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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PERAHIM / Constantin Virgil Gheorghiu
PERAHIM / Constantin Virgil Gheorghiu

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

O meu nome é Perahim. Desejo falar com o comissário-chefe - diz o visitante.

examina a sala em que acaba de entrar. Conhece-a perfeitamente. É o gabinete dos inspectores da brigada do comissário Joachim Catran.

O tecto é baixo, as paredes enegrecidas pelo fumo. Uma única janela, de grades, dá para um pátio interior. No compartimento há três mesas, em cima de cada uma delas uma máquina de escrever.

Um inspector escreve numa destas máquinas só com um dedo. Por cima do ombro, estende ao visitante uma folha de papel e ordena-lhe sem olhar para ele:

- Escreva o seu nome e apelido.

O visitante escreve. O inspector pega no papel e dirige-se a um compartimento vizinho, que é o gabinete do comissário-chefe.

Perahim fica só. É jovem, belo e moreno. Tem a cabeça rapada. Veste um fato novo e calça sapatos pretos. Examina atentamente o compartimento, do qual conhece todos os objectos. Puxa por um lenço vermelho e enxuga o suor que em pérolas se forma na testa cruzada por uma cicatriz.

"Não pensava voltar vivo a esta sala", diz para consigo Perahim.

A sua tez é macilenta. Tem olhos negros rodeados por longas pestanas semelhantes às sedas de uma teia de aranha.

Outrora Perahim fora trazido para aqui amarrado como um fardo, a cabeça entre as pernas. As pálpebras e os lábios estavam colados pelo sangue coagulado. Não podia abrir nem a boca nem os olhos. Os inspectores do comissário Catran atiraram-no para o chão como um fardo, exactamente para o lugar onde se encontra neste momento. Depois os polícias pisaram-no como os vinhateiros pisam as uvas. O sangue novo descolou as pálpebras de Perahim. Viu os pés dos polícias que o esmagavam e os pés das mesas. Das três mesas de pinho. Depois voltou a ver o soalho sujo, as duas portas almofadadas, a janela de grades, as máquinas de escrever...

Perahim recorda-se de cada fragmento de soalho, de cada fragmento de parede. Sofria horrivelmente. Doía-lhe cada centímetro de carne e de osso do corpo. Doía-lhe a raiz de cada um dos seus cabelos. Tinha as mãos, os pés e o corpo amarrados com correntes, grossas correntes frias, húmidas do seu sangue.

Perahim enxuga novamente a cabeça rapada com o seu lenço vermelho. A lembrança dos sofrimentos aqui passados, nesta mesma sala, há dez anos, fá-lo transpirar abundantemente.

 

 

 

 

Fora capturado no bairro da estação do Norte, derrubado pelas costas e transportado para a Prefeitura da Polícia. As primeiras recordações da sua captura começam aqui, nesta sala.

Perahim foi arrancado bruscamente às suas recordações. O inspector reaparece.

- O nome que escreveu é o seu? - pergunta o secretário.

- é - responde o visitante.

- O senhor é de facto Perahim?

- Sou - responde o visitante.

- O senhor comissário pergunta se não tem também uma alcunha?

- Tenho - responde o visitante. - Maximilien Perahim, conhecido por Barricada.

- Será recebido imediatamente. Sente-se.

O inspector volta a entrar no gabinete do chefe.

No mesmo instante em que Max Perahim se sentou, o seu corpo recordou-se desta cadeira: o seu traseiro também tem memória...

Perahim sentou-se nesta cadeira há dez anos. Fora amarrado com cordas enquanto os polícias o esbofeteavam, ao mesmo tempo que o interrogavam. Queimaram-lhe a cara com os cigarros. Bateram-lhe na cabeça. Várias vezes foi agredido no peito, nas costas, na cabeça com esta mesma cadeira. E com as outras duas, que eram rigorosamente iguais. Perahim vê as máquinas de escrever. Elas também lhe recordam sofrimentos. Durante o interrogatório os polícias chegaram, por vezes, a atirar-lhe a máquina de escrever ao peito. Todas as vezes que isso aconteceu perdeu os sentidos. Uma máquina de escrever, nas mãos dum polícia, torna-se um objecto de tortura dos mais dolorosos. O lenço vermelho, comprado antes de vir à polícia, está molhado. Contudo Perahim continua a enxugar a cabeça rapada, a testa cruzada por uma cicatriz e o rosto macilento.

Espera ser introduzido junto do comissário-cliefe. Os olhos enormes brilham-lhe como lanternas acesas. Está contente. Como os campeões que - uma vez o fim atingido - se deixam cair extenuados. Mas vitoriosos.

 

É o célebre gangster em pessoa, chefe

- anuncia o inspector entrando no gabinete do comissário-chefe. - é Barricada. O rei dos ladrões.

O inspector vê o célebre gangster pela primeira vez. Mas o comissário-chefe contara aos seus subalternos inúmeras vezes as acções estrondosas e a captura de Perahim. Falara-lhes dele como dum ser formidável. O último verdadeiro, grande gangster de Bucareste.

- Ele declinou a sua identidade sem qualquer dificuldade - diz o inspector. - Declinou-a com orgulho.

- Surpreende-me que se trate dele - diz o comissário-chefe. - Maximilien Perahim Barricada está na prisão de forçados. Para toda a vida. Está nas minas de sal. A centenas de metros debaixo da terra. Fui eu que o prendi, pessoalmente. Depus como testemunha de acusação nos tribunais criminais. Assisti à sua condenação.

O comissário pensa que se o homem que veio procurá-lo e que neste momento espera no gabinete ao lado é realmente o gangster Perahim Barricada - veio unicamente para o assassinar. Para o assassinar, a ele, o comissário-chefe Catran. Contudo, a hipótese parece-lhe absurda.

O comissário levanta-se e preocupado passeia diante da mesa. É um homem de mais de sessenta anos, atarracado, gordo como um comerciante. Não estudou. Foi amanuense durante três anos na câmara municipal, na sua aldeia das montanhas. é tudo. Foi recrutado, como todos os velhos comissários de Bucareste, entre os infractores.

Começou como indicador nas prisões, depois tornou-se sucessivamente ordenança, guarda, informador, inspector estagiário.

Trepou todos os degraus, um após outro, até ao posto de comissário-chefe da Polícia Judiciária.

Um comissário-chefe em Bucareste é o homem mais poderoso do país, depois do rei da Roménia e do prefeito da polícia.

Joachim Catran obteve este posto graças ao seu mérito. Possui qualidades mais importantes que os estudos. Tem uma memória extraordinária, uma capacidade de trabalho inesgotável, crueldade e uma ausência total de escrúpulos e de senso moral. Tudo o que é preciso para ser polícia na maior parte dos países do Mundo.

- Não pode ser Barricada. £ impossível. Um infractor interrogado por mim nunca pôde voltar a ver a minha cara. Nem mesmo uma fotografia. Basta o meu nome para lhe tirar o apetite por um dia. é impossível que Perahim deseje voltar a ver-me. Além disso, Max Barricada não pode estar vivo. O gangster morreu.

O comissário Catran calcula mentalmente. Normalmente, um infractor interrogado pela Polícia Judiciária não pode sobreviver. Morre durante o interrogatório. Os que, por milagre, sobrevivem ao interrogatório morrem durante o processo ou - no pior dos casos - quando são transferidos duma prisão para outra. Para limpar a sociedade das impurezas, os polícias e os gendarmes abatem sempre os detidos durante uma transferência e redigem em seguida um processo verbal por tentativa de evasão.

- Se o visitante é realmente Perahim, então evadiu-se - diz o comissário. – Se Perahim se tivesse evadido não viria à polícia. Se ele está realmente aqui, não veio senão para me assassinar. é lógico. Ele quer assassinar-me.

- Chamo os guardas para que o prendam, chefe? - pergunta o inspector.

- Não - ordena o comissário. - Se Barricada julga que não me viu o bastante há dez anos, permito-lhe que me veja mais uma vez. Mas será a última. Agora não lhe ficará um único osso inteiro. Nem um único. Para que constate que o gangster que deverá assassinar o comissário Joachim Catran ainda não nasceu ! Todos os gangsters desejam matar-me. Eu sei-o. Mas nenhum o pode fazer e nunca o fará. O comissário ordena:

- Coloquem um guarda no corredor, um outro na sala dos interrogatórios e um terceiro no gabinete dos inspectores. Deixem as portas entreabertas. No momento em que o gangster entrar no meu gabinete e faça um gesto, os três imobilizem-no ao mesmo tempo.

- Revistamo-lo antes de o deixar entrar? - pergunta o inspector. - Será preferível. Poderá ocultar um explosivo debaixo do fato. Pode ir pelos ares ao mesmo tempo que vós. Pode fazer ir pelos ares todo o edifício.

- Nada de revista - ordena o comissário. - O homem que me poderá assassinar ainda está para nascer. Coloquem os guardas segundo as disposições tomadas e mandem entrar o gangster. Eu espero-o.

 

O inspector coloca os guardas segundo a disposição prevista, a fim de poder prender a todo o instante o gangster logo que este esteja no gabinete do chefe.

Depois de ficar só, o comissário Joachim Catran carrega o revólver e coloca-o na sua frente, em cima da secretária.

Tira da gaveta uma curta matraca branca e coloca-a ao lado do revólver. é uma matraca de fabrico especial. Contém berlindes metálicos, semelhantes às vértebras de uma espinha dorsal. O revestimento exterior é de espuma de borracha e seda. com esta matraca podem rebentar-se os pulmões, os rins e o fígado de um homem sem que os golpes deixem outros vestígios no corpo além dumas vagas manchas azuis que desaparecerão em algumas horas. com esta matraca podem partir-se, exactamente como com um martelo, todos os ossos da vítima, sem que isso deixe o menor sinal.

Todo entregue a estes preparativos, o comissário vai-se recordando da biografia do gangster Maximilien Perahim, conhecido por Barricada.

O gangster que vai entrar neste gabinete de um minuto para o outro tem trinta e um anos. Nasceu em Bucareste, no bairro operário conhecido por Barricadas. Durante o período das reivindicações sociais, os seus habitantes ali se barricaram, a fim de que a polícia e o exército não pudessem lá entrar- daí o nome que lhe ficou.

O pai do gangster era contramestre nas oficinas dos caminhos de ferro. Chamava-se Spartacus Perahim e foi abatido nas barricadas, em frente da sua oficina, por ocasião de uma greve.

Oficialmente nunca se soube quem matou Spartacus Perahim, embora o inquérito tivesse durado vários anos.

O pai do gangster era um bonito homem, forte como um gladiador, com cabelos pretos, que usava compridos e que lhe caíam nos ombros. Tinha um bigode espesso, à moda dos artistas. Era um militante sindicalista e estava na primeira fila em todas as greves e em todas as manifestações de operários.

A sua beleza, a sua força física, a sua paixão revolucionária e o seu talento de orador fizeram de Spartacus Perahim, conhecido por Barricada, o ídolo da classe operária da Roménia.

Cada vez que o pai do gangster era preso - e isso acontecia em média uma vez por mês - centenas de mulheres, operárias, formavam bicha em frente da prisão para lhe levar provisões, roupa, flores. Em cada uma das suas libertações, Spartacus Perahim era levado em triunfo desde a porta da prisão até ao seu domicílio, no bairro das Barricadas. Era sempre um cortejo triunfal com bandeiras e bandeirolas.

O prefeito da polícia de Bucareste, a fim de pôr termo às desordens da classe operária, decidira liquidar o belo orador revolucionário. O prefeito chamou para esse fim o jovem comissário Joachim Catran e disse-lhe:

- Se liquidares Spartacus Perahim, nomeio-te comissário-chefe da Polícia Judiciária de Bucareste.

Alguns dias mais tarde, o comissário Catran abateu o pai do gangster nas próprias barricadas da oficina dos caminhos de ferro.

Oficialmente ninguém pôde acusar o comissário de homicídio, e o autor do assassínio permaneceu "desconhecido".

Em conformidade com a promessa do prefeito, Joachim Catran foi nomeado comissário-chefe.

Estes acontecimentos passaram-se há vinte e cinco anos. O comissário olha para o revólver colocado ao lado da matraca. é o revólver com que abateu Spartacus Perahim. Um modelo antigo. Contudo, olha para ele, como para uma recordação. A morte de Spartacus marcou uma data importante na vida de Catran. Foi o seu decreto de nomeação ao posto de comissário-chefe.

O orador revolucionário morto pelo comissário Catran deixou uma viúva e um filho de seis anos. A viúva chamava-se Mica-Margareta Perahim. Era lavadeira. A fim de evitar qualquer manifestação de simpatia operária no seu domicílio, depois do assassínio de Spartacus Perahim a polícia prendeu a viúva. Foi fácil: um suposto cliente apresentou uma queixa contra Mica Perahim assegurando que ela roubara duas camisas de noite que lhe havia confiado, e Mica Perahim permaneceu encerrada seis meses na prisão Vacaresti, na capital.

O seu filho Maximilien ficou portanto sozinho em casa. As mulheres do bairro das Barricadas trabalhavam todas na fábrica ou trabalhavam a dias nos bairros ricos.

Durante todo o dia, estavam ausentes das suas casas, e nenhuma podia portanto ocupar-se do órfão.

As únicas, no bairro, que tinham tempo para isso eram as prostitutas. Elas tomaram a seu cargo o pequeno Maximilien e levaram-no para o bairro da estação do Norte, onde trabalhavam.

Durante os seis meses que Mica esteve na prisão, Maximilien viveu nos quartos das prostitutas, quartos de hotel com espelhos, sofás vermelhos e luzes de todas as cores. Foi vestido pelas prostitutas com camisas de seda, calças de veludo e sapatos de verniz. As mulheres penteavam-no e punham-lhe brilhantina no cabelo.

Maximilien era bonito como os retratos dos anjos. Os seus olhos rasgados em forma de amêndoa, rodeados de pestanas compridas e sedosas, estavam deslumbrados pelo esplendor do cenário em que vivia. Tomou conhecimento com as almofadas e as camas perfumadas das cortesãs.

Neste mundo maravilhoso, feito de espelhos, de seda e de perfumes, toda a gente amimava Max. Recebia presentes sem cessar, bombons, brinquedos, dinheiro. Os homens que o rodeavam não se assemelhavam aos que ele conhecera anteriormente, os operários magros, mal barbeados e tristes do bairro das Barricadas.

No mundo novo de Max, os homens vestiam fatos novos, camisas brancas como neve, anéis, numerosos e muito grossos, relógios de oiro, sapatos de polimento e todos tinham os cabelos ondulados, untados e perfumados. Os homens deste universo fumavam cigarros que cheiravam bem; estavam sempre sorridentes e passavam o tempo nas esplanadas dos cafés e nos restaurantes, com mulheres muito decotadas. Estas mulheres não lavavam roupa como a mãe de Max e as suas vizinhas. Não eram tristes, nem magras e não se vestiam com vestidos feios, enrugados e grossos. As mulheres daqui sorriam constantemente. Cantavam, fumavam e passeavam.

O bairro das prostitutas da estação do Norte foi para o pequeno Maximilien Perahim, o filho do orador revolucionário fuzilado nas barricadas, a imagem perfeita do paraíso terrestre.

Quando Mica saiu da prisão e levou Maximilien para casa, ele foi mais infeliz que Adão, expulso do paraíso terrestre. Não foi possível suportar a vida do bairro cinzento das Barricadas. A pobreza, a torpeza e a falta de alegria em que viviam os operários sufocavam-no.

Só tinha um sonho: abandonar as Barricadas e voltar para o paraíso, no bairro perfumado e luminoso.

Mais tarde, Max Perahim frequentou a escola do bairro e os cursos de aprendizagem da oficina. Mas, aos catorze anos, abandonou definitivamente a casa paterna e o bairro. Instalou-se no paraíso que descobrira aos seis anos e com o qual nunca deixara de sonhar.

Maximilien Perahim não compreendia de modo algum que seu pai e os operários tivessem podido lutar por outros paraísos, quando o verdadeiro paraíso se encontrava ao pé deles, no bairro limítrofe da estação do Norte.

Agora que ele tinha catorze anos, compreendia que possuía o dom raro e extraordinário de fazer com que todas as mulheres se apaixonassem por ele. Nenhuma lhe resistia. Elas vinham ao seu encontro. Todas as mulheres lhe suplicavam para ficar junto dele, mesmo como escravas. Maximilien Perahim aceitou-lhes os oferecimentos... Tornou-se o seu protector, depois o seu chulo. Ao mesmo tempo, traficava com álcool, com armas, com oiro, com divisas, com estupefacientes, fosse com o que fosse.

Tornou-se milionário. Aos dezoito anos era o rei dos ladrões. Toda a gente se curvava diante dele e respeitava-o - inclusivamente a polícia. Maximilien Perahim era o ídolo da quadrilha de ladrões, como seu pai, o orador revolucionário Spartacus Perahim, fora o ídolo da classe operária.

Um dia o drama eclodiu. Uma das prostitutas protegidas por Perahim acabava de dar à luz. Por ocasião do baptizado houve uma festa à qual assistiam raparigas, gangsters, polícias, hoteleiros e proprietários de cafés. Um polícia embriagou-se. A sua ideia de polícia ébrio era que o recém-nascido devia passar a noite que seguia ao seu baptizado na prisão, com os outros convidados. Ele dizia que um baptizado naquele meio não podia terminar de outro modo senão nas caves da Prefeitura da Polícia.

Os convidados tentaram acalmá-lo. O polícia embriagado saiu para a rua e deu o alarme. Os convidados rodearam-no e espancaram-no como convinha. Quando os carros da polícia chegaram alguns minutos mais tarde, o polícia ébrio jazia, morto, em cima do passeio, com a cabeça despedaçada. Todos os convidados foram acusados de terem matado o polícia. Todos, aliás, lhe tinham batido, inclusivamente Pêrahim, que batera com um sifão de água de Seltz.

Os médicos legistas mantiveram, após o exame minucioso do cadáver, que fora a pancada com o sifão - quer dizer, a pancada de Perahim - que provocara a morte, visto que as outras duzentas pancadas cujos vestígios foram assinalados no cadáver não tinham provocado senão nódoas negras, edemas e feridas. Lançou-se por conseguinte um mandado de captura contra Maximilien Perahim por ter matado um polícia. Foi capturado após dois dias de caça ao homem.

O processo do gangster Perahim nos tribunais criminais durou um mês. Ouviram-se centenas de testemunhas. Operários, camaradas de seu pai, intelectuais, toda a gente tomou parte nos debates, denunciando a miséria social, as desgraças e as injustiças que se exerciam contra a classe operária e apresentando Perahim como uma vítima da sociedade. Julgou-se que ele seria absolvido.

A desgraça de Perahim foi que nessa época a Roménia -? país ávido de cultura e de civilização - suportava ainda a influência ocidental. No Ocidente, se se matar o pai, a mãe, se se estrangular os filhos, se se assassinar o presidente da República ou o maior dos sábios, pode ter-se esperança na clemência dos juizes. Mas se se matar um polícia, é-se condenado à pena máxima - sem a menor indulgência. No Ocidente o polícia é considerado como a criatura mais sagrada que existe sobre a terra. Max Perahim era o assassino de um polícia. Ele foi por conseguinte condenado a trabalhos forçados e mandado para as minas de sal de Targul-Ocna.

E eis agora que, dez anos mais tarde, Max Perahim reaparece nos gabinetes da polícia, onde espera ser recebido pelo comissário-chefe Joachim Catran !

- é insensato que um forçado volte das minas de sal - diz o comissário. - Nunca nenhum condenado saiu vivo das prisões romenas de forçados, nunca ninguém voltou do inferno. é espantoso que Perahim Barricada esteja aqui. é extraordinário!

 

O gangster Maximilien Perahim entra no gabinete do comissário Joachim Catran. O comissário tem uma das mãos em cima do revólver. Os três guardas estão prontos a lançar-se impetuosamente, ao sinal do comissário, para imobilizar o gangster.

Perahim nota a disposição tomada contra ele, mas fica calmo.

- És realmente tu, Barricada? - pergunta o comissário admirado. -Se eu visse neste momento surgir na minha frente a minha mãe e o meu pai, que estão mortos há tanto tempo, não me admiraria mais. És realmente tu, em carne e osso?

-Sou eu - responde Barricada.

O gangster está imóvel. Em frente da porta, com a cabeça rapada, com o rosto macilento coberto de cicatrizes, com o seu fato novo e os seus sapatos pretos.

- Primeiro que nada, quero saber se estás armado ou não, Barricada.

-Não estou armado - responde Perahim.

- Não posso contentar-me com a tua palavra - diz o comissário. - O regulamento proíbe-mo... Apalpem-no.

À palavra ((apalpar", as três portas do gabinete do comissário Catran que dão para o corredor, para a sala dos interrogatórios e para o gabinete dos inspectores abrem-se de par em par. Três polícias à paisana gigantes - rodeiam Maximilien Perahim. O gangster sente seis mãos tomarem posse do seu corpo. Fecha os olhos. Novamente, o seu corpo não lhe pertence. A prisão é isto: a polícia confisca-nos o nosso próprio corpo. A coisa mais pessoal que o homem pode possuir durante a sua existência terrestre, é o seu corpo. Mas quando a polícia nos prende, ela confisca-o.

As seis mãos apalpam, como monstruosos insectos, o corpo de Perahim, desde a sola dos pés até ao alto da cabeça. Mãos estranhas apalpam cada músculo do gangster, cada cicatriz, cada articulação. Durante dez anos, na prisão de forçados, Maximilien Perahim teve de suportar estas revistas quotidianas, e contudo não se pôde habituar. Mãos estranhas entram debaixo dos sovacos do gangster, entre as pernas, nos ouvidos, debaixo da planta dos pés.

- O fato ! - -ordena o comissário. - Que esperam para o despir?

O fato novo, a camisa branca molhada de suor, as calças, os sapatos, tudo deixa num segundo o corpo de Perahim.

O secretário ajuda os polícias nesta operação. Oito mãos arrancam do corpo do gangster tudo o que o cobria, como um tornado. Como a morte.

Max Perahim encontra-se agora em cuecas brancas e peúgas azuis. O seu vestuário é atirado para todos os cantos da sala, como que disperso por uma tempestade. E apesar disso Perahim permanece imóvel. O ciclone das oito mãos despojou-o sem que ele tivesse hesitado.

Em cada centímetro de pele há uma ferida. Feridas antigas. Cicatrizes de todas as dimensões e de todas as formas. A pele do gangster é amarela, azeitonada. O seu corpo é magro e direito como o pau de uma bandeira. Não são os ossos do gangster que o fazem manter de pé. Vê-se - em consequência das cicatrizes - que cada osso deve ter sido esmagado. O que o faz manter-se perpendicularmente é o espírito. Porque o corpo de Max Perahim não é direito como o dos militares, mas como o dos mártires.

-Tu não mentiste. Tu não tens armas

- diz o comissário. - Verifico que, por agora, estás em ordem. Veste-te.

O tempo para o comissário acender um cigarro e Perahim está novamente vestido. Apertou os atacadores dos sapatos. Pôs a gravata. Todo o fato está abotoado. O gangster vestiu-se às cegas, como na escuridão. Esta destreza aprende-se na prisão. Ali não há espelhos, e a ponta dos dedos substitui os olhos.

- A busca, quer dizer, a primeira gentileza que te devo, terminou - diz o comissário. - Passemos à segunda. Max, tu não tens armas contigo. Não vieste portanto para me matar. Aliás, não o conseguirias. Podemos continuar. Mas não podemos falar imediatamente da chuva e do bom tempo. Conheces as leis. Deves saber, meu amigo, que a segunda pergunta após a busca não poderá relacionar-se com a tua saúde. Vamos pois ao essencial. Barricada, pergunto-te: evadiste-te?

- Não me evadi, senhor comissário - responde o gangster.

Está imóvel. Mas o suor corre-lhe ao longo do corpo como se estivesse debaixo do chuveiro. O gangster fala com palavras iguais entre si na sua sonoridade. Como são iguais entre si as pérolas de um colar.

- Fui libertado, senhor comissário - repete Maximilien Perahim. - Deixei as minas de sal de Targul-Ocna ontem de manhã. Viajei durante trinta horas. Passei todo o dia de ontem e toda a noite no comboio. Cheguei a Bucareste de madrugada, esta manhã, às cinco horas.

- Que fizeste desde as cinco horas até agora? - pergunta o comissário. - Viste os camaradas do teu meio? As tuas amantes? Os teus rivais? Regularizaste certas contas?

- Não, comissário - responde Barricada. - Não vi ninguém. Da estação fui directamente para o Hotel da Gare. lavei-me e barbeei-me. Depois vi pela janela, esperando pelas oito horas, a abertura dos armazéns da Calea Grivitzei. Às oito horas, desci e fui comprar o fato, a roupa e os sapatos que trago. Voltei ao hotel e subi ao meu quarto, no terceiro andar. Vesti-me. Depois apanhei o eléctrico, o 6, e vim directamente para aqui.

O gangster coloca em cima da secretária do comissário o certificado atestando a sua libertação. Coloca-o em cima do revólver, o revólver com o qual o comissário Catran abateu outrora Spartacus Perahim.

O comissário e os polícias olham para o certificado com os olhos esbugalhados. Todos os carimbos, todas as assinaturas estão em ordem.

Cumpri dez anos - explica Perahim.

Beneficio duma redução de dez anos da pena. Tenho ainda alguns anos a cumprir. Mas estou em liberdade condicional, por conduta excepcional.

É incrível! - exclama para si o comissário. - Um condenado que volta de Targul-Ocna, com um certificado de libertação em ordem, e pelas suas próprias pernas. é incrível e não te acredito. Não sou São Tomás, a quem bastava ver para crer. Sou um polícia. Verifico as coisas antes de acreditar nelas como um relojoeiro.

É natural - diz Perahim. - Verifique.

Joachim Catran liga o telefone para o Serviço de Identificação Judiciária. Confirmam-lhe que Perahim está realmente em liberdade, que todas as formalidades e verificações foram cumpridas.

O mistério permanece - diz o comissário. - Porque me vieste procurar?

Parece-lhe inverosímil que eu tenha vindo cumprimentá-lo? - pergunta Perahim. - Há dez anos, enquanto era torturado neste gabinete, eu dizia para comigo:

"Max, diz adeus à vida, não sairás vivo do gabinete do comissário Catran. Vais morrer aqui." Como vê saí vivo. é uma vitória que qualquer dos detidos interrogados por si nunca ousou desejar. Nunca. Eu voltei portanto ao seu gabinete para provar a mim próprio esta vitória incrível, è tudo.

- Saiam ! -ordena o comissário aos três guardas. - Já não preciso de vocês.

O gangster e o comissário ficam sozinhos no gabinete.

- Toma um cigarro - diz o comissário.

- Não fumo - responde o gangster.

- Eu sei o que tu queres - exclama o comissário. - Compreendi o que te trouxe ao meu gabinete. Tu saíste da prisão de forçados e queres trabalhar para a polícia? é uma boa ideia. Ao meu lado, irás longe. Depois da tua partida para a prisão de forçados, a tua lenda não fez senão tomar amplitude. és considerado como o último grande gangster vivo. O rei dos ladrões. Tu podes obter-nos informações que ninguém nos poderá fornecer. Eu pago caro todas as informações. Tu és o meu homem. Foi por isso que me vieste procurar, não é verdade?

- Não - responde Perahim. - Agradeço-lhe apesar de tudo. Não tenho necessidade disso. Lá, debaixo da terra, aprendi um ofício.

- O gangster Maximilien Perahim, conhecido por Barricada, ter-se-ia portanto tornado um artífice? - exclama o comissário. Ri às gargalhadas. - Não, é demais ! Não posso engolir essa.

- Sou um artífice - afirma Perahim. - Faço móveis. Nas minas era tudo sal, os tectos de sal, o chão de sal, as paredes de sal, a cama e a mesa talhadas no sal. Ao fim de um certo tempo, julguei enlouquecer. De repente comecei a sonhar, nos corredores subterrâneos, em todas as coisas que não eram de sal. Gostava sobretudo de sonhar com madeira. A madeira é o contrário do mineral, e foi por isso que me apaixonei por tudo o que é madeira. No dia em que consegui que me transferissem para a marcenaria, fui feliz. O meu amor pela madeira aumentou. Aprendi a conhecê-la e a trabalhá-la. Em alguns anos tornei-me mestre. Fabriquei móveis para todos os guardas, para o director e para os inspectores das prisões. Fiz móveis para o ministro da Justiça, para o palácio real. A minha fama aumentava. Foi graças a ela que fui libertado e que estou aqui neste momento.

Max Perahim acrescenta:

- Deixei as salinas com uma quantia de dinheiro bastante importante. Recebia um por cento sobre cada encomenda.

-Tu queres convencer-me de que para o futuro já não serás um gangster, mas um artífice? é difícil...

- Nunca mais serei gangster, comissário- diz Perahim. - Aquele que durante dez anos tomou as suas refeições com os mortos, nos corredores salgados do inferno, não tem senão um sonho: se voltar à superfície, nunca mais voltar para debaixo da terra. Nunca mais. É o meu único sonho.

- Se tu estás decidido a não voltar para a prisão de forçados, o meio mais seguro de realizares o teu sonho é trabalhares com a polícia - diz o comissário.

