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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A BICICLETA AZUL / Régine Deforges
A BICICLETA AZUL / Régine Deforges

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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1939. Bourdeaux, França. A jovem Léa Delmas, de 17 anos, desperta para o amor e para o sexo. Mas o início da Segunda Guerra Mundial interrompe bruscamente a alegria de sua juventude, Léa se vê obrigada a enfrentar a dura realidade da violência, a conviver com a ocupação nazista e, ao mesmo tempo, com as inquietações de uma paixão arrebatadora. A autora Régine Deforges recria todo o drama da família Delmas na luta pela sobrevivência e nos leva por uma viagem ao mundo das sensações e descobertas da mocidade.

 


 


Prólogo

Pierre Delmas era o primeiro a levantar-se. Tomava um mau café que a criada mantinha quente em cima do velho fogão.

Saía em seguida, chamando o cão com um assobio; no inverno, lá fora ainda era noite, ou uma madrugada que, tristonha, anunciava a alvorada, durante o verão. Gostava do cheiro da terra quando tudo ainda permanecia adormecido. O dia surpreendia-o com freqüência no terraço, o rosto voltado para a linha sombria de Landes, em direção ao mar. Na família comentavam que seu único desgosto era não ter sido marinheiro. Durante a infância decorrida em Bordeaux, passava horas esquecidas no cais de Chartrons, vendo os cargueiros entrarem e saírem do porto. Imaginava-se, então, comandando um desses navios, sulcando mares, desafiando tempestades, senhor absoluto a bordo depois de Deus. Certa vez, fora descoberto no porão de um cargueiro de carvão prestes a largar para a África. Nem ameaças nem carícias o levaram a revelar o modo como entrara a bordo ou por que motivo abandonava sem explicações a mãe, que adorava. Depois disso, porém, não mais rondara as docas atulhadas de mercadorias, com cheiro de aventura, de alcatrão e de baunilha.

Pierre Delmas, tal como o pai, tornou-se vinhateiro. Seria aquele amor frustrado pelo mar que o impelira a adquirir, ano após ano, cada vez mais hectares de pinheirais fustigados pelo vento oeste? Aos trinta e cinco anos, sentiu necessidade de casar; mas recusou-se a escolher uma esposa na sociedade de Bordeaux, a despeito dos bons partidos que ali havia.

Conheceu Isabelle de Montpleynet em Paris, em casa de um amigo negociante de vinhos.

Apaixonou-se à primeira vista. Isabelle acabara de completar dezenove anos, mas parecia mais velha devido aos belos e melancólicos olhos azuis e à cabeleira farta e pesada presa na nuca. Mostrara-se atenciosa e encantadora com Pierre, embora ela lhe parecesse, em certos momentos, triste e distante. Ele sentiu vontade de afastála de tal tristeza e mostrou-se divertido sem ser inconveniente. Tornou-se então o mais feliz dos homens, ao vê-la rir. Aprovou o fato de Isabelle não ter sacrificado sua esplêndida cabeleira, ao contrário do que fizera a maioria das mulheres respeitáveis da cidade, sucumbindo às exigências da moda, Isabeile de Montpleynet era filha única de um rico proprietário da Martinica. Criada na ilha até os dez anos, conservara da sua infância insular a fala cantada e uma certa languidez de movimentos. Mas aquela aparente leveza ocultava um temperamento forte e altivo, que se acentuara com o decorrer dos anos. Pela morte da mulher, uma admirável crioula, o pai de Isabelle, desesperado, a confiara aos cuidados das duas irmãs, Albertine e Lisa de Montpleynet, velhas senhoras que viviam em Paris. Seis meses mais tarde morria também, deixando à filha vastíssimas plantações. Pouco tempo depois de conhecê-la, mas sem grandes esperanças, Pierre Delmas confessou a Isabeile o seu amor e o desejo de se casar. Para sua grande surpresa e alegria, a jovem aceitou. Um mês depois, casavam- se em São Tomás de Aquino, com grande pompa.

Após longa temporada na Martinica, instalaram-se em Montillac na companhia de Ruth, a velha governanta, de quem Isabelle não quisera se separar.

Embora estranha naquela terra, bem depressa Isabelle foi aceita pelos vizinhos e pela família do marido. Recebera considerável dote com o casamento, que utilizou para embelezar a nova casa. Tendo levado vida de solteirão até aquela altura, Pierre Delmas utilizava apenas dois ou três aposentos, deixando ao abandono os restantes. Tudo se modificou em menos de um ano e, quando nasceu Françoise, a primeira filha do casal, a velha moradia já estava irreconhecível. Decorridos dois anos, vinha ao mundo Léa, seguida de Laure, três anos depois.

Pierre Delmas, proprietário do domínio de Montillac, era considerado o homem mais feliz da região. De La Réole a Bazas, de Langon a Cadillac, muita gente lhe invejava a felicidade tranqüila, passada junto da mulher e das três filhas.

O Castelo de Montillac era cercado por muitos hectares de terras férteis, matas e, sobretudo, vinhedos, onde se produzia um generoso vinho branco, semelhante ao consagrado Sauternes. O vinho de Montillac ganhara diversas medalhas de ouro.

Na propriedade cultivava-se também um vinho tinto de forte aroma. Mas "castelo" era uma palavra demasiado pomposa para designar a vasta moradia do início do século XIX, emoldurada pelas adegas e flanqueada pela fazenda e respectivas instalações agrícolas: celeiros, palheiros, cavalariças e cocheiras, O avô de Pierre mandara substituir o telhado da casa, as bonitas telhas redondas da região, de tonalidades que iam do cor-de-rosa ao bistre, trocando-as por ardósia fria, considerada mais elegante. Felizmente as adegas e as acomodações do pessoal conservavam a cobertura de origem. O telhado cinzento conferia ao edifício um ar de respeitabilidade e de certa tristeza, mais condizentes com o espírito burguês de seu antepassado.

Atingia-se a propriedade, magnificamente situada, subindo uma colina que dominava o Garona e o Langonês, entre Verdelais e Saint-Macaire, percorrendo um longo caminho bordejado de plátanos, perto do qual se erguia um antigo pombal. Chegava-se deste modo às instalações da fazenda e, logo depois do primeiro celeiro, desembocava-se na "rua" - assim se designara, desde sempre, a passagem que separava a fazenda do castelo, onde se situava a enorme cozinha, que funcionava, de fato, como entrada principal da casa. Só os estranhos utilizavam o vestíbulo, de mobiliário heteródito e pavimento com lajes em forma de grandes quadrados pretos e brancos, sobre o qual assentava uma tapeçaria de cores vivas. Nas paredes pintadas de branco, alguns pratos antigos, graciosas aquarelas e um belíssimo espelho estilo diretório davam o toque alegre. Atravessando-se o vestíbulo acolhedor, saía-se para o pátio, onde, à sombra de duas enormes tílias, a família ficava a maior parte do tempo quando chegavam os dias bonitos. Seria difícil imaginar local mais tranqüilo; bordejado, em parte, por moitas de lilaseiros e sebes de alfeneiro, abria-se, por entre dois pilares de pedra, para um vasto gramado que descia até o terraço, de onde se dominava a paisagem. À direita, um pequeno bosque, um jardim cheio de flores e, logo depois, vinhedos e mais vinhedos até Bellevue, envolvendo o castelo por todos os lados.

Pierre Delmas aprendera a amar essa terra e adorava-a quase tanto como às filhas. Era um homem violento e sensível. O pai, falecido prematuramente, legara-lhe a administração de Montillac, propriedade rejeitada pelos outros filhos e filhas por ser demasiado distante de Bordeaux e pelo seu magro rendimento. Ao instalar-se no domínio, Pierre Delmas prometera a si próprio ser bem sucedido. Endividara-se para pagar aos irmãos a parte que lhes cabia por herança, pedindo dinheiro emprestado a um amigo, Raymond d'Argilat, rico proprietário das proximidades de Saint-Êmilion. E foi desse modo que, sem ter sido senhor absoluto depois de Deus a bordo de um cargueiro, Pierre Delmas se transformou em senhor absoluto de Montillac.


Capítulo 1

Agosto chegava ao fim. Léa, segunda filha de Pierre Delmas, que acabara de completar dezessete anos, estava sentada sobre a pedra ainda quente de sol da mureta do terraço de Montillac. De olhos semicerrados, voltava-se para a planície de onde, em certos dias, subia até ali o odor marinho dos pinheiros do litoral. Balançava as pernas nuas e bronzeadas, os pés calçados em sandálias listradas. De mãos apoiadas ao muro de um e de outro lado do corpo, entregava-se ao prazer voluptuoso de sentir a carne livre sob o leve vestido de algodão branco. Suspirou de bem-estar, estirando-se em lenta ondulação, tal como fazia Mona, a sua gata, ao despertar ao sol.

À semelhança do pai, Léa também amava essa propriedade, da qual conhecia os mínimos recantos. Em criança, brincara às escondidas atrás dos feixes de lenha ou das filas de tonéis, com primos e primas ou filhos e filhas dos vizinhos. O seu companheiro inseparável fora, então, Mathias Fayard, filho do encarregado das adegas, mais velho que ela três anos. De total dedicação, ele sucumbia ao menor dos seus sorrisos. Os cabelos encaracolados de Léa viviam em permanente desalinho, e os seus joelhos andavam sempre esfolados. O rosto desaparecia sob os enormes olhos violeta, sombreados por longas pestanas negras. O seu passatempo favorito era pôr Mathias à prova. No dia de seu décimo quarto aniversário, pedira-lhe:

- Ensine-me como se faz amor, Mathias.

Louco de alegria, o jovem tomou-a nos braços e beijou-lhe suavemente o rosto emoldurado pelo feno do palheiro. Semicerrados, os grandes olhos violeta observavam com atenção todos os gestos do companheiro. Quando este lhe desabotoou a blusa branca, Léa soergueu-se para ajudá-lo. Depois, num gesto de pudor tardio, ocultou os seios que despontavam, sentindo subir em si um desejo desconhecido.

Em algum lugar nas instalações do pessoal, ouviu-se a voz de Pierre Delmas. Mathias interrompeu as carícias.

- Continue - murmurou Léa, atraindo para si a cabeça do rapaz, de cabelos castanhos e ondulados.

- Mas.. . seu pai. .

- E então? Está com medo?

- Não. Mas, se nos descobrir, vou ficar envergonhado.

- Ora, envergonhado! Por quê? O que estamos fazendo de mau?

- Você sabe muito bem. Seus pais sempre se mostraram bons para mim e para a minha família.

- Mas você me ama.

Mathias olhou-a demoradamente. Como era bela assim, com os cabelos de ouro pontilhados de flores secas e de pedaços de palha, os olhos brilhantes, a boca entreaberta sobre pequenos dentes brancos e carnívoros, os seios jovens de mamilos eretos!

Mathias avançou a mão para logo suspender o gesto. E disse, como se falasse consigo:

- Não. Seria malfeito. Assim, não.

Depois acrescentou em tom decidido:

- Amo você, sim. E por isso mesmo não quero... Você é a menina do castelo e eu.

Afastou-se dela e desceu a escada.

- Mathias.

O rapaz não respondeu, e Léa ouviu a porta fechar-se.

- Que estúpido...

Abotoou então a blusa e adormeceu até tarde, despertando apenas com o segundo toque da sineta que chamava para o jantar.

Ao longe, no campanário de Langon ou no de Saint-Macaire, soaram cinco badaladas. Sultão, o cão da propriedade, ladrava alegremente, perseguindo dois jovens que desciam correndo pelo gramado. À frente de Jean Lefèvre, Raul, o irmão, alcançou a mureta onde Léa se empoleirava. Sem fôlego, ambos se encostaram à pedra, um de cada lado da jovem, que os olhou amuada.

- Já não era sem tempo! Julguei que preferissem a companhia dessa palerma da Noélle Villeneuve, que não sabe o que fazer para agradar vocês.

- Não é nenhuma palerma! - objetou Raul.

O irmão deu-lhe um pontapé.

- Demoramos por causa do pai dela. O sr. Villeneuve acha que a guerra começará dentro em breve.

- A guerra! A guerra! Não se fala de outra coisa. Estou farta! Esse assunto não me interessa - disse Léa bruscamente, passando as pernas por cima do muro.

Jean e Raul, com o mesmo gesto teatral, precipitaram-se a seus pés.

- Perdoe-nos, rainha das nossas noites, sol dos nossos dias. Abaixo a guerra, chocante para as moças e mortal para os rapazes!

A sua beleza fatal não deve descer a tão mesquinhos pormenores. Nós a amamos com um amor sem par. Qual de nós você prefere, ó rainha? Escolhe. Jean? Venturoso amado! Morro neste mesmo instante de desespero - declarou Raul, deixando-se cair no chão, com os braços em cruz.

Com os olhos cheios de malícia, Léa contornou o corpo estendido no chão, passou sobre ele com ares de desprezo e depois, parando, empurrou-o com o pé, proferindo no mesmo tom melodramático:

- Morto é ainda maior do que vivo.

Em seguida, dando o braço a Jean, que se esforçava por manter- se sério, arrastou-o consigo, dizendo:

- Abandonemos o cadáver malcheiroso. Venha me cortejar, meu amigo.

Afastaram-se sob o olhar falsamente desesperado de Raul, que erguia a cabeça para vê-los partir.

Raul e Jean Lefèvre tinham uma força muscular pouco comum. Com vinte e um e vinte anos, respectivamente, eram tão afeiçoados um ao outro como se fossem gêmeos. Se Raul fazia qualquer tolice, logo Jean se acusava. Se este recebia um presente, dava-o ao irmão imediatamente. Educados num colégio de Bordeaux, eram o desespero dos professores devido à indiferença que manifestavam por qualquer tipo de matéria escolar. Sempre em último lugar durante anos, só muito tarde conseguiram concluir o curso. E apenas para agradar à mãe, Amélie - segundo afirmavam. Mas sobretudo - tal como outras pessoas garantiam - para evitar os castigos com o chicote que aquela mulher impetuosa não hesitava em aplicar à sua numerosa e turbulenta prole. Tendo ficado viúva muito cedo e com seis filhos para criar - o caçula estava apenas com dois anos -, retomara firmemente a gerência da propriedade vinícola do marido, Verderais.

Não gostava muito de Léa, que considerava insuportável e mal- educada. Não era segredo para ninguém o fato de Raul e de Jean Lefèvre estarem apaixonados pela jovem. isso era mesmo objeto de gracejos por parte dos outros rapazes e motivo de irritação para as moças.

- Léa é irresistível - diziam eles. - Quando nos fita de pálpebras semicerradas, morremos de desejo de abraçá-la.

- Ora, não passa de uma provocadora! - respondiam as moças. - Mal vê um homem interessar-se por outra mulher começa logo a lançar-lhe olhares.

- Talvez seja verdade. Mas acontece que podemos falar de todos os assuntos com ela: cavalos, pinheiros, vinhas e de muitas outras coisas.

- Ora, isso são gostos de camponesa! Léa comporta-se mais como um rapaz frustrado do que como uma menina de sociedade.

Ver vacas parir e cavalos copular, sozinha ou junto de homens e criados, ou levantar-se da cama para ir admirar a lua acompanhada do Sultão, será que isso é manter a compostura? A mãe desespera-se com ela. Foi expulsa do internato por indisciplina. Devia seguir o exemplo da irmã, Françoise. Uma moça direita.

- Mas tão chata!. . - Só pensa em música e em vestidos.

A ascendência de Léa sobre os homens era, de fato, absoluta. Nenhum conseguia resistir-lhe. Novo ou velho, rendeiro ou proprietário, a todos subjugava. Por um só sorriso dela muitos seriam capazes de cometer loucuras; o pai em primeiro lugar.

Quando fazia algum disparate, a filha ia procurá-lo no escritório e sentava-se em seu colo, aninhando-se em seus braços. Nesses instantes, Pierre Delmas sentia-se invadido por tamanha felicidade que fechava os olhos para melhor saboreá-la.

Raul ergueu-se de um salto- e alcançou Léa e o irmão.

- Estou aqui! Ressuscitei! De que falavam?

- Do garden parly que o sr. d'Argilat vai oferecer amanhã e do vestido que Léa usará na festa.

- Seja qual for, tenho a certeza de que será a mais bonita - afirmou Raul, abraçando a jovem pela cintura.

Léa esquivou-se, rindo.

- Pare com isso! Você me lisonjeia. Vai ser estupenda a festa dos vinte e quatro anos de Laurent. Ele será o herói do dia. Depois do piquenique haverá baile, seguido de ceia e de fogos de artifício. Nem mais nem menos!

- Laurent d'Argilat é duplamente o herói da festa - interveio Jean.

- Por quê? - inquiriu Léa, erguendo para ele o belo rosto pontilhado de algumas sardas.

- Não posso dizer. Por enquanto é segredo.

- Como?! Você tem segredos para mim? E você? - disse ela, dirigindo-se a Raul. - Sabe de alguma coisa?

- Sim. -. de certo modo.

- Julguei que fosse sua amiga e que vocês gostassem de mim o suficiente para não me ocultarem nada - observou Léa, deixando-se cair sobre o banco de pedra encostado à adega, em frente das vinhas, fingindo enxugar os olhos na borda do vestido.

Fungando, observava pelo canto do olho os dois irmãos, que se fitavam com ar de embaraço. Sentindo-os indecisos, aplicou-lhes o golpe de misericórdia: ergueu para eles os olhos marejados de lágrimas fingidas e ordenou:

- Desapareçam! Vocês me magoam muito. Não quero vê-los mais.

Raul decidiu-se, então:

- Pois bem, aí vai! O sr. d'Argilat vai anunciar amanhã o casamento do filho - O casamento do filho?! - interrompeu-o Léa.

Deixou imediatamente de gracejar e proferiu, em tom de extrema violência:

- Você está completamente louco! Laurent não tem nenhuma intenção de se casar, ele me falou.

- Com certeza não teve oportunidade. Mas você sabe muito Sem que desde criança está noivo da prima, Camille d'Argilat - prosseguiu Raul.

- De Camille d'Argilat! Mas ele não a ama! Aquilo não passou de uma brincadeira de criança para o divertimento dos pais.

- Você se engana. Amanhã será anunciado oficialmente o noivado entre os dois. E vão se casar dentro de pouco tempo, por causa da guerra.

Léa deixara de ouvi-lo. Da alegria de momentos atrás, transitava para o pânico, que a invadia aos poucos. Tinha frio e calor ao mesmo tempo, sentia-se tonta e enjoada. Laurent casado! Não era possível! Aquela Camille a quem todos elogiavam não era mulher para ele; não passava de uma citadina, de uma intelectual sempre mergulhada em seus livros. "Laurent não pode casar com ela, pois me ama", gritava Léa no seu íntimo. "Vi muito bem no outro dia o modo como me pegou na mão e me olhou. Eu sei... sinto-o."

- Hitler bem que se importa com isso.

- Mas a Polônia...

Em plena discussão, os dois irmãos não notaram a mudança de atitude de Léa.

- Tenho de falar com ele - disse ela em voz alta.

- Que disse? - perguntou Jean.

- Nada. Disse que já é hora de voltar para casa.

- Já? Mas acabamos de chegar!

- Estou cansada e com dor de cabeça.

- Seja como for, amanhã, em Roches-Bianches, quero que você dance apenas com Raul e comigo.

- Está bem, está bem... - concordou Léa, erguendo-se, enfastiada.

- Hurra! - exclamaram os rapazes em uníssono.

- Cumprimente sua mãe.

- Farei isso. Até amanhã.

- E não se esqueça: todas as danças serão nossas.

Raul e Jean partiram correndo, atropelando-se como dois cachorrinhos.

"Que moleques!", pensou Léa, que, voltando resolutamente as costas para a casa, dirigiu-se para o calvário, local de refúgio de todos os seus desgostos infantis.

Em criança, quando brigava com as irmãs, quando Ruth a punia por negligência dos deveres ou, sobretudo, se a mãe ralhava com ela, refugiava-se numa das capelas do calvário, para acalmar o desgosto ou a cólera. Léa evitou a casa de Sidonie, a antiga cozinheira do castelo, a quem a doença, mais do que a idade, tinha forçado a interromper o trabalho. Como recompensa pelos bons serviços prestados, Pierre Delmas lhe dera aquela casa que dominava toda a paisagem. Léa vinha muitas vezes tagarelar com a velhota, que sempre fazia questão de lhe oferecer um cálice de licor de cássis, preparado por ela. Orgulhava-se da bebida e ficava à espera dos elogios que Léa não regateava, embora detestasse licor de cássis.

Nesse instante, porém, ouvir as conversas de Sidonie e ter de engolir o licor estavam muito além de suas forças.

Sem fôlego, Léa parou junto ao calvário e deixou-se cair no primeiro degrau, apoiando a cabeça nas mãos geladas. Trespassou-a uma dor terrível. As têmporas latejavam-lhe, os ouvidos zumbiam e um gosto de bile invadiu-lhe a boca. Ergueu-se e cuspiu.

- Não, não é possível! Não é verdade!

Os Lefèvre tinham dito aquilo por despeito. Onde já se viu alguém casar sob o pretexto de ter ficado noivo em criança? Além disso, Camille era muito feia para Laurent, com o seu ar sábio e melancólico, uma saúde que se dizia delicada e uns modos excessivamente suaves. Que tédio viver com uma mulher como aquela! Não, Laurent não podia amá-la! Amava a ela, Léa, e não àquela magricela que sequer conseguia se manter aprumada em cima de um cavalo ou dançar durante uma noite inteira... Ele a amava, tinha certeza. Percebera-o pela maneira como lhe retivera a mão, pelo olhar procurando o seu. Ainda ontem, na praia. .

Ela inclinara a cabeça para trás e sentira o desejo dele, ansiando por beijá-la. Mas não fizera a mínima tentativa nesse sentido, como é óbvio. Que exasperantes os rapazes da alta sociedade, tão bloqueados pela educação! Não, Laurent não podia amar Camille.

Tal certeza restituiu-lhe um pouco a coragem. Recompôs-se, resolvida a esclarecer o caso e a fazer os Lefèvre pagarem por tal gracejo. Ergueu o rosto para as três cruzes, murmurando:

- Ajude-me.

O pai fora nesse dia a Roches-Blanches e não tardaria a voltar. Decidiu ir ao seu encontro: saberia por ele o que se passava.

No caminho, surpreendeu-se por encontrá-lo já de volta.

- Você vinha correndo como se o Diabo a perseguisse - comentou Pierre Delmas. - Mais uma briga com suas irmãs? Está corada e despenteada.

Ao ver o pai, Léa procurou retomar uma expressão mais calma, tal como uma mulher que se empoasse às pressas vendo chegar um visitante imprevisto. Mas o resultado não era dos melhores. Esforçou-se por sorrir, deu o braço ao pai, apoiou a cabeça no ombro dele e disse no seu tom mais meigo:

- Que alegria ver você, paizinho! Ia justamente ao seu encontro. Está um dia maravilhoso, não é?

Um pouco surpreso com a jovialidade da filha, Pierre Delmas apertou-a contra si, contemplando as encostas revestidas de cepas cuja disposição regular transmitia uma sensação de ordem e de perfeita calma.

- Um belo dia, de fato. Um dia de paz, mas talvez o último - disse ele com um suspiro.

Perplexa, Léa indagou:

- O último, como? O verão ainda não terminou. E em Montillac o outono é sempre a melhor estação.

Pierre Delmas afrouxou o abraço, proferindo em tom sonhador:

- Sim, é de fato a melhor estação. Mas surpreende-me a sua indiferença; à sua volta tudo prenuncia a guerra e você.

- A guerra! A guerra! interrompeu-o a filha com violência.

- Estou farta de ouvir falar em guerra. Hitier não é tão loucc que declare guerra à Polônia. E, depois, mesmo que isso aconteça naquele país, em que isso nos diz respeito? Os poloneses que se arranjem!

- Cale-se! Você não sabe o que diz! - gritou o pai, agarrando-a pelo braço. - Nunca mais fale assim, ouviu? Existe uma aliança entre os nossos dois países, e nem a Inglaterra nem a França poderão se esquivar.

- Mas os russos aliaram-se à Alemanha.

- Para grande vergonha deles. E, no futuro, Stálin vai saber que fez papel de bobo.

- Mas Chamberlain.

- Chamberlain fará o que a honra exigir, confirmando a Hitier o seu propósito de respeitar o tratado anglo-polonês.

- E então?

- Então haverá guerra.

Um silêncio povoado de imagens bélicas caiu entre pai e filha. Foi Léa quem o quebrou:

Mas Laurent d'Argilat é de opinião que não estamos preparados para a luta e que o nosso armamento data do conflito de 1914- 1918, só prestando para figurar num museu de guerra. Afirma também que a aviação é inexistente, a artilharia pesada, uma lástima...

- Para quem não quer ouvir falar em guerra, vejo que você está bem mais a par do nosso poderio armado do que o seu velho pai. Mas não leva em conta a coragem dos nossos soldados.

- Laurent diz que os franceses não têm vontade de guerrear.

- Mas será necessário que o façam.

- E que se deixem matar por coisa nenhuma, por um conflito que não lhes diz respeito.

- Morrerão pela liberdade.

- Ora, a liberdade! Onde está a liberdade quando se está morto? Eu não quero morrer nem quero que Laurent morra.

Sua voz ficou embargada, e Léa virou o rosto para ocultar do pai as lágrimas.

Perturbado pelas palavras da filha, porém, ele não notou sua emoção.

- Se você fosse homem, Léa, eu a chamaria de covarde.

- Não sei, papai. Desculpe. Faço você sofrer, mas tenho tanto medo!

- Todos nós temos.

- Laurent não. Garante que cumprirá o dever, embora tenha a certeza da derrota.

- As mesmas idéias pessimistas que o pai exprimiu esta tarde.

- Ah... você esteve em Roches-Blanches?

- Estive.

Léa segurou a mão de Pierre Delmas e o puxou, endereçando- lhe seu melhor sorriso.

- Vem. Voltemos para casa. Se nos atrasarmos, mamãe ficará preocupada.

- Você tem razão - concordou o pai, correspondendo ao sorriso da jovem.

Pararam em Believue para cumprimentar Sidonie, que terminara a refeição da noite e tomava ar fresco sentada em frente de casa.

- Então, Sidonie, em forma?

- Podia ser melhor sr. Delmas. O sol aquecerá estes velhos ossos enquanto houver bom tempo. Além disso, aqui, neste lugar, como não ter alegria no coração?

Como um gesto amplo, Sidonie abarcava a magnífica paisagem. Daquele local - conforme Sidonie afirmava - avistavam-se os Pireneus em dias de céu límpido. O pôr-do-sol arrancava reflexos do verde-esmeralda das vinhas, dourava os caminhos poeirentos e os telhados das adegas e projetava uma paz enganosa sobre tudo.

Entrem para tomar alguma coisa - convidou a velhota.

Nesse instante, chegou até eles o primeiro toque de sineta anunciando o jantar, o que lhes permitiu se esquivarem do licor de cássis.

Caminhando de braço dado com o pai, Léa perguntou:

- Além da guerra, de que mais falou o sr. d'Argilat? Conversaram sobre a festa de amanhã?

Querendo apagar do espírito da filha os ecos da conversa anterior, Pierre Delmas respondeu:

- Será uma bela festa, uma festa como há muito tempo não se vê. Vou lhe revelar um segredo, se você prometer nada dizer a suas irmãs, que são incapazes de controlar a língua.

Maquinalmente, Léa diminuiu o passo, sentindo as pernas subitamente pesadas.

- Um segredo?

- O sr. d'Argilat vai anunciar amanhã o casamento do filho.

Léa parou, sem voz.

- Não quer saber com quem?

- Com quem? - conseguiu articular.

- Com a prima, Camille d'Argilat. Não é surpresa para ninguém. Mas, devido aos rumores que correm sobre a guerra, Camille quer apressar a data do casamento. Mas... o que você tem?

Pierre Delmas amparou a filha, que parecia prestes a cair.

- Está muito pálida, minha querida. Que se passa? Sente-se doente? É por causa do casamento de Laurent? Você está apaixonada por ele?

- Sim. Amo-o e ele me ama. - Espantado, Pierre Delmas encaminhou a filha para um banco à beira do caminho, obrigando-a a se sentar, e deixou-se cair a seu lado.

- O quê? Laurent nunca poderia lhe falar de amor, pois sempre soube que está destinado à prima. O que a faz acreditar que ele a ama?

- Eu sei, é tudo.

- É tudo...

Vou lhe dizer que o amo. Assim, não se casará com a idiota da prima.

Pierre Delmas olhou a filha com tristeza, depois com severidade.

- Em primeiro lugar, Camille d'Argilat não é nenhuma idiota. É uma moça encantadora, bem-educada e muito culta; exatamente o tipo de mulher que convém a Laurent.

- Tenho certeza de que não é.

- Laurent é um homem de princípios rígidos. Uma pessoa como você logo se aborreceria junto dele.

- Não importa. Amo-o tal com é e vou lhe dizer isso.

- Não vai lhe dizer coisa nenhuma. Não permito que minha filha se declare a um homem que ama outra mulher.

- Mas isso não é verdade! - exclamou Léa. - É de mim que ele gosta.

Diante do rosto alterado da filha, Pierre Delmas teve um instante de hesitação e depois asseverou:

- Laurent não a ama. Ele próprio me anunciou com alegria o casamento.

O grito que saiu da garganta de Léa atingiu o pai como uma pancada. Num passado ainda não muito distante, aquela filha era apenas uma criança de colo; ainda não havia muito ia ter com ele à cama, assustada com o lobo das histórias da boa Ruth. E agora transformara-se numa mulher apaixonada.

- Minha ruivinha, minha querida, minha ovelhinha, por favor...

- Oh, papai, papai!...

- Calma... calma... eu estou aqui. Enxugue as lágrimas. Sua mãe ficará doente se vir você nesse estado. Prometa que será razoável.

Você não deve se rebaixar confessando a Laurent que o ama. Tem de esquecê-lo.

Mas Léa deixara de ouvir o pai. Em seu espírito perturbado nascia aos poucos uma idéia que a serenava. Aceitou o lenço que Pierre Delmas lhe estendia, assoou-se com ruído - "não como uma senhora da sociedade", conforme teria observado Françoise - e ergueu o rosto pálido mas sorridente.

- Você tem razão, papai. Vou esquecê-lo.

Devia ser cômico o espanto surgido na face do pai, pois Léa rompeu em gargalhadas.

"Decididamente, não entendo nada de mulheres", pensou Pierre Delmas, aliviado de enorme peso.

O segundo toque da sineta os fez acelerar o passo.

Léa subiu correndo para o quarto, contente por escapar ao olhar vigilante de Ruth. Lavou o rosto com água fria e escovou os cabelos. Contemplou com indulgência a sua própria imagem refletida no espelho. "Os estragos não são grandes", pensou. Talvez apenas os olhos estivessem um pouco mais brilhantes que de hábito...


Capítulo 2

Pretextando enxaqueca - o que lhe valera a solicitude de Ruth e uma carícia inquieta por parte da mãe, concordando ambas que a sua testa parecia um pouco quente -, Léa não acompanhara a família ao passeio quase cotidiano depois do jantar. Refugiara-se no compartimento da casa a que se continuava a dar o nome de "quarto das crianças".

Tratava-se de uma sala enorme situada na ala mais antiga da moradia, onde se localizavam também os quartos dos criados e de despejo. O quarto das crianças era uma grande bagunça onde se empilhavam baús de vime cheios de roupas fora de moda, roupa essa que fizera as delícias das pequenas Delmas quando, em dias de mau tempo, brincavam de fantasiar-se; manequins de costureira de peito tão largo e de curvas tão exageradas que pareciam caricaturas de corpos femininos; caixotes transbordantes de livros valiosos, que haviam pertencido a Pierre Delmas ou aos irmãos. Fora nesses mesmos livros, muitos dos quais de conteúdo edificante, que Léa e as irmãs tinham aprendido a ler. A sala, de vigas enormes, iluminada por janelas altas e fora do alcance das crianças, com o pavimento de ladrilhos desbotados e desconjuntados, por vezes rachados, coberto de velhos tapetes de cores desbotadas, de paredes forradas com papel de desenhos meio apagados, representava outro refúgio para Léa. No meio dos velhos brinquedos de infância, encolhida em cima da alta cama de ferro onde dormira até os seis anos, a jovem lea, sonhava ou chorava, embalando a velha boneca preferida, ou adormecia enroscada, com os joelhos tocando o queixo, e encontrando nessa posição a serenidade do bonito bebê sorridente e calmo de antigamente. A derradeira claridade do dia iluminava levemente a peça, nela deixando recantos obscuros. Léa, sentada na cama com os braços envolvendo as pernas dobradas, de sobrancelhas franzidas, fixava sem ver o retrato de uma antepassada longínqua que se diluía nas sombras. Desde quando amava Laurent d'Argilat? Desde sempre? Não, não era verdade. No ano anterior, nem sequer dera ainda pela sua presença, tal como acontecera com ele em relação a ela, aliás. Tudo principiara durante aquele ano, nas últimas férias da Páscoa, quando Laurent ali estivera em visita ao pai doente.

Como sempre fazia em cada temporada, viera cumprimentar o casal Delmas.

Nesse dia, Léa encontrava-se sozinha na saleta da entrada, absorvida na leitura do último romance de François Mauriac, o vizinho mais próximo deles. Não ouvira a porta abrir-se. Estremeceu e ergueu a vista ao sentir a aragem fresca do início da primavera, aragem impregnada do forte odor de terra molhada. Surpresa, descobriu então um belo homem alto e loiro, em traje de montaria, segurando nas mãos enluvadas o chicote de cavaleiro. Fitava-a com tão intensa admiração que Léa experimentou um vivo prazer. Distraída, não o reconheceu de imediato, sentido o coração bater com mais força. O rapaz sorriu e Léa descobriu, finalmente, de quem se tratava. Erguendo-se de um salto, atirou-se-lhe ao pescoço num impulso infantil.

- Laurent!

- Léa?

- Sim, sou eu.

- Como é possível! A última vez que... que a vi, era ainda uma garota. Tinha o vestido rasgado, as pernas feridas, os cabelos despenteados. E agora... Descubro uma jovem encantadora e elegante - fê-la girar como que para melhor apreciá-la -, de cabelos arrumados.

Naquele dia, Léa abandonara-se às mãos de Ruth, que havia arrumado os caracóis em sensatas espirais, dando-lhe o aspecto de uma castelã da Idade Média.

- Então, você gosta?

Mais do que consigo dizer.

Os grandes olhos cor de violeta pestanejaram ingenuamente, como acontecia sempre que Léa procurava seduzir alguém. Quantas vezes lhe tinham dito que essa expressão era irresistível?

- Não me canso de admirá-la. Que idade você tem?

- Faço dezessete anos em agosto.

- A minha prima Camille tem dois mais que você.

Por que motivo experimentara tão grande desagrado ao ouvir esse nome? A boa educação exigia que pedisse a Laurent notícias da família, que tão bem conhecia, mas era intolerável a idéia de pronunciar o nome de Camille.

Laurent d'Argilat quis saber notícias dos pais e das irmãs. Sem ouvir as perguntas, Léa respondia "sim" ou "não" ao acaso, apenas atenta ao tom da voz que a fazia estremecer.

Surpreso, o rapaz calou-se, observando-a com mais atenção. E Léa teve certeza de que ele a teria abraçado se a mãe e as irmãs não entrassem na sala inopinadamente.

- Então Laurent está aqui e você não nos chama, Léa?

O jovem beijou a mão que Isabelle Delmas lhe estendia.

- Vejo agora de quem Léa herdou tão belos olhos - observou ele, endireitando-se.

- Cale-se! Não diga que ela é bonita. Léa sabe disso mais do que o necessário.

- E nós? - exclamaram Françoise e Laure em conjunto.

Laurent inclinou-se e ergueu a pequena Laure nos braços.

- É sabido que as mulheres de Montillac são as mais bonitas da região - asseverou ele.

A mãe convidou Laurent para jantar. E Léa permaneceu mergulhada num clima de encantamento, até mesmo quando ele aludiu pela primeira vez à eventualidade de uma guerra. Ao partir, despediu-se dela com um beijo na face, beijo mais demorado - tinha certeza - do que os dispensados às irmãs. Por breves instantes, ela cerrou as pálpebras de emoção. Ao reabri-las, viu Françoise olhando-a com maldosa incredulidade. Depois, na escada que conduzia aos quartos, ela lhe sussurrou:

- Ele não é para você.

Entregue à recordação feliz daquela noite, Léa não rebateu o dito da irmã, fato que, mais do que qualquer outra coisa, contribuiu para espantar Françoise.

Uma lágrima deslizou pelo rosto de Léa.

A noite caíra por completo. Na casa, até então mergulhada em silêncio, ressoaram as vozes dos seus moradores, que se recolhiam após o passeio. Léa adivinhou os gestos do pai ao acender o fogo na lareira da sala a fim de expulsar a umidade, ao sentar-se no sofá, apoiando os pés nas ferragens da chaminé, ao pegar o jornal e os óculos pousados na pequena mesa oval; a mãe trabalhando na tapeçaria, a face doce e bela iluminada pelo candeeiro de cúpula de seda cor-de-rosa; Ruth, um pouco afastada junto do candeeiro grande, dando os últimos retoques nas bainhas dos vestidos para a festa do dia seguinte; e Laure brincando com um quebra-cabeça ou com bonecas em miniatura de que tanto gostava. Subiram até ela os primeiros acordes de uma valsa de Chopin - Françoise tocava piano. Léa gostava de ouvi-la tocar; admirava-lhe o talento, apesar de nunca ter lhe dito isso, é claro... Nessa noite, no frio negrume do quarto das crianças, sentia falta desse mesmo calor familiar que por vezes tanto a exasperava. Desejou, sem que para isso tivesse de mexer-se, estar sentada aos pés da mãe, no tamborete que era reservado só para ela contemplar as chamas ou, então, de cabeça encostada nos joelhos maternos, pensando no amor e na glória ou, ainda, lendo um livro ou, melhor, folheando os velhos álbuns de fotografias de capas gastas que a mãe conservava como relíquias.

Desde o início do verão, Laurent visitava Montillac quase todos os dias. Acompanhava Léa nas galopadas através das vinhas ou levava-a a passear no seu carro novo, em visita aos arredores, cruzando as Landes a alta velocidade, por estradas de retas quase hipnotizantes. Léa, com a nuca apoiada no encosto do assento do conversível, não se cansava do desfile monótono dos cimos dos pinheiros que varavam o céu de um falso azul de cartão-postal. Eles raramente estavam sozinhos em tais excursões. Léa tinha certeza, porém, de que a presença dos outros se destinava apenas a salvaguardar as aparências. Também se sentia reconhecida a Laurent pelo fato de não demonstrar a desajeitada solicitude dos irmãos Lefèvre. Ele, pelo menos, sabia conversar sobre outros assuntos além de caça, vinhos, florestas e cavalos. Léa esquecia-se de como antigamente detestara os seus sutis comentários sobre romancistas ingleses e americanos. Para agradar-lhe, lera Conrad, Faulkner e Fitzgerald nos textos originais, o que para ela representava grande provação, pois lia mal em inglês. Em geral tão impaciente, Léa suportava até os acessos de melancolia de Laurent, acessos que sobre- vinham a cada vez que ele pensava na inevitabilidade da guerra.

- E saber que tantos homens serão sacrificados por causa de um aquarelista de segunda categoria! - comentava o rapaz com tristeza.

Léa aceitava nele tudo o que detestava nos outros, sentindo-se recompensada por um sorriso, por um olhar de ternura ou por um aperto de mão.

- Você está aí, Léa?

A porta abriu-se, projetando um retângulo de luz na sala mergulhada em trevas. Léa sobressaltou-se ao ouvir a voz da mãe.

Soergueu-se, fazendo ranger a cama.

- Estou, sim, mamãe.

- O que faz no escuro?

- Estou pensando.

A claridade da lâmpada nua atingiu brutalmente seus olhos e Léa ocultou o rosto com os braços.

- Apague a luz, por favor, mamãe.

Isabelle Delmas obedeceu e atravessou o quarto, passando por cima de uma pilha de livros que atrapalhava o caminho. Sentou-se junto à cama, num velho genuflexório estropiado, e passou a mão pelos cabelos desalinhados da filha.

- Qual é o problema, querida? Diga-me.

Léa sentiu os soluços subirem-lhe à garganta e um desejo urgente de desabafar. Sabendo da rigidez de princípios da mãe quanto a tais assuntos, resistiu à idéia de confessar o amor que dedicava a um homem prestes a casar-se com outra. Por nada deste mundo desejava magoar aquela mulher um pouco distante que tanto admirava, a mulher que venerava e a quem tanto queria se assemelhar.

- Fale comigo, minha menina. Não me olhe assim com esse ar de bicho preso numa armadilha.

Léa procurou sorrir, falar da festa do dia seguinte, do vestido novo, mas sua VOZ se estrangulou e, desfeita em lágrimas, lançou-se ao pescoço da mãe, soluçando.

- Tenho tanto medo da guerra!


Capítulo 3

Na manhã seguinte, ecoavam pela casa os gritos, o riso e as correrias das três irmãs. Ruth não sabia para onde se virar diante das exigências de suas três "pequenas". Procurava por toda parte bolsas, chapéus, sapatos, etc.

- Apressem-se! Seus tios e primos estão chegando.

De fato, três automóveis acabavam de parar junto ao terraço. Luc Delmas, irmão mais velho de Pierre, célebre advogado de Bordeaux, partidário obstinado de Maurras, trouxera os três filhos mais novos, Philippe, Corinne e Pierre. Léa não gostava deles, achava-os afetados e fingidos, à exceção do último, a quem todos tratavam por Pierrot para distingui-lo do padrinho, de quem prometia ser bem diferente: aos doze anos, fora expulso, por insolência e crueldade, de todos os estabelecimentos de ensino religioso de Bordeaux, e estudava num liceu, para grande descontentamento dos pais.

Bernadette Bouchardeau, viúva de um coronel, transferia toda a necessidade de ternura para o filho único, Lucien, nascido pouco tempo antes da sua viuvez. Com dezoito anos, o rapaz já não conseguia suportar a solicitude materna e esperava a primeira oportunidade para afastar-se dela.

Adrien Delmas, dominicano, "a consciência da família", gostava de implicar com Pierre, o irmão. De todos os sobrinhos e sobrinhas, Léa era a única que não se deixava intimidar pelo padre, um colosso a quem o hábito branco tornava ainda mais impressionante. Orador notável, pregava pelo mundo inteiro e mantinha correspondência regular com personalidades religiosas de todas as confissões. Falava várias línguas e fazia freqüentes viagens ao estrangeiro.

Na alta-roda de Bordeaux, tal como no seio da família, o padre Adrien era tido como revolucionário. Na realidade, não concedera ele asilo a refugiados espanhóis violadores de freiras e de sepulturas, refugiados fugidos do seu país após a queda de Barcelona? Não era amigo do escritor socialista inglês George Orwell, antigo tenente da 29.a Divisão, que, ferido e sob um calor tórrido, errara de cafés para estabelecimentos de banhos, dormindo à noite em casas arruinadas ou pelos matos, até conseguir passar para a França, onde Adrien lhe oferecera hospitalidade? Era também o único dos irmãos a denunciar como injusto o acordo de Munique, predizendo que semelhante covardia não iria evitar a guerra. Apenas o sr. d'Argilat tinha a mesma opinião.

Raymond d'Argilat e Adrien Delmas eram amigos de longa data. Apreciavam Chamfort, Rousseau e Chateaubriand, mas tinham opiniões opostas quanto a Zola, Gide e Mariac, voltando a estar de acordo em relação a Stendhal e a Shakespeare. As discussões literárias entre eles prolongavam-se às vezes por horas seguidas. Quando o padre Delmas se deslocava em visita a Roches- Blanches, os criados comentavam:

- Olha, lá vem o padre de novo com o seu Zola! Já era tempo de saber que o patrão não gosta desse escritor.

De todas as jovens presentes, Léa era a única a usar traje de cor escura, motivo para espanto nesse fim de manhã de verão.

Insistira com a mãe durante muito tempo até obter permissão para mandar fazer o vestido de seda preta e pesada, com minúsculas flores vermelhas. O modelo realçava-lhe a elegância do porte, a redondez dos seios e a curvatura das ancas. •Nos pés sem meias usava sandálias de salto alto, em couro vermelho. Cobria-lhe a cabeça um chapéu de palha preta, enfeitado com um raminho de flores combinando com os sapatos, caído sobre um dos olhos num jeito arrogante. Na mão, trazia uma bolsa, também vermelha.

Como é óbvio, os irmãos Lefèvre foram os primeiros a precipitar-se para Léa. Lucien Bouchardeau também veio saudá-la.

- Muito bem torneada, a nossa priminha - cochichou ele ao ouvido de Jean.

Phillippe Delmas aproximou-se por seu turno e beijou a prima, corando. Léa abandonou-o de imediato, virando-se para Pierrot, que se lançou a seu pescoço, quase desequilibrando seu chapéu.

- Estou muito contente por vê-lo, Pierrot - disse ela, correspondendo aos beijos do rapaz.

Afastando o grupo dos admiradores, o dominicano de hábito branco conseguiu aproximar-se da sobrinha.

- Deixem-me passar. Quero dar um beijo em minha afilhada - disse ele.

- Oh, tio Adrien, você também veio! Estou tão contente! Mas o que se passa? Parece preocupado.

- Nada, minha menina. Não é nada. Como você cresceu! Quando penso que a peguei no colo para levá-la à pia batismal! Temos de pensar em casá-la. Creio que pretendentes não faltam.

- Oh, tio! - exclamou Léa, dengosa, compondo o chapéu.

- Vamos, vamos!, senão chegaremos atrasados a Roches-Blanches. Todos para os carros! - gritou Pierre Delmas com uma jovialidade forçada.

Lentamente, todos se dirigiram para os abrigos onde os automóveis estavam estacionados. Léa fez questão de acompanhar o padrinho, para grande desapontamento dos irmãos Lefêvre, que tinham polido o velho Celtaquatre em sua homenagem.

- Vão à frente na sua charanga - ordenou ela. - Encontramo-nos em Roches-Blanches. Posso guiar, tio?

- Sabe guiar?

- Sei. Mas não diga a mamãe. Papai me deixa guiar de vez em quando e me ensina as regras de trânsito. É o mais difícil. Espero fazer exame daqui a pouco tempo.

- Mas você é tão nova ainda!

- Papai garantiu que se daria um jeito.

- Muito me admira! Mas, enquanto esperamos por isso, mostre-me o que você sabe fazer.

Lucien, Philippe e Pierrot também entraram no carro. Arrepanhando o hábito branco, o padre foi o último a entrar, depois de ter dado uma volta na manivela para dar a partida no motor.

- Maldito... - exclamou Adrien quando a sobrinha arrancou com certa brusquidão.

- Desculpe, tio, mas não estou habituada ao seu automóvel. Após alguns trancos que sacudiram os passageiros, Léa conseguiu dominar o veículo.

Foram os últimos a chegar a Roches-Bianches, a propriedade do sr. d'Argilat, perto de Saint-Emilion. Chegava-se ao castelo por uma longa alameda de carvalhos. A arquitetura elegante do edifício, do final do século XVIII, contrastava bastante com a dos castelos vizinhos, todos em estilo neogótico da segunda metade do século XIX. Laurent e o pai eram muito apegados à casa, que conservavam e embelezavam sempre que podiam.

Ao descer do automóvel, a saia sobreposta do vestido de Léa abriu-se até em cima, revelando um bom pedaço da perna. Sem se conterem, Raul e Jean Lefèvre assobiaram de admiração, logo se arrependendo, porém, perante os olhares ferozes das senhoras e das moças.

Um criado foi estacionar o automóvel num pátio por detrás da construção.

Nesse instante os convidados aglomeravam-se em frente ao castelo. Léa percorreu a multidão com os olhos, procurando apenas uma pessoa: Laurent. Não o viu, porém. O pequeno grupo encaminhou-se para o dono da casa.

- Ora, até que enfim você chegou, Léa! Nenhuma festa tem sucesso sem o seu sorriso e a sua beleza - disse Raymond d'Argilat, contemplando a moça com afeto.

- Bom dia, sr. d'Argilat. Laurent não está?

- Claro que sim. Só faltava essa! Está mostrando para Camille os melhoramentos feitos.

Léa estremeceu. Dir-se-ia que o sol havia desaparecido desse belo dia de setembro. Pierre Delmas notou a mudança de atitude da filha. Pegou-a pelo braço e afastou-se um pouco com ela.

- Por favor, nada de cenas, nada de lágrimas - disse ele. - Não quero que a minha filha sirva de espetáculo aos outros.

- Não é nada, papai - garantiu Léa, reprimindo os soluços.

- Apenas um pouco de cansaço. Isso passa depois de comer.

Tirando o chapéu, a jovem, de cabeça erguida, foi juntar-se aos admiradores instalados ao redor da mesa onde haviam sido colocadas as bebidas. Sorriu com os ditos deles, riu com os seus gracejos, enquanto saboreava um delicioso Château d'Yquem.

Mas, no seu cérebro, ecoava sempre a mesma frase: "Ele está com Camille".

A festa anunciava-se magnífica. O sol brilhava no céu sem nuvens, o gramado, regado de manhã cedo, tinha uma cor verde intensa e dele se exalava o aroma da erva recentemente cortada; as roseiras, em tufos, embalsamavam a atmosfera.

Uma grande tenda branca e cinzenta abrigava o bufê servido com abundância. Atrás das mesas, alinhavam-se criados vestidos de branco. Aqui e acolá, dispunham-se mesas, cadeiras e bancos de jardim, à sombra de guarda-sóis. Os vestidos claros das senhoras, os seus movimentos e gargalhadas conferiam à reunião uma nota frívola que contrastava com as expressões sombrias de alguns homens. Até mesmo Laurent d'Argilat, em homenagem ao qual toda aquela gente se reunira ali, pareceu a Léa pálido e tenso quando surgiu, por fim, dando o braço a uma jovem de rosto doce e radiante de felicidade, envolta num vestido branco e singelo.

À sua chegada, todos os convidados aplaudiram, à exceção de Léa, que fingia arrumar os cabelos.

Raymond d'Argilat fez sinal de que queria falar.

- Meus amigos - principiou ele -, reunimo-nos aqui neste primeiro dia de setembro de 1939 para festejar o aniversário e o noivado de meu filho Laurent com sua prima Camille.

Os aplausos redobraram.

- Obrigado, meus amigos - prosseguiu ele. - Obrigado por terem comparecido em tão grande número. É para mim enorme alegria tê-los hoje aqui em casa. .Bebamos, comamos e nos alegremos neste dia festivo.

D'Argilat foi obrigado a interromper-se, com a voz embargada pela emoção. O filho adiantou-se com um sorriso rasgado, exclamando:

- Que a festa comece!

Léa fora sentar-se um pouco à parte, acompanhada por seus admiradores. Como todos reivindicavam a honra de servi-la, em breve ela dispunha de comida suficiente para alimentar-se durante vários dias. Ria, conversava, distribuía sorrisos e olhadelas intencionais, sob os olhares despeitados das outras jovens a quem escasseavam galanteadores.

Nunca Léa se mostrara tão alegre. Mas o mais leve sorriso magoava-lhe os maxilares. As unhas enterravam-se de raiva nas palmas das mãos úmidas, atenuando, por meio de nova dor, o sofrimento que atormentava. Julgou morrer quando viu Laurent dirigir-se para o grupo, sempre de braço dado com a noiva, em quem a alegria era demasiado visível. Seguia-os o irmão dela.

- Bom dia, Léa. Ainda não tinha tido oportunidade de cumprimentá-la - disse Laurent, inclinando-se em frente das jovens.

- Lembra-se de Léa, Camille?

- Claro que me lembro! - respondeu ela, largando o braço do noivo. - Como poderia esquecê-la?

Léa erguera-se e observava a rival, que considerava indigna dela. Permaneceu hirta quando Camille lhe depôs um beijo em cada face.

- Laurent falou-me muito de você. Gostaria que fôssemos amigas.

Não parecera notar o pouco empenho de Léa em corresponder aos seus beijos. Empurrou para diante dela o irmão, um jovem de ar tímido.

- Lembra-se do meu irmão Claude? Ele estava com muita vontade de vê-la de novo.

- Bom dia, Léa - cumprimentou o rapaz.

Como se parecia com a irmã!

- Venha, querida, não podemos esquecer os outros convidados - disse Laurent, arrastando consigo a noiva.

Léa ficou olhando para eles enquanto se afastavam, invadida por tamanho sentimento de abandono que só com dificuldade conseguiu reter as lágrimas.

- Posso juntar-me a vocês? - perguntou Claude.

- Dê-lhe o seu lugar - ordenou Léa com rudeza, empurrando Raul Lefèvre, instalado à sua direita.

Surpreso e penalizado, Raul levantou-se, aproximando-se do irmão.

- Não acha que Léa está hoje bastante esquisita? - perguntou o rapaz a Jean.

Este encolheu os ombros sem responder.

Léa ofereceu a Claude um prato cheio de carnes frias.

- Tome. Ainda não toquei nelas.

Claude sentou-se, pegou o prato e agradeceu, corando.

- Vai ficar algum tempo em Roches-Blanches? - perguntou - Muito me admiraria. Com o que vem por aí...

Mas Léa já deixara de ouvi-lo. Assaltara-a subitamente uma idéia: "Laurent nem sequer sabe que o amo".

A descoberta deu a seu rosto tamanha expressão de alívio, seguida de uma gargalhada tão alegre, que todos a fitaram com espanto. Ergueu-se e encaminhou-se para o local designado por "bosquezinho". Claude d'Argilat e Jean Lefévre precipitaram-se no seu encalço, mas foram repelidos sem a mínima cerimônia.

Amargurados, os dois rapazes regressaram à mesa, em redor da qual se aglomeravam os convidados.

- Acha que teremos de entrar na guerra? - perguntava Raul Lefèvre a Alain de Russay, que, um pouco mais velho, lhe parecia mais apto a fornecer respostas sérias.

- Sem dúvida - asseverou ele. - Não ouviram as notícias na rádio ontem à noite? Entrega imediata de Dantzig à Alemanha, o ultimato lançado à Polônia em seguida às propostas feitas por Hitler ao plenipotenciário polonês, válidas até 30 de agosto à noite. Estamos em 1 de setembro. A esta mesma hora, podem estar certos de que o gauleiler Forster já proclamou a ligação de Dantzig ao Reich e de que a Alemanha invadiu a Polônia.

- É a guerra! - disse Jean Lefêvre com a voz subitamente envelhecida.

- Sim, é a guerra.

- Que bom, vamos guerrear! - brincou Lucien Bouchardeau.

- Vamos, sim, e venceremos - declarou Raul Lefèvre, com um fervor infantil.

- Estou menos certo disso do que você - respondeu Philippe Delmas em tom fatigado.

Léa atravessou correndo o vasto prado que conduzia ao bosquezinho. À sombra das árvores, via-se toda a propriedade dos D'Argilat. Era uma boa terra, mais rica e melhor do que a de Montillac, produtora de vinho mais generoso. Léa sempre gostara de Roches-Bianches. Olhava aqueles campos, as vinhas, os bosques e o castelo com orgulho de proprietária.

Não, ninguém melhor que ela sabia amar e compreender aquela terra, com exceção do pai e do sr. d'Argilat... e de Laurent, claro, Laurent! Ele amava-a, não tinha a mais leve dúvida. Mas não sabia que era correspondido. Considerava-a ainda uma criança. No entanto, ela era pouco mais nova do que Camille. Que veria Laurent naquela magricela de peito chato, malvestida, desajeitada, que parecia recém-saída do convento? E o penteado dela?

Como podia alguém pentear-se assim naquela época? Uma coroa de tranças de um loiro deslavado! Só lhe faltava o nó alsaciano.

O penteado ideal para esse tempo de fúria patriótica. E a sua falsa gentileza? "Gostaria muito que fôssemos amigas Não, decididamente Laurent não amava aquela insípida. Num gesto cavalheiresco de bastante mau gosto, julgava-se obrigado a respeitar uma promessa feita no berço - apenas isso. Mas, quando soubesse que ela, Léa, o amava, romperia o noivado para fugirem os dois.

Na exaltação das suas fantasias, Léa não dera pela presença de um homem encostado a uma árvore, a observá-la com ar divertido.

Ufa, sentia-se melhor! Bastava um pouco de solidão e de reflexão para pôr as idéias no lugar. Estava agora mais tranqüila; tudo correria ao sabor dos seus desejos. Ergueu-se e bateu com o punho direito na palma da mão esquerda, gesto herdado do pai, habitual nele ao tomar qualquer decisão.

- Hei de tê-lo! - exclamou.

Sobressaltou-a uma gargalhada.

- Tenho a certeza de que sim - disse uma voz em tom falsa- mente respeitoso.

- Credo, assustou-me! Quem é você?

- Um amigo do sr. d'Argilat.

- Muito me admiraria. - . Oh, perdão!

O homem riu de novo. "Fica quase bonito quando ri", pensou Léa.

- Não se desculpe, pois não errou. De fato, pouco temos em comum, eu, este seu humilde servidor, e os respeitáveis senhores d'Argilat; apenas alguns interesses. Aliás, vou aborrecer-me na companhia deles.

- Como pode dizer semelhante coisa? São os homens mais corteses e cultos da região.

- Precisamente o que eu dizia.

- Oh!...

Léa olhou o interlocutor com curiosidade. Era a primeira vez que ouvia falar com tanta desenvoltura dos proprietários de Roches Blanches. O desconhecido era um homem alto, de cabelos castanhos penteados com cuidado, olhos azuis insolentes realçados pela tez queimada, de rosto um tanto feio e traços vincados, boca de lábios grossos que se abriam sobre belos dentes.

Mascava um charuto torcido, do qual se desprendia um cheiro medonho. O terno cinza- claro com finas listras brancas, de corte elegantíssimo, contrastava violentamente com a pele curtida e com o horroroso charuto.

Léa fez um gesto com a mão, como para afastar aquele odor pestilento.

- O fumo a incomoda? É um mau hábito que adquiri na Espanha. Mas agora pertenço à alta sociedade bordelesa e terei de acostumar-me de novo aos havanas - explicou ele, jogando fora o charuto, que esmagou cuidadosamente com o pé. - A verdade, porém, é que, com a guerra, nos arriscamos a ficar sem eles.

- A guerra... a guerra... Vocês, homens, têm sempre na boca essa palavra. Por que haveríamos de entrar em guerra? Isso não me interessa.

O indivíduo olhou-a com um sorriso, tal como se olha uma criança caprichosa.

- Tem razão. Sou um bruto ao importunar deste modo uma jovem com assuntos de tão pouca importância. É preferível falarmos de você. Tem noivo? Não? Talvez um namorado. Nem mesmo isso? Não acredito. Vi-a há pouco rodeada por um grupo de rapazes amáveis que me pareceram bastante atraídos por você, exceto o feliz noivo, evidentemente.

Léa, que tornara a sentar-se, ergueu-se bruscamente.

- O senhor está me importunando. Vou encontrar meus amigos.

O homem inclinou-se numa vênia irônica, gesto que encolerizou a jovem.

- Não a retenho. Longe de mim o propósito de desagradar- lhe ou de disputá-la com aqueles que por você suspiram.

Léa passou diante dele, de cabeça erguida, sem se despedir.

O homem sentou-se no banco. Tirou um charuto da caixa de couro castanho, cortou-lhe a ponta com os dentes, cuspindo-a no chão, e acendeu-o. Sonhador, observou a silhueta elegante que se afastava, a silhueta daquela menina divertida que não queria ouvir falar de guerra.

Os músicos começaram a instalar os instrumentos no palco construído sob as árvores, diante do olhar interessado dos convidados mais jovens.

O regresso de Léa foi saudado por exclamações dos amigos.

- Onde esteve? Procuramos você por toda parte.

- Não é nada delicado nos abandonar assim.

- Ora - disse Corinne, a prima. - Léa prefere a companhia de homens maduros e um pouco suspeitos à de jovens de boa família.

As sobrancelhas de Léa mostraram o seu espanto diante daquela afirmação.

- A quem você se refere? - perguntou.

- Você quer que a gente acredite que não conhece François Tavernier, com quem estava arrulhando no bosquezinho?

Léa encolheu os ombros e encarou a jovem com uma expressão de piedade, replicando:

- De bom grado lhe cederia a companhia desse cavalheiro que vi pela primeira vez e de quem você me disse o nome. Mas o que você quer? Não tenho culpa de os homens me preferirem.

- Sobretudo aquele tipo de homem...

- Você me cansa! Mas, afinal de contas, ele não deve ser tão horrível como você dá a entender, visto que o sr. d'Argilat o recebe em sua casa.

- Léa tem razão. Se o sr. d'Argilat recebe o sr. Tavernier é porque ele merece ser recebido - interveio Jean Lefèvre em socorro da amiga.

- Diz-se por aí que é traficante de armas. Segundo parece, vendeu toneladas de armamento aos republicanos espanhóis - murmurou Lucien Bourchardeau.

- Aos republicanos?! - admirou-se Corinne Delmas, esbugalhando os olhos de horror.

- E então? Que tem isso? Os republicanos também precisavam de armas para combater, não é assim? - disse Léa em tom agastado.

Nesse instante, os seus olhos encontraram-se com os do tio, o padre Adrien, que parecia fitá-la com um sorriso aprovativo.

- Como pode dizer tal coisa! - exclamou Corinne. - Monstros que violaram freiras, desenterraram cadáveres, que mataram e torturaram!

- E os outros? Não mataram nem torturaram? - contrapôs Léa.

- Mas trata-se de comunistas, de anticlericais.

- E que tem isso? Também tinham direito à vida.

- Como pode dizer semelhantes horrores, você, uma Delmas, quando toda a família rezou pela vitória de Franco!?

- Talvez não houvesse motivo para fazê-lo...

- Eis um assunto demasiado sério para cabecinhas tão bonitas - comentou Adrien Delmas, aproximando-se do grupo. - Não acham melhor prepararem-se para o baile? A orquestra está pronta.

Como uma revoada de pombos, os quinze rapazes e moças que rodeavam Léa correram para o palco construído ao fundo do gramado, sob uma enorme tenda de bordas levantadas. Mas Léa não se mexeu.

- Quem é esse François Tavernier? - perguntou ao tio.

O dominicano pareceu surpreso e embaraçado.

- Não sei ao certo - retorquiu. - Pertence a uma família abastada de Lyon, com a qual cortou relações, aliás, por causa de uma mulher e por divergências políticas, segundo se diz.

- Será verdadeira essa história de tráfico de armas?

- Não sei. Tavernier é homem discreto. Mas, se o fez, salvou, em certa medida, a honra de França, que, no caso da guerra da Espanha, não se portou lá muito bem.

- Como pode falar assim, tio, sendo padre? O papa não deu o seu apoio à França?

- Deu, deu... Mas o papa pode se enganar.

- Essa é demais, tio! - disse Léa com uma gargalhada. - Pensei que o papa fosse infalível.

Adrien Delmas riu por sua vez.

- Você é uma garota muito esperta. E eu pensando que todas essas histórias, como você diz, não lhe interessavam.

Léa deu o braço ao tio, e, caminhando sem pressa, arrastou-o para junto do recinto do baile de onde se irradiavam os acordes de um pasodoble endiabrado.

- Isso é conversa para os outros, tio. Se fôssemos dar-lhes ouvidos, só falariam disso. E, como falam de guerra a torto e a direito, prefiro que se abstenham. Mas a você posso confessar que o tema me interessa bastante. Leio às escondidas todos os jornais e ouço rádio, sobretudo a emissora de Londres.

- Você a ouviu esta manhã?

- Não. Com os preparativos para a festa, não tive tempo.

- Até que enfim chegou, Léa! Esqueceu a promessa de dançar comigo? - disse Raul Lefèvre.

- E comigo também - interveio o irmão.

A contragosto, Léa abandonou o braço do tio, deixando-se conduzir para o estrado. Adrien Delmas voltou-se. Perto dele, fumando seu charuto torcido, François Tavernier contemplava as evoluções de Léa na pista de dança.

Durante cerca de uma hora, Léa não parou uma única dança, e estava sempre procurando Laurent com os olhos. Onde estaria?

Viu surgir Camille sem ele, na companhia de François. Não podia perder tal oportunidade. Dançava nesse instante com Claude d'Argilat, que, a cada minuto, parecia mais apaixonado. No meio de um boston, o rapaz sentiu o corpo dela enfraquecer ligeiramente.

- Que se passa, Léa? - inquiriu.

- Nada. É só uma tontura. Estou um pouco cansada. Não quer me acompanhar a um lugar sossegado e trazer-me um copo com água?

Claude apressou-se em afastá-la da balbúrdia. Levou-a para a sombra de uma árvore, a meio caminho entre a casa e o recinto do baile. Com movimentos precisos e ternos, instalou-a o melhor que pôde sobre um tufo de relva.

- Não se mexa. Descanse um pouco. Volto já.

Quando Claude se afastou, Léa ergueu-se e correu para a casa. Entrou na estufa, o orgulho da propriedade. Em seu interior reinava uma atmosfera úmida que se colava à pele. Os ecos da orquestra chegavam ali apenas como um fundo sonoro distante. Pelo chão, alastravam-se as mais exóticas plantas, para depois subirem até a cobertura envidraçada. Uma trilha de pedras ziguezagueava por entre uma espessa vegetação terminando numa gruta artificial, em cujas paredes se agarravam cachos de orquídeas. Uma porta comunicava com o vestíbulo do castelo. Léa empurrou- a. Vindo do salão, chegou até ela o som das vozes do pai, do tio Adrien e do sr. d'Argilat. Escutou - Laurent parecia não estar com eles. Também não o encontrou na biblioteca nem na saleta. Regressou ao jardim de inverno. Flutuava no ar um perfume de tabaco claro, o perfume dos cigarros de Laurent. Um ponto vermelho cintilava na penumbra, junto de um vaso alto do qual pendiam longos caules pontilhados de flores brancas de aroma inebriante.

- Ah, é você, Léa! Que faz aqui?

- Andava à sua procura.

- Está assim tão farta dos seus apaixonados para abandonar a festa? - perguntou o rapaz, adiantando-se.

Como ele era bonito iluminado por aquela claridade esverdeada! Era impossível não amá-lo. Léa estendeu-lhe a mão.

- Laurent... murmurou.

O rapaz tocou-lhe os dedos nervosos sem parecer notar a perturbação da jovem.

- O que há?

Léa umedeceu com a língua os lábios ressequidos. Sua mão tremeu na de Laurent, e ela sentiu que a dele também estremecera.

Então sua garganta desanuviou-se. Percorreu-lhe o corpo um arrepio de volúpia ao murmurar, semicerrando os olhos tal como um animal à espreita da presa:

- Eu o amo, Laurent.

Uma vez pronunciada, a frase trouxe-lhe um alívio enorme. De pálpebras descidas, estendeu o rosto para o companheiro, esperando ser beijada. Mas nada aconteceu. Abriu então os olhos e recuou um passo.

No rosto de Laurent surgira uma expressão de espanto e de contrariedade, tal como acontecia antigamente com o pai diante de qualquer tolice sua. Mas que dissera ela de tão extravagante? Era natural que Laurent desconfiasse, já que a cortejava; e ela aceitara-o, amava-o. Por que não falava? Sorria apenas. "Um sorriso amarelo", pensou Léa.

- Nada me alegra tanto como a sua amizade, querida Léa - disse Laurent, por fim.

O quê? De que falava ele? De amizade?!

- Seus namorados vão ficar com ciúmes - prosseguiu Laurent.

Mas que conversa aquela! "Eu lhe digo que o amo e ele vem me falar de meus namorados.

- Laurent, pare de me arreliar! - exclamou Léa. - Eu o amo, você sabe, e você também me ama.

A mão de Laurent, onde perdurava o odor do tabaco, pousou de leve nos lábios da moça.

- Cale-se, Léa! Não diga coisas de que poderá se arrepender depois.

- Nunca! Nunca me arrependerei! - trovejou ela, repelindo a mão que a amordaçava. - Eu o amo e lhe quero. Desejo-o tanto quanto você me deseja. É capaz de negá-lo? É capaz de dizer que não me ama?

Léa nunca mais esqueceria o rosto perturbado de Laurent nesse momento: todo o universo pareceu nascer e soçobrar nele ao mesmo tempo, um misto de alegria e de receio disputaram a posse daquele espírito nascido para a tranqüilidade de um amor sem história.

A beleza de Léa tornara-se magnífica nesse momento, Os cabelos desalinhados pela cólera, as faces cheias de ardor, os olhos cintilantes, os lábios intumescidos, tudo nela era um convite.

- Você me ama, não é? Vamos, responda! - insistiu Léa.

- Sim, amo - disse ele num murmúrio.

A alegria iluminou Léa, tornando-a ainda mais bela.

E, de repente, os dois jovens acharam-se nos braços um do outro e seus lábios uniram-se com louca avidez. Depois, num gesto brusco, Laurent repeliu-a. Léa, de boca úmida e entreaberta, encarou-o com espanto e ternura.

- Somos doidos, Léa. Esqueçamos isto.

- Não! Amo-o e quero me casar com você.

- É meu dever casar com Camille.

Os olhos cor de violeta fitaram-no perdidamente, tornando-se pouco a pouco mais escuros.

- Mas é a mim que você ama! - gritou Léa. - Se o casamento o assusta, então fujamos daqui. O meu único desejo é viver com você.

- Não é possível. Meu pai já anunciou o noivado com Camille. Quebrar tal compromisso significaria a morte de ambos.

- E eu? Não tem medo que eu morra? - perguntou Léa, batendo-lhe com o punho fechado.

A frase fez aparecer um ligeiro sorriso na face pálida de Laurent. Agarrou Léa pelos ombros e disse, sacudindo a cabeça:

- Não; você, não. É forte e nada consegue derrubá-la. Há dentro de você um instinto de vida que nem eu nem Camille possuímos.

Pertencemos a uma estirpe demasiado envelhecida, de sangue e nervos já gastos. Necessitamos da calma das nossas bibliotecas...

Não, deixe-me prosseguir. Eu e Camille somos muito semelhantes, temos os mesmos pensamentos, amamos o mesmo gênero de existência, estudiosa e severa.

- Eu também gosto de estudar.

- Claro - prosseguiu Laurent em tom fatigado. - Mas você logo se aborreceria junto de mim. Gosta de dançar, namorar, gosta do barulho, do mundo, de tudo o que eu detesto.

- E você não flertou comigo?

- Não, acho que não, O meu mal foi vê-la com demasiada freqüência, foi estar com você a sós vezes demais.

- E me fazer crer que me amava - interrompeu a jovem.

- Não desejei que tal coisa acontecesse. Tinha tanto prazer em vê-la viver, tão livre, tão orgulhosa, tão bela... Sentia-me tranqüilo, pois não imaginei que pudesse se interessar por alguém tão aborrecido como eu.

- Nunca me aborreceu.

- Estava grato por me escutar... Tudo em você exaltava a vida naquilo que ela tem de mais natural.

- Mas você me ama; você me disse.

- Fiz mal. Como não amá-la como se ama uma felicidade impossível?

- Nada é impossível. E preciso apenas um pouco de coragem.

Sonhador, Laurent olhava Léa como se não a visse.

- Um pouco de coragem, sem dúvida... A coragem que me Léa sentia crescer aos poucos dentro de si um formigamento de cólera. De súbito, com uma expressão de dureza no rosto, exclamou:

- Você é um covarde, Laurent d'Argilat! Me ama, você disse, e deixa que eu me humilhe. E prefere uma sonsinha feia e malvestida, que lhe dará uma ninhada de filhos tímidos e aleijados.

- Cale-se, Léa! Não fale assim de Camille.

- Ora, não vou fazer cerimônia. Que fez essa estúpida para lhe agradar? A menos que você aprecie maneiras afetadas, olhares de soslaio, expressões de amargura, cabelos opacos.

- Léa, por favor.

- Por que motivo me fez crer que me amava?

- Mas, Léa...

Entregue à cólera, Léa seria incapaz de reconhecer nesse momento que Laurent nunca ultrapassara os limites da amizade. Dominava-a a vergonha de se sentir repelida. Precipitou-se sobre o rapaz e esbofeteou-o inconsideradamente.

- Eu o odeio! - gritou.

Uma mancha vermelha surgiu na face pálida de Laurent. A brutalidade do gesto contribuiu para acalmar a jovem, mas mergulhou-a em desespero. Escorregou para o chão e, com a fronte encostada nas 40 pedras da gruta e oculta pelas mãos cruzadas, os cabelos em desalinho, rompeu em soluços.

Laurent observava-a com uma expressão de profunda tristeza. Aproximou-se do corpo sacudido pelo pranto, estendeu a mão e tocou-lhe os cabelos macios. Depois voltou-se e abandonou a estufa devagar. A porta fechou-se de mansinho.

O leve ruído do trinco na fechadura interrompeu os soluços de Léa. Tudo terminara! Estragara tudo. Nunca mais Laurent lhe perdoaria a cena ridícula, os insultos. Patife! Deixá-la humilhar-se como acabara de fazer! Enquanto vivesse nunca esqueceria tal vergonha.

Ergueu-se a custo, de rosto lívido, o corpo moído como após uma queda.

- Patife, patife, patife!

Com um pontapé, atirou um vaso onde crescia uma frágil orquídea, que foi estilhaçar-se contra as pedras.

- Ainda não acabou a encenação? - inquiriu uma voz saída da penumbra.

O coração de Léa parou de bater. Ela sentiu a garganta seca. Voltou-se de chofre.

François Tavernier avançava para ela lentamente.

Léa estremeceu, cruzando os braços sobre o peito.

- Quer que eu a aqueça ou vá buscar um conhaque?

O tom protetor e irônico com que François Tavernier pronunciou essa frase fustigou o amor-próprio da jovem.

