui a esta hora? Não devia estar no seu consultório?

       O semblante de seu pai trazia uma grande tristeza.

       — Não sei o que dizer.

       — O que foi? — perguntou a jovem já preocupada, — é alguma coisa com mamãe?

       — Não.

       Finalmente olhou para a jovem com uma expressão carregada. Segurou em suas mãos.

       — Minha filha, você tem que ser forte. Recebi esta manhã uma carta trazida por um mensageiro real. Uma patrulha regular Marinha encontrou destroços de um navio no arquipélago de Luger.

       A jovem recuou. Seu pai segurou mais firmemente as suas mãos. Ela balançava a cabeça negativamente. O doutor voltou a falar:

       — Após uma avaliação, — continuou com muito esforço — , constatou-se que eram os restos de um navio de nossa marinha.

       Os seus olhos se encheram de lágrimas.

       — Pai, por favor, não...

       Ele baixou a cabeça por alguns instantes, depois levantou-a vagarosamente e disse a frase mais difícil que já havia dito para sua filha em toda a sua vida:

       — Ele estava naquele navio.

       Ela levantou a cabeça, como que procurando por algo que desmentisse aquela notícia. Em seguida, abraçou-o e começou a chorar.

       — Não é justo! Ele não! Nós tínhamos feito tantos planos.

       O ar parecia faltar em seus pulmões. Ela não conseguia respirar. O chão sumida de seus pés. Ela havia perdido o grande amor de sua vida.

       — Eu sinto muito minha filha. Ele era como um filho para mim.

       — Por que meu pai, por que teve que acontecer? Por que o destino é assim tão cruel?

       — Não tenho essa resposta, Caroline.

       — Eu me recuso ...

       Ela olhou para seu pai. Lágrimas escorriam de seu rosto.

       — Eu me recuso a acreditar! Ele não morreu! Eu sinto que ele está vivo!

       Seus lábios tremeram. Ela voltou a abraçá-lo.

       — Ele vai voltar, de onde quer que ele esteja!

 

       Mais dois dias se passaram. Era impossível não ficar tenso com aquela situação. Até que novamente, naquela noite, ouvimos um alvoroço entre os homens que estavam do lado de fora.A porta se abriu e fomos levados, desta vez por um contingente maior de homens, doze ao todo, direto para a arena. Ficamos no mesmo local da primeira vez. Ainda podia-se ver as marcas de sangue onde havia estado o corpo de Sebastian que nenhum de nós sabia o fim que havia tido. O céu estava escuro, diferente da outra vez. Havia alguns trovões e relâmpagos no firmamento, que se iluminava com clarões repentinos, tornando dia, a noite escura. As fogueiras haviam sido acesas nos mesmos locais, mas lonas as cobriam bem acima, para evitar que apagassem durante a chuva, que era cada vez mais provável.

       Todos estavam lá novamente, o almirante Haloram e todos os oficiais que faziam parte do comando dos navios. Havia um toldo protegendo os comandantes de uma possível chuva. Ele se levantou e acalmou os homens.

       — Senhores! Esta noite teremos mais uma luta!

       — Eu me proponho a lutar com capitão Random! — gritou Kurchov —. e será capitão contra capitão.

       — Muito bom, Capitão Kurchov. Agradeço por sua atenção, mas temos outro lutador.

       Aquilo soou estranho para todos nós. Outro lutador? Será que haviam feito outro prisioneiro?

       — O senhor, capitão, continuou Haloram, deve ficar vivo por enquanto, pois é oficial graduado! Mas um de seus oficiais já se prontificou!

       — E quem seria? — perguntou.

       — O seu doutor! Tragam-no!

       Três homens vieram em minha direção, agarram-me pelo braço, e, antes que eu pudesse entender o que se passava, estava sozinho no meio da arena. O olhar de todos estava voltado para mim. O professor me encarou por um instante, bastante preocupado.

       — Isto é um absurdo, — gritou. — Ele é um médico. Não pode lutar contra seus homens. Haloram, isto é um absurdo e um ato de covardia.

       O líder daqueles homens parecia ignorar os gritos de repúdio do professor e do Capitão. Até que Random saiu do meio da multidão. Novamente tinha uma espada em cada mão. Todos entraram em delírio. Olhou para mim e atirou uma espada, que veio cair sob meus pés.

       — Pegue-a!

       — Não! — falei com voz firme. — Minha vocação é salvar vidas e não retirá-las.

       O capitão sorriu.

       — E quem disse que o doutor irá retirar minha vida?

       Os homens soltaram uma enorme gargalhada, que foi engolida por um relâmpago, seguido de um forte trovão.

       — Pegue-a, já disse!.

       Olhei para Random. Os homens que estavam ali esbravejavam, gritavam como feras ensandecidas. Eu não acreditava que aquilo estivesse realmente acontecendo. Parecia um pesadelo que nunca tinha fim.

             — Covarde! Covarde!

       O Capitão, vendo que eu não iria pegar a espada, sinalizou para dois marinheiros que fizeram pontaria com as pistolas em direção ao professor e para Kurchov.

       — Se não pegar essa arma, mando matar Július e seu Capitão. — falou com um sorriso sarcástico. — Agora você pode salvar vidas.

       E soltou uma gargalhada.

       Olhei para os marinheiros de pistola em punho. Estavam loucos para atirar, disso eu não tinha a menor dúvida.

       — Agora, doutor, pegue essa espada e morra como um homem!

       Naquele momento, lembrei de meu pai e de suas lições de orgulho, de bravura. Lembrei dos ensinamentos que tive como espadachim na faculdade. Lembrei-me de Caroline. Jamais conseguiria carregar a morte do professor e a do Capitão em meus ombros. Começou a chover forte quando eu me abaixei e peguei a espada. Os homens ficaram eufóricos.

       — Mate-o! Mate-o!

       O Capitão Random deu as costas para mim e voltou-se para seus homens com os braços abertos. A água estava fria e num instante eu estava encharcado, assim como todos que estavam ali. Mas ninguém abandonou seu lugar. Procurei sentir o peso da espada. Era ligeiramente mais pesada que as que eu estava acostumado a utilizar. A adrenalina subia e descia do meu corpo rapidamente. Meu coração parecia que ia estourar. A chuva dava um tom bem mais drámatico para aquela cena.

       O Capitão, então, se voltou para mim. Rápido, tentou desferir um golpe em meu ombro, para retirar minha espada, mas eu prontamente defendi. Tentou várias vezes me ferir e eu não permiti. Procurava desviar os seus golpes, que eram sempre rápidos e precisos. A água escorria pelo meu rosto, atrapalhando a minha visão.

       — Ora, ora. — disse sorrindo, — vejo que você sabe lutar.

       Veio novamente em minha direção e num gesto rápido lançou a espada de maneira rasteira, visando atingir minhas pernas. Saltei, pois lembrava aquele tipo de ação. Assim que coloquei os pés no chão, recebi um chute bem no meio do peito e fui parar uns dois metros para trás, caindo dentro de uma poça d’água. Fiquei sem ar. Tentei me levantar o mais rápido que pude, mas meu oponente veio rapidamente e desferiu-me um forte soco no rosto, vindo a cair novamente, também em uma poça d’água.

       A chuva não parava.

       Com muito custo, consegui me levantar. O capitão Random estava na minha frente. Desferiu a espada de cima para baixo, tentando decepar a minha cabeça. Evitei o golpe. Estava meio tonto. Os gritos me ensurdeciam e não permitiam que eu conseguisse me concentrar.

       Olhei para meu oponente. Naquele exato momento um raio cruzou os céus atrás dele e somente pude ver a sua silhueta.

       — Eu sou o seu carrasco! Eu sou a morte, que veio tomar a sua vida hoje!

       Então, num gesto rápido, ele girou a espada e me atingiu no ombro. A princípio, senti somente cortar o tecido de minha camisa. Depois o local do corte começou a ficar vermelho e senti uma dor aguda no ombro esquerdo. Tinha sido ferido seriamente. Investi contra Random, tentando atingi-lo no estômago, mas ele se defendeu com a espada e acertou-me outro soco no rosto. Caí próximo ao professor. Um filete de sangue apareceu em meu rosto. Tentei me levantar rapidamente, mas não consegui sair do chão.

