Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ALIADOS DA NOITE / Darren Shan
ALIADOS DA NOITE / Darren Shan

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Foi uma era de guerra. Depois de seiscentos anos de paz, os vampiros e os vampixiitas haviam pegado em armas para se enfrentar numa batalha brutal e sangrenta até a morte. A Guerra das Cicatrizes começou com a chegada do Senhor dos Vampixiitas.
Ele estava destinado a liderar o seu povo numa vitória total e consagradora — a menos que fosse morto antes de ser completamente vampirizado.
De acordo com o misterioso e poderoso Sr. Tino, apenas três vampiros tinham alguma chance de deter o Senhor dos Vampixiitas. O Príncipe, Vancha March; o velho General, Larten Crepsley; e um meio-vampiro, eu — Darren Shan.
Foi previsto pelo Sr. Tino que nosso caminho cruzaria quatro vezes com o do Senhor dos Vampixiitas, e que em cada uma dessas oportunidades o destino dos vampiros
estaria em nossas mãos, Se o matássemos, ganharíamos a Guerra das Cicatrizes. Senão, os vampixiitas viriam em nosso encalço em busca de uma vitória cruel e extinguiriam todo o nosso clã da face da Terra.
O Sr. Tino disse que não poderíamos recrutar outros vampiros para nos ajudarem durante a jornada, mas poderíamos aceitar a ajuda de não-vampiros. Assim, quando o Sr. Crepsley e eu deixamos a Montanha do Vampiro (Vancha, juntou-se a nós mais tarde), o único que veio conosco foi Harkat Mulds, um raquítico Pequenino de pele cinzenta.
Após deixar a Montanha — nosso lar durante seis anos —seguimos para a cova de Lady Evanna, uma bruxa muito poderosa. Ela podia ver o futuro, no entanto só nos faria uma revelação: se não conseguíssemos matar o Senhor dos Vampixiitas, dois de nós estariam mortos até o final da nossa jornada.
Mais tarde, nos juntamos ao Circo dos Horrores, onde vivi com o Sr. Crepsley quando, inicialmente, me tornei seu assistente. Evanna viajou conosco. No Circo, demos de cara com um grupo de vampixiitas. Uma pequena luta se seguiu, durante a qual a maior parte deles morreu. Dois escaparam — um já totalmente formado, chamado Gannen Harst, e o seu empregado, que mais tarde descobrimos se tratar do Senhor dos Vampixiitas disfarçado.
Ficamos irritados quando Evanna revelou a verdadeira identidade do empregado de Gannen Harst, mas Vancha ficou especialmente arrasado: ele havia deixado que escapassem. Harst era seu irmão e Vancha o deixou partir sem ao menos desafiá-lo e sem saber que ele era o principal protetor do Senhor dos Vampixiitas.
Mas não havia tempo para ficarmos sentados nos lamentando. Ainda tínhamos três chances para encontrar e matar nosso inimigo mortal, por isso nossa busca continuava. Afiamos nossas espadas e separamo-nos de Evanna e dos nossos amigos do Circo dos Horrores, deixando para trás a chance perdida. Pegamos a estrada novamente. Dessa vez, mais determinados do que nunca.


    .
  .
.

.
.
.


    CAPÍTULO UM
   
O SEU BOLETIM DIÁRIO, 15 DE SETEMBRO
NOITES MORTAIS E SANGRENTAS!!!
Esta cidade, outrora adormecida, está sitiada. No espaço de seis curtos meses, onze pessoas foram brutalmente assassinadas, seu sangue foi drenado e os corpos foram largados em vários locais públicos. Muitos mais desapareceram no meio das sombras da noite e podem estar jogados sob as ruas, corpos inertes se decompondo n a escuridão solitária.
   
Oficiais não conseguem calcular até que ponto já foi o terrível frenezi de matança. Eles não acreditam que os assassinatos sejam trabalho de um homem só, nem tiveram como ligar os crimes. criminosos conhecidos. Na maior operação policial já realizada
história da cidade, grande parte das gangues locais foidesmontada, líderes de cultos religiosos foram presos e as portas da irmandades secretas foram derrubadas... tudo isso não teve o menor efeito!
   
 
   
OBJETIVIDADE HABITUAL
   
A chefe de polícia, Alice Burgess, quando indagada sobre a falta de resultados, respondeu no seu estilo objetivo de sempre:
   
— Temos trabalhado pra burro — vociferou ela. — Todos estão fazendo horas extras não remuneradas. Ninguém está faltando à sua responsabilidade. Estamos patrulhando as ruas em grandes contingentes, prendendo qualquer um que pareça suspeito. Iniciamos um toque de recolher às sete horas da noite para crianças e aconselhamos os adultos a ficarem em casa também. Se vocês encontrarem alguém que possa fazer um trabalho melhor, liguem para mim que eu ficarei feliz em me afastar.
   
Palavras consoladoras, mas ninguém aqui está se sentindo muito consolado por
elas. As pessoas desta cidade estão cansadas de promessas e garantias. Ninguém duvida dos esforços honestos e diligentes da polícia local — ou do exército que foi chamado para ajudar na operação —, mas a fé em sua capacidade de dar um fim à crise nunca foi tão pequena. Muitos estão saindo da cidade e se hospedando com parentes em hotéis, até a matança cessar.
   
— Tenho filhos — contou-nos Michael Corbett, quarenta e seis anos de idade e dono de um sebo. — Fugir não me deixa orgulhoso e arruinará o meu negócio, mas as vidas dos meus filhos e da minha esposa vêm em primeiro lugar. A polícia não pode fazer mais agora do que fez há treze anos. Só temos que esperar que isso pare, como antes. Quando acontecer, eu voltarei. Por enquanto, acho que qualquer um que ficar por aqui é maluco.
   
 
   
HISTÓRIA DE MORTE
   
Quando o senhor Corbett falou do passado, estava se referindo há um momento, há quase treze anos, em que o horror se instalou pela cidade de uma maneira bem semelhante. Na ocasião, nove corpos descobertos por dois adolescentes, massacrados e dissecados, da mesma forma que as onze vítimas recentes.
   
No entanto, esses corpos foram escondidos cuidadosamente e só foram desenterrados muito tempo depois que as mortes haviam ocorrido. Os assassinos dos dias de hoje — quer dizer, das noites de hoje, já que cada vítima foi atacada depois do pôr do sol – não estão preocupados em ocultar seus feitos maléficos. É como se eles tivessem orgulho de sua crueldade, deixando os corpos onde sabem que serão encontrados.
   
Grande parte da população acha que a cidade está amaldiçoada e tem uma história de morte.
   
- Venho esperando essas mortes há cinquenta anos — disse o Dr. Kevin Beisty, um historiador local especializado em ocultismo. – Os vampiros já visitam esta região há cento e cinquenta anos e uma coisa que se pode dizer sobre esses seres é que, uma vez que encontram num lugar de que gostam... eles sempre voltam!
   
 
   
DEMÔNIOS DA NOITE
   
Vampiros. Se o Dr. Beisty fosse a única voz a se pronunciar contra os demônios
da noite, poderia ser considerado excêntrico e Ser ignorado. Mas muitos outros acreditam que estamos sofrendo nas mãos de vampiros. Estas pessoas apontam para o fato de que os ataques sempre ocorrem à noite, que os corpos tiveram todo o seu sangue drenado — aparentemente sem a ajuda de nenhum equipamento médico — e o mais impressionante é que, embora três das vítimas tenham sido fotografadas com câmeras de segurança escondidas quando estavam sendo atacadas, os rostos de seus agressores não aparecem no filme!
   
Alice Burgess rechaça a teoria da existência de vampiros.
   
Você acha que o Conde Drácula anda fazendo rebuliços por aí? — perguntou ela, rindo com desprezo. — Não seja ridículo. Estamos no século vinte e um. Seres humanos pervertidos e doentes é que estão por trás disso. Não faça com que eu perca o meu tempo culpando fantasmas!
   
Quando se sentiu pressionada, a chefe de polícia ainda acrescentou:
   
- Não acredito em vampiros e não quero que idiotas como você fiquem enchendo as cabeças das pessoas com essas bobagens. Mas vou lhe dizer uma coisa: farei tudo o que for necessário para deter esses selvagens. Se isso significa atravessar o peito de um desses malucos com uma estaca porque ele pensa que é um vampiro, eu o farei, mesmo que isso custe o meu emprego e a minha liberdade. Ninguém vai escapar alegando insanidade. Só há uma maneira de vingar as mortes de onze bons homens e mulheres... extermínio!
   
E eu farei isso — jurou a chefe Burgess, com um brilho tão ardente em seus olhos claros que teria deixado o professor Van Helsing orgulhoso. — Mesmo que eu tenha que persegui-los até a Transilvâinia e voltar, Eles não terão como escapar da espada da Justiça, sejam humanos ou vampiros.
   
— Diga aos seus leitores que pegarei aquele que os vem atormentando. Eles podem apostar nisso. Podem apostar suas vidas...
   
O Sr. Crepsley empurrou a tampa do bueiro e a tirou do caminho, enquanto Harkat esperávamos mais abaixo, na escuridão. Depois de dar uma olhada na rua em busca de sinais de vida, ele sussurrou:
   
- Está tudo limpo. – E o seguimos, enquanto subia a escada até onde o ar era mais
fresco.
   
- Odeio esses túneis malditos – falei, sussurrando, enquanto tirava os sapatos, que estavam ensopados de água, lama e outras coisas, nas quais eu não queria pensar. Teria que lavá-los na pia quando voltássemos para o hotel e deixá-los em cima do aquecedor para secar, como vinha fazedno no final de todas as noites ao longo dos últimos três meses.
   
- Eu também os desprezo – concordou o Sr. Crepsley enquanto retirava delicadamente os restos de um rato morto das dobras de seu longo manto vermelho.
   
- Eles não são tão maus – comentou Harkat, com uma risadinha. Para ele estava tudo bem... Não tinha nariz e nem oufato!
   
- Pel menos a chuva deu uma trégua – disse o Sr. Crepsley.
   
— Dê mais um mês — respondi amargamente. — Estaremos andando com água até os quadris quando chegarmos em meados de outubro.
   
— Até lá já teremos localizado e tratado dos vamp xiitas —disse o Sr. Crepsley, sem convicção.
   
— Isso foi o que você disse há dois meses — lembrei. — E no mês passado — acrescentou Harkat.
   
— Você quer cancelar a busca e deixar essas pessoas para os vampixiitas? — perguntou calmamente o Sr. Crepsley.
   
Eu e Harkat olhamos um para o outro, depois sacudimos as cabeças.
   
— É claro que não — suspirei. — Estamos apenas cansados e mal-humorados. Vamos voltar para o hotel, nos secar e tentar arrumar algo quente para comer. Ficaremos bem depois de um bom dia de sono.
   
Assim que encontramos uma escada de incêndio, subimos até o topo do prédio e seguimos pelos telhados da cidade, onde não havia policiais ou soldados.
   
Seis meses se passaram desde que o Senhor dos Vampixiitas escapara. Vancha fora para a Montanha do Vampiro contar as novidades para os príncipes e generais, e ainda não tinha voltado. Durante os três primeiros meses, o Sr. Crepsley, Harkat e eu havíamos perambulado sem destino, deixando nossos pés nos levarem para onde
quisessem. E então as notícias do terror na cidade natal do Sr. Crepsley chegaram a nós: as vítimas estavam sendo mortas e seu sangue era drenado dos corpos. Relatos alegavam que a culpa era dos vampiros, mas nós sabíamos qual era a verdade. Antes disso, tínhamos ouvido rumores da presença de vampixiitas na cidade, e essa era toda a confirmação de que precisávamos.
   
O Sr. Crepsley se preocupava com essas pessoas. As que conhecera quando vivia lá nos seus tempos de humano já estavam mortas e enterradas há muito tempo, porém zelava por seus netos e bisnetos como se fossem parentes espirituais. Treze anos antes, quando um vampixiita louco que atendia pela alcunha de Vampirado estava atacando a cidade, o Sr. Crepsley voltara à cidade para detê-lo, acompanhado de mim e de Ofídio, o menino-cobra do Circo dos Horrores. Agora que a história estava se repetindo, ele se sentia obrigado a intervir novamente.
   
- Mas talvez eu deva ignorar os meus sentimentos — refletira ele três meses atrás, enquanto discutíamos a situação.
   
- Temos que nos concentrar na caçada ao Senhor dos Vampixiitas. Será errado da minha parte fazer com que nos afastemos de nossa busca.
   
— Nem tanto — discordara eu. — O Sr. Tino nos disse que teríamos que seguir os nossos corações se quiséssemos encontrar o Senhor dos Vampixiitas. Seu coração está arrastando-o de volta para casa e o meu diz que devo ficar do seu lado. Acho que devemos ir.
   
Harkat Mulds, que havia aprendido a falar, concordou, então seguimos para a cidade onde o Sr. Crepsley havia nascido a fim de avaliar a situação e, se possível, ajudar. Quando chegamos, logo nos vimos no meio de um mistério desconcertante. Definitivamente, os vampixiitas estavam vivendo aqui—pelo menos três ou quatro, se nossas estimativas estavam corretas. Mas será que eles faziam parte da força de guerra ou eram apenas loucos pervertidos? Se fossem guerreiros, deveriam ter mais cuidado com a forma como cometiam seus assassinatos, pois vampixiitas normais não deixavam os corpos de suas vítimas onde os humanos pudessem encontrá-los. E se fossem loucos, não deveriam ser capazes de se esconder com tanta habilidade, já que, depois de três meses de busca, não havíamos encontrado sinais da presença de um único vampixiita nos túneis que passavam sob a cidade.
   
De volta ao hotel, subimos para os quartos pela janela. Havíamos alugado dois no andar mais alto e usávamos as janelas para entrar e sair à noite, uma vez que estávamos muito sujos e molhados para usar o lobby. Ademais, quanto menos nos movíamos pelo chão, melhor. A cidade estava num verdadeiro caos,
   
com policiais e soldados patrulhando as ruas e prendendo todo mundo que parecesse um pouco deslocado.
   
Enquanto o Sr. Crepsley e Harkat usavam os banheiros, tirei a roupa e esperei para tomar banho com mais liberdade. Poderíamos ter alugado três quartos, de modo que cada um ficasse com um banheiro, mas era mais seguro para Harkat não ficar se exibindo. Eu e o Sr. Crepsley podíamos muito bem nos passar por humanos, o monstruoso e remendado Harkat, não. Quase dormi sentado na
beirada da cama. Os três últimos meses foram longos e árduos, Toda noite nós perambulávamos pelos telhados e túneis da cidade, procurando vampixiitas, evitando a polícia, soldados e humanos apavorados, muitos dos quais haviam adotado o hábito de carregar rifles e outras armas. Aquilo já estava nos cansando, mas onze pessoas haviam morrido — pelo que sabíamos — e outras ainda sucumbiriam se não prosseguíssemos com a nossa tarefa.
   
Levantei-me e fiquei andando pelo quarto, tentando me manter acordado o bastante para entrar no banho. Às vezes, não conseguia e acabava acordando na noite seguinte fedendo, suado e imundo, sentindo-me um lixo. Pensei na minha visita anterior a esta cidade. Eu era bem mais novo, e ainda estava aprendendo o que significava ser um meio-vampiro. Conheci minha primeira e única namorada aqui —Débora Cicuta. Ela tinha a pele escura, lábios carnudos e olhos luminosos. Adoraria tê-la conhecido melhor, mas o dever me chamou. O vampixiita louco fora morto e as estradas da vida nos afastaram.
   
Passei a pé pela casa onde ela vivia com seus pais várias vezes desde que voltei, meio que esperando que ainda vivesse ali. No entanto, havia novos inquilinos no local e nenhum sinal dos Sicuta. De fato, tanto fazia. Como meio-vampiro, meu envelhecimento é cinco vezes mais lento que o de um ser humano normal. Por isso, embora tenham se passado quase treze anos desde que beijei Débora pela última vez, eu só parecia alguns anos mais velho. Ela seria uma mulher adulta agora. Seria estranho se nos encontrássemos por acaso.
   
A porta que ligava os quartos se abriu e Harkat entrou, secando-se com uma enorme toalha do hotel.
   
— O banheiro está livre - disse ele, enquanto esfregava a toalha
   
no topo de sua cabeça calva, cinzenta e cheia de cicatrizes, tomando cuidado para não irritar seus olhos verdes e redondos, que não possuíam pálpebras para protegê-los.
   
— Viva, orelhas! — sorri, enquanto passava por ele. Essa era uma brincadeira que fazíamos entre nós. Harkat, como todos os Pequeninos, tinha orelhas, mas como estavam costuradas sob a pele nas laterais da cabeça, parecia que ele não as tinha.
   
Harkat havia esvaziado a banheira, colocado a tampa do ralo de volta e aberto a torneira de água quente, de modo que ela estava quase cheia com água limpa quando cheguei. Testei a temperatura, acrescentei um pouco de água fria, fechei as torneiras e deslizei para dentro — que divino! Levantei uma das mãos para tirar uma mecha de cabelo que estava em cima dos meus olhos mas o meu braço não conseguia levantar, eu estava muito cansado. Relaxado, decidi ficar deitado alguns minutos. Poderia lavar o meu cabelo mais tarde. Ficar simplesmente deitado na banheira e relaxar... por alguns minutos... seria...
   
Sem terminar o pensamento, acabei caindo num sono pesa do. Quando acordei, já havia anoitecido novamente e eu estava azul da cabeça aos pés por ter
passado o dia numa banheira cheia de água fria e suja.
   
 
    Capítulo Dois
   
 
   
Voltamos ao hotel no final de mais uma noite longa e decepcionante. Estávamos no mesmo hotel desde que chegamos à cidade. Não tínhamos a intenção — o plano era ficar mudando de residência a cada duas semanas —, mas a busca pelos vampixiitas havia nos deixado tão exaustos que não tivemos como reunir energia para ficar procurando novas acomodações. Até o robusto Harkat Mulds, que não precisava dormir muito, apagava de quatro a cinco horas por dia.
   
Sentia-me melhor depois do banho quente e liguei a TV para ver se havia alguma notícia sobre os assassinatos. Descobri que era quinta-feira de manhã bem cedo (os dias se fundem uns nos outros quando você vive entre vampiros e eu mal estava me apercebendo deles) e nenhuma nova morte fora noticiada. Já fazia quase duas semanas desde que se descobrira o último
   
corpo. Havia um mínimo traço de esperança no ar e muitas pessoas pensavam que o reinado do terror chegara ao fim. Duvidava que teríamos tanta sorte, mas mantive os dedos cruzados enquanto desligava o aparelho e seguia para a convidativa cama do hotel.
   
Algum tempo mais tarde, fui acordado com uma baita sacudida. Uma luz forte brilhava através do fino material das cortinas e soube no mesmo instante que ou era meio-dia ou estava no começo da tarde, cedo demais para pensar em sair da cama. Resmungando, levantei-me e vi um Harkar de olhar ansioso mclinando-se sobre mim.
   
- O que foi? — murmurei,esfregando os resquícios de sono dos olhos.
   
- Alguém está batendo na... sua porta disse Harkat, em voz bai xa.
   
- Diga a eles para, por favor, irem embora — respondi assim ou com palavras
parecidas.
   
— Eu ia, mas... — Ele fez uuma pausa.
   
- Quem é? — perguntei, sentindo que problemas estavam a caminho .
   
- Não sei. Abri uma fresta da minha porta... e chequei. Não é ninguém ligado ao hotel, embora... ele esteja com um dos funcionários. Trata-se de um homem baixo, carregando uma grande... maleta e ele... — Mais uma vez Harkat fez uma pausa. — Venha ver com seus olhos.
   
Levantei-me logo que ouvi uma nova série de batidas na porta. Corri para o quarto de Harkat. O Sr. Crepsley dormia profundamente em uma das camas de solteiro. Passamos por ele andando na ponta dos pés e abrimos uma fresta da porta. Uma das figuras no corredor era familiar — o gerente do hotel que trabalhava de dia —, mas eu nunca havia visto a outra. Ele era pequeno, como Harkat havia dito, magro e trazia uma enorme maleta preta. Usava um paletó cinza-escuro, sapatos pretos e um chapéo-coco fora de moda. Estava franzindo a testa e erguendo o punho cerrado para bater novamente enquanto fechamos a porta.
   
- Você acha que devemos atender? — perguntei para Harkat.
   
— Sim. Ele não parece ser do tipo que... irá embora se o ignorarmos.
   
- De quem você acha que se trata?
   
— Não tenho certeza, mas há algo de... oficial em sua aparência. Pode ser um policial ou... alguém do exército.
   
— Você não acha que eles conhecem...? — Acenei com a cabeça na direção do vampiro que dormia.
   
— Eles enviariam mais do que um homem... se fosse o caso — retrucou Harkat.
   
Pensei nisso por um instante e então decidi.
   
- Vou ver o que ele quer. Mas não o deixarei entrar a não ser que seja obrigado. Não quero ninguém à espreita por aqui enquanto o Sr. Crepsley estiver descansando.
   
— Será que devo ficar? — perguntou Harkat.
   
Sim, mas esconda-se perto da porta e não a tranque, Chamarei, caso haja
problemas.
   
Deixando Harkat para trás para que pegasse seu machado, vesti rapidamente um par de calças e uma camiseta, e fui ver o que o homem no corredor queria. Parando à frente da porta, sem abri-la, pigarreei e gritei inocentemente:
   
- Quem é?
   
Respondendo imediatamente, numa voz que mais parecia o latido de um cachorro pequeno, o homem da maleta disse:
   
- Sr. Horston?
   
- Não — respondi, num pequeno suspiro de alívio. — Voce bateu no quarto
errado.
   
— Oh? — O homem no corredor parecia surpreso. — Este não é o quarto do Sr. Vur Horston?
   
- Não, é... — estremeci. Tinha me esquecido dos nomes falsos que havíamos dado quando nos registramos! O Sr. Crepsley havia assinado como Vur Horston e eu dissera que era seu filho. (Harkat havia entrado se arrastando quando ninguém estava olhando.) — Quer dizer — recomecei este é o meu quarto, não o do meu pai. Sou Darren Horston, seu filho.
   
- Ah. — Dava para sentir o seu sorriso do outro lado da porta. — Excelente. Você é o motivo que me traz aqui. O seu pai está aí do seu lado?
   
Ele está... — hesitei. — Por que quer saber? Quem é você?
   
— Se abrir a porta e me deixar entrar, eu explicarei.
   
- Gostaria de saber antes quem é você. O momento é de muito perigo. Disseram que eu não podia abrir a porta para estranhos.
   
— Ah. Excelente — repetiu o homenzinho. — Já devia esperar, é claro, que você não fosse abrir a porta para um visitante inesperado. Desculpe. Sou o Sr. Blaws.
   
- Claus?
   
- Blaws — repetiu, soletrando pacientemente.
   
— O que quer, Sr. Blaws?
   
— Sou um inspetor escolar. Vim aqui descobrir por que você nãoo está na
escola.
   
— Meu queixo caiu cerca de mil quilômetros.
   
- Posso entrar, Darren? — insistiu o Sr. Blaws. No que não respondi, ele bateu na porta com força mais uma vez e gritou: — aaaaaaarren?
   
— Hum. Só um minuto, por favor — murmurei, antes de dar Costas para a porta e me recostar delicadamente, pensando freneticamente no que devia fazer.
   
Se eu mandasse o inspetor embora, ele voltaria com ajuda, por isto resolvi abrir a porta e deixá-lo entrar. O gerente do hotel partiu assim que viu que estava tudo bem, deixando-me sozinho com o sisudo Sr. Blaws. O homenzinho colocou sua maleta no chão, depois tirou seu chapéu-coco e o segurou na mão esquerda, às suas costas, enquanto me cumprimentava com a direita. Ele me estudava cuidadosamente. Havia uma leve camada de pelos no meu queixo, meu cabelo estava longo e sujo e meu rosto tinha pequenas cicatrizes e marcas de queimaduras dos meus Rituais de Iniciação de sete anos atrás.
   
— Você parece bem mais velho — comentou o Sr. Blaws, sentando-se sem pedir licença. — Maduro demais para quem tem quinze anos. Talvez seja o cabelo. Você ficaria bem com um corte e a barba feita.
   
- Acho que... — Não sabia por que ele achava que eu tinha quinze anos. Eu estava muito desconcertado para corrigi-lo.
   
- Então! — disse num tom de voz mais alto enquanto punha seu chapéu-coco para o lado e colocava a enorme maleta no colo. — O seu pai... o Sr. Horston... está?
   
- Hum... sim. Ele está... dormindo. — Eu estava achando difícil encadear as
palavras.
   
Oh, é claro. Esqueci que ele trabalha de noite. Talvez eu deva voltar numa hora mais conveniente... — Ele foi diminuindo o tom de voz, abriu a maleta, tirou uma folha de papel e a examinou como se fosse um documento histórico. — Ah, não será possível vir em outra data, minha agenda está muito apertada. Você terá que acordá-lo.
   
— Hum. Certo. Eu irei... ver se ele está... — Corri para onde o vampiro estava dormindo e o sacudi ansiosamente para acordá-lo. Harkat ficou atrás, sem dizer nada. Ele tinha ouvido tudo e estava tão confuso quanto eu.
   
O Sr. Crepsley abriu um olho, viu que estava de dia e o fechou novamente.
   
- O hotel está pegando fogo? — perguntou, aos gemidos.
   
