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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ACCORD / Barbara Biazioli
ACCORD / Barbara Biazioli

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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Em um milhão de anos essa é a última imagem que eu suportaria ver, minha doce Victoria em um caixão. Olhar para esse corpo tão sagradamente perfeito e agora gelado e imóvel, me faz entender que minha vida não tem sentido. Não lembro como cheguei aqui, não consigo ver os rostos com clareza, escuto vozes e o caixão branco onde repousa a minha Victoria deixa minha vida negra.
Eu a perdi para a morte, perdi minha vida e trocaria de lugar com ela se isso fosse possível.
Como ela morreu? Pergunto-me enquanto olho para suas pintinhas laranjas, quase opacas. Ela não está ferida, ela está linda, como um anjo, meu anjo.
– Deus! Traga-a de volta e leve essa carcaça velha de um Evan que não quer mais viver para um lugar onde ela não exista mais. – Imploro em tom alto e todos à minha volta parecem não me ver nem me ouvir.
– Victoria. – falo baixo, pensar nela descendo as escadas não alivia; pensar nela rodopiando me esmaga; respirar neste momento dói. O cheiro de flores que não comemoram me sufoca e meu estômago revira ao pensar nas refeições que nunca mais farei com ela.
Sentir seu gosto novamente, eu me flagro desejando você, meu bebê, que dorme eternamente agora. Porque sempre vou desejar você, de todas as formas, de todos os jeitos.
Eu me perco em seus olhos fechados e lembro do azul que iluminava o meu dia.
– Sorriso lindo! – Chamo e ela não me escuta. Santo Deus, traga-a de volta, pelo meu egoísmo me flagro orando por uma causa impossível. Ela está morta... NÃO! Quem morreu fui eu!

 


 


Capítulo 1


Vick

Apanhei muito, meu corpo não suporta mais. Estou desistindo. Não aguento os ratos, o lixo, o mau cheiro, a fome, frio, as dores, ficar longe de Evan, tudo isso me faz adormecer. Dois ratos estão em cima de mim, eles estão sempre à minha volta, já até os nomeei. Embora às vezes tentem arrancar pedacinhos do meu corpo, estou toda mordida, Pink e Cérebro não têm piedade. Acho que o cheiro do meu sangue desperta fome neles.

Por alguma força divina, eu me sento expulsando os ratos. O cheiro está pior e quero apenas me soltar, não consigo gritar, estou realmente no inferno. Mais tambores rolaram, ouço vozes ao longe, mas não posso alcançá-las. As lembranças de Evan estão em meu coração, nossos melhores momentos, como nos conhecemos, seu cheiro, seu sorriso, e até suas broncas.

Entrego-me covardemente e me deito. Não me importo mais com os ratos, choro tentando me livrar das amarras, minha mão arde muito. É tanta sujeira em cima da carne viva dos meus pulsos, choro até adormecer profundamente.

Queria muito ter feito as pazes com ele. Dizer que nada importava, o fato de eu ter sido uma encomenda ou o Clube 13, mas não tive tempo. Não sei se um dia perdoarei Ellis por ter mentido para mim, mas Evan eu perdoaria mil vezes se tivesse uma única oportunidade.

Em algum momento antes da morte sabemos o que de fato valeu a pena; a família, os amigos, os amores; tentamos ter mais vida, mesmo que em vão. Acredito que se houvesse uma possibilidade de minha vida não acabar agora, como sinto que está acontecendo, eu a usaria com Evan.

 

Evan


Vinte minutos não chega a ser um atraso, odeio atrasos, mas nesse caso... abrindo exceções, Evan!, uma voz que havia sido exterminada grita na minha mente. Talvez realmente esteja com problemas... Um bom problema, minha consciência conversa comigo enquanto os ponteiros do relógio cuco não param.

Estou sentado na escada em forma de arco, tentando parar de numerar a quantidade de defeitos que me afastariam dela, todos são repulsivos. Enfrento mil leões por dia e disparo minha metralhadora contra eles, e estes se curvam diante de minhas imposições, mas agora não sei o que fazer. Posso ver Victoria descendo cada um desses degraus saltitando como uma criança; ela é a primeira criança dessa casa. Pode vir para colocar um ponto final, dizer que para ela é difícil ter um cara que gosta, ou melhor, que gostou de brincadeiras estranhas e leilão de mulheres. Lembrar de Ellis entrando nessa casa e despejando em cima de Victoria todo o lixo que sou, me revolta. Revolta porque fui eu quem determinou essa sujeira, fundei essa merda e agora ela está sobre mim. Ela foi uma encomenda, isso martela na minha mente, ela foi o perfil de uma escolha, mas é a minha mais sábia decisão.

Mas uma sombra ainda paira em minha vida, preciso resolver o problema do Clube 13 e me desvincular de vez para ficar ao lado dela. Ainda recebo ligações escusas, mesmo sendo o fundador do Clube, ainda estou sob as cláusulas do contrato.

Por que essa demora? Penso comigo e giro o iPhone nas minhas mãos. Divido meu olhar entre as horas do cuco, do meu celular e a porta da sala que não abre, ela não chega.

Ligo constantemente para ela e nada, nem sinal. Pego as chaves de um dos carros, mas penso que podemos nos desencontrar, não posso errar, vou esperar por ela aqui. Sento-me novamente no mesmo lugar e busco algo próximo ao que chamam de calma, a terrível lição chamada paciência. As horas passam...Dolorosamente.

– Quatro horas, ela desistiu! – Falo alto e ligo novamente para ela. Chama até cair na caixa postal, de fato ela não me quer mais. Mas eu a quero, ela é minha. – Atenda! – Falo alto com o celular na orelha. Desligo e ligo para Sam. Ela está em New Jersey e também tentou falar com Victoria e não conseguiu.

Ela não vai vir, também pudera, por que me perdoaria? Refaço a lista de minhas características e me conformo com o fato de não fazer mais parte da vida dela. O cara mesquinho que por orgulho ferido fundou um antro, cuspo no prato que comi. Literalmente.

Chego à sala de boliche e percebo o toque dela por aqui. Sim, ela abasteceu com uísques, Bourbon, vinhos. Acho que preciso de algumas doses, uma dose em homenagem à melhor pessoa que tive, mas não a mereci.

Ela não me atende. A noite chega e me entrego às garrafas, desisto de ligar. Desisto de mim, deveria ter desistido há muito tempo, caio sobre o sofá do escritório. Bebo tudo que meu corpo suporta e vou além, até que apago. Em alguns momentos pensei que fosse a morte chegando e eu seria grato, morrer, seria melhor assim...

O telefone está tocando, atendo e não reconheço a voz, e muito menos o que estava falando. Devo comparecer ao Peace Morton, uma casa funerária, e à minha volta um nevoeiro gelado, pesado e com cheiro de morte se instala.

Me arremesso em uma queda contínua ao tentar entender quem havia deixado de viver, e até que as palavras se pusessem em ordem dentro a minha cabeça, determinei que eu havia morrido, da pior forma.

Em um milhão de anos essa é a última imagem que eu suportaria ver, minha doce Victoria em um caixão. Olhar para esse corpo tão sagradamente perfeito e agora gelado e imóvel, me faz entender que minha vida não tem sentido. Não lembro como cheguei aqui, não consigo ver os rostos com clareza, escuto vozes e o caixão branco onde repousa a minha Victoria deixa minha vida negra.

Eu a perdi para a morte, perdi minha vida e trocaria de lugar com ela se isso fosse possível.

Como ela morreu? Pergunto-me enquanto olho para suas pintinhas laranjas, quase opacas. Ela não está ferida, ela está linda, como um anjo, meu anjo.

– Deus! Traga-a de volta e leve essa carcaça velha de um Evan que não quer mais viver para um lugar onde ela não existe mais. – Imploro em tom alto e todos à minha volta parecem não me ver nem me ouvir.

– Victoria. – Falo baixo, pensar nela descendo as escadas não alivia; pensar nela rodopiando me esmaga; respirar neste momento dói. O cheiro de flores que não comemoram me sufoca e meu estômago revira ao pensar nas refeições que nunca mais farei com ela.

Sentir seu gosto novamente, eu me flagro desejando você, meu bebê, que dorme eternamente agora, porque sempre vou desejar você, de todas as formas, de todos os jeitos.

Eu me perco em seus olhos fechados e lembro do azul que iluminava o meu dia.

– Sorriso lindo! – Chamo e ela não me escuta. Santo Deus, traga-a de volta, pelo meu egoísmo me flagro orando por uma causa impossível. Ela está morta...NÃO! Quem morreu fui eu!

À minha volta seus pais em um choro compulsivo, seu irmão chorando, Sam de cabeça baixa tentando aliviar a dor da perda. Por Deus, como eu quero morrer! Fracasso por não tê-la protegido, fracasso por ser quem eu sou, mesquinho, pobre e fraco.

– Onde eu estava que a deixei? – Minha mente me tortura, me pune e me leva para um purgatório pessoal e intransferível.

– Calma, Evan. – Maria pede.

– Como posso ficar calmo se minha calmaria veste branco e não pertence mais a nós? – Respondo com a voz embargada enquanto beijo seu rosto perfeito, perfeita Victoria.

– Essa dor vai passar. – Um homem que não conheço fala ao meu ouvido.

– Não, essa dor não vai passar, porque mereço sentir essa culpa, esse martírio. – Respondo sem olhar para trás. – Minha Victoria, tão linda e agora morta. – Falo ao ouvido de minha bela, e agora cadavérica bailarina, que fez meu mundo ganhar rodopios de verdade. O nevoeiro é intenso e acredito que essa será uma situação natural em minha existência sem ela. Victoria!, grito e escuto o eco de minha própria voz...

– Evan, Evan! – Maria me acorda. – Evan, você está todo suado e estava gritando por Victoria. – Ela me levanta do sofá e passa a mão pelos meus cabelos molhados de suor. Ainda sinto o cheiro das flores. – Sr. Maccouant! Quanto tempo que não o via assim! – Ela está discutindo comigo, espero que fique brava e me dê uma surra por minha bebedeira idiota. –Vamos, você precisa de um banho! – Ela me puxa do sofá.

– Graças a Deus, Maria! – Acordo feliz de um sonho horrível, mas ela não está aqui. – Preciso de Victoria, Maria Sanches! Mas ela me deixou. – Estou balbuciando e Maria tenta me sentar.

– Se precisa dela, por que está aqui parado e não vai atrás?

– Ela não me atende! – Eu me desarmo diante da mulher que praticamente me criou.

– Evan Louis! – Maria está furiosa, há anos não me chama assim. – Victoria foi embora há três dias, quando vai levantar daí e lutar pelo que quer assim como fez com sua importadora? – Desperto com esse puxão de orelha e me oriento pelo que Maria acabou de me dizer.

– O que foi que você disse?

– Que você deve lutar por ela, como sempre fez!

– Não isso, sobre o tempo que Victoria foi embora... – Três dias!? Ela está confusa e eu também. – Hoje à noite completam três dias!? Ninguém ligou aqui procurando por ela? – O álcool vai embora do meu corpo junto com a minha covardia.

– Por que alguém ligaria aqui atrás dela? – Maria fala e algo estala em minha mente.

Alcanço meu celular sem bateria e o arremesso sobre o sofá, pego o telefone fixo e ligo para Sam, que me fala que não vê Victoria há dois dias e que pensou que ela estivesse comigo.

– Claro, Maria! Os pais dela não estão por aqui, o irmão está em outra cidade, ela só tem a mim e eu só tenho a ela, apenas ela. – Passo meus dedos pelos cabelos e suspiro. – Pode ter acontecido alguma coisa. – Ligo para a operadora, pedindo o rastreamento do celular e sou informado que o sistema está fora de serviço. Aconteceu alguma coisa, isso é fato.

– Gunter, vamos sair. – Disparo para meu motorista e braço direito assim que tomo um banho e encontro-o na garagem da minha casa.

– Para onde, senhor?

– Casa da Sam. – Entro rapidamente no carro, e Gunter percebe minha preocupação, indicador e polegar pressionam minha testa e o carro ganha as ruas. Troco a bateria do celular e começo a discar para Victoria sem sucesso, ela não me atende.

Assim que chego pergunto por Victoria e Samantha, o porteiro me informa que Victoria saiu há dois dias e que não se lembra de tê-la visto novamente.

Ligo novamente para ela sem retorno algum, algo me incomoda, me preocupa.

– Imbecil, Evan! Bebeu em vez de procurá-la. – Falo alto e Gunter se espanta com minha postura.

Retomo a ligação para obter o sinal do GPS, o sistema vai voltar em poucos minutos. É como se meu estômago estivesse preso a uma corda que teima em puxá-lo para cima.

Gunter começa a fazer os possíveis caminhos que ela faria; eu retomo a ligação para a central. Aciono a polícia, ela está desaparecida há mais de vinte e quatro horas.

O sistema retorna e passo o número do celular dela, sou informado que vai demorar um pouco por conta do problema técnico que houve mais cedo e isso me deixa ainda mais nervoso, começo a pensar em hipóteses. Victoria não é do tipo que simplesmente não atende o celular, não faz esse tipo de pirraça ou manha. Ela enviou uma mensagem dizendo que estava indo ao meu encontro. Alguma coisa aconteceu.

– Gunter, vamos para Gael. – Ordeno apreensivo e meu peito aperta, tudo incomoda.

– Sim, senhor. – Ele acelera.

Gael está em obras e fechada para as aulas, mas, mesmo assim, eu entro e pergunto aos funcionários da empresa se alguém apareceu por aqui, eles me informam que ninguém apareceu e de novo a preocupação me dá uma agulhada.

Ela não sumiria assim, sozinha, sem dinheiro. Meu Deus! Ela não tem nada, e não sei onde está. Um desespero me consome e com isso passo a ligar para a central de cinco em cinco minutos. Faço Gunter percorrer quase todas as ruas de Manhattan, não paramos para almoçar e Gunter também está preocupado.

A tarde estava chegando ao fim e algo parecia um prenúncio de uma desgraça. Preciso saber onde ela está, preciso me desculpar e dizer que não sou nada sem ela, que é por ela que minha vida passou a ter sentido.

Por Deus, Victoria, onde você está? Penso comigo enquanto Gunter percorre as ruas e refaz alguns trajetos. O medo também me visita, posso nunca mais ver Victoria. Essa é a pior parte, não olhar mais nos olhos que dizem tudo que preciso. Eu preciso de você, Victoria. Deus, como preciso dela. Nesse momento, enxergo meu império como um amontoado de ossos, vejo minha fortuna como migalhas de um pão velho. Soco o banco da frente e Gunter compreende minha fúria, ele sabe o que sinto por ela. Eu a amo mais do que qualquer coisa nesse mundo, amo de maneira egoísta, porque não sei amar de outra forma, porque nunca amei ninguém.

– Victoria, onde você está? – Pergunto a mim mesmo assim que chego em casa. A noite caiu e isso me preocupa ainda mais. Não posso ficar aqui sem fazer nada.

– Gunter, me dê as chaves! – Ordeno.

– Senhor, eu o levo!

– Não, Gunter, eu vou procurar por ela! – Ordeno em um tom mais alto e saio.

Percorro outras ruas, e pelo amor que sinto por ela, eu me odeio mortalmente nesse momento. Ela pode estar em um bar, bebendo, dançando... NÃO, ELA NÃO PODE! Maldição de ser Evan Louis Maccouant, pensar que posso ser enganado. Nem todos serão Susan e Paul. Não, ela não pode estar se divertindo, não pode porque quebrei seu cartão, e retirei dos seus olhos o brilho lindo que eles tinham quando ela descobriu o quanto sou baixo, o quanto fui fodidamente mentiroso, sou um grande fodido bastardo. Eu me culpo, sim, a culpa é minha. Mereço uma punição, mereço esse castigo, mereço correr o risco de nunca mais vê-la. Deus, eu preciso dela.

Já passa das quatro horas da manhã quando a central me liga dizendo a localização do celular dela. Excomungo pela demora e me atento sobre o lugar. O que ela está fazendo em New Jersey? Lembrei do prédio, mas não é esse o endereço, ela está no sentido oposto e automaticamente acelero e ligo para Gunter.

Digo que a localizei e que estou indo ao seu encontro. Peço que ele acione a polícia, não sei por quê, mas peço que ele providencie uma ambulância.

Ainda está escuro quando chego ao endereço, um galpão abandonado, sujo, muitos ratos. O cheiro podre, as latas de lixo que não são removidas há meses, os tambores caídos. Ela não pode estar aqui. Essa merda de rastreador deve estar com problemas. Era para eu estar aqui, e não ela.

Entro no lugar e não escuto nada além de ratos correndo e pombos voando de um lado para o outro. Caminho lentamente e escuto as sirenes, Gunter é bom em cobrar favores.

Escuto o momento em que os policiais abrem as portas das viaturas e vejo quando eles arrebentam a porta do galpão para que os faróis dos carros possam iluminar o ambiente.

 


Vick


– Vamos, entre por aqui, ilumine aquele lado. Peça para colocarem a viatura dentro do galpão, precisamos de claridade.

Acordo com alguém gritando, mas minha visão é turva e tudo dói.

– Victoria! – É a voz de Evan.

– Tem mais portas nos fundos, no final do corredor. Adam e Tess, abram todas as portas e levem os farejadores. – Um homem ordena e há um barulho de sirene chegando.

– Vick, cadê você? – Evan vasculha.

– Policial Adam, alguma novidade?

– Nada aqui, senhor.

– E você, Tess?

– Nada ainda, senhor. Tem muitos ratos neste lugar. Se ela está aqui, começo a ficar preocupada. Muito perigoso.

– O sinal estava vindo daqui, não entendo. – Diz o homem da primeira ordem.

– Temos que procurar! – Evan se exalta e continua a abrir as portas.

Escuto os passos vindo em direção ao meu cativeiro. Escuto baixo, minha visão é confusa e quase me perco dentro de mim novamente, e enfim a porta se abre.

– Encontrei! – Evan grita e sua busca termina, e talvez isso seja o meu pedido por um milagre atendido.

– Você tem que se afastar, chamem os médicos. – O homem no comando não consegue tirar Evan de onde ele está.

– Tenho que tirar essas cordas dela. – Evan está nervoso.

– Não, rapaz, você não pode mexer nela. – O paramédico avisa, e ainda não vejo direito, apenas escuto.

– Vamos tirá-la daqui primeiro, Evan. Você também tem que sair.

– Não vou sair daqui. – Ele mantém a autoridade.

– Então se afaste.

– Cortem a corda.

– O rosto dela está esfolado, um corte no supercílio.

– As mãos estão muito feridas e sujas, a pele do pulso foi arrancada pela corda.

– Deitem-na e no três a colocamos na maca.

– Imobilizem o pescoço.

– Oxigênio, por favor, rápido!

– Tragam o cobertor, ela está muito molhada.

– Pupilas dilatadas.

– Precisamos levá-la para um hospital.

– Imobilizem os braços.

– Liguem para a emergência e avisem: possível traumatismo craniano.

– O quê? – Evan é despertado com a notícia e não reage muito bem.

– Evan, ela está com um ferimento na cabeça. Fique calmo, vamos cuidar dela.

– Evan? Vamos? – A enfermeira pede enquanto empurram a maca em direção à ambulância.

– Deus. – Escuto o suplício baixo, apenas para seus próprios ouvidos.

– Fique calmo, tudo será feito, ela vai ficar bem.

– Ela vai ficar bem. – A enfermeira tenta acalmá-lo. Em vão, obviamente.

– Evan, vamos?

– Vick, minha menina, me ouça, por favor. Eu te amo.

Evan diz enquanto se inclina próximo ao meu ouvido. Ele canta para eu acordar, mas uma nevasca está sobre mim e não tenho reação, estou presa dentro do meu próprio corpo.

– No três levantamos a maca.

– Cuidado com a porta.

– Greco, é a Dra. Alicia, precisamos de uma sala pronta, vítima de possível traumatismo craniano. Ela está com hipotermia, preparem a máquina de ressonância. – É com essa frase que acordo por alguns minutos. Estou dentro de uma ambulância. Há um balão de oxigênio em meu rosto. Minha cabeça está doendo muito. Olho para os lados e instintivamente procuro por ele, pelo meu Evan.

– Evan? – Baixo, quase que o enfermeiro não ouve.

– Victoria, está tudo bem, fique calma. – O enfermeiro tenta me acalmar.

– Evan? Preciso saber dele.

– Você precisa ficar calma, precisa descansar, não se esforce. – O enfermeiro fala e meus olhos percorrem todo o interior da ambulância. Quero vê-lo.

– Evan?

– Dra. Alicia, ela está acordada. Ela chama por Evan, está um pouco ansiosa. – O enfermeiro informa à médica.

– Preciso falar com o Evan. – Sinto a hora em que a agulha entra. Estou bem agitada e, de repente, durmo.


Capítulo 2


Vick

 

Abro os olhos e me encontro em um quarto de hospital. Minha vista está embaçada, mas consigo vislumbrar a brancura do quarto em contraste com o colorido de várias flores espalhadas pelo ambiente. Além disso, posso sentir algo preso em meu braço; provavelmente o soro contendo medicamentos para as muitas feridas que adquiri naquele galpão. E o barulho de máquinas monitorando meu batimento cardíaco. Sim, estou viva.

Por quanto tempo será que fiquei ali? Dois dias? Três? Isso não importa. Fecho os olhos mais uma vez e faço uma prece silenciosa em agradecimento por ter sobrevivido. Agora terei a chance de ver Evan e me explicar. Pedir perdão por ter duvidado do sentimento dele por mim, por ter desperdiçado um tempo precioso. Deus! Eu poderia ter morrido naquele galpão fétido e nunca mais veria Evan e seus lindos olhos, e seu jeito de me chamar de ruiva, e seu sorriso...

– Evan? - Minha voz baixa sai fraca, mas chega até ele.

– Estou aqui. – Ele se aproxima, beija minha testa e inala profundamente. – E nunca mais vou ficar longe de você.

– Por favor, fique comigo, não sei viver sem você. Preciso de você... – suspiro – Preciso porque eu te amo. – Eu me declaro.

– Eu amo você, amo tanto... – Ele beija meu rosto. Gemo baixinho por conta da dor. – Desculpe. –Ele murmura em meu ouvido.

Uma enfermeira rechonchuda entra sorrindo e verifica minha temperatura, se o soro está no lugar certo e ajeita minha coberta e meu travesseiro. Comunica que a polícia está aqui e precisa do meu depoimento. Evan pede para que venham depois, mas ela informa que quanto antes eles peguem as informações sobre o que aconteceu comigo, melhor para que possam começar a investigar. Evan olha para mim. Aceno com a cabeça em sinal positivo.

– Peça para que entrem. – Evan ordena em tom de quarenta anos.

Um homem fardado entra e nos cumprimenta.

– Sei que o momento é complicado, mas precisamos averiguar o caso. – Ele começa uma bateria de perguntas e a maioria das minhas respostas é a mesma: “eu não sei”, “eu não conheço”. Não posso ajudar muito, e pouco tempo depois ele sai.

– Há quanto tempo estou aqui? – Pergunto confusa olhando as máquinas que estão ligadas ao meu corpo.

– Há cinco dias. – Ele beija entre as minhas sobrancelhas e inala profundamente.

– Quero ir embora. – Resmungo.

Paciência, primeiro precisa ficar bem. – Evan diz, beijando as pontas dos meus dedos.

– Estou preocupada com a Gael.

– Não se preocupe. Gael retomou as atividades ontem. Provisoriamente suas turmas estão com outra professora. – Evan tenta me acalmar e bocejo.

– Estou com sono.

– É por conta do medicamento.

– Dorme aqui comigo? – Peço, abrindo espaço para ele na cama.

– Com certeza. – Adoro como ele se enrosca em mim, como me completa e como nada tem importância. O que sinto por ele é maior do que qualquer mera observação do passado. Queria saber tudo e, ao mesmo tempo, não queria saber de mais nada. Nada do que aconteceu vai mudar ou se apagar. Adormeço com Evan e suas pernas entrelaçadas às minhas.

 


– Bom dia. – Evan me acorda assim que entra no quarto, repleto de flores. Estou internada há sete dias e não aguento mais.

– Bom dia. – Falo me ajeitando na cama, tentando achar uma posição sentada na qual meu corpo não grite por mais analgésicos. - Adorei as flores, acho que dormi demais. – Ele vem ao meu encontro e percebo um sorrisinho peralta em seu rosto. Desconfio que tenha a ver com a sacola que leva à mão. – O que tem nessa sacola?

– Roupas para você. Está de alta. – Ele sorri e me levanta da cama.

– Sapatilhas?

– Apenas elas, mas isso seria para mim em uma apresentação especial. Agora vai ser uma linda burca em tom marfim. – Ele zomba.

– Não seja bobo, Evan! Pra que sentir ciúmes quando me encontro assim, toda machucada? – Pergunto tentando sorrir.

– Sim, muito ciúme e, por favor, Chacal nunca mais. – Ele franze a testa.

– Mas gosto muito de pole dance.

– Percebi isso e sabe como usar. Posso saber onde aprendeu a fazer aquilo?

– Pierre, ele era ótimo com pole.

– Acho que não gosto dele.

– Ele é gay.

– Mas ensinou você a seduzir homens com uma barra de alumínio. Não consigo lembrar sem me sentir enfurecido com isso.

– Gostou da apresentação?

– Gostaria mais se fosse particular. Apenas eu na plateia.

– Posso pensar sobre isso. – Ele sela minha boca. – Não consigo ficar sem você. – Percebo os olhos de Evan úmidos.

– Não posso nem pensar sobre isso. Quando vi sua mensagem achei que estivesse brincando. Fiquei te esperando em casa, mas quando não apareceu fiquei quase louco achando que havia me abandonado. E quando não respondeu a nenhuma das minhas ligações tive a certeza de que não fazia mais parte de sua vida, e comecei a ponderar se valeria a pena viver sem você. – Ele abaixa a cabeça e levanta em seguida, olhando dentro dos meus olhos. – Precisei fazer algo que não fazia há muito tempo; precisei dar a esse homem que, mesmo jovem, carrega uma alma de um velho alguns goles. – Ele sente vergonha em confessar. – Mas então, percebi que algo tinha acontecido. Pelo localizador vi que estava fora da ilha e isso não era normal. Você nunca mais vai ficar ou andar sozinha.

– Vai contratar um guarda-costas?

– Não, isso eu já tenho. – Ele abre a sacola e pega a roupa que trouxera; um lindo vestido verde claro longo com decote em V, mangas longas. Me ajuda a colocá-lo pela cabeça.

– Foi você quem comprou?

– Sim.

– Adorei. Obrigada.

– Eu que agradeço. – Ele me entrega uma escova e um creme para cabelos de uma marca famosa. – Isso eu não consigo fazer. – Ele confessa sua falta de habilidade com cabelos.

– Mas consegue remover maquiagem. – Brinco enquanto tento pentear os cabelos sem a ajuda de um espelho. Meus joelhos ralados e meus pulsos estão muito machucados, não preciso ver meu rosto, não por enquanto.

– Não gostei daquela maquiagem. Gosto de você assim, com suas pintinhas visíveis. Não precisa de adorno algum. Claro que você estava terrivelmente sexy na Chacal e minha vontade era invadir você ali mesmo, mas quando me lembro da menina ruiva deitada com o bumbum pra cima sobre a minha cama, aí sim, me excito.

Termino de pentear os cabelos e coloco uma presilha que estava também na sacola, para mantê-los um pouco mais domados. Evan pensa em tudo.

Ouvindo o que ele acabara de dizer sinto-me sem jeito, como se tudo aquilo tivesse acontecido em outro tempo, outra vida. Abaixo o olhar para a escova em minha mão e pergunto quase num fio de voz.

– Ainda tem lugar para mim nessa cama?

Evan levanta meu rosto com a ponta dos dedos sob meu queixo e me olha fundo nos olhos.

– Existe apenas o seu lugar.

Inspiro fundo e tento controlar minha felicidade ao ouvir isso. Tive muito medo de que ele não me quisesse mais por ter sido tola ao fugir dele em sua casa, após o aparecimento de Ellis e a enxurrada de toda a verdade.

Evan me ajuda a descer da cama e sentar na cadeira de rodas, exigência do hospital para receber alta.

– Você realmente gosta de mim... – Começo a falar enquanto seguimos pelos corredores do hospital em direção à minha liberdade. - Sabe que às vezes me peguei pensando no que poderia te atrair tanto em uma menina sem milhas e sem experiência alguma...

– Quer saber mesmo? – Evan pergunta sussurrando próximo ao meu ouvido.

– Sim, quero. – Respondo.

Chegamos no estacionamento e mais uma vez ele me ajuda a sentar, desta vez em seu automóvel X6. Ele senta ao meu lado e pede ao motorista que siga para sua casa. Não é Gunter dessa vez.

– Quando me encarou no Pastis, obviamente enquadrei-a dentro de alguns aspectos – Ele começa sem me encarar. Na certa mencionar o maldito Clube o faz sentir-se miserável -, mas estava com a sua família e, claro, não era do meu interesse atrapalhar. Pelo menos não naquele momento. Dois dias depois, você estava dançando dentro da Gael e Vivaldi realmente é meu preferido. Você se encaixou na referência do papel, mas o mais estranho é que você se encaixou em meus padrões também. E naquela tarde, você e seu olhar fizeram com que eu rasgasse a maldita solicitação. Eu teria um problema, sabia disso no momento em que decidi não cumprir meu papel dentro do Clube, mas em toda minha vida esse foi o melhor problema que assumi. Depois disso, realmente precisaria de tempo, tempo para me acostumar com algo novo. Você com Alice, sua apresentação para mim, seu primeiro beijo, nossa primeira noite. Você não poderia ser apenas uma encomenda, passou a ser minha remessa especial. Alguém lá em cima perdoou meus erros e enviou você. Esperei por você minha vida toda e não sabia.

Ele pega minha mão e beija a palma, me causando arrepios por toda coluna.

- O que quer dizer com ser estranho ter entrado em seus padrões?

Ele sorri de lado e me encara.

- Nunca gostei de ruivas.

Olho para ele assustada e começo a rir. Simplesmente a gargalhada sai e não consigo contê-la. Era como se, com aquele riso, eu pudesse liberar meus demônios inseguros a respeito do que o futuro me aguardava. E acho que minha gargalhada contaminou a ele porque ele também gargalhou.

Depois de alguns minutos, secando as lágrimas do sorriso de meu rosto, encaro Evan seriamente.

– Evan, vai mesmo desistir de tudo isso?

– Sim, na verdade já desisti.

– Não sou mais a encomenda de ninguém?

– Não, é minha encomenda, única, para sempre.

Esfrego a mão na têmpora e fecho os olhos, sentindo-me cansada.

– Minha cabeça está doendo muito, estou com vontade de dormir.

– Recoste-se e durma o restante da viagem. – Ele diz e me surpreende com um gesto que havia me acostumado. Coloca minha mão enfaixada sobre o seu coração. É o meu Evan.

 


Acordo brevemente com Evan falando com Maria, tirando-me do carro e me carregando para o segundo andar da casa maior. Está escurecendo e mal sou colocada na cama, adormeço novamente.

 


Desperto com meu próprio grito e Evan entrando no quarto.

– O que foi? – Ele pergunta subindo na cama e me abraçando.

– Um sonho ruim. – Digo e olho para o meu pulso, que está sangrando.

– Deixa eu cuidar disso. – Ele me levanta e me leva até o banheiro. Me coloca sentada no mármore da enorme pia e pega num dos armários um kit de primeiro socorros. – Gostaria de arrancar os pulmões de quem fez isso com você.

– Não procure vingança. Quem procura geralmente encontra. – Beijo suas mãos assim que ele termina de enfaixar meu pulso.

– Não sente raiva de quem fez isso? – Ele pergunta.

– Não, claro que não. Sentir raiva é como beber um copo de veneno e torcer para a outra pessoa morrer. Preciso ser leve, conseguir me equilibrar nas pontas dos meus pés.

– Você é boa demais, Vick. Mas já coloquei investigadores particulares. Quero descobrir e punir o maldito responsável por isso. – Ele franze as sobrancelhas. – E o culpado vai pagar por cada arranhão. – Ele me abraça tão forte... – Venha comigo, tenho uma surpresa para você.

– Qual surpresa? – Demonstro minha ansiedade tão logo ele fala e me coloca no colo. Coloco minha mãos ao redor do pescoço dele.

– Curiosa?

–Sempre...

– Agora feche os olhos.

– Sim, senhor. – Eu fecho os olhos, um grande sorriso está em meu semblante.

– Me excita quando você fala assim.

– Que bom. – Sorrio, levantando os ombros.

– Você terá que me recompensar de toda essa força que estou fazendo para me controlar.

– Por favor, cobre!

–Você é minha! – Evan beija incessantemente meu rosto. – Pronto, abra os olhos.

Em algum momento da vida algo mágico acontece. Ele pode surgir quando você acorda ou na hora do café. Esse momento mágico é a falta de fôlego, é a armadilha feliz e apropriada, é o ponto em que descobrimos por que a vida vale a pena. Esse é o meu momento mágico. Agora, aqui, descubro que esses fatos místicos acontecem sempre.

– Você me tira o fôlego. – Desabafo, olhando em volta.

– Espero que essa condição não mude...

– Sou sua, Evan, e nada pode mudar isso.

– Gostou?

– Evan, eu... – Não consigo terminar a frase.

Evan decorou a parede do quarto da casa da piscina com uma montagem feita com o vídeo do Show do Coldplay. Ele pediu que confeccionassem fotos do vídeo, mais precisamente do momento em que “Paradise” havia sido dedicada a mim. A garotinha do circo aplaude o espetáculo.

– Esse momento. – Evan aponta para uma das fotos em que meus olhos estão nele, apenas nele, para ele. – É o momento em que vi tudo que falta em mim. Foi quando percebi o quanto havia você dentro de mim e o real motivo por estar profunda e intensamente apaixonado por você. – Ele se vira para mim e segura minhas duas mãos, beijando primeiro as costas e depois, a palma de cada uma delas - Foi nessa hora que vi tudo que me atraiu em você desde aquela noite no Pastis. Tentei correr, me esconder, não queria aceitar que pudesse ter sido agraciado com isso. Vivi vinte e seis anos sem saber que dentro de mim havia um coração apto a sentir o que sente hoje. Antes de te conhecer havia me conformado em ser um cara de negócios rentáveis, porém, sem emoção alguma.

– Obrigada!

– Mas foi você quem salvou minha vida.

– Mas você me escolheu.

– Não, Vick, eu não te escolhi. – Ele diz sério, chegando a me assustar.

– Mas estou aqui...

– O poder de escolher compete a quem tem opções e eu nunca tive opções, você sempre foi a única. – E sua voz séria cede ao mais encantador timbre de voz.

– Viu como me tira o fôl... – E não consigo terminar a frase. A boca de Evan está encaixada à minha. O beijo é mágico, profundo e apaixonado. Quase um grito expressando a necessidade que temos um do outro.

– Preciso resolver alguns assuntos, você se importa?

– Vai sair? – Pergunto preocupada.

– Não, vou resolver daqui mesmo. – Ele me leva até a sala, onde um Macbook está posicionado sobre o balcão e muitos papéis estão à sua volta.

– Montou seu escritório aqui? Ótimo. Deito aqui enquanto você trabalha. – Jogo-me no sofá confortável e aprecio o homem lindo de jeans e camiseta preta trabalhando.

Jony insiste para que Evan compareça ao escritório da Maccouant, mas ele nega e encerra a conversa pelo telefone.

– Evan, pode ir trabalhar, fico aqui com a Maria.

– Você acha que vou deixar tudo isso aqui sozinha? – Ele diz, pegando-me no colo.

– Mas não quero atrapalhar seu trabalho.

– Se eu for, vou ficar pensando em você aqui e não vou trabalhar direito. Prefiro ficar. – Ele diz me colocando no chão.

– Posso ir com você? Fico no jardim.

– Não, a senhorita precisa descansar!

– Mas me sinto bem!

– Não seja deliciosamente teimosa, por favor.

– E o que você vai fazer com essa informação? – Pergunto, arrancando o vestido.

– Não me provoque assim, você precisa se recuperar.

– Então me ajude! – Viro-me de costas para ele e entro novamente na casa menor, em direção à suíte.

Ele logo me alcança e sinto sua respiração na minha nuca, sinto o arrepio subindo pelas costas.

– Gosto de ver sua pele arrepiada. – Ele sussurra e minha pele de fato se rende.

– Mas agora, além de arrepiada, ela tem alguns detalhes doloridos. – Choramingo e ele se põe à minha frente.

– Apenas detalhes. – Seu toque é quente e me sinto aquecida, como se uma imensidão de calmaria surgisse, mesmo tendo uma tormenta inevitável dentro de mim. O simples toque de suas mãos macias faz com que me esqueça que há pouco tempo estava acuada sob ratos e sujeira.

– Remendos. – Balbucio olhando para meus pulsos enfaixados.

– Por Deus, como eu queria afastar de você todo mal. – Ele olha dentro dos meus olhos e tenta aliviar o que sinto, e as palavras somem dentro da minha mente. Meu cérebro esquece dos recentes traumas e se entrega a ele. Meu corpo nu e à mostra desperta o sexo de Evan que acomoda em suas mãos o meu rosto. – Amo você, minha ruiva! – Beijo bom, que salva a minha alma. Suas mãos deslizam acomodando meus seios que enrijecem e instigam ainda mais a virilidade de Evan. Ele me deita na cama e coloca-se sobre o meu corpo que clama por ele em tempo integral.

– Gosto de sentir você aqui dentro. – Confesso sentindo meu rosto esquentar e o pulsar de Evan dentro de mim.

– Amo estar aqui e o que sinto neste momento. – Ele força um pouco mais e com todo cuidado do mundo, gosto dessa proteção e cuidado.

Aos poucos, meu corpo, de forma úmida, entrega o quanto eu o quero. Quero-o dentro de mim, no ir e vir perfeito de Evan, que me trata como se fosse uma taça de cristal, e talvez eu seja.

No encontrar e me perder sob o corpo dele, nós nos olhamos como se fosse a primeira vez. Dentro de mim ele se esvai e relaxa.

 


Levanto sem fazer barulho, visto a camiseta dele e vou para a cozinha da mansão. A casa está escura, é madrugada e tento ser o mais silenciosa possível. Abro a geladeira e bebo água na garrafa mesmo. Quase meio litro de água deixando a porta da geladeira aberta, ficando à vista apenas meus pés. Um bolo de chocolate repousa sobre a ilha, e ele será meu próximo alvo.

– Vick? – Evan abre a geladeira por completo, revelando minha traquinagem. Ele me puxa, abraçando-me.

– O que foi? – Assusto-me e quase derrubo a garrafa no chão.

– Não faça isso!

– Desculpe, estava com muita sede.

– Não estou falando disso, não me deixe assim de novo. Acordei e não te vi na cama e também não estava no banheiro. A casa estava escura, você me preocupa.

– Preocupo?

– Sim!

– Preocupo pelo fato de ter te deixado ou pelo fato de usar apenas isso? –Pergunto, tirando a camiseta. Ele não responde, apenas me coloca sentada em cima da ilha, no meio da cozinha, ao lado do bolo de chocolate e me beija.

– Você está ficando terrível, tentadoramente terrível!

– Obrigada. – Agradeço, enlaçando-o pela cintura com minhas pernas, e é incrível.

– Eu te amo, Bebê!

– E eu te amo mais!

 


Evan está ao telefone, de frente para o notebook sobre o balcão da casa da piscina e muitos papéis à sua volta. Ele não parece gostar de conversar com o tal Gutemberg.

– Ok, mas a fusão será oficializada na última semana. Não, Sr. Gutemberg, não estarei presente na próxima semana. Também lamento, mas tenho outra prioridade a ser resolvida. Estamos combinados. Aguardo pelo senhor na quinta-feira da última semana. Igualmente. Até logo.

Eu o encaro maliciosamente com um sorriso em meus lábios, mordo a banana que havia pego na cozinha como café da manhã.

– Essa sua prioridade por acaso sou eu?

– Sim, sempre será e, por favor, não posso cair em sua tentação, então peço que termine de comer longe dos meus olhos. – Ele pede, com os olhos sedentos em minha boca.

– É apenas uma banana, Evan. – Respondo de boca cheia.

– É apenas uma banana na boca da mulher mais linda, o que me faz pensar em levá-la lá para cima. – Ele desliza o polegar sobre o iPhone, procurando algo.

– Mas é apenas uma banana, vou continuar exatamente onde estou. – Oferto mais uma mordida.

– Deliciosamente teimosa.

– Posso ficar aqui? – Sento ao lado do notebook.

– Pode, mas preciso realmente trabalhar, e com você aí sentada, fico pensando no que poderia fazer com você.

– E o que você poderia fazer comigo? – E uma última mordida, finalizando a banana.

– Não faça isso!

– Acabou, vou ficar quietinha aqui, juro. – Prometo com a boca cheia.

– É bom ter uma criança em casa de novo.

– Sabe, estava pensando, sorrio cada vez que penso em você, não é estranho?

– Está me provocando.

– Talvez seja essa a intenção.

– Parabéns, você conseguiu, não lembro o que eu tinha que fazer, para quem deveria ligar...

– Desculpe, não queria incomodar, mas posso garantir que minhas intenções com você são as melhores.

– Melhores?

– Sim!

– Estou percebendo.

– Vou ficar em silêncio, prometo.

– Então fique mesmo. – Ele ordena se aproximando e selando minha boca com um beijo. Automaticamente abraço-o com minhas pernas.

– Você não está cumprindo o que prometeu.

– Posso garantir que foi involuntário.

– Agora realmente preciso trabalhar. – Ele me coloca em cima do balcão e alcança o telefone. Quero-o em mim. Por Deus, onde foi parar meu pudor?


Capítulo 3

 

Phillip Gutemberg – Madri

 

- Não posso aceitar isso! – Grito enquanto ando como um leão preso. – Como eu gostaria de ir até Nova York e matar esse filho da puta.

E parece que o inferno resolveu me adotar; fico com pena do pobre diabo se isso estiver acontecendo. Uma merda de imposto e uma quantia irrisória em taxas me coloca diante de um garoto, e como se não bastasse, nenhum outro se interessa pela compra da maior importadora de Madri.

- Inferno! – Urro e deixo um soco forte se soltar sobre a mesa. Maldito Maccouant, maldito em todos os sentidos. Ele sempre quer ficar com o que me pertence e agora vou ter que vender o império de meu pai por alguns amendoins.

Grande merda, Philip Gutemberg! – entro em uma discussão onde eu me arrebento por dentro. Não podia ter deixado chegar nesse ponto, mas vender para ele, justo para ele... Sou um grande maldito azarado mesmo. Preciso encontrar um meio de tornar tudo mais difícil para ele, em todos os sentidos.

- Sr Gutemberg? – Mirtes, minha secretária, que perdeu a noção do perigo, interrompe meu momento de ódio e planos contra Maccouant.

- Sim – Respondo áspero.

- Sr. Alfred Torvis. – Ela pronuncia apenas o nome e eu sei bem que é o gordo de suspensórios que me aguarda no primeiro andar. Malditos agiotas.

- Peça para ele esperar.

Preciso pensar em algo para deixar Evan da mesma forma que estou nesse momento.

 


Vick


Faz um bom tempo que estou aqui, apenas admirando Evan trabalhar. Não quero perder nenhum minuto dele, nunca mais.

Maria entra para avisar que o almoço está pronto. Evan pergunta onde quero almoçar, escolho a casa maior, menos trabalho para Maria. Ele se diverte por eu ter nomeado as casas, e todos seguirem minha ideia.

Ele se levanta e estica sua mão para mim.

– Contou para a sua mãe? – Faço menção ao sequestro.

– Sim, você é funcionária dela, lembra?

– Claro. – Ele puxa a cadeira para mim enquanto tento me achar na minha própria confusão mental.

– Ano que vem vou ter que assimilar a faculdade e a Gael. –Alcanço uma porção de arroz branco e batata frita.

– Sabe onde quer estudar?

– Londres. – Engulo o riso.

– Nesse caso, terei que começar a procurar uma casa para nós por lá? – Ele fala calmamente como se comprar uma casa nos padrões em que ele vive custasse quase nada.

– Você sabe que não iria, tem uma faculdade que talvez possa me interessar, mas ainda estou pensando.

– Pensando em quê? – Ele fala enquanto faz um amontoado de folhas em seu prato.

– Se realmente é isso que quero. Gosto de arquitetura, mas amo a dança. Não sei. – Jogo uma batata frita na boca.

– Estamos quase no final do ano, não vai conseguir resolver nada agora. – Ele fala sério.

– Tem razão, mas posso voltar a dançar na próxima segunda.

– Não, está com uma luxação na perna e o médico me avisou sobre seu repouso. – Ele fala com uma serenidade e certeza de que não vou desobedecê-lo. – Não esqueça de tomar seus remédios após o almoço.

– Sim, senhor, pode mandar que obedeço. – Ironizo. – Evan, não vou ficar aqui sem fazer nada. – Protesto e pego mais uma batata. Não posso comer tanto, penso comigo.

– Sim, vai ficar aqui sem fazer quase nada. – Ele toma um pequeno gole de suco.

– Cárcere privado, onde estão as correntes?

– Não quero discutir com você. – Ele continua o almoço como se fosse a coisa mais normal do mundo me manter presa.

– Correntes e bolas de ferro, não duvido que posso até ficar sem comida daqui a alguns dias. – Provoco.

– Victoria Campbell, não quero discutir.

– Era só isso que faltava. Além de presa e faminta, sou ignorada. O que mais?

– Pode acrescentar nessa lista sexo forte e dolorido. – Ele sorri e descansa os talheres em um único lado do prato.

– Eu me sinto um objeto! – Reclamo.

– O mais bonito da casa. – Ele fala e me dá uma piscada.

Continuamos o almoço numa relativa paz, mas percebo os olhares dele sobre mim. Provavelmente me checando se estou comendo direito. Termino de comer e volto a implicar com ele tão logo empurro meu prato.

- Pronto. Comi tudinho. Satisfeito?

Evan me olha meio que de lado e pega o vidro de remédios, despejando dois comprimidos sobre a minha palma. Tomo-os com o resto do suco no copo. Preciso dizer algo para fazê-lo voltar a sorrir.

– Acho que sou o segundo objeto mais bonito da casa; o primeiro não tem remendos. – Estico meu pulso, mostrando as ataduras.

Ele se levanta e faz o mesmo comigo, enlaçando-me na cintura.

– Não pense nisso. Nunca mais vou permitir que alguém te faça mal. –Ele murmura em meu ouvido.

Ele pressiona meu corpo contra o dele, fazendo-me gemer de dor. Minhas costas ainda doem.

– Perdão. – Ele pede, beijando meu ombro.

– Ainda estou quebrada. – Beijo seu peito nu.

– Espere aqui. – Ele sai e sobe até o segundo andar da casa. Volta trazendo algo em suas mãos e uma camiseta jogada em seu ombro – Coloque-as. – Ele coloca minhas sandálias no chão.

– Aonde vamos?

– Buscar suas coisas, incluindo o anel.

– Vou poder sair? Minha carta de alforria. – Zombo enquanto ele coloca a camisa verde-escuro. Em seus pés, tênis.

– Vamos, minha engraçadinha, mesmo machucada ainda consegue fazer graça. – Ele puxa minha mão assim que calço minhas sandálias.

– Alegria, Evan, eu não morri. Pelo menos estou feliz com isso. –Ironizo.

– Não se atreva a morrer antes de mim. – Evan me beija de maneira intensa. Amo como sua língua aveludada encontra a minha.

Seguimos à garagem de mãos dadas.

– Então também é proprietário do prédio onde Sam mora? O que mais não sei?

– Muita coisa, mas o mais importante você já sabe.

– O Clube. – Alfineto como quem não quer nada.

– Não, você sabe que largaria tudo, abriria mão de tudo por você.

– É muito dinheiro, Evan, não sei se valho tanto. – Faço um pouco de charme, é claro.

– Antes de te conhecer era tão pobre que tinha apenas muito dinheiro, entende?

– Sim e não, mas tudo bem. – Entramos no carro e partimos para a casa da Sam.

Evan tem livre acesso, é amigo do porteiro, é dono do prédio e possui um nível de beleza e simpatia que convenceria qualquer um. Apanhamos minhas coisas e deixo um bilhete para Sam, agradecendo a hospitalidade e o pole dance. Evan torce o nariz.

 

Evan


– Sim, Jony. Não posso dizer que confio. A empresa dele ficou devendo mais de trezentos mil em taxas, por isso estamos fazendo essa fusão. Claro, ele deve e precisa saldar, nós temos condições de pagar e não faremos isso por bondade. Você sabe que essa qualidade não é de nossa linha de trabalho... Jony, estou adquirindo uma importadora por menos de um milhão de dólares. A empresa dele tem uma carteira sólida... Vou deter oitenta por cento das ações e vou quadriplicar o lucro, é uma questão de tempo... Apenas faça o contrato de acordo com as informações que enviei hoje por e-mail... Jony, sei o que estou fazendo, a Gutemberg Associados estava na minha mira há muito tempo, tenho forte desejo em trazê-la para nosso grupo e futuramente mudar a razão social para Maccouant Import, filial Espanha. Entendo sua preocupação, mas confie. Na Alemanha deu certo e foi nosso ponto de partida. Assim que o contrato estiver pronto me envie, não estarei no escritório na próxima semana.

 

Vick


Eu estou arrumando as coisas novamente dentro do guarda roupa, acabamos de chegar da casa da Sam. Evan está ao celular na porta do quarto, fico apenas escutando o diálogo. Ele está discutindo a compra da Gutemberg e associados novamente, fala em dívidas, em gastar um valor obsceno de alto. Ouço algum comentário sobre a Espanha e o fato dele não ir ao escritório na próxima semana. Evan pede que enviem algum contrato, não sei muito bem do que se trata, mas me encanta a segurança com que negocia em seu trabalho.

– Jony, apenas isso e obrigado. – Assim que Evan desliga o telefone, sinto sua mão em meu braço.

– Sr. Evan, a encomenda está em cima da mesa próxima à piscina. – Escuto alguém falando no andar de baixo.

– Não sabia que Gunter estava aqui! – Falo e volto para dentro do quarto. – Pensei que ele ainda estava viajando.

– Ele trouxe o jantar.

– Ah, Maria está de folga hoje. – Ele encosta seu corpo em minhas costas. – Você cuida bem de mim, eu sabia que tinha escolhido a pessoa certa. – Digo me virando de frente para ele e beijando seus lábios.

– A pessoa certa? – Ele fica intrigado e feliz com a confissão.

– Sim, Evan! A pessoa certa, você é minha pessoa certa, encaixa com minhas crias e ilusões, e isso é o que me basta. – Concluo beijando novamente sua boca.

– Há muito de você em mim. – Ele confessa. – Literalmente, há apenas você em mim, nada mais.

– Esse negócio que você está concluindo, essa empresa Gutemberg, é muito importante. É a segunda vez que escuto você falar dela.

– Sim, muito importante. – Responde, mas coloca uma barreira. Eu respeito e termino de guardar o restante dos meus pertences dentro do armário.

– Me perdoe pela observação. – Eu me desculpo e sento na cama.

– Não precisa se desculpar. – Ele me aninha em seu colo assim que senta na cama.

– Não quis ser intrometida. – Eu me explico... mas eu quis, sim. Penso.

– Não é isso, não quero te envolver com os leões. Essa empresa me custou dois anos de investigação até saber seu ponto fraco, e tê-la em nosso grupo é uma grande conquista. – Ele fala e beija meu ombro.

– Que bom que tudo deu certo. Não entendo do que se trata, mas o que ouço é que tudo está correndo bem.

– Sim, estou aguardando o retorno de Jony.

– Estou com fome. – Meu estômago clama por comida.

– Posso ouvir isso. – Ele beija minha barriga.

– Você é bom, tem um coração precioso e seu corpo é ótimo. – Estou em um estágio de abandono total da antiga Vick. A garota inocente e quase imaculada havia sido sepultada na noite que jantei no Pastis.

– Bom? Você fala como se eu fosse digno de ouvir isso. – Ele diz me abraçando.

– Mas você é. – Nos olhos de Evan existe uma verdade expressiva, não consigo explicar, ele é mais ainda do que conheço. Suas pequenas surpresas e cuidados, a maneira como fala e me olha, seu calor e afeto... Impossível definir em palavras.

 

Evan


– Alô? Sim, Jony. Perfeito, sabia que isso aconteceria. É exatamente isso. Quando o novo contrato ficará pronto? Melhor ainda. Estou em casa. Assim que ele retornar me avise. Obrigado.

 

Vick


– Você está feliz? – Pergunto a Evan, sentada no sofá em seu escritório, enquanto o observo de pé próximo à mesa, verificando uns papéis.

– Sou feliz, tenho você.

Ele vem até a mim e me levanta do sofá, abraçando-me. A sensação de se sentir protegida entre aqueles braços é indescritível.

Descemos a escada em arco, partimos para a área da piscina. Um calor agradável e uma bela mesa posta.

– Posso te fazer uma pergunta? – Falo quase sussurrando.

– Pode perguntar o que quiser, Victoria. –Ele diz com o sorriso mais safado do mundo.

– Já se apaixonou por uma encomenda? – Vejo o falecimento do sorriso em seu rosto, uma expressão ilegível e me arrependo de ter perguntado.

– Não, e também não sei onde quer chegar com isso. – Ele muda o semblante e o humor.

– Apenas curiosidade. – Encolho meus ombros.

– Não poderia me apaixonar por pessoas que estão à venda, pessoas que na primeira dificuldade resolvem ter relações sexuais com uma dúzia de sádicos e tarados.

– Isso envolve Ellis.

– Sim, minha opinião não muda por que ela é sua amiga ou por que sabe fazer pão. Ela se vendeu na dificuldade. Para mim foi apenas mais uma, e não gostei de vê-la aqui dentro da nossa casa. – Uma sombra está sobre ele; ela é fria e chega até mim.

– Você me assustou com esse jeito frio. Não gostou da noite que passou com ela?

– Victoria, apenas você tem o meu lado bom, não se assuste ao ver meu lado ruim sendo disparado. Acho que percebeu minha falta de cordialidade em grande parte do meu dia. Quanto a gostar, não posso expor uma opinião sobre algo que nem me lembro. Fiz o que tinha que ser feito e fui embora.

– Achei que fosse assim apenas nos negócios. Estou assustada ainda.

– Mas as encomendas são negócios, movimentam dinheiro dentro da Accord. Victoria, ficaria muito feliz em não tocar mais nesse assunto. –Evan está furioso.

O meu celular toca, Evan se oferece para ir buscá-lo enquanto eu fico pacientemente aguardando.

– Tomei a liberdade de olhar, é a Sam. – Evan lê a mensagem, ainda com seu tom protetor.

– Então fale o que ela escreveu!

– Melhor você ler e assim poderá responder. – Ele sorri e me entrega o iPhone.

Oi, Cunhadinha! Tudo bem? –18h58min

Estou muito bem, e você está namorando meu irmão? Bjsss 19h02min

– Não acredito, ela e meu irmão estão namorando! –Logo outra mensagem chega.

Saudade de vc, na verdade estamos nos conhecendo melhor19h05min

Maravilha! Mas depois te conto rsrsrsrs 19h08min

Evan sorri enquanto me olha responder as mensagens.

Fico feliz, mas vou querer saber tudo rsrsrs, depois nos falamos, estou saindo para jantar. Bjs 19h11min

Bjs 19h13min

– Meu irmão namorando? Isso é de assustar mesmo. Ele deve ter ligado para ela e não me contou nada, o mesmo Lucca de sempre.

 


O celular de Evan toca assim que encaminho a última mensagem.

– Desculpe, mas tenho que atender as ligações do Jony. Essa negociação foi demorada, preciso concluí-la ainda hoje.

– Não me importo, não quero te atrapalhar. Inclusive acho que posso voltar a trabalhar na segunda-feira. – Respondo despretensiosamente, devorando um pão de leite.

– Voltamos a esse assunto... – O celular dele continua tocando e ele ignora.

Seus olhos ficam novamente perdidos enquanto ele fala.

– Sim, voltamos, acho que será muito bom me ocupar, não ficar com tempo disponível para pensar em tudo. – Estou falando sério e devolvendo a sombra fria dele que chegou até mim.

– Vick, não quero que volte para seu emprego, não quero pensar em você caminhando sozinha.

– Espere um pouco, Evan, tenho um compromisso com minhas alunas, com a sua mãe e com o meu profissionalismo. Não vou deixar meu emprego.

– É perigoso, não sabemos quem te sequestrou ou o que queria.

– Você mantém dois motoristas, posso fazer uso de um deles. O que definitivamente não quero é ser um peso morto dentro de casa! – Preciso tentar, é minha independência e minha distração. Não vou me trancar por conta disso.

– O que preciso fazer? –Ele está ficando exaltado.

– Evan, não vou aguentar ficar aqui o dia todo sem fazer nada enquanto você trabalha. Vou voltar a dançar.

– Você pode dançar naquele quarto extra no segundo andar, transformá-lo num estúdio. Realmente não vou permitir que volte a trabalhar e tenho meus motivos. Posso garantir que não são poucos. – Enquanto ele fala sinto sua irritação aumentar.

– Não vou discutir com você. – Fecho a cara. – Você não pode fazer isso!

– Posso.

– Não, Evan, não pode!

– Ok, não posso, mas mesmo assim vou fazer, quer você queira ou não. – Ele acha que vai encerrar o assunto assim.

–Não vai conseguir me prender aqui. – Ele me ignora por completo. – Não vai responder? – Insisto no diálogo.

– Você não vai comer? – Ele pergunta.

– Já estou comendo! – Respondo enfiando um pão na boca de qualquer jeito com uma imensa carranca.

– Victoria Campbell, não faça isso!

– Fazer o quê, Evan? Estou comendo, não posso?

– Pode, ou melhor, deve, mas não faça caras e bocas. Não gosto de me sentir confuso.

– Você está chato e vou ficar aqui quieta no meu canto. Por que não vai atender à sua chamada tão importante?

– Não quero falar com você nos próximos minutos. – Ele ralha.

– Tudo bem. – O celular dele toca novamente e não sei o que fazer. Cacete! Como vou pedir demissão para a mãe dele?, penso comigo, estou preocupada. É minha palavra, minhas meninas. Seria mais uma a sair da Gael por conta de Evan? Droga.

 


O clima entre mim e Evan ficou pesado. Não gosto quando isso acontece, mas não posso me calar, aceitar essa situação pacificamente. É da minha vida que ele está falando, tenho direito a tomar minhas próprias decisões; e há poucos minutos acabei de saber que, por estar terrivelmente preocupada com minha segurança, a mãe dele colocou uma substituta-definitiva em meu lugar em Gael. Isso me arrasou, mas como estou cansada de discutir, simplesmente saí da mesa.

– Sr. Maccouant?

– Sim, Gunter, pode vir aqui, estou na piscina.

– Senhor, a polícia não encontrou nenhuma pista que possa nos levar a algum suspeito.

– Como, Gunter? Nenhum suspeito? Porra, alguém entrou aqui, temos as filmagens, não quero outro incidente.

– Estou com dois seguranças de seu pai aqui fora, eles vão ficar aqui.

– Gunter, quem entrou aqui e destruiu o quarto da casa da piscina pode estar ligado ao sequestro. Não é possível que mesmo com o vídeo da segurança em mãos não exista um filho de uma puta localizado.

– Quem entrou aqui? – Escuto parte da conversa assim que saio do banheiro.

