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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CHANTAGEM / Harold Robbins
A CHANTAGEM / Harold Robbins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                   

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Era um daqueles dias, feitos para quem nasceu para perder. De manhã, atirei com o meu emprego ao ar. À tarde, Maris bateu em cheio na bola e, quando as câmaras de televisão se puseram a segui-lo pelo campo, as pessoas viram, de relance, as expressões nos rostos dos Reds de Cincinnati e, de certa maneira, sentiram que a série estava acabada, embora houvesse mais quatro jogos por jogar. E nessa noite o telefone tocou arrancando-me à minha cama de insónia, onde estava estendido a olhar para o tecto cinzento-escuro, tentando ficar muito quieto, ao mesmo tempo em que ouvia Elizabeth, que fingia dormir, na cama ao lado. A voz impessoal da telefonista da interurbana cantarolou num tom vazio.  — Sr. Luke Carey, por favor. Tem uma chamada interurbana.  — É o próprio — respondi.  Entretanto, já Elizabeth tinha acendido a luz. Estava sentada na cama, com os longos cabelos louros a caírem-lhe pelos ombros nus. — Quem é? — tartamudeou em voz baixa. Tapei o bocal com a mão.  — Não sei — disse rapidamente. — É uma chamada interurbana. — Se calhar é aquele emprego em Daytona — disse cheia de esperança. — Para onde tu escreveste. Uma voz de homem fez-se ouvir pelo telefone. Tinha um vago sotaque do Oeste. — Sr. Carey? — Sim. — O Sr. Luke Carey? — Exactamente — respondi.  Estava a começar a ficar um bocado irritado. Se alguém achava que isto tinha muita graça, eu não compartilhava da ideia. — Daqui fala o sargento Joe Flynn, da Polícia de São Francisco. — O sotaque era agora ainda mais evidente. — Tem uma filha chamada Danielle? Uma súbita sensação de medo comprimiu-me as entranhas. — Tenho sim — respondi rapidamente. — Há algum problema? — Parece-me que sim — disse, lentamente. — Ela acaba de cometer um homicídio! As reacções são qualquer coisa de cómico. Por momentos, quase larguei às gargalhadas. Tinha tido a visão do corpo de Danielle, mutilado, a sangrar, estendido, meio desfeito, numa estrada solitária. Mordi a língua para não dizer "Foi só isso?". Em voz alta, perguntei: — Ela está bem? — Está óptima — respondeu o sargento.  — Posso falar com ela? — Só de manhã — respondeu. — Vai a caminho do Tribunal de Menores. — A mãe dela está por aí? — perguntei. — Posso falar com ela? — Não — disse. — Está lá em cima, no quarto, com um ataque de histerismo. Parece-me que o médico lhe está a dar uma injecção. — Está aí alguém com quem eu possa falar? — O Sr. Gordon vai a caminho do Tribunal de Menores com a sua filha. — Harris Gordon? — perguntei. — Isso mesmo — respondeu. — O advogado em pessoa. Foi ele que me pediu para lhe telefonar.

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Harris Gordon. O advogado. Era assim que o tratavam. Era o melhor de todos. E o mais caro. Eu tinha obrigação de saber. Ele é que tinha representado Nora no nosso divórcio e tinha feito do meu advogado um autêntico palhaço. Comecei a sentir-me melhor. Pelo menos Nora não estava assim tão histérica, se ainda tinha pensado em o chamar. A voz do polícia tomou um tom curioso.  — Não quer saber quem foi que a sua filha matou? — Da maneira como ele disse, parecia mais "montou". — Ainda nem consigo acreditar — respondi. — Como é que Danielle podia fazer mal a alguém? Ainda nem tem quinze anos. — Mas não há dúvida de que o matou — disse o homem, numa voz inexpressiva. — Quem? — perguntei. — Tony Riccio — respondeu. A voz dele tomou um tom desagradável. — O amiguinho da sua mulher. — Ela não é minha mulher — respondi. — Há onze anos que nos divorciámos. — Acertou-lhe no estômago com um daqueles cinzéis de escultor que a sua mulher tem no estúdio. Afiado como uma navalha. Rasgou-o como se fosse uma baioneta. Havia sangue por todo o lado. — Não creio que ele tivesse chegado a ouvir o que eu tinha dito. — Parece assim um daqueles casos em que o tipo andou a fazer-se com as duas — continuou — e a miúda teve um ataque de ciúmes. Senti a náusea subir-me à garganta. Engoli com força para a empurrar novamente para baixo. — Eu conheço a minha filha, sargento — respondi. — Não sei por que é que ela o matou ou mesmo se o matou, mas, se o fez, era capaz de apostar a minha vida em como não foi por isso. — Há mais de seis anos que o senhor não a vê — insistiu. — As crianças mudam muito em seis anos. Crescem. — Mas não para o crime — disse. — A Danielle não.  Desliguei antes que ele dissesse mais uma palavra e voltei para a cama. Elizabeth estava parada a olhar para mim, com os olhos azuis muito abertos. — Ouviste?  Fez que sim com a cabeça. Saltou rapidamente da cama e enfiou o roupão. — Mas não posso acreditar. — Nem eu — disse com voz melancólica. — A Dani é uma criança. Tem catorze anos e meio. Elizabeth pegou-me na mão. — Vem até a cozinha. Vou fazer café. Fiquei sentado, como que perdido na neblina, até que ela me meteu na mão a chávena de café quente. Era uma dessas ocasiões em que uma pessoa pensa em tudo e, no entanto, não pensa verdadeiramente em nada. Nada de que se possa lembrar, pelo menos. Talvez coisas pequenas. Talvez a primeira visita de uma garotinha ao jardim zoológico. Ou talvez os risos por causa do jacto que vinha do mar, em La Jolla. É uma vozinha fraca de criança. — É tão divertido viver num barco, papá! Por que é que a mamã não vem para aqui viver num barco contigo, em vez de viver naquela casa grande e velha lá no alto da colina, em São Francisco? Sentia uma espécie de sorriso dentro de mim quando me lembrava da maneira como Danielle costumava dizer São Francisco. Nora costumava irritar-se com isso. Nora falava sempre tão bem. Nora fazia sempre tudo tão bem. Tudo aquilo que as pessoas podiam ver. No exterior, traz uma senhora. Nora Marguerite Cecelia Hayden. Corria-lhe nas veias o sangue orgulhoso dos senhores espanhóis da antiga Califórnia, o quente sangue irlandês que lançara os trilhos dos caminhos-de-ferro do Oeste e a água gelada que circulava nas veias dos banqueiros da Nova Inglaterra. Misturando tudo, o resultado era uma senhora. Com riqueza, poder e terras. E uma estranha espécie de talento bravio que a erguia bem alto acima de todas as outras pessoas. Porque tudo aquilo em que Nora tocava: pedra, metal ou madeira, tomava uma forma, uma vida própria. E tudo aquilo em que ela tocava, que tivesse uma forma, uma vida própria, ficava destruído. Eu sabia-o. Porque também sabia aquilo que ela me tinha feito. — Bebe o café enquanto está quente.
Levantei os olhos. Elizabeth olhava fixamente para mim. Levei o café à boca. Sentia-lhe o calor penetrar no frio que era a minha barriga. — Obrigado.  Ficou sentada à minha frente. — Estavas longe daqui. — Forcei o meu espírito a voltar para junto dela. — Estavas a pensar em Danielle? Acenei-lhe com a cabeça, silenciosamente, ao mesmo tempo em que um sentimento de culpa crescia dentro de mim. Era outra coisa que a Nora tinha. Uma maneira de se instalar no nosso espírito e de pré-esvaziar pensamentos que deviam pertencer a outra pessoa. — O que é que vais fazer? — perguntou Elizabeth. — Não sei. Não sei o que vou fazer. A voz dela era quente e suave. — Pobre miúda!  Não respondi. — Ao menos, a mãe está com ela.  Tive um riso amargo. A Nora nunca estava com ninguém. Só consigo própria. — A Nora está com um ataque de histeria. O médico estava a pô-la a dormir para o resto da noite. Elizabeth ficou a olhar para mim.  — Quer dizer que a Danielle está sozinha?  — O advogado delas acompanhou-a ao Tribunal de Menores — respondi. Elizabeth olhou para mim durante um momento, depois, pôs-se de pé e dirigiu-se ao armário. Tirou outra chávena e pegou numa colher que estava a escorrer ao lado do lava-louça. Tinha a mão a tremer. A colher tilintou no chão de oleado. Ia apanhá-la e então parou. — Que raio! — praguejou. — Estou tão desajeitada! Apanhei a colher, enquanto foi buscar outra. Encheu a chávena de café e sentou-se de novo. — Que raio de altura para estar grávida! Sorri-lhe. — A culpa não é só tua. Também tenho alguma coisa a ver com o caso. Os olhos dela não se afastaram dos meus. — Sinto—me tão estúpida e inútil. Uma matação. Especialmente agora. — Não sejas parva. — Não estou a ser parva — disse. — Tu não querias esta criança. Eu é que quis. — Agora estás mesmo a ser parva. — Tu já tinhas uma filha — disse. — Chegava-te. Mas eu também te queria dar um filho. Acho que tinha ciúmes dela. Tinha de provar que, pelo menos numa coisa, não ficava atrás da Nora. Dei a volta à mesa e sentei-me ao lado dela. Continuava a olhar para mim. Tomei-lhe a cara nas mãos. — Não tens de provar nada. Amo-te. Os olhos dela continuavam fixos nos meus. — Eu via a expressão do teu rosto quando falavas em Danielle. Sentias-lhe a falta. Por isso, pensei eu, se tivéssemos um filho, já não terias tantas saudades dela. De repente, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Pegou na minha mão e pô-la em cima da barriga cheia e dura. — Vais gostar muito do nosso filho, não vais, Luke? Tanto como da Danielle? Inclinei-me e comprimi a face de encontro à vida que havia dentro dela. — Sim, eu sei que sim — respondi. — Já a amo agora. — Ela pode vir a ser um rapaz. — Não tem importância — murmurei. — Amo-te a ti e ao bebé. Com as mãos, puxou a minha cabeça de encontro aos seios. Apertou-me muito de encontro a ela.
— Tens de ir lá. Afastei-a de mim. — Estás doida? Agora que tu estás a duas semanas de ires para o hospital? — Eu cá me arranjo — disse calmamente. — E com que dinheiro? Fiquei desempregado esta manhã, lembras-te? — Temos quase quatrocentos no banco — disse. — E tu ainda tens na algibeira o ordenado da última semana. — Cento e sessenta "dele"! Precisamos disso para viver. Posso levar semanas a arranjar outro emprego. — Num avião a jacto são só três horas e meia de Chicago a São Francisco — disse. — Uma ida e volta em classe turística não chega a custar cento e cinqüenta dólares. — Não, não faço isso. Não posso. Precisamos desse dinheiro para o hospital. — A minha decisão está tomada — disse. — Tens de ir. Eu sei como é que queria que as coisas se passassem se Danielle fosse nossa filha.  Estendeu a mão para o telefone de parede. — Vai lá para cima fazer as malas enquanto eu telefono para o aeroporto. E veste o fato de flanela antracite. É o único fato decente que tens. Estava a olhar fixamente para a mala aberta que pusera em cima da cama, quando Elizabeth entrou no quarto. — Há um avião que sai de O'Hare às duas e meia — disse. — Faz uma paragem e vais chegar a São Francisco às duas da manhã. Hora local. Fiquei onde estava, a olhar para o pequeno saco de lona. Sentia-me entorpecido. A notícia ainda não me tinha entrado bem na cabeça. — Vai tomar um duche, num instante — disse. — Eu faço-te a mala. Olhei-a, agradecido. Nunca era preciso dizer as coisas a Elizabeth. Ela sabia sempre como era. Dirigi-me para a casa de banho. Olhei para a minha cara no espelho. Tinha os olhos rodeados por umas olheiras fundas e como que enterrados nas órbitas. Peguei na máquina de barbear. A mão ainda me tremia. "Havia sangue por todos os lados." As palavras do sargento vieram-me à ideia. A barba que fosse para o diabo. Podia muito bem barbear-me de manhã. Meti-me no duche e abri a água com toda a força. Quando saí, o saco já estava preparado e fechado. Dirigi-me para o armário. — Meti o teu fato na mala — disse Elizabeth. — Leva as outras calças e o casaco de sport na viagem. Não vale a pena amachucares o fato no avião. — Ok — respondi.  Mal acabei de fazer o nó da gravata, o telefone tocou. Elizabeth foi atender. — É para ti — disse, estendendo-me o auscultador. — Alô. Não precisei que me dissessem quem é que estava do outro lado da linha. Seria capaz de reconhecer aquela voz calma, onde quer que fosse. A minha ex-sogra. Como de costume não perdeu tempo com exórdios. — O Sr. Gordon, o nosso advogado, acha que seria boa ideia vir até cá. — Como é que está Danielle? — Ela está bem — respondeu. — Tomei a liberdade de reservar uma suíte para si e para a sua mulher no Mark Hopkins. Quando levantar os bilhetes no aeroporto, mande-me um telegrama com o número do voo, para eu mandar uma limusina esperá-lo ao aeroporto. — Não, muito obrigado. — Não é a altura de estar com orgulhos — disse teimosa. — Conheço a sua situação financeira, mas quer-me parecer que o bem-estar da sua filha é mais importante. — O bem-estar da Dani tem sido sempre o mais importante.  — Então por que é que não vem?
— Eu não disse que não ia. Apenas me limitei a dizer não à sua oferta. Eu posso pagar, à minha maneira. — Sempre o mesmo, não é? — perguntou. — Será que alguma vez vai mudar? — Faço-lhe a mesma pergunta — ripostei.  Houve um momento de silêncio e depois novamente a voz dela; um pouco mais fria e um pouco mais clara. — O Sr. Gordon quer falar consigo. A voz dele era quente e efusiva. Seria capaz de enganar quem não o conhecesse. Por detrás daquele som amigável, havia um espírito que era como uma armadilha de aço. — Como está, coronel Carey? Há muito tempo que não falava consigo. — É verdade — disse. — Há onze anos, no tribunal, num caso de divórcio. — Não precisava de lhe avivar a memória. Provavelmente lembrava-se até das horas e dos minutos. — Como está a Dani? — Ela está óptima, coronel Carey — disse num tom tranquilizador. — Quando o juiz viu o estado de choque em que a pobre criança se encontrava, encarregou-me de tomar conta dela. Neste momento, está lá em cima, aqui em casa da avó, a dormir. O médico deu-lhe um sedativo. Independentemente de gostar dele ou não, fiquei contente por o termos ao nosso lado. — Temos de a entregar novamente ao Tribunal de Menores, amanhã de manhã, às dez — disse. — Acho que seria boa ideia que o senhor a acompanhasse. — Lá estarei. — Óptimo. Ser-lhe-ia possível estar aqui às sete para tomar o pequeno-almoço connosco? Há certas coisas que devíamos discutir e preferia não o fazer pelo telefone. — Ok — respondi. — Vou aí tomar o pequeno-almoço, às sete. Houve uma pausa. Depois, a Sra. Hayden apareceu novamente em linha. Pareceu-me que a velha senhora estava a fazer um esforço para ser amável. — Quero tanto conhecer a sua mulher, Luke. — Ela não vai. Ouvi o tom de surpresa na voz dela. — Por quê? — Porque está à espera de bebé — respondi. — A todo o momento. Depois disso não havia mais nada a dizer e despedimo-nos. Mas logo que pousei o telefone, ele tocou. Era outra vez Harris Gordon. — Só mais uma coisa, Sr. Carey. Por favor, não fale com nenhum repórter. É importante que não faça quaisquer declarações antes da nossa conversa. — Compreendo, Sr. Gordon. — E desliguei.  Elizabeth encaminhou-se para a casa de banho. — Vou me vestir e vamos juntos até O'Hare. — Achas que não te faz mal? Posso chamar um táxi. — Não sejas pateta — riu-se. — Apesar de tudo o que disseste à outra senhora ainda faltam umas duas semanas, pelo menos. Gosto de guiar à noite. O mundo acaba onde pára o raio luminoso dos faróis. Não vemos para onde vamos, por isso está tudo bem, pelo menos até onde conseguimos ver, o que já é uma vantagem em relação a tudo o mais nesta vida. Vi o velocímetro chegar aos oitenta depois baixar lentamente para sessenta. Não havia pressa. Ainda nem sequer era meia-noite. Mas não nos apeteceu ficar em casa, sentados, à espera. No aeroporto havia movimento, pessoas. Teríamos a impressão de estar a fazer alguma coisa, mesmo que não tivéssemos nada que fazer. Pelo canto do olho, vi brilhar o fósforo que iluminou, por breves instantes, o rosto de Elizabeth. Depois, levantou o braço e pôs-me o cigarro entre os lábios. Inalei profundamente. — Como é que te sentes? — Ok — respondi. — Queres falar?
— O que é que se pode dizer? A Dani está com um problema e eu vou ter com ela. — Falas como se já esperasses uma coisa destas — disse.  Olhei-a com uma espécie de surpresa. às vezes era espantosa. Mergulhava mesmo dentro de mim e saía-se com pensamentos que eu não queria admitir nem mesmo perante mim próprio. — Eu nunca esperei uma coisa destas — respondi num tom inexpressivo. O cigarro dela brilhou. — O que é que esperavas?  — Não sei. Mas isso também não era inteiramente verdade, Sabia muito bem aquilo que tinha esperado. Que um dia Danielle me telefonasse e me dissesse que queria estar comigo. Não com a mãe. Mas onze anos já tinham feito com que esse sonho parecesse um bocado remoto. — Achas que havia alguma coisa de verdadeiro no que aquele polícia sugeriu? — Não creio — respondi. Fiquei um momento a pensar. — Não, tenho a certeza de que não havia. Se assim fosse, a Nora tê-lo-ia morto. Ela nunca seria capaz de compartilhar uma coisa que achasse que lhe pertencia. Elizabeth ficou silenciosa e eu continuei com os meus pensamentos. Nora era assim. A única coisa importante para ela era conservar aquilo que queria. Lembrava-me daquele último dia no tribunal. Naquela altura, já estava tudo decidido. Ela conseguia o divórcio. Eu estava sem dinheiro, vencido, mal podendo manter-me, enquanto ela tinha tudo o que queria. A única coisa que faltava decidir era quem ficava com Danielle. Fomos para o gabinete do juiz para decidir essa questão. Em principio, devia ser apenas uma formalidade. Já tínhamos acordado que Danielle passaria doze fins-de-semana por ano comigo e metade do verão, no barco em La Jolla. Sentei-me na cadeira em frente do juiz, enquanto o meu advogado explicava o acordo. O juiz acenou com a cabeça e voltou-se para Harris Gordon. — Parece-me um acordo equilibrado, Sr. Gordon. Lembro-me de que nesse momento Danielle, que estava a brincar com uma bola na outra ponta do gabinete, se voltou de repente e gritou: — Agarra, papá!  A bola rolou pelo chão e, no momento em que ajoelhei para a apanhar, ouvi Harris Gordon responder: — Mas a verdade é que não é, Excelência. Fiquei a olhar para ele, ainda com a bola na mão, sem conseguir acreditar. Era um ponto sobre o qual tínhamos acordado na véspera. Olhei para Nora. Os olhos de um azul-violeta pareciam olhar através dos meus. Fiz rolar a bola novamente na direcção de Dani. Harris Gordon continuou: — O argumento da minha cliente é que o coronel Carey não tem quaisquer direitos paternais. — O que é que quer dizer com isso? — gritei, endireitando-me. — Eu sou o pai dela!  Os olhos escuros de Gordon eram imperscrutáveis. — Nunca lhe pareceu estranho que a criança tivesse nascido apenas sete meses depois do seu regresso do Japão? Tentei controlar a fúria. — Tanto a Sra. Carey como o médico dela me garantiram que Dani era prematura. — Para um indivíduo adulto, o senhor foi um bocado ingénuo, coronel Carey. Gordon voltou-se novamente para o juiz. — A Sra. Carey deseja informar o tribunal de que essa criança foi concebida seis a sete semanas antes de o coronel Carey regressar da sua comissão de serviço. Considerando este facto, que ela tem a certeza de que o coronel Carey já há muito tempo admitiu para si próprio, reclama a custódia total da filha. Voltei-me para o meu advogado. — Vai deixá-los levar isto por diante? O meu advogado voltou-se para o juiz.
— Estou profundamente chocado com a acção deles. Vossa Excelência deve compreender que isto é contrário ao acordo que fiz com ele ontem. Vi pela maneira como falou que o juiz também tinha ficado chocado, embora as suas palavras fossem cuidadosamente imparciais. — Lamento muito, mas espero que compreenda que o tribunal não pode impor qualquer acordo que não tenha sido feito na sua presença. Nesse momento, toda a minha fúria irrompeu cá para fora. — Pois então o acordo que vá para o diabo — gritei. — Voltamos ao principio e lutamos pelo que é de direito! O meu advogado agarrou-me pelo braço e olhou para o juiz. — Posso falar um momento com o meu cliente, Excelência? O juiz fez que sim com a cabeça e nós fomos para junto da janela. Ficámos de costas para a sala, a olhar para fora. — Já pensou no que isso significaria? — sussurrou. — Teria de admitir publicamente que a sua mulher o enganou enquanto esteve ausente! — E daí? Toda a cidade sabe que ela andou enrolada com São Francisco em peso, desde Chinatoun ao Presidio! — Pare de pensar só em si, Luke. Pense na sua filha. O que isto há de significar para ela, se vier a lume? A própria mãe a apresentá-la como bastarda? Fiquei a olhar para ele.  — Ela não era capaz.  — Já o fez.  A resposta era irrefutável. Não disse nada. Depois, uma vozinha veio do outro lado da sala. — Apanha, papá!  Quase automaticamente, inclinei-me outra vez para apanhar a bola. Danielle atravessou a sala a correr e atirou-se para os meus braços. Levantei-a no ar. Ria-se, com os olhos pretos, a brilhar. De repente, senti vontade de a apertar muito de encontro ao peito. Nora estava a mentir. Tinha de estar. Fosse como fosse eu sabia, dentro de mim, que Dani era minha filha. Olhei para o outro lado da sala. Para o juiz, para o escrivão, para Harris Gordon, para Nora. Estavam todos a olhar para nós. Todos, excepto Nora, que estava a olhar para um ponto, algures, por cima da minha cabeça. Pus-me a estudar o rostozinho sorridente em frente do meu. Uma sensação de agonia, de derrota cresceu dentro de mim. O advogado tinha razão. Não podia fazer isso. Não podia correr o risco de fazer mal à minha própria filha. — O que é que nós podemos fazer? — murmurei. Vi uma expressão de simpatia nos olhos do meu advogado. — Deixe-me falar com o juiz. Fiquei parado, com Danielle nos braços, enquanto ele se aproximava da mesa. Passados momentos, voltou. — Pode ter quatro fins-de-semana por ano. E duas horas aos domingos à tarde, se vier a São Francisco. Acha bem? — Tenho alguma alternativa? — perguntei amargamente. Sacudiu a cabeça de forma quase imperceptível. — Ok — disse. — Céus, como ela me deve odiar! Com o instinto infalível das crianças, Danielle percebeu do que eu estava a falar. — Não, papá — disse rapidamente. — A mamã gosta muito de ti. Ela gosta de nós dois. Foi ela que me disse. Olhei para o rosto pequenino, tão sério, tão desejoso de ter a certeza. Pestanejei para fazer parar as lágrimas impetuosas, salgadas. — Claro, minha querida — disse, tranqüilizando-a. Nora avançou para nós.
— Vem com a mamã, minha querida — chamou. — São horas de ir para casa. Danielle olhou para ela e depois para mim. Acenei com a cabeça quando Nora lhe estendeu os braços. Pela primeira vez Nora olhou para mim, por cima da cabeça de Danielle. Havia uma curiosa expressão de triunfo nos olhos dela. A mesma expressão de triunfo que lhe tinha visto quando completava uma escultura na qual tinha estado a trabalhar. Qualquer coisa à qual ela se tinha esforçado por dar forma. De repente, compreendi o que Danielle significava para ela. Não era uma criança, era também qualquer coisa que ela tinha feito. Pôs Danielle no chão e, de mãos dadas, encaminharam-se para a porta. Enquanto Nora a abria, Danielle voltou-se para mim. — Vens para casa, papá? Sacudi a cabeça. Tinha os olhos cheios de lágrimas que quase me cegavam, mas consegui responder. — Não, querida, O papá tem de ficar aqui para falar com estes senhores. Vemo-nos depois. — Ok. Adeus, papá. A porta fechou-se atrás delas. Fiquei apenas o tempo necessário para assinar os papéis. Depois, apanhei o comboio para La Jolla, meti-me no barco e embriaguei-me. Precisei de uma semana para ficar novamente sóbrio a ponto de poder aceitar um aluguer. Paguei o meu bilhete, fiz seguir o saco e fomos até ao bar. Apesar da hora, estava cheio, Arranjámos uma mesa pequena e encomendei dois Manhattans. Levei a bebida à boca. Estava boa. Fria e não muito doce. Olhei para Elizabeth. Estava a ficar com um ar cansado. — Sentes-te bem? — perguntei, — Não devia ter-te deixado vir até aqui. Levantou o copo e bebeu alguns golos. — Estou bem — disse, enquanto a cor lhe voltava ao rosto. — Talvez um bocadinho nervosa, mais nada. — Não há razão para isso. — Não é por causa do avião que estou nervosa — disse. — É por causa de ti. Ri-me. — Não te preocupes.  Não sorriu.  — Vais vê-la outra vez. Nessa altura percebi o que queria dizer. Nora tinha uma maneira de me desfazer que era sempre preciso um certo tempo para juntar os pedacinhos todos outra vez. Era nesse estado que me encontrava quando Elizabeth e eu nos conhecemos, havia seis anos. E já lá iam cinco anos que me tinha divorciado. Era mesmo no fim do verão. Danielle tinha oito anos e eu estava de volta de São Francisco, onde a tinha ido entregar à mãe, depois de um dos nossos fins-de-semana pouco freqüentes. Dani tinha corrido para casa e eu tinha ficado cá fora à espera que o mordomo viesse buscar a mala dela. Depois do divórcio, nunca mais entrei em casa. A porta abriu-se, mas não era o mordomo. Era Nora. Ficámos um momento a olhar um para o outro. Não havia qualquer expressão nos olhos frios de Nora. — Quero falar contigo.  — Sobre o quê? — perguntei.  Nora nunca perdia tempo.  — Resolvi que a Dani nunca mais te vai visitar.  Preparei-me para a luta. — Por quê? — Ela já não é nenhuma criança — disse Nora. — Vê as coisas. — Como, por exemplo? — Como, por exemplo, a maneira como vives naquele barco imundo. As mulheres mexicanas que aparecem por lá; as disputas de bêbados. Não quero expô-la a esse tipo de vida.
— Só não sei como te atreves a falar. Suponho que achas melhor à tua maneira? Com lençóis lavados e martinis? — Tu lá sabes. Parecia até que gostavas bastante.  Os pensamentos loucos que nos assaltam o espírito. A fascinação daquilo que se sabe ser o mal. Ela conhecia-me bem. Sabia do que estava a falar. Lutei contra as recordações, para as impedir de se erguerem diante dos meus olhos. — Hei-de falar nisso ao meu advogado — respondi. — Sim, fala... se conseguires arranjar um advogado que te dê ouvidos. Estás falido e sujo e, se fores a tribunal, tenho o depoimento de um detective particular sobre a maneira como vives. Não consegues nada. Voltou-se e fechou-me a porta na cara. Fiquei um momento a olhar, depois desci os degraus que me separavam do meu velho calhambeque. Só cheguei a casa bastante tarde, no dia seguinte e quando entrei no barco já levava meia caixa de uísque. Dois dias depois ouvi uma pancada na porta da cabina. Fiz por me levantar do meu beliche e fui a cambalear até à porta. Abri-a para trás e, por momentos, senti o choque da dor que me ia dos globos oculares, através do nervo óptico, até ao cérebro. O céu azul forte, o sol quente, o vestido branco e o cabelo, louro como o sol, da rapariga ali à minha frente. Fiquei um momento a pestanejar, para cortar a intensidade da luz. A rapariga falou, numa voz sonora e quente, — Disseram-me na loja onde vendia o disco que faz serviços de aluguer. — Continuei a pestanejar. Era demasiada luz para o uísque. — Você é que é o comandante? — perguntou.  A dor começava a abrandar. Olhei-a com os olhos semicerrados. Era tão agradável de ver como de ouvir. Olhos azuis, queimada, boca rasgada e generosa, rosto aberto. — Sou a tripulação toda. Entre e venha tomar uma bebida.  A mão que agarrou a minha quando desceu os degraus estreitos era forte e mostrava firmeza. Olhou curiosa em volta da cabina. Não havia muito que ver. Garrafas de uísque vazias e beliches desfeitos. Não disse nada. — Desculpe a desarrumação — disse. — Mas quando não tenho alugueres, bebo. Um leve sorriso pregueou-lhe os olhos. — O meu pai fazia o mesmo.  Olhei para ela. — O seu pai também fazia alugueres?  Sacudiu a cabeça. — Era comandante de um rebocador no East River, em Nova Iorque. E, nos intervalos, chegava—lhe bem — Eu não bebo quando estou a trabalhar — disse. — Ele também não. Era o melhor comandante de rebocadores de Nova Iorque. Empurrei parte daquela trapalhada para fora da mesa e fui buscar dois copos lavados. Peguei na garrafa de bourbon. — Tenho água. Não tenho gelo. — Isso é um bom uísque. É uma pena dilui-lo. Enchi os copos a meia altura do risco. Ela bebeu como se fosse água. Uma rapariga mesmo a meu gosto. — Agora falemos de negócios — disse pousando o copo. — Cinqüenta dólares por dia. Saída às cinco da manhã, regresso às quatro da tarde. Máximo quatro passageiros. — Qual é o preço por uma semana? Queremos ir até L. A. passamos lá o fim-de-semana e voltamos. — Queremos — perguntei. — Quantas pessoas? — Duas. Eu e o meu patrão. Olhei para ela. — O barco só tem esta cabina. Claro que, se for preciso, posso dormir no convés.
Ela riu-se. — Não vai ser preciso. — Não percebo — respondi. — O tipo tem algum problema? Riu-se outra vez. — Não, não tem nenhum problema. Está com setenta e um anos e trata-me como se fosse filha dele. — Então, para que é o barco? — Ele é construtor;é de Phoenix. Teve uns quantos trabalhos aqui para estes lados e lá para o pé de L. A. Como já há muito tempo não vê senão areia, pensou que talvez não fosse má ideia ir apanhar um pouco de ar do mar e pescar um bocado. — Não vai conseguir pescar grande coisa, não é a altura indicada. O peixe agora foi todo para os lados do México. — Ele também não se importa. — Todas as refeições incluídas? — perguntei. — Com excepção do fim-de-semana. — Quinhentos é demais? — Talvez quatrocentos. — Está feito — disse. Pus-me de pé. — Quando é que quer sair? — Amanhã de manhã. Está bem às oito? Quer que deixe sinal?  Sorri-lhe. — Tem cara de pessoa honesta, Miss... — Andersen — disse — Elizabeth Andersen. A rapariga pôs-se de pé. Um barco que passou fez o convés abanar debaixo dos nossos pés. Estendeu a mão para se segurar e pôs-se a subir os degraus da cabina. Gritei-lhe: — A propósito, Miss Andersen, que dia é hoje? Riu-se. Um riso quente e amigável. — Tal e qual como o meu pai. Era sempre a primeira coisa que perguntava depois de apanhar uma. É quarta-feira. — Claro — disse.  Fiquei a vê-la caminhar ao longo do cais até ao sítio onde tinha deixado o carro estacionado. Voltou-se, acenou-me, e depois meteu-se no carro e foi-se embora. Eu voltei para a cabina e comecei a limpar tudo. Foi assim que a conheci. Só nos casámos passado quase um ano. — O que é que te faz sorrir? — perguntou Elizabeth.  Voltei ao presente, com um ligeiro sobressalto e, estendendo o braço por cima da mesa, pus a mão em cima da dela. — Estava a pensar em como tu eras quando te conheci — disse. — Uma deusa loura, moldada em marfim e ouro. Riu-se e pôs-se novamente a beber o seu Manhattan. — Agora não me pareço lá muito com uma deusa loura. Fiz sinal ao criado para que trouxesse mais duas bebidas. — Ainda tenho tempo. O rosto dela ficou, de repente, muito sério. — Não estás arrependido de teres casado comigo, pois não?  Sacudi a cabeça. — Não sejas pateta! Porque é que havia de estar? — Não me consideras culpada daquilo que aconteceu? Estou a falar daquilo que aconteceu à Dani. — Não te considero culpada — respondi. — Não havia nada que eu pudesse ter feito para o impedir. Sei-o agora. — Costumavas pensar de outra forma.
— Era um disparate — disse. — Estava a servir-me da Dani como de uma muleta. O criado veio e pôs as bebidas em cima da mesa. Quando se está à espera de um avião parece que o tempo não passa. Provavelmente é porque se tem a sensação de que tudo se devia mover mais depressa, como os aviões que andam a novecentos quilómetros por hora. No entanto, estamos com os pés em terra firme e nada parece mover-se a não ser o desejo que temos dentro de nós de nos pormos a caminho, de chegarmos a outro sítio.
 
De manhã não me sentira assim, ou antes, ontem de manhã o vento soprava quente, vindo do lago, quando sai do carro no local onde estávamos a construir. A última casa daquele conjunto devia ficar de pé naquele dia e eu tinha a certeza de que íamos ter a aprovação para começar o grupo seguinte. Se o tempo continuasse como estava, conseguiríamos pôr de pé o conjunto seguinte antes de chegar o mau tempo. Dessa maneira o trabalho de interiores poderia ser terminado durante o inverno. Fui até à Roullote que nos servia de escritório e verifiquei as folhas de obra. Estava tudo dentro dos prazos. Este trabalho devia levar-me até dezembro. Nessa altura, já o bebé teria idade para ir para o sul. Davis ia começar um projecto novo mesmo à saída de Daytona e havia boas hipóteses de eu conseguir o lugar de supervisor. A verdade é que eu não era um arquitecto como a Nora sempre tinha pensado que deveria ser. Com um gabinete e secretárias e clientes que me vinham importunar para saber se deviam escolher um material dourado para os lava-louças da cozinha e telefones cor-de-rosa para as casas de banho. Em vez disso, usava camisas de trabalho e calças Levis; andava metido na lama durante todo o dia e construía casas para dez, doze, quinze mil. Nada de muito elaborado, mas boas para o preço. E casas para as pessoas viverem. As pessoas que precisavam delas. Não para os neuróticos, cuja única razão para construírem uma casa era fazer vista aos olhos dos amigos. Sentia-me bastante bem. E útil, também. Estava a fazer alguma coisa. Uma coisa que eu queria fazer. Aquilo para que tinha frequentado a escola, a escola de arquitectos. Aquilo que tinha planeado antes de ir para a guerra.  Preparava-me para começar a minha primeira volta de inspecção da manhã, quando Sam Brady entrou na roulotte. Sam era o construtor, o patrão. Sorri-lhe. — Vem mesmo a tempo para os ver pôr de pé a última casa deste grupo. Não me retribuiu o sorriso. Comecei a sentir que havia qualquer coisa que não estava a correr bem. — Ei, o que é que há? Não arranjou o dinheiro para a fase seguinte? — Sim, já tenho o dinheiro. — Então, alegre-se. Vamos pôr tudo de pé antes que comece a nevar. Na primavera que vem você vai andar por aí com notas de mil a caírem-lhe dos bolsos. — Não é isso, Luke — disse. — Lamento muito, mas tenho de te pôr a andar. — Você está doido! — disse, ainda sem acreditar. — Quem é que lhe vai construir as casas? — A firma que faz hipotecas tem um homem. — Olhou para mim. — Passou a fazer parte do acordo, Luke. Sem o homem também não havia dinheiro. — Retirou um cigarro do bolso e acendeu-o desajeitadamente. — Lamento muito, Luke. — Lamenta? — disse, acendendo também um cigarro. — Essa é boa. E eu? O que é que julga que eu sinto? — Já ouviu alguma coisa acerca daquela obra de Davis? Sacudi a cabeça.  — Nem uma palavra.  — Mas vai ouvir.  Levei o cigarro à boca em silêncio.  — É só uma questão de tempo, posso metê-lo numa das equipas. — Não, muito obrigado — respondi. — Você sabe muito bem que isso não é possível, Sam.
Fez que sim com a cabeça. Ele sabia. Se me pusesse de novo a trabalhar numa das equipas, nenhum construtor do país me voltaria a dar um lugar de encarregado. As coisas sabem-se depressa. Soltei uma lufada de fumo e esmaguei a beata num cinzeiro. — Acabo o dia de trabalho e depois venho receber o que tiver a receber. — O homem já vem esta tarde. Percebi o que estava a querer dizer. — Nesse caso, vou-me embora à hora do almoço. Fez que sim com a cabeça, deu-me o sobrescrito com o meu dinheiro e saiu. Fiquei um momento a vê-lo afastar-se e depois comecei a retirar as minhas coisas da secretária velhíssima. Não fui direito para casa. Em vez disso, entrei num bar e fiquei a ver os Reds perderem a série. Evitei o uísque e fiquei com a cerveja de quinze cêntimos. Maris marcou um golo à distância, no momento em que eu voltava da minha quinta excursão à casa de banho. Vi uma imagem do director do Cincinnati, a olhar tristemente para o campo depois da proeza de Maris. O empregado do bar limpou o balcão à minha frente. — Só sabem perder — disse, olhando por cima do ombro para a televisão. — Nasceram para perder, é o que é. Bem podiam desistir já. Pus uns trocos em cima do balcão e saí. Não valia a pena continuar a adiar. Mais tarde ou mais cedo, ia ter de dizer à Elizabeth. Na realidade, foi mais fácil do que tinha pensado. Acho que ela percebeu logo qualquer coisa assim que eu entrei em casa mais cedo. Não fez qualquer comentário quando lhe contei, limitou-se a ir meter no forno o assado que tinha estado a preparar. Fiquei parado, à espera que dissesse alguma coisa, nem sei o quê. Qualquer coisa. Talvez que ficasse zangada. Mas não, agiu apenas como mulher. — É melhor ires lá dentro lavar-te — disse. Preparava-me para mandar vir mais uma rodada, quando dei com Elizabeth a olhar para mim. Mudei para café. Sorriu. — Aí está outra coisa com que não precisas de te enervar — disse-lhe.  — Não é altura de te meteres na bebida. Precisas de estar com o espírito bem claro, se queres ajudar a Dani. — Não sei lá muito bem o que é que posso fazer. — Deve haver alguma coisa — respondeu — ou o Gordon não te dizia que fosses. — Sim, acho que sim — disse. O lugar dos pais na nossa sociedade. O velho tinha de servir para alguma coisa. Nem que fosse para representar o papel de tipo decente na televisão. Sentia-me inquieto. Os ponteiros do grande relógio de parede marcavam um quarto para as duas. Não queria estar parado. — E se fôssemos até lá fora apanhar um bocado de ar? Elizabeth fez que sim com a cabeça; peguei na conta e paguei à saída. Chegámos à varanda no momento em que um enorme jacto se aproximava a roncar pronto para a aterragem. Vi-lhe o enorme A duplo, de lado, quando passou a rolar antes de parar completamente. O altifalante, por cima das nossas cabeças, ressoou: — American Airlines, voo 42, chegada de Nova Iorque na Porta n° 4. — Deve ser o meu avião — disse. Esbelto, reluzente, enorme. Quatro enormes motores equilibravam-se precariamente nas asas levemente recuadas. Enquanto o observávamos, as portas abriram-se e os passageiros começaram a desembarcar. — Pela primeira vez, começo a sentir-me só — disse Elizabeth, de repente. Olhei-a e o rosto dela pareceu-me pálido sob o branco-azulado da luz fluorescente que vinha do campo. Peguei-lhe na mão. Estava fria. — Não sou obrigado a ir. — Tens de ir e tu sabe-lo. — Os olhos dela estavam sombrios. — Segundo a Nora, não — respondi. — Há onze anos ela disse-me que eu não tinha quaisquer direitos sobre a Dani.
— E tu estás convencido disso? Não respondi. Puxei de um cigarro e acendi-o. Mas ela não desistia assim tão facilmente. — Estás mesmo? — respondeu, com uma aspereza curiosa na voz. — Não — respondi, com os olhos postos no campo. Estavam a descarregar a bagagem. — Não sei em que é que hei-de acreditar. Dentro de mim sinto que ela é minha filha. Mas, às vezes, gostava de conseguir acreditar que foi como a Nora diz. Tudo seria muito mais fácil. — Achas que sim, Luke? — perguntou com suavidade. — será que isso faria apagar os anos que viveste com a Dani; os anos em que ela te pertenceu, mais do que a qualquer outra pessoa, até mesmo à própria mãe? Senti, de novo, apertar-se-me a garganta. — Deixa-te disso! — disse com voz rouca. — mesmo que eu seja o pai dela, para que é que isso lhe serviu? Não pude tomar conta dela; não pude mantê-la. Não pude sequer protegê-la da mãe! — Mas podias amá-la. E isso não deixaste de o fazer. — Sim, amei-a — disse com amargura. — E serviu de muito e como lhe sirvo de muito agora. Sempre sem um centavo, a gastar os últimos tostões. — Sentia na garganta um sabor amargo. — Não devia ter deixado a Nora ficar com ela! — E o que é que podias ter feito? — Ter fugido com ela — respondi. — Não sei. Qualquer coisa — Tentaste isso uma vez. — Eu sei — disse. — Mas estava teso e fui um cobarde. Pensava que era preciso dinheiro, quando a única coisa de que Dani realmente precisava era de amor. Voltei-me para olhar para ela.  — A Nora nunca lhe teve amor. Amor de verdade, é o que eu quero dizer. A Nora tinha o trabalho dela e a Dani andava por ali, quando não incomodava. Porque sei, se por alguma razão não lhe convinha, despachava-a para a avó ou então era eu que a levava para o barco. E queres saber o cúmulo no meio de tudo isto? Fez que sim com a cabeça. — A Dani ficava sempre tão contente quando via a mãe — continuei. — Estava sempre a tentar ser-lhe agradável. E a Nora dava-lhe uma palmadinha na cabeça, distraidamente, e continuava com o que estava a fazer. Eu via a criança voltar para mim, com uma expressão de tristeza no rosto, por baixo do riso infantil e mal podia conter as lágrimas. Havia um brilho comovido nos olhos de Elizabeth. Senti-a aconchegar-se a mim. — Tu eras o pai dela — murmurou suavemente. — Não podias ser, ao mesmo tempo, a mãe. Por mais que tentasses. O altifalante por cima das nossas cabeças ressoou de novo: — American Airlines, voo Astrojet 42, para Denvor e São Francisco, embarque na porta n° 24. Esfreguei o pescoço. De repente, senti-me cansado. — É para nós — disse. — Também me parece, papá. Olheia surpreendido. Era a primeira vez que me tratava assim. Sorriu. — Tens de te habituar outra vez. — Não vai ser difícil. Encaminhámo-nos novamente para o interior. — Mandas-me dizer quando chegares? — Telefono-te com pré-aviso, de São Francisco. Ponho a chamada em meu nome. Se não tiveres nada a dizer, responde que eu não estou. Assim, poupamos o dinheiro de uma chamada. — O que é que eu posso ter para te dizer? Pus-lhe a mão no ventre. Riu-se. — Não te preocupes, não vou ter o bebé enquanto não voltares. — Prometes? — Prometo.
Não havia muita gente junto à porta n° 24 quando lá chegámos. A maior parte dos passageiros já tinha embarcado. Beijei Elizabeth e dei o meu bilhete ao empregado. O homem olhou para o bilhete, carimbou-o, separou a parte de cima e devolveu-mo. — Faça favor de ir em frente, Sr. Carey. Em Denvor não saí do avião para estender as pernas, conforme a hospedeira sugeriu. Em vez disso, fiquei sentado na sala e bebi uma chávena de café a bordo. Era um café simples, bem que eu sentia-lhe o calor escorrer dentro de mim e descontrair-me os músculos das entranhas. Seis anos. Era muito tempo. Muitas coisas podiam acontecer em seis anos. Uma criança podia tornar-se adulta. Agora já ela podia ser uma mulherzinha. De sapato saltos e saias de roda. Pálida, quase sem cor, de batom e com sombra verde ou azul nos olhos e aquele cabelo tão engraçado, todo apanhado no alto da cabeça, como uma alcachofra, que a faria parecer ainda mais alta. Devia parecer muito madura, até que lhe olhassem para a cara, poisessa altura, percebia-se bem como ainda era jovem. Seis anos é muito tempo para estar longe de casa. A criança que lá se deixou pode crescer e tornar-se muitas coisas que uma pessoa nunca desejou para ela. Como a mãe. Seis anos e uma filha pode crescer e matar? Ouvi a porta da cabina fechar-se e as luzes acenderam-se. Esmaguei o cigarro no cinzeiro e apertei o cinto. A hospedeira veio de novo junto de mim e abanou a cabeça com ar de aprovação, depois foi verificar o resto dos passageiros. Olhei para o relógio. Eram quatro e trinta, hora de Chicago. Atrasei o relógio duas horas. Agora eram duas e meia, hora da costa do Pacífico. Sorri para comigo mesmo. Era tão fácil. Bastava atrasar o relógio e tinham-se aquelas duas horas para voltar a viver. Perguntei a mim mesmo qual a razão, se era assim tão fácil, por que ninguém inventava uma máquina que fizesse a mesma coisa em relação aos anos. Podia fazer recuar o relógio seis anos e Danielle não estaria onde estava naquele momento. Não, falo-ia recuar quase quinze anos e voltaríamos à noite em que ela nasceu. Lembra-me das horas passadas no hospital. Era mais ou menos a mesma hora que agora e Nora acabara de descer da sala de partos. — Não fique muito tempo — disse o médico quando me dirigi para o quarto. — Ela está muito cansada. — Quando é que posso ver o bebé? — Daqui a dez minutos. Bata na janela do berçário. A enfermeira mostra-lho. Saí novamente para o corredor e fechei a porta atrás de mim. — Vou primeiro ver o bebé. A Nora vai querer saber como é que ela é. Se não for capaz de lhe dizer, vai ficar zangada. O médico olhou-me, intrigado, depois encolheu os ombros. Só passado muito tempo é que vim a saber que, na sala de partos, Nora nem sequer tinha querido olhar para a criança. Quando a enfermeira enredou o estore e levantou a minha filha nos braços, estremeci. Com o rostozinho contraído e vermelho, o cabelo preto o luzidio e os deditos apertados em dois pequenos punhos irados... estremeci. Qualquer coisa dentro de mim começou a doer-me e senti toda a dor de nascer, todo o choque que aquele corpo pequenino conhecera nas últimas horas. Olhei para ela e soube, mesmo antes de ela abrir os olhos e depois a boca, aquilo que ia fazer. Estávamos sincronizados, estávamos no mesmo comprimento de onda, estávamos como que amarrados um ao outro; ela era minha o eu era dela. Estávamos juntos e pertencíamos um ao outro, E as lágrimas encheram-me os olhos, pelas lágrimas que ela não podia chorar. Depois a enfermeira deixou cair o estore e, de repente, fiquei sozinho. Sozinho como se estivesse à beira do mar e uma onda de noite escura se abatesse sobre mim. Pestanejei e encontrei-me de novo no corredor do hospital. Bati suavemente à porta de Nora. Uma enfermeira veio abrir. — Posso vê-la agora? — murmurei. — Sou o marido.
Com aquele ar especial de tolerância que as enfermeiras parecem ter de reserva para os pais, ela fez que sim com a cabeça e desviou-se para o lado. — Não se demore muito. Aproximei-me da cama. Nora parecia estar a dormir, com os cabelos negros espalhados na almofada branca. Achei-a pálida e cansada e ainda mais frágil e perdida do que eu alguma vez imaginara que pudesse ficar. Inclinei-me e beijei-a suavemente na fronte. Não abriu os olhos, mas mexeu os lábios. — Erguer os remos. A Marinha Livre Francesa não fala em morte. Olhei para a enfermeira que estava do outro lado da cama e sorri. Pus a minha mão sobre a de Nora, que estava pousada em cima do lençol e apertei-lha levemente. — A Marinha Livre Francesa não fala em morte. Agora era a enfermeira que sorria. — É o Pentotal, Sr. Carey — disse. — às vezes fá-las dizer coisas tão engraçadas. Fiz que sim com a cabeça e apertei novamente a mão de Nora. Uma estranha expressão de medo atravessou o rosto dela. — Não me faças mal, John — murmurou, com voz rouca. — Faço tudo o que tu quiseres! Prometo. Mas não me faças mal! — Nora! — disse rapidamente. — Nora! Sou eu, o Luke. De repente, abriu os olhos. — Luke! — a vaga sombra de medo desapareceu. — Estava a ter um sonho terrível. Passei o braço em volta dela. Nora estava sempre a ter sonhos terríveis. — Está tudo bem, Nora — murmurei. — Está tudo bem. — Sonhei que me estavam a partir as mãos! Eu não podia suportar uma coisa dessas. Tu sabes que não podia. As minhas mãos, não. Sem elas eu não era nada! — Foi só um sonho — disse-lhe. — Foi só um sonho. Levantou as mãos e pôs-se a olhar para elas. Compridas, esguias e graciosas. Depois olhou para mim e sorriu. — Não achas que sou pateta? Claro que não têm nada.  Fechou os olhos e adormeceu de novo. — Nora — murmurei. — Não queres que te fale do bebé? É uma menina, maravilhosa, linda. Parece-se contigo. Mas Nora nem se mexeu. Estava a dormir. Olhei para a enfermeira. Não devia ser assim. Nos livros era de outra maneira. Acho que a enfermeira deve ter notado o meu ar de espanto, porque se pôs a sorrir com simpatia. — É o efeito da droga.  — Claro — respondi. E saí para o corredor. 
 
Olhei através da janela do avião. Pareceu-me ver a aura luminosa da cidade, ao longe, à frente do avião. São Francisco. Não bastaria fazer que o relógio recuasse quinze anos. Isso não teria feito parar coisa alguma. Vinte anos seria melhor. 1942. Verão. E o P-38 meio destroçado que eu conduzia, lançou-se a gritar pelo vento abaixo quando mergulhei em direcção às chaminés do navio de guerra japonês, preto e cinzento. E então senti um desejo repentino e estranho. Um desejo de largar as bombas e não puxar a alavanca a seguir; ir atrás delas até às chaminés do navio de guerra e morrer com ele no mar gelado. Assim já não haveria Medalha de Voo, nem Estrela de Prata, nem Coração de Púrpura. Talvez houvesse um C. M. H. como tinham dado ao Colin Kelly, que tinha feito a mesma coisa havia pouco tempo. Não teria havido hospital, nem a marcha do herói, nem desfiles, nem publicidade. Porque, nessa altura, eu também já não existiria e não iria agora a caminho de São Francisco, tal como nesse tempo fui a caminho de São Francisco. Pois estaria morto e nunca teria conhecido Nora e Danielle nunca teria nascido.
Quase vinte anos. E talvez mesmo isso não tivesse sido suficiente. Era tão novo nessa altura. Estava cansado. Fechei os olhos um momento. Por favor, meu Deus, dá-me o tempo de volta.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SEGUNDA PARTE
 
À Parte do Livro Acerca de NORA
 
 É banal, mas é verdade. O tempo ajuda a perspectivar. Quando se é apanhado pelas emoções do presente, a verdade é que não se consegue ver, ficamos como folhas impelidas pelos ventos de outono, agitados pelos demónios que se apossam de nós. O tempo enfraquece e, por vezes, mata os demónios do amor deixando apenas o mais ténue fio de uma lembrança, que nos permite espreitar o passado pelo buraco da fechadura e ver muita coisa que não víamos antes. Olhei através da janela quando o avião descreveu um circulo largo por cima da cidade para entrar na pista de aterragem. Vi as luzes da cidade e a enfiada de pérolas que eram as suas pontes e, de repente, compreendi que a dor e o medo que sentira ao pensar em voltar tinham deixado de existir. Jaziam mortos no passado, com os outros demónios que me tinham possuído. Naquele momento compreendi porque é que a Elizabeth tinha insistido em que eu viesse e senti-me grato para com ela. Tinha escolhido este meio para exorcizar os meus demónios, de forma a poder mais uma vez ser senhor de mim mesmo, livre das minhas culpas e torturas. Os repórteres estavam lá, com as suas máquinas, mas estavam tão cansados como eu, àquela hora da madrugada. Passados alguns minutos deixaram-me ir embora. Prometi-lhes um depoimento completo, naquele mesmo dia, mas mais tarde. Fui à Herz, aluguei o carro mais barato que tinham e depois encaminhei-me para a cidade, para um novo motel que tinham construído em An Ness, mesmo em frente do Tommys Joynt. O quarto era pequeno, mas confortável, dentro daquele estilo antiséptico comum nos motéis. Peguei no telefone e liguei para Elizabeth. Quando ouvi a voz dela, saindo quente da nossa cama, dizer à telefonista que eu não estava em casa, tive vontade de lhe agradecer. Mas a ligação foi interrompida antes que tivesse tempo de dizer o que quer que fosse. A luz da manhã começava a espreitar à janela. Aproximei-me e olhei para fora. A norte, na direcção das montanhas, por entre a neblina cinzenta, via a torre de Mark Hopkins erguer-se no céu. Tentei ver mais além, uns quantos quarteirões para oeste, uma fachada branca conhecida e um telhado de pedra «lipes» italiana. A casa onde eu tinha vivido. A casa onde, naquele preciso momento, Nora estava provavelmente a dormir. A dormir, naquele mundo especial, muito dela, cheio de sonhos estranhos. Vindo de longe, de entre os nevoeiros do sono entorpecido, o telefone tocava. Nora ouviu-o e não o ouviu. Não queria ouvi-lo. Enterrou mais a cara na almofada e com as mãos apertou-a de encontro aos ouvidos. Mas, mesmo assim, o telefone continuava a tocar. — Rick! Atende! — E esse pensamento fê-la acordar. É que Rick tinha morrido. Rolou na cama e olhou o aparelho com ar maléfico. Agora o toque vinha de longe e ela apenas ouvia o som do carrilhão suave que tinha instalado na extensão do quarto. Continuou a não fazer qualquer movimento para atender. Passados momentos, o carrilhão calou-se e a casa ficou de novo em silêncio. Sentou-se e pegou num cigarro. O sedativo que o médico lhe dera na noite anterior ainda a fazia sentir um bater surdo dentro da cabeça. Acendeu o cigarro e inalou profundamente o fumo. Ouviu-se um estalido quando o intercomunicador foi ligado, trazendo-lhe a voz do mordomo. — Está acordada, Miss Hayden? — Sim — respondeu, sem se mexer da cama. — A sua mãe, está ao telefone. — Diz-lhe que ligo para ela daqui a uns minutos, Charles. E traz-me algumas aspirinas e um café. — Sim, senhora.  Ouviu-se um estalido quando o intercomunicador foi desligado. Passados momentos, voltaram a ligá-lo. — Hayden? — Sim? — A sua mãe diz que é muito importante; precisa de falar imediatamente com Miss Hayden.
— Oh, está bem — disse com mau modo. Estendeu a mão para o telefone. — E despacha-te com a aspirina e o café, Charles. Tenho uma dor de cabeça horrível. — Depois, disse para o telefone: — Está, mãe? — Nora, estás acordada? — A voz da mãe era viva e penetrante. — Agora, estou — disse numa voz cheia de ressentimento.  Não percebia como é que a mãe conseguia. Já tinha passado bastante dos setenta e a voz dela era como se estivesse acordada havia muitas horas. — São seis e meia, Nora. Estávamos a contar contigo às sete. O Sr. Gordon já está aqui. — O Luke já chegou? — Não. Mas vem. — Fala com uma certeza... — disse Nora. — Como é que sabe? Ele já disse alguma coisa? — Não. — Se calhar não veio. — Ele aparece — disse a mãe num tom definitivo. — Ele disse que vinha. — A mãe sempre acreditou mais no Luke do que em mim, não foi? — A voz dela estava cheia de ressentimento. — Isso não tem importância. Tu és minha filha. — E é só isso que conta — acrescentou Nora amargamente. — É verdade — disse a mãe secamente, num tom peremptório. — E se não aprendeste isso até agora, nunca o hás de aprender. Ouviu-se uma pancada leve, depois a porta abriu-se e Charles entrou. Trazia uma pequena bandeja de prata. — O Sr. Gordon quer que vistas um fato muito simples e um casaco de fazenda, Nora. Nada de pinturas, só um batom claro. — O Sr. Gordon pensa em tudo. Charles pousou a bandeja numa mesa pequena ao lado da cama. Encheu uma chávena com café e passou-lha juntamente com três aspirinas num pratinho. — Bem podes agradecer a Deus por o termos connosco — disse a mãe. — Tenho mesmo de ir? Sinto-me tão mal. Tenho uma dor de cabeça terrível... — Nora! — a voz da mãe estava chocada. — O que é que eu posso fazer? Não consigo agüentar outra vez aquelas perguntas todas, esta manhã. E os repórteres também lá hão-de estar... A voz da mãe tornou-se fria e dura. — Esta manhã vais com a tua filha ao Tribunal de Menores. Uma coisa que eu não posso fazer por ti. O pai dela vai lá e tu também lá vais, quer te agrade quer não. Sentiu o parafuso da dor de cabeça apertar-lhe mais as fontes.  — Está bem, eu vou.  Pousou o telefone e pegou nas aspirinas. Colocou as três em cima da língua e empurrou-as para baixo com um golo de café. — E como é que está Miss Danielle? — perguntou Charles suavemente, com um ar inquiridor no rosto redondo e luzidio. Nora levantou os olhos para o mordomo com uma espécie de surpresa. Não tinha perguntado. Mas também não tinha havido, propriamente, uma razão para isso. Se houvesse algum problema com Danielle, a mãe ter-lhe-ia dito. — Está óptima — respondeu automaticamente. — Charles esperou que ela continuasse. — A minha mãe disse que ela estava a dormir — acrescentou, mentindo.  Depois, sentiu-se zangada consigo própria. Não tinha de lhe dar explicações. Charles não passava de um criado. O facto de já estar há muito tempo com ela não queria dizer nada.  — Diz à Violet que me prepare o banho — disse, com aspereza. — Mando-a já para cima, Miss Hayden.
A porta fechou-se atrás dele e Nora acabou a sua chávena de café. Levantou-se da cama e encheu novamente a chávena. Quando se voltou, viu a sua própria imagem no grande espelho que ficava por cima da cómoda. Sempre com a chávena na mão, aproximou-se. Pôs-se a estudar cuidadosamente essa imagem. Não parecia ter trinta e oito anos. Continuava esbelta e bem direita. Não tinha vestígios de gordura nos quadris e os seios, embora nunca tivessem sido grandes, continuavam bem redondos e firmes. Levou a chávena à boca sem tirar os olhos de si própria. Agradava-lhe a maneira como a carne lhe brilhava através da seda branca e transparente e da renda da camisa de noite. Inclinou-se para o espelho, perscrutando o próprio rosto. Havia uns leves círculos azuis sob os olhos, mas para além disso, não havia quaisquer sinais do que tinha passado. Tinha os olhos límpidos, sem vestígios de sangue e a carne que lhe cobria as faces estava esticada e sem o mais leve inchaço. Começava a sentir-se melhor. Não haveria ninguém que a visse hoje que não tivesse dificuldade em acreditar que Danielle era realmente filha dela. Ao lado, na casa de banho, começou a ouvir-se a água a correr para a banheira. Acabou rapidamente o café e, deixando a chávena em cima da cómoda, dirigiu-se para a casa de banho. A criada de cor levantou os olhos da grande banheira de mármore enterrada no chão. — Bom dia, Miss Hayden.  Nora sorriu. — Bom dia, Violet. — A senhora descansou bem, Miss Hayden? — Depois de o Dr. Bonner me ter dado aquele sedativo, não me lembro de mais nada. — Eu também não dormi lá muito bem. Os polícias fizeram-me ficar a pé metade da noite, com perguntas. Nora olhou para ela, curiosa. — O que é que lhes disseste? — O que é que eu havia de lhes dizer? — respondeu Violet, pondo-se de pé. — O mesmo que vi quando entrei no estúdio. — Estendeu a mão para um frasco de sais de banho, que estava na prateleira por cima da banheira e começou a salpicar a água com o perfume. — Quando entrei a senhora estava no chão, inclinada por cima do Sr. Riccio. E a Miss Danielle estava toda encostadinha à parede. — Não quero falar nisso! — disse Nora, friamente. — Cá eu também não. Nunca mais quero nem pensar naquilo. Tapou o frasco e pô-lo de novo na prateleira. O odor forte e almiscarado do perfume começou a espalhar-se no ar, juntamente com o vapor que saía da banheira. — Só uns minutos, já fica cheia. Quer que lhe faça uma fricção? É bom para descontrair. Nora acenou com a cabeça, em silêncio e tirou a camisa de noite por cima da cabeça. Violet pegou rapidamente na camisa, dobrou-a cuidadosamente em cima da cadeira, enquanto Nora se estendia na estreita mesa de massagens. Pousou o queixo em cima dos braços cruzados. Era tão bom estender-se. Estender-se mesmo, até sentir puxar todos os músculos do corpo. Respirou fundo e fechou os olhos. Depois do banho, carregou no botão do intercomunicador. — Charles? — Faz favor, Miss Hayden.  — És capaz de me tirar o carro da garagem? E não te importas de me servir de motorista? Não me sinto capaz de guiar. — Claro, Miss Hayden. Soltou o botão e pôs-se de pé. Ficou a olhar-se no espelho comprido antes de sair do quarto. Harris Gordon sabia o que estava a fazer. Em situações como esta, era tão importante causar a impressão certa. O fato preto que tinha vestido estava perfeito. Dava-lhe um ar esbelto e jovem. E o casaco simples, de fazenda, que tinha por cima do braço, dava o toque final; aquilo a que os amigos que
tinha no mundo da publicidade chamaria de sincero. Estava com aspecto jovem, atraente e digno de confiança. Pegando nas luvas e  na carteira, saiu do quarto.  Os saltos finos e pontiagudos ecoavam com um som oco nos degraus circulares da escada de mármore quando ela desceu para o vestíbulo de entrada. Olhou para fora por uma das janelas que enquadravam a porta. Charles ainda não tinha trazido o carro. Seguindo um instinto que ela própria não entendia lá muito bem, voltou para o corredor estreito que levava ao estúdio. à porta, parou surpreendida. Um jovem polícia estava sentado em frente da entrada. O homem pôs-se de pé, levando a mão ao boné, desajeitadamente. — Bom dia, minha senhora. — Bom dia. Eu sou Miss Hayden. — Eu sei, minha senhora. Estive aqui a noite passada. Ela levantou uma sobrancelha, com um ar de surpresa afectada. — Ficou toda a noite? — perguntou. — Sem descansar? — Sim, minha senhora. — Já tomou o pequeno-almoço? Deve estar com fome.  — Eu estou bem, minha senhora. — O polícia corou, atrapalhado. — Tiveram a amabilidade de me trazer café. — Posso entrar?  Ficou a olhar para ela, atrapalhado. Não respondeu. — Não há problema, garanto-lhe — disse assumindo, de repente, aquele tom patroa-criado que assumia quando a importunavam. — Aliás, aqui é o meu estúdio. — Eu sei, minha senhora. Mas o sargento disse que não queria que mexessem em nada. — Eu não mexo em nada — disse friamente. — Se quiser pode vir ver. O polícia hesitou um momento. — Nesse caso, acho que não há problema. Nora ficou parada, à espera. O jovem polícia olhou para ela e, depois corou ao perceber. Abriu a porta para ela passar. — Obrigada — disse enquanto ele dava um passo para o lado, para a deixar passar. Parou à entrada da porta e olhou em volta. Havia marcas de giz no chão, no sítio onde o corpo de Rick ficara estendido e algumas manchas que pareciam ser de sangue. Sentiu o olhar do polícia a observá-la, levantou a cabeça e encaminhou-se cuidadosamente para a janela, rodeando as marcas de giz. O arco de soldar ainda estava em cima do banco, onde o tinha deixado quando Rick entrara no estúdio. A caixa com as finas tiras de aço estava no chão, ao lado do pequeno pedestal sobre o qual o seu último trabalho começava a tomar forma. Estava ainda apenas no esqueleto, mas havia já algumas tiras de aço esticadas e soldadas no devido lugar, que sugeriam a silhueta final. Fechou momentaneamente os olhos. Sim, ainda lá contava; ainda podia vê-lo depois de completo. Sentiu um estranho e intimo prazer. Mesmo o que se passara na noite anterior não lhe tinha perturbado a visão ou o talento. A força e o conhecimento daquilo que era, daquilo que tinha dentro dela, brotou-lhe quente através do sangue. Não era como os outros. Era diferente. Ninguém conseguia ver o que ela via. Abriu os olhos e olhou para o polícia, com um sorriso especial de satisfação nos lábios. — É lindo — disse. Depois, voltou-se, bruscamente, e saiu do estúdio. Eu estava a murmurar patetices a Dani, o tipo de patetices que um pai às vezes diz e Dani tinha entrado no jogo. Agradava-lhe ser outra vez, por momentos, uma garotinha, mas uma espécie de instinto fez-nos voltar os olhos para a porta. Antes que qualquer de nós se mexesse, Dani saltou da cadeira e, quando chegou junto de Nora, deixara de ser uma garotinha. A transição foi rápida e tão completa, a ponto de ser chocante. Agora era uma mulherzinha.
Olhei em volta da mesa, para ver se os outros tinham notado. Não cheguei a perceber. Harris Gordon tinha um sorriso vago no rosto, como se estivesse a pensar no bom efeito que aquilo teria produzido no tribunal. A minha antiga sogra estava a olhar para mim, com uma expressão pensativa nos olhos vivos, azuis. Depois, também ela se voltou para a porta. Nora tinha os braços em volta de Dani. — Filhinha — dizia suavemente, voltando a cara para Dani para a poder beijar. — Minha pobre filhinha! — Sentes-te bem, mãe? — perguntou Dani cheia de ansiedade. — Estou bem, querida. E tu...? — Sinto-me bem, mãe. Só... só estou um bocado assustada. Tive pesadelos horríveis esta noite. Nora passou-lhe a mão pelos cabelos. — Pronto, pronto, não estejas assustada. A mãe não vai deixar que te aconteça nada. Daqui a uns dias já está tudo acabado. Voltas para casa e é como se nada tivesse acontecido. — Eu sei, mãe. E sabes por quê?  Nora sacudiu a cabeça. Dani veio ter comigo e pegou-me na mão.  — Porque o papá veio ajudar-me — disse com um sorriso cheio de orgulho. — Veio de Chicago! Nora ficou a olhar para nós. Percebi pela expressão dos olhos dela que era como se os seis anos que eu e Dani tínhamos estado separados nunca tivessem acontecido. Percebi pelo calor confiante da mão da minha filha, que entre nós tudo estava como dantes. Éramos tão parecidos que Nora sempre se sentia um tanto posta de lado quando estávamos juntos. — Emagreceste, Luke. — Veio direita a mim, de mão estendida e eu senti todo o ressentimento que havia nela — Obrigada por teres vindo. — Nem com correntes me poderiam ter impedido de vir — disse calmamente.  Peguei-lhe na mão, de forma breve e impessoal. Nada do que costumava ser. Retirou a mão rapidamente e levou-a à testa, naquele gesto que eu recordava tão bem. O aviso da dor de cabeça, como eu lhe chamava. E aquela sombra especial que lhe apareceu nos olhos confirmava-o. — De repente, senti-me velha — disse. — Pareces tão jovem, aí ao lado da Dani. — Tu nunca hás de envelhecer — disse delicadamente. Mas ela olhou para mim e percebeu que não era assim. E percebeu que eu também percebia. A sombra adensou-se e enrugou-lhe a fronte. Abruptamente, voltou-se para a mãe. — Tem aspirina, mãe? Parece-me que estou com aquilo que chamam uma ressaca de sedativo. A mãe fez um gesto. — No aparador, Nora.  Vi-a atravessar em direcção ao aparador e sacudir o pequeno frasco, fazendo cair três comprimidos. Depois pôs um outra vez dentro do frasco e fiquei a saber que já tinha tomado três antes de chegar. Olhou para mim antes de engolir as duas aspirinas e houve de novo entre nós aquela centelha especial de reconhecimento. De repente senti pena dela. Não me perguntem por quê; aconteceu. Às vezes é terrível saber tanto acerca de outro ser humano. Percebi que estava cheia de um medo novo: o inexplicável e que se sentia muito só. Isto era o amanhã. O amanhã vazio dos seus pesadelos secretos. Este era o amanhã que ela tinha dito a si própria que nunca chegaria. E eu era naquele amanhã o mesmo que sempre tinha sido. Antes de ela me comer os olhos.
 
Em setembro de 1943, a guerra em Itália estava quase terminada. MacArthur tinha começado a sua longa marcha de regresso às Filipinas e eu estava em São Francisco, a dar uma volta pelas fábricas e instalações de defesa. Os pilotos tinham decidido que seria a maneira ideal de recuperar as forças antes de voltar ao serviço. Nora preparava a sua primeira exposição com o trabalho que tinha feito nos vinte e um meses que se seguiram à nossa entrada na guerra. O pequeno estúdio que tinha sido anteriormente uma
estufa, nas traseiras da casa da mãe, estava apinhado de gente. Ela olhou em volta, avaliando a situação. Estava satisfeita com o resultado. Até os próprios jornais tinham mandado os seus críticos de arte e estes pareciam impressionados. Não podia deixar de sentir uma intima sensação de orgulho. Era uma compensação para o cansaço das longas noites passadas no estúdio depois de ter trabalhado, durante todo o dia, na fábrica de aviões. A guerra. Era uma loucura aquilo que tinha feito. Mas tinha caído na armadilha, como toda a gente. Apanhada na histeria do patriotismo. Os jornais deram grande relevo à coisa ―Nora Hayden, distinta debutante, filha de uma das principais famílias de São Francisco e uma das jovens artistas mais promissoras da América, põe de lado a sua carreira enquanto durar a guerra.” Tinha-se sentido como uma idiota ao ler aquilo. Mas nos princípios de 1942 nunca tinha pensado que a guerra durasse tanto tempo. Naquela altura já estava farta. Estava saturada de ter de se levantar às seis e meia e fazer vinte e cinco quilómetros de carro para chegar ao trabalho, seis dias por semana; saturada de fazer o mesmo trabalho estúpido, dia após dia. Parar a fita rolante. Soldar o fio número um ao fio número dois. Pôr a fita em movimento para a rapariga da bancada a seguir poder soldar o fio número dois ao número três. Parar a fita rolante para recomeçar tudo de novo. Estava cansada do papel de Rosie, a Revistadora. Tudo aquilo era demasiadamente mecanizado, demasiadamente programado para ela. Até as horas do almoço eram organizadas. Já não bastava ter de comer uma sanduíche horrível, ainda por cima todos os dias, ao meio-dia, juntamente com a sanduíche e o café, que mais parecia lama sem açúcar, ainda tinha de engolir exortações para aumentar a produção. Naquele dia, à hora do almoço, houvera um comício completo, com herói de guerra e tudo. Ela nem tinha saído. Tinha preferido ir até à sala, no andar de cima, e empoleirar-se num banco perto da janela. Acendeu um cigarro e estendeu-se. Fechou os olhos. O silêncio temporário da fábrica era um alívio abençoado. Bem precisava daquele descanso. Na noite anterior só se tinha deitado às quatro da manhã, para ter a certeza de que tudo estaria pronto para a exposição daquela tarde. Do lado de fora, a multidão soltou um brado. Sentou-se e olhou para fora. Um Chevrolet do exército, cor de azeitona e castanho, parou junto ao estrado, mesmo por debaixo da grande bandeira azul e branca da fábrica. A multidão soltou novo brado, no momento em que um homem se levantou do assento de trás e subiu para a plataforma.  O homem, claro, era eu. Não fiz nada, mas o aplauso cresceu a ponto de se tornar embaraçoso. Desesperado, olhei para outro lado. Ainda era suficientemente novato naquilo para me sentir como um idiota. Voltei-me e olhei para cima. Uma rapariga estava à janela, mesmo por cima da entrada do edifício. A princípio o meu olhar não se demorou sobre ela, mas depois, por uma questão de reflexo, premonição, kismet, ou o que lhe quiserem chamar, os meus olhos voltaram-se de novo para ela. Naquela fracção de tempo, os nossos olhares cruzaram-se. Nora afastou-se da janela, furiosa. Era de mais. Não tinha nada a ver com aquilo tudo. Aliás, nunca devia era ter ido trabalhar para ali. Hesitou um momento, depois foi escada abaixo direita à secção de pessoal. Um dia acabaria por se ir embora, por que não naquele mesmo dia, o dia da sua primeira exposição? E agora tudo era diferente. Estava outra vez viva e o mundo acontecia à volta dela. Apanhou o fio da conversa. Sam Corwin, crítico de arte do Examiner, estava a falar com um homem que ela não conhecia. — A montagem é a arte do futuro — dizia. — Em cada dia que passa nesta guerra, descobrimos que a única arte verdadeira é o resultado do acaso. A guerra está a destruir a finalidade confessa do homem e a única coisa que nos vai restar, quando tudo isto acabar, será o resultado do acidente, o acaso. A montagem será a única forma de arte que reflecte a tentativa da natureza para se organizar em qualquer coisa que tenha significado.
Mergulhou de cabeça na conversa. Em todas as ocasiões em que conseguia encontrar-se no campo oposto de uma discussão com Sam, estava sempre pronta. Lembrava-se do tempo em que ela própria se impressionava também com a erudição dele. Ainda não tinha feito dezassete anos e era uma estudante de arte entusiasta, naquela noite em que tinha ido ao apartamento dele para escutar algumas palavras cheias de sabedoria. Tinham acabado por levar para a cama as suas diferenças de opinião, para as resolver. Ainda se lembrava da expressão de susto que vira na cara dele depois, quando lhe tinha dito que era menor. Agora, voltou-se e encarou Sam.  — Discordo, Sam. A arte sem tonalidade não é riscada, Limita-se a exprimir o vazio do artista. Especialmente em escultura. Um trabalho acabado deve ter qualquer coisa a dizer, mesmo que o seu criador seja a única pessoa a poder ouvi-lo.  Sorriu para o homem que não conhecia e pediu desculpa, estendendo-lhe a mão. — Sou Nora Hayden e o Sam, às vezes, faz-me perder a cabeça. O homenzinho de meia-idade com o sorriso agradável apertou-lhe a mão. — Desconfio que o Sam, às vezes, faz isso para arreliar as pessoas. Sinto-me encantado em conhecê-la, Miss Hayden. O meu nome é Warren Bell,  Abriu os olhos, surpreendida. Warren Bell era um dos mais proeminentes professores de Arte do país. — Professor Bell, é uma grande honra. — Voltou-se para Sam com ar acusador. — Devias ternos-dito que o professor Bell vinha à exposição, Sam. — Não ralhe com ele, Miss Hayden. A verdade é que eu próprio não sabia que vinha. Tinha combinado almoçar com o Sam e ele sugeriu-me que viesse com ele. Como tenho ouvido falar muito no seu trabalho, não resisti. — O professor Bell está a pensar fazer uma exposição de escultura americana contemporânea na U. S. C. — disse Sam. — Fiz-lhe notar que nenhuma exposição ficaria completa sem qualquer coisa tua. Portanto, como vês, não te sou tão antagónico como pensas. Nora levantou a mão, parodiando o gesto do vencido. — Sam, tens toda a razão. A montagem é a arte do futuro. — Todos riram. — Vou chamar a Arlene Gately para o acompanhar — disse para o Dr. Bell.  Arlene Gately, que tinha uma pequena galeria no centro da cidade, servia-lhe, ao mesmo tempo, de patrocinadora e de agente — Não é preciso. Para falar a verdade, prefiro dar uma volta por aí sozinho. — Esteja à vontade. — Sorriu. — Se quiser saber alguma coisa, pergunte-me, por favor. O professor inclinou-se, ligeiramente e afastou-se. Nora voltou-se novamente para Sam. — És um reles! — murmurou. — Podias ter-me avisado. — Eu bem quis. Mas todas as vezes que te procurei, estavas com uma data de gente à tua volta. — Tirou um cachimbo da algibeira do casaco e meteu-o na boca. — É verdade que há a hipótese de fazeres uma exposição no Clay Club de Nova Iorque para o mês que vem? Olhou para ele, curiosa. — Como é que soubeste? — Pela Arlene. Quem é que havia de ser? — Às vezes a Arlene fala demais — disse. — Ainda não é certo. — Procurou o professor Bell com o olhar. — Achas que, ele vai escolher alguma coisa? — Quem sabe? Esperemos que sim. Já é tempo de São Francisco nos dar outro grande escultor além do Bufano. — Achas que eu sou grande, Sam? — perguntou, tomando de repente uma expressão muito séria. — Não temos ninguém maior — disse com igual seriedade. — E tenho um pressentimento de que o professor Bell concorda comigo. Nora respirou fundo. — Então vou esperar, com todas as minhas forças. Sam voltou-se para ela e sorriu.
— Se assim for, talvez, para variar, eu não tenha de ouvir um artista defender que a única inspiração verdadeira se encontra no marxismo. Ela riu-se. — Pobre Sam, andas com problemas, não andas? — Como é que sabes? — perguntou secamente. — Ultimamente temo-nos visto pouco. Ela pôs-lhe a mão no braço. — Não é que eu goste menos de ti, Sam. Só que tenho andado um bocado atarefada. Entre a fábrica da força aérea e o estúdio não tenho tido tempo para sair. — Pareces-me um bocado tensa. Do que tu precisas é de um dos meus famosos tratamentos de relaxamento. Olhou-o, pensativa. Nenhum deles era tolo. E favores eram favores. Não queria dizer nada e queria dizer tudo. Era assim o mundo em que viviam. — Já há muito tempo, Sam, não é? — Demasiado — respondeu. — Achas que o médico conseguiria arranjar tempo para mim esta noite? — Acho que ele é capaz de conseguir. As oito, em minha casa? — Lá estarei. Ficou a observá-lo enquanto se aproximava do professor Bell. Tentou ouvir o que estavam a dizer, mas uma mão, pousando-lhe no braço, fê-la voltar. — Que tal, minha querida? — Óptimo, mãe.  — Ainda bem. — Cecelia Hayden sorriu. Não sorria muitas vezes e, quando isso acontecia, acendiam-se-lhe os olhos azuis, muito vivos, sob o cabelo branco, cuidadosamente penteado. — Estava a pensar se terias tempo de me fazer um pequeno favor. — O que é, mãe?  — É por causa de um rapaz, filho de um amigo do teu pai. Esqueci-me da exposição quando o convidei para vir tomar coqueteis esta tarde. Provavelmente vai ficar para jantar. — Oh, mãe! — disse Nora num tom desesperado. — Que má altura! Tenho tanto em que pensar. — Por favor, querida.  Nora olhou para a mãe. Aquelas três palavras não deixavam campo para discussões. Apesar da sua aparência frágil, Cecelia Hayden era dura como uma pedra. — Parece ser um rapaz tão simpático — continuou. — É herói de guerra. Tem apenas três dias antes de voltar ao serviço. Tenho a certeza de que vais gostar dele. Disse ao Charles que o traga aqui logo que chegar. Nora fez que sim com a cabeça e voltou-se, precisamente no momento em que Sam se aproximava dela com ar excitado. — Ele quer O Homem Moribundo. — Essa não! — A voz dela estava cheia de espanto. — Ele gostou.  — Fá-lo desistir — pediu. — Eu nem sequer queria trazer essa peça para a exposição. Só a trouxe porque precisava de uma peça grande para encher aquele canto. Já nem sequer trabalho daquela maneira. — Não tem importância. É essa que ele quer. Nora voltou-se e olhou através da multidão para a grande figura de ferro. Era um homem, meio caído no chão, apoiado num cotovelo e com uma das mãos sobre o coração, ao mesmo tempo que uma expressão de agonia lhe contorcia as feições. Lembrava-se da excitação com que trabalhara naquela peça, mas, de qualquer forma, agora parecia-lhe feia. — Por favor, Sam, convence-o a levar outra coisa qualquer! — Eu não, depois de ele me ter dito que era a primeira vez que via um artista captar o momento exacto da morte numa escultura.
Nora ficou a olhar para ele. — Ele disse mesmo isso? Sam fez que sim com a cabeça. Ela olhou novamente para a estátua, tentando ver nela o mesmo que o professor. — Está bem — disse, por fim. — Óptimo. Vou dizer-lhe que pode ficar com ela. Pelo menos era uma peça grande, pensou para se consolar. E sempre era melhor apresentar uma peça assim numa exposição conjunta do que uma peça mais pequena. As pessoas não podiam deixar de reparar nela. Estava assim parada, com uma expressão pensativa no rosto, quando a mãe me levou até junto dela. A Sra. Hayden tocou-lhe no braço e Nora voltou-se para nós. Levantou o rosto e eu vi que era a rapariga que estava, naquela tarde, à janela da fábrica. Vi os olhos dilatarem-se-lhe de espanto numa expressão de surpresa curiosa e compreendi que também ela me tinha reconhecido. — Nora, este é o major Luke Carey. Major Carey, a minha filha Nora. As guerras são as pedras de amolar de que o homem se serve para aguçar os seus apetites. Olhei para ela e percebi que estava perdido. Há raparigas que são putas, outras são senhoras e uma vez para cada homem há uma que é ambas as coisas. Compreendi isso logo que lhe toquei na mão. Os olhos azul-escuros eram quase violeta, escondidos pelas pestanas compridas e pesadas e o cabelo negro e espesso estava puxado para cima, deixando a fronte livre. A pele creme e transparente, esticada sobre os malares proeminentes, e a figura esbelta, de seios pequenos, quase fazendo pensar num rapaz, levava-nos a errar todas as contas. Mas, para mim, estava tudo certo. Este era o fim último. A vida e, a morte. Por dentro e por fora. A mãe dela afastou-se um bocado e eu continuava a segurar-lhe na mão. Tinha uma voz baixa e aquele tom de afectação cuidadosamente cultivado, comum nas raparigas que frequentam as boas escolas do Leste. — Para onde é que está a olhar, major Carey? Soltei-lhe rapidamente a mão. Era como se tivesse perdido o contacto com uma forma especial de realidade, como se batesse com a cabeça de encontro a uma parede porque, quando parava, a sensação era tão agradável. — Desculpe — disse. — Não era minha intenção ficar embasbacado. — Como é que descobriu onde me podia encontrar? — Não descobri. Foi apenas um feliz acaso. — Tem assim sempre tanta sorte? Abanei a cabeça. — Nem sempre. Vi os olhos dela percorrerem-me as fitas que trazia no blusão. Sabia o que ela estava a ver. Além do Purble Heart e do Cluster, havia cores suficientes para alegrar uma pequena árvore de Natal. — Pelo menos, está vivo. Fiz que sim com a cabeça. — Acho que não tenho de que me queixar. Até aqui, já eu cheguei. — E não acredita que consiga chegar até ao fim? Era mais uma afirmação do que uma pergunta. Ri-me. Esta rapariga não gostava de perder tempo; ia direita ao fim. — Já por duas vezes tive sorte — disse. — Ninguém tem sorte três vezes. — Tem medo de morrer? — Constantemente.  Olhou outra vez para as fitas. — Tenho a certeza de que, se lhes dissesse, não o mandavam para lá outra vez. — É natural que não — disse. — Mas eu não fazia isso. — Porque não? — Acho que ainda tenho mais medo de fugir cobardemente do que de morrer. — Não pode ser só por isso. Começava a sentir-me desconfortável. Ela não parava de insistir.
— Talvez não seja — admiti. — Talvez seja porque a morte é como uma mulher que se anda a perseguir há muito tempo. Queremos saber se é tão má ou tão boa quanto pensamos que deve ser. — É só nisso que pensa? — perguntou. — Na morte? — Há já quase dois anos que não tenho tempo para pensar em mais nada.  Olhei em direcção à estátua que tinha visto ao entrar ―O Homem Moribundo‖. Senti que o olhar dela seguia o meu. — Sou como aquele homem da estátua. Em todos os momentos que vivo. Vi-a estudar a estátua durante alguns instantes, depois, pegou-me outra vez na mão. Senti-a estremecer. — Não pretendi dar às minhas palavras um sentido assim tão horrível. — Não me peça desculpa — disse a rapariga rapidamente. Tinha agora os olhos escuros, de um púrpura quase negro como os pesados cachos de uvas das vinhas perto de Sacramento. — Percebo exactamente aquilo que quer dizer. — Acredito. — Sorri e depois desviei o olhar. Tinha de ser.  — Sabe uma coisa — disse — quando soube da festança, pensei logo que ia ser uma grande maçada. Mais uma menina de sociedade armada em artista. — Agora já me sentia capaz de a encarar outra vez. — Mas tenho cá um pressentimento de que você é mesmo boa. — Ela ainda é melhor do que isso, Luke. — A voz familiar veio de trás de mim. — É mesmo muito boa. Voltei-me. Havia mais de três anos que não ouvia aquela voz. — Professor Bell! — Ao apertar-me a mão, parecia excitado e satisfeito. — O Luke foi um dos meus rapazes aqui há uns anos — disse para Nora. — Formou-se em Arquitectura. — Construção. — Sorri lembrando-me da nossa velha discussão. — A arquitectura é para os pardais, a construção é para as pessoas. — Sempre o mesmo Luke.  Olhou-me para a cara e vi-lhe o choque nos olhos. Já antes tinha visto aquela expressão nos olhos de velhos amigos meus. O minúsculo emaranhado de cicatrizes de metralha visível na minha pele curtida e acobreada de certa maneira não tinha nada a ver com o rapazinho de faces rosadas que tinha partido para a guerra. — Não propriamente o mesmo, professor — disse tentando fazê-lo sentir mais à vontade. — A guerra já dura há muito. E enquanto estávamos ali a conversar, sentia a mão dela cada vez mais quente na minha. O jantar foi servido na grande sala de jantar que deitava, de lá de cima da colina, para a baía. Todos se tinham ido embora. Só tínhamos ficado nós três: Nora, a mãe e eu. Olhei para o topo da mesa onde a velha senhora estava sentada. Parecia mesmo bem naquele sítio. Tudo estava no seu lugar. O sumptuoso revestimento de carvalho, a grande mesa redonda, as velas a brilhar nos castiçais de prata. E ela ali estava sentada, direita e alta, e havia qualquer coisa nela que me fazia pensar numa lâmina de aço reluzente. Na sua maneira calma e tranqüila, era forte e segura da sua força. Tinha-se consciência de toda a sabedoria que existia nela, embora nunca lhe fosse necessário afirmá-la. Por aquilo que o meu pai me tinha dito, muita gente tinha ficado surpreendida ao lidar com aquela viúva jovem e calma que tinha herdado duas grandes fortunas. — O meu falecido marido falou-me muitas vezes do seu pai. — Sorriu-me através da mesa. — Eram grandes amigos. Parece-me estranho nunca nos termos conhecido.
 