       O Capitão levantava os braços e incitava os homens, que gritavam alucinadamente.

       — Lute! Lute! Lute!

       O professor se abaixou e me segurou pela camisa.

       — David, olhe para mim! Não é uma aula de esgrima! Ele não respeitará as regras! É um guerreiro! Se quiser vencê-lo, terá que ser um também! Não existe segunda chance! Somente um sairá vivo daí e ninguém poderá ajudá-lo!

       — Ele é invencível. É mais forte. — balbuciei.

       — Tem que feri-lo! Se o ferir, terá uma chance. Ele não é de ferro! Ele não é um deus!

       Ouvi um forte trovão e a última frase do professor pareceu entrar diretamente em minha mente.

       — Ele é um homem!

       Levantei-me. Para receber um chute nas pernas e cair novamente. Olhei para aqueles homens, para meus amigos. Um   novo relâmpago apareceu bem a minha frente. Limpei o sangue de meu rosto com a manga da camisa e tornei a levantar. Tentei desferir outro golpe. Ele recuou. Segui tentando acertá-lo com a espada, até que ele conseguiu desferir um outro soco em meu rosto. Caí com os joelhos no chão. Recebi outro chute e tornei a cair pesadamente.

       Não conseguia respirar.

       Confesso que naquele momento eu pensei em morrer logo de uma vez, e acabar logo com aquilo. Mas havia uma voz dentro de mim que dizia: “Levante-se e lute. Lute com um leão”. Abri os olhos e vi meu oponente de costas para mim, incitando novamente a multidão.

       “Se for para morrer, que seja de uma vez”.

       Random se voltou para mim. Acho que estava sentindo prazer em me humilhar perante aqueles homens. Segurei o cabo da espada o mais firme que pude.

       — É a hora da verdade, doutor!

       Seus olhos traziam uma fúria ensandecida.

       — É hora de morrer!

       Eu não pronunciei uma única palavra. Nossas espadas se tocaram. Até que ele segurou meu punho e eu segurei o dele. Eu não resistiria muito tempo.

       Ele era mais forte.

       — Quer medir forças? — disse com um sorriso nos lábios.

       Eu pronunciei somente uma frase.

       — Vá para o inferno!

       Levei minha cabeça para trás e a joguei com toda a força para a frente, atingindo meu oponente no rosto. Random me largou e foi para trás, com as mãos em sua face. Quando as retirou o sangue escorria de seu nariz. Eu o havia quebrado. Os homens ficaram quietos por um momento. Somente se ouvia o barulho da chuva e os trovões que teimavam e surgir no céu. Eu respirava com dificuldade. Encarei-o de frente. Eu não sei explicar, mas quando eu vi o seu sangue, meu corpo parece que se fortaleceu. Meu oponente já não sorria mais.

       — Maldito! Está morto!

       — Irá comigo! — gritei.

       Random veio com toda a fúria, tentanto me atingir pela direita. Lembrei-me então de um golpe que Li havia me ensinado a bordo. Atirei-me no chão e rolei para o lado. Levantei-me atrás dele. Apesar da dor causada por aquele movimento, consegui desferir a espada e o atingir sua coxa direita. Um corte grande e profundo.

       O capitou urrou pela primeira vez de dor.

       O sangue escorreu pela sua calça. Começou a mancar. Olhou para os homens a sua volta. Com o ferimento, havia perdido a sua flexibilidade, vital para quem luta com espadas. Veio contra mim novamente. Defendi-me e desta vez fiz um corte em seu peito. Ele também me atingiu. Um filete vermelho brotou do lado direito de minha camisa. Era um corte grande, mas não era profundo. Não como o que havia feito. Random olhou para mim. Eu o encarei.

       Já não sorria mais.

       — Mate-o Capitão! Mate-o!

       Nós desferimos uma série de golpes um contra o outro. Mesmo com os ferimentos ainda tinha grande habilidade com a espada. Mas ele cometera um erro ao deixar sua guarda muito elevada. Talvez para proteger o ferimento no peito.

       Um erro fatal.

       Desferi a espada com toda a força que ainda tinha e atingi o tórax em cheio. Segurei a espada por alguns instantes. Encarei aquele homem nos olhos. Sua expressão era de perplexidade. Larguei a espada e recuei. Random deixou cair a sua. Um relâmpago iluminou a noite, parecendo comemorar o meu feito.

       O capitão caiu de joelhos, olhou-me fixamente e tentou retirar a espada que estava cravada em seu peito. Não conseguiu, e desabou para o lado. Morreu alguns instantes depois.

       O silêncio tomou conta do ambiente. Nem o Almirante Haloram muito menos qualquer de seus homens sabia o que fazer. Eu estava ferido, cansado, mas estava ali, vivo. E o que era mais importante:

       Eu havia vencido.

       — Morte a todos eles! — gritou um marinheiro.

       — Sim!

       — Morte!

       Os marinheiros levantaram suas pistolas e apontaram para mim e para os outros.

       — Não!

       Era o Capitão Dubolski. Havia se levantado. O Almirante Haloram o olhou fixamente.

       — Devemos respeitar o combate! A luta foi justa!

       — Mas era nosso capitão!

       — Eu sei! E era meu amigo também! Mas estes homens que estão aqui são soldados como nós! Devemos tratá-los como tal!

       Alguns homens concordaram. Outros queriam acabar conosco ali mesmo. Quanto a nós, não acreditávamos que um de seus oficiais tivesse tido a iniciativa de nos defender diante de tal situação.

       — E o que sugere? — perguntou o Almirante.

       — Que sejam tratados como homens respeitados. Não são bandidos, são marinheiros como nós. Sugiro, Almirante, que tenham um fim digno. Que sejam fuzilados ao amanhecer!

       Nova euforia se ouviu entre os homens.

       — Fuzilados?

       — Sim Almirante. Sua presença é totalmente desnecessária na ilha e serve somente para nos desviar de nossos objetivos verdadeiros. Devemos nos preocupar com o objetivo principal de nossa missão.

       — Dubolski tem razão, Haloram. A presença deles aqui na ilha é totalmente dispensável.

       Era o Conselheiro Magnus que acabara de falar. O Almirante pensou por mais alguns instantes.

       — Então que assim seja! Serão fuzilados ao amanhecer! Levem-nos daqui!

       O corpo do capitão Random foi levado pelos homens.

 

       Fomos encaminhados novamente para a casa-prisão. Apesar dos ferimentos, eu conseguia caminhar. O Capitão Dubolski pessoalmente nos escoltou para nossa cabana.

       O professor se aproximou.

       — Como você pode participar desta sanha de assassinos, Dubolski?

       — Eu sou um oficial. E estou a serviço de meu Reino.

       — Mas isso não é coisa de oficiais, homem! Essa trama irá trazer a desgraça para nosso Reino.

       O Capitão caminhava a passos decididos.

       — Eu, como você Július, fiz um juramento de cumprir e honrar as ordens a mim dirigidas. Você sabe disso melhor do que eu. Já foi um oficial. E já fez coisas horríveis, algumas talvez piores do que essa.

       O professor balançou a cabeça.

     — Sim, tem razão, mas eu jamais mataria o meu filho para honrar tais ordens!

       Dubolski, parou, agarrou Július pela camisa e o empurrou até que se chocasse junto a uma árvore.

       — O que está dizendo?

       Todos os outros guardas apontaram pistolas para nós.

       — Isso, pode me matar! Quem mata um filho, pode muito bem matar qualquer inimigo!

       As feições do Capitão estavam completamente alteradas.

       — Você está querendo salvar a sua maldita pele! Pois saiba que vou fuzilá-lo agora mesmo.

       E sacou sua pistola e colocou junto a cabeça do professor. Ele, por sua vez, parecia ter perdido o juízo.

       — Acabe logo com isso! Para que esperar até amanhã? Mate-nos agora! Mas isso não irá lhe trazer seu filho de volta!