- Não preciso de nada. Que faz aqui?

- Descansava enquanto espero para falar com o sr. d'Argilat. É proibido?

- Podia ter anunciado a sua presença.

- Você não me deu tempo de fazê-lo, minha cara amiga. Adormeci e só acordei ao ouvi-la declarar o seu amor ao filho do nosso anfitrião. Que arrebatamento! Que paixão! O filho do sr. d'Argilat não merece tanto.

- Proíbo-o de falar dele nesse tom.

- Peço desculpas. Não quero magoá-la, mas tem de concordar que esse encantador cavalheiro se porta como um tolo ao repelir propostas tão sedutoras e... concretas.

- O senhor não passa de um bruto.

- Talvez o seja. Mas, se você tivesse demonstrado o mínimo interesse por mim, eu teria.

- Não vejo que gênero de mulher possa experimentar o mínimo interesse por um indivíduo como você.

- Engana-se, menina. As mulheres, as verdadeiras mulheres, gostam de se sentir excitadas.

- As mulheres que freqüenta, sem dúvida. Mas não as jovens...

- ...bem-educadas. Como você?

Léa sentiu seus pulsos aprisionados por uma grande mão que a puxava. Mantendo os braços atrás das costas, viu-se colada ao homem que testemunhara sua humilhação. O ódio que então a dominou fez com que cerrasse as pálpebras.

François Tavernier fitava-a como se pretendesse devassar-lhe os pensamentos, mas, nos seus olhos, esvaía-se pouco a pouco a centelha de zombaria.

- Deixe-me, Detesto-o.

- Fica-lhe bem a raiva, sua selvagem!

Os lábios dele roçaram docemente os da jovem imobilizada. Léa debatia-se com uma fúria silenciosa. A mão de François aumentou a pressão, arrancando um grito de sua vítima. Com a outra, Tavernier agarrou-lhe os cabelos desgrenhados. Os lábios com sabor de tabaco e de álcool comprimiram-se com mais força contra os dela. Uma onda de raiva submergiu Léa. Mas, subitamente, percebeu que correspondia àquele ser ignóbil. Por que a súbita lassidão a invadir- lhe o corpo, a deliciosa pressão entre as coxas?

- Não! - protestou, libertando-se com um grito.

Que fazia? Estava louca! Deixar-se beijar, amando outro, por aquele homem que desprezava, que gostaria de ver morto! E ainda havia sentido prazer naqueles beijos asquerosos!

- Patife!

- Falta-lhe vocabulário. Ainda há pouco disse o mesmo ao outro.

- Detesto-o!

- Hoje, sim. Mas. - . amanhã?

- Nunca! Espero que a guerra rebente e você desapareça!

- Quanto à guerra, o seu desejo será ouvido, com certeza. Mas, quanto ao meu desaparecimento, não tenho intenção de deixar a pele num conflito antecipadamente perdido.

- Covarde! Como pode dizer tal coisa?

- Não vejo onde está a covardia em ser lúcido. Aliás, é esta a opinião do nosso querido Laurent d'Argilat.

- Não insulte uma pessoa de quem não pode compreender a grandeza de alma.

O riso estrondoso do homem trespassou Léa com muito mais agudeza do que suas palavras contundentes.

Você me dá nojo.

- Não foi essa a idéia que me deu há instantes.

Reunindo tudo quanto lhe restava de dignidade, Léa deixou o local batendo a porta.

No meio do grande hall pavimentado de mármore branco, junto da escadaria que levava aos quartos, Léa girou sobre si mesma como alguém que não sabe que rumo tomar.

Exclamações e gritos atravessaram as paredes do escritório do sr. d'Argilat, cuja porta se escancarou violentamente. Léa atirou- se para a sombra da entrada da adega. Laurent d'Argilat e François Tavernier surgiram no vestíbulo.

- Que foi? - inquiriu o segundo.

- Estão transmitindo pelo rádio o apelo de Forster sobre a violação de Dantzig, assim como a notícia da anuência à anexação ao Reich.

Era tão grande a palidez de Laurent d'Argilat que François Tavernier perguntou, com mais ironia do que a que tencionara imprimir à frase:

- Então ainda não sabia?

- Claro que sim. Mas, com a aprovação de meu pai, de Camille, do padre Adrien, do sr. Delmas e de algumas outras pessoas, decidi não divulgar a notícia para não estragar a última festa dos tempos de paz.

- Ora! Acha que foi melhor assim? E a Polônia? Que disseram da Polônia?

- Desde as cinco horas e quarenta e cinco minutos que a batalha se trava em todas as frentes, e Varsóvia foi bombardeada.

Raul e Jean Lefèvre apareceram correndo.

- Vincent Leroy acaba de chegar de Langon. Foi decretada a mobilização geral.

Atrás deles, comprimiam-se os convidados, inquietos, tentando saber pormenores. Pelos rostos das mulheres corriam já algumas lágrimas.

O sr. d'Argilat saiu de seu gabinete de trabalho, acompanhado pelo padre Adrien e por Pierre Delmas.

- Meus amigos, meu amigos - murmurou ele, repentinamente curvado.

Através da porta aberta do escritório ouvia-se o crepitar do receptor de rádio, a que se seguiram vozes falando em alemão, em polonês e, depois, a voz mais forte de um tradutor. Alguém aumentou o volume do aparelho.

- "Homens e mulheres de Dantzig, chegou o momento pelo qual tanto ansiavam há vinte anos. A partir de hoje, Dantzig está incorporada ao Grande Reich alemão. O nosso Führer, Adolf Hitler, libertou-nos. Pela primeira vez, a bandeira da cruz gamada, a bandeira do Reich alemão, tremula sobre os edifícios públicos de Dantzig. Irá tremular igualmente a partir de hoje sobre os antigos edifícios poloneses e por todo o porto."

O silêncio pesou sobre a pequena assembléia, enquanto o locutor comentava a aprovação de Hitler à reintegração de Dantzig no Reich, descrevendo os monumentos embandeirados e o regozijo popular.

- "Artigo 1: A Constituição da cidade livre é abolida com efeitos imediatos" - recitou Adrien Delmas, como se falasse consigo.

- "A Alemanha iniciou esta manhã as hostilidades contra a Polônia" - prosseguia, impávida, a voz no rádio.

- É a guerra - comentou Bernadette Bouchardeau em tom sumido, afundando-se num sofá.

- Oh, Laurent! - exclamou Camille, precipitando-se para os braços do noivo, com os olhos rasos d'água.

- Não chore, minha querida. Tudo terminará em breve.

Perto deles, Léa observava-os. Na confusão geral, ninguém lhe notara a palidez e os cabelos desalinhados. A jovem esquecera a cena no jardim de inverno, o seu amor repelido, para só pensar na possível morte de Laurent.

Julguei que o odiasse - sussurrou-lhe ao ouvido a voz quente de François Tavernier.

Léa corou, virou-se e, num sopro, respondeu ao interlocutor:

- É a você que odeio. O meu desejo é que você seja o primeiro morto desta guerra.

Lamento muito, minha querida amiga, mas, tal como já tive ocasião de lhe dizer, não sinto a mais leve vontade de proporcionar-lhe esse prazer. Peça-me tudo, jóias, peles, propriedades, e os deporei de bom grado a seus pés. A vida, porém, por muito mísera que seja, tenho empenho em conservá-la.

- Deve ser o único. Quanto a casar comigo...

- Quem falou em casamento? Aspiro apenas a ser seu amante.

- Pati...

- Sim, já sei; sou um patife.

- Cale-se, cale-se. Hitler está falando.


Capítulo 4

Isabelle Delmas insistira com os parentes do marido para que pernoitassem em Montillac. Abriram-se camas desdobráveis, que foram distribuídas pelos quartos das pessoas amigas, das três filhas e o das crianças. Por especial favor, Léa consentiu em ceder a sua "cama-refúgio" a Pierrot, que compreendeu a extensão desse gesto.

À noite, esquecidos da guerra, primos e primas auxiliaram Ruth e Rose, a criada de quarto, a transportar e fazer as camas.

Ecoavam pela casa risos, gritos e correrias, Concluídos os trabalhos, os jovens, sem fôlego, deixaram-se cair nas camas e nas almofadas ou mesmo no chão do quarto das crianças, preferindo esse quarto atulhado, onde ainda pairava o pó levantado pelas vassouradas enérgicas de Rose, ao salão onde os pais se reuniam.

Léa, sentada em sua cama na companhia de Pierrot, jogava com ele o crapaud, mas, distraída, perdia. Zangada, repeliu as cartas, encostando-se, sonhadora, nos ferros do leito.

- Em que está pensando? Não joga?

- Em François Tavernier - sugeriu Corinne.

- Ele só falou com ela - observou Laure.

- Estão enganados - contrariou Françoise. - Léa não está pensando em François Tavernier.

- Em quem, então? - inquiriu Corinne.

Léa, manipulando as cartas, esforçava-se para mostrar-se indiferente. Que iria dizer aquela impertinente? Desde criança, Françoise lhe adivinhava os pensamentos antes de todos, as asneiras que praticava, os locais onde se escondia. Isso a enfurecia a tal ponto que chegava a surrá-la. Quantas vezes Ruth não fora obrigada a separar as briguentas! Françoise vigiava-a constantemente, contando à mãe as suas mais íntimas faltas. Mas a mãe não admitia a delação e castigava Françoise com severidade, o que acentuara o desentendimento entre as duas.

- Em quem? - repetiram as duas primas.

Françoise prolongava a expectativa, enquanto um sorriso de júbilo maldoso pairava-lhe nos lábios.

- Ela está pensando em Laurent d'Argilat - declarou, por fim.

- Mas Laurent está noivo de Camille!

- Não é possível!

- Está louca!

- Tenho certeza de que você se engana.

As exclamações entrechocavam-se no cérebro de Léa, que via à sua frente, parecendo-lhe desproporcionalmente grande, o rosto interrogativo de Pierrot.

- É verdade, acreditem. Ela gosta de Laurent d'Argilat.

Léa saltou da cama com inquietante agilidade e, antes que Françoise conseguisse esboçar um só gesto, agarrou-a pelos cabelos.

Embora surpresa, a irmã reagiu prontamente e as suas unhas rasgaram a face da agressora. O sangue correu. Mais forte, porém, Léa bem depressa a suplantou e, a cavalo sobre a adversária, forçou-a a bater com a cabeça no chão, mantendo-a segura pelas orelhas. Todos se precipitaram para separá-las. Quando o conseguiram, a infeliz Françoise permaneceu imóvel por instantes.

Os gritos e o ruído da briga chamaram a atenção dos pais.

- Você é insuportável, Léa - admoestou Isabelle Delmas em tom severo, surgindo no local da briga. - Por que bateu em sua irmã?

Parece impossível... na sua idade.

- Mas, mamãe.

- Vá já para o seu quarto. Ficará sem jantar.

A cólera de Léa desfez-se de repente. Gostaria de confessar à mãe o quanto se sentia infeliz, quanto necessitava do seu consolo, dos seus afagos. Mas a mãe a reprovava e a repelia. Teria chorado, se não surpreendesse o olhar de triunfo de Françoise.

Reprimiu as lágrimas e deixou o quarto de cabeça erguida, passando em frente de tios e tias, que a miravam com ares de censura.

Apenas tio Adrien esboçou um gesto de carinho acompanhado de um sorriso doce, que queria dizer: "Isso não é importante". A atitude dele quase abalou sua coragem e, por isso, Léa desapareceu correndo.

- Minha pobre Esabelle, você vai ter problema com essa menina - comentou Bernadette Bouchardeau, a cunhada.

Sem responder, Isabelle deixou o quarto das crianças.

Desobedecendo à mãe, Léa não se recolheu ao quarto. Precipitou-se para o jardim, atravessou o pátio e, sempre correndo, cortou pelos vinhedos na direção de Bellevue. Evitando a casa de Sidonie, saltou o muro de limite da propriedade, tomou a estrada poeirenta e depois a vereda que conduzia ao calvário. A meio caminho, porém, um aguaceiro tépido forçou-a a diminuir a marcha e depois a parar.

De braços cruzados sobre o peito como para comprimir as batidas do coração, Léa ficou contemplando, cada vez mais subjugada, o céu ameaçador acima da planície. A natureza contorcia-se a seu redor, curvada pelo vento devastador, gemendo e rebelando- se, parecendo querer escapar à tempestade vinda do oceano. O céu escurecia pouco a pouco, revelando nuvens assustadoras.

Com os cabelos agitados pela ventania tal como as serpentes das górgonas, Léa, imóvel, contemplava os elementos cujo desencadear lhe aplacava a própria agitação interior. Sentia no corpo o frêmito da terra que, sob as primeiras gotas de chuva, liberava aromas penetrantes que lhe subiam à cabeça, produzindo uma embriaguez maior que a do vinho mais sutil. O vestido encharcado aderente ao corpo sublinhava-lhe as formas, deixando-a como nua, e o vento endurecia-lhe o bico dos seios. A natureza em fúria fazia-a sair de si própria. Um relâmpago azulado rasgou as nuvens, seguido quase de imediato pelo trovão que abalou o solo. Léa gritou. Iluminava-lhe o rosto um contentamento primitivo, rosto sobre o qual, como se fossem lágrimas, escorriam gotas de chuva. Assaltou-a um riso brutal e libertador, que fez coro com o ribombo do trovão. E seu riso logo se transformou em grito, um grito de triunfo e de pura alegria de viver. Deixou-se então cair na terra do caminho, transformado em lodaçal pela chuva. Os lábios tocaram a lama ainda tépida de sol e mergulharam na pasta amolecida. A língua lambeu o barro, cujo sabor dir-se-ia conter todos os eflúvios de Montillac. Nesse instante, Léa desejou que o chão se abrisse, tornando a fechar-se sobre o seu corpo, digerindo-o, absorvendo-o, fazendo sua carne reviver nas vinhas, nas flores, nas árvores da terra que amava. Depois roloú sobre si mesma, oferecendo o rosto manchado à torrente caída das alturas.

Quando despertou, de corpo moído, bastante tarde na manhã seguinte, procurou lembrar-se dos acontecimentos da véspera. A roupa enlameada, caída ao acaso em volta do leito, fê-la recordar a trovoada e tudo quanto a precedera. Invadiu-a então uma enorme tristeza. Pela primeira vez na vida, não conseguira obter o que desejava. Cobriu a cabeça com a roupa como que para abafar o desgosto. Um som de passos e de chamados atravessou a barreira do tecido e Léa afastou os cobertores para poder sentar-se.

Deus do céu! Que diria Ruth vendo a camisola e os lençóis sujos de lama? Soou na porta uma pancada seca.

- Levante-se, Léa, levante-se! Laurent e Claude d'Argilat vieram despedir-se.

Ela arrancou a camisola e precipitou-se para o banheiro. Abriu a torneira do chuveiro, fazendo desaparecer do rosto e do corpo os vestígios da lama. Escovou vigorosamente os cabelos, de tal forma emaranhados que os arrancava em tufos. Apanhou o primeiro vestido que estava ao alcance, um velho vestido de algodão cor- de-rosa; apreciava-o de modo especial, mas ficava-lhe agora muito curto e apertado. Calçou um velho par de alpercatas e precipitou-se pelas escadas abaixo.

Toda a família se juntara no salão, rodeando Laurent e Claude d'Argilat. Os rostos de ambos iluminaram-se ao aparecimento da amiga, de faces ainda vermelhas pela vigorosa esfregadela de há pouco, aureoladas pela flamejante cabeleira em desordem, o corpo cmgido pelo vestido de criança que crescera depressa demais.

Léa conteve o desejo de se lançar nos braços de Laurent. Procurou acalmar-se com um esforço que a fazia tremer e disse em voz suave; - Já vai embora, Laurent?

Tenho de me reunir ao meu regimento.

- E eu ao meu, em Tours - acrescentou Claude.

Procurando iludir o pai, Françoise e Laurent, Léa deu o braço a Claude e afastou-se um pouco com ele.

- Prometa que não se arriscará - pediu ela.

Prometo, Pensará um pouco em mim quando eu estiver na frente de combate?

Não farei outra coisa - garantiu a jovem.

Claude não notou a ironia em suas palavras. Invadiu-o um sentimento de pura felicidade, que o fez gaguejar ao dizer:

Então.., então.., você gosta um pouco de mim. Nesse instante, Léa ouviu atrás de si a voz de Laurent:

- casaremos assim que vier de licença. Camille fez empenho nisso.

A dor obrigou-a a inclinar a cabeça e uma lágrima escorreu-lhe pela face. Claude iludiu-se de novo quanto a seu significado.

- Mas, Léa... você está chorando! Por minha causa? Gosta tanto assim de mim?

A jovem reprimiu um gesto de mau humor. Como podia Claude julgar que se interessasse por ele, tão apagado, tão parecido com a irmã? Ah, vingar-se! Castigar Laurent pela sua covardia! Punir Camille pelo seu amor e Claude pela sua estupidez! Ergueu os olhos e fitou com dureza o jovem apaixonado.

- Claro que amo - asseverou.

- Mas... então... casaria comigo?

Evidentemente.

- Quando?

- Durante a sua primeira licença.

- Vamos sair daqui - sugeriu Claude, Com uma autoridade pouco condizente com seu temperamento, o rapaz pegou a mão da companheira e arrastou-a para fora da sala, até o jardim. Por detrás de um arbusto de hortênsias, atraiu-a para si e beijou.a. Prestes a repeli-lo, Léa conteve-se, dizendo para si mesma que era necessário aquele sacrifício. Mas como Claude era desajeitado, santo Deus! A lembrança do beijo de Laurent, logo rechaçada pela recordação dos lábios de François Tavernier, provocou-lhe um frêmito que o irmão de Camille, mais uma vez, interpretou erroneamente.

- Você me ama! - exclamou.

Léa teve de reprimir o riso.

- Está de acordo? - perguntou o companheiro.

- De acordo com o quê?

- Que peça sua mão a seu pai?

Léa sentiu que todo o seu futuro dependeria da resposta a dar. Seria um ato de maldade casar com aquele infeliz apenas para punir Laurent? Não seria ela mesma a primeira a sofrer com isso?

Nesse instante, a silhueta de Françoise delineou-se por detrás do arvoredo.

- Está bem, querido - concordou Léa, abraçando Claude.

De regresso a casa, Claude d'Argilat pediu licença a Pierre Delmas para lhe falar em particular.

O rosto do pai de Léa mostrava-se sombrio ao sair do escritório, após a breve troca de palavras.

Sob o céu cinzento e nublado, grandes poças de água evaporavam aos poucos nas aléias do jardim. A atmosfera estava pesada.

Junto às estrebarias, zumbiam nuvens de moscas. Léa empurrou a porta de um dos palheiros, cujas paredes de tábua haviam adquirido uma tonalidade escura por causa da borrasca. Tal como nos tempos da infância, subiu pela comprida escada encostada ao feno e deixou- se cair sobre a palha cheirosa e áspera.

Pôs-se a pensar nos acontecimentos mais recentes. Laurent e Claude tinham partido e ela fugira rapidamente para evitar os olhos interrogativos e dolorosos do pai. Sentia na boca um gosto amargo a tal evocação. Não criara ainda coragem suficiente para discutir o assunto com ele. Fechou as pálpebras, tentando esquecer tudo com o sono. Desde criança recorria a essa forma de fuga se a mãe ralhava com ela ou se se sentia inexplicavelmente cansada de tudo e de si mesma. E sempre o sono benfasejo viera socorrê-la. Nesse instante, porém, tal não acontecia; revolvendo-se sem parar no meio do feno, Léa não estava muito longe de se sentir traída.

De repente um corpo saltou sobre o seu.

- O que deu em você, Mathias? - exclamou Léa.

O seu amigo de infância enlaçava-a e cobria-a de beijos, murmurando:

- Desavergonhada.., sua desavergonhada...

- Pare com isso! Está me machucando.

- Há pouco, você não disse isso quando Claude d'Argilat a beijou.

Léa deu uma gargalhada e o afastou.

- Ah, então é isso?

- O que quer dizer com "então é isso"? Não será suficiente?

- Não vejo em que isso lhe diz respeito. Sou livre para beijar quem quiser.

- Não vai me dizer que aquele pretensioso lhe agrada!

- E daí, se agradasse? Não sei o que você teria a me dizer a respeito disso.

Encolerizado, Mathias contemplou a amiga. Depois, aos poucos, seu olhar ficou doce.

- Bem sabe que a amo.

Pronunciou a frase com tamanha meiguice que Léa experimentou um prazer comovido. Passou a mão pela farta cabeleira do rapaz e, pondo nas palavras mais sentimento do que desejaria, disse:

- Eu também gosto de você, Mathias.

Com naturalidade, acharam-se nos braços um do outro.

O profundo desgosto de Léa encontrou consolo naquelas carícias. Pouco a pouco, esqueceu Claude e Laurent, esqueceu a tristeza, para apenas saborear o prazer dos beijos. Ter-se-ia abandonado por completo, provavelmente, se não chegasse até ela a voz do pai, abafada pela espessura do feno. Libertou-se dos braços de Mathias e, desprezando a escada, saltou para o chão de terra batida do palheiro. Fizera aquele mesmo gesto muitas vezes, pulando dos montes de palha com a agilidade de um gato. Mas foi menos feliz nesse momento, e um dos tornozelos cedeu. Gritou de dor, e quase instantaneamente Mathias estava junto dela.

- Ai, meu pé!

O pai também ouvira o grito, e a sua elevada estatura enquadrou-se no limiar da porta. Vendo a filha caída por terra, correu para ela, atropelando o rapaz.

- O que você tem?

- Não é nada, papai. Torci um pé.

- Deixe ver.

Pierre Delmas pegou a perna acidentada, arrancando novo grito da filha, O tornozelo apresentava já o dobro do volume normal.

Ergueu-a com cuidado.

- Peça a Ruth que chame o médico, Mathias.

Em breve Léa se achava estendida no canapé da sala de entrada, com as costas e os pés apoiados em almofadas. Chegou o dr.

Blanchard, que tranqüilizou os pais, depois de auscultar a paciente e de atar-lhe o tornozelo.

- Uma bela luxação - sentenciou ele. - Mas nada de grave. Repouso absoluto durante oito dias. Depois disso, poderá correr e pular novamente.

- Oito dias sem me mexer! Não conseguirei agüentar, doutor.

- Não se preocupe. Passam depressa.

- Bem se vê que não foi ao senhor que isso aconteceu - disse Léa com ar amuado.

A fim de facilitar o serviço, Isabelle Delmas decidiu que a filha dormiria no andar térreo, no divã do escritório do pai. Essa resolução trouxe de novo o sorriso aos lábios de Léa. Ela gostava muito daquela sala, das paredes revestidas de estantes cheias de livros. Através da ampla porta da sacada, chegava-se à agradável área do jardim, e dali avistavam-se os vinhedos e as matas.

Ao fim da tarde, os irmãos Lefèvre apareceram para se despedir. Léa mostrou-se tão doce, terna e sedutora com ambos que tanto um como o outro partiram convencidos de serem o eleito de seu coração.

- Não basta correr atrás de Laurent, comprometer-se com François Tavernier, namoriscar Claude e Mathias? Você ainda quer virar a cabeça dos idiotas dos Lefèvre? - comentou Françoise, que assistira à cena. - Não passa de uma.

- Vocês continuam a discutir, meninas - interveio a mãe com severidade, ao entrar na sala. - Sua irmã está doente, Françoise, e precisa de repouso. Deixe-a em paz.

Sentou-se na cadeira, junto de Léa.

- Ainda dói? - perguntou.

- Um pouco. Ainda sinto pontadas na perna.

- É natural. Lembre-me logo à noite de lhe dar um calmante.

- É bom estar doente e ser tratada por você, mamãe - afirmou Léa, pegando a mão da mãe e beijando-a. Depois exclamou:

- Gosto tanto de você, mamãe!

Comovida, Isabelle acariciou-lhe a mão. Mãe e filha permaneceram em silêncio durante um longo momento, unidas pela mesma ternura.

- É verdade o que seu pai me contou?

Léa recolheu a mão e fechou o rosto.

- Responda. É verdade que quer se casar com Claude d'Argilat? - insistiu Isabelle.

- Sim.

- Ama-o?

- Amo.

- Esse amor me parece muito repentino. Há mais de um ano que não o via. Aconteceu algo que eu não sabia?

Léa sentiu um repentino desejo de dizer tudo, de tudo confessar e de ser consolada. Lutou contra a emoção. Acima de tudo, não podia magoar a mãe, não podia desiludi-la. Tinha de tranqüilizá-la.

- Não, não aconteceu nada - disse Léa com firmeza. - Eu o amo.


Capítulo 5

Léa continuava estendida no divã atulhado de jornais, retirados da escrivaninha do pai. Através da porta aberta da sala, chegaram até ela as últimas palavras do discurso transmitido por Edouard Daladier:

"- Entramos em guerra porque esta nos foi imposta. Cada um de nós permanecerá no respectivo posto, no solo da França, nesta terra de liberdade, onde o respeito pela dignidade humana encontrou um dos derradeiros refúgios. Congregareis todos os vossos esforços num profundo sentimento de união e de fraternidade, em prol da salvação da pátria. Viva a França!"

Claude d'Argilat instalara-se numa cadeira baixa, perto do divã, com o braço engessado suspenso pelo lenço atado ao pescoço.

- Se não tivesse acontecido isto ao meu maldito braço, mostraria a esses nojentos alemães do que é capaz um soldado francês.

- Foi você o culpado. Que necessidade tinha de obrigar a pobre da velha égua de seu tio a correr como louca?

- Tem razão - reconheceu Claude em tom lastimoso. - Mas estava tão contente por você gostar de mim e concordar em se casar!

Senti então desejo de fazer o animal galopar e de gritar ao vento a felicidade de ser amado por você.

- Pobre Claude! Fazemos um belo par de estropiados, não há dúvida!

- Você não vai concordar, certamente, mas sinto-me feliz com este acidente estúpido. Permite-me gozar da sua companhia, enquanto todos os outros apaixonados já se foram. Você voltou a falar com seus pais sobre o nosso casamento? Eu contei tudo a Camille. Disse-me que está muito feliz em tê-la como irmã.

- Por que lhe contou? Queria que o assunto ficasse entre nós até papai dar o seu consentimento - disse Léa, encolerizada.

- Mas querida, Camille é minha irmã - objetou Claude. - Digo-lhe sempre tudo o que se passa comigo.

- Neste caso deveria ter-se calado.

- Como às vezes você fica com cara de má! E sabe ser tão meiga.

- Mas não sou. Não gosto que todo mundo esteja a par dos meus assuntos privados.

- Mas Camille não é "todo mundo".

- Chega! Você me aborrece com sua Camille. Vá embora. Deixe-me só.

- Mas, Léa.

- Vá. Estou cansada.

É verdade, me esqueci. Sou um bruto. Até amanhã - disse Claude, pegando sua mão, que Léa lhe estendeu, contrafeita.

- Sim, sim, até amanhã.

Pouco tempo depois da partida de Claude, Pierre Delmas entrou no escritório.

- Como vai a acidentada? - inquiriu.

- Muito bem, papai. Mas gostaria de ver isto já terminado. Sinto uma comichão por todo o corpo.

- Seja paciente, gatinha. Lembre-se da frase de Kipling.

- A pressa excessiva causou a perda da serpente amarela que queria engolir o sol."

- Vejo que não esqueceu os conselhos de seu velho pai. Ponha-os em prática, minha filha, e verá até que ponto são corretos.

- Não duvido - suspirou Léa.

Pierre Delmas instalou-se à escrivaninha, pôs os óculos, remexeu em alguns papéis, folheou jornais, abriu uma gaveta, tornou a fechá-la e absorveu-se na contemplação do teto. Depois levantou-se, encaminhando-se para a porta.

- Os dias estão cada vez mais curtos - comentou, como que para si, ainda voltado para o jardim.

Léa observava com atenção a alta e maciça silhueta do pai. Pareceu-lhe que seus ombros largos estavam um tanto descaídos, que seus cabelos estavam mais cinzentos. De certo modo, aquele homem pareceu-lhe frágil; era uma sensação bastante estranha.

Sorriu diante de tal pensamento. Pierre Delmas frágil; ele, um homem capaz de erguer sozinho um barril ou de abater pinheiros de suas terras das Landes tão rapidamente quanto o mais exímio lenhador!

- Papai! - exclamou Léa num impulso de ternura.

- Diga, minha filha.

Eu o amo.

- Você me ama e quer me deixar - respondeu ele, voltando-se e encaminhando-se para a filha.

- Não é a mesma coisa.

Pierre Delmas suspirou e foi sentar-se na cadeira baixa, que rangeu sob o seu peso.

- Está bem certa de querer se casar com aquele pateta?

Léa não respondeu, baixando a cabeça num gesto de amuo.

- Não será por despeito? - insistiu Pierre Delmas.

Léa corou, sacudindo os cabelos desalinhados.

- O casamento é algo muito sério, minha filha. Um compromisso para toda a vida. Pensou bem?

Era necessário a todo custo que o pai acreditasse em sua paixão por Claude e julgasse definitivamente encerrado o caso com Laurent; uma criancice já esquecida.

- Eu mal conhecia Claude, papai. Mas, quando o vi na festa, senti que o amava. Por meu primo não tive mais do que uma grande amizade. Confundi esse sentimento com amor.

Pierre Delmas observou a filha com uma expressão de dúvida.

- No entanto, no outro dia, em seu refúgio, estava com um ar bem mais apaixonado do que agora.

O coração da jovem se contraiu. Receou não ter a energia necessária para continuar a farsa.

- No outro dia, no refúgio, sentia-me cansada, enervada e furiosa pelo fato de o próprio Laurent não ter me participado o seu casamento. Julgava-o apaixonado por mim, e divertia-me o meu papel de sedutora. Para mim é indiferente que se case ou não.

Aliás, Laurent é tão aborrecido que me pergunto como Camille pode suportá-lo.

- É essa também a minha opinião. Acho que, para uma moça como você, seria bem mais adequado um dos irmãos Lefèvre.

- Mas eles são apenas meus amigos, papai!

- Amigos?! Você não sabe nada dos homens, minha filha. Estão ambos loucos por você, e não são os únicos. Agora, vá dormir.

Boa noite, gatinha.

Feliz em obedecer-lhe, Léa adormeceu rapidamente, pensando em como era bom ser chamada de "gatinha" por um pai de quem gostava com tanta ternura.

Léa se restabeleceu depressa e pôde retomar os passeios pelos campos, a maioria das vezes acompanhada por Claude.

Aproximavam- se as vindimas e, tal como acontecia todos os anos, Montillac fervilhava de atividade. Tendo os rapazes partido nesse outono, foram substituídos pelas mulheres. E, durante alguns dias, a guerra foi relegada para segundo plano - as uvas não podiam esperar.

As trovoadas rondavam. Todos faziam o que podiam para terminar o trabalho antes que chegassem. Ninguém interrompeu o trabalho às quatro horas, como era costume, a fim de acabar a colheita antes do mau tempo. Às cinco horas, porém, os vinhateiros foram forçados a suspender a tarefa com a chegada das primeiras gotas de chuva, logo transformadas em verdadeira tromba-d'água. Os carros puxados por bois, transportando as tinas cheias de cachos, foram rapidamente postos a salvo debaixo dos alpendres espaçosos.

Num dos palheiros, estavam dispostas compridas mesas cobertas por toalhas de um branco imaculado. Exibiam grande variedade de pastéis, carnes, aves, queijos, terrinas fumegantes e jarros de vinho. Antes de comer, os vinhateiros lavavam as mãos na grande tina cheia de água, junto à porta. Em seguida, instalavam- se nos bancos em volta das mesas.

Pierre Delmas presidia à refeição. A mulher servia os pratos, protegida por um avental branco sobre o vestido de verão, ajudada por Françoise, Laure e Ruth. Léa, cujas bolhas nas mãos atestavam o empenho no trabalho, sentava-se ao lado do pai. Adorava esses banquetes no palheiro, na época das vindimas. Todos os anos a festa se prolongava por vários dias. Era o encontro da juventude da região e só se ouviam risos, cantos e danças. Nesse ano, porém. perdera-se o entusiasmo. A maioria dos presentes compunha-se de mulheres, e os poucos homens eram velhos. Todos pensavam nos ausentes e na alegria das vindimas anteriores, pois a refeição começou em silêncio. Sensível à tristeza que acabrunhava os seus convidados, Pierre Delmas levantou-se do banco e ergueu a taça, dizendo:

- Bebamos à saúde dos nossos soldados e cumpramos de bom humor a tarefa que eles não puderem desempenhar.

- À saúde dos nossos soldados! - gritaram.

Léa pousou a mão no joelho do pai, que ergueu de novo o corpo em homenagem exclusiva à filha:

- Bebo à sua felicidade, minha querida - acrescentou em voz baixa.


Capítulo 6

- Estou tão contente que você se case com meu irmão, Léa! Enquanto não alugam uma casa, podem ir morar conosco na Rue de Rennes - ofereceu Camille.

- Mas eu não quero viver em Paris - objetou Léa.

- É preciso, minha querida. Caso a guerra termine, Claude terá de concluir os estudos.

E eu? Que farei durante esse tempo?

Camille deixou escapar uma gargalhada.

- Vou lhe mostrar todos os recantos de Paris. Tenho certeza de que gostará da cidade mais bela do mundo. Podemos ir a exposições, visitar museus, ir a concertos, à ópera, à Comédie Française.

Tudo isso é muito bonito, mas prefiro Montillac.

- Tem razão. Montillac é maravilhosa, tal como Roches-Blanches. Porém, nada pode substituir Paris.

- Nunca pensei que fosse tão fútil.

- Como pode dizer tal coisa? - respondeu Camille, franzindo o sobrolho. Não se é fútil quando se ama uma cidade onde há lugar para tudo quanto demonstre inteligência. Laurent é como eu: acha que se trabalha melhor em Paris, pois a cidade tem tudo o que é necessário. As bibliotecas.

- Não gosto de bibliotecas. Parecem cemitérios de livros.

- Oh!...

Léa exagerava um pouco, sabia-o. Mas Camille, com a sua Paris e a sua sede de cultura, irritava-a.

Esgotados os argumentos, Pierre Delmas cedera às instâncias da filha, consentindo no casamento. Claude d'Argilat agradecera- lhe efusivamente a decisão. Diante disso, Pierre Delmas pensou que, apesar de tudo, talvez Léa fosse feliz com o rapaz. Quanto a Isabelle, limitou-se a apertar fortemente a filha nos braços.

Na falta de coisa melhor, contentamo-nos com o que temos - sentenciara Françoise.

Apenas Ruth e Laure estavam sinceramente satisfeitas com o casamento de Léa; Laure por gostar de festas desse gênero e Ruth por considerar que o matrimônio "assentaria o juízo daquela desmiolada".

Pouco depois do anúncio oficial do noivado, chegou uma notícia que abalou as duas famílias, e Léa quase se traiu: o tenente Laurent d'Argilat fora ferido ao socorrer um dos seus homens, caído num campo minado.

Pierre Delmas e a filha encontravam-se em Roches-Blanches quando o carteiro trouxe a carta. Camille, descobrindo a palidez do futuro sogro, adivinhou que algo acontecera ao noivo. Ergueu-se e tremendo, aproximou-se do tio.

- Laurent? - perguntou ela.

Pierre Delmas levantara-se.

- Responda, peço-lhe. Que aconteceu a Laurent? - suplicou Camille.

- Nada de grave, minha filha - conseguiu articular o sr. d'Argilat. - Apenas um ferimento no braço.

Surgiu nesse instante um criado trazendo um telegrama. O sr. d'Argilat estendeu-o ao amigo.

- Abra-o, Pierre. Não me sinto com coragem para tanto.

Pierre Delmas obedeceu e inteirou-se do conteúdo da mensagem. Um sorriso iluminou-lhe o rosto.

- É de Laurent - comunicou ele. - Está em perfeita saúde e chega amanhã.

- Amanhã!

- Sim, amanhã. Veja.

Camille apoderou-se do papel que Pierre Delmas estendia ao pai, incrédulo.

- Oh, meu tio! De fato, é verdade. Laurent chega amanhã - disse a jovem, desfazendo-se em pranto.

Léa mantivera-se à parte durante toda a cena, dominando a vontade de gritar e de, em seguida, chorar de felicidade. Laurent estava vivo! Regressava, e ela ia ter oportunidade de vê-lo. Fechou os olhos. A voz de Camille arrancou-a do sonho feliz.

- Vamos aproveitar a ocasião para antecipar a data do casamento, tio. Tenho certeza de que é o maior desejo de Laurent.

- Como quiser, Camille. Tudo o que fizer estará bem feito.

- Por que não se casa em Saint-Macaire, tal como eu, Léa? Seria tão bom casarmos no mesmo dia!

Que estúpida ela era! Que lhe importava o local da cerimônia, se não era para casar com Laurent? Por nada no mundo ouviria o homem amado dizer o "sim" a outra mulher. Cortou logo o assunto.

- Faço questão de me casar em Verdelais. Vamos embora, papai. Mamãe nos aguarda.

Durante o longo caminho de volta, Léa fez um enorme esforço para reter as lágrimas. Sentia o olhar inquieto do pai pousado nela; habitualmente tão tagarela, a filha respondia às suas perguntas apenas com monossílabos. Pierre Delmas acabou por se calar.

Chegando a Montillac, Léa, sem coragem para ouvir as observações de Françoise, refugiou-se no quarto das crianças. Aí ficou até a hora do jantar, enroscada em sua cama, de olhos secos e doloridos.

Acordada desde o amanhecer, Léa não se sentia bem em nenhum lugar. Na véspera, Claude prometera telefonar-lhe logo que Laurent chegasse. Não parava de andar de um lado para outro da casa. Isabelle, incomodada pela atitude da filha, mandou-a a Believue, em busca de notícias de Sidonie.

- O ar livre vai lhe fazer bem - comentou.

Furiosa, Léa partiu, correndo para Believue, torcendo os pés no caminho sulcado pelas últimas chuvas e pela passagem das carroças. Sem fôlego, sentou-se por momentos em frente da casa para descansar. O velho cão de Sidonie festejou latindo e pulando à sua volta. Essas manifestações de alegria chamaram a atenção da moradora, que abriu a porta.

- Ah, é você menina! Por que não entra? Está encharcada de suor. Entre logo, senão vai adoecer.

Não era possível resistir a Sidonie. Léa obedeceu e entrou, depois de beijar a velhota.

- Aconteceu algo de grave no castelo para que tenha corrido assim até aqui?

- Não, não. Mamãe manda perguntar se precisa de alguma coisa.

- Como é boa a sua mãe! Diga-lhe que vou tão bem quanto a velhice me permite. Ser velha, minha querida, é o pior que pode acontecer.

- Ora, Sidonie, é preferível ser velho que estar morto.

- É o que se diz quando se é novo, quando se tem sangue ainda bem vermelho circulando nas veias, quando se sobe numa escada sem medo de cair, quando se pode ser útil. Olhe para mim. Para que sirvo eu agora? Sou apenas um encargo para seu pai e uma preocupação para sua mãe.

Não fale assim, Sidonie. Todos em Montillac gostam de você, sabe disso.

Claro que sei. Mas isso não me impede de me sentir um estorvo. Sobretudo agora, com esta maldita guerra. Nem sequer posso tricotar. As minhas pobres mãos deformadas deixam cair os pontos e as agulhas. Eu, que tanto gostaria de fazer meias para os nossos soldados! Passaram tanto frio, os infelizes, durante a outra guerra!

Uma lágrima deslizou-lhe pelas faces enrugadas. Léa, de coração oprimido, viu-a descer e perder-se nas comissuras dos lábios da velhota. Uma piedade enternecida fê-la ajoelhar-se aos pés de Sidonie, tal como na infância, quando mergulhava o rosto no avental que cheirava a trigo e a barrela para ser consolada de algum desgosto.

E também, tal como antigamente, a mão estragada pelo rude trabalho da terra, pelos trabalhos servis, começou a acariciar-lhe os cabelos dourados.

- Não fique triste, minha menina bonita. Sou uma velha tonta que só diz disparates e se lastima a toda hora. Não faça caso. É a trovoada que me renova as dores no corpo e me faz ver tudo negro. Vamos, olhe para mim. Veja em que estado está, minha menina. Quem diria que é uma moça crescida e casadoura? Que cara faria o seu noivo se a visse de nariz e olhos vermelhos como os coelhos brancos? Lembra-se deles? Era uma trabalheira quando queríamos matá-los. Você se opunha e ficava em frente das coelheiras de braços estendidos, gritando; "Não, estes não! São princesas que as fadas más transformaram em coelhos". Seu pai e eu tínhamos de recorrer a muitas manhas. Esperávamos pela noite e púnhamos nas gaiolas tantos laçarotes quantos eram os coelhos, de modo a que, no dia seguinte, você se convencesse de que os animais, transformados em princesas, tinham esquecido as fitas ao partir.

A recordação daquela história infantil fez aflorar um sorriso aos lábios de Léa.

- Era uma tola nessa época - afirmou a jovem. - Acreditava ainda em contos de fadas.

- E já não acredita? Isso é mau. Quem é que a fez tão bonita, diga-me? Existe o bom Deus do céu, é certo, mas também as fadas têm algo a dizer.

Léa riu, exclamando:

Pare com isso, Donie! Já não sou nenhuma criança.

- Para mim, será sempre a minha menininha, a filha que não tive - disse a velha, forçando Léa a erguer-se e apertando-a ciosamente contra o peito.

As duas mulheres permaneceram enlaçadas durante muito tempo. Depois, Sidonie interrompeu o abraço. Tirou do bolso do avental um lenço xadrez, limpou os olhos e assoou-se com estrondo.

- Não é bom a gente comover-se. Diga à sua mãe que não se preocupe. Não preciso de nada. Agradeça à menina Ruth a visita que me fez ontem. Ai, a minha cabeça! Não vá embora antes de beber um pouco de licor de cássis - Muito obrigada, Sidonie, não se incomode.

- Ora essa! Não me incomodo, não me incomodo.


Capítulo 7

- Laurent d'Argilat, aceita tomar por esposa Camille d'Argilat, aqui presente?

- Sim.

A palavra, pronunciada com firmeza, ecoou pela abóbada gótica, atingindo Léa em pleno peito. Sentiu o corpo transformar-se em estátua e o sangue gelar-lhe nas veias; era como se seu coração fosse parar, enquanto um frio mortal a envolvia.

Como peças de caleidoscópio, os vitrais coloridos, iluminados pelo sol, começaram a mover-se, irisando o altar onde o sacerdote oficiava, aureolando Camille, envolta em seu vestido branco, e transformando o uniforme de Laurent num traje de arlequim.

"Parece Jonas, o meu velho fantoche", pensou Léa. As peças do jogo mágico invadiram então a igreja, velando aos poucos a assistência. Da massa imóvel e colorida, em breve se destacou apenas uma estátua fria e cinzenta. Léa experimentou enorme alívio ao sentir-se senhora absoluta das cores sob as pálpebras descidas. Tal como um jato de sangue, um zumbido projetou os vermelhos para a abóbada por um instante reaparecida. Um som mais agudo dispersou os azuis, enquanto os verdes se desdobravam numa tapeçaria escura, sob a qual, como pétalas de flor, caíam os amarelos, os rosas e os violetas. Depois, ao mesmo tempo que o estrondo se ampliava obedecendo às ordens de um maestro invisível, as cores reuniram-se para formar figuras monstruosas, circunscritas por traços negros e espessos, que lhes sublinhavam o horror. Um vulto avermelhado e diabólico, ainda mais pavoroso do que os anteriores, ergueu-se de súbito diante de Léa. Foi tão grande o seu terror que deixou escapar um grito.

De onde provinha aquele calor insuportável? Quem teria rechaçado os monstros? Onde estavam as cores vivas e dançantes? Por que tudo se tornara tão sombrio? E aquela música a lhe esmagar o coração, a martelar em suas têmporas.

- Quer fazer a coleta, senhorita?

Que pretenderia dela aquele gigante vestido de vermelho? Por que razão lhe dirigia a palavra o homem em trajes tão grotescos e chapéu emplumado? De onde provinha a pressão insuportável sentida no braço?

- Léa!

- Senhorita!

Voltou-se para a esquerda e, por entre uma espécie de bruma, distinguiu o rosto inquieto do noivo. Viu então que este lhe apertava o braço com força. Soltou-se num gesto brusco. Com que direito se atrevia a tocá-la? E o outro, o homem de vermelho, que queria ele estendendo lhe um cestinho forrado de cetim branco? Que fizesse a coleta? E que mais? Não percebia que lhe era intolerável a idéia de passar por entre as filas da assistência segurando numa mão o vestido de organdi rosa-pálido e na outra o cesto das esmolas?

O guarda suíço insistiu:

- Quer fazer a coleta, senhorita?

- Não, muito obrigada - recusou Léa em tom seco.

O indivíduo encarou-a com surpresa; em geral, todas as jovens gostavam de desempenhar tal cargo, que lhes proporcionava a oportunidade de exibirem os vestidos. Desiludido, dirigiu-se a Françoise, que se apressou a aceitar o convite com um sorriso de desafio.

A missa terminou, enfim. Os recém-casados recebiam as felicitações dos pais e dos amigos em frente do altar enfeitado com grandes ramos de flores brancas.

Quando chegou a vez de Léa - uma Léa que se sustinha de pé apenas por uma questão de orgulho -, Camille, rosada e quase bela, estendeu-lhe os braços, estreitando-a contra si.

- Bem depressa chegará a sua vez, Léa - disse ela. - Desejo que seja tão feliz quanto sou neste momento.

Distante, Léa deixou-se beijar pela noiva. No seu espírito perturbado turbilhonavam as palavras às quais se agarrava como náufraga: "Não é verdade. apenas um sonho, um pesadelo. Não é verdade".

Empurrada por Claude, achou-se perante Laurent e fitou-o, imóvel.

- Vamos, dê-lhe um beijo - incitou-a Claude.

A música ruidosa do órgão acompanhava o cortejo. Camille caminhava plena de felicidade, encantadora no seu véu de tule ligeiramente amarelado, usado por gerações e gerações de noivas da família d'Argilat, enquanto o vestido comprido, de cetim creme, brilhava à luz do sol. Pousava a mão com suavidade na manga do casaco preto do marido, que, cortês, ritmava as passadas pelas dela. Logo atrás, seguiam as oito damas de honra vestidas de organdi cor-de-rosa, com os rostos frescos emoldurados por chapéus de abas largas. Léa detestava o organdi e o cor-de-rosa.

No adro da igreja, um numeroso grupo de curiosos aguardava o cortejo, e o novo casal foi saudado com "bravos" e gritos.

Um fotógrafo de cabelos compridos e usando no pescoço um lenço com um grande nó, dispôs os convidados junto do portal do templo para tirar as tradicionais fotografias. Numa delas, Léa mexeu-se e o rosto ficou tremido e quase irreconhecível; noutra, baixou de tal modo a cabeça, que apenas se distinguia a copa de seu chapéu.

Quando se preparava para deixar SaintMacaire no automóvel do tio Adrien, em companhia de Claude, Lucien e Laure, Léa sentiu um mal-estar que a obrigou a precipitar-se, encurvada, para a beira da estrada.

- Essa menina está com febre! - exclamou o dominicano, com a mão em sua testa.

Terminadas as náuseas, Léa deixou-se cair, com o rosto pálido manchado de vermelho.

Adrien a pôs em pé e amparou-a, conduzindo-a ao carro.

- Estou com frio - queixou-se Léa.

Lucien tirou do porta-malas uma manta de viagem e cobriu-a.

Chamaram o dr. Blanchard. Ele diagnosticou um ataque de sarampo e prescreveu uma dieta rigorosa, bem como repouso absoluto - O casamento de Léa, marcado para o início de novembro, foi adiado. Claude, em desespero, viu-se obrigado a partir para o regimento sem voltar a ver a noiva, ainda prostrada pela febre.

Velada dia e noite pelo pai, pela mãe e por Ruth, Léa convalescia da doença muito lentamente. Em quarenta anos de prática, nunca o dr. Blanchard vira sarampo tão rebelde, a ponto que receou tratar-se de prenúncio de uma epidemia. Isso não aconteceu, porém, e a enfermidade de Léa não passou de um caso isolado.

As cartas - longas cartas - de Claude d'Argilat chegavam quase diariamente a Montillac e iam-se acumulando, fechadas, numa das mesas-de-cabeceira do quarto da jovem. Todas as semanas Isabelle Delmas informava o infeliz militar do estado de saúde da noiva. Ao fim da terceira semana, Léa pôde acrescentar uma pequena frase de seu próprio punho à carta escrita pela mãe.

Mas Claude d'Argilat nunca chegou a lê-la. Acabava de morrer, atingido pela explosão de uma granada, durante um exercício, quando a missiva foi entregue no quartel.

Durante vários dias ninguém transmitiu a notícia à convalescente, considerada demasiado fraca para suportar o choque.

Numa tarde bonita e tépida de dezembro, Léa ensaiou alguns passos no terraço, apoiada ao braço de Ruth. Sentia o corpo renascer e suspirava de bem-estar.

- Temos de ir para dentro. Como primeiro passeio, já chega, por hoje - disse a governanta.

- Vamos ficar mais um pouco, Ruth. Sinto-me tão bem!

- Não, minha filha - disse a governanta com firmeza.

Em certas circunstâncias, ninguém conseguia resistir à vontade de Ruth. Léa sabia disso e não insistiu.

Mas quem seria aquela esguia silhueta negra que se aproximava? Por quê? Por que o véu de luto? Imóvel, com um crescente sentimento de horror a apoderar-se dela, Léa via avançar a mulher vestida com traje de viúva.

Laurent! - exclamou Léa.

O nome tão querido e odiado escapou-lhe da garganta num grito que assustou os pássaros pousados nas árvores. Ruth fitou-a sem entender.

A mulher vestida de preto, de rosto oculto pelo véu, encontrava-se agora bastante próxima delas.

- Laurent... - gemeu Léa, aconchegando-se à capa de lã.

A mulher ergueu o véu e, por detrás dele, surgiu o rosto desfeito de Camille. Estendeu os braços para a convalescente que, hirta, se deixou beijar.

- Minha querida, minha pobre querida!

- Laurent?.

- Como és generosa pensando nos outros! - disse Camille.

- Não. Laurent está bem. Encarregou-me de lhe dar um grande beijo e de lhe dizer que a nossa casa é sua.

Léa não compreendia. Depois da enorme angústia sentida, invadiu-a um louco contentamento. Beijou Camille com um sorriso radioso.

- Que susto me pregou! Então, por que o traje de luto? Por quê? Por quem?

- Mas, Léa... então não sabe?

- Mas o que eu deveria saber?

Camille deixou-se cair no chão, escondendo o rosto nas mãos.

- Mas, afinal, o que há? O que você tem? Por que ficou nesse estado? Por que motivo Camille está de luto? - perguntou Léa, dirigindo-se a Ruth.

- O irmão dela morreu.

- O irmão! Mas que irmão? Oh! Você quer dizer...

Ruth afirmou com a cabeça.

- Claude?

"Assim não serei obrigada a dizer-lhe que não quero mais ouvir falar em casamento", pensou Léa instantaneamente, corando, confusa, ao tomar consciência de semelhante pensamento. A vergonha encheu-lhe os olhos de lágrimas, cuja natureza iludiu Camille.

- Ah, minha pobre querida! - lastimou ela.

Léa restabeleceu-se a olhos vistos. Apesar do frio intenso que lhe corava as faces e o nariz, retomou, na companhia do pai, as cavalgadas pelas vinhas e pelos prados. A guerra parecia algo muito longínquo. A cor preta ficava-lhe bastante bem.

Para distrair a filha, Pierre Delmas convidou-a a acompanhá-lo a Paris, onde os negócios exigiam sua presença. Ficariam alojados em casa das tias de Isabelle, Lisa e Albertine de Montpleynet. Léa, entusiasmada, aceitou a proposta; em Paris, tornaria a ver Laurent, que acabava de ser transferido para o Ministério da Guerra.


Capítulo 8

Pai e filha chegaram a Paris no trem noturno, desembarcando numa plataforma tão pouco iluminada que mal se distinguiam os objetos. Fora da estação, a noite era escura. Os raros lampiões, de luz muito fraca, não conseguiam varar a escuridão. Depois de uma espera que lhes pareceu bastante longa, arranjaram um táxi de faróis também fracos, que os conduziu lentamente ao longo das plataformas.

Léa tinha a sensação de circular através de uma cidade fantasma, tão raros eram os veículos e os transeuntes. Algumas luzes azuladas acentuavam a irrealidade dos lugares.

- Olhe, Léa... Notre-Dame - indicou Pierre Delmas.

Mas Léa viu apenas um vulto um pouco mais sombrio do que o céu.

- A Place Saint-Michel - tornou o pai.

Era então esse o famoso Quartier Latin, tão alegre, tão animado! Viam-se somente alguns vultos de aspecto friorento, que pareciam evitar-se uns aos outros, caminhando a passo estudado. Como em resposta a seu pensamento, Pierre Delmas comentou:

- Como é triste tudo isto! Antigamente, a esta mesma hora. todos os cafés da praça e da avenida estavam abertos.

Perdidos em cogitações melancólicas, atingiram a Rue de l'Université sem trocarem mais palavras.

O acolhimento de Lisa e de Albertine contribuiu para restituir-lhes o sorriso. Esperava-os uma mesa bem-posta. A sala de jantar parecia ainda mais espaçosa devido ao papel panorâmico que cobria as paredes, representando uma cena de embarque para as ilhas. Quando pequena, sempre que visitava as tias, Léa fazia daquele aposento o seu universo. Corria para lá mal encontrava aberta a porta e esgueirava-se por sob a cobertura da mesa enorme. Desse abrigo, ficava contemplando os barcos, as grandes flores de tons violeta e o mar de um azul intenso. Quantas viagens não fizera na caravela mágica representada pela mesa e sua toalha de tecido verde-escuro, pesada e de longas franjas! As paredes falavam de uma vida aventurosa e colorida, a vida das lendas contadas pela mãe quando as filhas lhe pediam para falar da pátria longínqua, que desconheciam.

- Que bom, tia Albertine! Aqui nada mudou.

- E por que razão haveria de mudar, minha querida? Não basta que nós próprios nos modifiquemos?

- Mas, tia Albertine, a senhora não mudou! Sempre a conheci com o mesmo aspecto.

- O que significa que sempre me conheceu velha.

- Ah, não, tia Albertine! Nunca serão velhas, nem a tia Lisa nem a senhora.

Albertine beijou a sobrinha e fê-la sentar-se em seu lugar. Pierre Delmas instalou-se em frente à filha.

- Vocês devem estar com fome. Estelle preparou vitela recheada com cogumelos, como gosta, Pierre - esclareceu Albertine.

- Foi ela quem se lembrou de que você é um grande apreciador desse prato - interveio Lisa afetadamente.

- Sinto que aqui vou engordar. Depois, sua sobrinha vai me repreender.

- Ele não mudou. Sempre brincalhão! - exclamaram, rindo, as velhas senhoras.

Léa regalou-se com a refeição. Vendo-a comer com tamanho apetite, o pai não pôde impedir-se de evocar o infeliz Claude, noivo tão facilmente esquecido.

No quarto - o antigo quarto da mãe - Léa encontrou um magnífico ramo de rosas-chá acompanhado de um cartão. Maravilhada pela beleza das flores, apossou-se do retângulo de papel e leu: "Para a nova parisiense, com a ternura de Camille e de Laurent".

A frase roubou-lhe o contentamento sentido momentos antes. Que tinha ela a ver com a ternura de Camille? Quanto à de Laurent, associada à da mulher, bem podia ficar com ela! Rasgou o papel e deitou-se, mal-humorada.

No dia seguinte, Léa foi despertada por um aroma de chocolate e por um sol cintilante que a obrigou a esconder-se debaixo dos cobertores.

- Feche as cortinas!

- Fora da cama, sua preguiçosa! Ficar deitada num dia como este! Sabe que horas são?

Léa arriscou a ponta do nariz fora das cobertas.

- Não.

- São quase onze horas. Seu pai saiu há muito e Camille d'Argilat já telefonou duas vezes - disse Albertine, colocando a bandeja do café da manhã perto da cama.

- Mas que chata! - exclamou Léa, sentando-se para receber a bandeja que a tia lhe estendia.

- Por que você diz isso? É muita amabilidade da parte dela querer saber notícias suas.

Léa preferiu não responder e instalou-se confortavelmente.

- Como é boa, minha tia! Tudo de que eu gosto! - disse a jovem, enterrando os dentes num bolinho dourado e ainda morno.

- Aproveite agora, querida. Já anunciaram toda uma série de restrições. Hoje há bolos mas não haverá carne. Amanhã estarão fechadas as confeitarias e abertos os açougues. Teremos de nos habituar.

- Até que enfim acordada! - disse Lisa, enfiando a cabeça pela fresta da porta entreaberta. - Dormiu bem?

- Bom dia, tia. Dormi como uma pedra. O quarto está tão cheio da presença de mamãe que tenho a sensação de ela nunca ter saído daqui.

Depois de beijá-la, as duas senhoras deixaram a sobrinha.

Léa devorou ainda mais dois bolinhos e engoliu duas xícaras de chocolate. Saciada, afastou a bandeja e esticou-se de mãos cruzadas na nuca.

Através de uma das janelas entreabertas, penetrava no quarto a brisa que fazia oscilar suavemente as cortinas de tule. O sol primaveril parecia conferir vida às personagens da tela de Jouy e aos azuis desbotados das paredes do quarto.

Sem esforço, Léa fantasiou a mãe vivendo ali naquele quarto, um quarto doce e tranqüilo, bem à sua imagem. Em que pensaria a jovem Isabelle nas manhãs de primavera? Em amor, em casamento? Sentiria também ela a ânsia enorme de agarrar a vida com ambas as mãos, de apertar contra si um corpo apaixonado, de ser acariciada, de ser beijada? Não, não era possível. Tudo nela parecia tão distante disso!

Na casa, ao longe, soou a campainha do telefone. Segundos depois, houve uma ligeira pancada na porta.

- Entre - ordenou Léa.

A porta abriu-se e entrou no quarto uma mulher forte, de cerca de cinqüenta anos, vestindo uma bata de tom cinzento-pálido, coberta por um avental de brancura imaculada.

- Estelle! - exclamou Léa. - Que alegria em vê-la! Como vai?

- Vou bem, menina.

- Não faça tanta cerimônia, Estelle. Venha dar-me um beijo.

A cozinheira e criada de quarto das senhoras Montpleynet não se fez de rogada e depôs dois beijos nas faces daquela que tantas vezes segurara nos braços quando pequena.

- Minha pobre criança! Que infelicidade! O seu noivo.

- Cale-se! Não quero que se fale nele.

- Sim, claro... Perdoe-me, minha querida, sou tão desastrada!

- Não é, não.

- Ah, ia me esquecendo... a srta.... a sra. d'Argilat está ao telefone e quer falar-lhe. Já é a terceira vez que telefona.

- Eu sei - disse Léa em tom de aborrecimento. - O telefone ainda está na saleta? - prosseguiu, enquanto vestia o roupão de veludo grená, presente da mãe no Natal.

- Está, sim, menina.

Descalça, Léa percorreu o comprido corredor dos quartos e entrou na saleta, o lugar preferido das irmãs Montpleynet. Notou que haviam substituído o papel de parede. "Fizeram bem", observou. "Este é mais alegre."

Aproximou-se do aparador onde estava o fone, fora do gancho.

- Alô? Camille?

- É você, Léa?

- Sim. Desculpe tê-la feito esperar.

- Não tem importância. minha querida. Fiquei tão contente com a sua vinda a Paris! Hoje está um dia tão bonito! Quer passear esta tarde?

- Se você quiser...

- Passo para pegá-la às duas horas. Pode ser?

- Muito bem.

- Então, até logo. Se soubesse como estou satisfeita por tornar a vê-la!

Léa desligou sem responder.

Sentadas num banco do jardim das Tuileries, as duas jovens de luto saboreavam a volta do sol após um inverno que cobrira o território francês com espessas camadas de neve durante semanas. A primavera chegara enfim, tudo a denunciava: a suavidade do ar, a luz mais leve cobrindo de um rosa desmaiado os edifícios da Rue de Rivoli e a fachada do Palácio do Louvre, os jardineiros que plantavam as primeiras tulipas nos canteiros margeados com buxo, o olhar dos homens para as pernas das mulheres, uma certa languidez de gestos, os gritos mais estridentes das crianças perseguindo-se à volta do lago e, sobretudo, o odor indefinível que pairava sobre a cidade naquela época do ano, capaz de perturbar até os mais sensatos.

Tal como Léa, também Camille se entregava àquele bem-estar voluptuoso que lhe afastava do espírito o desgosto causado pela morte do irmão e o receio do prosseguimento da guerra, capaz de arrebatar-lhe o marido.

Uma bola saltou até junto dela, arrancando-a aos seus devaneios.

- Desculpe, minha senhora.

Camille sorriu para a criança loura postada à sua frente, apanhou a bola e estendeu-a.

- Muito obrigado, minha senhora.

Vendo-o afastar-se, ela suspirou com uma expressão enternecida. Como é engraçado! - comentou. - Olhe para ele, Léa.

Tem cabelos do mesmo tom dos de Laurent.

- Não acho - respondeu Léa secamente.

- Gostaria tanto de ter um filho como esse menino!

- Que idéia absurda! Arranjar um filho numa altura dessas! É preciso ser louco ou inconsciente.

A aspereza do tom fez crer a Camille tê-la magoado ao evocar a ventura da maternidade perante quem acabara de perder o noivo.

- Desculpe. Sou de um egoísmo! Até parece que esqueci o pobre Claude. - embora... - embora sinta tanta saudade dele - disse Camille aos soluços, escondendo o rosto nas mãos.

Duas mulheres que passavam diminuíram o andar, fitando com piedade a silhueta delgada e vestida de negro, sacudida pelo pranto. As suas expressões elevaram ao auge a cólera de Léa.

- Pare de dar espetáculo! - exclamou.

Camille pegou o lenço que a companheira lhe estendia.

- Desculpe, mas não tenho a sua coragem nem a sua dignidade.

Léa absteve-se de explicar que o seu comportamento nada tinha a ver com esses dois predicados. Para que transformar em inimiga a mulher daquele que amava e voltaria a ver nessa mesma noite?

Pois Camille a convidara para jantar.

- Venha, vamos embora. E se fôssemos tomar um chá? Conhece algum lugar não muito longe daqui?

- Boa idéia. O Ritz fica bem perto.

- Vamos - concordou Léa.

Deixaram as Tulleries, dirigindo-se à Place Vendôme.

- Será que não enxerga? - gritou Léa.

Teria sido derrubada por um indivíduo que saía correndo do famoso hotel, se duas mãos vigorosas não a sustivessem no último instante.

- Desculpe-me, minha senhora. Mas... não é a encantadora Léa Delmas? Apesar do disfarce, minha cara, tê-la-ia reconhecido entre mil. Conservo de você uma lembrança inesquecível.

- Importa-se de me largar? Está me machucando.

- Perdão. Não passo de um bruto - disse o homem, sorrindo.

Tirando o chapéu, François Tavernier inclinou-se perante Camille.

- Bom dia, sra. d'Argilat. Lembra-se de mim?

- Bom dia, sr. Tavernier. Não esqueci nenhuma das pessoas presentes na festa do meu noivado.

- Sei que seu marido se encontra em Paris atualmente. Se não sou indiscreto, posso perguntar por quem é o luto?

- Por meu irmão.

- Sinto muito, sra. d'Argilat.

- E a mim, não me pergunta? - interveio Léa, furiosa por se ver excluída do diálogo.

- A você?! - respondeu François Tavernier em tom de brincadeira. - Suponho que se vestiu de preto apenas por coquetismo.

Talvez um dos seus apaixonados tenha dito que lhe ficava bem, realçando-lhe o tom da pele e dos cabelos.

- Ah, não fale assim, sr. Tavernier! - exclamou Camille.

- Meu irmão Claude estava noivo dela.

Se fosse mais observadora e estivesse menos encolerizada, Léa teria distinguido as sucessivas expressões que se estamparam no rosto de Tavernier: espanto, piedade, dúvida e, por fim, ironia.

- Peço perdão de joelhos, srta. Delmas. Desconhecia que se tivesse apaixonado pelo sr. d'Argilat e fossem casar-se. Apresento- lhe os meus sentidos pêsames.

- A minha vida particular não lhe diz respeito. E não quero saber dos seus pêsames.

Camille interveio:

- Não a leve a mal, sr. Tavernier. Léa não sabe o que diz. A morte de meu irmão chocou-a muito. Gostavam demais um do outro.

- Não duvido - respondeu François Tavernier com uma piscadela de olho a Léa.

Era evidente que aquele grosseirão, aquele patife não esquecera a cena ocorrida em Roches-Blanches e tinha ainda o desplante de lhe dar a entender isso! Léa puxou Camille pelo braço.

- Estou cansada, Camille. Vamos voltar - disse.

- Não. Ainda não. Venha tomar um chá. Vai lhe fazer bem.

- A sra. d'Argilat tem razão. Recomendo-lhes o chá do Ritz. Os bolos são uma delícia - disse François Tavernier em tom de tal modo afetado e tão contrastante com o seu caráter, que Léa, apesar da raiva, quase desatou a rir. Não pôde impedir, no entanto que um breve sorriso lhe iluminasse a fisionomia carregada.

- Ah, assim é melhor! - exclamou ele. - Por um sorriso seu, infelizmente fugidio - precisou Tavernier perante o rosto de novo sombrio -, eu seria capaz de entregar a alma ao Diabo.

Nesse instante, aproximou-se do grupo um indivíduo em uniforme cinzento e boné na mão, que desde o início da conversa se mantivera a pequena distância, junto de um grande automóvel preto.

- Peço desculpa, sr. Tavernier, mas já está atrasado. O ministro o espera.

- Obrigado, Germain. Mas que pode um ministro contra uma mulher bonita? Que espere! Sou forçado a despedir-me, minhas senhoras. Permite-me que vá apresentar-lhe cumprimentos um dia desses, sra. d'Argilat?

- Terei muito gosto nisso, sr. Tavernier. Ficaremos encantados, meu marido e eu.

- Terei a felicidade de vê-la novamente, srta. Delmas?

- Muito me admiraria se isso acontecesse. Estarei poucos dias em Paris e bastante ocupada visitando amigos.

- Nesse caso, havemos de encontrar-nos, pois sinto muita amizade pela senhorita.

Cumprimentando-as uma vez mais, François Tavernier entrou no automóvel. O motorista fechou a porta, instalou-se ao volante e arrancou devagar.

- Vamos então tomar esse chá?

- Julguei que quisesse voltar para casa - admirou-se Camille d'Argilat.

- Mudei de idéia.

- Como você quiser, querida.

Na sua encantadora casa do Boulevard Raspail, onde belos móveis estilo Luís XV, misturados a peças de mobiliário modernas, conferiam ao conjunto um luxo refinado, Camille acabava de dispor flores no centro da mesa. Entregue ao tranqüilo prazer daqueles preparativos aos quais as recém-casadas costumam dedicar-se com orgulho de proprietárias, a jovem não deu pela entrada do marido. O beijo que ele lhe depôs no pescoço, acima do decote de renda preta do vestido de luto, arrancou-lhe um pequeno grito.

- Você me assustou - disse Camille com ternura, virando-se para Laurent ainda com um ramalhete de prímulas na mão.

- Como foi a tarde na companhia de Léa?

- Foi boa. A pobrezinha ainda está sob o efeito do choque da morte de Claude. Tanto se mostra triste como alegre, abatida e enérgica, meiga e agressiva. Não sei o que fazer para agradar-lhe.

- Devia tê-la levado a lugares movimentados.

- Foi o que fiz. Tomamos chá no Ritz, onde encontramos François Tavernier.

- Não é de estranhar, ele mora no hotel.

- Mostrou-se encantador e muito humano comigo. Mas sua atitude com Léa foi bastante esquisita.

- Esquisita, como?

- Dir.se-ia ter procurado arreliá-la durante todo o tempo, fazê-la ficar fora de si, no que se saiu muito bem, aliás. Você, que o conhece um pouco, pode me dizer que tipo de homem ele é?

Laurent pensou antes de responder:

- É um tanto difícil de explicar. No ministério, certas pessoas acham-no um canalha sem escrúpulos, capaz de tudo para obter dinheiro; outras consideram-no o indivíduo que melhor sabe avaliar a situação. Ninguém duvida de sua coragem, atestada pelos ferimentos recebidos na Espanha, nem de sua inteligência e conhecimentos. Dizem também que tem inúmeras amantes e alguns amigos fiéis.

- Um retrato não muito convincente nem sedutor. E você, o que pensa dele?

- Na verdade, não tenho opinião formada. Simpatizo e antipatizo com ele ao mesmo tempo. Estamos de acordo em muitos pontos, sobretudo quanto à fraqueza do comando militar e quanto à imbecilidade desta situação de espera que vai degradando o moral das tropas. Também aprovo a terrível análise que Tavernier elaborou acerca da guerra russo-finlandesa, não obstante suas idéias cínicas. Mas mantenho certas reservas a seu respeito. Ele me seduz e logo depois me revolta. Parece não ter o mínimo senso ético ou, então, o esconde muito bem. Que mais posso dizer? Trata-se de uma personalidade complexa demais para ser analisada em poucas palavras.

- É a primeira vez que o vejo perplexo perante alguém.

- É verdade. Tavernier dispõe de um tipo de inteligência que não compreendo; algo me escapa. Temos a mesma educação, freqüentamos as mesmas escolas, somos do mesmo meio social, a nossa cultura e as nossas preferências literárias e musicais são idênticas. Viajamos, estudamos e refletimos juntos. Em mim, tudo isso resultou em indulgência pela humanidade, no desejo de combater pela preservação da liberdade; nele, transformou-se em dureza e em indiferença quanto ao futuro do mundo.

- Não creio que Tavernier seja duro ou indiferente.

Laurent encarou a mulher com ternura.

- Você é tão boa que não consegue ver o mal em ninguém.

Nesse instante, ouviu-se um toque de campainha.

- São os nossos convidados - observou Camille. - Receba-os. Vou à cozinha ver se tudo está em ordem.

"Que tédio, este jantar!", dizia Léa para si mesma. Nunca em toda a sua vida se aborrecera tanto! Como era possível suportar, por mais de cinco minutos, as tagarelices de Camille e das senhoras de Montpleynet? A conversa delas resumia-se às dificuldades de abastecimento dos parisienses, à defesa passiva e à criadagem. Por felicidade, não havia crianças. Do contrário, seria um nunca mais acabar de considerações comparativas dos méritos do leite materno, concentrado ou em pó ou uma arenga infindável quanto às diversas maneiras de se enfaixar os bebês. Não muito a par desse gênero de assuntos, até mesmo o pai dera a sua opinião.

Quanto a Laurent, para ele o casamento não se mostrara generoso. Engordara, como é óbvio, perdera cabelo, os dentes pareciam mais escuros, o olhar estava apagado. Com um "extintor" como aquela mulher, não era de admirar! Apesar dessa imagem deteriorada, toda a vida se interrompera em Léa no instante de transpor o limiar da porta. Como Laurent era belo, delgado e naturalmente elegante! De olhos brilhantes, contemplava-a com uma admiração impossível de dissimular. E quando a tomara nos braços, apertando-a por mais tempo do que mandavam as regras, os lábios sobre os seus cabelos, sobre as faces... Que dissera ele então? Que era sua irmã... Onde arranjara tão ridícula noção? Irmã dele! E que mais lhe murmurara ao ouvido? Claude teria gostado que assim fosse. Que saberia Laurent dos desejos de um morto? E ela? Não teria também uma palavra a dizer?

"Esta casa é sua." Fora grande amabilidade da parte de Laurent dizer-lhe aquilo; mas que não insistisse, senão poderia tomar suas palavras ao pé da letra. A única coisa que desejava dele era sentir os seus lábios nos dela. Mas se contentara em responder; - Obrigada, Laurent.

Imaginara aquele reencontro como um momento de felicidade; mas tudo se transformou em aborrecimento, um aborrecimento que a tornava injusta para com o rapaz.

Duas semanas decorreram, durante as quais Léa viu Laurent quase todos os dias. Nunca a sós, porém, infelizmente. Suportara a presença de Camille por aqueles escassos instantes junto dele, de uma Camille cuja afabilidade a tornava cada vez mais odiosa.

Nos raros momentos de lucidez e de bom humor, Léa concordava em que Camille era menos entediante que a maioria das mulheres, sabendo dissertar sobre todos os assuntos sem mostrar-se pedante, e fazendo o impossível para distraí-la. Tão impregnada de convencionalismos, não concordara em acompanhá-la ao cinema e ao teatro, apesar do luto? Léa revia Camille retirando do chapéu o véu de luto e dobrando-o com uma lentidão que, melhor do que palavras, lhe traía o desgosto sentido.

Fizera-o apenas para agradá-la quando havia declarado peremptoriamente estar farta de sair com uma viúva, fato que a deprimia e deixava doente.

Certa manhã, Pierre Delmas entrou no quarto da filha quando ela tomava o café na cama.

- Bom dia, querida. Está contente com a temporada em Paris?

- Sim, papai, embora ainda não tenha me divertido.

- O que você entende por divertimento? Saiu todos os dias, visitou museus, lojas, andou de barco no Bois de Boulogne... O que mais quer?

- Queria dançar, ir a cabarés, ao Folies-Bergêre... Divertir-me, enfim.

- Tem idéia do que diz? O seu noivo morreu há quatro meses apenas e você só pensa em dançar! Será que não tem coração?

- criticou-a o pai.

- Não sou culpada por ele ter morrido.

- Você está passando dos limites, Léa. Nunca acreditei que estivesse apaixonada pelo pobre Claude, mas, assim mesmo, você me decepciona muito.