Acenei com a cabeça, em silêncio. A mim não me parecia estranho. Até à altura em que se reformou, no ano anterior, o meu pai tinha sido chefe dos correios na pequena cidade do sul da Califórnia onde nasci. Já não tinha nada a ver com o mundo de Gorald Flaydem tal como Hayden não tinha nada a ver com o dele. A única coisa que tinham em comum era o facto de terem estado no mesmo pelotão na Primeira Guerra Mundial.
— O seu pai salvou a vida ao meu marido durante a primeira guerra. Sabia? Ouvi a mesma história. Mas quando o meu pai ma contou, era precisamente o contrário. Pegou numa campainha de prata que estava em cima da mesa, à frente dela. O som era suave. — Querem tomar café no solário? Olhei para Nora. Ela deitou uma olhadela ao relógio de pulso. — Vá com o major Carey, mãe — disse. — Eu fiquei de estar às oito horas na cidade. Uma ruga leve franziu ligeiramente a fronte da Sra. Hayden e desapareceu. — Tens mesmo de ir, querida? Nora não levantou os olhos para a mãe. — Prometi a Sam Corwin que ia ver o projecto dele para a exposição de escultura moderna. A Sra. Hayden olhou rapidamente para mim, depois para Nora. O tom da voz dela sugeriu apenas um vago protesto, mas tive a sensação de que escolhia cuidadosamente as palavras. Se era por eu estar presente, não sabia. — Julgava que já tinham ultrapassado isso — disse. — Há tanto tempo que não falas com o Sr. Corwin! — Tem de ser, mãe. Afinal foi o Sam que trouxe o professor Bell à minha exposição. Voltei-me para a Sra. Hayden. — Não se preocupe por minha causa, Sra. Hayden — disse rapidamente. — Também tenho de estar de volta ao Presidio às oito e meia. Se quiser, posso levar a sua filha. — Não quero dar-lhe maçada — disse Nora. — Maçada nenhuma. Estou com um carro do exército, por isso não tenho de me preocupar com as senhas de gasolina. — Está bem — respondeu. — Dê-me só uns minutos para me vestir. Vimo-la afastar-se e depois de ela desaparecer, voltei-me para a mãe. — Tem uma filha cheia de talento, Sra. Hayden. Deve sentir-se muito orgulhosa. — E sinto — respondeu. Depois uma expressão curiosa surgiu-lhe nos olhos azuis, muito vivos. — Mas devo confessar que nem sempre a entendo. Às vezes fico meio assustada. É tão diferente das raparigas do meu tempo. A verdade é que a Nora não passa de uma criança e eu já a tive um bocado tarde. — É a guerra. Estamos todos diferentes. — Que disparate! Oiço isso constantemente — disse com aspereza. — Conversa fiada. A vossa geração não é a única que fez uma guerra. A minha também. E o mesmo aconteceu com os jovens da geração dos meus pais. Podia ter discutido esse ponto, mas não o fiz. — A sua filha tem um grande talento — repeti. — O professor Bell disse-me muitas vezes que o talento nem sempre é a coisa mais fácil do mundo para se entender ou com que viver. Os olhos dela brilharam, divertidos. — Você é um jovem muito simpático. Espero que venha visitar-nos mais vezes. Tenho um pressentimento de que vai ser muito bom para nós. — Espero que sim. Mas tenho de voltar para o continente, Talvez quando a guerra acabar. Olhou-me directamente nos olhos. — Nessa altura pode já ser demasiado tarde. Creio que o espanto se me reflectiu na cara, porque ela tomou um ar ainda mais divertido. Peguei num cigarro. — Ouvi dizer que antes de se alistar era um jovem arquitecto muito prometedor, major Carey. — Pelos vistos, são poucas as coisas que lhe escapam, Sra. Hayden. — Faço por isso, major Carey. É muito importante para uma viúva desamparada manter os olhos bem abertos. Ia protestar. Viúva desamparada, francamente! Depois reparei novamente no sorriso dela e percebi que estava a entrar comigo. — Que mais conseguiu saber a meu respeito, Sra. Hayden?
— Antes da guerra, candidatou-se a um lugar na Hayden de Carruthers. Ficaram muito impressionados consigo. — Mas não tanto como o exército. — Eu sei, major Carey — disse. — E também tenho conhecimento dos seus feitos na guerra. Levantei a mão. — Poupe-me a isso, Sra. Hayden. Onde é que pretende chegar?  Olhou-me directamente. — Gosto de si, major Carey — disse. — Dentro das circunstâncias adequadas poderia haver um lugar de vice-presidente para si na Hayden de Carruthers. Fiquei a olhar para ela. Isso significaria começar por cima. Bastante bom para um tipo que nunca tinha tido um emprego depois de acabar o curso. Hayden de Carruthers era uma das principais firmas de arquitectura da Costa Oeste. — E como é que sabe isso, Sra. Hayden? — Sei — respondeu, calmamente. — Os meus interesses na firma dão-me uma posição de controlo. — E o que é que considera "as circunstâncias adequadas"?  Deitou uma olhadela para a porta e depois novamente para mim. O olhar dela era brilhante e firme. — Creio que já conhece a resposta. Precisamente nesse momento Nora voltou à sala. — Espero não o ter feito esperar muito. — De maneira nenhuma — respondi. — O major e eu estávamos a ter uma conversa muito interessante, Nora. Reparei no olhar rápido e curioso que Nora lançou à mãe. Baixei os olhos para a mulher mais idosa. — Muito obrigado pelo jantar, Sra. Hayden — disse com toda a formalidade. — Com todo o prazer, major. Pense no que eu lhe disse. — Com certeza. Mais uma vez, muito obrigado. — Adeus, major. — Boa noite, mãe — disse Nora.  A voz da mãe chegou até nós quando estávamos à porta. — Não fiques até muito tarde, querida. Senti a fragrância do perfume de Nora quando ela se recostou no assento. Despertou qualquer coisa em mim. Não era o género de perfume que se usasse para um encontro de negócios. — Para onde? — perguntei. — Louer Lombard Street. Não estou a fazê-lo desviar do seu caminho, pois não? — De maneira nenhuma.   Aproximei-me mais e senti a mão dela no meu braço. — A mãe falou-lhe de mim? — Não. — Não se podia dizer que estivesse a mentir. Mas também não estava a dizer a verdade. — Por quê? — Por nada — disse com naturalidade. Percorremos alguns quarteirões em silêncio. — Você não tem de estar de volta ao Presidio às oito e meia, pois não? — Estou a percebê-la perfeitamente. Olhou para mim. — Não é nada disso — disse rapidamente. — Eu não disse nada. Parei o carro por causa de um semáforo. A luz vermelha pôs-lhe a pele em fogo. — O que é que vai fazer agora? — perguntou. — Não sei. Vou até Chinatoun... apanhar uma, se calhar. — Isso é pura fuga.
A luz mudou e pus novamente o carro em andamento. — Da mais pura que há — concordei. — Mas ainda é a melhor maneira que conheço para deitar as coisas para trás das costas. Senti-lhe a mão apertar-me o braço. — É assim tão horrível?  — Às vezes.  Sentia-lhe as unhas através do casaco. — Quem me dera ser homem!  — Estou bem contente que você não seja.  Voltou-se para mim.  — Quer encontrar-se comigo, mais tarde? Senti-lhe a dureza dos seios pequeninos de encontro à minha manga. Compreendi nesse momento, que tinha razão. Ela era tudo aquilo que eu pensava e estava ali à minha disposição, mas havia qualquer coisa que me impedia de ir em frente. — Não creio — disse.  — Por quê? — Por nada. — Estava aborrecido comigo mesmo. — Não tem importância. — Para mim, tem. Diga-me. Senti a aspereza da irritação apoderar-se da minha voz. — Conheço pelo menos uma dúzia de sítios nesta cidade onde podia ser recebido em segundo lugar, caso fosse disso que eu andasse à procura. Largou-me o braço e afastou-se. Vi, de repente, as lágrimas aparecerem-lhe nos olhos. — Desculpe — disse. — Já estou fora há tanto tempo. Quer-me parecer que já me esqueci das boas maneiras. — Não tem de pedir desculpa. Ouvi o que merecia. — Olhou pela janela. — Volte aqui, é a meio do próximo quarteirão. Encostei o carro ao passeio. — Ainda tem mais três dias de licença? — É verdade — respondi. — Telefona-me? — Não creio. Vou até La Jolla pescar um bocado. — Eu vou lá ter. — Não me parece boa ideia. — Oh, tem lá alguma rapariga? Ri-me. — Não há rapariga nenhuma. — Então por que... — Porque eu vou voltar para a guerra — disse com aspereza. —  Porque eu não quero nenhuma espécie de ligação, Não quero ter nada em que pensar a não ser chegar ao fim do dia seguinte. Conheço muitos tipos que perderam todos os amanhãs a olhar para ontem. — Você tem medo. — Tem toda a razão. Eu já lhe tinha dito. Agora estava a chorar a valer. As lágrimas rolavam-lhe pela cara. Pus-lhe a mão no ombro. — Olhe, isto é um disparate — disse suavemente. — Neste momento está tudo muito difícil. Talvez um dia, quando a guerra acabar, se eu me safar... Interrompeu-me. — Mas você mesmo disse que nunca se tem sorte três vezes. — Parece que é verdade — admiti. — Então, não pensa mesmo que me vai telefonar. Nunca. Havia uma tristeza estranha na voz dela. — Parece que estou sempre a pedir-lhe desculpa. Desculpe.
Ficou um momento a olhar para mim, depois saiu do carro. — Não gosto de despedidas. Não tive oportunidade de lhe responder porque ela correu pelas escadas acima, sem olhar para trás. Acendi um cigarro e fiquei sentado a vê-la tocar à campainha. Passados momentos, apareceu um homem e ela entrou. Quando voltei ao hotel, pelas três da manhã, tinha um bilhete debaixo da porta. Por favor, telefone-me de manhã para podermos continuar a nossa discussão. Estava assinado Cecelia Hayden. Amachuquei o bilhete, zangado e atirei-o para o cesto dos papéis. De manhã, fui-me embora para La Jolla sem me dar ao trabalho de lhe telefonar. Na semana seguinte já ia a caminho da Austrália e da guerra. Se me tivesse passado pela cabeça que a velha senhora ia ficar presa à espera do meu telefonema, estaria apenas a enganar-me a mim mesmo. Havia coisas pelas quais ela não podia esperar. No dia seguinte, telefonou a Sam Corwin. — Sr. Hayden — disse Sam Corwin entrando na sala onde ela o aguardava. — Espero não ter chegado atrasado. — De maneira nenhuma, Sr. Corwin — replicou secamente. — Sente-se, por favor. Ele deixou-se cair na cadeira e olhou-a com curiosidade. Desde que tinha recebido o telefonema naquela manhã, que perguntava a si próprio o que seria que ela lhe queria. Cecelia Hayden foi direita ao assunto. — Nora foi escolhida para o Prémio de Escultura da Fundação Eliofheim. Sam olhou-a com um novo e súbito respeito. Tinham corrido alguns boatos nesse sentido. Mas os nomes das pessoas indigitadas eram mantidos no maior segredo. Sobretudo, porque este era o primeiro prémio a ser atribuído desde o principio da guerra. — Como é que sabe? — perguntou com ar fechado.  Ele próprio não tinha ainda conseguido obter qualquer confirmação a esse respeito. — Não importa — respondeu com jovialidade. — O que é importante, é eu saber que assim é. — Óptimo, estou muito contente pela Nora. Espero que receba o prémio. Merece-o. — Era por causa disso que eu queria falar consigo; quero ter a certeza de que ela o vai receber.  Sam ficou a olhá-la. Não disse palavra.  — Às vezes, o dinheiro pode tornar-se num terrível obstáculo. — continuou a Sra. Hayden. — Especialmente, no campo das artes. Gostaria de ter a certeza de que a fortuna da minha filha não vai afectar negativamente oportunidades como esta. — Tenho a certeza de que isso não aconteceria, Sra. Hayden. O júri está acima dessas coisas. — Ninguém está acima de certos preconceitos, sejam eles de uma forma ou de outra — disse em tom definitivo. — E neste momento, quer-me parecer que todo o mundo das artes liberais está orientado no sentido da ideologia comunista. Praticamente tudo aquilo que é realizado por alguém de fora desse grupo é automaticamente rejeitado como burguês e sem importância. — Não acha que está a ser um pouco simplista?  — Parece-lhe? — objectou, olhando-o directamente. — Então diga-me uma coisa. Nos últimos anos, os principais prémios artísticos têm sido ganhos por artistas que, quando não fossem nitidamente comunistas, lhes estavam pelo menos muito próximos. Sam ficou sem resposta. O que ela dissera estava muito próximo da verdade. — Supondo que eu concordava consigo. Continuo a não perceber o que é que se pode fazer a esse respeito. Não é possível comprar a Eliofheim. — Eu sei. Mas nós também sabemos que todas as pessoas são susceptíveis de ser influenciadas; que ninguém está acima do poder da sugestão. O júri é composto por seres humanos. — E o que é que eu posso fazer? Seriam precisas pessoas de muito peso para que eles lhes dessem ouvidos. — No outro dia, estive a falar com Bill Hearst, de Sam Simeon — disse. — Mostrou-se muito seguro de que a Nora merecia o prémio. Achava que seria um triunfo para o americanismo. Começava a fazer sentido. Devia ter pensado logo de onde é que lhe vinha a informação. — Hearst poderia ser-nos útil. Quem mais?
— O seu amigo professor Bell, por exemplo. Hearst também já falou com Bertie MeCormick, de Chicago. Também está muito interessado. Deve haver muitos mais, tenho a certeza; é só uma questão de procurar. — Seria preciso dar muitas voltas. Estamos em fevereiro. Portanto faltam menos de três meses para que os prémios sejam anunciados, em maio. E mesmo assim não se pode ter a certeza. A Sra. Hayden tirou uma folha de papel da secretária. — O seu ordenado no jornal são cerca de quatro mil e quinhentos. Além disso, faz uma média de cerca de dois mil dólares em artigos para revistas e trabalhos diversos. — Olhou para ele. — Não é lá muito, pois não, Sr. Corwin? Sam sacudiu a cabeça. — Não, não é lá muito, Sra. hayden. — O senhor tem gostos caros, Sr. Corwin — continuou. — Tem um bom apartamento. Vive bem, embora um pouco acima dos seus meios. Nos últimos anos tem acumulado dívidas num montante ligeiramente superior a três mil dólares por ano. Corwin sorriu. — Não me preocupo lá muito com as minhas dívidas.  — Eu sei, Sr. Corwin. Estou informada de que uma boa parte desse dinheiro nunca é reembolsado em dinheiro, mas em favores. Estaria muito longe da verdade se afirmasse que o seu rendimento total estava próximo dos dez mil dólares por ano? Fez que sim com a cabeça. — Não estaria muito longe. Pôs novamente a folha de papel em cima da secretária. — Estou pronta a pagar-lhe dez mil dólares pela sua colaboração para garantir à minha filha o Prémio Eliofheim. Se ela o receber, entraremos num contrato de dez anos que lhe garante vinte mil por ano e ainda dez por cento sobre o lucro bruto que ela fizer. Sam fez rapidamente os seus cálculos. Se Nora mantivesse o ritmo de produção, poderia fazer entre cinquenta a cem mil por ano, no caso de ganhar o prémio. — Digamos cinquenta por cento? — Vinte e cinco por cento — disse ela rapidamente. — Ao fim e ao cabo, a Nora sempre tem de pagar as despesas da galeria. — Só um momento, Sra. hayden. Isto está a ir depressa de mais para mim. Vejamos se eu a estou a compreender bem. A senhora está a contratar-me como agente de imprensa para ajudar Nora a ganhar o Prémio Eliofheim? — Exactamente Sr. Corwin. — E se ela receber o prémio, entramos então num acordo segundo o qual eu me torno seu representante, agente ou director artístico; como lhe queira chamar, por um período de dez anos? Para esse fim, receberei vinte mil por ano, mais vinte e cinco por cento dos lucros brutos que ela tirar do seu trabalho? — A Sra. Hayden fez novamente que sim com a cabeça. — E se ela não receber o prémio? — Não haveria muita razão para se fazer o acordo, pois não, Sr. Corwin? — Não, claro que não — respondeu. Olhou para ela com ar sagaz. — E se fizermos o acordo, quem paga a garantia? — A minha filha, claro. — Mas pode acontecer que ela não ganhe o suficiente para que a coisa valha a pena. — Duvido muito que ela se preocupe com isso. — A velha senhora sorriu. — Nora é uma mulher rica. Tem um rendimento de mais de cem mil por ano, de uma fundação pertencente à família. Sam ficou a olhar para ela. Sabia que Nora tinha dinheiro, mas nunca pensara que fosse tanto. — Estou curioso acerca de uma coisa, Sra. Hayden. Falou à Nora neste assunto? Ela fez que sim com a cabeça. — Claro, Sr. Corwin. Nunca viria discutir este assunto consigo sem ter o consentimento expresso da Nora. Sam encheu o peito de ar.
— Então porque não foi ela a falar-me nisso? — Nora achou que seria melhor se discutíssemos os dois o assunto primeiro — replicou. — Assim, se o senhor não concordasse a vossa relação não seria perturbada. Sam acenou com a cabeça. — Estou a perceber. — Procurou o cachimbo na algibeira e depois, pô-lo na boca, pensativo. — Claro que ambas compreenderam já que, se eu assumir essa posição, a minha decisão em todas as questões relacionadas com o negócio, será definitiva? — A Nora tem a maior consideração tanto pela sua integridade como pela sua perspicácia. — Temos o negócio fechado, Sra. Hayden. — Nora vai ficar muito contente. — Onde é que ela está? Há uma série de coisas que temos de discutir. — Vou mandar o Charles chamá-la — disse a Sra. Hayden. — Acho que ela está no estúdio. Carregou num botão e o mordomo apareceu à porta. Pediu-lhe que chamasse Nora e voltou-se novamente para Sam. A voz dela era enganosamente suave: — Eu também estou muito satisfeita, Sr. Corwin. Será para ser um grande alívio saber que há mais alguém além de mim que se ocupa do bem-estar de Nora. — Pode ter a certeza de que farei tudo o que estiver ao meu alcance, Sra. Hayden. — Estou convencida disso — respondeu. — Não vou fingir que conheço a minha filha em todas as situações. Ela é uma pessoa muito voluntariosa. Nem sempre estou de acordo com o seu comportamento. Sam não respondeu, limitou-se a ficar sentado de cachimbo na boca, a olhar para ela. Perguntava a si mesmo o que é que ela sabia, na realidade, acerca de Nora. A afirmação que fez a seguir tornava claro que havia poucas coisas que não soubesse. — Imagino que posso ser considerada antiquada em muitos aspectos — disse num tom de desculpa — mas, às vezes, a minha filha parece-me ... como é que hei-de dizer...? bastante promiscua? Sam estudou-a cuidadosamente durante alguns momentos. — Posso falar-lhe com toda a franqueza, Sra. Hayden? Fez que sim com a cabeça. — Peço-lhe que compreenda que não estou a defender Nora nem a atacá-la. Mas acho que é da maior importância que, tanto a senhora como eu compreendamos de que é que estamos a falar. Estava a observá-lo tão cuidadosamente como ele a tinha observado a ela. — Continue, por favor, Sr. Corwin. — Nora não é uma pessoa vulgar — disse Sam. — É uma pessoa cheia de talento, talvez mesmo um génio. Não sei. É extremamente nervosa, tem uma sensibilidade apurada e é muito emotiva. Precisa de sexo tal como muita gente precisa de álcool. — Está a tentar dizer-me, de uma maneira delicada, que a minha filha é ninfomaníaca, Sr. Corwin? — Não é nada disso que eu estou a tentar dizer, Sra. Hayden — respondeu, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Nora é uma artista. Encontra no sexo um certo estimulo e, ao mesmo tempo, uma forma de fuga. Disse-me uma vez que isso a ajudava a aproximar-se mais das pessoas, a aprender mais coisas sobre elas, a compreendê-las melhor. Ela continuava a observá-lo. — O senhor e Nora...? — deixou a pergunta suspensa no ar.  Sam olhou-a bem de frente. Fez que sim com a cabeça, sem falar. A velha senhora suspirou ao de leve e baixou os olhos para a secretária. — Agradeço-lhe a sua honestidade, Sr. Corwin. Não era minha intenção intrometer-me nas suas relações pessoais. — Já há muito que tudo acabou — disse. — Descobri isso na última vez que ela esteve em minha casa. — E isso foi há cerca de seis meses? Por altura da exposição dela? Sam Corwin fez que sim com a cabeça.
— Nora pareceu-me muito perturbada. Tinha estado a chorar. Parece que aquele jovem major que a levou no carro tinha sido muito áspero com ela. — O major Carey — disse. — Pareceu-me um homem tão simpático. — Disse qualquer coisa que a incomodou. Fosse como fosse, mandei-a para casa de táxi, meia hora depois de ter chegado. — Sempre perguntei a mim mesma porque é que ela teria chegado a casa tão cedo naquela noite. Gostava de lhe pedir um favor, Sr. Corwin. — Tudo aquilo que estiver ao meu alcance. — Nora tem em muito alta conta a sua opinião. Ajude-me ... ajude-a a não se meter em sarilhos. — Vou tentar, Sra. Hayden. Por nós todos. — Obrigado — disse. De repente, parecia muito cansada. Recostou-se na cadeira e fechou os olhos. — Às vezes, penso que a melhor coisa para ela seria casar-se. Talvez assim se sentisse diferente. — Talvez. — Mas, lá no fundo, Sam sabia que não era assim. As raparigas como Nora nunca mudavam; casadas ou não. Ficaram sentados em silêncio até à chegada de Nora. — O Sr. Corwin concordou com a nossa proposta — disse a mãe. Nora sorriu. Estendeu-lhe a mão. — Obrigada, Sam. — Não me agradeças — disse. — Ainda podes vir a lamentá-lo antes de tudo isto chegar ao fim. — Não me importo de arriscar. — Ok — respondeu ele numa voz jovial e cheia de profissionalismo. — Vamos a ver... em que é que estás a trabalhar? — Estou a preparar-me para uma exposição que a Arlene Gately vai fazer em abril. — Cancela. — Por que carga de água? — Não nos é possível. — Mas eu prometi... — Então vais ter de quebrar a promessa — disse Sam bruscamente. Voltou-se para a Sra. Hayden. — Passe-nos um cheque de dez mil dólares. A Nora e eu vamos para Nova Iorque. — Nova Iorque? — perguntou Nora. — Por quê? A mãe olhava para Sam com ar interrogador. — Nova Iorque — repetiu ele. — Quero que o Aaron Scaasi lhe arranje uma exposição em abril. — Não posso fazer uma coisa dessas. — Por que não? — perguntou com aspereza. — Porque a Arlene tem sido sempre o meu agente. Ela é que tem organizado todas as exposições que eu tenho feito. Não posso voltar-lhe as costas ao fim de tanto tempo. — Podes. E é isso mesmo que vais fazer. Arlene Gatoly pode ser muito simpática, mas não passa de uma negociante em pequena escala e de uma terra pequena. Tu já a ultrapassaste. Aaron Scaasi é reconhecido como um dos principais negociantes de arte do mundo inteiro. Neste momento, uma exposição na galeria dele aproxima-te mais do prémio do que tudo o mais que possas fazer. — Mas como é que sabes que ele está de acordo? — Está, sim. — Sam sorriu. — Esse cheque de dez mil dólares diz-me que ele vai estar de acordo. Tudo isto, claro está, aconteceu enquanto eu ainda estava no Pacífico. Eu era o tipo indicado para uma novela do género Somerset Maugham. A floresta escaldante e fumegante a atrair o homem branco para uma espécie de torpor, seduzindo-o depois com a ajuda de uma linda rapariga de pele bronzeada para uma vida feliz com que nunca sonhara na pátria bem amada. Mas comigo as coisas nunca se passaram assim. Acho que devia estar no tipo de floresta errada.
Fazia sempre um frio húmido na pista aérea a norte de. Port, Moresby, e por mais roupa que se pusesse em cima, o frio chegava-nos aos ossos. Andava-se sempre a bater os dentes, com o nariz a pingar e era mais fácil apanhar uma gripe do que a malária. Passávamos a maior parte do tempo que tínhamos livre, aconchegados em volta do enorme fogão redondo na sala de equipamento dos pilotos, a discutir os aspectos tácticos mais sérios da guerra como, por exemplo, se Pat conseguiria apanhar a Dama Dragão, antes de ela violar Terry ou se Daisy Mac alguma vez conseguiria libertar Lil Abner do Momismo. Nos intervalos destas discussões de alto nível, corríamos para os aviões sempre que as sirenes gritavam, subíamos e voltávamos a aterrar e depois mandávamos as ceroulas para os indígenas que nos lavavam a roupa, para estarmos prontos para o próximo voo. Há qualquer coisa de muito inestético em se morrer com a roupa de baixo suja. Pode dizer-se que quase anti-americano. Cheguei a tenente-coronel da maneira mais difícil. O meu comandante de voo recebeu o tiro que o fez desaparecer do céu mesmo em frente dos meus olhos e eu fui posto no lugar dele. Ainda me lembro do que pensei quando me trocaram as folhas de carvalho douradas pelas de prata: Todos têm de morrer; agora é a minha vez. Mas tinha tido sorte. Ainda me lembro da surpresa que senti perante aquela dor repentina e fina como uma agulha que me apertou as costas. O painel de comandos desintegrou-se diante dos meus olhos no momento em que o Zero japonês rodou por cima da minha cabeça e foi bater na água, no momento em que eu tentava safar-me da que estava por baixo de mim. Não sei como é que consegui voltar à pista. Parecia-me que flutuava num mar de geleia e, de repente, o avião tocou no chão e rolou sobre si mesmo. Algures, ao longe, ouvi alguém gritar e senti as mãos que me puxavam. Eram mãos quentes, reconfortantes, embora estivessem a tentar arrancar-me ao calor delicioso que me rodeava. Fechei os olhos e entreguei-me a elas. Já era tempo de chegar àquela floresta sobre a qual tinha lido tanta coisa. Sorri para comigo Mesmo. Assim sim. Estava deitado na praia em Bali-Bali e havia um milhar de belezas de seios nus, todas elas parecidas com Dorothy Lamour, a passearem-se de um lado para o outro e o único problema era que eu tinha de decidir qual é que ia escolher para aquela noite. Isto era um sonho do qual não ia desistir. MacArthur bem podia aprender a passar sem mim. Fui mandado de volta para os Estados Unidos logo que fiquei em condições de viajar. Só na segunda semana de julho é que vim a saber que Nora tinha ganho o Prémio Eliofheim e, mesmo assim, só porque vi, por acaso, a fotografia dela na capa da Life. Desde fevereiro, altura em que tinha sido ferido, tinha passado cinco semanas num hospital na Nova Guiné, depois mais sorte no hospital dos veteranos em San Diego, após o que me tinham dado alta, dizendo-me que estava como novo. Ia ter uma licença de trinta dias antes de voltar para o meu regimento, por isso voltei para La Jolla, aluguei um pequeno barco no qual podia comer e dormir e pus-me a curtir ao sol. Estava a dormitar numa cadeira no convés quando fui acordado pela pancada de uma trouxa a cair em cima do convés. Abri os olhos e vi um rapaz na orla do cais a rir-se para mim. Fazia questão de não ler os jornais diários; estava farto de ouvir falar na guerra. Mas tinha pedido ao vendedor de jornais que me arranjasse umas quantas revistas todas as semanas. Meti a mão na algibeira e atirei pelo ar uma moeda de meio dólar. Ele apanhou-a com toda a graça de Joe Di Maggio ao trazer para baixo uma bolada alta. Inclinei-me, peguei no maço de jornais e revistas e desatei o fio que os amarrava. As revistas escorregaram pelo chão e eu peguei na primeira que me veio à mão. Fiquei a olhar para a fotografia da rapariga de cabelos escuros, com o seu ar vagamente familiar e lembro-me de ter pensado que era agradável eles terem desviado um pouco as atenções da guerra. Depois compreendi por que é que a rapariga me parecia tão familiar. Estava lá, em pequenas letras brancas destacadas: NORA HAYDEN - DETENTORA DO PRÉMIO DE ESCULTURA DA FUNDAÇÃO ELIOFHEIM.
Olhei para a fotografia e aquela sensação estranha assaltou-me de novo. Os olhos escuros e luminosos, a boca estranhamente sensual por cima do queixo orgulhoso, quase altivo. Era como se fosse ontem, embora já tivesse passado quase um ano desde que a vira. Abri a revista. Havia mais fotografias no interior. Nora a trabalhar no pequeno estúdio nas traseiras da casa da mãe. Nora a fumar enquanto esboçava uma ideia. Nora sentada a uma janela, com a luz por detrás a desenhar-lhe a silhueta. Ou estendida no chão, a ouvir um disco. Comecei a ler. “A esbelta Miss Hayden que mais parece um modelo do que uma artista, não deixa quaisquer dúvidas no nosso espirito em relação à sua posição quanto ao trabalho. A escultura é a única forma de vida autêntica no campo da arte, afirma, tridimensional. Podemos andar em volta dela, vê-la de qualquer ângulo, tocá-la, senti-la como qualquer outra coisa viva. Tem forma, volume e realidade e existe na vida que nos rodeia. Podemos vê-la em qualquer pedra, no grão macio de qualquer pedaço de madeira, na força pênsil e maleável de cada tira de metal. Cabe apenas ao artista fazer brotar esta visão escondida na matéria-prima, dar-lhe forma, acrescentar-lhe um sopro de vida... " Ouvia-lhe a voz ecoar-me no ouvido. Voltei-me de novo para a capa da revista e pus-me a estudar a fotografia dela. Não foi preciso mais nada. Deixei cair a revista em cima do convés e levanteime. Foi assim que mudei de ideias. Que mal fazia ser um ano depois? Fiquei na cabina telefónica apertada e estreita, ao fundo da doca, a ouvir o telefone tocar do outro lado, em São Francisco. Foi a mãe que atendeu. — Daqui fala Luke Carey — respondi. — Lembra-se de mim?  A voz da velha senhora era clara e firme. — Claro que me lembro, coronel. Como está? — Estou óptimo, Sra. Hayden. E a senhora? — Nunca estive doente nem um só dia em toda a minha vida — disse. — Li nos jornais o que se passou consigo. Foi muito valente da sua parte. — Os jornais exageraram. A verdade é que eu não podia ter feito outra coisa. — Tenho a certeza de que não foi só isso. Mas podemos discutir o caso noutra altura. — Ouvi a voz dela tornar-se mais suave. — Tenho pena de que a Nora não esteja cá. Sei que ela vai ficar decepcionada. — Oh! — respondi. — E eu que queria tanto dar-lhe os parabéns por causa do Prémio Eliofheim. — É por isso mesmo que ela não está cá. A pobre pequena nunca mais teve um momento de descanso desde que a notícia foi tornada pública. Insisti em que ela fosse para La Jolla para fugir um bocado de tudo isso. — Disse La Jolla? — Sim — a voz dela modificou-se de repente. — De onde é que o senhor está a telefonar? — La Jolla. Estou aqui de licença. — Não é o que se chama uma coincidência feliz, coronel? Claro, agora lembro-me de ter visto qualquer coisa nos jornais a propósito da sua estada aí. Nora está no Sand and SurfClub. — Vou telefonar-lhe — disse. — Se não conseguir falar com ela, coronel, entre em contacto com Sam Corwin. Ele sabe onde é que ela está. — Sam Corwin? — Sim — disse. — Lembra-se dele? Aquele jornalista amigo do professor Bell. É ele quem dirige os assuntos da minha filha. A pobre pequena não tem cabeça para negócios. — A voz dela modificou-se de novo. — Espero bem que não tenhamos de esperar mais um ano para voltar a vê-lo, coronel. Continuo a achar que temos um assunto a discutir. Parece-me que a Hayden de Carruthers seria um excelente lugar para retomar a sua carreira. — Agradeço-lhe muito o seu interesse, Sra. Hayden. Havemos de falar disso muito em breve. — Será sempre bem-vindo, meu jovem amigo. Adeus.
O telefone deu um estalido e eu hesitei um momento antes de pôr outra moeda. Desta vez foi Corwin quem atendeu. — Miss Hayden está? — perguntei. — Quem é que está ao telefone? — Luke. Carey. Pareceu-me que a voz dele tomou um tom mais cordial.  — Coronel Carey? — Sim.  — Só um momento, por favor. Vou ver se consigo encontrá-la.  Fiquei um momento agarrado ao telefone e depois ouvi a voz dela. — Coronel Carey. Que surpresa! Como é que soube onde eu estava? Ri-me.  — Foi a sua mãe que me disse. Pensei que talvez pudéssemos encontrar-nos para tomar uma bebida. — Está em La Jolla? — A cerca de cinco quilómetros daí — disse. — Que tal a ideia? — Gostava imenso. Mas Aaron Scaasi, o meu agente, deve chegar de Nova Iorque a todo o momento. Damos um cocktail para a imprensa às cinco horas. Esperei que ela sugerisse outra ocasião, mas não o fez. Estava certo, pensei. Não tinha nenhum motivo para isso. A última vez que tínhamos estado juntos, eu não fora propriamente o que se podia chamar um exemplo de delicadeza. — Eu tento noutra ocasião. — Sim, por favor — disse delicadamente e desligou. Franzi os olhos para o céu enquanto caminhava ao longo do cais. O céu estava bom. Azul como nos postais, com algumas nuvens muito claras. O sol estava agradável e quente; mais tarde ia ficar escaldando e pesado, mas eu não me importava... Nessa altura já estaria no mar. Estava tudo acabado, pensei. Mas também não sabia o que Sam. lhe tinha dito depois de eu desligar. — Não foste lá muito cordial. — disse Sam enquanto ela pousava o auscultador. — Que diabo! Um ano inteiro. Quem é que ele julga que é? Sam aproximou-se outra vez do livro de esboços e ficou a olhar para ele. O esboço que se via era o de um jovem que se preparava para mergulhar. Estava nu. Sam conhecia-lhe a cara. Era o estudante do liceu que trabalhava como mergulhador-salvador no clube. — Ele não é como esses rapazolas — disse secamente. — Esse vê-se bem que é piada. — Tens alguma objecção a pôr? — Pessoalmente não — respondeu. — Não me interessa nada com quem é que tu vais para a cama. Mas quando a coisa entra no domínio público, afecta-nos o negócio. A voz de Nora tornou-se fria. — Onde é que ouviste falar no assunto? — Em Muscle Beach não se fala de outra coisa. É demais para o miúdo ficar com a história só para ele. Tem contado tudo aos amigalhaços ponto por ponto. Não faltou nada. Furiosa, arrancou a folha com o esboço de bloco e amarfanhou-a. — Patifezinho!  — Eu tinha-te dito que fosses discreta — disse Sam pacientemente. — E o que é que eu hei-de fazer? — perguntou, atirando para o chão o papel amarfanhado. — Ir para freira? Automaticamente, ele apanhou o papel do chão e atirou-o para o cesto dos papéis. Tirou o cachimbo da algibeira. — Não consegues deixar de fumar esse cachimbo horrível? Não suporto o mau cheiro. Meteu-o na algibeira em silêncio e dirigiu-se para a porta. Nora deteve-o. — Sam... — já não estava zangada e parecia, de repente, muito jovem e desamparada. — Sam, o que é que tu achas que eu devo fazer?
— Não sei — respondeu pensativo. — Mas eu começava por deixar esses miúdos todos em
paz.
— Eu deixo, Sam — respondeu rapidamente. — E há outra coisa — acrescentou. — Não fazia mal nenhum se fosses vista com uma pessoa como esse teu amigo soldado que telefonou agora mesmo. Podia ajudar a afastar os mexericos. Quando voltei, o velho guarda que estava sentado no banco em frente dos escritórios do cais acenou-me com a mão cansada. — Olá, coronel. — Olá. — Ouvi dizer para aí que viram peixe grosso lá para os lados de Coronado. Talvez valesse a pena ir lá dar uma espreitadela. — Sou capaz disso — disse, dando-lhe a ração diária. — Ele deixou cair na algibeira o meio dólar. — Obrigado, coronel. — Olhou para mim franzindo os olhos aquosos. — A propósito, está uma rapariga no seu barco. Eu disse-lhe que devia estar a voltar do almoço. Dirigi-me para o barco. Nora deve ter ouvido os meus passos porque quando cheguei encontrei-a de pé no convés. Trazia uns shorts azuis às pintinhas e um corpete e parecia uma miúda com o cabelo preto amarrado em rabo de cavalo. — Olá — disse. — Olá — respondi. Franziu os olhos por causa do sol. — É a minha vez de pedir desculpas, coronel. Fiquei um momento a observá-la e depois saltei para o convés, ao lado dela.  — Não precisava de vir até aqui para isso, Nora. Pôs-me a mão no braço. Senti-a quente na minha. — Mas eu quis vir, coronel. Quis que soubesse que tinha pena.  Estava tão perto que lhe sentia o perfume dos cabelos. Era bom, limpo e fresco, como os pinheiros no alto das colinas e a única maquilhagem que trazia era um leve toque de batom. Olhei-a nos olhos. Pareceu-me uma eternidade. Depois, beijei-a. A boca dela era quente e doce e tinha-os dentes fortes e aguçados por detrás dos lábios macios. Senti-lhe o braço em volta do pescoço e a pressão do corpo de encontro ao meu. Deixei cair a mão até ficar na cintura dela e, ao descer, quase lhe contei as costelas, uma a uma. Foi tal como eu tinha pensado que havia de ser entre nós. Depois de a ter beijado outra vez, larguei-a com a mesma impetuosidade e peguei num cigarro. Fiz girar a roda do meu isqueiro, mas não consegui que o raio do isqueiro funcionasse. — Olha, estou a tremer. — Eu também estou a tremer — respondeu suavemente.  Puxei uma fumaça do cigarro que tinha finalmente conseguido acender e, em seguida, passeilho. Ela tirou uma fumaça e depois voltou-se. — Da outra vez queria que você me beijasse. — E eu queria beijá-la. — Então por que é que não o fez? — Os olhos dela eram como as sombras sobre a água, entre o barco e o cais. — Sabia que eu estava pronta. Voltei-me para o outro lado. — Pensei que fosse... para outra pessoa. — E isso tinha muita importância, naquela altura? — Para mim tinha — disse — Você levou tempo demais a compor a cena. Eu queria que tudo batesse certo entre nós. — Você também não soube aproveitar lá muito bem a situação. — Não. — E agora ainda tem importância? Tomei-a de novo nos braços.
— Agora já nada tem importância. Nessa altura os olhos dela estavam cheios de lágrimas e molhava-me a cara com elas. — Oh, Luke, Luke! Sei tudo o que se tem dito acerca das lágrimas de uma mulher, mas não acredito em nada disso. São o melhor banho que existe para o ego de um homem. Senti que tinha dois metros de altura quando lhe afastei as lágrimas com um beijo. Nessa tarde não cheguei a ir ver o peixe a Coronado. Em vez disso, enfiei o uniforme pela primeira vez desde que ali estava e fui atrás dela para a conferência de imprensa. Senti-me contente quando tudo estava prestes a terminar. Foi horrível. Os repórteres, assim que nos viram juntos, rodearam-nos por todos os lados. Obrigaram-nos a posar. Fizeram perguntas. Estávamos noivos? Quando é que nos casávamos? Como é que nos tínhamos conhecido? Ela ia comigo a Washington quando fosse condecorado? Eu tinha vindo para ali para estar perto dela ou era o contrário? Passados momentos, fartaram-se de fazer perguntas para as quais não tínhamos resposta e a festa tomou o caminho para o qual tinha sido organizada. Isto era: para ouvir Aaron Scaasi expor as razões pelas quais pensava que Nora era a coisa mais importante que tinha acontecido à escultura americana desde o totem. Devo dizer que ele foi bastante convincente. Até me convenceu a mim. Era um homem careca e atarracado que mais parecia um ex-pugilistado, que um dos mais proeminentes negociantes de objectos de arte do país. Não parava de enxugar a testa com um lenço azul-celeste. Nora parecia uma criança, sentada no sofá ao lado dele. Sam Corwin aproximou-se e sentou-se. — Sabe o que está a dizer — comentou, com um aceno em direcção a Scaasi. — Ela é mesmo muito boa. Olhei para Sam. Era um homem magro, de aspecto quase frágil, cuja aparência poderia enganar quem não reparasse na boca firme e no queixo decidido. Lá no fundo, o indivíduo era duro como rocha. — Eu acredito nele — disse, perguntando a mim mesmo até onde iria o interesse de Corwin por Nora. Foi como se soubesse o que eu estava a pensar. — Conheço a Nora desde os tempos em que ela ainda andava na escola. Sempre tive fé nela e fiquei muito satisfeito quando Nora e a mãe sugeriram que eu me encarregasse dos negócios dela. Ficou a estudar-me com os olhos escuros. — Devo-lhe um voto de agradecimento. — Oh? — disse. Fez que sim com a cabeça. — Por ter vindo à recepção. Nora ficou muito perturbada, depois de ter falado consigo e estava disposta a cancelar tudo, se não conseguisse encontrálo para lhe pedir desculpa. É muito emotiva, é quase como uma criança neste género de coisas. A festa estava a chegar ao fim e Corwin afastou-se para trocar algumas palavras finais com os jornalistas. Talvez o bourbon me tivesse afectado os sentidos, mas fiquei com a impressão de que ele tinha querido dizer-me mais qualquer coisa. Scaasi e Nora aproximaram-se. Nessa altura dei comigo a criticar a maneira familiar como ele lhe pousava a mão no ombro. — Não quereria fazer-nos companhia ao jantar? Hesitei um momento, olhando para Nora; depois decidi-me. — Não, obrigado. Têm negócios a tratar e eu não quero incomodá-los. — Não incomodava nada — disse Nora rapidamente.  Vi a decepção nos olhos dela. Por momentos, quase mudei de ideias. Depois pensei melhor. Sorri, pedindo desculpa. — Prometi a mim mesmo que ia pescar um bocado. Acho que vou sair com o barco esta noite e parar lá para os lados do Coronado. Quando o sol nascer já estou a postos. — Amanhã, a que horas volta? — perguntou Nora. — Tarde. — Então, já não o vejo. Tenho de estar de volta a São Francisco na manhã seguinte.
— Lamento — respondi.  Sam chamou Scaasi e deixaram-nos ficar sozinhos. — Tenciona telefonar-me? — perguntou. — Claro. — Não, não tenciona — disse, passado um momento. — Eu sei que não vai telefonar. Vai ser como da última vez. Vai-se embora e não vou saber mais de si. Só vou saber o que ler nos jornais. — Não seja tonta. Eu disse que lho telefonava. — Quando? — Assim que for a São Francisco. — O que também pode ser nunca — disse, melancólica.  Peguei-lhe na mão. Pareceu-me quente, macia e abandonada. — Eu telefono-lhe. Prometo.  Olhou para mim de uma maneira estranha. — E se lhe acontecer alguma coisa. Como é que eu sei? — Não me acontece nada. Agora tenho a certeza. Sabe aquele ditado: "Onde tens de ir ..."? Os últimos repórteres desfilaram porta fora. Eram horas de ir. Apertei a mão a toda a gente. — Eu vou consigo até à porta — disse Nora.  Saimos para o pátio. Já estava escuro e milhares de estrelinhas minúsculas iluminavam a noite. Fechei a porta atrás de nós. — Pensei que não gostava de despedidas — disse.  Sabia que podia tê-la beijado, mas preferi não o fazer. Se o tivesse feito, não me teria ido embora. Acho que ela também sabia que era assim. — Isto não é uma despedida — sussurrou, tocando-me ao de leve na mão. A porta fechou-se atrás dela e eu desci ao encontro do táxi. Scaasi já tinha ido para o quarto dele para se preparar, por isso Sam estava sozinho quando Nora voltou para dentro. Olhou para ela com ar interrogador. — Arranja-me uma bebida — disse a rapariga.  Silenciosamente, levantou-se da cadeira e arranjou-lhe um scotch com soda. Ela pousou o copo. — Vou casar com ele — disse quase num desafio.  Corwin continuou silencioso. — Bom, não tens nada para me dizer? É o que tu e a minha mãe querem, não é? Sam mostrou-se surpreendido. — Como é que sabes? — Não sou assim tão parva — disse, pegando novamente na bebida. — Percebi isso assim que me disseste que lhe telefonasse. Depois, quando ele disse que a minha mãe lhe tinha dado o número, tive a certeza. Agora, depois de ela ter feito aquela afirmação, Sam já não tinha a certeza de estar satisfeito com a ideia. — O casamento é uma coisa séria. Nora acabou a bebida e pousou o copo. — Eu sei — disse. — Parece ser bom tipo. — O que tu queres dizer é que eu não sou! — Não disse isso. — Eu sei que não disseste. Mas é o que estás a pensar, não é? Visto eu ser como sou, não dou uma boa mulher para ele. — Sam ficou silencioso. — E por que é que não posso ser? — perguntou. — Tenho uma boa idade. Não sou muito difícil. Tenho todo o dinheiro de que precisarmos e depois da guerra, posso arranjar as coisas de maneira a ele fazer o que quiser. Achas muito mau? — Isso é uma pergunta ou uma afirmação? — É uma afirmação! — disse, zangada.  Ele puxou do seu inseparável cachimbo.
— Nesse caso, só tenho uma pergunta a fazer-te. Gostas dele?  Nora ficou a olhar para ele. Era a última coisa que esperava que ele lhe perguntasse. — Claro! — Então, óptimo! — Sorriu. — Quando é o casamento?  Viu o sorriso dele e a zanga e a desconfiança desapareceram. Retribuiu-lhe o sorriso. — Logo que conseguir que me peça para casar com ele — respondeu. Quando voltei ao barco, troquei o uniforme por um par de Levis. Os depósitos de combustível estavam cheios; já o tinha verificado antes, quando pensei ir atrás do peixe, mas não gostei da maneira como algumas das velas estavam a queimar, por isso, pus-me a limpá-las. Isso, por sua vez, levou-me a limpar os empaques e depois as válvulas e, quando dei por mim, eram quase dez horas. De repente, senti que estava com fome. Vi as minhas provisões, mas a verdade é que não havia nada que me apetecesse. Além disso, teria de arranjar mais alguns mantimentos, se queria ficar fora até tarde no dia seguinte. Descobri uma pequena mercearia que ainda estava aberta, comprei o que precisava e fui ao Greasy Spoom comer um bife péssimo, com o inevitável frasquinho de chili. Não havia outra maneira de o fazer ir para baixo. De repente, nem o chili conseguia disfarçar o gosto horrível da comida. Olhei para o prato, aborrecido. Se não tivesse sido parvo, podia ter comido um jantar decente. Mas não. Eu tinha de ser sempre independente. Nada de prisões para o velho Luke, Ele marchava sozinho. Meti na boca mais uma garfada de bife e pus-me a mastigar enquanto reflectia. Afinal, o que é que se passava comigo? O problema era que tentava sempre tornar as coisas maiores do que eram na realidade. Não sabia aceitar as coisas tal como eram. Tinha de tornar tudo profundo e grande. O que era afinal? O dinheiro dela? O facto de a velha senhora mo ter praticamente metido à cara? Não, não podia ser isso. Lembrei-me de que, nos velhos tempos da escola, costumavam dizer: "É tão fácil um tipo apaixonar-se por uma rapariga rica como por uma pobre. Só que é muito melhor." De repente percebi o que era. Não estava muito interessado em me deixar prender porque tinha medo. Medo de que, se me apaixonasse por ela, me deixasse ir. Nora era tudo aquilo que eu sempre tinha querido. Classe, estilo, encanto, toda ela brilho e esplendor, com um acabamento que só os anos podiam dar. E com tudo isso ainda um talento artístico e uma feminilidade feroz e selvática, que eu sentia correr fundo dentro dela. A vida com uma rapariga daquelas não seria fácil. Além disso, como é que eu sabia que ela sentia da mesma maneira? O que é que eu tinha para oferecer? Tirei mais uma garfada de bife, mas já estava frio e afastei o prato. Fui até ao balcão e peguei nos meus dois sacos de compras. Não tinha frigorifico, por isso pus tudo no chão da cabina e olhei para o céu. Estava claro e a lua brilhava de tal forma que quase parecia dia. Olhei para o mar. Estava calmo como um lago, como era costume dizer-se. Olhei para o relógio. Eram onze e meia. Conseguiria fundear em Coronado pouco depois da uma. Estendi o braço, carreguei no botão do arranque e depois sai para o convés, para pôr o barco em movimento. A viagem não demorou mais do que eu pensava. Quando desliguei o motor e deixei cair a âncora, os salpicos vieram bater-me na cara. Era bom. Deixei cair o fato no convés e saltei pela borda fora atrás da âncora. Nadar no mar alto é como estar a ser embalado num berço. O oceano tem um volume, um corpo que sentimos debaixo de nós, Erguemo-nos com ele e caímos com ele como se faz com uma mulher; o movimento acalma-nos, faz-nos sentir mais repousados e desfaz todos os nós. Mais tarde subi novamente para o barco e atravessei o convés descalço, em direcção à cabina. Empurrei a porta e entrei. Estendi a mão à procura de uma toalha, mas encontrei o sítio das toalhas vazio. Mal me voltei para acender a luz, uma voz saiu da escuridão. — À procura de uma toalha, Luke?  E uma toalha saiu da escuridão, voando, bateu em mim e caiu no chão. Inclinei-me para a apanhar. Não conseguia vê-la. Estava escondida nas sombras do beliche, mas conseguia ouvir-lhe o riso. — Meu Deus, como estás magro! Estive a ver-te pela portinhola. Contam-se todos os ossos. Rapidamente enrolei a toalha em volta do corpo. Ouvi-a mexer-se e depois a cabeça dela bloqueou o luar que entrava pela portinhola. Senti-lhe o toque das mãos no meu ombro e quando se
voltou, o luar deu-lhe em cheio no rosto. Estendi-lhe os braços e, mesmo antes de lhe tocar, já sabia que estava tão nua como eu. Não sei quanto tempo ficámos ali, na cabina minúscula, com os lábios a tocarem-se, os corpos moldados um no outro, de forma que nem conseguia dizer onde acabava eu e começava ela. — Amo-te, Nora — disse.  Senti-a mexer-se ligeiramente nos meus braços. — Amo-te, Luke. — Encostou-me a cara ao peito. — Eu tinha-te dito que não era um adeus. Levantei-a nos braços e levei-a até ao beliche. — Nunca mais vamos dizer adeus, tu e eu — sussurrei.  Os braços dela estenderam-se e puxaram-me para um país de maravilhas que nunca tinha conhecido antes. Como é doce a carne do amor! Estava a dormir de lado, quando acordei a meio da noite; tinha as costas de encontro à parede, os joelhos dobrados para cima, tanto quanto o espaço permitia. Tinha os olhos fechados e, mesmo à luz do luar, reparei como as pestanas eram compridas e escuras e como se parecia com uma criança quando dormia. Lentamente abriu os olhos. Fechou-os de novo, por momentos e depois voltou a abri-los, lentamente. Um sorriso malicioso surgiu-lhe no rosto. Puxou-me a cabeça de encontro ao peito. — Vem, meu querido.  Os seios dela eram como pequenos frutos maduros, doces, firmes e quentes, como os pêssegos amarelos que crescem nas árvores em julho. Beijei-os e ouvi-lhe o grito sensual de prazer. Mais tarde, muito mais tarde, com a cara enterrada no meu ombro, murmurou. — Nunca tinha sido assim, Luke. Nunca!  Acariciei-lhe suavemente a cabeça. Não respondi. Levantou a cabeça para me olhar nos olhos.  — Acreditas em mim, não acreditas? — Fiz que sim com a cabeça, sem dizer nada. — Tens de acreditar em mim! Não podes deixar de acreditar — disse ferozmente. — Digam as pessoas o que disserem. — Acredito em ti.  Com grande espanto meu, ela começou a tremer e quase largou a chorar. — Há pessoas que me odeiam! Que invejam tudo o que tenho e tudo o que faço. Estão sempre a inventar histórias a meu respeito. A contar mentiras. Lembro-me de como me senti naquele momento muito mais sensato e muito mais velho do que ela. — Não penses nisso. Há sempre gente dessa. Mas eu conheço-te e qualquer pessoa que te conheça não vai dar ouvidos a essas histórias. Apertei-lhe novamente a cabeça de encontro ao meu ombro e, passado um bocado, deixou de tremer. — Luke, em que é que estás a pensar? — Levantou os olhos para mim. — Luke, tenho uma confissão terrível a fazer. Um medo repentino cresceu dentro de mim. Se me tinha mentido em qualquer coisa, não queria saber. Não queria que nada mudasse entre nós. Não disse palavra. Acho que ela sabia o que se estava a passar dentro de mim, porque me lançou um sorriso trocista. — Não sei cozinhar.  A sensação de alívio que me percorreu o corpo foi quase cómica. Larguei a rir. Depois deslizei para fora do beliche, para ir fazer café. Quando voltei, vi que ela tinha descoberto um pedacito de arame. Ficou sentada calmamente, a brincar com o fio enquanto eu bebia o café forte e negro. Senti-me absolutamente fascinado quando o pequeno fio de metal ganhou vida e tomou o contorno de um homem prestes a mergulhar na água. Ela notou a minha atitude e pôs o fio de lado. — Não pares — disse. — Quem me dera saber fazer uma coisa assim! Sorriu. — Eu, às vezes, preferia não saber. Gostava de parar, mas não consigo. Estou sempre a ver coisas em coisas e é como se elas tivessem de vir cá para fora. Entendes o que eu quero dizer?
— Acho que sim. Pertences ao número das pessoas com sorte. Muitas pessoas vêem coisas, mas não conseguem fazê-las tomar forma. Ficou um momento a olhar para a figura de arame e depois deitou-a para o lado, despreocupadamente. — É verdade, sou uma das pessoas com sorte — disse quase com amargura. — E tu? O que és tu? Encolhi os ombros. — Não sei. Nunca pensei nisso. Sou um tipo qualquer, acho eu, à espera que a guerra acabe. — E depois o que é que vais fazer? — Arranjar emprego. Com um bocado de sorte talvez consiga construir umas quantas casas antes de ser demasiado velho para sentir prazer com isso. Não sei se presto para alguma coisa. Nunca tive a oportunidade de me afirmar. Fui direito da universidade para a força aérea. — O professor Bell diz que tu és muito bom. — A opinião do professor Bell não é isenta — disse. — Fui o aluno preferido dele. — Talvez eu te possa ajudar. Tenho um primo que é um arquitecto bastante conhecido. — Eu sei — respondi. — George Hayden. Hayden de Carruthers...  — Como é que soubeste? — Foi a tua mãe que me disse.  Olhou-me, pensativa. Depois, estendeu a mão para um cigarro. Acendi-lho. Inalou profundamente o fumo. — A minha mãe não perde tempo. Não respondi. Inclinou-se para trás. — É tudo tão sossegado, aqui. Tão grande e vazio e distante de tudo. Não há barulho que nos faça doer os ouvidos, nem pessoas para nos aborrecerem. Apenas uma calma tremendamente profunda. Como se estivéssemos sozinhos no mundo.  Eu não disse nada. — Luke. — Não olhou para mim. — Queres casar comigo? — Quero.  Então, olhou-me, com os olhos claros e escuros ao mesmo tempo. — Nesse caso porque é que não me pedes?  — O que é que eu tenho para oferecer a uma rapariga como tu? — perguntei. — Não tenho nada. Nem dinheiro, nem emprego, nem futuro. Nem sequer sei se terei com que sustentar uma mulher. — E isso é assim tão importante? Eu tenho o suficiente...  — Para mim, é importante — disse, interrompendo-a. — Sou um tipo antiquado. Ajoelhou ao meu lado e pegou-me nas mãos. — Isso não tem importância, Luke. Acredita, nenhuma importância. Pede-me que case contigo. — Fiquei a estudá-la em silêncio. Afastou os olhos dos meus. — Isto é, se queres realmente casar comigo. Mas não és obrigado a isso, só por causa do que aconteceu entre nós. Quero que saibas isso. Estendi os braços e voltei a cara dela para mim. — Amo-te — disse. — Queres casar comigo?  Não respondeu. Limitou-se a olhar para mim e a acenar com a cabeça, com as lágrimas a brilharem-lhe nos olhos. Inclinei-me e beijei-a suavemente nos lábios. — Tenho de dizer ao Sam.  — Ao Sam? — perguntei.  — Sim, faz parte do trabalho dele. Vai ter de preparar um comunicado para a imprensa. Sempre é melhor do que deixar algum repórter mexeriqueiro tomar conta do caso e deturpar tudo. Não respondi. Pôs-me a mão no braço. — Sam é um bom amigo.
 
— Era o homem com quem te ias encontrar na noite em que te conheci — disse.
— Ah, então é isso! Tens ciúmes dele. — Não respondi. — Não tens de ter. Já há muitos anos que o Sam é um bom amigo. Desde o meu tempo de escola. — Eu sei. Ele teve o cuidado de mo dizer.  Ficou um momento com os olhos pregados em mim. — E é só isso que ele tem sido. Um bom amigo. Nunca houve nada entre nós, embora as pessoas digam o contrário. — Essa é uma das coisas de que estavas a tentar prevenir-me? — perguntei. — É. Mas trata-se de mais uma mentira suja  Ali mesmo, cometi o primeiro erro do nosso casamento. Era de facto uma mentira, mas a mentira era dela. Não sei porque é que eu sabia, mas a verdade é que sabia. Talvez fosse a expressão cândida e honesta dos olhos dela ou o tom decidido da voz. Qualquer coisa que não estava certa. Nunca tinha sentido aquilo nela, não encaixava. Mas o erro foi meu e não se pode voltar atrás e começar tudo pelo principio. Uma mentira leva a outra, não apenas para o mentiroso, mas também para quem finge acreditar, até que a verdade se torna demasiado terrível para que qualquer dos dois a possa enfrentar. Mas, naquela altura, eu ainda não sabia isso. Pelo contrário, pensava que, fosse o que fosse que ela não queria que eu acreditasse, já tinha acabado há muito. Tinha acontecido antes de eu a conhecer e já não tinha importância. Eu amava-a e ela amava-me e tudo o mais era ontem. Inclinei-me e beijei-a ao de leve na face. — Acredito em ti — disse.
 