— Não.
   
- Então vá embora e...
   
— Tem um homem no meu quarto. Um inspetor de colégio. Ele sabe os nossos nomes... pelo menos os nomes que demos na recepção... e acha que eu tenho quinze anos. Ele quer saber por que eu não estou na escola.
   
O Sr. Crepsley pulou da cama como se tivesse sido mordido.
   
Como pode? — vociferou. Ele correu para a porta, parou e enfim recuou lentamente. — Como ele se identificou?
   
- Só me disse o seu nome... Sr. Blaws.
   
Pode ter contado uma história qualquer só para encobrir alguma coisa.
   
- Creio que não. O gerente do hotel estava com ele. Não teriam deixado que ele subisse se não estivesse agindo de forma correta. Além do mais, o sujeito se parece com um inspetor de colégio.
   
— As aparências enganam — assinalou o Sr. Crepsley.
   
- Não dessa vez. É melhor você se vestir e falar com ele.
   
O vampiro hesitou, mas acabou acenando atenciosamente com a cabeça. Deixei-o para que se vestisse e fui fechar as janelas do meu quarto. O Sr. Blaws me olhou de um jeito estranho.
   
- Os olhos do meu pai são muito sensíveis — afirmei. — É por isso que ele prefere trabalhar à noite.
   
- Ah — retrucou o Sr. Blaws. — Excelente,
   
Não dissemos nada durante os minutos seguintes, enquanto encravamos que o meu "pai" fizesse a sua entrada. Estava me sentindo muito pouco à vontade, sentado em silêncio com um estranho, embora ele agisse como se estivesse perfeitamente em casa. Quando o Sr. Crepsley finalmente entrou, o Sr. Blaws se levantou e apertou sua mão, sem largar a maleta.
   
- Sr. Horston — disse o inspetor, radiante. — É um prazer, senhor.
   
Igualmente. — O Sr. Crepsley deu um breve sorriso, depois se sentou o mais longe que podia das cortinas, enrolando-se fortemente com o robe vermelho.
   
— E então! — O Sr. Blaws levantou a voz depois de um curto silêncio. — O que há de errado com o nosso jovem soldado?
   
— Errado? — O Sr. Crepsley piscou. — Não há nada de errado.
   
— Então por que ele não está no colégio como todos os garotos e garotas?
   
- Darren não vai à escola — disse o Sr. Crepsley, como se estivesse falando com um idiota. — Por que deveria?
   
O Sr. Blaws ficou perplexo.
   
- Ora, para aprender, Sr. Horston, assim como qualquer rapaz de quinze anos.
   
- Darren não tem... — O Sr. Crepsley se conteve. — Como você sabe a sua idade? — perguntou com cautela.
   
— Vi na sua certidão de nascimento, é claro — riu o suposto inspetor.
   
O Sr. Crepsley ficou me olhando em busca de uma resposta, mas eu estava tão perdido quanto ele e só conseguia encolher os ombros, sem ação.
   
- E como você a obteve? — insistiu o vampiro.
   
O Sr. Blaws nos olhou de um jeito estranho.
   
— Você a anexou junto ao resto dos documentos importantes quando o matriculou na Mahler's.
   
— Mahler's? — repetiu o Sr. Crepsley.
   
— A escola que escolheu para mandar Darren.
   
O Sr. Crepsley afundou na cadeira e ficou meditando. Então pediu para ver a certidão de nascimento, junto com os outros "documentos importantes". O Sr. Blaws enfiou novamente a mão dentro da maleta e tirou uma pasta.
   
— Tome. Certidão de nascimento, documentos da sua escola anterior,
certificados médicos, a papelada da matrícula que você preencheu. Tudo à vista e correto.
   
O Sr. Crepsley abriu a pasta, passou os olhos em algumas folhas, examinou as assinaturas na parte de baixo de um formulário e depois a passou para mim.
   
- Examine bem esses papéis. Verifique se todas essas informações estão...
corretas.
   
Não estavam corretas, era óbvio — eu não tinha quinze anos e não havia estado em colégio nenhum recentemente; nem havia visitado médico algum desde que me juntei às fileiras dos não mortos —, mas eram bem detalhadas. Os arquivos davam um quadro geral da vida de um garoto de quinze anos de idade chamado Darren Horston, que havia se mudado para esta cidade durante o verão com o pai, um sujeito que trabalhava à noite num matadouro local e...
   
Fiquei com a respiração presa na garganta — o abatedouro era o tal onde havíamos encontrado o vampixiita louco, Vampirado, pela primeira vez há treze anos!
   
— Veja isso! — falei, arfante, segurando uma das fichas para que o Sr. Crepsley
a visse, mas ele a afastou.
   
- Esses dados são precisos? — perguntou o vampiro.
   
- É claro que são precisos — respondeu o Sr. Blaws. — Você mesmo os preencheu. — Ele apertou os olhos. — Não?
   
— É claro que sim — intervim rapidamente, antes que o Sr. Crepsley pudesse responder. — Desculpe estarmos agindo de um jeito tão confuso. Foi uma semana muito dura. Sabe... problemas familiares.
   
— Ah. Foi por isso que você não apareceu na Mahler's.
   
Sim. — Forcei um sorriso vacilante. — Devíamos ter ligado e informado ao senhor. Desculpe. Não pensei.
   
Sem problemas — disse o Sr. Blaws, enquanto pegava a papelada de volta. — Fico feliz que tenha sido só isso. Temíamos que algo ruim houvesse acontecido com você.
   
- Não — retruquei, lançando um olhar para o Sr. Crepsley que dizia "coopere". — Nada de mal aconteceu.
   
- Excelente. Então você estará no colégio na segunda-feira?
   
- Segunda-feira?
   
— Quase não vale a pena ir amanhã, pois já estaremos no final da semana. Venha na segunda-feira de manhã cedo que lhe mostraremos as nossas instalações e permitiremos que você organize o seu horário. Peça o que qui...
   
- Com licença — interrompeu o Sr. Crepsley —, mas Darren não irá para a sua escola na segunda-feira e nem em dia algum.
   
Oh? — O Sr. Blaws franziu a testa e fechou delicadamente a sua maleta. — Ele já se matriculou em outra escola?
   
— Não. Darren não precisa ir para a escola. A educação dele é de minha responsabilidade.
   
- Sério? Não há nenhuma menção nos registros de que você é um professor
qualificado.
   
— Não sou um...
   
E, é claro — prosseguiu Blaws —, ambos sabemos que apenas um professor qualificado pode educar uma criança em casa. — Ele sorriu como se fosse um tubarão. — Não é mesmo?
   
O Sr. Crepsley não sabia o que dizer. Ele não tinha nenhuma experiência com o sistema educacional moderno. Quando era menino, seus pais podiam fazer o que quisessem com os filhos. Decidi resolver o problema sozinho.
   
- Sr. Blaws?
   
— Sim, Darren?
   
- O que aconteceria se eu não aparecesse na Mahler's? Ele deu uma fungada com um ar meio esnobe.
   
- Se você se matricular em uma escola diferente e me passar a papelada, tudo
bem.
   
— E se, por acaso, eu não me matricular em outra escola?
   
O Sr. Blaws deu uma gargalhada.
   
- Todo mundo tem que ir ao colégio. Assim que você fizer dezesseis anos, o seu tempo será todo seu, mas até os próximos... — ele abriu a maleta novamente e checou seus arquivos — ... sete meses, você tem que ir ao colégio.
   
- E se eu optar por não ir...?
   
- Mandaremos um assistente social para ver qual é o problema.
   
— E se nós pedíssemos para que você rasgasse o meu formulário de matrícula e se esquecesse de mim... se disséssemos que o enviamos por engano... e então?
   
O Sr. Blaws ficou batendo com os dedos no topo do seu chapéu-coco. Ele não estava acostumado com perguntas bizarras e não sabia o que devia fazer conosco.
   
- Não podemos sair por aí rasgando documentos oficiais, Darren — respondeu, rindo inquieto.
   
- Mas e se nós os tivéssemos enviado acidentalmente e quiséssemos pegá-los de
volta?
   
Ele balançou a cabeça com firmeza.
   
- Não estávamos a par da sua existência antes de você nos Contatar, mas agora que estamos, somos responsáveis por você. Teríamos que procurá-lo se achássemos que você não estava btendo uma educação apropriada.
   
- Isso quer dizer que você mandaria assistentes sociais atrás de nós?
   
- Primeiro, seriam assistentes sociais – concordou o inspetor, para depois nos lançar um olhar que ostentava um certo brilho. – Claro, se você começasse a nos dar trabalho, teríamos que chamar a polícia logo em seguida. E quem sabe aonde isso iria dar.
   
Comecei a aceitar tal informação como fato, acenei com a cabeça de um jeito inflexível, e depois encarei o Sr. Crepsley.
   
- Você sabe o que isso quer dizer, não? – Ele me olhou de volta com um ar duvidoso. – Que terá que começar a preparar lanches para mim!
   
 
    Capítulo Três
   
 
   
- Intrometido e presunçoso, seu estúpido... – vociferou o Sr. Crepsley. Ele estava andando pelo quarto, amaldiçoando o Sr. Blaus. O inspetor do colégio havia partido e Harkat juntou-se de novo a nós. Escutara tudo através da fina porta que separava os dois cômodos, mas não tinha uma explicação melhor para tudo aquilo. – Vou rastreá-lo durante a noite e chupar todo o seu sangue até ele secar – prometeu o vampiro. – Isso vai ensiná-lo a não meter o nariz onde não deve!
   
- Falar assim não vai resolver nada – suspirei, - temos que usar as nossas
cabeças.
   
- Quem disse que se trata de falar? – retrucou o Sr. Crepsley. – Ele nos deu seu número de telefone. No caso de precisar contatá-lo. Encontrei seu endereço e...
   
- É um telefone celular – lamentei com mais suspiros. – Não dá para rastrear endereços através deles. Além do mais, qual seria a vantagem de se recorrer a um assassinato? Alguém iria substituí-lo. Nossos dados estão arquivados. Ele não passa de um mensageiro.
   
- Poderíamos nos mandar daqui – sugeriu Harkat. – Encontrar um novo hotel.
   
- Não — disse o Sr. Crepsley. — Ele já viu os nossos rostos e iria espalhar nossas descrições. As coisas ficariam mais complicadas do que já estão.
   
- O que eu gostaria de saber é como conseguiram nossos dados — comentei. — As assinaturas nas fichas não eram nossas, mas estavam muito parecidas.
   
- Eu sei — resmungou Crepsley. — Não se tratavam de grandes falsificações, mas estavam adequadas.
   
- É possível que tenha havido alguma... confusão? — perguntou Harkat.
   
- Talvez um Vur Horston e seu filho... tenham enviado os formulários, e vocês tenham sido confundidos com eles.
   
- Não — respondi. — O endereço deste hotel estava incluído, assim como os números dos nossos quartos. E... — Eu lhes falei sobre o abatedouro.
   
O Sr. Crepsley parou de andar.
   
- Vampirado! — sibilou. — Esse foi um período da história que eu achava que jamais teria que relembrar.
   
— Não entendo — disse Harkat. — Como isso pode estar ligado ao Vampirado? Você está dizendo que ele está vivo e... armou tudo?
   
— Não — respondeu o Sr. Crepsley. — Vampirado está definitivamente morto. Mas alguém deve saber que o matamos. E esse alguém deve ser, quase que certamente, responsável pelas mortes de humanos que ocorreram recentemente. — Ele se sentou e afagou a longa cicatriz que marcava o lado esquerdo do seu rosto. — Isso é uma armadilha.
   
Deu-se um silêncio longo e tenso.
   
— Não pode ser — afirmei, enfim. — Como foi que os vampixiitas descobriram o que aconteceu com o Vampirado?
   
- Desmond Tino - disse o Sr. Crepsley, desolado. — Ele soube da nossa rixa com Vampirado e deve ter contado tudo para os vampixiitas. Mas não consigo entender por que falsificaram a certidão de nascimento e os dados escolares. Se soubessem tanto sobre nós, e ainda onde estávamos, deveriam ter nos matado de forma limpa e honrada, como é do feitio dos vampixiitas.
   
- É verdade - notei. — Você não pune um assassino mandando-o para a escola. Embora — acrescentei, lembrando-me dos meus tempos de colégio — a morte possa às vezes parecer melhor o que dois tempos de ciências numa tarde de quinta-feira...
   
Mais uma vez um silêncio profundo se fez. Harkat o quebrou pigarreando.
   
— Isso parece maluquice — disse o Pequenino —, mas e se o Sr. Crepsley tivesse... entregado os formulários?
   
— O que você disse? — perguntei.
   
— Ele poderia ter feito isso... durante o sono.
   
— Você acha que ele redigiu uma certidão de nascimento e uma série de dados escolares durante o sono e depois os entregou para escola local? — Nem me preocupei em rir.
   
— Coisas assim já aconteceram antes — murmurou Harkat. — Está lembrado de Pasta O'Malley do... Circo dos Horrores? Ele lia livros à noite quando estava dormindo. Jamais conseguia se lembrar de que os havia lido, mas se você perguntasse... sobre o conteúdo, ele podia responder todas as suas perguntas.
   
- Havia me esquecido de Pasta — murmurei, pensando um pouco na sugestão de
Harkat.
   
— Eu não poderia ter preenchido aqueles formulários — disse Crepsley com
firmeza.
   
É improvável — concordou Harkat —, mas nós fazemos coisas estranhas... quando dormimos. Talvez você...
   
— Não — interrompeu o Sr. Crepsley. Você não entende. Eu não poderia tê-lo feito porque... — Ele olhou para o nada, encabulado. — Não sei ler nem escrever.
   
O vampiro devia ter duas cabeças, pelo jeito que Harkat e eu o olhamos,
estupefatos.
   
— É claro que você sabe ler e escrever! — vociferei. — Você assinou o seu nome quando fizemos o check in.
   
— Assinar o nome é fácil — respondeu ele calmamente, com a dignidade ferida. — Posso ler números e reconhecer certas palavras. Também sou capaz de ler mapas com bastante precisão. Mas quanto a ler e escrever genuinamente... — Ele balançou a cabeça.
   
— Como você não consegue ler e escrever? — perguntei de um jeito ignorante.
   
— As coisas eram diferentes no tempo em que eu era jovem. O mundo era mais simples. Não era necessário ser um mestre da palavra escrita. Eu era o quinto filho de uma família pobre e comecei a trabalhar com oito anos de idade.
   
— Mas... mas... — Levantei a mão com o dedo em riste, apontando em sua direção. — Você me disse que amava as peças e os poemas de Shakespeare!
   
— Eu gosto — disse ele. — Evanna leu todos os seus trabalhos para mim ao longo das décadas. Wordsworth, Keats, Joyce... e muitos outros. De vez em quando eu dizia a mim mesmo que iria aprender a ler sozinho, mas nunca consegui.
   
— Isso é... Eu não... Por que você nunca me contou? Estamos juntos há quinze anos e esta é a primeira vez que menciona isso! Ele encolheu os ombros.
   
— Achei que você já soubesse. Muitos vampiros são iletrados. É por isso que há tão pouco escrito sobre nossa história ou nossas leis... a maioria de nós não é capaz de ler.
   
Balançando minha cabeça, exasperado, deixei de lado a revelação do vampiro e me concentrei no problema mais urgente.
   
- Você não preencheu os formulários... isso a gente já sabe.
   
- Então quem o fez? E o que vamos fazer em relação a isso?
   
O Sr. Crepsley não tinha resposta para minha pergunta, mas Harkat tinha uma
sugestão.
   
- Pode ter sido o Sr, Tino. Ele adora criar confusão. Talvez seja o seu conceito... de brincadeira.
   
Ficamos ponderando sobre isso.
   
- Isso me cheira a coisa dele — concordei. — Não entendo por que o Sr. Tino iria me mandar de volta para a escola, mas é o tipo de tramoia que consigo imaginá-lo armando.
   
- O Sr. Tino parece ser a opção mais lógica — afirmou o Sr. Crepsley. – Os Vampixiitas não são conhecidos pelo seu senso de humor. Nem costumam fazer planos muito complexos. Como os vampiros, eles são simples e diretos.
   
- Vamos dizer que ele está por trás disso — cismei. — Isso ainda não deixa com o problema de não saber o que fazer. Será que eu devo aparecer no colégio na segunda-feira de manhã? Ou devemos ignorar o aviso do Sr.Blaws e dar continuidade ao que estávamos
fazendo antes?
   
- Preferia não ter de mandá-lo para a escola — disse o Sr. Crepsley. – Nossa união faz a nossa força. No momento, estamos bem preparados para nos defender caso sejamos atacado.. Como você na escola, não estaríamos lá para ajudá-lo caso ficasse em apuros, assim como você não teria como nos ajudar caso nossos inimigos fizessem um ataque aqui.
   
- Mas e se eu não for - assinalei — teremos inspetores de colégio... o que é pior... nos ns nossos calcanhares.
   
- A outra opção é partir — disse Harkat. — É só pegarmos nossas mochilas e nos mandarmos.
   
- Isso é algo que vale a pena considerar — concordou o Sr, Crepsley. — Não gosto da ideia de deixar essas pessoas aqui sofrendo, mas se isso for uma armadilha com o objetivo de nos dividir, é possível que as mortes parem caso partamos.
   
— Ou podem aumentar — retruquei — para que fiquemos tentados a voltar.
   
Pensamos sobre isso um pouco mais, pesando as várias opções.
   
— Quero ficar — disse Harkat no fim das contas. —A vida está ficando mais perigosa, mas talvez... isso signifique que devamos ficar aqui. Talvez esta cidade seja o lugar onde estejamos destinados... a enganchar novamente os nossos chifres com os do Senhor dos Vampixiitas.
   
— Concordo com Harkat — disse o Sr. Crepsley - mas isso quem tem que decidir é Darren. Como Príncipe, é ele quem deve tomar a decisão.
   
— Muito obrigado — afirmei sarcasticamente.
   
O Sr. Crepsley sorriu.
   
— E a nossa decisão, não só porque você é um Príncipe, mas porque isso lhe diz respeito diretamente... você terá de se misturar com crianças e professores humanos, e você será a pessoa mais vulnerável para ser atacada. Seja isso uma armadilha dos vampixiitas ou um capricho do Sr. Tino, a vida ficará difícil para você caso fiquemos.
   
Ele tinha razão. Voltar para a escola seria um pesadelo. Não tinha a menor ideia do que os jovens de quinze anos estudavam. As aulas seriam penosas. O trabalho de casa me deixaria enrolado. E ter de obedecer a professores, depois de seis anos governando os vampiros como Príncipe... Isso poderia se tornar muito desconfortável.
   
Contudo, uma parte de mim se sentia atraída pela ideia. Sentar-se numa sala de aula novamente, aprender, fazer amigos, demonstrar minhas habilidades avançadas em educação física, quem sabe sair com algumas garotas...
   
Que se dane — afirmei, sorrindo. — Se for uma armadilha, vamos chamá-la de blefe. Se for uma brincadeira, vamos mostrar que sabemos como participar dela.
   
— É esse o espírito — atreveu-se a dizer o Sr. Crepsley.
   
- Além do mais — ri debilmente — já passei duas vezes pelos Rituais de Iniciação, por uma jornada terrível num rio subterrâneo, por encontros com estranhos, um urso e javalis selvagens. O que a escola pode ter de tão ruim?
   
 
    CAPÍTULO QUATRO
   
 
   
Cheguei na Mahler's uma hora antes das aulas começarem. Meu fim de semana fora atribulado. Em primeiro lugar, havia um uniforme para ser comprado — colete verde, camisa verde-clara, gravata verde, calça cinza, sapatos pretos — além de livros, resmas de papel e blocos A4, uma régua, canetas e lápis, uma borracha, esquadros e um compasso, e mais uma calculadora científica, cujos botões estranhos — "INV", "SIN", "COS", "EE" — não significavam nada para mim. Eu também teria que comprar um caderno para deveres de casa, no qual teria que escrever todas as minhas tarefas — o Sr. Crepsley teria que assinar o caderno toda noite, dizendo que eu havia feito o trabalho solicitado.
   
Comprei tudo sozinho, já que o Sr. Crepsley não podia circular durante o dia e a aparência estranha de Harkat indicava que era melhor que ficasse dentro do quarto. Voltei para o hotel com minhas sacolas no início da noite de sábado, depois de passar dois dias fazendo compras sem parar, Mais tarde, lembrei de que precisaria ainda de uma mochila, por isso usei as minhas últimas 36 reservas de energia numa expedição relâmpago até o fornecedor mais próximo. Comprei uma preta, simples e com bastante espaço para os neus livros e aproveitei para também comprar um recipiente para levar os lanches.
   
O Sr. Crepsley e Harkat ficaram me gozando por causa do uniforme. Na primeira vez em que me viram enfiado nele, andando todo enrijecido, os dois ficaram dez minutos rindo sem parar.
   
— Parem com isso! — resmunguei, enquanto tirava um dos 14 sapatos e o jogava
neles.
   
Passei o domingo experimentando o uniforme, andando pelos quartos do hotel, vestindo aquela beca da cabeça aos pés. Fiz muitos rasgos e costuras — fazia um bom tempo que eu não usava algo tão apertado. Naquela noite, fiz a barba com cuidado e deixei o sr. Crepsley cortar o meu cabelo. Em seguida, ele e Harkat saíran para caçar os vampixiitas. Pela primeira vez desde que chegamos à cidade, fiquei para trás, pois tinha aula de manhã e precisava estar bem-disposto. Conforme o andamento das coisas, eu montaria a minha agenda de modo que pudesse ajudar na caça aos assassinos. Mas as primeiras noites estavam fadadas a ser mais difíceis e todos concordamos que seria melhor se eu abandonasse as caçadas por um tempo.
   
Mas consegui dormir. Estava me sentindo quase tão nervoso quanto há sete anos, quando fiquei esperando o veredicto dos Príncipes Vampiros depois que falhei nos meus Rituais deIniciação. Pelo menos, naquela época, eu sabia o que seria pior: a morte. Entretanto, não tinha a menor ideia do que esperar dessa nova e estranha aventura.
   
O Sr. Crepsley e Harkat acordaram para me ver partir. Tomaram o café
da-manhã comigo e tentaram agir como se eu não tivesse nada com o que me preocupar.
   
- Esta é uma oportunidade maravilhosa — disse o Sr. Crepsley, - você muitas vezes reclamava da vida que perdeu quando se tornou um meio-vampiro. Esta é uma chance para revisitar o seu passado. Pode ser humano novamente, por algum tempo. Será fascinante.
   
— Por que você não vai no meu lugar então? — vociferei.
   
— Eu iria, se pudesse — disse, sem expressar emoção alguma.
   
— Será divertido — garantiu-me Harkat. — No início será estranho, mas com o tempo você vai se adaptar à rotina. E não se sinta inferior: essas crianças saberão... muito mais do currículo escolar do que você, no entanto você é... um homem do mundo e sabe coisas que eles... jamais irão aprender, não importa quanto tempo vivam.
   
— Você é um Príncipe — concordou o Sr. Crepsley —, muito superior a qualquer um por lá.
   
Seus esforços não ajudaram muito, mas eu estava feliz por estarem me apoiando em vez de gozarem com a minha cara.
   
Terminado o café-da-manhã, preparei alguns sanduíches de presunto, enfiei-os na minha mochila junto com um pequeno pote de cebolas em conserva e uma garrafa de suco de laranja. Até que chegou a hora de ir.
   
— Você quer que eu o leve a pé para a escola? — perguntou inocentemente o Sr. Crepsley. — Você terá que cruzar muitas estradas perigosas. Ou talvez possa pedir à moça que vende pirulitos para segurar a sua mão e...
   
— Não enche — resmunguei, e saí às pressas porta afora com a minha mochila cheia de livros.
   
A Mahler's era uma escola grande e moderna, os prédios estavam dispostos num quadrado em volta de uma área de recreação, com piso de cimento a céu aberto. As portas principais estavam abertas quando cheguei, então entrei e comecei a procurar a sala do diretor. A localização dos corredores e das salas estava claramente indicada e, em menos de dois minutos, encontrei a sala do Sr. Chivers, mas não havia nenhum sinal dele. Meia hora se
passou, e nada do sujeito. Fiquei me perguntando se o Sr. Blaws tinha se esquecido de falar para o diretor que eu ia chegar cedo, quando então me lembrei daquele homem pequeno com a enorme maleta e vi que ele não era o tipo de gente que se esquece de coisas assim. Talvez o Sr. Chivers achasse que deveria me encontrar perto das portas principais da sala dos professores. Decidi checar.
   
A sala tinha espaço para uns vinte e cinco ou trinta professores, mas só vi três quando bati e entrei, atendendo a um chamado de "Entre". Dois eram homens de meia-idade, colados a cadeiras pesadas, lendo jornais enormes. A outra era uma mulher robusta que estava ocupada colando folhas impressas nas paredes.
   
- Posso ajudar? — falou a mulher rispidamente sem olhar pra trás.
   
— Meu nome é Darren Horston. Estou procurando o Sr. Chivers.
   
- O Sr. Chivers ainda não chegou. Você marcou um horário?
   
— Hum. Bem... acho que sim.
   
Então espere por ele lá fora. Aqui é a sala dos professores. Ah. OK.
   