O tom de desprezo de Pierre Delmas atingiu Léa como uma bofetada. Sentiu-se de súbito tão infeliz, incompreendida e devassada que começou a chorar.

O pai conseguia suportar tudo, menos as lágrimas da filha preferida.

- Não é nada, minha querida, nada de grave - consolou-a.

- Eu compreendo, é duro privá-la dos prazeres próprios da sua idade. Vamos voltar para casa, encontrar sua mãe, retomar os nossos passeios.

- Não quero voltar para Montillac!

- Mas por quê? Por quê, se você se aborrece em Paris?

Léa não respondeu.

- Vamos, responda, querida - insistiu Pierre Delmas.

Léa ergueu para o pai o rosto banhado em lágrimas, sabendo perfeitamente que, ao vê-la assim, ele acabaria por concordar com os seus desejos.

- Gostaria de matricular-me na Sorbonne, no curso de literatura - disse ela num murmúrio.

Pierre Delmas fitou-a com espanto.

- Que idéia absurda! - exclamou. - Em outra época, não digo que não. Esqueceu que estamos em guerra?

- Não é uma idéia absurda, papai - discordou Léa. - Camille e várias amigas dela freqüentam a universidade. Quanto à guerra, ainda não chegou aqui. Diga que sim, paizinho, eu lhe imploro!

- Terei de falar no assunto com sua mãe e perguntar às suas tias se estão de acordo em alojá-la - disse Pierre Delmas, procurando afastar a filha, que o sufocava com beijos.

- Telefone a mamãe. Eu me encarrego das tias - sugeriu a jovem, pulando da cama. - Aliás - acrescentou -, Camille convidou-me para ficar em sua casa se surgissem problemas quanto ao alojamento.

- Já vejo que estou diante de um verdadeiro complô - gracejou o pai. - Aonde vai hoje?

- Ainda não sei. Camille ficou de telefonar. E você, o que vai fazer?

- Tenho um encontro e um almoço de negócios.

- Não esqueça que à noite jantaremos em casa de Laurent - recomendou Léa. - Ele quer apresentar-nos alguns dos seus amigos.

- Não esquecerei. Então, até logo à noite.

- Até logo, papai. E não se esqueça também de telefonar para mamãe.

Quando a porta se fechou, Léa pôs-se a dançar pelo quarto, segura de conseguir do pai o que queria. Passaria ao ataque nesse mesmo dia. Na véspera, dissera a Camille que iria dar algumas voltas sozinha e comunicara às tias que almoçaria com Camille.

Como era bom ser livre, ter um dia por sua conta! E que sorte, a manhã estava tão bonita! Estrearia o tailleur comprado às escondidas numa loja do Faubourg Saint-Horioré. Comprara também chapéu, carteira, sapatos e luvas, tendo gastado todo o seu dinheiro. Cantarolando, dirigiu-se ao banheiro. Quando saiu, envolta no amplo roupão branco cheirando a Après l'Ondée, Albertine, ao passar pela sobrinha, perguntou-lhe se entornara o frasco de perfume.

Eram quase onze horas. Teria de se apressar caso quisesse chegar ao meio-dia ao Ministério da Guerra. Vestiu-se rapidamente.

Estremeceu, excitada, ao sentir no corpo o contato da blusa cor-de- rosa pálida, que lhe conferia um tom mais luminoso ao rosto. Ficava-lhe muitíssimo bem a saia de crepe preto e pesado e o casaco realçava-lhe a silhueta esguia. Sobre os cabelos erguidos prendeu um desses charmosos chapéus que só se encontram em Paris, com o formato de um pandeirinho de palha negra, discretamente enfeitado por um véu e pequenas flores. Sandálias de saltos altos, luvas da mais fina pelica e bolsa combinando com o chapéu completavam o conjunto um pouco severo, severidade que não a envelhecia, porém, não obstante o seu desejo de parecer mais mulher. Deu uma última olhadela ao espelho, verificando o alinhamento da costura das meias e o aspecto geral. A imagem agradou-lhe de tal modo, que sorriu de contentamento.

Agora, deveria sair sem que as tias e Estelle a vissem; não deixariam de se espantar perante uma noiva de luto que usava peças de vestuário cor-de-rosa e flores no chapéu.

O portão fechou-se atrás de Léa, que se encontrou no passeio da Rue de l'Université. Deixou escapar um suspiro de alívio.

Arrepiada dirigiu-se para Saint-Germain, em busca de um táxi. Que frio! Surgira apenas uma nesga de sol e logo o inverno regressara. Felizmente o governo autorizara que os aquecimentos funcionassem até 15 de abril.

Seguida pelos olhares de admiração dos homens e, por vezes, pelas olhadelas invejosas das mulheres, Léa viu-se obrigada a caminhar até Saint-Germain-des-Prés para obter condução. Na praça de táxis, os motoristas aqueciam-se ao sol, encostados aos carros, fumando e batendo com os pés gelados no chão. Léa entrou no primeiro automóvel da fila. Um homem ainda novo, com um incrível boné xadrez, veio instalar-se ao volante.

- Aonde quer que a leve, bela primavera negra? - perguntou o motorista.

- Ao Ministério da Guerra, por favor.

- Muito bem. Para o Ministério da Guerra!

Léa avizinhou-se da sentinela.

- Gostaria de falar com o tenente d'Argilat - disse a moça.

- Tem encontro marcado?

- Sim - gaguejou Léa, impressionada pelo ambiente; tal como acontecia nos átrios das estações de trem, também ali se verificava grande movimento de soldados e de oficiais de todas as armas.

- O que faz aqui, Léa?

- Esta menina diz que tem encontro marcado com o senhor.

Laurent ergueu as sobrancelhas, mas, perante o ar contrito de Léa, asseverou:

- É verdade. Mas o que houve? Algo de grave?

- Não. Tive vontade de ver você, só isso - respondeu a jovem, lançando-lhe um olhar de soslaio. - E também de almoçar com você - acrescentou rapidamente.

- Excelente idéia! Por acaso, estou livre. Venha ao meu gabinete. Telefonarei a Camille, convidando-a para juntar-se a nós.

- Ah, não! - gritou Léa.

Perante a expressão surpresa de Laurent, a moça prosseguiu em tom mais brando:

- Camille não poderá vir almoçar hoje. Tem de fazer compras para logo à noite.

- Ah, é verdade! Tinha-me esquecido das visitas. Onde quer comer?

- Em qualquer lugar elegante.

- Está bem - anuiu Laurent, rindo. - O que me diz do Maxim's?

- Magnífico!

Um motorista do ministério deixou-os na Rue Royalle. Albert, o rnaitre, acolheu-os com a habitual cortesia.

- A mesa do sr. d'Argilat!

Diversas cabeças se ergueram à entrada de Léa, cujo coração batia com força sob a blusa cor-de-rosa. Já instalada à mesa, a jovem olhou em volta sem procurar disfarçar a curiosidade e o prazer de almoçar no mais famoso restaurante do mundo.

Pareceu-lhe que nunca mais esqueceria o ambiente: as flores dispostas em vasos de prata, as porcelanas e os cristais, o serviço silencioso e rápido dos garçons, os espelhos refletindo até o infinito a claridade rosada dos abajures, as jóias e os chapéus das mulheres, a renda das cortinas, o vermelho do veludo sobre as madeiras escuras... Tudo ali recendia luxo. A guerra ficava bem distante.

- Aquele ali parece Maurice Chevalier - disse Léa ao ouvido de Laurent.

- Parece e é. E além, ao fundo, está Sacha Guitry. Na mesa ao lado, a bela Mary Marquet.

Um dos garçons trouxe os cardápios.

- Que quer comer?

- Tanto faz. Estou certa de que todos os pratos são bons. Escolha por mim.

Feito o pedido, veio o garçom encarregado das bebidas.

- Que deseja beber, senhor?

- Champanha! - exclamou Léa.

- Ouviu? A senhora deseja champanha.

Logo chegou o vinho.

- Brindemos a nós mesmos - sugeriu Léa, erguendo a taça.

- A nós e àqueles que amamos - emendou Laurent.

Fitando-se, beberam em silêncio.

Léa desabrochava sob o olhar do homem amado. O picotado do véu conferia uma ponta de mistério às faces frescas e tornava mais sensuais os lábios úmidos. Como uma carícia, a jovem sentia pousados em si os olhos do companheiro. Mostrando-se deliberada- mente coquete, ergueu o véu devagar.

- Como você é bonita! - exclamou Laurent.

À frase comovida, Léa respondeu com um riso gutural. O rapaz crispou as mãos na toalha branca, e Léa estremeceu, como se os dedos dele tivessem penetrado em sua carne. Teve então um gesto que remontava à infância mas que, na atual circunstância, parecia uma provocação inconcebível: com o polegar e o indicador, torceu o lábio inferior.

- Não faça isso! - censurou Laurent.

Ela interrompeu o gesto e esboçou um trejeito fingido de espanto. Laurent evitou as explicações com a chegada dos pratos, sobre os quais a moça se lançou, gulosa e faminta. Com algumas garfadas, fez desaparecer o salmão defumado.

Delicioso! - comentou.

Depois, imediatamente prosseguiu:

- Acha que logo haverá o recrudescimento da guerra?

Laurent esperava tão pouco semelhante pergunta que quase derrubou o copo.

- Acho que sim. Vou reunir-me ao meu regimento.

De olhos subitamente dilatados, as batidas do coração suspensas, Léa inquiriu:

- Quando?

- Depois de amanhã.

- E onde?

- Perto do Sedan.

- Há quanto tempo sabe disso?

- Há três dias.

- Disse a Camille?

Ainda não tive coragem.

Léa mal tocou no prato seguinte, mas bebeu diversas taças de champanha. E a imagem de Laurent morto ou ferido foi-se distanciando pouco a pouco. Coloria-lhe as idéias a euforia nascida do álcool.

- Falemos de outras coisas, está bem? - propôs, pousando a mão na do companheiro.

- Tem razão. Para que entristecer os últimos instantes de felicidade e de paz? Guardarei de você, mesmo nos piores momentos, a imagem de uma bela dama de negro e cor-de-rosa.

Com o queixo apoiado à palma da mão, pálpebras semicerradas, Léa inclinou-se para Laurent, dizendo:

- Como vê, você me ama.

Duas rosetas juvenis inflamaram o rosto do rapaz.

- Eu sinto que é assim, não negue - prosseguiu ela. - Não, cale-se. Deixe-me falar. Você só diria tolices. Amo-o, Laurent. Amo-o ainda mais do que naquele dia em que lhe disse isso. Fiquei noiva de Claude apenas para vingar-me, para lhe causar desgosto.

Felizmente ele está... não, não é isso que queria dizer. Queria dizer que continuo livre.

- Está se esquecendo de que eu não.

- E verdade. Mas me ama assim mesmo.

- Não é verdade. Mas, mesmo que fosse, acha-me assim tão covarde a ponto de abandonar Camille? Sobretudo...

- Sobretudo?

- Ah, mas é o d'Argilat!

- Olá, Tavernier! Como vai?

"De uma elegância insuportável. Um verdadeiro novo rico", disse Léa para si mesma com a maior má fé, perante aquela figura alta e muito distinta num terno cinza-escuro de corte impecável.

- Infelizmente, não tão bem quanto você - replicou Tavernier. - Encantado por tornar a vê-la, srta. Delmas.

Léa inclinou a cabeça num aceno agastado que fez o importuno sorrir.

- Vejo que não se passa o mesmo com você. Permita-me que me retire. Falaremos com mais tempo logo à noite.

Tavernier afastou-se fazendo um gesto de despedida e cumprimentando duas ou três pessoas aqui e acolá, antes de deixar a sala.

- Não é possível que nos encontremos logo à noite. Devo ter ouvido mal. Não o convidou, não?

- Convidei, sim. Por diversas vezes ele manifestou o desejo de cumprimentar Camille.

- Então ela vai ficar bastante satisfeita esta noite.

- Você é injusta, Léa. Tavernier sabe ser bastante divertido e encantador.

- Muito me admiraria. Não passa de um grosseirão. Já estou farta de estar aqui. Vamos embora.

Na rua, o tempo se modificara. O sol desaparecera, dando lugar a um dia desagradável.

- Acho que vai nevar - observou Laurent, encaminhando-se para o automóvel do ministério, que acabara de parar junto ao passeio.

- Vamos voltar. Estou com frio - disse Léa.

- Não me surpreende. Você não está suficientemente agasalhada. Entre logo no carro.

Uma vez instalado, Laurent cobriu-a com o seu impermeável e rodeou-lhe os ombros com o braço. Rodaram durante algum tempo sem dizer nada.

- Para a Rue de l'Université - ordenou o rapaz ao motorista.

- Aperte-me contra você. Fico mais quentinha - disse Léa, apoiando a cabeça no ombro de Laurent.

De olhos fechados, a jovem sentia a perturbação do companheiro, uma perturbação idêntica à sua. Ao fim de um instante, não se conteve mais.

- Beije-me, Laurent - pediu.

O rapaz tentou ignorar os lábios que se lhe ofereciam. Mas, lenta e firmemente, Léa o atraiu para si e ele deixou de resistir.

Esquecido de Camille e da presença do motorista, colou a boca à dela e o tempo parou. Quando conseguiu libertar-se, o veículo rodava devagar pela Rue de l'Université.

- Em que número deverei parar, tenente? - inquiriu o motorista em voz baixa e embaraçada.

- Aqui. Pare aqui.

- Muito bem, tenente.

Léa fitava-o em silêncio com expressão de triunfo. "Parece um animal", pensou Laurent, tentando assumir uma atitude indiferente e alisando o cabelo com os dedos. O automóvel parou. Sem aguardar que o motorista lhe abrisse a porta, Léa saiu do carro de chapéu na mão. Laurent acompanhou-a à porta.

Desculpe o que se passou há momentos - disse ele.

- Por que pedir desculpa? Não foi bom? Não faça essa cara. Não é nenhuma catástrofe estar apaixonado. Até logo à noite, meu amor.

O tenente d'Argilat permaneceu por instantes imóvel em frente à porta que acabava de se fechar.

Embora o pai insistisse com Léa para que se aprontasse a tempo, chegaram com vinte minutos de atraso à recepção oferecida em sua homenagem por Laurent e Camille. Léa estreou nessa noite um vestido comprido de cetim preto, comprado no início da estada em Paris. Quando Pierre Delmas viu a filha assim trajada, com o corpo como que moldado por uma dupla pele brilhante, os ombros e os braços parecendo mais nus ainda ao emergirem do negro tecido que lhe realçava a brancura, exclamou:

Mas você não pode sair com essa roupa!

- Ora, papai, é a moda! Todas as mulheres usam.

- Talvez sim. Mas não é próprio para uma garota. Vá tirá-lo.

O olhar de Léa tornou-se sombrio, os lábios descaíram.

- Não tenho outro vestido, papai - afirmou. - Vou com este ou então não vou.

Conhecedor do gênio da filha, Pierre Delmas sabia que nada a demoveria de tal propósito.

- Ponha ao menos um xale - disse ele, capitulando.

- Tenho algo melhor do que isso. Olhe o que a tia Albertine me emprestou: a capa de raposa preta.

Um par de brincos compridos de diamante, pedidos emprestados a Lisa, completavam o traje de Léa, dando-lhe uma aparência ainda mais frágil com os cabelos presos no alto da cabeça.

Uma camareira encaminhou-os para o vestiário, já atulhado de agasalhos. Sob o olhar sombrio do pai, a filha desvencilhou-se da pele de raposa preta. Todos os rostos voltaram-se para Léa, quando, pelo braço de Pierre Delmas, entrou na sala com passos desenvoltos, segurando a bolsa bordada de pérolas brancas e pretas.

- Como está bonita, Léa! - exclamou Camille, que usava um comprido e singelo vestido de luto de saia franzida, meia manga e um recatado corpete branco, fechado por um camafeu. - Tenho uma surpresa para você. Veja quem está ali!

- Raul! Jean!

Léa, de novo criança, precipitou-se para os braços dos irmãos Lefèvre, ambos uniformizados.

- Que alegria! Que fazem vocês em Paris?

- Estamos de licença - esclareceu Raul.

- Temos de voltar para a frente de combate - precisou Jean.

- Mas, como o trem só parte amanhã de manhã, viemos ver Laurent e Camille, que nos convidaram para esta noite.

- Preparávamo-nos para visitá-la, quando Camille contou que você também viria e que gostaria de lhe fazer uma surpresa.

- Que idéia excelente! - exclamou Léa com um sorriso radiante dirigido a Camille.

- Venha. Deixe-me apresentá-la aos nossos amigos.

Léa cumprimentou um general, um coronel, um professor, um escritor famoso, um pintor também conhecido, uma mulher bonita, duas senhoras e... François Tavernier.

- O senhor outra vez!

- Que amável acolhida de sua parte! Reconheço nela seu temperamento encantador.

Léa voltou-lhe as costas malcriadamente - O traseiro combina com a frente.

A moça virou-se de repente, exclamando:

- Pare com as suas grosserias!

- Quando uma mulher usa determinado gênero de vestidos, minha querida, é porque deseja que os homens notem algo além da cor do tecido. Não acha? Pergunte ao nosso querido Laurent d'Argilat.

- O que queriam perguntar-me? - interrogou Laurent, parando junto deles.

- A srta. Delmas está indecisa, não sabe se o vestido lhe fica bem e se lhe agrada.

- Agrada... agrada muito - gaguejou Laurent. - Desculpem, mas creio que Camille precisa de mim - acrescentou ele, afastando-se.

- Seu pulha! - disse Léa, dirigindo-se a Tavernier, que desatou a rir.

Aproximou-se de ambos um general.

- Então, Tavernier, conseguiu? - perguntou o recém chegado.

- Ainda não, meu general.

Léa encaminhou-se para o bufê, onde Raul e Jean Lafèvre discutiam acaloradamente com Pierre Delmas.

- Falávamos da terrinha - elucidou Raul. - Quando regressam?

- Acho que ficarei por aqui mais algum tempo. Tenciono seguir um curso na Sorbonne. Telefonou para mamãe, papai?

- Telefonei.

- E ela concordou?

- Quanto à Sorbonne, acha que o ano escolar já está muito adiantado. No entanto, você poderá ficar mais uns quinze dias, se as suas tias estiverem de acordo.

- Claro que estarão! Obrigada, papai. Você também fica?

- Não posso. Volto dentro de dois dias.

Raul ofereceu uma taça de champanha à amiga e afastou-se um pouco com ela.

- Não deveria ficar - aconselhou. - Pode tornar-se perigoso com o prosseguimento da guerra.

- Então imagina os alemães em Paris? Você?! Os franceses irão detê-los. Não são em maior número?

- Isso nada significa. Os alemães estão mais bem preparados, têm armamento mais adequado e a força aérea deles também é superior.

- Talvez sim. Mas vocês são mais corajosos.

- Ora, o que pode a coragem face aos carros de combate?

- contrapôs o jovem, abanando a cabeça.

- Estou tão contente por vê-lo, Raul! Não me estrague a noite, está bem?

- Tem razão. Brindemos à vitória e a você, que é tão bonita!

Léa e os dois irmãos encaminharam-se para a pequena sala separada do salão por uma porta de batente duplo onde se encontravam os convidados. As paredes estavam repletas de livros. O fogo crepitava na lareira de mármore branco. No friso da chaminé, um bronze magnífico representava um cavalo e seu respectivo cavaleiro atacados por lobos. Léa foi ocupar um dos dois sofás colocados em frente da lareira e os dois rapazes instalaram-se a seus pés.

Em silêncio, os três jovens fitavam as chamas sem as ver, deliciosamente entorpecidos pelo calor e embalados pelos estalidos da lenha. Apoiado na porta, François Tavernier, com uma taça de champanha na mão, observava-os há já algum tempo. Sentia pelos dois irmãos uma instintiva simpatia. Eram evidentes neles, de maneira bem natural, as qualidades de coração e de coragem.

Divertia-o o fato de vê-los tão apaixonados pela amiga, e perguntava-se o que aconteceria se, por capricho, ela desse a sua preferência amorosa a um deles em detrimento do outro.

Léa agitou-se no assento e estirou-se com uma espécie de gemido de contentamento. Seus braços, ombros e rosto, sob a luz das chamas, cercavam-se de uma claridade dourada. Sobre a fonte luminosa, recortava-se a linha pura do perfil, deixando o rosto na sombra. Depois, a jovem inclinou a cabeça, deixando ver a nuca feita para ser beijada e mordida.

Françoes Tavernier levou a taça de champanha aos lábios com tanta precipitação que entornou um pouco do líquido sobre o snzoking impecável. Queria aquela jovem. Não se recordava de alguma vez ter desejado uma mulher com tanta violência. Que teria ela mais que as outras? Era bonita, é certo, muito bonita mesmo, mas não passava de uma criança, de uma menina. E ele detestava mocinhas, sempre tão estupidamente sentimentais, choramingando infalivelmente a perda da própria virgindade.

Aquela, no entanto, adivinhava-a de têmpera diferente. Tinha ainda nos ouvidos o tom em que Léa declarara o seu amor ao idiota do D'Argilat. Se tal declaração fosse feita a ele, tê-la-ia derrubado num canapé ou arrastado para um celeiro. E ela gostaria, estava certo disso, O feno áspero na sua pele de ruiva. . - Sentiu certa excitação. Léa iria lhe pertencer um dia!

Virando-se para a porta nesse instante, a jovem surpreendeu o olhar ardente pousado nela e não se iludiu quanto à sua natureza.

Gostava de sentir os olhares dos homens, olhares iguais àquele, presos nela violentamente e sem ambigüidade. Embora detestasse o indivíduo que a contemplava, experimentou um súbito arrepio de prazer, que a obrigou a apertar as pernas. O breve movimento não escapou à observação de François Tavernier, que sorriu com uma satisfação de macho. Aquele sorriso irritou Léa; desconhecia que ocultava uma emoção mais profunda.

- Que faz plantado aí? - inquiriu.

- Estou olhando para você.

A intensidade posta na resposta contribuiu para agastar Léa ainda mais. Ergueu-se com estudada lentidão.

- Vêem? - perguntou aos irmãos Lefèvre. - Nem mesmo aqui se pode ficar em paz.

Sem esperar por eles, encaminhou-se para o salão. Ao passar junto de Tavernier, este a deteve, segurando-a pelo braço, e proferiu em voz tensa:

- Não gosto que me tratem desse modo.

- Terá de se acostumar se acaso, por infelicidade, nos virmos de novo. Largue-me!

- Antes de ir-me embora, deixe que lhe dê um conselho... sim, eu sei, não está interessada nos meus conselhos. Não fique em Paris. Vai tornar-se perigoso.

- Engana-se. Por certo não há perigo, já que o senhor está aqui e não na frente de combate, onde estão todos os homens dignos desse nome.

François Tavernier empalideceu sob o insulto, suas rugas se acentuaram e no olhar apareceu um brilho maldoso.

- Se você não fosse apenas uma criança, metia-lhe a mão na cara.

- Claro que as mulheres são os únicos adversários à sua altura! Deixe-me! Está me machucando.

Sem motivo aparente, Tavernier soltou uma gargalhada estrondosa que dominou o ruído das conversas. Depois largou o braço onde os dedos haviam deixado marcas vermelhas.

- Tem razão. Só as mulheres são adversários à minha altura, e devo reconhecer que nem sempre ganho.

Admiro-me de que alguma vez isso tenha acontecido.

- Um dia verá.

- Já vi tudo, sr. Tavernier.

Afastando-se, Léa foi reunir-se a Camille, que tagarelava com uma mulher bonita.

- Tenho a impressão de que a nossa jovem amiga teve de ajustar algumas contas com François Tavernier - observou a desconhecida.

Léa fitou-a com o olhar altivo que dirigia às pessoas, por vezes, quando estas se mostravam indiscretas, hábito que a mãe, em vão, procurara fazê-la perder.

- Não sei a que se refere - disse Léa.

- A sra. Mulstein, que o conhece bem, falava do sr. Tavernier nos termos mais elogiosos - interveio Camille precipitadamente.

Léa não respondeu, aguardando o prosseguimento da conversa com uma indiferença onde se notavam apenas ligeiros vislumbres de delicadeza.

- Meu pai e meu marido estimam-no muito. É a única pessoa que me tem ajudado a obter as autorizações para deixarem a Alemanha.

- Mas por que motivo querem eles sair da Alemanha? - perguntou Léa, intrigada, quase sem querer.

- Porque são judeus.

- Mas que tem isso?

Sarah Mulstein observou aquela moça ao mesmo tempo provocante e infantil, metida no seu vestido de cetim preto, colado ao corpo, e reviu-se, alguns anos atrás, entrando num cabaré elegante de Berlim pelo braço do pai e do jovem marido.

Também estreava um vestido de cetim, mas de cor branca. O gerente precipitou-se para eles ao reconhecer o pai, Israel Lazare, maestro mundialmente conhecido, oferecendo-lhes a melhor mesa da sala. Seguiam atrás dele quando um homem alto e loiro, de rosto congestionado, em uniforme das ss, lhes barrou a passagem, com um copo de conhaque na mão, interpelando o pai:

É Israel Lazare?

O pai parou, sorrindo, e inclinou-se num cumprimento. O outro gritou, porém:

- Você é um judeu!

Na ampla sala onde predominavam os vermelhos e os negros, suspenderam-se as conversas; apenas o piano continuava a tocar, sublinhando a pausa carregada de tensão, O gerente tentou interpor-se, mas o oficial repeliu-o tão violentamente com as costas da mão que ele caiu, chocando-se com um garçom. Algumas mulheres gritaram. O alemão agarrou então Israel Lazare pelas abas do smoking, atirando-lhe à cara o seu ódio aos judeus. O marido de Sarah interveio, mas foi derrubado com um soco.

- Não sabem que neste país não gostamos de judeus? Que eles são considerados menos que cães? E que um judeu só é bom quando está morto?

O piano silenciou. Tudo girou ao redor de Sarah. Admirou-se por experimentar mais surpresa do que medo e por notar alguns pormenores absolutamente alheios ao que se passava: o vestido que ficava tão bem na mulher alta e loura, o colar de pérolas da senhora de cabelos grisalhos, as dançarinas aglomeradas junto da cortina vermelha, mulheres de belas pernas.

- Papai! - ouviu-se gritar.

Depois, foi rodeada pelos soldados da escolta do oficial. "Para uma judia, não é nada má", comentavam. Um dos homens estendeu a mão para o vestido branco. Como num pesadelo, ela ouviu o tecido rasgar-se. Recobrando os sentidos, o marido precipitou-se para ela, mas uma garrafa o deteve, esmigalhando-lhe o crânio. Tombou no chão devagar, com o rosto subitamente coberto de sangue.

Gotas vermelhas surgiram no vestido branco. Incrédula, Sarah inclinou-se sem procurar esconder os seios descobertos e maculados. Olhou as mãos numa atitude estranha. Depois, deixou escapar um grito.

- Cale a boca, judia nojenta!

O conteúdo do copo de conhaque interrompeu-lhe o grito, queimando-lhe os olhos e as narinas. O cheiro do álcool provocou- lhe náuseas. Dobrou-se sobre si mesma e vomitou em profundos espasmos. Não percebeu o golpe que ia receber; a ponta da bota atingiu-a em pleno ventre, projetando-a contra uma das colunas.

- Essa porca, vomitando em cima de mim!

Tudo se tornou confuso a partir desse instante: o marido estendido no meio do sangue, ela no próprio vômito, o pai sendo arrastado pelos cabelos compridos e brancos que se tingiam de vermelho, os gritos, os apitos, as sirenes. E, depois, as últimas palavras que ouviu quando as portas da ambulância se fechavam sobre ela:

- Não é nada. São judeus.

- Que tem isso? - repetiu Léa.

- Tem que os atiram em campos de concentração, torturam- nos e matam-nos - replicou Sarah Mulstein em voz suave.

Léa fitou-a, incrédula. Os olhos sombrios da interlocutora falavam a verdade.

- Perdoe-me. Não sabia.


Capítulo 9

No dia seguinte, Léa foi despertada pelo telefonema de Laurent, convidando-a para almoçar no Closerie des Luas. Não duvidou que antes de o dia terminar ele seria seu amante. Vestiu-se com esmero, escolhendo uma roupa íntima de cor salmão, enfeitada com renda creme. Como estava frio, pôs um vestido solto de lã preta, debruado de piquê branco no decote, o que lhe conferia um ar de colegial. Escovou os cabelos, deixando-os soltos e caídos sobre os ombros, e achou que a auréola dourada da cabeleira contrastava harmoniosamente com o traje severo. Vestiu o casaco de tecido preto confeccionado pela costureira de Langon; depois de várias tentativas, decidiu não usar chapéu.

Como tinha tempo, subiu a pé o Boulevard Saint-Michel. A caminhada deu-lhe ao rosto maior beleza, e, de faces cintilantes, ela entrou no Closerie des Luas.

O local agradou-lhe de imediato, com o seu sóbrio madeiramento, os bancos forrados de veludo e o empregado do bar agitando com classe um misturador brilhante. Deixou o casaco aos cuidados da encarregada do vestiário. Laurent esperava-a no bar, lendo o Le Figaro com ar preocupado. Não deu pela presença de Léa quando esta se sentou à sua frente.

- As notícias não são boas?

- Ah, desculpe, Léa! - disse Laurent, fazendo menção de erguer-se.

- Não se levante. Bom dia. Que alegria em vê-lo!

- Bom dia. Quer beber alguma coisa?

- O mesmo que você.

- Um vinho do Porto, por favor - encomendou o rapaz. Léa o fitava com olhar ardente, antecipadamente submissa aos seus desejos.

- A mesa está pronta, sr. d'Argilat - comunicou o maître, que se aproximara. - Desejam sentar-se?

- Sim. Estaremos mais à vontade do que aqui. Levem a bebida da senhora.

Mal se instalaram, surgiu um criado com o vinho encomendado e o maître apresentou-lhes o cardápio.

- Hoje não temos carne nem massas - comunicou ele com ar tão contrito que Léa quase rompeu em gargalhadas. - Mas os peixes estão excelentes.

- Perfeito. Quer ostras para começar? - sugeriu Laurent.

- São as últimas, e aqui estão sempre ótimas.

- Está bem - anuiu Léa, levando aos lábios o copo de vinho do Porto.

Por sugestão do encarregado das bebidas, Laurent optou por um Meursault com uma indiferença pouco comum para um vinicultor.

"Ele está com um aspecto tão cansado e inquieto!", disse Léa para si. Depois perguntou:

- Qual é o problema?

Laurent fitou-a como se pretendesse imprimir na memória os menores traços de seu rosto, que irradiava beleza perante os seus olhos perscrutadores.

- Você é linda.., e também muito forte - murmurou. As sobrancelhas de Léa ergueram-se numa expressão interrogativa.

- Sim, forte - prosseguiu ele. - Vai até onde os seus desejos a impelem sem questionar. É como um bicho, sem o mínimo senso moral, sem preocupação com as conseqüências, nem para você nem para os outros.

Aonde ele queria chegar? Era preferível dizer-lhe que a amava em vez de perder-se em especulações filosóficas.

- Mas eu não sou como você - retomou Laurent. - Convidei-a para lhe dizer três coisas e fazer um pedido.

Chegaram o vinho e as ostras. O amor não fazia Léa perder o apetite, e ela atacou o marisco com gulodice. De olhar enternecido, Laurent calara-se e contemplava-a, esquecido de comer.

- Você tinha razão - disse Léa. - Estão uma delícia. Não vai comer?

Na verdade, não tenho apetite. Você as quer?

- Posso? - perguntou Léa com uma concupiscência que trouxe um sorriso ao rosto tenso do parceiro.

O que você queria me dizer?

- Parto esta noite.

- Esta noite?

- À meia-noite. Vou reunir-me ao regimento em Ardennes.

Léa afastou o prato de ostras, com os olhos subitamente cheios de ansiedade.

Espera-se uma ofensiva alemã - esclareceu-lhe o rapaz.

- Será repelida pelos nossos militares.

- Bem que gostaria de ter a sua certeza.

- Parece François Tavernier falando.

- Tavernier talvez seja o homem mais bem informado acerca dos acontecimentos atuais. Por desgraça, o estado-maior do general Gamelin não ouve os seus conselhos.

- O que não me admira. Quem poderá confiar nele? Que mais queria me dizer?

Sem olhá-la, Laurent disse de um só fôlego:

- Camille está esperando um filho.

Léa cerrou as pálpebras sob o efeito do choque. Agarrou o tampo da mesa com violência. Desesperado com o sofrimento que provocara, inquieto com a palidez e com os dedos crispados de Léa, Laurent tocou-lhe as mãos geladas.

- Olhe para mim, Léa - pediu.

Laurent não mais esqueceria aquele olhar magoado. Foi-lhe insuportável a dor muda que descobriu nele; isso e a lágrima solitária a escorrer pela face meiga, lágrima logo perdida na comissura dos lábios e, depois, transbordando, deslizando ao longo do queixo, cuja curva seguiu antes de deixar um traço úmido no pescoço.

- Não chore, meu amor. Queria dizer também que te amo.

Que dissera ele? Que a amava! Mas, então... nem tudo estava perdido! Por que chorar? Camille esperava um filho; que boa coisa!

Ficaria feia durante meses, enquanto ela... Não era o momento para se enfeiar também com lágrimas. Laurent amava-a, acabava de lhe confessar. A vida era maravilhosa.

No mesmo instante, Léa riu, limpando os olhos com o guardanapo.

- Já que me ama, o resto não tem a mínima importância.

Laurent fitou-a com um sorriso cansado, diante da dificuldade de fazê-la entender que, para ele, o sentimento existente entre os dois não tinha nenhum futuro. Censurava-se agora por aquilo que considerava uma traição à mulher.

- É-me indiferente que Camille esteja grávida. É a você que quero.

- Diga outra vez que me ama - pediu Léa.

- Amando-a ou não, isso em nada altera as nossas relações. Sou marido de Camille.

- Não quero saber. Só sei que o amo e você me ama. É casado, e daí? Não será isso que nos impedirá de fazer amor.

Como Léa se tornava desagradável proferindo palavras cujo sentido por certo ignorava! O que lhe propunha, porém, provava ser ele o ingênuo.

- Podíamos ir a um hotel. Há muitos em Montparnasse.

Sem querer acreditar no que ouvia, Laurent corou, levando algum tempo para responder:

- Nem pense nisso.

- Mas por quê? - disse Léa, arregalando os olhos com espanto. - Se eu mesma o estou propondo!

- É preferível esquecer o que acabo de ouvir.

- Você não sabe o que quer. Deseja-me, mas não tem coragem de o reconhecer. É digno de lástima.

Acabrunhado, Laurent fitou-a com tristeza. Em frente deles, o peixe esfriava, intocado.

- Não gostou da comida, senhorita? - perguntou o garçom.

- Deseja outra coisa?

- Não, pode deixar. Traga a conta - interrompeu-o Laurent.

- Muito bem, senhor.

- Quero beber - pediu Léa.

Aparentemente menos tensa, embora cheia de desespero, a jovem ingeriu a bebida devagar.

- O que queria me pedir?

Para que dizer-lhe? Sei que não vai aceitar.

- Só eu posso decidir - volveu Léa. - O que é?

Suspirando, Laurent respondeu:

- Queria lhe pedir que cuidasse de Camille. O médico teme uma gravidez difícil. Recomendou-lhe que ficasse na cama até o nascimento do filho.

- É uma grande amabilidade a sua ter pensado em mim - retorquiu Léa em tom irônico. - Mas Camille não tem ninguém que se ocupe dela?

- Não. Tinha apenas Claude. Agora só tem a mim e a meu pai.

- Então por que não a manda para Roches-Blanches?

- O médico receia o cansaço da viagem.

- E você não tem medo de deixar a sua querida mulherzinha grávida nas mãos da rival? Isso sem contar com os alemães que dentro em breve estarão em Paris, segundo você e seu amigo Tavernier.

Laurent escondeu o rosto nas mãos. Aquele gesto de desalento comoveu Léa, mas não a impediu de sorrir diante da atitude do homem amado.

- Está bem - disse ela. - Cuidarei da sua família.

Incrédulo, Laurent ergueu a cabeça, com os olhos úmidos.

- Então aceita?!

- Já disse que sim. Mas não acredite que vai escapar tão facilmente. Amo-o e farei tudo para que esqueça Camille.


Capítulo 10

Oito dias após a partida de Laurent, Léa ainda continuava sem compreender a que impulso obedecera. O acolhimento de Camille foi-lhe particularmente odioso quando a visitou, cedendo a seus insistentes telefonemas.

A jovem achava-se no quarto, deitada. Quis levantar-se à entrada de Léa mas não conseguiu, tomada de súbito mal-estar.

Estendeu os braços, agora mais magros, para a visitante.

- Estou tão contente em vê-la, minha querida! - exclamou.

Léa sentou-se na beira da cama. Não teve outro remédio senão corresponder-lhe aos beijos, embora sentisse repulsa. Com maligna alegria, constatou as olheiras e o abatimento da futura mãe.

- Laurent lhe falou do filho? - perguntou, corando e prendendo entre os dedos febris a mão que se abandonava às suas com reticência.

Léa aquiesceu em silêncio.

- Ele me disse que você concordou em cuidar de mim. Como poderei agradecer tal coisa? É tão boa! Sinto-me tão só desde que Laurent partiu! Quando não penso nele, o pensamento vai para o meu irmão morto tão estupidamente. Temo pelo filho que trago em mim. É vergonhoso dizê-lo, mas a você posso dizer tudo, não é verdade? Tenho medo... um medo terrível de sofrer e de morrer.

- Não seja boba. Não se morre por dar à luz uma criança.

- O médico diz a mesma coisa. Mas sinto-me tão fraca! Você não pode entender, pois vende saúde e energia.

- Não é com lamúrias desse gênero que vai se sentir melhor - atalhou Léa, mal-humorada.

- Tem razão. Desculpe-me.

- Teve notícias de Laurent?

- Sim. Ele vai bem. Tudo está calmo na frente de batalha. Não sabe em que ocupar os homens; eles se aborrecem e passam o tempo jogando cartas e bebendo. A única alegria dele é ter reencontrado os cavalos. Na última carta, faz uma descrição pormenorizada da Fauvette, do Gamin, do Wazidou e do Mystérieux.

Bateram à porta. A camareira anunciou a chegada do médico. Léa aproveitou para despedir-se, prometendo voltar no dia seguinte.

Nesse dia, fiel à promessa feita, ela foi de novo visitar Camille. O tempo estava magnífico. Todos os parisienses pareciam ter saído de casa, enchendo as esplanadas dos cafés no Faubourg Saint-Germain. Na esquina da Bac com a Saint-Germain havia um engarrafamento enorme. Os automóveis buzinavam, mais pelo prazer de fazer barulho do que para manifestar o nervosismo pela demora. Naquele belo dia de maio, todo mundo parecia calmo e alegre. Sem a presença dos sempre numerosos soldados e oficiais, ninguém diria que o país se encontrava em guerra.

Ao passar pela Livraria Gallimard, no Boulevard Raspail, Léa entrou a fim de comprar um livro para Camille. Desconhecendo suas preferências literárias, observava, indecisa, as inúmeras obras expostas - Posso ajudá-la em alguma coisa, senhorita?

Dirigia-lhe a palavra um indivíduo elegantemente vestido num terno de cor clara. Era alto, de rosto largo ligeiramente cheio, olhos azuis sombreados por longas e abundantes pestanas que lhe efeminavam o olhar. A boca, de lábios vermelhos, era finamente desenhada. Num gesto maquinal, reajustava o nó da gravata-borboleta amarela com bolinhas verdes. Léa, tomando-o pelo livreiro, replicou:

- Sim, por favor. Procuro qualquer coisa para distrair uma amiga doente. Mas não sei os gêneros que aprecia.

- Leve isto. Por certo lhe agradará.

- Escola de cadáveres... - leu a jovem. - De Louis-Ferdinand Céline... Acha mesmo? Parece meio macabro.

- É óbvio - comentou o desconhecido, reprimindo a custo um sorriso irônico. - Céline é exatamente o autor que convém a pessoas deprimidas. A leitura é fácil, o estilo, inimitável e as idéias, ao mesmo tempo cômicas e elevadas, colocam-no no primeiro plano dos autores da atualidade.

- Muito obrigada. Levarei, então, o livro. Quanto devo?

- Não sei. A funcionária do caixa lhe dirá. Desculpe, mas tenho de ir.

Apanhou de cima da mesa o chapéu cinzento com o qual cumprimentou Léa, inclinando-se antes de sair.

- Deseja levar o livro, senhorita? - inquiriu uma das vendedoras, aproximando-se.

- Levo, sim. Foi-me recomendado pelo cavalheiro que acaba de sair. Acha que é bom?

- Se o sr. Raphael Mahl recomendou, só pode ser bom afirmou a funcionária, com um sorriso amplo.

- Ele é o gerente da livraria?

- Oh, não! O sr. Mahl é um dos nossos mais fiéis clientes. Homem muito culto. Conhece a literatura contemporânea melhor do que ninguém.

- E que faz ele?

- Não se sabe ao certo. Às vezes tem muito dinheiro, outras, tem de pedir emprestado. Trabalha com quadros, obras de arte, acho eu, e ainda com livros antigos. É escritor, também. Publicou duas obras bastante notáveis na NRF.

Léa pagou o livro e deixou a loja, estranhamente impressionada pelo encontro. Subiu o Boulevard Raspail com o embrulho na mão. Ao chegar ao prédio de Camille, viu um homem que logo reconheceu ser Tavernier.

- Que faz aqui? - perguntou.

- Vim visitar a sra. d'Argilat - respondeu François Tavernier, tirando o chapéu.

- Não me parece que isso lhe agrade.

- Engana-se, minha cara. Camille aprecia muito a minha companhia. Acha-me uma pessoa divertida.

Da parte dela, isso não me admira. Engana-se sempre a respeito das pessoas.

- Mas não a respeito de todas; apenas de algumas. Tal como de você - respondeu ele, fitando-a com ar sonhador.

- Que quer dizer?

- Que não a vê tal como é, pois gosta de você.

Léa encolheu os ombros, parecendo querer dizer: "Que importa?"

- De fato - prosseguiu Tavernier. - Camille gosta de uma mulher que jurou tirar-lhe o marido. É ou não é isso que meteu em sua bela cabecinha?

Léa corou, mas conseguiu dominar a raiva. Respondeu em voz suave, com um sorriso inocente:

- Como pode dizer semelhante barbaridade? Há muito esqueci tal coisa. Laurent é para mim apenas um amigo que me confiou a mulher no momento de partir.

Tenho a impressão de que a incumbência não a diverte. Léa riu, um riso jovem e franco.

- Nisso você tem razão - conveio. Camille só se interessa por coisas entediantes.

- Enquanto você...

- Tenho desejo de ver tudo, de conhecer tudo. Se minhas tias não vigiassem as saídas e sem esta guerra que mobiliza os rapazes, iria jantar todas as noites em grandes restaurantes, dançar em cabarés e passar horas nos bares.

- Eis um bom programa! Que acha se viesse buscá-la às sete horas? Tomaríamos alguma coisa, iríamos em seguida ao music-hall e depois poderíamos jantar em algum lugar da moda. E, para terminar, dançar num cabaré ou ouvir canções russas.

Os olhos de Léa arregalavam-se diante da lista de prazeres, como os de uma criança em sua primeira noite de Natal. François Taverflher foi obrigado a um esforço sobre-humano para não a apertar OS braços, tão apetitosa lhe parecia com aquela índole determinada, o apetite de viver e a sensualidade à flor da pele.

- Seria maravilhoso, pois ando muito aborrecida.

A confissão em tom tão lamentável, proferida por aquela linda boca, quase deitou por terra os bons propósitos de Tavernier.

Mascarou a perturbação com uma gargalhada.

"Parece um lobo", pensou Léa. "É como os outros. Farei dele o que quiser."

- Então está combinado. Irei buscá-la às sete. Entretanto, telefonarei para suas tias, pedindo autorização.

- E se recusarem?

- Pode estar certa, minha boa amiga, de que nunca mulher nenhuma recusou um pedido meu - garantiu Tavernier com uma ironia que Léa tomou por convencimento.

- Verei o que minhas tias dirão, quando voltar para casa.

Até logo.

Esta súbita mudança de atitude não escapou à perspicácia de François Tavernier, que deixou Léa se perguntando se a moça tinha ou não senso de humor.

Ao entrar no amplo quarto de Camille, pintado de branco e bege, Léa descobriu-a junto à janela, com a testa apoiada na vidraça.

Envergava um vestido caseiro em cetim creme e o seu vulto confundia-se com o tom das paredes e do tapete. Virou-se ao ouvir a porta fechar-se.

- Mas o que está fazendo de pé? - gritou Léa. - Devia estar deitada.

- Não ralhe comigo. Sinto-me muito melhor. O sr. Tavernier veio hoje visitar-me e isso me fez bem.

- Eu sei. Encontrei-o na saída.

- Está preocupado por nossa causa. Acha aconselhável deixarmos Paris. Garanti-lhe que se inquietava sem motivo, que tudo está calmo na frente; tão tranqüilo, na verdade, que o general Huntzinger convidou a alta sociedade de Paris para assistir a um espetáculo teatral no quartel-general.

- Como soube?

- Laurent me disse na carta que recebi hoje.

- Como está ele?

- Muito bem. incumbiu-me de lhe dar um beijo e de dizer que gostaria de receber algumas linhas suas. Teve notícias de seus pais?

- Sim. Mamãe quer que eu volte para casa.

- Ah... - gemeu Camille, deixando-se cair no sofá.

- Não se preocupe. Escrevi dizendo-lhe que é impossível deixá-la agora, porque está sozinha e precisa de mim.

- E é bem verdade. Ainda há pouco falei nisso ao sr. Tavernier. Disse-lhe que a sua presença me tranqüiliza, que você me dá energia e coragem.

Sem responder, Léa tocou a campainha chamando a camareira. Ajude a sra. d'Argilat a deitar-se. Agora, você deve descansar, Camille. Ah, já ia me esquecendo. Trouxe-lhe um livro.

- Obrigada por ter pensado em mim, querida. Quem é o autor?

- Um tal Céline. Garantiram-me ser um grande escritor.

- Céline... você já leu algum livro dele?

- Não. E você?

- Tentei fazê-lo, mas seu texto é tão duro, tão terrível! Deve estar se confundindo. Trata-se de uma literatura própria para distrair, segundo me informou um certo Raphael Mahl.

- Que nome falou?

- Raphael Mahl.

- Já estou vendo, deve ter se divertido à sua custa. É um indivíduo imundo que emporcalha tudo aquilo em que toca. O seu maior prazer é praticar o mal, sobretudo em relação aos amigos.

A veemência de Camille surpreendeu Léa; nunca a ouvira expressar-se em termos tão severos acerca de alguém.

Que lhe fez ele?

- A mim pessoalmente nada. Mas traiu, levou ao desespero e roubou uma pessoa a quem eu e Laurent muito amamos.

- E eu conheço essa pessoa?

- Não, não conhece, Quando Léa voltou à Rue de l'Université, um portador acabara de entregar na casa três enormes buquês de rosas, diante dos quais Lisa e Albertine se extasiavam, cheias de exclamações:

- Que maravilha!

- Este sr. Tavernier é um verdadeiro homem de sociedade, desses que já não existem hoje.

Léa achava deliciosas aquelas duas solteironas que não só haviam passado juntas toda a vida como também não tinham se separado um único dia das suas existências. De modo natural, Albertine, a mais velha, apenas com cinco anos de diferença da irmã, transformara-se na chefe de família, gerindo o patrimônio deixado pelos pais, governando a criadagem com mão firme, decidindo sobre viagens ou sobre tarefas a realizar. Era aquilo a que se chama uma mulher de pulso.

Lisa vivia num terror permanente desde o início da guerra. Dormia com dificuldade e acordava ao mais leve ruído, sempre de máscara antiga ao alcance da mão. Nunca saía de casa sem levá-la consigo, pendurada no ombro, nem mesmo para ir à missa dominical na Igreja de São Tomás de Aquino ou em visita a uma amiga que morava no outro lado da rua. Lia todos os jornais e escutava todos os noticiários transmitidos pelo rádio, passando da Rádio Paris à Rádio 37, do posto parisiense à Rádio Ile-de-France. Aprontara a bagagem desde a invasão da Polônia. Insistira com a irmã no sentido de venderem o antigo e magnífico Renault, desenhado por Arthur Boulogne, e adquirirem um Vivastella Grarid Sport, mais rápido e mais espaçoso, veículo do tipo familiar. Após alguns passeios pelos arredores de Paris, para que Albertine - a única que sabia guiar - se familiarizasse com o novo automóvel, ele fora recolhido numa garagem de Saint-Germain, cujo garagista se comprometera a mantê-lo sempre em ordem.

Se acaso o homem se esquecia de cumprir a tarefa, a visita semanal de Lisa, com sua máscara antigás a tiracolo, para verificar se tudo estava em ordem, o fazia recordar-se.

- Léa, minha filha, o sr. Tavernier foi muito amável em convidá-la para assistir a um concerto em prol dos órfãos de guerra.

- E disseram que sim? - inquiriu Léa, reprimindo a custo o riso diante da mentira de Tavernier.

- Pois claro! Você pode aparecer em sociedade apesar do luto, visto tratar-se de uma obra beneficente - afirmou Albertíne.

- Mas será conveniente? - disse Léa em tom hipócrita, sentindo cada vez mais dificuldade em conter o riso.

- É claro que sim. O sr. Tavernier é uma pessoa bem situada, amigo de ministros e do presidente da República. Além disso, sua amiga Camille o recebe, o que diz tudo - interveio Lisa.

- Se é esse o caso, então poderei sair com ele sem problemas.

- Veja a delicadeza deste cor-de-rosa! - exclamou Lisa, exibindo o seu ramalhete à sobrinha.

- Não viu as suas? - disse Albertine, dobrando cuidadosamente o papel de invólucro do buquê que lhe coubera, de um tom amarelo carregado.

Léa rasgou a embalagem, descobrindo soberbas rosas brancas debruadas de vermelho. Havia um envelope no meio dos caules.

Apoderou-se dele num gesto rápido, escondendo-o no bolso do casaco.

- As flores da srta. Léa são as mais bonitas - observou Estelle, que acabara de entrar na saleta, transportando uma jarra de cristal cheia de água.

- Empreste-me a sua raposa, tia? - pediu Léa.

- Claro que sim, minha querida! Estelle vai levá-la ao seu quarto.

Léa acabara de se preparar quando a campainha da porta a sobressaltou. "Já?", pensou ela. O espelho do guarda-roupa refletiu sua imagem, à qual a jovem sorriu com agrado. Tavernier tinha razão: aquele vestido ficava-lhe muito bem, valorizando-lhe a cor da pele e a silhueta. No entanto, sentiu-se mal consigo mesma por ter acedido ao pedido dele, expresso no bilhete que acompanhava as flores: "Ponha o vestido que usou no outro dia. Fica linda com ele". Fosse como fosse, não tinha escolha possível, pois era o seu único traje longo.

Antes de sair do quarto, vestiu o casaco de raposa preta, a fim de ocultar das tias os ombros nus. Quando se juntou a eles na saleta, as duas velhas senhoras riam muito dos ditos de François Tavernier, que, em seu smoking preto, conversava com elas apoiado na pedra da lareira.

- Boa noite, Léa. Vamos depressa. Não podemos chegar depois do presidente.

- Apressem-se - disse Albertine, impressionada.

François Tavernier abriu a porta do magnífico Bugatti vermelho e negro, estacionado em frente do edifício. Era muito agradável o cheiro do couro dos estofados do automóvel de luxo. O veículo arrancou com um surdo ronronar.

- Que lindo carro! - exclamou a jovem.

- Tinha a certeza de que lhe agradaria. É preciso aproveitar, pois não se fabricarão mais 'puros-sangues" como este.

Por quê? As pessoas andarão de automóvel cada vez mais.

- Tem razão. Mas este modelo representa uma arte de viver que desaparecerá com a guerra.

- Ah, não! Nem uma palavra sobre a guerra esta noite ou desço imediatamente.

- Peço desculpa - disse Tavernier, pegando a mão de Léa e beijando-a.

- Aonde está me levando?

- Não se assuste. Não vou levá-la a nenhum concerto de caridade, ao contrário do que disse a suas tias. No entanto, esteja descansada que amanhã poderá ler no Le Fígaro ou no Le Temps:

"O sr. François Tavernier, conselheiro do ministro do Interior, esteve presente ao concerto de caridade da Opera, em companhia da encantadora e elegante srta. Léa Delmas".

- Como será isso possível?

- Tenho alguns amigos entre os jornalistas, que não se importarão de prestar-me esse insignificante serviço. Que diz de tomarmos alguma coisa no Coupole antes de ouvir Joséphine Baker e Maurice Chevalier no Cassino de Paris? O empregado do bar prepara excelentes coquéteis.

Léa achou Joséphine Baker magnífica, mas não gostou de Maurice Chevalier.

- Você está errada - comentou François Tavernier. - Chevalier representa atualmente o espírito francês.

- Nesse caso, não aprecio esse espírito feito de malícia, de autosuficiência, de atrevimento complacente e de enorme vulgaridade.

- Que estranha garota é você, frívola e ao mesmo tempo profunda! Em que tipo de mulher irá se transformar? Bem que gostaria de poder observar o seu crescimento.

No enorme átrio do Cassino de Paris, a multidão acotovelava-se à saída, comentando o espetáculo; era visível que agradara.

- Estou com fome - confessou Léa, apoiada ao braço do companheiro.

- Aí vamos nós! - exclamou Tavernier. - Gostaria de levá-la ao Monseigneur, mas não havia uma única mesa disponível, nem mesmo para mim. Assim, reservei uma no Shéhérazade. onde está Léo Marjane. A orquestra russa é uma das melhores de Paris.

Acho que você vai gostar.

Fosse por efeito do caviar, da vodca, do champanha ou dos violinos, o certo é que Léa se sentia inundada de uma alegria de viver que a fazia rir muito e reclinar a cabeça no ombro do companheiro. Divertido, este observava a jovem desabrochando sob o domínio do prazer. Léa pedira à orquestra que executasse uma valsa lenta e, sem cerimônia, convidou o parceiro para dançar.

Era dotada de tamanha leveza e graciosidade sensual que, dentro de pouco tempo, toda a assistência só tinha olhos para o par que deslizava lentamente.

François Tavernier sentia a jovem vibrar em seus braços. Estreitou o abraço e logo pareceram um só corpo deslizando na pista.

Esquecidos do mundo, continuaram dançando mesmo depois de a orquestra parar. Os risos e os aplausos chamaram-nos, então, à realidade.

Sem se importar com o público. Tavernier manteve Léa Contra si.

- Dança muito bem - afirmou ela em tom Convicto.

- Você também - disse Tavernier com admiração, escoltando-a ao lugar.

- Como é bela a vida! Gostaria de vivê-la sempre como neste momento: beber e dançar! - exclamou Léa, estendendo ao companheiro o copo vazio.

Já bebeu o suficiente, menina - advertiu Tavernier.

- Não: Quero mais.

François Tavernier fez um aceno ao maître e nova garrafa de champanha surgiu quase de imediato. Beberam em silêncio, embalados pelos acordes da música Olhos negros.

- Beije-me - pediu Léa. - Tenho desejo de ser beijada. Até mesmo por mim? -. disse o companheiro, inclinando-se para Léa.

- Sim, até mesmo por você.

Junto deles, um pigarrear insistente obrigou-os a afastarem os lábios. Um jovem de rosto muito pálido e de chapéu na mão parara diante da mesa.

Ah, Loriot! Que deseja?

Posso falar-lhe, sr. Tavernier? é muito importante.

- Desculpe, Léa. Só um momento.

Tavernier seguiu Loriot e pararam no bar. Depois de breve e acalorado colóquio, Tavernier regressou à mesa, de rosto fechado, - Venha. Vamos embora.

Já? Que horas são?

Quatro da madrugada. Suas tias devem estar inquietas.

- Claro que não! Sabem que estou com você. Acham-no uma pessoa da máxima respeitabilidade - objetou Léa, estourando de rir.

- Chega! Temos de ir.

Mas por quê?

Sem responder, Tavernier atirou algumas notas sobre a mesa e agarrou Léa por um braço, forçando-a a erguer-se.

- O casaco da senhora - pediu ele no vestiário.

Largue-me! Quer explicar-me, afinal, o que está acontecendo?

- Acontece, minha cara amiga - disse ele em voz surda -, que, neste preciso instante, os alemães estão borbardeando Calais, Bolonha e Dunquerque, e invadindo o espaço aéreo da Holanda e da Bélgica.

- Oh, não, meu Deus! Laurent!

De tenso que estava, o rosto de François Tavernier tornou-se violentamente mau. Por instantes, ambos se mediram com o olhar.

A chapeleira interrompeu-lhes o confronto silencioso, para ajudar Léa a vestir o casaco de pele de raposa.

Nenhum deles disse nada durante o caminho de volta. Quando chegaram diante do prédio da Rue de l'Université, Tavernier acompanhou Léa à porta. No momento em que ela introduzia a chave na fechadura, ele obrigou-a a virar-se, segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou seus lábios com fúria. Em atitude passiva, Léa deixou que a beijasse- - Gostei mais de você há pouco.

A jovem não deu resposta. Num gesto calmo, rodou a chave na fechadura e entrou, fechando lentamente a porta.

No silêncio da noite de maio, Léa permaneceu uns segundos a escutar as batidas de seu coração, confundidas com o ruído do motor do automóvel que se afastava.

No quarto, despiu-se, atirando a roupa ao acaso. Vestiu a camisola que estava estendida sobre a cama já preparada e deslizou para dentro dos lençóis, puxando o cobertor sobre a cabeça. Não se comparava à sua caminha infantil do quarto das crianças de Montillac, mas, mesmo assim, era um refúgio.

Adormeceu chamando por Laurent.


Capítulo 11

- Albertine... Estelle... Léa! Os alemães estão chegando! Os alemães estão chegando!

Estelle foi a primeira a surgir da cozinha, com os dedos brancos de farinha. Depois apareceu Albertine, de caneta em punho, metida em seu roupão de lã branca, e, por fim, Léa, com o cabelo em desalinho e o casaco de raposa atirado por cima da camisola.

- O que você tem para gritar assim? - perguntou Albertine com severidade.

- Os alemães... - soluçou Lisa, figura digna de lástima no seu penteador cor-de-rosa. - Invadiram a Bélgica. Noticiaram no rádio.

- Deus do céu! - exclamou Estelle.

Benzeu-se, e seus dedos enfarinhados deixaram-lhe marcas brancas no rosto.

- Então não foi sonho - murmurou Léa.

Albertine levou a mão ao pescoço, mas nada disse.

Nesse instante, o telefone retiniu demoradamente. Por fim Estelle foi atender.

- Aló? Não desligue, minha senhora. para você, Léa.

A moça pegou o fone.

- Sim, sou eu. . Chame o médico... Não está em casa?. Muito bem, de acordo. Acalme-se. Vou já para aí.

Léa explicou às tias o que se passava: Camille sentira-se indisposta ao ouvir as notícias transmitidas pelo rádio. A criada entrara em pânico e não tinham conseguido achar o médico. Iria para a casa de Camille.

- Quer que a acompanhe? - ofereceu-se Albertine.

- Obrigada, tia, mas não é preciso. Pode arranjar-me uma xícara de café, por favor, Estelle?

Ao chegar à casa de Camille, esta já recobrara os sentidos. Tive tanto medo, srta. Léa! - choramingou a criada. - Pensei que a senhora tivesse morrido.

- Certo, Josette, cale-se. Deixou recado para o médico?

- Deixei, sim, senhorita. Ele virá quando regressar do hospital.

O quarto de Camille estava mergulhado em penumbra; apenas uma lampadazinha iluminava fracamente parte do leito. Com cuidado para não esbarrar nos móveis, Léa aproximou-se. No rosto de Camille estampava-se uma expressão de tamanho sofrimento que Léa se apiedou dela. Inclinou-se sobre a doente e, com suavidade, pousou a mão sobre sua fronte gelada. Camille abriu as pálpebras sem reconhecê-la.

- Não fale. O médico vem aí. Eu fico com você. Durma.

A jovem sorriu levemente e fechou os olhos outra vez.

Léa permaneceu no mesmo lugar até a chegada do médico, no começo da tarde. Ele parecia preocupado ao sair do quarto.

- A senhorita é o único membro da família presente neste momento junto da sra. d'Argilat? - perguntou ele.

Léa ia esclarecê-lo quanto aos laços de parentesco que as uniam, mas não quis entrar em explicações demoradas.

- Sim - respondeu.

- Não lhe escondo a minha inquietação. A doente terá de permanecer em absoluto repouso. E conto com sua ajuda para poupar- lhe contrariedades.

- Isso me parece bastante difícil hoje em dia - ironizou Léa.

- Bem sei - suspirou o médico, redigindo a receita. - Mas é necessário, na medida do possível, garantir-lhe a máxima tranqüilidade.

- Tentarei, doutor - asseverou Léa.

- Quero alguém junto dela permanentemente. Aqui tem o endereço de uma pessoa com excelentes qualificações. Telefone-lhe e diga que fui eu que a recomendei. Espero que ela esteja livre. Voltarei amanhã. Até lá, siga à risca as prescrições da receita.

A enfermeira, a sra. Lebreton, viúva da Guerra de 14, chegou pelas seis horas da tarde e assumiu o posto com uma autoridade que logo desagradou a Léa mas que igualmente a aliviou. A idéia de passar a noite em casa de Laurent era-lhe tão insuportável como as lágrimas de Camille. Após anotar o número do telefone de Léa, a sra. Lebreton afirmou-lhe que poderia partir sem se preocupar.

Reinava a maior desordem em casa das senhoras de Montpleynet. Lisa queria seguir de imediato para Montillac, enquanto a irmã achava que deveriam aguardar os acontecimentos.

Léa riu ao ver tia Lisa em traje de viagem, com o chapéu torto na cabeça e apertando contra o corpo a máscara antigás, sentada numa das malas que atulhavam a entrada.

- Não saio daqui à noite - asseverou a tia com modos agastados.

Albertine conduziu a sobrinha à saleta.

- Não creio que consigamos fazê-la ouvir a voz da razão disse ela. - Seremos obrigadas a partir. Aliás, seus pais telefonaram, pedindo que volte o mais rapidamente possível.

- Não posso. Camille está doente e não tem ninguém que cuide dela.

- Nesse caso, nós a levaremos conosco.

- O médico proibiu-a terminantemente de viajar.

- Mas eu não posso deixá-la sozinha em Paris, nem permitir que a cabeça-de-vento da Lisa vá sem mim!

- Tudo isso é absurdo, tia. Os alemães estão longe, e o nosso exército irá impedi-los de avançar.

- Tem razão. Acho que nos preocupamos sem motivo. Vou tentar convencer Lisa.

François Tavernier ajudou-a nessa tarefa. Viera à casa das senhoras de Montpleynet saber notícias de Camille por intermédio de Léa, pois a enfermeira recusara-se a deixá-lo entrar no quarto da doente.

Garantiu à trêmula Lisa que nada teria a recear enquanto ele próprio permanecesse em Paris. Ela concordou então em ficar ali até segunda-feira de Pentecostes, não duvidando de que o Espírito Santo inspiraria os chefes militares.

- E, além disso, minhas senhoras, não estamos sob a proteção de Santa Genoveva, padroeira de Paris? - disse François Tavernier.

- Esta tarde, havia uma enorme multidão em Saint-Etiennedu-Mont, bem como em Notre-Dame, onde o sr. Paul Raynaud, rodeado por bispos e ministros radicais, implorou a proteção da Virgem para a França. No Sacré-Cceur, os órgãos tocaram a Marselhesa. Deus está conosco, não tenham dúvidas.

Tavernier pronunciou a última frase com uma expressão tão sisuda que Léa ter-se-ia deixado convencer dessa seriedade se uma piscadela sua não lhe desse a entender o que ele pensava de sua própria tirada.

- Tem razão - concordou Lisa, mais tranqüila. - Deus está conosco.

No dia seguinte, Camille reencontrara a calma perdida e seu rosto adquirira alguma cor. A seu pedido, Léa comprou um mapa a fim de lhe permitir - segundo disse - saber exatamente onde Laurent se achava e acompanhar o progresso das tropas francesas em território belga. Foi retirada da parede uma grande tela de Max Ernst e substituída pelo mapa. Utilizando pequenas bandeiras multicoloridas Léa assinalou as posições do exército francês e do exército alemão.

- Laurent não pertence ao exército de Giraud, felizmente. Está nas Ardennes, não muito longe da linha Maginot - disse Camille.

- No entanto, François Tavernier afirma ser este ponto fraco da defesa francesa.

- Não é verdade. Se assim fosse, não teriam concedido tantas licenças nestes últimos tempos! - objetou Camille com veemência.

- Está na hora da injeção, sra. d'Argilat - anunciou a sra. Lebreton, entrando no quarto sem bater à porta. - A senhora deve repousar. O médico vem daqui a pouco e com certeza não ficará satisfeito vendo-a agitar-se desse modo.

Como criança apanhada em falta, Camille corou, e balbuciou:

- Tem razão.

- Bem, vou ver se minha tia Lisa fez mais alguma das suas. Anda de tal modo atarantada que é capaz de tudo - observou Léa, erguendo-se.

- Quando penso que é por minha causa que vocês não podem ir...

- Não creia nisso. Não tenho o mínimo desejo de ir-me embora nesta altura. É muito mais divertido estar aqui do que em Langon ou mesmo em Bordeaux.

- Divertido... divertido... - proferiu a enfermeira entre dentes.

Léa e Camille dissimularam um princípio de gargalhada. Amanhã, não se esqueça de me trazer os jornais - recomendou Camille.

- Amanhã não haverá jornais. É Pentecostes - recordou Léa, ajeitando o chapéu.

- Ah, é verdade! Rezarei para que esses boches nojentos sejam expulsos. Não chegue muito tarde.

- Está bem. Então, até amanhã. E descanse.

Ao atravessar a Rue de Grenelie, Léa, distraída com seus pensamentos, resvalou num transeunte. Desculpou-se, reconhecendo de imediato o indivíduo que a aconselhara a adquirir a obra de Céline.

O homem também a reconheceu e tirou o chapéu, cumprimentando-a.

- A sua amiga gostou do livro? - inquiriu.

- Não sei. Mas tenho a impressão de que o senhor zombou de mim ao recomendá-lo.

- Acha que sim?

- Acho. Mas não tem importância.

- De fato, não tem. Perdoe-me por ainda não ter me apresentado. Raphael Mahl.

- Eu sei.

O homem fitou-a com espanto, aliado a uma certa inquietação.

- Será que temos amigos comuns?

- Não creio. Bem. . tenho de ir andando. Até depois, sr.

Mahl.

- Não vá embora assim. Gostaria de voltar a vê-la. Como se chama?

- Léa Delmas - respondeu a moça, sem saber verdadeiramente por que o fazia.

- Por volta da uma hora, estou todos os dias na esplanada do Deux-Magots. Terei imenso prazer em oferecer-lhe uma bebida.

Léa despediu-se com uma inclinação de cabeça e afastou-se sem responder.

Reinava a maior calma na Rue de l'Université - a casa achava- se vazia. Inquieta, Léa pensou se a fúria de partir não teria assaltado Lisa novamente, e se ela não teria conseguido arrastar Albertine e Estelle com seu terror. Mas não teve de se interrogar durante muito tempo, pois as tias apareceram, seguidas da criada.

- Se visse toda aquela gente, aquele fervor! Deus não pode nos abandonar! exclamou Lisa, sem fôlego, desembaraçando-se do ridículo chapéu cor-de-rosa, enfeitado com um grande ramo de violetas.

- Foi comovente - interveio Albertine com calma, despindo o casaco do conjunto cinzento.

- Tenho certeza de que, com todas estas preces e procissões, os boches não têm a mínima chance - assegurou Estelle, encaminhando-se para a cozinha.

- De onde estão vindo? quis saber Léa.

- Estivemos em Notre-Dame. Os parisienses foram convidados para se reunir ali para orar - esclareceu Lisa, arrumando o cabelo diante de um dos espelhos venezianos da entrada.

Léa entrou na saleta, onde imperava um enorme aparelho de rádio tinindo de novo.

- Uma aquisição de sua tia Lisa - esclareceu Albertine, em resposta ao olhar da sobrinha.

- O outro quebrou?

- Não. Mas Lisa faz questão de ter um no quarto, perto da cama e sempre ligado. Quer estar a par das notícias o tempo todo, de dia e de noite. Ouve até a emissora londrina.

Léa girou um dos botões do aparelho. Após alguns instantes de silêncio, seguidos de alguns estalidos, ouviu-se a voz do locutor:

- "... Depois de amanhã, chegarão à Gare du Nord os primeiros comboios de refugiados belgas e holandeses. Que todas as pessoas que desejam manifestar-lhes simpatia venham acolher esses infelizes e entregar donativos à Cruz Vermelha francesa"- - Nós iremos - decidiu Albertine em tom firme. - Telefone ao motorista, Léa, e diga-lhe para estar aqui com o automóvel amanhã de manhã. Eu e Estelle vamos ver como estamos de mantimentos e de roupa.

Ao chegar à casa de Camille, Léa encontrou-a desfeita em lágrimas e ajoelhada em frente do aparelho de rádio, apesar das súplicas de Sarah Mulstein, que viera visitá-la, e das censuras da sra. Lebreton.

- Deixem-me e calem-se! Quero ouvir as notícias! - gritou Camille, à beira de uma crise de nervos. - Ah, é você, Léa? Diga- lhes que me deixem em paz.

- Volto daqui a pouco - disse Sarah, retirando-se.

Após sua saída, Léa, com decisão, expulsou a enfermeira do quarto.

- Escute! Estão transmitindo o comunicado do quartel-general francês.

- "De Namur a Mézières, o inimigo conseguiu ocupar duas cabeceiras de ponte, uma delas em Houx, ao norte de Dinant, a outra em Monthermé. Uma terceira, mais importante, localiza-se no bosque de Marfée, próximo de Sedan..

- Veja no mapa onde fica o bosque de Marfée - pediu Camille. - É muito perto do local onde Laurent está.

Léa obedeceu e foi postar-se em frente ao mapa. Aproximou o indicador de Sedan e depois de Moiry, onde Laurent d'Argilat se encontrava.

- Não é assim tão perto. Fica a uns vinte quilômetros.

- Uns vinte quilômetros! Que é isso para um exército que dispõe de carros de assalto e de aviões, capazes de lançar bombas por toda parte? Já não se lembra do que aconteceu na Polônia, quando a cavalaria enfrentou os tanques alemães? Massacrados, foram todos massacrados! Não quero que isso aconteça a Laurent!

gritou Camille, atirando-se ao tapete, com o corpo sacudido pelos soluços.

Léa nada disse. Ficou olhando o mapa. A bandeirinha vermelha que assinalava o local onde estava sediado o 18 Regimento de Caçadores de Cavalaria pareceu-lhe uma mancha de sangue sobre o verde que indicava a floresta.

Camille tinha razão: vinte, trinta ou mesmo cinqüenta quilômetros representavam uma distância insignificante para os tanques.

Por onde passariam para ir matar o homem que ambas amavam? Seria por Mouzon? Por Carignan? Para ela, existia apenas a pequena aldeia de Moiry, subitamente transformada no centro do universo, na área de maior importância daquela guerra. Tinha de saber ao certo o que acontecia ali. Quem podia informá-la? François Tavernier? Ele devia estar a par dos acontecimentos.

- Sabe onde poderemos encontrar François Tavernier? - perguntou Léa.

Camille ergueu para ela o rosto molhado de lágrimas.

- François Tavernier?... Boa idéia! Esteve aqui ontem e disse uma porção de coisas tranqüilizadoras. Está no serviço de informações, no Hotel Continental. Escreveu na minha agenda o número do telefone. Está ao lado da jarra de flores.

A agenda se abriu de imediato na página escolhida, inteiramente ocupada por um nome e por um número de telefone, redigidos em caligrafia grande e elegante. Léa marcou o número. Atendeu-a uma voz de mulher, que se identificou; depois surgiu na linha uma outra, desta vez masculina.

- É o sr. Tavernier? - perguntou Léa.

- Não. Aqui fala Loriot. Conhecemo-nos há dias. Desculpe-me, não me recordo.

- Na boate russa - esclareceu Loriot.

- Ah, sim! Já me lembrei.

- Em que lhe posso ser útil, srta. Delmas? O sr. Tavernier não está.

- Quando volta?

- Não sei. Partiu para a frente de combate a pedido do ministro.

- Para onde?

- Lamento muito, mas não posso informar. Segredo militar. Assim que o sr. Tavernier regressar, porém, comunico-lhe o seu telefonema. Pode ficar sossegada.

- Muito obrigada. Até logo.

Léa encarou Camille com um gesto de impotência. "Como ela o ama!", pensou, ao ver o rosto da mulher recurvada no chão.

Levante-se - ordenou com aspereza.

Um pouco de cor apareceu nas faces pálidas.

- Está bem. Desculpe-me. Estou me portando de maneira ridícula. Laurent teria vergonha de mim, se me visse agora.

Ergueu-se a custo, apoiando-se na cadeira. Oscilou ao pôr-se em pé, conseguiu restabelecer o equilíbrio e, sob o olhar frio e desdenhoso de Léa, encaminhou-se para a cama, onde se esforçou para sentar-se com dignidade, cerrando os dentes como para abafar um grito de dor. Depois, as mãos de dedos violáceos ergueram-se à altura do coração, enquanto a boca se abria num apelo mudo. O médico entrou no quarto nesse preciso instante.

- Santo Deus! - exclamou o recém-chegado.

Precipitou-se para a doente e deitou-a na cama com suavidade.