       — Mas o que está dizendo é impossível de ter acontecido! Meu filho é capitão de um navio de nossa Marinha e está em missão diplomática bem longe daqui!

       Július o encarou.

       — É mentira! Nós encontramos o navio que seu filho comandava alguns dias antes de enfrentarmos o Vingador dos Mares! Eles foram mortos! Estão todos mortos! Eu reconheci o corpo de seu filho! Estava completamente desfigurado!

       — É mentira! Haloram jamais faria isso!

       — Ele disse que era um mal necessário!

       O Capitão balançou a cabeça.

       — Você quer salvar a sua vida, mas não vai conseguir!

       E olhou nos olhos de seu inimigo.

       — Ele está vivo, Július!

       Em seguida, ordenou:

       — Homens, levem-nos daqui!

 

       Os homens nos escoltaram até a prisão. Eu estava muito cansado. Me deitei no chão assim que passei pela porta. Apesar da discussão que havíamos presenciado há poucos instantes, os homens vieram me cumprimentar. Ouvi várias frases:

       — Muito bom, doutor.

       — O senhor luta muito bem.

       — Morreremos, mas o senhor matou aquele assassino.

       — Sebastian está vingado!

       Frases como essa eu ouvi por alguns instantes. Depois os homens tomaram conta do que os aguardaria na parte da manhã e silenciaram suas vozes.

       O professor se aproximou de mim.

       — Você Luta muito bem para um médico.

       — Obrigado.

       — Agora deixe-me ver estes ferimentos.

       Limpou os ferimentos com água fresca e amarrou fortemente com tiras feitas de um pedaço de pano.

       — Sabe, professor, achei que ia morrer. Fiquei com muita raiva do Capitão Random, de sua arrogância, de seu desprezo por nós.

       — Não se preocupe com isso. Já acabou. O que importa é que você está vivo.

       Kurchov se aproximou de nós.

       — Senhores, quero lhes dizer o quanto me orgulho de tê-los nesta viagem.

       — O prazer é meu. — disse o professor.

       — Meu também, Capitão. — respondi.

       — Amanhã, morreremos como homens! — gritou um marinheiro.

       Eu sentia muitas dores pelos ferimentos, mas o fato de possuir a certeza da data da morte não me agradava. Muito menos a frase heróica e conformista que um marinheiro acabara de pronunciar.

       Eu queria viver. E lutaria até o fim para que isso acontecesse.

 

       As horas passavam vagarosamente. Ninguém, apesar de estarmos todos deitados e quietos, conseguia dormir. Eu enchergava todos nós perfilados e em a nossa frente, um pelotão de fuzilamento. Ao lado, o Almirante Haloram dava ordens para dispararem. Quando as balas iam penetrar em meu corpo eu abria os olhos para ver a escuridão, que me acalmava. Se tentasse me mover, sentia os ferimentos. Agarrei, com a mão direita, a jóia que Caroline havia me dado. Voltei a fechar os olhos e passei a pensar nela. Podia vê-la sorrindo, com seus cabelos longos.

       Parecia um anjo.

       Foi quando ouviu um murmúrio junto à porta. Uma espécie de gemido. Então, ela se abriu e cinco homens entraram. Não traziam lampiões como os guardas que às vezes nos abordavam durante à noite.

       O Capitão Duboslki os liderava. Falava baixo.

       — Július.

       —Estou aqui, Dubolski.

       Ele se aproximou do capitão. Conversaram por alguns instantes. Juro que pareceram uma eternidade.

       O que será que estavam conversando? O que fazia o capitão aqui, a esta hora da madrugada?

       Observei, por uma tênue claridade, que os outros homens estavam de pistolas e espadas. Até que o professor se aproximou de nós.

       Estava claro que alguma coisa havia acontecido. A única hipótese em que pude pensar era que o Capitão não sabia que seu filho havia sido morto e que agora, de alguma forma, havia obtido esta confirmação.

       — Devemos segui-los em silêncio. Kurchov, diga para seus homens formarem um fila. Seguiremos o capitão Dubolski até um ponto afastado da praia.

       — Sim, professor.

       Alguns instantes depois, deixamos a casa-prisão e começamos a caminhar em direção à encosta. Dois homens carregaram os guardas para dentro da casa. Estavam mortos. Suas gargantas estavam cortadas. Depois, dois deles trancafiaram a porta e ficaram de sentinelas, aparentando uma situação de tranqüilidade.

       Caminhamos em silêncio até a encosta, por um caminho de pedras, que na escuridão, era muito difícil de percorrer.

       Eu não acreditava que estávamos sendo libertados.

       Os homens de Dubolski, e ele próprio, iam na frente, seguidos por Kurchov, pelo professor, por mim e pelos demais. Ao final do caminho, saímos num canto da praia bastante afastado da fortaleza.

       Havia dois botes grandes com mais quatros homens nos esperando. Corremos para eles.

       O capitão inimigo aproximou-se de nós.

       — Devem seguir para o Tufão. É o navio que comando. Trata-se daquelas duas luzes lá. Aquele do meio, mais iluminado, é o Vingador dos Mares. O outro, ancorado mais ao longe, é o Serpente. Não encontrarão nenhum homem a bordo, mas está com todos os canhões carregados e também tem espadas, pistolas e mosquetes. Július, veja uma coisa.

       O Capitão Dubolski se abaixou, pegou um pedaço de madeira e começou a riscar o chão.

       — A baía está aqui, e os navios aqui, aqui e aqui. O Tufão está entre o Serpente e o Vingador dos Mares. Recolha a âncora e passe rente ao Serpente, que está sobre o canal que leva para fora da ilha. Os homens que estarão no navio não entenderão muito bem a sua manobra. Faça fogo com os canhões para afundar, pois se conseguirem que o navio vá a pique, o Vingador dos Mares talvez não consiga sair em sua perseguição.

       Olhamos atônitos para o que acontecia. Dubolski já havia arquitetado todo um plano para nossa fuga. Eu estava tomado de alegria por estar tendo a chance de escapar.

       — Quando derem o primeiro disparo, ouvirão uma série de explosões aqui na fortaleza. Devem continuar, deixando que a corrente os leve a uma distância segura. Um vez longe dos rochedos, icem as velas e se afastem o mais rápido possível.    Levantou-se

       — Agora, devem partir imediatamente. É provável que encontrem um bote vindo para cá. São os meus homens que estavam a bordo do Tufão e que se juntarão a mim.

       O Capitão Kurchov ordenou e rapidamente metade dos homens subiu em um bote e instantes depois estavam a vencer as ondas em direção às pequenas luzes. Eu estava perto do professor quando ele conversou pela última vez com o Capitão Dubolski.

       — Tenho certeza que se vier conosco e com seus homens, Sua majestade lhes dará o perdão e asilo para que vivam em segredo em nosso reino. Terão proteção e ...

       — Não, Július. Sabe porque estou agindo assim. Preciso corrigir meus atos ... Nenhum dos meus homens irá com vocês, apesar de já estarem cientes do que os espera nesta ilha.

       — Professor. Doutor. Vamos!

       Era o Capitão Kurchov que pedia que subíssemos a bordo.

       — Adeus.

       — Adeus.

       Os dois velhos inimigos apertaram as mãos. Subimos rapidamente no bote e os marinheiros, com vigorosas remadas, começaram a nos afastar da praia. Fiquei, juntamente com o professor, observando o Capitão e seus homens.

       — Por que, professor? Por que nos ajudou desta maneira?

       — Porque, doutor, — disse sem retirar os olhos do capitão que estava na praia, — ele foi até o Vingador dos Mares e obteve a confirmação do que eu havia dito no diário de bordo. E havia umas anotações do próprio almirante Haloram para que ele não viesse a saber daquele fato. E em caso de sucesso em sua missão, ele jamais deveria regressar ao Reino.

       Aquela revelação soou como um estrondo em meu cérebro. Olhei para o Capitão Dubolski pela última vez. Estava em pé na praia, e continuava a nos olhar. Trazia em seu semblante uma grande tristeza.

       Finalmente nos sentamos no bote.