Fechei a porta, peguei minha mochila e voltei para a sala do diretor. Ainda não havia sinal dele. Esperei mais dez minutos e comecei a procurá-lo novamente. Desta vez, segui para a entrada do colégio, onde encontrei um bando de adolescentes recostados à parede, falando em voz alta, bocejando, rindo, chamando uns aos outros por apelidos e falando palavrões. Estavam usando uniformes da Mahler's como eu, mas as roupas pareciam se ajustar naturalmente em seus corpos.
   
Aproximei-me de um grupo de cinco rapazes e duas meninas. Eles estavam de costas para mim e falavam sobre um programa qualquer que viram na TV na noite anterior. Pigarreei para chamar sua atenção, depois sorri e estendi a mão para o garoto mais próximo, quando se virou.
   
— Darren Horston — disse, sorrindo. — Sou novo aqui. Estou procurando o Sr. Chivers. Vocês não o viram?
   
O rapaz olhou para a minha mão — não a apertou — e depois para o meu rosto.
   
— Você quem? — resmungou.
   
—Meu nome é Darren Horston — repeti. — Estou procurando...
   
— Eu já escutei — interrompeu-o o sujeito, coçando o nariz e me encarando de um jeito suspeito.
   
— Chivers ainda não está aí — respondeu uma menina, que riu como se eu tivesse dito algo engraçado.
   
— Chivers nunca chega antes das nove e dez — afirmou um dos garotos,
bocejando.
   
— E mais tarde ainda nas segundas-feiras — completou a garota.
   
— Todo mundo sabe disso — acrescentou o rapaz que havia falado primeiro.
   
— Ah — murmurei. — Bem, como já disse, sou novo aqui, por isso não posso saber de coisas que todo mundo já sabe, não é? —Sorri, satisfeito por ter feito uma observação tão pertinente no meu primeiro dia na escola.
   
— Não enche, seu pela-saco — respondeu o garoto, o que não era exatamente o que eu estava esperando.
   
- Como? - pisquei
   
- Você ouviu. — Ele se colocou na minha frente. Era uma cabeça mais alta do que eu, tinha o cabelo escuro e um horrível estrabismo. Eu poderia dar uma boa surra em qualquer ser humáno do colégio, mas esqueci disso momentaneamente e me dafastei, sem saber por que o garoto agia desse jeito.
   
- Vai em frente, Smickey - disse rindo um dos outros rapazes. - Acaba com ele!
   
- Que nada — falou o garoto chamado Smickey, forçando um sorriso. — Não
vale a pena.
   
Dando-me as costas, ele retomou a conversa que estava tendo com os outros como se nada a tivesse interrompido. Abalado e confuso, me afastei. Enquanto virava a esquina, sem nem precisar da minha audição de vampiro, ouvi uma das garotas comentar:
   
- Esse sujeito é muito esquisito!
   
- Olha só a mochila que ele está carregando — riu Smickey. - É do tamanho de uma vaca! Metade dos livros do país devem estar lá dentro!
   
- Ele fala de um jeito estranho — continuou a menina.
   
E tem um aspecto ainda mais bizarro — acrescentou a outra. Aquelas cicatrizes e manchas avermelhadas. E vocês
   
viu aquele corte de cabelo horrível? Ele parece que saiu do zoológico!
   
- Tem razão — disse Smickey. — E cheirava como se tivesse vindo de lá
também!
   
A turma riu e logo a conversa voltou para o programa de TV . Arrastando-me enquanto subia as escadas, apertando minha mochila contra o peito, sentindo-me muito pequeno e envergonhado por causa do meu cabelo e da minha aparência, me posicionei em frente à porta do Sr. Chivers. Encostei minha cabeça e fiquei ali parado esperando o diretor dar as caras.
   
Fora um começo muito pouco encorajador. E, embora eu gostasse de achar que as coisas só poderiam melhorar, tive a terrível sensação, na boca do meu estômago, de que elas ainda iriam piorar muito.
   
 
    CAPÍTULO CINCO
   
 
   
Chivers chegou um pouco depois das nove e quinze, dando baforadas e com o rosto corado. (Mais tarde, descobri que ele vinha de bicicleta para o colégio.) Passou correndo por mim sem dizer nada, abriu a porta da sua sala e cambaleou até chegar na janela, onde ficou olhando para baixo na direção da quadra de cimento . Ao avistar alguém, abriu a janela e vociferou:
   
- Kenven O’Briem Você foi expulso da sala?
   
- A culpa não foi minha, senhor – gritou de volta o rapaz. – O professor derrubou minha caneta dentro da minha mochila, estragando o meu dever de casa. Poderia ter acontecido com qualquer um. Não acho que eu devia ter sido expulso por...
   
- Venha até a minha sala no seu próximo tempo livre, O’Brian! - O Sr. Chivers
fez uma pausa. — Tenho alguns pisos para você esfregar.
   
- Ahã, senhor!
   
O Sr. Chivers fechou a janela fazendo barulho.
   
- Você? – disse ele, gesticulando para que eu entrasse. – O que você está fazendo
aqui?
   
- Sou...
   
— Você não quebrou uma janela, quebrou? — interrompeu me. — Pois se o fez, terá que pagar!
   
- Não quebrei janela nenhuma - respondi, irritado. — Não tive tempo para quebrar nada. Estou parado em frente à porta da sua sala desde as oito, esperando. Você está atrasado!
   
Oh! — Ele se sentou, surbreso com a minha postura... - Desculpe. Foi um pneu furado. É o pequeno monstro que vive dois andares abaixo. Ele... — Pigarreando, ele se lembrou de quem era e franziu a testa. — Não se Preocupe comigo... quem é você e o que está querendo?
   
— Meu nome é Darren Horston. Sou...
   
... o novo aluno! — exclamou. — Desculpe... me esqueci completamente que você estava vindo hoje. — Ele se levantou e me cumprimentou com um exagerado aperto de mão. — Eu estava fora este fim de semana... excursionando... só voltei na noite passada. Tomei nota da sua chegada e deixei um lembrete afixado na geladeira na sexta, mas não devo tê-lo visto hoje de manhã.
   
— Sem problemas — afirmei, livrando meus dedos de sua mão suada. — Você está aqui agora. Antes tarde do que nunca.
   
Ele me estudou curiosamente.
   
— Era assim que você se dirigia ao seu antigo diretor? Lembrei-me de como costumava tremer quando tinha que encarar a diretora da minha escola.
   
— Não — respondi às gargalhadas.
   
— Muito bem, porque também não é assim que você vai se dirigir a mim. Não sou nenhum tirano, mas não suporto respostas malcriadas. Fale respeitosamente quando se dirigir a mim e acrescente um "senhor" no final. Entendeu?
   
Respirei fundo.
   
Sim. — Uma pausa. — Senhor.
   
- Melhor — resmungou, antes de me convidar para sentar. Ao abrir uma gaveta, encontrou um arquivo e o examinou em silêncio.
   
- Boas notas — disse depois de uns dois minutos para então colocá-lo de lado. — Se você continuar tendo médias parecidas, não teremos nada a reclamar.
   
- Farei o melhor possível. Senhor.
   
- Isso é tudo que pedimos.
   
Sr. Chivers estava estudando o meu rosto, fascinado com cicatrizes e queimaduras.
   
- Você deve ter passado por uma dura prova, não? — assinalou. - deve ser difícil ficar preso num prédio em chamas.
   
- Sim, senhor.
   
— Isso estava no relatório que o Sr. Blaws havia me mostrado...
   
de acordo com as fichas que o meu "pai" havia entregue, eu havia me queimado seriamente num incêndio em casa, quando tinha doze anos.
   
- Mas tudo fica bem quando acaba bem! Você está vivo e ativo) e tudo o mais é um bônus. — Ele se levantou e guardou o arquivo, checou a parte da frente do seu paletó. Havia manchas de ovo e migalhas de torradas na gravata e na camisa, que ele limpou... Depois disso, dirigiu-se até a porta e me pediu para acompanhá-lo.
   
O Sr. Chivers me fez dar uma rápida circulada pelo prédio, e ficou me mostrando onde ficavam as salas de computadores, a de reuniões, o ginásio e as principais salas de aula. A escola havia sido anteriormente uma academia de música, daí o seu nome (Gustav Mahler) fora um famoso compositor -, que foi extinta há vinte anos, antes de reabrir como uma escola normal.
   
- Ainda colocamos muita ênfase na excelência musical – disse-me o Sr. Chivers, enquanto checávamos um amplo salão com meia-dúzia de pianos. — Você toca algum instrumento?
   
- Flauta.
   
- Um flautista, exlêndido! Não temos um flautista descente, desde que Siobhan Toner se formou há 3 anos... Ou seriam quatro... Teremos que testá-lo, ver do que você é capaz, certo!
   
- Sim senhor – respondi em bvoz baixa. Percebi que estávamos tendo um mal entendimento. Ele estava se referindo a flautas de verdade, ao passo que eu só sabia como tocar um tipo de flauta para amadores chamada Flajolée. Mas não sabia se era hora de dizer isso. Acabei ficando de boca fechada, esperando que ele se esquecesse do meu suposto talento como flautista.
   
O Sr. Chivers me disse que cada aula durava 40 minutos. Havia um intervalo de dez minutos às 11:50 h para o almoço, à 01:10; as aulas terminavam às 4.
   
- O horário de detensão vai das 4:30 às 6 – informou-me o diretor, - mas espero que isso não lhe diga respeito, certo!
   
- Espero que não, senhor. – respondi, humildemente.
   
O passeio terminou na sala da diretoria, onde ele me passou o meu horário. Era uma lista de matérias apavorantes – inglês, história, geografia, ciências, matemática, desenho mecânico, duas línguas modernas, estudos de computação. Uma dose dupla de educação física nas quartas-feiras. Eu tinha três períodos livres, um na segunda, um na terça e um último na quinta-feira. O Sr. Chivers disse que esses estavam reservados para atividades extracurriculares, como música, ou línguas adicionais, ou poderiam ser usados como horários de estudo.
   
O diretor apertou minha mão novamente, desejou-me toda a sorte possível e disse que o procurasse caso tivesse dificuldades.
   
Depois de me avisar para não quebrar nenhuma janela, ou deixar meus professores tristes, conduziu-me até um corredor, onde me deixou. Eram 9:40. Um sino tocou. Hora da minha primeira aula do dia: geografia. Fui razoavelmente bem nessa aula. Eu havia passado os seis últimos anos examinando atentamente diversos mapas e acompanhando passo a passo a guerra das cicatrizes, por isso tinha mais noção do formato do mundo do que a
maioria dos meus colegas de classe. Mas não sabia nada sobre geografia humana – grande parte da aula girou em torno de economias e cultura, e de como os humanos transformavam o seu meio ambiente – e ficava no prejuízo toda vez que se parava de falar na extensão de montanhase rios e se abordavam sistemas políticos e estatísticas populacionais.
   
Considerando o meu conhecimento limitado dos humanos, geografia foi o começo mais fácil que eu poderia desejar. O professor ajudava, consegui acompanhar a maior parte do que estava sendo discutido e achei que poderia alcançar o nível do resto da turma em algumas semanas.
   
Com matemática, que veio depois, foi completamente diferente. Bastavam cinco minutos para eu saber que estava em apuros. Só havia estudado matemática básica no colégio e havia esquecido grande parte do pouco que sabia. Podia dividir e multiplicar, mas isso era o máximo onde minha perícia – que, rapidamente descobri, não chegava nem perto do suficiente.
   
- O que você está dizendo, que nunca estudou álgebra? – vociferou o professor, um sujeito ameaçador que atendia pelo nome de Sr. Smarts. – É claro que já! Não me faça de idiota, garoto. Sei que você é novo, mas não pense que isso significa que pode fazer o que quiser sem ser punido. Abra o livro na página 16, e faça a primeira leva de problemas. Vou pegar o seu trabalho no final da aula e ver em que estágio você está.
   
Fui lá fora, no meio do frio, uns 100 quilômetros de distância. Não consegui nem ler os problemas na página 16, quanto mais resolvê-los! Fiquei olhando para as páginas
anteriores, tentando copiar os exemplos, mas não tinha a menor ideia do que estaa fazendo. Quando o Sr. Smarts pegou o meu livro e disse que iria vê-lo durante o almoço e devlvê-lo de tarde, na aula de ciências, - ele era o professor dessa matéria -, fiquei abatido demais para agradecer-lhe por sua disposição.
   
As coisas não melhoraram no intervalo. Passie os dez minutos andando sozinho, observado por todos que estavam no jardim. Tentei reaproximar de algumas das pessoas que reconheci das duas primeiras aulas, mas elas não queriam nada comigo. Eu parecia feder e agia de um jeito esquisito, havia algo que não estava certo comigo. Os professores ainda não suspeitavam de mim mas os alunos, sim. Sabia que eu não pertencia àquele meio.
   
Mesmo se os meus colegas de turma tivessem tentado fazer com que eu me sentisse bem-vindo, eu teria de me esforçar para me adaptar. Não sabia nada sobre os filmes e os programas de TV que eles discutiam, ou sobre as bandas de roque, estilos de música, livros ou gibis. A maneira de falar também era estranha – não conseguia entende grande parte das gírias.
   
Tive aula de história edeois do intervalo. Essa costumava ser uma das minhas matérias favoritas. No entanto, o que se ensinava estava bem à frente do que eu estava acostumado a aprender. A aula foi toda dedicada à segunda guerra mundial, que era o que eu estaa estudando nos meus últimos meses como humano. Naquela época, só tinha de saber quais foram os eventos principais da guerra e quem era os líderes de alguns países. Mas como agora tinha 15 anos e supostamente meus conhecimentos haviam se intensificado ao longo do tempo me cobravam todos os detalhes das batalhas, os nomes dos generais, os diversos efeitos sociais provocados pela guerra e daí em diante.
   
Disse à minha professora que vinha me concentrando no estudo da história medieval na minha escola antiga e enchi a boca para dar essa esposta tão inteligente. Então ela disse que havia uma pequena turma de recuperação sobre história medieval na Mahler’s e que ela cuidava da minha transferência amanhã.
   
Ai, a, ai!
   
A próxima era de inglÊs. Eu a temia. Em matéria como geografia e história, eu até poderia enganar, dizendo que vinha seguindo outro programa na escola anterior. Mas como eu faria para explicar minha deficiência em inglês! Poderia fingir não ter lido todos os livros e poemas que os outros haviam devorado, porém, o que aconteceria se a professora NE perguntasse o que eu havia lido? Eu estava condenado!
   
Havia uma mesa livre perto da primeira fila, onde eu tinha que me sentar. Nossa professora estava atrasada – por conta do tamanho da escola, professores e alunos normalmente chegava um pouco atrasados para as aulas. Passei alguns minutos folheando ansiosamente o livro de poesias que comprara na última sexta-feira, tentando decorar alguns versos ao acaso, na esperança de que pudesse iludir a professora.
   
A porta da sala se abriu, a algazarra diminuiu e todos se levantaram.
   
- Sentem-se, sentem-se – disse ela, enquanto se dirigia à sua mesa, sobre a qual largou uma pilha de livros. Olhando para a turma, sorriu e jogou o cabelo para trás. Era uma mulher negra, bonita e jovem. – Ouvi dizer que temos um novo aluno – disse, me procurando no meio da turma. – Você poderia se levanntar, por favor, para que eu possa identificá-lo?
   
Ergui-me, levantei a mão e sorri com o canto da boca.
   
- Aqui – falei.
   
- Perto da primeira fila – disse ela, radiante. – Bom sinal. Agora, eu tenho o seu nome e mais detalhes escritos em algum lugar por aqui. Dê-me só um minuto que eu...
   
Ela estava virando para o lado no intuito de olhar no meio dos seus livros e papeis quando, de repente, parou como se tivesse levado um tapa, olhou rapidamente na minha direção e deu um passo à frent. Seu rosto se iluminou quando exclamou:
   
- Darren Shan?!
   
- Hum. Sim. – sorri, nervoso. Não tinha ideia de quem ela era e fiquei percorrendo os meus bancos de memória... Será que estava no mesmo hotel que eu?... E então, algo relativo ao formato de sua boca e de seus olhos acionou uma chave dentro do meu cérebro. Saí da minha mesa e dei alguns passos em sua direção, até ficarmos apenas um metro de distância um do outro e eu poder vislumbrar seu rosto, incrédulo. – Débora? – arfei. – Débora Cicuta?
   
 
    Capítulo Seis
   
 
   
- Darren! – gritou Débora, enquanto me envolvia com seus braços.
   
- Débora! – dei um berro e a abracei com força.
   
Minha professora de inglês era Débora Cicuta, - minha ex-namorada!
   
- Você quase não mudou! – suspirou Débora.
   
- E você está tão diferente! Dei uma gargalhada.
   
- O que houve com o seu rosto?
   
- Como você se tornou professora?
   
E, juntos:
   
- O que você está fazendo aqui?
   
Paramos, com os olhos arregalados, sorrindo loucamente. Não estávamos mais nos abraçando, e sim, de mãos dadas. À nossa volta, meus colegas observavam tudo com as bocas abertas, como se estivessem testemunhando o fim do mundo.
   
- Onde nós... – Débora começou a falar e depois olhou em volta. Percebendo que estávamos no centro das atenções, ela largou as minhas mãos e sorriu encabulada. – Darren e eu somos velhos amigos – explicou para a turma. – Não nos vemos há... – Mais uma vez ela parou, desta vez franzindo a testa. – Com licença – murmurou ela, segurando a minha mão direita, enquanto saía, esbaforida. Assim que fecho u porta, encostou numa parede, certificouse de que estávamos sozinhos no corredor, aproximou-se e sibilou. – Onde diabos você esteve durante todos esses anos!
   
- Lá e cá – sorri enquanto os meus olhos vagavam pelo seu rosto, espantados com o quanto ela havia mudado. Débora estava mais alta, mais alta do que eu, até.
   
- Por que você está com o mesmo rosto? – vociferou. – Está praticamente igual ao Darren de que me lembro. Envelheceu um ou dois anos, mas já se passaram treze!
   
- Como o tempo voa – falei com um sorriso malicioso, antes de roubar um rápido beijo. – É bom vê-la novamente, senhorita Cicuta.
   
Débora congelou com o beijo e depois deu um passo para trás.
   
- Não faça isso!
   
- Desculpe. Só fiquei feliz em vê-la.
   
- Também estou feliz por encontrar você. Mas se alguém me ver beijando um
aluno...
   
- Ah, Débora. Não sou realmente um aluno. Você sabe disso. Sou velho o suficiente para ser... Bem, você sabe qual a minha idade.
   
- Achava que sabia. Só que o seu rosto... – Ela percorreu o contorno do meu maxilar, dos meus lábios e do meu nariz, até chegar à pequena cicatriz triangular acima do meu olho direito. – Você esteve no meio de uma guerra.
   
- Você não iria acreditar se lhe dissesse o quanto está certa – disse, sorrindo.
   
- Darren Shan. – Ela balançou a cabeça e repetiu o meu nome. – Darren Shan!
   
E então me deu um tapa!
   
- Por que você fez isso? – gritei.
   
- Por ter partido sem me dizer adeus e estragado o meu Natal – resmungou.
   
- Isso foi há treze anos. Com certeza, você não está mais magoada por causa
disso.
   
- Os Cicuta guardam ressentimentos durante muito, mas muito tempo – retrucou ela, embora houvesse um lampejo de sorriso em seus olhos.
   
- Eu lhe deixei um presente de despedida.
   
Por um instante seu rosto ficou pálido, até que ela se lembrou.
   
- A árvore!
   
Eu eo Sr. Crepsley havíamos assassinado o o vampixiita louco. Vampirado, na casa de Débora, na noite de Natal, depois de usá-la como isca para que ela saísse da toca. Antes de partir, coloquei uma pequena árvore de Natal ao lado de sua cama e a decorei (eu havia drogado Débora e seus pais antes, de modo que eles tivessem inconscientes na hora que Vampirado atacasse).
   
- Eu tinha me esquecido da árvore – murmurou ela. – Isso nos leva a outro ponto... O que aconteceu então? Numa hora estávamos sentados para jantar, em seguida eu estava na cama, acordando, e o dia de Natal já ia longe. Mamãe e papai também acordaram em suas camas, sem ter a menor ideia de como chegaram lá.
   
- Como estão Donna e Jesse? – perguntei, tentando evitar a pergunta.
   
- Bem. Papai ainda vive viajando pelo mundo, indo para onde seu trabalho o leva, e mamãe começou um novo... Não – disse ela, cutucando o meu peito – esqueça o que vem acontecendo comigo. Quero saber o que você vem fazendo. Durante treze anos, sua lembrança tornou-se algo extremamente afetuoso. Tentei encontrá0lo algumas vezes, mas você sumiu sem deixar pistas. Agora você aparece na minha vida novamente, e sua aparência faz os anos parecerem meses. Quero saber o que está havendo.
   
- É uma longa história – suspirei. – É complicada.
   
- Tenho tempo.
   
- Não tem não – contestei-a, acenando com a cabeça em direção à porta fechada
da sala.
   
- Droga, esqueci-me deles. – Ela andou até a sala e abriu a porta. Lá dentro, os alunos estavam falando em voz alta, mas pararam assim que viram a professora. – Peguem os seus livros – vociferou Débora. – Estarei com vocês em um instante. – Encarando-me
novamente, ela disse: - Você tem razão... Não temos tempo. E a minha agenda está cheia durante o resto do dia... Tenho uma reunião de professores depois do almoço. Mas temos de nos encontrar logo para conversar.
   
- Que tal depois que sairmos do colégio? – sugeri. – Vou para casa, mudo de roupa e podemos nos encontrar... Onde?
   
- Na minha casa – disse Débora. – Eu moro no terceiro andar de um edifício na Bungrove, apartamento 3C. É uma caminhada de uns 10 minutos daqui.
   
- Estarei lá.
   
- Mas me dê umas duas horas para corrigir os trabalhos de casa –disse ela. – Não venha antes das seis e meia.
   
- Perfeito.
   
- Darren shan – sussurrou Débora, com um pequeno sorriso que levantou os cantos de sua boca. – Quem acreditaria nisso?
   
Ela se inclinou na minha direção e pensei... Esperei... Ela ia me beijar, mas então parou. Assumiu uma expressão mais dura e me empurrou de volta para a sala de aula.
   
A aul passou num instante. Débora tentou não me dar uma atenção muito especial, mas os nossos olhos não paravam de se encontrar e não conseguíamos deixar de sorrir. Os outros garotos notavam o vínculo extraordinário entre nós e isso foi o assunto da escola durante o almoço. Se os alunos haviam suspeitado de mim no almoço do dia, agora estavam totalmente cautelosos e todos procuraram me evitar.
   
As aulas seguintes foram passando rapidamente. Não me encomodava o fato de estar tendo dificuldades ou de ser ignorante em relação aos assuntos tratados nas aulas. Não ligava e nem tentava ficar bem informado. Só conseguia pensar em Débora. Mesmo quando o Sr. Smarts me jogou de volta o livro de matemática, na aula de ciências e me repreendeu curiosamente, eu apenas sorri, fiz um aceno com a cabeça e relaxei.
   
No final do dia, voltei correndo para o hotel. Havia recebido a chave de um armário, onde supostamente deveria deixar meus livros, mas estava tão excitado que me
destraí e acabei carregando a mochila cheia de volta para casa. O Sr. Crepsley ainda não estava na cama quando cheguei. Harkat estava acordado, então fui correndo lhe contar o meu dia e o encontro com Débora.
   
- Não é maravilhoso? – terminei, quase sem fôlego. – Não é incrível? Não é a coisa mais... – não conseguia pensar em nenhuma maneira de descrever aquela sensação, por isso simplesmente joguei minhas mãos para o alto e berrei: - Uhuuu!
   
- Que ótimo
   
! – disse Harkat, com a boca escancarada e se abrindo num sorriso cheio de entalhes, mas ele não parecia feliz.
   
- O que há de errado? – perguntei, vendo a preocupação em seu olhos verdes e
redondos.
   
- Nada. Isso é ótimo. Sério. Fico feliz por você.
   
- Não minta para mim, Harkat. Algo o está encomodando. O que é?
   
Ele desembuchou.
   
- Isso não parece um pouco... coincidência demais?
   
- O que você quer dizer?
   
- De todas as escolas para as quais poderia ter ido... Todos os professores do mundo – você acaba naquela em que a sua – antiga namorada da aula? É para sua turma?
   
- A vida é assim, Harkat. Coisas estranhas acontecem o tempo todo.
   
- Sim – concordou o pequenino – e, Às vezes, elas acontecem... por acaso. Mas em outras ocasiões elas são... armadas.
   
Eu estava desabotoand a minha camisa, depois de ter tirado a gravata e o colete. Então parei, com os dedos nos botões e o observei.
   
- O que você está dizendo:?
   
- Algo está me parecendo meio podre. Se desse de cara com Débora no meio da rua, isso... seria outra coisa. Mas você está na turma dela, numa escola onde... não deveria estar. Alguém armou para que você fosse parar na Mahler’s, alguém que... sabe do Vampirado e do seu passado.
   
- Você acha que a pessoa que forjou as nossas assinaturas sabia que Débora estava trabalhando na Mahler’s?
   
- Isso é óbvio! É isso que por si só, já é motivo de preocupação. Mas tem algo mais que nós... Devemos considerar. E se a pessoa que o matriculou não apenas... soubesse quem era Débora... E se ela fosse a própria Débora.
   