– Ninguém, Vick, está tudo resolvido. – Ele me responde como se eu fosse uma idiota. Percebo que Gunter fica um pouco sem graça.

– Evan, quem foi que esteve aqui? – Estou nervosa e minha voz aumenta um tom.

– Vick, já passou, já foi resolvido. – Ele responde vindo em minha direção e tentando me abraçar.

– Evan, responde, quem esteve aqui? Não sou idiota, houve algum problema. – Eu me esquivo de Evan e continuo a perguntar em tom mais firme.

– Vick, não quero que você se preocupe.

– Já estou preocupada e agora minha cabeça está doendo muito. – Sento com as mãos na minha cabeça. Ele dispensa seu escudeiro e se ajoelha à minha frente. – Você vai me dizer o que está acontecendo? – Encaro-o por alguns segundos.

– Não quero você aflita! – Ele segura meu rosto com as mãos.

– Está piorando a situação e minha cabeça dói ainda mais.

– Vou pegar seu remédio e já volto. – Ele se levanta, beija minha testa e sai.

Eu preciso saber o que está acontecendo. Não adianta ele querer me poupar do mundo. Ele retorna e me entrega os dois comprimidos.

– Evan me conte, por favor. – Engulo os remédios.

– Vou contar, mas acredite, é contra a minha vontade.

– Mas é a minha vontade.

– Teimosa. Alguém invadiu a casa. As câmeras registraram uma pessoa entrando. – Ele por fim revela em tom preocupado.

– Acha que essa pessoa pode estar envolvida com o sequestro?

– Não duvido dessa hipótese. – Ele pressiona o polegar e o indicador na testa.

– Sem emprego, dinheiro, cartão, liberdade, meus pais do outro lado do oceano, meu irmão sabe lá Deus onde está... É algum teste de sobrevivência? – Olho para o rosto de Evan com lágrimas rolando em meu rosto.

– Não faça isso. – Ele me abraça tão forte...

– Acho que eu precisava desse abraço. – Confesso.

– Ele é seu quando quiser.

– Desculpe todo esse percalço. Trouxe um monte de problemas para você e não tenho habilidade, e muito menos competência, para ajudar a resolver. – Meu rosto está apoiado em seu tórax.

– Não diga isso, eu te amo, você não tem culpa de absolutamente nada. Você precisa se alimentar, Vick.

– Perdi o apetite, podemos subir? – Evan me conduz escada acima e me acomoda na cama.

 


– Vick, por favor, acorde! Estou aqui. – Evan me desperta de um pesadelo. Estou toda suada e meu coração está acelerado. As lembranças do cativeiro ainda me consomem. Por mais que eu tente esquecer, elas sempre retornam em meus sonhos, o frio, a fome, os ratos, a dor. Evan me abraça e busco segurança no calor desses braços. Logo ele me pega, me senta em seu colo, e por um longo tempo murmura palavras de carinho em meu ouvido, enquanto alisa suavemente minhas costas numa massagem tranquilizadora.

– Desculpe, devo ter te assustado. – Digo me sentindo mais calma.

– Não se preocupe, não preciso acordar cedo amanhã. – Ele brinca, tentando me distrair.

– Esses pesadelos são tão reais. – Digo encolhida no colo dele.

– Daqui a alguns dias eles não acontecerão mais. – Ele me abraça e sinto que quer tirar isso de mim.

– Espero que me recupere quando você voltar a trabalhar, não posso te acordar assim.

Ele beija o topo da minha cabeça. Pergunto as horas, Evan responde que são quase cinco.

–Você tem algum compromisso?

– Não, ou melhor, tenho sim, mas já estou com meu compromisso. Você é meu compromisso.

– Fico feliz por não me adiar.

- Quer alguma coisa? – Ele pergunta com o nariz enfiado em meu pescoço.

– Não, não agora, mas daqui a pouco sim.

– Qual é o seu desejo?

– Você!

– Isso você já tem, algo mais?

– Tem alguém lá embaixo? – Pergunto enquanto saio do colo dele e me levanto da cama.

– Não, por quê?

– Porque quero fazer uma coisa! – Minha expressão é de uma criança querendo aprontar. Puxo o edredom e estendo minha mão para Evan.

– Você vai descer assim?

– Sim, Sr. Evan, apenas com o edredom. E você assim, apenas de cueca. Por falar nisso, fica muito bem de preto. – Provoco, enrolando meu corpo nu no edredom branco e seguindo sentido à escada.

– Não sei o que quer fazer, mas insanamente te obedeço.

– Gosto de obediência, Sr. Maccouant.

– Também gosto, o problema é que você não gosta de obedecer. – Ele fala de um jeito malicioso e irresistível.

– Realmente não gosto de obedecer, mas por algum motivo cedo às suas ordens. – E solto parte do edredom, deixando à vista parte de minhas costas. Sei que tipo de efeito isso causa. Estou aprendendo como Evan funciona e posso garantir que é da melhor maneira possível.

– O que você vai fazer? – Ele pergunta intrigado enquanto caminho à sua frente pelo gramado da piscina.

– Isso. Quero me deitar aqui com você e assistir ao nascer do sol, faria isso por mim? – Aponto para a espreguiçadeira.

– O que não faria por você? – Ele sela minha boca, deita e abre os braços.

Descanso ao lado de Evan repousando minha cabeça no seu peito. Seu braço me cobre e o edredom esconde a cena. Ainda está escuro, mas já é possível sentir a noite diminuindo. Vagarosamente estrelas vão ofertando seus lugares aos primeiros raios de sol. Aos poucos, faixas douradas estão ao nosso redor, de maneira tímida, quase imperceptível. E quando o dia nasce, Evan e eu estamos em outro plano.

 


Maria nos acorda sutilmente.

– Maria? – Evan se assusta com o chamado.

Então ela avisa que tem uma ligação urgente de Jony enquanto tenta se desculpar por nos acordar, e lançando um olhar totalmente feliz em minha direção.

Evan pega o telefone das mãos da Maria e atende ali mesmo. Pelas palavras parece que alguém concordou com alguma coisa, e Evan pede a Jony para avisá-lo quando o contrato ficar pronto. Estou curiosa, mas me contenho. Ele termina a ligação, suspira e me abraça.


Capítulo 4

 

Exterminar! É isso que preciso! Acabar com ela, com ele... com eles.

Entrar naquela casa e destruir o quarto foi fácil, apesar de não ter colocado os pés lá dentro. Preciso de outro cigarro, preciso de outro gole. Viro o copo de vodka e brindo minha futura vitória. Sei que vou conseguir destruí-los, sei que eles em breve vão deixar de existir, sei que sou mais forte do que eles. Tenho poder e dinheiro para isso.

Vamos, pense! Exijo de minha mente algo eficaz contra ambos, já que o sequestro não foi bem sucedido. Teria sido se ela estivesse morta. Ela não pode ficar com ele, é uma questão de honra.

Raciocine! Grito com meu cérebro. Preciso de algo que traga a verdadeira ruína, algo que machuque, algo que sangre. E mesmo assim seria pouco.

Preencho meu copo vazio e dou mais um trago, procurando trazer alimento para minha inteligência que funciona contra eles nesse exato momento.

Pobre Victoria... Agonizar combina com seu corpo. Evan, imbecil, bastardo, vou atingi-lo de forma eficaz dessa vez. Vou igualá-lo aos ratos, ao lixo e deixá-lo à beira da morte, e por que não entregá-lo a ela?

 

 

Vick


– Bom dia. – Ele fala virando-se para mim, enquanto beija minha cabeça.

– Bom dia, vejo que algo animou você!

– Sim.

– O que foi responsável pela animação matinal?

– Pessoas.

– Pessoas?

– Sim, pessoas.

– Mas ontem as pessoas eram responsáveis por seus problemas, e hoje são responsáveis por sua animação?

– Sim, simples assim.

–Simples, Evan? Onde está a simplicidade?

– Algumas pessoas me trazem problemas. Com essas eu fecho contratos milionários, discuto questões chatas e tento ser breve em meu contato. Agora, tem uma pessoa que é minha maior fortuna. Trato dos melhores assuntos e faço questão de que nosso contato seja longo. Essa pessoa me anima, simples assim. – Ele fala enquanto me puxa para cima do seu corpo.

– Fico honrada em ser sua animação!

–Vamos subir, cubra-se. – Ele ordena e eu apenas obedeço.

Subimos as escadas. Eu nua sob o edredom, e ele apenas de cueca. Maria, que está na cozinha, apenas espicha os olhos e sorri. Ela gosta de nos ver assim, felizes.

– Você não pode simplesmente me provocar ao sair andando com suas costas à mostra. – Ele me alerta quando chegamos ao último degrau da escada.

– E o que o Sr. Evan Louis Maccouant vai fazer em relação a isso?

Ele me vira para encará-lo e desliza as mãos por minhas costas e bunda, fico úmida e espero-o dentro de mim.

– Minha ruiva... – Ele delicadamente me segura pelos cabelos da nuca e puxa suavemente, a fim de fazer com que eu me acostume com isso. – Quero estar em você. – Ele puxa com um pouco mais de força e por algum motivo esqueço tudo que aprendi nas missas dominicais. Que missa?

– Por favor, Evan. – Imploro e ele apenas roça seu corpo rígido no meu.

– Por favor o quê, minha vermelha linda deliciosa? – Ele está encaixado em meu quadril e força meus cabelos ainda mais.

– Quero você dentro de mim, eu preciso. – Mendigo como uma faminta por um pedaço de pão, e de uma única vez sinto-o entrar e bater fundo. Essa ação se repete e não me intimido em derreter ao redor de Evan. O edredon cobre as costas de Evan e nos mantém escondidos de qualquer olhar curioso.

– Era isso que você queria? – Ele golpeia e ainda segura meu cabelo. Enfim havia descoberto a utilidade para o alien. Ele mantém o ritmo, incansável e pulsante. Eu me perco no movimento nada sóbrio que me toma.

– Sim...huuummmm. – Gemo e sem pudor algum me remexo com ele dentro de mim. Ele segura com mais força minhas mechas, que a partir de agora terão um tratamento de rainha, e puxa. Oh Deus, gosto disso! Penso enquanto chego ao clímax.

– Oh! Victoria, minha ruiva! – Ele solta meu cabelo e com as duas mãos segura meu quadril, invade com força e recebo o tão grato sexo forte e dolorido. – Muito bom isso! – Ele exclama terminando de se esvair dentro de mim.

– Ao seu dispor, Sr Maccouant. – Dou meu melhor sorriso de uma mulher plenamente saciada. E dizer que acabamos de fazer sexo puro e duro no alto da escada. Onde foi parar o meu recato escocês?

– Por Deus, que rebolada foi essa? – Apenas sorrio encabulada e orgulhosa por tê-lo surpreendido.

– Vou tomar um banho e refazer meu curativo.

– Venha, eu faço os dois. – Gosto dessa proteção e cuidado, mas talvez um dia eu queira minha liberdade ou parte dela.

O telefone de Evan toca assim que saímos do banho. Enquanto alcanço minha roupa, ele de toalha na cintura rola os dedos sobre a tela, é uma mensagem de texto.

Saiam da toca! Malditos –08h58min

– Eu quero muito os pulmões de alguém. – Evan diz e franze as sobrancelhas, irritação surge em seu rosto.

– O que foi, Evan?

– Me dê um minuto, Vick, preciso fazer uma ligação. Alô, Gunter? Alguém está vigiando a casa. Verifique e me retorne. Apenas isso.

Evan desliga o telefone e joga-o sobre a cama. É como se dentro do mesmo corpo vivessem dois homens: o doce, que me trata de maneira esplêndida; e o homem seco e inexpressivo que é totalmente indiferente ao resto do mundo.

– Evan, diga o que aconteceu. – Pergunto colocando um vestido longo cor-de-rosa.

– Eu desejo os pulmões desse bastardo filho de uma grande puta mais do que qualquer outra coisa nesse mundo.

– Por que esse ódio contra mim? – Eu me flagro tentando pensar o que possa ter feito.

– Não é contra você, Victoria, é contra mim. E sabe que atingindo você, eu estarei vulnerável também. Não se preocupe com isso, o responsável será localizado. Espero que façam antes de mim, porque não sei do que seria capaz. – O olhar de Evan fica vazio, enquanto ele se veste de forma automática.

– Confio em você. – Digo enquanto ele beija entre minhas sobrancelhas.

– Vamos tomar o café da manhã, preciso fazer algumas ligações, se você não se importar. – Ele me conduz com minha mão em seu coração e os problemas somem.

– Nossa, quanta comida, Maria é muito exagerada. – Observo a quantidade de opções em cima da mesa.

– Na realidade sou um pouco exagerado, gosto de opções.

– Em todos os sentidos? – Coloco segundas intenções na pergunta.

– Sim, mas existem algumas coisas que são exemplares únicos, o que não nos deixa opção a não ser cuidar muito bem e não permitir que o mundo descubra.

– Me deixou sem graça! – Sorrio envergonhada.

– Vamos alimentar esse corpo perfeito. – Ele mede minha estrutura dos pés à cabeça. – Preciso fazer alguns contatos, vou deixá-la aqui, mas, por favor, coma. E se for escolher alguma fruta, peço que termine de comer aqui. – Ele se refere à banana e sorrio.

Ele sai para resolver seus assuntos e eu me sento à mesa.

– Bom dia, Vick! – Maria me surpreende.

– Bom dia, Maria.

– Como se sente? – Ela pergunta.

– A pessoa mais feliz do mundo. Maria, não existo sem ele. – Desabafo.

– Ele também não existe sem você, Victoria! Bom, com licença, preciso arrumar a cozinha. – Ela se despede e vai para suas tarefas.

Eu termino de comer e, realmente, não quero atrapalhar Evan, então deito na espreguiçadeira à sombra e fico. De onde estou é possível vê-lo andando de um lado para o outro falando ao celular. Às vezes a voz é calma, em outras o tom aumenta, frequentemente nossos olhares se encontram.

Eu poderia ficar por horas aqui observando-o, olhando cada trejeito. A maneira como passa a mão pelo cabelo, colocando-os para trás, como massageia a própria nuca enquanto fala, sua postura de homem de quarenta anos, seu sorriso de menino e o olhar terrivelmente mágico. Evan é a fusão de tudo que preciso.

Em meio a tantas ligações, Evan leva as duas mãos à cabeça, colocando os dedos entre as mechas, e em seguida ficando de pé, de frente com seu notebook. Incansavelmente o admiro. Visão perfeita, camisa semi aberta, cintura traçada, jeans velho e pés no chão. E tudo aquilo é meu, apenas meu, não só por minha vontade, mas por escolha dele. Ele se aproxima sorrateiramente de mim, as covinhas estão à mostra.

– Não consigo ficar longe de você. – Ele diz em meu ouvido. Está tenso.

– Então não fique. – Respondo com um sorriso.

– Vou verificar um e-mail e já volto. – Beija minha testa e sai. Ele está incomodado em ter que trabalhar e me deixar sozinha.

Pouco tempo depois entro em seu santuário de trabalho. Ele está distraído lendo algo na tela, quando percebe que há alguém próximo.

– O que você está fazendo? – Ele pergunta assim que meu vestido cai no chão e caminho em sua direção.

– Acalmando você. – Respondo fazendo-o se levantar e logo minhas mãos estão no botão de sua calça jeans, e em seguida minha boca está na dele.

Passei para um nível que nem posso dizer ser superior em relação ao sexo, mas Evan me ensinou como tocar meu próprio corpo e como obter um prazer satisfatório com isso. Sua língua desenrola sobre a minha, uma de suas mãos acaricia meu seio que enrijece sob seu cuidado, algo dispara entre minhas pernas, me sinto molhada e altamente receptiva.

Sua calça desliza até o chão e o fato de nenhuma peça de roupa cobrir sua região que considero pecaminosa e convidativa, me excita. Eu o agarro, envolvo meus dedos ao seu redor, movimento minha mão e conquisto um gemido sufocado de Evan.

Estar com ele e sob seu domínio me excita, tenho uma necessidade desproporcional de fazer amor com Evan e confesso que sentir seu dedo me invadindo como está fazendo agora prova que sou dependente dele, prova que preciso estar nele, preciso de forma inexplicável sentir ele dentro de mim.

Uma carícia simultânea, uma cumplicidade e um ponto de desiquilíbrio entre nós, ele tão duro e eu assim, tão molhada, tão vulnerável. Somos inevitavelmente um do outro, uma química perfeita, uma mistura discreta entre gasolina e fogo

- Quero você. – Ele diz enquanto me beija e morde meu lábio. Sua outra mão apoia minhas costas e tudo se torna quente e explosivo. É amor, mas é desejo, é fome um do outro, e agora ele suga meu seio, dividindo calma e voracidade, mordisca meu bico e eu gemo, alto. Seu dedo ainda me acaricia internamente e ele coloca o segundo e possivelmente eu não me contente com dedos, apenas com os dedos.

Em um impulso rápido ele me coloca sobre o balcão e beija entre meus seios, os suga, uma vez de cada e desce sua língua até meu umbigo. Ele inclina meu corpo para trás e continua descendo, massageia meu sexo com a ponta de dois dedos e tudo pulsa, por dentro e por fora, irremediável, inconstante e mais uma vez explosivo.

Ele olha para os dedos e os substitui por sua língua, esqueço onde estou e meu gemido sai mais alto, mais forte e o que eu preciso está a caminho.

- Preciso que goze na minha boca. – Ele diz com a boca entre minhas pernas. –E acate isso como uma ordem. – Ele volta sua boca onde estava e massageia meu clitóris com a língua, suga e mantém um movimento perfeito. De repente sinto seu dedo dentro de mim, agarro seus cabelos e como uma ordem também exijo que ele não pare o que está fazendo.

Sinto um tremor, algo está a caminho e eu o quero, gemo e deixo que aconteça, porque gozar nos lábios de Evan é o que posso chamar de sorte, minha sorte.

-Boa menina. – Ele diz com o rosto molhado... de mim

- Eu tento, Evan. – Sorrio e ele me tira do balcão, me coloca sobre o braço do sofá e desliza seu membro sobre meu sexo, covardemente molhado.

-Por favor! – Peço e ele se enfia vagarosamente dentro de mim, o sinto pulsante, faminto e eu quero mais disso que está acontecendo. Ele entra e sai quase que por completo e mantém esse movimento até que começa a massagear meu clitóris com seu polegar. Gemo alto e ele entra com força, mais força.

Um sufoco, e, de repente, durante o seu entrar e sair, ele me beija, vorazmente. – Para mim, Victoria. – Ele diz apenas isso e eu me entrego, sou fraca e agradeço por ser. Laço sua cintura com minhas pernas e deixo meu orgasmo alcançar o dele, juntos, indescritível, forte e viciante.

Ele me beija, suave, como se dissesse: eu gostei, e eu retribuo, porque beijá-lo passou a ser minha fonte inesgotável de energia e talvez eu não consiga fazer ou ser mais nada sem ele.

Não sei o que me levou a fazer isso. Talvez o fato de saber o quão preocupado comigo ele se encontra; como ele está atrasando sua vida e seus negócios para ficar perto de mim, me protegendo. Seja qual for o motivo, tanto ele quanto eu precisamos desse momento, dessa conexão. Mais do que uma transa rápida, estamos unindo nossas almas para o agora e para o que tenhamos de enfrentar mais à frente. Em poucos minutos estamos de frente para nossas fotos e eu consegui meu intento em acalmá-lo.

– Posso me acostumar com isso. – Ele responde sorrindo, enquanto me levanto e alcanço minha calcinha, vestindo-a.

– Pode?

– Claro, acho que vou me sentir incomodado durante boa parte do dia, e esse calmante realmente é muito bom.

– Obrigada. – Giro em meus calcanhares e saio do quarto.

– Você tem um bumbum muito lindo e isso me deixa com mais ciúme. – Ele fala do quarto enquanto coloco meu vestido.

– Seu celular está tocando, Evan, quer que o pegue?

– Faria isso por mim?

– Posso fazer esse esforço. – Respondo sorrindo, e em menos de um minuto faço a gentileza.

Entrego o celular, ele atende, conversa algum tempo com Jony sobre contratos, tempo, fusão e promete um retorno. Por fim desliga. Está sério como se algo fugisse aos seus planos.

– O que foi Evan? A compra da empresa deu certo em definitivo? – Pergunto entusiasmada.

– Você gostaria de fazer outra viagem comigo? – Ele pergunta olhando dentro dos meus olhos.

– Com você eu faria qualquer coisa.

– Qualquer coisa mesmo?

– Qualquer coisa!

– Me acompanharia em algumas reuniões longas e chatas?

– Sim.

– Me daria a honra da sua companhia em um jantar de negócios?

– Claro que sim.

– Visitaria comigo o Palácio Real de San Lorenzo?

– Não sei onde é isso, mas se estarei com você, não tem problema. Eu vou!

– Você tem certeza disso? Pode não ser legal...

– Confio em você! – Ainda sorrindo para ele.

– Me dê um minuto. – Ele me pede, sacando o celular.

Ele diz a Jony para confirmar um voo no domingo antes de alguma reunião, no primeiro horário, Meu Deus! Evan tem um Bombardier. Seus olhos me encontram enquanto confirma apenas ida, diz que quer ficar no Ritz, suíte Royal. Estou abismada, não sei se me acostumo a tanto luxo. Solicita também que Jony faça reservas no Goya para segunda e sexta-feira. Ele fala com o assessor sem tirar os olhos de mim.

– Você consegue adivinhar para onde vamos? – Ele pergunta enquanto se veste.

– Não tenho ideia. – Respondo, encolhendo os ombros e olhando para ele como uma criança olha para uma árvore de natal.

– Tente!

– Não sei, não tenho ideia.

– Para onde gostaria de ir?

– Nunca pensei nisso, estar com você é o meu lugar. Nunca me ocorreu algum ponto no planeta que gostaria de visitar.

– Viu como é fácil se apaixonar por você? Eu me apaixonei facilmente e hoje amo mais do que qualquer outra coisa. Abriria mão de tudo por você, pela sua simplicidade e total desapego monetário.

– Mas você poderia ter qualquer uma mais experiente, mais rica, alta, menos vermelha. – Sinceramente, não conheço alguém que recusaria um jantar com Evan.

– Sim, e tive quem eu quis. Mas uma Pimenta que mexesse, bagunçasse e simplesmente colocasse minha vida de pernas para o ar, não.

–Evan, não tenho roupa suficiente para uma viagem dessas, poderia me levar em algumas lojas?

– Sim, levo.

– Esqueça, você quebrou meu cartão e não tenho salário. Sou uma desempregada. – Ironizo.

– Você é minha responsabilidade. Seu pai não tem mais nada a ver com seus gastos, eles me pertencem agora.

– Ótimo, vou morar de graça, gastar seu dinheiro e tenho que ficar à vontade com isso?

–Me deixa cuidar de você?

– Não queria ser um gasto ou um peso para você.

– Meu melhor gasto e, honestamente, adoro seu peso sobre mim. –Ele consegue me deixar sem jeito e mais vermelha ainda.

– Você é a melhor decisão da minha vida. – Declaro enquanto o abraço.

– E você é minha pimenta. – Isso faz meu coração feliz.

– Vou trocar de roupa, então poderemos ir?

– Sim, mas antes vou verificar um detalhe. –Ele avisa e saca novamente o celular. Liga para Gunter e pede para que providencie seguranças. Evan é realmente um exagerado. Beija minha mão enquanto comunica que o carro chegará em alguns minutos.

– Perfeito, mas como vou comprar roupas se não sei para onde estamos indo?

– Vamos para Madri. – Ele sorri o melhor sorriso, mas Madri me preocupa. – O que foi? –O sorriso morreu.

– Madri, sei o que acontece por lá.

– Não, não é nada disso, a Gutemberg tem sua sede em Madri. – Ele me puxa para junto dele.

– Não quero perder você para um bando de tarados e mulheres à venda. – Desabafo.

– Não tem como me perder, preciso de você para existir.

 


– Tudo pronto, Srta. Campbell? – Evan pergunta, rindo ao me ver entre malas e com roupas nas mãos.

Vejo-me perdida entre peças que não estavam na mala, mas acho que posso precisar delas. Mas Evan me apressa e partimos para o carro.

Entramos no luxuoso Bombardier e nada do alto padrão me chama a atenção.Por alguma razão desde que saímos de casa Evan se fechou em concha. Usa o celular e suas infinitas buscas e pesquisas como desculpa para evitar falar comigo ou até me olhar nos olhos. Estou preocupada. Posso ter certeza que ele me ama, mas no fundo ainda me sinto a virgem inexperiente lidando com um homem cheio de histórias para contar. Como competir com um passado desse?

Viajamos por várias horas e aterrissamos em Madri. Pouco foi dito, pouco aconteceu, mas nesse momento me sinto uma peça sobressalente. Amo esse homem com toda a força e honestidade desse mundo, mas nesse exato instante quero esganá-lo.

Uma Range Rover Evoque branca nos aguarda. O mesmo silêncio irritante que já nos visitara outras vezes está aqui, estacado, segurando uma placa de alerta máximo. Não sei como ou o que dizer, estou com medo de alimentar o silêncio e ele perdurar entre nós. Evan fica distante, seus olhos sem norte outra vez. Poderia ser essa terra. Madri poderia esconder alguns segredos mórbidos do passado dele. Estou tentando fazer uma análise fria de tudo que está acontecendo, mas não consigo chegar a nenhuma conclusão.

Entramos no carro e o percurso até o Ritz é longo, com o maldito silêncio pulando como uma criança no banco de trás. Incomoda-me essa falta do que dizer. O que dizer? Não sei, algo está incomodando Evan. Já o conheço bem, mas não desvendei nada do seu passado ainda.

– Gosta de comida mediterrânea, Srta. Campbell? – Sério mesmo que ele está quebrando o silêncio com esse papo gastronômico? Minha cara de descontentamento é nítida, e o sentimento de desabono é palpável.

– Nunca provei, Sr. Maccouant. – Estou séria e sentada ao seu lado, apreciando o trajeto até o hotel, não olho para ele enquanto respondo.

– Vick.

– Oi. – Não gosto do tom de como ele me chama pela abreviação do meu nome. Acabo de descobrir que isso não é bom.

– Quero que seja divertido para você. – Ele alcança minha mão e se aproxima de mim.

– Evan, vai ser divertido, mas não me esconda nada, por favor. – Triste e séria.

– Não gosto do seu olhar nesse momento, ele está me deixando em dúvida. Não gosto de dúvidas. – Ele leva a mão até os cabelos e os coloca para trás. Seus olhos se perdem de novo.

– Não fique em dúvida sobre mim, fique sobre você. – Ele entende o recado.

– Madri oferece tudo que você precisa, e o que não precisa também. – Seu olhar pela janela reforça minha dúvida.

Era o que precisava, mais um demônio gritando na minha garganta. Tenho que me controlar, mudar o foco e colocar algum assunto imediatamente.

– Faz tempo que você conhece o tal Gutemberg? – É o único assunto que chega em meus pensamentos.

– Sim, eu o conheci aqui. – Resposta curta.

– Quanto tempo? – Começa a inquisição.

– Seis anos, um pouco antes dele tomar posse da diretoria da empresa. – Evan está respondendo com cautela e isso começa a me irritar.

– Bom, espero que esse Gutemberg não faça parte desse maldito clube. – Bufo.

– Vick, onde quer chegar? – ele se exalta.

– No hotel, tomar um bom banho e descansar.

– Você sabe como me enfurecer.

– Você não sabe como esconder, está nítido nos seus olhos que há algo que eu deveria saber. Conte-me, estou vendo sua apreensão. – O demônio que estava gritando na minha garganta joga-se diante de nós, e agora está com os braços cruzados, batendo o pezinho.

– Posso te pedir um grande favor?

– Peça, Evan, mas posso não querer atender. – Rude.

– Vick, deixe-me quieto por alguns minutos. – Ele pede, preocupado e adoto o silêncio.

Achei que tivéssemos passado dessa fase de respostas em doses homeopáticas. O que ele está pensando? Que a escocesa ruiva sem milhas e recém-desvirginada, é uma garotinha tola que não percebe o que está acontecendo à sua volta? Não sei nada sobre ele, a não ser o que era viável saber. Maldito clube, propriedades, empresas e putaria. Minha cabeça está me torturando. Começo a criar ilusões sobre tudo que pode ter acontecido. As lágrimas escorrem, mas meu rosto está voltado para a janela. Não posso acreditar nas minhas fantasias, mas também não consigo não acreditar.

– Você está chorando? Não faça isso. – Pede, mas o que ele faz?

– Gostaria de ser mais confiável aos seus olhos. Respostas curtas, mistério... Como você quer passar o resto da sua vida comigo se não pode me contar nada?

– Contei muita coisa a você. – Ele tenta colocar sua mão sobre a minha.

– Você me contou o que deveria me contar naquele momento, mas não me contou que eu poderia encontrar algo diferente. Pois é isso que está acontecendo. Aconteceu alguma coisa aqui, neste lugar, e você faz segredo. O que me incomoda é saber que sabe tudo sobre mim, tudo mesmo, inclusive o que não era da sua conta. – Estou alterada e o carro chega ao hotel.


Capítulo 5


Vick

 

– Vick!

– Não coloque a mão em mim. Por favor, me deixe. – Abro a porta e desço do carro.

– Não gostaria realmente que soubesse de muita coisa do que fiz. Não existem muitos fatos dos quais eu possa me orgulhar. Por favor, apenas paciência, é isso que te peço. – Ele salta do carro e estica a mão, tentando segurar a minha, mas não deixo.

– Tudo bem, Evan. Quando achar que devo saber, você me conta. Caso ache que tenho maturidade para entender. – Digo em tom seco.

– Não faça isso, por favor, preciso das suas mãos.

– Você as tem, mas a pergunta que tenho a fazer é: será que realmente tenho você?

– Claro que tem, nada me importa. – Ele recolhe a mão e um Everest está entre nós. Gunter chega avisando que a bagagem já está na recepção, ele se despede e volta para o hotel, onde também ficará hospedado.

– Vamos, quero tomar um banho. – Grito por cima da montanha.

– Sim, Srta. Campbell, como desejar. – Ele retribui da mesma forma.

Eu realmente não quero brigar com ele. Estou triste porque me esconde algo que o incomoda. Ele não gosta de dividir problemas, e isso me frustra, faz com que me sinta a garotinha sem juízo que deve apenas compartilhar bons momentos.

A recepcionista ouriçada por Evan se derrete, e estou realmente precisando de um alvo e uma escopeta. Evan confirma nossos registros em nome de Senhor e Sra. Maccouant e manda as esperanças da safada para fora da atmosfera. Nem preciso olhar feio para ela.

Ela entrega os cartões-chaves do quarto e Evan me abraça por cima dos ombros. A moça de cabelo preto e vestido vinho torce o nariz, mas é o que tem para hoje. E não posso me deixar levar por esse gesto limitador de Evan, ainda estou furiosa.

– Tudo bem, acho que ela entendeu quem pertence a quem. – Retiro as mãos dele do meu ombro.

– Onde pretende chegar com isso? – Ele pergunta e coloca o par de cartões no bolso de trás da calça.

– No quarto!

– Não faça isso, está me provocando.

– Não, a verdade é que estou furiosa com você e esses mistérios. – Cruzo os braços e encaro o canto do elevador.

– Furiosa?

– Sim. – Não tenho tempo de respirar, ele me agarra pela cintura com um de seus braços. Tento me livrar, estou muito brava, mas não adianta, a outra mão de Evan me invade e gosto muito disso. Sua mão quente embaixo da minha blusa, e em seguida sob meu sutiã. Sua boca na minha. Estou com raiva e completamente louca para ser dele novamente.

– Você é deliciosamente teimosa, não resisti enquanto falava o quanto estava furiosa. – Ele fala com a boca encostada na minha e me derreto em suas mãos.

– Você joga sujo. – Consigo falar poucas palavras entre seus lábios.

– Gosto de jogar sujo, você é meu melhor pecado. – A porta do elevador abre e ele continua entre minhas pernas, dentro da minha boca e com a mão por baixo de minha roupa.

– Acho que deveríamos sair do elevador. – Falo enquanto o beijo.

– Termino depois. – Ele fala e me coloca no chão com as pernas bambas.

– Ainda estou brava. – Cruzo os braços e sigo-o até o quarto.

– Muito brava?

– Estou falando sério, honestamente, estou furiosa. – Ele abre a porta do quarto majestoso. Nossas malas já estão ali. Como pode existir um lugar desses? Praticamente do tamanho da minha casa na Escócia. Algo da realeza. Meus olhos percorrem os detalhes, as cadeiras em tom de mel e almofadas bege e azul, isso porque estamos na antessala. Estonteante.

– O quanto você está brava? – Evan simplesmente rasga minha regata.

– O que é isso? Eu gostava dela!

– Gosto de você sem ela! – Suas mãos quentes dominam minhas costas, soltando o fecho do meu sutiã e descendo até o cós, desabotoando e descendo o zíper. Sua boca no meu corpo, na minha boca, suas mãos em mim sem nenhum limite. Estou furiosa e excitada. Ele sabe como me acender. Mas de repente, do mesmo jeito que começou, Evan me liberta e sai em direção ao frigobar.

– Não vai terminar de tirar minha roupa? – Pergunto ingenuamente.

– Não, na realidade paramos por aqui!

– O quê? Você está louco? Olha como me deixou! Evan? Não vire as costas pra mim, estou falando com você! – Grito como uma maluca, nua da cintura pra cima.

– Pode falar, estou com sede, vou beber água e estou te ouvindo.

– Evan! Olhe para mim! – Estou gritando e ele abre calmamente o frigobar, pegando uma garrafa d’água Pelegrino e bebendo como se o mundo não existisse. Ele é muito bom nisso, mas estou começando a entrar em estado de ira e minhas mãos se fecham.

– Você não entendeu ainda? – Ele pergunta e leva novamente a garrafa até a boca.

– O que diabos tenho que entender? Você abusa da minha total falta de controle quando estou com você. Não pode fazer isso comigo. Eu te amo, mas nesse momento não gosto de você.

– Você precisa entender que sua ira é minha heroína, minha droga. – Ele larga a garrafa vazia e caminha em minha direção.

– Você não pode fazer isso comigo!

– Posso sim, posso fazer isso também. – Ele segura minhas mãos e abre, beijando as palmas e vagarosamente soltando-as, colocando suas mãos nos cós de minha calça e descendo sutilmente. Instantes depois estou quase nua diante dele, e em seguida ele me abraça, sentindo que estou com raiva dele, da atitude egoísta dele. E também sabe que eu o desejo muito naquele instante.

– Não, Evan, não é justo, não precisa fazer isso para eu não brigar com você.

– Quem foi que disse que isso é para você não brigar? Quero é vê-la ainda mais brava. – O sussurro em meu ouvido me faz desejá-lo e odiá-lo.

– Evan, estou com muita vontade de bater em você.

– Por favor, não faça isso, não gosto de dor e prazer juntos. Não associo isso muito bem, mas agora que entendeu, com licença. – E o maldito beija minha boca, desliza os dedos pelos meus seios e sai de perto de mim, pegando outra garrafa d’água e bebendo. Eu o matarei.

– Mas sempre fala da vontade de me bater, sempre me dá tapas na bunda. Vou tomar um banho, e caso queira preservar sua vida, não se aproxime de mim. – Eu me viro e saio à procura do banheiro. Tantas portas... Um armário colonial enorme e embutido, uma cama que parece que foi roubada de algum rei... O lugar é lindo, mas não estou muito atenta, estou com raiva. Com raiva e excitada.

– Ainda minha futura Sra. Maccouant? – Evan grita da antessala. Não preciso responder.

– Não! – Respondo assim que entro no banheiro gigante de mármore. Caberia um time de futebol e sobraria espaço para a partida. Estou encantada, e por instantes esqueço que quero matar o Evan.

– O que foi que você respondeu? – Evan pergunta me puxando pelo braço e descendo minha calcinha.

– Isso mesmo que você ouviu!

Ele morde meu lábio inferior e invade minha boca. Em seguida me vira apoiando minhas mãos na pia de mármore e puxa meus quadris, acariciando meu bumbum. Vejo Evan atrás de mim pelo espelho, seus olhos, um verde reluzente pulsando em fúria e desejo, então afasta minhas pernas, abre seu jeans e me invade. Eu tremo com a sensação dele dentro de mim, e a visão de seu desejo através do espelho me extasia.

– Isso, Ruiva. Olhe! Veja como é linda quando está excitada. – Evan me preenche enquanto sussurra palavras em meu ouvido. Eu vejo meu rosto corado, meus lábios inchados, Evan furioso e ardendo de desejo em minhas costas.

Esse maldito tem senhas. Estou entregue a ele, ali mesmo sobre a pia do requintado banheiro. Entre gemidos, sussurros, fúria e paixão, alcançamos o ápice.

– Você não pode dizer simplesmente que não é minha.

– Posso.

– Teimosa!

– Esqueceu o deliciosamente, Sr. Maccouant.

– Eu te amo.

– Eu também amo você, mas não faça mais isso!

– Isso o quê?

– Não me trate como se merecesse apenas os bons momentos. Quero todos os seus momentos, inclusive os que te deixam com os olhos perdidos.

– Você pode não entender.

– Está me subestimando?

– Não, estou sendo realista. – Ele responde, levantando-se do tapete onde fomos parar e abrindo a água da banheira.

– Realista? De onde venho o nome disso é “omitir”!

– Tome um banho, você precisa descansar e eu também. – Ele foge do assunto novamente e tomo a decisão de não insistir mais, pelo menos não nesse momento.

Levanto-me, coloco alguns sais de banho e aproveito. Não quero pensar em nada, desejo apenas aproveitar essa viagem.

Saio da banheira suntuosa, vou até o chuveiro e retiro toda a espuma, terminando por me enrolar em uma das toalhas gigantes, indo para o quarto. Evan está deitado na cama apenas de boxer e com seus olhos perdidos. Ao seu lado o maldito celular, mas agora está ligado.

– Você não vai tomar banho? – Pergunto com péssimas intenções. Quero ver o celular dele.

– Sim. – Apenas isso como resposta. Ele se levanta, anda até minha direção e me beija. – Se te perder, não valeria a pena continuar. – Ele vai até a cama, alcança o celular e caminha para o banheiro.

– Não confia em mim, Evan?

– Confio.

– Por que precisa do celular enquanto toma banho?

– Estou esperando uma resposta.

– Posso saber de quem?

– Não.

– Como assim, “não”?

– Não podendo.

Eu vasculho minha mala e retiro uma camisola, a preferida dele, branca com renda na altura do colo. Enxugo-me, passo meu hidratante à base de baunilha, escovo minha juba úmida e sento na poltrona de frente à imensa janela parcialmente coberta com três camadas de cortina. Não posso pensar no que está acontecendo. Ele está me escondendo algo, e agora eu serei a bisbilhoteira.

– Vick?

– Sim.

– Pensei que estivesse dormindo aí, sentada.

– Não, prefiro a cama, ela é mais confortável. – Respondo em tom distante.

– Algum problema?

– Nenhum, Evan, e com você? – falo ainda sem olhar para ele.

Sinto que ele se aproxima. Seus passos, descalços, são cautelosos.

– Gosto do cheiro. – Ele diz mais próximo mas ainda sem me tocar.

– Eu também, por isso estou usando. – Continuo olhando a paisagem.

– Não me trate assim!

Viro-me na cadeira finalmente encarando-o. Ele está de pé, vestido apenas de uma calça de moletom. Seu lindo físico me excita, mas preciso manter minha posição de zangada porque na verdade eu estou!

– Evan, sinceramente, não sei por que me esconde algumas coisas. Sou desconfiada por natureza e agora minha cabeça está criando histórias terríveis que estão esmagando minha pouca sanidade.

– Que tipo de história?

– Acho que sou mais uma.

– Única.

– Tem certeza?

– A minha única certeza.

– Por que não posso saber sobre as mensagens?

– Elas se referem a você.

– E, sendo sobre mim, não posso saber?

– Não.

– Mas, Evan...

– Vick. – Ele me interrompe se ajoelhando próximo à minha cadeira, mas ainda não me toca. – Não vou mostrar ou falar. Meu celular está com senha e você terá que confiar em mim. Na hora certa, amor.

– Eu confio, espero apenas que não me venda para o comércio de prostituição internacional. – É fato que não conseguiria ser fria e alheia. Eu o amo, e à essa altura, não teria muito a perder. Eu cederia a ele novamente.

– Vem comigo.

– Onde?

– Apenas venha. – Eu o sigo segurando sua mão indo à pequena varanda onde está uma bela mesa, com um café da noite servido. Como eu não tinha notado aquilo antes?

– Você me surpreende, sempre.

– E você é meu amor. Ainda minha?

– Eu não tenho escolha, Evan. Se não sou sua, não seria mais nada.

– Coma, amanhã teremos um longo dia. Quero te apresentar alguns lugares.

– Ficaria com você aqui nesse quarto por muito tempo. – Digo mordendo um brioche.

– Temos todo o tempo do mundo. Estou feliz que esteja aqui. – Sinto que ele está feliz, mas seus olhos perdidos me entristecem.

– Bom saber. – Mordo de novo o brioche e tomo um gole do suco de laranja.

– Gosto de ver você comendo, é como uma fantasia. Tenho tudo aí dentro de você.

– Poderia me explicar, Sr. Maccouant?

– Sim, faço questão. Quando quero sorrir, recordo de você na escada. – Evan se levanta. – Quando quero dormir, te abraço. – Evan me levanta também. – Quando penso em você se escondendo pela casa, sinto a criança que me fez tanta falta quando eu era uma. – Evan enlaça minha cintura. – Quando me sinto sozinho, olho para você e percebo o tamanho da minha sorte. – Evan desce a mão pelos meus cabelos. – Gosto de estar em você. – Evan me beija intensamente.

– Precisava ouvir isso. – Confesso.

– Posso garantir que, com você, quero sim ter atitudes de me orgulhar. Por você, eu faria qualquer coisa.

Habilmente ele me despe, e com a mesma agilidade, também fica nu. Seu polegar massageando meu lábio inferior enquanto beija meu rosto me deixa ainda mais à sua disposição. Passo a passo ele me conduz até a cama, e sem nenhuma preliminar, ele está em mim, fazemos amor intenso, demorado. Sua boca em minha boca, a língua macia que desencadeia uma série de outras delícias e gemidos. Ele é meu professor, meu protetor, minha fonte de energia e motivo para gastar tudo que há em mim.

 


Observo o celular em cima da cama. Tentador. É apenas pegar e arriscar alguns números que possivelmente seriam sua senha, mas não quero estragar nada. Desvio minha atenção até as malas e desfaço-as, retirando tudo de dentro e guardando, assim como no nosso guarda-roupa da casa maior. Tomo cuidado com os vestidos Gucci, Chanel e Dior, eles merecem respeito. Separo a roupa que usarei e a visto: um vestido novo cor de laranja, os cachos presos com um rabo de cavalo alto e um par de sandálias, tudo cheirando a novo. Tudo recém comprado pelo meu futuro marido que acabou de desligar o chuveiro.

– Amo você assim – Ele diz, secando os cabelos com uma toalha e outra em sua cintura perfeita.

– Ah! O vestido. – Respondo com as mãos na cintura.

– Não.

– Não é o vestido? Você gosta dele.

– Também gosto, mas amo o jeito como me olha. – Ele consegue me desencaixar.

– Não sei olhar para você de outra forma, eu amo você.

– Eu amo mais! Fome?

– Sim, mas agora é de comida. – Deixo um sorriso safado escapar por conta da resposta.

– Vou me vestir e sairemos. Provavelmente Gunter já voltou de sua caminhada.

– Gosto do Gunter. – Declaro.

– Gosta?

– Sim, ele cuida de você. – Sorrio.

– Também gosto. Bom, exceto quando jogamos. – Um franzido engraçado na testa de Evan me chama a atenção assim que observo a jogatina com Gunter.

– Algum problema com os jogos e Gunter?

– Sim.

– Qual?

– Não consigo ganhar dele. – Evan veste calça jeans e uma camiseta caqui. Nos pés, o habitual sapatênis.

– Explicado, você não gosta de perder. Nunca.

– Não mesmo. – Ele responde enquanto se veste.

– Mas perder faz parte.

– Não comigo, minha ruiva, não gosto de perder nada. – Ele alcança sua carteira, e assim que passa seu perfume inebriante, saímos do quarto.

– Você é engraçado, mesmo. – Sorrio, balançando a cabeça.

– Você já me falou isso antes. – Ele me olha com desconcerto.

– Sim, acho você engraçado. Às vezes, não sempre. – Ele ainda está me olhando.

– Posso saber quando me acha engraçado?

– Sim, claro que pode. Vejo graça quando faz manha ou quando não aceita perder. É bom ter uma criança por perto. – E o sorriso mais fantástico do mundo se abre diante dos meus olhos. Tenho esse poder sobre ele.

– Vamos?

– Sim! – Estou radiante. – Temos alguns gostos parecidos. – Apenas alguns, pensei.

– Música e Gunter? – Ele brinca.

– Sim, não gosto de algumas comidas que você gosta. – Abro o jogo, com uma determinada experiência.

– Qual?

– Lagosta! Parece que estou matando alguém da minha espécie. – Torço os lábios.

– Mas você disse que tinha gostado. – Ele está rindo.

– Sim, gostei muito do sabor, mas vê-la ser mutilada realmente não foi bom. – Evan gargalha. As pessoas que estão na recepção ouvem assim que a porta do elevador abre.

– Evan, pare de rir. – Eu me escondo atrás dele enquanto caminhamos para fora do hotel. Gunter nos aguarda, estou envergonhada e Evan não para de rir. Gunter está estranhando enquanto abre a porta do carro para nós. Ele não é assim.

– Bom dia, Srta. Campbell, Senhor.

– Bom dia, Gunter. Podemos ir agora. – Ele começa a se conter ao entrar no carro.

– Você riu de mim? – Pergunto, ondulando a boca.

– Não de você, mas de como falou. Você é linda mesmo.

– Senhor, devo seguir o roteiro?

– Sim, Gunter, exatamente como planejamos.

Evan ainda ria sobre a minha versão da lagosta quando chegamos ao La Fornada, uma confeitaria que parece pertencer à família Waltons. Num ímpeto de experimentar coisas novas, acho que exagero nas porções, mas ainda assim acabo comendo tudo.

– Não sabia que estava com tanta fome! – Evan olha os pratos quase vazios.

– Eu também não! – Estranhei minha gula, deve ser o tipo de vida que tive nas últimas noites.

Gunter nos deixou em uma das travessas de pedras arredondadas e foi em uma delas que encontramos uma loja com essas máquinas fotográficas instantâneas dentro de uma cabine. Estou profundamente arrependida sobre as fotos. E claro, Evan ficou com todas elas com medo que eu as destruísse.

Fui surpreendida com uma Câmera Sony semi-profissional e pude registrar o Museu Del Prado. Fiquei maravilhada com as obras expostas e agora quase todas as obras estão comigo em imagens bem definidas, assim como nosso almoço em um restaurante de praça. Nunca havia comido paela, ainda estou em dúvida se gostei ou não. Um prato indeciso, confesso.

– Vamos a um lugar que talvez te agrade. – Evan diz em meu ouvido enquanto caminhamos.

– Posso saber para onde estamos indo? – Pergunto fotografando o perfil perfeito de Evan, tenho vontade de devorá-lo.

– Não. – Ele sorri e sela a minha boca.

– Não sei por que pergunto. – Dou de ombros e continuo clicando o lugar cheio de fontes e construções perfeitas.

Caminhamos até o Jardim Botânico Real e estou deslumbrada. Amo jardins e esse entra para o top da minha lista, descarrego a bateria da máquina entre as flores, bancos e arquitetura perfeita de cada espaço do jardim.

Vejo tantas flores de espécies diferentes, muitas delas que nunca ouvi falar. Me deslumbro com uma particularmente linda, vermelha. Um vermelho vivo, sangue e... De repente me peguei em um pensamento: não menstruei esse mês ainda...

– Está tudo bem, Victoria? – Evan me surpreende enquanto estava com meus olhos parados viajando por um mundo paralelo.

– Sim, apenas me distraí. – Céus! E agora como vou resolver esse problema?

– Tem certeza? Você ficou pálida de repente. Está cansada? Quer descansar?

– Sim, Evan... Quero dizer, não! Estou ótima. Apenas admirando o lugar. – Santo Deus! Pânico, confusão e gritaria dentro da minha cabeça, e só consigo esboçar um ‘sim, não’.

– Tudo bem, mas não sinto convicção em suas palavras. – Ele sabe que estou mentindo.

– Acho que minha menstruação...

– Está atrasada? – Ele me interrompe rudemente e percebo que preciso consertar esse problema com remédio, urgente. Sua empolgação sobre um filho foi mesmo pelo calor do momento.

– Não, Evan, fique tranquilo, acho apenas que adiantou um pouquinho. – Meus olhos ficam tristes. Não pensava que fosse ficar desapontada com uma reação contra uma possibilidade, mas fico.

– Precisa ir embora? – Ele pergunta aliviado, e isso dói de novo.

– Preciso apenas de um banheiro. – Ele pega minha mão e me leva. Estou com uma faca cravada em meu peito. Está escrito “desapontamento” em sua lâmina.

Demoro alguns minutos dentro do banheiro olhando para o espelho, refazendo o rabo de cavalo. Encaro a ruiva bravamente e tento forçar um sorriso, mesmo que enferrujado, no rosto de pintinhas alaranjadas.

– Podemos ir, alarme falso. – Falso é meu sorriso enquanto falo isso para ele assim que abro a porta do banheiro.

– Ótimo, vamos. – Ótimo? Ele disse “ótimo”? Respire fundo, penso comigo, aproveite o passeio e tome cinco cartelas do maldito remédio. Agora não é hora de pequenos pezinhos pela casa. Meu demônio realista acha um megafone e está me alertando.

– Ok. – Dou um sorriso e me escondo atrás da câmera fotográfica sem bateria.

O lugar é exuberante e consegue tirar a cartela de remédios da minha cabeça. Mais de cinco mil espécies entre plantas, árvores e rosas coloridas.

– Gosto de jardim, é minha parte preferida de uma casa. – Falo, fingindo registrar uma rosa amarela.

– Eu sei. Temos um encontro essa noite. – Opa, sinto minha preocupação abrir espaço para a notícia. Havia me esquecido da reserva feita no Goya.

– O que devo vestir?

– Nada, de preferência. – Sorriso perfeitamente malicioso.

– Mas me deixaria sair sem nenhuma peça de roupa?

– Nunca! Apenas uma ideia me ocorreu, mas já passou.

– Gosto de como fala, Sr. Maccouant.

– Me excita quando me chama assim. – Ele junta meu corpo ao seu e sinto-o, sinto o que ele está dizendo.

– Fique à vontade, Sr. Maccouant, mas acredito que agora não seria um bom momento. – Há pessoas à nossa volta.

– Minha vontade é voltar para o quarto do Ritz e colocar em prática o que estou pensando. – Ele encosta o nariz em meu pescoço, desmontando-me em fagulhas.

– Esse é o final do roteiro, Sr. Maccouant? – Pergunto, olhando nos seus olhos.

– Sim. Não era até você me olhar, mas agora não estou em condições de pensar em roteiros ou passeios. – Ele pressiona meu corpo contra o dele e meus demônios aplaudem.

– Estou à sua disposição, Evan. – Falo mordendo o lábio em sinal de pressa, ao que eu também quero.

– Terrível!

– Não gosta?

– Não resisto. Vejo você com roupa, mas não é assim que te enxergo agora.

– Não gostaria de estar vestida.

– Vamos. – Ele me puxa para junto dele enquanto caminha.

Evan saca o celular e liga para Gunter, avisa onde estamos e pede que ele nos pegue. Evan desliga e senta em um banco, colocando-me em seu colo. Isso sim é tortura, roupas nos separando. Eu o quero mais do que qualquer outra coisa. Sei que tenho um assunto muito importante para resolver, mas algumas horas não vão fazer diferença.

– Você não pode fazer isso comigo, Vick. – Ele me adverte.

– Não fiz nada. – Sorrio maliciosamente. Aprendi com ele. – Mas posso fazer...

– Cadê o Gunter? – Ele fala ansioso olhando para os lados e passando a mão no cabelo.

– Calma, temos todo o tempo do mundo. – Falo e beijo sua boca.

– Seria pouco. Arrancaria sua roupa aqui.

– Poderia ser preso!

– Meu problema não é a cadeia.

– Não?

– Claro que não, pago uma fortuna para advogados. Meu problema está nesses homens vendo o que me pertence. Aleluia! Gunter chegou. – Ele se levanta e me leva pela mão. – Você me levou para o mau caminho!

– O que disse, Evan? Não entendi. – Olho espantada para ele enquanto me sento no banco de trás da Range Rover.

– Isso mesmo que você ouviu!

– Eu te levei para o mau caminho? – Falo, com dentes cerrados.

– Sim, levou! E agora não saberia voltar sem você.

– Eu era virgem, lembra? – Estou indignada.

– Tão virgem quanto eu!

– Você só pode estar de brincadeira comigo. – Estou tentando me controlar para não falar alto.

Ele para e só então ele se dá conta de que estou chateada. Ele se aproxima e pega meu rosto com as duas mãos, falando a poucos centímetros de mim, pausadamente.

– Sim, era virgem. Não nos mesmos aspectos, é claro, mas foi com você que fiz amor pela primeira vez. Foi sua boca que respeitei pela primeira vez. Foi com você que dormi pela primeira vez... Você é a única que me desperta proteção, a primeira pessoa que dei um banho foi você... Com você não é sexo, é fusão; meus demônios e os seus, meu amor e o seu.

Maldito. Ele me parte ao meio.

– Fico feliz em saber que faço parte de algumas de suas primeiras vezes. – Sussurro.

Ficamos nos olhando de forma tão intensa que nem prestamos atenção ao nosso redor, e quando nos damos conta, já estamos à porta do hotel.

– Senhor? – Gunter abre a porta do carro assim que chegamos ao hotel.

– Obrigado, Gunter. – Evan me ajuda a sair do carro e caminha segurando firme a minha mão.

– Senhor. Srta. Campbell. – Gunter se despede e sai com o carro.

– Agora você é minha!

– Só agora?

– Você é realmente terrível. – Ele sorri e estamos de frente para o elevador.

– Sim, sou terrível, costumo levar homens bonitos para um péssimo caminho, e nesse exato momento, gostaria que você estivesse em mim. – Falo olhando em seus olhos. O azul do meu olhar enfeitiça o tom verde dos seus. A porta do elevador se abre e ele não tira os olhos de mim. A verdade é que encontrei o amor onde não havia esperanças.

– Gosta de provocar?

– Gosto. – Respondo encarando o demônio externo, dono do meu coração. Apenas sinto o tranco dele encostando-me na parede do elevador, encaixando entre minhas pernas e invadindo meu corpo com suas mãos. Sua boca carnuda mordisca meus lóbulos, e em seguida encontra minha língua que freneticamente encontra a dele. A pressão do seu corpo me faz sentir o quanto me quer, mas eu o quero mais. A porta do elevador se abre, e alguns passos depois estamos em frente ao nosso quarto. Aqui mesmo, antes de abrir a porta, as alças do meu vestido estão caídas sobre os meus ombros. Há apenas nós dois no corredor. Evan abre a porta, puxa-me para dentro e meu vestido escorrega pelo meu corpo.

– Linda. – Ele diz, e estou deitada sobre o divã de veludo azul na antessala. Alucinadamente, sua boca vai em meus seios, minha mão em suas costas nuas. Desabotoo sua calça, e em instantes ele está livre, assim como eu. Evan me posiciona sobre o tapete alto de lã e se encaixa divinamente em mim. Mãos, pele, suor e prazer. Em um passe de mágica estou em cima dele, sentada sobre aquele homem lindo e deitado, contrastando com o tom claro do tapete felpudo. – Maravilhosa você é, meu amor!

– Sou sua, e essa é a melhor parte. – Evan sobe suas mãos, percorrendo meus seios e alcançando minha nuca, enlaça meu cabelo em sua mão e pressiona ainda mais contra mim. Sou dele, estou entregue. Facilmente consigo meu ponto alto, e no mesmo movimento, Evan se coloca sobre mim. Rapidamente estou deitada de bruços, sentindo o corpo quente e insaciável de Evan atrás de mim, ele deita sobre meu corpo e posso sentir o quanto estou sendo preenchida, não teria como me cansar disso.

– Você é muito linda! Gostosa... Me provoca o tempo todo. – Ele mantém o mesmo movimento e novamente me entrego, tão fácil quanto a primeira vez.

Em um novo movimento rápido, ele se põe de frente para mim, sobre mim.

Com a ponta dos dedos acaricio o rosto perfeito dele. Não me canso de olhá-lo, de pensar que tudo isso, que esse homem lindo, é todo meu.

- Eu te amo, Evan! Muito!

– Também amo você.

E em uníssono chegamos ao clímax. Ficamos abraçados sentindo nossos corações irem de um ritmo frenético à calmaria. Sinto quando seu corpo relaxa sobre mim.

– Realmente estava com pressa, não esperou nem chegarmos na cama.

– A verdade é quero você em todos os lugares desse quarto de hotel, mas hoje, precisamente, precisei te manter fora, porque em cima da cama tem uma surpresa para você. – Quero levantar, mas definitivamente não tem como tirar aquele homem de cima de mim; não que seja um problema, mas minha curiosidade está no limite.

– Calma aí, mocinha, vou fechar seus olhos.

– Por que, Evan? São só alguns passos.

– Porque eu quero, não abra os olhos. – Ele me pega em seu colo e sinto seus passos lentos, uma tortura para esse espécime curioso chamado Victoria Campbell.

– Vou te colocar no chão e quero que você mantenha seus olhos fechados, tudo bem?

– Sim, mas gosto do cheiro, gosto muito. Lembra a minha casa. – Digo de pé, nua, sorrindo.

– Seu sorriso é lindo e sou o filho da mãe mais sortudo do planeta. – Ele sussurra de frente pra mim, inclinando-se até meu pescoço e vagarosamente se afastando.

– Posso abrir os olhos?

– Ainda não! – Sinto meu robe sobre meus ombros e o visto. – Precisei fazer isso.

– Ok, agora posso abrir?

– Pode!

Como poderia explicar? O homem de mãos terrivelmente macias me encanta. Meus olhos se enchem de lágrimas, e ele registra com a câmera de seu celular cada passo meu para perto de tudo que havia feito. O quarto divinamente decorado com Heather, a flor da Escócia. Grandes vasos nos cantos do quarto. Em cima da cama, uma fina caixa branca, seguida de uma caixa menor de couro branco e um pequeno laço vermelho.

– Por que você faz isso?

– Pelo seu sorriso!

– Estando com você ele é constante.

– Não me canso dele. Por favor, abra a caixa menor primeiro. – Ando em direção à cama e me ajoelho entre as almofadas, olhando para ele. Ele vem em minha direção e senta-se à minha frente.

Desfaço o laço e abro a caixa menor; uma aliança de ouro, cravejada de diamantes. Dentro, gravado, a melhor pergunta: Minha?

– Evan, tenho a sua aliança, ela está aqui no meu dedo. – Mostro o diamante.

– Sei, mas comprei essa. Com licença. – Ele coloca a aliança nova junto com a outra, no meu dedo. – Você me concederia a maior de todas as alegrias? Permitiria que cuidasse de você todos os dias enquanto eu viver? Aceitaria se casar comigo?