       A viagem até o navio pareceu um eternidade.

       De fato, passamos por um barco que seguia para a praia com cinco marinheiros a bordo. Nenhuma palavra foi trocada. Meia hora depois chegamos ao Tufão. Havia uma corda trançada em forma de rede. Rapidamente nos agarramos a mesma e subimos a bordo. Eu precisei de um pouco de ajuda, devido aos ferimentos que possuía.

       Kurchov ordenou uma rápida revista. Não havia ninguém a bordo. Os homens encontraram os canhões carregados e municiados. Também trouxeram do porão espadas, mosquetes e pistolas.

       — Não temos tempo. Içar âncora e vamos em direção do Serpente.

       Dois marinheiros apagaram os lampiões e a âncora foi recolhida.        Lentamente, o navio começou a se mover na direção de seu alvo. O Capitão estava no comando do leme. Não emitíamos nenhum ruído. Os homens prepararam as tochas, mas não as acenderam. Ficaram em prontidão junto aos canhões. Foram momentos de muita tensão, à medida que as luzes do navio ficavam mais próximas. Não havia ninguém no convés do Serpente.

 

       O soldado da torre de observação viu quando as luzes dos lampiões do navio se apagaram.

       — São uns idiotas! As luzes do Tufão se apagaram novamente.

       O outro sentinela se aproximou.

       — Vamos disparar um tipo de aviso como fizemos da outra vez.

       — E colocar todos em polvorosa! Depois da morte do Capitão, acho que o Almirante esfolaria aquele idiota que permitiu que elas se apagassem. Dentro de algumas horas vai clarear. Amanhã vou descobrir quem estava de vigia e exigir um bom pagamento.

       — Nós vamos exigir.

       — Sim, meu amigo. Vamos ter o que é nosso de direito.

 

       Era a sorte que talvez começasse a sorrir para nós. Estávamos todos sob grande tensão, mas até aquele momento tudo estava indo bem. Quando estavam quase emparelhados...

       — Agora! — gritou o Capitão.

       Os homens obedeceram as ordens de Kurchov e acenderam as tochas.

       — Para afundar! Fogo!

       Os canhões foram disparados quase que ao mesmo tempo. O navio estremeceu e a fumaça tomou conta do convés. O Serpente foi atingido violentamente na linha d’água e começou a afundar. Sete marinheiros surgiram no convés de mosquetes em punhos. O Almirante Dimitri estava com eles. Ouvi um disparo que partiu de nosso navio. O Almirante foi atingido em cheio no peito, caindo pesadamente para trás. Olhei para o lado e pude ver o cano que ainda fumegava.

       Só então o professor Július baixou a sua arma.

       Alguns de nossos homens portavam mosquetes. Fizeram fogo sobre os demais. Eram exímios atiradores e na primeira carga, todos foram atingidos. Alguns mortalmente, outros ficaram agonizando no chão. O Tufão entrou no canal.

       — Manter firme o leme! — gritou um marinheiro.

       Ouvimos a primeira explosão na ilha. Várias explosões pipocaram em diversos lugares do Forte. O fogo tomou conta de algumas instalações. As casamatas dos canhões explodiram quase que simultaneamente. Vários tiros de mosquetes foram ouvidos. Uma forte explosão aconteceu, seguida de outras menores. A torre expodiu e desabou sobre a praia. A baía se iluminou com os incêndios que se formaram.

       — Lá se vai o depósito de munições. — falou o Capitão com um sorriso.

       — Um golpe duro. — disse o professor.

       As explosões iluminavam a baía, mostrando o Serpente sendo engolido lentamente pelas águas.

       — Professor Július, acha que o Capitão Dubolski ...

       — Não, meu amigo. Tanto o seu destino quanto o de seus fiéis marinheiros acaba hoje, naquela ilha. Mesmo com a surpresa e o plano que arquitetara, acredito serem muito poucos para deter o almirante Haloram e seu pequeno exército. Devemos agora nos preocupar em sair o mais rápido possível daqui ilha e retornarmos para nosso reino.

       Aquela última frase fez meu coração se encher de alegria. Voltar para o nosso Reino, para minha amada Caroline. Como a nossa vida pode sofrer alterações de forma tão brusca. Hoje mesmo achei que nunca mais a veria, e agora estava rumando para casa.

       O navio entrou no meio da névoa e não se pôde mais enxergar os clarões na ilha. Apenas algumas explosões, que foram ficando cada vez mais fracas, até que somente o barulho do mar se fez ouvir.

       Nos dirigimos para mar aberto. Para a liberdade.

       Enfim, para a casa.

 

       Ninguém conseguiu dormir até amanhecer. Assim que o navio ultrapassou os recifes, as velas foram içadas e o mesmo seguimos firmes para o mar aberto. O vento não soprava com muita intensidade, mas nos afastávamos com certa rapidez da ilha da morte.

       Um nome escolhido adequadamente para aquele local.

       A névoa não estava tão densa. Um marinheiro foi para o ninho da gaivotas. Uma refeição rápida for servida aos homens. Podia-se ver o ar de alegria e de felicidade que havia tomado conta do que restara da tripulação do Tempestade. Estávamos rumando para casa. Meus pensamentos se voltavam para minha amada. Senti vontade de gritar ao saber que a veria.

       Observei o navio, o mar, as velas. Sentia-me leve. Os ferimentos doíam um pouco, mas não estavam infeccionados. Procurei pelo professor e o encontrei junto a amurada. Estava observando o mar. Tinha as mãos para trás, unidas. Que pensamentos se passavam na mente daquele homem?    Aproximei-me.

       — Acabou, professor.

       Ele me olhou por um instante e voltou-se para o mar.

       — Sim, doutor. Acabou. Nossa missão foi cumprida com êxito. Resta-nos agora seguir para nosso reino.

       Fez uma pausa. Acho que gostava de expressar suas idéias desta forma, aos poucos.

       — Mas, observando a história toda, posso-lhe assegurar, que em todos os meus anos como capitão, jamais participei de tal aventura. Já estive em muitos combates ferrenhos, de mais de uma guerra inclusive, mas uma história como a que fomos protagonistas, nunca.

       Eu apenas concordei.

       — Se o senhor diz, o que posso falar? Jamais passou pela minha mente que tal aventura pudesse ocorrer comigo.

       — As coisas são assim, meu jovem. Como o mar. Quando achamos que está tudo calmo, uma tempestade surge no horizonte. E quando nos encontramos no meio da mesma, e achamos que ela não irá mais passar, tudo se acalma de forma tão imprevisível como começou.

       — Isso é verdade.

       — Isso, meu amigo, é a vida.

       — O que o senhor pretende fazer agora?

       — Não sei ainda. Primeiro vou voltar para minha fazenda. Pretendo descansar um pouco. Depois, quem sabe? Não quero planejar o futuro, para não ser ...

       — Navio à vista! — gritou o marinheiro que estava no ninho das gaivotas.

       O Capitão Kurchov pegou uma luneta.

       — Onde? — gritou.

       — Vem pela popa, Capitão. As velas estão todas içadas.

       Kurchov observou por uns instantes. Eu e o professor nos aproximamos.

       — Olhe, professor. – disse ele.

       Július pegou a luneta e olhou na direção que o marinheiro apontava. Sua fisionomia mudou rapidamente.

       — Conseguem identificar o navio?

       — Sim, respondeu o professor sem tirar o aparelho dos olhos. Veja você mesmo.

       Peguei a luneta e observei por alguns instantes. Era um instrumento com uma precisão muito boa. A princípio só obervei uma névoa esbranquiçada. De repente, surgiu um grande navio com todas a velas içadas. Vinha em nossa direção. Pude ver um movimento intenso no convés. Havia um homem que também nos observava na proa.

       — Diabos!

       — É o Vingador dos Mares.

       Meu coração gelou com a declaração do professor. Olhei novamente e não tive dúvidas. Era ele mesmo. Não pude confirmar visualmente, mas o homem que nos observava só poderia ser o almirante Haloram.