 
    Capítulo Sete
   
 
   
Eu não podia acreditar que Débora estivesse mancomunada com os Vampixiitas ou com o Sr. Tino, ou que tivesse desempenhado algum papel na minha matrícula na Mahler’s. Falei para harkat o quanto ele ficara atordoado ao me ver, mas ele disse que minha exnamorada poderia estar fingindo.
   
- Se ela se enrolou tanto a ponto de levá-lo... para lá, então dificilmente não aparentaria estar surpreso – observou.
   
Balance a cabeça, resoluto.
   
- Ela não faria algo assim.
   
- Não a conheço, por isso não posso... emitir uma opinião. Mas você também não a conhece. Ela era uma criança quando... a viu pela última vez. As pessoas mudam enquanto crescem.
   
- Você acha que não devo confiar nela?
   
- Não estou dizendo isso. Talvez ela esteja sendo sincera. Talvez não tenha nada a ver com a falsificação dos formulários ou com o fato de você estar lá... Poderia ser... uma enorme coincidência. Mas é preciso ter cautela. Vá vê-la, mas fique de olho nela. Tome cuidado com o que diz. Faça-lhe algumas perguntas de teor investigativo. E leve uma arma.
   
- Jamais poderia feri-la – retruquei calmamente. – Mesmo que tenha armado algo contra nós, não poderia matá-la de jeito nenhum.
   
- Leve uma de qualquer jeito – insistiu Harkat. – Se ela estiver trabalhando para os Vampixiitas, pode não ser... nela que você terá que usá-la.
   
- Você acredita que os vampixiitas possam estar lá, à espera?
   
- Talvez. Não pudemos entender por que... Os vampixiitas, se é que estão por trás da papelada falsa... o mandariam... para a escola. Se eles estiverem trabalhando com Débora... ou... usando-a... isso pode explicar tudo.
   
- Você está dizendo que eles querem que eu fique sozinho com Débora, para que possam me capturar?
   
- Pode ser.
   
Acenei com a cabeça, pensativo. Não acreditava que Débora pudesse estar trabalhando com os nossos inimigos, mas era possível que a estivessem manipulando para que chegassem a mim.
   
- Como podemos lidar com isso? – perguntei.
   
Os olhos verdes de Harkat revelaram suas dúvidas.
   
- Não sei ao certo. Seria tolice cair numa... armadilha. Mas, às vezes é necessário correr riscos. Talvez essa seja a nossa maneira de... envergonhar aqueles que querem nos enganar.
   
Fiquei mordendo os lábios e meditando sobre aquilo durante algum tempo. Então, resolvi agir da maneira mais sensata – fui acordar o Sr. Crepsley.
   
Toquei a campainha do 3C e esperei. Pouco depois, a voz de Débora soou no
interfone:
   
- Darren? – o único.
   
- Você está atrasado. – Eram sete e vinte. O sol estava se pondo.
   
- Fiquei preso fazendo o dever de casa. Culpe a minha professora de inglês... Ela é uma verdadeira víbora.
   
- Muito engraçado.
   
Ouvi um zumbido e a porta se abriu. Parei antes de entrar. Eu olhei para o outro lado da rua, na direção do edifício oposto. Avistei uma sombra à espreita no teto – o Sr. Crepsley. Harkat estava atrás do prédio de Débora. Ambos viriam me socorrer ao primeiro sinal de perigo. Foi isso que planejamos. O Sr. Crepsley havia sugerido que batêssemos rapidamente em retirada – as coisas estavam ficando muito complicadas para o seu gosto. Mas quando eu fiz valer a minha autoridade, ele concordou em tirar proveito da situação e tentar virar a mesa contra os nossos oponentes, caso eles aparecessem.
   
- Se uma briga se iniciar – avisou-me antes de sair – talvez não seja possível escolher alvos. Você está preparado para levantar a mão contra a sua amiga, só que eu estou, na hipótese em que ele esteja trabalhando para o inimigo. Não fique no meu caminho se isso acontecer.
   
Acenei, sisudo. Não estava certo de que poderia ficar de lado e deixar ameaçar Débora, mesmo se ficasse claro que ela estava conspirando contra nós – mas eu tentaria.
   
Enquanto subi as escadas, percebi, triste, as duas facas que estava carregando, afiveladas às minhas panturrilhas para que não ficassem à mostra. Esperava na ter que usá-las, mas era bom saber que estavam ali caso fosse necessárias.
   
A porta do 3C estava aberta, mesmo assim bati antes de entrar.
   
- Entre – gritou Débora. – Estou na cozinha.
   
Fechei a porta, mas não a tranquei. Vasculhei rapidamente o apartamento. Muito arrumado. Diversas estantes, entupidas de livros. Um CD player numa delas; vários CDs. Uma TV portátil. Um pôster de O Senhor dos Aneis numa parede, um retrato de Débora com os pais em outra.
   
Débora saiu da cozinha. Estava usando um longo avental vermelho e havia farinha em seu cabelo.
   
- Fiquei cansada de esperar, por isso comecie a fazer bolinhos de aveia. Você gosta dos seus com ou sem groselha?
   
- Sem – respondi e sorri, enquanto ela voltava para a cozinha... Assassinos e comparsas não te recebem com farinha no cabelo! Qualquer dúvida que eu ainda tinha sobre Débora desapareceu rapidamente e sabia que não teria nada a temer dela. Mas não baixei minha guarda. Ela não representava ameaça alguma, no entanto poderia haver vampixiitas no apartamento ao lado ou pairando na janela de incêndio.
   
- Como foi o seu primeir dia na escola? – perguntou ela, enquanto eu vagava pela
sala de estar.
   
- Foi estranho. Eu não entrava numa escola desde... bem, já fazia muito tempo. Tanta coisa mudou quando eu era... – parei. A capa de um livro chamou a minha atenção: os Três Mosqueteiros. – Donna ainda a está obrigando a ler isso?
   
Débora enfiou a cabeça pelo vão da porta e olhou para o livro.
   
- Ah – disse ela, rindo. – Estava lendo quando nos conhecemos, não?
   
- Sim. Você o odiava.
   
- Sério? Que estranho... Eu o amo agora. É um dos meus favoritos. Recomendo para os meus alunos o tempo todo.
   
Estalando o pescoço, larguei o livro e fui ver a cozinha. Era pequena, mas meticulosamente organizada. Havia um cheiro delicioso de massa fresca.
   
- Donna a ensinou bem – assinalei. A mãe de Débora era chefe de cozinha.
   
- ela não deixaria eu sair de casa até saber como administrar bem uma boa cozinha – disse Débora sorrindo. – Foi mais fácil me formar na universidade do que passar no teste da minha mãe.
   
- Você esteve na universidade?
   
- Não teria condições de dar aulas se não tivesse me formado.
   
Depois de deixar uma bandeja de bolinhos cruz dentro de um pequeno forno, ela apagou a luz e me levou de volta para a sala de estar. Enquanto me acomodava em uma cadeira macia, ela foi até a estante de CDs e ficou procurando algo para tocar.
   
- Tem alguma preferência?
   
- Não mesmo.
   
- Não tenho muita coisa de pop ou roque. Jazz ou clássica?
   
- Tanto faz.
   
Depois de escolher, ela tirou o CD da caixa e o colocou no aparelho, que ligou em seguida. Ficou alguns minutos parada diante do som enquanto uma música leve e harmoniosa enchia o ar.
   
- Gostou? – perguntou ela.
   
- Nada mal. O que é?
   
- O Titã. Sabe de quem é?
   
- Mahler? – tentei adivinhar.
   
- Certo. Achei que deveria tocá-lo para que você se familiarizasse... O Sr. Chivers fica muito chateado quando seus alunos não reconhecem a música de Mahler. – Sentando-se perto de mim, Débora examinou o meu rosto em silêncio. Não me senti muito à vontade, mas não desviei o olhar. – E então – suspirou ela. – Quer me falar sobre isso?
   
Eu havia discutido com o Sr. Crepsley e com Harkat o que deveria lhe dizer, e rapidamente comecei a contar a história que havíamos combinado. Disse a ela que era vítima de uma doença de envelhecimento, ou seja, eu envelhecia mais lentamente do que as pessoas normais. Lembrei-me do menino-cobra, ofídio, a quem ela conhecera, e disse que éramos pacientes de uma clínica especial.
   
- Vocês não são irmãos?
   
- Não. E o homem com quem estávamos não era nosso pai... Era um enfermeiro do hospital. É por isso que eu nunca deixei vocÊ encontrá-lo... Era divertido fazer você pensar que eu era uma pessoa normal e não queria que ele contasse tudo.
   
- Quantos anos você tem, afinal?
   
- Poucos a mais que você. A doença só começou a me afetar depois que eu fiz doze anos. Não era muito diferente das outras crianças até então.
   
Ela ficou refletindo sobre o que havia acabado de ouvir, naquele seu jeito pensativo, porém atento.
   
- Se isso for verdade, o que você está fazendo na escola agora? E por que escolheu a minha?
   
- Não sabia que você estava trabalhando na Mahler’s. Trata-se de uma escola esquisita. Voltei para o colégio porque... É difícil explicar. Não tive uma educação apropriada quando estava crescendo. Era rebelde e passava muito tempo pescando ou jogando futebol quando deveria estar estudando. Mais tarde comecei a me sentir como se houvesse um vazio na minha vida. Há algumas semanas, conheci um sujeito que falsifica documentos, passaportes, certidões de nascimento, coisas assim. Pedi a ele que me forjasse uma identidade, para que eu pudesse fingir que tenho quinze anos.
   
- Para que? Por que você não foi para uma escola adulta noturna?
   
- Porque, a se julgar pela minha aparência, eu não sou adulto. – Fiz uma cara triste. – Você não sabe o quanto é triste crescer tão lentamente, tendo que me explicar para estranhos, sabendo que estão falando de mim. Não costumo me misturar muito com as pessoas. Vivo sozinho e fico dentro de casa a maior parte do tempo. Senti que esta poderia ser uma oportunidade para fingir que sou normal, Achei que poderia me adaptar melhor Às pessoas com as quais mais me assemelho. Jovens de quinze anos. Esperava que, se me vestisse e falasse como eles, e fosse à escola com eles, talvez fosse aceito e não me sentisse tão sozinho. – Baixei os olhos e acrescentei, pesaroso: - Acho que minha pretensão acaba agora.
   
Fez-se um instante de silêncio. E mais outro. Até que Débora perguntou:
   
- Por que deveria acabar?
   
- Porque você descobriu a verdade sobre mim. Vai contar tudo para o Sr. Chivers. Terei que sair da escola.
   
Débora se aproximou e pegou minha mão esquerda.
   
- Acho que você é maluco. Praticamente todo mundo que eu conheço não via a hora de deixar o colégio, e aqui está você, desesperado para voltar. Mas o admiro por isso. Acho ótimo que queira aprender. E te acho muito valente, por isso não contarei nada.
   
- Sério?
   
- Acho que você vai acabar sendo desmascarado... Uma manobra como essa é impossível de se sustentar. Mas não irei delatá-lo.
   
- Obrigado, Débora. Eu... – enquanto pigarreava, olhei para nossas mãos unidas. – Gostaria de beijá-la... para agradecer... Não sei se você quer isso...
   
Débora franziu a testa, dava para ver no que ela estava pensando: seria aceitável
que uma professora deixasse um dos seus alunos beijá-la? Depois ela riu e disse:
   
- Tudo bem... Mas só no rosto.
   
Levantei a cabeça, inclinei para a frent e toquei seu rosto com os lábios. Gostaria de lhe beijar do jeito certo, mas sabia que não pudia. Embora tivéssemos idades parecidas, aos seus olhos eu era apenas um adolescente. Havia uma linha entre nós que não poderíamos ultrapassar... por mais que o adulto dentro de mim ansiasse por isso.
   
Conversamos durante horas. Fiquei sabendo de tudo o que aconteceu na vida de Débora. Ela fora para a universidade quando terminou o colégio. Estudara inglês e sociologia, e se tornara professora. Depois de alguns empregos de meio expediente em outros lugares, tentou uma ocupação permanente por aqui. Afinal, havia passado toda a sua vida escolar nesta cidade e a considerava o lugar mais próximo de um lar. Acabou na Mahler’s. Já estava lá há dois anos e a adorava. Teve alguns namorados – numa certa altura chegou até a ficar noiva – mas, naquele momento, não havia nenhum. E disse, muito propositalmente, que não estava à procura!
   
Débora me perguntou sobre aquela noite de treza anos atrás e o que acontecera a ela e aos seus pais. Menti e disse que havia algo errado com o vinho.
   
- Vocês todos adormeceram em cima da mesa. Chamei o enfermeiro que estava tomand conta do ofídio e de mim. Ele veio, examinou-os, disse que estariam bem quando acordassem. Colocamos os três na cama e depois partimos. Nunca fui muito de me despedir.
   
Disse para Débora que estava vivendo sozinho. Se checasse com o Sr. Blaws, saberia que isso era mentira. Contudo, não achava que os professores se misturavam muito com os inspetores.
   
- Vai ser muito bizarro ter você em sala – murmurou ela. – Estávamos sentados no sofá. – Precisaremos ter cuidado. Se alguém suspeitar que já houve algo entre nós, teremos que dizer a verdade. Minha carreira estará correndo riscos se não o fizermos.
   
- Talvez este seja um problema com o qual não tenhamos de nos preocupar durante muito tempo.
   
- O que você quer dizer com isso?
   
- Não creio que eu seja talhado para a vida escolar. Estou atrasado em todas as matérias. Em algumas, como matemática e ciências, não chego perto de ninguém na turma. Acho que terei que pular fora.
   
- Isso é conversa de quem quer desistir – resmungou Débora – e não me responsabilizarei por isso. – Ela enfiou um dos bolinhos (que eram de castanha, lambuzados com manteiga e jeléia) na minha boca e me fez mastigá-lo. – Termine tudo que você começa ou irá se lamentar muito.
   
- Mas num pofo tentei, falar com a boca cheia. – É claro que pode – insistiu Não será fácil. Terá que estudar com afinco e talvez ter aulas particulares. – Ela parou e seu rosto ficou radiante. – É isso!
   
- O que?
   
- Você pode ter aulas comigo?
   
- Que tipo de aulas?
   
Ela bateu no meu braço.
   
- Aulas de apoio à escola, seu bobo! Pode vir para cá e ficar uma ou duas horas depois do colégio todos os dias. Ajudarei você no seu dever de casa e tentarei ensinar a matéria que você perdeu.
   
- Você não se importaria?
   
- É claro que não – respondeu ela, sorrindo. – Será um prazer.
   
Por mais agradável que a noite estivesse, teria que acabar em algum momento. Tinha me esquecido da possível ameaça dos Vampixiitas, mas, quando Débora pediu licença para ir ao banheiro, acabei voltando a eles. Fiquei me perguntando se o Sr. Crepsley ou Harkat haviam visto alguns, pois não queria vir até a casa de Débora para ter aulas de apoio se isso significasse que ela poderia correr riscos de se envolver nas nossas questões perigosas.
   
Se eu a esperasse voltar, poderia me esquecer novamente da ameaça, por isso escrevi um rápido bilhete: “Tive que ir. Foi maravilhoso ver você. Encontro-a na escola pela manhã. Espero que não se importe caso eu não faça o dever de casa!” Deixei-o numa bandeja vazia onde antes estavam os bolinhos e saí do jeito mais sorrateiro possível.
   
Desci as escadas a passos rápidos, cantarolando feliz. Parei do lado de fora da porta principal e dei três longos assovios. Era o sinal para o Sr. Crepsley saber qe eu estava saindo. Depois de uma volta em torno do prédio, eu encontrei Harkat escondido atrás de duas enormes caixas de entulho pretas.
   
- Algum problema? – perguntei.
   
- nenhum. Ninguém se aproximou.
   
O Sr. Crepsley chegou e se agachou conosco atrás das caixas. Parecia mais formal do que de costume.
   
- Viu algum vampixiita? – perguntei.
   
- Não.
   
- E o Sr. Tino?
   
- Não.
   
- Então está tudo bem – sorri.
   
- E quanto a Débora? – perguntou Harkat. – Ela está limpa?
   
- Ah, sim. – resumi rapidamente a minha conversa com Débora. O Sr. Crepsley não disse nada, só resmungou enquanto eu levava as notícias. Parecia distante e malhumorado.
   
- ... por isso combinamos de nos encontrar toda noite deois do colégio – concluí. – Ainda não marcamos um horário fixo. Queria discuti-lo com vocês dois antes, para ver se querem me proteger enquanto nos reunimos. Não creio que haja necessidade... Estou certo de que Débora não faz parte de um plano. Mas, se quiserem, poderemos agendar as aulas para tarde da noite.
   
O Sr. Crepsley suspirou com indiferença.
   
- Não creio que isso seja necessário. Vasculhei inteiramente a área. Não há nenhuma evidência da presença de vampixiitas. Seria preferível que você viesse de dia, e não fundamental.
   
- Isso é um atestado de aprovação?
   
- Sim. – Mais uma vez ele parecia surpreendentemente desanimado.
   
- O que há de errado? – perguntei. – Você está suspeitando da Débora, está?
   
- Isso não tem nada a ver com ela. Eu... – ele nos olhou com tristeza. – Tenho más
notícias.
   
- Hã? – Eu e Harkat trocamos olhares incertos.
   
- Mika Ver Leth me transmitiu uma curta mensagem telepática enquanto você estava lá dentro.
   
- É sobre o senhor dos vampixiitas? – perguntei nervoso.
   
- Não. É sobre o noss amigo, o seu amigo e príncipe, paz celestial. Ele... – o Sr.
Crepsley suspirou novamente e depois falou, em tom melancólico. – Paz está morto.
   
 
    Capítulo Oito
   
 
   
A morte do Velho Príncipe não deveria ser uma grande surpresa, já que tinha mais de oitocentos anos de idade e a Guerra das Cicatrizes o havia desgastado. Lembro-me de reparar, quando deixava a Montanha do Vampiro, no quanto ele parecia adoentado. Mas não esperava que fosse partir tão repentinamente e as notícias me deixaram desconcertado.
   
Até onde o Sr. Crepsley sabia, o Príncipe havia morrido de causas naturais. Ele não teria certeza antes de chegar à Montanha, pois os vampiros só conseguiam mandar mensagens telepáticas básicas. Contudo, não havia o menor indício de erro na mensagem de Mika.
   
Queria ir ao funeral. Seria um grande acontecimento, ao qual todos os vampiros do mundo iriam comparecer. No entanto, o Sr. Crepsley pediu que eu não fosse.
   
- Um Príncipe deve sempre ficar ausente da Montanha do Vampiro – lembrou ele – caso algo aconteça com os outros. Sei que você gostava muito de Paz Celstial, mas Mika, Arqueiro e Vansha o conheciam há muito mais tempo. Seria injusto pedir para que qualquer um deles cedesse o seu lugar.
   
Fiquei decepcionado, mas me curvei à sua vontade – seria muito egoísmo da minha parte me colocar à frente dos Príncipes mais velhos.
   
- Diga a eles para que tenham cuidado – alertei-o. – Não quero ser o único Príncipe sobrando... Se todos eles perecessem juntos e eu tivesse que liderar o clam sozinho, seria um desastre.
   
- Você pode dizer isso novamente – disse Harkat rindo, embora não houvesse alegria em sua voz. – Posso ir com você? – perguntou ele ao Sr. Crepsley. Gostaria de... dar minhas condolências.
   
- Preferia que você ficasse com Darren. Não gosto da ideia de deixá-lo aqui
sozinho.
   
Harkat acenou imediatamente.
   
- Tem razão. Vou ficar.
   
- Obrigado – afirmei, bbrandamente.
   
- Agora – disse o Sr. Crepsley, meditando – isso nos deixa com uma dúvida: devemos manter nossa base aqui ou nos deslocarmos para um outro lugar?
   
b- Ficaremos, é claro – respondi, rapidamente.
   
Por mais melancólico que estivesse, o vampiro conseguiu sorrir torto.
   
- Achava que você iria dizer isso. Eu o vi pela janela enquanto beijava o rosto de
sua professora.
   
- Você estava me espionando! – reclamei, irritado.
   
- Essa era a ideia, não? Respondeu ele. Eu estava indignado, só que, é claro, que esse era o plano. – Você e Harkat devem ficar recolhidos enquanto eu estiver ausente – continuou o Sr. Crepsley. – Se forem atacados, terão dificuldades para se defender.
   
- Eu estou pronto para correr riscos, caso Harkat também esteja.
   
O pequenino encolheu os ombros.
   
- A ideia de ficar não... me assusta.
   
- Muito bem – suspirou o Sr. Crepsley. – Mas prometam que irão abandonar a busca pelos assassinos enquanto eu estiver ausente e não farão nada que os coloque em perigo.
   
- Isso você não precisa temer – retruquei. – Caçar assassinos é a última coisa que está na minha cabeça. Tenho algo muito mais terrível com o que me preocupar... Deveres de casa!
   
O Sr. Crepsley se despediu. Correu para o hotel para recolher seus pertences e partir. Quando chegamos lá, havia ido embora. Provavelmente já estava nos limites da cidade, preparando-se para voar. Tudo parecia mais solitário sem a sua presença. Estávamos mais assustados, embora não muito preocupados. Ele só ficaria ausente durante algumas semanas, no máximo. O que poderia dar errad em tão pouco tempo?
   
 
   
As semanas seguintes foram duras. Com o Sr. Crepsley fora da cidade, a caça aos Vampixiitas e a contagem de cadáveres estáveis (ninguém fora assassinado recentemente), tive condições de me concentrar na escola. Nada tinha mudado, visto a quantidade de esforço que eu tinha que fazer.
   
Débora mexia os pauzinhos para aliviar minha carga. Orientado por ela, aumentei os efeitos do incêndio imaginário, no qual eu estivera preso e disse que perdera muito tempo de escola. Expliquei minhas boas notas dizendo que meu pai era o melhor amigo do diretor do meu antigo colégio. O Sr. Chivers decididamente não se deixou imprecionar quando ouviu isso, no entanto, Débora o convenceu a não dar muita importância.
   
Optei por não ter aulas de línguas modernas e passei a assistir às aulas de matemática e ciências, com uma turma dois anos abaixo da minha. Sentia-me mais esquisito do que nunca, sentado no meio de um bando de garotos de treze anos, mas pelo menos, conseguia acompanhar o que eles estavam fazendo. O Sr. Smarts ainda era o professor de ciências, porém agora estava mais compreensivo por saber que eu não andava fingindo ignorância, e passava um bom tempo me ajudando a recuperar o tempo perdido.
   
Tinha dificuldades eminglês, história e geografia. Com as horas livres a mais que troquei pelas aulas de línguas, conseguia me concentrar nessas disciplinas e, aos poucos, me equiparar aos meus colegas de classe.
   
Gostava de desenho mecânico e de informática. Meu pai havia me ensinado os fundamentos básicos do desenho quando eu era pequeno – ele esperava que eu me dedicasse à arte de desenhar quando crescesse -= e rapidamente recuperei o que havia perdido. Para minha surpresa, me viciei em computadores, tanto quanto vampiros em sangue, ajudado pelos meus dedos super-rápidos, que podiam ser mais velozes do que os de qualquer digitador humano.
   
Tive que manter uma rigorosa vigilância sobre os meus poderes. Os alunos da turma ainda suspeitavam de mim e era difícil fazer amigos. Mas sabia que poderia me tornar popular se participasse das atividades esportivas da hora do almoço. Poderia brilhar em qualquer modalidade – futebol, basquete, randebol – e todo mundo gosta de um vencedor. A tentação de me mostrar e de ganhar alguns amigos por conta disso era grande.
   
Contudo, resisti. O risco era enorme. Não era só a possibilidade de que eu fosse fazer algo sobre-humano – como pular mais alto do que qualquer jogador profissional de basquete – que pudesse expor meus poderes às pessoas, mas o medo de que pudesse machucar alguém. Se um sujeito me empurrasse enquanto estivesse jogando futebol, eu poderia perder a cabeça e lhe acertar um soco... E os meus socos acabariam levando um humano ao hospital, ou pior, ao necrotério!
   
Educação física era, portanto, uma aula frustrante, pois tinha de mascarar deliberadamente a minha força por trás de uma fachada patética e desajeitada. Inglês, por mais estranho que fosse, também era uma matéria dolorosa. Era ótimo estar com Débora, mas quando estávamos em aula agíamos como aluno e professor normais. Não podíamos mostrar intimidade. Mantínhamos um tom frio, distante, que fazia com que os quarenta minutos – oitenta nas quartas e sextas-feiras, em que as aulas de inglês eram duplas – passassem numa lentidão agonizante.
   
Depois do colégio e nos fins de semana, quando eu passava no seu apartamento para as aulas particulares, era diferente. Lá podíamos relaxar e discutir o que quiséssemos. Podíamos nos acomodar no sofá com uma garrafa de vinho e ver um filme antigo na TV , ou ficar ouvindo música e conversando sobre o passado.
   
Jantava na casa de Débora quase todas as noites. Ela adorava cozinhar e experimentávamos uma variedade de banquetes. Logo comecei a ganhar peso e tive de me exercitar para me manter em forma.
   
Mas nem tudo era descanso e fartos banquetes com Débora. Ela estava determinada a me educar, me colocar num nível satisfatório, e gastava duas ou três horas daquelas noites passando a matéria comigo. Não era fácil para ela porque, além de estar cansada depois de um dia de trabalho, não entendia nada de matemática, ciências ou geografia. No entanto, insistiu e deu um exemplo que me senti forçado a seguir.
   