- Nem com a quadrilha de ladrões, nem com a polícia - responde Perahim. - Se tiver necessidade de um bonito móvel, pode-me chamar. Falo-ei com prazer. Mas não trabalharei para a polícia. O passado morreu.

- Perahim, escuta bem o que te vou dizer: tu tens o direito de recusar o meu oferecimento. Terás sempre necessidade da polícia. Quem bebeu, beberá. Quem foi gangster, continuará a sê-lo. Quem cometeu um crime, cometerá outros.

- O passado está morto - diz Perahim.

- Não cometerei mais erros. Tenho demasiado medo do inferno das salinas para entrar novamente no mau caminho.

- Existe uma lei implacável que diz que nunca se escapa ao que se tem medo. Tu tens medo da prisão de forçados? Pois bem, Perahim, voltarás para a prisão de forçados. Não te salvarás se não entrares para a polícia, assim estarás protegido. Sem a protecção da polícia, não haverá salvação.

Mas o gangster Maximilien Perahim recusa. Quer viver em paz, como um simples artífice, no bairro das Barricadas. O comissário-chefe Joachim Catran sente-se ofendido com esta recusa. No momento em que Perahim abandona o gabinete o polícia diz-lhe:

- Os teus camaradas afirmaram antes de morrer que o último tráfico de droga rendera vinte e quatro milhões, e que estes milhões só tu sabes onde se encontram. Foste tu quem os escondeu. Voltaremos a falar nisso... A polícia tem o dever de os descobrir.

- Ignoro tudo acerca desses milhões - responde Perahim.

Sai da Prefeitura.

Os seus sonhos de vida pacífica começam a turvar-se. Dirige-se contudo directamente para casa, onde o espera Mama Mica, sua mãe.

 

PORQUE não vieste directamente para casa? Depois de dez anos de ausência ! Desceste do comboio e os teus primeiros passos não foram para mim, tua mãe!

A mãe do gangster tem os cabelos brancos. O seu corpo miúdo e magro está vestido de preto, de gola subida, e mangas compridas. Um vestido monacal. Tem os cotovelos em cima da mesa e apoia a cabeça branca nas mãos. Está sentada em frente do filho. As lágrimas caem-lhe em cima do oleado branco, em cima do pão escuro, em cima dos pratos brancos. Olha para o filho com o seu fato novo, a cabeça rapada e as faces macilentas como a cera e cobertas de cicatrizes.

O coração de Mama Mica quebra-se de piedade enquanto observa o filho tão magro e tão triste. Mas não se pode impedir de o censurar por ter tomado outro caminho antes de se dirigir a casa.

Maximilien Perahim permanece imóvel diante da mãe, como permaneceu imóvel no gabinete do comissário Joachim Catran, quando as oito mãos dos polícias lhe apalparam os músculos, as articulações, quando lhe penetraram em todos os orifícios do seu corpo, debaixo dos sovacos, entre as pernas. Em dez anos de prisão de forçados aprendeu a ficar imóvel. A imobilidade e a paciência são as duas primeiras coisas que se aprendem na prisão. Aquele que as não aprende está perdido.

- Responde. Como tiveste coragem, Max, meu querido filho, de te ocupares de outras coisas antes de te dirigires a casa? - pergunta novamente Mama Mica.? - É uma hora. A que horas chegaste à cidade?

- Disse-to, Mama Mica - responde Perahim. - Cheguei às cinco horas, esta manhã.

- Às cinco horas da manhã ! - repete Mama Mica a chorar. - E foste primeiro ao hotel, depois à polícia ! Porquê? Tinhas ordem de te apresentar na polícia dentro das vinte e quatro horas que se seguiam à tua chegada, mas não estava especificado que devias ir à polícia antes de ver a tua mãe, que não vês há dez anos, Max, porque fizeste isso?

Mica Perahim chora.

- O teu pai fez a mesma coisa - diz a mãe do gangster. - O pobre Spartacus sabia que o esperava em casa, a chorar, a tremer. E contudo, ao sair da prisão, ia primeiramente a casa dos camaradas, ao sindicato, ao círculo. Os seus camaradas festejavam-no. Ele deixava-se festejar. E vinha tarde para casa. Eu era a última pessoa que ele via, eu, que o esperava com a maior impaciência. E tu fizeste a mesma coisa, Max, meu querido filho. Porquê? Porque não vieste directamente para casa?

- Peço-te perdão, mãezinha - diz o gangster.

- Spartacus, o teu pai, dizia a mesma coisa. Exactamente como tu: "Perdoa-me, Mica". Se tu soubesses como o esperava! Eu levava-lhe roupa, provisões, livros, revistas, todas as semanas à prisão. Num cesto. E quando ele saía não vinha directamente para casa. Exactamente como tu hoje...

- Desejaria ter-te apertado nos meus braços, Mama Mica, mas não o queria fazer antes de estar completamente livre - diz Max. - E para isso precisava de ter no meu certificado os carimbos da Polícia Judiciária.

Perahim levanta-se. Abraça a mãe. Fá-la sentar-se nos seus joelhos. Acaricia-lhe os cabelos brancos. O corpo de Mama Mica é leve, franzino, imaterial. Ela sente-se frágil, fraca, contra o peito do filho. As lágrimas de Mama Mica caem no peito do gangster, seu filho. Ele sente-as na sua camisa. Escaldantes. Ele sente a respiração da mãe contra o seu peito. Sente-lhe o calor do rosto, colado contra a sua pele. Perahim sente as faces da mãe mais quentes que o cigarro com que os polícias lhe queimaram a pele do peito. São faces de mãe, lágrimas de mãe, a respiração de uma mãe. A água a ferver que os polícias lhe despejaram nas costas e que lhe fez largar a pele aos pedaços, aquela água não estava mais quente.

- Coragem, Mama Mica - diz Perahim.

- Agora estou ao pé de ti. Nunca mais voltarei a partir. Estaremos sempre juntos até à morte. Só os dois. Felizes, Mama Mica, minha mãezinha.

Ela agarra-se a ele cada vez com mais força, aconchegando-se-lhe ao peito. Ela prossegue:

- O teu pai dizia a mesma coisa. Depois fazia o contrário. Em oito anos de casado, o pobre Spartacus passou cinco anos longe de mim. Na prisão, na fortaleza, nas colónias de forçados, nos campos. O resto do tempo, quando estava livre, passava-o com os sindicalistas, com os camaradas, com os operários, nos comícios, nas greves. Até ao dia em que a polícia o matou nas barricadas, no dia em que fiquei viúva, só contigo. Depois, tu também, perdi-te.

- A partir de agora nunca mais nos separaremos. Nem mesmo uma hora - diz Max.

Apertou a mãe nos seus braços. Mama Mica sente com o seu rosto, através da camisa, as cicatrizes como nozes, no peito do filho. Ela sente-as com o seu rosto de mãe. Spartacus também tinha cicatrizes. Os vestígios de ferimentos feitos pela polícia. Ela não faz perguntas mas encosta a sua face às cicatrizes e chora.

- Porque te foste lavar e mudar de roupa ao hotel? - pergunta Mama Mica.

- Diz-me, Max, meu filho, di-lo a mim que te espero há dez anos, não podias ter vindo lavar-te a casa? Tomaste um banho no hotel. Barbeaste-te no hotel. Esperaste no hotel que dessem as oito horas e que os armazéns abrissem e foste, sozinho, comprar a roupa, os sapatos, o fato. E voltaste ao hotel para te vestires. Diz-me, Max, existe coração mais duro? Não podias ter vindo a casa? Tu sabias, Max, que eu te esperava há dez anos, noite e dia, minuto após minuto. Eu, a tua mãe, que te esperava para aquecer a água com a qual te lavarias, para te dar uma camisa lavada, para escovar os teus fatos. Tu sabia-lo. E contudo foste para o hotel. Perdoo-te tudo. Mas isto, não posso, Max. Jamais.

- Não sabia que te zangarias - diz Max.

- Além disso, eu queria apresentar-me lavado e bonito diante de ti. Não em farrapos, como me libertaram. Compreendes-me? Foi também por amor que eu agi assim. Por amor para contigo.

As lágrimas de Mama Mica são agora demasiado ardentes para as poder conter. Foi traída por seu filho. O gangster não pode imaginar de que grande alegria privou sua mãe ao dirigir-se ao hotel. com que ternura não o teria ela tratado ! Teria aquecido a água. Na grande selha. E tê-lo-ia lavado como quando era criança. Tê-lo-ia visto barbear-se. Ter-lhe-ia dado as maiores toalhas da casa para se enxugar. Como teria sido feliz ao sentir o seu cheiro, que teria encontrado por toda a parte: nas toalhas com que se teria enxugado. Na sua velha camisa. No seu chapéu. Em toda a casa. As narinas maternas tê-lo-iam sentido por toda a parte. Mas ele foi para o hotel.

Ela chora, inconsolável. Traída.

-Perdoa-me, Mama Mica. A culpa é minha.

Beija-lhe novamente os cabelos brancos.

Acaricia-lhe os ombros.

Ela permanece docilmente nos seus braços.

O gangster Max Perahim tem lágrimas nos olhos, lágrimas de gangster. Ele chora, ele, o filho de Barricada que foi abatido a tiro porque desejara para os operários pão, luz e descanso. Chora como seu pai.

 

DEPOIS das censuras, vem a reconciliação. Mama Mica esquece as ofensas cometidas pelo filho. O relógio de cuco bate duas horas. O gangster está à mesa. Em frente dele Mama Mica está feliz. Não se cansa de o olhar.

Avista-se à janela a corda para secar a roupa. Mama Mica Perahim lava diariamente, com as suas pequenas mãos, dezenas de quilos de roupa que estende em seguida nesta corda. A sua existência consiste principalmente na lavagem de roupa. A casa Perahim é uma lavandaria. Viveram unicamente da lavagem de roupa. O pai do gangster, Spartacus Perahim, passava a maior parte do tempo na prisão, e quando não estava preso, andava, com os camaradas de combate, em digressão de propaganda.

Durante este tempo Mama Mica Perahim lavava os ricos. Lavava-lhes a roupa. E estendia-a nesta corda. Era o seu único ganha-pão. Mama Mica alimentava o marido e o filho.

- De hoje em diante, não lavarás mais roupa - diz Max. - Vou desprender a corda. A partir de agora vais descansar. Serei eu quem ganhará o dinheiro.

- Max - diz Mama Mica olhando para ele-, meu querido filho...

- Diz o que tens a dizer, mãezinha.

- Max, tenho medo. Suplico-te que tenhas cuidado, muito cuidado. Livra-te de cometeres a menor falta. A mais pequena falta, uma asneira que normalmente não teria qualquer importância, poderá ser-te fatal. Conduzir-te-á de novo à prisão de forçados, debaixo da terra. E desta vez para sempre. Irrevogàvelmente. Nada de asneiras, Max !

- Prometo-te, mãezinha - diz ele.

- A liberdade condicional de que gozas é mais terrível que a prisão. Vários camaradas de teu pai passaram por lá. Levavam uma vida infernal. Olha, Max, a liberdade condicional volatiza-se de um só golpe como o éter sem que te apercebas que a perdes. Por um nada. Toma cautela, muita cautela. Porque se te acontecesse alguma desgraça, eu morreria. Não posso sofrer mais. Já sofri demasiado. Agora a taça está cheia. Cheia.

- Não te preocupes - diz o gangster. - Ninguém me ultrapassará em matéria de virtude. Como nunca ninguém ultrapassou meu pai na sua sede de liberdade. Renunciei à liberdade. Ela custa muito caro. Renunciei à liberdade como se renuncia ao casamento.

- Eu sei-o e acredito-te - diz Mama Mica. - O teu pai era assim. Spartacus, que a terra lhe seja leve, não conhecia, também, senão o branco e o preto. Unicamente duas cores. Só os extremos. Nada de cambiantes. Conhecia unicamente o "sim" e o (não". Eis o que eu creio. Mas sei que um dia te afastarás de mim. E então, estarás em perigo.

- Nunca me afastarei de ti, Mama Mica. Nunca.

- Um dia encontrarás uma mulher e irás com ela, é natural.

- Não irei com ela. Nunca nenhuma mulher me afastará daqui. Voltei da prisão de forçados. Do inferno mineral. Do inferno do sal. Ali aprendi a renunciar a tudo o que é a vida. Renunciei às mulheres. A única mulher da minha vida, és tu, e tu ficarás. Não sabia que poderia renunciar ao amor, às mulheres, eu que vivi sempre entre elas. Ao princípio, é certo, foi-me terrivelmente difícil. Mas os forçados aprendem a renunciar, os forçados e os frades. O principal é renunciar em espírito. Nunca mais pensar nas mulheres. é tudo. Doravante nenhuma mulher entrará na minha vida.

Max Perahim sai para a varanda e observa o pátio cheio de erva, de árvores, de bosqueAnhos, e de centenas de metros de corda de estendal.

A casa Perahim encontra-se nos subúrbios ao norte de Bucareste, a uma hora da estação. Um subúrbio é como uma baía, onde as águas salgadas do mar se misturam com as águas doces da ribeira. Num subúrbio a cidade confunde-se com a aldeia.

Mica Perahim possui uma casa campestre. No seu jardim cultiva cebolas, milho, feijão, flores, exactamente como no campo. Mas no ar pairam os fumos das fábricas, o ruído das buzinas, e a escuridão das noites é rasgada pelas lâmpadas de néon dos reclamos vizinhos. O bairro não tem passeios, como na aldeia. Mas os homens que passam nestas ruas sem passeios usam sapatos de cidade.

- Tu és a única pessoa que conta ainda para mim - diz à mãe o gangster que olha para as roseiras trepando pela parede branca da sua casa. - Hoje mesmo vou deitar fora estas cordas de infelicidade. Acabou-se lavar os ricos, acabou-se fazer barrela aos outros. A partir de hoje serás uma senhora. vou demolir o lavadoiro. Na casa de lavagens instalarei uma oficina. Fabricarei móveis de luxo. Ninguém em toda a Roménia é capaz de fabricar móveis como os meus. O rei possui uma dezena deles. O ministro da Justiça orgulha-se de ter móveis feitos por mim, e também o ministro da Segurança. Foi por causa da beleza dos meus móveis que eles me libertaram. Ele aperta a mãe contra o peito.

- Gostaria bastante de ver um móvel feito por ti - diz Mama Mica.

Ela nunca viu o filho trabalhar. Ele nunca executara um trabalho manual.

Nunca. - difícil, mãezinha - diz Max. - Os móveis que eu faço são-me comprados antes mesmo de estarem acabados, como peças de museu. Para ver os móveis que eu fiz, era preciso que fosses ao Palácio Real, a casa dos ministros ou a casa dos milionários. Mas, sabes? Já não é preciso ir aos estranhos. O primeiro objecto em que trabalharei aqui, no nosso quintal, em liberdade, será uma cama para ti, uma cama como só as rainhas possuem. com colunas de madeira esculpida. A madeira que eu pulo fica bonita como o âmbar, como o bronze, como o ouro, e tudo assim brilhante. Não se acredita que seja madeira. Tem a cor do mel, e brilha como cristal, e é quase transparente. Parecer-te-á ver até no seu coração as fibras de vida da madeira. As nervuras, como artérias. A tua cama será mais bonita que a cama das rainhas. O meu pai não te amou, não é verdade?

- Spartacus amou-me muito -? diz Mama Mica. -Ele agarrava-me pelos ombros como tu neste momento. Sentava-me nos joelhos e falava-me exactamente como tu. Todas as vezes que saía da prisão, falava-me assim, com ternura, e também quando lhe acontecia uma desgraça. Jurava-me que me tornaria feliz. Jurava-me fidelidade. Amava-me verdadeiramente. Mas ao mesmo tempo amava a justiça e a verdade. Amava os homens, todos os que sofrem. Foi por isso que Spartacus morreu. Ele era despedido constantemente por causa da sua luta pela justiça. Andava sempre desempregado. Os patrões não gostavam dele. A polícia prendia-o regularmente, todas as vezes que ele falava aos operários do seu direito à liberdade, ao descanso e ao pão. Fechavam-no nas caves de betão da Prefeitura da Polícia, esmagavam-lhe os ossos e torturavam-no. Mas ele amava-nos, a ti e a mim. Somente, não nos podia assegurar o nosso pão diário. O pão quotidiano era eu que o ganhava, lavando os ricos. Ele sofria terrivelmente por não nos poder sustentar. Morreu nas barricadas, sem ter podido realizar este sonho, o sonho de toda a sua vida.

- Se os mortos podem ver o que se passa na terra, então meu pai vê-te do céu, e vê-te feliz - diz Max.

Ele enxuga com o seu lenço vermelho as lágrimas que correm pelas faces da mãe.

- Levar-te-ei todos os domingos a passear de automóvel. Iremos um ao pé do outro, num automóvel descoberto. Atravessaremos o centro de Bucareste, Calea Victoriei, passaremos em frente do palácio real. Andaremos de comboio, em primeira classe, e levar-te-ei ao mar. Nem tu nem eu nunca vimos o mar. Ali seremos felizes. Depois, de comboio, iremos à montanha, treparemos até aos cumes, onde há vento. Só viverei para ti. Comprar-te-ei vestidos caros e macios, de veludo, de seda, e saias finas, como só usam as mulheres ricas. No céu, o meu pai será feliz e orgulhoso, terá orgulho de nós. Ele regozijar-se-á quando eu te levar ao cinema, às pastelarias, e quando nos vir um ao pé do outro, a comer gelados e bolos. Meu pai será feliz como se estivesse vingado. E todos os camaradas de meu pai, mortos pela polícia, ficarão contentes.

- Max, queria pedir-te uma coisa: não me mates !

- Eu, matar-te? - pergunta o gangster.

- Como é que um tal pensamento te pode atravessar o espírito no momento em que te falo de felicidade?

- Se a polícia te prende mais uma vez, morrerei - diz Mama Mica. - Já não poderei suportar mais. Se a polícia te afastar mais uma vez de mim, deixarei de viver. Passei a minha vida sozinha, por causa da polícia, longe de meu marido, longe de ti, que desde a idade de catorze anos só viveste em cafés e em hotéis. Depois partiste para a prisão de forçados. Esperei-te, tanto como pode esperar uma esposa e uma mãe. Já não posso esperar mais. Já não quero ficar sozinha. Uma nova partida e será como se assassinasses a tua própria mãe. Compreendes-me: se te afastas de mim, morro. Morro.

- Nunca mais me irei embora - diz Max.

Ele acaricia-lhe meigamente o ombro.

- Não esqueças que basta um pretexto, uma bagatela, para que a polícia te leve de novo. E para que te encerre na prisão de forçados, até ao fim dos teus dias.

- Mãezinha, se eu ficar ao pé de ti, não poderei cometer falta alguma. A partir de hoje, serás o meu anjo da guarda. Aprendi a ser puro. é unicamente na prisão de forçados e no convento que se aprende a ser puro.

O gangster Maximilien Perahim, conhecido por Barricada, adormeceu naquela noite na casa paterna, sob o olhar de sua mãe.

Quando acordou, Mama Mica estava junto dele, com o seu vestido preto, os seus cabelos brancos, com a bandeja do pequeno almoço e com um sorriso nos lábios, um sorriso semelhante a uma rosa.

- Se tu me abandonas de novo, agora que voltaste, seria como se me matasses com a tua própria mão - diz ela. - Não me mates. Não mates a tua mãe.

- Tu és a flor da minha vida, tu és a minha rosa, mãezinha - diz o gangster.

Ele beija a testa branca estriada de rugas finas como rugas de seda.

O sol salpica de oiro todo o bairro das Barricadas.

 

HÁ três semanas que o gangster Maximilien Perahim, conhecido por Barricada, o rei dos ladrões, está de volta a Bucareste. A polícia regista todas as semanas a sua presença e põe-lhe o carimbo no certificado de libertação, como é costume fazer-se quando se trata de um forçado em liberdade condicional. Por fora dos serviços da Polícia Judiciária há alguém que se ocupa muito particularmente de Perahim: é o comissário Joachim Catran. Colocou informadores por toda a parte. Coloca todos os dias agentes provocadores e indicadores no caminho de Perahim. Mas todas as informações relativas ao gangster desde o seu regresso ao bairro natal, o bairro das Barricadas, são excelentes.

O comissário Catran não acredita contudo na conversão do gangster. De qualquer gangster. Espera que Perahim dê um mau passo. Enerva-se todas as vezes que os seus informadores lhe dizem que a conduta de Perahim é exemplar.

- Max demoliu no quintal o lavadoiro de sua mãe - diz o inspector. -Vi com os meus olhos as novas instalações. No lugar da casa de lavagens há uma oficina de marcenaria, equipada com os mais modernos aparelhos. Tudo trabalha por electricidade. Ele mandou vir materiais. Trabalha !

- E dinheiro? - pergunta o comissário Catran. - Onde é que Perahim arranja o dinheiro? È preciso vigiar isso. O último negócio do bando de Perahim rendeu-lhe vinte e quatro milhões. Compreendes? Ele tem esse dinheiro. Ele acabará por o gastar e então saltamos-lhe em cima. Ele esconde-o. Não me enrola. Não lhe tires os olhos de cima.

- Ele tem encomendas desde a sua permanência na prisão de forçados. Encomendas bastante importantes. Mesmo que ele possua esses vinte e quatro milhões, não tem pressa de lhes tocar. Ele tem dinheiro.

- E o tráfico de drogas, de mulheres, de álcool, de armas? - pergunta o comissário. - Aquele que traficou para ter dinheiro, recomeçará. O tráfico é como o jogo. Não lhe tires os olhos de cima. Todos os encontros com os seus antigos camaradas devem ser controlados.

- Os antigos camaradas de Max já tentaram procurá-lo. Impossível. Barricada não quer saber de nada. Depois da sua saída da prisão só bebe água. Nem um aperitivo, nem um copo de vinho. Não pôs os pés num bar, não entrou num hotel nem numa boite. Não tocou numa mulher. Vive com a mãe que o amima como uma criança. Passeiam juntos, de mãos dadas.

- O gangster está em convalescença - diz o comissário. - Recompõe-se, a fim de causar mais admiração. Prepara certamente um golpe retumbante. Um gangster é feito para praticar maus golpes, como a macieira para dar maçãs e como a roseira para dar rosas.

- Nós vigiamos - diz o inspector. Temos indicadores em todas as casas do seu bairro. Temos centenas deles no bairro das Barricadas. O gangster não vê ninguém, é regrado.

O comissário Joachim Catran não possui qualquer indício, qualquer fundamento material para justificar a sua desconfiança. Mas ele não trabalha com o cérebro, trabalha unicamente segundo o seu instinto e segundo a sua experiência.

- Prestem atenção, rapazes - diz para os inspectores. - Considero-os responsáveis.

Eu sei que Perahim tentará um golpe. Não devem fechar os olhos.

- Um mau golpe prepara-se com cúmplices- responde o inspector. - Ele não tem relações com ninguém. No dia em que isso acontecer sabê-lo-emos.

- é possível que ele não tenha qualquer contacto com o seu bando - diz o comissário. - Desde o momento que o verificaram, acredito. Mas isso não durará. Barricada trama um golpe escuro. é o tipo clássico do gangster: pai sindicalista morto nas barricadas, mãe lavadeira que entra em todas as casas burguesas, vive no bairro mais mal afamado de Bucareste. Dez anos de prisão de forçados. È um tipo de uma vontade sem igual. Acreditam que um gangster da sua têmpera aguentou o golpe durante dez anos, na prisão de forçados, para viver como um empregado bancário? Não! Para sair vivo da prisão de forçados é preciso ter uma fé muito dura, mais sólida que o granito. Barricada saiu da prisão de forçados para se vingar. Vocês verão. Julgam que um gangster pode viver como um burguês?

- é preciso admiti-lo - diz o inspector.

- Perahim vive burguesmente.

- Aparências! - diz o comissário. - Um gangster não pode viver na quietude como um peixe não pode viver fora de água. A sede de tranquilidade e de vida burguesa não pode tirar um gangster da prisão de forçados. é-lhe necessário um móbil mais poderoso: a sede de vingança, por exemplo. Por consequência, estejam vigilantes.

Os três inspectores sorriem com cepticismo. Consideram a desconfiança do chefe como um indício de velhice.

- Não riam - diz Joachim Catran. - Estou velho, mas não amolecido. Um dia encontrar-se-ão com três, quatro ou cinco cadáveres assinados Maximilien Perahim. Mas será muito tarde.

- Perahim só vê praticamente a mãe - diz o inspector.

- Que informações têm vocês a respeito da mãe do gangster? - pergunta o comissário. - é preciso vigiá-la a mesmo título que o filho.

- Essa mulher é uma santa, chefe. -Uma santa? - pergunta o comissário.

- Uma santa? Ainda é pior para ela! Se a mãe de um gangster é uma santa, então é que o bom Deus pouco protege os seus santos. Tanto pior para ela. é uma mulher que não tem sorte. O marido foi um revolucionário e um anarquista. O filho é um gangster. é duro para uma santa! Deus não protege os seus eleitos. Absolutamente nada. Deus não lhes oferece verdadeiramente regime de protecção !

- A mãe do gangster é feliz - diz o inspector.

- Feliz? - exclama o comissário. Enerva-se.

- Asseguro-lhe, chefe! Depois do regresso do filho, ela é feliz. Todo o bairro das barricadas é testemunha disso. Acontece-lhe por vezes chorar de alegria ao contar aos vizinhos como é feliz com o filho.

- é possível - diz o comissário. - é possível que seja feliz por agora. Mas o filho matá-la-á. é impossível que ele não a mate. Está na ordem das coisas.

- Desta vez, chefe, decididamente exagera - diz o inspector.

- Não exagero absolutamente nada - diz o comissário. - Vocês estudaram Direito. Eu só tenho a instrução primária. Mas em matéria de polícia ninguém me pode suplantar. Neste campo sou mestre. E digo-vos que Perahim matará a mãe. Matá-la-á porque é um gangster. Um gangster mata aqueles que o rodeiam. E como, à volta dele, só há a mãe, ele matá-la-á.

Os inspectores sorriem.

- Verão! é apenas uma questão de tempo. Passei toda a minha existência na polícia. Sei como as coisas se passam. Um gangster deve ser abatido. Se nós, os polícias, não o liquidamos, ele fará uma desgraça. No caso presente, ele matará a mãe. Podem ir-se embora. Mas não se esqueçam das minhas palavras: a falta diz-nos respeito, porque não exterminámos o gangster a título preventivo, antes que ele tivesse cometido novos crimes. A verdadeira polícia é preventiva... Podem sair.

 

- HÁ três semanas que estás em liberdade, Max, meu amor, e não me foste ver! Nem mesmo procuraste se eu ainda existia...

A mulher que acaba de entrar no quintal de Maximilien Perahim e que, encostada à parede guarnecida de roseiras trepadeiras, lhe faz estas censuras, é morena, alta, delgada, elegante e muito bonita. Chama-se Rosa Clima. Tem vinte e seis anos, mas no seu vestido de seda natural parece ter mais. Rosa é a mais bonita cortesã de Bucareste, e a mais cara. Está vestida com gosto. É a "Rainha do Asfalto". Inteligente, apaixonada, foi amante de Maximilien Perahim no tempo em que ele era o rei dos ladrões.

Quando Perahim foi capturado pela polícia e enviado para a prisão de forçados, Rosa Clima ainda não tinha feito dezasseis anos.

Ela aproxima-se do gangster e envolve-lhe os ombros com os seus dois braços compridos e leves como cipós. Fixa-o nos olhos e diz-lhe:

- Max, lembras-te do dia em que foste preso? Cheguei à polícia antes de ti. Levei-te roupa, provisões, uma pomada para as tuas feridas, fatos. Depois continuei. Todos os dias ia ver-te. Não me consentiram que te visitasse. Mas estava presente. Corri os advogados. Reuni fundos para o teu processo. Encontrei jornalistas. Mobilizei todos os camaradas de teu pai como testemunhas de defesa. Durante o processo fui sempre a primeira a chegar à sala. Depois fui todos os meses, durante dez anos, à prisão de forçados. Esperei diante das grades com o meu cesto e os meus embrulhos para ti, durante dias e dias, sob temperaturas de menos de quarenta graus com a neve até à cintura. Porque te amo, Max . E agora que te encontras livre, nem mesmo te preocupas em saber se eu ainda existo! Nem onde moro. E não tens intenção de me ver. Em três semanas de liberdade não tiveste um pensamento para mim, que durante dez anos não te abandonei um só instante. Sabes como tive conhecimento da tua libertação?

- Não - responde Max.

- Fui ontem a Targul-Ocna, como o fiz durante dez anos. Levava-te provisões e roupas. Os guardas disseram-me que estavas livre há três semanas, que tinhas voltado para casa. Ao princípio julguei que eles te haviam matado. Julguei que enlouquecia. A polícia confirmou-me que estavas realmente livre, em tua casa, no teu antigo domicílio, junto de tua mãe. Não podia acreditar. Como pudeste passar sem me dares um sinal de vida?

Rosa deixa-se cair numa cadeira no pequeno jardim onde crescem flores campestres.

- Nunca poderia imaginar tal coisa! Sofri todas as espécies de humilhações, mas nenhuma mulher sofreu uma humilhação igual à que acabas de me infligir!

