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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS FILHOS DE HURIN / J. R. R. Tolkien
OS FILHOS DE HURIN / J. R. R. Tolkien

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

É inegável que há um grande número de leitores de O Senhor dos Anéis para quem as lendas dos Tempos Antigos (como anteriormente editadas sob várias formas em O Silmarillion, Contos Inacabados e The History of Middle-earth) são totalmente desconhecidas, a não ser pela fama de estranhas e inacessíveis em forma e estilo. Por esse motivo, há muito me tem parecido existir uma boa justificação para apresentar a versão extensa da lenda de Os Filhos de Húrin de meu pai como obra independente, entre as suas próprias páginas, com um mínimo de presença editorial e, sobretudo, numa narrativa contínua, sem hiatos ou interrupções, se tal pudesse ser feito sem distorção ou invenção, apesar do estado inacabado em que ele deixou algumas partes da narrativa.

Pareceu-me que se a narrativa do destino de Túrin e Niënor, os filhos de Húrin e Morwen, pudesse ser apresentada desta maneira, se abriria, porventura, uma janela para um cenário e uma história situados numa desconhecida Terra Média que são intensos e imediatos, apesar de concebidos como oriundos de eras remotas: as terras inundadas do ocidente, para lá das Montanhas Azuis, onde Barbárvore caminhou na juventude, e a vida de Túrin Turambar em Dor-lómin, Doriath, Nargothrond e na Floresta de Brethil.

Este livro é, pois, essencialmente destinado aos leitores que talvez ainda se lembrem de que a pele de Shelob era tão horrendamente dura que não podia ser trespassada por qualquer «força de homens», nem «que elfo ou anão forjassem o aço da espada ou a mão de Beren ou Túrin a empunhasse», ou de que Elrond mencionou Túrin a Frodo, em Rivendell, como «um dos poderosos amigos dos Elfos de antigamente», mas que nada mais sabem dele.

Quando o meu pai era jovem, durante os anos da Primeira Guerra Mundial e muito antes de haver indício das histórias que haveriam de constituir a narrativa de O Hobbit ou O Senhor dos Anéis, começou a escrever uma série de contos a que chamou The Book of Lost Tales. Essa foi a sua primeira obra de literatura imaginativa, e de vulto, pois, embora tivesse ficado inacabada, catorze contos estão completos. Foi em The Book of Lost Tales que apareceram pela primeira vez numa narrativa os Deuses, ou Valar; Elfos e Homens como Filhos de Ilúvatar (o Criador); Melkor-Morgoth, o grande inimigo; Balrogs e Orcs; e as terras em que os Contos decorrem, Valinor, «terra dos Deuses», para lá do oceano ocidental, e as «Grandes Terras» (depois chamadas «Terra Média», entre os mares de leste e oeste).

Entre os Lost Tales, três eram de muito maior extensão e amplitude, e todos os três se relacionam com Homens como com Elfos: são eles The Tale of Tinúviel (que aparece em forma reduzida em O Senhor dos Anéis como a história de Beren e Lúthien que Aragorn contou aos hobbits no Cume do Tempo, e que meu pai escreveu em 1917); Turambar and the Foalókë (Túrin Turambar e o Dragão, com certeza já existente em 1919, se não antes), e The Fall of Gondolin (1916-17). Numa passagem freqüentemente citada de uma longa carta descrevendo a sua obra, escrita em 1951, três anos antes da publicação de A Irmandade do Anel, meu pai falou da sua ambição inicial: «há muito, muito tempo (a minha crista já baixou, desde aí), era minha intenção criar um corpus de lendas mais ou menos relacionadas, indo do grande e cosmogônico até ao nível do conto de fadas romântico — as maiores baseadas nas menores em contado com a Terra, as menores indo buscar o esplendor aos vastos panos de fundo [...] traçaria alguns dos contos maiores em amplitude e deixaria muitos apenas colocados no plano, e esboçados.»

Compreende-se desta reminiscência que há muito fazia parte da sua concepção do que veio a chamar-se O Silmarillion que alguns dos «Contos» seriam contados de forma muito mais extensa e, de fato, nessa mesma carta de 1951, ele referia-se expressamente a esses três contos que mencionei acima como sendo de longe os mais extensos em The Book of Lost Tales. Aí ele chamou ao conto de Beren e Lúthien «o principal conto de O Silmarillion», e disse a seu respeito: «a história é (na minha opinião) um belo e intenso romance heróico e de fadas, aceitável em si mesmo apenas com um conhecimento geral muito vago dos antecedentes. Mas é também um elo fundamental do ciclo, privado do seu pleno significado quando dele é retirado.» «Há outros contos quase igualmente plenos no tratamento», continuou, «e igualmente independentes, e, não obstante, ligados à história geral»: estes são Os Filhos de Húrin e A Queda de Gondolin.

Parece, pois, inquestionável, de acordo com as próprias palavras de meu pai, que se ele conseguisse elaborar narrativas finais e definitivas na escala que desejava, consideraria os três «Grandes Contos» dos Tempos Antigos (Beren e Lúthien, Os Filhos de Húrin e a Queda de Gondolin) obras suficientemente completas em si mesmas para prescindirem do conhecimento do grande corpo de lendas conhecido por O Silmarillion. Por outro lado, como ele próprio observou no mesmo contexto, o conto de Os Filhos de Húrin integra a história dos Elfos e dos Homens nos Tempos Antigos e há necessariamente muitas referências a acontecimentos e circunstâncias nessa história mais ampla.

Seria em absoluto contrário à concepção deste livro sobrecarregar a sua leitura com uma abundância de notas com informações acerca de pessoas e acontecimentos que, de qualquer modo, raras vezes têm verdadeira importância para a narrativa imediata. No entanto, aqui e ali, poderá ser útil algum auxílio e, por isso, fiz na Introdução um esboço muito breve de Beleriand e dos seus povos perto do fim dos Tempos Antigos, quando Túrin e Niënor nasceram; e, além de um mapa de Beleriand e das terras do norte, incluí uma lista de todos os nomes constantes do texto com indicações muito concisas a respeito de cada um e genealogias simplificadas.

No fim do livro há um apêndice em duas partes: a primeira, respeitante às tentativas de meu pai para conseguir uma forma final para os três contos; a segunda, relacionada com a composição do texto deste livro, que difere em muitos aspectos da dos Contos Inacabados.

 

 

 

 

O caráter de Túrin era de um profundo significado para meu pai, que, com diálogos claros e diretos, conseguiu traçar um retrato pungente da sua meninice, essencial para o todo: a sua severidade e falta de alegria, a sua noção de justiça e a sua compaixão; de Húrin também, sagaz, alegre e otimista, e de Morwen, sua mãe, reservada, corajosa e altiva; e da vida da família na fria região de Dor-lómin nos anos, já impregnados de medo, após Morgoth ter rompido o Cerco de Angband, antes de Túrin nascer.

Mas tudo isto foi nos Tempos Antigos, na Primeira Era do mundo, um tempo inimaginavelmente remoto. A profundidade no tempo a que esta história remonta foi memoravelmente transmitida numa passagem de O Senhor dos Anéis. No grande conselho reunido em Rivendell, Elrond falou da última aliança de Homens e Elfos e da derrota de Sauron no fim da Segunda Era, mais de três mil anos antes.

 

Chegado a este ponto, Elrond fez uma pausa e suspirou.

— Lembro-me bem do esplendor das suas bandeiras — disse. — Recordou-me a glória dos Tempos Antigos e as hostes de Beleriand, tantos e tão grandes príncipes e chefes guerreiros estavam reunidos.

No entanto, não eram tantos, nem tão belos, como quando Thangorodrim foi vencido e os Elfos julgaram que o mal terminara para sempre, mas não terminara.

— Lembra-se? — perguntou Frodo, dando voz ao seu pensamento, tão grande era o seu espanto. — Mas eu pensava... — gaguejou, quando Elrond se virou para ele. — Eu pensava que a queda de Gilgalad tinha sido uma há muito, muito tempo.

— E foi, realmente — respondeu Elrond, muito sério. — Mas a minha memória remonta até mesmo aos Tempos Antigos. Earendil foi o meu progenitor, nascido em Gondolin antes de esta cair; e a minha mãe foi Elwing, filha de Dior, filho de Lúthien de Doriath. Vi três eras no Ocidente do mundo, como muitas derrotas e muitas vitórias infrutíferas.

 

Cerca de seis mil e quinhentos anos antes de o Conselho de Elrond ter reunido em Rivendell, Túrin nasceu em Dor-lómin, «no Inverno do ano», segundo consta dos Anais de Beleriand, «com presságios de infortúnio».

Mas a tragédia da sua vida não está de modo algum apenas no retrato do caráter, pois ele foi condenado a viver prisioneiro de uma maldição de imenso e misterioso poder, a praga de ódio lançada por Morgoth sobre Húrin, Morwen e os seus filhos, porque Húrin o desafiou e recusou a sua vontade. E Morgoth, o Inimigo Negro, como veio a ser chamado, esteve na sua origem, como declarou a Húrin, trazido como cativo à sua presença: «Melkor, o primeiro e mais poderoso dos Valar, que existia antes do mundo.» Agora encarnado permanentemente com a forma de um rei gigantesco e majestoso, mas terrível, no noroeste da Terra Média, estava fisicamente presente na sua imensa fortaleza de Angband, nos Infernos de Ferro: o negro vapor fétido que se exalava dos cumes das montanhas de Thangorodrim, as montanhas que ele empilhara sobre Angband, podia ser visto de muito longe, manchando o céu setentrional. Consta dos Anais de Beleriand que «as portas de Morgoth ficavam apenas a cento e cinqüenta léguas de distância da ponte de Menegroth — longe e, contudo, demasiado perto». Estas palavras referem-se à ponte que leva aos domínios do rei elfo Thingol, que acolhera Túrin como filho adotivo: chamavam-se Menegroth, as Mil Cavernas, bem a sul e a leste de Dor-lómin.

Mas, tendo encarnado, Morgoth passou a ter medo. O meu pai escreveu, a seu respeito: «Enquanto crescia em maldade, e emanava de si o mal que concebia em mentiras e criaturas perversas, o seu poder transferiu-se para elas e dispersou-se, enquanto ele próprio ficava cada vez mais preso à terra, sem vontade de sair das suas negras fortalezas.» Assim, quando Fingolfin, Rei Supremo dos Elfos de Noldorin, cavalgou sozinho para Angband a fim de desafiar Morgoth para combater, gritou às suas portas: «Mostra-te, rei covarde, para lutares com a tua própria mão! Habitante de cavernas, criador de escravidão, mentiroso e ardiloso, inimigo de Deuses e Elfos, sai! Pois quero ver o teu covarde rosto.» Então (diz-se), «Morgoth saiu. Pois não podia ignorar semelhante desafio perante os seus capitães.» Lutou com o grande martelo Grond, que a cada pancada abria uma enorme cova, e lançou Fingolfin por terra. Mas, ao morrer, ele cravou o grande pé de Morgoth no chão «e o sangue negro jorrou e encheu as covas abertas por Grond. Desde então, Morgoth ficou para sempre coxo.» Diz-se também que quando Beren e Lúthien, sob as formas de um lobo e um morcego, abriram caminho até à sala mais interior de Angband, onde Morgoth estava sentado, Lúthien lançou sobre ele um encantamento: e, «de súbito, ele caiu como um monte arrastado por uma avalancha e, arremessado como um trovão do seu trono, estatelou-se de borco no chão do Inferno. A coroa de ferro rolou, estrepitosamente, da sua cabeça.»

A maldição de semelhante ser, capaz de afirmar que «a sombra do meu desígnio se abate sobre Arda [a Terra] e tudo quanto há nela se curva, lenta e seguramente, perante a minha vontade», é diferente das maldições ou imprecações de seres de muito menor poder. Morgoth não «invoca» o mal ou a calamidade sobre Húrin e os seus filhos, ele não «convida» um ser superior para ser o agente: pois ele, o «Senhor dos destinos de Arda», como se identificou perante Húrin, tenciona provocar a ruína do seu inimigo pela força da sua própria vontade gigantesca. Assim, «concebe» o futuro daqueles a quem odeia, e por isso diz a Húrin: «O meu pensamento pesará como uma nuvem de Condenação sobre todos os que amas e mergulhá-los-á nas trevas e no desespero.

O tormento que imaginava para Húrin era o de «ver com os olhos de Morgoth». O meu pai definiu o que isto significava: se alguém fosse forçado a olhar nos olhos de Morgoth «veria» (ou receberia na sua mente, vinda da mente de Morgoth), uma imagem irresistivelmente convincente de acontecimentos distorcidos pelo insondável rancor de Morgoth. E se havia quem fosse capaz de recusar a ordem de Morgoth, isso não acontecia com Húrin. Segundo o meu pai, tal devia-se, em parte, ao seu amor pelos seus familiares e ao fato de a sua angustiada ansiedade por eles o levar a desejar saber tudo quanto pudesse a seu respeito, fosse qual fosse a fonte; e em parte ao orgulho, por acreditar que derrotara Morgoth no debate e poderia «sustentar o olhar» dele, ou pelo menos conservar o seu discernimento crítico e distinguir entre fato e malícia.

Ao longo da vida de Túrin, desde o momento da sua partida de Dor-lómin e da vida da sua irmã Niënor, que nunca viu o pai, este foi o destino de Húrin, sentado, imóvel, num lugar alto das montanhas Thangorodrim e possuído por uma crescente amargura inspirada pelo seu atormentador.

Na narrativa de Túrin, que se auto-intitulava Turambar «Mestre do Destino», a maldição de Morgoth parece ser vista como um poder desencadeado para provocar o mal, perseguindo as suas vítimas; por isso se diz que o próprio Vala caído temia que Túrin «alcançasse tal poder que a maldição que sobre ele lançara se tornasse nula e ele escapasse ao cruel destino que lhe fora reservado» (p. 142). E depois, em Nargothrond, Túrin ocultou o seu verdadeiro nome, de modo que, quando Gwindor o revelou, se enfureceu: «Fizeste-me mal, amigo, denunciando o meu verdadeiro nome e atraindo sobre mim a minha maldição, da qual queria manter-me oculto.» Fora Gwindor quem falara a Túrin do rumor que corria por Angband, onde Gwindor estivera aprisionado, segundo o qual Morgoth lançara uma maldição sobre Húrin e toda a sua família. Mas Gwindor respondeu à ira de Túrin com as palavras: «A maldição está em ti, não no teu nome.»

Esta complexa concepção é tão essencial à história que meu pai chegou mesmo a propor um título alternativo: Narn e’Rach Morgoth, A História da Maldição de Morgoth. E a sua opinião a tal respeito reflete-se nas seguintes palavras: «Assim terminou o conto de Túrin, o Infortunado; o pior dos atos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo.

Quando Barbárvore atravessou a floresta de Fangorn transportando no côncavo de cada braço Merry e Pippin, falou-lhes, cantando, de lugares que conhecera em tempos remotos e das árvores que lá cresciam:

 

Nos prados de Tasarinan passeei na Primavera.

Ah, o espetáculo e o perfume da Primavera em Nan-tasa-rion!

E disse que era bom.

Vagueei no Verão pelas florestas de olmos de Ossiriand.

Ah, a luz e a música no Verão junto aos Sete Rios de Ossir!

E pensei que era melhor.

As faias de Neldoreth fui vê-las no Outono.

Ah, o ouro e o vermelho e o suspiro das folhas no Outono, em Taur-na-Neldor!

Foi superior ao meu desejo.

Aos pinhais das terras altas de Dorthonion subi no Inverno.

Ah, o vento, a brancura e os ramos pretos do Inverno em Orod-na-Thôn!

A minha voz ergueu-se e cantou no céu.

E agora todas essas terras estão submersas

E eu caminho por Ambarona, Tauremorna e Aldalómë,

Na minha própria terra, no país de Fangorn,

Onde as raízes são compridas

E os anos se sobrepõem mais densos do que as folhas

Em Tauremornalómë.

 

A memória de Barbárvore, «Ent, o nascido da terra, velho como as montanhas», era deveras longa. Ele recordava as florestas antigas do grande país de Beleriand, destruído nos tumultos da Grande Batalha no fim dos Tempos Antigos. O Grande Mar avançou e inundou todas as terras a oeste das Montanhas Azuis, chamadas Ered Luin e Ered Lindon: de modo que o mapa que acompanha O Silmarillion termina no leste com essa cadeia de montanhas, enquanto que o mapa que acompanha O Senhor dos Anéis termina no oeste com a mesma cordilheira; e as terras costeiras para além das montanhas, chamadas nesse mapa Forlindon e Harlindon (Lindon Setentrional e Lindon Meridional) eram tudo quanto restava na Terceira Era do país chamado tanto Ossiriand, Terra dos Sete Rios, como Lindon, em cujas matas de ulmeiros Barbárvore outrora caminhara.

Caminhara também entre os grandes pinhais das terras altas de Dorthonion («Terra de Pinheiros»), que depois veio a chamar-se Taur-nu-Fuin, «a Floresta sob a Noite», quando Morgoth a transformou numa «região de pavor e negro encantamento, de vagueação e desespero» (p. 148). E chegara a Neldoreth, a floresta setentrional de Doriath, reino de Thingol.

Foi em Beleriand e nas terras a norte que o terrível destino de Túrin se desenrolou; e, na verdade, tanto Dorthonion como Doriah, por onde Barbárvore caminhou, foram cruciais na sua vida. Ele nasceu num mundo de guerra, embora fosse ainda criança quando a última e maior batalha das guerras de Beleriand foi travada. Um esboço muito breve de como isto aconteceu responderá a perguntas que surgem e a referências feitas no decorrer da narrativa.

À norte, as fronteiras de Beleriand parecem ter sido formadas pelas Ered Wethrin, as Montanhas da Sombra, para lá das quais fica a região de Húrin, Dor-lómin, uma parte de Hithlun, enquanto que a leste Beleriand se estendia até ao sopé das Montanhas Azuis. Mais para leste ficam terras que quase não constam da história dos Tempos Antigos, mas os povos que constituíram essa história vieram de leste pelos desfiladeiros das Montanhas Azuis.

Os Elfos apareceram na Terra muito longe, no distante leste, ao lado de um lago a que foi dado o nome de Cuiviénen, Água do Despertar; e daí foram convocados pelos Valar para deixarem a Terra Média e, passando pelo Grande Mar, chegarem ao «Reino Abençoado» de Aman, no ocidente do mundo, a terra dos Deuses. Aqueles que aceitaram a convocação foram conduzidos numa grande marcha através da Terra Média, a partir de Cuiviénen, pelo Vala Oromë, o Caçador, e todos têm o nome de Eldar, os Elfos da Grande Viagem, os Elfos Superiores: distinguindo-se assim daqueles que, recusando o chamamento, escolheram a Terra Média como sua terra e seu destino. São os «Elfos Inferiores», chamados Avari, os Relutantes.

Mas, apesar de terem atravessado as Montanhas Azuis, nem todos os Eldar partiram pelo Mar. E aqueles que permaneceram em Beleriand chamam-se Sindar, os Elfos Cinzentos. O seu rei supremo era Thingol (que significa «Capa Cinzenta»), o qual reinou a partir de Menegroth, as Mil Cavernas, em Doriath. E nem todos os Eldar que atravessaram o Grande Mar permaneceram na terra dos Valar, pois um dos seus grandes ramos, os Noldor (os «Mestres da Tradição»), regressarou à Terra Média e passou a chamar-se os Exilados. O principal instigador da sua rebelião contra os Valar foi Fëanor, «Espírito do Fogo»: era o filho mais velho de Finwë, que conduzira a hoste dos Noldor a partir de Cuiviénen, mas entretanto morrera. Este acontecimento fundamental da história dos Elfos foi brevemente exposto por meu pai no Apêndice A de O Senhor dos Anéis:

 

Fëanor foi o maior dos Eldar nas artes e na tradição, mas também o mais orgulhoso e obstinado. Fez as Três Gemas, os Silmarilli, e dotou-as com a radiância das Duas Árvores, Telperion e Laurelin, que deram luz à terra dos Valar. As gemas foram cobiçadas por Morgoth, o Inimigo, que as roubou e, depois de destruir as Árvores, as levou para a Terra Média e as guardou na sua grande fortaleza de Thangorodrim [as montanhas acima de Angband]. Contra a vontade dos Valar, Fëanor abandonou o Reino Abençoado e exilou-se na Terra Média, para onde levou consigo grande parte do seu povo, pois, orgulhoso, propunha-se reaver pela força as Gemas roubadas por Morgoth. Seguiu-se a guerra sem esperança dos Eldar e dos Edain contra Thangorodrim, na qual acabaram por ser completamente derrotados.

 

Fëanor foi morto em combate, pouco depois do regresso dos Noldor à Terra Média, e os seus sete filhos ocuparam vastas terras no leste de Beleriand, entre Dorthonion (Taur-nu-Fuin) e as Montanhas Azuis; mas o seu poder foi destruído na terrível Batalha das Lágrimas Inumeráveis, descrita em Os Filhos de Húrin, e a partir daí «os Filhos de Fëanor vaguearam como folhas sopradas pelo vento» (p. 57).

O segundo filho de Finwë foi Fingolfin (meio-irmão de Fëanor), tido como senhor de todos os Noldor; e ele e o seu filho Fingon dominaram Hithlum, que ficava a norte e a oeste da grande cordilheira de Ered Wethrin, as Montanhas da Sombra. Fingolfin viveu em Mithrim, junto do grande lago do mesmo nome, enquanto Fingon dominava Dor-lómin, no sul de Hithlum. A sua principal fortaleza era Barad Eithel (a Torre do Poço), em Eithel Sirion (Poço de Sirion), onde o rio Sirion subia na face leste das Montanhas da Sombra: Sador, o velho criado coxo de Húrin e Morwen, serviu ali como soldado durante muitos anos, conforme contou a Túrin (p. 38-39). Depois da morte de Fingolfin em combate singular com Morgoth, Fingon tornou-se Rei Supremo dos Noldor no seu lugar. Túrin viu-o uma vez, quando ele «e muitos dos seus senhores tinham atravessado Dor-lómin e passado pela ponte do Nen Lalaith, cintilantes de prata e branco», (p. 37).

O segundo filho de Fingolfin foi Turgon. Ao princípio, após o regresso dos Noldor, viveu na casa chamada Vinyamar, perto do mar na região de Nevrast, a oeste de Dor-lómin; mas construiu em segredo a cidade oculta de Gondolin, que se erguia numa colina no meio da planície chamada Tumladen, totalmente cercada pelas Montanhas Circundantes, a leste do rio Sirion. Quando Gondolin foi construída, após muitos anos de trabalho, Turgon saiu de Vinyamar e residiu com o seu povo, tanto Noldor como Sindar, em Gondolin; e, durante séculos, este reduto élfico de grande beleza foi guardado no mais profundo segredo, com a única entrada impossível de encontrar e fortemente guardada, para que nenhum desconhecido jamais lá entrasse; e Morgoth foi incapaz de descobrir onde ela ficava. Só por altura da Batalha das Lágrimas Inumeráveis, decorridos mais de trezentos e cinqüenta anos desde que saíra de Vinyamar, Turgon saiu de Gondolin com o seu grande exército.

O terceiro filho de Finwë, irmão de Fingolfin e meio-irmão de Fëanor, foi Finarfin. Não regressou à Terra Média, mas os seus filhos e filha vieram com as hostes de Fingolfin e dos seus filhos. O filho mais velho de Finarfin era Finrod, o qual, inspirado pela magnificência e beleza de Menegroth, em Doriath, fundou a cidade-fortaleza subterrânea de Nargothrond, pelo que passaram a chamar-lhe Felagund, interpretado como significando «Senhor das Cavernas» ou «Escavador de Cavernas» na língua dos Anões. As portas de Nargothrond abriam-se para os desfiladeiros do rio Narog, na Beleriand Ocidental, onde esse rio passava pelos montes altos chamados Taur-en-Faroth, ou Alto Faroth. Mas o reino de Finrod expandia-se vastamente, a leste até ao rio Sirion e a oeste até ao rio Nenning, que desembocava no mar no porto de Eglarest. Finrod foi, no entanto, assassinado nas masmorras de Sauron, principal servidor de Morgoth, e Orodreth, o segundo filho de Finarfin, herdou a coroa de Nargothrond: isto ocorreu no ano que se seguiu ao do nascimento de Túrin, em Dor-lómin.

Os outros filhos de Finarfin, Angrod e Aegnor, vassalos do seu irmão Finrod, habitavam em Dorthonion, virado para norte sobre a vasta planície de Ard-galen. Galadriel, irmã de Finrod, viveu muito tempo em Doriath com Melian, a rainha. Melian era uma maia, um espírito de grande poder que assumiu a forma humana e habitou nas florestas de Beleriand com o rei Thingol: era a mãe de Lúthien e antepassada de Elrond. Não muito antes do regresso dos Noldor de Aman, quando grandes exércitos oriundos de Angband vieram para sul e entraram em Beleriand, Melian (segundo as palavras de O Silmarillion), «serviu-se dos seus poderes e cercou todo o domínio [as florestas de Neldoreth e Region] com uma parede invisível de sombra e confusão, a Cerca de Melian, que ninguém jamais conseguiu transpor contra a vontade dela ou a vontade do rei Thingol, a não ser que possuísse um poder maior do que o de Melian, a maia». Daí em diante, a terra chamou-se Doriath, «Terra da Cerca».

No sexagésimo ano após o regresso dos Noldor, pondo fim a muitos anos de paz, uma grande hoste de Orcs desceu de Angband, mas foi completamente derrotada e destruída pelos Noldor. A isso se chamou Dagor Aglareb, a Batalha Gloriosa; mas os senhores élficos tomaram-na como um aviso e desencadearam o Cerco de Angband, que durou quase quatrocentos anos.

 

Diz-se que os Homens (a quem os Elfos chamavam Atani, «o Segundo», e Hildor, «os Seguintes») surgiram muito para leste da Terra Média, perto do fim dos Tempos Antigos. Mas, do início da sua história, os Homens que entraram em Beleriand no tempo da Longa Paz, quando Angband foi cercada e as suas portas fechadas, nunca falavam. O chefe desses primeiros homens que atravessaram as Montanhas Azuis chamava-se Beor, o Velho, o qual declarou a Finrod Felagund, rei de Nargothrond, que os encontrou: «Existe um negrume atrás de nós, e viramos-lhe as costas e não desejamos lá voltar, nem sequer em pensamento. Para ocidente se voltaram os nossos corações e cremos que lá encontraremos a luz». Sador, o velho criado de Húrin, falou de igual modo a Túrin na sua infância (p. 40). Mas diz-se que, quando soube do surgimento dos Homens, Morgoth deixou Angband pela última vez e foi para o Leste, e que os primeiros homens que entraram em Beleriand «se tinham arrependido e rebelado contra o Poder Negro e foram cruelmente perseguidos e oprimidos por aqueles que o adoravam e pelos seus servos».

Estes homens pertenciam a três casas, conhecidas como a Casa de Beor, a Casa de Hador e a Casa de Haleth. O pai de Húrin, Galdor, o Alto, pertencia à Casa de Hador, de quem era filho, mas a sua mãe era da Casa de Haleth. Enquanto Morwen, a sua mulher, era da Casa de Beor e aparentada com Beren.

Os povos das Três Casas eram agora os Edain (forma sindarin de Atani) e chamavam-lhes os Amigos dos Elfos. Hador vivia em Hithlun e o rei Fingolfin concedeu-lhe o senhorio de Dor-lómin; o povo de Beor instalou-se em Dorthonion, e o povo de Haleth vivia nesse tempo na Floresta de Brethil. Após o fim do Cerco de Angband, vieram pelas montanhas Homens de uma espécie muito diferente, muitos deles referidos como Easterlings, alguns dos quais desempenharam um papel importante na história de Túrin.

O Cerco de Angband terminou de forma terrivelmente inesperada (ainda que preparada durante muito tempo) numa noite de meados do Inverno, 395 anos depois de ter começado. Morgoth soltou rios de fogo que desceram das Thangorodrim e a grande planície relvada de Ard-galen, que ficava a norte das terras altas de Dorthonion, transformou-se num seco e árido ermo, que a partir de então passou a ser conhecido por um nome diferente, Anfauglith, a Poeira Sufocante.

Este ataque catastrófico recebeu o nome de Dagor Bragollach, a Batalha da Chama Súbita. Glaurung, pai de Dragões, emergiu de Angband, pela primeira vez, com todo o seu poderio; imensos exércitos de Orcs precipitaram-se para sul; os Senhores Élficos de Dorthonion foram chacinados, assim como uma grande parte dos guerreiros do povo de Beor. O Rei Fingolfin e o seu filho, Fingon, foram rechaçados com os guerreiros de Hithlum para a fortaleza de Eithel Sirion, na face oriental das Montanhas da Sombra, e Hador Cabeça Dourada foi morto na sua defesa. Então, Galdor, pai de Húrin, tornou-se senhor de Dor-lómin, pois as torrentes de fogo foram detidas pela barreira das Montanhas da Sombra e Hithlum e Dor-lómin permaneceram invictas.

Foi um ano depois da Bragollach que Fingolfin, desesperado pela fúria, cavalgou para Angband e desafiou Morgoth. Dois anos volvidos, Húrin e Huor foram para Gondolin. Passados mais quatro anos, num novo ataque a Hithlum, Galdor, pai de Húrin, foi morto na fortaleza de Eithel Sirion: Sador estava lá, como disse a Túrin (p. 39), e viu Húrin (então um jovem de vinte e um anos) «assumir o seu domínio e o seu comando».

Todas estas coisas estavam frescas na memória em Dor-lómin quando Túrin nasceu, nove anos depois da Batalha da Chama Súbita.

 

A nota seguinte destina-se a esclarecer algumas características principais da pronúncia dos nomes.

 

Consoantes

C tem sempre o valor de k, nunca o de s. Assim, Celebros é «Kelebros» e não «Selebros».

CH tem sempre o valor de ch como na palavra escocesa loch ou na alemã buch, e nunca o de ch da palavra inglesa church. Exemplos: Anach, Narn i Chîn Húrin.

DH é sempre usado para representar o som de um th sonoro («suave») em inglês, que é o th de then e não o th de thin. Exemplos: Glóredhel, Eledhwen, Maedhros.

G tem sempre o som do g inglês em get; assim, Region não se pronuncia como a palavra inglesa region e a primeira sílaba de Ginglith pronuncia-se como a palavra inglesa begin e não com gin.

 

Vogais

AI tem o som da palavra inglesa eye; assim, a segunda sílaba de Edain pronuncia-se como a palavra inglesa dine e não como Dane.

AU tem o valor do inglês ow em town; assim, a primeira vogal de Sauron pronuncia-se como a palavra inglesa sour e não como sore.

EI como em Teiglin, tem o som da palavra inglesa grey.

IE não deve ser pronunciado como na palavra inglesa piece, mas como cada vogal, i e e, soam. Assim, pronuncia-se Ni-enor e não «Neenor».

AE como em Aegnor, Nirnaetb é uma combinação das vogais individuais a-e, mas deve ser pronunciada do mesmo modo que AI.

EA e EO não se pronunciam juntas, mas constituem duas sílabas. Estas combinações ortografam-se ëa e ëo, como em Bëor ou no início de nomes como Ëa, Ëo: Eärendil.

Ú em nomes como Húrin e Túrin devem pronunciar-se como oo. Assim, lê-se «Toorin» e não «Tyoorin».

IR, UR antes de uma consoante (como em Círdan, Gurthang) não devem pronunciar-se como em inglês fir,fur, mas como eer, oor

E No fim de palavras é sempre pronunciado como uma vogai distinta, e nessa posição escreve-se ë. É sempre pronunciada no meio de palavras como Celebros, Menegroth.

 

Hador Cabeça Dourada era um senhor dos Edain e muito estimado pelos Eldar. Viveu, enquanto os seus dias duraram, sob o domínio de Fingolfin, que lhe deu vastas terras naquela região de Hithlum a que chamavam Dor-lómin. A sua filha Glóredhel casou com Haldir, filho de Halmir, senhor dos Homens de Brethil; e na mesma festa o seu filho Galdor, o Alto, desposou Hareth, a filha de Halmir.

Galdor e Hareth tiveram dois filhos, Húrin e Huor. Húrin era três anos mais velho do que o irmão, mas mais baixo em estatura do que outros homens da sua família; nisso saía à família da mãe, mas em tudo o mais era como Hador, o avô, forte de corpo e fogoso de temperamento. Mas o fogo ardia nele firmemente e era pertinaz a sua força de vontade. De todos os homens do Norte, era o mais conhecedor dos conselhos dos Noldor. Huor, seu irmão, era alto, o mais alto de todos os Edain exceto o seu próprio filho, Tuor, e um corredor veloz, mas, se a corrida era longa e difícil, Húrin era o primeiro a chegar, pois corria com igual vigor tanto no fim da corrida como no princípio. Havia um grande amor entre os irmãos, que na juventude raramente se separavam.

Húrin desposou Morwen, a filha de Baragund, filho de Bregolas, da Casa de Beor, o que a tornava parente chegada de Beren Maneta. Morwen era alta, tinha cabelo escuro e, devido ao brilho do seu olhar e à beleza do seu rosto, os homens chamavam-lhe Eledhwen, a fada élfica; mas ela era algo austera de temperamento e orgulhosa. Os infortúnios da Casa de Beor entristeciam-lhe o coração, pois chegara a Dor-lómin como exilada de Dorthonion, após a ruína da Bragollach.

Túrin era o nome do filho mais velho de Húrin e Morwen e nasceu no ano em que Beren chegou a Doriath e conheceu Lúthien Tinúviel, filha de Thingol. Morwen deu também uma filha a Húrin, a qual se chamou Urwen; mas todos quantos a conheceram na sua curta vida chamaram-lhe Lalaith, que significa Riso.

Huor desposou Rían, prima de Morwen, que era filha de Belegund, filho de Bregolas. Quis o duro destino que nascesse em tais tempos, ela que era afável de coração e não gostava nem de caça nem de guerra. Devotava o seu amor às árvores e às flores silvestres e cantava e compunha canções. Estava casada com Huor havia apenas dois meses quando ele partiu com o irmão para a Nirnaeth Arnoediad e nunca mais voltou a vê-lo.

Mas agora a narrativa regressa a Húrin e Huor no tempo da sua juventude. Diz-se que, durante algum tempo, os filhos de Galdor viveram em Brethil como filhos adotivos de Haldir, seu tio, de acordo com o costume dos Homens do Norte daquele tempo. Batalhavam freqüentemente com os Homens de Brethil contra os Orcs, que então assolavam as fronteiras setentrionais da sua terra, pois Húrin, apesar de ter apenas dezessete anos, era forte, e Huor, o irmão mais novo, era já tão alto como a maioria dos homens feitos daquele povo.

Numa ocasião, Húrin e Huor partiram com uma companhia de batedores e os Orcs apanharam-nos numa emboscada e dispersaram-nos, tendo os irmãos sido perseguidos para o vau do Brithiach. Aí teriam sido aprisionados ou chacinados não fora o poder de Ulmo, ainda forte nas águas do Sirion; e diz-se que uma neblina subiu do rio e os ocultou dos seus inimigos, e eles fugiram pelo Brithiach para Dimbar. Vaguearam, então, atribuladamente entre os montes abaixo dos Crissaegrim, até serem desorientados pelos artifícios daquela terra e não saberem como prosseguir ou regressar. Thorondor, que os espiava, mandou duas das suas Águias em seu socorro. As Águias transportaram-nos para lá das Montanhas Circundantes, até ao vale secreto de Tumladen e à cidade oculta de Gondolin, que jamais Homem algum vira.

Aí foram bem recebidos por Turgon, o Rei, quando este teve conhecimento da família a que pertenciam, pois Hador era um Amigo-dos-Elfos e, além disso, Ulmo aconselhara Turgon a tratar com brandura os filhos daquela Casa, de onde lhe chegaria auxílio, caso necessitasse. Húrin e Huor viveram como convidados na casa do Rei durante quase um ano e diz-se que, nesse tempo, Húrin, cuja mente era veloz e ávida, adquiriu muita da erudição dos Elfos, além de ter aprendido alguma coisa com os conselhos e os propósitos do Rei. Pois Turgon ganhara grande afeição pelos filhos de Galdor, com os quais falava muito. Era mesmo seu desejo mantê-los em Gondolin por amor, e não apenas por causa da sua lei, segundo a qual nenhum desconhecido, fosse ele Elfo ou Homem, que descobrisse o caminho para o reino secreto ou estendesse o olhar sobre a cidade jamais poderia partir de novo, até o Rei abrir o cerco e o povo oculto poder avançar.

Mas Húrin e Huor desejavam regressar para junto do seu povo e partilhar as guerras e sofrimentos que então o assediavam. E Húrin disse a Turgon: «Senhor, somos apenas homens mortais e diferentes dos Eldar. Estes podem permanecer longos anos à espera de batalharem com os seus inimigos num qualquer tempo distante, mas, para nós, o tempo é breve e a nossa esperança e a nossa força não tardarão a declinar. Além disso, não descobrimos o caminho para Gondolin e, em verdade, não sabemos com certeza onde a cidade se situa, pois fomos transportados, num estado de medo e espanto, pelos altos caminhos do ar, e, por misericórdia, os nossos olhos foram velados». Então Turgon satisfez a sua súplica e disse: «Pelo caminho que vieram estão autorizados a partir, desde que Thorondor a tal esteja disposto. Desgosta-me esta separação, embora, segundo os cálculos dos Eldar, em breve possamos reencontrar-nos».

Mas Maeglin, o filho da irmã do rei, que era poderoso em Gondolin, não lamentou nada a partida deles, posto que lhes invejava o favor do Rei, não sentindo afeto algum por qualquer dos aparentados com os Homens; e disse a Húrin: «A graça do Rei é maior do que imaginais, e haverá quem se pergunte por que motivo foi a rigorosa lei mitigada em benefício de dois tratantes filhos dos Homens. Seria mais seguro se lhes não restasse outra alternativa senão aqui permanecerem como nossos servos até ao fim dos seus dias.»

— A graça do Rei é deveras grande — respondeu Húrin —, mas, se a nossa palavra não é suficiente, então far-vos-emos juramentos.

E os irmãos juraram que nunca revelariam os intentos de Turgon e guardariam segredo de tudo quanto tinham visto no seu reino. Depois despediram-se e as Águias vieram e transportaram-nos de noite, deixando-os em Dor-lómin antes do alvorecer. Os seus familiares rejubilaram ao vê-los, pois mensageiros de Brethil haviam comunicado que estavam perdidos; mas nem ao próprio pai eles disseram onde tinham estado, além de que tinham sido salvos no deserto pelas Águias que os haviam trazido para casa. Mas Galdor disse:

— Vivestes, então, um ano no deserto? Ou acolheram-vos as Águias nos seus altos ninhos? Mas encontrastes alimento e boas vestes, e regressastes como jovens príncipes e não como perdidos na floresta.

— Contentai-vos, pai, por termos regressado — respondeu Húrin. — Pois somente sob jura de silêncio tal nos foi permitido. A esse juramento continuamos obrigados.

Então Galdor não os interrogou mais, mas ele e muitos outros suspeitaram da verdade. Pois tanto o juramento de silêncio como as Águias apontavam para Turgon, pensavam os homens.

Os dias foram passando e a sombra do medo de Morgoth foi crescendo. Mas, no 469° ano após o regresso dos Noldor à Terra Média, houve um frêmito de esperança entre Elfos e Homens, pois correu entre eles o rumor dos feitos de Beren e Lúthien e da humilhação de Morgoth no seu próprio trono, em Angband, e alguns diziam que Beren e Lúthien continuavam vivos ou tinham ressuscitado dos mortos. Nesse ano ficaram também quase concluídos os grandes intentos de Maedhros e, com a força revigorada dos Eldar e dos Edain, o avanço de Morgoth foi sustido e os Orcs rechaçados de Beleriand. Depois, alguns começaram a falar de vitórias vindouras e do desagravo da Batalha da Bragollach, quando Maedhros comandasse as hostes unidas, rechaçasse Morgoth para o subsolo e cerrasse as Portas de Angband.

Mas os mais sensatos continuavam inquietos, receando que Maedhros revelasse a sua força crescente demasiado cedo e Morgoth dispusesse de tempo suficiente para se precaver contra ele. «Será sempre maquinado em Angband algum novo mal que ultrapassa as conjecturas de Elfos e Homens», diziam. E, no Outono desse ano, como que a confirmar as suas palavras, soprou do Norte um vento doentio, sob céus de chumbo. O Bafo Maligno, chamaram-lhe, pois era pestilento. E muitos adoeceram e morreram, no Outono do ano, nas terras setentrionais que ladeavam a Anfauglith, e foram na sua maioria as crianças ou os jovens em crescimento das casas dos Homens.

Nesse ano, Túrin, filho de Húrin, ainda tinha apenas cinco anos de idade e Urwen, a sua irmã, fizera três no início da Primavera. O seu cabelo era como os lírios amarelos no prado, quando ela corria pelos campos, e o seu riso lembrava o som do regato alegre que descia, cantando, dos montes e passava pelas muralhas da casa do seu pai. Nen Lalaith, assim se chamava o regato, e as pessoas da casa passaram a chamar Lalaith à menina e os seus corações sentiram-se felizes enquanto ela viveu entre elas.

Mas Túrin era menos amado do que ela. Tinha cabelos escuros, como a mãe, e prometia ser também como ela em disposição, pois não era alegre e pouco falava, embora tivesse aprendido cedo a falar e sempre tivesse parecido mais velho do que na verdade era. Túrin demorava a esquecer a injustiça ou a zombaria, mas o fogo do seu pai também ardia nele e tornava-o capaz de ser brusco e violento. Todavia, depressa se apiedava e a mágoa ou a tristeza das coisas vivas comoviam-no até às lágrimas — e nisso era também como o pai, pois Morwen era tão severa para com os outros como para consigo mesma. Túrin amava a mãe, pois ela falava-lhe de modo franco e claro; mas via pouco o pai, porque Húrin estava freqüentemente muito tempo longe de casa com a hoste de Fingon, que guardava as fronteiras orientais de Hithlum, e, quando regressava, o seu falar apressado, cheio de palavras estranhas, gracejos e subentendidos, intrigava e constrangia Túrin. Nesse tempo, todo o calor do seu coração ia para Lalaith, sua irmã; mas raramente brincava com ela e preferia protegê-la sem ser visto e observá-la a caminhar sobre a relva ou sob as árvores, enquanto cantava canções como as que eram feitas pelos filhos dos Edain havia muito tempo, quando a língua dos Elfos ainda estava fresca nos seus lábios.

— Lalaith é bela como uma criança élfica — dizia Húrin a Morwen —, mas, ai de nós, mais fugaz! E por isso ainda mais bela, talvez, ou mais querida.

 

Túrin, ouvindo tais palavras, meditava nelas, mas não conseguia compreendê-las. Pois nunca vira nenhuma criança élfica. Naquele tempo, nenhum dos Eldar vivia nas terras do seu pai, e apenas uma vez ele os vira, quando o rei Fingon e muitos dos seus senhores tinham atravessado Dor-lómin e passado pela ponte do Nen Lalaith, cintilantes de prata e branco.

Mas, antes de findo o ano, a verdade das palavras do pai foi revelada, pois o Bafo Maligno chegou a Dor-lómin e Túrin adoeceu e passou muito tempo mergulhado em febre e sonhos negros. E, quando sarou, pois tal era o seu destino e a força da vida que nele havia, perguntou por Lalaith. Mas a ama respondeu: «Não faleis mais de Lalaith, filho de Húrin; mas da vossa irmã Urwen podeis pedir notícias a vossa mãe».

E, quando Morwen foi ter com ele, Túrin disse-lhe:

— Já não estou doente e desejo ver a minha irmã Urwen; mas porque não devo chamar-lhe mais Lalaith?

— Porque Urwen morreu e o riso foi silenciado nesta casa — respondeu-lhe ela. — Mas tu vives, filho de Morwen, assim como o Inimigo que nos fez isto.

Não procurou confortá-lo, do mesmo modo que não se confortava a si mesma, pois acolhia a sua dor em silêncio e de coração frio. Mas Húrin pranteou sem disfarces e pegou na sua harpa e quis compor uma canção de lamento. Não conseguiu, porém, e quebrou a harpa e, saindo, ergueu a mão para o lado do Norte, gritando: «Desfigurador da Terra Média, pudera eu ver-te cara a cara e desfigurar-te como o meu senhor Fingolfin o fez!»

Mas, à noite, Túrin chorava amargamente, sozinho, embora nunca mais voltasse a dizer o nome da irmã a Morwen. A um amigo apenas recorreu nesse tempo e a ele falou do seu desgosto e do vazio da casa. Esse amigo chamava-se Sador, um criado ao serviço de Húrin, coxo e de pouco valimento. Fora lenhador e, por má sorte ou mau manejo do machado, cortara o pé direito. A perna, sem pé, mirrara, e Túrin chamava-lhe Labadal, que significa «Coxo», mas a alcunha não desagradava a Sador, pois fora-lhe dada por compaixão e não por desdém. Sador trabalhava nos edifícios exteriores, fazendo ou consertando coisas de pouca monta que eram necessárias para a casa, pois possuía alguma perícia na arte de trabalhar com madeira. E Túrin levava-lhe aquilo de que ele precisava, para lhe poupar a perna, e às vezes, às escondidas, alguma ferramenta ou pedaço de madeira que encontrara ao abandono, se lhe parecia que podia ser útil ao amigo. Então Sador sorria, mas mandava-o repor as dádivas onde as encontrara. «Dá com mão larga, mas dá apenas o que é teu», dizia-lhe. Recompensava como podia a gentileza do rapazinho e entalhava para ele figuras de homens e animais; mas Túrin deliciava-se mais com as suas histórias, pois Sador tinha sido jovem nos tempos da Bragollach e gostava agora de falar dos breves dias da sua plena masculinidade, antes da mutilação.

— Dizem que foi uma grande batalha, filho de Húrin. Eu fui chamado das minhas tarefas na floresta pela necessidade surgida nesse ano, mas não estive na Bragollach, ou poderia ter recebido o meu ferimento com mais honra. Chegamos tarde de mais, a tempo apenas de transportar o féretro de Hador, o velho senhor, que tombou em defesa do Rei Fingolfin. Depois disso, fui para soldado e estive na Eithel Sirion, a grande fortaleza dos Reis Élficos, durante muitos anos; ou assim me parece agora, e os anos monótonos que se seguiram pouco têm que os assinale. Encontrava-me na Eithel Sirion quando o Rei Negro a atacou e Galdor, pai do teu pai, tornou-se comandante no lugar do Rei. Foi morto nesse ataque; e eu vi o teu pai assumir o seu domínio e o seu comando, apesar de ter atingido havia pouco a idade adulta. Havia nele um fogo que tornava a espada quente na sua mão, dizia-se. Atrás dele, empurramos os Orcs para a areia, e desde esse dia eles não se atreveram a aparecer à vista das muralhas. Mas, ai de mim, o meu amor pelo combate estava saciado, pois vira sangue vertido e feridas suficientes, e fui autorizado a regressar às florestas por que ansiava. E aí sofri o meu ferimento, porque um homem que foge do seu medo pode descobrir que, afinal, apenas enveredou por um atalho para ir ao seu encontro.

Deste modo falava Sador a Túrin, à medida que este ia crescendo, e Túrin começou a fazer muitas perguntas às quais Sador tinha dificuldade em responder, pensando que outros, mais chegados a ele, deviam ter-se encarregado de ensiná-lo. E um dia Túrin disse-lhe:

— Lalaith parecia, realmente, uma criança élfica, como o meu pai dizia? E o que significavam as palavras dele quando disse que ela era mais fugaz?

— Parecia, e muito — respondeu Sador —, pois, na sua primeira juventude, os filhos dos Homens e dos Elfos parecem muito semelhantes. Mas os filhos dos Homens crescem mais depressa e a sua juventude em breve passa. É esse o nosso destino.

Então Túrin perguntou-lhe:

— O que é o destino?

— Quanto ao destino dos Homens, deves perguntar aos que são mais sábios do que Labadal. No entanto, como todos podem ver, nós definhamos depressa e morremos; e, por fatalidade, alguns encontram a morte ainda mais cedo. Mas os Elfos não definham e não morrem a não ser por grande ferimento. De ferimentos e desgostos que matariam os Homens eles podem ser sarados; e há quem diga que, mesmo quando os seus corpos estão despedaçados, eles voltam. Tal não acontece conosco.

— Então a Lalaith não regressará? — perguntou Túrin. — Para onde foi ela?

— Não, ela não regressará. Mas para onde foi nenhum homem sabe; ou, pelo menos, eu não sei.

— Foi sempre assim? Ou sofremos a influência de alguma maldição do rei perverso, como o Bafo Maligno?

— Não sei. Há atrás de nós uma escuridão, da qual poucas histórias surgiram. Os pais dos nossos pais podem ter tido coisas para dizer, mas não as disseram. Até os seus nomes estão esquecidos. As Montanhas erguem-se entre nós e a vida de onde eles vieram, fugindo nenhum homem sabe do quê.

— Tinham medo? — perguntou Túrin.

— Talvez. É possível que tenham fugido do medo das Trevas, apenas para o encontrarem aqui antes de nós e sem nenhum lugar para onde fugirem a não ser o Mar.

— Nós já não temos medo — disse Túrin —, não todos. O meu pai não tem medo e eu não terei. Ou, pelo menos, como a minha mãe, terei medo e não o demonstrarei.

Pareceu então a Sador que os olhos de Túrin não eram os de uma criança, e pensou: «O sofrimento é uma pedra de afiar para uma mente forte.» Mas o que disse foi:

— Filho de Húrin e Morwen, Labadal não pode imaginar o que se passará com o teu coração, mas raramente e a poucos mostrarás o que nele se passa.

E Túrin respondeu:

— Talvez seja melhor não dizermos o que desejamos, se não podemos tê-lo. Mas, Labadal, eu desejava ser um dos Eldar. Então Lalaith poderia regressar e eu ainda aqui estaria, mesmo que ela tivesse estado muito tempo ausente. Serei soldado de um rei élfico assim que for capaz, como tu fizeste, Labadal.

— Poderás aprender muito com eles — disse Sador, e suspirou. — São um povo belo e maravilhoso e têm poder sobre os corações dos Homens. E, no entanto, às vezes penso que talvez tivesse sido melhor se nunca os houvéssemos conhecido, mas seguido por caminhos mais modestos. Pois eles são já antigos em sabedoria e são também orgulhosos e resistentes. A sua luz ofusca-nos ou então ardemos numa chama demasiado rápida e o peso do nosso destino pesa ainda mais sobre nós.

— Mas o meu pai ama-os — respondeu Túrin — e não se sente feliz sem eles. Diz que aprendemos com eles quase tudo quanto sabemos e assim nos tornamos um povo mais nobre; e diz também que os Homens vindos recentemente pelas Montanhas pouco melhores são do que os Orcs.

— Isso é verdade — admitiu Sador —, é verdade pelo menos em relação a alguns de nós. Mas a subida é dolorosa e dos lugares altos é fácil cair.

Nesse tempo, Túrin tinha quase oito anos de idade, que completaria no mês de Gwaeron do calendário dos Edain, no ano que não pode ser esquecido. Entre os mais velhos corriam já rumores de uma grande recolha e concentração de armas, dos quais Túrin nada ouvira, embora reparasse que, com freqüência, o pai o olhava firmemente, como um homem olha para qualquer coisa querida de que terá de separar-se.

Ora, conhecedor da sua coragem e de quanto a sua língua era cauta, Húrin falava muitas vezes com Morwen a respeito dos desígnios dos reis élficos e do que poderia acontecer se eles corressem bem ou mal. O seu coração estava pleno de esperança e pequeno era o seu receio quanto ao resultado da batalha, pois não lhe parecia que força alguma da Terra Média conseguisse derrubar o poder e o esplendor dos Eldar. «Eles viram a Luz no Ocidente», dizia, «e no fim as Trevas deverão fugir dos seus rostos.» Morwen não o contradizia, pois na presença de Húrin a esperança parecia sempre o mais provável. Mas na sua família também havia conhecimento da tradição élfica e ela dizia para consigo: «E, todavia, não deixaram eles a Luz e não estão agora excluídos dela? Pode ser que os Senhores do Ocidente os tenham afastado do seu pensamento; e, sendo assim, como poderão até mesmo os Filhos dos Antigos vencer um dos Poderes?»

Nem sombra de semelhante dúvida parecia haver em Húrin Thalion. E, todavia, numa manhã de Primavera daquele ano, ele acordou com o coração pesado, como se tivesse tido um sono atribulado, e nesse dia pairou uma sombra na luminosidade da sua disposição. Chegada a noite, disse, de súbito:

— Morwen Eledhwen, quando for convocado, deixarei a teu cargo o herdeiro da Casa de Hador. As vidas dos Homens são curtas e há nelas muitos riscos, mesmo em tempo de paz.

— Sempre assim foi — respondeu ela. — Mas o que inspira as tuas palavras?