- Chame a enfermeira - ordenou a Léa, ao mesmo tempo que abria a maleta.

Quando Léa regressou, seguida da sra. Lebreton, o médico acabara de aplicar uma injeção no braço de Camille.

- Recomendei-lhe que não saísse do lado da doente, sra. Lebreton. A sra. d'Argilat quase morreu e esta aqui olhava para ela sem fazer nada - disse o médico, designando Léa.

A jovem preparava-se para responder, encolerizada, quando Josetie entrou no quarto, informando que a sra. Mulstein voltara e desejava saber notícias da doente.

- Vou recebê-la - decidiu.

Quando Léa entrou na sala, Sarah Mulstein encontrava-se reclinada no divã. Ergueu o peito, mas, reconhecendo a jovem, reassumiu a postura lânguida.

- Desculpe não me levantar, Léa, mas estou esgotada. Como vai Camille?

- Mal.

- Que podemos fazer?

- Nada - interveio o médico, aparecendo no salão. - A doente tem necessidade de repouso absoluto. Srra. Delmas, poderia encontrar o marido dela?

Mas, doutor, ele está na frente de combate!

- É verdade, é verdade... A guerra nos faz perder a cabeça. Não consigo deixar de pensar nos horrores da última e em todas aquelas mortes inúteis, agora que tudo isso está prestes a recomeçar.

- Fez uma pausa e depois prosseguiu, limpando os óculos embaçados no lenço amarrotado: - A doente agora está dormindo e a crise passou. É absolutamente necessário que ela tome consciência de que porá em risco a vida do filho se não se dominar.

Proibi-a de ler jornais e de escutar noticiários. Mas ponho em dúvida a sua obediência total a esta ordem. Deixei instruções à sra.

Lebreton. Agora tenho de ir embora, mas voltarei amanhã. Até logo, minhas senhoras.

As duas mulheres ficaram em silêncio por instantes.

- Pobre Camille! - suspirou Léa. - Escolheu uma péssima hora para trazer ao mundo uma criança.

- Acha mesmo? - disse Sarah, erguendo-se. - O que vai fazer hoje à noite? Quer jantar comigo?

- Com muito prazer. Mas tenho de ir para casa mudar de roupa e avisar minhas tias.

- Está muito bem vestida assim - objetou Sarah. - E pode tomar um banho em minha casa. Telefone a suas tias e diga-lhes que estará de volta antes das dez horas.

Léa concordou. Telefonou às tias, mas apenas Estelle se encontrava em casa; as senhoras de Montpleynet ainda não tinham voltado. A criada insistiu em que ela não deixasse de chegar na hora combinada.

A pequena sala do L'Ami Louis estava lotada, O dono, "já que elas eram amigas do sr. François Tavernier", mandou colocar uma mesa redonda de tampo de mármore em frente da entrada. Retirou a luz da porta. Um criado pendurou nela o cartaz onde se lia "lotado" e correu a cortina de veludo suja, isolando o restaurante dos olhares dos transeuntes.

Léa olhou em volta com curiosidade. Era a primeira vez que freqüentava esse gênero de estabelecimento, muito diferente do que ela imaginava ser um restaurante elegante.

- Vou levá-la a um bar da moda - prometera Sarah, momentos antes.

As paredes amareladas projetavam sobre os clientes uma luz que lhes conferia um tom bilioso. A serragem espalhada sobre os ladrilhos formava uma pasta úmida e imunda sob os pés. Os assentos de madeira eram duros e desconfortáveis, o ruído e o fumo, desagradáveis.

O criado pôs a mesa com desembaraço. A alvura impecável da toalha, o brilho dos copos e dos metais contribuíram para tranqüilizar Léa um pouco. Virou-se para a companheira para dizer alguma coisa:

- Vem aqui muitas vezes?

- Bastante. Como lhe disse, foi François Tavernier quem me indicou este restaurante. O patê de fígado, a carne, as aves e o vinho são excelentes. O ambiente não é muito atraente, mas diante da qualidade da cozinha e da gentileza do pessoal a gente logo esquece esse detalhe.

- Que vinho deseja, minha senhora? - perguntou o garçom.

- Como se chama aquele que o sr. Tavernier acha muito bom?

- É de fato muito bom, minha senhora, Château la Lagune.

- Muito bem. Vamos beber à sua saúde.

Como conhecedora e perita em vinhos, Léa saboreou a bebida.

Quando chegou a Paris, Sarah instalou-se no Hotel Lutécia para não se preocupar - segundo dizia - com problemas domésticos.

Ao entrar no quarto, duas horas antes, acompanhada de Léa, desembaraçara dos sapatos atirando-os para o extremo oposto da sala, e lançara o casaco de tecido leve sobre uma das camas gêmeas, cobertas por colchas de algodão florido.

- Fique à vontade. Vou abrir a água do banho.

Depois Sarah saiu do banheiro, envergando um penhoar azul.

- A banheira enche muito depressa - avisou. - Os sais estão no armário. Quer beber alguma coisa? Vou encomendar um Alexander. O barman o prepara muito bem.

- De acordo quanto ao Alexander - disse Léa, um tanto intimidada pela naturalidade daquela mulher que mal conhecia.

Quinze minutos depois, Léa saiu do banheiro, com as faces rosadas, os cabelos presos no alto e envolta num penteador malva.

- Como você é jovem - exclamou Sarah. - Nunca vi tez como a sua nem uns olhos e boca tão bonitos! Não é à toa que se apaixonam por você.

Léa corou sob a avalancha de elogios, sentindo-se pouco à vontade.

- Tome a sua bebida. Reservei mesa num restaurante de que gosto muito. Espero que lhe agrade.

Enquanto falava, Sarah revolvia o interior de várias malas abertas no meio do quarto, retirando delas algumas peças de roupa íntima azul-clara e meias cinzenta-escuras. De outra mala, tirou um vestido de lã um pouco amarrotado.

- Não demoro muito - comunicou, desaparecendo novamente no banheiro.

"Mas que desordem!", pensou Léa. "E mamãe me acha desordeira!" Que diria se a filha fosse como Sarah? Com espanto, apercebeu-se de que havia diversos dias não pensava na mãe. Prometeu a si mesma escrever-lhe uma longa carta.

- Ligue o rádio! - gritou Sarah do outro lado da parede.

Léa olhou em volta, removeu vestidos, casacos e jornais, sem encontrar qualquer aparelho que se assemelhasse a um rádio. Sarah reapareceu de combinação curta, secando os cabelos com uma toalha.

- Por que não ligou o rádio? Está na hora do noticiário.

- Não consegui encontrar o aparelho.

- Ah, é verdade! Tinha me esquecido! Vieram buscá-lo para consertar. Mas... ainda não está vestida?

Com um gesto, Léa indicou ter deixado a roupa no banheiro.

- Não sei onde estou com a cabeça esta noite! Na verdade, estou muito cansada.

De volta ao quarto, Léa foi encontrar Sarah meio escondida debaixo de uma das camas à procura dos sapatos, que foram achados, por fim, dentro do cesto dos papéis. .

O garçom trouxe um recipiente com patê de fígado e grossas fatias de presunto de Bayonne, ao mesmo tempo que outro servia o vinho.

- A seguir, há costeletas de vaca, estufado à provençal, quarto de carneiro e pombos com ervilhas.

- Escolha os pombos, são excelentes - aconselhou Sarah Mulstein.

Sorrindo, Léa concordou com um aceno de cabeça.

- E agora bebamos à saúde do nosso amigo François - disse Sarah, erguendo o copo.

- Eis uma proposta que vai direto ao coração! - proferiu atrás delas a voz alegre de Tavernier. Parecia mais jovem com os cabelos ligeiramente desalinhados, camisa de gola rulê e paletó de tweed.

- François! - exclamou Sarah. - Que bela surpresa! Julgava-o sepultado sob as bombas alemãs.

- Por pouco não aconteceu isso - respondeu ele, inclinando- se para beijar a mão estendida, em que cintilava um magnífico diamante. - Boa noite, Léa. Sua tia já se refez do susto?

- Boa noite. Por enquanto vai bem.

- Disseram-me que tinha telefonado. Nada de grave, espero.

- Camille queria falar com o senhor. Mas pensei que estivesse na frente de combate.

- De fato, estive. Regressei ao fim da tarde. Como meu aspecto indica, nem sequer tive tempo para mudar de roupa. Estou desculpado? Embora a mesa seja pequena, posso juntar-me a vocês?

- Nem é preciso perguntar. Nós lhe arranjamos espaço - respondeu Sarah.

- Traga uma cadeira - pediu Tavernier ao garçom.

- Não vai ficar bem instalado, sr. Tavernier - objetou ele.

- Não tem importância.

- O que deseja comer, sr. Tavernier?

- Uma costeleta de vaca bem malpassada.

O garçom dos vinhos apareceu de novo, enchendo os copos. Em silêncio, com ar sonhador, François Tavernier bebeu o seu. Léa morria de vontade de lhe perguntar o que vira, mas não se atrevia.

- Não nos atormente! - exclamou Sarah. - Que acontece por lá?

Um lampejo de contrariedade perpassou pelos olhos sombrios de Tavernier. Fitou uma após outra aquelas duas mulheres tão diferentes entre si e tão diversamente belas - a morena de grandes olhos negros, pele clara, embaciada, nariz grande e arqueado, boca larga desvendando duas fileiras de dentes admiráveis; e a selvagem de cabeleira indisciplinada e reflexos flamejantes, cabeça obstinada, boca sensual e estranho olhar dentro do qual os homens gostariam de perder-se. E aquele movimento de cabeça quando prestava atenção a alguma coisa!.

- Vamos mudar de assunto - disse Tavernier. - Não quero perturbar-lhes os pensamentos agradáveis. Conversaremos sobre o caso amanhã.

- Amanhã, não! Agora! - replicou Sarah Mulstein impetuosamente, apertando o braço do amigo. - Tenho o direito de saber - prosseguiu ela em tom mais surdo. - Se os názis ganharem a guerra, nunca mais verei meu pai nem meu marido.

- Eu sei, Sarah, eu sei.

- Não, não sabe. Não sabe do que eles são capazes.

- Acalme-se, Sarah. Sei tão bem quanto você. Embora os acontecimentos tenham se precipitado, não perdi os meus contatos na Alemanha, e as notícias que me chegam não são más. No entanto.

- No entanto?

- ... tenho dúvidas se ficarão mais seguros na França.

- Como pode ter dúvidas? A França é um país livre, uma terra acolhedora, a pátria da Declaração dos Direitos do Homem. A França nunca prenderá judeus sob o simples pretexto de serem judeus.

- Admiro sua confiança na justiça do meu país. Faço votos para que esteja certa.

- Mas nós ganharemos a guerra - interveio Léa, silenciosa até esse momento.

François Tavernier não teve que responder-lhe, pois chegaram os pratos encomendados.

Os três eram gulosos e começaram a saborear a comida em silêncio. Depois, pouco a pouco, graças ao vinho e à qualidade dos alimentos, fizeram o possível para conversar sobre tudo e sobre nada. O jantar terminou em meio a risos e com um início de embriaguez por parte das duas mulheres, sobretudo de Léa, que bebera muito.

- Oh, já são dez e meia! - exclamou, erguendo-se. - Minhas tias devem estar preocupadas.

- Venha. Vou acompanhá-la - propôs François Tavernier. Depois, dirigindo-se ao garçom e deixando a gorjeta sobre a mesa, disse:

- Ponha a despesa na minha conta.

Quando Léa chegou em casa, as tias estavam cansadas demais para lhe fazerem qualquer observação quanto ao atraso. Distraídas, cumprimentaram Sarah Mulstein e François Tavernier e pensaram apenas no instante de irem para a cama.

- Dê-me notícias de Camille - recomendou Sarah, despedindo-se de Lea com um beijo em cada face.


Capítulo 12

Tudo correu depressa demais para Léa depois desse dia 14 de maio, data em que François Tavernier lhe comunicou a derrota da França.

Ela e Camille acompanharam no mapa a impetuosa invasão alemã, sem conseguirem acreditar que isso fosse possível. Receavam por Laurent, de quem a mulher não recebia notícias desde a ofensiva de 10 de maio e que se encontrava diante das divisões blindadas de Guderian. Apesar da censura nos jornais e no rádio, adivinhavam, de coração apertado, que milhares de soldados franceses iam se deixando matar a troco de nada nos caminhos do Meuse e do Some. Circulavam as informações mais alarmantes, transmitidas pelas hordas dos fugitivos: pilhagem de cidades e de aldeias, bombardeios contínuos, derrota do 90 Exército comandado por Corap e depois por Giraud, que procurava em vão reunir os destroços, colapso do 2 Exército, o de Laurent, chefiado pelo general Huntzinger, presença de espiões fervilhando por toda parte, crianças perdidas, velhos e doentes ao abandono...

François Tavernier insistira em que Léa e Sarah deixassem Paris. Sarah recusara-se, dizendo que, se o pai e o marido conseguissem fugir da Alemanha, seria ali que teriam possibilidade de encontrá-la. Quanto a Léa, não podia deixar a cidade, pois o estado de saúde de Camille, após ligeiras melhoras, agravara-se nos últimos tempos.

Lisa conseguira sua vitória. Por momentos tranqüilizada pela destituição do general Gamelin e, sobretudo, pela nomeação do marechal Pétain para vice-presidente do conselho, o pânico sentido fora mais forte depois passados dois dias, as irmãs Montpleynet, na companhia de Estelle, abandonavam a casa da Rue de l'Universi té confiando Léa a Sarah Mulstein e a François Tavernier.

Até o último instante, tiveram esperança de que a sobrinha as acompanhasse receosas de enfrentar as reprovações de Isabelle e de Pierre Deirnas.

A contragosto, ele autorizara a filha a permanecer em Paris, em casa de Camille, sobretudo para sossegar o seu velho amigo D'Argilat, o qual, doente, se desesperava ao saber que a nora estava sozinha.

Finalmente, no dia 30 de maio, chegaram duas cartas de Laurent. Triunfante, Josette levou-as ao salão onde Camille e Léa estavam sentadas, perto da janela.

- Minha senhora, minha senhora, cartas do senhor! - gritou a criada.

As duas mulheres ergueram-se de um salto, com o coração palpitando, incapazes de dizer qualquer coisa. Josette ficou olhando-as de braço estendido, segurando na mão duas volumosas mensagens cobertas de carimbos militares, espantada pelo fato de a boa nova não ter sido mais bem recebida. Camille tornou a sentar-se devagar.

- Não tenho coragem. Quer abri-las, Léa?

Sem responder, mais as tomou do que as recebeu nas mãos. Rasgou os envelopes, servindo-se do indicador que tremia, e, desajeitadamente, desdobrou as folhas de papel de má qualidade, cobertas por uma caligrafia densa. Uma das cartas vinha datada de 17 de maio, a outra de 28.

- Léa, por favor - insistiu Camille em voz sumida.

- "Minha querida mulher - começou Léa.

A frase oscilou diante de seus olhos. "Minha querida mulher - palavras que não lhe eram dirigidas. Para ocultar a perturbação, aproximou-se da janela.

- Continue.

À custa de um esforço que Camille não podia adivinhar, Léa recomeçou a leitura em tom monocórdio:

 

"Minha querida mulher:

Como pensei em você no decurso destes dias, sozinha, no estado em que se encontra e sem receber notícias! Em Paris, é provável que esteja mais bem informada daquilo que acontece aqui. É tudo tão incrível! Procuro em vão entender o que se passou desde que os alemães invadiram a Bélgica e Luxemburgo. Deixei Paris para cumprir o meu dever. Mas, em vez disso, foi necessária a retirada; de soldados transformamo-nos em fugitivos, ao lado de colunas de refugiados. Por toda parte se vêem veículos transbordando de gente, motocicletas, bicicletas, pilhas de malas e de sacos. Homens e mulheres em prantos, crianças gritando, arrastando-se a pé pelas estradas, vagueando sob um calor terrível.

Os bombardeios inimigos multiplicam-se a cada dia. São saqueadas aldeias desertas. Só os animais ficaram: porcos, bezerros errantes, potros amedrontados e vacas mugindo, que nos seguem espera da ordenha.

Apenas o pensamento de sabê-la em segurança me anima, minha querida; não gostaria que presenciasse o espetáculo dos refugiados nas valetas e pelos campos como se fossem cadáveres, gritando de terror às rajadas dos aviões.

Odeio a guerra, como você sabe. Mas sinto vergonha da debandada das nossas tropas, da derrota dos nossos chefes militares.

Pensei em você todos estes dias, pensei no nosso filho, no nosso pai, em Roches-Blanches, em tudo aquilo que representa a minha razão de existir. Pensei também na honra. Por vezes me desespero por não estar na linha de frente, por não repelir o inimigo de armas na mão. Senti náuseas e vontade de chorar vendo pirâmides de cavalos feridos, empalados, esmagados. Dormi nas matas todos estes dias ou em celeiros, comendo aquilo que conseguia encontrar. Estou esgotado, sinto-me enganado e humilhado. Mas que posso fazer?"

 

Léa entregou a Camille as folhas da primeira carta, deixando- lhe o cuidado de inteirar-se por si mesma das palavras ternas que a rematavam e que tanto mal lhe faziam.

Leia a outra, querida. Ambas amamos Laurent, e quero que em conjunto saibamos o que faz, o que lhe acontece.

Léa sobressaltou-se, perguntando a si própria o que quereria Camille significar com aquele "ambas amamos Laurent". Teria adivinhado a natureza dos sentimentos que ela dedicava a Laurent? Ou seria apenas tola e confiante?

A segunda carta tinha a data do dia 28 de maio de 1940:

 

"Minha doce amiga:

Depois da carta anterior, já percorri uma grande distância; estou apenas a cinqüenta quilômetros de Paris. E enche-me de raiva o fato de sabê-la tão próxima sem poder vê-la. Suas cartas chegaram todas a' mesmo tempo. Sinto-me feliz e tranqüilizado por Léa estar com você. Comunique-lhe a minha gratidão e o meu afeto.

Recebi também notícias de meu pai, não muito boas, infelizmente. Receio que a guerra que ele considerava tão funesta para a França e os reveses que experimentamos acabem por agravar-lhe o estado de saúde.

O moral de todos nós é bastante sombrio, e a leitura dos jornais - que há muito não recebíamos - não veio contribuir para melhorá-lo; bombardeios na Holanda e na Bélgica, ocupação de Amiens, de Abbeville, de Bolonha e de Calais, as divisões aliadas praticamente cercadas em Flandres, a destituição de Gamelin e sua substituição pelo jovem Weygand... Talvez a esperança e a honra da França se salvem com a nomeação do marechal Pétain para a vice-presidência do conselho.

Estou enviando o meu diário de todo este período de guerra. Leia-o, se tiver coragem. Através dele, talvez consiga ver as coisas com maior clareza. Perdoe-me por aborrecê-la com a narrativa dos problemas de reabastecimento e das correrias através das matas. São peripécias bem insignificantes, mas fazem parte do meu cotidiano desde o dia 10 de maio. Tal como lhe disse, estou satisfeito por não ser obrigado a combater, não por covardia, pode crer, mas sim por horror ao derramamento de sangue.

Contudo, as vitórias alemãs, a nossa manifesta inferioridade - pelo menos no meu setor - dão-me um permanente sentimento de dor e de vergonha.

Tenho de deixá-la, Camille, pois o coronel mandou me chamar. Cuide-se. Amo-a".

Léa entregou a Camille as folhas do diário referido por Laurent. E Camille deixou-as no colo, tentando concentrar a atenção nas primeiras páginas e repetindo a si mesma:

- Ele está vivo e bem... ele está vivo e bem.

- Claro que está vivo, senão não teria escrito! - disse Léa fora de si.

Sem responder, Camille percorreu as páginas do diário, redigido entre os dias 10 e 27 de maio de 1940. Com uma expressão de assombro estampada no rosto, leu o relato do cotidiano da derrota, proferindo, de vez em quando, algumas frases em voz alta:

"La Ferté-sur-Chiers, Beaufort... Volto a partir, procurando saber notícias... O coronel ausentou-se, e muita gente supõe que tenha desaparecido... Encontrar víveres, encontrar forragem... Um dos meus homens acaba de morrer devido à explosão de uma mina... Um brigadeiro foi assassinado por um soldado bêbado... A minha obsessão - e também a de Wiazemsky - é organizar o reabastecimento. Conseguimos ordenhar algumas vacas errantes, dando leite às crianças... Os aviões voltaram à noite, fazendo-se acompanhar dos silvos terríveis, seguidos de explosões. Deitados de bruços no chão, tivemos a primeira experiência das bombas assobiadoras... Junto à valeta, um ajudante chorando sozinho... Dormimos no celeiro. .

- Pobre Laurent! - murmurou Camille. - Ele que só consegue dormir na cama!

Léa lançou-lhe um olhar de raiva.

- Ouça isto, Léa -. disse Camille, encantada. - No dia 24 de maio, Laurent fez uma pausa em Châlon:

A inesquecível sensação de ver outra vez uma grande cidade, lojas e cafés, de estar entre civis. Um bom jantar, aguardente de boa qualidade e charutos. A guerra tem coisas boas, por vezes. O prodigioso deleite de dormir entre lençóis lavados após um banho demorado Léa, no auge da raiva, viu Camille terminar a leitura.

- Tenho inveja dele - comentou a primeira. - Não é forçado a ficar preso.

- Como pode dizer tal coisa! - gritou Camille. - Laurent está arriscando a vida, tal como os seus camaradas.

- Talvez. Mas não tem tempo para se aborrecer.

Camille fitou a amiga com tristeza e lamentou:

- Você se aborrece tanto assim ao meu lado? Bem sei que não é nada divertido cuidar de doentes. Se não fosse eu, você teria voltado para junto de seus pais. Oh, como você deve me detestar - terminou Camille, soluçando.

- Pare de chorar! - exclamou Léa. - Vai ficar doente, e a sra. Lebreton dirá outra vez que foi por minha causa.

- Desculpe-me. Você tem razão. Por que não sai mais vezes? Sarah Mulstein e François Tavernier a convidam com freqüência.

Por que recusa?

- Basta-me vê-los aqui todas as tardes.

- Mas eles não vêm todas as tardes!

- É possível. Mas as vezes que o fazem são mais do que suficientes.

Camille baixou a cabeça, acabrunhada, assegurando:

- Gosto muito deles. François é tão bom, tão alegre.

- Pergunto a mim mesma o que você vê nesse inútil...

- Sabe bem que isso não é verdade, Léa - interrompeu-a Camille, - François exerce aqui funções de grande responsabilidade, e o governo o consulta freqüentemente.

- É o que ele diz... Você é muito ingênua, minha querida amiga. Quanto a Sarah, tenho também as minhas dúvidas. Não me espantaria que fosse espiã.

- Que exagero! Você lê muitos romancecos e vê muitas fitas de má qualidade.

- Mato o tempo como me é possível.

- Não vamos discutir, Léa. É preferível alegrarmo-nos por saber que Laurent está bem de saúde.

- Neste instante, é a sua saúde que conta. Acha que o médico vai autorizá-la a viajar?

- Não sei - suspirou. - Gostaria tanto de estar em Roches-Blanches, junto do pai de Laurent! Tenho tanto receio pelo meu filho!

e Bateram à porta e Josette apareceu.

- A sra. Mulstein e o sr. Tavernier chegaram - anunciou a criada.

- Mande-os entrar - ordenou Camille, cujo rosto pálido enrubesceu de prazer.

- Outra vez eles! - exclamou Léa de mau humor.

Sarah Mulstein, empunhando um ramo de rosas, atravessou a sala para beijar Camille. Sorriu ao avistar as folhas das cartas de Laurent, espalhadas sobre as cobertas de cetim creme.

- Vejo que recebeu notícias do nosso soldado. Devem ser boas a avaliar pelo seu aspecto, bem melhor hoje, e pelos seus olhos, quase alegres.

- Ah, sim, sinto-me tão aliviada! Como são bonitas as rosas! É tão boa para mim, Sarah! Obrigada.

- Bom dia, Léa. Mas que ar sombrio! Que lhe aconteceu?

- Nada. Estou aborrecida, só isso - replicou Léa, deixando- se beijar pela visitante.

- Mostre-me essa carta - disse Tavernier, inclinando-se para beijar a mão que Camille lhe estendia. -. Oh, é verdade. Você está quase tão rosada como as suas flores.

- Acho que exagera um pouco - objetou a jovem, rindo.

- E você, Sarah, soube alguma coisa de seu marido?

Antes de responder, Sarah Mulstein tirou o elegante chapéu de feltro preto, atravessado por uma longa pena vermelha. Instalou- se num sofá baixo, perto da cama, puxando a saia plissada num gesto maquinal.

- Sim, recebi notícias ontem.

- Estou muito feliz por você interveio Camille.

- ... enviaram-no para um campo de concentração na Polônia - rematou Sarah.

- Oh, não! exclamou Camille.

Léa, que se mantivera à parte, aproximou-se de François Tavernier e disse em tom de desprezo:

- Pensei que estivesse providenciando para tirá-lo da Alemanha.

- A tentativa não foi bem sucedida.

- François fez todo o possível - interveio Sarah com voz cansada.

- Como pode estar certa disso? - perguntou Léa com veemência.

- Léa!...

Deixe, Camille. Como bem sabe, a sua bonita amiga toma- me por um canalha e espião. Mas não importa - disse Tavernier com aparente desenvoltura.

- Deixe que eu responda a Léa, François -.- interveio Sarah.

- Meu pai telefonou-me de Lyon e inteirei-me das circunstâncias da detenção de meu marido por seu intermédio. Os názis vingaram- se nele por não conseguirem reter um artista mundialmente conhecido. E, sem a interferência de François, meu marido não seria o único a ser deportado... Meu pai chega amanhã a Paris.

Caiu sobre o grupo um silêncio penoso. Foi Léa a primeira a quebrá-lo:

- Desculpe-me, François. E você também, Sarah.

- Como já observei, Léa, você é ainda muito nova. Tem muita pressa em falar e fala sem saber o que diz. Nos tempos de hoje terá de habituar-se a ser mais prudente. Você vê espiões por toda parte e desconfia da quinta-coluna - advertiu-a Sarah.

Léa afastou-se, escondendo seu desagrado. Depois consultou o relógio.

- Esqueci por completo que tinha um encontro. Até logo à noite, Camille. Deixo-a em boa companhia.

François Tavernier saiu atrás dela e alcançou-a na entrada, onde a jovem colocava o chapéu em frente do espelho.

- Esse chapéu não lhe fica bem; torna-a mais velha observou. - Se não fosse a cor, ficaria perfeito em sua tia Lisa.

Léa encarou-o com raiva.

- Que sabe você de chapéus? É um chapéu de Agnès, o que existe de mais elegante.

- Não se faça de parisiense, minha amiga. Fica muito mais sedutora como uma selvagenzinha de Montillac, sobretudo quando está vermelha como neste instante.

- Não estou vermelha, e sua opinião não me interessa. Deixe- me em paz!

- Não, preciso falar com você. Vamos até seu quarto.

- Nem pense nisso!

- Deixe de ser pretensiosa. Também não lhe fica bem. Vamos, venha.

Pegando-a pelo braço, François Tavernier arrastou-a em direção a uma das portas.

- Ou me larga ou grito - protestou.

- Grite se quiser. Ah, não quer andar? Então vou carregá-la.

Juntando o gesto à palavra, Tavernier ergueu-a nos braços. Apesar da ameaça feita, Léa não gritou, tentando libertar-se, porém, e cobrindo-o de socos.

- É este aqui, não é verdade, o seu antro virginal? - disse ele, empurrando com o ombro a porta entreaberta.

- Largue-me! Quer largar-me?

- Às suas ordens, minha cara amiga - concordou Tavernier. E, num gesto displicente, atirou-a sobre a cama.

Léa caiu sobre as molas do colchão com um grunhido de raiva impotente. Depois, com o cabelo em desalinho tapando-lhe os olhos, sentou-se e encolheu o corpo, preparando o pulo. Mas Tavernier foi mais rápido - lançou-se sobre ela, imobilizando-a pelos pulsos.

- Bruto! Canalha!

- Como já lhe disse por diversas vezes, o seu vocabulário injurioso é bastante escasso. Faz-lhe falta a leitura. Vamos, acabou a brincadeira. Tenho de conversar com você. Quer ou não escutar-me?

- Vá...

- Chega! Beijo-a se não ficar quieta.

Léa parou instantaneamente de debater-se.

- Queria então falar comigo? De que se trata? - perguntou a jovem com uma expressão séria.

- É sobre você e Camille. Têm de partir; não estão em segurança aqui.

- Sei disso muito bem - replicou Léa, esfregando os pulsos.

- Não tenho culpa se o médico acha que ela não pode viajar.

- Falarei com ele a esse respeito. Os alemães estarão em Paris dentro de dias. Eu próprio seguirei para a frente.

- Ora! Que idéia absurda! Pensei que não gostasse de causas perdidas.

- Com efeito, não gosto. Mas trata-se de uma outra coisa.

- Talvez de honra - opinou Léa, no tom mais contundente que pôde conseguir.

Mas, perante o olhar que François Tavernier lhe lançou, encolheu-se sobre a cama, à espera de ser agredida. Como tal não sucedesse, ergueu os olhos para ele, sentindo-se corar de vergonha ao ver-lhe o rosto transtornado. Assaltou-a o súbito desejo de atirar-se a seu pescoço e pedir-lhe perdão. Talvez o tivesse feito, se, nesse preciso instante, Tavernier não desatasse a rir.

- A honra! - exclamou ele. - Talvez sim. Mas eu sou indigno de tal sentimento. Seria preciso que me chamasse Laurent d'Argilat para saber o que é isso.

- Deixe Laurent e a sua honra em paz Voltemos ao assunto da nossa eventual partida.

- Sabe guiar?

- Tirei carta em Bordeaux pouco antes de vir para cá.

- Nesse caso, vou tentar requisitar, alugar, comprar ou roubar uma ambulância ou outro tipo de veículo confortável, no qual Camille possa fazer a viagem deitada. Levará Josette e a sra. Lebreton com você.

- O quê? Deixa-nos partir sós?

- E acha que poderá ser de outro modo? Todos os homens válidos estão na frente de combate. Além disso, você pode se desincumbir disso sozinha.

Sem responder, Léa baixou a cabeça. François Tavernier sentiu- se comovido perante aquele sinal de impotência. Tomou-lhe com ambas as mãos os fartos caracóis, obrigando-a a erguer o rosto. Grandes lágrimas rolavam pelas faces da jovem, ainda desenhadas em traços infantis. Beijou-lhe suavemente os olhos e, em seguida, os lábios, que receberam, passivos, o beijo. Depois sentou-se na cama, soltou os cabelos de Léa e deitou-a a seu lado.

- Chore, minha filha, se isso a alivia - disse.

À voz grave e doce que lhe fazia lembrar a do pai, Léa começou a soluçar, aninhando-se contra o companheiro.

- Gostaria tanto de voltar para casa! Tenho medo que Camille perca a criança... Que diria Laurent? Por que motivo meu pai não vem me buscar? É verdade que os alemães violam todas as mulheres?

- Vai voltar, minha querida, não se preocupe. Tratarei de tudo.

- Mas você disse que ia embora - - Tratarei de tudo antes disso.

François sentia-se mal consigo mesmo por se aproveitar da situação - os seus lábios tornaram-se mais imperiosos, as mãos adquiriram maior audácia. Mas isso teve por efeito acalmar Léa, que, pouco a pouco, lhe retribuiu as carícias.

O ruído de vozes na entrada arrancou-os daquele instante de prazer. Com um gesto suave, Léa afastou de si o companheiro, ergueu-se e compôs o vestido amarrotado.

- Não fique aí plantado me olhando. Limpe a boca, está toda suja de batom. E penteie o cabelo - disse Léa, indicando as escovas, colocadas em cima do toucador.

Com um sorriso, Tavernier obedeceu.

- Parecem o médico e a sra. Lebreton discutindo - observou Léa, apurando o ouvido.

Nesse instante, bateram à porta.

- É Josette, srta. Léa. O doutor quer lhe falar.

- Está bem. Diga-lhe que já vou. Que quererá ele de mim?

concluiu ela, virando-se para Tavernier.

Este abriu os braços em sinal de ignorância.

- Vou deixá-la. Tenho de me ocupar dos preparativos do encontro de amanhã aqui, em Paris, com Churchill e os seus três mais próximos colaboradores.

Que espera dessa reunião?

- Pouca coisa. Raynaud tem esperança de obter da RAF mais aviões. Mas não vai conseguir e tampouco conseguirá que as tropas francesas bloqueadas em Dunquerque sejam evacuadas simultaneamente com as britânicas.

- Nesse caso, para que o encontro?

- Para não se perder o contato, para tentarmos saber a posição exata dos nossos aliados e qual a atitude deles em caso de um armistício em separado.

- Armistício em separado?

- Fala-se nessa hipótese. Mas pense em outra coisa. O assunto não deve ser objeto de preocupação para uma mulher bonita. Isso é problema para homens - rematou Tavernier com ênfase, atraindo para si a jovem.

Léa não lhe resistiu, fitando-o como nunca fizera antes.

- Não quero que lhe aconteça nada de mau, minha menina. Léa pareceu desapontada por ele não a beijar, e Tavernier sorriu vendo o seu trejeito amuado.

- Chega por hoje. Vou tratar de obter o veículo. Dir-lhe-ei qualquer coisa dentro de dois dias. Vá ver o que quer o dr. Dubois.

Sem responder, Léa abandonou o quarto.

- Ah, já não era sem tempo! Acha que não tenho mais o que fazer do que ficar à sua espera, srta. Delmas? - gritou o médico quando Léa entrou na sala.

- Desculpe, doutor, pensei que estivesse com a sra. d'Argilat.

- A sra. d'Argilat está muito bem. Não se trata dela.

- Então, podemos partir! - exclamou Léa, contente, interrompendo o médico.

- Isso teria sido possível se a sra. Lebreton não tivesse se despedido, apresentando pretextos fúteis.

- Pretextos fúteis... - repetiu a enfermeira, cuja presença Léa ainda não notara. - Acabo de saber que o meu genro, gravemente ferido, se encontra na Bretanha. Minha filha quer a qualquer custo ir ter com ele na companhia dos dois filhos. E o senhor chama a isso futilidades!

- A sua filha é suficientemente crescida para viajar sem a mãe - retrucou o médico perfidamente.

- Com duas crianças de três e cinco anos... Bem se vê, doutor, que nunca teve filhos.

- Nos tempos de hoje, muito me congratulo por isso.

- Não pode me deixar sozinha com Camille, sra. Lebreton - interveio Léa. - Não sei tratar dela, dar-lhe injeções.

- Sinto muito, mas vejo-me forçada a pensar na minha família. Leve-a para o hospital.

- Sabe perfeitamente, sra. Lebreton, que não há nenhuma vaga nos hospitais hoje em dia e que alguns deles estão sendo evacuados - contrapôs o médico.

- Nada posso fazer - concluiu a enfermeira com secura. - Vou tomar o trem noturno para Rennes. Está na hora de aplicar a injeção na sra. d'Argilat, srta. Delmas. Se quiser, mostro-lhe como se faz. Não é muito difícil.

Sarah Mulstein estava ainda no quarto de Camille quando as duas mulheres entraram, seguidas do dr. Dubois, que assumiu um tom de falsa despreocupação ao anunciar à doente:

- A sra. Lebreton será obrigada a deixar-nos por motivos de família. Vai mostrar à srta. Delmas como se aplica uma injeção.

Camille empalideceu e disse com um sorriso forçado:

- Espero, minha senhora, que não se trate de nada grave. Agradeço-lhe os seus bons serviços.

Depois, virando-se para Léa, lamentou:

- Eu lhe causo imensas preocupações, minha querida.

- Vire-se - ordenou a enfermeira, resmungando, depois de preparar a seringa.

Sarah e o médico afastaram-se um pouco.

- Veja. Não é muito difícil - explicou a sra. Lebreton. - Enterre a agulha com um golpe seco... depois comprima o êmbolo lentamente.


Capítulo 13

Paris estava vazia.

O bombardeio, no dia 3 de junho, dos aeroportos de Orly, de Bourget e de Villacoublay, das fábricas Citroën e de prédios no 15 e no 16 Arrondissements, provocara cerca de trezentas mortes. De manhã cedo, as primeiras viaturas começaram a partir para o sul do país; mas a grande massa dos parisienses precipitou-se para as estações de Lyon e de Austerljtz, misturando-se à vaga de refugiados provenientes do norte e do leste.

Um torpor e um silêncio dignos do mês de agosto caíam sobre a Place Saint-Sulpice quando Léa a atravessou para dirigir-se à Câmara Municipal, a fim de receber as senhas de racionamento das três moradoras do Boulevard Raspail. Não disporiam de açúcar sem aqueles cupões amarelos colados no interior da senha, O leite, o café e a manteiga já escasseavam. De que se comporiam os cafés da manhã dentro em breve?

Quando deixou a prefeitura, após duas horas de espera, Léa estava de muito mau humor. Cansada por ter permanecido em pé durante tanto tempo, em corredores que cheiravam a lixívia, a papéis velhos e a suor, foi sentar-se num dos bancos diante da fonte, aconchegando-se ao impermeável bege emprestado por Camille. O calor não era intenso e nuvens ameaçadoras percorriam o espaço, de onde a morte podia surgir a cada instante. Recordou com raiva a calma de Camille face ao apito das sirenes de alarme, seguidas do ruído ensurdecedor dos aviões que sobrevoavam Paris e, por fim, dos estampidos das bombas.

Insistira com ela para que descesse ao porão do edifício, transformado em abrigo antiaéreo. Obstinada, Camille recusara-se a fazê-lo, dizendo preferir ver a morte chegar a ser sepultada viva. Com raiva no coração e o medo nas entranhas, Léa vira-se forçada a permanecer junto dela, com a cabeça enfiada nas almofadas de seda.

E François Tavernier que não dava sinais de vida! Não era possível ter partido para a frente sem procurá-la de novo e, sobretudo, sem cumprir a promessa de proporcionar-lhes meios para sair de Paris. E já estavam a 6 de junho!

- Eis uma testa franzida que não prenuncia nada de bom! - observou um indivíduo, sentando-se junto dela.

Léa preparava-se para responder com aspereza quando reconheceu Raphael Mahl.

- Bom dia. Então não foi embora? - perguntou Léa.

- Embora para onde?

- Para o diabo, se quiser.

- Para lá, minha querida, iremos todos nós, o que não me desagrada. Sempre gostei de diabos loiros, sobretudo uniformizados. E você, não? Sempre é uma variante a todos estes franceses gorduchos, da frente popular e a esses mestiços de nariz adunco.

- Cale-se! É ignóbil o que está dizendo.

- Por que ignóbil? Não é por causa deles que vamos perder a guerra, por causa desses "Blum" e companhia? Conheço-os bem, pois sou meio judeu.

- Tenho uma amiga judia cujo marido foi preso apenas por ser judeu.

- E isso não lhe parece motivo suficiente?

- Que horror! - exclamou Léa, erguendo-se de um salto.

- Então, minha querida, acalme-se. Estava brincando - disse Mahl, levantando-se por sua vez e tomando-lhe o braço.

Léa libertou-se com impaciência.

- Desculpe-me, mas tenho de voltar para casa.

- Espere. Também tenho uma amiga, e ela incumbiu-me de vender uma das suas peles, uma magnífica raposa prateada. Faço- lhe um preço muito em conta. É um excelente negócio.

- Não sabia que as peles lhe interessavam.

- Neste caso, trata-se apenas de prestar um serviço a uma amiga que precisa de dinheiro para deixar Paris. Que quer? Ela também é judia e os názis a assustam. A mim assusta-me muito mais o tédio. Se acaso não lhe interessa a raposa, tenho também tapeçarias, encantadores tapetes antigos de rara beleza.

- Deu agora para negociante de tapetes? Julguei que fosse escritor.

O rosto de grande fronte desguarnecida perdeu instantaneamente a sua expressão de zombeteira bonomia. Um sorriso lasso e triste conferiu à sua fisionomia, onde era notória a frouxidão de caráter, uma beleza melancólica, sublinhada pelo olhar de insustentável inteligência.

- Sim, sou escritor. Escritor antes de mais nada. Você é apenas uma mulher e por isso não pode entender a existência de um escritor, a luta cotidiana entre o desejo de viver e a ânsia de escrever. São duas coisas incompatíveis. Sou como Oscar Wilde:

quero o gênio tanto nas minhas obras como na minha vida. E isso é impossível de conseguir. Atormento-me, mas vejo-me obrigado a optar entre viver e escrever. Tenho dentro de mim um grande livro, eu o sei; mas oprime-me de tal maneira o desejo de participar dos movimentos do mundo e das suas paixões que o meu trabalho se ressente com isso. São necessários, como diziam os Goncourt no seu Diário, "dias regulares, calmos, quietos, a condição burguesa de todo ser, um recolhimento com capuz de dormir, para se escrever algo de grande, de atormentado, de dramático. As pessoas que se dispersam muito na paixão ou nos sobressaltos de uma existência febril serão incapazes de realizar qualquer obra e esgotarão a própria existência vivendo". Mahl fez uma pausa e depois prosseguiu: - Esgotar a existência vivendo... eis o que acontece comigo. Vocês, mulheres, estão protegidas pela falta de imaginação, e seu único ato criador é o da maternidade. Há entre vocês alguns monstros sublimes, é certo, tal como a sra. de Noailles ou Colette, essa admirável artífice das letras. Mas existe pouca inteligência verdadeira entre as do seu sexo, a qual é apanágio masculino.

- A inteligência é apanágio masculino?! Como se atreve a dizer tal coisa agora que o país, nas mãos dos homens que detêm o poder, das criaturas que, segundo o senhor, são dotadas de verdadeira inteligência, está prestes a ruir tão lamentavelmente?

- Mas vencem-nos uma inteligência e uma força superiores, perante as quais teremos de nos curvar.

- Curvar-nos perante selvagens?

- Tem uma cabecinha muito bem-feita, minha querida, mas está vazia. Você apenas repete as idéias de seu porteiro. Esta guerra que lhe parece tão selvagem será benéfica para a França. Já em 187, os Goncourt - citando-os de novo - escreviam: "A selvageria é necessária de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos para revigorar o mundo, O mundo morre de civilização.

Antigamente, na Europa, quando a velha população de um ameno país estava convenientemente anêmica, caíam-lhe em cima, vindos do norte, heréticos de quase dois metros de altura que remodelavam a raça".

- Mahl fez nova pausa, para logo continuar: - Os alemães são esses hereges que restituirão à nossa raça enfraquecida o sangue novo da ressurreição. Acredite, minha filha, acredite num pederasta vigarista que observou com atenção - por exigências literárias e, por vezes, também por necessidades corporais - esse animal pensarne ao qual se dá o nome de homem; esse homem que um dia Deus expulsou da sua presença, fato com o qual ele - pobre estúpido! - nunca se conformou. Lembre-se dos belos versos de Lamartine: "O homem é um anjo caído com saudades do céu".

- Tenho a impressão de estar ouvindo meu tio Adrien, que é dominicano - asseverou Léa, em tom de zombaria.

- O seu tio fez uma boa escolha. "Para um homem como ele só existe o hábito." Eu também já quis ser padre. Eu, o judeu, converti-me Alguns amigos, católicos fervorosos, apoiaram-me em tal pretensão. Nas vésperas de ser ordenado, fugi do seminário e passei três dias num bordel de rapazes. Foi maravilhoso! Depois do cheiro azedo das axilas dos eclesiásticos, depois das faces roídas pelo acne dos camaradas de dormitório, cujo cio obsessivo poluía calções e lençóis, após as manhãs ensombrecidas por aquela carne rígida que despontava sob a sotaina, que alegria em acariciar e em beijar os corpos macios e perfumados dos prostitutozinhos masculinos! Mas como pode você entender tal coisa, você, uma mocinha virgem, sem dúvida, desconhecedora até mesmo, por certo, dos insípidos apertos sáficos!

- Efetivamente, não entendo. O senhor causa-me nojo!

- É verdade que sou um ignóbil nojento! - exclamou Mahl, rindo muito. - O, senhora, não querer comprar uma tapete ou uma bela pele? Faço-lhe um preço camarada; você é bonita - continuou Mahl, seguindo Léa com mímicas grotescas. Compôs um rosto simultaneamente astucioso e tão ordinário que a moça não pôde conter o riso.

- O senhor está louco, meu pobre Raphael. Não sei por que motivo consinto que me dirija a palavra.

- Porque a divirto, minha querida, e as minhas idéias desordenadas a fazem sair do seu torpor de adolescente. Tem de crescer, minha bela! A época em que vivemos já não está na infância.

Caminharam em silêncio durante alguns metros. Na esquina da Rue de Greneile com a des Saints-Pères, Raphael Mahl parou.

- Quer vir a minha casa tomar uma xícara de chá? - sugeriu. - Um amigo emprestou-me um belo apartamento na Rue de Rivoli. A vista para as Tuileries é magnífica.

- Agradeço, mas não é possível. A amiga em cuja casa moro encontra-se doente e já deve estar preocupada com a minha ausência. Há mais de três horas que saí.

- E amanhã? Prometa-me que vem. Gostaria de oferecer-lhe alguns livros que aprecio muito. Se desejamos a amizade de alguém é muito importante termos os mesmos gostos literários.

Léa mirou-o com uma simpatia à qual não podia furtar-se e que não compreendia.

- Se puder, virei. Prometo.

Mahl rabiscou o endereço e o número do telefone num envelope com o timbre da NRF.

- Fico à sua espera a partir das quatro. Se não puder vir, telefone-me. Conto com você. Até amanhã.

- Até amanhã - despediu-se a jovem, guardando no bolso o papel que ele lhe estendera.

Correu pela Rue de Grenelie, deserta, até o Boulevard Raspail.

Não teve tempo de pôr a chave na fechadura, pois a porta se abriu e Camille surgiu à sua frente, vestida às pressas com um tailleur azul-marinho que lhe fazia sobressair o contorno do ventre, pondo igualmente em destaque a palidez do rosto emagrecido.

- Até que enfim voltou! - exclamou ela, encostando-se à parede para não cair.

- É mesmo doida! Que faz em pé?

- Ia procurá-la - murmurou Camille, escorregando ao longo da parede, desmaiada.

- Josette! Josette! Venha depressa!

A jovem camareira surgiu na porta da copa e deixou escapar um grito ao ver a patroa caída por terra, inconsciente.

- Ajude-me, em vez de ficar aí plantada como uma idiota.

Despenteada, com o rosto afogueado, Josette auxiliou Léa a transportar a doente para o quarto e a colocá-la na cama.

- Dispa-a - ordenou Léa. - Vou dar-lhe uma injeção.

Quando regressou ao quarto munida da seringa, Josette cobria Camille, que ficara apenas com a leve combinação cor-de-rosa.

Depois da injeção, Léa, cheia de angústia, perscrutou o pobre rosto de narinas afiladas. Camile nunca demorara tanto tempo a recobrar os sentidos.

- Por que motivo permitiu que a senhora se levantasse da cama?

Agachada junto ao leito, Josette soluçava.

- Não tive culpa, senhorita. Estava preparando o chá na cozinha. Deixei a senhora muito calma ouvindo rádio quando, de repente, quase me fez quebrar o bule, tal o susto que me pregou; apareceu atrás de mim, descalça, de olhar enlouquecido, repetindo sem cessar: "Tenho que procurar Léa... Tenho que procurar Léa Tentei reconduzi-la ao quarto, mas ela não deixou, dizendo:

"Faça as malas, Josette. Os alemães estão chegando". Então tive medo, pois pensei que a senhora tivesse ouvido a notícia pelo rádio. Comecei a preparar a bagagem, correndo, enquanto a senhora se vestia. A senhorita chegou nesse momento. Diga-me, é verdade que os boches vêm aí?

- Telefone ao dr. Dubois e diga-lhe que venha com urgência.

- Muito bem, senhorita.

Debruçada sobre Camille, Léa procurava fazê-la aspirar um frasco de sais. "E se os alemães tiverem chegado, de fato?", pensou, sentindo um princípio de pânico apoderar-se dela.

- O médico não está em casa, senhorita, e não sabem quando voltará.

- Léa... - pronunciou Camille, abrindo as pálpebras devagar. - Léa, está aqui... receei que tivesse partido... o rádio.

noticiaram que o governo se prepara para deixar Paris - balbuciou ela, agarrando-se com força ao braço de Léa.

- Então - . . vamos, acalme-se. Acabo de chegar, e não há alemães nas ruas. Tudo está tranqüilo. Só você se agita inutilmente.

Laurent não ficaria satisfeito se a visse tão pouco razoável. Descanse e procure dormir um pouco. O dr. Dubois está chegando - mentiu a jovem - Perdoe-me, mas tenho tanto medo quando você não está aqui comigo!

Era já quase noite quando Camille por fim adormeceu. O médico não aparecera ainda.

Léa sentiu fome. Foi à cozinha em busca de algo para comer. Não havia nada, exceto alguns pães secos. Furiosa, procurou Josette para censurar-lhe a falta de mantimentos. Encontrou-a sentada na penumbra do salão, vestida e pronta para partir, com a mala colocada aos pés.

- Que faz aqui às escuras? Por que motivo está de casaco e de chapéu dentro de casa?

- Quero ir embora, senhorita - choramingou Josette. Quero voltar à Norrnandia, para a casa de meus pais.

Léa fitou-a, apavorada.

- Pretende deixar-me sozinha com uma doente?!

- Tenho medo, senhorita, muito medo. Quero voltar para casa.

- Pare de choramingar! Os alemães já ocuparam a Normandia. Se não foi hoje, será amanhã. Será melhor que vá deitar-se.

- Mas, senho...

- Cale-se! E amanhã trate de fazer as compras. Boa noite.

Léa saiu, deixando a infeliz moça chorando, desamparada.

No dia seguinte, às seis da manhã, Léa despertou de um sono perturbado, acordada pela campainha da porta. Supôs que fosse o dr. Dubois. Apanhou o quimono e ergueu-Se do canapé do quarto de Camille, onde passara a noite. Bocejando, foi abrir a porta.

Na sua frente surgiu um indivíduo envergando uma farda manchada de lama, de rosto sujo e meio oculto por uma barba de vários dias.

- Laurent...

- Não, não é Laurent. Você não me parece ainda muito bem acordada, minha amiga. Posso entrar?

Léa afastou-se, deixando passar François Tavernier.

- Não faça essa cara. Por quem me toma? Por uma aparição?

- Quase. Onde se meteu durante todos esses dias? Telefonei-lhe por diversas vezes, mas nunca estava.

- Pelo meu aspecto pode ver que não estive no Maxim's.

- Acabe com as suas graças! Ficou de procurar-me, e estive todo este tempo à espera.

Que gentileza de sua parte! Deixe-me dar-lhe um beijo de gratidão pela fidelidade demonstrada.

- Afaste-se! Está tão sujo que dá medo.

- Que quer, minha amiga? A guerra não é coisa limpa. Mas os soldados têm sempre direito aos beijos das garotas.

François Tavernier atraiu Léa e a beijou, apesar de sua resistência. Largou-a, porém, sentindo que ela continuava sem corresponder.

- Dê-me notícias da sra. d'Argilat. Como está ela?

- Mal.

- E o médico?

- Espero-o desde ontem. Conseguiu arranjar algum carro confortável?

- Consegui. Tive de batalhar durante todos esses dias, mas desencantei um Vivastella em perfeito estado de funcionamento. Será que vai conseguir guiá-lo?

- É necessário que o faça.

- Mandei um homem de confiança buscá-lo. Estará aqui dentro de dois dias.

Dois dias?

- O veículo encontra-se em Marselha.

- Devia ter seguido o conselho de meu pai e tomado um trem.

- Também pensei nisso. Mas Camille não poderia viajar deitada.

A campainha retiniu novamente.

- Oh, doutor! - exclamou Léa, abrindo a porta.

O dr. Dubois estava pouco mais apresentável do que François Tavernier. O terno amarrotado, o queixo mal barbeado, as pálpebras avermelhadas evidenciavam cansaço e falta de sono.

- Não pude vir mais cedo - disse ele. - Quer ter a bondade de fazer-me um café?

- Também tomaria um de bom grado - afirmou Tavernier.

- Vou ver se encontro café. Josette está de tal maneira apavorada que não se atreve a sair para fazer compras.

Na cozinha, com efeito, não havia café, leite nem pão.

- Eu me encarrego disso - disse Tavernier, que seguira a jovem. - Há um bar não muito longe daqui, onde costumava ir às vezes. O dono vai me livrar deste apuro. Estarei de volta enquanto ferve a água. Entretanto, prepare-me um banho. Não tenho tempo para passar em casa.

Na volta, François Tavernier sobraçava um grande saco de papel onde havia café recém-moído, uma garrafa de leite fresco, uma lata de chocolate, um quilo de açúcar e - maravilha das maravilhas! - vinte pãezinhos ainda quentes.

Tavernier fez questão de levar a Camille a bandeja do desjejum. Para agradar-lhe, a doente esforçou-se por engolir um dos pãezinhos. Ele mesmo comeu cinco, tantos quanto Léa; o médico, três. Reconfortados, todos se mantiveram em silêncio durante alguns momentos. Léa foi a primeira a falar, dirigindo-se a François:

Se quer tomar o seu banho quente é melhor apressar-se.

- Já não tenho tempo. Vou apresentar meu relatório ao general Weygand e encontrar-me também com o marechal Pétain.

- Nesses trajes! - não pôde impedir-se de comentar o dr. Dubois.

- E por que não? . o traje de todos aqueles que se deixam massacrar devido à negligência do estado-maior e das tropas em debandada que vagueiam à procura de quem as comande, e que os dirigentes procuram afastar de Paris.

- E depois disso, que fará? - perguntou Camille.

- Depois, minha senhora, irei morrer pela França - replicou Tavernier em tom teatral.

- Não brinque, François. Vou ficar tão desgostosa se algo lhe acontecer!

- Muito obrigado por essas palavras, sra. d'Argilat. Prometo- lhe tentar manter-me vivo.

Depois, dirigindo-se ao médico, Tavernier perguntou:

- Acha que poderemos transportar a nossa amiga?

- Considero isso uma loucura e uma imprudência, tanto pelo seu coração como pela criança. No entanto, se os bombardeios recomeçarem... Bem, entreguemo-nos à misericórdia de Deus. Vou receitar-lhe medicamentos mais fortes. Procurarei passar por aqui amanhã de novo.

- Minha senhora... senhorita! Os alemães ocuparam Dieppe, Compiègne, Rouen e mesmo Forges-les-Eaux, onde vive a minha madrinha! - gritou Josette, surgindo de chofre no quarto, com um naco de pão com manteiga na mão.

François Tavernier pegou-a pelo braço e a fez sair mais rapidamente do que entrara.

- Sua pateta, quer matar a patroa?

- Claro que não, sr. Tavernier - soluçou a infeliz. - Mas penso no meu pai, na minha mãe, nos meus irmãozinhos...

- Eu sei, menina, eu sei. Dentro de dois dias poderá deixar Paris com a sra. d'Argilat e a srta. Delmas. Irá para a Gironda, para o campo, onde estará a salvo - assegurou ele, adoçando a voz e acariciando-lhe os cabelos.

- Sim, senhor. Mas... e a minha família? Quando tornarei a vê-la?

- Não sei. Talvez em breve. Prometa-me cuidar da sra. d'Argilat, Josette.

- Prometo, sim, senhor.

- Obrigado, Josette. Você é uma boa moça. Tem dois dias para comprar mantimentos para a viagem. Ao mesmo tempo, compre também um vestido bonito para você.

- Oh, muito obrigada, sr. Tavernier! - agradeceu Josette, quase confortada, guardando o dinheiro.

Léa e o médico saíam do quarto de Camille.

- Apresse-se se quer falar com o marechal Pétain e com os membros do governo. Acabam de noticiar pelo rádio a sua partida iminente para Touraine - anunciou o dr. Dubois em voz sumida, limpando os óculos embaçados. - Até amanhã.

A porta do patamar da escada fechou-se sobre o seu vulto repentinamente curvado.

- Por que motivo permitiram que Camille ouvisse tais notícias? - perguntou Tavernier.

- Nada pude fazer - replicou Léa, apertando contra si o quimono, num gesto friorento.

- Seja corajosa. O mais difícil ainda está por vir. E dê-me um beijo.

Num gesto espontâneo, Léa lançou-se para ele, rodeando-lhe o pescoço com os braços. Os lábios de ambos encontraram-se com tal violência que se feriram. As lágrimas que escorriam dos olhos de Léa conferiam ao beijo um sabor salgado. Tavernier desenlaçou as mãos apertadas atrás da sua nuca e, sem largá-la, afastou-a um pouco de si. Como estava linda, assim, triste, com o peito arfando!

- Gosta um pouco de mim? - não pôde impedir-se de perguntar num murmúrio.

Léa fez um sinal negativo com a cabeça.

Uma repentina expressão de dor contraiu o rosto mal-barbeado de Taverníer. Aliás, que lhe importava se ela gostasse ou não?

Bastavam-lhe os beijos. Atraiu-a de novo junto ao peito e as mãos tatearam um instante por debaixo do quimono. Quando a largou, as lágrimas de Léa haviam secado.

- Tenho de deixá-la, minha querida amiga - disse ele com um sorriso. - Obrigado por tão amável acolhida. Até breve. Cuide de você e de Camille.

Sem palavras, a jovem o viu afastar-se. Com o indicador, num gesto inconsciente, percorreu o contorno dos lábios úmidos.

Léa e Josette tinham se esquecido por completo de que era domingo; quase todos os estabelecimentos de venda de gêneros alimentícios estavam fechados. Foram até o mercado de Saint-Germain, onde, após longa espera, conseguiram obter uma dúzia de ovos, um frango, um coelho, um grande salsichão, queijo, dois quilos de maçãs e, depois de regatearem o preço, um enorme presunto.

Esgotadas mas orgulhosas das aquisições feitas, e de bolsa vazia (tudo encarecera terrivelmente), subiram a Rue du Four carregando, cada uma, uma alça da sacola pesada.

Estava um dia magnífico, e havia pouca gente na rua; apenas algumas velhinhas transportando sacolas pobremente abastecidas, mendigos, porteiras que não tinham perdido o hábito de varrer o passeio em frente dos prédios, dois agentes de polícia deslocando-se em suas bicicletas rangentes e um carro tão carregado com um colchão, um armário com espelho e uma leva de crianças irrequietas que era surpreendente que conseguisse mover-se. A Rue de Rennes assemelhava-se a um longo rio de chumbo com margens desertas. De repente, alguns caminhões desembocaram de Saint-Germain; sob os toldos mal ajustados, Léa notou pilhas de documentos atadas às pressas.

Léa cobriu os móveis com suas capas e começou a fazer as malas. Ao arrumar o impermeável de Camille, encontrou num dos bolsos o papel em que Raphael Mahl escrevera o seu endereço e o número de seu telefone. Contrariada, lembrou-se da promessa de visitá-lo ou de lhe telefonar caso não pudesse comparecer.

O sol entrava pela janela aberta que dava para as árvores da avenida, um sol que convidava ao passeio. Tudo parecia tão calmo, tão estival que apenas se ouviam os pios dos pardais e os arrulhos dos pombos.

Numa súbita decisão, Lea fechou a mala e pegou uma capa de lã negra, que atirou sobre o vestido de seda negra com bolinhas vermelhas. Pôs o chapéu de palha preta e olhou-se no espelho veneziano da entrada. Depois entreabriu devagar a porta do quarto de Camille. Adormecera, graças a Deus! Na cozinha, Josette preparava os cestos dos mantimentos destinados à viagem.

- Vou fazer uma visita, mas não me demoro.

- uma imprudência sair sozinha, senhorita.

Léa saiu sem lhe dar resposta.

Exceto por alguns veículos e camionetas carregadas de volumes extravagantes, Paris parecia deserta. Ao atravessar o Pont- Royal, distinguiu, para os lados do Grand-Palais, pesadas nuvens negras que aumentavam. Preocupada, prosseguiu, apressando o passo. O jardim das Tuileries estava tão vazio quanto as ruas.

Sob o fundo obscurecido do céu, destacava-se a cruz formada pelo Obelisco, tão branca quando banhada pelo sol, e o cimo do Arco do Triunfo. Com o coração batendo forte, a jovem parou:

veio-lhe à memória o refúgio de Verdelais sob a claridade dos relâmpagos. Foi tão forte o súbito desejo de se achar aos pés da cruz que assistira às suas preces de criança e aos seus prantos de adolescentes, que Léa se sentiu vacilar.

- Meu Deus! - murmurou.

Assomou-lhe uma prece ao Deus da infância que, pouco a pouco, se transformou em ação de graças pela dádiva de tanta beleza.

A contragosto renunciou à contemplação do espetáculo. Sem cruzar com ninguém, atingiu a Rue de Rivoli e a fachada do prédio onde morava Raphael Mahl.

O inquilino veio abrir-lhe a porta, vestindo uma espécie de gandura de lã branca. Olhou a moça, surpreso.

- Esqueceu-se de que me fez prometer vir visitá-lo hoje?

- perguntou Léa.

- Ai, que cabeça a minha! Desculpe, querida amiga, mas apanhou-me em plenos preparativos de partida.

- Vai embora?

- Amanhã ou depois de amanhã. O avanço alemão fez-me perder o emprego. O diretor da Rádio Mundial espera ordem de evacuação de um dia para outro, ou melhor, de uma hora para outra.

- Para onde vai?

- Sem dúvida para Tours, para onde foi o governo. Posso levá-la, se o desejar.

- Não seja bobo. Eu também vou partir dentro de dois dias.

- Ah, onde estaremos nós dentro de dois dias! Venha sentar-se. Não ligue à desarrumação. Quer um chá?

- Preferia alguma coisa fria.

- Acho que não posso lhe oferecer, a menos que se contente com uísque, O dono da casa deixou duas caixas. Só gastei uma.

- Pode ser. Nunca provei.

- Fique à vontade.

Léa olhou em volta. A sala estava abarrotada de adornos chineses de todo tipo, alguns muito bonitos, como o comprido cofre de laca cor de asas de escaravelho; havia outros, porém - algumas figurinhas de tons gritantes -, de uma fealdade aflitiva. Léa encaminhou-se para a porta aberta da varanda que dava para as Tuileries. Raphael juntou-se a ela momentos depois, trazendo dois copos cheios de um líquido cor de âmbar.

- Bebo à sua beleza - brindou ele.

Sorrindo, Léa inclinou a cabeça e ergueu o copo. Provou a bebida e fez uma careta.

- Não gosta?

- Tem um paladar esquisito.

- Beba mais um trago. Verá que depressa se habitua.

Tomaram a bebida devagar, encostados à balaustrada da varanda. Chegou até eles um odor pestilento de fumaça gordurosa, que os obrigou a franzir o nariz.

- Que será este cheiro? - perguntou Léa.

- Desde esta manhã que há qualquer coisa queimando para os lados de Boulogne. Vamos entrar.

Instalaram-se no canapé baixo, atulhado de almofadas.

- Ainda tem espaço nas suas malas? - perguntou Raphael.

- Sim. Mas depende para o que for.

- Ontem, prometi emprestar-lhe alguns livros que considero o que de melhor nos deu a literatura.

Mahl pegou três volumes que estavam no canapé e estendeu-os a Léa, não sem certa hesitação.

- Não, não os estou emprestando, eu os estou dando. Talvez esta seja a última vez que nos vemos; guarde-os como lembrança minha. O crepúsculo dos deuses, de Elémir Bourges, pelo qual trocaria de bom grado toda a obra de Flaubert; A vida de Rancé - talvez você seja ainda muito nova para tal leitura. Trata-se de uma prosa amadurecida, que todos deveriam ler na velhice. Vai lê-lo mais tarde, na hora adequada. E Chéri, da grande Colette. A heroína, uma admirável figura de mulher, tem o seu nome.

Neste romance estão toda a grandeza e toda a miséria da mulher. Oxalá você venha a assemelhar-se à protagonista. Gosta de poesia?

- Sim, um pouco.

- Um pouco só não chega. Leia Nerval, o mais profundamente desesperado.

Como nesse instante Raphael Mahlse mostrava diferente do homem frívolo, do vendedor ocasional de peles ou de tapetes, do cronista de Marianne ou do pederasta parisiense! Léa compreendeu que, com a dádiva daqueles livros, Mahl lhe entregava um pouco de seu próprio íntimo.

- Obrigada - disse simplesmente, dando-lhe um beijo no rosto.

Ele ergueu-se para esconder a emoção.

- Se eu tivesse de amar uma mulher, minha querida, gostaria que fosse como você - disse Mahl em tom reverente.

Léa consultou o relógio.

- Agora tenho de ir. Já passa das seis.

- Vou acompanhá-la. Hoje em dia, não é prudente uma mulher jovem e bonita andar sozinha pelas ruas.

- Mas está tudo deserto!

- Precisamente por isso as ruas são mais perigosas. Acredite neste amante de recantos sombrios; é sempre nos locais sossegados que se escondem os maus rapazes. É preferível evitar tais encontros a quem não os aprecia. Dê-me os livros; vou embrulhá-los.

Retirou de um móvel alto de laca preta com incrustações de marfim um magnífico xale de seda vermelha, bordado com flores e aves coloridas, em que envolveu os três volumes.

- Aqui está! Uma embalagem em perfeita harmonia com o seu vestido - disse ele, estendendo-lhe o embrulho e abrindo a porta.

- Vai sair assim? Não vai trocar de roupa? - admirou-se Léa.

- Você não disse que Paris está vazia? E mesmo que houvesse multidões na rua, não sou bonito assim mesmo? Não estou elegante? Os trajes africanos me parecem o máximo da elegância. Só me falta o kalliyeh, infelizmente.

Na rua, a atmosfera suave estava mudada pelo cheiro de fumaça. Raphael pegou a moça pelo braço.

- Vamos pelo cais, se não se importa. Talvez seja a última vez que damos este passeio, você e eu.

Em frente do Instituto, estavam abertas duas barracas de livros antigos. A vendedora de uma delas era uma mulher gorda e sem idade; na outra, havia um velho de olhos cansados. Cumprimentaram Raphael como a um freguês habitual, nem um pouco admirados com seu traje.

- Então abriram hoje! Mas não devem ter tido muitos clientes.

- Infelizmente, não, sr. Mahl! Até mesmo os mais corajosos fugiram. Não é uma lástima ter de deixar uma cidade tão bonita?

- Vocês deviam fazer o mesmo.

- Eu, sr. Mahl? Nunca! Cresci aqui, nasci num pátio da Rue des Grands-Augustins, estudei no Quai Saint-Michel, perdi a virtude à sombra de Saint-Julien-le-Pauvre e casei em Saint-Séverin. Minha falecida mulher, filha de um antiquário de Believilie, foi enterrada no Pere-Lachaise. Minha filha tem um bar em Montmartre, o mais velho, uma boa casa em frente de Notre-Dame e o último, quando regressar da puta desta guerra, será o meu continuador. Fora de Paris, o corpo e a mente definham. Por isso, ficamos aqui. Não é verdade, Germaine?

A gorda mulher, de pele curtida como a de um marinheiro, opinou ruidosamente:

- Você acertou em cheio.

Com estas palavras definitivas, Raphael e Léa despediram-se dos vendedores.

Os raios oblíquos do sol tingiam de cor-de-rosa as figuras grotescas do Pont-Neuf. Veículos lotados passavam em direção a SaintMichel. Na Rue Guénégaud, através de uma janela aberta, chegou até eles o som de um relógio dando as sete horas.

- Apressemo-nos. Já estou atrasada - disse Léa.

Até o Boulevard Raspail, trocaram apenas algumas palavras.

Como dois amigos, beijaram-se em frente da porta do prédio, desejando-se mutuamente boa sorte.

No dia seguinte, Camille recebeu carta de Laurent; encontrava- se perto de Beauvais, que descrevia como uma cidade muito bonita, com soberba e imponente catedral.

- De quando é a carta? - perguntou Léa.

- De 2 de junho. Por quê? Oh, meu Deus! Beauvais foi destruída depois desse dia - balbuciou Camille, deixando-se cair por terra.

Muito perturbada, Léa nem sequer pensou em socorrer a doente.

- Léa! - implorou a moça.

Era tão grande o entorpecimento da jovem que não ouviu o apelo de Camille. Por fim, suplantando o torpor, prestou-lhe os cuidados necessários. Quando a crise passou, as duas mulheres caíram nos braços uma da outra, chorando durante muito tempo. Assim as encontrou o dr. Dubois, que parecia ter envelhecido dez anos desde a véspera. Apesar da fadiga, conseguiu dizer as palavras adequadas para minorar-lhes a angústia.

Na terça-feira, dia 11 de junho, as moradoras do Boulevard Raspail encontravam-se prontas para a partida. Faltava apenas o veículo. Começou, então, uma longa noite de espera.

A manhã de quarta-feira decorreu em tal clima de tensão que Léa preferiu sair de casa, dizendo que iria à estação de Austerlitz verificar se os trens estavam circulando. Tinha calçado sandálias e percorreu Saint-Germain a passos largos, ultrapassando grupos de aspecto digno de lástima, que empurravam carrinhos de bebê, carroças e carros de mão, levando seus poucos pertences: relógios de parede, aspiradores, máquinas de costura, barômetros, aquários com peixes vermelhos, colchões enrolados, fotografias de família, ampliações de fotos de casamento, bonecas de louça, tapetes de cores desbotadas e ainda duas gaiolas onde saltitavam, enlouquecidos, um canário e um casal de rolas. Havia muitas crianças de tez pálida, mulheres de rosto cansado, velhos extenuados. De onde viriam? Dos arredores do norte ou da Bélgica? Em Saint-Michel, parte deles reuniu-se à vaga humana que subia para o Luxemburgo; outra parte continuou na mesma direção em que Léa seguia, rumo à estação de Austerlitz. Uma multidão compacta impedia o acesso à estação.

Circulavam os mais fantásticos boatos entre as pessoas ali bloqueadas:

- Os boches chegaram a Enghien.

- Não. Estão na Antuérpia.

- Explodiram os depósitos de petróleo dos arredores de Paris.

- Bombardearam Versailles.

- Os trens já não circulam.

- Fecharam as cancelas da estação.

Era verdade.

Por detrás das grades do átrio, empoleirado no teto de um veículo, um funcionário da estrada de ferro falava à multidão utilizando um alto-falante. Após insistentes pedidos, conseguiu relativo silêncio.

- Como medida de segurança - principiou ele -, manteremos a estação fechada até as cinco da tarde.

De todos os lados se elevaram gritos de protesto.

- Silêncio! Deixem-me falar... Silêncio!

As exclamações interromperam-se -. Isto, a fim de permitir o embarque dos passageiros que já se encontram na plataforma.

- E nós? - perguntaram algumas vozes entre os assistentes.

- Todos poderão partir. Prevêem-se duzentos e trinta e oito vagões extraordinários nas estações de Austerlitz e de Montparnasse. Nesse momento, um trem sairá de Paris de cinco em cinco minutos. Todos seguirão. Tenham paciência..

Léa conseguiu infiltrar-se por entre os que tinham se deixado cair na calçada, rodeados de bagagens. Nas imediações do Jardim des Plantes, os canteiros haviam sido tomados de assalto por grupos que aí faziam os seus piqueniques improvisados. Atravessou o jardim, em direção à Rue Linné, na esperança de encontrar no local menor número de pessoas. Foi abordada por um indivíduo que a seguiu até a Rue des Écoles, mimoseando-a com baboseiras que em breve se transformaram em obscenidades. Naquele lugar, porém, por razões desconhecidas, o homem abandonou a perseguição.

Ao passar em frente da Dupont-Latin, um cheiro de batata frita lembrou-a de que não tinha almoçado. Havia poucos clientes na grande cervejaria. Deliciada, Léa saboreou as batatas e bebeu uma cerveja, seguida de café. De estômago reconfortado, encaminhou-se para o Odeon, cortando a custo a multidão que subia o Boulevard Saint-Michel Eram já quatro da tarde.


Capítulo 14

O automóvel chegou às cinco da madrugada, conduzido por um jovem completamente esgotado, que adormeceu debruçado sobre a mesa da cozinha, diante da xícara de café que não tivera ânimo para levar aos lábios.

Léa, ajudada por Josette, aproveitou a ocasião para descer as bagagens e instalar Camille, que declarou sentir-se bem. Deixando o automóvel sob os cuidados da criada, voltou a subir para acordar o motorista, que emergiu apalermado de uma escassa hora de repouso. O café requentado restituiu-lhe a lucidez.

Em obediência às instruções de Camille, Léa desligou os registros do gás e da eletricidade e girou a chave na fechadura, pensando se alguma vez voltaria ali.

Na rua, o motorista acabava de prender as malas e um malão ao teto do automóvel.

- Ainda não me apresentei - disse ele. - Meu nome é Antoine Durand. Vou levá-las até Etampes, onde devo me encontrar com alguns camaradas. Graças ao sr. Tavernier, dispomos de cinqüenta litros de gasolina e temos um salvo-conduto que nos permite sair pela Porte-d'Orléans.

- Por que motivo é preciso salvo-conduto para passar por lá? - perguntou Léa.

- Não sei, senhorita. Mas todos os civis que pretendem abandonar Paris são desviados para a Porte d'Italie.

Foram necessárias três horas para que atingissem a saída de Orléans, guardadas por militares que encaminhavam a multidão para a Porte d'Italie. Graças aos documentos de que vinham munidos, um oficial deixou-os passar. Tomaram então alguns desvios até um entroncamento na Rodovia 20, e tiveram de submeter-se a nova fiscalização antes de entrarem na estrada de Orléans.