Rosa soluça, agora. As lágrimas molham-lhe as faces empoadas, as pestanas perfumadas. Um odor penetrante de carne de mulher e de perfume enche o jardim. Max Perahim está perturbado. está perto de Rosa. Este odor - de lágrimas, perfume, carne de mulher - é o aroma do passado. Toda a sua vida, até aos vinte anos, idade em que entrou na prisão de forçados, tinha este cheiro, o cheiro de Rosa Clima, o perfume desta mulher que sacrificou dez anos da sua vida por ele, que nem sequer a foi ver.

- Amei-te, Max. Eu, a puta, amei-te sem esperar recompensa por este amor. Nunca pensei que fosses libertado. Julgava que morrerias na prisão de forçados, que já não te apertaria nos meus braços. E apesar disso, amava-te, apaixonadamente. Só a ti e cada vez mais. Amava-te sem ilusões, com um amor puro como o fogo. Mas voltas para casa e nem sequer me procuras ! Já não posso mais... Porquê esta ofensa que qualquer mulher não suportaria? Porquê justamente a mim?

- Depois de ter deixado a prisão não vi ninguém, Rosa - diz Max. - A minha mãe é testemunha disso. Não saí de ao pé dela. Não vi absolutamente ninguém.

- Eu não sou qualquer pessoa - diz Rosa a chorar. - Se há alguém para casa de quem devias ter corrido, para quem devias ter dirigido os teus primeiros passos de homem livre, era eu!

Rosa encontra o olhar carregado de censuras de Mama Mica.

- Não fui a parte alguma - repete o gangster. - Absolutamente a parte alguma.

- Como, a parte alguma? – exclama Rosa Clima. - E aqui, não será lado algum?

- Aqui é a casa de minha mãe - diz o gangster.

- Era a minha casa que devias ir, não a casa de tua mãe - exclama Rosa a chorar. - Tua mãe, que me desculpe de lho dizer, não foi uma mãe para ti. Quando a polícia te prendeu, resignou-se. Esqueceu-te, como se já não existisses. Quando te conduziram à prisão de forçados, ela considerou-te como morto. Só eu continuei a pensar em ti como um ser vivo, e vivi para ti. Tua mãe não foi todos os dias à polícia. Não correu aos advogados. Não amotinou a Imprensa. Ela não estava na primeira fila, em todas as sessões do tribunal. Não fez peditórios para ti. Não fez todos os meses, durante dez anos, trinta horas de comboio para te ir levar provisões à prisão e respirar o ar que tu respiravas. A tua mãe nada fez por ti. Fui eu que tudo fiz. E, contudo, foi para junto dela que voltaste, não para junto de mim. A mim, nem me disseste bom dia. Nada.

Mama Mica chora.

- Porque choras? - pergunta Rosa. - Eu disse a verdade. Tu não foste uma mãe para ele. Eu fui a mãe, a amante, o advogado, a irmã, tudo. E ele nem sequer me procurou...

- Eu procedi mal - diz Mama Mica. - Mas não foi por falta de amor para com Max, meu filho. Não! Meu marido, Spartacus, o pai de Max, proibiu-me de ir à prisão quando ele estava preso. Proibiu-me de procurar os advogados, de ir à polícia. Ordenou-me que ficasse em casa, para que nada fizesse. Quando Max foi preso, julguei, assim como Spartacus mo ordenara não havia muito, que eu nada devia tentar, que devia ficar em minha casa e esperar.

Mama Mica chora. Ela acrescenta:

- Mas não abandonei Max, o meu filho ! Isso não!

- Tu não o abandonaste, mas nada fizeste por ele. Eu, pelo contrário, fiz tudo o que uma mulher pode fazer pelo homem que ama. Embora soubesse que ele nunca voltaria das salinas subterrâneas, porque das salinas ninguém volta. Eu agia desinteressada.

- Rosa, minha Rosinha - diz Max pousando o seu braço no ombro da mulher-, nunca esquecerei o que fizeste.

- Então porque não me procuraste?

- Por medo, Rosa - diz o gangster. - Tu sabes que estou em liberdade condicional. Ao menor deslize, por uma falta ínfima, sem qualquer julgamento e sem qualquer direito de apelo, serei novamente vestido com fato de riscas, acorrentam-me as mãos e os pés e atiram-me para o inferno do sal... Tenho medo. Não desejo voltar a ter relações com o meu passado.

- Eu sou portanto o passado? - pergunta Rosa.

- Sim - responde o gangster.

Ele aspira o perfume de Rosa. O aroma do seu pó-de-arroz. Da sua brilhantina. Da sua carne. Está perturbado.

- Eu sei que perco o meu equilíbrio e que caio no inferno do sal se me volto a ligar ao passado. O passado é o álcool, os espelhos, as mulheres bonitas, os veludos, a prata, o perfume. Para resistir a estas terríveis tentações, é preciso que eu me mantenha longe delas. E longe de ti. Perdoa-me. Tenho de renunciar. Tenho bastante medo do inferno. Tomei as minhas refeições à mesa dos mortos, debaixo da terra, durante dez anos. Aquele que viveu ali, onde eu vivi, nunca esquece. Antes a morte.

- Portanto abandonas-me? - pergunta Rosa Clima.

- Não te abandono, minha Rosinha, minha bem amada, mas mantenho-me longe de ti.

- Arranjarás portanto outra amante? pergunta Rosa. - Ou talvez já a tenhas? Uma amante que não te lembre o passado? Que te defenda contra uma nova queda?

- Nunca terei outra amante - diz Max Perahim. - Juro-te, Rosa, que te serei fiel até à morte.

- Fiel, mas de longe - diz ela com desprezo. - Sou abandonada com juramento de fidelidade.

Mama Mica retira-se discretamente. Rosa e Max ficam sós.

- Toma-me nos teus braços e aperta-me com força, Max - diz Rosa. - Ela aproxima-se do gangster, flexível como uma onda. - Aperta-me nos teus braços... Esperei-te durante dez anos. Dez anos.

- Não - diz Max Perahim.

Está terrivelmente perturbado. Entra na oficina. Este cheiro de mulher atormenta-o. Despendeu anos de energia a forjar uma vontade, mas bastou a presença de Rosa para que todo o projecto seja destruído. Procura encorajar-se. Volta para o quintal. Aproxima-se de Rosa e diz-lhe:

- Lamento, mas tudo acabou entre nós. Não voltes mais aqui, peço-te. Entre nós tudo acabou.

- Que crime pode haver em apertares nos teus braços uma mulher que te ama e que te espera há dez anos? - pergunta Rosa. - Porque me humilhas assim?

- Rosa, a virtude é feita de pequenas coisas. Que crime comete um fiel ao beber um copo de leite na Sexta-Feira Santa? Nenhum, aparentemente. Mas ao fazê-lo, ele abandona o caminho do Paraíso. A virtude é feita de pequenos maquinismos, como um relógio... Sem qualquer valor aparente. Mas que, juntos, dão a hora da justiça. Da verdade. Adeus, Rosa. Se me amas verdadeiramente, não voltes mais. Posso ajudar-te, dar-te dinheiro, mas entre nós, tudo acabou. E ninguém ocupará o teu lugar. Ficarei sempre só. Não tens substituta.

- Assim, Max, abandonas-me para evitares o regresso às salinas?

- Exactamente - diz o gangster.

- Max, se imaginas que salvarás a tua liberdade calcando com os pés o meu amor de mulher e os meus dez anos de sacrifícios, enganas-te! Ninguém se pode salvar espezinhando como um brinquedo o coração de uma mulher. Isto paga-se. Na eternidade. Tanto na terra como no céu.

Serás punido com o castigo q mais receias: voltarás para a prisão de forçados.

Rosa começa a tossir.

- Foi por esperar, em Targul-Ocna, no Inverno, na neve, que apanhei esta tosse. Dura há dois anos. Foi ainda por tua causa.

- Perdoa-me, Rosa.

- Não há perdão para aquele que troça do coração duma mulher.

Rosa põe pó-de-arroz e bâton nos lábios. À saída, antes de bater com a porta, diz:

- Se o teu medo da prisão de forçados é tão grande que te impele a abandonar-me, a amachucar-me, Max, meu bem amado, fica sabendo que ninguém escapa ao que receia. Tens medo da prisão? Voltarás para lá. é a lei. Não escaparás a ela. Nada ganhaste em abandonar-me. É mais um crime e nada mais.

- Nunca voltarei para a prisão, morrerei, mas nunca mais voltarei para lá ! - diz Max.

Ele treme, mas agora é de medo. As ameaças de Rosa perturbaram-no, até ao mais fundo do coração.

 

DECORREU uma semana depois da visita de Rosa Clima. Ela tentou voltar a ver o gangster. Ele escondeu-se. Não recebe ninguém. Mama Mica defende o filho contra todos os visitantes.

Esta noite, contudo, ela traz alguém: é o padre Nicolas Religia, cura do bairro das Barricadas.

- Recebe-o, peço-te - suplica Mama Mica. - Será um pecado recusar. É o padre mais infeliz de Bucareste. Não tem um fiel. Todos os habitantes do bairro das Barricadas são ateus, como teu pai.

- Ele deve procurar uma outra paróquia - diz o gangster.

- é preciso que ele fique, o pobre padre, onde os superiores o colocaram. Mas nunca tem ninguém na sua igreja. Diz missa para as paredes. Por vezes, nós, mulheres, vamos ali às escondidas e pedimos-lhe para baptizar os nossos filhos ou para nos confessar, sem o saberem os homens e os outros habitantes do bairro. Tu também foste baptizado clandestinamente. Ninguém o soube.

- Tu crês em Deus, Mama Mica? pergunta o gangster.

-Nada sei acerca dEle - responde Mama Mica. - Mas creio nEle. Nós, mulheres, somos medrosas. Gostaria bastante que recebesses o padre Nicolas.

Perahim cede. Seguido de Mama Mica, o jovem padre, alto, moreno e magro, entra na oficina.

O gangster estremece: desde que deixou as salinas que não via uma cabeça como a do padre. Porque a cabeça do padre é exactamente igual à cabeça dos homens que vivem debaixo da terra, nas galerias de sal: grave, macerado pelo sofrimento, subalimentado, o olhar retraído. Nem os forçados, nem os padres têm o olhar fixado para o exterior.

- Vim felicitá-lo pela vida exemplar que leva desde o seu regresso - diz o padre.

Ele fica sozinho com o gangster. Em pé, encostado à parede, o padre observa fixamente Perahim, e prossegue:

- Todo o bairro está admirado pela pureza da sua existência. Na minha qualidade de padre estou duplamente feliz. Nada regozija mais um padre que a virtude, e nada o faz sofrer mais dolorosamente que o pecado.

- Sente-se, padre - diz o gangster. -Recebo-o unicamente para agradar à minha mãe. Ela pediu-me para não recusar a sua visita. Mas previno-o que não sou cristão e que não tenho a intenção de me tornar. Nunca.

- Eu penso que a visita de um padre nem sempre lhe foi indiferente - diz o padre Nicolas. - Durante os anos de trabalhos forçados julgo que a visita do capelão da prisão lhe dava alguma consolação...

- Nunca falei com o capelão da prisão

- responde Perahim. -Tudo o que consegui para me tornar um artífice de categoria, para sobreviver à tortura e para sair vivo das galerias de sal, tudo isso foi unicamente pelo meu esforço, esforço da minha vontade, do meu cérebro e da minha carne. Não tive a ajuda de ninguém, nem dum padre, nem de Deus. De ninguém.

- A minha admiração é portanto maior - diz o padre.

- Aviso-o que, também para o futuro, não contarei senão com as minhas forças e as minhas fraquezas de homem.

- Contudo a sua virtude suscita a admiração de todos os que o conhecem - diz o padre.

- Todo o homem é semelhante a um navio que navega sob um pavilhão estrangeiro. O mundo impôs-me o pavilhão da virtude, e é a ele que estou agradecido. Mas não é a minha bandeira. É um pavilhão estrangeiro. Detesto a virtude.

- E contudo vive numa virtude tal que causa admiração.

- Por infelicidade, é assim - responde o gangster-, mas não posso escolher. Sou obrigado a isso.

O olhar de Perahim torna-se frio. Como vidro. Nunca se sentiu tão encolerizado como neste momento em que o padre elogia a sua virtude.

- No dia em que despertei condenado aos trabalhos forçados, condenado à prisão do sal durante o resto da minha vida, no fundo da terra, com todos os ossos do meu corpo fracturados, com os meus músculos esmagados, com a minha pele arrancada em pedaços pelas torturas, com cadeias nos pés e nas mãos, então compreendi que a luta era desigual. Não podia atravessar as galerias de sal, situadas a centenas de metros debaixo da terra, para sair de lá. Só tinha os meus pulsos, as minhas mãos vazias. Não podia partir as correntes que amarravam os meus pés e o meu corpo. Não podia só com os meus ombros deslocar as montanhas que se amontoavam por cima da minha cabeça para sair para a claridade. E porque tudo era impossível, compreendi, pela primeira vez, que fora vencido. Para os vencidos, a única via de salvação é a virtude. Mudei, bruscamente, e coloquei-me no caminho da submissão e da virtude. Escolhi a disciplina, a vida segundo os éditos dos guardas, a escravatura total, o trabalho prescrito. Trilhei profundamente este caminho que, deliberadamente, escolhera para sobreviver...

"Sou um apaixonado, como meu pai, um selvagem. Pratiquei a virtude com o exagero do homem ávido de liberdade.

"As algemas das minhas mãos caíram. Depois as dos meus pés. Os guardas deixaram aberta a porta da minha cela mineral. Depois de um certo tempo foi-me consentido trabalhar não o sal, mas a madeira. Foi o favor mais maravilhoso que jamais me concederam. As cadeias dos meus pulsos tornaram-se correntes de ouro. Depois saí das salinas. Para o pátio da prisão, depois para fora da prisão. Mas só pude realizar tudo isso porque tinha renunciado à liberdade, porque tinha aceitado uma existência ditada pelos outros. Eu sei que todos os seres civilizados vivem mais ou menos desta maneira. Mas eu não podia escolher. Eu não podia viver fora da prisão se não vivesse em virtude. Somente veja-se: odeio a virtude, padre! Só a aceito por medo. Não me falem da sua beleza. A virtude é odiosa. Ela é o contrário da liberdade. Só a prefiro à prisão por medo. Prefiro-a às algemas, à tortura e às celas subterrâneas, mas não gosto dela. Vivo em virtude para não viver na prisão, para poder respirar o ar dos campos, para ter um corpo livre, sem correntes, sem feridas. Para poder ter um corpo sem piolhos. é por isso que eu vivo em virtude.

- Se conseguisse ter fé em Deus, essa virtude secular teria um sentido. Já não seria um produto do medo e do sofrimento. Essa virtude tornar-se-ia esplêndida. Atingiria o sublime.

- Não desejo o sublime - diz Perahim.

- Não desejo viver mais na prisão de forçados. é tudo. Aquele que comeu com os mortos, durante dez anos, nas galerias de sal, só tem um pensamento: não voltar para lá.

- A virtude sem fé, meu querido filho, não conduz a parte alguma. Acaba no absurdo. No suicídio. A história da filosofia laica é testemunha disso. A virtude sem Deus é como uma escada mecânica, que pode tirá-lo da prisão, que pode elevá-lo acima dos outros homens, um andar mais alto, e, no melhor caso, içá-lo como qualquer escada rolante ou qualquer ascensor até às águas-furtadas, ou mesmo até ao telhado. Mas quer chegue ali ou a qualquer outra parte, o problema permanece na mesma. Nada resolveu. Só encontrará paredes, caminhos sem saída.

Max Perahim sorri.

O padre continua:

- Mas a virtude religiosa conduz mais longe. Conduz ao céu. À eternidade. Ao infinito. Ao Paraíso. Não é uma simples escada rolante ou um simples ascensor.

- O destino que eu escolhi não é o Paraíso, nem a eternidade, nem o céu - diz Perahim. - O meu fim era sair da prisão e voltar aqui, ao cimo da terra. De não voltar para os subterrâneos. Não viso mais longe. Basta-me estar aqui, em cima da terra. Não mais alto.

- Max, meu filho, o que tu conseguiste foi enorme. Mas resta-te chegares à presença de Deus. Qualquer empreendimento humano, mesmo o mais formidável, não tem sentido se não chega até Deus. Não existe obra-prima humana que não encerre uma ideia religiosa. Sem Deus, toda a virtude, toda a realização humana se desfaz em pó e acaba no absurdo, como o trabalho de Sísifo. Para resistir, é preciso que as coisas tenham um sentido, e esse sentido só se encontra em Deus. Para o homem, Deus é a única direcção possível. Exorto-te para a religião. Vem. Sofreste muito, conseguiste bastante para não teres direito às alegrias que só o Céu pode dispensar. Vem, Max Perahim. Imploro-te! Vem para Deus !

- Não creio em Deus - diz o gangster.

- Para quê discutir?

- Nunca poderás estar verdadeiramente livre, nem em paz, sem Deus. Nenhum homem o pode. Verás. Mas será demasiado tarde. O homem é bastante fraco, para tudo, para a virtude, e para a liberdade. Precisa de Deus. De contrário perde tudo. Por muito que faças, voltarás a encontrar-te no teu ponto de partida. é o drama de todos os homens. Sem Deus, anda-se à roda.

- Mais uma ameaça? - exclama o gangster. - O comissário Joachim Catran ameaça-me com a prisão porque não quero trabalhar para a polícia. Rosa Clima ameaça-me com a prisão porque não quero amá-la! O senhor ameaça-me com a prisão porque não quero crer em Deus. Por toda a parte ameaças. Só minha mãe não me ameaça. A minha mãe disse-me: "Se tu me abandonas, morrerei". Só minha mãe está comigo.

O padre vai-se embora, como Rosa, com uma recusa. Como o comissário Joachim Catran.

O gangster Maximilien Perahim está só. Só com as suas forças. com o seu olhar frio. O seu olhar de vidro. Decidido a prosseguir no caminho da virtude absoluta, sem cometer erros, como numa auto-estrada, a fim de não voltar para debaixo da terra, para a prisão.

Mas estas ameaças perturbaram-lhe a paz.

 

HÁ três meses que o gangster Perahim está em liberdade. E ainda não cometeu crimes.

O comissário Joachim Catran mandou reunir no seu gabinete os três inspectores para ter uma conferência, como é frequente acontecer.

O comissário tem sessenta anos. é um filho de camponeses. Os inspectores são novos. Estudaram todos Direito.

Catran convida-os a sentarem-se à sua volta e oferece-lhes cigarros. é sinal que uma coisa grave acaba de se passar. Joachim Catran encontrou-se com um problema que não pode resolver sozinho, e tem necessidade dos seus jovens subalternos.

- Vocês são novos - diz o comissário. Estudaram. Passaram pela Universidade. Eu sou um homem incivilizado, um trabalhador de força, um touro, um elefante.

- Aconteceu alguma coisa à senhora Catran? - pergunta um inspector.

Eles sabem que o seu chefe é casado com uma mulher de vinte e cinco anos. Foi buscá-la a um orfanato. Ela é-lhe fiel. Mas aborrece-se na casa do comissário, uma casa enorme construída pelo arquitecto da polícia.

- Nada de grave - diz o comissário. - Mas são coisas a respeito das quais não compreendo nada. Vocês vão com frequência à minha casa. Conhecem a minha mulher. Sabem que ela é doida por leitura, por música, por teatro. Eu acedo a todos os seus desejos. Algumas vezes, contudo, os seus actos ultrapassam o meu entendimento. Conhecem o interior da nossa casa. Tenho tapetes, móveis, baixela, tudo o que um homem deve possuir. Trabalhei toda a vida para ter um tecto, um abrigo, e que fosse acolhedor. Ora, há alguns dias, minha mulher pediu-me o camião da polícia. Mandei-lho. Tudo o que está dentro de casa pertence-lhe. É a soberana do que lá está dentro. Não me intrometo nisso. Ela disse-me que precisava do camião para transportar móveis. Não fiz perguntas. Mas ao voltar à noite, a casa, constatei que ela tinha substituído todo o nosso antigo mobiliário. Eram móveis sólidos, comprados por mim antes do meu casamento, dum fornecedor da Prefeitura. Sólidos. Garantidos. No seu lugar, minha mulher pôs móveis bizarros que comprou numa loja. Móveis que pertenceram a uma estrangeira, dama de honor do palácio real. Eu nada disse. O interior da casa é o seu domínio. Ela é livre de o arranjar à sua vontade. O meu gosto não conta, além disso, não compreendo nada. Nem mesmo lhe perguntei quanto haviam custado os móveis. Tenho bastante dinheiro para pagar um capricho à minha mulher. O drama, é que nem um único destes móveis é utilizável. Se se sentarem, a cadeira vira-se ! As mesas têm os pés partidos ! Não nos podemos instalar confortàvelmente numa poltrona. Nada se aguenta. Eu disse que mandaria vir um marceneiro para os reparar. Ela respondeu-me que estes móveis não podem ser confiados a qualquer um... Que não se trata de reparações. Que estes móveis não devem ser reparados, mas "restaurados" ! A mim, a diferença escapa-me. Não vejo que diferença exista entre reparação e restauração. Mas quando não compreendo, cedo. Minha mulher é esperta. Tenho confiança nela. Eu sou um campónio. Somente, a verdade é que restauradores de móveis de estilo só há dois em toda a Roménia, e os dois estão ocupados. Não podem antes de um ano pôr em ordem as minhas cadeiras, as minhas mesas, as minhas poltronas, nem a cama em que sou obrigado a dormir. Ora, tal como se encontram, estes móveis são inúteis. Eu tenho portanto de mandar vir um restaurador do estrangeiro ou - e eis aqui o drama - mandar chamar o gangster Maximilien Perahim. Todos os entendidos falaram dele a minha mulher. Parece que o gangster não mentiu, quando disse que há móveis dele no palácio real. Que a rainha possui mesas redondas feitas por ele. Assim como todas as pessoas "bem" de Bucareste.

- Não há problema, chefe - diz o primeiro inspector. - Barricada não lhe pode recusar isso, manda-se chamá-lo. Por si, ele porá tudo de lado. O senhor tem a prioridade.

- Não - diz o comissário-chefe Joachim Catran. - Sabem como gosto da minha mulher. é o único ser no mundo que possuo. Não posso meter o gangster em minha casa. Tenho medo.

- Julga que Barricada teria a ousadia de se atirar à sua mulher?

- Não sei - diz o comissário. - Tenho medo de o mandar ir a minha casa. O meu instinto diz-me que acontecerá uma desgraça, se ele entrar em minha casa.

- Coloque agentes, chefe - diz o segundo inspector. - Enquanto ele trabalhar, mantenha-o sob vigilância. E terá a certeza de que nada acontecerá. Boa guarda afasta o perigo.

- Não - diz o comissário-chefe. - Não tenho instrução. Eu não estudei Direito. Nada conheço de móveis de estilo nem de arte. Mas tenho experiência. Sei que Max Perahim, Barricada, o gangster, saiu da prisão unicamente para me dar um mau golpe. Ninguém me poderá tirar esta ideia da cabeça. A sua conduta, depois da sua libertação, é exemplar. De acordo. Mas, para mim, não somente esta conduta exemplar não é um bom sinal, como é suspeita. Ele mantém-se tranquilo como o gato que se vai lançar sobre uma presa para a devorar. Hesito em deixar Perahim entrar em minha casa.

- Julga que Perahim tentará "qualquer coisa" contra a senhora Catran?

- Não sei nada de concreto - diz o comissário. - Foi por isso que os mandei vir aqui, para lhes perguntar o que pensam ! Nada é evidente. Eu tenho dúvidas. Não creio que Perahim ataque minha mulher. Afasto esta hipótese. Também não me vai atacar. Esta hipótese também a afasto. Não vai atentar contra o pudor de minha mulher. Isso também está fora de dúvida. Não tentará assassiná-la, como não tentará assassinar-me. Nem a ela, nem a mim: hipóteses a afastar. Aliás não poderia fazê-lo. E, apesar disso, tenho a certeza que acontecerá uma desgraça. Sei exactamente que Perahim prepara um golpe. Se o introduzir em minha casa ele fará o seu golpe em minha casa. O que pensam disto?

- O chefe exagera - diz o inspector.

- Exagero? Está nos meus hábitos?

O comissário Joachim Catran está furioso.

- O gangster Max Perahim fará um mau golpe - repete o comissário. - Cometerá um assassínio, ou dois, ou cinco, não sei quantos, mas cometê-los-á. Não há exagero no que digo. Todo o verdadeiro marinheiro sente vir a tempestade muito tempo antes. Todo o verdadeiro polícia sente aproximar-se o crime. Conheço os gangsters. Se os jurados não os condenam, se a Administração os deixa em liberdade provisória, se a polícia não encontra um pretexto para os exterminar, cometem crimes, fazem a desgraça da sociedade.

- é uma teoria que vale uma outra - diz o inspector. - Mas desconfiar que Barricada queira cometer um mau golpe em sua casa, é ir demasiado longe. Não tomo a sua defesa. é possível que ele cometa um mau golpe. Mas também é possível que ele não o cometa. Deve basear as suas desconfianças em qualquer coisa.

- Idiota! - exclama o comissário. - Em matéria de polícia, não se deve basear em nada. Preciso esmagar o gangster, é tudo. A polícia é como a poesia, a arte, ou a música: a polícia é uma questão de sentido, de olfacto, de sensibilidade. Leram nos jornais que, no Inverno, nas montanhas, acontece que os cavalos por vezes param e recusam-se de repente a avançar. Podem desancá-los. Podem matá-los. Não avançarão um passo. Param no meio da estrada. Querem retroceder. O homem nada compreende, tanto como vocês, neste momento. Mas uma ou duas horas mais tarde, a estrada por onde deviam passar está sepultada sob uma avalancha. Como é que os cavalos o sabiam? Mistério... Eu sou como os cavalos que adivinham a avalancha sem poder explicar como é que eles pressentem o perigo. Eu sei que estamos na véspera duma catástrofe, que Perahim cometerá um crime. Mas não estou certo que o drama se passe na minha casa. Gostaria de saber o que pensam. Minha mulher troça de mim quando lhe digo que não posso introduzir o gangster em nossa casa. Ri na minha cara! Vocês, o que pensam?

Os inspectores e o comissário discutem demoradamente. Por fim, porque os receios do velho comissário são privados de qualquer fundamento lógico, e sobretudo porque os inspectores desconfiam que ele é ciumento, decide-se que o gangster Maximilien Perahim será, apesar de tudo, encarregado de reparar - ou mais exactamente: de restaurar os móveis de estilo da senhora Catran.

 

- O teu gangster é um santo - diz Violette Catran ao marido. - Há sete semanas que trabalha em nossa casa. Nenhuma das tuas previsões se realizou. O gangster não tentou violar-me. Não tentou pôr fogo à casa nem assassinar-me. Nada. Antes de abandonar o seu trabalho, varre o lixo, põe tudo em ordem. A sua presença é silenciosa, discreta, como se não existisse.

O comissário está triste. A mulher tem razão. Há sete semanas que Maximilien Perahim restaura móveis nas salas da cave e o seu trabalho causa a admiração dos entendidos.

- O lugar onde o gangster se mantém está limpo como uma farmácia - diz a senhora Catran. -Nem mesmo falo da sua conduta. Disseste-me que ele foi o rei dos ladrões, que mudava de mulher todos os dias, que as mais bonitas raparigas de Bucareste foram suas amantes e que ele tinha duas ou três cada dia. Um Don Juan. Ele sabe que é sedutor e que a prisão o tornou ainda mais interessante. Pois bem, meu caro Joachim, este amante de mulheres, este entendido, nunca levantou os olhos para me ver. Nunca !

A senhora Catran disse estas palavras com despeito, com maldade, e acrescenta:

- Tentei provocá-lo. Entrei, com o pretexto de vigiar o seu trabalho, vestida com trajes menores, decotada, perfumada, a cantar. Nunca olhou para mim. Um seminarista. Um asceta. Chego a pensar que este homem nunca teve tantas mulheres.

- Não digas que um homem é feliz antes de o teres visto morrer - diz o comissário. - Não te pronuncies antecipadamente sobre a conduta do gangster. Depois da sua partida, podê-lo-ás fazer, mas nem um segundo antes.

- Não terás, por acaso, ciúmes do gangster? - pergunta Violette Catran.

Ela beija o marido.

- Sabes bem que te sou fiel! com o meu corpo, com os meus pensamentos, com os meus sonhos. Tenho outros defeitos, sou gastadora, sou caprichosa, mas não deves ser ciumento. Sobretudo dum gangster.

- Não digas disparates - diz o comissário. - Não se trata de ciúme. Trata-se de segurança. Um gangster da classe de Perahim não leva uma existência irrepreensível gratuitamente, sem um fim. Ele pretende qualquer coisa. Ele não se manteve durante dez anos na prisão e não sairia de lá se não tivesse qualquer coisa na sua cabeça de gangster. Ele não vive como um frade para ganhar o Paraíso, mas para realizar um projecto.

- O gangster não deseja voltar para debaixo da terra, muito simplesmente - diz a senhora Catran. -Que outro fim poderá ele desejar?