Olhei de relance para Dani, que estava sentada ao meu lado e depois para Nora que estava sentada do outro lado da mesa, entre Harris Gordon e a mãe. Embora não o fizesse de maneira acintosa, ela conseguia evitar cuidadosamente o meu olhar, depois das palavras de saudação, delicadas, que tínhamos trocado. Perguntava a mim mesmo se os demónios da memória alguma vez tinham voltado para a atentar, como tinham feito comigo. Harris Gordon olhou para o relógio. — Acho melhor prepararmo-nos — disse. Olhou para Dani, do outro lado da mesa e sorriu. — Vai lá acima depressa buscar o teu casaco, minha filha. Dani olhou para ele um momento, depois, em silêncio, saiu da sala. Um silêncio incómodo caiu sobre nós, como se Dani tivesse levado com ela o meio invisível que tornava possível a comunicação entre nós. Gordon pigarreou. — Dani pode ir no carro com a mãe e a avó. — Voltou-se para mim. — Gostaria que o senhor viesse comigo, coronel. Teríamos, assim, uma oportunidade de falar. Fiz que sim com a cabeça. Era isso mesmo que eu queria. Continuava a não saber mais do que aquilo que ele me tinha dito na noite anterior, pelo telefone. Durante todo o pequeno-almoço, tínhamos evitado cuidadosamente falar daquilo que nos fizera reunir ali. — Podemos ir no meu carro, mãe — disse Nora. — O Charles guia. Um leve suspiro escapou dos lábios da Sra. Hayden. Olhou para mim com um vago sorriso sombrio. — Envelhecer é um processo penoso. Nunca se consegue que tenha a graciosidade que nós gostaríamos de lhe imprimir. Retribui-lhe o sorriso com um aceno de cabeça. Sabia exactamente o que ela queria dizer. Quando Gordon saiu atrás da Sra. Hayden, Nora e eu ficámos sozinhos. Nora pegou na cafeteira. — Mais café? — Fiz que sim com a cabeça. — Natas e açúcar? — Olhei para ela. Corou. — Que disparate o meu! Esqueci-me. Simples. Sem natas. Um quadradinho de açúcar. — Ficámos um momento em silêncio. — A Dani está muito bonita, não achas? — Sim, está muito bonita — respondi, levando a chávena à boca.  — O que é que pensas dela? — Não sei o que é que hei-de pensar. Já não a via há tanto tempo e agora só estive com ela uns minutos. Uma nota de sarcasmo apareceu-lhe na voz:
— Nunca pensei que precisasses de tempo para formar uma opinião. Costumavas dizer que vocês os dois estavam sempre sintonizados. — Estávamos — respondi. — Mas isso foi há muito tempo. Dani cresceu e aconteceram-nos tantas coisas a ambos. Não sei, talvez volte com o tempo. — Costumavas mostrar-te mais seguro da tua filha. — Olhei para ela. — Havia muitas coisas das quais eu costumava sentir-me mais seguro. Como agora, por exemplo. Tenho a certeza de que estás, deliberadamente, a fazer uma grande história à volta da palavra filha. Se estás a tentar dizer-me alguma coisa, podes aproveitar agora. Os olhos dela toldaram-se. — Continuas exactamente como quando nos conhecemos. Dolorosamente directo. — É demasiado tarde para mentiras delicadas, Nora. Embarcámos nisso há muito tempo e não deu resultado. A verdade é mais simples. Assim ninguém tropeça em nada. Nora baixou os olhos para a toalha. — Por que é que vieste? — perguntou com amargura, — Disse ao Gordon que não precisávamos de ti. Estávamos a entender-nos muito bem. Pus-me de pé.  — Eu não queria vir. Mas tenho a certeza de que, se estivessem a entender-se assim tão bem, não teria sido preciso. Dei meia volta e saí para a sala de entrada. Sentia um nó característico nas entranhas. Nora não tinha mudado nada. Nesse momento Dani vinha a descer as escadas. Levantei os olhos para ela e, dentro de mim, tudo ficou paralisado. Já não era uma rapariguinha que vinha pelas escadas abaixo. Era uma mulher. Alguém que eu tinha conhecido muito bem: a mãe dela. Trazia um fato de saia e casaco, o casaquinho atirado despreocupadamente por cima dos ombros, Tinha o cabelo fofo, acho que é como lhe chamam, o batom acabado de pôr na boca jovem. A criança que tinha estado sentada a meu lado à mesa do pequeno-almoço desaparecera outra vez. — Papá! O gelo desfez-se dentro de mim. A voz continuava a ser de uma criança.  — Sim? Desceu e fez uma pirueta à minha frente. — Como é que me acha?  — Uma boneca de carne e osso. — Sorri, estendendo-lhe os braços. — Não faça isso, papá — disse rapidamente. — Vai escangalhar-me o cabelo. O sorriso desapareceu-me do rosto. Continuava a ser uma criança, se era só isso que a preocupava, Mas talvez não fosse. Nora agia da mesma forma quando queria preservar aquilo que chamava a sua imagem. Fiquei a pensar se a minha filha também passara a pensar como ela. Dani pareceu notar o meu constrangimento. — Não te preocupes, papá — disse, no mesmo tom estranhamente tranquilizador que tinha usado quando Nora entrara na sala. — Tudo vai correr bem. Baixei os olhos para ela. — Tenho a certeza de que sim. — Eu sei que vai, papá — disse com um ênfase curioso. — Há coisas que têm mesmo de acontecer para as pessoas poderem crescer. Fiquei a olhar para ela. A velha Sra. Hayden entrou nesse momento, seguida de Gordon e Nora. — Digam ao Charles que siga o meu carro — disse Gordon enquanto lhes abria a porta da rua. — A que horas é que temos de estar no tribunal? — perguntou Nora quando iam a sair. O advogado olhou-a com ar interrogador. — Hoje não vamos ao tribunal. Vamos simplesmente entregar de novo a pequena às autoridades que se ocupam da delinquência juvenil. — Ainda bem. Não me sinto capaz de aparecer em tribunal. 
Gordon não respondeu, limitou-se a fazer um aceno de cabeça, enquanto ela se encaminhava para os carros. — Faça favor, coronel — disse, delicadamente.  Charles estava a abrir a porta do Jaguar de Nora quando eu me aproximei. Um sorriso franziulhe a cara. — Coronel Carey.  Charles — sorri e estendi-lhe a mão. — Como é que tens passado? — Óptimo, meu coronel! — A voz dele tornou-se calorosa. — Apesar das circunstâncias, é bom tornar a vê-lo.  — Fecha a porta, Charles — disse Nora de dentro do carro.  Charles fez que sim com a cabeça e fechou a porta. Deitou-me um olhar enquanto dava a volta ao carro, apressado, e sentou-se ao volante. — Veio de carro, coronel? — perguntou Gordon.  Apontei para o pequeno Corvair de aluguer, um pigmeu entre dois gigantes, o Cadilac preto dele e o Jaguar cinzento de Nora. — Nesse caso, vou dizer ao meu motorista que venha atrás de nós.  — Pode fazer-lhe jeito o carro quando estivermos despachados. Fez um gesto com a mão e começámos a desfilar ao longo do caminho extenso, com os outros carros atrás de nós. O jardineiro abriu os portões e nós passámos. Havia um grupo de repórteres do lado de fora, mas dispersaram em direcção aos respectivos carros, quando viram que não íamos parar. Gordon. fez de novo sinal e voltámos para oeste, seguindo por Califórnia Street e passando em frente da Catedral da Graça. Ambos estendemos a mão ao mesmo tempo para o isqueiro do carro. Rimo-nos e apontámos um para o outro. Acendi o meu cigarro e depois segurei no isqueiro para ele acender o dele. — Obrigado. — Não olhou para mim. — Espero que não me guarde rancor por causa do nosso encontro anterior. Olhei para ele. Lembrava-me de uma fotografia que tinha visto uma vez, de Gene Tunney e Jack Dempsey, num jantar desportivo qualquer. Tunney sorria, mas no rosto de Dempsey havia uma fúria negra. Compreendia agora o que ele sentia. Por muito remotos que sejam os factos, ninguém gosta de se lembrar de uma derrota. Eu não era excepção. A ideia não me agradava, mas como toda a gente, tinha de aprender a viver com ela. — Faça um trabalho igual pela minha filha, que eu não me queixo. Não lhe escapou a maneira como eu fugi ao assunto, mas preferiu ignorar. — Óptimo! Pode ter a certeza de que faço.  Esperei até entrarmos em Gough Street, então disse: — Tudo o que sei é aquilo que me contou pelo telefone ou o que li nos jornais. Talvez me possa pôr ao corrente. — Claro. — Deitou-me um olhar curioso. — Creio que não deve ser preciso entrar em grandes pormenores sobre a ligação de Nora com Riccio? Sacudi a cabeça. Conhecia Nora. — Tinham passado o dia inteiro a discutir — disse. — segundo depreendi, Nora queria pôr fim à sua ligação, tanto de negócios como pessoal. Pediu-lhe que saísse de casa imediatamente. Ele tinha descoberto uma mina e não pretendia largá-la. — A Nora tinha outro? — perguntei.  Outra vez a mesma olhadela de lado. Encolheu os ombros. — Não sei e também não perguntei. A polícia já estava no local quando cheguei. Não achei prudente fazer perguntas. — Estou a ver — disse.  Voltámos novamente para oeste, para entrar em Market Street. — Ao que parece, Riccio tinha ido atrás de Nora desde o quarto até ao estúdio, sempre a discutir. Dani estava no quarto dela, a tentar estudar, quando ouviu a mãe gritar. Correu pela escada
abaixo e viu Riccio avançar ameaçadoramente para Nora. Pegando no cinzel de escultor que estava em cima da mesa, correu a pôr-se no meio de ambos e acutilou Riccio no estômago. Quando Riccio caiu para o chão a sangrar, a pequena ficou histérica e começou a gritar. Charles entrou no estúdio a correr, seguido da criada de Nora. Nora disse a Charles que chamasse o médico pelo telefone de casa e ligou para mim pelo telefone do estúdio. Pedi-lhe que comunicasse à polícia e que cooperasse com eles, mas que não prestasse declarações enquanto eu não chegasse. Pus-me lá em cerca de vinte minutos. A polícia chegou, pelo menos, dez minutos antes de mim. Esmaguei o meu cigarro no cinzeiro. — Agora a grande novidade. — Que a Nora o tenha morto? É isso que está a pensar? Fiz que sim com a cabeça. Gordon respondeu muito lentamente. — Não creio. Falei com ambas antes que fossem prestadas quaisquer declarações. As histórias que me contaram separadamente corroboravam-se demasiado para poderem ser contestadas. — Tiveram tempo de combinar essas mesmas histórias. Sacudiu novamente a cabeça. — Tenho demasiada experiência deste género de coisas para me deixar levar. Além disso, nenhuma delas estava em estado de imaginar uma história falsa. Estavam ambas quase histéricas. Nunca teriam conseguido a coerência necessária para fabricar uma história. — Não houve mais testemunhas. — Nenhuma. — O que é que aconteceu a seguir? — O Dr. Bonner, que chegou antes de mim, levou Nora para cima e deu-lhe uma injecção. Em seguida eu mandei o sargento Flynn ligar para si, enquanto fui à esquadra da polícia, com Dani, para ela prestar declarações. Li-lhe depois o depoimento e, apesar dos meus conselhos, insistiu em o assinar. Da esquadra da polícia fui à secção de detidos juvenis, onde Dani foi entregue às autoridades competentes. Felizmente consegui persuadir o encarregado a ligar para o juiz do Tribunal de Menores que, depois de ouvir a recomendação do Dr. Bonner, mandou Dani passar a noite a casa. Levei-a para casa da avó e foi de lá que liguei para si. Estávamos agora em Portola Drive, subindo para as colinas. Olhei para trás. O Jaguar de Nora vinha mesmo atrás de nós. Para a esquerda via-se quase a cidade inteira estendida diante dos nossos olhos. à direita, vi os locais de construção bem meus conhecidos. Estávamos a aproximarmo-nos de um enorme cartaz: AQUI É DIAMOND HEIGHTS Era onde vinha comprar as árvores de Natal nos primeiros anos do meu casamento com Nora. Lembrava-me de ter pensado uma vez que poderia fazer ali a construção do meu primeiro projecto, mas tinha surgido um problema de escoras por causa das colinas e a municipalidade não tinha querido cooperar. Mas agora a terra era mais rara e mais valiosa. Aparentemente as autoridades tinham começado a ver mais claro. Olhei para as casas com olho crítico. Estavam a fazer um bom trabalho. Voltei-me novamente para Gordon — Precisamente o que foi que o levou a telefonar-me? Encolheu os ombros. — Não sei lá muito bem. Deve ter sido assim uma espécie de inspiração. Tive o pressentimento de que você devia ser a pessoa indicada para se ter à mão numa situação destas. — Pensou isso, mesmo depois do que Nora disse da última vez que estivemos no tribunal. Não respondeu logo. Quando chegámos ao cimo da colina, descrevemos uma curva apertada para entrar em Woodside Avenue. Uma série de edifícios de um verde tristonho erguia-se à nossa direita. Metemos por um caminho particular, subimos e demos a volta para a traseira dos edifícios. Reparei numa pequena placa: SERVIÇO DE RECEPÇÃO DE CRIANÇAS. Gordon parou o carro e desligou o motor, depois voltou-se para olhar para mim. Falou em voz clara e olhando-me nos olhos: — O que eu penso não importa. O que conta é aquilo que você pensa. A responsabilidade é sua. Ou bem que é o pai ou bem que não é.
Abriu a porta e saiu. Ouvi um automóvel aproximar-se atrás de nós. Olhei pelo retrovisor e vi o Jaguar de Nora. Lentamente, estendi a mão para o fecho da porta. Os repórteres e fotógrafos já estavam todos à nossa volta antes de o carro de Nora parar. Gordon fez um gesto em direcção a uma porta que ficava por detrás dele. — Faça-a entrar para ali o mais depressa que puder. Fiz que sim com a cabeça e abri caminho até à porta do carro. Nora foi a primeira a sair. Segurei-lhe na mão para a amparar. Os flashes dispararam. Ela voltou-se e juntos ajudámos Dani a sair. As mãos dela estavam frias como gelo; senti-as tremer nas minhas. — Não olhes para eles, querida. Vem comigo. — Dani acenou com a cabeça, em silêncio, e encaminhámo-nos para a porta. Os repórteres comprimiam-se de encontro a nós, forçando-nos a parar. — Parem um momento para tirar uma fotografia, se fazem favor! — gritou um deles. Senti a obediência quase instintiva de Dani à voz da autoridade. Empurrei-a levemente para a frente. — Não pares, querida. Gordon conseguiu juntar-se a nós e fizemos um cordão apertado em volta de Dani, enquanto abríamos caminho em direcção à porta. — Afastem-se, amigos — suplicou Gordon. — Deixem a pequena fazer o seu caminho! — É isso mesmo que nós queremos, Sr. Advogado! — disse uma voz rouca lá do fundo, por detrás da multidão. — Uma fotografia de primeira página da criminosa mais jovem que já lhe passou pelas mãos! O rosto de Dani empalideceu e os joelhos fraquejaram-lhe. Passei-lhe um braço bem apertado em volta da cintura e brandi o outro no ar, furioso. — Deixem-na em paz senão ainda dou cabo de uns quantos! — gritei. De repente, fez-se silêncio. Não sei se foi a minha fúria ou o embaraço deles perante aquela observação estúpida, mas os que estavam mais perto de nós afastaram-se. Eu quase arrastei Dani pela porta dentro e Nora e Gordon seguiram-nos. Gordon. Voltou-se e fechou a porta. Dani estava caída de encontro a mim, com os olhos meio fechados. Estava tão pálida que a pouca maquilhagem que tinha na cara dava nas vistas, Puxei-lhe a cabeça de encontro ao peito e apertei-a muito. — Calma, minha filha.  Sentia-a tremer. Tentou falar, mas não lhe saiu nenhuma palavra. Tremia violentamente. — Tem ali um banco, Sr. Carey — disse uma enfermeira de uniforme branco.  Não a tinha visto chegar. Encaminhei Dani para o banco e sentámo-nos; ela sempre com a cara encostada ao meu peito. A enfermeira inclinou-se com um frasquinho de sais na mão. — Dê-lhe isto a cheirar, Sr. Carey — disse com simpatia.  Peguei no frasco e passei-o sob as narinas de Dani. O odor levemente pungente chegou até mim. Dani aspirou e depois, tossiu. A enfermeira pegou no frasco e deu-me um copo de água. Cheguei-o aos lábios de Dani. Ela bebeu um golo, depois outro, devagar. Levantou os olhos para mim. A cara dela já retomara um pouco a cor. — Eu... eu estou bem, papá — murmurou com voz rouca. — De certeza? Fez que sim com a cabeça. Os olhos dela eram de um violeta profundo, como os da mãe, embora mais suaves e, de certa maneira, mais carinhosos. Mas agora tinham ficado, de repente, velhos, cansados e doridos. — Eu habituo-me, papá. Só vai ser preciso um pouco de tempo. — Tu não precisas de te habituar a nada! — exclamei, furioso. Dani sorriu. — Não te preocupes, papá. Não há problema. 
Interceptei o olhar de Nora. Conhecia-lhe a expressão. Tinha-a visto muitas vezes, antigamente, quando olhava para Dani e para mim. Como se fôssemos dois seres de outro planeta. Um lampejo do velho azedume atravessou-lhe o rosto. — Já te sentes com forças para vir ali à recepção, minha filha? — perguntou a enfermeira. Dani fez que sim com a cabeça. Quando se pôs de pé, pegando o braço, ela empurrou-me a mão e eu percebi que tinha visto a expressão da mãe. — Eu consigo, papá. Segui-a até à pequena mesa da recepção. Havia um letreiro na parede nua e pintada: ENTRADA DE RAPARIGAS. Parecia só um bocado com um hotel barato. Sob aquele letreiro, havia outro mais pequeno: AS RAPARIGAS NÃO SÃO AUTORIZADAS A USAR MAQUIAGEM,  A NÃO SER BATOM INCOLOR,  TUDO O MAIS DEVE SER ENTREGUE NESTA RECEPÇÃO  ANTES DE IREM PARA AS RESIDÊNCIAS. Uma mulher de ar calmo e cabelos grisalhos estava sentada por detrás da secretária. — A sua filha não precisa de dar entrada outra vez, Sr. Carey. Já deu entrada a noite passada. Agora só tem de entregar as coisas dela. Dani pôs a carteira em cima da secretária. — Posso ficar com um batom e um pente? A mulher fez que sim com a cabeça. Dani abriu a mala e tirou um batom e um pente. Depois, tirou o relógio de pulso e pô-lo dentro da carteira. Levantou os braços e tirou a enfiada de pérolas que meteu também na carteira. Começou a tirar o anel do dedo, mas ele não saía. Olhou para a mulher com ar interrogador. — Tem de ser, Dani — disse a mulher com suavidade.  Dani chupou o dedo um momento. Por fim o anel saiu, deixando um círculo branco no dedo. Segurou-o um momento, hesitante, por cima da carteira aberta, depois voltou-se e deu-mo. — Guardas-mo, papá?  Havia qualquer coisa na voz dela que me fez olhar para o anel. Senti apertar-se-me o coração. Como naquela tarde quente em La Jolla: ela tinha saído e eu gastara os meus últimos quinze dólares num anel de ouro de catorze quilates para o aniversário dela. Tinha-lhe mandado gravar as iniciais dela: D. N. C. Danielle Nora Carey. Reparei no sítio onde tinha sido alargado, para ficar maior, com o passar dos anos. Por momentos, não consegui falar. Limitei-me a acenar com a cabeça e a pôr o anel cuidadosamente na algibeira. Nessa altura, a porta abriu-se de novo e a velha Sra. Hayden entrou. — Aqueles malditos repórteres! — Enquanto se encaminhava para nós, olhou para Dani. — Como é que tu estás, minha filha? — Estou bem, avó. — São horas de ir, Dani — disse calmamente a mulher dos cabelos grisalhos. — Miss Geraghty vai levar-te às residências. De repente Dani pareceu muito só. Um ar de apreensão surgiu-lhe no rosto. Os olhos dela ensombraram-se e escureceram de medo. Miss Geraghty falou num tom tranquilizador. — Não tenhas medo, minha filha. Nós tratamos bem de ti. Dani respirou fundo. Foi até junto da mãe e estendeu os lábios para beijar Nora no rosto. Foi esse o momento escolhido por Nora para tomar uma atitude dramática. — Filhinha! Filhinha! — gritou. — Não vou deixar que te tirem de junto de mim! Era tudo o que a pequenita precisava. Numa fracção de segundo estava a chorar histericamente nos braços da mãe. Num instante todos se juntaram em volta delas, soltando murmúrios de simpatia. Era mais um dos talentos de Nora. A própria enfermeira, que devia estar habituada a cenas como aquela, tinha lágrimas nos olhos. Com uma rapidez de profissional, a enfermeira separou-as e conduziu Dani, ainda a chorar, por outra porta. Por cima havia outro letreiro: PARA AS RESIDÊNCIAS DAS RAPARIGAS. 
Nora voltou-se para Gordon ainda a chorar. Ele deu-lhe o lenço e ela cobriu rapidamente os olhos, mas eu ainda vi de relance a expressão de triunfo que brilhava neles. Vi-os sair à porta e depois voltei-me para a velha Sra. Hayden. O rosto dela estava sombrio e triste.  — Quer vir almoçar lá a casa, Luke? Temos tanto que conversar.  — Não, obrigado — disse. — Acho que vou voltar para o motel e descansar um bocado. Não dormi nada a noite passada. — Então amanhã? Jantar de domingo? Sem mais ninguém. Só nós dois. Fiquei a pensar qual seria a ideia dela. A velha nunca fazia nada sem uma razão. — Veremos... — respondi. — Eu telefono-lhe.  Ficou a olhar para mim um momento, em silêncio e depois respirou fundo. — Não precisa de ter medo de mim. Eu gosto a sério da pequenita, palavra! Havia uma espécie de súplica nos olhos dela que me deu a certeza de que estava a falar verdade. Era a primeira vez que a via pedir que acreditassem nela. — Eu sei que gosta dela, mãe Hayden — disse suavemente.  Olhou-me cheia de gratidão. — Telefone-me de qualquer maneira, por favor. — Está bem, eu telefono.  Voltou-se e fiquei a vê-la sair a porta. Esta fechou-se e depois dirigi-me à empregada de cabelos grisalhos que se tinha sentado à máquina de escrever. — Quando é que posso visitar a minha filha? — perguntei.  — A hora habitual das visitas é das duas e meia às três, aos domingos. Mas, às vezes, abrimos excepções para quem acaba de chegar. — Eu posso vir às horas normais. — Passe pela recepção quando vier, Sr. Carey. Deixo lá um passe para si. — Obrigado.  Saí. O carro de Nora tinha desaparecido e a maior parte dos repórteres tinha-se ido embora, mas Gordon estava de pé, junto do seu Cadilac negro, a falar com os dois que tinham ficado. Fez um gesto na minha direcção e eu aproximei-me. — John Morgan do Chronicle — disse Gordon indicando o mais alto dos dois — e Dan Prentiss, AP. — Gostava de lhe pedir desculpa por aquele comentário estúpido, Sr. Carey — disse Morgan. — Não queria que pensasse que somos todos iguais. — O mesmo se passa comigo, coronel — disse o homem da AP rapidamente — tem a minha simpatia, Sr. Carey e se houver alguma coisa que eu possa fazer para o ajudar, não hesite em me telefonar. — Muito obrigado, meus senhores. Apertámo-nos as mãos e eles afastaram-se. Voltei-me para Gordon. — O que é que se segue? Ele olhou para o relógio e depois novamente para mim. — Tenho de ir ao meu escritório. Vou ficar ocupado toda a tarde. Onde é que posso entrar em contacto consigo pelas seis? — No motel. — Óptimo. Telefono-lhe para lá e, depois, podemos combinar uma hora para acabar a nossa conversa. — De repente, sorriu. — Eu tinha razão, sabe. Você é a pessoa indicada para se ter ao pé quando há problemas. Portou-se muito bem há bocado. — Eu não fiz nada. — Isso é que fez. Teve a reacção indicada. Fez que tenhamos todos os verdadeiros repórteres do nosso lado. Não pude deixar de notar a maneira como ele pôs a questão. — Verdadeiros? Que espécie de repórter é que fez aquele comentário estúpido? Gordon sorriu.
— Não era repórter nenhum, era o meu motorista. Por momentos, receei que não chegasse cá a tempo. Fiquei a olhar para ele de boca aberta. Devia ter pensado nisso. Não era em vão que ele era o Sr. Advogado. Abriu a porta do carro. — A propósito, aqui tem as chaves do seu carro. Está estacionado mais à frente. O meu homem está uns quarteirões mais adiante. Não quis correr o risco de alguém o reconhecer. Peguei nas chaves que me estendia na mão aberta e fiquei a vê-lo meter-se no carro. Aguardei ainda um momento até ele desaparecer do outro lado do edifício depois, lentamente, encaminhei-me para o meu carro. Passei por uma vedação de arame atrás da qual havia uma série de cabanas, verdes e alongadas, de tipo primitivo. Estendi a mão e toquei no arame, ficando um momento ali parado. Algures, no interior daquela vedação, estava a minha filha. Comecei a sentir-me cada vez mais vazio. Ela devia sentir-se tão sozinha. Pus-me a pensar se Nora sentiria as mesmas coisas que eu a respeito de Dani. Depois, com aquela sua maneira insidiosa de me roubar os pensamentos, Nora instalou-se e eu fiquei a pensar no passado. As três semanas que restavam da minha licença foram a nossa lua-de-mel. E, de certa maneira, acho que foram também o nosso casamento. Passaram quase dois anos antes de eu voltar. Nessa altura já a guerra tinha acabado havia um ano e nunca mais conseguimos retomar as coisas onde as tínhamos deixado. Quando parti, Nora não tinha ido ao aeroporto porque não gostava de despedidas. Nem tãopouco estava no aeroporto quando voltei. Mas a mãe estava. A velha senhora apareceu no meio da pista quando descia para o cais de desembarque. Esperar no terminal não era para ela. Estendeu-me a mão. — Luke, bem-vindo. É bom saber que está de volta. Beijei-a na cara. — É bom estar de volta — disse. — Onde está Nora? — Lamento muito, Luke, mas o seu telegrama só chegou ontem. A Nora está em Nova Iorque. — Nova Iorque? — Esta noite é a inauguração da primeira exposição dela depois da guerra. Não fazíamos qualquer ideia de que você fosse voltar agora. — Ela viu a decepção estampada no meu rosto. — A Nora ficou muito pesarosa quando lhe disse pelo telefone que tinha recebido o seu telegrama. Quer que lhe telefone logo que chegue a casa. Fiz um sorriso contrafeito. Tinha de ser. Aliás era como tudo o mais que me tinha acontecido no ano anterior. Cada vez que eu pensava que me podia vir embora, surgia qualquer coisa e eu tinha de ficar. Teria sido melhor que nunca me transformassem em coronel de gabinete e não me tivessem transferido para o Estado-Maior. Todos os outros homens com quem eu voara já tinham regressado seis meses antes. — Ela está bem? — perguntei.  Nora não tinha sido propriamente a correspondente mais fiel do mundo. Já era uma sorte se eu recebesse, em média, uma carta dela por mês. Se não fosse a mãe, teria perdido completamente o contacto. A velha senhora escrevia-me regularmente, pelo menos uma vez por semana. — Está óptima. Tem estado a trabalhar muito para se preparar para esta exposição. Mas já sabe como é a Nora. — Olhou-me com ar trocista. — Com ela não podia ser de outra maneira. Tem de estar sempre ocupada. — É. Pegou-me no braço. — Vamos para o carro. O Charles trata da bagagem. Conversámos sobre uma porção de trivialidades no caminho para casa. Tive a impressão de que a velha senhora estava mais nervosa do que mostrava à superfície. De certa maneira, era normal. Esta era, na realidade, a primeira oportunidade que tínhamos de testar a nossa nova relação. Eu próprio me sentia um tanto tenso.
— O número do Scaasi está em cima da secretária, na biblioteca, ao lado do telefone — disse, quando entrámos em casa. Seguiu o mordomo pela escada acima, com as minhas malas e eu fui direito à biblioteca. A folha de papel estava exactamente no sítio que ela tinha indicado. Peguei no telefone e dei o número à telefonista. A chamada não se fez esperar. — Galeria Scaasi — disse uma voz. Ao fundo, ouvia-se muito barulho de pessoas a falarem. — Miss Hayden, se faz favor. — Quem fala, por favor? — É o marido, de São Francisco — respondi. — Só um momento, se faz favor. Vou tentar localizá-la. Esperei o que me pareceu um tempo interminável. Passado um bocado, a voz apareceu novamente na linha. — Peço desculpa, Sr. Hayden, mas não consigo encontrá-la. Sr. Hayden. Era a primeira vez que ouvia aquilo. E também não seria a última. Com o tempo acabaria por me aborrecer, mas de momento achei divertido. — O meu nome é Carey — disse. — Sam Corwin está por ai? — Vou ver. É só um momento. Passado um momento, Sam estava ao telefone. — Luke, meu velho! Bem-vindo! — Obrigado, Sam. Onde está a Nora? — Não sei — respondeu. — Estava aqui há um minuto. à espera da sua chamada. Sabe como são estas inaugurações. Só saiu para ir comer qualquer coisa. Não comeu em todo o dia. Tem sido uma loucura. — Imagino. Como é que vão as coisas? — Optimamente. Scaasi já tinha vendido quase todas as peças mais importantes antes de abrir a exposição. Ele está a trabalhar numas encomendas muito importantes para a Nora. Não havia muito mais a dizer. — Ela que me telefone logo que possa. — Olhei para o relógio. Eram seis horas. O que queria dizer que eram nove em Nova Iorque. — Eu vou ficar por aqui. — Com certeza, Luke. Você está em casa da mãe da Nora?  — Estou sim. — Logo que a encontre mando-a telefonar. — Obrigado, Sam — respondi. — Adeus. Pousei o telefone e sai da biblioteca. A Sra. Hayden estava à espera na sala de fora. — Falou com a Nora? — Não. Ela tinha saído para jantar. A minha sogra não pareceu surpreendida. — Eu tinha-lhe dito que você telefonava pelas seis.  Dei comigo a defender Nora. — O Sam diz que ela teve um dia muito difícil. Sabe como são estas inaugurações em Nova Iorque. Pareceu-me que ela ia dizer qualquer coisa, mas depois foi como se tivesse mudado de ideias. — Deve estar extenuado da viagem. Porque é que não vai lá acima refrescar-se um bocado? O jantar vai ser servido daqui a pouco. Subi ao meu quarto enquanto ela se dirigia para a biblioteca, fechando a porta atrás dela. O que eu não sabia nessa altura era que tinha ligado imediatamente para Sam. Ele levantou o telefone com ar cansado, sabendo de antemão de quem se tratava. — Sim, Sra. Hayden. A voz da velha senhora era incisiva e zangada. — Onde está a minha filha? — Não sei, Sra. Hayden.
— Julgava que lhe tinha dito que fizesse tudo para a ter aí à espera da chamada do marido. — Dei o seu recado à Nora, Sra. Hayden. Ela disse que estaria. Quando fui à procura dela, já tinha desaparecido. — Onde é que ela está? — repetiu a velha senhora. — Eu já lhe disse. Não sei. — Então, encontre-a. Imediatamente. E diga-lhe que eu quero que telefone imediatamente para casa. — Sim, Sra. Hayden. — E quero que ela apanhe o primeiro avião para aqui! Meta-a o senhor mesmo no avião. Compreendeu o que eu disse, Sr. Corwin? — A voz dela era fria e cortante como aço. — Sim, Sra. Hayden. O telefone desligou-se com um estalido ainda na mão dele. Pousou-o lentamente. Pôs-se a massajar as têmporas com ar cansado. Tinha todos os ingredientes necessários para uma boa dor de cabeça. Nora podia estar numa centena de sítios diferentes. Abriu caminho por entre a multidão e saiu para a noite. A Rua Cinquenta e Sete estava quase deserta. Olhou rua abaixo, rua acima, lançando em pensamento uma moeda ao ar. Passados momentos, decidiu-se. Atravessou a rua e começou a descer para Park Avenue. Já que tinha de começar por qualquer lado, mais valia começar por cima e ir descendo a pouco e pouco. El Morocco era uma possibilidade como qualquer outra. Entretanto as luzes vivas de um drugstore chamaram-lhe a atenção no momento em que atravessava Lexington por altura da Rua Cinquenta e Quatro. Levado por um impulso, entrou e ligou para um detective particular seu conhecido. Passava das duas da manhã quando, finalmente, deram com ela, Num terceiro andar sem elevador, na Rua Oito, em Greenwich Village. — Deve ser aqui — disse o detective. Cheirou o ar. — Basta uma pessoa respirar este ar para apanhar uma pedrada! Sam bateu à porta. Tinha de estar ali. Tinha encontrado o rapaz num bar da Oitava Avenida onde se costumavam juntar os actores sem trabalho. Sam ficou admirado quando soube que Nora se encontrava quase constantemente com ele desde que chegara a Nova Iorque. E ele que julgava que sabia onde ela passava praticamente todos os momentos do seu tempo. Passado um bocado, ouviu-se uma voz do outro lado da porta. — Vão-se embora. Estou ocupado. Sam bateu outra vez. Desta vez a voz estava zangada. — Ponham-se a mexer, já disse! Estou ocupado. O detective mediu a porta com os olhos. Depois pôs o pé em cheio sobre a fechadura. Não deu a impressão de ter empurrado com muita força, mas a porta abriu-se violentamente e com fragor. Um jovem lançou-se sobre eles, vindo da escuridão. Mais uma vez o detective não pareceu mexer-se com grande rapidez, mas de repente apareceu entre Sam e o rapaz e este ficou estendido no chão. Olhou-os, furioso, esfregando o queixo com a mão. — Nora Hayden está aqui? — perguntou Sam. — Não está cá ninguém com esse nome — disse rapidamente o jovem. Sam olhou para ele um momento, sem falar, depois passou por cima dele e encaminhou-se para a outra porta. Antes mesmo de ele lá chegar, a porta abriu-se e Nora apareceu, completamente nua, com um cigarro entre os lábios. — Sam, meu querido. — Riu-se. — Vieste juntar-te à festa? Aquilo lá na cidade deve estar a ficar muito chato. — Voltou às costas e dirigiu-se novamente para o quarto. — Entra — disse por cima do ombro. — Há aqui chá que chega para o exército mexicano em peso. Sam foi atrás dela, rapidamente, e fê-la rodar sobre si mesma. Arrancou-lhe o cigarro da boca e atirou-o para o chão. Sentiu fortemente nas narinas o cheiro acre da maricaua. — Veste-te...  — Para quê? — perguntou com ar truculento.
— Tens de ir para casa. Começou a rir-se. — Lar, doce lar. Por mais humilde que seja, não há nada como o nosso lar. A mão de Sam estalou-lhe de encontro à cara. A bofetada fê-la cambalear para trás. — Vai-te vestir, já te disse!  — Espere aí! — O jovem estava agora de pé. Enquanto avançava para Sam, ia puxando as calças pretas, muito justas. — Não pode fazer isso! Você é marido dela ou quê? Nora começou outra vez a rir. — Essa é boa. Meu marido? É só um cão de guarda que a minha mãe contratou. O meu marido está a nove mil quilómetros daqui! — O teu marido já voltou. Chegou esta noite. Tem estado a tentar falar contigo pelo telefone. — Há dois anos que ele está fora. Alguns dias a mais ou a menos não devem fazer diferença. — Provavelmente não ouviste o que eu disse — ripostou Sam com toda a calma. — O Luke já voltou. Nora ficou a olhar para ele.  — Óptimo. Quando é a parada?  De repente começou a ficar pálida e largou a correr para a casa de banho. Sam ouviu-a arquejar e vomitar e depois o barulho do autoclismo e a água a correr para a bacia. Saiu passados alguns minutos, apertando ainda uma toalha molhada de encontro à cara. — Sinto-me mal, Sam, sinto-me mal.  — Eu sei. — Não, não sabes nada — disse. — Ninguém sabe. Sabes o que é ir sozinha para a cama, noite após noite, a desejar o que não encontro lá? — Não é assim tão importante. — Talvez não seja, para ti — disse zangada, — Mas quando eu acabo de trabalhar fico toda contraída, não consigo dormir. Tenho de fazer qualquer coisa para me descontrair! — Já alguma vez tentaste tomar um duche frio?  — Muito engraçado! — disse. — Julgas que todas essas coisas que eu faço saem daqui? — Tocou na testa. — Pois bem, não saem! Saem daqui! — Tocou no corpo nu. — É daqui que elas vêm e cada vez me sinto um pouco mais vazia. Tenho de receber alguma coisa que me encha de novo! Consegue perceber isso, Sr. Crítico de Arte? Sam fez um gesto para as roupas dela que estavam espalhadas em cima da cama desfeita. — Veste-te. A tua mãe quer que telefones imediatamente ao Luke. Olhou para ele com um ar estranho. — A mãe sabe? Sam olhou-a fixamente. — A tua mãe sempre soube. Disse-mo no dia em que eu concordei em tomar conta de ti. Deixou-se cair em cima da cama. — Ela nunca me disse nada. — E se dissesse, teria servido de alguma coisa? Os olhos de Nora começaram a encher-se de lágrimas. — Não consigo — disse. — Não posso voltar. — Podes sim. A tua mãe disse-me que te metesse num avião, logo que telefonasses ao Luke. Levantou os olhos para Sam. — Ela disse isso? — Disse. — E o Luke? Ele também sabe? — Tanto quanto sei, não. Presumo que é a tua mãe que quer deixar as coisas assim. Nora ficou sentada um momento em silêncio. Depois, respirou fundo. — Achas que eu consigo? Agora que o Luke está em casa, já não vou ficar sozinha, à noite. Estendeu a mão para a roupa e começou a vestir-se.
— Achas que me consegues arranjar um avião esta noite? — Falava como uma criança, ofegante e excitada. — Meto-te no primeiro avião que sair. Agora estava feliz; sorria. — Vou ser uma boa esposa para ele, vais ver-me! — Tendo os ombros no soutien voltou as costas para Sam. — Abotoa-me, por favor, Sam. Ele aproximou-se e apertou-lhe o soutien. Nora enfiou o vestido e dirigiu-se novamente à casa de banho. Quando saiu, passados alguns minutos, parecia tão fresca e limpa como se acabasse de sair do duche matinal. Aproximou-se dele e, de repente, esticou-se e beijou-o na cara. — Obrigado, Sam, por me teres encontrado. Estava com medo de voltar. Medo de o enfrentar. Mas agora sei que tudo vai correr bem. Eu queria que tu me encontrasses e encontraste mesmo. Ficou um momento a olhar para ela e depois encolheu os ombros. — Se querias que eu te encontrasse, por que é que não deixaste recado? — Tinha de ser assim — disse — senão não tinha significado. Alguém, além de mim, tinha de saber. Sam abriu a porta. — Vamos. Ela atravessou o outro quarto e saiu pela porta de entrada, sem sequer olhar para o jovem que estava sentado numa cadeira. Charles pôs o sumo de laranja em cima da mesa, à minha frente. Tinham passado alguns meses. Peguei no copo e comecei a beber, no momento em que a minha sogra entrou na sala. Sorriu-me. — Bom dia, Luke. — sentou-se e desdobrou o guardanapo. — Como é que está ela hoje? — Pareceu-me bem — disse. — Passou bem a noite. Acho que os enjoos matinais já acabaram. Fez que sim com a cabeça. — A Nora é uma rapariga forte e saudável. Não é natural que tenha problemas. Abanei a cabeça em sinal de concordância. Ainda não tinham passado mais de seis semanas sobre o meu regresso, quando Nora descobriu que estava grávida. Uma tarde tinha voltado do escritório e tinha-a encontrado num acesso de histerismo. Estava estendida, atravessada em cima da cama no nosso quarto, a soluçar furiosa. — O que é que se passa?  Já estava habituado a algumas das suas crises de humor como, por exemplo, quando as formas que ela pensava que deviam tomar vida com toda a facilidade se recusavam a fazê-lo.  — Não quero tê-lo! Não acredito! — gritou, sentando-se na cama. Fiquei a olhar para ela. — Calma. Não queres ter o quê?  — O diabo do médico! Diz que eu estou grávida!  Pus-me a sorrir, mesmo sem querer. — É sabido que essas coisas podem acontecer. — E o que é que tem de engraçado? Os homens são todos iguais. Faz-te sentir grande, orgulhoso, viril, não é? — Não posso dizer que me faça sentir mal — admiti.  As lágrimas tinham desaparecido e toda a fúria era, agora, dirigida contra mim. — Ter uma criança não vai interferir com o teu trabalho. Ter uma criança não te vai deformar, não és tu que vais ficar grande, gordo, feio, de tal maneira que já ninguém olha para ti. — Deitou-me um olhar furioso. — Não vou tê-lo! — gritou outra vez. — Vou-me ver livre dele. Conheço um médico... Aproximei-me dela. — Não vais fazer nada disso. — Não me podes impedir! — gritou, saindo da cama e dirigindo-se para a porta. Agarrei-a pelos ombros e fi-la voltar para mim. — Posso e vou mesmo fazê-lo — disse calmamente.
O olhar dela toldou-se de fúria.  — Tu não queres saber de mim para nada! Não te interessa que eu viva ou morra. Tudo o que te interessa é a criança! — Isso não é verdade. Quero saber de ti e muito. Por isso é que eu quero que tenhas a criança. Os abortos são perigosos. Lentamente a fúria desapareceu dos olhos dela. — Tu gostas de mim, não gostas? — Sabes bem que gosto. — E quando o bebé nascer continuas a gostar mais de mim do que... do que dele? — Tu és a única coisa que eu tenho, Nora. O bebé é uma coisa completamente diferente. Ficou um momento silenciosa. — Vamos ter um filho. — Como é que sabes? — perguntei. — Os bebés não são feitos num estúdio, como as estátuas. Ergueu os olhos para a minha cara. — Mas eu sei. Todos os homens querem ter um filho e tu vais tê-lo. Eu encarrego-me disso. — Não te preocupes. Uma rapariga também está bem para mim.  Deslizou para fora dos meus braços e aproximou-se do espelho. Deixou cair o roupão para o chão e, voltando-se de lado, ficou a ver no espelho o reflexo da sua própria nudez. — Acho que já estou a ficar com barriga. Sorri. Estava lisa como uma tábua. — Ainda é um bocado cedo para isso. — Não é nada! O médico diz que há mulheres em quem se nota mais cedo. Além disso, já me sinto mais pesada. — Não se nota. — Ai não? — perguntou. Depois voltou-se e viu o meu sorriso. — Já te mostro! Riu-se e atirou-se a mim por cima da cama, Caímos juntos, ela por cima, beijando-me e apoiando todo o peso do corpo sobre mim. — Pronto, o que é que te parece? — Parece-me óptimo. — Ah, parece-te óptimo! — Conhecia aquele tom repentinamente faminto que lhe velava a voz. Beijou-me outra vez; o corpo dela começava a mexer-se. — Espera um minuto — disse, cheio de cautela. — Tens a certeza de que não faz mal? — Não sejas tolo! O médico disse-me que tudo devia continuar normalmente. Só que não pusesse muito peso em cima de mim. Recomendou a posição da mulher superior. — Mulher superior? — perguntei, fingindo-me ignorante. — Julgava que os homens é que eram superiores. — Tu sabes. Quer dizer que a mulher fica por cima. Tomei o ar de quem está a aprender qualquer coisa de novo. Depois não consegui controlarme. Atirei os braços e as pernas para o ar, num impulso estático. — Aqui me tens. Sou teu!  Caímos ambos numa rajada de riso. Mas as manhãs seguintes foram difíceis. A partir daí, sentira-se enjoada quase todos os dias. — Como é que vai o trabalho no escritório? — perguntou a minha sogra. — Acho que vai bem. Ainda está a habituar-se a mim e eu estou a tentar perceber o que se passa. A verdade é que, por enquanto, tenho muito pouco que fazer. — Estas coisas levam o seu tempo. — Eu sei. — Olhei para ela. — Tenho estado a pensar que, se calhar, o melhor era eu dar uma volta lá pela escola, para me pôr em dia. Surgiram tantos conceitos novos enquanto estive fora. Há todo um campo novo no que diz respeito ao uso do alumínio como componente estrutural. Não sei nada sobre o assunto. — Não vale a pena ter pressa.
Sabia o que queria dizer quando falava assim. Queria dizer que sabia qualquer coisa que eu ignorava. Mas não valia a pena fazer perguntas. Dir-me-ia quando estivesse pronta para isso. Ou talvez não me dissesse nada. Eu teria de descobrir por mim. Era uma mulher formidável, aquela minha sogra. Tinha uma maneira muito própria de fazer as coisas. Como naquela primeira manhã em que eu tinha ido ao escritório. Tinha-me chamado à biblioteca e tirado um sobrescrito da secretária, que depois me tinha passado, em silêncio. Tinha-o aberto, cheio de curiosidade. Tinham caído de lá algumas acções da companhia, cuidadosamente impressas. Apanhei-as do chão e olhei para elas. Representavam vinte por cento das acções da Hayden de Carruthers. Na parte de trás de cada uma tinha feito o endosso em meu nome. Pu-las de novo em cima da secretária. — Não ganhei nada disto.  Sorriu. — Mas há-de ganhar. — Talvez — respondi. — Mas, neste momento, não posso aceitá-las. Sentir-me-ia como um idiota chapado. Há pessoas naquele escritório que trabalham lá há anos. Ficariam ofendidas. — Já viu o jornal desta manhã? — Não. — Então talvez fosse melhor olhar para ele — disse, estendendo-me o Chronicle. Já estava dobrado na página financeira. Li um pequeno cabeçalho: HAYDEN de CARRUTHERS ESCOLHEM O SEU NOVO VICE-PRESIDENTE. Juntamente com a história, vinha o meu retracto. Li rapidamente a noticia. — É realmente o que se chama começar por cima — disse, devolvendo-lhe o jornal. — Não há outra maneira de um Hayden começar. Não valia a pena explicar-lhe que eu não era Hayden. O pensamento dela era muito nítido. Não tinha perdido uma filha, tinha ganho um filho. — Só espero que a minha despromoção não seja igualmente rápida. — Teria um estranho sentido de humor, Luke.  — Quando é fácil chegar, também é fácil partir.  — Não fale dessa maneira! — depois sorriu. — Você vai fazer um bom trabalho. Eu sei que vai. — Espero que sim. Voltei-me e encaminhei-me para a porta. A voz dela deteve-me. — Espere — disse. — Esqueceu-se das acções. — Pode guardá-las. Quando eu achar que já as ganhei, pode ser que venha pedir-lhas de volta. Uma expressão um tanto magoada surgiu nos olhos dela. Não fora essa a minha intenção. Aproximei-me novamente da secretária. — Por favor, veja se me compreende — disse. — Não é que eu não dê valor àquilo que está a tentar fazer. Só que me sentiria muito mais satisfeito se conseguisse isso por mim próprio. Ficou um momento a olhar-me, depois deixou escorregar novamente os papéis para dentro da secretária. — Compreendo. E aprovo de todo o coração. É assim mesmo que eu esperaria que um Hayden agisse. Não tinha resposta para mais aquela. — Boa sorte. Retribui-lhe o sorriso. — Obrigado.  Nunca me tinha sentido à vontade quanto a essa questão. Quando Nora desceu, estávamos a acabar o café. Vinha vestida para sair. Levantei uma sobrancelha. Ver Nora descer antes do meio-dia era um milagre. O rosto dela mostrava excitação. — Tens de chegar cedo ao escritório?
— Acho que não — respondi. — Mesmo que não aparecesse lá durante um ano inteiro, duvido que alguém desse pela minha falta. — Óptimo! Tenho uma coisa para te mostrar. — O que é? — É uma surpresa. — Diz-me — insisti. — Já tive bastantes surpresas no pouco tempo que passou desde o meu regresso. Não tenho a certeza de conseguir aguentar mais uma. Riu-se.  — Desta vais gostar. — Olhou para a mãe e ambas sorriram. — Uma amiga minha quer que lhe remodeles a casa. — Ah, bom — disse. Assim já era melhor. Finalmente tinha que fazer. — Onde é a casa? — Não é longe daqui. Podemos ir lá ver e depois digo-te qual é a ideia dela. — Óptimo. Quando quiseres ir, estou pronto. — Eu também estou pronta. Tomei o pequeno-almoço no quarto.  Era uma casa de sonho. Três corpos e dezassete quartos, no cimo de Nob HilI, com vista para a baía. Havia uma magnífica escada de mármore antigo que saía em curva da vasta sala de entrada. Os quartos eram tremendos, não tinham nada a ver com o que se constrói hoje em dia. Na parte de trás havia uma garagem para três carros, com quartos para os criados, na parte de cima. A casa era toda de pedra, magnificamente patinada pela idade, e o telhado era de uma telha azul que parecia beber a cor do céu. — É linda. Espero que não queiram mexer-lhe muito. Só serviria para a estragarem. — Acho que se trata, sobretudo, de modernizar as casas de banho e o sistema de aquecimento; talvez modificar alguns quartos. — Isso está certo — disse, estudando a casa. — Vão precisar de um quarto para as crianças. De um estúdio grande para ela, talvez na ala norte, para ter mais luz. E talvez uma mistura de gabinete de trabalho e escritório para o marido, quando ele quiser trabalhar em casa. Eu não era assim tão estúpido. — Afinal para quem é esta casa? — Ainda não adivinhaste? — Receio bem que sim.  — Foi a mãe que a comprou para nós — disse Nora.  — Acho óptimo! — explodi. — E sabes quanto é que custaria manter uma casa destas? Custava mais por mês do que aquilo que eu ganho num ano! — E que importância é que isso tem? Não precisamos de nos preocupar com o dinheiro. Só o meu rendimento da fundação é mais do que suficiente para nós. — Julgas que eu não sei isso? — disse. — E nunca te deste ao trabalho de perguntar a ti mesma se, eu não gostaria de ser eu a manter a minha própria família? Tu e a tua mãe não pensam. senão em dinheiro. Começo a sentir que não passo de um gigolô. — Estás a portar-te como um idiota chapado! A única coisa que me interessa é ter um sítio decente para viver, uma casa capaz para criar o meu filho. — Uma criança não precisa de uma casa com dezassete quartos em Nob Hill para ser criado como deve ser. Se queres uma casa tua, há muitas casas que nós podíamos comprar. Casas que estão ao meu alcance. — Com certeza — disse sarcástica. — Só que eu não me posso arriscar a ser encontrada morta em nenhuma delas. Tenho a minha posição a defender. — A tua posição? Então e a minha posição? — Tu próprio tornaste clara a tua posição quando casaste comigo — disse friamente. — E quando foste trabalhar para a Hayden de Carruthers. No que diz respeito a São Francisco, pertences aos Haydens. Quer isso te agrade, quer não, és um de nós. Fiquei a olhar para ela. A revelação caiu-me em cima como o choque da água gelada. Aquilo que ela dizia era verdade. A guerra tinha acabado e, no que dizia respeito a todos os outros, tanto fazia
que o coronel Luke Carey estivesse vivo como morto. A única identidade que me restava estava associada à delas. — Eu quero esta casa — disse Nora calmamente. — E se tu não quiseres remodelá-la, eu arranjo um arquitecto que o faça. Não precisei de olhar para ela para ver que estava decidida a fazer o que tinha dito. Também compreendi o que isso significaria para mim. Bem podia ir à procura de emprego como motorista de camionetas se deixasse que isso acontecesse. — Está bem — disse com relutância — eu faço a remodelação.  — Não te vais arrepender, querido. — Passou os braços à minha volta. — Quando toda a gente vir as coisas maravilhosas que vais fazer com esta casa, passas a ser o maior arquitecto de São Francisco! Mas não foi suficientemente rápida para esconder o brilho de triunfo que lhe incendiou o olhar. E naquela noite, pela primeira vez desde o meu regresso, não procurou os meus braços. Ao fim e ao cabo, não fui eu que transformei a casa. Os elogios foram todos para mim, mas isso foi uma questão técnica. Na realidade, quem fez tudo foi Nora. Eu limitei-me a traduzir as ideias dela para os devidos conceitos arquitectónicos. Mas ela tinha razão numa coisa. A casa ficou um espectáculo. Mal tínhamos acabado de nos mudar, a House Beautifid fez uma reportagem e no mês a seguir à publicação da revista, eu era o arquitecto falado da cidade. Na Costa, todas as pessoas que se podiam considerar alguém queriam que eu lhes fizesse as casas. Podia ter ganho mais comissões do que uma agência de bilhetes para espectáculos. Sucesso imediato. Julgo que deveria ter ficado contente, mas a coisa incomodou-me. Creio que isso era visível, porque a primeira vez que recusei um cliente, George Hayden veio ao meu gabinete. Levantei os olhos, surpreendido. George era um homem grande. Forte, corado, com um ar sólido que inspirava confiança. Era a primeira vez que vinha procurar-me pessoalmente, em vez de me mandar chamar. — Como é que vai isso, Luke? — Ok, George — disse. Apaguei a luz do estirador. — Em que é que posso ser-lhe útil? — Pensei que talvez pudéssemos conversar um bocado. — Óptimo.  Indiquei-lhe uma cadeira. Sentou-se. — Estive agora mesmo a estudar o relatório mensal. Tenho a impressão de que você está com trabalho a mais. — Não me importo — disse com naturalidade. — É uma mudança agradável, depois de ter estado sem ter nada que fazer. Acenou com a cabeça. — Tenho estado a pensar que já é altura de nós lhe entregarmos uma secção. Sabe como é, uns tipos que fazem todo o trabalho de rotina para você poder ocupar-se das coisas mais importantes. Esta linguagem era minha conhecida. O exército falava da mesma maneira. Fiz de ignorante. — Que coisas mais importantes, George? Eu só estou a fazer coisas miúdas. — Há uma grande margem no seu campo — disse. — Muito melhor do que nas coisas muito grandes. É por isso que eu detesto perder qualquer coisa só por você estar demasiado ocupado. Se alguém está decidido a construir e um arquitecto não pode fazê-lo, essa pessoa arranja um que possa. — Está a pensar na Sra. Robinson que saiu agora mesmo daqui? — Não estou a pensar na Sra. Robinson. Há-de haver outras. Vêm ter consigo por causa das suas ideias. Não lhes interessa quem é que faz os desenhos. — Não estejamos a enganar-nos a nós próprios, George. Elas não vêm ter comigo por causa das minhas ideias. A maior parte destas idiotas não reconheceria uma ideia arquitectónica nem que ela lhe fosse bater na cara. Vêm ter comigo porque, de repente, eu estou na moda. — E dai, Luke? — disse, olhando-me com ar astuto. — O mais importante é que continuam a vir.
— E quanto tempo é que você pensa que isso vai durar? Apenas até descobrirem que as casas deles não vão aparecer na revista, como apareceu a minha. Nessa altura, vão começar a procurar outra pessoa. — Não tem de ser forçosamente assim. Temos de manter as coisas vivas. Para isso é que temos um Public Relations. — Oh, deixe-se disso, George — disse, enjoado. — Ambos sabemos que aquela é a casa da Nora. Ficou um momento a olhar para as mãos, sem falar. Eram macias, brancas e bem cuidadas, Depois levantou os olhos para mim, sem pestanejar. — Tanto você como eu sabemos que não tenho metade da capacidade que tinha Frank Carruthers como arquitecto. Mas tenho conseguido agüentar o negócio e manter a nossa reputação. — Mas a casa dos Robinson não é o tipo de coisa que me interesse fazer. Estudei a planta. O terreno. Tudo. Não é nada de especial. Faça-se o que se fizer, é apenas mais uma casa. — Não, não é apenas mais uma casa. Eles estão dispostos a gastar umas centenas de milhares. Isso significa, pelo menos, dez mil em honorários e comissões num total de algumas semanas de trabalho. — Mas não é o tipo de casa que eu estou interessado em construir — disse, teimoso. — É por isso que eu quero que você fique à frente de um departamento. Nessa altura poderá concentrar-se naquilo que lhe interessa. Mas o cliente também fica feliz, por saber que você está ligado ao projecto. Peguei num cigarro. A ideia dele tinha mérito. Talvez resultasse. Havia uma coisa que eu queria tentar. Mais de acordo comigo. — O que é que quer que eu faça? — Primeiro, telefone à Sra. Robinson e diga-lhe que, apesar de ter o tempo muito ocupado, conseguiu arranjar tempo para a casa dela. — Pôs-se de pé. Já tinha aquilo que viera procurar. — Depois, fale com a minha secretária para arranjarmos um dia para almoçarmos e discutirmos os seus planos. Vi a porta fechar-se atrás dele. Sabia que se esperasse até ir almoçar com ele era uma sorte se não morresse de fome antes. Dirigi-me para o meu estirador. Estava a trabalhar num esboço para uma casa de banho gigantesca e quarto de vestir, ao lado do quarto principal. A casa era para o presidente de um banco local. Tinha desenhado um quarto de banho de estilo finlandês, com a banheira enterrada no chão; uma banheira enorme, de um metro e oitenta de largura e dois e meio de comprimento. Era suficientemente grande para conter a família toda de uma só vez e perguntei a mim mesmo se seria isso que a dona da casa tinha na ideia. Tinham tudo a dobrar, um duche para ele, outro para ela, bem como os lavatórios e os toilettes, tudo completo com torneiras em ouro. A única coisa que faltava era um bidé em prata maciça, mas apenas porque ainda não se tinham lembrado disso. Ainda não. Ainda não. Essa era a palavra chave. De repente, toda a minha vida se me desenrolou diante dos olhos. Anos e mais anos de casas de banho como esta. O caminho para a fama. Carey constrói as casas de banho mais espantosas. Era demais. Arranquei a folha do estirador, amachuquei-a. e dirigi-me para o escritório de George. Não valia a pena ficar à espera de um almoço que nunca chegaria a ter lugar, para saber o que ia acontecer. A secretária dele levantou a mão, num gesto de advertência, quando entrei no gabinete exterior. — O Sr. Hayden está ao telefone. — Não quero saber — disse, passando por ela e entrando para o gabinete de George. Este estava justamente a pousar o telefone. Olhou-me surpreendido. — O que é que há, Luke? — disse com ar impaciente. Não gostava que ninguém entrasse sem se fazer anunciar. — Há bocado, estava mesmo a falar a sério? — Claro, Luke, — Então por que é que não podemos falar agora mesmo?
Sorriu-me. — Não é a altura indicada. — Como é que sabe? — perguntei. — Nem sequer sabe o que é que eu tenho na ideia. Olhou-me fixamente. Não tinha resposta para uma afirmação daquelas. Passado um momento, fez-me sinal para que me sentasse. — E exactamente, o que é que tem na ideia? Deixei-me cair para uma cadeira, mas em frente dele e puxei de um cigarro. — Casas a baixo preço. Produção em série sobre um desenho básico que podia ser usado de três maneiras diferentes para quebrar a monotonia de uma urbanização de grandes dimensões. As casas vender-se-iam na ordem dos dez, onze mil dólares. Acenou com a cabeça, lentamente. — Seria preciso uma área considerável para tornar rendável uma coisa dessas. Eu também já tinha pensado nisso. — Há uma extensão de oitenta acres junto à 101, perto de Daly City. Seria o ideal para isso. — Parece-me uma boa ideia — disse. — Já tem um construtor?  Olhei para ele. — Pensei que era uma coisa que nós poderíamos fazer. Ficou um momento em silêncio, brincando com um lápis que tinha na secretária à frente dele. — Está a esquecer-se de uma coisa, não acha?  — O que é?  — É que nós somos arquitectos, não somos construtores.  — Talvez seja a altura de criarmos uma nova especialidade. Há firmas que estão a fazer isso mesmo. — Não me interessa o que os outros estão a fazer — disse George. — Não me parece que devêssemos fazer uma coisa dessas. Como arquitectos estamos razoavelmente livres de riscos financeiros. Recebemos os nossos honorários e acabou-se. O construtor é que tem as dores de cabeça. — Mas o construtor também é quem ganha mais. — Deixe-os lá — disse George. — Nós não somos gananciosos, — Então, se bem percebi, não está interessado? — Também não disse isso. Apenas disse que, nas circunstâncias actuais, não devíamos fazê-lo. Claro que se você arranjar um construtor que esteja disposto a entrar num projecto desse tipo, teríamos o maior prazer em trabalhar com ele. Pus-me de pé. Já sabia qual era a posição. Ele também. Não havia um único arquitecto no país que recusasse um trabalho daqueles. Só em honorários devia atingir os cento e cinquenta mil. — Obrigado — disse. — Eu já tinha pensado que a sua resposta ia ser mais ou menos essa. Ficou a olhar para mim. A voz dele era de uma suavidade enganosa. — Acabo de ter uma ideia, Luke. Acho que você devia tomar uma decisão sobre aquilo que quer ser... arquitecto ou construtor. Foi como se, de repente, as luzes se acendessem num quarto escuro. George tinha toda a razão. Lembrava-me porque é que tinha resolvido estudar arquitectura. Porque queria construir coisas. Depois, deixei-me envolver de tal maneira na prática que esqueci a finalidade. Construir. Era isso mesmo. Construir casas onde as pessoas se pudessem permitir viver. George não compreendeu o meu sorriso repentinamente feliz. Provavelmente até pensou que eu estava a ser sarcástico, mas se teve esse pensamento, estava completamente enganado. Nunca tinha sido mais sincero em toda a minha vida. — Obrigado, George — disse calorosamente. — Obrigado por ter tornado tudo tão simples. A notícia chegou a casa antes de mim. A minha sogra e Nora estavam à minha espera. — Vejo que o George não perdeu tempo — disse. A cara de Nora era glacial. — Podias, ao menos, ter discutido o assunto connosco antes de te despedires. Dirigi-me ao aparador e servi-me de um bourbon. — E o que é que havia para discutir? Eu já estava cheio. Até aqui.
— E que efeito pensas tu que isso vai fazer? — perguntou Nora. — Não sei. — Encolhi os ombros e levei o copo à boca. — Que efeito achas tu que vai fazer? — Vão achar que é um verdadeiro insulto que fazes à mãe e a mim — disse Nora, zangada. — Todos sabem o que tentámos fazer por ti. — Talvez fosse por isso que a coisa não resultou. — Olhei para a mãe de Nora. — Não tive a intenção de insultar ninguém. A culpa foi minha. Deixei-me empurrar para lá quando saí do exército. Devia ter esperado um bocado, ter procurado, decidir o que queria realmente fazer. Ela olhou-me calmamente. — Foi por isso que recusou as acções? — Talvez. Embora nessa altura não tivesse consciência disso. — O que é que vais fazer agora? — perguntou Nora. — Procurar emprego. Arranjar trabalho numa firma de construções e aprender alguma coisa. — Que espécie de emprego esperas arranjar? — perguntou, sarcástica. — setenta dólares por semana a guiar um buldozer? — Tenho de começar por algum lado. — Sorri-lhe. — Além disso, que diferença faz? Não precisamos do dinheiro. — Quer dizer que o que tu queres é ser um simples operário? Depois de todo o trabalho que eu tive para esta casa ficar como deve ser, de maneira a firmar a tua reputação. — Paremos de nos iludir, Nora. Não era a minha reputação que tu tinhas em mente. Era a tua própria. Ficou um momento a olhar para mim, depois levantou as mãos num gesto desesperado. — Desisto. — Voltou-se desajeitadamente e saiu da sala com ar pomposo. Fiquei a vê-la sair. Apesar da gravidez não estava muito volumosa. Tinha tido todo o cuidado com a dieta; não ia permitir que a gravidez lhe estragasse a figura. Fui até junto do aparador e servi-me de novo. Quando me voltei, a minha sogra ainda lá estava. — Não deve prestar demasiada atenção à Nora. As mulheres grávidas têm tendência para se tornar mais emotivas do que lógicas. Fiz que sim com a cabeça. Era uma desculpa como qualquer outra. Mas eu já conhecia suficientemente bem a minha mulher. Grávida ou não, queria levar a sua avante. — O George mencionou que você tinha uma ideia para um projecto de construção — disse. — Fale-me disso. Deixei-me cair numa cadeira. — Para quê? Ele não vai aceitá-lo. É contra a política da firma. A Sra. Hayden sentou-se à minha frente. — Isso não quer dizer que não possa pô-lo em prática. Fiquei a olhar para ela, — Não pretendo enganar-me a mim mesmo. Não tenho dinheiro para isso. — Quanto é que você tem? Era uma pergunta fácil de responder. Depois de pagar os sete mil do barco que tinha comprado em La Jolla, tinham-me ficado exactamente mil e novecentos. Mil e quinhentos eram do seguro do meu pai e o restante eram as economias que tinha feito com o que recebia do exército. — Era capaz de investir todo o seu dinheiro num projecto desses? — Claro. Mas seria apenas uma gota no oceano. Só a terra deveria custar uns dois mil cada acre. Só aí são cento e sessenta mil dólares. — O dinheiro não tem importância — disse ela calmamente. — Eu podia arranjar o dinheiro. — Hum, hum. — Levantei a mão. — Não quero o seu dinheiro. Ia dar ao mesmo. — Agora é você que está a ser tolo, Luke. Se o dinheiro viesse de uma pessoa estranha, você aceitava, não aceitava? — Isso é diferente. Nesse caso, seria apenas um negócio. As relações pessoais não estariam envolvidas.
— A nossa relação não tem nada a ver com o caso — disse rapidamente. — Você acredita naquilo que pretende fazer, não acredita? Espera vir a ter um lucro considerável? Fiz que sim com a cabeça.  — Se a coisa funcionar como eu penso, pode haver um lucro da ordem do meio milhão. — Não tenho nada contra a ideia de ganhar dinheiro. — Sorriu. — Por que é que havia de ter? A lógica dela era irrefutável. Além disso, como é que eu podia argumentar contra os meus próprios desejos? Comprei o terreno no dia seguinte. Dois dias depois, nasceu Danielle. Tive alguns momentos difíceis, porque ela nasceu quase dois meses antes do tempo previsto. Mas o médico disseme que não havia razão para preocupações, que a criança era absolutamente prefeita. Não tinha visto muitos bebés antes, mas não pude deixar de concordar com ele. Dani era o bebé mais bonito do mundo. Os sons da noite eram diferentes agora. Havia sempre o murmúrio suave que parecia vir do quarto do bebé, mesmo ao lado do nosso. Ocasionalmente, ela chorava de madrugada e nós ouvíamos o mexer da ama a dar-lhe o biberão ou o arrulhar suave da voz dela ao segurar Dani nos braços, enquanto bebia até adormecer. Inconscientemente, entrei na rotina e comecei a ficar à escuta de todos os sons enquanto dormia, sentindo-me reconfortado com a sua regularidade, na certeza de que tudo estava normal. Com Nora era diferente. Nora veio do hospital tensa, nervosa e irritável. O mais ligeiro som durante a noite acordava-a. Percebi que ia acontecer qualquer coisa, mas não sabia o quê. Sentia-o no estado de espírito dela. Percebi que havia qualquer coisa subjacente, muito próxima da superfície, à espera da provocação final; e eu estava atento, decidido a não lha proporcionar. Atravessava os dias cautelosamente, esperando que, com o tempo, aquele estado de espírito viesse a passar. Mas estava apenas a enganar-me a mim próprio e tive consciência disso no momento em que o candeeiro da mesa de cabeceira se acendeu uma vez às duas da manhã. Tinha passado o dia de um lado para o outro com avaliadores de terrenos. O ar e a excitação tinham-me mergulhado num sono profundo, mas de repente fiquei bem desperto por detrás das minhas pálpebras fechadas. Levantei-me, ainda a fingir-me meio adormecido. — O que é que há?  Nora estava sentada na cama, com as costas encostadas às almofadas, a olhar para mim. — O bebé está a chorar. Fiquei um momento a olhar para ela, depois, sem lhe dar ainda a entender que estava completamente desperto, rodei os pés para fora da cama. — Eu vou ver se está tudo bem. Pus os pés dentro das pantufas, vesti o roupão e atravessei a porta que dava para o quarto de Dani. A ama já lá estava, com Dani nos braços, a dar-lhe um biberão. Olhou para mim, com um olhar sobressaltado na difusa luz nocturna dos aposentos da criança. — Sr. Carey.  — Está tudo bem, Sra. Holman? — Claro! A pequenina, coitadinha, estava só com fome. Aproximei-me e olhei para Dani, Já estava com os olhos fechados e bebia, contente, o seu biberão. — A Sra. Carey ouviu-a chorar — disse.  — Diga à Sra. Carey que não se preocupe. A Dani está óptima.  Sorri-lhe e acenei com a cabeça. — O que a Dani tinha era fome — disse, enquanto me metia novamente na cama e apagava a luz.  Voltei-me de lado, e fiquei assim uns minutos, deitado, à espera de que ela falasse. Mas Nora não disse nada e o sono tornou-me as pestanas pesadas. Depois a luz acendeu-se outra vez. Subi de novo a escada ardilosa do sono para a vigília. — E agora o que é que há?
Nora estava de pé do outro lado da cama, com uma almofada e um cobertor apertados nos braços. — Estás a ressonar. — Fiquei a olhá-la sem responder. Senti-me como um lutador agachado que se tivesse felicitado a si próprio por ter conseguido evitar o adversário e, de repente, desse consigo do lado mau de um directo. Agora já não havia maneira de evitar a luta. De repente, senti-me zangado. — Ok, Nora — disse. — Vou desistir de dormir. Que mais queres? — Não precisas de ser desagradável. — Eu não estou a ser desagradável. Tu é que andas a querer discutir há já muito tempo. Pronto, qual é a discussão afinal? Nora levantou a voz. — Eu não ando a querer discutir!  Olhei em direcção ao quarto de Dani. — Vais acordar o bebé. — Aí está o que eu pensava! — exclamou, triunfante. — Pensas sempre primeiro no bebé do que em mim. Todas as vezes que ela chora, vais logo a correr, todo preocupado. Mas nunca te preocupas comigo! Eu não conto, sou apenas a mãe dela. Já servi para o que tinha a servir! Não havia resposta para aquele tipo de disparate e eu cometi o erro de lho dizer abertamente. — Não sejas estúpida! Apaga a luz e vê se dormes.  — Não estás a falar com nenhuma criança! Ergui-me sobre um cotovelo. — Se não estou — disse — então pára de te portares como se fosses! — Isso era o que tu querias, não era? Não havia nada que te agradasse mais do que teres-me aqui todo o dia para vos servir a ambos sempre que lhes desse na cabeça! Ri-me. A ideia era de tal forma ridícula. — Eu sei que não sabes cozinhar — disse. — Como é que poderias servir-nos? Nunca te vi nem sequer aquecer o biberão da criança, quanto mais dar-lhe de comer. — Tu tens é ciúmes!  — Ciúmes de quê? — Tens ciúmes por eu ser uma artista e ter a minha individualidade. O que tu queres é subjugar-me, pôr-me numa posição secundária em relação a ti, como qualquer dona de casa vulgar. Recostei-me, fatigado. — Tenho de admitir que há alturas em que essa ideia me parece atraente. — Vês? — exultou, triunfante. — Eu tinha razão! Sentia-me exausto. — Acaba com isso e vem para a cama, Nora. Eu tenho de me levantar cedo para ir para a obra. — Eu vou para a cama — disse. — Mas não aqui! Já não agüento mais ouvir-te a ti a ressonar e o bebé a chorar. Sempre agarrada à almofada e ao cobertor, dirigiu-se para a casa de banho. Antes que eu conseguisse mexer-me da cama, ouvi a porta do quarto de hóspedes bater e fechar-se. Quando lá cheguei, já ela tinha dado a volta à chave. Devagar, voltei para a minha cama. Talvez fosse melhor assim. Deixá-la deitar fora o que quer que fosse que andava a incomodá-la. Talvez na noite seguinte já tudo estivesse outra vez normal. Mas estava enganado. Quando cheguei a casa, na tarde seguinte, já os operários estavam a refazer a decoração do outro quarto e Nora tinha retirado a roupa dela dos nossos armários. Desci ao andar de baixo e Charles deu-me o recado que Nora tinha ido à cidade jantar com o Sr. Corwin e com alguns visitantes, críticos de arte do Leste. Jantei sozinho e trabalhei no meu gabinete até às onze e meia, estudando os acessos para a urbanização. Depois subi e fui ver o bebé, como sempre costumava fazer antes de ir dormir. Dani dormia, deitada de lado, com os olhos pequeninos muito fechados e o polegarzito encostado ao canto da boca. Ouvi barulho atrás de mim. Voltei-me. Era a ama com o biberão. Afasteime e deixei a ama pegar nela. Dani encontrou a tetina do biberão sem sequer abrir os olhos.
— Deixe-me dar-lhe o biberão — disse de repente.  A Sra. Holman sorriu. Mostrou-me como devia segurar no bebé e eu tomei Dani nos braços. Ela abriu os olhos um momento e olhou-me. Depois, chegando evidentemente à conclusão de que podia confiar em mim, fechou-os outra vez e dedicou-se ao biberão. Meti-me na cama, um pouco depois da meia-noite e Nora ainda não tinha voltado para casa. Caí num sono desassossegado. Nunca cheguei a saber a que horas ela tinha vindo naquela noite. Só a vi quando voltei do trabalho, no dia seguinte. Nessa altura já a disposição de Nora era completamente diferente. Recebeu-me à porta, a sorrir. — Estive a preparar cocktails para nós na biblioteca.  Beijei-a na cara. Estava vestida com um elegante pijama de casa. — Estás diferente — disse, seguindo-a até à biblioteca. — Há convidados para o jantar? — Não, pateta. Eu é que fui ao cabeleireiro. Pareceu-me na mesma. Peguei no copo que ela tinha na mão. — O dia correu-te bem? Levou o copo à boca, com os olhos a brilhar. — Foi maravilhoso! Exactamente o que eu precisava. Sair e começar de novo a estar activa. Fiz que sim com a cabeça, sorrindo. Pelo menos a tempestade tinha passado. — Na noite passada jantei com o Corwin e com o Chadwinkes Hunt, o crítico. São de opinião que quanto mais depressa eu começar de novo a trabalhar, melhor. Scaasi disse ao Sam que eu devia fazer outra exposição, o mais tardar no outono. — Achas que vais ter tempo de te preparar?  — Mais do que tempo. Estive todo o dia a fazer esboços. Tenho milhares de ideias. Levantei o copo. — Às tuas ideias.  — Obrigada. — Sorriu e beijou-me na cara. — Não estás zangado por causa da outra noite?  — Não — disse com naturalidade. — Estávamos os dois um bocado enervados.  Beijou-me outra vez. — Ainda bem. Pensei que pudesses não gostar que eu mudasse para o outro quarto. Não sei porque é que não pensei nisso mais cedo. A mãe e o pai tiveram sempre quartos separados. É muito mais civilizado. — Ah é? — Claro! Embora as pessoas estejam casadas, continuam a ter direito a uma certa privacidade. — Olhou-me muito séria. — Além isso, acho que é a forma de preservar aquele bocadinho de mistério, que é tão importante em todos os casamentos. Aquilo era novidade para mim. Nunca tinha ouvido os meus pais queixarem-se de falta de privacidade. — E o que é que eu faço quando quiser ir para a cama contigo? — Agora estás a ser grosseiro. — Depois, sorriu maliciosa — Basta assobiares. — Assim? — perguntei, levando os dedos à boca. — Pára com isso. O Charles vai pensar que endoideceste! Acabei a minha bebida. — Vou dar um salto lá acima, lavar as mãos e espreitar a Dani. — Podes lavar as mãos aqui em baixo. A Sra. Holman já deitou a Dani. Olhei para ela.  — Como é que ela esteve hoje? — A Sra. Holman diz que foi um verdadeiro anjo. Vamos, agora despacha-te e vai lavar as mãos. Mandei a cozinheira fazer uma roulade de vaca, mesmo como tu gostas e não quero que fique estragada. Depois do jantar, pensei que podias vir comigo ver se gostas do meu quarto. Mandei o Charles pôr lá uma garrafa de champanhe gelada. Comecei a rir-me. Então, era assim que se fazia. Talvez ela não estivesse tão longe como eu tinha pensado. Tinha de admitir que aquilo punha na situação um agradável toquezinho de ilegalidade. 
Às vezes, a meio da noite, eu dizia: — Os criados não irão achar um bocado esquisito que, tendo nós dois quartos, acabemos por usar só um? — És tolo. Quem é que se preocupa com o que os criados pensam? — Eu não, para dizer a verdade — respondi, puxando-a para mim. — Mas insisto que sejas minha convidada amanhã à noite! Mas era sempre no quarto dela que fazíamos amor, nunca no meu. Acabava sempre por ter de atravessar o chão frio da casa de banho que separava os nossos dois quartos. Aprendi a fazer rodar o puxador da porta muito devagarinho, para ela não me ouvir, pois havia alturas em que a porta estava fechada à chave. Houve alturas também em que eu caía atravessado em cima da minha cama, exausto do trabalho e não chegava a saber se a porta estava fechada ou não. Sentia-me como um indivíduo que é obrigado a virar para uma rua de sentido único, mas que ele sabe que não tem saída. Comecei a temer a rejeição daquela porta fechada. Umas boas goladas de bourbon antes de me despir pareciam sempre aliviar as tensões, de tal forma que não tinha desejo sequer de tentar a porta. Caí no hábito de dar a Dani o biberão da meia-noite e isso parecia que também ajudava. De qualquer forma, a suavidade dela enchia um vazio dentro de mim do qual eu nunca tivera sequer consciência. Beijava-a, punha-a novamente no berço, depois ia para o meu quarto e encontrava o sono. à superfície tudo estava normal. Nora e eu comportávamo-nos como qualquer outro casal. Saíamos várias vezes por semana, recebíamos convites para festas, convidávamos os amigos para a nossa casa. Ela aparentava tudo o que uma jovem esposa deve ser. Apaixonada e carinhosa. Mas quando chegava a hora de ir para a cama, eu dava como desculpa que tinha um trabalho atrasado para pôr em dia. Ia para o meu gabinete de trabalho, bebia qualquer coisa à pressa, para lhe dar tempo de adormecer e não ficar a saber se eu tinha tentado abrir a porta ou não. Se alguma coisa nisto tudo parecia esquisito a Nora, ela nunca disse uma palavra sobre o assunto. O tempo passava e parecia satisfeita com a maneira como corriam as coisas. Estava completamente absorvida pelo trabalho e ia a reuniões sobre arte e a jantares, várias vezes por semana. Nas outras noites ficava a trabalhar no estúdio, de maneira que, eu nunca sabia se ela subia para o quarto ou se dormia no quartinho minúsculo que tinha arranjado ao lado do estúdio. A rotina é uma coisa fatal. Passado algum tempo, parecia-me que as coisas sempre se tinham passado e sempre se haviam de passar desta maneira. Sem jeito. O que eu não sabia era que Nora, no seu mundo próprio e cheio de sonhos, tinha quase tanto medo de mim como eu dela. Lembrava-se da dor. Aquela dor terrível e dilacerante que, parecia descer-lhe do estômago quando o bebé rasgou o caminho para sair dela. A dor e as luzes muito brancas e brilhantes olhando-a fixamente do tecto verde-claro da sala de partos. Todas as cores eram claras e nítidas. O sangue nas luvas de borracha branca do médico. O mampulo negro do depósito de metal cinzento que estava ao lado do anestesista. Era sempre assim quando sonhava. Até nisso era diferente das outras pessoas. Sonhava em technicolor. A voz do médico sussurrou-lhe, tranquilizadora, ao ouvido. — Faça força, Sra. Carey. Faça força que são só mais uns minutos. — Não posso! — tentou gritar-lhe, mas nenhum som lhe saiu dos lábios. — Não posso, dói demais! — Sentiu as lágrimas escorrerem-lhe dos cantos dos olhos. Sabia o efeito que deviam fazer ao rolar-lhe pelas faces. Eram como pequenos diamantes cintilantes. — Tem de ser, Sra. Carey — sussurrou de novo o médico. Quando se inclinava sobre ela, vialhe as veias de um vermelho púrpura ao lado do nariz. — Não posso! — gritou de novo — não posso agüentar a dor. Pelo amor de Deus, faça qualquer coisa, ou endoideço! Corte-o aos pedaços e faça-o sair aos bocadinhos! Faça qualquer coisa para deixar de doer! Sentiu a agulha no braço. Levantou os olhos para o médico, num pavor repentino. Acabava de lhe ocorrer que ele era católico, e os católicos acreditavam em deixar morrer a mãe e salvar a criança. — O que é que está a fazer? — gritou-lhe. — Não me mate a mim; mate a criança. Por favor, eu não quero morrer.
— Não se preocupe — disse o médico calmamente — ninguém vai morrer. — Não acredito em si! — Debateu-se para se pôr de pé, mas havia mãos que lhe agarravam os ombros, impedindo-a de se levantar. — Eu vou morrer. Eu sei. Vou morrer! — Comece a contar para trás a partir de dez, Sra. Carey — disse o médico calmamente. — Dez, nove... — Oito, sete, seis... — Olhou para a cara dele. Os contornos estavam a ficar imprecisos. Como no cinema, quando o filme estava desfocado. — Oito, sete, seis, cinco, quatro, sete, cinco, três. E veio a escuridão. Uma escuridão que rolava suavemente. Um ruído vindo do estúdio, ao lado do quartinho onde ela dormia, acordou Nora. Sentou-se de repente na cama. — É você, Charles? Os passos aproximaram-se da porta e esta abriu-se para dar passagem a Sam Corwin. — O que é que estás a fazer aqui? — perguntou. — Ontem, estive a trabalhar até tarde. — Olhou para o relógio de pulso. Eram quase dez horas. Eram apenas cinco quando se tinha atirado para cima da cama, cansada de mais até para tirar a bata. — O que é que estás a fazer a pé tão cedo? Sam acendeu um cigarro. — Tenho uma grande novidade para ti.  Pôs-se de pé, cansada. Passou os dedos pelo cabelo. Sentia-o áspero e sujo. — Qual é a novidade?  — O teu estudo para as Nações Unidas foi aprovado. Vais ter a única estátua feita por uma mulher na Praça das Nações Unidas em Nova Iorque. O cansaço desapareceu, substituído por uma euforia repentina. — Quando é que soubeste? — Há uma hora. Scaasi telefonou-me de Nova Iorque. Vim logo para aqui. Sentiu uma onda de triunfo. Tinha razão. Até o Luke ia ter de admitir isso. Olhou para Sam. — Já disseste a alguém?  Sacudiu a cabeça. — Não. Mas temos de dar a noticia esta manhã.  Nora encaminhou-se para o estúdio. — Quero falar nisso ao Luke, antes que ele saiba de outra maneira qualquer. — Bom — disse. — Esta tarde vai aparecer nos telegramas de Nova Iorque. — Então, vamos dizer-lhe já. Sam foi atrás dela pelo corredor fora até à sala de entrada. Charles vinha precisamente a descer as escadas. — O Sr. Carey já saiu, Charles? — Sim, minha senhora. Saiu pouco depois das oito com o bebé e com a Sra. Holman. — Elas foram com ele? — exclamou Nora surpreendida. — Mas para quê? — Ele disse qualquer coisa que este era o seu grande dia, minha senhora. Que o primeiro grupo de casas ia ficar terminado e que ia haver uma cerimónia. Deixou um recado, sugerindo que a senhora aparecesse por lá, se tivesse tempo. — Obrigado, Charles. Ele já me tinha dito qualquer coisa, mas eu esqueci-me  O mordomo fez que sim com a cabeça e afastou-se para os deixar passar. Sam foi atrás dela até ao quarto. Fechou a porta quando entraram. — Tu não sabias de nada, pois não? Nora não respondeu. Sam olhou em volta. Percebeu, pela primeira vez, que aquele quarto não era dela e do Luke. — Qual é a ideia de ficarem em quartos separados assim de repente? Há alguma coisa que não corre bem entre ti e o Luke? — Não, não há nada. — Espera aí — disse ele suavemente. — Eu sou o teu velho amigo Sam, lembras-te? Podes sempre falar comigo.
De repente, pôs-se a chorar, encostada ao peito dele. — Oh, Sam, Sam! — gritou. — Não podes imaginar como tudo isto é horrível! O Luke está doente. A guerra fez-lhe qualquer coisa. Ele não é normal. — Não entendo. As palavras saíram-lhe dos lábios em catadupas, como se não pudesse guardá-las por mais tempo. — Sabias do ferimento dele, claro? Pois bem, isso leva-o a fazer toda a espécie de coisas malucas. — O quê, por exemplo? — Perversidades precoces? Obriga-me a fazer essas coisas. Só assim é que ele se consegue excitar. De outra maneira é quase impotente! Não sei o que é que hei-de fazer. Às vezes, penso que vou endoidecer. — Não sabia que ele tinha tido esse ferimento. Sugeriste-lhe que procurasse um médico? — Supliquei-lhe. Mas ele, não ouve nada. Diz-me que me preocupe com o que me diz respeito. A única coisa que ele quer é que eu tenha filhos, para provar que é homem! Nora afastou-se e tirou um cigarro de uma caixa que estava em cima da mesa. Sam estendeu-lhe um fósforo. — Está sempre a fazer coisas para me aborrecer — disse. — Ele sabe que o pediatra nos disse que a Dani não devia sair de casa. Está constipada. E ele levou-a para lá, para toda aquela lama, poeira e frio, só para me aborrecer. — E o que é que tu pensas fazer? — Ficou a olhar para ele. — Vou até lá e trago-a de volta. Ela é minha filha e não vou consentir que ninguém, nem mesmo ele, lhe faça mal. — Sentiu o vago sentimento de dúvida que se apoderou de Sam. — Não acreditas em mim, pois não? — Acredito em ti. — Talvez acredites, depois de eu te mostrar uma coisa. Voltou-se e conduziu-o através da casa de banho até ao quarto de Luke. Num gesto dramático, abriu a porta da mesa de cabeceira que ficava ao lado da cama. — Olha!  Os olhos de Sam seguiram-lhe o dedo que apontava. Havia duas garrafas de bourbon cheias e outra meio cheia, na prateleira. Olhou-a, surpreendido. — É todas as noites o mesmo. Bebe e depois vem ter comigo. Em seguida volta a beber até adormecer, meio narcotizado! Fechou a porta com o pé e Sam foi atrás dela até ao outro quarto. Ficou um momento a observá-la em silêncio. — Não podes continuar assim. — E o que é que eu posso fazer? — Divorciar-te dele. — Não. O mesmo vago cepticismo cresceu de novo dentro dele. De repente, tudo parecia demasiado conveniente, as coisas encaixavam demasiado bem. — Por que não? — Sabes tão bem como eu que a mãe não acredita em divórcios e ficaria terrivelmente chocada se visse o nome da família arrastado para os tribunais. — E além disso?  Olhou-o bem de frente. — A minha filha. Já vi muitas crianças ficarem transtornadas por causa de um lar desfeito. Não quero que aconteça nada disso à Dani. Sam não sabia se havia de acreditar nela. — Eu vou à urbanização contigo — disse, de repente.
Nora olhou-o, surpreendida. Tinha-se entusiasmado de tal forma com o drama que estava a criar que se tinha esquecido completamente de que tinha dito que iria buscar Dani. — Para te trazer a ti e ao bebé — disse Sam.  Nora sorriu-lhe, de repente. Sam acreditava nela. Sabia que ele acreditava. E por que não havia de acreditar? A verdade era bastante evidente. Pôs-lhe a mão no braço. — Obrigada, Sam. Vai até lá abaixo e bebe uma chávena de café enquanto eu me visto. Só preciso de alguns minutos. Dani estava radiante. Os olhos escuros brilhavam-lhe e gritou de prazer quando a larguei e ela deslizou pelo escorrega para ir cair nos braços da Sra. Holman que a aguardavam. Quando peguei nela, ela contorceu-se nos meus braços, esticando-se em direcção ao escorrega. Ri-me e pu-la de novo lá em cima. — Agüente-a aí um momento, coronel! — gritou um dos fotógrafos, levantando a máquina. — Dá uma fotografia magnífica. Dani ficou imóvel, posando para a fotografia, como se não tivesse feito outra coisa nos seus oito meses de vida. A ama sorriu, orgulhosa. A máquina disparou e eu deixei-a escorregar de novo. Depois levei-a para os baloiços. Prendi-a ao assento minúsculo e empurrei. Gorgolejou de alegria, o sol brilhante faz ressaltar as rosas das faces. Parecia uma boneca com o seu fato de neve azul, que a mantinha bem quente. Estávamos no parque infantil que eu tinha instalado nas traseiras da casa-modelo, para mostrar todo o espaço que havia para actividades de ar livre. Olhei, satisfeito, pela rua abaixo. Havia carros estacionados a todo o comprimento da nova rua e os vendedores estavam ocupados a mostrar as várias casas. Não era que cada uma delas fosse muito diferente. O mais importante era que pareciam sê-lo. Cada uma era basicamente o mesmo, a estrutura convencional em T, com uma área suplementar em água-furtada, que poderia ser convertida num outro andar, se o comprador desejasse. Mas limitando a construção a quatro por acre e oito por bloco, conseguíramos pôr cada casa em posição diferente. Isto criava, na gíria da construção, o aspecto "fora de série". O preço também era atraente: 13990 dólares. Não me perguntem por que é que não eram os 14000 dólares certos; era outro segredo do negócio. Acho que essa diferença de 10 dólares fazia o preço parecer uma pechincha. E a verdade é que o era. O preço de compra incluía circulação forçada de ar quente e abrigo para o carro. Podia ser comparado, favoravelmente, com o de outras casas mais perto da cidade que custavam mais 3000 a 5000 dólares. E, embora tivéssemos de ceder vinte e cinco acres para estradas e acessos por exigência dos serviços camarários, mesmo assim ainda tínhamos um lucro líquido de 1500 dólares em cada casa. Dani riu alto quando empurrei o balouço ainda com mais força. Sabia perfeitamente o que ela sentia. Era o seu mundo. Olhei para além do balouço. Os buldozers já tinham começado a trabalhar no bloco seguinte, nivelando e limpando o chão. Amanhã, vinham as pás para abrir as fundações, depois, as misturadoras. As estruturas começariam a crescer num sítio que anteriormente estava deserto. Era também o meu mundo. Senti uma mão no braço. A voz de Nora veio de trás de mim. — Estás a divertir-te tanto que nem podes dizer olá à tua própria mulher? Voltei-me, surpreendido. Embora tivesse deixado um recado a Charles, não esperava vê-la aparecer. Até àquele momento, não mostrara qualquer interesse pela urbanização. — Que agradável surpresa, Nora! Como por magia, os repórteres e fotógrafos, que tinham começado a afastar-se em direcção ao bar que tínhamos instalado na roulotte que nos servia de escritório, voltaram todos de repente. Não me iludi. Nora era a atracção principal. Nora Hayden era noticia. Especialmente na sua cidade natal. — O que é que te trouxe aqui? — perguntei.  Os olhos dela fitaram os meus. — Sam teve a amabilidade do me trazer até aqui para eu poder levar a Dani para casa. — Para casa? Por quê? Ela está radiante.  — Sabes que ela ainda está constipada. 
Parou o balouço e começou a desapertar o cinto de segurança. Sam vinha em direcção a nós, observando-nos com uma expressão curiosa. — Que constipação? — Voltei-me para a Sra. Holman. — Não me disse que a Dani estava constipada. A ama olhou para mim, depois para Nora e depois para o chão. Murmurou qualquer coisa ininteligível. Não consegui ouvir o que ela disse. Dani não queria ir-se embora. Torcia-se e gritava nos braços de Nora. Um dos fotógrafos sorriu para Nora. — As crianças são uma maravilha — disse num tom amável — até o momento em que tentamos impedi-las de fazer o que querem. O rosto de Nora congestionou-se, depois, empalideceu. Não lhe agradava a ideia de se mostrar com uma criança aos gritos nos braços. Não era de todo assim que tinha imaginado a cena. As mães apareciam com crianças suaves e encantadoras que posavam graciosamente nos seus braços. Apertou mais Dani e começou a afastar-se do balouço. Dani gritou ainda com mais força. Nora voltou-se e atirou-a para os braços da ama. — Leve-a para o carro do Sr. Corwin. — Depois, voltou-se para mim. — Vês o que fizeste? — disse, zangada. — Nunca estás satisfeito enquanto não me colocas numa posição embaraçosa! Pelo canto do olho, vi os repórteres aproximarem-se. Não sabia se eles a tinham ouvido ou não, mas eu, pela minha parte, não ia dar-lhes mais nada. — Peço desculpa — disse, em voz baixa. — Não sabia que a Dani estava constipada. — Deixá-la brincar no chão frio e no meio de toda esta lama e poeira. Vou direita com ela ao médico. Sentia a fúria crescer dentro de mim, mas consegui controlar a voz. — Não exageres, Nora. Ninguém vai acreditar. Não estava preparado para o olhar carregado de ódio que lhe faiscou nos olhos cinzentos. Não me deu resposta, mas aquele olhar disse-me que as coisas que estavam erradas entre nós tinham ido longe de mais para que alguma vez pudessem ser reparadas. No entanto, estávamos ali, num sítio em que toda a gente nos podia ver e eu tinha de fazer que tudo parecesse bem, tanto por ela como por mim. Forcei-me a sorrir. — Bom, já que aqui estás, podes dar uma vista de olhos por aí. O que é que achas das casas? — Não tenho tempo — disse com ar de desprezo. — Tenho de ir levar a Dani a casa e depois tenho de fazer os preparativos para ir a Nova Iorque. Desta vez tinha-me apanhado desprevenido. — Nova Iorque?  — Sim, o meu esboço para as Nações Unidas foi aprovado. Querem que eu vá ao Leste discutir o assunto com eles. Era novidade para mim. Mas até os repórteres da construção civil sabiam disso. Comprimiramse, ao mesmo tempo em que avançavam com as suas perguntas. Momentos depois Nora estava em plena conferência de imprensa. Quando me afastei para ir verificar um problema de desnível que tinha surgido ao bulidozer, já ela estava descontraída e sorridente, feliz, por ser, uma vez mais, o centro das atenções. Também me senti mais à vontade. Pelo menos, tínhamos livrado de dizer mais coisas desagradáveis um ao outro. Mas isso só durou até eu ler os jornais na manhã seguinte. Andava mesmo dos trabalhos, quando veio uma chamada telefónica e um dos operários foi-me chamar. Era Stan Barrous, o agente de compra e venda de propriedades que se encarregava das nossas vendas. Falou numa voz murmurada como se não quisesse que o ouvissem. — Vá já ao Valley National Bank, Luke. Temos sarilho.  — Que sarilho? — perguntei. O Valley National tinha feito as hipotecas da construção. — Eles não têm razão de queixa. Temos estado a trabalhar abaixo do orçamento. — Não posso falar. Vá lá imediatamente! E o telefone morreu-me nas mãos. Ia ligar para ele, mas pousei o telefone. Se ele tivesse querido contar-me mais alguma coisa, tê-lo-ia feito. Dirigi-me para o meu carro.
Já lá estavam todos quando entrei no gabinete do presidente do banco. Eles não sabiam, mas eu fiquei mais admirado, por os ver a eles do que eles por me verem a mim. Olhei em volta. A minha sogra, George Hayden Stam, o presidente do banco, o vice-presidente encarregado da secção de hipotecas. — Não sabia que ia haver uma reunião — disse. — Alguém se esqueceu de me prevenir. Pareceram-me pouco à vontade, mas ninguém quis ser o primeiro a falar. Passado um momento, o vice-presidente deu o mergulho. — Já leu os jornais da manhã, Luke? — Não — respondi. — Quando saio para o trabalho ainda é escuro. Não chegam lá acima tão cedo. — Nesse caso, é melhor ler isto.  Estendeu-me um exemplar, dobrado, do Chronicle. Olhei de relance para um artigo sublinhado a vermelho. Ao lado vinha uma fotografia de Nora. NORA HAYDEN FAZ ESTÁTUA PARA N. U. Levantei os olhos. — É muito interessante — disse. — Mas não vejo o que é que isso tem a ver connosco. — Continue a ler. Continuei. Os primeiros dois parágrafos não tinham nada de especial. Falavam da estátua para as Nações Unidas. Os três parágrafos seguintes é que eram o fim. ―Entrevistada na grande festa de abertura das Construções! Carey, uma urbanização muito falada que está a ser dirigida pelo marido, coronel Luke Carey, antigo herói da guerra, Nora Hayden com sua franqueza habitual, expressou a sua opinião sobre as modernas casas americanas, os seus proprietários e aqueles que as constróem. “O construtor americano mostra um total desprezo pelos proprietários e pelas donas de casa americanas. Destituído de imaginação e de todo e qualquer sentido artístico, está a transformar a casa americana num cubo conformista e insípido e isso por razões económicas puramente egoístas que lhe permitem alcançar maiores lucros. Cada casa é exactamente igual à seguinte, sem quaisquer características individuais e qualquer mulher que permite que a levem a viver numa dessas caixas de fósforos só pode imputar responsabilidades a si própria.” Quando lhe perguntámos se aquela opinião era extensiva às Construções Carey, tal como às outras, teve esta resposta: “Podem tirar das minhas palavras as conclusões que quiserem. Por mim, não gostaria sequer de morrer numa estrutura tão destituída de gosto e de estilo, quanto mais viver nela.” Miss Hayden tenciona partir para Nova Iorque ainda hoje, para discutir com o Comité Artístico das Nações Unidas os planos para o trabalho que irá executar.‖ Senti o estômago contrair-se; sentei-me quando acabei de ler o artigo. Atirei com o jornal para cima da secretária. — Deve haver qualquer engano, Vou obrigar a Nora a fazer um desmentido. — Não vai servir de nada — disse George Hayden. — O mal está feito. — Que mal? — disse, zangado. — O comprador médio nem sequer lê este tipo de idiotices. — Está enganado, Luke — disse Stan Barrous calmamente. — O nosso livro de vendas indicava ontem ao fim do dia quarenta e sete definitivos e dezanove possibilidades. Às dez horas desta manhã, restavam apenas onze definitivos e três possibilidades. Telefonei pessoalmente à maior parte das desistências e, embora não admitissem ser essa a razão, todos disseram que tinham lido o artigo. — Vou processar esse estuporado desse jornal!  — E qual o motivo? — perguntou George Hayden, cheio de desprezo. — Estão apenas a repetir o que disse a sua mulher. Não respondi. Tinha razão. Deixei-me cair numa cadeira e peguei num cigarro. — Talvez se mudássemos o nome da urbanização, se retirássemos o meu nome, servisse de alguma coisa. — Duvido muito, Luke. Pode dizer-se que todo o projecto recebeu o beijo da morte. Acendi o cigarro sem responder. O meu sonho estava a desfazer-se no ar, como o fumo.
— Você tem de compreender a nossa posição, Luke — disse o presidente do banco. — Investimos quase um milhão de dólares e temos de o proteger. Vamos ter de exigir o reembolso. — E dão-me a oportunidade de tentar noutro lado? — Claro, mas duvido que alguém o aceite. Tentámos pelo menos uma dúzia de bancos diferentes, para podermos repartir o empréstimo, mas todos recusaram. Éramos o único banco disposto a continuar ligado ao empreendimento, nem que fosse por cem mil dólares. Voltei-me para a minha sogra, que tinha estado calada todo o tempo. — O que é que lhe parece? Sabe o que isto significa? Vamos ao ar e os seus trezentos mil estarão perdidos. Olhou-me fixamente. — Às vezes, é preferível aceitar que perdemos e retirarmo-nos a tempo. Podíamos vir a perder dez vezes mais a tentar salvar uma situação desesperada. Olhei em volta para todos eles. — Não consigo acreditar que isto vá tudo por água abaixo por causa de uns simples comentários ocasionais. A minha sogra falou de novo. — Talvez não fosse tão importante se não tivessem partido da sua mulher. A dedução era nítida. — Não creio que a senhora alguma vez tenha conseguido impedi-la de fazer o que lhe vem à cabeça — respondi. — Seja como for, Luke, foi como sua mulher que ela falou, não como minha filha. A responsabilidade era sua. — A Nora não é uma criança! — disse, zangado. — Sabia o que estava a dizer! — A responsabilidade era sua! — insistiu, teimosamente, a velha senhora. — E como é que eu podia tê-la impedido? — perguntei. — Trancando-a no quarto, sem jantar? — É demasiado tarde para discutirmos o que já está feito. — O primo George voltou-se para mim. — Eu receava qualquer coisa deste género. — Era por isso que queria que esperasse até estar mais preparado. — Para que esperar? — perguntei. — A ideia era boa. E continua a sê-lo. Mas isso, agora, parece que já não conta. Todos tomaram já a sua decisão. Levantei-me e encaminhei-me para a porta. — Luke! — A voz da minha sogra fez-me parar. — Sim? — Não leve nada disto a mal. Eu vou fazer que você receba o seu dinheiro. Fiquei a olhar para ela. — Recusei-me a aceitar qualquer participação na casa que nos ofereceu. Recusei as acções da Hayden de Carruthers que quis oferecer-me. O que é que a leva a pensar que vou aceitar esta espécie de dádiva? O olhar dela tornou-se frio e duro, mas há uma coisa pela qual não posso deixar de lhe dar crédito: a voz dela não sofreu qualquer alteração. — Não seja tolo! Há sempre uma oportunidade. Sorri amargamente. — O que quer dizer é que eu posso sempre voltar para a Hayden de Carruthers, se resolver ser bom menino e fazer o que me mandam. Não respondeu, mas os lábios dela comprimiram-se e formaram uma linha fina e dura. — Obrigado, mas não, muito obrigado — disse amargamente. — Não é a primeira vez que desço envolto em chamas; só que é a primeira vez que o fogo vem do meu próprio lado. Olhei em volta. Estavam todos silenciosos, de olhos fixos em mim. — Hei-de sobreviver. Saí-me das outras, também me hei-de sair desta.
— Luke! — Agora a voz da minha sogra era dura e zangada. — Se você sair aquela porta, não terá outra oportunidade, isso lhe garanto eu! De repente, senti-me cansado. — Já é tempo de deixarmos de nos iludir, mãe Hayden — disse, num tom fatigado. — Ambos sabemos que a única possibilidade que eu tinha era fazer exactamente aquilo que a senhora e Nora queriam. Sei que foi uma loucura minha ter posto sequer a hipótese de conseguir aprender a viver dessa forma! Fechei a porta atrás de mim, fui a um bar e tomei umas quantas bebidas. Depois fui para casa, para dizer a Nora exactamente aquilo que pensava. Mas nunca tive essa possibilidade. Quando lá cheguei, já ela tinha ido para Nova Iorque. Subi ao quarto de Dani. Ela ficou sentada no berço a olhar para mim. Aproximei-me, pegueilhe e apertei-a de encontro ao peito. De repente, senti as lágrimas correrem-me pela cara. Encostei-lhe suavemente os lábios ao pescoçozinho macio. — Bom, minha pequenina Dani — murmurei — parece que o teu pai se transformou numa verdadeira bomba! Fui despedido por falência no dia em que ela fez um ano. A vida entrou numa pausa gritante. Uma pessoa move-se através dos dias, mas é como se fosse um fantasma. As pessoas não nos vêem. Não as tocamos nem elas nos tocam. É quase como se nunca tivéssemos existido e talvez isso fosse óptimo, excepto numa coisa. Vemos demasiado. Como a imensa fita amarela que nos abre caminho pelas entranhas, como uma serpente que nem sabíamos que existia. O medo nem sempre é uma coisa física. Tem muitas caras. Uma delas começa quando se aceitam as mentiras de alguém. Então, ficamos amarrados pelo fio amarelo da nossa própria aceitação. A mãe de Nora tinha cumprido bem a sua promessa. O meu nome estava na lama; todas as portas estavam fechadas e, passado algum tempo, deixei mesmo de tentar. Durante o dia havia sempre Dani. Vi-a aprender a andar no parque. Ouvi-a rir no jardim zoológico e em Cliff House, à procura dos leões-do-mar que nunca lá estavam. Mas do que ela gostava mais era de pôr as moedas nos brinquedos mecânicos do velho Palácio de Cristal de Sutro. Havia um que lhe agradava especialmente. Era uma quinta e o fazendeiro mugia a vaca enquanto a mulher dava de comer às galinhas e o moinho de vento girava. Fizemos isso seis vezes no dia do segundo aniversário dela. Á noite, havia sempre o bourbon para apagar o sabor amargo da decepção. Aos fins-de-semana, quando Nora estava geralmente em casa, ia para La Jolla e entretinha-me com o barco. Era a única coisa que não tinha perdido na falência e os fins-de-semana eram a única altura em que me sentia um pouco útil. Havia sempre qualquer coisa para fazer: pintar, betumar, reparar. Às vezes, os dois dias passavam sem que eu tocasse na bebida. Mas, na segunda-feira à noite, já em casa, metia-me outra vez no álcool. Deviam dar uma medalha ao homem que inventou o uisque bourbon. O uisque escocês sabe a remédio, o gim cheira a perfume, o uisque de centeio azeda o estômago. Mas o bourbon é a nata de todos eles. É suave e macio e enche-nos de bem-estar. Nunca se fica bêbado com bourbon. Apenas nos enche todos os buracos e faz-nos sentir outra vez grandes e fortes. E o sono chega sempre com maior facilidade. Mas nem mesmo o bourbon me conseguia fechar os olhos. Continuava a ver demais. Como naquela noite em que não conseguia dormir e fui lá abaixo às três da manhã buscar outra garrafa. Nora entrou à porta precisamente quando eu cheguei ao fundo das escadas. Fechou-a atrás dela e ficámos ali, a olhar um para o outro, a medir-nos, quase como dois estranhos, tentando lembrar-nos de qualquer impressão vaga. Eu sabia bem qual era o meu aspecto, com o cabelo desgrenhado, o pijama amarrotado e o roupão atado descuidadamente. Não estava nenhuma beleza. Especialmente com os pés descalços a aparecerem.
Quanto a Nora, era quase como se a visse pela primeira vez. Envolvia-a aquele odor almiscarado a sexo. Tinha o rosto pálido e em volta dos olhos violeta trazia aqueles círculos transparentes de um azul suave que sempre tinha depois, enquanto o sono não os apagava. Não precisava que lhe dissessem que eu sabia. Não aguentei ficar a olhar para aqueles olhos que sabiam e afastei-me. Não disse nada. Havia um vago sorriso na voz dela. — Se estás à procura do uisque, eu disse ao Charles que pusesse uma caixa no teu gabinete. Não respondi. — Tu bebes bourbon, não é?  Levantei os olhos. — É.  Era o que eu pensava. Passou a meu lado, em direcção à escada. Quando já ia a meio caminho, voltou-se e olhou para mim. — Não te esqueças de apagar a luz quando subires.  Fui buscar a garrafa de bourbon e pensei em mil e uma coisas que devia ter-lhe dito, mas não disse. Sentia a tal fita amarela enrolar-se-me na barriga e atirei-lhe um bocado de bourbon para cima. "A minha filha precisava de mim", disse para comigo mesmo. Precisava de alguém que lhe desse amor e que a levasse ao Sutro para brincar com os brinquedos mecânicos, para partilhar o sol e a água e todas as outras coisas em que a mãe nunca pensava. Levei a garrafa comigo para o quarto e estendi-me em cima da cama. Tinha acabado de tomar a terceira bebida, quando ouvi a chave dar a volta na fechadura. Olhei na direcção do quarto de banho. A porta estava aberta. Quase me pus de pé, depois parei. Em vez disso, estendi novamente a mão para o uisque. Engoli rapidamente uma boa golada e apaguei a luz. Fiquei estendido em cima da cama, mas não dormi. Dei comigo á escuta, na escuridão, à procura de um som vindo do quarto dela. Não tive de esperar muito. O interruptor do quarto de banho deu um estalido e a luz invadiu o meu quarto, ao mesmo tempo que ela avançava, Ficou parada à porta, sabendo que eu a via, sem nada por baixo do negligéè transparente. Falou em voz branda. — Estás acordado, Luke?  Sentei-me na cama, sem responder.  — Abri a porta — disse.  Continuei a não dizer palavra. Avançou até aos pés da cama e ficou parada a olhar para mim. De repente, com um encolher de ombros, fez cair o negligéè até ao chão.  — Lembro-me de teres dito uma vez que não querias ser o segundo. — Havia um vago tom de desprezo na voz dela. — Ainda pensas da mesma maneira? Peguei num cigarro e acendi-o. As mãos tremiam-me. O desprezo tornou-se-lhe mais marcado na voz. — Em tempos, cheguei a pensar que eras um homem. Agora vejo que estava enganada. Agora sou eu mais homem do que tu. Perdeste os tomates quando despiste o uniforme. Inalei o fumo do cigarro, deixando-o queimar-me até aos pulmões. Sentia o suor escorrer-me nos punhos cerrados. — É melhor voltares para o teu quarto, Nora — disse com voz tensa.  Ela sentou-se à beira da cama e tirou-me o cigarro da mão. Pô-lo nos lábios e tirou uma lufada rápida, depois, deu-mo outra vez. Senti na boca o perfume leve do batom. — Talvez servisse de alguma coisa eu contar-te o que fiz esta noite. — Não abuses, Nora! — disse, em voz rouca.  Não prestou atenção ao que lhe disse. Inclinou-se por cima de mim, com a cara muito perto da minha. Sentia-lhe os seios pequenos e quentes comprimirem-se-me de encontro ao pijama. — Foi só uma vez — murmurou em tom de desafio. — Foi tremendo. Mas tu conheces-me. Só uma vez é como a comida chinesa. Uma hora depois estou outra vez cheia de fome!
A ira encheu-me o peito. Não aguentava mais. Agarrei-a pelos ombros e sacudi-a violentamente. Uma expressão de excitação estranha surgiu nos olhos dela e senti-lhe a mão, quente e ansiosa, a procurar-me. — Faz amor comigo! — Nora! — gritei e rolei para cima dela.  Acabou quase antes de começar. Fiquei ali estendido, sentindo-me enjoado, fútil e mal adequado, a olhar para ela, enquanto apanhava o negligéè do chão. Depois, olhou para mim e vi-lhe nos olhos um ar de triunfo gelado. — Às vezes pergunto a mim mesma o que foi que me fez pensar que eras suficientemente homem para mim — disse num tom de desprezo. — Qualquer rapazito saberia melhor do que tu o que fazer. A porta fechou-se ruidosamente atrás dela e eu estendi de novo a mão para a garrafa. Mas desta vez nem o bourbon conseguiu apagar do meu estômago a sensação de enjôo.
 
