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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ESPOSA PERFEITA / Lynsay Sands
A ESPOSA PERFEITA / Lynsay Sands

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Grã-Bretanha, Idade Média
Uma mulher muito especial...
Quem olhasse para Avelyn não diria que ela estava tão ansiosa, apavorada mesmo. Esperava impressionar seu noivo no dia do casamento, mas qual seria a reação de Paen quando descobrisse que ela não era a mulher esguia e bem-feita de corpo com a qual ele certamente desejava se casar?
Paen Gerville sonhava com uma mulher voluptuosa e ardente, em cujos braços ele encontrasse refúgio e prazer depois de uma vida solitária dedicada às batalhas. No princípio, sua noiva não parecia prometer tais delícias, com as roupas discretas que lhe escondiam o corpo, e com a aparente fragilidade e timidez. Entretanto, ao vê-la de camisola na noite de núpcias, a imagem que Paen tinha de Avelyn mudou da água para o vinho... e ele sorriu, sedutor, antecipando as surpresas que o aguardavam nos braços daquela mulher, que era nada menos do que a esposa perfeita...

 


 


Prólogo
- Ai...
Aquele suspiro sentido fez com que Avelyn se voltasse e se deparasse com lady Straughton - sua mãe -, que descia as escadas e, ao vê-la sobre a mesa de cavaletes provando o vestido, havia parado toda lacrimosa.
Lady Margeria Straughton andava bastante chorosa nos últimos tempos. Mais precisamente, desde que haviam recebido a notícia de que Paen Gerville retornara finalmente
das Cruzadas e desejava assumir o noivado. A mãe de Avelyn não aceitava bem o casamento. Na verdade, ela não aceitava bem, o fato de que Avelyn mudaria para Gerville
logo após as núpcias. Avelyn sabia que a mãe estava feliz que se casasse e lhe desse netos. Era da distância que a mudança imporia que ela não gostava. Ela encarava
a situação como se fosse perder a filhinha. Isso porque as duas sempre haviam sido muito chegadas. Tão chegadas que, em vez de ter sido mandada para estudar fora,
fora a própria mãe de Avelyn quem a instruíra, com toda a dedicação e paciência.
- Ai... - Margeria suspirou novamente ao atravessar o grande salão, seguida por sua criada pessoal.
Avelyn trocou um sorriso com Runilda, que agora apontava a barra do vestido, e meneou a cabeça quando a mãe se aproximou, perguntando em tom de doce censura:
- Estou tão medonha assim que só de olhar para mim a senhora chora, mãe?
- Não, não! - retorquiu lady Straughton, alarmada. - Você está linda, querida. Muito linda. O azul do vestido realça divinamente o azul de seus olhos.
- Então por que toda essa tristeza?
- Ah, é que você está parecendo tanto... tanto... uma dama. Nossa, Gunnora, minha filhinha é uma mulher adulta agora - ela choramingou para a criada a seu lado.
- É verdade, milady. - Gunnora sorriu paciente. Já ouvira os suspiros inúmeras vezes desde a notícia da chegada de lorde Gerville. - Está mesmo na hora de ela se
casar e ter sua própria casa.
Em vez de essas palavras acalmarem lady Straughton, uma cascata de lágrimas lavou seu rosto.
Lorde Willham Straughton - que estava há algum tempo sentado em silêncio próximo à lareira - deixou de lado uma profusão de cartas e levantou-se, provocando um ruído
na poltrona de couro.
- Pare de chorar, meu amor - ele respondeu a esposa, aproximando-se da mesa. - Esse momento é de alegria. Pense que tivemos nossa Avelyn conosco por mais tempo que
esperávamos. Se não fosse pela participação de Richard nas Cruzadas, provavelmente teríamos perdido nossa filha com catorze anos ou um pouco mais.
- Eu sei. - Com a aparência desolada, lady Straughton chegou mais perto do marido que passou o braço pelo ombro dela. - Sou mesmo muito agradecida que pudéssemos
tê-la até os vinte. Mas é que vou sentir muito a falta dela.
- Eu também vou - lorde Straughton concordou comovido, dirigindo um olhar cheio de aprovação para a filha. - Você está mesmo linda, filha; igualzinha a sua mãe no
dia de nosso casamento. Temos muito orgulho de você. Paen é um homem de sorte.
Avelyn surpreendeu-se ao ver, por um momento, os olhos do pai marejados de lágrimas, como se ele também fosse chorar. Ele deu um pequeno tossido e esboçou um sorriso
para a esposa.
- Precisamos procurar nos distrair o máximo possível para não pensarmos que a perdemos...
- Não há nada no mundo que me tire da cabeça o pensamento de que nosso ninho ficará vazio - disse lady Straughton inconformada.
- Não? - Um brilho malicioso passou pelo olhar de Willham Straughton, e Avelyn achou graça de ver a mão dele deslizar pelas costas de sua mãe e lhe dar um tapinha
no traseiro. - Eu consigo pensar em uma ou duas coisas - comentou ele de forma sugestiva, propondo: - Que tal irmos para nosso quarto discutir algumas idéias?
- Ora... - A voz de lady Straughton soou meio hesitante para quem desejava protestar. - Gunnora e eu íamos conferir a despensa e ver...
- Vocês podem fazer isso mais tarde. Gunnora, vá descansar um pouco enquanto isso - sugeriu lorde Straughton, dispensando a criada que escapou pelo salão no mesmo
instante.
- Mas, e Avelyn? Eu gostaria de...
- Avelyn ainda estará aqui quando voltarmos - ele afirmou, apressando-a em direção à escadaria. - Ela ainda não está se mudando.
- Se é que vai mudar!
Avelyn sobressaltou-se ao ouvir o comentário às suas costas, proferido com uma gargalhada, só conseguindo manter o equilíbrio sobre a mesa, graças à rápida intervenção
da criada que a segurou pelo braço.
Avelyn agradeceu à moça e voltou-se para encarar Eunice. A expressão do rosto fino da prima não podia ser mais debochada.
- O que você acha, Stace?
O olhar de Avelyn desviou-se para os dois rapazes que acompanhavam a prima. Eram os irmãos gêmeos de Eunice, Hugo e Stace, ambos ostentando um sorriso cruel. Distraída,
ela não havia notado a entrada dos três.
Ótimo, pensou contrariada. O destino lhe dera pai e mãe muito amorosos, mas em compensação a brindara com os três piores primos que poderiam existir. O trio parecia
viver para atormentá-la. Desde que haviam chegado a Straughton dez anos antes, o que lhes dava maior prazer era apontar um defeito seu. O castelo em que eles viviam,
na fronteira da Escócia, havia sido destruído e o pai deles morto. Como não tivessem outros parentes a quem recorrer, a mãe os trouxera para Straughton onde passaram
a infernizar a vida de Avelyn.
- Acho - disse Stace, sentando-se no banco e projetando seu grosso nariz para cima ao levantar a cabeça para olhar para Avelyn - que assim que Gerville descobrir
como sua noiva é gorda, ele vai romper o contrato e fugir voando dela.
- Receio que Stace esteja certo, Avelyn - Eunice concordou, com falsa simpatia, fazendo com que Avelyn se sentisse passada. - Você está parecendo uma enorme ameixa
nesse vestido. Não se preocupe com a cor porque acho que não é esse o problema, se bem que com o vermelho, você fica parecendo uma enorme cereja e com o marrom...
- Já entendi, Eunice - Avelyn retorquiu calmamente, vendo Eunice e Hugo sentar-se no banco ao lado do irmão.
Ela tentou ignorar a presença dos primos, mas toda a segurança e todo o carinho transmitidos pelos elogios dos pais esvaneceram-se. Já não se sentia mais nem um
pouco linda. Sentia-se desajeitada e gorda. O que era mesmo. Somente na presença dos pais, com seu amor incondicional, ela conseguia se esquecer disso por alguns
momentos. Mas lá estavam os primos para lembrá-la sempre.
- Pois eu sempre achei as ameixas lindas e saborosas.
Avelyn virou-se para a porta ao ouvir tal declaração. Não saberia dizer há quanto tempo seu irmão, Warin, estaria ali, mas da maneira como olhava para os primos,
era certo que já fazia algum tempo. Eunice, Hugo e Stace imediatamente se levantaram e escaparam pela porta da cozinha.
Warin manteve o olhar sobre eles até que tivessem saído. Depois, dirigiu-se à irmã:
- Não se deixe abater por eles, Avelyn. Você está linda. Parece uma princesa.
Avelyn forçou um sorriso e agradeceu quando o irmão se aproximou e pegou sua mão, dando-lhe um apertãozinho.
Pela expressão de Warin, estava claro que ele sabia que não havia convencido a irmã. Ele pensou em insistir, mas desistiu. Soltou um suspiro resignado e perguntou:
- Você sabe onde está nosso pai?
- Subiu com a mamãe. - Depois de uma pequena pausa, tendo novamente um brilho divertido no olhar, ela acrescentou: - Foram discutir maneiras de distraí-la para evitar
que fique pensando na minha partida.
Warin franziu a sobrancelha, depois sorriu e se encaminhou até a porta.
- Bem, quando eles descerem, por favor diga a papai que preciso dar uma palavrinha com ele. Estou lá embaixo no campo de treino.
- Está bem. - Avelyn observou o irmão sair, depois abaixou os olhos para ver a razão de a criada estar puxando o tecido do vestido de um lado e depois do outro.
- Por que está fazendo isso Runilda?
- Acho que preciso pregar um pouquinho nos ombros, milady. Está um pouco folgado aqui.
Avelyn inclinou a cabeça, tentando ver, mas era difícil enxergar o próprio ombro. Podia, entretanto, ver bem os fartos seios, o abdome ligeiramente arredondado e
os quadris que pareciam mais largos naquele vestido azul. Uma ameixa, dissera Eunice, e de repente o tecido que havia escolhido, com tanto cuidado e prazer, perdera
toda a beleza. Ela tocou no tecido. Era tão fino e delicado... Mas nem o mais delicado dos tecidos conseguiria transformar a idiota de uma galinha gorda em um cisne.
- Então vamos apertar um pouquinho nos ombros, milady?
- Vamos, sim. - Avelyn soltou o tecido da mão e, endireitando os ombros, acrescentou: - E na cintura também. E pode cortar o excesso de tecido.
A criada arregalou os olhos:
- Apertar a cintura? Mas o talhe está impecável...
- Está agora - Avelyn concordou. - Mas não estará no dia do casamento, pois juro aqui e agora, que vou emagrecer pelo menos uns seis quilos até lá.
- Desculpe, milady - Runilda começou a dizer, preocupada. - Mas não acho uma boa idéia...
- Eu acho - respondeu Avelyn, com firmeza, e sorrindo determinada, desceu da mesa para o banco e do banco para o chão. - Vou perder mais de seis quilos até o casamento.
Uma vez na vida, me sentirei bonita, magra e... graciosa. Paen de Gerville vai se orgulhar de ser meu noivo.
Capítulo I
-Droga, muito estranho...
- Hum? - Lady Christina de Gerville levantou os olhos do prato, visivelmente surpresa ao ouvir essas palavras serem cochichadas. Seu olhar tornou-se suave ao se
deter no rapaz sentado entre ela e o marido. Paen de Gerville, seu filho. Seus longos cabelos escuros estavam presos à nuca, em um rabo de cavalo. Ele estava bem
barbeado e usava uma túnica nova, em um tom verde-escuro, especialmente confeccionada por ela para aquela ocasião. Paen se parecia muito com o próprio pai no dia
do casamento, bonito, forte e igualmente um pouquinho irritado.
- O que é estranho, filho?
- Isto. - Paen fez um gesto largo, mostrando as diversas mesas de cavalete montadas, repletas de gente. Lorde e lady Straughton e todos os convidados estavam em
volta deles, com uma exceção. A pessoa mais importante. - Onde está minha noiva? Não é estranho que ela não esteja aqui? E tampouco estava quando chegamos ontem
à noite. Alguma coisa está errada...
Lady Gerville trocou um olhar divertido com o marido, Wimarc, que, numa pausa de sua conversação com lorde Straughton, também ouvira o comentário de Paen.
- Não há nada de errado, filho - lorde Wimarc de Gerville assegurou. - Sem dúvida, a noiva está demorando por causa dessas coisas de... embelezamento. É típico das
mulheres. Por isso são sempre as últimas a chegar. Não precisa se preocupar.
A frase foi concluída com um tapa que pretendia ser de apoio, mas se Paen não conhecesse esse tipo de gesto afetuoso do pai e não tivesse se agarrado à mesa, teria
caído do banco.
Resmungando ao se ajeitar no banco, Paen pegou um pedaço de queijo e deu uma mordida, sem contudo tirar os olhos da escadaria na expectativa de que sua noiva desceria
a qualquer momento. Ele sabia que o pai estava certo e que estava nervoso de uma maneira fora do comum. Agora entendia o porquê. Até então, não tivera qualquer dúvida.
Estava seguro de que tudo daria certo. Estava simplesmente indo buscar a jovem prometida para torná-la sua mulher.
Embora fosse um acontecimento novo para ele, não era muito diferente do que ir buscar um novo escudeiro, aliás uma outra coisa que também teria de fazer nessa viagem.
Seu plano era se casar, passar alguns dias em Straughton e, depois, na volta para Gerville, parar para pegar o escudeiro. Simples. Não havia grandes elaborações
a fazer.
Pelo menos era o que havia pensado no caminho para Straughton no dia anterior. Naquela manhã, porém, a cabeça de Paen mudara. Subitamente lhe ocorreu que uma esposa
talvez fosse diferente de um escudeiro. Afinal, não iria para a cama com ele.
Além disso, não tinha ainda colocado os olhos na futura esposa. Chegava até a pensar que ela o estivesse evitando. Custava a crer que isso fosse um bom sinal.
- Segure um pouco mais a respiração, milady.
- Não consigo, Runilda. Isso é o máximo que posso - Avelyn proferiu as palavras com o pouco de ar que lhe restava nos pulmões. - Ainda falta muito?
A hesitação da criada foi a resposta. Avelyn soltou o ar com um suspiro de derrota.
- Não adianta, Runilda. Não vou conseguir vestir essa roupa, e nós duas sabemos muito bem disso. Mesmo que você conseguisse fechar, as costuras arrebentariam no
momento que você terminasse de abotoar os ganchinhos.
- Que pena, milady. Eu não deveria ter lhe dado ouvidos. - Runilda deu um passo para ficar em frente a Avelyn. Estava com a culpa estampada no rosto.
- A culpa não é sua. Você fez o que eu lhe pedi.
Avelyn afundou na extremidade da cama, procurando pensar em alternativas. Não havia muitas. Ela não havia perdido peso algum nas últimas duas semanas. Aliás, achava
que havia engordado um pouquinho. O belo vestido azul em que ela e Runilda haviam posto tanto empenho estava pequeno demais para ela.
O lado positivo, imaginava, é que não teria mais de temer ficar parecendo uma ameixa gigante. O lado negativo é que teria de escolher entre parecer uma enorme cereja
ou um monte de...
Se ao menos tivesse provado o vestido antes, talvez houvesse uma chance de fazer alguma coisa. Mas não provara. Haviam sido tantos os preparativos e tantos convidados
a receber, que não pensara mais no vestido e nem que havia pedido a Runilda para apertá-lo e cortar a sobre de tecido na costura. De fato, fora uma estúpida.
Procurando não deixar que a auto-piedade tomasse conta de si, Avelyn se levantou e começou a tirar o vestido.
- Bem, terei de usar o vestido vermelho então. É o que menos foi usado. - Decidiu, tentando não pensar em como seu rosto ficava avermelhado nele, a razão de ter
sido usado tão pouco.
- Pois não, milady. - Felizmente, Runilda era bastante gentil para não mencionar esse ponto, mas, pela voz trêmula, era evidente que estava de coração partido.
- Vamos, Runilda, nada de chorar, se não acabo chorando também.
Avelyn desviou os olhos da criada, convicta de que precisava agüentar o desastre com toda a dignidade e autoconfiança. Não iria chorar. Mesmo que lorde Paen de Gerville
a rejeitasse ao vê-la, manteria a calma e a cabeça erguida.
Ela vasculhava a arca em que suas roupas já estavam guardadas e tirou o vestido vermelho, comprimindo os lábios ao tocar o tecido macio. Quando o mercador o tirara
da carroça, ela imaginara um vestido de linhas simples que esvoaçaria em torno de seu corpo. Na verdade, sentira-se muito bonita ao vesti-lo depois de pronto...
só até descer para o jantar.
Hugo, Stace e Eunice rapidamente se incumbiram de mudar sua imagem, com comentários cáusticos e palavras cruéis, tirando-lhe qualquer prazer de usar o vestido novo.
Fora Eunice que lhe dissera que a cor não lhe assentava bem, e Hugo rira, completando que nem notara isso, porque ela parecia mesmo uma enorme cereja naquele vestido.
Nunca mais o usara, por isso parecia novo e era com ele que seu noivo a veria pela primeira vez.
Só lhe restava esperar que Paen de Gerville gostasse de cerejas, pensou, zombando de si mesma, ao levantar o vestido e sacudi-lo para desamassá-lo um pouco; melhor
era esquecer o motivo de ter detestado aquele vestido.
Assim que Runilda terminou de abotoá-lo, a porta do quarto se abriu.
- Avelyn! - exclamou a mãe. - Por que essa demora? Você ainda nem vestiu seu vestido! Paen está impaciente para conhecê-la antes do casamento.
- Como é ele? - Avelyn perguntou à mãe que caminhou apressada até ela.
Os Gerville deveriam ter chegado a Straughton no dia anterior, o que daria a Avelyn e Paen algum tempo para se conhecerem. O dia, entretanto, chegara ao fim sem
que seu pretendente e acompanhantes desse sinal de vida. Muitos convidados já haviam chegado e sido acomodados antes que um mensageiro trouxesse a notícia de que
houvera um acidente com uma das carruagens dos Gerville. Avelyn já estava na cama quando eles finalmente chegaram a Straughton.
A bem verdade, ela sentira um certo alívio de que o momento de ser apresentada ao noivo fosse adiado. Os primos tanto haviam repetido, nas duas últimas semanas,
que ele certamente a rejeitaria no momento em que pusesse os olhos nela, que ela estava muito insegura e ansiosa.
- Parece um rapaz muito gentil - a mãe afirmou. - Aliás, me lembrou bastante de seu pai quando jovem. Agora, venha cá. Precisamos dar um jeito de vesti-la rapidamente.
Avelyn deu um sorriso forçado para a mãe.
- Decidi usar este aqui.
- O quê? - Lady Straughton parou, percorrendo todo o corpo da filha com um olhar desanimado. - Não, de jeito nenhum. O vestido azul ficou tão lindo em você... e
esse está todo amassado.
- O azul não me cabe - Avelyn explicou ao ver a mãe pegar o vestido, confessando: - Fiz Runilda apertá-lo e cortar o tecido que estava sobrando por dentro. Esperava
emagrecer antes do casamento, mas...
- Oh, Avelyn! - Lady Straughton abaixou as mãos, deixando o vestido arrastar no chão. - Não posso acreditar numa coisas dessas.
Muito envergonhada, Avelyn começou a se virar, mas a mãe a pegou pelo braço, abraçando-a carinhosamente.
- Ah querida, como eu gostaria que você se aceitasse como é. Você é linda, por que sofre tanto?
- Porque sou uma vaca gorda, mãe, e não queria ser.
Para espanto de Avelyn, a mãe disse um impropério ao soltá-la e tinha a expressão carregada de raiva.
- Vou tirar Hugo, Stace e Eunice de circulação. Francamente, aqueles três! Sei que estão por trás disso. - Ela calou-se de repente e procurou se acalmar. - Esqueça,
querida. Você não se parece com uma vaca de jeito algum. Você só é um pouco mais cheinha. Do jeito que os homens gostam.
Avelyn fungou, mas a mãe a ignorou.
- Você não pode usar o vestido vermelho. Está amassado demais. - Lady Straughton voltou a olhar para o vestido azul que ainda segurava. - Tenho uma idéia, mas precisamos
nos apressar. Todos estão prontos para ir para a igreja. Só estão esperando por você. Tire o vestido vermelho - recomendou e, voltando-se para Runilda, pediu: -
Vá procurar Gunnora e diga a ela que traga depressa aquela peça de tecido branco que compramos do mercador.
- O que está pensando, mãe? - Avelyn perguntou ansiosa ao tirar o vestido vermelho.
- Vamos enfaixá-la.
Avelyn arregalou os olhos.
- Me enfaixar?
- Isso. Se não dá para alterar o vestido para que caiba em você, vamos modelar seu corpo para que caiba nele.
- Será, mãe? - Avelyn suspirou, não achando a idéia muito boa.
Alguns momentos depois, ela estava convencida de que não era mesmo. Ela precisava se segurar em Runilda para manter o equilíbrio, enquanto a mãe e Gunnora enrolavam
sua cintura e a apertavam de maneira quase insuportável.
- Falta muito, mãe? Está apertado demais. - Avelyn arfou, apertando as mãos nos ombros de Runilda. A criada lhe deu um meio sorriso, inclinando-se para o lado a
fim de ver o que lady Straughton e Gunnora estavam fazendo.
- Sei que está desconfortável, mas é só mais um pouquinho. - A mãe tentou acalmá-la, recomendando depois à criada: - Mais apertado, Gunnora. Estamos quase acabando.
Avelyn gemeu, pois a pressão em sua cintura agora estava insuportável. Podia jurar que todos os seus órgãos estavam sendo empurrados para cima, pressionando seus
pulmões. Mal conseguia respirar. Ela quase desmaiou de alívio quando a mãe anunciou:
- Pronto! Acabamos. Só falta amarrar.
- Não dá para amarrar, milady - Gunnora contestou. - Vai ficar uma saliência. Precisamos costurar.
- Tem razão. Eu prendo aqui então enquanto você costura, mas, por favor, seja rápida, Gunnora. Estou ficando com cãibra nas mãos.
- Sim, milady.
Avelyn ouviu toda essa conversa de forma nebulosa. Ela só conseguia inspirar um pouquinho de ar de cada vez. Sua cabeça começou a girar. Deitou o rosto no ombro
de Runilda e procurou se agarrar a um fio de consciência por mais um pouquinho.
- Pronto! - A voz de Gunnora tirou Avelyn daquele estado de torpor.
- Graças a Deus! Minhas mãos já não estavam mais agüentando - lady Straughton reclamou. - Vamos agora tentar fechar o vestido. Perfeito!
Avelyn imaginou que "perfeito" significava que elas tivessem conseguido abotoar o vestido. Só teve certeza, porém, ao ser virada para ficar de frente para a mãe
e Gunnora. Ela levantou a cabeça e tentou sorrir.
As duas mulheres trocaram olhares satisfeitos.
- Você está adorável, querida. Simplesmente adorável! - Pegando Avelyn pelo braço, lady Straughton tentou apressá-la. - Vamos descer logo antes que venham nos procurar.
Avelyn conseguiu atravessar metade do quarto, cada passo era mais lento e mais difícil. Foi obrigada a parar.
- O quê há, filha? - perguntou lady Straughton.
- Eu... nada, só preciso... respirar um pouco. - Avelyn forçou um sorriso, tentando puxar todo o ar que pudesse para dentro dos pulmões. - Só preciso... de mais...
um minuto.
Dessa vez, Lady Straughton e a criada entreolharam-se preocupadas.
- Está bem, respire um pouco e depois descemos para que você conheça seu noivo antes de irmos para a igreja.
Só de pensar em andar, não apenas de seu quarto até embaixo, mas também todo o trajeto até a capela, tornou sua respiração ainda mais difícil. A igreja nunca lhe
parecera tão distante. Não estava conseguindo encher o pulmão de ar nem para respirar, quanto mais andar. Apenas dera alguns passos e já estava trôpega.
- Creio que não vou conseguir caminhar até lá - ela murmurou, sabendo que iria desapontar a todos.
- Filha - lady Straughton procurou sustê-la -, você está muito pálida, querida. Acho que devemos soltar só um pouquinho a faixa.
- Não é possível - Gunnora lembrou-a. - Está toda costurada.
Lady Straughton pareceu tão acabrunhada ao ouvir isso, que Avelyn se esforçou para endireitar o corpo e dizer:
- Talvez se andarmos devagar...
- Isso mesmo - a mãe concordou aliviada. - Inclusive é mais refinado andar devagar. Vamos tentar de novo, mais devagar desta vez.
Avelyn lutou para dar um passo, depois outro. Começou então a sentir o sangue lhe fugir do corpo, ficando fria e pálida. O quarto começou a rodar em volta dela.
- Ah, meu Deus, isso não vai dar certo - concluiu lady Straughton desolada, fazendo Avelyn parar. Ela ficou pensativa por um momento, depois voltou-se para a criada,
recomendando: - Vá buscar Warin e meu marido imediatamente, Gunnora.
- Pois não, milady.
Assim que a criada deixou o quarto, Margeria voltou a atenção para a filha. Notando que ela estava trêmula, procurou fazê-la dar uns passos até ficar em frente a
uma arca.
- Sente-se aqui, querida.
- Não posso - Avelyn retrucou, tentando aspirar um pouco de ar e lutando para manter-se em pé ao ser puxada pela mãe. - Não posso sentar! É pior. Por favor, preciso
de ar... preciso...
Lady Straughton ficou apavorada.
- Você está ficando azul! Runilda! Depressa, abra a janela! - gritou, passando o braço pelo ombro de Avelyn e ajudando-a em pânico a chegar perto da janela já aberta
pela criada.
O dia estava tempestuoso. O vento rodopiava pelo quarto, fazendo com que o dossel ondulasse ao redor da cama em que Avelyn estava encostada. Ela podia sentir a brisa
batendo no cabelo, soltando várias mechas do coque feito por Runilda, mas não se importou. Tudo o que importava era a sensação revigorante da brisa fria batendo
em seu rosto. Avelyn abriu a boca para melhor sorver o ar, mas seus pulmões pareciam comportar somente um pouquinho de cada vez.
- Que diabos está acontecendo aqui?
As três mulheres assustaram-se com o berro do lorde Straughton ao irromper intempestivamente no quarto, seguido por Warin cujas feições mostravam preocupação.
- Margeria? Por que essa demora? Primeiro é Avelyn que não desce, depois você desaparece, e Gunnora... - Ele parou de falar de repente ao olhar para a filha. Toda
a raiva que tinha estampada no rosto desanuviou-se e ele correu em direção a ela. - Avelyn, por Deus, sua palidez está assustadora. O que você está sentindo?
- Está tudo bem... - lady Straughton começou a dizer, mas parou quando Avelyn apertou com força os dedos em seu braço.
- Só estou um pouco nervosa, pai - Avelyn murmurou, arfando. Ela procurou sorver o ar novamente e, com os olhos cheios de lágrimas pelo incômodo de não poder respirar
direito, prosseguiu: - Vou me casar e deixar a minha casa. Vou sentir saudade do senhor e...
Essas últimas palavras foram ditas com um gemido, pois Willham de Straughton deu um abraço apertado na filha.
- Vamos sentir saudade de você também. Você é a luz dos nossos olhos, filha. Mas vamos nos visitar sempre e... Você perdeu um pouco de carne, menina? Parece menor
para abraçar...
- Solte-a Willham! - lady Straughton recriminou-o. - Você a está sufocando.
Assim que ele a soltou, ela se voltou e se apoiou no peitoril da janela, deixando o ar bater em seu rosto.
- Tem certeza de que é apenas nervoso? - Warin perguntou. - Ela não parece nada bem.
Lady Straughton insistiu que eles não precisavam se preocupar e, suspirando, concluiu determinada:
- Entretanto, no estado em que ela está, a caminhada até a igreja seria cansativa demais. Willham, acompanhe todo o mundo até lá. Warin, você vai levar Avelyn a
cavalo.
- Mas é mais longe para eu ir buscar o cavalo do que andar até a capela - Warin protestou.
- Além disso - ponderou lorde Straughton, concordando com o filho -, os Gerville vão achar que ela é doente ou...
- Não vão, não, se você explicar que na corte é considerado muito romântico a noiva chegar em um puro-sangue e que todas as noivas nobres estão fazendo isso - lady
Straughton insistiu pacientemente.
Willham piscou os olhos.
- Estão mesmo?
- Sei lá! - retrucou lady Straughton já exasperada. - Você odeia a corte e nunca me leva lá.
- Então você quer que eu minta?
- Quero.
- Muito bem. - Lorde Straughton deu um sorriso sarcástico e saiu do quarto.
- Ele vai me fazer pagar por isso - lady Straughton murmurou, não parecendo, contudo, muito preocupada. Pediu então para o filho: - Vá buscar o cavalo. Nos encontramos
à porta.
No momento em que Warin saiu, lady Straughton voltou sua atenção para Avelyn.
- Ora, você parece bem melhor! - exclamou surpresa.
Avelyn esboçou um sorriso.
- Acho que estou me acostumando. Se conseguir me manter calma e não me movimentar muito, parece que fico bem. - Com todo o cuidado, ela se afastou um passo da janela,
depois outro e mais outro.
- Talvez seja melhor você descansar até Warin chegar com o cavalo - recomendou a mãe, estendendo a mão para evitar que ela pudesse cair.
- Só quero ter certeza de que não vou desmaiar ao caminhar do cavalo até meu marido - Avelyn retorquiu, dando mais alguns passos, ladeada por Gunnora e Runilda que
mantinham as mãos estendidas para ampará-la se fosse preciso. Bastaram meia dúzia de passos para que o quarto começasse a rodar.
Ela achou melhor parar de falar, pois assim evitaria de ficar sem fôlego. Andar era mais importante.
Depois de esperar por alguns instantes para que passasse aquela sensação, ela continuou a andar. E não foi a única a suspirar de alívio quando alcançou a porta.
Avelyn se recostou no batente da porta por um momento, depois deu um leve sorriso para as ansiosas acompanhantes e abriu a porta. Deu dois passos no hall e parou.
Era preciso vencer aquele longo... longo corredor até a escadaria.
Respirou fundo e procurou reunir o pouco de forças que lhe restavam. Endireitando os ombros, deu mais um passo, sentindo um alívio quando a mãe e Gunnora a pegaram
cada uma por um braço. Runilda ficou atrás, dando-lhe sustentação pelas costas. Embora estivesse quase sendo carregada pelas três, vez por outra ela precisava parar
para respirar e desanuviar a cabeça.
Ela acabava de fazer uma nova parada quando Warin surgiu no patamar da escada em frente a elas.
- Como vocês estão demorando! Estou aguardando... - ele começou a protestar, mas pareceu assustar-se ao ver a irmã. - Bom Deus, Avelyn está quase desmaiando! - Seu
olhar passou de uma mulher para outra, tentando entender o que estava acontecendo.
Achando melhor ela mesma dar a humilhante explicação, Avelyn procurou ser o mais breve possível. Para seu alívio, o único comentário de Warin foi:
- Bem, está claro que você precisa de ajuda para descer e ir até o cavalo, senão jamais chegaremos à igreja.
Ele se aproximou mais e tentou pegá-la no colo. Tentou, mas não deu certo. Ela estava rija como um cabo de vassoura dos quadris para cima. Não conseguia dobrar as
pernas. Não havia como carregá-la. Por um momento, Warin temeu ter de enfrentar as escadas, mas então agachou-se um pouco e a pegou pelas pernas, gemendo ao erguer
o corpo.
Avelyn soltou um grito e se agarrou à cabeça e depois aos ombros dele.
- Fique quietinha, Avelyn - ele recomendou. - Essa descida pode ser complicada.
Ela estava petrificada de medo, mas obedeceu ao irmão, rezando até chegarem ao grande salão social.
Warin continuou a carregá-la, seguido pela mãe e pelas duas criadas. Quando saiu do castelo e se aproximou da montaria, estancou preocupado.
- Como vou colocá-la no cavalo se ela não consegue flexionar parte alguma do corpo?
Houve um momento de suspense. Lady Straughton então adiantou-se e disse:
- Coloque-a no chão, Warin, e me dê seu punhal. E fique de costas por um momento.
- O que vai fazer, mãe? - Avelyn perguntou ansiosa ao ser posta no chão.
- Vire-se querida - a mãe ordenou, e depois se postou atrás da filha para abrir a parte de trás do vestido. - Vamos rasgar um pouco a parte de baixo da faixa. O
suficiente para que você possa se sentar no cavalo.
- Mas...
O protesto de Avelyn morreu nos lábios ao sentir que a faixa havia cedido um pouco em volta dos quadris, sem contudo, aliviar nem um pouco seus sofridos pulmões.
Ainda assim aquela sensação já era uma bênção.
Pai do Céu, que maravilha seria quando finalmente se livrasse de toda aquela verdadeira atadura.
Minha nossa! A costura estava arrebentando!
Avelyn não se percebeu de início. Pareceu-lhe sentir menos desconforto quando estavam no meio do caminho para a capela. A cerimônia já poderia estar bem adiantada,
não fosse a mãe ter tido a brilhante idéia de que ela, Gunnora e Runilda deveriam andar na frente do cavalo, cada uma carregando uma cesta de flores que iriam atirando
durante todo o percurso. Com isso haviam perdido um tempo muito precioso para que colhessem no jardim os botões mais bonitos.
Na hora, Avelyn chegou a pensar que ficaria mesmo bonito, mas, à medida que se desconforto diminuía, dava-se conta de que o rasgo feito na parte de baixo da faixa
começava a subir por conta própria e passou a achar a idéia péssima.
- O quê você tem? Por que está tão enrijecida assim? - Warin indagou.
Não que ela não estivesse bastante empertigada na sela antes, mas agora, Avelyn procurava suster a respiração para que o rasgo da faixa não aumentasse mais.
- Mais rápido - ela sussurrou por entre os dentes.
- Mais rápido? Mas... - Ele deu uma olhada para a mãe e as criadas que andavam na frente, depois para ela. - Avelyn, o que há com seu rosto? Por que está tão vermelho
e inchado?
Avelyn soltou a respiração.
- Não se preocupe com meu rosto, Warin, a faixa arrebentou. Preciso descer. Logo.
Para alívio seu, o irmão não contestou, chamou a mãe e explicou que precisavam se apressar. Lady Straughton avisou as criadas e, na ânsia de andar mais rápido, elas,
praticamente, passaram a correr, atirando as flores de maneira quase frenética.
Mal haviam andado uns três metros, Avelyn sentiu que a faixa definitivamente ficava mais frouxa. Chegou até a ouvir o tecido rasgar um pouco sob o vestido. Warin
também ouviu.
- Saiam da frente! - ele gritou para as mulheres.
Lady Straughton os olhou desarvorada e imediatamente deu passagem ao filho que instigou o cavalo a galopar. As três mulheres então passaram a correr atrás do cavalo,
atirando as flores nas costas deles. Quando Warin finalmente fez o cavalo parar, Avelyn não ficou surpresa de ver um grupo de convidados boquiabertos em frente à
capela.
Warin desceu da montaria e se voltou para ajudar Avelyn a desmontar, soerguendo as saias de maneira não muito decente, na tentativa de evitar que o rasgo continuasse.
Ela manteve-se imobilizada por um momento, mal respirando para ver se ficaria bem ou se estouraria o vestido como uma uva rompendo a casca.
- Está tudo bem? - Warin perguntou ansioso.
- Acho que sim. - Avelyn imaginou que a faixa ficara suficientemente presa sob o vestido, pois continuava sem poder respirar muito.
- Está tudo bem? - a mãe, quase sem fôlego, quis saber. Logo atrás dela, chegaram Gunnora e Runilda que também a olhavam com uma expressão inquisidora.
- Está. Acho que não abriu tudo. Que tal estou?
Lady Straughton a examinou de baixo para cima e lhe deu uns beliscões nas faces para lhe fazer voltar um pouco de cor ao rosto.
- Você está muito pálida, mas muito linda.
Avelyn manteve-se imóvel, lembrando-se de como Hugo costumava atormentá-la alguns anos antes. Ele dizia que suas bochechas lembravam a de um esquilo com uma noz
de cada lado e a seguia por toda a parte gritando:
"Bochechuda!" "Bochechuda!"
A imagem que tinha de si mesma, agora, era de um extremo ridículo, com o corpo de uma magreza forçada e as fazes rechonchudas.
- Pronto. - A mãe deu um passo para trás e sorriu. - Você está linda. Você consegue andar o resto do caminho?
Avelyn lançou um olhar nervoso para os degraus da igreja ainda um tanto distantes. Warin poderia ter se aproximado mais deles, mas ela confirmou que poderia cobrir
aquela distância se fosse bem devagar.
Os convidados abriram caminho, tal fez o mar Vermelho para Moisés.
Avelyn deu alguns passos devagar. Bem devagar. Tão devagar, que pouco saiu do lugar e ainda assim sentia-se ofegante e precisava lutar contra aquela sensação de
entorpecimento.
- Santo Deus, ela parece um peixe! - Wimarc de Gerville sussurrou em choque, soltando um gemido quando a esposa o cutucou com o cotovelo. - Desculpe, mas ela parece...
- ele murmurou envergonhado e sacudiu a cabeça. - Não me lembro de que ela tivesse o rosto tão chupado e os lábios tão comprimidos quando a vimos ainda criança e
acertamos o contrato. Você se lembrava?
- Não. - Lady Christina de Gerville não conseguia tirar os olhos da donzela caminhando em direção a eles. Deus amado, ela estava caminhando tão devagar e com tanta
dificuldade, que certamente Ele a perdoaria por achar que a pobrezinha estava parecendo caminhar para a morte e não para o noivo.
Paen pouca atenção prestava à conversação, atento que estava à aproximação da noiva. Não estava nada preocupado com a aparência dela. De fato, a parte inferior do
rosto da noiva estava um tanto contraída naquele momento, mas, apesar disso, dava para ver que ela tinha lábios cheios e macios. O nariz era reto e delicado e os
olhos eram grandes, de um azul-claro, realçado pelo bonito tom castanho-claro dos cabelos, que estavam recolhidos no alto da cabeça, com alguns pequenos cachos soltos
nas laterais, o que lhe suavizava as feições. Ele imaginava que se ela distendesse os músculos das faces, ficaria ainda mais bonita.
Não, não era a aparência da noiva que preocupava Paen naquele momento, era seu modo de andar. Ela caminhava dura como um soldado e no ritmo lento de uma pessoa fraca
ou doente, a última coisa que ele poderia desejar. Ele contava em ter uma esposa robusta e saudável que lhe oferecesse conforto e força nos embates que a vida pudesse
reservar para eles.
Pouco havia que pudesse fazer agora. Logo saberia com quem teria de conviver. Esse contrato nupcial fora assinado em seu nome quando ele ainda era uma criança e
não lhe restara outra escolha a não ser honrá-lo.
Foi preciso um cutucão do pai para que ele percebesse que a noiva já estava a seu lado e que ele ainda estava de costas para o padre.
Virando-se, depois do gesto nada sutil do pai, Paen ensaiou um cumprimento e sorriu para a noiva.
Avelyn fechou os olhos por um segundo e fez um agradecimento silencioso a Deus quando Paen de Gerville sorriu para ela. Por um momento, ela teve receio de que todo
o seu sacrifício tivesse sido em vão, e que o noivo a rejeitasse no ato, como Eunice e os irmãos haviam lhe dito.
Com as pernas trêmulas e o medo quase consumindo suas forças, Avelyn não olhou para o padre imediatamente, ficou fitando o noivo.
A mãe não havia mentido quando o descrevera. A primeira coisa que chamava a atenção nele era a altura. Ele era muito alto e tinha os ombros quase tão largos quanto
a porta da capela. E, de fato, era muito bonito. O mais importante para ela, porém, é que obviamente ele era bom, pois, muito embora sua expressão inicial ao vê-la
tivesse sido de desapontamento, os sorrisos que agora lhe dirigia asseguravam que ele não a recusaria. Sim, ele era incrivelmente bom e, de certa forma, já estava
um pouco enamorada dele por não tê-la rejeitado de imediato.
Foi necessário que o padre desse uma tossidela para trazê-la de volta à realidade. Ela voltou os olhos para o santo homem e, pela expressão dele, compreendeu que
enquanto ela se encantava com o noivo, o padre havia começado a cerimônia e aguardava a sua resposta.
- Shim - ela respondeu, corando ao ouvir como a própria voz saía por tentar manter as bochechas chupadas. Para conseguir mantê-las presas, ela precisava mordê-las
um pouquinho.
Como não houvesse nenhum tipo de comentário, Avelyn procurou relaxar um pouco e tentou respirar. Parecia, porém, não haver ar algum. As pessoas que os cercavam cada
vez chegavam mais perto e ela começava a se sentir sufocada. Inconscientemente, se agarrou ao braço do agora marido e disse a si mesma que não devia entrar em pânico,
mas o rosto do padre começou a tremular na sua frente e a voz dele começou a sumir.
Ah, meu Deus, ela pensou angustiada, não estou nada bem.
A preocupação de Paen quanto ao estado de saúde da noiva só fazia crescer à medida que a cerimônia prosseguia. Ela havia agarrado o braço dele alguns momentos antes
de uma maneira pouco usual, quase desesperada. Agora, como a cerimônia se prolongasse muito, pela pressão da mão em seu braço, parecia que ela oscilava nas pernas.
E na hora de repetir os votos, a voz dela saiu fraca e arfando.
- Agora o noivo pode beijar a noiva.
Paen voltou-se inteiramente de frente para Avelyn e se assustou com a respiração muito ofegante dela. Ela parecia frágil demais.
Pelo visto, ele pensou, este será um casamento curto diante da saúde deficiente dela. Seguindo o ritual, porém, ele se curvou para beijá-la. Os lábios de Avelyn
tinham gosto de hidromel. Eram macios e quentes e... sumiram?
Paen abriu os olhos atônito ao ouvir os convidados mais próximos soltarem um "Oh". Foi o tempo exato para que ele a tomasse nos braços. Avelyn havia desmaiado.
Paen olhou para a noiva inconsciente. Uma parte de sua mente estava em choque diante da situação, mas a outra, notava que ela era realmente bonita, especialmente
agora que, por estar sem consciência, não conseguia chupar o rosto.
- Mas o que há com essa jovem? - perguntou o pai de Paen, intrigado.
A família de Avelyn imediatamente se acercou dos dois, e os convidados, que com a surpresa haviam mantido absoluto silêncio, irromperam em ruidoso falatório ao ouvir
a pergunta.
- O que aconteceu? Como está ela? - alarmou-se lorde de Straughton.
Paen achou que a pergunta era um bom sinal, pois sugeria que a esposa não era dada a desmaios, que aquela era uma ocorrência fora do comum. Era animador.
- Ela está bem - lady Straughton assegurou a todos, enquanto as duas criadas acorreram para abanar o rosto de Avelyn.
- Com licença, talvez eu deva... - Warin tentou tirar a irmã dos braços do marido.
Esse gesto pôs fim ao choque de Paen. Olhando feio para Warin por tentar fazer o que agora considerava seu dever, Paen o afastou com o cotovelo e pegou Avelyn no
colo... Ou tentou. A esposa não era muito carregável. Era estranho que ela não envergasse o corpo dos quadris até a nuca. Ele acabou segurando-a de atravessado no
colo, como se fosse uma tábua. Deveras desconcertante, pensou, abrindo caminho entre os convidados, sem se importar com as criadas que ficavam para trás.
Ao deixar a capela, Paen fitou várias vezes a noiva. Devia ficar feliz por ela ser bonita, mas isso não compensava sua constituição frágil. Na realidade, preferia
mais ter uma esposa saudável do que bonita e doente.
Os anos em que ele passou em campanha, criaram nele certas expectativas do que seria uma esposa. Haviam sido muitos esses anos, lutando em uma batalha após a outra,
morando em tendas que tinham goteiras quando chovia e que em nada protegiam contra o frio da noite.
De início, considerara tudo uma grande aventura. Fizera boa camaradagem com seus compatriotas. Mas conforme as batalhas foram se sucedendo e os homens caindo um
a um a seu lado, a grande aventura começara a cansar. Ele passara a desejar o conforto de uma cama seca, o calor de uma lareira e os seios macios de uma boa esposa
para repousar a cabeça. Somente seu juramento ao rei sob a espada e seu desejo de proteger e cuidar de seu irmão mais jovem, Adam, impediram que ele abandonasse
o campo de batalha e retornasse para casa. Adam, que insistira em segui-lo, havia demorado mais para perder o entusiasmo pelas batalhas e acabara por perder a vida,
com uma espada sarracena no peito. Paen ficara então sem qualquer condição de luta. Entendendo isso, o rei Ricardo concedera-lhe licença para levar a triste notícia
à família e sugerira que ele cuidasse do casamento. Depois de um curto período de luto, ele começou as tratativas com os pais da noiva.
- Oh...
Paen deixou as divagações de lado ao ouvir o suspiro da esposa que, distante da pequena aglomeração que os circundava, e com a brisa fresca batendo-lhe no rosto,
voltava a si. Quando ela tentou erguer ligeiramente a cabeça, fitando-o meio entontecida, ele procurou ajeitá-la melhor nos braços, mas ela continuava tesa.
Avelyn começou a se debater para se livrar dos braços dele. Melhor descrevendo, ela começou a bater com a própria cabeça nele e a agitar a parte de baixo das pernas.
- Por favor, ponha-me no chão! - Embora com muita dificuldade para respirar, toda aquela situação lhe era extremamente embaraçosa.
Na tentativa de acalmá-la, Paen lhe disse, sorrindo:
- Relaxe.
Avelyn parou de se debater ao ouvir a recomendação do marido. Ele não parecia zangado, mas um tanto incomodado com seu desmaio. Sem dúvida, seu desempenho no casamento
não tinha sido dos melhores, com seu caminhar lento, a dificuldade de pronunciar o "sim", culminando com o desmaio.
Com essa reflexão, ela deu-se conta de que havia se esquecido de chupar o rosto. Tratou de fazê-lo imediatamente, torcendo para que o marido não tivesse notado.
Observou então, por trás do ombro dele, que todos os convidados da festa os seguiam a uma certa distância. Ele andava rápido, apesar de carregá-la, e a cada passo
deixava os outros um pouco mais para trás.
Avelyn soltou um suspiro, sentindo-se infeliz. Não era justo obrigar Paen a carregá-la por toda aquela distância.
- Peço-lhe, milorde - começou novamente, soltando as bochechas por um minuto para falar. - Ponha-me no chão antes que se machuque. Sou muito pesada... - Ela fez
uma pausa ao ver o marido parar e contemplá-la espantado, para, em seguida, soltar uma gargalhada.
Ele meneou a cabeça e disse, ainda rindo:
- Como carregar uma coisinha pequena como você poderia me machucar? Ah, as mulheres! - exclamou, divertindo-se, e continuou a caminhar, aparentemente indiferente
ao fato de que Avelyn corara.
Ela pensou, mas desistiu de protestar de que não era coisinha pequena alguma, e sofreu o restante da jornada em silêncio.
Foi um alívio para ela chegar ao castelo e ser acomodada no banco junto à mesa de cavalete. Logo tratou de endireitar as saias e evitou o olhar do marido, sentado
a seu lado. Estava bastante nervosa e seu alívio foi maior ao ver as portas do castelo se abrirem e as pessoas adentrarem o grande salão.
Lady Straughton estava à frente de todos. Ela caminhou rapidamente até a filha, com a expressão muito preocupada.
- Você está bem, querida?
- Estou, sim - ela limitou-se a dizer.
- Você parece bem melhor - comentou uma senhora ao lado de Margeria, que só poderia ser a mãe de Paen.
- Parece mesmo. - Lorde Straughton parou ao lado de Avelyn, dando-lhe um tapinha no ombro. Voltou-se então para o senhor que parecia uma versão mais velha de Paen
e disse: - Que situação mais aflitiva. Avelyn nunca havia desmaiado antes em toda a sua vida. Deve ter sido a expectativa do casamento...
Avelyn fechou os olhos, desejando que todos simplesmente se sentassem e esquecessem o assunto.
- Com certeza é por causa do corre-corre do casamento - comentou alguém e Avelyn abriu os olhos para ver quem falava.
Era uma mulher de idade aproximada a de sua mãe, que tinha o rosto muito bonito e os cabelos loiros, começando a ficar grisalhos.
- A tia Helen está certa - apartou uma loirinha. - Aconteceu a mesma coisa com minha prima. Ela sempre foi uma mulher muito forte até descobrir que tinha um bebê
na barriga e aí começou a desmaiar por qualquer coisa.
- Diamanda! - exclamou tia Helen, chocada.
- Não estou dizendo que lady Avelyn esteja... claro que ela não está esperando um bebê. - A menina tentou corrigir-se de imediato, mostrando-se mortificada com a
interpretação de suas palavras. - Só que estava comparando a tensão da chegada de um filho com a tensão do casamento e tudo mais. - Pela fisionomia de Diamanda,
estava claro que ela adoraria sumir dali diante dos olhares de censura que todos lhe dirigiam.
Conhecendo aquela sensação muito bem, Avelyn sentiu pena da jovem. Era horrível ser o centro das atenções, principalmente quando se tinha consciência de ter falado
uma bobagem. Forçando um sorriso, ela logo procurou defendê-la.
- Claro que você não quis dizer isso. Eu realmente trabalhei bastante para ajudar a providenciar tudo, além de estar nervosa e dormindo mal. Além do mais, estava
muito abafado lá na igreja, com muita gente nos rodeando, não é?
- Estava abafado mesmo - a mãe concordou mais que depressa, para ajudar a desanuviar o ambiente. - Vamos todos nos sentar. A cozinheira levou um bom tempo planejando
este banquete e trabalhou quatro dias para prepará-lo, por isso está ansiosa para começar a servir.
Todos acataram a sugestão e começaram a tomar seus lugares à mesa. Avelyn soltou um suspiro de alívio e, timidamente, olhou para o lado, abaixando imediatamente
os olhos ao ver que o marido a fitava.
- Obrigado.
Ela levantou os olhos surpresa.
- Por que, milorde?
- Por não ter se ofendido com o comentário infeliz de Diamanda e ajudar a apaziguar a situação.
- Tenho certeza de que ela não teve a intenção de me ofender - murmurou Avelyn, dando de ombros e também tamborilando na toalha branca que a mãe insistira em cobrir
a mesa principal.
- Ela ainda é uma criança e às vezes meio desajeitada - Paen comentou, acrescentando: - E receio que um pouco mimada também. Minha mãe sempre se ressentiu de não
ter tido uma filha e cobriu Diamanda de afeto quando ela chegou em Gerville. Minha mãe sentirá ao vê-la partir.
- Ela terminou o treinamento então? - perguntou Avelyn curiosa.
- Ela foi treinada em Gerville porque ia se casar com meu irmão Adam. Como ele morreu, a família dela está procurando um outro pretendente e decidiu que ela deve
voltar para casa enquanto isso. A tia dela, lady Helen, veio buscá-la, mas minha mãe está tentando convencê-los a deixar Diamanda ficar até que se case. Lady Helen
está aguardando a resposta a um bilhete que minha mãe mandou para o pai de Diamanda. - O olhar de Paen percorreu a mesa até localizar a jovem. - Temo que minha mãe
ficará decepcionada.
- Você acha que o pai não permitirá que ela fique?
- É uma menina bonita. Acho que o pai já deve ter encontrado um pretendente e quer que ela esteja em casa para os preparativos do casamento.
- Ela aparenta ter no mínimo dezesseis anos. Não é mais uma menina.
- Diamanda tem catorze - ele corrigiu.
Surpresa, Avelyn dirigiu o olhar para a moça. Embora ela fosse pequena e esbelta, era bem servida de busto. Ainda assim, aos catorze anos, já tinha idade suficiente
para se casar e não mais ser considerada uma menina, mas Avelyn não insistiu no assunto, mesmo porque as portas da cozinha se abriram e os criados começaram a se
perfilar carregando as bandejas de comida. Os primeiros dirigiram-se à mesa principal, enquanto os demais espalharam-se pelo salão. O aroma da comida estava delicioso.
Avelyn sorriu para a criada que parou em frente a eles para servi-los. Paen começou a empilhar as iguarias no prato que os dois compartilhariam, e Avelyn continuou
concentrada em seu infortúnio.
Ainda tinha dificuldade para respirar. Se não era fácil estar em pé, muito pior era estar sentada. Tinha a sensação de que as faixas iriam esmagar suas costelas.
Ela não podia nem pensar em engolir qualquer das comidas que Paen colocara no prato. Se não havia espaço em seu corpo para uma coisa efêmera como o ar, imagine para
comida... o que, para Avelyn, não deixava de ser uma forma de tortura, pois estava faminta. Ansiosa desde a véspera da chegada do noivo e família, dava-se conta
de que havia dois dias que não se alimentava. E agora, empacotada como estava, não tinha condições de comer.
Para complicar as coisas, sentia-se acalorada e começava a sentir coceira sob os seios onde acabavam as faixas que ficavam roçando sua pele delicada, irritando-a.
- Coma.
Avelyn olhou reticente para o marido, que começava a comer. Ela abaixou o olhar para a comida, realmente desejosa de poder provar, mas não se mexeu.
- Coma! - ele insistiu, dando um suspiro. - Eu desejava ter uma esposa sadia, com um apetite sadio.
Diante do desapontamento na voz do marido, Avelyn pegou um pedaço de carne e o aproximou da boca. Mas não o comeu. Simplesmente o manteve perto dos lábios, sob o
nariz. O cheiro do suculento assado quase a fez desmaiar de prazer e vontade, mas, definitivamente, ela sabia que não caberia alimento algum em seu estômago, tão
espremido estava. Pôr qualquer coisa na boca só faria aumentar seu desconforto.
- Está muito bom, não está? - perguntou o marido, aparentemente procurando estabelecer uma conversação.
Avelyn de imediato aquiesceu com a cabeça e deu uma mordida, pois ele a observava, aguardando sua aprovação. Como ele continuasse a observá-la, ela foi obrigada
a mastigar e continuar mastigando.
Pai do Céu, pensou, parece manjá dos deuses. Temendo engasgar se engolisse, ela continuou mastigando e ele notou, comentando divertido:
- Acho que você já mastigou bastante.
Não tendo outra saída, Avelyn engoliu o pedaço de carne e ficou satisfeita de que não tivesse parado na garganta, como temia. Bastou dar um suspiro, porém, sentiu
a costura ceder um pouco. Alarmada, procurou aprumar o corpo para evitar que o rasgo aumentasse, mas de nada adiantou. Um pequeno ruído, de um novo rasgo, e a faixa
afrouxou mais um pouco.
- Você ouviu um barulhinho? - perguntou Paen.
- Não - Avelyn balbuciou, sentindo o pedaço de carne queimar o estômago.
Com medo até de respirar, abaixou os braços, tentando prender as laterais do vestido com os cotovelos.
- Ouvi novamente! - disse Paen, olhando ao seu redor.
Avelyn não precisava olhar ao redor. Ela sentiu muito bem os pulmões se expandirem à medida que a faixa cedia. Se minutos atrás estava com medo de se mexer e tornar
a situação pior, agora, estava em desespero para sair dali antes que passasse por uma verdadeira humilhação. Por um momento, cogitou uma desculpa para se levantar
e sair, mas ao sentir um novo afrouxamento, desistiu da desculpa, respirou fundo e se levantou.
O momento foi errado. Um criado acabara de parar atrás deles carregando uma bandeja com um pernil enorme. Sem querer, ela empurrou o coitado do homem; a bandeja
que ele carregava se desequilibrou e o pernil escorregou. Agindo por instinto, Avelyn se curvou para ajudar a equilibrar a bandeja. Que gesto infeliz. Não havia
dúvida de quem o som que se fez ouvir era de tecido rasgando. Ela parou de imediato, segurando o pernil para não cair da bandeja.
- Avelyn? - a mãe, um pouco mais adiante na mesa, a chamou ansiosa.
Avelyn fechou os olhos e começou a rezar. Por enquanto, somente a faixa arrebentara. O vestido continuava a contê-la, mas tinha certeza de que as costuras não durariam
muito. Por favor, Senhor, me deixe chegar até as escadas, ela implorou, endireitando o corpo.
Deus devia estar ocupado em outro lugar. Assim que endireitou o corpo, as costuras do vestido começaram a abrir. Instintivamente, ela abraçou o pernil contra o peito,
tentando se esconder atrás dele. Entretanto, ele não era o suficiente grande, como demonstrou a expressão de Paen ao fitá-la.
- Avelyn! - a mãe repetiu, abalada, diante do súbito silêncio que se fez e de todos os olhares que se voltaram para a filha.
Com os olhos cheios de lágrimas, Avelyn balançou a cabeça ao ver a mãe fazer menção de se levantar.
- Sinto muito, milorde - ela conseguiu dizer, com voz trêmula. - Queria causar uma boa impressão e... meu vestido não estava cabendo e... minha mãe e Gunnora me
enfaixaram, mas...
Avelyn foi bruscamente interrompida pela estridente gargalhada que Eunice soltou, rapidamente imitada por Hugo e Stace. Os três quase caíram do banco de tanto rir.