- Sua gramática era fraca – disse Débora uma noite dessas, lendo um ensaio que eu escrevera. – Seu inglês é bom, mas você tem alguns maus hábitos que precisa mabandonardar.
   
- Como o que?
   
- Esta frase, por exemplo: b”John e mim fomos à loja comprar uma revista.” O que há de errado com ela?
   
Pensei um pouco.
   
- “Foram comprar jornais?” – sugeri, inocentemente.
   
Débora jogou o texto na minha cara.
   
- Responda a sério! – disse ela, rindo.
   
Peguei a folha e examinei a frase.
   
- Devia ser John e eu? – imaginei.
   
- Sim – acenou Débora com a cabeça. – Você usa “e mim” o tempo todo. Não é gramaticamente correto. Terá que superar isso.
   
- Eu sei – suspirei. – Mas será duro. Eu tenho um diário e sempre usei “e mim”... Simplesmente me parece mais natural.
   
- Ninguém nunca disse que o inglês era natural – repreendeu-me, para depois franzir a sobrancelha e acrescentar: - não sabia que você mantinha um diário.
   
- Eu mantenho desde os nove anos de idade. Todos os meus segredos estão nele.
   
- Espero que você não escreva sobre mim. Se ele cair em mãos erradas...
   
- Hum – sorri de um jeito malicioso. – Poderia chantagear você se quisesse, não?
   
- Experimente tentar – resmungou ela, para depois ser mais sincera. – Realmente acho que você não devia escrever sobre nós, Darren. Ou, se o fizer, use um código ou invente um nome para mim. Diários podem ser mal interpretados e, se uma menção à nossa amizade vazasse, eu teria muita dificuldade em consertar as coisas.
   
- OK. Não notei nada de novo recentemente... Ando muito ocupado... Mas, quando tiver tempo, exercitarei a devida discrição.
   
Essa era uma das frases favoritas de Débora.
   
- E certifique-se de que, quando nos descrever, irá usar “senhorita X” e eu, não “Senhorita X e mim” – disse ela ponposamente. Depois gritou quando eu atravessei a sala com um pulo e comecei a lhe fazer cócegas até seu rosto ficar vermelho.
   
 
    Capítulo Nove
   
 
   
Na minha terça-feira no colégio, fiz um amigo. Richard montrose era um rapaz baixo, de cabelo ccurto, raspado à máquina, que eu reconhecia das minhas aulas de inglês e de história. Era um ano mais novo do que a maioria. Não falava muito, mas era sempre cumprimentado pelos professores, o que, é claro, fazia dele o alvo perfeito para os brigões.
   
Como eu não participava dos jogos na quadra, participava a maior parte dos meus horários de almoço passando ou na sala de computadores do terceiro andar do prédio que ficava nos fundos da escola. Era lá que eu estava quando ouvi sons de briga no lado de fora e fui investigar. Encontrei Richard imobilizado contra a parede por Smickey Martin – o mesmo sujeito que me chamara de pela-saco no meu primeiro dia na escola – e três de seus amigos. Smickey estava esvaziando os bolsos do garoto.
   
- Você não sabe que tem de pagar, Montinho – dizia ele, às gargalhadas. – Se nós não pegarmos o seu dinheiro, alguém pegará. Melhor que seja um diabo conhecido do que um desconhecido.
   
- Por favor Smickey! – implorou Richard soluçando. – Não esta semana. Tenho de comprar um Atlas novo.
   
- Devia ter cuidado melhor do antigo – riu Smickey, sarcasticamente.
   
- Foi você que o rasgou, seu... – Richard estava prestes a xingar Smickey, mas se
conteve.
   
Smickey fez uma pausa ameaçadora.
   
- Do que você ia me chamar, Montinho?
   
- De nada – soluçou Richard, agora verdadeiramente apavorado.
   
- Sim, você ia – rosnou Smickey. - Segurem ele, caras! Vou te ensinar a...
   
- Não vai ensinara nada – falei calmamente, vindo de trás.
   
Smickey se virou rapidamente. Quando me viu, deu uma gargalhada.
   
- É o pequeno Darresy Horston – riu ele. – O que você está fazendo aqui? – Não respondi, só o encarei friamente. – É melhor sair correndo, Horstinho. Dessa vez não vamos pegar dinheiro de você... Mas isso não quer dizer que não o faremos!
   
- Você não vai tirar nada de mim – disse a ele. – E também não vai tirar mais nada de Richard daqui em diante. Nem de ninguém!
   
- Oh. – Os olhos dele se apertaram. – Você está falando demais, Horstinho. Se engolir o que disse rapidamente, posso até me esquecer de que você abriu a boca.
   
Andei em sua direção, calmamente, me deleitando com a chance de colocar esse brigão no seu devido lugar. Smickey franziu a testa, não estava esperando um desafio tão aberto. Depois sorriu, agarrou o braço esquerdo de Richard e o virou na minha direção. Dei um passo para o lado enquanto Richard gritava – estaa completamente focado em Smickey – quando então o ouvi se chocando com algo duro. Olhando para trás, vi que ele havia se chocado contra o corrimão das escadas – e estava prestes a cair de uma altura de três andares!
   
Joguei-me para trás e agarrei os pés de Richard. Não consegui pegar o seu pé esquerdo, mas firmei alguns dedos no tornozelo direito pouco antes de ele desaparecer do outro lado do corrimão. Segurando com força o tecido do seu uniforme, resmunguei enquanto o peso de seu corpo me lançava com força contra os balaústres. Ouvi um som familiar e temi que suas calças estivessem rasgando e que eu acabasse perdendo-o. mas o material agüentou e, enquanto Richard estava pendurado, lamuriando-se, eu o icei de volta e o pus de pé.
   
Assim que Richard estava em segurança, virei-me para encrar Smickey Martin e o resto. Já haviam fugido, como covardes que eram.
   
- Cachorro que ladra não morde – murmurei e depois perguntei se Richard estava bem. Ele fez um leve aceno com a cabeça e não disse nada. Deixei-o onde estava e voltei para o fraco zumbido da sala dos computadores.
   
bNo instante seguinte, Richard apareceu no vão da porta. Ele ainda estava tremendo, mas també sorria.
   
- Você salvou a minha vida – afirmou. Encolhi os ombros e fiquei olhando para a tela, como se estivesse imerso nela. Richard esperou alguns segundos e depois disse: Obrigado!
   
- Sem problemas. – levantei os olhos em sua direção. – Três andares não seria uma grande queda. Você provavelmente teria quebrado alguns ossos.
   
- Creio que não. Eu estava caindo com o nariz virado para baixo, como um avião. - Ele se sentou do meu lado e olhou para o monitor. – Está criando um protetor de tela?
   
- sei onde encontrar umas cenas boas de fimles de terror e de ficção científica. Quer que eu mostre?
   
Acenei positivamente.
   
- Seria legal.
   
Sorrindo, ele fez seus dedos pairarem sobre o teclado e logo estávamos conversando sobre a escola, sobre o dever de casa e sobre computadores, enquanto o resto do horário de almoço passava voando.
   
 
   
Richard trocou de lugar nas aulas de inglês e de história para se sentar ao meu lado e deixou que eu copiasse suas anotações. Ele se valia dos conhecimentos de estenografia, que permitiam que anotasse tudo que era dito na sala de aula. E também começou a passar grande parte dos recreios e das horas de almoço comigo. Tirou-me da sala dos computadores e me apresentou a outros de seus amigos. Eles não me receberam exatamente de braços abertos, mas pelo menos, agora eu tinha algumas pessoas com quem podia conversar.
   
Era divertido sair, conversar sobre TV , Gibis, música, livros e (claro!) garotas. Harkat e mim – Harkat e eu – tínhamos aparelhos de TV em nossos quartos do hotel e comecei
a assistir a alguns programas à noite. A maioria das coisas de que os meus novos amigos gostavam era batida e cansativa, mas fingia me entusiasmar do mesmo jeito.
   
A semana passou rapidamente e, antes que eu pudesse notar, já estava com outro fim de semana pela frente. Pela primeira vez estava levemente desapontado por ter dois dias livres nas mãos. Richard estaria longe na casa de seus avós, no entanto, me animei com a possibilidade de passar esse período com Débora.
   
Vinha pensando muito nela e no vínculo que havia entre nós. Éramos muito ligados quando adolescentes e agora, me sentia mais perto dela do que nunca. Sabia que havia obstáculos – especialmente a minha aparência -, mas por ter passado tanto tempo a seu lado acreditava agora que poderíamos superar esses empecílios e retomar o que havíamos interrompido há treze anos.
   
Naquela noite de sexta-feira, inclinei-me e tentei beijar Débora. Ela pareceu ter ficado surpresa e me afastou suavemente, rindo constrangida. Quando tentei beijá-la novamente, sua surpresa se transformou em fria raiva e ela me empurrou com vontade.
   
- Não! – vociferou.
   
- Por que não? – retruquei magoado.
   
- Sou sua professora – disse, levantando-se. – Você é meu aluno. Não seria
correto.
   
- Não quero ser seu aluno – resmunguei, enquanto levantava também. – Quero ser seu namorado.
   
Inclinei-me para beijá-la mais uma vez, mas antes que pudesse fazê-lo, ela me deu um tapa com força. Pisquei e a encarei, atordoado. Ela me bateu de novo, mais delicadamente agora.
   
Débora tremia e havia lágrimas em seus olhos.
   
- Débora – suspirei, - não tinha a intenção de...
   
- Quero que você vá embora já – disse ela. Dei dois passos para trás e depois parei. Ia começar a protestar. – Não. Não diga nada. Só saia daqui, por favor.
   
Acenando com a cabeça, inconformado, dei-lhe as costas e caminhei até a porta. Fiz uma pausa quando ainda estava segurando a maçaneta e, de costas para ela, falei:
   
- Só queria ficar mais perto de você. Não queria lhe causar mal nenhum.
   
Depois de um curto silêncio, Débora suspirou e disse:
   
- Eu sei.
   
Arrisquei uma rápida olhada para trás: Débora estava com os braços cruzados sobre o peito e olhava para o chão, prestes a chorar.
   
- Isso muda as coisas entre nós? – perguntei.
   
- Não sei – respondeu ela, honestamente antes de levantar o rosto e de eu perceber a confusão em seu olhar, ainda cheio de lágrimas. – Vamos deixar as coisas se acalmarem durante o fim de semana. Falaremos sobre isso na segunda-feira. Preciso pensar.
   
- OK. – Abri a porta, dei um passo para trás, e depois disse muito rapidamente. – Você pode não querer ouvir isso, mas eu amo você, Débora, amo mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. – Antes que ela pudesse responder, eu bati a porta e desci as escadas furtivamente, como um rato desprezado.
   
 
    Capítulo Dez
   
 
   
Saí correndo pelas ruas, como se andar mais rápido pudesse fazer com que eu me livrasse dos meus problemas, pensando em coisas que poderia ter dito para Débora para convencê-la a me aceitar. Mas a minha aparência a estava confundindo. Tinha de encontrar uma maneira de fazer com que Débora me visse como adulto, não como criança. Se eu lhe contasse a verdade? Imaginei a cena:
   
- Débora, prepare-se para um choque... sou um vampiro.
   
- Que ótimo, querido.
   
- Você não está magoada?
   
- Deveria estar?
   
- eu bebo sangue! Rastejo por aí na calada da noite, procurando humanos que estão dormindo para rasgar suas veias!
   
- Bem... Ninguém é perfeito.
   
A conversa imaginária trouxe o sorriso fugaz aos meus lábios. De fato, eu não tinha ideia de como Débora iria reagir. Nunca havia contado tudo para um humano. Não sabia por onde ou como começar, nem o que uma pessoa diria em resposta. Eu sabia que os vampiros não eram os monstros assassinos desprovidos de emoções dos livros e filmes de terror – mas como mudaria a cabeça dos outros?
   
- malditos humanos! – xinguei, chutando uma caixa de correio com raiva. – Malditos vampiros! Devíamos todos ser tartarugas ou algo parecido!
   
Envolto naquele pensamento ridículo, olhei em volta e percebi que não sabia em que parte da cidade estava. Fiquei de olho no nome de rua familiar qualquer, no intuito de traçar um caminho de volta para casa. As ruas estavam totalmente desertas. Agora que os assassinos misteriosos haviam parado ou ido embora, os soldados haviam se recolhido. Embora a polícia local ainda estivesse patrulhando as vias públicas, haviam derrubado as barricadas e dava para se andar despercebido. Mesmo assim, o toque de recolher ainda valia, e a maior parte das pessoas estava feliz em respeitá-lo.
   
Eu gostava das ruas escuras e silenciosas. Andando sozinho por alamedas estreitas e cheias de curvas, fantasiei uma caminhada pelos túneis da Montanha do Vampiro. Era confortante me imaginar novamente com Seba Nile, Vanez Blane e os outros, sem nenhuma vida amorosa, escolar ou buscas imprecisas para me preocupar.
   
Pensar na Montanha do Vampiro fez com que me lembrasse de Paz Celestial. Andava tão ocupado com o colégio e com Débora que não tive tempo para refletir sobre a morte do Príncipe. Sentiria falta do velho vampiro que tanta coisa havia me ensinado. E de todas as risadas que partilhamos. Quando passava por um monte de lixo espalhado pelo chão numa viela especialmente escura, lembrei-me de um dia, há alguns anos, quando ele se inclinou bem próximo a uma vela e queimou sua barba. Ficou pulando pelo Salão dos Príncipes como um palhaço, gritando e batendo as chamas até...
   
Algo me atingiu com força na nuca e acabei caindo em cima do lixo. Gritei enquanto caía, minhas lembranças de Paz foram se despedaçando. Depois rolei defensivamente, com a cabeça entre as mãos. No momento em que eu rolava, um objeto de prata bateu contra o chão bem no lugar onde minha cabeça estava, e fagulhas voaram.
   
Ignorando a cabeça ferida, me arrastei de joelhos para encontrar algo com que pudesse me defender. A tampa de plástico de uma lata de lixo estava jogada a meu lado. Não seria muito, mas foi tudo que consegui encontrar. Inclinando-me rapidamente para frente peguei-a e a segurei como se fosse um escudo. Virei-me para enfrentar quem me atacava, que por sinal vinha em minha direção numa velocidade a que nenhum humano poderia chegar.
   
Algo dourado irrompeu em linha curva sobre o meu escudo improvisado, partindo a tampa da lata de lixo ao meio. Alguém deu uma risada, e era o som de um mal puro e insano.
   
Durante um instante tenebroso, achei que era um fantasma do Vampirado, que tinha voltado para se vingar. Mas isso era uma tolice. Eu acreditava em fantasmas – Harkat costumava ser um, antes do senhor Tino trazê-lo de volta do mundo dos mortos -, no entanto, esse sujeito era sólido demais para ser um espírito.
   
- Vou cortá-lo em pedacinhos – alardeou o meu agressor, circundando-me cautelosamente. Havia algo familiar em sua voz, mas por mais que tentasse não conseguia identificá-lo.
   
Estudei suas formas enquanto me rodeava. Estava usando roupas escuras e seu rosto estava coberto por uma balaclava, e um tipo de gorro que chegava aos ombros. Dava para ver a ponta de uma barba se projetando por baixo do tecido. Ele era grande e corpulento – mas não tanto quanto Vampirado – e era possível enxergar dois olhos cor-de-sangue cintilando sobre seus dentes que rosnavam. Ele não tinha mãos, apenas dois dispositivos metálicos – um dourado e outro prateado – afixados às extremidades de seus cotovelos. Havia três ganchos em cada dispositivo – afiados, curvos e mortais.
   
O vampixiita, que reconheci por seus olhos e sua velocidade, atacou. Ele era rápido, mas evitei os ganchos assassinos, que se travaram na parede às minhas costas e abriram uma cratera considerável quando se soltaram. Demorou menos de um segundo para que meu agressor soltasse a sua mão, e aproveitei esse tempo para atacar de volta, chutando-o no peito. Ele já esperava por isso e atingiu minha canela com seu outro braço, jogando minha perna para o lado, brutalmente.
   
Gritei quando a dor se espalhou pela minha perna. Saltando enfurecido, joguei as duas metades da tampa da inútil lata de lixo no vampixiita. Ele desviou, às gargalhadas. Tentei correr, em vão. Minha perna machucada não conseguia me sustentar e, depois de dois passos, caí no chão indefeso.
   
Virei de frente e encarei o vampixiita com ganchos nas mãos enquanto se aproximava sem pressa. Ele virava seus braços de um lado para o outro e os ganchos faziam ruídos estridentes e horríveis à medida que roçavam um no outro.
   
- Vou rasgá-lo – sibilou meu adversário. – Lenta e dolorosamente. Começarei pelos seus dedos. Vou cortá-los, um de cada vez. Depois as mãos. E então os dedos dos pés. E então...
   
Fez-se um ruído cortante e metálico, seguido pelo som de um tiro que parecia ter rompido o ar. Algo passou raspando pela cabeça do vampixiita, errando o alvo por pouco. Atingiu a parede e ficou enterrado, era uma flecha curta e espessa, com uma ponta de aço. O vampixiita disse um palavrão e se agachou, escondendo-se nas sombras da viela.
   
Os minutos se arrastaram como aranhas correndo pela minha espinha. A respiração furiosa do vampixiita e meus soluços ofegantes enchiam o ar. Não dava para ver nem para ouvir quem atirara a flecha. Ao se mover para trás, rangendo os dentes, o olhar do vampixiita se fixou no meu.
   
- Ainda vou pegá-lo – jurou. – Você morrerá lentamente, em grande agonia. Cortarei sua carne. Primeiro os dedos. Um de cada vez. – Depois disso, virou-se e saiu correndo. Uma segunda flecha foi atirada em sua direção, mas ele se agachou e mais uma vez a seta errou o alvo, atingindo um grande saco de lixo. O vampixiita saiu em disparada, dobrando a esquina no final da viela e sumindo rapidamente no meio da noite.
   
Fez-se uma pausa mais longa. Ouvi passos. Um homem de altura média apareceu, saindo da escuridão. Estava vestido de preto, co um lenço grande enrolado no pescoço e luvas cobrindo as mãos. Era grisalho – embora não fosse velho – e suas feições tinham traço
austero. Estava segurando uma arma que mais parecia um rifle, com a diferença de que uma flecha com ponta de aço se projetava de sua extremidade: uma balista. Outra dessa estava pendurada em seu ombro esquerdo.
   
Sentei-me, resmungando, e esfreguei minha perna direita para ver se ela se
recuperava.
   
- Obrigado – agradeci assim que o sujeito se aproximou. Ele não repsondeu, apenas continuou andando até o final da viela, onde vasculhou a área em busca de algum sinal do vampixiita.
   
Virando-se, o homem voltou e parou a dois metros de mim. Segurava a balista na mão direita, que não estava apontada para o chão de um jeito inofensivo, e sim na minha direção.
   
- Dá para baixar isso? – perguntei, forçando um sorriso encabulado. – Você acabou de salvar a minha vida. Seria embaraçoso se isso disparasse por acidente e me matasse.
   
Ele não respondeu imediatamente. Nem abaixou a arma. Não havia nada cordial em sua expressão.
   
- Voce ficou surpreso por eu ter poupado a sua vida? – pergutou ele. Como aconteceu com o vampixiita, percebi algo familiar na voz daquele sujeito, porém, mais uma vez não conseguia identificá-lo.
   
- Eu... acho... – afirmei com a voz fraca, enquanto fitava a flecha, nervoso.
   
- Você sabe por que o salvei?
   
Engoli em seco.
   
- Por causa da bondade que há no seu coração?
   
- Talvez – ele deu mais um passo na minha direção. A arma estava agora apontada direto para o meu coração. Se atirasse, ele faria um buraco do tamanho de uma bola de futebol no meu peito. – Ou quem sabe eu estava salvando para mim! – disse, sibilando.
   
- Quem é você? – falei em voz baixa, forçando as costas contra a parede.
   
- Não está me reconhecendo?
   
Balancei a cabeça. Estava certo de que havia visto seu rosto antes, mas não conesguia lembrar seu nome.
   
O sujeito respirou pelo nariz.
   
- Estranho. Nunca achei que você esqueceria. Pois bem, já faz um bom temmpo e os anos não foram tão generosos comigo quanto foram com você. Talvez vá se lembrar disso. – Ele estendeu a mão esquerda. A palma da luva foi cortada, espondo a carne que havia por baixo. Era uma mão normal em todos os sentidos, exceto por um detalhe: no centro, uma cruz tosca estava atalhada na pele.
   
Ao olhar para a cruz rósea e delicada, voltei no tempo e logo eu estava de volta a um cemitério no meu primeiro dia como assistente de vampiro. Encarava o garoto cuja vida salvara, um menino que tinha ciúmes de mim, pois achava que eu havia conspirado com o senhor Crepsley e o traíra.
   
- Lucas! – arfei, enquanto tirava os olhos da cruz e fitava seus olhos firmes e frios. – Lucas Leopardo!
   
- Sim – acenou positivamente, com ar de austeridade.
   
Lucas Leopardo, meu ex-melhor amigo. O garoto furioso e confuso que jurara se tornar um caçador de vampiros quando crescesse para que pudesse me pegar – e me matar!
   
 
    Capítulo Onze
   
 
   
Ele estava perto o bastante para eu golpear o caso da arma e quem sabe redirecioná-la. Contudo, não podia me mover acima de qualquer coisa, estava atordoado, e não o observando passivamente. Débora Cicuta entrando na minha aula de inglês havia me deixado pasmo, mas Lucas Leopardo (seu nome verdadeiro era Leonardo) surgindo assim, do nada, era dez vezes mais chocante.
   
Depois de alguns segundos de ansiedade, Lucas abaixou a balista e a enfiou num cinto às suas costas. Estendeu as suas mãos, pegou-me pelo meu braço esquerdo e me ergueu. Levantei-me obediente, como se fosse um boneco em suas mãos.
   
- Estive com a sua vida nas minhas mãos por um minuto, hein? – disse... e sorriu.
   
- Você não vai me matar? – perguntei, ofegante.
   
- Que nada! – Ele pegou minha mão direita e a sacudiu de um jeito esquisito. – Oi Darren. É bom vê-lo novamente, velho amigo.
   
Olhei para nossas mãos apertadas e depois para o seu rosto. E, finalmente, o abracei, agradecido por ter salvo a minha vida.
   
- Lucas! – Solucei no seu ombro.
   
- Pare com isso – murmurou, enquanto eu percebia sua voz definhar. – Você vai me fazer chegar às lagrimas se continuar com isso. – Afastando-me, ele enxugou os olhos e sorriu.
   
Sequei meu rosto e fiquei radiante.
   
- É realmente você!
   
- É claro. Você não acha que duas pessoas poderiam nascer tão lindas assim, ou
acha?
   
- Modesto como sempre – notei secamente.
   
- Não tenho nada para ser modesto – desdenhou, dando uma gargalhada em seguida. – Você consegue andar?
   
- Acho que mancar é o máximo que consigo fazer.
   
- Então apóie-se em mim. Não quero ficar à toa por aí. O Gancho Matador pode voltar com seus amigos.
   
- Gancho Matador? Você que dizer o vampi... Parei e me perguntei o quanto Lucas sabia sobre as criaturas da noite.
   
- O vampixiita – concluiu, acenando calmamente
   
- Você sabe deles?
   
- Obviamente.
   
- O sujeito cheio de ganchos é o tal que vem matando gente por aí?
   
- Sim. Mas ele não está sozinho. Discutiremos isso mais tarde. Primeiro vamos tirar você daqui e deixá-lo apresentável.
   
Lucas me levou de volta por onde eu viera, deixando que me apoiasse nele. Enquanto caminhávamos, perguntei a mim mesmo se não havia ficado desacordado na viela. Se não fosse a dor na minha perna (que era bastante real) teria ficado seriamente tentado a acreditar que isso não passava de um sonho dos mais delirantes.
   
Lucas me levou para o quinto andar de um prédio caindo aos pedaços. Muitas das portas pelas quais passamos ao longo das plataformas entre dois lances de escadas estavam fechadas com tábuas ou arrombadas.
   
- Bela vizinhança – comentei sarcasticamente.
   
- Trata-se de um prédio condenado. Alguns apartamentos estão ocupados, grande parte deles por velhos que não têm para onde ir, mas a maioria está vazio. Prefiro lugares como esse a pensões e hotéis. O espaço e a tranquilidade são mais convenientes para os meus propósitos.
   
Ele parou numa porta marrom quebrada que era mantida fechada por uma corrente e um cadeado extremamente grossos. Enfiando a mão num dos bolsos, ele pegou uma chave, abriu o cadeado, removeu a corrente e abriu a porta com um empurrão. O ar lá dentro fedia a urina, no entanto, ele não dava a menor importância a isso. Empurrou-me para dentro e fechou a entrada. A escuridão ainda se impôs por mais algum tempo, até que acendeu uma vela.
   
- Não tem eletricidade – afirmou. – Os apartamentos dos andares mais baixos ainda têm luz, mas a daqui foi cortada na semana passada.
   
Ajudou-me a entrar numa sala de estar muito bagunçada. Colocou-me num sofá com a aparência de já ter tido dias melhores: estava surrado e molas de arame se projetavam de diversos buracos.
   
- Tente não se espetar sozinho – disse Lucas, às gargalhadas.
   