Exceto pela presença de viaturas militares, não havia trânsito na estrada. A partir de Montihéry, porém, começaram a ultrapassar os primeiros grupos de viajantes a pé - algumas mulheres de chinelos ou com sapatos de saltos muito altos, arrastando atrás de si crianças, vesti das às pressas, ou empurrando carroças de onde, por entre fardos, emergiam, por vezes, cabeças de crianças. Adolescentes puxavam carros de mão excessivamente carregados para as suas forças. Em alguns desses transportes improvisados, seguiam sentados velhos e enfermos. Havia entre os civis inúmeros soldados em fuga, de cabeça descoberta e olhar espantado. Alguns deles levavam consigo malas, outros, de cabeça baixa, as respectivas espingardas, subtraídas à vigilância militar.

O automóvel experimentava cada vez maior dificuldade em esgueirar-se por entre a onda humana que crescia sem cessar, arrastando velocípedes, motocicletas, veículos puxados por cavalos ou por bois, camionetas, triciclos com bagageiro, viaturas de bombeiros, até mesmo carros funerários, e automóveis que pareciam prosseguir como que por milagre, de tão antigos. Saíram de Arpajon em passo de tartaruga. Um soldado arvorado em agente de trânsito informou-os ser proibido ultrapassar. Léa exibiu o salvo-conduto e o militar ergueu os braços, como se dissesse: "Se é esse o caso".

Nas encruzilhadas, um marinheiro aqui, um aviador ou um soldado de infantaria acolá tentavam, com a sua presença, conferir um simulacro de ordem àquela mísera migração. Tomando pelos campos que marginavam a via, o motorista conseguiu ultrapassar uns vinte ônibus repletos de prisioneiros e dos respectivos guardas. De que prisão viriam? Antoine, no entanto, depressa se viu forçado a retomar a estrada. E logo recomeçou o lento passeio sob o sol escaldante que queimava as faces e molhava de suor ciclistas e pedestres.

Na beira da estrada, diante de seu jardim, um homem munido de uma vasilha de alumínio amassada e com alguns baldes de água colocados a seus pés, onde batia para chamar a atenção dos caminhantes, interpelava os refugiados:

- Vamos, deixem ver a cor de seu dinheiro! Dez soldos o copo! Dois francos a garrafa!

A mulher do vendedor estendia aos sedentos um copo ou uma garrafa e recolhia o dinheiro.

- Que vergonha! - exclamou Camille.

- Terá oportunidade de observar muito mais até o fim da viagem - comentou Antoine com ar desiludido.

Por fim, chegaram a Etampes. Tinham levado seis horas para percorrer quarenta e seis quilômetros.

A pequena cidade assistira ao êxodo de seus habitantes, misturados aos outros fugitivos que por ali passavam. Apenas um hotel permanecia em funcionamento; vendia café, pão e queijo, que os retirantes disputavam entre si. Foram necessárias mais duas horas para atravessar a localidade, O jovem motorista atingira o limite das forças, dirigindo como autômato. Por vezes, a cabeça descaía-lhe para o peito. De súbito, deu-se conta de ter deixado para trás a povoação, o que o fez despertar por completo. Parou o veículo.

- Não posso prosseguir - informou. - Aconselho-as a irem por estradas secundárias.

- Não vai deixar-nos! - gritou Josette.

- Tenho de cumprir ordens. Não posso continuar.

Nesse instante, superando o ronco dos motores dos carros, os gritos das crianças e o arrastar de pés de milhares de pessoas, ouviram-se os zumbidos que todos temiam.

- Depressa! Desçam do carro! - gritou Antoine, saltando do automóvel. - Deitem-se na valeta!

Camille saiu do veículo amparada por Léa. As mãos crispavam-se-lhe no ventre num irrisório gesto de proteção. Correu, rolou na erva poeirenta da vala e foi parar junto da criada, que tremia como vara verde, e de um casal de velhos, aninhados um nos braços do outro.

Os aviões sobrevoaram bem baixo, tão próximos que se distinguiam nitidamente os pilotos. A opressão do medo desvanecia-se pouco a pouco e algumas cabeças já começavam a erguer-se. Mas, de repente, em súbita reviravolta, os aviadores alemães começaram a metralhar a longa e imóvel coluna de fugitivos estirados no chão.

Léa sentiu sobre ela a poeira das balas que crepitavam na estrada. Os aparelhos efetuaram três passagens por cima deles. Quando a tempestade mortífera cessou, houve um longo silêncio, logo seguido dos primeiros gemidos, dos primeiros gritos, dos primeiros uivos de dor, enquanto uma fumaça negra e nauseabunda, feita de carne humana, de borracha e de gasolina queimada, se elevava no meio da catástrofe. Josette foi a primeira a levantar-se, bestificada e coberta de sangue. Gritou, rodopiando sobre si mesma.

Camille ergueu-se devagar, ilesa. Perto dela, o casal de velhinhos permanecia imóvel. A jovem sacudiu o ombro do homem. Esse movimento obrigou-o a deslocar-se e constataram então que a mesma bala atingira marido e mulher. De punhos cerrados, Camille abafou um grito. Dominando a repugnância, debruçou-se sobre os corpos e fechou-lhes os olhos. Antoine saíra ileso.

Quando Léa se pôs de pé, tudo girou à sua volta; teria caído sem a ajuda de Camille.

- Mas... você está ferida! - exclamou.

Levando a mão à testa, Léa retirou-a cheia de sangue. Aquilo produziu-lhe uma sensação esquisita, mas ela não se mostrou preocupada.

- Deixe-me ver - interveio um homem de uns sessenta anos, de opulenta cabeleira branca. - Sou médico - esclareceu.

Do estojo, retirou compressas e curativos.

- Foi no arco da sobrancelha. Nada de grave - constatou.

- Vou pôr-lhe uma atadura bem apertada que estancará a hemorragia.

Um pouco tonta, Léa deixou-se tratar.

Sentada no declive, a atadura conferindo-lhe o aspecto de um trepanado da Grande Guerra, observou com olhos frios o espetáculo que a rodeava: vários carros ardiam, mas, como por milagre, o deles não fora atingido. Corpos sem vida jaziam por toda parte. Os feridos gemiam, gritando por socorro. Foram necessárias várias horas para que a caravana retomasse a caminhada. Ninguém pensara em comer. Eram oito da noite quando Léa se instalou ao volante; o motorista desaparecera.

Diante da insistência de Camille, Léa concordou em transportar uma velha que não conseguira encontrar a família.

Durante quilômetros seguiu-se o mesmo espetáculo de morte e de destruição. Ao cair da noite, Léa, fatigada, com o sangue do ferimento a escorrer-lhe pela face, deixou a Rodovia 20, em Angervilie, na esperança de achar um café ou um restaurante aberto. Mas nada. Tudo estava fechado perto da aldeia, atulhada de refugiados que dormiam nos portais das casas, na igreja, na escola, na praça e mesmo no cemitério. Léa parou o carro à beira de um campo. As quatro mulheres saíram. A noite era suave, o céu estava cheio de estrelas, e pairava no ar um agradável perfume de feno. Josette abriu então o cesto das provisões, às quais se atiraram, esfomeadas.

Ao acordar, pela manhã, constataram que o automóvel estava com um pneu vazio. Incapaz de retirar a roda, Léa partiu em busca de uma oficina. Mas, tal como todos os outros estabelecimentos da aldeia, a garagem encontrava-se fechada. Na praça, algumas religiosas distribuíam leite às crianças. Léa perguntou onde poderia conseguir socorro.

- Não ficou ninguém aqui, minha pobre menina - esclareceu uma delas. - Todos os homens válidos estão na guerra ou fugidos. O presidente da Câmara, o notário, o médico, os bombeiros, o professor, o padeiros, todos foram embora. Só resta o vigário, já muito idoso, aliás. Até mesmo Deus nos abandonou, minha filha.

- Irmã Jeanne, cale-se. Como se atreve a duvidar da bondade de Deus? - admoestou uma das religiosas, de rosto fino e cansado.

- Perdoe-me, madre, mas, depois de ter visto tanta miséria desde que partimos, duvido cada vez mais dessa bondade.

- A fadiga a faz blasfemar, irmã Jeanne. Vá descansar.

Depois, virando-se para Léa, a religiosa disse:

- Venha, minha filha. Vou trocar seu curativo.

Com mãos hábeis, retirou a tira suja e limpou o ferimento que seguia a linha da sobrancelha. Depois, colocou sobre ele uma grande compressa, fixando-a por meio de um esparadrapo.

Não está com mau aspecto. Mas seria conveniente levar dois ou três pontos de sutura.

- Ficarei desfigurada? - inquiriu Léa.

- Não se preocupe - respondeu a religiosa com um riso juvenil. - Isso não a impedirá de encontrar marido.

Agradecendo, Léa regressou ao local onde ficara o automóvel. Por três vezes, pediu ajuda a homens que transportavam pesadas cargas. Mas, empurrando-a, estes nem sequer se dignaram a responder-lhe, seguindo em frente. Desencorajada, ela sentou-se num marco à beira do caminho.

- Léa!

Esgotada demais para surpreender-se com o chamado num lugar para ela desconhecido ainda no dia anterior, a jovem ergueu a vista. Na sua frente estava um militar sujo, de rosto oculto pela barba por fazer, sen boné, com os cabelos compridos, um capote cinzento devido à poeira, tal como as botas e as faixas que lhe cobriam as pernas, capacete pendurado no bornal, uma sacola em cada ombro e a espingarda na mão.

Léa levantou-se. Quem seria aquele homem? Como sabia o seu nome? No entanto... aquele olhar... os olhos azuis.

- Mathias!

Com um grito, atirou-se em seus braços, e o rapaz deixou cair a arma para receber neles a amiga reencontrada.

- Mathias... Mathias.

- É... você... - balbuciava o jovem, cobrindo-a de beijos.

- Que alegria em encontrar você! Que faz aqui?

Antes de responder, o soldado voltou a pegar a espingarda. Depois respondeu:

- Ando à procura do meu regimento. Fui informado de que se encontrava perto de Orléans. E você? Que faz pelas estradas?

Julguei que estava em segurança, em Montillac.

- Estou com Camille d'Argilat, que está grávida e doente. Não pudemos deixar Paris mais cedo. É uma sorte tê-lo encontrado; nosso carro está com problemas.

Com que alívio Camille, Josette e a velha senhora os viram chegar!

- Receei muito que tivesse acontecido alguma coisa, Léa - suspirou Camille.

Na aldeia não achei ninguém que me ajudasse. Felizmente encontrei Mathias. Lembra-se de Mathias Fayard, filho do administrador das adegas?

- Claro que me lembro! Como está, Mathias?

- Tão bem quanto possível.

Depois de beber um café ainda morno no copo da garrafa térmica, o jovem trocou o pneu do carro.

Soavam nove horas na torre da igreja.

Mathias instalara-se ao volante e, seguindo por estradas secundárias, procurava aproximar-se de Orléans. As mulheres sentiam- se mais tranqüilas com aquela presença masculina. Camille, a criada e a passageira apanhada pelo caminho tinham adormecido.

A mão de Léa repousava, confiante, na coxa do amigo.

Ao longo da via estreita e branca estendia-se uma coluna de pedestres e de veículos que caminhavam em passo de procissão. Nos acostamentos, havia carros abandonados, alguns calcinados, cadáveres de cavalos e de cães. Pelos campos marginais, sepulturas recém-abertas, mobiliário diverso, utensílios de cozinha, carrinhos de bebê e malas rasgadas atestavam os recentes bombardeios.

À frente do veículo em que seguiam, um velho automóvel sobrecarregado, transportando no teto dois colchões enrolados, enguiçou. Mathias deixou o volante e ajudou a empurrá-lo para desobstruir a rodovia. Uma mulher com um bebê nos braços e duas outras crianças agarradas à saia observava a cena chorando. Mathias voltou a subir no carro e retomaram a marcha.

Quando pararam para comer, cerca de uma hora, haviam percorrido apenas uns trinta quilômetros.

No lavatório público de uma vilazinha, fizeram uma toalete sumária que, assim mesmo, contribuiu para restituir-lhes um pouco de ânimo. Camille estava com má aparência e tinha o rosto muito vincado. Mas nenhuma queixa lhe aflorava aos lábios, embora, de tempos em tempos, sua fonte se cobrisse de suor. A velha senhora, cujo nome desconheciam, balançava a cabeça coberta pelo seu chapéu de viúva, repetindo com obsessiva regularidade:

- Michéle, cuidado com as crianças! Georges, Lolc, voltem aqui!

- Façam-na calar! - explodiu Léa. - Façam-na calar!

Camille rodeou com o braço os ombros curvados da mulher sem nome e disse:

- Não se preocupe, minha senhora. Georges e Loíc nada têm a recear. Estão com a mãe.

- Michéle, cuidado com as crianças!.

Num gesto de cansaço, Camille tapou os olhos com a mão; estava de tal forma emagrecida que retirara do dedo a aliança, receando perdê-la.

- A senhora não sabe lidar com doentes mentais - observou Josette, levando o indicador à testa.

Pegando no braço da velha, sacudiu-a sem cerimônia.

- Cale-se, senão vamos deixá-la à beira do caminho. Vai ver o seu Georges e o seu Loíc no inferno.

- Não tem vergonha de falar nesses termos à pobre mulher?

- admoestou-a Camille. - Deixe-a!

A criada, de rosto vermelho, despenteada e com a roupa em desalinho, obedeceu de má vontade. Durante momentos, todos comeram em silêncio os ovos cozidos e as rodelas de salsichão, enquanto na estrada continuava o mísero desfile, sob o céu branco de calor. A velha calara-se, entorpecida.

- Temos de seguir viagem - aconselhou Mathias.

Era noite quando atingiram os arredores de Orléans. Nenhuma loja ou residência aberta! Também os habitantes da cidade tinham fugido. O Boulevard de Chateaudun e o Faubourg Bannier haviam sido bombardeados. De repente, desabou sobre eles violenta tempestade, reduzindo ainda mais a marcha - não se sabia para onde - de toda aquela gente atirada para a estrada por incontrolável pavor. Cada um se abrigava como podia, e alguns refugiados não hesitaram mesmo em arrombar portas e janelas de residências abandonadas. Depois, a tempestade cessou tão subitamente como viera. Das casas violadas, sem procurar esconder-se, saíam vultos trazendo consigo relógios de parede, quadros, jarras e cofres. Os pilhantes iniciavam a sua sinistra tarefa.

- Receio que tenhamos de passar a noite no carro - disse Mathias, que não conseguira avançar um milímetro sequer no espaço de uma hora.

- Senhorita... senhorita... a senhora desmaiou!

- Que quer que eu faça? Procure fazê-la engolir as gotas.

Josette pegou o frasco que Léa lhe estendia e pingou o remédio no copo da garrafa térmica. Lentamente, Camille recobrou os sentidos.

O automóvel avançou mais alguns metros.

Como um rebanho entontecido, a multidão escoava-se pelo Faubourg Bannier, movendo-se de ambos os lados do carro e à sua frente, com a cabeça vergada ao peso das cargas e do cansaço. Sem o ruído dos motores, das rodas das carroças e do estrépito arrastado dos passos de milhares de indivíduos, era como um desfile silencioso de um grupo fantasmagórico caminhando rumo a um destino ignorado, através da noite negra cortada pela claridade dos relâmpagos.

À direita, surgiu uma rua quase vazia; o embrutecimento da massa humana, provocado pelo medo e pelo sofrimento, contribuía para ,conservá-la compacta. Quanto aos condutores dos veículos motorizados e das carroças, esses guiavam adormecidos.

Mathias virou num cruzamento e avançou com prudência na obscuridade, mantendo os faróis apagados com receio dos aviões.

Chegaram assim a um quarteirão destruído pelos recentes bombardeios. Das ruínas enegrecidas, desprendia-se um cheiro de cinza molhada e de porões úmidos. Apesar da atmosfera pesada e quente, Léa tremia de frio. Pararam numa pracinha plantada de tílias, poupadas pelas bombas. Saíram do automóvel para estirar os membros entorpecidos por tantas horas de imobilidade. Foram fazer as suas necessidades atrás das árvores, Josette ajudou a patroa a deitar-se em cima de uma nesga de relva.

- Estou com frio - queixou-se a doente.

A criada regressou ao carro, de onde retirou uma manta de viagem com qu cobriu Camille; esta agradeceu com um sorriso triste, de mãos crispadas sobre o ventre.

- Precisa de mais alguma coisa, minha senhora? - perguntou Josette.

Camille fez um gesto negativo com a cabeça e fechou os olhos.

A velha sem nome afastou-se pela rua obstruída por escombros, repetindo:

- Michéle, cuidado com as crianças!.

Mathias e Léa deram uma volta pela praça, enlaçados e muito apertados um contra o outro.

Junto de um jardinzinho, espalhava-se pelo ar um inebriante perfume de rosas. O rapaz empurrou a cancela de madeira e os dois jovens acharam-se sob um caramanchão coberto de rosas, provavelmente brancas. Instalaram-se no banco, onde algumas almofadas haviam sido esquecidas, aspirando com volúpia o ar perfumado. Como parecia longínqua a guerra nesse instante!

Bastava-lhes fechar os olhos para estarem de volta a Montillac, sentados no banco de pedra ainda quente sob o sol da tarde, em frente dos vinhedos, com as costas apoiadas na parede pela qual serpenteava a velha roseira carregada de rosas brancas, pendentes e cheirosas. Era a pausa obrigatória nas longas noites de verão, quando o poente tingia de ouro as velhas pedras, as telhas das adegas e as pranchas escuras do alpendre. Aquele era o momento em que subia da terra uma paz à qual todos os habitantes de Montillac eram sensíveis.

Mathias apertou a companheira contra si com mais força. Léa sentiu-se segura pela primeira vez em muito tempo, ao ver-se envolvida pelos braços do amigo de infância. Vieram-lhe à memória, fazendo-a estremecer, as brincadeiras de ambos no meio do feno, as perseguições por entre o mato crescido dos prados, a embriaguez na época das vindimas, as corridas de bicicleta na encosta de SaintMaixant, os encontros à luz da lua, quando exploravam as grutas de Saint-Macaire ou procuravam as "masmorras" do castelo dos duques de Epernon, em Cadillac.

Os lábios de ambos encontraram-se com violência, os dentes entrechocaram-se, os hálitos misturaram-se; puseram nesse beijo toda a fúria de viver. As mãos fortes, maltratadas e de unhas sujas de Mathias quase arrancaram o leve corpete do vestido de Léa. A combinação rendada de seda branca colava-se à sua pele. As alças escorregam descobrindo os seios, cujos bicos roçaram a camisa cáqui de Mathias, ensopada de suor. O tecido grosseiro tornou-os ainda mais eretos, enquanto a boca do rapaz os sugava com uma espécie de grunhido. Mas Léa afastou sua cabeça com doçura.

- Pare, Mathias!

- Por quê?

- é uma coisa tão intensa.

- Não quer?

- Sim. Mas espere um pouco.

Como tinham certeza de ter a vida pela frente nesse instante, ali estendidos no banco de madeira, em suas roupas amarrotadas, a mente transtornada, embriagados pelo perfume das rosas!

Longe, soaram duas horas.

- Devia dormir um pouco, Léa.

Sem se dar ao trabalho de arrumar a combinação, a moça estendeu-se no banco, apoiando a nuca nas coxas do amigo, e adormeceu. Com ternura, Mathias ficou a contemplá-la assim adormecida, durante muito tempo. Estava escuro nas imediações e apenas os seios brancos de Léa se destacavam levemente na escuridão. Para não ser tentado a agarrá-los e beijá-los uma vez mais, o rapaz ajeitou-lhe a combinação e abotoou-lhe o vestido. Depois, acendeu um cigarro.

Camille acordou sobressaltada, depois de um sono agitado, perguntando-se, por instantes, onde estaria.

O lugar desaparecia nas sombras, e as próprias tílias, tranqüilas, pareciam erguer-se, negras e ameaçadoras, acima dela. A criança mexeu-se em seu ventre, provocando-lhe dor e alegria ao mesmo tempo. Soergueu-se no tronco de uma das árvores. "Está tudo muito calmo", pensou, segurando o abdômen.

Notou, de início, um estrondo longínquo; talvez ainda fosse a trovoada. Escutou com mais atenção. A tempestade aproximava-se... trovejava... Nessa altura, um vulto lançou-se por terra, junto dela, gritando:

- Os aviões, minha senhora... os aviões!.

O pavor recomeçou quase antes mesmo de a criada ter tempo de terminar a frase: um rosário de bombas caiu tão próximo da pracinha que o chão tremeu e os escombros ruíram. As explosões sucediam-se, e logo as chamas se elevavam, iluminando de repente as tílias.

Mathias obrigou as mulheres a se afastarem do carro para o qual tinham se precipitado, arrastando-as para o lado mais vazio da praça.

- A gasolina - soprou ele ao ouvido de Léa, que se debatia.

- Acho que as bombas caíram na estrada por onde viemos - gaguejou a criada.

O bombardeio prosseguia, agora mais distanciado. Ouvia-se o crepitar das metralhadoras.

- Deus do céu! Que fará a OCA? - rosnou Mathias.

Desconhecia nessa altura que a bateria da DCA deixara de existir em Orléans. O rugido dos aviões afastou-se e depois aproximou-se de novo. Voando a baixa altitude, a esquadrilha sobrevoou outra vez a cidade. Caiu uma potente bomba acompanhada de um barulho ensurdecedor, derrubando os últimos edifícios que ainda se mantinham de pé, uma garagem e o Hotel Saint-Aignan. Uma chuva de pedras, ferros e fogo foi abater-se sobre a longa coluna de refugiados.

Pela pracinha, antes tão calma, passavam correndo, com os rostos deformados pelo terror, pessoas de vestes rasgadas, mulheres alucinadas transportando no colo pequenos corpos desconjuntados e criaturas sem mãos, sem braços ou sem rosto. Um ser que parecia ter saído de um pesadelo, desnudado pela explosão, saltitava com espantosa rapidez no pé que lhe restava, ridiculamente calçado com um sapato raso, enquanto o coto sangrento deixava atrás de si um rastro escuro. Com os olhos esbugalhados, siderados, Léa e os companheiros assistiam à fuga dos infelizes. Surgiu um carro de bombeiros com todas as sirenes ligadas, varrendo-os à sua passagem com os faróis. Uma camioneta parou. Dela desceu um homem de idade, com a cabeça protegida por um capacete do modelo usado durante a Grande Guerra.

- Há alguém ferido? - perguntou.

- Não. Estamos bem, obrigado - disse Mathias.

- Mas... você é soldado... é novo. Venha conosco. Nós somos velhos e não muito fortes - disse o homem, indicando os companheiros em cima das viaturas.

- Não vá, Mathias! - gritou Léa, agarrando-se a ele.

- Não é muito bonito o que está fazendo, senhorita - censurou-a o velho. - Há centenas de desgraçados sepultados sob os escombros e é necessário socorrê-los.

- E nós? Que será de nós sozinhas?

- Vocês também são novas. Venham ajudar-nos.

- Não podemos. Nossa amiga está doente.

- Bem, vamos indo! Chega de conversa. Enquanto isso há gente morrendo.

Mathias chamou Léa à parte.

- São soldados da defesa passiva, e devo obedecer-lhes. Vão para o carro e tentem chegar até as pontes.

- Mas nós não podemos abandoná-lo aqui! - protestou ela.

- Tenho de cumprir o meu dever, Ou na frente ou aqui.

- Mas a guerra está perdida! - gritou Léa com violência.

- E daí? Isso é motivo para esquivar-me? Vamos, não chore. Havemos de tornar a ver-nos. Pegue a minha arma. Nunca se sabe...

Tenha cuidado. Amo-a.

Sob os olhares desolados das três mulheres, Mathias retirou do automóvel o seu equipamento militar e subiu para a camioneta, que logo se afastou em direção ao incêndio.

Com a cabeça apoiada no braço, sobre o capô do carro, Léa soluçava.

- É preciso partir - advertiu-a Josette, amparando a patroa, cujas feições se encontravam ainda mais abatidas.

- Tem razão. De nada adianta choramingar - concordou Léa, arrancando o curativo solto pelo calor.

As duas instalaram Camille no banco traseiro do veículo.

- Obrigada - murmurou a doente. - Onde está a velhinha?

- Foi-se embora há muito tempo - esclareceu a criada, estendendo o braço na direção do fogo.

Camille gemia, mergulhada em semi-inconsciência. Josette, com a cabeça para fora da janela, orientava Léa em meio a detritos de todos os gêneros, dos jatos de água das canalizações rebentadas, dos pedaços de madeira em chamas que caíam dos edifícios.

- Atenção à direita! Um grande buraco.

Léa conseguiu evitá-lo em parte e o safanão arrancou um grito de Camille e uma praga de Josette. Atrás delas, ruiu um prédio e algumas pedras atingiram a lataria, que ficou coberta de poeira.

- Não consigo ver nada - lamentou-se Léa.

Imobilizada em meio ao assobiar das chamas que pareciam rodeá-las por todos os lados, tentou fazer funcionar o limpador do pára-brisa, mas sem êxito.

- Saia e limpe o vidro da frente - ordenou ela à criada.

- Não quero, senhorita! Tenho medo! - recusou-se a moça, desfazendo-se em pranto.

Léa estendeu o braço e agarrou-a pelos cabelos.

- Desça, vamos! Estou mandando!

Os tapas desabavam sobre Josette, sem que ela procurasse defender-se.

- Pare com isso, Léa! Por favor! - interveio Camille.

Com as mãos sem força, tentava deter a amiga.

- Dê-me o lenço. Eu vou - ofereceu-se a doente.

- Está louca! Você nem sequer se sustenta de pé! Se deseja ser útil, me dê uma manta.

Fora do carro, Léa sentiu-se envolvida pelo calor do incêndio. Com o auxílio da manta, conseguiu remover do vidro a poeira mais grossa. De súbito, alguém gritou atrás dela. Depois, apesar do ambiente ensurdecedor, ela ouviu o baque de um corpo caindo muito próximo. Virou-se bruscamente, pronta para defender-se com a manta, mas suspendeu o gesto.

Sob a claridade das chamas, distinguiu Camille de pé, apertando entre os dedos o cano da espingarda e fitando o chão com o olhar fixo. A seus pés, jazia um homem com o rosto coberto de sangue. Junto dele, brilhava a comprida lâmina de uma faca de açougueiro. Tomada de espanto, Léa inclinou-se e sacudiu o indivíduo, que continuou imóvel. Endireitou-se devagar e encarou a mulher que acabava de salvar-lhe a vida, como se a visse pela primeira vez. A doce Camille não hesitara em matar! Em sua fraqueza, como conseguira arranjar forças para tanto? Suavemente, Léa retirou-lhe a arma das mãos. Nesse instante, como se apenas aguardasse tal gesto, Camille tombou de joelhos, junto ao cadáver.

- Deus do céu! Está morto! Não pude evitá-lo, compreende? Vi-o avançar... com a faca erguida... prestes a matá-la. Depois.

bem... depois não sei mais o que aconteceu.

- Obrigada - disse Léa com um calor que a deixou surpresa por instantes. - Venha. Entre no carro. Não fique aqui mais tempo.

- Mas eu matei um homem! - gritou Camille, mordendo os punhos.

- Você não teve escolha. Venha.

Com gestos de uma doçura pouco habitual nela, Léa ajudou Camille a se instalar.

Josette, que assistira a toda a cena, permanecia sentada no automóvel, de boca escancarada, sem conseguir mover-se.

- Venha ajudar-me ou mato-a também! - disse-lhe a jovem.

A criada saiu do veículo como um autômato.

- Apresse-se!

Assim que as duas mulheres acabaram de instalar a doente no banco traseiro do automóvel, esta desmaiou.

- Cuide dela - ordenou Léa à criada. - Ora, ora. . O que há com você? Suba!

De olhos arregalados, Josette fitava o chão.

- O homem não está morto, senhorita - sussurrou.

De fato, o indivíduo erguia-se brandindo a faca e resmungando:

- Malditas... Fazerem isso comigo... Putas. . Vou furá-las.

- Suba, depressa!

Enquanto Josette se atirava para dentro do carro, Léa recuou com calma e engatilhou a arma, tal como Mathias lhe ensinara quando pararam para o almoço. Depois, sempre recuando, levou a espingarda ao ombro e disparou, sentindo o recuo da arma ferir-lhe a carne. À sua frente, apenas a alguns passos, o desconhecido, com um buraco em pleno rosto, permaneceu um instante perplexo, de braço erguido, antes de cair para trás num só movimento.

Apertando a arma, Léa, imóvel, observava-o.

Sentiu pousar em si uma mão escaldante: Camille! Que fazia ela ali fora de novo? Não podia ficar quieta dentro do carro? Tinha já complicações suficientes mesmo sem aquele encargo de zelar constantemente pela mulher de Laurent d'Argilat. Laurent... a essa hora, estaria morto, por certo; na frente de combate, as coisas eram bem piores do que ali. Sim, mas ele era homem, era soldado, dispunha de uma arma. Ela também a tinha, porém. Não acabara de matar um homem? Pum! De um só tiro. O pai sentir-se-ia orgulhoso da sua façanha de atiradora. Não fora ele quem a ensinara, nas quermesses das aldeias? Teria orgulho da filha, sem dúvida.

- Léa...

A filha de Pierre Delmas não se deixava intimidar! Que o dissesse aquele patife com o rosto estourado! Tinha agora um aspecto bem pouco agradável.

- Vamos, Léa, acalme-se. Acabou-se. Temos de partir.

Que chata! Com aquela Camille sempre atrás dela, ninguém podia se divertir um pouco. Partir? Sabia que era necessário, mas.

para onde? Em volta, tudo ardia; o calor era terrível. Com a mão suja de poeira, limpou o suor que lhe escorria para os olhos e vomitou, sustentada por Camille e amparada à arma.

- Está melhor?

Léa resmungou. Sim, estava melhor, mas precisava sair dali rapidamente.

- Desta vez, está bem morto - comentou Josette, quando as duas jovens se instalaram no carro.

E foi essa apenas a oração fúnebre daquele pobre-diabo.

O dia surpreendeu-as na Place Dunois. Ali as casas não haviam sofrido danos. Havia um posto de primeiros socorros. No chão, jaziam dezenas de pessoas, a maior parte delas com queimaduras graves. Religiosas de hábitos manchados de sangue agitavam-se no meio dos feridos. Léa saltou do veículo.

- Onde posso encontrar um médico, irmã? perguntou a uma das freiras.

A religiosa endireitou-se a custo; uma madeixa de cabelos grisalhos surgiu por debaixo de sua touca.

- Não há nenhum, minha filha. Estamos aqui sozinhas com a nossa superiora. Esperamos a chegada de ambulâncias para o transporte dos feridos para o Hospital Sonis ou para outro qualquer.

- Onde ficam os hospitais?

- Não sei. Não somos daqui. Viemos de Etampes.

Desesperada, Léa olhou em volta. Felizmente Camille desmaiara de novo e não podia ver nem ouvir nada. Léa abordou um jovem bombeiro, quase uma criança, que passava correndo.

- Qual é o caminho para se chegar à ponte, por favor?

- As pontes. . as pontes vão ser dinamitadas. De qualquer modo, não conseguirá chegar lá. São necessárias horas para se ir de Martroi à Avenue Dauphine, que fica do outro lado da Ponte Royal. Do lugar onde está, é preferível tentar a Ponte Marechal Joffre.

- E por onde devo seguir?

- Em tempos normais, seria pela Rue de Coulmiers ou pela Marechal Foch, para depois pegar o Boulevard Rocheplatte, atravessá-lo e cortar por uma das ruas que descem.

Sem mais informes, o bombeiro afastou-se, correndo.

Quanto tempo levaram para percorrer aquele bairro de Orléans, avançando, recuando, contornando, detidas pelos escombros, por vezes, ou por barragens de arame farpado erguidas pelo exército? Camille continuava desmaiada. Léa sentia dores na nuca, nos ombros e nos braços; o ferimento na testa incomodava-a. E o calor, santo Deus!

Depois da morte do desconhecido armado de faca, Josette se acalmara como por encanto, lançando olhadelas de admiração e de receio para a jovem ao volante, ajudando-a o melhor que podia, já não hesitando em sair do automóvel para desviar com energia alguma trave, uma peça de mobiliário ou qualquer outro obstáculo do caminho, O gesto de Léa lhe dera confiança.

- Estou com fome, senhorita - lamentou-se.

Na verdade, havia muitas horas que não comiam; mas como era possível sentir fome em semelhantes circunstâncias?

Chegaram à rua da Porte Saint-Jean, abarrotada de gente desvairada. Depois de atravessar o Boulevard Rocheplatte, haviam encontrado os fugitivos no meio de incrível balbúrdia de cavalos, carrinhos de bebê, ambulâncias, militares de uniforme em desalinho, homens com cara de condenados, muitas vezes bêbados, velhos carregados aos ombros por gente caridosa, crianças empurradas, perdidas e gritando pelas mães. Caso Léa desligasse o motor, o carro delas teria prosseguido do mesmo modo, arrastado pela multidão. Camille abriu os olhos, por fim, para logo os fechar de novo.

- Ah, não! Chega! - gritou Léa, receosa de outro desmaio.

À custa de enorme esforço, Camille abriu os olhos.

- Josette, dê-me as minhas gotas e um pouco de água, por favor - pediu ela.

A água da garrafa, agora tépida, pareceu-lhe deliciosa.

- Mais um pouco - insistiu, com a voz alterada.

Quando se preparava para beber, o olhar dela captou o de um rapazinho que seguia ao lado do veículo; pálido, de traços vincados, passava sem cessar a língua pelos lábios rachados.

- Tome - ofereceu Camille, entregando-lhe o copo pela janela aberta.

O garoto pegou-o sem sequer agradecer e bebeu avidamente.

Em seguida, passou o recipiente a uma mulher ainda jovem, vestida com um tailleur preto que devia ter sido elegante. Mas ela não tocou na água, dando-a de beber a uma menina de uns quatro ou cinco anos, de rosto lindo.

- Muito obrigada, minha senhora - disse a mãe.

Camille abriu a porta do carro e as convidou:

- Subam.

Depois de breve hesitação, a mulher empurrou os filhos à sua frente, assim como uma senhora de idade, de aspecto muito digno e admiráveis cabelos brancos, cobertos por um chapéu de palha preto.

- Minha mãe - apresentou a mulher, e instalou-se no carro.

- Está louca, Camille? Faça essa gente descer! - gritou Léa.

- Cale-se, minha querida, eu lhe peço. Pense bem: o carro está quase vazio, e é um milagre que ainda não o tenham tirado de nós.

Assim, deixamos de ter lugares vagos e foi-nos dada a possibilidade de escolher os companheiros de viagem.

Compreendendo a sensatez desse raciocínio, Léa deixou de fazer objeção.

- Muito obrigada, minhas senhoras, muito obrigada. Chamo-me Le Ménestrel. O nosso carro quebrou em Pithiviers. Umas pessoas bondosas apiedaram-se de minha mãe, de idade tão avançada, e ofereceram-lhe lugar no deles, que já estava bastante cheio. Eu e as crianças continuamos a pé, ao lado do veículo. Infelizmente, porém, ele também quebrou.

- Mas como é que estão nesta zona de Orléans se vêm de Pithiviers? - perguntou Josette, desconfiada, consultando o mapa das estradas aberto sobre os joelhos.

- Na verdade, desconheço como. Alguns soldados franceses encaminharam-nos para Les Aubrais. Depois disso, não sei mais nada. Houve um terrível bombardeio noturno, durante o qual perdemos os nossos amigos.

Camille ordenou à criada que distribuísse víveres, e os pedaços de pão duro foram devorados com apetite. As crianças dividiram entre si as poucas maçãs restantes. A senhora idosa e a menina adormeceram.

Em frente do automóvel parou um grande caminhão atulhado de documentos, em cuja capota seguiam garotos empoleirados.

Soltava fumaça por todos os lados, recusando-se a prosseguir. Soaram gritos e imprecações. Por felicidade, o prédio vizinho dispunha de um largo portão, para o qual o veículo pesado logo foi empurrado por voluntários. Nesse exato momento, reapareceram os aviões, voando a baixa altitude. Ululando, a multidão procurava escapar à armadilha formada pela rua estreita.

- Avancem... empurrem... deixem-me passar . . sai daí, canalha... traste... cuidado com as crianças... papai... mamãe.

Acima deles, os pilotos divertiam-se. Efetuavam mergulhos, vôos rasantes e regressavam, deixando a cada passagem a sua parcela de morte. As balas choviam compactas sobre a Rue Royal, a Rue de Bourgogne, a Place Saint-Croix e o Loire. A dois passos dali, na Rue du Cheval-Rouge, fora esmagada uma coluna de artilharia. Os assassinos do céu realizavam um bom trabalho.

Uma adolescente com o braço decepado tombou sobre a tampa do motor do automóvel em que seguiam, tingindo de sangue o pára- brisa. Depois ergueu-se e correu em frente, gritando pela mãe. Cinco ou seis pessoas caíram, ceifadas pelas balas das metralhadoras. Uma delas, de ventre rasgado, olhava perplexa os intestinos espalhados pelas coxas. A sra. Le Ménestrel apertava contra o corpo o rosto dos filhos, para ocultar deles as cenas de horror. A avó rezava, de pálpebras cerradas.

Muito além do medo, Camille e Léa experimentavam idêntico sentimento de cólera perante o massacre. Não muito longe, um veículo incendiou-se de repente. Os ocupantes, com as roupas e os cabelos em chamas, saltaram aos gritos. Um dos passageiros foi derrubado e espezinhado por um cavalo enlouquecido, que arrastava atrás de si uma carroça, esmagando tudo à sua passagem.

O infeliz soltou um uivo quando a carroça lhe triturou as pernas. Tentou erguer-se, mas as chamas foram mais rápidas e logo ele deixou de gritar, transformando-se rapidamente numa massa informe.

- Não quero morrer assim! guinchou Josette, abrindo a porta do automóvel.

- Não faça isso! - gritaram Léa e Camille ao mesmo tempo.

Mas a criada não as ouvia. Desvairada, correu por entre os corpos derrubados, pisando no sangue, caindo, erguendo-se, procurando escapar àquele amálgama de homens e veículos.

A rua era em declive; pareceu a Léa que o avião subia por ela, precedido, à medida que avançava, pelo crepitar das balas que ricocheteavam no asfalto. Solitária, de pé no centro da carnificina, num instante em que tudo quanto vivia se atirara por terra, Josette olhava o rosário de morte aproximando-se dela.

Um grito mudo deformou o rosto de Camille, que se deixou cair sobre o ombro da sra. Le Ménestrel.

O impacto das balas projetou Josette para trás com violência. Caiu de braços estendidos em cruz, com a saia erguida. Léa deixou então o automóvel e correu para ela. De olhos muito abertos, a moça sorria como se no instante da morte o medo a tivesse abandonado. O sangue brotava-lhe às golfadas da garganta aberta. Léa procurou um lenço nos bolsos, tentando estancar a hemorragia. Não o achando, tirou o corpete e colocou-o sobre a chaga horrível como um tampão. Mas isso de nada servia, pois Josette estava morta.

"A culpa é minha", pensava Léa. Se a tivesse deixado voltar para junto da família, talvez ainda estivesse viva. Pobre moça! Era da minha idade." Com ternura, acariciou-lhe os cabelos loiros, embebidos em sangue, dirigindo-se à vítima tal como antigamente a mãe fazia com ela quando a via sofrer:

- Não tenha medo... acabou... vamos, durma...

Fechou-lhe os olhos docemente. Depois, arrastando o corpo para que não fosse atingido de novo ou esmagado, sentou-o encostado a um portão.

As sirenes não tocaram para anunciar o fim do alerta, pois não havia ninguém para acioná-las. Os sobreviventes iam-se erguendo aos poucos. Observavam, bestificados, o medonho espetáculo:

por toda parte havia carcaças de veículos, carroças e velocípedes retorcidos ou calcinados, corpos mutilados e queimados, crianças errantes e emudecidas sob o império do terror, mães rasgando as faces e soltando uivos, homens abraçados às respectivas esposas ou às mães mortas, mulheres rodopiando sobre si mesmas como peões, com as roupas em tiras, as mãos cobertas de sangue, feridos gritando por socorro.

- Depressa! Temos de desobstruir a via para chegarmos à ponte - ordenou um homem gordo que ostentava no casaco a roseta da Legião de Honra.

Léa, esquecida do seu traje sumário, começou a ajudar nos trabalhos de limpeza da rua. A sra. Le Ménestrel quis juntar-se a ela, mas Léa ordenou:

- Não. Volte para o carro. Pegue a arma e não deixe que nos roubem o veículo.

- Conte comigo - respondeu ela em tom feroz.

Durante horas, cobrindo-se cada vez mais de sangue e de sujeira, Léa arrastou cadáveres e detritos de toda espécie. Soldados sobreviventes do 7 Exército forneceram reforços ao grupo de desobstrução da via.

- Mas... será que estou vendo bem? A srta. Delmas em pessoa!

Um único homem no mundo seria capaz de gracejar em semelhantes circunstâncias.

- François! - exclamou Léa, atirando.se ao pescoço de um Tavernier uniformizado, sujo e barbudo. - Oh, François, você! Tire-me daqui depressa... se souber como fazê-lo.

- Sei, minha filha, sei. Onde ficou a sra. d'Argilat?

- Ali. No automóvel.

- Como vai ela?

- Não muito bem. Josette morreu.

Quando se aproximavam do carro, a sra. Le Ménestrel, não reconhecendo Léa de imediato, apontou a arma na direção deles.

- Não se aproximem! - avisou.

- Sou eu, sra. Le Ménestrel. Com um amigo que irá ajudar-nos.

- Desculpem. Mas, ainda há pouco, dois homens horrorosos quiseram apoderar-se do automóvel. Só desistiram quando perceberam que eu não hesitaria em atirar. Mas ameaçaram voltar com reforços. É medonho o que fazem: roubam as jóias e o dinheiro dos mortos.

Caíra já a noite quando Tavernier conseguiu forçar um pesado portão. Léa, ao volante, entrou com o veículo no pátio, onde crescia um plátano gigantesco. François fechou a porta com uma tranca de ferro. Exceto pelas vidraças quebradas, o prédio mantinha-se intacto.

- Vou ver se é possível entrar na casa - decidiu a sra. Le Ménestrel, depois de ajudar a mãe a sair do automóvel. - Meninos, fiquem perto da vovó.

François e Léa retiraram Camille, ainda desmaiada, do interior do veículo. Estava com a respiração fraca e intermitente.

- Consegui abrir a porta - avisou a sra. Le Ménestrel. - Podemos deitar sua amiga numa cama. Vão ver se encontram velas, meninos.

As duas crianças subiram a escada correndo. Acomodaram a doente num quarto do andar térreo.

Não havia água na cozinha nem no banheiro. Num canto do quintal, porém, Tavernier descobriu um poço. O som do balde vazio batendo na parede de pedra fez Léa recordar-se do poço do quintal de Montillac. Como aquele tempo lhe parecia distante! Ainda voltaria para casa? Como se respondendo a tal pergunta, o bombardeio recomeçou nesse instante, felizmente em outra zona da cidade.

François transportou para casa diversos baldes de água. Sentada num dos degraus, com o queixo apoiado nas mãos, Léa observava seus movimentos.

- Ufa! As senhoras já poderão lavar-se - disse ele. - Agora chegou a nossa vez.

Depois de carregar mais alguns baldes, Tavernier pousou o recipiente na beirada do poço e começou a despir-se. Em breve estava completamente nu.

Léa não conseguia desviar os olhos dele; com admiração, contemplava o largo dorso muito moreno reluzindo de suor na noite clara, os quadris estreitos, as coxas compridas e peludas e o sexo de tom pálido sob o fundo mais escuro dos pêlos púbicos.

- Por que espera para tirar esses andrajos? Você está tão suja que mete medo.

Léa obedeceu, desembaraçando-se da saia manchada, da combinação em tiras e da calcinha.

- Vai sentir um pouco de frio no começo, mas depois verá como é agradável. Encontrei toalhas e um pedaço de sabonete com perfume de alfazema.

Despejou-lhe parte da água na cabeça e nos ombros. Léa soltou um grito, de tão gelada que estava a ducha. François ensaboou-a da cabeça aos pés, esfregando-a depois com energia, como se quisesse remover-lhe do corpo a lembrança do sangue que o maculara. Léa via-o agir, comovida com aquelas mãos que lhe brutalizavam os seios e lhe afloravam o sexo e os quadris.

Deixando-a por instantes coberta de espuma, Tavernier molhou-se com a água que restava no balde e estendeu-lhe o sabão.

- Agora é a sua vez - disse.

Léa nunca imaginara que fosse tão vasta a superfície de um corpo masculino, que os músculos pudessem ser tão rijos. François resfolegava de prazer, ao toque das pequenas mãos desajeitadas. A jovem sentiu-se corar quando lhe tocou no pênis erguido.

Depois agachou-se para ensaboar-lhe as pernas.

- Foi assim que sempre sonhei vê-la um dia - comentou François Tavernier.

Léa não respondeu, ocupada em esfregar-lhe as coxas e depois a barriga das pernas. Ele segurou-a então pelas axilas, obrigando-a a erguer-se.

- Não é verdade o que eu disse! - exclamou ele. - Não gosto de vê-la a meus pés. Aprecio-a altiva e obstinada.

Atraiu-a para si e os corpos ensaboados deslizaram um sobre o outro. Os lábios se procuraram. Léa esticou o corpo, enquanto o sexo dele se tornava ainda mais rígido.

Nesse instante, recomeçaram os bombardeios, suspensos há algum tempo. Mas os dois não se mexeram, com se o desejo os protegesse, nem mesmo quando uma bomba caiu não muito longe do prédio, provocando um incêndio cujo clarão lhes iluminou os corpos.

- Faça amor comigo - murmurou Léa. - Não quero morrer sem ter feito amor.

François embrulhou-a na toalha de banho, ergueu-a e entrou na casa com ela nos braços. Subiu a escada que conduzia ao primeiro andar, encaminhou-se para um dos quartos e colocou-a numa grande cama, de cuja cabeceira pendia um crucifixo.

- Abençoada seja a guerra que a entrega a mim - sussurrou-lhe ao ouvido enquanto a penetrava suavemente.

Era tão grande o desejo de Léa que ela não experimentou a mínima sensação de dor, mas sim a ânsia progressiva de abrir-se ainda mais para que o companheiro a penetrasse profundamente. O orgasmo surpreendeu-a com uma intensidade que a fez gritar.

François via-a contorcer-se debaixo dele e abafou-lhe os gritos com a mão. Gemeu demoradamente quando ele se retirou e atingiu o clímax sobre seu ventre. Ainda trêmula, Léa adormeceu logo.

François Tavernier não conseguia ocultar por mais tempo a realidade: amava aquela jovem. Mas ela. - . o amaria também? Não podia levar em consideração o que acabara de acontecer. Adivinhava nela um corpo fácil: nas mesmas circunstâncias, teria feito amor com qualquer homem, mesmo que não lhe agradasse totalmente. Bastava- lhe o seu conhecimento das mulheres para ter a certeza de tal coisa. Léa se lançara em seus braços impelida apenas pelos acontecimentos e pelo apetite de viver. E essa convicção provocava-lhe uma tristeza insuportável. Léa agitou-se no sono, aninhando-se contra ele. Desejou-a de novo.

Tomou-a com suavidade, deslizando para dentro do seu ventre úmido, que o sorveu como uma boca voraz. A jovem despertou, então, gemendo. E o prazer cresceu nela, aumentou, invadindo cada célula de seu corpo.

O sol já estava alto quando Léa acordou com um ruído de colher batendo numa tigela. François, recém-barbeado, com os cabelos ainda molhados e envergando as calças sujas do uniforme, inclinava-se para ela.

- Já é tarde, sua preguiçosa. Tem de levantar-se. Descobri chá e biscoitos e preparei-lhe um verdadeiro desjejum.

Que fazia ali naquela cama, nua, com um homem que não era Laurent? De repente recordou-se, corando.

- Não core - disse Tavernier. - Foi maravilhoso. Trouxe- lhe a mala; suponho que seja a sua. Vou deixá-la vestir-se e tomar o café.

Que fizera ela, santo Deus! Enganara Laurent, portando-se como uma cadela no cio. Ainda se não tivesse sentido tanto prazer naquele ato! A essa lembrança, todo o seu corpo estremeceu. Era então aquilo o amor, a maravilhosa sensação experimentada em cada fibra de carne, o milagre que nos fazia esquecer tudo, até mesmo a guerra? Reviu os horrores presenciados na véspera.

Josette morta. E Camille, como estaria? Camille, que Laurent lhe confiara.

Ergueu-se de um pulo e corou de novo ao ver a roupa de cama amarrotada e manchada de sangue. Puxou os lençóis e atirou-os para o fundo de um armário. Uma contração no estômago a fez lembrar-se de que não comia há várias horas. Sem perder tempo em se vestir, lançou-se sobre os biscoitos e o chá preparado pelo amante. Depois foi olhar o quintal pela janela aberta. François Tavernier derramava no tanque do automóvel o conteúdo das latas de gasolina que o motorista tivera o cuidado de trazer no porta-malas. As duas crianças perseguiam-se, rindo, sob o olhar enternecido da avó, que muito digna, com os cabelos bem esticados sobre a nuca, se instalara numa cadeira de vime. Ao seu lado, também sentada, Camille os observava, sorridente. A sra. Le Ménestrel ia e vinha da casa para o carro, transportando embrulhos. Fazia um dia bonito. Nesse domingo, 16 de junho de 1940, reinava no pátio daquela residência de Orléans um clima de partida de férias.

Ouviu-se então ao longe o uivo de uma sirene, sem dúvida na outra margem do Loire. Logo depois, chegaram os aviões.

- Apresse-se. Estão bombardeando as pontes. Se forem atingidas, não poderemos atravessar o rio - disse François, entrando no quarto de Léa.

Sem se incomodar com a sua própria nudez, a jovem abriu sua mala, retirando uma calcinha, um vestido chemisier de algodão azul e sandálias brancas de couro.

- Leve-a - ordenou a Tavernier, apontando a mala.

Vestiu-se, sem se importar com sua presença. Siderado e pálido de cólera, François observava-lhe os movimentos. De repente, agarrou-a por um braço, puxando-a para si.

- Não gosto que me falem nesse tom - advertiu.

- Largue-me!

- Não a largo enquanto não lhe disser uma coisa, sua burra:

um dia há de implorar o meu amor.

- Nunca!

Teriam avançado desde o começo da viagem? À volta deles, a balbúrdia era total.

Apressem-se! Os alemães estão chegando! As pontes vão ser dinamitadas! - gritavam as pessoas por todo lado.

Tal como na véspera, fazia um calor terrível. Ao fim de muito tempo, atingiram o Quai Barentin. Soldados da engenharia, de guarda na Ponte Joffre, procuravam canalizar a confusão, prestes a proibir o acesso à ponte minada caso fosse dada a ordem de começar as explosões. Mas eram tão poucos que não tinham a mínima esperança de conter a vaga humana. Era necessária uma meia hora para completar a travessia.

Os aviões surgiram novamente, fazendo com que algumas pessoas se precipitassem por terra, enquanto outras, pelo contrário, empurravam, davam encontrões e derrubavam aquelas que as precediam, a fim de ganharem alguns metros de percurso. Diversas bombas caíram na água, respingando lama nos doze arcos da ponte e naqueles que aí se apinhavam. Uma granada caiu na plataforma, e parte da calçada mergulhou nas águas do Loire. Veículos, velocípedes e pedestres foram arrastados num dilúvio de pedras e de terra. Era a queda dos infernos. Os aviões sobrevoaram o local por três vezes, sem conseguirem atingir a Ponte Royal e a Ponte Joffre, metralhando, no entanto, os que se encontravam sobre elas.

Para escapar às balas, uma mulher escalou o parapeito, precipitando-se no vácuo num local onde quase não existia água... Um chofer morto instantaneamente ao volante de um veículo fez com que este se imobilizasse no centro da avalancha. Então, cerca de quinze possessos, ritmando a manobra com gritos de incitamento, ergueram o carro e atiraram-no ao rio, sem se importarem com os passageiros restantes. Feridos morriam, espezinhados por centenas de pés. Patinava-se num caldo repugnante. Por fim, os aviões afastaram-se.

- Prossiga - ordenou Tavernier a Léa. - Vou tentar falar com o comandante.

- Não nos deixe sozinhas!

Sem replicar, François Tavernier desceu do automóvel e abriu passagem até os militares de guarda.

- Marchand!

- Tavernier! O que faz aqui neste inferno?

- Leva muito tempo para explicar e é muito deprimente. É verdade que vão dinamitar as pontes?

- Há muito que isso devia ter sido feito. Os alemães estavam ontem em Pithiviers e em Etampes e, neste momento, não devem estar muito longe de Orléans. Nem sequer recebi a quantidade de explosivos necessária e tive ainda de distribuí-los pelas duas pontes. Se pudesse prever tal coisa, não teria minado o viaduto da estrada de ferro com setecentos e cinqüenta quilos de dinamite.

- Meu tenente! Meu tenente! - gritou um jovem soldado postado em cima de uma autometralhadora, de binóculo em punho.

- Pareceu-me ver tanques alemães no Quai du Châtelet. - - Deus do céu! - exclamou Marchand, saltando para a viatura e arrancando o binóculo das mãos do soldado.

- Merda! Avançam pela Ponte Jorge V. Dê ordem para dinamitar. Depressa, em nome de Deus! Os boches já estão na ponte.

Servindo-se do binóculo, Albert Marchand, com a testa coberta de suor, seguia o avanço de três autometralhadoras, retardado pelos fugitivos. Os alemães disparavam sobre a dúzia de militares em guarda na ponte. Atingiam o meio da plataforma quando se ouviu uma série de explosões, seguidas de enorme estrondo: um dos arcos da ponte norte precipitara-se no rio, arrastando consigo todos os que nela se encontravam. Durante instantes, não foi possível distinguir nada. Eram quinze horas e trinta minutos.

Quando a poeira se desvaneceu, Marchand, sempre de olhos colados ao binóculo, gritou:

- Atravessaram, santo Deus! Dirigem-se para Sully.

De olhar desvairado, deixou-se escorregar ao longo do veículo sobre o qual se empoleirava.

- Proíba a multidão de se aproximar. A Ponte Joffre tem de ir pelos ares.

- Mas... meu tenente, as pessoas que já estão na plataforma não conseguirão atravessá-la.

- Eu sei, meu velho. Mas não temos escolha. Tomem posição e não hesitem em disparar.

Os dezesseis militares avançaram, empurrando os pedestres.

- Recuem! Recuem! A ponte vai explodir.

A multidão, que presenciara a derrocada da Ponte Royal, estacou, enquanto alguns passavam as instruções.

- Se assim é, mais uma razão para nos apressarmos - gritou um energúmeno, investindo contra a barreira formada pelos soldados.

Soou um tiro e o homem caiu.

Uma nuvem de perplexidade envolveu os espectadores - militares franceses disparando sobre compatriotas! Por detrás da linha da frente, a multidão continuava, porém, a pressionar. E, em breve, as primeiras filas cederam. Um pequeno automóvel saltou e derrubou dois velhos, que caíram entre os soldados e a ponte; depois o veículo avançou, esmagando um deles. O acontecimento funcionou, então, como uma espécie de sinal; a multidão pôs-se de novo em marcha. Um, dois, três tiros ecoaram sem atingir ninguém. Em seguida, os soldados desapareceram, engolidos pela torrente humana.

Logo após a explosão da Ponte Royal, François Tavernier precipitara-se à procura do veículo, em que seguia a pessoa que lhe era mais cara na vida. Mas não o encontrou no Quai Barentin. Avançou pela ponte, servindo-se dos punhos e dos cotovelos, dando com ele, por fim; seguia como quem dispunha da vida inteira à sua frente. O contentamento invadiu Léa ao descobrir Tavernier.

- Graças a Deus, chegou! Pensei que tivesse nos abandonado.

O recém-chegado substituiu Léa ao volante.

- A ponte vai explodir - informou em voz baixa.

- Ah...

- Cale-se - ordenou. - É inútil assustar os outros. Vamos tentar escapar.

Um soldado caminhava ao lado do automóvel.

- Passe a mensagem aos indivíduos que lhe pareçam seguros - disse-lhe Taverrlier. - A ponte vai ser dinamitada. Procurem apressar as pessoas sem que elas entrem em pânico.

O militar fitou-o sem compreender. O rosto sujo e marcado pelo cansaço não exprimia a mínima emoção. Embrutecido, porém, principiou a gritar, empurrando aqueles que seguiam adiante:

- A ponte vai explodir! A ponte vai explodir!

Como se recebesse uma chicotada, a multidão avançou. Separava-a da margem esquerda do Loire apenas umas dezenas de metros.

Tal como animais à aproximação de um tremor de terra, os refugiados batiam-se, repelindo os mais fracos, esquecidos de toda dignidade humana. Infelizes daqueles que caíam, pois ,logo morriam esmagados.

Nesse momento, ecoaram diversas explosões. Depois, no meio de um barulho ensurdecedor, a segunda ponte abateu-se nas águas do rio.

Decorrera apenas meia hora desde a destruição da Ponte Royal. Em pé junto do veículo, Léa e François contemplavam a catástrofe, sem conseguirem despregar os olhos daquele horror. Quantas pessoas estariam sobre a plataforma? Trezentas?

Quinhentas? Oitocentas? Ou mais? Embaixo, no leito do rio, os raros sobreviventes tentavam escalar montanhas de cadáveres, pilhas de ferragens e de pedregulhos. Alguns feridos, tombados sobre os pilares da ponte, chamavam por socorro, enquanto outros se afogavam nas partes mais profundas do Loire. Na capota de um veículo em chamas, um corpo de bebê assava lentamente.

- Vamos sair daqui - disse Tavernier, arrastando Léa para o automóvel.

Do leito do rio subia uma poeira escura.

Transitando por entre escombros, o carro rodou pela Avenue de Candaile. Em Saint-Marceau, metralhadoras francesas disparavam na direção do Quai de Prague e no dos Grands-Augustins. Perto de Notre-Dame-du-Val, Camille pediu para descer.

- Não é hora - resmungou Léa.

- Por favor... tenho de vomitar.

François Tavernier brecou. Camille saiu do automóvel e afastou- se, vacilante.

- Deixe-me ajudá-la - ofereceu-se a sra. Le Ménestrel, descendo do carro.

Obrigada - murmurou Camille, limpando a boca no lenço sujo que ela lhe estendia.

Apoiada no braço da outra mulher, Camille voltou.

- Mamãe, queremos fazer xixi - disse o menino.

- Está bem, meus filhos, venham depressa.

Afastaram-se alguns passos. A menina agachou-se, enquanto o irmão escarafunchava na braguilha. De repente, assobiando, um obus foi cair a uma dezena de metros do grupo. Com a lentidão de movimentos própria dos instantes inelutáveis, os ocupantes do automóvel viram a mãe e os dois filhos serem projetados para o ar, enquanto estilhaços se espalhavam por toda parte; e, depois, caírem por terra devagar, graciosos mesmo na morte.

Com um uivo de dor, a velha senhora saltou do assento, precipitando e para a filha, depois para a neta e logo para o neto, o mais querido ao seu coração. De braços afastados e mãos abertas, não cessava de ir de uns para outros.

François Tavernier inclinou-se sobre o corpo da sra. Le Ménestrel e ergueu-lhe a cabeça. Empalideceu ao tatear a ferida mortal.

Mesmo morta, conservava uma elegância infinita. Atravessada sobre as suas pernas jazia a filha, com a boneca nas mãos!

Parecia adormecida. Uma flor rubra de sangue alastrava-se sobre o vestido de algodão cor-de-rosa. O irmão caíra a certa distância de ambos, com a cabeça quase separada do corpo, o sexo despontando no calção.

Camille ia de um cadáver para outro, repetindo incansavelmente:

- Por minha culpa... por minha culpa...

Deixou-se cair no chão, debatendo-se numa crise nervosa, Léa agarrou-a pelos ombros, sacudindo-a, falou-lhe e, por fim, deu-lhe um par de tapas que a fizeram interromper os gritos.

- Não. A culpa não é sua. Não tem nada a ver com isso. Volte para o carro.

- Venha. Não devemos permanecer aqui - interveio Tavernier, dirigindo-se à velha senhora.

- Deixe-me, sr. Tavernier. Eles não podem ficar sozinhos. Ao tirá-los de mim, Deus tirou-me tudo.

- Não posso deixá-la só, minha senhora - insistiu ele.

- preciso, sr. Tavernier. Pense nas duas jovens que estão com o senhor e na criança que uma delas traz no ventre. Elas precisam do senhor. Eu não.

- Peço-lhe, minha senhora.

- Não insista.

A contragosto, François encaminhou-se para Léa e para Camille, que pegou no colo. "Como é leve", pensou. Depositou-a com suavidade no banco traseiro do automóvel e foi instalar-se ao volante.

- Não vem? - perguntou a Léa, que permanecia imóvel, com os olhos presos nos três corpos sem vida.

Passaram alguns aviões, mas não soltaram bombas.

Os soldados franceses tinham deixado de disparar em SaintMarceau. Atingindo Orleans pelo Faubourg de Bourgogne, os alemães não encontraram resistência. Derrubaram uma árvore na MotteSanguin para restabelecer a passagem sobre a ponte da estrada de ferro, que não fora destruída. Cerca das quatro da tarde, os primeiros tanques atravessaram o Loire por sobre os trilhos, reunindo-se aos que haviam conseguido atravessar a Ponte Jorge V antes que fosse pelos ares. Apesar da corajosa resistência oferecida pelas tropas da guarnição de Orléans, que, para defesa da ponte, dispunha apenas de uma velha peça de noventa milímetros calçada com tijolos, os assaltantes, superiores em número e mais bem armados, forçaram-nas a recuar para a Avenue Dauphine, abandonando no local muitos mortos, e colocaram três pequenos canhões na cabeceira da ponte.

Por volta de cinco horas, começaram a chegar a Croix-SaintMarceau os primeiros destacamentos inimigos, instalando metralhadoras em todos os cruzamentos. Apalermados, os raros habitantes que haviam permanecido na região saíram de seus porões, observando com espanto esses soldados vencedores. Tinham-lhes afirmado durante meses serem um bando esfaimado, descalço e sem vestuário. Uma mulher de certa idade, não conseguindo conter-se, foi apalpar o tecido do dólmã de um jovem oficial, que lhe sorriu, cumprimentando-a com delicadeza:

- Bom dia, minha senhora.

Estupefata, a mulher começou a soluçar, fugindo, ao mesmo tempo que dizia:

- Fomos enganados.

Durante esse tempo, soldados franceses entravam em Orléans através do Faubourg Bannier.

- Tenham cuidado! Os alemães já se encontram lá - preveniram-nos.

- Mas não é possível - admirou-se um tenente. - Os alemães estão em nossa retaguarda.

Teve apenas tempo para ordenar aos homens que tomassem posições de defesa e logo, pelo Boulevard Saint-Euverte, chegavam tropas inimigas motorizadas. Após breve troca de tiros, os franceses viram-se forçados a se render. O tenente foi morto juntamente com dois dos seus homens. Os alemães concentraram então os prisioneiros na Morte-Sanguin, num campo provisório, guardado por metralhadoras. À noite, novas levas de prisioneiros juntaram-se a eles.

Por toda parte se ouviam gritos de feridos e chamados dos grupos de socorro. Os canhões troavam, o fogo se alastrava.

Silenciara o crepitar das últimas metralhadoras francesas. Os dois fugidos do manicômio de Fleury esgueiravam-se por entre os escombros, soltando gargalhadas que gelavam a espinha dos sobreviventes. Malfeitores, evadidos das cadeias, pilhavam as raras lojas poupadas à fúria das chamas. Não havia água, eletricidade, nem pão. Tinha deixado de existir o presidente da Câmara e Conselho Municipal. Só restava uma cidade abandonada e destruída.

Assim começava a primeira noite da longa ocupação alemã em Orléans.


Capítulo 15

Tarde da noite, depois de percorrer estradas secundárias, chegaram a La Trimouille, pequena aldeia da Vienne. No assento traseiro, de rosto alagado, em suores frios, Camille delirava. Ao léu, perto do rio, refugiados dormiam deitados no chão. Abriu-se a porta do café de uma das ruas, filtrando para o exterior uma tênue claridade amarelada. O estabelecimento estava lotado de gente. François Tavernier parou o automóvel e desceu. O cheiro da cerveja, do fumo e da sujeira o sufocou.

- Dê-me meio litro de cerveja - pediu ao dono, um bigodudo, encostando-se ao balcão molhado.

- Não há.

- Nesse caso, quero um conhaque.

- Também não há. Vendi tudo.

E rum?

- Nada. Não tenho mais nada. Nem mesmo laranjada. Beberam tudo o que tinha.

- Assim sendo, que me aconselha?

- Posso servir-lhe um anis.

Seja. Um anis.

François nunca bebera anis com tanto prazer. Encomendou outro e foi levá-lo a Léa, que se sentara nos degraus do café, diante da porta aberta do automóvel. Sem sequer agradecer, a jovem pegou o copo e bebeu com avidez.

- Perguntou onde poderemos encontrar um médico?

- Ainda não. Como está Camílle?

Léa encolheu os ombros sem responder.

François voltou ao café e perguntou ao dono do estabelecimento:

- Poderá indicar-me um médico?

- Não há médicos. Vignaud morreu e o substituto quebrou uma perna. Tem de ir a Montmorillon ou a Blanc, que dispõem de hospitais.

- Qual é a cidade mais próxima?

- Montmorillon. A doze quilômetros.

- Há algum hotel?

O homem riu com gosto.

Hotel!... Ele quer um hotel, vejam só! Há vários, de fato, mas não encontrará nem sequer um tapete onde deitar-se. Está tudo cheio até a boca, tanto mais que uma ordem, vinda ninguém sabe de onde, proíbe os civis de seguirem além de Montmorillon.

Deve haver aí umas cinqüenta mil pessoas andando a esmo pelas ruas.

- E em Blanc?

- Em Blanc é a mesma coisa. Além disso, a povoação foi bomhardeada e o comandante da guarnição mandou dinamitar a ponte.

- Venha depressa, François - chamou Léa nesse instante. - Acho que Camille vai morrer.

O aparecimento intempestivo da jovem e o seu grito interromperam de chofre as conversas.

- Trazem um doente? - inquiriu a dona do estabelecimento, mulher gorda e de rosto azedo, encaminhando-se para eles e continuando a limpar um copo.

- Sim. Uma mulher grávida.

Talvez eu possa ajudar - sugeriu a mulher. - Quando chegarem a Montmorillon, atravessem a ponte velha e virem logo à direita na Rue du Puits-Cornet. A quarta casa à esquerda é de uma prima irmã minha, a sra. Trillaud. Digam-lhe que fui eu, Lucienne, quem os mandou procurá-la. Irá ajudá-los, se puder.

François Tavernier apertou-lhe a mão calorosamente.

- Obrigado, minha senhora, obrigado.

- De nada, de nada - resmungou a mulher.

A travessia de Montmorillon ficou-lhes para sempre na memória. Veículos de todos os tipos atulhavam ruas e praças. As igrejas haviam sido transformadas em dormitórios, tal como as escolas e os salões de festa.

Após vaguearem durante muito tempo sem que ninguém soubesse informá-los, acharam, por fim, a ponte velha e logo a estreita Rue du Puits-Cornet.

Léa preparava-se para desistir de bater de novo, quando a porta por fim se entreabriu.

- Que deseja? - perguntou uma velhinha. Não são horas de incomodar ninguém.

- É a sra. Trillaud? Venho da parte de sua prima Lucienne.

A porta abriu-se.

- De Lucienne? Que quer ela?

- Ela não quer nada. Mas disse-nos que talvez a senhora pudesse nos auxiliar. Trago comigo uma amiga doente.

Que tem ela?

- Está grávida; desmaiou há horas e ainda não acordou.

Pobre moça! Entrem, entrem.

Tavernier entrou na cozinha transportando Camille, inanimada.

- O espaço não é lá muito grande - disse a mulher. - Tanto mais que tenho aqui uns primos de Paris, que chegaram ontem. Só disponho do meu próprio quarto.

- Mas... minha senhora...

- Não façam cerimônia. Não encontrarão mais nada, aliás. Nós, as mulheres, temos obrigação de nos ampararmos umas às outras. Ajude-me a mudar os lençóis.

Dentro de pouco tempo, Camille achava-se estendida na cama da sra. Trillaud, vestindo uma de suas camisolas, igual à que a boa mulher usava.

- Isto só não chega. Temos de encontrar um médico - decidiu ela. - pior é que os pobrezinhos não param atualmente. Vou primeiro à casa do dr. Soulard. Se ele ainda não tiver chegado, procurarei o dr. Rouland. Esse tem um gênio péssimo, mas é bom médico - comentou a anfitriã, pondo sobre os ombros uma velha capa. Depois prosseguiu: - Não demoro muito. Há café na cozinha, em cima do fogão, e pão dentro do cesto. Não tenho mais manteiga. Mas, em cima do guarda-louças, sobre a tina de barrela, há ainda alguns frascos de compota. Sirva-se de um.

Sentado à mesa da cozinha coberta por um oleado de xadrez azul, François Tavernier observava Léa, vendo-a molhar na tigela do café a sua terceira fatia de pão com compota de morango. Rodeavam seus olhos dois grandes círculos violáceos, e ela estava pálida e cansada.

- Não vai comer? - perguntou ela, de boca cheia, cobiçando a fatia em que o companheiro não tocara.

Sorrindo, este empurrou-a em sua direção.

- Obrigada - agradeceu Léa, apoderando-se do alimento com rapidez, como se temesse que François mudasse de idéia. Depois de engolir a última gota de café, a jovem encostou-se para trás, satisfeita. - Estava com tanta fome! - confessou.

- Eu vi. Você é uma comilona.

Soaram duas horas da manhã. Com os cotovelos apoiados ao tampo da mesa e a cabeça encostada nas mãos em concha, Léa divagava. Que diabo fazia nessa casa desconhecida, perdida nesse fim de mundo, na companhia de uma moribunda e longe das pessoas que amava? Seus pais deviam estar loucos de inquietação.

- Pare de me olhar desse modo! - exclamou Léa.

- Não será possível fazermos as pazes por momentos?

Agastada, a moça ergueu-se e começou a tirar a mesa; colocou as tigelas sobre a pedra da pia. François reteve-a quando ela lhe passou ao alcance.

- Por que motivo resiste, sua cabecinha de mula? Você não me ama, certo, mas gosta de fazer amor! Não sabe que é o melhor remédio para se evitar o medo? Ontem, menina, você teve bastante sorte, sem querer gabar-me; mas muitas mulheres levam anos, por vezes, para descobrir o prazer. Você foi feita para o amor, Léa. Não o rejeite.

Enquanto falava, as mãos de Tavernier vagueavam por sob a saia da jovem; seus dedos encontraram a fenda úmida e apertaram.

na docemente.

Com os olhos vagos e a respiração entrecortada, Léa deixava-o tocá-la, atenta ao prazer que lhe subia em vagas. Sem retirar a mão, ele deitou-a sobre a mesa, abriu as calças, ergueu as pernas da amiga e penetrou-a. Tal como na véspera, Léa gozou longamente. Permaneceram alguns minutos imóveis, fora do tempo, sentindo o coração bater com violência. Quando ele se retirou, experimentaram ambos um último espasmo de prazer. François compôs então a roupa desalinhada, ajudou a companheira a erguer-se e manteve-a durante muito tempo contra ele, murmurando-lhe palavras ternas, com os lábios mergulhados em seus cabelos.

- Minha bela namorada.., minha filha...

De corpo apaziguado, ela deixava-se embalar pela doçura da voz do amante.

Léa ajeitava o vestido quando a sra. Trillaud apareceu, acompanhada do médico.

- O dr. Rouland - apresentou a dona da casa.

- Onde está a doente?

A sra. Trillaud guiou-o até o quarto e Léa seguiu-os. A fadiga que marcava as feições do médico, encovando-lhe as faces, desapareceu como por encanto mal ele se achou diante da enferma. Retirou as cobertas e auscultou-a cuidadosamente.

- Há muito tempo está neste estado? - perguntou, desembaraçando-se do estetoscópio.

- Não sei bem - respondeu Léa. - Suponho que desde as seis horas da tarde.

- Já teve algum outro desmaio assim tão prolongado?

- Tão prolongado, não. Mas aconteceu-lhe muitas vezes, a intervalos maiores ou menores. O médico que a assistia em Paris recomendou que permanecesse deitada, tanto por causa do coração como por causa da criança.

- Mostre-me os medicamentos que a doente está tomando.

Léa saiu e foi ao carro em busca da bolsa de Camille. Estendeu ao médico a receita e as embalagens dos remédios.

- Sim... está bem. Mas esses remédios não são fortes o bastante. Vou aplicar-lhe uma injeção para fortalecer seu coração. Não me responsabilizo por nada, no entanto. Seria necessário hospitalizá-la, mas não existe nenhuma vaga.

Minutos depois da injeção, Camille abriu as pálpebras, embora estivesse cansada demais para olhar em volta. François sentou-se na beira do leito e tomou entre as suas as mãos frágeis da doente.

- Tudo correrá bem agora, Camille. Só precisa de repouso.

- As crianças, meu Deus... as crianças... - gemeu ela.

O dr. Rouland levou Léa para um canto.

- É parente dela? - perguntou.

- Sim - mentiu a jovem.

- Estou bastante preocupado. O coração dela pode parar de um momento para outro. É necessário prevenir o marido, os pais.

Ora, é tolice o que eu estou dizendo. O marido está na frente de combate, por certo, e os pais... os pais, sabe Deus onde!

Ia levá-la para a casa do sogro, na Gironde.

- Ela não pode viajar. Se conseguir vencer a crise, terá de manter-se imobilizada até o parto.