Ninguém mais riu, com exceção de Diamanda que deu uma risadinha, mas se conteve ao ver o olhar de censura da tia. Todos os demais a olhavam com simpatia e pena,
o que somente agravava a humilhação que sentia.
Mortificada, Avelyn deixou cair o pernil e fugiu dali, disparando escadaria acima até seu quarto, uma vez que já conseguia respirar normalmente.
Capítulo II
Muito espantando, Paen ficou olhando a esposa correr escada acima. Que rápida! Ele estava encantado: ela havia sido muito rápida mesmo para alguém que desmaiara
um pouco antes.
Recuperando-se do estado de choque em que havia ficado, lady Straughton finalmente se levantou e foi atrás da filha. Duas criadas imediatamente a seguiram. Lorde
Straughton cochichou alguma coisa com o filho e também se levantou.
Paen notou satisfeito que o sogro parou por um instante para repreender o trio de mal-educados que havia rido. Assim que ele começou a subir as escadas, Paen relaxou
no banco e refletiu meio perplexo sobre o que acabara de ocorrer. A esposa tinha arrebentado o vestido por causa de umas faixas. Isso não fazia muito sentido para
ele.
- Não entendi nada, a senhora entendeu? - ele perguntou à mãe.
- Entendi, sim. Coitadinha! - Lady Gerville levantou-se e fez um aceno, chamando Sely, sua criada. As duas, abandonando Paen à própria perplexidade, se apressaram
a seguir a verdadeira procissão que se formara na escadaria rumo ao piso superior.
Paen voltou-se então para o pai. Embora a expressão de Wimarc de Gerville mostrasse claramente que ele não tinha a menor idéia sobre o que se passava, Paen arriscou
a pergunta:
- O senhor entendeu o que aconteceu? O que ela quis dizer sobre a mãe e Gunnora tê-la enfaixado?
Lorde Gerville meneou negativamente a cabeça. Ele estava mais confuso do que o filho. Paen começava a se sentir frustrado quando o trio do outro lado da mesa começou
a rir novamente. Ele sentiu vontade de se levantar e dar uns tapas nos três para que parassem. Eis que um deles, Hugo, resolveu, rindo muito, lhe dar a explicação:
- A idiota queria parecer mais magra, mas não há faixa que agüente a barriga dela. Primeiro a faixa rasgou e depois foi a vez de as costuras do vestido arrebentarem.
- Mas por que ela fez isso? - ele insistiu, boquiaberto.
- Porque é uma elefanta e queria parecer mais magra e atraente para você - respondeu Stace, e o trio irrompeu em novas gargalhadas.
Paen não achou engraçado. De cara amarrada, ele se levantou vagarosamente e levou a mão à espada. Isso fez com que o trio imediatamente silenciasse. Mesmo assim,
Paen passou-lhes uma descompostura e avisou que só não iria matá-los porque era o dia de seu casamento. Mas que eles estavam precisando de uma boa lição, estavam.
O comportamento deles era um total desrespeito à sua esposa e, principalmente, ao tio que os acolhera em casa quando ficaram sem a mãe deles.
Os três emudeceram e pareciam visivelmente nervosos. Paen tirou a mão da espada e voltou sua atenção para a escada. Depois de alguns minutos, olhou para o pai e
em seguida para o cunhado que se mantivera calado o tempo todo, observando-o.
- O que você acha que devo fazer? Acho que vou subir também.
Warin de Straughton pensou e por fim, disse:
- Melhor esperar um pouco. Avelyn está muito constrangida.
- Eu sei, mas quem não estaria com uma família como essa - ele comentou, dirigindo um olhar de censura ao trio.
Para surpresa dele, Warin repentinamente sorriu, dizendo:
- Creio que você será um bom companheiro para ela, milorde.
Paen o olhou mais surpreso ainda; num meneio de cabeça. Levantou-se do banco para dirigir-se à escadaria. Apesar da recomendação do cunhado, iria ter com a esposa.
Cabia a ele acalmá-la no momento em que estivesse aborrecida.
- Queridinha - lady Straughton consolava a filha, afagando-lhe as costas. Avelyn estava deitada na cama, sob as cobertas.
- Sou uma idiota.
- Não, você é inteligente e encantadora, e teve uma linda presença no casamento.
- Eu desmaiei! - Ela levantou a cabeça para protestar.
Gunnora e Runilda entraram silenciosamente no quarto, nesse momento. Avelyn percebeu a expressão de pena das duas e afundou a cabeça novamente no travesseiro.
- Verdade, você desmaiou. - Lady Straughton soltou um suspiro, e num farfalhar de seda, atravessou o quarto. - Vamos, você precisa se trocar e voltar à festa.
- Me trocar?! - Avelyn sentou-se na cama, com uma expressão horrorizada no rosto. - Não posso voltar à festa, mãe, depois de toda essa humilhação. Acho que morreria
de vergonha.
- Nada disso - a mãe assegurou, pegando o vestido vermelho que um pouco antes havia sido descartado. - Esse é apenas um dos momentos inoportunos da vida. Haverá
muitos outros. Tudo o que você tem a fazer é levantar e cabeça e seguir em frente.
Lady Straughton cruzou novamente o quarto cheia de determinação, sendo seguida de um lado para o outro, pelas criadas, obviamente preparadas para ajudar a enfiar
o vestido em Avelyn, se necessário. De repente, as três pararam ao pé da cama.
- Essa é a festa de seu casamento, sua festa. Se Deus quiser e seu marido não vier a morrer, você terá só uma. Deve aproveitá-la.
Avelyn olhou para o vestido vermelho que a mãe segurava, pensando primeiro em se rebelar, mas reconsiderou e achou melhor descer novamente. Mais cedo ou mais tarde,
teria mesmo de encarar todo o mundo. Soltando um suspiro profundo, ela endireitou o corpo e saiu da cama, rasgando o que sobrara do vestido.
Nesse momento, lorde Straughton abriu a porta do quarto com a fúria de uma tempestade.
- Pai! - Avelyn gritou e cruzou os braços sobre a fina combinação que usava, procurando se esconder atrás da mãe e das criadas.
- Ela está bem? - ele indagou.
- Pai! - Avelyn gritou novamente, erguendo a cabeça sobre o ombro de Runilda para vê-lo.
- Ora, vamos, sou seu pai! - Willham exaltou-se, em seguida balançou a cabeça e chegou perto de Avelyn, limpando os vestígios de lágrimas na parte do rosto que ela
permitia que ele visse. Com a expressão abrandada, ele circundou o trio e, ignorando o embaraço da filha, pousou as mãos sobre os ombros dela. - Você estava linda,
Avelyn. Mas parece mais linda agora que não está mais atada feito um peru.
- Oh, papai! - Avelyn mordiscou o lábio e se jogou contra o peito do pai com um soluço.
- Vamos, vamos... isso não é o fim do mundo - ele argumentou, dando uns tapinhas desajeitados nas costas da filha.
Avelyn se aninhou no peito dele, como fazia quando era criança, e choramingou:
- Por que não consigo ser mais... graciosa? Só eu mesma para arrebentar meu vestido na frente de todo o mundo.
- Bem, talvez a culpa seja minha...
- Culpa sua? - Avelyn deu um passo para trás para fitá-lo surpresa.
Ele aquiesceu com a cabeça.
- Vê esta cicatriz? - ele perguntou, apontando para a lateral direita do rosto, perto do olho.
Avelyn seguiu o gesto do pai. Tal cicatriz existia desde que ela se conhecia por gente.
- É a que você fez na batalha de Belville.
Um pouco encabulado, ele comentou:
- Isso mesmo, só que nunca lhe contei exatamente como participei da batalha de Belville.
- Não.
- Porque é meio embaraçoso. O caso não é muito diferente do seu. Eu tinha calções novos e queria impressionar sua mãe. O problema é que ficaram muito pequenos. Não
cabiam de jeito nenhum, mas eu era muito orgulhoso para admitir e encomendar um novo par ao alfaiate. Tinha de entrar nele de qualquer jeito. - Ele riu ao lembrar.
- Bem, eu me vesti e fui a Quarmby cortejar sua mãe. Me defrontei no caminho com a batalha de Belville. Belville era um amigo e achei que poderia ajudá-lo a vencer
depressa e ganharia um pouco de diversão no caminho. Assim, parei e me juntei à batalha. Já estava quase no final dela quando as costuras dos meus calções arrebentaram.
Instintivamente procurei cobrir minhas partes íntimas e lorde Ivers se valeu daquele minuto de distração para me acertar um golpe no rosto. - Ele passou a mão pela
cicatriz e prosseguiu: - Foi embaraçoso demais, juro. E aquele sanguinário do Ivers ficou falando sobre o assunto nos seis meses seguintes. Ele se divertia, gabando-se
do feito e, sempre que possível, me jogava na cara até que, finalmente, eu o matei na batalha de Ipswich.
A expressão de Avelyn se tornou sombria.
- Eunice, Hugo e Stace vão rir disso a vida toda.
- Pois é - o pai concordou -, pena que não possamos matá-los...
- Wimarc! - lady Straughton repreendeu-o.
Lorde Straughton apenas deu de ombros e Avelyn segurou o riso. Ele não gostava dos sobrinhos tanto quanto ela; já havia deixado claro que considerava a presença
deles uma praga e só os tolerava em casa por causa da esposa. A tia Isadore, irmã de sua mãe, fazia o possível para contê-los, mas os mimara demais para compensar
a dupla perda, do pai e da casa, e perdera totalmente o controle sobre eles.
Uma pequena movimentação despertou a atenção de Avelyn. Lady Gerville e a criada haviam entrado alguns minutos antes e a olhavam com simpatia e dúvida se seriam
bem recebidas.
Forçando um sorriso para a sogra, Avelyn se desvencilhou do abraço do pai e pegou o vestido que a mãe segurava. Foi nesse momento que Paen entrou no quarto, fazendo
com que todo sentimento de humilhação voltasse. Procurando esconder-se atrás do pai, ela apoiou a cabeça nas costas dele enquanto ele confrontava o genro.
- O que é isso, milorde? Você não tem...
- Ela está bem? - Paen o interrompeu impaciente.
Avelyn sentiu as costas do pai relaxar diante da óbvia preocupação na voz do marido.
- Sim, ela está bem.
- Avelyn? - Paen chamou-a, evidentemente ansioso para ver por si mesmo que ela estava bem.
Suspirando, Avelyn rapidamente se vestiu, endireitou o corpo e saiu de trás do pai. Runilda logo se postou atrás dela para abotoar o vestido e dar o laço. Esperando
que seu rosto não tivesse muito vermelho e manchado de tanto chorar, ela ergueu o queixo e se esforçou para encará-lo. Uma hora teria de fazê-lo, melhor que fosse
logo.
- Estou bem, milorde - murmurou, cheia de dignidade. - Um pouco constrangida, mas bem.
- Essas coisas acontecem. - Ele a tranqüilizou. - Não quero que se preocupe. Não há nada para se sentir constrangida. Não vou julgá-la pelo comportamento de seus
primos.
Avelyn foi tomada de surpresa. Percebeu ao olhar para os pais, que eles também ficaram confusos.
- Meus primos, milorde?
- Embora o comportamento deles seja imperdoável, acho que não deveria perturbá-la a ponto de abandonar sua própria festa de casamento.
- Nossa... na realidade, milorde, não foi a zombaria de meus primos que me fez deixar a mesa, já estou acostumada a elas - replicou Avelyn, sentindo-se tão desconfortável
de ter de explicar, que nem notou que os olhos de Paen se estreitaram. - Eu precisei sair para consertar... ou melhor, trocar. Acredito que você viu que as costuras
do meu vestido se abriram.
- Ah, por isso? - Ele deu de ombros. - Como lhe disse, essas coisas acontecem. Me preocupou que você estivesse demorando por estar aborrecida com seus primos.
Avelyn fitou-o, confusa. Ele encarava com inconseqüência coisas que poucos momentos antes haviam sido o fim do mundo para ela.
- Essas coisas acontecem? - ela conseguiu balbuciar, quebrando alguns minutos de silêncio.
- Sim. Estou sempre arrebentando as costuras de minhas túnicas. Depois que Diamanda chegou, ela sempre costura para mim um túnica para meu aniversário e outra para
o natal, mas ela os corta muito pequenas nos ombros. Enquanto estou parado, não há problema, mas assim que levanto a espada e mexo os músculos, elas arrebentam.
- Ele deu de ombros novamente. - Por isso não vale a pena se preocupar.
Paen examinou Avelyn, agora no vestido vermelho, de cima a baixo, fazendo-a temer que, sem a faixa, ele não a aprovasse. Ela, porém, fez o possível para não deixar
transparecer seu medo.
- Sua aparência está muito melhor agora - ele comentou. - Seu rosto já tem alguma cor e você não está mais toda chupada, parecendo um peixe.
- Parecendo um peixe?
- Sim. - Paen chupou as bochechas, fazendo um bico com os lábios, para mostrar qual era a aparência dela.
Avelyn se deu conta da figura ridícula que fizera e corou novamente. E ela que julgara estar causando uma melhor impressão. Notou então, preocupando-se, que Paen
estava de cenho franzido. Já se preparava para ouvi-lo verbalizar seu desprazer, quando ele deu um passo à frente, estendeu o braço e desfez em segundos o coque
que Runilda batalhava para ajeitar novamente.
- Você tem cabelos lindos. Prefiro que os use soltos - ele recomendou, meneando a cabeça em aprovação. Dito isso, pegou-a pela mão e puxou-a em direção à porta.
Avelyn tropeçou atrás dele, mas o seguiu, sorrindo por sobre os ombros para os pais, lady Gerville, Gunnora e Runilda.
- Ele gosta do meu cabelo solto. Lembre-se disso, Runilda - comentou e seguiu o marido até o grande salão, quase correndo para poder acompanhar os passos dele. Para
seu alívio, Paen parou no patamar da escadaria. Ele se voltou e ia dizer qualquer coisa, mas franziu a testa ao vê-la corada e ofegante.
Avelyn deu um suspiro profundo e se esforçou para respirar normalmente. Não era usual ficar sem fôlego por causa de uma corridinha como aquela, mas aparentemente
ainda não se recuperara do enfaixamento.
- Me desculpe, querida. Esqueci que você é tão pequenina. Preciso aprender a dar passos do tamanho dos seus.
- Pequenina? - Avelyn quase chorou ao ouvir essa palavra. Nunca ninguém a chamara de pequenina.
- Sim, pequenina! Bem, mas não tão magricela quanto a maioria das mulheres, graças a Deus. Eu ficaria assustado caso você ficasse doente, e teria medo de esmagá-la,
se você fosse assim. Felizmente, você tem formas arredondadas e alguma carne sobre os ossos, e eu não vou perdê-la sob os lençóis. Ainda assim, é muito menor do
que eu e preciso aprender a andar mais devagar quando estiver com você.
Paen não conseguiu ver as várias expressões que passaram pelo rosto de Avelyn, entretido que estava em passar a mão dela pelo seu braço. Ela não estava muito certo
de como deveria se sentir diante de tais afirmações. Ter formas arredondadas e alguma carne sobre os ossos não podia de forma alguma ser considerado elogioso, mas
pelo menos ele parecia não sentir repulsa por ela. Antes que conseguisse entender se o marido estava ou não satisfeito com ela, os dois começaram a descer as escadas.
Avelyn estava bem ao descerem os primeiros degraus, mas assim que contemplou o salão, com as mesas de cavalete e as pessoas comemorando, diminuiu o passo. Paen percebeu
e imediatamente adivinhou a razão.
- Você não precisa temer seus primos. Eles não vão incomodá-la mais.
Ela dirigiu um olhar cheio de curiosidade para o marido, mas não questionou como ele poderia afirmar tal coisa. Desceu as escadarias ainda refletindo sobre as palavras
que acabara de ouvir e, sem notar, se encontrou, uma vez mais, sentada à mesa. O profundo silêncio que tomou conta do salão quando a presença do casal foi percebida
não poderia ser de maior desconforto. Avelyn sentiu que ficava ruborizada e receou estar realmente parecendo uma cereja naquele vestido.
Ela lançou um olhar nervoso em direção aos três primos, mas eles estavam quietos, com os olhos fixos em seus pratos. Tudo fazia crer que não a importariam mesmo,
pensou cheia de admiração pelo marido, perguntando-se como ele havia conseguido aquilo em apenas alguns minutos, especialmente considerando que as ameaças e surras
de Warin e do pai nunca haviam adiantado.
Tal constatação fez com que Avelyn encarasse o marido como verdadeiro herói e dirigisse a ele um olhar de gratidão e respeito. Ele, porém, pareceu não notar, ocupado
que estava em reabastecer o prato que ambos compartilhavam. Avelyn voltou a se espantar com o monte de comida que ele empilhava.
A chegada dos pais e de lady Gerville distraiu sua atenção. Sorriu para eles, ainda um pouco nervosa. Ao olhar novamente para o prato, espantou-se. Já estava pela
metade. O marido comia como se não houvesse um amanhã. De repente, ele parou e fitou-a.
- Você não está comendo. Não está com fome?
Avelyn fez que sim com a cabeça.
- Na verdade, estou faminta, milorde. Não como desde anteontem.
Paen surpreendeu-se.
- Não é para menos que você tenha desmaiado então. - Ele deu uma olhada ao redor e fez sinal para os criados, que se apressaram em atendê-lo. Em alguns instantes,
o prato já estava repleto de comida novamente.
- Coma! - ele ordenou, no momento em que os criados se afastaram, levando um pedaço de queijo à boca de Avelyn.
Corando, num misto de vergonha e prazer diante desse gesto romântico, ela abriu a boca e aceitou o pedaço de queijo, quase engasgando quando Paen enfiou o pedaço
inteiro em sua boca. De olhos arregalados e o rosto estufado como um verdadeiro esquilo, mal ela acabava de mastigar o queijo e ele já estava com um pedaço de carne
preparado junto aos lábios dela. Avelyn logo entendeu que aquele não era nenhum gesto romântico. O marido queria alimentá-la como se temesse que ela própria não
se alimentasse. O homem era cego ou idiota, pois qualquer um que a visse imaginaria que ela deveria comer muito, embora estivessem enganados. Ela pulava refeições
com freqüência, mas isso simplesmente não fazia diferença em suas medidas.
E assim, Paen continuou a lhe dar uma e outra coisa até que finalmente ela protestou, rindo, que não conseguiria comer nem mais um pedaço. Ele riu ao ouvir a estridente
gargalhada da esposa e devolveu ao prato o pedaço de carne que ia lhe oferecer.
- Você comeu muito bem - ele concluiu, como se estivesse elogiando uma criança.
Avelyn concordou com a cabeça e olhou para o lado ao sentir um toque em seu braço. Sua mãe e lady Gerville estavam paradas atrás dela. Runilda, Gunnora e Sely, a
criada de lady Gerville, também lá estavam.
- Está na hora de ir para a cama.
O ar sorridente abandonou o rosto de Avelyn. Ela engoliu em seco ao ouvir essa notícia. Estivera tão ocupada com uma coisa ou outra desde o casamento, que havia
se esquecido completamente dessa parte. Sentindo o rubor subir-lhe ao rosto, ela evitou olhar para Paen e, relutante, levantou-se para ser conduzida ao piso superior
do castelo.
Avelyn passou por todo o preparativo de forma nebulosa. Sentiu-se como se estivesse sendo levada à forca, sabendo que já estava chegando o momento mais pavoroso
e que nada poderia fazer para evitar. Todos a veriam nua.
- Você está bem, querida? - A voz preocupada da mãe fez-se ouvir como se ecoasse a distância. Não conseguindo responder, ela simplesmente balançou a cabeça e se
enfiou sob o lençol que lady Gerville havia levantado para ela.
Mal havia se deitado, ela ouviu o som abafado de vozes e risadas masculinas junto à porta. Inconscientemente puxou o lençol e apertou contra o corpo. Então a porta
foi escancarada e um emaranhado de corpos masculinos irrompeu o quarto. Paen estava no meio deles, já seminu e cercado por uma dúzia de mãos que lhe tiravam peça
por peça da roupa. Passando alguns segundos, o lençol que a cobria foi puxado e ela ficou exposta aos olhares que perscrutavam seu corpo até Paen ser atirado à cama.
Avelyn morreu mil vezes naqueles poucos minutos que lhe pareceram uma eternidade.
- Ora veja, que sortudo! - alguém comentou. - Que travesseiro macio ela será para a sua cabeça à noite...
- É verdade, e também o manterá aquecido durante as longas noites de inverno - outra pessoa aparteou.
Finalmente, assim que Paen se deitou, Avelyn rapidamente puxou o lençol até o pescoço. Com a mesma rapidez que entraram, os homens deixaram o quarto, seguidos pelas
mulheres, e os dois ficaram sozinhos. Ela mal notou, pois havia ficado maravilhada pelo fato de não ter ouvido nenhum comentário grosseiro sobre seu corpo. Na realidade,
os comentários haviam sido até elogiosos, como se o marido tivesse ganhado um prêmio. Ela saboreou aquela sensação por alguns momentos.
- Minha esposa?
Avelyn olhou para Paen e deu-se conta de tinha se consumido tanto na preocupação de "estar nua na frente de todos" que não pensara em mais nada. Ocorria-lhe agora
que estava na hora da cama. Ela tentou engolir. Sua boca estava seca e mal conseguia respirar novamente.
Como boa mãe que era, lady Straughton havia explicado tudo o que aconteceria aquela noite à filha. Nada lhe parecera muito sedutor ou dignificante, mas a mãe lhe
assegurara que seria bom. Avelyn achou difícil de acreditar no momento em que o marido se inclinou sobre seu corpo. Repentinamente, sua cabeça pareceu ficar vazia
de pensamentos. Ela sentiu o corpo enrijecer às primeiras carícias dele e comprimiu os lábios quando a boca de Paen cobriu a sua. Estava meio paralisada, sem saber
se gostava daquilo ou não. Antes que chegasse a uma conclusão, sentiu a mão do marido em seu seio sobre o lençol e sobressaltou-se. Abriu a boca para protestar,
mas foi surpreendida pela língua dele.
Não podia entender a razão de ele tê-la colocado em sua boca. A menos que desejasse examinar se ela teria todos os dentes.
Ele tinha gosto do uísque que havia bebido no jantar e que até era gostoso. Ela aguardou para que o exame terminasse, certa de que Paen deveria estar satisfeito
de ela de fato ter todos os dentes, mas a investigação parecia demorada e começava a provocar nela sensações um tanto estranhas. Avelyn sentiu uma urgência de também
sugar a língua dele. Achando isso um pouco esquisito, porém, ponderou que examinar os dentes dele seria mais aceitável, passando então a explorar com a língua a
boca do marido.
Contudo, não teve muito sucesso. No momento em que sua língua recuou um pouco, a dele começou a pelejar com a sua, provocando estranhíssimas sensações em seu corpo.
Tão empenhada estava que não percebeu que Paen puxava a camisola quase despindo-a. Quando tentou retê-la, era tarde demais. Passou-lhe pela cabeça que não precisaria
ficar constrangida de estar nua na cama com o marido. Afinal, ele certamente a vira quando a descobriram antes. Mas fora tudo muito rápido e ela não tinha nenhum
interesse em que ele visse mais.
Avelyn mal tinha feito essa divagação quando Paen parou de beijá-la. Soube de imediato que ele desejava olhar para seus seios. Envergonhada por causa do tamanho
avantajado deles, rapidamente passou o braço pelo pescoço do marido e o puxou, beijando-o com o ardor que antes lhe faltara. Ela até resolveu sugar-lhe a língua
como havia desejado antes. Tudo o que fosse preciso para evitar que ele quisesse ver o que suas mãos já haviam descoberto.
Avelyn percebeu a surpresa dele diante de seu comportamento mais ousado e também se surpreendeu quando os beijos se tornaram mais apaixonados. Novamente ela sentiu
a mão máscula em seu seio. Dessa vez não houve sobressalto algum. Pelo contrário, ela arqueou o corpo, respondendo à carícia como seu instinto mandava. Eram estranhas
as reações de seu corpo. Seus mamilos repentinamente haviam se tornado muito sensíveis quando tocados; nunca imaginara que pudessem causar sensações tão gostosas.
Sempre julgara que tivessem apenas a função de amamentar.
Após vários minutos em que todo o seu corpo se tornou uma massa de prazer libertino, Paen novamente tentou interromper o beijo. Levada pelo prazer que ele lhe proporcionava,
Avelyn quase assentiu, mas, apossada pelo medo de que ele pudesse rejeitá-la se a visse nua, apertou ainda mais os braços em volta do pescoço dele. ele voltou então
a acariciá-la e beijá-la, aparentemente para deixá-la mais calma, mas Avelyn sabia que não poderia continuar daquele jeito por muito tempo. Por um momento ficou
indecisa sem saber o que fazer, mas de repente ocorreu-lhe uma solução brilhante. Paen não teria do que se desgostar se não a visse. Apagaria a vela. Esticando um
braço, ela procurou com a mão a vela que a mãe havia deixado acesa na mesa-de-cabeceira.
Avelyn não conseguia encontrar a vela de imediato e, na tentativa de encontrá-la, não percebeu a mão do marido deslizando por seu corpo até se alojar em suas partes
íntimas. Ela reagiu com um estremecimento e deixou escapar um gemido. Todo o prazer que sentia agora estava concentrado ali. A busca pela vela tornou-se então frenética;
ela apalpava aflita a superfície da mesinha até bater com força na vela.
Preocupada, interrompeu o beijo para olhar na direção da mesinha, após o pressagioso baque que se fez ouvir. A vela não estava mais lá, mais o quarto continuava
iluminado. Ela ia se inclinar na cama para ver onde a vela havia caído quando Paen abocanhou um de seus seios. Avelyn ficou tesa na cama e olhou para a cabeça dele,
num misto de prazer e temor.
Será que ele a vira nua?
Pai do Céu, como aquilo era bom. Era ainda melhor do que a mão acariciando seu seio.
Seu devaneio foi de súbito interrompido pela mão de Paen que, sob o lençol que ainda cobria seus quadris, tocou diretamente em sua intimidade. Que droga, sua mãe
não havia mencionado nada sobre essa parte.
Avelyn estava tão impressionada com as sensações que sentia que levou algum tempo para perceber que Paen havia erguido a cabeça e podia vê-la nua, pelo menos da
cintura para cima. Mas por que ele estava franzindo a testa?
O prazer deu lugar a um profundo desapontamento. Ele devia estar decepcionado com ela. A mera visão de seu corpo o fazia fechar o cenho. Eis que ele deu um pulo
na cama, levantou-a com os lençóis e correu para a porta.
O que estava fazendo? Seria possível que ele fosse levá-la para baixo e humilhá-la na frente de todos?
Para seu alívio, Paen a colocou no chão, no corredor, caminhou até o hall, debruçou-se no corrimão e gritou alguma coisa para os que estavam embaixo, retornando
em seguida ao quarto.
Avelyn permaneceu no corredor, enrolando o lençol sobre seu corpo e observando desesperada o que ele fazia. Foi então que seu olhar que vagava a esmo se deparou
com chamas que ardiam no cortinado da cama.
- Fogo! - Ela arregalou os olhos, meio estupefata, e só então se deu conta de que era isso que Paen havia gritado para os que estavam no piso inferior. Ele não a
estava desprezando. Talvez nem tivesse se horrorizado com o que vira de seu corpo. Ele só tentava protegê-la do perigo, lutando com o fogo que obviamente a vela
havia iniciado.
Nossa! Ele era tão corajoso e galante!
Mas corria o risco de se queimar. Ele havia pegado seus calções e batia com eles no fogo. Amarrando melhor o lençol em volta do corpo, Avelyn se apressou em ir ajudá-lo.
Apanhando a túnica de Paen, Avelyn se juntou a ele para combater o fogo. Tão logo ele notou sua presença, largou os calções, pegou-a no colo e tirou-a do quarto.
- Paen, eu queria ajudar - Avelyn protestou assim que ele a colocou novamente no chão.
Paen balbuciou alguma coisa, meneando a cabeça, e voltou a se aproximar do corrimão, gritando mais uma vez:
- Fogo! - Em seguida, correu para o quarto.
Avelyn o observou lutar contra as chamas, mas sua mente ficou meio entorpecida observando o fogo lançar seu brilho dourado sobre o musculoso corpo desnudo do marido.
Sabia que ele era alto e grande, mesmo vestido dava para se ver, mas o fogo ressaltava sua estrutura sólida, as pernas fortes e musculosas como as de um cavalo,
o peito largo e os braços, cuja circunferência era igual a das coxas dela, porém mais rijos.
Avelyn contemplava-lhe as costas, quando Paen pegou o cortinado da cama em chamas e o puxou para o chão. Foi quando ela se lembrou da bacia de água.
Prevendo que, depois do constrangedor incidente com a faixa, ela estaria acalorada e suada, Runilda tivera a boa idéia de deixar uma bacia de água para que ela se
lavasse antes de se deitar. A bacia com a água usada ainda repousava sobre a cômoda próxima à lareira.
Ignorando a ordem do marido de se manter onde estava, Avelyn rapidamente entrou no quarto, pegou a bacia e correu em direção a ele. Estava quase chegando junto a
Paen quando o lençol começou a se soltar de seu corpo. Antes que pudesse prendê-lo, ele escorregou e se enroscou em seus pés, fazendo-a tropeçar. O grito abafado
que deu ao sentir que ia cair fez com que Paen se voltasse. Ele procurou segurá-la pelo braço para que se equilibrasse. Embora conseguisse evitar que Avelyn desse
de cara no chão, ela caiu de joelhos, a água da bacia voou para todos os lados e, com a água escorrendo pelo próprio rosto, ela acabou com os olhos a apenas alguns
centímetros de uma parte muito esquisita do corpo do marido. Ao falar sobre a noite do casamento, a mãe lhe havia descrito esse apêndice, mas ela nunca havia se
deparado com um antes.
Petrificada sobre os joelhos, Avelyn não conseguia desviar o olhar. A mãe havia comentado pouco a respeito do tal apêndice, dizendo-lhe apenas que se parecia com
um dedo. Um pouco mais grosso, fora toda a explicação dela. O que Avelyn via em Paen agora, era algo bem mais grosso e não se parecia nada com um dedo. Talvez com
um salsichão, pensou vagamente, sendo despertada daquele torpor ao se dar conta de que o marido havia engasgado.
Avelyn levantou a cabeça e viu que o rosto dele também estava pingando. Acompanhou o estranho olhar do marido que primeiro a fitou e depois desceu até a própria
virilha. Espantada, ela constatou que o membro dele havia se tornado ainda maior, mas nem teve tempo de esboçar qualquer reação, pois foi agarrada por ele e rapidamente
levada mais uma vez para o corredor.
- Não saia daqui - ele ordenou e voltou ao quarto.
Contrariada por não poder ajudar, Avelyn caminhou até a porta, encostando-se no batente, para observar ansiosa a luta que Paen travava contra o fogo. Parte das cortinas
que ele havia arrancado caíram sobre a cômoda. A ajuda que ela quisera dar só fizera atrapalhá-lo. O fogo também se alastrara pela cômoda nos poucos minutos que
ele perdera para tirá-la do quarto. Paen tentava vencer as chamas com seus calções em uma das mãos e, com a outra, batia com a túnica no cortinado. Veio-lhe à mente
as lembranças das várias conversas que tivera com o pai sobre o marido. Lorde Straughton tentara lhe contar tudo o que sabia sobre o marido, provavelmente para tranqüilizá-la,
à medida que a data do casamento se aproximava. O pai achava que sabia muito a respeito de Paen, o que para ela parecia muito pouco.
De acordo com o pai, Paen tinha a habilidade fora do comum de empunhar a espada com ambas as mãos. Isso o tornava um temível adversário. Além disso, diziam que ele
era incansável. Como o próprio pai, ele era considerado um guerreiro imbatível. Na verdade, esse havia sido o ponto que lorde Straughton levara em consideração para
selarem o acordo de casamento quando a filha ainda era criança e lorde Gerville abordara o assunto. Eles não viviam muito distantes uns dos outros e, mesmo jovenzinho,
Paen era grande e forte para a idade e já mostrava sinais de que seguiria a natureza destemida do pai. Tudo o que lorde Straughton desejava para a filha era um marido
capaz de cuidar e zelar pela segurança dela no futuro, sentindo confiança de que Paen não o desapontaria.
O pai tinha razão, Avelyn constatava agora. O quarto estava insuportavelmente quente. As chamas avançavam como línguas de cobras venenosas, mas Paen não se intimidava.
Seus braços se agitavam num movimento constante. Apesar disso, ela começou a temer de que a determinação do marido não fosse o suficiente e que ele se queimasse.
Uma inesperada dor em seu dedo fez com que Avelyn percebesse que havia agarrado com muita força o batente da porta e a causa da dor era uma lasca de madeira que
havia penetrado em sua pele.
Ela puxou a lasca e pensou em novamente entrar no quarto. Olhou então para a escadaria. Era inacreditável que ninguém ainda houvesse notado o fogo. A fumaça já devia
chegar no salão, ponderou, mas, observando melhor, viu que, pelo contrário, ela subia pela torre do castelo. Por outro lado, estavam todos tão entretidos com as
comemorações que nem se deram conta da fumaça, tampouco ouviram os gritos de Paen. Afastando-se da porta, Avelyn correu para as escadas. Tentou gritar do alto, como
o marido havia feito, mas também não foi ouvida. Amarrando bem o lençol, ela desceu correndo as escadas, gritando a plenos pulmões. Já estava quase lá embaixo quando
todos pareceram ouvi-la a um só tempo, pois o barulho cessou e todas as cabeças se voltaram para ela.
Avelyn aguardou alguma reação... alguma movimentação, gritos de alarme, alguém providenciando água... mas o silêncio era total e absoluto e todos a fitavam surpresos.
Inconsciente da própria imagem, com suas curvas exuberantes e seus fartos seios querendo escapar do lençol molhado; inconsciente dos cabelos revoltos que lhe emolduravam
o rosto, caindo em cachos até a cintura; inconsciente de que aqueles que a achavam passável, com seus vestidos escuros e seu cabelo preso, agora reavaliavam sua
opinião, vendo-a como uma festa de sedução e sensualidade, o assombro inicial de Avelyn deu lugar à impaciência. Naquele momento o marido estava lutando sozinho
para salvar o castelo, enquanto todos os demais estavam ali prostrados feito lenha na lareira.
- Vocês estão surdos? - ela gritou, furiosa. - Querem ver o castelo em cinzas? O dormitório está queimando!
Warin foi o primeiro a se mexer. Meio trôpego ao se levantar, ele gritou pedindo água e correu para acudir. Mas não passou por ela correndo, como ela imaginava
que o fizesse e, isso sim, parou diante dela para impedir que os outros a vissem.
- É melhor você subir, Avelyn. Está despertando apetites que não foram satisfeitos na festa...
Avelyn o fitou atônita, depois notou o olhar do irmão percorrer seu corpo e se voltar para fitá-la, contrariado. Só então, lembrando que estava envolta num lençol
molhado que revelava suas formas, ela entendeu que estava de novo fazendo papel de ridículo, mas que diferença faria uma humilhação a mais ou a menos? O importante
é que Paen tivesse ajuda, pensou, sentindo-se aliviada quando as portas das cozinhas se abriram e vários criados saíram, com baldes nas mãos, derrubando água na
pressa. O barulho e agitação de, no mínimo, uma centena de homens se levantando e correndo para pegar os baldes fez com que ela relaxasse um pouco. Não haveria baldes
para todos, nem todos caberiam no quarto, mas pelo menos estavam tentando de alguma maneira ajudar.
- Formem uma fila até o poço! - ela ouviu o pai vociferar, numa tentativa de pôr um pouco de ordem no súbito êxodo.
Balançando a cabeça, Avelyn se voltou e subiu as escadas apressadamente, ciente de que o irmão estava logo atrás dela.
Havia agora mais fumaça, e Avelyn sentiu o coração acelerar quando chegou ao quarto e não conseguia divisar Paen. No interior do quarto a fumaça estava muito espessa
e negra, como ela nunca havia visto antes, impedindo totalmente a visão.
- Espere aqui - Warin recomendou, tirando o balde do primeiro homem que chegava e entrou no quarto.
Avelyn procurou manter-se afastada do caminho e, embora não desse para enxergar o que se passava lá dentro, a todo momento dava uma espiada, ansiosa para certificar-se
de que Paen estivesse bem e não tivesse sido abatido pela fumaça. Nessas tentativas de vê-lo, ela atrapalhava os homens que chegavam com a água e lhe pediam que
saísse da frente. Eles tinham no rosto um sorriso estranho. Os criados do pai, de um modo geral, eram gentis com ela, mas nunca haviam lhe dirigido aquele tipo de
sorriso antes.
Ela não pôde pensar muito no assunto, pois a mãe apareceu de repente, a pegou pelo braço e a levou para o quarto do irmão. E Avelyn se viu diante de um interrogatório.
Primeiro a mãe verificou se ela não havia se machucado, depois fez mil perguntas para entender como o fogo havia começado. Ela confessou que havia derrubado a vela
no chão e admitiu que se distraíra com os beijos de Paen. O rubor em seu rosto e o discernimento da mãe logo fizeram com que entendesse o que havia acontecido.
Lady Straughton acariciou a cabeça da filha, dizendo alguma coisa do tipo: "acidentes acontecem". Naquele momento, a porta se abriu e o pai entrou seguido de Warin
todo chamuscado. Avelyn, que estava sentada com a mãe na beirada da cama do irmão, pôs-se de pé imediatamente e correu até ele.
- Você viu Paen? Ele está bem? - perguntou cheia de ansiedade.
- Você se machucou? - a mãe perguntou ao mesmo tempo, indo examinar o filho, como havia feito com Avelyn.
- Estou bem, mãe, não se preocupe - Warin lhe assegurou. - Quanto a Paen - disse voltando-se para a irmã -, parece que ele queimou as mãos e aspirou muita fumaça.
Acho que ele...
- Onde você pensa que vai, mocinha? - o pai protestou ao ver Avelyn se precipitar para a porta.
- Quero ver como meu marido está.
- Lady Christina tomará conta dele - interferiu a mãe, pegando-a pelos ombros e afastando-a da porta.
- Mas...
- Sem mas, menina - disse lorde Straughton com firmeza. - Você não pode flanar pelo castelo vestida dessa maneira. Assim que Paen estiver em condições, faremos com
que venha até aqui. - Voltou-se em seguida para a esposa, ainda visivelmente preocupado: - Precisamos arrumar um quarto alternativo para que Avelyn e Paen passem
pelo menos esta noite. Amanhã veremos o que é possível fazer no quarto deles. Eu...
- Eles podem ocupar meu quarto - Warin interrompeu o pai. - Posso dormir no salão esta noite.
Ainda preocupado, lorde Straughton olhou agradecido para o filho ter facilitado o problema.
- Vou providenciar um banho em nosso quarto para que você possa se lavar - avisou, caminhando até a porta com a mão nos ombros do filho.
- Talvez você também devesse providenciar um para Paen, no quarto de lorde e lady Gerville - sugeriu Margeria.
Lorde Straughton parou e olhou da mulher para a filha. A expressão de seu rosto suavizou-se ao dizer:
- É verdade, e um também para nossa menina.
Quando a porta se fechou atrás dos dois homens, Avelyn olhou para o lençol e viu surpresa que, de branco, ele havia se tornado cinza e estava com um aspecto horrível;
seus ombros, braços e provavelmente também o rosto estavam muito sujos. Devia ter se sujado por causa da fumaça que saía do quarto enquanto ela tentava ajudar Paen.
De fato, precisava de um banho.
- Que bela coisa você fez em suas mãos...
Paen gemeu quando a mãe, que tratava de suas queimaduras, fez o comentário. Ele não queria pensar a respeito. As mãos doíam terrivelmente. Tinha a sensação de que
elas estavam mergulhadas numa panela com óleo fervendo. Apesar da boa intenção da mãe, ela falava o tempo todo a respeito, o que só o fazia pensar no problema que
havia arrumado.
Ao olhar para a porta do quarto, ele se perguntou onde a esposa estaria. Sabia que ela tinha o propósito de ajudá-lo, mas suas interferências acabaram sendo desastrosas.
Pelo menos até que resolveu ir buscar socorro. Foi o que provavelmente salvou sua vida. Enquanto as cortinas eram queimadas, a fumaça não era tão intensa, mas no
momento em que o fogo se propagou para a cômoda, tornou-se espessa e cáustica. Ele sentiu seus pulmões ficarem impregnados pela fumaça preta e começou a tossir a
ponto de ficar zonzo e não se sustentar em pé. Caiu de joelhos no chão, rastejando-se no meio do fogo, até que sem querer tocou em uma ponta da cortina em chamas.
A surpresa e a dor fizeram com que ele reagisse e se levantasse de imediato. Nesse exato momento, Warin entrou no quarto carregando um balde de água. A partir desse
momento, foi um entra e sai no quarto e, após muitos e muitos baldes de água, o fogo cedeu e boa parte da fumaça acabou. Ao deixar o quarto, Paen não conseguia sequer
se lembrar de como havia sido levado para aquele quarto e não tinha idéia de onde a esposa poderia estar.
- Onde está...
- Acredito que ela esteja no salão - interrompeu-o Christina Gerville, como sempre parecendo ler seus pensamentos.
- Ela está no quarto do irmão - aparteou Wimarc que acabava de entrar. - Aliás, Warin cedeu o próprio quarto para vocês. Straughton também me disse que a mãe está
cuidando de Avelyn. Ele mandou providenciar um banho para os filhos e também para você. - Parando ao lado do filho, ele examinou a queimadura nas mãos de Paen. -
Parece que vocês precisarão de muita privacidade esta noite... Aliás, penso que tenha dado tempo de você cumprir com suas obrigações.
- Não - respondeu Paen com raiva, pois tudo estava caminhando como imaginara na cama. Avelyn era calorosa e macia e tinha o cheirinho das flores de verão. Além disso,
ela se mostrara ardente e receptiva, como qualquer homem gostaria. Não fosse pelo fogo, ele certamente teria cravado sua arma favorita na profundeza quente e úmida
do corpo da esposa. Não fosse pelo fogo, pensou dando um suspiro.
- Como o fogo começou? - lorde Gerville indagou.
- Não tenho certeza, mas parece que foi uma vela que caiu no chão - respondeu Paen, meneando a cabeça.
- Hum... Ah, acho que seu banho chegou - comentou Wimarc ao ouvir baterem à porta.
No mesmo instante, a porta se abriu e alguns criados entraram, trazendo tudo o que era necessário.
- Vou ficar para ajudá-lo - lady Gerville prontificou-se, recebendo um olhar assustado do filho. A mãe não lhe dava banho desde que... ora, ele nem se lembrava de
que ela tivesse alguma vez lhe dado. Essa incumbência sempre fora das criadas e babás quando ele era criança. Não seria agora como adulto que ela iria começar.
- Não preciso de ajuda, mãe, posso dar um jeito sozinho - respondeu com firmeza.
A mãe, porém, não pareceu nem um pouco impressionada com seu tom de voz. Simplesmente sorriu, achando graça.
Esse era o problema com os pais, é claro. De nada adiantava sua reputação no campo de batalha, de que os homens tremiam à mera menção de seu nome; a mãe simplesmente
não tinha um pingo de medo dele.
- Será que você vai mesmo dar um jeito sozinho? - ela perguntou, dirigindo os olhos para as mãos do filho.
Paen acompanhou o olhar expressivo da mãe e ficou pasmo. A dor que sentia havia acalmado um pouco depois de o pai ter entrado no quarto. A mãe havia colocado nelas
um bálsamo refrescante. Na verdade, ele prestara pouca atenção ao que ela fazia, pois estava ocupado demais remoendo sua frustração de não ter conseguido concluir
seu dever na cama. Enquanto isso, ela havia coberto suas mãos com ataduras. Nenhum dedo ficara de fora. Tudo indicava que ele realmente precisaria de ajuda no banho.
Mal se dava conta disso, concluiu também que não havia qualquer esperança de que pudesse consumar seu casamento naquela noite ou mesmo na seguinte. Olhou desanimado
para as mãos enfaixadas. Não havia como fazer um carinho ou até mesmo abraçar a esposa com as mãos daquele jeito. Só se recorresse a sua boca para acariciá-la...
Ocorreu-lhe que, para consumar de vez o casamento, só se Avelyn se sentasse sobre ele, pois embora as mãos não estivessem doendo, ele não poderia se apoiar sobre
elas. Contudo, essa alternativa poderia ser dolorida e humilhante para a esposa, sem os preâmbulos para prepará-la e excitá-la. Não, ele não desejava causar nenhuma
humilhação, nem dor a Avelyn. A consumação teria de ser adiada... sabe-se lá até quando.
Avelyn abriu os olhos e ficou por um momento confusa ao ver o reposteiro vermelho escuro em vez do cortinado azul-claro de sua cama. Lembrou-se então de que estava
no quarto do irmão e virou a cabeça para olhar o homem que dormia a seu lado. Seu marido, Paen de Gerville.
Embora seu sono fosse profundo, a expressão que ele tinha no rosto era de dor. Detendo o olhar nas mãos dele, pousadas sobre o peito, ela suspirou.
Na noite anterior, quando Paen havia entrado no quarto, ela não queria acreditar no que seus olhos viam. Com as mãos enfaixadas e a dor estampada no rosto, logo
ficara óbvio de que seu casamento não seria consumado naquela noite. E ela estava certa.
Ao vê-la nua sob os lençóis, Paen quase a devorara com os olhos, mas em seguida, exalara um suspiro profundo e se encaminhara para seu lado da cama, só parando por
um minuto para olhar para as próprias mãos com ar frustrado.
Vendo que ele não conseguiria sequer levantar as cobertas com as próprias mãos, Avelyn rapidamente as levantou para que ele pudesse se deitar, depois o cobriu com
cuidado, percebendo que o pobre coitado se sentia muito constrangido. Assim que ele se acomodou na cama, ele fechou os olhos e dormiu.
Aquele era o final de sua noite de núpcias. Decepcionada, Avelyn se voltou para o outro lado e procurou também dormir, o que demorou um pouco. Sentia-se culpada
por ter causado o incêndio que acabara por feri-lo e lamentava que teria de esperar para saber o que viria depois dos beijos e das carícias que haviam mexido tanto
com ela.
O dia amanhecera, mas a julgar pela expressão de dor no rosto do marido mesmo dormindo, o melhor seria deixá-lo descansar o quanto quisesse. A mãe sempre dizia que
dormir era o melhor remédio para qualquer ferimento ou doença.
Avelyn procurou sair da cama sem fazer barulho e caminhou até a arca que o pai havia trazido de seu quarto. O vestido vermelho e as poucas roupas que havia separado
para usar nos dias em que ainda ficariam no castelo, haviam sido destruídos pelo fogo. Consciente de sua nudez, ela acabou pegando a primeira peça que lhe veio às
mãos. Era um vestido marrom claro, que ela usava com freqüência para trabalhar no castelo. Ao tentar desamassá-lo um pouco, ocorreu-lhe que todos os outros vestidos
que estavam na arca também estariam amassados.
Conformada, olhou para o marido para certificar-se de que ele ainda dormia, depois saiu pé ante pé do quarto, descendo para o grande salão. Quando viu que as únicas
pessoas que estavam sentadas à mesa eram seus três primos, ela parou na escadaria, deixando escapar um suspiro. Não havia qualquer outro convidado ou criado por
lá. Quase virou as costas e começou a subir as escadas novamente, mas para onde poderia ir? Todos os outros cômodos do castelo estavam ocupados e não poderia se
arriscar a acordar o marido.
Sabendo que nada lhe restava a fazer, Avelyn endireitou os ombros e desceu os poucos degraus que faltavam. Cruzou o salão de cabeça erguida, torcendo para esconder
sua relutância em estar ali.
- Ora, vejam!
Avelyn ficou tesa ao ouvir a frase proferida pela prima, em tom debochado.
- ... sua aparência não está nada diferente - ela continuou. - Garanto que seu marido não a quis na cama... como imaginávamos. É claro que se quisesse, sua aparência
seria outra.
- Não, é claro que não quis, Eunice - Hugo aparteou.
Avelyn se perguntava no íntimo o que eles esperavam que mudasse em sua aparência. A única diferença seria que a prova de sua inocência estaria pendurada no corrimão
da escada. Não havia necessidade de que lhe dissessem. Ela sabia que o primo se referia ao lençol manchado de sangue, prova de que o marido a teria feito mulher.
Ela havia assistido ao casamento de uma vizinha e testemunhado os rituais de lá.
- Meu marido queimou as mãos no incêndio - ela explicou, armando-se de dignidade. - Por isso não pôde cumprir com suas obrigações nupciais.
- Ah, foi isso o que ele lhe disse? - Eunice perguntou fingindo pena.
- Se ele pode montar a cavalo, pode também montar em você. Não é das mãos que ele precisa para cumprir essa obrigação - Hugo murmurou, rindo.
- Não é, não - Stace concordou. - A menos que ele tenha também queimado o membro.
Avelyn cerrou os dentes, sentindo-se abater pelas certezas. Os primos deviam ter notado a expressão dela, pois, como lobos que espreitam a presa ao lado de um rebanho,
ele se incumbiram de cercá-la e destruir qualquer auto-estima que lhe restasse.
Capítulo III
Paen sonhou que estava combatendo um incêndio. Em seu sonho, ele não dispunha de nada que pudesse ajudá-lo. Desesperado, tentava abafar as chamas com as próprias
mãos, procurando ignorar a dor das queimaduras em seus dedos e nas palmas das mãos. Quando, por fim, a dor se tornou a insuportável, ele acordou.
Sentando-se na cama num sobressalto, levantou as mãos para examiná-las, pois continuavam doendo embora tivesse acordado e não estivesse mais sonhando. Viu as ataduras
e voltou a se jogar na cama ao constatar que estava de fato com as mãos queimadas.
Ele olhou fixo para o reposteiro que pendia ao lado da cama, procurando não pensar nas mãos que latejavam de dor e começou a rememorar os eventos da noite anterior.
Sua noite de núpcias não havia sido nada do que almejara.
Esse pensamento motivou-o a olhar para o lado. Só então se deu conta de que a esposa já havia se levantado e não estava mais ali. Desapontado, chutou as cobertas
para o lado e se sentou novamente. Precisaria discutir algumas coisinhas com Avelyn quando a encontrasse. Procuraria não ser muito severo, afinal ela era muito jovem,
mas precisava aprender coisas que fazem de uma mulher uma boa esposa, como não sair da cama antes de o marido se levantar, e ficar por perto. E se ele quisesse terminar
o que ficara incompleto na noite anterior? Não que ele pudesse fazer um grande serviço sem as mãos, mas ainda assim...
Paen deixou os pensamento de lado, ao ficar em pé e olhar ao redor do quarto e verificar que não tinha nada para vestir. Todas as suas roupas haviam sido destruídas
pelo fogo, até a que usara quando estava a caminho do quarto da esposa. As que estavam na arca também havia sim consumidas pelo fogo. Tivera de usar o lençol que
a mãe providenciara para secá-lo depois do banho na noite anterior.
A lembrança daquele banho humilhante fez com que ele ficasse com raiva do lençol. Embora a mãe não parecesse nada aborrecida com a situação, ser banhado feito um
bebê não era nada agradável. Ela havia arregaçado as mangas e parecia estar dando banho em um de seus cachorros. Depois ordenou que ele saísse da tina, o secou rapidamente
e embrulhou o lençol em volta da sua cintura, mandando-o ir para a cama.
Paen balançou a cabeça à lembrança, depois voltou sua atenção para o lençol no chão. Parecia-lhe impossível conseguir pegar uma ponta que fosse dele. Tocou-o com
o pé, calculando como poderia fazer para levantá-lo a fim de poder pegar com a mão enfaixada. Mas como faria depois para enrolá-lo na cintura?
Quem ele estava tentando enganar, perguntou-se irritado. Não havia como passar o lençol pela cintura e amarrá-lo. Por menos que quisesse admitir, ele precisava de
ajuda. Precisava de alguma roupa emprestada e precisava de que alguém o ajudasse a vesti-la. Se a esposa estivesse lá, todas essas questões seriam facilmente resolvidas.
Mais uma vez irritado com a ausência dela, ele atravessou o quarto e abriu a porta, esperando que os pais ainda estivessem no quarto deles e pudessem ajudá-lo. Teve
alguma dificuldade com a maçaneta, mas conseguiu que cedesse e saiu para o corredor. Já estava a meio caminho para o quarto dos pais, quando a porta em frente a
ele se abriu e lorde e lady Straughton saíram do quarto.
Paen parou subitamente e o casal também, todos os três petrificados. O olhar estarrecido do casal fez com que ele imediatamente cobrisse a virilha com as mãos enfaixadas.
Eis que nesse momento a porta do quarto dos pais foi aberta e Wimarc apareceu. Paen gemeu ao vê-lo, chamando a atenção do pai.
- Filho! - Lorde Gerville exclamou, olhando para os anfitriões e depois para Paen, nu. - Por que cargas d'água você está aí parado meio bêbado?
Suspirando, Paen só balançou a cabeça e olhou para o quarto aberto ao lado. Era o quarto de Avelyn. O estrago não havia sido tão grande quanto parecera na noite
anterior, notou surpreso. Apesar da grande fumaça, o fogo ficara confinado principalmente à cama. Havia se enganado.
Cheio de esperança de que sua arca pudesse ter escapado do estrago, ele entrou rápido no quarto, sem se importar com o trio que permanecia lá fora, até ouvir o pai
se desculpar em nome dele.
Ignorando a conversa, Paen deu a volta na cama destruída à procura da arca. Qualquer esperança de que ela tivesse escapado ilesa, morreu na hora em que a avistou.
Não havia sobrado nada da tampa; só restavam as laterais e o fundo enegrecidos, com um pouco de cinzas no fundo. Nada que ele pudesse salvar. Resmungando contrariado,
olhou ao redor e se deparou com o que restara das roupas que vestira no casamento e que acabara usando para combater o incêndio. Eram meros farrapos empilhados no
chão.
Com a expressão contrafeita, Paen empurrou com os pés a pequena a pilha de material sujo. Além de queimadas, as peças haviam ficado encharcadas de água, mas já estavam
secas e até duras.
- Santo Deus, que momentos você passou por aqui! - Paen olhou para o pai que entrava e fechava a porta. Como não tecesse comentário algum, Wimarc, com o cenho fechado,
se aproximou de Paen e disse: - Você está precisando de roupa, é claro. Devia ter pensado nisso. Só quando o vi entrar no quarto, me dei conta da razão de você estar
andando nu por aí.
- Eu tenho esta roupa aqui - disse Paen e depois admitiu com uma certa relutância: - Só preciso de ajuda para vesti-la.
- Claro, filho, eu o ajudo. Mas que roupas são essas? - A voz de Wimarc ficou reticente ao acompanhar o olhar de Paen para aquele pequeno monte no chão. - Santo
Deus, você não pretende usar isso. - Abaixando-se, ele pegou o que sobrara da túnica que esgarçou um pouco quando ele tentou endireitá-la. - Não dá para você usar
isso. Vou buscar uma das minhas túnicas...
- Suas túnicas são pequenas para mim.
Wimarc parou no meio do quarto e encolheu os ombros ao avaliar o tamanho do filho.
- É verdade. Você ficou bem maior do que eu. Mas não pode usar estes trapos. Vou ver ser Warin...
- Não vou ficar por aí mendigando roupas. Vou usar essas até chegar em casa. - Paen insistiu. - Por favor, só dê umas sacudidas na camisa, ela deve amaciar com o
uso.
Wimarc abriu a boca para argumentar, mas mudou de idéia.
- As roupas de Warin provavelmente não serviriam em você, a verdade é essa. Você é mais alto do que qualquer outro homem aqui.
O pai teve que bater as roupas várias vezes e com força antes que Paen pudesse vesti-las. Não que tivessem melhorado muito, manchadas de fumaça e cheias de furos
como estavam.Tanto a túnica como os calções estavam em péssimo estado, mas pelo menos cobririam as partes importantes e Paen decidiu usá-las. Suas mãos doíam, sua
cabeça doía e tudo o que tinha a fazer era voltar imediatamente para casa. Embora não se preocupasse com moda e sempre mantivesse apenas dois trajes, uma vez de
volta a Gerville, poderia usar dois ou três trajes que eram do irmão. Adam, que tinha o físico igual ao seu, sempre fora mais vaidoso e seguia a moda. Até chegar
em casa, ele passaria com aquela roupa mesmo.
Paen sabia que a mãe não ficaria nada satisfeita de ter de viajar de imediato. Ela planejara permanecer alguns dias ali para que Avelyn pudesse se familiarizar com
todos antes de voltarem para Gerville. Paen não entendia bem essa preocupação. Avelyn teria o resto da vida para se familiarizar com ele. Entretanto, a mãe insistira
e o pai concordara para agradá-la. Agora, porém, era necessário mudar os planos. Ou, pelo menos, os seus, ele pensou, seguindo o pai pelo corredor. Os pais poderiam
ficar mais alguns dias, se desejassem. Ele e a mulher partiriam assim que comessem alguma coisa. Passariam para pegar o escudeiro e seguiriam direto para casa.