- O seu decorador está em greve?
   
- Não reclame – repreendeu-me. – Aqui é uma boa base para se trabalhar. Se tivéssemos que voltar par um hotel chique qualquer, teríamos que explicar o problema com a sua perna e o porquê de estarmos cobertos de sujeira. E ainda responder sobre isso... – Livrou-se do par de balistas e as colocou no chão.
   
- Você se importa de me dizer o que está acontecendo, Lucas? – perguntei calmamente. – Como podia estar na viela e por que estava carregando essas armas?
   
- Mais tarde eu falo, depois que cuidarmos dos seus ferimentos. E até que você – ele me mostrou um telefone celular e o passou para mim – faça uma ligação.
   
- Para quem eu devo ligar? – perguntei, olhando para o telefone com uma certa desconfiança.
   
- O Gancho Matador seguiu você desde que saiu da casa da sua amiga... a moça de pele escura.
   
Meu rosto ficou branco.
   
- Ele sabe onde Débora mora? – suspirei.
   
- Se esse é o seu nome... sim. Duvido que vá atrás dela, mas se você não quiser correr o risco, meu conselho é que ligue para lá e lhe peça para...
   
Já estava martelando os botões antes dele terminar. O telefone de Débora tocou quatro, cinco, seis, sete vezes. Estava prestes a sair correndo para salvá-la, apesar da minha perna machucada, quando ela atendeu o telefone e disse:
   
- Alô?
   
- Sou eu.
   
- Darren? O que...
   
- Débora... você confia em mim?
   
Fez-se uma pausa de espanto.
   
- Isso é alguma brincadeira?
   
- Você confia em mim? – insisti.
   
- É claro – respondeu ela, percebendo a minha seriedade.
   
- Então saia agora daí. Jogue umas roupas dentro de uma mochila e saia rapidamente. Procure um hotel para passar o fim de semana. Fique por lá.
   
- Darren, o que está acontecendo? Você perdeu o seu...
   
- Você quer morrer? – interrompi-a.
   
Fez-se silêncio. Depois, calmamente.
   
- Não.
   
- Então saia. – Desliguei a chamada e rezei para que ela desse atenção ao meu aviso. – O vampixiita sabe onde estou hospedado? – perguntei, pensando em Harkat.
   
- Duvido. Se soubesse, teria atacado você lá. Pelo que vi, ele topou com você hoje à noite por acaso. Estava espiando um monte de gente, escolhendo sua próxima vítima, quando o viu e ficou no seu encalço. Seguiu você até a casa da sua amiga, esperou, continuou atrás de você quando saiu e...
   
Eu sabia o resto.
   
Lucas pegou uma caixa de primeiros socorros que estava numa prateleira atrás do sofá. Pediu que me inclinasse para a frente para que examinasse minha nuca.
   
- Está cortada? – perguntei.
   
- Sim, mas não é nada sério. Não será necessário dar pontos. Vou limpar tudo e fazer um curativo. – Depois de tratar da minha cabeça, concentrou-se na minha perna. Estava profundamente ferida e minhas calças estavam encharcadas de sangue. Lucas as cortou com uma tesoura bem afiada, deixando à mostra a carne que havia por baixo, e esfregou o ferimento com lã de algodão. Quando a região ficou limpa, examinou-a por um instante antes de sair e voltar com um rolo de categute e uma agulha. – Isso vai doer.
   
- Não será a primeira vez que sou costurado – afirmei, sorrindo. Ele começou a trabalhar no corte e se saiu muito bem. Eu só ficaria com uma pequena cicatriz quando o ferimento sarasse. – Você já fez isso antes – notei, enquanto ele guardava o material.
   
- Tive aulas de primeiros socorros. Achei que seriam convenientes. Nunca imaginei quem seria o meu primeiro paciente. – Ele perguntou se eu queria algo para beber.
   
- Só um pouco d’água.
   
Pegou uma garrafa de água que estava dentro de uma bolsa ao lado da pia e encheu dois copos.
   
- Não está gelada, desculpe. A geladeira não funciona sem eletricidade.
   
- Não tem problema – falei, depois de tomar um bom gole. – A água foi cortada também? – perguntei, acenando em direção a pia.
   
- Não, mas você não iria querer bebê-la... serve apenas para lavar as coisas, e você passaria dias no banheiro se a engolisse.
   
Sorrimos um para o outro por sobre a borda de nossos copos.
   
- E então – perguntei – se importa em me dizer o que andou fazendo nos últimos
quinze anos?
   
- Você primeiro – retrucou Lucas.
   
- Nada disso. Você é o anfitrião. Tem que começar.
   
- Vamos tirar na sorte?
   
- OK.
   
Ele pegou uma moeda e pediu para que eu escolhesse o lado.
   
- Cara.
   
Lucas jogou a moeda para o alto, pegou-a no ar e a pousou nas costas da outra mão. Quando mostrou o lado sorteado, fez uma cara feia.
   
- Nunca tive muita sorte – suspirou antes de começar a falar. – Foi uma longa história. Antes dele terminar, restava pouca água na garrafga e já havíamos acendido uma segunda vela.
   
 
   
Lucas detestou a mim e ao Sr. Crepsley por muito, muito tempo. Ele costumava ficar sentado até tarde da noite, planejando o futuro, sonhando com o dia em que nos perseguiria e atravessaria nossos corações com um punhal.
   
- Estava louco de raiva – murmurou. – Não conseguia pensar em mais nada. Nas aulas de marcenria, eu fazia estacas. Em geografia eu decorava mapas de todas as partes do mundo, para saber como me locomover em qualquer país pelo qual viesse a persegui-los.
   
Aprendeu tudo que foi possível sobre vampiros. Possuía uma grande coleção de livros de terror quando o conheci, mas ela dobrou de tamanho e depois triplicou no espaço de um ano. Descobri que climas nos eram favoráveis, onde preferíamos construir nossas casas, qual era a melhor forma de nos matar.
   
- Entrei em contato com pessoas da internet – explicou. – Você ficaria surpreso com a quantidade de caçadores de vampiros que existem. Trocamos anotações, histórias, opiniões. A maior parte deles era formada por sujeitos excêntricos, no entanto, alguns sabiam do que estavam falando.
   
Quando fez dezesseis anos, ele saiu de casa e do colégio e caiu no mundo. Sustentou-se com uma série de empregos esquisitos, trabalhando em hotéis, restaurantes e fábricas. Às vezes roubava, invadia casas vazias e delas tomava posse. Foram anos duros, improdutivos e solitários. Tinha muito poucos escrúpulos, quase ninguém como amigo e nenhum interesse verdadeiro, exceto aprender a se tornar um matador de vamppiros.
   
- No começo, pensei em fingir que era amigo deles – explicou. – Saí à cata de vampiros, agindo como se quisesse me tornar um. A maior parte do que li em livros ou encontrei na internet era bobabem. Decidi que a melhor maneira de me livrar dos meus
inimigos era conhecê-los.
   
Evidentemente, quando Lucas finalmente saiu no encalço de alguns vampiros e começou a estudar os seus bons livros, percebeu que não éramos monstros. Descobriu o nosso respeito pela vida, que não matávamos humanos quando bebíamos seu sangue e que éramos pessoas de honra.
   
- Isso fez com que eu o olhasse profundamente para dentro de mim – disse, suspirando. Seu rosto parecia sombrio e triste à luz da vela. – Vi que eu era um monstro, como o Capitão Ahab, em Moby Dick, que caçava um par de baleias assassinas... sendo que as baleias não eram assassinas!
   
Aos poucos, seu ódio foi diminuindo. Ainda se ressentia comigo pelo fato de eu ter partido com o Sr. Crepsley, porém aceitou o fato de que não tinha feito isso para ofendê-lo. Quando olhou para o passado, viu que eu havia desistido da minha família e do meu lar para salvar sua vida, e não havia enganado ou tramado contra ele.
   
Foi aí que resolveu abandonar sua louca busca. Parou de nos perseguir, tirou da mente todos os pensamentos de vingança e procurou decidir como faria pelo resto da vida.
   
- Poderia ter voltado – disse ele. – Minha mãe ainda está viva. Poderia ter voltado para casa, terminado os meus estudos, encontrado trabalho convencional e criado uma vida normal para mim. Mas a noite tem uma maneira de reivindicar aqueles que a abraçam. Eu havia descoberto a verdade sobre os vampiros... e também sobre os vampixiitas.
   
Lucas não conseguia parar de pensar neles. Achava incrível que criaturas assim pudessem existir, vagando e matando como lhes convinha. Isso o deixava enfurecido. Queria dar um fim às práticas homicidas deles.
   
- Só que eu não podia ir à polícia – afirmou, sorrindo com tristeza. – Teria que capiturar um vampixiita vivo para provar que eles existiam, mas pegar um deles vivo era quase impossível, como estou certo de que você sabe. Mesmo se acreditassem em mim, o que poderiam ter feito? O vampixiita vem, mata e depois vai embora. No momento em que eu convencesse a polícia do perigo em que estavam metidos, o vampixiita teria sumido e o perigo junto com ele. So havia uma única coisa a fazer... eu teria que dar conta deles sozinho!
   
Aplicando o conhecimento que juntou quando estava estudando para ser um caçador de vampiros, lançou-se à tarefa de rastrear e matar o máximo de vampixiitas que pudesse. Não era fácil, pois eles escondem seu rasto (e os corpos de suas vítimas) habilmente, deixando pouca evidência de sua existência. No entanto, com o tempo, Lucas foi encontrando gente que sabia algo sobre o jeito de ser dessas criaturas. Conseguiu montar um quadro dos hábitos, feições e rotas dos vampixiitas. Assim, acabou batendo de frente com um deles.
   
- Matá-lo foi a coisa mais difícil que eu já havia feito – disse, com a cara fechada. – Sabia que era um assassino e que mataria novamente caso deixasse escapar, mas enquanto eu estava ali, observando-o enquanto dormia... – Ele estremeceu.
   
- Como você fez? – perguntei calmamente. – Como uma estaca?
   
Ele acenou amarga e positivamente.
   
- Que tolo que eu era... sim.
   
- Não entendo. – franzi a testa. – Usar uma estaca não é a melhor maneira de matar um vampixiita, tal como se faz com vampiros?
   
Ele me encarou friamente.
   
- Já matou alguém com uma estaca?
   
- Não.
   
- Então não o faça! – bufou ele. – Cravá-la é bem simples, mas o sangue jorra do seu rosto, sobre os seus braços e peito, e o vampixiita não morre na mesma hora como acontece com os vampiros nos filmes. O que eu matei ficou vivo quase um minuto, gritando e se debatendo. Saiu de seu caixão e veio atrás de mim. Era lento, ainda assim escorreguei em seu sangue e antes de perceber o que estava acontecendo, ele estava sobre mim.
   
- O que você fez? – perguntei, ansioso.
   
- Soquei-o, chutei-o e tentei derrubá-lo. Felizmente ele havia perdido muito sangue e não tinha forças para me matar. Morreu em cima de mim: seu rosto colado ao meu e seu sangue me encharcando, enquanto tremia, soluçava e...
   
Lucas desviou o olhar. Não o pressionei para que me desse mais detalhes.
   
- Desde então aprendi a usá-las. – Ele apontou para as balistas. – São melhor que há. E um machado é bom também, se você tiver uma boa pontaria e a força necessária para arrancar uma cabeça com um só golpe... mas fique longe das armas convencionais... Elas não são confiáveis no que diz respeito aos ossos e músculos extremamente rígidos dos vampixiitas.
   
- Ficarei com isso em mente – retruquei, sorrindo aflito. Depois perguntei quantos vampixiitas ele havia matado.
   
- Seis, embora dois desses fossem loucos. Acabariam morrendo de qualquer
maneira.
   
Eu estava impressionado.
   
- Isso é mais do que a maioria dos vampiros consegue matar.
   
- Os humanos levam uma vantagem sobre os vampiros. Podemos nos mover continuamente e atacar pela manhã. Num embate justo, um vampixiita poderia me fazer em pedaços. Já se você os pegar pela manhã, quando estão dormindo...
   
Ele fez uma pausa e depois acrescentou:
   
- Muito embora isso esteja mudando. Os últimos que persegui estavam acompanhados por humanos. Não tive como me aproximar o suficiente para matá-los. É a primeira vez que ouço falar de vampixiitas viajando com assistentes humanos.
   
- São chamados de “vampitietes”.
   
Ele franziu a testa.
   
- Como você sabe disso? Achava que as famílias da noite não tinham nada a ver umas com as outras.
   
- Não tínhamos até recentemente – afirmei, inflexível, e olhei para o relógio. A história de Lucas não estava completa. Ele ainda não tinha me explicado como tinha vindo parar aqui. Mas era hora de fazer um movimento. Estava ficando tarde e eu não queria deixar Harkat preocupado. – Você iria até o meu hotel comigo? Pode terminar de contar sua história lá. Além do mais, tem alguém com quem eu gostaria que você a partilhasse.
   
- O Sr. Crepsley? – tentou adivinhar. – Não. Ele está fora... A trabalho. Estou falando de outra pessoa.
   
- Quem?
   
- Levaria muito tempo para explicar. Você vem?
   
Ele hesitou por um instante para dpeois dizer que iria. Parou para pegar suas armas antes de sair, e eu tive a impressão de que Lucas sequer ia ao banheiro sem elas!
   
 
    Capítulo doze
   
 
   
Durante a caminhada até o hotel, fiquei atualizando Lucas sobre o que havia acontecido comigo. Foi uma versão muito condensada, mas abordei todos os assuntos e lhe falei da Guerra das Cicatrizes e sobre como ela começou.
   
- O senhor dos vampixiitas – murmuou ele. – Estranho isso, pelo jeito deles se
organizarem.
   
Eu quis saber sobre minha família e meus amigos, mas Lucas não voltava para casa desde os dezesseis anos e não tinha nada a dizer sobre eles.
   
No hotel, levei-o nas minhas costas, enquanto eu escalava a parede externa para chegarmos ao quarto. Os pontos do curativo agüentaram bem, mesmo depois de terem esgarçado com o esforço que fiz. Bat na janela. Harkat apareceu rapidamente e nos deixou
entrar. Fitou Lucas com ar suspeito e não disse nada até eu apresentá-lo.
   
- Lucas Leopardo – cismou – já ouvi falar muito... de você.
   
- Nada bem, aposto. – Lucas riu, enquanto esfregava as mãos. Não havia tirado as luvas, embora houvesse afrouxado um pouco o lenço do pescoço. Um forte ceiro de remédio emanava dele, o que só notara agora que estávamos num quarto quente e normal.
   
- O que ele está fazendo aqui? – pergunto Harkat, com os olhos verdes travados em Lucas. Fiz um breve resumo do que ocorrera. Harkat relaxou um pouco quando soube que aquele humano havia me salvado, contudo, permaneceu alerta. – Você acha que foi inteligente da sua parte... trazê-lo aqui?
   
- Ele é meu amigo – falei, curto e grosso. – E ssalvou a minha vida.
   
- Mas agora ele sabe onde estamos.
   
- E daí? – vociferei.
   
- Harkat está certo – disse Lucas. – Sou humano. Se eu cair na mão dos vampixiitas, podem me torturar para que lhes diga onde vocês estão. É bom que se mudem para algum lugar novo pela manhã, sem me dizer para onde estão indo.
   
- Não creio que isso seja necessário – afirmei formalmente, chateado com Harkat por não ter acreditado em Lucas.
   
Fez-se um silêncio desconfortável.
   
- Bem! – Lucas deu uma risada, acabando com o incômodo. – É muito descortês da minha parte perguntar, mas sou obrigado a fazê-lo. Que diabos é você, Harkat Mulds?
   
O pequenino riu da retidão da pergunta e se afeiçoou um pouco a Lucas. Pediu
que se sentasse e lhe falou sobre o tempo em que era um fantasma que havia sido trazido de volta à vida pelo Sr. Tino. Luca ficou pasmo.
   
- Nunca ouvi nada como isso antes! – exclamou. – Fiquei interessado nos baixinhos de mantos azuis quando os vi no Circo dos Horrores. Senti que havia algo estranho neles, porém me fugiram da cabeça completamente com tudo que aconteceu desde então.
   
A revelação de HAarkat – mesmo sobre ter sido um fantasma – desanimou Lucas.
   
- Algo errado? – perguntei.
   
- Mais ou menos – murmurou ele. – Nunca acreditei em vida após a morte. Achava que matar era o mesmo que dar fim em tudo. Saber que as pessoas têm almas, que podem sobreviver à morte e até voltar... Não são as notícias mais bem-vindas.
   
- Você tem medo que os vampixiitas venham no seu encalço? – perguntei, forçando um sorriso.
   
- Algo assim – respondeu, pensativo. Então, acomodou-se e terminou de contar a história que havia começado em seu apartamento. – Vim para cá há dois meses, quando ouvi relatos sobre aparições de vampixiitas. Imaginei que o assassino poderia ser um vampixiita louco, já que, normalmente, só os loucos deixam os corpos onde podem ser encontrados. No entanto, o que descobri foi ainda mais perturbador.
   
Lucas era um investigador altamente qualificado. Ele conseguiu examinar três das vítimas e encontrou pequena diferença no jeito como forma mortos.
   
- Os vampixiitas... inclusive os loucos... possuem técnicas de beber sangue extremamente desenvolvidas. Dois vampixiitas não drenam uma vítima exatamente da mesma forma e nenhum deles varia o seu método. É possível que haja mais de dois atuando por aqui.
   
E como os vampixiitas loucos eram solitários por natureza, Lucas concluiu que os assassinos eram sãos.
   
- Só que isso não faz sentido – suspirou ele. – Vampixiitas não deixam corpos onde possam ser encontrados. Até onde eu sei, posso imaginar que estão preparando uma armadilha para alguém, embora não tenha ideia de quem seja a vítima.
   
Olhei interrogativamente para Harkat. Ele hesitou, mas depois acenou com a
cabeça.
   
- Conte a ele. – E então falei para Lucas sobre as fichas falsas que foram enviadas à Mahler’s.
   
- eles estão atrás de você? – perguntou ele ncrédulo.
   
- Possivelmente. Ou então do Sr. Crepsley. Mas não estamos totalmente certos. Alguém mais pode estar por trás disso, alguém que quer nos jogar contra os vampixiitas.
   
Lucas refletiu sobre isso em silêncio.
   
- Você ainda não nos contou como estava lá... para salvar Darren esta noite. –
disse Harkat, interrompendo o devaneio do humano.
   
Lucas encolheu os ombros antes de se pronunciar.
   
- foi sorte – disse. Estava virando essa cidade de cabeça para baixo, à cata de vampixiitas. Os assassinos não estão em nenhum dos lugares em que costumam se esconder: fábricas ou prédios abandonados, criptas, velhos teatros. Há oito noites, avistei um sujeito alto , com ganchos no lugar das mãos, saindo de um túnel subterrâneo.
   
- Foi esse cara que me atacou – expliquei a Harkat. – Ele tem três ganchos em cada braço. Uma das mãos é feita de ouro e a outra de prata.
   
- Venho perseguindo-o toda noite desde então – prosseguiu Lucas. – Não é fácil para um humano seguir um vampixiita, pois seus sentidos são muito mais aguçados. Mas tenho bastante prática. Às vezes, eu o perdia, embora sempre o pegasse saindo dos túneis no crepúsculo.
   
- Ele sai na mesma hora toda noite? – perguntei.
   
- É claro que não – bufou Lucas. – Nem mesmo um vampixiita louco faria isso.
   
- Então, como você o encontra?
   
- Prendendo condutores em tampas de bueiros. – Lucas sorriu, orgulhoso. – Os vampixiitas não usam a mesma saída toda noite, porém, eles tendem a optar por uma área estritamente definida quando montam uma base. Prendi condutores em todas as tampas de bueiros num raio de 200 metros. Aos poucos, aumentei a distância para meio quilômetro. Sempre que um deles se abre, uma luz se acende num dispositivo que levo comigo. E aí, tudo é uma simples questão de rastrear o vampixiita. - E, lamentando, completou. – Pelo menos era.
   
Fez uma pequena pausa e continuou:
   
- Depois de hoje, o monstro provavelmente se mudará para um novo esconderijo. Ele não tem noção do quanto sei sobre o que vem fazendo, mas espera pelo pior. Não creio que vá usar aqueles túneis novamente.
   
- Você sabia que estava salvando Darren? – perguntou Harkat.
   
Lucas acenou positiva e seriamente.
   
- Caso contrário, não teria vindo salvá-lo.
   
- O que você quer dizer com isso? – franzi o cenho.
   
- Poderia ter acabado com o Gancho Matador há muito tempo, mas sabia que não estava trabalhando sozinho. Queria encontrar seus companheiros. Vinha explorando os túneis de dia, na esperança de segui-lo até sua base. Por ter interferido nessa noite, perdi essa chance. Não teria feito isso por ningguém mais além de você.
   
- Se ele tivesse atacado um humano normal, você o teria deixado matá-lo? –
arfei.
   
- Sim. – O olhar de Lucas era firme. – Se sacrificar uma pessoa significa que irei salvar muitas mais, e o farei. Se não tivesse visto o seu rosto de relance, enquanto deixava a casa da sua amiga, teria deixado o Gancho Matador acabar com você.
   
Essa era uma maneira cruel de ver o mundo, contudo era uma maneira que eu entendia. Os vampiros sabiam que as necessidades do grupo tinham que ser colocadas acima das do indivíduo. Fiquei surpreso ao ver que Lucas conseguia pensar dessa forma – a maior parte dos humanos não consegue – embora suponha que seja preciso aprender a ser implacável caso se dedique à caça e ao assassinato de criaturas sem escrúpulo.
   
- Isso é mais ou menos tudo – disse Lucas, enquanto puxava seu sobretudo e cobria um pouco mais os ombros, para conter um calafrio. – Há muitas coisas que não mencionei, mas acho que falei sobre quase tudo.
   
- Você está com frio? – perguntou Harkat, notando os arrepios de Lucas. – Posso aumentar o calor.
   
- Isso não resolveria o problema – disse ele. – Peguei uma espécie de germe quando o Sr. Crepsley me testou há muito tempo. Costumava pegar resfriados simplesmente ao
olhar para alguém com o nariz escorrendo. – Puxou o lenço que estaa em volta da sua garganta e depois sacudiu os dedos cobertos por luvas. – É por isso que me agasalho tanto. Se não o fizer, acabo ficando na cama durante dias consecutivos, tossindo e cuspindo.
   
- É por isso que você tem um cheiro tão forte? – perguntei.
   
Lucas deu uma gargalhada.
   
- Sim. Trata-se de uma mistura de ervas especial que esfrego por todo o corpo, antes de me vestir pela manhã. Faz maravilhas. A única desvantagem é o mal cheiro. Tenho que tomar cuidado para não ficar contra o vento quando sigo um vampixiita... Uma baforada disso aqui e eles me identificam.
   
Conversamos mais um pouco sobre o passado. Lucas queria saber como era a vida no Circo dos Horrores e eu queria saber onde ele esteve e o que fazia quando não estava caçando. Depois, voltamos para o presente e a que iríamos fazer com os vampixiitas.
   
- Se o Gancho Matador estiver agindo sozinho – disse ele – meu ataque vai rechaçá-lo. Os vampixiitas não se arriscam quando estão sozinhos. Se acham que foram
descobertos, desaparecem. Mas como esse deve fazer parte de uma gangue, duvido que venha a fugir.
   
- Concordo – afirmei. – Eles se arriscaram muito para montar essa armadilha para abandonar a missão na primeira vez em que algo dá errado.
   
- Você acha que os vampixiitas saberão... que foi você que salvou Darren? – perguntou Harkat.
   
- Não vejo como – respondeu Lucas. – Eles não sabem nada sobre mim. Provavelmente, acham que foi você ou o Sr. Crepsley. Tive o cuidado de não me revelar para o Gancho Matador.
   
- Então ainda temos que derrotá-los – afirmou Harkat. – Não saímos para caçálos desde que... o Sr. Crepsley partiu. Seria muito perigoso, só... nós dois.
   
- Mas se vocês me chamassem para acompanhá-los – retrucou Lucas, lendo os pensamentos do pequenino -, seria diferente. Estou acostumado a caçar vampixiitas. Sei onde procurar e como rastreá-los.
   
- E com a nossa cobertura – acrescentei – você poderia trabalhar mais rápido do que o normal e cobrir um terreno maior.
   
Fitmaos uns aos outros, silenciosamente.
   
- Você estaria correndo um grande risco, envolvendo-se... conosco – avisou-lhe Harkat. – Quem quer que esteja organizando esta armadilha sabe tudo... sobre nós. Você poderá alertá-los da sua presença... nos ajudando.
   
- Também será arriscado para vocês – opôs-se Lucas. – Vocês estão seguros aqui em cima. Os subterrâneos são território deles e, se descermos, seria como um convite para nos atacarem. Lembrem-se, embora os vampixiitas normalmente durmam durante o dia, eles não precisam fazê-lo quando estão protegidos da luz do sol. Podem estar acordados, esperando.
   
Refletimos um pouco mais sobre essas suposições. Então, estend minha mão direita à frente, com a palma virada para baixo.
   
- Estou pronto, caso você também esteja.
   
Imediatamente, Lucas pôs sua mão esquerda – a que tinha a palma com a cicatriz – sobre a minha e afirmou:
   
- Não tenho nada a perder. Estou com vocês.
   