— Prudência, sem dúvida — disse Húrin, embora parecesse perturbado. — Mas quem olha em frente deve ver o seguinte: que as coisas não permanecerão como estão. Esta será uma grande jogada e um dos lados terá de descer para mais baixo do que está agora. Se forem os reis élficos a cair, então correrá mal para os Edain, e nós somos quem se encontra mais perto do Inimigo. Esta terra poderá passar para o seu domínio. Mas, se as coisas correrem mal, eu não te direi: Não tenhas medo! Pois tu temes o que deve ser temido, e apenas isso, e o medo não te desfalece. Mas digo-te: Não esperes! Voltarei para ti como puder, mas não esperes! Parte para sul o mais depressa que puderes; se eu viver seguir-te-ei e encontrar-te-ei, nem que tenha de procurar em toda a Beleriand.

— Beleriand é vasta, e não tem abrigo para os exilados — respondeu Morwen. — Para onde fugirei, com poucos ou com muitos?

Húrin pensou um momento, em silêncio.

— Há a família da minha mãe, em Brethil — respondeu, por fim. — Fica a cerca de trinta léguas, seguindo o vôo da águia.

— Se tal tragédia ocorrer, de fato, que ajuda poderá ser encontrada junto dos Homens? — perguntou Morwen. — A Casa de Beor caiu. Se a grande Casa de Hador cair também, para que buracos se arrastará o pequeno povo de Haleth?

— Para aqueles que conseguir encontrar — disse Húrin. — Mas não duvides da sua coragem, embora sejam poucos e incultos. Onde mais haverá esperança?

— Não falas de Gondolin — lembrou Morwen.

— Não, pois esse nome nunca passou dos meus lábios. No entanto, é verdadeiro aquilo que ouviste: eu estive lá. Mas digo-te agora sinceramente, como nunca disse nem direi a mais ninguém: não sei onde fica.

— Mas fazes uma idéia, e uma idéia aproximada, segundo penso — disse Morwen.

— É possível que sim. Mas, a não ser que o próprio Turgon me libertasse do meu juramento, não poderia revelar essa idéia, nem mesmo a ti, e portanto a tua busca seria vã. Porém, ainda que, para vergonha minha, eu falasse, chegarias quando muito a uma porta fechada; pois, a não ser que Turgon avance para a guerra (e disso nada constou e nem é esperado), ninguém entrará.

— Nesse caso, se a tua família não ajudar e os teus amigos te negarem, terei de decidir por mim mesma e agora vem-me ao pensamento Doriath.

— O teu alvo é sempre muito alto — comentou Húrin.

— Excessivamente alto, dirias? Mas penso que, de todas as defesas, a Cerca de Melian será a última a ser quebrada. E, além disso, a Casa de Beor não será desprezada em Doriath. Não sou eu parente do rei? Pois Beren, filho de Barahir, era neto de Bregor, tal como o meu pai.

— O meu coração não se inclina para Thingol — disse Húrin. — Nenhum auxílio virá dele para o Rei Fingon, e não sei que sombra cai sobre o meu espírito quando ouço falar de Doriath.

— O nome de Brethil também ensombra o meu coração — confessou Morwen.

Inesperadamente, Húrin riu-se e disse:

— Eis-nos aqui a discutir questões que ultrapassam o nosso alcance e sombras que emanam de sonhos. As coisas não correrão assim tão mal; mas, se porventura correrem, então a tua coragem e o teu discernimento empenhar-se-ão. Faz, pois, o que o teu coração ordenar, mas não tardes. E, se alcançarmos os nossos objetivos, os reis élficos estão resolvidos a restituir todos os feudos da Casa de Beor ao seu herdeiro, e esse herdeiro és tu, Morwen, filha de Baragund. Grandes domínios deteremos, então, e elevada herança caberá ao nosso filho. Sem o rancor do Norte, ele adquirirá grande riqueza e será um rei entre os Homens.

— Húrin Thalion — disse Morwen —, acho mais verdadeiro dizer isto: tu olhas bem alto, mas eu temo cair bem baixo.

— Isso, na pior das hipóteses, não tens de recear. Nessa noite, Túrin, meio acordado, teve a sensação de que o seu pai e a sua mãe estavam de pé ao lado da sua cama e o olhavam à luz das velas que seguravam. Mas ele não conseguia ver-lhes os rostos.

Na manhã do aniversário de Túrin, Húrin presenteou o filho com uma faca forjada por elfos, cujos punho e bainha eram em prata e negro, e disse-lhe:

— Herdeiro da Casa de Hador, aqui tens um presente de aniversário. Mas cautela! E uma lâmina penetrante e o aço serve apenas aqueles que sabem brandi-lo. Decepará a tua mão de tão bom grado como a de qualquer outro. — E, pondo o filho em cima de uma mesa, beijou-o e acrescentou: — Assim já ficas mais alto do que eu, filho de Morwen, e em breve terás igual altura apoiado nos teus próprios pés. Nesse dia, muitos temerão a tua lâmina.

Então, Túrin saiu a correr da sala e afastou-se para longe, e no seu coração havia um calor igual ao do sol sobre a terra fria que faz desabrochar as sementes. Repetiu para consigo as palavras do pai: Herdeiro da Casa de Hador. Mas outras palavras lhe vieram igualmente ao pensamento: Dá com mão larga, mas dá o que é teu. E foi ter com Sador, e gritou:

— Labadal, é o dia do meu aniversário, do aniversário do herdeiro da Casa de Hador! E trouxe-te um presente para assinalar a data. Aqui está uma faca, tal como precisas; cortará tudo o que desejares, fino como um cabelo.

Sador sentiu-se perturbado, pois bem sabia que o próprio Túrin a recebera de presente naquele dia; mas os homens consideravam ofensivo recusar uma oferta dada de livre vontade pela mão de alguém. Falou-lhe então em tom grave:

— Vens de uma família generosa, Túrin filho de Húrin. Eu não fiz nada que se compare com o teu presente e não tenho esperanças de poder fazer melhor nos dias que me restam; mas o que puder fazer, farei. — E quando Sador tirou a faca da bainha acrescentou: — É, deveras, uma grande dádiva: uma lâmina de aço élfico. Há quanto tempo não sentia o seu contato.

Húrin não tardou a reparar que Túrin não usava a faca e perguntou-lhe se o seu aviso o fizera temê-la. Então Túrin respondeu:

— Não, mas eu dei a faca a Sador, o entalhador de madeira.

— Quer dizer que menosprezaste a prenda do teu pai? — perguntou Morwen, e de novo Túrin respondeu:

— Não. Mas sou amigo de Sador e tenho pena dele. Então Húrin disse:

— Todas as três prendas eram tuas e podias dá-las, Túrin: amor, compaixão e, a menos importante, a faca.

— No entanto, duvido que Sador as mereça — declarou Morwen. — Auto mutilou-se com a sua própria falta de perícia e é vagaroso nas suas tarefas, pois perde muito tempo com bagatelas que lhe não são pedidas.

— Dá-lhe, apesar de tudo, compaixão — disse Húrin. — Uma mão honesta e um coração sincero podem falhar o alvo do corte; e o dano pode ser mais difícil de suportar do que a obra de um inimigo.

— Mas agora terás de esperar por outra faca — lembrou Morwen. — Assim, a dádiva será uma verdadeira dádiva e a teu próprio custo.

No entanto, Túrin notou que Sador passou a ser tratado mais bondosamente a partir daí, e estava agora empenhado em fazer uma grande cadeira para o senhor se sentar no seu salão.

Chegou uma luminosa manhã do mês de Lothron em que Túrin foi despertado por súbitos toques de trompas; e, correndo para as portas, viu no pátio um grande aglomerado de homens a pé e a cavalo e com armaduras completas, como se fossem para a guerra. Lá se encontrava também Húrin, que falava aos homens e dava ordens, pelo que Túrin ficou a saber que partiriam naquele dia para Barad Eithel. Aqueles eram os guardas de Húrin e gente da sua casa, mas todos os homens da sua terra que podiam ser dispensados foram igualmente convocados. Alguns já tinham partido com Huor, o irmão de seu pai, e muitos outros juntar-se-iam na estrada ao senhor de Dor-lómin e seguiriam atrás da sua bandeira para a grande concentração marcada pelo Rei.

Morwen despediu-se de Húrin sem lágrimas, e disse:

— Velarei pelo que deixas a meu cargo, tanto o que já existe como o que existirá.

E Húrin respondeu-lhe:

— Adeus, Senhora de Dor-lómin; partimos agora com maior esperança do que alguma vez sentimos. Pensemos que a festa do solstício deste Inverno será mais alegre do que as de todos os anos que já tivemos, seguida por uma Primavera sem medo!

Depois ergueu Túrin à altura do seu ombro e gritou aos seus homens:

— Que o herdeiro da Casa de Hador veja a luz das vossas espadas! — E o sol cintilou nas cinqüenta lâminas que se ergueram e no pátio ecoou o grito de combate dos Edain do Norte: Lacho calad! Drego morn! Flameja, Luz! Foge, Noite!

Depois, finalmente, Húrin saltou para a sela, a sua bandeira dourada foi desfraldada e as trompas cantaram de novo na manhã; e deste modo partiu Húrin Thalion para a Nirnaeth Arnoediad.

Mas Morwen e Túrin ficaram imóveis nos portões, até ouvirem, muito ao longe, o tênue grito de uma só trombeta ao vento: Húrin transpusera a espalda do monte, para lá do qual já não podia ver a sua casa.

 

Muitas são as canções ainda cantadas e muitas as histórias ainda contadas pelos Elfos acerca da Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Inumeráveis, na qual tombou Fingon e a flor dos Eldar feneceu. Se voltassem todas a ser contadas agora, a vida de um homem não chegaria para as ouvir. Aqui serão, portanto, recontados apenas os feitos que se relacionam com o destino da Casa de Hador e dos filhos de Húrin, o Firme.

Tendo, finalmente, reunido toda a força que podia, Maedhros marcou um dia, a manhã do solstício de Verão. Nesse dia, as trombetas dos Eldar saudaram o nascer do Sol, e no leste foi erguido o estandarte dos filhos de Fëanor, e no oeste o estandarte de Fingon, Rei dos Noldor.

Então Fingon olhou das muralhas de Eithel Sirion e o seu exército estava disposto em ordem de batalha nos vales e nas florestas do leste das Ered Wethrin, bem escondido dos olhos do Inimigo; mas ele sabia que era muito grande. Pois estavam ali reunidos todos os Noldor de Hithlum, aos quais se tinham juntado muitos Elfos das Falas e de Nargothrond; e tinha grande força de Homens. A direita estava estacionada a hoste de Dor-lómin e toda a valentia de Húrin e Huor, seu irmão, aos quais se juntara Haldir de Brethil, membro da sua família, com muitos homens das florestas.

Depois Fingon olhou para leste e a sua visão élfica distinguiu, muito ao longe, uma poeira e o refulgir de aço como estrelas numa neblina, e ele soube que Maedhros avançara; e com isso rejubilou. Em seguida olhou na direção das Thangorodrim, viu uma nuvem escura e um fumo preto a subir; e ficou a saber que a ira de Morgoth fora ateada e que o desafio deles seria aceite. Uma sombra de dúvida toldou-lhe o coração. Mas nesse momento soou um grito, transportado pelo vento do sul e passando de vale para vale, e Elfos e Homens ergueram as suas vozes, maravilhados e jubilosos. Pois, sem ser solicitado nem aguardado, Turgon abrira o cerco de Gondolin e vinha com um exército de dez mil soldados, com resplandecentes cotas de malha, e longas espadas, e uma floresta de lanças. Depois, quando Fingon ouviu, ao longe, a grande trompa de Turgon, a sombra desvaneceu-se, o seu coração animou-se e ele gritou fortemente: «Utúlie’n aurë! Aiya Eldalië ar Atanatami, utúlie’n aurë! O dia chegou! Olhai, povo dos Eldar e Pais dos Homens, o dia chegou!» E todos quantos ouviram a sua voz poderosa ecoar nos montes responderam, gritando: «Auta i lómë! A noite está a findar!»

Não tardava muito para a grande batalha começar, pois Morgoth sabia grande parte do que faziam e planejavam os seus inimigos e gizara os seus planos contra a hora do seu ataque. Uma grande força saída de Angband aproximava-se já de Hithlum, enquanto outra ainda maior ia ao encontro de Maedhros para impedir a união das potências dos reis. E aqueles que vinham contra Fingon vestiam todos de tom pardo e não mostravam qualquer aço desembainhado, o que lhes permitiu estarem já avançados nas areias da Anfauglith antes de a sua aproximação se tornar notada.

Então os corações dos Noldor enfureceram-se e os seus capitães quiseram atacar os inimigos na planície, mas Fingon mostrou-se contrário a isso.

— Cuidado com a perfídia de Morgoth, senhores! — aconselhou. — A sua força é sempre maior do que parece e o seu objetivo diferente do que aparenta. Não reveleis a vossa própria força, mas deixai o inimigo esgotar o seu primeiro ataque contra os montes.

Pois era desígnio dos reis que Maedhros marchasse abertamente sobre a Anfauglith com toda a sua força de Elfos, e de Homens, e de Anões; e quando, como esperavam, ele tivesse levado os principais exércitos de Morgoth a ripostar, Fingon avançaria do Ocidente e o poderio de Morgoth ficaria como que apanhado entre martelo e bigorna e seria destroçado. O sinal para isso seria o acender de um grande feixe de luz em Dorthonion.

Mas o comandante de Morgoth a ocidente recebera ordens para atrair Fingon para fora dos seus montes por todos os meios que pudesse. Ele avançou, portanto, até a frente da sua hoste ser detida diante da corrente do Sirion, das muralhas da Barad Eithel até ao Pântano de Serech; e os postos avançados de Fingon podiam ver os olhos dos seus inimigos. Mas o seu desafio não recebeu nenhuma resposta e as provocações dos seus Orcs vacilaram ao depararem com as muralhas silenciosas e a ameaça oculta atrás dos montes.

Então o comandante de Morgoth enviou cavaleiros com ofertas de negociações e eles chegaram às próprias muralhas exteriores da Barad Eithel. Levavam consigo Gelmir, filho de Guilin, um senhor de Nargothrond, a quem tinham aprisionado na Bragollach e cegado, e os seus arautos mostraram-no, gritando: «Temos muitos mais assim na nossa terra, mas tereis de vos apressar se quiserdes encontrá-los. Pois, quando regressarmos, trataremos todos eles de igual modo.» E deceparam os braços e as pernas de Gelmir e deixaram-no ali.

Por pouca sorte, naquele ponto das fortalezas exteriores encontrava-se Gwindor, filho de Guilin, com muita gente de Nargothrond; e ele marchara, de fato, para a guerra com todas as forças que conseguira reunir, levado pelo desgosto causado pelo aprisionamento do irmão. Agora a sua ira era como uma labareda e ele saltou para o cavalo, e com ele muitos cavaleiros, e perseguiram e mataram os arautos de Angband. Seguidos por toda a gente de Nargothrond, penetraram profundamente nas fileiras de Angband. E, vendo isto, a hoste dos Noldor como que se incendiou e Fingon pôs o seu elmo branco, fez soar as suas trombetas e toda a sua gente irrompeu dos montes numa investida súbita.

A luz do desembainhar das espadas dos Noldor era como um fogo num caniçal, e tão terrível e veloz foi o seu ataque que os desígnios de Morgoth quase baquearam. Antes que pudesse ser reforçado, o exército-armadilha que enviara para oeste foi destroçado e destruído e os estandartes de Fingon passaram pela Anfauglith e foram erguidos defronte das muralhas de Angband.

Na dianteira desse combate esteve sempre Gwindor e a gente de Nargothrond, e nem mesmo então puderam ser contidos. Irromperam pelas portas exteriores e chacinaram os guardas no interior dos próprios pátios de Angband; e Morgoth tremeu no seu trono, ouvindo-os bater às suas portas. Mas Gwindor caiu numa armadilha e foi aprisionado vivo e a sua gente chacinada, pois Fingon não pôde ir em seu socorro. Através das muitas portas secretas das Thangorodrim, Morgoth fez avançar a sua força principal, que mantivera de reserva, e Fingon foi rechaçado com grandes perdas das muralhas de Angband.

Depois, foi na planície de Anfauglith, no quarto dia da guerra, que começou a Nirnaeth Arnoediad, cuja tristeza história alguma pode relatar. De tudo o que aconteceu na batalha travada a leste: da derrota de Glaurung, o Dragão, pelos Anões de Belegost, da traição dos Easterlings, do destroçar da hoste de Maedhros e da fuga dos filhos de Fëanor, nada mais é aqui acrescentado. A oeste, a hoste de Fingon bateu em retirada pelas areias e aí morreram Haldir, filho de Halmir, e a maioria dos Homens de Brethil. Mas no quinto dia, quando a noite caía e ainda se encontravam longe das Ered Wethrin, os exércitos de Angband cercaram o exército de Fingon, lutaram até ser dia e avançaram cada vez mais. Com a manhã chegou a esperança, pois ouviram-se as trombetas de Turgon, enquanto ele marchava com a hoste principal de Gondolin; pois Turgon estivera estacionado a sul, guardando as passagens do Sirion, e evitara que a maioria da sua gente participasse na precipitada investida. Agora apressava-se a ir ao encontro do irmão. Os Noldor de Gondolin eram fortes e as suas fileiras cintilavam como um rio de aço ao sol, pois as espadas e os arneses dos mais modestos guerreiros de Turgon valiam mais do que o resgate de qualquer rei entre os Homens.

A falange da guarda do Rei penetrou nas fileiras dos Orcs e Turgon abriu caminho até junto do irmão. E diz-se que o encontro de Turgon com Húrin, que estava ao lado de Fingon, foi ditoso no meio da batalha. Então, durante algum tempo, as hostes de Angband foram forçadas a recuar e Fingon reatou a sua retirada. Mas, depois de ter rechaçado Maedhros a oriente, Morgoth dispunha agora de grandes forças e, antes de conseguirem chegar ao abrigo dos montes, Fingon e Turgon foram atacados por uma maré de inimigos três vezes superior ao total da força que lhes restava. Gothmog, capitão-mor de Angband, chegara e abriu uma cunha negra entre as hostes élficas, cercando o rei Fingon e repelindo Turgon e Húrin na direção do grande pântano do Serech. Depois voltou-se para Fingon. Foi um embate sinistro. Por fim, Fingon ficou só, com a sua guarda morta em seu redor, e lutou contra Gothmog, até um Balrog vir por trás dele e o envolver numa faixa de aço. Então Gothmog abateu-o com o seu machado negro e uma chama branca irrompeu do elmo de Fingon, quando ele se fendeu. Assim caiu o rei dos Noldor; e, já no chão, foi espancado com clavas e o seu estandarte azul e prata espezinhado no charco do seu sangue. A batalha estava perdida, mas ainda Húrin, e Huor, e o que restava da Casa de Hador permaneciam firmes com Turgon de Gondolin, e as hostes de Morgoth não conseguiam conquistar as passagens do Sirion. Então, Húrin falou a Turgon, dizendo:

— Ide agora, Senhor, enquanto é tempo! Pois sois o último da Casa de Fingolfin e em vós reside a derradeira esperança dos Eldar. Enquanto Gondolin existir, Morgoth continuará a conhecer o medo no seu coração.

— Agora Gondolin não pode permanecer oculta por muito tempo e, se for descoberta, cairá — respondeu Turgon.

— No entanto, se resistir durante um pouco mais, da vossa casa virá a esperança para Elfos e Homens — disse Huor. — Uma coisa vos digo, Senhor, com os olhos da morte: embora nos separemos aqui para sempre, e eu não volte a ver as vossas muralhas brancas, de vós e de mim uma nova estrela nascerá. Adeus!

Maeglin, filho da irmã de Turgon, que se encontrava perto, ouviu estas palavras e não as esqueceu.

Então Turgon acatou o conselho de Húrin e Huor e deu ordens para que a sua hoste iniciasse a retirada para as passagens do Sirion, e os seus capitães Ecthelion e Glorfindel guardaram os flancos à direita e à esquerda para que ninguém do inimigo pudesse ultrapassá-los, porque a única estrada daquela região era estreita e passava perto da margem ocidental da crescente corrente do Sirion. Mas os Homens de Dor-lómin guardavam a retaguarda, como Húrin e Huor queriam; pois, nos seus corações, não desejavam sair das Terras Setentrionais e, se não conseguissem regressar vitoriosos às suas casas, ali permaneceriam até ao fim. Foi deste modo que Turgon abriu caminho para sul, até que, chegado atrás da guarda de Húrin e Huor, passou o Sirion e escapou. Desapareceu então nas montanhas e ficou oculto dos olhos de Morgoth. Mas os irmãos reuniram à sua volta o que restava dos homens fortes da Casa de Hador e, passo a passo, recuaram até ficarem atrás do Pântano de Serech e terem a corrente do Rivil à sua frente. Aí permaneceram e não avançaram mais.

Então todas as hostes de Angband se precipitaram para eles, cortaram a corrente com os seus mortos e cercaram o remanescente de Hithlum como uma maré alta à volta de um rochedo. Aí, quando o Sol se dirigia para oeste e as sombras da Ered Wethrin escureciam, Huor caiu, trespassado por uma seta envenenada num olho, e todos os valentes homens de Hador tombaram chacinados à sua volta. Os Orcs deceparam-lhes as cabeças e empilharam-nas como um monte de ouro no Sol poente.

Por fim, Húrin ficou sozinho. Então largou o escudo, pegou no machado de um capitão orc e brandiu-o com as duas mãos. Canta-se que o machado fumegou no sangue negro da guarda troll de Gothmog até ela definhar e que, cada vez que o brandia, Húrin gritava bem alto: «Aure entuluva! O dia voltará.» Setenta vezes soltou ele esse grito, mas, por fim, apanharam-no vivo por ordem de Morgoth, que pensava causar-lhe assim mais mal do que com a morte. Por isso, os Orcs agarraram Húrin com as mãos, que continuaram agarradas a ele apesar de lhes decepar os braços; e o seu número não parava de ser renovado, até que Húrin caiu enterrado debaixo deles. Então Gothmog amarrou-o e arrastou-o para Angband, escarnecendo-o.

Assim terminou a Nirnaeth Arnoediad, quando o Sol descia para além do mar. A noite caiu em Hithlum e soprou do Ocidente uma forte tempestade de vento.

Grande foi o triunfo de Morgoth, embora nem todos os objetivos do seu rancor tivessem sido concretizados. Um pensamento o transtornava profundamente e turvava a sua vitória com inquietação: Turgon escapara à sua rede, ele que fora, de todos os seus inimigos, aquele que mais desejara aprisionar ou destruir. Pois Turgon, da grande Casa de Fingolfin, era agora, por direito, rei de todos os Noldor, e Morgoth temia e odiava a Casa de Fingolfin, porque escarnecera dele em Valinor e desfrutava da amizade de Ulmo, seu inimigo, e também por causa dos ferimentos que Fingolfin lhe infligira em combate. Acima de tudo, Morgoth temia Turgon, pois de longa data, em Valinor, o seu olhar brilhara sobre ele e, sempre que Turgon se aproximava, uma sombra negra descia sobre o seu espírito, prenunciando que, algures no futuro ainda oculto pelo destino, sobre ele se abateria a ruína vinda de Turgon.

 

Por ordem de Morgoth, os Orcs reuniram então, com grande trabalho, todos os corpos dos seus inimigos, assim como todos os seus arneses e armas, e empilharam-nos no meio da planície de Anfauglith num enorme monte que podia ser visto de longe e a que os Eldar chamaram Haudh-en-Nirnaeth. Mas a erva irrompeu ali e cresceu de novo, alta e verde, apenas sobre aquele monte em todo o deserto, e desde então nenhum servo de Morgoth pisou a terra sob a qual as espadas dos Eldar e dos Edain eram consumidas pela ferrugem. O reino de Fingor já não existia e os Filhos de Fëanor vagueavam como folhas sopradas pelo vento. Nenhum dos Homens da Casa de Hador regressou a Hithlum, nem notícia alguma da batalha e do destino dos seus senhores. Mas Morgoth enviou para lá Homens que estavam sob o seu domínio, os escuros Easterlings, e encerrou-os nessa terra e proibiu-os de lá saírem. Isto foi tudo quanto lhes deu das fartas recompensas que lhes prometera se atraiçoassem Maedhros: perseguir e pilhar os velhos, as crianças e as mulheres do povo de Hador. Aos restantes Eldar de Hithlum, todos aqueles que não escaparam para os ermos e as montanhas, levou-os para as minas de Angband, onde se tornaram seus escravos. Mas os Orcs andavam livremente por todo o Norte e avançaram resolutamente para sul, até Beleriand. Aí permanecia ainda Doriath, e também Nargothrond; Morgoth, porém, pouca atenção lhes prestava, quer porque pouco sabia a seu respeito, quer porque a hora deles ainda estava para chegar nos desígnios da sua perversidade. Mas o seu pensamento não deixava de regressar a Turgon.

Por conseguinte, Húrin foi conduzido à presença de Morgoth, pois este sabia, graças aos seus poderes e aos seus espiões, que ele tinha a amizade do Rei; e tentou intimidá-lo com o olhar. Mas Húrin ainda não podia ser intimidado, e desafiou Morgoth. Em conseqüência disso, Morgoth mandou acorrentá-lo e submetê-lo a tortura lenta. Passado algum tempo, porém, veio a ele e ofereceu-lhe a escolha entre partir livre para onde quisesse e receber poder e hierarquia como o mais elevado de todos os capitães de Morgoth, bastando-lhe para isso revelar onde Turgon tinha a sua fortaleza e tudo o mais que soubesse das intenções do Rei. Mas Húrin, o Firme, zombou dele, dizendo:

— Cego és, Morgoth Bauglir, e cego serás sempre, capaz de ver apenas as trevas. Desconheces o que rege os corações dos Homens e, mesmo que o conhecesses, não saberias usá-lo. Mas tolo é aquele que aceita o que Morgoth oferece. Receberás primeiro o preço e negarás depois a promessa, e eu receberia apenas a morte se te dissesse o que queres saber.

Então Morgoth riu-se e disse:

— A morte virás ainda a suplicar de mim como uma dádiva.

Depois levou Húrin para o Haudh-en-Nirnaeth, que tinha sido recentemente erigido e fedia a morte. E Morgoth colocou Húrin no seu topo e disse-lhe que olhasse para oeste, na direção de Hithlum, e pensasse na mulher, no filho e nos outros familiares.

— Pois eles vivem agora no meu reino — declarou — e dependem da minha clemência.

— Clemência é coisa que não tens — respondeu Húrin. — Mas não chegarás a Turgon através deles, porque desconhecem os segredos dele.

Então a ira dominou Morgoth, que disse:

— E todavia posso chegar a ti e a toda a tua amaldiçoada casa, e dobrar-se-ão à minha vontade, ainda que sejam todos feitos de aço.

Pegou numa longa espada que se encontrava à mão e quebrou-a perante os olhos de Húrin, cuja face foi atingida por um fragmento; mas ele nem estremeceu. Então, Morgoth, estendendo o longo braço na direção de Dor-lómin, amaldiçoou Húrin e Morwen e a sua descendência, dizendo:

— Vê! A sombra do meu pensamento abater-se-á sobre eles aonde quer que vão e o meu ódio persegui-los-á até aos confins do mundo.

Mas Húrin rebateu:

— Falas em vão. Pois não podes vê-los nem dominá-los de longe; não enquanto mantiveres essa forma e continuares a desejar ser um rei visível na Terra.

Então Morgoth virou-se para Húrin e disse:

— Tolo, insignificante entre os Homens, que já de si são os menos importantes entre todos os que falam! Acaso viste os Valar ou mediste o poder de Manwë e Varda? Conheces o alcance do seu pensamento ? Ou pensas, porventura, que o pensamento deles está em ti e podem proteger-te de longe?

— Não sei — respondeu Húrin. — Mas assim poderia acontecer, se fosse essa a sua vontade. Pois o Grande Rei não será destronado enquanto Arda perdurar.

— Tu o dizes — replicou Morgoth. — Eu sou o Grande Rei: Melkor, o primeiro e o mais poderoso de todos os Valar, que existia antes do mundo e o fez. A sombra do meu desígnio pesa sobre Arda e tudo quanto nela há se verga, lenta e seguramente, à minha vontade. Mas sobre todos a quem amas o meu pensamento pesará como uma nuvem de Condenação e mergulhá-los-á nas trevas e no desespero. Aonde quer que vão, o mal surgirá. Quando quer que falem, as suas palavras transmitirão maus conselhos. O que quer que façam, voltar-se-á contra eles. Morrerão sem esperança, amaldiçoando tanto a vida como a morte.

Mas Húrin respondeu:

— Esqueces com quem estás a falar? As coisas que dizes já as disseste há muito tempo aos nossos pais, mas nós escapamos da tua sombra. E agora sabemos a teu respeito, pois olhamos para os rostos que viram a Luz e ouvimos as vozes que falaram com Manwë. Antes de Arda existias, mas outros também existiam e não foste tu que a fizeste. Nem és o mais poderoso de todos, pois consumiste a tua força em ti mesmo e desperdiçaste-a no teu próprio vazio. Agora não és mais do que um escravo fugido dos Valar, cujas correntes ainda te esperam.

— Aprendeste de cor as lições dos teus mestres — disse Morgoth. — Mas essa tradição infantil não te ajudará, agora que todos eles debandaram.

— Uma última coisa te direi então, escravo Morgoth — continuou —, e não é ditada pela tradição dos Eldar, mas chegou ao meu coração nesta hora. Não és o senhor dos Homens, e nunca serás, mesmo que toda a Arda e Menel fiquem sob o teu domínio. Para além dos Círculos do Mundo não perseguirás aqueles que te renegam.

— Para além dos Círculos do Mundo não os perseguirei — respondeu Morgoth. — Pois para além dos Círculos do Mundo só há o Nada. Mas dentro deles não me escaparão, até no Nada entrarem.

— Mentes — disse Húrin.

— Tu verás e confessarás que não minto — afirmou Morgoth. E, levando Húrin de novo para Angband, sentou-o numa cadeira de pedra num lugar alto das Thangorodrim, de onde ele podia ver de longe a terra de Hithlum, a ocidente, e as terras de Beleriand, ao sul. Aí ficou aprisionado pelo poder de Morgoth, o qual, de pé ao lado dele, o amaldiçoou de novo e sobre ele lançou o seu poder, para que não pudesse sair daquele lugar, nem morrer, enquanto Morgoth o não libertasse.

— Fica aí sentado — disse Morgoth —, e olha para as terras onde o mal e o desespero se abaterão sobre aqueles que me entregaste. Pois Ousaste zombar de mim e questionaste o poder de Melkor, Senhor dos destinos de Arda. Doravante, com os meus olhos verás e com os meus ouvidos ouvirás, e nada te será ocultado.

 

Três homens apenas encontraram finalmente o caminho de regresso a Brethil através da Taur-nur-Fuin, um caminho maléfico. E quando Glóredhel, filha de Hador, soube da queda de Haldir, a dor foi grande e ela morreu.

A Dor-lómin não chegavam notícias. Rían, mulher de Huor, fugiu, angustiada, para os ermos; mas foi ajudada pelos Elfos Cinzentos de Mithrim e, quando Tuor, seu filho, nasceu, eles adotaram-no. Mas Rían foi para o Haudh-en-Nirnaeth, onde se deitou e morreu.

Morwen Eledhwen permaneceu em Hithlum, silenciosa na sua dor. Seu filho Túrin tinha apenas nove anos e ela estava de novo grávida. Os seus dias eram cruéis. Os Easterlings chegaram à região em grande número, trataram cruelmente o povo de Hador, roubaram-lhe todas as suas posses e escravizaram-no. Levaram todas as pessoas das terras de Húrin capazes de trabalhar ou ter alguma utilidade, mesmo jovens raparigas e rapazes, e aos velhos mataram-nos ou expulsaram-nos para morrerem à fome. Mas ainda não ousavam pôr as mãos na Senhora de Dor-lómin, ou expulsá-la da sua casa, pois corria entre eles o boato de que ela era perigosa, e uma bruxa que tinha trato com os demônios brancos: pois era assim que conheciam os Elfos, a quem detestavam e temiam ainda mais. Pela mesma razão, temiam e evitavam as montanhas, nas quais muitos dos Eldar tinham procurado refúgio, sobretudo no sul da terra. E depois de saquearem e atormentarem, os Easterlings recuaram para norte. Pois a casa de Húrin ficava no sudeste de Dor-lómin e as montanhas estavam perto; na verdade, o Nen Lalaith descia de uma nascente sob a sombra do Amon Darthir, sobre cuja espalda havia um desfiladeiro íngreme. Por aí podiam os intrépidos atravessar as Ered Wethrin e descer pelos poços de Glithui para Beleriand. Mas tal não era do conhecimento dos Easterlings e tão-pouco, ainda, de Morgoth; pois toda essa região, enquanto a Casa de Fingolfin existiu, esteve protegida contra ele e nenhum dos seus servidores aí entrara. Ele confiava que as Ered Wethrin eram uma barreira intransponível, tanto contra a fuga do norte como contra um ataque vindo do sul. E não havia, de fato, nenhuma outra passagem, para os desprovidos de asas, entre Serech e, muito para oeste, o sítio onde Dor-lómin tinha Nevrast como vizinha.

Assim aconteceu que, depois das primeiras incursões, Morwen foi deixada em paz, embora houvesse homens emboscados nas florestas próximas e fosse perigoso afastar-se para longe. Sob o teto de Morwen permaneciam ainda Sador, o carpinteiro, alguns homens e mulheres idosos e Túrin, a quem ela mantinha perto, no interior da cerca. Mas a propriedade de Húrin não tardou a entrar em decadência e, embora trabalhasse duramente, Morwen era pobre e teria passado fome não fora a ajuda que lhe era enviada secretamente por Aerin, parente de Húrin, a quem um certo Brodda, um dos Easterlings, tomara à força como esposa. As esmolas eram amargas para Morwen, mas ela aceitava essa ajuda para o bem de Túrin e do seu filho ainda não nascido, e também porque, como dizia, vinha do que era seu. Pois fora o tal Brodda que se apoderara das pessoas, dos bens e do gado das terras de Húrin e os levara para o seu próprio domínio. Era um homem ousado, mas de pouca importância entre os seus antes de virem para Hithlum. Por isso, ávido de riqueza, estava disposto a apoderar-se de terras que outros da sua espécie não cobiçavam. Vira uma vez Morwen, quando cavalgava para a sua casa para uma pilhagem, mas fora tomado por um grande pavor dela. Pensava que fitara os olhos terríveis de um demônio branco e tomara-o um pavor mortal de que alguma desgraça se abatesse sobre ele. Por isso, não pilhara a casa dela nem descobrira Túrin, pois, de contrário, a vida do herdeiro do legítimo senhor teria sido curta.

Brodda escravizou os Cabeças de Palha, como chamava ao povo de Hador, e pô-los a construir um palácio de madeira na terra a norte da casa de Húrin. E os seus escravos eram reunidos como gado numa vacaria, mas mal guardados. Entre eles ainda se encontravam alguns que não se tinham deixado intimidar e estavam prontos para ajudar a Senhora de Dor-lómin, mesmo correndo perigo. E deles chegavam secretamente notícias a Morwen, embora nelas houvesse pouca esperança. Mas Brodda tomou Aerin como esposa e não como escrava, pois havia poucas mulheres entre os seus seguidores e nenhuma que se comparasse com as filhas dos Edain. E ele esperava fazer para si um senhorio daquela região e ter um herdeiro para a governar depois dele.

Do que acontecera e do que poderia acontecer em dias futuros Morwen pouco disse a Túrin, que por seu lado receava quebrar o silêncio da mãe com perguntas. Quando os Easterlings chegaram pela primeira vez a Dor-lómin, ele perguntara à mãe:

— Quando regressará o meu pai, para expulsar estes horrendos ladrões? Porque não vem ele?

E Morwen respondera:

— Não sei. É possível que tenha sido morto ou que esteja cativo; mas também é possível que tenha sido repelido para muito longe e não possa ainda regressar pelo meio dos inimigos que nos cercam.

— Então penso que morreu — disse Túrin, e na presença da mãe conteve as suas lágrimas —, pois ninguém seria capaz de o impedir de regressar para nos ajudar, se estivesse vivo.

— Não creio que nenhuma dessas coisas seja verdade, meu filho — respondeu Morwen.

À medida que o tempo passava, o coração de Morwen ia entristecendo por causa do seu filho Túrin, herdeiro de Dor-lómin e Ladros; pois não via para ele esperança melhor do que a de tornar-se escravo dos Easterlings, antes de ficar muito mais crescido. Por isso, lembrou-se das palavras que trocara com Húrin e o seu pensamento voltou-se de novo para Doriath. Por fim, resolveu mandar Túrin embora em segredo, se conseguisse, e rogar ao rei Thingol que o acolhesse. E, enquanto estava sentada a meditar nisso, ouviu claramente, no seu pensamento, a voz de Húrin dizer-lhe: Vai sem demora! Não esperes por mim! Mas o nascimento do seu filho aproximava-se e a estrada seria difícil e perigosa. Quanto mais demorasse, menor seria a esperança de fuga. E o seu coração continuava a iludi-la com não admitida esperança; o seu pensamento mais profundo pressentia que Húrin não estava morto, e ela ficava à espera de ouvir os seus passos nas horas insones da noite, ou acordava a pensar que ouvira no pátio o relinchar de Arroch, o seu cavalo. Além disso, embora quisesse que o filho fosse acolhido nos salões de outrem, conforme era costume daquele tempo, ainda não estava pronta para humilhar o seu orgulho e ser uma hóspede por esmola, nem mesmo de um rei. Por isso, a voz de Húrin, ou a recordação da sua voz, foi ignorada e o primeiro fio do destino de Túrin foi urdido.

O Outono do Ano da Lamentação aproximava-se sem que Morwen se tivesse decidido, e depois foi acometida pela pressa; pois o tempo para viajar era curto, mas ela temia que Túrin fosse levado se esperasse pelo Inverno. Easterlings rondavam à volta da cerca e espiavam a casa. Por conseguinte, disse subitamente a Túrin:

— O teu pai não vem. Tens, pois, de partir, e depressa. Ele assim o desejaria.

— Partir? — gritou Túrin. — Para onde iremos? Para além das Montanhas?

— Sim, para além das montanhas, muito para sul. Para sul: aí poderá haver alguma esperança. Mas eu não disse que nós tínhamos de partir, meu filho. Tu tens de partir, mas eu devo ficar.

— Não posso ir sozinho! — protestou Túrin. — Não vos deixarei. Porque não havemos de ir juntos?

— Eu não posso ir — disse Morwen. — Mas não irás sozinho. Mandarei Gethron contigo e Grithnir também, talvez.

— Não mandareis Labadal?

— Não, pois Sador é coxo — respondeu Morwen — e a estrada será difícil. E como és meu filho e os tempos estão sinistros, não suavizarei as palavras: podes morrer nessa estrada. O ano está a terminar. Mas, se ficares, esperar-te-á um fim pior: ser um escravo. Se queres ser um homem, quando chegares à idade de o ser, farás como te mando, corajosamente.

— Mas deixar-vos-ei só com Sador, o cego Ragnir e as mulheres idosas — protestou Túrin. — Não disse meu pai que sou o herdeiro de Hador? O herdeiro deveria ficar na casa de Hador para a defender. Quem me dera agora ter ainda a minha faca!

— O herdeiro deveria ficar, porém não pode — respondeu Morwen. — Mas poderá regressar um dia. Coragem! Seguir-te-ei, se as coisas piorarem; se puder.

— Mas como me encontrareis, perdido no deserto? — perguntou Túrin e, de súbito, o coração não lhe obedeceu e ele chorou abertamente.

— Se choras, outras coisas te encontrarão primeiro — avisou Morwen. — Mas eu sei para onde vais e, se lá chegares e lá permaneceres, aí te encontrarei, se puder. Pois vou enviar-te ao Rei Thingol de Doriath. Não preferes ser hóspede de um rei a ser um escravo?

— Não sei. Não sei o que é um escravo.

— Vou mandar-te embora daqui para que não precises de aprender o que é — respondeu Morwen. Depois colocou Túrin à sua frente e fitou-o nos olhos, como se tentasse deslindar algum enigma neles. — É difícil, Túrin, meu filho — disse, por fim. — E não apenas para ti. Muito me custa decidir, em dias tão cruéis, qual é o melhor procedimento. Mas procedo como penso que é certo, pois por que outro motivo haveria de me separar daquilo que me é mais querido em tudo o que me resta?

Não voltaram a falar do assunto um com o outro e Túrin sentia-se magoado e confuso. De manhã foi procurar Sador, que estivera a partir galhos secos para o lume. Era escassa a reserva de que dispunham, pois não se atreviam a embrenhar-se pelas florestas. Sador apoiou-se na sua muleta e olhou para a grande cadeira de Húrin, que fora atirada, por acabar, para um canto.

— Ela terá de ir — disse. — Pois nos tempos que correm só é possível satisfazer as necessidades mais ínfimas.

— Não a quebres ainda — pediu Túrin. — Talvez ele volte para casa e depois fique satisfeito ao ver o que fizeste para ele, na sua ausência.

— Falsas esperanças são mais perigosas do que temores — disse Sador —, e não nos aquecerão neste Inverno. — Passou a mão pelos entalhes da cadeira e suspirou. — Desperdicei o meu tempo, embora as horas tenham parecido agradáveis. Mas estas coisas têm vida curta e a alegria de as fazer é o seu único e verdadeiro fim, parece-me. E agora acho melhor devolver-te o teu presente.

Túrin estendeu a mão, mas logo a recuou.

— Um homem não volta a receber o que deu.

— Mas, se ela é agora minha, não poderei dá-la a quem quiser?

— Sim — disse Túrin —, a qualquer homem menos a mim. Mas porque desejarias dá-la?

— Não me resta esperança de a usar em tarefas dignas. Não haverá trabalho para Labadal nos dias vindouros, a não ser trabalho de escravo.

— O que é um escravo? — quis saber Túrin.

— É um homem que foi um homem mas é tratado como um animal — respondeu Sador. — Alimentado apenas para se manter vivo, mantido vivo apenas para labutar, labutando apenas por medo da dor ou da morte. E destes ladrões pode receber dor ou morte apenas por puro divertimento. Ouvi dizer que escolhem alguns dos pés-ligeiros e os perseguem com cães de caça. Aprenderam mais depressa com os Orcs do que nós com o Povo Belo.

— Agora compreendo melhor as coisas — disse Túrin.

— É uma pena que tenhas de compreender tais coisas tão cedo — disse Sador. Depois, vendo a expressão estranha do rosto de Túrin, perguntou-lhe: — O que é que compreendes agora?

— O motivo por que a minha mãe me vai mandar embora — respondeu Túrin, e os seus olhos encheram-se de lágrimas.

— Ah! — disse Sador, e murmurou para consigo: «Mas porque demorou tanto?» Depois, voltando-se para Túrin, acrescentou: — Essa não me parece uma notícia para lágrimas. Mas não deves repetir as decisões da tua mãe em voz alta a Labadal, nem a ninguém. Hoje em dia, todas as paredes e cercas têm orelhas, orelhas que não crescem em cabeças claras.

— Mas preciso de falar com alguém! Sempre te contei coisas, Labadal. Não quero deixar-te. Não quero deixar esta casa ou a minha mãe.

— Mas, se não o fizeres, em breve haverá um fim definitivo para a Casa de Hador, como deves compreender. Labadal não quer que partas; mas Sador, servo de Húrin, sentir-se-á mais feliz quando o filho de Húrin estiver fora do alcance dos Easterlings. Bem, bem, não há remédio, temos de nos despedir. Agora não aceitas a minha faca como presente de despedida?

— Não! A minha mãe diz que vou para os Elfos, para o Rei de Doriath. Lá posso obter outras coisas como a faca. Mas não poderei mandar-te quaisquer presentes, Labadal. Estarei muito longe e sozinho.

E então Túrin chorou, mas Sador disse-lhe:

— Então? Onde está o filho de Húrin? Pois ouvi-o dizer, não há muito tempo: Partirei como soldado com um rei élfico, assim que for capaz.

Túrin conteve as lágrimas e respondeu:

— Está bem: se essas foram as palavras do filho de Húrin, ele deve honrá-las e partir. Mas, sempre que digo que farei isto ou aquilo, as coisas parecem muito diferentes quando chega a altura de o fazer. Agora estou relutante. Preciso de ter cuidado e não voltar a dizer tais coisas.

— Será, de fato, melhor — disse Sador. — E isso que muitos homens ensinam e poucos homens aprendem. Não penses nos dias invisíveis. O de hoje é mais do que suficiente.

Túrin foi preparado para a viagem, despediu-se da mãe e partiu em segredo com os seus dois acompanhantes. Mas quando eles lhe disseram que se voltasse e olhasse para trás, para a casa de seu pai, então a angústia da separação dilacerou-o como uma espada, e ele gritou: «Morwen, Morwen, quando voltarei a ver-vos?» Mas Morwen, parada no limiar da casa, ouviu o eco desse grito nos montes arborizados e agarrou-se com tanta força à trave da porta que os seus dedos ficaram dilacerados. Este era o primeiro dos infortúnios de Túrin.

No início do ano, depois de Túrin ter partido, Morwen deu à luz a filha, a quem chamou Niënor, que significa Luto; mas Túrin já estava muito longe quando ela nasceu. Extensa e terrível era a sua estrada, pois o alcance do poder de Morgoth chegava muito longe; mas ele tinha como guias Gethron e Grithnir, que tinham sido jovens no tempo de Hador e, apesar de serem agora idosos, eram valentes e conheciam bem as terras, pois tinham viajado com freqüência por Beleriand em tempos anteriores. Assim, mercê do destino e da coragem, atravessaram as Montanhas Sombrias e, descendo ao Vale de Sirion, penetraram na Floresta de Brethil; e por fim, fatigados e enfraquecidos, atingiram os limites de Doriath. Mas aí sentiram-se confusos, ficaram enredados nos labirintos da Rainha e vaguearam, perdidos, por entre a floresta ínvia, até todos os seus mantimentos se esgotarem. Estavam à beira da morte, pois o Inverno avançava, frio, do Norte; mas não seria tão leve o tormento de Túrin. No momento em que se deitavam, entregues ao desespero, ouviram soar uma trompa. Beleg, o Arco Forte, andava a caçar naquela região, pois residia sempre nos pântanos de Doriath e era o mais importante habitante das florestas daquele tempo. Ao ouvir os gritos deles, veio ao seu encontro e, depois de lhes dar de comer e beber, ficou a saber os seus nomes e de onde vinham, e o espanto e a compaixão apoderaram-se dele. Olhou com simpatia para Túrin, pois ele tinha a beleza da mãe e os olhos do pai, e era resoluto e forte.

— Que mercê gostarias de receber do rei Thingol? — perguntou Beleg ao rapaz.

— Gostaria de ser um dos seus cavaleiros, para combater contra Morgoth e vingar o meu pai.

— Pode ser que isso venha a acontecer, quando o número dos teus anos for maior. Pois, embora sejas ainda pequeno, possuis os predicados de um homem valente, digno de ser filho de Húrin, o Firme, se tal fosse possível. — Pois o nome de Húrin era honrado em todas as terras dos Elfos.

Assim, Beleg tornou-se de bom grado guia dos viajantes e conduziu-os a um pavilhão onde vivia naquele tempo com outros caçadores e aí ficaram instalados enquanto um mensageiro ia a Menegroth. E quando chegou a notícia de que Thingol e Melian receberiam o filho de Húrin e os seus guardiões, Beleg conduziu-os por caminhos secretos ao Reino Escondido.

Assim chegou Túrin à grande ponte sobre o Esgalduin e transpôs as portas dos palácios de Thingol; e, como criança que era, olhou para as maravilhas de Menegroth, que nenhum Homem mortal antes vira, com a única exceção de Beren. Então Gethron pronunciou a mensagem de Morwen perante Thingol e Melian; e Thingol recebeu-os amavelmente e sentou Túrin no seu joelho em honra de Húrin, o mais poderoso dos Homens, e de Beren, seu familiar. E aqueles que tal viram ficaram maravilhados, pois era sinal de que Thingol aceitava Túrin como filho adotivo; e isso não era, naquela altura, coisa feita por reis, e muito menos uma coisa que um rei Elfo fizesse por um Homem. Depois Thingol disse-lhe:

— Aqui, filho de Húrin, será a tua casa; e em toda a tua vida serás tido como meu filho, embora Homem sejas. Receberás sabedoria para além da medida dos Homens mortais e as armas dos Elfos serão colocadas nas tuas mãos. Talvez venha o dia em que recuperarás as terras de teu pai em Hithlum, mas por agora vive aqui com amor.

Assim começou a estada de Túrin em Doriath. Com ele permaneceram durante algum tempo Gethron e Grithnir, seus acompanhantes, apesar de ansiarem por regressar para junto da sua senhora, em Dor-lómin. Depois, a idade e a doença abateram-se sobre Grithnir, que ficou junto de Túrin até à morte; mas Gethron partiu e Thingol mandou uma escolta guiá-lo e protegê-lo, além de levar notícias de Thingol para Morwen. Chegaram finalmente a casa de Húrin e, ao saber que o filho fora recebido com honra nos palácios de Thingol, Morwen sentiu aliviado o peso da sua dor. Os Elfos levavam também prendas valiosas de Melian e uma mensagem convidando-a a regressar com os homens de Thingol a Doriath. Pois Melian era sensata e previdente e esperava evitar assim o mal que estava preparado no pensamento de Morgoth. Mas Morwen recusava-se a sair da sua casa, porque o seu coração não mudara e o seu orgulho continuava elevado; além disso, Niënor era uma bebê de colo. Por conseguinte, ela despediu-se dos Elfos de Doriath com agradecimentos e presenteou-os com as últimas pequenas coisas de ouro que lhe restavam, ocultando assim a sua pobreza; e pediu-lhes que levassem a Thingol o Elmo de Hador. Mas Túrin ficara sempre à espera dos mensageiros de Thingol e, quando eles regressaram sozinhos, fugiu para as florestas e chorou, pois tinha conhecimento do convite de Melian e esperara que Morwen viesse. Este foi o segundo infortúnio de Túrin. Quando os mensageiros comunicaram a resposta de Morwen, Melian encheu-se de compaixão, compreendendo o estado de espírito dela; e compreendeu também que o destino que pressagiara não podia ser facilmente afastado.

O Elmo de Hador foi depositado nas mãos de Thingol. Era feito de aço cinzento adornado com ouro e tinha gravadas runas de vitória. Havia nele um poder que protegia quem o usasse de ferimento ou morte, pois a espada que o atacasse quebrar-se-ia e o dardo que o atingisse saltaria para o lado. Tinha sido forjado por Telchar, o ferreiro de Nogrod, cujos trabalhos eram famosos. Tinha uma viseira (no estilo das usadas pelos Anões nas suas forjas para protegerem os olhos) e o rosto de quem a usasse infundiria medo nos corações de todos quanto o observassem, mas estava protegido contra dardo e fogo. No seu cimo erguia-se, desafiadora, a imagem de Glaurung, o dragão, pois fora feito pouco depois de ele ter saído dos portões de Morgoth. Hador, e depois dele Galdor, haviam-no usado com freqüência na guerra, e os corações da hoste de Hithlum elevavam-se quando o viam erguido, bem alto, no meio da batalha, e gritavam: «Tem mais merecimento o Dragão de Dor-lómin do que o verme de ouro de Angband!» Mas Húrin não usava o Elmo do Dragão com facilidade, e de qualquer modo não o usaria, pois costumava dizer: «Prefiro olhar para os meus inimigos com o meu verdadeiro rosto.» Apesar disso, contava o elmo entre os bens mais valiosos da sua casa.

Ora, Thingol tinha em Menegroth enormes armeiros cheios de grande abundância de armas: metal lavrado como carapaças de peixes que brilhavam como água ao luar; espadas e machados, escudos e elmos forjados pelo próprio Telchar ou pelo seu mestre Gamil Zirak, o Velho, ou por ferreiros élficos ainda mais hábeis. Pois algumas coisas recebera como dádiva vinda de Valinor e tinham sido trabalhadas por Fëanor com a mestria que nenhum outro artesão superara em todos os dias do mundo. No entanto, Thingol segurou o Elmo de Hador como se o seu próprio acervo oculto fosse de pouca monta, e referiu-se-lhe com palavras corteses, dizendo:

— Altiva a cabeça que usou este elmo, que os antepassados de Húrin carregaram.

Depois ocorreu-lhe um pensamento e mandou chamar Túrin, a quem disse que Morwen mandara para o seu filho uma coisa muito poderosa, a herança dos seus antepassados. «Aceita agora a Cabeça de Dragão do Norte», disse-lhe, «e usa-a bem quando o tempo chegar.» Mas Húrin era ainda demasiado novo para erguer o elmo e não fez caso, por causa da mágoa do seu coração.