- Ali está sua mãe.
Paen viu que a mãe conversava com lorde e lady Straughton.
- Desça e logo nós vamos ter com você - o pai sugeriu.
Aquiescendo com a cabeça. Paen seguiu para a escadaria enquanto o pai foi se juntar à esposa e aos pais de Avelyn.
A esposa foi a primeira pessoa que ele viu ao chegar ao grande salão. Ela já estava à mesa. Os três primos estavam com ela e, a julgar pela expressão infeliz de
Avelyn, Paen logo concluiu que o trio estava fazendo suas costumeiras maldades. Instintivamente, ele levou a mão à espada, mas, naturalmente, não conseguiu empunhá-la.
Desarmado, só lhe restou olhar feio para o trio ao se aproximar. Para sua sorte, os três eram bastante covardes para fugir da mesa, sem que fosse necessário fazer
uso da espada para mostrar sua irritação. Soltando uma exclamação de satisfação, ele deixou-se sentar ao lado da esposa, fazendo-a voltar um rosto surpreso para
ele.
- Marido, você já se levantou...
Paen não teceu qualquer comentário sobre a surpresa dela e também se conteve para não repreendê-la por ter descido antes, o que considerou ser um grande autocontrole
seu. Em vez disso, perguntou:
- O que seus primos lhe diziam para deixá-la tão aborrecida?
Muito constrangida, Avelyn corou e evitou o olhar dele.
- Nada que valha a pena repetir, milorde. Na verdade, até já esqueci. - Clareando a garganta, ela disse em tom animado: - Está com fome, meu marido? Se importaria
de tomar o desjejum comigo?
Paen sabia que ela estava mentindo e pensou em explicar-lhe que as esposas não devem nunca mentir aos maridos, nem mesmo por coisas insignificantes como as provocações
de seus primos. Entretanto, o sorriso luminoso que Avelyn lhe dirigiu e o modo meigo com que disse "meu marido" o desarmaram. Assim, quando ela lhe estendeu um pedaço
de pão, ele não tocou no assunto e levantou a mão para pegá-lo, parando ao ver a atadura.
Soltando um suspiro profundo, ele abaixou a mão, pousando-a sobre a mesa.
- Eu vou ajudá-lo, milorde. - Avelyn prontificou-se.
- Não tenho fome - Paen mentiu, recusando-se a passar pela humilhação de ser alimentado pela jovem esposa como se fosse um bebê. Voltou-se e viu que ela o fitava
de modo que beirava a piedade. - Coma você!
Avelyn hesitou, e Paen estava novamente prestes a ordenar que ela comesse, quando surgiu um criado trazendo uma taça de hidromel para ele.
Sentindo alívio porque era algo que conseguiria pegar, Paen ergueu as mãos com cuidado, pegou a taça entre as mãos enfaixadas e levou à boca. Assim que Avelyn desviou
os olhos dele, ele bebeu um gole, fitando-a. Avelyn estava comendo um pedaço de queijo, e o deixou com água na boca. Porém, um outro tipo de fome tomou conta dele.
Ele não conseguia comer, não conseguia se vestir e não conseguia nem fazer amor com a esposa.
Paen engoliu em seco, e teve seus pensamentos interrompidos, no momento em que Avelyn passou a língua rosada pelos lábios, para limpar uma migalha de pão. Em sua
imaginação, quase pôde sentir que ela passava a língua pelos seus lábios... deslizando-a depois para outras partes de seu corpo, partes que não haviam sido queimada
e pouco estavam se importando que suas mãos estivessem.
O repentino barulho da taça ao cair na mesa, esparramando o líquido frio pelo seu peito e colo, fez com que Paen se levantasse soltando um grito de surpresa. Ele
olhou para a sujeira que havia feito e se sentiu humilhado, mais ainda ao ver o olhar assustado da esposa.
Avelyn ia lhe dizer alguma coisa, mas foi uma voz atrás dele que se fez ouvir:
- Filho, você está bem?
Virando-se lentamente, ele encolheu os ombros ao ver os pais chegando com lorde e lady Straughton. Era como se tivessem testemunhado sua embaraçosa demonstração
de incapacidade.
Paen fechou os olhos por um breve instante, depois meneou a cabeça e anunciou:
- Avelyn e eu vamos partir em uma hora para Hargrove a fim de pegar meu escudeiro, depois seguiremos para Gerville. O senhor e mamãe podem nos acompanhar ou ficar
mais uns dias, como julgarem melhor.
Ignorando os olhares surpresos e os comentários que o súbito anúncio provocou, ele deu meia volta e saiu do castelo, dirigindo-se ao estábulo para providenciar que
o cavalo fosse preparado. Era seu único bem que permanecia intacto, após uma noite de casado. Paen esperava que aquilo não fosse um presságio do que estava por vir.
- Sinto muito, querida. Nosso plano era ficar um pouco mais aqui para que você se acostumasse com a gente. Mas agora Paen só tem essa roupa para vestir - lady Gerville
justificou o filho, suspirando. - E com as mãos machucadas como estão, ele não consegue comer, se vestir, fazer nada. Vai ser bom contar com a ajuda do novo escudeiro...
- Está tudo bem, milady - Avelyn a interrompeu com delicadeza. - Eu compreendo e não estou aborrecida.
Seu olhar desviou-se para a própria mãe. Avelyn sabia que não se poderia dizer o mesmo dela. Era óbvio que Margeria estava consternada de que a filha partiria logo,
mas se controlava para não abrir a boca. Era natural que a mãe de Paen estivesse ciente disso, mas queria justificar a atitude do filho.
- Vou ver se as minhas coisas estão todas prontas - Avelyn disse calmamente. - Mãe, não gostaria de me acompanhar?
- Sim, querida.
Margeria pegou a mão que Avelyn lhe oferecia e a apertou quase em desespero ao caminharem para a escadaria. Era como se não quisesse soltar mais a filha. Avelyn
sabia que a próxima hora seria a mais difícil de sua vida. Estava prestes a deixar os pais, o irmão, todos e tudo que amava para seguir o marido, um homem que mal
conhecia. Teria de enfrentar um lugar que nunca vira antes, cheio de pessoas estranhas. As coisas eram bem mais fáceis para os homens. Quando Warin se casasse, ele
traria a mulher para viver na casa deles. Ninguém esperava que ele fizesse de um lugar desconhecido seu lar. Isso não era justo.
- Por favor, Paen, entre na carruagem. Você poderá machucar ainda mais suas mãos...
- Não vou na carruagem feito mulher idosa ou criança enferma. Além disso, nem á espaço, com as criadas e tudo o mais. Parece que minha mulher está levando metade
do castelo de Straughton...
Avelyn e a mãe pararam nos últimos degraus da frente do castelo e trocaram olhares tristes. Viram Paen montar na sela quando começavam a descer a escada. Não estavam
perto o suficiente para ver as conseqüências do esforço que ele fizera. Dava, porém, para ver que ele estava lívido e o suor escorria-lhe pelo rosto, o que mostrava
que as mãos certamente estavam doendo.
Ainda assim, o orgulho fazia com que ele tivesse se sentado reto e empertigado, lutando para amarrar as rédeas nas mãos enfaixadas.
Desistindo de tentar convencê-lo, lady Gerville foi se juntar a Avelyn e lady Straughton. Uma linha de preocupação marcava o rosto da senhora.
- Esse orgulho bobo vai fazer mais mal a ele do que o incêndio.
Avelyn mordeu o lábio inferior e concordou num gesto de cabeça. Seu olhar deteve-se na expressão obstinada do marido e ela considerou o que poderia fazer. Margeria
não havia criado uma idiota. Avelyn puxara a mãe - uma mulher assustadoramente inteligente. A mãe não lhe ensinara somente como administrar uma propriedade ou como
lidar com a criadagem. Margeria também a ensinara como lidar com os homens. A primeira lição havia sido que os homens eram as criaturas mais teimosas, obstinadas
e orgulhosas que Deus havia criado e que a mulher precisava ser esperta e ter raciocínio rápido para evitar que eles se matassem por orgulho.
Aquela, na avaliação de Avelyn, era uma das situações sobre as quais a mãe lhe falara. Não tinha dúvida de que o marido insistiria em prosseguir viagem daquele jeito,
arriscando-se a contrair uma infecção e morrer, simplesmente para não demonstrar fraqueza. Quando ouviu Paen pedir ao pai que amarrasse as rédeas em volta das mãos
para que pudesse controlar o cavalo, ela concluiu que, como esposa inteligente, deveria agir para salvar o marido do próprio orgulho.
- Ah, meu Pai do Céu! - ela suspirou alto, indo postar-se ao lado do sogro para distraí-lo e evitar que ele atendesse ao pedido do filho.
- O que houve? - Paen perguntou, com expressão séria.
Avelyn abaixou os longos cílios e forçou um sorriso constrangido:
- Tenho pena de não saber cavalgar.
- O quê? - Os dois homens a fitaram, sem entender.
Avelyn deu de ombros, mostrando humildade.
- Nunca foi preciso que eu soubesse. Nunca saí de Straughton. Esperava agora viajar na carruagem, mas subestimei o número de coisas que minha mãe resolveu mandar
comigo...
Paen fitou a jovem esposa. Ela era encantadora como um dia de primavera, mas estava se mostrando uma criatura muito fraca. Desmaiara no casamento, desastrada provocara
o incêndio na noite do casamento e agora admitia não saber cavalgar. Aparentemente, ela na tinha da mulher forte e habilidosa que ele desejava.
Ele voltou a olhar para o pai e seguiu o olhar que lorde Gerville dirigia às mulheres. A mãe parecia preocupada, as a sogra estava estarrecida.
- Talvez possa me ensinar a cavalgar? - propôs Avelyn, fazendo com que Paen se voltasse para ela.
Embora distraído, ele notou que a expressão de lady Straughton se desanuviou ao ouviu a sugestão, e lady Gerville adiantou-se até eles, com um grande sorriso no
rosto.
- Que ótima idéia! Se montar com Paen, quando chegarmos a Gerville, você será uma verdadeira amazona.
Paen mudou de posição na sela, não entendendo muito bem por que todas pareciam tão satisfeitas. Tinha a sensação de que não sabia de alguma coisa que pairava no
ar. Estava tentando decifrar quando Avelyn puxou o irmão pela mão.
- Por favor, Warin, me ajude a montar.
- Posso ajudá-la... - Paen prontificou-se.
Tarde demais, Warin já havia colocado a irmã na sela, na frente dele.
Avelyn virou a cabeça e dirigiu ao marido um sorriso tão doce que lhe pareceu meio suspeito. Procurando afastar qualquer sentimento negativo, Paen resmungou consigo
mesmo sobre o comportamento das mulheres em geral e depois tentou pegar as rédeas. A esposa, porém, foi mais rápida.
- Se você vai me ensinar a montar, sou eu que devo segurar as rédeas, não é? - ela perguntou com ar inocente.
Paen hesitou, depois suspirou e endireitou o corpo, passando os braços em volta da cintura de Avelyn. Seria uma longa viagem até Gerville.
Avelyn sentiu-se muito satisfeita consigo mesma. Finalmente havia feito alguma coisa certa. Fora mais esperta do que o marido e poupara as mãos dele de se machucarem
mais. Esse pensamento a fez estremecer. Sentia-se orgulhosa por estar enganando o marido. Na verdade, isso era motivo de tristeza, concluiu, dando um suspiro profundo,
depois abaixou os olhos para a mãe que pousara a mão em seu joelho.
- Vai dar tudo certo, filha - ela assegurou, parecendo ter lido os pensamentos de Avelyn. - Nós a amamos e logo iremos visitá-la - disse ainda, apertando o joelho
da filha.
Avelyn sentiu as lágrimas nos olhos e piscou, tentando em vão contê-las. Estava deixando Straughton, o único lar que conhecia, no qual tinha segurança, proteção
e o amor de toda a família. Estava partindo com um homem desconhecido, para viver em um lugar estranho o resto de sua vida. Que passo difícil e doloroso.
- Eu te amo muito, mamãe - foi tudo que conseguiu dizer.
Paen murmurou qualquer coisa em despedida e bateu os saltos nas laterais do cavalo, fazendo-o partir.
Procurando controlar as lágrimas, Avelyn apertou as rédeas nas mãos e se concentrou em tirar o animal das dependências do castelo.
Ela não mentira totalmente porque, embora montasse desde muito menina, nunca havia feito grandes percursos, não havia saído de Straughton. Imagina que viajariam
por uma hora, parariam para descansar e refrescar um pouco, viajariam mais um pouco e depois parariam para almoçar e assim por diante. Estava errada. No horário
do almoço, montados mesmo, eles comeram um pedaço de pão com queijo e uma fruta que Paen a fez tirar de uma sacola pendurada na sela. Na realidade, ela comeu; por
causa das mãos, ele não comeu nada. Uma vez ais, Avelyn se ofereceu para ajudá-lo, mas Paen balançou a cabeça e disse que não estava com fome.
Ao longo do dia, durante a maior parte do caminho, eles permaneceram em silêncio. Foi um alívio quando chegaram a uma clareira, no final do dia, e Paen comentou
que passariam a noite ali. Avelyn desmontou rapidamente. Quando seus pés tocaram o chão, ela quase caiu, precisando se agarrar na perna do marido e na sela par manter-se
firme.
Wimarc, que também já havia desmontado, correu em seu auxílio. Avelyn largou a perna do marido, constrangida, e sorriu para o sogro que, gentilmente, a ajudou a
caminhar até uma árvore caída, onde ela se sentou e começou a alongar as pernas.
Após acomodá-la, lorde Gerville foi ajudar a esposa a desmontar. Lady Gerville aparentemente também havia sofrido com o longo percurso e caminhou até Avelyn apoiada
no braço do marido.
- Descansem um pouco enquanto providenciamos o acampamento - lorde Gerville recomendou.
- Será que você está tão dolorida e cansada quanto eu? - lady Gerville perguntou.
Avelyn aquiesceu com a cabeça.
- Sinto muito que tudo tenha conspirado para nos obrigar a deixar Straughton antes do planejado. Queria que tivéssemos nos conhecido melhor.
Avelyn desviou os olhos, sentindo um nó na garganta.
- Iremos nos conhecendo no caminho e uma vez em Gerville...
- Sim, espero que nos tornemos amigas. Embora ame meus filhos, invejo sua mãe por ter tido um filho de cada sexo, por isso estou feliz de recebê-la como minha filha.
Avelyn sorriu e estendeu o braço para apertar a mão da sogra, depois voltou sua atenção para lady Helen e Diamanda que se juntaram a elas. Não foi surpresa ver que
ambas estavam tão cansadas quanto elas. Surpresa foi notar que as criadas andavam com dificuldade. Aparentemente, viajar na carruagem não havia sido muito melhor
do que no lombo do cavalo.
- Lorde Gerville está orientando os homens para montar as tendas primeiro para que nós possamos arrumá-las enquanto eles terminam as outras tarefas - Diamanda informou.
A mãe de Paen fez qualquer comentário a respeito e Helen se acomodou ao lado da sobrinha. Em seguida, todas ficaram em silêncio, observando os homens que haviam
levantado duas tendas, uma maior do que a outra, e começavam a desenrolar um tecido grosso para cobri-las. Avelyn sabia que tendas de viagem eram um luxo incomum
e imaginava que o fato de estarem viajando com duas era sinal de que a família do marido era abastada. Era bom saber disso, mas a verdade é que tinha necessidades
mais urgentes no momento e não sabia o que fazer. Não era de bom tom donzelas falarem sobre suas funções orgânicas, mas estava chegando no ponto em que não conseguiria
mais ignorá-las.
Avelyn refletia sobre como abordar a questão quando um par de pernas surgiu na frente de seu rosto. Levantando a cabeça, viu que era o marido e sentiu um misto de
alívio e dúvida.
- Nossa tenda já esta armada - ele anunciou, estendendo uma das mãos para ajudá-la a se levantar.
Avelyn hesitou e, ignorando a mão enfaixada,se pôs em pé sozinha. Sua intenção era poupar a mão machucada, mas Paen dez uma expressão contrariada. Não gostava que
lhe lembrassem do problema, preferia fazer de conta que estava tudo bem.
Avelyn passou o braço no dele e atravessaram a clareira em direção à tenda maior, surpreendendo-se quando ele disse:
- Essa é a nossa tenda. Designei dois homens para descarregar o que você quiser. Eles estão começando pelo material para a cama, mas pode pedir a eles qualquer outra
coisa que queira.
- Sim, claro - Avelyn murmurou e olhou para trás, ficando mais tranqüila ao ver que Runilda os seguia. Ela não tinha a menor idéia de como arrumar uma tenda. Provavelmente
Runilda tampouco sabia, mas juntas dariam um jeito.
- Você tem alguma preferência pelo lugar onde vamos montar a cama? - ela perguntou ao marido no momento em que ele abria a aba da tenda para entrarem.
- Acho que ficará bem ali no fundo, no canto direito - ele sugeriu. - Vocês precisam de mais alguma coisa antes que eu vá ajudar os outros?
- Sim - disse Avelyn, sentindo o rubor subir-lhe ao rosto. - Preciso usar... uma latrina, milorde, me lavar um pouco depois de toda a poeira da viagem. - Vejo que
aqui não há... - começava a dizer, dando alguns passos, mas ao voltar-se para o marido, ele já não estava mais lá.
Achando estranho, ela foi até a entrada da tenda e olhou para fora. Não foi difícil divisar o marido que era bem mais alto do que a maioria dos homens. Ficou curiosa
ao ver que ele estava do outro lado do acampamento, conversando com os pais.
- Ela pediu mesmo um banho e uma latrina? - perguntou Wimarc tão horrorizado quanto o filho.
- Pediu. O que faço, peço aos homens que cavem um buraco e...
- Montar uma tenda sobre ele? Santo Deus... - O pai sacudiu a cabeça à simples idéia.
- Ela não espera que você faça isso, Paen - aparteou Lady Gerville, exasperada. - Se a pobre menina precisa se aliviar agora, não vai poder esperar quatro horas
para que os homens cavem um buraco. Sem dúvida, ela quer saber como fazemos quando viajamos.
- Talvez - ele concordou, aliviado.
- Vá logo, procure um lugar perto do rio isolado e bom, onde ela possa resolver os dois problemas - sugeriu a mãe, em tom carinhoso.
Quando Paen se afastou a fim de voltar à tenda, lady Gerville comentou com o marido:
- Ele passou tempo demais nas cruzadas...
- É - Wimarc concordou, acrescentando: - Nosso filho gosta dela, faz de tudo para agradá-la.
- É verdade, acho que escolhemos bem.
- Você escolheu bem, meu amor - disse Wimarc, dando o crédito a ela. - Apesar de que não consigo entender como você descobriu que aquela menininha acabaria sendo
perfeita para nosso filho.
- Foi muito fácil. Bastou imaginar você com a mãe dela.
- O quê? - Wimarc reagiu chocado. - Como assim?
- Ora, desde muito cedo era evidente que Paen seria uma cópia sua ao crescer. E Avelyn já se parecia muito com a mãe. Eu simplesmente tentei imaginar como teria
sido se você se casasse com ela, em vez de comigo, e achei que daria muito certo.
- Bem, ela é de fato... uma boa mulher, mas é você que eu amo, minha linda.
Lady Gerville achou graça do desconforto do marido.
- Mas não teria sido difícil você amá-la também. E foi isso que me fez escolher Avelyn para nosso filho.
Wimarc abriu a boca e a fechou em seguida, inteligente o suficiente para deixar o assunto morrer sem maiores comentários. Um homem precisava saber a diferença entre
assuntos perigosos ou seguros para conversar com a esposa. Esse definitivamente era dos perigosos...
- Avelyn? - Paen enfiou a cabeça na tenda, relaxando ao ver que a esposa estava ocupada arrumando as peles que serviriam de cama naquela noite. Passou-lhe pela cabeça
que se a necessidade dela fosse muito urgente, ela não teria esperado que ele voltasse. Sentiu-se satisfeito, pois ter uma esposa obediente significava ter uma esposa
inteligente e, em sua opinião, uma esposa inteligente era uma boa esposa.
- Sim, milorde? - Avelyn deixou Runilda cuidando da cama e foi imediatamente ter com ele.
- Venha - foi tudo o que disse. Assim que deixaram o acampamento, ele colocou a mão enfaixada sob o braço dela para ajudá-la a caminhar no terreno acidentado do
bosque. Ficou contente de que Avelyn também não o bombardeasse com perguntas sobre aonde estavam indo. Em sua cabeça, era mais uma evidência da obediência dela.
Sem se dar conta, Paen começou a assobiar enquanto caminhavam. Era um hábito que tinha sempre que estava sozinho. Conduziu Avelyn até o rio, andando por algum tempo
pela margem até encontrar um ponto em que ninguém teria visão de sua esposa. Então parou hesitante, sem saber o que fazer. Queria vê-la banhar-se, mas talvez ela
se sentisse intimidada. A parte inferior de seu corpo insistia em que ficasse para observá-la, mas uma partezinha de sua cabeça sugeria que fosse cavalheiro e respeitasse
a privacidade dela.
Avelyn havia se mostrado tímida na noite de núpcias. Ele praticamente precisara luta para tirar o lençol de tão agarrada que estava a ele, procurando cobrir o corpo.
Mal conseguira vê-la um pouco.
Paen não estava muito satisfeito com a própria consciência, mas disse a si mesmo que logo suas mãos estariam curadas e então poderia vê-la por inteiro.
- Meu marido?
Paen sorriu ao ouvir a palavra, quem diria era "marido" agora. Ouvi-la dizer isso tornava a situação mais real. Tinha uma esposa... pertencia a alguém... uma sensação
de calor invadiu seu peito. Deixando os pensamentos de lado, ele voltou a atenção para Avelyn.
- Sim?
- O que viemos fazer aqui?
- Você não disse que queria se banhar e outras coisas. Embora meio precário,ele local é bem discreto.
- É,sim, marido - respondeu Avelyn, olhando ao redor. - Está muito bom, só que você não me disse onde íamos e eu não trouxe nada para me secar e...
Avelyn calou-se quando Paen blasfemou. Ele então passou o braço pela cintura dela e arrastou-a de novo para o acampamento. Ao chegar à tenda, Avelyn estava corada
e absolutamente sem fôlego.
- Pegue o que você precisa. Vou esperá-la aqui - disse Paen, postando-se do lado de fora da tenda, com os braços cruzados sobre o peito.
Avelyn retornou pouco depois, carregando tudo de que precisava numa trouxa que Paen imediatamente pegou entre as mãos enfaixadas e se pôs a caminho do rio, deixando-a
para trás. Aparentemente ele esquecera que seu passo era menor do que o dele, mas não iria lembrá-lo.
Ele a levou diretamente ao local que inicialmente havia escolhido, mas ficou imobilizado ao entrar na pequena clareira. Despreparada para a súbita parada, Avelyn
tropeçou no sapato dele e quase caiu. Endireitando o corpo, ela procurou ver o que havia chamado a atenção do marido. Eram lorde e lady Gerville se beijando mais
abaixo. Avelyn pensava que a afeição que os pais demonstravam fosse única. Não era tão rara quanto pensava.
Reclamando que os pais haviam roubado o lugar que ele escolhera, Paen se virou e começou a sair da clareira, seguido por Avelyn. Para seu alívio, não precisaram
andar muito. Pouco depois, encontraram outro local que satisfez ao marido.
- Vou ficar ali atrás daqueles arbustos, caso você precise de qualquer coisa - murmurou Paen, colocando a trouxa no chão e deixando-a sozinha na clareira.
Avelyn o viu desaparecer entre as árvores e sentiu uma onda de gratidão por ele tê-la deixado sozinha, afinal estaria no seu direito, se quisesse ficar olhando.
Sentiu-se agradecida até lhe passar pela cabeça por que razão o marido não teria querido vê-la nua. Depois de se depreciar bastante, Avelyn suspirou e começou a
se despir. Podia se sentir segura de que ele não tentaria dar nem uma espiada sequer...
Ele iria olhar. Não, não iria. Sim, olharia. Não, não olharia.
Paen ficou discutindo consigo mesmo repetidas vezes enquanto imaginava a esposa se despindo a apenas alguns metros dele. Ele realmente queria olhar. Era sua esposa.
Tinha o direito.
Não. Não seria nada cavalheiresco, e um comportamento bastante infantil. Trazia-lhe reminiscências de uma verdadeira acrobacia dele e do irmão, quando eram bem jovens,
para ver pó meio dos arbustos uma jovem se banhando. Seria mesmo muito baixo da parte dele ficar espiando a esposa nua, como se fosse um adolescente.
Ele ouviu um pequeno ruído. À luz do sol que se punha, podia imaginar a pele macia da esposa adquirindo um tom creme, os cabelos caindo-lhe em cachos sobre os seios.
Paen umedeceu os lábios diante da imagem produzida em sua cabeça. Precisava olhar. Estava ficando louco de desejo. Simplesmente precisava olhar como se fosse um
adolescente.
A lembrança de que estava ali para protegê-la era mais forte. Estava ali para se certificar de que não houvesse ninguém escondido, que nenhum mal aconteceria a ela.
Mas que barulho de água era aquele? Seria ela se levantando, ou será que estava se afogando? Poderia se tanto uma coisa quanto outra, ele ponderou. Como ela estaria?
Nua e molhada. Ele decidiu que precisava olhar. Apenas uma rápida olhar para ver se Avelyn estava bem. Naturalmente, a consciência lhe disse que bastava chamá-la
para se certificar, mas ele mandou a consciência se calar e empurrou os galhos para os lados a fim de poder olhar.
- Tzu, Tzu, Tzu... espiando como se fosse moleque.
Paen soltou os galhos tão depressa ao ouvir o comentário malicioso que um galho bateu em seu rosto. Praguejando e esfregando o rosto, ele se voltou para o pai, dando
uma inflexão de indignação à voz ao dizer:
- Só estava tentando ver se ela está bem.
Wimarc levantou uma sobrancelha e riu, sentando-se ao lado do filho.
- Então não o criei bem. Eu teria olhado se fosse sua mãe. Melhor, eu estaria na água com ela.
Paen sorriu ao ouvir o comentário despudorado do pai e fez a pergunta óbvia:
- Por que então não está agora com a mamãe no rio?
- Eu estaria se você não tivesse aparecido. Estávamos nos preparando quando você nos interrompeu. Sua mãe achou que seria melhor nos comportamos já que vocês dois
estavam por perto.
- Desculpe, pai. Não havia nem percebido que tínhamos sido vistos - Paen justificou-se, não soando muito sincero. Na verdade, era bom saber que não era o único que
estava sofrendo.
- Sua mãe os viu. Você sabe que ela tem os olhos nas costas quando se trata dos filhos. - Ao acabar de dizer as últimas palavras, uma expressão de dor nublou o rosto
de lorde Gerville à lembrança do filho morto.
Um sentimento de culpa apossou-se de Paen, como acontecia toda vez que lembrava do irmão. Sentia-se culpado de não ter conseguido salvá-lo; sentia-se culpado por
ter sobrevivido. Ele ficou olhando para as mãos, remoendo nesses pensamentos, até que o pai procurou mudar de assunto.
- Então? Ela estava?
- Estava o quê?
- Estava bem?
- Estava! - disse Paen, suspirando - Estava com a água até o pescoço.
Wimarc riu do tom desapontado do filho, sabendo muito bem que não era isso o que ele esperava.
- Talvez você devesse verificar novamente. Está um silêncio muito grande do outro lado dos arbustos.
Paen hesitou por um instante, depois ficou de joelhos e empurrou os galhos novamente para poder olhar. A visão da esposa boiando, calma e pálida, fez com que ele
soltasse uma repentina imprecação.
- O que foi? - Wimarc perguntou, percebendo que o filho estava alarmado.
Paen, porém, não se deu ao trabalho de responder, preocupado demais em abrir o caminho entre os arbustos para ir resgatar a esposa.
Capítulo IV
Ao entrar, a água estava fria, mas Avelyn logo se acostumou a ela. Sempre gostara de nadar. Quando criança, os pais sempre faziam piqueniques perto do rio, e Warin
e ela nadavam. Ela sempre aguardava com expectativa esses passeios até que tia Isidore chegou com Eunice, Hugo e Stace. Naturalmente, eles passaram a ser incluídos
no passeio, e acabaram tirando todo o prazer que Avelyn sentia nessa atividade, com seus comentários de que ela parecia uma enorme baleia boiando no rio. A provocação
era feita longe dos adultos e fizeram com que ela fosse perdendo a vontade de nadar até desistir por completo. Depois de nadar um pouquinho, ela resolveu boiar,
contente por constatar que ainda sabia nadar e relaxar na água. Podia também ficar sossegada porque o marido estava vigiando para que ninguém a incomodasse.
Mal esses pensamentos lhe passaram pela cabeça, Avelyn foi inesperadamente tomada nos braços. Ela gritou de susto, mas ao levantar a cabeça viu que se tratava do
marido, que rapidamente a retirou do rio e se pôs a gritar, de maneira muito incoerente, algo sobre afogamento e demônios. Não entendendo nada do que estava acontecendo,
Avelyn permaneceu calada, congelando de medo e procurando entender o que ele dizia. Será que seus sogros haviam se banhado no rio e se afogado? Ou será que haviam
sido atacados enquanto ela boiava?
Horrorizada diante da possibilidade de que uma tragédia tivesse se abatido sobre um casal tão bonito, ela continuou em silêncio, com a cabeça muito molhada encostada
no peito do marido, enquanto ele corria, batendo de vez em quando nos galhos das árvores. Podia sentir no corpo a tensão dos braços que a seguravam. Não havia dúvida
de que Paen estava em pânico. Ela só podia concluir que alguma coisa muito grave tinha acontecido.
O fato de o marido nem ter parado para pegar sua roupa era outro sinal da gravidade da situação. Pensando melhor talvez estivessem sob um ataque, pois, se um de
seus pais estivesse se afogado, ele não sairia correndo pelo bosque carregando uma esposa pesada e nua.
Espantada com a força do marido ao carregá-la por uma distância tão grande, Avelyn sentia-se insegura e assustada. Poderia perguntar-lhe o que estava acontecendo,
mas como Paen se mantivera calado desde que a tirara da água, imaginou que ele estava tentando manter sua localização em sigilo. Na realidade, parecia-lhe ouvir
passos seguindo-os pelo bosque, mais uma razão para ficar quieta nos braços dele.
Tinha a impressão de que os perseguidores ganhavam terreno, mas não os alcançaram até chegarem ao acampamento. Avelyn teve um rápido momento de constrangimento ao
passar sem roupa na frente dos homens de Gerville, mas pôde notar a reação de surpresa deles ao ver Paen surgir no acampamento. Era óbvio que eles tampouco tinham
idéia do que acontecia ao vê-lo passar. Quando Paen finalmente diminuiu o passo, Avelyn achou que já poderia perguntar o que havia causado toda aquela correria,
mas antes que fizesse qualquer pergunta, foi levantada e jogada sobre um cavalo, sentindo o ar lhe faltar ao bater a barriga com força no lombo do animal. No segundo
seguinte, o marido estava montado no cavalo com ela. Seu rosto estava a poucos centímetros de um joelho nu e o outro joelho começou a roçar em sua perna e quadris
quando ele atiçou o cavalo para sair em louca disparada.
Sem qualquer possibilidade de recuperar o fôlego, pois seu corpo ficava batendo repetidas vezes no lombo do cavalo à medida que ele corria, Avelyn se deu conta da
mão enfaixada no marido pressionando suas costas para mantê-la firme no lugar enquanto provavelmente os levava para um lugar seguro.
Ao perceber, porém, que o marido cavalgava em círculos com seu traseiro nu exposto à total visão dos homens, Avelyn gemeu baixinho e desejou estar morta. Quisera
poder liquidar com as próprias mãos o causador de todo aquele tumulto já que esses homens incompetentes não haviam conseguido, pensou.
Foi então que, embora com dificuldade para ouvir, começou a prestar atenção ao que o marido falava. Baixinho. Como se fosse consigo mesmo. Era qualquer coisa entre
uma praga e uma oração, ou talvez uma súplica ou um desvario. Falava de alguém chamado Adam e dizia que não poderiam levar Avelyn como haviam levado esse homem.
Ameaçava essas pessoas com conseqüências terríveis. Ela já estava começando a pensar que o marido fosse louco quando o ouviu pronunciar a palavra "Deus", e entendeu
então que era ao Criador que ele estava apelando.
As coisas começavam a fazer sentido na cabeça de Avelyn. Cavalgar com alguém preso no lombo do cavalo era uma tentativa de fazer reviver uma vítima de afogamento.
Talvez os gritos de Paen ao tirá-la da água não tivessem sido sobre a mãe ou o pai estarem se afogando. Talvez ele tivesse pensado que ela estava.
Pai do Céu, o marido confundira o fato de ela estar boiando com o de ter se afogado. Estava tentando salvar a sua vida! Poderia haver coisa mais doce no mundo?!
Esse pensamento terminou com um "Ai", pois Paen fez o cavalo saltar sobre algum obstáculo, e ela sentiu um tranco no estômago. Aparentemente, ele ouviu a exclamação
e fez pressão ainda maior em suas costas, chamando-a com urgência pelo nome. Paen então começou a diminuir a velocidade do cavalo.
Nos poucos minutos seguintes antes de o cavalo parar, Avelyn ficou considerando o que deveria fazer. Se o marido estivesse tentando salvar sua vida, como pensava,
se sentiria um idiota se ela explicasse que não havia se afogado. Tinha também de considerar sua atual posição de nudez em cima do cavalo, com as nádegas expostas,
situação deveras humilhante, diga-se de passagem. Ela chegava até a desejar que tivesse se afogado e estivesse agora inconsciente. Ainda não havia decidido o que
seria melhor quando o cavalo parou completamente e Paen procurou levantá-la, virando-a de frente para carregá-la, sem dúvida machucando as próprias mãos ainda mais
ao fazê-lo.
Avelyn manteve os olhos fechados, deixando estrategicamente um braço pousado sobre os seios e a mão do outro caída sobre o púbis.
- Avelyn?
Por um momento, ela ficou em dúvida sobre o que fazer, depois resolveu seguir com a farsa do afogamento, ou pelos menos não negá-la. Ela piscou, abriu os olhos e
voltou a fechá-los, tentando adotar a atitude de quem voltava a si e tomava consciência da própria nudez.
- Avelyn?
- Paen? - Ela abriu e fechou novamente os olhos, orgulhando-se de tremor que conseguiu dar à voz. Fez com que parecesse enfraquecida e realmente quase afogada.
- Graças a Deus! - Ela o ouviu balbuciar.
Avelyn abriu os olhos e percebeu que, agora que a crise havia passado, Paen se dava conta de que ela estava nua. Ela gelou por dentro ao notar o olhar do marido
percorrer todo o seu corpo. Sentiu o rubor subir-lhe ao rosto e tentou se encolher no colo dele.
Essa reação pareceu conscientizar Paen de seu embaraço e ele voltou o olhar para o rosto de Avelyn. Endireitando o corpo, ele, repentinamente, desmontou com ela
no colo. Depois, com todo o cuidado a acomodou na grama. Avelyn intimamente desejou que não tivesse qualquer inseto sob seu corpo nu. Dobrou os joelhos e segurou-os
junto aos seios, tentando escondê-los. Ao ver Paen tirar a túnica, uma campainha de alarme soou dentro de sua cabeça: será que ele desejava consumar o casamento
ali.
Essa excitante possibilidade logo foi descartada. Assim que despiu a túnica, ele a vestiu nela.
Só quis me cobrir, Avelyn pensou meio desapontada. Era o que deveria ter esperado. Ela não era o tipo de mulher que despertasse qualquer arroubo de paixão, concluiu
enquanto ele a ajeitava como se fosse uma criança.
- Como você está se sentindo? - ele perguntou ansioso.
- Bem... Obrigada... - Avelyn murmurou, percebendo o olhar dele descer e uma expressão estranha cobrir seu rosto.
Avelyn abaixou os olhos também. A túnica estava mesmo em péssimas condições. Pena que toda a roupa do marido tivesse sido destruída no incêndio. A túnica ainda cheirava
a fumaça e estava toda cheia de buracos. Um deles era tão grande que seu seio saltara para fora.
Ai, meu Deus!, Avelyn pensou, quase morrendo quando Paen tentou colocá-lo para dentro da túnica, esforço impossível com a mão enfaixada.
Afastando as mãos do marido, ela mesma tratou de se arrumar, puxando o tecido de forma que o seio não ficasse à mostra. Depois, conservou a cabeça baixa, constrangida
demais para enfrentar a situação, e fixou o olhar nas mãos de Paen.
Avelyn inspirou profundamente e teve um sobressalto ao vê-las mais de perto. Desde a noite do incêndio era a primeira vez que parava para observá-las. Provavelmente
movida por um sentimento de culpa, afinal ela era a responsável pelo incêndio que o ferira. Notava como as ataduras eram grossas, sinal de que as queimaduras haviam
sido graves. Mas não era isso que chamava sua atenção no momento. Apesar de grossas, havia sangue aparecendo nelas e sangue fresco. Aquela tentativa de resgate não
havia sido nada boa para as mãos do pobre marido.
- Milorde! - Ela tocou nas mãos dele, soltando-as quando ele emitiu um gemido. Avelyn fitou-o, perplexa de que ele a houvesse carregado... e dessa vez a razão não
tinha nada a ver com seu peso, o que fazia toda a diferença. - Precisamos voltar e cuidar de suas mãos.
A reação de Paen foi um gesto de indiferença, enquanto se levantava. Quando ofereceu a Avelyn a mão para ajudá-la, ela pegou no braço dele acima do pulso e levantou-se
também, sem se importar com sua aparência e com os cabelos úmidos caindo pelas costas como línguas de cobras. Tudo o que lhe interessava naquele momento, era o bem
estar do marido. Segurando-o pelo cotovelo, ela o apressou a caminhar até o cavalo, então o encarou hesitante.
- Posso ajudá-lo a montar? - perguntou, preocupada.
Paen simplesmente resmungou alguma coisa e, com as mãos enfaixadas, a pegou sob os braços, colocando-a com cuidado sobre a sela. Foi tudo muito rápido, mas ela pôde
perceber uma expressão de dor passando pelo rosto dele. Mordendo a língua para não respondê-lo pelo comportamento orgulhoso, ficou em silêncio enquanto ele montava
atrás dela e pegava as rédeas para retornarem ao acampamento.
Lorde e lady Gerville correram ao encontro deles assim que os avistaram, mas Paen não parou o cavalo ao lado dos outros. Conduziu-o diretamente à sua tenda. Aliviada
de não ter de atravessar todo o acampamento, Avelyn saltou rapidamente da montaria para evitar que o marido tentasse tirá-la e machucasse as mãos ainda mais. Viu
então com o canto dos olhos que os sogros caminhavam em direção à tenda, já perguntando sobre o estado dela. Nada desejosa de ser vista daquele jeito, Avelyn deixou
que o marido respondesse e curvou o corpo para entrar na tenda.
- Oh milady! - Runilda correu ao seu encontro assim que ela entrou, mostrando-se muito ansiosa. - A senhora está bem?
Embora assegurasse à criada que estava, Runilda continuava visivelmente preocupada. Não sabia o que fazer por Avelyn ao acompanhá-la até a cama, montada com peles
empilhadas e cobertas.
- Oh, graças a Deus! - disse a criada, relaxando. - Quase morri quando lady Gerville me falou do afogamento. Graças a Deus, lorde Paen conseguiu trazer a senhora
de volta.
Dava para ver que a criada havia trabalhado bastante. A tenda não poderia estar mais confortável e até uma vela já ardia sobre a arca ao lado da cama improvisada,
iluminando o final do dia que começava a escurecer.
- Agora vamos tirar essa túnica molhada. A senhora precisa se agasalhar e ficar bem quentinha, senão é capaz de acabar com problema de pulmão.
Enquanto Avelyn rapidamente tirava a túnica, Runilda pousou a vela no chão para que ela pudesse abrir a arca e escolher uma roupa. Ofereceu-lhe então uma toalha
de linho para que se secasse. Avelyn, porém, alegou que não estava mais molhada e dispensou a toalha. Estava ansiosa para se vestir antes que Paen chegasse.
- Procure, por favor, a sacola de ervas e as tiras de pano limpas que separamos para cuidar dos que se machucassem, Runilda - Avelyn pediu, trocando a roupa de baixo
e pegando em seguida o vestido preto que a criada lhe estendia.
- A senhora se machucou? - Runilda perguntou, enquanto procurava os itens solicitados.
- Não... quero cuidar das mãos de milorde.
- A criada de lady Gerville me disse que as queimaduras dele foram graves - comentou Runilda, com a cabeça enfiada na arca. - Ela acha que levará várias semanas
para que melhorem. Isso se não houver qualquer problema com elas durante a viagem.
Avelyn ficou pensativa. Não tinha tomado muito conhecimento da extensão das queimaduras, mas, pela preocupação que a sogra demonstrara quando ele decidira voltar
para Gerville, dava para imaginar que deveriam ser bem sérias. Quando o marido chegasse, ela teria a oportunidade de ver.
Já estava se impacientando com a demora dele quando, finalmente, a aba da tenda se abriu.
Avelyn pôs-se imediatamente de pé para recebê-lo, abrindo um largo sorriso que logo desapareceu ao ver que não era Paen, e sim a sogra.
- Ah, estava aguardando Paen - ela se justificou, tentando resgatar o sorriso. - As ataduras dele precisam ser trocadas.
- Já tomei conta disso - lady Gerville comentou. - Felizmente, não ficaram muito machucadas. Se ele não abusar, estarão boas em poucas semanas.
- Que bom - Avelyn respondeu, obviamente desapontada. Estava se sentindo uma esposa incompetente. Parecia ser absolutamente desnecessária para as tarefas tradicionais
de uma esposa. Era casada, mas o casamento não tinha sido consumado. Tinha um novo lar que nem conhecia e provavelmente não poderia cuidar dele porque a sogra vivia
nele e o administrava bem. E agora nem mesmo tratar das queimaduras do marido lhe era permitido.
- Desculpe, Avelyn - disse lady Gerville. - É sua função cuidar de Paen agora. Preciso me acostumar que meu filho tem uma esposa.
- Não tem problema, milady. - Avelyn suspirou, sentando-se na cama. - Receio mesmo ser um fracasso como esposa.
- Nada disso, querida - lady Gerville se aproximou, com uma expressão consternada. - Você é uma esposa encantadora e perfeita para Paen.
- A senhora quer dizer perfeita para fazê-lo sofrer - Avelyn retrucou, em tom áspero. - Não bastasse ter posto fogo no castelo de meus pais, fazendo com que Paen
se queimasse, ao tentar apagá-lo, ainda agravei mais o ferimento dele, fazendo-o pensar que eu estava me afogando...
- Fazendo-o pensar? - lady Gerville interrompeu-a de chofre. - Você estava fingindo?
- Não, claro que não, ele é que se confundiu. Eu estava boiando de costas e, de repente, fui agarrada por Paen, tirada da água e carregada por aí nua como vim ao
mundo.
Lady Gerville mostrou-se horrorizada.
- Mas por que você não disse alguma coisa?
- Fiquei muito assustada porque primeiro pensei que estivéssemos sendo atacados. Ele gritava alguma coisa sobre afogamento e praguejava, e eu não sabia o que estava
acontecendo. Quando finalmente entendi - ela balançou a cabeça -, não quis deixá-lo envergonhado de ter se enganado. Achei melhor deixá-lo pensar que tinha me salvado.
Avelyn abaixou a cabeça e ficou em silêncio, certa de que lady Gerville estaria contrariada com sua estupidez. A sogra lhe dirigira vários olhares de censura. Por
sorte, Runilda havia saído para encontrar com Sely junto à fogueira, assim não havia ninguém para testemunhar essa humilhante confissão.
Eis que a sogra deixou escapar um som abafado e Avelyn levantou a cabeça para fitá-la. Ela tapava a boca com a mão. No momento seguinte, desistindo de lutar contra
a vontade de rir, lady Gerville soltou uma sonora gargalhada.
Avelyn sorriu indecisa e ficou aguardando que a sogra parasse de rir.
- Oh, Avelyn... - lady Gerville suspirou e foi se sentar ao lado dela, passando o braço sobre seus ombros para abraçá-la. - Querida, não é de você que estou rindo,
é de todos nós. Nesses últimos dias aconteceu uma calamidade atrás da outra. O desmaio no casamento, o fogo, e agora o afogamento que não foi afogamento.
- Sou bem desajeitada mesmo, não é?
- Você? Não, querida. Sua mãe me contou que foi idéia dela enfaixá-la para que coubesse no vestido. Quanto ao fogo, talvez você tenha derrubado a vela, mas foi Pean
quem quis contê-lo com as mãos. Não fosse você descer correndo para pedir socorro, o orgulho dele provavelmente o faria sucumbir naquele incêndio. E hoje, meu filho
confundiu toda a situação, você boiava e ele achou que estivesse se afogando, carregando-a por aí feito um louco. Nada disso foi realmente culpa sua. Acho que o
destino, talvez, ande conspirando contra você neste momento.
- Contra mim? - Avelyn surpreendeu-se. - Não fui eu a prejudicada em todos esses incidentes, foi Paen.
- É verdade - ela hesitou e acabou confidenciando, com pena. -, mas Paen passou o tempo todo em que eu estava fazendo o curativo nas mãos dele se queixando de que
você talvez não fosse a esposa que ele esperava. Ele teme que você seja muito frágil, despreparada e sujeita a acidentes.
Avelyn congelou diante dos comentários. Ela era tudo menos frágil. Também havia sido bem preparada e era muito eficiente... geralmente. Quanto a ser sujeitas a acidentes,
não costumava ser, os últimos dias haviam sido uma aberração.
- O que devo fazer?
- Bem... acho que devemos contar a verdade a ele - lady Gerville sugeriu, depois de pensar um pouco, mas não se mostrando muito convencida.
Avelyn balançou a cabeça.
- Não, ele se sentiria um idiota por tentar me salvar. Acho que é dever da esposa proteger o brio do marido.
- Sim, então... - A sogra pensou por mais um momento. - Acho que você deve confessar que sabe montar cavalos.
- A senhora sabia disso?
- Na festa de casamento, sua mãe me falou sobre todos os seus atributos, inclusive o de saber cavalgar. Eu logo percebi que você estava usando daquele artifício
para evitar que Paen segurasse as rédeas e machucasse mais as mãos.
- Se eu confessar isso agora, ele vai insistir de segurar as rédeas durante o resto da viagem.
- Pode ser. Como é tolo esse orgulho masculino! Então, talvez só lhe reste deixar o barco correr e você demonstrar toda a sua competência de agora em diante. Prometo
que vou ajudá-la, procurando não me intrometer em obrigações que sejam suas - ela assegurou, desculpando-se. - Se eu me esquecer, peço-lhe que me lembre.
Avelyn aquiesceu com a cabeça, torcendo para que não precisasse dizer qualquer coisa. Bastava para ela saber que a sogra não estava deliberadamente tentando minar
seu lugar na vida do marido. E, se por acaso, uma vez ou outra ela se esquecesse da promessa, não negaria à sogra o direito de agir como mãe do próprio filho.
- Sei que você ainda se sente constrangida pela maneira como foi vista por todos, mas quando se recuperar um pouco, venha se juntar a nós perto da fogueira. O jantar
logo estará pronto - informou lady Gerville, dando-lhe um tapinha afetuoso no ombro e saindo em seguida da tenda.
Avelyn procurava se armar de coragem para ir se juntar aos demais em volta da fogueira. Precisava comer o que quer que fosse a refeição. Eis que ouviu alguém pigarrear
do lado de fora da tenda, chamando por seu nome em seguida.
- Avelyn?
- Sim? - Ela levantou a aba da tenda e se deparou com Diamanda.
- Posso entrar? - perguntou a jovem.
- Claro. - Avelyn sorriu e olhou curiosa para a carne que a menina trazia sobre uma cama de folhas.
- Os homens assaram uns coelhos que haviam capturado e, como você não apareceu, imaginei que ainda estivesse envergonhada por causa do espetáculo de hoje e resolvi
lhe trazer um pedaço.
Diamanda estendeu de maneira inesperada a carne para Avelyn que piscou, surpresa, levantando depois os olhos para a jovem. Diamanda estava ruborizada de vergonha,
e Avelyn sabia que seu próprio rosto começava a corar depois do que ela dissera. Fora tal seu constrangimento por causa do episódio do afogamento que nem lhe passou
pela cabeça que Diamanda e as criadas a tivessem visto também. Ardia de humilhação só de pensar na imagem pouco digna que fizera.
- Obrigada. Foi muito atencioso de sua parte se lembrar de mim.
Diamanda esboçou um sorriso largo.
- Posso bem imaginar como eu mesma me sentiria se isso tivesse acontecido comigo, e veja que não sou tão grande quanto você. - A menina fez uma pausa e prosseguiu,
emendando uma frase na outra: - Você verá que será mais feliz em Gerville, não terá seus primos para provocá-la por causa disso. Terá uma família maravilhosa que
aceitam as pessoas como são, mesmo que sejam gordas ou feias. - De repente Diamanda deu-se conta das próprias palavras e quis consertar: - Não que você seja feia...
só quis dizer, mesmo que você fosse, eles iriam... ou não iriam... - Atrapalhando-se mais ainda, ela gaguejou qualquer coisa, virou as costas e abriu a aba da tenda,
dizendo antes de sair. - É melhor eu voltar para lá antes de lady Gerville me procure.
Ela se foi antes que Avelyn pudesse proferir qualquer palavra, nem mesmo um obrigada. A verdade é que as palavras de Diamanda só fizeram com que se sentisse pior
do que antes, com ela mesma e com o que havia acontecido.
Suspirando e angustiada, Avelyn se sentou na cama de peles e contemplou a
carne que a menina havia trazido. Era uma perna inteira e, embora o cheiro estivesse delicioso, acabara perdendo a fome. Não que estivesse com muita fome antes,
mas sabia que precisava comer. A jornada havia sido longa e certamente também o seria no dia seguinte. Depois que lady Gerville lhe confidenciara que Paen estava
preocupado de que ela não fosse a mulher forte e competente que esperava, ela precisava de qualquer modo preservar suas forças.
Avelyn deu uma pequena mordida na carne, conseguindo morder também a própria língua. Resmungando consigo mesma, cuspiu a carne e esfregou a língua, que latejava,
contra o céu da boca para suavizar a dor. Sacudindo a cabeça ao pensar como estava desastrada nos últimos dias, ela esperou uns minutos e se forçou a dar uma nova
mordida na carne, sem ter qualquer vontade. A língua latejava e o estômago começou a dar sinal de vida assim que recebeu o primeiro pedaço. Pelo visto, ele não gostara
nada de ter recebido tanta pancada no lombo do cavalo e parecia irritado com a ousadia dela de querer comer qualquer coisa.
Depois de algumas mordidas, Avelyn desistiu de comer e se deitou. Fechou os olhos e tentou relaxar, esperando que o estômago melhorasse. Foi pior. Sem nada para
entretê-la, o estômago e a língua passaram a incomodá-la ainda mais. Começou a sentir também a pele formigar. Franzindo o cenho, ela esfregou os braços e o rosto,
depois se sentou abruptamente na cama, sentindo náuseas. Cobrindo a boca com a mão, ela pulou da cama, saiu correndo da tenda, deu a volta nela e caiu de joelhos
bem a tempo de pôr para fora o pouco que havia comido.
Respirando fundo, Avelyn procurou se sentar e massageou o estômago, não tendo coragem de se levantar até ter certeza de que o mal-estar havia passado. Por sorte,
não havia comido muito e, tão logo ficou vazio, o estômago deu sinais de melhora. O melhor era fim sem comer nessa noite.
Avelyn sentia-se um lixo e se perguntava se não havia verdade no que lady Gerville lhe dissera. Parecia que o destino conspirava contra ela naquele momento. Os eventos
dos dois últimos dias só confirmavam isso.
Procurando afastar esses pensamentos de autocomiseração da cabeça, ela levantou-se com cuidado e ficou parada por uns instantes para ver se não teria náuseas outra
vez; depois, deu a volta na tenda e, antes de entrar, olhou de soslaio para o grupo em volta da fogueira. Ninguém parecia ter notado que ela saíra da tenda e voltara,
felizmente. A última coisa que desejava era que o marido ficasse sabendo que havia vomitado. Isso só reforçaria a preocupação que ele tinha com sua saúde.
A mera visão do resto da carne, que ficara sobre a cama, fez com que sentisse o estômago embrulhado, como se ele estivesse lhe dando um aviso para que não comesse
de novo. Ela não tinha mesmo qualquer intenção de comer, mas tampouco queria que o marido visse que não havia se alimentado. Avelyn pegou então o pedaço de carne
e, certificando-se de que ninguém estivesse observando, mais uma vez saiu da tenda e foi ao bosque jogar a carne fora.
Assim que entrou na tenda, foi para a cama para se deitar e descansar um pouco, mas acabou tropeçando na túnica de Paen e se abaixou para pegá-la. Estava em péssimo
estado e, embora o marido só tivesse a única para vestir, ele estava lá fora sem nada para cobri-lo. Com tantos furos também não iria agasalhá-lo muito, ela ponderou,
examinando a túnica. Ocorreu-lhe que na arca, do outro lado da tenda, havia tecidos que a mãe lhe dera para fazer vestidos novos em substituição aos que perdera
no incêndio. Poderia fazer algumas roupas para o marido. Ele estava precisando, e seria uma maneira de agradá-lo.
Avelyn deixou a túnica no pé da cama e caminhou até a arca. Pousando com cuidado a vela no chão, ela abriu a arca e examinou os tecidos. Eram de três cores diferentes:
um vermelho, mais escuro e mais bonito do que aquele que perdera no incêndio, um bege e um azul muito parecido com o de seu vestido de casamento. Ela pôs de lado
o bege e depois pegou um vestido preto parecido com o que estava usando.
Olhou para os dois e visualizou o marido usando calções pretos e uma túnica bege. Como essa imagem não lhe saía da cabeça, ela resolveu cortar as costuras do vestido
preto. Renderia tecido suficiente para fazer os calções. Além disso, tinha outro vestido preto, não precisava de dois.
Decisão tomada, ela deixou o tecido bege onde estava, tirou da arca o vestido preto, a fechou e voltou para a cama. Quando terminou de descosturar o vestido, abriu
o tecido da saia sobre a cama e começou a cortá-lo. Já havia costurado muito, tanto para o pai quanto para Warin. Tinha de considerar que Paen era ainda maior do
que o irmão. Terminado o corte, ela começou a costurar, contente consigo mesma por finalmente encontrar uma maneira de agradar o marido.
Avelyn trabalhou até que a vela começasse a respingar no candelabro de madeira sobre a arca e se apagasse. Esfregando os olhos que ardiam, ela ficou surpresa de
ver que uma luz acinzentada penetrava pela aba entreaberta da tenda.
Deixando de lado os calções inacabados, ela se levantou, gemendo quando o corpo reclamou por ter ficado tanto tempo sentado na mesma posição. Ela esfregou as costas
e foi até a aba da tenda olhar para fora e ver o pálido início do amanhecer. Havia atravessado a noite trabalhando.
Deu-se conta então de que o marido não havia aparecido para dormir. Percorrendo os olhos pelo centro do acampamento, ela divisou as sombras dos homens que dormiam.
Sabia que Paen estava entre eles. Ele havia preferido dormir sobre o chão batido, ao ar livre, em vez de se deitar com ela na tenda.
Sentindo um nó na garganta, pensou em se deitar, mas sabia que se o fizesse choraria até dormir e acordaria sentindo-se pior ainda. A ironia era que logo todos
estariam acordando e o pouquinho que conseguisse dormir não seria suficiente.
Dando um suspiro de cansaço, foi até a arca, retirou dela a vela apagada e pegou de dentro uma toalha de linho e seu vestido marrom, depois saiu da tenda. Ela deixou
silenciosa o acampamento, não tendo dificuldade de encontrar e seguir o caminho que levava ao rio graças à trilha feita por Paen, em seu rompante enlouquecido no
dia anterior.
Na beira do rio, Avelyn parou e aspirou profundamente. O ar estava fresco e exalava os aromas do amanhecer do bosque. Não poderia haver maior tranqüilidade. Fruindo
o prazer daquele momento, ela tirou o vestido e entrou na água.
A água estava fria e Avelyn se banhou rapidamente. De maneira mais rápida ainda, ela se secou e vestiu a roupa marrom. Recolheu o vestido preto, com intenção de
voltar ao acampamento, pois sabia que os outros logo estariam acordando. Eis, porém, que avistou uma codorna na divisa da clareira. Imagens de oeufs perdus imediatamente
se puseram a dançar em sua cabeça e ela estancou.
Já antecipava o prazer do marido quando ela servisse a ele ovos frescos cozidos no borralho da fogueira noturna. Ela imediatamente largou o vestido preto, seguindo
a ave que, bamboleante, descia a trilha. Não foi preciso que se afastasse muito para ver o ninho. Espantando a ave, Avelyn ajoelhou-se e se aproximou dele, sem se
importar que os galhos despenteasse seus cabelos e a lama sujasse seu vestido. Daria um jeito nisso depois. Queria os ovos para o marido.