- Um novo golpe - diz o comissário. - Devemos estar vigilantes. Sempre mantive que um gangster deveria ser abatido sem piedade, logo que capturado. Se os polícias não o abatem imediatamente, então a desgraça cai sobre os que o rodeiam, sobre a sociedade. E a polícia não cumpriu a sua missão.

- Perahim converteu-se à virtude. é um homem perfeito, um artífice sem igual, um artista. Sou curiosa como todas as mulheres. é o primeiro gangster que vejo de perto. A sua conduta está fora de suspeitas. Se a sua conversão não fosse sincera, ele estremeceria, mesmo imperceptivelmente, quando passo ao pé dele, quando lhe falo ou quando canto. Nada. Uma pedra. Mais sóbrio que os ascetas do deserto.

- é justamente o que me preocupa - diz o comissário. - é um indício. ele vai cometer uma desgraça.

- Que pode ele fazer? - pergunta a senhora Catran. -Explica-me o que pode ele fazer, na situação em que se encontra aqui, em nossa casa. Não esqueças que há os agentes. Perahim nunca está só.

- é-me impossível sabê-lo - responde o comissário. -Mas eu sei que ele fará qualquer coisa de grave, e sou eu quem será disso responsável, eu, o comissário Joachim Catran, da Polícia Judiciária de Bucareste ! Deveria tê-lo abatido quando do seu regresso... Por agora só tenho um sonho: que ele acabe de reparar... de restaurar os móveis e que se vá embora ! Que vá cometer o seu crime noutro lado. Não debaixo do meu tecto. Não na minha casa. é a única coisa que espero. Para quanto tempo tem ele ainda?

- Ainda para dois meses. é preciso reconhecer que ele trabalha depressa e que não tem quem se lhe compare. Todos os que o viram a trabalhar disseram-me que é um artista de génio. As peças que substituem as originais estão perfeitas.

- Ainda dois meses ! - exclama o comissário. - é terrivelmente longo. Demasiado longo.

Beija a mulher e desce. O carro da polícia espera-o em frente da porta. São oito horas da manhã.

- Nada receies - grita-lhe a mulher, da varanda.

Ela faz-lhe um sinal com a mão. Depois entra no salão e acende um cigarro.

"Pobre Joachim - diz para si. - Tem medo que eu me apaixone pelo gangster, que Perahim me rapte, ou que me seduza. Tudo o que ele diz contra Max é fruto do ciúme".

A senhora Catran ouve os passos do gangster, que chega para trabalhar, pontualmente, como um relógio. Ela observa-o atrás da cortina, como é costume. O coração bate-lhe. O gangster tem a tez esverdeada dum cigano. Anda como um leão domesticado.

A senhora Catran adivinha no seu andar ligeiro, nos seus cigarros, na sua palidez de santo, toda a sua sede de liberdade, toda a sua fome de ar puro.

"Porque nunca olha ele para mim? Terá medo?"-pergunta a si própria a senhora Catran.

Ela vê-se ao espelho e diz para consigo que está na mesma situação que o gangster. Está encerrada, nesta casa de pedra, com um polícia para a guardar, como Max o esteve nas salinas. Ele evadiu-se de lá fabricando móveis, ela evade-se comprando-os. Os dois evadem-se da sua prisão e afastam-se dos polícias pela única porta que a sociedade lhes deixa.

"Esperemos - diz para si a senhora Catran. - Ele não pode reconhecer em mim uma irmã, ele que conhece tão bem as mulheres. Basta esperar".

Mas a espera seca a boca. A senhora Catran instala-se ao piano e começa a cantar, ao mesmo tempo que toca:

Eu morro de sede junto da fonte...

 

TODAS as manhãs, Violette Catran manda levar ao gangster uma bandeja com doces. Nas salinas, Perahim aprendeu a comer muito pouco. Uma sanduíche bastava-lhe. Mas ele adora os pastéis. Contudo continua a comê-los como nas salinas, quer dizer, migalha a migalha - a fim de os fazer durar mais tempo. Nas salinas, um forçado pode rilhar um pedaço de açúcar durante mais de uma semana. É a criadinha dos Catran que lhe leva a bandeja - uma rapariga do campo, parente do comissário Catran. Tem quinze anos. Usa os cabelos puxados, de um louro acinzentado, mel e cinzas, faces pálidas. Na sua aldeia da montanha, a aldeia do comissário Catran, toda a população passa fome durante os doze meses do ano. São todos doentes. Pelagra, reumatismo, tuberculose. A subalimentação é ali crónica, milenária.

A criadinha do comissário tem um corpo delgado, um corpo de efebo. Nem rapariguinha, nem mulher. Nem homem, nem mulher. Um corpo de adolescente. A criadinha veste todos os dias o mesmo vestido de um azul pálido como as flores dos miosótis. Um vestido grosseiro de algodão. As pernas são escanifradas, sem barrigas, e os pés magros estão calçados com sandálias. Ela é muito desajeitada. O patrão, o polícia, avisou-a que, embora artista, o marceneiro é um gangster. Ela recebeu ordem para não lhe falar. Mas a criadinha olha para o artista com piedade. Porque ele esteve nas salinas. Da sua história, a rapariga só reteve estes pormenores: foi torturado, o seu corpo está coberto de cicatrizes e viveu durante dez anos debaixo da terra, nas salinas. Quando vê Perahim, não pode pensar noutra coisa, e as lágrimas sobem-lhe aos olhos. Ela quase que tropeça e cai com a bandeja, porque as lágrimas lhe turvam o olhar quando vê a cabeça rapada do gangster coberta de cicatrizes de todas as formas - umas pequenas como avelãs, outras maiores como nozes, em forma de ostra, ou rectilíneas como o golpe de uma faca.

Esta manhã, às oito horas, depois da partida do comissário, a criadinha colocou a bandeja em frente de Perahim. Ele continua a trabalhar sem olhar para ela. Mas o gangster sente - com as suas narinas e com todos os poros da sua pele - a presença deste corpo adolescente a alguns passos dele. Estremece, mas não olha para ela. Espera que a criadinha se vá embora. A criadinha cheira a frutos selvagens, a frutos verdes. Quando era criança, o gangster adorava as maçãs bravas e ácidas, as cerejas verdes. A dois passos dele o perfume de caroço de cereja, de casca de noz verde, de avelã esmagada entre os dentes.

- Senhor Maximilien, queria dizer-lhe adeus - diz a criadinha. - Não me voltará a ver. Vou-me embora.

É a primeira vez que ela dirige a palavra a Perahim. O gangster não olha para ela, mas as suas narinas aspiram o perfume do morango, da groselha, da framboesa. A própria voz da rapariguinha cheira a fruto verde.

Perahim está perturbado. A criadinha chamou-lhe novamente "senhor". é a única pessoa que depois de dez anos lhe chamou "senhor". Só ela. Ninguém mais. A palavra "senhor" pronunciada por Lafleur tinha, também, um perfume de casca de fruto, de azedas e de erva esmagada entre as palmas das mãos.

- Adeus, senhor Maximilien, e boa sorte - repete a rapariguinha.

Max Perahim levanta os olhos. Ela está a menos de um metro dele, com a mão estendida, os cabelos puxados, mel e cinza, as faces encovadas e rosadas pela emoção. Rosadas como morangos... Ela não tem sangue bastante para que as faces se tornassem vermelhas. Só um tom rosa-pálido. Um rosa-pastel. Um vermelho transparente de morango pouco maduro. O seu sangue é muito fluido para que seja bem vermelho, como o sangue das mulheres maduras. Mesmo os lábios não são vermelhos. Dir-se-ia opalas cor-de-rosa, porque ela não tem sangue suficiente, nem sangue bastante espesso para poder ter lábios vermelhos. Tudo está diluído neste ser.

O gangster nota que o pequeno vestido azul, como as flores de miosótis, tem minúsculas pintas brancas. A criadinha traz um cinto barato, de matéria plástica branca. As compridas pernas de efebo não têm meias. Os pés estão calçados com sandálias. Os olhos pretos, penetrantes, do gangster atravessaram como raios X o corpo da adolescente. Examinaram tudo. Tudo registaram. Os olhos do gangster terminaram o inventário. O olhar pousa-se novamente na cabeça da rapariga. Ele descobre na testa, nas faces, no queixo da adolescente algumas minúsculas borbulhas.

- Partes? - -pergunta o gangster. - Por muito tempo?

Ele sente o perfume de cerejas, de madeira, de erva, de meliloto.

- Parto para sempre - diz a rapariguinha. - Estou aqui há três meses. Sou parente do comissário Catran. Sou de Piatra. A nossa aldeia é muito, muito pobre. O senhor comissário mandou-me vir para a cidade. E disse-me:

"Se, em três meses, conseguires adaptar-te, se aprenderes, ficarás em nossa casa. Senão, voltarás para a tua aldeia. Sem rancor."

A criadinha baixa os olhos.

- Os três meses de experiência acabaram. A senhora não está contente comigo. Não tenho capacidade. Sou desastrada, desajeitada.

A criada chora. Sem uma ruga. Só os olhos choram. Olhos cinzentos-azulados, sem cor definida, sem beleza. Olhos de raça bastarda e que contudo brilham através das lágrimas como cristal. As lágrimas dilatam-lhe as pupilas e, de repente, os olhos tornam-se-lhe bonitos pela sua falta de beleza. Por causa dos olhos se tornarem bonitos de repente, todo o rosto se ilumina. A criadinha torna-se bonita.

- Tu voltas para a tua aldeia? - pergunta o gangster. - eu penso que estás contente. Estarás entre os teus.

- Oh ! não - diz ela. - Não voltarei para lá. A fome e a miséria são muito grandes na aldeia. Não!

As lágrimas pararam-lhe. No seu lugar há cintilações. Cintilações de espadas. Agora, a criadinha mantém-se direita. O vestido azul é muito largo para o seu corpo delgado, sem formas. Qualquer vestido seria demasiado largo para este corpo. Ela não tem peito, nem ancas. Não se distingue o seu sexo em parte alguma neste corpo. É neutro.

- A senhora e o comissário autorizam-me a ficar ainda oito dias no quarto das águas-furtadas. Se, no decurso desta semana, encontrar um emprego, ficarei em Bucareste. Senão, o comissário dar-me-á uma guia de marcha, passada pela polícia, e voltarei para a minha aldeia.

- Tu dizes que o comissário é teu parente? - diz Perahim. - Porque não te ajuda ele a encontrar um emprego? Ele tem poderes ilimitados. Em Bucareste, um comissário-chefe de polícia tem os mesmos poderes que o rei. É estranho que tu própria sejas obrigada a procurar uma colocação.

- O senhor comissário aceitou que eu viesse para Bucareste para ser criada em casa dele. Mas se eu não me adaptasse, e não me adaptei, teria de voltar para casa. O senhor comissário diz que seria melhor eu voltar imediatamente, porque de qualquer forma será preciso voltar, senão dentro dum ano terei um filho e ficarei doente. Ele diz que todas as raparigas que vêm do campo têm filhos, e depois vão para a prisão, ou para o hospital. Ele diz que eu tenho de partir imediatamente, para me afastar de todos os sofrimentos que me esperam. - é o comissário que diz isso?

- É certo o que ele conta - diz a criadinha. - Todas as raparigas da aldeia que vieram para a cidade voltaram com filhos, ou doentes, ou saíram da prisão. O comissário não quer comprometer a sua responsabilidade. Ele diz que Bucareste é uma cidade de perdição para as raparigas do campo. E que eu tenho de partir antes que me aconteça alguma desgraça.

- é por isso que ele não te quer arranjar emprego?

- Ele diz que na nossa aldeia nós somos muito esfomeadas e muito perseguidas para poder viver livremente na cidade. Ele diz que é seu dever mandar-me para lá. Se eu me tivesse adaptado e ficasse aqui, em casa dele, isso seria diferente. Mas eu não consegui.

- é duro, o comissário - diz o gangster.

- Sobretudo para uma parente.

-Ele é duro - responde a adolescente -, mas tem razão. Para as raparigas que vêm da aldeia tudo se passa exactamente como ele diz. é natural que o comissário não queira comprometer a sua responsabilidade por uma pessoa que poderá proceder mal. é justo. Ele é polícia.

O gangster e a criadinha evitam olhar-se.

- Espero encontrar um emprego - diz a rapariguinha, e o rosto ilumina-se-lhe. Aliás já encontrei um. Qualquer coisa que me convinha: operária na fábrica de meias. Mas o director disse-me que era preciso que eu tivesse dezasseis anos feitos, e eu tenho só quinze anos menos um mês. Tenho de esperar ainda treze meses. Nessa altura, o director aceitar-me-á na sua fábrica... Meias de senhora, só seda ! As mãos na seda. Gostaria bem deste ofício.

O gangster observa com tristeza o corpo magro. O vestido azul. Poderia ajudar a rapariguinha, recomendá-la. Mas é uma menor. Se alguém se entregasse a violências contra ela, era ele quem seria acusado, sem inquérito. Ele, Perahim, o seu protector. Abster-se-á portanto de a ajudar. E diz:

- Adeus. Como te chamas?

- Lafleur- responde a rapariguinha.

- Lafleur? É o teu nome próprio?

- É - diz ela.

- E o teu apelido?

- Lafleur - responde a criadinha. - Chamo-me Lafleur Lafleur. Duas vezes Lafleur.

- Lafleur, porque tu és uma criança, gostaria de fazer qualquer coisa por ti. De todo o coração. Mas tenho de me abster disso. Estou marcado!

""- Agradeço-lhe - diz Lafleur. - Sinto-me bastante reconhecida por desejar fazer qualquer coisa por mim.

Perahim baixa os olhos. O tom de voz de Lafleur não deixa subsistir qualquer dúvida. Ela está apaixonada por ele, como todas as mulheres que encontrou na sua vida. Maximilien é semelhante ao íman: todas as mulheres são atraídas por ele. Mesmo esta rapariguinha feia, miúda, que é ainda uma criança. Ele toma um ar severo, prudente, e explica:

- A intenção, seguramente, não conta. Poderia efectivamente fazer qualquer coisa, mas não quero. Poderia mandar-te para casa de minha mãe. A minha mãe é uma mulher adorável. Ela encontrar-te-ia imediatamente trabalho e alojamento. Minha mãe encontra sempre trabalho para todas as raparigas do bairro. Mandar-te-ia para casa duma vizinha. Aprenderias a passar a ferro, a lavar, a bordar, como todas as raparigas do nosso bairro. Mas isto seria muito arriscado. Sou um forçado em liberdade condicional. Tu és menor. Bastaria que um polícia nos visse juntos ou que alguém nos denunciasse, e sem qualquer investigação, eu desceria directamente a centenas de metros debaixo da terra nas minas de sal. Uma menor, para mim, mesmo à distância, equivale a um bilhete para as salinas. Não farei portanto nada por ti. A minha liberdade está presa por um fio. Não de uma linha de coser, mas de um fio de teia de aranha. Assim, pequena dupla flor, digo-te adeus. Não podes ser ajudada por um gangster. Mesmo que ele queira o teu bem, com toda a inocência, um gangster não pode ajudar-te, da mesma forma que o director da fábrica de fiação não te pode contratar antes de treze meses. Adeus, dupla flor...

Maximilien Perahim estende-lhe a mão, uma mão que, mesmo depois de dez anos de trabalhos penosos, é branca como a mão de um bispo.

- Desejo-te boa sorte, Lafleur. Muita sorte. E agradeço-te infinitamente. Não te esquecerei, por causa do que me ofereceste e do que fizeste por mim.

- Eu fiz alguma coisa por si, senhor Maximilien?

- Muito. E não te esquecerei. Tu, dupla flor, tu foste a única pessoa que, ao fim de dez anos, me chamou "senhor". Cada vez que me dizias "senhor", parecia-me que recebia uma condecoração. Encontrava-me situado entre os homens. Na prisão, ninguém diz "senhor". E posteriormente, depois da minha libertação, até hoje, ninguém me chamou "senhor". Eu sou Max Perahim.

"Há pessoas que gostam de mim. Minha mãe, por exemplo. Velhos conhecimentos. Esses chamam-me pelo nome. Recebi a visita de um padre. Pensei que ele ia chamar-me "senhor". Quando, durante dez anos, ninguém nos diz "senhor", não podes imaginar que importância tem esta palavra. Como se estivesse de fraque. De sapatos de polimento. Mas não me chamaram "senhor". O padre foi extremamente amável. Demasiado amável. Mas disse-me meu filho". Só tu me chamaste "senhor".

Obrigado, Lafleur, a pequena flor, a dupla flor.

Perahim continua:

- Agora que tu partes, quem sabe quanto tempo passará antes que alguém me diga "senhor", se ainda alguém mo voltará a dizer... Adeus, Lafleur.

Lafleur baixou a cabeça. Tem as faces em fogo. As lágrimas caem-lhe no vestido azul. Disse tudo o que tinha a dizer. Ele também disse tudo o que tinha a dizer. Não têm uma única palavra a acrescentar.

E contudo ela não se vai embora. Fica ali, com o seu vestidinho azul, em frente do gangster, como uma flor de miosótis que floriu no meio do caminho- do caminho que o gangster tem de seguir.

E ela barra-lhe a passagem.

 

HÁ um mês que Lafleur deixou a casa do comissário Catran. O gangster chega como habitualmente às oito horas da manhã e trabalha até às seis da tarde a restaurar móveis.

Em vez de Lafleur, é a cozinheira quem leva a Perahim a bandeja de doces à oficina da cave.

Os amigos da senhora Catran vão ali, à tarde, depois da partida do gangster, admirar os móveis restaurados. Os entendidos extasiam-se diante do trabalho de Perahim. Afirmam que o gangster é genial. Não conseguem compreender como um gangster pôde aprender sozinho, na prisão, todos os segredos desta arte. Chamam-lhe o Benvenuto Cellini da madeira.

À excepção disso, nada se passa. Nenhum acontecimento. Contudo, o comissário Joachim Catran espera com impaciência que o gangster termine o seu trabalho e abandone o lugar. O comissário está obcecado pela ameaça que pesa sobre a sua casa durante o tempo que Max Perahim se encontra sob o seu tecto.

Hoje, às oito horas e meia da tarde, Perahim tomou o carro eléctrico número 6 na praça do Teatro Nacional, como faz todos os dias. No momento em que ia a descer, Max avista a pequena Lafleur. Está vestida com o mesmo vestido de algodão, azul como as flores de miosótis. Calça sapatos novos, de saltos altos, e meias: já não calça as sandálias sem meias, como em casa do comissário Catran. Lafleur usa um cinto largo, prateado, e os cabelos, cor de mel misturado com cinza, estão apertados em rabo de cavalo no alto da cabeça, por uma fita azul como o vestido. Ela traz um colar de pérolas de porcelana branca.

Maximilien Perahim está contente por a ver, mas diz para si:

"É preferível não lhe falar. É muito tarde".

Lafleur viu o gangster e corre ao encontro dele.

- Senhor Perahim! Senhor. Estou contente por o voltar a encontrar - diz ela. - Todos os dias penso em si. Quando nos separámos disse-me que não nos voltaríamos a encontrar. Quando me lembro dessas palavras, vêm-me as lágrimas aos olhos.

E acrescenta: - é de tal modo triste nunca mais voltarmos a encontrar alguém... sobretudo uma pessoa a quem se estima.

- Eu também, eu estou bastante contente por te voltar a encontrar, Lafleur - diz o gangster. - Como é que organizaste a tua vida? O comissário não te mandou para a tua aldeia natal?

- Oh não ! - diz Lafleur. - Encontrei trabalho em Bucareste. Um trabalho espantoso. Estou na Pastelaria Real. é ao lado do palácio.

- Ah! - diz o gangster. - Como é que encontraste isso?

- Um golpe de sorte - diz ela. -Li um anúncio num jornal. Apresentei-me e contrataram-me logo. Imediatamente.

- Como criada? - pergunta Perahim.

- Não - diz ela. - O gerente prometeu-me que seria criada dentro de um ano. Por agora, a lei não o permite. Ajudo a fazer os bolos. Toda a gente é muito gentil comigo. Faço também a limpeza, mas o meu principal trabalho consiste em partir ovos.

Lafleur ri às gargalhadas. Está toda rosada, como um pisco.

- Parto, durante horas, mil, dois mil ovos no mesmo dia! Quando estava em casa, se me acontecia partir um ovo por descuido, a minha mãe ficava furiosa ! Mas furiosa! Batia-me. Era um drama partir um ovo ! Agora pagam-me para isso ! Às centenas! Aos milhares! Parto a casca. Ponho a gema num tacho de cobre, a clara noutro - e depois, zás!, um outro ovo a partir. Os tachos em que ponho as claras e as gemas são de cobre. E as gemas, no fundo deste tacho dourado, são como estrelas no céu. E zás ! Uma outra estrela. Uma outra gema. E isto dura durante horas e horas!

Lafleur tinha de súbito fogo nas faces. Ela acrescenta, olhando para o chão:

- Se visse, senhor Maximilien, como eu os parto depressa! Ficaria admirado. O próprio gerente nem vem ver. Ele diz que eu sou uma campeã.

O gangster caminha escutando a tagarelice de Lafleur. Ela segue ao seu lado.

- Após uma hora, as cascas dos ovos brancas como a neve amontoam-se aos meus pés. Como se eu estivesse enterrada na neve até aos joelhos. E mesmo mais alto. Quando saio de lá, elas estalam e quebram-se como o gelo.

Segue-se um silêncio.

O principal está em não deixar cair o menor fragmento de casca nos tachos de cobre onde se põem as gemas e as claras - diz Lafleur. - O gerente afirma que um fragmento com o tamanho da cabeça de um alfinete, encontrado num bolo, compromete a reputação da pastelaria. E esta reputação depende de mim. Só de mim.

Lafleur pára de rir. Continua a contar ao gangster que o seu trabalho não é, a bem dizer, um verdadeiro trabalho. é antes um divertimento. Ela diverte-se a partir os ovos. Durante toda a sua infância, não se divertiu tanto. Acrescenta que, além dos ovos, tem por missão partir as avelãs.

E enquanto fala das avelãs, ela ri novamente às gargalhadas.

- Parto numa hora mais avelãs que todos os esquilos dos Cárpatos ! E depois das avelãs parto nozes. Uma após outra. A toda a velocidade. Como uma metralhadora. E as cascas das nozes amontoam-se aos meus pés e o monte chega-me aos joelhos.

O que eu prefiro, é partir as avelãs. Se eu não fosse rapariga estou certa que seria esquilo - diz ela. - Os esquilos gostam tanto de partir avelãs ! Depois, há as cerejas. O descaroçar cerejas é também divertido.

"A Pastelaria Real compra cerejas grandes como avelãs. O que é que eu digo ! Quase tão grandes como nozes. Na nossa aldeia, as cerejas são minúsculas.

"Tenho de tirar o caroço sem esmagar a cereja. com a ponta dos dedos. E com uma agulha. O gerente verifica se eu não me esqueci do caroço em qualquer cereja. Ele diz que um só caroço esquecido num bolo pode provocar um drama e comprometer a fama da pastelaria. Qualquer pessoa poderá partir um dente por causa dum caroço de cereja esquecido! - a Pastelaria Real só tem clientes de categoria. Fornece a corte. O rei poderá partir um dente com um caroço de cereja que eu me tenha esquecido de retirar! Assim eu presto atenção, muita atenção. Nunca foi à Pastelaria Real, senhor Max?

- Já lá fui - responde Perahim. - Há muito tempo. Há mais de dez anos. Antigamente, ia ali todos os dias.

- Quando for à Pastelaria Real saberá que as nozes que estão nos bolos fui eu que as descasquei. Pensará em mim?

Maximilien Perahim avança ao lado de Lafleur que caminha com o mesmo passo que ele. Ela está feliz, satisfeita, com todo o seu ser. Os cabelos puxados, sem cor definida, estão cuidados. E o seu vestido banal de algodão azul está cuidado também. Tudo o que ela possui participa da alegria de ter encontrado o gangster. De ter encontrado o senhor Perahim. O senhor Max.

- O comissário está contente por teres encontrado trabalho na Pastelaria Real? - pergunta Perahim.

- Ele foi correcto - diz Lafleur. - Correcto e justo. Ele disse-me: "Lafleur, lastimo, mas tu não te adaptaste. Tens de voltar para tua casa. Não podes ser uma boa criada. És muito vagarosa e desastrada. Muito campónia. Muito desajeitada. Só tens defeitos. Não tens desembaraço, nem um bocadinho! Tu és como uma grande pedra caída no meio da casa, como um cepo. Nem o menor expediente. Nada. Tens de voltar para casa. A viagem de regresso é gratuita, oferecida pela Prefeitura da Polícia". Depois, o comissário apertou -me a mão. Muito delicado. Correcto. Justo. E a senhora também me estendeu a mão. Disseram-me: "Adeus, Lafleur". Depois avisaram-me que não responderiam mais por mim. é tudo. Mas eu, em vez de voltar para casa, procurei trabalho. E encontrei. E agora estou bastante contente!

- O comissário sabe que estás em Bucareste e que encontraste emprego? - pergunta Perahim.

- Seguramente que sim - responde Lafleur. - Quando acabei a minha primeira quinzena fui fazer uma visita ao senhor comissário e à senhora. Levei-lhes uma caixa de bombons. Disse-lhes onde trabalhava. O comissário e a senhora ouviram-me atentamente. No momento de me despedir apertaram-me a mão, os dois, mas disseram-me que tomasse muito cuidado, porque Bucareste é a cidade onde todas as virtudes tropeçam, que não existe uma rapariga do campo que conseguisse deixar Bucareste sem ter sido manchada, violada, pervertida.

- Só lhes fizeste uma visita? - pergunta Perahim.

- Eles não me convidaram a voltar - responde Lafleur. - Compreendi que não desejavam voltar a ver-me. O comissário está convencido que me vou portar mal. Ele não deseja ver-se metido nos meus assuntos. Não irei vê-los mais. Nunca mais.

- Porco ! - diz Perahim. - No meu bairro, havia em tempos uma má mulher que ia, à noite, aos quintais dos vizinhos e despejava lixívia nas raízes das flores, para as matar. Despejava lixívia nos vasos de flores que os vizinhos punham às janelas. Era uma assassina de flores. O comissário Catran faz o mesmo. Todos os polícias agem assim. Despejam veneno, despejam a desconfiança, a suspeita e o medo no coração dos homens. Porco ! Não dês ouvidos ao que diz o comissário Catran. é um envenenador. Envenena os sonhos, como todos os polícias. Esquece o que ele disse.

O gangster e Lafleur caminham na calçada sem passeio do bairro. Em vez de se dirigir para casa, Perahim vai na direcção oposta, a fim de que ninguém, no bairro, o possa ver na companhia duma menor e denunciá-lo à polícia.

- é nesta direcção que mora? - pergunta Lafleur.

- Na direcção contrária - responde Perahim.

- Porque vamos nós em sentido contrário, senhor Perahim? Por minha causa?

- Exactamente - responde Perahim. é preferível que não nos vejam juntos. Os indicadores da polícia vigiam todos os meus passos. Examinam continuamente a minha vida pelo binóculo, à lupa. com os dois ao mesmo tempo. É preferível que não nos vejam. Quem sabe o que eles poderiam inventar?

Lafleur entristece. Como se cobrisse a cabeça com um véu cinzento. Esquece de repente as nozes partidas, os ovos, as cerejas. Esquece tudo o que a fizera rir às gargalhadas.

- é unicamente para que a polícia não o saiba? - pergunta ela. -É unicamente por causa da polícia que não quer que nos vejam juntos?

- Não há só a polícia - responde Perahim. - Há outras pessoas que me perseguem e que ficariam desgostosas se nos vissem juntos.

- é casado, senhor Perahim? - pergunta Lafleur. -Tem medo que a sua mulher o veja a passear com uma rapariga?

- Não sou casado - responde Perahim.

- Mas também não sou só.

Ele pensa na mãe, e sobretudo em Rosa. Não quer mentir a Lafleur. Se lhe mentisse, seria como o comissário Catran, como a mulher que matava as flores despejando-lhes lixívia na raiz.

- Tem uma amiga? - pergunta Lafleur.

- Uma camarada, uma companheira - diz ele.

- Ela vive consigo?

- Não - responde Perahim. - Eu vivo com minha mãe.

- Gosta muito dela? - pergunta Lafleur.

- -Da minha mãe? - pergunta o gangster. - A minha mãe é a criatura mais amada da terra. A única.

-Não, não a sua mãe, a sua camarada. Ama-a muito?

- Não é uma questão de amor entre nós - explica Perahim. - Eu e Rosa, porque ela chama-se Rosa, somos velhos camaradas. Muito velhos. E muito bons camaradas. Fiéis.

Max Perahim limpa a testa. Olha para o chão, ao pensar em Rosa Clima. Explica à garota que caminha ao seu lado:

- Rosa é a minha companheira de há dez anos, antes da prisão. Durante todo o tempo que eu vivi debaixo da terra, no inferno do sal, ela foi-me fiel, duma fidelidade incomparável. Ela tinha direito a uma visita por mês. Durante dez anos, ela não faltou a uma única visita. Todos os meses se apresentava à entrada da prisão. E Targul-Ocna fica a trinta horas de caminho de ferro de Bucareste. Ela foi, tanto de Verão como de Inverno, com a neve até à cintura, com frios de menos de quarenta graus, com o seu cabaz cheio de provisões, de roupa, de calçado. Ela já não esperava que eu saísse de lá um dia. Ela ia unicamente por amor. Desinteressada. Agora sabes quem é Rosa. E as minhas relações com ela. Estás satisfeita?