– E o que mais poderia querer nessa vida senão ficar com você? Evan, quando meu coração parar, quero ter a possibilidade de ter as suas mãos sobre a minha. Sim, eu aceito! Amo você, Sr. Evan Louis Maccouant.

– Não mais do que eu te amo, futura Sra. Victoria Campbell Maccouant. Agora, por favor, antes de abrir a próxima caixa, espero que entenda minha real intenção. Sei bem que o universo feminino se encanta com detalhes matrimoniais, mas há alguns detalhes que faço muita questão.

– Se você está feliz com esses detalhes arranjados pelas suas mãos, não poderia ficar diferente. Estou feliz também.

– Então abra. – Ele pede e alcança o iPod, colocando a música “Never tear us apart”, do “INXS”.

Meus olhos estão vendo, mas não posso acreditar. É um convite de casamento, do meu casamento, uma caixa fina, mais ou menos uns dois dedos de altura. A tampa abre como a capa de um livro e uma pequena película transparente segura as flores escocesas por baixo das letras do convite.

A data está marcada para pouco mais de cinquenta dias, mas não é a data que me chama a atenção. O que me espanta é o lugar da cerimônia religiosa.

Como ele conseguiu? Sei o quanto as noivas têm que esperar por esse lugar. Em geral, mais de um ano de espera.

– Amei cada detalhe do convite. A caixa branca, as flores por baixo das letras, a data. – Olho no fundo dos seus olhos. Ele é tudo para mim.

– Tem certeza? – Ele sorri.

– Tenho, não mudaria nada, nenhum detalhe!

– Isso me basta. – Ele acaricia meus cabelos com o nariz e para de filmar, jogando o celular sobre a cama.

– Posso perguntar?

– Sim, minha noiva, minha pimenta.

– Como? – Balanço a caixa e movimento as flores por baixo da película.

– Como o quê? O convite?

– Não, o lugar! – Preciso saber como ele conseguiu.

– Minha mãe sempre soube da minha fascinação por esta igreja, e alguém estava devendo-lhe um pequeno favor, mas ela não cobrou. Ela apenas repassou meu desejo e ele foi atendido. – Ele beija minha mão.

– Fico feliz, gosto de ver você sorrir. – Falo enquanto coloco o convite de lado e envolvo-o entre minhas pernas e braços.

– Terrível!

– Vai se casar com a terrível?

– Vou, e sou o homem mais feliz deste mundo.


Sr. e Sra. Campbell

&

Sr. e Sra. Maccouant


Aguardam sua presença para o enlace matrimonial de seus filhos;


Victoria Campbell

&

Evan Louis Maccouant


Será realizado dia vinte e oito de Novembro

Às vinte horas


St. Patricks Cathedral

460 Madison Avenue, New York, NY 10022,

Estados Unidos (212) 753 – 2261

V&E

 


Depois de horas sendo cuidada e paparicada no caríssimo salão de beleza do Ritz, caminho em direção ao Goya e consulto o relógio, marca oito e dez, pouco atraso. O lugar está movimentado, e na entrada do restaurante, algumas pessoas aguardam.

Cumprimento o maitre d’ que fica atrás de um pequeno balcão de madeira. Ele pergunta se tenho reserva, confirmo fornecendo o sobrenome de Evan, ele diz que sou aguardada e que Evan disse me esperar no bar. Ele abre a porta do restaurante.

Esplêndido, a cor creme e salmão altamente atraente das paredes, as mesas bem decoradas, anjos e grandes janelas arredondadas. O lugar está com movimento e a maior parte das mesas está ocupada. Percebo os olhos se esticarem para mim. Acho que exagerei. Tento encontrar Evan, mas não consigo. Estou com vergonha e rodando em meu eixo com um monte de gente me encarando.

– Sozinha? – Um homem se aproxima e pergunta.

– Acho que isso responde sua pergunta – Levanto a mão esquerda para que o estranho possa ver os dois anéis enormes que carrego no dedo.

– Mas não vejo ninguém com você. – Que diabos! Onde está o Evan?

– Ele está chegando. – Encaro-o com desafio. Conheço meu noivo e sei que não vai gostar de me ver próxima a esse homem.

– Mas nesse momento você está sozinha, o que acha de jantar comigo? – Santo Deus, Evan, cadê você? Meus olhos o buscam.

– Não, ela não está sozinha. – O braço possessivo de Evan envolve minha cintura e seus olhos fuzilam o rapaz gentil que acabara de se aproximar. – Saia daqui. – Evan rosna para o homem insistente.

– Oi. – Digo encarando os olhos de Evan, lindamente vestido com uma calça em tecido escuro, camisa branca e um blazer divinamente acompanhando seu corpo bem torneado.

– Oi, você conseguiu ficar ainda mais linda. – O melhor sorriso, e em seguida beija as costas da minha mão.

– Para você. – Digo enquanto ele me conduz para o lado direito do restaurante.

– Então devo levá-la para o quarto? Assim não teria que matar quase todos que estão aqui. – Ele diz segurando firme em minha cintura.

– Não precisa matar ninguém, eu sou sua. – Concluo a frase e estamos diante de nossa mesa. Uma mesa oval, de frente a uma namoradeira em tom branco e creme. Ele pede que eu me sente, logo se acomoda ao meu lado. Estamos de frente para todo o restaurante e a mesa nos cobre por completo da cintura para baixo.

– Obrigada.

– Eu que agradeço. – Ele diz beijando minha mão.

– Não fiz nada!

– Fez sim. Você me fez imaginar minha mão deslizando esse zíper.

– Às suas ordens, Evan. – Sorrio maliciosamente.

– O que vou fazer com você, Victoria?

Recolho minha mão e coloco a mão dele sobre a fenda do vestido. Discretamente relaxo minha perna e descruzo, ele entende o recado, tento a provocação e o olhar dele encontra o meu.

– Eu poderia arrancar sua calcinha aqui mesmo. – Ele sussurra em meu ouvido.

– Não faria isso! – Eu o desafio. Ele suspira, então estica a mão discretamente para dentro da fenda e alcança o lugar que a calcinha deveria estar. – Por enquanto você pode fazer o pedido, estou com fome. –Provoco. Estou me divertindo. Ele desliza a mão pelo meu braço e aperta minha mão. As mãos deliciosamente macias de Evan.

O maitre magro e alto, parecendo um desenho ao estilo Tim Burton, interrompe, hora de fazer o pedido.

– Por favor, não peça lagosta. – Falo baixinho no seu ouvido e ele solta um sorriso. Evan pede uma salada ao molho de azeite e iogurte, macarrão mediterrâneo e filé de peixe ao molho escabeche.

– Muita comida, Evan! – Exagero.

– Preciso de energia para o que quero fazer. – Ele mantém os olhos em mim.

– E o que pretende fazer?

– Não vou contar, mas posso garantir que não vai demorar muito. – Olhos maliciosos em mim.

– Em que você me transformou, Evan?

– Não transformei você!

– Claro que sim. Eu era uma garota virgem que queria fazer arquitetura, e agora só consigo pensar em você dentro de mim. – Falo, olhando em seus olhos.

– Fico feliz em ouvir isso. Todas as vezes, tento acordar antes de você para velar seu sono, te admirar. Gosto de saber que aprecia fazer amor comigo, assim como amo estar em você. – Ele me desconcerta e eu quero ir embora.

Então beijo seu rosto. Perfume inebriante de Evan.

O garçom traz o jantar. Muita comida, e realmente de ótimo gosto. De sobremesa pedi um bolo de laranja com creme suíço que gulosamente como duas vezes. É fantástico.

– Gosta de doce?

– Sim, eu gosto. – Percorro meus lábios com a língua.

– Não faça isso!

– O quê? Isso? – Repito o movimento e sua mão rapidamente desce até o Gucci.

– Também gosto de apreciar o que é doce.

– Terá que resistir, tem muita gente aqui. – Provoco.

Ele apenas inclina a cabeça para o garçom. Minutos depois ele traz uma comanda que Evan assina e saímos do Goya. Ainda não satisfeitos, é claro.

Ele me conduz para dentro do elevador e me agarra assim que a porta se fecha.


Capítulo 6


Ellis - Escócia.


- Ainda bem que você veio. – Respondo aliviada ao encontrar minha amiga Apple.

- Claro, Ellis, eu não deixaria de vir. – Ela me abraça e eu apenas choro, soluçando.

- Ela nunca mais vai falar comigo! – Falo baixo olhando para o chão, sinto vergonha, sinto medo.

- Dê tempo ao tempo. Sempre fomos amigas e sei que Victoria tem um coração mais forte e uma cabeça de dar inveja. – Apple tenta me confortar, mas por dentro eu sou destroços de uma amizade que foi a mais importante. Dividíamos o berço, depois as bonecas, depois as maquiagens e nunca em minha existência eu pensei em dividir um homem com ela, ainda mais com ela.

- Eu não faria nada contra ela, eu a amo, assim como eu amo você. – Me solto de Apple e nos sentamos no gramado em frente à minha casa.

- Eu sei que não, mas coloque-se no lugar dela. – Apple pede e eu inclino a cabeça tentando entender.

- Como assim no lugar dela? – Pergunto incrédula.

- Sim... coloque-se na mesma posição. – Apple é inteligente e acha que vou conseguir acompanhar essa linha de raciocínio facilmente.

- Apple, ela conquistou um dos caras mais cobiçados de Nova York. – Digo surpresa mesmo. Minha amiga é poderosa, ou ex-amiga, não sei.

- Sim, ela conquistou Evan, mas foi traída por ele e foi de alguma forma traída por você. Não pelo sexo, isso aconteceu antes de Vick entrar na vida dele, mas ela foi traída por pessoas que perderam a oportunidade de dizer a verdade. –Apple é fogo, viu? Ela pega a ferida, abre e joga álcool.

- Mas... eu... eu... nunca pensei que um dia eles fossem se conhecer. – Digo enquanto abraço meus joelhos, me sinto pequena.

- O mundo é pequeno demais, e seu erro foi não contar com a gente. Somos amigas desde sempre, sabíamos do problema de sua mãe, você inclusive recusou trabalhar para tentar arrumar o dinheiro, disse que precisaria trabalhar muito. – Ela puxa minha orelha e me sinto um nada.

- Eu sei. – Concordo, estou com vergonha pelo trabalho fácil que arrumei como prostituta freelancer.

- Então, você deveria ter nos contado sobre isso. Você acha que esse bando de homens ricos está errado? – Apple me surpreende.

- Claro que está, Apple! – Digo com certa raiva dela, raiva por ela poder estar certa.

- Claro que não, Ellis. Eles perguntaram se você gostaria de participar disso, e se eu não me engano foi no shopping. Ninguém colocou uma arma na sua cabeça e te levou para um bordel. –Minha raiva dela aumentou, ela está certa.

- Quando Sebastian me abordou pensei que fosse uma dessas pegadinhas de televisão, uma câmera escondida. Ele é muito bonito, mesmo, e durante o café ele perguntou tanta coisa, estava tão interessado em mim, como nunca ninguém esteve. A verdade é que eu queria pagar pela cirurgia de minha mãe, mas no fundo eu queria agradar o homem extremamente sexy que me pagava o café. – Desabafo minha fraqueza.

- Viu? Mais uma vez seu deslumbramento por homens a fez cega. Acredite, você ter ido para cama com Evan não atinge Victoria. O que feriu nossa amiga foi sua falta de confiança. – Me arrependi de ter chamado ela aqui, ela esta falando tudo que não quero ouvir, ela não para de soltar verdades.

- Eu não podia contar! – Tento me defender.

- Podia sim, não iríamos fazer nada contra um grupo poderoso. Iríamos ajudar nossa amiga, é isso que amigos fazem. –Apple deveria ser psicóloga.

- Errei, eu sei, mas agora já está feito. Se eu pudesse com certeza eu voltaria no tempo e evitaria tudo isso. – Falo arrumando meu rabo de cavalo, preciso sair dessa conversa. – Você acha que é fácil dormir e acordar sabendo do que fiz? São treze homens, trezes vontades, treze vezes desejei morrer naquela noite.

- Muito bom assumir que é imperfeita, que comete erros, é um grande passo para não cometê-los novamente. – Ela respira fundo, como se elaborasse uma pergunta nessa cabeça linda dela, que as vezes odeio. – Mas em meio a essa putaria toda, não houve ninguém que tivesse valido a pena; não pela grana, alguém que talvez possuísse alma? – Ela me remete ao único que soube o que fazer.

- Sim. – Respondo apenas isso, mas em meus pensamentos a noite que poderia ser considerada uma desgraça, é salva pelo homem de cabelos castanhos e olhos azuis. Pelo homem de boca fina, bonita e educada.

- Oi. – Ele disse e seu sorriso se abriu, como o amanhecer.

- Oi. – Respondi com vontade de ir embora

- Meu nome é Giovani e você é Ellis, certo? – Me perdi em sua voz baixa. Fazia duas horas que estava ali, eu havia saído do quarto de Evan, que mal pronunciou palavras e, para ser honesta, eu nem me lembro de tudo que aconteceu. Estava me sentindo suja.

- Sim, sou a Ellis. – Respondi e alcancei sua mão que estava em minha direção.

- Ok, quero que fique tranquila. Não tem motivo algum para não confiar em mim, assim como estou confiando em você nesse momento. – Ele conclui a frase e estamos em um quarto lindo, paredes claras, nada de ostentação, e se eu não tivesse de acordo com as regras do inferno impostas a mim pelo Sebastian, eu poderia jurar que estava no céu.

- Ellis? –Apple me desperta e eu a odeio de novo por isso.

- Oi... o que foi? – Pergunto ainda sentindo o perfume de Giovani.

- Como assim o que foi? Você estava viajando em universo paralelo. Estava aqui falando sozinha e você perdida em sua mente. Tenho medo de perguntar no que estava pensando.

- Não precisa ter medo, Apple. Estava pensando no que valeu a pena... quem valeu a pena.

 

Vick


Descemos do carro em direção ao hotel após o nosso passeio pelo parque. Como sempre Evan e suas surpresas. Foi uma tarde agradável, na qual pude voltar alguns anos em idade.

– Gunter, obrigado. – Evan agradece.

– À sua disposição, senhor. Se me permite, eu me diverti muito. – Gunter desabafa, aproveitando a ocasião.

– Eu também. Muitas fotos? – Evan pergunta.

– Em torno de trezentas. – Gunter responde, entregando a câmera a Evan.

– Vou precisar delas. – Evan sorri.

– Sim, devo lembrá-lo que o Sr. Gutemberg o espera hoje, às vinte e uma horas, no El Amparo. – Gunter lembra do compromisso que nos trouxe até Madrid.

– Sim, temos um pouco mais de três horas. – Evan muda de expressão e vejo seu olhar novamente sem direção. Ele respira fundo e busca alívio. Merda, tem alguma coisa de errado por aqui.

– Vamos? – Evan segura minha mão e beija os nós dos meus dedos, e juro por Deus que gostaria de saber o que está acontecendo dentro da cabeça dele.

– Sim... – Ele me abraça, beija minha testa e caminhamos em direção ao quarto.

Ele me senta na cama e retira toda a minha roupa. Mãos habilidosas, e eu em pouco tempo estou nua dentro de uma hidro espumante e quentinha. Não tenho pressa nenhuma de sair.

– Não vai entrar aqui? – Peço, inclinando minha cabeça e curvando a boca.

– Pedindo assim, como não vou entrar? Mas, por favor, temos um compromisso muito importante. – O senhor de quarenta anos incorpora meu futuro marido, que sai e volta com o celular nas mãos, apertando o play. “Open your eyes – Snow Patrol” nos faz companhia.

– Quero apenas a sua companhia. – Falo e ele está dentro da banheira comigo. Ele desliza as mãos macias pelas minhas costas. Sorrio, virando-me e sentando de frente para ele.

Ele não quer que eu me envolva nos negócios dele, mas sinto que deste compromisso desta noite algo está para explodir. É mais do que uma nova mera aquisição.

- Eu nunca estive em um de seus jantares de negócios... Estou um tanto insegura sobre o que devo vestir ou sobre o que posso falar. – Falo torcendo os lábios. Não conheço esse tal de Gutemberg e acho que mesmo sem conhecê-lo não gosto dele.

– Confio no seu gosto, minha ruiva; mas, por favor, não me obrigue a andar armado. – Ele sorri lindamente e por alguns instantes percebo que consegue o alívio.

– Temos quanto tempo? – Pergunto com segundas intenções. Não precisa de resposta, ele está em mim... dentro de mim. Estou sentada em seu colo, e o pressionar dele aqui dentro é algo explosivo para ambos. Evan simplesmente me abraça e coloca sua face entre os meus seios, sinto seu inalar profundo e vejo que nada sei sobre o que realmente acontece com ele.

Depois que saímos do banho passamos à fase da arrumação. Escolho um vestido Dior verde escuro, decote discreto, até os joelhos. Não quero chamar atenção para mim. Se eu estiver certa e esse Gutemberg for a causa desse mal estar em Evan, sei que minha aparência pode piorar as coisas. Nos pés prefiro um par de sandálias prata com tiras finas. Nenhuma jóia, a não ser meus anéis de compromisso. Pouca maquiagem e os cabelos rebeldes presos num coque frouxo. Nunca que eu conseguiria repetir a façanha das meninas do salão de beleza.

Tudo separado, cabelo pronto, como uma maçã enquanto ainda estou vestida com o robe branco do hotel. Por mais que eu coma sempre fico com a sensação de um buraco no estômago. E estou há tanto tempo sem treinar... Preciso tomar cuidado com o meu peso. E é neste instante que sinto um peso na barriga e sem pensar duas vezes corro ao banheiro e levanto a tampa do vaso, colocando tudo para fora.

– Você está bem? – Evan vem até a porta do banheiro.

– Evan, não precisa ver isso. – Respondo limpando minha boca com as costas da mão e descendo a tampa do vaso.

– Como não preciso? Se você não estiver bem, eu cancelo.

– Claro que não, já estou bem, deve ter sido a montanha-russa.

– Tem certeza?

– Sim, tenho. – Respondo sorrindo com o estômago revirado, e alcanço minha nécessaire, escovando meus dentes sob o olhar inquisitivo de Evan. – Estou bem, pare de me olhar assim. – Está me causando arrepios, tanto o estômago quanto o olhar de Evan.

– Quando quiser voltar, é só me dizer. – Ele diz, beijando minha testa.

Sigo até o quarto e coloco a roupa e as sandálias. O estômago ainda está estranho, mas já coloquei tudo para fora. Preciso aguentar, essa reunião é muito importante para ele. Sorrio, mas meu estômago está péssimo.

– Você não está bem, está mentindo para mim. – Ele diz.

– Estou bem sim, acho que agora é fome. Vou esperar chegar até lá. Confie em mim.

– Tem certeza? – Ele pergunta com a voz mais áspera. Está preocupado.

– Sim, tenho, o que achou do vestido? – Tento desviar o foco.

– Está deslumbrante, e isso também me preocupa. – Sorrio e ele levanta uma das sobrancelhas.

Meu estômago piora a cada minuto. Inferno, não tenho mais idade para estripulias. Nunca mais piso naquele lugar.

Ele estica a mão para mim assim que termina de colocar seu terno. Eu a seguro e saímos.

Evan me envia um olhar deslumbrante. Não me canso, quero que esse mal-estar passe. Entramos no carro e Gunter acelera.

– Você realmente não quer me contar o que está acontecendo? – É nítido, não estou bem. De repente o remédio que havia esquecido me volta à mente e sem querer começo a fazer contas sobre minha última menstruação. Um calafrio de mal-estar sobe minha espinha.

– Evan, estou bem, é apenas esse mal-estar, daqui a pouco passa. – O problema é que também estou com medo de falar a verdade. Lembro da reação dele quando havia comentado sobre minha menstruação no dia anterior.

– Tudo bem, espero que seja franca e me avise. Podemos ir ao hospital. – Ele beija minha mão e Gunter para o carro em frente a um toldo branco. “El Amparo” gravado em dourado, nós nos despedimos de Gunter, Evan passa meu braço pelo dele e me conduz.

O lugar é lindo, em desníveis, mesas escuras e uma iluminação impecável. Grande parte do ambiente é feita em madeira que contrasta com os encostos em almofada marfim. Altíssimo padrão. Sinto o cheiro da comida e começo a clamar por todos os santos. Não estou suportando, estou me revirando por dentro. Não posso estragar o jantar dele, pois demorou muito tempo para conseguir comprar essa empresa. Preciso me controlar.

Um rapaz baixinho, com um cabelo lambido para trás nos cumprimenta.

– O Sr. Gutemberg nos aguarda. – Evan responde.

– Sim, o Sr. Gutemberg pediu que escolhessem a mesa, ele vai se atrasar alguns minutos. – O baixinho fala e Evan revira os olhos.

– Obrigado. – Ele agradece ao recepcionista. – Vick, prefere se sentar onde?

– Se houver um lugar lá fora, eu prefiro. - Digo, controlando absurdamente o mal-estar.

– Sentaremos na varanda. – Evan retorna ao baixinho de forma séria, ele não gosta de atrasos.

O recepcionista pede que o acompanhemos. Ele nos leva a uma sacada linda, e o melhor de tudo, quase sem cheiro de comida. Essa noite vou passar com água. O baixinho vai embora e deixamos os cardápios de lado.

– Por favor, Srta. Campbell. – Evan puxa a cadeira.

– Obrigada. – Logo em seguida ele se senta.

– Odeio atrasos, mortalmente.

– Calma, Evan, pode ter acontecido algum imprevisto. – O mal-estar está passando, graças a Deus.

– Não existe imprevisto com Gutemberg, ele está com alguma dama de vida fácil. – Ele entrelaça os dedos sobre a mesa. Evan tem um rosto tão bonito. Vejo o quanto as mulheres o admiram... Essas duas louras com cara de minhoca estão descaradamente falando dele, mas não entendo uma palavra mesmo. O mal-estar passou e estou feliz por isso. Evan terá uma ótima noite, não vou matar essas duas desbotadas e voltaremos para o lindo hotel com final feliz.

– Às vezes acontece, precisa ter mais fé nas pessoas. – Falo sem pensar.

– Fé?

– Sim, fé, sabe o que é?

– Sim, Vick, eu sei, mas justo nas pessoas você pede para eu ter fé?

– Não pediria para você ter fé em Deus, por exemplo.

– E por que não?

– A fé em Deus é natural, não pode simplesmente ser exigida, tem que ser de coração.

– Concordo com você, mas fé nas pessoas seria realmente uma etapa que vejo a longo prazo.

– Que bom que consegue vê-la. – respondo em grau de otimismo.

– Quanto à fé em Deus, acho que covardemente ela surgiu quando te vi no chão, amarrada e ferida. Eu me flagrei pedindo a Ele para que a trouxesse de volta. – Os olhos verdes brilham e meus olhos transbordam. Evan sem muros ou pedras.

– Fico feliz em ouvir isso. Talvez tenha sido essa pequena oração que Ele tenha escutado, uma oração do coração. – Alcanço sua mão, ele se levanta e senta ao meu lado.

– Você é toda linda. Tem noção do quanto é importante pra mim? – Ele beija meu rosto e as duas minhocas se contorcem.

– Boa noite, Sr. Evan Louis Maccouant. – Quem chega causando alarde é Gutemberg, que nos interrompe também.

– Boa noite, Sr. Gutemberg.

– Evan, por favor, aqui não teremos formalidade.

– Sem problemas, Philip. – O nome do Gutemberg é Philip. Ele é jovem, não aparenta ter trinta e cinco anos, bom físico, muito bonito, cabelos acobreados e olhos escuros. Veste um terno preto perfeitamente alinhado em seu corpo. Mãos grandes e dedos finos. Realmente, chama muito a atenção e sou pega olhando para ele. Não o conheço, mas por alguma razão esse nome me soa familiar.

– Não está sozinho, Evan. – Ele fala me encarando. Seu olhar é inquisidor, profundo, como se ele já me conhecesse. Quero pular o cercado da varanda.

– Philip, essa é Victoria Campbell, minha noiva. – Ele estica o braço, mas não consegue me alcançar.

– Não, Philip, não precisa tocá-la. – Evan bloqueia o acesso de Gutemberg até minha mão.

– Evan, não se preocupe, está entre amigos e confesso que não esperava que viesse acompanhado. Esta noite vai ser melhor do que imaginei.

– Não tenho amigos, Philip, deveria saber disso. – Evan frio, quarenta anos e totalmente indiferente. É como se dentro dele morassem mil homens diferentes.

– Evan, abaixe a guarda. Deixa eu te apresentar, esta é Amália. – Ele aponta para a morena que o acompanha.

– Amália. – Sem qualquer formalidade ou proximidade, Evan a cumprimenta apenas acenando com a cabeça. Não levanto do lugar, apenas cumprimento também acenando com a cabeça.

– Bom, vamos comer. – Gutemberg digita a senha para meu estômago voltar a revirar.

– Philip, o contrato foi formalizado e temos o acordo. A sede será em Nova York. Espero realmente não ter problema com isso.

– Sabe, Evan, o que me incomodou foi o fato de eu estar te entregando minha empresa praticamente de graça. – Gutemberg alisa a perna da morena e meus olhos se abrem, desaprovando tal exibição. – Você sabe que meus gostos são caros. – Ele volta a subir a mão pela perna de Amália.

– Philip, esse tipo de exposição não é necessária. Quanto à sua empresa sair quase de graça, deveria ter analisado. O contrato esteve com você por mais de vinte dias, tempo suficiente para aceitar ou não. – Evan frio e velho, e seu semblante é de desaprovação.

– Sim, analisei. Muito boa sua iniciativa em dominar o financeiro. Não esqueça que somos sócios, quero relatórios diários sobre o nosso dinheiro.

– Acho que não entendeu, sou sócio majoritário, não lhe devo satisfações diárias. A prova de minha habilidade está no alto padrão de minhas empresas, que conseguem comprar companhias como a sua. E também acredito que aqui não seja o local para discutirmos isso.

– Por que não? – Percebo em Gutemberg uma ponta de raiva ou inveja de Evan, não sei. O tom nas palavras parece de fúria por ter que aceitar o contrato, mas estou em dúvida, parece que ele não quer falar sobre isso.

– Sr. Gutemberg, pensei que fosse um jantar de negócios, sem detalhes mais profundos. Apenas um jantar cordial entre dois empresários fechando uma fusão de grande interesse. Acredito que não seja do interesse delas saber sobre os pormenores de nossos negócios. – Evan incorpora um homem que não conheço, uma entidade fria, sem medir palavras. Ele se manifesta infeliz com o comentário de Gutemberg.

– Senhores. – O garçom interrompe, oferecendo o cardápio à Gutemberg.

Eles fazem os pedidos e eu realmente não presto atenção. O clima tenso me faz lembrar do meu estômago, que voltou a criar mariposas, borboletas e uma família de esquilos. A morena, que deve estar cobrando por hora, está pouco preocupada com os negócios que estão sendo tratados. Estou incomodada com os olhares de Gutemberg. Estou incomodada porque acredito que ele pensa que sou igual à Amália.

– Senhorita Campbell, é de Madri? – Não gosto do tom ou dele, e escuto um dos meus demônios acordar.

– Não, Sr. Gutemberg. – Fria e com meu demônio calculista sentado no meu ombro de bracinhos cruzados e fazendo careta.

– Posso saber onde Evan te encontrou? – Outro demônio se levanta, este com certeza fez parte do holocausto, e se senta no meu colo. Honestamente, não estou gostando de como está falando comigo. Ele quer atingir Evan e está conseguindo. Evan está inquieto.

– Sr. Gutemberg, não creio realmente que esse tipo de informação creditará algo na reunião de negócios que diz respeito apenas ao Senhor e ao meu noivo. – Meu olhar é vazio em sua direção e sinto o traço de sorriso por detrás dos lábios de Evan. Orgulho é o nome desse traço.

– Vejo que a domesticou bem. – Evan está muito quente e agora seus olhos reviram, sinto que ele quer evitar algo. Evan está a ponto de explodir, mas está usando uma força sobrenatural para não dar um soco na cara dele.

– Gutemberg, foi um erro, não deveria ter proposto nada a você e sua empresa que está prestes a falir. Você não quer vendê-la e está com essa raiva toda porque não é capaz de reverter o quadro. Teve que ceder para uma pessoa mais jovem e capacitada. Lamento muito, não vou me expor e também não vou expor minha noiva. Estou entendendo o seu jogo.

– Noiva? Quem você quer enganar? – Ele me iguala à moça que cobra por seus serviços que o acompanha? Evan está com muita raiva, seus punhos estão fechados, ele olha para mim e meus olhos estão marejados.

– Ela é tão sua noiva quanto a outra? Deixe-me lembrar o nome dela... – Evan está à beira de um ataque de fúria.

– Philip, não seja desprezível ou pelo menos, tente não ser. – A informação de Gutemberg me revira por dentro e tira Evan do fluxo natural. Eu apenas engulo em seco. Estou controlando minha ira. Outra esteve ali, outra foi sua noiva, “outra”, é essa maldita palavra que pula no meu colo.

– Acho que me lembro bem o nome dela. – Ele coça o queixo com o indicador enquanto ameaça Evan.

– Philip, agora não é uma boa hora. – Evan olha, fuzilando-o e se levanta em um impulso esmurrando a mesa. Todos estão olhando e não sei se devo ou quero impedir Evan e sua explosão contra Philip.

– Por que não? Um garotão que nos proporciona alguns quitutes de vez em quando faz uma pechincha sem respeito algum pela memória do meu pai, e agora está em meu território e ainda quer me dizer o que devo ou não fazer? Você, Evan, não vai cuidar do meu dinheiro. Deveria cuidar melhor da Accord. Ou fica ou sai. Acha que vale a pena deixar um clube razoavelmente satisfatório?

Sinto uma pedra no meu estômago, e meus olhos que estavam vagando pelo belo ambiente, voltam-se como um ímã para Evan. Accord? Philip? Esse foi o homem que me solicitou como encomenda?

– Você me trouxe até aqui para me fazer perder meu tempo por conta de uma birra de criança? Isso não tem nada a ver com a Accord e você é patético.

– Chame do que quiser, e a propósito, o nome da outra noiva era Lívia, é isso. Para cada reunião seria uma noiva diferente? Apesar de que essa daí – Ele aponta com desdém para mim – é bem semelhante à minha encomenda que não apareceu. Escondendo a mercadoria, Evan?

Eu quero vomitar em cima dele, em cima de Evan. Não acredito. Na realidade, não consigo pensar em nada, não consigo pensar em uma resposta, tudo ao meu redor está turvo, meu estômago clama por ar fresco. E como em um estalo percebo que Philip trouxe Evan até aqui para desafiá-lo, e conseguiu.

– Acredito que essa... – Ele me aponta de novo – valha o teto de nossos pagamentos. – Vejo Evan fechando a mão e tremendo.

– Poderia me fazer um favor? – Evan pergunta a Gutemberg, e por um milagre ele ainda não esmurrou a cara desse filho da puta. Estou sem reação.

– Sim. – O sorriso sarcástico de Gutemberg faz Evan se revirar por dentro, eu sei. Ele não causaria nenhum tumulto aqui.

– Guarde um tijolo de lembrança, um tijolo de sua empresa assim que ela for demolida. Declino nossa negociação. – Evan está desistindo da compra que demorou anos. Não posso e nem quero me meter. Quero sumir ou matar alguém. A segunda opção de preferência.

– Você o quê, garotão? Faça-me rir. Quando eu entregar minha empresa a você, pode com certeza me internar em um sanatório. – Gutemberg dispara e consegue apenas o olhar vazio de Evan, que estende a mão para mim e eu nem sei como tenho sangue frio para deixá-lo me tocar. Acho que é mais para não dar a satisfação a esse crápula do Gutemberg de que me atingiu de alguma maneira.

– Você vai se arrepender, Maccouant! – Gutemberg grita, atraindo os olhares dos clientes enquanto saímos do restaurante, com Evan segurando protetoramente o meu cotovelo.

– Gunter? Estamos do lado de fora do restaurante. – Evan treme e desliga o telefone.


Evan

– Jony? Sim. Cancele o contrato com a Gutemberg, não haverá mais fusão. Essa é a ordem final. Não me interessa quanto tempo demorou. Ele vai vender e vai ser por bem menos, eu garanto. Jony, exijo que cancele por desacordo comercial. Mande-me por e-mail. Estou no aguardo. Apenas isso.

 

Vick


– Vick, eu... – Apenas levanto minha mão, interrompendo-o. Estamos parados na calçada aguardando o carro.

– Não fale comigo, por favor, não fale comigo. Não coloque suas mãos em mim. – Digo seca, rude e puta da vida.

– Por favor, posso explicar.

– Não quero ouvir. Não quero explicações, não quero nada. – Meu estômago não está mais revirado. Estou com ódio mortal dele e não consigo segurar o choro.

– Vick, me ouça.

– Evan, não quero, apenas me deixe.

– Mas você precisa me ouvir! – Ele aumenta o tom da voz.

– O que eu preciso ouvir? Lívia... Diabos, Evan, por que não me disse? – Grito e mostro a ele como se grita. – EU ERA A ENCOMENDA DO GUTEMBERG! ESSE MERDA FAZ PARTE DO CLUBE! SEBASTIAN IRIA TREPAR COMIGO E DEPOIS ELE, COMO UMA DANÇA, UM JOGO,QUE VOCÊ INVENTOU! – Meus gritos atraem todos os olhares.

– Pare com isso, posso explicar.

– Não, Evan, você teve tempo de me contar. Eu poderia ter tido o direito de escolha se viria ou ficaria no hotel. Ou pelo menos, poderia estar preparada psicologicamente para enfrentar o causador de nosso caso de amor. Sua chance passou, agora realmente não quero ouvir. – Retiro meus sapatos e começo a caminhar.

– O que pensa que está fazendo?

– Francamente, não acho que seja da sua conta. – Continuo.

– Vick, Gunter está chegando. – Ele aumenta o tom de voz novamente.

– Pode ir embora com ele. – Dou de ombros enquanto enxugo o rosto com as costas da mão que segura os sapatos. Filho da mãe, por que não me disse? Evan me segue.

– Victoria! Por favor!

– Não, Evan! – Grito enquanto ando e ele para de me seguir.

– Está fazendo um escândalo. – Ele fala enquanto está parado, vendo-me caminhar.

– Você mentiu para mim, você estava estranho e perguntei o que estava acontecendo. Dei as oportunidades de me contar e não disse nada. Lívia esteve aqui com você. Eu era uma encomenda do cara com quem estava fechando outro negócio. Sua vida gira em torno de assuntos comerciais, sejam eles de ordem de importação ou putaria. Porra, essa situação consegue ficar pior?

– Pare de andar e me escute. – Paro, mas continuo com meu choro e agora soluço. Está doendo. – Não me olhe assim.

– Estou olhando como olharia para qualquer um que mentisse para mim.

– Sou qualquer um agora?

– Sim.

– Não acredito no que estou ouvindo. – Ele passa a mão pelos cabelos.

– Mas é a verdade, pelo menos você está ouvindo a verdade. Deve ser por isso que está estranhando.

– Victoria, quero que você se acalme.

– Me acalmar, Evan? – Ando em sua direção com a maquiagem borrada. Meus olhos azuis e inundados invadem o seu olhar... – Quem será a próxima? Não me responda. Realmente não quero saber de nada agora.

– Você não sabe o que está dizendo, me mata te ouvir assim. – Evan com o semblante triste me destrói por dentro, mas mantenho a postura.

– Matar, morrer? Estive bem próxima disso, mas também agora pouco importa. – O golpe de misericórdia vem de um dos meus demônios.

– Victoria, vou esperar você se acalmar. Nós podemos ter uma conversa adulta.

– Perdoe-me, Evan, sou seis anos mais nova do que você. Não consigo pensar como uma mulher madura, e nesse momento não consigo pensar de forma alguma. – Gunter para o carro ao perceber a discussão, caminho na direção dele e me sento no banco da frente.

– Gunter, vamos para o hotel. – Evan ordena, sentando-se no banco de trás. Choro compulsivamente. Ele não podia ter me escondido isso. Será que fez as mesmas coisas? O Bombardier? O museu? Inferno, Evan! Eu te amo tanto e você faz isso? Gunter me entrega um lenço discretamente, e minutos depois salto do carro assim que Gunter para em frente ao hotel.

– Vick, pare com isso, por favor. – Evan pede assim que me alcança, enquanto espero pelo elevador.

– Vou parar, Evan. – Falo entre soluços e deixo Evan com o benefício da dúvida.

– O que quer dizer com isso?

– Apenas me deixe, preciso pensar.

– Victoria, não faça isso.

– Não fazer o quê?

– Não me deixe, por favor, eu peço.

– Eu estou aqui, Evan. Quanto a te deixar, o que exatamente eu deixaria? Um noivo ou o proprietário de uma empresa de orgias?

– Tudo bem. – Ele limita-se a responder e a porta do elevador se abre. Dois corpos distantes dentro do elevador, nenhuma palavra, muito diferente do que normalmente acontece entre nós. Qual explicação teria para isso? Explicar uma mentira? É isso que Madri reserva? Obrigada, mas não é um lugar que quero visitar novamente.

A porta do elevador se abre e caminho à frente de Evan. Ele não tem ideia de como estou por dentro. Não quero ouvir explicações, pelo menos, não agora.

Encosto no batente da porta, e assim que ele a abre eu invado. Retiro meu vestido e penduro em um dos cabides assim que estico meus braços e alcanço a peça metálica. Ajoelho-me e sento sobre os meus calcanhares. O choro me domina. Estou de cabeça baixa e vejo pelos meus cílios molhados que ele me observa da porta sem pronunciar uma única palavra. Sou tanto dele, e esse punhal feriu minha espinha. Não sei se consigo ficar de pé. Então levo minhas palmas até meu rosto.

– Por favor, deixe-me pelo menos te ajudar a levantar. Seu lugar não é no chão.

– Foi você que me colocou aqui. – Permaneço chorando, com minhas mãos cobrindo meu rosto.

– Vick, está acabando comigo. Ouça, por favor.

– Eu não quero. – Levanto-me sozinha e desvio dele, estou fria diante dos olhos tristes de Evan. Vou até o armário, retiro meu robe preto do cabide e visto. Evan se senta na poltrona no canto do quarto.

– Me dê ao menos a chance de explicar o que aconteceu.

– Não quero ouvir agora. Acredite, nunca pensei que você pudesse me magoar como me magoou.

– Me perdoa, deveria ter contado sobre ela, deveria ter imaginado que esse bastardo faria isso...

– Sim, deveria, sempre tem algo que você deva fazer, mas agora estragou tudo. Será que sempre vou descobrir algo? Que vou ficar tranquila quando me levar para visitar algum novo lugar? Quanto ao ‘bastardo’ foi ele que me disse a verdade, ao menos algo prudente nessa vida de merda que vocês levam.

– Não, não vai descobrir. – Ele passa as mãos pelos cabelos.

– Agora, nesse momento, não acredito em você. – Fria e com muita raiva.

– Tem todo o direito de estar assim.

– Evan! – Amarro o robe com raiva. – Ela esteve em seus braços, isso já me mata. – Caminho até a varanda pensando em tudo, por que isso agora? A viagem perfeita, o mundo perfeito e agora estou aqui, de novo abraçada com meus joelhos nessa varanda. Não quero ficar sem ele, mas nem sei se eu o tenho por inteiro. Será que ela dormiu nesse quarto com ele? De novo, o choro me domina.

– Vem comigo. – Evan está diante de mim, esticando sua mão em minha direção.

– Não. – Respondo convincente.

– Não faça isso, eu tive meus motivos!

– Você sempre terá seus motivos, mas não creio que tenha alguma razão, não quero falar com você. – Sou teimosa, assim como ele, e de novo dois mundos se chocam, o meu mundo gelado e recém-formado e o dele, desmoronando.

– Não sei lidar com essa Victoria.

– Você não sabe lidar com muita coisa. Pelo visto sua habilidade está limitada ao seu âmbito comercial, quando se trata de pessoas, acredito que te falta muita experiência.

– Não posso perder você!

– Esse é o seu problema, sempre se preocupa com a perda, perder faz parte da vida. Mas não quero conversar com você, não quero olhar para você agora. Quero ficar sozinha. – Ordeno e atiro uma lança contra os olhos dele.

Permaneço onde estou, sentada no chão, e vejo-o caminhar para dentro da suíte. Mundo sujo, aos meus olhos é sujo, sentar-se em uma mesa de jantar e falar de mulheres como se fossem peças facilmente trocadas, substituíveis, é de revirar o estômago de qualquer uma. Também não entendo como essas mulheres se prestam a esse papel.

Eu me pego chorando ao pensar nele com Lívia, maldita essa mulher. Eu a odeio de uma forma que poderia matá-la com minhas próprias mãos. E Ellis, meu Deus?!

Evan volta ao me ver enxugando o rosto. Ele mantém a mão em minha direção. Havia desabotoado a camisa e está descalço.

– Ela sempre será meu fantasma. Como fui inocente...não percebi. Por isso ela estava revoltada no salão de sua mãe. Ela te ama, viveu o que eu vivi! – Abaixo minha cabeça, apoiando a testa em meus joelhos.

– Não, ela não viveu. – Ele senta ao meu lado, falando calmamente entre mim e o vaso gigante de cimento. – Ela não chegou nem perto disso. – Ele alcança meus dedos e os massageia. – Quando digo que não me orgulho do que fiz, isso realmente faz parte. Eu a usei, assim como usei outras, mas não pensei que um dia ela seria uma arma contra mim.

– Não sei se quero ouvir. – Olho para ele com lágrimas pelo rosto.

– Você não sabe como está doendo vê-la chorar. Tenho feito muito isso, me perdoe. – Ele beija as pontas dos meus dedos e não proíbo. Amo tanto esse homem que chega a doer. – Por favor, Victoria, não chore.

– Evan, me dá licença, quero ficar sozinha. Estou com medo de ser mais uma, por isso não consigo parar de chorar.

– Nunca, pela minha vida. Você é a pessoa que me faz bem, meu bem maior e mais precioso. Eu amo tanto você. – Ele diz me seguindo quarto adentro.

– Por que mentiu? Não mereço mentiras, mereço? Consegue enganar alguém que você diz amar?

– Você sabe que te amo desde o primeiro momento em que te vi. A única. Não, você não merece nada que possa te ferir e não quero te perder.

– Não vai perder, mas não estou feliz agora.

– Já perdi uma vez, não posso passar por isso de novo. – Ele me puxa para junto de seu corpo.

– Não, Evan, quero ficar sozinha. – Eu me livro dele e deito no divã da antessala, olhando sem direção para a parede bege. Não quero saber o que ela veio fazer aqui, não é isso que me incomoda. Incomoda-me o fato dele mentir a respeito dela, omiti-la. E sobre o tal Gutemberg... Deus! Ter que encontrar aquele homem! Minha cabeça dói tanto... Adormeço ali mesmo, encolhida em um divã de dois lugares.

 


Vick

– Pare com isso! Você não pode entrar aqui!

– Como não, ruivinha? Já estive aqui outras vezes, cheguei primeiro! – Risada diabólica.

– Não a quero aqui, Evan!

– Mas deixe-a ficar, Vick. – Ele pede, sorrindo para mim.

– Por que você está fazendo isso comigo, Evan? Eu não quero! Não quero, Evan, não a quero aqui!

– Mas ela vai ficar. Vai ficar porque eu quero!

– Não faça isso comigo, por favor.

– Ela vai ficar. – Ele abraça-a pela cintura. Não quero ver isso.

– Não, Evan, não faça isso comigo, está me matando! – Grito e choro.

– Vick, meu amor, por favor, acorde. – Evan me pega no colo e beija meu rosto. – É só um pesadelo, eu estou aqui.

– Por que você fez isso comigo?

– Porque sou um maldito filho da mãe e agi como uma criança. Fiquei com medo de perder você.

– Não minta para mim, nunca mais.

– Nunca mais.

– Ela dormiu nessa suíte com você?

– Não, eu não fiquei nesse hotel.

– Evan, não minta. Ela foi sua noiva? Também conheceu a singularidade do Bombardier e sua suíte?

– Não, ela não foi minha noiva, nem em sonho, e também não veio comigo. Ela chegou e foi embora depois. Eu a deixei sozinha aqui em Madri.

Eu sem querer entendo o que aconteceu, foi em Madri que ele a rejeitou pela última vez.

– Você me feriu.

– Me perdoa, meu amor? – Ele está sentado no divã e estou em seu colo. Ali é meu lugar no mundo. Morro por dentro ao pensar nela ali; não quero saber de mais nada.

– Promete que nunca mais vai me esconder nada?

- Vick, eu te amo como jamais amei alguém, mas você sabe que tenho um passado. Não é algo que me orgulhe, mas também nunca obriguei mulher alguma a fazer o que ela não quisesse. As que disseram não, e acredite foram muitas, seu desejo foi respeitado. Todas eram maiores de idade e sabiam exatamente no que estavam se metendo. Por outro lado, se a cada vez que você ouvir parte dessa história você surtar desse jeito, como vai querer que eu em sã consciência te conte sobre tudo?

Ele tinha razão. Tudo que ele fez foi antes de mim. Não posso condená-lo por seu passado.

– Eu prometo te contar tudo conforme o assunto for surgindo se você me prometer deixar que eu fale.

Apenas acenei com a cabeça.

- Ainda é minha?

– Essa condição não vai mudar, Evan. Não consigo pensar em ficar longe de você. – Ele está com o rosto enfiado em meu pescoço. Sinto-o inalar em mim. Ele me leva em direção à cama, mas eu o faço parar. – Espere! Eu sei que você tem razão, mas ainda preciso me acostumar à ideia de que outras viveram o que estou vivendo.

Ele ia dizer algo, mas eu o interrompo colocando um dedo em seus lábios.

- Talvez elas não tenham vivido toda a minha história com você, mas saber que houve centenas delas passando pela sua cama, ainda me perturba. E ainda há o problema “Gutemberg”. Eu vou tomar um banho. SOZINHA. E colocar minha cabeça no lugar.

Ele concorda me levando até o banheiro, me colocando no chão, beija minha testa e sai fechando a porta atrás de si.

 


Evan


– Não há possibilidade disso acontecer, Jony. Ele não é minha prioridade no momento. Honestamente, o que ele pensa em fazer não me interessa. Jony, meu contato com o Sr. Gutemberg está encerrado, a não ser que ele aceite a venda total de sua empresa por um terço do valor. Minha palavra final é essa, caso contrário, não precisa me ligar. Apenas isso, Jony. – Desligo o telefone e esfrego a testa com meu indicador e polegar.

Olho para a porta do banheiro. Vick está lá há bastante tempo. Minha vontade é invadir o banheiro e fazê-la me escutar. Mas ela está certa. Fui um idiota ao praticamente obrigá-la a ir comigo nesse jantar. Claro que o assunto sobre a encomenda viria à baila, a quem quero enganar? Mas como explicar que o mesmo medo que tenho em perdê-la, me impulsiona a querer tê-la sob minhas vistas o tempo todo? Não, não foi somente o medo em deixá-la sozinha no hotel. Foi orgulho. O antigo e bastardo Evan precisava esfregar na cara de Philip que ele não só perderia a empresa de seu pai, mas que havia perdido a ruiva que requisitara. Você é um idiota, Evan! Mil vezes idiota!

 

Vick


Acho que passei horas no banho. Não tenho certeza. Chorei, pensei, refleti. Lembrei de como era minha vida antes de Evan e no quanto eu queria encontrar alguém que fosse especial ao ponto dessa pessoa ser aquela em quem eu daria o meu primeiro beijo. Bobagem isso? Talvez. Ellis vivia me atentando de como eu era boba em me preservar desse jeito. Mas confesso, não me arrependi.

Daí que de uma mudança contra a minha vontade conheci o amor da minha vida. Devo chamar Evan de outra coisa? Seria ingenuidade minha querer que o homem certo para mim fosse tão inexperiente romanticamente falando quanto eu era.

Ok, mas ele precisava ser TÃO experiente?, me pergunto batendo a esponja de banho contra a espuma da hidro.

Ele é perfeito em todos os detalhes. Seu rosto, seu físico, suas maneiras, seu olhar. E ainda é tão inteligente para os negócios...

E mesmo que tenha me visto à primeira vez para ser a mercadoria daquele pulha do Gutemberg, logo ele caiu em si e me tomou para ele. Só dele. E de lá para cá estivemos juntos a maior parte do tempo. E olha onde estou agora! Mais uma vez em outro país, com dois anéis enormes no dedo e me sentindo amada a maior parte do tempo.

O que aconteceu naquele jantar foi orquestrado por Gutemberg. Ele queria desestabilizar Evan, e de certa forma conseguiu. Graças a mim, droga!

Saio da banheira e coloco o roupão assim mesmo, sem ter tirado toda a espuma no chuveiro. Ao sair para o quarto não encontro Evan à vista. Será que ele desceu? Mas a cortina da porta que dá ao varandão está balançando, e é lá que eu o encontro, com os cotovelos sobre a murada, olhando para o além.

Sei que ele sente que eu me aproximo, mas ele não vira para mim. Ele respira fundo audivelmente e põe-se a falar.

– Há alguns anos, quando tudo isso começou... Eu buscava apenas um sexo diferente, sem compromisso. Queria preservar meu dinheiro, preservar meu patrimônio. Eram tantas as tentativas de golpe ou algo pegajoso que uma coisa levou à outra, mas nunca cheguei a lugar nenhum. – Ele olha para os lados, mas não para mim, sinto sua vergonha e permaneço em silêncio. – Uma brincadeira entre homens ricos e bem-sucedidos que fugiam de qualquer compromisso ou envolvimento mais sério; alguns procurando um sexo diferente, outros procurando mais do que isso, e planejei cada estratégia, cada detalhe para que nada saísse do controle, e naquela época parecia uma boa ideia, mas hoje... – Ele para e lentamente se vira e olha em meus olhos. – Hoje, olhando pra você, vejo a oportunidade que tenho em me desfazer de tudo isso.

O silêncio volta e fica por pouco tempo.

Ele esfrega a testa com seus dedos.

– O clube começou por prazer, por dinheiro, mas a verdade é que precisava esquecer um trauma. Sim, eu tenho um. – Evan olha à sua volta e para o chão. Vergonha ou tristeza, não sei. – Flagrei minha primeira namorada na cama com um homem. Esse mesmo homem era meu amigo, eu havia movido um batalhão de gente para abafar um caso grave em que ele estava envolvido. Ele foi flagrado em um estupro coletivo. Na época houve uma repercussão nacional. Seu pai abriu mão dele, e eu, além de pagar cada centavo para sumir com o nome dele da mídia, paguei a indenização da vítima, que suicidou-se meses depois. – Evan respira fundo e balança a cabeça. – Eu gastei uma boa quantia com tudo isso, mas não pensei em valores, pensei no amigo. Claro que ele estava errado, mas era meu amigo. – Vejo seu olhar triste ao falar do amigo. E agora sei como ele se sente com relação a essa traição. Ellis fez o mesmo comigo. – Gastei minha pequena e primeira fortuna para aliviar as notícias sobre o cara que cheguei a chamar de irmão.

Continuo quieta, apenas encarando-o. Não quero que ele perca a coragem de me contar tudo.

– Mas o real motivo de minha incabível ideia foi a união de duas pessoas me traindo. Duas pessoas que salvei, ajudei e entreguei algo que passei a evitar: fé, fé nas pessoas. Ela morreu de overdose em uma balada, em Amsterdã. Eu havia salvado a maldita de uma overdose e cuidei dela como se cuida de uma criança, um bebê, não sabia se era paixão ou compaixão, mas foi um relacionamento de quase dois anos, e esse escândalo foi no quarto de Harvard. – Ele puxa todo o ar ao nosso redor e dispara. – Todo o campus soube do ocorrido, e aos dezenove anos ter sua integridade e masculinidade afetada não é legal... Terminei meu curso à base de muitos apelidos, muitas brincadeiras, e por pouco não desisti. Não participei de nenhum evento e me fechei no mundo que criei, sem pessoas por perto e sem nenhum tipo de envolvimento. – Evan conta sem tropeços ou sentimentos.

– Ela deve ter sido importante para você. – Minha única frase sai com uma bandeira branca pendurada.

– Sim, ela me ensinou algumas coisas. Ensinou-me a não ter expectativas, não confiar, não ter amigos, e me ensinou como algumas mulheres podem e merecem ter o valor bem abaixo de uma cadela. – Não conhecia esse lado dele. – Decidi apenas viver sozinho, sem expectativas, sem decepções.

– Que pena, mas será que ela não deixou nada de bom para você?

– Não, nada de bom. – Santo Deus, quem diria que ele pudesse ter sofrido? Claro que sofreu. - O fato de movimentar muito dinheiro me satisfaz. Accord é uma empresa de entretenimento, algumas festas particulares de jogadores de futebol, astros de cinema e outras celebridades contam com a Accord em todos os sentidos. Nada chega à mídia, nada vem ao conhecimento público. Nosso clube se estende a mais pessoas de forma indireta, existe uma pessoa que cuida especificamente do despacho de mulheres para essas putarias da alta sociedade.

Meu queixo despenca, mas mantenho o rosto sereno. Não quero que ele saiba o quanto isso me escandaliza.

– Você ficaria surpresa com o número de pessoas que contrata nossos sigilosos serviços, gente que precisa de total discrição, homens com muito dinheiro e sem nenhum tipo de economia em relação às orgias.

– Você tem uma divisão dentro de sua empresa de putaria? –Pergunto pasma.

– Sim, no começo éramos apenas nós, mas em uma de minhas viagens de férias, visitei Saint Tropez e conheci alguns políticos em um jantar beneficente. Por Deus, como são sujos, e sei que sou tanto quanto eles. Mas o contato aumentou e eu apenas fui a ponte para o Accord. Eles não tratam nada diretamente comigo. Quando o assunto é fora da Hanzel, é com Robert, um dos membros do clube que eles negociam. – Ele explica sobre a empresa pecadora como se fosse uma multinacional, e na verdade ela é. – Para cada mulher que trazíamos, eu me sentia vingado de cada filho da puta que me humilhou naquele campus. Quando me formei, decidi que nunca mais ninguém teria qualquer poder sobre mim, em nenhum sentido. E sabe a ironia? Alguns que estudaram comigo vinham de famílias proeminentes na política e seguiram os passos de seus pais, avós. E tornaram-se meus clientes em Accord.

– Evan, resolveu fazer tudo isso por conta de uma traição? – Aproximo minha mão da mão dele sobre o parapeito.

– Sim, mas acredito que o motivo maior foi descobrir que as decepções não vêm de inimigos. Apenas uni uma decepção com algo que gostaria de evitar, ou seja, coloquei em um mesmo frasco as mentiras e humilhações e misturei com meu total desapego às emoções.

– Estou assustada, confesso que nunca imaginei que esse tipo de coisa pudesse existir. Acho que sou muito inocente.

– As pessoas são sujas, não se assuste. A Accord não é o único clube que existe. Você conhece apenas meu lado bom, Victoria, o ruim talvez eu possa vir a te contar com o tempo. – Ele me joga essa bomba. Apenas balanço a cabeça. Mas antes de encerrar o assunto, preciso saber.

- E Gutemberg? Por que não me disse que ele e Philip eram a mesma pessoa?

Evan joga a cabeça para trás, fechando os olhos e respira fundo. Ele volta a me olhar e sinto que uma verdade bombástica está prestes a ser dita.

- Porque sou um filho da puta. Nenhuma desculpa quanto a isso. Quando estava montando todos os aspectos de Accord, fui avisado que Philip não era de confiança. Mas eu já ouvia rumores que o pai dele estava velho e doente e não duraria muito tempo. Decidi que queria e empresa dele pra mim e, com isso, precisava mantê-lo sob minhas vistas.

- Isso era entre vocês dois. Por que me envolveu esta noite?

- Por quê? – Evan se pergunta e solta um riso sem graça – Por orgulho. Pra mostrar ao desgraçado que eu o havia vencido em mais do que comprar a empresa dele. A ruiva que ele queria agora é minha. – Ele ri um pouco mais alto. Uma gargalhada sofrida. – Ironia do destino! O filho da puta incompetente foi o causador de eu conhecer o amor da minha vida! – Ele abre os braços para o alto e os solta batendo em suas coxas, num sinal de rendição.

Decido não querer saber mais nada, pelo menos, não por enquanto.

– Vou me trocar e conhecer o hotel. Vou te deixar aqui e você se acalme. Tome um banho.

– Não, você não vai sair daqui. – Ele segura meu braço sem força, apenas para evitar que eu saia. Começo a entender essa posse dele sobre mim, essa dificuldade em assimilar proximidades. – Você tem ideia do que é salvar um filho de uma puta de um escândalo e depois esse mesmo bastardo fazer isso? Não! – Ele passa a mão pelos cabelos descabelando-se. – E aquela maldita é parte do meu histórico ruim, é a parte triste e vergonhosa da minha vida, afinal, ela atingiu meu ego, e o meu, eu tinha certeza que era invencível... mas não era. – Ele balança a cabeça e se esconde dentro de uma carcaça enferrujada.

– Evan, você tem medo que eu faça o mesmo que ela fez?

– Não, meu medo é que se você fizer... – Ele coloca o indicador suavemente sobre meu coração – não vou suportar, porque você eu amo. Por ela não senti nada próximo a isso.

– Qual é o nome dela?

– Era. – Ele é taxativo. – Ela se chamava Susan. Nunca se compare a ela, porque tirei-a do lixo e criei expectativas, e você me salvou de tudo isso.

– Pelo visto, ninguém sabe dessa história.

– Sebastian, Giovani, Gunter e agora você, a quem peço para guardar segredo.

– Não vejo motivos para revirar isso.

– Não vou mentir, não queria que soubesse da visita da Lívia aqui, não queria que pensasse que caminhei com ela de braços dados. Como disse, ela era minha foda de vez em quando. E eu deveria imaginar que o desgraçado do Philip poderia atacar você. Eu te expus, assim como fizeram comigo um dia.

– Prefiro esquecer, mas agora é hora de me dizer se tem mais algum segredo.

– Não, não tenho. Acho que foi a vingança por Susan e Paul que desencadeou tudo isso. – Percebo seus olhos tristes e decido mudar de assunto.

– Está no seu passado, você não vive mais lá. – Tento ampará-lo e descubro um homem frágil que lidou com a exposição desnecessária.

– Está no meu passado, está no meu histórico e nas minhas incontáveis consultas ao Dr. Ethan, quem me fez entender que super-heróis estão apenas nos quadrinhos. – Ele alcança minha mão com receio, sem saber se vou aceitar seu toque.

– Tenho pena dessas pessoas que perderam a excelente oportunidade de saber o que descobri agora. – Ele olha espantado com a minha declaração. Eu o abraço pela cintura mas os braços dele continuam soltos, sem retribuir o abraço.

– Posso saber o que descobriu?

– Graças a Deus não estou lidando com alguém sobrenatural, alguém perfeito. Estou com alguém que possui batimentos cardíacos e precisa de água para sobreviver. Estou na presença de alguém normal, que por algum nobre motivo teve que lidar com um problema diferente e que o tornou esse homem de palavra e alto poder nos negócios. Agradeço aos céus por você não ser perfeito ou de outro planeta, seria muito difícil atingir expectativas tão elevadas. Você é humano, Evan, um dos melhores que conheci. – Desmonto o homem frágil em pedaços fortes.

– Era tudo que eu precisava e que preciso ser, humano, mas só hoje consigo ver isso. – Ele sorri e percebo um alívio fora do normal invadir o olhar lindo dele. E só então ele me abraça de volta e encosta sua testa à minha.