Paen virou de costas, reclamando do chão duro em seus ossos. Nunca gostara de dormir ao ar livre e em chão batido, mas na noite anterior aquele lhe parecera o menor
dos dois males. Seu olhar voltou-se para a tenda onde deveria ter dormido e tornou-se raivoso. Depois de passar horas à noite sem esquecer o corpo nu da esposa aninhado
em seus braços e a imagem dela na túnica esfarrapada, com um dos seios de fora, a perspectiva de ir se deitar com ela havia sido sedutora. Sedutora demais. Ele podia
imaginar aquele corpo nu, macio e quentinho, junto ao seu, as partes íntimas de Avelyn coladas às suas, os seios roçando no braço que a envolveria. Preferia manter-se
afastado porque a simples idéia o excitava e sabia que não poderia fazer nada para satisfazer essa excitação.
Aborrecido, Paen empurrou a pele que o cobria e estremeceu ao sentir o ar frio da manhã. De peito nu, lamentou estar sem a túnica que, mesmo furada e suja, protegia
um pouco o corpo. Mas não queria arriscar a entrar na tenda, com a lembrança dos seios de Avelyn ainda dançando em sua cabeça.
Já havia se considerado um homem insaciável. Tinha as costumeiras necessidades de qualquer homem e sempre lidara muito bem com elas, mas nunca fora dado a orgias
carnais. Com a imagem da esposa queimando seu cérebro, ele se sentia tentado a se trancar com ela até saciar todo o seu desejo. Queria acariciar com as mãos e com
a boca cada pedaço daquele corpo cheinho e macio.
Não conseguindo controlar os pensamentos, Paen desistiu da idéia de ir buscar a túnica. Precisava dar um bom mergulho nas gélidas águas do rio. Um bom e longo mergulho.
Pensativo e ainda meio cego de sono, atravessou trôpego o acampamento e desceu a trilha em direção ao rio.
Um mergulho será revigorante, disse a si mesmo, esfregando os olhos na tentativa de acordar. Um bom banho iria despertá-lo de vez. Exceto quando havia uma urgência,
como ser repentinamente despertado pelos sons de um ataque, acordar para ele era um processo lento.
Bocejando e esfregando os olhos, Paen tentou arquitetar um plano para a manhã. Depois do mergulho, começaria a acordar os outros para levantar acampamento. Esperava
chegar naquele dia ainda em Hargrove para pegar o escudeiro.
Os olhos de Paen pousaram num pé de framboesa e ele diminuiu os passos ao se aproximar dele. O arbusto estava cheio, e as frutinhas maduras e suculentas encheram
sua boca de água só de pensar em comê-las. Ele normalmente não comia fruta; era um devorador de carne, queijo e pão, mas, como se recusasse a permitir que alguém
o ajudasse a comer, fazia horas que não se alimentava adequadamente. Não que fosse ruim jejuar. Já havia jejuado algumas vezes antes, e um dia apenas não chegava
a afetá-lo. Era uma sorte que conseguisse segurar a jarra entre as mãos enfaixadas para poder beber água, mas estava com fome e naquele momento as framboesas lhe
pareciam tão apetitosas quanto uma perna de cabrito assado pendendo dos galhos.
Parando ao lado da árvore, Paen observou a trilha por onde viera. Não havia ninguém à vista. Abaixando-se, ele fisgou com os lábios uma fruta madura, quase gemendo
de prazer quando ela estourou em sua boa derramando seu suco adocicado. Era um verdadeiro néctar dos deuses. Mal tinha engolido uma, já pegou outra, permanecendo
ali por um bom tempo até ouvir um estalar de galhos à sua direita.
Parando um pouco, ele percorreu os olhos pela trilha. Não havia nada, mas continuava a ouvir algo se movimentando entre os arbustos. Talvez fosse algum animal, pensou.
Esquecendo-se das framboesas, viu uma ave entre os galhos. Pelo porte troncudo e a plumagem marrom, logo imaginou que fosse uma codorna; antes que pudesse chegar
mais perto, porém, ela se embrenhou pela moita, fugindo de seu campo de visão.
Ainda ajoelhado, Paen começou a seguir a ave, pensando que daria uma boa refeição mais tarde. Talvez conseguisse segui-la para ver se havia ovos no ninho. Seria
gentil de sua parte se pudesse oferecer oeufs perdus à esposa, como desjejum.
Ele se movimentou devagar, seguindo agora os sons que ouvia. Ao ver, através dos arbustos, um flash de marrom um pouquinho mais à frente, ele imaginou estar perto
o suficiente para apanhar a ave e se precipitou para ela com os braços estendidos, esperando prendê-la entre as mãos enfaixadas. Sucedia, entretanto, que seu alvo
era bem maior. Ele acabou aterrissando nas costas de alguém que vestia uma longa saia marrom de lá.
Paen grunhiu ao sentir o impacto provocado por seu corpo contra o da mulher, cujo grito de surpresa foi praticamente abafado ao ser derrubada no chão. Ele imediatamente
rolou para o lado e ela se ergueu devagar, voltando-se para fitá-lo.
- Paen?
- Avelyn? - Ele a olhou incrédulo, tentando entender a razão de ela estar ali em vez de estar dormindo entre as peles. Foi então que notou que os cabelos dela estavam
molhados.
- Você estava nadando...
Avelyn balançou lentamente a cabeça, concordando.
- Estava.
- Depois de quase se afogar ontem, você achou que poderia nadar esta manhã sozinha? - Paen a fitou furioso. Como pudera se casar com uma mulher tão bonita, mas tão
estúpida? Onde ficava o bom senso dessa mulher?
- Eu...
- Avelyn - ele interrompeu secamente -, você poderia ter se afogado e desta vez eu não estaria lá para salvá-la.
Paen fez um esforço para se levantar e depois se abaixou um pouco para que Avelyn pegasse em seus pulsos e pudesse ajudá-la a se levantar também.
- Eu não me afoguei...
- Não, e sou grato por isso - ele a interrompeu novamente. - Mas já que Deus não a abençoou com bom senso para fazer par com sua beleza, daqui em diante você não
irá a lugar algum, nem fará coisa alguma sem pedir minha permissão.
Depois de dar essa ordem de cenho franzido, ele notou o estado em que estava a parte da frente do vestido da mulher. A saia estava coberta de uma terra lamacenta
e a parte superior estava cheia de umas manchas amareladas. Também o rosto e o pescoço da esposa estavam sujos de alguma coisa pegajosa.
- Com que foi que você sujou seu rosto e seu vestido?
- Ovos de codorna - ela respondeu, suspirando. - Quando voltava do rio, vi uma codorna e pensei em preparar oeufs perdus para você. Estava pegando os ovos quando
você pulou em mim.
A raiva de Paen se esvaneceu diante da explicação. Quer fosse por ela ter tido a mesma idéia que ele, quer fosse culpa sua ela ter se sujado tanto, ele engoliu toda
a irritação ao ver a expressão desconsolada da esposa.
- Eu teria gostado muito. Aliás, tive a mesma idéia quando vi a codorna, por isso acabei me jogando em cima de você. - ele explicou sem graça. - Bem... acho que
devemos ir.
Avelyn passou o braço no dele, ignorando a mão que ele, distraído, havia lhe estendido.
Agradecido por ela não demonstrar qualquer aversão por sua deficiência, ainda que temporária, Paen a conduziu de novo à margem do rio. Aguardou com paciência que
ela entrasse na água, pegasse alguns seixos no fundo do rio e esfregasse o rosto, o pescoço e o vestido para tirar as manchas dos ovos. No íntimo, a expectativa
dele era de que ela se despisse para se banhar, mas provavelmente seria mais difícil tirar as manchas de ovo se o vestido secasse e ela tivesse de limpá-lo depois.
O desapontamento, porém, logo deu lugar a um súbito interesse ao notar como o vestido molhado colava nas curvas do corpo de Avelyn. Ele começou a se aproximar mais
da margem do rio ao observá-la abaixar-se para pegar a água e jogá-la em cascata pelo vestido que agora envolvia seu corpo como uma segunda pele. Paen lembrou-se
dela no vestido vermelho, de tecido mais sedoso e de cor mais vibrante, que lhe realçava mais a beleza do que o marrom, muito sóbrio. Não que ele se queixasse. Vermelho
ou marrom, o tecido estava colado de maneira deliciosa ao corpo dela, causando-lhe ímpetos de se atirar na água, despi-la e acariciar todo aquele corpo escondido
por metros de panos.
Apesar da espessura da lã, Paen podia ver bem o contorno dos mamilos que a água fazia enrijecer. Ah, se pudesse afastar o tecido e deixar que sua língua brincasse
com eles!
- Por Deus...
- Milorde?
Avelyn voltou-se surpresa, e Paen imediatamente deu alguns passos e juntou-se a ela na água.
- Marido! O quê?
- Eu também me sujei um pouco com os ovos. - Foi a única justificativa que encontrou e mentiu. A verdade é que todos aqueles pensamentos haviam acordado uma certa
anatomia, fazendo-a, interessada que estava, aumentar muito. Paen abaixara os olhos ao sentir a ereção... não podia fazer nada por ela, embora moral e legalmente
tivesse todo o direito. A mulher a apenas alguns metros dele era sua esposa e o estava deixando louco com sua inocente atividade.
Não dava para dizer nada a ela, porém. O jeito fora se jogar no rio e ficar coberto de água até a cintura para esconder seu estado lamentável. A vantagem era que
a água gelada dera um jeito na situação quase de imediato.
- Venha, já estamos bem limpos - ele disse pouco depois, virando-se e saindo da água.
De costas, ele aguardou com paciência que Avelyn trocasse o vestido pelo preto que havia visto no chão quando ali chegaram. Era o mesmo vestido que ela usara na
noite anterior e provavelmente com o qual fora até a margem do rio. Deveria tê-lo deixado ali para ir perseguir a codorna.
Assim que Avelyn terminou de se vestir, os dois imediatamente voltaram para o acampamento. Ele a deixou na tenda e foi procurar o pai para ajudá-lo a desabotoar
os calções. Precisava cuidar das próprias necessidades fisiológicas, tarefa sempre embaraçosa. Ele não via a hora de tirar aquelas malditas ataduras, mas a mãe havia
lhe dito que levaria pelo menos umas duas semanas para que os ferimentos estivessem cicatrizados. Sem dúvida, aquelas duas semanas seriam as mais insuportáveis de
sua vida.
Ao voltar ao acampamento com o pai, ele se surpreendeu de ver metade de uma tenda caída e dois homens entrando no bosque, na parte de trás dela. Paen imediatamente
os chamou e caminhou até eles para ver o que estava acontecendo.
- Uma das estacas da tenda estava muito enterrada no chão. Quando Hob tentou arrancá-la, ela escapou da mão dele e voou. Nenhum de nós viu onde ela caiu, por isso
estamos procurando.
Paen ficou irritado com o atraso e ordenou:
- Voltem, voltem. Continuem a desmontar a tenda que eu vou procurar a estaca.
Quando um dos homens olhou indeciso para sua mão enfaixada, Paen comprimiu os lábios.
- Eu avisarei quando encontrar a estaca e um de vocês poderá vir buscá-la. Agora desmontem a tenda. Se eu não tiver achado até vocês terminarem, então vocês podem
vir me ajudar.
Os dois homens voltaram ao acampamento e Paen entrou no bosque. Não tinha a menor idéia de onde a tal estaca havia caído, mas tinha bons olhos para procurá-la.
Já estava vasculhando a floresta havia vários minutos quando quase tropeçou em uma raposa morta. Ele olhou para o pobre animal com pena, depois notou uma perna de
coelho mordiscada ao lado do focinho dele. Ele se agachou então para examinar a perna mais de perto. Ela não teria lhe chamado a atenção não fosse pelo fato de que
obviamente havia sido assada. Só podia concluir que a raposa havia achado a sobra de alguém e dado algumas mordidas, ou que alguém deliberadamente havia envenenado
a carne para matar a raposa.
Um grito vindo de sua esquerda fez com que ele levantasse a cabeça. Era um de seus homens avisando de que haviam encontrado a estaca. Isso queria dizer que eles
já deveriam ter desmontado a tenda. Finalmente, poderiam partir. Mais um dia de viagem e estariam próximos de Hargrove e de seu novo escudeiro.
Deixando o caso da raposa de lado, Paen endireitou o corpo e havia dado apenas alguns passos quando pisou em alguma coisa escorregadia, quase caindo. Abaixando os
olhos, constatou que alguém havia passado mal ali. Resmungando, ele procurou limpar a bota na grama e dirigiu-se apressado ao acampamento.
A cada passo do caminho Paen fazia uma oração para que os acontecimentos daquela manhã não fossem um mau presságio de que coisas ainda piores pudessem acontecer.
Desejava ardentemente que aquele dia fosse melhor do que o anterior. Na realidade, melhor do que os dois anteriores. A permanência em Straughton não havia sido das
melhores. O casamento parecia transcorrer bem até a noiva desmaiar. Depois foi uma catástrofe atrás da outra. Começava a se sentir amaldiçoado. As coisas precisavam
melhorar.
Capítulo V
Avelyn falou sem parar durante boa parte da viagem, principalmente durante a última hora. Da mesma forma que no dia anterior, ela ocupou o lugar da frente, na montaria,
e segurou as rédeas para que Paen continuasse a "ensiná-la a cavalgar". Ele até afirmou que ela não precisava mais de aula, que havia se saído muito bem na primeira
vez, mas Avelyn insistiu que estava ansiosa para ter seu próprio cavalo, e Paen acabou cedendo em continuar as lições por mais um para que a esposa adquirisse confiança.
Por ironia, meia hora depois de terem iniciado o trajeto, a sessão noturna de costura somada ao balanço do cavalo causaram-lhe uma sonolência irresistível e, sem
se dar conta, ela adormeceu. Paen procurou aninhá-la no peito e deu um jeito de tirar as rédeas de suas mãos ao perceber que ela começava a soltá-las, deixando-a
dormir.
Avelyn só foi acordar bem no final da tarde e ficou consternada de não ter conseguido se manter acordada, com as rédeas firmes na mão, para evitar que o marido tivesse
de usar as mãos machucadas. Determinada a não dormir novamente no resto da viagem, ela começou a conversar, dizendo qualquer coisa que lhe viesse à cabeça par ficar
acordada. Paen decidiu fazer uma parada par um novo pernoite.
Avelyn estava não somente aborrecida por imaginar que o marido encararia o fato de ela ter adormecido na sela como mais uma fraqueza, mas também se sentia um tremendo
fracasso. Falhara como esposa ao soltar as rédeas e lhe restava desejar que as mãos de Paen não tivessem sido mais prejudicadas por isso. Essa noite ela deixaria
a costura de lado para dormir bem e estar acordada para a jornada do dia seguinte. Receava, contudo, que não seria fácil depois de ter dormido o dia todo. Sentia-se
agora completamente acordada e impaciente para fazer alguma coisa. Pena que o marido tivesse uma idéia contrária.
Avelyn observou entediada o vaivém dos criados para montar o acampamento. Bem que ela gostaria de ajudar, mas Paen havia sido explícito de que ficasse "sentada",
não admitindo contra-argumentação. Em princípio, ela não se importara, pois lady Gerville se sentara ao seu lado para descansar da viagem. Mas, assim que as tendas
foram erguidas, a sogra a deixara para arrumar a que compartilhava com o marido. Quando Avelyn se propôs a fazer o mesmo na sua, Paen reiterara a ordem de que ficasse
sentada e pedira a Runilda que arrumasse a tenda.
Pouco depois, Paen apareceu. Avelyn, que estivera mergulhada nos próprios pensamentos, sorriu ao vê-lo.
- Sua criada acabou de arrumar a tenda - disse ele. - Quero que você descanse até que a comida esteja pronta.
- Mas...
- Vá! - Paen insistiu.
Avelyn hesitou por um momento, depois se levantou. Como tivesse dormido durante quase todo o trajeto, ela não participara da refeição que eles haviam feito no meio-dia
e agora estava faminta. Também precisava atender às suas necessidades fisiológicas, mas o marido não parecia disposto a ouvir palavra alguma. Resolvendo que dava
para esperar, Avelyn se dirigiu à tenda.
- Já fiz a cama, caso a senhora queira descansar, milady - comentou Runilda, solícita.
- Dormi o dia todo, não estou cansada.
- Sei disso, mas lorde Paen parece preocupado com a senhora. A senhora está se sentindo bem, milady?
- Estou ótima, é que passei a noite toda costurando. Não tinha essa intenção. Esperava parar quando meu marido chegasse, mas ele não apareceu e quando me dei conta
já era de madrugada.
- Bem, tenho certeza de que ele ficará contente quando ganhar as roupas novas.
- Espero que sim - disse Avelyn, animando-se com essa perspectiva. Ele certamente acharia bom ter roupas em ordem. E, ao lhe dar o presente, ela teria a oportunidade
de explicar o motivo de seu cansaço e talvez fazê-lo entender que não era tão frágil como ele imaginava. A idéia fez com que resolvesse trabalhar novamente nas roupas.
Decidida, foi até a arca para pegar o trabalho iniciado.
- A senhora dormiu o dia todo e não comeu o pão e o queijo que lady Gerville nos serviu ao meio-dia. Quer que eu busque um pedaço? Tenho quase certeza de que sobrou
um pouco dos dois.
- Quero, sim, Runilda. Vá buscar, por favor - Avelyn aceitou, fechando a arca e dirigindo-se à cama com os calções que havia começado a costurar na noite anterior.
Estariam prontos em uma hora, pensou, e depois, antes de se deitar, começaria a túnica. Calculava que acabaria os dois em uma ou duas noites mais.
Já costurava havia algum tempo quando Runilda voltou, trazendo queijo, pão e uma maçã. Ela colocou tudo ao lado da sua senhora, comentou algo sobre as coisas que
haviam ficado na carruagem e perguntou se poderia ir ajudar Sely.
Sem prestar muita atenção ao que a criada dizia, Avelyn concordou com a cabeça e continuou a costurar, parando de vez em quando para dar uma mordida nos alimentos
que Runilda havia lhe trazido. Ela ainda trabalhava quando, horas depois, Diamanda apareceu, trazendo uma tigela de sopa.
- Sopa? - Avelyn perguntou, surpresa, pegando a tigela.
- Tia Helen usou aquela panela preto que sua mãe mandou com você. Ela até pediu a Runilda que lhe perguntasse se não tinha problema...
- Ah, sim - Avelyn murmurou, lembrando que a criada havia comentado alguma coisa quando lhe trouxera o queijo e o pão.
- Tia Helen achou que seria mais fácil para Paen se alimentar se pudesse beber alguma coisa direto da tigela.
Avelyn assentiu com a cabeça, lamentando não ter tido ela mesma essa idéia. Era uma esposa pouco atenciosa.
- Runilda também deveria ter lhe perguntado se você se importaria de emprestar as tigelas - disse Diamanda, notando que Avelyn ficara pensativa.
- Claro, não há problema. - A mãe também havia mandado seis tigelas. Todas feitas sob encomenda com as iniciais dos nomes do marido e dela. Só que havia muito mais
do que seis pessoas no grupo. - Como os demais estão comendo?
- Os homens estão comendo coelho assado de novo. Tia Helen fez a sopa só para a família porque não havia tigelas suficientes para todos - Diamanda explicou.- Foi
Paen quem sugeriu que eu trouxesse um pouco para você para que não precisasse sair da tenda e continuasse a descansar. Você estava cansada demais hoje.
- Não dormi muito a noite passada - Avelyn respondeu vagamente.
- Será que você terá condições de viajar amanhã? Só pergunto porque Paen está preocupado que você adoeça e...
- Estarei bem. Aliás, estou bem. Apenas não dormi muito e por isso estava cansada. Mas hoje vou dormir mais cedo.
Diamanda parecia não acreditar muito em Avelyn, mas aquiesceu com a cabeça e, voltando o olhar para o tecido preto no colo de Avelyn, perguntou.
- O que você está costurando?
Avelyn olhou para o tecido e sorriu.
- Resolvi fazer uns calções e uma túnica para Paen. As roupas que ele está usando estão em péssimo estado. Foi por isso que estava cansada hoje. Ontem à noite, eu
estava com o estômago um pouco embrulhado e não conseguia dormir, daí comecei a costurar. Quando me dei conta, já havia amanhecido - ela explicou, levantando as
peças para mostrar. - Você acha que ele vai gostar?
- Nossa, Paen vai adorar - começou Diamanda, arregalando os olhos e tocando no tecido.
Avelyn sorriu satisfeita.
- Espero estar com as duas coisas prontas em mais uma ou duas noites.
- Não vá estragar sua vista de tanto trabalhar no escuro. Aliás, você precisaria ter uma outra vela aqui.
Avelyn olhou para a vela que repousava sobre a arca. Tinha uma vaga lembrança de ter visto Runilda entrar e acendê-la, mas não poderia precisar em que momento.
- Só uma basta - ela murmurou, agradecendo a preocupação da jovem.
- Bem, pelo menos coloque-a um pouco mais perto de você para não forçar tanto os olhos. - Diamanda tirou a vela da arca e a colocou no chão perto da cama. - Assim
está melhor. Bem - ela se levantou e sorriu para Avelyn -, agora eu vou tomar minha sopa. Quando terminar volto para pegar e lavar sua tigela. - Prontificou-se,
caminhando até a aba da tenda. - Espero que você tome toda a sopa.
Avelyn observou a garota sair da tenda, com um sorriso nos lábios. Diamanda era um encanto e era interessante como se esforçava para que fossem amigas. Os olhos
de Avelyn se detiveram na sopa e ela deu um suspiro. O cheiro estava ótimo, mas não tinha fome alguma depois de comer o que Runilda lhe trouxera. Só não queria ofender
a sogra ou melindrar Diamanda devolvendo a tigela cheia.
O olhar de Avelyn se moveu para a entrada da tenda que ficara entreaberta. Podia ver as pessoas reunidas em torno da fogueira no centro do acampamento. Colocando
a costura de lado, ela pegou a tigela e se pôs em pé. Paen nunca trocara uma palavra sobre higiene pessoal e, muito embora ele tivesse insistido para que ela pedisse
permissão antes de ir a qualquer lugar sozinha, isso certamente não incluía cuidar de suas necessidades fisiológicas, como encontrar uma moita adequada para essa
finalidade. Seria muito constrangedor ir procurá-lo para pedir que alguém a acompanhasse até a floresta.
Não, disse a si mesma, esse tipo de coisa não estava incluído naquela ordem. Além disso, aquilo que ele não soubesse, ao o magoaria, e ela saberia muito bem cuidar
de si, sem preocupá-lo.
Uma vez decidida, Avely pegou a tigela, saiu rapidamente da tenda e deu a volta por trás. Estava escuro longe da fogueira, e ela não tinha idéia do caminho que levaria
ao rio, uma vez que o marido não a levara até lá. Ainda assim, entrou no bosque, abrindo passagem entre os galhos das árvores até achar que estava a uma boa distância
da tenda. Parou e despejou no chão todo o conteúdo da tigela, sacudindo-a bem para que não sobrasse nem uma gota de sopa. Colocou a tigela vazia no chão e tratou
de suas necessidades pessoais.
Avelyn pegou os dois lados da barra da saia levantou-a até os quadris para se agachar. Assim que se agachou, porém, soltou surpresa um grito de dor e imediatamente
se levantou, esfregando a mão no traseiro. Acabara de se agachar sobre um arbusto de urtiga.
Meio assustada, ela deu vários passos adiante, tateando com cuidado para ter certeza de que se agacharia em um lugar mais seguro e, dessa vez, não houve incidente
algum.
Necessidades atendidas, ela começou a voltar para a tenda, parando ao se lembrar da tigela. Como a escuridão tomasse conta de tudo, Avelyn considerou retornar para
pegá-la na manhã seguinte, mas ficou com medo de não conseguir localizá-la mais. Além disso, Diamanda dissera que voltaria para buscá-la para lavar. Como explicaria
que a perdera? A garota perceberia que ela não havia tomado a sopa e ficaria magoada.
Dando um suspiro profundo, procurou volta para o lugar onde havia parado primeiro e se ajoelhou para tatear ao redor. Seus dedos logo tocaram na sopa. Resmungado,
ela enxugou a mão no capim e continuou a busca; mexeu na urtiga.
Não, aquela não era sua noite de sorte, pensou exasperada, esfregando com a mão boa os dedos machucados; tentou mais uma vez e, por sorte, encontrou a tigela, levantado-se
aliviada.
Ainda bem, disse a si mesma ao se aproximar da tenda, não havia sido tão difícil assim. Parando atrás da tenda, ela primeiro deu uma espiada par se certificar de
que ninguém estivesse olhando, depois deu a volta e entrou correndo, dando um suspiro de alívio.
Avelyn colocou a tigela no chão próxima a cama, pegou a costura e olhou aborrecida para a irritação nos dedos, examinando a mão enquanto se instalava na cama. No
entanto, quando se sentou, deu-se conta de que não eram somente os dedos que haviam tocado a planta.
Gemendo de dor, ela rapidamente ajoelhou-se e largou a costura, levantando a parte de trás da saia na tentativa de ver o estrago que a urtiga havia feito. É claro
que, por mais que tentasse e se virasse, não conseguiu ver coisa alguma. Ao passar, entretanto, a mão pela nádegas, pôde sentir os vergões na pele.
Avelyn abaixou a saia com um suspiro desanimado. Aparentemente o marido estava certo de não querer que ela andasse por ali sozinha. Suas nádegas ardiam, os dedos
de sua mão direita ardiam e ela devia ter se ajoelhado sobre a sopa, pois havia um pedaço de carne grudado na saia de seu vestido, na altura dos joelhos.
Colocou a carne na tigela, tirou a costura do caminho e se deitou de lado. Levou mais de uma hora para que as irritações da pele se acalmassem. Costurar naquela
noite, estava fora de questão.
Ela pensou que seria melhor assim. Estava de qualquer modo decidida a dormir um pouco. Lucraria mais com isso, disse a si mesma. Ainda assim, sentia-se deprimida
com a própria inabilidade. Era duro pensar que não conseguia nem mesmo cuidar de suas necessidades sozinha sem ter problemas.
- E então? - Paen perguntou, assim que Diamanda voltou da tenda.
- Ela está dormindo - explicou a jovem. - Fiquei em dúvida se deveria acordá-la...
- Não, fez bem e, não acordá-la - Paen concordou.
Ele havia pedido a Diamanda que convidasse Avelyn para se juntar a eles, se ela estivesse se sentindo melhor. Sacudiu a cabeça e empurrou com a ponta da bota um
pedaço de madeira para dentro da fogueira.
- Ela comeu alguma coisa? - Ele ouviu a mãe perguntar e viu Diamanda estender a tigela quase vazia.
- Comeu tudo, exceto esse pedacinho de carne.
- Acho que ela está mesmo só um pouco cansada por causa da viagem - a mãe ponderou.
- Ela dormiu na viagem o dia todo e ainda está dormindo - Paen contra-argumentou. - Acho que Avelyn está doente.
- Tenho certeza de que sua esposa está bem, Paen - insistiu lady Gerville.
A expressão da mãe não o enganava. Apesar disso, ele encerrou o assunto. Mas internamente, a história era outra. Ele sabia que a esposa era muito frágil e que teria
de tomar muito cuidado para que chegasse em casa sã e salva. Uma vez lá, sem as dificuldades da viagem, ela melhoraria.
Isso aconteceria em cerca de três dias. No fim do dia seguinte, chegariam a Hargrove. Depois disso, seriam mais dois dias de viagem. Na verdade, de Straughton a
Gerville eram somente dois dias de viagem, mas haviam desviado caminho para ir buscar o escudeiro. Ele havia sugerido aos pais que fossem direto para casa, levando
a maior parte dos homens. Ele e Avelyn ficariam então somente com alguns acompanhantes, mas a mãe não quis nem ouvir falar sobre isso. Ela queria estar por perto
para trocar suas ataduras e certificar-se de que ele não causaria ferimentos nas mãos.
Lançando um olhar à tenda, decidiu que Avelyn continuaria em seu cavalo no restante da viagem. Dessa maneira, ela poderia descansar e preservar o pouco de forças
que tinha.
O canto dos pássaros fez com que Avelyn endireitasse o corpo e olhasse pela entrada da tenda e visse o dia amanhecendo. Ela havia costurado a noite toda novamente.
Por causa de seu contato com a urtiga, conseguira tirar uma soneca.Fora o tempo suficiente para se sentir recuperada da irritação no traseiro. Depois de dormir o
dia inteiro, não sentia o menor cansaço. Pegara então a costura, dizendo a si mesma que só trabalharia um pouquinho e depois dormiria novamente. Não dormiu. A costura
progredia tão bem que acabara se esquecendo da hora.
Tinha certeza de que durante o dia se arrependeria de não ter dormido, mas naquele momento estava muito contente de ter terminado os calções e de ter adiantado bem
a túnica. Mais uma noite e acabaria a túnica também.
Contente por imaginar o prazer que o marido iria sentir ao receber o presente, Avelyn endireitou as costas. Estava dolorida e levantou-se devagar. Devia ter mudado
um pouco de posição; pagava agora o preço por ter ficado sentada horas e horas na mesma posição.
Dobrou a túnica inacabada e guardou os calções na arca, reafirmando que não tinha importância que o marido novamente a tivesse deixado sozinha na tenda. Não estava
muito convencida disso, porém. A vida de casada parecia-lhe muito mais solitária do que imaginara.
Dando um suspiro profundo, caminhou até a entrada da tenda para olhar para fora. Bastara se levantar para sentir novamente a urgência de urinar. Por sorte, não havia
movimento algum nos amontoados de homens em volta da fogueira. Ninguém dava sinal de estar acordando... o que lhe parecia bastante conveniente.
Seu olhar se voltou para o bosque ao redor e ela julgou avistar um lugar protegido do outro lado do acampamento. Provavelmente era o que levava ao rio, pensou, contemplando
uma vez mais os corpos adormecidos em volta do que havia sido uma fogueira.
Tivera dificuldade de se localizar na noite anterior por causa da escuridão, mas à luz do dia não teria problema. Ainda debatendo consigo mesma os prós e os contras
de ir sozinha, ela saiu da tenda e caminhou resoluta para o lado que julgou ser o caminho do rio. Andou por vários minutos até encontrar uma pequena clareira. Olhou
ao redor um pouco confusa. Não havia rio algum à vista, mas bem em frente a ela começava uma nova trilha. Embora indecisa, cruzou a clareira e começou a descer pela
nova trilha que se tornava mais estreita à medida que caminhava. Acabou concluindo que não levava a lugar algum.
Depois de uma pequena hesitação, Avelyn resolveu atender primeiro aos apelos da natureza e depois voltar pelo mesmo caminho. Caminhou até a pequena clareira e parou.
Deu-se conta de que havia duas trilhas à sua frente e não tinha certeza qual das duas a levara até ali. Achou que fosse a da direita, mas as duas ficavam muito próximas
e talvez fosse a da esquerda. Seguindo sua primeira intuição,ela seguiu pela da direita, dizendo a si mesma que se não fosse o caminho certo, retornaria e pegaria
o outro. Entretanto, ao procurar voltar, andou por um bom tempo antes de achar uma clareira, que lhe pareceu menos do que a de onde havia saído.
Julgando estar imaginando coisas, Avelyn pegou a trilha da esquerda e seguiu novamente em frente. Dez minutos mais tarde teve de admitir que estava perdida. E o
que era pior, como o sol já havia aparecido completamente, não tinha esperança alguma de que o marido ainda estivesse dormindo. Ele certamente já havia dado pela
falta dela.
Avelyn estava a ponto de se sentar e de chorar. Tivera uma boa quota de problemas ultimamente. Parecia o destino lhe avisando de que o casamento estava fadado a
não dar certo. Limpando as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, Avelyn respirou fundo e olhou ao redor da clareira onde se encontrava. Ela em nada se parecia com
as outras duas em que estivera antes. Escolheu então um caminho a esmo.
Havia andado uns quatro metros quando, ao virar uma curva, ela quase derrubou uma pessoa. O alívio de encontrar alguém que pudesse tirá-la do bosque durou apenas
o instante de descobrir quem era a pessoa que ela quase derrubara e o que ela estava fazendo. O homem que praguejava pela indesejada interrupção era seu sogro, lorde
Gerville... seria muito bom tê-lo encontrado não fosse pelo fato de ele estar ali pelo mesmo motivo de ela ter saído da tenda.
- Oh! - Avelyn exclamou, afastando-se rapidamente em respeito à privacidade do homem. Entretanto, pouco depois ela se deu conta de que ele era sua única esperança
de retornar ao acampamento antes que o dia acabasse. Indecisa sobre o que fazer, ela parou e esperou por ele.
- Desculpe se eu a assustei, querida - ele falou sem-graça. - Pensei que fosse a única pessoa acordada, senão teria me afastado mais do acampamento.
Como havia caminhado por mais de meia hora, Avelyn não conseguia imaginar quanto mais ele precisaria andar para se afastar do acampamento. Entretanto, não teceu
comentário algum, apenas sorriu para o sogro, torcendo para que a sombra das árvores escondesse todo o seu rubor e constrangimento diante da situação.
- Meu marido ainda não acordou? - ela perguntou esperançosa, acertando o passo com o de Wimarc.
- Ele ainda dormia quando saí do acampamento, mas... - o sogro parou de falar ao ouvir o som provocado por alguém andando rapidamente pelo bosque. Sacudindo a cabeça,
ele concluiu: - desconfio que é ele que está por aqui agora.
- Avelyn! - Paen apareceu bem em frente aos dois, parando de súbito a alguns passos deles ao vê-los. - Ah, você está aí! Fiquei com medo de que tivesse se perdido
no bosque. Eu não lhe disse que não andasse sozinha? Você poderia ter se perdido.
- Eu... - Avelyn ia se justificar, mas ele a agarrou pelo braço e retomou o caminho para o acampamento. Mal haviam dado uma dúzia de passos quando saíram da mata
e entraram na clareira.
- Eu não estava nada longe do acampamento - disse ela, espantando-se com os sons de conversa e da movimentação de pessoas, tão logo deixaram o bosque.
- Você estava perdida - Paen a acusou.
Avelyn torceu o nariz por impensadamente ter se traído. Precisava realmente pensar antes de falar.
- Talvez estivesse um pouco - admitiu -, mas encontrei seu pai e fiquei tranqüila. Além disso, não fui até o rio. Só precisei fazer... umas coisas. Coisas urgentes
que você não se preocupou de me ajudar ontem à noite quando chegamos.
- Você não me disse que precisava aliviar suas necessidades - Paen justificou-se, parecendo contrariado com o tom de voz dela - E você não poderia ter ido até o
rio simplesmente porque não estamos acampados perto de um rio hoje.
- Não? - Avelyn perguntou surpresa. - Então como vamos nos lavar?
- Não vamos nos lavar aqui; devemos chegar em Hargrove ao anoitecer e poderemos nos lavar lá.
- Ah... - Ela deu de ombros, pois não se importava de se sentir suada por causa da viagem, o que gostaria mesmo era de se banhar no rio. Além disso, depois dos incidentes
da noite anterior, seria mais seguro tomar banho em Hargrove.
Voltando-se, Avelyn começava a caminhar em direção à tenda, mas foi retida pela mão do marido em seu braço.
- Avelyn?
- Sim? - ela virou-se para encará-lo.
- Se você precisar fazer... usar o buraco... basta me pedir. - Paen tentou corrigir a situação. - Aliás, qualquer coisa que você precise, é só me pedir e eu farei
o possível de arrumar para você - ele continuou. - Você sabe, não dá para ler o que se passa na cabeça dos outros.
Ela piscou várias vezes antes de responder. Ele não podia ler sua mente. Claro que não podia, mas esperava que de alguma forma ele lembrasse que todos têm suas necessidades.
- Está bem, marido - disse num suspiro.
Aparentemente satisfeito, Paen virou as costas, hesitando por um momento em frente do pai.
- Vou dar uma volta no bosque.
Avelyn franziu as sobrancelhas ao ouvir o tom alto e um tanto tenso com que Paen disse essas palavras, às quais o sogro revidou no mesmo tom:
- Então vou com você, filho.
Perplexa, ela observou os dois se afastarem, depois balançou a cabeça e foi para a tenda para recolher as coisas. O marido queria partir assim que todos tivessem
tomado o desjejum. O trabalho também a ajudaria a espantar o sono. Começava a se sentir cansada e teria um longo dia pela frente. Precisaria conversar bastante com
Paen para que a viagem fosse menos maçante, e talvez assim, também conseguisse se manter acordada. Era o que faria.
- Milady!
Avelyn olhou e sorriu ao ver o menino moreno e delgado que cruzava o acampamento em sua direção. David de Hargrove, o novo escudeiro de Paen. Embora tivesse apenas
dez anos, era alto para sua idade e tinha um rosto de anjo.
Quando corria em sua direção, David tropeçou em uma pedra e caiu de rosto no chão. Avelyn precisou se controlar para não sair correndo e ver se ele estava bem. Paen
observava do outro lado do acampamento e sacudiu a cabeça ao ver a cena. Avelyn sabia que o marido não aprovaria se ela fosse ajudar o menino. Tinha aprendido a
lição no dia anterior quando chegaram a Hargrove para pegá-lo. David rolara da escada e caíra a seus pés. Ela se inclinara para ajudá-lo, mas Paen a puxara pelo
braço e fizera um movimento negativo com a cabeça.
Como da outra vez, David rapidamente se levantou e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Quando parou a sua frente, tinha um sorriso no rosto.
- Lorde Paen disse que senhora pode ir preparar a tenda para a noite, milady. Ela já está montada e as arcas e as peles já estão lá dentro.
- Obrigada, David - Avelyn murmurou, não conseguindo resistir ao sorriso do garoto.
Ele já estava bem próximo de Paen quando parou de súbito e correu de volta até ela que já se pusera em pé.
- Milorde também disse que vai levar a senhora até o rio para se banhar logo que ele terminar de... terminar... a coisa que está fazendo - o menino concluiu, sem
se lembrar direito qual havia sido a recomendação de seu senhor.
Mais uma vez Avelyn agradeceu e o garoto se afastou em direção a Paen.
Avelyn caminhou até a tenda, pensando nele. Era um menino alegre e solícito. Um tanto desajeitado, provavelmente por causa do nervosismo de quem ainda não está familiarizado
com a nova situação.
Dentro da tenda, não havia muito a fazer. Os homens haviam empilhado as peles, formando a cama no canto habitual, e, quando Avelyn entrou, Runilda acabava de forrar
a cama com lençóis, colocando uma outra pele por cima. Esse era quase todo o serviço a fazer, faltando apenas pôr a vela sobre a arca para que houvesse iluminação
quando anoitecesse.
Avelyn agradeceu a ajuda de Runilda e concordou quando ela lhe perguntou se poderia ajudar Sely. As duas estavam se tornando amigas. Assim que ficou sozinha, Avelyn
foi pegar na arca os calções e a túnica que estava fazendo para o marido. Não tinha idéia de quanto tempo Paen demoraria para chegar, mas, como já estava quase terminando
a roupa, não resistiu à tentação de trabalhar nela por apenas alguns minutos que fosse. Antes, porém, resolveu verificar se as costuras dos calções haviam ficado
perfeitas.
Ela poderia ter terminado a túnica na noite anterior, mas foi pega de surpresa com a chegada do marido que fora se deitar com ela em Hargrove. Na realidade, talvez
não tivesse acabado mesmo porque lutava contra o sono quando o marido entrou no quarto.
Eles haviam chegado a Hargrove um pouco antes do anoitecer e foram muito bem recebidos por lorde e lady Hargrove. Enquanto os quartos e banhos eram preparados, foi-lhes
servia uma refeição leve. Assim que terminaram de comer, Avelyn deu um jeito de escapar para o quarto e entrar no banho.
Nunca havia gostado tanto de um banho na vida. Ficara mergulhada na água perfumada por mais tempo do que o habitual, abençoando poder se livrar do suor e da canseira
de dois dias de viagem. Depois, procurara secar o cabelo perto da lareira, instalando-se confortavelmente na cama com sua costura. Algumas vezes, ela chegara a cabecear
em cima do trabalho, esfregando os olhos para afastar o sono. Foi quase um alívio quando Paen entrou no quarto com o escudeiro um pouco mais tarde.
O menino sorrira para ela, mas Paen apenas balbuciara algum tipo de cumprimento e fora direto para a tina.
Avelyn ficou olhando para o musculoso dorso nu do marido até ele se enfiar na água. Recuperando-se finalmente daquela visão, embrulhou a costura e a colocou debaixo
da cama. Não queria que Paen a visse ao sair do banho. Ela se deitou e se cobriu, com a intenção de fingir que estava dormindo quando Paen saísse do banho e deixasse
o quarto. Depois voltaria a trabalhar na túnica. Entretanto, mal fechara os olhos, acabara vencida pelo sono.
Ao acordar, vira Paen a seu lado na cama. Ele não havia ido dormir com seus homens, como ela imaginara. Passara a noite a apenas uns centímetros dela.
Avelyn pensou na túnica. Se o marido não tivesse ido se banhar no quarto e ela não tivesse dormido, a túnica estaria pronta e poderia presenteá-lo pela manhã. Em
vez disso, ela tivera sua primeira noite completa de sono desde o início da viagem.
Paciência que a túnica ainda não estava pronta. À noite, em uma ou duas horas, terminaria de costurá-la. Assim, depois que presenteasse o marido, ele chegaria em
casa do jeito que o filho de um lorde deveria chegar, e não como um maltrapilho.
- Avelyn! - Diamanda entrou apressada na tenda e parou de repente ao vê-la costurando.
- O que foi, Diamanda? - Avelyn perguntou, mas a garota ficou olhando espantada para a túnica.
- Nossa, você quase acabou de costurar a túnica - comentou, surpresa, e se aproximou para olhar melhor. - Está linda. Você costura muito bem. Nunca consegui costurar
numa linha reta assim. Mas aqui está muito escuro para se fazer um trabalho tão delicado.
Avelyn levantou a cabeça e ficou surpresa de ver que, enquanto costurava, o dia havia terminado. Embora ainda houvesse um pouco de luz do lado de fora.
- Deus, assim você vai estragar seus olhos - Diamanda a censurou e foi pegar a vela que estava sobre a arca, colocando-a no chão próxima à pilha de peles.
Avelyn estranhou que a vela estivesse acesa. Runilda provavelmente entrara e acendera, sem que ela tivesse notado. Uma vez mais, disse a si mesma que era muito afortunada
de ter uma criada como Runilda. Ela não fazia somente o que era esperado, mas também pequenas coisas, como aquelas, que a tornavam indispensável.
- Pronto, assim está melhor - disse Diamanda, com um sorriso de satisfação. - Pelo menos não precisamos nos preocupar que você acabe cega - concluiu, dando um tapinha
afetuoso no ombro de Avelyn, e saiu novamente.
Avelyn ficou olhando a jovem sair, ponderando que ela ficara tão preocupada com seus olhos que se esqueceu de perguntar ou de dizer a razão de sua ida até lá. Sacudindo
a cabeça, concentrou-se novamente na costura, curiosa sobre o que teria sido.
Não teve muito tempo para pensar a respeito, porém, um momento depois, foi a vez de um exasperado Paen aparecer, resmungando sobre meninas estúpidas com miolos da
galinha. Ela rapidamente escondeu a túnica atrás de si, esboçando um sorriso inquiridor para o marido.
- Diamanda devia ter lhe dito que, se você quiser, eu posso levá-la até o rio agora - ele se prontificou, franzindo o cenho ao ver a vela no chão tão próxima das
peles. - No lugar em que está, essa vela pode provocar um incêndio.
Avelyn pensou em dizer que fora Diamanda quem a colocara ali, como não era dada a mexericos, preferiu calar. Além do mais, podia ter advertido a garota, e não o
fizera.
- Apague a vela, pegue o que você precisar e vamos - disse Paen, não tocando mais no assunto.
Soltando um suspiro de alívio, Avelyn soprou a vela, levantou-se e seguiu o marido.
- Não consigo ouvir nada - ao dizer essas palavras, Paen começou a se virar.
- Porque eu não disse nada; não sei o que dizer - foi a resposta imediata de Avelyn.
Paen desistiu de se virar e relaxou um pouco. Era a primeira vez que a levava para tomar banho em um rio desde que ela quase se afogara. Logo que haviam chegado
ali, ele se recusara a ficar de costas. Alegando que queria evitar um novo acidente como aquele. Entretanto, Avelyn sacudira os ombros e dissera que poderia ficar
sem o banho aquela noite. Paen então cedera. A esposa ainda era tímida, e ele não queria negar-lhe a oportunidade de se banhar depois do longo dia no lombo do cavalo.
Concordara em ficar de costas desde que ela conversasse com ele a fim de ter certeza de que tudo estava bem. No início, Avelyn ficou apenas comentando o que estava
fazendo:
- Ainda não entrei na água... estou me despindo... - avisara assim que ele lhe dera as costas. - Você quer que eu só lhe diga quando eu entrar, ou...?
- Quero - Paen foi rápido na resposta, preferindo que Avelyn não lhe contasse cada peça de roupa que estivesse tirando. Sua imaginação já o torturava com inúmeras
imagens. A espora era desajeitada, suscetível a acidentes, frágil e, aparentemente, não muito cordial, mas era também um poço de sensualidade. As cavalgadas com
ela sentada o dia todo a sua frente eram um tormento. Horas e horas na sela com as nádegas macias pressionado sua virilha, o lado externo das coxas dela contra o
lado interno de sua coxas, os seios arredondados roçando em seu braço.
Ele havia passado uma boa parte dos últimos três dias tentando se controlar para não roçar naqueles seios tentadores. Mas, se por um lado resistia para não fazê-lo,
por outro, passava horas imaginando isso e muito mais. Quando Avelyn segurava as rédeas, ele tinha pouco o que fazer e ficava fantasiando que suas mãos estavam boas
e se ocupavam de desabotoar os botões do vestido, de abaixá-lo dos ombros, fazendo com que os seios nuns saltassem para fora. Suas mãos ansiosas logo tratavam de
acariciá-los e apertá-los, brincando com os mamilos rosados. Em sua fantasia, enquanto fazia isso, ele beijava e mordiscava a nunca delicada. Avelyn murmurava sons
quase inaudíveis que o excitavam e eram música para seus ouvidos. Quando sua mãe descia ao abdome arredondado e depois deslizava entre as pernas bem torneadas, era
tal seu estado de excitação que, mesmo montada no cavalo, Avelyn se virava de frente para ele e fazia-o livrar-se dos calções, enquanto ela se encaixava em sua rigidez
masculina numa cavalgada de êxtase.
Naturalmente, seu cavalo não aceitaria tal façanha, e sem dúvida, acabaria empinando e atirando os dois ao chão. Suas mãos também ainda estavam enfaixadas, e nada
daquilo de qualquer maneira poderia se feito... o que ele lamentava profundamente.
O incêndio não havia somente ferido suas mãos e destruído suas roupas, roubara sua noite de núpcias... e todas as noites desde então.
Suas partes íntimas, no entanto, mostravam-se interessada sempre que Avelyn estava por perto. De nada estava adiantando evitar se aproximar dela e dormir junto à
fogueira com os homens.
Se fosse possível, Paen preferiria que ela montasse seu próprio cavalo durante o dia, mas cabia a ele treiná-la naquilo que não soubesse, e aparentemente Avelyn
precisava de aulas de equitação. Embora demonstrasse um talento natural para essa atividade, sua jovem esposa alegava que não tinha confiança em si mesma para cavalgar
sozinha, e, por essa razão, ele teria levá-la em sua montaria até que se sentisse segura.
A experiência lhe mostrara que Avelyn era muito sujeita a acidentes, por isso era melhor não correr risco algum.
- O que você quer que eu lhe diga? - Avelyn perguntou, tirando o marido de suas reflexões.
-Qualquer coisa, desde que você fale - Paen sugeriu primeiro; curioso, porém, depois acrescentou: - Me conte como foi crescer em Straughton. - Era uma boa oportunidade
de saber um pouco mais sobre a esposa.
- Bem...
Avelyn disparou a falar e logo Paen concluiu que deveria ter sido mais específico e objetivo em sua pergunta. Ela parecia gostar do som da própria voz. Embora estivesse
exausta, havia falado sem parar no dia anterior, o último dia de viagem até Hargrove; naquele dia, o primeiro dos dois dias de viagem até sua casa, falaram muito
também. Não que importasse, pois acabara sabendo bastante sobre sua infância e família. Já tinha um quadro quase completo.
Provavelmente mais completo do que ela imaginava, Paen pensou. Avelyn não dissera uma palavra contra os primos, nem como haviam infernizado sua vida desde que chegaram
a Straughton. Tudo o que comentaram era que tivera uma infância perfeita, pais amorosos, um irmão carinhoso e um lar seguro. Nem uma palavra sobre os primos. E,
no entanto, ele testemunhara a maneira como a tratavam. Imediatamente percebera que eram invejosos e cruéis e não tivera a mínima paciência com eles. Podia até entender
que se ressentissem de terem sido roubados do pai, da casa e da herança, mas era mesquinho descontar em Avelyn que, afinal, era a filha do homem que lhes dera abrigo.
A recusa de sua jovem esposa em não acusá-los era louvável, mas a deixara vulnerável aos ataques verbais, comprometendo sua auto-estima.
Quando Avelyn terminou de se banhar e já se vestia a salvo fora da água, Paen chegava à conclusão de que precisaria ensinar a ela o próprio valor. Estava também
seguro de que não havia se casado com a mulher frágil e inábil que pensara. Pais amorosos e cuidadosos, como os dela pareciam ser, não soltariam a filha no mundo
sem as habilidades necessárias para ter sucesso na vida.
Paen estava desconfiado de que a aparente inabilidade de Avelyn era tão somente o resultado de sua baixa estima e um certo constrangimento diante dele.
Com o tempo, Paen tinha certeza de que teria a esposa perfeita.
- Estou pronta, marido.
Paen fitou-a e sentiu um sorriso brincar em seus lábios. Ela usava outro vestido bem pouco atraente, muito largo e escuro. Os cabelos estavam molhados e puxados
para trás. Ainda assim, sua beleza ressaltava. De seus grandes olhos, transpareciam a bondade o bom humor, e um sorriso iluminava seu rosto.
Seus pais não poderiam ter escolhido melhor. Paen estava feliz com a escolha. Ele pressentia que algum dia chegaria até a ter afeto por ela. Era bom gosta da esposa,
a convivência ficava mais fácil.
Paen deu-se conta de que ficara ali parado sorrindo feito um idiota e tratou de tirar o sorriso do rosto, fazendo um gesto para que Avelyn passasse à sua frente
na trilha que levava ao acampamento. Enquanto caminhavam, ele considerava maneiras de elevar a estima da esposa. Se ela fosse um cavalo, lhe daria uma maçã de vez
em quando; se fosse um escudeiro, lhe daria um caloroso tapa nas costas e diria "serviço bem-feito".
Mas sendo sua esposa, decididamente não sabia como reforçar-lhe a auto-estima.
- Ah, não!!
O grito assustado de Avelyn fez com que Paen percebesse que já havia chegado ao acampamento. Ele ia perguntar o que a aborrecia, mas no mesmo instante ela não estava
mais a seu lado. Corria em direção à tenda. Paen a seguiu, e precisou dar mais alguns passos para entender que havia fogo na tenda.
Praguejando ele se pôs a correr atrás de Avelyn que procurava abrir caminho entre o grupo.
- Avelyn! - Tentou agarrar o braço dela para fazê-la parar quando ela se abaixou para entrar na tenda, só lembrando das mãos enfaixadas quando não conseguiu detê-la.
Blasfemando, se abaixou e entrou junto com Avelyn.
- Está tudo bem - disse lady Gerville, que entrara antes para ver os estragos. - Ninguém se feriu e isso é o mais importante.
- Isso mesmo - o pai concordou, postando-se imediatamente ao lado do filho.
A julgar pelo choro desolado de Avelyn ao olhar para os restos queimados das peles, Paen pareceu não concordar com a mãe.
- O que aconteceu? - ele perguntou, em tom seco.
- Parece que as peles pegaram fogo por causa de uma vela - o pai comentou, meio relutante.
Paen imediatamente fuzilou a esposa com os olhos.
- Eu avisei para você que a vela estava muito perto das peles e recomendei que a apagasse antes de sair.
- Eu apaguei - ela choramingou. - Juro que assoprei a vela...
- É óbvio que não - ele rebateu. - Como você estava com pressa, deve ter dado só uma assopradela e saiu, sem se certificar de que estivesse apagada.
Avelyn abaixou a cabeça, dando-se por derrotada.
- Acho que você tem razão. Deve ter acontecido isso mesmo. Tudo por minha culpa.
Paen se comoveu com a reação da esposa; as lágrimas escorriam por seu rosto, não restava dúvida de que ela estava de coração partido. Não dava para ser mais duro,
ela já estava visivelmente abatida.
Soltando um suspiro profundo, aproximou-se um pouco mais e disse:
- Bem, era apenas um monte de peles. Ninguém se feriu e não se perdeu nada muito importante.
- Nada muito importante - repetiu Avelyn como um eco e, para espanto de Paen, ela caiu de joelhos num pranto compulsivo.
Foi um alívio quando lady Gerville pediu que ele e o pai saíssem da tenda, assegurando que ela cuidaria de Avelyn. Paen não tinha a menor idéia de como poderia consolá-la,
não podia entender a razão de tanto apego à cama de peles. A arca da esposa estava do lado oposto da tenda e não foi nem um pouco afetada pelo fogo. Por sorte o
incêndio fora contido a tempo, limitando-se à cama. A própria tenda não havia sofrido estrago algum.
Sim, ela devia ter ficado aborrecida por causa das peles. Paen decidiu que compraria varies para ela quando chegassem ao castelo de Gerville. Iria colocá-las em
frente à lareira para que Avelyn pudesse sei deitar quando quisesse. Melhor, se deitaria com ela. A idéia era bastante sedutora, relaxar em frente ao fogo crepitante
em uma noite fria de inverno, bebendo vinho.
Não, vinho não, resolveu. Avelyn poderia deixar respingar no vestido e se sentiria uma desastrada aos olhos dele, o que afetaria sua auto-estima. A menos que ela
ficasse nua primeiro e depois ele lhe oferecesse o vinho. Boa idéia, concluiu, sorrindo diante da imagem. Avelyn nua, com uma taça de vinho na mão. Não haveria qualquer
problema mesmo que ela respingasse o vinho. Ele simplesmente se inclinaria e lamberia os respingos. Nada mal. Lamber o vinho em volta daqueles seios fartos, deixar
que sua língua brincasse com os mamilos até ficarem enrijecidos...
- Por que cargas d'água você está sorrindo? Sua mulher pôs fogo na cama! - censurou-o pai.
- Eu sei. - Paen conteve o sorriso, forçando uma expressão compenetrada.
- Sinto muito, filho. Avelyn é uma boa moça, mas não podíamos imaginar que fosse esse desastre.
- Não precisa se desculpar pai. Estou muito contente com minha esposa.
- O quê? - Wimarc olhou para o filho incrédulo. - Será que ela lhe deu uma paulada na cabeça enquanto vocês dois estavam no rio?
- Claro que não! - Paen achou graça do comentário.
- Não é possível, alguma coisa deve ter acontecido. Desde que você a viu só reclamou e se preocupou de ter se casado com uma mulher frágil e inábil, e no momento
em que ela transforma uma cama em um monte de cinzas, você diz que está contente com sua esposa?
Paen preferiu não debater mais a questão com o pai. Em vez disso, chamou seu escudeiro e foi para o rio se banhar e considerar maneiras de melhorar a auto-estima
de Avelyn.
- Avelyn, querida, por favor não fique assim. - Lady Gerville ajoelhou-se ao lado da nora e a abraçou.
Avelyn tentou parar de chorar, mas não conseguiu. Encostou a cabeça no peito da sogra e soluçou toda a sua tristeza. Tudo dera errado desde o casamento, absolutamente
tudo, e aquela era a última gota.
Ela contava com a túnica e os calções para desfazer a má impressão que o marido tinha dela. Tinha certeza de que quando o presenteasse com aquela vestimenta, ele
veria com bons olhos pelo menos uma de suas habilidades e que não era a pessoa cansada e doentia que ele imaginava. Teria a oportunidade de explicar que estava exausta
porque estivera trabalhando nas roupas para ele durantes todas as noites. Além do mais, estava triste por ter trabalhado duro e todo seu trabalho ser perdido por
um momento de desatenção. Contudo, lembrava-se de ter apagado a vela. Vira até a fumacinha que ficara.
- Avelyn, querida - disse lady Gerville quase gemendo -, certamente não é pelas peles que você chora. Peles são substituíveis.
Avelyn balançou a cabeça. O choro havia se acalmado, mas ela ainda não estava em condições de falar.
- Por que é então, minha filha? Você receia fazer papel de desastrada perante Paen?