- Ela zangar-se-ia se nos visse juntos? - pergunta Lafleur.

- Creio que não - responde Perahim. Rosa é uma rapariga inteligente. Não tem motivo para ser ciumenta.

- Ela é bonita? - pergunta Lafleur.

- Muito bonita - responde Perahim. - Tem agora vinte e seis anos. Na altura em que eu a conheci, há dez anos, era a mais bonita rapariga da Roménia, alta, morena, flexível como uma liana. Como a hera.

- Porque não casa com ela, senhor Perahim?

- Eu não sou um homem livre, minha pequena flor. Sou um forçado em liberdade condicional. Estar em liberdade condicional significa viver com um pé ao de cima da terra e o outro debaixo, com um pé caminho aqui e com o outro no corredor de sal. Posso estar aqui neste momento e noutro posso encontrar-me debaixo da terra. Pela menor bagatela, por uma bofetada, por uma palavra interpretada como um insulto. Qualquer disparate pode atirar-me para debaixo da terra em algumas horas.

A testa do gangster, cruzada por uma cicatriz, tornou-se pensativa. Ele olha para o chão. Severamente. Diz:

- Nestas condições, visto que não disponho do meu corpo, como me poderia casar? A polícia pode apoderar-se do meu corpo e pode prender-me em qualquer altura, como se fecha um fato num armário. Aliás, mesmo se fosse livre, o que para ser humano é difícil de afirmar, não sei se me casaria. Em dez anos de prisão sofri muito. Renunciei às mulheres, como a elas renunciam os frades. Não me é necessário ter uma mulher. Posso muito bem viver sozinho.

Os olhos de Lafleur estão húmidos. Ela diz:

- Como sofreu, senhor Perahim ! O meu coração despedaça-se de piedade por si.

- Em todo o caso, se um dia pensasse em casar, não poderia casar senão com Rosa Clima - diz Perahim. - Foi a única criatura que me permaneceu fiel, que não me abandonou, além da minha mãe. Pode ser que ela tenha defeitos. Que existam pessoas que lhe sejam superiores. Mas eu nunca preferiria outra mulher à Rosa. Por fidelidade. Por consideração. Por correcção. E sobretudo por justiça. é assim. Por motivos de justiça. Porque um homem deve ser justo, de outro modo não é um homem.

- As suas palavras são sublimes - diz Lafleur. - Nunca ouvi ninguém falar tão bem, e dizer coisas tão bonitas e tão justas. Senhor Maximilien, o senhor é o homem mais extraordinário que jamais encontrei. O senhor é mais extraordinário que os heróis do meu livro de História.

Perahim e Lafleur chegaram ao campo. À fronteira do arrabalde. As luzes da cidade acendem-se. Eles detêm-se. Olham-se. O olhar de Lafleur abrasa como as luzes da cidade.

- Voltemos - ordena Perahim. - é tarde. Amanhã de manhã, tenho de me apresentar em casa do comissário Catran para lhe restaurar os móveis. E tu tens de estar na pastelaria para partir as avelãs.

 

No dia seguinte, no momento de descer do carro eléctrico, Perahim avista Lafleur. Ela espera-o na estação término. Parece esperá-lo há muito tempo. Continua com o vestido azul, da cor das flores de miosótis, o corpo sem formas, o cinto prateado que lhe aperta a cintura e os sapatos baratos de saltos altos. A cabeça de Lafleur assemelha-se a um fruto rústico, verde, com alguns botões.

Os seus olhos estão cheios de luz. Dirige-se para Max.

- Bons dias, senhor Perahim - diz ela. Estende-lhe a mão e acrescenta:

- Não se zanga por eu o ter esperado?

- Não é preciso - diz Perahim. - Nunca mais me deverás esperar. Ontem, quando entrei em casa, encontrei a minha mãe e Rosa em sobressalto. Banhadas em lágrimas. Desesperadas. Queriam ir à polícia. Julgavam que eu fora novamente preso.

- Disse-lhes que esteve comigo? - perguntou Lafleur. - Não há mal algum no nosso passeio de ontem à tarde. Absolutamente nada.

- Não lhes disse que passeámos juntos, mas que, se entrasse por vezes um pouco mais tarde, não se deviam alarmar assim. Mas é duro para elas. Não é fácil ter um ente querido que circula nas ruas em liberdade condicional. Que a todo o instante corre o risco de ser preso, corre o perigo de não voltar para casa ao meio-dia ou à tarde. é duro para elas.

- Comprei dois bilhetes para o cinema

- diz Lafleur. - Convido-o esta noite a ver um filme. Aceita?

- Porque me convidas a ir ao cinema?

- pergunta Perahim.

- Aceita? - pergunta ela.

- Responde primeiro claramente: porque me convidas a ir ao cinema? Porquê justamente a mim?

- Porque o senhor Perahim é a pessoa que me inspira a maior confiança nesta terra - diz Lafleur. -Tinha desejo de ver um filme. Convidei-o. Se não quiser aceitar, diga-mo, não me zangarei. Teria prazer em ver um filme consigo. é a segunda vez na minha vida que vou ao cinema. Não há cinema na minha aldeia. A primeira vez que vi um filme foi na escola. Chamava-se As Exéquias de Sua Majestade o Rei Fernando da Roménia. Um filme de curta metragem. Um documentário. Hoje seria a primeira vez que veria um verdadeiro filme. Gostaria de ir consigo, é um dos meus sonhos. Mas, se não pode aceitar, não me zangarei. Aceita?

- Está bem - responde Perahim. - Há dez anos que não ponho os pés numa sala de espectáculos.

- Se vivesse com a sua amiga, a menina Rosa, não o teria convidado. Seria obrigado a ir com ela. Mas disse-me que não vivem juntos, que ela não é para si senão o passado, não é verdade?

- É verdade - diz Perahim. Entram no vestíbulo iluminado a néon, depois na sala de espectáculos. Antes do começo do filme, Lafleur tira um cartucho de caramelos. Oferece-os ao gangster. Ela come-os também, com apetite.

- Tu vais gastar todo o teu dinheiro, se continuas assim - diz Perahim. - Agora, responde: porque é que desejas ver este filme comigo?

- Eu também lhe quero perguntar uma coisa - diz Lafleur. - Porque é tão gentil comigo? é a primeira vez na minha vida que uma pessoa estranha se comporta comigo tão delicadamente e tão gentilmente. Responda, senhor Perahim, porque é tão gentil comigo?

- Comporto-me como qualquer homem digno desse nome o deve fazer - responde o gangster.

- Mas ninguém se conduziu comigo tão bem como vós - repete ela.

- Eu comporto-me contigo exactamente como com toda a gente. Se imaginas que eu me conduzo de outra forma, enganas-te, estás iludida e as ilusões perdem-se depressa.

- Estou-lhe reconhecida - diz ela. - Tenho em si uma confiança cega... Senhor Perahim, sofreu muito nas salinas?

- Muito - responde ele -, mas para que falar outra vez nisso? Procura outro assunto.

- O comissário diz que matou muita gente.

- O comissário mente - responde Perahim. -? Não matei ninguém. é verdade que por ocasião de um baptizado bati, como todos os outros convidados, num polícia bêbedo que tinha provocado escândalo. Mas ele recebeu outros duzentos golpes, enumerados pelo médico legista, além dos que eu lhe dera. E em todo o caso, se só o golpe que eu dei causou a morte do polícia bêbedo, foi um acidente. Uma fatalidade, não um crime. O crime, foi o comissário Catran quem o cometeu.

- Que fez ele?

- Assassinou o meu pai com um tiro de revólver - diz Perahim. - Os factos passaram-se há vinte e cinco anos, durante a grande greve dos caminhos de ferro. Meu pai era o animador dela. O comissário Catran recebeu ordem para matar meu pai a fim de que os grevistas não mais tivessem chefe. Ele penetrou nas barricadas e abateu meu pai com a sua própria mão. Pelas costas. Como recompensa, Joachim Catran foi promovido. Foi nomeado comissário-chefe, foi condecorado. é um criminoso. Um verdadeiro criminoso. Eu, eu não matei. Quando muito, cometi uma fatalidade, um acidente.

Na sala, as luzes apagaram-se e o filme começa. Lafleur, encostada ao gangster, segue atentamente a acção que se desenrola na tela. É uma história de amor. Um homem novo e bonito ama uma bonita rapariga. Vivem numa cidade, num país quente, em Itália. Ele chama-se Romeu. Ela Julieta. Mas porque não podem amar-se e ser felizes juntos, matam-se com o mesmo punhal.

Quando as luzes se acendem, no fim do filme, Max Perahim volta-se para Lafleur. Ela está enroscada na cadeira. Todas as pessoas estão de pé e dirigem-se para a saída. Só Lafleur continua sentada. Como se o espectáculo não tivesse terminado. Ela chora, soluçando fortemente, fechando os punhos.

- Lafleur! - exclama Perahim.

Agarra-a pelo braço e obriga-a a levantar-se. Ela soluça.

- Que é que tens? - pergunta o gangster. - Porque choras?

- Por causa do trágico amor deles - responde Lafleur.

- é unicamente por causa do filme que choras? - pergunta o gangster.

Arrasta Lafleur pelo braço, como uma criança, em direcção à saída. Ela esconde o rosto no lenço, mas não pode parar de chorar. é um desgosto, com lágrimas e suspiros, que lhe vem do fundo do coração.

- O amor deles é exactamente como o nosso - diz Lafleur.

Ela agarra-se a Max Perahim.

- O que estás a dizer? - pergunta o gangster.

Na testa aparece-lhe uma profunda ruga, horizontal. Exactamente como no dia em que foi condenado aos trabalhos forçados. é uma ruga terrível, que não parece franzir só a pele da testa, mas os ossos também.

- Tu dizes disparates, rapariga! - exclama Max. - Lamento ter vindo contigo ao cinema. Tu estás doida. Amor, entre nós? Onde foste descobrir semelhante disparate? Entre nós, nada há. Nem mesmo a ilusão de um amor. Porque nós demos ontem alguns passos juntos na estação término do 6, e porque viemos hoje ao cinema, falas de amor? Se é assim, não quero tornar a ver-te. Não me fales mais, não te responderei. Se te dou os bons dias, imaginas que é uma manifestação de amor, como és doida ! Onde é que descobriste amor entre nós?

O gangster Maximilien Perahim está cada vez mais furioso. Está zangado. Vermelho de cólera.

- é amor - suspira Lafleur. Agarra-se com ambos os braços, como

dois ramos de hera, ao corpo do gangster. Repete:

- é amor. Do verdadeiro...

O gangster e Lafleur são empurrados por todos os lados. São esmagados e empurrados para a porta de saída.

Ninguém presta atenção às lágrimas de Lafleur. Aliás todas as pessoas que saem choram.

- Nenhum amor, rapariga - diz o gangster. - Nem mesmo uma sombra !

- Entre nós há amor, senhor Perahim. Ele existe. Amor. Trágico. Grande. Exactamente como no filme. Um amor maior e mais trágico que o do filme !

- Como podes dizer tais disparates?

- É assim - suspira Lafleur. -Não invento nada. Há amor entre nós. Trágico. Autêntico.

-Como sabes? - pergunta Perahim.

- Se tu desaparecesses - diz Lafleur, e trata-o por tu pela primeira vez-, se tu desaparecesses, eu matar-me-ia imediatamente. Mas imediatamente. No momento em que te aconteça qualquer coisa, suicido-me. Atiro-me para debaixo das rodas do comboio. Atiro-me da janela. Enveneno-me. Corto a garganta com uma faca. Liquido-me com o primeiro meio que se me apresente. Sem hesitação. Sem demora. Porque não poderei viver um segundo sem ti.

- Garota! - diz o gangster.

Ele ri. Já não está zangado. A cólera desapareceu-lhe de repente.

- Não te rias - ameaça Lafleur. -Falo muito a sério. A partir de hoje, não posso viver sem ti. Tu és para mim mais importante que o Sol, mais importante que o ar, que a água, tu és para mim mais importante que o pão, mais do que tudo o que existe no mundo. O meu ser não pode existir sobre a Terra sem ti. Se tu desaparecesses um dia, eu desapareceria também, imediatamente, sem deixar rasto. Mais rapidamente que no filme.

- Disparates de garota - diz o gangster.

- Tudo isso só existe na tua cabeça. Na tua cabeça de criança. A vida é diferente. Absolutamente diferente.

- É como eu te disse - diz Lafleur. - O menor mal que te acontece faz-me sofrer. Se tu te feres num dedo, eu sangro. Amo-te. Compreendes-me, senhor Perahim?

- As palavras que acabas de pronunciar - diz Maximilien Perahim - já as ouvi uma vez na minha vida. Exactamente as mesmas. Uma única mulher no mundo me falou assim: minha mãe. Tu és a segunda...

E acrescenta:

- E contudo, eu, Maximilien Perahim, o rei dos ladrões, o gangster Don Juan, conheci centenas e centenas de mulheres. Todas elas me amaram, mas nem uma me falou assim. Só a minha mãe e tu me disseram que não poderiam viver sem mim, que eu sou para vocês o Sol, o ar, o pão e a água. Só duas mulheres entre centenas de mulheres que amei e que me amaram.

- Tu conheceste centenas de mulheres? - pergunta Lafleur.

Ela enxuga as lágrimas. Observa-o com curiosidade. com os olhos muito abertos.

- Centenas - responde o gangster.

- E tu tiveste relações com todas elas?

- com todas - responde o gangster. - Todos os dias, desde a idade de catorze anos, tive uma amante, por vezes várias no mesmo dia.

- A mim, isso não me importa - diz Lafleur.

Ela assoa-se ruidosamente, enxuga as lágrimas e repete:

- Isso não me importa absolutamente nada. Podes continuar. Podes ter milhares e milhares de amantes. Só desejo uma coisa: que não te aconteça nada de mal. Que não estejas em perigo. Porque se tu sofres e se estás em perigo, eu sofro e estou em perigo contigo. Se tu morreres, eu morrerei contigo. Desgosta-te que eu te diga tudo isto? Talvez não to devesse dizer. Perdoas-me? Disse-to unicamente porque é a verdade.

- Não tem importância - diz o gangster.

- Agradou-me ouvir-te. Tais palavras dão coragem, mesmo que se tenha a certeza de que são palavras inúteis, como o fumo.

- Juro-te, senhor Perahim, que tudo o que acabo de dizer é a estrita verdade. Factos, não palavras. Realidades. Juro-te.

Ela agarra-se com os dois braços ao ombro de Perahim. Encontram-se na rua.

- Obrigada pelo cinema - diz Perahim. -Esquece tudo o que dissemos. Tudo. E agora, boa noite.

Aperta-lhe a mão, com camaradagem, como a um filho, como a um companheiro mais novo.

- Eu moro aqui, ao lado do cinema, no primeiro andar - diz Lafleur. - Não queres vir a minha casa? Faço-te chá, e verás como estou instalada.

- Não - responde Perahim. - Sabes que não sou livre. Estou em liberdade condicional. Basta que um polícia me surpreenda em casa de uma menor e novamente me confiscam o meu corpo e o atiram para as celas subterrâneas escavadas no sal. Para mim, uma menor é sinónimo de estada no inferno do sal. Boa noite. Volta para casa sozinha, Lafleur.

 

No dia seguinte à noite do cinema, Max Perahim levantou-se tarde. Há dez anos que ele se deita, regularmente, ao pôr do Sol. Perdeu o hábito de se deitar à meia-noite. Lembra-se do filme da véspera: a morte de Romeu e de Julieta. Abre os olhos a pensar nos amantes de Verona.

Junto da sua cama, numa cadeira, está sentada Rosa Clima. Está vestida com um saia-casaco. Está bonita, perfumada.

-Bons dias, Rosa - diz ele. - Estou satisfeito por te ver. - Ele estende-lhe a mão. - Como é possível que sejas tão madrugadora?

Rosa recua diante desta mão estendida. é a melhor amiga de Mama Mica Perahim, a mãe do gangster. Rosa faz além disso parte da família. Na ausência de Max, Rosa foi para Mama Mica Perahim uma nora perfeita. Max não se admira por a ver em casa dele a uma tal hora. Mas admira-se por Rosa não responder ao seu cumprimento.

- Que significa isto, meu querido Max? - pergunta bruscamente Rosa Clima.

Ela mostra-lhe os dois bilhetes do cinema das Barricadas onde se exibe o filme Romeu e Julieta. Perahim lembra-se que à entrada, Lafleur tirara da mala os dois bilhetes, que estendera ao porteiro. Aquele perfurara-os, depois não os dera a Lafleur, mas a Max. O gangster metera os dois bilhetes no bolso. E agora estão nas mãos de Rosa.

- Tu revistas-me as algibeiras? Como na prisão? -pergunta o gangster.

Está encolerizado. Levanta-se e está prestes a atirar-se a Rosa. Prestes a arrancar-lhe os bilhetes das mãos. A esbofeteá-la. Contudo Perahim domina-se. Sabe que, por uma só bofetada, arrisca-se a voltar para a prisão por toda a vida. O polícia escreverá: "Pancadas e ferimentos". Não tem o direito de se enervar.

Perahim, vencido, senta-se na cama. O corpo de Max treme debaixo do pijama, com as ondulações compassadas dos gatos de raça e com o vigor nervoso, impaciente, dos cavalos árabes. As narinas de Perahim palpitam como as ventas dos cavalos. Mas domina-se. Em dez anos de vida debaixo da terra, aprendeu a dominar-se. E diz:

- Não é bonito o que fizeste. Sabes como te amo, e revistas-me as algibeiras enquanto eu durmo! Se queres saber alguma coisa, pergunta-me. Dir-te-ei tudo. Não tenho segredos. Mas se tu e a minha mãe correspondem ao meu afecto aplicando-me o indigno regime de controle da prisão, deixarei esta casa. Não vos quero ver mais. Vou-me embora e irei viver sozinho. Longe de vós.

- Canalha! - grita Rosa, as suas mãos com unhas vermelhas como garras manchadas de sangue dirigem-se para a garganta de Perahim.

- Acalma-te, Rosa - ordena o gangster empurrando-a.

As suas mãos, ao tocarem o corpo de Rosa, impregnam-se do perfume da sua carne. A garganta de Rosa, debaixo do vestido generosamente decotado, tocou na testa de Max, cruzada por uma cicatriz, no momento em que ele a obrigou a sentar-se. Um perfume pesado de pele, de carne, de cabelos e de paixão encheu o quarto.

Rosa dá um salto. De pé, bate com violência na cara de Perahim. Uma vez, duas vezes, três vezes. As faces dele estão em fogo. A cólera de Rosa deflagrou como um incêndio. Está exaltada. As faces de Max receberam durante dez anos milhares de bofetadas, milhares de murros se desfecharam sobre ele. Golpes de toda a espécie. Ele fecha os olhos e suporta as bofetadas da mulher sem ripostar. Não tem direito a fazê-lo. Está em liberdade condicional.

- Canalha - grita Rosa Clima. Mete-lhe os bilhetes de cinema nos olhos. - Porque não és leal?

- Sou leal - responde Perahim. - Que me censuras?

- Foste ao cinema com uma pega !

- Foi um acaso - diz Perahim. - Ao descer do eléctrico, encontrei um conhecimento. Uma rapariga. Ela convidou-me a acompanhá-la ao cinema. Nunca vira filmes verdadeiros. Eu há dez anos que lá não ia. Disse para mim próprio que nada tinha a perder se entrasse na sala. Não cometi um crime. Porque devia recusar-me a entrar num cinema?

- -Porque é que não queres ir ao cinema comigo? - pergunta Rosa Clima.

- Rosinha, minha Rosinha, quantas vezes te tenho dito que entre nós tudo acabou? O que acabou não se pode recomeçar. Estou-te reconhecido pelo passado, pela tua dedicação. Tu és a única mulher que, além da minha mãe, tem lugar na minha vida.

Nunca haverá outras. Que mais queres? Mas o que acabou não volta mais. A vida subterrânea nas galerias de sal modificou-me. é tudo.

-E a garota com quem foste ao cinema? - pergunta Rosa. -Porque é que não acabou tudo com ela? Foi só comigo que tudo acabou?

- A questão com a garota e o cinema é uma infantilidade - diz Max. - Nem vale mesmo a pena falar nisso. Tu és uma mulher inteligente, Rosa. Se tu me tivesses perguntado, eu não te teria escondido a minha ida ao cinema.

- Não aceitarei que me abandones como um trapo velho - diz Rosa. - Não aceito afastar-me de ti, como tu afastas um prato do qual não desejas mais porque estás saciado. Não o tolero. Estou no meu direito. Defendo o que me pertence. Os meus direitos de mulher. Não somos casados, é verdade, mas somos mais do que isso. Não nos casámos na presença do juiz de paz e do cura, mas estamos unidos pela prova do sangue, da tragédia, do crime e da prisão. Trocámos os anéis do drama. Nas chamas do purgatório. Não é permitido abandonar uma mulher a quem estás ligado pelas chamas do inferno. Sou mais que tua legítima esposa. Aliás, casar-nos-emos legalmente, se julgas que somos obrigados a usar também alianças de oiro. Se julgas que dez anos de inferno não foram bastantes para nos unirem fortemente.

- Rosa, disseste que não esperavas o meu regresso. Que me amavas sem a mais vaga esperança de me tornares a ver. Que me amavas de maneira desinteressada.

- Max, sou mulher - exclama Rosa. - Só posso ter uma vida, e uma só paixão. A minha paixão és tu. Desde o princípio. Desde que te vi. Por ti, tudo abandonei. Tudo. Lembras-te? Desde então, não vivo senão para ti. Unicamente. Quando foste preso, foi como se eu tivesse sido presa também. Porque eu não pensava senão em ti e não vivia senão para ti. E contudo eu sabia que nunca mais voltarias ao cimo da terra para junto de mim. Que ficarias até à morte debaixo da terra. E depois da morte. Até à eternidade. No túmulo do sal. Como acontece com todos os que descem à prisão de forçados. E contudo não te abandonei. Mesmo depois da tua morte não te teria abandonado. Permanecer-te-ia fiel. Até à minha morte. E depois da minha morte. Até a eternidade. Compreendes? Estava sem esperança. Sacrifiquei-me por ti, o meu único amor, porque este sacrifício me dava mais satisfação que tudo o que existia no mundo. Tinha um fim: tu. Tinha uma missão. Tinha a mais apaixonante missão para uma mulher neste mundo: a fidelidade, o sacrifício e o heroísmo. Vivia para ti. Para o meu homem. Segundo a minha natureza de mulher. Intensamente. Unicamente. Agora que voltaste, se me afastas de ti, matas-me. Afastando-me de ti, espezinhas-me, destróis tudo. E eu tenho o direito de me defender, porque se trata do meu único amor, isto é, da minha vida. Sou uma mulher. E para uma mulher a vida e o amor são uma única coisa. Aquele que tem o meu amor, tem a minha vida. Não tens o direito de me enganar. De me abandonar. De me afastar. Porque tudo isso é a morte para mim. Não tens o direito de ir ao cinema com outra mulher. Porque isso também será um crime. Há dez anos que te espero. Toda a minha adolescência, toda a minha juventude, consagrei-as a ti até agora, aos vinte e seis anos. Só respirei para ti. Se querias repudiar -me, abandonar-me, não era preciso esperar até agora, devias tê-lo feito desde o princípio. Agora, é muito tarde. Não me podes abandonar. Tu és meu. A minha vida, o meu homem. Não posso renunciar a ti, porque além de ti nada mais possuo no mundo. Nada. Não me destruas. Não te afastes de mim...

- Rosa, minha Rosinha, não é preciso fazer um drama. Exageras, a rapariga que me convidou para ir ao cinema é uma estranha. Nada representa para mim. Não faças uma tragédia de um nada.

- Ela não tem o direito de ocupar o meu lugar, mesmo durante o tempo de uma sessão de cinema. Compreendes, Max? Esse lugar, ao teu lado, é o meu lugar. Só meu. Defendê-lo-ei, nem que seja à custa da minha vida. Não tenho leite nas veias. Sou romena. Encontrarei essa rapariga. Torcer-lhe-ei o pescoço, para que ela saiba que tu és meu. Tu também, é preciso que o saibas. é preciso que o não esqueças um só instante. Que és unicamente meu. Enquanto existires. Enquanto viveres, serás meu. Agora que Deus te fez sair debaixo da terra e te trouxe para junto de mim, eu que te amei de longe, não tenho desejo algum de renunciar a ti. E não o quero. Tu és meu. E sê-lo-ás até à morte. Mesmo na tumba, ficarás ao meu lado até à eternidade... Ao lado um do outro. Até ao infinito...

- Rosa... - diz Max.

- Não me interrompas - grita ela. - Digo-te que és meu. Que o queiras ou não, não tem importância. Pudeste sair das salinas. Foi um facto excepcional. Mas nunca poderás sair dos meus braços. Não poderás escapar-te deles. Mesmo morto. Estarás sempre ao pé de mim. és meu até à morte.

Rosa Clima sai do quarto. Furiosa. Atravessa o jardim e perde-se nas ruas sem passeio do bairro das Barricadas, nos subúrbios de Bucareste.

Max Perahim sai para o quintal. Mama Mica passa a roupa a ferro. Ela chora.

- Então, mãezinha? - pergunta Max. Beija a mãe. Ela não responde. Sabe que

a tempestade acalmará desde que Max case com Rosa. Não precisam de se casar na conservatória do registo civil, nem na igreja. Basta que Rosa venha viver aqui para casa deles, que eles vivam juntos.

Mama Mica olha para o filho através das lágrimas. Sabe que estes dez anos de prisão tornaram Max selvagem. Mas ele adaptar -se-á à liberdade, e aceitará Rosa junto dele. Então, tudo se tornará normal.

- Que me quer Rosa, mãezinha? - pergunta Max. - Disse-lhe que não me quero casar, que quero ser só. Porque vem ela aqui ao amanhecer, para fazer escândalo?

- Nunca deixes Rosa por outra mulher - diz Mama Mica. - Se Rosa suporta, com dureza, que a mantenhas à distância, não tolerará que a troques por outra. Se o fizeres, é um drama. Compreendes-me. Se tu fizeres semelhante coisa, estás perdido. Ninguém, nenhuma mulher sobre a Terra merece substituir Rosa na tua vida. é uma mártir. Só vive para ti. Lutou por ti mais do que eu que sou tua mãe. Não cometas o crime de arranjar outra mulher. Seria imperdoável. Rosa disse-mo claramente; ela mantém sempre a sua palavra. No momento em que outra mulher entre aqui, e fique contigo no lugar de Rosa, o sangue correrá a jorros.

- Basta, mãezinha - diz Max Perahim.

- Basta de ameaças.

O gangster dirige-se para o seu quarto. Nuvens negras, vindas do norte, descem das montanhas sobre Bucareste. Mas Max Perahim entra em casa sem as ver. Ele nunca olha para o céu.

 

DEPOIS da cena com Rosa, o gangster não voltou a ver Lafleur. Durante quatro dias, todas as vezes que descia do eléctrico número 6, ele procurava com os olhos o corpo magro, com um vestidinho azul. Lafleur não estava. Ao quinto dia, ela compareceu.

- Eu esperava-te - diz Lafleur correndo ao encontro dele. - Aborrece-te que eu te tenha esperado?

- Eu não me aborreço, minha pequena flor - diz o gangster.

Aperta a mão da sua pequena camarada. Acrescenta:

- Ouve bem o que te vou dizer. Nunca mais nos devemos encontrar, é a última vez que nos falamos. Compreendes?

- Eu sabia que ias dizer tudo isso - diz Lafleur. A tristeza invade-lhe o peito. Sabia-o claramente - repete. - Foi por isso que não te esperei, durante estes quatro dias. Desejava estar ainda contigo. Não ouvir mais a palavra "adeus".

- Não chores, dupla flor - diz o gangster. - Eu não sou um homem livre. Sou um condenado aos trabalhos forçados por toda a vida. Só estou livre provisoriamente. A polícia espia-me. Vigia o meu menor gesto. Tu és menor, não é verdade?

- Sim, é verdade - responde Lafleur.

- Sou menor.

Ela olha para o chão, humilhada. é o seu maior drama: é menor. Tem de suportar esta condição como uma sentença de condenação.

- Por desvio de menores, qualquer polícia pode expedir-me para a prisão no primeiro comboio. E nunca mais sairei de lá. Mesmo que quiséssemos estar juntos, e mesmo que tu não fosses menor, não poderíamos. Entre nós existe Rosa. Disse-te que não era sozinho. é certo que não sou casado com Rosa. No nosso mundo, as pessoas não se casam. Por desprezo para com o juiz de paz, o cura e por tudo o que é autoridade. Mas os elos entre os casais são mais duradoiros que os consagrados pela Igreja e pela conservatória. Nunca viverei com Rosa, é certo. Mas não posso, por isso, pôr outra mulher no seu lugar, em minha casa. Se me acontecer um dia não poder estar só, é com Rosa que terei de viver.

O seu lugar está reservado. Ela é insubstituível.