Eu estava no barco, em La Jolla quando ouvi pela rádio a noticia de que os Vermelhos tinham atravessado a linha na Coréia. Fui a correr ao cais, ao telefone público, e liguei para Jimmy Petersem Im Washington. Tínhamos voado juntos no Pacífico. Ele tinha continuado no Exército depois da guerra e era agora, brigadeiro da força Aérea. — Acabo de ouvir a noticia — disse, quando ele apareceu. — Tens emprego para um tipo capaz? — Claro. Mas agora estamos a usar jactos. Tens de fazer um novo treino e não tenho a certeza de que voltes a ocupar o mesmo posto. — O posto que vá para o diabo, Pete. Quando é que eu me apresento? Riu-se. — Vai falar com o Bill Killiam ao Presidio, amanhã de manhã. Nessa altura, já tenho qualquer coisa pensada para ti. — Lá estarei com todo o prazer, Pete. Obrigado. — Talvez não me agradeças quando deres outra vez contigo em capitão. — Meu general — disse com sinceridade — ficar-lhe-ia muito grato se me aceitasse outra vez como soldado! Voltei para o barco onde Dani estava a dormir na sua cama de viagem portátil. Nessa altura, já tinha quase três anos e abriu os olhos quando peguei nela com a cama. — Onde é que vamos, papá? — perguntou, cheia de sono. — Temos de ir para casa, querida. O papá tem de ir tratar de umas coisas. — Tá bem — murmurou e fechou outra vez os olhos.  Amarrei a cama ao assento do carro, ao meu lado, e atirei com as nossas malas para o banco de trás. Olhei para o relógio. Eram quase oito horas. Se o trânsito não fosse muito, estaria em São Francisco por volta das quatro da manhã. Dani fez a viagem toda sem abrir os olhos. Não havia trânsito. As luzes estavam ainda acesas no estúdio de Nora quando transportei Dani pelas escadas acima, às três e meia e a pus no berço. Fui até ao meu quarto e depois, lembrei-me das luzes. Só precisava de lho dizer de manhã, pensei. Também podia fazê-lo agora, já que estava acordada. Desci as escadas e entrei no estúdio. As luzes estavam acesas, mas o estúdio estava vazio. — Nora — chamei.  Ouvi um ruído no quartinho ao lado do estúdio. Encaminhei-me para lá e abri a porta. Ia pronunciar novamente o nome dela, mas a voz morreu-me na garganta. Estavam ainda em cima da cama, grotescamente imobilizados nos braços um do outro. Nora foi a primeira a recompor-se. — Sai daqui! — gritou. A minha cabeça ficou como se eu estivesse quinze quilómetros acima das nuvens. Era o desenlace clássico e sentia-me desnorteado entre a fúria de ter de enfrentar a verdade de forma tão inesperada e o desejo louco de largar a rir perante o ridículo da situação. A fúria levou a melhor.
Aproximei-me da cama e arranquei o homem dos braços dela, agarrando-o pelo cachaço. Fi-lo dar a volta e acertei-lhe no queixo, de lado. Foi cair de costas pela porta aberta, indo embater numa estátua. Ambos caíram no chão com uma chinfrineira capaz de acordar os mortos. Fui novamente direito a ele, mas alguma coisa me agarrou o braço. Olhei para ele. O medo e o sentimento de culpa tinham-se combinado para o deixar indefeso. Não passava de um rapazito. Deixei cair o braço ao longo do corpo. Charles entrou no estúdio, ainda a amarrar o roupão em volta do corpo. Vi a cozinheira e a criada de fora, atrás dele, a olharem para a porta. Voltei ao quarto, peguei nas coisas do rapaz e atirei-as para o estúdio. — Charles — disse — leve esse patifório grosseirão daqui para fora! Fechei a porta atrás de mim e voltei-me para Nora. Estava pálida de raiva e de ódio. — Será melhor que te vistas também. Pareces uma puta barata, embrulhada nesse lençol. — Para que é que tiveste de acordar os criados? Como é que eu vou ser capaz de olhar para a cara deles? Fiquei a olhar para ela. Não a preocupava o facto de eu a ter encontrado na cama com outro homem. A única coisa que a incomodava era o efeito que isso podia fazer nos criados. Sacudi a cabeça, pensei que nunca ia deixar de aprender. De repente, pareceu-me que sabia todas as respostas. — Não creio que tenhas de te preocupar, Nora — disse, num tom quase amável. — A verdade é que já não enganavas ninguém. Excepto a mim. — Tu nunca acreditaste em mim! Ouviste as histórias que contavam e acreditaste nelas! — É aí que tu te enganas, Nora — disse. — Eu nunca ouvi nenhuma história e continuo a não ter ouvido. Não sabes que o marido é, geralmente, o último a descobrir? — O que é que esperavas que eu fizesse? Nunca mais te aproximaste de mim depois do nascimento da Dani! Sacudi a cabeça. — Já não dá, Nora. Agora, já não dá. — Começou a chorar. — Isso já não me faz nada, Nora. As lágrimas também já não conseguem nada. Pararam tão repentinamente como tinham começado. — Por favor, Luke — disse, saindo da cama e vindo direita a mim. — Não volta a acontecer. Ri-me . — Nisso tens razão. A mim já não me acontece. Vou-me embora. — Não, Luke, não! — Pôs os braços à minha volta, agarrando-se a mim. — Eu faço-te esquecer tudo. Prometo! — Por muito tempo que vivesses, não chegaria para isso!  Afastei-a de mim. Os olhos estavam muito abertos e assustados. — O que é que tu vais fazer?  De repente, toda a dor, todo o sofrimento cresceram dentro de mim ao mesmo tempo. — Uma coisa que já devia ter feito há muito.  As costas da minha mão assentaram-lhe de lado na cara e ela rodopiou até meio do quarto, falhou a cama e foi estatelar-se no chão. Saí do quarto antes que conseguisse levantar-se. Atravessei o estúdio e segui ao longo do corredor. Via os rostos dos criados a olharem fixamente para mim. Quando cheguei junto das escadas, Charles vinha de volta da porta principal. O pobre homem não conseguia olhar-me de frente. A porta do estúdio abriu-se e Nora apareceu no vestíbulo, completamente nua. — Filho da puta! — gritou. — Hei-de dizer ao mundo inteiro aquilo que tu és. Nem sequer és um homem. És um homossexual, um pervertido, um tipo esquisito! Olhei para Charles. — É melhor tratares dela. Chama o médico, se achares que é preciso. Ele acenou com a cabeça, em silêncio. Nora continuava a gritar quando cheguei ao cimo das escadas. A Sra. Holman estava à porta do quarto, com os olhos muito abertos. — A Dani está bem? — perguntei. 
Fez que sim com a cabeça, com o rosto ainda pálido. Dirigi-me para o quarto da criança. Continuava a dormir, como um bebé que era. Inclinei-me e beijei-a na face.  — Graças a Deus pelo sono dos inocentes. 
 
A minha sorte na Coreia foi mais ou menos a mesma que tinha sido durante a guerra. Dei boas provas nos jactos e voei numas nove missões, apanhando dois Migs antes de eles me apanharem a mim. A guerra não foi suficientemente grande para eu poder ir para o Estado-Maior depois de sair do hospital, por isso, dispensaram-me por razões clinicas e mandaram-me para casa. À chegada a São Francisco tive um acolhimento tumultuoso. A única pessoa que estava à minha espera no aeroporto era um oficial de diligências. — Coronel Carey? — Sim. — Lamento — disse, metendo-me na mão um pedaço de papel e afastando-se a toda a velocidade, como um rato com um cão atrás. Abri o papel e li-o.  Estava datado daquele dia, 20 de Julho de 1951. Nora Hayden Carey contra Luke Carey. Acção de divórcio posta pela queixosa, Sr. Carey. Os fundamentos eram crueldade mental, abandono e falta de pagamento de alimentos. — Bem-vindo a casa — disse para comigo mesmo, enfiando o papel na algibeira.  Não há nada como uma boa recepção à antiga.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TERCEIRA PARTE
 
A História de LUKE O fim-de-semana
 
 
Olhei para o relógio enquanto subia no elevador, vindo da garagem. Era quase meio-dia quando cheguei ao motel, de volta do Tribunal de Menores. Queria dizer que eram duas horas em Chicago. Elizabeth devia estar à espera de noticias minhas. De repente, as minhas mãos começaram a tremer. Precisava de uma bebida. Saí do elevador no andar principal e encaminhei-me para o bar. Pedi um Jack Daniels. Só um. Bebi-o rapidamente e fui para o meu quarto. Atirei o casaco para cima de uma cadeira, sentei-me à beira da cama e pedi a chamada. Tirei a gravata e estendi-me, enquanto aguardava a ligação. A voz dela veio quente através do fio. — Alô. Elizabeth — disse.  — Luke? — Havia um tom de preocupação na voz dela. — Estás bem? As palavras mal conseguiam sair-me da garganta. — Estou, sim. — As coisas estão assim tão mal? — perguntou calmamente. — Bastante mal — disse. — Nada mudou. — Tirei o maço de cigarros da algibeira da camisa. — A Nora continua a odiar-me. — Não esperavas que isso tivesse mudado, pois não?  — Acho que não. Só...  — Só o quê? — Gostava de poder fazer qualquer coisa para que a Dani percebesse quanto desejo ajudá-la. — Estás aí, não estás? — perguntou. — Estou, mas... — Então pára de te preocupares — disse calmamente. — O mais importante é que ela não sinta que está só. Aquela frase fez-me cair um pouco em mim. — Então e tu? Não te sentes sozinha?  Riu-se.  — Eu não estou sozinha. O nosso amiguinho tem-me feito companhia.  — Quem me dera que tu aqui estivesses. — Talvez para a próxima vez — disse. — Vais ver que tudo vai correr bem sem mim. Amo-te — disse.  — E eu também te amo, Luke. Para a próxima vez, pede para a chamada ser paga aqui. Assim só recebemos a conta no principio do mês. — Bye, querida. — Adeus, Luke.  Pousei o telefone. Sentia-me melhor. Parte da tensão tinha desaparecido. Elizabeth tinha sempre o mesmo efeito sobre mim. Fazia que tudo parecesse melhor. Fechei os olhos e pensei em como tinha sido no barco, havia muito tempo. A primeira vez. Quando a tinha levado a ela e ao patrão no barco que tinham alugado.
 
Tínhamos atracado em frente de Santa Mónica e o velho metera-se num táxi para Los Angeles. Elizabeth tinha ficado no barco. O patrão tinha-lhe dado o fim-de-semana livre. Tínhamos combinado tratar-nos todos uns aos outros pelo primeiro nome e depois de o velho ter seguido no táxi, voltei-me para Elizabeth. — Tenho um amigo aqui que me arranjava onde passar a noite, se você preferir.
— E isso seria mais confortável para si, Luke? — Não havia artifício nem coqueteria na voz
dela.
— Estava só a fazer o meu papel de cavalheiro. — Tenho a certeza disso. — Olhou-me com os olhos azuis e transparentes. — se tivesse dúvidas, Luke, não teria concordado em ficar a bordo. — Um comentário simpático como esse dá-lhe direito a ser convidada para jantar fora — disse. — Aceito, se me deixar pagar. — Ah, ah! Insisto. Você é minha convidada para o fim-de-semana. — Não está certo. Isso vai-lhe baixar o preço do aluguer em cem dólares. — O problema é meu — respondi, teimoso. Viu a expressão na minha cara e pôs-me a mão no braço. — Se é assim tão importante. Por quê? — Tive uma mulher que arranjou as coisas de tal maneira que era sempre ela quem pagava as contas. Já me chegou. Retirou a mão, rapidamente. — Estou a perceber — disse. — Bom, espero que esteja bem provido. Nós, os suecos, temos um apetite terrível. Fomos ao restaurante onde se comia peixe, na auto-estrada da Costa, entre Malibu e Santa Mónica, e ela não ficou atrás do que tinha prometido. Até eu desisti perante a abundância das doses, mas ela limpou o prato. Depois, sentámo-nos em frente do café, a olhar através da janela para as ondas que se vinham quebrar na praia, mesmo por baixo de onde nós estávamos, e conversámos. Estávamos à vontade e o tempo foi passando e já eram mais de onze horas quando voltámos para o barco. — Estou morta — suspirou enquanto caminhávamos ao longo da doca. — Acho que não estou habituada a todo este ar do mar. — Sim, deita uma pessoa abaixo. — Olhei para ela sob a luz pouco nítida e amarelada da única lâmpada suspensa à ponta do cais. — Vá se deitar. Se não se importa, eu vou um bocado até à praia. Há um amigo que eu devia ir visitar. Olhou para mim de uma maneira especial e depois fez que sim com a cabeça. — Vá, sim. E obrigada pelo jantar.  Sorri-lhe.  — Foi só uma amostra. Amanhã à noite é que é a sério. Luzes suaves, toalhas brancas, música. — Obrigada pelo aviso. Vou passar fome todo o dia. Desceu para o barco e desapareceu no interior da cabina. Esperei um momento, depois volteime e segui ao longo do cais. Atravessei a porta do primeiro bar por onde passei e perguntei pelo meu amigo, pelo nome Jack Daniels. Embriaguei-me e já devia passar das três quando entrei, cambaleante, no barco. Tentei de tal maneira não fazer barulho, que tropecei num cabo que estava enrolado no convés e estatelei-me ruidosamente no chão. Nessa altura, já estava demasiado cansado para ir até à cabina e deixei-me dormir no sítio onde tinha caído. Acordei de manhã com o aroma do café e a fragrância do bacon a fritar. Sentei-me mesmo antes de compreender que estava no meu beliche, vestido apenas com os shorts. Esfreguei a cabeça com a mão. Não me lembrava de ter ido até ali. Elizabeth deve ter-me ouvido mexer, porque deixou o pequeno fogão que havia na cozinha e trouxe-me um copo de sumo de tomate. — Tome, beba isto.  Fiquei a olhar para ela, duvidoso. — Beba. Faz desaparecer o nevoeiro; queima-o.  Automaticamente engoli o que estava no copo, Ela tinha razão. Aquilo queimou o nevoeiro, não há dúvida, e queimou-me os dentes, a garganta, o estômago, tudo! — Caramba! — arquejei. — O que é que estava no copo? Dinamite? Riu-se.
— É um velho remédio sueco para a ressaca. Sumo de tomate, pimenta, molho inglês, tabaco e aguardente. O meu pai costumava dizer que uma pessoa ou morre ou fica curada. — O seu pai tinha razão. É a morte repentina. Onde é que arranjou a aguardente escandinava? — No mesmo sítio onde se encontrou com o seu amigo ontem à noite. Acho que é o sítio mais próximo, não é? Fiz que sim com a cabeça. — Esse seu amigo chegou-lhe bem. — Estou destreinado — disse, na defensiva, — Não bebi praticamente nada durante quatro dias. Como é que conseguiu meter-me na cama? — Não custou nada. O meu pai tinha quase dois metros e pesava cento e quinze quilos e eu costumava metê-lo na cama. Fez-me lembrar os bons velhos tempos. — Tirou-me o copo vazio da mão. — Tem fome? Um momento antes eu teria vomitado só por ouvir falar em comida, agora sentia-me, de repente, esfomeado. Fiz que sim com a cabeça. — Então, sente-se à mesa — disse, dirigindo-se novamente para a cozinha. — O serviço não inclui pequeno-almoço na cama. Como é que gosta dos ovos? — Mal passados. — Saltei do beliche e enfiei as calças. — Espere um minuto — protestei. — Você não precisa de estar para aí a cozinhar. Mas os ovos já estavam na frigideira. Havia pãezinhos quentes e manteiga, compota e doce de laranja, quatro ovos e duzentos e cinquenta de bacon e uma cafeteira de café fumegante. Eu estava a comer como um louco, quando Elizabeth trouxe a chávena para a mesa, a encheu e se sentou. Acendeu um cigarro. Limpei os últimos bocadinhos de ovo com o que restava do último pãozinho e recostei-me com um suspiro. — Estava bom. — Gosto de ver um homem comer. — Acabou de ver o trabalho de um profissional. — Enchi novamente a chávena. — Isto é que é café. — Obrigada. Acendi um cigarro e levei a chávena à boca. Sentia-me bem como há muito tempo não me acontecia. — Você tem uma filha? — Fiz que sim com a cabeça. — Quantos anos é que ela tem? — Oito.  — O nome dela é Nora? — Sacudi a cabeça. — Não, Dani. Abreviatura de Danielle. Nora era a minha mulher. — Oh! Olhei para ela. — Por que é que pergunta? — Não parou de falar delas enquanto o levei para a cama. Sente muito a falta delas, não sente? — Sinto a falta da minha filha — disse com aspereza. Pus-me de pé. — Por que é que não vai até lá fora, saborear o ar puro? Eu lavo a louça. — Vá você para o convés com a sua chávena de café. Durante o fim-de-semana, a louça é comigo. Saí e fui sentar-me numa das cadeiras de pescar. O nevoeiro da manhã rolava em direcção ao alto mar. O dia ia ser quente. Mal acabei o café, ela surgiu por detrás de mim. Voltei-me para olhar para ela. — Quer ir até à praia? — Para quê ir para uma praia cheia de gente quando se pode dar uma volta no nosso próprio barco e ter um oceano particular? — Você é que é o comandante — disse, pondo-me de pé. — Vou a terra arranjar umas coisas para o almoço.  Sorriu.
— Já tratei disso. Incluindo uma dúzia de latas de cerveja, para o caso de fazer muito calor.  Fui à popa para levantar ferro. A manhã cumpriu a sua promessa. O sol estava pesado e ia-nos até aos ossos, de forma que até o alívio que encontrávamos na água verde e fria não durava muito. Mas isso parecia não a incomodar. Continuava estendida no convés a absorver o sol. Havia quase uma hora que não se mexia. Eu estava estendido no banco, por detrás do volante de direcção, debaixo do toldo. Não estava interessado em ser cozido vivo. Empurrei o boné para cima, para destapar a cara, de maneira a poder vê-la. — Há creme de bronzear na cabina, se quiser. — Não vale a pena. Eu não me bronzeio. Fico negra. Estava capaz era de beber outra cerveja. Estou seca. Fui ao frigorifico e voltei para cima com duas latas. Abri-as e avancei para o sol. Era como entrar numa fornalha. Rolou sobre si mesma e sentou-se, estendendo a mão para a lata gelada. Levou-a à boca e bebeu, sequiosa. Deixou escorrer um pouco de cerveja pelo canto da boca e o líquido foi escorrer-lhe pelos ombros bronzeados. Não pude deixar de ficar a olhar. Biquinis e latas de cerveja. Era uma rapariga grande, pelo menos um metro e setenta e cinco, toda ela proporcionada. Sabia-se automaticamente que quem tivesse uma mulher assim tinha tudo ali; não havia outra mulher ao cimo da terra que se lhe pudesse comparar. Limpou a cara com a parte de cima do braço. Depois, deu comigo a observá-la. Sorriu. — A minha mãe sempre disse que eu não sabia beber. Sou como o meu pai. Sorri-lhe também. — Você disse que estava com sede.  Apoiou as mãos abertas no convés, atrás do corpo e encostou-se para trás, voltando a cara para o sol. — Céus, como isto é bom! O sol e o oceano. Nunca pensei que sentisse tanto a falta da água. Tive de me obrigar a desviar o olhar. Pela primeira vez compreendi aquela história das raparigas altas e louras. Até àquela altura tinham sido apenas uma coisa que se via no écran ou nos corpos de baile em Las Vegas. Mas ver de perto uma verdadeira, agora já percebia porquê. — Se sente assim tanto a falta da água — perguntei — como é que se foi meter num sítio como Sandsville? Tinha fechado os olhos por causa do sol. — Vim para Phoenix com o meu marido. Era piloto da Força Aérea. Enfiou o jacto pela vertente de uma montanha a novecentos quilómetros por hora. Quando tudo terminou, arranjei este emprego. E continuei por lá. — Desculpe — disse. Olhei para a água. Há tipos que nunca têm sorte. Nem uma vez. — Há quanto tempo foi isso? — Quatro anos. Você também era da aviação, não era, Luke? — Fui... em tempos. Mas isso foi quando ainda era muito novo. — Também não é assim tão velho. — Tenho trinta e seis, mas já estou mais perto dos setenta. — É a bebida que o faz sentir assim. O meu pai era a mesma coisa... — Parou quando deu comigo a olhar fixamente para ela. Baixou os olhos. — Desculpe, saiu-me sem querer. — Que idade tem você? — Vinte e quatro. — Aos vinte e quatro anos é tudo muito fácil. — Acha? — perguntou, olhando-me uma vez mais nos olhos. — Tão fácil como ficar viúva aos vinte anos? — Agora é a minha vez de pedir desculpa.  — Esqueça.  Estendi o braço e levei a cerveja à boca. — Onde é que ouviu dizer que eu era da aviação?  — Já há muito tempo que sabia da sua existência. Foi por isso que vim aqui à sua procura.
— À minha procura?  — Você era o herói do Johnny. Um piloto de guerra. Coronel do Estado-Maior aos vinte e cinco anos. Johnny queria ser como você. Senti que tinha de vir ver como é que ele teria sido... se não morresse. — E agora? — Já não tenho mais perguntas a pôr a mim mesma. Acho que nunca chegarei a saber. O Johnny era totalmente diferente de si. — O que é que a leva a dizer isso? — A noite passada quando o levei para a cama, você estava a chorar. Não consigo imaginar o Johnny a chorar pelo que quer que fosse a partir dos seis anos de idade. Era rápido e agressivo e, por vezes, áspero e impaciente. Você é exactamente o contrário. Suave e, no fundo, gentil. — A verdade é que eu nunca fui propriamente um herói — disse. — A guerra força-nos a ser aquilo que não somos, se queremos sobreviver. Eu fui um perito em sobrevivência. — Sorri, contrafeito. — Embora não consiga perceber para que é que estava a tentar sobreviver. Os olhos dela fixaram os meus. — Acredito que a sobrevivência possa vir a ter pouco significado para quem passa a vida a esconder-se num barril de uisque. Olhei-a bem fundo nos olhos durante um momento. Eram claros e orgulhosos e fitaram os meus de frente. Suspirei. — A culpa é minha. — Olhei para o relógio. — Ainda tem tempo para dar mais um mergulho, antes de levantarmos ferro. Peguei na minha lata de cerveja e desci à cabina. Estava mais fresco lá em baixo. Levei a lata à boca e pu-la em cima da mesa, à minha frente. Pela escotilha aberta, ouvi o barulho da água quando ela mergulhou.
 
O telefone, ao lado da cama, atirou comigo para o presente. Lutei para chegar à superfície através do calor das recordações. — Sim — murmurei. — Coronel Carey? — Sim. — Fala Harris Gordon. Já estava acordado. — Faz favor, Sr. Gordon. — Desculpe telefonar-lhe tão tarde. Mas não tive um momento livre. Olhei para o relógio. Passava das sete. Tinha dormido toda a tarde. — Não tem importância. — Acha que faria diferença se adiássemos o nosso encontro até amanhã de manhã? É sábado à noite e acabo de saber que a minha mulher convidou algumas pessoas cá para casa. — Compreendo perfeitamente. — Amanhã de manhã às nove?  — Óptimo — respondi. — Estarei à sua espera na entrada.  Pousei o telefone e voltei-me para olhar pela janela. Começava a escurecer e o néon acendia aqui e além. São Francisco numa noite de sábado, e eu sem nada que fazer na minha velha cidade. Acendi um cigarro, recostei-me na almofada e pus-me outra vez a pensar em Elizabeth e em mim.
 
Nessa noite, Elizabeth vestiu um vestido branco, muito simples. O cabelo caía-lhe sobre os ombros como fios de ouro sobre o chocolate cremoso da pele escurecida pelo sol. Todos os batoteiros de fim-de-semana desengonçaram os pescoços a olhar para ela. No sul da Califórnia estão habituados a ver mulheres bonitas, especialmente lá para os lados de Malibu, onde se encontra a gente do cinema, mas havia qualquer coisa nela que atraía todos os olhares.
O chefe sabia o que estava a fazer. E reconhecia uma atracção quando ela lhe aparecia diante dos olhos. Deu-nos uma janela de canto, com vista para o oceano, onde todos nos podiam ver. Depois mandou-nos uma garrafa de champanhe e violinos. Elizabeth sorriu-me. — Deves ser um homem muito conceituado cá para estes lados. — Não sou eu. — Levantei o copo. — Tudo isto é para ti. Aliás, é uma sorte ele não se lembrar de mim. A única vez que cá estive fui posto fora por estar bêbedo. Elizabeth riu-se. — Ele já muda de opinião quando me vir comer. Daí a momentos, os violinos foram-se embora e a orquestra de dança começou a tocar. Olhei para ela. Quando me fez sinal que sim com a cabeça, avançámos para a pista de dança. Pus-lhe o braço em volta do corpo e, no sítio em que a minha mão tocou nas costas nuas, senti toda a força que tinha escondida, ali sob a pele. Desequilibrei-me, tentando encontrar o ritmo da música.  — Já lá vai muito tempo.  — Para mim também. — Depois encostou a cara à minha e, então foi fácil. Fiquei surpreendido quando a orquestra se calou, olhei para o relógio e vi que eram três horas. Havia muito tempo que não tinha um serão que passasse tão depressa. Paguei a conta e deixei uma boa gorjeta por terem sido tão amáveis connosco. Enquanto caminhávamos pela noite californiana cheia de estrelas, o cheiro das flores chegava até nós, vindo das montanhas. Misturado com o ar salgado, subianos à cabeça. — Quer ir pela borda de água?  Fez que sim com a cabeça e enfiou o braço no meu. Descemos o caminho que dava a volta por detrás do restaurante, passando em frente do pequeno motel que deitava para a praia. A noite estava muito calma. Da estrada que ficara lá em cima, para trás de nós, não nos vinha qualquer som. — Podia sugerir-lhe que ficássemos a ver passar os peixes — disse.  — Não sei nada de peixes.  Ri-me enquanto caminhávamos ao longo da praia em direcção a uma rocha. Sentámo-nos e ficámos a olhar para o mar. Não falámos. Não era preciso. A noite estava cheia de uma paz rara. Atirei a minha beata e fiquei a olhar o rasto de faúlhas que deixou até chegar à água. Ficámos sentados, muito juntos, a ver as ondas quebrarem-se na areia, sem nos tocarmos, mas mesmo assim muito próximos. Elizabeth voltou-se para mim. — Luke. Beijei-a. Nada de mãos, nenhum agarrar frenético, apenas os nossos lábios, tocando, provando, dizendo um ao outro como tinha sido antes. Como nos sentíamos sós e como gostaríamos que fosse. Passados momentos, ela afastou a boca da minha, pôs-me a cabeça no ombro e ficámos assim sentados bastante tempo. Depois suspirou levemente e levantou a cabeça. — Está a fazer-se tarde, Luke. Estou cansada. Voltemos para o barco. Fizemos o percurso de táxi em silêncio até Santa Mónica. Apenas os nossos dedos falaram, calmamente entrelaçados. Descemos do cais para o barco e parámos do lado de fora da cabina. A voz dela era sossegada e calma. — Eu não sou do género de procurar romances de fim-de-semana, Luke. Quando embarco é por muito tempo. Faço a viagem até o fim. Não sou uma viúva solitária a tentar encher um vazio que se sente na vida. Não quero ser usada como um extintor, para apagar um fogacho. Olhei-a nos olhos. — Eu compreendo.  Ficou um momento em silêncio, enquanto procurava em mim a verdade. — Espero que compreenda — murmurou suavemente. — Quero que você compreenda. — Esticou-se e comprimiu os lábios de encontro aos meus. — Dê-me uns minutos antes de entrar.  Desapareceu no interior da cabina e eu acendi um cigarro. De repente, tinha as mãos a tremer e estava com medo. Não sabia de que é que tinha medo, mas tinha. Olhei em volta, à procura de qualquer coisa para beber, mas a única coisa que havia eram algumas latas de cerveja. Abri uma e bebi-a rapidamente. Já não estava fresca, mas senti-me melhor depois de a ter bebido. Atirei com o cigarro
para a água e entrei na cabina. Estava deitada no meu beliche, com o lençol puxado até ao pescoço e os cabelos de ouro espalhados na minha almofada. — Apaga a luz, Luke. Eu sou um bocado envergonhada.  Estendi o braço e apaguei a luz. A claridade vinda do cais entrou pela vigia, emoldurando-lhe o rosto. Tirei rapidamente a roupa, ajoelhei-me ao lado do beliche e beijei-a. Passou-me os braços em volta do pescoço. — Luke, Luke.  Levantei a cabeça e, devagarinho, puxei o lençol para trás. Tinha os olhos abertos e estava a olhar para mim. Depois de alguns momentos de silêncio, disse: — Sou suficientemente bela para ti, Luke?  Tinha os seios cheios e altivos. A cintura era minúscula ao afastar-se das costelas amplas, o estômago era liso e só ao aproximar-se da curva dos quadris sugeria um vago arredondado. As coxas eram fortes e as pernas compridas e direitas. A voz dela encheu novamente o silêncio.  — Quero ser bela para ti.  — Minha deusa de ouro — murmurei, beijando-lhe a garganta. Os braços dela apertaram-se à minha volta.  — Abraça-me, Luke. Ama-me.  Senti a paixão brotar dentro de mim. Beijei-lhe os seios. Gemeu suavemente e eu senti-lhe o calor abrir-se por baixo de mim. Depois, não houve mais nada a não ser o bater do meu coração e o rugir dentro do meu cérebro. De repente, todo o uisque e toda a prostração onde tinha procurado a fuga voltaram-se contra mim e arrebentaram num clique. — Oh, não! — gritei, sentindo os braços dela ficarem paralisados em volta de mim, com a surpresa e o choque. — Não, por favor! Mas já estava tudo acabado. Fiquei deitado um momento, imóvel e depois, sentei-me lentamente e peguei num cigarro. — Peço-lhe desculpa, Elizabeth, peço-lhe muita desculpa. Eu devia ter pensado. Acho que já não sirvo para nada. Já nem sequer sei fazer amor decentemente. Fiquei sentado na borda do beliche, a olhar para o chão, sem ousar olhar para ela. Elizabeth ficou um momento em silêncio, depois estendeu o braço e tirou-me o cigarro da boca. Pousou o cigarro e, com a outra mão, voltou-me a cara para ela. A voz dela era suave e generosa. — Foi isto que ela te fez, Luke? Destruiu-te a este ponto? — Eu é que me destrui a mim mesmo — disse amargamente. — É como lhe disse, acho que não sirvo nem para fazer amor. Apertou-me a cabeça de encontro ao calor dos seios e acariciou-a de mansinho. — Não é nada disso, Luke — murmurou. — O problema é que tu amas demasiado. Quando acordei de manhã, ela tinha-se ido embora. Tinha deixado um bilhete e quatro notas de cem dólares. Abri o sobrescrito com os dedos a tremer. "Querido Luke, Desculpa eu ir-me embora desta maneira. Compreendo que pode não parecer leal, mas neste momento não consigo encontrar mais nada que eu pudesse fazer. Todos têm de levar a sua própria cruz e lutar a sua própria luta. Eu tive a minha quando o Johnny morreu. Tu ainda estás a lutar a tua. Se chegar a altura em que tiveres ganho o suficiente da tua batalha para saíres do esconderijo e seres a espécie de homem que és na realidade, talvez possamos fazer aquela longa viagem juntos. Porque é isso que eu na realidade quero, isto é, se tu o quiseres também. Sei que o que estou a dizer não faz sentido, mas eu nunca consigo dizer coisa com coisa quando estou a chorar. Carinhosamente, Elizabeth."
 
Durante três meses tentei esquecer o que ela tinha escrito até que, numa manhã, acordei no depósito de bêbedos. Tinha perdido tudo. O barco, o meu crédito, o pouco respeito próprio que me restava, tudo. Deram-me trinta dias num campo de trabalho, por não ter com que pagar a multa. Ao
fim dos trinta dias, quando me deram outra vez o fato, descobri que ainda tinha o bilhete de Elizabeth numa algibeira. Tirei-o e li-o outra vez. Depois, olhei para mim mesmo no espelho. Os meus olhos viam claro, pela primeira vez há muito tempo. Absolutamente claro. Conseguia ver-me a mim próprio. Pensei em Elizabeth e em como seria bom voltar a vê-la. Mas não assim. Não queria aparecerlhe com ar de vagabundo. Arranjei emprego como operário numa obra. Sete meses depois, quando o trabalho terminou, já tinha conseguido um lugar de ajudante de capataz. Tinha seiscentos dólares no bolso das calças de ganga e um velho calhambeque a que podia chamar meu. Meti-me no carro, e segui sem parar até Phoenix. Aí fui informado de que ela tinha ido para Tucsom onde o patrão estava precisamente a começar uma obra nova. Mais tarde, nesse mesmo dia, cheguei a Tucson. O escritório ficava fora da cidade, na auto-estrada e a primeira coisa que vi, quando entrei no parque de estacionamento, foi o letreiro: ADMITEM-SE PEDREIROS Abri a porta e entrei. Uma rapariga de cabelos escuros estava sentada no gabinete de entrada. Levantou os olhos para mim. — Faz favor? — O letreiro lá fora diz que estão à procura de homens.  Fez que sim com a cabeça.  — Estamos sim. Tem alguma experiência? — Sim. — Sente-se, por favor. Miss Andersen vai já atendê-lo. — Pegou no telefone e murmurou qualquer coisa. Depois, deu-me um impresso. — Enquanto espera, preencha isto.  Mal acabei, o telefone tocou e a rapariga indicou-me o gabinete interior. Elizabeth não levantou os olhos quando entrei. Estava a olhar para uma folha com números. — Tem experiência? — perguntou, sempre sem levantar os olhos.  — Sim, minha senhora. Continuava com os olhos pregados na secretária.  — Que espécie de experiência? — Todas as espécies, minha senhora. — Todas as espécies? — perguntou, impaciente. — Não é uma resposta lá muito ob... — Levantou os olhos e as palavras morreram-lhe na garganta. Parecia mais magra, com os ossos da cara mais salientes. — Mas não foi por isso que eu vim aqui, minha senhora — disse, olhando-a nos olhos. — A verdadeira razão por que eu vim aqui... foi à procura de alguém que disse que talvez quisesse fazer uma longa viagem comigo. Durante um momento que parecia interminável, ficou a olhar para mim, depois, levantou-se da cadeira, deu a volta à secretária e veio direita aos meus braços. Eu beijava-a e ela chorava e repetia meu nome, sem parar. — Luke... Luke... Luke...  A porta do outro lado do gabinete abriu-se e o velho patrão entrou. Viu-nos e ia a sair, mas voltou-se para olhar segunda vez. Tossiu. Meteu a mão no bolso do casaco e tirou uns óculos. Olhou para mim outra vez e pigarreou de novo. — Com que então é você? — disse. — Já não é sem tempo. Talvez ela agora deixe de andar para aí como um fantasma e se consiga trabalhar. Saiu de rompante do escritório, fechando a porta atrás dele e nós voltámo-nos um para o outro e largámos a rir. Ao ouvir-lhe o riso, compreendi que me ia sentir sempre melhor, só por saber que ela estava perto. Sempre, mesmo neste momento em que eu estava em São Francisco e ela em Chicago, à minha espera, numa solitária noite de sábado.
 
Harris Gordon estava no átrio de entrada quando desci na manhã seguinte, às nove horas. Fomos até à cafeteira onde não encontrámos nada, a não ser mesas vazias. Era uma manhã de domingo. A criada pôs-nos o café em cima da mesa e eu pedi-lhe uma dose de panquecas e salsichas. Gordon sacudiu a cabeça. — Já tomei o pequeno-almoço.
Quando a criada se afastou, perguntei-lhe: — O que é que se segue? Pegou num cigarro. — Numa coisa temos sorte. Não temos de enfrentar um julgamento por homicídio. — Ah não? — Não — respondeu. — Pela lei da Califórnia, um menor que cometeu um delito grave não é tratado da mesma maneira que um criminoso adulto. Isto aplica-se especialmente aos menores com menos de dezasseis anos. — Então como é que eles determinam a culpa e o castigo para uma criança? — Pois bem, é aí que a lei funciona a nosso favor. Não existe punição para uma criança. Na Califórnia afirma-se que uma criança não pode ser considerada responsável pelos seus actos, mesmo que seja provada a sua culpa. Em vez disso, o menor é submetido a uma audiência, sob custódia do Tribunal de Menores, para determinar a melhor solução relativamente à reabilitação e eventual reintegração na sociedade. — Sorriu. — Nota-se muito que sou advogado? Sacudi a cabeça. — Até aqui entendi. Continue. A criada voltou com o meu pequeno-almoço. Gordon esperou que ela se fosse embora outra vez, antes de continuar. — O Tribunal tem de determinar sob a custódia de quem poderão ser servidos os melhores interesses e bem-estar da criança. Um ou ambos os pais; conforme o caso um lar adoptivo, uma escola de recuperação, como Los Guillicos; mesmo um hospital ou uma casa de saúde para tratamento psíquico, se necessário. Mas só depois de se ter procedido a uma investigação completa. Caso o Tribunal decida mantê-la sob a sua custódia, Dani poderá ser enviada para o Centro de Recepção da Direcção de Menores da Califórnia, em Perkins, para ser submetida a um estudo psicológico e psiquiátrico em profundidade. — O que é que isso quer dizer? — Uma coisa é certa — disse, rapidamente — é que se tem alguma ideia de obter a custódia de Dani, o melhor é tirar daí a ideia. O Tribunal nunca permitirá que ela saia deste Estado. Ficámos a olhar um para o outro. Pelo menos, sabia em que pé estava. Acontecesse o que acontecesse, Dani nunca me seria confiada. A minha voz manteve-se impassível. — Portanto, não vou ficar com ela — disse. — E quem fica? Francamente duvido que o Tribunal a entregue novamente a Nora. O que nos deixa três possibilidades: a avó, uma casa adoptiva escolhida pelo Tribunal ou Los Guillicos. Acho que podemos eliminar a casa adoptiva. A avó de Dani oferece maiores vantagens. — Então, a coisa decide-se entre a velha senhora e uma instituição? Fez que sim com a cabeça. Acabei a última panqueca e pedi mais café. — Qual lhe parece mais provável?  — Quer que lhe fale com franqueza? — Fiz que sim com a cabeça. — As hipóteses são de dez contra uma a favor de Los Guillicos.  Ficámos um momento em silêncio. A ideia de Dani a passar meses, talvez anos, por detrás de grades, era mais do que eu podia suportar. — Como é que se consegue que eles nos dêem uma hipótese? — Gordon olhou-me, fixamente. — Teríamos de provar que lhe podíamos dar tudo o que uma instituição lhe pode dar. E isso significa vigilância apertada, escola, educação religiosa, psicoterapia, análise se necessário. E contacto constante com o funcionário escolhido para a vigiar e orientar. — E para que seria isso necessário, estando Dani com a avó? — Porque só lhe será confiada a sua guarda. Dani continuará sob a responsabilidade do Tribunal até que este esteja completamente satisfeito em como ela não poderá causar mais problemas à sociedade. — E quanto tempo levará isso?
— Baseando-me na minha experiência, penso que ela continuará sob a tutela do Tribunal até ter, pelo menos, dezoito anos. — Isso é muito tempo para alguém viver sob um microscópio. Até mesmo uma criança. Ele olhou-me de uma forma estranha. — Ela matou um homem — disse. — Isso é para sempre. Era suficientemente claro. Até mesmo para mim. — O que é que eu posso fazer para ajudar? — Acho que é importante que fique em São Francisco até acabarem as sessões no Tribunal. — Isso é impossível — disse. — Os julgamentos nunca mais acabam. — Isto não é um julgamento no sentido corrente, coronel. Não há nenhum júri para avaliar ou determinar a culpa. É apenas uma audiência perante um juiz, estando apenas envolvidas as pessoas interessadas. O processo não envolve sequer a polícia ou o procurador da República, a menos que a sua presença seja solicitada para responder a questões especificas relacionadas com o bem-estar e o comportamento da criança. O assunto tem de ser resolvido rapidamente. A própria lei protege a criança de uma detenção desnecessária. Se a criança ficar mais de quinze dias sob custódia sem que se realize a audiência, terá de ser libertada. — Sem rodeios — perguntei — quanto tempo? — A audiência relativa à detenção terá lugar na terça-feira. A sessão no Tribunal será uma semana depois. De terça-feira a uma semana, aproximadamente dez dias. — Dez dias! — explodi. — A minha mulher pode ter a criança a todo o momento! Por que é que temos de esperar até terça-feira por essa audiência? — É assim, coronel — explicou Gordon pacientemente. — A audiência da detenção está marcada para terça-feira porque é esse o dia em que o juiz se ocupa dos casos de raparigas menores. A audiência final está marcada para uma semana mais tarde porque, como lhe disse antes, o funcionário encarregado da vigilância e orientação do menor tem de ter tempo para fazer uma investigação minuciosa. E essa investigação é tão importante para nós como para o Tribunal. É segundo o relatório que vai ser feito nesse meio tempo que o juiz toma geralmente a sua decisão, a menos que ele seja inconclusivo, o que o levará a exigir que o estudo seja prosseguido em Perkins. O nosso papel é convencer esse funcionário de que será do interesse tanto de Dani como do Estado que ela seja entregue à guarda da avó. — E para que é que precisam de mim aqui? Não há nada que eu possa fazer para convencer alguém de que a velha senhora devia ficar com a Dani. — Não concordo, coronel. Há muita coisa que o senhor pode fazer, apenas dando a entender que acha que isso seria o melhor para a sua filha. — Sim — respondi, sarcástico. — A minha palavra vale muito, mas não chegava para lhe oferecer uma cerveja, se não mostrasse logo o dinheiro para a pagar. Olhou para mim. — Não está a dar o devido valor à sua pessoa, coronel. A sua palavra vale muito. Não é fácil as pessoas esquecerem os serviços que prestou ao país. — Está a querer fazer reviver a velha história do herói de guerra? — Com toda a força. Ela já está a agir a nosso favor. — O que é que quer dizer com isso? Gordon fez sinal a uma das empregadas de mesa para que lhe trouxesse os jornais da manhã. Logo que os jornais ficaram abertos em cima da mesa, Gordon apontou para uma primeira página onde se via uma fotografia e o respectivo titulo. Na fotografia estava eu com o braço em volta de Dani entrando para o centro de detenção. O titulo era simples: HERÓI DE GUERRA CORRE EM DEFESA DA FILHA — Muito respeitável, não acha? Os jornais já estão do seu lado. Não há qualquer referência ao facto de você se ter enfurecido com os repórteres. Qualquer outra pessoa teria sido crucificada por agir daquela maneira. Mas não o senhor, coronel. Olhei-o com ar interrogador.
— As pessoas que estão a decidir do destino da sua filha são seres humanos. O próprio juiz lê os jornais diários e, quer o admita quer não, é influenciado. Gordon recostou-se na cadeira. — Se o prolongamento da sua estada aqui depende de uma questão financeira, a Sra. Hayden garantiu-me que está disposta a colaborar. — As minhas finanças não têm nada a ver com o caso. Já lhe disse que a minha mulher está quase a ter uma criança. — A opinião pública muda da noite para o dia — acrescentou Gordon. — Neste momento, há uma grande simpatia por si e pela sua filha. Se se for embora antes de ser decidido a quem é que ela fica entregue, as pessoas podem concluir que a sua filha é uma incorrigível e que nem aos seus próprios olhos merece que tentem recuperá-la. Olhei-o furioso. Não se podia negar que era esperto. Tinha-me bem encostado à parede. Quer fosse, quer ficasse, estava tramado. — Não se esqueça de uma coisa, coronel. Que a Dani passe os próximos quatro anos da vida dela numa casa de correcção, estatal ou em casa da avó, pode muito bem depender da sua decisão.. — De repente a responsabilidade é toda minha — disse, furioso. — Por que é que o Tribunal não pensou nisso quando entregou Dani à mãe? O Tribunal tinha provas suficientes para se aperceber de como era a Nora. Onde é que estava a justiça nessa altura? E onde é que estava a velha senhora quando esse tipo foi viver para casa da Nora? Devia saber do que se estava a passar. Não deve ter ficado cega de repente. Por que é que não tomou medidas para tirar de lá a Dani, antes que tudo isto acontecesse? Eu nem sequer lá estava. Não me era permitido. Não, eu não prestava nem sequer para me aproximar meio metro da minha filha. Eu não servia nem sequer para ser pai dela. E agora, vem-me dizer que a responsabilidade é minha? Gordon olhou-me um momento, em silêncio. Acho que havia uma espécie de compreensão nos olhos dele. Falou com brandura. — Sem negar a veracidade de tudo o que está a dizer, coronel, temos de admitir que nada disso altera as circunstâncias presentes. O que temos de enfrentar agora é o presente amargo, não o passado amargo. — Pediu a conta. — Não tome qualquer decisão precipitada. Espere, pelo menos, até terçafeira, depois da audiência de detenção, para decidir o que vai fazer. — Pôs-se de pé. — Talvez que se estiver presente amanhã à autópsia isso o ajude a chegar a uma conclusão. — Autópsia? A Dani vai estar presente? Gordon sacudiu a cabeça. — Não, mas o depoimento dela vai ser lido no Tribunal. E a Nora também estará lá para contar a sua história. — E o que é que isso pode provar? Encolheu os ombros. — Nada, talvez, que não saibamos já. Mas pode ser que ajude a convencê-lo de que é importante que fique. Pedi mais uma chávena de café, enquanto ele saía do restaurante. Não valia a pena ir a casa da velha senhora naquele momento. Já não tinha tempo antes de ir ver Dani. O Jaguar de Nora estava no parque de estacionamento, atrás do Centro de Detenção de Menores, quando lá cheguei. Tinha acabado de sair do carro e dirigia-me para a entrada, quando a voz de Charles me fez parar. — Coronel! Voltei-me. — Olá, Charles. — O senhor é capaz de me fazer um favor? Tenho aqui uns embrulhos que Miss Hayden me pediu para entregar a Miss Dani. — Onde é que está Miss Hayden? Charles não ousou fitar-me nos olhos. — Ela não está... não está a sentir-se lá muito bem. O Dr. Bonner aconselhou-a a ficar na cama e a descansar. Ela tem andado muito incomodada. — Imagino — respondi secamente. — Está bem, eu levo-os.
— Muito obrigado, Sr. Coronel. — Voltou-se e abriu a porta do carro. Tirou de lá uma mala pequena e dois embrulhos, um dos quais parecia ser uma caixa de doces. — Não os quiseram aceitar, foi? — perguntei. — Aceitavam, sim. Mas disseram-me que o senhor vinha cá e que seria mais agradável se os levasse pessoalmente a Miss Dani. Quando me encaminhava já para o edifício, Charles veio atrás de mim. — Posso esperar que o senhor saia? Gostava muito de saber como está Miss Dani. — Claro, Charles. Quando sair venho ter contigo. — Muito obrigado, Sr. Coronel. Eu espero no carro. Voltou-se e dirigiu-se de novo para o parque de estacionamento, enquanto eu entrava no edifício. Era a mesma mulher de cabelos grisalhos, que estava na recepção. Sorriu quando me viu. — O seu passe de visitante está pronto, coronel. — Obrigado — disse. Viu a mala e os embrulhos. — Dá-me licença, coronel? É uma regra aqui. A principio não sabia o que ela queria dizer. Depois, percebi. Talvez aquilo não se chamasse uma prisão, mas havia regras semelhantes. Primeiro, abriu a mala. Ao de cima, havia algumas blusas e saias. Tirou-as para cima da secretária. Por baixo havia dois weaters, alguns pares de meias, roupa interior, dois pares de sapatos e uma pilha de lenços de assoar. A mulher introduziu-lhe as mãos por baixo e depois pelos lados, com todo o cuidado. Sorriu-me enquanto punha tudo novamente na mala, fechando-a em seguida. Depois, foram os dois embrulhos. Eu tinha razão. Um deles era uma caixa de doces. O outro continha vários livros, do género que as raparigas daquela idade devem ler. A empregada olhou-me, como que a pedir desculpa.  — Parece que está tudo em ordem. Não faz ideia das coisas que algumas pessoas tentam fazer passar. — Eu compreendo — disse. Passou-me uma folha de papel e apontou para uma porta. — Entre por ali e vá até ao fundo do corredor. Depois, suba um lanço de escadas e siga as indicações que estão na parede. Vai encontrar uma passagem fechada. Mostre o passe à enfermeira de serviço. Ela leva-o até junto da sua filha. — Obrigado.  Os corredores eram de um asseio clínico, com as paredes pintadas de um verde-claro de hospital. Subi as escadas e cheguei a um corredor exactamente igual àquele de onde acabava de sair. Um sinal, na parede em frente, indicava: RESIDÊNCIAS DAS RAPARIGAS. Segui naquela direcção até chegar a uma vedação de arame. Era um arame forte que ia desde o chão até ao tecto. No centro, tinha uma porta com caixilho de aço, feita também na mesma rede grossa. Tentei abri-la, mas estava fechada à chave. Sacudi-a e as reverberações ecoaram pelo corredor vazio. Abriu-se uma porta e uma mulher grande, negra, acorreu apressada, ainda a abotoar a parte da frente do uniforme branco. — Entrei agora mesmo, desculpe. Mostrei-lhe o passe. Leu-o rapidamente e fez que sim com a cabeça. Tirando uma chave da algibeira do uniforme branco, deu a volta à fechadura. Entrei e ela fechou a porta atrás de mim. Seguimos ao longo do corredor até uma vasta sala de recepção. Havia cadeiras espalhadas em volta e, de um lado, junto das janelas, na parte que não era visível do corredor, havia uma mesa e várias cadeiras. Um grupo de raparigas estava reunido em volta da mesa, escutando um pequeno rádio. Outras duas dançavam, uma branca e uma negra. A música era rock and roll. Levantaram os olhos quando cheguei. Havia na expressão delas um ar de curiosidade que era, ao mesmo tempo, estranhamente desinteressado e que se apagou rapidamente quando viram que não as vinha visitar. — Em que quarto é que está a Dani Carey? — perguntou a enfermeira. Olharam-na com ar parado. — A rapariga que veio de novo. — Sim, a que veio de novo. — Foi a rapariga de cor que respondeu. — Está no doze.
— Por que é que ela não está aqui com você? Não a convidaram? — Sim, convidámos. Mas ela não quis vir, Miss Matson. Quis ficar no quarto. Ainda está envergonhada, acho eu. A enfermeira fez que sim com a cabeça e saímos da sala, seguindo depois ao longo do corredor. As portas sucediam-se a pouca distância umas das outras. A enfermeira parou em frente de uma delas e bateu. — Tens uma visita, Dani.  — Ok — respondeu Dani do interior.  — Quando a visita acabar, eu aviso-o — disse a enfermeira. — Obrigado — respondi, enquanto ela se afastava pelo corredor fora. — Papá! — exclamou Dani e atirou-se para os meus braços.  — Olá, minha querida. — Tentei equilibrar os embrulhos e beijei-a. A porta estava agora aberta para trás e eu podia ver o quarto de Dani. Era pequeno e estreito, com dois leitos estreitos junto às paredes, um em frente do outro. Lá em cima, na parede do meio, havia uma janela pequena. Uma mulher ainda nova estava sentada numa das camas. Pôs-se de pé quando eu entrei. — Esta é Miss Spicer, papá — disse Dani. — Miss Spicer, este é o meu pai. Miss Spicer estendeu-me a mão. — Tenho muito prazer em conhecê-lo, coronel Carey. O aperto de mão dela foi firme e cheio de cordialidade. — Eu sou Marian Spicer, a funcionária encarregada de acompanhar a Dani. Fiquei a olhar para ela. Estava convencido de que essa função iria ser desempenhada por um homem de cara dura. E tinha agora à minha frente uma mulher ainda nova, que teria no máximo vinte e oito anos de idade, de estatura média, cabelos castanhos cortados em caracóis que lhe emolduravam o rosto e olhos castanhos muito vivos. Acho que mostrei, pelo menos em parte, a minha surpresa, porque o sorriso dela tornou-se mais aberto. — Muito prazer, Miss Spicer. Creio que devia estar habituada a este tipo de reacção porque se limitou a ignorá-la. Olhou para os embrulhos. — Estou a ver que o teu pai te trouxe aqui umas coisas, Dani. — Que bom!  Dani olhou-me com ar interrogador. Compreendi que estava a reconhecer a mala. — Foi a tua mãe que as mandou — disse.  Uma espécie de véu toldou os olhos de Dani. — A mãe não vem? — Não. Ela não está a sentir-se bem... A sombra que lhe velava o olhar adensou-se ainda mais, tornando-o impenetrável. — Eu também não estava a contar com ela, papá. — O Dr. Bonner aconselhou-a a ficar na cama. Eu sei que ela queria... Dani interrompeu-me. — Como é que sabes, papá? Falaste com ela?  — Não — respondi. — Ela deve ter mandado o Charles e ele é que te deu os embrulhos. Foi ou não foi, papá? — Os olhos dela desafiavam-me a contradizê-la. Fiz que sim com a cabeça. Voltou-se num gesto quase zangado. — Vou deixar-te com o teu pai, Dani — disse Miss Spicer calmamente. — Volto lá mais para a tarde. Dani encaminhou-se para a outra ponta da cama e sentou-se de cara voltada. Percorri novamente o quarto com os olhos. Tinha no máximo, dois metros por um e meio; o único mobiliário, além das duas camas estreitas, era uma cadeira e uma pequena cómoda aos pés de cada uma das camas. As paredes tinham sido verdes em tempos e, posteriormente, tinham sido pintadas de creme, mas sem grande sucesso. Estavam muito riscadas. Olhei mais de perto e vi que os rabiscos eram, na sua maioria,
nomes de rapazes e datas. Aqui e além parecia haver números de telefones. Ocasionalmente um convite lascivo, no género dos que se encontram nas paredes das casas de banho públicas. Olhei para Dani. A mulherzinha, já meio adulta, que tinha descido as escadas na véspera de manhã, tinha desaparecido completamente. Em vez dela era uma garotinha que estava ali sentada na cama. A única maquiagem que trazia era um batom incolor; no cabelo só tinha um rabo de cavalo preso com elástico, usava sua saia e blusa e parecia ter ainda menos de catorze anos. Procurei um cigarro. — Dá-me um, papá. Fiquei a olhar para ela. — Não sabia que fumavas. — Há muita coisa que tu não sabes, papá — disse impaciente.  Estendi-lhe um cigarro e depois o fósforo. Não havia dúvida de que estava habituada a fumar. Vi-o pela maneira como inalava o fumo, puxando-o bem para dentro das narinas quando o expelia. — A tua mãe sabe que tu fumas? — perguntei. Fez que sim com a cabeça, deitando-me novamente um daqueles olhares de desafio. — Não me parece que seja assim uma grande ideia. Ainda és muito nova... Interrompeu-me rapidamente. — Não comeces agora a armar nesse género de pai. É um bocado tarde demais. De certa maneira, tinha razão. Havia muitos anos que eu andava afastado. Tentei mudar de assunto. — Não queres ver as coisas que a tua mãe te mandou? — Eu sei o que é que me mandou — ripostou. — Doces, livros, roupas. São as coisas que ela me manda sempre quando estou fora. Desde o primeiro verão em que ela me mandou para um campo de férias. — De repente, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. — Ela deve pensar que isto é outro acampamento. Mandava-me sempre qualquer coisa, não há dúvida. Mas tu nunca me ia ver, nem mesmo no Dia dos Pais. Tinha vontade de estender os braços para ela, de a abraçar e consolar, mas havia qualquer coisa na maneira como estava ali sentada, muito direita, que me paralisava os movimentos. Passados alguns minutos parou de chorar. — Por que é que nunca me ias ver, papá? — perguntou com voz fraca. — Já não gostavas de mim?
 
O júri dos casos de homicídio já estava reunido quando entrei na pequena e apinhada sala do tribunal, na manhã seguinte. Os únicos lugares eram na frente e estavam reservados às testemunhas. Harris Gordon viu-me, de pé, ao fundo da sala e, levantando-se, acenou-me . Encaminhei-me para ele e indicou-me, com um gesto, um lugar vago ao lado de Nora. Teria preferido ficar noutro sítio, mas senti os olhos dos repórteres postos em mim. Sentei-me . — O Charles disse-me que te viu ontem — sussurrou Nora. — Como é que está a Dani? Tinha o rosto pálido. Trazia uma maquiagem muito ligeira e vestia com simplicidade. — Ficou muito decepcionada por não teres podido ir — disse. — Também eu. Eu queria ir, mas o médico não me deixou sair de casa. — Foi o que me disseram. Já te sentes melhor? Fez que sim com a cabeça. — Um pouco.  Afastei o olhar, sentindo na boca um gosto amargo, vagamente reminiscente. Não havia nada que a fizesse mudar, que a tocasse, nem mesmo naquela ocasião. Acontecesse o que acontecesse, havia sempre uma palavrinha delicada; as pequenas mentiras; o contornar cuidadoso da verdade. Na véspera, não tinha estado mais doente do que eu. Ouviu-se a pancada de um martelo, vinda da pequena bancada mais alta, atrás da qual estava sentado o juiz de instrução. Fez-se silêncio na sala quando foi chamada a primeira testemunha, o médico legista. Testemunha experiente, fez o seu relato com rapidez e eficiência. Tinha autopsiado o
corpo de Anthony Riccio, falecido, e descobrira que a morte tinha sido causada pela ruptura violenta da aorta, provocada por um instrumento aguçado. Calculava também que o momento da morte não devia ter ocorrido mais de quinze minutos após a dita ruptura e muito provavelmente até mesmo antes. A testemunha seguinte foi outro médico, o cirurgião da polícia. Igualmente testemunha experiente, declarou que tinha comparecido no local em resposta a uma chamada feita pela própria polícia e que tinha encontrado a vitima já morta. Para além do exame superficial necessário para o preenchimento da certidão de óbito, nada mais tinha feito, além de providenciar para que o corpo seguisse para a morgue. Retirou-se e o oficial de diligências chamou a testemunha seguinte: "Dr. Alois Bonner." Levantei os olhos no momento em que o Dr. Bonner se pôs de pé na outra extremidade do banco das testemunhas. Havia muito tempo que não o via. Não tinha mudado muito com os anos. Mantinha o mesmo ar distinto, que lhe vinha dos cabelos grisalhos, e aquela maneira importante e cheia de distinção, que ganhara com a clientela mais rica de São Francisco. Fez o juramento e sentou-se na cadeira das testemunhas. — Nas suas próprias palavras, Dr. Bonner — disse o juiz — conte ao júri exactamente o que se passou na tarde de sexta-feira última. O Dr. Bonner voltou-se para o júri e a sua voz melíflua com que costumava sussurrar à cabeceira dos doentes rolou em toda a sua beleza, pela erégia sala do tribunal. — Preparava-me para sair do meu consultório, um pouco depois das oito, quando o telefone tocou. Era o mordomo de Miss Hayden, Charles, que me informou de que tinha havido um acidente lá em casa e me pediu que fosse o mais depressa possível. Como o meu consultório fica apenas a um quarteirão da casa de Miss Hayden, cheguei lá apenas uns cinco minutos depois da chamada. Fui imediatamente conduzido ao estúdio de Miss Hayden, onde vi o Sr. Riccio estendido no chão, com a cabeça no regaço de Miss Hayden. Ela segurava-lhe junto ao corpo uma toalha empapada em sangue. Quando lhe perguntei o que tinha acontecido, disse-me que o Sr. Riccio tinha sido apunhalado. Ajoelhei-me no chão ao lado dele e levantei a toalha. Havia um ferimento grande, com mau aspecto e que sangrava abundantemente. Voltei a pôr a toalha no mesmo sítio e tomei o pulso ao Sr. Riccio. Estava muito fraco e irregular. Percebi que estava num grande sofrimento e a afundar-se rapidamente. Abri a mala com a intenção de lhe dar uma injecção de morfina que lhe aliviasse a dor, mas ele apagouse antes de eu lha poder dar. Voltou-se e olhou para o juiz. O juiz ficou também a olhar para ele, por um momento, pensativo e depois voltou-se para o homem que estava sentado ao lado do estenógrafo do tribunal. — Tem alguma pergunta a fazer, Sr. Carter? — Carter pertence ao gabinete do procurador distrital — murmurou Gordon enquanto o homem fazia que sim com a cabeça e se punha de pé. — Dr. Bonner, em algum momento, durante o exame a que procedeu, antes da morte, a vitima disse alguma coisa ou fez qualquer observação? — Fez sim. — E o que foi que disse? — Repetiu duas vezes a mesma frase: "Ela apunhalou-me.” — Dr. Bonner, quando o Sr. Riccio fez aquela observação, ficou com alguma ideia a quem ele se estava a referir? — Na altura não — respondeu o médico com firmeza. Pelo canto do olho, vi o brilho de satisfação nos olhos de Gordon e compreendi que já tinha falado com o bom do médico. — Quando o senhor entrou, havia mais alguém na sala, além de Miss Hayden e da vitima? — Também lá estava a filha de Miss Hayden — respondeu o médico. — Ela ficou lá durante todo o tempo que o senhor esteve ocupado com a vitima? — Sim, ficou. — Muito obrigado, Dr. Bonner.  O ajudante do procurador distrital voltou para o seu lugar e sentou-se.
— Pode retirar-se, Dr. Bonner — disse o juiz. — Muito obrigado. — Inspector Gerald Myrer — chamou o oficial de diligências. Um jovem bem-constituído, vestido discretamente, sem nada que desse nas vistas, levantou-se de um lugar à ponta da fila em que estávamos. Avançou, fez o juramento e sentou-se. — Queira fazer o favor de dizer o seu nome e ocupação para informação do júri. — Inspector Gerald Myrer, da Polícia de São Francisco, Secção de Homicídios. — Agora, por favor, queira informar-nos das suas actividades em relação ao caso que temos perante o tribunal, na noite da morte do Sr. Riccio. O inspector retirou da algibeira um bloco de apontamentos e abriu-o. — Recebemos a chamada nos Homicídios, cerca das 8h. e 25m. da noite, vinda do carro que respondeu, em primeiro lugar, à chamada. Chegámos a casa de Miss Hayden às 8 e 37. Já lá estavam dois carros-patrulhas e o polícia que se encontrava à porta disse-me que tinham morto um homem no estúdio. Entrei directamente para lá. A vitima estava estendida no chão. Estavam também na sala Miss Hayden, a filha, Dani Carey, o Dr. Bonner, e o mordomo, Charles Fletcher. O Sr. Harris Gordon, o advogado, que chegara poucos minutos antes de mim, segundo informação do polícia de sentinela, também lá estava. Comecei imediatamente as minhas investigações. Pigarreou e olhou em volta. — Essas investigações revelaram que Miss Hayden e a filha eram as duas únicas pessoas presentes quando foi dado o golpe de que resultou a morte da vitima. O interrogatório feito a Miss Hayden e à filha deram-me a entender que esta tinha agredido a vitima com um cinzel de escultor, durante uma discussão entre Miss Hayden e a vitima. O cinzel foi encontrado no chão, junto do corpo da vitima. Enviei-o para o laboratório da polícia para ser examinado. — Desculpe-me a interrupção, inspector Myrer — disse o juiz. — Pode informar-nos agora dos resultados desse exame? O polícia fez que sim com a cabeça. — Posso sim. O laboratório da polícia informou-me de que o sangue encontrado no cinzel era do tipo O, o que corresponde ao tipo de sangue da vitima. Informaram-me também de que havia três grupos diferentes de impressões digitais no cabo do cinzel: de Miss Hayden, da filha e da vitima. Algumas estavam um pouco apagadas ou sobrepostas, mas havia o número suficiente de impressões bem separadas e nítidas para se poder concluir claramente que cada uma dessas três pessoas tinha manipulado o cinzel. — Obrigado, inspector. Queira prosseguir. — Depois de completar as investigações, levei a filha, Danielle Carey, à esquadra da polícia. Acompanhou-nos o advogado, Sr. Gordon cuja presença já anteriormente referi. Na polícia, Miss Carey ditou um depoimento ao estenógrafo, que depois lhe foi lido na presença do Sr. Gordon e assinado por ela. Depois, como determina a lei, conduzi-a ao Centro de Detenção de Menores em Woodside Avenue, onde a coloquei sob custódia do funcionário de vigilância que estava de serviço. O Sr. Gordon também nos acompanhou até lá.  — Tem consigo alguma cópia do depoimento de Miss Carey? — Sim, Sr. Dr. Juiz. O juiz voltou-se para o júri: — Segundo a lei do Estado da Califórnia, nenhum menor pode aparecer em qualquer tribunal em que possa estar em perigo por ter cometido delito grave. O único tribunal em que o menor pode comparecer é o Tribunal de Menores; no entanto é permitido, uma vez que a nossa única finalidade é determinar a causa física da morte da vitima, ler ao júri o depoimento prestado pela menor em questão. — Voltou-se de novo para o polícia. — Quer fazer o favor de ler o depoimento, inspector Myrer? O inspector Myrer retirou da algibeira interior do casaco uma folha de papel dobrada. Abriu-a e começou a lerem voz alta, num tom monocórdico e inexpressivo: Depoimento de Miss Danielle Nora Carey, menor. "O meu nome é Danielle Nora Carey e vivo com minha mãe, Nora Hayden, em São Francisco. Estava no meu quarto, no primeiro andar, a estudar para os exames de frequência, quando ouvi vozes
vindas do estúdio da minha mãe, no andar de baixo. Sabia que a minha mãe e Rick tinham andado todo o dia a discutir por causa de qualquer coisa. Geralmente quando eles começavam a discutir eu ficava no meu quarto, porque era sempre muito desagradável. Mas desta vez a discussão tinha piorado ao longo do dia e eu começava a recear pela minha mãe. Já anteriormente, no meio de uma discussão, Rick a tinha agredido e ela tinha estado três dias sem poder sair porque tinha um olho negro e a minha mãe não era capaz de aparecer em público com um olho negro. As vozes eram cada vez mais altas. Depois, pareceu-me ouvir a minha mãe dar um grito e o Rick berrar: "Eu mato-te." Saí do meu quarto a correr e precipitei-me para o estúdio. Estava muito assustada por causa da minha mãe e, quando abri a porta do estúdio, vi que Rick lhe tinha agarrado o braço e o torcia para trás, obrigando-a a recuar em direcção à mesa. Agarrei no cinzel que estava em cima da mesa ao pé da porta e corri em direcção a eles. Gritei-lhe que deixasse a minha mãe em paz. Rick largou-lhe o braço e voltou-se. Deu um passo em direcção a mim e disse-me que fosse para o diabo e saísse dali. Esqueci-me de que tinha o cinzel na mão e dei-lhe um murro no estômago com o punho cerrado. Ficou um momento parado, depois levou as mãos ao estômago e disse: “Santo Deus, Dani, por que é que fizeste uma estupidez destas?” Nessa altura, vi o cinzel espetado entre as mãos dele e o sangue a sair-lhe em volta. Corri para a minha mãe, a gritar: Eu não queria fazer aquilo. A minha mãe empurroume para o lado e foi direita a Rick. Ele voltou-se para ela, arrancou o cinzel e deixou-o cair na mão dela. O sangue pareceu jorrar de dentro dele e a mãe deixou o cinzel cair no chão. Rick deu um passo em direcção a ela e caiu. Eu não conseguia olhar mais para aquilo tudo, por isso, tapei a cara com as mãos e comecei a gritar. Nessa altura, Charles e Violet entraram e Violet bateu-me na cara e eu parei de gritar. Depois, veio o Dr. Bonner e disse-me que o Rick estava morto. Acho que é tudo, a não ser que eu fiz aquilo sem querer.  Li o presente depoimento, que prestei de livre vontade e declaro que é um relato verdadeiro e pormenorizado dos incidentes nele descritos.‖ O polícia olhou para o júri. Continuava a falar na mesma voz monocórdica e sem expressão. — Está assinado, como é evidente, por Danielle Nora Carey. O juiz voltou-se para o ajudante do procurador distrital. — Quer fazer alguma pergunta, Sr. Carter? Carter sacudiu a cabeça. — Obrigado, Sr. Inspector. Pode retirar-se. O oficial de diligências pôs-se de pé, no momento em que o polícia passava junto dele. — Nora Hayden. Levantei-me enquanto Nora se punha de pé e deslizava pela minha frente para o corredor. Tinha o rosto pálido e crispado, os lábios muito apertados. Pela primeira vez, reconheci um pouco a mãe na figura dela. Estava muito direita, com o queixo levantado. Mostrava-se senhora de si. Fez o juramento e encaminhou-se para a cadeira das testemunhas. Harris Gordon sentou-se ao lado do ajudante do procurador distrital. A voz do juiz encheu-se de simpatia e amabilidade. O nome Hayden ainda tinha muito peso naquela cidade. — Miss Hayden, queira fazer o favor de contar ao júri, aquilo que sabe sobre os acontecimentos já aqui descritos. A voz dela era baixa, mas ouvia-se distintamente. Pelo menos, no sítio onde se encontrava o júri e nas filas da frente da assistência. Senti o esforço dos espectadores que estavam atrás de mim para ouvirem o que ela dizia. — O Sr. Riccio e eu tínhamos estado a discutir. Havia alguns anos que ele dirigia os meus negócios, mas os seus serviços tinham deixado de me agradar e eu despedira-o. Ele não estava satisfeito com a importância que eu pretendia pagar-lhe e fez durar a discussão durante o dia inteiro. Finalmente, naquela noite entrou no meu estúdio enquanto eu estava a trabalhar e foi muito inconveniente. Disselhe que me deixasse em paz, que não podia trabalhar, pois ele não permitia que eu me concentrasse e que estava a fazer que eu estragasse a escultura em que estava a trabalhar. Nesta altura, ele agarrou-me
pelos ombros e começou a sacudir-me violentamente, dizendo que não se ia deixar levar com desculpas daquelas. Tentei afastá-lo de mim, mas ele agarrou-me pelo braço e torce -mo para trás, fazendo-me cair de encontro à mesa e magoando-me bastante. Nessa altura a porta abriu-se e Dani entrou a correr e a gritar com ele. Voltou-se para Dani e disse-lhe que saísse. Vi-a desferir o golpe contra ele. Lembrome de que fiquei muito surpreendida. Nunca tinha visto Dani voltar-se contra ninguém. Sempre fora uma menina calma e boazinha, sossegada e cheia de autodomínio. Quando não estava visível, nem se dava pela presença dela em casa. Nessa altura, o Sr. Riccio voltou-se e vi o sangue. Dani veio a correr direita a mim, gritando que não tinha querido fazer aquilo. Disse-lhe que se afastasse enquanto eu tentava auxiliar o Sr. Riccio. Não me apercebi do que tinha acontecido enquanto não o vi com o cinzel na mão. Ele... ele deu-mo e... vi que estava cheio de sangue. Larguei-o. Então ele começou também a cair. Tentei segurá-lo, mas ele já estava no chão. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Meio sufocada, tentou continuar a falar, mas faltou-lhe a voz. Depois, começou a chorar. Mas como uma senhora. Com o lenço delicadamente encostado aos olhos. Não se ouvia outro som na sala do tribunal, quando o juiz falou, com a sua voz suave e cheia de simpatia. — Por favor, tragam um copo de água para Miss Hayden. O escrivão encheu um copo com o jarro que tinha em cima da mesa e levou-lho. Nora bebeu delicadamente. — Gostaria de fazer um pequeno intervalo, Miss Hayden? — perguntou o juiz. Nora deitou-lhe um olhar grato. — Não... não creio. Já estou bem. Obrigada.  — Não precisa ter pressa, Miss Hayden.  Nora levou novamente o copo aos lábios e começou outra vez a falar. A voz dela era tensa e fraca, mas conseguia fazer-se ouvir. — Dani gritava e o mordomo entrou no estúdio. Disse-lhe que telefonasse para o médico, enquanto eu avisava a polícia. Depois, fui para junto do Sr. Riccio e tentei fazê-lo sentir-se mais confortável. — As lágrimas vieram-lhe novamente aos olhos. — Mas já não havia nada que eu pudesse fazer. Não havia nada que ninguém pudesse fazer. Eu sei que a Dani não queria fazer-lhe mal. Foi um acidente. A Dani é incapaz de. fazer mal a uma mosca. Ficou, um momento, silenciosa. Via-se que estava a lutar para se controlar; depois levantou a cabeça e olhou de frente para o júri. — Acho que foi tudo culpa minha — disse, corajosamente. — Devia ter sido uma mãe melhor. Mas, aliás, acho que todas as mães dizem isso para consigo mesmas. Foi verdadeiramente o retoque final. Havia cinco mulheres no júri e todas estavam a chorar com ela. Nora voltou-se e olhou para o juiz. — Bom, acho que não tenho mais nada a dizer. O juiz pigarreou. — Tem alguma pergunta a fazer, Sr. Carter? O Sr. Carter pôs-se de pé. — Miss Hayden disse-nos que mandou o mordomo chamar o médico enquanto a senhora avisava a polícia e que depois foi em socorro do Sr. Riccio, não é verdade? Nora fez que sim com a cabeça. — É, sim. — No entanto, quando o inspector Myrer chegou, o Sr. Gordon seu advogado, já lá estava. Quando é que lhe telefonou? — Depois de ter falado para a polícia, segundo creio. Não sei dizer ao certo. Estava tão perturbada que não me lembro exactamente de quando foi. Perguntei a mim mesmo se Carter se estaria a dar conta de que Nora estava a mentir. Tal como eu conhecia Nora, tinha a certeza de que ela não tinha consciência disso. Aparentemente, Carter resolveu deixar passar. — Que espécie de relação tinha com o Sr. Riccio?
— Geria os meus negócios — respondeu Nora. — Mas ele vivia na sua casa, não é verdade? — Sim.  — E isso é habitual na sua profissão? — Não sei — respondeu Nora. — Mas no meu caso era necessário. Era mais do que um trabalho a tempo inteiro. — Com essa sua afirmação pretende dizer que entre si e o Sr. Riccio havia uma relação muito mais pessoal do que uma simples ligação de negócios? Gordon pôs-se de pé. — Protesto, Sr. Dr. Juiz! A pergunta é irrelevante e nada tem a ver com a finalidade deste interrogatório. — O protesto é aceite. — A senhora e o Sr. Riccio tencionavam vir a casar-se? — perguntou o ajudante do procurador distrital. — Protesto! Solicito com todo o respeito a este tribunal que o ajudante do procurador distrital seja orientado no sentido de se limitar às perguntas que estejam ligadas à finalidade desta investigação. — Aceite — respondeu o juiz. A voz dele demonstrava aborrecimento ao dirigir-se a Carter. — Queira limitar as suas perguntas em conformidade. Carter olhou para Nora. — Viu a sua filha pegar no cinzel com o qual se alega que atacou o Sr. Riccio? — Não, não vi. — Sabia que esse cinzel estava em cima da mesa, ao pé da porta? — Acho que sim.  — Costuma deixá-lo naquele sítio? Com certeza já se tinha dado conta de que um instrumento de tal maneira aguçado podia ser potencialmente perigoso? — Deixava sempre o cinzel no sítio onde calhava estar a trabalhar com ele. Neste caso, estava em cima daquela mesa porque eu tinha estado a trabalhar numa figurinha de pau-rosa. — Falava agora com voz firme. — Estava no meu estúdio. Além daquele cinzel, havia por lá muitas outras ferramentas do meu oficio, incluindo um maçarico de acetileno. Sou escultora e interesso-me exclusivamente por aquilo que estou a criar, não pelo sítio onde ponho as minhas ferramentas. Aliás, nunca considerei nenhuma delas como sendo potencialmente perigosa. São elas a base da minha arte. — Não tenho mais perguntas — disse Carter, sentando-se. Nora desceu do estrado com a cabeça bem levantada. A sua arte era o seu escudo e ela erguerao bem alto, de forma que nada no mundo pudesse tocar-lhe. Sentia-se sã e salva por detrás dele. Só havia mais uma testemunha: Charles. O testemunho dele foi uma simples confirmação de tudo o que já tinha sido dito, o que me levou a concluir ser essa a razão por que Violet não fora chamada. Em seguida, o juiz entregou o caso ao júri. Estiveram fora menos de cinco minutos. O primeiro jurado anunciou o veredicto. — É opinião deste júri que a vitima, Anthony Riccio, encontrou a morte em consequência de um golpe desferido por um instrumento aguçado que se encontrava nas mãos de Danielle Nora Carey, menor, que agiu justificadamente em defesa da mãe. Houve um burburinho na sala. Voltei-me para ver os repórteres precipitarem-se para fora da sala, enquanto o juiz batia com o martelo na mesa. Afastei-me para o lado para que Nora e Gordon saíssem à minha frente. Saíram a porta e eu vi os clarões dos flashes quando as câmaras dispararam. Resolvi esperar que os fotógrafos se fossem embora e sentei-me de novo. A sala do tribunal estava, agora, quase vazia. Olhei para o outro lado da sala. Uma mulher ainda nova estava sentada, a tomar notas num pequeno livro. Fechou-o, levantou os olhos para mim e acenou-me com a cabeça. Correspondi ao aceno, quase automaticamente, antes de a ter reconhecido. Era a funcionária encarregada do caso da Dani. Pus-me de pé. — Como está, Miss Spicer? — Coronel Carey — respondeu calmamente.
— Viu a Dani esta manhã? Fez que sim com a cabeça. — Como é que ela está? — Ainda se sente um bocadinho perdida, mas é só uma questão de tempo para se habituar. — Pôs-se de pé. — Tenho de ir andando. — Claro — respondi. Afastei-me para o lado e fiquei a vê-la sair apressada. É só uma questão de tempo para se habituar, tinha dito. Como se isso fosse uma coisa óptima. Habituar-se a estar na prisão. Quando me encaminhei para a saída, os corredores estavam vazios. A luz do sol batia-me nos olhos e só consegui ver Harris Gordon quando ele estava mesmo em frente de mim. — Bom, coronel Carey. O que é que acha? Olhei-o, franzindo os olhos. — Quer lhe chamemos julgamento, quer não, todos trabalharam bem para enterrar a Dani. — Homicídio justificável é muito diferente de assassínio — disse, acertando o passo com o meu. — Sim — respondi secamente. — Devemos agradecer os pequenos favores. — Há uma coisa que não foi dita e que eu acho que o senhor devia saber. Olhei para ele. — O que é? — O que Dani disse depois de assinar o depoimento na esquadra da polícia. — E por que é que a deixou fazer um depoimento?  — Não podia fazer outra coisa, ela insistiu. E depois, quando queria impedi-la de o assinar, insistiu também nesse ponto. Fiquei um momento em silêncio. — O que foi que ela disse? Gordon olhou para mim. — "Agora vão levar-me para a câmara de gás?", depois começou a chorar. Disse-lhe que não iam fazer nada disso, mas não quis acreditar em mim. Quanto mais tentava acalmá-la mais histérica ficava. Liguei de lá para o Dr. Bonner e ele veio e deu-lhe uma injecção. O Dr. Bonner foi connosco ao Centro de Detenção de Menores, mas mesmo isso não serviu de nada. Dani estava mais histérica do que nunca. Foi essa a razão principal por que a deixaram ficar à minha guarda durante a noite, Continuou histérica até que a avó se lembrou de lhe dizer a única coisa que conseguiu finalmente acalmá-la. — E o que foi? — Que o senhor vinha a caminho, coronel — disse — e que não ia permitir que lhe acontecesse nada de mal.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
QUARTA PARTE
 
À Parte do Livro Acerca de DANI
 
 
Quando Dani era ainda muito pequena e não queria ficar às escuras, olhava para mim, da camita dela e dizia na sua voz pequena:  — Papá, apaga a noite.  E eu acendia uma luzinha pequena no quarto dela e ela fechava os olhos e adormecia, sentindose em segurança no seu mundo familiar. Quem me dera que as coisas fossem assim tão fáceis agora. Mas já não havia nenhuma luzinha que se acendesse, para apagar a noite. Os jurados tinham-se encarregado disso. Fiquei a ver Gordon meter-se no carro e ir-se embora. Voltei-me e fiquei um momento a olhar para a sala do tribunal. Depois, encaminhei-me para o estacionamento de Golden Gate Avenue, onde tinha deixado o carro. A velha canção infantil não me saía da cabeça: Humpty Dumpty estava sentado num muro, Humpty Dumpty deu um grande tombo. Pela primeira vez, compreendi como é que os homens do rei se deviam ter sentido quando não conseguiram juntar todos os bocadinhos do Humpty Dumpty. Uns idiotas chapados. Antes de mais, nunca deviam tê-lo deixado cair. Como eu também não devia ter deixado cair a Dani. Talvez a culpa fosse minha. Ainda me lembrava quando estava sentado, ontem à tarde, no quartinho dela, no Centro de Detenção de Menores, a tentar explicar-lhe porque é que eu não podia ir visitá-la. Lembrava-me também do efeito produzido pelas minhas palavras. Mesmo sendo verdade, e eu sabia que era, a coisa parecia difícil de acreditar. E Dani ainda era uma criança, apesar do cigarro que fumava com tanta destreza. O que é que ela pensava de tudo aquilo? Não sabia. Mas percebi que ela queria acreditar em mim, ter confiança em mim. Contudo, não estava muito certa se o devia fazer. Já me tinha ido embora uma vez, podia ir-me embora de novo. Não o disse dessa maneira. Com tantas palavras. Mas estavam lá na mesma sob a superfície dos pensamentos dela, das suas acções. Já era demasiado crescida para o dizer em voz alta e era demasiado jovem para o esconder de mim. Havia tantas coisas que tínhamos de dizer um ao outro, mas o tempo não chegava. As palavras não pronunciadas envolveram-nos como uma nuvem invisível no momento da despedida. — Venho ver-te amanhã. — Não — respondeu. — Não autorizam visitas durante a semana. Mas vejo-o na terça-feira. Miss Spicer disse-me que havia uma audiência. — Eu sei. — A mãe também vai? Fiz que sim com a cabeça. — E a tua avó também. — Inclinei-me e beijei-a. — Sê boa menina e não te preocupes com nada, gatinha. De repente passou-me os braços em volta do pescoço. Apertou-me muito a face de encontro à cara. — Agora já não tenho medo de nada, papá — disse com veemência. — Desde que o papá voltou. Só quando me encontrei outra vez cá fora à luz do dia é que compreendi o que ela queria dizer. Mas eu não tinha vindo para ficar. Era só uma visita. Eram quatro horas quando voltei ao motel. A luz vermelha acendia e apagava, prevenindo-me de que tinha um recado. Peguei no telefone. A luz não parava de acender e apagar enquanto eu não ligasse para a telefonista. Dei-lhe o meu nome e número de quarto. — Telefonou a Sra. Hayden. É muito importante que ligue para ela assim que chegar.
— Obrigado. — Desliguei e depois marquei o número que a telefonista me tinha dado. Foi uma criada que atendeu, mas a velha senhora apareceu imediatamente em linha. — Está sozinho? — perguntou num tom cauteloso. — Estou. — É muito importante que cheguemos à fala. — Sobre quê? — Não quero falar nisso pelo telefone — disse. — Mas acredite, Luke, é muito importante, ou eu não lhe teria telefonado. — A voz dela mostrou uma certa tensão. — Pode vir jantar? Arranjo tudo para que estejamos sós. — A que horas? — Às sete? — Óptimo, lá estarei. — Obrigada, Luke. Pousei o telefone e comecei a despir-me. Um duche quente ajudar-me-ia a descontrair um pouco os músculos. Perguntava a mim mesmo o que quereria a Sra. Hayden. Se estava preocupada em que eu lhe desse o meu apoio no tribunal no dia seguinte, não valia a pena. No ponto a que tínhamos chegado, não tinha alternativa. Apesar de a noite não estar muito fria, o lume crepitava na lareira quando a criada me fez entrar na biblioteca da vasta residência. A velha senhora estava sentada numa das poltronas que ficavam de frente para o lume. — Sirva-se de uma bebida, Luke. — Obrigado.  Dirigi-me para o aparador e deitei um pouco de bourbon sobre alguns cubos de gelo e acrescentei-lhe água. Voltei-me para a minha ex-sogra. — À sua saúde. — Obrigada. O uisque era forte e macio ao engolir. Havia muito tempo que eu não tinha dinheiro para um bourbon daqueles. Bebi lentamente. Não era preciso tomar grandes golos. — O que é que há? — perguntei.  A velha senhora olhou para mim. — A criada já saiu? — Fiz que sim com a cabeça. — Veja se a porta está fechada. — Atravessei a sala e verifiquei a porta. Não havia ninguém na sala ao lado. Voltei para junto dela. — Por quê todo este mistério?  Em silêncio pegou na carteira e abriu-a. Tirou de lá um sobrescrito e estendeu-mo. Era-lhe dirigido a ela. Olhei-a com ar interrogador. — Leia.  Pousei o copo e abri a carta. Estava escrita à máquina em papel branco, simples.
 