 

Nos anos da sua infância no reino de Doriath, Túrin foi observado por Melian, embora raramente a visse. Mas havia uma donzela chamada Nellas que vivia nas florestas; e, a mando de Melian, seguia Túrin se este se embrenhava pela floresta e muitas vezes lá se encontrava com ele, como que por acaso. Então brincavam juntos, ou caminhavam de mãos dadas; pois ele crescia rapidamente, ao passo que ela não parecia mais do que uma jovem da idade dele, como era no seu coração, apesar de todos os seus anos élficos. Com Nellas, Túrin aprendeu muito acerca dos hábitos e das coisas selvagens de Doriath. Ela ensinou-o também a falar a língua Sindarin ao modo do reino antigo, mais velha, mais cortês e mais rica de belas palavras. Assim, durante pouco tempo, a disposição dele animava-se, até a sombra pairar de novo sobre Túrin e essa amizade passar como uma manhã de Primavera. Pois Nellas não ia para Menegroth e nunca estava disposta a encontrar-se sob telhados de pedra. Assim, à medida que a adolescência passava e Túrin dirigia os seus pensamentos para feitos de homens, passou a vê-la cada vez menos freqüentemente e, por fim, deixou de a chamar. Mesmo assim, ela continuava a observá-lo, apesar de agora se manter oculta.

Nove anos viveu Túrin nos salões de Menegroth. O seu coração e o seu pensamento estavam sempre com a sua família e, de vez em quando, recebia notícias que o confortavam. Pois, sempre que podia, Thingol enviava mensageiros a Morwen e ela respondia com palavras para o seu filho; foi assim que Túrin ficou a saber que a situação da mãe melhorara e que a sua irmã, Niënor, crescia em beleza, uma flor no cinzento Norte. E Túrin cresceu em estatura até se tornar alto entre os Homens e ultrapassar a dos Elfos de Doriath, e a sua força e intrepidez tornaram-se famosas no reino de Thingol. Nesses anos adquiriu muita sabedoria, ouvindo atentamente as histórias de tempos antigos e de grandes feitos passados, e tornou-se pensativo e parco de palavras. Beleg Arco Forte vinha com freqüência a Menegroth, procurá-lo, e levava-o para longe, ensinando-lhe artes de trabalhar madeira, do uso do arco e da flecha e (do que ele mais gostava) do manejo de espadas; mas nas artes de fazer coisas Túrin era menos eficiente, pois mostrava lentidão para adquirir consciência da própria força e, não raro, deformava o que fazia com algum golpe violento. Noutros aspectos também parecia ser-lhe a fortuna adversa, de modo que aquilo que pretendia corria mal e o que desejava não alcançava; tão-pouco fazia amizades facilmente, pois não era alegre, pouco ria e uma sombra toldava a sua mocidade. Apesar disso, era amado e estimado por aqueles que o conheciam bem e recebia honras como filho adotivo do Rei.

No entanto, havia em Doriath alguém que lhe invejava tudo isso, com uma inveja que aumentava à medida que Túrin se aproximava da idade adulta: Saeros se chamava. Ele era orgulhoso e lidava altivamente com aqueles que considerava de menor estatuto e merecimento do que ele. Tornou-se amigo de Daeron, o menestrel, pois também era talentoso no canto. Não tinha simpatia alguma pelos Homens e menos ainda por qualquer parente de Beren Maneta. «Não é estranho», dizia, «que esta terra se abra para mais outro membro dessa desgraçada raça? Não causou o outro mal suficiente em Doriath?» Por isso, olhava de lado para Túrin e para tudo quanto ele fazia, dizendo todo o mal que podia a esse respeito. Mas as suas palavras eram astutas e o seu rancor velado. Se encontrava Túrin sozinho, falava-lhe altivamente e mostrava sem disfarces o seu desprezo. E Túrin fartou-se dele, embora durante muito tempo tivesse respondido com silêncio às más palavras, pois Saeros era poderoso entre o povo de Doriath e um dos conselheiros do Rei. Mas o silêncio de Túrin desagradava tanto a Saeros como as suas palavras.

No ano em que Túrin completou dezessete anos, o seu sofrimento agravou-se, pois nessa altura deixaram de chegar quaisquer notícias da sua casa. O poder de Morgoth crescera de ano para ano e Hithlum inteira estava agora sob a sua sombra. Ele sabia, sem dúvida, muito do que faziam o povo e a família de Húrin e, durante algum tempo, não os molestara, para que o seu objetivo pudesse ser alcançado; mas agora, para conseguir o que pretendia, colocara sob estreita vigilância todos os desfiladeiros das Montanhas da Sombra, para que ninguém pudesse sair de Hithlum nem entrar, a não ser com grande perigo, e os Orcs concentravam-se em grande número perto das nascentes do Narog e do Teiglin e das águas mais para o interior do Sirion. Em conseqüência disso, chegou uma altura em que os mensageiros de Thingol não regressaram e ele resolveu não enviar mais nenhum. Detestava sempre que alguém se afastasse para além das fronteiras protegidas e em nada mostrara maior boa vontade para com Húrin e a sua família do que enviando a sua gente por estradas perigosas, para visitar Morwen em Dor-lómin.

O coração de Túrin inquietou-se, não sabendo que nova desgraça se abatera sobre Morwen e Niënor; e por muitos dias ficou sentado em silêncio, cismando na ruína da Casa de Hador e dos Homens do Norte. Depois levantou-se e foi procurar Thingol, que encontrou sentado com Melian sob a Hirilorn, a grande faia de Menegroth.

Thingol olhou-o com espanto, ao ver de súbito à sua frente, em vez do seu filho adotivo, um Homem e um desconhecido, alto e de cabelo preto, que o olhava com olhos profundos num rosto pálido, austero e orgulhoso; mas sem dizer nada.

— Que desejas, filho adotivo? — perguntou Thingol, calculando que ele não iria pedir nada de pouca monta.

— Cota de malha, espada e escudo condizentes com a minha estatura, Senhor — respondeu Túrin. — E, com vossa licença, reclamarei agora, também, o Elmo do Dragão dos meus antepassados.

— Tê-los-ás. Mas que necessidade tens, já, de semelhantes armas?

— A necessidade de um homem — disse Túrin —, e de um filho que tem família para recordar. E preciso igualmente de companheiros valorosos e com armas.

— Dar-te-ei um lugar entre os meus cavaleiros da espada, pois a espada será sempre a tua arma — respondeu Thingol. — Com eles poderás fazer treino de guerra nas fronteiras, se for esse o teu desejo.

— O coração impele-me para além das fronteiras de Doriath. Pois anseio mais por atacar o nosso inimigo do que por defender-me.

— Então deves fazê-lo sozinho — disse Thingol. — A participação do meu povo na guerra com Angband é controlada por mim de acordo com o meu critério, Túrin, filho de Húrin. Nenhuma força de armas de Doriath mandarei para combate, nesta altura; nem em qualquer outra que possa prever.

— No entanto, és livre para partir quando desejares, filho de Morwen — acrescentou a rainha. — A Cerca de Melian não impede a partida daqueles que entraram com a nossa autorização.

— A não ser que conselho sensato te contenha — disse Thingol.

— Qual é o vosso conselho, Senhor?

— Um Homem pareces em estatura, e de fato és já mais alto do que muitos. No entanto, ainda não atingiste a plenitude da idade viril que chegará. Até isso ser alcançado, deves ser paciente, pôr à prova e treinar a tua força. Depois, talvez possas lembrar-te da tua família; é, porém, pouca a esperança de que um Homem só possa fazer mais contra o Senhor Negro do que ajudar os Senhores Élficos a defender-se, por muito tempo que isso possa durar.

Túrin respondeu:

— Beren, meu familiar, fez mais.

— Beren e Lúthien — corrigiu Melian. — Mas és por demais ousado ao falar assim ao pai de Lúthien. Não é tão alto o teu destino, julgo, Túrin, filho de Morwen, embora haja grandeza em ti e a tua sorte esteja entrelaçada com a do povo élfico, para o bem ou para o mal. Tem cautela, se for para o mal. — Depois, após uma pausa, voltou a falar: — Agora vai, filho adotivo, e segue o conselho do Rei. Esse será sempre mais sensato do que o teu próprio. Todavia, não creio que habites muito tempo conosco em Doriath após atingires a idade adulta. Se em dias futuros te lembrares das palavras de Melian, será para teu próprio bem: receia sempre o calor e o frio do teu coração e, se puderes, esforça-te para seres paciente.

Então, Túrin inclinou-se diante deles e saiu. E pouco depois pôs o Elmo do Dragão, pegou em armas e partiu para as fronteiras setentrionais, onde se juntou aos guerreiros élficos que aí travavam guerra incessante contra os Orcs e todos os servos e criaturas de Morgoth. Assim, embora fosse pouco mais que um rapaz, a sua força e a sua coragem foram provadas; e, lembrando-se dos erros dos seus familiares, esteve sempre à frente em atos de ousadia e recebeu muitos ferimentos de lança ou flecha, ou das lâminas perversas dos Orcs.

Mas o seu destino poupava-o à morte e correu a palavra pelas florestas, e constou para além de Doriath, que o Elmo do Dragão de Dor-lómin voltara a ser visto. Muitos foram os que se surpreenderam, e disseram: «Pode o espírito de algum homem regressar da morte? Ou terá Húrin de Hithlum escapado, de fato, dos abismos do Inferno?»

Um apenas, entre os guardas das fronteiras de Thingol, era, nesse tempo, mais poderoso com as armas do que Túrin: Beleg, Arco Forte. E Beleg e Túrin eram companheiros em todos os perigos e juntos penetravam fundo nas florestas selvagens.

Assim se passaram três anos e, durante esse tempo, Túrin raramente foi aos palácios de Thingol. Deixara de se preocupar com o seu aspecto ou com o seu vestuário, mas o seu cabelo estava revolto e a cota de armas coberta por uma capa cinzenta manchada pelo tempo. Mas sucedeu que, no terceiro Verão após a sua partida, quando tinha vinte anos, por desejar algum repouso e necessitar de alguns arranjos nas suas armas, dirigiu-se sem ser visto a Menegroth e, uma noite, entrou no palácio. Thingol não se encontrava lá, pois ausentara-se para a Floresta Verde com

Melian, como por vezes lhe aprazia no pino do Verão. Túrin procurou um assento descuidadamente, pois estava cansado do caminho e com a cabeça cheia de pensamentos, e por pouca sorte sentou-se numa mesa entre os anciãos do reino e no lugar onde Saeros tinha por hábito sentar-se. Saeros, entrando atrasado, enfureceu-se, convencido de que Túrin procedera inspirado pelo orgulho e com a intenção de o afrontar. E a sua cólera não abrandou quando viu que Túrin não era repreendido pelos que ali estavam sentados, mas antes bem-vindo como alguém digno de se sentar entre eles. Por momentos, assim, Saeros fingiu partilhar o mesmo sentimento e sentou-se noutro lugar, defronte de Túrin.

— É raro o guarda das marcas honrar-nos com a sua companhia — disse — e de bom grado cedo o meu lugar habitual em troca da oportunidade de falar com ele.

Mas Túrin, que conversava com Mablung, o Caçador, não se levantou e limitou-se a responder com um seco «Obrigado».

Então Saeros crivou-o com perguntas a respeito das notícias das fronteiras e o que fazia ele na floresta; mas embora as suas palavras parecessem amáveis, não podia haver equívoco quanto ao escárnio da sua voz. Húrin impacientou-se, olhou em seu redor, e sentiu a amargura do exílio; e, apesar de toda a luz e riso dos salões élficos, os seus pensamentos voltaram-se para Beleg e a vida de ambos nas florestas, e depois para mais longe ainda, para Morwen em Dor-lómin, na casa do seu pai. Franziu a testa, levado pela tristeza dos seus pensamentos, e não respondeu a Saeros. Convencido de que o franzir de testa lhe era destinado, Saeros deixou de conter a cólera e, pegando num pente de ouro, atirou-o para o outro lado da mesa, à frente de Túrin, e gritou:

— Homem de Hithlum, viestes sem dúvida apressado para esta mesa e podeis ser desculpado pela vossa capa esfarrapada; mas aqui não há necessidade de deixar a cabeça desgrenhada como um matagal de silvas. E é possível que, tendo as orelhas descobertas, ouvísseis melhor o que vos é dito.

Túrin não respondeu, mas havia um brilho nas trevas do olhar que lançou a Saeros. Este, porém, ignorou a advertência e devolveu o olhar com desdém, dizendo, de modo que todos ouvissem:

— Se os Homens de Hithlum são tão selvagens e desgrenhados, de que espécie serão as mulheres dessa terra? Correm como gamos envoltas apenas nos seus cabelos?

Então Túrin pegou numa taça e arremessou-a ao rosto de Saeros, que caiu para trás com grande dor; e desembainhou a espada e teria avançado para ele se Mablung o não detivesse. Saeros levantou-se, cuspiu sangue para a mesa e falou o melhor que foi capaz com a boca ferida:

— Quanto tempo abrigaremos este selvagem da floresta? Quem manda aqui esta noite ? A lei do Rei é pesada sobre aqueles que ferem os seus vassalos no palácio e, para aqueles que aí desembainham a espada, o mínimo dos castigos é serem declarados bandidos. Fora do palácio poderia responder-te, selvagem da floresta!

Mas a ira de Túrin esfriou quando viu sangue em cima da mesa e, com um encolher de ombros, soltou-se de Mablung e saiu sem dizer palavra.

Então Mablung disse a Saeros:

— Que bicho vos mordeu esta noite? Do mal que aconteceu vos considero culpado e talvez a lei do Rei considere uma boca ferida a retribuição justa pelo vosso escárnio.

— Se o fedelho se considera agravado, que exponha a queixa ao critério do Rei. Mas desembainhar espadas, aqui, não é desculpado por semelhante causa. Fora do palácio, se o selvagem desembainhar a espada contra mim, matá-lo-ei.

— Poderia acontecer o contrário — rebateu Mablung. — Mas, se qualquer de vós for morto, será uma má ação mais própria de Angband do que de Doriath e mal maior daí resultará. Em verdade, sinto que alguma sombra do Norte se estendeu para nos tocar esta noite. Cuidai, Saeros, não acabeis por fazer a vontade a Morgoth, no vosso orgulho, e lembrai-vos de que pertenceis aos Eldar.

— Não o esqueço — respondeu Saeros, mas a sua ira não acalmou e, durante a noite, o seu rancor cresceu, aumentando-lhe o orgulho ferido.

De manhã, saiu ao caminho de Túrin, quando este partia de Menegroth com a intenção de regressar às marcas. Túrin percorrera apenas uma curta distância quando Saeros correu para ele, nas suas costas, de espada desembainhada e escudo no braço. Mas, treinado na selva para ser prudente, Túrin viu-o pelo canto do olho e, saltando para o lado, empunhou rapidamente a espada e voltou-se para o inimigo. «Morwen!», gritou, «agora o vosso zombador pagará pelo seu escárnio!» E fendeu o escudo de Saeros e depois lutaram ambos com lâminas velozes. Mas Túrin passara muito tempo numa dura escola e tornara-se tão ágil como qualquer elfo, porém mais forte. Não tardou a levar vantagem e, ferindo o braço de Saeros que empunhava a espada, deixou-o à sua mercê. Depois pisou a espada que o adversário deixara cair e disse:

— Saeros, há uma longa corrida à vossa frente e as roupas serão um obstáculo; o cabelo terá de vos bastar.

E, atirando-o subitamente para o chão, despiu-o e Saeros sentiu a grande força de Túrin e teve medo. Mas Túrin deixou-o levantar-se e depois gritou:

— Correi, correi, zombador de mulheres! Correi! Pois a não ser que sejais veloz como os gamos, picar-vos-ei pela retaguarda.

Encostou a ponta da espada às nádegas de Saeros que, aterrorizado, fugiu para a floresta gritando desesperadamente por socorro. Mas Túrin seguiu-o como um cão de caça e, por muito que ele corresse, ou se esquivasse, a espada estava atrás, para o incitar.

Os gritos de Saeros atraíram muitos outros para a perseguição, os quais o seguiram, mas somente os mais velozes conseguiam acompanhar o ritmo dos corredores. Mablung ia à frente dos que tinham acorrido e sentia a mente perturbada, pois embora a provocação lhe tivesse parecido má, «a maldade que desperta de manhã é o júbilo de Morgoth antes da noite»; e era considerado ofensivo sujeitar qualquer elfo à vergonha, de livre vontade, sem o assunto ser levado a julgamento. Ninguém sabia, nessa altura, que Húrin fora atacado primeiro por Saeros, que o teria morto.

— Parai, parai, Túrin — gritou. — Isso é trabalho de Orc nas florestas!

— Trabalho de Orc houve antes; isto é apenas brincadeira de Orc — gritou Túrin em resposta.

Antes de Mablung falar, ele estivera prestes a soltar Saeros, mas agora, com um grito, correu de novo atrás dele; e Saeros, por fim sem esperança de ajuda e julgando a morte bem perto atrás de si, continuou a correr desvairadamente até chegar, de súbito, a um rebordo onde uma corrente que alimentava o Esgalduin passava numa fenda profunda entre rochedos altos, com largura para um salto de veado. No seu terror, Saeros tentou o salto, mas perdeu o pé no lado oposto, caiu para trás com um grito e despedaçou-se numa grande pedra, na água. Assim terminou a sua vida em Doriath e por muito tempo Mandos o reteria.

Túrin olhou para baixo, viu o corpo caído na corrente, e pensou: «Infeliz idiota! Daqui o teria deixado regressar a Menegroth. Agora fez abater-se sobre mim uma culpa imerecida.» Voltou-se e olhou sombriamente para Mablung e para os seus companheiros, que se tinham aproximado e estavam agora perto dele, no rebordo. Após um silêncio, Mablung disse, em tom grave:

— Que tragédia! Regressai agora conosco, Túrin, pois o Rei deve julgar estes atos.

Mas Túrin respondeu:

— Se o Rei fosse justo, considerar-me-ia inocente. Mas não era este um dos seus conselheiros? Porque haveria um rei justo de escolher para amigo um coração perverso? Renego a sua lei e o seu julgamento.

— As vossas palavras são por demais altivas — observou Mablung, embora se compadecesse do jovem. — Aprendei a ser sensato! Não vos torneis um fugitivo. Rogo-vos que regresseis comigo, como amigo. E há outras testemunhas. Quando o Rei souber a verdade, podereis contar com o seu perdão.

Mas Túrin estava cansado dos salões élficos e temia ser feito cativo; por isso, disse a Mablung:

— Recuso o vosso convite. Não pedirei o perdão do Rei Thingol por nada, e parto agora para onde a sua condenação não poderá alcançar-me. Tendes apenas duas escolhas: deixar-me partir livre ou matar-me, se isso estiver de acordo com a vossa lei. Sois muito poucos para me apanhardes vivo.

Viram, pelo fogo do seu olhar, que as suas palavras eram verdadeiras e deixaram-no ir.

— Uma morte é suficiente — disse Mablung.

— Eu não a quis, mas não a lamentarei — respondeu Túrin. — Que Mandos o julgue com justiça e que, se alguma vez regressar às terras dos vivos, ele saiba mostrar-se mais sensato. Ficai bem!

— Ficai livre! — disse Mablung. — Pois esse é o vosso desejo. Dizer bem seria inútil, se seguis neste caminho. Há uma sombra sobre vós. Que ela não seja mais escura, quando voltarmos a encontrar-nos.

Túrin não respondeu, mas deixou-os e afastou-se rapidamente, sozinho, ninguém sabia para onde.

Diz-se que, quando Túrin não regressou às marcas do Norte nem dele chegaram quaisquer notícias, Beleg Arco Forte foi pessoalmente procurá-lo a Menegroth e, com o coração pesado, tomou conhecimento dos atos e da fuga de Túrin. Pouco depois, Thingol e Melian regressaram aos seus palácios, pois o Verão ia no fim, e quando o Rei ouviu o que acontecera disse: «Este é um assunto grave que preciso de conhecer no seu todo. Embora Saeros, meu conselheiro, tenha sido morto, e Túrin, meu filho adotivo tenha fugido, amanhã sentar-me-ei no trono do julgamento e ouvirei de novo tudo, pela devida ordem, antes de pronunciar a minha sentença.»

No dia seguinte, o Rei sentou-se no trono, na sua corte, rodeado por todos os chefes e anciãos de Doriath. Então foram ouvidas muitas testemunhas e, destas, Mablung foi quem mais falou e com maior clareza. E quando referiu a discussão havida à mesa, pareceu ao Rei que o coração de Mablung pendia para Túrin.

— Falais como amigo de Túrin filho de Húrin? — perguntou Thingol.

— Amigo fui, mas amo mais, e há mais tempo, a verdade. Ouvi-me até ao fim, Senhor!

Depois de tudo dito até às palavras de despedida de Túrin, Thingol suspirou, olhou para os que estavam sentados diante dele e disse:

— Ai de mim, vejo uma sombra nos vossos rostos. Como se insinuou ela no meu reino? A maldade está a atuar aqui. Considerava Saeros fiel e sensato, mas se ele estivesse vivo sentiria a minha cólera, pois o seu escárnio foi maldoso e considero-o culpado de tudo quanto aconteceu no palácio. Até aqui, Túrin tem o meu perdão. Mas não posso ignorar os seus atos posteriores, quando a ira deveria ter arrefecido. A humilhação de Saeros e a sua perseguição até à morte foram males maiores do que a ofensa. Revelam um coração duro e orgulhoso.

Thingol ficou um momento sentado, a pensar, e por fim disse, tristemente:

— Este é um filho adotivo ingrato e na verdade um Homem demasiado orgulhoso para a sua condição. Como poderei continuar a albergar alguém que desdenha da minha lei ou perdoar a quem não se arrependerá? Eis a minha sentença: banirei Túrin de Doriath. Se ele procurar entrar, será levado a julgamento perante mim e enquanto não rogar por perdão a meus pés não voltará a ser meu filho. Se algum dos presentes considera injusta a sentença, que o diga agora!

Reinou o silêncio no salão e Thingol levantou a mão para pronunciar a sua sentença. Mas, nesse momento, Beleg entrou apressadamente e gritou:

— Senhor, posso falar?

— Chegais atrasado. Não fostes convocado como os outros?

— Na verdade fui, Senhor, mas sofri um atraso enquanto procurava alguém que conhecia. Agora trago-vos, finalmente, uma testemunha que deve ser ouvida, antes que a vossa sentença seja proclamada.

— Foram convocados todos quantos tinham alguma coisa a dizer. — respondeu o Rei. — Que pode a testemunha dizer agora de mais peso do que aqueles a quem escutei?

— Julgareis quando ouvirdes. Concedei-me essa mercê, se alguma vez mereci o vosso favor.

— Concedida está — respondeu Thingol.

Então Beleg saiu e voltou trazendo pela mão a jovem Nellas, que vivia nas florestas e nunca entrava em Menegroth. E ela sentiu-se receosa, tanto do grande salão cheio de colunas e do telhado de pedra como da presença dos muitos olhos que a observavam. E quando Thingol lhe pediu que falasse, disse:

— Senhor, eu estava sentada numa árvore... — mas depois hesitou, temerosa do Rei, e não conseguiu dizer mais nada.

Perante isto, o Rei sorriu e disse:

— Já outros o fizeram também, mas não sentiram necessidade de mo dizer.

— Sim, de fato — concordou ela, encorajada pelo sorriso.

— Até Lúthien! E nela estava eu a pensar naquela manhã, assim como em Beren, o Homem.

Thingol não deu resposta e deixou de sorrir, mas esperou que Nellas voltasse a falar.

— Pois Túrin lembrava-me de Beren — disse ela, por fim.

— São parentes, segundo me disseram, e alguns conseguem ver esse parentesco: alguns que olhem de perto.

Thingol impacientou-se.

— E possível que assim seja. Mas Túrin, filho de Húrin, partiu, desfeiteando-me, e não mais o verás para avaliar o seu parentesco. Pois agora proferirei a minha sentença.

— Senhor Rei! — exclamou a rapariga. — Tende paciência comigo e deixai-me falar primeiro. Eu estava sentada numa árvore, a ver Túrin afastar-se, e foi então que vi Saeros sair da floresta com espada e escudo e lançar-se de surpresa contra ele.

Soou um murmúrio no salão e o Rei ergueu a mão e disse:

— Trazes aos meus ouvidos notícias mais graves do que pareciam prováveis. Tem tento agora em tudo o que disseres, pois este é um tribunal de condenação.

— Assim me disse Beleg — respondeu ela —, e só por isso ousei vir aqui, para que Túrin não seja erradamente julgado. Ele é valente, mas também é misericordioso. Eles lutaram, Senhor, esses dois, até que Túrin despojou Saeros de escudo e espada, mas não o matou. Não creio, por isso, que ele desejasse a sua morte, no fim. Se Saeros foi humilhado, foi humilhação que mereceu.

— Quem julga sou eu — lembrou Thingol. — Mas o que disseste influenciará o meu julgamento. — Depois interrogou-a minuciosamente e por fim voltou-se para Mablung, dizendo:

— É estranho que Túrin não vos tenha dito nada disto.

— E, todavia, não disse, pois de contrário eu tê-lo-ia contado. E de modo diferente lhe teria falado quando nos separamos.

— E diferente será agora a minha sentença — disse o Rei.

— Escutai-me! Qualquer culpa que possa ser atribuída a Túrin agora perdôo, pois considero-o afrontado e provocado. E como foi de fato, como ele disse, um membro do meu conselho que assim o maltratou, não terá Túrin de procurar o este perdão, mas serei eu que lho enviarei, onde quer que possa ser encontrado; e convidá-lo-ei a regressar com honra aos meus salões.

Mas, quando a sentença foi pronunciada, Nellas subitamente chorou.

— Onde poderá ele ser encontrado? — perguntou. — Deixou a nossa terra e o mundo é vasto.

— Será procurado — respondeu Thingol, levantando-se. Então Beleg levou Nellas de Menegroth e disse-lhe:

— Não chores, pois se Túrin está vivo e ainda caminha por outras terras, eu o encontrarei, mesmo que todos os outros o não consigam.

No dia seguinte, Beleg compareceu perante Thingol e Melian e o Rei disse-lhe:

— Aconselhai-me, Beleg, pois sinto-me pesaroso. Acolhi o filho de Húrin como meu filho e assim ele permanecerá, a não ser que o próprio Húrin regresse das sombras para reclamar o que é seu. Não queria que se dissesse que Túrin foi injustamente forçado a ir para as terras selvagens e de bom grado lhe daria as boas-vindas, se ele voltasse, pois o amei muito.

— Dai-me permissão, Senhor — pediu Beleg —, e em vosso nome repararei esta injustiça, se estiver ao meu alcance. Pois uma virilidade como a que ele prometia não deveria ser reduzida a nada nas terras selvagens. Doriath precisa dele, e essa necessidade tornar-se-á ainda maior. E eu também o amo.

Então Thingol disse a Beleg:

— Agora tenho esperança na demanda! Parti com os meus bons votos e, se o encontrardes, protegei-o e guiai-o como puderdes. Beleg Cúthalion, há muito que estais na vanguarda da defesa de Doriath e por muitos feitos de coragem e sabedoria merecestes os meus agradecimentos. Acima de todos eles colocarei a descoberta de Túrin. Nesta despedida pedi o que quiserdes, pois não vos será negado.

— Nesse caso, peço uma espada de valia, pois os Orcs atacam agora em grandes números e demasiado perto para um arco apenas, e a lâmina de que disponho não está à altura das armaduras deles.

— Escolhei entre todas as que possuo, excetuando apenas Aranrúth, que é minha.

Então Beleg escolheu Anglachel, que era uma espada de grande fama e assim chamada por ter sido feita de ferro caído do céu numa estrela incandescente. Fenderia todo o ferro escavado do solo. Uma única espada a ela se equiparava na Terra Média. Essa espada não entra nesta história, embora tenha sido feita do mesmo minério e pelo mesmo ferreiro; esse ferreiro era Eöl, o Elfo Negro, que tomou como esposa Aredhel, irmã de Turgon. Ele deu Anglachel a Thingol como paga, o que lamentou, por o deixar viver em Nan Elmoth; mas a outra espada, Anguirel, sua igual, guardou-a para si, até lhe ser roubada por Maeglin, seu filho.

Mas quando Thingol voltou o punho da Anglachel para Beleg, Melian olhou para a lâmina e disse:

— Há malignidade nessa espada. O coração do ferreiro ainda habita nela, e esse coração é negro. Ela não amará a mão que serve nem permanecerá muito tempo convosco.

— Apesar disso, empunhá-la-ei enquanto puder — respondeu Beleg; e, agradecendo ao rei, pegou na espada e partiu.

Muito longe de Beleriand e através de muitos perigos procurou em vão notícias de Túrin. E esse Inverno passou, e também a Primavera.

 

Agora a história volta-se de novo para Túrin. Julgando-se um proscrito a quem o Rei perseguiria, não voltou para junto de Beleg nas marcas setentrionais de Doriath; partiu antes para oeste e, saindo secretamente do Reino Guardado, chegou aos bosques a sul do Teiglin. Aí, antes da Nirnaeth, muitos homens tinham vivido em herdades dispersas. Pertenciam na sua maioria ao povo de Haleth, mas não tinham nenhum senhor e viviam da caça, da criação de animais e da agricultura, criando porcos nas terras da bolota e amanhando clareiras da floresta, protegidas do mato por cercas. Mas agora quase tudo estava destruído, quase todos tinham fugido para Brethil e a região vivia sob o medo dos Orcs e de bandidos. Pois, nesse tempo de ruína, homens sem teto e desesperados enveredavam por maus caminhos: sobreviventes de combates e derrotas, e de terras deixadas ao abandono; e alguns eram homens impelidos para os matos por atos criminosos. Caçavam e colhiam o que podiam para comer, mas muitos dedicaram-se ao roubo e tornaram-se cruéis, quando a fome ou outras necessidades os forçaram. No Inverno eram muito de temer, como se fossem lobos, e Gaurwaith, homens-lobos, lhes chamavam aqueles que ainda defendiam as suas casas. Cerca de sessenta destes homens tinham-se reunido num bando e vagueavam pelas florestas para lá das marcas ocidentais de Doriath. Pouco menos odiados do que os Orcs eram, pois havia entre eles renegados de coração empedernido, ressentidos contra a sua própria espécie.

O mais duro de coração chamava-se Andróg, que fora expulso de Dor-lómin por ter assassinado uma mulher, e outros também provinham dessa terra: o idoso Algund, o mais velho da irmandade, que fugira da Nirnaeth, e Forweg, como a si mesmo se chamava, um homem de cabelo claro e cintilantes olhos inquietos, forte e ousado, mas havia muito arredado dos costumes dos Edain do povo de Hador. Porém, às vezes ainda conseguia ser sensato e generoso e era o capitão da irmandade. Entretanto, tinham ficado reduzidos a cinqüenta homens, em conseqüência de mortes em atribulações ou rixas, e haviam-se tornado cautelosos, rodeando-se de batedores ou de vigias, quer estivessem em movimento, quer parados. Por isso depressa tiveram conhecimento da presença de Túrin, quando ele se transviou e foi parar aos seus antros. Seguiram-no e formaram um círculo à sua volta, de modo que, subitamente, quando ele desembocou numa clareira ao lado de um regato, deu consigo rodeado por um círculo de homens com arcos retesados e espadas desembainhadas.

Túrin parou, mas não mostrou medo.

— Quem são vocês? Pensava que só os Orcs emboscavam homens, mas verifico que estava enganado.

— Podes lamentar o teu engano — respondeu Forweg —, pois estes são os nossos valhacoutos e os meus homens não permitem que outros homens por eles andem. Tiramos-lhes a vida como penhor, a não ser que possam resgatá-la. Então Túrin riu-se tristemente.

— Não obterão nenhum resgate de mim, pois sou um proscrito e um fora-da-lei. Podem revistar-me quando estiver morto, mas arriscam-se a pagar um preço elevado se quiserem verificar as minhas palavras. É provável que muitos de vocês morram primeiro.

Apesar disso, a sua morte parecia-lhe próxima, pois muitas setas estavam aprontadas, à espera da ordem do capitão, e embora Túrin usasse cota de malha élfica por baixo da túnica e da capa cinzentas, algumas encontrariam um ponto vulnerável e mortífero. Nenhum dos seus inimigos estava ao alcance de um salto com espada desembainhada. Mas, de súbito, Túrin inclinou-se, pois vira algumas pedras na beira do regato, diante dos seus pés. Nesse momento, um bandido, furioso com as suas palavras altivas, soltou uma flecha direita ao seu rosto, mas passou-lhe por cima e Túrin voltou a endireitar-se como uma corda de arco desprendida e arremessou a pedra ao frecheiro, com grande força e pontaria certeira, e o homem caiu no chão com o crânio fraturado.

— Poderei ser-lhes mais útil vivo, no lugar daquele infortunado homem — disse Túrin; e, voltando-se para Forweg, acrescentou: — Se és o capitão, não devias permitir que os teus homens disparassem sem tua ordem.

— E não permito — respondeu Forweg —, mas ele foi repreendido bem depressa. Ficarei contigo no lugar dele, se acatares melhor as minhas ordens.

— Acatarei, enquanto fores capitão e em tudo o que compete a um capitão. Mas a escolha de um homem novo para uma irmandade não cabe apenas a ele, julgo. Todas as vozes devem ser ouvidas. Há aqui alguém que não me aceite de bom grado?

Dois dos bandidos pronunciaram-se contra ele, sendo um deles amigo do homem que caíra. Chamava-se Ulrad.

— Matar um dos nossos melhores homens é uma estranha maneira de entrar para uma irmandade!

— Não sem provocação — disse Túrin. — Mas venham! Enfrentarei os dois juntos, com armas ou apenas com a força. Assim verão se sou capaz de substituir um dos vossos melhores homens. Mas se houver arcos nesta prova, então devo também ter um.

Avançou na direção deles, mas Ulrad recuou e não quis lutar. O outro largou o arco e caminhou ao encontro de Túrin. Este homem era Andróg, de Dor-lómin. Parou diante de Túrin e mediu-o de alto a baixo.

— Não — disse por fim, abanando a cabeça. — Não sou um poltrão, como os homens sabem; mas não estou à tua altura. Não há aqui ninguém que esteja, parece-me. Por mim, podes juntar-te a nós. Mas há uma estranha luz nos teus olhos; és um homem perigoso. Como te chamas?

— Neithan, o Ofendido, a mim mesmo chamo — respondeu Túrin, e Neithan passou então a ser chamado pelos bandidos; mas, embora alegasse ter sido vítima de injustiça (e a quem reclamasse o mesmo ele sempre oferecesse um ouvido atento), nada mais revelaria a respeito da sua vida ou da sua casa. No entanto, eles perceberam que descera de alta condição e que, apesar de não ter mais do que as suas armas, estas tinham sido feitas por ferreiros élficos.

Depressa conquistou os seus louvores, pois era forte e valente e mais hábil nas florestas do que eles, assim como mereceu a sua confiança, pois não era ambicioso e pouco pensava em si mesmo; temiam-no, porém, devido às suas cóleras inopinadas, que raramente compreendiam.

Não podia regressar a Doriath, ou por orgulho não o faria, e em Nargothrond, desde a queda de Felagund, a ninguém era permitido entrar. Para o povo inferior de Haleth, em Brethil, não se dignava a ir e para Dor-lómin não se atrevia, pois estava densamente sitiada e nenhum homem sozinho poderia, naquele tempo, ter esperança de atravessar os desfiladeiros das Montanhas da Sombra. Por conseguinte, Túrin ficou com os bandidos, pois a companhia de quaisquer homens tornava as atribulações dos ermos mais fáceis de suportar; e porque queria viver e não podia estar sempre em conflito com eles, pouco fazia para conter as suas más ações. Não tardou, assim, a tornar-se insensível a uma vida mesquinha e não raro cruel, embora, de vez em quando, a compaixão e a repulsa despertassem nele e então a sua cólera o tornasse perigoso. Deste modo perverso e perigoso viveu até ao fim daquele ano, passando pela carência e pela fome do Inverno, até à chegada de uma branda Primavera.

Ora, como foi dito, nas florestas de Teiglin ainda havia algumas terras de Homens, resolutos e cautelosos, embora o seu número fosse agora reduzido. Apesar de não gostarem nada deles e de pouco se compadecerem, no pino do Inverno colocavam a comida de que podiam dispor onde os Gaurwaith a pudessem encontrar, esperando assim evitar o ataque dos bandos de famintos. Mas isso granjeava-lhes menos gratidão da parte dos bandidos do que a recebida de animais e pássaros, e eles eram mais protegidos pelos seus cães e pelas suas cercas. Pois cada propriedade tinha grandes cercas à volta da terra desbravada e junto das casas havia um fosso e uma paliçada, e também havia caminhos de propriedade para propriedade e os homens podiam pedir ajuda servindo-se de toques de trombetas.

Mas, quando a Primavera chegava, tornava-se perigoso para os Gaurwaith permanecerem tão perto das casas dos homens da floresta, os quais podiam unir-se e persegui-los. Por isso, Túrin sentia-se intrigado por Forweg os não levar dali. Havia mais comida, e mais caça e menos perigo, para sul, onde não restavam Homens. Até que um dia deu pela falta de Forweg e também de Andróg, seu amigo, e perguntou onde estavam, mas os seus companheiros riram-se.

— Suponho que foram tratar de assuntos pessoais — disse Ulrad. — Não tardarão a voltar e então partiremos. Apressadamente, talvez, pois teremos sorte se não trouxerem as abelhas das colméias atrás deles.

O sol brilhava e as jovens folhas recentes estavam verdes, e Túrin, irritado com o miserável acampamento dos bandidos, afastou-se sozinho e embrenhou-se na floresta. Contra a sua vontade, lembrou-se do Reino Escondido, e pareceu-lhe ouvir os nomes das flores de Doriath como ecos de uma quase esquecida língua antiga. Mas, subitamente, ouviu gritos e viu uma jovem mulher sair a correr de um bosque de avelaneiras. Tinha o vestuário rasgado por espinhos, estava muito amedrontada e, tropeçando, caiu a ofegar no chão. Então Túrin saltou na direção do bosque, com a espada desembainhada, e derrubou um homem que irrompeu das avelaneiras na sua perseguição. Só no próprio momento em que desferiu o golpe viu que era Forweg.

Mas, enquanto olhava, espantado, para o sangue que cobria a erva, Andróg apareceu e estacou, também ele espantado.

— Mau trabalho, Neithan! — gritou, e desembainhou a espada.

Mas o ímpeto de Túrin esfriou e ele perguntou a Andróg:

— Afinal, onde estão os Orcs? Ultrapassaste-os para a ajudar?

— Orcs? — repetiu Andróg. — Idiota! Intitulas-te tu bandido, mas os bandidos não conhecem lei alguma a não ser as suas próprias necessidades. Cuida das tuas, Neithan, e deixa-nos cuidar das nossas.

— Assim farei — disse Túrin. — Mas hoje os nossos caminhos cruzaram-se. Ou deixas a mulher comigo, ou vais fazer companhia a Forweg.

Andróg riu-se.

— Se assim queres, faz a tua vontade. Sei que, sozinho, não estou à tua altura, mas os nossos companheiros não verão esta morte com bons olhos.

Então a mulher levantou-se e pôs a mão no braço de Túrin. Olhou para o sangue e depois para Túrin, e havia deleite nos seus olhos.

— Matai-o, Senhor! Matai-o também. E depois acompanhai-me. Se levardes as cabeças deles, Larnach, meu pai, não ficará desagradado. Por duas «cabeças de lobo» já deu boas recompensas a homens.

Mas Túrin perguntou a Andróg:

— É longe, a casa dela?

— Uma milha, mais ou menos, numa pequena herdade cercada, além. Ela afastou-se para longe.

— Ide então, e depressa — disse Túrin, voltando-se de novo para a mulher. — Dizei ao vosso pai que vos guarde melhor. Mas eu não cortarei as cabeças dos meus companheiros para comprar o favor dele, ou qualquer outra coisa.

Depois levantou a espada e disse a Andróg:

— Regressemos. Mas, se desejas sepultar o teu capitão, tu mesmo terás de o fazer. Apressa-te, pois pode levantar-se alarido. Traz as suas armas!

A mulher afastou-se pelo meio do arvoredo e olhou muitas vezes para trás, antes de as árvores a ocultarem. Túrin seguiu o seu caminho sem mais palavras e Andróg viu-o afastar-se e franziu a testa, como se quisesse deslindar um enigma.

Quando voltou ao acampamento dos bandidos, Túrin encontrou-os agitados, pois já estavam há muito tempo no mesmo lugar, perto de propriedades bem guardadas, e murmuravam contra Forweg.

— Ele corre riscos à nossa custa — diziam. — E outros poderão ter de pagar pelos seus prazeres.

— Então escolham um novo capitão — aconselhou Túrin, parado diante deles. — Forweg não os pode comandar mais, pois está morto.

— Como sabes isso? — perguntou Ulrad. — Procuraste mel na mesma colméia? As abelhas picaram-no?

— Não — respondeu Túrin. — Uma picada bastou. Eu matei-o. Mas poupei Andróg, que regressará em breve.

Depois contou tudo quanto fora feito e repreendeu aqueles que cometiam tais ações; ainda estava a falar quando Andróg voltou, trazendo as armas de Forweg.

— Olha, Neithan! — exclamou. — Não foi dado qualquer alarme. Talvez ela espere encontrar-te de novo.

— Se troças de mim — respondeu Túrin —, arrepender-me-ei de lhe ter negado a tua cabeça. Conta a tua história e sê breve.

Então Andróg contou, com veracidade, tudo quanto acontecera.

— Pergunto-me agora que assunto tinha Neithan a tratar ali. Não me parece que estivesse relacionado conosco, pois quando cheguei já ele matara Forweg. A mulher ficou encantada com isso e ofereceu-se para ir com ele, pedindo as nossas cabeças como dote de noiva. Mas ele não a quis e mandou-a embora depressa. Por isso, não faço idéia do que tinha ele contra o capitão. Deixou a minha cabeça em cima dos meus ombros e por isso lhe estou agradecido, ainda que intrigado.

— Então nego que venham do povo de Hador, como alegam — declarou Túrin. — A Uldor, o Maldito, antes pertencem e deviam procurar servir a Angband. Mas agora escutem-me! — gritou a todos eles. — Dou-lhes a escolher: devem aceitar-me como vosso capitão no lugar de Forweg ou deixar-me partir. Chefiarei esta irmandade ou deixá-la-ei. Mas, se quiserem matar-me, vamos a isso! Contra todos combaterei até morrer... ou morrerem vocês.

Foram muitos os homens que pegaram nas armas, mas Andróg gritou:

— Não! A cabeça que ele poupou não é tola. Se lutarmos, mais do que um morrerá escusadamente, antes de matarmos o melhor homem de entre nós. — Depois riu-se. — Como foi quando ele se juntou a nós, assim é de novo agora. Ele mata para arranjar espaço. Se deu bom resultado antes também poderá dar agora e talvez ele nos conduza a melhor sorte do que predar o lixo de outros homens.

E o velho Algund disse:

— O melhor homem de entre nós. Tempos houve em que teríamos feito o mesmo, se ousássemos; mas esquecemos muitas coisas. No fim, ele poderá conduzir-nos a casa.

Perante estas palavras, acudiu a Túrin o pensamento de que, a partir deste reduzido bando, talvez pudesse formar um pequeno senhorio para si próprio. Mas olhou para Algund e Andróg e disse:

— A casa, dizem? Altas e frias se erguem no caminho as Montanhas da Sombra. Atrás delas está o povo de Uldor e em volta delas as legiões de Angband. Se tais coisas os não intimidam, sete vezes sete homens, então poderei conduzi-los a caminho de casa. Mas até onde, antes de morrermos?

Ficaram todos em silêncio. Depois Túrin voltou a falar:

— Aceitam-me como capitão? Se aceitarem, conduzi-los-ei primeiro para longe, nos ermos, longe das casas dos homens. Aí poderemos encontrar melhor sorte; ou não. Mas pelo menos inspiraremos menos ódio aos da nossa própria espécie.

Então, todos quantos pertenciam ao povo de Hador se lhe juntaram e aceitaram-no como comandante; os outros também concordaram, se bem que com menos boa vontade. E, de imediato, ele conduziu-os para longe daquela região.

Muitos mensageiros haviam sido enviados por Thingol para procurarem Túrin no interior de Doriath e nas terras próximas das suas fronteiras; mas no ano da sua fuga em vão o procuraram, pois ninguém sabia ou poderia imaginar que se encontrasse com os bandidos e inimigos dos Homens. Chegado o Inverno, regressaram para junto do Rei, com a única exceção de Beleg. Depois de todos os outros partirem, ele prosseguiu, sozinho.

Mas em Dimbar e ao longo das fronteiras setentrionais de Doriath as coisas tinham corrido mal. O Elmo do Dragão não voltara a ser visto por ali em combate e o Arco Forte também desaparecera. Os servos de Morgoth estavam, por isso, encorajados e cresciam sem parar em número e ousadia. O Inverno chegou e passou e na Primavera o seu ataque foi renovado: Dimbar foi devastada e os Homens de Brethil tiveram medo, pois o mal rondava agora em todas as suas fronteiras, exceto no sul.

Decorrera quase um ano desde que Túrin partira e Beleg continuava a procurá-lo, cada vez com menos esperança. As suas deambulações levaram-no para norte, para os Vaus do Teiglin, e aí, ouvindo más notícias de uma nova incursão de Orcs a partir de Taur-nu-Fuin, voltou para trás e quis o acaso que chegasse às casas dos Homens das Florestas pouco depois de Túrin ter deixado essa região. Aí ouviu uma estranha história que corria entre eles. Um Homem alto e imponente, ou um guerreiro elfo, diziam alguns, aparecera nas florestas, matara um dos Gaurwaith e salvara a filha de Larnach, que eles perseguiam.

— Muito altivo ele era — disse a filha de Larnach a Beleg —, com olhos brilhantes que quase não se dignaram a olhar para mim. No entanto, chamou companheiros aos homens-lobos e não matou outro que se aproximou, e conhecia o seu nome. Neithan, chamou-lhe ele.

— Conseguis deslindar este enigma? — perguntou Larnach ao Elfo.

— Infelizmente, consigo — respondeu Beleg. — O Homem de que falais é aquele que procuro. — E nada mais a respeito de Túrin disse aos Homens da Floresta; mas avisou-os a respeito de concentrações perigosas a norte. — Em breve os Orcs virão pilhar esta região, com forças demasiado grandes para que possais resistir-lhes. Este ano deveis, finalmente, renunciar à vossa liberdade ou às vossas vidas. Parti para Brethil enquanto é tempo!

Depois Beleg seguiu apressadamente o seu caminho e procurou os esconderijos dos bandidos, bem como sinais que pudessem indicar-lhe para onde tinham ido. Não tardou a encontrá-los, mas Túrin levava agora vários dias de avanço e movia-se rapidamente, receando a perseguição dos Homens da Floresta e recorrendo a todas as artes que conhecia para derrotar ou induzir em erro quem quer que tentasse segui-lo. Conduziu os seus homens para oeste, para longe dos Homens da Floresta e das fronteiras de Doriath, até chegarem ao extremo setentrional das grandes terras altas que se erguiam entre os Vales do Sirion e do Narog. Aí a terra era mais seca e a floresta terminava abruptamente na margem de uma cumeeira. Em baixo era possível ver a antiga Estrada do Sul, subindo dos Vaus do Teiglin para continuar ao longo das bases ocidentais das charnecas, a caminho de Nargothrond. Ali viveram os bandidos com todas as cautelas, durante algum tempo, raramente passando duas noites num acampamento e deixando poucos vestígios da sua partida ou da sua permanência. Foi por isso que o próprio Beleg os procurou em vão. Guiado por sinais que conseguia interpretar, ou por rumores da passagem de Homens por entre as coisas selvagens com as quais sabia falar, chegou muitas vezes perto, mas o seu covil estava sempre deserto quando o alcançava, pois eles mantinham uma vigilância de dia e de noite e ao mínimo sinal de aproximação partiam rapidamente. «Ai de mim», lamentava-se Beleg, «bem de mais ensinei a este filho de Homens as artes da floresta e dos campos! Quase se poderia pensar que se trata de um bando de Elfos.» Mas eles, pelo seu lado, aperceberam-se de que estavam a ser seguidos por algum perseguidor incansável que não conseguiam ver e, apesar disso, não podiam despistar. E foram ficando intranqüilos.

Não muito tempo depois, como Beleg receara, os Orcs atravessaram o Brithiach e, deparando-se com toda a resistência que Handir de Brethil conseguiu opor-lhes, passaram para sul, pelos Vaus do Teiglin, em busca de saque. Muitos dos Homens da Floresta tinham seguido o conselho de Beleg e mandado as mulheres e as crianças pedir refúgio em Brethil. Estas e a sua escolta escaparam, passando pelos Vaus a tempo, mas os homens armados que vinham atrás foram alcançados pelos Orcs e derrotados. Alguns conseguiram, lutando, abrir caminho e chegar a Brethil, mas muitos foram mortos ou capturados. E os Orcs chegaram assim às propriedades, que pilharam e incendiaram. Depois, de repente, retrocederam para oeste, procurando a Estrada, pois era seu desejo voltarem o mais depressa que pudessem ao norte com o seu saque e os seus cativos.

Mas os batedores dos bandidos não tardaram a aperceber-se da sua proximidade e, embora pouco se importassem com os cativos, o saque dos Homens da Floresta aguçou-lhes a cobiça. Túrin considerou perigoso revelarem-se aos Orcs antes de saberem quantos eram, mas os bandidos não lhe deram ouvidos, pois nos ermos precisavam de muitas coisas e alguns começavam já a lamentar a sua chefia. Por isso, levando um chamado Orleg como única companhia, Túrin avançou e foi espiar os Orcs. E, entregando o comando do bando a Andróg, recomendou-lhe que se mantivessem juntos e bem escondidos durante a sua ausência.

Ora, a hoste dos Orcs era muito maior do que a quadrilha de bandidos, mas estavam em terras aonde os Orcs raramente tinham ousado ir, e eles sabiam que, para lá da Estrada, ficava Talath Dirnen, a Planície Guardada, vigiada pelos batedores e espiões de Nargothrond. Temerosos do perigo, estavam inquietos e os seus batedores insinuaram-se através das árvores de cada lado das linhas em marcha. Foi assim que Túrin e Orleg foram descobertos, pois três dos batedores tropeçaram neles, quando estavam escondidos, e apesar de terem morto dois o terceiro conseguiu escapar, gritando enquanto fugia: Golug! Golug! Este era o nome que davam aos Noldor. Ato contínuo, a floresta encheu-se de Orcs, que dispersaram silenciosamente e atacaram em todas as direções. Vendo que a esperança de escaparem era pequena, Túrin pensou em tentar, pelo menos, enganá-los e afastá-los para longe do esconderijo dos seus homens. Então, percebendo pelo grito de Golug! que eles receavam os espiões de Nargothrond, fugiu com Orleg para oeste. A perseguição não se fez esperar até que, por muitas voltas e fintas que tentassem, acabaram por ser corridos da floresta. Então foram descobertos e, quando procuravam atravessar a Estrada, Orleg foi abatido por muitas flechas. Mas a cota de malha élfica salvou Túrin, que fugiu sozinho para as terras ermas e, graças à sua velocidade e astúcia, enganou os inimigos e penetrou profundamente em terras que lhe eram desconhecidas. Depois, temendo que os Elfos de Nargothrond fossem alertados, os Orcs chacinaram os seus prisioneiros e dirigiram-se apressadamente para o Norte.

Decorridos três dias sem que Túrin e Orleg tivessem regressado, alguns dos bandidos quiseram partir da caverna onde se encontravam escondidos; mas Andróg opôs-se. E enquanto estavam no meio desta discussão, surgiu-lhes de súbito à frente uma figura cinzenta. Beleg encontrara-os, finalmente. Avançou sem armas nas mãos e com as palmas voltadas para eles. Mas os bandidos saltaram, assustados, e Andróg, indo por trás dele, atirou-lhe um laço e apertou-o, de modo a imobilizar-lhe os braços.

— Se não desejam visitas, deviam ser mais vigilantes — lembrou Beleg. — Porque me recebem assim? Venho como amigo e procuro apenas um amigo. Neithan, consta-me que assim o tratam.

— Não está aqui — respondeu Ulrad. — Mas, a não ser que há muito nos espies, como sabes esse nome?

— Há muito que ele nos espia — afirmou Andróg. — Esta é a sombra que nos tem seguido. Agora talvez fiquemos a conhecer o seu verdadeiro intento.

Ordenou-lhes então que amarrassem Beleg a uma árvore ao lado da caverna e, quando o tiveram bem preso de pés e mãos, interrogaram-no. Mas a todas as perguntas Beleg deu apenas uma resposta:

— Tenho sido amigo desse Neithan desde que o encontrei pela primeira vez nas florestas, era ele então apenas uma criança. Procuro-o somente por amizade e trago-lhe boas notícias.

— Matemo-lo e livremo-nos da sua espionagem — disse Andróg, furioso, enquanto olhava para o grande arco de Beleg e o cobiçava, pois era um archeiro. Mas alguns de coração mais brando opuseram-se-lhe, e Algund disse-lhe:

— O capitão ainda pode regressar e, então, arrepender-se-ão se ele souber que foi roubado, ao mesmo tempo, de um amigo e de boas notícias.