Harkat reagiu mais lentamente.
   
- Gostaria que o Sr. Crepsley estivesse aqui – murmurou.
   
- Eu também – disse. – Mas ele não está. E quanto mais esperarmos, mais tempo os vampixiitas terão para planejar alguma ação. Se Lucas estiver certo e eles tiverem entrado em pânico e trocado de base, levarão algum tempo para se instalar. Estarão vulneráveis. Essa
pode ser a nosa melhor chance para atacá-los.
   
Harkat suspirou infeliz.
   
- Pode ser também a nossa melhor chance de cair direto numa armadilha. Porém – acrescentou, colocando a mão cinzenta e enorme sobre as nossas -, as recompensas justificam os riscos. Se pudermos encontrá-los e matá-los, salvaremos muitas vids. Estou com vocês.
   
Sorrindo para Harkat, propus um juramento.
   
- Para a morte? – sugeri.
   
- Para a morte! – concordou Lucas.
   
- Para a morte – disse Harkat, acenando positivamente para depois acrescentar, propositalmente -, mas não a nossa, esperto!
   
 
    Capítulo Treze
   
 
   
Passamos o sábado e o domingo explorando os túneis. Harkat e Lucas carregavam balistas. Eram muito simples de usar – bastava colocar uma flecha, apontar e atirar – e eram mortais a uma distância de vinte metros. Como vampiro, eu jurara não usar tais armas, por isso teria que me contentar com meu sabre e minhas facas.
   
Começamos com a área onde Lucas avistara o “Gancho Matador” pela primeira vez, na esperança de encontrar algum vestígio dele e de seus companheiros. Entramos nos túneis e examinamos as paredes de cada um, em busca de marcas de ganchos e unhas de vampixiitas, atentos a qualquer sinal de ivida ali e sem nos perder de vista. Em princípio, seguimos com alguma velocidade, pois Lucas conhecia os túneis. E quando nossa busca se estendeu a setores novos e menos familiares, passamos a avançar com mais cautela. Não encontramos nada.
   
Naquela noite, depois de um bom banho e de uma refeição simples, conversamos um pouco mais. Lucas não havia mudado muito. Continuava tão animado e engraçado quanto antes. Embora, às vezes, ostentasse um olhar distante e se calasse, talvez pensando nos vampixiitas que havia assassinado ao longo da vida que escolhera levar. E ficava nervoso
sempre que a conversa girava em torno do Sr. Crepsley, visto que nunca se esquecera dos motivos pelos quais fora rejeitado: o vampiro havia dito que ele tinha sangue ruim e era mau. Portanto, não acreditava que o Sr. Crepsley ficaria feliz em vê-lo.
   
- Não sei por que ele achava que eu era mau – murmurou. – Era violento quando criança, com certeza; mas nunca fui mau... FUI, Darren?
   
- É claro que não.
   
- Talvez ele tenha confundido determinação com maudade – sugeriu Lucas. – Quando eu acredito numa causa, me comprometo com ela inteiramente, como na minha jornada para eliminar os vampixiitas. A maior parte dos humanos não poderia matar outro ser vivo, nem mesmo um assassino. Eles preferem entregá-lo para a lei. No entanto, continuarei matando vampixiitas até morrer. É possível que o Sr. Crepsley tenha visto a minha habilidade para matar e a tenha confundido com um desejo de matar.
   
Tivemos muitas conversas sombrias como esta, falando sobre a alma humana e a natureza do bem e do mal. Lucas dedicara longas horas ao julgamento cruel do Sr. Crepsley. Era quase obsecado por isso.
   
- Mal posso esperar para provar que ele estava enganado – disse ele, sorrindo. – Quando descobrir que estou do seu lado, ajudando os vampiros, apesar de ter me rejeitado... Espero por isso ansiosamente.
   
Como o fim de semana estava acabando, eu tinha que tomar uma decisão sobre a escola. Não queria mais me importar com a Mahler’s, parecia uma perda de tempo. Mas havia Débora e o Sr. Blaws para levar em consideração. Se sumisse de repente, sem dar motivo, o inspetor viria atrás de mim. Lucas disse que isso não era um problema e que poderíamos trocar de hotel. No entanto, eu não queria sair dali até o retorno do Sr. Crepsley. A situação com Débora era ainda mais complicada. O vampixiita sabia que ela estava ligada a mim e aonde morava. Eu tinha que convencê-la de alguma forma a se mudar definitivamente para outro apartamento – mas como? Que tipo de história eu poderia inventar para persuadi-la a continuar se transferindo de um lugar para outro e mudar de residência?
   
Decidi ir para o colégio naquela manhã de segunda-feira, principalmente para resolver as coisas com Débora. Para os meus outros professores, eu fingiria ter sucumbido a um vírus qualquer. Assim, não suspeitariam de nada quando eu não aparecesse no dia seguinte. Acreditava que o Sr. Blaws não seria enviado para investigar a causa da minha ausência antes do fim de semana, visto que faltar três ou quatro dias de aula era comum. Na hora em que o fizesse, o Sr. Crepsley, com sorte, já teria voltado. E quando ele voltasse, poderíamos nos reunir e traçar um plano definitivo.
   
Lucas e Harkat continuariam caçando os vampixiitas enquanto eu estivesse no colégio. Concordaram em tomar cuidado e prometeram não capiturá-los sozinhos, caso achasse algum.
   
Na Mahler’s, procurei por Débora antes das aulas começarem. Ia lhe dizer que um inimigo do meu passado havia descoberto que estávamos nos encontrando e eu temia que ele estivesse planejando feri-la para se vingar de mim. Diria que ele não sabia onde ela trabalhava, só onde morava. Finalmente, sugeriria que ela encontrasse algum local novo para morar nas próximas semanas e não voltasse para o velho apartamento, porque, desse modo, estaria segura.
   
Era uma história ruim, mas não havia conseguido pensar em nada melhor. Suplicaria se fosse necessário, e faria tudo que estivesse ao meu alcance para convencê-la a ouvir meu aviso. Caso falhasse, teria que considerar a possibilidade de raptá-la e trancá-la em algum lugar para protegê-la.
   
Contudo, não havia sinal de Débora na escola. Fui até a sala dos professores no intervalo, e nada. Ela não havia aparecido para trabalhar e ninguém sabia onde estava. O Sr. Chivers estava com os professors e estava furioso. Não tolerava quando as pessoas, professores ou alunos, não ligavam para avisar que teriam que se ausentar.
   
Voltei para a sala de aula com um mal-estar no estômago. Gostaria de ter pedido a Débora para que me passasse o endereço de onde ficara no fim de semana, mas não pensei nisso quando lhe pedi para sair de casa. Agora não havia jeito de verificar se ela estava bem.
   
As duas horas de aula e os primeiros quarenta minutos de almoço foram alguns dos momentos mais infelizes da minha vida. Queria fugir da escola e correr para o velho apartamento de Débora, a fim de ver se havia algum sinal dela por lá. Mas percebi que seria melhor não fazer nada do que agir em pânico. Aquilo estava acabando comigo, mas seria melhor que eu esfriasse a cabeça antes de sair para procurá-la.
   
Então, às 10 para as duas, algo maravilhoso aconteceu: Débora chegou! Eu estava fazendo hora na sala dos computadores – Richard havia percebido que eu estava com um péssimo humor e me deixara sozinho – quando a vi num carro que estacionava em frente à entrada dos fundos do colégio. Estava acompanhada de dois homens e uma mulher, e todos usavam uniformes da polícia! Assim que saiu, ela entrou no prédio com a mulher e um dos homens.
   
Corri para o escritório do Sr. Chivers na tentativa de alcançá-la.
   
- Srta. Cicuta! – griteo, chamando a atenção do policial, que se virou rapidamente enquanto sua mão se dirigia para uma arma que estava em seu sinto. Ele parou quando viu meu uniforme escolar e relaxou. Ergui uma mão trêmula. – Será que eu poderia falar um instante com a senhorita?
   
Débora perguntou aos guardas se poderia trocar algumas palavras comigo. Eles acenaram positivamente, mas ficaram de olho em nós.
   
- O que está acontecendo? – sussurrei.
   
- Você não sabe? – Ela andara chorando e seu rosto estava todo borrado. Balancei a cabeça. – Por que você me disse para ir embora? – perguntou, com uma surpreendente amargura em sua voz.
   
- É complicado.
   
- Você sabia o que iria acontecer? Se sabia, o odiarei para sempre!
   
- Débora, não sei do que você está falando. Honestamente.
   
Ela examinou o meu rosto em busca de algum indício de mentira da minha parte. Como não encontrou nada, sua expressão ficou mais calma.
   
- Você logo saberá no noticiário – murmurou, - então, não importa se estou adiantando tudo agora, mas não conte isso para mais ninguém. – Ela respirou bem fundo. – Saí na sexta-feira, como você me pediu. Registrei-me num hotel, muito embora achasse que você estava maluco.
   
Ela fez uma pausa.
   
- E? – insitei-a.
   
- Alguém atacou os meus vizinhos. O Sr. E a sra. Andrews e o Sr. Hugon. Você nunca os viu, certo?
   
- Vi a Srta. Andrews – mordi os lábios nervosamente; - Eles foram mortos? – Débora acenou positivamente. Lágrimas brotaram na mesma hora dos seus olhos. – E tiveram o seu sangue sugado? – perguntei em voz baixa, temendo pela resposta.
   
- Sim.
   
Olhei para o lado, envergonhado. Nunca achei que os vampixiitas iriam atrás dos vizinhos de Débora. Só tinha em mente o seu bem-estar, não o de outras pessoas. Devia ter ficado de olho no prédio todo, esperando pelo pior. Três pessoas forma mortas porque eu não lhes dera atenção.
   
- Quando foi que isso aconteceu? – perguntei, empalidecido.
   
- Sábado, tarde da noite, ou no começo da manhã de domingo. Os corpos foram descobertos ontem à tarde, e a polícia só conseguiu me encontrar hoje. Tudo estava sendo mantido em segredo, mas acho que as notícias se espalharam. Havia equipes de jornalismo cercando o edifício quando passei por lá, vindo para cá.
   
- Por que a polícia foi atrás de você?
   
Ela me encarou.
   
- Se as pessoas que vivem ao lado do seu apartamento fossem mortas e você não estivesse em lugar nenhum onde pudesse ser encontrado, não acha que a polícia o procuraria também? – vociferou.
   
- Desculpe. Pergunta idiota. Não estava com a cabeça no lugar.
   
Baixando a cabeça, ela perguntou calmamente:
   
- Você sabe quem fez isso?
   
Hesitei antes de responder:
   
- Sim e não. Não sei os seus nomes, embora saiba o que são e porque o fizeram.
   
- Você tem que contar para a polícia.
   
- Não ajudaria em nada. Isso está além da capacidade dos homens da lei.
   
Olhando para mim através das lágrimas, ela disse:
   
- Serei liberada mais tarde, hoje à noite. Antes, vão querer repassar mais algumas vezes o depoimento que dei a eles. Quando acabarmos, vou fazer algumas perguntas muito sérias para você. Se não ficar satisfeita com suas respostas, eu o entregarei.
   
- Obrig... – ela se virou prontamente, saiu apressada, juntando-se aos policiais, e seguiu para a sala do Sr. Chivers -... ago – deixaram-me sozinho. Segui lentamente para a sala de aula. O sinal tocou anunciando o fim do horário de almoço... Mas, para mim, soou como se fosse os sinos da morte.
   
 
    Capítulo Quatorze
   
 
   
Havia chegado a hora de revelar a verdade para Débora, mas Lucas e Harkat não estavam entusiasmados com a ideia.
   
- E se ela contar tudo para a polícia? – berrou Lucas.
   
- É perigoso – avisou Harkat. – Os humanos são imprevisíveis na... maior parte das vezes. Você não pode saber como ela irá agir ou o que... irá fazer.
   
- Não ligo – retruquei, teimosamente. – Os vampixiitas não vão mais brincar conosco. Eles sabem que temos conhecimento de sua presença aqui. Foram matar Débora. No que não a encontraram, assassnaram os vizinhos. Os riscos aumentaram e agora estamos em maus lençóis. Débora precisa saber o quanto tudo isso é sério.
   
- E se ela nos trair e nos entregar para a polícia? – perguntou Lucas, calmamente.
   
- É um risco que temos de correr.
   
- É um risco que vocês têm de correr. – afirmou Lucas, propositadamente.
   
- Pensei que estivéssemos juntos nessa – suspirei. – Se eu estiver errado, vai embora. Não irei detê-lo.
   
Lucas ficou inquieto na cadeira e percorreu a cruz na palma de sua mão esquerda com os dedos da direita, estavam cobertos pela luva. Ele fazia isso normalmente, com o Sr. Crepsley, quando afagava sua cicatriz enquanto pensava.
   
- Não há razão para ser ríspido – disse Lucas, emburrado. – Estou com você até
o fim, como jurei. Só que você está tomando uma decisão que afeta a todos nós. Isso não é certo. Temos que votar.
   
Balancei a cabeça.
   
- Nada de votos. Não posso sacriicar Débora, da mesma forma que você não pôde deixar o Gancho Matador me matar na viela. Sei que estou colocando Débora acima de nossa missão, mas não posso agir de outra forma.
   
- Você gosta dela tanto assim? – perguntou Lucas.
   
- Sim.
   
- Então não vou mais discutir. Conte-lhe a verdade.
   
- Obrigado. – Olhei para Harkat, esperando sua aprovação.
   
O pequenino olhou para baixo.
   
- Isso está errado. Não posso impedi-lo, por isso não vou tentar, mas... não aprovo isso. O grupo deve sempre vir antes do... indivíduo. – Puxando a máscara (aquela da qual ele precisava para filtrar o ar, que lhe era venenoso) para cobrir a boca, ele nos deu as costas, carrancudo, e foi meditar em silêncio.
   
 
   
Débora apareceu pouco antes das sete. Havia tomado banho e mudado de roupa, já que a polícia havia pego alguns itens pessoais em seu apartamento. Contudo, ainda estava com uma aparência péssima.
   
- Há um policial no saguão – disse ela, enquanto eu entrava. – Eles perguntaram se eu queria um guarda-costas particular e eu disse que sim. Ele acha que vim aqui para dar uma aula. Dei-lhe o seu nome. Se você se opuser a isso... vai ser difícil!
   
- É bom ver você também – sorri, estendendo as mãos para tirar o seu casaco. Ela me ignorou e entrou no apartamento, parando abruptamente quando avistou Lucas e Harkat, que estavam afastados, de costas para a porta.
   
- Você não disse que teríamos companhia – observou, inflexível.
   
- eles têm de estar aqui – respondi. – São parte do que tenho para lhe dizer.
   
- Quem são?
   
- Este é Lucas Leopardo. – Ele fez uma rápida reverência. – E aquele é Harkat
Muldes.
   
Por um instante, não achei que Harkat fosse encará-la. Até que, lentamente, ele se
virou.
   
- Oh, meu Deus! – Débora arfou, chocada com as feições cinzentas, cheias de cicatrizes e pouco naturais.
   
- CREIO QUE VOCê não veja muita gente como... eu na escola – sorru Harkat,
nervoso.
   
- Ele é... – Débora mordeu os lábios. – Ele é do instituto do qual você me falou? Onde você e o Ofídio viviam?
   
- Não existe instituto nenhum. Isso era mentira.
   
Ela me olhou friamente.
   
- O que mais era mentira?
   
- Mais ou menos tudo – sorri, culpado. – Mas as mentiras acabam aqui. Esta noite irei lhe contar toda a verdade. No fim, ou você vai achar que sou maluco ou desejará que nunca tivesse lhe contado, porém, agora, terá de me ouvir... sua vida depende disso.
   
- É uma história longa? – perguntou ela.
   
- Uma das mais longas que você irá ouvir na vida – respondeu Lucas com uma
risada.
   
- Então é melhor eu me sentar. – Ela escolheu uma cadeira, tirou o casaco, colocou-o sobre o colo e acenou bruscamente com a cabeça para que eu começasse.
   
Comecei com o Circo dos Horrores e Madame Octa e fui daí em diante. Repassei rapidamente os meus anos como assistente do Sr. Crepsley e o tempo que passei na Montanha do Vampiro. Contei-lhe sobre Harkat e o senhor dos Vampixiitas. Depois expliquei por que havíamos vindo para cá como documentos falsos foram entregues na Mahler’s, como encontrei com Lucas e qual era o seu papel nisso. Terminei falando dos eventos do fim de semana.
   
Quando acabei o relato, fez-se uma longa pausa.
   
- Isso é uma insanidade – disse Débora enfim. – Você não pode estar falando
sério.
   
- Mas está – disse Lucas, gargalhando.
   
- Vampiros... fantasmas... vampixiitas... Isso é ridículo.
   
- É verdade – afirmei, calmamente. – Posso provar. – Ergui os dedos para mostrar as cicatrizes das pontas.
   
- Cicatrizes não provam nada – zombou.
   
Andei até a janela.
   
- Vá até a porta e olhe para mim – falei. Débora não respondeu. Percebi um pouco de dúvida nos seus olhos. – Vá enfrente. Não vou machucá-la. – Segurando o casaco, ela foi até a porta e ficou de fernte para mim. – Mantenha os olhos abertos. Se puder, sequer pisque.
   
- O que vai fazer?
   
- Você verá... ou, melhor dizendo, não verá.
   
Enquanto ela observava tudo cuidadosamente, enrijeci os músculos da pernas, tomei impulso e me lancei em sua direção, parando bem à sua frente. Movi-me o mais rápido possível, mais veloz do que o olho humano é capaz de acompanhar. Para Débora deve ter parecido que eu simplesmente desapareci e reapareci diante dela. Seus olhos se arregalaram e ela se recostou na porta. Virando, me lancei de volta, de novo em uma velocidade maior do que ela poderia acompanhar, parando ao lado da janela.
   
- Tchan-tchan-tchan-tchan disse Lucas, batendo palmas secamente.
   
- como você fez isso? – perguntou ela, com a voz trêmula. – Você simplesmente.... você estava lá... depois estava aqui... depois...
   
- Posso me mover a velocidades extraordinárias. Sou forte também... Poderia atravessar qualquer uma dessas paredes com um soco e sequer arranhar a pele das minhas articulações. Posso saltar mais alto e longe do que qualquer ser humano. Segurar a respiração por muito mais tempo. Viver durante séculos. – Encolhi os ombros. – Sou um meio-vampiro.
   
- Mas não é possível! Vampiros não... – Débora deu alguns passos na minha direção e depois parou. Estava dividida entre não querer acreditar em mim e acreditar com todo seu coração que eu estava falando a verdade.
   
- Posso passar a noite inteira provando. E você pode passar a noite inteira fingindo que há alguma outra explicação lógica. A verdade é a verdade, Débora. Aceite-a ou não... Você é quem sabe.
   
- Eu não... não posso... – Ela me encarou profundamente por om um longo e intenso minuto. E então, fez um aceno com a cabeça e afundou com a cadeira. – Acredito em você – disse, aflita. – Ontem eu não teria acreditado, acontece que vi fotos dos Andrews e do Sr. Hugon depois que foram mortos. Não creio que um ser humano seria capaz de fazer aquilo.
   
- Está vendo agora por que tive que avisá-la? Meus amigos porque os vampixiitas nos atraíram para cá ou porque estão brincando conosco, mas seu plano, com certeza, é nos matar. O ataque na sua vizinhança foi apenas o começo da carnificina. Eles não vão parar por aí. Você será apróxima se a encontrarem.
   
- Mas por quê? – perguntou Ela, com a voz fraca. – Se é você e esse Sr. Crepsley que eles querem, por que estão vindo atrás de mim?
   
- Não sei. Isso não faz sentido. É isso que me apavora.
   
- O que vocês estão fazendo para detê-los?
   
- Rastreando-os de dia. Temos esperança de encontrá-los. Se o fizermos, lutaremos. E, com sorte, venceremos.
   
- Vocês precisam contar tudo para a polícia – insistiu ela. – E para o exército. Eles podem...
   
- Não – falei, com firmeza. – Os vampixiitas são nossa preocupação. Sabemos lidar com eles.
   
- Como você pode dizer isso se são humanos que eles estão matando? – Agora ela estava furiosa. – A polícia se empenhou para encontrar os assassinos porque não sabe nada sobre eles. Se vocês estivessem lhes dito o que deviam procurar, poderiam ter dado um fim nessas criaturas há meses.
   
- As coisas não funcionam assim – insisti. – Isso não seria possível.
   
- Vai ser! – vociferou Débora. – Vou falar com o guarda no saguão sobre isso. Veremos o que...
   
- Como você irá convencê-lo? – interrompeu-a Lucas.
   
- eu vou... – ela parou, abruptamente.
   
- Ele não acreditaria em você – pressionou-a Lucas. – Diria que você está maluca. Chamaria um médico e eles a levariam para... – Ele sorriu -... curá-la.
   
- Eu poderia levar Darren comigo – disse ela, sem se convencer. – Ele...
   
- ... Sorriria delicadamente e perguntaria ao gentil policial o porquê de sua professora estar agindo de um jeito tão estranho – riu Lucas.
   
- Você está enganado – disse Débora, tremendo. – Eu poderia convencer as
pessoas.
   
- Então vá em frente – provocou Lucas, com um sorriso malicioso. – Você sabe onde é a porta. Desejo-lhe toda a sorte do mundo. Mande-nos um cartão para que fiquemos sabendo como foi o seu progresso.
   
- Não gosto de você – disse ela, rispidamente. – Você é convencido e arrogante.
   
- Você não tem que gostar de mim. Isso aqui não é um concurso de popularidade. É uma questão de vida ou morte. Eu estudei os vampixiitas e já matei seis deles. Darren e Harkat já lutaram e mataram alguns também. Sabem o que temos que fazer para acabar com eles. Honestamente, você acha que tem o direito de ir até lá embaixo e falar do que é só da nossa conta? Você nem sequer havia ouvido falar de vampixiitas até algumas horas atrás?
   
Débora já ia argumentar, mas resolveu não polemizar.
   
- Você tem razão – admitiu, emburrada. – Vocês arriscaram suas vidas pelos outros e entendem mais disso do que. Não deveria repreendê-los. Acho que é a professora que
existe dentro de mim. – Ela conseguiu dar um sorriso bastante sutil.
   
- Então você confia em nós para lidar com a situação? – perguntei. – Você encontrará um novo apartamento, talvez sair da cidade por algumas semanas, até tudo isso acabar?
   
- Confio em você, mas se acha que vou fugir, está se iludindo. Vou ficar para
lutar.
   
- Do que você está falando? – franzi a testa.
   
- Ajudarei vocês a encontrar e matar os vampixiitas.
   
Encarei-a surpreso com a simplicidade com que ela se colocou, como se estivéssemos procurando um cãozinho perdido.
   
- Débora! – adverti-a, bufando. – Você não escutou? Essas criaturas podem se mover em altíssima velocidade e agredi-la furioamente com um estalar de dedos, no meio da semana que vem. O que você... uma mera humana... espera poder fazer?
   
- Posso explorar os túneis com vocês. Oferecer um outro par de pernas, olhos e ouvidos. Comigo, podemos nos dividir em pares e cobrir o dobro do terreno.
   
- Você não teria condições de nos acompanhar – protestei. – Andamos muito
rápido.
   
- Atravessando túneis escuros, com a ameaça dos vampixiitas sempre presente? – Ela sorriu. – Duvido.
   
- OK – concordei. – Você poderia provavelmente acompanhar o nosso ritmo, mas não tem a nossa resistência. Andmos o dia todo, hora após hora, sem descansar. Você se esgotaria e acabaria ficando para trás.
   
- Lucas consegue acompanhar o ritmo.
   
- Lucas treinou para poder persegui-los. Além do mais – acrescentei – ele não tem que comparecer à escola diariamente.
   
- Nem eu. Estou de licença. E eles não esperam que eu retorne até o começo da semana que vem, no mínimo.
   
- Débora... você.... isso é... – falei de um jeito confuso e depois me voltei na direção de Lucas, suplicava. – Diga a ela que está fora de si – apelei.
   
- Na verdade, acho que é uma boa ideia – disse ele.
   
- O quê? – gritei, enfurecido.
   
- Um outro par de pernas poderia ser útil lá embaixo. Se ela tiver coragem de ir, acho que deveríamos lhe dar um voto de confiança.
   
- E se dermos de cara com os vampixiitas? – desafiei-o. – Você consegue ver Débora ficar cara a cara com o Gancho Matador e seus amigos?
   
- Consigo, de fato – sorriu. – Pelo que vi, ela tem nervos de aço.
   
- Obrigada – agradeceu Débora.
   
- Não diga isso – riu, e depois ficou sério. – Posso equipá-la com uma balista. Quando estivermos no aperto, ficaremos felizes por ter mais alguém do nosso lado. Pelo menos ela daria aos vampixiitas um alvo a mais para se preocuparem.
   
- Não tolearei isso – resmunguei. – Harkat... diga a eles.
   
Os olhos verdes do Pequenino estavam pensativos.
   
- Dizer a eles, o quê, Darren?
   
- Que isso é uma loucura? É insano! Uma estupidez!
   
- Será que é? – perguntou ele, calmamente. – Se Débora fosse outra pessoa, você recusaria tão... rapidamente a sua oferta? Estamos em desvantagem. Precisamos de aliados se quisermos triunfar.
   
- Mas...
   