"Prezada Sra. Hayden, Sei que não me conhece, mas eu sou, desde longa data, amiga do Tony. Há algumas semanas ele entregou-me um maço de cartas, que me disse serem muito importantes e me pediu que guardasse. Também me disse que estava a ter muitos problemas com a sua filha e que, quando fosse altura de ela entrar em contas, estas cartas lhe garantiriam o que tinha a receber. Abri o maço e espreitei as cartas. Há umas da sua filha e outras da sua neta. As desta última datam de há apenas dois meses. A polícia devia achá-las muito interessantes e os jornais ainda mais, uma vez que ambas estavam apaixonadas pelo Tony. Mas, agora o Tony está morto e eu seria a última pessoa a querer arranjar mais problemas do que aqueles que as pessoas já têm. Portanto, se está interessada nas cartas, ponha o seguinte anúncio na coluna pessoal do Examiner, mais tardar quinta-feira — VOLTA PARA CASA; TUDO ESTÁ PERDOADO; TIA CECELIA. Nessa altura, entrarei em contacto consigo, antes de ir a outro lado com elas. Mas não se esqueça, nada de advogados, nem de chués, senão, nada feito."
 
A carta não tinha assinatura. Olhei para a Sra. Hayden. — Então, o que é que acha? — perguntou.
— Pode tratar-se de uma fantasia qualquer. Já tenho ouvido falar em gente doida que escreve cartas às pessoas cujos nomes vêm nas noticias. — Não creio, Luke. Telefonei à Nora e perguntei-lhe se alguma vez tinha escrito cartas ao Riccio e ela disse-me que sim. Perguntei-lhe o que é que tinha escrito nessas cartas e ela respondeu-me que eu não tinha nada com isso. Depois, perguntei-lhe se sabia que a Dani também lhe tinha escrito e ela ficou furiosa e desligou-me o telefone. — Isso é típico da Nora. Quando surge qualquer coisa que ela não quer enfrentar, esquiva-se. Acha que há alguma coisa de verdade, nesta carta? — Talvez não haja — respondeu. — Mas eu é que não quero correr o risco de a ignorar. — Isto não passa de uma reles chantagem. Mesmo que lhes pague, não tem maneira de saber se não vão ficar com algumas cartas para outra operação. No seu lugar, entregava o caso à polícia. — Acha que os jornais ainda não falaram o suficiente? Quer mais? Fiquei a olhar para ela. — Não acha que já fez mais do que o suficiente para proteger o bom nome dos Hayden? — atirei-lhe, em tom sarcástico. — Acha que há alguma coisa que ainda possa fazer a Nora parecer-se menos com um anjo do que aquilo que já parece? Acha que as pessoas são tão estúpidas que ainda não perceberam o que se tem estado a passar em casa dela? — Não, as pessoas não são estúpidas. Mas você é. — Meteu outra vez o sobrescrito na carteira, furiosa. — Já deixou de me interessar aquilo que escrevem ou dizem acerca de Nora. Não posso fazer nada para modificar isso nem, francamente, tenho qualquer intenção de tentar. Mas se calhar você não leu a carta. — Li sim. — Leu a parte em que diz que também há cartas da Dani e que ela também estava apaixonada pelo Riccio? — disse a velha senhora, num tom irascível. — Li, mas não liguei. A Dani não passa de uma criança. — Afinal você ainda é mais estúpido do que eu pensava. A Dani pode ser uma criança na idade, mas já olhou bem para ela? Fisicamente já atingiu a maturidade; atingiu-a com pouco mais de onze anos. É exactamente a mãe. Nora teve a sua primeira experiência sexual quando ainda mal completara treze anos; fez o primeiro aborto com pouco mais de quinze. Houve pelo menos mais dois, que eu saiba, antes de casar consigo! Fiquei a olhar para ela. — Sabia tudo isso? Baixou os olhos. — Sabia — admitiu em voz baixa. — Mas tinha esperanças que se tornasse um facto do passado, se ela casasse consigo. Que Nora crescesse e visse os disparates que tinha feito. — Mas continuou a defendê-la. Não deixou de a proteger.  — Sou mãe dela — disse simplesmente a velha senhora. Havia nela uma espécie de dignidade cheia de orgulho. — Nunca foi propriamente o nome dos Hayden que me preocupou. O que me preocupava era a minha filha. Tal como não é o nome que me preocupa neste momento. É a Dani. Não quero que ela se perca antes de ter uma oportunidade. Não quero que ela seja como a mãe. Quero ajudá-la. — A Nora disse que eu nem sequer era pai da Dani — ripostei. — Sei muito bem o que a Nora disse. Acho que, agora, já tenho idade para aceitar a verdade. E você? Será que tem? Pousei o copo. — Ponha-me à prova. Os olhos dela mantinham-se fixos nos meus. — Não creio que a própria Nora saiba se você é pai da Dani ou não. Fiquei silencioso. — Portanto, está a ver — prosseguiu suavemente. — Tudo recai sobre si. Sobre aquilo que sente em relação à Dani.
Peguei novamente no copo e levei-o à boca. Os cubos de gelo tinham se derretido e o gosto agradável do uisque perdera-se na água. Tudo parecia recair sobre mim. Harris Gordon tinha dito a mesma coisa no sábado, talvez de forma um tanto diferente, mas na essência era a mesma coisa. Ou bem eu era pai dela ou não era. Voltei-me para o aparador e acrescentei um pouco mais de uisque ao meu copo. Pensei no bebé que tinha amado antes de saber o que Nora viria a dizer um dia. Depois, pensei na criança com quem tinha brincado no barco, em La Jolla, depois de Nora dizer que eu não era pai dela. Sabia que amava essa criança, tanto quanto tinha amado o bebé. E amava-a tanto naquele momento como a amara então. Voltei-me de novo para a minha ex-sogra. — Acho que é preciso mais do que um acto da natureza para fazer um pai — disse. — Também é necessário um acto de amor. Os olhos dela, muito vivos, brilharam. — A única coisa que é precisa, Luke, é o acto de amor. A outra coisa, na realidade, não conta. Bebi um pouco de uisque e sentei-me. — Bom, e o que é que vai fazer quanto à carta? — Já tomei providências quanto ao anúncio. Vai aparecer na quinta-feira. — Hoje é segunda-feira, Temos três dias para descobrir onde estão as cartas e quem é que as tem. Amanhã e quarta-feira; o dia de hoje já lá vai e amanhã vamos passar uma boa parte do dia no tribunal. Nem sequer sei por onde começar. Não sei absolutamente nada acerca do Riccio. Nem ao menos quem eram os amigos dele. — Sam Corwin deve saber. — Sam? — perguntei, perplexo. Tinha pensado em todos, menos em Sam. Era estranho ter-me esquecido dele. Ele e Nora tinham-se casado cerca de um ano depois do nosso divórcio. Tinha-o visto várias vezes lá em casa quando ia levar Dani de volta das visitas que ela me fazia. Sempre se mostrara delicado e cordial. — Sim, o Sam. Coitado do Sam. Sabia bem como era a Nora quando se casou com ela, mas pensou que conseguiria modificá-la. No entanto, depois de ela ter conhecido o Riccio, acho que o Sam desistiu. Foi por causa do Riccio que o Sam se divorciou dela e conseguiu impor uma rigorosa divisão de bens. — Isso quer dizer que o Sam devia saber qualquer coisa sobre ela? — perguntei. — Ele sabia qualquer coisa sobre ambos.  A porta por detrás dela abriu-se e a criada entrou na sala. — O jantar está servido, minha senhora. Pusemo-nos de pé e a velha senhora sorriu-me . — Quer dar-me o seu braço, Luke? — Retribui-lhe o sorriso. — Será uma honra.
 
Pela primeira vez aproximei-me da entrada principal do edifício. O parque de estacionamento estava cheio e tinha-me visto forçado a deixar o carro a alguns quarteirões de distância. Segui pelo caminho ondulante que levava desde a rua à entrada. Um jardineiro, com o seu fato de trabalho, estava ocupado a cortar as sebes cuidadas que ladeavam o caminho. Levantou os olhos para mim quando passei. Vi-lhe na fronte as pesadas gotas de suor provocadas pelo sol da manhã. Olhei para as portas de vidro. Tinham uma inscrição em letras douradas. ESTADO DA CALIFÓRNIA MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO Tribunal de Menores, Departamento de Recuperação Direcção da Juventude Californiana Entrei e dei comigo num vasto átrio cheio de repórteres e fotógrafos. Alguns flashes dispararam e vários repórteres se comprimiram à minha volta, Estavam muito menos impetuosos do que da vez anterior. — Pode dizer-nos alguma coisa sobre os projectos para a defesa da sua filha, coronel Carey? Sacudi a cabeça.
— Não, não posso. Segundo estou informado, pelas leis deste Estado, não existem julgamentos para menores. Esta será apenas a primeira de uma série de audiências para decidir a quem ela deverá ser entregue. — Tenciona tentar que seja entregue ao senhor? — É ao tribunal que compete decidir. Tenho a certeza de que vão tomar em consideração, antes de mais, os interesses da minha filha. — Já esteve com ela? — Visitei-a no domingo à tarde. — A mãe dela acompanhou-o? — Não, encontrava-se doente. — E a mãe já lhe fez alguma visita? — Ignoro. Mas sei que lhe enviou várias coisas. — O quê? — Roupa, livros, doces. — De que é que falou com a sua filha durante a visita? — Nada de especial. Acho que foi uma conversa normal entre pai e filha. — Ela contou-lhe mais alguma coisa sobre o que se passou na sexta-feira à noite? Olhei para o homem que me tinha feito a pergunta. — Não tocámos no assunto. — Soube de alguma coisa que pudesse lançar nova luz sobre o caso? — Não — respondi. — Não sei de nada para além do que ouvi, ontem, no tribunal. Julgo que os senhores também lá estiveram, pelo menos, a maioria. E agora, se quiserem ter a bondade de me deixar passar... Abriram caminho. O Tribunal de Menores ficava à esquerda do átrio de entrada. Segui a seta ao longo de um corredor comprido, que flectia mais adiante. Outra seta indicava uma escada que descia. Desci as escadas e dei comigo em frente de uma sala de espera toda envidraçada. Atravessei a sala de espera e abri a porta que dava para o Tribunal de Menores. A sala era pequena e tinha um estrado ao fundo. Em frente da mesa do juiz, havia uma mesa comprida com várias cadeiras à volta. Um pouco mais ao lado, entre a mesa e o banco, havia uma pequena secretária e uma cadeira. As paredes estavam pintadas nos tons de castanho que lhe davam um ar oficial e havia quatro grandes janelas na parede mais comprida. O resto do espaço era ocupado por mais cadeiras e bancos. Quando ainda me encontrava de pé junto da entrada, um homem apareceu, vindo de uma das portas que havia por detrás da mesa do juiz. Quando me viu, parou. — É aqui que vão fazer a audiência da Dani Carey? — É, mas ainda é cedo. O tribunal só se reúne às nove. Pode esperar lá fora na sala de recepção. Depois, chamam-no. — Obrigado. Havia diversos bancos na sala de espera. Olhei para o relógio. Oito e trinta e cinco. Acendi um cigarro. Alguns minutos depois, entrou outro homem. Olhou para mim, acendeu um cigarro e sentouse. — O juiz ainda não chegou? Sacudi a cabeça. — Raios partam! — disse. — Até aposto que vou perder mais meio dia de trabalho. Cada vez que aqui venho, perco dinheiro. Nunca tratam do meu caso a não ser já lá para o fim. — Tem cá alguma filha? — Tenho — disse, sacudindo a cabeça. A cinza do cigarro caiu-lhe na camisa de trabalho suja. Não se importou. — Têm cá a minha pequena. Ela não passa de uma prostituta, é o que é. Eu já lhes tinha dito que quando voltassem a apanhá-la podiam ficar com ela. Mas não, tinham de me fazer cá vir outra vez. Pôs-se a olhar para mim.
— Olhe, a sua cara não me é estranha — disse. — Já nos tínhamos encontrado aqui? — Não. É a primeira vez. — E está servido. Nunca mais param de o chamar, até você concordar em levar a rapariga outra vez para casa. Foi o que me fizeram a mim. Ela só tem quinze anos e meio, foi o que eles disseram. Tem de lhe dar uma oportunidade, disseram. Eu fiz isso. E sabe o que é que aconteceu? Dois dias depois, ela estava instalada num hotel, a receber quem lhe aparecesse na disposição de pagar cinco dólares. A polícia apanhou-a e cá estou eu outra vez. — Olhou-me piscando os olhos por causa do fumo do cigarro. — Tem a certeza de que não nos encontrámos por aqui antes? Sacudi a cabeça. Ficou mais uns momentos a olhar para mim e depois deu um estalo com os dedos. — Já estou a conhecê-lo! Vi o seu retrato nos jornais. Você é o pai da miúda que deu cabo do amigo da mãe! Fiquei calado. Inclinou-se para mim enquanto a voz se lhe tornava num murmúrio confidencial. — Não é uma merda? As coisas em que a miudagem se mete hoje em dia! O tipo se calhar também andava enrolado com ela, não? Não me admirava nada. Os jornais não contam nem metade. Senti os punhos crisparem-se-me. Obriguei os meus próprios dedos a descontraírem-se. Não valia a pena enfurecer-me. Era uma situação a que eu tinha de me habituar. Senti como que um aperto no coração. Dani também ia ter de se habituar. O que ainda era pior. Entraram duas mulheres. Tinham ar de mexicanas e dialogavam em espanhol, muito excitadas. Quando nos viram, calaram-se de repente, dirigiram-se para um banco e sentaram-se. A mais nova parecia estar grávida. Passados momentos, entrou uma mulher de cor, depois, um homem e uma mulher. O rosto da mulher estava inchado, apresentava equimoses e tinha um olho negro. O homem tentou pegar-lhe no braço, para a encaminhar para um assento, mas ela afastou-lhe o braço com uma sacudidela furiosa e foi sentar-se do outro lado, sem olhar para ele. A mulher de cor falou para uma das mexicanas. — Achas que lhe vão dar outra vez a pequena, filha? A grávida fez o gesto clássico do desconhecimento. — Não sei — disse, com o seu sotaque vagamente espanhol. — A assistência é que quer que elas fiquem aqui, filha. Tenho a certeza. Se ela ficar cá só lhes vai custar quarenta por mês. Se a deixarem levá-la para casa, têm de lhe dar setenta. É só por causa do dinheiro, filha. A grávida encolheu os ombros. Disse qualquer coisa em espanhol para a outra mulher e ela acenou violentamente com a cabeça, em sinal de assentimento. A mulher que tinha o olho negro e que se tinha sentado no banco que estava encostado à outra parede, começou a chorar em silêncio. Mais pessoas desceram as escadas e daí a pouco todos os bancos estavam ocupados. As pessoas que vieram a mais ficaram no corredor, do lado de fora da sala de espera. às cinco para as nove, Harris Gordon apareceu, seguido de Nora e da mãe. Levantei-me e fui ao encontro deles. Harris Gordon olhou através do vidro. — Parece que temos por cá muita gente. — É verdade — respondi. — Parece que não somos os únicos a ter problemas. Gordon olhou-me de uma maneira especial. — As pessoas com problemas é raro estarem sós. Esperem aqui. Vou falar com o funcionário, para ver se sei quando é que o juiz pensa chegar à nossa vez. Desapareceu corredor fora. Voltei-me para Nora. — Como é que estás? — perguntei com delicadeza. Fez que sim com a cabeça, enquanto procurava com o olhar qualquer sinal de sarcasmo no meu rosto. — Estou bem. Ontem, depois de sair do tribunal, fui para casa e meti-me na cama. Estava completamente exausta. — Compreendo. O que fizeste não foi fácil.
— Portei-me bem? Só queria dizer o estritamente indispensável. Não sentia coragem para fazer qualquer depoimento, mas não tinha outro remédio, pois não? — É um facto. Não tinhas outro remédio.  Gordon voltou. — Não vamos ter de esperar muito — disse. — Somos o terceiro caso da lista. O funcionário disse-me que os dois primeiros não devem levar mais de um quarto de hora. Acendi um cigarro e encostei-me à parede. A porta da sala do tribunal abriu-se e ouvi chamar um nome. Voltei-me e vi as duas mexicanas levantarem-se. A porta fechou-se atrás delas. Eram exactamente nove horas. Não ficaram lá dentro mais de dez minutos. A mulher grávida vinha a chorar quando passaram. O funcionário chamou outro nome. Era o homem que tinha entrado logo atrás de mim. Saiu passados menos de dez minutos, com uma expressão de satisfação presumida no rosto. Parou à minha frente, antes de chegar às escadas. — Desta vez vão tomar definitivamente conta dela. Disse-lhes que, pela minha parte, podiam deitar fora a chave! Não respondi. O homem deu meia-volta e foi escada acima a bater com os pés. Ouvi a voz do oficial de diligências atrás de nós. — Carey. Atravessámos a sala de espera e entrámos no tribunal. O oficial de diligências indicou-nos os assentos junto da mesa que ficava em frente da secretária do juiz e ficou a observar-nos com ar aborrecido. — É a primeira vez que aqui vêm? Fizemos que sim com a cabeça. — O juiz saiu por um momento. Ele volta já. Mal acabou de pronunciar estas palavras, a porta atrás dele abriu-se. — Ponham-se todos de pé e de frente para o tribunal — disse em voz alta o oficial de diligências. — Saibam que o Tribunal de Menores do Estado da Califórnia, Município de São Francisco, presidido pelo Meritíssimo Juiz Samuel A. Murphy, dá início à sessão. O juiz era um homem alto, de pouco mais de sessenta anos. Tinha o cabelo branco e ralo e os olhos vistos através dos óculos com aros de chifre, eram azuis e penetrantes. Vestia um fato castanho e amachucado, camisa branca e gravata castanho-escura. Sentou-se e pegou num papel que tinha em cima da secretária, à frente dele. Fez um aceno para o oficial de diligências. Este levantou-se e encaminhou-se para uma porta que ficava à direita. Abriu-a. — Danielle Carey. Dani entrou e olhou em volta, hesitante. Depois, viu-nos e correu para nós. Nora ergueu-se ligeiramente da cadeira e caíram nos braços uma da outra. Dani chorava. — Mãe, mãe, está bem? Não consegui perceber o que Nora balbuciava. Desviei os olhos por momentos. Até eu sentia a mesma emoção e não acreditava em metade do espectáculo que Nora sempre representava. Uma nova figura apareceu à porta. Era Miss Spicer, a funcionária encarregada de vigiar e orientar Dani. Ficou parada à porta a observar Dani e Nora. Levantei os olhos para o juiz. Também ele as estava a observar. Tive a sensação de que isto era uma coisa importante que o juiz tinha preparado com todo o cuidado. Outra porta se abriu do mesmo lado da sala e um funcionário de uniforme entrou no tribunal. Tinha os cabelos castanhos e era de estatura média. A aplicação azul e dourada que trazia no ombro tinha o distintivo do xerife do Município de São Francisco. Fechou a porta e encostou-se a ela Dani tinha deixado Nora para ir beijar a avó e depois veio direita a mim. Os olhos brilhavamlhe. Beijou-me na cara. — A mãe veio, papá! A mãe sempre veio!  Sorri-lhe. — Eu tinha-te dito que ela vinha. Miss Spicer entrou na sala do tribunal e encaminhou-se para a ponta da mesa.
— Senta-te aqui ao pé de mim, Dani. Dani deixou-me e foi sentar-se. Olhou para Harris Gordon. — Olá, Sr. Gordon. — Olá, Dani. O juiz pigarreou. — Estamos numa audiência muito informal. Assim, agradecia que fizessem o favor de se apresentarem, para eu saber quem são. — Permite-me, Excelência? O juiz fez que sim com a cabeça. — Faça favor, Sr. Gordon. — À minha esquerda está Nora Hayden, a mãe da menor. À minha direita, a Sra. Cecelia Hayden, avó da menor pelo lado da mãe. A seu lado, o coronel Luke Carey, pai da menor. — E o senhor é o advogado da menor? — Sim, Excelência — disse Gordon — e, ao mesmo tempo, conselheiro jurídico da família. — Compreendo. Penso que todos conhecem já Miss Marian Spicer, funcionária designada para acompanhar Dani. — Sim, Excelência. — Nesse caso, creio que podemos começar. — Pegou na folha de papel que estava em cima da sua mesa. — Na noite de sexta-feira passada, a polícia, agindo sob a orientação da Secção 602 do Tribunal de Menores da Califórnia, entregou uma tal Danielle Nora Carey, menor, para ficar detida. Os fundamentos eram o facto de a dita menor ter cometido um acto de homicídio, acto considerado criminoso no Estado da Califórnia. Desde essa altura, com excepção da primeira noite, em que a menor foi entregue à vigilância do Sr. Harris Gordon advogado, por conselho de um médico e com a finalidade de proteger a saúde e bem-estar da dita menor, a mesma tem estado detida no lar de detenção juvenil, como determina a lei. Estamos aqui esta manhã para ouvir uma petição apresentada pela secção de orientação e vigilância no sentido de a menor continuar sob a sua guarda e vigilância, até que lhe seja possível investigar devidamente todos os factos que levaram a que a menor comparecesse perante este tribunal. O juiz pousou o papel e olhou para Dani. A voz dele era suave e gentil. — Apesar de toda esta linguagem legal e oficial, Danielle, não se trata aqui de um julgamento nem tu estás perante qualquer procedimento criminal. Estás aqui porque cometeste um acto, errado, muito errado, mas nós não estamos aqui para te punir. Queremos ajudar-te, se pudermos, para que nunca mais faças nada mal feito. Compreendes isso, Danielle? Os olhos de Dani estavam muito abertos, apreensivos no seu rosto branco. — Acho que sim — respondeu, hesitante. — Sinto-me contente por tu compreenderes, Danielle. É importante para ti que compreendas que, embora não vás ser punida criminalmente pelo que fizeste, não podes escapar a certas consequências resultantes das tuas más acções. A lei exige que eu te informe dessas possíveis consequências e dos direitos que tens perante este tribunal. Estás a compreender? — Sim, senhor.  — Este tribunal tem o direito de te retirar de tua casa e pôr-te numa casa estatal para jovens, ou reformatório, até atingires a maioridade, Ou então, pode pôr-te num hospital estatal para observação. Pode até entregar-te a uma família adoptiva, se achar que não é do teu interesse seres entregue à tua família mais próxima ou a quaisquer outros parentes. Pode também, em qualquer altura, enquanto estiveres sob a jurisdição deste tribunal, pôr-te sob vigilância, de modo que, estando a viver com quem estiveres, continues em contacto com o funcionário escolhido para o efeito, até que o tribunal determine o contrário ou que tu atinjas a maioridade. Mas há uma coisa que eu quero que tenhas sempre presente. Seja o que for que o tribunal decida, não haverá nessa decisão qualquer carácter punitivo, mas apenas a preocupação de ir ao encontro dos teus melhores interesses. Compreendes isso, Danielle?
Dani fez que sim com a cabeça. Olhei para a mesa que estava em frente dela. Vi as mãos torcerem-se-lhe nervosamente. — Durante qualquer das sessões que decorrerem neste tribunal — continuou o juiz — tens o direito de trocar ideias. Tens o direito de convocar testemunhas a teu favor e o direito de interrogares quaisquer testemunhas que possas considerar prejudiciais aos teus melhores interesses. Compreendes isto, Danielle? — Sim, senhor. — Devo ainda informar os teus pais de que eles têm os mesmos direitos: a troca de ideias, testemunhas e interrogatórios. Vamos agora dar inicio à audiência com base na petição. Miss Spicer, quer fazer o favor de apresentar as suas razões para solicitar ao tribunal a detenção desta menor? Miss Spicer pôs-se de pé. Falou numa voz suave e clara. — Esse pedido fundamenta-se em duas razões, Excelência. Primeiro, a natureza do acto cometido pela criança indica uma perturbação emocional bastante mais profunda do que aquilo que seria possível determinar num exame preliminar de ordem psicológica e psiquiátrica. Tendo em vista a saúde e o bem-estar da criança, solicitamos o tempo necessário para completar tais exames em profundidade. Em segundo lugar, também precisamos de tempo adicional para investigar mais a fundo o ambiente da criança e a sua vida familiar para que isso nos ajude a recomendar o que foi mais indicado para os futuros cuidados e tratamento a prestar à criança. Sentou-se. O juiz voltou-se para nós. — Têm alguma objecção a apresentar a esta petição? Harris Gordon pôs-se de pé. — Não, Excelência. Temos a maior confiança na experiência e espirito de discernimento do Departamento de Vigilância e Orientação e na sua capacidade para avaliar e determinar correctamente todos os factores deste caso. A voz do juiz mostrou-se ligeiramente divertida. Sabia que Gordon não podia dizer outra coisa, que não tinha qualquer alternativa. As petições de detenção eram sempre aceites. — Agradecemos a confiança que demonstra, Sr. Gordon. Esperamos mostrar-nos dignos dela. — Baixou os olhos por momentos e depois continuou: — É a decisão deste tribunal que a petição do Departamento de Vigilância e Orientação em Danielle Nora Carey, menor, seja deferida e ainda, que ela fique transitoriamente sob a tutela deste tribunal até que seja tomada uma decisão final. Fixarei a data para a audiência completa sobre esta questão para de hoje a uma semana. Espero que, nessa altura, todas as partes presentes voltem aqui e que todas as provas e observações pertinentes a este caso me sejam apresentadas. Espero igualmente que todos os planos para a futura tutela e bem-estar desta criança me sejam apresentados por escrito com uma antecedência não inferior a vinte e quatro horas da data da audiência. — Bateu vivamente com o martelo na mesa. Baixou novamente os olhos para Dani e a sua voz tornou-se outra vez suave e gentil, muito diferente do tom oficial que usara antes. — Isto significa que vais voltar para o lar, Danielle, enquanto investigamos o teu caso. Sê boa menina e colabora com Miss Spicer e com as outras pessoas e tudo será muito mais fácil e melhor para todos nós. Compreendes? Dani fez que sim com a cabeça. O juiz voltou-se para Miss Spicer. — Pode levar Danielle e os pais aos meus aposentos, antes de a levar de novo para o lar. A funcionária fez que sim com a cabeça e pôs-se de pé. Levantámo-nos também. — Obrigado, Excelência — disse Gordon. O juiz acenou com a cabeça e nós seguimos Miss Spicer através da porta que ficava atrás do estrado. Os aposentos do juiz eram constituídos por duas pequenas salas, sendo a mais pequena a do escrivão e a maior a do próprio juiz. Miss Spicer conduziu-nos à sala maior. Uma das paredes estava coberta com livros de direito; nas outras havia fotografias e diplomas emoldurados. Uma mesa simples e algumas cadeiras completavam a mobília.
— Instalem-se — disse Miss Spicer delicadamente. — Tenho de ir ao meu gabinete por uns minutos. Volto já. Quando a porta se fechou atrás dela, Nora voltou-se para Dani. — Estás magra. Por que é que não vestiste aquele vestido tão bonito que eu te mandei? Que impressão é que tu achas que isso fez no juiz? Vai pensar que nós nem sequer nos importamos o suficiente para te vestir como deve ser. Onde é que arranjaste essas coisas horríveis? Nunca te tinha visto com isso. Olhei para Dani. Surgiu-lhe no rosto uma paciência curiosamente cheia de tolerância. Esperou que Nora acabasse a prelecção e depois surgiu-lhe na voz uma vaga nota de sarcasmo. — Isto aqui não é a Escola de Miss Randolph, mãe. Tenho de usar o que todas usam. São eles que nos dão a roupa. Nora ficou a olhar para ela. — Tenho a certeza de que, se pedisses, te deixavam usar as tuas coisas. Provavelmente fazem isso porque a maior parte não tem nada para vestir. Dani não respondeu. Puxei de um cigarro. Ela olhou para mim. Atirei-lhe o maço e ela apanhou-o com destreza. — Dani! — A voz de Nora mostrava-se chocada. — Oh, cala-te, Nora! — A voz da velha Sra. Hayden traía-lhe o aborrecimento. — Escusas de representar agora, Nora. Não tens público. Sabes muito bem que ela fuma. Pedi-te muitas vezes que a fizesses parar. Mas tu dizias que não vias mal nenhum nisso. — Olhou para Dani. — Chega aqui, minha filha.  Dani aproximou-se dela. — Sim, avó. — Estão a tratar-te como deve ser? — Sim, avó. — Dão-te comida suficiente? Dani sorriu. — Mais do que suficiente. Eu é que não tenho muito apetite. — Tens de comer para não enfraqueceres. Não calha nada que vás agora ainda por cima adoecer. — Não adoeço, avó. — Há alguma coisa que eu te possa mandar? Dani sacudiu a cabeça. — Não, avó, obrigada. A velha senhora beijou-a na testa. — Faz o que o juiz te disse, Dani. Sê boa menina e colabora e vais ver que te pomos cá fora não tarda. Dani levantou os olhos para ela e fez que sim com a cabeça. Havia nos olhos dela uma estranha sabedoria Como se soubesse melhor do que a avó o que lhe ia acontecer. Mas não disse nada. Voltouse então para mim. — Ainda tem aquele barco em La Jolla? Sacudi a cabeça. — Não, Dani. — É pena — disse. — Ainda gostava de lá voltar consigo. — Talvez um dia, Dani. Quando saíres daqui. Fez que sim com a cabeça e percebi que também não acreditava nisso. — Uma das enfermeiras disse-me que viu uma fotografia da sua mulher no jornal. Também disse que ela é muito bonita. — Olhou-me nos olhos. — O jornal dizia que a razão por que ela não veio consigo foi porque vai ter uma criança. — É verdade, Dani. — Quando?
— Muito em breve — disse. — O médico pensou que era melhor ela não viajar nesta altura. Um sorriso atravessou-lhe repentinamente o rosto. — Então sempre é verdade o que os jornais disseram? Estou contente. — É verdade, sim — sorri-lhe. — Achas que ela tinha qualquer outra razão para não vir? Dani olhou para Nora pelo canto do olho. Nora pintava-se com o batom, visivelmente entediada com a nossa conversação. — Não sei — disse Dani em voz baixa. — A principio, julguei que ela não viesse porque me odiava. Ri-me. — Onde é que foste buscar essa ideia? Novamente o olhar furtivo para Nora. — Não sei. Foi só uma ideia. A porta abriu-se e Miss Spicer entrou de novo na sala. Através da porta aberta vi a figura de uma enfermeira, à espera. — Agora tens de vir, Dani. Ela beijou a avó e depois aproximou-se de Nora. Nora pôs os braços em volta da filha. Olhou Dani nos olhos. — Sabes que eu te amo, não sabes, Dani? Dani fez que sim com a cabeça. — Mais do que qualquer outra pessoa? Dani fez que sim com a cabeça. — Quanto, minha querida? Percebi que estavam a fazer um jogo que já tinham jogado muitas vezes. Se ele representava verdadeiramente qualquer coisa para Nora, não seria capaz de o dizer. — Mais do que ninguém, mãe. Nora olhou-me de soslaio, para ver se eu tinha ouvido a resposta. Ri-me. Dani voltou-se e olhou para mim, com um ar sobressaltado. Aquilo a que chamam telepatia deve querer dizer qualquer coisa, porque eu tive a certeza de que Dani sabia de que é que eu me estava a rir. Voltou-se e beijou a mãe. — Adeus, mãe. Nora olhou para mim. Tinha o rosto congestionado e furioso. Começou a dizer qualquer coisa, mas mordeu o lábio e ficou silenciosa. — Enquanto estão todos aqui — disse suavemente Miss Spicer, depois de ter fechado a porta atrás de Dani — pensei que talvez pudéssemos combinar quando é que nos encontramos. Facilitaria as coisas. — sentou-se atrás da secretária. — será que posso ir procurá-la amanhã à tarde, Miss Hayden? — Quinta-feira seria melhor — disse Nora. — É o dia de saída dos criados e poderíamos ficar sós. Teríamos tempo para falar. — Seria preferível que os criados estivessem também — disse Miss Spicer. — Também gostaria de falar com eles acerca de Dani. Nora olhou para Gordon. — Não sei — hesitou. — A ideia de discutir os meus assuntos com os criados não é muito do meu agrado. Parece-me que, neste momento, eles apenas poderão contar as suas coscuvilhices. Não lhe vão dizer nada de interesse. — É minha obrigação tentar descobrir tudo o que for possível acerca da sua filha, Miss Hayden. Pode ter a certeza de que usarei de toda a discrição. Nora olhou novamente para Gordon. Ele fez que sim com a cabeça. Nora voltou-se para a funcionária. — Acha que poderia ser amanhã de manhã?  — À tarde seria melhor. Tenho de ir à Escola de Miss Randolph, de manhã. — Então, quarta-feira à tarde, seja — concordou Nora com petulância. — Às duas.
— Muito bem, às duas. — Miss Spicer olhou para a mãe de Nora. — Quinta-feira, convém
lhe?
A velha senhora fez que sim com a cabeça. — Às nove da manhã, é muito cedo? — Eu levanto-me cedo — respondeu a Sra. Hayden. Miss Spicer voltou-se para mim. — Quando é que seria uma boa ocasião para si, coronel? — Em qualquer altura. Diga-me quando. — Não conheço os seus planos, coronel Carey — disse. — Sei que a sua mulher está grávida. Não tinha a certeza se o senhor não quereria ir até Chicago e voltar depois para a audiência. Posso arranjar as coisas segundo as suas conveniências. Tinha esperado propositadamente que a audiência terminasse, na esperança de que se viesse a provar que a minha estada era desnecessária. Mas não valia a pena esperar mais. Já sabia que tinha de ficar. Ia ter de telefonar a Elizabeth naquela tarde e dizer-lhe que não ia voltar conforme estava planeado. — Vou ficar por cá, Miss Spicer — disse. — Escolha a ocasião que lhe convier. — Obrigada, coronel Carey. Sexta-feira, às quatro da tarde, no seu motel? — Óptimo. — Já nos podemos ir embora? — perguntou Nora. — Só mais uma coisa, Miss Hayden. — Sim? — O juiz pediu-me que obtivesse a sua autorização para arranjar uma cópia do processo de divórcio entre a senhora e o coronel Carey. Nora explodiu. — Isto é perfeitamente ridículo! Não vejo qualquer razão para andarem a vasculhar o meu passado! Francamente! Dani não passava de um bebé quando obtivemos o divórcio. — O tribunal tem o direito de procurar toda e qualquer informação que lhe pareça relevante para o bem-estar da sua filha. Acho que a senhora deveria facultar tal documento. Eles têm o direito de a intimar a apresentá-lo. Não acha que seria mais fácil cooperar? — Está a ameaçar reter a minha filha até a obtenção de tais papéis? — perguntou Nora, num tom glacial. Miss Spicer não se sentiu minimamente intimidada. Olhou calmamente para Nora. — Não estou a fazer qualquer ameaça, Miss Hayden — disse calmamente. — Estou apenas a informá-la dos poderes deste tribunal. Se tem algum interesse pelo bem-estar da sua filha, fará tudo o que estiver ao seu alcance para cooperar. Acha que me exprimi correctamente, Sr. Gordon? — Sem dúvida, Miss Spicer. — Harris Gordon voltou-se para Nora. — A Dani ficou temporariamente sob tutela do tribunal. Isto quer dizer que o tribunal tem poder absoluto sobre ela. Sugiro que dê a autorização solicitada. — Julguei que era meu advogado! — disse Nora, furiosa. — Afinal a única coisa que fez no tribunal foi concordar com o juiz. Agora concorda com esta... esta mulher! É preciso eu continuar aqui para ser humilhada desta maneira? Temos de continuar neste tribunal idiota? Como é que eles hão de saber lidar com gente da nossa espécie, depois de lidarem com o género de gente que aqui vem normalmente? Não podemos apelar para um tribunal superior ou fazer qualquer coisa assim? — A Dani é menor. É este o único tribunal em que ela pode aparecer legalmente. Nora olhou-o furiosa, com os olhos a chisparem.
 
— Nesse caso, para que diabo preciso eu de si? — Eu não falei para si, Miss Hayden — disse Gordon numa maneira calma e cheia de dignidade. — A senhora é que me telefonou. Estou pronto a retirar-me logo que queira. Nora olhou para ele um momento mais e depois afastou-se. — Oh, que vá tudo para o diabo! Faça o que quiser. Quero lá saber!
Saiu de rompante do gabinete, fechando estrondosamente a porta atrás dela. Gordon voltou-se para Miss Spicer. — Peço-lhe desculpa em nome da minha cliente. Esta história horrível deixou-a num estado de grande tensão. — Eu compreendo, Sr. Gordon. — Tenho no meu escritório uma cópia do processo de divórcio. Se quiser passar por lá, ponho-a à sua disposição. — Muito obrigado, Sr. Gordon. — Marian Spicer pôs-se de pé. — Acho que é tudo, por agora. Voltámo-nos e encaminhámo-nos para a porta. A velha senhora foi a primeira a passar. Gordon seguiu-a, depois fui eu. A voz da funcionária fez-me voltar atrás. — Coronel Carey, posso roubar-lhe só mais um instante? Voltei-me e aproximei-me dela. — Faz favor, Miss Spicer. Ela fez um ligeiro sorriso. — Estou contente por o senhor ficar, coronel. E tenho a certeza de que a Dani também se vai sentir muito feliz. Estava muito preocupada com a ideia de que o senhor talvez não pudesse ficar. — É o menos que eu posso fazer. Até mesmo um desconhecido não teria coragem de voltar as costas a uma criança numa altura destas. Olhou-me por momentos, de um modo especial e depois baixou os olhos. — Também acho, coronel. Quando saí, a minha ex-sogra estava à espera no assento traseiro do seu Rolls. Fez-me sinal e eu aproximei-me. — Onde está a Nora? — perguntei. — Foi-se embora — disse a velha senhora. — Quando eu saí, já ela tinha ido. — Olhou para o caminho. — Onde é que tem o carro? — Alguns quarteirões mais adiante. — Venha. Eu levo-o até lá. Instalei-me e o enorme carro rolou majestosamente para o meio do trânsito. — Telefonou ao Sam Corwin? — Não. Pensei telefonar-lhe esta tarde. — Olhei pela janela, tristemente. — Você parece-me deprimido — observou, perspicaz. — Foi alguma coisa que a Miss Spicer lhe tenha dito e que não nos dissesse a nós? Olhei para ela. — Não. Que razão teria ela para fazer uma coisa dessas? Apenas me disse que a Dani ia ficar contente quando soubesse que eu ficava. — Então é isso. E ainda não disse nada à sua mulher? — Não. — Acha que ela vai ficar aborrecida? — perguntou. Sem esperar pela minha resposta, continuou. — Sou mesmo uma velha tola. Claro que vai ficar aborrecida. Eu também ficava. À espera de uma criança de um momento para o outro e sozinha em casa. O imenso Rolls parou junto ao passeio. Não era só isso, pensei. Era, por exemplo, se tínhamos ou não dinheiro que chegasse para a minha estada. — Posso fazer alguma coisa? Talvez falar com ela ao telefone e explicar-lhe como é importante você ficar. Sacudi a cabeça. — Não, obrigado. Tenho a certeza de que Elizabeth compreende.  Abri a porta e saí. A Sra. Hayden inclinou-se na direcção da porta. — Telefone-me logo à noite. Diga-me se conseguiu saber alguma coisa. — Está bem, eu telefono.  Fiquei a ver o carro ir-se embora. Depois meti-me no meu carro e fui para o motel. Era mais ou menos meio-dia quando pedi a chamada.
— Olá — disse — Já almoçaste? — Claro — respondeu Elizabeth. — Como é que correram as coisas? Comecei a falar-lhe da audiência da autópsia, mas, ela interrompeu-me . — Acabo de ler isso tudo nos jornais. O que foi que decidiram a respeito da Dani? Tentei ser o mais sucinto possível. Depois, falei-lhe da carta. Quando acabei fez-se silêncio. — Elizabeth — disse-lhe — ouviste o que eu disse? — Ouvi muito bem — respondeu. Falava em voz muito baixa. — Sentes-te bem? — perguntei. — Estou bem — disse. — Nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Gosto imenso de estar sozinha. Penso que queres ficar por ai até à próxima semana. Respirei fundo. — Gostava de ficar, se tu não te importasses. — Mas o que é que tu esperas conseguir ainda? — perguntou. — Se eu me for embora neste momento, a Dani vai pensar que estou, mais uma vez, a voltarlhe as costas. — Mas tu também não lhe voltaste as costas da outra vez! — disse Elizabeth. — Não lhe explicaste isso? — Sim, expliquei — disse. — Mas ela não passa de uma criança. Não creio que tenha percebido bem.  — Também eu — disse Elizabeth. — Como é que pensas que eu me sinto? Com todos os vizinhos a olharem para mim e a perguntar como é que tu estás? Lêem os jornais tal como eu. Sabem que tu a vês todos os dias! Percebi o que queria dizer. — Isso é uma estupidez. — Será? — perguntou. — Tens a certeza de que a Dani é a única razão que te faz ficar? — Claro que é, tenho a certeza — gritei. — Que diabo de outra razão podia eu ter? — Não é só por causa da Dani que estás preocupado com as cartas — reagiu. — Tu próprio já me disseste que não lhe podem fazer nada. A lei protege-a. Tu estás é a tentar proteger a Nora. Tu próprio perceberias isso, se te desses ao trabalho de seres honesto contigo mesmo!  Ouvi interromper a ligação do outro lado da linha. Liguei para a telefonista e disse-lhe que a comunicação tinha sido cortada. Depois ouvi o telefone a tocar. — Alô. — A voz dela era como se tivesse estado a chorar. — Elizabeth — disse. — Desculpa. Vou tratar de tudo para voltar. — Não voltas nada — fungou. — Vais ficar aí até que toda essa trapalhada esteja resolvida. — Mas... — protestei. Interrompeu-me. — Não, não. Vais ficar aí até te libertares de tudo isso. Quando voltares para casa não quero que venhas preocupado com nada. Quero o meu marido de volta inteiro, não quero aquele fantasma cheio de culpas recalcadas que conheci em La Jolla. — E o dinheiro? — Perguntei. — Não te preocupes — disse. — Acabo de receber o teu cheque. São cento e quarenta dólares, chega-nos para uma semana. Posso sempre arranjar mais duzentos com o meu anel, se for preciso. — Elizabeth! — disse, num tom surpreendido. Ouvi-a fungar.  — O que é?  — Elizabeth — disse. — Amo-te. A galeria Scaasi Corwin tinha um edifício próprio em Post Street, não muito longe do Gumps. Era um edifício antigo e estreito, entalado entre dois edifícios maiores, com uma fachada nova em tijolo mediterrâneo. A entrada era por uma pesada porta envidraçada, ao lado de uma pequena montra incrustada no tijolo como uma moldura. Lá dentro, como uma jóia sobre fundo de veludo azul, via-se uma pequena escultura abstracta em bronze soldado, que brilhava em tons de vermelho e azul, sob um foco âmbar.
O nome do artista figurava em pequenas letras negras sobre um cartão branco; as letras da porta estavam pintadas num dourado respeitável: SCAASI CORWIN Tóquio, São Francisco, Nova Iorque, Londres, Paris Abri a porta e entrei. Um jovem com uma barbicha à Van Dyke, cuidadosamente aparada, avançou para mim e, com um sotaque que condizia com o corte inglês do fato, inquiriu: — Em que posso ser-lhe útil? — Tenho hora marcada com o Sr. Corwin. — É o elevador da esquerda, se faz favor. Os escritórios são no quarto andar. — Obrigado — disse e dirigi-me para o elevador. Quando me aproximei, a porta abriu-se como por magia. — Quarto andar, se faz favor. — Quarto andar — repetiu o ascensorista, fechando a porta. — Muito obrigado. Olhei para ele de relance e senti-me quase imediatamente envergonhado do meu velho fato de sessenta dólares, com os seus três botões. Até o rapaz do elevador usava roupas de corte inglês. Saí do elevador para uma luxuosa sala de recepção. Por detrás da secretária, estava outro Van Dyke. — Tenho hora marcada com o Sr. Corwin. — Nome, por favor. — Luke Carey. Fez que sim com a cabeça. — Obrigado. — Se quiser ter a bondade de se sentar, vou ver se o Sr. Corwin está livre. Sentei-me e tirei uma revista da mesinha assimétrica posta em frente do sofá. Réalités. Condizia. Mas era em francês. Podia olhar para as gravuras. Voltei as páginas. Havia uma fotografia de Brigitte num barco em St. Tropez. Pus-me a estudá-la, Qualquer revista que tinha uma fotografia de Brigitte em biquini não podia ser inteiramente má. Uma sombra caiu sobre a página. Levantei os olhos. — Coronel Carey? — perguntou a jovem loura e atraente. Fiz que sim com a cabeça. — O Sr. Corwin vai recebê-lo. Queira fazer o favor de vir comigo. Pus-me de pé. A rapariga sabia o efeito que fazia vista de costas e esforçava-se por o valorizar. Era a primeira coisa agradável que me acontecia em todo o dia. Era ainda melhor do que a revista. — Obrigado — disse, atravessando a porta que ela abria para eu passar. O escritório de Sam era igual ao resto, mas ainda mais. Paredes forradas a madeira de árvore de fruto. Dois Matisse cheios de cor; um Modigliani com olhos de abrunho num delicioso tom de amêndoa; um Picasso que eu pensei que estivesse pendurado de pernas para o ar. E o bronze de Nora, ―Mulher na Rede‖, que lhe tinha conquistado o Prémio Eliofheim, colocado sobre um pequeno pedestal, a um canto, sob a luz brilhante de um único foco. Sam entrou por uma outra porta, aberta na parede em frente. Veio em direcção a mim de mão estendida. — Luke. Retribui o cumprimento. Gostava dos seus apertos de mão: firmes, mas nem efusivos nem excessivamente cordiais. Agradavam-me. — Como está, Sam? — Não estou mal. Com um pouco de cabelo a menos, mas mais nada.  Olhou para mim. — Acho-o com bom aspecto. — Boa vida — respondi. — E a mulher certa. — Ainda bem. — Passou para trás da secretária. — Sente-se, Luke.  Deixei-me cair na cadeira em frente dele.  — Fiquei muito chocado, quando soube o que se passou com a Dani. Não respondi, mas pareceu-me que estava a ser sincero.
— Eu gostava da garota — disse. — Era uma criança simpática. Tenho pena que tivesse de lhe acontecer uma coisa destas. De qualquer maneira, era fatal como o destino. — Por que é que diz isso? Encolheu os ombros. — Nora. — Conheceu o Riccio? — perguntei. — Conheci. — Teve um sorriso amarelo. — Fui eu que os apresentei. — Como é que foi? Riu-se. — Viu os meus rapazes? — Com os Van Dykes e os casacos? Fez que sim com a cabeça. — Claro que vi. Nem sabe como fiquei aliviado quando vi a sua secretária. Riu novamente. — Ideia do Scaasi. É que aqui são sobretudo as mulheres que compram obras de arte. Funciona bastante bem. — Como é que isso nos leva ao Riccio? — Há cinco anos, quando abri a galeria, ele era o principal empregado. E era muito bom. As mulheres adoravam-no. — Com o Van Dyke e isso tudo? — Sim, acentua o aspecto artístico — disse. — Assim uma espécie de beatnik asseado. — Estou a ver. — A Nora também viu — disse Sam com azedume. — Ele usava calças de estilo italiano... apertadas em volta do sexo, como as de um bailarino. Nora não conseguia tirar os olhos dele. — Abriu uma caixa de cigarros que tinha em cima da secretária e empurrou-a para mim. — Já sabe como é. O que a Nora deseja, a Nora tem de ter. — O olhar dele cruzou-se com o meu, cheio de candura. — Só que, desta vez, ela teve mais do que aquilo que desejava. — Explique-se melhor — disse, pegando num cigarro. — O que é que isso quer dizer? — Ele não era melhor do que ela. Metia-se com tudo o que lhe passava pela frente. Mais de uma vez esteve quase a meter-se em sarilhos com clientes, mas conseguiu sempre safar-se. — Por que é que não corria com ele? — Era um bom empregado. Era o melhor vendedor que alguma vez tivemos. E era um tipo conhecedor.  — Como é que o descobriu? Sam ficou a olhar para mim. — Por quê tantas perguntas sobre o Riccio? — Quero ver se descubro alguma coisa a cerca dele. Talvez, assim, pudesse convencer o tribunal de que não foi grande prejuízo. — Estou a ver — acenou com a cabeça, lentamente. — Não há muita coisa, mas talvez ajude. — É o que eu penso. O que é que sabe acerca dele? Tinha alguns amigos de quem se lembre? Ficou um momento a pensar, depois pegou no telefone que tinha em cima da secretária. — Traga-me o dossier da secção de pessoal sobre Tony Riccio.  Passados momentos, a porta abriu-se e a secretária de Sam entrou. Pôs o dossier em frente dele, olhou para mim e saiu. Notei como os olhos de Sam a seguiam. — Saudável — disse, voltando-me para Sam. — Muito saudável. Não sei como é que eu teria aguentado o choque se você não viesse em meu auxílio.  Riu-se e abriu o dossier.  — Tony trabalhou para Arlene Gately antes de vir trabalhar para mim. Passou para cá ao mesmo tempo que ela. — Ela ainda trabalha para si? — A Arlene morreu há dois anos. Num desastre de avião.
— Oh! — disse. — E amigos dele? — Não me lembro de nenhum. Dedicava-se todo às senhoras. Nunca soube que tivesse uma camaradagem estreita com qualquer homem. — E quanto à família? — Estão aqui em São Francisco. O pai tem uma venda de peixe no cais. Parece-me que os irmãos têm um barco. — Tem o endereço deles? Puxou de uma folha de um bloco e escreveu um endereço. Peguei na folha de papel. — Gostava de me lembrar de mais qualquer coisa. — Há uma coisa — respondi. — Mas se não quiser não precisa de me dizer. — O que é? — É sobre a Nora e o Riccio. A Sra. Hayden disse-me que você a levou a fazer um acordo. Como é que conseguiu isso? Hesitou um momento. — Eu sabia o que se estava a passar. Foi só uma questão de tempo até conseguir arranjar fotografias. Ela berrou, mas pagou. — Ainda as tem? Sacudiu a cabeça. — Dei-lhas quando tudo ficou arrumado. Não queria nada daquilo. Tinha recordações que me chegassem. Não disse nada. Ele olhou para mim. — Foi um acordo leal. Não toquei em nada que fosse verdadeiramente dela. Limitámo-nos a dividir o que fizemos em conjunto. — Não estou a criticar nada. — Espero que consiga alguma coisa. Lembro-me muitas vezes da Dani quando era pequenina. Durante uns tempos, quando você deixou de aparecer, ficou assim como que perdida. — Não foi por minha vontade — disse. — A Nora é que quis. — Não sabia — disse num tom cheio de surpresa. — A Nora disse-me que você é que tinha decidido, um belo dia, que não voltaria a aparecer. Fiquei a olhar para ele. — É mesmo da Nora. — Olhe, julgava que sabia tudo, mas afinal... — Esmagou o cigarro e acendeu outro. — Houve uma vez uma coisa que eu nunca hei-de esquecer. — O que foi?  — Foi há cinco anos. A Dani tinha quase dez anos e falou que gostava de fazer uma festa de anos. Nora foi aos arames. Disse à criança que parasse de chamar a atenção para a idade, que já era suficientemente crescida para compreender que se andasse por aí a falar na idade isso se tornaria muito embaraçoso para a mãe. Dani não compreendeu. Por isso levantou os olhos para a mãe e perguntou: "Não queres que eu cresça, mamã?" Nora ia responder. Depois, viu que eu estava a olhar para ela e afastouse, deixando a criança ali especada, com uma expressão de desgosto. Tirou uma fumaça do cigarro. — Sinceramente, estou convencido de que Nora tinha ciúmes da Dani. Da juventude dela, de a ver crescer. De tudo o que se relacionava com ela. Mas eu não podia fazer nada. Nora sempre me tornara bem claro que eu não era pai dela e não tinha o direito de interferir. Ficou um momento a olhar para a secretária, depois levantou os olhos para mim. — Suponho que pergunta a si próprio porque é que eu, sabendo tudo o que sabia acerca de Nora, casei com ela? — Pensei nisso algumas vezes. — Talvez não consiga compreender — disse calmamente. — Eu era crítico de arte num jornal de uma terra pequena. Digam o que disserem, no mundo da arte, São Francisco é uma terra pequena. Descobri qualquer coisa de grande. Isso acontece talvez uma vez na vida, com um pouco de sorte. Mas
só com um pouco de sorte. Eu descobri Nora Hayden e, seja ela o que for, na sua arte é das maiores. Aquilo que ela faz em escultura é a verdade. Tão verdade que nem paramos para pensar que ela se gasta toda no seu trabalho e não lhe fica nada para si própria ou para dar aos outros como ser humano. Eu sabia como ela era, mas pensei que podia fazê-la mudar. Pensei que podia fazer que parte daquela verdade que eu via no trabalho dela passasse para a própria vida. Mas estava errado, completamente errado. O que eu não vi foi que a única verdade de que ela é capaz é a que põe no seu trabalho. Mais nada, mais ninguém conta. E ainda havia outra coisa. — O quê, Sam? Olhou para mim. — Amava-a — disse simplesmente. Depois, teve um sorriso sombrio. — Mas veja para onde foi o amor. Não tenho mais nada a mostrar do que me ficou dele, a não ser alguns quadros na parede e umas estátuas. Você tem alguma coisa. Por muito más que as coisas pareçam agora, terá sempre qualquer coisa para mostrar para onde foi o amor. Sabia o que ele queria dizer. Pus-me de pé. — Você foi mais do que amável, Sam. Levantou-se também. — Gostava de mandar qualquer coisa à Dani. Acha que posso? — Tenho a certeza de que ela havia de gostar, Sam. Estendeu-me a mão. — Dê-lhe todo o meu carinho. — Com certeza, Sam — disse. — Obrigado.  Post Street estava efervescente com todas as pessoas que saíam de tarde a fazer compras. A luz do Sol dava-me em cheio nos olhos, depois da obscuridade fresca e protegida da galeria. Sentia o suor brotar-me da pele dentro da roupa e dirigi-me para um bar, à procura de fresquidão. Pedi uma garrafa de cerveja. Dois turistas entraram e ficaram ao meu lado. Também mandaram vir cerveja. — Céus, está um calor! — disse um deles. — Disso é que não restam dúvidas — disse o outro, enquanto levava aos lábios o copo coberto de espuma. — Mas pensa como o calor é mais intenso para os pobres tipos que estão lá naquela rocha no meio da baía. Aposto que davam tudo por uma cerveja fresca num dia como o de hoje. Olhei-os de soslaio e pensei na rocha de que estavam a falar. Alcatraz. Havia outras rochas. A minha filha, tinha uma só para ela. E não passava de uma criança. Perguntei a mim mesmo o que é que ela estaria a fazer para se refrescar naquela tarde de calor. Perguntava a mim mesmo, o que estaria Miss Spicer a descobrir acerca dela. Coisas provavelmente que eu nunca viria a saber. Nunca poderia saber. Marian Spicer reconheceu os sapatos mesmo antes de ouvir a voz. Estavam tão bem engraxados que quase conseguia ver neles a própria imagem, embora soubesse que, se o pé se levantasse, a parte de cima se afastaria ligeiramente da parte de baixo, pondo a descoberto a meia branca, Ergueu a cabeça das folhas de apontamentos que tinha espalhadas por cima da mesa. — Ah, será que a gentil Marian vem jogar com Robin Hood e passar o tempo nalguma vereda sombria de Sherwood Forest nesta tarde de canícula? Ela tossiu. — Senta-te, Red, antes que entornes o café por cima dos meus papéis. É uma sorte eu conhecer-te, Nem o xerife de Nottingharn seria capaz de entender a tua linguagem. Ficou parado a sorrir, com os olhos azuis franzidos e o cabelo ruivo desgrenhado como sempre. Tinha uma chávena de café em cada mão. — Parece-me que estás a precisar de atestar — disse, pondo uma das chávenas em frente dela. — Obrigada. Olhou em volta. A cafeteria estava quase sem ninguém. — Alguém tem de tomar uma medida drástica. Os empregados não estão a aproveitar devidamente o intervalo do café.
Numa das outras mesas, um funcionário de vigilância e orientação estava sentado com uma rapariguita e a mãe. A rapariguita tinha quinze anos, estava grávida e embezerrada. A mãe falava sem parar para o funcionário que abanava a cabeça pacientemente. Marian já sabia o que a mãe devia estar a dizer. Tinha ouvido a mesma conversa muitas vezes. — Eu nem sabia, nunca desconfiei... A minha própria filha... Fiz essa miudagem com quem ela... Era sempre a mesma coisa. A miudagem metia-se em sarilhos e os pais ficavam sempre admirados, Nunca davam por nada. Estavam sempre demasiado ocupados com outras coisas. Algumas delas eram válidas, outras não, mas todas levavam ao mesmo Tribunal de Menores. — Por onde é que andaste, durante todo o dia? — perguntou, arrumando cuidadosamente os papéis. Red sorveu ruidosamente o café. — O que é que te parece? Andei por aí à procura daquele diabo. Marian sabia de quem ele estava a falar. Um rapaz de dezasseis anos que os pais tinham despachado para o Colégio Militar para fazer dele um homem, depois de ele ter sido apanhado numa rusga da polícia, seis meses antes. Passados quatro dias, tinham recebido a noticia de que ele tinha fugido do Colégio. — Encontraste-o? — Encontrei, sim. Mesmo no sítio onde tinha pensado que ele devia estar. Na retrete de um bar de travestis em North Beach. — Não percebo porque é que precisaste de quatro dias para isso. — Sabes quantas espeluncas dessas existem? — perguntou indignado. Depois, viu o sorriso dela e recostou-se na cadeira. — Devias ter visto o miúdo quando dei com ele. Ainda estava com o uniforme do Colégio. Parecia que tinha dormido vestido durante aqueles quatro dias. Quando me viu, ficou histérico. A espernear, aos gritos, a querer arranhar. Tive de chamar um carro-patrulha para me ajudar a trazê-lo. — Olhou para ela e fez um sorriso maldoso. — mesmo assim não posso dizer que o dia me tenha corrido mal. Recebi cinco propostas e uma delas de uma mulher. O que naquele sítio é uma verdadeira proeza. Ela deve ter pensado que eu era um tipo esquisito. — Preveniste os pais?  Red fez que sim com a cabeça. — Vêm amanhã. — Encolheu os ombros. — É a vida. Rapazes que querem ser raparigas. — Pobre garoto! Aquele era dos tais casos que não lhes agradavam nada. Sentiam-se completamente inúteis. Não havia nada de construtivo que pudessem fazer. A única possibilidade era entregar o caso aos psiquiatras. E havia ocasiões, estava convencida disso, em que também eles não sabiam que fazer. — Estás muito atarefada. Em que é que estás a trabalhar? No caso Hayden? — O nome da pequena é Carey. — Eu sei. Mas todos os jornais falam do caso Hayden. Por causa da mãe, que é a coqueluche desta cidade. — Bebeu mais uma golada de café, ruidosamente. — O que é que há com a miúda? Marian olhou-o, pensativa. — Não sei lá muito bem. Ainda não consegui percebê-la bem. Não tem nada a ver com as outras crianças com quem tenho lidado. Red levantou o sobrolho com ar interrogador. — Consegue dar-te a volta, hem? Esses são os relatórios preliminares? — Ela fez que sim com a cabeça. — Deixa-me dar uma vista de olhos. Ficou a vê-lo ler a primeira página, Era o relatório do médico que a tinha examinado. Todas as raparigas que davam entrada eram submetidas a um exame físico rigoroso, antes de serem enviadas para as residências. Dani tinha sido examinada no sábado anterior, mas os resultados do exame psicométrico só tinham sido processados na segunda-feira, porque a secção fechava durante o fim-desemana.
Marian tinha a sensação de que, algures, havia qualquer coisa que lhes escapava, qualquer coisa de muito importante que se relacionava com a criança, mas não conseguia descobrir o que era. Red era muito bom. Há muitos anos que fazia aquele trabalho. Talvez lhe ocorresse alguma coisa que pudesse ajudar. Acabou de ler o relatório médico e deitou-lhe uma olhadela cheia de cinismo. — Estou contente por verificar que, pelo menos, a pequena é normal. Sabia o que ele queria dizer. A ruptura himenal é completa e a cicatriz encontra-se sarada e é de idade indeterminada. No entanto, há sinais de irritação nas paredes vaginais e um ligeiro inchaço do clitóris, o que aponta para a probabilidade de um alto nível de actividade sexual durante o período que precedeu imediatamente este exame. — Começo a acreditar que, em São Francisco, não existem virgens com catorze anos de idade. — Olhou-a e teve um sorriso. — Apenas de um ponto de vista histórico Marian, ainda era virgem aos catorze anos? — Deixa-te de gracejos, Red. Não deixes que o trabalho te distorça os pontos de vista. As crianças bem comportadas geralmente não vêm para aqui. — Quem era ele? O tipo que ela matou? Marian olhou-o fixamente. — Recusa-se a falar. Quando se toca nesse assunto, fecha-se completamente. Não fala, não diz nada. Lê o exame psicométrico que já vês por ti próprio. Viu-o erguer fortemente as sobrancelhas quando chegou a meio da página. Sabia do que se tratava. — Esta miúda tem um coeficiente de inteligência de 152.  — É verdade. Temos perante nós um nível invulgar de inteligência e percepção. É por isso que se torna tão difícil perceber o que se segue. Lê. Continuou a ler em voz baixa. Percorreu rapidamente as páginas seguintes e em seguida pousou o relatório. — Ela está a brincar connosco. Não percebo. Por quê? — É exactamente isso que eu sinto. Leste o que ela disse à psiquiatra, no fim da sessão? Que admitia perfeitamente que procedera mal, que compreende que não devia ter feito aquilo, que está perfeitamente disposta a discutir tudo o que diga respeito à sua má acção, mas que não está interessada em discutir mais do que isso. Que o resto da sua vida é, ao mesmo tempo, pessoal e privado e que não se sente disposta a revelar nada a esse respeito, por não ser pertinente com aquilo que fez. — É uma bela tirada. Marian fez que sim com a cabeça. — Não sei quando, durante este fim-de-semana, ficou novamente senhora de si. Foi uma pena não termos conseguido tirar qualquer coisa dela no sábado, quando chegou. Nessa altura, estava nervosa e perturbada. — Achas que alguém lhe ensinou o discurso? — A única pessoa com quem falou foi o pai. Ele nunca pensaria numa coisa dessas. Para ele, ela continua a ser uma criança. A última vez que a viu, tinha ela cerca de oito anos de idade e, embora se dê conta de que está maior, não creio que já tenha percebido que também está mais velha. — Como é que ele é? — Parece um homem muito simpático. — Com a folha de serviço que teve na guerra? — a voz de Red era incrédula. — É aí que está o paradoxo. Não posso deixar de sentir pena do tipo. Pelo fato que usa, vê-se bem que não está lá muito à vontade de dinheiro. No entanto, fez a viagem de Chicago até aqui para ver se podia ser útil em alguma coisa. E a mulher, lá em Chicago, está à espera de criança de um momento para o outro e ele está perfeitamente dividido. Quer fazer o que for melhor, mas não sabe lá muito bem como. — E Miss Hayden?
— Nora Hayden sabe o que quer. Sempre. Pode ser uma artista de renome, mas também é uma verdadeira filha da puta. Sinto pena da miúda, a viver com ela todos estes anos. Não deve ter sido fácil... — Não me parece que gostes dela. — Não, não creio. Mas isso não altera o problema básico. Como é que se entra em contacto com a miúda, o que é que a pode fazer abrir? — Às vezes, o melhor é ignorá-las. Talvez quando ela ganhar um pouco mais de confiança em nós compreenda que a queremos ajudar e se aproxime de nós. — Talvez desse resultado, se tivéssemos tempo. Mas o Murphy só nos deu uma semana. Tenho a impressão de que o estão a pressionar fortemente para despachar as coisas e ele não vai deixar ultrapassar o limite legal de quinze dias. Marian pegou na chávena. O café estava frio, mas bebeu na mesma. — Tenho a sensação estranha de que não estamos de todo perto da verdade no que diz respeito a este caso. A julgar pela maneira como a pequena se controla, não consigo acreditar que ela matasse alguém. — Então quem é que achas que o matou? A mãe? — É muito mais provável, segundo me parece. — Mas todas as provas são contra ela. Leste todos os depoimentos. Ouviste o relatório do médico legista e ouviste a leitura dos depoimentos. Tudo aponta para que tenha sido a pequena. — Exactamente. É o mesmo que quando eu entro em casa, e vejo tudo muito arrumado. Sei logo que há qualquer coisa que não está bem. É demasiado perfeito. Além disso, há uma única testemunha. — A mãe? Fez que sim com a cabeça. Red ficou um momento a olhar para ela, pensativo. — Não deixes que o facto de não gostares da mãe te leve a exagerar. Sinto geralmente a mesma coisa quando me dou conta da estupidez da maior parte dos pais. Preferia, sem dúvida, pôr as culpas neles em vez de as pôr nas crianças. Mas não é bem assim. Pôs-se de pé, foi até à cozinha e voltou com mais duas chávenas de café. — Onde é que está a criança, neste momento? — Psiquiatria. Talvez a Jennings consiga estabelecer o contacto com ela hoje. — A Sally Jennings é muito boa. Se ela não conseguir, mais ninguém consegue. — Espero que sim. Entretanto, tenho de me pôr a mexer. O juiz Murphy quer que eu leia o processo de divórcio dos pais. Tenho de ir buscar uma cópia ao escritório do advogado. Marian empurrou a cadeira para trás. — Como é que estão a Anita e os pequenos? — O costume. A Anita quer arranjar um part-time para ganhar algum dinheiro, mas já lhe disse que só por cima do meu cadáver. Estou farto de ver o que é que acontece aos miúdos cujos pais têm empregos em part-time. Ela acenou com a cabeça, em sinal de compreensão. Havia alturas em que perguntava a si mesma como é que, alguns dos homens que eram casados se agüentavam com o que ganhavam. Também percebia porque é que os sapatos de Red estavam sempre pelo menos há dois meses a precisar de ser arranjados. Red suspirou. — O Stevie, o mais velho, anda a chatear-nos porque quer uma scooter. Diz que todos os miúdos lá na escola têm scooters. — Vais comprar-lhe uma?  — Se conseguir arranjar uma, em segunda mão e em bom estado, por cinquenta dólares. — Baixou os olhos para a mesa. — Acho que me estou a enganar a mim mesmo. Não se arranja nada por esse preço. — Talvez tenhas sorte, Red. — Eu não perco a esperança. Mas, às vezes, tenho medo.
— O que é que queres dizer com isso? — O Stevie é bom rapazinho, e tudo isso, mas não posso deixar de pensar em todas as coisas de que ele tem de abdicar. Sabes o que quero dizer. Talvez não valha a pena conhecer tanta coisa. Ela fez que sim com a cabeça. — Às vezes acordo a meio da noite — disse. — A sonhar que estou em serviço e que me trazem um miúdo e que é o Stevie. E quando eu lhe pergunto porquê, ele diz-me: “O que é que tu esperavas, pai? Que eu continue a acreditar que a lua é feita de queijo fresco?" Marian ficou um momento a olhar para ele. Era o que acontecia à maior parte deles. Viam de mais e sentiam de mais. Pôs-lhe a mão amiga em cima do ombro. — Esteve muito calor hoje e tu já trabalhaste bastante. Porque é que não descansas o resto da tarde e vais para casa? Estendeu o braço e deu-lhe uma pancada na mão, em sinal de reconhecimento. — Para quê? — perguntou, sorrindo. — Para a Anita ficar toda preocupada, a pensar que estou doente ou qualquer coisa assim?
 