— Não acredito na história deste Elfo — rebateu Andróg. — E um espião do Rei de Doriath. Mas se ele tem, de fato, algumas notícias, que no-las conte; e nós julgaremos se nos dão motivo para o deixar viver.

— Esperarei pelo vosso capitão — disse Beleg.

— Ficarás aí até falares — decidiu Andróg.

Depois, por sugestão de Andróg, deixaram-no amarrado à árvore sem comida nem água e sentaram-se perto a comer e a beber, mas ele não lhes disse mais nada. Decorridos dois dias e duas noites nessa situação, ficaram irritados e receosos, e estavam ansiosos por partir, e muitos deles sentiam-se agora dispostos a matar o Elfo. Quando a noite caía, estavam todos reunidos à sua volta e Ulrad trouxe um tição da pequena fogueira que tinham acendido à entrada da caverna. Mas nesse momento Túrin regressou. Aproximando-se silenciosamente, como era seu costume, manteve-se nas sombras para lá do anel dos homens e viu o rosto desfigurado de Beleg à luz da brasa.

Então foi como se tivesse sido atingido por uma lança e, como que por um súbito degelo, as lágrimas havia muito contidas encheram-lhe os olhos. Precipitou-se para a árvore.

— Beleg! Beleg! — gritou. — Como chegaste até aqui? E porque estás assim amarrado? — Num ápice, cortou as cordas que prendiam o amigo e Beleg caiu para a frente, nos seus braços.

Quando ouviu tudo o que os homens quiseram dizer-lhe, ficou furioso e magoado; mas ao princípio a sua atenção concentrou-se apenas em Beleg. Enquanto o tratava valendo-se dos poucos conhecimentos que tinha, pensou na sua vida nas florestas e a cólera voltou-se contra si mesmo. Pois freqüentemente tinham sido mortos desconhecidos, quando apanhados na proximidade dos antros dos bandidos, ou por eles emboscados, e não os impedira; e não raro ele próprio dissera mal do Rei Thingol e dos Elfos Cinzentos, para poder partilhar da culpa, se eram tratados como inimigos. Depois voltou-se, com azedume, para os seus homens.

— Foram cruéis — disse-lhes — e cruéis sem necessidade. Nunca até agora atormentamos um prisioneiro, mas a este trabalho de Orcs nos conduziu a vida que levamos. Ilegais e infrutíferos têm sido todos os nossos atos, servindo-nos apenas a nós e alimentando o ódio nos nossos corações.

Andróg, porém, rebateu:

— Mas a quem serviremos, a não ser a nós próprios ? A quem amaremos, se todos nos odeiam?

— Pelo menos as minhas mãos não voltarão a erguer-se contra Elfos ou Homens — afirmou Túrin. — Angband já tem servos suficientes. Se outros não fizerem este juramento comigo, partirei só.

Então Beleg abriu os olhos e ergueu a cabeça.

— Só, não! — exclamou. — Agora posso finalmente transmitir as minhas notícias. Não és nenhum bandido e Neithan é um nome impróprio. Qualquer falta que tenha sido achada em ti está perdoada. Durante um ano foste procurado, para seres restituído à honra e ao serviço do Rei. Há muito tempo que se sente a falta do Elmo do Dragão.

Mas Túrin não demonstrou qualquer júbilo por tais notícias e permaneceu muito tempo em silêncio, pois as palavras de Beleg tinham feito descer de novo uma sombra sobre ele.

— Deixemos passar esta noite — disse, por fim. — Então escolherei. Mas, seja qual for a escolha, temos de abandonar este esconderijo amanhã, pois nem todos os que nos procuram nos desejam bem.

— Não, nem todos — concordou Andróg, e lançou um olhar maligno a Beleg.

De manhã, Beleg, rapidamente sarado das suas dores, como acontecia com os Elfos de antigamente, falou a sós com Túrin.

— Esperava que as minhas notícias causassem mais alegria. Por certo regressarás agora a Doriath? — E tal rogou a Túrin de todos os modos que pôde, mas, quanto mais o instigava, mais Túrin hesitava. Apesar disso, interrogou insistentemente Beleg acerca da sentença de Thingol. Beleg contou-lhe tudo quanto sabia e, por fim, Túrin disse:

— Então Mablung provou ser meu amigo, como antes parecia?

— Provou, antes, ser amigo da verdade e, no fim, isso foi melhor, embora a sentença tivesse sido menos justa não fora o testemunho de Nellas. Porquê, Túrin, porquê, porque não contaste a Mablung o ataque de Saeros ? De modo muito diferente poderiam as coisas ter corrido. E — acrescentou, olhando para os homens estiraçados perto da entrada da caverna — poderias ter mantido o teu elmo ainda alto, e não caído a este ponto.

— Talvez, se caído lhe chamas — respondeu Túrin. — Talvez. Mas aconteceu assim e as palavras ficaram-me presas na garganta. Havia censura nos olhos dele, sem que qualquer pergunta me tivesse sido feita, por um ato que não tinha cometido. O meu coração de Homem era orgulhoso, como o Rei Elfo disse. E assim continua a ser, Beleg Cúthalion. Ainda não tolerará que eu regresse a Menegroth e suporte olhares de piedade e perdão, como se fosse um rapaz caprichoso que se emendou. Eu devia ter oferecido perdão, em vez de o receber. E já não sou um rapaz, mas sim um homem, conforme a minha espécie. E um homem endurecido pelo meu destino. Beleg sentiu-se perturbado.

— O que farás, então?

— Serei livre — respondeu Túrin. — Tal me desejou Mablung quando nos separamos. Suponho que a graça de Thingol não irá ao ponto de receber estes companheiros da minha queda, mas eu não me separarei deles agora, se eles não quiserem separar-se de mim. Amo-os à minha maneira, até mesmo, um pouco, aos piores. São da minha espécie e há em cada um algo de bom que poderá frutificar. Creio que ficarão do meu lado.

— Vês com olhos diferentes dos meus. Se tentares desabituá-los do mal, desiludir-te-ão. Duvido deles, e de um mais do que de todos os outros.

— Como pode um Elfo ser juiz de Homens? — perguntou Túrin.

— Como é juiz de todos os atos, seja quem for que os cometa — respondeu Beleg, mas não mencionou nenhum nome nem falou da maldade de Andróg, a quem se deviam os maus tratos que sofrera. Pois, compreendendo a disposição de Túrin, receava não ser acreditado e prejudicar a antiga amizade de ambos, impelindo Túrin para os seus maus caminhos. — Ser livre, dizes, Túrin, meu amigo — acrescentou. — Que queres dizer com isso?

— Conduzirei os meus próprios homens e travarei guerra à minha maneira — respondeu Túrin. — Mas numa coisa, pelo menos, o meu coração mudou: arrependo-me de todos os golpes que infligi exceto daqueles que tiveram como alvo o Inimigo dos Homens e dos Elfos. E, acima de tudo, gostaria de te ter ao meu lado. Fica comigo!

— Se ficasse ao teu lado, seria o sentimento que me nortearia, não a sensatez — disse Beleg. — O meu coração diz-me que devíamos regressar a Doriath. Em qualquer outro lugar, há uma sombra à nossa frente.

— Apesar disso, não irei para lá.

— Lamento — disse Beleg. — Mas, como um pai afetuoso que satisfaz o desejo do seu filho contra o seu próprio discernimento, cedo à tua vontade. A teu pedido ficarei.

— Isso é uma boa notícia! — exclamou Túrin, mas, de repente, ficou silencioso, como se ele próprio tivesse consciência da sombra, e lutou contra o seu orgulho, que não o deixava voltar para trás. Ficou ali sentado por um momento, a matutar nos anos que tinham ficado para trás.

Libertando-se de súbito dos pensamentos, olhou para Beleg e disse:

— A jovem elfa que referiste, mas de cujo nome não me recordo: devo-lhe muito pelo seu oportuno testemunho; no entanto, não consigo lembrar-me dela. Porque observava os meus movimentos?

Beleg olhou-o de modo estranho.

— Porquê, deveras ? Túrin, viveste sempre com o teu coração e metade da tua mente muito distantes ? Em rapaz, Costumavas caminhar com Nellas pelos bosques.

— Deve ter sido há muito tempo. Ou longínqua me parece agora a minha infância, envolta numa névoa... excetuando apenas a recordação da casa do meu pai em Dor-lómin. Porque caminharia eu com uma jovem elfa?

— Talvez para aprenderes o que ela podia ensinar-te, ainda que não fosse mais do que algumas palavras élficas dos nomes das flores das matas. Os seus nomes, pelo menos, não esqueceste. Ah, filho dos Homens, há outras mágoas na Terra Média além das tuas e feridas que não foram feitas por nenhuma arma.

Em verdade, começo a pensar que Elfos e Homens não deveriam conhecer-se ou misturar-se.

Túrin não disse nada, mas fitou longamente o rosto de Beleg, como se quisesse decifrar nele o enigma das suas palavras. Nellas de Doriath nunca mais voltou a vê-lo e a sombra dele abandonou-a. Beleg e Túrin mudaram de assunto e falaram de onde iriam viver.

— Regressemos a Dimbar, nas marcas setentrionais, por onde em tempos andamos juntos! — propôs Beleg, entusiasmado. — Precisam lá de nós. Pois ultimamente os Orcs descobriram um caminho que desce da Taur-nu-Fuin e forma uma estrada através do Desfiladeiro de Anach.

— Não me lembro disso — disse Túrin.

— Não, nós nunca nos afastamos tanto das fronteiras — disse Beleg. — Mas viste os picos das Crissaegrim, muito ao longe, e, a leste, as muralhas escuras de Gorgoroth. Anach fica no meio, acima das nascentes altas do Mindeb. É um caminho difícil e perigoso, mas muitos podem vir agora por ele e Dimbar, que costumava estar em paz, está a ficar sob o domínio da Mão Negra e os Homens de Brethil estão inquietos. Para Dimbar, desafio-te!

— Não, não andarei para trás na vida. E tão-pouco posso agora ir com facilidade para Dimbar. Sirion fica no meio, sem ponte e impossível de passar a vau abaixo do Britiach, muito para norte; a travessia é perigosa. A não ser em Doriath. Mas eu não entrarei em Doriath nem me aproveitarei da autorização nem do perdão de Thingol.

— Disseste-te um homem duro, Túrin. E é verdade, se com isso queres dizer teimoso. Agora é a minha vez. Irei, com tua licença, assim que puder e despedir-me-ei de ti. Se desejas realmente ter o Arco Forte a teu lado, procura-me em Dimbar.

Túrin não disse mais nada.

No dia seguinte, Beleg pôs-se a caminho e Túrin foi com ele até um disparo de flecha do acampamento, mas nada disse.

— E, então, adeus, filho de Húrin? — perguntou Beleg. — Se deveras desejas cumprir a tua palavra e ficar a meu lado — respondeu Túrin —, procura-me no Amon Rûdh! — Assim falou, sentindo-se infortunado e inconsciente do que tinha pela frente. — Caso contrário, esta é a nossa última despedida.

— Talvez seja melhor assim — respondeu Beleg, e seguiu o seu caminho.

Consta que Beleg regressou a Menegroth, apresentou-se perante Thingol e Melian e contou-lhes tudo o que acontecera, excetuando apenas a maneira cruel como fora tratado pelos companheiros de Túrin. Então Thingol suspirou, e disse:

— Assumi a paternidade do filho de Húrin e isso não pode ser posto de parte por amor ou ódio, a não ser que o próprio Húrin, o Valoroso, regresse. Que mais quereria ele que fizesse?

Mas Melian declarou:

— De mim uma dádiva recebereis agora, Cúthalion, pela vossa ajuda e pela vossa honra, pois não tenho nenhuma mais digna para vos oferecer. — E deu-lhe uma provisão de lembas, o pão do caminho dos Elfos, embrulhada em folhas de prata. E os fios que as atavam tinham, nos nós, o sinete da Rainha, um disco de cera branca com a forma de uma única flor da Telperion. De acordo com os costumes dos Eldalië, a guarda e a oferta deste alimento pertenciam exclusivamente à Rainha. — Este pão do caminho, Beleg, será o vosso socorro nos ermos e no Inverno, e o socorro também daqueles que escolherdes. Pois vo-lo entrego agora para o partilhardes como vos aprouver em meu lugar. — Em nada mostrou Melian maior graça para com Túrin do que com esta dádiva; pois os Eldar jamais tinham permitido aos Homens usar este pão do caminho e raramente voltaram a fazê-lo.

Então Beleg partiu de Menegroth e voltou para as marcas setentrionais, onde tinha a sua residência e muitos amigos; mas, quando o Inverno chegou e a guerra acalmou, os seus companheiros sentiram, de súbito, a falta de Beleg, o qual nunca mais voltou para eles.

 

Agora a história volta-se para Mîm, o Pequeno Anão. Os Pequenos Anões estão há muito esquecidos, pois Mîm foi o último. Pouco se sabia deles, mesmo nos tempos antigos. Nibin-no-grim lhes chamavam de há muito os Elfos de Beleriand, mas não gostavam deles; e, quanto aos Pequenos Anões, esses só gostavam de si mesmos. Se odiavam e temiam os Orcs, também odiavam os Eldar e, acima de todos, odiavam os Exilados, pois, diziam, os Noldor haviam-lhes roubado as terras e as casas. Nargothrond foi encontrada, e a sua escavação iniciada, pelos Pequenos Anões, muito antes de Finrod Felagund ter chegado vindo do Mar.

Eles provinham, diziam alguns, de Anões que tinham sido banidos das Cidades dos Anões do leste, em tempos antigos. Muito antes do regresso de Morgoth, tinham vagueado para ocidente. Sem senhor e pouco numerosos, foi-lhes difícil encontrar metais em bruto e a sua arte de ferreiros e provisão de armas enfraqueceram, o que os levou a conduzir vidas furtivas e a tornarem-se um tanto ou quanto mais pequenos de estatura do que os seus semelhantes orientais, caminhando de ombros pendentes e com passos rápidos e furtivos. Apesar disso, e como toda a espécie anã, eram muito mais fortes do que a sua estatura aparentava e conseguiam agarrar-se à vida em situações de grande atribulação. Mas agora, por fim, o seu número tinha diminuído e haviam-se extinguido da Terra Média, exceto Mîm e os seus dois filhos; e Mîm era velho mesmo pelas contas dos Anões, velho e esquecido.

Após a partida de Beleg (que aconteceu no segundo Verão depois da fuga de Túrin de Doriath), as coisas correram mal para os bandidos. Houve chuvas fora da época e, em maior número do que antes, vieram Orcs do Norte e pela antiga Estrada do Sul, sobre o Teiglin, perturbando todas as florestas das fronteiras ocidentais de Doriath. Havia pouca segurança ou sossego e a companhia era mais freqüentemente perseguida do que perseguidora.

Certa noite, quando estavam à espreita na escuridão sem lume, Túrin meditou na sua vida e pareceu-lhe que ela bem poderia ser melhorada. «Tenho de encontrar algum refúgio seguro», pensou, «e prevenir-me contra o Inverno e a fome.» Mas não sabia para onde se virar.

No dia seguinte, conduziu os seus homens para sul, para mais longe do que alguma vez tinham estado do Teiglin e das marcas de Doriath; e, decorridos três dias de viagem, pararam na orla ocidental das florestas do Vale do Sirion. Aí a terra tornava-se mais seca e mais nua, ao subir para as charnecas.

Pouco depois, quis o acaso que, à medida que a luz cinzenta de um dia chuvoso se desvanecia, Túrin e os seus homens estivessem abrigados num bosque cerrado de azevinho, para lá do qual havia uma clareira sem árvores e com muitas pedras grandes, encostadas umas às outras ou amontoadas juntas. Reinava o silêncio, quebrado apenas pelas gotas que caíam das folhas.

De súbito, um vigia deu um sinal e, levantando-se de repente, viram três vultos encapuzados, vestidos de cinzento e caminhando furtivamente por entre as pedras. Cada um deles carregava um grande saco, o que não os impedia de serem velozes. Túrin gritou-lhes que parassem e os homens correram atrás deles como uma matilha; mas eles continuaram no seu caminho e, apesar de Andróg disparar, dois desapareceram no crepúsculo. Um ficou para trás, por ser mais lento ou estar mais carregado, e não tardou a ser detido e lançado ao chão, agarrado por muitas e duras mãos, apesar de se debater e morder como um animal. Mas Túrin aproximou-se e repreendeu os seus homens.

— Que têm aí? Que necessidade há de serem tão violentos? É velho e pequeno. Que mal há nele?

— Morde — respondeu Andróg, amparando uma mão ensangüentada. — É um Orc, ou da raça dos Orcs. Matem-no!

— Nada menos merece, por defraudar a nossa esperança — disse outro, que se apoderara do saco. — Não há aqui nada além de raízes e pequenas pedras.

— Não — opôs-se Túrin —, tem barba. Suponho que é apenas um Anão. Deixem-no levantar-se e falar.

Foi assim que Mîm entrou na história dos Filhos de Húrin. Pois deixou-se cair de joelhos aos pés de Túrin e rogou pela sua vida.

— Sou velho — disse — e pobre. Apenas um Anão, como dissestes, e não um Orc. Chamo-me Mîm. Não permitais que me matem sem motivo, Senhor, como os Orcs fariam.

O coração de Túrin apiedou-se dele, o que não o impediu de dizer:

— Pobre pareceis, Mîm, ainda que tal fosse estranho num Anão; mas creio que nós somos ainda mais pobres: Homens sem teto e sem amigos. Se eu dissesse que não poupamos ninguém apenas por compaixão, pois a nossa necessidade é grande, que ofereceríeis como resgate?

— Não sei o que desejais, Senhor — respondeu Mîm, cauto.

— Bem pouco, com este tempo! — respondeu Túrin, olhando tristemente em redor e com a chuva a molhar-lhe os olhos. — Um lugar seguro para dormirmos ao abrigo das úmidas florestas. Sem dúvida tendes isso para vós próprio.

— Tenho — admitiu Mîm —, mas não posso dá-lo como resgate. Sou demasiado velho para viver debaixo do céu.

— Não precisas de envelhecer mais — disse Andróg, avançando com uma faca na mão incólume. — Posso poupar-te isso.

— Senhor! — gritou Mîm cheio de medo, agarrando-se aos joelhos de Túrin. — Se eu perder a minha vida, vós perdereis o vosso abrigo, pois sem Mîm não o encontrareis. Não posso dá-lo, mas partilhá-lo-ei. Há mais espaço do que em tempos houve, tantos foram os que partiram para sempre. — E começou a chorar.

— A vossa vida está poupada, Mîm — respondeu Túrin.

— Pelo menos até chegarmos ao seu covil — acrescentou Andróg.

Mas Túrin voltou-se para ele e disse-lhe:

— Se Mîm nos conduzir a sua casa sem embuste, e ela for boa, então a sua vida estará resgatada e ele não será morto por nenhum homem que me siga. Assim o juro.

Então Mîm beijou-lhe os joelhos e disse:

— Mîm será vosso amigo, Senhor. Ao princípio, pensou que fôsseis um Elfo, pela vossa fala e pela vossa voz. Mas, se sois um Homem, é melhor assim. Mîm não gosta dos Elfos.

— Onde fica essa tua casa? — perguntou Andróg. — Terá de ser muito boa, para a partilharmos com um Anão. Pois Andróg não gosta de Anões. O seu povo trouxe do Leste poucas boas histórias dessa raça.

— Deixaram piores histórias de si próprios atrás de si. Julga a minha casa quando a vires. Mas precisareis de luz para o caminho, vós, Homens tropeçantes. Regressarei com bom tempo e conduzir-vos-ei. — Depois Mîm levantou-se e pegou no saco.

— Não, não! — protestou Andróg. — Por certo não permitirás isto, capitão? Nunca mais voltarias a ver o velho patife.

— Está a escurecer — respondeu Túrin. — Ele que nos deixe algum penhor. Podemos ficar com o vosso saco e o que ele transporta?

Mas, ao ouvir tais palavras, o Anão caiu de novo de joelhos, muito aflito.

— Se Mîm não tencionasse regressar, não regressaria por causa de uma velho saco de raízes. Eu voltarei. Deixai-me partir.

— Não deixarei — respondeu Túrin. — Se não vos separardes do vosso saco, tereis de ficar aqui com ele. Uma noite debaixo das folhas talvez vos faça compadecer-vos de nós, pelo vosso lado. — Mas apercebeu-se, assim como outros além dele, de que Mîm dava mais importância ao saco do que, à primeira vista, ele parecia merecer.

Levaram o velho Anão para o seu miserável acampamento e, enquanto os acompanhava, ele resmungava numa língua que parecia azedada por um ódio antigo; mas, quando lhe amarraram as pernas, calou-se subitamente. E aqueles que estiveram de sentinela viram-no sentado toda a noite, silencioso e imóvel como uma pedra, com exceção dos seus olhos insones, que cintilavam ao perscrutar a escuridão.

A chuva cessou antes da manhã e um vento fez estremecer as árvores. O alvorecer chegou mais luminoso do que em muitos dias e aragens ligeiras do Sul desanuviaram o céu, que ficou pálido e limpo por altura do nascer do Sol. Mîm continuava sentado sem se mexer, parecendo morto, pois agora as pálpebras pesadas dos seus olhos estavam descidas e a luz da manhã revelava-o seco e mirrado pela velhice. Túrin levantou-se e olhou para ele.

— Agora há luz suficiente — disse.

Então Mîm abriu os olhos e apontou para as cordas, e quando o soltaram falou furiosamente:

— Aprendei uma coisa, idiotas! Não amarreis nunca um Anão! Ele não o perdoará. Não desejo morrer, mas o meu coração está enfurecido pelo que fizestes. Arrependo-me da minha promessa.

— Mas eu não — respondeu Túrin. — Conduzir-me-eis a vossa casa. Até lá, não falaremos de morte. Essa é a minha vontade.

Fitou com firmeza os olhos do Anão, que não conseguiu suportar o seu olhar; em verdade, poucos conseguiam desafiar o olhar de Túrin, quando decidido na sua vontade ou em fúria. Pouco depois, Mîm voltou a cabeça e levantou-se.

— Segui-me, Senhor!

— Muito bem — respondeu Túrin. — Mas agora acrescento o seguinte: compreendo o vosso orgulho. Podereis morrer, mas não voltareis a ser amarrado.

— Não voltarei — disse Mîm. — Mas agora vinde!

E, ditas estas palavras, conduziu-os ao sítio onde fora capturado e apontou para oeste.

— Ali está a minha casa! Suponho que a tereis visto muitas vezes, pois é alta. Chamávamos-lhe Sharbhund, antes de os Elfos mudarem todos os nomes. — Viram então que ele apontava para Amon Rûdh, o monte Careca, cuja cabeça nua observava muitas léguas de deserto.

— Já a tínhamos visto, mas nunca de tão perto — respondeu Andróg. — Que abrigo seguro pode haver ali, ou água, ou qualquer outra coisa de que necessitemos ? Bem me parecia que havia algum truque. Escondem-se homens no cume de um monte?

— Ver longe pode ser mais seguro do que estar escondido — comentou Túrin. — Amon Rûdh olha para longe e em redor. Bem, Mîm, irei ver o que tendes para mostrar. Quanto tempo levaremos nós, Homens tropeçantes, para lá chegarmos?

— Todo este dia até ao anoitecer, se partirmos agora — respondeu Mîm.

Em breve o grupo avançava para oeste, e Túrin seguia à frente com Mîm ao seu lado. Caminharam cautelosamente quando deixaram as florestas, mas toda a terra parecia deserta e silenciosa. Passaram pelas pedras espalhadas e amontoadas e iniciaram a subida, pois o Amon Rûdh erguia-se no extremo oriental das charnecas altas que subiam entre os vales do Sirion e do Narog, e acima do matagal pedregoso da sua base a crista alcandorava-se a mil pés ou mais. Do lado oriental, uma terra irregular subia lentamente para as altas cumeeiras, entre cabeços de vidoeiros e sorveiras-bravas e velhíssimas árvores espinhosas enraizadas na rocha. Para além, nas charnecas e à volta das encostas mais baixas do Amon Rûdh, cresciam bosques de aeglos, mas a sua íngreme cabeça cinzenta era escalvada, tirando o manto de seregon vermelha que cobria a pedra.

À medida que a tarde declinava, os bandidos aproximavam-se das raízes do monte. Vinham agora do norte, pois por aí Mîm os conduzira, e a luz do Sol a caminho do ocaso incidia na crista do Amon Rûdh e a seregon estava toda em flor.

— Olhem! Há sangue no cimo do monte! — exclamou Andróg.

— Ainda não — respondeu Túrin.

O Sol descia e a luz penetrava nas concavidades. O monte erguia-se agora à frente e acima deles, que se perguntavam que necessidade poderia haver, afinal, de um guia para um destino tão evidente. Mas, à medida que Mîm os guiava e que começaram a subir as últimas encostas íngremes, aperceberam-se de que ele seguia um caminho qualquer, guiando-se por sinais secretos ou costume antigo. Agora o trajeto serpenteava de cá para lá e, se olhavam em volta, viam que, de cada um dos lados, se abriam escuros vales estreitos e ravinas, ou que a terra descia para ermos de grandes pedras com declives e buracos encobertos por sarças e espinheiros. Sem guia, poderiam ter andado e subido por ali durante dias para encontrarem um caminho.

Por fim, chegaram a um terreno mais íngreme mas também menos acidentado. Passaram sob a sombra de velhíssimas sobreiras-bravas para alas de aeglos de pernas altas: uma melancolia impregnada de suave odor. De súbito, ergueu-se diante deles uma parede de rocha, de face plana e íngreme, talvez com uns quarenta pés de altura, mas o crepúsculo obscurecia o céu acima deles e era incerto calcular.

— É esta a porta para a vossa casa? — perguntou Túrin. — Diz-se que os Anões adoram a pedra. — Aproximou-se mais de Mîm, não fosse ele pregar-lhes alguma partida no último momento.

— Não é a porta da casa, mas o portão do pátio — respondeu o Anão. Depois virou para a direita ao longo da base do penhasco e, cerca de vinte passos adiante, parou subitamente.

Túrin viu então que, por obra de mãos ou do tempo, havia uma fresta talhada de tal modo que duas faces da parede se sobrepunham e uma abertura retrocedia para a esquerda, por entre elas. A sua entrada estava coberta por compridas plantas trepadeiras enraizadas em fendas, acima, mas no lado de dentro havia um íngreme carreiro de pedra que subia para a escuridão. A água escorria por ele abaixo e tornava-o úmido.

Um por um, começaram a subir em fila. No cimo, o carreiro que virava para a direita e de novo para sul conduziu-os, através de um maciço de espinheiros, a uma superfície verde plana, através da qual um fio de água corria para as sombras. Tinham chegado à casa de Mîm, Bar-en-Nibin-noeg, recordada apenas em histórias antigas de Doriath e Nargothrond e que nenhum Homem ainda vira. Mas a noite caía, o céu oriental estava coalhado de estrelas, e eles não conseguiam ver qual era a forma daquele estranho lugar.

Amon Rûdh tinha uma coroa: uma grande massa semelhante a um barrete de pedra íngreme, com um topo achatado e nu. No seu lado norte irrompia dele uma saliência de pedra, plana e quase quadrada, que não podia ser vista de baixo, pois atrás dela erguia-se a coroa do monte, como uma parede, e da sua beira desciam escarpas a pique. Só do lado norte, de onde tinham vindo, podia ser alcançada com facilidade por aqueles que conheciam o caminho. A partir da «entrada», seguia um caminho que a breve trecho penetrava num bosque de vidoeiros anões que cresciam em redor de um charco límpido, numa bacia escavada na rocha. Era alimentado por uma nascente na base da parede da retaguarda e, através de um arroio, fluía como um fio branco sobre a margem ocidental da saliência rochosa. Atrás da fileira de árvores, próxima da nascente entre dois altos pilares de rocha, havia uma caverna. Não parecia mais do que uma gruta pouco profunda, comum arco baixo e irregular, mas mais para o seu interior fora escavada e furada numa grande extensão, por baixo do monte, pelas mãos lentas dos Pequenos Anões, nos longos anos que ali tinham vivido sem serem incomodados pelos Elfos Cinzentos das florestas.

Através da densa penumbra, Mîm conduziu-os para além da bacia, onde agora se espelhavam as tímidas estrelas por entre as sombras dos ramos dos vidoeiros. A entrada da caverna, o Anão voltou-se e fez uma vênia a Túrin.

— Entrai, Senhor! Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate. Pois assim será chamada.

— Talvez — respondeu Túrin. — Primeiro quero vê-la. Depois entrou com Mîm e os outros, vendo-o sem medo, seguiram-nos, até mesmo o próprio Andróg, que era quem mais desconfiava do Anão. Em breve encontraram-se num negrume total, mas Mîm bateu com as palmas das mãos e apareceu uma pequena luz a contornar um canto, e de um corredor na retaguarda da gruta exterior surgiu outro Anão com uma pequena tocha.

— Ah, errei a pontaria, como receava! — exclamou Andróg. Mas Mîm falou rapidamente com o outro, na áspera língua de ambos, e, parecendo perturbado ou irritado com o que ouvia, ele meteu pelo corredor e desapareceu. Agora Andróg queria investir em força. — Há que atacar primeiro! — gritou. — Pode haver um enxame deles, mas são pequenos.

— São apenas três, suponho — respondeu Túrin.

Depois seguiu à frente enquanto, atrás dele, os bandidos tateavam pelo corredor fora, guiando-se pelo contato das paredes ásperas. O corredor guinava muitas vezes, para um lado e para o outro, em ângulos agudos; mas, por fim, uma luz tênue brilhou em frente e chegaram a um salão pequeno mas alto, parcamente iluminado por candeeiros suspensos de correntes finas do telhado-sombra. Mîm não se encontrava ali, mas ouvia-se a sua voz e, guiado por ela, Túrin chegou à porta de uma câmara que se abria no fundo do corredor. Olhando para dentro, viu Mîm ajoelhado no chão. Ao lado dele erguia-se, silencioso, o Anão portador da tocha; mas num leito de pedra, junto da parede oposta, jazia outro.

— Khîm, Khîm, Khîm! — gemia o velho Anão, puxando pela barba.

— Nem todos os teus disparos falharam — disse Túrin a Andróg. — Mas o fato de este ter acertado pode revelar-se funesto. Soltas setas com demasiada ligeireza, mas podes não viver o suficiente para aprenderes a ser sensato.

Deixando os outros, Túrin entrou silenciosamente, parou atrás de Mîm e falou-lhe:

— Qual é o problema, mestre? Conheço algumas artes de sarar. Posso ajudá-lo?

Mîm voltou a cabeça e havia nos seus olhos uma luz vermelha.

— Só se pudésseis voltar atrás no tempo e decepar as mãos cruéis dos vossos homens. Este é o meu filho. Cravou-se-lhe uma seta no peito e agora nada pode valer-lhe. Morreu ao pôr-do-sol. As vossas cordas impediram-me de sará-lo.

Mais uma vez a compaixão há muito endurecida encheu o coração de Túrin, como água a brotar de rocha.

— Ai de mim, faria essa seta voltar atrás, se pudesse. Agora Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate, assim se chamará verdadeiramente. Pois quer vivamos aqui quer não, considerar-me-ei em dívida para convosco e, se alguma vez possuir alguma fortuna, pagar-vos-ei um danwedh de pesado ouro pelo vosso filho, como prova de mágoa, mesmo que isso não alegre mais o vosso coração.

Mîm levantou-se e olhou demoradamente para Túrin.

— Ouço-vos e falais como um senhor Anão de antigamente, e com isso me admiro. Agora o meu coração arrefeceu, embora não esteja feliz. O meu próprio resgate pagarei, portanto: podeis morar aqui, se quiserdes. Mas uma condição acrescento: aquele que disparou a seta deve quebrar o seu arco e as suas flechas e depô-los aos pés do meu filho; e jamais voltará a pegar numa flecha ou a usar um arco. Se o fizer, por tal morrerá. Esta praga lhe rogo.

Andróg ficou com medo quando teve conhecimento dessa praga, e, embora o fizesse com grande contrariedade, quebrou o arco e as flechas e depositou-os aos pés do Anão morto. Mas, ao sair da sala, olhou maldosamente para Mîm e resmungou: «Dizem que a praga de um anão nunca morre; mas a de um Homem também pode ser cumprida. Pois que morra com um dardo na garganta!»

Nessa noite deitaram-se na sala e dormiram agitadamente por causa das lamentações de Mîm e de Ibun, o seu outro filho. Quando elas cessaram não faziam idéia, mas quando finalmente acordaram os Anões tinham saído e uma pedra fechava a câmara. O dia estava de novo bonito e, ao sol matinal, os bandidos lavaram-se no pequeno lago e prepararam a comida de que dispunham; e enquanto comiam Mîm apareceu diante deles.

Fez uma vênia a Túrin e disse:

— Ele foi-se e está tudo feito. Jaz com os seus antepassados. Agora voltamo-nos para a vida que resta, embora possam ser breves os dias que temos pela frente. A casa de Mîm apraz-vos? Está o resgate pago e aceite?

— Está — respondeu Túrin.

— Agora é tudo vosso, para governar ou habitar como quiserdes, com uma exceção: a câmara que está fechada ninguém abrirá senão Mîm.

— Ouvimo-vos — respondeu Túrin. — Quanto à nossa vida aqui, estamos seguros, ou assim parece; mas precisamos de alimentos e de outras coisas. Como sairemos ou, mais importante ainda, como regressaremos?

Perante tal inquietação, Mîm riu-se guturalmente.

— Temeis ter seguido uma aranha para o centro da sua teia? Não, Mîm não come Homens. E uma aranha dificilmente poderia haver-se com trinta vespas ao mesmo tempo. Reparai, vós estais armados e eu estou aqui sem nada. Não, teremos de partilhar, vós e eu: casa, comida e lume, e talvez outros ganhos. A casa, suponho, guardareis e mantereis secreta para vosso próprio bem, mesmo quando souberdes os modos de entrar e sair. Aprendê-los-eis a seu tempo. Entretanto, porém, Mîm terá de guiar-vos, ou Ibun, seu filho, quando sairdes; e um de nós irá aonde fordes e regressará quando regressardes — ou esperar-vos-á em algum lugar que conhecerdes ou puderdes encontrar sem guia. Isso será cada vez mais perto de casa, assim creio.

Túrin concordou e agradeceu a Mîm, e a maioria dos seus homens ficou contente; pois, sob o sol da manhã, enquanto o Verão ainda estava no apogeu, parecia um bom lugar para morarem. Andróg, apenas, estava descontente.

— Quanto mais depressa formos senhores das nossas idas e vindas, melhor — declarou. — Nunca antes fizemos um prisioneiro com o agravo de se intrometer nas nossas andanças.

Nesse dia descansaram, limparam as armas e consertaram o que precisava de conserto; pois ainda tinham comida para um dia ou dois e Mîm contribuía para o que tinham. Emprestou-lhes três grandes panelas para cozinhar e lenha e um saco.

— Ninharias — disse. — Não vale a pena serem roubadas. Trata-se apenas de raízes silvestres.

Mas, depois de lavadas, as raízes revelaram-se brancas e carnudas, com a sua pele, e depois de cozidas eram agradáveis de comer, algo semelhantes ao pão. Os bandidos sentiram-se gratos por isso, pois havia muito que não tinham pão, a não ser quando conseguiam roubá-lo.

— Os Elfos Silvestres não as conhecem, os Elfos Cinzentos não as encontraram, os orgulhosos do outro lado do Mar são orgulhosos de mais para as desenterrar — explicou Mîm.

— Como se chamam? — perguntou Túrin. Mîm olhou-o de esguelha.

— Não têm nome, a não ser na língua dos Anões, que não ensinamos. E também não ensinamos Homens a encontrá-las, pois os Homens são ávidos e esbanjadores e não teriam comedimento até todas as plantas perecerem; ao passo que, agora, passam por elas sem darem por isso, quando vão fazer disparates no deserto. Não mais ficareis a saber por mim; mas podereis receber o suficiente da minha dádiva desde que faleis com respeito e não espieis ou roubeis. — Depois fez ouvir de novo o seu riso gutural. — São de grande utilidade, valem mais do que ouro no estéril Inverno, pois podem ser armazenadas como as nozes de um esquilo e nós já estamos a reunir a nossa reserva com as primeiras que amadureceram. Mas sois tolos, se pensais que não repartiria uma pequena porção mesmo que fosse pela salvação da minha vida.

— Eu ouço-te — disse Ulrad, que espreitara no saco quando Mîm fora aprisionado. — No entanto, não quiseste repartir e as tuas palavras ainda me dão mais que pensar.

Mîm voltou-se e olhou para ele, carrancudo.

— És um dos tolos que a Primavera não lamentaria se perecessem no Inverno — respondeu-lhe. — Eu dissera o que tinha a dizer e por isso devia ter regressado, de bom ou mau grado, com ou sem o saco, pensasse o que pensasse um homem sem lei e sem fé! Mas não gosto de ser privado do que é meu pela força dos perversos, mesmo que não seja de mais do que um atacador de bota. Acaso não me lembro que as tuas mãos se contavam entre as que me prenderam e assim me impediram de voltar a falar com o meu filho? Sempre que distribuir o pão da terra da minha provisão, tu serás excluído e, se o comeres, será graças à generosidade dos teus companheiros e não da minha.

Então Mîm deixou-os, mas Ulrad, a quem a sua ira contivera, falou nas suas costas:

— Belas palavras! No entanto, o velho patife tinha outras coisas no saco, do mesmo formato, mas mais duras e pesadas. Talvez haja nos ermos outras coisas além do pão da terra que os Elfos não encontraram e de que os Homens não podem saber!

— E possível que sim — admitiu Túrin. — Contudo, o Anão falou verdade pelo menos num ponto, ao chamar-te tolo. Porque há de dar a conhecer os teus pensamentos ? Se justas palavras se te encravam na garganta, o silêncio serviria melhor todos os nossos desígnios.

O dia passou em paz e nenhum dos bandidos quis ir para o exterior. Túrin andou muito pelo relvado verde da saliência rochosa, de extremo a extremo, e olhou para leste, oeste e norte, tentando descobrir até onde a vista alcançava no ar claro. Na direção norte, e parecendo estranhamente próxima, conseguia distinguir a floresta de Brethil subindo, verdejante, à volta do Amon Obel. Descobriu que os seus olhos se desviavam para aí mais freqüentemente do que desejaria, embora não soubesse porquê; pois o seu coração sentia-se mais atraído para noroeste, onde, légua após légua de distância, na periferia do céu, lhe parecia vislumbrar as Montanhas da Sombra e as fronteiras da sua terra. Mas, ao anoitecer, Túrin olhou para oeste, para o pôr-do-sol, enquanto o astro descia, vermelho, para as névoas acima das costas mais distantes, e o Vale de Narog se encontrava profundamente afundado nas sombras de permeio.

Assim começou a permanência de Túrin, filho de Húrin, nas salas de Mîm em Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate.

Durante muito tempo a vida dos bandidos decorreu de acordo com o seu gosto. A comida não escasseava e estavam bem abrigados, quentes e secos, com espaço que chegava e sobrava; pois descobriram que as cavernas poderiam albergar uma centena ou mais, se fosse necessário. Mais para o interior havia outro salão que tinha, a um lado, uma lareira, acima da qual uma chaminé subia através da rocha até um respiradouro astuciosamente oculto numa abertura na encosta do monte. Havia também muitas outras câmaras que se abriam a partir das salas ou do corredor de permeio, umas para habitação e outras para trabalhar ou para armazenamento. No capítulo de armazenamento, Mîm era mais eficiente do que eles e tinha muitas vasilhas e armários de pedra e madeira que pareciam muito antigos. Mas a maioria das câmaras encontrava-se agora vazia; nos armeiros estavam pendurados machados e outro equipamento, enferrujado e poeirento, prateleiras e recessos estavam vazios; as forjas abandonadas. Exceto uma: uma pequena sala que saía do salão interior e tinha uma lareira que partilhava o respiradouro da lareira do salão. Mîm trabalhava por vezes aí, mas não permitia a companhia de outros; assim como não falava de uma escada secreta oculta que levava da sua casa ao cume plano do Amon Rûdh. Andróg descobriu-a quando, faminto, procurava as reservas de alimentos de Mîm e se perdeu nas cavernas. Mas guardou a descoberta para si.

Durante o resto daquele ano não fizeram mais incursões e, se saíam para caçar ou colher alimentos, faziam-no a maior parte das vezes em pequenos grupos. Mas durante muito tempo tiveram dificuldade em reencontrar o caminho e, além de Túrin, não mais de seis dos seus homens estavam seguros dele. No entanto, compreendendo que os mais hábeis em tais coisas poderiam chegar ao seu esconderijo sem a ajuda de Mîm, montaram uma guarda de dia e de noite perto da fenda da encosta norte. Do sul não esperavam inimigos nem havia o receio de alguém subir o Amon Rûdh por esse lado; mas durante o dia havia muitas vezes um vigia no topo da crista, de onde podia ver até muito longe, a toda a volta. Apesar de os lados da crista serem íngremes, era possível alcançar o cume, pois a leste da entrada da caverna tinham sido talhados degraus toscos que conduziam às encostas aonde os homens podiam subir sem ajuda.

Assim foi correndo o ano sem sobressaltos ou alarme. Mas, à medida que os dias minguavam e a lagoa se tornava cinzenta e fria, os vidoeiros se desnudavam e regressavam as grandes chuvadas, tiveram de passar mais tempo abrigados. Em breve se tornaram temerosos da escura parte inferior do monte, ou da tênue meia-luz das salas, e a muitos pareceu que a vida seria melhor se a não partilhassem com Mîm.

 

Não raro, ele surgia de algum canto sombrio ou soleira de porta quando pensavam que se encontrava noutro lugar. E, quando Mîm estava presente, descia um constrangimento sobre as suas conversas. Passaram a falar uns com os outros sempre em murmúrios.

Todavia, e estranho lhes parecia, com Túrin as coisas eram diferentes, e ele tornou-se cada vez mais cordial com o velho Anão e cada vez mais dava ouvidos aos seus conselhos. No Inverno que se seguiu, passava longas horas sentado com Mîm, escutando os seus saberes e as histórias da sua vida; e Túrin também não o repreendia se ele dizia mal dos Eldar. Mîm parecia muito satisfeito e, em troca, mostrava grande preferência por Túrin; só a ele permitia, por vezes, a entrada na sua forja, onde falavam juntos em voz baixa.

Mas, quando o Outono passou, o Inverno não lhes poupou tormentos. Antes do fim de Dezembro, a neve chegou do norte com mais força do que alguma vez acontecera nos vales do rio; nessa altura, e cada vez mais à medida que o poder de Angband crescia, os invernos agravaram-se em Beleriand. O Amon Rûdh estava profundamente coberto de neve e só os mais corajosos se atreviam a sair. Alguns adoeceram e todos sofreram o tormento da fome.

No sombrio entardecer de um dia do meio do Inverno, apareceu de súbito entre eles um Homem, ao que parecia, de grande arcabouço e bojo, de capa e capuz brancos. Eludira os vigilantes e dirigira-se para a sua fogueira sem uma palavra. Quando os homens se levantaram de rompante, ele desatou a rir e atirou o capuz para trás, e viram que era Beleg Arco Forte. Debaixo da ampla capa trazia um grande volume em que transportava muitas coisas para ajudar os homens.

Deste modo voltou Beleg para Túrin, deixando a amizade levar a melhor sobre a sensatez. Túrin ficou muito contente, pois muitas vezes lamentara a sua obstinação. E agora o desejo do seu coração era-lhe concedido sem precisar de se humilhar ou ceder na sua vontade. Mas se Túrin estava contente, o mesmo não se podia dizer de Andróg, nem de alguns outros do seu grupo. Parecia-lhes que houvera entre Beleg e o seu capitão um encontro que ele lhes escondera; e Andróg observava-os invejosamente, enquanto se sentavam, à parte, a conversar um com o outro.

Beleg trouxera consigo o Elmo de Hador, na esperança de conseguir reerguer o pensamento de Túrin acima da sua vida oculta como chefe de um bando de miseráveis bandidos.

— Isto te pertence e eu trago-o de volta — disse a Túrin, enquanto tirava o elmo. — Foi deixado à minha guarda nas marcas setentrionais, mas penso que não foi esquecido.

— Quase — respondeu Túrin —, mas não voltará a sê-lo. — Ficou silencioso, olhando para longe com os olhos do pensamento, e de súbito apercebeu-se do brilho de outra coisa que Beleg segurava. Era o presente de Melian, mas as folhas de prata tornaram-se vermelhas à luz da fogueira e, quando Túrin viu o sinete, os seus olhos escureceram. — Que tens aí?

— A maior dádiva que alguém que te ama ainda tem para oferecer — respondeu Beleg. — Aqui estão lembas in Elidh, o pão do caminho dos Eldar que homem algum jamais provou.

— O elmo de meu pai aceito, grato por o teres guardado. Mas não receberei dádivas de Doriath.

— Então devolve a tua espada e as tuas armas. Devolve também os ensinamentos e o amparo da tua juventude. E deixa os teus homens que (tu o dizes) têm sido fiéis morrer no deserto para satisfazeres a tua disposição! Todavia, este pão do caminho foi uma dádiva não para ti, mas sim para mim, e com ela posso fazer o que me aprouver. Não o comas se te causa engulhos na garganta; mas outros podem estar mais famintos e ser menos orgulhosos.

Os olhos de Túrin cintilaram, mas quando olhou para Beleg o fogo que neles ardia apagou-se e tornaram-se cinzentos. Então disse, numa voz que mal se podia ouvir:

— Surpreende-me, amigo que ainda te dignes a procurar de novo um grosseiro como eu. De ti aceitarei tudo quanto me deres, até reprimendas. Doravante, aconselhar-me-ás quanto a todos os caminhos, com a única exceção da estrada para Doriath.

 

Nos dias que se seguiram, Beleg labutou muito para o bem do grupo. Tratou dos que estavam feridos e doentes e todos sararam depressa. Pois naqueles tempos os Elfos Cinzentos ainda eram um povo superior, possuidores de grande poder e sabedores dos caminhos da vida e de todas as coisas viventes; e, embora ficassem aquém, em ofícios e sabedoria, dos Exilados de Valinor, possuíam muitas artes que ultrapassavam o alcance dos Homens. Além disso, Beleg, o Archeiro, era grande entre o povo de Doriath. Era forte, resistente e perspicaz tanto em pensamento como em visão e, se necessário, valente em combate, confiante não apenas no seu comprido arco, mas também na sua grande espada, Anglachel. E por tudo isso cresceu ainda mais o ódio no coração de Mîm, que odiava todos os Elfos, como já foi dito, e via com olhos invejosos a amizade que Túrin sentia por Beleg.

Quando o Inverno passou, a vida começou a estuar e a Primavera chegou, os bandidos não tardaram a ter trabalho mais duro para fazer. O poderio de Morgoth foi posto em movimento e, como os compridos dedos de uma grande mão, as guardas avançadas dos seus exércitos tateavam os caminhos para Beleriand.

Quem conhece agora os intentos de Morgoth? Quem pode medir o alcance do seu pensamento, ele que fora Melkor, poderoso entre os Ainur da Grande Música, e se sentava agora, negro senhor, num negro trono no Norte, avaliando na sua perfídia todas as notícias que lhe chegavam através de traidor ou espião, vendo nos olhos da sua mente e compreendendo muito melhor os atos e propósitos dos seus inimigos do que até os mais sagazes de entre eles temiam, a não ser Melian, a Rainha? Para ela muitas vezes se dirigia o pensamento dele, e lá era despistado.

Neste ano, portanto, concentrou a sua perfídia na direção das terras a oeste do Sirion, onde havia ainda força que se lhe opunha. Gondolin permanecia de pé, mas estava oculta. Ele conhecia Doriath, mas ainda lá não podia entrar. Mais longe, ficava Nargothrond, para a qual nenhum dos seus servos descobrira ainda o caminho, um nome que para eles era sinônimo de terror; aí vivia o povo de Finrod, em número desconhecido. E muito longe, ao Sul, para lá das matas brancas dos vidoeiros de Numbrethil, da costa do Avernien e das embocaduras do Sirion, chegavam rumores dos Portos dos Navios. Aí não conseguiria ele chegar enquanto tudo o mais não tivesse caído.

Assim, os Orcs desciam agora do Norte em número cada vez maior. Pelo Anach vieram e Dimbar foi tomada e todas as marcas setentrionais de Doriath assoladas. Desceram a antiga estrada que seguia pelo longo desfiladeiro do Sirion, passando pela ilha onde Minas Tirith de Finrod existira e pela terra entre o Malduin e o Sirion, e depois prosseguiram pelas florestas de Brethil para os Vaus do Teiglin. Aí, de há muito, passava a estrada para a Planície Guardada que depois, ao longo dos sopés das terras altas vigiadas pelo Amon Rûdh, descia pelo vale de Narog e chegava, finalmente, a Nargothrond. Mas, por enquanto, os Orcs não avançaram muito por essa estrada; pois havia agora nos ermos um terror que estava oculto e no monte vermelho estavam postos olhos vigilantes dos quais não tinham sido avisados.

Nessa Primavera, Túrin voltou a pôr o Elmo de Hador e Beleg sentiu-se satisfeito. Ao princípio, o seu grupo contava com menos de cinqüenta homens, mas o conhecimento que Beleg tinha das florestas e a coragem de Túrin faziam com que parecessem uma hoste aos seus inimigos. Os batedores dos Orcs eram perseguidos e os seus campos espiados, e quando se reuniam para marchar em força nalgum lugar estreito fora dos rochedos ou da sombra das árvores, a eles se lançavam o Elmo do Dragão e os seus homens, altos e violentos. Em breve, o simples som da sua trombeta nos montes fazia com que os comandantes vacilassem e os Orcs desatassem a fugir antes que alguma flecha assobiasse ou espada fosse desembainhada.

Foi dito que, quando Mîm cedeu a sua habitação escondida no Amon Rûdh a Túrin e ao seu grupo, exigiu que quem disparara a flecha que lhe matara o filho partisse o arco e as flechas e os depositasse aos pés de Khîm; e Andróg era esse homem. Então, com grande contrariedade, Andróg obedeceu à ordem de Mîm. Além disso, Mîm declarou que Andróg jamais deveria voltar a usar arco e flecha e rogou-lhe uma praga: se, apesar de tudo, ele o fizesse, então encontraria a própria morte por esse meio.

Ora, na Primavera daquele ano, Andróg ignorou a praga de Mîm e voltou a empunhar um arco numa incursão a partir da Bar-en-Danwedh; e nessa incursão foi atingido por uma flecha orc envenenada e trazido de volta moribundo e em grande sofrimento. Mas Beleg sarou-o do seu ferimento, o que aumentou mais ainda o ódio de Mîm por Beleg, que anulara assim a sua praga. «Mas voltará a atuar de novo», disse ele.

Nesse ano, longamente correu o murmúrio em Beleriand, debaixo de arvoredo, sobre rio e através das gargantas dos montes, de que o Arco e o Elmo que tinham caído em Dimbar (como se pensava) se haviam erguido de novo, contra toda a esperança. Então, muitos, tanto Elfos como Homens, que tinham ficado sem chefes, desvalidos mas intrépidos, sobreviventes de combate, derrota e terras deixadas incultas, ganharam de novo ânimo e partiram à procura dos Dois Capitães, embora ninguém soubesse ainda onde ficava a sua fortaleza. Túrin recebia de bom grado todos quantos o procuravam, mas, a conselho de Beleg, não deixava entrar nenhum desconhecido no seu refúgio no Amon Rûdh (o qual se chamava agora Echad i Sedryn, Campo dos Fiéis); o caminho para lá só era conhecido pelos membros do Antigo Grupo e mais nenhum eram admitidos. Mas outros acampamentos e fortes guardados foram criados em redor: na floresta, a leste, ou nas terras altas, ou nos brejos meridionais de Methed-en-glad («O Fim da Floresta»), a sul dos Vaus do Teiglin para Bar-erib, algumas léguas a sul do Amon Rûdh na terra outrora fértil entre Narog e os Pântanos do Sirion. De todos estes lugares podiam os homens ver o cume do Amon Rûdh e, por sinais, receber notícias e ordens.

Deste modo, antes de findo o Verão, os seguidores de Túrin tinham-se tornado uma grande força e o poder de Angband foi repelido. Notícias disto chegaram mesmo até Nargothrond, onde muitos ficaram agitados, dizendo que se um bandido podia causar tal dano ao Inimigo, o que não poderia o Senhor de Narog fazer. Mas Orodreth, rei de Nargothrond, recusou modificar os seus intentos. Seguia em tudo Thingol, com quem trocava mensagens por vias secretas; e era um senhor sensato, de acordo com a sabedoria daqueles que pensavam primeiro no seu próprio povo e em quanto tempo poderiam proteger-lhe a vida e os bens da cobiça do Norte. Por isso não permitiu que nenhum dos seus fosse juntar-se a Túrin e enviou mensageiros dizer-lhe que, em tudo quanto pudesse fazer ou planejar na sua guerra, não deveria pôr os pés na terra de Nargothrond nem rechaçar Orcs para lá. Mas ofereceria outra ajuda, que não em força de homens, aos Dois Capitães, se de tal tivessem necessidade (e nisto, crê-se, foi inspirado por Thingol e Melian).