Ela novamente irrompeu em soluços ao pensar nisso.
Lady Gerville desistiu de tentar acalmá-la por um momento e simplesmente a embalou nos braços como uma criança. Quando Avelyn finalmente parou de chorar e se soltou
dos braços da sogra, endireitando o corpo, lady Gerville tomou-lhe uma das mãos e ficou aguardando que a nora falasse.
- Você acha que pode me contar agora? - perguntou depois de um momento.
Ela aquiesceu com a cabeça, com o ar abatido, mas ficou apenas contemplando as cinzas do que fora uma cama.
- Quer primeiro beber alguma coisa? - lady Gerville ofereceu. - Posso chamar Runilda e pedir que vá buscar um cálice de licor.
Avelyn sacudiu a cabeça em negativa.
Mais alguns minutos de silêncio e lady Gerville se preparava para falar quando Avelyn desabafou:
- Eu estava costurando calções e túnica novos para Paen.
Lady Gerville suspirou e deu um tapinha na mão de Avelyn.
- Eu sabia, querida - ela disse e explicou: - Eu estava muito preocupada por vê-la tão cansada e Sely comentou isso com sua criada. Runilda então disse a ela que
eu não me preocupasse, pois você estava bem e passava as noites costurando roupas para Paen que logo estariam prontas.
- E estavam - Avelyn confirmou e, para seu constrangimento, começou a chorar novamente.
- Estavam? - lady Gerville perguntou, com um ligeiro tremor na voz.
Avelyn assentiu com a cabeça.
- Eu estava terminando de costurá-las quando Paen veio me buscar para ir ao rio. Eu as escondi nas peles, soprei a vela, peguei uma muda de roupa e sai correndo
atrás dele. Pensei que tivesse apagado a vela, mas não me lembro direito...
- Isso quer dizer que elas também se foram com o fogo? - lady Gerville perguntou horrorizada.
Avelyn concordou com a cabeça.
- Ah, querida! - Lady Gerville a tomou nos braços novamente, mas dessa vez Avely só deixou escapar um soluço; não tinha mais lágrimas para chorar.
Ambas se mantiveram caladas por um bom tempo. Lady Gerville estava tão consternada que não sabia o que dizer para amenizar a situação. De quando em quando, a única
palavra que lhe escapava da boca era "coitadinha". Avelyn compreendia. Qualquer coisa que a sogra dissesse não a faria sentir-se melhor. Estava exausta, deprimida
e acabada. Tudo que desejava era dormir.
Uma movimentação junto à entrada da tenda fez com que ambas se voltassem. Sely entrava carregando algumas peles.
- Lorde Gerville me pediu que trouxesse essas peles - ela explicou, olhando para trás e dando passagem para Runilda que entrou seguida por quatro homens.
- Lorde Gerville mandou os homens para recolher as peles queimadas - ela murmurou.
Avelyn sabia que, enquanto Sely se referia ao sogro como Lorde Gerville, para Runilda, lorde Gerville, era Paen, e, por alguma razão inexplicável, ela soltou uma
gargalhada quase histérica.
Lady Gerville a olhou preocupada e disse com firmeza:
- Venha, querida, vamos sair do caminho para que eles possam limpar o que for preciso.
Avelyn permitiu que a sogra a ajudasse a se levantar e ambas se encaminharam para o outro lado da tenda. Assim que os homens terminaram a limpeza, Runilda foi pegar
alguns lençóis que a mãe de Avelyn havia posto na arca. Ela e Sely então empilharam as peles em formato de cama e depois ajeitaram os lençóis.
- Já está tudo pronto! - lady Gerville puxou Avelyn de volta para perto da cama e sugeriu: -- Por que você não descansa um pouco, querida? Eu peço que Runilda venha
buscá-la quando a comida estiver pronta.
- Não quero comer - Avelyn disse, consentido em ser colocada na cama. Percebeu os olhares preocupados que as mulheres trocaram, mas não teve forças nem para se incomodar
com aquilo.
- Por enquanto então descanse, querida - lady Gerville disse por fim. - Você se sentirá bem melhor depois de dormir.
Avelyn fechou os olhos e dormiu no mesmo instante.
Capítulo VI
Paen tinha acabado de entrar no salão, após ter ido supervisionar o treino dos cavalos. Instalou-se então à mesa para tomar uma bebida e sentiu-se tenso ao ouvir
passos na escadaria, só relaxando quando viu que era a mãe quem descia. Por um breve instante, ele receou que fosse a esposa. Não estava disposto a encarar o rosto
triste de Avelyn naquele momento.
- Paen! - A mãe desceu um pouco mais depressa ao vê-lo. - Ótimo que você está aí. Estava querendo falar com você. Onde anda seu pai?
- Ele estava nos estábulos. Já deve estar chegando. - Paen respondeu, arqueando a sobrancelha ao perguntar: - E minha esposa, onde está?
- Ela está lá em cima costurando.
- É o que eu imaginava - ele retrucou, áspero.
Tudo que a esposa sabia fazer era costurar, embora ele ainda não tivesse visto qualquer resultado desse trabalho. Imaginava que ela estivesse costurando um vestido
novo. Os poucos que trouxera eram escuros e muito grandes para ela. Gostaria que Avelyn estivesse fazendo alguma coisa mais colorida e de talhe mais adequado. A
verdade é que ela estava demorando demais para fazer apenas um vestido.
Durante a viagem, as poucas vezes que entrara na tenda para ver como Avelyn passava, ela estava costurando. Agora já estavam em Gerville havia três dias e costurar
era tudo o que ela fazia, além de dormir e chorar. Aliás, às vezes chorava mesmo dormindo.
Desde a noite do incêndio, Avelyn se mostrava muito infeliz. Alguns dias antes, principalmente durante a viagem para ir buscar o escudeiro, ela conversava sem parar
e parecia mais sorridente. Paen sentia falta de sua tagarelice, mas, pior do que o silêncio, era vê-la tão angustiada e abatida. Especialmente por não saber o que
fazer para tirá-la daquele estado. Imaginava que ela estivesse sentindo falta da família, algo que com o tempo ela superaria, mas a tristeza não estava passando,
e a cada dia estava mais melancólica.
- Você não precisa ficar tão ofendido, porque afinal é para você que ela está costurando uns calções novos. De novo! - lady Straughton acrescentou, irritada.
As portas do salão se abriram e Wimarc de Gerville entrou a tempo de ouvir o comentário da esposa.
- Calções para mim? - Paen perguntou, espantado. - Como assim? É ela quem precisa de roupas novas, não eu.
- Pois é - lorde Gerville aparteou, aproximando-se da mesa. - Avelyn não tem um único vestido que lhe fique bem, e todos são escuros e largos. - Ele fez uma pausa
para beijar a esposa no rosto, e depois sentou-se no banco ao lado de Paen. - Acho que o azul que esgarçou no casamento e o vermelho que queimou no incêndio eram
os únicos vestidos coloridos de sua esposa.
Lady Gerville dirigiu um olhar contrariado para o marido e depois olhou para Paen.
- Sua mulher ficou noites acordadas durante nossa viagem para costurar roupas novas que repusessem as que você perdeu no incêndio. Foi por isso que ficava sempre
na tenda à noite e parecia exausta durante o dia. Fazendo roupas para você.
Paen ficou boquiaberto com a noticia, mas foi o pai que primeiro se manifestou:
- Ora, ela costura então bem devagar se ainda não terminou.
- Wimarc! - Lady Gerville dirigiu um olhar de censura ao marido. - A roupa estava quase pronta e acabou queimada a tenda Ela ficou arrasada, mas reagiu e começou
a fazer novas peças quando chegamos aqui. Acho que já tem um novo conjunto quase pronto.
- Hum... então é por isso que ela tem estado tão infeliz? Por causa de umas peças de roupas? - indagou o pai de Paen, com um certo desdém.
- Acho que em parte é por isso, mas ela também deve estar sentindo falta da família. - Lady Gerville voltou-se para Paen e acrescentou: - E você não está fazendo
nada para ajudar.
- Eu? - Paen surpreendeu-se, arregalando os olhos. - O que eu poderia fazer? Não fiz nada para deixá-la infeliz.
- Também ainda não fez nada para evitar que ficasse. - ela argumentou. - Você presta menos atenção a Avelyn do que aos cachorros. Pelo menos para eles você atira
um osso de vez em quando.
Paen franziu a sobrancelha.
- Não dá para eu prestar atenção a ela, ou a senhora se esqueceu de que minhas mãos estão enfaixadas?
- Não é de cama que estou falando - ela argumentou, exasperada. - Você não tem trocado uma palavra sequer com ela.
- Falar com ela? - ele perguntou, abismado.
- Será que você tem estado cego nesses anos todos? Ou é porque passou tanto tempo fora nas Cruzadas que se esqueceu de que seu pai conversa comigo o tempo todo?
- Não foi isso que eu quis dizer - Paen replicou, irritado. - Eu quis dizer que ela... Bem, era ela que...
- Paen quis dizer que Avelyn não deu chance de ele dizer uma palavra no caminho até aqui - o pai esclareceu, achando graça. - Pelo menos, quando estavam a cavalo.
- Bem, acho que foi uma tentativa de se manter acordada - disse lady Gerville.
- Observei mesmo que minha nora gosta muito de dormir - Wimarc comentou, irônico. - Conseguiu dormir até no lombo do cavalo quando deveria estar aprendendo a cavalgar.
- Isso aconteceu somente um dia - defendeu-a a sogra. - Apenas porque ela havia ficado a noite toda acordada, costurando. - Fez uma súbita pausa, depois confidenciou:
- Eu prometi que não lhe contaria nada, mas sei que Avelyn está aborrecida porque você não a considera habilidosa. Então resolvi contar para que você entenda que
ela não é.
Paen e o pai se entreolharam. Foi Wimarc quem perguntou: - Não é?
- Não - lady Gerville afirmou categórica.
- Minha queria, sei que você gosta dela, mas Avelyn não sabe nem montar a cavalo - Wimarc afirmou.
- Sabe, sim.
- Minha mãe tem razão - Paen concordou. - Avelyn provavelmente não soubesse montar quando deixamos Straughton, mas ela tem uma inclinação natural para a coisa e
já estava cavalgando muito bem ao chegarmos aqui. Poderia ter montado seu próprio cavalo a partir de Hargrove, mas ela se mostrou insegura, por isso deixei que ficasse
no meu.
- Você não está entendendo - rebateu lady Gerville. - Ela sempre soube montar, mesmo antes de deixar Straughton.
- Não seja ridícula, Christina - contestou lorde Gerville, cético. - Por que ela mentiria sobre uma coisa como essa e nos deixaria pensar que é uma incompetente?
- Para poupar as mãos de Paen.
- O quê? - Paen surpreendeu-se.
- Você insistia em viajar a cavalo. Avelyn receava que você machucasse as mãos ainda mais, por isso preferiu deixar que você pensasse que ela não sabia cavalgar
para poder segurar as rédeas enquanto você a "treinava".
Lorde Gerville debochou da explicação.
- E no segundo dia ela dormiu o dia todo, ah!
- Porque passou a noite acordada costurando - lembrou-o lady Gerville. - Mas ela também costurou nas demais noites e, apesar de cansada, nos outros dias ficou acordada.
- Então você está sugerindo que Avelyn foi preparada para ser uma boa esposa?
- Estou. Lady Straughton me deu uma lista das habilidades da filha no dia da comemoração do casamento. Ela provavelmente teve melhor preparo do que a maioria das
moças da idade.
- Para administrar um castelo? Cuidar de feridos e doentes? Orientar a criadagem? - ele indagou, recusando-se a acreditar.
- Sim, e até mais que isso.
- Então por que ela não cuidou das mãos de Paen? É você que está o tempo todo examinando e trocando as ataduras.
Lady Gerville ficou sem graça.
- Já me desculpei com Avelyn por isso, mas... Paen é meu filho...
- E esta casa é sua - lorde Gerville disse tom compreensivo.
A mãe de Paen enrijeceu o corpo.
- O que você quer dizer com isso?
- Você disse que acredita que ela se sinta triste porque Paen a julga despreparada e também porque sente falta da casa e da família.
- Disse.
- Talvez seja mais do que isso...
- Como assim?
- Ela não deixou apenas a casa e a família, Christina. Ela veio morar na nossa casa. Se Avelyn é tão habilidosa como você diz, ela foi preparada para ser uma boa
esposa e administrar sua própria casa - ele salientou. - Mas esta é nossa casa, você é quem a administra. Está tudo sob o seu controle e Avelyn não tem nada para
fazer. Não tem como se sentir em casa; ela é como um hóspede aqui.
Lady Gerville caminhou até o banco e caiu sentada entre o marido e o filho.
- Não havia pensado nisso.
- Sei que não - murmurou lorde Gerville em tom carinho. Ele ficou em silêncio por um minuto e depois comentou: - Quando chegamos, tive a notícia de que o velho Legere
morreu.
- Você me contou.
- Ele cuidou por anos a fio do castelo de Rumsfeild - lorde Gerville se referia à moradia de lady Christina quando criança. As terras das duas famílias haviam sido
juntadas quando eles se casaram, mas sempre moraram em Gerville.
- Sim, por vários anos. - Lady Gerville estava meio irritada, julgando que o marido estivesse querendo mudar de assunto.
- Eu estava pensando quem poderia substituir Legere...
Paen enrijeceu o corpo, entendendo perfeitamente aonde o pai queria chega. A mãe também parecia ter entendido e demonstrava não estar gostando do rumo da conversa.
- Wimarc... - começou a dizer, mas o marido não lhe deu chance.
- Talvez Paen e Avelyn devessem ir pra lá.
- Mas...
- Isso daria a eles a chance de se conhecerem melhor, sem a nossa interferência - ele prosseguiu, ignorando os protestos da esposa. - E Avelyn teria uma casa para
administrar, um lugar em que não se sentiria como hóspede.
- Oh... - lady Gerville suspirou, sentindo-se derrotada.
- Você está bem, querida?
- Hum? - Avely olhou para lady Helen sem, no entanto, enxergá-la.
Estavam todos à mesma, jantando. Ela estava entre lady Gerville e lady Helen. Paen, como de costume, não estava presente. Pouco antes, o vira conversando com o pai,
mas saíra em seguida. Avelyn tinha a nítida impressão que ele a evitava, pois sequer se sentava à mesa para comer. Tampouco sabia onde ele estava dormindo, só sabia
que não era em seu quarto.
- Por que suspira tanto, minha filha - lady Helen perguntou, carinhosa. - Você se sente infeliz?
Avelyn forçou um sorriso. Lady Helen era uma mulher tão bondosa quanto a mãe de Paen. Todas estavam sendo maravilhosas com ela desde sua chegada a Gerville; eram
boas e atenciosas e procuram lhe fazer companhia o tempo todo, para que não notasse a ausência do próprio marido. Avelyn tornou a suspirar e, ao se dar conta, balançou
a cabeça, impaciente consigo mesma.
- Queira me desculpar, milady.
- Você não tem do que se desculpar, Avelyn - aparteou lady Gerville, entrando na conversa.
Avelyn fez uma expressão de dúvida ao ouvir a palavra culpa. - Mas devo-lhes desculpas por Paen nunca jantar conosco à mesa, e isso parece que é culpa minha.
- Por que diz isso? - A sogra surpreendeu-se.
Avelyn engoliu em seco e argumentou:
- Seu filho não parece satisfeito comigo. Desde que chegamos, ele tem me evitado o tempo todo. E nem dorme mais no próprio quarto.
- Oh, Avelyn! - Lady Gerville a fitou, com pena - E você acha que é por sua causa?
- Por que mais poderia ser? - Avelyn perguntou, encolhendo os ombros. - Comentei com Diamanda e soube que, antes de eu chegar, ele sempre havia dormido no quarto
e fazia suas refeições à mesa. Ela me disse, também, que não achava que fosse por minha causa, mas não encontrou qualquer outra explicação.
- Porque ela não sabe... - lady Gerville fez uma pausa e mordeu o lábio.
Avelyn ia perguntar o que Diamanda não sabia, mas antes que o fizesse, a sogra balançou a cabeça aborrecida.
- Tantos segredos... não conte a ele isso, não conte a ela aquilo.. - lady Gerville disse, exasperada. - Eu devia ter imaginado que ele não lhe explicaria. Meu filho
é igualzinho ao pai nesse sentido. - Após uma pequena pausa, ela continuou: - Bem, deixe-me aliviar um pouco esse seu coração sentido, filha. Saiba que levei anos
depois de casada para que Wimarc compreendesse. Se não souber ou não entender alguma coisa, você deve perguntar. Não receie parecer tola ou ignorante, porque tolo
é quem não pergunta e tira conclusões erradas. - Parou novamente para beber um gole de vinho e disse: - Vá agora até lá em cima e entre, sem bater à porta, no quarto
à direita do seu. Você entenderá muita coisa, sem precisar dizer uma palavra, mas depois pergunte a seu marido o porquê de ele ainda não ter dormido com você. Desconfio
que a resposta a surpreenderá.
Avelyn fitou, pasma, a sogra. Não estava entendendo quase nada do que lady Gerville lhe dizia. Tantos segredos! Quem tinha segredos? De fato, ela havia pedido à
sogra que não comentasse que sabia cavalgar, assim como que não lhe contasse que estava fazendo uma roupa para Paen, mas o que lady Gerville parecia sugerir é que
havias muitos outros segredos, além dos seus.
- Vá! - Lady Gerville insistiu.
Avelyn olhou para lady Helen que parecia estar igualmente perplexa. Levantou-se um tanto indecisa, pulou o banco e caminhou devagar até a escada. Sentia-se, em parte,
curiosa para ver o que encontraria no quarto que lady Gerville sugerira que fosse, mas a vontade de não ir prevalecia. Já era bastante triste pensar que o marido
não suportava sua presença, mas ter de ouvir a resposta dos lábios dele, quando indagado, seria pior ainda.
Avelyn sabia que precisava vencer a própria covardia. Seus pais não a haviam criado para ser covarde. Estava, porém, bastante fragilizada por tudo o que acontecera
na última semana. Não que tudo tivesse sido ruim. A viagem havia sido horrível com tantos incidentes, mas as coisas em Gerville estavam um pouco melhores.
De certa maneira, sentia-se em casa. Lady Gerville parecia muito com sua própria mãe, administrando o castelo com muita facilidade. Com isso, ela não tinha nada
a fazer, a não ser costurar. Não se importava. Pior seria ter incumbências que revelassem ainda mais sua incompetência. Sentia-se segura costurando coisas para Paen.
Por sorte, Adam era do mesmo tamanho que seu marido e, por enquanto, Paen podia usar as roupas dele. Contudo, precisava ter suas próprias roupas, e ela ficava contente
de costurar para o marido. Pelo menos nisso, se sentia competente. E, enquanto costurava, era muito agradável passar o dia conversando com Diamanda, lady Helen e
lady Gerville.
Sua única insatisfação era a visível indiferença do marido. Ele a evitava sempre.
Os pensamentos de Avelyn fugiram de sua cabeça ao chegar ao quarto indicado pela sogra.
Respirando fundo, ela parou tentando ouvir algum som que viesse de dentro do aposento que pudesse lhe dar uma pista do que esperava; não ouviu qualquer voz, qualquer
ruído. Endireitando os ombros, ergueu a mão para bater, mas lembrou-se da recomendação de lady Gerville para que entrasse direto.
Depois de uma pequena hesitação, Avelyn abriu a porta.
David acabara de colocar uma colher de cozido na boca de Paen. Ele se voltou ao ouvir a porta se abrir, esperando ver o pai entrar, e engasgou ao ver que era a esposa.
A expressão no rosto de Avelyn logo revelou que ela estava surpresa de vê-lo ali.
Paen desviou o olhar para o escudeiro. Sentia0se aliviado de que o menino estivesse a seu lado. Os dois primeiros dias depois do incêndio haviam sido os mais frustrantes
de sua vida. O machucado nas mãos o impediam de realizar as mais simples tarefas, como se alimentar, se banhar, se vestir. Por mais que o pai o ajudasse, até mesmo
fazer suas necessidades fisiológicas era uma coisa humilhante.
O dia da chegada em Hargrove havia sido um alívio para Paen. Teria então o escudeiro para ajudá-lo em tudo. Entretanto, era orgulhoso demais para permitir que alguém
percebesse como estava dependente, ainda que temporariamente. Preferia, por isso, fazer as refeições longe de todos. David ia buscar a comida e dava na boca para
ele. Na primeira noite de viagem com o escudeiro, ele havia se alimentado em uma clareira, perto do rio. Desde que tinham chegado a Gerville, Paen fazia as refeições
no antigo quarto de Adam; depois o menino o ajudava a se despir para tomar banho.
Seguiram todas as noites a mesma rotina. Depois do banho, David o ajudava a se acomodar na cama e ia ele mesmo se deitar no colchão de palha, em um canto do quarto.
Pela manhã, o garoto o ajudava a se vestir e o seguia por toda parte, desempenhando suas funções de escudeiro. Por volta do meio-dia, eles retornavam ao castelo,
e Paen ficava aguardando no quarto que David trouxesse a refeição.
- Estou satisfeito - disse Paen ao escudeiro. - Pode levar o prato de volta para a cozinha.
O menino hesitou, pois Paen havia comido muito pouco, mas, sem jeito de contestar seu senhor, ele aquiesceu com a cabeça e, passando por Avelyn, saiu do quarto.
Paen voltou então a atenção par a esposa que ainda estava parada à porta. Finalmente, ela criou coragem, entrou e fechou a porta. Paen aguardou curioso que ela dissesse
alguma coisa, mas o que Avelyn disse foi completamente inesperado:
- Você não tem feito as refeições à mesa para me evitar?
Paen ficou boquiaberto.
- O que a fez pensar isso?
Avelyn soltou um longo suspiro.
- O fato de você estar o tempo todo me evitando. Assim que entro em um lugar, você sair, como fez hoje quando desci. Você não se senta à mesa comigo desde que chegamos
aqui. E, embora tenha dormido comigo em Hargrove, não dormiu nenhum dia em sua própria cama desde que chegamos em Gerville. - Despejou de uma só vez, sentindo o
rosto em chamas.
Paen piscou várias vezes, confuso.
- Eu saí do salão quando você entrou porque era hora do jantar e, como você sabe, tenho jantado aqui.
- Fiquei sabendo disso agora - Avelyn murmurou num fio de voz, abaixando a cabeça. - Mas isso não explica sua relutância em se deitar comigo. Sei que não sou uma
mulher atraente...
Paen riu, não acreditando no que ouvia, e Avelyn o encarou.
- Não precisa ser rude. Tenho consciência de que sou gorda e....
Uma nova risada escapou da boca de Paen e ele sacudiu a cabeça.
- Você é linda, Avelyn.
Ele viu um brilho zangado nos olhos da esposa e se perguntou se seria possível que ela realmente não soubesse que ele a achava encantadora. De repente, percebeu
que era óbvio que ela não sabia. Durante anos os primos tratavam de convencê-la do contrário.
- Sou tão linda que você nem tem vontade de consumar nosso casamento.
Paen a fitou incrédulo e ergueu as mãos.
- Assim é difícil me deitar com você.
- Hugo disse que o importante não são as mãos, e que se você podia montar um cavalo, podia fazer o mesmo comigo. - Avelyn deixou escapar e corou cheia de embaraço
por repetir aquelas palavras de forma tão crua.
- Hugo! - exclamou Paen, contrariado. - E você acreditou nele?
- Ora, ele é homem e entende melhor essas coisas - Avely disse baixinho. - Então não é verdade?
- É, de certo modo...
Paen parou hesitante. Não queria mentir para ela. É claro que poderia ter consumado o casamento. Talvez fosse difícil, mas não seria impossível. Embora suas mãos
estivessem comprometidas, sua masculinidade não estava, e ele tivera provas disso várias vezes desde o incêndio. Não conseguia cavalgar com ela sem terminar enrijecido
como uma espada, e quando a levara para se banhar no rio... por Deus, nem foi preciso vê-la, só de ouvi-la se despindo e de se atira na água foi suficiente para
que ficasse ereto como um poste.
Ele apenas evitara de dormir com ela porque era impensável a idéia de tê-la próxima e sentir seu cheiro, sem que fosse possível tocá-la. Em Hargrove, não tivera
alternativa. Jamais iria humilhá-la, pedindo um quarto só para ele, mas procurara manter-se mais distante possível dela, e pretendia continuar fazendo isso, até
estar recuperado, para finalmente realizar todas as fantasias que lhe passavam pela cabeça.
Lamentavelmente, essa decisão levara a esposa a acreditar que ele não suportava ficar junto dela.
Dando um suspiro. Paen tentou explicar:
- Sem minhas mãos para ajudar, seria muito desconfortável para você, Avelyn, mas, é verdade, seria possível consumar o casamento. Não poderíamos fazê-lo da maneira
normal, é claro. Você talvez tivesse de se sentar no peitoril da janela, ou se inclinar para trás sobre alguma coisa...
As palavras de Paen saíram mais devagar. Sua mente repassava gulosa todas as possibilidades. Avelyn sentada no peitoril da janela e ele entreabrindo com seu corpo
as pernas dela, depois suas partes íntimas roçando nas dela enquanto a beijava e então a maravilhosa sensação de possuí-la. Uma outra imagem rapidamente assomou
em sua mente: Avelyn debruçada no peitoril da janela e ele penetrando-a por trás.
- Você está me dizendo que ainda não consumou nosso casamento em consideração ao meu desconforto?
A voz de Avelyn tirou-o de suas fantasias, e Paen a olhou aborrecido. Ela parecia não acreditar em suas palavras.
- Sim, claro, é por isso que não tenho me deitado com você. Realmente acha que eu teria preferido o chão batido ao conforto e ao calor das peles em nossa tenda quando
estávamos viajando?
- Não, claro que não - ela admitiu, mostrando uma certa impaciência na voz. - Por isso eu presumi que você preferisse o chão batido do que minha companhia.
- Você estava bêbada em nossa noite de núpcias?
- Não! - Avelyn pareceu chocada com a pergunta.
- Bem, então você certamente notou meu... - Paen fez uma pausa, procurando uma palavra alternativa, em vez da que lhe viera à cabeça, para descrever a sua ereção.
Finalmente, ele disse: - ... minha ansiedade. - Quando Avelyn simplesmente o fitou, Paen respirou fundo, de maneira quase exasperada: - Acredite em mim, se minhas
mãos não estivessem machucadas, eu consumaria nosso casamento sempre que houvesse uma oportunidade, mas não quero lhe causar uma dor desnecessária.
Avelyn comprimiu o lábio e começou a esfregar as mãos.
- Minha mãe me preveniu sobre o que me esperava e disse que a primeira vez poderia ser bastante desconfortável e até dolorida. Agradeço sua preocupação, mas se você
quiser...
- Avelyn - Paen a interrompeu. - Você não sabe o que está me pedindo. A primeira vez nem sempre é boa para a mulher, mas sem minhas mãos poderia ser muito ruim.
- Compreendo - ela murmurou, pulando em seguida ao ouvir baterem na porta. Ao abri-la, deparou-se com David.
O menino olhou inseguro para ela e para Paen.
- O senhor ainda quer tomar banho, milorde, ou...?
- Vou deixá-lo tomar banho - Avelyn balbuciou, saindo do quarto.
Paen observou-a sair com o coração apertado. Estava certo de ter visto o brilho de uma lágrima nos olhos dela antes de se afastar e sentia que não conseguira convencê-la
de que a desejava e a achava atraente. Não sabia como lidar com isso.
Dando-se conta de que David ainda estava parado à porta aguardando uma resposta, Paen fez sinal para que entrasse. Ele estivera supervisionando o campo de treino
um pouco mais cedo e fora derrubado quando um dos homens colidiu contra ele. O campo estava lamacento depois de uma noite de chuva e, embora David tivesse na hora
procurado limpar sua roupa com um pano, precisava de um banho.
Paen aproveitou para refletir sobre o que fazer com o problema da esposa enquanto o banho era preparado, não dando muito ouvidos à conversa do menino que enchia
a tina de água. David tinha dois pontos em comum com Avelyn: era meio desastrado e tinha uma propensão para falar muito.
O estranho é que Paen achava esse hábito reconfortante, e não irritante. A conversa de David geralmente era sobre batalhas, armas e cavalos, embora na primeira noite
de serviço, houvesse perguntado se as mãos dele havia sido queimadas em luta com um dragão. Ele havia lhe explicado, com autoridade no assunto, que os dragões tinham
um hálito horrível e gostavam de comer mulheres e fazê-las chorar.
A tina estava cheia, e no quarto só os dois. David ajudava Paen a se desvestir. Naquela noite o menino ainda não havia comentado nada que precisasse de resposta.
Foi então que perguntou:
- O que a gente faz quando vai para a cama com uma lady?
Paen engasgou e ficou sem saber o que dizer por um momento.
- Por que essa pergunta?
- É que ouvi lady Helen dizer a uma das criadas que lady Avelyn achava que o senhor não está satisfeito com o casamento porque ainda não se deitou com ela - ele
explicou.
- Minha nossa, o castelo todo sabe - Paen balbuciou, tirando os calções e entrando na tina. Depois compreendeu que deveria esperar por isso. Era impossível manter
segredos em um castelo.
Assim que o menino saiu do quarto, Paen mergulho na água e fechou os olhos, pensando na esposa. Era óbvio que não poderia deixar as coisas como estavam, mas não
sabia o que fazer. Aparentemente, não conseguiria convencê-la com simples argumentos verbais. Não era bom nisso. Sentia-se melhor agindo do que discutindo o que
quer que fosse. Não tinha a menor idéia do que dizer a Avelyn para convencê-la de que a achava atraente e queria consumar seu casamento. Talvez a única maneira de
convencê-la seria realmente possuí-la. E como estava tentado a fazê-lo! Sabia que ela não lhe agradeceria depois, apesar do que havia dito.
Avelyn não tinha idéia do que estava pedindo. Saber que a primeira vez poderia ser dolorida era uma coisa, e experimentar o impacto de uma ereção sem que seu corpo
estivesse preparado, era outra. Sem as mãos para acariciá-la e abraçá-la, ele não poderia prepará-la devidamente. Sem as mãos, ele só podia contar com sua boca...
Paen sentou-se abruptamente na tina, espalhando água por todo lado ao ser assaltado por uma onda de imagens e pensamentos. Avelyn nua diante dele; ele beijando-a
e acariciando-a com a boca até que ela gemesse de prazer; depois a ereção e finalmente o prazer de penetrá-la...
- Droga, por que não pensei nisso antes? - murmurou e chamou o escudeiro, gritando.
Ao retornar a seu quarto, Avelyn encontrou seu banho já preparado na tina e Runilda alimentando a lareira com lenha. Como havia passado dois criados, que carregavam
uma tina com água para o banho de Paen, ela ficou surpresa de que tivessem conseguido aquecer água par dois banhos. Esse trabalho todo era desnecessário, pois estava
louca para ir para a cama.
Sentia-se novamente deprimida depois da conversa com Paen, embora antes dela estivesse ainda mais. Não acreditava na alegação do marido que era em consideração a
ela que estava se controlando para não consumar o casamento. Pois ele mesmo não havia admitido que era possível fazê-lo apesar das mãos feridas? Só podia entender
que Paen não queria se dar ao trabalho. Por outro lado, fora uma alívio saber que o marido não tinha repulsa por ela, que não era por sua causa que estava evitando
fazer as refeições à mesa.
Com esses pensamentos, Avelyn tomou banho depressa, em seguia enrolou-se em uma toalha e foi se sentar perto da lareira a fim de secar os cabelos. Vários minutos
depois, ela ainda estava sentada lá, pensativa, quando a porta do quarto repentinamente se abriu
e Paen entrou.
- Marido? - Avelyn voltou-se na cadeira e o fitou surpresa, notando que, embora de tamanho menor, ele também estava com uma toalha de linho em volta da cintura.
- Assunto resolvido - Paen anunciou e Avelyn ficou impressionada com o largo sorriso estampado no rosto dele. Ele não havia sorrido muito desde que o conhecera,
por isso sentia-se nervosa.
- Que assunto está resolvido? - ela perguntou, intrigada.
Em vez de responder, Paen cruzou o quarto até a janela e disse:
- Venha cá.
Avelyn arregalou os olhos desconfiada. Lembrava que ele lhe havia dito que poderiam consumar o casamento mesmo se as mãos, se ela se sentasse no peitoril da janela.
Certamente, ele não estava pretendendo...?
Não, disse a si mesma, pondo-se em pé com relutância. Ele depois fizer aquela explanação ridícula de que doeria. A mãe havia lhe explicado tudo sobre a cama nupcial.
Julgando que o casamento seria consumado naquela noite, como ocorrida com a maioria dos casamentos, ela contara tudo em detalhes e havia lhe dito que, embora na
primeira vez pudesse doer um pouco, com o tempo aquela coisa poderia ser muito agradável, especialmente se ela tivesse a sorte de ter um marido atencioso.
Ao ouvir a respiração suspensa a descrição da mãe, Avelyn concluíra que era difícil imaginar que a coisa fosse mesmo "agradável", mas a mãe não era dada a mentir,
por isso, como sempre, confiara nela. Na noite de núpcias, apesar de não terem completado o ato, Avelyn comprovou o que a mãe lhe dissera. Achara o contato com o
marido na cama muito mais do que agradável, com seus beijos e carícias. Pena que o fogo interrompera o que estava tão bom.
Avelyn parou ao lado do marido junto à janela e aguardou curiosa.
Paen deu um sorriso luminoso para ela e tirou da cintura a mão enfaixada que prendia a toalha em volta de seu corpo, deixando-a cair.
Avelyn ficou embasbacada. A masculinidade dele estava rija como uma rocha e empinada como um poste que se projetasse do chão. Ela lutou para desviar os olhos daquela
coisa enorme e se concentrar no rosto de Paen, mas não se conteve e abaixou-os um segundo depois.
Já havia visto a masculinidade do marido na noite do casamento, mas não se lembrava que fosse tão grande... e... tão sólida. A comparação que lhe vinha à mente era
como se, na primeira vez, tivesse visto uma meia dentro da outra e agora visse uma meia na perna, o que, para seus olhos inexperientes, era algo colossal.
De repente, Avelyn se sentiu agradecida de que Paen esperasse até estar recuperado para consumar o casamento. Nem se importava tanto se ele não gostasse muito dela...
Que mal havia que tivesse uma amante?
Pai do Céu, não seria preferível que os homens apunhalassem de vez suas mulheres com espadas? Certamente seria melhor do que ter aquela coisa enorme perfurando-as.
Sentindo que começava a ficar um pouco histérica sobre algo que ainda não precisava temer, Avelyn se esforçou para levantar os olhos e esboçou um sorriso inquiridor
para o marido.
- Você disse que havia resolvido alguma coisa - comentou, sentindo-se constrangida diante da situação.
- Ah, sim. - Virando-se, Paen afastou a cortina da janela para permitir que o luar iluminasse o quarto.
Avelyn lançou um olhar curioso para fora, mas não havia muito para se ver. O peitoril tinha uns noventa centímetros de comprimento e ela praticamente precisaria
se deitar nele para que a cabeça chegasse próximo à janela. Assim, não dava para ver direito o pátio do castelo, mas tão somente o vidro da janela. Aliás, o vidro
era um material muito caro, portanto uma raridade. Era, de fato, realmente impressionante que as janelas estivessem vidros. Se já não soubesse que havia se casado
com um homem de família abastada, isso seria um sinal revelador.
- É, essa janela é muito bonita, Paen. Obrigada por me mostrar... Ai! - Avelyn soltou um grito de surpresa e se agarrou ao ombro dele quando ele a puxou para si
e a sentou no peitoril. - O que você... ?
A pergunta morreu em seus lábios, silenciada pela boca de Paen, ao mesmo tempo em que separava os joelhos dela, interpondo-se entre suas pernas para poder beijáeijs,
silenciada pela boca de Paen, ao mesmo tempo em que separava os joelhos dela, interpondo-se entre suas pernas para poder -la melhor. No início, ela ficou surpresa
demais para tentar afastá-lo ou dizer qualquer coisa, mas, depois de alguns instantes, a língua de Paen se infiltrou em sua boca e ela esqueceu completamente o que
ia dizer.
Quando seus lábios se separaram, Avelyn estava absolutamente derretida, sua mente era incapaz de produzir um único pensamento.
- Resolvi todo o assunto - ele sussurrou, tentando puxar a toalha que ela prendia contra o peito.
- Que bom! - Avelyn suspirou e virou um pouco a cabeça para o lado, pressionando uma das faces contra os lábios dele, feito uma gatinha dengosa.
- Como não posso usar minhas mãos para prepará-la, vou usar minha boca - ele explicou. - Mas primeiro você deve me deixar soltar a toalha.
- Hum... - Avelyn sorriu. - Você poderia me beijar de novo?
Paen desistiu de puxar a toalha e em seus lábios brotou lentamente um sorriso de satisfação.
- Você gosta quando eu a beijo?
Apesar da pergunta, a postura dele era de quem já sabia a resposta, mostrando um certo convencimento. Avelyn pouco se importava. Tirando uma das mãos da toalha,
ela a levou à cabeça de Paen e o puxou para mais um beijo. Paen sucumbiu e começou a beijá-la de maneira lenta e gentil. O beijo, porém, foi se tornando cada vez
mais profundo até quase culminar em uma verdadeira batalha para ver quem devoraria quem primeiro. Os dois arfavam quando Paen afastou os lábios, deslizando-os pelo
rosto da esposa até chegar ao lóbulo da orelha.
Avelyn teve um estremecimento quando a língua úmida tocou em sua orelha. Ela virou um pouco a cabeça sentindo prazer naquela carícia. Depois, não resistindo, voltou-a
para que suas bocas novamente se encontrassem. O beijo dessa vez foi mais guloso ainda. As sensações que Paen despertava em Avelyn fizera com que ela, cedendo às
exigências de seus instintos, arqueasse o corpo contra o de Paen.
Ele interrompeu o beijo e deslizou os lábios ao longo da curva do pescoço delgado, forçando-a a se inclinar para trás. Acariciou com a língua cada centímetro do
colo de alabastro até aproximar-se dos fartos seios.
Avelyn gemeu e, ao se agarrar nos ombros do marido para manter o equilíbrio, sentiu a toalha escorregar até os quadris. Paen agora não tinha qualquer impedimento
e aproveitou para abocanhar um de seus seios, fazendo-a estremecer de prazer ao lamber seu mamilo. Ela arqueou um pouco mais, colando-se ao corpo de Paen. Apesar
da toalha, podia sentir a ereção masculina e a sensação era tão boa que ela retribuíra movimentando freneticamente o quadril contra o corpo dele.
Avelyn teve a sensação de ouvi-lo gemer. Os lábios viris abandonaram seus seios e deslizaram suavemente por seu abdome; ela teve um estremecimento e levantou ligeiramente
a cabeça para ver o que o marido fazia, afagando-lhe os cabelos. Ofegante e perdendo o equilibro quando a boca ávida deslizou mais para baixo, impedindo-se de se
apoiar nos ombros de Paen, Avelyn se agarrou na cortina que pendia ao lado da janela. Já estava quase sem respiração quando ele se ajoelhou e afastou com uma das
mãos enfaixadas a toalha que lhe cobria o ventre.
Com sua intimidade agora totalmente revelada, Avelyn abriu a boca para protestar e quase perdeu o fôlego quando Paen afastou suas pernas para beijá-las.
- Pai do Céu! - Seu quadril arqueava, levantando-se o peitoril, parecendo se movimentar por conta própria. Ela era toda sensações. Sua mãe não havia lhe dito nada
sobre o fogo e tensão que experimentava agora.
Avelyn tinha certeza de que se Paen não parasse aquela coisa mágica que estava fazendo, ela enlouqueceria. Estava certa também de que, se parasse, ela morreria.
Queria fechar as pernas para impedir todo atrevimento da boca de Paen e, ao mesmo tempo, queria que ele fizesse cada vez maior pressão contra seu corpo.
Paen não parou e percebeu que ela inconscientemente puxava seus cabelos com uma das mãos e se agarrava à cortina com a outra, usando-a para erguer mais os quadris.
Quando o corpo de Avelyn explodiu em prazer, ela gritou e, puxando a cortina com mais força, jogou a cabeça para trás. A cortina veio abaixo, caindo sobre eles.
- Avelyn?
Ela teve uma vaga noção de que Paen havia se debatido para tirar a cortina de cima de ambos e que, uma vez mais, estava entre suas pernas. Avelyn se atirou nos braços
do marido, puxando-o, e enlaçando-o com as pernas. Era como se ele fosse a única coisa segura no mundo a que ela pudesse agarrar.
Paen envolveu-a delicadamente nos braços. Avelyn gemeu à pressão de sua ereção. Ele gemeu também e, com a mão enfaixada, levantou o rosto dela e a beijou.
Avelyn retribuiu os beijos com a mesma intensidade e seus quadris voltaram a se movimentar, pressionando o membro de Paen. Ambos gemeram e ela se deu conta de que
desejava ainda mais. Começou a sentir então a força da masculinidade do marido, penetrando-a.
- Mais um pouquinho - ele sussurrou em seu ouvido e a penetrou.
Avelyn soltou um grito de surpresa, recuando instintivamente o corpo para evitar a dor que sabia que viria.
Paen respirou fundo, esforçando-se para ficar completamente imóvel. Queria movimentar o corpo, enterrado nos recônditos da intimidade de Avelyn, mas sabia que não
deveria. Era melhor que lhe desse um momento para que ela se adaptasse ao corpo dele.
- Nossa, não doeu nada! - Avelyn de repente comentou, surpresa.
Paen se afastou um pouco para poder fita-la.
- Eu estava esperando uma dor de verdade, mas senti só um pouco mais que um beliscão - ela explicou, sorrindo feliz.
Paen cerrou os dentes e encostou a testa no topo da cabeça de Avelyn, procurando conter a respiração. Ardia por entrar e sair daquele corpo macio e quente, mas precisava
controlar o próprio desejo.
- Paen?
- O quê? - disse por entre os dentes.
- Isso então é tudo? Já terminamos?
Um breve riso escapou dos lábios de Paen e ele endireitou o corpo, afastando-se dela.
- Não.
- Ah, que pena... - ela arfou. - Estava tão bom.
Avelyn parecia perplexa, e Paen imaginava que realmente ainda não havia sido muito bom para ela e, sim, um pouco estranho. Ao sentir-se novamente invadida, Avelyn
arregalou os olhos.
- Oh, o quê? Nossa...
Lembrando da tendência da esposa de falar muito durante a viagem e receando que fizesse o mesmo agora, Paen calou-a com um beijo arrebatador e reiniciou os movimentos
cadenciados tentando levá-la ao êxtase.
Seu instinto primitivo pedia que recomeçasse tudo, mas procurava se contar para não assustá-la. Avelyn, porém, não parecia estar apreciando muito essa consideração.
Ela mantinha as pernas cruzadas em seus quadris e as mãos agarradas ao seu pescoço, ao passo que ele tinha somente os braços para controlá-la, e precisava ter cuidado
para não bater as mãos e deixar que a dor estragasse aquele momento precioso.
As boas intenções de Paen subitamente sucumbiram quando a esposa enfiou as unhas em suas costas, obviamente desejosa que ele agisse com mais ímpeto. Ele cedeu ao
próprio desejo e penetrou-a, desta vez com volúpia, encorajado pelos gemidos de Avelyn e a maneira com que o corpo ardente correspondia aos seus delírios. Afastando-se
um pouco, Avelyn finalmente jogou a cabeça para trás, soltando gritinhos de prazer. Paen sentiu-a contrair-se, quase sugando-o. Ele deixou então que seu corpo vibrasse
naquele momento de plenitude.
Levou um tempo para que Paen conseguisse se recompor e afastar-se de Avelyn. Erguendo o corpo, ele olhou pela janela semi-aberta, para o pátio do castelo, e ficou
petrificado ao ver uma pequena aglomeração de pessoas lá embaixo. Parecia que metade dos guardas de seu pai estavam ali, olhando para cima. Só podia ficar agradecido
de que o fogo na lareira, do outro lado do quarto, queimava baixo, e tudo que eles provavelmente viam eram sombras. Então um dos homens deu alguns passos à frente,
separando-se dos demais, e Paen avistou a figura familiar do pai, que levantava o polegar em um gesto de aprovação.
Resmungando, ele encostou por um instante a testa no ombro da esposa, receoso de que ela pudesse se voltar e perceber que tinham sido vistos. Sabendo do constrangimento
que Avelyn sentiria por ter sua privacidade invadida, ele apertou-a nos braços e a tirou do peitoril.
- Marido, você vai machucar suas mãos - ela protestou, ainda com as pernas enlaçadas na cintura do marido.
Paen não disse uma palavra sequer. Afastou-se da janela até que suas pernas tocassem na cama, deixando-se cair deitado com ela por cima. Avelyn gritou de susto,
mas depois se pôs a rir quando ele a virou e ficaram cara a cara. Ele fitou-a, pensando em como ela era linda.
- O que foi? - ele perguntou ao vê-la franzir a testa.
- Nós não... - Avelyn parou, ficando ruborizada, e depois disse constrangida: - Não é que o lençol deve ser pendurado como prova da inocência da noiva? Mas nós não...
- interrompeu novamente o que dizia e olhou reticente para o beiral da janela.
- Ah, não se preocupe. Não acredito que alguém peça a prova de que o casamento foi consumado. Garanto que aceitarão minha palavra de honra - alegou, pensando no
pai e
em seus homens.
- Mas... - Avelyn tentou rebater, mas Paen a calou com um beijo, em seguida tirou os braços que ainda estavam sob o corpo dela e se deitou direito na cama. Uma vez
bem instalado de costas, abraçou-a, dizendo:
- Venha, puxe as cobertas e durma.
Avelyn hesitou, depois se deitou e cobriu os dois com as cobertas.
Paen começava a cochilar quando ela levantou a cabeça e começou a falar, mas ele a interrompeu.
- Durma!
Fechou os olhos e fingiu que dormia. Depois de alguns minutos, sentiu que a esposa relaxara, começando a roncar. Ele riu consigo mesmo. Ela talvez parecesse delicada
como uma flor, mas roncava como um marinheiro, pensou dando-lhe um beijo na testa. Paen olhou para o cortinado sobre suas cabeças e riu. Tinha deflorado a esposa,
e mesmo sem a ajuda das mãos, conseguira lhe dar prazer. Era danado de bom!
Avelyn acordou sentindo o seio direito latejar. Ainda sonolenta, ela se espreguiçou e, ao abrir os olhos, viu o topo da cabeça do marido. Ele estava debruçado sobre
ela e sugava seu seio.
Gemendo, Avelyn passou as mãos pelos cabelos do marido. Alguns raios de sol que penetravam no quarto os tornavam ainda mais brilhantes. Ela deslizou então as mãos
pelas costas largas e ele levantou a cabeça para fitá-la. Vendo que ela estava inteiramente acordada, Paen virou-se e encostou-se nela, dando-lhe um prolongado
beijo de bom-dia.
Avelyn se entregou ao beijo, achando delicioso acordar daquela maneira. Todo o seu corpo latejava de desejo.
- Não é melhor irmos para o beiral da janela? - ela perguntou, arfando quando ele se deitou inteiramente sobre ela, apoiando-se nos cotovelos para evitar colocar
o seu peso sobre as mãos.
Paen riu e sacudiu a cabeça.
- Não, acho que devemos dispensar a janela agora cedo.
- Mas... - Avelyn parou ao ouvir uma batida na porta.
- Quem é? - Paen perguntou, sem sair de cima dela.
- Sou eu, David, milorde - respondeu o menino. - Seu pai me pediu para ver se o senhor já havia levantado. Ele disse que o senhor ficou de ir a Rumsfeild com ele
hoje.
Paen rolou para o lado de Avelyn com um suspiro.
- Já me levantei, sim.
- Precisa de ajuda para se vestir, milorde? - David perguntou, ainda do outro lado da porta.
Paen se sentou e tentou puxar as cobertas da cama, depois parou, olhando para as mãos.
Sentando-se rapidamente, Avelyn puxou o lençol e as peles para cobrir os dois, mas Paen simplesmente os dispensou e saiu da cama.
- Você trouxe minhas roupas, David? - ele perguntou, atravessando o quarto.
Avelyn mordeu o lábio impressionada ao ver o tamanho da ereção do marido apontando o caminho enquanto ele andava.,
- Sim, senhor - veio a resposta pronta.
- Entre, então.
Avelyn procurou desviar os olhos do marido e puxou as cobertas até o queixo quando a porta abriu. Observou David entrar, com a túnica, os calções, as botas e a malha
de ferro empilhadas nos braços. Após empurrar a porta com o pé, ele foi colocar tudo na cadeira próxima a lareira.
A malha de ferro lhe dizia que Rumsfeld devia ser muito distante e que precisava ser protegida contra bandidos e ataques. Foi preciso mais um momento para que ela
recordasse ter ouvido o nome antes. Dirigindo o olhar para o marido, perguntou:
- Rumsfeild não é o lugar onde sua mãe nasceu?
- Sim, é. Como você sabe? - Paen a olhou surpreso.
- Foi sua mãe quem me disse quando conversávamos no dia seguinte à nossa chegada. Ela comentou que o castelão havia falecido enquanto vocês estavam fora.
- Legere já estava idoso - alegou Paen, como se isso explicasse que ele havia morrido de causa natural.
- É por isso que vocês estão indo até lá? - perguntou curiosa. - Imagino que seu pai precisará arrumar um outro castelão.
Paen parou ao lado da cadeira onde David havia colocado as roupas e se voltou para Avelyn com uma expressão envergonhada.
- Esqueci de lhe dizer que meu pai me perguntou se eu poderia ser o castelão de lá - ele comentou enquanto David o ajudava a vestir os calções.
- Como? - Avelyn surpreendeu-se.
Enquanto isso, David subiu em uma banqueta para passar a túnica pela cabeça de Paen. Assim que a vestiu, voltou-se sorrindo, esperando que ela tivesse ficado contente.
- Meu pai precisa de alguém em quem possa confiar para cuidar daquelas terras. Além disso, ele acha que é uma boa oportunidade para eu ganhar mais experiência.-
Quando percebeu a expressão lívida de Avelyn, ele continuou a explicação: - Eu passei muito dos últimos anos nas Cruzadas. Embora seja um especialista em batalhas,
preciso de alguma experiência como senhor feudal. - Ajoelhou-se para ajudar David colocar a pesada malha de ferro. Ao se levantar, acrescentou: - Ele também acha
que você vai se sentir mais feliz se tiver sua própria casa para cuidar.
Avelyn olhou-o emudecida. Paen perguntou ao escudeiro onde seu cinto e espada estavam. David respondeu que os havia deixado no outro quarto. Desculpando-se o menino
saiu apressado para ir buscá-los. Paen caminhou até a cama, inclinou-se e deu um beijo rápido e apaixonado em Avelyn. Depois dirigiu-se à porta, sabendo que a esposa
o acompanhava com o olhar.
Paen ia assumir a responsabilidade por Rumsfeild. Eles se mudariam para lá. Ela teria sua própria casa para administrar.
Avelyn sentiu um arrepio de pavor. Uma semana antes, teria achado a déia maravilhosa e ansiaria em ser a senhora de sua própria casa. Afinal, havia sido preparada
para isso. A mãe tivera todo o cuidado de lhe ensinar tudo que deveria saber a respeito. Entretanto, isso fora uma semana atrás; antes que ela tivesse sido vitima
de uma série de catástrofes. Agora a idéia a aterrorizava. Certamente acabaria com Rumsfeild em uma semana, desastrada como era.
- Rumsfeild é o lugar em que lady Christina foi criada. Quando os pais morreram, a propriedade passou para ela e lorde Gerville - disse Diamanda.
- Lady Christina era filha única - lady Helen acrescentou e a sobrinha aquiesceu com a cabeça.
Avelyn manteve-se calada, simplesmente ouvindo a conversa enquanto subiam as escadas em direção ao quarto de costura.
Haviam acabado de deixar o salão depois de tomar o desjejum. Paen e o pai já tinham seguido para Rumsfeld quando Avelyn desceu. Estavam somente as quatro mulheres
e alguns criados às mesas naquela manhã.
É claro que o primeiro assunto abordado por lady Gerville foi o que estivera na cabeça de Avelyn desde que o marido saíra do quarto: a mudança para Rumsfeld. Aparentemente
todos estavam informados a respeito, inclusive Diamanda e lady Helen. Ela havia sido a última a saber.
À mesa, acabou também sabendo que fora decidido que eles deveriam esperar mais uma semana para se mudar, a fim de dar mais um tempo para que as mãos de Paen ficassem
curadas. Ela teria, assim, mais uma semana para refazer a arca. Não que tivesse muita coisa para guardar. Desde que chegara só havia tirado algumas roupas. Não havia
precisado de qualquer outra coisa.
Lady Gerville comentara sobre a mudança com uma alegria forçada; parecia que a sogra não estava muito mais feliz do que a própria Avelyn. Mesmo Diamanda e lady Helen,
pareceram-lhe desanimadas. Avelyn ficou contente em poder escapar para o quarto de costura e terminar as peças de roupa que fazia para o marido. Começara o trabalho
um dia depois que chegaram a Gerville. Depois de vaguear pelo castelo a maior parte da manhã, ela resolvera que seria melhor voltar a costurar para Paen. Embora
as roupas do irmão tivessem sido providenciais, não lhe caíam tão bem como se fossem suas.
- Rumsfeld é uma propriedade muito bonita - comentou Diamanda quando chegaram ao quarto de costura. - Não tenho dúvida de que você gostará de lá.
- Você a conhece? - perguntou Avelyn curiosa, observando lady Helen abrir a porta.
- Conheci uma vez em que minha família passou por lá, em uma viagem para cá. - Diamanda parou subitamente ao colidir com lady Helen e olhou ao redor, confusa. A
tia havia parado à porta, bloqueando a entrada do quarto às duas.
- Tia Helen, por que parou assim? - Diamanda passou na frente da tia e espiou dentro do quarto, soltando um "Oh!".
Lady Helen se voltou de repente e tentou afastar Avelyn dali.
- Por que não vamos dar uma boa andada no pátio?
- Mas está chovendo! - Avelyn lembrou-a, franzindo as sobrancelhas ao notar a expressão de pena no rosto da mulher.
Determinada a ver o que havia ali, Avelyn procurou passar por ela.
- Querida, acho que você não deve entrar - disse lady Helen, tocando no ombro de Avelyn para detê-la. Depois calou-se com um suspiro, abaixando a mão e permitindo
que ela passasse.
No primeiro momento, Avelyn não viu nada de diferente. Estavam no quarto somente Boudica e Juno, os dois cachorros greyhound de lady Christina. Eles dormiam sobre
uma tira velha de pano que sua dona provavelmente pusera ali para que ficassem confortáveis.
Avelyn começava a se voltar, quando parou e olhou de novo para um pedaço visível do pano que estava sob eles. Era do mesmíssimo tom de verde do tecido que lady Christina
lhe dera para costurar o novo traje de Paen e que, na verdade, era a sobra do tecido do vestido que a sogra havia feito para o casamento.
- Avelyn? - lady Helen chamou-a preocupada.
Avelyn cruzou o quarto com o cuidado de quem atravessa um estreito tronco de árvore sobre um rio, colocando um pé na frente do outro, com os olhos fixos no tecido.
Ao chegar junto dos cachorros, ela se ajoelhou, também com cuidado, e puxou o tecido, acordando os cachorros. Boudica e Juno levantaram-se sonolentos, mexendo os
rabos enquanto Avelyn levantava a túnica que quase terminara de costurar. Estava mordida e rasgada. Estraçalhada.
- Oh... - lady Helen soltou um gemido penalizado. - Depois de todo trabalho que você teve, Avelyn...
- Vou buscar lady Gerville - avisou Diamanda e saiu apressada do quarto.
Avelyn simplesmente se sentou no chão olhando petrificada para a túnica destroçada. Sua mente estava absolutamente entorpecida, incapaz de acreditar em mais esse
contratempo.
Parecendo entender seu desespero, ambos os cachorros se aproximaram dela. Boudica passou a língua por seu rosto. Avelyn piscou, como que saindo de um transe. Boudica
deu-lhe outra lambida, parecendo pedir perdão a Avelyn. Ela soltou um longo suspiro, descarregando toda a tensão de seu corpo. Largou o tecido e acariciou os cães.
- Está tudo bem. - Tranqüilizou os animais, acalmando-se ao alisar seu pêlo macio.
- Mas todo o trabalho que você teve... - comentou lady Helen, inconformada.
- Era só uma túnica -Avelyn respondeu.
Lady Gerville havia mencionado que o destino estava conspirando contra ela. Avelyn começava a acreditar que sim. Tinha duas opções, desistir de fazer qualquer coisa,
ou tirar o melhor proveito da situação e perseverar até que o destino se cansasse de brincar com ela.
Avelyn não era do tipo que desistisse fácil.
- Querida?
Ela levantou a cabeça quando a sogra entrou no quarto e parou ao lado de lady Helen. Lady Christina estava meio sem fôlego, havia obviamente subido as escadas correndo,
provavelmente, temendo a reação que a nora teria diante do que os cachorros haviam feito.