O diploma que estava emoldurado na parede por detrás da pequena secretária cheia de papéis, no cubículo de vidro, igualmente minúsculo, era de um doutoramento em Psicologia pela Universidade de Wisconsin. O nome escrito a letra gótica no diploma era o de Sally Jennings. A data era junho de 1954. Sally Jennings tinha trinta e oito anos quando recebeu o diploma. Para trás dele havia quinze anos de trabalho como funcionária do tribunal, na vigilância e orientação de menores, ao mesmo tempo em que estudava e fazia economias para atingir a sua finalidade. Depois de ter acumulado cuidadosamente o dinheiro necessário, pediu uma licença sem vencimento por um período de dois anos e, quando voltou, trazia o diploma. Mais dois anos se tinham passado antes que surgisse uma vaga no departamento em que trabalhava actualmente. Tinha um rosto jovem, cabelos grisalhos, uma maneira calma e agradável e um jeito especial para lidar com as crianças que chegavam até ela. Na maioria dos casos, as crianças sentiam-no e correspondiam-lhe. Uma vez por outra, aparecia uma que escapava à sua atracção intangível. Esta era uma dessas ocasiões. Olhou através da secretária para Dani. A pequena estava sentada, em silêncio, a face muito composta, as mãos graciosamente cruzadas no regaço. Sally já tinha reparado anteriormente que a pequena tinha as unhas cuidadosamente arranjadas. O controlo era perfeito. Estendeu a mão para um cigarro e notou que os olhos da pequena a seguiam. — Queres um cigarro, Dani? — perguntou delicadamente, estendendo-lhe o maço. Dani hesitou. — Não faz mal, Dani. Aqui podes fumar. Dani aceitou o cigarro e o lume. — Obrigada, Miss Jennings. A psicóloga acendeu o seu próprio cigarro e recostou-se na cadeira. Expeliu o fumo lentamente e ficou a vê-lo vogar ao acaso em direcção ao tecto. — Gosto de ver o fumo pairar no ar — disse com naturalidade. — Parecem nuvezinhas minúsculas no céu, tomando toda a espécie de formas e feitios. — Havia um jogo parecido que nós fazíamos na Escola de Miss Randolph. Chamávamos-lhe o Rorschach Instantâneo. — Sally Jennings olhou de repente para Dani. Havia nos olhos da pequena uma expressão ligeiramente divertida. — Ficava admirada se soubesse o que algumas das raparigas viam. Algumas iam bastante longe. — Sabes bastante de psicologia para a tua idade. — Li muito sobre o assunto. A certa altura, pensei que gostaria de ser psicóloga, mas mudei de ideias. — E por quê, Dani? Penso que serias capaz de te sair muito bem.
— Não sei. Talvez me desagradasse a ideia de bisbilhotar o espírito das pessoas. Ou talvez apenas por eu não bisbilhotar. Só isso. — Achas que eu estou a bisbilhotar, Dani? Dani olhou para ela. — É esse o seu trabalho, não é? — perguntou sem rodeios. — Ver o que é que consegue tocarme? — Esse é só um aspecto, Dani. O menos importante. O principal é encontrarmos uma maneira de te ajudar. — E se eu não quiser ajuda? — Acho que todos queremos, de uma maneira ou de outra, quer o queiramos admitir perante nós próprios ou não. — A senhora, Miss Jennings, precisa de ajuda? — Acho que sim. Há alturas em que me sinto desesperada. — E, nessas alturas, vai a uma psicóloga? Sally Jennings fez que sim com a cabeça. — Há anos que ando a fazer psicanálise. Desde que percebi que tinha de me conhecer melhor a mim própria antes de conseguir fazer o meu trabalho como deve ser. Pelo menos uma vez por semana. às vezes mais, quando tenho tempo. — A minha mãe diz que só as pessoas doentes é que fazem psicanálise. Diz que é um substituto para a confissão dos católicos. Sally Jennings olhou para Dani. — E a tua mãe tem sempre razão em tudo o que diz? Dani olhou para ela sem responder. A psicóloga viu a muralha erguer-se nos olhos da criança. Mudou rapidamente de assunto. — O médico que te examinou disse-me que te tinhas queixado de que te doíam os seios. Já há muito tempo que te doem? Dani fez que sim com a cabeça, em silêncio. — Há quanto tempo? Dani hesitou. — Isto não é bisbilhotar o teu espírito. É apenas uma pergunta de carácter médico. — Há alguma coisa que não está bem? — perguntou Dani, com uma voz subitamente preocupada. Sally viu as mãos da criança pousarem-se-lhe involuntariamente no peito e sentiu um sobressalto na consciência por lhe ter reacendido o medo. — Não, está tudo bem, mas os médicos gostam sempre de saber as razões de tudo. — Quando comecei a crescer, costumava apertar os seios. Depois começaram a doer-me e deixei de ligar. Desde aí, doem-me um bocado, de vez em quando. Sally riu-se. — Mas por que é que tu fizeste uma coisa dessas? É uma ideia um bocado fora de moda. Já há muitos anos que as raparigas deixaram de fazer isso. — Ouvi a minha mãe falar nisso a uma amiga. Dizia que as gueixas, no Japão, fazem assim para terem um ar jovem e para não crescerem. — E tu não querias crescer, Dani?  — Claro que queria! — disse Dani rapidamente.  — Então por que é que fizeste isso? — repetiu Sally. A pequena não respondeu. — Foi por pensares que isso agradaria à tua mãe? Viu a verdade daquela hipótese reflectida nos olhos de Dani que ficaram, de repente, muito abertos. Obrigou o coração a fechar-se-lhe e continuou a falar.
— Foi por isso, não foi, Dani? Apertaste os seios até eles te doerem porque pensaste que a tua mãe ficaria satisfeita se tu não crescesses? Por que é que fizeste isso, Dani? Alguma vez a tua mãe te disse que a fazias sentir velha por estares a crescer? De repente a criança começou a chorar, com a cara escondida nas mãos. Com suavidade, a psicóloga desprendeu o cigarro dos dedos de Dani e esmagou-o no cinzeiro.  — A maior parte das mães não querem que os filhos cresçam, Dani. Gostam que eles continuem pequenos, porque isso as faz sentir mais importantes, mais úteis e também mais jovens. — A minha mãe gosta muito de mim — soluçou Dani por entre os dedos. — A minha mãe gosta muito de mim. — Claro que gosta, Dani. Mas isso só por si não impede que uma mãe, muitas vezes, cometa erros. A pequena levantou os olhos, brilhantes de lágrimas. — Não quero, não quero continuar a falar, Miss Jennings. Posso voltar para o meu quarto? Sally ficou um momento a observá-la, depois fez que sim com a cabeça. — Claro, Dani — disse, carregando num botão que tinha em cima da secretária, para chamar uma enfermeira. — Amanhã voltamos a falar. Através das portas envidraçadas do gabinete ficou a ver Dani avançar ao longo do corredor. Suspirou, cansada. O dia tinha sido comprido. Tinha conseguido avançar um pouco. Talvez amanhã conseguisse mais. O som da música vinda da televisão chegava ao quartinho de Dani através da porta fechada. Inconscientemente, os pés de Dani começaram a acompanhar o ritmo. Passados alguns minutos, cedeu à atracção da música, abriu a porta e saiu para o corredor. Aqui a música era mais forte e ela seguiu-a até à sala de recreio onde as raparigas estavam reunidas em frente do aparelho de televisão. A música parou e o rosto macio e liso de Dick Clark encheu o écran. A voz dele saiu com naturalidade do altifalante. — Bem-vindos ao Palco Americano, E para lançar aos quatro ventos a nossa sessão de hoje, o nosso primeiro disco será do inconfundível Chubby Checkers que nos vai cantar o seu imortal Let's Twist Again! Dani ficou a olhar, enlevada, enquanto a câmara recuava para deixar ver a pista de dança apinhada. A maior parte dos rapazes vestia casacos desportivos e as raparigas vestiam igualmente sem qualquer formalidade. Houve um momento de silêncio e de expectativa e depois o disco fez-se ouvir bem sonoro. A voz roufenha e ritmada do cantor encheu a sala. Let's Nist again... Lak pve did last Sum muh... Let s Im ist a gain... Lak we did last Yeuh. Algumas das raparigas formaram pares e puseram-se a dançar em frente da TV. Na outra extremidade da sala, uma enfermeira observava-as, batendo igualmente o ritmo com o pé. — Sabes dançar o Twist, Dani? Dani voltou-se. Era a rapariga que ficava sentada ao lado dela à mesa. Fez que sim com a cabeça. — Sei sim, Sylvia. A rapariga sorriu. — Então, vamos mostrar-lhes como é? Dani retribuiu-lhe o sorriso. — Vamos a isso. As duas raparigas puseram-se em posição, arredondando os ombros e exibindo na cara uma expressão extática, ao mesmo tempo em que apanhavam o ritmo. Enquanto giravam para trás e para a frente, parecendo grudadas ao chão, nem uma só vez olharam para a cara uma da outra. Cada uma delas tinha os olhos fixos mais ou menos à altura dos joelhos da companheira. Passados alguns momentos de silêncio, em que cada uma punha à prova a perícia da outra, começaram a falar. — Danças muito bem — disse Sylvia. — Mas não tão bem como tu.
— Adoro dançar! — disse Sylvia. — Eu quero ser profissional. — Já podes ser considerada uma profissional. Sylvia sorriu, orgulhosa. Era ligeiramente mais alta do que Dani, um ano mais velha, tinha os cabelos castanhos quase louros e olhos azuis. — Vamos tentar algumas variações. — Ok. — Hidly-Gully. Dan! — sorriu e seguiu-lhe os passos. — Agora o Madison. Sylvia rodou para fora e Dani girou em volta dela, depois Dani rodou para fora, enquanto Sylvia girava em volta dela. Sylvia riu em voz alta. — Agora vamos arrasá-las com o Watusi! Os passos quase primitivos de uma dança da selva tomaram vida quando ela se pôs em posição para acompanhar a música. Dani seguiu-a, enquanto a música entrava num crescendo para ir morrer num estampido, enquanto o último lamento do cantor se perdia no ar. As duas raparigas ficaram paradas, a respiração pesada, olhando uma para a outra. — É demais! — disse Sylvia. — Dá-se tudo — disse Dani. A música voltou. Sylvia olhou para Dani. — Experimentamos outra?  Dani sacudiu a cabeça. — Os cigarros deram-me cabo do fôlego. Desta vez, fico na pista de aterragem. Sylvia sorriu. — Ainda tenho aqui uma moeda para uma cola. Dividimos. — Obrigado.  Dani também podia ter comprado uma, mas não seria delicadeza. Comprava para a próxima vez. Sylvia dirigiu-se para a máquina e tirou uma cola. Havia palhas numa mesa ao lado. Enfiou duas na garrafa e voltou para junto de Dani. — Vamos sentar-nos ali. Sentaram-se num sítio de onde podiam ver a televisão e beber a cola. Veio um anúncio e seguiram-no ainda com maior atenção do que ao próprio programa. — Este anúncio da pastilha elástica é o fim.  Dick Clark apareceu de novo e depois a música. Sylvia voltou-se para Dani. — Hoje vais outra vez aturar a lavagem ao cérebro? Dani fez que sim com a cabeça. — Quem é que te calhou? A Jennings? — É. — Essa, enfim, ainda se pode suportar. Mas aquele velho, o patrão. Parece mesmo o Thriller quando se põe a olhar para a gente com aqueles olhos de peixe. — Não sei quem é — disse Dani.  Ficaram uns momentos a ver os pares que dançavam no écran. A câmara aproximou-se de um deles. O rapaz era alto e bem-parecido, com o cabelo cortado e penteado segundo a última moda. A rapariga trazia uma camisola larga e uma saia. Perceberam que a câmara os estava a focar e resolveram dar espectáculo. — Aquele rapaz é um espanto. Faz-me lembrar o meu namorado. — É um bocado parecido com o Fabian — disse Dani. — O meu namorado é um grande admirador do Fabian — disse Sylvia orgulhosa. — Foi a primeira coisa que me atraiu nele. Eu acho que o Fabian é o maior! — Eu gosto mais do Rickie e do Frankie Avalon. Metem-no num chinelo a cantar. — O Elvis também. Mas eu não estou a falar das vozes. O Fabian tem qualquer coisa. Basta ele olhar para mim que eu derreto-me toda. — Olhou para Dani. — Tens namorado? — Não. — Mas tinhas?
Dani sacudiu a cabeça. — Não propriamente. Nada de fixo. — Aquele tipo não era teu namorado. O tal... Dani sacudiu a cabeça. — Julgava que era — disse Sylvia. — Como te puseram aqui connosco. Costumam pôr as virgens noutro lado. Então foi outro tipo? Queres falar nisso? — Não quero. Sylvia recostou-se na cadeira. — Sinto a falta do meu namorado. — Onde é que ele está? Sylvia sacudiu o dedo na direcção da janela. — Na residência dos rapazes. — O que é que ele está lá a fazer? — Trouxeram-nos ao mesmo tempo — disse Sylvia. — Rickie pediu um carro emprestado para nós darmos uma volta. E fomos até Golden Gate Park. Foi aí que os chués nos deitaram a mão. — Não percebo. Por que é que eles vos foram chatear? Sylvia riu-se. — Não te armes em esperta. Já te disse que o Rickie tinha um carro emprestado. Além disso, eram duas horas da manhã e nós estávamos no banco de trás a fazer já sabes o quê. — Bebeu o resto da Cola. — Rapazes, aquilo estava um sonho. Não sei se estás a ver? — Suspirou. — O carro descapotável, a lua, música do rádio. Íamos mesmo a entrar em órbita quando os Intocáveis apareceram. Foi uma trapalhada. — Vou buscar outra Cola — disse Dani. Quando voltou, Sylvia estava a observar um jovem cantor que aparecia como convidado. — Ele não está a cantar — disse Sylvia. — Está só a mexer os lábios ao som do playback. — Como é que sabes?  — Não se vê a orquestra, pois não? Além disso, ele está a cantar com eco. Isso só se consegue num estúdio de gravação. — Ficou um momento a ver um grande plano do cantor. — Mas ele é giríssimo, embora não tão giro como o Fabian. Tiveste correio hoje? Dani sacudiu a cabeça. — Não, mas também não estava à espera. — As outras tiveram correio. Eu estava à espera de carta do Rickie, mas não recebi nada. Ele disse que me escrevia todos os dias. — A voz dela tomou um tom de preocupação. — A não ser que essas olheiras me estejam a ficar com as cartas. O que é que achas? — Não, não me parece. — Se não recebo noticias dele amanhã, morro! — Não te preocupes, vais ver que tens noticias dele — disse Dani, tentando consolá-la. As duas raparigas ficaram ali sentadas a partilhar a Cola.
 
Cheguei às docas um pouco antes da hora do jantar. Os vendedores estavam atarefados a arrumar as suas bancas. Dispunham artisticamente as santolas abertas em cima do gelo picado, enfeitando o rebordo dos carrinhos com alegres taças de vidro, cheias de camarões cor-de-rosa, acabados de cozer. Havia pilhas de pão saloio acabado de sair do forno e de pãezinhos, e por toda a parte se sentia o cheiro forte a mercado de peixe. Passei pelo Tarantino em direcção ao Museu Marítimo. Os barcos de pesca estavam amarrados para a noite, balançando ligeiramente com o movimento da água. E, ao longo do cais, havia mais bancadas de vendedores. Uma delas, quase no meio do quarteirão, estava coberta com um toldo, desbotado. Tinha pintado o nome RICCIO. Parei. Um homem que estava a trabalhar na banca ao lado, dispondo as santolas com mãos hábeis, disse pelo canto da boca: — Eles hoje estão fechados. — Sabe onde é que os posso encontrar?
Pousou as santolas e dirigiu-se a mim. — O senhor é repórter? Fiz que sim com a cabeça. — Estão na casa funerária. O funeral é amanhã de manhã. Veio entrevistar a família? — Mais ou menos. — O rapaz não valia nada — disse o homem. — Quando era miúdo nunca vinha ajudar na venda. Nunca quis sujar as mãos com o peixe, como os irmãos. Era superior para isso. Eu disse ao pai que o rapaz ia acabar mal. — Qual é a casa funerária? — perguntei. — Mascogani. — Onde é que fica?  — Sabe onde é o Bimbo? — perguntou. Fiz que sim com a cabeça. — Fica do outro lado da rua, cerca de um quarteirão mais abaixo. — Obrigado. — Encaminhei-me para o sítio onde estacionara o carro. Encontrei um espaço para estacionar no Jacksom perto da casa funerária. Era um edifício com a fachada em mármore e pedra branca. Abri as portas e entrei. Fiquei parado no vestíbulo, até os meus olhos se habituarem à luz difusa e depois aproximei-me do quadro de instruções, coberto de vidro, que estava pendurado na parede. Logo a seguir, um homem vestido de escuro surgiu por detrás de mim. — Em que posso ser-lhe útil? — perguntou numa voz abafada. — Riccio? — Por aqui. Segui-o até ao elevador. Carregou num botão, e a porta abriu-se. — Não sei se a família ainda lá está. São capazes de ter ido jantar, mas pode assinar o seu nome no livro que está mesmo atrás da porta. Sala A. — Obrigado. A porta fechou-se. Quando se abriu de novo, saí. A sala A ficava mesmo do outro lado do corredor. Olhei pela porta aberta. Através de um arco que havia ao fundo da sala, vi o caixão sob um manto de flores. Enquanto me encaminhava para lá, os meus passos não se ouviam por causa da alcatifa espessa. Parei ao lado da urna e baixei os olhos. Este era, então, o homem que a minha filha tinha morto. à primeira vista parecia estar apenas adormecido. Os cangalheiros tinham trabalhado bem. Era um homem bem parecido, com cabelos negros e espessos a saírem-lhe de um bico não muito acentuado a meio da fronte alta. O nariz era direito, e forte, a boca firme, embora mesmo agora, parecesse ligeiramente sensual. Tinha as pestanas quase tão compridas como as de uma rapariga. Senti crescer dentro de mim um sentimento de piedade. Não devia ter muito mais de trinta anos. Ouvi um suspiro atrás de mim, quase um gemido. Voltei-me sobressaltado. Um homenzinho de idade estava sentado num canto da sala, ao lado do arco, numa cadeira pequena de espaldar direito. Não tinha reparado nele ao entrar, embora tivesse com certeza passado mesmo em frente do sítio onde se encontrava. Olhou para mim, com os olhos escuros a brilhar à luz das velas. — Sou o pai — disse. — Conhecia o meu filho?  Sacudi a cabeça. Aproximei-me dele. — Os meus sentimentos, Sr. Riccio. — Grazine — disse num tom pesado, perscrutando-me o rosto com os olhos cansados. — O meu Tony não era tão mau como eles dizem — afirmou. — O seu único mal foi querer demais. — Acredito, Sr. Riccio. Ninguém consegue ser tão mau como as pessoas geralmente dizem. Vozes vieram do outro lado do arco. — Papá! Com quem é que está a falar?  Voltei-me e vi um jovem e uma rapariga debaixo do arco. O jovem era muito parecido com o homem que estava no caixão, embora tivesse as feições ligeiramente mais pesadas e grosseiras. A
rapariga estava vestida de preto, aquele preto que só as mulheres italianas conseguem em momentos de luto. Tinha o cabelo coberto com uma mantilha de renda, o rosto era paciente e mostrava uma espécie de beleza triste e cansada. — Este é outro dos meus filhos, Steve — disse o velho. — E esta é a fidanzata do meu Tony, Ana Stradella. O jovem olhava-me atentamente, com um ar profundamente chocado. — Papá! — disse com voz áspera. — Sabe quem é este homem? O velho sacudiu a cabeça. — É o pai da rapariga! Não pode falar com ele. Sabe o que disse o advogado. O velho olhou para a minha cara. Depois, voltou-se novamente para o filho. — Quero lá saber do que disse o advogado! Olho para a cara deste homem quando ele tava ali ao pé do caixão. E vejo a mesma dor que eu tenho no meu coração ali na cara dele! — Mas, papá — protestou o jovem — o advogado disse para não falarmos com ele se vamos pôr um processo. Podíamos prejudicar a nossa causa! O Sr. Riccio levantou a mão. — Alto! — disse com firmeza e com uma estranha espécie de dignidade. — Mais tarde os advogados podem brigar. Nós somos iguais. Dois pais cujos filhos lhes causaram desgosto e vergonha. — Voltou-se novamente para mim. — Sente-se, Sr. Carey. Perdoe ao meu rapaz. Ele ainda é novo.  — Obrigado, Sr. Riccio.  O jovem virou-se, zangado, e saiu da sala. A rapariga ficou a olhar para nós. Puxei duas cadeiras que estavam encostadas à parede e ofereci-lhe uma. Hesitou um momento, depois sentou-se. Sentei-me na outra. — Os meus sentimentos, Miss Stradella. Acenou com a cabeça, sem dizer palavra, com os olhos muito escuros no rosto branco. — A sua pequena? — perguntou o Sr. Riccio. — Como é que ela está? Não sabia o que dizer. Até que ponto seria cruel da minha parte responder-lhe "está bem", quando o filho dele estava ali estendido num caixão a poucos centímetros de nós?  Ele adivinhou os meus sentimentos. — Pobre criança! — disse mansamente. — É ainda um bebé. — Olhou-me na cara. — Por que é que veio aqui, Sr. Carey? — Para saber alguma coisa acerca do seu filho. — Vi os olhos dele abrirem-se muito. — Não para o envergonhar — acrescentei rapidamente — mas para aprender também alguma coisa acerca da minha filha. — Obrigado pela sua compreensão. Bom, o que é que quer saber? — O seu filho tinha alguns amigos mais chegados? Encolheu os ombros. — Amigos? — perguntou. — Não. Não tinha amigos. Ana, que ia casar com ele, teria sido sua amiga. Os irmãos, o Steve e o John também teriam sido amigos dele. Mas Tony é que não queria nada com eles. Queria... queria ser um homem da alta sociedade. O velho sorriu amargamente, enquanto os olhos se lhe enevoavam com a lembrança. — Quando o Tony era miúdo, disse para mim: “Pai, pai, levanta os olhos do cais. Olha lá para cima, para o alto de Nob Rifi. Um dia vou viver para ali. Lá em cima, onde não chega o cheiro a peixe!” Eu ri-me. Tony, disse para ele, vai estudar as tuas lições. Joga baseball, como um bom menino. Talvez um dia sejas como os irmãos Di Mag e então arranjas um grande restaurante para o teu pai, aqui na doca. Deixa-te de sonhos! Mas o Tony estava sempre a sonhar. Quando acabou a escola, nada de querer ser jogador de baseball como os irmãos Di Mag. Queria era ser artista. Deixou crescer a barba e começou a andar aí pelos cafés. Vinha para casa tarde, todas as noites e levantava-se tarde todas as manhãs. Nada de ir no barco com os irmãos. Tinha as mãos macias demais. Quando fez vinte anos arranjou emprego com uma negociante de arte. Uma senhora gorda. Um ano depois arranjou outro emprego. Desta vez era uma coisa grande, Ao pé do Gump's. Um dia apareceu na minha banca com uma senhora muito bonita. "É a mulher do meu patrão", disse. Comeram camarão e santola e riram como duas crianças.
Passado pouco tempo, li no jornal que o patrão e a mulher se divorciaram. Fiquei ralado, por causa do emprego do meu Tony e então, um dia ele veio à banca num carro novinho em folha. Caro. E não traz um carro americano. Estrangeiro. “Pai”, disse ele. “Consegui! Agora trabalho para a mulher do patrão. Ela é fantástica. Muita massa. E sabe onde é que eu vivo?” Não, disse eu, onde é que tu vives, Tony? Ele apontou para a colina. “Lá mesmo em cima, pai”, disse ele. “Lá mesmo em cima, em Nob Hill, onde eu sempre disse que havia de ir viver. E sabe uma coisa, pai? É verdade. Lá em cima não se sente o cheiro do peixe!” Olhou para o caixão e depois outra vez para mim. — Ali o Tony também não sente o cheiro do peixe. Ali não sente cheiro absolutamente nenhum. Fiquei um momento sentado, em silêncio. Depois, pus-me de pé. — O senhor foi muito amável em ter querido falar comigo, Sr. Riccio. Peço desculpa de o ter incomodado numa altura destas. O velho levantou os olhos para mim e acenou com a cabeça; o olhar dele já estava distante. Olhou novamente para o caixão, mexendo os lábios em silêncio. — Vou rezar pela sua filha — disse — e pelo meu filho também.  Olhei para a rapariga. — Miss Stradella. Olhou para o velho, mas ele continuava a fixar o caixão. Os olhos tornaram-se-lhe, de repente, muito vivos. — Espere por mim lá fora! — murmurou.  Fiquei um segundo a olhar para ela, depois fiz que sim com a cabeça e atravessei a sala. Passei pelo filho mais novo, na sala exterior. Deitou-me um olhar furioso quando passei e dirigiu-se para a câmara funerária. Não esperei pelo elevador. Desci as escadas e sai para a rua. Encostei-me ao carro, à espera. A rapariga saiu e percebi que estava à minha procura. — Miss Stradella! — chamei.  Encaminhou-se apressadamente para o carro. Quando chegou ao pé de mim, olhou para trás, por cima do ombro, para a casa funerária. — É melhor metermo-nos no carro. O Steve e o pai vão sair não tarda. Não quero que me vejam a falar consigo! Abri a porta e ela entrou. Depois, fechei-a e dei a volta ao carro. Entrei e pus o motor em andamento. — Para onde vamos? — Para qualquer lado — disse nervosa. — Qualquer lado, longe daqui. Meti-me no meio do trânsito e afastei-me do embarcadouro. Fizemos um bom quilómetro antes que ela voltasse a falar. A voz dela era áspera e tensa. — Anda à procura das cartas? Deitei-lhe um olhar surpreendido. Nunca pensara que fosse tão fácil. — É você que as tem? Não respondeu. — A chantagem é uma coisa muito feia — disse. — Ainda pode apanhar mais anos de cadeia do que aqueles que tem para viver. — Eu não as tenho, Sr. Carey, Mas sei quem as tem. — Depois, os olhos dela encheram-se de lágrimas. — Diabos levem o Tony e mais a alma dele! — praguejou, zangada. — Nunca devia ter-lhe dado ouvidos. Eu devia era ter queimado aquele raio daquelas cartas logo que ele me deu! Encostei o carro à berma e desliguei o motor. — Quem é que as tem? Limpou os olhos com um lenço. Não olhou para mim. — O meu irmão. — Onde é que ele está? Quero falar com ele. Continuou a não olhar para mim.
— Não sei. Dei-lhas na sexta-feira à noite. Não voltei a vê-lo.  — Deu-lhas? — Sim. Ele apanhou-mas. Passou no meu apartamento, às dez e meia e disse-me que o Tony lhe tinha pedido para ir buscar as cartas. Eu dei-lhas, claro. Até fiquei satisfeita por me ver livre delas. Depois, às onze horas, ouvi o noticiário na TV e fiquei a saber o que é que ele ia fazer. — Como é que ficou a saber? Olhou-me. — O Lorenzo era tal e qual como o Tony. Sempre com o olho na massa. Ele estava no meu apartamento quando o Tony me deu as cartas. Ouviu o que o Tony disse. Nessa altura, eu quis queimálas, mas o Tony não me deixou. "Essas cartas são a nossa apólice de seguros", foi o que ele disse. Disse também que quando chegasse a altura de se ver livre da velha, essas cartas eram a garantia de que teríamos dinheiro bastante para o resto das nossas vidas. O Tony conseguia sempre convencer-me. Era a sua especialidade. Era sempre uma grande oportunidade. O amanhã. Quando foi trabalhar para a sua mulher, disse que era só uma questão de tempo. Não podia com ela, disse. Ficava doente só de lhe tocar, mas ela estava doida por ele e, quando chegasse a altura, ia haver dinheiro. Sempre o dinheiro. Costumava vir a minha casa para fugir dela. — Leu as cartas? Sacudiu a cabeça. — Não. Ele deu-mas num grande sobrescrito de papel pardo. Estava fechado. — Ele alguma vez lhe falou na minha filha? — Não. Espere. Falou, sim. Uma vez, há cerca do um ano. Disse que a pequena estava a crescer depressa e que, se a mãe não tivesse cuidado, ia haver uma verdadeira beleza na família. E que a velha dama não ia gostar nada disso. — Nunca disse mais nada? — Não, mais nada. — Há mais alguém, além de si e do seu irmão, que saiba da existência das cartas? Os irmãos do Tony? — Tony e os irmãos eram como o cão e o gato. Eles achavam que o Tony não prestava e ele achava-os uns palermas. Nunca lhes contava nada. Puxei de um cigarro. — O Renzo telefonou-lhe? — perguntou a rapariga. — Não. Mandou uma carta à minha ex-sogra. Disse que tinha lido as cartas e que se ela as quisesse, ia ter de as pagar por bom preço. — Olhei para ela. — Onde é que vive o seu irmão? Talvez o possamos encontrar lá. Riu-se. — Julga que eu não tentei? Fui lá à procura dele. A dona da casa disse que se tinha mudado na sexta-feira à noite, já bastante tarde. Não sabe para onde é que ele foi. — Ele tem alguma namorada? A rapariga sacudiu a cabeça. — Anda sempre por aí, mas eu não conheço nenhuma das raparigas com quem ele anda. Quando a mamã morreu, há dois anos, Renzo saiu de casa. Só o vejo quando precisa de dinheiro. — Vive sozinha? — perguntei. A rapariga fez que sim com a cabeça. Começou a chorar. — Sempre pensei que o Tony ia voltar, um dia. E tinha voltado, pensei, mas não da maneira que ela pensava. — Lamento muito, Miss Stradella. — Não vale a pena. Não estou a chorar por causa do Tony. Isso já lá vai há muito tempo. Eu sabia, embora o pai não soubesse. Agora talvez o Steve arranje coragem para falar. Nunca teria ousado, enquanto o Tony estivesse vivo.
Pensei no jovem de olhar furioso que tinha visto na casa funerária. Tinha pensado na possibilidade de haver alguma coisa entre ambos, a julgar pelo ar protector com que lhe segurava no braço. — Tenho a certeza de que ele vai falar. Secou novamente os olhos. — O que é que vai fazer com o Renzo? — Nada — disse — se conseguir localizá-lo e obter as cartas antes de quinta-feira. — E se não conseguir?  A minha voz tornou-se áspera. — Na quinta-feira, a Sra. Hayden vai negociar com ele. Quando se encontrarem para trocar as cartas pelo dinheiro, eu estarei lá com a polícia. Ficou um momento em silêncio. — Onde é que eu posso entrar em contacto consigo amanhã à tarde? — Vou andar às voltas. É melhor ser eu a telefonar-lhe. — Mas... Tirou da carteira um pequeno livrinho de notas e escrevinhou um número de telefone. Arrancou a página e deu-ma. — É o número de minha casa. Fale-me para lá às quatro. Vou ver se consigo localizar o Renzo.
 
— O que é que acha, Sally? — perguntou Marian Spicer, pondo os dois recipientes de café m cima da secretária, no meio das duas. — A pequena está realmente perturbada? A psicóloga abriu um dos recipientes e bebeu um pouco de café. — Claro que ela está perturbada. Se não fosse isso, não estaria aqui. Até que ponto, no entanto, é difícil dizer. Se o que quer saber é se a perturbação é de carácter violento, se tem tendências, digamos, para desenvolver uma paranóia, não creio. Pelo menos nenhuma que eu tenha conseguido descobrir até agora. Claro que há sempre a possibilidade de esses casos só se revelarem mais tarde. — Ela continua a não falar? — Mais ou menos. Mas já consegui perceber uma coisa, mesmo assim. Marian olhou-a com ar interrogador. — Não é grande coisa. Mas já é um ponto de partida. A Dani parece ter uma forte necessidade de que lhe garantam que a mãe gosta dela. — Isso parece apontar para um sentido de culpa em relação à mãe. A psicóloga sorriu. — Oh, Marian, essa não parece sua. A tirar conclusões precipitadas dessa maneira. Um certo sentimento de culpa em relação aos pais é sempre inevitável. — Estou a falar de culpa quanto a um acto especifico. — O que você quer mesmo dizer é que a Dani se sente culpada por ter roubado o amante à mãe. — Sim. Primeiro, sexualmente, depois fisicamente, por meio da morte. Sally Jennings acendeu um cigarro e bebeu mais um golo de café. — Em parte, aquilo que diz está certo, claro. Mas são factos recentes e não necessariamente conclusivos. O que nós procuramos é qualquer coisa de básico. Qualquer coisa que esteja enterrada no interior de Dani e que ela sente relutância em nos dar a conhecer. Se conseguíssemos arrancar-lhe isso, teríamos uma ideia do caminho a seguir. — O juiz Murphy mandou-me arranjar uma cópia do processo de divórcio dos pais. — Oh? — Sally arqueou as sobrancelhas. — E o que foi que descobriu? — Nada de especial. Sabe como são essas coisas. Tudo é combinado antes de comparecerem no tribunal. Mas há uma coisa. Mesmo no fim, a mãe de Dani tentou cortar ao coronel Carey todos os privilégios quanto a visitas. — De certa maneira, isso é normal. Todos os pais mostram um ciúme recíproco.
— Mas ela deu um diabo de uma desculpa. Disse que o coronel Carey não era o verdadeiro pai de Dani. Sally ficou um momento sentada, a pensar. — Em que é que está a pensar, Sally? — Não propriamente nisso. É uma coisa que não me surpreende. Já nada do que possa acontecer quando um casal se encontra no tribunal para um processo de divórcio me surpreende. O que eu pergunto a mim mesma é se a Dani saberá disso? — Acha que é provável? — As crianças têm uma maneira de descobrir os segredos mais escondidos. Se ela sabe, podemos muito bem estar a seguir uma pista completamente falsa. — Sally olhou para Marian. — se ao menos ela se abrisse, já saberíamos o que havíamos de recomendar. — E se isso não acontecer? — Sabe a resposta tão bem como eu, Marian. Vou ter de a mandar para Perkins, para ficar em observação durante noventa dias. Marian não respondeu. — Não posso fazer mais nada. Não podemos estar a correr riscos. Temos de ter a certeza de que a criança não tem nenhuma perturbação grave, talvez mesmo uma paranóia, antes de a deixarmos retomar qualquer coisa que se pareça com uma vida normal. Marian sentiu a frustração na voz da psicóloga. — Talvez isso não seja preciso. Talvez ela comece a falar esta tarde. — Espero que sim — disse Sally com fervor. — Quando é que você vai falar com a mãe da Dani? — Esta tarde. O melhor é ir andando. Nessa mesma tarde, Marian seguiu o mordomo, através da entrada espaçosa, passou uma bela escadaria circular de mármore. Atravessou um vestíbulo que levava a outra ala da residência. Era uma casa muito bonita, pensou, não como as que visitava geralmente durante as suas investigações. Tudo nela reflectia o sentido artístico da proprietária. Ao fundo do vestíbulo, o mordomo abriu uma porta. — Faça favor de entrar. Miss Hayden espera-a. O estúdio era espaçoso e soalheiro e a parede norte era uma placa de vidro maciço. Através dela Marian via o porto, uma das pontes e, mais além, Oakland. Nora trabalhava em frente da janela. Na mão, tinha um arco de soldador, cuspindo chamas. O rosto estava protegido com uma pesada máscara e óculos. Vestia um velho fato-macaco, manchado e desbotado, e luvas grossas. Deitou um olhar a Marian. — É só um momento — disse numa voz que a máscara tornava abafada. Marian fez que sim com a cabeça e ficou a olhá-la. Trabalhava com finas tiras de metal, soldando-as rapidamente a uma estrutura básica. O contorno geral era ainda demasiado indefinido para que Marian pudesse determinar qual viria ser o resultado final. Voltou-se e percorreu o estúdio, com os olhos. Havia diversas esculturas e estátuas, espalhadas sobre as mesas, todas elas em diferentes fases de acabamento. Madeira, pedra, metal, arame. Todo e qualquer material que se prestasse a ser moldado pela mão humana. Numa parede ampla, havia uma série de fotografias e desenhos emoldurados. Marian aproximou-se para os ver melhor. Havia um grande esboço a carvão, o desenho original da estátua ―O Homem Moribundo‖, que se encontrava agora no Museu Guggenheim de Nova Iorque Ao lado, estava uma fotografia de ―A Mulher na Rede‖, que valera a Nora o Prémio Eliofheim. Mais acima, na mesma parede, havia uma gigantesca fotografia mural do baixo-relevo em pedra ―Pacifico É o Mundo de Uma Mulher‖, encomendado pelas Nações Unidas. Havia também esboços e fotografias de outras obras, mas essas três eram as que Marian reconhecia. Ouviu um som metálico e voltou-se. Nora apagava a chama do maçarico. Esta desapareceu no meio de um sopro azulado e Nora pousou o instrumento. Empurrou a máscara para cima da cabeça e tirou as luvas.
— Desculpe tê-la feito esperar, Miss Spicer. Mas há coisas que não se podem interromper. Marian não respondeu. Esperou pela pergunta seguinte. A pergunta inevitável: Como está a Dani? Mas ela não veio. Em vez disso, Nora tirou a máscara, deixando com a mão, uma máscara dela na cara. — Estou muito atrasada com o meu trabalho. Esta história tem sido o diabo para o meu esquema de produção. — Vou tentar não lhe tirar muito tempo — disse Marian.  Nora olhou para ela e Marian perguntou a si mesma se não era um certo sarcasmo que sentira subjacente às palavras: — Vamos tomar chá enquanto conversamos.  Carregou num botão que havia na parede, ao lado da mesa de trabalho. O mordomo abriu a porta quase instantaneamente. — Faz favor, minha senhora. — Vamos tomar chá, Charles. O homem fez que sim com a cabeça e fechou a porta. Nora atravessou em direcção a um pequeno sofá que formava um recanto juntamente com algumas cadeiras e uma mesinha de café.  — Sente-se, por favor. Marian sentou-se em frente dela. — Suponho que quer que eu lhe fale da Dani. Marian fez que sim com a cabeça. — A verdade é que não sei muito bem o que hei-de dizer. — Nora tirou um cigarro de uma caixa que estava em cima da mesinha. — Dani é uma criança perfeitamente normal. Marian não conseguiu ter a certeza se Nora dizia isto em tom de aprovação ou de reprovação. Quase parecia que considerava o facto como uma espécie de falha. — "Normal" é um conceito que varia de criança para criança — disse. — Já ficámos a saber, pelos exames que fizemos, que Dani é uma criança com um alto nível de inteligência e percepção. Nora olhou para ela. — Ah sim? Fico contente em saber. — Parece admirada. — E estou, de certa maneira — admitiu Nora. — Mas também creio que os pais nunca têm verdadeiramente consciência das capacidades dos próprios filhos. Marian não respondeu. Os pais que se interessavam tinham sempre consciência. — Fale-me do comportamento de Dani em casa, em geral. Já tenho uma ideia bastante nítida de como ela se portava na escola. Nora olhou para Marian com curiosidade. — Esteve esta manhã na Escola de Miss Randolph? Marian fez que sim com a cabeça. — Parece que gostam muito dela. Tanto os professores como as colegas de Dani parecem achar que é uma criança muito simpática. Não acrescentou que achavam estranho que Dani nunca tivesse mostrado muito interesse nas actividades que as raparigas habitualmente desenvolviam lá na escola. De facto era conhecida como solitária. Parecia preferir a companhia dos adultos à das pessoas da sua própria idade, embora nas festas e bailes se relacionasse muito bem com eles. — Fico contente em saber isso — disse Nora. O mordomo entrou e ambas ficaram silenciosas enquanto o chá era servido. Quando Charles se retirou, com uma reverência, Nora olhou para Marian. — Por onde quer que comece? — Por onde quiser. Quanto mais soubermos acerca de Dani, tanto mais preparados estaremos para a ajudar. Nora fez que sim com a cabeça.
— Aqui em casa, Dani tinha uma vida perfeitamente normal. Até há poucos anos, teve uma ama... uma preceptora que estava com ela desde bebé. Depois achou que já estava crescida demais e eu deixei que a preceptora se fosse embora. — Achou? — perguntou Marian. — Refere-se à Dani? — Sim. Achou que já não era nenhuma criança.  — Quem tomava, então, conta dela? — A Dani sempre foi muito independente. A Violet, a minha criada de quarto, tratava da roupa dela, tal como tratava da minha. Fora isso, Dani não parecia precisar de qualquer atenção especial. — Ela saía muito? — perguntou Marian. — Quero dizer, se saía com raparigas e rapazes da mesma idade? Nora ficou um momento a pensar. — Não, que eu me lembre. Mas também tenho andado tão ocupada... Não segui lá muito bem a vida social da Dani. Lembro-me de como me aborrecia a minha mãe estar sempre a perguntar-me onde é que eu tinha estado. Não queria que a Dani passasse pelo mesmo. Há uns meses, ela chegou a casa, vinda de uma festa e eu perguntei-lhe como é que tinha corrido. Disse que tinha corrido bem, mas quando lhe perguntei o que é que tinham feito, respondeu-me que eram as coisas do costume. Dançar e fazer jogos. Depois olhou para mim de uma maneira esquisita e disse, numa voz irritada: "Sabe como é, mãe, jogos de crianças. É tão aborrecido, e tão infantil! Estou farta." Eu sabia o que ela queria dizer. Sentia o mesmo, quando tinha a idade dela. — Que tal é que ela se entendia com o Sr. Riccio? — perguntou Marian. Nora deitou-lhe um olhar curioso. — Muito bem — disse rapidamente.  Demasiado rapidamente, pensou Marian. Um certo tom evasivo apareceu na voz dela. — Ela gostava muito do Rick. Aliás, parecia sempre gostar muito mais dos meus amigos do que dos dela. — Refere-se a amigos homens? Nora hesitou. Depois fez que sim com a cabeça. — Acho que sim. Eu também praticamente não tenho amigas, por causa do meu trabalho. — Acha que a Dani teria desenvolvido qualquer sentimento especial em relação ao Sr. Riccio? Houve novamente uma ligeira hesitação. — É possível. A Dani sempre pareceu preferir os homens. Lembro-me de como ela gostava do meu segundo marido. Quando o Rick apareceu cá em casa, é possível que ela tenha transferido esse sentimento para ele. Acho que era assim uma espécie de figura paternal. Marian fez que sim com a cabeça. — O pai deixou de vir visitá-la quando a Dani tinha cerca de oito anos Isso custou-lhe muito. Apesar de eu ter tentado explicar muitas vezes porque é que ele não vinha. — Tenho pensado nisso — disse Marian. — Qual foi exactamente a razão que ele deu para interromper as visitas? — Na realidade, não sei. Nessa altura, ele, bebia muito. Divorciámo-nos por ele beber demais. E nos anos imediatamente a seguir, parece ter piorado. Bebia mais do que nunca e vivia em La Jolla, num barco com o qual fazia serviços de aluguer. Penso que a certa altura, se lhe deve ter tornado incómodo vir a São Francisco para ver a Dani. — Estou a ver — disse Marian — E o que foi que disse à Dani? — Que o pai estava muito ocupado e não conseguia arranjar tempo fora do trabalho para vir vê-la. Que outra coisa é que eu podia ter dito? — A Dani alguma vez mencionou algum rapaz ou rapazes em quem estivesse particularmente interessada? Nora sacudiu a cabeça. — Não me parece. — Algum homem, talvez? Pareceu a Marian que o rosto de Nora empalideceu ligeiramente.
— Exactamente, onde é que está a querer chegar, Miss Spicer?  Marian olhou-a fixamente. — Estou a tentar descobrir com quem é que ela pode ter tido relações sexuais. O rosto de Nora estava agora definitivamente pálido. — Quer dizer...? Marian fez que sim com a cabeça. — Meu Deus! — Nora ficou um momento silenciosa. — Ela não está... — Não, não está grávida. Nora soltou um suspiro de alívio. Teve um sorriso forçado. — Ao menos podemos estar gratos por isso.  Marian notou-lhe um vago ameaço de lágrimas nos cantos dos olhos. Pela primeira vez, começou a sentir pena da mulher que tinha na sua frente. — Crê que possa ter sido o Sr. Riccio? — perguntou. — Não! — disse Nora, num tom incisivo. Depois hesitou. — Quer dizer, nem sei o que pensar. O facto em si já é um choque tal... — É sempre. A voz de Nora era quase outra vez normal. — Também acho. É sempre uma surpresa quando descobrimos que os nossos filhos estão muito mais crescidos do que nós julgamos. Era uma boa maneira de pôr a questão, pensou Marian. Nada de histerias ou de condenações, nenhuma acusação. Apenas muito mais crescida. — Ela costumava ficar muitas vezes sozinha com o Sr. Riccio? — Acho que sim. Aliás, ele vivia aqui, não é? — Mas não tinha ideia de que se estivesse a passar qualquer coisa entre ambos? — Não — disse Nora em tom definitivo. — De maneira nenhuma. — Olhou para Marian com uma preocupação súbita no olhar. — Mas... a Dani disse alguma coisa? Marian sacudiu a cabeça. — A Dani recusa-se a falar. Essa é uma das coisas que torna tudo muito mais difícil. A Dani não quer falar de nada, absolutamente, nada. Pareceu-lhe que o rosto de Nora tinha recuperado um pouco a cor. — Mais chá, Miss Spicer? — perguntou Nora, enquanto a voz retomava o tom de delicadeza. — Não, muito obrigada. Nora encheu de novo a chávena. — O que é que pensa que vão fazer com a Dani? — É difícil de dizer — respondeu Marian. — Depende inteiramente do tribunal. Neste momento há boas hipóteses de ela ser mandada para o Centro de Recepção da Califórnia do Norte, em Perkins, para ficar em observação. Os psiquiatras aqui não conseguem chegar até ela o suficiente para fazer qualquer recomendação. — Mas a Dani não está louca! — Claro que não — disse Marian Spicer rapidamente. — Mas a verdade é que ela matou um homem. Pode ser um sinal de paranóia. — Ficou a olhar atentamente para Nora. — Isso é ridículo! A Dani não está mais louca do que eu! Podia muito bem ser verdade, pensou Marian para consigo mesma. Quase imediatamente, censurou-se a si própria. Não tinha o direito de fazer aquele tipo de criticas. — Vou mandar alguns médicos escolhidos por mim — disse, de repente, Nora. — Está no seu direito, Miss Hayden. E talvez seja útil. Talvez um médico escolhido por si possa conquistar mais facilmente a confiança de Dani.
 
Nora pousou a chávena do chá. Marian compreendeu que a entrevista tinha terminado. — Há mais alguma informação que eu lhe possa dar, Miss Spicer? Marian sacudiu a cabeça.
— Não creio, Miss Hayden. — Preparou-se para se levantar. — Há mais uma coisa. — Diga. — Posso ver o quarto da Dani? Nora fez que sim com a cabeça. — Vou mandar o Charles mostrar-lho. Marian subiu a escada de mármore circular atrás do mordomo. — Como é que está Miss Dani, minha senhora? — perguntou Charles por cima do ombro. — Está bem. Chegaram ao cimo das escadas e seguiram pelo vestíbulo. O mordomo parou em frente de uma
porta.
— Este é o quarto de Miss Dani. Abriu a porta e Marian entrou. No momento em que Charles entrou para o quarto, atrás dela, a voz de Nora fez-se ouvir pelo intercomunicador instalado na parede. — Charles. — Faz favor, minha senhora. — É capaz de pedir à Violet que mostre o quarto da Dani a Miss Spicer? Preciso que me faça um recado. — Imediatamente, minha senhora. — O mordomo voltou-se para a porta no momento em que a criada de cor apareceu. — Ouviste o que disse a senhora? Violet fez que sim com a cabeça. — Sim, senhor.  Charles fez uma reverência e saiu. A criada entrou e fechou a porta atrás dela. Marian parou no meio do quarto e olhou em volta. Era um quarto muito bonito. Havia uma cama com baldaquino e quatro colunas colocadas em cima de uma pequena plataforma e encostada à parede do fundo. Televisão, rádio e gira-discos formavam um conjunto, encostado à parede em frente. Marian não precisou de olhar para ver que podiam ser comandados pelo controlo, à distância, situado à cabeceira da cama. As cortinas eram de chita amarelo-viva, a colcha no mesmo material, a condizer. Perto da janela, havia uma secretária em cima da qual se via uma máquina de escrever portátil e alguns livros. Havia ainda um toucador, uma cómoda e várias cadeiras. Marian voltou-se para a criada. — A Dani não tinha fotografias nem recortes nas paredes? A criada sacudiu a cabeça. — Não, minha senhora, a Dani não ligava a essas coisas. — O que é que está ali? — perguntou Marian apontando para uma porta dupla na parede em frente. — É um armário. O quarto de banho dela é por aquela outra porta. Marian abriu a porta do armário e olhou para dentro. Logo que a porta se abriu, acendeu-se uma luz. Havia filas de vestidos cuidadosamente pendurados, e sapatos numa grande circular giratória. Fechou as portas e ouviu o estalido quando a luz interior se apagou. — Onde é que a Miss Dani tem as suas coisas pessoais?  — No toucador. Marian abriu a gaveta de cima e olhou. Também ali estava tudo cuidadosamente arranjado, lenços e meias em compartimentos diferentes. O mesmo acontecia com as outras gavetas. Soutiens, cuecas, tudo cuidadosamente dobrado. Marian aproximou-se da secretária e abriu uma gaveta. Lápis, canetas, papel, tudo arrumado nos seus lugares. Perguntava a si mesma onde estava a habitual desordem de adolescente. Não parecia o quarto de uma rapariguinha. Olhou para a criada. — Ela tem sempre o quarto assim arrumado?  Violet fez que sim com a cabeça. — Sim, minha senhora. Ela é muito arrumada. Não gosta de ter as coisas desarranjadas.
— O que é que ela tem ali? — perguntou Marian apontando para a cómoda. — Ela chama-lhe a arca do tesouro. Tem-na sempre fechada à chave. — Você tem a chave?  A rapariga sacudiu a cabeça. — E a mãe? — Não, minha senhora. Miss Dani é que sempre guardava. — E sabe onde ela está? — A rapariga olhou um momento para Marian. Depois fez que sim com a cabeça. — Pode emprestar-ma, por favor? A criada hesitou. — Miss Dani não vai gostar.  Marian sorriu.  — Não faz mal. Pode perguntar a Miss Hayden. A rapariga mostrou-se duvidosa durante alguns momentos, depois, aproximou-se da cabeceira da cama e meteu a mão pela parte de trás. Tirou de lá uma chave que estendeu a Marian. Marian deu a volta à fechadura. Todos os recortes e fotografias estavam ali. Talvez não houvesse nenhum nas paredes, mas Dani tinha tudo guardado. Folheou-os rapidamente: havia fotografias do pai, tiradas havia anos, quando ainda andava fardado. E da mãe, uma delas na capa da revista Life, datada de 1944. Havia várias fotografias dela própria, sozinha e com os pais; fotografias de um barco. Marian conseguiu distinguir o nome escrito na popa branca. A Pequenina Dani. A segunda gaveta estava cheia de recortes de jornais referentes à mãe. Dani tinha-os ordenado cuidadosamente, de maneira a formarem a história cronológica da carreira da mãe. A terceira gaveta continha exactamente as mesmas coisas que a segunda. Só que o assunto era o pai. Marian percorreu rapidamente todo o material, pensando que a pequena devia ter passado bastante tempo a compilar tudo aquilo. Uma boa parte datava de uma época em que ela nem sequer era nascida. A principio, a gaveta do fundo parecia só conter lixo. Havia brinquedos partidos. Brinquedos de criança. Um ursinho de lã, gasto e desbotado, ao qual faltava um dos olhos de vidro. E uma caixa de couro verde. Marian tirou-a para fora e abriu-a. Continha apenas uma fotografia brilhante, catorze por dezoito, de um jovem sorridente e bem arrumado. No canto, havia uma inscrição a tinta preta: "Para a Minha Pequenina, com Amor". Estava assinada Rick. Quando Marian pegou na fotografia para a observar, reparou numa pequena caixinha de metal que estava por baixo. Chamaram-lhe a atenção as letras escuras e nítidas: "Os melhores da América". Não precisou abrir a caixa para saber o que estava lá dentro. Já tinha visto muitas. Parecia ser a marca preferida dos adolescentes. Compravam-nos em quase todos os toilettes públicos do país inserindo uma moeda de cinqüenta cêntimos numa máquina automática.
 
Sally Jennings levantou os olhos da secretária quando Dani entrou no pequeno gabinete. — Senta-te, Dani. — Empurrou o maço dos cigarros em direcção a ela. — São só uns minutos. Tenho de acabar este relatório. Dani pegou num cigarro e acendeu-o. Ficou a ver a caneta da psicóloga voar por cima do papel de apontamentos, amarelo e com linhas. Passados momentos, cansou-se e pôs-se a olhar pela janela. Era ao fim da tarde e o sol forte começara a tomar uns vagos tons alaranjados. De repente desejou estar fora dali. Perguntou vagamente a si própria qual seria o dia da semana. Tinha perdido a noção do tempo. Olhou para o calendário que estava na parede. Quarta-feira. Tinha entrado no sábado. Aquele era, portanto, o seu quinto dia. Mexeu-se na cadeira, inquieta. Parecia que já tinha passado muito tempo. Olhou para o céu. Devia ser agradável estar lá fora. Perguntava a si própria como é que estaria do outro lado na rua. Se andaria por lá muita gente; se o trânsito seria muito intenso; até mesmo qual seria a sensação de sentir o empedrado dos passeios de encontro às solas dos sapatos. Desejou poder ver a rua. Mas não podia. Era impossível, de qualquer daquelas salas. As janelas eram pequenas e colocadas muito alto.
Olhou novamente para Miss Jennings, mas ela continuava a escrever, com as sobrancelhas franzidas num gesto de concentração. Dani perguntou a si mesma quanto tempo teria de ficar ali sentada, antes que a psicóloga acabasse o que estava a fazer. Olhou novamente para o céu. Havia pequenas nuvens cor de laranja, voando, lá muito alto. Lembrava-se de umas nuvens como aquelas, uma vez em Acapulco. Muito altas no céu, por cima dos rochedos, no sítio onde os rapazes saltavam à noite para o mar, com tochas a arder nas mãos. Havia lá um rapaz. Sorrira-lhe, com os dentes brancos a brilharem-lhe no rosto escuro. E ela tinha-lhe devolvido o sorriso. Rick ficara zangado. Dani tinha olhado para ele, com aquela expressão inocente, de olhos muito abertos, que o punha ainda mais furioso. Sabia que ele pensava que isso a fazia ficar mais parecida do que nunca com a mãe. — Por que não? — tinha perguntado. — Parece um rapaz tão simpático. — Não conheces estes rapazes. Não são como os outros. Vão andar atrás de ti. Não sabem que tu ainda és uma criança. Fez um sorriso cheio de doçura. — Por quê, Rick? — Tinha visto os olhos dele pousarem-lhe rapidamente no fato de banho branco. Rick corou. Ela sabia o que é que o tinha feito corar. Já o tinha apanhado muitas vezes a olhar para ela. — Por quê, Rick? — Porque tu não pareces uma criança, é só isso — disse zangado. — Não pareces ter só treze anos. — Que idade é que eu pareço ter, Rick?  Viu-o olhar de novo. Era quase involuntário da parte dele. — Estás muito crescida. Dezassete, ou talvez mesmo dezoito.  Sorriu-lhe. Depois voltou-se para olhar para o rapaz, porque sabia que isso poria Rick ainda mais furioso. A mãe tinha chegado naquele momento. — Que chatice, Rick. O Scaasi quer que eu tome o avião para São Francisco esta noite, para assinar os tais contratos. — Tens mesmo de ir? — Tenho. — Então vou fazer as malas — disse Rick, pondo-se de pé. — Não, não é preciso irmos todos. Tu e a Dani podem ficar. Eu estou de volta amanhã, à hora do almoço. — Vou contigo até ao aeroporto. Dani pôs-se de pé. — Eu também vou, mãe. Quando voltaram do aeroporto, depois de o avião ter levantado vôo, passaram por uma loja de souvenirs, uma dessas lojas para turistas que vendem tudo, desde jóias baratas a saias e blusas camponesas. Dani ficou a olhar para as saias que estavam na montra. — Queres uma? — perguntou Rick.  Tinham entrado e ele tinha-lhe comprado uma saia e uma blusa. Usara-as nessa noite para o jantar, com o cabelo caído, sobre os ombros, como uma espécie de pajenzinho mexicano. Viu-o abrir muito os olhos.  — O que é que achas? — perguntou.  — Acho que estás uma beleza. Mas... — Mas o quê? — A tua mãe. Não sei o que é que ela vai achar. Dani riu-se. — A mãe não vai gostar. Ela preferia que eu ficasse eternamente criança, mas isso não é possível. Foram jantar fora e o criado tinha-lhe perguntado se queria um cocktail, tal como se fosse uma pessoa crescida. E mais tarde quando a orquestra começou a tocar, tinha pedido a Rick que dançasse com ela. Tinha sido um verdadeiro sonho. Não era como dançar com os rapazes lá da escola.
Agradava-lhe o cheiro dele, com um leve toque de colónia, o aroma ligeiro do uisque na respiração. Comprimiu o corpo de encontro ao dele. Gostava de lhe sentir os braços fortes a segurá-la. Dani suspirou e moveu os lábios sensualmente ao ritmo da música Catana. De repente ele falhou um passo, praguejou e, em seguida, afastou-a com brusquidão. — Acho melhor irmo-nos sentar.  Obediente, deixou que ele a conduzisse de novo para a mesa. Rick pediu outra bebida e levou-a à boca rapidamente. Não disse nenhuma palavra. Passados momentos, Dani falou. — Não te sintas embaraçado. Já vi acontecer-te a mesma coisa quando estavas a dançar com a mãe. Olhou-a de maneira especial. — Às vezes penso que vês coisas a mais. — Estou satisfeita por isso ter acontecido. Agora tenho a certeza de que já sou crescida. Ele corou e olhou para o relógio. — Passa das onze. Já devias estar deitada. Dani ficou estendida em cima da cama, ouvindo os ruídos da noite que entravam pelas janelas abertas. Os luxuriantes sons tropicais, de pássaros e grilos, estalidos de árvores e roçar de palmeiras. Depois ouviu o telefone tocar no quarto dele. Passados momentos, fez-se de novo silêncio. Abruptamente, saltou da cama e atravessou a sala da suíte em direcção à porta do quarto de Rick. Ficou um momento à escuta. Não havia barulho nenhum do outro lado. Deu a volta ao puxador, suavemente e entrou. Na escuridão viu que a porta para o quarto da mãe na parede do outro lado estava aberta. Depois olhou para a cama dele. — Foi a minha mãe que telefonou?  Ele voltou-se de lado, com o lençol puxado até à cintura. — Foi.  — O que é que ela queria? — Nada. Disse que estará de volta amanhã.  Aproximou-se mais da cama e ficou a olhar para ele. — Ela estava era a vigiar-te. A mãe não gosta de correr riscos. Foi uma sorte estares no quarto. — Eu faço aquilo que quero — disse, zangado.  — Claro — disse.  — Com certeza.  — Não achas que era melhor ires outra vez para a cama? — Não tenho sono. — Não podes continuar aqui. Não tenho nada vestido por baixo do lençol. — Eu sei — disse Dani. — Mesmo às escuras já tinha visto. Rick sentou-se na cama. Ela via-lhe os músculos dos braços e do peito contraírem-se quando se mexia. A voz dele estava rouca. — Não sejas tola. Tu não passas de uma criança.  Aproximou-se mais e sentou-se na beira da cama.  — Não foi isso que pensaste esta tarde quando aquele rapaz sorriu para mim. Ficaste cheio de ciúmes. — Não fiquei nada.  — E também não pensaste que eu era uma criança quando andávamos a dançar.  Abriu a parte de cima do pijama. Viu os olhos dele dirigirem-se-lhe para os seios, como que atraídos por um ímã. Sorriu.  — Achas que pareço uma criança?  Ficou a olhar para a cara dela, sem falar. Dani pôs a mão em cima do lençol.  Ele agarrou-lha com força. — O que é que estás a fazer? — perguntou numa voz quase chocada. — De que é que tens medo? — O olhar dela tomou uma expressão de desafio. — A mãe nunca há-de vir a saber.
Olhou-a nos olhos, enquanto ela lhe encostava a mão aos seios. — Vou magoar-te — sussurrou.  — Eu sei. Mas isso é só a primeira vez.  Rick parecia incapaz de se mexer. — Ainda és pior do que a tua mãe!  Ela riu-se e, de repente, deixou deslizar a mão para debaixo do lençol. — Não sejas pateta, Rick. Eu já não sou uma criança. Sei muito bem que tu me amas. Tenho visto a maneira como olhas para mim. — Eu olho para muitas raparigas — disse. Os dedos dela acariciavam-no suavemente.
 
— Dani. — A voz de Miss Jennings interrompeu-lhe o sonho. — Dani. A jovem voltou-se para a psicóloga. — Faz favor, Miss Jennings. A mulher de cabelos grisalhos sorriu. — Estavas muito longe daqui. Em que é que estavas a pensar? Dani sentiu a cor subir-lhe à cara. — Estava... estava a pensar em como deve estar bom lá fora. A psicóloga olhou para ela. Dani sentiu que Miss Jennings, sabia em que é que ela tinha estado a pensar e ficou ainda mais corada. — Se tivesse de estar sempre aqui, também pensava o mesmo!  Sally Jennings fez que sim com a cabeça. — Acho que sim — disse, pensativa. — Mas eu não tenho de estar sempre aqui. Tu é que tens. — Também não vai ser por muito tempo! Só até a semana que vem. Depois já posso voltar para casa! — Estás mesmo convencida disso, Dani? Dani ficou a olhar para ela. Pela primeira vez, começou a sentir dúvidas. — Foi o que todos me disseram. — Quem? — A voz de Miss Jennings era muito calma. — Os teus pais? Dani não respondeu. — Parece que não deste muita atenção ao que o juiz Murphy te disse no tribunal. Isso não depende dos teus pais. O juiz é quem decide o que tu vais fazer. E ele tanto pode fazer que fiques aqui, como mandar-te para Perkins para ficares em observação ou mandar-te para casa. Ele é que decide o que é melhor para ti. — Ele não pode obrigar-me a ficar aqui!— ripostou Dani. — O que é que te faz dizer isso, Dani? — perguntou Miss Jennings. — Não achas que a razão que levou a que viesses para aqui é suficiente, só por si, para te obrigar a permanecer cá? Dani baixou os olhos para o chão. — Mas eu não fiz aquilo por querer — disse num tom sombrio. — O simples facto de dizeres que não foi por querer não chega para convencer o juiz Murphy de que deve mandar-te para casa. Todas as crianças que são trazidas para aqui dizem a mesma coisa. — Miss Jennings pegou num cigarro.  — Tens de lhe mostrar, por acções, que se ele te deixar ir para casa, não vais arranjar novos problemas. — Afastou os papéis que tinha em cima da mesa. — Estou precisamente a encerrar o processo de uma rapariga que já aqui esteve várias vezes. Desta vez o juiz vai mandá-la para outro lado. Não se mostrou digna de confiança. — Olhou para Dani. — Creio que a conheces. Está no quarto ao lado do teu. — Está a falar da Sylvia?  Miss Jennings fez que sim com a cabeça. — Por quê? — perguntou Dani. — É muito boa rapariga. — Talvez seja para ti. Mas está sempre a meter-se em sarilhos. — O único problema que ela tem é ser doida por rapazes. 
Miss Jennings sorriu. — Esse é apenas um dos problemas — disse. — Ela é promiscua. É a terceira vez que aqui vem parar. De cada uma delas foi apanhada com um rapaz diferente e tinha convencido qualquer deles a roubar um carro para poderem ir dar uma volta. Não só não tem grandes escrúpulos quanto ao seu comportamento pessoal, como exerce má influência sobre quem está em contacto com ela. — E o que é que lhe vão fazer? — Provavelmente, vai ser mandada para uma casa de correcção até fazer dezoito anos. Dani ficou em silêncio. — Tentei ajudá-la, mas ela não me deixou. Pensava que sabia tudo. Mas afinal não sabia, não achas? — Acho que não — admitiu Dani. Miss Jennings empurrou a resma de papéis para o lado e pegou noutra folha de papel, que segurou de maneira a que Dani pudesse ler o que estava escrito nela. — Tenho aqui um relatório de Miss Spicer — disse, carregando com o joelho no botão do gravador que estava instalado na secretária. — Esteve hoje na Escola de Miss Randolph e depois foi falar com a tua mãe. — Ah, sim? — disse Dani delicadamente. — Os professores e os teus colegas parecem ter uma óptima opinião a teu respeito. Dizem que te davas bem com toda a gente. — Ainda bem. — A tua mãe ficou muito surpreendida quando soube que estavas a ter relações sexuais com o Sr. Riccio. A voz de Dani encheu-se de fúria. — Quem é que disse isso? — É verdade, não é? — Não, não é verdade! — retorquiu Dani. — Quem quer que foi que disse uma coisa dessas é um mentiroso! — Então para que era isto? — Miss Jennings tirou uma caixinha de metal da secretária. — Encontraram isto dentro de uma caixa, por debaixo da fotografia dele. Dani deitou-lhe um olhar furioso. — Foi a Violet! — disse, zangada. — Ela sabia onde é que eu tinha a chave! — Quem é a Violet? — É a criada da minha mãe. Anda sempre a bisbilhotar tudo o que eu faço! — Não estás a responder à minha pergunta, Dani — disse Miss Jennings com voz áspera. — se não foi o Sr. Riccio, então quem era? — Por que é que tem de ser alguém? — ripostou Dani. — Só por eu ter isso dentro de uma gaveta? — Estás a esquecer-te de uma coisa, Dani. Foste examinada por uma médica quando chegaste. — Pegou noutra folha de papel. — Queres que te leia o relatório dela? — Não é preciso — disse Dani num tom sombrio. — Isso também podia ter acontecido a andar a cavalo. — Isso não parece teu. Essa já é muito velha. — Inclinou-se para a frente. — Estou apenas a tentar ajudar-te, Dani. Não quero que o juiz te mande para longe, como a Sylvia. Dani ficou a olhar para ela, em silêncio. — O que foi que aconteceu? Ele violou-te? — Sally olhou para Dani com uma expressão muito séria. — se foi isso, diz-me. Talvez ajude o juiz a compreender porque é que fizeste o que fizeste. Levaria isso em conta quando chegasse a altura de tomar uma decisão. Dani ficou um momento em silêncio, a olhar para os olhos da mulher. — Sim — admitiu por fim, em voz baixa. — Ele violou-me. Sally Jennings, por sua vez, ficou a olhar para ela. Não disse nada. — Então? — perguntou Dani. — Não era isso que queria que eu dissesse?
A psicóloga recostou-se na cadeira com um suspiro de frustração. — Não, Dani. Queria era que me dissesses a verdade. E não é isso que estás a fazer. Estás a mentir. — Carregou novamente desta vez para desligar o gravador. — Se me mentes, não te posso ajudar. Dani baixou os olhos. — Não quero falar nesse assunto, Miss Jennings. Não quero sequer pensar no que quer que seja que tenha acontecido antes. Só quero esquecer tudo. — Não é assim tão fácil, Dani. A única maneira que tens de te livrar do que te incomoda é trazê-lo à luz do dia e encará-lo de frente. Então compreenderás porque é que fizeste o que fizeste e saberás como evitar que aconteça de novo. Dani não respondeu. A psicóloga carregou na campainha para chamar uma enfermeira. — Pronto, Dani — disse em voz cansada. — Podes ir. Dani pôs-se de pé. — Amanhã à mesma hora, Miss Jennings? — Não creio, Dani. Acho que já chegámos até onde podíamos chegar. Não vale a pena prolongarmos as discussões, pois não? Dani olhou para ela. — Acho que não, Miss Jennings.  — Claro que eu estarei aqui, caso venhas a querer falar comigo.  — Sim, Miss Jennings.  Alguém bateu na porta de vidro. A psicóloga pôs-se de pé. — Boa sorte, Dani. — Obrigada, Miss Jennings. — Dani encaminhou-se para a porta. Depois, voltou-se para trás. — Miss Jennings? — O que é, Dani? — Com respeito à Sylvia — disse. — Não acha que ela não se teria metido em sarilhos, se todos os rapazes que conheceu tivessem carro? Miss Jennings disfarçou um sorriso involuntário. Era uma cura como qualquer outra para certos tipos de delinquência juvenil. Dar a cada um o seu próprio carro. — Não creio — disse, mantendo-se tão séria quanto possível... — Compreendes que aquilo que Sylvia fez estava errado. Se não fossem os carros que ela queria que os rapazes roubassem, teria sido outra coisa. O que Sylvia estava realmente a tentar era fazê-los provar que eram dignos dos seus favores. Sentia que, se eles fizessem qualquer coisa de verdadeiramente errado, já não sentiria tanto o peso daquilo que ela própria estava a fazer. Era uma compensação para o seu próprio comportamento. — Estou a ver — disse Dani, pensativa. Olhou para a psicóloga. — Provavelmente ainda falamos antes de eu me ir embora, não? — Quando quiseres, Dani — respondeu Miss Jennings. — Cá estarei.
 
A Costa Bárbara não passa de uma série de edifícios cinzentos e sujos, usados agora principalmente como armazéns e pequenas fábricas. Perdido no meio deles encontra-se, ocasionalmente, um night club, lutando pela sobrevivência, à custa dos pecados e do custo de um passado já muito remoto. Os melhores ficam em lojas de rés-do-chão e a sua especialidade é o jazz. Alguns são locais modernos, outros estão dentro do estilo de Chicago e Nova Orleans. Atraem os aficcionados e os estudantes, que se sentam por lá, como que perdidos numa espécie de sonho, a ouvir os sons estrangeiros produzidos em nome de uma nova forma artística. Os piores entre eles são simples imitações do que de mais reles existe lá para North Beach. Hungry's de segunda categoria ou Cebolas Roxas maduras de mais. A Árvore das Patacas pertencia à segunda categoria. Olhei para o relógio quando parei à porta. Era quase meia-noite. Havia uma fotografia comprida e estreita de cada lado da porta. Ambas exactamente iguais. Uma mulher já de idade avançada, pesada e de olhar furtivo, vestindo um fato de noite bordado a lantejoulas, muito justo, de um tamanho que estava quatro números abaixo para a
figura fortemente espartilhada e com a boca cheia do que de mais moderno havia em dentaduras. Por cima das fotografias havia uma inscrição em letras bem grandes, LÁ DENTRO: MAUD MACKENZIE! Se eu andasse à procura de um espectáculo que me atraísse, aquela fotografia seria a última coisa no mundo que me poderia seduzir. Mas não andava. Era ali que Ana Stradella trabalhava e eu tinha combinado encontrar-me com ela depois do último espectáculo. Ana era o fotógrafo do clube. — Entre, meu caro — disse o porteiro. — O espectáculo está quase a começar. Olhei para ele. — Acho que é isso que vou fazer.  Abriu a boca num sorriso e piscou-me o olho. — Se se sentir nervoso ali sentado, sozinho, às escuras — disse — basta dizer ao criado que o Max mandou ele tomar conta de si. — Obrigado — disse e entrei. Tal como a rua cá fora estava escura, lá dentro estava escuro a valer. Até as nossas próprias mãos parecia que pertenciam a outra pessoa. O peitilho branco da camisa do chefe de mesas brilhava na escuridão. — Tem reserva?  Sorri para comigo mesmo. Via toalhas brancas que chegavam para fazer um bom anúncio na TV. — Não, mas não faz mal. Eu sento-me no bar. — Desculpe — disse o homem com brandura — não servimos no bar a não ser nos fins-desemana. Não havia dúvida de que os clientes eram pressionados. O negócio não devia ser lá muito e os três dólares extras que cobravam pelas toalhas eram assim tão importantes. — Tenho uma boa mesa, mesmo à frente. A única coisa que ele tinha eram boas mesas, mesmo à frente. Talvez umas dez mesas num total de sessenta estavam ocupadas. O criado segurou na cadeira enquanto eu me sentava, depois ficou por ali à espera do pão. Deilhe uma moeda e ele desfez-se. Talvez não tivesse ficado muito satisfeito, mas sempre era melhor do que ser ignorado. O criado caiu-me em cima e eu pedi bourbon. Não precisei de lhe acrescentar água. Pelo visto, punham na garrafa. Levei o copo à boca e olhei em volta. Não vi Ana Stradella em parte alguma. Tinha-lhe telefonado naquela tarde, como ela me tinha dito. — Encontrou o seu irmão? — tinha-lhe perguntado. — Ainda não. Mas espero saber alguma coisa, ainda esta noite. — Posso telefonar-lhe mais tarde. — Chego a casa de madrugada. Talvez fosse melhor ir-me buscar ao sítio onde eu trabalho. Aí, se eu já tiver alguma informação, podemos começar logo a fazer qualquer coisa. — Ok, onde é? — Árvore das Patacas. É um night club na... — Eu sei onde é — respondi.  A surpresa na minha voz deve ter sido mais do que evidente. — Sou o fotógrafo da casa. Trabalho para o concessionário. Das cinco as oito, faço a hora do jantar num dos restaurantes da doca. A partir das nove, estou no clube. — A que horas é o último espectáculo? — Esta noite só há dois espectáculos: as dez e a meia-noite. O último deve acabar uns minutos depois da uma. — Vou lá buscá-la a essa hora. — Óptimo. O melhor é entrar. Se ainda não souber nada, digo-lhe isso mesmo e escusa de perder tempo.  — Ok.
— E não entregue o carro ao porteiro. Pregam-lho com dois dólares a mais pelo serviço. É uma verdadeira armadilha. Um quarteirão mais abaixo tem muito espaço para estacionar. — Obrigado. Depois de pousar o telefone, tinha marcado o número da minha ex-sogra. — A rapariga ainda não sabe onde é que ele está. Ficou combinado eu ir ter com ela, mais tarde. Se já souber alguma coisa nessa altura, leva-me até junto dele. — Entretanto, já terão saído os jornais da manhã. O anúncio terá sido publicado. Ele vai saber que estamos dispostos a pagar. — O que é que tenciona fazer? — perguntei. — Quero essas cartas. Faça um acordo com ele, se for necessário. Não podemos arriscar-nos a que caiam nas mãos erradas. — Já estão nas mãos erradas. — Não faça nada que agrave a situação. — Não, não farei. — O que é que faz amanhã à tarde? — Nada, que eu saiba — respondi. — A Nora e o Gordon vêm cá. Temos de apresentar ao tribunal um plano em relação à Dani. O Dr. Bonner e o director da escola da Dani também vêm. Pensei que também deve querer vir. — A que horas? — Três e meia. — Lá estarei. — Informa-me do que se passar esta noite? Telefone-me, seja a que horas for. — Está bem, eu telefono. Passou mais de meia hora antes que Maud Mackenzie entrasse em cena. Entretanto tinham aparecido mais alguns anjinhos e a casa estava mais ou menos a um terço. Maud Mackenzie correspondia exactamente às fotografias que estavam do lado de fora. Entrou para a luz branca do foco, percorreu a sala com os olhos, contando as pessoas e depois sentou-se ao piano e declarou que era assim mesmo que ela gostava de trabalhar: em pequenas festas intimas. Com a idade que tinha já não agüentava coisas muito grandes, como no circo. O público riu-se, mas eu percebi que estava decepcionada. Devia estar a trabalhar à percentagem e aquilo era o mesmo que trabalhar de graça. Lançou-se imediatamente numa canção acerca dos bons velhos tempos e do como tinha conseguido chegar à Costa Bárbara num carro fechado. Olhei para a velha saca de batatas a transpirar sob a luz do foco e pensei em como teria sido melhor se os índios a tivessem apanhado. — Quer uma bonita fotografia sua, cavalheiro?  Voltei-me e, na penumbra do foco, Ana Stradella parecia saída de um filme italiano. O fato minúsculo e o colante preto de rede davam-lhe um aspecto completamente diferente. Os ombros largos, o peito fundo, a cintura estreita e os quadris largos e confortáveis. La Dolce Vita. Sophia Loren pelo caminho mais difícil. Pus-me a abanar a cabeça. Sorriu-me. — Deixe-me fotografá-lo. — Depois, num tom abafado, sussurrou rapidamente. — O patrão está a olhar. Tenho de ter uma razão, para continuar a falar consigo. — Ok — respondi. — Mas espero que saia coisa capaz. Sorriu e fez qualquer coisa com a máquina. Levou-a à cara, pôs-se a mexer no visor. Inclinou-se sobre mim. Agora já percebia o que era que as raparigas italianas faziam com toda aquela pasta — Volte a cadeira, assim — disse em voz alta, empurrando-me para a esquerda. Verificou novamente o visor. — Assim está melhor. Recuou e encostou a máquina fotográfica à cara. O flash disparou e eu pestanejei para afastar as luzes verdes e vermelhas. Ana aproximou-se novamente da mesa. — Vou escrever na parte de trás da fotografia o sítio onde deve ir-me buscar — murmurou. — Encontrou-o? Ela fez que sim com a cabeça e endireitou-se. Vi-a pestanejar e pressenti, mais do que vi, o homem que passou por nós.
— Está muito bem. Daqui a quinze minutos tem a sua fotografia. Deu meia volta e afastou-se. Fiquei um momento a olhar para ela. Era o último emprego que eu poderia imaginar que tivesse quando a vi, pela primeira vez, na casa funerária. Mas a verdade é que nunca se sabe, não é? — Deseja outra bebida? — perguntou o criado.  Levantei os olhos e fiz que sim com a cabeça. Que raio, metade era água! O resto do espectáculo foi tão mau como a primeira canção. Maud Mackenzie não era uma Pearl Williams, nem uma Belle Barth, mas tinha a mesma dureza. E os clientes que lá estavam não pareciam importar-se. Engoliram tudo. Afinal devia ser melhor do que o programa da televisão, numa noite livre de quarta-feira. Era uma e quarenta e cinco quando meti o carro no quarteirão oitocentos da Jacksom. e estacionei debaixo de um candeeiro. Desliguei o motor e olhei outra vez para a fotografia. Não estava má, se pensássemos onde tinha sido tirada. Virei-a. O recado tinha sido escrito com lápis macio, daqueles que os fotógrafos usam para retoques. As palavras tinham sido rabiscadas à pressa Quarteirão 800 - Rua Jacksom. Pousei a fotografia no assento, ao meu lado, e acendi um cigarro. Ela apareceu passados cerca de dez minutos, saindo de um táxi, na esquina, atrás de mim. Olhei para o retrovisor quando ouvi o bater da porta. Localizou imediatamente o carro e veio em direcção a mim. Trazia o estojo da máquina fotográfica pendurado ao ombro numa correia de couro comprida a bater-lhe de encontro ao corpo enquanto andava. Inclinei-me e abri a porta. — O que foi que conseguiu descobrir? — perguntei, depois de ela entrar. O olhar da rapariga estava perturbado. — Não gosto desta história, Sr. Carey. O Renzo não está metido nisto sozinho. Talvez fosse melhor nós não interferirmos. — Já descobriu onde é que ele está a viver? — perguntei, impaciente. Fez que sim com a cabeça. Liguei o motor. — Então vamos. Para onde é? — O Renzo tem um apartamento por cima de um saloon perto de Giff House. Engrenei o carro e arrancámos. Olhei-a de relance. A cara dela continuava a ter a mesma expressão perturbada. — Por quê tanto mistério? — Já lhe disse, o meu irmão não está metido nisto sozinho. Por detrás dele, há pessoas muito importantes. — Quer dizer que achou que era caça grossa demais para ele? — perguntei sarcástico. — Sim. Foi ter com um amigo dele que era também um grande amigo do Tony. — Quem é o tipo? — Charley Coriano.  Olhei-a de relance. O rosto dela estava impassível. Se aquilo era verdade, o rapaz tinha começado a jogar forte. Charley Coriano tinha fama de estar metido em tudo o que de ilegal se fazia em São Francisco. Claro que nunca ninguém tinha conseguido provar nada, assim como também nunca tinham conseguido apanhar Mickey Cohen em nada de mais vulto do que uma fuga aos impostos. Mas a fama estava lá. — Onde é que ouviu isso? — No trabalho. Foi uma das raparigas que me disse. — E como é que ela sabia? — Porque anda com um dos homens do Coriano. — E o que foi que a levou a contar-lhe? Olhou para mim. — Ela julgava que eu também estava metida nisso. Coriano é o concessionário da companhia em que eu trabalho. — Afinal quem é que tem as cartas? Coriano ou o seu irmão?
— Não sei. — Bom, só há uma maneira de ficarmos a saber. — Não quero que aconteça nada de mal ao meu irmão. — Isso é com ele — respondi. — Não fui eu que lhe escolhi os amigos, a escolha foi dele. Havia muito tempo que eu não ia para aqueles lados. Desde que tinha levado a Dani ao Sutro para ver os brinquedos mecânicos, quando ela não passava de um bebé. Lembrava-me de como ficara entusiasmada. Meti o carro num parque de estacionamento e olhei em volta. Nada mudara. As mesmas barracas a vender cachorros quentes, as pizzarias e bares baratos. Só que agora a cerveja e os cachorros custavam o dobro. Ana indicou-me um saloon. — Vamos ali primeiro. Ele pára muito por lá. Segui-a até ao saloon. Era tarde e não havia muita gente no bar. Uma parelha de casmurros a saborearem a sua última bebida e alguns rapazotes a beberem cerveja. O barman aproximou-se, sacudindo o bar com a toalha. — Olá, Ana.  — Olá, Johnny. O Renzo esteve por cá hoje?  Os olhos dele pousaram-se um momento em mim e depois dirigiram-se de novo para ela. — Sim, esteve cá mais cedo. Mas já saiu. — Obrigada, Johnny.  Voltou-se para sair, mas ele chamou-a. — Lamento o que aconteceu ao Tony. Era um tipo catita. Sempre gostei dele. — Obrigada, Johnny — disse outra vez. Saí atrás dela. — E agora? — Vamos por esta rua e subimos as escadas nas traseiras do edifício. Encaminhei-me na direcção indicada, mas a mão dela no meu braço fez-me parar. — Não vamos — disse, olhando-me nos olhos. — O barman quis avisar-nos. — O que é que a leva a dizer isso? — Deu-me a entender quando falou do Tony daquela maneira. Sei muito bem que ele o detestava. Uma vez brigaram e ele quase matou o Tony. Fiquei a olhar para ela. — O saloon também pertence ao Coriano? Fez que sim com a cabeça. — Talvez seja melhor deixá-los tratar disto à maneira deles. — Continuava com a mão pousada no meu braço. — Você é um homem simpático. Não gostava que lhe acontecesse nada de mal. — É o futuro da minha filha que eles têm nas mãos. Não precisa de vir comigo, se não quiser. Pode esperar no carro. — Não — disse, nervosa, puxando com a mão a tira de estojo da máquina. — Eu vou consigo. Olhei para ela. — Por que é que não deixou isso no carro? Não vale a pena andar por aí com uma máquina tão pesada às costas. — Roubam tudo, aqui nestes sítios — disse. — Esta máquina custou-me duzentos dólares. Era uma escada de madeira que se erguia no exterior do edifício. Os nossos passos tinham um som cavo, enquanto subíamos até acima. Uma faixa de luz era visível através da parte de baixo de uma porta de madeira. Bati. Ouviu-se um arrastar de passos atrás da porta. — Quem é?  Olhei para Ana. — Sou eu, Ana — disse a rapariga. — Deixa-me entrar, Renzo.  Ouvi um praguejar abafado e a porta começou a abrir-se. — Como raio é que tu descobriste onde é que eu estava? — perguntou com aspereza.  Depois, viu-me e preparou-se para fechar de novo a porta. Pus o pé na abertura e empurrei. Ele desequilibrou-se e recuou aos tombos. Ficou a olhar para mim, com os olhos escuros a pestanejar.
Tinha o mesmo tipo de beleza da irmã, só que nele não ficava bem. Dava-lhe um ar demasiado brando. Vestia umas calças escuras e apertadas, à europeia, e uma t-shirt. — Quem é este tipo?  — É o Sr. Carey, Renzo — disse Ana. — Veio por causa das cartas.  Ouviu-se uma voz de rapariga, vinda do quarto do fundo. — Quem é, querido?  — É a minha irmã, com um amigo. — Um amigo? Já lá vou. — Não tenhas pressa — disse num tom sombrio. Olhou para mim. — De que cartas é que ela está a falar? Fechei a porta atrás de mim com o pé. — As cartas que estavam dentro daquele sobrescrito de papel pardo que ela lhe deu na noite em que o Tony Riccio foi morto. — Ela só diz disparates. Não sei de cartas nenhumas. Olhei para uma mesa que estava atrás dele. Aberto, em cima da mesa, havia um exemplar do Examiner da manhã seguinte. — Você sabe de que cartas é que estou a falar. As mesmas acerca das quais escreveu à Sra. Hayden. — Num canto, da sala, vi uma máquina de escrever. — Escreveu-lhe naquela máquina. Uma rapariga saiu do quarto do fundo. Tinha o cabelo de um ruivo-alaranjado e um quimono azul de Grant Street amarrado na cintura com uma faixa vermelho-vivo. — Apresenta-me os teus amigos, querido. Renzo olhou para ela e depois novamente para mim. — Nunca escrevi carta nenhuma nessa máquina. Atravessei a sala e peguei na máquina de escrever. Meti-a debaixo do braço e dirigi-me para a porta. — Eh! — gritou a rapariga. — Onde é que vai com a minha máquina? — A polícia sabe comparar os tipos — disse. — Se eu tiver razão, a pena por prática de chantagem é de dez a vinte anos. — Bem te disse para não usares a minha máquina! — gritou-lhe a rapariga. — Cala-te! — Voltou-se novamente para mim. — Espere aí — disse. — Está comprador? Pousei a máquina e olhei para ele. — Talvez — respondi. Os olhos dele tomaram uma expressão astuta. — Foi a velha que o mandou? — Se não fosse assim, como é que eu podia saber?  — Quanto é que ela está disposta a pagar? — Depende daquilo que você tiver — disse. — Não vamos comprar nada às cegas. — São genuínas. De repente, tive uma ideia. — Você não é o único que está a tentar apanhar alguma coisa. Pareceu perturbado.  — Quer dizer que há outros?  — A sua carta foi a quarta que nós recebemos. Começou a mostrar-se preocupado. — Como é que nós podemos saber que as suas são verdadeiras? — perguntei. — Tenho de ver qualquer coisa primeiro. — Não pensa que eu sou tão parvo que tenha as cartas aqui? Tenho sócios a trabalhar comigo. As cartas estão em lugar seguro. Peguei novamente na máquina de escrever. — Nesse caso, eu falo com os seus sócios, quando eles aparecerem com a mercadoria. — Espere aí! Eu pensei que podia acontecer qualquer coisa deste género. Tirei umas cartas do sobrescrito, para o caso de serem precisas.
Pousei a máquina de escrever. — Assim já o entendo. Vamos lá ver essas cartas. Renzo olhou para a rapariga. — Veste-te e vai lá abaixo pedir ao Johnny que te dê o sobrescrito que eu lhe entreguei. — Não precisa de se incomodar. — Olhei para Ana que estava de pé, em silêncio, a observarnos. — Não se importa? Sacudiu a cabeça. O irmão, fez um sorriso irónico. — Quanto é que ele te paga para andares a fazer recados, Ana? Espero que te pague bem, porque não vais ter trabalho por muito mais tempo. — Não lho pago nada, seu palerma. A única coisa que ela quer é impedir que você vá parar à cadeia. Ana saiu. Renzo voltou-se para mim. — Já agora tire esse peso de cima dos pés. Sente-se e beba qualquer coisa. — Não, obrigado.  Foi a um armário e tirou uma garrafa.  — Arranja-me um bocado de gelo, filha. — Vai tu buscá-lo! — disse. a rapariga com ar carrancudo. Renzo encolheu os ombros. — Mulheres — disse, com ar enjoado. Dirigiu-se para o recanto que servia de kitchenette e abriu o frigorifico. Despejou alguns cubos que estavam numa bandeja e pô-los num copo. Depois voltou e juntou-lhes um bocado de uisque. Sentou-se à mesa à minha frente.  — Aquele Tony sabia o que fazia. Não respondi. Levou o copo à boca. — Tinha tudo ao jeito. A minha irmã. A sua ex-mulher. A sua filha. Não precisava de falhar uma noite, a menos que quisesse. Consegui controlar a irritação. Estava a começar a habituar-me àquela maneira de falar. — A sua miúda estava doida por ele. Espere até pôr os olhos nas cartas. O calor é tanto que o papel até crepita. Ele deve tê-la ensinado bem; estava doidinha por ele. E não tinha vergonha nenhuma de pôr tudo no papel... o que gostaria de lhe fazer quando estivessem juntos. Rangi os dentes, Não tinha ido ali à espera de encontrar os Sonetos de Camões. — A sua mulher também não era má — continuou — embora não se saísse assim a dizer coisas como fazia a miúda. Mas não há dúvida de que era ciumenta. Numa das cartas diz que não hesitava em o matar se visse que ele a enganava. Mas a miúda batia-a aos pontos, não acha? Continuei a não responder. — E a estúpida da minha irmã, como uma idiota, à espera que o Tony voltasse. — Riu-se. — Ele só voltava quando lhe apetecia comer um bocado de spaghetti e fazer amor à boa velha maneira italiana. Era como se se cansasse de todas aquelas coisas arrebicadas que tinha lá em cima. Um tipo precisa de comer carne e batatas de vez em quando, dizia-me, às vezes. Uma pessoa cansa-se de caviar e patê de foie gras. Caramba, aquele Tony era o fim! Ouvi passos do lado de fora, na escada de madeira. Renzo também os ouviu. Ergueu o copo para mim, numa espécie de saúde. — À sorte. Ouvi a porta abrir-se atrás de mim, mas não me voltei. Depois uma dor aguda explodiu na parte de trás da minha cabeça e mergulhei na escuridão que avançava para mim, vinda do chão. 
 