Então Morgoth refreou a sua mão, embora fizesse freqüentes simulacros de ataque, para que, por vitória fácil, a confiança daqueles rebeldes pudesse tornar-se enfatuada. Como na realidade veio a verificar-se. Pois Túrin deu o nome de Dor-Cúarthol a toda a terra entre o Teiglin e a marca ocidental de Doriath; e, reivindicando o seu domínio, atribuiu a si mesmo um novo nome, Gorthol, o Elmo do Terror, e o seu coração engrandeceu-se. Mas a Beleg pareceu então que o Elmo exercera em Túrin efeito diferente do que esperara; e, olhando para os dias que viriam, sentiu a mente perturbada.

Um dia, quando o Verão ia passando e ele e Túrin estavam sentados no Echad a descansar de uma longa incursão e marcha, Túrin perguntou a Beleg:

— Porque estás tão triste e pensativo? Não tem corrido tudo bem, desde que regressaste para junto de mim? O meu objetivo não revelou ser bom?

— Está tudo bem agora — respondeu Beleg. — Os nossos inimigos ainda estão surpreendidos e receosos. E ainda temos pela frente dias bons... por um tempo.

— E depois?

— Inverno — disse Beleg. — E a seguir outro ano, para aqueles que viverem para o ver.

— E depois?

— A cólera de Angband. Chamuscamos as pontas dos dedos da Mão Negra, não mais do que isso. Ela não se afastará.

— Mas não é a cólera de Angband o nosso objetivo e contentamento? — perguntou Túrin. — Que outra coisa quererias que eu fizesse?

— Muito bem o sabes. Mas desse caminho me proibiste de falar. No entanto, escuta-me agora. Um rei ou o senhor de uma grande hoste tem muitas necessidades. Precisa de ter um refúgio seguro, precisa de ter riqueza e muitos cuja missão não seja a guerra. Os números acarretam a necessidade de alimentos, mais do que aqueles que a floresta fornecerá aos caçadores. E depois há a guarda do segredo. Amon Rûdh é um bom lugar para alguns, tem olhos e ouvidos. Mas está solitário e é visto de muito longe, e não é necessária uma grande força para o cercar, a não ser que uma hoste o defenda, uma hoste muito maior do que é a nossa, ainda, ou tem probabilidades de vir a ser.

— Apesar disso, eu serei capitão da minha própria hoste — disse Túrin — e, se cair, cairei. Aqui, estou no caminho de Morgoth e, enquanto assim estiver, ele não poderá usar a estrada para sul.

Novas da presença do Elmo do Dragão na terra a oeste do Sirion chegaram depressa aos ouvidos de Morgoth, e ele riu-se, pois agora Túrin estava-lhe de novo revelado, ele que tanto tempo estivera perdido nas sombras e sob os véus de Melian. No entanto, começou a recear que Túrin alcançasse um poder tal que a praga que sobre ele lançara se tornasse nula e Túrin pudesse escapar ao destino que para ele fora concebido, ou então que pudesse retirar-se para Doriath e se perdesse de novo da sua vista. Por isso, o seu intento agora era apoderar-se de Túrin e atormentá-lo tanto quanto ao seu pai, torturá-lo e escravizá-lo.

Beleg estivera certo quando dissera a Túrin que tinham apenas chamuscado os dedos da Mão Negra e que ela não se afastaria. Mas Morgoth ocultava os seus desígnios e, por enquanto, contentava-se com o envio dos seus batedores mais hábeis. Assim, o Amon Rûdh não tardou a ficar cercado por espiões, que espreitavam, ocultos, no deserto, e não tomavam qualquer iniciativa contra os grupos de homens que entravam e saíam.

Mas Mîm estava consciente da presença de Orcs nas terras que circundavam o Amon Rûdh e o ódio que sentia por Beleg levou o seu entenebrecido coração a tomar uma decisão perversa. Um dia, no declínio do ano, disse aos homens que estavam em Bar-en-Danwedh que ia com o filho, Ibun, procurar raízes para a reserva do Inverno; mas o seu verdadeiro propósito era procurar os servos de Morgoth e conduzi-los ao esconderijo de Túrin.

No entanto, tentou impor algumas condições aos Orcs, que se riram dele, mas Mîm disse-lhes que pouco sabiam, se estavam convencidos de que podiam conseguir qualquer coisa de um Pequeno Anão pela tortura. Perguntaram-lhe então quais seriam as suas condições e Mîm expôs o que queria: que lhe pagassem o peso em ferro de cada homem que capturassem ou matassem, mas, no caso de Túrin e Beleg, esse peso seria em ouro; que a casa de Mîm, depois de livre de Túrin e do seu grupo, lhe fosse entregue e não o molestassem a ele; que Beleg fosse deixado para trás, amarrado, para Mîm se encarregar dele, e que Túrin fosse deixado em liberdade.

Os emissários de Morgoth concordaram prontamente com essas condições, sem a mínima intenção de cumprirem a primeira nem a segunda. O capitão orc achou que o destino de Beleg poderia bem ser deixado nas mãos de Mîm; mas, quanto a deixar Túrin livre, «vivo para Angband» eram as suas ordens. Embora concordassem com as condições, insistiram em ficar cora Ibun como refém. Então Mîm teve medo e tentou desistir do empreendimento ou então fugir. Mas, como os Orcs tinham o seu filho, viu-se obrigado a guiá-los até Bar-en-Danwedh. Assim foi traída a Casa do Resgate.

Foi dito que a massa de pedra que constituía a coroa ou o barrete do Amon Rûdh tinha um topo nu ou achatado, mas que, íngremes como eram as suas encostas, podia-se chegar ao cume subindo por uma escada talhada na rocha que subia da plataforma ou terraço existente antes da entrada da casa de Mîm. Havia vigias no cimo, os quais alertaram para a aproximação de inimigos. Mas estes, guiados por Mîm, chegaram à plataforma plana diante das portas e Túrin e Beleg foram repelidos para a entrada de Bar-en-Danwedh. Alguns dos homens que tentaram subir os degraus talhados na rocha foram abatidos pelas flechas dos Orcs.

Túrin e Beleg retiraram-se para a caverna e rolaram uma grande pedra para tapar a entrada. Neste aperto, Andróg revelou-lhes a escada oculta que conduzia ao cume plano do Amon Rûdh, a qual descobrira quando se perdera nas cavernas, como foi dito. Então, Túrin e Beleg, com muitos dos seus homens, subiram por essa escada e desembocaram no cume, surpreendendo os poucos Orcs que já lá tinham chegado pelo caminho exterior e rechaçando-os para fora da crista. Durante um curto espaço de tempo, contiveram os Orcs que subiam pela rocha, mas, sem nenhum abrigo no cume desprotegido, muitos foram atingidos por flechas lançadas de baixo. O mais valente destes foi Andróg, que caiu ferido de morte por uma flecha no cimo da escada exterior.

Então, Túrin e Beleg, com os dez homens que lhes restavam, recuaram para o centro do cume, onde se erguia uma pedra alta, e, formando um anel à volta dela, defenderam-se até todos terem sido mortos com exceção de Beleg e Túrin, sobre os quais os Orcs lançaram redes. Túrin foi amarrado e levado; Beleg, que estava ferido, foi igualmente amarrado, mas deixaram-no no chão, com os pulsos e os tornozelos presos a espigões de ferro cravados na rocha.

Descobrindo a saída da escada secreta, os Orcs abandonaram o cume e entraram na Bar-en-Danweth, que profanaram e saquearam. Não encontraram Mîm, escondido nas suas cavernas, e, quando eles partiram de Amon Rûdh, Mîm apareceu no cume e, aproximando-se de onde Beleg se encontrava, prostrado e imóvel, regozijou-se a contemplá-lo enquanto afiava uma faca.

Porém, Mîm e Beleg não eram os únicos seres vivos que se encontravam naquele pico rochoso. Andróg, apesar de ferido de morte, rastejou pelo meio dos cadáveres direito a eles e, pegando numa espada, arremeteu-a contra o Anão. A guinchar de medo, Mîm correu para a beira do penhasco e desapareceu: fugiu por um íngreme e difícil caminho de cabras que conhecia. Mas Andróg, chamando a si as últimas forças, cortou as cordas que prendiam Beleg e libertou-o. Ao morrer, disse: «Os meus ferimentos são tão profundos que nem tu conseguirias sará-los.»

 

Beleg procurou Túrin entre os mortos para o sepultar, mas não conseguiu encontrar o seu corpo. Soube assim que o filho de Húrin ainda estava vivo e fora levado para Angband; mas teve de permanecer na Bar-en-Danwedh até as suas feridas sararem. Decidiu então, com pouca esperança, tentar descobrir o rasto dos Orcs, e encontrou a sua pista perto dos Vaus do Teiglin. Aí tinham-se dividido, seguindo alguns pelas orlas da Floresta de Brethil, na direção do Vau do Brithiach, enquanto outros viravam para oeste. Pareceu-lhe, assim, claro que devia seguir aqueles que tinham ido diretamente, e com a maior velocidade, para Angband, a caminho do Desfiladeiro de Anach. Por isso, continuou a viajar por Dimbar, subiu o Desfiladeiro do Anach em Ered Gorgoroth, as Montanhas do Terror, e daí passou para as terras altas de Taur-nu-Fuin, a Floresta sob a Noite, uma região de pavor e negro encantamento, de vagueação e desespero.

Surpreendido pela noite naquela terra má, quis o acaso que Beleg visse uma pequena luz entre as árvores e, indo na sua direção, encontrasse um Elfo deitado a dormir debaixo de uma grande árvore morta: ao lado da sua cabeça estava uma lanterna, da qual caíra a cobertura. Então Beleg acordou o adormecido e deu-lhe lembas, e perguntou-lhe que destino o levara para aquele terrível lugar. Ele disse-lhe que se chamava Gwindor, filho de Guilin.

Beleg olhou-o, pesaroso, pois Gwindor mais não era do que uma sombra curvada e tímida da sua anterior estatura e disposição, quando, na Batalha das Lágrimas Inumeráveis, aquele senhor de Nargothrond cavalgara até às próprias portas de Angband e aí fora aprisionado. Pois poucos dos Noldor que Morgoth fazia cativos eram mortos, devido à sua arte de minerar metais e pedras preciosas; e por isso, em vez de ser morto, Gwindor foi posto a trabalhar nas minas do Norte. Estes Noldor possuíam muitos dos candeeiros fëanorianos, que eram cristais pendentes de uma fina rede de malha, cristais que brilhavam sempre com uma radiância interior azul, maravilhosa para encontrar o caminho na escuridão da noite ou em túneis; e destes candeeiros nem eles próprios conheciam segredo. Muitos dos Elfos mineiros escapavam assim da escuridão das minas, pois sabiam abrir o seu caminho para a saída; mas Gwindor recebeu uma pequena espada de um que trabalhava nas forjas e, quando fazia parte de um grupo que minerava pedras preciosas, atacou subitamente os guardas. Conseguiu fugir, mas com uma das mãos decepada; e agora jazia, exausto, sob os grandes pinheiros de Taur-nu-Fuin.

Por Gwindor ficou Beleg a saber que o pequeno grupo de Orcs que se encontrava à frente deles, e dos quais se escondera, não levava cativos e seguia a grande velocidade: uma guarda avançada, talvez, levando notícias a Angband. Ao ouvir isto, Beleg desesperou: pois supusera que as pistas que vira seguir para oeste, depois dos Vaus do Teiglin, eram as de uma hoste maior que, à maneira dos Orcs, fora pilhar nas terras em busca de comida e saque, e podia estar agora de regresso a Angband pela «Terra Estreita», o comprido desfiladeiro do Sirion, muito para oeste. Se assim fosse, a sua única esperança era regressar ao Vau do Brithiach e seguir depois para norte, para Tol Sirion. Mas, mal tomara tal decisão, ouviram o barulho de uma grande hoste que se aproximava através da floresta, vinda do Sul. Escondidos atrás de uma árvore, viram os servos de Morgoth passar, lentamente, carregados de saque e cativos e rodeados por lobos. E viram Túrin com as mãos acorrentadas a ser fustigado por chicotes.

Então Beleg falou do que o levava a Taur-nu-Fuin e Gwindor tentou dissuadi-lo da sua busca, dizendo-lhe que serviria apenas para se juntar a Túrin no tormento que o esperava. Mas Beleg recusava-se a abandonar Túrin e, estando desesperado, acendeu de novo a esperança no coração de Gwindor. Prosseguiram, pois, juntos, seguindo os Orcs até eles saírem da floresta nas encostas altas que desciam para as dunas áridas da Anfauglith. Aí, à vista dos picos das Thangorodrim, os Orcs acamparam num pequeno vale desprotegido, à volta de cuja orla colocaram lobos de sentinela. Depois entregaram-se à pândega e a empanturrarem-se com o seu saque; e, após atormentar os seus prisioneiros, a maior parte deles adormeceu, embriagada. Por essa altura, o dia findava e estava a ficar muito escuro. Irrompeu do Oeste uma tempestade e a trovoada ribombava ao longe, enquanto Beleg e Gwindor avançavam cautelosamente para o acampamento.

Quando todos os que lá se encontravam estavam a dormir, Beleg pegou no arco e, na escuridão, atingiu quatro dos lobos de sentinela do lado sul, um por um e silenciosamente. Entraram então, com grande perigo, e encontraram Túrin agrilhoado de pés e mãos e amarrado a uma árvore. A toda a volta havia, cravadas no tronco, facas que tinham sido arremessadas pelos seus torturadores; ele, porém, não estava ferido, mas sim inconsciente, mergulhado numa letargia induzida por drogas ou num sono de absoluta fadiga. Então Beleg e Gwindor cortaram as cordas que o prendiam à árvore e levaram-no para fora do acampamento. Mas, como era pesado de mais para se afastarem muito, não foram mais longe do que um denso bosque de árvores espinhosas que se erguia nas encostas sobranceiras ao acampamento. Aí deitaram-no, ao mesmo tempo que a tempestade se aproximava mais e os relâmpagos dardejavam nas Thangorodrim. Beleg desembainhou a sua espada, Anglachel, e com ela cortou os grilhões que imobilizavam Túrin. Mas, naquele dia, o destino foi mais forte, pois a lâmina de Eöl, o Elfo Negro, escorregou na sua mão e picou o pé de Túrin.

Então ele acordou repentinamente, tomado de fúria e medo, e, vendo um vulto inclinado para si no negrume, com uma espada desembainhada na mão, levantou-se com um grande grito, convencido de que os Orcs voltavam para o atormentar. Debatendo-se com ele no escuro, pegou na Anglachel e matou Beleg Cúthalion, julgando que era um inimigo.

Mas, quando se ergueu, descobrindo-se liberto e pronto para vender cara a vida contra inimigos imaginários, um grande relâmpago brilhou sobre eles e, à sua luz, viu o rosto de Beleg. Imóvel como uma pedra, e silencioso, fitou aquela terrível morte e teve consciência do que fizera. Tão terrível era a sua face, iluminada pelos relâmpagos que dardejavam em redor, que Gwindor se assustou e encolheu no chão, sem ousar levantar os olhos.

Mas agora, em baixo, no acampamento, os Orcs tinham sido acordados pela tempestade e pelo grito de Túrin, de cujo desaparecimento se deram conta. No entanto, não organizaram nenhuma busca para o encontrar, pois estavam aterrorizados pela trovoada que vinha do Oeste, convencidos de que tinha sido enviada contra eles pelos grandes Inimigos de além do Mar.

Soprou então um vento, e caíram grandes chuvas, e das alturas da Taur-nu-Fuin desceram torrentes revoltas. E embora Gwindor gritasse a Túrin, avisando-o do grande perigo em que se encontravam, ele não respondeu, mas ficou sentado, imóvel e sem chorar, ao lado do corpo de Beleg Cúthalion, caído na escura floresta e morto pela sua mão, precisamente quando cortava os grilhões de servidão que o aprisionavam.

Quando a manhã chegou, a tempestade tinha prosseguido para leste sobre Lothlann e o Sol outonal subia quente e luminoso; mas os Orcs, odiando isto quase tanto como a trovoada e convencidos de que Túrin fugira para longe daquele lugar e todos os vestígios da sua fuga tinham sido levados pela chuva, partiram, apressados, ansiosos por regressar a Angband. Gwindor viu-os marchar muito ao longe, rumo ao norte, pelas areias fumegantes da Anfauglith. Aconteceu assim que regressaram a Morgoth de mãos vazias, deixando atrás de si o filho de Húrin, sentado, enlouquecido e inconsciente, nas encostas da Taur-nu-Fuin, carregando um peso maior do que o dos seus grilhões.

Então Gwindor despertou Túrin para que o ajudasse a sepultar Beleg, e ele levantou-se como um sonâmbulo. Juntos depositaram Beleg numa campa pouco funda e colocaram ao seu lado Belthronding, o seu grande arco, que era feito de madeira de teixo preta. Mas Gwindor tomou a temível espada Anglachel, alegando ser melhor ela cobrar vingança aos servos de Morgoth do que ficar inútil na terra; e ficou também com as lembas de Melian, para os fortalecerem nos ermos.

Assim terminou Beleg Arco Forte, o mais leal dos amigos, o maior conhecedor de tudo quanto se abrigava nas florestas de Beleriand nos Tempos Antigos, às mãos daquele a quem mais amava; e essa mágoa ficou marcada no rosto de Túrin e nunca se desvaneceu.

Mas a coragem e a força renovaram-se no Elfo de Nargothrond que, saindo de Taur-nu-Fuin, levou Túrin para muito longe. Nem uma só vez, enquanto vagueavam juntos pelos longos e penosos caminhos, Túrin falou, caminhando como alguém sem vontade ou objetivo enquanto o ano ia declinando e o Inverno se acercava das terras setentrionais. Mas Gwindor estava sempre ao lado dele, para o proteger e guiar, e assim passaram para oeste, pelo Sirion, e chegaram finalmente ao Lago Belo e a Eithel Ivrin, a nascente de onde o Narog rompia sob as Montanhas da Sombra. Aí Gwindor falou a Túrin, e disse-lhe:

— Desperta, Túrin, filho de Húrin! No lago de Ivrin há riso infinito. E alimentado pelas inexauríveis nascentes de cristal e protegido de conspurcação por Ulmo, Senhor das Águas, que esculpiu a sua beleza em tempos antigos.

Então Túrin ajoelhou e bebeu dessa água e, de súbito, as lágrimas soltaram-se, finalmente, e foi sarado da sua loucura.

Aí compôs uma canção para Beleg, à qual chamou Laer Cú Beleg, a Canção do Grande Arco, e cantou-a alto, descuidando o perigo. Gwindor depôs a espada Anglachel nas mãos dele e Túrin percebeu que era pesada e forte e possuidora de grande poder; mas a sua lâmina era negra e baça e os seus gumes cegos. Então Gwindor disse:

— Esta é uma estranha lâmina, diferente de quantas vi na Terra Média. Assim como tu, chora por Beleg. Mas conforta-te, pois regresso a Nargothrond da Casa de Finarfin, onde nasci e vivi antes do meu sofrimento. Irás comigo e serás sarado e renovado.

— Quem és tu?

— Um Elfo errante, um cativo fugido a quem Beleg encontrou e confortou — respondeu Gwindor. — Contudo, em tempos fui Gwindor, filho de Guilin, um senhor de Nargothrond, até ir para a Nirnaeth Arnoediad e ser escravizado em Angband.

— Então viste Húrin, filho de Galdor, o guerreiro de Dor-lómin? — perguntou Túrin.

— Não o vi, mas corre em Angband o boato de que ele ainda desafia Morgoth e que este lhe lançou uma praga, a ele e a todos os seus familiares.

— Acredito que sim — respondeu Túrin.

Depois levantaram-se e, partindo de Eithel Ivrin, viajaram para sul ao longo das margens do Narog, até serem capturados por batedores dos Elfos e levados como prisioneiros para a fortaleza oculta.

Assim chegou Túrin a Nargothrond.

 

Ao princípio, nem o seu próprio povo reconheceu Gwindor, que partira jovem e forte e regressava parecendo um idoso de entre os Homens mortais, em virtude dos seus tormentos e labores, além de estar agora mutilado. Mas Finduilas, filha de Orodreth, o rei, reconheceu-o e deu-lhe as boas-vindas, pois amava-o e, na verdade, estavam prometidos em casamento antes da Nirnaeth, e Gwindor amava tanto a sua beleza que lhe dera o nome de Faelivrin, que significa o brilho do Sol nas águas do Ivrin.

Assim chegou Gwindor a casa e, em consideração por ele, também Túrin foi recebido, pois Gwindor apresentou-o como um homem corajoso, amigo querido de Beleg Cúthalion de Doriath. Porém, quando Gwindor ia dizer o seu nome, Túrin deteve-o e disse: «Sou Agarwaen, filho de Úmarth (que significa o Manchado de Sangue, filho do Infortunado), um caçador das florestas.» Mas embora calculassem que ele escolhia estes nomes por ter morto o seu amigo (desconhecendo outras razões), os Elfos não o interrogaram mais.

A espada Anglachel foi de novo forjada para ele pelos hábeis ferreiros de Nargothrond e, apesar de sempre negros, os seus gumes brilhavam com um fogo pálido. Então o próprio Túrin passou a ser conhecido em Nargothrond como Mormegil, o Espada Negra, em virtude dos rumores dos seus feitos com aquela arma; ele, porém, chamou à espada Gurthang, Ferro da Morte.

Graças às suas proezas e à sua eficiência na guerra com os Orcs, Túrin mereceu o favor de Orodreth e foi admitido no seu conselho. Ora, não tendo qualquer simpatia pela maneira de combater dos Elfos de Nargothrond, assente em emboscada, atuação furtiva e flecha secreta, Túrin insistiu para que fosse abandonada e usassem a sua força para atacarem os servos do Inimigo, em combate aberto e perseguição. Mas Gwindor opôs-se sempre a Túrin nesta matéria no conselho do Rei, dizendo que, tendo estado em Angband, tivera um vislumbre do poder de Morgoth e fazia uma idéia dos seus desígnios.

— Em última análise, pequenas vitórias revelar-se-ão improfícuas — declarou —, pois com elas Morgoth ficará a saber onde poderá encontrar os seus inimigos mais ousados e reunir forças suficientes para os destruir. Todo o poder conjunto dos Elfos e dos Edain bastou apenas para o deter e para conquistar a paz de um cerco. Tempo bastante, na verdade, mas apenas enquanto Morgoth aguardou pelo momento certo para romper o cerco. E nunca mais semelhante união poderá fazer-se de novo. Só o segredo oferece esperança de sobrevivência. Até os Valar chegarem.

— Os Valar! — exclamou Túrin. — Eles abandonaram-vos e têm desprezo pelos Homens. De que serve olhar para oeste, através do mar sem fim, para um poente moribundo no Ocidente? Há apenas um Vala com quem temos de lidar, e esse é Morgoth. E se, no fim, não conseguirmos derrubá-lo, pelo menos poderemos feri-lo e entravá-lo. Pois vitória é vitória, por pequena que seja, e o seu valor não está apenas no que a ela se segue. É também conveniente. Para além disso, o segredo não é possível: as armas são a única muralha contra Morgoth. Se não fizermos nada para o deter, toda a Beleriand cairá sob a sua sombra antes que decorram muitos anos, e então, um por um, ele expulsar-vos-á das vossas terras. E que acontecerá, depois? Um resto insignificante fugirá para sul e oeste, a fim de se esconder nas costas do Mar, apanhado entre Morgoth e Ossë. Ê, pois, melhor conquistar um período de glória, por pouco que dure; pois o fim não será pior. Falas de segredo e dizes que nele reside a única esperança; mas podias emboscar e atacar de surpresa todos os batedores e espiões de Morgoth até ao último e mais ínfimo, de modo que nenhum regressasse com notícias a Angband, que mesmo assim ele ficaria a saber que vivias e calcularia onde. E mais te digo: embora os Homens mortais tenham vida curta comparada com a dos Elfos, prefeririam consumi-la em combate a fugir ou submeter-se. O desafio de Húrin Thalion é um grande feito; e mesmo que Morgoth destrua o desafiador, não poderá fazer com que o feito não tenha acontecido. Os próprios Senhores do Oeste o honrarão; e não está isso escrito na história de Arda, que nem Morgoth nem Manwë podem apagar?

— Falas de coisas grandiosas — respondeu Gwindor — e é evidente que viveste entre os Eldar. Mas há sobre ti um negrume, se juntas Morgoth e Manwë ou falas dos Valar como inimigos de Elfos e Homens; pois os Valar não desprezam nada e muito menos os Filhos de Ilúvatar. Tão pouco conheces todas as esperanças dos Eldar. Há entre nós uma profecia segundo a qual, um dia, um mensageiro da Terra Média virá das sombras para Valinor e Manwë ouvirá, e Mandos compadecer-se-á. Para essa altura não deveremos nós preservar a semente dos Noldor e, também, a dos Edain? E Círdan vive agora no Sul e está lá a construir barcos; mas que sabes tu de barcos ou do Mar? Pensas em ti e na tua própria glória e mandas-nos fazer o mesmo; mas nós temos de pensar noutros além de nós mesmos, pois nem todos podem lutar e cair, e a esses cabe-nos protegê-los da guerra e da ruína, enquanto pudermos.

— Manda-os então para os teus barcos, enquanto ainda há tempo — respondeu Túrin.

— Eles não quereriam separar-se de nós, mesmo que Círdan pudesse mantê-los. Temos de viver juntos, enquanto pudermos, e não cortejar a morte.

— A tudo isso respondi — afirmou Túrin. — Defesa corajosa das fronteiras e duros golpes antes que o inimigo se reúna; nesse caminho se encontra a melhor esperança de durante muito tempo viverem juntos. E aqueles de que falas amam mais esses covardes das florestas, perseguindo extraviados como um lobo, do que aquele que põe o seu elmo e o seu escudo adornado e escorraça o inimigo, mesmo que ele seja muito mais numeroso do que toda a sua hoste? Pelo menos as mulheres dos Edain não o fazem. Elas não tentaram impedir os homens de partir para a Nirnaeth Arnoediad.

— Sofreram, no entanto, infortúnio maior do que se tal combate não tivesse sido travado — respondeu Gwindor.

Mas Túrin subiu muito mais nas graças de Orodreth e tornou-se o principal conselheiro do Rei, o qual pedia o seu parecer para todas as coisas. Nesse tempo, os Elfos de Nargothrond renunciaram ao seu segredo e foram fabricadas grandes quantidades de armas; e, a conselho de Túrin, os Noldor construíram uma grandiosa ponte sobre o Narog, a partir das Portas de Felagund, para a passagem mais rápida dos seus homens, pois a guerra travava-se agora principalmente a leste do Narog, na Planície Guardada. Como marca setentrional, Nargothrond detinha agora a «Terra Contestável», perto das nascentes do Ginglith, do Narog e das orlas das Florestas de Núath. Entre o Nenning e o Narog nenhum Orc passava; e a leste do Narog o seu reino estendia-se até ao Teiglin e às fronteiras das charnecas do Nibin-noeg.

Gwindor caiu em desgraça, pois já não se encontrava na vanguarda das armas e a sua força era reduzida. Acometia-o com freqüência a dor no seu braço esquerdo trucidado. Mas Túrin era jovem, só recentemente atingira a plenitude da idade adulta, e, olhando-o, via-se realmente o filho de Morwen Eledhwen: alto, com cabelo escuro e pele clara, olhos cinzentos e um rosto mais belo do que o de qualquer outro entre os homens mortais, nos Tempos Antigos. A sua maneira de falar e o seu porte eram os do antigo reino de Doriath e, mesmo entre os Elfos, podia ser tomado, à primeira vista, como pertencendo a uma das grandes casas dos Noldor. Túrin era tão corajoso e tão extraordinariamente eficiente no manejo de armas, sobretudo com espada e escudo, que os Elfos diziam que não poderia ser morto a não ser por fatalidade ou por uma flecha perversa vinda de longe. Por isso, deram-lhe cota de malha de anão para o proteger; e, num terrível estado de espírito, ele encontrou nos armeiros uma máscara de anão toda dourada e pô-la antes da batalha, de tal modo que os seus inimigos fugiram ao ver-lhe o rosto.

Agora que conseguira o que queria, tudo corria bem; fazia aquilo que agradava ao seu coração e encontrava honra nisso, era cortês com todos e menos carrancudo do que antes, de modo que quase todos os corações simpatizavam com ele e eram muitos os que lhe chamavam Adanedhel, o Homem Elfo. Mas, mais do que todos, Finduilas, a filha de Orodreth, sentia estremecer o coração sempre que ele se aproximava ou estava no palácio. Ela tinha cabelos dourados, como era costume da casa de Finarfin, e Túrin começou a sentir prazer quando a via e com a sua companhia; pois ela recordava-lhe os seus parentes e as mulheres de Dor-lómin, na casa do seu pai.

Ao princípio, só a encontrava quando Gwindor estava perto, mas, ao fim de algum tempo, ela começou a procurá-lo, de modo que às vezes se encontravam a sós, embora parecesse por acaso. Então ela interrogava-o a respeito dos Edain, dos quais poucos e raramente vira, e a respeito do seu país e da sua família.

Nessas ocasiões, Túrin falava-lhe livremente dessas coisas, embora não referisse o nome da terra do seu nascimento nem de nenhum dos seus familiares. E uma vez disse-lhe:

— Tive uma irmã, Lalaith, ou pelo menos assim eu lhe chamava, e dela me recordais. No entanto, Lalaith era uma criança, uma flor amarela na relva verde da Primavera. Se tivesse vivido, talvez estivesse agora obscurecida pelo sofrimento. Mas vós tendes porte de rainha e sois como uma árvore dourada. Quem me dera ter uma irmã tão bela.

— Mas o vosso porte é real, como o dos senhores do povo de Fingolfin; quem me dera ter um irmão tão corajoso. E não penso que o vosso nome seja Agarwaen, nem ele é próprio de vós, Adanedhel. Por isso vos chamo Thurin, o Secreto.

As suas palavras fizeram-no estremecer, mas ele disse:

— Esse não é o meu nome e tão-pouco sou um rei, pois os nossos reis são dos Eldar, enquanto eu não sou.

Túrin começou então a notar que a amizade que Gwindor lhe devotava arrefecia, e sentiu também que, enquanto ao princípio o medo e o horror de Angband tinham começado a afastar-se dele, o Elfo parecia agora mergulhado de novo em preocupação e tristeza. E pensou: «Talvez esteja magoado por eu ter contrariado as suas opiniões e levado a melhor; gostaria que não tivesse sido assim.» Pois estimava Gwindor como seu guia e sarador e sentia grande compaixão por ele. Mas, naqueles dias, a radiância de Finduilas também se esbateu, os seus passos tornaram-se lentos, o seu rosto grave e ela empalideceu e emagreceu. Percebendo isso, Túrin imaginou que as palavras de Gwindor tinham despertado medo no seu coração, por causa do que poderia acontecer.

Na verdade, a mente de Finduilas estava dividida. Pois reverenciava Gwindor e compadecia-se dele, e não desejava acrescentar uma lágrima que fosse ao seu sofrimento; mas, contra a sua vontade, o seu amor por Túrin aumentava de dia para dia e ela pensava em Beren e Lúthien. Mas Túrin não era como Beren! Não desdenhava dela e sentia-se satisfeito na sua companhia; mas Finduilas sabia que não havia nele amor como o que ela desejava. O pensamento e o coração dele estavam noutro lugar, junto de rios em primaveras há muito passadas.

Então Túrin falou com Finduilas, e disse-lhe:

— Não deixeis que as palavras de Gwindor vos perturbem. Ele sofreu nas trevas de Angband e é duro para alguém tão valoroso estar assim mutilado e forçosamente diminuído. Precisa de todo o conforto e de mais tempo para sarar.

— Bem o sei.

— Mas nós conquistaremos esse tempo para ele! Nargothrond perdurará! Morgoth, o Covarde, jamais voltará a avançar de Angband e terá de depositar toda a sua confiança nos seus servos, assim diz Melian de Doriath. Eles são os dedos das suas mãos, e nós havemos de derrotá-los, e decepá-los, até que ele recolha as suas garras. Nargothrond perdurará!

— Talvez — admitiu ela. — Perdurará, se vós puderdes consegui-lo. Mas cuidai, Thurin, pois o meu coração fica pesado quando partis para o combate, receoso de que Nargothrond fique enlutada.

Depois Túrin procurou Gwindor e disse-lhe:

— Gwindor, querido amigo, estás a recair na tristeza; não o faças! Pois a tua cura virá nas casas dos teus e na luz de Finduilas.

Então Gwindor fitou Túrin, mas não disse nada, e o seu rosto ensombrou-se.

— Porque olhas assim para mim? — perguntou Túrin. — Nos últimos tempos, os teus olhos têm-me fitado estranhamente. Em que te ofendi? Contrariei as tuas opiniões, mas um homem tem de dizer as coisas como as vê e não esconder a verdade em que acredita por qualquer motivo pessoal. Preferiria que pensássemos de igual modo, pois tenho uma grande dívida para contigo e não a esquecerei.

— Não? Todavia, os teus atos e as tuas opiniões mudaram a minha casa e os meus familiares. A tua sombra paira sobre eles. Porque haveria de estar feliz, eu que tudo perdi a teu favor?

Túrin não compreendeu estas palavras e supôs apenas que Gwindor invejava o seu lugar no coração e nos pareceres do Rei.

Mas Gwindor, quando Túrin o deixou, sentou-se sozinho, entregue a negros pensamentos, e amaldiçoou Morgoth, que podia perseguir assim os seus inimigos, para onde quer que eles fugissem. «E agora, finalmente», pensou, «acredito no boato que corria em Angband e segundo o qual Morgoth amaldiçoou Túrin e toda a sua família.» E, procurando Finduilas, disse-lhe:

— Pairam sobre vós uma tristeza e uma dúvida e são muito freqüentes as vezes em que sinto a vossa falta e começo a imaginar que me evitais. Como não me dizeis qual é a causa disso, forçado sou a conjecturá-la. Filha da casa de Finarfin, não permitais que mágoa alguma se entreponha entre nós; pois embora Morgoth tenha arruinado a minha vida, ainda vos amo. Mas ide para onde o amor vos conduz, pois tornei-me incapaz de vos desposar e nem os meus feitos nem as minhas opiniões merecem já qualquer honra.

Então Finduilas chorou.

— Não choreis ainda! — pediu-lhe Gwindor. — Mas cuidai, não venhais a ter motivo para tal. Não é próprio os Filhos mais Velhos de Ilúvatar desposarem os mais Novos; tão-pouco é sensato, pois a vida deles é breve e depressa passa, deixando-nos na viuvez enquanto o mundo durar. Nem o destino o tolerará, a não ser apenas uma ou duas vezes, por alguma causa superior da fatalidade que não apreendemos. Mas este homem não é Beren, embora seja tão belo e tão valente como ele. Paira sobre ele uma condenação, uma negra condenação. Não entreis nela! E, se o fizerdes, o vosso amor trair-vos-á, conduzindo-vos à amargura e à morte. Pois escutai-me! Embora ele seja de fato Agarwaen, filho de Úmarth, o seu verdadeiro nome é Túrin, filho de Húrin, que Morgoth detém em Angband e cuja família inteira amaldiçoou. Não duvideis do poder de Morgoth Bauglir! Não está isso escrito em mim?

Então Finduilas levantou-se, e o seu porte era, deveras, o de uma rainha.

— Os vossos olhos estão velados, Gwindor. Pois não enxergais ou compreendeis o que está aqui a passar-se. Terei agora de ser duplamente humilhada para vos revelar a verdade? Pois eu amo-vos, Gwindor, e envergonho-me de não vos amar mais e ter-me deixado arrebatar por um amor ainda maior, do qual não posso libertar-me. Não o procurei e durante muito tempo o ignorei. Mas, se me compadeço dos vossos sofrimentos, compadecei-vos vós dos meus. Túrin não me ama, nem amará.

— Falais assim para afastar a culpa daquele a quem amais — respondeu Gwindor. — Porque vos procura ele, fica muito tempo convosco e se afasta cada vez mais satisfeito?

— Porque também ele precisa de consolo — disse Finduilas — e está privado da sua família. Ambos tendes as vossas carências. E Finduilas? Não basta que tenha de me confessar a vós não amada, tereis também de dizer que falo assim para disfarçar?

— Não, uma mulher não se engana facilmente em semelhante caso — respondeu Gwindor. — Nem encontrareis muitas capazes de negar que são amadas, se é essa a verdade.

— Se algum de nós três é infiel, sou eu: mas não por minha vontade. E que dizeis do vosso destino e dos rumores de Angband? E de morte e destruição? O Adanedhel é poderoso na história do mundo e a sua envergadura ainda chegará a Morgoth em algum dia distante que virá.

— Ele é orgulhoso — disse Gwindor.

— Mas também é compassivo — alegou Finduilas. — Ainda não despertou, mas, apesar disso, a compaixão pode sempre penetrar no seu coração e ele nunca a renegará. Talvez a compaixão seja sempre a única entrada. Mas ele não tem compaixão por mim. Sente por mim grande reverência, como se eu fora ao mesmo tempo sua mãe e uma rainha.

Talvez Finduilas falasse verdade, vendo com os olhos penetrantes dos Eldar. E agora, sem saber o que se passara entre Gwindor e Finduilas, Túrin mostrava-se cada vez mais afável em relação a ela, pois parecia-lhe mais triste. Mas um dia Finduilas disse-lhe:

— Thurin Adanedhel, porque ocultastes de mim o vosso nome? Se eu soubesse quem éreis, não vos teria respeitado menos, mas teria compreendido melhor a vossa mágoa.

— Que quereis dizer? Quem me julgais?

— Túrin, filho de Húrin Thalion, capitão do Norte.

Ao saber por Finduilas o que se passara, Túrin ficou irado e disse a Gwindor:

— Em grande estima te tenho por me teres salvo e protegido. Mas agora prejudicaste-me, amigo, ao denunciar o meu verdadeiro nome e atrair sobre mim a minha condenação, da qual queria estar escondido.

E Gwindor respondeu-lhe:

— A condenação está em ti mesmo, não no teu nome.

Naquele período de pausa e esperança, quando, devido aos feitos de Mormegil, o poder de Morgoth estava contido a oeste do Sirion e todas as florestas tinham paz, Morwen fugiu finalmente de Dor-lómin com Niënor, a sua filha, e aventurou-se a empreender a longa viagem para os palácios de Thingol. Aí aguardava-a novo tormento, pois soube que Túrin partira e a Doriath não tinham chegado quaisquer notícias dele desde que o Elmo do Dragão desaparecera das terras a oeste do Sirion; mas Morwen e Niënor ficaram em Doriath como hóspedes de Thingol e Melian, e aí foram tratadas com respeito.

 

Volvidos cinco anos após a chegada de Túrin a Nargothrond, na Primavera, chegaram dois Elfos que se identificaram como Gelmir e Arminas, do povo de Finarfin, e disseram que tinham uma mensagem para o Senhor de Nargothrond. Túrin comandava agora todas as forças de Nargothrond e tinha a seu cargo todas as questões relacionadas com a guerra; na verdade, tornara-se severo e altivo e ordenava tudo conforme o seu desejo ou como julgava certo. Foram, por isso, conduzidos à presença de Túrin, mas Gelmir esclareceu: «É com Orodreth, filho de Finarfin, que desejamos falar.»

E quando Orodreth apareceu, Gelmir disse-lhe: — Senhor, pertencíamos ao povo de Angrod e desde a Nirnaeth muito caminho temos percorrido; mas ultimamente permanecemos entre o séquito de Círdan, junto das Embocaduras do Sirion. E certo dia ele chamou-nos e mandou-nos procurar-vos, pois Ulmo, em pessoa, o Senhor das Águas, aparecera-lhe e advertira-o do grande perigo que se acerca de Nargothrond. Orodreth, porém, foi cauteloso e perguntou:

— Então porque estais aqui vindos do Norte? Teríeis, porventura, outras incumbências?

Arminas respondeu-lhe:

— Sim, Senhor. Desde a Nirnaeth que em vão procuro o reino oculto de Turgon; e temo que, nessa procura, tenha atrasado a nossa missão aqui. Pois Círdan enviou-nos por barco ao longo da costa, por razões de segredo e rapidez, e fomos desembarcados em Drengist. Mas entre a gente do mar encontravam-se alguns que viajaram para sul em anos passados, como mensageiros de Turgon, e pareceu-me, pelo seu falar cauteloso, que talvez Turgon permanecesse ainda no Norte, e não no Sul como muitos acreditam. Mas não encontramos nem vestígios nem rumores do que procurávamos.

— Porque procurais Turgon? — indagou Orodreth.

— Porque se diz que o seu reino resistirá mais tempo contra Morgoth — respondeu Arminas, mas estas palavras pareceram de mau agouro a Orodreth, que ficou desagradado.

— Nesse caso, não vos demoreis em Nargothrond — respondeu —, pois aqui não encontrareis quaisquer notícias de Turgon. E eu não preciso de que ninguém me avise de que Nargothrond está em perigo.

— Não vos irriteis, Senhor, se respondemos às vossas perguntas com a verdade — disse Gelmir. — E o nosso desvio do caminho direto até aqui não foi infrutífero, pois passamos para além do alcance das vossas sentinelas mais avançadas; atravessamos Dor-lómin e todas as terras sob as Ered Wethrin e exploramos o Desfiladeiro do Sirion para espiarmos as manobras do Inimigo. Há um grande ajuntamento de Orcs e criaturas malignas nessas regiões e está a formar-se uma hoste nas proximidades da Ilha de Sauron.

— Eu sei — respondeu Túrin. — As vossas notícias são retardadas. Se a mensagem de Círdan servisse para alguma coisa, deveria ter chegado mais cedo.

— Pelo menos, Senhor, ouvireis agora a mensagem — disse Gelmir a Orodreth. — Escutai, pois, as palavras do Senhor das Águas, que assim falou a Círdan: «O Mal do Norte conspurcou as nascentes do Sirion e o meu poder está a afastar-se dos dedos das águas correntes. Mas algo ainda pior está para acontecer. Dizei, portanto, ao Senhor de Nargothrond: Cerrai as portas da fortaleza e não as transponhais. Lançai as pedras do vosso orgulho ao rio estrondoso, para que o mal rastejante não logre encontrar a entrada.»

Estas palavras pareceram sombrias a Orodreth, o qual, como sempre, se voltou para Túrin em busca de aconselhamento. Este, porém, desconfiava dos mensageiros e disse, desdenhoso:

— Que sabe Círdan das nossas guerras, ele que habita perto do Inimigo? Deixai o marinheiro velar pelos seus navios! Mas se, na verdade, o Senhor das Águas nos quer avisar, então que fale mais claramente. Caso contrário, a alguém treinado na guerra continuará a parecer melhor, no que nos respeita, reunir a nossa força e ir ousadamente ao encontro dos nossos inimigos, antes que eles se aproximem demasiado.

Então Gelmir inclinou-se diante de Orodreth e disse:

— Falei como me foi ordenado que falasse, Senhor — e voltou-se para se afastar.

Mas Arminas perguntou a Túrin:

— Sois, na verdade, da Casa de Hador, como ouvi dizer?

— Aqui o meu nome é Agarwaen, Espada Negra de Nargothrond — disse Túrin. — Ao que parece, sois grande adepto da linguagem cautelosa, amigo Arminas. É bom que o segredo de

Turgon seja de vós escondido, ou em breve seria ouvido em Angband. O nome de um homem a ele pertence, e se o filho de Húrin souber que o denunciastes quando ele deveria permanecer oculto, então que Morgoth vos aprisione e queime a vossa língua!

Arminas ficou abalado com a fúria negra de Túrin, mas Gelmir disse:

— Ele não será denunciado por nós, Agarwaen. Não estamos a conversar atrás de portas fechadas, onde é possível falar com maior franqueza? E eu creio que Arminas vos interrogou por ser do conhecimento de todos quantos habitam junto do Mar que Ulmo tem grande amizade pela Casa de Hador e há até quem diga que Húrin e Huor, seu irmão, estiveram uma vez no Reino Escondido.

— Se assim foi, então ele não terá falado disso a ninguém, nem aos superiores nem aos inferiores, e menos ainda ao seu filho, na infância deste — respondeu Túrin. — Portanto, não acredito que Arminas mo tenha perguntado a fim de saber alguma coisa de Turgon. Desconfio de tais arautos de desgraças.

— Poupai a vossa desconfiança! — exclamou Arminas, irado. — Gelmir compreendeu-me mal. Eu perguntei porque duvido do que parece aqui ser acreditado; pois na realidade pouco vos pareceis com a família de Hador, seja o vosso nome qual for.

— E que sabeis vós dela? — perguntou Túrin.

— Vi Húrin e, antes dele, os seus antepassados. E nos ermos de Dor-lómin conheci Tuor, filho de Huor, irmão de Húrin; e ele é como os seus antepassados, o que vós não sois.

— É possível que sim, embora de Tuor nunca antes tenha ouvido falar. Mas, se a minha cabeça é negra e não dourada, disso me não envergonho. Pois não sou o primeiro dos filhos que se parece com a sua mãe e provenho de Morwen Eledhwen, da Casa de Beor e parente de Beren Camlost.

— Não falo da diferença entre o negro e o dourado — esclareceu Arminas. — Mas outros da Casa de Huor comportam-se de modo diverso e, entre eles, Tuor. Pois usam de cortesia e escutam bons conselhos, mantendo os Senhores do Oeste em respeito. Mas vós, ao que parece, aconselhais-vos com o vosso próprio discernimento ou apenas com a vossa espada e falais altivamente. Digo-vos, Agarwaen Mormegil, que, se assim fizerdes, diferente será o vosso destino daquele que as Casas de Hador e Beor poderiam esperar.

— Outro sempre foi — respondeu Túrin. — E se, como parece, devo sofrer o ódio de Morgoth por causa da valentia do meu pai, terei também de suportar os sarcasmos e os maus agouros de um renegado da guerra, ainda que ele se proclame aparentado com reis? Voltai para as costas seguras do Mar!

Então Gelmir e Arminas partiram e regressaram ao Sul; mas, apesar das provocações de Túrin, de bom grado teriam aguardado o combate ao lado dos seus parentes, e só partiram porque Círdan os encarregara, por ordem de Ulmo, de lhes levarem notícias de Nargothrond e do resultado do que lá tinham ido fazer. Orodreth ficou muito perturbado com as palavras dos mensageiros e a disposição de Túrin tornou-se mais sombria; de modo algum escutaria os conselhos deles e menos ainda toleraria que a grande ponte fosse descida. Pois até aí, pelo menos, as palavras de Ulmo tinham sido bem interpretadas.

Pouco depois da partida dos mensageiros, Handir, Senhor de Brethil, foi morto; pois os Orcs invadiram a sua terra, procurando assegurar assim os Vaus do Teiglin para o seu posterior avanço. Handir deu-lhes luta, mas os Homens de Brethil foram derrotados e rechaçados para as suas florestas. Os Orcs não os perseguiram, porque tinham alcançado o que pretendiam, naquele momento; e continuaram a concentrar a sua força no Canal do Sirion.

No Outono desse ano, Morgoth julgou ter chegado o momento de lançar contra o povo de Narog a grande hoste que havia muito preparara; e Glaurung, o Pai dos Dragões, atravessou a Anfauglith e passou daí para os vales setentrionais do Sirion, onde causou grande infortúnio. Sob as sombras das Ered Wethrin, conduzindo atrás de si um grande exército de Orcs, poluiu o Eithel Ivrin e de lá passou para o reino de Nargothrond, incendiando Talath Dirnen, a Planície Guardada, entre o Narog e o Teiglin.

Então, os guerreiros de Nargothrond avançaram, e alto e terrível pareceu, nesse dia, Túrin, e o coração da hoste animou-se enquanto ele cavalgava à direita de Orodreth. Mas a hoste de Morgoth era muito maior do que aquilo que qualquer dos batedores dissera, e ninguém, a não ser Túrin, protegido pela sua máscara de anão, conseguia resistir à aproximação de Glaurung. Os Elfos foram obrigados a recuar e derrotados no campo de Tumhalad, onde todo o orgulho e toda a hoste de Nargothrond foram humilhados. Orodreth, o Rei, foi morto na primeira linha do combate e Gwindor, filho de Guilin, ferido de morte. Mas Túrin correu em seu socorro e todos fugiram diante dele. Tirou Gwindor do meio da confusão e fugiu para uma mata, onde o deitou na erva.

Então Gwindor disse-lhe:

— Como te transportei assim tu me transportaste! Mas infortunado foi o meu gesto e vão é o teu, pois o meu corpo está ferido para além de toda a possibilidade de cura e tenho de deixar a Terra Média. E, embora te estime, filho de Húrin, lamento o dia em que te salvei dos Orcs. Não fossem as tuas proezas e o teu orgulho, ainda teria amor e vida, e Nargothrond permaneceria algum tempo. Agora, se me estimas, deixa-me! Apressa-te a regressar a Nargothrond e salva Finduilas. E por último te digo: só ela se ergue entre ti e o teu destino. Se falhares perante ela, ele não falhará em encontrar-te. Adeus!

Então Túrin bateu velozmente em retirada para Nargothrond, juntando a si todos os grupos em debandada que encontrou pelo caminho; e, enquanto viajavam, as folhas caíam das árvores sopradas por um grande vento, pois o Outono estava a ceder o lugar a um agreste Inverno. Mas Glaurung e a sua hoste de Orcs chegaram lá antes dele, por causa do tempo que levara a ajudar Gwindor, e surgiram subitamente, antes que aqueles que tinham ficado de guarda tivessem conhecimento do que acontecera em Tumhalad. Nesse dia, a ponte que Túrin mandara construir sobre o Narog revelou-se um infortúnio, pois por ser grande e de robusta envergadura não pôde ser destruída com rapidez; assim, o inimigo passou velozmente sobre o rio profundo e Glaurung lançou-se com todo o fogo e ímpeto contra as Portas de Felagund, derrubou-as, e entrou.

E, no momento em que Túrin chegou, o terrível saque de Nargothrond estava quase consumado. Os Orcs tinham chacinado ou rechaçado todos os que ainda continuavam armados e estavam nesse momento a pilhar as grandes salas e mansões, saqueando e destruindo; mas às mulheres e donzelas que não tinham sido queimadas ou assassinadas haviam-nas reunido no pátio diante das portas, como escravas que levariam para Angband. Perante tal ruína e calamidade, Túrin chegou e ninguém pôde, ou não quis, detê-lo, embora ele abatesse tudo quanto encontrava pela frente, atravessasse a ponte e abrisse caminho na direção das cativas.

Encontrava-se agora sozinho, pois os poucos que o haviam seguido tinham fugido para se esconderem. Mas, nesse momento, Glaurung, o impiedoso, saiu das derrubadas Portas de Felagund e ficou para trás, entre Túrin e a ponte. De súbito, falou através do espírito maligno que havia nele, e disse:

— Salve, Túrin, filho de Húrin. Feliz encontro!

Então Túrin avançou contra ele, com fogo nos olhos e os gumes da Gurthang a brilhar como chamas. Mas Glaurung conteve-lhe a investida, arregalou os olhos de serpente e fitou Túrin. Este sustentou aquele olhar sem medo, ao mesmo tempo que levantava a espada; e, instantaneamente, foi atingido pelo terrível feitiço do dragão e ficou como que transformado em pedra. Assim permaneceram muito tempo, imóveis e silenciosos diante das grandes Portas de Felagund. Depois Glaurung voltou a falar, provocando Túrin:

— Perversos têm sido todos os teus atos, filho de Húrin. Filho adotivo ingrato, bandido, assassino do teu amigo, ladrão de amor, usurpador de Nargothrond, capitão temerário e imprudente, desertor da tua família. Como cativas vivem tua mãe e tua irmã em Dor-lómin, na miséria e na privação. Tu vestes como um príncipe, mas elas cobrem-se de farrapos. Por ti anseiam, mas isso não te perturba. Feliz se sinta teu pai quando souber que tal filho tem: e sabê-lo-á.

Sob o feitiço de Glaurung, Túrin escutou as suas palavras, viu-se num espelho deformado por maldade e abominou o que viu.

E, enquanto permanecia dominado pelos olhos de Glaurung, com a mente atormentada e incapaz de se mexer, a um sinal do Dragão, os Orcs levaram as cativas arrebanhadas, que passaram perto de Túrin e seguiram pela ponte. Entre elas ia Finduilas, que estendeu os braços para Túrin e gritou o seu nome. Mas só depois de os gritos dela e os lamentos das cativas se perderem na estrada que seguia para norte Glaurung libertou Túrin, que não conseguia tapar os ouvidos para aquela voz que continuava a atormentá-lo.

Nisto, inesperadamente, Glaurung desviou o olhar e aguardou; e Túrin estremeceu devagar, como se acordasse de um sonho horrendo. Depois, recuperando a consciência com um grito estrondoso, lançou-se contra o Dragão. Mas Glaurung riu-se.