       — Quanto tempo acha, Capitão?. — perguntou o professor — Eu estimo entre meia hora, quarenta minutos.

       — Também penso isso.

       — O que é esse tempo?

       — Esse tempo, doutor, — falou o capitão, — será o período que o navio levará para nos alcançar. Não conseguiremos fugir deles. São mais velozes. — disse com bastante segurança, pois conhecia muito bem a velocidade dos dois navios.

             — E do jeito que avançam, acho que não querem mais nos abordar como fantasmas.

       — E o que faremos? — perguntei.

       — Reuniremos os homens. — afirmou.

       O Capitão ordenou que todos se juntassem no convés. Depois, disse as seguintes palavras:

       — Homens, é chegada a hora da verdade! Daqui a meia hora, seremos abordados pelo maior e melhor navio de guerra jamais construído!

       Todos prestavam atenção no que o Capitão dizia. Ele era um líder nato.

       — Os homens que compõem sua tripulação, — continuou — estão bem treinados, alimentados e muito bem armados. Podemos alterar o nosso rumo e tentar por entre este nevoeiro, despistá-los. Ou, podemos continuar em nosso curso, e, esperar que nos alcancem, para então combatê-los. De nossa decisão pode estar o destino de uma das maiores guerras que irá ser travada pelo nosso reino. E disso devem saber para que possamos tomar uma decisão.

       Ele encarou todos os homens.

       — Quem opta pela primeira decisão, que levante a mão.

       Eu fiquei olhando os rostos dos marinheiros à medida que o Capitão falava. Observavam e ouviam atentamente o que ele dizia. Quando acabou de falar, um silêncio profundo, que pareceu uma eternidade, tomou conta do convés. Até que um dos marinheiros se aproximou do capitão.

       — Nós, e estou falando por todos, enfrentamos muitos perigos para chegarmos até aqui. Muitos dos nossos morreram para defender os nossos ideais. Não queremos fugir.

       Ele apontou para todos os homens.

       —Seguiremos o senhor até a morte, se for preciso. Queremos lutar!

       — Sim, queremos lutar!

       Os gritos de luta invadiram o convés.

       O Capitão olhou para o professor, que fez um sinal positivo com a cabeça. Eu também acenei da mesma forma.

       — Então está decidido, lutaremos.

      O Capitão Kurchov ordenou que os canhões fossem rearmados. Que pistolas e mosquetes fossem dispostos pelo convés. Espadas foram dadas para cada homem. Eu recebi uma pistola e uma espada. Até mesmo eu participei do carregamento dos canhões pois não tínhamos homens suficientes para tal tarefa.

       As previsões do professor e do Capitão se concretizaram. Depois de meia hora, o grande navio de guerra já podia ser visto com detalhes. Vinha até nós para um ataque fulminante, não restava a menor dúvida.

       Os homens estavam próximos aos canhões, segurando tochas nas mãos. Esperavam apenas a ordem do capitão, para dispararem.

       — Timoneiro, virar a estibordo! — ordenou com segurança.

       O navio começou a fazer uma curva. O Vingador já estava ao alcance dos canhões. Eu confesso que estava muito nervoso. Nunca havia participado de uma batalha com aquela. Ainda mais naquelas circunstâncias. Já o professor tinha a feição de que já havia participado de vários combates. Mas, observando os dois navios, era uma luta entre Davi e Golias.

       — Atenção! Preparar!

       O Capitão esperou por alguns instantes, para que o navio se aproximasse um pouco mais. Desejava que a primeira carga fizesse um grande estrago na embarcação inimiga, pois sabia do tempo que levaria para recarregarmos os canhões.

       O observei o grande navio ao nosso lado. Homens corriam de um lado para outro. Outros gritavam ordens de prontidão. Eles tambéms estavam se preparando.

       Até mesmo o mar parecia ter se acalmado, com se também quisesse assistir ao combate.

       — Fogo! — gritou.

       “Que Deus nos proteja”, pensei.

       Vários estrondos se ouviram. O navio estremeceu. Alguns disparos atingiram a água, outros acertaram as velas. Dois canhonaços atingiram a proa do navio, levantando pedaços de madeira, matando três e ferindo outros dois marinheiros. Outros três disparos atingiram a lateral do navio, mas bem acima da linha da água. Agora, era o Vingador dos Mares que manobrava para disparar.

       — Recarregar, homens! Vamos!

       Eu e o professor ajudamos a recarregar um canhão. Parei por um instante e observei o navio inimigo. Estávamos emparelhados. Vi vários homens com tochas nas mãos. Também reconheci dois homens muito próximos um do outro. Um deles era o Almirante Haloram, que gritava ordens para seus comandados. O outro era Magnus, o Conselheiro Real. Os navios estavam a uma distância de oitenta metros um do outro. Todas as escotilhas que guardavam os canhões eram abertas sistematicamente. A primeira coisa que vi foi a fumaça saindo das bocas das armas inimigas.

       Só depois, ouvi os estrondos.

       Os canhonaços atingiram nosso navio em cheio. Um dos mastros foi atingido na base. As cordas do velame não aguentaram o peso, se romperam e ele desabou, parte sobre o convés, parte na água. A popa fora bastante atingida. Pedaços de madeira voavam para todos os lados. Um marinheiro foi atingido em cheio e caiu no mar, sem emitir qualquer ruído. O castelo da popa foi atingido em cheio. Pedaços de madeiras voavam para todos os lados. Vi sete corpos no convés. Haviam morrido com o impacto dos disparos.

       Um disparo atingiu o topo do mastro principal, quebrando-o no meio. Olhei para cima e vi tudo vindo em minha direção. Saltei sobre o professor e caímos para o lado, bem a tempo, pois parte do mastro caiu onde estávamos. Outro marinheiro que estava próximo não teve a mesma chance. Era incrível o poder de fogo daquela embarcação. Em apenas uma salva de tiros, havia destruído o nosso convés e os mastros.

       O caos havia se instalado no nosso navio.

       — Fogo à vontade, homens! — gritou o Capitão Kurchov.

       — Vamos, doutor.

       O professor se levantou, pegou uma tocha e se dirigiu para um dos canhões que haviam sido carregados. Colocou a chama sobre o estopim e o mesmo disparou, recuando violentamente para trás. Uma explosão ocorreu no convés do navio inimigo. Vi três marinheiros voarem com bonecos de pano. Mais outros três disparos foram feitos pelo nosso navio, mas sem danificar seriamente o Vingador dos Mares. A sua madeira era muito resistente. Os nossos inimigos, em maior número, já haviam carregado novamente as suas armas e aguardavam a ordem do Almirante Haloram.

       — Protejam-se! — gritou Kurchov.

       O professor saiu de perto do canhão e se abrigou atrás do mastro caído.

       O navio fez fogo novamente. Todos os disparos foram dirigidos para convés. Tudo começou a explodir a minha volta. Senti uma picada aguda na perna. Olhei e pude ver um pedaço de madeira cravado nela. Segurei-o com a mão direita e puxei com força. Ele saiu, e o sangue também. Explosões aconteciam em diversos lugares. Havia fogo em algumas partes do navio, como também muita fumaça. Os convés estava completamente destruído. Não sabia dizer quantos de nós ainda estávamos vivos. Levantei a cabeça e aos poucos fomos surgindo dos escombros. Consegui reconhecer por entre a fumaça e os escombros, o professor, o Capitão, Li, Ezra e outros cinco marinheiros. Olhei para o convés do navio inimigo. Vários deles estavam na amurada com mosquetes. Vi quando o Almirante Haloram baixou a mão direita. Vi a fumaça saindo dos mosquetes e me abaixei novamente. Eles já consideravam o nosso navio destruído, por isso ordenara que os homens preparassem os mosquetes.

       “Já estamos mortos” pensei.

       Uma chuva de projéteis atingiu o convés. Vi os cinco marinheiros caírem no chão. Um deles era o timoneiro. Não estava morto. Então, o Capitão Kurchov correu em sua direção, na tentativa de conseguir retirá-lo de onde estava.