- É a Rosa quem te impede de sair comigo? - pergunta Lafleur. - Faz mal encontrarmo-nos?

- Faz mal - responde Maximilien Perahim. - O facto de termos ido juntos ao cinema deu mau resultado. Eu nunca fui ao cinema com Rosa, isso pode tolerar-se, mas eu não tenho o direito de lá ir com outra mulher. Se eu for a um espectáculo, o lugar ao meu lado, a cadeira da direita, pertence a Rosa. Há alguns dias tu estiveste nessa cadeira. A sua. A cadeira de Rosa. é injusto. Rosa encontrou os bilhetes do cinema. Fez-me uma cena terrível. Tem razão. Não se espezinha assim o coração duma mulher. Posso manter Rosa à distância mas não tenho o direito de a substituir por qualquer outra. Por conseguinte, minha pequena flor, nunca mais nos devemos encontrar. Esta tarde dizemos adeus.

Lafleur chora, de pé em frente do gangster.

- Eu sabia que tu me deixarias - diz ela. - Para que não me esqueças, peço-te para aceitares este medalhão, no qual mandei gravar: "Lafleur. Tua até à eternidade". Aceita-o, peço-te. Depois podes atirá-lo fora.

Lafleur estende a Perahim o medalhão barato no qual está gravado o seu nome, com a promessa duma fidelidade eterna. Maximilien recebeu centenas e centenas de medalhões semelhantes. Todas as mulheres lhe ofereceram um medalhão quando ele lhes dizia adeus.

Mete-o a sorrir no bolso, como o fez centenas de vezes, com indiferença.

- Adeus, Lafleur - diz Perahim. Mesmo se fôssemos livres, os dois, não teríamos tido qualquer probabilidade de sorte.

- Não? - pergunta Lafleur. - Porquê? Não teríamos tido probabilidade de sorte?

- Não há amor feliz - diz o gangster.

- Tu viste no cinema. Todos os amores se saldam com a morte ou não se realizam. Os amores são como os carris do caminho de ferro: sempre ao lado um do outro, mas nunca se encontram, salvo no infinito, ou em caso de catástrofe, é a sorte de todas as paralelas. Encontram-se unicamente no infinito.

- Eu amo-te - senhor Perahim.

- Adeus, Lafleur. Encontrar-nos-emos, como todas as paralelas, no infinito. é o lugar do nosso encontro... O local do encontro de todos os apaixonados.

- Senhor Perahim - diz Lafleur -, é preciso que saibas uma coisa: eu não te sobreviverei uma hora. No instante em que tu morras, eu morrerei também. A tua vida é-me tão necessária como o Sol, a água, a luz e o pão. Sem ti, não poderei viver. Toma cuidado contigo.

- Palavras de garota - diz Max. Adeus, esquecer-me-ás depressa. Do nosso encontro, só restará uma imagem: uma pequena flor azul que floriu, no caminho dum gangster. é tudo.

- Eu não brinco - diz ela. - Aceito dizer-te adeus, viver longe de ti. Mas no instante em que tu morras, eu morrerei também. Tu dizes que os apaixonados são como os carris duma via férrea. Sempre juntos, sem nunca se encontrarem, senão no infinito? Pois bem, não existe via férrea com um só carril. Há sempre dois. Sabe portanto que estarei sempre paralela a ti. À distância, mas inseparável de ti. Por toda a parte. E encontrar-te-ei onde se encontram todas as paralelas: no infinito.

- Então, até ao encontro no infinito, minha florzinha.

Apertam as mãos e separam-se.

- Até ao infinito - diz a soluçar. - Até ao infinito...

 

- A mulher é como a atmosfera. Pode ser tónica, perfumada, tóxica. A vida de um homem depende principalmente da atmosfera onde ele vive, isto é, da mulher que tem a seu lado - diz Violette Catran.

Ela está de pé, ao lado do gangster.

Dentro de duas semanas, a restauração dos móveis estará acabada.

A senhora Catran vem regularmente à oficina da cave e fala com Perahim. De toda a espécie de coisas. Como neste momento. O gangster escuta-a sem parar de

trabalhar.

- É assim a mulher - continua a senhora Catran. - é o clima, é a atmosfera invisível que decide da sorte das culturas, dos navios, das batalhas. Quem decide de tudo na vida dos homens.

- Está alguém à porta que deseja falar com urgência ao marceneiro - diz a cozinheira entrando na oficina.

- Que venha aqui - ordena a senhora Catran.

Ela dirige-se a Perahim.

- Está uma pessoa à porta. Deseja falar-lhe.

- Essa pessoa não quer entrar - diz a cozinheira. - Espera o marceneiro lá fora. é uma mulher de idade. Diz que é muito urgente.

- Vá ver - ordena a senhora Catran ao gangster.

Perahim poisa a ferramenta e vai à porta. Sua mãe está lá. Espera-o. Está inquieta. Diz ao filho:

- Rosa quis-se matar! Mama Mica desata a soluçar.

- Rosa? - pergunta o gangster. - Está morta?

- Entre a vida e a morte - explica Mama Mica. - Envenenou-se, em nossa casa, à minha vista. O médico veio. Levou-a.

- Ela está portanto salva? - pergunta Perahim. - Onde está ela?

- Conduziram-na ao hotel - explica Mama Mica. - Ela não ficou na clínica, para que a polícia não saiba. Rosa quer ver-te urgentemente. Desde que abriu os olhos, desde que voltou à vida, pediu para te ver.

-Vamos - diz Max Perahim.

Agarra na mão da mãe. Sem dizer uma palavra. Sem olhar para trás, sai, arrastando a mãe pela mão.

- Em que hotel está Rosa? - pergunta ele. - Apanhemos um táxi. Tu disseste que ela está livre de perigo?

Max e Mama Mica sobem para um táxi. Dirigem-se para o Hotel da Gare, onde vive Rosa.

- Foi por tua causa - diz Mama Mica, em lágrimas. - Rosa quis-se matar por causa dessa rapariga. Por causa de Lafleur. Porque fizeste isso, Max, meu filho adorado? Porque fizeste isso?

- Que é que eu fiz, mãezinha? - pergunta o gangster. - De que rapariga falas tu? Há vários dias que eu disse a essa adolescente que não nos voltaríamos a ver. Nunca mais. Nada houve. Absolutamente nada, entre nós. Um passeio de um quarto de hora pelas ruas e uma noite no cinema. Foi tudo. Não faças romances de um nada. Porque é que Rosa se quis matar? Que é que lhe aconteceu?

- Por causa dessa rapariga. De Lafleur - diz Mama Mica. - Não procures negar.

Rosa Clima encontrou o medalhão que a rapariga te deu. No qual estava escrito que ela seria tua amante fiel até à morte.

Mama Mica enxuga os olhos. E continua:

- Rosa encontrou-o, bem entendido. Tu imaginas que Rosa não sabe o que tu fazes? Julgavas que ela não encontraria o medalhão? Rosa ama-te. Espia-te. Ela sabe tudo o que tu fazes. Tudo. Quando leu a inscrição da rapariga na pequena medalha, engoliu um frasco de veneno. Até à última gota. Não podia suportar mais. Era demasiado para ela.

- Rosa perdeu a cabeça por completo-? diz o gangster. - Ela está doida.

- Isso não é verdade - diz Mama Mica.

- Rosa sofre por causa da tua injustiça. Como qualquer mulher abandonada. Não há maior ofensa para uma mulher. Voltas depois de dez anos de ausência e nem mesmo a recebes na tua cama. Nunca. Ela contou-me tudo. Ela que sabia que todos os dias mudavas de amante...

- Dez anos de prisão modificam um homem.

- E os teus amores com a rapariga? Visto que te modificaste, porque andas tu com essa rapariga?

- Não existe amor entre mim e essa rapariga - diz Max, furioso. - -Um simples acaso, uma infantilidade. O tempo duma sessão de cinema e de um passeio de um quarto de hora. Já to disse. Tudo acabou.

O táxi pára na Calea Grivitza, diante do Hotel da Gare.

- Vá - diz Max Perahim ajudando a mãe a descer do carro.

- Eu não irei contigo - diz a mãe do gangster. - Rosa quer que tu vás sozinho. Ela só quer falar contigo. Eu volto para casa. Sê gentil com ela. Eu espero-te em casa. Venham os dois. Eu espero por vocês para o almoço.

- Porque é que Rosa me quer ver sozinho? - pergunta o gangster, desconfiado. - Que me quer ela?

- Tu sabes o que Rosa quer - diz Mama Mica. - Ela quer estar sozinha contigo, é tudo. é natural. Não é preciso injuriá-la. é o amor duma mulher. Vai, e promete-lhe que irão viver juntos.

- Eu não me casarei com Rosa. Nem com ela, nem com outra. Quero ser só.

- com Rosa tu serás feliz - diz Mama Mica. - Por agora vai ter com ela. Que ela te veja. Ela só te espera a ti. Boa sorte, meu filho.

Mama Mica, miúda, frágil, com os cabelos brancos e o seu vestido monacal de gola subida, dirige-se para o bairro das Barricadas, enquanto Max Perahim entra no hotel onde o espera Rosa Clima.

 

MAXIMILIEN PERAHIM conhece o hotel onde o espera Rosa Clima. É um hotel, entre cem outros, que os gangsters, os traficantes de cigarros, de divisas, de mulheres, de armas, de álcool e de droga frequentam. No rés-do-chão há um botequim. O hoteleiro, a criada de mesa, o criado fingem não ver Barricada, por discrição. Observam-no sem que ele dê por isso. Estão ao corrente. Sabem que se trata do célebre Barricada. Nunca o viram, mas ouviram falar dele. Toda a gente, neste bairro, pronuncia o nome de Barricada, o último grande gangster, com respeito.

Perahim enxuga a testa. Logo que entrou no hotel, o passado surgiu.

A escada é estreita com um tapete vermelho. Max subiu centenas de vezes escadas iguais.

A notícia que o rei dos ladrões acaba de entrar no hotel já é conhecida. Aqui todas as notícias são conhecidas. Perahim não vê ninguém. Mas sabe que atrás de cada porta, atrás de cada cortina olhos o espreitam. com admiração, com temor. São homens novos que nunca o viram, e que, cinco minutos mais tarde, se gabarão de ter visto - com os seus próprios olhos-o célebre Barricada - o homem que saiu vivo da prisão, o rei dos ladrões, o Don Juan a quem nenhuma mulher resiste.

Max avança pelo corredor, sozinho, exactamente como antigamente, como se os dez anos não tivessem existido. Mal entrou no hotel, sente-se novamente rei, novamente no seu ambiente. Soberano. Perahim abre a porta do quarto 33. No terceiro andar sem bater. Rosa está lá, em combinação, estendida na cama. Deitada de costas. Veste uma combinação de renda, preta. Meias de calcanhares bordados. Os cabelos pretos, desmanchados, estão espalhados na almofada. Rosa Clima fuma.

Max Perahim tem a impressão que se encontra no passado. Revê os milhares de mulheres que o esperaram assim nos quartos de hotel, exactamente como Rosa neste momento, em combinação, a fumar, a cabeça pousada no braço nu. com os olhos cheios de receio, de atenção, de angústia e de volúpia. Perahim fecha a porta e mete a chave no bolso com um gesto maquinal. Um gesto do passado. No quarto não há nem cadeira, nem armário. Unicamente uma cama e um lavatório. Max encosta-se à porta.

- Porque fazes disparates, Rosa?

A voz de Perahim mudou. Há já dez anos que ele não emprega este tom. No passado, fez esta pergunta milhares de vezes. Encostado à porta. com a chave no bolso. às mulheres estendidas na cama, exactamente como Rosa neste momento. Antigamente, uma mulher como Rosa, que se agarrasse a ele, que tentasse conquistá-lo por uma tentativa mais ou menos real de suicídio, era uma mulher a eliminar, uma mulher que estorvava, que devia ser posta fora da engrenagem - no asfalto. Sem piedade.

Agora Perahim já não é um gangster. O suor inunda-lhe a testa. Sabe que aquele que começa a discutir está antecipadamente vencido. Um homem que deseja vencer começa por agir. Aquele que discute não age, porque qualquer acto não pode estar conforme com um raciocínio perfeito. Max sabe que já está vencido. Discute. Perdeu a partida, é Rosa quem será a vencedora.

- Porque fazes disparates, Rosa? - repete Perahim.

-Max, sacrifiquei tudo por ti. Todo o meu capital de amor e de sonhos está nas tuas mãos. Não é verdade?

- É verdade - responde Perahim.

- Mal sais da prisão, abandonas-me. Se tivesses ficado na prisão, eu teria sido feliz. Teria sido uma mártir. E os mártires são felizes. Mas tu saíste da prisão. Estás livre. A primeira coisa que fizeste, uma vez em liberdade, foi evitar-me. Repeliste-me. Abandonaste-me. Aplicas-me o tratamento da suprema humilhação que uma mulher pode suportar. Depois, substituis-me. com a primeira que apareceu.

Rosa Clima atira à cara de Max Perahim o medalhão oferecido por Lafleur.

O medalhão atinge o gangster em pleno peito, depois cai-lhe aos pés. Max não o apanha. - é uma infantilidade, Rosa - diz Perahim. - Não tens o direito de fazer um drama dum nada.

- Max, serás meu ou não serás de ninguém- diz Rosa. - Desta vez sou eu quem manda.

- Nem teu nem doutra - responde Perahim. - -Serei só. Na Terra. com a única preocupação de não voltar para debaixo da terra. é tudo.

- Serás meu ou de mais ninguém - repete Rosa. -Vivo ou morto, mas só meu.

- Nunca - responde o gangster. – Está decidido. Acabou-se tudo entre nós. O que se foi não voltará.

- Nesse caso, acabou-se também para ti - diz Rosa Clima. - Tentei matar-me.

Não consegui. Tua mãe salvou-me.

Rosa levanta-se. Perahim segue cada um dos seus gestos. Sobretudo os gestos das mãos. Sabe que Rosa vai buscar um revólver que escondeu debaixo da almofada. Max Perahim viveu esta cena centenas de vezes, com mulheres que queriam matar-se e que em seguida lhe marcavam encontro, num hotel, como Rosa neste momento, e que o intimavam a ser fiel. Tiravam um revólver debaixo da almofada e apontavam-lho. Nunca uma destas mulheres atirou. Max sabe que Rosa também não atirará. Ele conhece perfeitamente esta cena, como um actor que a tivesse desempenhado milhares de vezes.

- Eu não te matarei - diz Rosa. - O tom da sua voz é insultuoso. - Tens medo que eu tire um revólver debaixo da minha almofada?

- Não tenho medo - responde Max. - Sabes muito bem que nunca tive medo dum revólver. Nem da morte.

Subitamente, a testa de Max Perahim cruzada por uma cicatriz torna-se cor de cera. Ele ouviu-se a pronunciar as últimas palavras. Não se reconheceu. São as palavras, o timbre, a entoação de antigamente, do tempo em que era o rei dos ladrões. Já não é, presentemente, o Perahim regressado da prisão. Já não é o virtuoso. Fala com crueldade. é o gangster que fala.

Perahim volta a si e procura a chave. Quer ir-se embora. Não quer ser um gangster. Bastou-lhe entrar aqui, neste hotel, ter Rosa Clima na sua frente, para que todas as palavras, os gestos, a mentalidade de gangster reaparecessem.

- Não tens medo do revólver? - pergunta Rosa.

- Não - responde Perahim.

Ele ouve a sua própria voz. é a de outrora. Tem medo. Se a cena se prolonga, Max Perahim, Barricada, vai tornar-se no antigo bandido. Cometerá violências. Não poderá dominar-se. Reagirá automaticamente como no passado. Atirar-se-á a Rosa. Estrangulá-la-á. Maltratá-la-á. Como fazia Barricada, quando era o rei dos ladrões.

- Não, Rosa, não tenho medo - repete ele.

- Não tens medo do revólver - diz ela.

- Eu sei-o. Mas tens medo doutra coisa. Todo o homem tem medo de qualquer coisa. Tu, tu tens medo de voltar para a prisão.

Eu sei-o e faço-te a pergunta pela última vez: queres que vivamos juntos?

- Não - responde o gangster. - Nunca.

- Se eu morrer agora, voltarás para a prisão, para sempre.

- Eu não te quero matar - diz Max.

- Se eu morrer agora, só tu podes ser o assassino. Não tens ninguém para te defender. Ninguém.

E enquanto pronuncia estas palavras, Rosa Clima, dum pulo, salta para a janela.

Ela está em pé, no parapeito, como um quadro na moldura. A janela está aberta. O corpo de Rosa enquadra-se nela, a toda a altura.

- Tu repudias-me? Está bem. Mas eu possuo uma arma para te punir: mando-te para a prisão. À custa da minha vida, é verdade, mas mando-te para lá. vou atirar-me da janela. Daqui. E tu, tu serás preso por assassínio. A centenas de metros debaixo da terra. Para a eternidade. Nunca se deve brincar com o coração duma mulher, Max. Nunca.

Rosa Clima balança-se no caixilho da janela aberta, no terceiro andar deste quarto de hotel.

- Forçado - grita ela. E chora. - Forçado. Dentro de alguns instantes, irei esmagar-me no asfalto. As sereias vão uivar.

Lá em baixo, na Calea Grivitza, a circulação vai parar. O hotel será revistado. Toda a gente saberá que Perahim Barricada, o rei dos ladrões, atirou da janela do terceiro andar do Hotel da Gare a mulher que o adorava e que tratou dele durante dez anos. Dentro de algumas horas serás algemado. E morrerás com ferros, Max. E eu serei vingada. Vingada como nunca o foi uma mulher abandonada.

De pé no caixilho da janela, Rosa soluça prestes a perder a respiração.

- Rosa, domina-te - grita Perahim.

- Todos os meus amigos estão lá em baixo. Disse-lhes que tu me querias matar. As portas do hotel estão fechadas à chave. Já não podes sair. Não sairás daqui, senão com algemas.

Max Perahim está decidido a acabar com a chantagem desta mulher. Atira-se a ela e agarra-a pelos tornozelos. Rosa debate-se. Um instante, o seu corpo inclina-se por cima do parapeito da janela, depois cai na rua.

Max queria agarrá-la pela cintura. Mas o corpo da mulher escorregou-lhe entre as mãos, como um peixe, como uma truta, e finalmente escapou-se-lhe.

Ouve-se um ruído surdo, lá em baixo, na rua. Os ruídos das buzinas e gritos erguem-se em coro. Os automóveis e os eléctricos travam bruscamente. Pessoas gritam na rua. Max Perahim tapa os ouvidos com os punhos e diz para si:

-Para a prisão !

Começa a chorar, no meio do quarto. Olha para o papel cor-de-rosa das paredes. é um quarto grande como uma cela.

- Não quero voltar a ser preso ! Jamais !

As palavras de Rosa voltam-lhe ao espírito: "Os meus amigos estão lá em baixo. Sabem que me queres matar. Fecharam-se todas as portas do hotel. Já não poderás sair do hotel senão algemado".

Perahim ouve depois a voz do comissário Joachim Catran: "Não escaparás ao que receias, Barricada. Se tens medo da prisão, voltarás para lá...".

Max lembra-se das palavras do padre: "A virtude sem Deus não conduz a nada. Por mais alto que estejas, voltarás sempre ao teu ponto de partida...".

Max Perahim abre a porta com precaução e sai para o corredor. Não há ninguém. Sabe que é esperado lá em baixo. Em vez de descer, sobe. Chega às águas-furtadas do hotel. Sobe para o telhado. Depois, passa para o telhado da casa vizinha. Ninguém o segue. As palavras do padre Nicolas Religia ressoam aos ouvidos de Pêrahim.

A virtude sem Deus é uma escada rolante, um ascensor que te pode elevar acima dos outros homens, ao andar superior. Mais rigorosamente, ao telhado. Mas que chegues lá ou a qualquer outra parte, encontrarás os mesmos problemas que em baixo. Não há saída para parte alguma. Por mais alto que subas. Mesmo que faças uma escada que suba até à Lua, nunca chegarás senão ao lugar donde partiste! Está no destino do homem. Só a religião conduz ao Céu. De outro modo, voltarás sempre ao teu ponto de partida e todos os teus esforços terão sido inúteis".

Max Perahim começa a descer. Encontrou uma escada que conduz a uma pequena rua tranquila, longe do alarido da Calea Grivitza, onde Rosa caiu.

Chegado ao fim, Max Perahim toma uma decisão: "Agora, vou-me matar. Mas antes de morrer direi adeus a minha mãe e deixar-lhe-ei o dinheiro que possuo, a fim de que ela tenha com que viver. Para que ela não seja obrigada a lavar roupa até à sua morte..."

Perahim dirige-se para o bairro das Barricadas. Caminha depressa. O seu corpo magro transpira, como se os poros lhe chorassem. Mas avança. Cada vez mais depressa. Toda a demora pode fazer com que seja preso. Toda a demora pode fazer com que seja algemado. Quando morrer quer abandonar o seu corpo -a fim de que o seu corpo não volte a cair vivo nas mãos da polícia.

 

- MAMA MICA, matei Rosa! - diz o gangster Maximilien Perahim. Desata a soluçar, e cai de joelhos aos pés da mãe. A mãe do gangster está sentada num sofá. ela tricotava no momento em que o filho entrou em casa, como uma tempestade, e se lhe atirou aos pés, dando-lhe conhecimento da terrível notícia.

Perahim pousa a cabeça nos joelhos da mãe. Chora, como nunca mais chorara desde criança.

- Não a matei voluntariamente - diz Max. - Ela quis obrigar-me a mudar de procedimento. Subiu para a janela e ameaçou-me atirar-se do terceiro andar se eu não casasse com ela. Compreendi que se tratava duma cena de intimidação. Atirei-me a ela para a agarrar e obrigá-la a descer da janela. Quis fugir-me, escorregou e caiu. A multidão começou a gritar, a berrar.

Fugi para os telhados. E eis-me aqui, aos teus pés, Mama Mica.

Mama Mica pousa as duas mãos na cabeça do filho - como se quisesse protegê-lo contra todos os golpes. Mas Perahim continua com a testa nos joelhos da mãe.

- Peço-te perdão, mãe, minha mãezinha ! Mas não quero voltar para a prisão. Tenho muito medo. Para escapar dela, só tenho um meio: tenho de me matar. Mas primeiro quis dizer-te adeus. Tu foste testemunha. Fiz tudo o que pude para ficar ao de cima da terra, para viver honestamente. Não consegui. Tenho de morrer. Ouves-me, Mama Mica? Antes de morrer, tenho de te dizer uma coisa. Não quero que vivas na miséria. Mama Mica, o meu último roubo, antes da minha detenção, rendeu-me vinte e quatro milhões. Eles estão escondidos com outras coisas, ouro, divisas, armas, drogas, nas fundações da casa. Nunca confessei à polícia onde se encontravam. E contudo, eles torturaram-me horrivelmente. Quando fui posto em liberdade, estava decidido a não lhes tocar. Queria deixar o tesouro enterrado, onde se encontrava. Queria que vivêssemos do dinheiro que eu ganhasse com o meu trabalho. Jurei não o desenterrar. Teria mantido a palavra. Agora, tenho de morrer. Para que tu não leves uma vida tão miserável, vou desenterrá-lo para ti. Terás de ser prudente. Gastarás este dinheiro moderadamente, para não chamar a atenção da polícia. E terás assim uma existência isenta de preocupações. Ouves-me, mãezinha? E acrescenta:

- Agora vou beijar-te as mãos mais uma vez. Voltaremos a encontrar-nos no outro mundo.

Perahim afasta as mãos da mãe e beija-lhas.

- Adeus, Mama Mica, morro sem remorsos. Fiz tudo o que um homem podia fazer. Mas o destino foi-me adverso. A morte pode ser por vezes uma vitória. Uma libertação... quando nos salva da tortura. Adeus.

No instante em que Perahim se levantou, as mãos da mãe que repousavam em cima da sua cabeça, como na comunhão, e que ele beijara piedosamente, escorregaram, inertes, ao longo do corpo miúdo. Os olhos de Mama Mica estão esbugalhados, mas fixos. A cabeça está baixa.

- Mama - grita o gangster.

A velha Mica Perahim está morta. Nada ouviu do que o filho lhe disse. Só ouviu a primeira frase: Mãezinha, matei Rosa Clima... No momento em que ouviu estas palavras, o coração fatigado de Mama Mica cessou subitamente de bater.

- Mama Mica! - grita Maximilien Perahim. -Mama Mica !

Diante da casa de Perahim, na rua sem passeio do bairro das Barricadas, passa um camião da polícia. As sereias começam a uivar.

- Vou-te deixar sem sepultura, Mama Mica - diz Max. - Tenho de desaparecer, de contrário, cairei novamente nas suas mãos... vou queimar o tesouro. Nem um centavo irá para as mãos deles. Nem um.

Enquanto procura os fósforos, lembra-se de Lafleur. Estes vinte e quatro milhões oferecidos a Lafleur tirá-la-iam da miséria. A ela e aos seus. Poderia ter uma vida tranquila, graças a ele. Ela que só conheceu, como os seus, como toda a raça dos camponeses romenos dos Cárpatos, a miséria, a fome, as humilhações e a doença.

Maximilien Perahim despeja o saco da ferramenta. No seu lugar, mete o conteúdo do cofre, os milhões, o tesouro. Para Lafleur. O revólver com que se matará, mete-o ele no bolso do casaco. Põe o saco ao ombro e entra novamente no quarto onde sua mãe jaz, morta, imóvel, no seu sofá, como se dormitasse. Max inclina-se, e depõe um beijo na testa da mãe. Depois, meigamente, com a ponta dos dedos, fecha-lhe os olhos. Ele tem lágrimas nos olhos. Pega na mãe. O corpo de Mama Mica é leve como o corpo duma rapariguinha. Estende-o em cima do divã. Cruza-lhe as mãos sobre o peito. Tapa-a. Persigna-se, pega no saco com os milhões e sai de casa. Uma patrulha de gendarmes surge à esquina da rua, com capacetes, armados, baioneta no cano. Correria. Perahim espera que a patrulha passe. Depois dirige-se, o mais rapidamente que lhe é possível, com o saco de milhões ao ombro, para a Pastelaria Real.

- vou dar o saco a Lafleur. Depois entrarei no primeiro botequim, fecho-me nas retretes e mato-me. Quando a polícia chegar, já não encontrará Perahim para lhe confiscar o corpo, para o torturar e atirá-lo para debaixo da terra.

O gangster avança em direcção ao centro de Bucareste com um sentimento de vitória no coração. O cadáver de Rosa Clima e o de Mama Mica não lhe pesam na consciência. Não as matou voluntariamente. No caso de Rosa, trata-se de um acidente. No caso de Mama Mica, a sua responsabilidade é ínfima. Não teve a intenção de matar sua mãe. Ignorava que a podia matar com uma só palavra, com uma só frase.

- Nunca poderia imaginar que se pudesse matar um homem com uma frase como com um revólver. E contudo minha mãe foi morta, morta por duas palavras, que lhe atravessaram o corpo como uma flecha, e o coração parou-lhe.

Max Perahim quer salvar o seu corpo das mãos da polícia. Vai matar-se. Não tem outro meio de salvar o seu corpo. Para o que se passa na sua alma, se existe um grande Julgamento, esse grande Julgamento apreciará, lá em cima, na eternidade, qual é exactamente a culpa de Maximilien Perahim, conhecido por Barricada, nos três crimes de que foi acusado na terra: o assassínio do polícia bêbedo, dez anos antes, a queda de Rosa Clima, da janela do terceiro andar, e a morte de sua própria mãe, morta com algumas palavras, duras como a ponta duma espada ou como flechas envenenadas. Ao encaminhar-se para a Pastelaria Real, Max Perahim agarra, dentro do bolso, com toda a força a coronha do revólver. Se se encontrar na iminência de ser preso, matar-se-á. O cano do revólver está dirigido aos seus rins. O gatilho de segurança está levantado. Bastar-lhe-á carregá-lo e o seu corpo escapará à polícia. Contudo, antes de morrer, desejaria poder oferecer os vinte e quatro milhões a Lafleur.

 

O gangster não quer comprometer Lafleur. A rapariga não deve ser vista na sua companhia. Entra na cabina telefónica dum bar e liga para a Pastelaria Real.

- Trabalha aí uma empregada chamada Lafleur - diz o gangster. - Poderia fazer o favor de lhe dizer para vir à rua por alguns instantes, pela escada de serviço? Tenho uma carta dos pais para ela. Da aldeia. Muito obrigado.

O gangster espera na entrada da porta de serviço da Pastelaria Real. No minúsculo pátio acimentado, como o pátio de uma prisão, há cestos cheios de cascas de ovos. Milhares de cascas, brancas como a espuma do mar. São os ovos partidos por Lafleur. Perahim olha-as com ternura.

Juntam-se ali-para serem despejadas no camião - cascas de avelãs, de nozes, caixas de açúcar e de manteiga vazias. Embalagens de frutos. Caixas de cartão enormes que contiveram cacau, café. Sobre tudo isto flutua um perfume açucarado. Um aroma de frutos, de baunilha, de cacau. Lafleur aparece. Está vestida com uma blusa branca, a cabeça envolvida com um lenço branco, de sorriso nos lábios, as faces rosadas. Assim vestida de branco, Lafleur está bonita como o cume duma montanha onde as neves nunca derretem. é delgada como um lírio, leve e branca como um cisne.