- Eu... - a mãe de Paen começou a dizer.
- Está tudo bem - Avelyn a interrompeu, acariciando mais uma vez Juno e Boudica. Pegou o que fora uma elegante túnica e levantou-se. - Desconfio que precisaremos
de mais tecido. Tomara que o mercador apareça logo.
- Vou mandar um dos homens ir procurá-lo - disse lady Gerville, olhando-a preocupada.
Avelyn imaginou que, depois de vê-la arrasada quando o fogo destruiu sua primeira tentativa, a sogra estivesse preocupada que ela fosse acometida de uma nova crise
de depressão, mas aquela reação havia sido fora do comum. Atribuía a seu estado de exaustão por não ter dormido nos dias que antecederam o incêndio. Além disso,
havia acontecido uma coisa depois da outra em um curto espaço de tempo. Essa era a primeira vez que acontecia um incidente desde que chegara havia três dias. Não
iria desmoronar.
Acariciando o braço da sogra ao passar por ela, Avelyn disse:
- Vou ver se o pedaço de tecido marfim é suficiente para fazer a túnica.
Assim dizendo, saiu sozinha do quarto, com o que sobrara da túnica. Poderia usar para medir o tecido marfim. Colocou a roupa sobre o ombro ao se ajoelhar junto à
arca, parando por um minuto para respirar e descansar um pouco. Ela sentiu um cheiro... Aspirou novamente, voltando a cabeça para o ombro em que a túnica estava
dependurada. Porco, concluiu e levou a túnica até o nariz. Cheirava a porco.
Avelyn sentou-se e olhou para a roupa. Fora servido porco no jantar da noite anterior, mas como a túnica adquirira aquele cheiro? Ela não havia costurado na última
noite, fora conversar com Paen e então... bem, ela nem pensara em costurar depois que Paen decidira entrar no quarto deles.
Ela apalpou o material. Com aquele cheiro, não era para menos que os cachorros tivessem se interessado. Mas como aquilo havia acontecido? Teriam tocado na túnica
com os dedos engordurados? O tecido tinha um cheiro tão forte que parecia que a carne havia sido esfregada nele.
Era o segundo traje que tentava fazer para Paen e que ficava danificado. Ela sacudiu a cabeça, recusando-se a aceitar o pensamento que lhe ocorria. Não podia imaginar
que alguém estivesse tentando boicotar sua iniciativa. Não queria acreditar nisso. De repente, veio-lhe a lembrança do acampamento. Tinha quase certeza de que havia
apagado aquela vela na tenda. Por outro lado, como tudo lhe acontecia nos últimos tempos, era possível que, no final das contas, não tivesse assoprado mesmo.
Era mesmo uma idiota, Avelyn pensou. Talvez a túnica tivesse ficado com cheiro de porco por mero acidente. Não tinha ainda a mínima idéia de como fosse possível
isso acontecer, mas... Todos eram muito gentis com ela.
Avelyn dobrou a túnica e a colocou na arca em cima do tecido marfim, considerando que talvez fosse mesmo oportuno que ela e Paen estivessem indo para Rumsfeld. Não
se importava de começar mais uma túnica, mas o faria quando estivesse na nova casa. Só por segurança
Capítulo VII
- Diamanda, talvez minha memória não seja muito boa, mas tenho certeza de que você e disse que achava Rumsnfeld uma propriedade muito bonita - comentou Avelyn quando
cavalgavam suficientemente próximas para ver as muralhas desmoronadas.
- É verdade - admitiu a jovem, balançando a cabeça, com olhar perdido no castelo à frente - Realmente era quando estive aqui.
- Quantos anos você tinha?
- Seis.
Avelyn respirou fundo, depois tentou demonstrar uma expressão serena, pois o marido havia diminuído a marcha do cavalo e se aproximava delas.
Havia se passado uma semana desde a manhã em que vira os cachorros de lady Gerville dormindo sobre a túnica destroçada. Uma semana inteira em paz, sem qualquer "acidente".
Avelyn chegara à conclusão de que sua breve preocupação de que tivessem tentando sabotar seus esforços não passava de pura imaginação. Nada havia acontecido desde
então que comprovasse essa idéia.
Na realidade, não havia acontecido absolutamente nada naquela semana. Fora uma sucessão de dias e noites entediantes. Todas as manhãs Paen saía bem cedo com o pai
rumo a Rumsfield. O castelo ficava a meio dia de viagem. Eles regressavam tarde da noite quando Avelyn invariavelmente já estava dormindo. Se não estivesse, ela
dormia tão logo o marido caísse na cama e começasse a roncar.
Para sua decepção, Paen não havia mais feito amor com ela desde a noite da consumação do casamento, e mais uma vez ela lutava contra o medo de que o marido não a
desejasse. Tentava dizer a si mesma que ele estava muito cansado, mas era como se os primos lhe tomassem a cabeça de assalto e ficassem repetindo que ele só a procuraria
pela primeira vez por obrigação e não queria mais seu corpo rechonchudo. Quando essas vozes começavam a perturbar, Avelyn tentava afastá-las, afirmando que precisava
aguardar até que estivessem em Rumsfield. Paen não teria então de viajar tanto e aí ela veria. Tinha de aguardar.
Nesse meio tempo, lady Gerville lhe contara que a razão daquelas viagens diárias era devida ao fato de que houvera saques em Rumsfield nos últimos anos. Assaltantes
escoceses haviam cruzado as fronteiras para roubar animais e ameaçar o povo da região. Constava que, em duas ou três ocasiões, eles chegaram a assaltar o castelo.
Esse era o ponto que, segundo lady Gerville, mais preocupava lorde Gerville, pois Legere, o castelão, provavelmente com medo que de o pai de Paen o julgasse idoso
demais para administrar o castelo, nunca o informara do problema. Optara pelo silêncio em detrimento do castelo e de seus habitantes. Havia então muito a ser feito.
Paen e o pai estavam tentando restaurá-lo para que estivesse em melhores condições antes da mudança dos dois para lá.
Avelyn contemplou preocupada os buracos nas muralhas de Rumsfield. Via que a maioria eram pequenos, pois certamente, os maiores já haviam sido tampados. Em alguns
pontos, partes inteiras da muralha foram reconstruídas. Decerto era uma das tarefas que o sogro e o marido haviam cuidado na semana anterior. Nenhum homem gostaria
de levar a esposa par um castelo sem segurança.
- Rumsfield não é a casa que foi um dia - Paen comentou ao emparelhar os cavalos.
Avelyn aquiesceu com a cabeça, mas não teceu comentário algum.
- Dizer que minha mãe passou a infância aqui...
Avelyn olhou para o lado em que lady Gerville cavalgava próxima ao marido. A sogra decidira acompanhá-los a Rumsfield. Assim, é claro que Diamanda e tia Helen lá
estavam também.
- Ela certamente ficará muito aborrecida de ver os danos que o tempo e os ataques causaram ao castelo de seus pais - Paen prosseguiu.
Avelyn mais uma vez balançou a cabeça, e Paen levou o cavalo para perto do pai. Ela o observou meio intrigada com o que o marido tentava lhe dizer com aqueles comentários.
Talvez ao mencionar que lady Gerville ficaria aborrecida, ele estivesse lhe pedindo ajuda para confortá-la quando chegassem.
Avelyn o faria com a maior satisfação, se surgisse a oportunidade. A sogra era muito boa para ela. Preferiria, porém, que Paen tivesse expressado claramente seu
desejo. Francamente, os homens eram criaturas estranhas demais.
Ela permaneceu calada pelo restante da viagem, prestando, ao chegarem ao castelo, mais atenção a lady Gerville do que ao pátio e à escadaria de entrada. A sogra
reagiu bem a princípio. Ela procurava endireitar um pouco o corpo a cada passo que os cavalos davam, alongando o pescoço e erguendo cada vez mais a cabeça. Esse
foi o único sinal exterior de sua preocupação.
Todos desmontaram junto à escadaria do castelo. Paen e lorde Gerville imediatamente foram levar os cavalos para o local onde, um dia, haviam sido os estábulos, e
que agora estavam terrivelmente danificados.
Não houve comentário algum de que não tinha ninguém ali para levar os animais, mas Avelyn notou que a sogra apertava as mãos em um gesto de visível contrariedade.
Passado um momento, ela endireitou os ombros e conduziu Avelyn, Runilda, Diamanda, e lady Helen escada acima.
Porém, quando elas cruzaram as grandes portas, lady Gerville viu a deterioração da parte interna e, finalmente, deu vazão a seu desespero. Ela arregalou os olhos
e uma exclamação de tristeza escapou-lhe dos lábios.
Avelyn imediatamente a pegou pelo braço, receando que a sogra pudesse desmaiar. Lady Gerville reagiu ao toque e começou a gaguejar:
- Essa era... essa era...
- Conserta-se tudo com um pouquinho de esforço - Avelyn a interrompeu, recebendo um olhar descrente de Diamanda.
Felizmente, lady Helen foi mais persuasiva e todas caminharam para a mesa no centro do salão.
- Oh, Avelyn - lady Gerville disse chorosa, voltando os grandes olhos para ela. - Honestamente, não imaginava que o castelo estivesse nesse estado. Você não pode
ficar aqui...
- Não se preocupe, minha sogra. Ele ficará em ordem - Avelyn assegurou, fazendo o possível para esconder a própria decepção diante do estado do lugar. O chão estava
coberto por uma velha forração de junco, toda quebrada e mofada, dela inclusive brotavam algumas folhinhas. As paredes estavam encardidas e manchadas, como se nunca
tivesse recebido cuidado algum. A escadaria que levava ao piso superior estava em péssimas condições, faltavam degraus em vários lugares. Levantando os olhos para
o teto de madeira, via-se buracos enormes.
- Minha pobre casa - lady Gerville lamentou abatida, sentando-se em um banco que desmoronou sob o peso dela.
- A senhora está bem? - Avelyn perguntou alarmada, sendo ajudada por lady Helen ao acudir a sogra.
- Estou, obrigada - lady Gerville balbuciou, enquanto as mulheres começaram a limpar a sujeira da roupa provocada pela queda.
- É só lavar minha saia - murmurou lady Gerville,quando ficou evidente que a tentativa de limpeza era inútil. Ela se pôs a percorrer o salão com um olhar desamparado,
fixando-o espantada em um determinado ponto:
- Aquilo é um porco?
Avelyn seguiu o olhar da sogra e também arregalou os olhos ao ver o grande animal mastigando detritos em um dos cantos. Enquanto olhavam pasmas, o porco puxou várias
vezes um monte de junco com a pata, depois de jogou de lado, aparentemente pronto para dormir devido ao calor do meio-dia.
- É mesmo - sussurrou Avelyn baixinho, não sabendo nem como reagir. Ela sabia de muitas famílias que não mantinham os animais dentro do castelo, mas seus pais não
tinham esse hábito. E com exceção dos cães, esse tampouco era um hábito em Gerville. Ela não tinha idéia do que fariam com o animal.
- Sua mãe está reagindo melhor do que esperava. Bem que tentei dissuadi-la de vir - Wimarc de Gerville comentou enquanto caminhavam para o castelo, após deixarem
os cavalos.
- Tentou?
- Tentei, filho. Não queria que ela visse o lar da infância desse jeito, mas sua mãe é teimosa. Nada iria demovê-la de vir e ver vocês dois instalados. - Ele passou
a mão pela cabeça. - Minha preocupação agora é que ela insista em ficar até que o castelo esteja em boas condições, ou que vocês não fiquem aqui enquanto tudo não
estiver consertado.
Paen não gostou muito da idéia. A semana anterior, entre viagens de ida e volta até lá, fora exaustiva. Se por um lado as muralhas de Rumsfield precisavam de reparos
par que o castelo se tornasse novamente seguro por causa de Avelyn, ele não queria pensar em ficar afastado de sua esposa. A sedução da cama de casado o fizera voltar
para casa todas as noites, porém chegava exausto demais para poder usufruir dela.
Ele olhou para as mãos e procurou fechá-las.A mãe havia tirado as ultimas ataduras naquela manhã e, embora a pele ainda estivesse sensível quando tentava fechar
as mãos, ele estava satisfeito com o resultado dos curativos. Logo estariam completamente curadas. Paen mal conseguia esperar para tocar em Avelyn e planejava fazê-lo
naquela noite. Estava convencido de que não teria o problema do cansaço que se abatera sobre ele na última semana e finalmente poderia se deliciar novamente com
toda a doçura da esposa.
- Mas que diabo!
A exclamação do pai fez com que Paen olhasse na direção do castelo. Ambos pararam para ver a verdadeira luta que estava travada no alto da escadaria. A esposa, a
criada e sua, habitualmente distinta, mãe gesticulavam e gritavam, empurrando para fora do castelo uma enorme porca. As três estavam curvadas, com as mãos nos quadris
da porca, obviamente prenhe, forçando-a sair pela porta do castelo.
Diamanda e a tia estavam lá também. Sem espaço atrás da porca, lady Helen se limitava a observar com uma expressão duvidosa. Diamanda estava à frente, procurando
atrair com palmas e gritando com toda a força de seus pulmões, como se quanto mais alto gritasse, mais provável seria que a porca a ouvisse e entendesse.
Respirando fundo, Paen voltou a caminhar.
- É melhor nos apressarmos antes que elas se machuquem. Será que não sabem que os porcos têm dentes?
- A pergunta é outra, será que a porca não sabe que sua mãe tem dentes? - perguntou Wimarc, divertindo-se.
Os dois chegaram antes que a porca se enfurecesse e resolvesse morder uma das mulheres. Paen então calmamente usou uma maçã para fazê-la descer as escadas enquanto
o pai convencia as excitadas damas a entrar. Os cinco estavam em pé ao lado da mesa quando Paen voltou. Lorde Gerville balançava aborrecido a cabeça e a mãe repetia:
- Não, Wimarc, eles simplesmente não têm condições de ficar aqui.
- Ficaremos bem, milady - Avelyn assegurou, mas lady Helen era da mesma opinião de lady Gerville.
- Sua esposa está certa, milorde. Avelyn é moça de boa estirpe, é nobre. O senhor não pode esperar que a pobrezinha viva neste chiqueiro.
- Vamos ficar - disse Paen, com firmeza, ao se aproximar do grupo.
A mãe dirigiu um olhar de censura para ele, mas Paen não era criança e se recusou a mudar de idéia.
- O castelo ficará limpo e arrumado em pouco tempo agora que Avelyn está aqui para orientar os criados. Ela cuidará da parte de dentro e eu da área externa. Quando
a senhora vier nos visitar, encontrará tudo completamente diferente.
- Concordo com nosso filho, Christina - opinou lorde Gerville. - Esta será a casa deles e os reparos serão feitos com maior rapidez se ambos estiverem aqui o tempo
todo, em vez de passarem horas indo e voltando para Gerville à cavalo.
- Muito bem - lady Gerville aquiesceu de repente. - Então eu também vou ficar para ajudar.
- Christina! - lorde Gerville repreendeu-a. - Se você ficar, você vai simplesmente assumir as tarefas, como faria em casa. Esta casa agora é de Avelyn. Vamos permitir
que ela administre como achar melhor.
- Mas... - lady Gerville olhou em volta - não dá para fazer muita coisa até que se torne habitável. Com ajuda tudo seria mais rápido.
- Eu poderia ficar para ajudar - Diamanda prontificou-se.
- É uma boa idéia - disse Paen, dando de ombros quando todos se voltaram para encará-lo. - Ela poderia ajudar e faria companhia a Avelyn. Isso se lady Helen permitir
- acrescentou e a tia de Diamanda comprimiu os lábios, mas aceitou.
- Certamente podemos ficar. Será útil para Diamanda. Depois de uma experiência aqui, ela estará mais capacitada a lidar com qualquer emergência que uma mulher nobre
possa enfrentar - lady Helen respondeu, em tom áspero.
- Mas... - lady Gerville começou a dizer, ao mesmo tempo em que Avelyn protestava:
- Ora, realmente não é necessário.
Ambas foram derrotadas pelo argumento de Wimarc.
- Parece a solução perfeita. Quando chegarmos a Gerville, mandaremos o restante das coisas de vocês para cá. Mas, se a qualquer momento vocês mudarem de idéia e
quiserem ir para Gerville, Paen providenciará um acompanhante e serão muito bem-vindas. - Ele esperou que as duas mulheres concordassem e, em seguida, bateu palmas.
- Bom, bom.. vamos embora então. Temos uma longa viagem de volta pela frente.
- Mas Wimarc, acabamos de chegar - lady Gerville protestou.
- Eu avisei que não pretendia ficar muito e que você não deveria se dar ao trabalho de vir - ele a lembrou. - Eu só quis me certificar de que os reparos na última
parte da muralha seriam concluídos esta manhã, conforme havia ordenado. Era uma coisa que precisava ser feita antes de Avelyn e Paen pernoitarem aqui.
- Eu sei, mas...
- Pedi a Sely que preparassem uma cesta de piquenique para comermos na viagem de volta - lorde Gerville prosseguiu. - Vamos deixar que eles comecem logo a arrumação
para que a noite possam, pelo menos, dormir confortavelmente.
Paen conteve a respiração, esperando que a mãe fosse continuar protestando, mas ela deu um suspiro e concordou.
- Bem - lorde Gerville deu um tapinha nas costas da esposa. - Vou deixá-la com as damas para que despeça delas e fique sabendo o que querem que enviemos de Gerville,
enquanto vou trocar uma palavra com Paen.
Paen e o pai caminharam até o pátio. O primeiro assentia com a cabeça a cada vez que o último lhe dava uma nova sugestão sobre o que deveria fazer. Ironicamente,
lorde Gerville achava que a esposa não deveria dar conselho a Avelyn, mas ele não se furtava a dar ao filho.
Estavam encerrando a conversa quando finalmente as damas saíram do castelo. Embora não tivesse a mínima idéia sobre o que teriam conversado, Paen tinha certeza de
que era longa a lista de coisas solicitadas por lady Helen e Diamanda, e não duvidava de que a mãe tivesse dado várias instruções a Avelyn, pois fazia parte da personalidade
dela. Entretanto, o que quer que ela pudesse ter dito não poderia ser a causa de todas estarem fungando e de olhos vermelhos.
O pai suspirou exasperado ao vê-las.
- Parece que vamos estar a três dias de distância e não a apenas meio dia.
- É mesmo. - Paen concordou.
- Vamos, esposa. Elas não estarão tão longe assim - disse lorde Gerville quando elas pararam no pé da escadaria para se abraçar.
Embora relutante para se afastar das mulheres, lady Gerville caminhou até o filho, abraçando-o com tanta força que ele temeu que a mãe fosse lhe quebrar uma costela.
- Cuide dela, filho. Ela é uma menina muito meiga.
Paen concordou, embora indeciso se lady Gerville realmente estaria se referindo à sua esposa. Ele não pensava nela como uma menina. Em Diamanda, sim. Sua esposa
tinha a experiência de uma mulher.
- Christina - chamou Wimarc, em tom sofrido.
- Esses homens! - a mãe balbuciou, exasperada, mas finalmente soltou Paen e foi montar seu cavalo.
- Devemos voltar em uma semana para ver como vão as coisas - lorde Gerville reiterou -, mas enviem um mensageiro, se tiverem qualquer problema.
Paen acenou para os pais e esperou que deixassem o pátio com os criados, seguindo-os com os olhos até alcançarem a colina. Voltou-se então para as mulheres que continuavam
paradas próximas à escadaria. Elas também acompanhavam com os olhos o pequeno grupo, como quem vê o derradeiro amigo partir.
Balançando a cabeça, Paen comentou:
- Vou deixá-las a cargo do castelo e com os criados, enquanto vejo o que precisa ser feito aqui fora. Mandem alguém me chamar, se precisarem de mim.
- Está bem, marido - Avelyn murmurou e até forçou um sorriso.
Paen ficou satisfeito e cruzou o pátio até o local onde vários homens ainda trabalhavam no reparo de buracos menores na muralha. Nem ele nem o pai haviam acreditado
no estado em que Rumsfield estava quando foram inspecionar a propriedade uma semana antes.
Legere administrara o castelo desde que seu avô falecera, um pouco depois do casamento dos pais. Embora os pais tivessem visitado o castelo várias vezes quando ele
era menino, Paen não se lembrava de ter estado lá nos últimos dez anos, ou mais. Um erro que lorde Gerville lamentou muito ao ver o castelo delapidado como estava.
Legere já não era mais jovem quando assumiu a responsabilidade de castelão e já estava muito idoso quando morreu, idoso demais para administrá-lo... e teimoso demais
para admitir isso, Paen pensou, aproximando-se dos homens para ajudá-los nos reparos da muralha.
Não querendo perder tempo com viagens para verificar o que Legere fazia, o pai de Paen era a única pessoa na região que não sabia que o homem não estava mais em
condições para administrar Rumsfield. Os escoceses, que transformaram em negócio o roubo do gado e os constantes ataques ao castelo, estavam bem a par disso. Levaram
tudo o que era de valor, inclusive partes da muralha, sem sequer serem notados.
Tudo o que Paen e lorde Gerville encontraram quando foram fazer a primeira inspeção, foi a muralha destruída, um mero esqueleto do castelo, com madeira podre por
todo lado, um bando de criados assustados, cinqüenta soldados precariamente vestidos e um par de porcos e de galinhas.
O primeiro problema a ser enfrentado por Paen foram os soldados. Os homens estavam ressentidos de terem sido negligenciados por seu senhor que os abandonou sob o
comando de um castelão incompetente, sem nunca ir vê-los.
Paen gastou boa parte dos dois primeiros dias tentando convencê-los de que as coisas iriam mudar, e mudar para melhor. Só quando finalmente conseguiu convencê-los
disso, foi que eles dispuseram a trabalhar afinco e o resultado começava a aparecer. Os homens extras que o pai havia trazido de Gerville também ajudaram muito e,
se tudo continuasse assim, Rumsfield voltaria ao seu estado original no outono. Pelo menos na parte externa. Precisavam ainda acabar de reparar as muralhas, construir
novos estábulos e oficinas de ferreiro, de sapateiro e assim por diante. Precisavam também procurar gente capacitada para trabalhar em várias funções. Os melhores
criados haviam desertado.
Paen esperava que Avelyn conseguisse deixar o interior do castelo pronto bem antes. O trabalhado dela era mais fácil, se comparado ao seu. Internamente, era mais
uma questão de limpeza; os criados não estariam ressentidos com a nova senhora, nem criariam problemas, como os soldados fizeram.
Ele se sentira bastante orgulhoso de ver como a esposa se controlara ao ver o estado em que o castelo estava. Seu pai tinha certeza de que ela ficaria aborrecida
e Paen discordara. Achava que nada deixava uma mulher mais feliz do que arrumar a casa à sua moda, e lá havia muito a ser feito.
Sim, não tinha dúvida de que Avelyn logo estaria com tudo arrumado. Imaginava que, naquele momento, um verdadeiro exercito de criados estivessem espalhados por todos
os cantos do castelo, arrumando tudo feito loucos.
- Marido?
Paen voltou-se e viu a esposa se aproximar, umedecendo os lábios ao observar o movimento dos quadris dela e o balanço de seus seios quando caminhava. Ele tinha grandes
planos para os dois naquela noite; não cairia morto de sono na cama. Depois de finalmente ter tido uma noite de amor com a mulher, não conseguira outra por conta
do cansaço. Estarem juntos ali, sem dúvida, acabaria com o problema.
- Paen, você me ouviu? - Avelyn insistiu.
- Não - ele admitiu. - O que você disse?
- Disse que perdi os criados.
Paen a olhou atônito. Devia ter ouvido errado.
- O que você disse?
- Bem, quer dizer, não os perdi. Simplesmente não consegui encontrá-los - Avelyn admitiu. - Não estão em parte alguma do castelo. Não sei mais onde possa procurá-los.
- Você subiu para ver se não estão lá em cima? - Paen perguntou.
Avelyn olhou confusa para o marido. Realmente não lhe passara pela cabeça, mas era improvável estivessem lá. - Eles não conseguiriam subir, marido. Os degraus estão
quebrados.
- Somente dois ou três - Paen esclareceu. - Os outros estão bons. Meu pai e eu subimos para ver como estava tudo lá em cima na primeira vez que viemos aqui. Os criados
provavelmente estão lá arrumando os quartos.
- Talvez. - Avelyn deu dois passos para trás, suspirou e murmurou, indecisa: - Vou subir para ver.
Deixando-o entretido com o próprio trabalho, Avelyn retornou ao castelo.
Runilda estava procurando alguma coisa na parte de trás da carruagem estacionada na frente do castelo, quando passou por ela. Estavam precisando de algum item de
limpeza que não haviam encontrado no castelo. Avelyn deixou que a criada continuasse o que estava fazendo, e subiu para o salão.
- Onde está lady Helen? - perguntou a Diamanda, que estava parada examinando o banco que se quebrara quando lady Gerville se sentara nele.
- Ela foi ver se existe um canteiro de ervas atrás da cozinha. Talvez haja alguma coisa que dê par se salvar.
Avely nem tinha pensado nisso antes. Um canteiro de ervas e plantas medicinais era tão importante quanto um poço de água em um castelo. A lembrança fez com que murmurasse:
- Onde será o poço? Deve haver um. Mesmo que o original estivesse contaminado, Paen e o pai certamente devem ter cavado outro.
- Sim, e precisaremos de água para a limpeza. - Diamanda dirigiu o olhar para a porta. - Posso ir perguntar a ele?
- Se você não se importar? Preciso subir para ver se os criados estão lá em cima.
Diamanda arregalou os olhos, incrédula.
- Por quê? Não é nada seguro e eles não devem estar lá.
- É, também acho, mas Paen sugeriu que eles talvez estejam arrumando os quartos.
Diamanda debochou da idéia e Avelyn esboçou um sorriso.
- Isso, por favor, vá perguntar a Paen onde fica o poço, e eu vou procurar os criados.
Diamanda recomendou, hesitante:
- Tome cuidado. Esses degraus não parecem nada firmes.
- O piso lá de cima também não. Vou tomar cuidado.
Ela esperou que Diamanda se aproximasse da porta e começou, cuidadosamente, a subir os degraus, segurando-se no corrimão. Não lhe saía da cabeça a imagem de lady
Gerville caindo no banco quebrado. Com o seu próprio recorde de acidentes durante a viagem para Gerville, não estava nada segura de conseguir chegar até em cima
sem nem um arranhão nos joelhos.
Avelyn perguntou-se por que estava se dando ao trabalho de subir. Sabia que era uma tolice. Só o fazia para não contrariar Paen. Era difícil acreditar que os criados
estivessem trabalhando nos quartos, como ele imaginava, quanto não tinham levantado um dedo para arrumar um pouco o salão... ou a cozinha, uma vez que sabiam que
eles estariam chegando.
Se o salão estava em péssimo estado, a cozinha estava em um estado muito pior. O piso, os balcões, as mesas estavam tão estragados quanto as poucas coisas que havia
no salão, e, além disso, uma camada de gordura e de fumaça tomava conta de tudo. Os sapatos de Avelyn grudaram no chão ao pisar lá, e ela sentira nojo de tocar em
qualquer coisa.
Os criados já estavam cientes da mudança deles e não tinham tomado providência alguma. Por que se incomodariam agora com os quartos? No entanto, ela tinha de ir
ver. Afinal, a administração da casa estava por sua conta e precisava tratar de encontrá-los e fazê-los trabalhar.
Avelyn estava quase chegando ao topo da escada quando pisou em um degrau que rangeu ameaçadoramente. Instintivamente, ela deu um passo para trás, quando caindo pelo
vão deixado por um degrau quebrado que ela acabara de pular. Apoiou-se com ambas as mãos no corrimão, com um joelho encostado na beirada do degrau quebrado e o outro
balançando no ar.
- Somente dois ou três - repetiu as palavras do marido, enquanto se agarrava ao corrimão e levantava a perna do buraco. Nem precisava olhar para saber que estava
bastante arranhada. A dor que sentia não deixava dúvida. Rangendo os dentes de nervoso e tremendo toda, ela conseguiu se equilibrar.
Avelyn recostou-se na parede e ponderou por um momento se não deveria voltar para trás. Como só faltavam alguns degraus, respirou fundo, procurou endireitar-se e
manter o corpo o mais próximo possível da parede, decidindo continuar a subir. Imaginava que a madeira do degrau mais próximo da parede resistiria melhor quando
pisasse.
Para alívio seu, não houve mais rangido algum dessa vez e ela subiu os degraus que faltavam. Ao chegar ao patamar, de um suspiro profundo e parou par levantar a
saia e examinar as pernas.
Ganhara um belo machucado, pensou contrariada e soltou a saia. Só lhe restava torcer para que na volta não tivesse problema alguma na escada.
Foi nesse momento, que lhe ocorreu que deveria ter levado uma tocha consigo. Embora com as portas abertas a luz penetrasse no salão, os corredores lá em cima estavam
escuros. Talvez servisse de consolo pensar que, de todo modo, teria perdido a tocha ao cair. Ela começou a se mover devagar, procurando primeiro sentir o chão em
que pisava antes de dar um passo. Do salão dava para se ver os enormes buracos abertos nos quartos, e ela não tinha a menor vontade de cair em um deles.
Avelyn verificou cada um dos três quartos do piso superior. O primeiro era o maior e provavelmente era o que Legere usara. Se assim fosse, ou ele não tinha muita
coisa, ou suas coisas haviam sido roubadas depois de sua morte. No quarto tinha somente uma mísera cama velha e nada mais. Os outros dois quartos não tinham absolutamente
nada, e ambos tinham pelos menos dois buracos no piso. O último quarto, embora não fosse muito grande, era o que tinha o maior buraco. Avelyn duvidava que coubesse
uma cama nele.
Talvez uma arca, ela pensou parando a alguns passos do buraco e inclinando-se para olhar por ele. Dava para ver bem o salão lá embaixo. De qualquer perspectiva,
a impressão era péssima. O madeiramento estava em estado muito precário. Todo o castelo estava horrível.
Balançando a cabeça, ela começou a se afastar do buraco. Virou ao ouvir um rangido atrás de si, quando sentiu uma pancada na lateral do rosto, com se fosse de um
pedaço de pau. Avelyn tropeçou e caiu na diagonal, o que provavelmente a salvou. Instintivamente procurou cair no chão, mas enquanto sua mão direita bateu com força
no piso, sua mão esquerda ficou suspensa no ar e a cabeça bateu numa ponta de madeira quebrada e ela perdeu os sentidos, tendo a sensação de que estava caindo no
buraco pelo qual havia pouco olhava.
A primeira coisa que Avelyn sentiu ao acordar foi a cabeça latejando. Jamais sentira uma dor como aquela. Procurando reagir, ela apertou os olhos, mas isso só fez
aumentar a dor.
- Avelyn?
Reconhecendo a voz de Diamanda, Avelyn abriu os olhos e fitou a menina, confusa. Depois de notar a expressão ansiosa da pequena loira, ela pareceu estranhar o lugar
onde se encontrava ao ver a armação de tecido no teto e em toda sua volta.
- A tenda da viagem - sua voz soou baixa e rouca. Ela engoliu em seco, e com dificuldade, perguntou: - Por quê?
- Paen fez os homens montarem para que tivéssemos um lugar para acomodá-la - Diamanda explicou. - Você machucou muito a cabeça ao cair.
- Cair... - Avelyn ecoou, confusa. Seu coração teve um sobressalto ao lembrar que estava no quarto quando levou uma pancada e caiu, ficando antes com a mão suspensa
no chão. Lembrava agora também que batera com a cabeça no que parecia ser um pedaço de madeira quebrado. A beirada do buraco, pensou. Depois sentiu que estava caindo
por ele.
- Alguém me deu uma pancada - disse Avelyn - e eu caí no buraco.
- Você levou uma pancada? - Diamanda sacudiu a cabeça. - Paen disse que você deve ter batido a cabeça na beirada do buraco. Seu rosto estava esfolado e havia sangue
na tábua do piso.
- Não, alguém me bateu - Avelyn insistiu, com voz fraca, depois olhou para o outro lado ao sentir os tapinhas que lady Helen, inclinada sobre ela, lhe dava nas mãos.
- Deve ter sonhado, querida. Você estava sozinha lá em cima - ela afirmou, olhando-a com reprovação. - Nunca deveria ter subido. Teve sorte de não ter rolado escadaria
abaixo e quebrado o pescoço. Da altura que foi, se não tivesse ficado presa pela saia que se enroscou na ponta de uma tábua, você certamente acabaria morta no salão.
- Pela saia? - Avelyn surpreendeu-se.
- Sim, milady - Runilda aproximou-se. - Eu estava entrando no salão com um balde e uma vassoura quando ouvi um barulho e olhei para cima. - A criada levou a mão
no peito como se a simples memória fizesse seu coração disparar. - A senhora estava caindo, mas as saia ficou presa em alguma coisa, e a senhora ficou balançando
lá em cima, como se fosse uma boneca de pano. - Runilda mordeu os lábios e balançou a cabeça. - Eu fiquei lá gritando.
- E eu a ouvi gritar e fui correndo ver o que estava acontecendo - apartou Diamanda.
- E eu também. - Lady Helen teve um estremecimento. - Não desejo nunca mais ouvir gritos como aqueles. Quase congelei de susto.
- Foram horríveis mesmo - Diamanda concordou. - Pensei que Runilda tivesse se ferido, mas depois vi você pendurada lá em cima. - Ela fez um expressão de pavor. -
Runilda foi buscar Paen enquanto eu subi correndo para ver o que dava para fazer por você.
- E eu fui atrás de Diamanda. - Lady Helen apertou carinhosamente a mão de Avelyn. - A maluquinha estava procurando uma maneira de soltar sua saia para puxá-la de
volta, mas eu alertei de que era melhor esperar por Paen. Ela não teria força suficiente para puxá-la
- O tecido estava esgarçando - disse Diamanda irritada com o tom de censura da tia. - Eu fiquei medo que a saia rasgasse e você caísse da vez.
- Essa de fato era uma preocupação - lady Helen admitiu. - Mas se você a soltasse como queria, as duas poderiam ter caído.
- Então foi Paen quem me pegou? - Avelyn perguntou para acabar com a discussão.
- Foi. - Diamanda se abriu num sorriso e seus olhos brilharam. - Ele é tão forte... Levantou você com uma só mão. Primeiro se ajoelhou ao lado do buraco, abaixou-se
para soltar sua saia e se levantou com você. Em seguida a carregou para baixo e começou a dar ordens para os guardas.
- Guardas? - Avelyn a olhou, confusa.
- Sim. Quando Runilda foi buscá-lo correndo, os guardas vieram com ele - Diamanda explicou. - Todos pareceram congelar no salão quando olharam para cima e a viram,
inclusive Paen. Ficaram paralisados de medo, claro, então Paen pediu que fossem buscar o tecido da tenda e recomendou que segurassem firme debaixo do lugar onde
você estava, no caso de você cair antes que ele a puxasse.
- É claro que assim que todos se posicionaram, como Paen havia pedido, ele mesmo já estava junto de você e logo a puxou - Helen comentou. - Assim que a trouxe para
baixo, ele mandou os homens montar a tenda na frente do castelo para que houvesse um lugar para deixá-la até se recuperar.
- É verdade, milady. Seu marido estava tão preocupado que a segurou o tempo todo enquanto os homens arrumavam a tenda - Runilda confirmou com um sorriso e Avelyn
sentiu o coração vibrar ao pensar que o marido realmente se importava um pouquinho com ela. Foi então que Diamanda aparteou:
- Claro que tinha de segurá-la. Não havia nenhum lugar em que pudesse deitá-la até a tenda ser erguida e as peles arrumadas...
-Vamos deixar Avelyn descansar - lady Helen interferiu, dirigindo um olhar sério para Diamanda ao ver o sorriso que brotava nos lábios de Avelyn desaparecer ao o
comentário da sobrinha. - Precisamos ver o que os homens estão fazendo - ela alegou, pondo-se em pé.
- Os homens? - perguntou Avelyn, surpresa.
- Sim. - Diamanda respondeu. - Paen deslocou alguns para consertar a escadaria e o assoalho do piso superior. Os demais estão tirando o junco estragado do salão
para que o chão possa ser esfregado.
- Ah... - Avelyn sussurrou.
- Não se preocupe - disse a menina ao se levantar também. - Imagino que você não deseje vê-los hoje. Descanse e se recupere, nós vamos ver o que eles estão fazendo.
- Por que não desejaria vê-los? - Avelyn perguntou, cismada.
- Bem... - A pequena loira pareceu confusa por um momento e justificou-se: - Só pensei que se sentisse encabulada depois de tudo.
- Depois de tudo o quê? - Avelyn quis saber, apavorada.
- Do que eles viram. - Ela parou, como se acabasse de entender que Avelyn não sabia.
- Vamos, deixe-a descansar. Não há necessidade de contar a ela. - Lady Helen puxou Diamanda pelo braço, tirando-a apressadamente da tenda.
Avelyn dirigiu o olhar para Runilda.
- Não há necessidade de me contar o quê? O que foi que todos os homens viram?
A criada suspirou contrariada, mas sabia que a patroa estava bem. Responderia a ela.
- A senhora ficou pendurada quase em pé, só presa pela parte de trás da saia, milady - esclareceu Runilda, fazendo uma demonstração de como havia sido.
Avelyn fitou com crescente assombro.
- Céus!Deu para se ver tudo?
- Não - assegurou a criada. - A saia ficou presa dos dois lados de seus braços e cobriu até acima de seus joelhos na frente. Bem acima - ela completou.
- E atrás? - Avelyn quis saber.
A expressão de Runilda dizia tudo, nem precisava falar mais nada. Repetia-se o ocorrido no dia em que Paen julgara que ela tivesse se afogado: mais uma vez os homens
tiveram uma boa visão de seu traseiro.
- Meu marido deve me achar uma estúpida.
- Oh, não, milady. - Runilda se ajoelhou ao lado de Avelyn e apertou a mão dela. - De verdade, ele empalideceu quando viu que a senhora estava em perigo, e não a
largou mais depois que pegou no colo. Acho que ele está gostando muito da senhora.
Avelyn custava a acreditar, ela nada tinha de uma esposa perfeita. Desconfiava que era mais um pesadelo para Paen. Cansada demais para repassar mentalmente outra
vez todos os acidentes e ferimentos que causara desde o dia do casamento. Avelyn somente perguntou:
- Onde está meu marido?
- Depois de ver que a senhora estava bem, ele mandou os homens fazer um trabalho e foi até a aldeia. Acho que foi se informar sobre criados.
Avelyn apertou os lábios ao ouvir a notícia. Paen devia cuidar da parte externa e ela do interior do castelo. Contudo, suas atitudes desastradas causavam mais um
transtorno para ele. Paen precisava agora cuidar também de tarefas que eram da sua responsabilidade. Sua queda o obrigava a acumular mais trabalho nos ombros, além
dos que já tinha.
Não, ela não poderia permitir isso. Era tarde demais para impedi-lo de ir à aldeia, mas poderia, pelo menos, supervisionar os homens enquanto ele estava fora.
Avelyn começou a se levantar, parando meio sentada ao se sentir tomada de dor e náusea.
- Por favor, milady. - Runilda imediatamente colocou as mãos nos ombros dela, tentando fazê-la se deitar de novo. - Descanse. A senhora se machucou muito os ombros
dela, tentando faz parando meio sentada ao se sentir ara ele. Paen precisava agora cuidar tambem acidentes e feriment.
Avelyn cerrou os dentes e afastou as mãos da criada, esforçando-se para endireitar o corpo.
- Quero me levantar, Runilda. Minha cabeça vai doer de qualquer jeito, deitada ou em pé.
Dando um suspiro exasperado, a criada colocou a mão sob o braço de Avelyn para ajudá-la a ficar em pé.
Avelyn procurou sair logo da tenda antes de ter uma nova náusea. Uma vez lá fora, ficou parada por vários minutos, respirando fundo e dizendo a si mesma que quanto
mais ficasse de pé, melhor se sentiria. Pouco importava se não acreditasse muito nisso. O marido continuara a fazer tudo que precisava apesar das mãos machucadas.
Ela iria arregimentar alguns homens mesmo com a cabeça doendo.
A primeira coisa que fez ao entrar no salão, ainda apoiada em Runilda, foi olhar para cima. Ela localizou o buraco pelo qual havia caído, mais uma vez recordando
os momentos que precederam a queda. Apesar do que Diamanda e lady Helen haviam lhe dito, Avelyn tinha certeza de ter levado uma pancada. Sua cabeça podia estar um
pouco confusa, mas... Ela sentia ainda o golpe assustador e a dor aguda. Lembrava-se também perfeitamente do momento em que caíra, de sentir o vazio sob sua mão
esquerda e de bater a cabeça com força na ponta de uma tábua.
Sim, Avelyn tinha certeza de que alguém lhe dera uma pancada. Mas quem? Seria um dos criados?
Não, ela não havia nem conhecido os criados ainda. Não teriam motivo algum para feri-la.
Veio-lhe à mente a túnica destroçada. Lembrou-se do cheiro de porco no tecido e de seu breve receio de que alguém estivesse sabotando suas iniciativas, mas logo
afastou o pensamento da cabeça. Os dois acontecimentos não deveriam ser relacionados. Estragar sua costura era algo muito diferente de agredi-la.
- Avelyn! O que está fazendo em pé? - Diamanda correu até ela preocupada.
A lua cheia estava alta quando Paen entrou no pátio do castelo. A noite fora longa. Sua ida à aldeia fora inútil. Não houve uma única pessoa que se dispusesse a
ir trabalhar em Rumsfield. Se fossem servos, Paen poderia obrigá-los, mas ele sabia que os servos haviam fugido de Rumsfield muito antes de Legere morrer. Os habitantes
da aldeia declararam a liberdade de todos. Os camponeses eram livres para fazer o que quisessem desde que ajudassem a cuidar das terras do castelo. Sem saber mais
o que fazer, Paen deixou a aldeia e foi para Gerville. Precisava de criado para limpar e arrumar o castelo, e tinha de consegui-los em algum lugar.
Ele fez o longo percurso até a casa dos pais, explicou a situação a lorde Gerville durante a refeição que fez com ele, depois montou no cavalo e voltou para casa,
tendo nos ouvidos a promessa do pai de que cuidaria do assunto. Ele afirmara que no começo da tarde do dia seguinte teriam os criados. Paen chegava assim, em Rumsfield,
mais tarde ainda do que havia chegado a Gerville durante a semana anterior.
Foi direto para os estábulos destruídos. Acomodou o cavalo, dando-lhe um pouco mais da ração depois da longa jornada e, extremamente cansado, dirigiu-se ao castelo.
O pátio estava completamente silencioso quando o atravessou. Não fossem as sentinelas nas torres, ele diria que o castelo estava abandonado. Em toda a sua vida,
nunca vira um pátio tão silencioso e sem atividades. Era até meio perturbador.
O que o incomodou ainda mais, foi o fato de que as tendas não estavam mais armadas na frente do castelo, como a deixara. Essa constatação fez com que ele tivesse
um momento de preocupação, mas o pensamento de que Avelyn devia ter acordado e pedido que a desmontassem o acalmou. Ela provavelmente estava descansando e se recuperando
dos ferimentos perto da lareira.
Melhor que esteja, pensou e sentiu o coração se apertar ao lembrar da visão de Avelyn pendurada por um pedaço de tecido no alto do salão. Tinha certeza de que o
susto lhe custara dez anos de vida. Ficava doente só de pensar na cena. Ainda mais preocupante era o rosto dela quando a levantou. Avelyn havia, sem dúvida, batido
a cabeça na queda e o sangue lhe escorrida da testa, espalhando-se pelo rosto. No primeiro momento, ele temeu que a pobrezinha estivesse morta e foi com alívio que
viu o peito arfando, quando a puxou do buraco e a pegou no colo.
Era difícil dizer se Avelyn era a mais afortunada ou desafortunada das mulheres. No curto espaço de tempo que se conhecia, ela sobrevivera a um incêndio, ainda que
não tivesse sido tão perigoso, a um afogamento e a uma queda mortal.
Paen sacudiu a cabeça. A mãe lhe dissera que o destino parecia conspirar contra Avelyn desde o casamento. Fora esse o comentário dela ao saber da última tragédia
sofrida pela nora. Depois, lhe contou sobre o estrago que os cachorros haviam feito nas roupas que Avelyn estava costurando para ele.
Paen começou a desconfiar que havia algo mais do que a mão do destino naquilo tudo, embora não tivesse nada de concreto em que basear essa desconfiança, a não ser
a percepção de que ocorrera acidentes demais.
Por outro lado, existiam alguns aspectos que endossavam essa possibilidade. Um deles é que, embora a mãe amasse os cachorros, ela os treinara de maneira rigorosa,
exigindo deles obediência e bom comportamento. Eles nunca haviam estraçalhado qualquer outra coisa antes. O incêndio na tenda tinha um outro aspecto que não podia
ser descartado. A certeza de Avelyn de ter apagado a vela mesmo quando lhe sugerira que ela saíra apressada e talvez não tivesse se certificado. Não podia esquecer
a sinceridade estampada no rosto da esposa.
O acidente mais recente, porém, era o que realmente deixava suspeitas. O pai lhe perguntara como tudo tinha acontecido e Paen simplesmente não conseguira explicar.
Ambos tinham estado no quarto na primeira vez que foram inspecionar o castelo. Ainda que Avelyn não tivesse notado os buracos no piso inferior, ela os veria imediatamente
ao entrar no quarto. Os pesados cortinados, muito velhos e sujos, mantinham os quartos escuros, mas pelos buracos entrava uma luz acinzentada proveniente do salão.
Era impossível não vê-los.
Não, Paen tinha certeza de que ninguém teria tanta falta de sorte assim. Ele precisava conversar com a esposa detalhadamente sobre esse acidente e, dali em diante,
mantê-la sobre vigilância.
As portas do castelo estavam escancaradas quando Paen entrou. Ele parou para observar o salão. Havia homens espalhados por todos os cantos. Dormiam profundamente.
A sinfonia de roncos fazia o barulho de uma verdadeira tempestade. Deviam estar exaustos e não foi preciso olhar muito para entender o porquê. O chão do salão estava
limpíssimo, coberto por um tapete de junco recém-colhido. Tudo indicava que a esposa não os deixara descansar enquanto não tivessem removido completamente toda a
sujeira e manchas do chão. Embora a luz que emanava da lareira não permitisse enxergar direito, ele imaginava que os degraus da escadaria também tivessem sido consertados.
Paen acreditava que encontraria outras mudanças ainda, mas já era tarde e estava escuro, teria de esperar até a manhã seguinte para ver. Por enquanto, só queria
saber onde Avelyn estava. Não conseguiria relaxar enquanto não se certificasse de que ela estava bem. Seu olhar percorreu o salão e deteve-se na escadaria. Ele se
perguntava se os homens teriam tido tempo de chegar aos quartos. Foi então que viu a tenda em um canto do salão. Fora desmontada do pátio e montada lá dentro. Estava
tão cansado que
nem tinha percebido. Só podia ter sido idéia de Avelyn.
Balançando a cabeça ao constatar a engenhosidade da esposa em providenciar um lugar privativo para eles, Paen se voltou para fechar as portas de entrada. Descobriu
que uma delas estava emperrada e na outra não havia qualquer dobradiça, por isso estavam escancaradas. Teriam de ser consertadas no dia seguinte.
Ninguém se moveu quando ele atravessou o salão. Isso testemunhava a exaustão de todos. Depois de passar a manhã rebocando as muralhas e a tarde limpando o castelo
e carregando coisas, estavam de fato cansados.
Paen conseguiu chegar à tenda sem tropeçar em ninguém. Assim que entrou, porém, estancou. Embora tivesse conseguido enxergar o suficiente para atravessar o salão,
na tenda reinava total escuridão. Não seria possível de maneira alguma examinar os machucados de Avelyn e ver como ela estava. Isso também teria de ficar para o
dia seguinte. Imaginando que a cama tivesse sido ajeitada no canto direito da tenda, como sempre, ele deu alguns passos naquela direção e esbarrou em alguma coisa
no chão.
Desequilibrando-se, ele praguejou e, meio cambaleante, tropeçou, batendo com o pé na pilha de peles. Foi então que perdeu completamente o equilibro e caiu na cama,
gemendo ao sentir a dureza do chão. Haviam posto muito poucas peles, embora ele tivesse levantado tantas. Dava-se por contente, porém, de não ter caído sobre a esposa
que estava tão dolorida.
Lembrando-se dos planos de fazer amor com Avelyn aquela noite, algo agora inviável, Paen protestou intimamente quando tirava a túnica. Daquela vez tinha sido por
pouco, pensou, quando ela se virou na cama e se aninhou em seu peito.
- Milorde?
Paen estranhou ao ouvir seu nome no meio da escuridão.
- Runilda? - perguntou, reconhecendo a voz da criada vinda do lugar em que ele tropeçara primeiro.
- Sim, milorde, mas por que o senhor não está lá em cima com sua esposa?
Paen congelou, abaixando a cabeça para tentar ver no escuro quem estava junto dele.
- Paen? - balbuciou Diamanda, com voz sonolenta. Ela ergueu um pouco o corpo e passou a mão nas pernas dele, como se não acreditasse que ele estava lá.
Resmungando, Paen pôs-se em pé imediatamente e, aos tropeções, atravessou a tenda, tão perturbado com seu erro que nem mesmo pensou em pedir desculpas antes de fugir
para o salão.
Movimentando-se rapidamente no escuro, ele pulou corpos e quase derrubou a esposa antes de vê-la.
- Marido? - Avelyn o pegou pelo braço para que se equilibrasse quando ele quase colidiu com ela.
- O que você está fazendo em pé?
- Ouvi você chegar. Como demorou para subir, achei melhor vir ao seu encontro porque você não sabia onde nossa cama está.
- Ah!
Avelyn pegou a mão do marido e o conduziu escada acima. Paen manteve-se calado enquanto caminhavam na escuridão, dependendo totalmente dela para guiá-lo. Para sua
satisfação, ao chegarem ao quarto, ele conseguiu enxergar de novo, graças ao brilho do fogo na lareira.
Olhou para a faixa na cabeça de Avelyn e perguntou:
- Como vai sua cabeça?
- Está melhor. - Avelyn agradeceu e mudou imediatamente de assunto. - Runilda me disse que você foi até a aldeia.
- Fui.
Ele olhou ao redor, observando que não somente o quarto estava limpo e com novo tapete de junco, mas que Avelyn havia mandado tirar a velha cama que estava lá.
- Pensei que você estivesse na tenda.
Avelyn levantou a sobrancelha.
- Não, Diamanda e lady Helen estão lá. Não deu tempo de prepara o segundo quarto para elas, por isso providenciei para que a tenda fosse armada no salão para que
as duas tivessem alguma privacidade. Runilda está com elas. - Ela deu um sorriso. - Ainda bem que o achei antes que você entrasse lá acordasse as três.
- Eu entrei e acordei as três. Só quando Runilda me perguntou por que eu não estava aqui em cima é que fiquei sabendo que estava em lugar errado.
Avelyn riu e encolheu os ombros.
- Elas já devem estar dormindo de novo, milorde. Todos estavam muito cansados depois desse dia de trabalho. - Avelyn fez uma pausa e perguntou: - Você conseguiu
recrutar algumas pessoas para virem trabalhar aqui? Foi para isso que você foi até a aldeia, não foi?
- Foi. A aldeia não está em melhores condições do que o castelo, mas ninguém quer vir trabalhar aqui. Eles foram muito pressionados por Legere e pelos assaltantes.
Estão bravos e ressentidos porque meu pai não se preocupou, nem cuidou deles como devia. Tive, por isso, de ir até Gerville. Meu pai prometeu ir até a aldeia de
Gerville amanhã logo cedo, e arrumar alguns criados por lá. Devem começar a chegar amanhã por volta do meio-dia.
- Quem bom. Os homens trabalharam muito hoje, mas ainda há muito o que fazer. Será ótimo contar com mais gente.
Avelyn caminhou até o outro lado do quarto e perguntou: - Você está com fome ou sede?
- Não, comi em Gerville.
- Já é tarde e você parece muito cansado. É melhor eu parar de fazer perguntas e deixá-lo dormir.
Paen começou a se despir, deixando escapar dos lábios um pequeno suspiro. Estava mesmo cansado, e Avelyn tivera um dia horrível por causa da queda. Nenhum dos dois
estava em condições de fazer amor, mas isso não o impedia de continuar desejando que estivessem.
Amanhã, ele prometeu a si mesmo quando se deitou no ninho de peles ao lado da mulher. Definitivamente faria amor com ela no dia seguinte.
Capítulo VIII
Paen já havia saído, e um raio de sol se infiltrava no quarto quando Avelyn acordou. Piscando sonolenta, ela olhou para a janela. Enquanto dormia, alguém havia tirado
as peles que, na noite anterior, ela pedira a Runilda que pendurasse, para tapar as frestas. Talvez tivesse sido Paen, ou a própria Runilda.
Nesse instante, a porta se abriu e Runilda entrou, carregando uma bacia de água.
- Já acordada? - a criada perguntou, sorrindo ao cruzar o quarto. - Como se sente?
- Melhor - disse Avelyn, depois de uma pausa para verificar como se sentia.
Estava contente de que a dor martelara sua cabeça, durante a tarde e a noite anterior, tivesse desaparecido. Bastou constatar isso para que ela se sentasse na cama
e sorrisse.
- Estou mesmo bem melhor, Runilda. Onde está meu marido?
- Ele está trabalhando com os homens na muralha desde que amanheceu - disse a criada, colocando a bacia sobre a arca.
Avelyn tirou os pés da cama e se levantou para ir se lavar. Enquanto se lavara, ela começou a pensar no serviço do dia. As arcas que trouxera eram os únicos móveis
existentes no castelo e tinham servido de cadeiras e mesas no dia anterior. Precisava dar um jeito naquilo, ela decidiu.
O melhor que teria a fazer seria ir até a aldeia naquela manhã, antes que os criados de Gerville chegassem. Paen havia lhe dito que a aldeia também sofrera muito
com a ação dos assaltantes; uma maneira de minorar um pouco toda aquela pobreza e contornar os ressentimentos do pessoal local seria pagar para que toda a mobília
fosse feita na aldeia. Era o que esperava.
Mas não eram só os móveis que ela precisaria comprar, pensou ao ouvir o estômago roncar. No momento, não tinham cozinheira em Rumsfeld, e o que havia trazido não
duraria muito. Desconfiava, porém, que não seria muito fácil de repor tais itens. Pelo menos não no castelo. O único animal que vira por lá era a porca que dormia
no salão quando chegaram. Receava que fosse o único animal existente ali.
- Vou avisar os homens que podem começar a trabalhar no assoalho dos outros quartos agora - disse Runilda, pousando um vestido limpo na arca ao lado da bacia em
que Avelyn estava se lavando.
- Lorde Paen ordenou a eles que não começassem a martelar antes que a senhora acordasse - Runilda explicou ao ver o olhar de surpresa de Avelyn.
- Há quanto tempo eles estão esperando?
- Umas duas horas - Runilda disse, rindo, e acrescentou: - Mas lady Helen os manteve ocupados limpando a cozinha, enquanto esperavam.
- Duas horas? - Avelyn repetiu, contraria. Não acreditava que dormira até tão tarde. - Por que você não me acordou?
- Lorde Paen recomendou que a deixasse dormir quanto quisesse, que isso ajudaria na recuperação de sua cabeça.
Um pequeno suspiro escapou dos lábios de Avelyn. Muito atencioso da parte dele, mas ela tinha tanto a fazer e a manhã já estava quase acabando.
- Só vou avisar que os homens podem começar a trabalhar e já volto para ajudá-la a se vestir - Runilda garantiu e saiu do quarto.
Avelyn voltou a atenção ao banho, usando água perfumada de roda e um pequeno pedaço de linho para se lavar. Ela ouviu a porta do quarto se abrir uns minutos depois
e pensou que fosse Runilda, por isso continuou a se lavar colocando um pé na arca para passar o paninho molhado pela perna. Nisso ela sentiu duas mãos se fecharem
em seus ombros, teve um sobressalto e se voltou para ver quem era.
- Oh, Paen, você me assustou - disse, de respiração suspensa, lembrando-se depois que estava nua. Imediatamente procurou esconder o corpo sob o pequeno pedaço de
linho. Esforço inútil, Paen não deu a menor atenção. Ignorando o pano molhado, ele a pegou pelos braços e a puxou para si até que as mãos e o pano ficassem presos
entre eles. Abaixou depois a cabeça e cobriu os lábios de Avelyn com um beijo apaixonado.
De início, Avelyn ficou petrificada, embaraçada e confusa demais para responder, mas o beijo de Paen logo fez se esquecer de qualquer constrangimento. Quando a língua
quente acariciou seus lábios, ela soltou um suspiro e automaticamente os entreabriu deixando que penetrasse em sua boca. O calor e a excitação que havia experimentado
tanto na noite de núpcias quanto na noite em que finalmente haviam consumado o casamento imediatamente começaram a crescer dentro dela. Avelyn logo se esqueceu de
seu paninho, soltando-o para que pudesse passar as mãos em volta do pescoço do marido. Ela estava recém-saída da cama e nua, mas Paen estava completamente vestido.