       Ezra e Li apareceram. Cada um tinha um mosquete nas mãos. Fizeram pontaria e dispararam. Dois marinheiros foram mortalmente atingidos. Peguei minha pistola e fiz pontaria. Mirei em um marinheiro que apontava um mosquete. Atirei e vi que o disparo atingiu seu peito em cheio atirando-o para trás.

       — Belo tiro, doutor. — disse o professor Július disparando sua pistola.

       Outro marinheiro caiu no convés.

       O Capitão segurava o marinheiro pelos braços. Tentava arrastá-lo para trás de uma parte do mastro principal. O timoneiro tinha uma grande mancha vermelha no peito.

       Foi quando dois disparos atingiram o seu peito, bem acima do primeiro ferimento. Um deles acertou o coração em cheio, pondo fim a sua vida. O marinheiro não emitiu um único grito, apenas sua cabeça tombou para o lado.

       — Canalhas! — gritou o Capitão.

       Então, ele foi atingido no peito e caiu no convés.

       Não me preocupei com os disparos. Corri na sua direção. Sua mão, ensangüentada tentava estancar o ferimento. Ele olhou para mim. Sua respiração estava ofegante. Eu me abaixei e segurei-o nos braços. Ele tentava me dizer algo, mas apenas emitiu um grunhido.

       Um filete de sangue começou a escorrer do canto de sua boca.

       Sem uma palavra, o Capitão mais valente que conheci morreu em meus braços.

       Olhei a minha volta. Novos disparos foram feitos. Ezra foi atingido e caiu. O professor, que estava na amurada, segurando um mosquete, recebeu um projétil no ombro e um de raspão na perna, vindo a cair no convés. Então me levantei, peguei a pistola do capitão. Me dirigi para a amurada, que estava semi destruída.

       Li juntou-se a mim.

       — Miseráveis! — gritei com toda a minha força.

       Fizemos pontaria quase ao mesmo tempo. Mais dois marinheiro caíram do outro lado, mortalmente feridos. Vi vários mosquetes sendo apontados para mim e para Li. Fechei os olhos. Esperei pelos tiros. Alguns instantes que pareciam uma eternidade.

       “Espero que eu não sinta muita dor”, pensei.

       Alguns momentos se passaram e nenhum disparo havia sido feito. Abri os olhos. Os homens do Vingador dos Mares estavam paralizados. Seguravam os mosquetes e olhavam para a proa do Tufão. Eu não conseguia compreender porque não tinham disparado. Juntamente com Li, olhamos também.

       Sou um médico e sei que isto é impossível, mas tenho quase certeza que naquele instante, meu coração parou.

       Um navio acabava de surgir do meio do nevoeiro. Iria passar bem no meio dos dois navios.

       Só que não era um navio comum.

       Ele não fazia qualquer barulho, apesar das velas estarem totalmente infladas, no sentido contrário ao da brisa que estava soprando. Era um enorme navio, exatamente do mesmo tamanho que o do inimigo. A cor do casco, as quantidades de linhas de canhões.

       Era exatamente igual.

       Outro detalhe era a água do mar, que parecia se abrir sem qualquer oposição a sua passagem, nem mesmo a característica espuma que o casco faz ao romper as ondas. Nem um único som.

       Nada.

       O professor se levantou e juntou-se a nós. Tinha nas mãos uma luneta. Havia vários homens no convés do navio. Estavam todos parados, inertes, parecendo estátuas. Todos trajavam uniforme especial e tinham espadas presas às cinturas.

       Todos estavam voltados para o navio inimigo.

       — Meu Deus! — disse o professor.

       Era impossível acreditar. O navio que acabara de aparecer era o Vingador dos Mares. Não uma cópia, mas o verdadeiro.

       Fiquei ali parado, observando o navio passar por nós, como já descrevi, sem emitir qualquer som. Até mesmo o mar parecia ter se acalmado para receber sua passagem.

       O professor colocou lentamente a luneta em seu olho esquerdo e neste momento, uma figura que estava no castelo da popa, próxima ao timoneiro, onde um capitão de navio costuma ficar, como que percebendo naquele exato momento que o estávamos observando, virou-se e olhou para o professor. Aquele homem era o capitão do navio, não havia a menor dúvida. Era dificil distinguir seu rosto a olho nu, mas o professor viu claramente pela luneta. Isso eu posso garantir. Em seguida, ele voltou-se para o navio inimigo. Então, retirou vagarosamente a luneta de seus olhos sem dizer uma única palavra.

       Assim que ele passou por nós, pude ver um rombo no casco, bem na linha d’água, localizado na parte traseira da embarcação. Mas o mais incrível era que água não entrava no seu interior. Ela era impedida por uma força invisível.

       Não sei dizer por quanto tempo durou aquela travessia extraordinária e sobrenatural, mas da mesma maneira que ele surgiu, desapareceu assim que passou pelos dois navios. A mim, pareceu que ele foi sumindo aos poucos, mas não posso afirmar com certeza.

       Ele desapapareceu em meio a névoa.

       Os homens do navio inimigo estavam perplexos. O navio tinha passado mais próximo deles do que de nós. Os marinheiros estavam todos voltados para ele, como se quisessem que somente eles os vissem. Pareciam todos congelados.

       O almirante Haloram, de repente, começou a gritar e a dar ordens. Os homens, novamente voltaram a apontar seus mosquetes para nós. Ezra se levantou. Mas ao invés de ouvir tiros de mosquetes, ouvi um tiro de canhão, depois outro, e vários outros se seguiram. Uma seqüência contínua de disparos.

       A névoa foi se dissipando e mostrou três navios fazendo fogo contra o navio inimigo. Eram do mesmo porte do Tufão, mas sua construcão era um pouco diferente. A principal característica era o formato da proa, que indicava serem bem mais leves e portanto deveriam ser mais ágeis.

       — Professor! — falou Li. São os Falcões.

       Os Falcões para mim não passavam de uma lenda. Eram três navios piratas extremamente velozes e que pilhavam os navios mercantes. Muito se comentava sobre eles nos portos, de suas proezas e de suas audaciosas escapadas. Mas muitos, inclusive eu, acreditavam que tudo não passava de uma lenda.

       Mas agora ...

       A situação havia mudado para o navio inimigo. Os três navios haviam cercado o mesmo e faziam disparos um de cada vez, fazendo dessa forma, um fogo ininterrupto. Os disparos eram precisos e o atingiam em vários lugares. O convés pipocava de explosões. Homens eram atirados para todos os lados. Gritos de pavor ecoavam em várias direções. O Almirante Haloram dava ordens, mas o pânico havia tomado conta dos homens. Alguns se atiravam na água, onde os tubarões os esperavam com destino certo.

       Eu podia ouvir os gritos clamando piedade, mas confesso que não tinha qualquer compaixão por aqueles homens.

       Poucos disparos foram feitos em resposta, mas sequer causaram algum dano sério nos navios piratas. Uma série de disparos feitos na linha d’água e o Vingador dos Mares começou a afundar. Vários tiros de mosquetes começaram a ser disparados contra o navio. Vi, primeiramente o Conselheiro Magnus, que procurava proteção, ser atingido por um, dois, três, quatro disparos, antes de cair fulminado aos pés do almirante Haloram. Este, por sua vez, olhou a sua volta.

       O seu plano fracassara.

       Recebeu um disparo no ombro, dois no peito e caiu no convés, para morrer instantes depois. O poderoso Vingador dos Mares foi castigado por mais de quinze minutos, até que, pelos inúmeros rombos no casco, afundou em meio a explosões e gritos de desespero dos sobreviventes.

       Vários destroços ficaram boiando e com eles alguns corpos, que aos poucos iam desaparecendo com os ataques dos tubarões.

       Ficamos ali parados, sem dizer uma palavra. Os navios se aproximaram do nosso. Vi um bote baixar de um deles. Alguns homens vieram até nossa embarcação e informaram que deveríamos segui-los. O professor, Ezra e Li desceram com eles.

       Olhei pela última vez para o convés e vi os corpos de nossos companheiros.