Ao ver o gangster, Lafleur fica completamente feliz. Ela que, em sonhos, tem tanta intimidade com Perahim, precipita-se e beija-o, porque, nos seus sonhos, ela beija-o. Abraça-o. Fala-lhe, de tudo e de nada. Mas pára bruscamente, porque se lembra que não é um sonho. Está no pátio da Pastelaria Real e é-lhe proibido ter intimidades com Max. Na realidade não são amantes, como nos seus sonhos, mas quase estranhos.

- Estás bonita, de branco, como uma noiva - diz o gangster. Procura as palavras, para não assustar Lafleur. E repete:

- Tu estás branca como uma noiva.

De repente, acrescenta:

- Lafleur, minha pequena flor, cometi um crime!

- Não - diz ela.

O rosto grave de Perahim está triste. Ela leva as mãos à cara. Esconde completamente a boca, os olhos, o nariz. Olha-o através dos dedos, assustada.

- Cometi um crime - diz ele. -Não há uma hora. Matei Rosa.

- Não é verdade! - grita Lafleur. - Jura que não é verdade!

- é verdade - diz ele. - Não o cometi só, é certo. A minha parte de cumplicidade foi mesmo descurada. Participei nele quase passivamente. Foi o destino que cometeu o assassinato. Mas o destino não pode ser encarcerado. Sou eu quem será mandado para a prisão. E, para não ser preso, vou-me matar.

Lafleur ouve, apavorada, o rosto escondido entre as mãos. Olha para Perahim, através dos dedos, como olharia para o camião que acabasse de esmagar a sua boneca, no meio da rua. Como se olha para o rio onde o nosso barco de papel acaba de se afundar. Ela fica assim, com as mãos nos lábios. Petrificada. A um passo de Maximilien Perahim. Branca como uma noiva.

- Antes de desaparecer, fui a casa de minha mãe dizer-lhe adeus. Adoro minha mãe. Tu sabe-lo. Adoro a minha mãe como adoro o Sol. A Lua. Amo-a como à menina dos meus olhos. Não queria deixá-la na miséria. Quando lhe disse adeus, tinha a intenção de lhe dar este saco...

Maximilien mostra o saco da ferramenta caído aos seus pés e diz:

- Há neste saco vinte e quatro milhões de divisas, muito ouro. é a minha parte dos lucros que consegui com o último contrabando, antes de ter ido para a prisão, há dez anos. Escondi-o nos alicerces da casa. Tinha decidido nunca mais lhe tocar. Agora, visto que vou morrer, desenterrei-o. Queria oferecer este tesouro a minha mãe, para que ela pudesse ter com que viver quando ficasse só. Ajoelhei-me aos seus pés. Ofereci-lhe o saco com o tesouro e disse-lhe: "Mãezinha, cometi um crime. Assassinei Rosa. Sem querer. Ela atirou-se da janela do terceiro andar. No Hotel da Gare. Ninguém me pode defender e livrar-me da prisão. Deixo-te pois o ouro que possuo. Está aqui. Aos teus pés. Neste saco. Peço-te perdão. E vou-me embora. Nunca mais nos voltaremos a ver. Eu vou morrer." A minha mãe estava sentada num sofá. Eu estava de joelhos diante dela. Ela pousou as mãos na minha cabeça, como se me abençoasse. Quando me levantei, a minha mãe estava imóvel. Os braços deslizaram-lhe ao longo do corpo. Minha mãe estava morta. Mama Mica morreu ao ouvir a minha frase: "Mãezinha, cometi um crime..." Posso portanto afirmar que fui eu ainda quem matou minha mãe. com uma só frase. Ela era tão frágil. Não tive necessidade de revólver. Uma frase foi uma arma suficiente para causar a sua morte.

"Antes de deixar a casa e de desaparecer, peguei no revólver. Olhei para o ouro e disse para mim que em vez de o deixar aos polícias, seria melhor oferecer-to. Sei que o alerta foi dado. Toda a polícia de Bucareste me procura neste momento. Por toda a parte. Trouxe-te este tesouro para que possas ser feliz. Tu e a tua família."

Maximilien Perahim depõe o saco aos pés de Lafleur. Ela continua a usar as mesmas sandálias que ele conhece.

- Que ninguém saiba que eu vim aqui - diz o gangster -, nem que tu me falaste. Esconde o saco. Não creio que eles vão revistá-lo a tua casa, mas será melhor que o escondas o mais depressa possível. Há muito ouro. Serás rica como uma rainha. Toda a tua vida. Isso dá-me prazer. Adeus, pequena flor... Dupla flor.

Sem lhe estender a mão, sem acrescentar uma palavra, Max Perahim volta-se e desaparece na rua, a correr.

Lafleur pega no saco. Conserva-o por um instante. Olha à sua volta. Não há ninguém no pátio. Nada senão caixas vazias, garrafas de leite, todas brancas, cascas de ovos. Como montes de neve. Cascas de nozes, de avelãs. Flutua um cheiro a leite queimado.

Lafleur lança-se para a saída. Como está, com o saco de milhões do gangster ao ombro. Ela vê Perahim subir para um eléctrico. Desesperada, Lafleur corre atrás dele. O eléctrico pôs-se em marcha.

- Não subas! - grita o gangster que está no estribo.

Mas é demasiado tarde. Lafleur agarrou-se ao balaústre. O eléctrico arrasta-a. Max Perahim agarra-a com as duas mãos e puxa-a para o interior. é o único meio de a salvar, de impedir que ela seja esmagada pelas rodas.

No momento em que Lafleur chegou à plataforma do eléctrico número 6 atirou-se contra o peito do gangster. Estava assustada como uma corça branca perseguida, ferida pelos caçadores e que procura esconder-se. Agora refugiou-se encostada ao peito sulcado de cicatrizes do gangster. Lafleur encosta o rosto à camisa branca ao peito de Max. Ela cheira a chocolate. A cabeça de Lafleur e todo o seu corpo cheira a caramelo, a xarope de açúcar, a chocolate e a baunilha.

Perahim tenta separar-se dela. Recua um passo. O eléctrico vai a abarrotar. Ele pisa os pés do passageiro que está atrás dele. Volta-se para pedir desculpa, O passageiro é um polícia fardado, com capacete e armado com uma metralhadora, è um polícia que vai talvez reunir-se às barreiras erguidas para capturar Perahim. O polícia vê Lafleur encostar-se ao peito do gangster e sorri. Perahim está tomado de pânico. Sente o revólver do polícia na sua carne. E o cinturão do polícia. Max desejaria empurrar a cabeça de Lafleur e saltar do eléctrico. Não sentir mais o polícia ao pé dele. Mas Lafleur cola-se-lhe ao corpo como a hera. Max está entalado entre o corpo enorme do polícia e o corpo - semelhante a uma planta trepadeira - de Lafleur que cheira a chocolate e a baunilha.

O polícia sorri aos apaixonados.

Na última paragem, o gangster salta do eléctrico. Lafleur salta atrás dele, com o saco às costas.

- Volta para trás, ou eu mato-te - diz o gangster. - Tenho o meu revólver no bolso, dirigido para ti. Se não fazes imediatamente meia volta, eu disparo.

-Eu acompanho-te - diz Lafleur. - Eu vou contigo. Não importa para onde. Para o infinito...

Ela lança-se-lhe nos braços. Max repele-a.

- Eh lá, cidadão! Seja gentil com essa menina - exclama o polícia que também desceu, e que os observa. - Que lhe fez essa pequena, para que a empurre assim? Ela quer acompanhá-lo? Leve-a consigo! Nunca encontrará uma rapariga tão pequenina. Vá ! Façam as pazes e sigam juntos.

- Eu vou morrer, Lafleur- diz Perahim. - Eu vou-me matar. Não venhas comigo. Terás aborrecimentos com a polícia.

- Eu vou contigo - diz Lafleur. Ela agarra-se-lhe aos braços.

- Eu vou contigo. Não importa para onde. Para o infinito...

Afastam-se juntos, forçados pelo olhar do polícia, como dois carris de caminho de ferro caminham um ao lado do outro, sempre à mesma distância sem nunca terem a sorte de se encontrar.

Lafleur e o gangster avançam com o mesmo passo. Paralelamente. No caminho para o infinito.

 

No terceiro dia após o desaparecimento do terrível gangster Perahim, procede-se à reconstituição do crime. Trata-se do assassínio de Margareta Mica Perahim por seu filho.

A casa da família Perahim está rodeada por um cordão de gendarmes de capacete. O bairro das Barricadas está cheio de polícias armados, exactamente como no tempo em que havia rusgas de polícia ao domicílio de Spartacus Perahim, o orador revolucionário dos operários, por ocasião das greves e das reivindicações sociais. A casa Perahim foi cercada pela polícia e revistada, exactamente como agora, milhares e milhares de vezes.

Mas, hoje, o comissário Joachim Catran e o procurador Fanariotti assistem à reconstituição do odioso crime.

Os jornalistas e os fotógrafos estão na rua. A polícia mostrar-lhes-á como é que Mama Mica Perahim foi morta por seu filho, o gangster Maximilien.

O comissário está acompanhado dos seus três inspectores. Desce da limusina preta da polícia e entra no quintal plantado de cebolas, de craveiros, de basilisco e de roseiras. Os habitantes do bairro das Barricadas estão reunidos às portas, às janelas e à esquina da rua, silenciosos.

Um crime no bairro das Barricadas desencadeia, infalivelmente, represálias contra a população.

Um dos três inspectores abre a porta e o comissário Joachim Catran entra na casa onde nasceu o gangster Maximilien Perahim.

À laia de parquete, pranchas de pinho enceradas. As paredes são brancas, caiadas. O tecto tem vigas de carvalho, como os tectos à francesa. À viga mestra está preso um ramo de basilisco. A casa natal do terrível gangster é como o resto do bairro: a aldeia mistura-se com a cidade, como a água salgada do mar se mistura com a água doce do rio - ao nível da barra. No meio da casa, uma mesa rectangular de pinho. Ao lado, um cesto de roupa recentemente lavada. Um ferro de engomar. Uma máquina de costura, tudo resplandecente de asseio. Cheiram bem as flores campestres.

Junto à lareira pequenas achas prontas a acender o lume.

O procurador entra no quarto. É um dos novos descendentes dos déspotas sanguinários do povo romeno que saciam agora a sua cólera sobre o país, na qualidade de procuradores, juizes ou ministros.

O comissário Joachim Catran mostra a cama ao procurador.

- O senhor viu as fotografias tiradas pelos Serviços Antropométricos da Polícia. A velha Mica Perahim, a vítima, foi encontrada morta, neste leito. Estava deitada de costas, com as mãos cruzadas sobre o peito.

O procurador Georges Fanariotti cheira a perfume. Como Rosa Clima. Como o passado do gangster Perahim. Ele escuta. Tem uma flor na botoeira. Os repórteres estão em frente da porta e fotografam o procurador e o comissário.

- O médico legista fez a autópsia - diz o comissário Catran. - é categórico. A velha morreu sufocada. A vítima tinha cinquenta e seis anos. O seu coração, como o coração de todas as mulheres desta idade, deste meio, estava muito cansado. Para a matar bastava que o gangster lhe fechasse a boca com a palma da mão. O cadáver não tem vestígios de estrangulamento.

- Como julga que as coisas se passaram? - pergunta o procurador.

- Eu não julgo nada - responde o comissário. - Eu estou certo que a pobre mulher foi morta pelo filho.

O comissário convida o procurador a passar ao compartimento vizinho. Mostra-lhe um buraco na base da parede.

- O gangster tinha enterrado aqui um tesouro. Veja. Ele tinha-o fechado neste cofre.

Os inspectores colocam em cima duma cadeira uma caixa metálica, igual às cantinas dos coloniais.

- é inteiramente de ferro - explica o comissário. - Mas é antimagnética, a fim de que os aparelhos de detecção não possam descobri-la. é hidrófuga e dotada dum sistema antiparasita. Este cofre poderia permanecer escondido várias centenas de anos. Maximilien Perahim tinha guardado nele algumas dezenas de milhões. Era a riqueza do bando, o produto do seu último golpe. Estão todos mortos, salvo Perahim. Nenhum deles divulgou o segredo do tesouro.

- Você não sabia o que havia dentro dele? - pergunta o procurador.

Ele olha com avidez para o cofre impermeável que conteve milhões.

- É impossível conhecer a importância exacta. Pelo menos vinte e quatro milhões, em moeda nacional. Mais ouro. Os serviços técnicos revelaram vestígios de droga. Pode ser que nele houvesse estupefacientes para uma outra dezena de milhões. divisas.

O comissário está furioso. Procurou tanto tempo este cofre que encerrava o tesouro do bando de Perahim. O facto de não o ter encontrado representa um dos maiores reveses da sua carreira. A caixa que encontrou está vazia.

O comissário dirige-se ao procurador:

- Senhor procurador, os meus inspectores podem testemunhá-lo: há alguns meses, quando vi aparecer Maximilien Perahim, não quis acreditar no que via. Disse-lhes: porque é que ele voltou? Eu sabia que se ele voltava, tinha um fim: fazer novamente um mau golpe ou ajustar uma conta. Um gangster não resiste a dez anos de prisão de forçados, não sobrevive à tortura e às salinas se não tivesse um fim a atingir. Perahim tinha um: entrar na posse do seu tesouro. Só o pensamento de voltar a encontrar este cofre onde tinha escondido uma fortuna fabulosa o manteve vivo e o fez sair da prisão.

- Como pensa que o crime foi perpetrado? - pergunta o procurador. - Como é que ele matou a mãe?

- Foi certamente no momento em que desenterrou o tesouro - explica o comissário. - A mãe opôs-se a que ele o desenterrasse, por medo, ou talvez tivesse querido impedi-lo de partir. Em todo o caso, para escapar aos seus protestos e à sua oposição, ele matou-a. Pura e simplesmente. Para um gangster, só o dinheiro é que conta. Uma mãe, uma amante, isso não existe. Nada existe para eles, excepto o dinheiro.

- é aborrecido - diz o procurador. Para poder acusá-lo de ter assassinado a sua própria mãe, é-nos precisa uma prova, por muito pequena que ela seja. Ele não deixou o menor indício.

- A velha morreu assassinada pelo filho, é evidente.

- Como pôde ele matá-la sem deixar vestígios? - pergunta o procurador.

- Já lhe expliquei: para matar uma mulher velha com o coração cansado como Mica Perahim bastava pôr-lhe a mão na boca e no nariz. Sufocá-la. Tenho experiência disso, senhor procurador. Matar uma velha é mais fácil que matar um frango, um pinto. Não é preciso força. Nem revólver, nem veneno. Arma nenhuma. Procede-se com as mãos vazias, como procedeu Barricada para matar a sua própria mãe.

- As testemunhas afirmam que Perahim adorava a mãe - diz o procurador.

- Isso é incontestável - diz o comissário Catran. - O gangster adorava a mãe. Era verdadeira idolatria. Mas quando se tratou do tesouro, a questão não se pôs mais. Um gangster só tem um amor: o ouro. A prova: matou a sua própria mãe, que se opunha, a desgraçada, a que ele desenterrasse o cofre. Ele matou-a. A fera ! Logo que vi Perahim entrar no meu gabinete, eu disse: "é preciso matá-lo imediatamente. Se deixo o gangster em liberdade, ele vai cometer uma desgraça. Matará a mãe, os vizinhos." Teremos no espaço de alguns dias vários cadáveres. Os meus inspectores riram. E aqui está: o gangster matou a mãe. Exactamente como eu previra. E quem pode saber quantas pessoas serão ainda mortas por ele, antes que tenhamos conseguido abatê-lo e desinfectar assim a sociedade? Porque a polícia é paga inutilmente se não abate sem piedade tais indivíduos. Os gangsters da têmpera de Maximilien Barricada devem ser liquidados imediatamente, mesmo que a justiça os absolva e mesmo que a administração penitenciária os liberte. é um dever sagrado do polícia abatê-los, como a cães raivosos.

- Os seus inspectores que me façam a declaração disso por escrito - diz o procurador. - O senhor disse-lhes textualmente que Perahim mataria a mãe alguns meses antes de ele ter cometido o crime? Quando ele ignorava talvez que o viesse a cometer? O senhor é formidável, comissário Joachim Catran. O senhor é formidável. O senhor não é só um polícia, mas também um profeta. Como sabia que o gangster mataria a mãe?

- O olfacto - diz o comissário. -A polícia é como a música. Como a arte. Ignoram-se os motivos lógicos, mas sabe-se como as coisas se passarão.

"Eu estava certo que Perahim assassinaria a própria mãe. E agora estou certo que ele matará outras pessoas. Antes de ser exterminado. Eu não terei paz, enquanto não o tiver matado com a minha própria mão. A fera deve ser capturada e estrangulada, senhor procurador. Nós, os velhos comissários, com os velhos métodos, nós somos os verdadeiros defensores da sociedade.

O comissário e o procurador posam para os fotógrafos. As pessoas do bairro das Barricadas olham-nos em silêncio. Hostis. Porque no bairro das Barricadas - mesmo que o comissário e o procurador se vão embora, mesmo que o cadáver de Mama Mica esteja na morgue - a polícia e os gendarmes permanecerão ali. O bairro está cheio de polícias armados. Armados até aos dentes.

E a presença dos polícias pesa como chumbo na alma dos operários do bairro, que ficam com as janelas completamente abertas como se sufocassem dentro das suas casas.

 

A audácia do gangster Maximilien Perahim, regressado depois de dez anos de prisão para matar a mãe e entrar na posse dum tesouro fabuloso, apaixona a Roménia. Reina uma atmosfera de tensão e de terror. O gangster está em liberdade.

De repente, uma outra notícia se espalha: o gangster Barricada, depois de ter assassinado a mãe e recuperado o tesouro enterrado nos alicerces da casa materna, raptou uma menor. Uma rapariguinha de quinze anos. Nada se sabe desta nova vítima de Max Perahim. Alguns consideram-na morta - depois de ter sido violada e procuram o seu cadáver. Outros supõem que o gangster a tem prisioneira. Ou que já transpôs a fronteira com ela.

Por ocasião duma nova rusga da polícia na Pastelaria Real, o comissário Joachim Catran recebe os jornalistas no salão grande da confeitaria, reservado à polícia nesta ocasião.

- O facto foi verificado - diz o comissário. - Antes de desaparecer, o gangster raptou a jovem Lafleur. Os gendarmes confirmam-no. A vítima não voltou para a sua aldeia. Não a encontram em parte alguma. Quando do seu desaparecimento, ela trabalhava nesta pastelaria. A telefonista da Pastelaria Real declara que, no dia do drama, ela recebeu uma comunicação procedente dum homem que pedia para ver urgentemente a pequena Lafleur. Ele esperava-a na rua. Lafleur foi avisada. Ela desceu ao pátio de serviço.

O comissário Joachim Catran, seguido dos jornalistas, deixa o salão da pastelaria e entra no pequeno pátio onde há sempre garrafas de leite vazias, caixas de cacau, embalagens de frutos, cascas de ovos e de avelãs, e onde flutua um perfume de baunilha, de chocolate e de açúcar.

- O gangster esperou a menor aqui - explica o comissário. -Uma criada do primeiro andar, cujo nome se mantém em segredo por razões de segurança, declara ter visto um homem moreno, de rosto macilento, atravessado por uma cicatriz, falar-lhe e partir em seguida com ela, arrastando-a à força para a rua. Os sinais dados por esta testemunha correspondem aos do gangster Perahim. Depois, o gangster e a menor que ele raptou foram vistos no eléctrico número 6. Há quatro testemunhas. Todos viram como o gangster levava a pequena Lafleur agarrada a ele. Quando tivermos notícias, comunicá-las-emos.

O comissário e os repórteres voltam para o salão. A atmosfera é sufocante.

- O senhor, que tem uma grande experiência- pergunta o mais novo dos jornalistas, Carol Opinia-, qual é a sua opinião acerca da sorte da rapariga?

- Antes de ir para a prisão dos forçados, o gangster Perahim praticava já o tráfico de mulheres, de droga, de armas

- responde o comissário. - Mas a sua especialidade era o tráfico de brancas. é inútil perguntarmos qual é a sorte da menor nas mãos dum traficante internacional de mulheres. Se ainda estiver viva, essa rapariga será embarcada para a América do Sul, para a África ou para o Médio-Oriente, onde será encerrada numa casa de prostituição.

- O rapto duma menor é um assunto complicado - observa Carol Opinia. - Não é lógico que o gangster, depois de ter assassinado a mãe e recuperado o seu tesouro, tenha ainda complicado a sua fuga apoderando-se duma menor. Esconder e transportar uma menor é mais difícil que a dissimulação do tesouro, da droga, das armas. Uma rapariga é uma mala que estorva. Grita, fala, está viva. Porque é que o gangster teria carregado com tal fardo, quando tinha todo o interesse em desaparecer discretamente e a toda a velocidade?

- O gangster Barricada é organizado. Todos os gangsters o são. Quando se sabe organizar, o transporte duma carga completa de mulheres não embaraça.

- é incompreensível, comissário - diz Carol Opinia. - O gangster desenterrou um tesouro. Uma quantia colossal. Fabulosa. Que interesse teria ele em complicar a sua existência e arriscar-se mais raptando uma menor? Ele tinha bastante dinheiro.

- Uma menor vendida na América do Sul, ou em África, rende, anualmente, mais de mil hectares de terra arável, senhor. Os gangsters são homens de negócios, realistas. Lafleur encontra-se talvez num love de algumas dezenas de menores no decurso duma entrega, em qualquer parte do mundo.

- A fotografia de Lafleur vem em todos os jornais. Conhecemo-la todos agora. Essa rapariga é feia - diz Carol Opinia. - é um camafeu. Julga que ela tenha um tal valor para que o gangster a rapte, nas condições de uma fuga precipitada? Se se tratasse de um negócio, de uma mercadoria encomendada e que devesse ser entregue, o gangster teria raptado uma rapariga mais bonita. Bucareste fervilha de raparigas bonitas e de bonitas mulheres. Porque teria ele raptado um camafeu que não tem ancas, nem seios, nem cabeça? Lafleur é um híbrido de rapariga. Totalmente desprovida de encanto.

- Se Perahim raptou Lafleur e não outra, isso significa que ela constitui uma mercadoria de valor. A mais solicitada. Um gangster nunca faz maus negócios. Perahim Barricada é um rei entre os gangsters. Ele não se apoderaria dum objecto sem valor. Um gangster não trabalha senão com divisas fortes. O que significa que Lafleur, a menor raptada, é uma divisa forte ! é preciso ser gangster e traficante internacional para se ter conhecimento disso. Nós não vemos as coisas como eles.

- Perahim trabalhou em sua casa - diz o jornalista. - Foi na sua casa que ele conheceu Lafleur. Não acredita que ele a tenha raptado por outras razões? Por chantagem, por exemplo, ou por vingança?

- Se Perahim tivesse querido vingar-se difamando-me, seria minha mulher quem ele teria raptado e não a minha criada, a quem dei oito dias para se ir embora. Sejamos lógicos.

- Não pensa portanto que este rapto possa ter uma outra causa?

- Que outro motivo pode ter um gangster quando rapta uma menor?

- Um motivo de ordem sentimental, por exemplo - diz Carol Opinia.

- Um motivo sentimental, o gangster Barricada? Sentimental, um homem que sai da prisão e mata a mãe? O senhor procura o Sol em plena noite. Um gangster é um homem de negócios. Um duro. Um homem de finanças. Um industrial que fabrica o prazer e que trafica com as coisas e com as pessoas que dão prazer. Um gangster não conhece o sentimento. Não tem coração. Vive com algarismos. Um gangster é um cofre-forte. Neste caso, devemos ter em conta o essencial. Um assassino, saído da prisão, matou a mãe e raptou uma menor que está na iminência de vender a uma casa de prostituição. Esse monstro está em liberdade. Temos de capturar a fera. E exterminá-la. Perahim continua em liberdade, apesar dos dois cadáveres no seu activo: o polícia morto há dez anos e a sua própria mãe, morta há alguns dias.

E uma menor raptada, que ele conduz ao mercado como um carneiro. A fera pode roubar-vos a toda a hora do dia e da noite as vossas irmãs, as vossas mães e as vossas filhas, ou as vossas mulheres. Pode matar-vos a vós próprios em plena rua. Tem de ser capturado. Escreva-o. Exorte o público a colaborar com a polícia nesta caça à fera. Para ter uma sociedade confortável e segura. Porque o ideal do homem é, como dizem os franceses, "segurança acima de tudo". Ora a segurança, é a polícia. Convide as pessoas a reunirem-se à volta da polícia e a ajudá-la. Porque a civilização começa com a polícia e termina com a polícia, e porque fora da polícia, só há o caos. Por conseguinte todos ao lado da polícia.

 

HÁ cinco semanas que os polícias de todos os países, alertados por Bucareste, procuram o gangster Maximilien Perahim Barricada.

Os jornais publicam acerca dele todas as espécies de histórias. Diz-se que o tesouro do gangster se eleva a vários milhares, que é a mais importante fortuna que um gangster romeno possuiu.

As testemunhas que viram nos últimos momentos o gangster e Lafleur no pátio de serviço da Pastelaria Real e no eléctrico número 6 são conhecidas. Os seus depoimentos concordam. Não há a menor dúvida: elas viram, realmente, o gangster Perahim enquanto transportava a vítima Lafleur de blusa branca, tal como fora raptada na Pastelaria Real.

As buscas no domicílio de Lafleur, o inquérito entre as suas colegas, não deram qualquer resultado positivo. As fotografias de Lafleur e de Perahim são publicadas nos jornais, nas revistas e afixadas nas paredes.

As mães não deixam as filhas sair sozinhas. As mulheres de mais de vinte anos sentem-se ofendidas. Exactamente como se sente ofendida Violette Catran: o gangster não as honrou com a sua atenção. Pelo contrário, as raparigas de quinze anos estão todas orgulhosas. Esforçam-se por se comparar com Lafleur, visto que foi a ela que o gangster escolheu entre todas as mulheres de Bucareste. As adolescentes estão na moda - é o artigo lançado pelo gangster. Todas as raparigas sonham com Lafleur, o camafeu sem sexo, sem seios, sem beleza. Os prémios oferecidos pela polícia, pelas sociedades de protecção à infância e da família, aos que conseguirem capturar o gangster, aumentam de dia para dia.

O terrível "assassino de polícias, matricida e raptor de menores" continua sem ser encontrado. Na rua, nos lugares públicos, nos comboios, e nos autocarros, toda a cabeça de homem de cabelos pretos e de grandes olhos em forma de amêndoa é fixada com atenção. Em frente de cada homem moreno, de testa pálida cruzada por uma cicatriz, as pessoas perguntam a si próprias se não se encontram diante do gangster.

Centenas de ciganos, espanhóis, napolitanos e portugueses foram detidos - como suspeitos de serem Perahim - e soltos em seguida.

Uma manhã, quando o nome de Maximilien Perahim é mais conhecido e mais pronunciado, a notícia sensacional rebenta.

Carol Opinia, o mais novo repórter de Bucareste, anuncia, sob um título que abrange toda a página, que Perahim, o terrível gangster, foi encontrado. Lafleur, a virgem raptada, estava com ele, vestida de branco, e abraçava-o. Estavam os dois mortos. O tesouro jazia-lhes aos pés. Foi no bairro das Barricadas que os dois amantes foram descobertos.

 

O procurador do rei, Georges Fanariotti - perfumado, uma flor branca na lapela -, entra, acompanhado do comissário-chefe Joachim Catran, na casa onde os cadáveres do gangster e da menor foram descobertos. Ela fica situada a algumas centenas de metros da casa natal do gangster Perahim, na mesma rua sem passeio do bairro das Barricadas.

Algumas companhias de gendarmes, de soldados e de polícias de capacete cercaram o bairro desde a madrugada. O bairro está cheio de polícias e de soldados, exactamente como durante as greves, como no tempo de Spartacus Perahim, o pai do gangster.

A casa onde o drama teve lugar é idêntica à casa natal de Perahim. Está situada num quintal, escondida entre árvores de fruto, com as paredes brancas, caiadas, um telhado vermelho. Roseiras trepam até ao telhado. Uma comprida corda de roupa, caramanchões atrás da casa.

O comissário transpõe o limiar da porta, atrás do procurador. Só tem uma divisão. O soalho é de pinho, brilha de asseio. As paredes são brancas. Uma janela com cortinas de renda. Vasos de gerânios vermelhos estão da parte de fora do parapeito. Ao fundo do quarto, há uma enorme cama. Não está desfeita. Em cima da cama, dois corpos: Maximilien, de fato de macaco azul, e, ao lado dele, Lafleur, vestida com uma blusa branca.

Estão abraçados. Cada um escondeu a cabeça debaixo do braço do outro, como se, ao morrer, os seus seres tivessem querido absorver-se um ao outro.

Dentro de casa, o ar está pesado. O polícia abre a janela e parte um vaso de gerânios vermelhos. Os repórteres são mantidos à distância, no quintal. Só os fotógrafos da polícia são admitidos no interior.