– Será que esse humano fantástico e altamente habilidoso, sexualmente falando, poderia providenciar um roteiro para essa manhã?

– Vamos comer e sair.

– Você fica melhor sorrindo como está agora. Me ajude com a minha roupa. – Puxo-o para dentro do quarto.

– Obrigado. – Ele me agradece.

– Ao seu dispor, mas você poderia repensar a respeito da fusão. Isso está te preocupando.

– Não vou repensar, ele te atingiu e nada dele me interessa, a não ser dentro das minhas condições. Mas não quero pensar nisso agora.

Beijo seu rosto. – Amo você.


Capítulo 7


Meu cabelo precisa ser domado, mas por algum milagre ele não está tão rebelde como antes. Lavo meu rosto, faço um coque, caminho até o guarda-roupa coloco um vestido azul simples e volto para Evan, que está deslumbrante, mesmo com a barba por fazer e com uma calça de malha – única peça que cobre seu corpo torneado.

Estamos na varanda, uma vista deslumbrante sobre Madri. De certa forma, enterro as informações corrosivas e nucleares recém-adquiridas.

– Vamos até o centro.

O celular de Evan toca e nos interrompe.

– Sim, Jony. Não metade, um terço e ponto final. – Evan desliga o telefone e está furioso.

– Evan? Você precisa se acalmar.

– Vick, não me peça isso agora. O maldito sabe que fez merda e agora está ao redor de Jony para reverter a cagada.

– Você aceitou um insulto e jogou fora a negociação.

– Ele assinou contra a própria vontade. Trouxe-me até aqui irresponsavelmente. Ele não quer vender, mas precisa vender. Não confio nele e não sei se seria boa ideia tê-lo como sócio, mas quando ele atingiu você... Deixa pra lá, não quero nem pensar, não responderia por mim.

– Evan, pense melhor.

– Não, Vick, não existe a possibilidade de ter esse cara me chamando de sócio. A Gutemberg eu compro apenas em sua totalidade e por um terço do valor. – Evan está bravo e sinto uma espécie de névoa. O chão está mole. Cambaleio sobre minhas pernas.

– Evan, eu... eu...

– Victoria! – É o que escuto antes de Evan me pegar no colo e sair do quarto. – Gunter, abra a porta. – Evan pede enquanto me carrega até o banco de trás. – Vick! – Sinto frio e suor ao mesmo tempo. Uma sensação horrível. Nunca havia sentido isso.

Eu tento abrir os olhos, mas não consigo, minha cabeça começa a doer. Nesse ponto, apago de vez.

 


Evan - Hanzel - Clube 13


– Tenho pouco tempo. – declaro assim que chego a Hanzel, nossa central da Accord.

– Por que a pressa, Evan? – Giovani pergunta assim que se aproxima.

– Ela está aqui. Neste momento está no hospital, não se sentiu bem, por isso preciso ser rápido. – Respondo baixo próximo de Giovani, ele é o único que sabe o que está acontecendo. A verdade é que retornar a esse lugar depois de ter conhecido Victoria me faz sentir o pior ser humano na face da terra. Sinto repulsa e quero realmente desaparecer daqui.

– Cavalheiros, sejamos breves. Evan tem um compromisso e acredito que aqui temos maturidade suficiente para chegarmos a um bom acordo. – Giovani se torna meu advogado. Gutemberg avisou todos que eu estaria aqui e os reuniu, isso mexe com minhas vísceras, bastardo!

– Muito bem, Giovani. – Gutemberg se pronuncia e fecho meu punho direito. – Quero apenas o que é meu. – Pulo uma das mesas que está entre mim e esse filho da puta e acerto um soco na cara dele.

– Calma, Evan. – Giovani tenta me segurar.

– Não me peça calma! Esse bastardo merece mais do que um soco. – Olho para Gutemberg com a boca sangrando.

– Você é um mimado filho de uma grande puta! Você encontrou uma encomenda, a minha encomenda, mas eu não sabia que experimentaria antes de mim. – Quero matar esse merda. – A ruiva é minha, você enviou a foto, lembra? E deve recordar que a esfregou na minha cara também ontem à noite. Temos um contrato, era para eu estar fodendo-a e não você. – O maldito me lembra da noite anterior.

– Não nessa vida, seu bosta. – Giovani me segura, estou com tanta raiva, ela é minha. Por Deus, ela está no hospital e nem imagina que está sendo o motivo de eu estar aqui nesse lugar. Não posso perdê-la.

– Escute aqui, você é o presidente da Accord, mas temos regras e todas estão em contrato, e o contrato é claro, você não poderia de forma alguma ter voltado atrás. Por que não a guardou para você? Não deveria ter enviado a foto se quisesse mantê-la em cativeiro. – Ainda bem que não estou armado.

– Gutemberg, seu lixo, ontem durante o jantar mostrou o quanto é desprezível. – Falo me revirando por dentro ao lembrar do que ele fez com Victoria, quero a cabeça desse filho da puta. Ele me olha e quero os pulmões dele.

– Vamos encontrar uma solução viável. – Giovani me conhece e sabe que estou me controlando. Sinto ódio de cada um deles que a deseja, ódio de mim que comecei essa merda toda.

– Senhores, estou fazendo o possível para resolver essa situação. Houve uma mudança de planos e tenho o respaldo da cláusula sobre o substituto. – Tento me acalmar para não arrancar a cabeça desse infeliz.

– Evan. – Sebastian me chama, ele está sentado com uma taça de Bourbon. – Apenas resolva essa situação, afinal de contas eu teria alguns privilégios com sua ruiva. Lembre-se que ganhei a aposta da última encomenda, eu teria por direito fodê-la antes de todo mundo aqui. Mas já deu pra perceber que a ruiva é especial pra você. Isso torna tudo sem graça. Não faz parte do contrato da Accord foder mulher que tem dono. – Ele bebe um gole e sorri. Por mais ofensivo que Sebastian seja, a fala dele é de apoio a mim. Ele já percebeu que não abrirei mão de Victoria e, à sua maneira, está me apoiando.

– Acredito que Evan resolverá essa situação, mas agora essa conversa não chegará a lugar nenhum. – Giovani se impõe e tento me acalmar, preciso me acalmar. Victoria precisa de mim e eu, muito mais dela.

– Vou resolver essa situação dentro dos trâmites legais. Agora, se me derem licença, tenho algo muito mais importante para resolver. – Caminho em direção à porta.

– Você está com algo que me pertence. – Gutemberg não mede as palavras e quando dei por mim, seu rosto estava sendo esmagado pela minha mão. Soco a cara dele sem dó, sinto raiva por ele desejar algo que é meu, apenas meu.

– Evan! Pare! – Giovani consegue me segurar depois de alguns golpes enquanto outros ajudam uma pasta de Philip a se levantar do chão. – Vá embora, você não pertence mais a esse lugar, vá cuidar dela, ela precisa de você agora. – Giovani me leva para fora de Hanzel e estou tremendo.

– Vou resolver, Giovani. Esses filhos da puta querem o que é meu. Pensar neles desejando Victoria me faz querer vê-los mortos. Juro que vou me livrar desta merda toda.

- Ninguém aqui quer tirar a Victoria de você. Se você não percebeu, ninguém disse uma palavra contra sua decisão, e até mesmo Sebastian, que é o mais cínico de todos, te apoiou. – Giovanni coloca a mão em meu ombro me acalmando. – Meu amigo, a ruiva é sua. Você ganhou. Philip é como um cachorro velho, ladra, mas não tem mais dentes pra morder.


Aceno e aperto a mão de Giovani. Entro no banco de trás do carro enquanto Gunter dá a partida. Nenhum deles receberá um centavo meu e nenhum deles tocará nela, ela é minha, penso.

– Senhor? – Gunter me chama.

– Sim...

– Está tudo bem?

– Sim, apenas me leve para ela.

 

Vick


– Evan?

O enfermeiro alto responde em inglês. O que me deixou parcialmente tranquila é que Evan está na recepção, acabou de sair.

– O que aconteceu? – Estou um pouco tonta.

– O médico daqui a pouco estará aqui para vê-la, tente descansar. – Ele abre um pouco mais o soro. Posso reparar que não estou com meu vestido, estou com a roupa do hospital.

Evan entra no quarto e o enfermeiro sai, fechando a porta.

- Vick, amor, fale comigo. O que foi que aconteceu? O que você sentiu?

– Não sei, de repente tudo ficou escuro. Há quanto tempo estou aqui?

– Não pode me assustar assim. Está aqui há três horas, fez alguns exames e estamos esperando o resultado. – Ele beija meu rosto.

– Me perdoe, acho que a montanha-russa acabou com meu sistema digestivo.

– Está se sentindo melhor?

– Sim, estou, mas ainda estou um pouco tonta.

– Quase me mata. – Ele se apoia sobre mim, beijando minha testa.

– Estou preocupada com sua negociação, me sinto culpada.

– Nenhuma transação comercial seria mais importante do que você.

– Bom ouvir isso.

– Mesmo aí deitada, consegue sorrir lindamente.

O médico entra com um prontuário na mão e o resultado dos exames.

- Sr. e Sra. Maccouant. – O médico cumprimenta com um aceno da cabeça. – Sou o Dr. Ian Thomopolis.

– O que aconteceu comigo, doutor? – Pergunto, ajeitando-me no leito.

– Os resultados estão prontos? – Evan pergunta sem sair do meu lado.

– Sim, estão prontos e a pergunta não é o que aconteceu, mas o que está acontecendo. – O médico diz.

– O que está acontecendo? – Estou nervosa.

– Parabéns ao casal, você está grávida. Muito no início, talvez quatro a cinco semanas, mas há um bebê aí dentro, Sra. Maccouant.

Não tenho coragem de olhar para Evan. Espero a pior das situações, a pior reação, e me lembro de como ele ficou há dois dias quando comentei algo sobre minha menstruação. Estou feliz e automaticamente levo a mão até meu ventre. É um filho de Evan, do homem que amo, mas ele não aceitará.

– Vou prescrever algumas vitaminas e uma dieta especial. Nada radical, afinal, gravidez não é doença. Deve procurar seu médico quando voltar a seu país para o pré-natal. Deixarei as receitas com a enfermeira de plantão. Vou deixá-los a sós. Com licença. – O Dr. Ian sai do quarto e me preparo para o pior. Evan descarregará sua ira. Perdeu a Gutemberg, e de quebra, sua namorada birrenta está grávida.

A pior parte desse momento é esperar pelo pior, e sou surpreendida com Evan beijando minha barriga.

– Você tem noção do quanto estou feliz? – Evan diz com a boca em meu ventre.

– O quê? – Não estou acreditando no que acabo de ouvir. Não esperava por isso, cadê o homem bravo?

– Como o quê? A mulher que amo vai me dar um filho! Não poderia estar mais feliz! – Ele me surpreende.

– Não está bravo? – Estou muito surpresa e incrivelmente feliz.

– Claro que não, vou me casar com a mulher mais linda e vou ter um filho. Meu mundo está completo! – Ele está radiante.

Não consigo esboçar minha reação. Esperava que ele reagisse com fúria e ele... beija minha barriga?

– Eu te amo, Victoria. – É o sorriso mais lindo de Evan. Ele está eufórico.

– Estava com tanto medo porque esqueci de tomar meu remédio e não queria falar nada... Não queria estragar sua viagem de negócios.

– Estragar? Essa foi a melhor viagem da minha vida, vamos ter um bebê!

As lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. Choro de tanta alegria. Amei o bebê assim que o médico anunciou que ele existia, e amo mais ainda ao ver o rosto de Evan iluminado.

– Teremos que retornar. – Ele avisa, beijando minha boca. – Precisamos planejar um quarto. – Ele conclui e me revela um estado único de alegria.

– Vamos ter nosso pequeno Evan! – Sorrio.

– Ou vamos ter uma pimentinha. Eu te amo, Ruiva. – Não há ruído que abale esse momento.

Ele está tão feliz, e eu mais ainda. Não esperava por essa reação. Vou ter um filho do meu Evan, meu pequeno Evan. Minhas mãos escorregam involuntariamente para meu ventre. Já o amo mais que tudo nesse mundo.

– Vou cuidar de vocês! – Ele está radiante, meu Evan ilumina minha vida. Ele dá um selinho na minha boca. – Obrigado. – Ele agradece, com olhos embaçados.

– Eu que agradeço. – Ele sorri e saca o celular.

Ele liga para Gunter, pede que prepare o jatinho. Hora de retornar a Nova York.

– Vou ver se podemos ir embora e já volto. – Ele beija meu rosto e sai do quarto.

Meu pequeno, como eu te amo. Converso com minha barriga e o bebê faz meu corpo ter mais vida. Somos uma família agora. Minha cabeça já começa a fazer mil planos. Imagino o quarto, pezinhos correndo pela casa, nas brincadeiras com o pai dele, Maria fazendo o bolo de chocolate e deixando-o fazer tudo o que quiser. Meu pai e seu neto, Rose se derretendo com os primeiros passinhos e Gunter cuidando de sua segurança.

Viajo para um mundo feliz, um mundo que está para acontecer. O primeiro aniversário, o primeiro dia de aula, a primeira noite de Natal... Sim, teremos uma árvore de Natal com presentes.

– Por que você está chorando? – Evan me surpreende ao entrar no quarto.

– Lágrimas de felicidade. Você vai ser o melhor pai do mundo. – Sorrio.

– Será? Acho que não vou conseguir educar. Se com você eu sou possessivo, imagina com ele. – Evan beija minha barriga. Nosso bebê é mais do que amado, agora ele é ansiosamente esperado.

– Vou cuidar que eduque. – Advirto.

– Garanto que sim. Podemos ir, sua alta está comigo. Precisará de repouso e uma alimentação melhor. – O homem de quarenta anos.

– Bolo de chocolate pode? – pergunto esperançosa.

– Sim, mas não muito. Preciso alertar Maria sobre pequenos furtos à geladeira. Ela terá que cuidar para sempre ter opções saudáveis.

 

Vick


Significado da palavra “felicidade”, segundo o dicionário, é bem-estar, contentamento, ventura, mas segundo meu ponto de vista, é o rosto de Evan em minha direção nesse exato momento.

Estamos de volta ao hotel, enquanto esperamos o jato ser preparado para nosso retorno.

Acordo com Evan sentado ao meu lado na cama com alguns papéis na mão. O empresário de 40 anos sorri e dá lugar ao meu Evan apaixonado.

– O café está chegando, você está bem?

– Sim, estou muito bem. – Minhas mãos estão sobre meu ventre, sobre meu pequeno Evan. – Acho apropriado dizer que há muito de você em mim, e a verdade é que há mais de você em mim agora. – Sorrio.

– Não sabe o quanto estou feliz. – Ele coloca a mão sobre a minha em meu ventre. – Quer contar para os seus pais agora?

– Acredito que não. Depois do casamento. Por falar nisso, tenho uma porção de detalhes para acertar. – Digo entusiasmada me ajeitando na cama, sentando.

– Temos muitos detalhes. Por favor, conjugue corretamente.

– Sim, temos, Sr. Maccouant.

– Os convites estão em produção. Em uma semana estarão prontos. – Evan passeia com seus dedos sobre minha barriga. Em êxtase. É assim que estou, meu mundo completo, um filho dele... Valeu a pena, tudo valeu a pena. A melhor recompensa.

– Um menininho como você!

– Uma pimentinha com esses olhos azuis. Já estou apaixonado por ela. – Evan beija minha barriga.

– Serviço de quarto. – Escutamos alguém na porta e Evan prontamente atende.

– Quer que eu atenda? – Pergunto, tirando o lençol e revelando a camisola branca.

– Não brinque com isso. Se antes não queria que ninguém te olhasse, agora vou te trancar em um quarto. Ninguém vai se aproximar. – Ele fala sério, com a testa franzida, se encaminhando à porta.

– Vai ser complicado. – Falo, e ele entra com o carrinho carregado de comida.

– O que vai ser complicado?

– Evan, vou ter que ir ao médico com frequência. Vai faltar ao trabalho por conta disso?

– Você bateu com a cabeça? Não perderia isso por nada! – A pergunta que fiz soa como ofensa.

– É bom ouvir isso, me sinto protegida. – Eu me estico espantando a preguiça, e Evan vem em minha direção, beija minha testa e ajoelha-se na minha frente, enlaçando-me pelos quadris e beijando minha barriga. Evan está apaixonado pelo filho.

– Se você estiver me escutando aí dentro, quero que já tenha noção do quanto sua mãe é linda. É a mulher mais linda do mundo, e ela é nossa. – Ele conversa com meu umbigo e eu não sei se rio ou choro do ridículo da cena. – Venha, vamos alimentar meu filho. – Posse, da melhor forma possível.

– Evan, é muita comida! – Digo quando ele começa a trazer a bandeja à cama.

– Não sabia o que pedir, então pedi um pouco de tudo. Coma o que quiser. – Ele diz assim que coloca suco de melancia em um copo e levanta, abrindo a cortina do janelão para que eu possa me esbaldar com a visão sobre a cidade.

Ele tira uma foto minha de perfil, com as pernas esticadas e olhando a varanda com um copo de suco nas mãos.

– Evan! Olha meu cabelo, nunca mostre essa foto para ele. – Coloco a mão em meu ventre. – Poderia traumatizá-lo.

– O que tem seu cabelo? Ele é lindo. Cachos e vermelhos; na verdade, não tem nada em você que não tenha despertado meu amor. E é claro que vou mostrar! É nosso primeiro café da manhã em família. – Eu o amo mais.

– Espero que minha barriga não cresça muito até o casamento. – Digo olhando meu umbigo.

– Por que não? Por conta do vestido?

– Não é só isso. Depois de casados é outra história, não quero olhares sobre mim me julgando ou dedos me apontando como a pecadora.

– Não vejo a hora de sua barriga crescer e ele chutar.

– Vai me amar mesmo gordinha?

– Vou amar sempre. Peso, idade e altura são apenas números, e números me interessam apenas dentro da Maccouant.

– Em todo caso, vou evitar minhas aventuras calóricas, pode fazer mal para o pequeno Evan.

– Acha que é um menino?

– Penso nele como um menino, mas quero apenas que seja saudável. Se puder ser lindo como o pai, melhor ainda. – Escapa um sorriso malicioso.

– E se for uma menininha? – Ele senta na minha frente, colocando a máquina de lado. – Vermelhinha como você, linda como você... Vou ter que trancar as duas. Não quero nenhum lobo mau perto das minhas vermelhinhas.

– Ela irá crescer, Evan, vai namorar, casar e ter sua família.

– Claro que vai. Assim que completar 50 anos. – Franze a testa.

– Você é engraçado, muito engraçado. – Debocho.

– Não vou discutir sobre meus dotes cômicos. Eu realmente não me reconheço mais, você tirou minha armadura e me transformou nisso. – Ele fala seriamente.

– Nisso o quê? – Acompanho o tom de voz dele.

– Me transformou em alguém que se importa, alguém feliz, alguém que não está preocupado em liderar o mundo rentável das importações... Você me deu um bem maior e eu, que nunca havia pensado em gostar de alguém, hoje me derreto por duas pessoas, as pessoas incondicionalmente mais importantes da minha vida.

– Fico feliz em ouvir isso porque não me sentiria bem sendo apontada como a escocesa esperta que deu o golpe da barriga.

Evan franze a testa e olha para mim de modo estranho.

- O que foi que disse?

Abaixo o copo sobre a bandeja e o olhar junto. Não tenho coragem de encará-lo.

- Victoria, de onde você tirou essa ideia ridícula?

Dou de ombros sem graça.

- Você realmente acha que se alguma outra mulher usasse um filho como truque pra me segurar, daria certo?

- Bom... Talvez você não se casasse com ela, mas um filho o prenderia a ela a vida inteira. E você já mencionou sobre alguns golpes que sofreu...

Evan levanta da cama, respirando fundo e coloca as mãos nos quadris. Mesmo zangado ele consegue ser sexy.

– O quê? – Olho para ele assustada com a cara zangada dele.

– Preste atenção porque eu vou falar isso somente uma vez – Ele fala com o dedo em riste. Eu apenas balanço a cabeça –Nunca, jamais, em hipótese alguma quero ouvir você mencionar isso novamente. Nós não planejamos esse bebê, mas ele é bem vindo porque foi concebido com amor. Amor esse que nunca senti por nenhuma outra mulher. Estamos entendidos?

Mais uma vez só balanço a cabeça.

- Você e suas ideias estranhas. Daqui a pouco vai querer falar sobre assinar um contrato pré-nupcial. – Ele reclama entredentes como um velho resmungão.

- Evan! É claro que vou assinar um contrato pré-nupcial! Você tem noção do quão pobre em relação a você eu sou?

Ele olha para mim de uma maneira estranha. De fato, nunca vi Evan olhando assim nem para seu pior inimigo, e olha que eu estava presente quando ele quis voar no pescoço de Gutemberg naquele restaurante. Determinado, ele sai do quarto e bate a porta.

- Evan! Onde você vai? – Grito apavorada.

Fico toda enrolada para tirar a bandeja de perto de mim sem derrubar tudo na cama e corro descalça até a sala. Encontro-o ao celular falando com Jony, muito zangado.

- Isso mesmo que você ouviu. Quero que passe todos os meus bens para Victoria Campbell Maccouant. Não me interessa que ela não seja minha esposa ainda! Deixe todos os documentos prontos que tão logo ela assine o papel do casamento, os bens serão dela e... – Nesse momento arranco o celular da mão dele e desligo na cara de quem quer que seja.

- Você enlouqueceu?

- Não, VOCÊ enlouqueceu se acha que vou perdê-la só porque tenho uns míseros milhões a mais que você. Se você for a milionária ninguém vai falar mal de você.

- Claro que vão, seu maluco! Vão dizer que eu o enfeiticei a ponto de abrir mão de sua fortuna!

- Dane-se o que os outros acham! – Ele abre os braços em rendição - Eu encontrei a mulher da minha vida! – Ele grita – Eu consegui me curar de meu passado! Eu vou ser pai! Fodam-se os milhões! Eu só quero você e nosso filho!

Isso me desarma. Levo a mão aos lábios e começo a chorar.

Preocupado, Evan me leva no colo até o sofá e senta comigo em seu colo.

- Vick, não chora. Não faz bem pro bebê. Ai, meu Deus! Que foi que eu fiz? Fala comigo, Vickinha, por favor!

E quanto mais ele falava, mais eu chorava. E ria ao mesmo tempo. Seguro os rosto dele entre minhas mãos.

- Fica comigo para sempre.

– Essa condição nunca vai mudar, meu amor. – E me beija como se aquele beijo curasse todas as mazelas do mundo. – Preciso arrumar nossas malas. – ele fala enquanto esfrega o nariz em meu pescoço.

– Eu te ajudo. Faremos rápido e poderemos dar uma volta mais tarde, o que você acha?

– Sorriso lindo. Faremos o que você quiser, menos a parte de me ajudar com as malas.

– Evan, eu vou ajudar!

– Não vai, e por favor, não me obrigue a te amarrar aos pés da cama. – Ele sorri.

– Tudo bem, então vou ficar aqui, olhando e comendo. Posso me acostumar com isso facilmente.

– Linda, vou amar ter duas crianças em casa. Nossas cabanas serão mais bagunçadas.

Não consigo não amá-lo. Tão diferente do rapaz que salvei do ônibus... Muito diferente, apesar de que foi esse homem que ficou no passado que me trouxe até esse que arruma minhas calcinhas dentro de uma pequena sacola de cetim. Pobre Susan, perdeu essa chance. Pensamento fúnebre sobre a garota de vida duvidosa.

 


Chegamos na noite anterior a Nova York, Evan está novamente no celular com Jony. Avisa que só vai trabalhar na segunda-feira e que Gutemberg não interessa mais.

– Marquei seu médico para hoje à tarde.

– Preciso ver se não tenho compromisso. – Falo divertido.

– Engraçadinha!

– Você vai comigo? – Ele olha torto, até um pouco bravo.

– Óbvio. – Ele abotoa meu sutiã.

– Obrigada.

– Não me agradeça, porque vou ter que desfazer. – Ele desabotoa e rapidamente também está nu. – Me perdoe, não resisti.

– Ainda bem. – Sorrio para ele enquanto me deita na cama.

– Tenho que tomar cuidado.

– Evan! Não tem problema, ele está protegido.

Ele faz amor comigo lindamente. Sereno, calmo, e eu amo seu jeito protetor de me tocar. Ele não tem pressa alguma, tem todo o cuidado do mundo, olhando dentro dos meus olhos enquanto suas mãos estão em cada lado do meu rosto e seu corpo relaxa sobre o meu.

– Amo fazer amor com você. – Declaro. – Gosto de onde estou agora. – Ele me beija.

– Ainda com fome?

– Não de comida, Evan. – Olho em seus olhos.

– Mas preciso que você coma.

– Eu vou comer.

– Está se sentindo bem?

– Sim, muito bem.

– Vista-se e desça comigo.

– Sim, senhor, vou ligar meu celular e meu iPad. - Ele segura minha mão e me leva até a mesa, perto da piscina.

Sou recebida calorosamente por Maria com um enorme sorriso seguido de um beijo na testa. Ela quer detalhes da viagem e avisa que fez bolo de chocolate.

Evan me olha de relance e inclina a cabeça.

– Suco de laranja ou chá? – Pergunta, puxando a travessa com o bolo para longe das minhas mãos.

– Bolo de chocolate, por favor. – Ele sorri e corta uma fatia miserável.

– Evan! É pouco!

– Dou mais se comer pelo menos uma fruta. – Maria nos deixa com uma interrogação na testa.

– Como um morango.

– Não, Vick, coma mais que um morango ou então proíbo Maria de fazer esse bolo.

– Você percebeu que gosta de me tirar a comida?

– Sim, mas agora não é para vê-la nua, é para cuidar de vocês.

– Vou ter que contar pra Maria.

– Por quê?

– Evan, ela tem que saber. Faltam menos de dois meses para o casamento, então vou precisar dela enquanto você trabalha, e ela não vai contar pra ninguém.

– Por mim, tudo bem.

– Mas eu quero que esteja presente.

– Por quê?

– Não fiz ele sozinha! – Coloco a mão na minha barriga.

– Adorei fazê-lo! – Ele sorri maliciosamente.

Grito por Maria, e a escuto fechar uma das trezentas portas do armário da cozinha.

– Sim, Vick. – Ela se materializa ao meu lado.

– Evan e eu temos uma notícia pra você.

– Sim? – O olhar um pouco tenso.

– Bom, na realidade são duas.

– Conte! – Maria une suas mãos na frente da boca, está ansiosa.

– A primeira é que vamos nos casar dia vinte e oito de novembro na Catedral de St. Patrick’s.

– Estou muito feliz, estarei à sua disposição, Vick. – Ela fala com um enorme sorriso nos lábios.

– Obrigada, Maria, vou precisar; e a segunda é que preciso saber se você ainda gosta de cuidar de bebês. – Falo sorrindo, com a mão no meu ventre.

– Meu Deus! Vick! – Maria começa a chorar de alegria. – Vamos ter uma criança aqui?

– Mais uma. – Evan brinca. – E não quero saber de guloseimas. Compre itens saudáveis pra Vick e o bebê. E, Maria, contamos com sua discrição. – Evan fala. Maria acata e sorri pra mim.

– Sim, tem um bebê aqui. – Coloco a mão dela sobre a minha barriga assim que levanto.

– Sr. Maccouant, estou mais do que feliz, é como voltar no tempo.

– Maria, é segredo. Ninguém pode saber, promete? – Peço, olhando em seus olhos.

– Claro, nosso segredo, nosso bebê. Que alegria! – Maria pede licença e leva as mãos à cabeça.

– Ela realmente gostou da novidade. – Evan se surpreende com a reação da babá que um dia foi dele e agora será do pequeno Evan.

– Posso comer o bolo?

– Pode, teimosa!

– Não sou mais “deliciosamente”?

– Sempre será. Antes que me esqueça, os convites estão prontos e serão entregues na Maccouant. Assim que sairmos do médico, nós os pegaremos. Preciso de sua lista de convidados. – Ele completa o copo com suco de laranja.

– Não havia pensado nisso, à noite eu faço. – Como vorazmente um pedaço gigante do bolo. – Onde pensa em fazer a festa? – Pergunto, cortando a segunda fatia sob o olhar julgador de Evan.

– Pensei no Metropolitan, Sheraton Hotel, mas você pode escolher outro lugar se quiser.

– Evan, mais simples. Pode ser aqui, uma reunião pequena, apenas para os íntimos?

– Não, pouco espaço. E aqui é nossa casa, não quero correr riscos. Aqui tem nossa intimidade, não quero ninguém nos quartos.

– Tudo bem, mas por favor, vamos fazer algo simples. Tudo bem?

– Sim. – Ele responde como se dissesse “não”.

– Estou satisfeita. – Também, com três pedaços de bolo, espantaria se não estivesse.

– Bolo de chocolate? Muito bom. – Total reprovação estampada na testa de Evan.

– Só hoje. – Eu me desculpo, dando de ombros.

– Só hoje? Sei, tenho medo do que vai acontecer quando eu voltar a trabalhar.

– Prometo que vou fazer uma caminhada matinal todas as manhãs. – Ele reprova, é claro.

– Preciso concluir algumas negociações. Importa-se se eu trabalhar um pouco na casa da piscina?

– Não, claro que não. Posso ficar com você?

– Sim, desde que não coma banana. – Ele fala divertido e me leva pela mão. Está tudo pronto: seu computador, papéis e uma banqueta alta de frente com o Macbook.

– Poderia dar meu celular? Assim me distraio com os jogos. – Sento num dos sofás, esticando a perna entre as almofadas.

– Sim. – Ele responde e desliza o polegar sobre a tela. Seu rosto está calmo. Sorri enquanto lê, mas a sombra toca seu rosto e suas sobrancelhas se unem, reprovando o que lê. Seu polegar rola a tela de novo e me entrega o celular.

– Toma, ficaria aqui se eu pedisse?

– Sim. – Ele fala de um jeito que posso ver quando pega seu celular e, com apenas um toque, chama Gunter. Não ouço o restante, e também não quero. Preciso proteger o pequeno Evan, não quero saber de problemas.

– Boa menina, obedeceu. Estou surpreso. – ele diz, beijando o topo da minha cabeça.

– Não gosta de obediência?

– Gosto. – Ele sorriu de lado lindamente.

– Não quero saber o que leu e apagou, não quero nada além de você e o bebê.

– Fico tranquilo em ouvir isso. – Ele se posiciona diante do computador e começa a trabalhar. Por algum estranho motivo, gosto de vê-lo fazendo isso. Ligações, e-mails, papéis, o pobre Jony sendo pisoteado, deve ser carma por ser advogado. A Sra. Everhill se desdobrando para atender todos os pedidos, e todos os pedidos são urgentes, para ontem. Evan incansavelmente falando ao telefone e digitando rapidamente.

Entre alguns telefonemas e e-mails, ele sai da casa da piscina, desliza o polegar sobre a tela do celular e volta para o computador. Ganho um beijo inesperado e retribuo, sorrindo enquanto jogo Angry Birds. Cochilo alguns minutos e acordo com ele passando a mão em meu rosto. Ele sorri e volta para o seu ritual de ordens e planilhas.

– Está calor. – Falo baixinho e saio da casa da piscina.

– Aonde você vai? – Evan pergunta sem tirar os olhos da tela.

– Já volto! – Vou para o quarto.

Reviro minhas gavetas organizadas por Maria e encontro meu biquíni cortininha verde cana. Está um calor terrível. Apanho uma toalha e meu iPad, escolhendo Oasis como repertório e desço. Com uma piscina dessas e música da melhor qualidade, eu me encontro.

– Vick, quer um suco de goiaba? – Maria pergunta assim que passo pela cozinha.

– Quero, sim. Obrigada, Maria. – Saio da casa maior e parto para o meu refúgio azul e líquido. Caminho sem olhar para direita, a casa menor onde Evan trabalha, pois não quero chamar a atenção dele. Dispenso a toalha sobre a espreguiçadeira e sobre ela o iPad com minha trilha sonora em nome da preguiça.

– Como vou conseguir trabalhar com você assim? – Evan coloca meio corpo para fora da casa e me questiona.

– Evan, finja que não estou aqui. – Digo descendo as escadas da piscina.

– Fingir que você não está aqui? – Ele bufa e entra fazendo que não com a cabeça.

Eu consigo vê-lo pela imensa vidraça da casa menor. Ele fala ao celular. Alguém está recuando ao ouvir suas ordens. Sou extraordinariamente apaixonada por ele e todos os “eles” que se escondem dentro de Evan, que sorri para mim neste momento. Subo no colchão inflável azul e esqueço do mundo ouvindo Oasis – Wonderwall. As palmeiras fazem uma sombra gostosa em boa parte da piscina e opto pela sombra, pois não passei uma molécula de protetor solar.

Como pode a vida mudar desse jeito? Há pouco tempo eu estava na ponta dos pés, e agora estou em uma piscina fabulosa esperando um filho do homem que amo. Meu primeiro e único amor.

 


Não demora muito e estamos a caminho do consultório.

– Você está bem? – Evan pergunta, colocando a mão sobre a minha perna.

– Sim, estou ótima e muito feliz. – Sorrio.

Evan estaciona o X6, salta do carro e abre a porta para mim.

A recepcionista nos cumprimenta e avisa que logo seremos atendidos.

Sento e balanço minhas pernas. Estou com medo e ansiosa.

– Calma. – Evan fala em meu ouvido.

– Não consigo. – respondo sussurrando.

Por fim meu nome é chamado, e Evan já está abrindo a porta do consultório para nós.

– Olá, Victoria, tudo bem com você? – O gentil e jovem Dr. Arthur me deixa um pouco mais à vontade. – Evan. – Ele aperta a mão do futuro papai e amigo de longa data.

– Para ser bem honesta, espero que me diga que está tudo bem. – Falo sorrindo, mas ainda estou um pouco nervosa.

– O que aconteceu? – ele pergunta.

– A verdade é o que está acontecendo. Tive um pequeno mal-estar em Madri e o médico me disse que estou grávida.

– Então vamos examiná-la. Por favor, retire toda a roupa, coloque o avental e deite-se na maca.

Obedeço. Minutos depois estou de barriga para cima, com Evan ao meu lado.

– Você está bem?

– Um pouco nervosa. – Respondo, mordendo o lábio inferior.

O médico começa seu exame, estou tensa. A cada recomendação eu apenas aceno com a cabeça.

– Vamos lá, preste atenção aqui na tela, e quando ouvir um pequeno sinal, é porque temos um bebê a caminho, ok?

Aceno de novo e estou mais nervosa. Penso que posso não estar grávida, e se não estiver, posso decepcionar Evan.

– Começando. – O médico anuncia.

Ele mexe e remexe aquele aparelho em mim e nada, nenhum barulho. Uma lágrima rola e penso na decepção de Evan. Calma, Vick, penso comigo mesma. Evan não tira os olhos de mim. Ele não está olhando para a tela e concentro-me naquele par de olhos verdes. Eu me perco em todas as vezes que esses pontos esmeraldas me olharam e de repente o bip. Meu pequeno Evan existe mesmo, está aqui dentro. Bip novamente e meus olhos se lacrimejam.

– É, temos um bebê crescendo por aqui. E pelo tamanho nosso herói já está na quinta semana. – O médico fala e meus olhos estão em Evan, que está atrás de mim me olhando de cabeça para baixo com seu melhor sorriso, segurando meu rosto entre suas mãos e beijando levemente minha boca.

– Querem uma foto? – O médico pergunta.

– Sim. – Evan responde ainda olhando para mim. Somos três agora, de fato comprovado pelo “bip” e pela foto que acabou de ser impressa.

– Vi pela ficha que vocês preencheram que o médico em Madri já receitou algumas vitaminas. Vou apenas receitar alguns exames. Nada demais. Apenas para checar como andam as taxas no corpo da mamãe. Assim que tiver os resultados, traga-os pra mim. Qualquer eventualidade, por favor me ligue. Parabéns.

Despedimo-nos e estamos em êxtase. Troco de roupa e saímos. Ambos sorrindo, mundo perfeito.

– O que foi? Por que você parou o carro? – Pergunto depois de algumas quadras quando percebo Evan reduzindo e parando o carro.

– Surpresa. – Ele diz e estaciona. Saindo do veículo, ele me pega pela mão, e com a outra, fecha meus olhos. – Consegue não tropeçar? – Ele fala divertido porque sabe que não tropeço com facilidade, guiando-me para dentro de uma loja com cheiro suave. De repente, tira a mão dos meus olhos. Estamos na Makié, uma loja linda especializada em bebês.

– Evan, é muito cedo para compras, não acha?

– Não, quero comprar o primeiro presente. – Ele sorri lindamente, dando um beijinho na minha boca e apontando para um par de sapatinhos vermelhos que estão dentro de uma estante de vidro. A loja é um encanto, e o cheiro de bebê é envolvente.

Evan se apaixona pelos sapatinhos, amor à primeira vista. Depois escolhe outras peças neutras: um macacão branco, uma toalha verde e alguns bodies de um algodão extremamente confortável. Ele parece uma criança em uma loja de brinquedos.

– Você não vai escolher nada?

– Hoje não, hoje é você quem escolhe. – Sorrio e ele me abraça. Feliz é pouco.

Saímos da loja com algumas sacolas, mas para Evan o par de sapatinhos vermelhos é especial. É sua primeira escolha para o filho e seu sorriso é minha recompensa.

– Você tem um excelente gosto.

– Claro que tenho, olha a mulher que escolhi para ser a mãe do meu filho. – Ele está entusiasmado; eu, realizada.

Claro que quero cuidar dos detalhes do bebê, mas antes disso preciso cuidar do meu casamento marcado para muito em breve.

 


Saio do escritório de Evan tendo nas mãos a árdua tarefa de escolher os convidados para o casamento, do meu lado da família. Absolutamente todos moram na Escócia, para que convidá-los então?

– Evan?

– Estou na cozinha.

– Aqui está a lista de convidados. A maior parte está na Escócia, então selecionei apenas os mais próximos. – Entrego o papel para ele, que sem prestar atenção, coloca de lado e me senta em cima da ilha. – Evan, casamento simples, tudo bem?

– Não. Pra ser honesto, reservei o Metropolitan mesmo. Conheço minha mãe e ela vai se empolgar com as amigas. Fica por sua conta, junto com o cerimonial, a decoração e a comida. Quero que você decida tudo aqui dentro de casa. Não quero saber de você na rua, estamos acertados?

– Evan, eu amo seu controle, mas não acha um pouco exagerado?

– Por favor, não vou discutir com você. Escolhi a igreja e o local da festa sem sair de casa, e você fará o mesmo. Ainda não descobrimos nada sobre o sequestro e sobre a invasão da casa, e você tem algo que deve cuidar muito bem. – Evan está bravo.

– Tudo bem, eu sei, desculpa, vou resolver isso tudo daqui de dentro. Queria poder sair tranquila.

– Assim que pegarmos o responsável você poderá sair, certo? Quanto à sua lista de convidados, Gunter está encarregado de acertar que sejam entregues os convites. – Ele sorri e me beija.

– Sinto falta da Gael.

– Eu sei.

– Estava comendo o quê? – Mudo de assunto.

–Estava tentando decidir, mas aí escutei você me chamando e fiquei com mais fome. – Ele sorri maliciosamente.

– Ah, é? E o que você quer fazer com essa informação? – Ele me beija e puxa minha calcinha de lado. Eu amo como ele me surpreende, como me tem facilmente. Nunca resistiria a ele.

– Você está ainda mais deliciosamente terrível.

– Fico feliz em saber, Sr. Maccouant.

Ele relaxa seu corpo e me beija incessantemente.

 


Estou sentada na banqueta na cozinha e descubro que Maria é incrivelmente engraçada. Conversamos por muitos minutos.

Hoje eu e Evan fomos à mais uma consulta e num novo exame, desta vez em 3D, praticamente podemos ver o rosto de nosso pequeno Evan. Bom, não exatamente o rosto, mas definitivamente as batidas de seu coraçãozinho. Depois de me deixar em casa, Evan e Gunter foram para New Jersey. Reunião de negócios. Portanto, aqui estamos eu, o bebê e Maria, trancafiados em casa, por ordem explícita de Evan.

Entro no quarto procurando o celular em cima do criado-mudo, mas não o encontro. Apenas escuto a porta se fechando atrás de mim. Um sopro terrível de medo em minhas costas, algo realmente assombroso. Ouço a respiração de outra pessoa e sinto a minha parar.

– Pensei que não fosse subir. – O canto da morte. Lívia está dentro do meu quarto e a porta está fechada; ou melhor, trancada. – Vire-se. – Não estou com medo por mim, estou apavorada pelo meu pequeno Evan. Viro-me lentamente e olho nos olhos dela. O telefone da casa está tocando. – Tem noção de como está a minha vida? – Ela fala baixo e anda em minha direção. Eu tremo. – Você acabou comigo, ele era meu! – Ela anda ao meu redor e não tenho coragem de abrir minha boca. Maria bate na porta, Evan está ao telefone e quer falar comigo.

– Vejo que a família vai aumentar. – As lágrimas rolam pelo meu rosto. – Mas, de fato, não sei bem o que fazer com você. Será que é bem mais importante agora? – Lívia joga no chão as roupas que Evan comprou para o bebê.

– Ma... Maria, não posso atender agora. – Ela percebe meu gaguejar. – Lívia, por favor. – falo trêmula e chorando.

– Cale-se, não quero escutar sua voz, não quero a cozinheira fazendo escândalo e nem tente procurar o celular que estava no criado-mudo. – Ela joga os pedaços em cima da cama. É apenas Lívia, eu e o pequeno Evan. Ela anda à minha volta. – E onde ele está agora? Ah, Lembrei! New Jersey, com o cão de caça. Largar você aqui sozinha foi uma ideia bem imbecil. Protegeu tanto e agora me entregou de bandeja. – Há tanto ódio em suas palavras, e estou chorando muito... Sinto um soco nas minhas costas. Caio e bato a mão no abajur que está em cima do criado-mudo.

– Lívia, vamos conversar. – Meu pequeno Evan... Abraço meus joelhos como se criasse um escudo em volta da minha barriga. Preciso protegê-lo.

– Não esperei por você para conversarmos, quero que cale a boca. Não quero problemas, você e eu vamos sair dessa casa e não quero ninguém nos perseguindo. – Lívia está armada e meu coração gela. Ela se senta na cama e fica por minutos sem expressar qualquer reação.

– O que você quer, Lívia? – Levanto-me, sentindo ainda a pancada nas costas.

– Você tem carros na garagem. Quero as chaves e quero você dentro de um deles. Vamos sair do estado. – Ela fala baixo e com fúria. Minhas pernas tremem, não quero sair da minha casa.

– Lívia, você quer dinheiro? Quanto quer? – Não consigo disfarçar o medo.

– Dinheiro? Não! Nenhum valor pagaria a vingança contra seu estúpido noivinho! Dinheiro? Você é uma vadia mesmo, se vendeu para ele! – Com as costas da mão ela acerta meu rosto.

– Não, Lívia, mas você não entenderia. – Falo limpando os lábios do filete de sangue que ela arrancou de mim.

– Não quero entender nada, não vim aqui para entender nada. Vim apenas concluir o que foi começado.

Toc Toc...

– Vick? – Maria bate na porta insistindo. Ela ouve o abajur caindo.

– Se você fizer alarde, arrebento sua cabeça. – Lívia murmura. – Diga que está tudo bem.

– O... oi, Maria. – Gaguejo de novo, estou tremendo.

– Você está bem? – Ela pergunta com voz preocupada.

– Sim. – Evito falar por conta do choro.

– Escutei um barulho, posso entrar?

– Se ela entrar aqui, mato as duas. – Meu Deus!, clamo internamente.

– Maria, a porta está trancada e acabei de entrar na hidro. – Minha voz sai toda trêmula. Estou tremendo.

– Tudo bem mesmo? – Maria percebe que algo está estranho, mas não pode fazer nada. A porta está trancada e ela não tem a mínima ideia do que está acontecendo. – Victoria, é o Sr. Maccouant, ele quer falar com você. – Escuto Maria falar perto da escada.

– Eu não posso atender. – Evan espera para ser atendido.

– Ela... está no banho... e não pode... atender agora. – Maria fala pausadamente e não como de costume. Sabe que algo não está bem e Evan com certeza percebeu sua aflição. – Senhor Maccouant, mas ela está no banho. – Maria mantém o telefone com Evan me aguardando.

– Lívia, deixe-me atender, ele vai desconfiar. – Peço implorando, e o que ganho é um soco no rosto. Espero que Maria não tenha ouvido meu gemido de dor.

– Você acha que vou te deixar falar com ele? Não sou nenhuma idiota! Mantenha a boca fechada. – Ela murmura para ninguém ouvir.

– Senhor, ela realmente não tem como atender agora. – Maria desce as escadas e não a ouço mais.

– Lívia, eu te entrego uma boa quantia e você vai embora, por favor! – Imploro.

– Não quero seu dinheiro, ou melhor, o dinheiro desse riquinho cretino. Dinheiro ele consegue recuperar, e quanto as pessoas? Será que o dinheiro dele vai conseguir arranjar outra Victoria? E agora a Victoria não está mais sozinha, parece que o golpe tem direito até a uma gravidez. – Sinto outro soco no rosto e caio abraçando meu joelho. Preciso proteger o pequeno Evan. Lívia chuta minhas costas e eu grito. Não consigo me segurar, está doendo. Ela chuta de novo, com mais raiva porque eu havia gritado, mas está doendo e outros gritos vêm e outros chutes também; minhas costas, costelas, perna e cabeça.

Eu estou com problemas. Grito, e a essa altura, Maria deve ter avisado Evan ou à polícia, mas só quero proteger meu bebê, meu pequeno Evan.

– Vamos, levante, você será meu escudo, vamos sair daqui agora. – Lívia me levanta do chão pelos cabelos.

– Lívia, por favor, estou grávida, pense no bebê, ele não tem culpa! – Em vão, ela me joga no chão, começa uma série de golpes contra minha barriga, minhas costelas, minhas costas. Não sinto mais meu corpo, sinto apenas o corpo que estou perdendo, sinto a fúria dela em mim, invadindo minha alma, eu não posso reagir. Ela está armada, e aos poucos percebo que é melhor desistir. Quero que isso acabe. Penso enquanto tento de maneira fracassada proteger meu abdômen. Evan preciso de você agora. Sinto o gosto amargo e ácido de mim mesma, meu sangue explode na minha boca assim que desce pelo meu rosto. Estou realmente com problemas. Lívia coloca força na perna e arremessa seu pé contra minhas costas, perco o ar por alguns segundos que parecem anos. Ela finaliza virando meu rosto em direção do rosto dela.

– Escute aqui, um dia, mais cedo ou mais tarde, você querendo ou não, ele será meu. – Ela joga minha cabeça contra o chão e o teto do quarto está girando, meu corpo está pulsando e olho nos olhos dela, que sorrindo abre a porta do quarto e sai. Não sei por quanto tempo eu fiquei ali, deitada

Com muito esforço, rastejo até o parapeito do mezanino.

– Maria, me ajuda. – Olho a porta da sala aberta. Lívia havia fugido e Maria está caída, alguns segundos depois ela se levanta e chega até onde estou.

– Victoria! Lívia me empurrou quando eu estava subindo e ela conseguiu fugir. Calma, vou ligar para Evan. – Ela alcança o telefone e sobe para me ajudar. – Senhor, a Victoria está ferida, Lívia estava com ela no quarto. – Maria olha para mim e tento ficar de pé na escada. Consigo apoiar meus joelhos. Meu nariz está sangrando.– Vick, ele está chegando, mas vou chamar a ambulância.

Evan chega alguns minutos depois.

– Victoria! – Ele grita, subindo as escadas e quase me alcançando, então coloco a mão entre minhas coxas e sinto algo escorrer. Quando olho para meus dedos vermelhos, uma tempestade me toma e tudo fica escuro.

Evan me pega no colo e sai da casa, colocando-me no banco de trás do carro e tomando a direção.

– Vick? – Uma voz longe me chama e uma fumaça negra está em cima de mim. Tudo escurece de novo. Em meio à névoa, ouço Evan falando com alguém enquanto me carrega no colo depois de algum tempo.

– Ela está grávida e está sangrando. – Ouço, mas meu corpo está sob a fumaça e não tenho reação. Estou trancada dentro de mim mesma e não consigo falar.

– Alô, Dr. Arthur, é o Evan. – Escuto e apago.

– O senhor terá que esperar na recepção. – A enfermeira alerta Evan, que não sai.

– Senhor, eu insisto. – Ela abre a porta da sala de emergência e ele sai.


Capítulo 8


Vick

 

Acordo alucinada, tentando sair da cama. Um enfermeiro me segura para que eu não arranque o cateter do soro.

– Meu bebê, por favor, Evan!

– Não pode levantar. – O enfermeiro insiste.

– Evan, quero o Evan! – Grito.

– Estou aqui. – Evan entra pela porta.

– Senhor, não pode entrar aqui. – O enfermeiro tenta deter Evan, mas não consegue.

– Não vou sair daqui. – Evan está nervoso, olha secamente para o enfermeiro, e de fato não sai.

– Vou chamar a segurança do hospital. – O enfermeiro ameaça.

– Você pode chamar o exército se quiser, não vou sair daqui! – Evan debruça-se sobre mim.

– Evan! Nosso bebê está bem? – Pergunto olhando para os olhos vazios de Evan.

Evan beija minha testa e tenta me conter.

– Evan, não minta pra mim, meu bebê... Meu pequeno Evan está bem? – Insisto.

– Minha menina, tudo vai ficar bem, preciso que se acalme. – Ele mantém os lábios no topo da minha cabeça.

– Por favor, eu imploro, diga se está tudo bem com ele. – Choro e levo minhas mãos até meu ventre.

– Senhor, preciso que saia. – O médico entra no quarto, tentando tirar Evan.

– Não vou sair do lado dela. – Evan e seus olhos sobre mim.

– Por favor, deixe-o aqui comigo. – Peço chorando para o médico e a porta se abre. É o Dr. Arthur. Meu mundo fica negro, triste, e pressinto o pior.

– Vick, preciso que você se acalme. – O Dr. Arthur pede o impossível. Estou tremendo.

– Por favor, diga pra mim que está tudo bem com o bebê. – Peço por misericórdia para ouvir boas notícias.

– Minha menina, por favor, preciso que fique tranquila. – Evan pede no meu ouvido, mas é em vão.

– Como vou ficar tranquila? Quero saber do meu bebê e ninguém me fala, isso está me deixando pior. – Choro e Evan me envolve com seus braços.

– Vick, você sofreu uma lesão muito forte e a seriedade dos golpes acabou atingindo seu abdômen. Infelizmente, sofreu um aborto. – Silêncio mortal e interno. Nada, não ouço mais nada. Olho a boca do Dr. Arthur se mexendo com as explicações, mas não escuto nada. É como se tudo estivesse sem som, sem cor, um precipício sem fim, uma queda constante. Apenas meus olhos cheios de lágrimas e Evan e o médico tentando me trazer de volta. Meus sonhos, meu bebê, meu pequeno Evan... Choro compulsivamente. Dói tanto.

– Não, por favor, fala que é mentira, por favor. Evan me ajude! – Grito.

– Por favor, Vick, fique calma, minha menina. Vai ficar tudo bem. – Evan me beija.

– Minha culpa, eu não o protegi. – Choro e culpa fazem par com desespero.

– Victoria, você sofreu muitas lesões, e além do aborto houve uma ruptura interna, vamos fazer um procedimento daqui a pouco. – O médico me dá de presente um abismo e me jogo em queda livre novamente.

Vontade de gritar. Maldição sobre mim. Não haverá os passinhos pela casa, o primeiro banho ou a primeira palavra. Nossa cabana desmoronou. Os sapatinhos vermelhos não serão usados, meu umbigo está solitário e não haverá mais as conversas sobre o inflável da piscina. Grito dentro da minha cabeça.

– Minha menina. – Evan sussurra em meu ouvido.

– Senhor, tem que sair. – A segurança do hospital fala com Evan, que não se dá ao trabalho de olhar para a porta onde o grandalhão está.

– Ele pode ficar. – O Dr. Arthur ordena com olhos piedosos lançados sobre nós e o segurança recua, fechando a porta. Arthur sabe que não terei outra chance.

– Evan, me perdoe, eu deveria tê-lo protegido. – Choro com o rosto entre as mãos de Evan.

– Não se culpe, fique calma, por favor. – Seus beijos tentam me acalmar e se faz um deserto em meu coração.

– Vick, você passará por um pequeno procedimento e precisará de repouso absoluto. – Dr. Arthur toma a frente de toda a situação. Sinto a pena em seus olhos.

– Evan, não saia daqui, fique comigo, por favor. – Imploro e vejo o sangue na camisa branca de Evan. Isso me deixa pior.

– Vamos? – O enfermeiro entra e começa empurrar a maca para o corredor gelado.

– Evan, venha comigo. – Peço ainda segurando sua mão quente, minha única fonte de calor.

– Não posso, mas vou ficar aqui esperando por você. Sempre estarei com você. – Ele sussurra em meu ouvido. Evan dá um beijinho na minha boca e sou levada para o centro cirúrgico.

Nesse momento, escuto apenas o coração do pequeno Evan. Vejo apenas o sorriso de Evan com os sapatinhos vermelhos caminhando sobre a minha barriga. Ouço as conversas com minha barriga que nunca mais acontecerão. O colo de Evan não precisará mais ser dividido, e minha fé abandona esse corpo falho e com apenas um coração batendo. O outro não suportou.

Adormeço sob o efeito da anestesia e sonho com uma cabana vazia.

 


Estou há três dias no hospital e Evan está em tempo integral comigo. Rose e John me visitaram essa manhã, mas não sabem do neto que não existirá mais. Preferimos não contar nada a ninguém. Foi o nosso castigo interno, escondido dentro do coração apertado e sem os sapatinhos vermelhos.

Meus pais não tomaram conhecimento do que aconteceu, assim como Lucca e Sam, que pensam que estou esquiando em alguma montanha próxima ao Chile.

Decisão minha de me abandonar e não contar nada a ninguém. Estou de luto, e cada vez que penso nos sapatinhos vermelhos entro em desespero. Ele não estará aqui para usar. Meu bebê... Meu pequeno Evan e nossa cabana.

– Vick! O que você está fazendo no chão? – Evan entra no quarto com dois copos térmicos e me flagra próxima à janela, abraçada com meus joelhos.

– Evan, estou tão triste e com tanta culpa... – Evan me levanta do chão, anda até o pequeno sofá, senta e me aninha em seu colo. O colo será apenas meu e isso dói mais. Choro e ele me envolve em seu abraço quente.

– Com licença. – O Dr Arthur entra com papéis na mão que imagino ser minha alta. – Preciso falar com vocês dois. – Uma espécie de grito acontece em meus sentidos e algo me avisa que não vou ficar bem.

– Pode falar, Dr Arthur. – Ele respira fundo ao ouvir o comando de Evan, eles se conhecem há muito tempo e inevitavelmente acaba sendo solidário.

– Como havia dito, houve uma ruptura, por isso a hemorragia. A cirurgia foi um sucesso. Você terá que tomar alguns remédios por pouco dias, fazer repouso para cicatrização interna. Infelizmente, nem todas as notícias são boas. – o médico para como que para procurar as melhores palavras. Mas existe isso quando se é para dar uma má notícia? - Victoria, infelizmente é possível que você não possa engravidar novamente.

Permaneço imóvel como se merecesse ouvir isso, e sinto o abraço de Evan tentando me resgatar, mas ele não pode. Eu me visto de Evan Louis Maccouant e não aceito perder.

Apenas balanço a cabeça mas por dentro entro em desespero, um redemoinho de sonhos e dor, juntos ali, em cima de mim, dentro de mim, e por pouco não desejo a morte.

– Me perdoem pela notícia. – O Dr. Arthur sai e nos deixa impotentes diante de tal fato.

Evan me abraça forte enquanto afundo meu rosto em sua camisa.

– Evan, me perdoa? Não o protegi.

– Preciso de você, minha menina, não se culpe. – Ele me aperta.

– Preciso muito mais de você agora. Quero ir embora. – Digo com a boca em seu pescoço.

– Daqui a pouco estamos indo. Sua alta está sendo assinada. – Ele beija minha testa e me abraça mais forte. – Mas você precisa reagir. Se ficar assim, o Dr. Arthur vai querer mantê-la aqui por mais alguns dias pra ter certeza de que não fará nenhuma bobagem.

– Seremos você e eu, acha que pode aguentar? – Falo triste de pensar nele me olhando sem o bebê.

– Aguentar? Essa palavra indica esforço e estar com você é um prazer, não um castigo. Eu amo você, minha menina valente.

– Eu te amo mais, muito mais.

 

A casa limpa e sem vestígios dos acontecimentos recentes não consegue conter meu choro assim que piso nela novamente. As peças do bebê foram escondidas por Maria. No carpete da escada não há sangue e me sinto ainda mais vazia.

– Está com fome? – Evan me abraça e me tira do pé da escada.

– Não, estou cansada, parece que corri mais de mil quilômetros. – Abraço-o também.

– Mas precisa comer. – Ele beija o topo da minha cabeça.

– Tudo bem, vou tentar comer alguma coisa. – Ele sorri com minha força. Preciso ser forte, mais do que nunca.

– Maria, por favor, arrume a mesa próxima a piscina, vamos almoçar lá fora. – Evan ordena e Maria cumpre.

Maria me recebe com tanto carinho nessa manhã... Abraça-me como se ela também estivesse sofrendo como eu e, nesse momento, apesar de querer sumir daqui, penso nela, na boa companhia e no tempo que ela trabalha para a família Maccouant. Isso me faz querer ficar nessa casa.

– O cheiro está ótimo, Maria. – Minha voz ainda está triste.

– Minha menina, precisa de alguma coisa? – Evan pergunta, beijando a palma da minha mão.

– Sim.

– Peça o que quiser.

– Você, você ao meu lado, para sempre.

– Essa condição nunca vai mudar. Não existe a possibilidade de não estar ao seu lado, a não ser que não me queira.

– Como não te querer? – Meu rosto abatido olha para ele. – Não sei fazer outra coisa na minha vida. Ter você está me ajudando a não afundar.

– Com licença. – Maria coloca sobre a mesa os réchauds. – Salada de macarrão com muzzarela de búfala e ervas, filé ao molho, arroz branco e salada de alface.

Evan agradece e monta uma pequena porção de cada opção em um prato para mim.

– Quanta comida.

– Sim. O Dr. Arthur disse que você não precisa se privar de nada na alimentação. Na verdade precisa se alimentar bem pra ajudar na cicatrização da cirurgia. Quero ver você forte e saudável, temos uma vida inteira pela frente. – Ele não menciona o casamento e eu também não.

De alguma forma, sei que precisarei seguir, apesar de ter vontade de desistir. Mas tenho Evan e uma força surge ao pensar nele e em sua disposição de me salvar sempre, em todos os sentidos. A energia que aplicou nos detalhes do casamento, nas surpresas, nas alianças em meus dedos, nos locais que escolhera... Evan me ensinou a ser forte.

Sem perceber, como parte do que está no prato e estranhamente ouço algo me dizendo que tudo dará certo. Duvido muito disso.

 


– Sim, Jony, a casa é minha. Espero pelos papéis. Vou trabalhar em casa, todo o sistema da Maccouant está conectado por aqui. Sim, o novo sistema, reparei em suas observações e incluí as minhas. Inclua esse adendo nos novos contratos e cobre dez por cento para quem aderir. Sim, está tudo bem. Obrigado e, por enquanto, é apenas isso.