Quando ele deslizou as mãos até suas nádegas e a pressionou contra ele, a aspereza do tecido da túnica e dos calções contrastando com a maciez de sua pele, começou
a deixá-la excitada. O tecido roçava na ponta de seus seios, tornando seus mamilos enrijecidos.
Quando Paen interrompeu o beijo e deslizou os lábios pelo pescoço de Avelyn, ela ficou na expectativa de que os lábios do marido logo alcançariam seus seios, mas
foi a mão ávida que chegou primeiro. Ele começou acariciando com delicadeza a volta de um seio e depois apalpou-o algumas vezes. Tomou-lhe então todo o seio e o
apertou, fazendo com que Avelyn estremecesse. Em seguida foi a vez do outro seio, prendendo o mamilo entre dois dedos e brincando com ele até que ficasse mais enrijecido.
Só então Paen o levou à boca e começou a sugá-lo.
- Oh...- Avelyn arfava cada vez que ele mordiscava o mamilo.
Ofegante, procurou ficar na ponta dos pés. Sua excitação crescia. A mão que estava em seu seio deslizou suavemente por seu ventre, detendo-se para acariciar e apalpar
a junção de suas pernas por um momento, abrindo-as em seguida. Avelyn estava quase em desespero, agarrando-se aos ombros de Paen. Os dedos do marido dançavam e exploravam
sua feminilidade com frenesi.
- Paen... - Avelyn sussurrou, não conseguindo controlar a respiração ao sentir o corpo pulsar com aquela insuportável excitação que agora já lhe era familiar.
Levantando a cabeça, Paen procurou os lábios da esposa novamente. Desta vez o beijo foi mais agressivo e mais exigente. Nesse momento, a mão entre suas pernas passou
a explorar seus recantos úmidos, fazendo com que ela estremecesse em antecipação. Seus quadris respondiam instintivamente a cada carícia e a mão de Paen se mostrava
cada vez mais atrevida. Ela percebeu que estava cravando as unhas nas costas dele, mas não conseguia evitar de fazê-lo tamanho ao delírio em que se encontrava.
Será que Hugo realmente tinha dito que as mãos do homem não eram necessárias na hora de fazer amor? Talvez não fossem em um certo sentido. O marido provara isso
ao deflorá-la sem contar com elas, mas, Pai do Céu, ele estava conseguindo levá-la às raias da loucura ao tocá-la daquela maneira. Não conseguindo conter o grito
de prazer, Avelyn sucumbiu nos braços de Paen.
Ela não passava de um trêmulo monte de carne quando Paen a levantou e carregou-a até a cama. Avelyn nem mesmo se importou de estar nua e completamente exposta quando
ele a deitou. Tinha os olhos sonolentos e parecia meio entorpecida ao vê-lo despir a túnica e abaixar os calções. Dessa vez, não sentiu medo algum. Pelo contrário,
apreciou a beleza do físico do marido e todo o vigor de sua ereção quando ele endireitou o corpo e depois se ajoelhou na cama a seus pés.
Avelyn estava absolutamente acabada quando Paen saiu de cima dela. Ele deitou ao seu lado e a puxou de encontro ao peito másculo, como se estivesse ajeitando uma
boneca. Ela sorriu timidamente, achando o gesto dele, por alguma razão, lindo. Apesar de ter acordado havia pouco, sentia-se cansada demais para tentar entender
o que a comovia nesse gesto. Simplesmente fechou os olhos de deixou que a cadência do coração do marido embalasse seu sono.
Era quase meio-dia quando acordou, e Paen novamente não estava mais lá. Ela não se importou; tinha assim privacidade para se lavar e se vestir.
Avelyn não parecia nem um pouco preocupada de ter dormido a manhã toda e ostentava um largo sorriso ao descer as escadas... até ver a movimentação que ocorria ao
lado da lareira no salão.
Avelyn parou na escadaria, se apoiou no corrimão e ficou olhando, abismada. A porca que haviam tirado com tanta dificuldade do salão estava de volta. Runilda e Diamanda
tentavam levantá-la a fim de tirá-la do castelo, mas a porca parecia mais teimosa do que elas e decidira tirar uma soneca ali. Ignorava completamente o esforço que
estava sendo feito para levantá-la.
Meneando a cabeça, Avelyn apressou-se a descer e atravessar o salão para se juntar a lady Helen que estava parada ao lado da sobrinha, apertando as mãos de maneira
ansiosa enquanto Diamanda cutucava a porca para que se levantasse.
- Diamanda, por favor, tenha cuidado - a tia preocupada, recomendava. - Não dá para vocês pedirem ajuda a um homem para tirar a porca daqui?
- Paen usou uma maçã para atraí-la ontem - Avelyn comentou ao se aproximar de lady Helen.
- Avelyn querida, como se sente? Sua cabeça melhorou com o repouso? Dava para ver que doía muito ontem. - A expressão de lady Helen se desanuviou por um momento,
e ela sorriu para Avelyn.
- Estou bem melhor, obrigada.
- Tentei a técnica da maçã, mas ela não mostrou nenhum interesse - comentou Diamanda, tirando uma maçã do bolso da saia. Ela ofereceu a fruta mais uma vez para a
porca, mas dessa vez também não deu certo.
- Bem, talvez ... - Avelyn parou. Ela dera apenas uns passos em volta do animal quando viu qual era o problema. - Nossa...
- O que foi? - Diamanda quis saber.
- Acho que, por enquanto, não poderemos tirá-la daqui mesmo.
- Por quê? - a pequena loira quis saber, parando curiosa ao lado de Avelyn para olhar o animal.
- O que foi? - lady Helen perguntou, sem sair do lugar onde estava, o que fez Avelyn pensar que a dama estava com medo da porca.
- Ela está parindo! - disse Runilda, encantada ao se aproximar de Diamanda e Avelyn.
- Ah, não - lady Helen horrorizou-se. - Ela não pode fazer isso aqui dentro, aqui não.
- Milady!
Avelyn voltou-se para a porta. O escudeiro de Paen entrava apressado no salão, quase tropeçando nos próprios pés. Procurando alcançá-la sem cair, David falou arfando.
- Lorde Paen mandou avisá-la de que lorde e lady Gerville estão chegando. Eles acabaram de passar pelos portões.
Avelyn levantou as sobrancelhas ao ouvir a notícia. Paen havia lhe dito na noite anterior que o pai mandaria alguns criados, mas não fizera qualquer menção de que
viria com eles. Devia ter desconfiado disso, pensou, quando alguns minutos depois foi receber os sogros.
Lady Gerville mostrou-se exaltada por causa do ferimento em sua cabeça e disse que não se preocupasse. Ela ficaria por alguns dias para cuidar de tudo até que Avelyn
estivesse melhor. Lorde Gerville soltou um suspiro conformado e saiu para procurar o filho.
- Agora você deve ir se deitar e descansar - lady Gerville a intimou, fazendo-a entrar no castelo, seguida por lady Helen e Diamanda. - Vou pedir aos criados que
descarreguem e arrumem as coisas que trouxe.
- Oh! - Ela parou para observa o salão. - Você já deu uma bela melhorada aqui. - O olhar da sogra percorreu os tapetes de junco espalhados no chão limpo, a escadaria
consertada, com os degraus repostos e o corrimão novo. - Já está com uma aparência muito melhor.
- Paen deu ordem aos homens que consertassem a escadaria e o assoalho lá em cima depois da queda de Avelyn - Diamanda comentou.
- É verdade - lady Helen concordou.- E ele também mandou os homens limparem tudo enquanto saiu em busca de mais criados. Nós os orientamos até que Avelyn se sentisse
bem o suficiente para andar.
- Muito bem. - O olhar de lady Gerville mais uma vez pousou preocupado na testa de Avelyn. - Você deve ir descansar, minha filha. Os ferimentos na cabeça podem ser
traiçoeiros e... - ela interrompeu a argumentação ao avistar a porca no canto do salão. - Ora essa, vejo que ela está de volta.
- Pois é. Parece que as portas abertas são um convite para ela entrar. - Avelyn seguiu a mãe de Paen até o animal. - Na verdade, as portas não estão fechando porque
precisam de conserto. Minha idéia era mandar dois homens consertá-la hoje, porém a porca foi mais rápida do que eu. Agora ela está em trabalho de parto, por isso
acho que devemos deixá-la aí por enquanto - ela ponderou ao ver a sogra se dirigir para trás do animal.
- Ah, então é isso? - lady Gerville soltou um suspiro. - É melhor então que ela fique sozinha - Ao dizer isso, voltou novamente sua atenção para Avelyn. - Agora
por que você não vai descansar? Temos muitos criados para ajudar e os que estão a caminho logo deverão chegar. Eu é que estava impaciente demais para chegar, não
conseguiria suportar o andar das carruagens.
Avelyn resistiu o quanto pôde à sugestão da sogra. Dormira a maior parte do dia e havia muito a ser feito. - Acabei de levantar - ela argumentou ao ver a sogra franzir
o cenho. - E, coisa rara, o dia está tão ensolarado e bonito! Acredito que um pequeno passeio fará bem à minha cabeça.
Lady Gerville sorriu.
- Essa então é a coisa certa a fazer, filha. Por que não leva Diamanda com você para ter alguém por perto caso haja qualquer problema? Como lhe disse, ferimentos
na cabeça são traiçoeiros.
Avely hesitou, relutando em aceitar a presença da menina. Gostava de Diamanda, mas queria dar uma escapada até a aldeia e...
- Seria ótimo, vou adorar ir com você - Diamanda se voluntariou, obviamente ansiosa para se livrar dos serviços que estavam prestes a acontecer no castelo.
O salão precisava de uma caiação, os dois quartos menores ainda deveriam ser arrumados, bem como a cozinha, sem falar do canteiro de ervas. Avelyn não podia censurar
a menina por querer fugir dessas tarefas.
Sabendo que não tinha alternativa, Avelyn concordou:
- Será ótimo.
- Então vão e levem Runilda com vocês para evitar que tenham problemas. Lady Helen e eu cuidaremos das coisas por aqui. Tenham um bom passeio.
Runilda e Diamanda puseram-se uma de cada lado de Avelyn ao atravessarem o pátio.
- Onde estamos indo? - a pequena loira perguntou depois de passarem pelos homens que faziam a guarda dos portões.
Suspirando, Avelyn parou e olhou para trás para se certificar do caminho por onde estavam indo, satisfeita de ver que já estavam fora do alcance dos ouvidos dos
guardas. Respirou fundo e disse:
- Quero ir à aldeia.
- O quê? - Diamanda pareceu horrorizada com a idéia. - Mas não podemos...
- Não é longe. - Avelyn acalmou-a. - Passamos por lá em nossa vinda ontem e não é nada longe.
- Mas Paen comentou ainda está manhã quando tomávamos o desjejum que os aldeões estão zangados com lorde Gerville e ressentidos com nossa presença aqui. Não deveríamos...
- Espero que seja o começo da reparação do desacordo - Avelyn confidenciou.
- Como pretende fazer isso?
- Bem, não tempos praticamente nada de mobília no castelo, Diamanda.
- Eu sei, não há para a gente sentar, comer ou... - a menina admitiu, em tom seco.
- Então, pensei que poderíamos dar um jeito nisso e, ao mesmo tempo, amenizar um pouco desse ressentimento, se encomendarmos tudo o que precisamos dos aldeões. -
Ao ver a expressão cética de Diamanda, Avelyn acrescentou: - Também pensei em comprar um pouco de comida e pães. Ainda não podemos produzir essas coisas no castelo...
e também um pouco de cerveja na hospedaria.
- Cerveja e pão? - Diamanda repetiu devagar, passando a mão no estômago. - Para o meio-dia...
- Pois é, e a senhora ainda nem tomou seu desjejum, milady - aparteou Runilda.
- É verdade - Avelyn sorriu para ela. - Trouxe algumas moedas comigo. Podemos experimentar algumas coisas e comprar um pouco daquilo que gostarmos para o castelo.
Quero também tratar dos móveis e de outras coisas. Se a aldeia é tão pobre como diz Paen, eles ficarão felizes de fazer negócio.
- Ou talvez não tenham nada para negociar - argumentou Diamanda.
- Pode ser uma coisa ou outra, só indo lá para saber - argumentou Avelyn com um suspiro. - Afinal, você quer ou não ir comigo?
- Quero, mas acho que nossa ida será um fracasso.
Avelyn meneou a cabeça e virou para sair fora do caminho do bosque outra vez. O dia estava lindo e quente, e ela aproveitaria melhor o passeio se não estivesse tão
preocupada com a visita à aldeia. Paen havia mesmo dito que ao aldeões estavam ressentidos, por isso não podia esperar uma recepção muito calorosa, mas contava com
que as moedas na bolsinha ajudassem.
- Talvez devêssemos ter ido a cavalo.
A voz de Diamanda tirou Avelyn de seus pensamentos e ela olhou ao redor. Embora a cavalo tivesse lhe parecido que a aldeia ficasse a apenas uns poucos minutos do
castelo, a pé era bem mais longe. Ainda assim, a distância não era tão grande. Avelyn tinha a impressão de que Diamanda fora muito mimada em Gerville, com criados
constantemente à sua disposição, poupando-a de qualquer esforço, inclusive de andar.
- Não pode estar muito mais longe, Diamanda. Estou certa de que é logo ali, virando aquela curva.
Diamanda fez um ar desdém, depois soltou uma exclamação de surpresa, pois, ao virar a curva, deram exatamente na aldeia.
A aldeia era pequena e não muito próspera. Avelyn simplesmente não imaginara que fosse daquele tamanho. Era notório que tanto ela quanto seus habitantes, haviam
sofrido sob a liderança de Legere. As coisas provavelmente seriam mais difíceis do que imaginara.
- As pessoas não parecem nem um pouco hospitaleiras - Diamanda cochichou com Avelyn ao passarem por um grupo de mulheres que conversavam do lado de fora de uma fileira
de pequenos casebres, na periferia da aldeia. As mulheres se voltaram para medi-las descaradamente, de maneira fria e suspeita. - Não vamos parar para falar com
elas, não é?
Sentindo o temor na voz da menina, Avelyn cedeu à própria covardia.
- Não vamos, não. Vamos direto para o centro da aldeia. Quem sabe lá o pessoal tenha uma atitude mais receptiva.
- Tem certeza de que é uma boa idéia - Diamanda perguntou, visivelmente amedrontada.
- Tenho - Avelyn respondeu com firmeza, embora no íntimo também não tivesse certeza alguma.
A idéia inicial de visitar a aldeia parecera-lhe muito boa, conforme passavam pelos moradores, só viam fisionomias carregadas de rancor, e ela começava a ter dúvidas
de que seu plano pudesse funcionar. Quando finalmente chegaram ao centro da aldeia, ela já pensava em que jeito poderia dar para escapar de lá sem serem atacadas,
ainda que fosse só verbalmente.
- Estão nos seguindo - Diamanda murmurou, olhando nervosamente sobre o ombro.
Avelyn não olhou para trás. Estava consciente do pequeno grupo que as seguia. Sua convicção começava agora a ficar abalada.
Temerosa de parar de andar, pois isso poderia incentivar os seguidores a realmente fazer ou dizer alguma coisa, Avelyn olhava ao redor com visível preocupação. Embora
tivessem passado somente por casebres na periferia da aldeia, ali no centro, havia várias edificações maiores, tanto de habitação como de comércio. A maior de todas
tinha uma placa desbotada na qual apenas se lia "Estalagem".
Sentindo um acerto alívio, Avelyn se dirigiu para lá, procurando caminhar de maneira natural.
As três soltaram um suspiro de alívio ao entrar no ambiente pouco iluminado do lugar e fecharam a porta atrás delas. O alívio durou somente até seus olhos se adaptarem
à iluminação precária e conseguirem enxergar um pouco melhor. Estavam em uma sala de tamanho médio, iluminada somente por duas tochas. No local havia duas grandes
mesas de cavalete, posicionadas uma de cada lado da sala. Havia também uma porta que, certamente, levava direto à cozinha. Ao todo, havia seis homens na sala, cinco
fregueses distribuídos entre as duas mesas e um homem que devia ser o dono da estalagem. Ele estava em frente à porta oposta a elas, de braços cruzados e fisionomia
beligerante. Todos as fitavam com ar de desconfiança e profunda insatisfação.
Avelyn susteve a respiração. Era óbvio que sabiam que elas vinham do castelo. Eram denunciadas pelo próprio fato de estarem a pé, sem falar em suas roupas... ou,
esclarecendo melhor, na roupa luxuosa de Diamanda.
Endireitando os ombros, Avelyn ignorou os olhares ameaçadores a sua volta e conduziu Diamanda e Runilda à mesa da direita, onde havia lugares vazios. Embora as outras
duas se sentassem, Avelyn permaneceu em pé. Imaginava que não seriam atendidas, se ficasse esperando. Em vez disso, perguntou a Diamanda e Runilda se desejavam comer
ou beber alguma coisa. Diamanda tinha reclamado de fome no caminho, mas recusou com a cabeça. Aparentemente perdera o apetite. Runilda também na quis nada.
Avelyn colocou um sorriso cordial no rosto e caminhou até o estalajadeiro.
Ela viu um brilho de surpresa no olhar do homem ao se aproximar, mas foi tudo. Ele sequer perguntou o que ela desejava.
Estão mesmo ressentidos com a nossa presença, ela pensou, e simplesmente alargou o sorriso. Tinha notado que a maioria dos outros fregueses comiam a mesma coisa,
um tipo de pastel de carne. Imaginando que fosse o melhor que tivessem a oferecer, ela apontou para o homem mais próximo e pediu:
- Por favor, quero três desses pastéis que ele está comendo, três cálices de hidromel e uma cerveja.
Avelyn voltou a sorrir para o homem e, ignorando completamente a animosidade que pairava no ar, encaminhou-se rapidamente para a mesa, com receio de que, se lhe
desse oportunidade, o homem se recusaria a servi-las. Ela então prendeu a respiração, aguardando pela reação do estalajadeiro. Ele continuava parado no mesmo lugar
enquanto Avelyn se espremia para se sentar no pequeno espaço entre Diamanda e Runilda, mas, um minuto depois, o homem bufou irritado e entrou na cozinha.
Avelyn soltou a respiração vagarosamente, agradecida de que, pelo menos, não haviam sido despejadas dali.
As três aguardaram caladas pela chegada do pedido, que não demorou muito. Em poucos minutos, o estalajadeiro voltava, jogando as bebidas em frente a elas.
- Por que você pediu quatro bebidas? - Diamanda perguntou, quando o homem se afastou.
- Quero provar as duas - ela respondeu, mas não explicou nada além disso.
Sorveu vagarosamente um gole de hidromel e relaxou ao constatar que não estava com gosto ruim ou azedo. Teve medo de que o homem pudesse ter posto qualquer coisa
na bebida para dissuadi-las a permanecer lá. Bem, mas ainda faltava ele trazer o pastel, pensou, provando a cerveja.
Avelyn degustou um pouco do líquido. O gosto do hidromel era bom, mas o da cerveja era melhor ainda. Muito melhor.
- Quem faz sua cerveja? - Avelyn perguntou ao estalajadeiro quando ele chegou com os pastéis.
- Eu. Por quê?
Avelyn observou uma mulher parada à porta da cozinha, contemplando-as com frieza. Devia ser a mulher dele. Provavelmente tinha ido até à porta para dar uma espiada
e parou ao ouvir a pergunta de Avelyn.
- Meus parabéns! Sua cerveja é ótima, uma das melhores que já provei.
A mulher ficou com uma expressão desconfiada, na expectativa do que ela pudesse dizer a seguir.
- O hidromel também é bom, mas a cerveja é melhor.
Tanta honestidade pareceu desarmar a mulher. Sua expressão pareceu menos tensa, e ela disse:
- Esse hidromel não ficou tão bom. Geralmente é melhor.
Avelyn balançou a cabeça, acreditando nas palavras da mulher.
- Posso saber o seu nome?
Depois de uma pequena hesitação, a mulher respondeu em tom mais baixo:
- Avis.
- Obrigada, Avis. O meu é Avelyn. - Ela esboçou um pequeno sorriso e perguntou: - Vocês poderiam fornecer tanto o hidromel como a cerveja em quantidade maior?
A mulher piscou e respondeu espantada:
- Poderíamos.
- Então peço-lhes que faça o quanto puder dos dois e envie para o castelo.
Avis hesitou, provavelmente se perguntava se não deveria mandá-la para o inferno, mas arregalou os olhos quando Avelyn a informou o quanto estava disposta a pagar
pelo barril da bebida.
Fez-se um silêncio. Avis parecia nocauteada a ponto de não conseguir falar. Avelyn imaginava que, pobre como a aldeia era, ninguém podia pagar muito por qualquer
mercadoria que fosse, e o que ela estava oferecendo parecia uma exorbitância, mas era o preço justo. Foi o que disse então à mulher do estalajadeiro para que não
pensasse que ela estava tentando comprá-los a fim de acabar com o ressentimento deles. Ela não havia oferecido mais do que a mãe pagara em algumas raras ocasiões
que comprara esse tipo de coisa. Produziam em Straughton sua própria cerveja , por isso só em raras ocasiões, como a do casamento, era preciso comprar uma quantidade
maior de fora.
- Poderão fazer isso? - Avelyn finalmente perguntou quando o silêncio se prolongou demais e se tornou bastante desconfortável.
- Claro que poderemos - o estalajadeiro respondeu e a esposa finalmente aquiesceu com a cabeça.
Avelyn agradeceu, notando que o homem quase sorria, mas que a mulher parecia ter uma pergunta a fazer, por isso hesitava em voltar à cozinha.
- A senhora vai querer regularmente... - Avis finalmente criou coragem e perguntou - ou é só para uma comemoração?
- Vamos precisar regularmente.
Com os olhos arregalados e visivelmente estarrecida, Avis meneou a cabeça várias vezes e entrou na cozinha. O estalajadeiro se apressou em ir atrás dela, e Avelyn
pegou um pastel e deu uma mordida.
- Está bem gostoso - disse depois de engolir o primeiro pedaço, incentivando Diamanda e Runilda a também experimentar.
Embora relutantes, as duas começaram a comer, bastante incomodadas com os olhares dos homens que as cercavam. Embora a atitude do estalajadeiro e de sua esposa tivesse
mudado em relação a elas, os demais homens continuavam a encará-las com antipatia. A situação era bastante desagradável. Avelyn, porém, não se deixou intimidar,
queria sair de lá, ao terminarem de comer e beber, sem que tivessem se mostrado assustadas.
Ao deixarem a estalagem, elas descobriram que o pequeno grupo que as seguira tinha aumentado bastante. Avelyn sentiu que Diamanda e Runilda estavam com medo. Ela,
contudo, simplesmente olhou em volta e se encaminhou com as duas em direção ao que parecia uma padaria. Avelyn não sentiu qualquer alívio ao entrar, pois muitos
entraram atrás delas e outros se aglomeraram à porta do estabelecimento.
Logo que entraram, não havia sinal do padeiro. Avelyn começou a se perguntar o que fazer quando ocorreu um tumulto à porta e ouviu alguém gritar:
- Saiam da frente da minha loja, seus idiotas.
Ela observou o homenzinho rechonchudo entrar, notou a expressão de poucos amigos no rosto dele e temeu sua reação. Com o rosto vermelho e quase espumando de raiva,
o homem olhou para elas e falou num tom exaltado:
- Eu não sou Avis, não pense que vai comprar as minhas boas graças, como ouvi dizer que comprou as dela. Agora saiam daqui!
Avelyn manteve-se calada e ouviu uma manifestação de aplauso por parte das pessoas que estavam ali dentro.
- Muito bem, senhor... - ela concordou, enchendo-se de calma.
Diamanda e Runilda começaram a se deslocar em direção à porta, mas pararam quando perceberam que ela não saíra do lugar, voltando-se ao ouvi-la dizer:
- Mas acho que deve lhe dizer que pouco me importam suas boas graças. Eu só comprei de Avis cerveja e hidromel para o consumo de duzentos soldados e criados, e tudo
o que desejava do senhor era uma quantidade equivalente de pães e bolos para alimentar esse número de pessoas.
Avelyn ficou satisfeita de ver a cara do homem quando mencionou a quantidade de produtos que estava querendo.
- Duzentas pessoas? - ele perguntou, abaixando bem a voz.
- Isso mesmo. Sei que a quantidade é muito grande, mas pensei que talvez o senhor pudesse pedir às melhores cozinheiras da aldeia para que fizessem um pouco em suas
próprias casas. O senhor teria ajuda e com isso elas ganhariam algumas moedas também - Avelyn esclareceu, sabendo que o padeiro não teria condições de honrar sozinho
um pedido tão grande. - Devo confessar que não entendo sua atitude, senhor - ela acrescentou -, especialmente porque eu não sou nem Legere nem Lorde Wimarc, mas
a nova senhoria do castelo que precisa dessas mercadorias e preferiria muito mais comprar do povo de sua aldeia, que também precisa comercializar, do que gastar
minhas moedas em uma cidade ou aldeia vizinha. Porém, nada posso fazer se o senhor por um orgulho estúpido rejeita esse dinheiro...
Dando de ombros, ela foi se juntar a Runilda e Diamanda à porta da loja, como se fosse sair. Mal havia dado dois passos quando o homem falou:
- Espere!
Avelyn quase desmontou de alívio, mas ciente dos inúmeros olhos que a observavam, procurou esconder o que sentia, e aproximou-se do homem. Em poucos minutos negociou
as coisas de que precisava. Ao dar as costas para ele, o padeiro sorria, com as moedas tilintando em seus bolsos.
Quando passou pelas pessoas dentro da padaria, Avelyn notou como estavam silenciosas e imediatamente lhe abriram caminho. Ela parou à porta e olhou para um verdadeiro
mar de rostos. Não dava nem para ver as oficinas de artesãos que havia por ali, ficando assim em dúvida para que lado ir. Depois de hesitar um pouco, ela perguntou:
- Há algum carpinteiro por aqui?
Várias pessoas, no meio da pequena multidão, levantaram as mãos, mas um homem, sem se dar o trabalho de levantar o braço, destacou-se de todos e, parando na frente
dela, disse:
- Sou mestre-carpinteiro.
- Foi o senhor quem fez as mesas de cavalete da estalagem? - Avelyn quis saber.
Eram mesas de madeira sólidas, embora parecessem facilmente dobráveis, e tinham nas pernas detalhes finamente entalhados.
- Foi. - Surpreendeu-se ele.
Avelyn fez um ar de aprovação.
- O senhor precisará de ajuda para o que eu preciso.
- Caso precise, tenho quem me ajude - ele disse, como quem não acredita muito no que ouve.
Sem se importar, Avelyn informou:
- Preciso de mesas de cavalete novas, para acomodar duzentas pessoas sentadas. Preciso de bancos e de quatro cadeiras para a mesa principal e mais quatro cadeiras
para o lado da lareira; não, faça seis cadeiras para o lado da lareira - ela corrigiu o cálculo.
Como lorde e lady Gerville provavelmente os visitaria com freqüência e ela não tinha idéia de quanto tempo Diamanda e lady Helen permaneceriam lá, seis cadeiras
pareciam-lhe mais apropriado.
- Também preciso de três camas grandes - Avelyn ficou em dúvida novamente, ponderando sobre quanto mais poderia gastar naquele momento. Será que valeria a pena encomendar
cadeiras para os quartos também? Seria bom ter uma cadeira para se sentar enquanto enxugava os cabelos perto do fogo. Duas em seu quarto possibilitaria que Paen
e ela se sentassem perto da lareira nas frias noites de inverno.
Esse pensamento fez com que se decidisse a encomendar. Tinha suas próprias moedas. Seus pais haviam colocado saquinhos de moedas nas arcas entre as várias coisas
que lhe mandaram, por isso acrescentou:
- Sim, acrescente seis cadeiras para os quartos de dormir e algumas mesinhas.
Ao terminar a encomenda, houve um longo momento de total silêncio. O carpinteiro então, limpando a garganta, admitiu:
- Mesmo com a ajuda de todos os outros carpinteiros daqui, não vou conseguir providenciar todos esses móveis muito depressa.
- Sei disso, senhor - Avelyn afirmou, impressionada com a franqueza dele. Um outro carpinteiro teria pensado na quantidade de moedas que isso lhe renderia e prometeria
aprontar tudo em um curto espaço de tempo, embora não fosse possível.
Falando com clareza para que muitas pessoas pudessem ouvi-la, Avelyn disse:
- Embora eu esteja precisando de tudo com uma certa urgência, estou disposta a esperar. Prefiro deixar o dinheiro dessa compra aqui na aldeia.
- O que a senhora gostaria de receber primeiro, milady?
- As mesas, depois as camas, as cadeiras e as mesinhas - Avelyn respondeu, olhando ao redor e sentindo que o clima havia mudado. Certamente não conquistara todos,
mas mexera com eles.
Levantando a cabeça, ela perguntou:
- Há uma mercearia por aqui onde eu possa encontrar ervas?
* * *
- Nossa, você foi fantástica! - Diamanda cumprimentou-a entusiasmada, ao deixarem a aldeia, no final da tarde.
- Fui, não fui? - Avelyn gabou-se de seu sucesso na aldeia. Por um momento, teve medo de ter feito um grande erro, mas no final dera tudo certo e ela estava satisfeita.
- Não sei onde você encontrou tanta coragem - admitiu Diamanda. - Fiquei muito impressionada, principalmente quando você gritou com o estalajadeiro.
Avelyn piscou, confusa.
- Gritei?
- Gritou. - Diamanda passou o braço nos ombros de Avelyn e a abraçou efusiva.
- Não acredito.
- Gritou como uma peixeira - Runilda assegurou.
Avelyn olhou-as apavorada, e ambas caíram na risada.
- Você foi brilhante! Quero ser como você quando me casar - Diamanda afirmou.
Depois de passar toda uma vida desejando ser diferente, era muito estranho ouvir alguém dizer que queria ser como ela. Mas não podia negar que havia ficado impressionada
consigo mesma.
Animada com seu sucesso e com a óbvia admiração de Diamanda, Avelyn voltou contente para o palácio. Bastou, porém, entrar no salão e seu ego murchou.
- Aí estão elas! - Lady Gerville foi cumprimentá-las, com um enorme sorriso no rosto, apontando para as novidades lá existentes. - O que vocês acham? Não ficou bem
melhor agora?
- A senhora... - Avelyn não podia acreditar no que via. Várias mesas e bancos agora enchiam o centro do salão. Seu olhar se deteve na verdadeira coleção de cadeiras
próximas à lareira e, sentindo toda a alegria esvair-se de seu coração, concluiu: - ... a senhora trouxe os móveis.
- Trouxe. Estava em uma das carroças com os criados. Não disse nada antes porque queria fazer uma surpresa para você. - O sorriso da sogra esmoreceu. - Você não
ficou contente?
- Está tudo muito bonito e mais confortável - Avelyn apressou-se em dizer ao sentir que estava sendo indelicada.
- Mas nós acabamos de voltar da aldeia onde encomendamos todos os móveis e todo tipo de coisa - interveio Diamanda, inconformada.
- Da aldeia, você disse?
Avelyn se voltou para olhar para Wimarc e Paen que entravam. Ambos tinham o cenho franzido.
- Não acredito que você tenha ido à aldeia! - Paen vociferou. - Eu lhe disse que eles não estão satisfeitos com nossa presença aqui. Poderia ter se metido em encrenca.
- Milady se saiu maravilhosamente bem com eles. A mãe dela ficaria orgulhosa - Runilda afirmou, com convicção.
- Isso mesmo - Diamanda apartou. - Quando o padeiro foi grosseiro conosco, ela o enfrentou e até gritou com ele como uma peixeira.
Avelyn fechou os olhos, gemendo internamente, enquanto Diamanda e Runilda narravam suas aventuras na aldeia. O silêncio que se seguiu foi longo. Finalmente, se armou
de coragem e abriu os olhos. Todos os olhares estavam voltados para ela.
- É claro que posso cancelar as encomendas e...
- Não vai, não - Wimarc. - Você fez hoje mais para reparar nossas relações com os aldeões do que tudo o que eu pudesse conversar com eles teria feito. Vamos manter
os móveis aqui até que o carpinteiro faça os que você encomendou, depois os levaremos de volta para Gerville. O castelo ficaria muito vazio sem eles.
- E os pães e tudo o mais que você encomendou do padeiro, bem como as ervas serão muito bem-vindos - lady Gerville completou. - As coisas da padaria vão diminuir
o trabalho da cozinheira enquanto arruma tudo. Você está de parabéns, minha filha.
Avelyn sentiu um alívio no coração. Saíra-se bem, afinal. Seu olhar vagou timidamente até o marido e ela achou ver um brilho de admiração e orgulho no olhar dele.
Ficou então à espera de um cumprimento, de uma palavra boa. Mas em vez disso, Paen lhe ofereceu a maça que trazia na mão quando entrou com o pai no castelo.
Avelyn aceitou a fruta, confusa, depois tossiu de surpresa quando ele lhe deu um tapinha no traseiro.
- Muito bom - o marido lhe disse, com firmeza, dando-lhe mais um tapinha e seguindo o pai até uma das mesas.
Avelyn o acompanhou com o olhar, incrédula. Diamanda, Runilda e lady Gerville também dirigiram-lhe um olhar de estranheza enquanto se afastava. Um minuto depois,
a sogra se voltou para Avelyn.
- Então querida, por que não vai se apresentar à nova cozinheira e ver se ela não fez um refresco para vocês? Acho que depois da caminhada seria bom, não é? Vão
que eu preciso falar com meu filho.
Avelyn a viu encaminhar-se para a mesa e começou a ir para a cozinha, seguida por Diamanda e Runilda. Estavam a meio caminho quando um ruído no canto do salão lhe
chamou a atenção, e ela lembrou da porca. Ela ainda estava lá, e o escudeiro de Paen a contemplava fascinado.
Curiosa, Avelyn mudou de direção, indo com Diamanda e Runilda até o menino.
- Veja! - Diamanda exclamou.
Era a ninhada que David admirava.
- Ela já teve filhotes - ele comentou, eufórico.
- Não são lindos? - Diamanda vibrou.
Avelyn sorriu diante do entusiasmo da pequena loira. Os porquinhos que se amontoavam um em cima do outro, lutando para chegar às tetas da mãe, eram mesmo adoráveis,
com seus olhos enormes e orelhas caídas. Ela observou a movimentação dos bichinhos e um brilho de preocupação passou por seus olhos ao notar que um deles, que era
o menor de todos, estava sendo empurrado e não conseguia vez para mamar.
- Acho que é o menor da ninhada - Diamanda comentou, notando o olhar de Avelyn.
A pobre criaturinha era um lutador e não desistia, mas, como era o mais fraco de todos, por mais que lutasse, não conseguiria chegar até a porca.
- Ele é um lutador, mas desse jeito tem pouca chance de sobreviver. Você acha que lady Gerville trouxe alguma coisa que possa alimentá-lo?
Diamanda parou para pensar.
- Podemos ir ver.
Avelyn se ajoelhou e pegou o porquinho, aninhando-o contra o peito e acariciando-lhe a cabecinha.
- Está tudo bem, pequenino, sabemos que você está com fome. Vamos batizá-lo de Sansão para que você cresça grande e forte.
Diamanda, também encantada, passou a mão pelo porquinho e, de súbito, ficou apreensiva.
- Nossa, tia Helen está chegando. Ela vai ficar brava se souber que estamos segurando um dos porquinhos e pretendemos alimentá-lo.
- Então é melhor levá-lo para a cozinha - Avelyn disse e se pôs a caminho, procurando esconder o animalzinho. Runilda, Diamanda e David a seguiram. Estavam quase
à porta da cozinha quando ocorreu a Avelyn perguntar:
- Mas por que lady Helen detesta porcos tanto assim?
- Não é que os deteste, ela tem pavor deles - explicou Diamanda. - Ela foi mordida por um quando criança e desde então tem medo deles. Ela vai fazer o maior sermão
se a vir com Sansão no colo.
Avelyn ficou um pouco preocupada, mas logo se lembrou que estava em sua casa. Ninguém tinha o direito de contestá-la, a não ser Paen e lorde e lady Gerville.
Embora não desejasse de forma alguma ser indelicada, decidiu que, se lady Helen a repreendesse, educadamente a lembraria de sua posição na casa.
- O que foi aquilo?
Paen levantou os olhos da cerveja que bebia com o pai e fitou a mãe sem entender. Ela estava com as mãos na cintura e uma expressão muita zangada no rosto.
- Aquilo o quê?
- A maçã, o tapinha e o "muito bom" - disse lady Gerville, impacientemente.
- Um elogio para minha esposa.
- Isso é jeito de se fazer um elogio?
Ele deu de ombros.
- É assim que eu elogio o Meia-Noite.
- O Meia-Noite é um cavalo! - ela rebateu mais irritada ainda, quando o pai caiu na gargalhada, cuspindo a cerveja que havia acabado de pôr na boca.
Paen ficou agitado. Tinha consciência de que precisava ter gestos delicados para aumentar a auto - estima da esposa, mas era complicado para quem sempre lidara com
homens e cavalos. Nunca tivera uma esposa antes. Foi o que explicou à mãe e, à medida que falava, percebeu que a irritação dela abrandava.
- Então você percebeu que aqueles primos fizeram muito mal à auto-imagem de sua esposa - a mãe concluiu com visível alívio.
- Claro, só não sei o que fazer para remediar isso, e não ser elogiando-a quando fizer algo bem-feito - Paen confessou.
- Bem - lady Gerville suavizou sua postura -, para começar, você pode conversar com ela.
Paen revirou os olhos, exasperado.
- Conversar. As mulheres sempre acham que conversar conserta tudo, quando uma espada afiada soluciona qualquer problema com muito mais rapidez e eficiência.
- Bem, como não dá para cortar com uma espada a imagem que Avelyn tem de si mesma, e, como sua esposa é uma mulher, talvez valha a pena você tentar minha sugestão
- replicou lady Gerville em tom seco. - Foram as palavras ferinas e maldosas que Avelyn ouviu durante anos que causaram o dano, por isso creio que palavras gentis
e elogiosas podem, com o tempo, desfazê-lo. Você também deveria passar um pouco mais de tempo com ela. Faça alguns passeios, ou jogue xadrez à noite, coisas assim
- ela sugeriu. - Agora vou falar com a cozinheira sobre os artigos que vão chegar da aldeia. Eles tornarão as coisas muito mais fáceis enquanto ainda está essa confusão.
Foi muito inteligente da parte de Avelyn ir à aldeia e fazer o que ela fez.
Paen observou a mãe se afastar e deu um suspiro desanimado.
- Com o tempo - ele repetiu as palavras da mãe. - Não quero levar anos e anos para desfazer o estrago que aqueles primos fizeram. Quero que ela saiba agora que é
inteligente, bonita e capaz.
- Hum. - O pai o olhou de maneira compreensiva e abriu um sorriso. - Também vou ajudar. Se nós dois a elogiarmos, levará menos tempo. - Lorde Wimarc inesperadamente
se levantou. - Na verdade, vou cumprimentá-la agora mesmo e dizer a ela como foi importante o que ela fez esta tarde na aldeia.
Paen viu o pai dirigir-se para a cozinha à procura de Avelyn. As palavras dele calaram em sua cabeça. Se o elogio dos dois ajudaria sua esposa a enxergar mais rápido
que os primos estavam errados, quanto mais gente a cumprimentasse , mais depressa isso aconteceria. Então se todos os soldados da guarnição e criados o fizessem...
Paen levantou-se de brusco. Precisava falar com seus homens.
Capítulo IX
- Posso segurar Sansão? Prometo que não vou deixá-lo cair.
Avelyn olhou para David e sorriu ao ver a expressão compenetrada dele. Estava ficando muito apegada ao menino que havia dias a seguia por toda parte.
Passara uma semana da visita de Avelyn à aldeia. Desde o dia seguinte àquela aventura, David era seu companheiro constante. Devido à sua falta de jeito, o menino
quase fora esmagado por uma pedra da muralha, quando acompanhava Paen que inspecionava o trabalho dos homens. Naquela noite, o marido lhe pedira que ficasse com
o menino até que a muralha estivesse pronta e estivessem trabalhando em algo menos perigoso. Avelyn imediatamente concordara, feliz de ser útil ao marido. David
desde então passara a acompanhá-la onde quer que fosse.
Refletindo sobre a semana anterior, Avelyn chegara a conclusão de que, apesar de tudo, havia sido muito boa. Os pais de Paen acabaram ficando apenas dois dias em
Rumsfeld. Lady Gerville concluíra que Avelyn não estava tão machucada e que não só poderia administrar o castelo, como poderia administrá-lo bem. Ela quase chorara
diante desse elogio. Lady Gerville tinha confiança em suas habilidades, embora ela mesma até então ainda não tivesse. A cada pequeno sucesso, porém, começava a sentir
que crescia a confiança em si mesma.
Na semana anterior, o castelo tinha passado por uma rápida transformação. Uma limpeza completa fora feita, todas as portas consertadas e a porca fora acomodada no
estábulo com toda a ninhada, menos Sansão. Avelyn estava fazendo todo o possível de aumentar as chances de sobrevivência do pobre animalzinho, por isso era um habitante
permanente do castelo e, se não estivesse no colo dela, estaria atrás dela de um lado para o outro, abanando feliz o rabinho rosado. O porquinho parecia considerar
Avelyn sua mãe, o que divertia e exasperava Paen.
Os últimos dias marcavam a semana em que o marido parecia ter de repente se dado conta de sua presença. Não que a ignorasse na semana anterior, mas agora eles passeavam
juntos durante o dia e à noite jogavam xadrez. Ele apenas não conversava muito. Avelyn estava chegando à conclusão de que ele era um homem de poucas palavras, embora
já tivessem experimentado algumas conversas interessantes. Tais conversas eram como janelas para o íntimo dele, e ela se sentia feliz cada vez que descobria que
o marido era um homem bom, honesto e justo.
- Posso segurar Sansão? - David insistiu e, depois de uma breve hesitação, Avelyn entregou o porquinho ao menino.
- Tome cuidado, David. Ele está gordinho - ela avisou.
Sansão havia dobrado de peso e tamanho em uma semana, graças à orientação de Avis, a mulher do estalajadeiro. Ela tinha ido ao castelo para fazer a primeira entrega
de hidromel e cerveja e chegara na hora em que Avelyn estava tentando alimentar o porquinho. Avis mostrou-se prestativa e ensinou-lhe a costurar um tecido oleado
no formato de cone que lembrava uma teta, enchendo-o com leite de cabra. Avelyn aceitara de bom grado. Ela gostava de Avis e estavam se tornando amigas. Assim, ao
ir até a aldeia naquele dia para comprar mais coisas e verificar o andamento dos móveis, Avelyn decidira levar Sansão com ela para que Avis visse como fora oportuna
sua sugestão.
Estavam agora no caminho de volta ao castelo e Avelyn não via a hora de encontrar Diamanda e falar sobre seu passeio. Desde que haviam ido juntas pela primeira vez
à aldeia, as duas se tornaram muito amigas, passando bastante tempo uma na companhia da outra, conversando e rindo enquanto faziam suas tarefas. Diamanda gostaria
de ter ido com ela à aldeia, mas a tia não permitira. Lady Helen insistira em que a menina ficasse em casa para aprender a costurar melhor, pois ainda não conseguia
fazer uma costura reta.
Avelyn desconfiava que a amiga deveria estar muito entediada e ansiosa para que ela chegasse.
- Ele não pára quieto!
Avelyn sorriu e olhou para os braços de David no momento exato em que Sansão deu um jeito de se livrar dos braços do menino. Ele caiu no chão com um ploft e saiu
correndo ao lado da muralha. David soltou um grito e imediatamente e saiu correndo atrás, fazendo com que o animalzinho corresse cada vez mais rápido. Avelyn também
se pôs a correr no encalço dos dois, preocupada que o menino pudesse tropeçar e cair, como de costume. Como era previsto, David caiu alguns minutos depois e, balançando
a cabeça, Avelyn diminuiu o passo, espantando-se ao ver Sansão se virar e caminhar de volta até o menino, fungando-o.
David riu com vontade e ficou de quatro, fungando também para Sansão.
Avelyn balançou a cabeça ao ver a brincadeira dos dois e se abaixou para pegar o porquinho no colo, tranqüilizando-se ao ver David se levantar.
- Você sujou seus calções - disse ela, aguardando pacientemente que David procurasse se limpar um pouco, quando um estalo a fez olhar para cima.
Avelyn arregalou os olhos assustada ao ver o enorme bloco de pedra que se desprendia do muro. Por uma fração de segundo, ela ficou congelada, mas sua reação imediata
foi soltar um grito e empurrar David para a frente, tentando afastá-los do perigo.
Um gemido de dor escapou-lhe dos lábios ao ser atingida com força pela pedra, na altura do ombro, fazendo com que os três caíssem. Instintivamente, Avelyn soltou
Sansão para evitar esmagá-lo e ao mesmo tempo procurou não cair em cima de David. Seu corpo estatelou-se no chão.
- A senhora está bem, milady?
Ainda criança e mais acostumado a quedas, David foi o primeiro a se recobrar e engatinhou até ela.
Avelyn levou um minuto para poder respirar. Ainda zonza, esforçou-se para sentar, porém ao ver Sansão se aproximar e se interpor entre eles, esboçou um sorriso.
- Acho que estou bem, David. E você, se machucou?
- Não - ele respondeu, oferecendo a mão para ajudá-la a se levantar. O menino não tinha tamanho suficiente para puxá-la, mas Avelyn não negaria a ele esse gesto
de cavalheirismo.
- Lorde Paen vai me culpar - David murmurou desgostoso.
- Por que ele faria isso? - ela perguntou surpresa, levantando os olhos para o lugar de onde a pedra havia se soltado.
Avelyn gelou ao avistar Diamanda saindo de lá. A pequena loira obviamente estava debruçada ali, contemplando-os. Se tivesse olhado um segundo depois, não a teria
visto.
- Quando a outra pedra quase me atingiu, ele não quis mais que eu o acompanhasse todos os dias. Disse que eu acabaria morrendo e que um escudeiro morto já era o
suficiente.
Avelyn voltou a olhar para o menino e sentiu pena ao ver o medo estampado no rosto do pobrezinho.
- Será que agora milorde não vai me proibir de ficar com a senhora e com Sansão também?
Avelyn continuou a fitá-lo, mas nada disse. A imagem de Diamanda no alto da muralha não lhe saia da cabeça. O que ela estava fazendo ali? Será que o bloco de pedra
realmente caíra?
- Então ele vai! - O menino começou a chorar ao não ouvir uma resposta. - Por favor, não conte a ele o que aconteceu, milady. Por favor, não conte.
- Acalme-se, David. Não vou contar - ela assegurou para acalmá-lo, mas tinha suas próprias razões para não fazê-lo. Precisava pensar. Acreditava que Diamanda fosse
sua amiga, mas tinha várias dúvidas na cabeça naquele momento.
A lembrança das túnicas destruídas, a pancada na cabeça e agora aquele bloco de pedra que quase os esmagara... e a visão de Diamanda no alto do muro, exatamente
no lugar de onde a pedra se desprendera.
Queria acreditar que a garota fosse sua amiga. Gostava dela. Mas isso não queria dizer que ela retribuísse sua amizade. Pelo sentimento que nutria por Diamanda,
porém, achava que devia falar com ela antes de informar Paen sobre o incidente.
Não. Era melhor, não. Se Diamanda pretendia fazer-lhe mal, seria uma idiota se a confrontasse sozinha, por isso decidiu falar com a menina à vista de várias pessoas,
mas suficientemente distante para que não ouvissem.
Avelyn deu um tapinha no ombro de David quando ele agradeceu e se abaixou para pegar Sansão, apressando o menino para entrar no pátio. Haviam passado pelo portão
quando ela pensou nos guardas que vigiavam os muros. Com certeza se Diamanda tivesse empurrado o bloco de pedra, o homem que estivesse naquela parte da muralha teria
provavelmente gritado ou pelo menos a visto. Ela se voltou para olhar a torre onde o guarda habitualmente ficava e não havia ninguém ali. Foi quando observou um
guarda subindo as escadas que levavam a seu posto.
- Boa tarde, milady. A senhora está linda hoje.
Avelyn olhou em volta, sentindo o rosto corar, quando dois soldados se aproximaram.
- Linda mesmo - disse o segundo, ao passarem por ela.
Avelyn ainda balançava a cabeça meio confusa por se dar conta de que, de repente, todos pareciam elogiá-la, quando o primeiro soldado disse:
- Linda foi meu elogio. Será que você não poderia ter arrumado um outro?
- Lorde Paen pediu que a elogiássemos - disse o segundo, dando de ombros. -Não disse para sermos criativos. Além disso, o que você queria que eu dissesse? "Que bonito
porquinho, milady".
Avelyn se voltou lentamente para observá-los à medida que se afastavam. Obviamente, eles não perceberam que falavam tão alto a ponto de ela ouvir. Ela dirigiu um
olhar pensativo para o escudeiro do marido.
- David?
- O que foi, milady?
- Você ouviu lorde Paen pedir aos soldados para me elogiarem?
- Ouvi sim, milady - David confessou. - Ele disse que a senhora precisa ter mais alta estima depois de os insultos de seus primes e que todos nós precisávamos ajudar
a... preparar o estrago.
Avelyn mordeu o lábio para conter a gargalhada. Ele obviamente trocara "alta" por "auto" e "preparar" por "reparar", mas o mais engraçado fora ouvi-lo repetir os
mesmos termos que Paen usava.
Meneando a cabeça, ela o apressou a atravessar o pátio, sem esquecer o que acabara de saber. Havia recebido inúmeros cumprimentos ultimamente, que a deixavam tão
constrangida a ponto de querer evitar os guardas do castelo. Agora entendia a razão e... sentia vontade de chorar. Não porque se sentisse embaraçada com isso, nem
porque Paen havia feito essa recomendação a eles... mas porque o marido queria vê-la feliz.
Quanto mais o conhecia, mais o amava, pensou. De repente se deu conta do que acabara de passar por sua cabeça.
Amor por Paen? Certamente tinha a afeição que uma esposa deveria ter pelo marido, pelo menos era o que devia sentir. Mas não o amava. Ou amava?
- Aí estão vocês.
Avelyn afastou os pensamentos da cabeça e sorriu ao ver o homem em questão na frente deles.
- David, entre e dê uma polida em minha malha de ferro que está sobre a mesa - Paen ordenou. - E não vá a qualquer outro lugar antes de falar com lady Helen primeiro.
- Sim, milorde.
Avelyn fitou o marido com uma expressão interrogativa.
- Lady Helen concordou em ficar de olho nele enquanto estivermos fora - ele comentou, pegando-a pelo braço e fazendo-a voltar por onde tinha vindo.
- Enquanto estivermos fora?
- Vamos fazer um piquenique.
Só então Avelyn notou a cesta que ele carregava e sentiu-se bastante eufórica, embora notasse que Paen parecia meio constrangido.
Avelyn logo viu que aquilo deveria ter sido outra sugestão da sogra. Lady Gerville havia lhe contado a explicação que Paen lhe dera de que o tapinha no traseiro
e a maçã haviam sido a maneira que ele encontrara de elogiá-la. Temendo que Avelyn pudesse ter se ofendido com esse tipo de "elogio" e tentando consertar os maus
modos do filho, ela acabara lhe contando. A sogra lhe dissera também que havia ensinado a Paen, outros meios de agradar a mulher, inclusive passando mais tempo com
ela. Avelyn ficara contente, uma vez que naquela semana tinha usufruído muito mais da companhia do marido. Pouco importava que os jogos de xadrez à noite e os passeios
durante o dia tivessem sido sugestão de lady Gerville. Bastava-lhe o fato de que Paen desejava agradá-la e estava seguindo os conselhos da mãe, para que seu coração
batesse mais forte.
Avelyn não precisou perguntar a razão de estarem indo fazer o piquenique a pé, pois logo entendeu. Não precisaram andar muito. Paen a conduziu para o bosque, seguindo
uma trilha que parecia conhecer bem. Em minutos chegaram a uma clareira onde também corria um riacho.
- Que lugar lindo! - Avelyn exclamou, olhando curiosa ao redor enquanto ele estendia a pele no chão. - Como você sabia deste lugar?
- Ontem sai a cavalo procurando um lugar bonito para o nosso piquenique.
- E este é tão próximo -ela comentou, sentindo o coração vibrar por Paen ter dito que procurara um lugar bonito para levá-la.
Lady Gerville podia ter sugerido o piquenique, mas Paen se dera ao trabalho de escolher o local. Só podia imaginar que ele também estivesse gostando um pouquinho
dela.
- Sente-se - Paen ordenou ao terminar de ajeitar pele sobre o chão e colocar a cesta em cima.
Avelyn sentou-se, com um pequeno sorriso nos lábios, em seguida colocou Sansão no chão. O porquinho imediatamente se pôs a explorar a clareira. Ela o observou por
algum tempo, mas não se preocupou de que ele pudesse ir muito longe. Afinal, nunca se afastava muito dela.
Paen meneou a cabeça achando graça.
- Deveria ter dito a David que levasse essa pestinha, mas nem notei que ele estava com você.
Avelyn ergueu a sobrancelha.
- É difícil de acreditar que não tenha visto que eu o carregava, milorde.
- Eu estava distraído - ele respondeu, rindo.
- O que pode tê-lo distraído, marido?
- Estava preocupado de ter me esquecido de alguma coisa - admitiu.
Avelyn sorriu diante dessa confissão, mas Paen não percebeu. Estava ocupado demais tirando a comida da cesta e a arrumando sobre a pele, com ar concentrado Ela sentiu
o coração vibrar ao observá-lo. Como amava aquele homem! Sim, amava o marido. Talvez ele falasse pouco, mas suas ações falavam por ele em alto e bom som. Era cuidadoso
nas coisas que lhe diziam respeito; o castelo, seu cavalo e... ela. O lugar bonito que havia encontrado era apenas um exemplo de uma lista de exemplos que poderia
citar. Paen tinha assumido o papel de castelão em Rumsfeld somente por achar que ela pudesse se sentir infeliz em não ter a própria casa para administrar. Havia
ordenado a seus homens que a elogiassem para levantar sua auto-estima. Começara a jogar xadrez com ela e a levara a passear, acatando as sugestões da mãe, para fazê-la
mais feliz.
Sob seu exterior rude, Paen era um homem bom e carinhoso, era o homem que amava e que esperava que um dia viesse a retribuir seu amor.
Paen levantou a cabeça e abriu a boca para falar, mas ficou petrificado ao ver a expressão do rosto de Avelyn. Permaneceu boquiaberto por um minuto, depois passou
a língua nos lábios, dizendo:
- Você parece tão meiga e radiante hoje.
- Pareço, milorde? - Avelyn perguntou baixinho.
- Parece. Você está linda.
Ela sorriu e admitiu ainda num sussurro:
- Você faz com que eu me sinta linda quando olha para mim desse jeito.
- De que jeito?
- Como se eu fosse uma deliciosa sobremesa que você quisesse devorar.
- Devoraria - ele retrucou, começando a se inclinar para ela. - Quero devorá-la inteirinha.
Os lábios de Paen foram a única coisa que a tocaram, roçando os seus devargazinho, suavemente, de um lado para outro.
Avelyn fechou os olhos e ficou imóvel por um momento, deliciando-se com a carícia, mas logo seus lábios se entreabriram e seu corpo procurou se aproximar de Paen.
Ela queria mais do que a provocação dos lábios, queria um beijo de verdade, queria tocá-lo, queria ser tocada.
Entretanto, quanto mais Avelyn se inclinava pan frente, mais Paen se retraia, não deixando que o beijo passasse de um roçar de lábios.
Justamente quando Avelyn pensou que ele fosse enlouquecê-la com tanta provocação, Paen pôs a língua para fora e brincou entre seus lábios. A intimidade daquela carícia
fez com que ela soltasse um gemido e também o tocasse com a ponta da língua. Paen imediatamente aproximou mais a cabeça para que o beijo se aprofundasse.
Já ofegante, Avelyn retribuiu o beijo com a mesma intensidade. Então levantou as mãos para abraçá-lo, mas Paen as prendeu entre as suas. Ele parecia decidido a enlouquecê-la,
ela pensou com uma certa frustração.
- Tire o vestido - o marido ordenou, com voz rouca.
Avelyn levou um susto e em seu íntimo se travou uma batalha entre a timidez e a excitação.
- Por favor - ele pediu, com um olhar de súplica.