— Se desejas ser morto, de bom grado te matarei. Mas em pouco isso ajudará Morwen e Niënor. Não quiseste saber dos gritos da mulher elfa. Negarás também os laços do teu sangue?

Mas Túrin, puxando da espada, arremeteu-lha aos olhos e Glaurung, recuando rapidamente, empinou-se acima dele, e disse:

— Ah, pelo menos és corajoso, mais do que todos quantos conheci. E mentem os que dizem que nós, pela nossa parte, não honramos a valentia dos nossos inimigos. Agora escuta! Ofereço-te a liberdade. Procura a tua família, se puderes. Segue o teu caminho! E se Elfo ou Homem sobreviver para contar a história destes dias, seguramente referirão o teu nome com desprezo, se recusares esta dádiva.

Então Túrin, ainda enfeitiçado pelos olhos do Dragão, como se estivesse a tratar com um inimigo capaz de conhecer a piedade, acreditou nas palavras de Glaurung e, voltando-se, atravessou velozmente a ponte. Mas Glaurung gritou atrás dele, numa voz terrível:

— Apressa-te agora, filho de Húrin, para Dor-lómin. Não vá acontecer que os Orcs cheguem antes de ti, uma vez mais. E, se te demorares a procurar Finduilas, então nunca mais voltarás a ver Morwen nem Niënor, e elas te amaldiçoarão.

Mas Túrin seguiu pela estrada que levava para norte e Glaurung voltou a rir-se, pois cumprira aquilo de que o seu Senhor o encarregara. Então, voltou-se para o seu próprio prazer, expeliu o seu sopro e queimou tudo quanto havia em redor. Mas a todos os Orcs entregues ao saque desbaratou e afugentou, e negou-lhes tudo quanto tinham pilhado, até à mais insignificante coisa de algum valor. Destruiu depois a ponte e mergulhou-a na espuma do Narog; e, sentindo-se assim seguro, reuniu todo o tesouro e todas as riquezas de Felagund, amontoou-os e deitou-se sobre eles no salão mais recôndito, onde repousou algum tempo.

Túrin apressava-se pelos caminhos que conduziam ao Norte, passando pelas terras agora desoladas entre o Narog e o Teiglin, e o Inverno Terrível avançou ao seu encontro; pois nesse ano a neve caiu antes de passado o Outono e a Primavera chegou tarde e fria. Enquanto avançava, tinha sempre a sensação de ouvir a voz de Finduilas, gritando o nome dele por florestas e montes, e a sua angústia não conhecia limites. Mas, com o coração incendiado pelas mentiras de Glaurung, e vendo sempre na sua mente os Orcs incendiando a casa de Húrin ou infligindo tormentos a Morwen e Niënor, manteve-se no seu caminho, sem nunca se desviar dele.

 

Por fim, esgotado pela pressa e pela longa estrada (pois quarenta léguas ou mais percorrera sem descanso), chegou com o primeiro gelo do Inverno às lagoas do Ivrin, onde antes fora sarado. Mas agora estavam transformadas num lodaçal gelado e não mais ali pôde beber.

Daí chegou às gargantas de Dor-lómin e a neve veio, agreste, do Norte, tornando os caminhos perigosos e gélidos. Embora fossem decorridos vinte e três anos desde que pisara aquele caminho, ele estava-lhe gravado no coração, tão grande fora o sofrimento de cada passo quando se separara de Morwen. Assim regressou, finalmente, à terra da sua infância. Estava desolada e vazia e as pessoas que lá se encontravam eram poucas e grosseiras, falavam a língua áspera dos Easterlings e a língua antiga tornara-se a linguagem de servos ou de inimigos. Por isso, Túrin caminhou cautelosamente, embuçado e silencioso, e encontrou por fim a casa que procurava. Ali estava, vazia e escura, e nenhum ser vivo habitava perto dela, pois Morwen partira e Brodda, o Intruso, (aquele que, pela força, tomara Aerin, parente de Húrin, para mulher) pilhara a casa e apoderara-se de tudo quanto lhe restava em bens ou criadagem. A casa de Brodda era a que ficava mais perto da de Húrin e para lá se dirigiu Túrin, extenuado pela viagem e pelo sofrimento, para rogar abrigo; este foi-lhe concedido, pois alguns dos costumes mais generosos de antigamente ainda ali eram respeitados por Aerin. Foi-lhe dado um lugar perto do lume, junto dos criados e de alguns vagabundos tão sombrios e esgotados pelo caminho como ele, e Túrin pediu que lhe dessem notícias da terra.

Perante isso, o grupo remeteu-se ao silêncio e alguns dos presentes afastaram-se, olhando de esguelha para o desconhecido. Mas um velho vagabundo, com uma muleta, disse-lhe:

— Se quereis falar a língua antiga, Senhor, falai-a baixo e não peçais notícias. Quereríeis ser espancado como um tratante ou enforcado como um espião? Pois qualquer deles bem podeis ser, julgando pelo vosso aspecto. O que equivale a dizer — acrescentou, aproximando-se mais e falando ao ouvido de Túrin — uma das bondosas pessoas de antigamente que vieram com Hador nos tempos dourados, antes de as cabeças usarem pelagem de lobo. Alguns daqui são desses, embora estejam agora reduzidos a mendigos e escravos, e não fora a Senhora Aerin não teriam nem este lume nem este caldo. De onde sois e que notícias gostaríeis de saber?

— Havia uma senhora chamada Morwen — respondeu Túrin — e há muito tempo vivi na sua casa. Aí, após longa errância, vim procurar acolhimento, mas nem lume nem pessoas lá se encontram agora.

— Nem se encontraram durante todo este longo ano e mais tempo ainda — respondeu o velho. — Mas escassos foram tanto o lume como as pessoas dessa casa desde a terrível guerra; pois ela pertencia ao povo antigo, como sem dúvida sabeis era viúva do nosso senhor Húrin, filho de Galdor. Não ousaram, porém, tocar-lhe, pois temiam-na, altiva e bela como uma rainha, antes de o sofrimento a desfigurar. Bruxa lhe chamavam, e evitavam-na. Bruxa significa apenas «amiga de elfos», na nova linguagem. Contudo, roubaram-na. Muitas vezes ela e a filha teriam passado fome, não fora a Senhora Aerin. Diz-se que as ajudava em segredo e por isso era muitas vezes espancada pelo rústico Brodda, seu marido por obrigação.

— E nesse longo ano e mais tempo ainda? — perguntou Túrin. — Morreram ou foram escravizadas? Ou atacaram-na os Orcs?

— Não se sabe ao certo — respondeu o velho. — Mas ela desapareceu com a filha e o tal Brodda saqueou-lhe a casa e levou-lhe o que restava. Nem um cão sobrou, e os poucos que lá trabalhavam foram por ele feitos escravos; tirando alguns que se tornaram mendigos, como eu. Durante muitos anos a servi, e antes ao grande senhor. Sador Perneta me chamam, pois assim me tornou um machado maldito nas florestas, há muito tempo; de contrário, no Grande Monte jazeria agora. Bem me lembro ainda do dia em que o filho de Húrin foi mandado para fora, e como nós choramos os dois... e ela, quando ele partiu. Diz-se que foi para o Reino Escondido.

Chegado aqui, o velho travou a língua e olhou, desconfiado, para Túrin.

— Sou velho e falo de mais, Senhor — justificou-se. — Não me deis ouvidos! Mas embora seja agradável falar a língua antiga com alguém que a fala cortesmente, como em dias passados, os tempos são maus e precisamos de nos acautelar. Nem todos os que falam a língua cortês são corteses de coração.

— É verdade — respondeu Túrin. — Mas o meu coração está sombrio. Porém, se temes que eu seja um espião do Norte ou do Leste, então pouco mais sabedoria adquiriste do que tinhas há muito tempo, Sador Labadal.

O velho olhou-o, boquiaberto; depois, trêmulo, falou:

— Vamos lá para fora! Está mais frio, mas é mais seguro. Vós falais muito alto e eu demasiado, para uma sala Easterling.

Quando chegaram ao pátio, agarrou a capa de Túrin.

— Há muito tempo morastes naquela casa, dizeis. Senhor Túrin, porque voltastes? Finalmente os meus olhos estão abertos, assim como os meus ouvidos: tendes a voz do vosso pai. Mas somente o jovem Túrin alguma vez me tratou por esse nome, Labadal. Não o fazia com má intenção; éramos amigos alegres, nesse tempo. Que procura ele agora aqui? Poucos restam e estamos velhos e desarmados. São mais felizes os que se encontram no Grande Monte.

— Não vim a pensar em combater — respondeu Túrin —, embora as tuas palavras me tenham despertado, agora, esse pensamento, Labadal. Mas isso terá de esperar. Vim em busca da Senhora Morwen e de Niënor. Que podes dizer-me, depressa?

— Pouco, Senhor — confessou Sador. — Elas partiram em segredo. Murmurou-se entre nós que tinham sido chamadas pelo Senhor Túrin, pois não duvidávamos de que ele se tornara notável com os anos, rei ou fidalgo em algum país do Sul. Mas parece que tal não aconteceu.

— Pois não. Fidalgo fui, num país do sul, ainda que seja agora um vagabundo. Mas não as chamei.

— Assim sendo, não sei o que dizer-vos — confessou Sador. — Mas a Senhora Aerin saberá, não duvido. Ela conhecia todas as intenções da vossa mãe.

— Como poderei chegar até ela?

— Isso não sei. Muito sofrimento lhe causaria se fosse surpreendida a segredar a uma porta com um miserável vagabundo do povo oprimido, ainda que alguma mensagem lograsse fazê-la vir. E um pedinte como vós não irá longe no palácio, a caminho do conselho superior, sem que os Easterlings o detenham e espanquem, ou pior ainda.

Furioso, Túrin gritou:

— Não posso entrar no palácio de Brodda porque eles me espancarão? Vem e verás!

Sem mais, entrou no palácio, atirou para trás o capuz e, afastando para o lado todos os que se atravessavam no seu caminho, dirigiu-se para a mesa onde estavam sentados o senhor da casa, a sua mulher e outros senhores Easterlings. Levantaram-se alguns para o deter, mas ele atirou-os ao chão e gritou:

— Alguém governa esta casa ou trata-se de um antro de Orcs? Onde está o Senhor?

Brodda levantou-se, furioso.

— Eu governo esta casa — afirmou, mas, antes que pudesse acrescentar mais alguma coisa, Túrin disse:

— Então ainda não aprendestes a cortesia que vigorava nesta terra antes de vós. É agora atitude de homens consentir que lacaios tratem com rudeza os parentes das suas mulheres? Isso eu sou, e tenho um recado para a Senhora Aerin. Posso entrar livremente ou terei de o fazer como quiser?

— Entrai — respondeu Brodda, carrancudo, enquanto Aerin empalidecia.

Então Túrin dirigiu-se para a mesa alta, parou e inclinou-se.

— Peço-vos perdão, Senhora Aerin, por aparecer desta maneira; mas a minha incumbência é urgente e trouxe-me de longe. Procuro Morwen, Senhora de Dor-lómin, e Niënor, sua filha. Mas encontrei a casa dela deserta e pilhada. Que podeis dizer-me?

— Nada — respondeu Aerin com grande medo, pois Brodda observava-a atentamente.

— Em tal não acredito — declarou Túrin.

Então Brodda saltou para a frente, com o rosto vermelho de fúria e embriaguez.

— Basta! — gritou. — Como ousais contradizer a minha mulher na minha presença, vós que sois um mendigo e falais a língua dos servos? Não existe nenhuma Senhora de Dor-lómin. Mas, quanto a Morwen, ela pertencia ao povo escravizado e fugiu, como é hábito dos escravos. Fazei o mesmo, e depressa, ou mando-vos enforcar numa árvore!

Então Túrin saltou sobre ele, desembainhou a espada negra, agarrou Brodda pelos cabelos e empurrou-lhe a cabeça para trás.

— Que ninguém se mexa — avisou —, ou esta cabeça separar-se-á dos ombros! Senhora Aerin, rogar-vos-ia perdão, uma vez mais, se pensasse que este labrego alguma vez vos fez alguma coisa a não ser mal. Mas agora falai e não me renegueis! Não sou eu Túrin, Senhor de Dor-lómin? Deverei ordenar-vos?

— Ordenai — disse ela.

— Quem pilhou a casa de Morwen?

— Brodda — respondeu ela.

— Quando fugiu ela, e para onde?

— Um ano e três meses são volvidos. Mestre Brodda e outros dos Intrusos do Leste por aqui a oprimiram grandemente. Há muito tempo foi convidada para o Reino Escondido e, finalmente, aceitou o convite. Pois as terras intermédias encontravam-se então, por uns tempos, livres do mal, graças às proezas do Espada Negra do país do Sul, ao que se diz; mas isso agora acabou. Ela contava encontrar lá o filho, à sua espera. Mas se vós sois ele, então temo que tudo tenha corrido errado.

Túrin riu-se amargamente.

— Errado, errado? — gritou. — Sim, sempre errado, errado e torto como Morgoth!

Tomou-o de súbito uma ira negra, pois os seus olhos estavam abertos e o feitiço de Glaurung perdia os seus últimos fios, e ele percebeu as mentiras com que o haviam burlado.

— Terei sido enganado de tal forma para vir aqui e morrer desonrado, eu que podia, pelo menos, ter caído valentemente diante das Portas de Nargothrond?

E, vindos da noite que envolvia o palácio, pareceu-lhe ouvir os gritos de Finduilas.

— Mas o primeiro a morrer aqui não serei eu! — gritou. Agarrou Brodda e, com a força da sua enorme angústia e fúria, ergueu-o alto e sacudiu-o, como se fosse um cão.

— Morwen do povo escravizado, dizes? Tu, filho de poltrões, ladrão, escravo de escravos!

E atirou Brodda de cabeça para cima da sua própria mesa, direito ao rosto de um Easterling que se ergueu para atacar Túrin. Na queda, Brodda partiu o pescoço e Túrin saltou atrás dele e abateu mais três que ali estavam encolhidos, pois tinham sido apanhados desarmados. Gerou-se tumulto no salão. Os Easterlings que lá se encontravam teriam investido contra Túrin, mas muitos outros ali se tinham reunido que pertenciam ao povo antigo de Dor-lómin: durante muito tempo tinham sido servos submissos, mas agora ergueram-se com gritos de rebeldia. Em breve se travava grande luta no salão e, embora os cativos dispusessem apenas de facas de trinchar carne, e outros objetos semelhantes de que puderam apoderar-se, para enfrentar punhais e espadas, muitos foram rapidamente abatidos de ambos os lados, antes de Túrin saltar para o meio deles e matar os últimos Easterlings que restavam no salão.

Depois descansou, encostado a uma coluna, e o fogo da sua ira assemelhou-se a cinzas. Mas o velho Sador arrastou-se para ele e agarrou-o pelos joelhos, pois estava ferido de morte.

— Mais do que três vezes sete anos foi muito tempo para esperar por esta hora — disse-lhe. — Mas agora ide, ide, Senhor! Ide e não volteis, a não ser com uma força maior. Eles levantarão a terra toda contra vós. Muitos fugiram do salão. Ide, ou acabareis aqui. Adeus! — Depois o seu corpo escorregou e ele morreu.

— Ele fala com a verdade da morte — disse Aerin. — Aprendestes o que havia a aprender. Agora sede célere e parti! Mas procurai primeiro Morwen e confortai-a, ou ser-me-á difícil perdoar todo o caos que desencadeastes aqui. Pois por má que a minha vida fosse, trouxestes a morte sobre mim com a vossa violência. Os Intrusos vingarão esta noite tudo quanto aqui se passou. Impetuosos são os vossos atos, filho de Húrin, como se fôsseis ainda a criança que conheci.

— E timorato é o vosso coração, Aerin, filha de Indor, como era quando vos chamava tia e um cão atiçado vos assustava — respondeu Túrin. — Fostes feita para um mundo mais afável. Mas vinde! Levar-vos-ei a Morwen.

— A neve cobre a terra, mas é ainda mais densa sobre a minha cabeça. Tão depressa morreria nos ermos convosco como com os brutais Easterlings. Não podeis emendar o que fizestes. Ide! Ficar tornaria tudo pior e enlutaria escusadamente Morwen. Ide, rogo-vos!

Túrin fez-lhe uma vênia profunda, voltou-se e saiu do salão de Brodda; mas foi seguido por todos os rebeldes com forças para tal. Fugiram na direção das montanhas, pois alguns de entre eles conheciam bem os caminhos dos ermos e abençoaram a neve que caiu atrás deles e lhes cobriu o rasto. Assim, embora a perseguição não tardasse, com muitos homens, cães e relinchos de cavalos, eles fugiram para sul, para os montes. Depois, olhando para trás, viram uma luz vermelha muito ao longe, na terra de onde haviam fugido.

— Deitaram fogo ao palácio — comentou Túrin. — Com que propósito o fariam?

— Eles? Não, Senhor: ela, me parece — disse um, de nome Asgon. — Não poucos homens de armas interpretam mal a paciência e a serenidade. Ela fez muito bem entre nós, e por alto preço. O seu coração não era timorato e a paciência acaba por render-se.

Alguns dos homens mais resistentes, capazes de suportar o Inverno, permaneceram com Túrin e conduziram-no por estranhos caminhos a um refúgio nas montanhas, uma caverna conhecida de bandidos e renegados; e lá encontraram escondida alguma quantidade de alimentos. Aí esperaram que a neve parasse, deram comida a Túrin e conduziram-no a um desfiladeiro pouco usado que seguia para sul, para o Vale do Sirion, onde a neve não chegara. No caminho de descida, despediram-se.

— Passai bem, Senhor de Dor-lómin — desejou Asgon. — Mas não vos esqueçais de nós. Agora seremos homens perseguidos e a gente do Lobo tornar-se-á ainda mais cruel por causa da vossa vinda. Por isso, ide e não volteis, a não ser com uma força capaz de nos libertar. Adeus!

 

Então Túrin desceu na direção do Sirion, mas a sua mente estava dividida. Pois parecia-lhe que, enquanto antes tivera duas amargas escolhas, tinha agora três, e o seu povo oprimido, sobre o qual lançara apenas atribulações, chamava-o. Apenas um conforto lhe restava: Morwen e Niënor haviam chegado há muito a Doriath e só graças às proezas do Espada Negra de Nargothrond o seu caminho se tornara seguro. E disse, mentalmente: «Para onde melhor poderia eu tê-las conduzido, se tivesse, de fato, chegado mais cedo? Se a Cerca de Melian for quebrada, então tudo estará acabado. Não, é melhor assim; pois com a minha ira e os meus atos impetuosos lanço uma sombra onde quer que me encontre. Que Melian as guarde! E eu deixá-las-ei em paz e, por uns tempos, ao abrigo da sombra.»

Mas tarde de mais procurava Túrin agora Finduilas, percorrendo as florestas sob os beirais das Ered Wethrin, solitário e cauteloso como um animal, e revistou todas as estradas que seguiam para norte, para o desfiladeiro do Sirion. Tarde de mais. Pois as chuvas e as neves tinham apagado todas as pistas. Mas aconteceu que, ao passar ao longo do Teiglin, encontrou algumas pessoas do Povo de Haleth, da Floresta de Brethil. A guerra reduzira-as a um pequeno povo que, na sua maioria, habitava agora secretamente no interior de uma cerca no Amon Obel, bem no interior da floresta. O lugar chamava-se Ephel Brandir, pois Brandir, filho de Handir, era agora o seu senhor, desde que o seu pai fora morto. E Brandir estava longe de ser um homem de guerra, tendo ficado coxo em conseqüência de ter partido uma perna num desastre, na infância. Além disso, era brando de natureza, amando a madeira mais do que o metal, e o conhecimento das coisas que crescem na terra mais do que outros saberes.

Mas alguns dos lenhadores ainda perseguiam os Orcs nas suas fronteiras, e foi deste modo que Túrin lá chegou e ouviu o som de uma peleja. Apressou-se a seguir nessa direção e, ao passar sorrateiramente por entre as árvores, viu um pequeno bando de homens cercados por Orcs. Os homens defendiam-se desesperadamente, de costas para um maciço de árvores que se erguia, isolado, numa clareira; mas os Orcs eram numerosos e eles tinham pouca esperança de escapar, a não ser que chegasse alguma ajuda. Por isso, fora da vista entre a vegetação rasteira, Túrin fez grande barulho, batendo com os pés no chão e entrechocando as armas, e depois gritou muito alto, como se conduzisse muitos homens:

— Ah, cá estão eles! Sigam-me! Sigam-me já e abatam-nos!

Ouvindo isso, muitos dos Orcs olharam para trás, assustados, e depois Túrin saltou do esconderijo, como se acenasse a muitos homens que o seguiam, e os gumes da Gurthang faiscaram como chamas na sua mão. Conhecendo por demais aquela lâmina, antes mesmo de ele se aproximar muitos Orcs dispersaram e fugiram. Então os lenhadores correram ao encontro de Túrin e, juntos, perseguiram o inimigo até ao rio: poucos o atravessaram. Por fim, detiveram-se na margem e Dorlas, chefe dos lenhadores, disse:

— Sois veloz na perseguição, Senhor, mas os vossos homens são lentos a seguir-vos.

— Não — respondeu Túrin —, nós corremos juntos como um só homem e não permitimos que nos separem.

Então os homens de Brethil riram-se, e disseram:

— Bem, um assim vale por muitos e muito gratos vos estamos. Mas quem sois e o que fazeis aqui?

— Faço apenas o meu ofício, que é matar Orcs. E habito onde o meu ofício me leva. Sou o Homem Selvagem da Floresta.

— Vinde, então, e habitai conosco, pois vivemos nas florestas e precisamos de tais artífices. Sereis bem-vindo.

Túrin olhou-os de modo estranho e disse:

— Quer dizer que ainda resta alguém que me permite ensombrar as suas portas? Mas, amigos, tenho uma missão difícil e dolorosa para cumprir: encontrar Finduilas, filha de Orodreth de Nargothrond, ou pelo menos saber novas dela. Ai de mim, muitas semanas decorreram desde que foi levada de Nargothrond, mas tenho de continuar a minha busca.

Olharam-no, compadecidos, e Dorlas disse:

— Não procureis mais. Pois uma hoste de Orcs veio de Nargothrond na direção dos Vaus do Teiglin e nós fomos alertados com grande antecedência, por causa do número de cativos que levavam. Então pensamos dar o nosso pequeno golpe na guerra e montamos uma emboscada aos Orcs com todos os archeiros que conseguimos reunir, na esperança de salvar alguns dos prisioneiros. Infelizmente, porém, mal foram atacados, os malvados Orcs começaram por matar as mulheres que se encontravam entre os seus cativos. E, com uma lança, cravaram a filha de Orodreth numa árvore.

Túrin pareceu atingido de morte.

— Como sabeis isso? — perguntou.

— Sabemos porque ela falou comigo antes de morrer — respondeu Dorlas. — Olhou-nos como se procurasse alguém que esperara, e pediu: «Mormegil. Dizei a Mormegil que Finduilas está aqui.» E mais não disse. Mas, por causa das suas últimas palavras, sepultamo-la onde morreu. Jaz num pequeno monte ao lado do Teiglin. Decorrido é já um mês.

— Levai-me lá — pediu Túrin, e eles conduziram-no a um outeiro próximo dos Vaus do Teiglin.

Aí se deitou Túrin e caiu sobre ele uma escuridão tal que pensaram que estivesse morto. Mas Dorlas olhou-o, assim deitado, e depois voltou-se para os seus homens e disse-lhes:

— Tarde de mais! Triste ocorrência esta. Mas, olhai: aqui jaz o próprio Mormegil, o grande capitão de Nargothrond. Pela sua espada o devíamos ter conhecido, como fizeram os Orcs. — Pois a fama do Espada Negra do Sul chegara muito longe, até mesmo às profundezas da floresta.

Levantaram-no, por isso, com reverência e transportaram-no para Ephel Brandir. Então, indo ao encontro deles, Brandir estranhou a padiola que carregavam. Depois, levantando o pano que o cobria, olhou para o rosto de Túrin, filho de Húrin, e uma sombra negra velou o seu coração.

— Oh, Homens cruéis de Haleth! — gritou. — Porque afastastes a morte deste homem? Com grande labor trouxestes para aqui a última maldição do nosso povo.

Mas os lenhadores responderam:

— Não, é o Mormegil de Nargothrond, um prodigioso matador de Orcs, e será de grande ajuda para nós, se viver. E, mesmo que assim não fosse, deveríamos ter deixado ao abandono, como carniça, um homem atingido pelo infortúnio?

— Não devíeis, de fato — concordou Brandir. — O Destino não quis que assim fosse. — Depois levou Túrin para sua casa e tratou dele com cuidado.

Mas quando, finalmente, Túrin afastou de si a escuridão, a Primavera tinha regressado e ele acordou e viu o sol nos rebentos verdes. Então a coragem da Casa de Hador despertou também nele, que se levantou e disse, no segredo do seu coração: «Todos os meus atos e dias passados foram negros e maus. Mas chegou um novo dia. Aqui permanecerei em paz e renunciarei a nome e laços de sangue; e assim afastarei a sombra para trás, ou pelo menos impedirei que caia sobre aqueles a quem amo.»

Por isso, adotou um novo nome, passando a chamar-se Turambar, que na linguagem élfica superior significava Mestre do Destino; e passou a viver entre os lenhadores, pelos quais foi estimado, e pediu-lhes que esquecessem o seu nome antigo e o considerassem como se tivesse nascido em Brethil. Todavia, a mudança de nome não chegava para modificar inteiramente o seu feitio, nem para o fazer esquecer os seus antigos agravos contra os servos de Morgoth; e ia caçar Orcs com alguns com a mesma inclinação, apesar de isso desagradar a Brandir. Pois este preferia resguardar o seu povo pelo silêncio e pelo segredo.

— O Mormegil já não existe — declarou —; cuidai, no entanto, não vá a valentia de Turambar dar origem a uma vingança semelhante sobre Brethil!

Por isso, Turambar pôs de lado a espada negra e não a levou mais para o combate, substituindo-a pelo arco e pela lança. Mas não tolerava que os Orcs utilizassem os Vaus do Teiglin nem se aproximassem do cabeço onde Finduilas jazia. Haudh-en-Elleth, assim se chamava, o Monte da Donzela Élfica, e os

Orcs não tardaram a temer esse lugar e a evitá-lo. E Dorlas disse a Turambar:

— Haveis renunciado ao nome, mas continuais a ser o Espada Negra. E não consta, com veracidade, que ele era o filho de Húrin de Dor-lómin, senhor da Casa de Hador?

E Turambar respondeu:

— Assim ouvi dizer. Mas não o proclameis, rogo-vos, pois sois meu amigo.

 

Quando o Inverno Terrível findou, chegaram a Doriath notícias de Nargothrond. Pois alguns dos que escaparam ao saque e sobreviverem ao Inverno nos ermos procuraram finalmente refúgio junto de Thingol e os guardas das marcas conduziram-nos ao Rei. Alguns disseram que todo o inimigo retirara para norte e outros que Glaurung ainda habitava nos salões de Felagund; e alguns afirmaram que Mormegil fora morto e outros que ele fora atingido por um feitiço do Dragão e ainda lá residia, transformado em pedra. Mas todos declararam que fora conhecido em Nargothrond, antes do fim, que o Espada Negra não era outro senão Túrin, filho de Húrin de Dor-lómin.

Grandes foram, então, o receio e o desgosto de Morwen e Niënor, e Morwen disse:

— Semelhante dúvida é, deveras, obra de Morgoth! Estaremos condenadas a não conhecer a verdade e a saber, com certeza, o pior que podemos suportar?

Ora, o próprio Thingol desejava muito saber mais a respeito do destino de Nargothrond e já andava a pensar no envio de alguns que pudessem lá ir, prudentemente, mas acreditava que Túrin fora de fato morto, ou se encontrava sem qualquer possibilidade de salvação, e temia a hora em que Morwen ficasse a sabê-lo sem margem para dúvida. Por isso, disse-lhe:

— Este assunto é perigoso, Senhora de Dor-lómin, e deve ser ponderado. Tal dúvida pode, na verdade, ser obra de Morgoth, para nos conduzir a alguma imprudência.

Mas, transtornada, Morwen exclamou:

— Imprudência, Senhor! Se o meu filho está escondido nas florestas, faminto, se está acorrentado ou o seu corpo jaz insepulto, então eu seria imprudente. Não perderia um instante e iria procurá-lo.

— Senhora de Dor-lómin — respondeu Thingol —, o filho de Húrin não desejaria por certo isso. Aqui vos considerará mais segura do que em qualquer outra terra que reste: à guarda de Melian. Em nome de Húrin e Túrin, não vos deixaria errar lá por fora, no perigo negro que caiu sobre estes tempos.

— Não defendestes Túrin do perigo, mas a mim impedir-me-eis de ir ter com ele — chorou Morwen. — À guarda de Melian! Sim, uma prisioneira da Cerca! Durante muito tempo resisti, antes de entrar nela, e agora me arrependo.

— Se assim falais, Senhora de Dor-lómin — respondeu Thingol —, sabei o seguinte: A Cerca está aberta. Livre aqui chegastes, livre permanecereis... ou partireis.

Então, Melian, que se mantivera calada, falou:

— Não queirais ir, Melian. Uma coisa verdadeira dissestes: esta dúvida é obra de Morgoth. Se partirdes, estareis a fazer-lhe a vontade.

— O medo de Morgoth não me impedirá de responder ao apelo da minha família — respondeu Morwen. — Mas, se temeis por mim, Senhor, então cedei-me alguns dos vossos.

— A vós não dou ordens — respondeu Thingol. — Mas os meus a elas estão sujeitos. Enviá-los-ei de acordo com o meu discernimento.

Morwen não disse mais nada, mas chorou; e deixou a presença do Rei. Thingol sentia o coração pesado, pois parecia-lhe que o estado de espírito de Morwen era infortunado e, por isso, perguntou a Melian se não a reteria com o seu poder.

— Contra a vinda do mal, muito posso fazer — respondeu ela. — Mas contra a saída daqueles que querem sair, nada posso. Isso compete-vos a vós. Se ela deve ser mantida aqui, tereis de mantê-la pela força. No entanto, talvez assim mudeis a sua intenção.

Morwen foi ter com Niënor e disse-lhe:

— Adeus, filha de Húrin. Vou procurar o meu filho, ou notícias verdadeiras dele, já que ninguém aqui quer fazer nada a não ser adiar até ser tarde de mais. Aguarda aqui que eu regresse feliz.

Assustada e aflita, Niënor quis detê-la, mas Morwen não disse mais nada e foi para os seus aposentos. E, quando a manhã chegou, montara a cavalo e partira.

Thingol ordenara que ninguém a detivesse ou desse a impressão de querer impedi-la. Mas, assim que ela partiu, reuniu um grupo dos seus mais destemidos e eficientes guardas das marcas e colocou-o sob o comando de Mablung.

— Segui-a agora céleres — recomendou —, mas cuidai para que não se aperceba de vós. No entanto, quando ela entrar nos ermos e, se houver ameaça de perigo, mostrai-vos; e se ela se recusar a regressar, então protegei-a como puderdes. Mas quereria que alguns de vós avançassem tanto quanto fosse possível e tomassem conhecimento do máximo que pudessem.

Foi assim que Thingol enviou um grupo maior do que inicialmente tencionara e do qual faziam parte dez cavaleiros com cavalos de reserva. Seguiram Morwen, que se dirigia para sul pela Region e chegara assim às margens do Sirion, acima dos Lagos do Crepúsculo; e lá se detivera, pois o Sirion corria largo e rápido e ela não conhecia o caminho. Foi aí que os guardas tiveram de revelar a sua presença, e Morwen perguntou-lhes:

— Irá Thingol deter-me? Ou tardiamente me envia a ajuda que me negou?

— Ambas as coisas — respondeu Mablung. — Não regressareis?

— Não.

— Nesse caso, terei de vos ajudar, ainda que contra a minha própria vontade. Largo e fundo é aqui o Sirion, e perigoso para animais ou homens atravessá-lo a nado.

— Conduzi-me, então, por qualquer caminho que o povo élfico esteja habituado a atravessar. Caso contrário, tentarei ir a nado.

Por isso, Mablung conduziu-a aos Lagos do Crepúsculo. Aí, entre enseadas e juncais, existiam passagens ocultas e guardadas na margem oriental; pois por esse caminho iam e vinham mensageiros entre Thingol e os seus familiares em Nargothrond. Esperaram, pois, que a noite estrelada avançasse e, então, atravessaram para as neblinas brancas, antes do alvorecer. E quando o Sol nascia, vermelho, para lá das Montanhas Azuis, e um forte vento matinal soprava e dispersava as névoas, os guardas subiram para a margem ocidental e deixaram para trás a Cerca de Melian. Eram Elfos Altos de Doriath, vestidos de cinzento e com capas sobre as cotas de malha. Do molhe, Morwen viu-os passar silenciosamente e, de súbito, soltou um grito e apontou para o último do grupo que passava.

— De onde veio ele? — perguntou. — Em número de três dezenas chegastes até mim e três dezenas e mais um desembarcastes!

Então os outros voltaram-se e viram que o sol brilhava numa cabeça dourada: pois tratava-se de Niënor, cujo capuz o vento atirara para trás. Ficou assim revelado que ela seguira o grupo e se lhe juntara no escuro, antes de atravessarem o rio. Sentiram-se consternados, mas nenhum mais do que Morwen.

— Voltai para trás! Voltai para trás! Ordeno-vos! — gritou Morwen.

— Se a mulher de Húrin pode agir contra todos os conselhos e obedecendo ao ditame do sangue, então a filha de Húrin também pode fazê-lo — respondeu Niënor. — Luto me chamastes, mas não chorarei sozinha por pai, irmão ou mãe. De todos estes só a vós conheci e acima de todos amo. E nada do que não temeis eu temo.

Na verdade, pouco temor se descortinava no seu rosto ou no seu porte. Alta e forte parecia, pois de grande estatura eram os da Casa de Hador, e assim vestida, de traje élfico, condizia bem com os guardas, sendo mais baixa apenas do que os maiores de entre eles.

— Que quereis fazer? — perguntou Morwen.

— Ir aonde fordes — respondeu Niënor. — Uma escolha ofereço. Levai-me para trás e deixai-me em segurança à guarda de Melian, pois não é sensato recusar o seu conselho. Ou sabei que enfrentarei o perigo, se vós o enfrentardes. — Pois a verdade é que Niënor viera mais com a esperança de que, por medo e amor por ela, a sua mãe voltasse para trás; e o espírito de Morwen estava deveras dividido.

— Uma coisa é recusar um conselho — respondeu. — Outra é recusar a ordem de uma mãe. Regressai já!

— Não. Há muito tempo que não sou uma criança. Tenho vontade e discernimento próprios, ainda que até agora não tenham contrariado os vossos. Irei convosco. De preferência para Doriath, por respeito para com aqueles que a governam; caso contrário, seguirei para ocidente. Na realidade, se alguma de nós deve prosseguir, serei eu, que estou na plenitude da minha força.

Morwen viu nos olhos cinzentos de Niënor a firmeza de Húrin. Hesitou, mas, incapaz de vencer o seu orgulho, e não querendo (apesar das agradáveis palavras) parecer que era assim levada para trás pela filha, como alguém idoso e senil, propôs:

— Prosseguirei, como decidi. Podeis vir também, mas contra a minha vontade o fareis.

— Que assim seja — concordou Niënor. Então, Mablung disse aos seus homens:

— Na verdade, é por falta de siso, e não de coragem, que a família de Húrin traz atribulações a outros! O mesmo acontece com Túrin; ainda que não com os seus antepassados. Mas agora mostram-se fatalistas, e isso não me agrada. Temo mais este encargo do Rei do que do que a perseguição ao Lobo. Que devemos fazer?

Mas Morwen, que se aproximara, ouviu as últimas palavras.

— Fazei aquilo de que o Rei vos incumbiu — disse-lhe. — Procurai notícias de Nargothrond e de Túrin. Com esse fim estamos todos reunidos.

— E um caminho longo e perigoso — avisou Mablung. — Se fordes mais além, devereis ambas ir a cavalo e entre os cavaleiros, dos quais não vos devereis afastar.

Foi assim que, em pleno dia, se puseram a caminho, saíram lenta e cautelosamente da região de juncais e salgueiros baixos e chegaram às florestas cinzentas que cobriam grande parte da planície meridional, antes de Nargothrond. O dia inteiro seguiram para oeste e nada mais viram do que desolação, e também nada ouviram; pois as terras estavam silenciosas e parecia a Mablung que um medo presente pairava sobre eles. Aquele mesmo caminho trilhara Beren anos antes, e então as florestas estavam cheias com os olhos ocultos dos caçadores; mas agora todo o povo de Narog partira e, ao que parecia, os Orcs ainda não tinham chegado tanto a sul. Nessa noite acamparam na floresta cinzenta, sem lume nem luz.

Prosseguiram nos dois dias seguintes e, ao anoitecer do terceiro dia após a partida do Sirion, tinham atravessado a planície e aproximavam-se das margens orientais do Narog. Depois apoderou-se de Mablung um desassossego tão grande que ele rogou a Morwen que não fosse mais longe. Mas ela riu-se e respondeu:

— Em breve vos sentireis grato por estardes livre de nós, como é muito provável que suceda. Mas tereis de aturar-nos um pouco mais. Chegamos já demasiado perto para que o medo nos faça voltar para trás.

Então Mablung gritou:

— Fatalistas sois ambas, e imprudentes. Não ajudais nada e só dificultais qualquer recolha de notícias. Ouvi-me, agora! Foi-me ordenado que não vos sustivesse pela força, mas foi-me igualmente ordenado que vos protegesse como pudesse. Nesta conjuntura, só uma dessas coisas posso fazer. E proteger-vos-ei. Amanhã conduzir-vos-ei a Amon Ethir, o Monte Espião, que fica perto, e lá permanecereis sob guarda e não prosseguireis mais enquanto eu aqui mandar.

Amon Ethir era um cabeço tão grande como um monte, que há muito tempo Felagund mandara construir com grande labor na planície que antecedia as suas Portas, uma légua a leste do Narog. Estava arborizado, exceto no cume, de onde se podia abarcar uma grande distância em todos os sentidos das estradas circundantes. A esse cabeço chegaram manhã alta e subiram do lado leste. Então, olhando na direção do Alto Faroth, castanho e desnudo para lá do rio, Mablung viu, com visão élfica, os socalcos de Nargothrond na íngreme margem ocidental e, como um pequeno buraco negro na encosta do monte, as escancaradas Portas de Felagund. Mas não ouviu qualquer som nem vislumbrou sinal algum de qualquer inimigo, e tão-pouco qualquer indício do Dragão, a não ser os sinais de fogo perto das Portas que ele forjara no dia da pilhagem. Reinava um silêncio total sob o Sol pálido.

Por isso, como dissera, ordenou aos seus dez cavaleiros que guardassem Morwen e Niënor no cume do cabeço e de lá não saíssem até ele regressar, a não ser que surgisse algum grande perigo: se tal acontecesse, os cavaleiros deveriam colocar Morwen e Niënor no meio deles e fugir o mais rapidamente que pudessem para leste, na direção de Doriath, enviando um à frente para levar notícias e procurar ajuda.

Então Mablung reuniu os restantes vinte homens do grupo e desceram com cuidado do cabeço. Depois, passando para os campos a oeste, onde as árvores eram poucas, dispersaram e seguiu cada qual pelo seu caminho, ousada mas furtivamente, para as margens do Narog. Mablung meteu pelo caminho do meio, na direção da ponte, e chegou assim ao seu extremo mais próximo, encontrando-a toda arrasada; e o rio profundamente escavado, correndo alteroso depois das chuvas muito para norte, espumava e rugia entre as pedras caídas.

Mas Glaurung encontrava-se lá, na sombra da grande passagem que conduzia das Portas arruinadas para o interior, e havia muito dera pela presença dos espiões, embora poucos outros olhos da Terra Média fossem capazes de os discernir. Mas o olhar dos seus terríveis olhos era mais penetrante do que o das águias e ultrapassava a longa visão dos Elfos. E, na verdade, ele também sabia que alguns tinham ficado para trás, no cume desnudo do Amon Ethir.

Assim, precisamente quando Mablung se movia silenciosamente entre as rochas, à procura de um ponto de onde pudesse vadear o rio alteroso sobre as pedras caídas da ponte, Glaurung avançou com um grande clarão de fogo e rastejou para a corrente. No mesmo instante, ouviu-se um silvo imenso e ergueram-se enormes vapores, e Mablung e os seus companheiros, que espreitavam perto, foram engolidos por um vapor cegante e um fedor imundo; e quase todos fugiram, o melhor que conseguiram, no sentido do Monte Espião. Mas, quando Glaurung passava sobre o Narog, Mablung desviou-se para o lado, escondeu-se debaixo de um rochedo e aí ficou; pois achava que ainda tinha uma incumbência para cumprir. Agora sabia que Glaurung se encontrava, de fato, em Nargothrond, mas também fora encarregado de descobrir a verdade acerca do filho de Húrin, se tal fosse possível. Por isso, na intrepidez do seu coração, resolveu atravessar o rio assim que Glaurung desaparecesse e revistar os salões de Felagund. Pois pensava que tudo fora feito para resguardar Morwen e Niënor: a aproximação de Glaurung seria notada e, naquele momento, os cavaleiros deviam seguir velozmente na direção de Doriath.

Por isso, Glaurung ultrapassou Mablung, uma imensa forma na névoa; e avançou rapidamente, pois era um poderoso Verme, mas ágil, apesar disso. Mablung vadeou então o Narog atrás dele, com grande perigo; mas os vigias que estavam no Amon Ethir observaram o aparecimento do Dragão e ficaram temerosos. De imediato, ordenaram a Morwen e Niënor que montassem, sem discutir, e prepararam-se para fugir para leste, como lhes fora dito. Mas, no momento em que desciam do cabeço para a planície, um vento maléfico soprou para eles os grandes vapores, com um cheiro tão fétido que cavalo algum suportaria. Então, cegos pela névoa e loucamente aterrorizados pelo fedor nauseabundo do dragão, os cavalos não tardaram a ficar ingovernáveis e correram desesperadamente de um lado para o outro. Dispersados, os guardas eram lançados contra as árvores, com grande sofrimento, ou procuravam-se em vão uns aos outros. O relinchar dos cavalos e os gritos dos cavaleiros chegaram aos ouvidos de Glaurung, que se sentiu muito satisfeito.

Um dos cavaleiros élficos, debatendo-se com o seu cavalo no nevoeiro, viu de súbito a Senhora Morwen passar perto, um vulto cinzento num corcel desenfreado, mas ela desapareceu na névoa, gritando Niënor!, e não voltaram a vê-la.

Quando o terror cego se apoderou dos cavaleiros, o cavalo de Niënor, num galope assustado, tropeçou e ela foi derrubada. Caindo suavemente na erva, ficou ilesa, mas, quando se levantou, encontrava-se sozinha: perdida na neblina, sem cavalo nem companhia.

Sem perder a coragem, pensou na sua situação. Pareceu-lhe inútil ir na direção deste ou daquele grito, pois soavam gritos em toda a sua volta, embora cada vez mais tênues. Em semelhante caso, pareceu-lhe melhor procurar de novo o cabeço: com certeza Mablung não deixaria de lá voltar antes de partir, quanto mais não fosse para se certificar de que nenhum dos seus homens lá ficara.

Por isso, caminhando ao acaso, encontrou o cabeço, que na realidade estava bastante perto, junto do terreno que subia à frente dos seus pés. E subiu devagar o carreiro que partia do lado leste. À medida que subia, o nevoeiro foi-se tornando menos denso, até ela chegar finalmente à claridade do sol no cume deserto. Prosseguiu, então, e olhou para oeste. E ali, mesmo diante dela, estava a grande cabeça de Glaurung, que acabara de subir pelo outro lado. Antes que disso tivesse consciência, os olhos dela tinham fitado o espírito maléfico dos dele, que eram terríveis e estavam impregnados pelo espírito maléfico de Morgoth, o seu senhor.

Fortes eram a vontade e a coragem de Niënor, que se debateu contra Glaurung; mas ele exerceu sobre ela os seus poderes.

— Que procurais aqui? — perguntou-lhe. Forçada a responder, ela disse:

— Procuro apenas alguém chamado Túrin, que viveu aqui algum tempo. Mas talvez tenha morrido.

— Ignoro. Ele foi deixado aqui para defender as mulheres e os fracos, mas, quando eu vim, abandonou-os e fugiu. Fanfarrão mas covarde, ao que parece. Porque procurais tal pessoa?

— Mentis — respondeu Niënor. — Pelo menos os filhos de Húrin não são covardes. Não vos tememos.

Glaurung riu-se, pois a filha de Húrin acabava de revelar-se à sua perfídia.

— Então sois tolos, vós e vosso irmão. E a vossa jactância será vã. Pois eu sou Glaurung!

Depois atraiu os olhos dela para os seus e a vontade de Niënor enfraqueceu. Pareceu-lhe que o Sol empalidecia e tudo se tornava esbatido à sua volta. Lentamente, uma grande escuridão desceu sobre ela e nessa escuridão só havia vazio; não tinha conhecimento de nada, não ouvia nada, não se lembrava de nada.

Demoradamente explorou Mablung os salões de Nargothrond, o melhor que lhe era possível devido à escuridão e ao fedor; mas não encontrou lá nenhum ser vivo: nada mexia entre os ossos e ninguém respondia aos seus chamamentos. Por fim, oprimido pelo horror do lugar e temendo o regresso de Glaurung, voltou para as Portas. O Sol descia no ocidente e, atrás, as sombras do Faroth estendiam-se, escuras, pelos socalcos e pelo rio enfurecido, em baixo. Mas ao longe, sob o Amon Ethir, pareceu-lhe distinguir a forma maligna do Dragão. Mais difícil e perigoso foi o regresso, sobre o Narog, com tal pressa e medo; e, mal chegara à margem oriental e se ocultara sob o talude, Glaurung aproximou-se. Mas agora tornara-se lento e furtivo, pois todos os fogos que ardiam nele estavam amodorrados: grande força se esvaíra dele, que ia agora descansar e dormir nas trevas. Assim serpenteou pela água e se esgueirou para as Portas como uma enorme serpente cor de cinza, deixando viscoso o solo sob a sua barriga.

Mas, antes de entrar, olhou para trás, para leste, e irrompeu dele o riso de Morgoth, esbatido mas horrível, como um eco de malvadez vindo de distantes e negras profundezas. Seguiu-se-lhe a voz fria e baixa: «Aí vos escondeis como uma ratazana sob a margem, Mablung, o poderoso! Far-vos-ei moço de recados de Thingol. Apressai-vos agora para o cabeço e vede o que aconteceu a quem vos foi confiado!»

Depois Glaurung entrou no seu covil e o Sol desceu, e o anoitecer cinzento abateu-se, gélido, sobre a terra. Mas Mablung estugou o passo de volta a Amon Ethir e, enquanto subia para o cume, as estrelas começaram a brilhar no oriente. Contra elas viu, de pé, escura e imóvel, uma figura que dir-se-ia ser uma imagem de pedra. Assim se encontrava Niënor, que não ouvia nada do que ele dizia nem lhe dava qualquer resposta. Mas quando, por fim, Mablung lhe pegou na mão, ela estremeceu e deixou-se levar por ele. E enquanto Mablung a segurava, Niënor seguia-o, mas, se a largava, ficava parada e imóvel.

Grande era o sofrimento e o espanto de Mablung; mas nada mais podia fazer senão conduzi-la assim no longo caminho para leste, sem auxílio ou companhia. Deste modo se afastaram, caminhando como se sonhassem, e entraram na planície envolta na sombra da noite. E, quando a manhã voltou, Niënor tropeçou, caiu e ficou imóvel, e Mablung sentou-se, cheio de desespero, ao seu lado.

— Não foi em vão que temi este encargo — disse. — Pois ao que parece será o meu último. Com esta infortunada filha de Homens perecerei no mato e o meu nome será escarnecido em Doriath: se, acaso, algumas notícias do nosso destino forem conhecidas. Todos os outros foram sem dúvida chacinados e apenas ela poupada, mas não por misericórdia.

Assim foram encontrados por três do grupo que fugira de Narog à chegada de Glaurung e, depois de muito vaguearem e de a névoa se dissipar, regressaram ao cabeço. Encontrando-o deserto, tinham começado a procurar o caminho para casa. A esperança voltou então a Mablung e, juntos, prosseguiram para norte e leste, pois não havia nenhuma estrada de regresso a Doriath, no sul, e, desde a queda de Nargothrond, os barqueiros estavam proibidos de transportar alguém, a não ser os que vinham do interior.

Lenta foi a viagem, como seria para quem transportasse uma criança fatigada. Mas, à medida que se iam afastando de Nargothrond e aproximando de Doriath, as forças foram regressando a pouco e pouco a Niënor, que caminhava obedientemente, hora atrás de hora, conduzida pela mão. No entanto, os seus grandes olhos não viam nada, nem os seus ouvidos ouviam quaisquer palavras ou os seus lábios as pronunciavam.

Finalmente, decorridos muitos dias, aproximaram-se da fronteira ocidental de Doriath, algures a sul do Teiglin; pois tencionavam transpor as cercas da pequena terra de Thingol para lá do Sirion e chegar assim à ponte guardada próxima do afluxo do Esgalduin. Pararam aí algum tempo, deitaram Niënor numa cama de erva e ela fechou os olhos, como ainda não fizera até então, e pareceu dormir. Os Elfos também descansaram e, por pura exaustão, foram imprudentes. Por isso foram assaltados, desprevenidos, por um bando de caçadores orcs, os quais deambulavam agora muito naquela região, o mais perto das cercas de Doriath que se atreviam a chegar. No meio da refrega, Niënor saltou de repente da cama improvisada, como se um alarme na noite a tivesse despertado, e, com um grito, fugiu para a floresta. Então os Orcs deram a volta e perseguiram-na, e os Elfos foram atrás deles. Mas operara-se em Niënor uma estranha mudança e, agora, ela corria mais velozmente do que todos, voando como um gamo entre as árvores, com os cabelos caídos ao vento desencadeado pela sua velocidade. Mablung e os seus companheiros depressa alcançaram os Orcs e a todos mataram um por um, apressando-se depois a continuar. Mas, entretanto, Niënor desaparecera como um fantasma e não conseguiram avistá-la nem encontrar rasto dela, embora a procurassem muito para norte e durante muitos dias.

Por fim, Mablung regressou a Doriath, vergado pela mágoa e pela vergonha.

— Procurai um novo mestre para os vossos perseguidores, Senhor — disse ao Rei. — Pois eu estou desonrado.

Mas Melian respondeu-lhe:

— Não é assim, Mablung. Fizestes tudo quanto estava ao vosso alcance e nenhum outro, entre os servidores do Rei, teria feito tanto. Mas quis a má sorte que vos defrontásseis com um poder demasiado grande para vós, demasiado grande, na verdade, para todos quantos vivem agora na Terra Média.

— Mandei-vos para recolherdes notícias, e isso fizestes — disse Thingol. — Não é vossa culpa que aquelas a quem as vossas notícias mais de perto respeitavam não possam agora ouvi-las. Lamentável é, deveras, este fim de toda a família de Húrin, mas vós não contribuístes para ele.

Pois agora não apenas Niënor desaparecera, desatinada, nos ermos, como também Morwen estava perdida. Nem então nem depois chegaram novas fiáveis do seu destino a Doriath ou a Dor-lómin. Apesar disso, Mablung não descansava e, com um pequeno grupo, partiu para os ermos e durante três anos vagueou por longe, das Ered Wethrin até as Bocas do Sirion, procurando sinais ou notícias das desaparecidas.

 

Mas, quanto a Niënor, continuou a correr pela floresta, ouvindo os gritos de perseguição atrás de si; e arrancou o vestuário, deitando-o fora peça por peça enquanto fugia, até ficar nua; e durante todo esse dia continuou a fugir, como um animal perseguido, até rebentar o coração, e não ousou deter-se ou recuperar o fôlego. Mas ao anoitecer, subitamente, a loucura passou-lhe. Estacou um momento, como que pasmada, e depois, num desfalecimento de pura fadiga, caiu como se a tivessem abatido num fundo matagal de fetos. E aí, entre os fetos secos e as vigorosas frondes primaveris, se deitou e dormiu, alheia a tudo.

Quando acordou, de manhã, exultou com a luz, como se acabasse de despertar para a vida; e todas as coisas que via lhe pareciam novas e estranhas e não sabia os nomes delas. Atrás de si havia apenas uma escuridão vazia, através da qual lhe não chegava qualquer recordação de alguma coisa que jamais tivesse conhecido, nem qualquer eco ou qualquer palavra. Lembrava-se apenas de uma sombra de medo, o que a fazia ser cautelosa e procurar sempre esconderijos: trepava a árvores ou escondia-se em matagais cerrados, veloz como um esquilo ou uma raposa, se algum som ou sombra a assustavam. E daí espreitava, demoradamente, através das folhas, com olhos desconfiados, antes de se aventurar a prosseguir.