- Quer dizer que teremos de ficar aqui?

O médico não respondeu. Retirou da maleta os apetrechos necessários para outra injeção. Logo Camille fechou os olhos. O pulso, embora rápido, tornara-se regular. O médico arrumou os instrumentos, e seu rosto tornou-se novamente sombrio, devido ao cansaço.

- Alguém terá de ficar permanentemente junto dela. Assim que ela acordar, dê-lhe três gotas disto num copo com água. Em caso de crise, aumente a dose para dez. Voltarei no decorrer do dia.

- Não se preocupe, doutor - interveio a sra. Trillaud. - Eu cuidarei dela. De doentes eu entendo.

- Até logo, sra. Trillaud. É uma boa mulher. Vá descansar - acrescentou, dirigindo-se a Léa. - Não está com boa aparência.

François Tavernier acompanhou o médico até a ponte velha. Na volta, encontrou Léa já adormecida no assento traseiro do automóvel. Assim adormecida, ela se assemelhava a uma garotinha amuada; ele ficou a contemplá-la, emocionado, durante muito tempo.

Com cuidado para não despertá-la, ele instalou-se no banco da frente, enfiando as pernas compridas pela janela aberta.

Léa acordou com os gritos e o ruído das pás de bater roupa das mulheres que lavavam roupa à beira do rio; eram cerca de doze, ajoelhadas em bancos forrados de palha. Não muito longe delas, François Tavernier, sentado em cima de um bote emborcado, observava o Gartempe deslizar; naquele ponto, ele borbulhava em cima das pedras do leito. Um pouco mais adiante, plantas aquáticas floridas balançavam-se ao sabor da corrente. Nesse instante, a sra. Trillaud apareceu no limiar da porta e bateu as palmas, avisando:

O desjejum está pronto!

Na cozinha cheia de sol, sobre o oleado de xadrez azul, dentro de grandes tigelas de faiança grossa pintadas de branco e orladas a vermelho, fumegava o café; seu aroma, misturado ao cheiro apetitoso do pão torrado, fez as narinas de Léa estremecerem.

Venham comer, o café vai esfriar. Hoje não temos manteiga, mas vocês vão adorar a geléia de marmelo.

- Como dormiu a nossa amiga? - perguntou François.

Muito bem. Dei-lhe as gotas há pouco, quando acordou. Sorriu-me gentilmente e voltou a adormecer.

- Como poderemos agradecer-lhe tudo quanto tem feito por nós, sra. Trillaud?

- Ora, ora, isso não é nada! Contudo, se ficarem aqui por alguns dias, serei obrigada a pedir-lhes uma contribuição para as despesas. Infelizmente, não sou rica.

- Isso nem é preciso dizer, sra. Trillaud - disse Léa, devorando a torrada.

- Ouviu as notícias? - perguntou François Tavernier, indicando o bojudo aparelho de rádio que imperava sobre o aparador, entre fotografias de família, um ramo de rosas numa jarra azul e grandes cartuchos de obuses cinzelados da Guerra de 1914-1918.

Não. Tive receio de acordar a gente da casa, porque é difícil sintonizar o rádio.

- Verei se posso consertá-lo.

- Ah, o senhor entende de rádios!

- Um pouco.

Onde posso fazer minha toalete? - perguntou Léa.

- Em cima, perto do meu quarto. Não é muito confortável, há apenas uma cabine. Pus toalhas limpas. Leve esta chaleira de água quente. Não temos água encanada. O seu marido já subiu com as malas.

Ele não é meu marido! gritou Léa com uma violência que espantou a boa mulher.

Desculpe-me. julguei que fosse.

O dr. Rouland voltou cerca de onze horas, e ficou agradavelmente surpreso com o estado da paciente. Camille, lavada e penteada por Léa, estava reclinada na cama com a ajuda de algumas almofadas, já sem as faces cavadas da véspera. Apenas as olheiras e o cansaço do olhar lhe traíam o sofrimento.

- Estou muito contente com a senhora - declarou o médico, depois de auscultá-la. - Seu estado é menos grave do que julguei a princípio. Mas não deve mexer-se de forma alguma. Vou mandar- lhe uma irmã que cuida de doentes. Vai lhe aplicar as injeções que eu lhe receitar. Deixe que a tratem e em breve estará curada.

Quando poderemos retomar a viagem?

- Por agora, é bom nem pensar nisso!

- Mas, doutor..

- Não há mas nem meio mas. Tem de ser assim. Do contrário, porá em risco a vida de seu filho e talvez mesmo a sua. Já é milagre o fato de não tê-lo perdido ainda. Seja paciente. São apenas mais dois meses de espera.

O dr. Rouland desceu as escadas e passou para a cozinha, onde aviou a receita. A grande peça estava abarrotada de primos de Paris. Ajudavam a parente a fazer o almoço, relatando pela milésima vez as peripécias da viagem movimentada ou observando as manobras de François Tavernier, que consertava o aparelho de rádio.

- Acho que já está funcionando - disse ele.

Após alguns estalidos, ouviu-se uma voz.

Na sala, todos se calaram. Era meio-dia e meia de 17 de junho de 1940.

Franceses:

Respondendo ao apelo do senhor presidente da República, assumo, a partir de hoje, a direção do governo da França. Seguro do afeto do nosso admirável exército, o qual se bate com um heroísmo digno das suas velhas tradições militares contra o inimigo superior em número e armamentos, seguro de que, através da sua magnífica resistência, esse exército cumpriu o dever face aos nossos aliados, seguro do apoio dos antigos combatentes que tive a honra de chefiar, seguro da confiança de todo o povo, faço entrega da minha pessoa à França, a fim de minorar a sua infelicidade.

Nestas horas dolorosas, penso nos infelizes refugiados que, na mais extrema penúria, vagueiam pelas nossas estradas. Exprimo- lhes a minha piedade e solicitude. É de coração apertado que hoje vos comunico ser preciso depor armas. Na noite passada, dirigi-me ao adversário para saber se ele estaria disposto a procurarmos em conjunto, com camaradas de armas, finda a luta e em condições honrosas, os meios necessários para que cessem as hostilidades. Que todos os franceses se reúnam ao governo ao qual presido durante tão duras provações e ponham de lado a angústia, obedecendo apenas à sua fé nos destinos da pátria."

Todos estavam de cabeça baixa quando a voz trêmula e cansada se calou. As lágrimas corriam pelas faces de muitos deles, lágrimas de vergonha na maioria, embora, pouco a pouco, os dominasse um sentimento covarde de alívio.

Pálido, de olhar duro e seco, Tavernier desligou o aparelho e saiu de casa sem dizer nada.

De todo o discurso, Léa retivera apenas uma frase: ... ser preciso depor armas A guerra terminava e Laurent ia regressar. Subiu os degraus de quatro em quatro para dar a notícia a Camille, que desatou a chorar.

Mas... por que está chorando? A guerra acabou! O marechal Pétain disse! Laurent vai voltar para casa.

- Sim, talvez. Mas perdemos a guerra.

- Estava perdida há muito tempo.

- Sem dúvida. Mas rezei tanto.

- ... que pensou que Deus iria ouvi-la. Orações... orações.

Não é com preces que se ganham guerras, mas sim com aviões, carros de assalto e chefes à altura. E você viu no céu alguns aviões franceses? Viu carros de assalto nossos pelas estradas? E os nossos chefes militares? Viu-os à frente das tropas? Todos aqueles por quem passamos estavam fugindo. Já se esqueceu daquele coronel verde de pavor, em sua limusine atulhada de bagagem, que dizia: "Abram caminho! Abram caminho! Vou ocupar o meu posto"? Ah, o seu posto! Talvez na Espanha! E os soldados franceses? Não viu os nossos belos militares com os seus uniformes desguarnecidos, as armas fora de moda, sujos, com os pés ensangüentados, pensando apenas numa coisa, fugir?

- Você está exagerando, Léa. Estou certa de que a maior parte deles lutou valorosamente. Lembra-se dos que defendiam a ponte em Orléans? Por todo lado, na França, houve homens que lutaram e lutaram bem, e muitos deles morreram.

- Morreram inutilmente.

- Inutilmente, não. Pela honra.

- Ora, pela honra! Não me faça rir. A honra é um conceito aristocrático, e nem toda a gente dispõe de meios para ter honra. O operário, o camponês e o lojista, que patinam no lodo e recebem bombas na cabeça ou balas no corpo, esses querem lá saber da honra! O que querem é não morrer como cães e que os conflitos cessem seja como for, não importa a que preço. Não entendem essa guerra, nem a desejaram.

- Não a desejaram, é certo, mas não é verdade que pretendam vê-la terminada seja a que preço for.

- Minha pobre Camille! Vejo que você se ilude muito acerca da natureza humana. Vai ver como todos vão aceitar o fim das hostilidades.

- Não acredito nisso. Deixe-me. Estou cansada.

Léa encolheu os ombros e desceu ao térreo.

-... com ele estamos salvos.

-... já imaginou, ele entrega sua pessoa à França.

-... um verdadeiro patriota.

-... com o marechal no governo, nada temos a temer...

-... poderemos voltar para casa.

-... já é tempo de retomar os negócios.

- Receio que os alemães se mostrem muito duros conosco.

A frase do dr. Rouland provocou um silêncio de perplexidade entre os presentes.

- Por que diz isso, doutor?

- Porque os alemães venceram em todas as frentes e ainda não esqueceram, por certo, as duras condições impostas pelo tratado de paz de 1918.

- Era natural, pois tinham perdido a guerra.

- Como nós, agora.

À noite, já bem tarde, François Tavernier voltou embriagado para a casa da sra. Trillaud, que o aguardava na cozinha, fazendo tricô.

- Acho que "reguei" demais a nossa derrota, sra. Trillaud. Mas não é todos os dias que se tem a oportunidade de testemunhar uma derrota como esta. Quer que lhe diga? A Alemanha... a Ale. manha é um grande país e Hitler, um grande homem. Viva a Alemanha!

Viva Hitler!

- Cale-se! Do contrário, porá em alvoroço todo o quarteirão - disse a mulher, obrigando-o a sentar-se. - Aposto que ainda não comeu nada. Vou dar-lhe um prato de sopa de couve. Nada melhor para transformar um homem.

- A senhora é muito boa. Mas a Alemanha... creia em mim...

- Sim, já sei: é um grande país. Vamos, tome sua sopa, senão esfria.

Depois de engolir a última colherada, Tavernier desabou sobre a mesa, deitando a cabeça dentro do prato vazio. Com suavidade, a anfitriã o retirou dali.

- Pobre homem! - murmurou, apagando a luz da cozinha.

No dia seguinte pela manhã, ao descer, a sra. Trillaud foi encontrar François já barbeado e penteado fazendo café.

- Bom dia, sra. Trillaud. Chegou cedo demais. Queria fazer- lhe a surpresa de encontrar o seu desjejum pronto quando descesse.

Agora de manhã, arranjei leite, manteiga e pão fresco.

Bom dia, sr. Tavernier. Como conseguiu isso?

- Ontem, durante a ronda pelos cafés de Montmorilixrn, fiz algumas amizades. Lamento muito o que aconteceu a noite passada.

Pode me desculpar?

- Não falemos no assunto; já está esquecido. Tenho a certeza de que o meu defunto marido também teria se embriagado.

- Obrigado, minha senhora. Como vai a doente?

- Muito bem. Precisa apenas de calma e de repouso.

- Vamos comer. O café está pronto. Hoje vou à Câmara saber onde está o meu regimento. Se não conseguir, voltarei a Paris.

- E vai deixar as duas senhoras sozinhas?

- A srta. Delmas pode muito bem se arranjar sem mim. ontem, a linha telefônica estava cortada, mas talvez hoje já funcione. Se assim for, telefonarei aos pais dela para dar notícias. Conhece alguma loja onde eu possa comprar roupas de baixo, camisas e um terno?

- Aqui não há grande coisa. Mas tente na Rochon ou na Guyonneau. A primeira fica no largo do mercado coberto e a segunda, na esquina da rua principal com a avenida.

- Outra coisa - prosseguiu Tavernier -, sabe de algum apartamento ou casa para alugar destinada às senhoras?

- Neste momento, não há nada. Os primeiros refugiados a chegar instalaram-se nas raras casas de aluguel existentes. Mas daqui a dias a situação ficará mais clara. As pessoas falam em voltar para casa. Entretanto, as senhoras poderão continuar aqui.

- É muita amabilidade sua, sra. Trillaud, mas até o seu quarto lhe roubamos.

- Ora! Na minha idade não é preciso dormir muito. Basta-me um colchão em qualquer canto.

- É reconfortante encontrar pessoas como a senhora.

- Bom dia - saudou Léa, surgindo na cozinha ainda de quimono, com os cabelos desalinhados e o rosto sonado.

- Bom dia, senhorita. Dormiu bem?

- Não muito bem. Camille agitou-se a noite toda.

- Como está ela esta manhã? - quis saber François.

- Acho que bem, pois disse ter fome.

- Bom sinal. Vou levar-lhe a bandeja do desjejum - disse a sra. Trillaud, erguendo-se.

Deixe, sra. Trillaud. Eu trato disso - ofereceu-se François Tavernier.

Com destreza, dispôs sobre a bandeja rústica de madeira uma bela xícara de porcelana, o cesto cheio de fatias de pão cortadas fino, um pedaço de manteiga, açúcar e compota. Para completar essa refeição apetitosa, acrescentou-lhe uma tigela transbordante de cerejas e uma rosa subtraída à jarra azul. Contente com a obra, François exibiu a bandeja para as duas mulheres.

- Nada mal, não é verdade? - perguntou.

- Maravilhoso - afirmou a sra. Trillaud.

- Acha que Camille vai comer tudo isso? - ironizou a jovem.

- Esqueceu-se do café e do leite - observou a anfitriã, colocando na bandeja um jarrinho com leite e outro maior com café.

- Como camareiro, tenho ainda muito que aprender - confessou Tavernier.

Na cozinha, com ar negligente, Léa debulhava ervilhas sob o olhar malicioso da dona da casa e a expressão admirada de um primo de rosto bexiguento.

- Não me esperem para o almoço - avisou François, entrando na cozinha. - Eu me arranjarei.

- Aonde vai? - perguntou Léa.

- À procura de uma garagem para o carro, à Câmara, comprar algumas roupas e telefonar a seus pais e ao sr. d'Argilat.

- Vou com você - decidiu Léa, abandonando as ervilhas.

- Mas você ainda não está pronta. Venha me encontrar no correio, se quiser.

- Mas...

François já deixara a cozinha, porém. Léa voltou a sentar-se e, com raiva, retomou a sua tarefa de debulhar ervilhas.

Quando Tavernier voltou, cerca das cinco da tarde, envergando um terno azul-marinho de corte incerto, Léa passava a ferro um vestido, escutando o rádio.

- Onde se meteu? Procurei-o por toda parte.

- Procurou mal, com certeza. A cidade não é assim tão grande. Passei três horas no correio tentando telefonar para Paris e depois para seus pais. Por fim, consegui falar com eles, mas a ligação logo foi interrompida.

- Como estão meus pais? - gritou Léa, largando o ferro de passar.

- Acho que bem. Estavam preocupados com você, mas os tranqüilizei.

- Teria gostado tanto de falar com minha mãe!

- Tentaremos de novo amanhã em casa do dr. Rouland. Encontrei-o na saída do correio e ele pôs o telefone ao meu dispor. Não está sentindo um cheiro esquisito?

- Ai, o meu vestido! Por sua culpa...

Tavernier desatou a rir diante de tal injustiça.

- Que disseram no rádio? - perguntou, girando os botões do aparelho.

- Nada. É uma chatice só. Nem transmitem música de boa qualidade. Veja o meu vestido! E agora, o que vou fazer?

- No lugar em que o pano queimou poderá colocar um bolso - sugeriu Tavernier.

- Boa idéia! - exclamou Léa, satisfeita. - Mas não tenho tecido igual - acrescentou, de novo aborrecida.

- Como o vestido é branco, ponha bolsos coloridos e botões da mesma cor. Ficaria muito bem.

Léa fitou-o com espanto.

- Não é nenhum absurdo, não, senhor. Não sabia que se interessava por moda.

- Tudo me interessa. Não sou como você.

- Que quer dizer?

- Que você nem sequer notou que eu estou vestido segundo a última moda de Montmorillon.

- Que, aliás, lhe fica muito bem - comentou Léa, após uma olhada rápida e indiferente.

- Agradeço o cumprimento. Vindo de você, fico comovido.

- Pare de mexer nos botões do rádio!

- Estou procurando a emissora londrina. Quero saber em que pé está a guerra. Talvez os ingleses estejam mais bem informados do que nós.

"Esta é a Rádio Londres... E o general de Gaulle quem lhes fala.

- Quem é o general de Gaulle? - quis saber Léa.

- Cale-se! Digo depois.

"Os chefes militares, que há vários dias se encontram à testa dos exércitos franceses, formaram um governo. Esse governo, alegando a derrota das nossas tropas, entrou em contato com o inimigo para que cessem as hostilidades.

É certo que fomos e estamos subjugados pela força mecânica, terrestre e aérea do inimigo. Muito mais que seu contingente, foram os carros de assalto, os aviões e a tática empregada pelos alemães que surpreenderam os nossos chefes, a ponto de os conduzirem à situação em que hoje se encontram.

Mas será que foi dita a última palavra? Teremos de perder a esperança? Será a derrota definitiva? Não!

Acreditem em mim, em mim que lhes falo com conhecimento de causa, quando digo que nada está perdido para a França. Os mesmos meios que nos venceram poderão dar-nos um dia a vitória. Pois a França não está sozinha! Não está só! Tem atrás de si um vasto império.

Poderá reunir-se ao império britânico, que detém os mares e prossegue na luta. Tal como acontece com a Inglaterra, a França poderá utilizar sem limites a indústria dos Estados Unidos.

Esta guerra não se confinou ao infeliz território do nosso país. Esta guerra não se decidiu com a batalha da França. Esta guerra é um conflito mundial. Todos os erros, todos os atrasos, todos os sofrimentos não impedem que existam no mundo os meios necessários para um dia esmagarmos os nossos inimigos. Hoje avassalados pela força mecânica, poderemos vencer futuramente por meio de uma força mecânica superior. E estará aí o destino do mundo.

Eu, general de Gaulle, atualmente em Londres, convido os oficiais e os soldados franceses que estão em território britânico ou que aqui estarão com as suas armas, convido os engenheiros e os operários especializados das indústrias de armamento que estão em território britânico ou que aqui estarão, a entrarem em contato comigo. Aconteça o que acontecer, a chama da resistência francesa não deve extinguir-se e não se extinguirá.

Tal como hoje, falarei amanhã através da Rádio Londres."

Pensativo, François Tavernier desligou o aparelho e começou a andar de um lado para outro. Sentada a um canto, a sra. Trillaud, que chegara à cozinha no início do discurso sem que tivessem notado, enxugava os olhos na ponta do avental.

- O que tem, minha senhora? - inquiriu Léa.

- Nada... é de alegria.

- Alegria?! - estranhou Léa.

- Sim... este general ... como se chama ele?

- De Gaulle.

- Sim, é isso, De Gaulle... disse que a chama da resistência francesa não se extinguirá.

- Ora, que significa isso? Ele está em Londres, não na França. E não é na Inglaterra que se encontram os alemães, mas sim aqui. Se pretende continuar a combater, então que volte em vez de abandonar covardemente o posto.

- Não diga asneiras, Léa - interveio Tavernier. - Não sabe o que está dizendo. De Gaulle é um homem sincero e corajoso. Conheci-o quando ele era secretário de Estado da Defesa Nacional. Deve ter refletido durante muito tempo antes de lançar um apelo' que o coloca fora da lei, ele que, por tradição militar, é um homem acostumado à obediência.

- O senhor vai encontrar-se com ele? - perguntou a dona da casa.

- Não sei. Tudo depende do desenrolar dos acontecimentos. Mas, primeiro, tenho de encontrar o meu regimento. Não vou ficar para o jantar; vou jantar com o presidente da Câmara.

- E eu? Que faço?

- Você? Como amiga dedicada, cuide de Camille - replicou Tavernier, despedindo-se com uma saudação irônica.

No dia seguinte, Léa conseguiu falar com os pais pelo telefone. Chorou ao ouvir a voz doce de Isabelle e a do pai, embargada pela emoção. Que alegria escutar de novo, também, o sotaque de Ruth! Mesmo as escassas palavras trocadas com Françoise e com Laure lhe deram prazer. Não se cansou de fazer perguntas sobre a propriedade, acerca dos tios, das tias e dos primos. Descobria, de repente, que amava a todos. Gostaria de ter descrito à mãe os horrores dos bombardeios, a morte de Josette, a morte do assaltante que quisera roubá-las a expressão da velha perante os cadáveres da filha e dos netos, a doença de Camille, a sua própria aventura com François, etc. Mas conseguira repetir apenas:

- Ah, mamãe, se você soubesse se soubesse.

- Logo que seja possível, eu e seu pai iremos buscá-la, minha querida.

- Isso, Isso, mamãe, venha. Sinto muito a sua falta. Tenho tanto que contar! E senti tanto medo! Pensava em você muitas vezes, me perguntando o que faria em meu lugar. Mas nem sempre fiz o que você faria. Portei-me egoisticamente como uma criança mimada. Mas logo a verei e poderei dormir na minha caminha no quarto das crianças, E, como antes, você virá conversar comigo antes de se deitar e carregar-me no colo como quando eu era pequena. E então vou sentir o seu perfume e acariciar os seus lindos cabelos. Como gosto de você, mamãe! Tive tanto medo de não voltar a vê-la quando tudo queimava à nossa volta! Os bombardeios são horríveis, matam crianças, aquela pobre gente... mamãe.

Os soluços impediram Léa de prosseguir. Com doçura, François tirou-lhe o fone das mãos e forneceu a Pierre Delmas o endereço da filha e o número do telefone do dr. Rouland, Depois de agradecer ao médico, acompanhou Léa até em casa.

Caía a noite e nenhuma luz brilhava nas ruas atulhadas de veículos. O clima estava suave. Ao atravessarem a ponte velha, Léa observou:

- Sente-se cheiro de água.

Gostava daquele odor de rio, mistura de ervas, de peixe e de lodo. Chegaram em frente à casa da sra. Trillaud - Não quero entrar ainda. E se fôssemos passear no campo? Não é muito longe. Fica no final do caminho.

- Como quiser - concordou Tavernier.

A jovem tomou-lhe o braço.

Caminharam devagar por entre dois muros baixos, atrás dos quais se estendiam as hortas. No fim do caminho, passaram por algumas casas muito danificadas, O limiar das portas estava repleto de detritos. Um forte cheiro de pocilga os fez acelerar o passo Agora, os muros davam lugar a sebes. Algumas delas, floridas, perfumavam o ar. O caminho se fazia cada vez mais estreito. Em dado momento, Léa arrastou o companheiro na direção de um pequeno prado, no meio do qual se erguia uma cabana sob um enorme carvalho.

Quando a jovem empurrou a porta, envolveu-os um forte aroma de feno.

- É a minha casa: descobri-a ontem. Senti-me tão bem, havia aqui tanta tranqüilidade e um cheiro tão bom, tal como em Montillac, que voltei hoje com os meus livros - esclareceu Léa, deixando-se cair sobre a palha cheirosa.

François permaneceu em pé, imóvel, procurando adivinhar o que pretendia dele aquela garota caprichosa e temendo cometer qualquer deslize que a levasse a assumir de novo as suas atitudes duras e distantes. Surpreendera-o agradavelmente a disposição de Léa após saírem do consultório do dr. Rouland. O seu único desejo eta tomá-la nos braços. Não no propósito de fazerem amor, mas sim pela mera felicidade de senti-la contra si, mesmo sabendo que pensava em outro homem.

Não fique aí plantado! Venha para perto de mim. Parece que tem medo de mim. "Tenho motivos para isso", pensou Tavernier, indo deitar-se sobre o feno, ao lado dela.

Ficaram silenciosos durante um longo momento.

- Por que não me beija? - disse Léa, por fim.

- Pensei que isso lhe desagradasse.

- Não sei. Abrace-me.

Os beijos dele eram suaves, de início, os gestos, ternos.

- Com mais força - incitou Léa. - Beije-me com mais força.

Amaram-se durante toda a noite, até quase a dor. Por fim, adormeceram enlaçados; em seus corpos nus viam-se as marcas dos dentes e dos arranhões, às quais aderiam ervas secas, coladas ao suor.

Despertou-os o tamborilar dos pingos de chuva. Estava frio. François cobriu os ombros de Léa com seu casaco azul. Chegaram encharcados na casa da sra. Trillaud.

- Já estava preocupada. Por onde andaram? Não deviam pregar-me tais sustos. Vejam em que estado ficaram! Vão ficar doentes. Não tem juízo, sr. Tavernier? Essa moça está tremendo de frio. Como se já não bastasse uma doente resmungou a boa mulher.

Retirou do armário um cobertor, no qual envolveu Léa, que batia o queixo. Preparou-lhes vinho quente. O casaco de François fumegava em frente do fogão aceso, pendurado no espaldar de uma cadeira.

- Tome - disse a dona da casa. - Aqui tem umas calças e uma camisa do meu falecido marido. Vá trocar de roupa.

Sem responder, Tavernier pegou a roupa que a sra. Trillaud lhe estendia.

No final da tarde, Tavenier anunciou a Camille e a Léa o seu propósito de partir.

- E para onde vai? - perguntou Léa em tom brusco.

- Para Paris.

- Então vai nos deixar sós?

- Estão em segurança aqui. A sra. Trillaud prometeu cuidar de vocês e procurar um alojamento conveniente onde possam se instalar enquanto o dr. Rouland achar que Camille não deve deslocar-se. Têm dinheiro?

- Sim. Dinheiro não é problema. Obrigada por ter pensado nisso, François.

- Sr. Tavernier, sr. Tavernier, venha depressa! O general de Gaulle vai falar de novo - gritou a sra. Trillaud do fundo da escada.

- Gostaria de ouvir o que ele diz - suspirou Camille.

François debruçou-se sobre a cama, ergueu Camille num gesto vigoroso e desceu os degraus com precaução. Instalou-a na cozinha, - na cadeira de vime da dona da casa. Na sala, uma dezena de pessoas atentas escutava aquela voz vinda de um país livre, a voz portadora da esperança:

"A esta hora, todos os franceses já perceberam que as formas habituais do poder desapareceram. Face à perplexidade do espírito de todos os franceses, face à liquefação do governo caído sob o jugo inimigo, face à possibilidade de fazer funcionar as nossas instituições, eu, general de Gaulle, soldado e chefe francês, estou consciente de me exprimir em nome de toda a França.

E é em nome da França que declaro formalmente o que se segue: todo francês ainda na posse de armas tem o estrito dever de prosseguir a resistência. Depor armas, evacuar posições militares, concordar em submeter ao domínio inimigo a mais ínfima parcela de território francês serão considerados crime de lesa-pátria.

A esta hora, falo sobretudo para o norte da África francês, o norte da África intacto.

O armistício italiano não passa de uma armadilha grosseira. Na África de Clauzel, de Bugeaud, de Lyautey ou de Noguès, todo aquele que tiver honra tem o dever absoluto de recusar-se a cumprir os termos impostos pelo inimigo. Não se pode tolerar que o pânico de Bordeaux transponha o mar.

Soldados da França, onde quer que estejais, erguei-vos!"

Durante a noite, François Tavernier deixou a pequena cidade.


Capítulo 16

A assinatura do Armistício, na noite de 24 de junho de 1940, lançou Camille e Léa nos braços uma da outra. "A guerra terminou e Laurent vai regressar", foi o primeiro pensamento de ambas. Em seguida, porém, a dúvida, o receio, a vergonha substituíram pouco a pouco o impulso inicial. Na verdade, somente Camille se sentia envergonhada; Léa encarava o Armistício apenas como a volta à existência rotineira. Ávida de viver, recusava-se a analisar a situação. A guerra acabara, ponto final. Tudo recomeçaria como antes. Como antes?... Sabia estar mentindo a si própria, pois tudo seria diferente daí para a frente. Tinham acontecido todas aquelas mortes inúteis e horríveis, havia o caso do homem morto por suas próprias mãos e cuja lembrança a fazia erguer-se na cama, gritando. Nesses momentos, só se acalmava diante da doçura maternal de Camille, que, sem o saber, empregava as mesmas palavras de Isabelle Delmas:

- Não é nada, minha querida. Estou aqui. Não tenha medo. Acabou. Vamos, durma.

E Léa voltava a dormir, aninhada contra Camille, murmurando:

- Mamãe!

Não, nada seria como antes. Além de tudo, um homem a transformara em mulher em meio aos horrores vividos. E isso ela não se perdoava com facilidade, Desde o dia 19 de junho não conseguia ligar para Montillac. Finalmente, no dia 30, ouviu a voz do pai no outro extremo do fio. Talvez devido à distância ou à comunicação deficiente, a voz de Pierre Delmas pareceu-lhe a de um velho hesitante, abafada; ele repetia as mesmas palavras sem cessar:

- Tudo vai bem... tudo vai bem...

Houve um longo silêncio quando Léa pediu para falar com a mãe.

- Alô! Alô! Não desligue.

- Alô! Léa?

- Que alegria em ouvi-la, Ruth! Como vai? Passe o telefone para a mamãe. Receio que cortem a ligação. Alô! Está me ouvindo?

- Sim, estou.

- Passe para a mamãe.

- Sua mãe não está. Foi a Bordeaux.

- Ah, que pena! Gostaria tanto de ouvi-la! Isso me faz tão bem! Dê-lhe um grande beijo por mim. Não se esqueça de lhe dizer que penso muito nela e que a amo com muita ternura. Tentarei telefonar de novo durante esta semana. Alô! Alô! Ah. . cortaram a ligação!

Ao desligar, Léa experimentou tamanha sensação de angústia que o suor lhe cobriu a fronte e as têmporas, provocando-lhe coceira na cicatriz da sobrancelha.

- Tenho de voltar para casa - murmurou, erguendo-se da cadeira do consultório do dr. Rouland.

O médico entrou no gabinete nesse instante.

- Conseguiu falar com seus pais?

- Consegui, sim, muito obrigada. Quando é que Camille poderá viajar, doutor?

- Não antes do parto. Seria perigoso demais.

Quero voltar para casa. É muito importante.

A saúde da sua amiga e do filho são ainda mais importantes, sem dúvida.

- Como sabe? Tenho certeza de que meus pais precisam de mim. Tenho de ir.

- Há alguém doente?

- Não sei. Mas sinto que devo ir. Sinto-o, está ouvindo?

- Sim, estou ouvindo. Acalme-se. Sabe muito bem que não pode partir.

- Mas o senhor está aqui! E também a sra. Trillaud. Além disso, Camille está melhor, já que a autorizou a levantar-se da cama.

- Isso não basta. Só a sua presença a impede de entregar-se ao pânico. Ela gosta tanto de você que lhe oculta suas inquietações e seus males físicos Não é pelo fato de ter-lhe permitido dar alguns passos que o seu estado deixa de ser crítico. Além do mais, devido à fadiga, arrisca-se a ter um parto prematuro. Seja paciente, peço-lhe. Há semanas e semanas que sou paciente. Não agüento mais.

Quero ir ver minha mãe.

Deixou-se cair na cadeira, com a cabeça entre as mãos, e chorou como um criança.

- Quero partir. Deixe-me partir, doutor, peço-lhe.

O médico era tão hábil para cuidar de doentes como desajeitado diante de uma cena de lágrimas, sobretudo da parte de uma jovem bonita.

Depois de várias tentativas infrutíferas, preparou-lhe um calmante e conseguiu que ela o tomasse. E, sentindo-se ele mesmo com os nervos esgotados, engoliu também uma boa porção.

- Vamos, não chore mais... de nada adianta chorar... vai ficar doente.

Quando Léa voltou para a casa de sua anfitriã, a boa mulher. diante de seu ar desfigurado e de suas mãos escaldantes, obrigou-a a deitar- se. Durante a noite, a febre chegou a quarenta graus. A sra. Trillaud correu para chamar o médico, que se revelou impotente para diagnosticar-lhe o mal.

Léa delirou durante três dias, chamando pela mãe, por Laurent e por François Tavernier. Depois, tão subitamente como viera, a febre desapareceu, deixando-a fraca e emagrecida. Nesse tempo, Camille nem por um instante deixou a cabeceira da amiga, apesar das admoestações do médico e da sra. Trillaud.

Uma semana mais tarde, Léa, totalmente restabelecida, foi nadar no Gartempe, num lugar chamado Ilettes. E, naquela mesma noite, Camille lhe disse:

- O dr. Rouland acha que já posso partir para Roches-Blanches.

De verdade!? - gritou Léa.

- Sim, se viajarmos com cuidado. Um primo da sra. Trillaud incumbiu-se de mandar fazer a revisão do automóvel e de ver se arranjava gasolina. Partiremos quando você quiser.

- Que maravilha! Vou ver minha mãe de novo.

Camille pousou na amiga o olhar bondoso.

Ela parece gostar mesmo de mim", pensou. "Que pateta!"

- Vamos partir, sra. Trillaud! Camille já pode viajar - exclamou, precipitando-se para a anfitriã, que entrava na cozinha com um enorme cesto de legumes no braço.

Surpresa, a boa mulher virou-se para Camille:

- Mas, minha filha.

Interrompeu-se, vendo a jovem fazer-lhe sinal para que se calasse.

- Partiremos amanhã, sra. Trillaud. O médico está de acordo - acrescentou Léa, com precipitação, ao perceber a preocupação da mulher, que cuidara dela como se fosse sua mãe durante os três dias da doença.

- Mas por que motivo ele não me falou antes de partir? - disse ela, desconfiada.

- Talvez tenha se esquecido. Tem tanto que fazer! - interveio Camille.

- Não sabia que o dr. Rouland tinha ido embora! - admirou-se Léa. - Aonde foi?

- À Bretanha; buscar a mãe que ficou só depois da morte do filho mais novo, em Dunquerque.

- Não sabia que ele tinha perdido um irmão na guerra - disse Camille.

- O doutor não gosta de falar no caso, mas teve um grande desgosto. O rapaz era como um filho para ele.

- Quando ele voltar, diga-lhe que eu e Léa sentimos muito pelo que aconteceu.

- Seria melhor aguardarem a sua vinda e dizerem isso a ele pessoalmente.

- Não. Temos de regressar. Quero que meu filho nasça na casa dos seus antepassados.

- As estradas não são seguras.

- Não se preocupe, sra. Trillaud. Tudo correrá bem - asseverou Camille, pegando-lhe nas mãos. - Prometa-me que irá passar alguns dias comigo em minha casa. Será sempre bem recebida.

- Sentirei muito a sua falta, sra. d'Argilat. Tinha-lhes arranjado já uma boa casinha com jardim, à beira do Gartempe. Está vendo? E aquela com postigos vermelhos e brancos, do outro lado do rio. Pertence a uma negociante de cereais que vem aqui só alguns dias por mês. Aluga metade da casa. Esteve ocupada por uns banqueiros de Paris, mas eles já regressaram à capital.

- Tal como todos os outros refugiados, aliás. A cidade agora está deserta, sinistra. Não se vê ninguém nas ruas - comentou Léa. - Vou fazer as malas.

No dia seguinte, apesar das lágrimas da sra. Trillaud, Camille e Léa puseram-se a caminho, levando consigo cestos cheios de provisões de todos os gêneros. Até mesmo Léa sentiu a garganta apertada ao deixar a mulher que, com tanta generosidade, lhe abrira a porta e o coração.

- Depois da guerra, voltarei aqui com Laurent e com o nosso filho - afirmou Camille, confortavelmente deitada no banco traseiro do automóvel.

- Espero nunca mais ver essa hipócrita - comentou Léa, no momento em que atravessavam o rio sobre a Ponte Velha.

No começo da tarde, chegaram sem incidentes a Nontron, pequena subprefeitura de Limousin. Tinham encontrado pouco transito pelas estradas mas, aqui e ali, nas valetas, à beira dos caminhos, havia veículos abandonados ou parcialmente destruídos, fazendo lembrar que refugiados tinham passado por ali.

Léa ajudou Camille a descer do automóvel e a instalar-se no terraço de um café.

- Peça uma limonada bem gelada para mim - solicitou Léa.

- Vou ao hotel em frente perguntar se têm quartos.

- Mas para quê?

- Para que você repouse. Deve estar cansada.

- Não, não. Não é preciso. Continuemos. Vamos parar um pouco mais longe.

- Tem certeza de que está bem?

O aparecimento da garçonete poupou Camille de responder à pergunta.

- Duas limonadas bem geladas, por favor. Quer comer alguma coisa? - perguntou Léa.

- Não, obrigada. Não estou com fome.

- Eu também não. Este calor me deixa indisposta.

Depois de refrescarem o rosto e os braços com água de poço no quintal do café, puseram-se de novo a caminho.

Em Périgueux, foram paradas por policiais franceses, desconfiados ao verem duas jovens sozinhas dentro de um carro tão grande e com tão pouca bagagem. Como se fosse suspeito todo veículo sem um colchão em cima da capota! Só depois de verificarem o estado de fraqueza de Camille, consentiram em deixá-las prosseguir viagem, recomendando:

- É preferível dirigir-se ao hospital mais próximo se não quer ter a criança no caminho.

Camille agradeceu o aviso e entrou no automóvel cerrando os dentes.

Rodaram em silêncio durante alguns momentos. Um solavanco arrancou um grito de Camille. Léa virou-se para trás.

- Não está bem? - perguntou.

Com um sorriso forçado, a doente sacudiu a cabeça num gesto negativo. Léa parou o carro junto do acostamento.

- Onde dói? - perguntou, indo para junto de Camille.

- Por todo lado - murmurou.

- Ah, não! Que fiz eu a Deus para encontrar-me em semelhante situação?

"Calma, calma!", dizia ao mesmo tempo a si mesma. "Arranjarei um médico na aldeia mais próxima."

Mas, entre Périgueux e Bergerac, não havia médicos nas aldeias. Na última das duas cidades, os três médicos que Léa procurou estavam ausentes. Só restava o hospital. Ao chegarem, informaram-nas que a hora de admissão de doentes já passara; teriam de voltar no dia seguinte ou, então, munirem-se de uma ordem de internação urgente redigida pelo médico assistente. As súplicas e ameaças de Léa de nada valeram.

Quando a jovem regressou ao carro, Camille continuava a sentir-se mal. Por sorte, depressa encontraram quarto num hotel. Não era muito confortável, na verdade, mas dava para passarem a noite. Léa mandou servir o jantar no quarto e obrigou Camille a engolir algumas colheradas de caldo.

Léa deitou-se na cama incômoda e com um colchão de molas deformado, mas adormeceu instantaneamente. Camille, porém, não conseguiu pregar o olho durante toda a noite. Só pegou no sono de manhã, um sono tão agitado, no entanto, que despertou a companheira. Agastada, a moça levantou-se. Eram seis horas, e o dia estava encoberto.

Depois de fazer uma pequena toalete, Léa saiu e deu uma volta pela cidade, aguardando que o café do hotel abrisse as portas para tomar o desjejum. Passando em frente do correio, lembrou-se de telefonar aos pais, para anunciar sua chegada. Não pudera fazê-lo antes da partida, pois as linhas estavam interceptadas mais uma vez. Apesar da hora matinal, várias pessoas esperavam para telefonar. Por fim, chegou a sua vez. Depois de diversas tentativas infrutíferas por parte da telefonista, informaram a Léa:

- Não consigo linha. Venha mais tarde.

Eram quase onze horas quando, desanimada, ela deixou a estação do correio. Diante da vitrina de uma loja, distinguiu o próprio reflexo, levando alguns instantes para se reconhecer. Que diriam a mãe e Ruth se a vissem assim de cabelo em desalinho e com o vestido todo amarrotado? Riu, ao imaginar as repreensões de ambas. Em breve as veria. E com que contentamento suportaria então as lições de boas maneiras de Ruth e as ternas admoestações da mãe! Dentro de pouco tempo, dentro de duas horas, dentro de um dia, no máximo, poderia abraçá-las.

Camille vestira-se e a aguardava estendida na cama. Passara ruge para ocultar a palidez. Como não estava acostumada a fazê-lo, porém, carregara muito na pintura e isso lhe dava o aspecto de uma boneca de rosto mal desenhado. No entanto, aquela cor de saúde contribuiu para iludir Léa:

- Vejo que você está com melhor aparência esta manhã. Sente-se em forma para viajar?

- Sim, estou bem assegurou-lhe Camille, mordendo os lábios ao levantar-se.

Apoiando-se ao corrimão e ao braço de Léa, desceu as escadas e, à custa de um esforço que a cobria de suores, conseguiu atravessar o saguão do hotel e instalar-se no automóvel estacionado em frente à porta. Deitou-se no banco traseiro. Léa voltou ao quarto em busca da bagagem e aproveitou a oportunidade para mudar de vestido e escovar os cabelos.

Chegavam agora a locais conhecidos e os nomes das povoações soavam como música aos ouvidos de Léa: Sainte-Foy-la-Grand, Castillon-la-Bataille, Sauveterre-en-Guyenne, La Réole. Nesse ponto, Léa hesitou entre conduzir Camille para a casa do sogro ou a Montillac. Virou-se para trás, a fim de perguntar-lhe a opinião. O assento estava vazio.

- Camille! Camille! - gritou Léa, ao mesmo tempo que parava o carro.

Saltou, abriu a porta de trás e recuou diante do espetáculo de uma mulher de olhos fora das órbitas, caída no chão do veículo, de dentes cravados na manta de viagem.

- Santo Deus, Camille!

Que mais teria ela agora?

- O bebê...

O bebê! O que havia com o bebê? O que ela queria dizer com aquilo?

- O bebê... - voltou Camille a dizer num sopro, erguendo a cabeça.

Ah, não! Naquela altura, não! Por acaso aquele bebê não poderia esperar mais um pouco? Sem saber o que fazer, Léa olhou em volta: apenas o campo, sob um céu ameaçador. Calma, calma! Quanto tempo seria necessário para dar à luz? Léa teve de confessar a si própria que não fazia a mínima idéia. Isabelle nunca conversara com as filhas a respeito de tais assuntos.

- Começou há muito tempo?

- Ontem. Mas parou de manhã. Há pouco, senti que algo se rasgava no meu ventre. Foi nessa altura que caí. Estava encharcada.

Uma contração a obrigou a arquear o corpo magro e deformado. Camille não conseguiu conter um grito que lhe desfigurou o rosto, onde a pintura escorria como suor.

Passada a dor, Léa procurou erguê-la para voltar a deitá-la no assento, mas não teve forças para tanto.

- Não consigo... desculpe - disse Camille.

- Cale-se, deixe-me pensar. A próxima localidade é Peliegure; lá pediremos ajuda a alguém.

- Não, não. Quero ir para a casa de Laurent ou para a de seus pais.

- E acha que agüentará cinqüenta quilômetros? - inquiriu Léa, esperançosa.

- Sim... vamos embora.

Léa recordaria esses cinqüenta quilômetros durante toda a vida. Em Saint-Maixaflt viu os primeiros uniformes alemães. Foi tamanha a surpresa que quase atirou o veículo na valeta. Fora colocada uma barragem no sopé da colina de Verdelais. Um soldado fez-lhe sinal para parar.

- Es ist verboten weiter geben (É proibido seguir adiante.). - comunicou ele.

No seu espanto, Léa esquecera o alemão que Ruth tão laboriosamente lhe ensinara.

- Não compreendo.

Apareceu um oficial, que explicou num francês penoso:

- É proibido passar. Tem ausweis?

- Ausweis?

- Sim. Salvo-conduto.

- Não. Estamos voltando para casa. Fica no topo da encosta - esclareceu Léa, apontando na direção de Montillac.

- Nem. Não ausweis, não passar.

- Peço-lhe... olhe, veja... a minha amiga está em trabalho de parto - ... bebê - disse Léa, designando o banco traseiro do automóvel.

O oficial inclinou-se para ver.

- Mein Gott! Wie heissen Sie? (Meu Deus! Como se chama?)

- Léa Delmas.

- Gebören Sie zur Famile der Montillac? (Pertence à família dos Montillac?)

- Ist denn niernand da? (Para onde devo levá-la?)

Fez sinal ao soldado para que desviasse a barreira e saltou para a motocicleta encostada a uma árvore.

- Venha. Vou acompanhá-las.

Léa imaginara chegar em casa de modo totalmente diferente daquele: todos estariam lá para recebê-la, festejar seu regresso, mimá-la. Nada disso acontecia, porém. O local parecia deserto, a propriedade, as adegas, a casa, os celeiros. Parecia que até os animais tinham se ausentado. Era tudo calma, uma calma excessiva.

- Mamãe! Papai! Ruth! - gritou Léa, entrando em casa pela cozinha espaçosa. Correu, abriu a porta de comunicação com a escada dos quartos e chamou de novo:

- Mamãe! Papai! Sou eu.

Na sala de jantar, na sala de visitas e no escritório do pai os reposteiros encontravam-se fechados como nos dias de sol escaldante. Teve então de render-se à evidência: não havia ninguém em casa. Lá fora, o tempo estava cada vez mais sombrio. Na cozinha, o oficial alemão esperava, amparando Camille.

- Wo sol! ich Sie hinlegen? (Não tem ninguém em casa?)

- Para o meu quarto - decidiu Léa.

Subiu na frente deles, O ar no interior do quarto indicava que estava fechado havia muito. Foi à rouparia buscar lençóis e fez a cama, auxiliada pelo alemão. Camille gemia sobre o sofá onde a tinham colocado. Com cuidado, estenderam-na entre os lençóis lavados, de onde se despencava um perfume de alfazema.

- Vou chamar o médico - disse Léa, sem responder à pergunta do oficial.

Desceu de dois em dois os degraus da escada. Reinava enorme desordem no escritório do pai; teve dificuldade em encontrar a agenda de endereços. Ninguém respondeu na casa do dr. Blanchard. Tentou, em vão, os números telefônicos dos médicos de Cadillac, Saint- Macaire e Langon, todos eles amigos da família. De repente, um grito atravessou as paredes da velha casa. Onde se teriam metido todos, santo Deus? Novo grito precipitou Léa para fora do escritório. À passagem, notou uma carta tarjada de luto, interrogando-se sobre quem teria morrido.

O oficial estava atarefado na cozinha. Acendera o fogo, pondo para aquecer diversas chaleiras com água.

- Kommt der Arzt? (O médico vem?)

Léa fez um aceno negativo com a cabeça e foi ter com Camille. Conseguiu despi-la, deixando-a apenas de combinação. Depois sentou-se junto dela, segurando-lhe as mãos e enxugando-lhe a fronte. Entre uma contração e outra, Camille agradecia-lhe, esforçando-se o mais que podia para não gritar.

O alemão entrou no quarto com uma bacia de água quente. Tirara o quepe, a jaqueta e arregaçara as mangas da camisa. Só então Léa notou o quanto ele era jovem e bonito. Caía-lhe sobre a testa uma longa mecha de cabelos loiros, acentuando-lhe a juventude.

- Beruhigen Sie sich. Es wird schon gul gehen (Não se preocupe. Tudo correrá bem.) - assegurou ele, debruçando-se sobre Camille.

Recuou diante da expressão de terror que surgiu no rosto da jovem. Camille soergueu-se, apontando as insígnias názis que enfeitavam a camisa do militar.

- Não tenha medo - tranqüilizou-a Léa, obrigando-a a deitar-se de novo. - Ele ajudou-me a trazê-la até aqui.

- Mas é um alemão! Não quero que um alemão me toque... que toque no meu filho... Prefiro morrer.

- É o que acontecerá se não ficar quieta - observou Léa.

- Não sei o que aconteceu, mas não há ninguém em casa.

Uma contração mais forte impediu Camille de responder. Seguiu-se outra, e outra ainda.

- Holen Sie mal Wiischeo (Vá buscar toalhas.) - ordenou o alemão.

Léa obedeceu.

- Sabe como fazer? - balbuciou ela, regressando com uma pilha de toalhas e dois grandes aventais.

- Mein Vater ist Arzt, ichbabe em paar Bücher aus seiner Bibliothek geselen (Meu pai é médico e eu li alguns livros de sua biblioteca).

O alemão pôs um dos aventais e Léa lavou as mãos.

"Deus queira que mamãe chegue depressa", pensou ela, suspirando. "Creio que vou me sentir mal."

- Na, wie sagen Sie es aus Franzõsisch (Vamos, como dizem vocês em francês): coragem!

Depois, dirigindo-se a Camille:

- Minha senhora, coragem! O bebê está chegando!

Quando Ruth, toda vestida de preto, empurrou a porta do quarto, teve de apoiar-se ao batente para não cair: um alemão - reconheceu-o pelas botas e pelas calças do uniforme - segurava nos braços, envolta em uma toalha, uma criança minúscula que lançava no ar gritos estridentes.

- Das ist em Junge ("É um menino.) - declarou ele com orgulho.

Léa atirou-se nos braços da governanta.

- Ah, Ruth, só agora você chega! E mamãe, onde está? Precisei tanto de vocês!

- Bom dia, minha senhora - cumprimentou o oficial, inclinando-se, com o rosto vermelho, coberto de suor, mas sorrindo radiante. - Tudo vai bem. O bebê é pequeno, mas forte.

Sem responder, Ruth debruçou-se sobre Camille. Em seguida, com ar preocupado, precipitou-se para fora do quarto.

Minutos depois, surgiu o dr. Blanchard, de terno preto, seguido de Bernadette Bouchardeau, de luto fechado.

- Doutor, doutor, venha depressa!

- O que está acontecendo...? - perguntou o médico. Mas logo compreendeu.

- Trate da criança, Bernadette - ordenou. - Ruth, vá buscar minha maleta. Está no automóvel.

- Acha que ela vai morrer, doutor?

- Não sei, O coração está muito fraco. Que faz este alemão aqui?

- Foi ele que me auxiliou a trazer Camille para cá e ajudou também a criança a nascer.

Depois de Bernadette Bouchardeau lhe ter tirado dos braços o menino, o oficial fora postar-se no meio do quarto com ar constrangido, limpando as mãos no avental. Ruth voltou com a maleta e dirigiu-se a ele em sua própria língua:

- Wir bedanken uns, mein Herr... (Estamos muito gratos, senhor...)

- Leutnant Frederic Hanke.

- Léa, acompanhe o tenente à porta. Auf Wiedersen, mein Herr (Adeus, senhor).

O alemão tirou o avental, fez uma saudação rápida e seguiu a jovem ainda vestindo a jaqueta. No corredor, encontraram Françoise e Laure, as irmãs de Léa, também vestidas de preto. As três se abraçaram.

- Laure, minha Laurette, como estou contente em ver você! E você também, Françoise, sua safada!

- Oh, Léa, é horrível!

- Mas... o que é horrível? Estamos de novo juntas, o bebê de Camille está bem, a guerra acabou, enfim... quase acabou - acrescentou Léa, deitando um olhar de viés ao alemão.

- Que faz ele aqui? - murmurou Laure a seu ouvido.

- Depois explico. Onde estão papai e mamãe?

- Mamãe?!...

Na cozinha, Raymond d'Argilat, Jules Fayard, o encarregado das adegas, Amélie Lefèvre e Auguste Martin, seu administrador, Albertine e Lise de Montpleynet, Luc e Pierre Delmas e diversos vizinhos bebiam em grandes copos o vinho doce e amarelado da propriedade.

Todos eles envergavam roupas de cor escura. As mulheres tinham erguido os véus de luto.

Léa teve o impulso de correr para o pai, mas estancou ao avistar o grupo. Sentiu-se gelar de repente. Atrás dela, Françoise e Laure choravam. O alemão acabou de abotoar a jaqueta e de afivelar o cinturão de onde pendia o estojo com a arma. Pôs o quepe, avançou para Pierre Delmas, em frente de quem se inclinou batendo os calcanhares. Depois saiu sem dizer nada.

O motor da motocicleta no pátio pareceu, por momentos, produzir um estrondo enorme. Ninguém se moveu até o som se perder na distância.

Um raio de sol penetrara na cozinha e o negro dos trajes sobressaía diante da brancura das paredes. Em cima da mesa enorme coberta pelo oleado azul, um tanto gasto em certos pontos, as moscas embriagavam-se com o vinho escorrido das garrafas. O grande relógio de parede deu cinco horas. Ruth e o médico apareceram sem que ninguém se movesse. Léa apurava o ouvido. Por que razão ela demorava tanto? Não sabia ainda que a filha a esperava?

- Mamãe!... - ouviu-se chamando-a. - Mamãe! - e a palavra pareceu ecoar dentro de seu cérebro. Não, isso não! Que morressem todos, menos ela!

Papai, onde está mamãe? Diga-me... não é verdade não?

Foi outra pessoa...

Léa olhava em redor, procurando quem faltava ali. Mas faltavam muitos: tio Adrien, os primos.

As irmãs começaram a soluçar com mais força. Todos baixaram a cabeça. Pelas faces do pai - como envelhecera! - deslizavam lagrimas. Ruth atraiu Léa contra o peito.


Capítulo 17

Durante mais de uma semana, Léa permaneceu em estado de choque, sem lágrimas, sem palavras, comendo o que lhe punham na frente, dormindo enroscada na sua antiga caminha do quarto das crianças, engolindo os medicamentos que o dr. Blanchard receitara e ficando horas a fio no terraço olhando a distância. Nem o pai nem Ruth ou as irmãs conseguiam fazê-la sair do mutismo em que mergulhara. O coração da governanta apertava-se ao ver sua elegante silhueta imóvel, voltada para o caminho dos Verdelais, como se esperasse a chegada de alguém.

A descoberta, dentro de um malão do quarto das crianças, de um velho colete de crepe cor-de-rosa pertencente à mãe, veio provocar, por fim, o pranto libertador. Ouvindo-a chorar, Camille arrastou-se para fora do quarto de camisola e, no mesmo tom de voz de Isabelle, encontrou as palavras certas para minorar-lhe um pouco o sofrimento.

Esgotada pelas lágrimas e pelos soluços, Léa adormeceu nos braços da amiga.

Muitas horas depois, Léa despertou sozinha. Lavou o rosto, prendeu os cabelos para trás e dirigiu-se ao quarto da mãe. O perfume de Isabelle flutuava ainda no aposento de janelas fechadas.

Perto da cama, arrumada com esmero, um ramo de rosas perdia lentamente as pétalas. Léa ajoelhou-se, apoiada ao leito materno, e encostou a face à coberta de piquê branco. Deixou então que as lágrimas corressem com suavidade.

- Mamãe... mãezinha... - murmurou.

O pai entrou no quarto e foi ajoelhar-se perto da filha.

- Amanhã de manhã, iremos os dois ao cemitério - disse Léa. - Agora, conte-me o que aconteceu.

- Você quer... mesmo?

- Sim.

- Então vamos para o escritório. Aqui, não tenho coragem.

Em seu gabinete, Pierre Delmas engoliu dois cálices de vinho do Porto. Sentada no velho canapé de couro, cada vez mais deformado, Léa aguardou que ele começasse a falar.

- Aconteceu na noite de 19 para 20 de junho - começou Pierre Delmas. - Sua mãe foi a Bordeaux, à sede da Liga Feminina para a Ação Católica, de que era membro, a fim de participar das tarefas de reabastecimento e alojamento de refugiados. Passaria a noite em casa de seu tio Luc. Houve um alerta pouco depois da meia- noite. Houve bombardeios em vários pontos da cidade: junto às docas, no bairro de Bastide, nas alamedas de Luze e no bairro de Saint- Seurin. Caíram algumas bombas entre as ruas David Johnston e Camille-Godard, na Rue des Remparts, perto da estação do sul, na Alameda Alsace-Lorraine, na trincheira-abrigo das alamedas Damours, onde morreram diversas pessoas. Uma das bombas caiu perto do edifício do comando militar da região, onde estavam instalados os gabinetes do marechal Pétain e do general Weygand.

Léa continha a impaciência com dificuldade. Que lhe importavam os lugares onde haviam caído as bombas? Queria apenas saber como morrera sua mãe.

Pierre Delmas serviu-se novamente de uma bebida e prosseguiu:

- Com outras mulheres, sua mãe saiu do edifício da Ação Católica para refugiar-se no abrigo mais próximo. Deve ter demorado demais, sem dúvida. Uma bomba caiu na Rue Ségalier, ferindo-a na cabeça e nas pernas. Uma das primeiras pessoas a aparecer no local foi um jornalista de Paris, que a transportou ao hospital e me avisou. Estava em estado de coma quando cheguei e só saiu desse estado na véspera de morrer, no dia 10 de julho.

- Disse alguma palavra para mim?

Pierre Delmas acabou de engolir a bebida antes de responder, em voz um tanto pastosa:

- A última palavra que disse foi o seu nome.

Um clarão de pura alegria iluminou o espírito de Léa. Assim, antes de morrer, a mãe pensara nela!

- Obrigada, meu Deus - murmurou, lançando-se nos braços do pai.

Não devemos chorar, minha querida. Durante a noite, ela volta para conversar comigo.

Léa fitou-o com espanto.

- Sim, papai. Para mim também é como se ela continuasse conosco.

Deixou o pai no escritório, sem reparar no sorriso de absoluta convicção de Pierre Delmas.

- No dia seguinte, de volta do cemitério, Léa e o pai encontraram Frederic Hanke com outro oficial, que discutia com Ruth; a discussão estava acalorada, a avaliar pelo ar furioso da governanta.

- Bom dia, meus senhores - cumprimentou Pierre Delmas, com secura. - Que se passa, Ruth?

- Estes senhores pretendem instalar-se aqui. Segundo parece, trazem uma ordem de requisição.

- Mas não é possível! - exclamou Léa.

Infelizmente era verdade, parecia dizer Frederic Hanke, apontando para o papel que Ruth tinha na mão.

- Mas não dispomos de espaço! Estão aqui familiares nossos vindos de Paris e de Bordeaux.

- Lastimo muito, sr. Delmas, mas vemo-nos forçados a cumprir ordens. Sou o tenente Otto Kramer. Necessito de dois quartos decentes e local onde alojar três dos meus homens. Procuraremos incomodá-los o menos possível - prosseguiu o oficial, num francês perfeito.

- Será difícil - murmurou Léa.

- Mas não podem aboletar-se aqui. Estamos de luto - opôs-se Ruth, com dificuldade em conter a cólera.

- Apresento-lhes as minhas sinceras condolências. Podemos ver a casa?

Pierre Delmas cedeu o quarto ao tenente e foi instalar-se no que pertencera à mulher.

- Fique com o meu - disse Léa a Hanke. - Já o conhece.

- Não quero expulsá-la dos seus domínios, Senhorita.

- Já o fez. - respondeu, esvaziando as gavetas da cômoda.

- Nada pude fazer para impedi-lo - assegurou o alemão. - Recebemos ordens de Bordeaux.

Começou, então, uma convivência difícil. Os alemães desciam à cozinha logo pela manhã, onde o ordenança do tenente Kramer preparava os desjejuns. Françoise, enfermeira no hospital de Langon, tinha de levantar-se cedo e muitas vezes ia encontrá-los em frente ao fogão onde se aquecia a água. Pouco a pouco, foram trocando algumas palavras e, certa vez, aceitou mesmo compartilhar da refeição dos ocupantes, mais copiosa, na verdade, do que a sua. Os alemães não apareciam em casa durante o resto do dia; ficavam em Langon ou em Bordeaux. À noite, procuravam chegar tarde em casa. Albertine e Lisa de Montpleynet apreciavam muito esse gesto de delicadeza.

Era Camille quem suportava com maior dificuldade a presença dos alemães. Ela se restabelecia do parto lentamente. O fato de saber que havia intrusos vivendo debaixo do mesmo teto Punha-a numa irritação que a esgotava. O dr. Blanchard, seu médico, proibira que partisse para Roches-Blanches, argumentando que lhe ficaria muito fora de mão para a visita cotidiana. Também a criança, um lindo menino a quem a mãe dera o nome de Charles, embora gozasse de saúde e se desenvolvesse de maneira normal, necessitava de cuidados constantes devido ao pouco peso com que nascera.

Camille tivera de resignar-se a permanecer ali. Raymond d'Argilat, o sogro, passava todos os sábados e domingos junto da nora e do neto, cuja presença o ajudava a suportar o afastamento do filho e a falta de notícias.

Graças ao tenente Kramer, todos os membros da família tinham obtido salvo-condutos com facilidade, documentos que lhes permitiam deslocar-se até a zona livre. A morte de Isabelle desorganizara a vida do lar. Bem depressa Ruth se apercebeu de que a despensa se esvaziara rapidamente. Não havia azeite, sabão, chocolate e café; escasseavam o açúcar, as compotas e conservas. Assim, de bicicleta, ela, Léa e Françoise deslocaram-se até Langon para fazer compras. Na cidade, esmagada pelo calor, as ruas estavam quase desertas e os cafés praticamente vazios ou ocupados por militares alemães, que bebiam canecas de cerveja com ar de profundo aborrecimento. Todas as lojas pareciam ter sido objeto de pilhagem: não existia nenhuma espécie de gênero nas mercearias, sapatarias ou lojas de roupas. Também estavam às moscas as vitrinas das padarias e dos açougues. Nas lojas de bebidas restavam apenas algumas garrafas poeirentas, pois os alemães tinham passado por lá e comprado todas para si ou para enviar às suas famílias, na Alemanha.

- Até o negociante de quinquilharias fez uma fortuna - explicou a merceeira, a sra. Vollard, dona da loja onde a família Delmas se abastecia há muitos anos. O livreiro, que sempre lastimou a falta de interesse dos habitantes da cidade pela leitura, já não dispõe de um só livro ou de um único lápis. Durante dois dias, o comércio funcionou normalmente, mas agora há restrições para todos.

- Que vamos fazer, então? Não temos nada em casa - queixou-se Léa. - isso não teria acontecido no tempo de sua pobre mãe. Olhe, ainda na véspera do bombardeio falei com ela! Apesar das senhas de racionamento, consegui encher suas sacolas. Mas hoje.

- Então não tem nada para nos vender?

- Pouquíssima coisa. De que precisam?

- De café, sabão, azeite, açúcar.

- Café não tenho. Só de chicória; com leite é bastante bom. Recebi manteiga esta manhã. E posso vender-lhes dois litros de azeite e três quilos de açúcar. Ainda me resta um pouco de chocolate, de massa e de sardinhas.

- Dê-nos tudo quanto puder. E sabão... Vamos dar um jeito.

- Tem as senhas?

De regresso a Montillac, Françoise e Léa, de comum acordo, reuniram a família na sala de visitas.

Temos de tomar algumas providências se não quisermos morrer de fome - começou Léa. - É necessário prepararmos o pequeno prado, junto do lavadouro, para fazer uma horta. Comprar frangos, coelhos, leitões.

- Isso não - interrompeu Laure. - Cheiram muito mal.

- Mas ficará contente quando comer presunto ou carne salgada, não é?

- E uma vaca para termos leite - acrescentou Lise de Montpleynet.

- Sim, sim! - exclamou Laure. - Fará companhia à Caoubet e à Laouret.

- Tudo isso está muito certo, mas que faremos com respeito a carnes e mantimentos? - interveio Françoise.

- Falaremos com o açougueiro de Saint-Macaire; o filho dele é afilhado de sua mãe. Quanto aos mantimentos, Françoise, que vai ao hospital de Langon três vezes por semana, pode passar pela loja da sra. Vollard. Mas vamos ter muita dificuldade enquanto esperamos que a horta de Léa produza alguns legumes.

- Até lá o marechal Pétain já terá solucionado as coisas - garantiu a tia Bernadette.

Bernadette Bouchardeau não regressara a Bordeaux. Aceitara, reconhecida, a hospitalidade de Pierre Delmas. Lucien, o filho, fugira de casa para juntar-se ao general De Gaulle, conforme explicara na carta deixada à mãe. Bernadette estava sem notícia dele desde aquele momento, e tinha um ódio implacável do "desertor de Londres", como o chamava. Encheu-a de contentamento a notícia, em 2 de agosto, da sua condenação à morte por contumácia.

Uma carta vinda da Alemanha em fins do mês de agosto informou Raymond d'Argilat que o filho, após ter sido ferido, se encontrava prisioneiro em Westphalenhof, na Pomerânia. Vivo! Estava vivo! Idêntica alegria se acendeu no olhar de Camille e de Léa.

- Nunca mais verei meu filho - asseverou Raymond d'Argilat.

- Ora, vamos, meu amigo, não estrague a nossa alegria. Isso é tolice. Laurent estará de volta dentro em breve - disse Pierre Delmas.

- Para mim será tarde.

Uma tal convicção perturbou Pierre Delmas, que observou o amigo atentamente. Na verdade, envelhecera e emagrecera muito nos últimos tempos.

A 2 de setembro, um ciclista apresentou-se em Roches-Blanches, pedindo para falar com a sra. d'Argilat.

- Que quer dela? - perguntou o velho encarregado das adegas.

- Trago notícias do marido dela.

- Do sr. Laurent?! Como está ele? Conheço-o desde pequeno, sabe? - explicou o velhinho, emocionado.

- Espero que esteja bem - respondeu o desconhecido. - Fomos feitos prisioneiros ao mesmo tempo. Ele confiou-me certos papéis para entregar à esposa. Mas nunca mais o vi.

- A sra. d'Argilat não está aqui, está em Montillac, perto de Langon. O pai do sr. Laurent d'Argilat também está lá.

- Fica muito longe?

- A uns quarenta quilômetros.

- Ora! Uns quilômetros a mais ou a menos.., tanto faz.

- Tenha cuidado! A propriedade fica na zona ocupada. Meu filho irá acompanhá-lo, pois conhece bem os caminhos.

Sem incidentes, os dois jovens chegaram a Montillac ao fim da tarde. O viajante foi levado imediatamente à presença de Camille.

Bom dia, minha senhora. Sou o alferes Valéry - apresentou-se ele. - Fui prisioneiro na mesma época que o tenente d'Argilat. Como foi ferido nas pernas, não pôde fugir. Deu-me estes papéis para entregar à senhora. Perdoe-me por ter levado tanto tempo para me desincumbir da missão. Teve notícias dele?

- Não... enfim... sim. Sei que foi ferido e está prisioneiro na Pomerânia.

- Graças a Deus não morreu!

Gosta muito dele?

É um homem bom e corajoso. Todos os subordinados gostavam dele.

- E o senhor, fugiu?

- Fugi.

- Que pensa fazer?

- Chegar à Espanha e, daí, passar para o norte da África.

- Como?

Existe uma organização em Bordeaux, dirigida por um dominicano.

- Um dominicano?! - interveio Léa, que assistia ao encontro entre os dois. - Sabe o nome dele?

- Não sei. Mas o local das reuniões é um botequim das docas - replicou o alferes.

- Léa... está pensando em. .

Claro que não! O alferes Valéry não pode ficar em Montillac. É perigoso demais.

- Temos dois oficiais alemães em casa. - esclareceu Camille.

- Como pretende chegar a Bordeaux? - prosseguiu Léa.

- De trem.

- As estações estão submetidas a vigilância cerrada. E esta noite já não há trem. O senhor dormirá no meu quarto.

- Não, no meu - contrapôs Camille. - Ninguém irá incomodar-me devido à criança.

- Tem razão - concordou Léa. Amanhã de manhã vou acompanhá-lo à estação. Até lá, é preferível não falar do caso a ninguém; não vale a pena preocupá-los.

- Deve estar com fome, sr. Valéry - disse Camille. De fato, comeria qualquer coisa.

Léa foi à cozinha e apareceu com uma bandeja contendo carne fria, queijo, pão e uma garrafa de vinho. O jovem atirou-se à comida com uma voracidade que fez sorrir as duas mulheres.

- Desculpe-me - disse ele de boca cheia -, mas há dois dias que não como.

- Agora, descanse. Vamos deixá-lo. Muito obrigada por ter me trazido as cartas de meu marido - agradeceu Camille, saindo do quarto com Léa. - E se fôssemos até o terraço? - sugeriu à amiga.

- Sente-se com forças para ir até lá?

- O dr. Blanchard recomendou-me que fizesse um pouco de exercício. Estou melhor desde que recebi notícias de Laurent. E, com as cartas trazidas pelo alferes, algo me diz que o verei dentro em breve.

Já no terraço, Camille foi ocupar o banco de ferro sob o caramanchão onde morriam os últimos cachos de glicínia. Abriu o grosso envelope e começou a ler:

 

"Minha adorada mulher:

Se Deus quiser, o alferes Valéry irá lhe entregar estas páginas, escritas durante os raros momentos de calma. Talvez a sua leitura lhe pareça cansativa mas, no estado de fadiga e de depressão em que me acho, é difícil alhear-me deste cotidiano absurdo. Quero que saiba, no entanto, que penso constantemente em você e em nosso filho. São vocês que me dão forças para continuar esperando.

Desculpe, minha bem-amada, esta prosa demasiado breve, demasiado seca, mas vi tantos dos meus amigos e camaradas morrerem junto de mim! É preciso que se saiba que todos eles se bateram com valor. Não esqueça isso, pois talvez haja muita gente disposta a dizer que os soldados franceses fugiram diante do inimigo. Infelizmente, isso é verdade em relação a alguns deles. Eu os vi; vi aqueles que pilharam Reims e abandonaram as armas nas valetas a fim de correrem mais depressa. Vi-os e não esquecerei jamais tal coisa. Mas também vi heróis obscuros que preferiram deixar-se matar a recuar. É desses que devemos lembrar-nos.

Cuide-se bem. Que Deus a abençoe, assim como a Léa.

Perto de Veules-les-Roses, 15 de junho de 1940.

P.S.: Junto a esta algumas páginas do meu diário."

 

"Pobre Laurent!", pensou Camille. Tirou o cordão que prendia o maço de folhas cobertas por uma caligrafia miúda, feita a lápis. Instalou-se melhor para proceder à demorada leitura. Depois, como era habitual nela, leu em voz alta diversas páginas, para a amiga ouvir.

 

"Terça-feira, 28 de maio de 1940

Encontro Houdoy no botequim da povoação. Está estafado; fez duzentos e quarenta e cinco quilômetros a cavalo em quatro dias. Há muitos cavalos feridos. Passo o resto do dia a vasculhar as propriedades dos arredores em busca de provisões."

 

"Quarta-feira, 29 de maio de 1940

Cavalgo juntamente com Houdoy e com Wiazemsky. Tagarelamos a noite inteira. Atravessamos Congis, Puisieux, Sennesvières, Nanteuil e Baron. Acampamos numa propriedade até as seis da manhã. Depois de algumas horas de repouso, procedemos à revisão do material e do armamento, visto que nos aproximávamos da frente de combate, O coronel vem visitar-nos. Partida às vinte e três e trinta.''

 

"Quinta-feira, 30 de maio de 1940

Atravessamos Senlis cerca de uma da madrugada. Chegada às sete e trinta, após quarenta e cinco quilômetros de marcha, O esquadrão acampa num prado. É difícil encontrar água."

 

"Sexta-feira, 31 de maio de 1940

Toque de reunir à uma da madrugada, partida à uma e trinta. Pequeno percurso de vinte e cinco quilômetros até Bois-du-Parc, onde acampamos. Durante o dia, com o caminhão, vou a Beauvais para reabastecimento. Tudo está calmo na cidade; as lojas mantêm- se abertas. Compro um jornal local. Regresso às dezesseis horas, tendo a meu cargo os preparativos do próximo acampamento, em Equennes. Às vinte e duas horas fica pronto o acantonamento, quando uma mensagem do coronel me informa que não podemos utilizá-lo. Voltamos a partir sem destino certo."

 

"Segunda-feira, 3 de junho de 1940

Enquanto faço o desjejum com Wiazemsky, vemos um avião despencar nas matas situadas por detrás do 3,0 Esquadrão. Corrida generalizada. Por sorte, o piloto está vivo, É inglês, um rapaz de um metro e noventa de altura, O coronel dá ordens para reconduzi-lo à base, que fica a oito quilômetros de Rouen. No regresso, paro em Gournay-en-Bray para comprar sanduíches e chocolate, As lojas estão abarrotadas de coisas e tudo inspira tranqüilidade. Jantar no i'c. Fala-se que seremos mandados para Forges-les-Eaux. Passeio nos bosques na companhia de Yvan Wiazemsky, com quem troco idéias cada vez com mais agrado. Não conheço no regimento personalidade mais atraente, nem quem tanto me subjugue como ele. É um belo rapaz, bem-constituído, de aspecto sedutor apesar das enormes orelhas, com passos lentos e olhar distante, dotado de bondade e de grande inteligência. Adotou-me, de certo modo, guiou-me no regimento, começou logo a tratar-me com intimidade e me impôs uma camaradagem preciosa. Além de Houdoy, é ele o meu melhor amigo."

 

"Terça-feira, 4 de junho de 1940

Dia calmo e sem história. Temos dificuldade em encontrar feno."

 

"Quarta-feira, 5 de junho de 1940

Escrevo sob a luz de vela, colada ao fundo de um caixote. Após a entrega das provisões, bem cedo, como sempre, fui cortar o cabelo e fazer a barba no barbeiro da aldeia. Tinha ainda o queixo cheio de sabão quando Wiazemsky chegou, brandindo a mensagem da brigada:

"O inimigo atacou esta manhã no Somme, empregando meios bastante poderosos, e conseguiu romper as linhas em diversos pontos do setor da divisão'. Sabemos o que isso significa. Faz um calor terrível. Sobre nós, passam muitos aviões. Ouvem- se disparos de obuses muito perto. Obtenho autorização do comandante para retomar minhas funções de oficial de ligação e de seguir o i'c com a cantina e o meu motorista. Partimos cerca das catorze horas e ultrapassamos o regimento por entre nuvens de poeira. Por diversas vezes, asseguro a ligação com a vanguarda. Às dezesseis horas, paramos em Hornoy, ainda habitada, e tomo de assalto os botequins para dar de beber a todo o Pc. Voltamos a partir e, em Belloy, deparamos com um incrível engarrafamento; os moradores fogem. Os esquadrões ficam bloqueados. Procura-me um oficial, comunicando que o general Maillard quer falar urgentemente com o coronel. Vamos os quatro - o coronel, Creskens, Wiazemsky e eu. Com o mapa aberto sobre a asa de um Panhard, o general explica-nos que os alemães se encontram muito perto e que tencionam atacar o 4° de Hussardos em Walrus, com os carros de assalto.