Depois de terem fotografado os dois corpos, os polícias separam-nos, afastam-nos um do outro. A operação é difícil. São precisos três polícias para separar os corpos abraçados. Estão entrelaçados como as raízes duma árvore.

- Não se podem separar sem se partirem, chefe - diz um polícia. - Ao morrerem agarraram-se de tal maneira um ao outro que dir-se-ia que estão colados! Repare. Cada um deles enterrou os dedos na carne do outro.

- É efectivamente Barricada - exclama o comissário-chefe Catran. - Eu tive medo de me enganar, mas é ele efectivamente. A rapariga também, conheço-a. Ela está mais bem conservada. O gangster estava em parte apodrecido, depois da prisão. Agora, depois da sua morte, só lhe resta continuar a apodrecer.

O comissário Catran procura a resmungar qualquer coisa. Ele vê aos pés da cama, junto da parede, o saco de trabalho do gangster. O tesouro deve estar lá dentro. A cara do comissário ilumina-se. Permite que os fotógrafos entrem, depois de ter posto de lado, debaixo de uma cobertura, o pesado saco de oiro.

Enquanto os jornalistas fotografavam os dois cadáveres, o comissário e o procurador Fanariotti saem e vão para defronte da casa. Uma erva alta - que nunca foi calcada- invade o quintal até à soleira da porta. Em frente da casa, um velho espera, de algemas nas mãos, entre dois gendarmes.

- É o proprietário da casa, chefe - diz um polícia.

- Eu sou o proprietário, é verdade - responde o homem. - Mas há trinta anos que não vivo nesta casa. Eu alugo-a ao mês ou ao ano, sem mobília.

- A quem a alugou da última vez? - pergunta o procurador.

- O último locatário era empregado nos caminhos de ferro. Ele alugou a casa por seis meses. E pagava-me o aluguer todos os meses. Regularmente.

O proprietário da casa começa a chorar.

- Eu nada tenho a ver com o crime- diz ele. - Sou um homem honesto. O meu locatário tinha os papéis em ordem. O senhor comissário viu-os. O meu locatário apresentou-se no Comissariado do bairro, como a lei exige. Eu acompanhei-o. O senhor comissário poderá confirmá-lo. Eu conheço Maximilien Perahim como o conhecem todas as pessoas do bairro, mais nada.

- é verdade que esta casa foi alugada por seis meses - explica o comissário do bairro das Barricadas. - A declaração do aluguer foi feita no tempo requerido, no Comissariado. O locatário apresentou-se diante de nós. Ele adquiriu os direitos. Assinou.

- Onde se encontra o locatário? - pergunta o procurador. - Viu-o, não é verdade?

- Sim - responde o comissário. - No nosso bairro as leis são mais rigorosas que em qualquer parte. Eu convoquei o novo locatário para se apresentar no Comissariado. Procedi ao interrogatório de identificação. Verifiquei-lhe os papéis. Ele mandou vir os móveis. Toda a gente o viu, toda a gente o conheceu. é um funcionário dos caminhos de ferro.

- Agora que toda a gente o viu e conheceu, e depois da polícia ter verificado a sua identidade, constata-se que ele não existe - diz o comissário Catran. - Não existe funcionário dos caminhos de ferro que use este nome.

- Os papéis que verificou eram falsos. O indivíduo que alugou a casa, que fez a mudança e que se apresentou no Comissariado é um cúmplice dos gangsters. Esta casa é um ninho de gangsters. O senhor, na qualidade de comissário do bairro, deveria estar ao corrente.

- Desde o momento que o comissário nada viu de suspeito, eu, que não sou polícia, estou desculpado por não o ter visto, no caso deste locatário. Eu peço-lhe que me ponha em liberdade. Eu não sou culpado. Em nada - diz o proprietário.

- Veremos mais tarde se está ao corrente ou se ignora ter alugado a sua casa a gangsters ! - diz o comissário Catran. E ordena aos polícias:

- Conduzam este homem à Prefeitura. Metam-no no segredo. Interroguem-no e não o soltem antes dele ter confessado.

Enquanto o proprietário é conduzido, debaixo de um dilúvio de pancada, para o carro celular, o comissário Catran explica ao procurador:

- Toda a população deste bairro é anarquista. São inimigos da polícia, por conseguinte inimigos de Deus e do Universo. Aquele que não gosta da polícia é um infractor. Se eu prendesse todos os cidadãos deste bairro para os mandar para a prisão, não faria nada de ilegal.

Durante este tempo, os repórteres são expulsos da casa. A polícia concedeu-lhes três minutos para fotografarem os cadáveres. Os três minutos passaram. Os polícias empurraram os jornalistas para o jardim.

Os serviços técnicos e o comissário Catran assistem ao inventário. Em cima da cama, os cadáveres estão cobertos com um lençol branco. Junto da cama encontra-se o saco com o tesouro.

O comissário Catran examina o conteúdo do saco de Perahim. Contém caixas de cartão cheias de peças de ouro, maços grossos, como a Bíblia, de dólares, de liras, de francos suíços. Caixas metálicas contendo estupefacientes.

- Faremos o inventário na Prefeitura - diz o comissário Catran. - Metam tudo no seu lugar dentro do saco e continuem.

Segundo a lei, a polícia tem direito a três quartos deste tesouro, mais as despesas de inquérito, que são calculadas antecipada e directamente sobre o espólio. Além disso, o comissário Catran receberá alguns milhões dos serviços do Tesouro. Ele tem despesas, é verdade. Presenteará uma dezena de ministros, o prefeito da Polícia, os altos funcionários do Ministério da Justiça. O procurador receberá, também, uma parte importante nesta apreensão.

- A rapariga morreu intoxicada com estupefacientes - diz o médico da Prefeitura, ao examinar o corpo seco, delgado, desprovido de seios, de Lafleur.

- Não é uma morte agradável, como se quer fazer acreditar. O envenenamento com estupefacientes é terrível se a dose é forte. Se se ultrapassar uma certa dose, morre-se com um sofrimento horrível. Como se se tivesse engolido água de Javel.

O médico tapa com o lençol o rosto de Lafleur. Examina o gangster.

- O homem não se envenenou - diz ele.

- Desfechou uma bala em pleno coração. Efectivamente, Maximilien tem um buraco na camisa e no peito, ao nível do coração. Só descarregou uma bala. Mas uma bala que atingiu o seu fim-em pleno coração. O revólver do gangster está junto da cama, no sítio onde lhe caiu da mão. Esta mão que segurou o revólver e com a qual ele se matou estendeu-se em seguida para Lafleur. O seu braço rodeou e apertou contra ele, enquanto morria, o corpo da rapariga. O corpo de Lafleur.

- Eles morreram como Romeu e Julieta - diz o médico da polícia. - é sinistro, mas esta morte não é isenta de romantismo. Julgar-se-ia na ópera... O que é extraordinário é que este homem tenha pensado em escrever todos os acontecimentos tal como se desenrolaram, minuto a minuto, antes de morrer, exactamente como o comandante de um navio no seu diário de bordo, antes de um naufrágio !...

O procurador olha por sua vez para as folhas cobertas com uma letra grande.

- Fechem as portas - ordena o comissário Catran.

A porta do quarto onde se encontram os dois cadáveres, o procurador, o comissário e os três polícias foi fechada. Do lado de fora da casa estão os soldados, os gendarmes, os jornalistas e os fotógrafos.

- Leia-nos isso - ordena o comissário Catran a um dos três inspectores.

O detective pega na dezena de páginas de papel pautado, de formato grande, escritas a lápis.

Lê em voz alta:

DIÁRIO DE BORDO DE UM "GANGSTER"

ANTES DA GRANDE VIAGEM

Eu, Maximilien Perahim, conhecido por Barricada, escrevi o que se segue para o dar a conhecer ao mundo e por respeito para com a verdade.

"Regressado, depois de dez anos de prisão de trabalhos forçados, eu só tinha um sonho: não voltar a descer ao inferno donde viera, quero dizer, às salinas.

"As minas de sal são o inferno. Depois de o ter conhecido, estava resolvido a tudo para nunca mais lá voltar.

"A maior parte das pessoas impõem-se privações e restrições, emagrecem durante alguns dias, abstêm-se de alguns prazeres para não irem para um inferno que não conhecem senão por ouvir falar, mas que querem contudo evitar. Eu que o conheci, estou mais apto para falar nele. Eu voltei portanto à claridade, decidido a sacrificar todos os prazeres, a fim de não me arriscar a voltar para os subterrâneos.

"Antes de ser capturado e enviado para a prisão, tinha enterrado nos alicerces da minha casa um tesouro.

"Quando do meu regresso decidi não lhe tocar. Tomei esta decisão de não voltar a sucumbir às tentações em consequência dele. Deus é testemunha que eu nunca fui tentado a desenterrar o tesouro. O meu pão quotidiano, ganhei-o, e tomei a resolução de o ganhar, com o suor do meu rosto, exercendo o ofício que aprendi na prisão.

"Os meus antigos camaradas de bando importunaram-me, mas eu recusei voltar a vê-los.

"Renunciei também a viver com a minha noiva, com a mulher que me amava e que me esperara durante dez anos. Ela pertencia a um meio ao qual eu não desejava voltar a pertencer. Ela não estava só. Não existe um ser verdadeiramente isolado. Nós somos, todos, um fragmento do meio donde saímos. A minha noiva não entraria em minha casa sozinha, mas com os bares, os hotéis, a vida do bando, com todo o meu passado e com o meio onde ela viveu. Para não voltar a entrar em contacto com esse mundo, renunciei a essa mulher. Vivi solitário, como um frade, na companhia de minha mãe. Mas foi daí que veio a desgraça. A minha noiva não compreendeu a minha decisão de viver honestamente. Tornou-se ciumenta. Não acreditou que eu a evitava por virtude - termo bastante abstracto para ela - mas por causa duma outra mulher.

"Portanto, ela tornou-se ciumenta. Sem motivo.

"Esta manhã, ela armou-me uma cilada: convidou-me a ir ao hotel, sob o pretexto de que se encontrava doente, em consequência duma tentativa de suicídio. Subi ao terceiro andar onde ela estava. Tentou intimidar-me. Subiu para a janela, ameaçando lançar-se para a rua. Atirei-me a ela para o impedir. No instante em que me aproximei para a obrigar a descer da janela, escorregou. Fez um movimento em falso e precipitou-se no espaço. Ela morreu ao cair do terceiro andar. Ouvi a multidão que gritava. Na rua. Polícia. Socorro. Ambulância. Eu sabia que voltaria para a prisão. Tentei salvar-me. Deus sabe que eu não tive culpa de nada Eu não sou culpado desta morte. A sorte quis que ela morresse, mas a sorte não pode ser presa e mandada para a prisão. Eu sabia que seria acusado de a ter matado. Estava em liberdade condicional. Seria mandado para a prisão, sem julgamento. E é o que eu não quero. Voltar para a prisão.

"Subi para o telhado. Enquanto subia, recordava-me das palavras do cura das Barricadas que me dizia: "Max, meu filho, vem para o seio da Igreja. com a virtude laica, semelhante a um ascensor ou a uma escada rolante, só te podes elevar até ao andar superior, ou até ao telhado." Eu cheguei, na verdade, ao telhado do hotel. O cura dizia também: "Ali aonde te conduz a virtude sem Deus, por mais alto que estejas, encontrarás sempre os mesmos problemas que no teu ponto de partida." Em cima do telhado do hotel, encontrei o mesmo problema: tinha de fugir para não ser capturado pela polícia. "Um homem que não tem a ajuda de Deus, por muito alto que tenha subido, volta sempre ao seu ponto de partida", dizia o padre. E, do telhado, desci para a rua, donde tinha partido. Na rua, atrás do hotel, não havia polícias. Dirigi -me para minha casa. E isto por três motivos. Primeiro, para ver minha mãe antes de morrer; depois, para desenterrar o meu tesouro e dar-lho (sem mim, ela não tinha com que viver. Eu queria deixar-lhe dinheiro.

Por último, para pegar no meu revólver que estava escondido com o dinheiro e matar-me. Apesar de tudo o que se pôde escrever nos jornais sobre a minha crueldade e a minha ferocidade, eu sou bom. Eu só podia matar-me com um tiro ou envenenando-me. Ora, o revólver e o veneno estavam em casa com o tesouro.

"A minha mãe estava sentada no seu sofá a tricotar. Eu caí de joelhos aos seus pés.

Antes de me matar escrevi estas coisas porque tudo o que acontece a um homem pode ser útil aos seus semelhantes.

"Depois do meu regresso da prisão, a minha mãe disse-me inúmeras vezes: "Sem ti, morrerei".

"Abracei-lhe os joelhos. Eu tinha lágrimas nos olhos, porque tinha de lhe dizer que queria matar-me. Foi difícil. Mas disse: "Mãezinha, cometi um crime. Tenho de me matar, senão atirar-me-ão novamente para as salinas."

"Depois contei-lhe tudo, exactamente como se tinha passado. Ela pousou-me as mãos na cabeça. Ouviu-me. Disse-lhe que não era culpado, que foi o destino que matara aquela mulher ciumenta atirando-a do terceiro andar para a rua. Expliquei-lhe a maneira como ela devia gastar o dinheiro

que eu lhe deixava, a fim de não ser incomodada pela polícia. Que esse dinheiro lhe seria de grande utilidade quando já não pudesse trabalhar e se caísse doente a sua existência estaria garantida.

"Ela continuava a manter as suas mãos sobre a minha cabeça, enquanto eu falava, exactamente como se faz para uma ordenação, ou para uma bênção. Quando se casa. Quando se comunga. Quando acabei de falar, estava prestes a rebentar em soluços, mas dominei-me para não entristecer antecipadamente a minha mãe. Falei com coragem. Quando me levantei, minha mãe estava morta. Eu tinha-a matado com as minhas primeiras palavras quando lhe confessei que cometera um crime. Ela não ouvira o resto.

Era o segundo cadáver que eu deixava atrás de mim em menos duma hora. Fui tomado de pânico. Deitei minha mãe na cama. Desenterrei o tesouro e peguei no revólver, que estivera escondido com o dinheiro, para me matar. Mas quando vi o dinheiro e pensei que o tesouro cairia nas mãos da polícia o sangue subiu-me à cabeça. A polícia abateu meu pai. A polícia partiu-me os ossos. A polícia tortura diariamente milhares de pessoas. Entre todos os seres que vivem sobre a terra o mais odioso, a meu ver, é o polícia. O polícia é a única criatura que bate na sua vítima e que a mata depois de a ter amarrado. Acendi um fósforo para deitar fogo ao dinheiro. Mas o ouro não ardeu. Procurei uma outra solução para subtrair o ouro à polícia. Nesse instante lembrei-me duma outra pessoa que me dissera que, sem mim, não poderia viver. Era uma garota. Para ela as suas palavras não tinham qualquer valor. Quando minha mãe me disse que sem mim não poderia viver, ela sabia e acreditava no que dizia. Essa garota disse-o por infantilidade, sem saber o que dizia. Tinha admiração por mim, porque ouvira dizer que eu tinha sofrido muito. Como uma garota ela disse-mo. Por causa da minha glória de gangster! Por causa da minha reputação de Don Juan. Por causa de milhares de mulheres que me amaram... Talvez ela se tenha apaixonado por mim repentinamente, como todas as mulheres que eu conheci no decorrer da minha vida. É possível. Mas isso não tem importância. "Eu decidi contudo arriscar a vida por mais uma hora e ir à Pastelaria Real, onde essa garota trabalhava, e dizer-lhe claramente: "Cometi um crime. Para não cair nas mãos dos polícias tenho de me matar.

Tu és o meu único conhecimento. Eu possuo uma quantia em dinheiro. Depois da minha morte, já não precisarei dela. Ofereço-ta. é bastante. Uma quantia fabulosa. Tem cautela ao gastá-la, não atraias as suspeitas da polícia. Assim terás dinheiro para toda a vida."

"A pensar nestas coisas, pu-las em prática. Um quarto de hora mais tarde, eu estava em frente da garota no pátio da Pastelaria Real. Ofereci-lhe o saco com o dinheiro e despedi-me dela. Voltei-lhe as costas e parti. No momento em que eu saltava para o eléctrico, vi que ela corria atrás de mim. Agarrou-se-me aos braços. Não quis separar-se de mim. Eu disse-lhe: "Minha filha, eu tenho de morrer". Respondeu-me que queria morrer comigo. Viemos para esta casa. Não me pude separar dela. Ela está junto de mim. Pediu-me para a matar primeiro. Eu não posso matar ninguém. Eu não tenho alma de assassino. Ela suplicou-me, dizendo que queria caminhar para a morte ao meu lado. Pediu-me de tal maneira que lhe revelei a existência dos estupefacientes. Tomou-os, e estendeu-se em cima da cama.

"Agora, ela está como que atordoada. A morte começa a estreitá-la. Está vestida com uma blusa branca na qual se encontra bordado: Pastelaria Real. Agora está quase morta. Chama-me sem parar: quer que eu venha para junto dela... Morreremos no mesmo instante, estreitando-nos. Irei para junto dela quando o veneno a tiver aniquilado- suavemente para não a assustar e desfecharei uma bala em pleno coração. Atirarei fora o revólver, e tomá-la-ei nos meus braços e morrerei ao seu lado, com ela, como ela o havia sonhado. Iremos os dois na mesma cadência - para o infinito. Para a morte. Agora, sei que ela me ama, e eu compreendo que também a amo. É a única mulher que amo verdadeiramente. com um amor maior que o da volúpia. com um grande amor.

"Se a polícia não vir nisso inconveniente, peço às autoridades para me enterrarem ao lado do meu grande amor. Ao lado de Lafleur - e peço que inscrevam sobre a nossa cruz, uma só cruz para os dois: "Aqui repousam um gangster e a sua pequena flor. Rezem pelo seu amor no infinito..."

O polícia terminou a leitura. Ninguém se mexe. A emoção prende as palavras nos lábios, embora sejam lábios de polícias.

O polícia volta a página. São as linhas escritas por Lafleur. Ela só deixou algumas palavras:

"Mato-me para estar sempre junto do meu bem-amado que vai morrer. Enterrem-me ao lado de Perahim e inscrevam sobre a nossa cruz: "Aqui repousam Lafleur e o seu gangster. Rezem pelo seu amor no infinito."

 

TRÊS dias decorreram depois da descoberta dos dois amantes mortos no bairro das Barricadas. As fotografias do gangster Maximilien Perahim e de Lafleur abraçando-se na morte fazem chorar o mundo inteiro. O testamento de Max, os seus esforços para fazer bem, para viver em paz e virtude, o seu trágico fim, do qual não é responsável, enternecem os corações mais endurecidos. A pureza de Lafleur e o seu sacrifício para seguir o seu bem-amado na morte comovem as pessoas. Mas a polícia está aflita. Esperam-se aposentações e demissões.

O prefeito da polícia de Bucareste convoca no seu gabinete o comissário Joachim Catran.

- Considere-se como já não fazendo parte da polícia! - exclama o prefeito. - Não lhe proponho para fazer valer os seus direitos para a reforma. Eu demito-o ! Por incapacidade profissional ! Por negligência ! Por imbecilidade!

Em toda a sua vida, o comissário-chefe Catran não esperava tais censuras, palavras tão duras.

- Onde está o cadáver? - pergunta o prefeito da polícia. - Onde está o primeiro cadáver?

Nesta tragédia, efectivamente, há quatro cadáveres: a mãe do gangster, a noiva do gangster, o próprio gangster e Lafleur, a garota. Mas onde está o cadáver da noiva do gangster? Foi por causa dessa mulher, que se atirou pela janela do terceiro andar dum hotel, que as outras três pessoas morreram. Onde está o cadáver que desencadeou todo o drama? Onde está o cadáver dessa mulher que se atirou da janela e quem é ela?

- É impossível encontrá-la - diz o comissário-chefe Catran. - -No seu meio, ninguém quis fornecer informações à polícia. Ninguém. Nada.

Encolhem todos os ombros e dizem que não sabem nada.

- Identificou você pelo menos a mulher que o gangster atirou da janela? Perahim é formal. Trata-se da sua noiva.

- Maximilien Perahim tinha todos os dias uma nova noiva - diz o comissário Catran. - Não é possível identificar a que se atirou pela janela.

- O gangster descreveu-a com precisão. È uma mulher que lhe foi sempre fiel.

- Todas as mulheres foram e são fiéis a Perahim. No mundo das prostitutas, das criadas, das operárias, das bailarinas, no mundo de todas as mulheres do bairro da estação, é impossível encontrar uma mulher que não esteja apaixonada pelo gangster. Se perguntar: "Qual é a noiva de Perahim?", há dez, cem, mil, que respondem. Acontecerá o mesmo se perguntar qual é a noiva, verdadeira, definitiva, a mais fiel.

- Comissário Catran, é impossível que em pleno centro de Bucareste uma mulher se tenha atirado da janela do terceiro andar dum hotel, que se tenha esmagado na rua e que ninguém a tenha visto ! E que a polícia o ignore ! Onde estavam os guardas? Chamaram os socorros da polícia? E a ambulância? Que dizem os transeuntes, os vizinhos? é impossível esconder um cadáver caído dum terceiro andar em pleno centro da cidade. Onde está o primeiro cadáver?

- Os gangsters, os cúmplices de Perahim raptaram-no. Não sabiam que Max se ia matar, que arrastaria a garota com ele para a morte, nem que mataria a mãe. Eles quiseram abafar o caso. Esconderam o cadáver. é obra de gangsters.

- Não havia só gangsters na rua, comissário ! - exclama o prefeito. - Havia outras pessoas, pessoas que viram essa mulher cair do terceiro andar e estatelar-se no passeio !

- Ninguém quer falar - responde o comissário.

- Identificou o hotel?

-Há centenas deles, uns encostados aos outros, onde o drama se podia ter passado. Têm todos entradas iguais, o mesmo número de andares. Todos os hoteleiros afirmam ignorar tudo. Que nunca ouviram falar de Barricada, nem de nada, nem de ninguém.

-Comissário Catran, posso dizer-lhe que é a coisa mais incrível que jamais ouvi. O senhor está demitido! Se isso o pode consolar, saiba que eu mesmo sou obrigado a apresentar a minha demissão, e, comigo, uma boa dezena de funcionários da polícia. Mas o senhor, o senhor não tem o direito de se demitir. O senhor será demitido, assim que for publicado o comunicado que aparecerá na Imprensa. Por incapacidade. Por negligências graves. E por imbecilidade.

Saia. Tem ainda vinte e quatro horas. Amanhã à tarde, às cinco horas, já não fará parte da polícia. Saia. Tem alguma coisa a dizer?

-Nada mais tenho a dizer - responde o comissário. - Nada.

Ele sai, esmagado pela humilhação. E, pela primeira vez, está velho. Curvado. com rugas. "Ê só neste momento que se lhe dá a idade que tem. O comissário Catran é um velho. Bastou que fosse humilhado e demitido para que se notasse que não é senão um velho miserável. Miserável.

 

- Eu desejo falar com o comissário-chefe - diz a visitante.

Ao mesmo tempo que fala, examina a sala onde acaba de entrar. Ela conhece-a perfeitamente. é a sala dos inspectores da brigada do comissário-chefe Joachim Catran.

O tecto baixo, as paredes enegrecidas pelo fumo, três grandes máquinas de escrever, em cima das três mesas. A uma destas mesas, um novo inspector escreve só com um dedo. Ele levanta-se e entra no gabinete do comissário Catran. Este está sentado à secretária e olha para o relógio pousado na sua frente.

- Está ali uma pessoa que lhe quer falar- diz o inspector.

- Ela falará ao meu sucessor - responde o comissário Catran. - Eu não encontrei o cadáver da mulher que se atirou do terceiro andar para a rua. é um sintoma de incapacidade. De imbecilidade. Por conseguinte, dentro de cinquenta e cinco minutos já não serei comissário. A pessoa que deseja falar ao comissário-chefe que volte dentro de uma hora. Encontrará o meu sucessor.

O comissário Catran fica só. Mas é-lhe impossível estar só. Toca a campainha, para matar o tempo. O inspector volta.

- Deseja alguma coisa, chefe?

- Restam-me ainda cinquenta e cinco minutos para estar aqui. Tenho que fazer qualquer coisa. Você diz que há uma pessoa que me quer falar? Mande-a entrar. E responda-me: onde é que a quadrilha teria podido esconder o cadáver? Como pôde ela fechar a boca de todos os transeuntes, dos comerciantes, dos locatários sem deixar rasto? Responda-me. Eu não compreendo nada, absolutamente nada.

Fizeram entrar no gabinete do comissário uma mulher alta, morena, magnífica. A imagem perfeita do desejo. Uma mulher para camarim. Morena, os cabelos pelos ombros, com um vestido muito justo e os lábios vermelhos como sangue de boi.

- Comissário, li nos jornais que, se o senhor não encontrar o cadáver da primeira vítima de Perahim, será demitido...

Os lábios do comissário comprimem-se. Não ordena aos guardas para prenderem esta mulher, como o fez tantas vezes na sua vida. Ele suporta. Dentro de cinquenta minutos, já não será polícia.

- Assim é - responde o comissário Joachim Catran.

Está resignado, como as pessoas que têm a certeza que vão morrer.

- Comissário, eu posso ajudá-lo a conservar o seu lugar. Posso dizer-lhe onde se encontra o cadáver da mulher que Perahim atirou pela janela do terceiro andar do Hotel da Gare...

- Sabe onde está o cadáver? - pergunta o comissário.

Instintivamente estende a mão para a campainha, para mandar prender a mulher, para a torturar até que ela tenha confessado tudo. Como se procede habitualmente.

- Eu sei, mas não quero dar-lhe a informação gratuitamente - diz a mulher. - Se chegarmos a um acordo, eu dir-lhe-ei onde está o cadáver. De outra forma, não saberá nada. Pode matar-me que eu não falarei.

- Pode pedir-me tudo - responde o comissário. - Mas faça-o depressa. Restam-me ainda cinquenta minutos. Depois, já não serei comissário. E sobretudo, peço-lhe, nada de mentiras.

- Não minto - responde a mulher. - Eu dou-lhe o cadáver. E a direcção exacta do hotel. E o número do quarto donde ela foi atirada. E a hora. E o minuto. Isto basta-lhe? Quer testemunhas? Eu posso dar-lhe os seus nomes.

- Quanto pede?

- Quem me garante que pagará o preço que eu peço? - diz a mulher.

- A minha palavra de honra.

- Não tem valor algum para mim - diz a mulher. - A palavra dum polícia é como o fumo !

- Dinheiro? - diz o comissário.

- Não se trata de dinheiro. Eu não quero dinheiro. Eu quero um favor.

- Tudo o que quiser - diz o comissário. -Se a sua declaração for verdadeira, dar-lhe-ei tudo o que quiser. A minha casa, toda a fortuna que possuo. Isso seria para mim uma grande vitória, a maior. Diga, o que quer?

- Declare por escrito que, se as minhas informações forem exactas, o gangster não será enterrado ao lado da rapariga que se matou com ele.

- Eu não compreendo - diz o comissário.

- Escreva: "Eu, abaixo assinado, comissário Joachim Catran, prometo, se a informação relativa ao cadáver for verdadeira, que Max Perahim não será enterrado ao lado de Lafleur". É tudo. Agora assine.

- Quanto quer?

- Isto, é tudo-: responde a mulher.

- Onde está o cadáver da mulher atirada pela janela? - pergunta o comissário enquanto a visitante mete na mala o papel que ele assinou.

- Eu sou a mulher que Perahim atirou pela janela - diz Rosa Clima. - Quarto 33. Terceiro andar do Hotel da Gare. Eu caí em cima do toldo do botequim do hotel. Como numa maca ! Sem uma beliscadura. Desci sozinha e voltei para o meu quarto pelas minhas próprias pernas. Depois de ter bebido um conhaque. O dono do hotel, o criado e outras pessoas estavam presentes. Podem confirmar as minhas palavras. Eles viram-me cair em cima da lona. é tudo. O meu nome é Rosa Clima.

- Porque é que não disse nada até agora? - pergunta o comissário.

- Não era necessário - responde a mulher.

- Porque fala agora?

-Eu li nos jornais que Perahim ia ser enterrado ao lado de Lafleur. No mesmo túmulo. Um ao pé do outro. Max foi meu amante. Eu não quero que ele durma eternamente, ao lado doutra, sob a mesma cruz, no mesmo caixão.

- Eles estão mortos - diz o comissário.

- Para quê separá-los? Juntos ou separados, para os mortos é a mesma coisa. é-lhes indiferente.

- Não me é indiferente a mim. E Rosa Clima começa a soluçar.

- Nunca tolerarei que fiquem juntos. Mesmo mortos ! é tudo. Verifique se as minhas informações são verdadeiras. E dê ordem para que eles sejam enterrados o mais longe possível um do outro. Em cemitérios diferentes... O mais longe possível um do outro...

 

O gangster e a rapariga foram enterrados longe um do outro - em campas separadas.

Sobre a cruz do homem só há um nome: PERAHIM.

Sobre a cruz da rapariga está gravado: LAFLEUR.

Mas o destino quis contudo que os dois amantes fossem enterrados e dormissem eternamente sob o mesmo nome - porque, soube-se mais tarde, Perahim significa, em língua hebraica, Lafleur.

 

 

                                                                  Constantin Virgil Gheorghiu

 

 

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