Assim, seguindo o mesmo caminho por onde primeiro correra, chegou ao rio Teiglin e saciou a sede; mas não encontrou qualquer alimento, nem soube como procurá-lo, e estava faminta e com frio. Como as árvores do outro lado da água pareciam mais cerradas e mais escuras (e de fato eram, pois tratava-se da orla da floresta de Brethil), acabou por atravessar e chegar, finalmente, a um cabeço verde, onde se deitou — pois estava extenuada e tinha a sensação de que o negrume que deixara para trás a estava a alcançar de novo e de que o sol escurecia.

Na realidade, tratava-se de uma negra tempestade que vinha do Sul, acompanhada de relâmpagos e chuva forte. Ficou encolhida, aterrorizada com a trovoada, e a chuva negra fustigou-lhe a nudez enquanto ela observava, emudecida, como um ser selvagem apanhado numa armadilha.

Quis o acaso que alguns dos lenhadores de Brethil passassem naquela hora, vindos de uma incursão contra os Orcs e dirigindo-se, apressados, pelos Vaus do Teiglin, para um abrigo próximo. Um grande relâmpago iluminou o Haudh-en-Elleth como uma flama branca. Então Turambar, que vinha à frente dos homens, recuou, cobriu os olhos e estremeceu, pois parecera-lhe ter visto o espectro de uma donzela morta, deitada na sepultura de Finduilas.

Mas um dos homens correu para o cabeço e gritou: «Aqui, Senhor! Está aqui deitada uma jovem, e está viva!» Turambar acercou-se e levantou-a. A água escorria-lhe dos cabelos encharcados, mas ela fechou os olhos, tremeu de frio e não se debateu mais. Então, estupefato por a encontrar assim nua, Turambar envolveu-a na sua capa e levou-a para o pavilhão dos caçadores, na floresta. Aí acenderam uma fogueira e envolveram-na em mantas, e ela abriu os olhos e olhou para eles. Quando o seu olhar se deteve em Turambar, uma luz iluminou-lhe o rosto e ela estendeu a mão para ele, pois parecia-lhe que encontrara, finalmente, algo que procurara na floresta, e sentia-se reconfortada. Mas Turambar pegou-lhe na mão, sorrindo, e perguntou-lhe: «Então, Senhora, não quereis dizer-nos o vosso nome, de que família sois e que infortúnio se abateu sobre vós?» Niënor abanou a cabeça e não disse nada, mas começou a chorar. Não insistiram mais, até ela ter comido sofregamente dos alimentos que podiam dar-lhe. Depois de comer, suspirou e voltou a colocar a mão sobre a de Turambar, que disse:

— Conosco estais em segurança. Podeis repousar aqui esta noite e de manhã conduzir-vos-emos para nossas casas, lá em cima, na floresta. Mas desejaríamos saber o vosso nome e qual é a vossa família, para podermos encontrá-la, porventura, e dar-lhe notícias vossas. Não nos quereis dizer?

Mas, uma vez mais, ela não respondeu. E chorou.

— Não vos inquieteis! — pediu Turambar. — Talvez a história seja demasiado triste para ser contada já. Mas vou dar-vos um nome e chamar-vos-ei Níniel, a Donzela das Lágrimas.

Ao ouvir este nome, ela ergueu o olhar e abanou a cabeça, mas repetiu: «Níniel». E essa foi a primeira palavra que pronunciou depois das suas trevas e, desde então, passou a ser o seu nome entre os lenhadores.

De manhã conduziram Níniel na direção da Ephel Brandir. A estrada subia acentuadamente até chegar a um lugar onde tinha de atravessar a corrente tumultuosa do Celebros. Fora aí construída uma ponte de madeira, por baixo da qual a corrente passava sobre uma saliência de pedra desgastada e se despenhava, depois, por muitos socalcos espumejantes, numa bacia rochosa, muito ao fundo. O ar estava todo impregnado de gotículas, como chuva. Havia um grande relvado verde no cimo das quedas de água, à volta do qual cresciam vidoeiros, mas da ponte desfrutava-se de uma extensa vista na direção das ravinas do Teiglin, cerca de duas milhas a oeste. Aí o ar era sempre frio e os viajantes de Verão descansavam e dessedentavam-se com a água fresca. Dimrost, a Escada Chuvosa, era o nome das quedas de água, mas depois daquele dia passaram a chamar-se Nen Girith, a Água Trêmula, pois Turambar e os seus homens pararam lá, mas, assim que Níniel chegou, encheu-se de frio e tremeu, e não conseguiram fazer nada que a aquecesse ou confortasse. Apressaram-se, por isso, no caminho, mas, antes de chegarem a Ephel Brandir, Níniel estava a delirar de febre.

Demorada foi a sua doença. Brandir recorreu a todo o seu saber para a sarar e as mulheres dos lenhadores velaram por ela de noite e de dia. Mas só quando Turambar estava perto descansava em paz ou dormia sem gemer. E de uma coisa todos quantos velavam por ela se aperceberam: durante toda a febre, apesar de muito agitada, jamais murmurou uma palavra em qualquer língua de Elfos ou de Homens. E quando a saúde regressou lentamente e ela despertou e recomeçou a comer, as mulheres de Brethil tiveram de a ensinar a falar, palavra por palavra, como se fosse uma criança. Mas foi célere a aprender, e fê-lo com grande satisfação, como alguém que reencontra tesouros, grandes e pequenos, que se tinham extraviado; e quando, finalmente, aprendera o suficiente para falar com os amigos, dizia-lhes: «Como se chama esta coisa? Pois na minha escuridão esqueci-lhe o nome.» E quando pôde movimentar-se de novo procurava a casa de

Brandir, porque estava ansiosa por aprender os nomes de todas as coisas vivas e ele era muito entendido nesses assuntos. E caminhavam juntos, nos jardins e nas clareiras das florestas.

Então Brandir passou a amá-la; e, quando ela se tornou forte, oferecia-lhe o braço, para o ajudar na sua claudicação, e chamava-lhe seu irmão. Mas o coração, esse, deu-o a Turambar e só quando ele vinha ela sorria, e só quando ele falava alegremente ela se ria.

Num anoitecer do dourado Outono, estavam sentados juntos. O sol afogueava a encosta do monte e as casas de Ephel Brandir e reinava uma profunda quietude. Então Níniel disse-lhe:

— De todas as coisas perguntei já o nome, menos o teu. Como te chamas?

— Turambar — respondeu ele.

Ficou uns momentos calada, como se escutasse algum eco, e depois disse:

— E o que quer isso dizer? Ou trata-se de um nome apenas para ti?

— Quer dizer Mestre da Sombra Negra, pois também eu, Níniel, tive a minha escuridão, na qual coisas queridas se perderam; mas agora creio ter ultrapassado isso.

— E também fugiste dela, correndo, até chegares a estas belas florestas? E quando te libertaste, Turambar?

— Sim. Fugi durante muitos anos. E libertei-me quando tu te libertaste. Pois estava escuro quando chegaste, Níniel, mas desde então houve luz. É como se tivesse vindo a mim aquilo que durante muito tempo em vão procurei.

E enquanto regressava a casa, ao crepúsculo, ele disse para consigo: «Haudh-en-Elleth! Do cabeço verde veio ela. Trata-se de um sinal, e como devo interpretá-lo?»

Aquele ano dourado ensombreceu, deu lugar a um brando Inverno e depois chegou outro ano luminoso. Havia paz em Brethil e os lenhadores mantinham-se tranqüilos e não se afastavam, de modo que não tinham notícias das terras que os cercavam. Pois os Orcs, que naquele tempo desciam para sul, para o reino negro de Glaurung, ou eram mandados espiar as fronteiras de Doriath, evitavam os Vaus do Teiglin e rumavam para oeste, muito para além do rio.

Níniel estava agora completamente curada e tornara-se bela e forte, e Turambar não se conteve mais e pediu-a em casamento. Níniel ficou feliz, mas, quando Brandir soube a notícia, o coração doeu-lhe no peito e ele disse-lhe:

— Não te apresses! Não me julgues indelicado, se te aconselho a esperar.

— Nada do que fazes é feito com indelicadeza. No entanto, porque me dás semelhante conselho, sensato irmão?

— Sensato irmão? Diz antes irmão aleijado, não amado e sem atrativos. Francamente, mal sei porque o disse. No entanto, paira uma sombra sobre esse homem e eu tenho receio.

— Pairou uma sombra — respondeu Níniel —, pois tal ele me disse. Mas libertou-se dela, assim como eu da minha. E não é ele digno de ser amado? Embora se mantenha agora em paz, não foi, em tempos, o maior capitão, do qual todos os nossos inimigos fugiam, quando o viam?

— Quem te disse isso? — perguntou Brandir.

— Dorlas. Não falou verdade?

— Falou, sim — confirmou Brandir, mas estava desagradado, pois Dorlas era o cabecilha do grupo que desejava a guerra contra os Orcs.

Apesar disso, continuava a procurar razões para deter Níniel, o que o levou a acrescentar:

— É verdade, mas não toda a verdade; pois ele foi capitão de Nargothrond e antes disso veio do Norte e, diz-se, era filho de Húrin de Dor-lómin, da aguerrida Casa de Hador.

Vendo a sombra que passou pelo rosto dela ao ouvir tal nome, Brandir interpretou-a mal e mais disse:

— Na verdade, Níniel, bem podes pensar que uma pessoa assim será capaz de voltar para a guerra antes de muito tempo, talvez para longe desta terra. E, se assim for, quanto tempo suportarás? Tem cuidado, pois prevejo que, se Turambar voltar para o combate, então não será ele, mas sim a Sombra, que dominará.

— Eu suportá-lo-ia, mas não melhor solteira do que casada. E uma esposa talvez pudesse detê-lo com mais facilidade e afastar a sombra.

No entanto, as palavras de Brandir tinham-na perturbado e ela pediu a Turambar que esperasse um pouco mais. Ele admirou-se e ficou abalado. Mas ao saber, por Níniel, que fora Brandir quem a aconselhara a esperar, sentiu-se desagradado.

Quando a Primavera seguinte chegou, disse a Níniel:

— O tempo passa. Esperámos e agora eu não esperarei mais. Faz o que o coração te mandar, Níniel, minha muito amada, mas pensa nisto: esta é a escolha que tenho de fazer. Ou volto para a guerra nos ermos ou caso contigo e nunca mais irei para a guerra. A não ser para te defender, se alguma calamidade se abater sobre a nossa casa.

Ela ficou muito satisfeita e deu a sua palavra, e em meados do Verão casaram. Os lenhadores fizeram um grande banquete e deram-lhes uma bonita casa que tinham construído para eles no Amon Obel. Aí viveram felizes, mas Brandir estava inquieto e a sombra no seu coração adensava-se.

 

O poder e a maldade de Glaurung cresciam rapidamente, ele engordava, atraía Orcs para si, governava como um rei-dragão e tudo quanto fora o reino de Nargothrond estava sob o seu domínio. Antes de terminar o ano, o terceiro de Turambar entre os lenhadores, começou a atacar-lhes a terra que durante algum tempo tivera paz; pois, na verdade, Glaurung e o seu amo sabiam muito bem que em Brethil habitava um remanescente de homens livres, os derradeiros das Três Casas a desafiar o poder do Norte. Ora isso era algo que não tolerariam, pois era intenção de Morgoth dominar Beleriand inteira e revistar todos os seus cantos, para que em nenhum buraco ou esconderijo vivesse alguém que não fosse seu escravo. Por isso, quer Glaurung imaginasse onde Túrin estava escondido, quer (como alguns acreditavam) ele tivesse, de fato, escapado por enquanto do olhar do Mal que o perseguia, pouco importava. Pois no fim os conselhos de Brandir revelar-se-iam vãos e só restavam a Turambar duas escolhas: manter-se inativo onde estava até ser descoberto e acossado como uma ratazana, ou partir em breve para o combate e ser revelado.

Mas quando as primeiras notícias da vinda dos Orcs chegaram à Ephel Brandir, ele não avançou e cedeu aos rogos de Níniel. Que disse: «As nossas casas ainda não foram atacadas, como prometeste. Diz-se que os Orcs não são muitos. E Dorlas contou-me que, antes de tu chegares, tais incursões não eram raras e os lenhadores continham-nas.»

Mas os lenhadores não levaram a melhor, pois estes Orcs eram de uma raça terrível, violentos e astutos, e vinham, na realidade, com o objetivo de invadir a Floresta de Brethil e não, como anteriormente, de passar pelas suas margens a caminho de outras missões ou para caçar em pequenos bandos. Por isso, Dorlas e os seus homens foram repelidos com baixas e os Orcs atravessaram o Teiglin e penetraram fundo nas florestas. Dorlas foi ter com Turambar, mostrou-lhe os ferimentos e disse: «Reparai, Senhor, chegou o momento da nossa desgraça, depois de uma falsa paz, tal como eu previra. Não pedistes vós que vos contássemos como um dos nossos e não como um estranho? Não é este perigo também vosso? Pois as nossas casas não permanecerão ocultas se os Orcs penetrarem mais fundo na nossa terra.»

Por isso, Turambar ergueu-se, empunhou de novo a sua espada, Gurthang, e foi combater. Quando tal souberam, os lenhadores ficaram muito encorajados e juntaram-se a ele, até formarem uma força de muitas centenas. Depois embrenharam-se pela floresta e mataram todos os Orcs que lá se tinham infiltrado e dependuraram-nos nas árvores próximas dos Vaus do Teiglin. E quando uma nova hoste avançou contra eles, encurralaram-na e, surpreendidos com o número dos lenhadores e com o terror do Espada Negra, que regressara, os atacantes foram destroçados e chacinados em grande número. Depois os lenhadores ergueram grandes piras e queimaram os corpos amontoados dos soldados de Morgoth, e o fumo da sua vingança subiu, negro, no céu e o vento soprou-o para oeste. Mas os poucos que sobreviveram regressaram a Nargothrond com essas notícias.

Então Glaurung ficou deveras irado. No entanto, durante algum tempo, permaneceu imóvel e refletiu no que ouvira. O Inverno passou, assim, em paz e os homens disseram: «Poderoso é o Espada Negra de Brethil, pois todos os nossos inimigos foram subjugados.» E Níniel sentiu-se reconfortada e jubilosa como renome de Turambar. Ele, porém, andava pensativo e dizia, no segredo do seu coração: «Os dados estão lançados. Agora virá a prova, na qual a minha glória será confirmada ou para sempre derrotada. Não mais fugirei. Turambar serei, deveras, e por minha própria vontade e valor superarei o meu destino ou cairei. Mas, caindo ou cavalgando, a Glaurung, pelo menos, matarei.»

Apesar disso, sentia-se intranqüilo e enviou homens destemidos como observadores, para muito longe. Pois a verdade é que, embora nenhuma palavra fosse dita, ele agora dirigia as coisas como entendia, como se fosse senhor de Brethil, e nenhum homem dava ouvidos a Brandir.

A Primavera chegou, esperançosa, e os homens cantavam enquanto trabalhavam. Mas nessa Primavera Níniel concebeu, e tornou-se pálida e lânguida, e toda a sua felicidade se ofuscou. E, pouco depois disso, chegaram estranhas novas dos homens que tinham partido para além do Teiglin, segundo as quais havia um grande fogo muito longe, nas florestas da planície que conduzia a Nargothrond, e os homens inquietavam-se sem saber do que poderia tratar-se.

Em breve chegaram, no entanto, mais novas: que os fogos avançavam sempre rumo ao norte e, na verdade, era o próprio Glaurung que os atiçava. Pois deixara Nargothrond e encontrava-se de novo no exterior, com qualquer intento. Então os mais tolos, ou mais esperançosos, disseram: «O seu exército está destruído e agora, finalmente, tornou-se sensato e está a regressar para o lugar onde veio.» E outros desejavam: «Esperemos que passe por nós sem nos incomodar.» Mas Turambar não acalentava tal esperança e sabia que Glaurung vinha à sua procura. Por isso, embora disfarçasse o que pensava por causa de Níniel, meditava dia e noite na atitude que devia tomar. E à Primavera sucedeu o Verão.

Um dia chegou em que dois homens regressaram aterrorizados à Ephel Brandir, pois tinham visto o próprio Grande Verme.

— Na verdade, Senhor — disseram —, ele está agora a aproximar-se do Teiglin e não se desvia do caminho. Encontra-se no meio de um grande fogo e as árvores fumegam à sua volta. O fedor que emana é quase insuportável. E, ao longo das muitas léguas de regresso a Nargothrond, o seu rasto pestilencial prossegue, parece-nos, numa linha que não muda de direção e aponta diretamente para nós. Que podemos fazer?

— Pouco — respondeu Turambar —, mas nesse pouco já pensei. As notícias que me trazeis, mais do que medo, dão-me esperança; pois se na verdade, como dizeis, ele vem a direito, e não se desvia, então tenho alguns conselhos para corações destemidos.

Os homens ficaram intrigados, pois ele não acrescentou mais nada nesse momento; mas a sua atitude firme deu-lhes alento.

O rio Teiglin corria agora assim: descia da Ered Wethrin rápido como o Narog, mas ao princípio entre margens baixas, até que, depois dos Vaus, recebendo força de outras correntes, abria caminho pelo meio dos sopés das terras altas sobre as quais se erguia a Floresta de Brethil. Daí em diante, seguia por ravinas fundas, cujas grandes encostas eram como paredes de rocha, mas, contidas no fundo, as águas fluíam com grande força e barulho. E precisamente no caminho de Glaurung havia agora uma dessas gargantas, de modo algum a mais profunda, mas sim a mais estreita, logo a norte da foz do Celebros. Por isso, Turambar mandou três homens corajosos vigiar, a partir da margem, os movimentos do Dragão; mas ele, pessoalmente, galopou para as quedas altas da Nen Girith, onde as notícias lhe podiam chegar céleres e de onde podia ver as terras até muito longe.

Mas primeiro reuniu os lenhadores na Ephel Brandir e falou-lhes, dizendo:

— Homens de Brethil, um perigo terrível avança para nós e só pode ser desviado com grande intrepidez. Mas, neste caso, os números pouco contarão, pois teremos de usar de astúcia e esperar que tenhamos sorte. Se nos levantarmos contra o Dragão com toda a nossa força, como um exército de Orcs, estaremos somente a oferecer-nos todos à morte, deixando assim as nossas mulheres e as nossas famílias indefesas. Por isso vos digo que fiqueis aqui e vos prepareis para fugir. Pois, se Glaurung vier, deveis abandonar este lugar e espalhar-vos por grandes distâncias, e assim alguns poderão escapar e viver. Porque, se puder, ele destruirá este lugar e tudo quanto espiar, mas depois não permanecerá aqui. Todo o seu tesouro se encontra em Nargothrond e aí estão os antros profundos onde pode viver em segurança e crescer.

Os homens ficaram assustados e completamente abatidos, pois confiavam em Turambar e tinham esperado palavras mais esperançosas. Mas ele disse:

— Atentai, isso é o pior. E não acontecerá se o meu raciocínio e a minha sorte forem bons. Pois não acredito que este Dragão seja invencível, embora cresça em força e maldade com o passar dos anos. Sei alguma coisa a seu respeito. O seu poder reside mais no espírito maléfico que habita dentro dele do que na força do seu corpo, por grande que ela seja. Ouvi agora esta história que me contaram alguns que combateram no ano da Nirnaeth, quando eu e a maioria dos que me ouvem éramos crianças. Nessa batalha, os Anões resistiram-lhe e Azaghâl de Belegost picou-o tão profundamente que ele fugiu para Angband. Mas aqui há um espinho mais aguçado e mais comprido do que a faca de Azaghâl.

E Turambar desembainhou a Gurthang e manejou-a acima da cabeça, dando a impressão, àqueles que assistiam, de que uma chama lhe saltava da mão e subia muitos pés no ar. Soltaram então um grande grito:

— O Espinho Negro de Brethil!

— Bem pode ele temer o Espinho Negro de Brethil — disse Turambar. — Pois sabei o seguinte: é destino deste Dragão (e, diz-se, de toda a sua prole) que, por muito grande que alguma vez possa ser a sua carapaça de chifre, mais dura do que ferro, por baixo ele tem de se arrastar com a barriga de uma cobra. Por isso, Homens de Brethil, vou agora procurar a barriga de Glaurung por todos os meios possíveis. Quem quer acompanhar-me? De poucos preciso, mas devem ter braços fortes e coração mais forte ainda.

Então Dorlas avançou e disse:

— Irei convosco, Senhor: pois prefiro sempre seguir em frente a esperar por um inimigo.

Mas nenhum dos outros foi tão lesto a responder ao apelo, pois tomava-os o pavor de Glaurung e a história dos batedores que o tinham visto difundira-se e crescera a cada vez que era repetida. Então Dorlas gritou:

— Escutai, Homens de Brethil, pois é agora claro que, para o mal dos nossos tempos, os conselhos de Brandir foram vãos. Ninguém escapa escondendo-se. Nenhum de vós toma o lugar do filho de Handir, para que a casa de Haleth não seja humilhada?

Deste modo, Brandir, que estava sentado no alto lugar do senhor da reunião, mas despercebido, foi humilhado e sentiu o coração amargurado; pois Turambar não repreendeu Dorlas. Mas um tal Hunthor, parente de Brandir, levantou-se e disse:

— Mal procedeis, Dorlas, falando assim em detrimento do vosso Senhor, cujos membros, por má sorte, não podem agir como o seu coração agiria. Acautelai-vos, não vá o contrário ser visto em vós em qualquer momento! E como pode dizer-se que os seus conselhos foram vãos, se nunca foram aceites? E vós, seu vassalo, sempre os reduzistes a nada. Digo-vos que Glaurung vem agora até nós, como antes a Nargothrond, porque os nossos atos nos atraiçoaram, como ele receava. Mas, como esta desgraça aí vem agora, eu, com vossa licença, filho de Handir, irei em nome da casa de Haleth.

Então Turambar disse:

— Três são suficientes! A vós dois levarei. Mas, Senhor, não vos desdenho. Entendei! Temos de ir com grande celeridade e a nossa missão exigirá membros fortes. Parece-me que o vosso lugar é com o vosso povo. Pois sois sagaz e um sarador, e pode acontecer que, dentro de pouco tempo, haja aqui grande necessidade de sageza e cura.

Estas palavras, porém, embora gentilmente ditas, serviram apenas para amargurar mais Brandir, que disse a Hunthor:

— Ide então, mas não com consentimento meu, pois paira sobre esse homem uma sombra que vos conduzirá ao infortúnio.

Turambar estava com pressa de partir, mas, quando procurou Níniel para se despedir, ela agarrou-se a ele, a chorar dolorosamente.

— Não vás, Turambar, suplico-te! Não desafies a sombra de que escapaste! Foge antes, foge e leva-me contigo para muito longe!

— Minha muito amada Níniel, não podemos fugir mais, tu e eu. Estamos cercados nesta terra. E, mesmo que o fizesse, abandonando as pessoas que nos acolheram com amizade, só poderia levar-te para os ermos desabitados, para a tua morte e para a morte do nosso filho. Cem léguas nos separam de qualquer terra que se encontre ainda fora do alcance da Sombra. Mas tem coragem, Níniel, pois digo-te: nem tu nem eu seremos chacinados por este Dragão, nem por quaisquer inimigos do Norte.

Níniel deixou de chorar e ficou silenciosa, mas o seu beijo foi frio, quando se despediram.

Então Turambar, juntamente com Dorlas e Hunthor, partiram, céleres, para Nen Girith e, quando lá chegaram, o Sol punha-se e as sombras eram longas, e os dois batedores que restavam esperavam-nos.

— Ainda bem que não tardastes mais, Senhor — disseram. — Pois o Dragão avançou e, quando partimos, já ele chegara à margem do Teiglin e o seu olhar feroz estendia-se para lá da água. Desloca-se sempre durante a noite e por isso podemos contar com algum ataque antes do alvorecer de amanhã.

Turambar olhou, ao longe, as quedas do Celebros e viu o Sol afundar-se para o seu poente e colunas de fumo negro subirem junto das margens do no.

— Não há tempo a perder — declarou. — No entanto, essas notícias são boas, pois temia que ele andasse por aí à procura e, nesse caso, se seguisse para norte e chegasse aos Vaus, e assim à estrada antiga das terras baixas, a esperança estaria perdida. Mas agora algum frenesi de orgulho e maldade está a impeli-lo a avançar precipitadamente.

Mas, ao mesmo tempo que dizia estas palavras, meditava e perguntava a si mesmo: «Ou dar-se-á o caso de um ser tão diabólico e cruel evitar os Vaus, como os Orcs? Haudh-en-Elleth? Encontrar-se-á ainda Finduilas entre mim e o meu destino?»

Voltou-se então para os seus companheiros e disse-lhes:

— Esta tarefa nos espera agora. Temos de aguardar ainda um pouco, pois demasiado cedo seria, neste caso, tão perigoso como demasiado tarde. Quando o crepúsculo cair, devemos dirigir-nos o mais furtivamente possível para o Teiglin. Mas acautelai-vos! Pois os ouvidos de Glaurung são tão apurados quanto os seus olhos, e terríveis. Se alcançarmos o rio sem sermos notados, então devemos descer para a ravina e atravessar a água, e assim chegaremos ao caminho que ele tomará quando despertar.

— Mas como pode ele avançar assim? — perguntou Dorlas. — Apesar de ágil, é também um grande dragão, e como descerá por uma ravina e subirá por outra quando uma parte deve estar ainda a subir antes de a retaguarda ter descido? E, se ele puder fazê-lo, de que nos valerá estarmos na água revolta, em baixo?

— Talvez consiga fazê-lo — admitiu Turambar — e, se tal acontecer, as coisas correrão mal para nós. Mas, pelo que soubemos dele, e pelo lugar onde agora se encontra, tenho esperança de que os seus desígnios sejam outros. Chegou à beira da Cabed-en-Aras, sobre a qual, como dizeis, um gamo saltou, uma vez, e escapou aos caçadores de Haleth. Tão grande se tornou agora que, penso, procurará atravessar por aí. Nisso consiste toda a nossa esperança e nela devemos confiar.

Estas palavras desanimaram o coração de Dorlas, pois conhecia melhor do que ninguém toda a terra de Brethil e Cabed-en-Aras era, deveras, um lugar terrível. No lado leste, havia uma falésia abrupta com alguns quarenta pés de altura, desnuda mas com árvores na crista; no outro lado, havia um talude um tanto ou quanto íngreme, mas menos alto, envolto por árvores e arbustos pendentes, mas, entre eles, a água corria furiosamente pelo meio de rochas e, embora um homem ousado e de passo firme pudesse vadeá-la durante o dia, era perigoso arriscar-se a isso de noite. No entanto, essa era a decisão de Turambar e seria inútil contradizê-lo.

Puseram-se, pois, a caminho ao lusco-fusco, mas não seguiram diretamente ao encontro do Dragão e enveredaram primeiro pelo caminho que conduzia aos Vaus. Depois, antes de lá chegarem, viraram para sul, por um carreiro estreito, e penetraram no crepúsculo das florestas sobranceiras ao Teiglin. E, ao aproximarem-se, passo a passo, de Cabed-en-Aras, detendo-se amiúde para escutarem, chegou até eles o horrível cheiro a queimado e um fedor que os nauseou. Mas reinava em tudo um silêncio profundo e nem o ar bulia. As primeiras estrelas brilhavam a oriente, à frente deles, e tênues espirais de fumo subiam a direito e sem vacilar para a última claridade do ocidente.

Quando Turambar partira, Níniel ficara silenciosa como uma pedra; mas Brandir procurou-a e disse-lhe:

— Níniel, não temas o pior enquanto não tiver de ser. Mas não te aconselhei eu que esperasses?

— É verdade, aconselhaste. Contudo, de que me valeria isso agora? Pois o amor pode existir e sofrer sem sermos casados.

— Bem o sei. No entanto, o casamento não é em vão.

— Não, pois agora estou grávida de dois meses. Não creio, porém, que o meu medo da perda seja o mais custoso de suportar. Não te compreendo.

— Eu tão-pouco. E, no entanto, tenho medo.

— Que grande reconfortador me saíste! — exclamou ela. — Mas Brandir, meu amigo: casada ou solteira, mãe ou donzela, o meu medo transcende o suportável. O Senhor do Destino foi desafiar a sua sorte muito longe, e como poderei eu ficar aqui e esperar pela demorada vinda de notícias, boas ou más? Esta noite, quem sabe, ele poderá encontrar-se com o Dragão, e como poderei ficar quieta ou sossegada, ou passar as terríveis horas?

— Não sei, mas de alguma maneira as horas passarão, para ti e para as esposas daqueles que com ele foram.

— Elas que procedam como os seus corações lhes mandarem! — gritou. — Eu, porém, partirei. As milhas não se interporão entre mim e o perigo do meu senhor. Irei ao encontro das notícias!

As suas palavras aumentaram os receios de Brandir, que gritou:

— Tal não farás, se eu puder evitá-lo. Pois assim porás em risco toda a razão. As milhas que estão de permeio poderão dar tempo para te salvares, se as coisas correrem mal.

— Se as coisas correrem mal, não desejarei salvar-me — replicou ela. — E agora os teus conselhos são vãos e não me impedirás.

Avançou para as pessoas que ainda estavam reunidas no espaço aberto da Ephel e gritou:

— Homens de Brethil! Eu não esperarei aqui. Se o meu senhor for derrotado, então toda a esperança será falsa. A vossa terra e as vossas florestas arderão totalmente, todas as vossas casas serão reduzidas a cinzas e nada, mas nada, escapará. Por isso, para quê permanecer aqui? Por mim, vou ao encontro de notícias e seja do que for que o destino possa enviar. Que todos os que pensam como eu venham comigo!

Muitos se mostraram, então, dispostos a ir com ela: as mulheres de Dorlas e Hunthor porque aqueles a quem amavam tinham ido com Turambar; outros, por pena de Níniel e desejo de a protegerem, e muitos mais atraídos pela própria idéia do Dragão, pensando, na sua intrepidez ou na sua insânia (por pouco saberem do mal), que iam testemunhar grandes e gloriosos feitos. Pois, em verdade, o Espada Negra tornara-se tão grande na sua imaginação que poucos conseguiam acreditar que até mesmo Glaurung o derrotasse. Por isso, partiram sem perda de tempo e apressados, num grande grupo, ao encontro de um perigo que não compreendiam. E, pouco tendo repousado, estavam exaustos quando chegaram, finalmente, mesmo ao cair da noite, a Nen Girith, mas pouco tempo depois de Turambar ter partido. A noite, porém, é severa conselheira e muitos se sentiram então estupefactos com a própria temeridade; e quando souberam, pelos batedores que ali permaneciam, quão perto Glaurung já chegara, e da desesperada decisão de Turambar, os seus corações gelaram e eles não se atreveram a ir mais longe. Alguns olharam, com olhos ansiosos, na direção de Cabed-en-Aras, mas nada conseguiram ver e nada ouviram além da voz fria das quedas de água. E Níniel afastou-se, sacudida por grande tremor.

Quando Níniel e o seu grupo tinham partido, Brandir disse aos que ficaram:

— Vede como sou escarnecido e todas as minhas opiniões são desdenhadas! Escolhei outro para vos guiar, pois aqui renuncio tanto a senhorio como a povo. Que Turambar seja o vosso senhor de fato, já que se apoderou de toda a minha autoridade. Que nenhum volte jamais a pedir-me conselho ou cura!

E quebrou o seu bordão, enquanto pensava: «Agora nada me resta a não ser apenas o meu amor por Níniel. Por isso, para onde ela for, levada pela sensatez ou pela insensatez, assim irei eu também. Nesta hora negra nada pode ser previsto; mas é possível acontecer que até eu consiga afastar dela qualquer perigo, se me encontrar perto.»

Muniu-se, por isso, de uma espada curta, como raramente antes fizera, apoiou-se na sua muleta e, com a rapidez de que foi capaz, transpôs a porta da Ephel, coxeando atrás dos outros pelo longo caminho que conduzia à marca ocidental de Brethil.

 

Finalmente, mesmo quando a noite se cerrava sobre a terra, Turambar e os seus companheiros chegaram a Cabed-en-Aras e ficaram felizes com o grande barulho da água; pois embora pressagiasse perigo lá em baixo, abafava todos os outros sons. Então Dorlas desviou-os um pouco para sul e desceram por uma fissura para o sopé do rochedo; mas aí desfaleceu-lhe a coragem, pois havia no rio muitas rochas e grandes pedras, à volta das quais a água corria, enfurecida, rangendo os dentes.

— Este é um caminho certo para a morte — disse Dorlas.

— É o único caminho, para a morte ou para a vida — respondeu Turambar. — E protelar não o tornará mais auspicioso. Sigam-me, pois!

Avançou à frente deles e, por perícia e temeridade, ou por vontade do destino, atravessou e, na densa escuridão, voltou-se para ver quem o seguia. Erguia-se a seu lado uma forma escura.

— Dorlas? — perguntou.

— Não. Sou eu — respondeu Hunthor. — Creio que Dorlas não conseguiu atravessar, pois um homem pode amar a guerra e, no entanto, temer muitas coisas. Suponho que ficou sentado a tremer na margem. Que a vergonha o castigue pelas palavras que proferiu contra os meus familiares.

Turambar e Hunthor descansaram um pouco, mas a noite não tardou a enregelá-los, pois estavam ambos encharcados, e começaram a procurar um caminho ao longo do rio, para norte, na direção da morada de Glaurung. Aí o abismo tornou-se mais negro e mais estreito e, enquanto tateavam o caminho, viram um tremeluzir acima deles, como de um fogo lento, e ouviram o rosnar do Grande Verme no seu sono vigilante. Então procuraram um caminho a subir, para se aproximarem da beira do precipício, pois nisso residia toda a sua esperança de chegarem ao inimigo sem que ele desse conta. Mas o fedor era agora tão repulsivo que sentiam a cabeça à roda e escorregavam enquanto se arrastavam, tinham de se agarrar aos ramos das árvores e sentiam vômitos, esquecendo, na sua aflição, todo o medo além do de caírem nos dentes do Teiglin.

Então Turambar disse a Hunthor:

— Em vão consumimos as nossas fracas forças. Pois enquanto não soubermos com certeza por onde o Dragão passará, será inútil subirmos.

— Mas, quando soubermos — lembrou Hunthor —, não teremos tempo de procurar um caminho para sairmos do precipício.

— Tens razão. Mas quando tudo depende do acaso, no acaso temos de confiar.

Por isso, pararam e esperaram e, da ravina escura, observaram uma estrela branca, lá muito no alto, movendo-se pela tênue nesga de céu; e então Turambar mergulhou pouco a pouco num sonho, no qual toda a sua vontade se concentrava em agarrar-se, embora uma maré negra puxasse e atormentasse as suas pernas.

De súbito, soou um grande barulho e as paredes do precipício estremeceram e ecoaram. Turambar despertou e disse a Hunthor:

— Ele está a mexer-se. É chegada a nossa hora. Ataca fundo, pois dois têm de atacar por três!

E assim iniciou Glaurung o seu ataque a Brethil, e tudo decorreu em grande medida como Turambar esperara. Pois agora o Dragão rastejava lentamente para a beira do penhasco e, em vez de se desviar, preparava-se para saltar por cima do abismo com as grandes patas dianteiras e depois arrastar todo o seu peso atrás. Trazia consigo o terror, porque não iniciou a passagem mesmo por cima, mas sim inclinando-se um pouco para norte, e os observadores em baixo puderam ver a enorme sombra da sua cabeça recortada contra as estrelas, e viram também que tinha a bocarra aberta e sete línguas de fogo. Soprou então uma baforada de tal força que toda a ravina se encheu de uma luz vermelha e de sombras voando entre os rochedos; mas as árvores à sua frente secaram e desfizeram-se em fumo e grandes pedras caíram estrondosamente no rio. E arremessou-se para diante e agarrou-se ao rochedo fronteiro com as possantes garras, e começou a impelir-se para o outro lado.

Impunha-se serem destemidos e rápidos, pois embora tivessem escapado à baforada, visto não se encontrarem diretamente no caminho de Glaurung, Turambar e Hunthor tinham de atacá-lo antes que ele conseguisse atravessar, caso contrário toda a esperança estava perdida. Alheio ao perigo, Turambar trepou ao longo do penhasco para se colocar por baixo dele; mas o calor e o mau cheiro eram aí tão horríveis que ele cambaleou e teria caído se Hunthor, que o seguia arrojadamente, não lhe tivesse agarrado o braço e o houvesse sustido.

— Indômito coração! — exclamou Turambar. — Feliz foi a escolha que fez de ti meu salvador!

Mas, no mesmo momento em que falava, uma grande pedra arremessada de cima atingiu Hunthor na cabeça e ele caiu na água e assim acabou: valente entre os mais valentes da Casa de Haleth.

— Ai de mim! — gritou Turambar. — É perigoso caminhar na minha sombra! Porque procurei eu auxílio? Pois agora estás só, Mestre do Destino, como deverias ter sabido que estarias. Vence, pois, sozinho!

Chamou a si toda a sua vontade e todo o seu ódio pelo Dragão e pelo seu Senhor e pareceu-lhe, de súbito, ter encontrado uma força de ânimo e de corpo que não conhecera antes. E subiu o penhasco, de pedra em pedra e raiz em raiz, até se agarrar, por fim, a uma pequena árvore que se erguia sob o rebordo do abismo e, embora a sua copa estivesse destroçada, ainda se encontrava bem segura pelas raízes. Precisamente quando se firmava numa bifurcação dos seus ramos, o meio do corpo do Dragão chegou acima dele e oscilou, bambo, com o seu peso quase sobre a cabeça de Túrin, antes que Glaurung tivesse tempo de o subir e esticar. Pálido e enrugado era o seu ventre, e todo molhado de viscoso muco cinzento ao qual se agarrava toda a espécie de imundície gotejante; e o fedor era de morte. Então Turambar desembainhou a Espada Negra de Beleg e deu uma estocada para cima com toda a força do seu braço e do seu ódio, e a lâmina mortífera, comprida e ávida, penetrou na barriga do monstro até aos punhos.

Sentindo a angústia da morte, Glaurung soltou um grito que fez estremecer todas as florestas e apavorou os vigilantes em Nen Girith. Turambar cambaleou, como se tivesse sido atingido por um golpe, escorregou e a espada soltou-se-lhe da mão e ficou cravada na barriga do Dragão. Glaurung, num grande espasmo, retesou todo o corpo tremente e lançou-o sobre a ravina onde, na margem oposta, se contorceu, gritando, escoicinhando e enroscando-se em agonia, até ter destruído um grande espaço a toda a sua volta e, finalmente, destroçado e fumegante, ficar imóvel.

Turambar estava agarrado às raízes da árvore, atordoado e quase vencido. Mas lutou contra si mesmo e, obstinadamente, meio a escorregar, meio a trepar, desceu até ao rio e ousou de novo a perigosa travessia, arrastando-se apoiado nas mãos e nos pés, agarrando-se, cego pela espuma, até conseguir, por fim, subir cautelosamente pela fenda por onde tinham descido. Assim chegou, finalmente, ao lugar onde se encontrava o Dragão moribundo. Olhou sem piedade para o inimigo abatido e sentiu-se satisfeito.

Ali jazia agora Glaurung, de mandíbulas escancaradas; mas todos os seus fogos estavam extintos e os seus olhos demoníacos fechados. Estava estendido ao comprido e rebolara sobre um lado, e os punhos da Gurthang sobressaíam do seu ventre. O coração de Turambar alegrou-se dentro dele e, embora o Dragão ainda respirasse, decidiu recuperar a sua espada, a qual, se já antes prezara, considerava agora digna de todos os tesouros de Nargothrond. Verdadeiras se provavam as palavras ditas quando fora forjada, segundo as quais coisa alguma, grande ou pequena, sobreviveria se por ela fosse mordida.

Por isso, aproximando-se do inimigo, apoiou o pé na sua barriga e, segurando s punhos da Gurthang, recorreu a todas as suas forças para a retirar. E, troçando das palavras de Glaurung em Nargothrond, gritou: «Salve, Verme de Morgoth! Alegra-me voltar a encontrar-te! Agora morre e que as trevas te engulam! Assim fica vingado Túrin, filho de Húrin.» Puxou então a espada e, no mesmo momento, irrompeu um jorro de sangue negro que caiu sobre a sua mão e cujo veneno lhe queimou a carne, fazendo-o gritar alto, de dor. Glaurung estremeceu, abriu os olhos sinistros e olhou para Turambar com tanta malvadez que ele teve a sensação de ter sido atingido por uma flecha. E, por via disso, e pela dor na sua mão, apoderou-se dele um desfalecimento e caiu como morto ao lado do Dragão, com a espada debaixo dele.

Os gritos de Glaurung foram ouvidos pelas pessoas em Nen Girith, que ficaram aterrorizadas. E quando os vigias distinguiram, de longe, os destroços e o fogo que o Dragão fizera na sua agonia, convenceram-se de que estava a espezinhar e a destruir aqueles que o tinham atacado. Desejaram então que fossem mais as milhas que ficavam de permeio. Mas não ousaram abandonar o ponto alto onde se tinham reunido, pois lembravam-se das palavras de Turambar, segundo as quais, se Glaurung vencesse, iria primeiro para a Ephel Brandir. Por isso, ficaram atentos a qualquer sinal dos movimentos dele, mas nenhum se sentiu destemido ao ponto de descer e ir procurar notícias no local do combate. Níniel estava sentada, sem se poder mexer, embora tremesse e não conseguisse imobilizar as pernas, pois, quando ouviu a voz de Glaurung, o coração morreu dentro dela e sentiu a escuridão invadi-la de novo.

Assim a encontrou Brandir, que chegara por fim à ponte sobre o Celebros, lenta e cautelosamente. Percorrera toda a longa distância sozinho e a coxear, apoiado na muleta: cinco léguas, pelo menos, a partir da sua casa. O temor por Níniel dera-lhe forças e, agora, as notícias que ouvia não eram piores do que receara.

— O Dragão atravessou o rio — disseram-lhe os homens — e o Espada Negra está por certo morto e, com ele, aqueles que o acompanharam.

Brandir parou junto de Níniel, imaginou o seu sofrimento e compadeceu-se dela, mas isso não o impediu de pensar: «O Espada Negra está morto e Níniel vive.» Estremeceu, pois pareceu-lhe subitamente que estava frio junto das águas de Nen Girith. Envolveu Níniel na sua capa. Mas não encontrou palavras para dizer e ela também não falou.

O tempo foi passando e Brandir continuou silencioso ao lado dela, de olhos fixos na noite e ouvidos atentos; mas não conseguia ver nada nem ouvir qualquer som além do das queda das águas da Nen Girith, e pensou: «Certamente Glaurung já partiu e entrou em Brethil.» Mas já deixara de se compadecer do seu povo, tolos que tinham menosprezado os seus conselhos e escarnecido dele. «Esperemos que o Dragão vá para o Amon Obel e, então, haverá tempo para fugir e levar Níniel daqui.» Para onde, porém, mal sabia, pois nunca viajara para além de Brethil.

Por fim, inclinou-se, tocou no braço e Níniel e disse-lhe:

— O tempo passa, Níniel! Vem. Chegou o momento de partir. Se mo permitires, conduzir-te-ei.

Ela levantou-se, silenciosamente, deu-lhe a mão e atravessaram a ponte e desceram o caminho que conduzia aos Vaus do Teiglin. Mas quem os via avançar como sombras na escuridão não sabia quem eram, e tão-pouco se importava. E quando tinham percorrido alguma distância, pouca, entre as árvores silenciosas, a Lua subiu para lá do Amon Obel e uma luz cinzenta pairou sobre as clareiras da floresta. Então Níniel parou e perguntou a Brandir:

— É este o caminho? E ele respondeu:

— Quem sabe qual é o caminho? Pois toda a nossa esperança em Brethil morreu. Não nos resta nenhum caminho a não ser o de escapar ao Dragão e fugir para longe dele enquanto é tempo.

Níniel olhou-o, surpreendida, e disse:

— Não te ofereceste para me conduzir até ele? Ou querer ás iludir-me? O Espada Negra era o meu amado e o meu marido, e só para o encontrar parti. Que outra coisa podias ter pensado? Agora procede como entenderes, mas eu tenho de apressar-me.

E, enquanto Brandir estacava um momento, surpreso, ela afastou-se apressadamente, e ele gritou-lhe:

— Espera, Níniel! Não partas sozinha! Não sabes o que encontrarás. Irei contigo!

Mas ela não lhe deu ouvidos e prosseguiu como se o seu sangue a incendiasse, sangue que antes estivera frio. E, embora ele a seguisse o melhor que podia, não tardou a perdê-la de vista. Amaldiçoou então o seu destino e a sua fraqueza, mas não voltou para trás.

A Lua subia, branca, no céu, e quase no plenilúnio e, enquanto Níniel descia das terras altas na direção da terra próxima do rio, pareceu-lhe que se recordava dela e temeu-a. Pois chegara aos Vaus do Teiglin e o Haudh-en-Elleth erguia-se à sua frente, pálido sob o luar e com uma sombra negra projetada nele em diagonal. E do monte emanava um grande pavor.

Voltou-se, então, com um grito e correu para sul, ao longo do rio. Enquanto corria, largou a capa, sob a qual estava toda vestida de branco, e o seu vulto brilhou ao luar, por entre as árvores. Foi assim que Brandir, que se encontrava em cima, na encosta do monte, a viu e se voltou para se atravessar no caminho dela, se pudesse. E encontrando, por acaso, o caminho estreito que Turambar utilizara, pois deixava para trás a estrada mais batida e descia acentuadamente na direção do sul, para o rio, voltou de novo a aproximar-se de Níniel. Mas, embora a chamasse, ela não fez caso, ou não ouviu, e em breve aumentou de novo a distância. Assim se aproximaram das florestas ao lado da Cabed-en-Aras e do lugar da agonia de Glaurung.

A Lua seguia agora para sul, descoberta, e a luz era fria e clara. Ao chegar à beira das ruínas que Glaurung causara, Níniel viu o seu corpo caído e a sua barriga cinzenta na luminosidade lunar. Mas ao lado dele jazia um homem. Ignorando o medo, correu por entre os destroços fumegantes e chegou junto de Turambar. Estava caído de lado, com a espada debaixo dele, mas o seu rosto tinha a lividez da morte, à luz branca. Lançou-se para o chão, ao lado dele, chorando e beijando-o. Pareceu-lhe que respirava, mas julgou tratar-se de uma partida da falsa esperança, pois estava frio e imóvel, além de não lhe responder. Quando o acariciava, descobriu que a mão dele estava enegrecida, como se tivesse sido queimada, e lavou-a com as suas lágrimas. Rasgou uma tira do vestido e ligou-lha com ela. Mas ele continuou sem reagir ao seu contato e ela tornou a beijá-lo e disse, alto: «Turambar, Turambar, volta! Ouve-me! Acorda! E a Níniel. O Dragão está morto, morto, e encontro-me aqui sozinha ao teu lado.» Mas ele não respondeu. Brandir, porém, ouviu o seu grito, pois chegara ao início dos destroços. Mas, no momento em que avançava, deteve-se e ficou imóvel. Pois, ouvindo os gritos de Níniel, Glaurung agitara-se pela última vez e um estremecimento percorreu-lhe o corpo todo. Os seus olhos sinistros entreabriram-se numa pequena fresta, na qual o luar brilhou, enquanto falava, ofegante:

— Salve, Níniel, filha de Húrin. Voltamos a encontrar-nos antes do fim. Dou-te a alegria de teres encontrado, finalmente, o teu irmão. E agora conhecê-lo-ás: um homem que apunhala no escuro, traiçoeiro para com os seus inimigos, infiel aos seus amigos e uma maldição para os do seu sangue, Túrin, filho de Húrin! Mas o pior de todos os seus atos senti-lo-ás em ti mesma.

Niënor ficou como que atordoada, mas Glaurung morreu. E, com a sua morte, o véu da sua perversidade abandonou-a e toda a sua memória surgiu, mais nítida, aos olhos dela, de dia para dia, e tão-pouco esqueceu nenhuma das coisas que lhe tinham acontecido desde que estivera no Haudh-en-Elleth. Todo o seu corpo estremeceu de horror e angústia. Mas Brandir, que tudo ouvira, ficou abalado e encostou-se a uma árvore.

De súbito, Niënor levantou-se de um salto, pálida como um espectro ao luar, olhou para Túrin e gritou:

— Adeus, ó duas vezes amado! A Túrin Turambar turún’am-bartanen: senhor do destino pelo destino dominado! Ó feliz por estares morto!

Depois, transtornada pela desgraça e pelo horror que a avassalavam, afastou-se desvairadamente dali, e Brandir correu a tropeçar atrás dela, gritando:

— Espera! Espera, Níniel!

Ela parou um momento e olhou para trás com olhos fixos.

— Esperar? — gritou. — Esperar? Esse foi sempre o teu conselho. Quem me dera tê-lo seguido! Mas agora é demasiado tarde e mais não esperarei sobre a Terra Média. — E desatou a correr à frente dele.

Chegou velozmente à beira de Cabed-en-Aras e aí parou e olhou para as águas tumultuosas, gritando:

— Água, água! Recebe agora Níniel Niënor, filha de Húrin; Luto, filha enlutada de Morwen! Recebe-me e leva-me para o Mar!

E, com tais palavras, lançou-se sobre a beira: um relâmpago branco engolido pelo escuro abismo, um grito perdido no estridor do rio.

As águas do Teiglin continuaram a correr, mas Cabed-en-Aras deixou de existir: Cabed Naeramarth, o Salto do Terrível Destino, passou a ser chamado pelos homens, pois nenhum gamo por ali voltaria jamais a saltar, todas as coisas vivas o evitariam e nenhum homem jamais caminharia pela sua margem. O último dos homens a olhar o seu negrume foi Brandir, filho de Handir; e ele afastou-se horrorizado, pois o seu coração vacilava e, embora detestasse agora a sua vida, não era capaz de aceitar a morte que desejava. Então os seus pensamentos voltaram-se para Túrin Turambar, e gritou:

— Detesto-te ou compadeço-me de ti? Mas estás morto. Não te devo agradecimento algum, usurpador de tudo o que eu tinha ou deveria ter. Mas o meu povo tem uma dívida para contigo e é justo que por mim fique a sabê-lo.

E assim começou a manquejar de regresso a Nen Girith, evitando, com um calafrio, o lugar onde o Dragão jazia. Quando voltava a subir o caminho íngreme, encontrou um homem que espreitava entre as árvores e, ao vê-lo, recuou. Mas Brandir vira-lhe o rosto no brilho da Lua a empalidecer.

— Dorlas! — gritou. — Que notícias me podes dar? Como sobreviveste? E o que aconteceu ao meu familiar?

— Não sei — respondeu Dorlas, brusco.

— Então isso é estranho — comentou Brandir.

— Se queres saber — continuou Dorlas —, o Espada Negra mandou-nos vadear as correntes do Teiglin, na escuridão. Achas estranho que eu não tenha podido fazê-lo ? Com um machado, sou melhor homem do que alguns, mas não tenho pés de cabra.

— Queres dizer que eles prosseguiram sem ti ao encontro do Dragão? Mas o que aconteceu, quando ele atravessou? Pelo menos devias estar perto e ter visto o que se passou.

Mas Dorlas não respondeu e limitou-se a fitar Brandir com os olhos cheios de ódio. Então Brandir compreendeu, percebeu de súbito que aquele homem tinha abandonado os seus companheiros e, desmoralizado pela desonra, escondera-se nas florestas.

— Que vergonha, Dorlas! És o causador das nossas desgraças: incitaste o Espada Negra, trouxeste o Dragão ao nosso encontro, escarneceste de mim, arrastaste Hunthor para a morte e depois fugiste e ficaste amuado nas florestas! — Enquanto falava, acudiu-lhe outro pensamento e acrescentou, muito irado: — Porque não trouxeste notícias? Era a mínima penitência que poderias fazer. Se o tivesses feito, a Senhora Níniel não teria tido necessidade de ir procurá-las pessoalmente. Não precisaria, nunca, de ter visto o Dragão. Poderia ter vivido. Odeio-te, Dorlas!

— Fica com o teu ódio! E tão fraco como todas as tuas decisões. Se não fosse eu, os Orcs teriam vindo e ter-te-iam dependurado como um espantalho no teu jardim. Guarda para ti o apodo de poltrão!

E com essas palavras, e sendo, para vergonha sua, o mais rápido a enfurecer-se, desferiu com o grande punho um murro em Brandir e terminou assim a sua vida, antes que a expressão de espanto se apagasse dos seus olhos: pois Brandir desembainhou a espada e deu-lhe um golpe de morte. Brandir ficou um momento a tremer, agoniado com a visão do sangue, e depois largou a espada, voltou-se e seguiu o seu caminho, curvado sobre a muleta.

Quando chegou a Nen Girith, a pálida Lua afundara-se e a noite desvanecia; a manhã despontava no oriente. As pessoas que ainda ali estavam, assustadas, junto da ponte, viram-no aproximar-se como uma sombra cinzenta na alvorada, e algumas perguntaram-lhe, surpresas:

— Onde estiveste? Viste-a? Pois a Senhora Níniel desapareceu.