– Você gosta do que faz e fica lindo trabalhando.

Evan usa apenas uma calça jeans que cai sobre a cintura perfeita e estreita.

– Desculpe, acordei você?

– Não. – Digo, despertando do sofá da casa da piscina.

– Está com fome?

– Um pouco. Por quanto tempo dormi?

– Bom, são quase quatro horas. Dormiu por mais de três horas, e por falar nisso, é linda enquanto dorme.

– Evan, estou de pijama e um coque mal feito no cabelo, como pode me achar linda?

– Linda, a mais linda. – Ele me abraça pela cintura e me aquece.

– Estou feliz que esteja aqui. – Digo em relação ao trabalho.

– Estou feliz em estar aqui. Trabalho melhor quando posso descansar meus olhos em você.

– Um dia você pode se cansar...

– É, um dia posso mesmo, e acho que já sei quando isso vai acontecer.

– Ah, sabe? – Entro na brincadeira.

– Sim, eu sei. Entre um milhão de anos ou dois. Então prepare-se, mais ou menos nessa época é possível que me canse de olhar a mulher mais linda do mundo.

– Você me faz muito bem, me cura.

– Não consigo fazer bem maior do que você faz por mim, o que trouxe para mim e a vida que me deu de presente.

O melhor beijo, preciso tanto disso. Ele está tão forte e ainda remexo sem demonstrar minha dor sobre o pequeno Evan. Eu me culpo. Estou tentando entender que talvez não seria uma boa mãe, pois não consegui proteger a nós dois de Lívia.

A noite se fecha e meus olhos se perdem no teto do quarto da casa menor. Não consigo entrar no meu quarto, pelo menos ainda não. Evan está abraçado comigo e meu cansaço me vence.

Acordo por volta das três da manhã e estou sozinha na cama. Levanto e me enrolo no lençol. Sem fazer barulho, procuro por Evan. Saio da casa menor e nem sinal dele. Passo pela piscina, entro na casa maior, e nenhum vestígio.

A cozinha vazia, a sala da escada em arco também... E então ouço bem baixinho uma espécie de conversa, um diálogo em tom de oração. Vem do escritório e a voz é de Evan. Ele está sentado na poltrona preta, apoiado com seus cotovelos sobre os joelhos, falando baixinho em tom de súplica. Não interrompo, sento em silêncio no primeiro degrau da escada, abraço meus joelhos e me silencio diante do desabafo.

- Não saberia como pedir isso e como deveria ser feito isso. Talvez eu não deva, mas também não teria a quem pedir. Não teria de quem esperar um milagre senão do Senhor. – Evan suspira entre as frases. – Não sei o que seria de mim sem ela. Não saberia o que fazer, e agora não consigo tirar a sombra que invadiu o olhar da minha menina, ela que pediu para eu ter fé nas pessoas e me mostrou que isso é possível. E agora meu único amor está sofrendo e não tenho poder suficiente para alegrá-la. Não sei ficar sem o olhar dela, e é por isso que estou nessa espécie de oração embaraçosa. Sinto que não mereço ser ouvido, mas ela é Seu fruto, Sua obra. Não quero que sinta dor ou sofra mais. Matar um homem é fácil, mas quando algo que amamos morre, morremos mil vezes. Se eu pudesse realmente fazer um pedido ao Senhor, pediria a paz da minha menina e alegria para sua vida. Peço por egoísmo meu, porque é dessa paz e alegria que preciso para continuar vivo.

Meus olhos estão inundados de lágrimas. Evan fez uma oração do coração, aquela sincera que fala de nossas aflições, aquela conversa particular e honesta. Palavra verdadeira que demonstra quem realmente somos, que nos faz sentir a mão do Criador nos acalmando. Palavras dignas de quem em algum momento foi presenteado com uma graça. Evan foi agraciado pela fé.

Levanto nas pontas dos pés assim que as palavras cessam e espio o que ele está fazendo. Uma navalha me atravessa o coração. Evan vestiu seus dedos com os sapatinhos vermelhos.

Volto para o quarto em silêncio e peço a Deus que ouça o pedido de Evan.

 


O quarto é inundado pela música e pela luz do dia. A melodia invade o quarto e me convida a sair, Locked out of Heaven de Bruno Mars está baixinho. Passo pelo espelho do banheiro, lavo o rosto, escovo os dentes, domestico a juba com um coque e saio do quarto procurando pelo DJ. A música continua e sinto um braço em volta da minha cintura. É meu Evan.

– Bom dia. – Sorrio para ele.

– Minha linda, bom dia. – Ele sorri, inclinando a cabeça e olhando dentro dos meus olhos como se buscasse algo. Seu sorriso se abre ainda mais.

– Estou com fome!

– Isso soa como música para mim.

– Amo você, Sr. Maccouant.

– Idem, Srta. Campbell. Venha que a mesa está posta. – Ele me leva no colo e me senta na cadeira da mesa da piscina.

– Tenho um pedido. – Olho implorando.

– Peça. – Ele levanta as sobrancelhas

– Quero que você volte ao trabalho hoje!

– Nem pensar. – Ele quase rosna na resposta.

– Estou pedindo e quero ir com você. Não me torture me deixando aqui em casa.

– Mas você precisa descansar. – Ele retruca, e sinto que tenho chances de ser bem sucedida em meu pedido.

– Estou parada há alguns dias e estou mais cansada de ficar assim do que se estivesse dançando em tempo integral. – Suspiro. – Eu quero ir com você.

– Você é teimosa, Victoria! – Ele diz balançando a cabeça.

– Esqueceu o deliciosamente, Sr Maccouant!

– Está certo, você venceu. – Ele se rende ao meu pedido.

 


Com muito custo consigo convencer Evan de que posso ir até a livraria, do outro lado da rua, sozinha. Claro que antes tive que ouvir uma cantilena sobre ficar lá até que ele pessoalmente fosse me buscar.

Subo as escadas para o segundo piso da livraria e ando pelos corredores de madeira, o chão faz barulho e eu gosto, mas coloco meus fones de ouvido e deixo I Won't Give Up, de Jason Mraz, me perder entre os romances e as arquiteturas, quando um estrondo faz com que o chão tremesse. Uma explosão, pensei comigo. Deus! Uma explosão! Corro para fora da livraria e vejo o último andar da Maccouant em destroços.

– Evan! – Grito e corro, mas alguém me segura.

– Você não pode, ir lá! – O homem que me segura pela cintura diz. – É perigoso.

– Me solta! – vejo a Sra. Everhill sair no meio da poeira que está suspensa. Eu me solto do homem e corro para ela.

– Sra. Everhill! – Falo ao ampará-la.

– Srta. Victoria, Evan está lá em cima. – Ela me olha com pena e meu coração se parte. Ouço as sirenes, sento a Sra. Everhill na calçada e tento pular os escombros.

– Evan! – Grito e nenhum barulho, nada, apenas a poeira que não me deixa ver nada, não consigo ver onde está a escada, preciso ir até ele, preciso salvá-lo assim como ele fez comigo todos os dias.

– Você não pode ficar aqui! – Um segurança avisa e tenta me segurar, e luto para ir até o Evan, ele insiste em me segurar e outros vem para me tirar dali.

– Você precisa sair daqui, isso tudo pode desabar. – Ele fala, mas prefiro suportar esse prédio caindo em cima de mim do que existir em uma vida sem ele.

– Ele está lá em cima! – Falo chorando. – Você precisa ir até lá! –eu grito com o rosto sujo de poeira e lágrimas.

– Nós vamos subir, mas você precisa sair daqui agora. – Ele segura meus braços e diz olhando em meus olhos alagados

– Salve-o! – Peço.

– Sim, faremos tudo que pudermos. – Um bombeiro chega, me retira dali e sento ao lado da Sra. Everhill, que está sendo socorrida em uma ambulância.

– O que aconteceu. Sra. Everhill? – Pergunto, e ela está tremendo.

– Essa manhã chegaram algumas caixas, todas pequenas, como de costume. O Sr. Maccouant recebe muitas caixas do mundo todo. – ela suspira. – Então peguei as três caixas e coloquei sobre sua mesa, como sempre fiz. Em seguida o Sr. Maccouant chegou e me avisou que você estava na livraria, eu o avisei sobre as encomendas e sobre os memorandos e ele subiu. – Ela chora. – Então ele atendeu o celular e depois disso lembro apenas de sair do meio da poeira. – Ela soluça, está nervosa. Removo alguns pontos de cinzas do seu terninho preto e me levanto. Vejo os homens do corpo de bombeiros segurando uma maca, um homem está sobre ela e não é o Evan. Eu me levanto e dou um passo em direção a eles.

– Evan! – Falo baixo. Fecho meus olhos e peço por um milagre, peço para que esteja vivo, peço para que seu coração ainda esteja batendo, pois sem isso desejo que o meu pare também. Uma lágrima desce pelo meu rosto e ela queima. Outra maca sai da Maccouant, mas também não é ele, conheço Evan perfeitamente. Tento manter a calma, mas um homem do segundo andar grita para o outro que está subindo com a maca.

– Temos um corpo aqui! – E o meu corpo para como se não houvesse gravidade, como se o tempo parasse, como se eu não existisse mais. Tento gritar, tento correr, mas meu corpo perdeu seu tônus, meu coração parou de bater e além do corpo lá em cima, tem meu corpo aqui embaixo. E por muito tempo fiquei de joelhos no meio da rua, pedindo para que Deus deixasse Evan em minha companhia, nem que para isso eu precisasse não pertencer mais a esse plano. Os homens correm e eu permaneço de joelhos, sinto o chão se abrir, sinto que prefiro morrer.

– Rápido, ele está vivo! – O homem grita e meus pulsos não serão cortados, isso me salva do suicídio e me dá uma fagulha de esperança. Minutos depois vejo o terno perfeito e empoeirado do homem que amo sobre a maca. Ele está com uma máscara de oxigênio acoplada ao rosto e eu corro, esbarrando e empurrando todo mundo que está na minha frente. Ninguém conseguiria me deter, eu precisava segurar as mãos macias de Evan e dizer que estou aqui.

– Evan! – Falo encostando meu nariz em sua face suja de sangue. – Por Deus Evan, ouça, sei que você está aí, fica comigo, você precisa ficar comigo.

– Você tem que se afastar. – O homem fardado me segura e eles levam Evan para longe de mim.

– Sou a noiva dele! – Grito.

– Pode acompanhá-lo dentro da ambulância. – Eles colocam Evan inconsciente e eu me sento ao seu lado. Olhar aquele rosto tão lindo sujo de sangue e poeira, e isso me dói. Tiro algumas lascas de concreto do seu terno, levo seus cabelos para trás e beijo por cima do sangue que desce de sua testa. Não consigo segurar meu choro, minhas lágrimas pingam no rosto sujo de Evan e formam um rio limpo sobre sua face.

– Evan, eu te amo. – Sussurro em seu ouvido e alcanço sua mão, ela está sob a poeira e longe de mim. Ele está dormindo, está em um plano que não consigo entrar. Um ferimento no supercílio sangra sem parar, e eu também. Chegamos ao hospital e não sinto minhas pernas, parece que eu estava na explosão, eu era a bomba. Evan é levado e vejo tudo em câmera lenta. Sento em uma longarina e espero, não me deixaram entrar com ele. De repente escuto uma voz familiar, são John e Rose.

– Victoria. – Rose chama e me abraça. Desmorono em seu ombro e choro como nunca chorei.

– Ele está na emergência. – É a única frase que consigo dizer.

– Por Deus, o que foi que aconteceu? – Ela pergunta.

– Não sabemos ainda. – Enxugo meu rosto e nos sentamos por um longo tempo, até que um médico surge no final do corredor e minha espinha gela.

– Evan? – Eu falo para mim mesma.

– Meu filho! – Rose em um tom mais alto dispara contra o rosto do médico que parece apreensivo.

– Evan está na sala de recuperação, ele sofreu um trauma na altura da têmpora. – O médico fala e paro de escutar. Lembro quando acariciei de sua têmpora até seu queixo na manhã em que acordei pela primeira vez na casa dele. Meu corpo estava ali, mas minha alma não. – Ele está sendo encaminhado para ressonância, mas só saberemos da profundidade de qualquer sequela quando ele acordar. Nesse momento ele não corre mais risco de morte. – Com essa frase eu volto e agradeço pelo pior já ter passado. – Assim que puderem entrar eu aviso.

Ficamos por mais de vinte horas esperando, cheguei a cochilar por alguns instantes e acordei ainda esperando para vê-lo.

– Agora vocês podem entrar. Ele está bem, está acordado e preocupado com sua empresa. –A enfermeira simpática nos dá ótimas notícias.

O médico nos conduz até o quarto de Evan. Rose e John entram, e eu vou logo em seguida. Vê-lo assim tão quieto é triste, ele nunca está quieto, ou está me beijando, ou me fazendo dormir, ou fazendo amor comigo. Olho para o rosto dele já limpo e depois para o meu vestido empoeirado.

– Mãe! – A voz baixinha dele chega ao meu ouvido e ressuscita meu coração.

– Meu filho! – Rose caminha até ele e o beija, em seguida John beija a testa dele e não diz uma única palavra, seus olhares se entendem.

- Como está se sentindo, filho? – John pergunta abraçando a esposa ao lado da cama de Evan.

– Parece que dormi por anos, sinto como se estivesse sob o efeito de uma anestesia. – Ele senta na cama desajeitado, ainda com o cateter do soro em seu braço.

Só então ele olha em direção à porta do quarto. Ainda estou ali paralizada, com medo de que não seja verdade que ele está vivo, bem, falando. Evan estica o braço sem o soro e sua mão me chama para tocá-lo. Aproximo-me da cama dele devagar, como se uma névoa estivesse ao meu redor. Quando toco sua mão, ele a agarra e me puxa me abraçando. Os pais dele saem do quarto nos dando privacidade.

- Como você está? Está tão pálida...

– Apenas um susto muito grande. – respondo beijando seu rosto perfeito, mesmo com alguns pontinhos ele continua com o rosto lindo. – Mas eu quem devia estar perguntando sobre você. Evan! O que foi aquilo? Lembra o que aconteceu? – Pergunto ajeitando suas mechas para trás.

– Lembro que avisei a Sra. Everhill que você estava na livraria, ela me alertou sobre algumas encomendas que estavam sobre a minha mesa. Eu abri as duas primeiras caixas e eram da filial de Paris, e quando peguei a terceira caixa e abri com o estilete, senti que cortei o dedo e larguei a caixa que caiu sobre a mesa e depois foi ao chão, mas antes de pegá-la fui até o banheiro por conta do corte, e depois disso a explosão.

– Se você não tivesse ido até o banheiro, poderia ter morrido. – Eu o abraço forte e ele geme. – Me perdoe, mas preciso sentir você aqui comigo.

– Posso entrar? – John entra sorrindo ao ver nós dois juntos.

– Oi, pai. – Evan sorri e eu me levanto, ambos se abraçam e não paro de agradecer a Deus.

– Filho, Gunter está à frente da investigação junto com os detetives. Estão tentando ligar todos os fatos.

– Obrigado, pai. Victoria, não quero você sozinha em hipótese nenhuma. Não sabemos quem está por trás de tudo isso e do que é capaz.

– Tudo bem, vou sair daqui junto com você. – Sorrio para ele e dou de ombros.

– Melhor assim. – Ele espalma as mãos sobre os cabelos e volta a deitar. – Estou com um pouco de dor de cabeça. – Ele está preocupado, alguém está ameaçando nossas vidas, alguém nos odeia. Saio do quarto em busca de um médico por conta da dor de cabeça dele.

Evan e eu, ficamos no hospital por mais um dia e voltamos para casa.

Foram infinitos telefonemas, e-mails e muita investigação, mas o culpado pela explosão, pelo meu sequestro, pela invasão da casa, ainda é um mistério.

 


Há dois dias o telefone não toca, Evan está descansando na espreguiçadeira e gosto de olhar aquele corpo perfeito esticado, mesmo que coberto por um agasalho. Ele acordou cedo. A reforma da importadora está rápida e talvez em menos de duas semanas esteja tudo pronto.

Termino o café e corro para meu computador cheirando a novo. Mais um presentinho surpresa de Evan. Do lado, um caderno, uma caneta e um cartão de visita de uma cerimonial badaladíssima de Nova York, “Maggy”, escrito em dourado em um cartão preto. No verso, seus contatos. Pelo estilo do cartão, imagino o quanto cobrará pelo serviço. Levanto-me e pego meu celular. Ali começa uma série incessante de ligações. Sim, os planos para o casamento continuam a pleno vapor.

 


Estamos dentro de casa praticamente ilhados. Não vejo ninguém há dias, tudo é resolvido por telefone. Por isso, enquanto estou distraída resolvendo as decisões em relação ao casamento, e a campainha toca, dou um pulo da cadeira.

– Gunter está no escritório, ele atende. – Evan fala calmamente ao meu lado.

Escuto Gunter cumprimentando, mas não ouço a voz de quem é que entra na casa. Meu coração estremece e aperto o braço de Evan.

– Calma, estou aqui. – Seu abraço me aperta e o medo vai embora.

– Então é aqui que você está se escondendo? – Pulo de alegria! É o Lucca e seu senso de humor único que eu amo.

– Sam, Lucca! – Corro para eles e os abraço. – E você, criatura acenourada, como está o curso? – Pergunto ao Lucca, relembrando nossas piadas internas.

– Está tudo bem, Laranjinha. – Saudade desse abraço.

– Sam, Lucca. – Evan os cumprimenta.

– Evan, obrigada pelo convite, você está melhor? – Sam agradece e me entrega um envelope. O papel é bonito e meu sorriso se abre. Evan apenas acena com a cabeça e dispensa um sorriso para a velha amiga.

– Sam! Vocês vão se casar? Na Escócia? Não acredito, vou poder visitar minha antiga casa.

– Sim, e será logo depois do seu. Dia doze de dezembro.

– Estou muito feliz, Sam, e por você também, Laranjão! Amo vocês, achei que seria a única apressada por aqui. Mas por que essa pressa? – Olho para barriga dela e ela ri.

– Nada disso, é que vamos estudar em Londres e meus pais, apesar de moderninhos, pediram para que Lucca cuidasse de mim. E ele achou melhor termos um vínculo mais forte para tranquilizar a todos.

– Que orgulho, Laranjão! – Ele agarra Sam e a beija, fico tão feliz pelos dois.

– Sam está aqui para te fazer companhia amanhã. Eu não deixaria você sozinha. – Evan me desmonta com a surpresa.

– Obrigada. – Alcanço sua mão, beijo a ponta dos seus dedos e seguro sua palma contra meu rosto.

– Mas acho que está faltando alguém. – Sam delata e Evan fuzila com o olhar.

– Quem?

– Bom dia, Sra. Campbell, está na casa menor. – Meu coração pula e olho para Evan, que tem a mais nobre das atitudes ao unir mãe e filha para os preparativos do casamento. Ele sabe o quanto isso é importante para mim. Talvez eu seja boa o suficiente para ela agora. Corro até ela.

– Mãe! – Pulo em cima dela, abraçando-a e chorando. – Que saudade, mãe!

– Muita saudade de você, meu amor, como você está? E o Evan? – Sinto certa ansiedade da Sra. Campbell em relação ao meu noivo. Tudo bem que não sou a primeira de sua lista de preferências, mas me colocar depois de Evan é de doer. Mas sei que a atitude de Evan arrebatou o coração de Stella.

– Está com a Sam e o Lucca na casa da piscina.

– Lucca já chegou? – E eu escorrego para a última posição da lista.

– Bom dia a todos. – Minha mãe cumprimenta.

– Bom dia, Sra. Campbell.

– Evan, por favor, é Stella. Muito obrigado por ter encaminhado o convite até a Escócia, muito bom gosto. – Ela levanta uma das sobrancelhas com um sorriso no rosto. Evan apenas exerce um pequeno aceno.

– Lucca, meu amor, que saudade. E você, Sam, como está?

– Muito bem, e o Sr. Campbell? – Sam pergunta.

– Ele precisou trabalhar. – Ela lamenta. Percebo minha mãe mais jovem, feliz, e acho que é porque se livrou dos filhos. Meu demônio gozador está acordado. – Pelo visto, a mocinha dormiu por aqui? – Minha mãe tira um sorriso encabulado do meu rosto.

– Tenho dormido aqui com certa frequência, mãe. – Confesso e ela sorri. Ela sabe que não há muito a ser feito.

– Vick? – Evan me leva para dentro da casa menor e pega o caderno que está sobre a mesa. – Aqui estão os endereços onde deve ir hoje. Gunter vai levar você, sua mãe e Sam. Eu vou ficar aqui com o Lucca. – Não estou entendendo, ele me entrega uma folha dobrada e me dá tarefas. Ele não é assim.

– Você está querendo ficar livre de mim?

– Por enquanto, sim. – Ele sorri e me beija.

– Vou me trocar, mas minhas roupas estão lá em cima. Não subi lá desde quando voltei do hospital, depois do pequeno Evan. – Fico triste de lembrar do bebê que se foi, meu bebê.

– Vou com você. – Ele me abraça tão forte, tão bom, tão meu. Segura minha mão e me leva pra fora.

Evan pede a Maria que sirva o café do lado de fora enquanto caminha abraçado comigo.

– Vou me trocar e já desço, fiquem à vontade. – Subo segurando a mão de Evan, que apesar de educado, realmente não se importa se terá que fazer sala ou não para as visitas. Sei que sou prioridade para ele. Sou a única que conhece o outro lado, todos os outros lados. Agarro-me em seu braço assim que coloco o pé no último degrau da escada. – Estou aqui. – Ele sussurra em meu ouvido.

Coloco seu braço ao meu redor assim que ele abre a porta do quarto. Tudo está impecavelmente arrumado, nem sinal do abajur quebrado que já fora reposto por outro exatamente igual. Meus olhos se enchem de lágrimas.

– Não, por favor, não chore. – Evan senta na cama e me coloca no seu colo. Volta a doer.

– Desculpe, não quero ficar triste, mas é que é a primeira vez que venho aqui depois de tudo.

– Não precisa se desculpar, isso tudo um dia vai parar de sangrar. – Ele esfrega o nariz no meu pescoço.

– Que roupa coloco? – Pergunto com lágrimas nas bochechas.

– Uma burca, de preferência. – Ele brinca e sorrio, mesmo com o rosto molhado. – Continue a sorrir assim.

– Ele é culpa sua!

– Fico feliz em saber disso, meu amor.

Evan me ajuda a escolher a roupa e a me vestir.Vou para o banheiro e domo minha fogueira. Pelo espelho consigo ver Evan sorrindo para mim. Escovo meus dentes, rímel e brilho labial, e um par de óculos escuros que coloco sobre a testa concluem o visual.

– Acho melhor a burca. – Evan franze a testa, rindo. – Está muito linda para sair assim.

– Obrigada, mas foi você quem escolheu a roupa. – Abraço-o.

– Você não pode se atrasar. – Ele segura minha mão e a leva até seu coração. – Ele é seu.

– Obrigada. – Ele beija minha boca, pega minha bolsa, coloca o meu iPhone dentro dela, coloca-a em volta do meu pescoço e ombro e descemos.

Pouco tempo depois, minha mãe, Sam e eu estamos dentro da X6. Gunter está com os endereços na mão. Depois de uma rápida lida, partimos para os destinos que Evan agendara para mim.

Primeiro endereço, Quinta Avenida. Gunter para o carro em frente à Louis Vuitton e nós descemos, ele me entrega um cartão e avisa que estará me esperando. Entro na loja suntuosa, divinamente organizada.

– Bom dia, estou procurando por Megan. – Entrego o cartão para a atendente solícita que me recebe.

– Aguarde um minuto, por favor. – Ela sai com o cartão na mão.

Uma moça alta, loura e extremamente elegante me cumprimenta e apresenta-se como Megan, a gerente da loja.

– Sua história fez as meninas suspirarem, perdoe-me pelo comentário.

– Suspirar? Eu não entendi.

– O Sr. Maccouant reservou algumas peças e estávamos aguardando-a. – Ela me conduz a uma sala, onde algumas malas e baús estão perfeitamente alinhados. Jogos combinados e lindos. A sala com carpete em tom bege e com quadros remetendo à marca, deixa o ambiente perfeitamente elegante. O lustre no alto impõe o perfeccionismo do lugar.

– Não estou entendendo, o que tenho que fazer? – Minha mãe me olha com dúvida, assim como Sam também não compreende o que está acontecendo.

– Simples, vou deixá-la aqui e peço que abra as malas na sequência. Essas foram as instruções do Sr. Maccouant. – Ela pede licença e nos deixa.

São quatro malas, sendo duas de cada tamanho, um baú e uma nécessaire, cada uma numerada, como uma sequência a ser seguida.

Minha mãe e Sam se sentam em poltronas confortáveis e assistem minha cara de profunda dúvida em relação ao que está acontecendo.

– Vou abrir a que está com o número um. Deve ser isso. – Levanto os ombros e me dirijo à primeira, abrindo-a.


“Você é minha”? Se a resposta for sim, entenderá as outras mensagens.

E.L.M.”


O pequeno cartão é seguido por uma caixinha azul Tiffany, e lá dentro, um par de brincos de ouro branco e esmeralda. Suspiro com os olhos arregalados. Olho para minha mãe e entrego a caixinha, ela tem a mesma reação e Sam está em choque.

Sigo para a segunda.


“Fico feliz em saber que ainda é minha, mas preciso saber se você quer se casar comigo.

E.L.M.”

Uma caixa retangular, também na cor azul Tiffany, está a minha espera. E não esperava por isso, um colar de esmeralda que combinava perfeitamente com o par de brincos. Instantaneamente entrego para a minha mãe, que repassa para Sam.

– Vick, o que ele pretende com isso? – Minha mãe pergunta com dúvida e sorriso. Ela, assim como eu, não acredita no que está acontecendo.

– Ele é assim, gosta de surpresas.

Terceira.


“Ainda me deve uma apresentação.

E.L.M.”


Uma promessa acompanhada de uma caixa média de veludo. Dentro dela, uma caixa de vidro fino com as flores heather escocesas.

Minha mãe está sem fôlego e desconfio que Sam está tendo um AVC.

– Vick, eu nunca vi isso na minha vida, nem em filme. – Sam volta à vida, totalmente desnorteada com a brincadeira de Evan.

– Eu também não. – Sorrio e vou para a quarta.


“Seu sorriso é lindo”!

E.L.M.”


Uma foto nossa no Cirque du Soleil quando fui recebida pelo Einstein engraçado que me fez gargalhar.

Minha mãe me olha de um jeito... Ela nunca soube do Cirque du Soleil.

– Acho que não sei de muita coisa, certo, Vick?

– Mãe, apenas a poupei. – Solto um sorriso, dando de ombros e abrindo a quinta mala.

– Que lindo! Amo Cirque du Soleil! – Sam suspira como uma adolescente apaixonada.


“Paradise.

E.L.M.”


Uma foto ampliada no momento em que ele olha nos meus olhos e outra no momento em que ele me beija.

Entrego encabulada para a minha mãe, que apenas inclina a cabeça. Ela também não sabe do show. Vou em direção à última, é um baú.


“Nosso!

Sra. Vick Campbell Maccouant e Evan Louis Maccouant.”


Apenas uma chave, mas não é a chave da casa em Nova York. Mostro para a Sra. Campbell e para Sam, guardando em minha bolsa junto com os cartões.

– Definitivamente, não sei o que falar. – Desabafo, olhando para elas.

– Se você não sabe, imagine nós. – Minha mãe ri, balançando a cabeça.

– Vou chamar a Megan. – Saio da sala e ela me espera com uma sacola da loja nas mãos. Todas as atendentes me olham, e eu quero evaporar de vergonha.

Volto com Megan para a sala, guardando os presentes na sacola.

– Entregaremos a bagagem toda esta tarde na Maccouant. – Ela avisa. Agradeço sem jeito e saio em direção ao carro, sob olhares inquisidores.

Gunter prontamente abre a porta do carro para nós, e a caminho do segundo endereço estamos chocadas com a surpresa.

– Se essa foi a primeira, imagino a próxima. – Minha mãe está perplexa.

– Vick, em quantos lugares nós vamos? – Sam pergunta.

– Não sei. Gunter, quantos lugares visitaremos? – Pergunto, olhando o seu rosto sério pelo retrovisor.

– Mais dois lugares, Srta. Campbell. – Ele olha rapidamente, encontrando meu rosto pelo retrovisor.

–Realmente, não sei o que esperar. – Sorrio incontrolavelmente.

– Estou feliz por você, Vick. – Sam me olha. Ela é sincera no que diz.

– Minha filha, não sei se fico feliz ou preocupada. A maneira como ele te trata... Parece que seguraria um caminhão com os dentes por você. – Minha mãe não desconfia do que ele faria por mim. Retribuo o comentário com um sorriso.

– Srta. Campbell, chegamos. – Gunter estaciona o carro em frente a uma agência de turismo, Travel & Sun.

Olhos arregalados em direção a Gunter.

– Sim, é aqui mesmo, essa é a pessoa responsável pelo atendimento. – Gunter me entrega outro cartão azul com letras brancas.

Saímos do carro e entramos na agência. Tento imaginar algo, mas meu cérebro ainda precisa de oxigênio. Ainda estou sem fôlego.

– Bom dia, ou melhor, boa tarde, preciso falar com o Sr. Foller. – digo entregando o cartão à senhora de cabelos grisalhos e extremamente simpática.

– Aguarde enquanto vou chamá-lo. Aceitam água ou café?

– Não, obrigada. – respondo em nome de todas. Estamos curiosas e ansiosas.

Um senhor alto de cabelos castanhos me chama e automaticamente todas nós nos levantamos.

– Sou eu. – Palavras trôpegas. Os demais funcionários que estavam em suas mesas redondas espalhadas pelo lugar praticamente estéril me olham.

Ele nos conduz à uma sala reservada, bem diferente do azul celeste da recepção.

– Sentem-se, e você se aproxime. – ele diz me chamando com o indicador comprido. – Acho que alguém gosta muito de você. – O Tropeço da Família Adams me deixa encabulada diante da minha mãe.

– Parece que sim. – Dou de ombros, tentando me esconder.

–Parece? Bom, primeiro preciso entregar uma encomenda seguindo as instruções do Sr. Evan Louis Maccouant, seu noivo. – Ele me entrega uma caixa retangular de veludo marrom.

Um bracelete em ouro branco com uma gravação interna e um brilhante em cada extremidade.

“Há muito de você em mim.”

Ele consegue me tirar o fôlego, penso, olhando com um sorriso para o bracelete que no mesmo instante coloco no meu pulso.

– Filha! Ele sabe a proporção do que está fazendo?

– Não sei, mãe, mas não consigo pensar em ser mais feliz do que sou neste momento. – Falo olhando para o bracelete, uma pequena cópia de nossas conversas ao pé do ouvido.

– Vejamos, aqui está a segunda encomenda. – O “Tropeço” me entrega um envelope azul da cor da agência, e mais do que depressa eu o abro.


“Espero realmente que sorria ao ver o destino da nossa lua de mel. Seu sorriso me mantém vivo.”


– Nossa! Não sei o que dizer, honestamente, acho que preciso de água. – Evan é maluco e eu não esperava mesmo. Olho para o prospecto com a foto do lugar e simplesmente não acredito.

– É isso mesmo? – pergunto ao Tropeço.

– Sim, serão quinze dias na Speciality Suíte do Turnberry Resort, na Escócia. – Meu chão some. Esse lugar é uma fortuna, mas não vou falar nada.

– O Evan realmente sabe surpreender uma mulher. – Minha mãe e sua indiscrição.

Agradeço ao Tropeço, que também agradece com um sorriso discreto por trás dos lábios.

Rumamos para o carro sob olhares iguais aos da Louis Vuitton.

Gunter abre a porta do carro e entramos. Estou chocada, minha mãe encantada e Sam com um sorriso de orelha a orelha.

– Último destino, Gunter?

– Seria, mas houve uma mudança de planos, Srta. Campbell.

– Como assim?

– Instruções do Sr. Maccouant.

– Vai adiantar se eu perguntar quais foram?

– Lamento, Srta. Campbell, uma das instruções era, de fato, manter sigilo.

Partimos para o próximo endereço. Estou preocupada. Evan passa dos limites e eu amei tudo, claro que amei, mas não pelas etiquetas e valores, amei a intenção de me deixar feliz. Ele conseguiu.

– Vick, você poderia fazer uma surpresa para ele, o que acha? – Sam me dá uma ideia, mas qual seria a surpresa para um homem que tem tudo do bom e do melhor?

– Vou pensar em algo. – Pensar em quê, criatura? Sem dinheiro, sem cartão e um homem que tem de tudo.

– Srta. Campbell, chegamos. – Gunter para o carro na frente do Pastis. – Bom apetite, a reserva está em seu nome, Srta.

Meu queixo se quebra ao tocar o chão. Não consigo pensar, e com todas essas dúvidas, entramos no restaurante que minha mãe adora e eu também. Sam apenas olha para dentro e volta o rosto em minha direção.

– Ele realmente é maluco. – Uma área reservada com heather escocesas; em cima da mesa uma caixa de veludo azul e creme, e também um álbum de fotos. Não um simples álbum, são nossas fotos em Madri, todas elas, impressas em um papel grosso de alto padrão e uma película laminada como proteção em cada uma delas.

– Nossa viagem para Madrid. – Fixo meus olhos em uma foto, a terceira, para ser precisa. Evan e eu na fila da montanha-russa. Os olhos do Evan encontrando os meus, Gunter registrou perfeitamente.

– Linda essa foto. – Minha mãe com os olhos inundados admira a mesma foto. Sam saca o celular e registra esse momento entre minha mãe e eu. Meu celular vibra, é um SMS de Evan.


Ainda minha? –14h17min – Meu sorriso se abre.

Maluco! – 14h18min

Responda, ainda minha? –14h19min

Sempre... – 14h20min

Sim, sou maluco por você. – 14h22min

Amei tudo. Amo você! – 14h23min

Idem. Coma! –14h24min

Sim, Sr. Maccouant. – 14h26min

Minha Pimenta, saudade de você. – 14h27min

Mas eu estava com você até agora há pouco! – 14h29min

Faz mil anos que você saiu. – 14h30min

Exagerado! – 14h31min

Amo você. – 14h32min

Amo mais. – 14h33min


– Vick? Deixe o celular e vamos comer, estou com muita fome. – Sam está com o cardápio.

– Peçam por mim. – Estou em Madri, lembrando de tudo, de cada precioso detalhe.

– Não vai escolher? – Minha mãe está com outro cardápio.

– Não. O que pedirem para vocês, peçam pra mim, por favor. – Estou longe e sem fome. Não quero saber de comida, quero voltar para casa e ver o Evan.

Sam e minha mãe pedem comida que alimentaria seis famílias e comem quase tudo. O que sobra é a minha parte.

– Vamos? – Pergunto com pressa.

– Vamos.

– Por favor, a conta. – Peço ao garçom.

– A conta está paga, Srta. Campbell.

– Evan! – Falo alto. – Então vamos, porque temos mais um lugar para visitar.

Gunter abre a porta do carro e entramos. Não consigo ter ideia de onde estamos indo ou qual poderá ser a próxima surpresa. Não reconheço o caminho e desisto de tentar adivinhar o que está por vir.

A Sra. Campbell e Sam me olham admiradas, como se um conto de fadas tomasse vida e acontecesse diante delas. Meu conto de fadas particular.

– Chegamos, Srta. Campbell, mas nesse endereço apenas a Srta. poderá ficar. – Gunter abre a porta do carro, só eu desço e nenhum cartão me é entregue. Gunter entra no carro e parte com minha mãe e Sam.

Imobiliária Houston. Uma placa amarela pequena e requintada sobre uma porta de madeira com um pequeno vitral azul e uma escada me leva da porta até o segundo andar. Estou aqui, estranhando não ter Evan por perto, mas vou seguir as ordens.

Degrau por degrau. Madeira barulhenta denuncia que a ruiva está subindo.

– Evan? – Ele se materializa na minha frente. Lindo de camiseta preta, calça jeans desbotada, tênis discreto e óculos apoiado no topo da cabeça.

– Ruiva!

– O que está acontecendo? – Pergunto, e minutos depois estou entre seus braços.

– Não sei, podemos descobrir juntos. – Ele beija minha boca e faz a recepcionista ter inveja. Ele me leva até uma sala no fim do corredor bem decorado com quadros e plantas. O perfume de Evan é inebriante, minha heroína. – O bracelete ficou lindo em você.

– Por favor, sentem-se. – Um homem parecido com um galã de cinema nos recebe muito bem e nos indica poltronas de alto padrão como assento.

– O Sr. Maccouant fez Jony se desdobrar, mas conseguiu. – O galã que não sei o nome conhece Jony e seu calvário.

– Sim, Michael, não esperava nada diferente do Jony. – Evan e seus quarenta anos e estou com cara de paisagem, mas pelo menos agora sei o nome do galã.

– Você é a Srta. Campbell? – Ele pergunta, encarando-me os olhos azuis dele contra os meus, que se esquivam de vergonha.

– Sim. – respondo gaguejando.

– Muito prazer, mas vamos direto ao assunto. Evan pode conferir os documentos. – Ele empurra uma pasta marrom de couro em direção a Evan, que se concentra na leitura.

– Espero que já tenham confirmado a transferência. – Evan com quarenta anos e extremamente direto.

– Sim, confirmamos ontem mesmo. – Um par de sorrisos brancos se entendem, financeiramente falando.

– Obrigado. – Evan agradece, apertando a mão do galã.

– Vou deixá-los a sós, fiquem à vontade. – O galã sai da sala e fecha a porta.

– Estou confusa. – Olho nos olhos de Evan com muita dúvida. Lembro de um imóvel que ele queria comprar. Pode ser esse, mas não sei, não consigo imaginar o que pode ser.

Evan me puxa para o seu colo. – Não imaginei, em toda a minha vida, que pudesse ser capaz de sentir o que sinto por você. – Ele entrelaça seus dedos com os meus. – Mas então, uma menina muito linda, ruivinha atravessa o oceano e me salva, me salva todos os dias, de todas as maneiras que alguém pode ser resgatado. Seu sorriso lindo, seu olhar, esse conjunto misterioso que nos une internamente... Não teria sentido algum ter minha vida sem você.

Ele beija meu rosto e me olha com o melhor dele sobre mim.

– Vick, há um tempo pedi um favor a um velho amigo. Ele falava sobre o paraíso, sobre a garota que sonhava com o paraíso, e essa garota me ensinou como fazer isso.

Meu coração pula.

– Minha menina, pensei em tantos presentes que poderia te oferecer, mas precisava de algo único, algo para a garotinha do circo, para a mulher que tornou minha vida melhor. – Evan espalha os dedos sobre a pasta marrom e leva-a até minhas mãos. Meu coração está disparado. – Este é o meu presente de casamento para você. Busquei algo que pudesse fazer seu sorriso me salvar, ele sempre me salva. – Ele me beija. – Por favor, abra seu presente.

Minha mão treme quando pego a pasta, olho nos olhos dele e meu coração vibra.


Escritura.

Estrada Kilmaurs, Edimburgo, Escócia.

Proprietário (a): Victoria Campbell


– Evan! Por que fez isso? – É a minha casa na Escócia. Estou chorando ao ver a foto da fachada.

– Porque sei o quanto essa casa é especial pra você, porque eu te amo. Poderia ficar aqui e dar todos os motivos do mundo, mas o que me recompensa é o seu sorriso. Como seu sorriso me faz bem...

– Não sei o que dizer, como vou te agradecer? Não posso aceitar, não quero falar nada para não estragar, não sei, não sei realmente o que dizer. – Apenas balanço a cabeça olhando para minha casa da Escócia.

– Já agradeceu, seu sorriso me basta.

– Obrigada, eu amo você.

– Também te amo. – O melhor dos beijos.

– Você realmente me tirou o fôlego e ainda não sei muito bem o que dizer. Nunca pensei que essa casa fosse voltar para a minha vida.

– Estamos quites, nunca pensei que fosse sentir o que sinto, apenas retribuí o favor. – Fico abobalhada por alguns minutos e Evan me levanta, abraçando-me e beijando minha boca.

– Vamos?

– Sim. – Não consigo parar de sorrir.

Descemos a escada sob o olhar da recepcionista e caminhamos até o carro. Evan está com uma Range Rover branca, igual a de Madri.

– Evan, outro carro?

– Sim, entregaram hoje na concessionária do meu pai e não resisti. Pedi para que levassem até em casa.

Balanço a cabeça. Os homens e seus brinquedos.

– A casa na Escócia está muito longe de ser parecida com a sua. – Digo assim que saímos com o carro. Estou abraçada com a pasta marrom que guarda minha infância.

– Não entendi, o que quis dizer com parecida? – Ele pergunta com a testa franzida.

– Ela não é luxuosa e não tem obras de arte nas paredes. É uma casa confortável, mas não se compara com a sua casa, Evan.

– Sua casa pode até custar menos do que a minha, mas tem uma coisa que a minha não tem, e isso faz com que ela tenha um valor muito superior.

– O que seria?

– História. – Ele diz sério e coloca os óculos de sol.

– Isso tem mesmo. Nasci naquela casa e amo aquele jardim imenso. Meu pai fez dois balanços com pneus, e apesar de Lucca e eu sermos gêmeos, ele sempre foi maior. Demorei mais para alcançar o pneu sozinha. Lucca sempre me ajudava. Espero que os balanços ainda estejam lá.

– Viu? Minha casa tem uma história diferente. Comprei aquela casa há seis anos e nada aconteceu por lá, nenhuma história, a não ser a sua. – Ele levanta os óculos e coloca a mão sobre a minha perna. – Essa é a diferença. Passei boa parte da minha vida correndo atrás de dinheiro, e depois de um tempo, ele corria atrás de mim.

– Evan, você é bom, sua família, Rose e John são bons, a POWER & HEARTH... Tenho orgulho de saber que faço parte da sua família.

– Tem noção de como me faz bem?

– Não, não tenho, poderia me explicar?

– Sim. – Ele acelera o carro e não diz nenhuma palavra, apenas sorri e me olha de vez em quando. Confesso que estou gostando muito.

– Sequestrando-me novamente, Sr. Maccouant?

– Sim.

– Posso saber onde será meu cativeiro?

– Não.

– Amo como você fala.

– Amo você.

Minutos depois, sem pronunciar uma única palavra, ele para o carro em frente ao Waldorf Astoria, hotel de altíssimo padrão. O manobrista abre a porta para nós e sai com o carro.

Eu olho espantada para Evan, que retribui com o melhor sorriso.

Será que ele vai me trancar aqui nesse hotel? Nem em mil anos eu teria dinheiro para pagar.

– Boa tarde, a Presidencial está livre? – Evan pergunta, parecendo íntimo do lugar.

– Boa tarde, por qual período? – a recepcionista pergunta estranhando, como se não fosse algo comum alguém perguntar sobre esse quarto.

– Apenas uma diária. – Evan diz curto e com os olhos sobre mim.

– Sim, está disponível. – Assim que a recepcionista de nariz arrebitado responde, em um nanossegundo o cartão sem limite de compras está sobre o balcão.

– Por favor, assine aqui. – ela indica um campo e devolve o cartão. – Tenham uma boa tarde.

Em poucos instantes estamos de frente ao elevador, apenas aguardando as portas se abrirem. Assim que entramos as portas se fecham e Evan está encaixado entre minhas pernas. Sua cintura com o sincronismo perfeito me faz gemer. Eu o quero. Minha dose de prazer para aliviar a dor.

– Você é tão linda, e eu te amo tanto. – ele se declara sussurrando, e eu o quero mais.

A porta do elevador se abre e ainda estamos encaixados. Evan coloca a mão na porta para que ela não feche e assim saímos do elevador, ainda atracados. Enlacei-o pela cintura com minhas pernas e suas mãos brincam com meu corpo. Eu o quero mais a cada minuto.

– Eu quero você. – Murmuro em seu ouvido, e sua reação é pressionar seu corpo contra o meu na parede do corredor requintado do Waldorf.

Evan abre a porta e é realmente algo fora do normal. Muito luxuoso, bem decorado, enorme e com poltronas espalhadas como se fosse receber uma família de doze pessoas. Deslumbro-me com os detalhes do quarto. Não precisava de tanto apenas para uma tarde.

Evan interrompe minha admiração pelo lugar, abraçando-me por trás.

Viro-me e ele me surpreende. Enquanto espero por mãos e corpos em uma fusão rápida, Evan coloca cada uma de suas mãos em cada lado do meu rosto enquanto me beija, acariciando minha face e minha orelha. Carinhosa e morosamente, ele invade minha boca. Minhas mãos ficam pequenas perto de suas costas. Ele extrai o melhor de mim. Evan é minha escolha para continuar viva.

– Amo você. – Ele se declara com os lábios encostados nos meus e me beija de novo.

Sua boca ainda está na minha e suas mãos começam a desfazer o tecido branco que me cobre até os pés. Sinto o momento em que o vestido escorrega pelo meu corpo, formando uma nuvem sob meus pés. Evan me pega no colo e continua o beijo doce que me transfere para um mundo de paz. Deita-me na cama e beija minha boca, afastando-se. Rapidamente, ele se desfaz de sua roupa e posiciona-se diante dos meus pés, desamarrando minhas sandálias. Estou apenas de lingerie de renda branca. Evan começa uma sequência de beijos na parte interna do meu tornozelo e subindo. A boca carnuda me faz contorcer sobre a cama, e ele continua subindo pela parte interna de minhas pernas, beijando por cima da calcinha rendada. Suas mãos hábeis descem vagarosamente minha peça íntima e estou completamente nua da cintura para baixo.

Evan mantém os beijos excitantes, mas no mesmo lugar. Enrolo minhas mãos na colcha macia, tentando encontrar algo que me ofereça a supressão daquele estado. Facilmente, chego ao ponto alto e sua língua fica úmida graças ao que acabara de acontecer, traçando um caminho até meu umbigo. As mãos de Evan deixam suas digitais em cada centímetro do meu corpo.

E como em um passe de mágica, sua boca volta ao lugar anterior e me rendo. Como não me render? Ele sabe cada senha do meu corpo.

Enquanto sua boca retira aos goles as energias do meu corpo, suas mãos quentes passeiam embaixo da parte de cima da lingerie que ainda sobrevive ao furacão Evan. Estou completamente entregue a ele, seus lábios concluem um magnífico trabalho e sobem em direção ao meu abdômen. Suas mãos alcançam minhas costas e o sutiã é arremessado. Sua boca encontra todos os pontos do meu corpo e, de repente, ele apenas deita sobre mim sem me invadir, acariciando meu rosto e pressionando meus seios com seu tórax quente e bem definido.

– Eu amo você, Evan!

– Sorriso lindo, eu amo você!


Capítulo 9


Vick

 

Depois do dia movimentado e cheio de emoções que tive, estar numa suíte no Waldorf Astoria nos braços de Evan não há como descrever.

Evan me tomou, invadiu. Ele sabe exatamente o que deve fazer e fez lindamente, uma, duas, três, quatro vezes, e várias vezes esses números. Ele usou meu corpo da melhor forma possível, incrivelmente melhor. Evan é minha heroína, minha forma de exorcizar o que não me faz bem. Evan com todos os seus defeitos é minha fonte de virtudes. Por ele eu viveria e morreria mil vezes.

Seu corpo relaxa sobre o meu e ele enfia o nariz em meus cabelos bagunçados.

– Amo seu cheiro. – Ele sussurra com a boca em meu ouvido.

– Como consegue fazer isso comigo? Você sabe exatamente como funciono, consegue meu ponto máximo de prazer sem esforço algum, e só de falar disso eu te quero de novo. Evan, você é minha tentação não resistida. – Falo enquanto minhas pernas ainda estão na sua cintura.

– Não posso contar como faço isso. – Ele sorri com a boca em meu pescoço.

– Não pode?

– Não, Srta. Campbell.

– Por quê?

Ele simplesmente se vira, e em questão de segundos estou sobre ele.

– Prefiro fazer a falar como. – Sua mão me puxa pela nuca e ele me beija deliciosamente, e de novo sou dele. Serei mais outras vezes enquanto a lua já está no horizonte.

Durmo. Claro, quem não dormiria? Esgotada, satisfeita e com a melhor das sensações.

– Mamãe, estamos aqui! – Ouço em um sonho.

– Não vejo! – respondo instintivamente.

– Vick? Minha menina, acorde! – Evan beija meu rosto e um belíssimo café está posto sobre a mesa redonda e refinada.

– Oi, seria bom dia? – Pergunto, sem noção alguma de tempo.

– Ainda não, seria boa noite. São quase onze horas. – Ele responde beijando meu rosto e caminhando em direção à mesa.

– Boa noite, então. – Levanto nua, mas me enrolo no lençol. Faço amor com ele e tenho vergonha, às vezes.

– O que você não vê? – Evan pergunta.

– O quê? – pergunto sem entender, tentando vencer o lençol que é grande demais.

– Você estava sonhando. Quem ou o que você não vê? – ele explica e repete a pergunta.

– Não sei, mas não era ruim, não lembro direito. Parece que eu estava brincando de esconde-esconde, mas não sei. – Explico enquanto ele coloca suco para mim. – Posso fazer uma pergunta?

– Todas!

– Por que não fomos para casa?

– Porque a Sam e o Lucca estavam lá e eu não queria dividir você com ninguém. – Ele leva uma xícara de café até a boca.

– Egoísta. – Sorrio para ele.

– Sim. Quando o assunto é você, sou extremamente egoísta. Hoje quando saiu senti minha vida vazia, então tomei um banho e poucos minutos depois estava na frente da Louis Vuitton vendo você sair. Seu sorriso era o sorriso mais bonito do mundo.

– Você me seguiu?

– Sim, bom, nós seguimos. Não podia deixar seu irmão sozinho.

– Você foi a todos os lugares onde eu estava?

– Sim, meu plano era almoçar com você, mas Jony me ligou e falou sobre a escritura que já estava pronta em seu nome. Então, liguei para o Gunter e passei as novas coordenadas enquanto esperava pelo carro novo. – Ele fala tranquilamente e continua bebendo café. – Depois deixei seu irmão próximo da imobiliária e Gunter o pegou. O resto da história se resume em ter provado a menina que eu amo.

Meu corpo não pode ter essa reação apenas por ouvi-lo falar. A voz dele acorda todo mundo que está aqui dentro, e cada um deles sabe o que fazer com essa informação.

– Você gastou uma fortuna por algumas horas, você é louco!

– São apenas números. – ele responde dando de ombros e termina o café. – Lembra-se do que eu disse? – e falamos juntos e rimos – “Fodam-se os milhões!”

– Vou tomar um banho depois dessa resposta. – Saio puxando o lençol que ficou me seguindo como uma cauda.

– Gastaria o dobro se fosse preciso. Entrou para a minha lista das melhores tardes da minha vida. – Ele fala mais alto enquanto ligo o chuveiro. Sorrio ao ouvir.

– Faria no banco de trás do carro. – provoco, mas faria mesmo com Evan, em qualquer lugar.

– O que você disse? – Evan está de braços cruzados com a testa franzida. Quase morro quando me viro e o vejo.

– Que susto, Evan! Quase me mata! – Ele está bravo.

– O que foi que você disse? – ele repete a pergunta e mantém o rosto sério.

– Eu–falei–que–faria–no–banco–de–trás–do–carro. – falo de forma pausada porque estou com medo de levar umas palmadas pela malcriação.

– Faria mesmo? – ele pergunta sério abaixando a cabeça, tentando me intimidar.

– Faria! – Entro no jogo e desligo o chuveiro.

– Não vou fazer nenhum comentário a respeito disso. – Ele gira em seus calcanhares já calçados e sai. – Não demore.

– Bravo? – pergunto, secando meu corpo e olhando para ele como se tivesse aprontado alguma coisa.

– Termine de se vestir. – ele não responde e fecha a cara mesmo.

– Sim, senhor. – Sorrio e ele bufa.

Ele me beija, pega suas coisas e saímos em silêncio em direção ao elevador. Evan aperta o botão e espera sem reação. Isso me atiça. Ele está a pelo menos dois palmos de distância de mim, então a porta do elevador se abre. Dentro há três homens entre os vinte e três e vinte e cinco anos. São amigos e não são americanos. E também os três pares de olhos me medem dos pés à cabeça. Falam entre eles em algum idioma do qual não entendo uma palavra, mas sinto apenas o puxão pela cintura e o singelo rosnado de Evan, que se põe entre mim e os homens que fazem algum comentário.

A respiração de Evan aumenta e eu gosto, uma lição para não me ignorar mais. Olho para ele e sorrio, e ele inclina a cabeça, sorrindo também.

– Terrível. – ele diz quase sem som, só para meus ouvidos.

– Esqueceu o “deliciosamente”. – Repito o sussurro e ele me aperta contra seu corpo.

Assim que a porta se abre, ele deixa os rapazes saírem primeiro.

– O que foi que eles falaram? Você entendeu o idioma?

– Sim, mas nada para seus ouvidos delicados. - Ele me levanta pela cintura e me beija.

– Você ficou bravo com o que eu disse sobre fazer no carro? – pergunto, sorrindo.

– Posso não querer responder? – ele fala levantando as sobrancelhas.

– Fique à vontade, mas não fique bravo comigo.

– Por mais que eu queira ficar bravo com você, não consigo. Mas não abuse dessa informação. – Sorrio e ele pisca para mim, lindo.

São 23h40 quando saímos do hotel e entramos no carro. A película do carro é escura demais, mas Evan parece não se importar em dirigir à noite com ela desse jeito. E ele também havia mencionado de que o carro é blindado. Com tudo isso que nos tem acontecido, ele está cada dia mais paranoico com nossa segurança.

Ele estaciona o carro dentro da garagem e me puxa para seu colo. Amo o beijo de Evan, e suas mãos percorrem meu corpo. O carro escuro, a garagem sem nenhuma luz acesa... Evan invade meu corpo com suas mãos quentes.

– Então, faria no banco de trás do carro?

– Sim, eu faria. – Mantenho minha palavra.

– E no banco da frente? – Ele puxa minha calcinha de lado e me invade maravilhosamente, abraçando-me e me fazendo chegar ao auge.

– Você é louco? – digo assim que ele relaxa seu corpo dentro de mim.

– Sim, louco por você, não tem ideia de como me sinto quando estou dentro de você.

 


Acordo naquela manhã de vinte e oito de novembro.

Hoje não estou aflita. Nada de ruim está nos meus pensamentos. Levanto da cama e vou em direção ao chuveiro. Enquanto a água cai nos meus ombros, deixo-me levar por lembranças boas. E, como num passe de mágica, fecho meus olhos e estou na sala espelhada com as mensagens dele em meu iPad.

Desligo o chuveiro e me remeto ao dia em que Evan vendou meus olhos e me mostrou a sala espelhada que ele mandou fazer aqui. Lembro de cada noite que me assistiu dançar, de cada beijo, e eu ainda devo uma apresentação especial para ele. Perdida em devaneios, recebo outro SMS de Evan dizendo que estou atrasada.

Não me preocupo em ler a mensagem. Termino de me trocar, coloco o vestido que Maria me deu, penteio o alien e pego uma bolsa. Dentro está o presente de Rose e John, um grampo de cabelo com uma pedra azul que fora da avó de Rose. Lindo, faço questão de usá-lo.

Como Evan disse, estou indo para o meu dia. Já sabia disso, mas não imaginava que seria tão cedo. Separo o perfume que ele gosta, minha lingerie novinha de seda, e com meu celular em uma mão e a bolsa na outra, saio do quarto distraída, lendo a mensagem de Evan.

Evan me abraça pela cintura e me ergue até sua boca.

– Você me enganou? Como ousa? – Eu o beijo.

– Você não sabe como me atrai quando não responde minhas mensagens. – Ele dá um beijinho na minha boca e me coloca no chão.

– Você estava aqui o tempo todo. – Sorrio.

– Deixe que eu carrego isso. – Ele segura a bolsa. – Você pensou que eu não tomaria café da manhã com você? – Ele me abraça de lado e beija o topo da minha cabeça.

– Pensei sim, achei que Gunter realmente estivesse me esperando. – Olho de cima da escada e não o vejo.

– Ele está na garagem, mas o horário é às dez. Tenho um tempinho com você antes que saia. – Ele coloca a bolsa sobre a pequena poltrona perto da escada e me leva até a área da piscina.

– Evan, é muita comida! – Não estou comendo bem há alguns dias por conta do casamento.

– Quero que se alimente, não quero minha noiva desmaiando na igreja. – Ele franze a testa, coloca suco de goiaba para mim e chá para ele. Chá? Ele não toma chá!

– Não quer café? – pergunto, estranhando.

– Não. Hoje, não. – Ele sorri tão escandalosamente apaixonante que me arranca um suspiro.

– Vou tomar apenas o suco, não posso comer muito. E se o vestido não fechar? – brinco.

– Por favor, não me obrigue a te sentar no meu colo e dar comida na boca.

– Você me colocaria no seu colo? – Alcanço um morango e mordo, passeando com minha língua ao redor da minha boca.

– Não faça isso. Infelizmente vou ter que resistir a você, apesar de me remeter a um determinado dia em Madri.

– Sim, você é doce. – Sorrio e ele se contorce. – Mas por que se lembrou de Madri? Aconteceu tantas outras vezes! – Continuo minha sessão, tentando ver até onde ele resistiria.

– Madri foi a primeira vez. Não quero pensar nisso agora. – Ele leva a xícara de chá à boca.

– Por que não? Você é bom em resistência. – Alcanço outro morango e repito a mesma ação.

– Não sou. – Ele levanta e me puxa, tentando me apalpar.

– Evan! – Seguro suas duas mãos e coloco-as para baixo. – Agora preciso ir. Eu te encontro às oito horas. Beijo sua boca e ele me enlaça pela cintura.

– Você não vai me deixar assim, vai? – Ele me aperta. Que vontade de tê-lo em mim, mas sou forte.

– Evan, felizmente tenho uma lua de mel perfeita para aproveitar. – Dou um selinho na sua boca e saio dos seus braços. Alcanço outro morango, vou até a escada, pego a bolsa e sigo em sentido à rampa de acesso lateral.

Caminho em direção ao carro onde Gunter está. Estou pensando seriamente em voltar correndo para ele, mas não posso, ele terá que aguentar e eu também.

– Bom dia, Gunter! – cumprimento-o assim que fico ao lado do carro.

– Bom dia, Srta. Campbell. – Ele pega a bolsa que está na minha mão e abre a porta do carro para eu entrar.

– Não sei para onde estou indo, estou por sua conta. – Ele dá a volta e abre a outra porta, colocando a bolsa ao meu lado no banco. Fecha a porta e seguimos para o meu destino misterioso.

Eu desço do carro, olhando para aquele monstro cinco estrelas e extremamente luxuoso.

– Até logo. – digo de pé na calçada, assim que Gunter abre a porta.

A porta se fecha atrás de mim e eu, como por encanto, entro naquele mundo mágico. O hotel Four Seasons. Um mundo sofisticado, diferente do que estou acostumada, muito diferente do que vivo. Pilares gigantes e mesas de madeira escura se encontram e contrastam entre o marfim e mel dos apoios dos vasos. Um longo caminho até a recepção. É tão silencioso que chego a duvidar que existam hóspedes nesse lugar. Sinto-me uma criança perdida até que encontro a recepção.