       Haviam lutado bravamente e posso jurar que sua luta não fora em vão. Mesmo com nosso destino incerto, nós tínhamos vencido o nosso inimigo. Sem olhar novamente para trás, desci até o bote. O professor tentou argumentar com os piratas, mas foi em vão. Não disseram uma única palavra.

       Enquanto nos aproximávamos do navio, dois outros botes saíram das outras duas embarcações, e rumavam para o mesmo destino. Um dos navios piratas fez fogo contra o Tufão, que também começou a afundar.

       Já no convés, fomos recebidos pelo capitão. Era uma homem alto, de cabelos grisalhos, vestindo roupas finas e botas pretas. Tinha uma bonita pistola presa à cintura.

       — Capitão Július. Bem-vindo a bordo do Audaz. Sou o Capitão Antonian. Não nos conhecemos pessoalmente, mas sua fama nos mares é muito grande e seus feitos são uma lenda entre nós. Estes outros que se aproximam são o Capitão Rostov, do Valente e o capitão Gustav, do Terror dos Mares.

       As duas outras figuras que chegaram a bordo dos outros escaleres eram os capitães dos outros navios. Eram também figuras dignas de seus postos. Também vestiam roupas finas. Um deles tinha um lenço negro na cabeça e um brinco de ouro de forma circular na orelha. O outro, de nome Rostov, devia ter a idade aproximada do professor Július. Usava um chapeú com plumas vermelhas. Retirou-o da cabeça para nos cumprimentar.

       — Bem, Capitão Antonian. Eu, juntamente com esses homens, estamos muito gratos pela ajuda contra esse inimigo de nosso Reino.

       — Sim, Capitão, mas este não é um inimigo somente de seu reino, mas nosso também.

       — Seu? Como assim?

       — Por causa dele perdi grandes companheiros, e não há mais nenhum navio mercante nesta região já há bastante tempo. Sem navios para pilhar, nossas vidas e a dos meus falcões perde o sentido. Estamos há tempos planejando esse ataque, mas era um navio muito poderoso e somente agora pudemos surpreendê-lo e finalmente por fim a esses mercenários que se apoderaram de nossos mares.

       O professor sorriu.

       — Sim, sua intervenção e a de seus homens nos livrou da morte certa. Mas quero saber que destino nos espera a bordo de sua embarcação.

       O capitão soltou uma gargalhada.

       — Não somos assassinos, meu bom amigo. E desejamos que vocês retornem a seu Reino em segurança e vamos providenciar isso. Mas tenho uma proposta para lhe fazer.

       — Que proposta?

       — Uma coisa de cada vez.

       O Capitão deu algumas ordens. Fomos levados para uma cabine. Tomamos um banho e tivemos nossos ferimentos tratados. Fizemos a barba e nos foi servido uma farta refeição. Depois, fomos acomodados em pequenas camas e dormimos por um longo período.

       Eu não podia acreditar nos últimos acontecimentos. Não compreendia a visão do navio fantasma. O verdadeiro. Nem mesmo o aparecimento dos navios piratas. Estava era muito feliz pela possibilidade de poder retornar para o Reino. Mas eu não poderia compreender qual era a proposta que o capitão pirata iria fazer para o professor.

       Os dias a bordo daquela embarcação foram os mais tranqüilos possíveis. Conversei com a tripulação. Eram guerreiros do mar, homens rudes, mas eram alegres e sinceros. Amavam a luta, que segundo eles, estava no seu sangue. Meus ferimentos melhoravam dia a dia. O professor me contou que não mencionou aos capitães sobre o plano do Almirante Haloram de causar uma guerra com o ataque ao navio do príncipe. Para ele, os capitães não tinham necessidade de conhecer este detalhe da história.

       — Mas e a tal proposta?

       — Ele sabe que tenho contato direto com Sua Majestade. Ele me entregou um documento. Quer que eu o entregue ao rei. Eles querem que o Reino faça vista grossa para algumas atividades de contrabando e a utilização de uma certa ilha de difícil acesso, localizada em um certo arquipélago, como posto de abastecimento para os seus navios. Em troca, pagariam um percentual das negociações.

       — E o que o senhor respondeu?

       — Quer faria todo o possível para que Sua Majestade aceitasse o documento.

 

       O Capitão Antonian nos levou para uma ilha, onde a cada duas semanas um navio do Reino parava para se abastecer de água potável. Li e Ezra haviam decidido ficar com os piratas. O professor não fez qualquer objeção e despediu-se deles com dois grandes sentimentos: emoção e tristeza. Eu também fiquei triste ao ver meus companheiros de aventura partirem. O bote nos levou até a praia e ficamos ali observando a partida dos três navios. Era uma linda tarde de sol. O céu estava claro e azul, assim como o mar.

       — São homens de grande valor. — disse para o professor.

       — Sim, doutor. Daqueles que Deus faz e joga a receita fora.

       Fomos deixados na ilha com víveres e armas. Construímos uma cabana na beira da praia e, exatamente uma semana depois, um navio de guerra apareceu para reabastecer-se com água potável. Fomos recebidos com grande festa pela tripulação. O Capitão ordenou que retornássemos imediatamente para o forte Rochedo.

       Tanto eu como o professor sabíamos que esta história ainda não tinha acabado.

 

       Assim que chegamos ao Forte, o professor se separou de mim. Não sem antes termos esta conversa:

       — Doutor, rogo-lhe que não comente esses acontecimentos com ninguém. Para todos os fins, lutamos contra um grande navio pirata que se fazia passar pelo Vingador dos Mares. Qualquer outra história não poderá ser mencionada. E o mais importante: o senhor nunca esteve a bordo do Tempestade.

       — Mas por quê?

       — Para lhe proteger, meu amigo. Esta história ainda não está acabada.

       — Mas e o senhor? Ficará sem segurança?

       — Não se preocupe comigo. Eu já estou sob proteção de homens leais a Sua Majestade.

       — Está bem, professor. Farei como me pede.

       — Sei que fará. Agora, devo partir, meu amigo. Quero dizer-lhe que o estimo muito. Como a um filho.

       — E o senhor, eu prezo como a um pai.

       Apertei forte sua mão e dei um grande abraço naquele homem. Vi-o entrando em uma carruagem que saiu a todo galope para fora do Forte. Achei, naquele momento, que seria a última vez que veria aquele homem.

       Eu estava errado.

            

       Caroline caminhou lentamente até a beira do precipício. Fazia isso todas as tardes. Olhou para o abismo. Lá embaixo, as ondas do mar castigavam as rochas.

       Observou para o horizonte. Seus cabelos esvoaçavam ao vento que soprava forte. Seu vestido também balançava de um lado para o outro.

       O sol começava a cair em direção ao enorme oceano. Era um lugar muito bonito. Ela sempre vinha ali com David fazer piquenique. Não se conformava com a perda de seu grande amor. A vida sem ele não fazia sentido.

       Respirou fundo e olhou para o horizonte. Uma lágrima desceu de seu rosto. Foi quando ela teve um pressentimento. Era como se algo, uma força fizesse com que ela olhasse para trás. Ela baixou a cabeça, e lentamente, virou-se e viu um homem atrás dela. Levantou os olhos devagar. Ele Vestia botas da marinha, uma calça de soldado e uma camisa de linho branca. Os cabelos eram loiros e estavam compridos, e esvoaçavam como os seus. Ela, primeiramente, foi tomanda de um grande espanto, depois foi sorrindo lentamente. Colocou a mão esquerda nos lábios que tremiam e balançou a cabeça.

       Caroline, soube, ela sempre soube, que ele voltaria.

       David levantou os braços e ela correu em sua direção. Ele a girou no ar. Em seguida, colocou as mãos em seu rosto.

       — Eu sempre soube, eu disse para meu pai. Eu disse que...         

       — Shhhh. — ele colocou os dedos em seus lábios.

       Ela ficou em silêncio. 

       — Eu a amo, Caroline.

       — Eu também o amo.

       — Quer se casar comigo?

       Ela sorriu. Ele lhe enxugou as lágrimas.

       — É o que mais quero na vida.

       E trocaram um longo beijo. E se amaram todo o resto da tarde naquele lindo local, tendo apenas o oceano como testemunha.