Não parava de ver luzes a brilharem-me diante dos olhos. Uma após outra e, entre uma e outra, sentia-me empurrado para um lado e depois para o outro. Gemi e tentei pôr-me de pé, mas o nevoeiro rodeava-me por todos os lados e eu não conseguia. Depois vi dispararem-se mais algumas luzes, que foram as últimas. Só me ficara a dor na cabeça.
A água gelada fez-me voltar a mim ao mesmo tempo que tentava cuspir. Sacudi a cabeça e abri os olhos. Johnny e Lorenzo estavam inclinados sobre a minha cara. Baixei os olhos para mim mesmo. Estava sentado numa cama, completamente nu. Ouvi um roçar de tecido e voltei-me, com a dor a estoirar-me na cabeça por todos os lados. A rapariga de cabelo ruivo-alaranjado estava a enfiar, de novo, o quimono de Grant Street. Tentei evitar que a dor me arrancasse o alto da cabeça. Fechei os olhos com força, apertando- os muito e abri-os rapidamente. Pareceu-me que fiquei um pouco melhor. Só nesse momento é que comecei a perceber o que tinha acontecido. Tinha caído que nem um patinho. — A sua roupa está ali em cima da cadeira — disse Renzo. — Vamos deixá-lo enquanto se veste. Saíram, fechando a porta atrás deles. Sentei-me na cama, a ouvir o som abafado das vozes deles através da porta fechada. Estendi o pescoço e voltei a cabeça. Doía como o diabo. Não tinha nada a ver com os Mickey Spillanes. Nada de Cloud Nine ou de violentos sonhos eróticos. Apenas uma dor dos diabos. Desci da cama a cambalear, entrei na casa de banho, abri a torneira do duche da água fria e meti a cabeça debaixo do jacto. Era como agulhas, mas deu o efeito desejado. Lentamente a dor começou a desaparecer. Levei a mão à parte de trás da cabeça e encontrei um pequeno ovo. Era uma sorte eu ter um crânio tão forte. Virei a torneira para a água quente, depois outra vez para a fria e a sensação dolorosa que tinha no pescoço e nos ombros desapareceu. Puxei de uma toalha suja, que foi a única que consegui encontrar e sequei-me. Depois, vesti-me. Estavam sentados em volta da mesa a tomar uma bebida, quando saí do quarto. — Está com ar de quem precisa de uma bebida — disse Renzo. Despejou um bocado de uisque para um copo e empurrou-o para mim. Peguei-lhe e emborque-o. O calor invadiu-me as entranhas e comecei a sentir-me melhor. — Onde é que está a Ana? — Mandei-a para casa — respondeu Renzo. — Já fez o que tinha a fazer. — Empurrou uma fotografia em direcção a mim. — Belo trabalho, não acha? Peguei na fotografia e pus-me a olhar para ela. Era uma Polaroid de dez segundos. Só naquele momento é que reparei que o estojo que Ana levara com ela não era suficientemente grande para a Speed Graphic que ela estava a usar no clube. A fotografia era aquilo que eu esperava. Eu estava nu e o mesmo acontecia com a rapariga do cabelo ruivo-alaranjado. A posição era oriental clássica. Devolvilhe a fotografia. — É um bocado magra de mais para o meu gosto. — Fique com ela — disse Renzo cheio de bonomia. — Tirámos um rolo inteiro. — O que é que se segue? — Sente-se e espere. Vem aí mais alguém. Enfiei a fotografia na algibeira. — Não, não creio. Acho que já me diverti o suficiente para o meu gosto. Dirigi-me para a porta e Johnny pôs-se de pé rapidamente. Avancei em direcção a ele. — Se fosse a si não fazia isso — disse Renzo com naturalidade. — Ele foi campeão de pesos plumas da costa do Pacífico.  Avancei novamente e Johnny atirou-me uma direita que parecia vir lá de Los Angeles. Passeilhe por baixo facilmente. Não se passa uma boa parte do nosso tempo a trabalhar com a malta da construção sem fazer um bocado de exercício. Deixei que o punho dele me passasse por cima do ombro e fiz-lhe um golpe de judô ao esterno. Johnny dobrou-se para a frente e eu apliquei-lhe um cutelo, de lado, no pescoço, que foi o melhor golpe de karate que jamais apliquei. O outro foi-se abaixo como se tivesse ficado electrocutado. O meu instrutor da Força Aérea ter-se-ia sentido orgulhoso de mim. Voltei-me mesmo a tempo para ver Lorenzo avançar direito a mim. Agarrei-o e empurrei-o de encontro à parede. Obriguei-o a ficar ali, a espernear. A rapariga começou a gritar quando lhe pus a mão, com a palma bem esticada voltada para baixo junto ao pescoço.
— Bom, onde é que estão as outras cartas? O terror estampou-se nos olhos de Renzo. Sacudiu a cabeça. Bati-lhe ao de leve com a mão na maçã-de-adão. O suficiente para ele sufocar um pouco. — Se eu fizer isso com a força toda, vais dormir para o mesmo campo de margaridas que o teu herói Riccio. — Não as tenho — arquejou com voz rouca. — Dei-as ao Coriano.  Fiz um gesto de ameaça. — Palavra!  — As fotografias — disse.  — É o Johnny que as tem.  Renzo tremia, aterrorizado. Bati-lhe com a mão aberta na cara e deixei-o cair pesadamente no chão. Ficou sentado a gemer. A rapariga correu para ele. — Renzo, meu querido! Ele magoou-te?  Aproximei-me de Johnny. Começava a mexer-se um pouco. Fi-lo rolar até ficar de costas, satisfeito por não o ter morto. Ajoelhei-me no chão e comecei a revistar-lhe as algibeiras. Acabava de encontrar as fotografias, quando a porta que ficava atrás de mim se abriu. A primeira coisa que vi, quando me voltei, foi o cano do uma calibre 38. Estava apontada em cheio à minha barriga e do sítio onde me encontrava, parecia-me um canhão de cinqüenta milímetros. Logo a seguir reparei no homenzinho gorducho que estava por detrás da arma, com os olhinhos redondos quase perdidos nos rolos de gordura que os circundavam. — Eu fico com as fotografias, se não se importa — disse. Estendi-lhas sem falar. — Ponha-as em cima da mesa e recue até à parede. Não se discute com um canhão. Fiz o que me mandaram. — Agora volte-se, apoie as mãos contra a parede, com os braços esticados para cima e encoste-se bem. Sabe o que eu quero dizer. É como fazem na televisão. Eu sabia o que ele queria dizer. Ouvi-o aproximar-se da mesa. Depois um barulho de papel. — Pode voltar-se, coronel. Voltei-me. — Você é que é o Coriano? Fez que sim com a cabeça. Olhou para Johnny e depois para Lorenzo. Sorriu com ar amável. — Esteve a divertir-se um bocado com os meus rapazes? — Eles foram muito cooperativos — disse. — São duas bestas sem miolos. Mas não tem importância. Já negociei as cartas com a sua ex. Puxou de uma cadeira e sentou-se. — Não há nada de pessoal nisto, coronel, compreende — disse. — É apenas uma questão de negócio. Olhei para o homenzinho atarracado. Parecia tão satisfeito, ali sentado, que o menos que eu podia fazer era abaná-lo um bocado. — Quanto é que ela lhe deu? Sacudiu o revólver no ar, num gesto cheio de negligência. — Vinte e cinco. — Foi levado. A mãe dela teria ido até aos cem mil. Ficou um momento a olhar para mim, fixamente. Depois encolheu os ombros. — É a vida — disse filosoficamente. — A minha sorte é sempre a mesma. As acções sobem depois de eu as vender. — E as fotografias? — perguntei. — Questão de segurança, coronel. Para mim e para a senhora que comprou as cartas. — Olhou-as de relance. — Estão boas, não estão?
Passei por ele em direcção à porta. Coriano continuava com os olhos postos em mim; o mesmo acontecia com Renzo e a namorada. O único que não me olhava era Johnny. Esse estava estendido ao comprido, de costas, no chão. Sacudi a cabeça tristemente, como que a compartilhar do desgosto dos outros e saí. O meu carro continuava onde o tinha deixado. Preparava-me para abrir a porta quando ouvi a voz de Ana. — Sr. Carey? — Sentei-me no carro ao lado dela. — Está bem? — Acho que sim — respondi. — Não pude evitar nada, Sr. Carey. — Começou a chorar.— Eles obrigaram-me a fazer aquilo. Coriano estava no bar quando vim cá abaixo. — Claro, Ana, claro. — Bati com a mão no estojo de couro da máquina fotográfica, que estava pousado em cima do banco no meio dos dois. — Foi por acaso que trouxe a Polaroid consigo? — É verdade! Coriano viu a máquina e foi ela que lhe deu a ideia. Disse que isso evitaria que o senhor desse à dica com os chués. Tive o cuidado de lhe tirar as fotografias enquanto estava com os olhos fechados, assim pelo menos pode provar que estava inconsciente. Voltei-me para olhar para ela. Provar que estava inconsciente? Tretas. O meu ar era de profundo deleite. — Não pude deixar de fazer aquilo, Sr. Carey — disse muito séria. — se não o fizesse, o Coriano nunca mais me deixava trabalhar. — Está bem, Ana — disse. — Agora dê-me a sua morada que eu levo-a a casa. Deixei-a em casa e quando cheguei ao meu quarto, quase uma hora depois, o indicador do telefone acendia e apagava a sua luz vermelha. Peguei no aparelho. A Sra. Hayden acabava de telefonar e pediu-me que ligasse para ela. Marquei o número. A voz dela estava bem desperta e o tom era incisivo. — Então, Luke? — perguntou. — Conseguiu-as?  — Não. — O que é que quer dizer com isso? — perguntou, zangada. — Não havia nada para comprar. A Nora apanhou-as antes de nós. — A Nora? — A voz dela mostrou surpresa. — Quem é que havia de ser? Soltou uma risada. — Eu devia ter pensado nisso. A Nora não ia querer que as cartas nos viessem parar às mãos. Bom, pelo menos já não precisamos de nos preocupar. — Claro — respondi e desliguei.  Ninguém a não ser eu. Mal tinha forças para me despir e meter-me na cama. Tinha sido uma noite comprida.
 
A enfermeira abriu a porta do quarto de Dani. — A tua mãe está aqui, para te ver.  Dani saltou da cama. — Onde é que ela está?  — Está à espera na cafeteria. Dani seguiu a enfermeira ao longo do corredor e atravessou o portão de aço. Desceram no elevador até ao piso onde ficava a cafeteria. Eram apenas umas três horas e a cafeteria estava quase vazia. Um homem desconhecido e Miss Jennings estavam sentados com a mãe. Nora ergueu a cara para o beijo de Dani. — Olá, querida. Dani olhou para Miss Jennings e depois para o homem. — Olá, mãe. Olá, Miss Jennings.  Sally Jennings pôs-se de. pé. — Olá, Dani. — Voltou-se para os outros. — Bom, tenho de voltar para o meu gabinete. Fizeram que sim com a cabeça e ela saiu.
— Não fiques aí de pé, Dani — disse Nora, com uma certa aspereza. — Senta-te.  Dani sentou-se, obediente. — O que é que ela queria? — Não queria nada. Nós é que queríamos falar com ela. — Sobre quê? — A voz de Dani mostrava desconfiança. — Sobre ti. Parece que estás a causar muitos problemas. Dani olhou fixamente para a mãe durante alguns momentos, depois para o homem. — Quem é ele? — perguntou, sem rodeios. — Dani! — A voz de Nora mostrava-se chocada. — Sabes comportar-te como deve ser. A voz de Dani era impaciente. — Aqui não, mãe. Aqui não há tempo para pensar nessas coisas. Quem é ele? Nora deitou ao homem um olhar cheio de eloquência. — Este é o Dr. Weidman, Dani. Pedi-lhe que te examinasse. — Para quê?  — Para teu bem! Ao que parece eles aqui não conseguem descobrir qual é o teu problema. — Mais um para me dar cabo da cabeça? A voz de Nora mostrou-se zangada. — O Dr. Weidman é psiquiatra, Dani. — Não quero falar com ele. — Tens de falar! — insistiu Nora. — Por quê, mãe? Achas que há alguma coisa em mim que não funciona bem? — Aquilo que eu penso não importa, Dani. O que conta é aquilo que eles pensam. Podem mandar-te para longe durante muito tempo. Dani continuava a fitar o rosto da mãe. — Aquilo que tu pensas é importante para mim, mãe. Achas que há alguma coisa em mim que não funciona bem? Nora fitou-a também, depois respirou fundo. — Claro que não, querida — disse. — Mas... — Então não quero falar com ele. O médico pôs-se de pé. Sorria. — Não creio que tenhamos razões para nos preocuparmos, Miss Hayden. Miss Jennings tem uma excelente reputação, e acho que podemos confiar inteiramente nas suas opiniões. — Voltou-se para Dani. — Não fazia mal nenhum, minha filha, que tivesse um pouco mais de confiança em Miss Jennings. O pior que ela pode fazer é ajudá-la. Fez uma espécie de vénia e deixou-as. Ficaram sentadas, a olhar uma para a outra, em silêncio. — Tem moedas, mãe? Queria ir buscar uma Cola. Nora olhou-a, distraídamente. Dani sabia que a mãe estava a pensar noutra coisa. Era sempre assim, quando se punha com aquele ar. — Uma moeda, mãe? — repetiu suavemente.  Nora abriu a carteira. — Achas que me podias arranjar um café? — Claro, mãe. Dani levantou-se e foi até à porta da cozinha. — Eh, Charley! Arranjas-me uma chávena de café para a minha mãe? Um rosto escuro e luzidio apareceu à porta. — Com certeza, Dani. Dani levou o café para a mesa e foi buscar a Cola. Quando voltou e se sentou, Nora acendeu um cigarro. Dani olhou para ela e Nora empurrou o maço em direcção à filha, com um suspiro cheio de relutância. A pequena pegou num cigarro e acendeu-o. — Julguei que não acreditavas em psiquiatras, mãe. — Já não sei em que é que hei-de acreditar.
Dani olhou para a mãe, curiosa. Não parecia dela. Tinha sempre ideias bem definidas sobre
tudo.
Nora levou o café à boca e fez uma careta. Dani sorriu. — Não se parece nada com o café lá de casa, pois não, mãe? — Lá isso é verdade — disse Nora. Olhou para a filha. — A comida também é assim tão má? — A comida é boa. — Vi as cartas que escreveste ao Rick — disse Nora em voz baixa. — Por que é que não me tinhas falado nelas? Dani sentiu o rosto a escaldar. — Não pensei mais nisso. Esqueci-me. — Se tivessem ido parar à mão de outra pessoa, teria sido muito pior. Eu... eu não sabia que isso já durava há tanto tempo — disse Nora, sem jeito. Dani sentiu a garganta apertar-se-lhe. Fitou a mãe, em silêncio. Nora baixou novamente os olhos. — Quando foi que começou?  — Foi daquela vez em Acapulco. Lembra-se, mãe? Quando teve de apanhar o avião para ir a São Francisco? Foi nessa altura que isso aconteceu. — Devias ter-me dito, Dani. O que foi que ele te fez? — Ele não me fez nada, mãe — disse Dani com firmeza. — Eu é que lhe fiz a ele. As lágrimas subiram aos olhos de Nora. — Por quê, Dani, por quê?  — Porque eu quis, mãe. Estava tão cansada de fingir que era uma criança. Ficou silenciosa, ao mesmo tempo que olhava fixamente para a mãe, de cigarro na boca. — Acho que não temos assim muito mais de que falar, pois não, mãe? Nora sacudiu a cabeça. — Acho que não. Havia muitas coisas para elas falarem, mas Dani não conseguia conversar com ela e ela não conseguia conversar com Dani, tal como também não fora capaz de conversar com a própria mãe. Cada geração era, por si só, uma ilha.  Fez mais uma tentativa. — Dani — disse, muito séria. — Por favor, fala com a Miss Jennings. Ela talvez te possa ajudar; ajudar-nos a nós. — Não ouso, mãe. Com ela, nem sempre se consegue parar onde se quer. Uma coisa leva a outra e antes que uma pessoa dê por isso, já ela terá ficado a saber a verdade sobre o que aconteceu naquela noite. E eu não desejo que ninguém saiba, tal como a mãe também não deseja. Nora olhou para a filha. Era nisto que tudo se resumia, pensou. A única coisa que podiam partilhar era um erro comum. Dani levantou os olhos para o relógio de parede. Eram quase três e meia. — Tenho de ir — disse, hesitante. — Tenho uma aula. Nora fez que sim com a cabeça. Dani levantou-se da cadeira, deu a volta à mesa e beijou a face da mãe. Nora passou imediatamente os braços em volta dela. — Não se preocupe, mãe. Tudo vai correr bem. Nora conseguiu sorrir. — Claro que vai, querida. Vemo-nos no domingo. Viu a enfermeira levantar-se e seguir atrás de Dani até ao corredor. Depois as portas de mola fecharam-se e não viu mais nada. Baixou os olhos para o cinzeiro. O cigarro que tinha acendido ainda estava a arder. Esmagou-o devagarinho e depois pegou na carteira. Puxou do espelho, retocou ligeiramente a maquiagem e saiu. — A tua mãe é muito bonita, Dani — disse a enfermeira enquanto se encaminhavam para o quarto. Dani olhou de relance para a enfermeira. Era o que diziam sempre as pessoas que viam a mãe pela primeira vez, depois, quando a viam a ela, quase sentia a decepção que experimentavam.
— Que linda criança! — diziam. Mas Dani sabia o que sentiam na realidade. Entrou para o quarto e fechou a porta. Ficou um momento a olhar para as paredes riscadas e escritas a lápis. Depois, estendeu-se em cima da cama.  Bela e talentosa. Era assim a mãe. Tudo aquilo que ela não era. Lembrava-se de como costumava entrar furtivamente no estúdio, quando a mãe estava fora, para tentar copiar algumas das peças maravilhosas que a mãe esculpia. Mas tudo o que fazia saía mal e ela acabava por deitar tudo fora, para ninguém ver. De repente, deu consigo a chorar baixinho. Passados momentos as lágrimas pararam e Dani levantou-se da cama e pôs-se a olhar para si própria no pequeno espelho. Mesmo depois de ter estado a chorar, a mãe continuava bela! O olhar límpido, a pele clara e luminosa. Nada disto: os olhos empapados e vermelhos, a cara inchada. Tirou uma toalhinha húmida e perfumada da embalagem que a mãe lhe tinha mandado e rasgou o invólucro de alumínio. Comprimiu-a de encontro à cara, sentindo a humidade fresca e ligeiramente mentolada suavizar-lhe a pele. Lembrou-se de como Rick costumava fazê-la arreliar por ela gostar tanto daquelas toalhinhas. Trazia sempre algumas na carteira. Uma vez, depois de terem estado juntos, quando Rick tinha ficado estendido ao lado dela, de olhos fechados, tinha pegado numa, com a ideia de o refrescar. Mas ele tinha saltado quase até ao tecto, quando lhe tocara com a toalhinha. — Pelo amor de Deus, miúda, o que é que estás a fazer?  — Só queria que te sentisses melhor — respondera.  Tinha-se rido e tinha-a puxado de encontro a ele. Sentira-lhe o ligeiro arranhar da barba, enquanto lhe escondia a cara no pescoço. — Sabes uma coisa, és uma miúda louca! Depois, tinha-a abraçado e as mãos dele tinham-lhe feito todas aquelas coisas maravilhosas que a faziam sentir o quanto era necessária. Sentiu as lágrimas virem-lhe de novo aos olhos. Pestanejou para as afastar. Agora já não valia a pena chorar. Não tinha ninguém a quem recorrer. Dantes, quando se sentia triste, como agora, podia sempre ir ter com ele. Rick sorria, tocava-lhe e a tristeza desaparecia. Mas agora acabara-se. Cuidadosamente, riscou os dias no calendário. Sylvia tinha sido mandada embora na véspera. O que queria dizer que hoje era sexta-feira. O funeral de Rick já devia ter sido. Descuidadamente perguntou a si própria se a mãe teria mandado flores. Provavelmente, não. O mais provável era que não tivesse mandado, se é que Dani a conhecia. A mãe já o tinha esquecido completamente. Além disso, bem lá no fundo ainda se sentia demasiado ciumenta. Lembrava-se de como a mãe tinha ficado zangada ao encontrá-la no quarto de Rick. Tinha gritado e os dedos dela tinham deixado marcas vermelhas de fúria nos ombros nus de Rick. Pensara que a mãe o ia matar. — Não, mãe, não! — tinha gritado.  Depois a mãe tinha-a arrastado, nua, pelo vestíbulo e tinha-a atirado para o quarto dela. Lembrava-se de ter ficado ali, dobrada sobre si própria, tremendo e chorando alternadamente, enquanto a briga entre os dois ressoava por toda a casa. Não, naquele momento tinha a certeza de que a mãe não lhe tinha mandado flores. Mas também tinha a certeza de que a mãe não tinha esquecido Rick. Sentia os olhos secos a arderem. Pegou noutra toalhinha e pôs-se a bater com ela ao de leve na cara. Depois, amarrotou as duas e atirou-as para o cesto dos papéis. De repente, sentiu-se muito só. Como se as toalhinhas que tinha deitado fora representassem o elo que a ligava ao passado e esse elo "tivesse agora quebrado". Só o Rick a tentara compreender e agora já não havia ninguém. Ninguém. Começou a chorar outra vez. Sally Jennings levantou os olhos para o relógio. Era um quarto para as seis. Impaciente, baixou os olhos para a secretária. Tinha tantos relatórios para mandar. Começou a arrumá-los cuidadosamente na pasta. Talvez conseguisse trabalhar em alguns deles quando chegasse a casa, depois do teatro. Tinha esperado muito tempo para arranjar bilhetes para esta peça e, desta vez, nada ia impedi-la de a ver. O
tempo de chegar a casa e vestir-se, voltar ao centro; não tinha tempo para mais do que para meter qualquer coisa na boca antes de subir o pano. Ouviu-se uma pancada hesitante na porta. — Sim? — respondeu, impaciente.  A principio, apenas viu o uniforme branco de uma enfermeira, por detrás da porta de vidro. Depois a porta abriu-se e Dani entrou. Dani ficou parada à porta. — Miss Jennings — perguntou numa vozita fraca e quase imperceptível — posso falar-lhe? A psicóloga ficou um momento a olhar para ela. A criança tinha estado a chorar, era bem visível, mas havia nela um certo ar de abandono que nunca lhe tinha visto antes. — Claro, Dani. Dani olhou para a pasta aberta. — Se estava para sair, Miss Jennings, eu posso cá voltar amanhã de manhã. Sally Jennings fechou a pasta e pô-la no chão atrás da secretária. — Não. A verdade é que eu tencionava ficar a trabalhar esta noite. Dani avançou um pouco mais. — Não queria incomodá-la.  Miss Jennings sorriu-lhe e quando sorriu pareceu de repente muito jovem. — Vamos fazer uma coisa. E se nós jantássemos juntas na cafeteria? Vai ser agradável ter alguém com quem falar, para variar. Dani olhou por cima do ombro para a enfermeira, que continuava à espera, do lado de fora. — Acha... acha que me vão deixar? Sally Jennings pegou no telefone e ligou para a chefe do Departamento de Vigilância e Orientação. Cobriu o bocal com a mão. — Acho que vou conseguir. Talvez não fosse alívio nem gratidão que a psicóloga viu nos olhos de Dani, mas, de repente, pareceu-lhe que aquele ar de abandono lhe tinha desaparecido do rosto. E, de repente, a peça que andava há tanto tempo com vontade de ver, deixou de lhe parecer importante. — A primeira vez que me dei conta de que as pessoas não eram para sempre, foi quando o meu pai deixou de me ir ver. — Dani olhou para Miss Jennings, do outro lado da secretária. Tinham vindo de jantar. — Percebe o que quero dizer? Quando se é pequeno, é como se fôssemos o centro do mundo, mas à medida que vamos crescendo, descobrimos que não é assim. Chorei todos os dias durante um mês. Depois habituei-me à ideia. O tio Sam, o Sr. Corwin era muito simpático. A mãe casou-se com ele depois de se divorciar do meu pai. Acho que ele tinha um bocado de pena de mim. Costumava sair comigo, como o meu pai fazia antes. Aos parques e ao jardim zoológico. Uma vez levou-me mesmo a andar de barco. Mas não era como o papá. Quando eu estava com o papá, era como se ele não pensasse em mais nada senão em mim. Com o tio Sam era diferente. Não era que ele não tentasse, mas eu era apenas uma das muitas coisas em que ele pensava. Mesmo assim, eu gostava dele. E um dia foi-se embora. Lembro-me muito bem desse dia. Dani ficou silenciosa, a olhar para o cigarro que lhe ardia entre os dedos. — Continua, Dani — encorajou a psicóloga. — Lembras-te desse dia. O que foi que aconteceu que te faz lembrá-lo?
 
A carrinha azul e branca com as palavras Escola de Miss Randolph delicadamente escritas na porta entrou no caminho, que levava à casa de Dani e parou. O condutor, com o seu elegante uniforme cinzento, saiu e abriu a porta. Dani saiu a correr, com os cabelos compridos e escuros a esvoaçarem atrás dela, a blusa branca e a saia pregueada azul-escura a brilharem à luz do sol. Dani subiu a correr os degraus que levavam à entrada principal. — Bom fim-de-semana, Dani !— gritou-lhe o condutor.  Já da porta, lançou-lhe um sorriso luminoso. — Para si também, Axel.
Deixou cair os livros na mesa da entrada e, com a ficha do colégio na mão, passou como uma flecha junto à escada circular, avançou pelo corredor e chegou ao estúdio. Empurrando a porta, correu para dentro da sala, a gritar: — Mãe! Mãe! Tive um Muito Bom em Arte!  Já estava mesmo no meio do estúdio, com a ficha bem espetada na mão, quando se apercebeu de que não estava lá ninguém. Dirigiu-se ao quartinho que ficava mesmo à saída do estúdio. A porta estava fechada. Bateu ao de leve. — Mãe, mãe, está aí?  Ninguém respondeu. Cuidadosamente, abriu a porta e espreitou para dentro. O quarto estava vazio. Lentamente, fechou a porta. Estava confusa. Àquela hora, a mãe estava geralmente a trabalhar. Voltou à sala de entrada. Apanhou os livros que estavam em cima da mesa e começou a subir as escadas. Charles vinha a sair do quarto do tio Sam. — Boa tarde, Miss Dani.  Levantou os olhos para ele. — Onde é que está a mãe? O mordomo pareceu pouco à vontade. — Saiu, Miss Dani. — Disse quando voltava? — Dani mostrou-lhe a ficha. — Tive um Muito Bom em Arte. Quero que ela veja. — Isso é óptimo, Miss Dani. — Depois a voz dele mudou. — Madame não disse quando voltava. — Oh! — disse Dani, num tom cheio de decepção. Encaminhou-se para o quarto dela, depois parou e olhou para trás. — Quando ela chegar, diz-me, Charles. Quero que ela veja. — Claro, Miss Dani. A Sra. Holman estava a pendurar alguns vestidos no armário, quando Dani entrou no quarto. Quando viu a pequena, espalhou-se-lhe no rosto um enorme sorriso. — Vejo que já chegaste. Estava a perguntar a mim mesma quando é que tu vinhas. Conseguiste? Dani sorriu. — O que é que lhe parece? — Deixa-me ver — disse a velha preceptora. — Não posso esperar mais. Num gesto de traquinice, Dani escondeu a ficha atrás das costas. — Não lho vou mostrar, Nanny, enquanto não cumprir a sua promessa! — O bolo já está feito. — Então, está bem! — Dani estendeu-lhe o cartão. — Tenho de pôr os óculos — disse a Sra. Holman. — Estou tão excitada que não consigo ler! Encontrou-os numa algibeira do uniforme e pô-los na cara. Depois baixou rapidamente os olhos para o cartão. — Oh, Dani! — exclamou — um Muito Bom em Arte! — A preceptora puxou Dani para ela. — Sinto-me tão orgulhosa de ti — disse com entusiasmo. Beijou Dani na face. — A tua mãe também se vai sentir muito orgulhosa quando souber. — Onde é que está a minha mãe? Não estava no estúdio.  A mesma expressão que ela tinha visto nos olhos de Charles apareceu no rosto da preceptora. — A tua mãe teve de se ausentar de repente, numa viagem de negócios. Na segunda-feira já está de volta. — Oh. — Ultimamente, a mãe tinha feito muitas destas viagens de negócios inesperadas,nos fins-de-semana. Tirou a ficha da escola da mão da preceptora. — Espero que ela volte a tempo de assinar a minha ficha. Tenho de a levar de volta na segunda-feira. — Tenho a certeza de que ela vai voltar a tempo. E agora, porque é que não vamos até à cozinha e pedimos à cozinheira que nos dê o bolo e o leite? Vamos fazer uma festinha, as três.
Dani olhou para a velha preceptora. Estava cansada de fazer festas com ela. Seria agradável, para variar, que a mãe aparecesse numa das festas dela. — Não estou com disposição para festas. — Vamos, faz o que a Nanny te diz — atalhou a preceptora, com uma severidade pouco convincente. Sabia o que Dani estava a pensar. — Ok. Dani voltou-se e saiu. Encontrou o tio Sam e Charles no vestíbulo. Cada um deles levava várias malas. — Tio Sam! — gritou Dani, correndo para ele.  Corwin voltou-se para esperar por ela. Charles continuou a descer com as malas. — O que é, Dani?  — Tive um Muito Bom em Arte! — Que maravilha, Dani!  Havia qualquer coisa na voz do tio Sam que a fez levantar os olhos para a cara dele. Tinha um ar cansado e Dani sentiu nele uma espécie de tristeza. Deitou uma olhadela aos sacos. — Também vai passar o fim-de-semana fora? Vai ter com a mãe?  — Vou viajar, Dani. Mas não vou ter com a tua mãe.  — Oh, pensei que se a visse, lhe podia dizer. Parecia estar a pensar noutra coisa qualquer. — Dizer-lhe o quê? — Que eu tive Muito Bom em Arte. — Eu não vou estar com ela, Dani. — E na segunda-feira já está de volta?  Ficou um momento com os olhos postos nela, em silêncio, depois pousou a bagagem. — Não Dani, na segunda-feira não estou de volta. Eu não volto mais. — Nunca mais? — perguntou, numa voz espantada.  — Não. Vou-me embora de vez.  De repente, os olhos dela encheram-se de lágrimas. Tal e qual como o papá. Um dia foi-se embora e passado algum tempo, deixou mesmo de a ir ver. — Por quê? Já não gosta de nós?  Sam viu as lágrimas nos olhos da pequena e sentiu-lhe a preocupação na voz. Pegou-lhe na mão. — Não é nada disso, Dani. Não é por causa de você. Mas, às vezes, as coisas não correm como deviam. A tua mãe e eu vamos divorciar-nos. — Como a mãe e o papá? Ele fez que sim com a cabeça.  — Isso quer dizer que já nunca mais me vem ver? — Começou a chorar. — Agora nunca mais ninguém me vem ver. Pôs o braço em volta dela, com ar constrangido. — Eu gostava de te vir ver, Dani. Mas não posso. — Por quê? — perguntou. — A mãe da Susie Colter já se divorciou cinco vezes e todos os pais dela vão visitá-la. Eu sei, porque ela fica sentada ao meu lado na escola e ela mostra-me sempre os presentes que eles lhe levam. — A tua mãe não ia gostar.  — Por que é que não pode ser ela a sair quando se divorcia? — perguntou Dani, que começava a ficar zangada. — Por que é que tem de ser sempre o papá a sair? — Não sei.  Impulsivamente, passou os braços em volta dele. — Não vá, tio Sam! Vou sentir a sua falta de uma maneira horrível! Ele sorriu e encostou a cara à dela.
— Eu também vou sentir a tua falta, Dani. Mas, agora, sê uma menina crescida e deixa-me ir embora que eu mando-te um presente de vez em quando. Podes mostrá-los à tua amiga e, assim ela já fica a saber que não é a única cujo papá lhe manda presentes. — Está bem — disse Dani, hesitante. Beijou-lhe a face. — Mas, mesmo assim, vou sentir a sua falta. Sam beijou-a outra vez e endireitou-se. Pegou nas malas. — Tenho de me despachar.  Dani seguiu-o pela escada abaixo. — Vai para La Jolla viver num barco como o meu papá?  Riu-se.  — Não, Dani. Vou viver em Nova Iorque, durante uns tempos.  A voz dela mostrou-se decepcionada. — Se vivesse num barco, podíamos dar passeios.  Sam riu-se de novo. — Eu não sou tão bom marinheiro como o teu papá.  Dani seguiu-o até à porta e ficou a ver Charles pôr as malas no táxi. O tio Sam inclinou-se e beijou-a outra vez. — Adeus, Dani.  A pequena acenou-lhe e o táxi pôs-se em movimento. — Adeus, tio Sam! — gritou e depois, como não sabia o que havia de dizer, acrescentou: — Espero que se divirta! Com ar pensativo, atravessou a casa em direcção à cozinha. Charles, a cozinheira e Nanny estavam à espera dela. Todos, excepto Violet, que era a criada da mãe. Violet nunca aparecia quando a mãe ia para fora. — A mãe e o tio Sam vão divorciar-se — anunciou. — O tio Sam vai viver para Nova Iorque A Sra. Holman trouxe o bolo de chocolate recheado e pô-lo em cima da mesa. — Que tal este bolo?  Dani olhou para o bolo.  — Magnífico! — mas não havia entusiasmo na voz dela. — Sentem-se à mesa que eu corto o bolo.  Obediente, Dani sentou-se. A cozinheira cortou-lhe uma grande fatia triangular e pós-lo no prato, ao lado de um copo de leite. Depois, cortou fatias para os outros e todos se sentaram. Dani sabia que estavam à espera de que ela começasse para comerem também. Cortou um pedaço com o garfo e pô-lo na boca. — Este bolo está uma maravilha — balbuciou. — Não se fala com a boca cheia, Dani. Começaram todos a comer. — O bolo está muito bom, Sra. Holman — disse Charles. — Bom, vamos lá a ver — preveniu a cozinheira, a rir. — Claro que os seus bolos também são sempre muito bons — disse Charles, pensando que nestes tempos, não é nada fácil encontrar uma boa cozinheira. — Por que é que eles se vão divorciar? — perguntou Dani, de repente. Os criados trocaram olhares embaraçados. Foi a preceptora quem respondeu. — Não sabemos, minha filha. Não nos compete a nós saber essas coisas. — Será por a mãe ser tão bonita e ter tantos amigos?  Não responderam. — Ouvi o tio Sam e a mãe discutirem há poucos dias. O tio Sam disse que estava cansado dos negócios de lençóis da mãe. Eu sabia que o tio Sam e o Sr. Scaasi negociavam em objectos de arte, mas não sabia que a mãe também negociava em lençóis. Por que é que eu não saberia uma coisa dessas?
— Isso são coisas que não nos dizem respeito, minha filha — disse a Sra. Holman com severidade. — E a ti também não, aliás. Come mas é o bolo e preocupa-te com as coisas que te dizem respeito. Dani comeu em silêncio durante alguns minutos. Depois, levantou os olhos. — O tio Sam disse que me ia mandar presentes, para eu poder mostrar à Susie Colter que não é só ela que tem papás que lhe mandam presentes. Duas semanas depois, Dani fez dez anos e recebeu um grande caixote vindo de Nova Iorque. Estava cheio de presentes. O tio Sam tinha cumprido a sua promessa. Ficou um pouco mais satisfeita. Mas, à sua maneira, sentia a falta dele. Quando a escola fechou, a mãe levou-a para um rancho elegante, perto do lago Talioe, onde passaram o verão. A mãe disse que tinha de fazer assim para conseguir o divórcio, mas Dani não se importou. Divertia-se bastante. Montava a cavalo todas as manhãs e passava as tardes no lago. Rick também lá estava. Agora era ele o novo agente da mãe. Devia estar ligado aos negócios que o tio Sam mencionara quando estava a discutir com a mãe, porque de vez em quando, via-o sair do quarto da mãe pela manhã. Mas gostava de Rick. Gostava das mesmas coisas que ela. Montava a cavalo com ela e ensinava—a a fazer esqui aquático. E ria muito. Não era como o tio Sam, que quase não se ria. A mãe costumava dizer que Rick parecia tão criança como ela. A mãe não gostava de andar a cavalo, nem de passar muito tempo na água. Dizia que lhe estragava a pele, que apanhava facilmente um golpe de sol. Em vez disso, passava a maior parte do tempo no quarto que tinha armado numa espécie de estilizo. Às vezes, à noite, levantava-se e ia com Rick para Reno. No dia seguinte, a mãe dormia até tarde. Mas Rick levantava-se cedo todas as manhãs para irem montar juntos. Rick costumava chamar-lhe "Pequeno Vendaval". Nessa altura, ele usava bigode. Um traço fino, um pouco mais largo do que um risco de lápis, que lhe ia até aos cantos da boca rasgada. Achava que lhe dava um ar engraçado. Uma certa parecença com Clark Gable. Um dia disse isso à mãe e, fosse pelo que fosse, esta ficou zangada. Disse ao Rick que rapasse aquele bigode ridículo. Dani começou a chorar. Não sabia porquê. — Não rapes! — pediu. — Por favor, não rapes!  — Acaba com essa tolice! — gritou a mãe. Dani voltou-se para a mãe, furiosa. — A única razão por que a mãe quer que ele rape o bigode é por eu lhe ter dito que gostava. Não quer que ninguém goste de mim, nem que eu goste de ninguém! — Voltou-se para Rick. — Dizlhe que não o rapas! Rick olhou para ela, depois para a mãe. Hesitou. Nesse momento, a mãe sorriu. Era um sorriso esquisito, o tipo de sorriso que lhe surgia no rosto quando obrigava alguém a fazer uma coisa que não queria. — És livre, branco e tens mais de vinte e um anos, Rick. Resolve o que queres fazer. Rick ficou um momento parado, depois, voltou-se e foi até ao quarto dele. Quando saiu de lá, passados alguns minutos, o bigode tinha desaparecido. Dani ficou a olhá-lo fixamente. Parecia diferente. Havia uma linha branca, bastante cómica, no sítio que antes estava tapado pelo bigode. Já não se parecia com o Clark Gable. Dani largou a chorar e fugiu para o quarto. Depois disso, Rick nunca mais saiu com ela a cavalo. Nem a levou no barco para fazer esqui aquático. Mas a verdade é que também não teve muita importância porque as férias estavam a terminar. A mãe mandou-a para um campo de férias, para passar o resto do verão.
 
Nora levantou os olhos do trabalho para responder à pancada leve que se ouviu na porta do estúdio. — Entre. A porta abriu-se ligeiramente e a Sra. Holman apareceu, hesitante, à entrada da sala. — Posso dizer uma palavrinha à senhora? — perguntou com toda a formalidade. Nora fez que sim com a cabeça.
— Claro. — Pousou o pedaço de barro e limpou as mãos. A preceptora entrou, constrangida. Aquela era uma das raras vezes em que tinha entrado no estúdio. — Gostava de falar com a senhora por causa da Danielle. Deitou um olhar a Rick, que se encontrava perto. — O que é que há? — perguntou Nora. A Sra. Holman olhou novamente para Rick. Hesitou. Rick compreendeu. — Vou deixá-las sozinhas. — Saiu para o quarto ao lado, deixando a porta aberta. — Então? — perguntou Nora. A mulher mais idosa continuava pouco à vontade. — A Danielle está a crescer. — Claro — disse Nora. — Todos sabemos isso. — Já não é o que se possa dizer uma criança. Está a tornar-se uma rapariguinha e bem depressa. Nora olhou-a em silêncio. — O que eu quero dizer — continuou a preceptora, num tom de embaraço — é que não é fácil explicar-lhe certas coisas. — Que coisas? — perguntou Nora com ar aborrecido. — Tenho a certeza de que não vai ser preciso explicar-lhe os factos da vida. Na Escola de Miss Randolph têm esse cuidado e fazem-no com toda a eficiência. — É isso mesmo — disse a Sra. Holman excitada. — Ela já sabe.  Nora sacudiu a cabeça. — Claro que sabe. É natural que saiba. — Ela sabe — disse a mulher — e sabe o que vê. Nora ficou um momento silenciosa. — Exactamente, onde é que está a querer chegar, Sra. Holman? A preceptora não olhou para ela. — Danielle vê o que acontece nesta casa. E sabe o que sabe. O que acontece é que não é bom para uma rapariga ver essas coisas na sua própria casa. — Está a querer dizer-me o que devo fazer na minha própria casa? A preceptora sacudiu rapidamente a cabeça. — Não, Miss Hayden. Estou apenas a falar-lhe da sua filha. Estas coisas que ela vê e estas coisas que ela sabe, são demais para uma criança como a Dani poder compreender. Pensa muitas coisas erradas a esse respeito. — Os olhos da preceptora fixaram-se candidamente nos de Nora. — Já não consigo explicar-lhe que ela, na realidade, não vê aquilo que vê. — Não creio que nada disso lhe diga respeito, Sra. Holman — disse Nora friamente. O rosto da preceptora fechou-se numa expressão de teimosia. — Num certo sentido, não é, Miss Hayden. Mas eu tenho-me ocupado da Dani desde que ela nasceu. Não me sentiria bem comigo mesma se não lhe dissesse até que ponto isto está a afectá-la. — Muito obrigada, Sra. Holman — disse Nora no mesmo tom cheio de frieza. — Mas, por favor, não se esqueça de que eu sou a mãe da Dani desde que ela nasceu. A responsabilidade por tudo quanto lhe diz respeito é minha e não sua. A preceptora olhou para ela. — Sim, Miss Hayden. — Voltou-se e saiu do estúdio. A porta fechou-se atrás dela e Rick entrou, vindo do quarto ao lado. — Ouviste o que ela disse? — perguntou Nora.  Rick olhou para Nora. — Essa mulher tem de se ir embora. — Num certo sentido, ela tem razão. A Dani está a crescer. — Nora pegou num pedaço de barro. — Temos de ser mais cuidadosos.
— Cuidadosos? — explodiu Rick. — Como é que se pode ser mais cuidadoso? Tenta sair à socapa desta casa, a altas horas da madrugada, para voltares para aquele apartamento por cima da garagem. Aposto que metade da vizinhança sabe o que eu estou a fazer! Nora riu-se. — Podias tentar ser um bocado menos barulhento quando fechas as portas. — Faz tu a experiência! Especialmente quando está a chover e fica tudo atolado. Quase que me afogo. Nora pousou o barro.  — Pois é, vamos ter de fazer qualquer coisa. — Podíamos casar-nos — disse Rick. — Já se acabava com todas estas confusões. — Não. Nora olhou-o bem de frente. — Nós não somos feitos para o casamento. Já tentei duas vezes, sei muito bem. E tu, lá no fundo, também não tens mais inclinação para isso, do que eu. Rick aproximou-se e passou os braços em volta dela. — Mas ainda não tentámos um com o outro, minha querida. Assim ia ser diferente. Nora afastou-o. — Pára de tentares enganar-te. Nenhum de nós é do género de se amarrar. Somos iguais. Ambos gostamos de experimentar coisas novas de vez em quando. — Eu não, minha querida. Era capaz de ser muito feliz se vivesse só para ti. Ela evitou-lhe o abraço. — E como é que ias explicar aos teus amigos quando não pudesses sair às terças e quintas à noite? Especialmente à tua amiguinha italiana, a fotógrafa de cabarés, que cozinha spaghetti para ti quando está de folga? O que é que tu lhe podias dizer, depois de ela ficar este tempo todo à espera que casasses com ela? Ficou a olhá-la com o rosto afogueado. — Tu sabes? Nora sorriu. — Sei tudo a teu respeito. Não sou assim tão tola. — Encolheu os ombros e pegou num cigarro. Antes de continuar, esperou que ele o acendesse. — Mas não me importo, sinceramente. Podes fazer o que quiseres, desde que eu tenha aquilo que quero. Devagarinho o sorriso espalhou-se no rosto dele. — E eu tenho aquilo que tu queres, não é verdade, minha querida? Estendeu os braços para ela. Desta vez não lhe evitou o abraço. Rick tirou-lhe o cigarro da boca e pô-lo num cinzeiro. Depois beijou-a, premindo a boca forte e brutal de encontro à dela. Nora ficou de olhos abertos, a olhá-lo, no rosto. Rick empurrou-a de encontro à mesa, enquanto lhe metia a mão por debaixo da saia. — A janela — disse Nora, fazendo um gesto com a mão na direcção da enorme janela envidraçada que havia em frente deles. — Que se lixe, não posso esperar. Os vizinhos que vão para o diabo.
 
Quando Dani voltou do campo de férias, Charles foi esperá-la à estação. Ela olhou em volta. A Sra. Holman costumava ir com o mordomo. — Onde é que está a Nanny? Charles começou a pegar na bagagem, sem olhar para ela. — Não sabia, Miss Dani? A Sra. Holman foi-se embora. Dani parou de repente. — A Nanny deixou-me? Charles sentiu-se embaraçado. — Julgava que já sabia, Miss Dani. Ela arranjou outro emprego. O rosto de Dani mostrou-se zangado. — Foi a mãe que a mandou embora? 
— Isso não sei, Miss Dani. Aconteceu logo a seguir à sua partida. — Abriu a porta do carro para ela entrar. — Sabes onde é que a Nanny está a trabalhar? — perguntou. Charles fez que sim com a cabeça. — Quero que me leves até lá. Charles hesitou. — Não sei. A sua mãe... — Eu quero que me leves lá! — disse Dani, zangada. — Miss Dani, A sua mãe vai ficar muito zangada comigo. — Eu não lhe digo nada. Leva-me até lá! Dani sentou-se no banco de trás e Charles fechou a porta. Quando se instalou no assento da frente, fez mais uma tentativa para a dissuadir. — Miss Dani...  De repente, a voz da pequena soou tão glacial como a da mãe. — Se não me levas lá, digo à mãe que levaste. Era uma das casas de um conjunto de construções novas em St. Francis Wood. Nanny vinha precisamente ao longo do passeio, empurrando um pequeno carro cinzento de bebé. Dani saltou do carro, sem quase o deixar parar. — Nanny! — gritou, correndo para ela. — Nanny!  A Sra. Holman parou e franziu os olhos por causa do sol da tarde. Pôs uma das mãos a servir de pala em frente dos olhos. — Dani? — Depois, começou a ver claramente e abriu os braços para receber num abraço a pequenita que corria para ela. — Dani! — gritou, enquanto os olhos se lhe enchiam de lágrimas. — Dani, mein kleines Kind. Dani chorava também. — Por que é que me deixou, Nanny? Por que é que me deixou? A preceptora beijou-lhe o rosto todo. — Minha pequenina — murmurou enlevada. — Minha rica menina. Deixa-me olhar para ti. O que tu cresceste e como estás queimada! Dani enterrou- lhe a cabeça no seio volumoso. — Devia ter-me dito — soluçou. — Não devia ter-me deixado desta maneira! De repente, a velha senhora compreendeu o que Dani queria dizer. Levantou a cabeça e olhou para Charles. O mordomo sacudiu a cabeça, lentamente. Intuitivamente, compreendeu o que ele queria dizer. Voltou-se novamente para a pequenita. — Agora já és uma menina crescida, Dani. Já és crescida de mais para ter uma nanny. — Devia ter-me dito — continuou Dani, ainda com os olhos cheios de lágrimas. — Não está certo. — Verdadeiramente, o meu trabalho é tomar conta de bebezinhos, minha pequenina Dani. Os bebés precisam de mim. — E eu preciso de si — disse Dani. — Tem de voltar para casa comigo. A preceptora sacudiu a cabeça, devagar. — Não posso, Dani. — Por quê?  A Sra. Holman pôs a mão no carrinho. — Este bebé também precisa de mim — disse simplesmente.  — Mas eu preciso mais. Tenho-a tido sempre comigo.  — E agora já é tempo de aprenderes a passar sem mim — disse a velha preceptora. — Já és uma menina crescida. O que é que me restaria fazer a não ser ficar sentada a ver-te ir de um lado para o outro? Já és capaz de tomar conta de ti. Não foi o que fizeste todo o verão sem mim? Por que é que as coisas hão-de ser diferentes só porque estás em casa? — Mas eu gosto tanto de si, Nanny. 
A preceptora abraçou-a de novo. — E eu gosto muito de ti, minha querida Dani.  — Então, tem de voltar para casa comigo. — Não Dani — disse a preceptora. — Não posso voltar contigo para casa. A tua mãe tinha razão. Ela disse que isto tinha de acontecer, mais cedo ou mais tarde. — A minha mãe? Então eu tinha razão! Foi mesmo ela que a mandou embora! — Mais tarde ou mais cedo teria de acontecer, Dani — disse tristemente a preceptora. — Já tens doze anos. És quase uma senhora. Em breve, os rapazes vão começar a procurar-te. Vais ter convites para sair, festas. Para que é que tu querias uma velha Nanny à tua volta? Vais começar a viver a tua própria vida. — Foi a mãe que a mandou embora? — perguntou, teimosa.  — Concordámos em que seria o melhor. A tua mãe foi muito generosa. Pagou-me um ano inteiro de indemnização. — Mesmo assim devia ter falado comigo, Nanny — disse Dani. — Não era ela que ia ficar sem a Nanny, era eu. A preceptora ficou silenciosa. A lógica da pequenita ultrapassava-a. — É melhor ires andando. A tua mãe vai ficar preocupada. Além disso, ela tem uma linda surpresa para ti. — Não me interessa a surpresa dela — disse Dani. — Posso vir visitá-la? De vez em quando? Isto é, se a Nanny não pode ir visitar-me a mim? A Sra. Holman apertou-a muito. — Claro, Dani. A quinta-feira é o meu dia livre. Talvez possamos encontrar-nos quando saíres da escola. Dani beijou a preceptora no rosto. — Vou sentir muito a sua falta. — Eu também vou sentir a tua falta — disse a Sra. Holman. Parecia prestes a começar a chorar de novo. — Vamos, agora vai, senão o Charles vai ter problemas. Beijaram-se de novo e Dani encaminhou-se lentamente para o carro. Foi quase todo o caminho em silêncio até casa. Quando estavam quase a chegar, inclinou-se para a frente. — Que espécie de surpresa é que a mãe tem para mim?  — Não posso dizer. A sua mãe fez-me prometer que guardava segredo. Mas, no final, sempre acabou por ser Charles a dar-lhe a novidade. A mãe estava a ter uma reunião no estúdio e tinha deixado recado que não queria que a incomodassem. Dani subiu as escadas, seguida de Charles que transportava as coisas dela e voltou em direcção ao que sempre fora o seu quarto. — Para aí, não, Miss Dani. Por aqui. — Charles voltou-se para o lado oposto, afastando-se do seu antigo quarto e do da mãe. Dani seguiu-o. — É esta a surpresa? O mordomo fez que sim com a cabeça, enquanto parava em frente do que tinha sido o maior dos quartos de hóspedes. Abriu a porta com um gesto forte. — Faz favor, Miss Dani. O quarto tinha mais do dobro do tamanho do outro. Tudo o que lá estava dentro era novo, desde a cama reluzente, aos aparelhos de alta fidelidade e de televisão embutidos na própria parede. Havia um grande armário onde se podia entrar, como o da mãe, e uma casa de banho nova com a banheira enterrada no chão e um recanto de toilette. — Pode regular a televisão e a alta fidelidade na cabeceira da cama — disse Charles com orgulho. — Muito interessante — disse Dani sem entusiasmo. Olhou em volta. — Onde é que está o meu tesouro? — A cómoda não ficava bem com os móveis novos e a sua mãe mandou pô-la no sótão.
— Tragam-na para baixo. — Está bem, Miss Dani.  — O que foi que aconteceu ao meu antigo quarto? — A sua mãe mandou transformá-lo num gabinete para o Sr. Riccio. E o velho quarto da Sra. Holman é, agora, o quarto dele. — Oh! — disse Dani.  Já tinha idade suficiente para perceber o que aquilo queria dizer. No campo de férias, todas as raparigas cochichavam acerca do que se passava entre os monitores e monitoras que tinham os quartos perto uns dos outros. Charles levou as coisas dela para dentro do quarto. A mala que tinha vindo do campo de férias já lá estava. — Vou mandar a Violet para a ajudar a desfazer as malas. Estávamos à sua espera para trazer a chave da mala grande. — Não preciso de ajuda. — Claro que precisas. — A voz da mãe veio da porta aberta. — Não podes tirar isso tudo sozinha. Dani voltou-se, ficando de frente para a mãe. — Fui eu que pus tudo na mala, sozinha — disse. — Não preciso da ajuda da Violet. Nora olhou para ela. Sabia que havia qualquer coisa que não estava a correr bem. Olhou de relance para Charles. Ele fez que sim com a cabeça. — Isso é maneira de cumprimentares a tua mãe depois de passares todo o verão fora? Vem aqui ao pé de mim e deixa-me olhar bem para ti. Nora inclinou-se ligeiramente para a frente, para que Dani lhe beijasse o rosto. Obedientemente Dani fez como era hábito. Charles saiu do quarto e fechou a porta atrás dele.  — Por que foi que mandou a Nanny embora? — perguntou logo que ouviu a porta fechar- se. — É essa a primeira coisa que tens para me dizer, depois de eu me ter dado ao trabalho de arranjar este quarto para ti? O menos que podes fazer é dizer-me que gostas. — Está muito bonito. — O tom de voz de Dani indicou que não havia nada que lhe interessasse menos. — A televisão e o gira-discos têm controlo à distância, na cabeceira da cama. — Eu sei. O Charles já me disse.  Dani parecia esperar uma resposta à pergunta que fizera. Nora mostrava-se igualmente decidida a não lha dar. — Cresceste. Estás quase da minha altura. Que altura tens?  — Um metro e sessenta. — Volta-te — disse a mãe. — Deixa-me olhar para ti. Obediente, Dani rodou devagarinho. — Cresceste também noutros aspectos. Estás uma senhora. — Já uso um soutien trinta e dois — disse Dani, com uma nota de orgulho na voz. — Mas tenho as costas muito largas, A crescer desta maneira, a minha monitora acha que no próximo verão, já devo usar, pelo menos, o trinta e quatro. A voz de Nora mostrou-se aborrecida. — As raparigas não falam nessas coisas. Vou mandar a Violet para te ajudar a desfazer as malas. — Não quero a Violet — disse numa voz que começava a tornar-se mal-humorada. — Quero a Nanny. Nora voltou-se, exasperada. — Pois bem, a Nanny já cá não está. Se não queres que a Violet te ajude, vais ter de te governar sozinha. — Então, não preciso de ninguém! — retorquiu Dani. Os olhos humedeceram-se-lhe. — Por que é que não me disse que ia mandar a Nanny embora? Por que foi que guardou segredo?
— Não guardei segredo nenhum — disse Nora em voz zangada. — Já estás muito crescida. Não precisas de babá. Dani começou a chorar.  — Podia ter-me dito. — Deixa de te portares como uma criança! Eu não tenho de te dizer nada. Faço o que acho que devo fazer! — Isso é o que diz sempre! Disse o mesmo quando mandou o papá embora. E depois quando mandou o tio Sam embora. Sempre que descobre que alguém gosta mais de mim do que de si, mandao embora! Foi por isso que fez isto. — Cala-te!  E, pela primeira vez na vida, a mãe, esbofeteou Dani. A criança levou rapidamente a mão à cara e levantou para a mãe um olhar horrorizado. — Odeio-a! Odeio-a! Um dia há-de gostar de alguém tanto como eu gosto e eu hei-de afastar essa pessoa de si! Depois é que vai ver se gosta! Nora caiu de joelhos em frente da filha. — Desculpa, Dani — murmurou. — Desculpa, não foi por querer!  Dani olhou-a nos olhos durante alguns momentos, depois, voltou-se e correu para a casa de banho. — Vá-se embora! Deixe-me! — gritou através da porta fechada. — Odeio-a. Odeio-a — disse, por fim.
 
Sally Jennings olhou para ela por cima da mesa. Os olhos da pequenita estavam vermelhos de chorar. As lágrimas tinham-lhe marcado um sulco ao longo das faces. Sally empurrou a caixa dos lenços de papel em direcção a ela. Dani tirou um e secou a cara. Olhou para a psicóloga, agradecida. — Aquilo não era verdade. Não era o que eu sentia. Mas não havia outra maneira de falar com a minha mãe. Se eu não gritasse ou berrasse ou tivesse um ataque de histerismo, ela não me dava atenção. Sally fez que sim com a cabeça. Olhou para o relógio de parede. — Acho que vamos ficar por aqui, Dani — disse suavemente. — Vai ver se consegues dormir um bocadinho. Dani pôs-se de pé.  — Sim, Miss Jennings. Vejo-a na segunda-feira?  A psicóloga sacudiu a cabeça. — Não creio, Dani. Tenho trabalho no hospital. Não venho cá todo o dia. — E na terça-feira é a audiência. Também não vou poder falar consigo. Sally fez que sim com a cabeça.  — Tens razão. Mas não te preocupes. Havemos de arranjar qualquer coisa. Ficou a ver a enfermeira levar a pequenita ao longo do corredor. Recostou-se na cadeira e pegou num cigarro. Acendeu-o e ligou o gravador. Ainda não era tudo, mas dava para começar. Era a parte mais desagradável daquele trabalho. Nunca tinha tempo bastante para acompanhar uma coisa até ao fim.
 
Dirigi-me para a janela e olhei para fora. Sobre a rua havia ainda o nevoeiro denso da manhã. Acendi um cigarro, inquieto. Voltei-me e olhei para o telefone. Talvez devesse tentar contactar novamente com Elizabeth. Depois, pensei melhor. Não ia obter resposta. Ela não ia atender. Que idiota eu tinha sido. Nunca devia ter-lhe mandado aquela fotografia. Elizabeth tinha ficado muito calada ao telefone quando eu lhe tinha contado. — É uma história louca — tinha dito. — O que é que a Nora esperava conseguir de uma coisa dessas? — Não sei. Talvez fosse como disse o homem, uma questão de segurança, ou talvez uma coisa a usar contra mim, como um trunfo. É por isso que te vou mandar a fotografia.
— Não me mandes fotografia nenhuma, Luke. Não quero vê-la. Deita-a fora. — Não posso — disse. — A única hipótese que tenho é mandar-ta para ti. Se não fosse falsa não ta mandava. Sabes isso. Vou mandá-la de avião, registada. Não precisas abrir. Basta pô-la em lugar seguro. — Estás a pedir muito. Sabes que eu não vou conseguir resistir à tentação de ver a fotografia. — Então vê — disse. — Vê bem o papalvo com quem casaste.  Ficou um momento silenciosa. — Estou arrependida de te ter deixado ir. — Agora é demasiado tarde para pensar nisso. Ficou outra vez em silêncio. — Sentes-te bem? — Sinto.  — Tens a certeza? — Tenho. Estamos ambos à espera de que voltes para casa.  Aquela conversa tinha sido na quinta-feira de manhã. Pus a carta no correio e telefonei-lhe no dia seguinte, à hora que eu calculava que ela já a tivesse recebido. Logo que ouvi a voz dela percebi que havia problema. Parecia que tinha estado a chorar. — Volta para casa já! — Mas Elizabeth — protestei. — Já faltam só uns dias para a audiência em que o juiz vai decidir a quem será entregue a tutela. — Não me interessa! — disse. — Vem para casa! — Viste a fotografia? — A fotografia não tem nada a ver! — Eu disse-te que foi cilada. — Mesmo assim — soluçou. — Escusavas de tomar um ar tão feliz! — Elizabeth, sê razoável!  — Já há muito tempo que estou a ser razoável. Agora estou a ser apenas mulher. Não quero falar mais contigo ao telefone. Manda-me um telegrama a dizer quando é que estás preparado para vir! E desligou. Telefonei-lhe na mesma volta. Mas durante uma hora apenas consegui obter o sinal de impedido. Deve ter deixado o auscultador fora do sítio. Depois, da recepção, ligaram para mim, dizendo que Miss Spicer estava à minha espera e eu desci. Tivemos a nossa entrevista no café. — Como é que está a Dani? — perguntei, logo que a empregada nos trouxe os cafés. — Muito melhor — disse. — Nos últimos dias tem-se mostrado muito mais disposta a colaborar. — Alegra-me sabê-lo.  Miss Spicer olhou para mim.  — Mas continua a ser uma rapariguinha muito doente. — O que é que a leva a dizer isso? — Seja o que for que a preocupa, está enterrado bem fundo. Ainda não encontrámos a razão que a fez explodir daquela maneira. Há coisas relacionadas com ela que não conseguimos compreender. — Como, por exemplo? — perguntei. — Talvez eu possa ajudar. — Em criança, ela era dada a acessos de fúria, explosões de mau humor ou cóleras violentas, quando não conseguia fazer o que queria? Sacudi a cabeça. — Não que eu me lembre. Habitualmente era até o contrário. Quando estava aborrecida, isolava-se. Ia para o quarto dela ou para o da preceptora. À parte isso, fingia que não tinha acontecido nada. Mostrava-se particularmente simpática, tentava agradar ainda mais às pessoas. — Comportava-se assim em relação a si? Ri-me. — Acho que nunca foi preciso. A Dani conseguia de mim tudo o que queria.
— Nesse caso, procedia assim com a mãe? Hesitei. — Fale, por favor — disse. — Não quero que pense que estou a tentar levá-lo a ser menos caridoso. Mas, no ponto em que estamos, todas as informações são importantes. — A Nora nunca a tratou mal — respondi. — As coisas que chocavam Dani eram geralmente actos de omissão e não de prepotência. — O senhor e Miss Hayden costumavam discutir em frente da criança? Olhei para ela e ri-me. — Tínhamos uma relação muito civilizada, pelo menos, na opinião de Nora. Vivíamos num estado constante de guerra fria. Nunca foi declarado um conflito aberto. — O que foi que o fez interromper as visitas à sua filha naquela altura? — Disseram-me que o fizesse. — Miss Hayden? — Fiz que sim com a cabeça. — Não há qualquer registo de que o tribunal tenha posto fim ao seu direito de a visitar. Não levantou a questão, quando Miss Hayden proibiu as visitas? — Não estava em situação de fazer nada. Estava teso. — Então o que é que fez? Olhei-a nos olhos. — Apanhei uma bebedeira — disse simplesmente. — Não tentou explicar à sua filha porque é que não podia visitá-la? Sacudi a cabeça. — Para quê? Isso não ia modificar nada. Miss Spicer não respondeu. Passados alguns momentos, disse: — Falei com a sua ex-sogra, ontem. Julgo que está ao corrente dos projectos dela relativamente à Dani. — Sim, estou. Tinha estado presente na reunião em que isso tinha sido discutido. A velha senhora tinha conseguido coisas espantosas no pouco tempo que lhe fora dado. Devia ter gasto bastante dinheiro, mas Dani já tinha sido aceite numa nova escola com uma reputação estabelecida no que dizia respeito à educação de crianças com problemas. O Dr. Weidman, eminente psiquiatra infantil, também ligado à escola, estivera presente na reunião e estava pronto a aceitar a responsabilidade pela reabilitação de Dani. — Está de acordo? — perguntou Miss Spicer. — Acho que se trata de um plano muito bom. Parece-me que a Dani terá, assim, muito melhor tratamento do que o que o Estado lhe poderá proporcionar. — Não põe qualquer objecção a que a Dani fique sob a tutela da avó? — Não. Parece-me mesmo a única solução prática. A Sra. Hayden é uma pessoa extremamente responsável. Há-de fazer que a Dani tenha tudo aquilo de que precisa. — Tenho a certeza disso — disse Miss Spicer secamente. — Mas se aquilo que me diz é verdade, foi o que fez a mãe. Percebi o que ela queria dizer. Nora tinha dado a Dani tudo aquilo de que ela parecia necessitar e, no entanto, não tinha evitado nada. — A Sra. Hayden terá muito mais tempo disponível para a Dani. Não tem os mesmos interesses fora de casa que Nora tem. — Creio que sabe, coronel, que a sua filha já não é virgem. O mais provável é que estivesse a ter uma ligação com o homem que matou. — Já tinha pensado nisso — respondi francamente. — Miss Hayden disse que não tinha dado por isso. Não encontrei resposta para aquilo. — A nós, parece-nos que a Dani tem pouca noção da moralidade sexual. E, daquilo que conseguimos averiguar, o exemplo da mãe não foi particularmente bom.
— Acho que todos temos consciência disso — disse. — É uma das razões por que eu acho que Dani estaria melhor com a avó. Miss Spicer olhou para mim. — Isso pode ser verdade. Mas estamos um bocado preocupados. Se a avó não conseguiu controlar os impulsos da própria filha, até que ponto se pode esperar que tenha sucesso com a neta?  — Acabou de beber o café. — Talvez a melhor solução para a criança fosse afastá-la completamente desse ambiente. — Pôs-se de pé. — Muito obrigada por ter vindo falar comigo, coronel. Já na sala de entrada, parou um momento. — Há duas coisas que me intrigam. — Quais são?  — Por que é que a Dani o matou se estava apaixonada por ele? — E a outra? — Se, na realidade, ela o matou, por que é que seja para que lado for que nos voltemos, não encontramos quaisquer vestígios de que Dani tivesse um carácter suficientemente violento para explodir num homicídio? — Hesitou um momento. — Se, ao menos, tivéssemos mais tempo. — Em que é que isso podia ajudar? — Temos de descobrir a causa, antes de podermos recomendar a cura — disse. — Estamos a trabalhar contra o relógio. Recomendamos determinadas medidas e esperamos acertar. Mas se não conseguimos descobrir a razão, temos de recomendar que a pequena seja enviada para Perkins, para um estudo em profundidade. Precisamos de ter a certeza. — Qual é a sua percentagem de erro? — perguntei. De repente, olhou para mim e sorriu. — Surpreendentemente baixa. Eu própria fico admirada. — Provavelmente os vossos serviços são melhores do que pensam. — Espero que sim — disse, muito séria. — Mais pelas crianças do que por nós. Fiquei a vê-la sair e depois voltei para o meu quarto. Liguei outra vez para Elizabeth, mas mais uma vez o telefone tocou sem que ninguém atendesse. Por fim, desisti e fui até ao Tommy Johnny, do outro lado da rua, jantar uma enorme salsicha alemã com feijão e uma caneca de cerveja. No domingo, fui ao Lar Juvenil. Dani parecia muito bem disposta. — Esta semana, a mãe veio-me ver duas vezes. Por pouco não se encontrava com ela. Disseme que estavam a arranjar tudo para eu poder ir viver com a avó quando saísse. Das duas vezes veio com o Dr. Weidman. Conhece-o, papá? — Já o vi. — É psiquiatra. Acho que a mãe gosta dele. — Porque é que dizes isso? Teve um sorriso furtivo. — É o tipo dela. Sabe como é, fala muito e não diz nada. Sobre arte e as histórias do costume. Ri-me. — Vai uma cola? — Combinado.  Dei-lhe duas moedas e fiquei a vê-la caminhar para a máquina. Muitas das mesas estavam ocupadas. Parecia mais que se estava numa escola, no Dia dos Pais, do que num lar de detenção. Só as enfermeiras às portas e as grades nas janelas altas é que me faziam ver que não era assim. Dani voltou para a mesa e pousou as Colas. — Quer uma palhinha, papá?  — Não, obrigado. Bebo mesmo assim.  Levei a garrafa à boca e bebi um golo. Dani olhou para mim por cima da palha. — Quando eu bebo assim, a mãe diz que não são maneiras.  — A tua mãe é uma especialista em boas maneiras — respondi rapidamente, mas arrependi-me logo. Ficámos um bom minuto em silêncio. — Ainda bebe como bebia, papá? — perguntou, de repente, Dani.
Olhei-a surpreendido. — O que foi que te fez perguntar isso assim de repente? — Lembrei-me de uma coisa — disse. — Do cheiro que costumava ter quando me ia buscar. Não tem importância. Foi só uma ideia, mais nada. — Não, agora já não bebo assim. — Era por causa da mãe? Fiquei um momento a pensar. Seria fácil dizer que sim. Mas não seria totalmente verdade. — Não — disse. — Não era essa a razão. — Então por que era, papá? — Por várias razões, mas principalmente porque estava a tentar esconder-me de mim próprio. Não queria enfrentar os meus próprios falhanços. Dani ficou silenciosa, a pensar naquilo. Depois encontrou resposta. — Mas o papá não era um falhado. Tinha o seu barco. Sorri, pensando em como a lógica dela tornava a coisa tão simples. Mas, de certa maneira, Dani tinha razão. Provavelmente nem sabia que eu alguma vez tivesse tentado uma coisa diferente. — Eu era arquitecto e queria ser construtor, mas não resultou. — Mas agora o papá é construtor. Era o que dizia um dos jornais. — Não propriamente. Trabalho para um construtor. O que eu sou, na verdade, é capataz da construção. — Gostava de ser construtor — disse ela, de repente. — Havia de construir casas felizes. — E como é que fazias isso? — Não construía uma casa para nenhuma família que não vivesse feliz e não quisesse continuar unida. Sorri-lhe. O que estava certo, estava certo. Ela tinha encontrado o único alicerce sobre o qual se podia construir. Mas quem dava garantias? Deus? — Uma vez que estamos a jogar o jogo da verdade — disse num tom mais natural possível — importas-te de me dizer umas quantas coisas? No olhar dela surgiu uma expressão cautelosa. — Que espécie de coisas, papá? — Afinal o Riccio era namorado de quem? De ti ou da tua mãe? Dani hesitou. — Da mãe. — Mas tu... — Foi a minha vez de hesitar. O olhar dela cruzou-se com o meu, cheio de candura. — Disseram-lhe que nós nos entendíamos? Fiz que sim com a cabeça. Ela baixou os olhos para a garrafa da Cola. — É verdade, papá. — Por quê, Dani? — perguntei. — Por quê logo ele? Por que não qualquer outro? — Sabe como é a mãe. Gosta de ser o centro de tudo. Ao menos esta vez queria mostrar-lhe que não era assim. — Querias? — perguntei. — Foi por isso que o mataste?  Os olhos dela afastaram-se dos meus. — Não era minha intenção — disse em voz muito baixa. — Foi um acidente. — Tinhas ciúmes da tua mãe, Dani? Foi por isso? — Sacudiu a cabeça. — Não quero falar nisso — disse, teimosa. — Disse-lhes tudo na esquadra da polícia, antes de me trazerem para aqui. — Se não lhes disseres a verdade, Dani — continuei — eles são capazes de não te deixar ir viver com a tua avó. Ela continuou a não olhar para mim. — Não podem reter-me para sempre. Quando eu tiver dezoito anos deixam-me sair. Isso sei eu.
— Três anos e meio é muito tempo; demais da vida de uma pessoa para ficar encarcerada. — E que diferença lhe faz? — Olhou-me com ar de desdém. — Na terça-feira, quando estiver tudo acabado, volta para casa e, provavelmente, nunca mais vem ver-me. Tal como antes. — Mas faz-me muita diferença, Dani. É por isso que estou aqui. Já te expliquei porque é que não podia vir antes. A voz dela mostrou-se irritada. — É só conversa. Se se importasse, não tinha deixado de vir!  Baixou novamente os olhos para a garrafa. Perguntei a mim mesmo o que seria que ela via de tão absorvente no líquido castanho, através do vidro verde.  — É fácil para si voltar aqui e dizer essas coisas — disse em voz baixa. — É sempre fácil dizer coisas bonitas. Mas já não é tão fácil fazê-las. — Eu sei isso, Dani. Sou o primeiro a admitir os meus erros.  — Está bem, papá. — Levantou os olhos e, de repente, já não era uma criança. Era uma mulher jovem. — Todos nós cometemos erros. Deixemos isso de lado. Já disse que não quero falar mais no assunto. Trata-se da minha vida e nada do que possam dizer vai modificar nada para mim. É demasiado tarde. Esteve tempo demais ausente. Dani estava errada e, ao mesmo tempo, estava certa. Tal como nunca nada é completamente preto ou completamente branco. — Houve mais alguém, alguma vez? Outros rapazes, quero dizer?  Sacudiu a cabeça. — Não.  — Não me estás a mentir, pois não, Dani?  Os olhos dela fixaram os meus, bem de frente.  — Não, papá. Não estou a mentir. Não conseguia fazer aquilo com mais ninguém. É possível que tenha começado só para mostrar à mãe, mas acabou por ser uma coisa completamente diferente. — Diferente, como?  Os olhos dela eram límpidos e suaves e havia neles uma grande tristeza. — Eu amava-o, papá — disse calmamente. — E ele também me amava. Tencionávamos fugir e casar-nos, logo que eu tivesse idade para isso.
 