— Sim — respondeu Brandir —, desapareceu. Desapareceu para nunca mais voltar! Mas eu vim para vos trazer notícias. Escutai agora, povo de Brethil, e dizei-me se jamais houve alguma história como a que vos trago! O Dragão está morto, mas morto está igualmente Turambar, ao seu lado. E isto são boas notícias: sim, são ambas boas notícias.

Então as pessoas murmuraram, surpreendidas com as suas palavras, e algumas disseram que tinha enlouquecido; mas Brandir gritou:

— Ouvi-me até ao fim! Níniel também está morta, Níniel, a bela a quem amastes e a quem eu amava mais do que a ninguém. Atirou-se do rebordo do Salto do Gamo e os dentes do Teiglin fecharam-se sobre ela. Partiu, odiando a luz do dia. Pois isto ficou a saber antes de fugir: filhos de Húrin ambos eram, irmã e irmão. Mormegil lhe chamavam a ele, Turambar a si mesmo se chamava, ocultando o seu passado: Túrin, filho de Húrin. Níniel lhe chamávamos a ela, desconhecendo o seu passado: Niënor era, filha de Húrin. Para Brethil trouxeram a sombra do seu negro destino. Aqui o seu destino se cumpriu e da mágoa jamais esta terra voltará a libertar-se. Deixai de chamar-lhe Brethil, pois não é a terra dos Halethrim, mas sim Sarch nia Chîn Húrin, Sepultura dos Filhos de Húrin!

Então, embora ainda não soubessem como tal tragédia pudera acontecer, as pessoas choraram, ali paradas, e algumas disseram:

— Uma sepultura há no Teiglin para Níniel, a adorada, uma sepultura deverá haver para Turambar, o mais corajoso dos homens. O nosso libertador não deve ser abandonado debaixo do céu. Vamos buscá-lo.

 

No mesmo momento em que Níniel fugia, Túrin estremeceu e, na profunda escuridão que o envolvia, pareceu-lhe ouvi-la chamá-lo, de muito longe; no entanto, quando Glaurung morreu, o desfalecimento negro em que mergulhara abandonou-o e ele pôde, de novo, respirar fundo. Suspirando, caiu numa sonolência de grande fadiga. Mas antes de alvorecer o frio tornou-se cortante, ele virou-se, dormindo, e os punhos da Gurthang cravaram-se-lhe no flanco e acordaram-no subitamente. A noite findava e havia um sopro matinal no ar. Levantou-se, de rompante, e lembrou-se da sua vitória e do veneno que lhe queimara a mão. Ergueu a mão, olhou-a e pasmou. Pois ela estava ligada com uma tira de tecido branco, ainda úmido, e não o atormentava. Perguntou a si mesmo: «Porque haveria alguém de cuidar de mim assim e, ao mesmo tempo, deixar-me aqui a morrer de frio no meio dos destroços e da pestilência do dragão? Que estranhas coisas aconteceram?»

Depois gritou alto, mas não obteve qualquer resposta. À sua volta só havia escuridão e pavor, de mistura com uma fetidez de morte. Inclinou-se, levantou a espada e verificou que estava intacta e que o brilho dos seus gumes luzia como sempre. «Imundo era o veneno de Glaurung», disse, «mas tu és mais forte do que eu, Gurthang. Todo o sangue beberás. A vitória é tua. Mas vem, pois tenho de ir em busca de socorro. O meu corpo está fatigado e há frio nos meus ossos.»

Depois voltou as costas a Glaurung e deixou-o a apodrecer. Mas, enquanto se afastava daquele lugar, cada passo lhe parecia mais pesado, e pensou: «Talvez encontre em Nen Girith um dos batedores à minha espera. Quem me dera, porém, chegar em breve a minha casa e sentir as mãos suaves de Níniel e a boa competência de Brandir!» E assim, caminhando fatigadamente, apoiado na Gurthang e guiado pela luz cinzenta do início do dia, chegou enfim a Nen Girith e, no próprio momento em que os homens se preparavam para ir em busca do seu corpo morto, ele parava diante do seu povo.

Eles recuaram, aterrorizados, julgando-se na presença do seu espírito perturbado, e as mulheres soltaram queixumes e cobriram os olhos. Mas ele disse:

— Não choreis, alegrai-vos antes! Vede, não estou vivo? E não matei eu o Dragão que temíeis?

Depois eles voltaram-se para Brandir e gritaram:

— Tolo, tu e as tuas falsas histórias, dizendo que ele jazia morto. Não dissemos nós que estavas louco?

Horrorizado, Brandir fitou Túrin com os olhos cheios de medo e não disse nada.

Mas Túrin disse-lhe:

— Foste, então, tu que lá estiveste e Cuidaste da minha mão? Agradeço-te. Mas a tua arte está a declinar, se não sabes distinguir um desmaio da morte. — Depois voltou-se para as pessoas e disse-lhes: — Não lhe faleis assim, porque tolos sois todos vós. Qual teria feito melhor? Ele, pelo menos, teve a coragem de descer ao campo de batalha, enquanto vós aqui ficastes, lamuriando!

«Mas agora, filho de Handir, vem! Gostaria de saber mais coisas. Porque estás aqui com toda esta gente, que deixei na Ephel? Se posso correr perigo de morte para vos defender, não poderei ser obedecido quando parto ? E onde está Níniel? Posso pelo menos ter esperança de que não a trouxeram para cá e a deixaram onde a deixei, em minha casa, com homens leais para a protegerem?

Como ninguém lhe respondesse, gritou:

— Falem! Onde está Níniel? Pois a ela primeiro quereria ver e a ela primeiro contarei a história dos feitos que cometi durante a noite.

Mas eles desviaram o rosto e, finalmente, Brandir disse:

— Níniel não está aqui.

— Está bem. Nesse caso, vou para minha casa. Há um cavalo que me transporte? Uma padiola talvez fosse melhor. Os meus labores deixaram-me desfalecido.

— Não, não! — exclamou Brandir, com o coração angustiado. — A tua casa está deserta. Níniel não se encontra lá. Morreu.

Mas uma das mulheres, a esposa de Dorlas, que pouca simpatia tinha por Brandir, gritou esganiçadamente:

— Não lhe deis ouvidos, Senhor! Pois ele está louco. Chegou aqui gritando que estáveis morto e disse que eram boas notícias. Mas estais vivo. Porque haveriam de ser verdadeiras as suas palavras a respeito de Níniel, de que ela está morta ou pior ainda?

Túrin avançou então para Brandir:

— A minha morte era, então, uma boa notícia? — gritou. — Que sempre ma invejaste, já eu sabia. Agora dizes que está morta. Ou pior ainda? Que mentira engendraste na tua maldade, Coxo? Chacinar-nos-ias com palavras hediondas, tu que não és capaz de manejar nenhuma outra arma?

Então a cólera expulsou a compaixão do peito de Brandir, que gritou:

— Louco? Não, louco estás tu, Espada Negra de negro destino! Tu e toda esta gente tonta. Eu não minto! Níniel está morta, morta, morta! Procura-a no Teiglin!

Túrin estacou, gelado.

— Como o sabes? — perguntou, baixinho. — Como o maquinastes?

— Sei porque a vi saltar — respondeu Brandir. — Mas a maquinação foi tua. Ela fugiu de ti, Túrin, filho de Húrin, e da Cabed-en-Aras se atirou para nunca mais voltar a ver-te. Níniel! Níniel! Não, Niënor, filha de Húrin.

Então Túrin agarrou-o e sacudiu-o, pois naquelas palavras ouvira os passos da sua condenação a alcançá-lo, mas no horror e na fúria que lhe tomavam o coração não queria aceitá-las, como um animal ferido de morte que, antes de morrer, quer destruir tudo quanto lhe está próximo.

— Sim, sou Túrin, filho de Húrin! — gritou. — Há muito tempo o adivinhaste. Mas de Niënor, minha irmã, nada sabes. Nada! Ela vive no Reino Escondido e está em segurança. O que dizes é uma mentira da tua mente torpe, para enlouqueceres a minha mulher e me enlouqueceres agora a mim. Demônio manco, queres empurrar-nos a ambos para a morte?

Mas Brandir soltou-se.

— Não me toques! Contém a tua fúria. Aquela a que chamas mulher foi ao teu encontro e cuidou da tua ferida, e tu não respondeste ao seu chamamento. Mas houve quem respondesse por ti.

Glaurung, o Dragão, que suponho vos conduziu a ambos para o vosso destino. Assim falou, antes de morrer: «Niënor, filha de Húrin, eis aqui o teu irmão: traiçoeiro para com os seus inimigos, infiel aos seus amigos e uma maldição para os do seu sangue, Túrin, filho de Húrin.» — De súbito, uma gargalhada cruel sacudiu Brandir. — Costuma dizer-se que, na hora da morte, os homens dizem a verdade. E, ao que parece, também um Dragão a diz. Túrin, filho de Húrin, uma maldição para os do teu sangue e para tudo quanto te acolhe!

Então Túrin empunhou a Gurthang e havia um brilho feroz nos seus olhos.

— E o que deverá ser dito de ti, Coxo? — perguntou, devagar. — Quem lhe disse a ela, em segredo e nas minhas costas, o meu verdadeiro nome? Quem a conduziu à malvadez do Dragão? Quem ficou parado e a deixou morrer? Quem veio para aqui a fim de divulgar esse horror o mais rapidamente possível? Quem se regozijaria agora perante mim? Os homens dizem a verdade antes de morrer? Pois di-la agora, e depressa.

Então, Brandir, vendo a sua morte no rosto de Túrin, ficou imóvel e não se acovardou, embora não dispusesse de nenhuma arma além da sua muleta, e disse:

— Tudo quanto aconteceu é uma longa história e eu estou cansado de ti. Mas calunias-me, filho de Húrin. Glaurung caluniou-te? Se me matares, então todos saberão que não. No entanto, não temo a morte, pois, morrendo, irei em busca de Níniel, a quem amava, e talvez consiga reencontrá-la para além do Mar.

— Em busca de Níniel! — gritou Túrin. — Não, Glaurung encontrarás e, juntos, congeminareis mentiras. Dormirás com o Verme, teu companheiro de alma, e apodrecerão numa só negritude!

Depois ergueu a Gurthang e atacou Brandir, matando-o. Mas as pessoas desviaram o olhar de tal ato e, quando Túrin se voltou e partiu de Nen Girith, fugiram dele, aterrorizadas.

Então Túrin andou como um demente pelas florestas selvagens, ora amaldiçoando a Terra Média e toda a vida dos Homens, ora gritando por Níniel. Mas quando, finalmente, a insanidade do seu sofrimento lhe deu tréguas, sentou-se e meditou em todos os seus atos e ouviu-se a si mesmo gritar: «Ela vive no Reino Escondido e está em segurança!» E pensou que, apesar de agora toda a sua vida estar arruinada, para lá devia dirigir-se; pois todas as mentiras de Glaurung o tinham sempre desencaminhado. Levantou-se, pois, e dirigiu-se para os Vaus do Teiglin e, ao passar pelo Haudh-en-Elleth gritou: «Amargamente paguei, ó Finduilas, por sempre ter dado ouvidos ao Dragão. Aconselha-me agora!

Mas, no próprio momento em que gritava, viu doze caçadores bem armados virem pelos Vaus e percebeu que eram Elfos. Quando se aproximaram, reconheceu um deles, pois era Mablung, caçador-mor de Thingol. E Mablung saudou-o, exclamando:

— Túrin! Feliz encontro, finalmente. Procurava-te e alegra-me ver-te vivo, embora os anos tenham pesado sobre ti.

— Pesado! — repetiu Túrin. — É verdade, pesado como os pés de Morgoth. Mas se te alegra ver-me vivo, então és o último da Terra Média a sentir assim. Porquê?

— Porque foste tido em alta conta e honrado entre nós — respondeu Mablung. — E, embora tenhas sobrevivido a muitos perigos, acabei, por fim, por temer por ti. Observei o aparecimento de Glaurung e pensei que cumprira o seu pérfido desígnio e regressava para junto do seu Senhor. Mas ele seguiu na direção de Brethil e, ao mesmo tempo, fiquei a saber, por caminhantes da terra, que o Espada Negra de Nargothrond ali aparecera de novo e os Orcs evitavam as suas fronteiras como se fugissem da morte. Pensei, então: «Sorte cruel! Glaurung vai aonde os seus Orcs não ousam, em busca de Túrin.» Por isso vim, com toda a celeridade possível, para te avisar e ajudar.

— Célere, mas não o suficiente — disse Túrin. — Glaurung está morto.

Então os Elfos olharam-no, cheios de pasmo, e disseram:

— Mataste o Grande Verme! Enaltecido será para sempre o teu nome entre Elfos e Homens!

— Pouco me importa. Pois morto está também o meu coração. Mas, como vindes de Doriath, dai-me notícias da minha família. Pois disseram-me em Dor-lómin que elas tinham fugido para o Reino Escondido.

Os Elfos não responderam, mas, por fim, Mablung disse:

— Fugiram, de fato, no ano que antecedeu a vinda do Dragão. Infelizmente, porém, agora não estão lá!

O coração de Túrin ficou paralisado, ouvindo os passos da condenação que o perseguiriam até ao fim.

— Fala! — gritou. — E depressa!

— Partiram para os ermos à tua procura — respondeu Mablung. — Contrariando todos os conselhos, teimaram em ir para Nargothrond quando se soube que eras o Espada Negra. E Glaurung avançou e todos quantos as guardavam foram dispersos. A Morwen ninguém voltou a vê-la desde esse dia; mas sobre Niënor abateu-se um feitiço de mudez e ela fugiu para norte e embrenhou-se nas florestas como uma corça selvagem, e perdeu-se.

Então, para pasmo dos Elfos, Túrin soltou uma gargalhada alta e estridente, e disse:

— Não é isso uma brincadeira? Oh, a loura Niënor! Fugiu então de Doriath para o Dragão e do Dragão para mim. Que ditosa graça do destino! Morena como uma baga silvestre era, escuros eram os seus cabelos e pequena e esbelta como uma criança élfica, ninguém poderia confundi-la!

Surpreendido, Mablung respondeu:

— Há nisso algum erro. A tua irmã não era assim. Era alta, os seus olhos eram azuis, o seu cabelo finos fios de ouro, o próprio retrato, em forma de mulher, de Húrin, seu pai. Não podes tê-la visto!

— Não posso, Mablung, não posso? Mas porque não? Pois repara, sou cego! Não sabias? Cego, cego, tateio desde a infância numa névoa escura de Morgoth! Deixa-me, pois! Vai, vai! Regressa a Doriath e que possa o Inverno envelhecê-la! Que uma maldição se abata sobre Menegroth! E outra sobre a tua incumbência! Apenas isso faltava. Agora chega a noite!

Depois fugiu deles, como o vento, deixando-os cheios de espanto e medo. Mas Mablung disse:

— Alguma coisa estranha e terrível aconteceu, da qual nada sabemos. Sigamo-lo e ajudemo-lo, se pudermos: pois agora ele está condenado e fora de si.

Mas Túrin afastou-se velozmente, chegou à Cabed-en-Aras e imobilizou-se. Ouviu o estrondear da água e viu que todas as árvore próximas e distantes tinham definhado e as suas folhas secas caíam desoladamente, como se o Inverno houvesse chegado nos primeiros dias do Verão.

— Cabed-en-Aras, Cabed Naeramarth! — gritou. — Não macularei as tuas águas, que receberam Níniel. Pois todos os meus atos foram maus e o último pior do que todos.

Depois desembainhou a espada e disse:

— Salve, Gurthang, ferro da morte, só tu agora restas! Mas que senhor ou lealdade conheces, além da mão que te empunha ? De sangue algum desdenharás. Receberás Túrin Turambar? Matar-me-ás rapidamente?

E da lâmina ressoou uma voz fria, em resposta:

— Sim, beberei o teu sangue, para assim esquecer o sangue de Beleg, meu dono, e o sangue de Brandir, injustamente chacinado. Matar-te-ei rapidamente.

Então Túrin apoiou os punhos da espada no chão, lançou-se sobre a ponta da Gurthang e a lâmina negra tomou-lhe a vida.

Mas Mablung chegou e olhou a forma hedionda de Glaurung, caído morto; olhou também para Túrin e sentiu-se pesaroso, pensando em Húrin como o vira na Nirnaeth Arnoediad, e no trágico destino da sua família. Enquanto os Elfos ali estavam parados, vieram homens de Nen Girith para verem o Dragão e, quando viram qual fora o fim da vida de Túrin, choraram; e os Elfos, compreendendo finalmente a razão das palavras que tinham ouvido de Túrin, sentiram-se horrorizados. Então Mablung disse, amargamente:

— Também eu estive envolvido no destino dos Filhos de Húrin e por isso, com palavras, matei um a quem amava.

Levantaram então Túrin e viram que a sua espada estava partida. Assim acabara tudo quanto ele possuíra.

Com o labor de muitas mãos, juntaram lenha, fizeram com ela um monte alto e atearam uma grande fogueira onde o corpo do Dragão foi destruído, até nada restar dele além de cinzas negras e de os seus ossos ficarem reduzidos a pó, e o lugar onde foi acesa a fogueira tornou-se para sempre estéril e desnudo. Mas a Túrin depositaram-no num cabeço alto onde caíra, e colocaram a seu lado os fragmentos da Gurthang. E quando tudo ficou feito, e os menestréis de Elfos e Homens tinham proferido os seus lamentos, falando da coragem de Turambar e da beleza de Níniel, foi trazida e colocada sobre o cabeço uma grande pedra cinzenta, na qual os Elfos esculpiram nas runas de Doriath:

 

Mas ela não se encontrava ali, nem jamais se soube para onde as frias águas do Teiglin a tinham levado.

Aqui termina a História dos Filhos de Húrin, a mais longa de todas as baladas de Beleriand.

Após as mortes de Túrin e Niënor, Morgoth libertou Húrin da sua escravidão, como corolário dos seus perversos intentos. No decurso das suas deambulações, ele chegou à Floresta de Brethil e, ao anoitecer, subiu dos Vaus do Teiglin ao lugar onde Glaurung fora queimado e à grande pedra que se erguia na beira de Cabed Naeramarth. Do que ali aconteceu isto está dito.

Mas Húrin não olhou para a pedra, pois sabia o que lá fora escrito, e os seus olhos tinham visto que não se encontrava sozinho. Sentado à sombra da pedra estava um vulto dobrado sobre os joelhos. Parecia tratar-se de algum vagabundo sem teto e vergado pela idade, demasiado exausto pelo caminho para dar pela chegada dele; mas os andrajos que o cobriam eram restos de um vestuário de mulher. Por fim, enquanto Húrin permanecia imóvel e silencioso, ela atirou para trás o capuz remendado e ergueu devagar o rosto, desfigurado e faminto como o de um lobo há muito acossado. Era cinzenta, tinha nariz aquilino e dentes partidos, e agarrava com uma das mãos descarnadas a capa que lhe cobria o seio. Mas, de súbito, os seus olhos mergulharam nos dele e Húrin reconheceu-a; pois embora estivessem agora desvairados e cheios de medo, ainda brilhava neles uma luz difícil de suportar: a luz élfica que, havia muito tempo, lhe valera o nome de Eledhwen, a mais altiva das mulheres mortais de antigamente.

— Eledwhen! Eledwhen! — gritou Húrin, e ela levantou-se, cambaleou para a frente e os braços dele seguraram-na.

— Vieste, finalmente — disse a mulher. — Demasiado tempo esperei.

— Foi uma negra estrada. Vim como pude.

— Mas chegas atrasado, por demais atrasado. Eles estão perdidos.

— Eu sei. Mas tu não estás.

— Por pouco — respondeu a mulher. — Sinto-me totalmente esgotada. Partirei com o Sol. Eles estão perdidos. — Agarrou-se à capa dele. — Pouco tempo resta. Se sabes, diz-me! Como o encontrou ela?

Mas Húrin não respondeu e sentou-se ao lado da pedra com Morwen nos braços. E não voltaram a falar. O Sol pôs-se e Morwen suspirou, apertou a mão dele e ficou imóvel. E Húrin soube que tinha morrido.

 

Estes contos, interrelacionados mas independentes, há muito que estavam separados da longa e complexa história dos Valar, Elfos e Homens de Valinor e das Grandes Terras. E nos anos que se seguiram ao seu abandono dos Lost Tales antes de estarem terminados, o meu pai desistiu da composição em prosa e começou a trabalhar num extenso poema com o título Túrin filho de Húrin e Glórund o Dragão, mudado posteriormente para uma versão revista de Os Filhos de Húrin. Isto passou-se no início da década de 1920, quando ele exercia funções na Universidade de Leeds. Para esse poema usou a antiga métrica aliterativa (a forma de verso de Beowulf e outra poesia anglo-saxônica) que impunha ao Inglês moderno os exigentes padrões de ênfase e «rima inicial» observados pelos poetas antigos: uma técnica em que alcançou grande mestria de modos muito diferentes, desde o diálogo dramático de The Homecoming of Beorhnoth à elegia pelos homens que morreram na batalha dos «Campos de Pelennor». O aliterativo Filhos de Húrin foi, de longe, o mais extenso dos seus poemas com essa métrica, atingindo bem mais de duas mil linhas. No entanto, quando a abandonou, não chegara mais longe, na narrativa, do que ao ataque do Dragão a Nargothrond. Com tanto mais do Lost Tale ainda para vir, teria precisado, nesta escala, de muitos mais milhares de linhas; enquanto uma segunda versão, abandonada num ponto anterior da narrativa, tem mais ou menos o dobro do tamanho da primeira versão até esse mesmo ponto.

Naquela parte da lenda de os Filhos de Húrin que o meu pai atingiu no poema aliterativo, a antiga história de The Book of Lost Tales foi substancialmente alongada e elaborada. De realçar, sobretudo, que foi então que a grande cidade-fortaleza subterrânea de Nargothrond surgiu, bem como as vastas terras do seu domínio (elemento fulcral não apenas da lenda de Túrin e Niënor, mas também da história dos Tempos Antigos da Terra Média), com uma descrição de terras de cultivo dos Elfos de Nargothrond que proporciona uma excepcional sugestão das «artes da paz» no mundo antigo, vislumbres que são poucos e espaçados. Vindo para sul ao longo do rio Narog, Túrin e o seu companheiro (Gwindor, no texto deste livro) encontraram as terras próximas da entrada para Nargothrond aparentemente desertas:

 

... chegaram a uma região ternamente cuidada;

através de sebes floridas e belas terras

viajaram, e encontraram vazios de gente

os prados, as campinas e os relvados do Narog,

a terra fecunda por árvores envolta

entre montes e rio. As ociosas enxadas

aos campos arrojadas e escadas caídas

na alta erva de viçosos vergéis;

cada árvore ali voltava a cabeça desgrenhada

e olhava-os a socapa, e das ervas ondulantes

as espigas escutavam; embora o meio-dia luzisse

em terra e folha, as suas pernas estavam geladas.

 

E assim os dois viajantes chegaram às portas de Nargothrond, na garganta do Narog:

 

Ali, íngremes, erguiam-se as fortes espaldas dos montes, sobranceiras a célere água; ali, envolto em árvores, um íngreme socalco largo e sinuoso, pelo uso alisado, rasgava-se no rosto da encosta a prumo. Gigantescas portas, sombriamente esbatidas, estavam talhadas na encosta; enormes, as suas vigas, e de ponderosa pedra as suas padieiras e ombreiras.

 

Apanhados pelos Elfos, foram puxados pelo portal, que se fechou atrás deles:

 

Rangendo e chiando nos grandes gonzos a portentosa porta; com estridor estrepitoso atroou e fechou-se como o ribombo de um trovão e ecos terríveis em corredores desertos repetiram-se e ressoaram sob invisíveis telhados; a luz perdeu-se. Depois conduziram-nos por longas e sinuosas veredas de escuridão, os guardas guiando-lhes os hesitantes pés, até o tênue tremular de ígneos archotes flamejar diante deles; murmúrio incerto como de muitas vozes em reunião aglomeradas ouviram quando se apressavam. Alto se alçava o teto. Uma inesperada curva viraram, assombrados, e viram um solene e silencioso conclave, onde centenas se comprimiam num imenso crepúsculo sob distantes cúpulas sombriamente abobadadas mudamente os esperavam.

 

Mas no texto de Os Filhos de Húrin apresentado neste livro não mais nos é dito do que (p. 153):

 

Depois levantaram-se e, partindo de Eithel Ivrin, viajaram para sul ao longo das margens do Narog, até serem capturados por batedores dos Elfos e levados como prisioneiros para a fortaleza oculta.

Assim chegou Túrin a Nargothrond.

 

Como aconteceu isso? Tentarei, a seguir responder a esta pergunta.

Parece praticamente certo que tudo quanto o meu pai escreveu deste poema aliterativo sobre Túrin foi conseguido em Leeds, que ele o abandonou no fim de 1924 ou no início de 1925. Mas o motivo por que o fez tem de permanecer desconhecido. No entanto, aquilo a que depois se dedicou não é misterioso: no Verão de 1925 iniciou um novo poema com uma métrica completamente diferente: cópias rimadas octossilábicas intituladas A Balada de Leithian, «Libertação do Cativeiro». Iniciou assim outro dos contos que, anos mais tarde, em 1951, descreveu, como já mencionei, como plenos em tratamento, independentes e, apesar disso, ligados à «história geral», pois o tema de A Balada de Leithian é a lenda de Beren e Lúthien. Ele trabalhou seis anos neste segundo extenso poema e abandonou-o, por sua vez, em Setembro de 1931, após ter escrito mais de 4000 versos. Como o aliterativo Os Filhos de Húrin, que lhe sucedeu e o suplantou, este poema representa um progresso substancial na evolução da lenda do original Lost Tale de Beren e Lúthien.

Enquanto trabalhava em A Balada de Leithian, em 1926, escreveu um «Esboço da Mitologia», expressamente destinado a R.W. Reynolds, que fora seu professor na King Edward’s School, de Birmingham, a fim de «explicar os antecedentes da versão aliterativa de Túrin e o Dragão». Este curto manuscrito, que daria cerca de vinte páginas impressas, foi reconhecidamente escrito como uma sinopse, no presente do indicativo e num estilo sucinto. Não obstante, constituiu o ponto de partida das versões subseqüentes de O Silmarillion (embora esse nome ainda lhe não tivesse sido dado). Mas, embora toda a concepção mitológica se encontrasse delineada neste texto, a história de Túrin tem, muito claramente, a primazia — e, na verdade, o título constante do manuscrito é «Esboço da mitologia com especial referência aos ‘Filhos de Húrin’», em consonância com o seu objetivo ao escrevê-lo.

Em 1930 seguiu-se uma obra muito mais substancial, a Quenta Noldorinwa (a História dos Noldor: pois a história dos Elfos Noldorin é o tema central de «O Silmarillion»). Derivou diretamente do «Esboço» e, embora ampliando muito o texto inicial e escrevendo de uma maneira mais aperfeiçoada, o meu pai continuava, em grande parte, a considerar a Quenta uma obra sumário, um epítome de concepções narrativas muito mais ricas: como, de resto, demonstra claramente o subtítulo que lhe deu, no qual declarou tratar-se de «uma breve história [dos Noldor] extraída do Book of Lost Tales».

Há que ter em conta que, nesse tempo, a Quenta representava (ainda que apenas numa estrutura um tanto ou quanto incipiente) toda a amplitude do «mundo imaginado» do meu pai. Ainda não era a história da Primeira Era, como depois se tornou, pois ainda não havia nenhuma Segunda Era ou Terceira Era; não havia Númenor, nem hobbits, nem, é claro, nenhum Anel. A história terminava com a Grande Batalha, na qual Morgoth era finalmente derrotado pelos outros deuses (os Valar) e por eles «atirado pela Porta da Noite Eterna para o Vazio, para lá das muralhas do Mundo». E, no final da Quenta, o meu pai escreveu: «Este é o fim das histórias dos dias antes dos dias nas regiões setentrionais do mundo ocidental.»

Parecerá, assim, realmente estranho que a Quenta de 1930 seja, apesar disso, o único texto completo (depois do «Esboço») de O Silmarillion que ele alguma vez escreveu. Mas, como aconteceu com freqüência, pressões exteriores determinaram a evolução da sua obra. À Quenta seguiu-se, mais adiante na década de 30, uma nova versão, num belo manuscrito, tendo finalmente o título de Quenta Silmarillion, História dos Silmarilli. Esta era, ou era para ser, muito mais extensa do que a Quenta Noldorinwa precedente, mas o conceito da obra, como sendo essencialmente um sumarização de mitos e lendas (estes mesmos de uma natureza e um alcance completamente diferente se fossem narrados na totalidade), não se perdeu, e é de novo definido no título: «A Quenta Silmarillion ... é uma história resumida extraída de muitas histórias mais antigas, pois todos os assuntos que contém vieram de antigamente e ainda se encontram entre os Eldar do Ocidente, recontados com mais minúcia noutras histórias e canções.»

Parece pelo menos provável que a visão do meu pai de O Silmarillion decorreu, na verdade, do fato de aquilo a que podemos chamar a «fase Quenta» do seu trabalho na década de 1930 tenha começado numa sinopse condensada destinada a determinado objetivo, mas que posteriormente passou por uma expansão e um apuramento, em fases sucessivas, até perder a aparência de uma sinopse, mas retendo, não obstante, da forma da sua origem, uma uniformidade característica de estilo. Escrevi algures que «a forma e o modo compendiosos e sintetizadores de O Silmarillion, com a sua sugestão de terem atrás deles eras de poesia e «tradição», evoca fortemente uma sensação de «histórias não contadas», até mesmo na maneira de as contar. A «distância» nunca se perde. Não existe qualquer premência narrativa, a pressão e o medo do acontecimento imediato e desconhecido. Na realidade, não vemos os Silmarils como vemos o Anel.

No entanto, a Quenta Silmarillion neste formato chegou a um fim abrupto e, como veio a verificar-se, decisivo, em 1937. O Hobbit foi publicado pela George Allen and Unwin no dia 21 de Setembro desse ano e, não muito tempo depois, por convite do editor, o meu pai enviou diversos manuscritos seus, que foram entregues em Londres no dia 15 de Novembro de 1937. Entre eles encontrava-se a Quenta Silmarillion, no estado em que então existia e terminando no meio de uma frase, no fim de uma página. Mas, entretanto, ele continuou a narrativa, em forma de rascunho, até à fuga de Túrin de Doriath e ao início da sua vida como bandido: transpondo as fronteiras do reino, ele juntou a si um grupo de indivíduos sem casa e desesperados que naqueles miseráveis dias podiam ser encontrados, escondidos, à espreita nos ermos, e cujas mãos se voltavam contra todos aqueles que se atravessavam no seu caminho, Elfos, Homens ou Orcs.

 

Este trecho foi o precursor da passagem, na p. 95 do texto deste livro, no início de Túrin Entre os Bandidos.

O meu pai chegara a estas palavras quando a Quenta Silmarillion e os outros manuscritos lhe foram devolvidos. Três dias depois, em 19 de Dezembro de 1937, escreveu à Allen Unwind, dizendo: «Escrevi o primeiro capítulo de uma nova história sobre Hobbits — ‘Uma festa muito esperada’.»

Foi neste ponto que a continuada e crescente tradição de O Silmarillion no sintético estilo Quenta chegou ao fim, derrubada em pleno voo, aquando da partida de Túrin de Doriath. A partir desse ponto, a história posterior permaneceu, durante os anos que se seguiram, na forma simples, resumida e estacionária da Quenta de 1930, como que congelada, enquanto as grandes estruturas da Segunda e da Terceira Eras se erguiam com a escrita de O Senhor dos Anéis. Mas a continuação dessa história era de primordial importância para as lendas antigas, pois as histórias que as concluíam (derivadas do Book of Lost Tales original) falavam da desastrosa história de Húrin, pai de Túrin, depois de Morgoth o libertar, e da ruína dos reinos élficos de Nargothrond, Doriath e Gondolin, das quais Gimli cantou nas minas de Moria, muitos milhares de anos volvidos.

 

O mundo era claro, altas as montanhas,

Nos Antigos Tempos antes da queda

De poderosos reis em Nargothrond

E Gondolin, reis que passaram agora

Para além dos Mares Ocidentais...

 

E este seria o corolário e a conclusão do todo: o destino dos Elfos Noldorin na sua longa luta contra o poder de Morgoth e os papéis que Húrin e Túrin desempenharam nessa história, terminando com a de Earendil, que se salvou da ruína ardente de Gondolin.

 

Quando, muitos anos mais tarde, no início de 1950, O Senhor dos Anéis ficou concluído, o meu pai dedicou-se com energia e confiança a «O Assunto dos Tempos Antigos», que passaram a ser «A Primeira Era», e nos anos imediatamente a seguir retirou muitos manuscritos antigos de onde se encontravam havia muito tempo. Voltando-se para O Silmarillion, encheu nesse período o belo manuscrito da Quenta Silmarillion de correções e desenvolvimentos. Essa revisão terminou, porém, em 1951, antes de ele ter chegado à história de Túrin, onde a Quenta Silmarillion fora abandonada em 1937 com o advento da «nova história sobre Hobbits».

 

Iniciou uma revisão da Balada de Leithian (o poema em verso rimado em que era contada a história de Beren e Lúthien, abandonado em 1931), a qual se tornou em breve quase um novo poema, de muito maior envergadura; mas este trabalho acabou por se extinguir aos poucos e, por fim, foi abandonado. Dedicou-se então ao que iria ser uma longa saga de Beren e Lúthien, em prosa, estreitamente baseada na forma reescrita da Balada; mas também ela foi abandonada. Assim, o seu desejo, demonstrado em tentativas sucessivas, de conduzir o primeiro dos «longos contos» à escala que ambicionava nunca se concretizou.

Nessa altura, dedicou-se também, de novo e finalmente, ao «grande conto» da Queda de Gondolin, ainda existente apenas no Lost Tale de cerca de trinta e cinco anos antes e nas poucas páginas que lhe foram dedicadas na Quenta Noldorinwa de 1930. Destinava-se a ser a apresentação, quando ele estava no apogeu das suas capacidades, em narrativa cerrada e em todos os seus significados, do extraordinário conto que ele lera na Essay Society da sua faculdade em Oxford, no ano de 1920, e que se manteve, ao longo de toda a sua vida, como um elemento fundamental da sua imaginação no tocante aos Tempos Antigos. A ligação especial com o conto de Túrin encontra-se nos irmãos Húrin, pai de Túrin, e Huor, pai de Tuor. Na sua juventude, Húrin e Huor entraram na cidade élfica de Gondolin, oculta no interior de um círculo de altas montanhas, como é dito em Os Filhos de Húrin (p. 33). E depois, na Batalha das Lágrimas Inumeráveis, voltaram a encontrar-se com Turgon, Rei de Gondolin, que lhes disse (p. 54): «Agora Gondolin não pode permanecer oculta por muito tempo e, se for descoberta, cairá.» E Huor replicou: «No entanto, se resistir durante um pouco mais, da vossa casa virá a esperança para Elfos e Homens. Uma coisa vos digo, Senhor, com os olhos da morte: embora nos separemos aqui para sempre, e eu não volte a ver as vossas muralhas brancas, de vós e de mim uma nova estrela nascerá.»

Esta profecia concretizou-se quando Tuor, primo direito de Túrin, foi para Gondolin e desposou Idril, filha de Turgon, pois o filho deles foi Earendil: a «nova estrela», «esperança de Elfos e Homens», que fugiu de Gondolin. Na futura saga em prosa de A Queda de Gondolin, iniciada provavelmente em 1951, o meu pai voltou a contar a viagem de Tuor e do seu companheiro elfo, Voronwë, que o guiou; e no caminho, sozinhos nos ermos, ouviram um grito nas florestas:

 

E enquanto esperavam veio alguém através das árvores e viram que era um Homem alto, armado, vestido de negro, com uma comprida espada desembainhada. Sentiram-se admirados, pois a lâmina da espada também era negra, mas os seus gumes luziam, brilhantes e frios.

 

Era Túrin, que regressava, apressado, do saque de Nargothrond (pp. 175-176).MasTuor e Voronwë não lhe falaram, quando passou, e «não sabiam que Nargothrond caíra nem que aquele era Túrin, filho de Húrin, o Espada Negra. Foi assim que, apenas por um momento que não voltaria a repetir-se, os caminhos daqueles homens da mesma família, Túrin e Tuor, se cruzaram».

Na nova história de Gondolin, o meu pai levou Tuor para o lugar alto das Montanhas Circundantes de onde os olhos podiam espraiar-se através da planície até à Cidade Escondida. E aí, lamentavelmente, parou e não voltou a avançar. E, assim, também A Queda de Gondolin desapareceu dos seus propósitos e nós não vemos nem Nargothrond nem Gondolin com a sua visão posterior.

Disse algures que «com a conclusão da grande ‘intrusão’ e o afastamento de O Senhor dos Anéis, ele parece ter regressado aos Tempos Antigos com o desejo de reatar a escala muito mais ampla com que começara muito tempo antes, em The Book of the Lost Tales. A conclusão da Quenta Silmarillion manteve-se como um objetivo, mas os «grandes contos», muitíssimo desenvolvidos em relação às suas formas originais, das quais os seus capítulos posteriores deveriam derivar, nunca foram concluídos.» Estas observações também se aplicam ao «grande conto» de Os Filhos de Húrin, embora, neste caso, o meu pai tenha ido muito mais longe, apesar de nunca ter conseguido levar uma parte substancial da última e enormemente alargada versão a uma forma final e concluída.

Ao mesmo tempo que se dedicava de novo à Balada de Leithian e a A Queda de Gondolin, começou o seu novo trabalho sobre Os Filhos de Húrin, não com a infância de Túrin, mas com a parte posterior do conto, o corolário da sua desastrosa história depois da destruição de Nargothrond.

Este é, neste livro, o texto que vai de O Regresso de Túrin a Dor-lómin (p. 177) até à sua morte. Não sei explicar o que levou o meu pai a proceder deste modo, tão diverso do seu hábito de recomeçar do princípio. Mas, neste caso, ele também deixou entre os seus papéis um acervo de escritos posteriores, mas não datados, relacionados com a história desde o nascimento de Túrin até ao saque de Nargothrond, nos quais elaborou muito as antigas versões e as expandiu em narrativa anteriormente desconhecida.

A maior parte desta obra, se não toda, pertence ao tempo que se seguiu à efetiva publicação de O Senhor dos Anéis. Nesses anos, Os Filhos de Húrin tornaram-se, para ele, a história dominante do fim dos Tempos Antigos e, durante muito tempo, dedicou-lhe todo o seu pensamento. Mas teve, então, dificuldade em impor uma estrutura narrativa firme, à medida que o conto crescia em complexidade de caráter e ocorrência. Na verdade, numa longa passagem, a história está contida numa manta de retalhos de rascunhos e esboços de enredo.

No entanto, na sua forma mais recente, Os Filhos de Húrin é a principal narrativa ficcional da Terra Média depois da conclusão de O Senhor dos Anéis. E a vida e a morte de Túrin são retratadas com uma força convincente e uma premência raramente encontradas noutras obras relacionadas com os povos da Terra Média. Por esse motivo, e após longo estudo do manuscrito, tentei compor neste livro um texto que proporcionasse uma narrativa contínua do princípio ao fim. Sem a introdução de quaisquer elementos que não sejam autênticos na sua concepção.

 

Em Os Contos Inacabados, publicados há mais de um quarto de século, apresentei um texto parcial da versão longa desta história, conhecida por o Narn, do título élfico Narn i Chîn Húrin, A História dos Filhos de Húrin. Mas tratava-se apenas de um elemento num grande livro de conteúdo variado e o texto estava muito incompleto, de acordo com o objetivo e a natureza gerais do livro: pois omiti diversas passagens substanciais (uma delas muito extensa) onde o texto Narn e o da versão muito mais reduzida presente em O Silmarillion são muito similares ou onde considerei que não podia usar-se nenhum texto «longo» característico.

Conseqüentemente, a forma do Narn neste livro difere em vários aspectos da de Contos Inacabados, alguns deles resultantes do estudo muito mais meticuloso do formidável complexo de manuscritos que fiz depois de esse livro ser publicado. Isso conduziu-me a conclusões diferentes a respeito das relações e da seqüência de alguns dos textos, sobretudo na evolução extremamente confusa da lenda no período de «Túrin Entre os Bandidos». Segue-se uma descrição e uma explicação da composição deste novo texto de Os Filhos de Húrin.

 

Um elemento importante em tudo isto é o estatuto peculiar de O Silmarillion publicado, pois, como referi na primeira parte deste Apêndice, o meu pai abandonou a Quenta Silmarillion no ponto a que chegara (a transformação de Túrin num bandido depois da fuga de Doriath) quando iniciou O Senhor dos Anéis em 1937. Na elaboração de uma narrativa para a obra publicada, recorri muito a The Annals of Beleriand, originalmente um «Conto de Anos», mas que, em versões sucessivas, cresceu e se expandiu em narrativa analítica, em paralelo com os sucessivos manuscritos de «Silmarillion», até chegar à libertação de Húrin por Morgoth após as mortes de Túrin e Niënor.

Portanto, a primeira passagem que omiti na versão do Narn i Chîn Húrin em Contos Inacabados (p. 73 e nota 1) é o relato da estadia de Húrin e Huor em Gondolin, na sua juventude, e procedi assim, simplesmente, porque a história é contada em O Silmarillion (pp. 169-171). Mas, na realidade, o meu pai escreveu duas versões: uma delas expressamente destinada ao início do Narn, mas nitidamente baseada numa passagem de The Annals of Beleriand e da qual, na sua maior parte, pouco difere. Em O Silmarillion usei ambos os textos, mas aqui segui a versão do Narn.

A segunda parte do Narn que omiti, em Contos Inacabados (p. 81 e nota 2) foi o relato da Batalha das Lágrimas Inumeráveis, uma omissão feita pelo mesmo motivo. E também neste caso o meu pai escreveu duas versões, uma em Annals e uma segunda, muito mais tarde, mas com o texto dos Annals à sua frente e, na sua maior parte, idêntica. A segunda narrativa da grande batalha era, uma vez mais, expressamente destinada a ser um elemento componente do Narn (o texto intitula-se Narn II, ou seja, o segundo capítulo do Narn, e declara no início (p. 49) do texto deste livro: «Aqui serão, portanto, recontados apenas os feitos que se relacionam com o destino da Casa de Hador e dos filhos de Húrin, o Firme.» Guiado por esse objetivo, o meu pai manteve apenas, da narrativa dos Annals, a descrição da «batalha ocidental» e a destruição da hoste de Fingol e, com esta simplificação e esta redução da narrativa, modificou o decurso da batalha tal como é relatado nos Annals. Em O Silmarillion segui, evidentemente, os Annals, embora com alguns traços retirados da versão Narn. Mas neste livro servi-me do texto que o meu pai considerou apropriado para o Narn como um todo.

No respeitante a Túrin em Doriath, o novo texto está muito modificado em relação ao que aparece em Contos Inacabados. Há aqui um percurso de escrita, em grande parte muito em bruto, no que toca aos mesmos elementos narrativos em diferentes fases de evolução e, em casos assim, é obviamente possível ter diferentes pontos de vista quanto a como o material original deve ser tratado. Cheguei à conclusão de que, quando compus o texto dos Contos Inacabados, me permiti maior liberdade editorial do que era necessário. Neste livro reconsiderei os manuscritos originais e reconstituí o texto e, em muitos pontos (geralmente insignificantes), recuperei as palavras originais, introduzindo frases ou breves passagens que não deviam ter sido omitidas, corrigindo alguns erros e adotando opções diferentes entre as revisões originais.

No que diz respeito à estrutura da narrativa neste período da vida de Túrin, desde a fuga de Doriath até ao covil dos bandidos no Amon Rûdh, o meu pai tinha em mente certos «elementos» narrativos: o julgamento de Túrin perante Thingol; as dádivas de Thingol e Melian a Beleg; os maus-tratos infligidos pelos bandidos a Beleg na ausência de Túrin e os encontros de Túrin e Beleg. Ele movimentava estes «elementos» em relação uns aos outros e colocava passagens de diálogo em contextos diferentes, mas tinha dificuldade em compô-los num «enredo» fixo — «para descobrir o que realmente acontecia». No entanto, após muito e aprofundado estudo, parece-me agora claro que o meu pai alcançou uma estrutura e uma seqüência satisfatórias para esta parte da história antes de a abandonar. Assim como também me parece que a narrativa na forma muito mais reduzida que compus para a publicação de O Silmarillion se coaduna com isso — mas com uma diferença.

Nos Contos Inacabados há uma terceira lacuna na narrativa na p. 113: a história interrompe-se no ponto em que Beleg, depois de, finalmente, encontrar Túrin entre os bandidos, não consegue persuadi-lo a regressar a Doriath (pp. 111-115 do novo texto), e só volta a ser reatada quando os bandidos encontram os Pequenos Anões. Aqui recorri de novo a O Silmarillion para preencher a lacuna, mencionando que na história se segue o adeus de Beleg a Túrin e o seu regresso a Menegroth «onde recebeu de Thingol a espada Anglachel e lembas de Melian». Mas é um fato demonstrável que o meu pai rejeitou isso, pois «o que realmente aconteceu» foi que Thingol deu a Anglachel a Beleg depois do julgamento de Túrin, quando Beleg partiu pela primeira vez para o encontrar. Por isso, no presente texto, a dádiva da espada situa-se nessa ocasião (p. 92) e não existe aí qualquer menção a uma dádiva de lembas. Na passagem posterior, quando Beleg regressou a Menegroth depois de encontrar Túrin, não há, evidentemente, qualquer alusão à Anglachel no novo texto, mas sim, apenas, à dádiva de Melian.

Este momento é adequado para dizer que omiti do texto duas passagens que incluí nos Contos Inacabados, mas que estão relacionadas com a narrativa: são elas a história de como o Elmo do Dragão passou para a posse de Hador de Dor-lómin (Contos Inacabados, p. 91), e a origem de Saeros (Contos Inacabados, pp. 92,93). Diga-se de passagem que parece certo, graças a uma compreensão mais aprofundada das relações entre os manuscritos, que o meu pai rejeitou o nome de Saeros e o substituiu por Orgol, que, mercê de «acidente lingüístico», coincide com as palavras do Inglês Antigo orgol, orgel: «orgulho». Parece-me, no entanto, demasiado tarde para remover Saeros.

 

A principal lacuna da narrativa apresentada em Contos Inacabados (p. 122) é preenchida no novo texto nas páginas desde o fim do capítulo De Mîm, o Anão e ao longo de A Terra do Arco e do Elmo, A Morte de Beleg, Túrin em Nargothrond e A Queda de Nargothrond.

Nesta parte da «saga de Túrin» há uma relação complexa entre os manuscritos originais, a história tal como é contada no apêndice a Narn nos Contos Inacabados e o novo texto deste livro. Sempre supus ser intenção do meu pai, na plenitude do tempo, quando terminasse, de modo que o satisfizesse, o «grande conto» de Túrin, basear nele uma forma muito mais reduzida da história naquilo a que podemos chamar «o modo Silmarillion». Mas, evidentemente, isso não aconteceu. Por isso empreendi, há já mais de trinta anos, a estranha tarefa de tentar simular o que ele não fez: a escrita de uma versão «Silmarillion» da forma mais tardia da história, mas derivando dos heterogêneos materiais da «longa versão», o Narn. É o Capítulo XXI de O Silmarillion publicado. Assim, o texto deste livro que preenche a extensa lacuna na história de Contos Inacabados deriva dos mesmos materiais originais da passagem correspondente em O Silmarillion, mas usados com propósitos diferentes em cada caso e, no novo texto, com uma melhor compreensão do labirinto de rascunhos e apontamentos e a sua seqüência. Muito do que consta dos manuscritos originais e que foi omitido ou comprimido em O Silmarillion continua disponível; mas onde não havia nada para acrescentar à versão de O Silmarillion (como no conto da morte de Beleg, derivado dos Annals of Beleriand) essa versão foi simplesmente repetida.

No resultado, embora eu tenha tido de introduzir passagens-ponte aqui e ali na reunião de rascunhos diferentes, não existe elemento nenhum de «invenção» extrínseca de qualquer espécie, por leve que seja, no texto mais longo aqui apresentado. No entanto, como não poderia deixar de ser, o texto é artificial: sobretudo porque este grande corpo de manuscrito representa uma evolução continuada da verdadeira história. Rascunhos que são essenciais para a formação de uma narrativa ininterrupta podem, de fato, pertencer a uma fase mais antiga. Assim, para dar um exemplo a partir de um ponto anterior, um texto essencial para a história da ida do bando de Túrin para o monte de Amon Rûdh, a morada que encontraram nele e a sua vida lá, como também o êxito efêmero da terra de Dor-Cúart-hol, foi escrito antes de haver alguma sugestão dos Pequenos Anões e, na verdade, uma descrição completamente desenvolvida da casa de Mîm por baixo do cume aparece antes do próprio Mîm.

 

No resto da história, a partir do regresso de Túrin a Dor-lómin, a que o meu pai deu uma forma definitiva, há, naturalmente, muito poucas diferenças em relação ao texto dos Contos Inacabados. Há, no entanto, dois pormenores no relato do ataque a Glaurung em Cabed-en-Aras em que emendei as palavras originais e que devem ser explicados.

O primeiro diz respeito à geografia. Diz-se (p. 151) que quando Túrin e os seus companheiros partiram de Nen Girith no fatídico anoitecer, não foram logo direitos ao Dragão, deitado do lado oposto da ravina, mas enveredaram pelo primeiro caminho na direção dos Vaus do Teiglin; e «depois, antes de lá chegarem, viraram para sul por um carreiro estreito» e seguiram através das florestas por cima do rio na direção de Cabed-en-Aras. Quando se aproximavam, no texto original da passagem, «as primeiras estrelas tremeluziram a oriente, atrás deles».

Quando preparei o texto para os Contos Inacabados não reparei que isso não podia estar certo, visto eles não estarem, de modo algum, a seguir para oeste, mas sim na direção leste ou sudeste, afastando-se dos Vaus do Teiglin, e as primeiras estrelas no leste deviam estar à sua frente e não atrás deles. Quando discuti isto em The War of the Jewels (1994, p. 157) aceitei a sugestão de que «o carreiro estreito» que seguia para sul virava de novo para oeste a fim de chegar ao Teiglin. Mas tal parece-me agora improvável, sem qualquer utilidade para a narrativa, e a solução mais simples pareceu-me ser emendar «atrás deles» para «à frente deles», como fiz no novo texto.

O esboço de mapa que tracei nos Contos Inacabados (p. 171) a fim de ilustrar a disposição do terreno não está, na verdade, bem orientado. Vê-se no mapa que o meu pai fez de Beleriand, e é assim reproduzido no meu mapa para O Silmarillion, que Amon Obel se encontrava quase na direção leste dos Vaus do Teiglin («a Lua subia para lá do Amon Obel», p. 238) e o Teiglin fluía para sudeste ou sul-sudeste nas ravinas. Voltei agora a desenhar o esboço do mapa e introduzi também a localização aproximada da Cabed-en-Aras (diz-se no texto que «precisamente no caminho de Glaurung havia agora uma dessas gargantas, de modo algum a mais profunda, mas sim a mais estreita, logo a norte da foz do Celebros»).

 

A segunda questão diz respeito à história da morte de Glaurung ao atravessar a ravina. Há aqui um esboço e uma versão final. No esboço, Túrin e os seus companheiros subiram pelo lado mais distante do abismo até se encontrarem quase abaixo da beira; mantiveram-se aí agarrados, enquanto a noite passava, e Túrin «debateu-se com sonhos negros de terror em que toda a sua vontade se concentrava em agarrar-se e resistir». Quando o dia chegou, Glaurung preparou-se para atravessar num ponto «muitos passos para norte» e, por isso, Túrin teve de descer para o leito do rio e depois de subir de novo o penhasco para chegar debaixo da barriga do Dragão.

Na versão final (p. 232) Túrin e Hunthor estavam apenas a meio caminho da beira quando Túrin disse que em vão consumiam as suas forças ao subirem agora, antes de saberem onde Glaurung atravessaria; «por isso, pararam e esperaram». Não é dito que desceram de onde estavam quando pararam de subir, e a passagem respeitante ao sonho de Túrin «em que toda a sua vontade se concentrava em agarrar-se e resistir» é recuperada do texto em rascunho. Mas na história revista não houve necessidade de se agarrarem: podiam, e certamente o teriam feito, descer até ao fundo e esperar aí. Na verdade, foi isso que fizeram: é dito no texto final (Contos Inacabados, p. 155) que não estavam parados no caminho de Glaurung e que Túrin «avançou ao longo da água para se colocar debaixo dele». Parece, pois, que a história final mantém uma característica desnecessária do rascunho anterior. Por uma questão de coerência, emendei «visto não se encontrarem parados diretamente no caminho de Glaurung» para «visto não se encontrarem diretamente no caminho de Glaurung» e «avançou ao longo da água» para «trepou ao longo do penhasco».

São, em si mesmos, pequenos pormenores, mas clarificam aquelas que são talvez as passagens mais nitidamente visualizadas nas lendas dos Tempos Antigos, bem como um dos acontecimentos mais importantes.

 

 

                                                                  J. R. R. Tolkien

 

 

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