Uma mulher morena com um terninho extremamente elegante me recebe. Por um momento, reparo na minha roupa: sandália e vestido feito à mão.

– Bom dia, meu nome é Victoria Campbell e realmente não sei se a reserva está em meu nome. – Falo tímida, segurando minha bolsa e celular na mesma mão. A outra está espalmada sobre o perfeito balcão de mármore da recepção. Claro que o mármore está em todos os cantos, girando sobre meus calcanhares. Percebo o quanto é perfeito, imensas colunas orquestram um caminho perfeito pelo lobby. Um tapete vermelho se faz imponente desde quando entrei no hotel.

– Sim, a reserva está em seu nome. Os profissionais contratados e autorizados pelo Sr. Maccouant estão à sua espera. – Ela faz um discretíssimo aceno com a cabeça e um mensageiro se materializa ao meu lado, solicitando minha bolsinha de mão.

Agradeço como se estivesse bêbada, acompanhando o rapaz baixinho que carrega minha bolsa.

Deslumbrante, cinco estrelas é pouco. Não acredito que estou vivendo isso. A praga da minha tia Isabel se desfez, penso. Entro no elevador em estado de choque. O elevador é quase do tamanho do meu quarto na casa da Escócia. Tapete vermelho e espelhos, muitos espelhos. A ruiva sem milhas. Estou acanhada e não consigo olhar para o mensageiro.

Instantes depois o elevador se abre, e para minha surpresa, é um elevador privativo para a suíte.

Meu Deus! Que lugar é esse? Um lobby refinado me recebe com uma obra de arte na parede e, logo abaixo, uma cadeira alongada sobre um tapete persa. Convulsão. Meu corpo estremece. Assim que insisto com a atividade motora de minhas pernas, chego a uma sala imensa que divide território com um piano.

De um lado, um sofá em L branco, irritante de tão branco, de frente a duas estantes e uma mesa retangular espaçosa e linda. Sobre ela, alguns livros e revistas da semana. Do outro lado, uma mesa com gavetas, como uma estação de trabalho e imensas estantes com livros, fazendo companhia para o Steinway, o lindíssimo piano de cauda. Evan exagerado, nem sei tocar piano.

– Victoria Campbell? – Uma mulher de mais ou menos quarenta anos e loura me surpreende ao sair de uma das portas da suíte.

– Sim, sou eu. – respondo ainda espantada com o lugar, olhando para a mulher esguia que veste um uniforme preto de um salão badalado de Nova York. Evan não contratou as profissionais de Rose, ele as quer no casamento.

– Meu nome é Julia, sou a cabeleireira e maquiadora responsável por você. Claire e Nina estão terminando de arrumar o espaço que você ficará por um bom tempo. Elas são a manicure e a massagista.

– Tudo bem, devo esperar aqui? – Não sei o que tenho que fazer. O mensageiro me deixou na porta do elevador, entregou-me a bolsa e não me orientou em nada. Massagista? Santo Deus. Estou como uma barata tonta. Ty Warner Penthouse Suíte, claro que não pude acreditar quando li o nome do quarto na porta perfeita de madeira grande e larga.

Ao entrar sinto o aroma perfeito dos sais de banho, uma equipe de cinco mulheres bem uniformizadas estão à minha espera. Evan pensou em todos os detalhes, deixou de lado apenas meu vestido perfeito e imponente que está pendurado no quarto. O modelo Ballerina do estilista Zuhair Murad, apropriado pelo nome e ousado pelo decote. Pensei em Evan quando o escolhi, lembro do rosto de minha mãe quando viu o quanto o vestido revela das minhas costas e colo.

Sento em um dos sofás e admiro o lugar, pouco tempo depois já estou entre os sais de banho na maior hidro que já vi na minha vida. Depois disso me sinto uma boneca nas mãos das profissionais que esticam meus fios rubros, deixam francesas as minhas unhas e elogiam o carinho de Evan ao me surpreender com um presente durante a minha transformação. Evan pediu que entregassem uma caixa de veludo branca, dentro uma tornozeleira de ouro branco e diamantes, no pêndulo da joia uma frase gravada: Para sempre minha!

Elas viram o mimo e não os detalhes, essa frase é apenas minha e dele. Passava das sete horas quando cabelo, maquiagem e unhas estavam prontas, e eu estava diante do meu vestido usando apenas minha calcinha branca de seda, e sobre meu corpo apenas um robe do mesmo tecido.

– Lindo! – digo deslumbrada olhando para meu vestido de frente única e decotes generosos, tanto nas costas quanto no meu colo, apenas uma sutil renda para disfarçar a audácia.

Minutos depois lá estava eu, de branco, feliz como nunca pensei estar. Meus olhos atravessavam o vidro que refletia a ruiva de noiva, um coque esculpido no alto da minha cabeça fazia suporte para a grinalda impetuosa que cobria meus ombros.

O pôr do sol repousa sobre os prédios, o contraste impetuoso do amarelo quente e do frio cinza dos edifícios imponentes.

Minha visão é deslumbrante de uma suíte luxuosa, mas meu lugar no mundo não é ali. Viajo até os braços de Evan e fico em cada momento.

Desço até o subsolo, onde um Rolls-Royce Phantom branco me aguarda. Durante o trajeto não consigo ver as ruas, penso apenas que não sou boa o bastante para ele. Quero-o nesse momento. O carro luxuoso ganha as ruas e meu coração acelera, um disparo direto dentro do músculo pulsante, como se uma carga extra de adrenalina tivesse sido aplicada em minhas veias.

Meus joelhos unidos e meus dedos entrelaçados. Uma gota de suor desce pelas minhas costas. Sim, estou nervosa a ponto de suar em pleno frio nova-iorquino.

Uma lasca atinge meu coração. O pequeno Evan sem os sapatinhos vermelhos. Meu nervosismo me faz pensar em tudo, em todos, inclusive nos maus que tentaram nos destruir.

Estamos a duas quadras da igreja e consigo perceber que há um movimento em frente à Catedral. Meu coração vira cambalhota e minha respiração fica acelerada. Tento me acalmar, fecho os olhos e levo-me ao parque de diversões. Sim, posso ouvir a música, sentir o cheiro dos doces nas mãos das crianças, o mundo Evan em mim, e acordo com o carro parando em frente à igreja.

A paranoia de Evan é declarada pela quantidade de seguranças e pelo pedido em fechar as três faixas da avenida em frente à igreja. Eu me sinto segura, mas não por isso, por estar com ele.

Nos olhos dos meus pais, a alegria em lágrimas. Eles me recepcionam e logo em seguida Maggy chega até mim.

– A noiva está pronta. Posicionem os padrinhos e os pais dos noivos. – ela anuncia via rádio e eu fecho meus olhos. Penso em Evan, na vida que quero ao lado dele, e de repente sinto alguém me apoiar. Conheço essas mãos.

– Pai... – falo quase inaudivelmente.

– Eu também te amo, minha pimentinha! – nossas testas se chocam suavemente e seus olhos tinham razão, tudo daria certo.

Apoio com firmeza minha mão no braço do Sr. Campbell e sigo, buscando por toda catedral o motivo pelo qual tenho sido a pessoa mais feliz do mundo. Ao som da Ave Maria vindo de um violino, eu encontro meu lugar no mundo, Evan... em alguns minutos meu marido.

Os rostos perderam suas formas, e naquele lugar existe apenas ele e eu.

A bênção do meu pai ao me entregar para Evan e a celebração emocionante do padre nos levam aos votos, votos que fiz muito antes desse dia, acho que os fiz no momento em que olhamos um para o outro no Pastis.

– Evan, durante toda minha vida mantive meus princípios como uma forma singela de respeitar o que eu acreditava, e agradeço a Deus por mantê-los. Foram eles que me levaram até você. Que é a melhor parte da minha vida; sim, eu viveria e morreria mil vezes por você. Por você, vejo o paraíso em mínimos detalhes, vejo o paraíso em uma flor ou em uma simples melodia. Por você, minha vida tem sentido e caminho, tem calor e calmaria; por você, minha fé se renova e para você dedico meu amor e todos os meus princípios.

Ele respira fundo e seu rubor é notável. Existe apenas eu e ele nesse momento. Então o padre aproxima o microfone de Evan e meu coração dispara.

– Minha menina, menina que me mostrou o paraíso, me mostrou a salvação, fez meu coração ganhar vida e determinou que eu seria um homem de sorte, a sorte de ter você ao meu lado. Você, a mais doce, incluiu na minha existência um raio de sol em uma manhã de inverno. Ofertou-me o sorriso que salvou a minha alma e me presenteia com um olhar que me renova. Sim, protegeria você em mil vidas, salvaria você de mil mortes, e por você, entrego o que realmente faz a minha vida valer a pena. Eu te entrego todo o meu amor.

De fato, dois mundos se colidem, um choque, um encontro único em nosso olhar. Apenas ele e nossa promessa diante de um público que não enxergamos nesse momento.

Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que por vontade de Deus, a morte nos separe. Aceitamos um ao outro.

Alcançamos a calçada sob uma chuva de arroz, e minutos depois estamos dentro do Rolls-Royce que havia me deixado ali há quase uma hora.

– Amo você mais do que pode imaginar. Hoje me fez o homem mais feliz do mundo. – Ele beija meu rosto, e em seguida, beija as palmas das minhas mãos.

– Sou sua de papel passado, acha que vai aguentar? – Sorrio.

– Sorriso lindo, você está linda, minha vontade é guardar você apenas para mim.

– Escolhi o branco. – Puxo delicadamente a renda do vestido.– Metropolitan? – pergunto receosa por conta do luxo do lugar.

– Sim, mas vou me controlar. – ele diz, despertando minha dúvida.

– Por que se controlar?

– Terei que dividir você com setecentos convidados.

– Prometo que vou tentar ficar o mais perto possível de você. – falo divertida.

– Não precisa prometer, vou garantir que fique ao meu lado. – Ele franze a testa. Tenho vários Evans, um melhor que o outro, e amo todos eles.

– Evan?

– Sim?

– Preciso te confessar algo. – Sinto seus olhos me invadirem.

– Confesse. – ele diz de forma séria.

– Bom, espero que entenda, porque agora, nesse momento, não há muito que se possa fazer. – Deixo-o em dúvida e me divirto com isso. O carro percorre as ruas, ganhando tempo para os convidados chegarem até a festa e nos levando ao local onde teremos uma sessão de fotos.

– Fale. – Ele fica nervoso e está começando a se irritar.

– Tudo bem, eu falo, mas estou com medo da sua reação. – Estou me divertindo muito.

– Victoria Campbell Maccouant, fale agora. – O motorista olha pelo retrovisor e eu dou uma gargalhada.

– Quero muito fazer amor com você. – murmuro em seu ouvido, passando a língua em seu lóbulo. – Fiquei com vontade de provar o quanto você é doce. – Mantenho minha boca encostada em seu pescoço e sinto seu corpo estremecer.

– Não acredito que está fazendo isso comigo. – Ele aperta um botão e isola-nos do motorista. – Você não faz ideia de como estou neste exato momento.

– E o que vai fazer com essa informação? – Deslizo meu indicador da sua boca até o cós da sua calça. – Eu sinto, da melhor maneira.

– Vou mantê-la assim. Depois da festa, encontro seu corpo nu.

– Vou esperar pelo senhor, meu marido. – Mordisco seu lábio e solto um breve gemido.

– Terrível! Agora estou pensando em você nua.

Eu o beijo, e depois de tanto andar, o carro para. Fotos do outro lado do Sheraton Hotel, e em seguida, partimos para a festa.

Os convidados com certeza já estão lá dentro. O motorista percorreu um caminho tão longo...

– Chegamos. – Minha barriga protesta assim que Evan anuncia.

– Não solte a minha mão. – peço assim que o motorista abre a porta e Evan desce.

– Não largaria você por nada. – Ele estende sua mão e eu alcanço a calçada. Alguns fotógrafos fazem patrulha e flagram o momento.

– Espero que Sam tenha trazido o outro vestido. – falo tirando do carro o restante da minha grinalda.

– Sim, ela trouxe, seu irmão foi buscar. - Evan deixa escapar e me tranquiliza. Amei meu vestido, mas quero aproveitar a festa. – Vamos? – Evan segura minha mão e me leva para dentro do Metropolitan.

Sob palmas e assobios, a ruiva encabulada entra agarrada no braço de Evan.

– Senhor e Sra. Maccouant. – alguém anuncia nossa entrada e o sobrenome atrelado a mim me faz sorrir.

O lugar é espetacular. Imensas colunas de vidro servem de apoio para os vasos com heather escocesas e flores de laranjeiras. As mesas redondas distribuídas em arcos e uma pista de dança gigantesca iluminada como as mais badaladas discotecas. Garçons servem e se misturam aos convidados, tudo escandalosamente lindo. Um suave tecido em lilás desce do teto até o chão, nos cantos do espaço retangular e luxuoso.

– Agora, a primeira dança do casal. – Assim que o locutor anuncia a dança, todas as luzes se apagam, exceto a que ilumina Evan e eu. O silêncio toma conta do lugar, e bem baixinho escuto o som de um piano iniciando uma melodia. Algo me diz que é familiar, mas ainda não tenho certeza.

Aos poucos, o som vai ficando nítido e mais próximo. Uma luz se acende, iluminando o centro da cortina cor ameixa que cobre o palco, que se abre e mostra de onde vem o som. Um belo piano com cauda e seu responsável.

A música é My Girl – The Temptations.

– Agora você é minha para sempre. – Ele afirma com a boca encostada na minha face. O salto proporciona essa facilidade.

– Não tenho escolha; ou sou sua ou seria nada. – A boca de Evan me invade. A música perfeita, o lugar perfeito, os braços dele... Avassalador.

Por um instante, lembro de alguns momentos de nossa trajetória até aqui. A minha dança para ele, meu primeiro beijo, acordar em um quarto de hotel com um completo desconhecido enroscado em mim afirmando que sou dele, por Deus, como sou dele. O desconhecido que me salva do abismo, suspiro no pescoço perfumado de Evan e lembro da primeira vez que esse aroma invadiu meu mundo, e ele passou a ter cheiro e cor, isso para mim basta.

A música acaba, e depois do pianista o DJ enche a pista de dança.

– Victoria? – Rose me chama discretamente, tirando-me da presença de Evan.

– Sim, Rose?

– Bem vinda oficialmente à nossa família, estou muito feliz. O grampo ficou belíssimo em você.

– Obrigada! Também estou muito feliz. – Digo retribuindo o abraço.

– Gostaria de agradecer pelo que fez. – fico em dúvida.

– Agradecer o quê, precisamente?

– Você não colocou lista de presentes, pediu para que os convidados fizessem doações à nossa principal instituição, um gesto tão simples e tão bonito... Tenho orgulho de tê-la conosco. Meu filho realmente tem sorte. – Ela sorri.

– Fiz o mínimo. – Ela beija meu rosto, despede-se com um até logo e me deixa à mercê de Sam, que acaba de chegar com uma taça nas mãos.

– Vick, que tal a pista de dança? Vamos? – Estico meus olhos até Evan, que está distraído com a conversa do pai.

– Ótima ideia, mas preciso trocar de vestido, com esse não vou conseguir aproveitar. – Um Chanel tomara-que-caia branco até a altura do joelho, nada muito justo no corpo, um modelo que remete aos anos sessenta.

– Ele está no quarto auxiliar, vamos lá que te ajudo. – ela diz, segurando minha mão e me levando.

De volta à festa, sempre acompanhada por Evan, meus pais se aproximam.

– Filha, que belíssima festa! – minha mãe elogia e Evan estica o braço, pegando duas taças de champanhe de uma bandeja nas mãos de um garçom.

– Obrigada, mãe. – Ela me abraça e sinto um pingo em minhas costas. – Não chore mãe, estou feliz.

– Eu também, por isso estou chorando. – Ela conclui. – Aproveitem a vida de casados. – Ela diz sorrindo, com os olhos marejados.

– Isso mesmo, aproveitem ao máximo. – Meu pai conclui.

– Gostaria de propor um brinde! – alguém anuncia, interrompendo a música. É Lucca, com alguns goles de álcool a mais, e isso me dá medo. – Vick, minha irmãzinha que não alcançava o balanço, veja o que alcançou. Se teve uma infância feliz, essa foi a minha. Tive o prazer de dividir todos os meus momentos com a menina mais encantadora do mundo, com a menina que aceitava brincar de carrinho, mesmo sabendo que eu não brincaria com suas bonecas. – Todos riem. – Ela escolhia ficar comigo, independente do menino que ela precisaria ser pra isso. Hoje, vejo a sorte que tive de ter você ao meu lado, minha irmã da mesma cor diferente, de interior diferente, de alma boa. Parabéns a Evan, que agora tem o mesmo privilégio que tive. Um brinde aos noivos. – Lucca me faz chorar.

– Victoria! – Sam pega o microfone e meu estômago revira de novo. – A professora amiga, que deu asas a um anjo que partiu; a menina ruiva de bom coração que conquistou todos que a conheceram; e que conquistou Evan, um amigo em um milhão. Pessoas boas se encontram, se completam e fazem todos à sua volta desejar o mesmo. Vocês estão escrevendo um conto de fadas. Qual mulher não sonha em viver isso? Vamos, alguém aqui não gostaria de experimentar isso? – Sam pergunta olhando por todo o salão. A maioria das mulheres sorri e concorda. – Qual mulher não sonha em ser tratada como única, como prioridade? Sim, todas, e as que dizem não sonhar com isso, com certeza já se imaginaram no papel de Cinderela ou de Bela Adormecida. Isso é fato, sonhamos em ser princesas, todas nós, mas sonhamos com um príncipe também. Acreditamos que um dia teremos ao nosso lado alguém que se importe com nossos passos e nossas agonias, porque somos mulheres e realmente não sabemos o quanto e quando queremos, mas nós temos uma única certeza: todas almejamos o amor de forma simples e sincera, de forma real e duradoura. Desejo a vocês, Evan e Victoria, esse conto de fadas eterno. Que ele se renove a cada manhã, que tenha as surpresas boas para as risadas, que tenham novidades a serem descobertas. Um brinde ao casal que poderia, sim, escrever um novo conto de fadas, e o fez da melhor maneira possível. – Sam arranca aplausos. As mulheres estão com os olhos cheios de lágrimas. Ela havia falado a maior de todas as verdades: todas desejam o seu conto de fadas particular.

Numa sucessão de brindes e discursos engraçados e demorados, a noite vai se abrindo para a madrugada. A trilha sonora é particularmente perfeita. Minhas bandas favoritas, meus cantores prediletos. Danço muito com Evan, Lucca e Sam ao som de Like a Prayer de Madonna. O DJ atende ao pedido de Evan, e dançamos ao som de “I Don’t Wanna Miss a Thing”, Aerosmith.

– Não quero fechar os meus olhos. – Evan sussurra em meu ouvido.

– Caso feche, estarei ao seu lado quando acordar. – retribuo o sussurro. – Evan, preciso ir ao banheiro! – falo ao ouvido de Evan, ainda estamos na pista de dança.

– Vou acompanhá-la.

– Evan! Vou sozinha ao banheiro! – falo mais alto e ele inclina a cabeça em sinal de total desaprovação.

– Pode respirar aliviado, gatão! Eu acompanho essa beldade rubra até o toalete! – a voz que chegou à minha nuca me faz sorrir, reconheceria em qualquer lugar do mundo.

– Pierre! – largo Evan e pulo no seu pescoço. – Saudade de você, sua maldita! Não recebi nenhuma mensagem sua! – advirto sorrindo e beijando o rosto dele.

–Aloooooooocccccccccccccaaaaaaaaaaaaa! Você está, maravilhosa como consegue ficar ainda mais linda é o que eu não entendo. – ele me gira e olha o modelo que me cobre. – Graças a Deus não tenho que competir com você! – ele solta uma gargalhada.

– Sr. Quefreen! O melhor maquiador e bailarino do mundo! – beijo seu rosto e o abraço novamente.

– Entendeu, né, bofe? – Pierre sorri para Evan enquanto fala. Ele está usando uma calça social bem ajustada em seu corpo magro e lindo e camisa salmão justa no tórax definido de bailarino. Moreno perdição, cabelos esvoaçantes e finos, olhos negros assim como suas madeixas muito bem cuidadas, desconfio às vezes que seja mais mulher do que eu. – Se eu não apreciasse o mesmo produto que minha ruiva aprecia, você e eu estaríamos nos digladiando por conta dessa gata! – ele ironiza ao falar e me abraça, Evan arqueia as sobrancelhas, acho que ele nunca teve contato com um gay nesse nível.

– Desculpe, você é quem? – Evan tenta se manter sério, mas está realmente em dúvida de como agir. Está irritado, mas em um nível bom.

– Está perdoado, bofe da boca perfeita. Sou Pierre, escravo e devoto dessa princesa. – Pierre beija meu rosto. – Vou acompanhá-la até o banheiro, tudo bem pra você, certo? – ele sorri e Evan não acredita na cena. Ele está pasmo.

– Pierre, o bailarino da barra de alumínio? – Evan pergunta olhando para mim e eu suspendo os ombros. Evan respira fundo buscando alívio.

– Posso saber que barra de alumínio é essa que vocês incluíram em minha vida de rodopios? – Pierre sorri e olha Evan dos pés à cabeça. – Tudo bem que na minha vida quase tudo pode ser incluído, adoooooooooooroooooo! Mas ao menos me avisem para eu poder usufruir dessa inserção. – Ele desliza as mãos em meus ombros.

– Pole dance, Pierre, andei relembrando de algumas passadas na barra. – Evan me bateria nesse momento, se pudesse.

– Arrasou, gata! – ele beija minhas mãos e vai em direção a Evan e isso me deixa do avesso, porque de fato tenho medo da reação de Evan.

– Com licença, Deus Grego, mas sua gravata merece um socorro! – ele ajeita a gravata de Evan e eu estou rindo, Evan ainda quer me bater. – Oh Deus! Como esse cabelo pode se rebelar estando sobre esse bofe lindo. – Pierre abusa da sorte e ajeita algumas mexas de Evan e dou uma gargalhada, escondendo o sorriso atrás dos dedos.

– Pierre, você não muda! – declaro e ele se vira, ajeitando meu tomara-que-caia.

– Não posso mudar! Nunca! Afinal, é assim que consigo o número elevado de bofes fodásticos em minha vida! – terrível esse Pierre.

– Costuma agir dessa forma? – Evan está olhando para as mãos de Pierre que ajeitam meu vestido, acho que ele não o agride por minha causa.

– Não, na realidade estou me contendo bastante. – sarcasmo de Pierre. – Por mim, teria colocado algo com paetês, mas na hora em que vi o lugar da cerimônia e da festa pensei que pudesse roubar a cena.

– Victoria, não queria ir até o banheiro? – Evan ainda está perplexo, irritado, e eu estou sorrindo, feliz que meu amigo está aqui.

– Eu faço sua escolta, Redizinha! Um luxo vermelho desses não pode andar sozinha. – ele olha afiado em tom de brincadeira para Evan. – Fica a dica, viu bofe de olhos verdes? – Evan se remexe e revira os olhos como se não acreditasse no que acabou de ouvir.

– Exagerado! – Brinco com Pierre, cutucando seu abdômen definido com meu indicador.

– Não é exagero, se eu não fosse apreciador nato do seres do mesmo sexo que eu, com certeza roubaria você para mim. – Evan fecha os punhos, mesmo sabendo que ali não existe perigo algum.

– Toalete, Sra. Maccouant! – Evan alerta.

– Uau! Essa formalidade é de perder a calcinha, né, amiga? – Pierre é fogo, viu? Evan entortou a boca com o comentário.

– Sim, vou e volto rápido! – Evan me puxa para perto dele, sela a minha boca com um beijo e sorri.

– Não demore! – ele pede com os lábios nos meus. – Vejo que gosta muito dele e ele de você, batalha perdida, vai lá com seu amigo, amiga, sei lá. – dou uma gargalhada e beijo o canto de sua boca, e Pierre me leva abraçada pela cintura até a porta do banheiro.

– Vamos, luxo vermelho! Vamos conhecer o banheiro deste lugar!

– Pierre, não tem ninguém, entre aqui comigo, vamos conversar! – peço e ele muito abusado entra e vai até a cabine do lado da minha, conhecendo-o com certeza está fazendo xixi sentado.

– Escute, maçãzinha! – Pierre tira a comédia de sua voz por um nano-segundo. – Quero muito que o cabelo da Ellis resseque a tal ponto que nenhum cabeleireiro deste planeta consiga salvar, quero também que as unhas dela quebrem de tão fracas e que menstrue em pleno réveillon. – ele sai e lava as mãos, e eu saio ajeitando meu vestido.

– Pierre, como soube? – pergunto enquanto lavamos as mãos.

– Apple me ligou chorando, ninguém deveria chorar daquele jeito. No dia seguinte deve ter encarado um olhar terrível que lembra duas beterrabas. Mas, enfim, ligou pra mim e baixei na casa dela, levei uma garrafa de um bom vinho que ganhei de um australiano que é de fazer perder o rumo, bebemos e ela me contou. – ele ajeita a sobrancelha desenhada e continua. – Seu bofe grego que merece uma festa diária apenas por ter aqueles lábios carnudos é cafajeste por nascimento mesmo, e ele não conhecia você. – ele passa as mãos pelos cabelos e fica de costas para o espelho olhando o próprio traseiro. – Agora, aquela infeliz era sua amiga, deveria ter te contado no momento exato em que ofereceram isso a ela.

– Eu sei, Pierre, mas acho que ela ficou envergonhada em dizer. – falo quase em um choramingo.

– Com certeza ela deveria se envergonhar em aceitar esse convite a uma prostituição de vinte e quatro horas, mas não dividir com a melhor amiga dela, aí, é de ferir a amizade de infância, né, Red! – ele se aproxima e com o indicador levanta meu queixo. – Você é linda, se eu estivesse vestindo uma alma masculina, adoraria te beijar, mas você sabe que eu entro na disputa pelo seu homem. – Franzo o nariz para ele. – Brincadeira, minha maçã! Mas não retiro uma palavra sobre Ellis Serena, esse nome é de acabar...

– Pierre, somos todos amigos, claro que algumas coisas mudaram. – Olho para ele e curvo a boca.

– Gata! Tudo mudou! Você casou com um gato, é uma das bailarinas mais lindas, ou melhor, é a bailarina mais linda que conheço, a única que abriu mão de uma competição e me deixou dançar em seu lugar. Isso foi há quase oito anos, me deu suas sapatilhas porque eu não tinha condição alguma de comprar. Você tem o segredo que a maioria busca nos outros, compaixão. Então, minha red hot, eu não poderia estar do lado de alguém que não seja você.

– Vai me fazer chorar? – pergunto com os olhos cheios de lágrimas.

– Pode chorar, essa maquiagem magnífica que só muito dinheiro pode comprar que você está usando é à prova d’água. – Pierre não perde a chance de uma boa resposta, eu o amo.

– Eu te amo, Pierre! – abraço-o.

– Ah! Achei que não fosse dizer isso, né? Porque sou louco por você, eu te amo desde a primeira vez que vi seu par de seios perfeitos! – ele ironiza de uma maneira que faz com que gargalhemos alto.

– Vamos dançar! – eu o puxo e alcançamos a pista de dança. Nem me atento à batida, mas ela é convidativa, perfura meu córtex e leva a mensagem até meus pés.

– Preciso te contar uma novidade! – ele grita e Evan se aproxima.

– Conta! – peço e Evan chega resmungando sobre a demora no banheiro. Beijo sua boca e apenas transmito o quanto estou feliz por Pierre estar aqui, e ele incrivelmente entende.

– Bolshoi, gata vermelha! – ele fala e meu coração dá um pulo.

– Não acredito! – Agarro-o.

– Por favor, Victoria, minha camisa. – ele brinca me girando no colo com os braços em volta da minha cintura.

– Parabéns! Você merece! – eu digo assim que ele me coloca no chão e Evan ainda tenta se conformar.

– Bofe – ele se dirige a Evan - Você tem nas mãos alguém que me ajudou a chegar onde eu sempre quis, acho que não preciso dizer que esse rubi é o mais precioso. Espero que sejam felizes, porque essa menina – ele me puxa e beija meu rosto –, ela não merece menos do que isso. Alegria para vocês, sempre. –Pierre fala segurando a mão de Evan e a minha, isso me tumultua por dentro, um tumulto bom. – Mas, por favor, vamos dançar! – ele pede e me puxa com ele.

– Pierre, não sabe por quantas vezes quis te esganar – Evan se lembra do pole dance.

– Sem problemas, bofe das importações! Causo isso nas pessoas, e em seguida, essas mesmas pessoas viram meus seguidores, pedem autógrafo, uma loucura. – Pierre não se abala e Evan está inconformado e irritado, não posso fazer nada, Pierre é assim, todo desparafusado.

– Gata! Se solta! Liberta essa sua leoa, o bofe que enfiou essa aliança que custa uma fortuna merece saber sobre seus espetáculos! –Pierre me mete em uma roubada, mas finjo que nem percebo.

Ganhamos a atenção de todos na pista de dança, abriram uma roda à nossa volta, entrego-me ao mundo do Jazz, do hip-hop. Dancei até sentir o suor descer pelas minhas costas. Por alguns momentos estava com Pierre e em outros com Evan, amando a sensação. Evan havia desistido de me manter embaixo das suas asas e descubro um jovem homem que gosta de uma boa balada, meu marido revela mais um de seus mundos, e por devoção, eu amo integralmente todos eles.

– Sr, Sra. Maccouant? –Gunter nos surpreende com uma taça de champagne.

– Gunter! – exclamo seu nome com alegria e Evan passa seu braço sobre os ombros de seu escudeiro.

– Desejo que sejam felizes e sempre estarei à disposição de vocês. – ele aperta a mão de Evan e em seguida a estende a mão para mim, eu simplesmente ignoro e o abraço. É como abraçar Alice que ainda está presente em nossas vidas.

– Victoria, sua linda! – a voz doce de Apple nos interrompe e automaticamente eu me viro e a abraço.

– Onde você estava? Pierre está aqui! – disparo de uma só vez.

– Cheguei há pouco, meu voo atrasou e ainda não encontrei com Pierre. – ela se explica olhando para o meu vestido. – Você está tão linda!

– Obrigada e você também está lindíssima! – Elogio olhando para o lindo vestido longo em tom violeta. Apple é linda, cabelos negros, olhos esverdeados, uma pele impecável e tão doce, tão romântica que mesmo tendo quase vinte e quatro anos, parece que o tempo parou para ela assim que completou quinze.

– Exagerada... – ela sorri encabulada e por alguma razão eu olho para Evan e Gunter que estão parados, assustados e mudos, ambos estão olhando para ela, uma ponta de ciúmes me cutuca e eles a encaram. Vou matar o Evan! Pensei comigo, mas resolvi recorrer a etiqueta.

– Evan, Gunter, essa é minha amiga Apple Scapolaro, minha amiga de infância. – Eu sorrio, mas eles não obrigam seus corpos a terem alguma reação. Claro que estou preocupada, já tive problemas com uma determinada amiga de infância.

– Muito prazer, Srtª Scapolaro. – Evan estende a mão para ela, mas me surpreende ao olhar para Gunter enquanto faz isso. Deus, o que está acontecendo? Apple olha para Gunter e ele devolve o olhar mas com uma intensidade quase que física.

– Srtª Scapolaro, muito prazer. – Gunter segura a mão de Apple demoradamente e eu tento entender. Talvez seja atração, não sei, o que sei é que suas mãos e olhares estão ligados em uma conexão mundialmente conhecida, mas impossível traduzir em palavras.

– Peço licença. – Gunter fala e desliza sua mão pela mão de Apple enquanto a solta e se retira de nossa presença. Evan ainda olha para Apple e de repente escuto Pierre chamando e levando Apple para longe de nós.

– Posso saber o motivo pelo qual os dois senhores encaram de maneira tão indiscreta minha amiga de infância? – Sim, estou com ciúmes. Deixo claro isso em minha cruzada de braços e no franzido entre minhas sobrancelhas.

– Victoria, minha linda. – Evan beija desfazendo o franzido. – Me perdoe pela minha indiscrição, mas é que sua amiga é quase uma cópia de Caroline, a falecida esposa de Gunter. – tento me lembrar da foto que vi no dia da morte de Alice e realmente existe certa semelhança.

– Eu fiquei assustada com a expressão de vocês, estavam encarando como se tivessem visto um fantasma. – falo e descruzo os braços o abraçando pela cintura.

– Foi quase isso, mas, mudando de assunto, está feliz? – ele pergunta, selando com um beijo a minha testa.

– Mais do que isso, muito mais do que isso. – Encosto minha cabeça no seu ombro. Dançamos o que seria a nossa última música da noite, From this moment on, Shania Twain.

Por quase cinco minutos revivo os últimos meses, as manhãs sob as mensagens de Evan, as aulas, o jardim, Las Vegas, minha primeira vez nos braços de Evan, a fantástica viagem que se repetiria de maneiras mais intensas e ousadas... Ele não é apenas uma pessoa que conheci, ele é alguém que vale a pena se aventurar em seus mistérios. Preciso de todos os sentidos de Evan. Nesse momento, estou no meu lugar no mundo, o melhor lugar do mundo.

– Acho que está na hora de irmos embora. – Evan fala ao meu ouvido assim que a música acaba, trazendo-me de volta ao presente.

– Não quer ficar mais? Essa festa é nossa! – Alerto sobre o tempo que ainda durará esse evento.

– Minha festa agora é particular. – Ele sorri e vamos em direção a nossos pais, que dividem a mesa e risadas.

– Está na hora de irmos. – Dou de ombros, olhando para os meus pais.

– Divirtam-se. – Minha mãe nos abraça, e em seguida, meu pai. Estou tensa.

– Vamos nos divertir, sim, vou apresentar o meu lado do oceano ao Evan. – Falo divertida e com um pouco de vergonha.

– Meu filho, Victoria não poderia realmente estar mais feliz. – Os olhos de Rose transbordam. – A alegria de vocês é a minha. – Rose beija as duas faces de Evan e em seguida me abraça.

– Obrigada, Rose. – Digo em seu ouvido.

– Linda, Victoria, realmente esteve deslumbrante. – John disse em meu ouvido e com voz respeitosa.

– Obrigada, John. – retribuo.

– Sempre tive muito orgulho de você, mas hoje realmente me surpreendeu. – John no ouvido de Evan estreita o laço amoroso entre eles. – Evan retribui apenas olhando para o pai. Palavras são dispensadas.

– Meu amigo. – Um rapaz de cabelo em um tom castanho e olhos azuis cumprimenta Evan, e apenas acena com a cabeça para mim.

– Gio, obrigado por ter vindo. – Evan o abraça. É o único homem que vejo Evan abraçar, além de seu pai.

– É uma honra estar aqui, pena que perdi parte da cerimônia. Estava no Canadá e meu voo atrasou.

– O que importa é que você veio. – Evan olha nos olhos dele.

– O que importa, meu amigo, é que você está feliz. – O tal de Gio o cumprimenta com outro abraço e estende a mão para mim. – Cuide bem dele. – Ele diz olhando nos meus olhos como se já tivesse me visto antes.

– Com certeza. – Retribuo com um sorriso, e o amigo de Evan se perde entre os convidados.

– Gio, meu amigo há mais de vinte anos. – Evan dispara. – O único.

– Fico feliz que ele tenha vindo. – Sorrio para o sorriso de Evan.

– Vamos? – Evan segura minha mão e me conduz à saída, onde os convidados fazem um corredor para a nossa passagem. Quando pisamos no degrau de fora do espaço Metropolitan, os fogos de artifício, uma chuva de arroz e as palmas se unem. Meus olhos estão em Evan e no show de cores que ele preparou como surpresa. Os fotógrafos terão assunto durante a semana toda. Passa das três horas da manhã.

– Você sempre me surpreende. – Digo entrando no X6 de Evan que Gunter acabara de estacionar.

– E você sempre me salva. – Sob os olhares e aplausos, os olhos de Evan estão nos meus, e aos poucos nossa festa vai ficando para trás. No céu, ainda há as cores artificiais, e dentro de mim elas também acontecem.

– Posso saber para onde vamos? – Pergunto inocentemente.

– Não. – lindamente ele me nega a informação com um sorriso no rosto.

– Me sequestrando de novo?

– Sim.

– Gosto disso.

Quase trinta minutos depois, chegamos no porto. Evan estaciona o carro e saímos em direção ao deck, onde um barco nos aguarda.

– Um barco? – Pergunto com surpresa, olhando a embarcação onde um assistente nos espera.

– Sim, um barco, o mar, você e eu. – Ele vira o rosto em minha direção e sela minha boca com um beijo; não consigo conter o sorriso.

– Nunca estive em um barco.

– Mais uma primeira vez. – Continuamos o caminho sobre a madeira que testa meu Louboutin.

– Bom dia, Sr. Maccouant. – Um homem grisalho e alto nos recebe.

– Bom dia, estamos prontos para partir?

– Sim, quando quiser. – O capitão avisa.

– Obrigado. – Evan agradece o homem e me leva até o interior do barco.

– Evan, estou espantada com o iate. – O barco tem uma sala de jantar para oito pessoas, sala de televisão, dois quartos com suíte e hidro, extremamente elegante.

Evan me conduz pela mão até a proa, e nesse momento o céu fica colorido. Uma forte queima de artifícios me tira o ar. Um show particular de luzes no céu de Nova York.

– Uau! – falo olhando para o céu repartido em cores que ilumina meu rosto.

Ele me pega pela cintura e me beija. O barco começa seu movimento alcançando o alto mar e estamos avante. Evan me leva no colo até a suíte principal. Magnífica! A madeira escura contrasta com o creme do estofado, e uma manta azul escura sobre a cama faz conjunto com as almofadas da mesma cor. Escuto quando Evan fecha a porta e tranca.

É como se o tempo parasse e talvez tenha parado de fato, e o mundo jamais entenderia, algo acontece e um choque envolvente nos une ainda mais e sua boca alcança a minha. Ele pressiona seu corpo no meu, e eu o sinto, sinto como me quer.

Evan para e me olha, vejo-me dentro dos seus olhos e acredito que esse seja o momento que podemos chamar de perfeito. Ele alcança um controle remoto e aperta o play, Halo; de Beyonce em um volume baixo, apenas para nós dois.

– Eu te amo. – ele diz quase inaudível e com uma força que moveria montanhas. Respondo olhando nos olhos que me guiam, e não preciso de nenhuma vogal para dizer o quanto dele existe em mim. Talvez só exista ele dentro de mim nesse momento.

– Eu sou completamente apaixonado por você! – ele dispara e deita ao meu lado me abraçando, beijando meu ombro, e seu suspiro em minhas costas me mostra o norte de tudo que preciso.

– Amo você, Evan. – ele me aperta contra seu corpo e deixamos que o balanço da embarcação e o barulho da água nos faça companhia.

Não queremos dormir, mesmo exaustos, os dedos dele percorrem meu braço e seu rosto está escondido em meus cabelos. É surreal, é incrível, é ele, meu Deus, é ele, sempre será ele, de todas as formas, em qualquer momento.

 


Temos uma viagem ainda hoje. Nosso voo será às 21 horas.

– Escócia! – exclamo feliz.

 


Acolhido em mais de oitocentos hectares, o Turnberry Resort nos recebe envolvido por um campo de golfe.

Meu coração vira cambalhotas. Não é o lugar que me deixa eufórica, mas a jornada que me levou até ali. O helicóptero toca o chão e minha euforia aumenta significativamente.

O motor é desligado, o piloto abre as portas e Evan desce antes de mim. Rapidamente contorna o helicóptero e estica os braços, como se alcança uma criança em cima de um brinquedo. Ele dá um beijo na minha boca enquanto me coloca no chão e eu o amo mais, muito mais. Minutos depois, alguns mensageiros carregam as Vuitton para dentro do hotel.

Deveria ter vestido outra blusa. A calça jeans e o camisão de tecido fino e preto não estão segurando o frio. Evan percebe minha pele arrepiada e retira o casaco curto que está fazendo conjunto com sua roupa esporte fino em tom creme e azul e me cobre. Como uma criança eufórica pelo brinquedo novo, esqueci como era o clima de minha própria terra e não me vesti adequadamente.

Eu estou em êxtase, o lugar é perfeito. Colunas de madeira escura, assim como o assoalho, contrastam à perfeição. O tapete em cor marfim nos conduz até a recepção. Grandes vasos com flores, o aroma que elas exalam é maravilhoso. A iluminação vasta e soberana que invade pelas grandes vidraças, mundo novo do meu lado do mundo.

– Bom dia. – a voz agradável e doce da recepcionista de olhos grandes e castanhos nos recebe. Traje perfeito em cor vinho, cabelos castanhos e presos.

– Bom dia, reserva em nome do Senhor e Sra. Maccouant. – A pronúncia séria de Evan me amolece as pernas. Tão diferente do homem que é comigo. Eu tenho um exclusivo Evan doce e romântico dentro de quatro paredes.

– Senhor, aqui está seu acesso até seus aposentos. Por favor, assine aqui. – Ela coloca em cima do balcão um pequeno envelope com dois cartões e um check-in.

– Obrigado. – Ele agradece, vira o rosto em minha direção e beija as palmas de minhas mãos.

– Por favor, queiram me acompanhar. – O mensageiro, menor que eu, guia-nos com nossas malas em cima do carrinho.

Minutos depois, a porta do elevador se abre e subimos apenas dois andares, característica principal do Turnberry: ele é um hotel horizontal.

– Quarto setenta e sete. Por favor, fiquem à vontade e estamos à disposição. – O baixinho educado coloca nossa bagagem sobre uma mesa destinada a isso e sai assim que Evan entrega uma generosa gorjeta. Diante do meu rosto está um dos lugares mais lindos que já vi. Não é apenas luxo, é conforto. Uma sala que se divide em dois espaços: uma área com televisão e um sofá amarelo-claro disposto sobre o tapete branco, irritante de tão profundamente branco; do outro lado, uma mesa divide espaço com duas poltronas da mesma cor do sofá e uma estante com alguns livros. Ali é a sala que antecede o quarto.

Evan me pega no colo e me leva até o quarto e meu queixo cai pela segunda vez. Evan me coloca no chão e aprecio cada magnífico detalhe. Uma cama gigante entre dois criados-mudos, o tecido em cor azul escuro e marfim se destaca entre cortinas e lençóis. Ao lado, um guarda-roupa que esconde um cofre e um frigobar devidamente abastecido. Champanhe dentro do balde com gelo sob o aparador aos pés da cama. O banheiro é um mundo à parte. A madeira que serve de suporte para a pia de porcelana é a mesma que percorre a banheira. O lugar é harmoniosamente envolvente e se completa com um chuveiro alinhado na direção da hidro. Impactante. Detalhes como toalhas gigantes e bem dobradas e as obras nas paredes concluem a suíte.

– O lugar é deslumbrante! – Giro sobre meus calcanhares e, de repente, meus olhos encontram os olhos de Evan, que está lindamente encostado no batente da porta com os braços cruzados.

– Você é deslumbrante, adoro como olha para as coisas. Amo como se encanta e sorri. – Evan se transforma em meu doce Evan.

– Qualquer lugar no mundo será perfeito se eu estiver com você. – Corro para ele; corro para o meu lugar, que me protege e cuida de mim.

– Está cansada? – Ele pergunta, beijando o topo da minha cabeça.

– Não, por quê?

– Vamos conhecer o lugar. – Ele abre uma das malas, retira meu casaco creme e coloca-o sobre meus ombros, vestindo-me. Andamos pelo imenso corredor e optamos pela escada. O tapete perfeitamente colocado no centro do extenso corredor. Arandelas e aparadores dividem o espaço na parede em cor branca. Flores nos vasos completam essa divisão. Um lugar extremamente agradável.

Dois pequenos lances de escada estão de frente à academia que seguia do SPA. Piscina aquecida, quadra de Squash, salão de cabeleireiro, e assim sucessivamente pela área gigante até uma pequena loja com itens do hotel.

– Fome? – Evan pergunta sério.

– Sim, mas acho que estou comendo demais. Ontem antes de embarcarmos repeti o prato e comi dois pedaços de bolo. Geneticamente falando tenho sorte, mas não posso abusar. – Falo seriamente.

– Ajudo você a queimar as calorias que ganhar. – Ele me abraça e me suspende até sua boca.

– Acho que não quero mais comer. – Franzo o nariz fazendo manha.

– Primeiro a comida; depois queimamos as calorias. – Ele beija a ponta do meu nariz, desfazendo a graça infantil.

Caminhamos até o restaurante. Mesas acomodadas de frente à uma vidraça que percorre toda a extensão do hotel. Branco nas paredes e azul Royal nos estofados. O chão, assim como na recepção, escuro e muito bem encerado.

– O que você quer comer? – Evan pergunta, puxando a cadeira para eu sentar.

– O que você pedir.

– Linda, por que você não pede e me apresenta algo daqui que eu possa gostar de provar? – Ele sugere com os cotovelos apoiados na mesa e os dedos em frente ao queixo.

– Quer apreciar mais alguma sugestão escocesa? – falo maliciosamente, sem tirar os olhos do cardápio.

– Confesso que meu apetite por uma determinada iguaria dessa região é insaciável.

– Evan, você me igualou a um prato típico! – Advirto, sorrindo.

– O melhor de todos, só de pensar no doce paladar desse prato minha boca saliva. Amo como é servido, de todas as formas. Amo olhar para minha refeição enquanto ela dorme e amo como minha refeição me devora também. – Ele consegue me deixar fisicamente desejando-o. Os lábios carnudos falando de forma tão macia, a maneira como as palavras desenrolam em sua língua vermelha, como mantém o olhar fixo e sedutor sobre mim... Cruzo minhas pernas bem forte e presto atenção ao cardápio novamente.

– Quero você. – Falo baixinho me escondendo atrás do cardápio.

– Depois, agora preciso que você coma, preciso ter calorias para queimar. – Ele me invade sem encostar um dedo em mim. Uma maldição, a melhor de todas.

Com apenas um pequeno aceno com a cabeça, o maitre se aproxima. Faço os pedidos, Gratin escocês de salmão, Haddock com purê de batatas e filé à escocesa, sem desviar os olhos de meu marido. Evan pede o vinho indicado pela casa.

Olhar Evan tão novo, tão bem sucedido e com tantos fantasmas me faz pensar o quanto custa a felicidade de alguém; ou se felicidade existe mesmo ou está dividida em pequenas doses de alegria. Ele corre o olhar sobre mim e de repente volta seu rosto para a grande vidraça. Eu me perco nele, do contorno perfeito de sua orelha ao desenho absurdamente magnífico de seu maxilar. Esculpido por um anjo, eu diria se não tivesse conhecido seus pais.

– Encarando seu marido, Sra. Maccouant?

– Admirando, seria a palavra apropriada.

– Gosto disso. – Ele repete a frase que fez meu mundo se perder e se encontrar há alguns meses, e parece que é a primeira vez que a escuto.

– Evan, pensei muito sobre o assunto e vou para a faculdade ano que vem. Perdi muito tempo e não quero me atrasar mais.

– Sim, isto é um fato. É um fato também que não aprecio esse assunto. – Ele muda a expressão e algo me desanima.

– Parece que não gostou do que acabou de ouvir. – Falo de forma séria, impondo a discussão do assunto.

– Para ser franco, não me agrada saber que ainda pretende trabalhar, não existe nada que eu não possa te oferecer. – Ele fala numa simplicidade, dando de ombros, que chega a ser irritante.

– Liberdade, Evan, é um item que você pode e deve me oferecer. Vou trabalhar sim, e não vou esperar a faculdade terminar, preciso sentir-me útil. – Extraio uma respiração profunda de Evan, discordando do meu interesse.

– Acredito que não seja o momento de discutir com você sobre isso. – Ele me oferece um olhar ilegível e altamente incriminador, quase me inibe.

– Discordo plenamente de você, tendo em vista a alta probabilidade desse assunto nunca ser discutido entre nós. – Eu o desafio, replicando o mesmo olhar.

– Quer realmente discutir isso agora?

– Sim, quero! – Eu me assusto com a minha coragem.

– E onde pretende trabalhar? – Ele pergunta em um tom que realmente não me agrada e um impulso para uma resposta curta, grossa e explosiva me domina.

– Não sei, já que você eliminou a Charper & Lousan... – Ele engole em seco e eu, sem pensar ou pensando, toco no maldito assunto.

– Teria mais algum lugar ou de fato escolheu a empresa do cara mais repulsivo de Nova York apenas para me irritar? – O tom piora, e por algum motivo, quero arremessar o garfo nele.

– Evan, a Charper é uma das melhores! Cuidam dos designs de interiores das maiores e mais importante empresas do mundo, eu gostaria muito de trabalhar com eles. Desculpe-me, esqueci, eu não posso, afinal, alguém pode ligar e solicitar uma ruivinha pra viagem. – O garfo misteriosamente está na minha mão.

– Não vou discutir com você sobre isso. – Ele tenta encerrar o assunto.

– Mas eu quero discutir isso. – Estou realmente muito brava. Não quero pensar na Accord, nas meninas, na Ellis, mas não consigo. Charper era o meu alvo, sempre foi. Minha mãe sempre falou desta empresa.

– Você quer discutir? – Ele fala baixo, com um tom de voz de causar medo. Preferia que ele gritasse.

– Sim, quero!

– Então vamos discutir sobre a empresa de Sebastian. Ele mantém uma competição pessoal comigo e você sabe por quê. Não vou conseguir respirar sabendo que você está perto dele, e outro detalhe, estou me desdobrando para me livrar de um pequeno acordo. Com isso, quero muito me livrar das pessoas envolvidas nele. – Evan fala cerrando os dentes.

– Você está bravo porque quero minha liberdade, minha realização profissional, mas o que me irrita é você achar que eu seria uma presa fácil. Sei me defender.

– Sim, estou bravo, e quanto a saber se defender, creio que não. Em Vegas, em Madri, são exemplos que as pessoas conseguem ter acesso fácil ao que me pertence, porque caso não tenha percebido, você é minha. – Um territorialismo absolutamente absurdo toma conta de Evan e isso me assusta.

Ao mesmo tempo paro e olho para ele. Não olho apenas o homem maravilhosamente lindo que está à minha frente. Eu O VEJO. E nesse ver eu sei exatamente o que ele está sentindo. Nós já tivemos essa conversa, eu sei pelo que ele passou e prometi a mim mesma que faria o possível... Ok, faria o impossível para aceitar que não posso julgá-lo por seu passado. Eu amo o Evan de agora e este Evan aqui na minha frente me pertence, assim como eu pertenço a ele.

Ele está me olhando com cara de bravo, esperando meu próximo passo e eu simplesmente... caio na gargalhada. Rio tanto que as lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto, e sinto que isso o desarma e um início de sorriso se esconde em seus lábios.

- Por que está rindo desse jeito?

Sem conseguir falar apenas aponto para ele e depois para mim mesma.

- Está rindo de nós? – Ele pergunta já com um sorriso maior.

Apenas aceno com a cabeça enquanto enxugo as lágrimas com o fino guardanapo de linho branco.

- Desculpe – Começo a balbuciar – Mas essa briga é ridícula. – Respiro fundo e tento controlar o riso. Olho fundo nos olhos dele e posso notar que ele tenta esconder um riso, mas em volta de seus olhos posso ver seu esforço – Evan, meu amor, estamos em nossa lua de mel. A mais linda e perfeita que uma garota ruiva, inexperiente e sem graça poderia desejar.

- Você não é... – Eu o silencio levando a ponta dos dedos aos lábios dele. No mesmo instante ele pega minha mão e beija a palma.

- Sim, eu era. Agora sou a mulher mais afortunada da face da terra porque tenho um marido generoso, que me enche de presentes e amor. Eu sei que você se preocupa com meu bem estar e enquanto esse caso sobre a louca da Lívia ou sobre a explosão não forem resolvidos, você ficará alerta. Eu entendo isso. Mas você precisa entender que sou jovem, tenho muita vida pela frente e, se for verdade o que o médico disse, que não poderei ter mais filhos, minha vida ficará muito monótona se eu ficar em casa esperando você chegar, não acha?

Ele não responde. Apenas beija novamente minha mão mais demorado.

- Vamos fazer um acordo, até que esse caso seja resolvido, eu farei o que você quiser. Sairei sempre acompanhada com pessoas de sua confiança e só irei em locais previamente estabelecidos. Mas tão logo isso se resolva, eu serei a esposa que você vai se orgulhar.

- Eu me orgulho de você. – Ele murmura.

- Mas vai se orgulhar mais. – Também murmuro me aproximando do rosto dele. – Nosso relacionamento é tão novo e olhe pelo quanto já passamos!

- Não quero você trabalhando na Charper. – Ele fala num muxoxo como uma criança birrenta.

- Fala sério! Acha mesmo que Sebastian faria alguma coisa contra mim? – Falo em tom de brincadeira.

Evan suspira e fecha os olhos em tom de desistência. Sinto que já venci esse round.

- Não. Se ele tentasse algo, Carter comeria os pulmões dele.

- Carter? Quem é esse? Já gostei dele!

- Pior. É ela!

- Sebastian com medo de uma mulher? – Caio na risada de novo. Preciso tornar essa conversa leve.

- A única que o faz tremer na base. Vou te contar umas histórias sobre eles.

- Sou toda ouvidos.

E o garçom traz nosso pedido.

 


Depois de tanto fazermos amor, encontro-me no melhor lugar do mundo: nos braços de meu marido. Deitados na enorme cama dessa enorme suíte – a propósito, por que tudo para Evan tem que ser de tamanho monstruoso? -, Evan me abraça, enquanto estou recostada em seu peito. Posso sentir sua respiração tranquila, de um homem saciado e amado. Sei disso porque sinto-me da mesma maneira. Não nos cansamos de nos tocar, de fazermos um ao outro vibrar, seja de emoção ou de tesão. A mão dele desliza deliciosamente pelas minhas costas e eu aliso o abdômen bem definido dele. Seu outro braço está atrás de sua cabeça e sei que, como eu, ele está de olhos abertos, observando as sombras que se formam no teto vindas pela luz de fora do janelão semi-aberto. Está frio, mas aqui dentro a temperatura ainda ferve.

Evan pigarreia e limpa a garganta como quem quer falar algo, mas não sabe como começar.

Olho para cima, encarando-o, mas espero que ele tome a iniciativa.

- Lembra-se que comentamos num outro dia que não teríamos mais segredos entre nós? – Não respondo, apenas observo, mas meu corpo fica tenso e ele percebe. Imediatamente Evan me puxa para abraçá-lo mais forte. – Calma! Não é sobre outra mulher em minha vida. Nunca houve ninguém tão importante quanto você, acredita em mim?

Olho nos fundos daqueles imensos olhos verdes e sei que ele fala a verdade. Aceno com a cabeça e deixo meu corpo relaxar. Ele beija minha testa e volta a olhar para o teto.

- Quando você estava no hospital, em Madri, eu estive no Clube.

Fecho os olhos com medo do que vem a seguir. Será que Evan teve uma recaída? Sentiu saudade de seu tempo de homem livre e devasso? Não. Vick, pare com isso, penso comigo. Ele acabou de dizer que não se trata de outra mulher. Preciso lhe dar o benefício da dúvida.

- Não era minha intenção ir lá. Fomos a Madri por exigência de Gutemberg e também porque a sede da empresa dele é lá. Mas depois do ocorrido, fiquei sabendo que os membros estavam presentes e... não podia perder a oportunidade.

Ele respira fundo mais uma vez e se senta na cama, levando-me com ele. Segura meus braços e me faz encará-lo.

- Eu falei sério quando disse que você me curou e que não preciso mais daquilo. Não posso mudar meu passado e Deus sabe que eu deveria me sentir envergonhado pelo que fiz, pelo que criei, mas na verdade... não me sinto. O Clube teve o seu propósito e foi um paliativo na minha vida durante alguns anos. Mas só quando você surgiu na minha vida, tão linda no Pastis, eu caí em mim do que eu realmente precisava. De você. Só de você. E apesar de ser o fundador daquele antro, fui avisar oficialmente aos outros de que vou achar um substituto pra mim e estou saindo definitivamente do Clube.

Não tinha percebido que havia prendido a respiração desde que ele me fizera encará-lo. Respiro fundo e envio aos céus uma prece de agradecimento. Por mais que Evan dissesse que iria desistir de tudo por mim, no fundo eu tinha medo de que ele não o fizesse. O que uma garota sem graça como eu pode ter de melhor do que essas mulheres com quilômetros rodados de experiência sexual? Em minha mente eu só imagino que lá eles usem de todos os artifícios que a gente só vê nos filmes e livros. Algemas, chicotes, cordas, vibradores de todas as formas e tamanhos e sei lá mais que nomes eles dão para todos aqueles equipamentos que mais parecem uma câmara de tortura.

Seguro o rosto dele com minhas mãos e o olho com todo amor que possuo. Não tenho palavras para agradecer por essa bênção que acabo de escutar. E tenho que fazer por merecer ter este homem ao meu lado.

- O que posso fazer pra te ajudar? – Pergunto.

- Você já fez, Vick. Fez antes quando me libertou daquela vida e fez agora quando não me julgou mal.

- Você não é perfeito, Evan, mas é perfeito pra mim. Vou te apoiar no que você precisar.

Ele sorri aquele sorriso perfeito que sempre me ganha e me puxa num abraço mais que perfeito. E na conjugação dos tempos dos verbos eu sei que o presente e o futuro sempre farão parte de nossas vidas. O passado ainda não está enterrado. Ainda.

- Vou fazer por onde merecer a perfeição que você me dá. – Ele fala levando-nos à posição anterior, apenas me abraçando com um pouco mais de força. – Percebi que você ficou tensa quando mencionei minha ida lá. Quer me dizer o porquê?

- Não seria o óbvio? O Clube, mulheres, sexo, variedade...

- Vick, o fato do Clube existir não quer dizer que só é praticado lá esses sexos mirabolantes vistos em filmes. Hanzel não é o único clube desse estilo e nem será o último. Muitas vezes os caras que procuram por essas mulheres querem a atenção que não têm em casa.

Olho para ele de lado, com cara de desconfiada e o faço rir.

- Ok. Confesso que não era esse o meu caso. Mas nem tudo se resume a sexo selvagem. E se você quer saber a verdade, não trocaria todo o sexo que já fiz ao longo do Clube por nossa primeira noite juntos. E você sabe por quê?

Aceno em negativa.

- Porque você não me deu somente esse corpo lindo que eu adoro. Você me deu todo o seu ser. E mais importante, você libertou minha alma aprisionada. E isso, Sra. Maccouant, ninguém jamais fez. Essa linda ruivinha dos cabelos rebeldes me libertou de meus demônios e me tornou cativo de seu amor. Mas dessa prisão eu jamais vou querer escapar.

- Mas... – Começo a falar, mas seguro meu pensamento. Meus olhos estão embaçados pelas lágrimas que teimo em segurar.

- Quer fazer o favor de terminar?

- Mas... e se eu não puder te dar filhos? – Falo num fio de voz.

Evan me coloca deitada de costas e se escora no cotovelo, mantendo seu rosto a poucos centímetros do meu.

- Então, Sra. Maccouant, seremos você e eu contra o mundo. Vamos viajar, conhecer todos os lugares que imaginamos e não imaginamos, andaremos de mãos dadas como dois namorados apaixonados e quando estivermos velhinhos, de cabeças brancas, ainda estaremos sentados no balanço da varanda, lembrando de todos os lindos momentos que vivemos juntos. E quando um de nós partir, o outro irá logo em seguida, porque eu não sei mais viver sem o amor da minha vida; aquele que tem as pintinhas laranjas mais sexies do mundo e o sorriso que me faz dizer sim pra qualquer pedido dela. Ter um filho com você seria o melhor presente que Deus poderia nos dar, mas se Ele decidir que bastamos um ao outro, quem sou eu para ir contra Sua vontade? Você é minha vida, Vick. Nunca duvide disso.