O sol começava finalmente a dispersar o nevoeiro. Afastei-me da janela, inquieto. Peguei no jornal e procurei a página das diversões. Pensei em ir a um cinema, mas já tinha visto quase todos os filmes em exibição na cidade. Liguei a televisão. Dez minutos depois, apaguei-a. Estava numa espécie de terra-de-ninguém para os programas do dia. Precisaria de ser uma geração mais velho ou uma geração mais novo. Depois, o telefone tocou e levantei-me de um salto para ir atender. Talvez a zanga de Elizabeth já tivesse passado. — Coronel Carey?  — Sim.  — Daqui Lorenzo Stradella. Lembra-se daquelas duas cartas que Ana saiu para ir buscar? — O que é que elas têm?  — Bom, é que ainda estão em meu poder — respondeu. — E para que é que me está a telefonar? Sabe bem quem é que as comprou. — É verdade. Mas ela já pagou. Acho que estas duas devem estar a calhar para si. — Não estou interessado — disse. — Leve-as a Miss Hayden. — Espere um momento! Não desligue. — Estou à espera. — Não posso levá-las a Miss Hayden. Eu faço-lhe um bom preço.  De repente, compreendi. Claro que não podia levá-las a Nora. Nora diria a Coriano. E Coriano não gostava que os rapazes lhe escondessem nada. Fiz a experiência. — Ok, mas eu não trato com a arraia miúda. Diga ao Coriano que fale comigo. Assim, talvez possa ter a certeza de que não vão aparecer outras mais tarde.
O palpite estava certo. — Nada de Coriano. O negócio é entre si e mim. — O Coriano não vai gostar. — Faço-lhe um preço tão barato que ele não precisa de saber. — O que é que chama barato? — perguntei. — Cinco mil. — Adeus, Charles — respondi e desliguei.  Apenas tive tempo de acender um cigarro antes de ele voltar a telefonar. Desta vez, a voz era um pouco mais branda. — Qual é a sua ideia de barato? — Cinqüenta dólares. — Isso é mesmo barato. — Você está a falar com um tipo barato. Pertenço ao lado pobre da família. — Vou-lhe tornar a coisa mais fácil. Duzentos e cinqüenta. — Cem é até onde posso pagar. Ficou um momento em silêncio. Calculei que estivesse a pensar. — É dinheiro achado — disse-lhe. — Negócio feito. — Traga-as aqui. — Mais devagar. Você é um tipo que gosta das coisas direitas. Pode ter aí os chués. — Não seja idiota. — Esteja no seu quarto às onze da noite. Vou mandar alguém entregar-lhas. — Ok — respondi. — Não se esqueça. Nada de partidas. Massa na mão e as cartas são suas. O telefone ficou silencioso e eu pousei-o no lugar. Aproximei-me da mesa e fiz um cheque de cem dólares. Em seguida desci para levantar o dinheiro. Conservei-me tenso enquanto o caixa contava as notas. Só esperava que houvesse massa suficiente no banco para pagar o cheque. Quando voltei ao meu quarto, a luz do telefone acendia e apagava. Nora tinha telefonado e queria que eu ligasse para ela. Marquei o número. — Daqui fala o Sr. Carey, Charles — disse. — Miss Hayden está? — Só um momento, Sr. Carey. Vou passar-lhe a chamada.  Ouvi um estalido e depois a voz dela. — Luke?  — Sim — respondi. — O que é que querias?  — Quero falar contigo. Podes vir jantar?  — Não me parece. Acho que não estaria bem.  — Não sejas bota-de-elástico. Não te como. Quero falar contigo por causa da Dani. — O que é que há com a Dani?  — Falamos durante o jantar. Hesitei um momento. Uma boa refeição não me ia fazer mal nenhum. Já não podia ver knockwurst e feijões. — A que horas? — Vem cedo para tomarmos uma bebida. Pelas sete?  — Está bem — respondi e pousei o telefone, perguntando a mim mesmo o que é que tinha provocado aquilo, assim de repente. Quando toquei à campainha, às sete, Charles abriu aporta quase imediatamente. — Boa tarde, coronel. — Boa tarde, Charles.  Era quase como se eu nunca me tivesse ido embora. — A senhora está na biblioteca. Sabe o caminho — disse, com um leve sorriso. — Sim, sei o caminho — respondi, secamente. 
Bati à porta da biblioteca e entrei. Nora levantou-se do grande sofá em frente da secretária. O Dr. Weidman ficou uma fracção de segundo atrás dela. Nora caminhou para mim de mão estendida. — Luke. Ainda bem que vieste. Conhecia aquele tom de voz. Era quente e cordial, como se nunca tivesse havido qualquer desentendimento, entre nós. A voz social que ela sempre usava quando tinha público.  Segurando ainda a minha mão, voltou-se para o médico. — Lembras-te do Dr. Weidman? Estava em casa da mãe. Como é que eu me podia esquecer? Especialmente depois do que Dani tinha dito. O que é que ela esperava de mim, que a desse em casamento? — Como está, doutor?  Ter-lhe-ia estendido a mão mas, fosse por que razão fosse, Nora continuava agarrada a ela. Ele inclinou-se ligeiramente. — Tenho muito prazer em voltar a vê-lo, coronel. Nessa altura, Nora largou-me a mão. — Há uma garrafa nova de bourbon no bar. Bourbon continua a ser a tua bebida, não é verdade? Fiz que sim com a cabeça. Nora já tinha marcado a sua posição. Dirigi-me para o bar. — Queres que te prepare alguma coisa? — perguntei automaticamente.  Era como se eu ainda vivesse ali. Costumava fazer-lhe a mesma pergunta sempre que tomávamos bebidas na biblioteca. — Não, obrigada. O doutor e eu estamos a tomar martini. Voltei-me para olhar para eles. Era um indicio seguro de que Nora estava interessada no médico. Basicamente, ela era uma bebedora de uisque escocês, mas havia duas coisas que ela adoptava imediatamente quando arranjava uma nova conquista: a marca de cigarros e a bebida que ele preferia. Todos levámos os copos à boca. Só quando me sentei é que compreendi que tinha passado para trás da secretária, para a minha antiga cadeira. Levei novamente o copo à boca e, em seguida, pousei-o em cima da secretária. — Nada mudou — disse, olhando em volta.  — Não havia razão para mudar nada, Luke — disse Nora rapidamente. — Esta sala foi sempre tua. Perguntei a mim mesmo por que seria que ela tinha dito aquilo. Nora não era sentimental em coisas como aquela. — A mim parece me que a teria mudado um bocado — respondi. — Quanto mais não fosse para evitar recordações desagradáveis. Sorriu.  — Eu não tinha nada a evitar. O Dr. Weidman terminou a bebida e pôs-se de pé. — Bom, tenho mesmo de ir, Nora. — Tem a certeza de que não pode ficar para jantar, doutor? Sacudiu a cabeça com ar desgostoso. — Tenho de voltar para o consultório — disse. — Tenho uma marcação para as oito horas. Nora pousou o copo e levantou-se. — Eu acompanho-o à porta. Weidman voltou-se para mim. Desta vez apertámos as mãos. — Tive muito prazer em voltar a vê-lo, coronel. — Adeus, doutor.  Fiquei a vê-los sair da sala e depois voltei a sentar-me atrás da secretária. Distraídamente abri uma das gavetas. Havia lá uma velha fotocópia. Peguei-lhe e olhei para ela. Era o projecto da casapiloto do meu primeiro empreendimento. Tantos anos tinham passado e, no entanto, era como se fosse ontem. Estudei os planos. Continuava a poder dizer-se que era uma boa casa. Havia apenas umas pequenas alterações que eu faria, se fosse construi-la hoje.  Nora parou à porta, a observar-me.
— Como vês, nada mudou, Luke. Nem sequer despejei a secretária. — É o que estou a ver. — Guardei novamente as plantas e fechei a gaveta. — Exactamente, por que foi que me convidaste para jantar? Sorriu e fechou a porta atrás dela. — Isso pode esperar até depois do jantar. És sempre muito mais razoável quando tens a barriga cheia. Aproximou-se e ficou em frente da secretária, a olhar para mim. — Sempre disse que as casas eram para as pessoas. De qualquer maneira, esta sala sempre me pareceu vazia sem ti. — Deixa-te disso, Nora. — Sorri para aliviar o azedume das palavras. — O público já se foi embora. Não és sentimental com coisas ridículas como essa. De repente, Nora riu-se. — Já não nos restam quaisquer ilusões, pois não, Luke?  Sacudi a cabeça. — Acho que não.  Dirigiu-se para o sítio onde deixara a bebida e pegou no copo. Depois, de repente, pousou-o outra vez, com uma pancada seca. — Sê bom rapaz, Luke. Arranja-me um scotch com soda. Não entendo como é que as pessoas podem beber esta porcaria destes martinis. Cheiram a perfume barato. Levantei-me e preparei-lhe uma bebida. Depois levei-lha até ao sofá. Bebeu um golo só e acenou com a cabeça. — Isto é muito melhor. Afastei-me e peguei no meu copo. Encostei-me à secretária e levantei o copo na direcção de Nora. Ela também levantou o dela. Ambos bebemos. — O Dr. Weidman tem uma cara muito interessante. Não achas, Luke?  Fiz um gesto com as mãos. — Sabes qual é o primeiro nome dele? — Não. — Isidore. Consegues imaginar uma coisa assim? Isidore. Nestes tempos e com esta idade. Seria de esperar que mudasse um nome daqueles. — Talvez goste dele. — Não creio — disse, pensativa. — Mas é demasiado orgulhoso para o admitir. É uma coisa que eu tenho notado nestes médicos judeus. São muito orgulhosos. — Têm razões para isso. — Usam a religião como um manto. E sabes outra coisa que notei neles? — O que é? — Têm todos um olhar tão triste — disse. — Como as pinturas de Cristo. A porta abriu-se e Charles entrou na biblioteca.  — O jantar está servido, minha senhora. O jantar era excessivo. Começou com sapateira recheada, servida sobre folhas de alface e gelo migado e com aquele molho de mostarda, deliciosamente forte, que só Charles parecia ser capaz de produzir. Em seguida, veio cioppino, uma espécie de bouillabaisse à moda de São Francisco, que se parece mais com um guisado de peixe do que com uma sopa e que leva dentro tudo aquilo que o Pacifico tem para oferecer. Depois roast beef, uma trancha larga, com a costela ainda agarrada, mal passada, com o sangue a escorrer para o prato. E por fim, enormes metades de pêssegos amarelos, colocadas em cima de um saboroso sorvete de chocolate, tal como eu sempre gostara. Levantei os olhos para Charles enquanto ele me enchia a chávena de café. Sorriu, lembrando-se de como eu gostava de pêssegos de lata. A principio tinha ficado horrorizado com o meu gosto e tinha encomendado gigantescos pêssegos frescos, especialmente para mim. Mas, passado algum tempo, cedeu e comprou as latas. Também se tinha lembrado de que eu gostava de uma chávena grande com café, depois do jantar, não de uma chavenazinha minúscula.
— Foi um jantar magnifico, Nora — disse-lhe no fim.  Sorriu. — Fico contente por teres gostado, Luke. Tinha gostado mesmo. E tinha comido como um cavalo, mas ela apenas tinha debicado, como era seu hábito. — Acho que te conheço o suficiente para saber que não te importas de que eu vá à cozinha dizer como gostei. Nora levantou-se da mesa. — Vai, sim. Quando voltares, tomamos mais café e brandy no estúdio. Entrei na cozinha. A cozinheira lá estava, com o seu rosto vermelho, a transpirar por causa do forno, tal como sempre me lembrava de o ter visto. Só que agora tinha os cabelos grisalhos, para me lembrar o passar dos anos. — Coronel Carey! — exclamou num tom cheio de satisfação. — Não me podia ir embora sem lhe dizer que o seu jantar estava maravilhoso. — Tive muito prazer em o preparar para o senhor, coronel. Sempre apreciou aquilo que comia. — Depois, o rosto dela ensombrou-se. — Só faltou uma coisa. Quem me dera que Miss Dani aqui estivesse também. — É possível que ela volte em breve — respondi suavemente.  — Acha que sim, coronel?  — Espero bem que sim.  — Também eu. Se nós estivéssemos em casa naquele dia, talvez aquilo não tivesse acontecido. Preparava-me já para sair, mas voltei-me de novo para ela. — Não estavam em casa naquele dia?  — Não, senhor. Quinta-feira é o nosso dia de saída. Mas como Miss Hayden estava em Los Angeles e não voltava senão na sexta-feira à noite, já tarde, o Sr. Riccio também nos tinha dado a sextafeira. — Não sabia nada disso.  — Eu fui a Oakland visitar a minha irmã e só voltei bastante tarde. Quando tudo já estava acabado.  Olhei para Charles. — E você, Charles? — Voltei às seis horas — disse. — Miss Hayden já estava em casa. — E a Violet — Violet chegou alguns minutos depois de mim. — Então devem ter ouvido parte da disputa — disse.  Charles sacudiu a cabeça. — Não, senhor, Ninguém quis a refeição fria que eu tinha preparado, por isso, Violet e eu ficámos na cozinha. Aqui não se ouve nada do que se passa na casa. Tinha razão. Lembrava-me de ter planeado a casa de forma a que a cozinha e os quartos dos criados ficassem separados do resto. Nora dizia sempre que não havia nada mais aborrecido do que tentar conversar de mistura com os barulhos do lavar da louça na cozinha. Voltei-me novamente para a cozinheira e sorri. — A verdade é que foi um jantar maravilhoso — disse. — Muito obrigado. A mulher sorriu para mim. — Muito obrigada, coronel. O brandy e o café estavam em cima da mesa dos cocktails, no meio de um recanto confortavelmente arranjado num canto do estúdio. Nora levantou os olhos da cadeira em que estava sentada e sorriu quando entrei na sala. Compreendi por aí que estava pronta para falar de coisas sérias. — Então? — perguntou. — A cozinheira gostou de te ver? — Foi uma recepção à moda dos velhos tempos. Fechei a porta e sentei-me em frente dela. Deitou o brandy nos copos e passou-me um. Fechei as mãos na parte de baixo do copo e fiz rodar suavemente o brandy, para o aquecer, Cheirei o bouquet
que subia do copo. Era penetrante e quente e explodia-me, no nariz, como minúsculas bombinhas de Carnaval. Nora observava-me. — Então? — perguntei.  Pegou no copo de brandy e bebeu um pequeno golo. Quando falou, a voz dela era roufenha. — Quero que me ajudes a trazer a Dani de volta para aqui, que é o verdadeiro lugar dela. Era como se, finalmente, a montanha tivesse chegado junto de Maomé. — Por quê eu? — perguntei por fim.  A voz dela continuava rouca. — Porque juntos poderíamos consegui-lo. Tu e eu. Podíamos trazer a Dani para casa. Bebi uma golada de brande. — Estás a esquecer-te de uma coisa. Eu já não vivo aqui. — Isso podia-se arranjar — disse suavemente. Fiquei ali sentado, a olhar para ela e de repente compreendi que não tinha mudado nada. As leis por que se regia eram as mesmas de sempre. A única coisa que lhe importava era aquilo que queria fazer. Quais os estragos que isso causava, quem pudesse magoar, não tinha qualquer importância. — Ah, ah! — disse. — Pensa nisso. A Dani ficaria melhor connosco do que com a mãe. Certamente melhor do que num desses lares para jovens. Gordon acha que se nos unirmos, conseguiremos. O Dr. Weidman acha também que a proposta é psicologicamente equilibrada; que o tribunal seria forçado a concordar. — Poderia ser uma boa ideia, se eu ainda fosse solteiro — disse — mas não sou. — Disseste que a tua mulher era uma pessoa compreensiva. Ela deve saber o que sentes pela Dani, senão não te teria deixado vir aqui. Podemos tornar-lhe a proposta muito atraente. Nunca mais precisaria de se preocupar com dinheiro durante o resto da vida! — Não te canses, Nora — disse. — É impossível.  Pousei o balão do brandy e preparei-me para me pôr de pé. Nora inclinou-e para a frente, na cadeira, e pôs a mão em cima da minha. Olhou-e na cara. — Luke.  Fiquei a olhá-la fixamente. Sentia a electricidade vir até mim através da pressão dos dedos dela. Fiquei quieto, sem falar. — Lembras-te de como costumava ser, Luke? — perguntou suavemente. — Lembro-me, sim. — A pressão dos dedos tornou-se mais forte.  — Pode voltar a ser assim, Luke. Não voltou a ser com mais ninguém como era entre nós os dois, pois não? Sentia-me quase como que hipnotizado. — Não — respondi. — Podia voltar a ser assim.  Retirei a mão, zangado, mais zangado comigo do que com ela. Sabia que aquilo que sentia eram outra vez as coisas erradas que Nora tentava tornar certas. O encanto estava quebrado. — Não! — disse com aspereza. — As coisas nunca mais podiam voltar a ser como eram. Fosse como fosse, nunca nada foi verdadeiro. Nunca foi real. Não posso recomeçar a viver com mentiras. — É precisamente isso, Luke. Já não é preciso. Já não temos ilusões, lembras-te? Podemos fazer um acordo muito sensato. — Não sejas uma idiota chapada, Nora! — Eu tenho o meu trabalho — disse, sem deixar de olhar para mim — e tu terias o teu. — Já falei com o primo George. Disse que teria todo o gosto em que tu voltasses. E o mais importante é que teríamos um lar onde receber a Dani. De repente senti-me cansado. Nada tinha escapado a Nora, mas ela não percebia que nada daquilo era real. Comecei a sentir pena dela. — Não, Nora — disse com brandura.  Recostou-se na cadeira, enquanto um lampejo de ira lhe surgia na voz.
— Choraste tanto por causa da tua filha — disse com aspereza. — Amavas tanto, querias fazer tanta coisa por ela. E agora que tens a possibilidade de fazer alguma coisa, não és capaz de mexer um dedo! Havia muitas coisas que eu só agora começava a compreender. Como, por exemplo, aquilo a que Elizabeth se referia ao dizer-me que voltasse para casa sem os fantasmas que me tinham atormentado durante tanto tempo. De certa maneira ela devia saber que chegaríamos a isto. Que eu ia ter de escolher entre ela e Dani. Senti o coração inchar-me. Ela já sabia e, no entanto, deixara-me vir. Que mais podia um homem esperar de uma mulher? Baixei os olhos para Nora e, de certa maneira, era como se estivesse a vê-la pela primeira vez. Sam Corwin tivera razão ao dizer que a única coisa que ela tinha era a sua arte. Fora isso, não havia mais nada que ela pudesse compartilhar com quem quer que fosse. — Vim aqui para ajudar a Dani — disse calmamente. — Mas não construindo para ela uma vida de falsidade e destruição. — Que pobreza! A seguir, suponho que me vais dizer que amas a tua mulher! Olhei para ela pensativo. De repente, sorri. Nora tinha posto tudo em palavras por mim. — É isso mesmo, Nora — disse. — Amo-a.  — E ela, será que ainda é capaz de te amar depois de eu lhe mandar aquelas fotografias? Já estava à espera disso. Não respondi. — Nessa altura, que razão podes ter para me recusares?  — A melhor razão do mundo, Nora. Simplesmente a de não gostar de ti. O amor morre com palavras como estas. Arde e consome-se com a linguagem do ódio e da recriminação. Destrói-se na ira e na violência. Mas depois da explosão, ainda ficam alguns vestígios, pegados ao espírito e ao coração, como uma esperança não realizada, a memória de uma paixão não realizada. E, por fim morre, em palavras simples, quase infantis. E os fantasmas vão-se, o sentimento de culpa desaparece. Foi isto que aconteceu e era isto que tinha de acontecer. Fizesse-se o que se fizesse. Abri todas as janelas do pequeno carro, enquanto regressava ao motel. O ar fresco e límpido da noite lavava até o ódio que sentira na alma. Nora já não era assim tão importante para mim. Deixara de o ser. Cheguei de volta ao motel às onze menos um quarto e fui directamente para o meu quarto. Exactamente às onze horas, bateram-me à porta. Fui abrir. Apareceu-me Ana Stradella, quase com uma expressão de pânico no rosto. Dei um passo para trás. — Entre, Ana — disse. Fechei a porta atrás dela. — Por que foi que ele a mandou a si? — Porque pensou que não seria capaz de me entregar aos chulos, se eles aqui estivessem. — Não precisa de estar assustada. Não está cá ninguém. Um certo alívio surgiu nos olhos dela. — Também não pensei que estivessem. — Tem as cartas? Abriu a carteira, silenciosamente. Tirou de lá as cartas e entregou-mas. — E se eu dissesse que não tinha o dinheiro? Encolheu os ombros. — Não fazia mal.  — O que é que dizia ao seu irmão? Voltou-se para mim com uma expressão profundamente magoada no olhar. — Não tenho de lhe dizer nada. Já lhe dei os cem dólares antes de ele me ter dado as cartas. — Por que é que fez isso? — perguntei. — Porque queria que elas lhe viessem parar às mãos. Já lhe fizemos bastante mal. Começou a chorar. Fiquei parado, a olhar para ela. — Ana — disse. — Por favor, não chore. Eu tenho o dinheiro. — Não estou a chorar por causa disso — disse. As lágrimas rolavam-lhe agora pela cara, deixando bem visíveis os sulcos negros da maquiagem. — Está tudo tão confuso. — O que é que está confuso? — perguntei. — Por que é que está a chorar?
— É o Steve. Pedia-me hoje para casar com ele. E eu não sabia o que havia de lhe dizer. Sorri. Continuava a não compreender as mulheres. — Julgava que era isso que você queria. — E é. — Fungou para um lenço de papel que tinha tirado da carteira. — Então, qual é o problema? Ele sabia do irmão? Olhou para mim. — Sabe do Tony. Mas não sabe mais nada. — E que mais é que ele tem de saber? — As mesmas coisas que o Tony sabia — respondeu. — Uma rapariga que trabalha para o Coriano tem de fazer certas coisas. Respirei fundo. — Você quer casar com ele? Fez que sim com a cabeça. Pus-lhe uma mão no ombro. — Então não hesite. Todas as outras coisas que fez não contam.  Levantou os olhos para mim. — Está mesmo convencido disso? — Ele gosta de si, senão não lhe pedia que casasse com ele. Isso é a única coisa que conta. Pôs-se a sorrir. — Agora entre na casa de banho e lave a cara. Vou telefonar lá para baixo para trazerem café. Acho que nos vai saber bem. Ana entrou para a casa de banho e fechou a porta. Eu liguei para pedir o café e depois senteime e olhei para as cartas. Abri primeiro a de Dani. Senti uma espécie de vertigem ao lê-la. Era o tipo de carta que só uma criança podia escrever e, no entanto, as coisas que estavam escritas nela nenhuma criança devia saber. Era exactamente o tipo de carta que Lorenzo tinha descrito. Ouviu-se uma pancada na porta. O serviço era rápido, pensei para comigo mesmo, enquanto me encaminhava para a porta. Abri-a. Era Nora. Fiquei a olhá-la, de boca aberta.  — Posso entrar? — perguntou, passando à minha frente para entrar no quarto. — Vim pedir desculpa, Luke. — Tirou um sobrescrito da carteira. — Aqui estão as fotografias. De qualquer maneira, não as teria usado. Automaticamente peguei no sobrescrito. Ainda não tinha dito palavra, quando a porta da casa de banho se abriu e Ana saiu de lá. Trazia uma toalha na mão e o rosto lavado, sem maquiagem.  — Já trouxeram o café, Sr. Carey? — perguntou. Depois viu Nora e ficou parada. Ficaram um momento a olhar uma para a outra. Depois Nora voltou-se para mim. O que quer que fosse que eu tinha visto no rosto dela momentos antes, tinha desaparecido. Agora mostrava-se magoada, zangada e ludibriada. — Como fui estúpida! — disse friamente. — Começava a acreditar em tudo o que me tinhas dito. Pus-lhe uma mão no braço para a fazer parar. — Nora. Sacudiu-me bruscamente a mão e olhou-me na cara. — Podes parar de representar, Luke — disse. — Não és nenhum santo. Falas é como se fosses! E saiu batendo com a porta. — Desculpe, Sr. Carey. Eu estou sempre a arranjar problemas, não é? Fiquei a olhar para a porta fechada. Nunca tinha ouvido Nora pedir desculpa fosse pelo que fosse. Olhei para o sobrescrito que tinha na mão. As fotografias estavam lá dentro. Meti-as na algibeira. Ouviu-se nova pancada na porta. Desta vez era o criado. Paguei o café e enchi as chávenas. — Tome — disse, estendendo-lhe uma delas. — Beba isto. Verá que se sente melhor.  Depois, aproximei-me novamente da mesa. Ana sentou-se à minha frente, com os grandes olhos muito tristes. Peguei na carta de Nora e comecei a lê-la. De repente, era como se não estivesse
mais ninguém no quarto. Estava tudo ali na carta. Tudo. Todos os elos de ligação. Todas as respostas que eu procurava sem saber. Reli o último parágrafo, apenas para ter a certeza.
 
“E agora, meu querido, que escolhemos definitivamente o dia para o nosso casamento, deixa-me prevenir-te apenas de uma coisa. Sou uma mulher possessiva e ciumenta e, se alguma vez te apanho nem que seja só a olhar para outra mulher, corto-te o coração aos bocadinhos pequeninos. Portanto, tem cuidado. Com todo meu amor. Nora.
 
A voz de Ana pareceu-me vir do muito longe. — O que é que se passa? — perguntou. — Tem o rosto branco como um lençol. Levantei os olhos da carta. A dor apertava-me as têmporas; começou a passar quando vi a expressão preocupada no rosto de Ana. — Estou bem — disse com aspereza. — Não há nenhum problema. Tudo encaixava agora no seu lugar. Todas as peças soltas. Todas as viragens tortuosas e mentiras obscuras. Sabia agora a verdade embora fosse o único, além de Nora e de Dani, que a sabia. Agora só restava um problema: Provar ao tribunal que a minha filha não tinha cometido nenhum crime. A mãe é que tinha.
 
 
QUINTA PARTE
 
A História de LUKE
Quando entrou na sala do tribunal, Dani parecia pálida e tensa. Parou à entrada, atrás de Marian Spicer e percorreu a sala com os olhos. Estávamos sentados à mesa comprida onde nos tínhamos sentado para a última audiência, só que desta vez o Dr. Weidman estava sentado ao lado de Nora e Harris Gordon estava entre Nora e a mãe. Isso deixava-me na extremidade dá mesa oposta àquela onde Dani iria sentar-se com Miss Spicer. O juiz já estava no seu lugar, o funcionário do tribunal e o escrivão, com a sua máquina de taquigrafia, estavam igualmente sentados. O oficial de diligências, com o uniforme do delegado do xerife, estava encostado, com a sua maneira habitualmente descuidada, a uma porta fechada. Estendi o braço e toquei na mão de Dani, quando ela passou atrás de mim, a caminho do seu lugar. Tinha a mão fria como gelo. Fiz-lhe um sorriso encorajador. Ela forçou-se também a sorrir, mas não passou de uma simples imitação. Ergui o polegar num gesto de coragem. Dani fez que sim com a cabeça e seguiu. Parou um momento para beijar a avó e Nora e depois avançou até ao seu lugar. O juiz não perdeu tempo. Bateu com o martelo na mesa, quase antes de Dani se sentar. — A finalidade desta audiência — disse — é determinar a quem incumbirá futuramente a tutela de Danielle Nora Carey, menor, de acordo com os seus melhores interesses e os melhores interesses deste Estado. — Baixou os olhos para Dani. — Compreendes isso, Danielle? Dani fez que sim com a cabeça. — Sim, senhor. — É natural também que te lembres de que quando estiveste neste tribunal, na semana passada, te informei de que tens certos direitos: o direito de chamares testemunhas a depor a teu favor; o direito de pedir e receber pareceres; o direito de pôr em causa qualquer afirmação feita a teu respeito e que consideres difamatória ou prejudicial. — Sim, senhor. — Estou informado de que conjuntamente com a tua família, designaste o Sr. Gordon para vos representar a todos. Concordaste com isso, Danielle? Não levantou os olhos. — Sim, senhor. O juiz olhou-nos a todos. — Nesse caso, vamos prosseguir — disse, pegando em várias folhas de papel que estavam em cima da mesa, à frente dele. — Temos perante nós duas petições diferentes relativamente à tutela desta criança. Uma foi-nos apresentada pela funcionária nomeada para a vigilância e orientação da menor, Miss Marian Spicer, que pede que o Estado mantenha a tutela até que a criança tenha tido uma reabilitação e tratamento satisfatórios e possamos então, estar razoavelmente certos de que não voltará a fazer mal aos outros ou a si própria através dos seus actos. A outra petição vem do Sr. Gordon em nome dos pais e parentes da criança, pedindo que ela fique sob a guarda e tutela da avó materna, Sra. Hayden. Esta senhora encarregar-se-ia da educação, tratamento e orientação da criança, até a sua maioridade. Ambas as propostas são completas nas recomendações que se referem pormenorizada e especificamente ao tratamento e orientação da criança. Não havendo objecções, começaremos esta audiência com a análise da proposta do departamento oficial de vigilância e orientação. — Não tenho quaisquer objecções, Excelência — disse Gordon. — Óptimo. — O juiz olhou para a funcionária do Departamento de Vigilância e Orientação. — Miss Spicer, quer ter a bondade de indicar ao tribunal as razões que a levam a pedir ao Estado que mantenha a tutela da criança? Marian Spicer pigarreou, nervosa, e pôs-se de pé. — Há várias razões, Excelência. — Começou numa voz fraca e tensa, Depois, à medida que foi falando, o nervosismo desapareceu gradualmente e a voz tornou-se-lhe mais normal. — Temos de reconhecer que esta criança foi trazida à atenção do nosso departamento e deste tribunal, através de uma acusação criminal grave... homicídio. 
— Objecção! — Harris Gordon pôs-se de pé. — O veredicto do tribunal foi "homicídio justificável". Percebi que Miss Spicer tinha ficado perturbada. Olhou para o juiz. — A objecção é aceite e tomada a devida nota — disse, baixando os olhos para Gordon. — Mas, se me permite, gostaria de lhe chamar a atenção para o facto de que a Lei Juvenil se encarrega automaticamente de providenciar para que todas as objecções desse tipo sejam feitas e devidamente anotadas em nome da criança. No entanto, dado que este tribunal não conta com a presença de um júri que necessite de instruções a esse respeito, não nos parece necessário dar voz a tais objecções. Gordon fez que sim com a cabeça. — Sim, Excelência. O juiz olhou para Marian Spicer. — Pode continuar, Miss Spicer.  Ela baixou os olhos para os papéis que tinha à frente, em cima da mesa, e começou de novo. — O Departamento de Vigilância e Orientação está preocupado, evidentemente, não apenas com a tutela em si, mas com as razões que levaram a menor a cometer tal crime e com aquilo que se poderá fazer para evitar atitude semelhante, por parte da menor, no futuro. Como pode ver pelo nosso relatório, Excelência, fizemos uma investigação exaustiva quanto aos antecedentes da criança e as circunstâncias que rodearam o acto. Examinámos a criança física e psicologicamente e fizemo-lo o melhor possível dentro das circunstâncias. Olhou de relance para Nora.  — Através do exame, físico e clinico da criança, determinámos que de uma maneira geral, ela se encontra de boa saúde, mas que se tinha dedicado a uma actividade sexual intensa no período que antecedeu imediatamente a data em que foi trazida até nós. É opinião do médico que a examinou que ela teve relações sexuais pelo período de pelo menos, um ano anteriormente a essa data. Conclui-se, portanto, que teria pouco mais de treze anos quando iniciou este tipo de actividade. Olhei para Dani. O rosto dela estava pálido e olhava fixamente para a mesa. Miss Spicer continuou. — Quando interrogámos Dani a esse respeito, ela recusou-se a discutir esse ponto. Não quis dizer-nos com quem tinha cometido esses actos, assim como se negou a confirmar ou a negar que tais actos de contacto sexual fossem favorecidos por ela. Quando lhe fizemos notar que a sua recusa em discutir o assunto podia actuar desfavoravelmente à sua situação, insistiu com teimosia que esse tipo de conduta nada tinha a ver com o assunto pelo qual a tinham trazido aqui. O juiz tossiu para aclarar a voz. — Dani — disse num tom áspero. — Compreendes o que Miss Spicer está a dizer? Dani não levantou os olhos. — Sim, senhor. — Sabes, evidentemente, que tais acções são profundamente erradas? — disse, no mesmo tom de voz. — Que uma menina como deve ser não faz essas coisas? Que esta espécie de comportamento é contrária a todos os padrões morais e é considerada pecaminosa? Dani continuou a não olhar para ele. — Sim, senhor.  — Então, tens qualquer coisa a dizer-nos a esse respeito, para te justificares? A pequena levantou os olhos para ele. — Não, senhor — respondeu com voz firme. O juiz baixou os olhos para ela, um momento, depois voltou-se de novo para Miss Spicer. — Por favor, continue. — A criança teve várias entrevistas com Miss Sally Jennings, a psicóloga dos nossos serviços, durante as quais se recusou igualmente a discutir estes assuntos, alegando que eram demasiado pessoais. No entanto discutiu livremente com Miss Jennings muitos outros assuntos que foram também incluídos na petição deste departamento. Miss Spicer pegou numa folha de papel. 
— Aqui está um resumo do relatório de Miss Jennings. Passo a citar: "Depois de várias entrevistas com Danielle Nora Carey, cheguei às seguintes conclusões. Sob a aparente aceitação que evidencia exteriormente, existe na criança, profundamente enraizado e bem escondido, um sentimento de ressentimento e ciúme em relação à mãe. Este sentimento evidenciou-se muitas vezes, segundo as palavras da própria criança, nas suas explosões e discussões com a mãe. Sente-se reconfortada com o facto de a mãe gostar dela, uma vez que durante esses momentos de rebelião lhe prodigaliza todas as atenções. Noutras alturas, Dani sente a certeza de que a mãe não está minimamente interessada nela. Dani exprime o sentimento de que a mãe a tem separado de todos aqueles que a amam mais a ela do que à mãe; que a mãe tem ciúmes dela; depois contradiz-se a si própria, assegurando que a mãe a ama verdadeiramente. Há alguns indícios de que por detrás destes comentários existe uma leve paranóia, mas na fase actual da nossa observação é difícil ter a certeza. Se esta paranóia latente tem potencial para desencadear novamente a violência em dadas circunstâncias, não posso dizer com segurança. Recomendo vivamente que a criança fique sob a tutela do Estado, até que todas essas áreas sejam completamente inclinadas e avaliadas." Miss Spicer pousou o papel e olhou de novo para o juiz. — Como é habitual, fizemos também uma investigação minuciosa à vida da criança na escola e em casa. As informações da escola são extremamente favoráveis, do ponto de vista escolar. Ocupa uma posição de destaque na classe. Socialmente é bem aceite pelos colegas, embora sintam que arvora alguma superioridade em relação a eles no que diz respeito a uma certa sofisticação e conhecimento do mundo. Os poucos rapazes com quem saiu sentiram todos que ela se mostrava ligeiramente entediada enquanto na sua companhia. Falámos também com Miss Hayden, a mãe da criança, que se mostrou surpreendida perante o nosso conhecimento da actividade sexual de Dani. Pretende nunca ter dado por isso. As nossas investigações relativamente a Miss Hayden revelaram que embora ela se ocupasse bem da filha, do ponto de vista físico, os seus próprios padrões de comportamento, tanto em casa, como fora dela, eram altamente discutíveis e certamente não forneciam à filha um clima moral aceitável. Sem pretender fazer quaisquer juízos de valor relativamente a Miss Hayden dado que compreendemos que na sua qualidade de artista, vive num mundo à parte, também não podemos deixar de acentuar que sem dúvida, a sofisticação e conduta desse mesmo mundo não podia certamente influir de uma maneira positiva sobre Dani, em relação àquilo que normalmente se considera certo ou errado. Sem entrar em pormenores específicos sobre os actos de Miss Hayden, embora tendo conhecimento de muitos deles, sentimos que este facto, só por si, nos deixa grandes reservas quanto à hipótese de a criança ficar sob a sua vigilância. Olhei de relance para Nora. Tinha os lábios apertados enquanto olhava furiosa para Marian Spicer. Se os olhos pudessem matar, a outra teria caído fulminada. Miss Spicer nem sequer olhou para ela, concentrando toda a sua atenção no juiz. — Falámos também com a avó materna da criança, a Sra. Hayden, que gostaria que a criança ficasse sob a sua responsabilidade. A Sra. Hayden goza de excelente reputação na comunidade e todos têm por ela a maior consideração. Há, no entanto, um obstáculo que me parece extremamente perigoso. A Sra. Hayden tem presentemente setenta e quatro anos de idade e, embora a sua saúde física pareça excelente, temos de compreender que não lhe é possível ocupar-se pessoalmente da criança. Tem forçosamente de confiar noutras pessoas para realizar os actos físicos que ela não pode, pessoalmente, realizar. Assim, embora as suas intenções sejam admiráveis, duvidamos de que ela consiga dar satisfação a todas as responsabilidades que está disposta a assumir. Nestas circunstâncias, embora tenhamos o maior respeito pela Sra. Hayden sentimo-nos relutantes em recomendar que no momento presente, a criança seja entregue aos seus cuidados. O olhar da velha senhora manteve-se impassível. Continuava a observar calmamente a funcionária encarregada da vigilância e orientação de Dani. Tudo dava a entender que já estava à espera desta objecção. Miss Spicer dirigiu-se a mim em último lugar. — Falámos igualmente com o coronel Carey, o pai da criança. O coronel Carey fica automaticamente excluído do número daqueles que poderiam tomar conta da menor, pelo facto de residir fora deste Estado. Mas além deste, há ainda outros factores que poderiam obstar a que assumisse essa responsabilidade. Durante muitos anos, não viu nem esteve em comunicação com a
filha. Afastaram-se e estão separados por factos que ultrapassam a circunstância corrente do crescimento da criança. Duvidamos de que tenha a experiência ou a capacidade, tanto financeira como pessoal, necessárias para assumir a responsabilidade da filha. Compreendia agora porque é que ela me tinha dito que não podiam muitos casos. Levantei os olhos para ver se o juiz tinha ficado tão impressionado como eu. O rosto avermelhado brilhava-lhe por causa do calor húmido da sala do tribunal. Mas os olhos eram imperscrutáveis por detrás dos óculos. — Com base nas informações atrás apresentadas — continuou Miss Spicer — solicitamos que o tribunal entregue a criança à Direcção da Juventude Californiana, no Centro de Recepção do Norte da Califórnia, em Perkins. Temos esperança de que depois de a examinarem, a mandem para Los Guillicos, a escola de reabilitação de Santa Rosa, onde estará sob uma orientação competente e receberá uma terapia psiquiátrica adequada até atingir a maioridade e ser libertada à sua própria responsabilidade. Quando se sentou, fez-se silêncio na sala. Nenhum de nós olhou para qualquer dos outros. De certa maneira, creio que nos sentíamos todos envergonhados. A voz do juiz interrompeu o silêncio.  — Querem fazer alguma pergunta relativa à recomendação do Departamento de Vigilância e Orientação? Harris Gordon pôs-se de pé.  — Existem numerosas objecções, as quais, tenho a certeza, não escaparam ao tribunal, e que eu, em condições normais, contraporia a um relatório desta natureza. Mas também tenho a certeza de que o tribunal as reconhece tão bem como eu e serão devidamente feitas. O juiz acenou com a cabeça. — Serão devidamente feitas, Sr. Gordon. — Muito obrigado, Excelência — disse Gordon com brandura. — Cremos que a nossa petição esclarece bem a nossa posição assim como quaisquer perguntas que possamos ter em relação à petição do Departamento de Vigilância e Orientação. Estamos convencidos de que a investigação deste departamento foi, sob muitos aspectos, extremamente superficial e orientada por ideias preconcebidas. Em muitos casos penso que este facto não faria grande diferença, mas o departamento tem de reconhecer que a capacidade da família para prestar à criança os cuidados necessários è indiscutível, tanto do ponto de vista físico como financeiro. Cuidados melhores, talvez, do que aqueles que o próprio Estado lhe poderia prestar. — O tribunal leu a sua petição, Sr. Gordon. Estamos preparados para passar à análise. Quer fazer o favor de prosseguir? Gordon fez que sim com a cabeça. Continuou de pé.  — Excelência, relativamente ao propósito desta petição, pedimos que seja notado que a requerente neste caso, é a Sra. Marguerite Cecelia Hayden, avó materna da criança. — O tribunal reconhece-o. — Obrigado, Excelência. Sem ideias preconcebidas sobre a criança, seja-me permitido dizer que a requerente reconhece muitos dos factos inerentes a este caso e que são também apresentados na petição do Departamento de Vigilância e Orientação. No entanto, a requerente alega que o Departamento de Vigilância e Orientação, dadas as suas limitações físicas, e o Estado, em virtude dos muitos fardos que lhe estão confiados, não podem dispensar à criança os cuidados que são tão necessários para a sua total reabilitação, o que está dentro das possibilidades da requerente. Em vez das generalidades vagas acerca da detenção e tratamento mencionadas na petição do Departamento de Vigilância e Orientação, propomos e estamos prontos a pôr em prática um método específico de cuidado e tratamento para esta criança. Estabelecemos já um acordo com a Escola Feminina de Abingdon para a inscrição imediata da criança. Não necessito referir a reputação da Escola de Abingdon. Tenho a certeza de que é bem conhecida do tribunal. É talvez a escola do país que tem obtido maiores sucessos com os chamados "casos-problemas". Uma das razões de sucesso, diz-se, é o facto de a criança não ser afastada de todo o contacto com uma vida normal, em família. A criança é tratada num ambiente inteiramente normal e regressa a casa todas as noites, como em qualquer outra escola.
Tenho aqui neste tribunal o Dr. Isidore Weidman, proeminente psicólogo infantil. O Dr. Weidman está estreitamente ligado à Escola de Abingdon e é ele que se vai ocupar dos cuidados psiquiátricos e do tratamento a dispensar a esta criança. Ele próprio decidiu pôr-se à vossa disposição, caso houvesse algumas perguntas relativamente aos planos específicos que elaborou para esta criança.   Gordon olhou para o juiz com ar interrogador. — O tribunal conhece o Dr. Weidman — disse o juiz e tem o maior respeito pelas suas capacidades e opiniões. No entanto, não tem qualquer motivo, nesta altura, para interrogar o doutor. Gordon fez que sim com a cabeça. — A Sra. Hayden tomou também todas as disposições para que a neta começasse a freqüentar a igreja de St. Thomas, a fim de poder começar a usufruir da orientação dos sólidos princípios cristãos. O reverendo J. J. Williston da igreja de St. Thomas, que infelizmente não pôde estar presente à audiência desta manhã está disposto, no entanto, a vir a este tribunal hoje mesmo, à hora da vossa conveniência, caso desejem consultá-lo.  — O tribunal tomará esse facto em consideração, Sr. Advogado. — A Sra. Hayden também já reservou os quartos necessários, na sua própria casa, a fim de serem redecorados e postos à disposição da criança. Está, além disso, preparada para exercer todos os cuidados físicos e morais que incumbem aos pais de qualquer criança. Quanto à preocupação do Departamento de Vigilância e Orientação relativamente à situação física da Sra. Hayden...  Gordon retirou um copo de água da mesa e levou-o aos lábios. Pousou novamente o copo e voltou-se para o juiz. — A Sra. Hayden é actualmente membro do conselho de administração de onze empresas diferentes e está activamente empenhada nos negócios de quatro dessas companhias. É ainda procuradora da Escola de Artes e Ciências, da Universidade e é também administradora das Filhas dos Fundadores da Sociedade de São Francisco. Ainda há poucos dias a Sra. Hayden foi, a meu pedido, ao Hospital Geral onde se submeteu a um exame físico completo. Tenho comigo os relatórios escritos daquele exame e gostaria de os ler. — Pegou numa folha de papel. — É opinião dos médicos que procederam ao exame e cujas assinaturas subscrevem este relatório, que a Sra. Marguerite Cecelia Hayden, de setenta e quatro anos de idade, goza de excelente saúde e vigor e não mostra quaisquer defeitos extraordinários geralmente associados com as pessoas da sua faixa etária. Somos ainda de opinião, ressalvando a possibilidade de um acidente ou de quaisquer circunstâncias imprevisíveis, que a Sra. Hayden irá gozar os benefícios do seu excelente estado de saúde actual por muitos anos. Gordon fez uma pausa e olhou para o juiz.  — Este relatório está assinado pelo, Dr. Walter Llewellym professor de Georiatria, Faculdade de Medicina, Universidade da Califórnia do Sul, que foi o médico que chefiou a equipa examinadora. Constam as assinaturas de mais cinco médicos. Estou pronto a lê-las, se o tribunal assim o desejar. — O tribunal aceita a declaração do advogado. Não há razão para nomear os restantes médicos. Gordon bebeu novo golo de água. — Pouco mais posso acrescentar à petição, além de uma coisa. — Olhou através da mesa para Dani. — Pedirmos ao tribunal que tenha bem presente que, para uma criança, não há cura melhor ou mais poderosa do que ser amada; sentir-se em segurança na certeza de que é amada. Sem isso todos os nossos conhecimentos de medicina e de psiquiatria são impotentes. Com isso não há curas impossíveis. Afirmamos que a Sra. Hayden pode fazer tudo e mais pela neta, do que poderia o Estado. E há ainda um importante factor a juntar... o amor que têm uma pela outra. Amor que uma instituição, por mais bem intencionada, nunca pode dar. O juiz olhou para Miss Spicer. — Tem alguma pergunta relativamente a esta petição?  A funcionária pôs-se de pé.  — O Departamento de Vigilância e Orientação estudou com o maior cuidado a petição feita pela Sra. Hayden e continua a pensar que os melhores interesses da criança e do Estado seriam servidos
antes pela sua própria proposta. Se tivéssemos chegado a uma conclusão diferente, teríamos juntado à sua a nossa recomendação. O juiz olhou para Dani.  — Danielle, tens alguma pergunta a fazer acerca de qualquer das duas petições? — Não, senhor — respondeu em voz baixa. — Compreendes qual é a decisão que eu vou ter de tomar agora? — perguntou. — Agora tenho de decidir o que vamos fazer contigo. Se ficas sob a tutela do Estado ou se vais para casa da tua avó. Quanto melhor eu te conhecer, melhor saberei decidir. Há alguma coisa mais que gostasses de me contar neste momento? Dani não olhou para ele. — Não, senhor. — Não só tu cometeste uma acção terrível — disse numa voz muito sombria. — como admites um comportamento fortemente imoral e impróprio. Ou seja, a espécie de comportamento que ambos sabemos que está errado e que, em circunstância alguma, se pode permitir que continue. Há alguma coisa que me possas dizer que seja passível de me persuadir a aceitar a petição da tua avó? Continuou a não olhar para ele.  — Não, senhor. — Se não queres falar comigo no tribunal, estarias disposta a falar comigo em particular? No meu gabinete, onde mais ninguém nos pode ouvir? — Não, senhor. O juiz suspirou. — Sabes que não me estás a ajudar muito na minha decisão?  A voz dela era muito fraca. — Não, senhor.  Pareceu-me ver uma sombra de tristeza nos olhos do juiz, quando se recostou na cadeira. Ficou assim sentado um momento, depois, voltou-se ligeiramente e olhou-nos a todos. A expressão dele era solene. Tossiu como quem vai falar. — Excelência — disse, pondo-me de pé. — Faz favor, coronel Carey.  Olhei em volta da mesa. Notei a surpresa e a expressão de choque que se estampou em todas as caras, mas a única que eu vi verdadeiramente foi a de Dani. Dani ficou a olhar para mim, com os olhos muito grandes e redondos no rosto pálido. Notei os leves círculos azulados que tinham por baixo e percebi que devia ter estado a chorar antes de vir para o tribunal. Voltei-me e olhei para o juiz. Era a última oportunidade que tinha de fazer alguma coisa pela minha filha. Aclarei a voz.  — Será que tenho o direito de fazer algumas perguntas, Excelência? — Neste tribunal, o senhor tem os mesmos direitos que a sua filha, coronel Carey — respondeu o juiz. — Tem o direito de recorrer a um conselheiro jurídico, de convocar e interrogar as testemunhas sobre os assuntos relacionados com esta audiência. — Muito obrigado, Excelência — respondi. — Tenho uma pergunta a fazer a Miss Spicer. — Pode fazer essa pergunta. Voltei-me para Marian Spicer, a encarregada da vigilância e orientação de Dani. — Miss Spicer, acredita que a minha filha seja capaz de cometer um crime? Gordon pôs-se de pé. — Objecção, Excelência! — disse, zangado. — O coronel Carey acaba de fazer uma pergunta que pode ser prejudicial à minha cliente.  O juiz olhou para ele. — Sr. Gordon — disse num tom vagamente aborrecido. — Pensava que já lhe tínhamos explicado que todas as objecções em nome da menor são feitas automaticamente. — Voltou-se para Miss Spicer. — Pode responder à pergunta. A rapariga hesitou.
— Não sei. — Disse-me no outro dia, que lhe custava a acreditar que uma criança como Dani pudesse cometer um crime — continuei. — Que se sentiria mais à vontade se conseguisse arranjar uma sólida explicação psicológica para os actos dela. O que foi que a levou a sentir isso? Ela olhou para o juiz.  — Nem Miss Jennings nem eu conseguimos estabelecer um contacto suficientemente estreito com Danielle para podermos determinar aquilo de que ela realmente é capaz. Sentimos que apresenta uma extraordinária capacidade de autodomínio para a sua pouca idade. — Esteve no tribunal e ouviu o testemunho apresentado ao júri pelo médico legista. Concordou com o veredicto? — perguntei. Miss Spicer olhou para mim. — Aceitei o veredicto do júri. — Não foi essa a minha pergunta, Miss Spicer. A julgar por aquilo que sabe agora acerca da minha filha, pensa que ela possa ter morto um homem, como se afirmou naquele tribunal? Hesitou de novo.  — Acho que é possível.  — Mas ainda tem certas dúvidas?  Fez que sim com a cabeça. — Há sempre dúvidas, coronel. Mas temos de jogar com os factos de que dispomos e não podemos deixar que os nossos sentimentos pessoais se lhes sobreponham. Os factos que temos corroboram a conclusão daquele tribunal. Temos, portanto, de actuar em conformidade. — Muito obrigado, Miss Spicer. Voltei-me de novo para o juiz. Estava inclinado sobre a secretária, a observar-me. Parecia aguardar com curiosidade aquilo que eu iria fazer a seguir. Gordon pôs-se outra vez de pé. — Sou forçado a protestar, Excelência — disse. — Não consigo perceber o que é que o coronel Carey espera obter através de tais perguntas. Toda esta forma de proceder me parece altamente irregular.  O juiz voltou-se para mim. — Tenho de confessar o meu próprio espanto, coronel Carey. Exactamente o que é que o senhor espera conseguir? — Não sei exactamente, Excelência, mas há várias coisas que me preocupam. — E quais são essas coisas, coronel Carey?  — Se a minha filha não fosse menor, mas sim adulta, e o veredicto, fosse "homicídio justificável", o mais provável era que ela estivesse agora livre de retomar a sua vida normal. Ou não seria assim?  O juiz fez que sim com a cabeça. — Mas uma vez que é menor, ainda está sujeita a castigo e é por isso que se encontra agora neste tribunal? — Isso não é verdade, coronel — disse o juiz. — A sua filha não está aqui a ser julgada por homicídio. Trata-se de uma audiência de tutela cuja principal preocupação é o seu próprio bem-estar e beneficio.  — Desculpe-me a dificuldade de compreensão, Excelência. Mas não sou advogado. Para mim o simples facto de ela ser ameaçada de reclusão é um castigo. Sejam quais forem as razões, o crime do qual é acusada ou qualquer outra razão dada pelo Estado, parece-me que o resultado final é o mesmo. — Pode ter a certeza, coronel, de que as medidas punitivas são o que mais distante se encontra do espírito deste tribunal — disse o juiz, cheio de formalismo. — Muito obrigado, Excelência. Mas há outra coisa que me preocupa. — E do que é que se trata? — Se eu fosse acusado de um crime teria de ser julgado em tribunal. Aí, teria o direito de me defender contra tais acusações para de uma vez por todas, se estabelecer a minha inocência ou culpa. O juiz acenou novamente com a cabeça.
— Mas no caso da minha filha isso não foi julgado necessário. Desde o primeiro momento em que aqui cheguei que me foi cuidadosamente explicado que não havia necessidade de nos preocuparmos com o castigo, porque Dani era menor. A nossa única preocupação era a quem é que ela seria entregue. Só hoje é que compreendi que faltava uma coisa muito importante. Tinha muita sede e servi-me de um copo de água. O juiz olhou-me curioso, quando comecei de novo a falar. — Em parte alguma, ao longo de todo este processo vi o que quer que fosse que se assemelhasse a uma defesa a favor da minha filha. Com certeza que ela tem direito a uma oportunidade de se defender. — Não foi negado à sua filha nenhum dos direitos que lhe assistem, coronel — disse o juiz com uma certa irritação. — Parece-me que o senhor e a mãe da criança usaram um advogado da maior capacidade para actuar em nome dela. O Sr. Gordon tem estado presente em todas as audiências. Se tem algumas queixas a apresentar relativamente à maneira como conduziu a sua defesa, certamente não é este o local indicado para o fazer.  Começava a sentir-me enleado num emaranhado de legalismos. Era uma estupidez da minha parte ter pensado que seria capaz de penetrar na teia de obscuridades que a lei tinha tecido em volta dela. — Excelência — disse, desesperado. — O que eu estou a tentar perguntar é simplesmente isto: O que é que eu possa fazer para introduzir neste tribunal a verdade acerca da minha filha? O juiz olhou longamente para mim. Depois, reclinou-se na cadeira. — Se é só isso que deseja, coronel — disse lentamente. — Prossiga da maneira que lhe parecer mais indicada. Este tribunal deseja tanto a verdade quanto o senhor. Gordon pôs-se novamente de pé. — Isto é inteiramente irregular, Excelência — protestou. — A única coisa que o coronel Carey pode fazer é prolongar desnecessariamente a questão. O júri já apresentou o seu veredicto. Não vejo qual possa ser a vantagem de retomarmos a questão. Todos sabemos que esta audiência se destina a definir a tutela da criança e oponho-me a que seja transformada em qualquer coisa diferente. — Em qualquer outro tribunal a minha filha teria o direito de recorrer, Excelência — disse. — Não poderia este tribunal dar-lhe a mesma oportunidade? O juiz olhou-nos.  — Não está dentro das atribuições deste tribunal rever as decisões de qualquer outro tribunal. No entanto, é intenção deste tribunal escutar tudo aquilo que possa ajudá-lo no seu julgamento sobre qualquer questão que lhe seja apresentada. É dever deste tribunal garantir a protecção, ao menor, seja de que natureza for, até perante os seus próprios actos. Dado que estas audiências são conduzidas de maneira mais ou menos informal, não vejo que haja algum problema em ouvirmos o coronel. — Muito obrigado, Excelência. Gordon deitou-me um olhar curioso, enquanto se sentava. Voltei-me de novo para o juiz. — Posso chamar uma testemunha? O juiz fez que sim com a cabeça. Atravessei a sala do tribunal e abri a porta da sala de espera. Ana estava sentada na outra ponta, perto das janelas envidraçadas. Fiz-lhe sinal e ela entrou na sala do tribunal. — Excelência — disse. — Esta é Ana Stradella. O rosto de Nora estava pálido de raiva. Vi-a murmurar qualquer coisa para Gordon. O rosto da velha senhora estava calmo; o de Dani apenas curioso. — Sente-se, por favor, Miss Stradella — disse o juiz.  Indicou-lhe uma cadeira perto de onde ele estava. Ana sentou-se e o funcionário avançou com uma Bíblia na mão. Rapidamente fê-la jurar e foi sentar-se de novo. — Pode continuar, coronel — disse o juiz. Os seus olhos estavam agora muito vivos por detrás dos óculos. Surgira-lhe na cara uma expressão de interesse que não tinha antes. Ana estava vestida de preto, mas mesmo o fato escuro não
lhe escondia a exuberância do corpo. Ficou sentada, muito quieta, com as mãos cruzadas em cima da carteira. — Quer fazer o favor de contar ao tribunal como foi que nos conhecemos, Ana? — perguntei. — Conheci o coronel Carey quando ele veio à casa funerária para falar com a família de Tony Riccio. Pelo canto do olho vi Dani, de repente, inclinar-se para a frente por cima da mesa e olhar para a rapariga. — Porque é que estava lá, Ana? — Tony era meu noivo — respondeu calmamente. — Estávamos para casar. — Há quanto tempo?  — Nove anos. — É um noivado muito longo para os tempos que vão correndo, não lhe parece? — Acho que sim — respondeu. — Mas o Tony queria esperar até ficar rico. — Estou a ver. Sabia do emprego dele junto de Miss Hayden, não sabia? Fez que sim com a cabeça. — Alguma vez discutiu esse assunto com o Tony?  A rapariga sacudiu a cabeça. — Não, nunca. Mas o Tony falava muitas vezes de Miss Hayden.  — E o que era que ele dizia acerca dela?  Gordon levantou-se de um salto. — Não posso deixar de objectar fortemente a este tipo de interrogatório, Excelência. Todo este assunto é completamente irrelevante e sem qualquer interesse para a questão posta perante este tribunal. — Objecção recusada — disse o juiz quase com indiferença. Percebi que se sentia curioso quanto ao que eu estava a fazer. — Continue, coronel Carey. — Dizia que era uma mulher rica, de meia-idade e que um dia ia apanhar-lhe umas boas massas. Olhei furtivamente para Nora. O rosto dela estava pálido e zangado. Voltei-me novamente para Ana. — Fez alguma referência às suas relações com a família da patroa? — Sim — quase murmurou. — Disse que entre a miúda e a mãe, não tinha um minuto de descanso. — Deduzo daí que ele queria dizer que tinha relações sexuais com ambas? — Sim.  — Durante esse tempo, também tinha relações consigo?  Ana olhou para o chão. — Sim — murmurou. — Você não levantou objecções ao comportamento dele para com Miss Hayden e a filha? — E se tivesse, para que serviria isso? — perguntou num tom inexpressivo. — Disse-me que tinha de o fazer. Era parte do trabalho. — Isso é mentira! — gritou Dani de repente. — É uma mentira suja! O juiz bateu vivamente com o martelo na mesa. — Esteja sossegada, Danielle — advertiu-a. — Caso contrário terei de a mandar sair do tribunal. O rosto de Dani ficou paralisado e deitou-me um olhar furioso. Agora eu sabia o que Judas sentiu quando olhou para o rosto de Cristo. Voltei-me de novo para Ana. — Quando foi a última vez que viu o seu noivo com vida? — perguntei. — Cerca de duas semanas antes de ele morrer. — O que foi que ele lhe disse nessa altura?
— Deu-me um grande sobrescrito de papel pardo e pediu-me que lho guardasse — disse. — Disse-me que continha cartas de Miss Hayden e da filha e que dentro de pouco tempo essas cartas iam valer uma fortuna para nós. O bastante para nos casarmos. — Leu as cartas? — Não — respondeu. — O sobrescrito estava fechado.  — E o que é que fez com ele?  — Guardei-o — disse. — Depois, uma noite, o meu irmão disse-me que o Tony queria outra vez as cartas e eu dei-lhe o sobrescrito. Só depois de o meu irmão se ter ido embora é que vim a saber que o Tony já estava morto. — O que foi que o seu irmão fez com as cartas?  — Vendeu-as.  — A quem?  — A Miss Hayden.  — Mas Miss Hayden não recebeu todas as cartas, pois não? — perguntei. — Não, o meu irmão ainda ficou com duas.  — E o que foi que fez com elas?  Ana olhou para mim de frente.  — Vendeu-lhas a si por cem dólares.  Desta vez foi Nora que saltou da cadeira. — Ladrãozinho imundo!  Gordon puxou-a, obrigando-a a sentar-se de novo. Vi que estava tão admirado como qualquer um dos outros. Provavelmente nem sequer sabia que as cartas existiam. Tirei-as da algibeira.  — São estas as cartas que o seu irmão lhe deu para me entregar? — perguntei. Olhou para elas. — São. — É tudo, Ana. Muito obrigado.  Levantou-se da cadeira e encaminhou-se para a porta. Antes de sair, parou e olhou para trás um momento. Depois, a porta fechou-se atrás dela. — Gostaria de ler um excerto de uma dessas cartas — disse e em seguida, li o último parágrafo da carta de Nora, sem esperar a autorização do juiz. — Não me tinha dito que ia casar com ele, mãe! — disse Dani. Baixou os olhos para a mesa com ar acusador. — Não me disse nada! — Está calada, Dani! — Miss Spicer pôs a mão no braço de Dani. Gordon estava outra vez de pé. — Proponho que o testemunho daquela mulher e o excerto da carta sejam cortados do processo por irrelevantes e sem significado! — Aceite — disse o juiz com naturalidade. — Ordena-se que assim se faça. — Olhou para mim. — Tem mais algumas surpresas, coronel Carey? — Tenho, sim, Excelência. Gostaria de interrogar Miss Hayden. Gordon pôs-se outra vez de pé.  — Objecção, Excelência. — Recusada. — Peço um pequeno intervalo para conferenciar com a minha cliente — disse Gordon. O juiz inclinou-se para a frente e baixou os olhos. — O senhor parece ter um excesso de clientes neste tribunal, Sr. Gordon. A que cliente se está a referir neste momento? O rosto de Gordon ruborizou-se. — Refiro-me a Miss Hayden, Excelência. O juiz fez que sim com a cabeça. Bateu com o martelo na mesa. — O tribunal declara um intervalo de quinze minutos. 
Pusemo-nos todos de pé enquanto ele saía da sala. Miss Spicer levou Dani para a sala de espera das raparigas. Logo que a porta se fechou atrás dela, Gordon voltou-se para mim. A voz dele era áspera e zangada. — Que raio está você a tentar fazer, Luke? — O seu trabalho, advogado — repliquei. — Defender a minha filha! — Isso é um disparate, Luke. Só está a piorar as coisas para ela!  — Acha que podem piorar mais? O juiz está preparado para a mandar para longe. — Não se pode saber — disse. — Ele ainda não apresentou nenhuma decisão. E mesmo que fosse contra nós, íamos pedir a reabertura da audiência amanhã. Temos esse direito. — E para que é que serviria isso? — perguntei. — A Dani continuaria a ficar encarcerada. Por que é que tem tanto medo de que eu possa desenterrar a verdade? Ou será que também está metido nisso? — Metido em quê?  Percebi que o seu espanto era genuíno. — Nora tinha medo de que eu pudesse tropeçar na verdade do que aconteceu realmente naquela noite. Foi por isso que mandou o Coriano meter-me numa armadilha quando fui buscar as cartas. — Metê-lo numa armadilha?  Tirei as fotografias da algibeira, mostrei-lhas e expliquei o que tinha acontecido. Gordon empalideceu quando as meti de novo na algibeira.  — Nora preveniu-me de que não me metesse nisso, senão mandava-as à minha mulher. — Nunca devia ter dado de volta! — disse Nora furiosa. — Devia estar louca! Gordon também estava zangado. Agarrou-a pelo braço quase com rudeza e arrastou-a para longe. Vi-os encaminharem-se para a parte de trás da sala do tribunal. O sibilar do seu diálogo murmurado chegou até mim, mas não consegui perceber o que estavam a dizer. Sentei-me e peguei num copo de água. Queria um cigarro, mas não sabia se me era permitido fumar na sala do tribunal. — A sua filha está muito abalada com isto, coronel — disse o Dr. Weidrnan. Levantei os olhos. Pareceu-me ver um brilho de simpatia genuína nos olhos dele. Bebi a água. — Prefiro abalá-la um pouco agora, doutor, do que tentar reparar o mal causado por três anos de reformatório. Weidrnan não disse nada. Peguei num cigarro e acendi-o. Os regulamentos que fossem para o diabo. Senti a mão tremer-me. A velha senhora estendeu o braço e pôs a mão em cima da minha. A voz dela era suave e bondosa como uma caricia. — Espero que saiba o que está a fazer, Luke.  Olhei para ela. Parecia ser a única de nós todos que tinha conservado a lucidez. Correspondi à pressão da mão dela. — Assim o espero — respondi.  De repente, desejei que Elizabeth ali estivesse. Ela saberia o que eu devia fazer; saberia acalmar os receios repentinos e as dúvidas que começavam a crescer dentro de mim. Talvez Gordon tivesse razão. Talvez eu estivesse a fazer mais mal do que bem. Não sabia. Não me lembrava de alguma vez me ter sentido tão só como naquele momento. A porta dos aposentos do juiz abriu-se e ele regressou à sala do tribunal. Permanecemos de pé até que nos fez sinal com o martelo para que nos sentássemos. Gordon e Nora tinham voltado para a mesa. Vi que o rosto de Gordon continuava vermelho e zangado. — Chame-se a criança — disse o juiz. O delegado do xerife encaminhou-se para a sala de espera das raparigas e bateu à porta. Num momento, Dani e Marian Spicer voltaram à sala. Os círculos azuis por baixo dos olhos de Dani pareciam ainda mais fundos. Percebi que tinha estado outra vez a chorar. Não olhou para mim e deixou-se deslizar para o seu lugar. — Pode continuar, coronel Carey — disse o juiz.
Gordon pôs-se de pé ainda antes de mim. — Não posso deixar de protestar uma vez mais contra este procedimento, Excelência. É altamente irregular e, se for permitido que continue, pode dar lugar a que sejam feitas acusações de parcialidade e tendenciosismo por parte deste tribunal. Os olhos do juiz Murphy tornaram-se, de repente, frios e cortantes. — Está a ameaçar o tribunal, advogado? — Não, Excelência. Estou apenas a dar voz a uma opinião considerada legalmente. — O tribunal respeita a opinião do douto advogado — disse o juiz, com a mesma voz fria. — Aprecia a sua preocupação. Mas o tribunal deseja fazer notar que se for acusado de parcialidade ou tendenciosismo a favor da menor que tem perante si, estará apenas a cumprir a sua finalidade. O propósito confesso deste tribunal, segundo a lei, é o de proteger completamente o menor que perante ele comparece. Gordon sentou-se em silêncio. O juiz olhou para mim. A voz dele era branda. — Pode continuar, coronel.  Levantei-me da cadeira.  — Gostaria de interrogar Miss Hayden, por favor. — Miss Hayden quer fazer o favor de ocupar este assento aqui ao lado? — perguntou o juiz, indicando-lhe a cadeira que já tinha sido ocupada por Ana. Nora olhou um momento para Gordon. O advogado fez que sim com a cabeça; ela levantou-se e encaminhou-se para a cadeira. O funcionário do tribunal avançou para lhe fazer o juramento. Nora sentou-se e olhou para mim. Tinha o rosto calmo e impassível, quase como se tivesse sido esculpido numa das lajes que tinha no estúdio. Respirei fundo. — Nora — comecei. — A semana passada quando foi apresentado o relatório da autópsia, declarou que tinha estado a discutir com Tony Riccio no dia em que ele foi morto. É capaz de nos dizer a que horas começou a discussão? — Não me lembro bem.  — Aproximadamente. Eram oito da manhã? Dez? Doze? Duas da tarde? Via o brilho desaparecer-lhe do olhar. Sabia onde eu queria chegar. — É-me difícil dizer exactamente. — Talvez eu possa ajudar a refrescar-lhe a memória — disse. — Na quinta-feira esteve todo o dia em Los Angeles. A Western Airlines diz-me que figurava na lista de passageiros do vôo de Los Angeles que chegou a São Francisco dez minutos depois das quatro, na tarde de sexta-feira. Descontando a demora normal provocada pelo trânsito deve ter chegado a casa digamos, pelas cinco horas. Foi por essa hora que a discussão começou? Os olhos dela começaram a ficar frios e irados.  — Por volta dessa hora.  — Portanto, a discussão a que se referiu não durou todo o dia, mas começou por volta das cinco horas da tarde? Está certo? — Está certo, sim.  Gordon pôs-se mais uma vez de pé, como um boneco a sair de uma caixa de surpresas. — Excelência — disse. — Não consigo... — Sr. Gordon! — a voz do juiz ecoou zangada. — Queira fazer o favor de se abster de causar novas interrupções neste tribunal. Na qualidade de advogado que representa ostensivamente a menor trazida perante este tribunal, devia receber com agrado qualquer informação que viesse lançar mais luz sobre os seus actos, ajudando assim na sua defesa. Começa a parecer a este tribunal que está a tentar servir senhores a mais e a julgar antecipadamente um grande número de factos. Deixe-me repetir-lhe que neste tribunal o juiz sou eu e que em devido tempo, terá a oportunidade de exprimir todas as suas opiniões. Entretanto, por favor, queira retornar ao seu lugar. Gordon sentou-se. Tinha o rosto quase purpúreo de raiva. O juiz voltou-se de novo para mim. — Continue, por favor, coronel Carey.  — Estava alguém em casa, quando lá chegou? — perguntei. 
Pela primeira vez, Nora hesitou.  — Não sei de que é que está a falar.  — Estavam alguns dos criados em casa? — Não, não creio.  — E Dani ou Tony Riccio? — Sim. — Ambos? — Ambos. — Viu-os quando entrou? — Não. — Sacudiu a cabeça. — Fui directamente para o estúdio. Queria desenhar umas ideias que tinha tido, antes que se perdessem. — Que horas eram então, quando os viu?  Olhou para mim, Pela primeira vez. vi um ar de súplica aparecer-lhe nos olhos. Parecia estar a implorar-me que parasse. — Que horas eram? — repeti friamente. — Mais ou menos... mais ou menos sete e meia. — Então, a discussão só começou às sete e meia e não às cinco? — perguntei. Baixou os olhos para as próprias mãos.  — É verdade. — Também declarou na audiência da autópsia que a sua discussão com Tony Riccio fora provocada por questões de negócios — disse. — Mas a verdadeira razão não foi essa, pois não? — Não.  — E quando disse a Miss Spicer que não sabia do romance de Dani com Riccio — continuei — isso também não era verdade, pois não? Começou a chorar em silêncio, com as lágrimas a juntarem-se-lhe nas pálpebras inferiores e a rolarem-lhe pela cara. Começou a torcer as mãos, nervosamente. — Não.  — Onde foi que os viu?  — Quando fui ao primeiro andar vestir-me para o jantar — disse quase num murmúrio. — Onde não é quando. Em que quarto? Não levantou os olhos.  — No quarto de Rick. — O que era que estavam a fazer? — Estavam... — a voz dela perdera toda a emoção. Tinha o olhar baço e vidrado. — Estavam na cama. Olhei para ela.  — Por que é que não disse isso logo de inicio? — As coisas já estavam suficientemente más — murmurou. — Não pensei... — Não pensou! — interrompi, zangado. — Pois aí é que está. Pensou, mas foi com todo o cuidado. Sabia que se contasse esse bocadinho, teria de contar a verdade toda. Sobre tudo o que aconteceu naquela noite! — Não... não estou a entender — disse com uma expressão de espanto e medo no olhar. — Compreende sim — disse brutalmente. — Não sei como é que conseguiu que a Dani concordasse com isso, mas bem sabia que, se dissesse a verdade, o resto não podia ficar escondido... que foi você que matou Tony Riccio e não a Dani! Vi-a envelhecer diante dos meus olhos. O rosto contraiu-se-lhe e apareceram nele rugas que eu nunca tinha visto antes. Nessa altura, um grito veio de trás de mim. — Não, mamã, não! Ele não pode obrigá-la a dizer que o matou!  Dei meia volta na direcção de Dani, mas ela já tinha saltado da cadeira e corria para a mãe. Estreitou Nora de encontro a ela e ficou ali com os braços em volta da mãe numa atitude de protecção.
As lágrimas continuavam a correr pelas faces de Nora, mas os olhos de Dani chispavam ira e ódio contra mim. — Pensa que sabe muitas coisas! — gritou. — Volta depois destes anos todos e pensa que sabe tudo. Mas não passa de um estranho. Nada mais que um estranho. Não me conhece, nem eu o conheço a si. A única coisa que sabemos um do outro são os nossos nomes! Fiquei a olhar para ela. — Mas, Dani... — Eu disse-lhe a verdade! — gritou. — Mas não quis acreditar! Disse-lhe que tinha sido um acidente, que não queria fazer aquilo, mas não me acreditou. Odeia tanto a minha mãe que se recusou a ouvir! Pois é, já que quer tanto ouvir a verdade, papá, então, ouça! Não foi o Rick que eu tentei matar naquela noite no estúdio. Foi a minha mãe! Olhei em volta. A sala mergulhara num silêncio mortal. Todos os olhos estavam postos em Dani. Até o estenógrafo do tribunal, cujo rosto se mantivera imperturbável toda a manhã, com os olhos fitos no espaço, sem ver, enquanto os dedos voavam rapidamente sobre as teclas da máquina de estenografia. — Estávamos na cama de Rick, quando a mãe nos encontrou — disse numa voz calma e cheia de naturalidade. — Sabíamos que já era tarde, mas eu não queria deixá-lo. Ele queria que eu me fosse embora, mas eu não queria. Não ouvíamos nada, por isso pensámos que ainda estávamos sós, Havia quase dois dias que estávamos na cama, excepto para comer qualquer coisa, desde que os criados tinham saído. Mesmo assim, eu não queria ir-me embora. Surgiu-lhe nos olhos aquele olhar de desafio que já me habituara a reconhecer. — Gostava de saber o que nós estávamos a fazer quando a mãe deu connosco, papá? — perguntou. — Gostava?  Não respondi.  — Estávamos os dois nus na cama. Ele estava estendido e eu estava de gatas. Percebe o que eu quero dizer, papá? Estava a tentar fazer que ele me quisesse outra vez para eu não ter de me ir embora. Comecei a sentir uma espécie de enjoo. Isso deve ter sido visível na minha cara, porque o desafio estendeu-se-lhe agora à voz. — Sabe o que eu quero dizer, não sabe, papá? — disse num tom suave. — Mas não gosta de pensar nisso. Nem mesmo só para si. Gosta de pensar que eu ainda sou a mesma rapariguinha que deixou há seis anos. Bom, não sou. Não gosta de pensar que eu conheço certas coisas... todas as maneiras que há de fazer isso. Mas eu sei. Não gosta de pensar que a sua pequenina era capaz de fazer essas coisas. Mas fiz. — A voz dela elevou-se ligeiramente e nos olhos surgiu-lhe uma vaga ameaça de lágrimas. — E fi-las uma vez e outra e outra. Todas as vezes que tive essa oportunidade! Olhava-me nos olhos e os nós no meu estômago estavam cada vez mais apertados. — Não gosta de ouvir isso, pois não, papá?  Não respondi. Não consegui.  — A mãe entrou pelo seu antigo quarto. Lembra-—se de como costumava passar do seu quarto para o meu? Foi por aí que ela entrou. Só que esse quarto agora é o do Rick... era do Rick. Puxou-me para fora da cama e arrastou-me pelo átrio até ao meu quarto, onde me fechou. Eu estava a chorar. Disse-lhe que o Rick e eu íamos casar, mas ela não me deu ouvidos. Nunca a tinha visto tão zangada. Depois desceu para o estúdio e eu fiquei em cima da cama, até que ouvi a porta do Rick abrirse. Ouvi-lhe os passos na escada e percebi que ia descer para falar com ela. Vesti-me a toda a pressa e sai do meu quarto pela casa de banho, que a mãe se tinha esquecido de fechar. Deslizei pela escada abaixo, o mais silenciosamente que consegui. Ouvi Charles e Violet na cozinha, no outro lado da casa. Depois, atravessei o vestíbulo, sem fazer barulho e pus-me do lado de fora da porta do estúdio, à escuta. Ouvi quase tudo o que diziam. Ouvi a mãe dizer ao Rick que tinha exactamente uma hora para sair lá de casa. Depois o Rick disse que já conhecia o suficiente de nós duas para contar ao mundo inteiro as prostitutas que nós éramos. A mãe disse-lhe que, se não saísse, acabava na cadeia. Houve um burburinho na sala.
— Depois ouvi a mãe rir-se e dizer que já esperava isso dele e quanto é que ele queria. E Tony riu-se também. "Assim já era outra coisa", disse. "Cinquenta mil dólares." A mãe disse que estava doido, dez mil dólares era o máximo que estava preparada para lhe dar. Vinte e cinco então, disse ele. "Está bem", ouvi a mãe dizer. E ai fiquei como doida. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas que começaram a correr pela cara. — Fiquei mesmo como doida! A única coisa que eu sabia era que ela estava outra vez a fazer o mesmo. Aquilo que fazia com todas as pessoas de quem eu gostava. Aquilo que fazia com todas as pessoas que gostavam de mim. Estava a mandar o Tony embora! Empurrei a porta para trás e griteilhe: "Não pode fazer isso! Não pode mandá-lo embora!" A mãe olhou para mim e disse-me que voltasse para o meu quarto. Olhei para Rick e ele disse-me que fizesse o que a minha mãe tinha dito. Nessa altura vi o cinzel em cima da mesa, ao pé da porta. Peguei nele e corri para a minha mãe. "Não pode mandá-lo embora", gritei. "Ainda a mato primeiro!" Levantei o braço em direcção à minha mãe, mas Rick apareceu de repente no meio das duas, com o cinzel enterrado no estômago. Ficou parado a agarrar o estômago com as mãos. "Santo Deus, Dani, por que é que fizeste uma estupidez destas?" disse. Depois vi o sangue escorrer-lhe entre os dedos e corri em direcção à mãe, a gritar: "Foi sem querer! Foi sem querer, mamã!" "Eu sei que foi, queridinha", disse ela com brandura e tornava a dizer: "Eu sei que foi sem querer." E disse que íamos contar a toda a gente que ele a estava a magoar e que eu tinha feito aquilo para a proteger. Assim ninguém precisava de saber o que se tinha passado entre mim e o Tony. Repetiu-me tudo vezes sem conta, para ter a certeza de que eu diria as mesmas coisas. Depois tapei a cara com as mãos, a porta abriu-se e Charles entrou. Estavam agora agarradas uma à outra, a chorar. Fiquei a olhar para elas. Era quase como olhar para um slide estereótipo, sem o aparelho próprio. Eram como duas fotografias separadas da mesma pessoa. Eram tão parecidas, com as mesmas lágrimas a correrem-lhes pelas faces. Mãe e filha. Uma e a mesma. Era quase como se estivesse hipnotizado. Depois, de repente, foi como se o encanto tivesse sido quebrado. Os olhos de Dani estavam agora secos, embora Nora continuasse a chorar. — Agora que sabe a verdade, papá — perguntou calmamente — já se sente melhor? Olhei-a bem fundo nos olhos. Não sei o que foi que vi neles, mas os nós que sentia no estômago desfizeram-se. Sabia a verdade. Não sei como é que eu a sabia, porque Dani continuava a não a ter dito, mas agora já não tinha importância. Porque era assim que Dani queria que as coisas ficassem. Porque era assim que tinha de ser. E porque eu continuava a saber, lá muito no fundo, que ela não tinha cometido nenhum crime. O juiz ordenou que se fizesse um intervalo de dez minutos. Quando ele voltou para a sala do tribunal, sentámo-nos todos em silêncio, enquanto ele anunciava a sua decisão. — Decidiu este tribunal que o estado da Califórnia retenha a tutela da menor, Danielle Nora Carey, tal como se recomenda na Petição do Departamento de Vigilância e Orientação. A mesma é, portanto, por este meio, colocada sob tutela da Direcção da Juventude Californiana e ser-lhes-á entregue pelo funcionário do Departamento de Vigilância e Orientação no Centro de Recepção da Califórnia do Norte, em Perkins, Califórnia, para o período de diagnóstico normal de seis semanas. Depois, passado esse tempo e com o acordo daqueles serviços, será transferida para a escola de Los Guillicos, em Santa Rosa, Califórnia, onde entrará num período de reabilitação, dentro dos moldes preconizados de, pelo menos, seis meses. Nessa altura o tribunal considerará a petição para entrega da menor à tutela da avó materna a qual, neste momento, somos forçados, ainda que com relutância, a recusar. A menor Danielle Nora Carey é, por este meio, declarada pupila do estado da Califórnia até atingir a idade legal de dezoito anos ou até deliberação diferente deste tribunal. Os pais da menor são informados por este meio de que deverão tomar as disposições necessárias junto do Departamento de Vigilância e Orientação para pagarem ao estado da Califórnia a importância de quarenta dólares por cada mês que a menor fique sob a tutela do Estado. O juiz bateu com o martelo na mesa. Depois, voltou-se para Dani. — Los Guillicos, Danielle, é uma excelente escola e, se tu te portares devidamente e mostrares que estás a fazer todos os esforços para te redimires, nada tens a recear. Se cooperares com eles, eles também vão cooperar contigo e tentar restituir-te ao teu lar o mais depressa possível.
Pusemo-nos todos de pé e o juiz passou majestosamente para os seus aposentos.  — Pode visitar Dani amanhã — disse Miss Spicer, enquanto dirigia Dani para a porta e a abria.  Dani voltou-se para trás, olhou para nós um momento e depois seguiu. A porta fechou-se. Nora começou a chorar. O Dr. Weidrnan pôs um braço em volta dela e ela deitou-lhe a cabeça no ombro, enquanto saíam da sala. Gordon veio ter comigo. Sorria. — Bom, afinal as coisas não acabaram assim tão mal.  Fiquei a olhar para ele. Deitou-me um olhar penetrante. — Ele podia tê-la declarado sob a tutela do Estado até ao fim; até ela ter dezoito anos. Desta maneira há boas hipóteses de ela estar cá fora dentro de seis a oito meses. Não respondi e ele saiu atrás de Nora. Então uma mão envelhecida premiu a minha. A velha senhora olhou-me nos olhos. Havia nos dela um ar de compreensão. — Obrigado por tudo o que tentou fazer, Luke — disse com gentileza. — Vou tentar tomar conta dela quando voltar para casa. — Eu sei isso, Sra. Hayden. Peço-lhe desculpa. Por causa da Nora. — Já não há nada a fazer, Luke. Todos fizemos o que podíamos. Adeus. E boa sorte. — Obrigado. Ela saiu para o corredor. Olhei para a escada. Tinham desaparecido todos. Hesitei um momento, depois segui pelo corredor fora e atravessei o vestíbulo até à secretaria da parte das raparigas. Miss Spicer estava sentada à secretária quando lá cheguei. — Tenho de voltar para Chicago esta tarde — disse — seria possível eu falar com a Dani agora em vez de ser amanhã? — Vou ver se a Dani quer falar consigo — disse delicadamente e saiu. Mal tive tempo de acender um cigarro antes de ela voltar com Dani. — Podem falar aqui — disse. — Eu espero lá fora.  A porta fechou-se atrás dela. Estendi os braços e a minha filha correu para eles. — Desculpe, papá — disse. — Não há problema, Dani — disse suavemente. — Levei tempo a perceber, mas agora entendi perfeitamente. Olhou-me na cara. — Não a odeia tanto que quisesse vê-la na câmara de gás, pois não? — Não, Dani — respondi. — Agora não a odeio de todo. Já não a odeio. Dantes costumava ter medo dela, mas agora apenas sinto pena. — Ela tem de ter sempre alguém que goste mais dela do que de todas as outras pessoas. Toda a gente precisa. O papá tem a sua mulher. Ela gosta mais de si do que de qualquer outra pessoa. — E a tua mãe tem-te a ti, Dani.  Os olhos dela brilharam de repente. — Talvez um dia possa vir visitar-me, papá. Ou talvez eu o possa ir visitar a si.  — Um dia — respondi. A porta abriu-se. — Desculpa, Dani, mas o tempo acabou.  Dani esticou-se e beijou-me na cara. — Escreve-me, papá? Beijei-a na testa. — Escrevo, sim, minha filhinha.  Fiquei a vê-la seguir pelo vestíbulo fora, os saltos pequeninos com os seus protectores de metal a baterem no chão. Depois dobraram a esquina e Dani desapareceu. Adeus, Dani. Adeus, meu bebezinho de rosto avermelhado. Lembro-me do dia em que nasceste. Lembro-me de como olhei para dentro da janela de vidro e tu franziste a cara pequenina e gritaste e eu fiquei todo desfeito e fracturado cá dentro porque sabia que tu eras minha e eu era teu e tu eras o bebé mais maravilhoso do mundo. Para onde quer que o amor tenha ido, vai contigo.
 
Eram nove e meia dessa noite quando o enorme jacto tocou o aeroporto de O'Hare, em Chicago. O ar fresco invadiu a cabina quando a porta se abriu. Fui o primeiro a sair. Não tinha tempo para delicadezas. Perguntava a mim mesmo se Elizabeth teria recebido o meu telegrama. Quase corri através do campo para o edifício de chegada, ainda em construção. A principio não a vi. Havia tanta gente. Depois dei com os olhos nela, a acenar, a sorrir e a chorar, tudo ao mesmo tempo. Corri para ela e o mundo parou de abanar, as dores desapareceram todas. Apertei-a muito a mim. — Amo-te e senti a tua falta — disse.  — E eu senti a tua falta e amo-te. Depois seguimos e fui buscar a minha mala e fomos para o carro. Abri a porta de trás para pôr a mala e vi lá outra mala. Olhei para ela. Sorriu-me. — Não te disse? Temos de passar pelo hospital, agora de seguida. — Agora? — Agora. — Por que é que não me disseste? — gritei. — Em vez de estarmos a perder aquele tempo todo. Despacha-te! Mete-te no carro! — Não é preciso tanta pressa. Ainda temos tempo. As contracções ainda vêm só uma vez de hora a hora. — Olhou para o grande placar eléctrico que estava por cima da entrada do parque de estacionamento. — A verdade é que vai começar já uma. — Não fiques ai parada — gritei. — Mete-te no carro. Sentou-se no momento preciso em que começou. Vi-lhe o rosto tornar-se branco e crispado. Depois passou e as cores voltaram-lhe. — Vês? Não foi muito mau. Chegámos a St. Joseph num abrir e fechar de olhos. Os polícias deviam ter ido todos jantar fora. Entrámos e levaram-na logo para o andar de cima. Um quarto de hora depois ela estava numa cama rolante e era levada para a sala de partos. Pus-me em frente do elevador e olhei para ela. Estava pálida, mas sorridente. — Não tomes esse ar preocupado — disse — Nós, as suecas, não temos problemas. Temos só os bebés. Inclinei-me e beijei-a. — Eu quero é que tudo corra bem. — As portas abriram-se e a enfermeira começou a empurrá-la para o elevador. — Tudo vai correr bem. Toma conta de ti. Não arranjes mas é tu nenhum problema, estás a ouvir? — Estou a ouvir — disse, enquanto a porta se fechava. Segui pelo corredor até à sala a que chamavam "O Clube". Mais alguns pais à espera. Levantaram os olhos quando atravessei a porta. Olhei em volta e saí outra vez. Não me apetecia lá muito sentar-me no meio deles. Tinham um ar tão sombrio. Desci a escada e comprei mais um maço de cigarros. Acendi um, puxei algumas fumaças e apaguei-o. Segui pelo corredor fora. Subi de novo até ao "Clube". Mesmo aqueles rostos sombrios eram preferíveis a não ver ninguém. — Já aqui estou há nove horas — disse-me um homem quando me sentei. — É... — disse, acendendo um cigarro.  Olhei em volta. Todas as caricaturas do costume estavam espalhadas pelas paredes. "Ainda não perdemos nenhum pai." Muito engraçado! Uma enfermeira chegou à porta e todos voltámos a cara para ela, como se fôssemos marionetas. — Sr. Carey? — perguntou. — Sou eu — disse, pondo-me de pé. Sentia a cabeça vazia. — Que raio de sorte! — ouvi um dos homens murmurar. — Já aqui estou há nove horas e ele só cá esteve cinco minutos! — A enfermeira também o ouviu, porque se dirigiu a mim a sorrir: — É verdade — disse acenando com a cabeça. — O senhor é um homem de sorte...

 

 

                                                                  Harold Robbins

 

 

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