 

       Retomei minhas atividades, mas não sem antes marcar a data do casamento com Caroline. A cerimônia foi realizada exatamente um mês depois de meu retorno e fomos morar em cima de meu consultório médico.

      

       Era uma bela manhã, quando, junto com minha esposa, digiri-me para o terreno onde estavam construindo a minha casa. De dentro da carruagem, carreguei uma muda de uma árvore bem frondosa de nossa flora local e a plantei nos fundos, onde prentendia fazer um belo jardim.

       Depois de plantá-la e regá-la, fiquei observando-a por alguns momentos. Em seguida, olhei a minha volta.

       Era um bonito local.

       Fiquei observando novamente a jovem árvore que havia acabado de plantar. Sua sombra acabaria sendo um belo local para namorar. De ter os cabelos acariciados e de se fazer amor com a pessoa amada.

       — Vou fazer o que prometi, meu bom amigo. — disse lembrando-me da conversa que havia tido com Sebastian.

 

       Acompanhei pelos jornais todos os esclarecimentos do professor. Recebera uma grande homenagem do rei, e também o título de nobreza mais elevado concedido a um homem. Aos poucos, o comércio de navios foi retornando ao normal e a vida voltou a seguir um rumo tranqüilo.

       Eu trabalhava em meu consultório e Caroline trabalhava na escola das freiras, cuidando de crianças. Levávamos uma vida normal.

       Seis meses depois de meu casamento, estava trabalhando em meu consultório quando uma carruagem parou a minha porta e dois homens desceram. Vestiam-se muito bem.

       — Doutor David?

       — Sim, respondi.

       — Gostaríamos que o senhor nos acompanhasse. Uma pessoa quer vê-lo.

       — E quem seria essa pessoa?

       — Ela pediu somente que o senhor nos acompanhasse.

       Achei um tanto estranho aquele convite, mas tive um palpite sobre quem seria essa pessoa misteriosa. Deixei meu assistente tomando conta e segui com eles. A carruagem seguiu por toda a orla e subiu para o mirante, um lugar bonito, que permite uma belíssima visão do mar e da cidade. Já havia feito alguns piqueniques com minha esposa ali. Era coberto de uma grama verde, com algumas árvores frondosas. Acabava dando em um penhasco, sob o qual o mar batia suas ondas ruidosamente. Havia uma outra carruagem parada lá.

       Desci e vi um homem observando o mar. Tinha as mãos para trás. Era o professor Július. Meu palpite estava correto. Aproximei-me dele.

       — Professor.

       — Doutor David.

       Apertamos firmemente as mãos.

       — Vejo que está muito bem de saúde. E quero parabenizá-lo por teu casamento com Caroline.

       — O senhor soube?

       — Soube? Eu estive lá. Só que preferi não me identificar. Mas foi uma cerimônia muito bonita.

       — Por que o senhor diz isso? Porque não quis aparecer?

       O professor colocou a mão em meu ombro. Começamos a caminhar lado a lado.

       — Porque, depois que deixei o Forte, fui ter com o rei e relatei os verdadeiros fatos de nossa missão. Contei a ele toda a verdade, todos os acontecimentos. Descobrimos nos pertences do Conselheiro Magnus e do Almirante Dimitri, documentos comprovando os seus envolvimentos e o de   várias pessoas, que, felizmente estão todas presas. Mas o Rei, desejando minha segurança, preferiu que eu me mantivesse em segredo. Ninguém, além dele conhece meu paradeiro. Apenas algumas pessoas de confiança sabem onde estou. Como aqueles dois ali.

       Olhei para o lado e vi Ezra e Li. Estavam junto à carroça. Acenaram para mim e retribui o aceno.

       — Eles preferiram voltar e estão como meus guarda­-costas. Os outros homens são de extrema confiança do Rei.

       — Fico contente em saber que o senhor está bem.

       — Eu também, mas manter-se no anonimato tem seus inconvenientes. Mas, isso não vem ao caso agora. Gostaria que soubesse o desfecho desta aventura, tendo em vista que também a protagonizou.

       — Sim, gostaria de saber.

       — Uma esquadra, sob o comando de um de nossos melhores almirantes rumou para a ilha da morte e somente encontrou os destroços do Forte. Havia vários corpos pela praia.

       — Provavelmente pela combate com os homens do Capitão Dubolski.

       — Sim, e ao que tudo indicou, todos os sobreviventes estavam a bordo do Vingador dos Mares.

       — E quanto ao príncipe?

       — Ele foi escoltado até seu encontro com o Rei, que assinaram um acordo de paz e de comércio que muitos benefícios trará para nosso Reino.

       — O Rei falou algo sobre o plano do almirante Haloram?

       — Não. Nada foi comentado. Sua Majestade não quer uma guerra.

       — E os falcões?

       — Bom, — disse o professor com um sorriso sarcástico — , digamos que agora os falcões têm um ninho.

       Eu sorri para ele.

       — Fico contente que tudo tenha se resolvido, professor.

       — O Rei também. E pediu-me que entregasse isto para o senhor.

       O professou tirou do casaco um estojo fino, de madeira. Era todo trabalhado. Eu o abri e dentro havia várias pedras preciosas. Diamantes, rubis, esmeraldas, safiras ...

       Uma verdadeira fortuna.

       Ele me encarou seriamente.

       — O Rei não pôde homenageá-lo, por que, como eu, teme por sua segurança e a de sua família. Mas quer que aceite isso como recompensa por seus atos.

       — Não sei o que dizer quanto a isso professor.

       — Então não diga, apenas aceite.

       — Está bem.

       Parei por um instante e olhei o mar. Estava calmo, com ondas pequenas. A brisa trazia seu cheiro de aventura. Olhei o horizonte infinito. Havia apenas um veleiro rumando para o sul.

       — Mas... eu ... eu gostaria de lhe perguntar um coisa.

       O professor me olhou.

       — Eu sei o que o senhor irá me perguntar.

       — O que o senhor viu através daquela luneta, professor? Com aquele aparelho o senhor foi o único que viu o navio bem de perto, além dos homens comandados pelo almirante Haloram. Como era o navio? Seu convés? Quem era o homem que se virou e encarou o senhor? Como era seu rosto?

       O professor fitou-me por alguns instantes.

       — Acho, doutor, que existem certas coisas, certos fatos, que ainda não temos e não sei se chegaremos a ter a compreensão do que realmente são. Se são frutos de nossa imaginação ou se fazem parte de algo maior, de algo que nos cerca e controla nossas vidas. O que vi não importa, porque não mudei meu pensamento acerca do que acredito, do que tenho fé. E é isso que importa. E penso que é o que deve importar para o senhor também.

       — Sim. O senhor tem razão.

       — Agora, meu amigo, tenho que me despedir. Vou com eles para uma fazenda no interior do reino. Quero, assim como Ezra e Li, ter uma vida calma. Ninguém me encontrará lá.

       — Então não verei mais o senhor?

       — Creio que não, meu jovem. Mas eu o terei sempre vivo em meus pensamentos.

       — E eu sempre terei muita admiração pelo Senhor.

       Despedi-me de Li e Ezra e apertei sua mão pela última vez. Fiquei olhando-os entrarem na carruagem. Vagarosamente, ela foi se afastando. Fiquei ali parado, depois olhei o mar, entrei na carruagem e voltei para casa.

 

       Como o professor havia dito, nunca mais ouvi falar dele ou de Li ou mesmo Ezra. A minha vida seguiu tranqüila. Tive três filhos. E hoje, somos uma família muito feliz. Quanto ao estojo de madeira, o tenho guardado em um lugar seguro.

 

       Às vezes, chega até o porto a história de um navio grande, com as velas infladas, mesmo sem ter um única brisa, que aparece e desaparece no meio de um nevoeiro no arquipélago de Luger. Um navio silencioso, grande e imponente, que navega sem deixar rastros na água. Quando me perguntam o que acho dessa história, respondo sempre a mesma frase:

       — Estas coisas não existem.

 

                                                                               Alexandre de Bittencourt 

 

 

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