Com lágrimas escorrendo, puxo Evan pelo pescoço e selo nossas bocas num beijo fremente. Sua mão volta a percorrer meu corpo e já me sinto pronta para tê-lo dentro de mim.

Este é o homem que com poucas palavras me conquista, me desarma, me faz sentir a mulher mais afortunada da face da Terra. E nesta noite, eu acredito em milagres.

 

 

Evan me acorda, suspirando em meu ouvido e beijando meu rosto.

– Bom dia! Ande, levante logo porque vamos sair. – Evan está eufórico e eu satisfeita com a noite anterior.

– O que devo vestir?

– Algo confortável. – Jeans e casaco médio preto com meu tênis. Faço um rabo de cavalo alto. Meu cabelo parece ter entendido algumas regras e não dá muito trabalho.

– Podemos ir. – Digo assim que termino o café da manhã que Evan havia pedido no quarto.

Minutos depois estamos dentro de um carro alugado com motorista, e mais de duas horas depois chegamos. Passear pelas ruas onde andei de bicicleta durante a infância me faz chorar. Os pontos estratégicos das brincadeiras de esconde-esconde, as árvores que acolhem as ruas... E, de repente, estou de frente para a minha antiga casa, que agora está em meu nome. Choro ainda mais.

– Não era para você chorar. – Evan me abraça dentro do carro e me coloca em seu colo. Eu soluço.

– É de alegria, esse lugar é muito importante para mim. – Digo, enxugando meu nariz com as costas das mãos.

– Vamos entrar? – Ele pergunta no meu ouvido.

– Não trouxe a chave. – Choramingo.

– Mas eu trouxe. – Ele me mostra a chave pendurada em um chaveiro em forma de joaninhas que ele comprou, sabendo do meu gosto pelo pequeno inseto.

– Você me surpreende. – Beijo seu rosto e descemos do carro.

Pisar nessa calçada me remete aos xingamentos contra a PREVOZ, às pizzas de sábado à noite, a um mundo que amei e está guardado.

Avançamos para dentro do quintal da frente e aos poucos ganhamos os pequenos degraus. Não paro de chorar e Evan abre a porta da sala. Então desabo. Não suporto ficar em cima das minhas pernas. Evan me segura. Há flores por toda a casa com os mesmos móveis, os móveis que a PREVOZ levou embora. Evan me tira do chão e me mantém em pé.

– Você tem noção do que fez? Obrigada! Mas estou sorrindo e chorando, você me confunde.

– Me apresente a casa que protegeu o amor da minha vida. – Ele pede, estendendo a mão para mim. Está ansioso.

– Com certeza! – Vamos para o segundo andar da casa e mostro o quarto dos meus pais, o quarto de Lucca, e antes de abrir o meu quarto, olho para Evan e seu sorriso me invade.

– Era aqui que você dormia? – Evan percorre o quarto mobiliado sorrindo para mim. Ele conseguiu todas as informações. Talvez Lucca tenha contado.

– Sim, amava essa janela, amava acordar e olhar para essa árvore. – Aponto para a imensa árvore que fica em frente à casa. Evan está abraçado comigo olhando pela janela.

– Fico feliz em estar aqui. – Evan beija minha face.

– Eu em dividir com você.

– Me mostre mais. – ele pede e descemos. Conto como eu e Lucca competíamos para descer as escadas, pisando no menor número de degraus possível. Evan sorri da brincadeira de irmãos, pois nunca teve isso. Sinto a alegria dele em viver parte do que vivi. – Isso explica seus problemas com escadas. – Evan diz sorrindo.

– Meu nome ainda está aqui. – Aponto para meu nome no balcão no meio da cozinha. – Quando pequena, meu pai me colocava aqui em cima com minha roupa de balé.

– Valeu a pena. – Evan desabafa me beijando no meio da minha antiga cozinha.

Passamos pela sala, pela lavanderia e pelo quarto de bagunça. Evan transformou o quarto de bagunça em uma pequena sala espelhada, além de ter dado um retoque na pintura da casa. Olhar a casa me dá um aperto no coração. Esse lugar é tão importante para mim, mas agora há outro lugar, e como se a página do livro fosse virada, olho para o meu lugar no mundo, olho para Evan. Agora é com ele que minha história continua, ou melhor, é com ele que começarei uma nova história.

– O que tem do lado de fora? – Evan espia pelo pequeno vidro da porta da cozinha que dá acesso à varanda e ao jardim.

– Meu jardim, meu banco e os balanços. Espero que ainda estejam no lugar. – Abro a porta e o imenso banco está intacto. As flores em volta da varanda também. Compulsivamente, começo a chorar. Os balanços estão no mesmo lugar, do mesmo jeito. Consigo ver eu e Lucca correndo para eles todas as manhãs.

– Minha menina, você não sabe como estou feliz em estar aqui onde sua história começou. – Meu marido despojadamente de jeans, camiseta, tênis e casaco me abraça.

– Então é aqui que você está? – Apple me surpreende.

– Não acredito que você está aqui! – Corro para ela.

– Recebi uma ligação, um pedido que prontamente foi aceito. Trouxe pizza! – Como nos velhos tempos.

– Obrigada!

– Por favor, pare de chorar. – Apple me adverte.

– Desculpe, ando um pouco sentimental. – Enxugo meu rosto.

– Evan! – Apple acena para Evan, que se mantém ao lado dos balanços e apenas acena com a cabeça. Estilo Evan de ser.

Sentamos na árvore envelhecida e comemos a pizza borrachuda do Elias. Evan passa a saber um pouco mais da ruivinha que existiu antes dele.

A melhor parte da vida é quando podemos sentar e dividir risadas que já foram ofertadas e reviver histórias que já aconteceram com amigos que se lembram desses detalhes.

– Então, minha ruiva gostava de apertar a campainha da casa dos vizinhos e correr? – Evan ouve e sorri sobre nossas traquinagens.

– Obrigada! – Agradeço, beijando-a.

– Eu é que agradeço o convite. – Apple olha para Evan, que dispõe de um discreto sorriso.

– Ela mandou um beijo pra você. Sente sua falta. – Apple fala de Ellis ao meu ouvido.

– Eu também sinto muita falta dela. – falo alto, sem medo.

– Pense bem, ela teve os motivos dela. – Apple aproveita que Evan percebeu nossa conversa e saiu de perto.

– Eu sei, Apple, digerir esse assunto ainda hoje é difícil. – desabafo.

– Você não existia na vida dele quando tudo aconteceu. Assim como o perdoou, perdoe-a também.

– Não existe razão para perdão, o que aconteceu entre eles eu nunca vou poder mudar. Não a desprezo pelo que fez pela mãe, mas sim pela forma que me contou. Quero que ela seja feliz como eu sou. Mande outro beijo para ela e diga que a espero no casamento de Lucca e Sam. – Apple abre um sorriso como se tivesse ganhado um prêmio, e me sinto muito aliviada.

– Preciso ir. – Apple me abraça e caminha acenando para Evan em tom de despedida.

– Hoje foi um dos melhores dias da minha vida. – Desabafo sentando no colo de Evan, que está sentado nos degraus da varanda.

– Um dos melhores? – Ele pergunta enquanto me envolve em seus braços.

– Sim, um dos melhores.

– Tem uma lista?

– Sim, eu tenho.

– Posso saber qual é o dia mais feliz da sua vida? – Evan pergunta enquanto enfia o nariz nos meus cabelos.

– Pode, foi no dia em que me apresentei a você. Sabia que havia um problema logo ali, e sabia que queria esse problema para mim.

– Sou um problema? – Ele pergunta com as sobrancelhas arqueadas.

– Um dos mais difíceis, um dos mais deliciosos. – Respondo sorrindo.

– Não quero ser um problema. – Ele encolhe os ombros como eu.

– Mas agradeço por ser. – Ele beija meu ombro e me faz sentir a pessoa mais importante da face da Terra assim que respondo.

– Podemos ir agora? Tenho algo importante para fazer.

– Sim, vamos. Algum compromisso? – Pergunto, acreditando no que ele acaba de falar.

– Sim, tenho um compromisso, tenho um problema para resolver.

– Sabe como resolver?

– Espero que não, assim posso tentar sempre. – Seu sorriso ilumina a tarde que se fecha.

Mais de duas horas depois, estamos no hotel.

– Temos quase duas semanas aqui, será que vamos conseguir nos ocupar? – Inocente pergunta a minha.

– Está preocupada em se ocupar? Acho que posso te ajudar com isso. – Ele caminha até mim desabotoando os botões do meu casaco, e em seguida me senta na cama. Eu claramente obedeço. Adoro essa condição às vezes, ele mandando e eu apenas obedecendo. Ele se livra dos meus tênis, tira minha camiseta, coloca-me de pé e retira o jeans, e uma lingerie rendada e laranja se põe à mostra. – É para me desconcertar? – Ele pergunta, correndo o indicador por cima do meu seio, coberto pela renda quase da cor da minha pele.

– Era para consertar.

– Me causa o melhor dos efeitos.

– Estou aqui para isso. – Amo como ele me beija, o encaixe perfeito.

Escuto um dos funcionários em frente ao nosso quarto.

– Quer que eu veja quem é? – pergunto sorrindo e Evan me surpreende. Ele me puxa deliciosamente para junto do seu corpo e desce sua mão pelas minhas costas, alcançando meu bumbum e simplesmente me dando um tapa. – Evan! – Eu o advirto.

– Merecia mais do que um. Não se atreva a sair daqui. – Ele sai em direção à antessala e seus dedos estão gravados aqui atrás. Doeu.

– Um convite. – Evan dispensa o envelope sobre o criado-mudo, sem abrir.

– Olha só o que você fez! – Viro-me e mostro as marcas de seus dedos no meu traseiro.

– Estou com vontade de deixar mais dessas.

– Não faça isso! Não gostei. – Cruzo os braços e franzo a testa em sinal de total reprovação.

– Fica linda, e francamente, adorei como se virou e mostrou esse bumbum perfeito. – Ele avança em minha direção em menos de um segundo e me enlaça pela cintura. – Você é atrevida e inocente, não sei o que fazer com você. – Ele me beija e se desfaz das peças que ainda me cobriam. – Vou deixar um detalhe bem claro. Realmente não gosto de perder absolutamente nada, não gosto de dividir, e também tenho absoluto fascínio por você. Esse é o nome correto, fascínio. Então por gentileza, não ameace abrir a porta novamente. – Ele me deita na cama arrancando a roupa sem cerimônia alguma, e me invade subitamente, maneira Evan de marcar território. Eu amo isso.

– Então basta eu te provocar para você fazer isso? – Saio dele, apresento resistência; e ele me segura com mais força, colocando minhas mãos para cima. Claro que é em vão, nem tentarei impedi-lo. – Amo você.

– Eu também, minha menina.

– Me castiga e faz meu corpo berrar seu nome.

– Sim, mas não pense que o meu corpo também não clama pelo seu. Você é minha.

– Não!

– Não? – Ele me invade com mais força.

– Não! – Ele encontra minha boca, pressiona seu corpo contra o meu e me entrego. Não consigo resistir mais.

Mantemos um ritmo louco, frenético, até que juntos encontramos o alívio no êxtase.

– Ainda minha? – ele pergunta com sua testa junto à minha e a respiração ainda ofegante.

– Sim.

– Boa menina.

– Você me desmonta. – Digo enquanto ele se levanta e caminha até o banheiro.

– Faço isso porque sei como encaixar suas peças, não foi isso que me disse outro dia? – Ele diz do banheiro.

– Evan e sua memória de elefante, o que fazer com você?

– Fique à vontade!

– Isso inclui um cinto de castidade sem chaves? – Ele se inclina e espia do banheiro com olhos entrecerrados.

– Me daria mais trabalho, mas não quer dizer que não mataria minha sede e minha fome em você. Vai vir tomar banho comigo? – Ele pergunta ainda do banheiro.

– Só se vier me buscar, estou cansada. – Estou mesmo, até viro de bruços e meus olhos estão fechados. Esgotada é a palavra certa.

– Você quer dormir? – Evan está do meu lado e se deita, beijando meu rosto.

– Não quero dormir, mas estou cansada. – É de ficar maravilhada. Ele me chama para o seu colo, aninha e como sempre, durmo. Colo quente, amo tudo nele, cada detalhe, cada sagrada imperfeição que compõe esse homem.


Capítulo 10


Sam


- Oi – Atendo feliz. É ele, o meu Lucca, sinto como se fosse nosso primeiro encontro e lembro de como ele foi carinhoso e medroso na primeira vez em que se arriscou em minha garupa. Tentei explicar que era seguro e que minha linda ‘Lady’, nome carinhoso de minha Ducati Streetfighter preta, não derrubaria ninguém.

- Isso é perigoso! – Lucca me disse antes de subir olhando para o capacete em suas mãos.

- Confie em mim! – Eu pedi e ele demorou a atender. Impagável a sensação de tê-lo me abraçando. Impagável também como tremia, tão valentão e com medo de duas rodas tão inofensivas.

- Para onde você vai me levar? – Ele gritou enquanto ganhávamos a auto estrada. Quase que não escuto.

- Ainda não sei! – Respondi sorrindo. Eu havia tido minha primeira noite de amor com ele, e acordar ao lado dele foi o melhor que me aconteceu.

- Tem o hábito de sair sem destino? – Ele pergunta com a voz quase áspera e meu sorriso se abre ainda mais.

- Sim! Com Lady eu vou para qualquer lugar! –Respondo aos gritos para que ele me escute entre o vento que nos atravessa e me oferece a melhor sensação do mundo... liberdade.

- Você está correndo muito! – Agora saíram com medo as palavras.

- Ainda nem acelerei. – Segurei com firmeza e lentamente fui girando a manopla e fazendo o motor cantar para nós... Minha recompensa foi o abraço firme de Lucca.

- Sam! – Ele até me chama, mas Lady me convence sobre o percurso.

- Samantha? – Lucca me traz do passado nem tão distante. Volto à realidade.

- Oi, amor, desculpe. – Respondi sorrindo.

- Onde você está? – Ele questiona e eu olho com lágrimas nos olhos a imagem do espelho. Olho para a Samantha vestida de noiva e não consigo encontrar nada que me faça mudar de ideia.

- Tenho um encontro. Estou escolhendo a roupa... preciso estar à altura do meu noivo. – Sorrio com telefone no viva voz e as atendentes que tiram as medidas sorriem ao escutar nossa conversa.

- Por favor, escolha algo que me permita fácil acesso ao que mais me interessa. – Todas gargalham.

- Lucca! Estou no viva-voz!

- E eu estou falando a verdade. – Percebo ele sorrindo e meu coração também.


Vick


Na noite anterior fui do paraíso ao inferno e ao paraíso novamente em questão de horas. Fomos ao baile e Evan estava lindo em seu smoking. Parecia uma príncipe. O meu príncipe. Até que tivemos a ingrata surpresa de mais um membro do maldito clube aparecer. Um tal de Carl. Terminei a noite sendo demoradamente amada por Evan. Sei que ele estava tentando me fazer esquecer aquele encontro fatídico, mas esse sentimento de impotência é maior do que eu.

Evan ainda não resolveu sua saída do Clube. Essa espada ainda paira sobre nossas cabeças.

 


A igreja, entre as montanhas e de frente para um belíssimo lago, está florida. Meu coração também. Uma alegria toma conta de mim, e as rosas brancas imponentes agraciam o lugar. Os convidados aguardam a noiva, minha amiga, minha cunhada. Os olhos de todos estão voltados para ela, menos os meus, que se dividem entre Evan ao meu lado direito, e Lucca, que está muito nervoso e lindo vestindo o smoking preto. Essa é a parte dos casamentos que mais gosto, olhar para o noivo e ver a sua reação. A maioria que está aqui ainda pensa que uma gravidez os obrigou a se casarem tão precocemente. Mal sabem que a única coisa que querem é autonomia para viajarem e estudarem, além de Lucca ter incorporado o homem responsável que nunca pensei que ele fosse ser.

Meus pais estão felizes. O Sr. Campbell emagreceu. Provavelmente minha mãe conseguiu, depois de anos, colocá-lo em uma vida saudável. Ficam tão bem juntos... Faço meu relatório em meus pensamentos.

– Ela está atrasada! – Ele inclina a cabeça e dispara sua falta de compreensão com atrasos.

– Evan, toda noiva se atrasa.

– Eu sei, você me assustou no dia do nosso casamento. Odeio atrasos.

– Achou que eu não iria? – Evan e eu cochichamos na base do altar, já nas posições demarcadas pela cerimonial.

– Não pensei nisso na hora, porque se tivesse pensado... Eu mesmo teria ido buscá-la. – Ele me aperta de novo e não tenho tempo de responder, pois a música para a entrada da noiva começa. Sam escolheu a marcha nupcial tradicional.

– Ela está linda! – exclamo para Evan e estico meus olhos até o Lucca, que deixa uma lágrima cair.

– Sim, ela está muito bonita, mas não se compara com a minha noiva. Você estava deslumbrante... Quando entrou na catedral, cheguei a perder o ar, pensei “Ela é minha, apenas minha”. – Ele me diz sussurrando.

– Obrigada. – Agradeço e direciono minha visão para Sam. Um belíssimo vestido frente única em tom marfim, cabelos soltos e enrolados. Ao lado, seu pai. Sei que é ele por conta das fotos no apartamento dela.

– Todas as mulheres choram em casamentos? – Evan não para de falar.

– Sim. – Olho para a mãe da Sam e ela está aos prantos. Misericórdia.

– Ela podia andar um pouco mais rápido. – Evan inquieto.

– Evan! Aprecie a cerimônia! – Advirto.

– Estou tentando, mas seu perfume não deixa. – Ele esfrega os dedos em minhas costas.

– Evan, pare com isso. – Olho para ele, e por um segundo quase me perco dentro dele. – Você me tira a concentração. – ralho baixinho, franzindo o nariz.

– Não faça isso.

– Fazer o quê? Evan, a cerimônia começou, fique quieto. – Sussurro.

– Quero beijar seu nariz. – Ele de novo esfrega o polegar em minhas costas.

– Por favor, você tem que ter respeito!

– Ok... Será que vai demorar muito? – Evan pergunta minutos depois.

– Evan, sossegue, por favor. – Belisco o braço dele.

– Vai ter troco.

– Silêncio. – Franzo de novo meu nariz.

– Você me provoca.

– Evan, escute a cerimônia, está na hora dos votos.

– Quero prestar atenção em você.

– Evan, estou ficando brava, pare com isso.

– E, pelo poder concedido a mim, eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva. – O padre finaliza a cerimônia e eu quero finalizar o Evan.

– Você falou a cerimônia inteira! – Brigo e ele segura meu rosto com as mãos, beijando meu nariz. – Evan!

– Estava com vontade e agora está todo mundo conversando e batendo palmas. Ninguém viu. – Ele pisca para mim e me desmancho. – Ah, não esqueci o beliscão.

– Evan, por favor, ao menos me deixe vê-los saindo.

– Você vai vê-los daqui a pouco, na festa.

– Você é inacreditável!

– Sou?

– Evan! Está me irritando.

– Estou? Isso é bom.

– Por favor, estamos na igreja, respeite.

– Estou respeitando, e a verdade é que estamos caminhando para fora da igreja.

– Vou brigar com você assim que sairmos.

– Promete?

– Terrível! – Exclamo, quando faltam alguns passos para sairmos da igreja.

– “Deliciosamente”, Sra. Maccouant. – Quero esganá-lo.

– Você está encrencado, onde já se viu? Não parou de falar um minuto! – Chamo a atenção dele assim que nos distanciamos dos convidados.

– Está mentindo, fiquei em silêncio mais de dez minutos. – Ele me enlaça pela cintura.

– Ou seja, você falou a metade da cerimônia!

– Fica linda brava!

– Não vou brigar com você porque tenho uma festa para ir, e eu quero dançar muito essa noite!

– Não espere que eu possa aceitar isso muito bem. – Ele diz, levando-me para o carro que nos espera. – Encoste aqui. – Ele me apoia em seu ombro.

– Gosto do seu colo.

– Gosto de ver você nele. Por favor, pode seguir para o endereço que te passei? Se puder escolher um percurso maior, agradeço. – Evan e suas novas instruções ao motorista.

– Preciso refazer minha maquiagem. – Falo alcançando minha bolsa que havia ficado no carro.

– Prefiro você sem ela, amo suas pintinhas no rosto.

– Sempre me tira um sorriso.

– Preciso dele. – Ele me aperta em seu colo. – Vamos? – Evan sussurra em meu ouvido assim que chegamos ao local da festa.

– Sim. – Salto do carro assim que o motorista abre a porta.

– Vick! – Apple vem ao meu encontro. – Tudo bem com vocês?

– Sim, está tudo ótimo, vamos entrar. Estou começando a ficar com frio. – Digo esfregando minhas mãos em meus braços.

– Espere aqui, vou pegar seu casaco. – Evan fala e eu atendo.

– Olha quem está aqui! – Italo, meu primo de segundo grau, suspende-me beijando meu rosto. – Como você está linda! – percebo Evan olhando.

– Obrigada. Pode me soltar, por favor? – Evan está se aproximando, e Italo é um rapaz popular, cheio de lábia e lindo. Puta merda, é muito lindo. Apple morria por causa dele.

– Você está gostando de Nova York? – Ele insiste com um papo que vai acabar em 3, 2, 1...

– Vamos entrar. – Evan me leva quase me suspendendo.

– Você tem que controlar esse ciúme.

– Minha linda, não é ciúme, é zelo. – Ele beija minha testa e esfrega de novo o polegar em minhas costas. – Penso nele morto também.

– É meu primo, Evan!

– Não faz diferença, e o pior é que você deixa.

– Está bravo porque meu primo me abraçou?

– Sim.

– Era só o que me faltava. – Bufo e cruzo os braços.

– Acha que estou errado? Ele te agarra e te beija, tem a sorte de ainda estar vivo.

– É claro que está, mas não vou discutir com você. Quero dançar! – Selo sua boca com um beijo e ele solta um sorriso de lado. – Gostei da decoração. Rosas brancas e mesas de vidro. Combinam bem com o salão oval.

– Mudou de assunto, Vick? – Evan me aperta. Eu gosto e continuo.

– O tecido solto pelas laterais também é belíssimo.

– Terrível!

– Está esquecendo com frequência o “deliciosamente”, senhor Maccouant! – Invado seus olhos com os meus e sei o efeito que isso causa.

– Filha! – Minha mãe nos surpreende e Evan bufa por não poder retrucar minha provocação.

– Oi, mãe, tudo bem?

– Sim, e vocês?

– Está tudo perfeito, onde está Rose e John? Não os vi na igreja.

– Eles estão na nossa mesa, junto com os pais da Sam. Deem licença, Lucca e Sam chegaram.

– Ele realmente é o preferido. – Desabafo.

– Não diga isso. – Evan pronuncia. – Caso te deixe feliz, entre você e seu irmão, prefiro você!

– Mas você é muito engraçadinho! – Franzo o nariz.

– Vick? – Ellis me chama e Evan instintivamente olha para o outro lado, mas não me abandona. Na verdade, mantém o braço em volta de minha cintura de forma protetora.

– Oi. – respondo serenamente, pois não quero deixar nada sem resolver.

– Se um dia puder me perdoar... Não pelo que fiz, mas pelo que deixei de fazer, eu ficaria muito feliz.

– Esqueça tudo, não há nada que possa ser feito. Está tudo no passado. Daqui pra frente é o que importa. – Gostaria de poder abraçá-la, mas ainda não consigo. Ela pediu perdão e preciso aprender a conviver com o passado dele sem que isso me machuque.

– Obrigada. – Ela beija meu rosto e parte.

Viro-me para Evan e ele ainda está olhando para além da festa. Quando percebe que Ellis se afastou, ele me encara.

- Não vou pedir desculpas por isso.

- Não esperava que pedisse.

- É mais forte do que eu. Não consigo sequer olhá-la.

Enlaço o pescoço dele, sorrindo.

- Se esse é o tratamento que você vai dar a todas as mulheres que teve no tal Clube, estou adorando a ideia.

- Quer saber o que mais? – Evan sussurra em meu ouvido e começa a me embalar como se estivéssemos dançando – Não me lembro do rosto de nenhuma delas. Só vejo você na minha frente.

- Sr. Maccouant, 100 pontos pra Grifinória.

Ele joga a cabeça para trás numa gargalhada solta.

Na sequência, a dança dos noivos, e nem falei com eles ainda. Irmã desnaturada. A dança dos noivos acaba. Alguém propõe um brinde e é a hora do discurso. Vários discursos, e preciso fazer o meu.

Assim que o pai da Sam deixa o microfone, alcanço uma taça de champanhe e peço a atenção de todos. Ao fundo o som do U2 com Sweetest Thing.

– Lucca, Sam. Como explicar o que acontece de repente? De repente, conheci alguém que conquistou meu irmão; ela me conquistou também. A sorte está do nosso lado e coloca em nosso caminho pessoas do bem, pessoas que merecem o bem. Lucca e Sam, amo vocês! Ao casal inspirador, desejo esse amor em todas as manhãs de segunda-feira. Desejo que o amor de vocês esteja em cada tarde antes do escurecer, que um complete o outro. Ao amor de Lucca e Sam! – Levanto a taça e olho para o casal, entendendo nos olhos deles o quanto agradecem pelas palavras.

– Você me deixa com ciúmes. Quase joguei esse copo na cabeça daquele cara ali!

– Evan, ele é meu tio Augusto, e ao lado dele, minha tia Isabel. Mas não vou apresentar você para eles, principalmente para ela! – Dou uma gargalhada.

– Posso saber por que não? – ele questiona intrigado.

– Claro que pode, afinal de contas, acho que encontrei meu príncipe encantado e o feitiço dela se desfez. – Mantenho o sorriso e sinto seus lábios nos meus.

– Então me conte o motivo pelo qual não posso conhecer sua tia Isabel? – Ele sorri.

– Você vai rir, mas ela é má, ela é cruel! – nós nos sentamos longe do barulho da festa. – Quando eu tinha uns sete ou oito anos, não me lembro bem, minha mãe precisou viajar. Enfim, Lucca e eu tivemos que ficar quase três semanas na casa dessa infeliz; ela não tinha filhos e não tem até hoje; para ser franca, considero essas crianças com sorte. – Evan ri e eu também. – Bom, mesmo não tendo motivo algum, ela escolheu a mim para arruinar a vida. Na hora do banho tinha que lavar a cabeça todos os dias, imagina isso – Aponto para o meu cabelo – sendo lavado todos os dias? Pois bem, a pior parte não era lavar, era desembaraçar, e durante essa tarefa de esticar meus fios vermelhos, ela me cutucava e dizia: Você acha que algum dia vai ter um namorado? Quem em sã consciência iria querer uma garotinha cheia de sardas? Olha como você é pintada! E esse cabelo, Deus me livre! Vai ser daquelas que beija todos os garotos da escola para tentar achar alguém! Ela repetiu essa frase todos os dias. Naturalmente, tudo de ruim que me acontecia eu destinava a culpa à ela.

– Eu a odeio. – Evan brinca.

– Não odeie, ela já tem suas próprias desgraças. Mas depois de alguns dias, eu já havia acostumado com a tortura física e psicológica. Então aceitei essa condição de que eu sou ruiva e sardenta, e por isso talvez ninguém nesse mundo iria me querer. Como uma praga da tia Isabel, eu não conseguia me aproximar de ninguém, sempre pensei que era alvo de apostas do tipo: Vamos ver quem pega a ruivinha! Então, Sr. Evan, quando perdi meu chão ao dançar para você, realmente foi a primeira vez que senti isso. Você quebrou a magia dela e eu devo agradecer a você que me salvou da masmorra. – Rimos da piada e em segundos estou com os braços de Evan ao meu redor.

– O feitiço se desfez? – Evan brinca.

– Acho que sim... – Dou de ombros e ele me agarra.

– Eu deveria agradecer essa sua tia maluca! – Ele dispara.

– Por que agradeceria à mulher que foi a ruína da minha vida?

– Ela fez você me esperar. – Parecia uma brincadeira, mas dentro dos olhos de Evan posso ver que ser o primeiro, o único e o último em minha vida o faz feliz. Evan e sua queda vertiginosa por exclusividades.

Seguimos para a pista de dança, a melhor música, e no intervalo entre elas, eu me esbaldo entre as batidas de fruta e uísque. Evan me olha torto, mas quero me divertir. Rihanna cantando “We Found Love” me ajuda a beber mais e dançar mais. Na sequência, o DJ coloca as melhores e ninguém fica parado. Bebo e danço como há muito tempo não fazia. Da última vez aconteceu na Chacal, tempo que ficou para trás.

– Não acha que está bebendo muito? – Evan me adverte.

– Não! – Bebi sim. Não consigo pronunciar palavras simples, mas consigo dançar.

– Me dê esse copo, Vick!

– Senhor Evan Louixxxxxiiiiii Maccouantiiiiiiiii, não quero entregar meu copo para você porque ele está meio cheio. Acho que errei o nome dele também, hic!

– Victoria, ele está meio vazio e minha paciência está acabando. – Tento focar nos olhos dele, mas não consigo.

– Não fica bravo comigo! – Eu começo a cambalear.

– Já estou bravo, faz mais de duas horas que você está bebendo e dançando e não comeu nada. – Ele me puxa pelo braço e me senta em volta de um balcão alto. Meus olhos se encontram no topo do meu nariz. Estou sem equilíbrio.

Apple, tão bêbada ou mais do que eu, aproxima-se com dois copos, um dela e outro meu.

– Beba! – Ela diz entregando o copo, mas quem pega é Evan.

– Ela não vai beber mais. – Evan educado e frio tira o copo do meu alcance enquanto responde para Apple, que nem ouve o que ele diz e sai rindo.

– Você está chato demaisssssss! – Estou parecendo um rádio fora da estação.

– Diabos, Vick! Por que bebeu assim? – Evan se levanta e me apoia em seu peito.

– Não fishhh por mal, juro. – Começo a rir desenfreadamente, e pra piorar, lembro-me da lagosta.

– Não fez por mal? Pare de rir! – Ele fala chateado.

– Lembrei da lagosta. – Vejo que ele sorri também.

– Terrível! Você me faz rir mesmo enfurecido.

– Você esqueceu o “delichiosamente”, Sr. Maccouant. – Ainda consigo brincar.

– Minha vontade é dar um tapa em seu bumbum... – Ele aperta meu corpo contra o dele, enquanto sussurra em meu ouvido.

– Não faça em público. – Sorrio para ele, estou alegre apenas, não vou dar nenhum vexame. Maldita lagosta!

– Não vou sorrir pra você, estou bravo com você. – Puta merda, ele é lindo quando está bravo, quando está feliz, quando acorda, quando dorme.

– Não tem problema, eu te amo do mesmo jeito. – Abraço-o pela cintura.

– Eu também te amo. – Ele beija o topo da minha cabeça e definitivamente não tenho condição alguma de levantar. – Beba! – Ele me oferece um copo de refrigerante. – Está melhor? – Evan pergunta, colocando meu cabelo que está totalmente solto e bagunçado para trás. Maldito uísque que fez meus grampos sumirem.

– Sim, meu estômago está revirado. Preciso de ar fresco, me ajuda? – Estou falando com menos chiado, mas ainda falo com a boca mole.

– Juro que você merece uns tapas bem dados. – Começo a pensar no lado bom desses tapas.

– Depois, agora quero ar fresco, pode ser? Depois você bate.

– Pode. – Ele responde bravo e me leva para fora do salão. – Sente aqui. – Ele me ajuda a sentar.

– Você cuida tão bem de mim! – Digo.

– Gosto de cuidar de você. Pelo visto está melhorando. – Ele diz sorrindo.

– Me perdoa? – Peço.

– Pelo que, exatamente?

– Pela bebida.

– Por isso te perdoo.

– E por qual motivo não me perdoaria? – o álcool evapora instantaneamente do meu corpo.

– Pelo abraço do maldito primo que ainda é vice primo, por exemplo.

– Que pena, meu marido está bravo comigo porque ganhei um abraço de nada. – Provoco.

– Você é minha, Victoria, parece que não entende isso. – Ele espalma os cabelos para trás e está realmente bravo.

– Falou como uma criança, agora.

– Eu sei ser uma.

– Lindo.

– Ainda estou bravo.

– Sem problemas! O que importa é que temos mais uma noite no hotel, e assim que chegar em nossa maravilhosa suíte, vou ganhar dois banhos e depois vou fazer amor com o homem mais lindo do planeta, o homem que me deixa largada e satisfeita. O meu marido, meu Evan, o homem que me dá a chance de ser a mulher mais feliz do planeta. – murmuro em seu ouvido percorrendo minha língua em torno da sua orelha.

Ele segura minha mão, leva-me para dentro da festa, alcança dois copos de refrigerante e nos despedimos de cada um dos nossos pais. Cumprimentamos Sam e Lucca, que também estão saindo para a lua de mel. Em menos de vinte minutos estamos dentro do carro que segue rumo ao Turnberry.

– Acho que estou melhor, realmente.

– Não tem noção de como estou.

– Como você está, Evan? – Pergunto e me aproximo de sua boca olhando em seus olhos.

– Não provoque!

– Por que não? – Aperto o botão e isolo o motorista. A parte de trás é lacrada e à prova de som.

– Victoria!

– Falei que faria no banco de trás do carro... – Mal termino a frase e estou em seu colo, e ele está dentro de mim.

– Gostosa e minha, apenas minha!

– Sim, senhor Maccouant.

Meu inferno particular e altamente prazeroso.

 


Evan está ao telefone, o que pude ouvir da conversa é que Gutemberg quer uma reunião com ele. Daqui a alguns minutos eles irão se encontrar. Ouvir o nome dele me remete a um passado que ainda tento digerir, tento não pensar, mas as ligações que enfurecem o Evan me entristecem. Elas acontecem com frequência, arrastam as correntes dessa casa. Meus pensamentos estão longe e me flagro pensando em tudo de bom que vivi com ele, meu marido lindo e meu semblante fica feliz.

Voltamos à nossa casa, antiga casa de Evan, e à nossa rotina. Evan trabalhando como dez homens ao mesmo tempo e eu tentando manter os meus dias ocupados.

Evan está defronte ao espelho do banheiro fazendo o nó de sua gravata, enquanto tomo meu banho. Somos assim, todo o momento juntos.

- Tenho uma reunião em menos de uma hora e mais duas depois do almoço.

– Meu marido é muito ocupado. Admito que o tempo está passando rápido, pois parece que foi ontem que voltamos de nossa lua de mel, mas já se passaram dois meses. – Falo me ensaboando no chuveiro.

– Sinto falta de suas tacadas sem direção do golfe!

– Sinto falta de rir de você frequentando o SPA comigo! – retruco com algo que realmente ele não gostou de fazer.

– Acordou com ótimo humor! Odiei as massagens com pedras quentes. – Ele lembra.

– Obrigada, mas devo confessar que foi você e sua extrema eficácia em trabalhos orais que determinou que meu dia fosse realmente muito bom. Meu humor se deve ao seu desempenho.

– Sede. – Ele diz malicioso.

– Fome. – Retribuo o tom. – Quando termina a obra do prédio em New Jersey?

– Em menos de uma semana, talvez menos. Por quê?

– Gostaria de visitar, me leva?

– Sim, vai dar palpite no seu próprio projeto?

– Talvez eu mude um tom de madeira aqui, uma mesa ali. – Sorrio. – Não mudaria nada, é meu primeiro projeto e você, maluco, patrocinou.

– Ficou ótimo, demorou um pouco para concluir por conta dos documentos, e preciso ver apenas a parte da secretária que vamos contratar. – Ele zomba.

– Oitenta anos. É a única exigência, Evan! – Ele dá uma gargalhada e eu também.

– Preciso ir. Você me perdoa por deixá-la aqui? Quase esqueci... Estava linda ontem à noite. Adorei sua apresentação usando apenas o par de sapatilhas. O melhor investimento da minha vida foi montar a sala espelhada. Gostei de cada um dos ângulos. Eu amo você.

– Não perdoo, vou te castigar mais tarde. Vou me apresentar de novo, mas vou deixar você amarrado, não vai poder colocar as mãos em mim. – Ele inclina a cabeça e deixa os olhos entrecerrados. – Ah! Não esqueça que vou ao mercado com a Maria e depois vou para a Gael.

– Sem problema, Gunter te leva. E, por favor, leve seu celular, não quero desculpas. Semana passada você quase me matou de preocupação. Ficou por mais de três horas sem notícias.

– Evan, eu estava com nossas mães no shopping!

– Não me interessa com quem estava. Eu queria falar com você e precisei ligar para a sua mãe para conseguir fazer isso. – Bravo e lindo de terno preto e gravata vermelha.

– Pode deixar, eu levo.

– Comporte-se. – Ele se despede selando minha boca com um beijo enquanto me enxugo.

– Vou tentar. – Provoco.

– Victoria? – ele rosna da porta.

– Brincadeira, gosto de ver seu rosto me punindo.

– Até mais tarde. – Ele sai do quarto e fecha a porta.

Meu iPad anuncia uma mensagem.


?@@?


De: Samantha Campbell

Para: Victoria Maccouant

Assunto: Favor, urgente.

Hora: 08h20min


Vick,


Tudo bem?

O Brasil é lindo, estamos aproveitando bem as praias nessas férias.

Mas preciso muito de um favor. Chegou uma caixa em meu apartamento e ela pertence à sua mãe.

Teria como pegar essa caixa e encaminhá-la para o endereço dos seus pais?

Ainda tem a cópia da chave?

Fico aguardando.


Beijos


?@@?

 

De: Victoria Maccouant

Para: Samantha Campbell

Assunto: Sim, senhora!

Hora: 08h24min


Oi! Aproveitem mesmo!

Com prazer, estava entediada de ficar em casa.

Sim, eu tenho a chave rsrsrsrsr

Coloco ainda hoje na transportadora.

Beijos


?@@?


O frio chato e totalmente fora de hora me obriga a colocar um casaco preto, e para quebrar a escuridão, um lenço lilás no pescoço, da mesma cor da blusa de mangas curtas por baixo. Outro presente de Evan quando estávamos em lua de mel. Calça jeans e botas de bico fino e cano curto. Faltava apenas um belo rabo de cavalo e minha bolsa. Claro que para evitar qualquer crise de Evan, pego o celular, coloco no modo vibracall e saio do quarto. Chamo Maria assim que desço as escadas. Ela aparece sorrindo na porta da cozinha. Aviso que estou saindo. Ela, como sempre, fica apreensiva. Ela teme por Evan, que ainda me cerca e está me enrolando em relação à faculdade. Aviso que em menos de uma hora estarei de volta para irmos ao mercado juntas. Antes de sair surge a vontade de comer bolo de chocolate, ela diz que guardou um pedaço dentro da geladeira.

Corro para a cozinha e pego o pedaço de bolo. Também quero um pouco de sorvete. Maria apenas encara meu apetite. Mal sabe ela que Evan gasta toda essa caloria.

– Vick, está tudo bem?

– Sim! – Respondo com a boca cheia dessa mistura.

– Precisa de mais alguma coisa? – Ela responde, sorrindo.

– Não, mas se esse bolo acabou, por favor, faça outro. E será que você poderia fazer peixe com brócolis para o almoço?

– Sim, eu faço. – Ela responde pausadamente, sorrindo.

Dou um beijo no seu rosto e agradeço com um sorriso.

– Você está bem? – Ela pergunta, preocupada.

– Sim, muito bem. Por sinal, há muito tempo não me sinto tão bem. Até logo. – Pego minha bolsa e meu celular, saio da casa e chamo o primeiro táxi que vejo pela frente.

Evan não vai saber que saí, ele está em reunião o dia todo. Entro contente no táxi e rumo para o apartamento da Sam.

Salto do táxi uma quadra antes. Queria passar em uma livraria e comprar mais um livro de arquitetura. Evan cedeu parte de suas prateleiras na biblioteca particular dele para meus livros. E é exatamente o que faço. Evan está me privando da faculdade, mas não de ler sobre o assunto. Folheio o livro sobre design de interiores enquanto sigo rumo ao apartamento gigantesco e vazio. Estou em frente ao prédio da Sam.

– Sozinha de novo? – Meu espírito abandona o corpo e é afugentado pela voz sombria do passado. – Não olhe para trás. – Sinto algo em minhas costas.

– Você vai fingir que somos amigas e vamos subir, temos alguns detalhes para acertar. – Lívia aperta minhas costas com algo que imagino ser uma arma. – Vamos, anda, garota sonsa!

Não pronuncio uma única palavra, apenas obedeço e caminho lentamente, com olhar de pânico. Instantes depois, chego à portaria.

O porteiro pergunta se vim buscar a encomenda e quando pronuncia meu atual sobrenome, o objeto contra minhas costas se faz presente.

Meus olhos transmitem a mensagem de socorro, mas ele não percebe e libera a entrada.

O meu celular toca, é um SMS:

Onde você está? – 08h58min

Primeira mensagem depois da ligação de Evan que eu não atendi.

– Lívia, preciso atender, ele vai desconfiar. – Eu peço em vão.

– Você acha que sou otária? – Quando ela pergunta, minha vontade é dizer que sim. Desejo arrancar os pulmões dela. Há uma força diferente, talvez porque dessa vez eu não tenho o pequeno Evan para proteger.

– Ele vai ligar até eu atender. – Eu aviso com os punhos fechados. Quero socar a cara dela.

– Quero que ele morra! – Um ódio me possui, mas preciso me controlar. Ela é completamente maluca. E o celular toca, entre uma mensagem e outra. Evan insiste.

Sra. Maccouant, vai me fazer sair da reunião antes mesmo dela começar? – 09h02min

– Lívia, se eu não atender, ele virá atrás de mim. – Alerto, enquanto o elevador sobe. Meu lenço cai do meu pescoço por cima dos meus pés.

Toc toc...

VICTORIA MACCOUANT, RESPONDA! – 09h05min – Letras grandes, ele está furioso.

– Me dá esse celular! – Ela tenta arrancar das minhas mãos.

– Não, Lívia, esse assunto é nosso, não vou atender. – A porta do elevador abre. – Vamos entrar e conversar. – Falo enquanto abro a porta do apartamento. Eu a encosto e fica uma pequena fresta.

– Sabe, garota, não sei o que você tem de especial. – Ela gesticula com a arma em punho.

– Lívia, estou colocando o celular em cima da mesa, não vou responder as mensagens. Estamos só você e eu aqui na casa de Sam.– Eu coloco o celular na mesa. Minha bolsa, os livros e o casaco em cima do sofá.

– Escute, fiz tudo para ele. O que queria, ele tinha de mim, em todos os sentidos. – Nesse momento, sinto minha temperatura subir. Não quero ouvir aquilo. – Mas ele escolheu você, uma garota sem sal nem açúcar. Você tem ideia do que passei por ele? De repente, ele estava encantado por você de um jeito que eu queria pra mim. Mandei homens te exterminarem lentamente, procurei um lugar cheio de ratos e lixo, que é exatamente o que você merece, mas te acharam... Incompetentes, por que não meteram uma bala na sua cabeça e tudo estava resolvido? Gastei muito dinheiro pra acabar com a sua vida e você ainda está aqui, uma maldição. Porque com você morta, ele seria meu outra vez e pronto. Pois é, eu o amei, eu o amo, e é comigo que ele tem que ficar. Quando invadi sua casa e percebi que você já estava na vida dele como eu deveria estar, passei a pedir pela sua morte, passei a desejar sua morte mais do que desejo Evan. – Ela está nervosa e coça a cabeça com o cano da arma. Mal vestida, com um jeans velho e uma blusa suja.

– Lívia, eu e Evan estamos nos separando. – Preciso de algo, e a única ideia que tenho é essa. A fúria me domina ao ter certeza que ela é responsável por meu sequestro.

– Mentira! – Ela grita. – Ele está te ligando o tempo todo! – Ela berra.

– É verdade, as ligações são por isso, porque ele sabe que vou deixá-lo, por isso estou aqui. Olhe, comprei livros pra faculdade, estou me mudando para esse apartamento por enquanto, e depois retornarei para a Escócia. – Estou ficando ótima como contadora de mentiras. Quase me convenço do divórcio.

– Você está mentindo! – Ela grita e circula em torno da ilha da cozinha, balançando a arma. – Eu não consegui te matar, mesmo quando quase o matei. Merda de bomba, fraca, deveria ter acabado com ele junto com a empresa dele. Merda de homens que levaram meu dinheiro e não conseguiram colocar um ponto final nessa vidinha de merda de vocês.

– Não estou, casei muito nova e acho que foi um erro. – Dói muito o que estou falando, mas é preciso. Ela é a culpada por todas as desgraças que quase tiraram nossa vida, se eu pego essa vagabunda eu mato.

– Não acredito em você! – Ela grita ainda mais.

– Lívia, estarei fora do seu caminho em breve, não precisa usar isso. – Olho para a arma. – E, realmente, faço votos de que fique com ele. – Essa é a pior. Chega a me revirar o estômago conforme eu falo. Caminho, ficando de frente para Lívia e para a porta.

– Ele me usou. Ele me teve quantas vezes quis. – Ela já não está mais gritando, mas o que está falando me enfurece. – Fazia todas as suas vontades. Visitas noturnas, sexo selvagem... E da melhor qualidade. – Como eu quero matar essa filha da puta! – Aposto que foi por isso que seu casamento acabou. – Ela havia acreditado. Preciso deixar essa raiva que está me dominado ao ouvir sobre sexo selvagem de lado e me manter focada.

– Com certeza, ele gostava de fazer algumas coisas que eu realmente desaprovo.

Ela sorri vingativa.

– Eu aprovava tudo, e ele me largou sozinha em Madri.

– É, Lívia, para ser bem franca, vocês realmente são parecidos e merecem ficar juntos. Não sou eu que vou atrapalhar. – Tomo uma decisão imbecil, mas é preciso. – Tome. – Arranco uma das alianças e coloco em cima da ilha. – Faça o que quiser. – Viro de costas, pedindo a Deus que não me deixe chorar.

– Você está falando a verdade? – Ela olha para a aliança.

– Claro que estou, e você deve estar me seguindo há um bom tempo e percebeu que não saio de casa. Está explicado. – Vai embora, garota maluca!, penso, virando-me de costas.

– Não posso deixar você sair assim. – Sei que ela aponta a arma para minha nuca.

– Não vou contar a ninguém, e em breve vou me mudar daqui. – Maldita seja essa garota. Meus demônios estão furiosos, não com medo, lembro do meu pequeno Evan, ela matou meu filho. Uma raiva explode dentro de mim e eu a engulo. Dei a volta novamente, ficando de novo de frente para ela e para a porta. – Lívia, o que você quer? – Pergunto assim que percebo o movimento atrás da porta.

– O que eu quero? Quero tê-lo como tinha antes. – Se eu estivesse armada, não responderia por mim.

– Então fique com ele. – Ela olha para trás, escutou o barulho na porta e instintivamente pulo em cima dela. Com o impacto da arma caindo ela dispara, Evan e Gunter entram correndo e estou em cima dela.

– Sua filha da puta! – Dou um soco na boca dela. – Isso é pelos ratos. – Outro soco. – Isso é por tentar transformar minha vida em um inferno e fazer sexo com meu marido. – Esmurro com raiva seu estômago e ela cai, facilitando minha ira. – Isso! – Dou mais um soco, mas desta vez é no nariz, sinto prazer em vê-la sangrar. – Isso é pelo meu filho! – Estou sentada em sua barriga e preciso vê-la sangrando assim como eu sangrei. Sangrei com os golpes, com os chutes, sangrei porque estava machucada, sangrei porque perdi meu filho, sangro até hoje porque seus golpes dificultaram minha vida. Sangro porque sei que posso não ter de novo o doce momento que tive ao olhar para os olhos de Evan e ver toda a luz que preciso para o meu caminho ao descobrir que estava grávida.

– Ele é meu. – Ela fala com a boca sangrando, acho que está faltando um dente, foda-se.

– Vadia de merda! – Acerto um soco em seu olho e sinto meus dedos latejarem por conta das pancadas. Estou sentada em sua barriga, segurando os braços dela com minhas pernas e continuo distribuindo socos, alimentando todos os meus demônios. Sou uma pessoa pacífica, mas essa mulher me tirou do sério, por duas vezes ela quase me destruiu.

– Ele é meu. – Grito e bato com a cabeça dela no chão.

Em alguns momentos percebo que Evan gosta do que vê, pensei que poderia ser o fetiche de Las Vegas, mas talvez seja satisfação pessoal. Ele não permite que Gunter se aproxime, e aprecia meu desabafo mortal sobre essa filha da puta. Após alguns minutos de total espancamento em Lívia, Evan decide interferir. Eu não quero que ele me veja assim, mas não consigo parar.

– Segure-a, Gunter! – Evan ordena apontando para Lívia, e em seguida a polícia adentra o apartamento. – Vem comigo. – Evan com meu lenço nas mãos me puxa para junto dele enquanto Lívia é algemada.

– Quero minha aliança. – Falo brava e estico a mão sobre a ilha, alcançando-a e colocando no dedo.

– Evan, por favor, fique comigo! – Lívia se humilha, a boca sangrando, implorando para ele, que sequer olhou em sua direção. Seus olhos estão em mim, o tempo todo em mim.

– Vamos, você tem o direito de permanecer calada. Tudo o que disser poderá ser usado contra você. – Um policial a retira algemada, e o outro recolhe a arma. Ambos deixam o apartamento.

Um terceiro policial avisa que terei que comparecer ao distrito , e Evan entrega-lhe um cartão.

– Depois cuido disso. – Evan responde e seu tom de voz não é dos melhores. O policial sai, fechando a porta.

– O que você tem na cabeça? – Evan me pergunta e estou furiosa. – Pelo menos teve a ideia de ligar para o meu celular e deixar no viva voz. Tenho vontade de bater em você. – Ele diz com raiva entre os dentes.

– Senhor? – Gunter nos interrompe.

– Sim, Gunter. – Sem olhar para Gunter, que está atrás de mim, Evan responde.

– A Sra. Maccouant está sangrando. – Gunter responde e aponta para o meu ombro.

– Droga, Victoria! Olha o que aconteceu, está ferida! – Evan grita comigo e me tira do apartamento. Gunter nos segue.

– Evan, foi de raspão, e nesse exato momento me sinto completamente curada. – Seu olhos me encontram e ele sabe o que estou querendo dizer. Finalmente coloquei para fora toda minha mágoa, meus medos e remorsos pelo pequeno Evan. Estou calma, mas por dentro, o maldito sexo selvagem ainda está em neon. Essa maldita quase nos matou.

– Por que você saiu sozinha? – Ele pergunta assim que entramos no elevador. Evan carrega, além do meu lenço, meu livro, meu casaco e minha bolsa. Apesar do frio, estou quente naquele momento.

– Por que tenho que ficar presa?

– Por que você é tão teimosa? – O elevador alcança o térreo e quero alcançar a garganta dele.

– Não quero falar com você, Evan. – Estou de braços cruzados e entro no banco de trás.

– Você está brava? – Ele pergunta indignado.

– Não. – Respondo furiosa. Acabando de escutar tudo o que escutei, calma é que não estaria.

– Eu posso ficar bravo, você me deu motivos. – Ele responde olhando para mim e permaneço com os braços cruzados, olhando pela janela. O raspão da bala começa a doer.

– Você sempre pode tudo, certo? Ai! – Resmungo de dor.

– Vick, não estou te reconhecendo. – Ele alcança minha mão e deixo que ele a pegue. – Você está quente, bem que a Maria me avisou.

Eu estou furiosa, o calor deve ser por isso, penso comigo.

– Estou bem, apenas esse ferimento no ombro que está doendo. – Tiro minha mão das mãos dele.

– Você é teimosa, muito teimosa. – ele fala entre os dentes cerrados. – Posso saber por que está assim? – Ele queria que eu desse pulos de alegria? Uma desvairada joga na minha cara que fez de tudo com meu marido, e quase nos mata. Não posso comprar uma caixa de fogos de artifício.

– Não quero falar disso agora. – Olho para Gunter, que está estacionando o carro na frente do hospital.

– Mas eu quero! – Gunter salta do carro e espera do lado de fora.

– Você quer mesmo? Então vamos falar. – Salto do carro sem esperar que Gunter abra a porta, e ele vem atrás de mim.

– Não faça uma cena, por favor. – Ele fala baixo, entre os dentes.

– Não vou fazer uma cena, mas já que não está se importando, primeiro vou cuidar do meu ombro, depois conversamos. – Sigo em direção à recepção do hospital e Evan me segue, esfregando o indicador e o polegar na testa.

– Como pode dizer que não estou me importando? – Evan cola seu corpo no meu enquanto estou na recepção aguardando alguém me atender. – Estou extremamente bravo porque está ferida, mas então você resolve me enfrentar. Não sei lidar com esta Vick. – Ele pressiona seu corpo contra o meu, usando o balcão como apoio e falando em sussurro em meu ouvido.

– Evan. – Afasto o corpo dele do meu. – Vou te falar uma coisinha assim, bem pequeninha. Por pouco não matei aquela desgraçada... Sexo selvagem, nossa! Me deixa quieta, estou fervendo. – Falo baixo, olhando para ele. Ele sorri. – Posso saber qual é a graça? – Pergunto, cruzando os braços e batendo o pé.

– Pimenta, você está ardendo como uma. Vem, vamos acelerar esse curativo. – Evan me leva até a sala de emergência e me senta em uma cadeira. Ele ainda está sorrindo.

– Evan, estou muito brava com você. – Franzo a testa e falo em tom de protesto.

– Está brava? – Ele abaixa entre minhas pernas e segura minhas mãos. – Está linda com ciúmes. Viu como me sinto? Você é minha e confesso que gostaria muito de ir embora agora e colocar você no meu colo. – Ele me beija.

– Não gostei de ouvir sobre o que vocês faziam. – Falo baixo, um choramingo.

– Está no meu passado e não vivo mais lá. – Seus olhos me invadem.

– Queria os pulmões dela. – Digo, encostando minha testa com a dele.

– Você está quente demais, vou chamar alguém. – Evan sai e minutos depois volta com um médico e um enfermeiro.

Eles me levam para outra sala, medem minha temperatura e fazem o curativo no ombro.

– Foi um raspão muito de leve. Dois pontos e estará liberada. Quanto à febre, pode ser um sintoma de algo que ainda não apareceu. Está em quase trinta e nove graus. Tomem cuidado com convulsões. Qualquer coisa estarei à disposição, e não hesitem em voltar caso a febre não passe. – O médico atencioso se despede e sai.

– Eu me sinto bem, não acho que esteja tão alta. – Saímos do hospital.

– Vou amarrar você em casa. – Ele beija o topo da minha cabeça, colocando meu casaco sobre meus ombros e me levando até o carro. – Por que não chamou Gunter para ir com você? Teimosa.

– Vai amarrar?

– Vou!

– Sexo selvagem? – Digo, ironicamente.

– Victoria, não começa.

– Estou brincando, mas ainda estou engasgada. – Sorrio, apoiando em seu ombro.

– Então casou nova? – Ele cutuca lembrando de minha conversa com Lívia.

– Sim, acho que foi um erro. – Por algum mistério sobrenatural, tenho coragem de usar sarcasmo com ele nesse momento.

– Um erro? – Ele pergunta disfarçando um sorriso.

– Sim, um erro, o melhor erro da minha vida.

– O que eu faço com você? – Ele pergunta, puxando-me para seu colo.

– Cuide, ensine, não perca a qualidade dos seus serviços, continue sendo esse cavalheiro, me beije mais e tenha paciência, porque vou ser a única criança da casa. – Uma lágrima pinga.

Ele apenas me abraça forte enquanto mantenho a cabeça em seu ombro.


Capítulo 11


– Estou com fome. – Verifico meu rosto pelo espelhinho de minha necessaire e olho para ele. – Será que a Maria fez o que pedi?

– Bolo com leite e sorvete? Não! Deve ser o peixe com brócolis. – Maria linguaruda. – Cadê a alimentação saudável da minha bailarina?

– Acordei com muita fome. – Sorrio, dando de ombros.

– Sim, ela fez. – Ele beija meu rosto e Gunter estaciona o carro na garagem da casa. O cheiro domina o ambiente.

– Cheia de fome. – Aperto o passo, puxando Evan. – Vamos! – Digo.

– Nossa! Nunca te vi assim.

– Meu amor, nada pior do que uma mulher furiosa e com fome.

– O que você disse, Victoria?

– Que não existe nada pior do que eu com fome.

– Antes disso? – Ele está parado, segurando minha mão e com o rosto levemente inclinado, como se quisesse antecipar o que iria falar.

– Meu amor? – Respondo, perguntando se é isso que ele quer saber.

– Sou seu amor? – Ele abre o melhor sorriso.

– Sim, você é meu amor, minha vida, a pessoa que Deus colocou no meu caminho para entender o que realmente vale a pena. Sim, Evan, você é o amor da minha vida. – Suspiro e olho para ele com olhos apaixonados, mas antes que ele me abrace e me beije, eu saio puxando–o de novo em direção à cozinha – Depois, Evan. Estou com muita fome!

- A comida está servida na área da piscina, Vick. – Maria nos avisa vendo minha ansiedade.

Rapidamente lavo minhas mãos e me direciono à mesa. O tempo todo vejo Evan me acompanhando com o olhar, sorrindo pela minha afobação em comer.

– Quero mais um pedaço de peixe. – Peço, assim que Evan coloca a comida em meu prato.

– Mais um?

– Sim, mais um. Você colocou dois pedaços, e francamente isso não vai resolver meu problema. – Ele sorri e obedece.

– Faz tempo que não vejo você comer assim.

– Meu apetite voltou. Dar surras abre meu apetite. Acho que vou aprender a lutar boxe.

 


Evan liga para Gunter e pede que busque os documentos na Maccouant. Irá trabalhar em casa hoje.

– Estou espantado, e também achando lindo como está comendo. – Ele apoia a boca sobre a mão fechada e me olha devorar dois pratos imensos de comida.

– Estava uma delícia, mas acho que quero sobremesa. – Olho para ele, dando de ombros.

– Maria?

– Sim, Sr. Maccouant.

– Ainda tem bolo de chocolate?

– Não. – Respondo, de ombros encolhidos.

– Não?

– Comi os últimos pedaços hoje pela manhã. – Eu me escondo atrás do guardanapo. – Acho que vou ter que trabalhar para pagar pela comida. – Brinco e escuto o rosnado de Evan.

– Mas tem pudim e sorvete de chocolate. – Maria salva meu paladar.

– Quero os dois! – Peço, sorrindo.

– Pronto. – Maria vai e volta em tempo recorde, colocando o pedido na mesa. Vergonhosamente devoro tudo...

– Você precisa de mais alguma coisa? – Evan pergunta sorrindo.

– Sim, dormir! Acho que vou me render ao sofá da casa menor. – Digo enquanto levanto e me arrasto até lá. De repente, ele está comigo no seu colo, levando-me para o sofá.

– Deita aqui comigo?

– Como não deitar? – Ele tira o sapato social, o cinto e a camisa, que ainda tem um pouco de sangue do meu ombro. Ele deita e me leva para junto do seu corpo. É apenas isso que quero, ficar no meu lugar no mundo.