O Somme foi transposto hoje de manhã. Trata-se de conter o inimigo, que desce sobre Beauvais. O coronel dá ordens para a instalação dos esquadrões e interrompe-se para dizer-me que vá buscar as munições deixadas em Aguières. Parto imediatamente. São cerca de dezoito horas. Quando regresso, os carros alemães estão já muito próximos, circulando entre as linhas, nas imediações da aldeia.

Comunicam-me que o caminhão de Chevalier saltou sobre uma mina, à saída de Hornoy. É quase noite e dispara-se por toda parte.

Encontro Chevalier errando pela escuridão, gravemente ferido nas costas. É corajoso e não se queixa. Junto dele, aguardo a chegada do médico. Informam-me da gravidade do ferimento. Aperto a mão de Chevalier, que é retirado para a retaguarda.

Volto a encontrar o i'c em Bromesnil, onde Houdoy se acha com os seus homens e cavalos. Comunica-me que fomos colocados à disposição do general Contenson. São vinte e três horas e durmo um pouco."

 

"Quinta-feira, 6 de junho de 1940

Às duas da madrugada, o i'c desloca-se para Fresnevilie, enquanto os esquadrões tomam posição em linha. De madrugada, faço a ligação com Navarre no Castelo de Avesnes. Somos surpreendidos por um grupo de bombardeiros voando baixo. Fugimos à velocidade máxima do veículo para nos abrigarmos atrás de um muro. Os aparelhos metralham-nos à passagem. As balas rasgam o toldo. Depois, os aparelhos acabam por afastar-se. Tornamos a partir direto para Arguel.

São oito horas. Tudo está calmo no i'c, apesar da pressão dos carros de assalto alemães. O regimento mudou de local durante a noite.

Pouco depois, volto a partir para Hornoy. Encontro um tenente de engenharia meio desesperado que informa ser inútil prosseguir na colocação de minas. A aldeia está cercada. A fuzilaria aproxima-se. Pergunto-lhe se pensa abandonar o local e ele responde: "Claro que não". Ofereço-lhe ajuda. Apanho três atiradores senegaleses que fugiam. Uma hora mais tarde, horrorizado, verei cair os três, ceifados por uma rajada de metralhadora. A náusea faz-me dobrar em dois. Sem o meu zelo, os infelizes seriam desertores, mas talvez estivessem vivos. As balas assobiam por todos os lados. Apanho uma espingarda tombada junto de um corpo sem vida e disparo - ouço um grito vindo do mato e vejo erguer-se um homem sem capacete. Menos de dez metros nos separam. Impressionam-me a sua juventude e seus cabelos bem loiros. Da garganta aberta, jorra uma torrente de sangue. Os olhos estão esbugalhados e ele cai, fitando-me.

Um aviso salva-me a vida: "Meu tenente! Cuidado, meu tenente! Não fique aí'. Mais por instinto do que por reflexo, lanço-me por terra a tempo. Sinto as pedras baterem-me nas costas. Na estrada, há duas motocicletas caídas. Junto delas, jazem os condutores, desfeitos pela rajada. Um dos veículos ficou intacto. Apodero- me dele na esperança de chegar ao i'c. Às quatro da tarde, apresento o meu relatório.

Não me deixam respirar, ordenando-me que vá reabastecer meu caminhão em Sénarpont. Distribuo dois dias de ração aos esquadrões.

São nove horas da noite. Estou esgotado."

 

- Leia - disse Camille, estendendo as folhas do diário a Léa. - Vou tratar de Charles, ele está chorando.

Léa pegou as folhas e prosseguiu a leitura:

 

"Sexta-feira, 7 de junho de 1940

Estou no i'c de Rohan-Chabot quando o ataque alemão se desencadeia ao longo de toda a frente. O bombardeio redobra de intensidade, a investida inimiga torna-se mais feroz. Rumo de novo ao 2º, onde Colomb acaba de ser morto. Depois Kéraujat e Rohan Chabot são feridos.

Às vinte e trinta, o coronel, após ter perdido a ligação com Sèze, envia-me para confirmar a ordem de retirada. Volta rápida no meio dos bombardeios.

De madrugada, encontramo-nos em Campneuville (vinte e cinco quilômetros). O percurso foi duro: território devastado, muitas casas destruídas. Às cinco horas, o coronel nos reúne. Achamo-nos definitivamente isolados. Tentaremos abrir caminho em direção ao Sena, protegendo a retirada da Divisão Alpina, com a 3." DIC. O regimento reagrupara-se com dificuldade. O coronel informa-me que não há reabastecimento há quarenta e oito horas. Proponho que se abatam alguns animais, se requisite a padaria e se faça uma provisão de cidra.

Eu e Wiazemsky arranjamos quinhentos quilos de pão e mil e seiscentos litros de cidra. Quanto ao resto, os esquadrões terão de se desvencilhar por si próprios."

 

"Domingo, 9 de junho de 1940; segunda-feira, 10 de junho; terça-feira, 11 de junho

O regimento organiza um foco de resistência sobre a Linha 205 Auvilliers-Mortjrner. São assinaladas infiltrações alemãs em todas as direções. Às dezessete horas, recebemos ordem de retirar. Operação bem difícil; Saint-Germain, que representa a única porta de saída utilizável, já está ocupada quando chega o 30 Esquadrão. Seguem-se combates de rua, em que Dauchez é morto. Os alemães recuam e passamos com o 2 e o 4." esquadrão.

Tenho tempo para mandar abater três animais, que são distribuídos. Voltamos a partir para o castelo de (?), onde se acha instalado o i'c.

Nova organização defensiva. Ficamos sabendo que o cerco se tornou definitivo.

Conduzo o 4º GM, o único intacto, para reforço do 3º Esquadrão, e instalo o meu Pc no abrigo de Stern. Tenho ainda tempo para inteirar-me de que Sèze foi apanhado em Bellencombre com três pelotões e logo a seguir desencadeia-se o inferno. É morto Cazenove, que tentara organizar um ponto de apoio à minha esquerda. Depois, é a vez de Chambon, tombado junto de Audoux, com um estilhaço de obus enterrado na garganta. Em seguida, Stern é ferido com gravidade. Os tanques alemães esmagam o 4YGM. Echenbrenner morre também. Luirot, Branchu, Novat e Sartin são feridos.

Reúno os sobreviventes junto do i'c, na pedreira existente na base da falésia. Os carros alemães avançam até duzentos metros de distância e metralham-nos durante três horas com canhões de trinta e sete milímetros e projéteis incendiários. Os nossos transportes de munições, concentrados à entrada de Veules-les-Roses, vão pelos ares uns após os outros. O céu parece de fogo. Os cavalos estão magnificamente calmos.

Noite de espera febril. Acalmo a impaciência redigindo estas notas ao abrigo da falésia, iluminado pela luz de uma vela, resguardada por um capote estendido entre duas espingardas sustentadas por seixos. Há instantes em que tudo está tranqüilo. Ouve-se distintamente o barulho da maré subindo. Do lado de lá da água fica a liberdade e talvez a vida. Penso em minha querida Camille, em nosso filho que se arrisca a não conhecer o pai, nesta terra de França invadida pelo inimigo, em todos os amigos mortos para que ela permaneça livre e cujo sacrifício de nada terá servido, no soldado alemão que matei, eu que tanto odeio a violência. Apodera-se então de mim uma estranha paz.

A noite é bela e calma. O cheiro de maresia mistura-se ao odor quente dos cavalos."

 

Camille, com o filho ao colo, aproximou-se da janela aberta sobre o parque, esforçando-se por fazer Charles rir, para melhor disfarçar as lágrimas.

Léa, entusiasmada pela narrativa, prosseguiu a leitura:

 

"Quarta-feira, 12 de junho, ao amanhecer

Fomos informados de que apenas três barcos de transporte ingleses puderam partir (um deles encalhou na praia e outro foi afundado à saída do porto).

Wiazetnsky foi feito prisioneiro durante a noite e Mesnil desapareceu. Restam apenas alguns elementos do 4 Esquadrão sob as ordens de Dumas, de Pontbriand e minhas, e uns cinqüenta homens dos duzentos e vinte e seis que constituíam os efetivos à partida. O comandante designou-me para o setor nordeste da falésia de Veules, de costas para o mar. Disponho os homens e subo o morro. A três ou quatro quilômetros a leste, sul e oeste, movimentam-se colunas de tanques alemães.

Cerca do meio-dia, somos atacados sem interrupção com disparos de 37 e de projéteis cortantes. Ravier e alguns soldados ficam feridos.

O comandante Augère comunica-me que será inútil insistir e dirigirmo-nos à aldeia para organizar a resistência nas propriedades. Até as dezesseis horas, faço fogo com os meus homens. Ferido nas pernas, caio de joelhos. Depois, esgotadas as munições, escondemo-nos num celeiro, esperando a chegada da noite. Mas, às dezessete horas, soldados alemães irrompem pelo abrigo de metralhadoras em punho. Jogo meu revólver sem balas e saio, amparado por dois dos meus homens. Levam-nos para um caminho no fundo de um barranco, onde encontramos os sobreviventes do regimento.

Somos enviados para o hospital de campanha, onde ainda hoje me encontro.

O alferes Valéry comunica-me sua intenção de se evadir. Imobilizado pelos ferimentos nas pernas, confio-lhe estas notas e uma carta para minha mulher. Que Deus o proteja"

 

As últimas linhas dançaram em frente dos olhos de Léa. Sentia no próprio corpo os sofrimentos de Laurent. Sob aquele breve relato, adivinhava as privações experimentadas por ele. Onde estaria Laurent nesse instante? Seriam graves os ferimentos? Ele nada dizia a esse respeito.

Camille voltava com o pequeno Charles nos braços. Via-se que chorara.

- Não chore desse modo. Vai ficar doente - disse Léa, restituindo-lhe os papéis. - Ruth vem aí. Suba com ela.

Camille escondeu as folhas no bolso do vestido.

- Você voltou a chorar, Camille! - censurou-a Ruth. - Não está sendo razoável. Pense no seu filho. Vamos, venha.

A jovem deixou-se levar sem nada dizer, e Léa ficou sozinha com a criança.

Os campos diante do terraço em nada traíam a infelicidade que sobre eles se abatera. Com um sentimento de ansiosa ternura, Léa contemplava-os tal como se contempla o rosto amado de uma mãe atingida por uma doença incurável. Tudo parecia igual ao que sempre fora. As vinhas estremeciam à brisa da tarde. Um cão ladrava ao longe e crianças gritavam na estrada.


Capítulo 18

Antes de Françoise e os alemães se levantarem, na manhã seguinte, Léa acompanhou o alferes Valéry à estação de Langon, onde tiveram de esperar até as sete horas pela chegada do primeiro trem para Bordeaux. O militar registrou a bicicleta, passou pela alfândega e pela fiscalização sem dificuldade - seus documentos falsos valiam como verdadeiros. No entanto, não fora sem inquietação que Léa assistira ao minucioso exame dos documentos dos passageiros por parte dos soldados alemães e de policiais franceses. Obedecendo a um impulso, Léa confiou a bicicleta à guarda do chefe da estação, que a conhecia desde a infância, e comprou bilhete de ida e volta para Bordeaux.

- Não tem bagagem? - inquiriu um dos policiais.

- Não. Vou a Bordeaux apenas por um dia, visitar uma tia doente.

Subiu no trem no instante em que o chefe da estação apitou.

A viagem parecia não ter mais fim. O trem parava durante muito tempo em todas as estações. Eram quase dez horas quando a composição entrou em Saint-Jean. Ao descer, Léa tentou localizar o alferes Valéry. Na plataforma, porém, a multidão era tão compacta que se achou no saguão sem ter conseguido descobri-lo.

- Léa!

A moça sobressaltou-se. Perto dela, muito elegante, estava Raphael Mahl.

- Que alegria em vê-lo, Raphael!

- E eu... nem se fala! De todas as minhas belas amigas ausentes de Paris nestes tempos absurdos, foi você quem me fez mais falta.

- Exagerado, com sempre!

Deixe-me admirá-la. Parece-me ainda mais linda do que antes da nossa lamentável derrota.

Algumas cabeças voltaram-se para eles.

Tenha cuidado! Estão nos olhando.

E então? Não é verdade? Não levamos uma surra monumental? - retorquiu Raphael.

- Cale-se - implorou a jovem.

Mas... parece que isso a faz sofrer, menina. Vamos.

vamos.., estava brincando. Vamos sair daqui. Aonde vai?

- Não sei.

- Magnífico! Assim sendo, convido-a para almoçar. Um almoço como os de antigamente. Depois me dirá.

- Como queira.

- Não diga isso com ar tão triste! Assim, vestida de preto, parece ter perdido pai e mãe.

- Minha mãe morreu.

- Oh, lamento muito, Léa! Não direi mais bobagens.

Um automóvel e seu motorista aguardavam em frente da estação. Mahl abriu a porta de trás e deu passagem a Léa.

- Para o jornal - ordenou ele, subindo.

Rodaram em silêncio durante alguns momentos.

- Conte-me como isso aconteceu - pediu ele, por fim.

- Minha mãe foi morta durante o bombardeio de 19 de junho.

- Eu estava em Bordeaux nessa altura. Acompanhei o governo desde Tours. Após esse bombardeio imbecil, que custou a vida de umas sessenta pessoas, quis deixar a França no dia seguinte. Tinha passagem a bordo do Massilia. Depois encontrei uma amiga - Sarah Mulstein, que você conhece, aliás -, que procurava tirar o pai da França. Dispunham dos vistos necessários, mas não tinham passagens.

Cedi-lhes a minha.

- É muita generosidade de sua parte.

- Não se trata de generosidade. Simplesmente, não podia permitir que os alemães pusessem a mão num maestro tão excepcional como Israel Lazare.

- Que aconteceu a Sarah Mulstein?

- Não sei. A 20 de junho, Bordeaux foi declarada cidade aberta; a 21 de junho foi assinado o Armistício; a 25, Pétain decretou um dia de luto nacional; a 27, os alemães entravam jubilosa- mente em Bordeaux e, a 30, o governo deixava a cidade. Você não imagina a desordem que foi. Quanto a mim, regressei a Paris no dia 29. Na Rádio Mundial, ocupada pelos alemães, deram-me a entender que a minha presença era indesejável. Por sorte, graças a certos amigos, arranjei emprego como jornalista no Paris-Sair. É por isso que estou aqui de novo, fazendo uma reportagem.

O veículo parou diante do edifício do La Petite Gironde, onde Raphael tinha o seu quartel-general. Instalou a jovem num gabinete sombrio, atulhado de pilhas de jornais.

- Sente-se. Não demoro. Tem muito que ler; cultive-se disse ele, designando os jornais.

Regressou cerca de meia hora mais tarde e levou-a a almoçar no Chapon Fin.

- Bom dia, sr. Mahl. A sua mesa está pronta - disse o maître, com uma saudação.

- Obrigado, Jean. Alguma coisa boa hoje?

- Não há grande coisa, sr. Mahl - respondeu ele, empurrando a cadeira para Léa. - Posso arranjar-lhe patê de fígado com um Château-Yquem, carneiro com legumes, galinha recheada ou linguadinhos.

- Muito bem. E de sobremesa?

- Charlotte de morangos com suco de framboesa ou então profiterolles de chocolate.

- Devo estar sonhando - comentou Léa. - Pensei que os pratos nos restaurantes estivessem regulamentados.

- Não em todos, senhorita. Não em todos.

- Traga-nos então patê de fígado e vinho branco de Bordeaux. Que diz do carneiro, cara amiga? É uma delícia - disse ele para Léa. E depois, dirigindo-se de novo ao chefe dos garçons: - Traga- nos em seguida um Haut-Brion. Escolha uma boa safra.

- Vou lhe mandar o encarregado dos vinhos.

- Não é necessário. Diga-lhe que pode servir-nos já o branco de Bordeaux.

- Muito bem, sr. Mahl.

- Vem aqui com freqüência? - perguntou Léa, olhando à sua volta.

- Às vezes, pois é muito caro. Agora, porém, todos os restaurantes o são. Quando o governo estava sediado aqui, ia jantar muitas vezes no Chez Catherine, um excelente restaurante, dirigido pelo sr. Dieu, grande cozinheiro e bibliófilo, com quem costumava discutir o problema do ano de edição do livro Voyage d'Egypte ei de Nubie, de Norden. Dieu teimava ser de 1755 e eu, de 1757. Ele tinha razão.

Olhe aqueles oficiais alemães que se instalaram ali.

- Por que se admira? Nem todos os alemães comem apenas salsichas e repolho. Sei de muitos que são grandes entendidos em boas safras de vinho.

- Sem dúvida. Mas não deixa de ser muito desagradável.

- Terá de habituar-se, minha querida, ou, então, reunir-se ao general de Gaulle, em Londres. Eles vão ficar por aqui durante um bom tempo, pode crer.

Surgiu o encarregado dos vinhos, trazendo com precaução a garrafa de Château-Yquem, safra de 1918.

- O vinho da vitória - comentou ela em voz baixa para Mahl, apresentando-lhe a bebida.

- Cale-se - disse ele, dando uma rápida olhadela em redor.

- Depressa. Dê-me desse vinho - pediu Léa, estendendo o copo. - Vou beber pela vitória.

Um sorriso divertido distendeu os lábios de Mahl.

- E por que não? À vitória! - disse ele.

- À vitória! - exclamou Léa, elevando a voz e erguendo a taça.

Os copos tocaram-se em meio a um silêncio que tornava ainda mais incisivo o riso da jovem.

- Sr. Mahl... senhorita... por favor - sussurrou o gerente, que acorrera, olhando a mesa ocupada pelos oficiais alemães.

Um destes levantou-se da cadeira e fez uma saudação a Léa, com a taça de champanha na mão:

- E eu bebo à beleza das mulheres francesas.

- À beleza das mulheres francesas! - secundaram-no os companheiros, pondo-se em pé, por sua vez.

Léa enrubesceu de cólera e quis erguer-se, mas Raphael a reteve.

- Fique quieta - ordenou.

- Não quero ficar no mesmo local onde está essa gente.

- Não seja ridícula e não chame a atenção. É uma imprudência. Pense em sua família.

- Por que diz isso?

Mahl baixou a voz para retorquir:

- Como lhe disse, estou aqui como repórter. Na realidade, investigo a rede clandestina encarregada de fazer passar para a Espanha certos indivíduos que pretendem reunir-se a De Gaulle ou atingir o norte da África.

- E então? Que tenho eu a ver com isso?

- Você, nada. Mas certas verificações efetuadas por mim levam a supor que um dominicano esteja à testa dessa rede - respondeu Raphael Mahl.

- Um domini.

- Um dominicano tal como seu tio Adrien Delmas, o célebre pregador.

- Que absurdo! Meu tio não se interessa por política.

- Não é isso que consta nos meios da alta sociedade de Bordeaux - contrapôs o companheiro.

- Como assim?

- As pessoas não esqueceram o apoio que ele prestou à revolução espanhola. Como bom francês, deveria denunciá-lo ao governo de Vichy.

- E vai fazê-lo?

- Não sei. Coma o patê de fígado. É excelente.

- Não estou com fome.

- Vamos, Léa, como pode levar a sério o que eu digo? Sabe muito bem que estou sempre gracejando.

- Escolheu um tema muito estranho -.

- Vamos, coma.

Mahl.

A gulodice de Léa suplantou-lhe a inquietação.

- Eu não lhe disse que o patê era excelente? - observou - Hum... - fez Léa.

- Sabe que estamos sentados à mesa onde se encontrava Mandel ao ser preso?

- Não. Nem sequer sabia que ele tivesse sido preso. Julguei que partira a bordo do Massilia.

- De fato, partiu. Mas, antes, foi detido por ordem do marechal Pétain. Eu ocupava a mesa ao lado da dele. Mandei acabava de almoçar em companhia de Béatrice Bretty, uma atriz, quando um coronel da polícia francesa se aproximou, pedindo para lhe falar. Mandei fitou- o, continuando a saborear as suas cerejas. Depois de um tempo que me pareceu infinito, ergueu-se e seguiu-o. Comer cerejas em 17 de junho de 1940, vejam só! As cerejas se transformariam depois no símbolo de todas as depravações do regime. O coronel conduziu-o a seu gabinete, dando-lhe ordem de prisão, bem como ao antigo colaborador de Mandei, o general Bürher, chefe do estado-maior das tropas coloniais.

- Por que o prenderam? - quis saber Léa.

- Convenceram Pétain de que ele conspirava "com o propósito de impedir o Armistício".

- E como terminou o caso?

- Da melhor forma para Mandei. Pomaret, seu sucessor no Ministério do Interior, foi até a casa do marechal Pétain, que o recebeu na presença do ministro da Justiça, Alibert, que por sua vez só tratava Mandei pela alcunha de "o Judeu". Antes, Pornaret mostrara-se bastante severo com o marechal, acusando-o de ter cometido um grave erro ao deixar o caso prosseguir. Pétain pediu então que lhe fossem buscar Mandel e Bürher. Este chorou, lastimando-se de haver sido preso diante de seus oficiais, apesar das cinco estrelas que ostentava. Quanto a Mandel, disse simplesmente: "Não me humilharei apresentando-lhe explicações. É o senhor quem deve fornecê-las a mim".

Para grande espanto de todos, Pétain retirou-se para seu gabinete. Pouco depois, regressava com um texto, que leu em voz alta: "Senhor ministro, após as explicações que me deu..."

"Mas eu não lhe dei qualquer explicação", objetou Mandel. "Tem de suprimir essa passagem."

E o marechal refez a carta, transformando-a em mero pedido de desculpas; à noite, Mandel leu-o a Lebrun e a mais alguns indivíduos. Bem cômico, não acha?

- Incrível! - comentou Léa, sacudindo a cabeça. - Mas como conhece todos esses fatos?

- Ouvi-os da boca de Pomaret.

- E quem lançou a idéia da conjura?

- Um certo Georges Roux, escritor, advogado e colaborador do La Petite Gironde. Prenderam-no, mas logo o soltaram.

- Bordeaux deve ter sido uma cidade bastante curiosa durante essa época - disse Léa com expressão sonhadora, girando diante dos olhos o copo de Haut-Brion.

- Nunca vi nada que se lhe pudesse comparar - garantiu o companheiro. Imagine: dois milhões de refugiados dentro da cidade, nem um só quarto vago. No Hotel Bordeaux e no Hotel Splendide os próprios sofás do saguão foram alugados. Paris inteira emigrou para Bordeaux. Por toda parte se encontravam amigos e conhecidos, e as pessoas quase esqueciam o êxodo devido ao prazer proporcionado pelos encontros. Nos terraços dos cafés, fazia-se e desfazia-se o governo. As filas alongavam-se à porta dos consulados para a obtenção de passaportes. Os ministros aconselhavam os Rothschild a partir, embora ninguém pensasse que os alemães avançassem até Bordeaux.

Os restaurantes abriam as portas às dez da manhã. À tarde, eu me atrasava conversando com uns e outros: com Julien Green, com Audiberti ou com Jean Hugo. À noite, vagava por sob as árvores à procura de uma alma gêmea. Nada é melhor para fomentar a devassidão do que os momentos graves - não se sabe de que será feito o amanhã; assim, é conveniente aproveitar rápido.

Além disso, quando se é um espectador impotente da debandada de uma nação, deve-se procurar o esquecimento no estupro e no álcool.

Nunca pensei testemunhar tanta covardia! Não passamos de velhos débeis de um velho país, o qual, desde há duzentos anos, vem se desagregando a partir do interior. É preciso se conformar.

- Eu não posso me conformar - contrariou Léa -, pois não pertenço à categoria desses velhos de que falou.

- Você, talvez, não. Mas onde estão os vigorosos jovens que deveriam defendê-la? Eu os vi derrubando em seu caminho civis aterrorizados, desfazendo-se das espingardas para correrem mais depressa, gordos, barrigudos, calvos antes do tempo, sonhando apenas com férias remuneradas, segurança e reforma.

- Cale-se! E você, o que fez? Onde está sua farda? E sua arma?

- Quanto a mim, minha querida, tal como todos os outros da minha espécie, tenho horror a armas de fogo - garantiu Raphael, fazendo trejeitos. - Nós, os invertidos, só apreciamos fardas como condimentos para o amor. Veja nossos graciosos ocupantes, loiros, bronzeados, ao mesmo tempo viris e meigos, semelhantes a jovens deuses romanos! Dão-me água na boca.

- Você é ignóbil!

- Não sou, não; realista, quando muito. Já que a fina flor da juventude francesa foi morta ou aprisionada, sou obrigado a virar-me para o lado alemão. Acredite em mim, minha boa amiga: devia fazer o mesmo. Do contrário, ficará velha antes do fim da guerra. "Colhei, se em mim acreditais, as flores da vida".

- Deixe Ronsard em paz e fale-me, antes, de seu trabalho.

- Quer que lhe diga mais coisas sobre esse dominicano, sua curiosa!, não é verdade? Mas é segredo, minha linda, um segredo que não foi feito para tão bonitas orelhas. Olhe para esta charlotte de morangos! Não lhe dá água na boca? E estas profiterolles? Sou capaz de comê-las até ficar doente. Olá, bom dia, meu amigo! - disse Mahl, dirigindo-se a um homem que se aproximara da mesa.

- Bom dia, Mahl. Vejo que está em encantadora companhia. Não me apresenta?

Desculpe-me. Onde estou com a cabeça? Léa, apresento-lhe o meu amigo Richard Chapon, diretor do La Petite Gironde. Richard, a srta. Delmas.

- Bom dia, srta. Delmas. Tenho muito prazer em conhecê-la. mesmo em má companhia - disse o recém-chegado, piscando o olho. - Se alguma vez precisar de mim, não hesite em procurar-me. Sentir-me-ei feliz podendo ser-lhe útil.

- Muito obrigada, sr. Chapon.

- Até logo, Mahl.

- Até logo.

Terminaram a refeição em silêncio. A sala esvaziava-se lentamente. Léa não estava habituada a beber tanto e sentia-se um pouco tonta.

- Venha. Vamos andar um pouco.

Um calor pesado os envolveu.

- Quando tornarei a vê-la, Léa?

- Não sei. Você está em Paris e eu aqui. E parece-me à vontade e feliz; eu, não.

- Não se iluda, menina. Sou feliz. Mas nunca completamente feliz. Habita em mim um sofrimento agudo, confuso e profundo que nunca me abandona. Aos vinte anos, desejei escrever um livro sublime; hoje, contento-me com um bom livro, apenas. Porque esse livro, Léa, trago-o aqui dentro. O trabalho do escritor é o único que amo verdadeiramente e é também o único que não conseguirei realizar. Tudo me distrai, tudo me atrai; disperso-me. Ambiciono a glória futura, mas não tenho ambições cotidianas. As coisas me cansam bem depressa.

Gosto de todos e não gosto de ninguém, amo a chuva e o bom tempo, a cidade e o campo. Conservo no fundo da alma a nostalgia do Bem, da honra e das leis com as quais nunca me importei. Embora aborrecido com minha má reputação, tenho a fraqueza de extrair vaidade dela, O que me incomoda é o fato de não ser totalmente vicioso, de ser generoso até a extravagância, aliás por covardia a maior parte das vezes, de nunca ter fingido ser semivirtuoso, isto é, ser como toda a gente, no fundo, de preferir maus rapazes a hipócritas que simulam ser honestos quando apenas o são um pouco mais do que eu. Não me amo, mas me quero bem.

A última frase fez Léa rir.

- Tenho a certeza de que se tornará um grande escritor - garantiu ela.

- É isso o que importa! Veremos... Talvez me leiam depois de morto. Mas só falo de mim quando, afinal, é você que interessa, Vamos para Paris. Não fique aqui.

- Meu pai precisa de mim.

- Que coisa bonita! - exclamou ele, em tom de zombaria.

- Que boa menina! É maravilhoso o espírito de família. E por falar em família, recomende a seu tio dominicano que seja prudente. Não divulgarei no meu artigo aquilo que descobri, mas outros poderão fazê-lo, Caminhavam de braços dados. Léa o fez parar e ergueu para ele os olhos brilhantes, dizendo:

- Obrigada, Raphael. Não me esquecerei.

- Obrigada por quê? Eu não lhe disse nada. Separamo-nos ali - Mahl apontava a Igreja de Saint-Eulalie. - Se é crente, acenda uma vela por mim, Até logo, minha bela amiga. Não se esqueça de mim. Se precisar de mim, escreva para a Livraria Gallimard, no Boulevard Raspail. Eles se encarregarão de entregar-me a carta.

Beijou Léa com uma emoção que não procurou dissimular.

- A Rue Saint-Genès fica a dois passos daqui.

Com um último aceno, Mahl afastou-se.

Léa entrou na igreja. Depois da temperatura de fornalha experimentada lá fora, estremeceu devido ao frescor do lugar. Pegou uma vela num gesto mecânico, colocou algumas moedas na caixa das esmolas e acendeu o pavio. De círio na mão, encaminhou-se para a imagem de Santa Teresa do Menino Jesus, à qual a mãe dedicara particular devoção. A mãe, . . Léa sentou-se diante do altar e deixou correr as lágrimas. "A Rue Saint-Genès fica a dois passos daqui." Por que Raphael lhe dissera aquilo? Que haveria na Rue Saint-Genès? O nome dizia-lhe algo. Mas o quê? Era exasperante não conseguir recordar-se. Um padre e um monge caminhavam pela nave. Tio Adrien... Rue Saint-Genès... Ah, o tio morava nessa rua! Ou melhor, essa era a rua do convento dos dominicanos. Entendia agora o motivo pelo qual Raphael a acompanhara até ali. Precisava avisar o tio rapidamente.

Sob aquele calor, a Rue Saint-Genès estava deserta. A porta do mosteiro abriu-se de imediato.

- Em que posso ser-lhe útil, minha filha? - perguntou um frade de idade avançada.

Desejava falar com meu tio, o padre Delmas. Sou Léa Delmas - apresentou-se a jovem.

O padre Adrien encontra-se ausente há já alguns dias.

Que foi, irmão Georges? - perguntou um monge, surgindo no parlatório. Era de estatura elevada e uma bela cabeleira branca amenizava- lhe o rosto severo.

- A srta. Delmas quer falar com o padre Adrien.

- Bom dia, minha filha. É uma das filhas de Pierre Delmas, sem dúvida. Conheci muito bem sua mãe, mulher admirável. Que Deus lhe dê coragem para suportar o desgosto.

- Obrigada, padre.

- Seu tio não está - prosseguiu ele com secura, - Tem algo de importante para comunicar-lhe?

- Ele deve... - principiou Léa. Interrompeu-se, porém, sem saber por quê.

- Deve o quê?

Por que não lhe dizia o motivo de sua visita? Apoderara-se dela uma inexplicável desconfiança.

- Sou o superior de seu tio - informou o monge. - Deve dizer-me a razão de sua visita.

Meu pai precisa lhe falar com urgência - mentiu Léa precipitadamente.

- Por que motivo?

- Não sei.

O superior fitou a jovem com frieza. Ela sustentou seu olhar.

- Assim que ele voltar, direi que esteve aqui e que seu pai deseja vê-lo. Até logo, minha filha. Que Deus a abençoe.

Lá fora, levantara-se uma brisa suave que não refrescava. Léa sentia o vestido preto colado ao corpo.

Como encontrar o tio Adrien? E onde estaria o alferes Valéry? Não se referira ele às docas? Mas que docas? Desencorajada, Léa parou.

Só Raphael poderia dizer-lhe. Com alguma dificuldade, encontrou a Rue de Cheverus e as magníficas instalações do La Petite Gironde. Foi informada, porém, da partida de Mahl para Paris.

- Quem pergunta por aquele traste? - perguntou uma voz vinda de um dos gabinetes.

- Uma senhorita, senhor diretor.

- Uma senhorita procurando Mahl!? Não me digam! Mande entrar.

Contrariada, Léa entrou no gabinete, mas não viu ninguém.

- Estou aqui. Derrubei uma pilha de livros.

A voz saía de baixo de uma mesa cujo tampo desaparecia sob uma montanha de jornais, cartas, livros e processos. Léa inclinou-se.

- Ah, srta. Delmas! Espere só um instante e já a atendo. Richard Chapon ergueu-se com uma braçada de livros. Ia colocá-los sobre a escrivaninha, mas desistiu; e, à falta de outro lugar disponível em toda a sala, depositou-os sobre a sua cadeira.

- Procura Mahl? Foi-se embora. Admiro-me que uma moça tão bonita e de tão boa família conviva com alguém como ele. Os costumes da época assim o exigem, sem dúvida. Posso substituir Mahl em alguma coisa?

Léa hesitou. Como fazer a pergunta sem intrigar o jornalista? Poderia confiar nele?

- Como será possível encontrar um modo de sair da França? - perguntou.

No rosto de Richard Chapon surgiu uma expressão de profundo espanto, seguida de breve angústia. Em passos lentos, foi fechar a porta.

- E queria perguntar isso a Mahl?

Léa sentiu que era necessário responder com prudência e arvorou seu ar mais cândido.

- Como Raphael é jornalista, pensei que soubesse se isso é ou não possível.

- Tudo é possível. Mas admira-me tal pergunta feita por uma jovem. Quem é a pessoa que pretende sair da França?

- Ninguém. Simples curiosidade de minha parte.

- Você é muito nova e inexperiente. Mas não devia ignorar que, nas atuais circunstâncias, não se fazem certas perguntas apenas por uma questão de curiosidade.

- Muito bem. Não falemos mais no assunto - decidiu Léa em tom falsamente jovial. - Lamento muito tê-lo incomodado.

- Nunca me incomodará, minha cara - retorquiu ele jocosa- mente. - É importante? - sussurrou-lhe, retendo sua mão, que já tocava a maçaneta da porta.

- Não - respondeu Léa, também num sussurro. Depois, reconsiderando, prosseguiu: - Poderá dizer a meu tio Adrien Delmas que seja prudente?

- O dominicano?

- Sim.

- Não se preocupe. Será dito.

- Muito obrigada. Até logo.

Léa tomou o trem no momento em que partia. Não havia lugares para sentar. Ficou no corredor, vendo desfilar perante os olhos os arredores de Bordeaux, as fábricas, as hortas dos ferroviários, os campos, as aldeias, as pequenas estações. Tentou refletir sobre aquele dia incoerente. Censurou-se por ter sido imprudente. Com tal atitude, não iria provocar uma série de catástrofes? A quem dirigir- se? Em quem confiar? O trem chegou à estação de Langon às nove horas.

- Ficamos tão assustados, minha querida! Onde esteve? - perguntou Pierre Delmas, apertando a filha contra si.

A família reunira-se na sala de visitas para ouvir Françoise tocar piano e todos se ergueram à chegada de Léa. Camille, de olhos brilhantes, fitava-a intensamente. Ruth assoou-se com estrondo. Lisa agitou as mãos pequenas e rechonchudas. Albertine pigarreou e Françoise franziu as sobrancelhas. Só Laure continuava a folhear o livro que tinha entre as mãos.

Quis ir a Bordeaux, visitar o tio Adrien - mentiu a jovem.

- A Bordeaux, com todos esses boches por aí! - exclamou Bernadette Bouchardeau.

- Pare de chamar os alemães de boches, tia! Eles não gostam disso - observou Françoise com um desagrado que Léa achou excessivo.

- São boches, e eu os chamo de boches, senhorita!

Françoise encolheu os ombros.

- Por que não me disse que queria ver seu tio? Teria ido com você. Sua mãe também ficaria satisfeita se o visse.

Abateu-se sobre todos um silêncio constrangedor. Léa encarou o pai com espanto e mágoa. Pobre papai, como mudara! Parecia mais frágil agora. Suas expressões, às vezes, ficavam quase infantis. Parecia necessitar de proteção, ele, o protetor nato.

- Desculpe-me, papai - disse Léa.

- Não faça isso outra vez, minha querida, eu lhe peço. Fiquei muito preocupado. Viu seu tio?

- Não. Não estava.

- Também não compareceu ao enterro de Isabelle. - - - censurou Bernadette.

- Você não jantou e deve estar com fome - interveio Camille. - Vou preparar alguma coisa. Quer vir à cozinha?

Léa seguiu Camille, que abriu a geladeira e pegou alguns ovos.

- Quer uma omelete?

- Quero - concordou Léa, instalando-se à mesa.

- E então? - quis saber Camille, quebrando os ovos na tigela.

- O alferes não teve nenhum problema em Langon. E acho que em Bordeaux também não. Encontrei Raphael Mahl na estação de Saint- Jean. Almoçamos juntos. Pelo que me disse, concluí que tio Adrien é o dominicano em questão.

- Isso não me espanta da parte dele comentou Camille, pondo na frigideira um pedacinho de manteiga.

- Não entendo. Não devemos obedecer às diretivas do marechal Pétain? Não é ele o salvador da França, o pai de todos os franceses? E o que dizem tia Lisa e tia Bernadette.

- Não sei. Mas acho que o dever de todos os franceses é combater o inimigo.

Mas como? Que quer que façamos?

- Também não sei, mas hei de saber. Coma - disse ela, pondo a omelete à frente de Léa.

- Obrigada.

- As vindimas estão próximas - lembrou Camille. E seu pai ainda não tocou no assunto.

- É verdade. Tinha-me esquecido. Amanhã vou lhe perguntar o que tenciona fazer. Por instantes, Léa ficou comendo em silêncio.

- Não acha que papai anda esquisito já há alguns dias? - perguntou ela, por fim.

Perdeu-se uma parte das colheitas por falta de braços para o trabalho, embora toda a gente de Montillac tivesse participado da tarefa. As mulheres, porém, pouco habituadas a trabalhos agrícolas, mostravam-se lentas e desajeitadas, apesar da boa vontade. Camille, cujo estado de saúde era incompatível com a tarefa da vindima, ajudou a velha Sidonie e a sra. Fayard a conduzir o carro puxado por dois bois e a preparar as refeições.

Léa viu-se forçada a organizar os trabalhos, pois o pai manifestara a mais completa indiferença pelo assunto. Até mesmo Fayard, o encarregado das adegas, sem notícias do filho, não dera mostras da sua antiga competência. O sr. d'Argilat apenas pôde dispensar alguns conselhos, visto que ele mesmo vivia uma situação dramática em Roches-Blanches.

Léa recusara com altivez o auxílio proposto pelos "pensionistas" alemães, apesar das instâncias de Françoise, e assistiu com raiva impotente ao apodrecimento dos cachos nas parreiras.

Tudo corria mal nesse outono de 1940. Na companhia de Ruth, Léa vasculhara os campos vizinhos com o propósito de comprar leitões, frangos, coelhos e patos. Conseguira trazer para casa apenas alguns frangos magros, metade dos quais morreu, e um porquinho, cuja alimentação se revelou muito cara.

Léa desconhecia por completo a situação financeira da família. Sempre julgara seus pais ricos. Mas Pierre Delmas informou-lhe que o grosso da fortuna se achava nas ilhas. Haviam sido desastrosos, também, certos investimentos feitos antes da guerra.

- Então não temos dinheiro? - perguntou Léa, incrédula.

- Não - confirmou o pai, sorrindo. Exceto as rendas dos prédios de Bordeaux.

- E a quanto montam por mês?

- Não sei. Pergunte à sua mãe. É ela quem trata do assunto.

"Pergunte à sua mãe Quantas vezes o ouvira dizer aquilo? Várias vezes ao dia, segundo julgava. A princípio, só lhe prestara atenção pela mágoa que lhe provocava. No entanto, com o decorrer do tempo, frases como aquela davam-lhe um receio de algo que não se atrevia a confessar. Em sua casa, aliás, todas as outras pessoas experimentavam o mesmo sentimento. Certo dia, enchendo-se de coragem, Léa abordou o assunto com o dr. Blanchard, durante uma de suas visitas a Camille.

- Eu sei - disse ele. - Prescrevi-lhe um tratamento, há tempos. Tem de ter paciência, Léa. Seu pai está ainda sob o efeito do choque.

- Mas tenho a impressão de que o seu estado se agrava a cada dia. Está cada vez mais ausente - contrapôs a jovem. Tenho medo.

- Vamos, vamos, não se deixe abater! Você e Ruth são os únicos esteios desta casa. Não incluo neste número a sra. d'Argilat, pois dentro em breve regressará a Roches-Blanches.

- Já?

- Não está satisfeita com isso? Julguei que suportasse a sua presença com dificuldade.

Léa deu de ombros, agastada.

De forma alguma - disse ela. - Camille é muito útil aqui, e prometi a Laurent olhar por ela.

- Receberam mais notícias dele?

- Recebemos, Uma carta de vinte e cinco linhas. Diz que vai bem e pede sapatos, roupa-branca e tabaco. Mandamos ontem um pacote. Quanto aos sapatos, foi o mais difícil. Françoise desencantou um par, mas nunca disse como; uns magníficos sapatos de sola de borracha.


Capítulo 19

O Natal de 1940 foi um dos mais tristes para os moradores de Montillac.

Três semanas antes, tinham enterrado o sr. d'Argilar. Morrera durante o sono, após uma doença de cuja gravidade ninguém suspeitara, nem mesmo as pessoas mais chegadas. Tal como ele próprio dissera, morreu sem tornar a ver o filho. À notícia da morte de seu melhor amigo, Pierre Delmas permaneceu como que estupidificado durante vários dias. Desse modo, foi Léa quem se encarregou das formalidades necessárias. Escreveu também a Laurent, comunicando-lhe a triste notícia; perguntava igualmente quais as medidas que deveria tomar referentes à propriedade. Teve nessa altura uma violenta altercação com Françoise. Reprovou-lhe o fato de não dar o mínimo apoio aos problemas domésticos, pensando apenas no hospital no momento em que a família necessitava da sua colaboração.

- Mas faço tanto quanto você! - contestou Françoise. - Quem é que traz carne para casa, por exemplo, quando não conseguem encontrá-la em parte alguma? E azeite? E o açúcar e os dois sacos de carvão? Você, talvez? Se tivesse ficado em casa trabalhando, como você, não teríamos grande coisa para comer.

Era verdade; Françoise tinha razão. Sem ela, a família seria obrigada a alimentar-se de nabo-sueco, da batata e das castanhas que Léa, Ruth e Laure apanhavam pelas matas perto de La Réole. Mas como se arranjaria Françoise para aparecer em casa com todas aquelas coisas? Tanto mais que nunca pedia dinheiro, afirmando bastar-lhe o salário de enfermeira. Léa suspeitava de algo, pois, além dos gêneros de primeira necessidade, a irmã comprava ainda com certa freqüência saias, vestidos, lenços de seda e até mesmo sapatos.

Prometera tentar obter para Léa, na cooperativa do hospital, alguns desses artigos.

Por diversas vezes, ela procurara interessar Françoise no destino de Montillac, pedindo-lhe opiniões quanto ao modo de gerir a propriedade, esperando que o pai superasse o desgosto. Mas obtivera apenas a mesma resposta indiferente:

Tudo o que você fizer estará bem feito, irmãzinha.

- O assunto também lhe diz respeito insistia Léa.

Trata-se da nossa terra, da nossa casa, da casa onde nascemos e que mamãe amou e embelezou.

- Nunca entendi o que todos vocês vêem nesta casinha velha e muito menos nestes campos de um tédio mortal.

Léa ficara sem palavras perante tal saída e, tal como na infância, atirara-se à irmã para lhe bater. Françoise escapara da bofetada, refugiando-se no quarto. Desde então, as relações entre as duas irmãs se tornaram mais tensas.

Não obstante chegar até ali o som do bombardeio que ecoava para os lados de Bordeaux, Ruth, tal como todos os anos acontecia, colocou na sala de visitas o tradicional pinheiro, ornamentando-o com as grinaldas e as bolas de vidro que Isabelle Delmas conservara religiosamente dentro de caixas de sapato desde o nascimento da filha mais velha. Era a primeira vez que Isabelle não punha no presépio o Menino Jesus de cera. Coube a Camille executar o gesto simbólico.

Estelle e a sra. Fayart excederam-se na preparação do jantar, fazendo com que os comensais esquecessem os acepipes da cozinheira, despedida por medida de economia. Havia um enorme peru, oferta de Françoise, como é óbvio, couves recheadas, cozidas lentamente no molho da própria ave, purê de castanhas e uma barra de chocolate, obra-prima de Estelle. Completavam a refeição festiva algumas garrafas do bom vinho da propriedade.

Estava um frio tão intenso que renunciaram à missa da meia- noite e cearam cedo. Apesar do luto, todos eles tinham feito um esforço para melhorar o aspecto pessoal, exibindo uma echarpe, um colar ou uma flor, detalhes que davam um toque mais alegre ao negrume dos trajes. O pequeno Charles ensaiava seus primeiros sorrisos.

Depois da refeição, a família passou à sala, que estava quente e profusamente iluminada devido às velas da árvore de Natal e ao fogo que ardia na lareira. Camille ofereceu a Léa um magnífico colar de pérolas, que pertencera à sua mãe.

Oh, Camille, que maravilha! - exclamou Léa. - Mas não posso aceitar.

- Aceite, eu lhe peço, minha querida. Vai me fazer multo feliz!

Léa envergonhou-se da modéstia do seu próprio presente: um retrato do bebê feito a caneta, que Camille apertou contra o peito.

- Nada me teria dado maior prazer - assegurou. - Não se importa que o mande a Laurent?

- É seu. Faça dele o que quiser.

Françoise e Laure receberam ambas belas pulseiras de ouro; Ruth, um pregador com uma safira; Lisa, uma gola de renda; Albertine, uma edição antiga dos Pensamentos de Pascal; Bernadette Bouchardeau e Estelle, lenços de seda. Quanto a Pierre Delmas, Carnille presenteou-o com uma caixa de charutos, os seus preferidos.

Ruth e Bernadette ofereceram luvas, echarpes, meias e blusas de malha, feitas por elas próprias durante os serões. Todos haviam encontrado um modo engenhoso de agradar aos outros segundo os próprios recursos. As senhoras de Montpleynet ofereceram às sobrinhas cortes de fazenda para casacos de inverno. No meio da euforia um tanto lassa que acompanha geralmente a entrega de presentes de Natal, todos esqueceram, por momentos, os próprios desgostos, os receios e a guerra, enquanto Françoise tocava uma fuga de Bach.

Pela primeira vez Léa pensou na mãe sem revolta nem mágoas. A mão de alguém apertou a sua mas ela não a retirou, embora reconhecesse os dedos magros de Camille. Quando Françoise terminou a execução, soaram aplausos no vestíbulo, adiantando-se aos da platéia na sala. Ao se voltar, todos viram Otto Kramer e Frederic Hanke. Françoise ergueu-se e encaminhou-se para os alemães. Instantes depois, os três entravam no salão.

- Sua filha insistiu em que eu e o meu camarada entrássemos - disse o tenente Kramer, dirigindo-se a Pierre Delmas. - Tomamos a liberdade de descer para ouvir Bach. Minha mãe é excelente pianista e aprecia muito esse compositor. Apesar da guerra, permitam-me desejar-lhes um feliz Natal.

Bateu os calcanhares, encaminhando-se para a saída. Contra todas as expectativas, Camille propôs:

- Neste dia de Natal, esqueçamos o fato de sermos inimigos. Venham tomar uma bebida conosco.

- Muito obrigado, minha senhora - agradeceu Hanke.

- Heilige Weinacht! - saudou ela.

- Feliz Natal! - replicaram os oficiais, em francês.

- Disse que sua mãe era pianista, tenente. Você também é?

- inquiriu Lisa, com afetação.

- É um dos melhores pianistas da Alemanha - antecipou-se o camarada.

- Não acredite. Ele está exagerando - contrapôs o rapaz.

- Mas, tenente.

- Cale-se, Frederic.

- Toque alguma coisa, tenente, peço-lhe - solicitou Françoise.

Todos os olhares convergiram para a jovem. Esta baixou a cabeça, corando. Era conhecida a sua paixão pela música. Não faltava a um concerto realizado em Bordeaux. Não fora Françoise assistir ao Sansão e Dalila e ao Bolero de Ravel, na inauguração da temporada lírica, apesar da oposição de Ruth e das tias? Mas daí a pedir a uru oficial alemão que tocasse.

- Se seu pai autorizar, terei prazer em ser-lhe agradável.

- Faça o favor, senhor oficial. Minha mulher aprecia imensamente a música - replicou Pierre Delmas, puxando uma tragada do charuto, com o rosto congestionado e o olhar ausente.

Otto Kramer instalou-se ao piano.

- Vai ver que vai nos tocar Wagner - segredou Léa a Camille. Por uma questão de delicadeza que a todos sensibilizou, Kramer executou com virtuosismo diversas peças para piano de Debussy. Quando a última nota se perdeu no ar e após alguns segundos de silêncio, soaram os aplausos. Mas só Camille notou a alegria e o orgulho que iluminavam o rosto de Françoise.

Foi no dia seguinte ao desse Natal que Laurent d'Argilat, na companhia de um amigo, fugiu do campo de Westphalenhof, onde fora internado. Os dois homens aproveitaram um trabalho no bosque fora do campo e a cumplicidade de dois outros camaradas. Estes, fingindo-se doentes, baixaram à enfermaria, deixando-a depois clandestinamente para se misturar ao pequeno grupo de prisioneiros, após a chamada feita pelos guardas. Ao chegarem à mata, Laurent e o amigo esconderam-se sob as ramagens. O tempo estava sombrio, nevava e fazia um frio cortante. Os guardas abreviaram a tarefa, reuniram e contaram os detidos - o número estava certo. O destacamento regressou ao campo de concentração.

Loucos de alegria, Laurent e o companheiro ergueram-se e caminharam para a liberdade. O manto de neve tinha vários centímetros de espessura. Depois de meia hora, viram-se forçados a interromper a marcha para recobrar alento e livrarem-se dos uniformes da prisão. No decorrer das longas horas de cativeiro, Laurent conseguira confeccionar um paletó jaquetão, utilizando a jaqueta de um policial holandês.

Sob o casaco, vestia as duas camisas de lã enviadas por Camille. Completavam-lhe o traje um par de luvas de couro, forradas, os sapatos dados por Françoise e um boné de carvoeiro. Levavam víveres e sacos de dormir dentro das mochilas. Retomaram a marcha rumo à estação de Jastrov, a quarenta quilômetros de distancia.

Pernoitaram à beira da estrada numa cabana de cantoneiro. Na noite seguinte, atravessaram a aldeia de Jastrov. As ruas ostentavam ainda enfeites natalinos. Pares enlaçados dirigiam-se para o baile. A porta aberta de uma taberna lançava tépidas lufadas de tabaco e de álcool, misturadas à melodia de um acordeão... Apressaram-se em busca de um trem providencial. Mas todos os que passavam seguiam em direção oposta. Gelados, refugiaram-se num vagão estacionado na linha de reserva. Apesar dos sacos de dormir, o frio atormentou-os até de madrugada.

Depois dessa noite interminável, sem passagens, tomaram o trem que seguia para Scheindemühl. Viajaram clandestinamente durante seis dias em vagões de batata, de transporte de gado ou pedra. Por vezes, também sem passagens, apanhavam composições de passageiros, procurando esgueirar-se entre a multidão de viajantes.

O fato de Laurent saber alemão evitou que fossem presos por diversas vezes. Passaram sucessivamente por Frankfurt-sur-l'Oder, Cottbus, Leipzig, Halie, Cassel e Frankfurt-sur-le-Main. Atravessaram o Reno em Mayence, escondidos na guarita do guarda-freios.

A fuga terminou em Bingerbrück, em frente do painel dos horários da estação, onde o companheiro de Laurent, interpelado por um policial, não conseguiu responder porque não falava alemão. Mas não foi preso de imediato, na suposição de que tivesse um cúmplice.

Ao vê-lo de longe, calmamente sentado, Laurent preparava-se para juntar-se a ele quando, de chofre, o rapaz se ergueu, precipitando-se para o trem de carga que passava. Conseguiram içar-se para um vagão plano, enquanto policiais corriam ao longo da plataforma, gritando. Por desgraça, a composição parou e os alemães, de pistola em punho, apanharam-nos. Sem contemplação, foram conduzidos ao posto de polícia da estação. O clima mudou quando Laurent respondeu às primeiras perguntas num alemão perfeito. Deram-lhes sopa quente e carne, exprimindo-lhes admiração pela proeza realizada. Em seguida, encerraram-nos na cadeia municipal. No dia seguinte, solidamente vigiados por três guardas, foram reconduzidos ao campo de Westphalenhof.

Interrogou-os um oficial do serviço de informações que concordou em que mereciam ter sido bem sucedidos. Foram condenados a trinta dias de cárcere. Haviam decorrido nove dias após a fuga.

À saída do gabinete do oficial, tiveram direito ao "sermão" de um certo coronel Malgron, capelão dos prisioneiros do Oflag sermão que versou sobre o caráter egoísta de semelhante aventura e sobre as desagradáveis conseqüências que poderia ter- lhes acarretado, não fora a generosidade do comandante do campo. Aconselhou-os também a meditar sobre o verdadeiro sentido dos seus deveres atuais - mostrarem-se prisioneiros exemplares era a contribuição mais eficaz que poderiam dar à política do marechal Pétain, penhor do advento próximo de uma "França européia".

Cumprida a pena, regressaram ao acampamento. Não por muito tempo, porém; como medida de segurança, foram transferidos para outro campo.

Tinham decorrido mais de sete meses desde sua captura numa praia francesa, no verão.


Capítulo 20

O inverno parecia interminável. Devido à escassez de combustível, a temperatura no interior da casa enorme era apenas de dez graus.

Tomavam-se as refeições na cozinha, aquecida pelo velho fogão a lenha, em que Estelle e Ruth cozinhavam. Toda a família passava fome, não obstante os víveres que Françoise, por vezes, trazia de Langon.

Naquela região vinícola, quase todos os habitantes passaram fome e frio durante o rigoroso inverno de 1940-41. Enraivecidos, os ferroviários viam partir para a Alemanha composições inteiras abarrotadas de carne, farinha, legumes e lenha.

Em Montillac, entretanto, todos se submetiam a privações para enviarem coisas a Laurent. Em fevereiro, uma carta comunicava lhes a sua transferência para a Fortaleza de Colditz.

No mês de março, Albertine e Lise de Montpleynet anunciaram a sua decisão de regressar a Paris. As duas senhoras, habituadas à vida da cidade, não conseguiam suportar o campo por mais tempo.

A família tentou demovê-las desse propósito, mas só Isabelle Delmas o teria conseguido. A primavera trouxe consigo algum conforto. Tinham sido semeados ou plantados legumes na área do prado cultivada por Ruth e por Léa. Esta vigiava com paixão o crescimento do mais insignificant caule verde. A seus olhos, revestia-se de capital importância o sucesso da iniciativa, pois representava a compensação da fadiga das mãos calejadas, das frieiras e daquela fome que jurara a si próprio nunca mais experimentar de novo. A vinha, permanentemente sob os cuidados dos habitantes da região, transformou-se em fator menos preocupante quando Fayard, agora no cargo de administrador da propriedade, recebeu notícias do filho - era prisioneiro na Alemanha mas regressaria dentro em breve, conforme assegurara o marechal Pétain.

O amor e o reconhecimento de Fayard pelo marechal não conheceram então limites. Ali estava um dirigente que se preocupava com o destino dos infelizes militares prisioneiros! A França achava- se em boas mãos. Trabalho, Família e Pátria - esse era o futuro.

Com que renovado ardor o antigo combatente da Guerra de 1914 retomou o trabalho! Uma única nuvem lhe toldava a alegria: era lhe difícil acostumar-se à presença dos alemães em Montillac. Para ele, a vista de um uniforme germânico sempre era uma surpresa desagradável.

Mathias Fayard foi libertado no mês de maio. Ao vê-lo, Léa reencontrou o sorriso que a abandonara desde a morte da mãe. Quando o jovem a apertou nos braços, um arrepio violento veio despertar-lhe o corpo adormecido. Indiferente ao olhar desaprovador de Ruth e à expressão alegre de Camille, Léa prolongou o abraço.

Mathias observava-a, incrédulo e satisfeito. Achava-a mudada, amadurecida, bela, de uma beleza ainda mais violenta e com uma nova dureza no olhar.

- Está tão magro e sujo que dá medo - comentou a amiga.

- Venha. Vou lhe preparar o banho.

Mas, srta. Léa - interveio o pai do rapaz, mordiscando o bigode. - Mathias pode muito bem lavar-se em nossa casa.

- Deixe, Fayard. O que minha filha fizer estará bem feito. A mãe dela ainda hoje de manhã me dizia.

- Ora, papai.

Sem dar tempo aos pais de Mathias para reagir, Léa arrastou-o pelas escadas acima, até o quarto das crianças. Enlaçados, rolaram sobre as almofadas.

- Você está vivo... está vivo... - dizia Léa sem cessar.

- Não podia morrer, pois pensava em você.

Tocavam-se, impregnando-se um do outro como para se assegurar de sua recíproca existência. Léa, com o rosto escondido no pescoço do companheiro, mordiscava-o.

Deixe-me - disse ele. - Estou sujo de fazer medo, e é mesmo possível que esteja com piolhos.

À palavra "piolhos", Léa repeliu-o. Mathias sabia qual seria a reação da amiga quando ele dissesse isso. Desde a infância, Léa não suportava a idéia de ficar com piolhos. À sua mera evocação, experimentava uma sensação de nojo. Mathias riu de seu ar de repugnância.

- Tem razão. Espere aqui. Vou abrir as torneiras.

O banheiro do quarto das crianças era o maior e o mais antigo da casa. Era pouco usado, porém, pois para se encher a enorme banheira era preciso usar toda a água do aquecedor. Aquela peça tinha para Léa o encanto das lembranças infantis; possuía dois lavatórios de válvula basculante, toucador com forração de pano florido em cores suaves, canapé de junco e uma janela alta voltada para o sul, com cortinado de cretone branco. Todas as tardes, naquela mesma banheira, Isabelle Delmas dava banho nas filhas, em meio a risos, gritos e muita água esparramada. Às vezes, atraído por tanto barulho, Pierre Delmas aparecia, simulando ares de reprovação. A algazarra das crianças atingia o auge nesse momento, para ver qual delas teria o privilégio de ser enxugada pelo pai. Laure, a mais nova, recebia esta atenção com mais freqüência, diante do descontentamento de Léa; só ela queria ser embrulhada no grande lenol de banho e transportada para o quarto pelo pai.

Sob o jato de água das torneiras, Léa despejou os últimos sais de banho com perfume de alfazema pertencentes à mãe. Emocionou-a de tal forma o vapor quente e cheiroso exalado pela água da banheira, evocação de tempos passados, que rompeu em soluços. Escorregou para o chão e se ajoelhou no tapete de banho; e, com a testa encostada ao rebordo de esmalte, deu livre curso à sua tristeza.

- Léa! - exclamou Camille, ajoelhando junto da amiga e afagando-lhe os cabelos. - O que você tem, minha querida?

- Mamãe..

Diante de um desgosto tão profundo e infantil, Camille também não conseguiu reter as lágrimas.

Foi assim que Ruth as encontrou momentos depois.

- O que aconteceu? - perguntou. - Algum acidente?

- Não, não. Não se preocupe, Ruth. Apenas uma crise de choro - esclareceu Camille, erguendo-se.

Com cuidados maternais, passou um pouco de água fresca no rosto de Léa.

- O tenente Kramer está lá embaixo, sra. d'Argilat, e deseja lhe falar - comunicou Ruth.

- Que faz ele aqui durante o dia? Por que motivo quer falar comigo?

- Não sei. Mas está com um ar um tanto sombrio.

- Deus do céu! Contanto que nada tenha acontecido a Laurent!

- Mas o que poderia lhe acontecer? Como prisioneiro, não corre riscos - garantiu Léa, enxugando o rosto.

- Venha comigo -. pediu Camille. - Não tenho coragem de enfrentar o tenente sozinha.

- Primeiro, vamos ajeitar os cabelos. Olhe para nossas caras! Se o tenente descobrir que choramos, vai começar a imaginar coisas.

Tem razão - concordou Camille.

As duas mulheres procuraram então apagar os vestígios de sua tristeza.

- Por favor, Ruth, diga a Mathias que o banho está pronto - pediu Léa, ajeitando a saia. - Ele ficou no quarto.

De pé, o oficial aguardava na sala de visitas. Inclinou-se à entrada das moças.

- Pediu para falar comigo? - perguntou Camille.

- Sim, minha senhora. Devo comunicar-lhe uma notícia bastante desagradável: seu marido fugiu.

Camille ficou impassível.

- Não sabia disso, não é? - prosseguiu o tenente Kramer.

Ela acenou negativamente com a cabeça.

- Quando isso aconteceu? - perguntou Léa.

- Durante a Páscoa.

E só agora o soube?

- Não, não foi só agora. Fomos informados há já três semanas - respondeu o oficial.

- E por que motivo só hoje me avisa?

- Colocamos sob vigilância esta casa e a propriedade de Roches-Blanches, para o caso de seu marido vir encontrá-los, - E o senhor o teria prendido...

- Seria meu dever, minha senhora. A contragosto, sim, mas o faria. Como seu hóspede e dedicando-lhes simpatia e estima, quis ser eu mesmo a comunicar-lhes a fuga.

- O que acontecerá se ele for capturado?

- Esta já é a sua segunda tentativa de fuga. Assim sendo, arrisca-se a ser tratado com muito mais severidade a partir de agora.

- Mas não é natural que um prisioneiro procure fugir? - interveio Léa, encolerizada.

- Sou da mesma opinião, srta. Delmas. Se eu próprio estivesse detido, tentaria fugir a qualquer preço. Mas não é esse o caso. Ganhamos a guerra e.

- Por agora - cortou Léa.

- Claro. A glória é bastante caprichosa. Atualmente, porém, nenhum país possui capacidade para derrotar o Grande Reich.

- Nem mesmo os americanos?

- Nem mesmo eles. Permita-me um conselho, sra. d'Argilat: se, por milagre, seu marido conseguir furtar-se à nossa vigilância, convença-o a entregar-se.

- Nunca farei semelhante coisa!

Falo-lhe no interesse dele e no seu, minha senhora. Pense também em seu filho.

- É precisamente pensando nele que jamais instigarei meu marido a agir desse modo.

O tenente Kramer fitou com uma espécie de ternura a mulher frágil que o enfrentava, comentando:

- Ah, se todos os franceses tivessem pensado como a senhora' - Tenho a certeza de que, no íntimo, todos pensam como eu.

- Se é esse o caso, então tal sentimento de honra está bem escondido.

Batendo os calcanhares, o oficial cumprimentou-as e saiu.

Camille e Léa permaneceram silenciosas durante muito tempo. "Queira Deus que Laurent não venha para cá", diziam ambas, intimamente.

- Temos de prevenir tio Adrien - disse Léa, por fim.

- Mas como? Nunca mais tivemos notícias dele desde sua rápida aparição no início de fevereiro.

- Antes de partir, disse-me que, em caso de urgência, poderíamos deixar recado a Richard Chapon; ele o transmitiria. Vou a Bordeaux.

- Vou com você.

- Não. Se formos as duas, o tenente desconfiará de qualquer coisa e talvez mande seguir-nos. Espere... tenho uma idéia. Papai e Ruth vão amanhã visitar Laure no colégio. Direi a eles que estou com saudade dela.

Léa deixou a sala e, no vestíbulo, esbarrou com um rapaz alto, cheirando a alfazema, que a tomou nos braços.

- Que é isso? - protestou Léa. - Ah, é você? Tinha-me esquecido.

- Tão cedo? Mal acabo de chegar e já saí da sua vida! É muito pouco lisonjeiro de sua parte.

- Não, não é isso, Mathias. É que... desculpe-me, mas não posso dizer. Encontramo-nos no refúgio dentro de uma hora.

Léa acabara de reunir-se a Mathias quando começou a chover. Refugiaram-se numa das capelas e, aninhados um contra o outro para se aquecerem, ambos relataram tudo o que havia lhes acontecido após a separação em Orléans.

Léa informou Mathias de todos os episódios desse período, mesmo o incidente da morte do assaltante. Omitiu, porém, as relações com François Tavernier.

Quanto a Mathias, depois de ter ajudado no socorro aos feridos de Orléans, em vão procurara a amiga no meio dos escombros e da multidão de refugiados. Juntara-se, em seguida, a uru pequeno grupo de militares sob as ordens de um alferes e combatera perto da catedral. Todos os companheiros foram mortos, à exceção do cabo, que foi feito prisioneiro junto com ele. Tinham sido postos em campos provisórios rodeados de arame farpado, perto da Igreja de Saint-Euverte e depois em Motte-Sanguin. No dia seguinte, ele ajudou no combate ao incêndio que devastara Orléans durante cinco dias, na remoção de escombros, no transporte de feridos e no enterro dos mortos. A pé, como carneiro de mísero rebanho, incorporara-se aos dezoito mil prisioneiros do campo de concentração de Pithiviers.

Dormiam deitados no chão, em cima da lama, famintos, sujos, cobertos de parasitas, sem sequer notar o cheiro pestilento que se desprendia dos corpos de todos aqueles homens, muitos dos quais não mudavam de camisa e de meias havia um mês. Lutava-se por um pedaço de pão bolorento, por uma sopa de cevada de aspecto duvidoso, recolhida numa gamela improvisada, numa velha tigela ou numa lata de conserva.

De cabeça baixa, Mathias relatou tudo... os trinta gramas de carne de cavalo a que tinham direito de tempos em tempos; a alegria sentida quando a Associação das Mulheres Francesas distribuiu alguns cobertores; os sanduíches de patê de fígado oferecidos pela Legião Americana; o sabonete com perfume de cravo dado por uma moça; a esperança, sempre adiada, da libertação próxima; a generalizada confiança no marechal Pétain; o maço de cigarros no valor de um franco e que lhes custava cem; o progressivo desencorajamento; as missas, às quais assistia um número cada vez maior de internados: cem dos dezoito mil em princípios de junho, outros dois mil e quinhentos no início de agosto. Mathias fizera parte desses dois mil, pedindo a Deus que lhe concedesse a graça de ver Léa de novo. Num tom de voz enraivecido, o rapaz falou ainda da covardia de todos eles face à idéia da fuga, bastante fácil, aliás; do contentamento diante da notícia do Armistício e da decepção perante as cláusulas que poriam fim às hostilidades, sobretudo o Parágrafo 20, onde se especificava que "todos os prisioneiros de guerra franceses permanecerão em campos de concentração alemães até a assinatura da paz".

Contou também a Léa as horas infindáveis de inatividade, quando relembravam o passado, imaginavam, com fome roendo-lhes as entranhas, cardápios pantagruélicos ou sonhavam com mulheres. Felizmente para ele, o tempo das colheitas chegara; fora incorporado ao grupo de jovens agricultores enviados por toda a França, para substituir os homens que faltavam no trabalho dos campos.

- Nunca pensei tirar tanto prazer do ato de apanhar aqueles feixes de trigo, com o dorso nu, sob o sol escaldante - afirmou Mathias. - Pudemos, por fim, matar a fome.

Escrevera a Léa e ao pai de uma propriedade de Beauce. As duas cartas, porém, nunca lhes chegaram às mãos. Sem resposta, Mathias tentara fugir, "pedindo emprestada" a roupa do dono da quinta. Capturado ao fim de trinta quilômetros de marcha, embarcara para a Alemanha num vagão de transporte de gado. Ficara apenas quinze dias num Stalag próximo a Frankfurt, sendo depois enviado para uma exploração florestal, onde permaneceu até ser solto. Mathias não entendia por que motivo o tinham libertado, visto não ter encargos de família. A única explicação plausível era a circunstância de, terminados os trabalhos, o proprietário já não necessitar de mão-de-obra e de os campos de concentração daquela área estarem superlotados. Isso coincidira também com o fato de governo de Vichy se mostrar empenhado, nessa altura, na libertação dos prisioneiros de guerra. Tivera sorte, e mais sorte ainda ao encontrar Léa sã e salva.

E agora, que vai fazer? - perguntou ela.

Trabalhar. Meu pai precisa muito de mim.

Claro, evidentemente. Mas... e a guerra?

- O que tem a guerra?

- Há pessoas que continuam a lutar.

- Você se refere ao norte da África?

- Sim. E ao general De Gaulle.

- Falaram-me dele há dois dias, no trem. Muita gente pensa que o assunto não é sério e que devemos confiar no marechal Pétain - observou Mathias.

- E você? O que pensa?

- Por agora, sei apenas de uma coisa: voltei para casa e tenho nos braços a mulher que amo. De Gaulle que espere disse o rapaz, cobrindo-a de beijos.

Léa repeliu-o, mal-humorada.

- Não gosto que fale desse modo.

- Vamos, minha querida, não vai me dizer que se interessa por política e é partidária de De Gaulle!

- Você não compreende? É algo mais do que um problema político; está em causa a liberdade.

O jovem deu grandes gargalhadas e comentou:

- Esperava por tudo, menos por isso: a bela e frívola Léa Delmas discursando sobre liberdade e namoriscando o general De Gaulle, esquecida de seduzir os rapazes! Que aconteceu para que você tenha mudado assim?

Léa ergueu-se, com raiva, e gritou:

- Que aconteceu? Vi milhares de mulheres e crianças morrerem de maneira atroz, matei um homem, minha mãe, que julgava em segurança aqui, morreu num bombardeio em Bordeaux. Laurent vagueia sem se saber onde, estamos sem dinheiro, quase não temos o que comer, os alemães ocupam-nos a casa e meu pai... meu pai está enlouquecendo.

À medida que falava, Léa martelava com os punhos a parede cheia de salitre.

- Desculpe, sou tão desajeitado! Mas agora estou aqui e vou ajudá-la - disse Mathias.

Beijava-a no rosto, na cabeça, procurando nos cabelos dela a lembrança do antigo cheiro de feno de quando rolavam no meio da palha, e descobrindo-lhe na pele um perfume de baunilha. Apertou-a com violência contra si. Impacientes, seus dedos procuravam desabotoar-lhe o vestido e seus dentes mordiam-lhe os lábios.

Imóvel e atenta, Léa sentia o eco das carícias brutais do companheiro. Mas dizia a si mesma que não devia prosseguir; amava Laurent e mostrava-se louca e imprudente. Toda a resistência, porém, estava antecipadamente vencida, tanto era o desejo de sentir um corpo contra o seu, de sentir um sexo penetrar-lhe o ventre. Ouvia-se gemendo e balbuciando palavras sem nexo. Depressa... depressa... que ele a tomasse... mas por que não o fazia? Agastada, Léa arrancou a calcinha, oferecendo-se a ele, impudica e magnífica.

- Venha.

O rapaz contemplava os pêlos púbicos de reflexos ruivos, enquadrados pelos elásticos que sustinham as meias pretas e destacavam a brancura do interior das coxas. Escondeu então o rosto naquela umidade cheirosa. Sob sua língua, Léa gemia, sem resistência.

Por instantes, seus olhos abriram-se, captando o rosto do Cristo esmagado sob o peso da cruz. E pareceu-lhe que a imagem se animara e que o Filho do Homem lançava-lhe um olhar cúmplice. Deixou escapar um grito e atingiu o orgasmo sob as carícias de Mathias. Sentia uma dor deliciosa nos seios. Retirou a cabeça de seu ventre e beijou com gula a boca que tanto prazer acabara de lhe proporcionar, embriagando-se com seu sabor.

- Venha - disse ela, afastando as pernas.

E novamente gemeu de prazer quando o sexo do homem forçou o seu, ainda intumescido.

Lá fora, a chuva redobrara. O dia estava sombrio, como se fosse inverno. Na capela aberta para as árvores do refúgio, um rapaz e uma moça seminus dormiam aos pés de um grupo de figuras de pedra, cujos vultos pálidos pareciam proteger-lhes o sono.

No dia seguinte ao da chegada de Mathias a Montillac, Léa acompanhou o pai, tia Bernadette e Ruth a Bordeaux, a pretexto de visitar Laure e de adquirir sementes para a horta. O almoço em casa de tio Luc decorreu num ambiente de constrangimento. Não se falou de outra coisa senão da sorte do país em ter encontrado um herói como o marechal Pétain. Terminada a refeição, Léa pôde cuidar dos seus assuntos.

Vou com você - decidiu Laure, erguendo-se.

- Não, não é preciso. Não vou me demorar - opôs-se Léa. contrariada.

- Posso ir com você? - pediu a prima Corinne Léa lançou a Ruth um olhar de súplica.

Ruth sempre desconfiara do que designava por "idéias loucas da sua menina", embora afirmasse constantemente que Léa seria bem sucedida em tudo e que ela necessitava de maior liberdade de ação que as irmãs.

Léa possui uma vitalidade e um instinto de sobrevivência capazes de superar tudo - comentara Ruth para Adrien Delmas, na última vez que o vira. - Infelizes aqueles que pretenderem se opor a ela.

Apesar da suspeita que sentia, Ruth foi em socorro de Léa:

- Mas você não vai à Livraria Mollat, Laure? Então, podemos ir com Corinne, enquanto Léa compra as sementes. Na volta, irá nos encontrar lá.

Ruth mal terminara a frase e Léa já se achava na rua. Felizmente, a casa do advogado Delmas não ficava muito longe da sede do La Petite Gironde, na Rue de Cheverus. Quanto à Livraria Mollat, ficava na Rue Vital-Charles, bem próxima do jornal.