Avelyn respirou fundo e lentamente se levantou. Foi preciso mais um minuto para que ganhasse coragem e então se dobrasse para pegar a bainha da saia e puxar o vestido
para cima, tirando-o pela cabeça. No momento seguinte, teve um ímpeto de se esconder atrás do vestido, mas acabou deixando que ele caísse no chão. Ela chegou a lamentar
a decisão. Paen não se mexeu, ficou simplesmente olhando para ela, percorrendo com os olhos cada milímetro de seu corpo. Quando já não estava agüentando mais aquele
olhar e ia pegar o vestido, ele se ajoelhou e se inclinou para acariciar a ponta ereta de seu mamilo, Avelyn mordeu o lábio ao sentir um estremecimento. Paen inclinou-se
um pouco mais, para colocar o mamilo entre seus dentes, e Avelyn sentiu o coração dar um pulo no peito quando a língua começou a brincar com seu mamilo.
Avelyn gemeu e passou uma das mãos pelos cabelos de Paen. Ele agora alternava os seios, sugando ora um, ora outro, até que Avelyn estivesse trêmula em seus braços.
-Marido?-A respiração de Avelyn tomou-se arfante quando os lábios de Paen tocaram a lateral de seu corpo e ele começou a cobrir de beijos seus quadris. Já não estava
agüentando mais manter-se em pé. Aquilo era um verdadeiro tormento.
Quando Paen a puxou, forçando-a a mudar de posição para que seus pés ficassem mais afastados, sua respiração já estava descontrolada, tornando-se ainda mais entrecortada
ao sentir os lábios deslizarem por suas coxas, deixando em brasa suas partes íntimas. Ela agora lutava para manter-se em pé, temendo cair sobre o marido de tão bambas
que estavam suas pernas.
Percebendo a fraqueza da esposa, Paen moveu as mãos para os quadris, tentando segurá-la pelas nádegas enquanto pressionava as coxas macias com beijos ousados que
cada vez avançavam mais para cima.
Avelyn fazia o possível para se manter em pé, mas, apesar de Paen tentar segurá-la, suas pernas não agüentaram quando os lábios dele brincaram na parte mais íntima
de seu corpo. Ela desmoronou com um gemido e Paen a pegou no colo, deitando-a de costas na pele.
Ele se pôs de joelhos entre as pernas de Avelyn, forçando-a a abri-las um pouco mais. Abaixando a cabeça, voltou a enlouquecê-la com seus beijos.
Avelyn se agarrou a pele e revirou a cabeça, com a mente em um turbilhão de excitamento, desejo e a necessidade de tocá-lo. Desejava dar ao marido o mesmo prazer
que ele lhe proporcionava na cama, mas não tinha idéia de como fazê-lo. Sentia uma necessidade quase incontrolável, mas as mãos de Paen estavam prendendo suas coxas
e ele usava os lábios, os dentes e a língua para levá-la ao êxtase. Ele assim o fez até ela estremecer e gritar.
Por um momento, Avelyn sentiu-se entorpecida demais para se mexer, então percebeu que Paen havia se sentado para tirar a túnica.
Ao se levantar, ele pôs as mãos na cintura, abaixando os calções até os joelhos, Avelyn ajoelhou-se, ficando na mesma posição em que ele ficara antes. Sua voz soou
rouca ao dizer:
- Agora e minha vez de dar prazer a você.
Paen hesitou e dobrou o corpo para acabar de tirar os calções. Quando voltou a endireitar o corpo, ela ficou frente a frente com a rija masculinidade. Ele tinha
o membro ereto e duro, bem em frente ao seu nariz, e ela não sabia o que fazer.
O marido se manteve imóvel, aguardando o que estava por vir. Avelyn resolveu então que tentaria fazer o mesmo que ele havia feito. Inclinou-se e beijou-o na lateral
do corpo, deslizando os lábios até as coxas musculosas e finalmente ousou dar um beijo naquilo que havia convencionado consigo mesma de chamar de seu "instrumento
de prazer". Surpreendeu-se ao sentir a maciez da pele que recobria algo tão duro. Após um segundo beijo, acariciou-o de leve com os lábios por toda a extensão até
chegar à ponta que acariciou com a língua. Depois disso, não sabia mais o que poderia fazer.
- Coloque-o na boca - Paen grunhiu, agoniado.
Avelyn fitou-o indecisa e, ao ver a expressão do rosto do marido, perguntou:
- Estou fazendo do jeito errado?
Paen balançou a cabeça e gemeu quando ela prendeu seu membro na mão e, da mesma maneira como ele havia lhe segurado o seio para sugá-lo, ela também o fez. Depois
de alguns minutos, ele inesperadamente, se afastou e se ajoelhou diante dela.
Avelyn o olhou insegura.
- Eu não estava fazendo...?
A pergunta morreu em seus lábios quando a boca de Paen cobriu a sua. O beijo foi tão apaixonado que ela achou que havia feito a coisa certa.
Paen deitou-a de costas na pele. Avelyn passou os braços por seus ombros e se abriu para ele, esperando que a possuísse.
Gemendo, ela virou a cabeça e procurou seus lábios, beijando-o apaixonadamente, implorando silenciosamente que ele satisfizesse sua urgência. Paen pareceu entender
o clamor da esposa, penetrando-a com tal vigor que um grito rouco escapou-lhe da boca. A cada movimento de seu corpo, ela gemia extasiada, cravando as unhas em suas
costas enquanto as línguas se tornavam cada vez mais gulosas. Em segundos, Avelyn sucumbiu sob o marido, gritando enquanto o corpo se comprimia e pulsava de prazer.
Avelyn nem se deu conta de que ele também se entregava a magia do momento.
Avelyn acordou e olhou confusa para o peito em que estava deitada... até se lembrar de como o piquenique havia acabado. Eles não tinham tocado na comida, ela lembrou,
e um sorriso aflorou em seus lábios ao pensar que não fazia idéia de como acabara no peito de Paen. A última coisa de que se lembrava era do marido descansando sobre
ela enquanto recuperavam a respiração.
- Avelyn?
Ela levantou a cabeça e fitou o marido timidamente. Por mais curioso que fosse, sempre se sentia constrangida depois do que haviam feito. Ficara completamente nua
na frente dele por um bom tempo e agora sentia vergonha.
- Está com fome?
Avelyn surpreendeu-se tanto com a pergunta quanto pelo fato de que, sim, estava com fome. Assentindo com a cabeça, ela se sentou na pele e pegou o vestido, ansiosa
para se cobrir, agora que não estava mais possuída de paixão e de desejo.
Paen sentou-se a seu lado e começou a se vestir também, depois foi pegar a comida que já havia tirado da cesta. Milagrosamente, haviam conseguido não esmagar nada.
Que sorte, Avelyn pensou, estava realmente com fome.
Comeram primeiro em silêncio, depois Avelyn perguntou em que fase estava a reparação da muralha. Sabia que Paen já havia deslocado muitos trabalhadores para outros
projetos. Apenas ele e uns poucos homens continuavam consertando os pequenos buracos que faltavam no lado exterior das muralhas.
Paen respondeu que estava progredindo bem, o que realmente não queria dizer nada para ela. O que Avelyn queria mesmo saber era se um bloco de pedra poderia ter se
soltado sozinho. Não queria acreditar que Diamanda estivesse por trás daquilo.
Houve um outro momento de silêncio, durante o qual Avelyn refletiu sobre como obter a informação que desejava sem contar nada ao marido. Finalmente perguntou:
- E a parte da muralha do lado direito dos portões da frente?
- O que tem ela?
- É segura? Quero dizer - tentou então esclarecer -, há ainda pedaços que precisem ser restaurados?
- O parapeito interno precisa ser refeito em alguns lugares, mas o externo é sólido.
- Não há pedras soltas, nem quaisquer blocos que pudessem cair?
Avelyn fez a pergunta e qualquer coisa no tom de sua voz fez com que Paen parasse e a fitasse.
- Não deveria haver - ele disse lentamente. - Por que você pergunta, esposa?
Ela abaixou os olhos e encolheu os ombros, voltando sua atenção para Sansão que estava de volta e se acomodara junto dela. Avelyn colocou várias fatias de maçã e
uma ameixa no chão na frente do porquinho, mas ele apenas cheirou as frutas, não parecendo interessado nelas, e se levantou para explorar um pouco mais o local.
- Por que você pergunta, esposa?
Avelyn levantou os olhos, mas hesitou. Receava contar o que houvera ao marido e ele deduzir que por causa da queda de David, quase haviam sido atingidos pelo bloco
de pedra, e então o proibisse de ficar com ela e Sansão. E também não queria trazer o nome de Diamanda à baila até saber se a jovem estava ou não envolvida.
- Conte o que houve, Avelyn. Pensa que eu não notei que a manga de seu vestido está rasgada e seu ombro arranhado?
Ela olhou para o braço e suspirou. Tampouco havia notado o rasgo e o arranhão depois do incidente. Mas tinha consciência de uma dorzinha quando movimentava o braço
de uma certa maneira.
- Uma das pedras caiu da muralha e quase atingiu David e eu quando voltávamos da aldeia - ela finalmente admitiu.
- Mais um acidente - Paen murmurou e reclinou-se, com o rosto muito pálido, comprimindo os lábios.
Avelyn mudou de posição, sentindo-se subitamente culpada. Tinha certeza de que Paen a achava a rainha dos acidentes.
- Quando voltarmos, quero que você me mostre onde vocês estavam quando a pedra caiu.
Avelyn assentiu com a cabeça. O sentimento gostoso do passeio desapareceu subitamente e ela ficou triste; o dia se tornou menos ensolarado. Paen devia estar sentindo
o mesmo, pois, após um breve silêncio, ele suspirou e começou a guardar as coisas.
- Pegue seu porco e vamos voltar.
Com um suspiro, Avelyn se levantou e foi pegar Sansão que estava cheirando alguma coisa em uma moita. Quando voltou, Paen também se levantou. Ele deu dois ou três
passos na pele e então algo aconteceu. Avelyn apertou Sansão nos braços, assustada, Paen cambaleou, escorregou o pé e de repente caiu para a frente, batendo a cabeça
na raiz de uma árvore.
- Paen? - Avelyn precipitou-se para ele cheia de ansiedade. A batida que dera na cabeça provavelmente ressoara por toda a clareira tal fora a força do impacto e
o barulho que fizera.
- Paen? - Largando Sansão, ela correu para o lado do marido, conseguindo, com algum esforço, virá-lo de costas.
Paen estava muito frio, havia um corte em sua testa que sangrava.
Apavorada, Avelyn abaixou a cabeça e colocou o ouvido no peito do marido, só relaxando um pouco quando ouviu que o coração dele batia normalmente.
Ela chorou de pena, mas procurou se recompor. Sentou-se e olhou ao redor da clareira, sem saber o que fazer. Precisava pensar. Ferimentos na cabeça eram traiçoeiros
e não dava para saber quanto tempo o marido ficaria desmaiado. Também não tinha qualquer remédio ali para cuidar dele. Quando acordasse, a cabeça estaria doendo
muito. Mas quando acordaria? Poderia ficar desmaiado por alguns minutos, horas ou...
Avelyn tornou a examinar a clareira e as árvores que a circundavam. Não desejava de forma alguma passar a noite ali com o marido inconsciente e incapaz de se defender.
Embora ele tivesse muitos homens fazendo a ronda para afastar assaltantes com sua presença, ela não podia esperar, pois não desejava que Paen corresse qualquer risco
por conta disso.
Ela também não desejava deixá-lo sozinho para ir procurar ajuda. Não haviam caminhado muito, mas poderia acontecer muita coisa no curto tempo que levaria para ir
até o castelo pedir ajuda. Aquela era uma lição que Avelyn aprendera bem desde o casamento. Qualquer coisa poderia acontecer com Paen enquanto ela buscasse socorro.
Não, não o deixaria sozinho... o que significava que teria de levá-lo também.
Seu irmão, Warin, sempre a havia acusado de ser otimista demais, entretanto, por mais otimista que fosse, ela tinha de admitir que as chances de levar o marido ao
castelo, ou mesmo para fora do bosque a fim de que as sentinelas os vissem, eram mínimas. Definitivamente não conseguiria carregá-lo, e arrastá-lo pelo mato e pela
terra. Isso não faria bem algum a ele. Seu olhar então deteve-se na pele em que ele estava caído e teve uma idéia.
Chamando Sansão, Avelyn se levantou, verificou a posição do marido e achou que funcionaria. Ao virá-lo de costas, ela o recolocara sobre a pele. Pegando a cesta,
ela a colocou na pele ao lado de Paen, parando ao ver os pedaços de maçã e ameixa esmagados no chão. Lembrava-se bem de tê-los colocado ali para Sansão e de ele
não ter se interessado. Deveria ter jogado aqueles pedaços fora ou recolocado na cesta. Era óbvio que fora neles que Paen escorregara.
Tudo por sua culpa. Procurando não pensar nisso, ela se inclinou para pegar as pontas da pele, uma em cada mão. Deu um passo e puxou com força, soltando um suspiro
de alívio quando a pele deslizou sobre o capim.
Muito bem, poderá dar certo, Avelyn disse a si mesma, e começou a puxar a pele. Quando vieram, ela teve a impressão de que o lugar era perto do castelo, agora porém,
a distância parecia muito maior. Contudo, Avelyn persistiu e finalmente conseguiu que saíssem do bosque.
Assim que as árvores ficaram para trás, ela parou e acenou na direção das torres. Não tinha idéia se os homens conseguiriam vê-la, pois ela não os via nas muralhas.
Suspirando, voltou a olhar para Paen, não contendo um sorriso ao ver que Sansão fazia companhia a seu marido e também estava sobre a pele.
Sentindo-se mais confiante, pegou novamente as pontas da pele e continuou a puxá-la. Não havia caminhado muito quando vários cavalos começaram a sair pelos portões
do castelo vindo em direção a eles.
Exaurida pelo esforço, Avelyn limitou suas explicações ao mínimo. Paen e ela foram colocados nos cavalos para voltar ao castelo. David foi ao encontro deles no pátio.
O menino já estava a meio caminho dos portões, mas voltou correndo para a escadaria do castelo quando viu os cavalos entrarem. O pequeno escudeiro era suficientemente
perspicaz para não fazer perguntas. Ele simplesmente se postou ao lado de Avelyn enquanto ela orientava os homens para levarem o marido ao quarto.
Diamanda e lady Helen levantaram-se do lugar onde estavam sentadas próximas à lareira quando eles entraram no salão. Sem responder as perguntas que faziam, Avelyn
conduziu os homens escada acima, abrindo a porta do quarto para que o marido fosse transportado para dentro.
- Milady! - Runilda entrou correndo no quarto, com uma expressão muito aflita no rosto. - O que aconteceu?
- Ele caiu e bateu a cabeça, Runilda. Vá buscar meu saco de medicamentos - ela ordenou de maneira brusca, e acrescentou: - Preciso também de agulha e linha. A testa
dele não pára de sangrar, talvez precise de alguns pontos.
- Como foi que ele caiu? - perguntou Diamanda, que seguira os homens até o quarto e ouvira a explicação que Avelyn dera a criada.
- Creio que Paen pisou em uma ameixa ou fatia de maçã e escorregou; perdeu o equilíbrio e foi de cabeça no chão - ela respondeu de forma sucinta, observando os homens
acomodarem o marido na mesma pele em que havia sido transportado até que pudessem montar uma nova cama para ele.
Avelyn não podia nem olhar para a pequena loira enquanto falava. Não saia de sua mente a cena da cabeça loira de Diamanda desaparecendo atrás da muralha.
- Aqui está o que me pediu, milady. - Runilda estendeu para Avelyn um pequeno saco onde estavam os medicamentos, agulha e tudo o mais que lhe havia sido pedido.
Avelyn agradeceu e foi se ajoelhar ao lado do marido.
Paen estava muito pálido, ainda inconsciente, e o corte em sua testa não parava de sangrar. A única mudança nele agora era que tinha um enorme galo na cabeça.
Avelyn só conseguiu encontrar a linha e a agulha depois de esparramar todo o conteúdo do saquinho sobre as peles. Ao tentar enfiar a linha pelo buraco da agulha,
suas mãos tremiam tanto que ela achava que dificilmente iria conseguir.
- Minha criada é curandeira - lady Helen comentou, após Avelyn tentar e não conseguir pela terceira vez, - Talvez devêssemos chamá-la, filha.
Avelyn abaixou a cabeça derrotada e concordou, mantendo-se calada enquanto esperavam pela chegada da mulher. Mas seu silêncio era apenas externo. Sua voz interior
a censurava por fracassar como esposa. Entretanto não seria por muito tempo, disse a si mesma. Começava a ganhar confiança em suas habilidades e a entender que os
primos estavam errados. Ela não era uma inútil. Estava se esforçando para ser uma boa esposa. Suas mãos tremiam porque estava muito preocupada com Paen e queria
seu bem-estar. Aquilo não era fracasso. Nem era fracasso algum aceitar ajuda quando fosse preciso.
Quando a porta se abriu e a criada de lady Helen, Molly, entrou, Avelyn, em princípio, se sentiu aliviada.
Molly era uma mulher alta, magra e discreta. Embora sua presença fosse a maior parte do tempo ignorada, quando entrou no quarto para cuidar de Paen, ela se movimentou
com a segurança de quem sabia o que deveria fazer.
- Preciso de minhas sanguessugas.
- O quê? - Avelyn indagou, apavorada. Ela havia sido treinada pela mãe a cuidar dos enfermos com medicamentos. Não concordava com a prática de aplicar sanguessugas
para fazer os pacientes sangrarem. A mãe dizia que era "uma coisa estúpida e sem sentido fazer sangrar um corpo que já estava sangrando".
- Não. - Avelyn se ergueu dos joelhos. - Sem sanguessugas.
- Ele precisa sangrar - a mulher disse, enfática. - Precisamos fazer com que saiam os maus fluidos. Já volto.
- Não, não precisa voltar, isso não é jeito de cuidar do meu marido. - Avelyn irritou-se e, dirigindo o olhar aos homens que circundavam a cama, disse: - Mantenham
essa mulher longe daqui.
- Avelyn, querida - lady Helen contemporizou, com meiguice. - Acalme-se. Molly sabe o que está fazendo. A mãe dela foi uma ótima curandeira e ensinou tudo a ela.
Avelyn voltou-se para a tia de Diamanda, fuzilando-a com os olhos.
- Pois minha mãe é a melhor curandeira que eu conheço e sempre considerou a aplicação de sanguessugas uma prática desprezível.
- Como quiser - disse lady Helen em tom seco e saiu do quarto, levando Molly.
Avelyn lamentou por um momento o bate-boca com lady Helen, mas não podia perder tempo, pois tinha coisas mais importantes com que se ocupar. Respirando fundo, ela
tornou a pegar a agulha e a linha e se concentrou no que estava fazendo. Para seu alívio, dessa vez suas mãos mantiveram-se firmes e a linha passou pelo buraco da
agulha. Era como se o fato de ter descarregado o medo e a raiva contra as sanguessugas de Molly tivessem retirado todo o seu nervosismo.
Satisfeita de ter superado o primeiro problema, Avelyn rapidamente limpou o ferimento e depois se abaixou para dar os pontos. O corte era pequeno e só foram precisos
três pontos.
Paen ficou inconsciente o tempo todo, e Avelyn sentiu-se tensa ao terminar. Ela havia visto homens sobreviver a ferimentos na cabeça muito piores, mas também havia
visto alguns morrerem com ferimentos mais leves. Por isso é que eram traiçoeiros, como dizia a sogra. Não dava para saber como evoluiriam.
- Ele vai ficar bem? - Diamanda perguntou ao ver Avelyn colocar uma atadura na testa de Paen para manter o ferimento limpo.
- Não sei - ela confessou, olhando em seguida para Runilda. - Por favor, me dê alguma coisa para misturar os medicamentos. Quando ele acordar vai sentir a cabeça
doer, e eu tenho aqui um tônico para ajudá-lo a dormir que quero que beba assim que acordar.
A criada deixou imediatamente o quarto para buscar sana bebida. Passado um minuto, foi a vez de os soldados também começarem a sair, deixando Avelyn e Diamanda sozinhas.
Elas mantiveram-se caladas por vários minutos. Sentindo-se aparentemente desconfortável com o silêncio, Diamanda limpou a garganta e comentou:
- Fiquei impressionada com a maneira como você lidou com Molly. A presença dela sempre me deixou nervosa, e eu jamais poderia enfrentá-la, ou tia Helen, como
você fez.
- Fui indelicada com sua tia e tenho de me desculpar.
Como Avelyn voltasse a ficar calada, a menina mordeu os lábios e inesperadamente perguntou:
- Está zangada comigo por algum motivo?
Avelyn olhou para ela e não conseguiu mais se conter:
- Eu a vi, Diamanda. Sei o que você fez!
Diamanda ficou boquiaberta. As duas se fitaram em mais um momento de pesado silêncio, ambas quase petrificadas. Então a menina murchou como uma flor que não fosse
regada há muito tempo.
- Eu... - Ela sacudiu a cabeça e depois despejou: - Me desculpe, Avelyn, me desculpe mesmo. Fui muito estúpida e má e minha única justificativa é que nós mal nos
conhecíamos então e não éramos amigas. Você não imagina como eu lamento isso agora.
Avelyn piscou confusa. Embora não fossem amigas quando ela foi golpeada no quarto, já eram amigas quando julgou ter visto a jovem no alto da muralha.
Avelyn tentou pensar em uma maneira de fazer com que Diamanda falasse, sem perceber que não estava entendendo a que situação ela se referia.
- Deixe eu entender. Conte tudo o que houve desde que você me conheceu.
Avelyn sentiu a respiração suspensa depois dessa sugestão, esperando que funcionasse. Quando o silêncio começou a se tornar doloroso, imaginou que Diamanda não fosse
falar coisa alguma. Mas a garota aparentemente estava tentando ordenar os pensamentos e finalmente começou a falar:
- Eu tinha seis anos quando fui a Gerville e sabia que me casaria com Adam, mas desde o primeiro momento amei Paen - ela confessou.
Avelyn quase desmaiou de susto ante essa revelação.
- Quando chegou a notícia da morte de Adam - ela continuou -, tive certeza de que era a mão do destino para que eu me casasse com Paen. Não sabia nada sobre você,
entende? Ninguém havia me contado nada sobre o compromisso de vocês, e Paen era muito mais velho do que Adam e ainda era solteiro, por isso achei que não estivesse
noivo de ninguém. E então Paen voltou a Gerville e foi anunciado que deveríamos nos aprontar para viajar a Straughton para que ele pudesse honrar seu contrato de
casamento. - Diamanda fez uma expressão de dor. - Temo que tenha odiado você no mesmo instante, sem nem tê-la conhecido. Você estava roubando Paen de mim. Odiei
você mais ainda quando a conheci.
- Mas por quê? - Avelyn estava cada vez mais surpresa.
- Porque você era bonita e gentil e... - Ela parou por um instante. - Não importa, quando viajávamos para Hargrove e você me mostrou as roupas que estava fazendo
para Paen, eu fiquei arrasada. Estavam ficando muito bonitas e achei tão atencioso de sua parte... Eu imediatamente desejei ter tido aquela idéia, mas mesmo que
tivesse nunca soube costurar bem. Quando vi que você estava quase acabando e logo presentearia Paen, entrei em pânico. - Diamanda respirou fundo. Precisava de coragem
para confessar tudo. - Aproveitei quando Paen a levou até o rio, entrei na tenda e pus fogo nas peles e nas roupas.
- Eu havia assoprado a vela... - Avelyn disse, suspirando, e Diamanda concordou.
Lembrando-se do segundo conjunto de roupas, Avelyn perguntou:
- E foi você também quem esfregou carne de porco na segunda túnica e deu para os cachorros destruírem.
Diamanda encolheu os ombros.
- O plano era esse, mas eles são tão bem treinados que não a destruiriam. Eu mesma cortei e rasguei a túnica, depois coloquei os pedaços onde eles estavam para que
fossem culpados. - Ela suspirou, visivelmente desgostosa. - Por favor, me perdoe. Contra minha natureza, comecei a simpatizar com você depois que chegamos aqui e
vi que você e Paen estavam realmente gostando um do outro. Vocês dois fazem um par perfeito. Sei que o que fiz foi muito errado, e me arrependo de tê-la magoado.
Espero que possa me perdoar.
Avelyn a fitou, ainda confusa.
- Mas e o incidente na muralha, Diamanda?
- Na muralha? - Foi a vez de a pequena loira fitar Avelyn surpresa.
- Eu a vi na muralha - Avelyn afirmou.
- Quando? Hoje? - Ela parecia verdadeiramente confusa. - Sim, eu subi lá para pensar. Eu passei por Paen quando ele estava arrumando a cesta do piquenique e vi o
carinho com que ele ajeitava tudo... Era mais uma prova do amor dele por você. Sabia que ele pediu aos guardas para elogiá-la por achar que fosse uma maneira de
consertar o mal que os insultos de seus primes lhe fizeram? Ele a ama, Avelyn, e só precisou de umas poucas semanas. A mim que ele conhece há tantos e tantos anos
só me vê como uma irmãzinha. - Ela balançou a cabeça. - Acho que apesar de tudo amadureci e fui até as muralhas para ficar sozinha. Eu estava caminhando lá em cima
quando ouvi uma conversa e parei para olhar. Eu vi que eram você e David, mas não percebi que você havia me visto.
Avelyn se sentou. Tinha certeza de que Diamanda estava sendo sincera. A menina não poderia fingir tanta inocência e espanto. Ela não tinha a mínima idéia da importância
de ter estado nas muralhas, nem fazia a mínima idéia de que um bloco de pedra quase havia esmagado David e ela momentos antes de sua chegada.
Talvez aquilo tivesse sido um acidente, Avelyn pensou vagamente. E talvez ela tivesse sido golpeada e caído no buraco por alguém que tivesse ocupado o castelo sem
saber que ele logo seria habitado.
- Você deve me odiar agora - disse Diamanda, sentindo-se infeliz.
- Não, claro que não. - Avelyn estendeu a mão para pegar a da pequena loira, apertando-a. Era bom saber que a pessoa que considerava amiga não tentara matá-la. Não
restava dúvida de que ela boicotara suas tentativas de fazer as roupas de Paen, mas estava realmente arrependida.
- Se você quiser que eu vá embora de Rumsfeld, posso voltar para Gerville - Diamanda propôs, embora isso certamente a faria sofrer.
- Não é necessário, Diamanda. Somos amigas e amigas perdoam as faltas umas das outras. - Ela deu de ombros. - Você errou, admitiu isso e se desculpou. É o suficiente
para mim.
-De verdade? Você continua minha amiga?-Diamanda parecia não acreditar.
- Sem dúvida - Avelyn afirmou. - Gosto de sua amizade.
- Oh, Deus. - Ela se atirou nos braços de Avelyn, abraçando-a apertado. - Você é mesmo maravilhosa! Obrigada, obrigada. Prometo que não se arrependerá. Daqui em
diante, vou ser a melhor amiga que você já teve. - Diamanda afastou-se de Avelyn e tomou-lhe as mãos. - Não acredito que pensei que fosse sorte sua ter Paen. Na
verdade, hoje vejo que nós é que tivemos sorte de que ele tenha se casado com você.
Avelyn riu do exagero da amiga, mas ficou comovida com essas palavras. Diamanda então olhou para Paen e disse:
- Vou contar tudo a ele, é claro.
- Não acho que seja necessário - Avelyn assegurou.
- Você guardaria segredo? - Diamanda levantou uma sobrancelha e sacudiu a cabeça. - Não daria certo. Um dia acabaria escapando qualquer coisa de sua boca, a história
viria à tona e Paen ficaria bravo por ter guardado segredo dele. Além disso, ele tem o direito de saber que você não é dada a acidentes, como ele pensava.
- Não sou nada dada a acidentes - Avelyn afirmou.
Diamanda não pareceu muito convencida. Depois de um minuto de hesitação, Avelyn perguntou:
- Você acha que pode cuidar um pouquinho de Paen para mim? Preciso verificar uma coisa.
- Claro, pode ir.
Avelyn hesitou, pensando em dizer a ela novamente que não precisava confessar suas maldades a Paen, mas mudou de idéia.
- Está bem. Não vou demorar muito. Só quero ir até as muralhas verificar algo. Peça a alguém que vá me buscar quando Paen acordar.
Alguns minutos mais tarde, Avelyn passava os dedos, pedaço por pedaço, sobre o local de onde o bloco de pedra havia despencado. Ela se inclinou para olhar o bloco
mais abaixo. A conversa que tivera com Diamanda fizera com que começasse a acreditar que a queda da pedra fora um mero acidente, mas não ficaria sossegada enquanto
não visse o lugar de onde a pedra caíra. Ela passou a mão pelo parapeito novamente.
Lá não havia nada que sugerisse que alguém tivesse empurrado o bloco. Não existia marcas de qualquer instrumento cortante. Por outro lado, era difícil de se acreditar
que o bloco tivesse escolhido o exato momento que passavam por ali para cair, Avelyn pensou, franzindo o cenho ao passar os dedos pelo sulco pontiagudo, no centro
do beiral, pelo lado externo de onde o bloco estivera.
Inclinando-se mais, ela viu que havia um bloco que se projetava ligeiramente pelo lado externo acima da pedra em questão. Depois de avaliar e refletir bastante,
Avelyn concluiu que não havia sido uma coincidência. Se tivesse meramente se desprendido, o bloco que quase os atingira rolaria para o lado de dentro do castelo,
na passarela onde ela estava naquele momento.
Avelyn sentiu um calafrio. Alguém empurrara o bloco de pedra para cair em cima dela. Não fora um acidente. Assim como sua queda no quarto. Ela havia sido golpeada
e atirada pelo buraco, mas tivera a sorte de ser salva pela saia.
Assim, ela era ainda menos propensa a acidentes do que imaginava, e o destino certamente conspirava a seu favor, ainda que alguém conspirasse contra.
Avelyn abaixou os olhos e contemplou o pátio, pensando no assunto. Se não fora Diamanda, como havia pensado em princípio, quem poderia ter sido?
Na verdade, não conseguia pensar em ninguém mais que pudesse desejar. Diamanda era a única pessoa que talvez tivesse uma razão. Ainda assim, ela acreditava na inocência
da jovem.
Uma discussão a sua direita fez com que Avelyn voltasse os olhos para o lado e endireitasse o corpo ao ver a tia de Diamanda.
Capítulo X
Paen abriu os olhos e se mexeu um pouco na cama; soltou depois um gemido ao tentar levar um pouco mais de ar aos pulmões. Sua cabeça latejava de dor. Foi só então
que se lembrou de ter escorregado nas fatias de maçã e de ter caído. Pensava como uma coisa daquelas acontecera com ele quando o som de alguém assoando o nariz despertou
sua atenção e voltou a cabeça para o lado. Diamanda estava sentada no peitoril da janela, chorando.
A primeira reação que teve ao vê-la foi de irritação porque provavelmente havia acordado com a choradeira dela. Tinha tanta dor que teria sido melhor continuar dormindo.
Seu pensamento seguinte foi o de perguntar a ela a razão do choro. Certamente não era por sua causa.. Estava ferido, mas iria ficar bom. Não estava morrendo.
Mas, e Avelyn? A pergunta ficou martelando em sua cabeça, e Paen teve a sensação de que o coração fosse parar ao imaginar que a choradeira fosse porque sua esposa
se ferira novamente... ou tivesse sido morta dessa vez.
- Onde está Avelyn? - A pergunta soou mais alta e cheia de apreensão do que ele desejava.
Diamanda parou de chorar e voltou um rosto surpreso para ele. Desceu então do peitoril e foi até a cama.
- Você acordou!
- Onde esta Avelyn? - ele repetiu a pergunta. - Ela está ferida? E por isso que você está chorando?
- Oh! - Diamanda se mostrou embaraçada ao perceber a confusão que suas lágrimas haviam causado e, imediatamente, negou: - Não, Paen, ela está bem. De verdade.
Paen novamente relaxou na cama de peles, dando-se conta de que a preocupação quase o fizera sentar-se. Não agüentando a dor que aquele movimento causava, ele suspirou
e perguntou:
- Então por que você está chorando?
Diamanda se sentou na beirada da cama e deu um suspiro.
- Por causa de tudo que tenho para lhe contar.
Paen aguardou um pouco e como ela simplesmente continuasse lacrimosa, ele perguntou impaciente:
- O que é?
- Você vai me odiar.
Paen não estava com paciência para suspense, por isso, disse em tom seco:
- Diga logo do que se trata, Diamanda.
- Fui eu que destruí a túnica e os calções que Avelyn estava costurando para você.
- Quais?
- Os dois conjuntos - ela sussurrou. Ao perceber que Paen ia abrir a boca para falar, mais do que depressa continuou: - Avelyn tinha assoprado a vela na tenda. Eu
reacendi de propósito para incendiar as peles e as roupas que estavam em cima delas. Depois, em Gerville, quando o novo conjunto estava quase pronto, eu esfreguei
a carne de porco do jantar na túnica, esburaquei a túnica e provoquei os cachorros com ela. Deixei depois os pedaços com os cachorros porque sabia que a culpa recairia
neles. - Ela agora amassava o lencinho na mão. - Contei tudo a Avelyn um pouco mais cedo, pedi desculpas a ela e disse que pretendia contar para você. Ela me disse
que não era preciso porque o caso fora com ela e ela já havia me perdoado...
- Ela perdoou você?
- Perdoou - Diamanda confirmou. - Ela é muito compreensiva.
Paen a olhava cheio de espanto. Ficava contente de que a esposa fosse compreensiva, mas não conseguia entender a história.
- Mas por quê você fez isso? Você nem a conhecia direito quando pôs fogo no conjunto pela primeira vez e ela sempre havia sido gentil com você, como no dia do
casamento em que tentou defendê-la quando você falou aquela bobagem sobre sua prima grávida.
Diamanda apertou os lábios.
- Na realidade, aquilo foi intencional. Foi mesmo para insultá-la, embora hoje, quando contei tudo, não mencionei esse fato.
- Por que fez tudo isso? - A confusão de Paen começou a se transformar em raiva por causa da esposa.
- Eu estava com ciúme - ela admitiu com ar triste, depois levantou o rosto, implorando com os olhos. - Eu amo você, Paen. Sempre amei. Fui para Gerville sabendo
que ia me casar com Adam, mas foi por você que me apaixonei. - Diamanda tinha um ar de desamparo. - Foi por amor. - Ela deu um suspiro profundo. - Acho que eu queria
que ela se sentisse tão infeliz quanto eu. Ou talvez fazer com que você a achasse inútil e desajeitada.
- Avelyn não e nem uma coisa, nem outra.
- Eu sei - Diamanda admitiu. - Mas, antes do casamento, os primos dela me fizeram acreditar que fosse, o que só aumentou minha revolta porque achei que ela não
merecia você. Acabei conhecendo Avelyn melhor e desde então sei que ela e inteligente, boa e engraçada, e espero um dia vir a ser metade do que ela é para você como
esposa. - Ela encolheu os ombros. - Gosto muito dela, por isso não fiz mais nada para tentar desmerecê-la a seus olhos desde que chegamos aqui. - Esboçou um sorriso
melancólico. - Também depois de todos os acidentes que ela sofreu desde que chegamos, nem precise me incomodar, mas não teria feito mais nada. Gosto dela, de fato,
Paen, e só posso pedir desculpas.
Paen soltou a respiração aos poucos. A jovem parecia sincera, pelo menos quanto a estar arrependida. Ele não acreditou nem por um minuto que ela o amasse. Era coisa
de criança aquilo, e logo passaria. O comportamento dela em relação a Avelyn, porém, havia sido horrível e não sabia como proceder.
- Então Avelyn ficou sabendo de tudo isso e assim mesmo a perdoou? - ele perguntou.
- Ela é realmente uma pessoa muito boa.
- Fico surpreso de que você tenha contado tudo a ela.
- Avelyn praticamente me induziu. Foi a coisa mais estranha.
- Como?
- Ela estava zangada e disse que sabia de tudo o que eu havia feito e tinha me visto. Acabei confessando e ela então pareceu confusa e me perguntou se eu havia estado
nas muralhas mais cedo, como se fosse alguma coisa importante.
- E você esteve hoje lá?
- Estive. Precisava ficar um pouco sozinha para pensar em tudo o que tinha acontecido. Estava me sentindo mal por não ter procedido bem com ela, e perceber que você
havia se apaixonado por ela só fazia me sentir pior.
Paen fixou os olhos em Diamanda ao ouvir essas palavras. Ela havia percebido que ele se apaixonara por Avelyn? Não podia ser. Tinha, sim, alguma afeição, mas amor?
Ele engoliu em seco e olhou para a janela, um desfile de lembranças passou por sua cabeça. Avelyn conversando durante a viagem a cavalo; Avelyn com a roupa suja
de ovo de codorna depois de ele colidir contra ela; Avelyn brava por achar que ele preferia a cama de chão batido; Avelyn sorrindo alegre por derrotá-lo no xadrez;
Avelyn olhando com ternura para Sansão; Avelyn agarrando um pedacinho de linho como se pudesse esconder sua nudez.
Não havia dúvida, ele a amava. Por mais contraditório que pudesse parecer, amava cada pedacinho daquela mulher. Ela era muito humana, muito tímida, muito prestativa
e simplesmente perfeita... para ele. Sim, ele a amava. Droga, como aquilo havia acontecido?
- Eu pensei em ficar sozinha na muralha - prosseguiu Diamanda, fazendo com que Paen voltasse sua atenção para ela. - Claro que quando vi tia Helen descendo de lá,
quase desisti, mas me escondi sob as escadas e esperei que ela passasse, depois subi. Estava caminhando pela passarela quando ouvi vozes e me inclinei no parapeito
e vi David ajudando Avelyn a se levantar. Ela deve ter escorregado ou tropeçado... - Meneou a cabeça, rindo afetuosamente. - Por mais que eu goste de Avelyn, ela
é mesmo propensa a acidentes. Naquela queda pelo buraco do quarto ela quase me levou também. Nossa que susto levei. - Fez uma pausa para suspirar e o fitou. - Bem,
acho que Avelyn me viu olhando pelo parapeito. Ela primeiro ficou muito aborrecida porque eu estive lá, depois pareceu hipnotizada quando eu expliquei que estive
lá para pensar. - Diamanda se levantou, hesitante, e perguntou: - Se você quiser que eu saia...
- Não, não - disse Paen. - Não há razão para você sair.
Ela deu um suspiro de alivio e, para surpresa dele, a, jovem se inclinou e o beijou no rosto.
- Obrigada, Paen - disse, endireitando o corpo, e atravessou o quarto.
- Espere! - Paen chamou quando a viu abrir a porta.
Diamanda parou e se voltou para ele.
- Onde está Avelyn?
- Ela foi até as muralhas, mas talvez já esteja de volta agora. Tia Helen passou por aqui a procura dela por alguma razão e eu disse que ela estava lá. É possível
que minha tia já a tenha encontrado e já tenham voltado. Quando eu chegar lá embaixo, vou dizer que você já acordou. Avelyn vai ficar feliz. Ela estava muito preocupada.
Saiba que ela o ama tanto quanto você a ama.
Diamanda saiu e fechou a porta devagarzinho atrás dela.
Paen a viu sair, sentindo o coração na boca por vários motivos. Primeiro, por ter acabado de descobrir que amava a esposa. Segundo, porque Diamanda dissera que Avelyn
o amava também e, terceiro, porque temia que a esposa estivesse correndo um sério perigo naquele momento.
A mente de Paen processava rapidamente todas as pequenas peças daquele verdadeiro quebra-cabeça. Ficara comprovado que alguns daqueles acidentes não haviam sido
acidentes, como o incêndio na tenda e o afogamento. Mas, e a queda pelo buraco? Na ocasião, ele achara difícil de acreditar que Avelyn não tivesse visto um buraco
daquele tamanho.
A porta do quarto se abriu, tirando Paen de suas divagações. Era Runilda que entrava com um largo sorriso iluminando o rosto.
- Lady Avelyn vai ficar feliz de saber que o senhor já acordou. Ela estava tão preocupada!
- Espere! - disse Paen, quando ela ia saindo do quarto, provavelmente para avisar Avelyn de que ele estava consciente.
Runilda parou, ainda com o sorriso nos lábios.
- Feche a porta e venha até aqui - ele pediu, não querendo que ninguém ouvisse o que ia dizer.
- Pois não, milorde?
- Avelyn comentou com você alguma coisa sobre aquela queda do quarto, no primeiro dia em que chegamos.
Runilda hesitou, pensativa.
- Acho que não, milorde... Na verdade, ao acordar, ela só disse alguma coisa como ter levado uma pancada e depois caído...
- Ter levado uma pancada? - Paen ficou tenso. - Por que ninguém me contou isso antes?
- Bem, ela estava sozinha lá em cima, quem poderia tê-la agredido? Lady Helen achou que lady Avelyn tinha sonhado quando estava inconsciente - Runilda acrescentou,
justificando-se.
- Lady Helen disse isso, então?
Paen imediatamente lembrou de que Diamanda havia dito que se escondera debaixo da escadaria ao ver a tia saindo das muralhas quando ela estava indo para lá... Isso
queria dizer que lady Helen estava lá quando o bloco de pedra "caíra" e quase atingira sua esposa. Mas por que Helen tentaria matar Avelyn?
Foi então que subitamente veio-lhe a mente o estranho acontecimento durante a viagem ao qual ele não dera maior importância. A raposa morta, a carne de coelho e
os sinais de que alguém havia passado mal no bosque, atrás da tenda da esposa. E se a carne estivesse envenenada e a raposa tivesse morrido depois de comer um pedaço
dela?
- Você sabe se Avelyn jogou fora atrás da tenda uma perna de coelho assada, na primeira noite de nossa viagem? - Paen perguntou, fazendo com que a criada se sobressaltasse
com uma pergunta tão direta depois de um silêncio tão longo.
- Não sei, milorde. Sei que lady Helen pediu a Diamanda que levasse uma perna de coelho assado para lady Avelyn na hora do jantar. - Runilda deu de ombros. - Mas
não tenho idéia se ela comeu ou não.
Paen tirou os pés para fora da cama, sentando-se para levantar.
- Milorde, o que está fazendo. O senhor não deve se levantar!
- Preciso ir até as muralhas. Avelyn está precisando de mim - Paen afirmou, ignorando a dor que sentiu ao ficar em pé.
- Boa tarde, lady Helen.
Lady Helen congelou ao se voltar e dar de cara com Avelyn. Era tão grande a expressão de ódio nos olhos da tia de Diamanda que Avelyn, por sua vez, se assustou.
Então, como em um passe de mágica, a expressão do rosto de lady Helen se transformou dando lugar a um sorriso. Ela começou a andar lentamente na direção de Avelyn.
- Olá, querida, imaginei que você estivesse aqui e vim avisá-la para tomar cuidado. Não é seguro se debruçar no parapeito do muro como você está fazendo. Acidentes
acontecem...
- Sei disso - Avelyn concordou e inconscientemente deu um passo para trás. - E parece que acontecem bastante comigo.
- Você parece mesmo propensa a acidentes - ela comentou, aproximando-se mais.
- Por quê? - Avelyn perguntou, recusando-se a fingir ignorância. No momento em que captou aquela expressão, entendeu que lady Helen estava por trás dos atentados.
Só não entendia o porquê. Certamente não seria porque Diamanda tinha uma paixonite por Paen?
Lady Helen parou, meneando a cabeça, Avelyn não tinha dúvida de que ela se debatia entre admitir ou jurar inocência. Finalmente, ela suspirou e deu mais um passo.
- Não quero fazer mal algum a você, Avelyn.
- A julgar pela expressão que vi em seus olhos um minuto atrás, é difícil de acreditar.
- Acho que me traí. Desculpe. Temo que seja somente um sentimento de frustração que cause toda a irritação com você. Por que você não morreu?
Avelyn não tinha idéia de como deveria responder uma pergunta tão direta, por isso deu mais um passo para trás.
Lady Helen recapitulou os acontecimentos.
- Por quatro vezes, você deveria ter morrido e por quatro vezes escapou. Eu...
- Quatro vezes? - Avelyn a interrompeu, perplexa. Só se dera conta de duas.
- Você sobreviveu duas vezes a envenenamento. Sobreviveu a queda do buraco do quarto, e sobreviveu ao bloco de pedra.
- Envenenamento?
Lady Helen ficava cada vez mais exaltada.
- Em nossa viagem para Gerville, eu coloquei veneno na carne de coelho que pedi a Diamanda levar para você. Era um veneno forte e devia tê-la matado na hora, mas
em vez de acordar com gritos de que você havia morrido, acordei na manhã seguinte e a vi andando pelo acampamento depois de se banhar no rio.
Avelyn não se conformava de ter pensado que fora o tratamento duro que Paen havia imposto a ela no lombo do cavalo que mexera com seu estômago. E provavelmente foi
o que a salvara de morrer naquela noite.
- Como isso não funcionou - lady Helen prosseguiu, avançando mais um passo. - Eu fiz um cozido na noite seguinte, usando como desculpa a dificuldade de Paen de comer
com as mãos enfaixadas. Dobrei a dose de veneno no cozido, mas mesmo assim você sobreviveu. A única reação que teve foi a de sentir maior cansaço.
Não fora o cozido envenenado que a fizera sentir-se cansada. Tinha costurado a noite toda, e o veneno não funcionara porque simplesmente não havia comido o cozido.
Ficara satisfeita com o pão, o queijo e a maçã que Runilda lhe levara. Mais uma vez, fora salva pelo destino. Nem se incomodou em mencionar isso a lady Helen. Em
vez disso, disse:
- E a senhora me golpeou na cabeça para que eu caísse pelo buraco...
- Golpeei. Eu voltava do jardim quando ouvi você dizer a Diamanda que ia procurar os criados no piso superior. Aguardei na cozinha e, quando Diamanda foi ver a
questão do poço e você já estava lá em cima, subi atrás de você. Aqueles degraus eram perigosos, mas consegui subir rapidamente a escada e não arranhei a perna,
como você.
Avelyn não respondeu a provocação, estava cada vez mais perplexa.
- Encontrei uma tora de madeira em um dos quartos e levei comigo. Quando a vi, você estava inclinada, olhando pelo buraco. Antes que eu pudesse chegar e empurrá-la,
você começou a voltar para sair do quarto, então minha alternativa foi usar a tora. - Ela comprimiu os lábios. - Mais uma vez você escapou da morte. Se não fossem
os gritos de Runilda, eu teria soltado sua saia. Mas eu sabia que o socorro não tardaria e fiquei com medo de que me vissem pelo buraco, por isso me escondi em um
outro quarto até Diamanda chegar lá em cima e depois apareci atrás dela, como se tivesse acabado de vir de fora.
- Quero acreditar que a senhora não a impediu de tentar me puxar porque temesse que ela me deixaria cair - disse Avelyn, dando mais um passo para trás.
- Não. Ela é forte e se tivesse insistido para que eu ajudasse, poderíamos ter salvado você. Eu, porém, ainda tinha esperança de que sua saia esgarçasse e de que
você morreria antes de Paen aparecer para salvá-la, mas não foi o que aconteceu.
- Então a próxima coisa foi tentar fazer com que um bloco de pedra caísse sobre mim.
Um lampejo de fúria passou pelo olhar de lady Helen e ela respirou fundo. Em vez de admitir, simplesmente disse:
- Você tem sorte demais.
- E isso a incomoda.
- Cada uma das vezes, corri grandes riscos. Será que você não vai morrer?
Lady Helen já se mostrava descontrolada e pronta para se atracar com ela. Aquela não parecia a mulher maternal e bondosa que conhecera desde o casamento e não conseguia
entender a razão por querer vê-la morta.
- Por quê? - Avelyn perguntou.
- Ora, por quê? - Lady Helen a fitava como se ela fosse estúpida por não entender a razão por trás de seus ataques. - Por causa de Diamanda.
- Por causa de Diamanda? - Avelyn olhou para ela, como se a julgasse louca.
- Não me olhe desse jeito, - Lady Helen adiantou-se mais dois passos.
- De que jeito? - Avelyn inconscientemente deu mais dois passos para trás.
- Como se eu fosse louca. Não sou louca - ela gritou, exasperada.
Fosse ou não louca não vinha ao caso. Avelyn queria que ela lhe dissesse o que a interessava:
- A senhora me mataria porque Diamanda tem uma paixão infantil por Paen?
- Não seja ridícula - murmurou a tia da jovem se impacientando. - Eu a mataria porque Adam morreu.
Avelyn piscou confusa.
- Não entendo o que uma coisa tem a ver com a outra.
- Adam estava noivo de Diamanda e Rumsfeld iria ser a residência de casados deles, de acordo com o contrato nupcial.
Avelyn franziu a testa surpresa. Aquilo era novidade para ela. Ninguém havia mencionado o fato e isso fez com que se sentisse meio mal de estarem morando lá quando
aquela deveria ter sido a casa de Diamanda e Adam.
Avelyn percebeu então que lady Helen a encurralara em uma parte das muralhas em que o parapeito interno estava faltando. Se a mulher a atacasse naquele memento,
ela cairia da passarela no pátio abaixo. Seria seu fim. Ela continuou andando para trás, esperando se proteger em um pedaço em que o muro ainda estivesse intacto
dos dois lados.
- Mas o cretino foi para a Cruzada e acabou morto. Paen teria sido um bom substituto para o irmão, mas ele já tinha firmado um compromisso com você. Se você estivesse
morta, poderíamos obrigar os Gerville a honrar o contrato nupcial, bastava Paen substituir Adam.
- Mas por que a família de Diamanda haveria de querer isso? - Avelyn perguntou para mantê-la falando até chegar a um ponto mais seguro da muralha. Não tinha dúvida
de que lady Helen tinha a intenção de matá-la. Ela não estaria confessando tudo aquilo se pensasse em deixá-la viva. - Bonita como Diamanda é, ela logo arrumaria
um outro marido. Ela...
- De nada adianta a beleza sem a riqueza por trás - lady Helen rebateu de imediato. - Infelizmente, meu irmão não foi um lorde tão bem-sucedido quanto nosso pai.
Embora procurasse manter sigilo, ele já havia perdido praticamente tudo, com exceção do castelo, quando firmou o contrato de casamento de Diamanda. O dote prometido
para o casamento dela com Adam deveria ser meu. Deveria ser dado ao meu noivo quando me casasse, mas ele morreu jovem e meu irmão nunca mais se preocupou de tratar
de um outro casamento para mim. Não queria gastar o dinheiro. Em vez disso, com a morte da mãe de Diamanda ao dar a luz ela, me tornei a mãe de minha sobrinha. Não
tive marido, mas ela se tornou minha filha. - Lady Helen respirou fundo. - Eu a criei como se tivesse saído de mim. Cuidei de seus machucados e resolvi qualquer
problema que surgisse no caminho dela. Vou resolver esse também. Ela é boa demais para se casar com um barão de menor importância, ou para se deitar com alguém rico,
mas idoso. Não possa nem pensar em ver isso. Ela merece um marido forte, bonito e abastado como Paen, e ela o terá.
Ao dizer isso, lady Helen investiu contra Avelyn que rapidamente recuou, desesperada para chegar a uma parte mais segura da muralha, mas a tia de Diamanda foi atrás
dela feito uma valquíria, com a capa esvoaçante, para agredi-la. Ela empurrou Avelyn para trás. Por um momento, Avelyn se apavorou, pensando que não tivesse sido
suficientemente rápida e que não existisse um parapeito atrás dela, mas então bateu com as costas no muro e caiu, fazendo no mesmo segundo uma oração silenciosa
de agradecimento a Deus. Mas claro que lady Helen não pararia agora. Avelyn sabia demais.
Deixando escapar um grito de raiva, a mulher agarrou-a pelos ombros e tentou arrastá-la dali, aparentemente pretendendo atirá-la pelo vão existente no muro. Pega
em uma luta desesperada, Avelyn não notou algo roçar em sua perna, mas abaixou a cabeça distraída e alarmou-se ao ver Sansão bamboleando entre os pés das duas, passando
primeiro pelos seus e depois pelos de lady Helen.
No exato momento em que passou pela cabeça de Avelyn de que o porquinho poderia ser esmagado, lady Helen olhou para baixo e viu a criaturinha. Por um momento, ela
soltou Avelyn que, surpresa, se apoiou no muro, enquanto lady Helen começou a retroceder apavorada. Sansão imediatamente a seguiu, grunhindo e guinchando aos pés
dela, fazendo com que a tia de Diamanda entrasse em pânico. Gritando agora de medo e não mais de raiva, continuou a andar para trás, desesperada para fugir da inocente
criatura.
Com as costas doendo, Avelyn tentou se recompor e gritou para avisar que lady Helen estava chegando à parte desmoronada da muralha, mas a mulher estava apavorada
demais para ouvir e, em cheque, viu a outra dar mais um passo para trás e desequilibrar-se. Avelyn reconheceu, pelo pavor que ela tinha estampado no rosto ao sentir
que iria cair, a mesma sensação que experimentara quando sua mão sentiu o vazio do buraco no quarto. A tia de Diamanda caiu para trás, soltando um grito de horror.
Com as pernas subitamente fracas e tremendo muito, Avelyn soltou a respiração vagarosamente e se sentou na passarela. Queria ficar lá por um bom tempo. Não tinha
vontade alguma de ver o resultado da queda de lady Helen. Nem tinha o menor desejo de encarar Diamanda naquele momento. Na realidade não sentia urgência alguma de
sair de lá. Ficaria ali quietinha, pensando, por um bom tempo.
Sentir Sansão fungando em seu joelho, por sobre sua saia, fez com que Avelyn abaixasse os olhos. Ela pegou no colo o dedicado animalzinho que salvara sua vida apenas
por estar ali e o acariciou, apertando-o contra o peito.
- Você salvou minha vida, Sansão.
- Salvou mesmo.
Avelyn levantou os olhos, sobressaltada, e viu Paen caminhando pela passarela em sua direção. Parando a sua frente, ele se curvou e estendeu a mão para ajudá-la
a se levantar. Paen desviou o olhar dela para Sansão, e seus lábios esboçaram um pequeno sorriso.
- Bom trabalho - disse, acariciando o lombo do porquinho. Sua expressão, no entanto, tornou-se séria ao fitar Avelyn novamente. - Pensei que a tivesse perdido. Vi
que você estava sendo acuada por lady Helen quando atravessava o pátio para chegar a escadaria. Quando estava no meio do caminho, ouvi que ela gritava com você,
e pensei que chegaria tarde demais.
- Ela bem que tentou - Avelyn confirmou. - Tinha esperança de me tirar do caminho, assim poderiam obrigá-lo a cumprir o contrato nupcial com Diamanda, no lugar
de Adam.
- Como assim? - Paen quis saber, surpreendendo-se.
- Isso mesmo que você ouviu - Avelyn confirmou. - Parece que a família de Diamanda passava por dificuldades, e lady Helen tinha receio de que eles não encontrariam
um outro marido adequado para a menina, se não o forçassem a assumir o contrato. Mas para que isso desse certo, precisavam que eu saísse do caminho. Graças a Sansão,
o plano não deu certo.
Paen soltou um suspire profundo.
- E por causa disso ele viverá até ficar velho; sem precisar ter medo algum de acabar em nossa mesa. - A voz de Paen estava embargada e Avelyn viu como ele estava
pálido.
- Você está bem, milorde? - ela perguntou, preocupada. - Foi grave o ferimento em sua cabeça. Você não deveria estar em pé e correndo por aí, deveria estar descansando.
- Estou bem e sinto que sou muito afortunado porque tenho uma esposa perfeita.
Avelyn negou com a cabeça.
- Não sou perfeita.
- Você é perfeita para mim, Avelyn. Você é inteligente, bonita e capaz. E a esposa que eu sempre quis ter. - Beijou-a nos lábios. - Só queria fazer com que você
visse seu valor.
- Creio, milorde, que estou começando a ver. Mas isso é uma coisa que talvez eu precise conseguir por mim mesma. Cada coisa que consegui realizar fez com que me
sentisse melhor comigo - ela explicou, com delicadeza.
- Fico contente. - Inclinando-se um pouco, Paen deu um beijo na testa da mulher. Depois, pegou-a pela mão e começou a caminhar até as escadas.
- Avelyn, acho que devemos conversar mais.
Ela piscou várias vezes.
- Devemos?
- Sim, Runilda me falou sobre coisas que você omitiu de mim. Se eu soubesse o que estava acontecendo, teria resolvido tudo de maneira mais rápida. No futuro gostaria
que você fosse mais aberta.
Avelyn não sabia o que dizer, mas achava que ele estava certo.
- Marido?
- Sim...
- Se é para sermos mais abertos um com o outro, há uma coisa que quero lhe dizer.
- Então diga.
- Eu te amo muito.
Paen parou e dirigiu um olhar surpreso para ela.
- Eu te amo, Paen - Avelyn repetiu, levantando o queixo confiante. - E não é o tipo de amor devido pela esposa ao marido. Eu o amo tanto que às vezes meu coração
até dói só de pensar em você.
Paen fixou o olhar no rosto de Avelyn por vários segundos, como se nunca mais fosse vê-la de novo. Então inclinou a cabeça e a beijou de uma maneira como nunca a
beijara antes.
- Eu também te amo, Avelyn - ele disse comovido.
Assim dizendo, passou o braço ao redor dos ombros da esposa e continuaram a caminhar.

 

 

                                                                  Lynsay Sands

 

 

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