 


– Sr. Gutemberg, realmente não tenho interesse em comprar sua empresa caindo aos pedaços. Mas é o senhor que quer vender, lei da oferta e da procura. Quero comprar, mas seu interesse é maior do que o meu, e o valor é metade da última proposta. Caso resolva salvar algo da empresa que seu pai levantou, me retorne. Até logo. – Evan desliga e eu acordo com seu tom de voz seco. Ele esteve com Gutemberg essa manhã, talvez não tenha conseguido finalizar o acordo por conta do ocorrido.

– Adoro como fala ao telefone enquanto trabalha. – digo sorrindo, enquanto o sol descansa no horizonte.

Ele se aproxima e me beija. – Você ainda está quente, está se sentindo bem?

– Sim, estou bem. – ajeito meu rabo de cavalo e olho para Evan. –Por que Gutemberg não vende a importadora para outra pessoa? É como se sua proposta fosse a única. – olho pela vidraça da casa menor.

– Porque ele é o tipo de homem que não possui grandes relacionamentos interpessoais. Tenho mais amigos comerciais que ele, e como um acordo entre cavalheiros, ninguém fez nenhum tipo de proposta para Gutemberg. Respeitaram minha vontade em expandir meus negócios até Madri.

– Entendi, mas Gutemberg cedeu? – Levanto do sofá para ir à cozinha pegar um copo d’água.

– Ainda não, mas vai ceder. – Ele responde e rodopio em meus calcanhares.

– O que foi, Victoria?

– Apenas uma tontura. – Respondo, sentando-me novamente.

– Vamos ao hospital, você está muito quente. – Evan ordena, e apesar de me sentir bem, eu acato.

– Gunter, vamos sair. – Evan liga e desliga o telefone, e em pouco tempo estamos dentro do carro.

– Evan, não é necessário, é apenas uma febre. – Sinto meu corpo esquentar, mas não é uma sensação desagradável.

– Claro que é necessário. – Evan me coloca no colo e minutos depois chegamos ao hospital. Estou sobre a maca, sob o olhar do mesmo médico que nos atendeu um pouco antes. O médico solicita alguns exames, alegando minha temperatura não estar normal.

– Tudo bem, mas não vou ficar internada, não aguento mais hospitais e dias intermináveis dentro dele. – Exijo.

– Você vai ficar aqui o tempo que for preciso. – Evan protesta e a enfermeira colhe meu sangue.

– Não quero ficar internada. Posso ir embora assim que colherem o sangue, depois pegamos o resultado. – Declaro, franzindo a testa.

– Não quero brigar com você. – Evan beija minha testa e senta na poltrona ao meu lado.

O que pode estar acontecendo comigo? Não fiz nada de errado!, penso e aos poucos começo a lembrar do meu casamento, a lua de mel, minha casa na Escócia... Penso em tudo que me fez muito bem. O médico entra no quarto depois de muitos minutos.

– Os resultados estão prontos? – Pergunto e Evan está de pé ao meu lado novamente.

– Sim, estão prontos, você não tem nenhum problema. Nada de anormal foi apontado pelos exames, você está ótima. – Os olhos de Evan estão sobre mim vendo minha reação, e olho sem entender para o médico, que está sorrindo.

– Mas então posso ir embora? – Pergunto, sentando-me na cama fazendo menção em levantar. – Não quero saber de hospital tão cedo. – Desabafo minha total falta de vontade em estar ali.

– Sim, pode ir embora, mas quanto a não saber de hospital tão cedo, vai ser um pouco difícil. – O médico nos deixa em dúvida.

– Por quê? – Evan pergunta, assustado.

– Porque grávidas precisam de acompanhamento médico, e para que o bebê possa vir ao mundo, será necessário um ambiente hospitalar. A não ser que optem por um parto em casa. – O médico joga a bomba. Eu não podia mais ter filhos, era uma condição, uma maldição. E agora ele me fala dos sapatinhos vermelhos?

Indignada me levanto da cama hospitalar e aponto um dedo no rosto do médico.

– Você tem ideia do que está me falando? Eu não posso ter filhos e nunca ouvi falar de que febre fosse sintoma de gravidez!

– Sra. Maccouant, o resultado deu positivo. É de praxe do hospital fazer todo tipo de exames ao coletar o sangue. E o seu deu 100% grávida. – O médico lê novamente o resultado. – Pensei que fossem ficar felizes. – Minha temperatura sobe ainda mais.

– Eu ficaria feliz sim, você não tem ideia do quanto, desde que fosse verdade! Não posso mais ter filhos! – Eu grito dentro do quarto.

– Como não pode ter mais filhos? – Ele pergunta espantado, lendo o resultado.

Evan interrompe minha gritaria ligando para o meu médico, o Dr. Arthur. Pede que ele venha o mais rápido possível. Evan desliga com o olhar em choque. O assunto sobre sapatinhos vermelhos foi abolido entre nós. Não falávamos disso. Evitávamos feridas recém fechadas.

– Você não sabe o que está falando. Você não pode me trazer uma notícia que não existe. – Fico falando mais para mim mesma do que para os outros. Estou nervosa, não consigo parar sentada.

– Vick, calma. – Evan vem até a mim e tenta me segurar, me colocar em seu colo, mas eu o repilo puxando o braço.

– Evan, ele não pode fazer isso.

– Fique calma, o Dr. Arthur está a caminho. – Ele responde, beijando meu rosto.

– Desculpem, mas não entendo, vocês estão felizes ou não? – Pobre doutor, não tem ideia da história.

– Ficaríamos se fosse verdade. De qualquer maneira, você não leu a ficha dela? Viemos aqui em todas as vezes que ela precisou. Deve ter o histórico médico dela nessa droga de arquivo!

– Mas é verdade. – Ele insiste, mas nós sabemos que é impossível.

- Claro que é! Assim como coelhinho da Páscoa e Papai Noel! – Debocho.

Evan friamente pede para que o médico se retire.

– Vick, estou aqui, daqui a pouco iremos embora, mas acho que é a sua vez de retomar a fé. O médico pode até se enganar, mas não diante de um exame de sangue.

Mais uma vez Evan tenta me abraçar mas estou agitada demais para ficar parada. Consigo me concentrar num ponto qualquer do lado de fora e fico olhando pela janela, batendo o pé no chão e mordendo o polegar.

O Dr. Arthur bate na porta. Evan pede que ele entre e se mantém próximo a mim.

– Estive agora mesmo com o médico que te atendeu. Ele me passou o prontuário do seu atendimento e eu gostaria de saber o que aconteceu.

– Nós também. – Respondo virando-me para o Dr. Arthur, mostrando toda a minha indignação.

– Vejamos, seus exames apontam que está grávida, surpreendentemente. Confesso que achei que isso seria impossível. – O Dr. Arthur lê os exames e me joga a mesma bomba. – Mas como disse, não há nada impossível para Deus. Acredito que estejam felizes.

Eu e Evan estamos parados, olhando para o Dr. Arthur, e tenho certeza de que se qualquer pessoa passasse aqui agora e nos visse, diria que estamos com caras de idiota. Eu, mãe? Grávida?

– Sim, muito, mas não é possível. – Evan responde por nós. Ainda não consegui me descongelar.

– Bom, se você não acredita no exame de sangue, vamos fazer um ultrassom. – Dr. Arthur chama uma enfermeira e pede que traga o aparelho de ultrassom portátil. – Em alguns minutos você fará o exame. – Ele sai da sala e meu olhar encontra o de Evan.

Uma enfermeira risonha nos interrompe e entra trazendo o aparelho e posicionando-o próximo à cama. Depois ela pede que eu troque a roupa pela bata hospitalar e me prepara para o exame.

– Bom, vamos ver o que está acontecendo aí dentro. – O Dr. Arthur entra de volta no quarto e despeja um gel gelado na minha barriga. Estou descrente, não é possível.

– Aqui está seu útero, vejamos... Bom, aqui era para estar o bebê. – Eu sabia, meu pensamento interrompe as palavras do médico. Seria preciso um milagre. – Então... – Dr. Arthur continua e mesmo com uma lágrima escorrendo, permito o término do exame. – Aqui era para estar o bebê, e espero que estejam preparados, porque eles estão aqui.

– Desculpa, não entendi! Eles quem? – Pergunto, tentando entender a imagem que está na tela.

–Victoria, Evan, aqui estão eles, gêmeos! Dois coraçõezinhos batendo aí dentro. Um milagre duplo. De verdade, como médico, realmente nunca presenciei uma situação dessas. Tendo em vista o aborto e as lesões, consideraria a adoção, mas aqui estão eles. – Ele coloca o mouse sobre a imagem, explicando. – Pelas medidas, sua gestação está entrando na décima segunda semana. Nossa! Quase três meses. Você não sentiu nada diferente?

Evan está ao meu lado segurando minha mão e, como eu, ele não sabe se olha para mim ou para a tela.

- Bom... desde o acontecimento, minha menstruação ficou irregular, então não pensei em gravidez quando ela atrasou.

- Sim, sim, é verdade. Você teve muitas lesões internas. Posso dizer que o milagre já começou desde aquela época pelo fato de você não ter precisado de uma histerectomia. Mas não teve nenhum outro sintoma?

- Ela anda comendo demais. – Evan fala numa voz meio mecânica.

- Ah! Aí está, está vendo? Seus bebês deram um jeito de avisar que estavam a caminho. Bem, mamãe, vamos voltar ao plano do pré-natal. Vitaminas, alimentação saudável e nada de estripulias.

Apenas aceno com a cabeça ainda sem acreditar no que acabara de ouvir. Filhos? Plural?

O Dr. Arthur imprime a foto do ultrassom, entrega na mão de Evan e se encaminha à porta.

- Acreditam em milagres? Podem acreditar. Parabéns aos papais. – Ele sai, deixando-nos a sós.

Como explicar um milagre? Impossível não chorar. Minha alegria é imensa. Meu coração está acelerado, e de repente encontro Evan com seus olhos em mim.

– Meu amor! Eu te amo. – Evan está explodindo e me beija no rosto todo. De repente ele vai até meu umbigo. Saudade dessas conversas com minha barriga.

– Ei, crianças, a mãe de vocês é a mulher mais linda do mundo, teremos que nos unir e cuidar dela, combinado? – Evan beija demoradamente minha barriga e estou explodindo de felicidade. Não há nada nesse mundo que arranque meu sorriso.

– Obrigada, Evan. Obrigada, meu amor!

– Pelo que exatamente você está me agradecendo? – O homem com o sorriso mais lindo do mundo se aproxima e beija meus lábios.

– Por tudo. – As nossas lágrimas são como fogos de artifício. Sim, choramos juntos e rimos juntos.

– Vamos? – Evan me levanta da cama, me abraça e pouco tempo depois estamos a caminho da nossa casa.

– Talvez sua temperatura esteja diferente por conta da gravidez? – Evan sussurra em meu ouvido enquanto estou em seu colo, no banco de trás do X6.

– Pode ser, não sei, mas isso explica a fome imensa, o sono intenso, as estranhas vontades... – respondo, sorrindo para ele.

– Minha Pimenta! Fez meu mundo mudar de lado. – Ele me abraça. Abraço bom.

Gunter abre a porta do carro para mim. Evan alcança minha mão e beija-a, em seguida ele a coloca em seu coração.

– Ainda minha?

– Sim, somos! – A verdade é que não consigo parar de sorrir. – Quero mais um pedaço de pudim!

– Qualquer coisa para vocês. – Ele olha em meus olhos e desce o olhar até meu ventre.

– Amo você, Sr. Maccouant.

– Idem, Sra. Maccouant.

 


Solto o laço do robe e revelo minha lingerie preta de seda e renda, ela foi cara, esse não foi um presente de Evan, eu mesma escolhi. A calcinha é minúscula e o sutiã tem detalhes em strass. Abro o roupeiro e resgato um vestido extra-curto, o máximo que cobre é o meu bumbum. Alças finas seguram o decote entre os seios. Ele segue justo até a cintura, então abre em godê, um tecido leve esvoaçante acaricia minhas coxas. Totalmente sexy, como a minha lingerie, completo o visual com um par de luvas negras que vão até os cotovelos. Assim que termino de me trocar, borrifo o perfume que Evan gosta, Euphoria, CK. Coloco um casaco que me cobre quase totalmente, não quero que ele veja minha vestimenta agora. Abro a porta do quarto e desço as escadas, minhas pernas tremem. Estou insegura e ansiosa, mas ao colocar minhas mãos no corrimão, respiro fundo, meu salto ganha força e meus passos também.

Evan me olha dos pés à cabeça e vejo sua respiração travar, conseguir isso é como um orgasmo antecipado. – Podemos ir. – ordeno esticando minha mão.

– Você está linda, diferente, desejo estar em você agora, não tem ideia do que faz comigo. – ele me enlaça pela cintura e posso facilmente remover cada uma das minhas peças e pronto, serei dele lindamente e vou conseguir ficar plenamente satisfeita, penso enquanto olho no fundo dos olhos dele. Hoje meu objetivo é outro.

– Não tenho ideia, mas por favor, canalize tudo isso para o momento certo. – Puxo sua mão e o levo até o carro.

– Você não pode sair assim! – Ele adverte.

– Por que não? Estamos juntos, e acredito que é com você que ficarei até o dia nascer. – Beijo sua boca e ele me prende junto ao seu corpo.

– Neste exato momento, estou louco por esse olhar. – Ele sussurra em meu ouvido.

–Só tenho olhos pra você, Evan. – Eu me solto dele e caminho até a XC60.


Gunter nos cumprimenta e abre a porta do carro.

– Espero que você não esteja envolvido com os planos de Victoria, Sr. Gunter. – Evan o adverte.

– Senhor, acredite, estou sendo apenas cumpridor dos meus deveres, e como solicitado, tenho apenas que dirigir. – Gunter sorri para mim e avança com o carro.

– Então temos aqui uma formação de quadrilha. – Evan me leva para junto do seu corpo e inala profundamente em meu pescoço, captando toda minha essência.

– Não vai me dizer para onde estamos indo? – ele me questiona ao pé do meu ouvido com uma voz rouca e sexy, sinto minha calcinha úmida.

– Não. – sorrio e beijo seus lábios.

– Tudo bem, espero. – Ele respira fundo, como quando fazemos amor.

– Bom menino, de novo ensinando a virtude da paciência. – Zombo e o carro está ganhando as ruas nova-iorquinas.

– Nem tão bom. – Ele beija meu rosto.

Conforme o carro ganha as ruas, elaboro meus movimentos. Em minha mente está tudo pronto, espero que consiga seguir todas as etapas. Depois de alguns minutos o carro perde a velocidade e aos poucos para em frente a GAEL.

Gunter abre a porta e saltamos. Vejo confusão nos olhos de Evan.

– Vem comigo. – Peço esticando minha mão e Gunter vai embora com o carro.

– Sim, eu vou, jamais te deixaria sozinha, ainda mais assim. – ele me olha dos pés à cabeça e uma convulsão acontece em meu baixo-ventre.

– Bom menino...


Ganho o andar de cima da Gael e o cheiro de velas aromáticas está por todo ambiente. Jane, instrutora de teatro, fez um ótimo trabalho, uma grande nova amiga. Estamos na sala espelhada.

– Quero que coloque isso. – Estendo uma venda para os seus olhos assim que paro na frente da sala de artes cênicas. – Só retire quando eu pedir.

Ele coloca, dessa vez sem questionar, e nesse momento amo a confiança que deposita em mim. Seguro sua mão e o guio até uma poltrona, delicadamente empurro-o a fim de fazer com que se sente. Todo ambiente está decorado com rosas vermelhas, são rosas colombianas. Ao lado da poltrona um pequeno aparador mantém uma travessa com morangos, muitas velas decorativas estão espalhadas e um majestoso Pole instalado apenas para essa apresentação.

– Vou te obedecer, Ruiva, porque quero saber onde deseja chegar. – ele sorri e selo seu sorriso com um beijo.

– Estou orgulhosa do meu menino obediente. – Brinco e me distancio. Acendo as luzes necessárias para o que pretendo fazer e alcanço o controle remoto.

– Devo alertá-la sobre a imensa força que estou fazendo para obedecer. – Ele volta a sorrir e eu me perco nele.

Estou a menos de dois metros de distância e o corpo de Evan me faz falta. Respiro fundo e penso no oceano que precisei atravessar para encontrá-lo, mas na verdade foi ele quem me encontrou. Retiro o casaco, revelando o vestido que cobre minhas curvas perfeitas e encaixo no pole. Respiro fundo, uma extrema segurança me invade. Aperto o play do controle em minhas mãos e Girl on Fire, de Alicia Keys, domina lentamente o ambiente.

– Por favor, retire a venda. – Peço e vejo o momento em que os olhos de Evan se abrem, acompanhado de sua boca. Eu fico feliz em ver a surpresa estampada em seu semblante ao reparar em cada peça de minha vestimenta. Seu olhar lascivo em minha pele que resplandece sobre a iluminação das velas.

Na barra de alumínio, tento libertar quem sempre fui e o que me tornei em seus braços, nos giros rápidos e no momento em que abro minhas pernas e encosto todo meu corpo no chão, eu o desejo. Sim, meu sexo está pegando fogo e espero que o de Evan também.

Alcanço o ponto mais alto da barra e as chamas das velas acompanham meus movimentos. Meus cabelos soltos reluzem e balançam de forma selvagem seguindo meu ritmo. Tudo aqui está pegando fogo. Eu me apoio entre minhas pernas e sinto o gelado do alumínio contra meu sexo. É quase um trabalho de fundição quando o ferreiro encosta a brasa do ferro na água, solto meus braços e executo um bailado perfeito estando segura apenas por minhas pernas. Os anos de balé me deram a força e a agilidade necessárias para executar cada movimento. Uma recompensa ao meu marido que já dividiu esse show antes, mas agora é para ele, apenas dele.

Sou sua Evan, e o ponto esvoaçante do meu vestido revela tudo que pertence a ele. Meu momento de glória está em suas contorcidas sobre a poltrona, em suas pupilas dilatadas, na inclinação de sua cabeça e na abertura de sua boca como se quisesse me devorar. Sim, Evan, quero que me devore.

Giro em parafuso, desço a barra esfregando todo o pole entre minhas pernas e Evan se levanta. Continuo e a música ganha mais intensidade. Subo o pole e escorrego com uma das pernas dobradas, meu olhar firme, selvagem, sobre cada gesto dele, a música está quase no fim e ele está a menos de meio metro de distância. Finalizo com uma abertura completa até o chão. Gostaria de estar assim, em cima dele. Mas hoje tudo é para ele.

– Volte para a poltrona! – Ordeno sem palavras, apenas apontando para o lugar de onde ele se levantou. Ele tomba a cabeça sem entender, vejo o desejo latejando em seu olhar.

– Está me dando ordens? – Pergunta sem entender.

– Sim, e exijo que obedeça. – Caminho na direção dele e ele se senta novamente.

– Não pode fazer o que está fazendo comigo! Quer me enlouquecer, Ruiva? – Ele protesta em tom rouco.

– Claro que posso. Por favor, continue obedecendo. – Ele obedece, restou apenas obediência para ele esta noite. “Intro”, do The XX, na sequência se solta, e essa música me liberta de algumas correntes e alimenta alguns de meus demônios. Eu me sinto sexy, poderosa, uma deusa. Estou segura de tudo o que quero fazer. Por dias carreguei os fantasmas de Lívia fazendo sexo selvagem com meu marido, mas a partir de hoje extermino todos eles.

– Bom menino... Talvez nem precise ser castigado. – Sorrio e continuo em sua direção.

– Você é minha! – Ele se aproxima e me beija. – Para sempre. – ele fala com a boca pressionando a minha.

– Mas agora preciso que se sente. – Peço e o empurro gentilmente até a poltrona. Encosto suavemente meu corpo ao dele, provocando-o.

Eu me afasto caminhando sedutoramente, meus saltos extremamente altos me dão a postura necessária para deixá-lo louco.

Audaciosamente, começo um strip-tease. Sem parar de movimentar meu corpo. Retiro uma luva e lanço um olhar quente, depois a outra e jogo em direção a ele. Evan agarra como se a luva fosse sua salvação. Sorrio. Por dentro estou feliz. Viro de costas e desço vagarosamente o zíper do meu vestido. Meu rebolado acompanha a batida sexy da música, o vestido desliza até meus pés e o empurro para o lado. Aproximo-me de Evan e seguro sua mão, está suada, deslizo-a suave por entre meus seios, ele tenta pegá-los, mas eu não deixo, essa noite o domínio é meu.

– Isso não é justo! – Ele ainda protesta com desejo, suas pupilas estão dilatadas.

– Se reclamar, amarro você e continuo com o show. – Ameaço e ele inclina a cabeça de um lado para o outro.

Abro os fechos do meu sutiã e fico de costas novamente para ele, aproximo a minha bunda do seu colo, quase um sufoco entre suas pernas e permito que ele quase me encoste, quase.

Solto o sutiã e permaneço de costas, esfrego meu corpo em seu quadril, sinto como ele me quer, mas ainda não.

Cubro os seios com as palmas das mãos e me viro. Então os libero e levanto-o da poltrona. Roço meu corpo contra o dele enquanto abro cada um dos botões de sua camisa, espalmo minhas mãos pelo seu tórax e desfaço de sua vestimenta superior. Sim, eu o quero assim, ao meu comando.

Desabotoo sua calça e percorro o indicador sobre o cós, sinto-o duro, forte e isso me faz ficar menos seca. Olhar Evan a ponto de explodir e segurar suas mãos para ele não me tocar, satisfaz meu corpo. Gosto do que estou vendo, as tentativas frustradas de me acariciar, o suor proveniente de seu rosto, o brilho das velas em nossos corpos. Estico meus braços e pego um morango, coloco entre meus lábios e ofereço a Evan juntamente com um beijo, doce, fresco, carregado de luxúria. Evan está receptivo a tudo, e estou adorando. Mordo com força seus lábios em meio a um sorriso maroto, deixo seu jeans cair. Da mesma forma que eu o levanto, sento-o novamente na poltrona, mas antes liberto o que preciso.

Caio de joelhos e nua diante dele, o saboreio com força, com fome. Ouço seus gemidos extasiados, ele não acredita no que está acontecendo. Suas mãos acariciam meu rosto, eu afasto, estou adorando isso. Suavemente ele acaricia meus cabelos e eu deixo. O gosto de Evan em minha boca me enlouquece também, a gravidez de poucas semanas não incomoda, somente me deixa com os hormônios em alta.

– Se você não parar... – Ele geme ameaçando encher minha boca.

Apenas abro os olhos e continuo como se dependesse disso para sobreviver, é como meu oxigênio e esqueço de vez quem sou, nesse momento tudo se resume a ele.

– Victoria. – Ele geme gostoso se revirando na poltrona, está se segurando, sinto seu corpo suado e trêmulo. – Victoria, não vou segurar. – Ele se desfaz me fazendo gemer enquanto o devoro e sinto minha boca encher, nunca desviando os olhos dele. Quero ver cada minuto de seu prazer, nunca pensei que fosse tão bom ver Evan assim. Vou ao céu apenas com seu êxtase.

– Estava realmente com muita sede, Sr. Maccouant. – Digo após absorver cada segundo de seu prazer.

– Minha! – Ele sussurra com a respiração entrecortada.

– Menina? Pergunto ao mesmo tempo que finalizo sua frase preferida.

– Mulher, minha mulher... – Ele responde com o maior sorriso que já vi.

Olho para o meu marido satisfeito, um sorriso no rosto, a respiração acelerada; ele me admira como se tivesse lhe dado o melhor presente do mundo. Meu Evan, meu marido, meu tudo, meu amor.

– Eu te amo, Ruiva, amo sua boca em volta de mim. – Ele declara em agradecimento. Então me puxa para seu colo, aconchega em seus braços, a noite está apenas começando...

 


Acordo Evan, ele levanta alarmado. Hoje completo seis meses de gestação e logo iremos à consulta do pré-natal. Evan não cansa de elogiar minha barriga, e embora esteja com alguns quilos a mais, seus elogios fazem com que eu me sinta uma verdadeira deusa. Levanto-me, coloco um vestido azul feito por Maria, ela sempre me surpreende. Ganho uma olhar devastador de Evan, apresso-o e desço as escadas.

Mesmo vivendo isso, é impossível acreditar. Há dois bebês aqui dentro. Eles dividem esse pequeno espaço há seis meses, eles devem estar se divertindo. Posso sentir como se mexem, e hoje vou descobrir se são duas meninas sapecas ou dois rapazes atrevidos.

– Posso saber o que está contando para eles? – Evan me surpreende enquanto converso com eles à beira da piscina. – Bom dia, crianças! – Ele beija minha barriga.

– Nosso segredo. – Respondo beijando seu rosto.

– Qual é o seu palpite? – Evan pergunta, completando a xícara com café.

– Não sei, pensei em duas meninas, mas depois dois meninos brincam diante dos meus olhos. Não penso em um casal, e você?

– Não tenho uma opinião a respeito, mas pensei em alguns nomes.

– Quais?

– Gosto de Matthew, Antony... Ainda não sei.

– Podemos fazer um acordo. Um bom dia para acordos. Se forem meninas você escolhe, e se forem meninos, eu escolho. Mas, por favor, vamos entrar em acordo, nada que os envergonhem. – Proponho.

– Combinado! Tenho nomes perfeitos para elas. – Ele fala divertido.

– Quais?

– Nosso segredo. – Ele sorri o sorriso mais lindo.

Trinta minutos depois, estamos sentados na sala de espera do Dr. Arthur e Evan está me falando nomes muito engraçados. Estou rindo muito, e como uma boa grávida, já tinha visitado o banheiro duas vezes.

– Evan, esse não, é muito feio! – Eu recuso a opção engraçada e sorrio muito.

Dr. Arthur me chama na porta do consultório.

– Vamos ver qual o time que estamos esperando. – Evan se levanta enquanto fala e me leva até a sala.

– Ok, vamos começar. Bom, estão grandes e um é mais tranquilo que o outro. Veja como esse está se mexendo. Ele não para. – O Dr. Arthur brinca. – Ambos com medidas perfeitas. Um é um pouquinho maior que o outro, muito pouco. Encontramos o sexo forte aqui. Esse bebê quietinho aqui... – O médico aponta para o bebê calminho e acredito que esteja falando de um menino, sexo forte. – Aqui temos uma menininha, tranquila, apenas alguns milímetros a menos que o outro.

– Uma menina! – Minha menininha, a menininha de Evan. O médico me examina por mais alguns instantes, então vem a notícia.

– E seu time é composto por uma menina e um menino. Parabéns, vocês terão um casal de gêmeos.

Conheço o nome disso... O que está acontecendo comigo agora, felicidade. É ela que está explodindo aqui dentro, junto com fogos de artifícios e borboletas. O rosto de Evan em minha direção é perfeito, meu mundo em quatro vidas.

– Acho que vão querer uma foto. – Apenas concordo com a cabeça olhando para Evan, que em nenhum momento solta a minha mão.

– Amo você. – Ele diz sem som.

– Amo mais. – Retribuo da mesma forma.

Dr. Arthur faz as recomendações. Subir escadas devagar, boa alimentação, nada de exageros, ele declara que tenho uma estrutura pequena e por isso os cuidados. Evan ergue uma sobrancelha. O médico acabou de sentenciar as amarras de Evan em mim.

 


Acordo com Evan sussurrando no topo da escada.

– Maria, peça que entrem devagar e cuidado para não acordá-la. – Ele fala baixo e com firmeza, mas por algum motivo de ordem misteriosa, os bebês pulam com a voz de Evan.

– O que está acontecendo? – Saio do quarto, vestindo meu robe branco.

– Menina do sorriso mais lindo do mundo, poderia me fazer a gentileza de colocar uma roupa mais comportada? – Evan me leva de volta para o quarto.

– Evan, estou grávida, ninguém vai querer uma grávida. – Digo, retirando do guarda-roupa outro vestido. Estou com calor.

– Ficaria surpresa com o número de homens que sentem atração por mulheres em estado interessante. Eu, por exemplo. – Ele sorri.

– Espero que eu seja a única grávida a despertar seus desejos, Evan Louis.

– Eu agarraria você agora. Adoro quando me chama assim, mas acho que vai se interessar pelo que está acontecendo lá fora.

– O que está acontecendo?

– Termine de se trocar e vá até lá. – Ele me abraça e beija meu rosto todo.

A empresa contratada para montar o quarto dos bebês chegou. É um sobe e desce, e eu apenas assisto a mágica acontecer. Evan preparou uma surpresa.

– Parece que não vai terminar mais. – Digo olhando da porta do quarto verde e creme.

- Estão terminando. – Ele diz abraçado comigo e com uma das mãos em minha barriga.

– Gostei do iBaby. – Tecnologia via iPad ou iPhone que permite ver o que está acontecendo no quarto dos gêmeos.

– Sabia que iria gostar. – ele diz e me leva para o andar de baixo.

– Espero que tenham feito do jeito que escolhi.

– Com certeza fizeram. Você os visitou mais de mil vezes para confirmar isso. – Evan sorri. Depois de algumas horas, o quarto está pronto. – Victoria? – Evan me chama em tom sereno.

– Oi?

– Tenho que te contar algo. Foi concluído ontem, então posso dizer com toda certeza desse mundo que agora posso dormir em paz.

– O que foi? Conte-me!

– A Accord não pertence mais a mim. – Ele sorri em tom de alívio e solta um suspiro.

– Uma das melhores notícias da minha vida! Não aguentava mais as ligações, e-mails e ameaças que tiraram seu sono tantas vezes. Posso saber quem é o proprietário agora?

– O proprietário não tem como sabermos, mas o que posso te dizer é que Gunter sente uma gratidão inexplicável por você. A princípio pensei que pudesse me substituir efetivamente, mas ele não faria isso com a memória de suas meninas.

– Não entendi.

Evan pega o celular e chama Gunter.

– Bom dia, Sra. Maccouant. – Gunter logo se anuncia.

– Bom dia, Gunter.

– Gunter, gostaria de contar algo à Victoria? Esse é o momento. – Evan diz, aliviado.

– Sra. Maccouant, há algum tempo fez algo surpreendente por alguém que amo incondicionalmente. – Ele faz uma pausa, suspira, então continua. – A minha Alice, que Deus levou para seu conforto. Aqui não me sobrou muita coisa, não tenho nada a perder, e pela senhora, pelos gêmeos que terão a sorte de terem pais como vocês. – ele respira fundo como se fosse mergulhar e dispara. – Demorei um bom tempo até encontrar alguém que pudesse substituir definitivamente o Sr. Maccouant na Accord, mas encontrei e fiz toda a negociação. A Accord hoje pertence a alguém que exige sigilo.

– Você...? Você fez isso? – Estou realmente surpresa.

– Sim, Sra. Maccouant. Não estava em paz, estava preocupado. Um homem precisa de tranquilidade para cuidar da família, e essa é minha maneira de retribuir a generosidade que um dia a senhora dispensou para meu pequeno anjo, Alice. Eu não poderia ser o substituto porque, o senhor me perdoe pelo que vou dizer, desaprovo o que acontece por lá, porém não posso julgar.

– Não acredito, você fez isso por mim, por nós... Não tenho como agradecer.

– Não me agradeça, não fiz nada, a não ser tirar um fardo das costas de duas pessoas que tenho grande carinho e respeito. Quem está lá agora está longe do mundo de vocês, e acredito que tudo tenha seu devido tempo. – Estou chorando de alegria e impulsivamente levanto e abraço Gunter.

– Ótima notícia e, por favor, doe a quantia recebida pela Accord para a POWER & HEART. – Evan sorri com total desprendimento.

– Se me derem licença... – Gunter se afasta e parte em direção à garagem.

– Estou livre. – Evan confessa. – Gunter sabia que eu não teria tempo de encontrar alguém, estava com as ameaças constantes à sua vida, a mim, e o clube passou a não ter a menor importância, porém eu não pagaria um centavo a nenhum filho da puta que estava lá.

– Não aceita perder, Evan. – Disparo.

– Não, ainda mais para um bando que infernizou minha vida. – Ele diz secamente e aliviado.

– A verdade é que estou livre, e agora se o seu celular tocar no meio da noite, eu te mato. – Falo divertida. Maria, que cuida da limpeza do quarto dos gêmeos, avisa que já terminou.

– Não vai tocar. Vamos ver como ficou? – Evan estende sua mão e me leva para o quarto novo.

– Estou curiosa.

– Feche os olhos. – Ele pede diante da porta fechada.

– Sim, senhor. – Concordo e Evan coloca minha mão sobre a maçaneta, mantendo sua mão sobre a minha.

– Agora pode abrir. – Ele gira a maçaneta e meus olhos ficam alagados.

Tudo está perfeito, exatamente como eu havia escolhido. Berço cor de mel, chão com carpete creme, a cômoda da mesma cor do berço e do roupeiro, mosquiteiros do teto até o chão, os bichos de pelúcia nas estantes, o porta-fralda da mesma cor da madeira... Tudo lindo, e de repente meus olhos alcançam algo diferente, algo que não estava no projeto do imenso quarto de sessenta metros quadrados. Algo pendurado na parede entre os dois berços. Aproximo-me lentamente, e naturalmente choro.

Evan pediu que fizessem uma moldura. Dentro, o par de sapatinhos vermelhos. Embaixo das fotos e dos sapatinhos está escrito em dourado: Pequeno Evan.

– Eu amei. – Digo, deslizando meus dedos sobre o quadro de madeira.

– Fico feliz que tenha gostado, afinal de contas, esse é o quarto das crianças. – Evan me abraça e eu choro em seu peito. – Os gêmeos irão crescer e saber sobre um anjo que cuida deles, vão olhar para o quadro e acreditar em milagres.

Uma avalanche de lembranças, um caminho difícil e feliz que nos levou até esse momento, toda nossa história, tudo que nos atingiu e nos uniu; cada momento, tudo ali misturado dentro do quarto novo, dentro do mundo novo que eu e Evan criamos.

 


Acordo com uma sensação estranha, o lençol está molhado. Chamo por Evan, ele se levanta aflito, tento acalmá-lo, está na minha hora, nossos filhos virão ao mundo.

Evan está totalmente tenso, perdido, procurando pela bolsa que ele mesmo havia colocado perto da escada, quer a máquina fotográfica, ao mesmo tempo em que deseja ficar ao meu lado.

Levanto-me com certa dificuldade e coloco o vestido branco que Evan me deu de presente na noite em que o quarto dos gêmeos ficou pronto. Parece que foi ontem, e já se passaram quase três meses. Um vestido lindo e branco, alças finas, solto, apenas um chinelo nos pés e eu estou pronta.

– Minha menina, vamos conhecê-los hoje. – Ele me beija assim que saio do banheiro. Ando lentamente e Evan me ajuda na escada, degrau por degrau.

– Gunter! Está na hora! – Evan avisa, e minutos depois escuto o barulho do motor da X6.

Evan treme. Tenho que acalmá-lo enquanto seguimos em direção à garagem.

Gunter me cumprimenta com um discreto sorriso. Sento no banco de trás e me acomodo. Uma pequena fisgada começa em meu abdômen.

Evan faz uma rápida ligação para o Dr. Arthur, avisa que estamos a caminho e volta sua atenção para mim. Ainda está escuro, meu marido ansioso beija minhas mãos enquanto outra fisgada me faz revirar. Essa é mais forte.

– Eles estão com pressa. – Aperto a mão de Evan.

– Respire. – Evan me deixa destruir seus dedos.

Reviro-me até encontrar uma posição e Gunter ganha as ruas semi desertas em direção ao hospital. Ele e Evan treinaram vários percursos durante dias, até encontrar o que seria mais rápido. Espero que ele tenha escolhido esse. Outra fisgada e eu me viro.

– Evan?

– Oi, estou aqui.

– Promete que vai ficar comigo? – O medo está começando a aparecer.

– O tempo todo, para sempre. – Ele beija meu rosto e encosta a boca em minha barriga. – Pessoal, calma, não vamos maltratar a mamãe. – Ele finaliza, beijando-os.

Gunter para o carro na entrada da emergência, abrindo a porta. Automaticamente, um enfermeiro me busca com uma cadeira de rodas.

Evan me coloca na cadeira e invade o hospital.

Minutos depois, estou deitada na maca com Evan ao meu lado.

– Você está bem?

– Sim, apenas as fisgadas que estão me incomodando.

– Em breve tudo estará resolvido. – Ele beija minha testa.

O Dr. Arthur chega e após alguns exames decide por uma cesárea. Não tenho dilatação suficiente.

– Estou com medo. – Desabafo.

– Não tenha, estou aqui. – Outra fisgada e outro apertão.

– Evan, fique comigo.

– O tempo todo. Vou estar ao seu lado quando eles nascerem, vou ver o rostinho deles junto com você... – O beijo dele me acalma.

Uma enfermeira entra no quarto e me leva para o centro cirúrgico.

Pensamentos bons, pensamentos bons, mantenha a calma, Vick, você consegue!, convenço-me enquanto os procedimentos acontecem. Evan não está comigo nesse momento. Fecho meus olhos e viajo até Las Vegas. Depois até a Escócia, e uma mão toca meu ombro. É ele, Evan, com roupas azuis, touca e uma máscara.

– Eu falei que estaria com você. – Ele beija minha testa e em suas mãos, a máquina fotográfica. Ele a entrega para uma das auxiliares e pede que registre cada momento.

Esse é o momento mágico, o momento em que tudo se transforma, o momento exato onde criação e criador estão lado a lado. O meu momento particular. Ao meu lado, o homem que escolhi para dividir tudo isso, o homem que me escolheu para sua vida, o homem que me invade com o olhar. Não sei explicar essa sensação, mas tenho certeza que esse é momento em que poderes especiais invadem nosso corpo, e esse poder pode vir através de um choro sereno de um bebê que acaba de ganhar a luz. Meu menino é o primeiro, como um homem deve ser; deve estar à frente de uma mulher para protegê-la.

Evan não tenta segurar o choro. Meu Evan, seus olhos estão iluminados e me perco nesse olhar até que o segundo poder especial me invade. É ela, minha menininha. Choro mais alto, o que faz Evan se derreter.

– Agora tenho duas meninas e um garotão! – Evan beija minha boca, e de repente alguém os coloca do nosso lado. A auxiliar com a máquina nas mãos registra todos os momentos, inclusive esse, o mais especial, o momento em que olho para os rostinhos mais lindos do mundo. Um menino ruivinho e uma menina mais rechonchuda e de cabelos escuros mas um tanto avermelhados.

– Eu te amo, Evan!

– Meu pedido foi atendido, eu amo você.

Dr. Arthur comenta como são fortes e fala sobre os pesos e medidas; então avisa que eles irão passar por alguns procedimentos e exames, e logo estarão no quarto conosco.

– Quem diria que um jantar no Pastis resultaria em duas crianças? – Brinco.

– Três crianças. – Ele brinca, no mesmo tom.

– Feliz?

– Mais que isso, muito mais que isso. – Ele responde, beijando minha testa.

Ele sai sorrindo, puxando a touca. Sou a filha da mãe mais feliz do planeta. Estou completamente apaixonada por eles. São lindos. O menino ruivinho, um tomatinho igual a mim, o espoleta, o meu pequeno homenzinho que brincou a gravidez toda; e ela, uma pequena Evan, igual ao pai, linda, cabelos num tom que mostram que, como toda mulher, ainda vai surprender, um rosto marcante; o bebê quietinho, discreto. Absurdamente apaixonada por eles. Milagres existem. O meu aconteceu naquela noite especial em nossa lua de mel.

 

 

– Mas sua mãe foi teimosa e me provocou, então estamos aqui. – Era a voz de Evan baixinha, em tom de murmúrio. Ele está com nosso menino no colo, contando nossa história. O olhar de Evan sobre o pequeno vermelhinho me desmancha, preenche.

– Sorriso lindo! – Ele mantém o murmúrio e olha para mim.

– Oi, onde está ela? – Pergunto ao ver o segundo berço vazio ao lado da minha cama.

– Ela está terminando alguns exames e daqui a pouco estará aqui. – Um pequeno resmungo nos interrompe. É ele, o meu pequeno homenzinho. Está com fome. Evan arruma a cama, colocando-me quase sentada e entrega o meu pequeno.

– Ele é lindo, Evan. – Eu me derreto e meus olhos enchem-se de lágrimas.

– Lindo como você. – Evan divide seu olhar entre nós dois. – Amo vocês. – Evan conclui com um beijo em nossos rostos.

– Com licença, mas temos uma pequena mocinha de lábios carnudos chegando. – A enfermeira entra no quarto com um embrulho rosa nas mãos; é ela, a minha menininha. A enfermeira entrega-a nas mãos de Evan e de novo nos deixa.

– Ela é deslumbrante. – Evan suspira ao falar de nossa menininha.

– Linda como você. Tenho duas versões de você. – Brinco.

– Eu também. – Ele passeia com seus olhos pelos seus vermelhos.

Meu ruivinho dorme e Evan coloca nossa pequena no berço, pegando meu menininho.

– Precisam de ajuda? – A enfermeira entra e mostra o que fazer. Ela ensina o básico e Evan está atento a cada informação. Seus olhos brilham.

– Tudo bem com vocês? – Um homem de jaleco azul cheio de figuras infantis entra na sala. – Sou o Dr. Enrico, o pediatra que estava presente no parto. Parabéns pelos bebês, cheios de saúde.

– Obrigada. – Agradeço e olho para Evan, que sorri ao olhar para sua pequena cópia.

– Não por isso, vejo vocês depois. – Evan sorri para mim e eu apenas retribuo da mesma forma.

– Pensou no nome de sua pequena? – Pergunto, sorrindo.

– Sim, e você, escolheu? – Ele senta ao meu lado, de frente para mim.

– Sim, mas se você não gostar, podemos pensar em outro. – Falo, enquanto ele segura minhas mãos.

– Pensei em Cora. Cora Campbell Maccouant, o que me diz? – Ele está tão sereno, tão lindo...

– Acho lindo, amei sua escolha. – Ele beija as palmas das minhas mãos.

– E para nosso pequeno homenzinho, o que pensou?

– Romeo. Romeo Campbell Maccouant. Você gostou? Pensei em um homem romântico e lembrei-me de um livro muito bom, mas eu queria com essa grafia, com a letra “O” no final. Romeo.

– Não poderia ser mais perfeito.

– Confesso que estou cansada. Valeu a pena, mas estou esgotada.

– Durma, eu fico aqui.

– Deita aqui comigo?

– Posso?

– Deve. – Evan me abraça e eu durmo. Durmo entre minhas pequenas porções de Evan.

 


– Onde estão meus netos? – Minha mãe invade o quarto, acordando-me. Evan está com Romeo em seu colo e Cora está dormindo no berço. Meu pai chora ao segurar a pequena Cora.

– Eles são perfeitos. – Rose pega Romeo dos braços de Evan e o mostra para John, que não contém o sorriso.

– Nossos netos são lindos, são deslumbrantes. – Minha mãe não cabe em si.

– Você está bem, minha pimentinha? – Meu pai beija minha testa.

– Sim, estou bem.

– Eu quero ver meus sobrinhos! – Lucca entra no quarto acompanhado de Sam e vem em minha direção.

– Oi, cunhadinha, eles são lindos, e os nomes?

– Romeo e Cora. – Respondo, olhando para meus pequenos distribuídos nos colos dos avós.

– São lindos, Victoria, nomes perfeitos.

– Meu filho, estou muito orgulhosa de você. – Rose chora e beija o rosto de Evan.

– Aproveitem, porque passa muito rápido. – Meu pai está encantado com Cora em seus braços.

– Quero levá-los para casa. – Peço.

– Amanhã estará de alta. – Evan se inclina e fala próximo ao meu ouvido.

– Amanhã? Estou aqui há dois dias. – Impaciente, eu protesto.

– Calma, apenas mais um dia. – Evan beija minha testa e me encanto com a imagem da minha família reunida ao redor de nossos filhos.

– Ele é muito fofo. – Sam se encanta com Romeo. – É como segurar um anjo. – Ela conclui.

– Sim, temos dois anjos lindos. – Evan se pronuncia discretamente ao meu ouvido, cheio de alegria.

– É como segurar o Evan quando bebê. – Rose recebe a pequena Cora dos braços do meu pai. Eu sei o que ela está dizendo, Cora é a cara do Evan.

– Estou orgulhosa de você, minha filha, tenho orgulho em ser sua mãe. – Minha mãe sussurra em meu ouvido.

– Posso registrar o momento? – A enfermeira entra no quarto e solicita a máquina para Evan. Nossa primeira foto em família.

Esse momento, esse exato momento, é onde enxergo os pequenos milagres e os pequenos pedidos atendidos. Todos eles são atendidos. Vejo com clareza todos os milagres, aqueles que nos fazem agradecer, aqueles que nos tornam mais fortes... Ao meu redor estão meus milagres em forma de sorrisos, na forma de Evan, em forma de pacotinhos azul e rosa.

 


G&A

Comunicado Interno


Aos colaboradores,


Viemos através desta informar que a partir desta data, a Gutemberg Associados, que durante vinte e um anos exerceu de forma exemplar seu trabalho, passa a ser Maccouant Import. Espanha Inc., filial ligada diretamente à Maccouant Import. Inc. que nos auxiliou diversas vezes a cumprirmos prazos e metas.

Aos funcionários que nos honraram com sua colaboração, os sinceros agradecimentos. Nós, da antiga diretoria, temos plena certeza de que irão executar com a mesma excelência o trabalho em função da Maccouant, que optou em mantê-los de forma integral nos cargos já ocupados.

Agradecemos a compreensão durante todos esses anos, em especial aos colaboradores que estão presentes desde o início de nossas funções.

Acreditamos que essa foi a melhor decisão, visando promover a tranquilidade em relação ao vínculo empregatício.

Sabemos da primordial importância de cada um, sabemos também que sem a soma de um bom trabalho em grupo, não teríamos alcançado tantos anos como líderes no seguimento de importação e exportação.

Sem mais,

Philip Gutemberg.

 


Meu telefone toca, é Evan;

– Oi! – atendo feliz.

– Oi, que voz linda! Estou com saudade de vocês. – ele se declara.

– Estamos com saudade de você também. Fomos ao Central Park hoje. – Sinto a respiração de Evan em um tom de preocupação.

– Espero que Gunter tenha levado vocês. – ele adverte.

– Claro, Maria nos acompanhou também.

– Vou entrar em uma reunião que será breve, e logo em seguida vou para casa.

– Ótima notícia! A tarde está linda e talvez você possa deitar na espreguiçadeira comigo, o que acha?

– Melhor proposta que recebi hoje.

– Eu amo você.

– Amo mais, até logo.

 


Desligo o telefone, levantando e alcançando meu terno no cabide. Alinho minha gravata e abotoo apenas um botão. Estou calmo. Aprendi esperar. Desço os degraus com uma das mãos no bolso e com a outra coloca meus cabelos para trás.

– Sra. Everhill, está uma linda tarde, não acha? – Faço minha fiel recepcionista entender a sublime observação sobre a bela tarde ensolarada em Nova York.

– Com certeza, Senhor. – ela responde com um sorriso na linha firme de seus lábios.

– Boa tarde, Sr. Gutemberg. – Cinismo e educação misturados em um tubo de ensaio em minha voz.

– Conseguiu, Sr. Evan Louis Maccouant. – A sala de reuniões da Maccouant Import. está quase explodindo, graças à fúria de Philip. Eu estou sorrindo.

– Sim, Philip, eu sempre consigo o que quero. – Nosso aperto de mão não é amigável e por um valor simbólico consigo a posse da Gutemberg Associados de forma integral.


Epílogo


Alguns anos depois...

Vick


– Papai, eu quero nesse. – A voz suave de Cora me chama a atenção. Estou em meu antigo quarto, hoje é o quarto de Cora.

– Mas é alto, você pode cair. – Evan acompanha o doce timbre da pequena, e isso me leva até a janela do segundo andar da casa.

Posso ver as crianças ao redor de Evan. Romeo, de macacão jeans e camiseta branca que está suja com pequenas gotas de barro, no balanço que Lucca brincava quando criança; e Cora de vestido azul escuro, assim como o meu e como a camiseta do pai, descalça e com um lindo rabo de cavalo, tentando convencer o pai de que ela é capaz.

– Não vou cair. Você me segura, papai! – Cora estica suas mãos para que Evan a pegue e ele não resiste. Realiza todas as vontades deles, e as minhas também.

– Olha, Romeo, estou no balanço da mamãe!

– Eu estou no balanço do tio Lucca, balanço de menino! – ele declara sua masculinidade arrancando gargalhadas de Evan, que está de pé ao lado deles com as mãos a postos.

Realmente, passou rápido. Foram quatro anos e a cena da janela me remete ao primeiro dia deles na casa em Nova York. Evan pegou os gêmeos e apresentou cada cômodo, cada detalhe. Apresentou-os ao pequeno Evan simbolizado no quadro entre eles. No primeiro aniversário, onde Romeo ofertou seus primeiros passinhos e incentivou Cora a fazer o mesmo, os avôs vibraram.

A cena da janela me recompensa a cada instante, e de repente, sou flagrada pelos olhos de Evan, meu amor.

– Mamãe, estamos aqui! – Romeo me chama assim que Evan denuncia onde estou. Meu sonho bom, que me faz sorrir em um luxuoso hotel em Nova York.

– Estou vendo, meus amores! – Respondo, inclinando com parte do corpo pra fora da janela.

– Vem, mamãe! – Cora me chama e eu prontamente atendo seu pedido.

Sempre os atenderei.

– Sorriso lindo! – Evan me recebe com um abraço.

– Ele é seu.

– Quero descer! – Cora pede, choramingando.

– Vem. – Evan a pega e aperta. – Minha menininha linda! – Ele diz e beija seu rosto todo.

– Também quero descer. – Romeo se joga para Evan e a brincadeira entre meninos é diferente. – Eu sou forte, papai! – Romeo se agarra ao pescoço de Evan e sento na velha árvore.

– Sim, você é muito forte. – Evan se joga na grama com Romeo e Cora corre em cima deles.

– É bom ter crianças em casa. – Brinco, tentando remeter a uma frase que Evan costuma me dizer.

– Sim, agora temos quatro. – Evan responde, entre a bagunça organizada no gramado da casa na Escócia.

– Cora, não vou ganhar um beijo? – Abro meus braços para minha pequena menininha, que é uma cópia exata do pai.

Ela acena com a cabeça e corre em minha direção.

– Você sabia que eu amo você? – Pergunto, apertando meu indicador em sua barriga e fazendo-a gargalhar.

– Eu amo mais! – Ela responde como o pai dela. Ela aprendeu com ele.

– Minhas meninas, meus amores. – Evan olha para nós entre os pequenos movimentos de Romeo, que finge lutar.

– Meus meninos, meus amores. – Declaro-me com Cora no colo, e logo em seguida ela corre para a brincadeira na grama com o irmão e o pai.

– A mamãe é linda? – Evan pergunta para os gêmeos enquanto ele senta-os em seu colo.

– A mamãe mais linda do mundo! – Eles respondem juntos. Evan ensinou a nossos pequenos cortejos.

– Romeo, vem, vamos na escada. – Cora convida o irmão para pularem os degraus.

– Eu pulo mais alto, Cora! – Romeo é desafiador e possui um par de olhos azuis extraordinariamente sedutores.

– Não pula! – Cora protesta.

– Pulo sim! – Romeo sempre será dono da última palavra.

– Gostaria de mudar para essa casa? – Evan me pergunta assim que senta ao meu lado e me coloca em seu colo.

– Por que está perguntando isso?

– Porque você gosta dessa casa.

– Mas eu gosto da nossa casa em Nova York.

– Não gostaria mesmo de estender nossas férias aqui na Escócia e voltar para casa com histórias?

– Não, Evan, estou feliz com a casa menor cheia de brinquedos, com a casa maior e as cabanas espalhadas por ela. Adoro passar as férias aqui, mas gosto muito mais da história que estamos criando.

– Você me surpreende todos os dias. – Ele beija meu rosto.

– Mamãe, fala para a Cora que meu pulo é mais alto?

– Romeo, o meu pulo é mais alto! – Cora se manifesta lindamente.

– Não quero que briguem, os dois pulam na mesma altura. – Sorrio para eles, até mesmo advertindo. – E o que você quer agora? – pergunto, olhando para seus olhos verdes e brilhantes.

– Eu quero você. – Ele me aperta em seu colo.

– Isso você já tem, mas agora eles estão acordados, não podemos. – Sussurro em seu ouvido.

– Não tenho pressa, temos todo o tempo do mundo.

– A Cora caiu! – Romeo grita e nós vamos em direção a eles.

– Oi, meu amor, não chora! – O choro baixinho de Cora chega a doer. Olhinhos cheios de lágrimas e joelhos ralados. – Vamos lavar esses joelhinhos.

– Não, mamãe, vai doer. – Ela agarra meu pescoço.

– Não vai doer. – Beijo o rosto dela, é tão bom...

– Papai, eu falei que eu pulava mais alto. – Romeo cruza os bracinhos e se vangloria com o pai, que sorri da cena linda do pequeno ruivinho.

– Você pulou mais alto do que sua irmã? – Evan pergunta, arqueando as sobrancelhas.

– Eu pulei. – Romeo abre a boca em um bocejo lindo, coçando os olhos com as costas das mãos.

– Vem comigo? – Evan estende os braços e Romeo estende os dele, e todos nós seguimos em direção à casa.

– Acho que temos dois pequenos com sono por aqui, o que você acha, mamãe? – Evan pergunta, olhando Romeo quase entregue ao sono, enquanto termino de secar os joelhos de Cora.

– Vamos ver quem dorme primeiro? – Desafio em tom de competição.

– Mamãe, eu não quero dormir. – Cora termina a frase com um bocejo lindo na boquinha carnuda.

– Não está com sono? Então tudo bem, está com fome?

– Estou! – Ela responde com um sorriso lindo. Ela é muito Evan.

– Eu também! – Romeo responde no colo de Evan. Uma cena linda, um pimentinha no colo de Evan.

– Uma miniatura de você. – Evan olha para o pequeno Romeo, aproxima-se e me beija.

– Nossos pequenos milagres. – Falo baixinho ao lado de Evan enquanto eles comem pão de leite com pasta de amendoim.

Evan sorri, olhando para as pequenas bocas sujas e falantes.

– Espere um pouco, fique aqui com eles, já volto. – Subo e apanho alguns edredons e travesseiros. Arrumo o chão da sala, entre a lareira e o sofá, e volto para a cozinha. Cora e Romeo estão quase entregues ao sono.

– Vamos ver o que tem na sala? – Estico os braços para o meu ruivinho que está quase dormindo, e levo-o para a sala.

– Vamos, minha princesinha. – Evan pega Cora e a leva também.

– Temos uma cama grande para todo mundo dormir. – Falo, aconchegando meu ruivinho sobre o edredom azul e fofo. Evan faz o mesmo com Cora sobre o edredom rosa. Em menos de dez minutos eles estão dormindo.

– Bom de olhar. – Evan fala sorrindo, olhando nossos pequenos em um sono gostoso.

– Muito bom. – Beijo seu rosto e caminho até a varanda da frente da casa.

– Me deixou para trás por quê?

– Achei que você quisesse ficar olhando-os enquanto dormem, sempre faz isso. – Termino a frase e Evan me abraça por trás.

– Vai me fazer dormir também? – pergunto sorrindo, enquanto ele se senta no banco me aninhando em seu colo.

– Não quero que você durma, não agora. Fiquei com saudade de quando pegava você, mexia em seus cabelos, beijava seu rosto...

– Tenho que dividir esse colo agora. – Eu me aconchego.

– Mas você sabe que ele sempre será seu. – Ele me aperta.

– Fico feliz em ouvir isso, Sr. Maccouant. – Beijo seu rosto, que não sofre o castigo do tempo.

– Você sempre me salva, Ruiva. Amo seus olhos azuis. – Nossos olhares estão juntos e perdidos, um no outro.

– Você me completa, Evan.

– Ainda minha?

Ainda sinto o bater de asas das borboletas em meu estômago.

– Esta condição nunca irá mudar.


FIM


É natural que perguntem: Por que eu nunca quis saber mais sobre esse maldito Clube 13, o que acontecia e os detalhes das orgias financeira e sexualmente satisfatórias. Acredito realmente que algumas informações podem destruir a realidade. Apesar da minha curiosidade nata, eu estava mais apaixonada do que interessada em saber quantas vezes Evan esteve em Madri, ou por qual delas ele teve um envolvimento maior. Mas a verdade é que essa história está no passado dele, um lugar que ninguém mora, ninguém muda ou apaga, ela simplesmente existe, mas não teve força suficiente para continuar.

O Clube 13 foi a válvula de escape onde muitas mulheres estiveram à mercê de homens ricos e com estranhas manias. Uma história que Evan fez parte, ele contribuiu de forma integral, porém desistiu quando percebeu os verdadeiros valores que regem a vida.

Verdadeiramente falando, o Clube 13 precisaria de algumas páginas a mais, ou melhor, páginas exclusivamente destinadas a ele para relatar os detalhes sobre um bando de homens lindos, poderosos e ricos, porém com traumas e segredos que os levam a dividir mulheres.

Eles precisavam de sexo, sexo à maneira deles.


Victoria Campbell Maccouant


Prisão de Calegary, Estados Unidos

Dezembro


Talvez eu tenha apenas você, Lily. Sei que você é apenas um amontoado de papel grampeado. Mas eu só tenho você, meu diário... Minha Lily.

Hoje pela manhã ouvi as vozes da cela ao lado, o Natal está chegando. Essa é a parte difícil, lembrar que a minha família nunca me visitou, minha mãe pelo seu orgulho em nunca colocar os pés dentro de uma prisão, meu pai preferiu fingir que eu fui sepultada e não presa. Não tenho ninguém, e talvez nesse exato momento eu possa sentir a dor que Victoria sentiu, a dor de estar vazia.

Recordo-me de tudo que fiz e percebo que mereço estar abandonada como estou nesse momento, assim como eu fiz com ela. Mereço cada arrependimento, matei um anjo de propósito, matei porque não sabia viver.

Consigo ouvir seu pedido, sua clemência para o seu bebê, mas preferi ouvir meus demônios, todos eles, os que me enganavam sobre o amor, sobre o mundo e sobre as pessoas.

Por seu amor e bondade incondicional, Victoria conquistou tudo o que eu não tive. Hoje Victoria é umas das maiores designers da América, sua empresa rivaliza até mesmo com a Charper & Lousan, tem dois filhos com Evan e leva uma vida feliz. Sempre acompanho sua vida pelos jornais, toda semana é capa de alguma revista. E eu estou aqui, porque fui mesquinha, cruel e egoísta. E sei que mereço cada minuto nessa prisão.

Hoje consigo entender que meus sentimentos por Evan eram qualquer coisa, menos amor. Amor é altruista, é paciente, é clemente. Talvez agora, depois de todos esses anos, eu possa ter uma nova chance. Não com Evan, mas com a vida que colocou em meu caminho, alguém que se importe comigo de uma maneira que eu realmente não mereço.

Gostaria apenas que minhas orações para a família de Evan cheguem até eles, meu pedido de perdão e meu desejo que sejam realmente felizes. Peço também em nome de minha paz.

Você, meu diário, minha Lily, minha amiga leal que ouve em sigilo todos os meus pensamentos, por favor, mantenha-se firme ao meu lado, pelo menos enquanto essa pouca sanidade que me resta estiver aqui, nessa cela fria e pequena, assim como o meu coração.

 

 

                                                   Barbara Biazioli         

 

 

 

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