Durante sua rápida visita a Montillac, no mês de fevereiro, Adrien dissera à sobrinha que, caso necessitasse dele, poderia procurá-lo por intermédio de Richard Chapon. No jornal, recebeu-a o mesmo empregado da vez anterior. Informou-a que Chapon achava-se ausente; desconhecia quando regressaria.

- Mas é muito importante - insistiu Léa.

- Neste momento, srta. Delmas, ele também está se ocupando de coisas importantes, provavelmente.

Diante da expressão perplexa de Léa, o funcionário acrescentou:

- Fale com o amigo dele, o padre de Saint-Eulalie. Talvez possa ajudá-la.

Saint-Eulalie? Ficava bem perto do convento dos dominicanos, no local onde Raphael Mahl a deixara. Decidiu seguir o conselho.

- Muito obrigada - disse Léa, retirando-se.

O dia nublara-se e estava frio. Léa levantou a gola do velho impermeável que pertencera à mãe e ajustou na cabeça o chapéu de feltro.

Depois começou a correr, prendendo debaixo do braço a bolsa a tiracolo.

Sem fôlego, parou junto aos degraus do templo. A chuva começava a cair quando empurrou a porta.

Algumas mulheres rezavam em frente ao altar onde brilhava uma pequena lâmpada vermelha. Tentando disfarçar a indecisão, Léa ajoelhou-se não muito longe da sacristia, refletindo no que deveria fazer e dizer.

- Léa, o que faz aqui?

Ela sobressaltou-se e quase deu um grito ao sentir a mão que lhe pousava no ombro. Um homem de terno marrom, com o chapéu na mão e ostentando um espesso bigode, a olhava.

- Tio Adrien - Silêncio! Venha comigo - disse ele, encaminhando-se para a saída.

Chovia. Adrien Delmas pôs o chapéu e, pegando no braço da sobrinha, começou a andar rapidamente.

- Mas por que razão você está vestido assim, tio? perguntou Léa.

- O hábito de dominicano é um pouco vistoso para certos passeios. Dou graças ao Senhor por tê-la encontrado. A igreja está sendo vigiada pela Gestapo há alguns dias. Se não tivesse visto você entrar, só Deus sabe o que aconteceria.

- Andava à sua procura.

- Desconfiei disso. Mas não volte aqui. O que aconteceu?

- Laurent fugiu da Alemanha.

- Como soube?

- O tenente Kramer disse a Camille.

- Há quanto tempo?

- Na Páscoa.

A chuva aumentou. Recolheram-se no limiar de uma porta, em frente da catedral.

- Camille teve notícias diretas de Laurent?

- Não.

- Nesse caso, que querem que eu faça?

- Tenho... Camille tem receio de que Laurent vá procurá-la. A casa está sob vigilância. Que faremos se ele for para lá?

Rindo, dois soldados alemães abrigaram-se da chuva, perto deles.

- Maus tempos na França! - exclamou um deles, com um trejeito de desgosto.

- Sim, mas bons vinhos. - acrescentou o segundo.

Sem terem tomado qualquer decisão, tio e sobrinha deixaram o abrigo. Andaram em silêncio durante algum tempo - Na semana que vem, irei a Langon visitar um dos nossos irmãos que está no hospital. Aproveitarei a oportunidade para dar uma chegada a Montillac. Farei contatos na região.

- Não posso ir em seu lugar? - sugeriu Léa.

Sempre caminhando, o tio estreitou a sobrinha.

- Não, minha querida, é muito perigoso. Já sabe demais, tanto para a minha como para a sua própria segurança.

- Mas eu quero ajudar Laurent.

- Não duvido. Mas a melhor maneira de ajudá-lo é ficar quieta.

Havia certa irritação na voz de Adrien Delmas.

- Como vai seu pai?

Léa deixou escapar um profundo suspiro.

- Estou preocupada com ele, tio. Mudou muito; já nada lhe interessa. Ficou ainda pior desde a morte do sr. d'Argilat. Fala constantemente em mamãe como se ela ainda fosse viva. Fecha-se no escritório ou vai sozinho para o terraço, onde fica monologando.

E parece ficar contrariado quando queremos fazer-lhe companhia. "Deixe-me, não vê que estou conversando com mamãe?", diz. É terrível, tio. Estou muito preocupada com ele.

- Eu sei, eu sei, menina. E que diz o dr. Blanchard?

- Ele não gosta de falar a respeito disso. Receitou alguns medicamentos, que Ruth ministra ao papai regularmente.

- Parte do seu ser morreu e não serão medicamentos que a farão ressuscitar. Resta-nos pedir a Deus.

- Deus? Ainda acredita nisso? Você? Cale-se, Léa. Não blasfeme.

- já não creio em Deus, tio. E temo que mais ninguém em Montillac acredite, exceto, talvez, a pobre Camille.

- Não diga semelhante coisa. Se isso fosse verdade, seria para mim um golpe terrível.

Passaram em frente dos escombros de um prédio bombardeado, na Rue des Remparts. Essa imagem trouxe à memória de Léa a lembrança da mãe.

- Por que não foi ao enterro de mamãe? - perguntou.

- Não me foi possível. Não estava em Bordeaux. Aonde vai agora?

- Vou encontrar Ruth e Laure na Livraria Mollat.

- É perto. Deixo-a aqui, então. Não quero que me vejam vestido assim. Siga meus conselhos e não me procure no convento ou no La Petite Gironde. O jornal também está sob vigilância. Depois lhe darei notícias. Seja como for, estarei em Montillac no começo da próxima semana. Até lá, seja prudente. Se, por desgraça, Laurent chegar antes disso, diga-lhe para ir a Saint-Macaire, à casa do afilhado de sua mãe; ele sabe o que tem a fazer. Laurent deve dizer-lhe: "Os dominós foram devolvidos"; ele entenderá.

- Os dominós foram devolvidos - repetiu Léa.

- Isso mesmo.

Separaram-se na Porte Dijeaux. A chuva parara.

Na livraria, Léa foi informada por um dos empregados de que as senhoras Delmas tinham acabado de sair. Por acaso, a loja de sementes na praça do mercado estava aberta. Restavam-lhe ainda algumas sementes e até - o cúmulo do luxo! - mudas de tomateiro e de alface.

Ao chegar à casa de tio Luc, Laure preparava-se para voltar ao colégio e a acolheu com frieza.

- Tinha uma coisa importante para lhe dizer - murmurou ela -, mas fica para outra vez.

- Não seja boba e diga-me o que é - pediu Léa - Agora não. Pior para você.

- Vou com você.

- Não é preciso. Pergunte a Françoise se ela se divertiu no concerto, na outra noite. Adeus.


Capítulo 21

- Olhe, o tio Adrien!

Acocorada na "sua" horta, envergando uma bata preta de camponesa com florzinhas azuis e brancas, com a cabeça protegida por um enorme chapéu de palha, Léa ergueu-se; tinha um punhado de ervas daninhas na mão.

Segurando a fralda do hábito branco, o dominicano encaminhava-se para ela, acompanhado de Camille. A sobrinha atirou-se em seus braços estendidos.

- Que alegria vê-lo, tio!

- Esteve com Laurent, ele está em Bordeaux! - disse-lhe Camille de um jato.

- Em Bordeaux?!

Estava com intenção de vir para me ver, mas seu tio não deixou.

- Por agora, tudo corre bem. Laurent está em segurança -- garantiu o dominicano.

- Onde? Quero ir vê-lo! - gritou Camille.

- Por enquanto isso não é possível; é perigoso demais. Logo lhe direi quando poderá encontrá-lo.

- Logo, espero.

- Como está ele? - perguntou Léa.

- Bem. Apenas cansado. Depois de fugir de Colditz, refugiou-se na Suíça, onde esteve tão doente que sequer pôde escrever para dar notícias. Dentro de alguns dias o farei passar para a Zona livre.

- De que ele precisa?

- Por enquanto, de nada. Na próxima quinta-feira voltarei a Langon para visitar o padre Dupré e virei até aqui para comunicar a Camille a maneira de ver Laurent. Até lá, fique quieta e não diga nada a ninguém, peço-lhe. Se, por infelicidade, não puder vir a Montillac, entregarei um bilhete a Françoise. Ela se ocupa da seção hospitalar onde o padre Dupré está internado - disse Adrien.

- Será prudente confiar-lhe tal missão? - perguntou Camille, baixando a cabeça. Tio e sobrinha fitaram-na com surpresa.

- Mas... por que você diz isso? - perguntou a moça.

- Françoise não é irmã de Léa? Não vivem sob o mesmo teto? - admirou-se o dominicano.

- Sim... claro... mas...

Adrien e Léa olharam-se sem compreender. Por que tais reticências, aquela súbita desconfiança? Semelhante atitude era completamente alheia ao caráter de Camille.

- Françoise pode perder o bilhete... ser presa pelos alemães... - balbuciou Camille, com o rosto em fogo.

- Está nos escondendo alguma coisa, Camille. Por que duvida de Françoise?

- Não, não.., não é nada. Receio por Laurent, é tudo.

O padre Delmas afastou-se alguns passos. Depois regressou para junto das mulheres.

- Anotarei um endereço na capa do Caminho da perfeição, de Santa Teresa d'Ávila. Mas talvez não sejam necessárias tais preocupações, e eu venha pessoalmente entregá-lo.

Voltaram para casa conversando.

Sentado no banco de pedra voltado para Believue e para a colina de Verdelais, Pierre Delmas, de queixo apoiado às mãos postas sobre o castão da grossa bengala espiralada, olhava à distância, com um sorriso vago pairando em seus lábios.

- Então, Pierre, descansando? - perguntou Adrien, em tom jovial.

- Um pouco - respondeu Pierre Delmas. Isabelle obrigou-me a mudar os móveis do quarto dela. Estou esgotado.

- Mas, papai, a mamãe.

- Compreendo, sr. Delmas. Nada mais cansativo do que mudar os móveis! - interveio Camille, cortando a fala de Léa.

- É, não é? - disse Pierre Delmas, tendo no rosto uma expressão delicada. - Isabelle não quer admitir que estou ficando velho...

Léa deu-lhe as costas.

Sentadas no gramado que descia até o terraço, Camille e Françoise amparavam Charles, que ensaiava os primeiros passos.

- Andará dentro de um mês - prognosticou Françoise.

- Sidonie e Ruth acham a mesma coisa - respondeu Camille. - Dizem que os bebês magros começam a andar mais cedo.

- Laurent ficaria tão satisfeito se pudesse vê-lo! É estranho que você não tenha notícias dele desde que fugiu.

Camille mordeu os lábios.

- Se não fosse a fuga, ele teria sido libertado, como Mathias - prosseguiu Françoise, erguendo nos braços a criança, que riu. Era um belo menino loiro, parecido com o pai e com a mãe.

Crescia com a rapidez de um cogumelo e nunca ficara doente. Camille dispensava-lhe uma ternura animal e inquieta. Trazia-o sempre debaixo dos olhos como se, a cada instante, temesse vê-lo desaparecer. A criança era feliz e nunca chorava. Todos o adoravam, exceto Léa, que não podia olhá-lo sem um sentimento de ciúme, embora o menino desde cedo tivesse lhe demonstrado uma nítida preferência.

- Vai ler o livro que o tio Adrien lhe mandou? Não deve ser muito divertido esse Caminho da perfeição - comentou Françoise.

- Claro que não é divertido. Mas tem utilidade; dá-nos força para enfrentar a vida.

- Talvez você tenha razão - respondeu Françoise, com ar sombrio.

Camille notou aquela mudança de humor, mas fingiu não percebê-la. Brincava com o filho, rindo dos seus trejeitos e das suas cambalhotas.

"Faz-lhe bem a maternidade", pensou Françoise.

De fato, nesse domingo de Pentecostes, Camille d'Argilat resplandecia a ponto de estar bela. Como não podia comprar tecido, e com a aproximação dos dias mais quentes, abandonara o luto pelo irmão e pelo sogro e envergava um dos seus antigos vestidos de algodão azul- pálido, que valorizava-lhe a cor dos olhos, a pele queimada e os cabelos agora mais claros, devido ao sol. Estava tão magra que parecia uma adolescente frágil. Comparada a ela, Françoise, que era morena, parecia mais velha e mais mulher, embora fosse três anos mais jovem.

Françoise mudara muito desde que começara a trabalhar regularmente no hospital de Langon; estava mais feminina e sedutora. Penteava- se muito bem, pintava o rosto -- demais, na opinião de Ruth e de tia Bernadette - e andava sempre bem-vestida, apesar das dificuldades.

Usava nesse instante um vestido de seda vermelha com bolinhas azul-marinho, acinturado, que parecia ter saído das mãos de um bom costureiro, embora tivesse sido feito pela modista de Langon - conforme Françoise garantia.

"Verei Laurent amanhã", pensava Camille.

Léa estava de péssimo humor. Encontrara-se com Mathias em Saint-Macaire, em casa de um amigo do rapaz, que estava ausente naquele dia. Mathias contava com aqueles momentos longe dos olhares inquisitivos de Ruth e das olhadelas preocupadas dos pais. Depois do encontro na capela do refúgio de Verdelais, Mathias não conseguira ficar a sós com a amiga um único instante. Chegara a desconfiar que ela o estivesse evitando. Assim, quando na quinta- feira Léa, de rosto pálido, surgira na cozinha da propriedade para chamá-lo, Mathias surpreendeu-se. Seguiu-a até o celeiro. Sem uma palavra, ela se lançou a seus braços, trêmula como um junco.

Mathias beijou-lhe os lábios gelados com doçura e deitou-a sobre o feno, procurando aquecê-la. Os braços de Léa, por detrás de sua nuca, tinham uma rigidez cadavérica. Ele separou as pernas dela com dificuldade, de tal forma as mantinha apertadas. E, apesar do desejo de Léa, foi necessário a Mathias a maior paciência para que se deixasse penetrar. Ela chorava no orgasmo como outros choram na dor.

Aquele contato deixou no rapaz um estranho gosto de amargura.

Querendo apagar tal lembrança, Mathias preparou em casa do amigo um lanche com os petiscos que Léa tanto apreciava em outros tempos: torta de morango, vinho doce velho, cerejas maceradas em aguardente e caramelo. Para reunir essas guloseimas, foi-lhes necessário recorrer a tesouros de engenhosidade. A modesta e velha casa recendia ao perfume das rosas brancas com que Mathias a adornara em profusão. Léa sorriu diante de tais preparativos. Bem compenetrado do seu papel de anfitrião, o rapaz estendeu-lhe um copo de vinho, dizendo:

- Bebamos à nossa felicidade.

Léa engoliu a bebida de um só trago.

- Quero mais. Me fez bem.

Sorrindo, Mathias serviu-a de novo.

A jovem pôs-se a percorrer a casa de copo na mão, parando durante alguns minutos em frente da lareira, sobre a qual se via uma paisagem de Lourdes, pintada sobre um pedaço de cortiça, um furão empalhado e um tanto roído por traças, um calendário dos correios, um ramo de rosas e algumas fotografias amareladas.

- É engraçada a casa do seu amigo - observou ela. - Onde fica o quarto?

Um lampejo de contrariedade perpassou pelos olhos de Mathias. Não conseguia habituar-se à desenvoltura de Léa em sua relação amorosa. Sem ter consciência disso, gostaria que ela fosse mais tímida. Ele sempre tinha a desagradável impressão de que ela conduzia as coisas, e isso não lhe parecia natural nem adequado. Para ele estava agora claro que Léa seria sua mulher. Como poderia ser de outra maneira? Léa riu ao entrar no quarto, de tal modo se assemelhava ao de Sidonie - a mesma cama alta de nogueira, coberta por uma colcha de algodão branco e um enorme edredom de cetineta vermelha. À cabeceira do leito, havia um grande crucifixo de madeira preta, enfeitado com um ramo de buxo benzido; na parede da frente, de ambos os lados da janela, duas fotografias de camponeses endomingados e um imenso armário junto da porta.

Sem se dar ao trabalho de desabotoá-las, Léa atirou as sandálias longe. O contato com o ladrilho frio era agradável. Pousou o copo na mesa-de-cabeceira e começou a despir-se, cantarolando.

Mathias desfez a cama, que pareceu maior ainda com os lençóis brancos. Nua, Léa estirou-se sobre ela.

"Cheiram a alfazema", disse a si mesma, sentindo o coração comprimir-se por alguns instantes.

- Quero beber - pediu.

- Você bebe demais - comentou o companheiro, voltando com a garrafa.

Léa bebia lentamente, observando Mathias tirar a roupa.

- Você devia trabalhar com o dorso nu - comentou. - Com essa marca de camisa, parece que sua cabeça bronzeada está num corpo que não é seu. Isso não é bonito.

- Já vou lhe mostrar se é ou não bonito - respondeu o rapaz, estendendo-se ao lado dela e atraindo-a para si.

- Espere. Deixe-me pousar o copo.

À passagem de Léa sobre ele, a boca de Mathias apoderou-se de um seio, enquanto os dedos lhe apertavam o outro.

- Ai, você está me machucando.

- Pior para você.

Rolaram um sobre o outro, rindo e gritando, sob o olhar impassível dos retratos de família.

Sentada na cama desfeita, com olheiras, nua, os cabelos em desalinho, Léa devorava um pedaço de torta, frutas e caramelo, enquanto ia bebendo vinho; estava ficando tonta, e Mathias olhava para ela, encantado.

- Pare de me olhar desse jeito! - disse ela.

- Não me canso de vê-la. É tão bonita!

- Isso não é motivo...

- Quando for minha mulher, ficarei olhando o tempo que Léa suspendeu o gesto de levar à boca o pedaço de bolo.

- Que disse?

- Que vou me casar com você.

- Mas eu não pretendo me casar com você! - exclamou a jovem.

- Por quê? Não sou suficientemente bom?

- Não diga bobagens. Não quero me casar, ponto final. É tudo - assegurou-lhe Léa.

- Todas as moças querem se casar - insistiu o rapaz.

- É possível. Mas eu não sou como elas. Não falemos mais nesse assunto, eu lhe peço.

- Não, não, pelo contrário. Temos de falar. Amo-a e desejo me casar com você - disse Mathias, apertando o braço de Léa.

- Largue-me! Está me machucando.

Mathias apertou com mais força.

- Está doido! - gritou Léa. - Ordeno que me largue!

- Não a largo enquanto não prometer se casar comigo -- disse ele.

- Nunca, está ouvindo? Nunca!

Mathias ergueu a mão.

- Vá, bata, bata! O que está esperando?

- Mas por quê?

- Porque não amo você.

Mathias empalideceu de tal forma que, instintivamente, Léa se encolheu contra a madeira da cama.

- Que disse? - perguntou ele.

Ergueu-se de um salto e começou a se vestir.

- Não me queira mal, Mathias. Gosto muito de você, sempre gostei, mas não como sua mulher.

- Contudo, você é minha mulher.

Léa acabara de abotoar o vestido e observava o companheiro ainda nu, sentado sobre os lençóis amarrotados, com as pernas pendentes, a cabeça caída sobre o peito; uma mecha de cabelo cobria seu rosto. Teve por ele um ímpeto de ternura. Como continuava a se parecer com o rapazinho que cedia a todos os seus caprichos infantis! Sentou-se ao lado de Mathias e encostou a cabeça em seu ombro.

- Seja razoável, Mathias. Não é pelo fato de termos estado juntos na cama que somos obrigados a nos casar.

- Quem é ele? - perguntou ele.

- Que quer dizer?

- Quem é o seu amante?

- Não entendo o que quer dizer.

- Você me acha imbecil? Pensa que não notei que não é mais virgem?

Com o rosto pegando fogo, Léa ergueu-se e fingiu procurar os sapatos. Encontrou um deles aos pés da cama, o outro debaixo do armário.

Engatinhando, tentou apanhá-lo. Mathias, mais rápido, apoderou-se dele.

- Vai responder ou não vai? Quem é ele?

- Está me aborrecendo. O assunto não lhe diz respeito respondeu a jovem.

- Ordinária! Eu não quis acreditar, dizendo a mim mesmo que você era uma moça honesta. Pensei que talvez tivesse sido o seu noivo, que você quisesse lhe proporcionar esse gosto antes que ele partisse para a guerra... não podia levá-la a mal. Agora, porém, percebo tudo. Não foi o irmão de Camille que a fez perder todo pudor. Porca... você.., você. . que eu desejei para minha mulher... É como sua irmã: puta de boches... puta de boches.

O infeliz deixou-se cair sobre a cama, soluçando.

De pé, petrificada, sentindo o sangue fugir-lhe do corpo, Léa olhava à sua frente sem distinguir nada.

Ficaram assim durante muito tempo, ela imóvel, ele soluçando. Mathias foi o primeiro a dominar-se. De repente, Léa lhe causou medo.

Limpando nos lençóis a face molhada, aproximou-se dela.

No rosto lívido de Léa, os olhos haviam adquirido uma fixidez anormal. Com um esforço sobre-humano, articulou em voz surda:

- Que disse há pouco?

- Nada. Foi apenas a raiva - respondeu Mathias, já arrependido das palavras que lhe haviam escapado.

Léa repetiu:

- Que disse?

- Nada, pode acreditar. Não foi nada.

- "... como a sua irmã... puta de boches" - articulou ela.

Depois, tal como a erva de um prado sob a foice, a jovem escorregou para o chão devagar. Mathias acompanhou sua queda e, no chão de ladrilhos frios, procurou atenuar o efeito provocado pelas palavras proferidas momentos antes.

- Não, não diga nada... aperte-me com força. Como pôde acreditar que.

- Perdoe-me.

- ...queeu...

- Caie-se - balbuciou Mathias, cobrindo-lhe a boca de beijos para impedi-la de falar.

Françoise... ah, agora percebo! Pobre papai! É preciso que ele não saiba de nada. Que devo fazer, Mathias?

- Não pense mais no caso, minha querida. Talvez eu esteja enganado.

Inconscientemente, Léa correspondia a seus beijos e seu ventre roçava o sexo ereto. Então, fizeram amor de novo.

Léa não permitiu que Mathias a acompanhasse a Montillac.

À chegada, pretextou uma terrível dor de cabeça e foi deitar-se sem jantar. Quando subia para o quatro, cruzou com os dois oficiais alemães, que a cumprimentaram, afastando-se para lhe dar passagem.

Sozinha, por fim, no meio da desordem do quarto das crianças, desordem que lhe era tão grata, Léa deixou-se cair sobre as almofadas.

Confirmava-se então aquilo de que vagamente suspeitara:

Françoise, a sua própria irmã, tornara-se amante de um dos alemães.

Mas qual deles? De Otto Kramer, claro! O mesmo amor pela música.

Bateram à porta.

- Quem é? - perguntou Léa.

- Sou eu, Camille. Posso entrar?

- Entre.

- Você não me parece nada bem, minha querida. Tome este comprimido.

- Obrigada - agradeceu Léa, engolindo o medicamento e a água do copo que a amiga lhe estendia.

- É muito amável em querer me acompanhar amanhã - disse Camille. - Laurent vai ficar contente. Gosta tanto de você!

- Notou algo de especial em Françoise de uns tempos para cá?

- Não. Mas que quer dizer?

Léa olhou-a, desconfiada.

- A que se deveram as suas reticências do outro dia? - perguntou.

Camille corou e não respondeu.

- Também acha que ela... que ela e o tenente.

- Cale-se! Seria abominável.

- Mas pensou nisso? - insistiu Léa.

- Não é possível. Devemos estar enganadas - assegurou Camille d'Argilat.

- E se não estivermos?

- Nesse caso, seria horrível demais - disse Camille em voz abafada, ocultando o rosto nas mãos.

- Temos de tirar o caso a limpo. Vou perguntar a Françoise - decidiu Léa.

- Agora, não. Só depois que eu tiver ido me encontrar com Laurent.

- Quem poderia supor uma coisa dessas da parte de Françoise?

Não podemos julgá-la; não temos certeza de nada. E. caso seja verdade, é porque o ama.

- Esse não é um motivo válido.

- É o maior.

Léa fitou Camille, surpresa. O quê? Que saberia ela, a puritana sra. d'Argilat, a imagem daquela Camille de corpo vacilante mas, assim mesmo, disposta a matar para defendê-la? Nessa altura não se mostrara tímida. E quem sabe se também no amor. . Foi-lhe insuportável a visão de Camille entregando-se, desenfreada, a Laurent.

- Não sabe o que está dizendo - garantiu Léa. - Você se esquece de que se trata de um alemão?

- Não, não me esqueço. Há semanas.

- Como?! E não me disse nada?

- Que poderia dizer? Era apenas uma impressão vaga, surpreendi algumas trocas de olhares. . enfim, não havia nada de concreto - replicou Camille.

- Seja como for, devia ter me contado. Ah, se mamãe estivesse aqui! Acha que os outros desconfiam?

- Não sei de nada. Vamos dormir. Amanhã partiremos muito cedo. Mandei verificar a gasolina e tudo está em ordem. Sinto-me tão contente, Léa! Verei Laurent dentro de poucas horas. Oh, querida, perdoe-me! Sou tão desastrada! Desastrada e egoísta. Encontrará logo um bom rapaz que a faça feliz como meu irmão o teria feito - disse Camille, beijando a amiga com ternura.

Léa despiu-se com gestos raivosos e enfiou a camisola demasiado curta, que lhe dava um ar de criança. Foi para o banheiro, escovou os dentes e passou a escova nos cabelos com violência. O espelho refletia um rosto obstinado e tenso. Em La Réole, no dia seguinte, se tivesse aquele mesmo aspecto, provavelmente Laurent não a acharia nada bonita. Com um sorriso, desfez a expressão mal-humorada; seus olhos brilharam, os dentes morderam os lábios e o peito arqueou-se.

- A nós, Laurent - disse em voz alta.

A passagem da linha de demarcação fez-se sem obstáculos. O automóvel rodava a boa velocidade pela estrada, como se também ele se sentisse excitado por achar-se na zona livre.

À saída de La Réole, Léa tomou, à esquerda, uma estrada secundária. Dentro em breve, surgiu uma sebe aparada margeando o caminho.

Depois apareceu o portão de ferro, aberto. O carro o transpôs e rodou durante alguns metros por uma larga alameda debruada de roseiras.

Parou em frente da escadaria de um edifício do começo do século, uma construção de aspecto maciço e sem graça. Léa desligou o motor.

Ouviam-se apenas o canto das aves e os vagidos do pequeno Charles, que despertara no colo da mãe. Na esquina da casa, surgiu então uma silhueta alta e claudicante. Léa e Camille deixaram o veículo ao mesmo tempo. A segunda entregou o filho à amiga e correu para o homem, gritando:

- Laurent!

Léa apertou mais fortemente o bebê, que lhe rodeara o pescoço com os bracinhos. Desejou poder furtar-se ao espetáculo daqueles dois corpos enlaçados, mas foi incapaz de mexer-se. Ao fim de um tempo que lhe pareceu infindável, o casal, de mãos dadas, encaminhou-se para ela. Diante do olhar com que Laurent a envolveu, Léa, com alegria, quase deixou o menino cair, para se atirar em seus braços. Mas Camille o pegou, entregando-o ao pai. Desajeitado, Laurent o segurou, ergueu-o no ar, contemplando-o com incredulidade.

- Meu filho... - balbuciou, enquanto uma lágrima lhe escorria pela face, perdendo-se entre os pêlos do espesso bigode, que o envelhecia.

Com precaução, depôs um beijo no rosto da criança, murmurando:

- Charles, meu filho.

- Sem Léa, nem ele nem eu estaríamos aqui - comentou Camille.

Laurent voltou a entregar Charles à mãe e abraçou a moça.

- Tinha certeza de que poderia confiar em você - disse ele. - Obrigado.

Pousou-lhe os lábios nos cabelos, perto da orelha.

- Obrigado - sussurrou de novo com fervor.

Invadia Léa o desejo intenso de lhe gritar o seu amor, mas limitou-se a balbuciar:

- Ah, Laurent... Laurent... se soubesse!

- Eu sei. Foi muito duro. Adrien contou-me tudo. Você demonstrou imensa coragem.

- Não, não foi coragem - exaltou-se Léa. - Não tive escolha, é tudo.

- Não acredite, Laurent. Léa é maravilhosa - interveio Camille.

- Eu sei.

Nesse momento, um homem e uma mulher de cerca de sessenta anos vieram reunir-se ao grupo.

- Camille e Léa, apresento-lhes o sr. e a sra. Debray, meus anfitriões. Correm grande perigo ao abrigarem fugitivos como eu.

- Não diga isso, sr. d'Argilat. É uma honra para nós poder auxiliar os nossos soldados - afirmou o sr. Debray com convicção.

- Cumprimos apenas nosso dever - completou a mulher, com voz doce.

- Esta é Camille, minha mulher, e este é o meu filho, Charles - continuou Laurent, prosseguindo nas apresentações.

- Charles? A senhora é bastante imprudente - disse o sr. Debray em tom de ironia, dirigindo-se a Camille. - Não sabe que Philippe é o nome próprio agora em moda?' - A moda passa, sr. Debray. Fico imensamente feliz em poder agradecer-lhes tudo o que têm feito pelo meu marido.

- Por favor, em nosso lugar fariam o mesmo! É nossa maneira de continuar a luta e de nos aproximarmos de nosso filho.

- O filho de nossos amigos tombou como um herói em Dunquerque - esclareceu Laurent.

Camille preparava-se para falar, mas o sr. Debray interrompeu-a:

- Não diga nada, minha senhora. As palavras não conseguem exprimir o que... Bem... Venha, entremos em casa. Quem é esta jovem encantadora?

- É Léa Delmas, amiga muito querida e a quem devemos a nossa felicidade.

- Seja bem-vinda, srta. Delmas. Permite-me que a trate por Léa?

- Certamente, sr. Debray.

Demoraram-se três dias naquela casa hospitaleira. No segundo dia, Adrien Delmas reuniu-se a eles, envergando trajes civis. A presença do tio contribuiu para atenuar os terríveis ciúmes que roíam o íntimo de Léa. Não conseguia suportar por mais tempo o rosto resplandecente de Camille e a ternura atenciosa que Laurent lhe dispensava.

Laurent foi um dos primeiros detidos a evadir-se de Colditz, antiga cidade real, que ergue suas fortificações a quarenta metros de altura sobre um promontório escarpado, dominando a pequena cidade construída em tijolo e em arenito cor-de-rosa, na margem esquerda do Mulde.

Bem depressa Laurent se apercebeu de que a única possibilidade de fuga seria na hora do passeio. Revelou seu propósito a três camaradas, que o ajudaram a reunir víveres, roupa e algum dinheiro.

Certa tarde, ao sair para o passeio, Laurent observou que rebocavam a fachada de um edifício de três andares que dava para o caminho por onde os prisioneiros chegavam ao parque. Uma porta habitualmente fechada estava aberta.

Devido ao declive pronunciado, o rés-do-chão ficava à altura de um primeiro andar em relação à estrada. Espreitando por entre as barras corroídas pela ferrugem das exíguas aberturas ao nível do chão, viu que se tratava de adegas ou de cocheiras. Tinha de agir depressa; concluídos os trabalhos, poderiam fechar de novo a porta a qualquer momento. Assim, na volta de um dos passeios, com a magra bagagem escondida sob o capote, decidiu agir. Segredou ao companheiro de fila:

- É agora.

O camarada fez diminuir a marcha da coluna:

- Devagar. Fiquem calados e olhem em frente.

O guarda que seguia adiante dos prisioneiros não se virou para trás uma única vez. Da terceira fila, muito perto dele, Laurent distinguia- lhe os cabelos curtos despontando na nuca forte. Atrás de si, seguiam algumas filas de prisioneiros e outro guarda no final da coluna.

Com três passadas, atirou-se para a porta da adega, temendo, a cada instante, receber uma bala nas costas. Dentro dele, abrira-se um enorme vazio.

O som dos passos dos companheiros diminuía. Seu coração batia como se quisesse saltar-lhe do peito. Enrolou a bainha das calças azuis, enfiando-a por dentro das meias de lã branca e grossa. Despiu o velho casaco de algodão, conservando apenas o pulôver bege, de tricô, que Ruth lhe mandara. Com o colarinho da camisa azul sobre o pulôver, o boné de abas, os confortáveis sapatos de sola de borracha e uma maleta com o indispensável, parecia um viajante alemão de bom aspecto. Decorreu um minuto sem que se ouvissem gritos, chamamentos ou latidos.

Deixar a cave úmida, transpor o pequeno muro, retomar o caminho e, sobretudo, evitar a tentação de correr, tudo isso Laurent fizera em pensamento inúmeras vezes, O único verdadeiro risco eram os guardas do caminho de ronda.

Arquitetara um plano simples: regressar ao parque, atravessando, por sobre uma árvore caída, a pequena torrente que separava a floresta do local de passeio dos prisioneiros. Em seguida, escalar a paliçada de madeira que circundava o campo de jogos dos soldados alemães, e, daí, a muralha, servindo-se dos intervalos entre as pedras. O projeto foi adiado, porém, devido à presença de militares que jogavam bola. Ficou escondido na cave, onde esteve na iminência de ser descoberto por diversas vezes: dois garotos vieram jogar bola no meio da estrada, alguns soldados passaram junto à parede do edifício, um casal e um cão detiveram-se por algum tempo em frente da porta aberta, O perigo maior era o cão. Apesar do frio úmido, Laurent estava molhado de suor quando o animal se afastou. Contra todas as expectativas, o seu desaparecimento não fora ainda assinalado pelos guardas. Dentro de duas horas, porém, seria feita a chamada. Por fim, Laurent saiu do subterrâneo e executou, então, todos os movimentos previstos. Voltou-se ao chegar à muralha: à sua frente, estava o parque deserto e, à esquerda, a cidadela enorme, à qual as sombras da tarde conferiam aspecto mais tenebroso. No caminho de ronda, os vultos das sentinelas recortavam-se contra o céu ainda claro. Estaria perdido se uma delas olhasse em sua direção. Com calma, principiou a escalada vagarosa. Não obstante o ferimento na perna, que ainda o incomodava, içou-se até o topo sem dificuldades. Deixou-se, então, cair no vácuo, amortecendo a queda nas folhas mortas. Estava fora do Castelo de Colditz! Num plano inferior, estendia-se a estrada, o caminho para a liberdade.

Rolando sob seus pés, as pedras da encosta produziam um barulho horrível. Ouviram-se vozes na estrada. Ele compôs o vestuário desalinhado e limpou a terra dos sapatos. As vozes aproximavam-se. Cruzou com dois oficiais da cidadela, acompanhados das respectivas esposas, que seguiam em conversa animada e não lhe prestaram a mínima atenção; transformara-se em alemão da classe média. Fingindo despreocupação, correspondeu a sorriso de um velho e saudou com um Heil Hitler sonoro um grupo de jovens. Chegado à estrada principal, deu-se ao luxo de se virar para trás para contemplar o vulto harmonioso da Fortaleza de Colditz. Apoderara-se dele um intenso sentimento de orgulho - vencera o sutil e formidável arsenal de vigilância que rodeava a cidadela!

Três dias depois, atravessou a fronteira em Schaffhouse. À noite, sem um tostão no bolso, apanhou o trem para Rochlitz, chegando a Berna, onde caiu gravemente enfermo. Permaneceu hospitalizado por diversos dias e escreveu longas cartas ao pai e à mulher, cartas que nunca lhes chegaram às mãos. Apenas a carta enviada a Adrien Delmas chegou ao destinatário, tendo passado, como que por milagre, através das malhas da censura. O dominicano entrou, então, em contato com Laurent por intermédio de outro dominicano suíço, que lhe forneceu documentos e dinheiro.

Um fim de tarde doce e calmo cintilava sobre a pequena cidade de La Réole, onde Laurent e Léa tinham ido tratar de alguns assuntos. Por causa do filho, Camille não pudera acompanhá-los. Era a primeira vez que ambos se encontravam a sós. A sra. Debray mdicara-lhes a padaria da Rue des Argentiers, cujo pão era o melhor da região, e onde também se vendia farinha. Perderam-se no emaranhado de ruelas e atingiram as imediações do Castelo Quat'Sos, de onde se avistava toda a paisagem do vale do Garonne. Passaram diante da abadia dos beneditinos. As tílias embalsamavam o ar. Léa quis entrar na igreja. Seus passos ecoaram sob as abóbadas góticas. Laurent demorou-se bastante em frente da capela da Virgem. Léa aproximou-se, pegou-lhe na mão e apoiou a cabeça em seu ombro. Laurent beijou-lhe os cabelos encaracolados. A jovem sentia vibrar na palma da mão o pulso do homem amado. Quando ergueu a cabeça, os olhos de ambos prenderam-se sem conseguirem se desviar. Seus lábios tocaram-se de leve e, nesse ligeiro contato, os corpos sentiram aflorar a chama do desejo. Perto, uma porta bateu, chamando-os à realidade - o encanto quebrara-se.

Laurent repeliu a companheira com suavidade.

- Não, não me deixe - protestou ela.

- Somos loucos, Léa. Não devemos.., não devo...

- Cale-se. Amo-o.

A moça encostou-se nele novamente. Laurent pegou-a pelos quadris e a apertou contra si.

- Amo-a - murmurou.

O corpo de Léa ondulava, acariciando-lhe o sexo ereto. Laurent empurrou-a com tanta violência que ela caiu sentada num genuflexório.

- Pare com isso! - gritou o rapaz.

Esfregando as costas, magoada, Léa olhava-o com ar triunfante. Depois ergueu-se e encaminhou-se para a saída. Ele seguiu-a de cabeça baixa.

- Vamos depressa. A padaria vai fechar.

O estabelecimento ainda não fechara as portas; ao evocar o nome da sra. Debray, conseguiram obter um pão de quatro quilos e um pacote de farinha.

Foram buscar as bicicletas junto à estação. Indiferentes, perdidos nos respectivos sonhos, passaram sem olhar pela paisagem do Signal du Mirail. Em breve atingiram a propriedade dos Debray.

Mal chegaram ao jardim, Camille apareceu correndo.

- Onde estiveram? Estou morrendo de inquietação.

Ora, o que podia nos acontecer? Fomos visitar La Réole - disse Léa, imperturbável.

Durante o jantar, a jovem mostrou-se alegre e jocosa, tagarelando com espírito sobre mil e um assuntos. Adrien e o sr. Debray, divertidos com os seus ditos, a incentivavam.

Enquanto tomavam um péssimo café no jardim, o dominicano anunciou a Laurent:

- Achei a pessoa que procurávamos. Trata-se de Jean Bénazet, de Varilhes, perto de Foix. Temos um encontro amanhã à tarde, no Café de Ia Poste, em Foix.

- Tão cedo! - exclamou Camille.

- Por favor, querida... Irá se juntar a mim logo que isso seja possível.

- Mas eu quero ir com você.

- Nem pense nisso! Não se esqueça de que Charles precisa de você.

A sra. Debray ergueu-se e pousou a mão no ombro de Camille.

- Não deprima o seu marido com lágrimas, minha filha. Ele cumpre seu dever, procurando continuar na luta. Mostre-se corajosa. Quer ficar aqui? Teríamos muito prazer nisso, eu e meu marido. Gostaríamos muito que ficasse conosco.

- Não vai ser possível - interveio Laurent. - Camille terá de me substituir em Roches-Blanches. Delpech, nosso administrador, informou- me por carta de que não só a casa foi ocupada, como também as vinhas se encontram em mau estado devido à falta de mão-de-obra.

- Tal como acontece em Montillac - observou Léa.

- E por toda parte - rematou o dominicano.

- Que tenciona fazer? - perguntou a sra. Debray.

- Não sei. Penso constantemente em meu pobre pai e me pergunto o que ele faria em tais circunstâncias. Encheram-me de cólera e de tristeza as desgraças que se abateram sobre este país infeliz. Eu, que era a favor da aproximação dos povos, da sua fusão nos Estados Unidos da Europa, sou agora nacionalista, coisa que me parecia ultrapassada antes da guerra. Não me julgava tão francês, nem pensei amar o país a tal ponto.

- Graças à existência de homens como o senhor, meu jovem amigo, tentaremos restituir-lhe a honra e a liberdade - afirmou Debray com energia.

- Acha realmente que isso é possível?

- Se não achasse, teríamos nos suicidado, eu e minha mulher, no dia em que ouvimos Pétain anunciar o seu pedido de paz aos alemães.

Pareceu-nos que nosso filho morria pela segunda vez. Choramos, implorando a Deus que nos iluminasse. No dia seguinte, tivemos a resposta pela voz do general De Gaulle.

Ninguém falou durante alguns momentos. Ouviam-se apenas os chamados dos pássaros e os gritos das andorinhas perseguindo-se pelo espaço. Depois, Adrien Delmas rompeu o silêncio:

- Seria necessário que fossem mais numerosos os que adotam atitude semelhante à sua, sr. Debray. Mas, por toda parte, só há falta de vigor, desordem, comprometimento, espionagem ignóbil, denúncia perversa e concordância com a servidão. Vêem-se escritores de talento, tais como Brasillach, Rebatet e Drieu, universitários, homens de negócios, militares e mesmo - que Deus, os perdoe - eclesiásticos, que prostituem os respectivos talentos a serviço de uma ideologia desprezível. Como animais enfraquecidos, deitam-se de costas, oferecendo a barriga à bota do ocupante. Estou desesperado.

- Sua fé em Deus acabará por lhe restituir a crença na humanidade - afirmou a sra. Debray, interrompendo as palavras do dominicano.

- A fé em Deus, sem dúvida... - disse ele, erguendo-se. Léa, a quem semelhante discussão aborrecia, levantou-se também, surpresa pelo tom do tio. Julgara perceber nele um desencanto enraivecido. Teria perdido a fé? "Seria cômico", pensou, "um frade não acreditar em Deus."

- O senhor parece tão infeliz, tio Adrien - disse ela com meiguice, indo juntar-se a ele sob o enorme castanheiro.

Sem responder, Adrien Delmas acendeu um cigarro.

Léa observava-o com o canto dos olhos - não tinha uma expressão apenas triste, mas também desesperada. Uma timidez muito antiga, vinda da infância, impediu-a de consolá-lo. Para distraí-lo e expulsar a angústia que a invadia ao percebê-lo tão inabalável em suas convicções, duvidando desse Deus por quem ele tudo abandonara, a sobrinha perguntou:

- Sabe se o alferes Valéry chegou são e salvo ao Marrocos?

- Chegou, sim.

- E quanto a Laurent? Acha que tudo irá correr bem? - prosseguiu ela.

O dominicano observou-a com atenção. Não se enganara - aquela garota continuava apaixonada por Laurent d'Argilat. Resolveu tirar o caso a limpo.

- Tudo correrá bem, sim. O passador é uma pessoa de confiança, e Laurent irá se reunir aos companheiros em Argel. Camille e o filho poderão ir ao seu encontro dentro em breve.

Léa empalideceu, mas não se deu por vencida.

- Você deve estar satisfeita, vendo que tudo corre bem com seus amigos - continuou o tio, com uma pontinha de sadismo.

- Muito satisfeita, de fato - afirmou Léa secamente, voltando-lhe as costas. - Desculpe, tio, estou cansada e vou deitar- me. Boa noite.

- Boa noite, e que Deus a proteja.

Léa entrou no quarto correndo.

Encerrada ali, não via como encontrar-se a sós com Laurent antes da partida. Nua e deitada na cama, relembrava cada um dos pormenores do passeio a La Réole, em frente ao altar da Virgem, na Igreja de São Pedro. À lembrança do contato com o corpo amado, o seu arqueou- se; e, colocando a mão entre as coxas, desencadeou um prazer que a deixou furiosa consigo mesma. Adormeceu rapidamente, com o braço dobrado sobre o rosto.

O dia parecia não acabar mais.

Na véspera, muito cedo, Adrien e Laurent tomaram o trem para Toulouse, onde fariam baldeação rumo a Foix. As despedidas tinham sido tão pungentes como deveriam ser - ironizava Léa para si mesma. Conseguira deslizar uma carta entre as mãos de Laurent, cujo súbito rubor não passara despercebido nem a Adrien Delmas nem à sra. Debray. Pouco lhe importava, porém: o importante era que ele soubesse que o amava e que ela pudesse lhe dizer isso novamente.

- Mais uma vez lhe confio o que de mais caro tenho na vida - dissera Laurent ao despedir-se de Léa com um beijo.

Depois de longa espera, soaram, por fim, passos no saibro do caminho. Eram, de fato, de tio Adrien. Léa fez um esforço para não correr em sua direção e interrogá-lo - a sra. Debray estava ali e não cessara de observá-la desde a véspera.

- Foi tudo bem? - gritou Camille, ofegante, levando a mão ao peito; seu coração batia acelerado.

- Sim, tudo bem.

Quando ele parte para a Espanha?

- Hoje à noite. Não vai só. Serão uns sete ou oito - esclareceu o dominicano.

- Se soubesse o medo que tenho, meu padre! - murmurou Camille.

- Nada receie. Tudo correrá bem.

- Espero que sim. E eu, o que farei enquanto espero? Não há nada que eu possa fazer aqui na França? O senhor, meu padre, tem uma tarefa, assim como o sr. e a sra. Debray. Eu gostaria de ajudá-los. Disponham dos meus préstimos - ofereceu-se Camille.

O dominicano envolveu num olhar comovido a mulher frágil que pretendia auxiliá-los.

- O seu dever, minha filha, é o de resistir ao desespero e demonstrar extrema prudência. São poucos os comprometidos na ação direta.

Poderá constatá-lo se olhar à sua volta. Vamos esperar que desapareça a confiança que as pessoas depositam no marechal Pétain. Esta já se desvaneceu bastante, mas muitos homens e muitas mulheres, não menos patriotas do que nós, aliás, hesitam ainda em colocar-se à margem da lei.

Adrien Delmas fez uma pausa e depois prosseguiu:

- Em Londres, certos oficiais mostram-se hostis ao general de Gaulle. Muita gente desconfia da Inglaterra. O golpe de Mers el-Kebir comprometeu gravemente as boas relações entre os dois países. Seja paciente. Assim que puder, entrarei em contato com a senhora, dando notícias de Laurent e comunicando-lhe quando poderá juntar-se a ele. Todavia, se quiser, pode prestar-me um serviço:

levar um maço de cartas a Saint-Emilion. Isso implica alguns riscos durante a passagem pela linha de demarcação entre as duas zonas.

- Onde devo entregá-lo?

- Em casa do sr. Lefranc, na ruela do Château-du-Roy. Dê-lhe também este exemplar do Guia Azul da Bretanha; ele saberá do que se trata. Em seguida, esqueça tudo o que aconteceu e vá para Roches-Bianches. Venha comigo, Léa. Quero lhe falar.

Seguindo o tio pelas aléias do jardim, Léa sentia o coração bater descompassado - temia aquela conversa.

- Tenho de partir esta tarde - começou Adrien Delmas.

- Tomarei o trem das seis para Bordeaux. Amanhã, você levará Camille a Saint-Emilion e depois a Roches-Blanches. Daí volte para casa o mais rapidamente possível, passando por Cadillac. Na cidade, entregue estas três cartas da parte do cônego ao sr. Fougeron, funcionário da prefeitura.

- Só isso?

- Sim. Ah, já ia me esquecendo! Laurent deixou-me isto para você - rematou o tio.

Léa ficou escarlate ao pegar o envelope de má qualidade que Adrien lhe estendia.

- Obrigada - disse.

- Não me agradeça. Não é por você que o faço, mas sim por ele, embora não aprove que lhe escreva. Se aceitei fazê-lo, foi apenas por senti-lo dilacerado.

Com a cabeça baixa, Léa não respondeu, girando maquinal- mente o envelope entre os dedos. Não estava fechado. A moça lançou ao tio um rápido olhar de viés.

- Pode ficar tranqüila, eu não li a carta.


Capítulo 22

Léa estava bem longe de supor que iria experimentar qualquer pena ao separar-se de Camille. No entanto, foi de coração amargurado que caiu em seus braços na despedida.

A passagem pela linha de demarcação em Saint-Pierre-d'Aurillac efetuara-se sem obstáculos. Tinha escondido as cartas na pequena mala de roupas do bebê. Em Saint-Emilion, entregaram ao sr. Lefranc o guia da Bretanha. Em Roches-Blanches, Delpech recebeu, comovido, a jovem esposa e o seu filho.

Léa revia a casa pela primeira vez desde aquela festa de noivado que marcara o fim de uma época feliz. Tivera então um único desejo: permanecer ali o menos tempo possível. Depois de lavar o rosto e as mãos, furtara-se à solicitude de Camille e partira.

Chegou a Cadillac pouco antes que a prefeitura fechasse. Na escadaria, cruzou com dois risonhos soldados alemães. No balcão do registro civil, um funcionário redigia à mão, meticulosamente, alguns documentos; era Fougeron. Léa entregou- lhe as cartas e viu-se incumbida de postar um embrulho nos correios da zona livre. Não teve tempo de dizer uma única palavra, pois era manifesto o mau humor dos soldados alemães. Com um gesto rápido, fez desaparecer o pacote na bolsa.

A partir desse dia, efetuava regularmente o transporte de correio entre uma zona e outra. Para isso, fora obrigada a pedir ao tenente Kramer um Aasweis especial, a pretexto de vigiar a realização de trabalhos nas terras de seu pai, em Mounissens e em La Laurence, perto de Saint-Pierre-d'Aurillac. O cardápio em Montillac melhorou graças a essas viagens. Além disso, Albertine e Lisa, que, segundo afirmavam, morriam de fome lentamente em Paris, recebiam algumas encomendas de vez em quando.

Com as férias, Laure regressara do pensionato disposta a não voltar, agora que recebera o diploma. Transformara-se numa bela moça de dezesseis anos, fútil e coquete, grande admiradora de Pétain; colecionava retratos dele de todos os tipos.

Nunca perdoara Léa por ter atirado ao chão uma fotografia autografada de seu ídolo, que orgulhosamente colocara sobre o piano do salão. Queixara-se do caso ao pai, cuja resposta a abalara, apesar de tudo:

- Sua mãe faria exatamente o mesmo.

Depois disso, Laure deixava a sala de visitas ostensivamente sempre que Léa ouvia a Rádio Londres. Quanto a Françoise, ninguém sabia ao certo o que se passava. Se não estava de serviço no hospital, tocava piano o dia inteiro, exibindo a todos o rosto resplandecente, o que levava Ruth a comentar:

- Não me admiraria que essa menina estivesse apaixonada.

Mas apaixonada por quem? Léa recusava-se a responder a tal pergunta. Vigiara a irmã durante dias, sem nada notar de suspeito em seu comportamento. Contudo, certa vez, Léa desceu à cozinha mais cedo do que o habitual para preparar o café da manhã. Na escada escura, chocou-se com o tenente Hanke, que a cumprimentou em tom de voz bastante elevado:

- Bom dia, srta. Delmas.

- Bom dia - respondeu Léa bruscamente.

Ao entrar na cozinha, o tenente Kramer terminava sua refeição. Ergueu-se ao aparecimento da moça, saudando-a.

- Bom dia, srta. Delmas. Levantou cedo hoje. Vai, sem dúvida, visitar as propriedades de seu pai, na zona ocupada - observou.

Por que motivo havia três tigelas sobre a mesa, uma delas cheia?

Pouco depois do regresso de Laure a Montillac, chegaram também Philippe, Corinne e Pierrot, o caçula, filho de Luc Delmas. Na velha casa, ecoaram de novo gritos e gargalhadas. Devido à presença dos alemães, tiveram de ficar mais apertados.

Léa revia com agrado o primo Pierrot, que aos catorze anos já se considerava um homem. Tal como antes, dormia com ela no quarto das crianças.

Durante as refeições, as conversas eram tão animadas que Bernadette Bouchardeau se apressava a fechar as janelas.

- Querem que todo mundo os ouça? Que sejamos todos presos?

A mesa dividia-se nitidamente em três campos. O dos adeptos convictos de Pétain: Bernadette, Philippe, Corinne e Laure, que não encontravam palavras suficientemente duras para falar daqueles que, de modo covarde, tinham traído o marechal e, por conseqüência, a França; o dos partidários de De Gaulle ou, pelo menos, daqueles que não aceitavam a presença dos ocupantes: Léa e Pierrot; e ainda o dos "sem opinião", por motivos vários, Pierre Delmas, Françoise e Ruth.

O primeiro grupo pregava a colaboração solicitada por Pétain a 30 de outubro de 1940, única maneira - segundo garantiam - de restabelecer a ordem, a dignidade e a religião no país, corrompido por judeus e por comunistas; os segundos afirmavam que a única oportunidade de a França recuperar a honra e a liberdade era seguir as diretivas do general de Gaulle.

- Um traidor!

- Não! Um herói!

Os adeptos do terceiro grupo pouco se manifestavam: Ruth por discrição, Pierre Delmas por indiferença e Françoise por... não se sabia por quê. Abandonava a mesa com freqüência, se o debate se tornava demasiado apaixonado.

Certo dia, sem se conter, Léa seguiu-a. No terraço, caída sobre o banco de ferro, Françoise soluçava. A irmã aproximou-se, perguntando com doçura:

- O que você tem, Françoise?

O pranto redobrou.

- Estou farta de ouvir falar de guerra, Pétain, Hitler, De Gaulle, das restrições, dos russos, da zona livre, da zona ocupada, da Inglaterra, de... de... Estou farta! Gostaria que me deixassem em paz. Quero poder amar livremente... quero... quero morrer!

A compaixão sentida pelo desgosto da irmã transformava-se aos poucos em desagrado e logo em repugnância. "As pessoas escondem-se, quando ficam assim tão feias chorando", pensou Léa.

- Cale-se! - ordenou. - Se visse a sua cara! Se algo não vai bem, diga-me. Se o seu apaixonado a põe assim, deixe-o - disse Léa.

Falara por implicância, sem pensar no que dizia. Ficou surpresa e muda face à violência da reação de Françoise.

- Que sabe você do meu apaixonado, você que rola no feno com um serviçal, embora continue a pensar no marido de outra mulher? O meu apaixonado, se quisesse, faria com que vocês todos fossem... Mas isso não lhe diz respeito, não diz respeito a ninguém. Detesto vocês... gostaria de nunca mais os ver.

Depois de cuspir no rosto da irmã a última palavra, Françoise pôs-se em fuga pela passagem entre a vegetação existente ao longo do terraço. Léa ficou olhando a silhueta vacilante afastar-se por entre os vinhedos e depois desaparecer para lá de Valenton.

Quanto tempo assim ficara, imóvel, face à paisagem familiar, enquanto lhe martelava o cérebro aquela frase: "O meu apaixonado, se quisesse, faria com que todos vocês foss...

- Fossem presos? Sim, era isso: "O meu apaixonado, se quisesse, faria com que todos vocês fossem presos". Mas, como sempre, a beleza tranqüila dos campos, das matas, colinas, vinhas, aldeias e da linha sombria das Landes, ao fundo, contribuiu para aplacar-lhe a angústia e interromper a horrível música que lhe ressoava no cérebro.

Françoise comunicara em casa que iria a Arcachon no dia seguinte, visitar uma amiga. Léa recordou-se então daquilo que Laure lhe sugerira certa vez: perguntar a Françoise se se divertira no concerto. Naquele momento, ficara admirada com tais palavras. Depois, a irmã mais nova acrescentara vagamente que aquilo não tinha importância, que esquecesse. Mas, diante da insistência de Léa, acabara por confessar.

- Pareceu-me vê-la com o tenente Kramer. Mas não devia ser ela, pois o homem que a acompanhava vestia trajes civis.

Léa não tinha agora nenhuma dúvida: Françoise amava um alemão, de quem certamente se tornara amante.

Comentou o caso com Camille, que fora passar alguns dias em Montillac, antes das vindimas. Que devia fazer? Prevenir o pai, Ruth e tio Adrien?

- Não faça isso - aconselhou Camille. - É um assunto realmente muito delicado. Só Françoise e o tenente Kramer podem dizer se a sua suspeita é ou não verdadeira.

- Mais e aquelas palavras de Françoise?

- Disse-as num momento de cólera.

Durante a estada de Françoise em Aréachon, o tenente Kramer esteve ausente de Montillac a maior parte do tempo.

Com a chegada do outono, todos partiram para Bordeaux, até mesmo Laure, que achava o campo de "um tédio mortal". Léa deixara a Mathias e a Fayard a responsabilidade das vinhas e assistiu com satisfação à partida dos outros, ainda mais que alimentar toda aquela gente, embora tivesse senhas de racionamento suplementares, era um problema muito complicado. Via aproximar-se o inverno sem grande receio graças às conservas dos legumes cultivados em sua horta e ao viveiro bem provido de coelhos e de galinhas; sem contar os dois porcos na engorda. Apenas uma coisa a preocupava: a falta de dinheiro. A venda do vinho chegara somente para pagar àqueles que se ocupavam dos vinhedos, e nem mesmo a todos; nos seis últimos meses, Fayard não recebera seu salário. Por Camille, Léa soube que Laurent ficara em Argel apenas alguns meses. Encontrava-se agora em Londres. Notou com alegria que Camille não falava mais em ir ao encontro do marido.

Apesar do amor sentido por Laurent, prosseguira suas relações amorosas com Mathias, sempre mais violentas e mais decepcionantes.

Após cada contato, Léa se prometia que seria o último. Mas, ao fim de uma semana ou quinze dias, no máximo, ia encontrá-lo no celeiro, nas vinhas ou na velha casa de Saint-Macaire.

A 21 de outubro de 1941, houve um atentado em Bordeaux contra um oficial alemão. No dia 23 do mesmo mês, eram executados cinqüenta reféns.

Léa experimentava sentimentos de angústia e tédio cada vez mais agudos. Em vão procurava quebrar a monotonia das horas mergulhando na leitura dos livros da biblioteca do pai. Nenhum autor lhe agradava. Por falta de interesse, caíam-lhe das mãos as obras de Balzac, de Proust ou de Mauriac. Seu sono era perturbado por horríveis pesadelos. Ora a mãe se erguia soluçando no meio dos escombros, ora o homem que matara a comprimia contra si num enlace repugnante. Durante o dia, assaltavam-na bruscas crises de choro que a deixavam alquebrada. Montillac pesava-lhe sobre os ombros. Perguntava a si mesma se valeria a pena trabalhar tanto para manter tudo aquilo vivo, para conservar a terra, amada apenas por ela agora, pois nem o pai nem as irmãs lhe davam a mínima importância. Havia outra pessoa, porém, que também amava a propriedade, a ponto de ambicioná-la para si: Fayard. Readquirira a razão de viver após o regresso do filho, mudança que o tornara mais áspero. Conseguira dissimulá-la até o dia em que dissera a Léa, sem rodeios:

Tudo isto representa um peso demasiado grande para a sua juventude, senhorita. O pobre sr. Delmas já não está no seu juízo perfeito, e dentro de pouco tempo terão de interná-lo num sanatório. Só um homem conseguirá administrar uma propriedade como esta. Aconselhe seu pai a vendê-la. Fiz economias, e minha mulher acaba de receber uma herança. Como é evidente, ficarei devendo alguma coisa. Mas, por certo, o sr. Delmas não se importará de transformar essa quantia no seu dote.

Gelada, Léa foi incapaz de interromper-lhe o discurso. Só nesse momento se apercebeu de que, durante todos aqueles anos passados trabalhando a terra, Fayard tivera em mente um único objetivo: tornar-se seu proprietário. E as circunstâncias ajudavam-no às mil maravilhas. Se Isabelle Delmas fosse viva, nunca Fayard se atreveria a apresentar tal proposta. Além disso, o administrador acabava também de lhe dar a perceber que estava perfeitamente a par das relações existentes entre ela e o filho.

- Não responde? - insistiu Fayard. - Ah, compreendo! Receia ter de deixar a casa. Mas depende só da senhorita mantê-la, casando-se com meu filho.

Léa conteve com dificuldade a cólera que a invadia.

- Mathias está a par de seus belos projetos?

- Mais ou menos. Diz que são assuntos que não devem ser tratados agora.

Diante de tais palavras, Léa sentiu um pouco mais leve o peso que a oprimia.

- Engana-se, Fayard. Não tencionamos vender a propriedade. nem ao senhor nem a ninguém. Nasci nesta terra e faço questão de conservá-la. Quanto ao estado de saúde de meu pai, não é tão catastrófico como o pinta.

- Mas vocês não têm dinheiro e há seis meses que não recebo contestou Fayard.

- Os nossos problemas financeiros não são da sua conta. No que diz respeito a seu salário, receberá antes do fim do mês. Boa noite, Fayard.

- Faz mal, srta. Léa. Faz mesmo muito mal em levar as coisas deste modo - disse o homem em tom ameaçador.

- Chega! - concluiu Léa. - Não tenho mais nada a dizer sobre o assunto. Boa noite.

Fayard saiu, resmungando.

No dia seguinte, Léa escreveu à tia Albertine, pedindo-lhe emprestado a quantia devida ao administrador. A sra. de Montpleynet enviou- lhe o dinheiro na volta do correio, e Ruth viu-se incumbida de entregá-lo ao capataz das adegas. Foi nessa época que se deu uma violenta altercação entre Fayard e seu filho. Depois disso, Mathias decidiu oferecer-se como voluntário para trabalhar na Alemanha. Léa suplicou- lhe que abandonasse tal projeto, argumentando que precisava dele ali e que tal coisa era um ato de traição à pátria.

- Não, você não precisa de mim objetou o rapaz com azedume. Afirma precisar, mas pensa apenas em Montillac. E eu quero lá saber de Montillac!

- Não diga isso, Mathias! Você bebeu! - exclamou a moça.

- Sim, é verdade, bebi. Não sou como meu pai. É a você que eu quero, com ou sem terras. Mas cheguei à conclusão de que não me ama.

Não passa de uma cadela no cio; de vez em quando, precisa que lhe metam a coisa.

- Cale-se! Não seja vulgar.

- Se você soubesse como me é indiferente ser ou não vulgar! Nada mais importa para mim. Deste modo, aqui ou na Alemanha.

- Se quer ir embora de qualquer maneira, então por que não vai reunir-se ao general de Gaulle?

- Quero lá saber! Quero lá saber do general De Gaulle, de Hitler ou de Pétain! Para mim são todos a mesma coisa militares! E eu não gosto de militares.

Eu lhe peço, Mathias, não me abandone.

- Por pouco a julgaria sincera. Vejam como chora! Então vai sentir falta do pobre Mathias? Do pobre Mathias e da sua grossa coisa.

- Cale-se!

Tinham-se encontrado no pequeno bosque de pinheiros perto da horta. Mathias fora procurar Léa para anunciar-lhe sua decisão. Bebera para ganhar coragem?

Num gesto brusco, o rapaz empurrou a amiga. fazendo-a cair por terra. Ela escorregou nas folhas. Com a queda, a saia ergueu-se, descobrindo-lhe as coxas brancas acima das meias de lã preta.

Mathias lançou-se sobre ela.

- Tudo o que lhe interessa, minha porca, é a minha coisa, uma coisa boa e grossa. Não chore mais que já vai tê-la - garantiu o rapaz.

- Largue-me! Você está fedendo a vinho.

O caso não é grave; não nos embota os sentidos.

Léa debatia-se sem sucesso; a embriaguez decuplicava a força do companheiro. As agulhas das árvores, aquecidas pelo sol brilhante da tarde de inverno, exalavam aquele mesmo perfume do tempo de suas brincadeiras infantis, quando ambos rolavam junto dos troncos dos pinheiros enormes. Essa evocação perturbou Léa de tal forma, que ela cessou de defender-se, oferecendo-se ao sexo que a procurava.

Mathias iludiu-se quanto a essa aparente sujeição.

- Não passa de uma porca - comentou ele.

Tratou-a com instintos animalescos, procurando magoá-la, castigá-la, por não amá-lo. Gritaram de prazer.

Durante quanto tempo choraram depois, ainda enlaçados, ridículos na sua seminudez e visíveis da horta? Por fim, o frio e o desconforto os trouxeram de volta à triste realidade. Ergueram-se sem dizer nada, compondo a roupa, sacudindo-a, para tirar a terra, e desemaranhando dos cabelos pedaços de folhagem de pinheiros. E, após uma troca de olhares que falavam de sua tristeza, partiram cada um para seu lado.

À noite, Mathias tomou o trem para Bordeaux, de onde seguiu para a Alemanha, no dia 3 de janeiro de 1942.


Capítulo 23

O cão dos Fayard acompanhara Léa num passeio. Fizeram uma pausa ao pé da cruz de Borde, que dominava a planície. O dia estava claro, cheio de sol. O vento vivo e frio enrubescia as feições da jovem. Protegida pelo amplo capote de pastor das Landes, ela fitava o espaço à sua frente, com os olhos perdidos no vazio. Em SaintMacaire, os sinos tocaram as vésperas. Era domingo. De repente, o cão levantou a cabeça em atitude de alerta e depois ergueu-se, rosnando.

- Que foi, Courtaud?

O animal ladrou e correu para o caminho. "Deve ser um coelho ou um rato", pensou Léa, mergulhando de novo em devaneios sem objetivo.

Passados instantes, uma pedra rolou junto dela. Ergueu a cabeça e pôs-se em pé de um pulo.

- Tio Adrien!

- Filha!

Abraçaram-se, felizes.

- Ufa! Tinha esquecido como é abrupta a encosta para se chegar até aqui - disse o dominicano, deixando-se cair na grama com o peito arfando. - A não ser que seja da idade - acrescentou, arrumando as pregas do hábito.

- O que faz aqui, tio? Quando chegou? - perguntou a moça.

- Cheguei agora mesmo e vim procurá-la. Foi bom encontrá-la longe de casa, devido às coisas que tenho para lhe dizer.

- Laurent. .

- Não, não se trata de Laurent. Ele vai bem... pelo menos estava bem na última vez que o vi.

- Na última vez!? Então está na França? perguntou Léa, admirada.

- Está. Veio de Londres de avião e foi lançado de pára- quedas - informou o tio.

- Onde está ele agora:?

O dominicano não respondeu à pergunta.

- Camille já sabe?

- Acho que não. Ouça bem o que lhe digo, Léa. Sei que Você prossegue na missão de carteiro entre as duas zonas e que sua bicicleta azul já é conhecida de todos aqueles que ainda conservam a esperança. Você demonstrou coragem e sangue-frio por diversas vezes. Vou agora incumbi-la de uma tarefa de extrema importância. Em breve serei descoberto, tenho de fugir para a zona livre. Preciso transmitir uma mensagem a Paris. Você irá em meu lugar.

- Eu?! - espantou-se Léa.

- Sim, você. Vai receber amanhã uma carta de sua tia Albertine, pedindo que a ajude a cuidar da irmã.

- Tia Lisa está doente?

- Não. Trata-se apenas de um estratagema; precisa de um motivo plausível para ir a Paris. Você sairá amanhã no trem da noite; vai viajar na segunda classe. Aqui está a passagem. Quando chegar, telefone da estação para suas tias. Cuidado com o que diz! Depois, pegue o metrô e siga diretamente para a Rue de l'Université, passando pela Rue de Bac.

- Mas...

- Eu sei; não é o caminho mais curto, mas é por onde terá de seguir. Ao chegar em casa, invente qualquer coisa que justifique a sua ida. O ideal seria que Lisa pudesse ficar uns dias de cama.

À tarde, dê umas voltas pelo bairro, faça algumas compras no Bon Marché, vá ver as vitrinas. Na volta, passe diante da Livraria Gallimard, no Boulevard Raspail. Conhece?

- Conheço.

- Muito bem. Entre na loja depois de observar a vitrina. Folheie, então, obras expostas sobre a mesa diante do caixa, percorra as prateleiras, parando diante dos livros cujos autores tenham nomes começados pela letra P, tal como Proiist. Pegue o segundo tomo da obra Em busca do tempo perdido. No interior do volume encontrará, então, um folheto das edições da NRF, sobre as novidades literárias. O prospecto será um pouco mais espesso do que habitualmente. Troque-o por este.

Léa pegou o papel verde-claro onde figuravam, impressos, vários títulos de livros.

- Este também é espesso - comentou.

- Pois é. Dentro dele está a mensagem que é imprescindível entregar. Depois da troca, volte a pôr o livro na prateleira. Pegue ao lado qualquer uma das obras publicadas pela Gallimard e vá ao caixa para pagá-la.

- É tudo?

- Não. Você deve estar na livraria às cinco horas em ponto e sair dez minutos mais tarde. Pode acontecer, por um ou outro motivo, que você não consiga substituir o folheto. Assim, volte no dia seguinte às onze horas. Se ocorrer de novo algum impedimento, vá até a Rue de l'Université, onde receberá outras instruções. Entendeu bem?

Entendi. Mas o que faço com o folheto? - interrogou a moça.

- Coloque-o dentro do livro que comprar. Se tudo correr bem, no dia seguinte vá ver o filme de Louis Daquin, Nous les gosses, no cinema dos Champs-Elysées, na sessão das duas horas. Instale-se na antepenúltima fila, o mais perto possível da passagem central. Um pouco antes de terminar a sessão, deixe o livro debaixo do assento e saia. Se houver algum obstáculo, proceda do mesmo modo na sessão das quatro horas. Dois dias depois, vá ao Museu Grévin, às três horas. Diante da tela que mostra a família real no Templo, será abordada por alguém que dirá: "Já não vamos ao bosque". Responda, então: "Os loureiros foram cortados". Em seguida, essa pessoa deixará cair um folheto do museu e você o apanhará. Ele lhe dirá: "Fique com ele; talvez lhe interesse". Agradeça e continue a visita ao museu, consultando o folheto de vez em quando - explicou Adrien Delmas.

- E depois?

- Depois, volte para casa. No dia seguinte, apanhe o trem para Limoges. Haverá verificação de documentos na estação de Vierzon.

Chegando a Limoges, deixe a mala no depósito das bagagens. Ao sair, tome o bonde e desça na Place Denis-Dussoubs. Há aí um cinema, o Olympia. Na esquina da praça com o Boulevard Victor-Hugo, fica uma livraria. Dirija-se à mulher gorda, de cerca de sessenta anos, envergando bata cinzenta, e pergunte-lhe se recebeu Os mistérios de Paris, de Eugène Sue. Ela responderá que tem apenas Os mistérios de Londres, de Paul Féval. Entregará a você, então, um exemplar dessa obra. Coloque entre as páginas o folheto do Museu Grévin. Depois devolva-lhe o livro, desculpando- se e dizendo não lhe interessar. À saída, dobre à direita na Rue Adrien-Dubouché e entre na Igreja de Saint-Michel-des-Lions, assim chamada devida aos dois leões de pedra deitados à entrada. Visite o templo e, de passagem, nada impede que reze um pouco. Quando sair, desça a Rue du Clocher, passando pelas Nouvelles Galeries e pelo Hôtel Central, situado na Place Jourdan. Contorne o largo e pegue a Avenue de la Gare. Serão mais ou menos cinco horas. Há um trem para Bordeaux às cinco e meia. Em Bordeaux, tio Luc estará à sua espera. Passe a noite em sua casa. Ele não sabe de nada; pensará que você esteve cuidando de sua tia. No dia seguinte, volte a Montillac e procure esquecer tudo o que aconteceu. Entendeu? - perguntou o tio.

- Acho que sim.

- Nesse caso, repita o que eu lhe disse ordenou o dominicano.

Sem se enganar, Léa repetiu tudo o que deveria dizer e fazer.

- Em princípio, tudo deverá correr bem. Não se preocupe na passagem da linha de demarcação, pois seus documentos estão em ordem.

Não se assuste se houver outras verificações imprevistas. Caso aconteça algum problema grave em Paris, telefone a François favernier ou mande avisá-lo.

François Tavernier.

Sim, não se lembra dele? Você o conheceu no dia do noivado de Laurent e Camille.

- Mas confia nele?

- Depende para o quê. Certas pessoas acusam-no de colaboracionista; outras dizem-no agente do 2º Bureau. Que pensem aquilo que quiserem! Mas eu sei quando posso contar com ele. Por isso, telefone-lhe caso tenha qualquer aborrecimento - concluiu o dominicano.

Léa estremeceu.

- Está com frio? - perguntou Adrien. - Que estupidez a minha obrigá-la a permanecer aqui quieta! Levante-se. Pode ficar doente, e este não é um bom momento para adoecer.

Quando chegaram a Montillac, toda a família se encontrava reunida no salão, em frente à lareira, tomando chocolate e comendo um bolo enorme.

- Parece que estamos em Bizâncio! - exclamou o dominicano.

- Graças a Françoise - comentou Bernadette Bouchardeau.

- Um dos seus doentes, em sinal de reconhecimento, ofereceu-lhe estas maravilhas.

Bebendo o chocolate em pequenos goles, Léa não pôde impedir- se de lançar à irmã uma olhadela inquieta. Deveria comunicar ao tio as suas suspeitas em relação a Françoise?

Tudo se passou como Adrien Delmas previra. Tomaram ambos o trem para Bordeaux. Depois, sem se virar, Léa, sozinha, subiu para o trem que a conduziria a Paris.

Felizes em rever a sobrinha, as senhoras de Montpleynet pouco estranharam o súbito aparecimento de Léa. A satisfação delas atingiu o auge quando a moça exibiu as guloseimas que levara consigo: um presunto, uma dúzia de ovos e um quilo de manteiga. Lisa, a glutona, tinha os olhos marejados de lágrimas e até a digna Albertine mostrou-se comovida. Quanto a Estelle, depôs um beijo em cada face da jovem, tratando-a por "boa senhorita", antes de transportar para a cozinha, com cuidados de avarento, aqueles tesouros.

Almoçaram uma sopa rala: algumas batatas e um pouco de presunto.

- Se não fosse por você, teríamos de nos contentar com este triste cardápio - observou Lisa de boca cheia, apontando a terrina.

- Não nos lastimemos, minha irmã - interveio Albertine.

- Conhecemos pessoas bem mais infelizes. Graças ao pouco dinheiro que nos resta, podemos ainda dar-nos ao luxo de comprar carne ou aves no mercado negro.

- Lá isso é verdade. Mas