- Foi você qaue a envolveu nisso – interrompeu Harkat. – Eu disse para não fazêlo. Você me ignorou. Não se pode controlar as pessoas uma vez que... você as envolver. Ela sabe o perigo que está correndo e... o aceita. Que desculpa você tem para recusar sua oferta... além do fato de estar apaixonado e... não querer que ela se machuque?
   
Posto assim, não havia nada que eu pudesse dizer
   
- Muito bem – suspirei. – Não estou gostando nada disso, mas se você quer trabalhar conosco, creio que temos de permitir.
   
- Ele é tão galante, não? – observou Lucas.
   
- Com certeza sabe como fazer uma mulher se sentir bem acolhida. Débora sorriu, largou o casaco e se inclinou para frente. – Agora, vamos deixar de perder tempo e começar a trabalhar. Quero saber tudo o que é preciso sobre esses monstros. Como eles são? Descreva o seu cheiro. Que tipo de rasto eles deixam? Onde eles...
   
- Quieta! – interrompi, rispidamente.
   
Ela me encarou, ofendida.
   
- O que eu fiz...
   
- Silêncio – falei, com um pouco mais de calma dessa vez, colocando um dedo nos lábios. Avancei até a porta e encostei o ouvido.
   
- Problemas? – perguntou Harkat, enquanto se aproximava de mim.
   
- Ouvi passos no corredor há um minuto... mas nenhuma porta se abriu.
   
Recuamos e passamos a nos comunicar com os olhos. Harkat pegou sua balista e foi dar uma olhada pela janela.
   
- O que está acontecendo? – perguntou Débora. Dava para ouvir o bater pesado e acelerado do seu coração.
   
- Talvez não seja nada... talvez seja um ataque.
   
- Vampixiitas? – perguntou Lucas, determinado.
   
- Não sei. Pode ser apenas uma camareira curiosa. Mas alguém está lá fora. Talvez esteja bisbilhotando, talvez não. Melhor não corrermos riscos.
   
Lucas pegou sua balista e a armou com uma flecha.
   
- Alguém lá embaixo? – perguntei a Harkat.
   
- Não. Creio que o caminha está limpo caso tenhamos que bater em... retirada.
   
Saquei minha espada e testei a lâmina enquanto pensava no nosso próximo movimento. Se saíssemos agora, seria mais seguro – especialmente para Débora -, mas uma vez que se começa a correr é difícil parar.
   
- Pronto para lutar? – perguntei a Lucas.
   
Sua respiração estava desigual.
   
- Nunca enfrentei um vampixiita frente a frente – disse ele. – Sempre ataco dia, quando eles estão dormindo. Não sei que utilidade eu teria.
   
- Harkat? – perguntei.
   
- Acho que você devia sair para ver... o que está acontecendo – sugeriu o Pequenino. – Lucas e Débora podem esperar na janela. Se ouvirem ruídos de luta, eles... devem partir.
   
- Como? – perguntei. – Não há escada de incêndio e eles não sabem escalar
paredes.
   
- Não tem problema – disse Lucas. Enfiando a mão no bolso, desenrolou um cabo fino que estava amarrado em volta da sua cintura. – Sempre venho preparado. – completou, piscando um dos olhos.
   
- Isso vai agüentar vocês dois? – perguntou Harkat.
   
Lucas acenou positivamente e amarrou uma das pontas do cabo ao aquecedor. Ele foi até a janela, a abriu e jogou a outra ponta da corda lá embaixo.
   
- Para cá – disse Débora, que se dirigiu até onde ele estava sem contestar. Lucas fez com que ela subisse no parapeito da janela e saísse do quarto, agarrando-se ao cabo, a fim de que estivesse pronta para descer caso fosse necessário se apressar. – Vocês dois façam o
que for necessário – acrescentou ele, enquanto dava cobertura com sua balista. – Sairemos se as coisas piorarem.
   
Harkat e eu concordamos com o plano. Então, andei até a porta na ponta dos pés e segurei na maçaneta.
   
- Eu vou primeiro – afirmei – e agachado. Venha atrás. Se você vir alguém que não parece ser daqui... acabe com ele. Pediremos sua identidade mais tarde.
   
Abri a porta e me lancei no corredor, sem me preocupar com quantos havia lá fora. Harkat na retaguarda, com a balista erguida. Ninguém à minha esquerda virei para a direita, também não havia ninguém. Parei e fiquei cm os ouvidos atentos.
   
Momentos longos etensos se passaram. Não nos movemos. O silêncio rriía os nossos nervos, mas o ignorávamos e nos ncentrávamos pois quando você está enfrentando vampixiitas, um segundo de distração é tudo de que eles precisam.
   
Até que alguém tossiu ima de nós.
   
Caí de costas no chão e ergui minha espada, enquanto Harkat apontava ua balista
para o alto.
   
Figura que estava agarrada ao Této caiu antes de Hakat pudesse atirar e fez com que ele voasse elo corredor om um golpe. Depois chutou a minha espada, arrancando-a das minhas mãos. Estendi-me para pegá-la e parei assim eu ouvi uma risada familiar.
   
- Está tudo resolvido, creio.
   
Vrandome, fui saudado com a visão de um sujeito corpulento eu usava peles purpúreas de animal, andava com os pés descançs e tnha o celo tingido de verde. Era o meu colega Príncipe Vampiro Vancha Mache!
   
Vamcha! – falei, ofegante, enquanto ele me agarrava pelo cangote e me ajudava a levantar. Harkat havia se erguido sozinho e estava esfregando a nuca onde Vancha o atingira.
   
- Darren – disse Vancha. – Harkat. – Ele fez o sinal de advertência com o dedo. – Vocês devem sempre chear as sombras sobre suas cabeças quando estiverem asculhando uma área em bosca de perigo – Se eu quisesse feri-los, os dois oderiam estar mosrts agora.
   
- Quando você voltou? – gritei, entusiasmado.- Por que chegou todo sorrateiro? Onde está o Sr. Crepsley?
   
- Larten está no teto. Chegamos cerca de uinze minutos. Ouvimos vozes desocnhecidas no quarto e resolvemos nos mover com cautela. – Quem está aí com vocês?
   
Entrem que eu os apresentarei – sorri, conduzindo- até a porta. Falei para Lucas e Débora que tudo está sob controle fui para a janela chamar um precavido, descabelado e muito bemvindo Sr. Crepsley.
   
 
    Capítulo Quinze
   
 
   
O Sr. Crepsley agiu exatamente como Lucas havia previsto: suspeitou dele logo que o viu. Mesmo depois que lhe falei do ataque e de como salvara a minha vida, o vampiro continuava a ver o humano com um desprezo mal disfarçado e dele manteve uma certa distância.
   
- O sangue não muda – resmungou ele. – Quando testei o sangue de Lucas Leopardo, tinha o puro gosto do mal. O tempo não pode ter diluído isso.
   
- Não sou mau – resmungou Lucas de volta. – Quem é cruel aqui é você, por fazer acusações horríveis e infundadas. Pode imaginar o péssimo juízo que fiz de mim mesmo quando você me repudiou como se eu fosse um monstro? Sua rejeição hedionda quase fez com que eu realmente me tornasse mau!
   
- Não teria sido, creio eu, uma transformação tediosa – disse o Sr. Crepsley,
calmamente.
   
- Você pode estar errado, Larten – disse Vancha. O Príncipe estava deitado no sofá, com os pés escorados na televisão, que ele arrastara para perto de si. Sua pele não estava tão vermelha quanto na última vez em que o vi. (Vancha estava convencido de que poderia treinar a si próprio para sobreviver à luz do sol e costumava andar à luz do dia, durante algo em torno de uma hora. Permitia-se queimar a pele até arder, aumentando assim as defesas do seu corpo.) Imaginei que ele devia ter passado os últimos meses entocado na Montanha do Vampiro.
   
- Eu não estava errado – insistiu o Sr. Crepsley. – Conheço o gosto do mal.
   
- Eu não apostaria nisso – disse Vancha, enquanto coçava a axila. Um inseto caiu e foi parar no chão. Ele o arrastou para longe com o pé. – Prever do que a herança sanguínea é capaz não é tão fácil quanto pensam certos vampiros. Encontrei vestígios de sangue “mau” em algumas pessoas ao longo das décadas e fiquei de olho nelas. Três ficaram más e eu as matei. As outras levam vidas normais.
   
- Nem todos que nascem maus perpetuam o mal – disse o Sr. Crepsley -, contudo prefiro não arriscar. Não confiar nele.
   
- Isso é uma estupidez – vociferei. – Você tem que julgar as pessoas pelo que elas fazem, não pelo que você acredita que elas possam fazer. Lucas é meu amigo. Eu me responsabilizo por ele.
   
- Eu também – afirmou Harkat. – Fiquei receoso no começo, mas agora estou confiante de que... ele está do nosso lado. Não foi somente Darren que ele salvou: ainda o alertou... para que entrasse em contato com Débora e mandasse ela sair de casa. Caso contrário, a moça estaria morta.
   
O Sr. Crepsley balançou a cabeça teimosamente.
   
- Digo que devemos testar seu sangue novamente. Vancha pode fazer isso. Ele verá que estou dizendo a verdade.
   
- Não há sentido nisso – retrucou Vancha. – Se você diz que há traços de maldade em seu sangue, estou certo de que há mesmo. No entanto, imperfeições naturais podem ser superadas. Não sei detalhe algum da vida desse suspeito, mas conheço Darren e Harkat. Ponho mais fé no julgamento deles no que na qualidade do sangue do Lucas.
   
O Sr. Crepsley murmurou algo em voz baixa, porém sabia que era voto vencido.
   
- Muito bem – disse ele, mecanicamente. – Não vou mais falar nisso. Mas o vigiarei bem de perto – avisou a Lucas.
   
- Vá vigiar outro – desdenhou Lucas, em resposta.
   
Para arejar o ambiente, perguntei a Vancha a razão pela qual se ausentara por tanto tempo. Ele disse que fora fazer um relatório para Mika Ver Leth e Paz Celestial e lhes falou do Senhor dos Vampixiitas. Teria partido imediatamente, mas viu o quanto Paz estava perto da morte e decidiu ficar ao lado do Príncipe em seus últimos meses de vida.
   
- Ele morreu bem – disse Vancha. – Quando soube que não poderia exercer sua função. Paz partiu em segredo. Encontramos seu corpo algumas noites mais tarde, preso a um urso em um abraço de morte.
   
- Que coisa horrível! – Débora suspirou. Todos no quarto riram de sua reação tipicamente humana.
   
- Acredite – falei para ela -, não há maneira pior de um vampiro morrer do que deitado em uma cama, tranquilamente. Paz tinha mais de oitocentos anos nas costas. Duvido que tenha deixado este mundo com alguma reclamação a fazer.
   
- Ainda assim... – disse ela, confusa.
   
- Esses são os vampiros – afirmou Vancha, inclinando-se para a frente com a intenção de apertar sua mão com delicadeza. – Uma noite dessas eu a levo para longe daqui e explico – acrescentou, segurando a mão da professora alguns segundos a mais do que o necessário.
   
Se o Sr. Crepsley ia ficar de olho em Lucas, eu ficaria ainda mais em Vancha! Pude ver que ele gostou de Débora. Não creio que a minha ex-namorada se sentiria atraída por um Princípe grosseiro, sujo de lama e fedorento, mas eu não o deixaria sozinho com ela para descobrir.
   
- Alguma notícia do Senhor dos Vampixiitas ou de Gannen Harst? – perguntei, para distraí-lo.
   
- Não. Falei com os Generais que Gannen era meu irmão e lhes dei uma boa descrição dele, mas ninguém o viu recentemente.
   
- E quanto aos acontecimentos aqui? – perguntou o Sr. Crepsley. – Alguém foi assassinado, além dos vizinhos da Srta. Cicuta?
   
- Por favor – disse ela, sorrindo. – Me chame de Débora.
   
- Se ele não o fizer, eu o certamente o farei – Vancha sorriu e se curvou para afagar sua mão novamente. Pensei em dizer uma grosseria, porém me contive. Vancha me viu arfando e piscou sugestivamente.
   
Contamos para o Sr. Crepsley e para Vancha o quão calmas as coisas estavam antes do “Gancho Matador” me atacar na viela.
   
- Não gosto do jeito desse Gancho Matador – murmurou Vancha. – Nunca ouvi falar de um vampixiita com ganchos no lugar das mãos. Pelo que se sabe da tradição, eles preferem ficar sem uma perna do que substituí-la por um membro artificial. É estranho.
   
- O que é mais estranho é que ele não fez mais nenhum ataque desde então – disse o Sr. Crepsley. – Se esse vampixiita está ligado aos que mandaram as informações sobre Darren para a Mahler’s ele sabe o endereço deste hotel. Então, por que não o atacou aqui?
   
- Você acha que pode haver dois bandos de vampixiitas andando por aí? – perguntou Vancha.
   
- Possivelmente. Ou pode ser que um vampixiita seja responsável pelos assassinatos enquanto outro... talvez Desmond Tino... tenha matriculado Darren na escola. O Sr. Tino também poderia ter armado tudo para que o vampixiita dos ganchos cruzasse o caminho de Darren.
   
- E como o Gancho Matador reconheceu Darren? – perguntou Harkat.
   
- Talvez pelo cheiro do sangue dele – respondeu o Sr. Crepsley.
   
- Não gosto disso – disse Vancha, rosnando. – Muitos “se” e “mas”. Está tudo muito confuso até agora. Minha sugestão: partir e deixar os humanos se virarem.
   
- Estou tentado a concordar com você – disse o Sr. Crepsley. – É difícil para mim dizer isso, mas é possível que o melhor para nossos objetivos seja uma retirada.
   
- Então retire-se daqui e vão para o inferno! – vociferou Débora, e todos nos voltamos em sua direção. Ela se levantou e encarou o Sr. Crepsley e Vancha com os punhos cerrados e o olhar inflamado. – Que espécie de monstros são vocês? – perguntou ela, rosnando. – Vocês falam dos seres humanos como se fôssemos inferiores e não tivéssemos a mínima importância!
   
- Será que devo lembrá-la, senhorita – respondeu formalmente o Sr. Crepsley -, que viemos aqui para enfrentar os vampixiitas e proteger você e os da sua espécie?
   
- Será que temos que nos sentir gratos? – desdenhou ela. – Vocês fizeram o que qualquer um pingo de humanidade teria feito. E antes de voltarem com essa baboseira de “não somos humanos “, lembrem-se de que não precisam ser humanos para serem humanitários!
   
- Ela é uma bela fera, não! – observou Vancha, enquanto cochichava para mim em voz alta. – Eu poderia facilmente me apaixonar por uma mulher com essa.
   
- Vá se apaixonar em outro lugar – respondi, rapidamente.
   
Débora não prestou atenção em nosso breve diálogo. Seus olhos estavam fixos em Sr. Crepsley, que a encarava friamente.
   
- Você nos pediria para ficar e sacrificar nossas vidas? – perguntou ele, com
calma.
   
- Não estou pedindo nada – retrucou ela. – Mas se vocês partirem e a matança continuar conseguirão viver em paz? Vocês são capazes de fechar os ouvidos para os gritos daqueles que irão morrer?
   
O Sr. Crepsley manteve o contato visual com Débora durante mais alguns segundos, depois desviou o olhar e murmurou suavemente:
   
- Não. – Débora se sentou, satisfeita. – Contudo, não podemos perseguir sombras indefinidamente. Darren, Vancha e eu estamos numa missão, que já foi por demais adiada. Temos que pensar em deixar a cidade.
   
Ele encarou Vancha.
   
- Sugiro que fiquemos aqui mais uma semana, até o final do domingo que vem. Enfrentaremos os vampixiitas com tudo o que temos. Se continuarem escapando, teremos que admitir a derrota e nos retirarmos daqui.
   
Vancha acenou positiva e lentamente.
   
- Preferiria sair agora, porém essa é uma boa proposta. Darren?
   
- Uma semana – concordei. Depois de um contato visual com Débora, encolhi os ombros. – É o melhor que podemos fazer – sussurrei.
   
- Eu posso fazer mais – disse Harkat. – Não estou atrelado à missão com vocês... três estão. Ficarei além do prazo, se os problemas... não forem resolvidos até lá.
   
- Eu também – afirmou Lucas. – Não desistirei até isso acabar.
   
- Obrigada – agradeceu Débora, delicadamente. – Obrigada a todos vocês. – Então, dirigiu-me um sorriso discreto e completou: - Um por todos e todos por um?
   
Sorri de volta.
   
- Um por todos e todos por um – assenti. E todos no quarto repetiram a frase, espontaneamente, um de cada vez, embora o Sr. Crepsley tenha resmungado ironicamente quando chegou a vez de Lucas repetir o juramento!
   
 
    Capítulo Dezesseis
   
 
   
Já estava quase amanhecendo quando fomos dormir (Débora dispensara o policial no meio da noite). Todos se apertaram nos dois quartos. Harkat, Vancha e eu dormimos no chão, o Sr. Crepsley em sua cama, Lucas no sofá e Débora na cama do outro cômodo. Vancha havia se oferecido para dividir a cama com Débora, caso se ela quisesse alguém para mantê-la aquecida.
   
- Obrigada – dissera ela, recatadamente -, mas preferiria dormir com um
orangotango.
   
- Ela gosta de mim! – declarou Vancha, assim que ela se recolheu. – Elas sempre jogam duro quando gostam de mim!
   
Quando anoiteceu, eu e o Sr. Crepsley devolvemos as chaves para o hotel. Agora
que Vancha, Lucas e Débora haviam se juntado a nós, precisávamos arranjar um lugar mais tranquilo. O prédio quase deserto de Lucas era perfeito. Pegamos os dois apartamentos ao lado dele e nos mudamos imediatamente. Uma rápida faxina e os quartos estavam prontos para serem ocupados. Não eram confortáveis, pois eram frios e úmidos. No entanto, serviriam.
   
Era a chegada a hora da caça aos vampixiitas.
   
Dividimo-nos em três duplas. Eu queria ir com Débora, mas o Sr. Crepsley achou que seria melhor se ela acompanhasse um dos vampiros puros. Vancha se ofereceu de imediato para ser seu parceiro, e eu acabei com suas pretensões. No fim das contas, concordamos que Débora iria com o Sr. Crepsley, Lucas com Vancha e Harkat comigo.
   
Juntamente com as armas, cada um de nós levava um celular. Vancha não gostava de telefones – o bater de um tambor era o tipo de comunicação mais moderno que ele conhecia -, mas o convencemos de que isso fazia sentido. Dessa maneira, se um de nós encontrasse os vampixiitas, teríamos como convocar os outros sem demora.
   
Antes de retomar a busca nos túneis, descartamos os que já havíamos explorado e aqueles que eram usados regularmente pelos humanos. Então, dividimos o terreno subterrâneo da cidade em três setores, designamos um para cada equipe e descemos rumo à escuridão.
   
Tivemos uma noite longa e decepcionante. Ninguém encontrou vestígio algum dos vampixiitas, embora Vancha e Lucas tivessem descoberto um cadáver humano que havia sido escondido pelos sugadores de sangue há algumas semanas. Anotaram mais ou menos onde ele estava e Lucas disse que informaria às autoridades mais tarde quando terminássemos nossa busca, para que o corpo pudesse ser reclamado e enterrado.
   
Débora parecia um fantasma quando nos encontramos no apartamento de Lucas, na manhã seguinte. Seu cabelo estava molhado e desarrumado, suas roupas amassadas, suas bochechas arranhadas, suas mãos cortadas por pedras afiadas e canos velhos. Quando limpei os cortes e coloquei bandagens em suas mãos, percebi que estava com profundas olheiras e o olhar estava perdido.
   
- Como você faz, noite após noite? – perguntou ela, com a voz baixa.
   
- Somos mais fortes do que os humanos – respondi. – Temos mais condição física e somos mais rápidos. Tentei-lhe dizer isso antes, mas você não me ouviu.
   
- Mas Lucas não é vampiro.
   
- Ele se esforça. E possui anos de práticas. – Fiz uma pausa e observei seus olhos cansados . – Você não precisa vir conosco. Poderia coordenar a busca daqui. Seria mais útil aqui do que...
   
- Não – ela interrompeu-me, com firmeza. – Disse que iria e irei.
   
- OK – suspirei. Terminei de fazer seus curativos e a ajudei a ir para a cama, mancando. Não falamos nada sobre a discussão que tivemos na sexta-feira. Agora não era hora para problemas particulares.
   
O Sr. Crepsley estava sorrindo quando voltei.
   
- Ela conseguirá – disse ele.
   
- Você acha? – perguntei.
   
Ele acenou positivamente.
   
- Não fiz concessões. Mantive um ritmo constante. Mesmo assim, a moça me acompanhou e não reclamou. Ela ficou arrasada... isso é natural. Ficará mais forte depois de uma boa noite de sono. Não nos decepcionará.
   
Débora não parecia melhor quando acordou, no começo da noite, mas se recuperou depois de uma boa refeição e de um banho. Foi a primeira a sair e correr para as lojas a fim de comprar pares de luvas e de botas mais resistentes, além de roupas novas. Também amarrou o cabelo para trás e passou a usar um boné. Ao partirmos naquela noite, fiquei admirado com quão ameaçadora (e linda) estava. Fiquei feliz por ela não estar me perseguindo com a balista que havia pego emprestada com Lucas.
   
A quarta-feira foi outra decepção, assim como a quinta. Sabíamos que os vampixiitas estavam lá embaixo, porém o sistema de túneis era vasto e parecia que nunca os encontraríamos. No começo da manhã de sexta-feira, enquanto eu e Harkat estávamos voltando para a base, parei numa banca para compra o jornal e saber das novidades. Esta era a primeira vez, desde o final da semana passada, que eu me permitia ver o que estava acontecendo no mundo. Então, um pequeno artigo do caderno principal chamou a minha atenção e me paralisou.
   
- O que houve? – perguntou Harkat.
   
Não respondi. Estava muito ocupado, lendo. O artigo falava sobre um rapaz que a polícia andava procurando. Ele estava desaparecido, e supostamente era vítima dos assassinos que também haviam atacado na quinta-feira, matando uma jovem. O nome do garoto procurado? Darren Horston!
   
 
   
Discuti a matéria com o Sr. Crepsley e Vancha depois que Débora foi dormir, porque não queria alarmá-la. O texto dizia, simplesmente, que eu fora ao colégio na segundafeira e não havia sido visto desde então. A polícia havia me investigado, o mesmo estava sendo feito com todos os alunos que se ausentaram sem entrar em contato com suas escolas (esqueci de telefonar para dizer que estava doente). Como não conseguiram me encontrar, divulgaram uma descrição geral e um apelo para que qualquer um que soubesse algo sobre mim se apresentasse. Eles também estava “interessados em conversar com o meu pai, o Sr. Vur Horston”.
   
Sugeri que ligassem para a Mahler’s e dissessem que estava tudo bem comigo. No entanto, o Sr. Crepsley achou que seria melhor se eu comparecesse pessoalmente.
   
- Se você ligar, podem querer mandar um policial para colher um depoimento seu. E se ignorarmos o problema, alguém poderá vê-lo por acaso e alertar a polícia.
   
Concordamos que eu devia me apresentar, fingir que estivera doente e que meu pai havia me transferido para a casa de um tio para que eu pudesse me tratar. Assistiria apenas a algumas aulas a e ficaria somente o tempo suficiente para assegurar a todos que estava bem. Então, diria que me senti mal novamente e pediria a um dos meus professores que entrasse em contato com o meu “tio” Lucas, que viria me buscar. Ele ainda comentaria com o professor que o meu pai havia viajado para fazer uma entrevista de emprego. Essa seria a desculpa que usaríamos na segunda-feira: meu pai teria conseguido o emprego e começado a trabalhar imediatamente, mandando me buscar para que eu me juntasse a ele em outra cidade.
   
Era um transtorno indesejado, mas eu queria ficar livre da escola. Só assim, poderia voltar todas as minhas energias para a caça aos vampixiitas naquele fim de semana. Por isso, botei meu uniforme e fui. Cheguei à sala do Sr. Chivers vinte minutos antes do começo das aulas, já contando com seu atraso de sempre, mas fiquei surpreso ao vê-lo por lá. Bati e entrei no instante em que ele me chamou.
   
- Darren! – soluçou quando me viu. Pulou e me agarrou pelos ombros. – Onde você estava? O que aconteceu? Por que não ligou?
   
Contei a minha história e pedi desculpas por não ter entrado em contato. Disse que descobrira que estavam procurando por mim apenas naquela manhã. Também lhe falei que não vinha acompanhando as noticias e que meu pai estava viajando a trabalho. O Sr. Chivers me repreendeu por não ter lhes informado onde estava, porém, sem guardar rancor algum. Afinal, ficou muito aliviado por me ver são e salvo.
   
- Já estava quase desistindo de encontrá-lo – suspirou ele, passando a mão num cabelo que tinha o aspecto de sujo. O diretor parecia envelhecido e abalado. – Não teria sido terrível se você também tivesse sido levado? Dois em uma semana... Não agüento mais pensar nisso.
   
- Dois, senhor?
   
- Sim. Perder Tara foi terrível, mas se nós...
   
- Tara? – interrompi-o, repentinamente.
   
- Tara Williams. A garota foi morta na última terça-feira. – Ele me encarou incrédulo. – Com certeza você soube.
   
- Li o seu nome nos jornais. Ela era aluna da Mahler’s?
   
- Meu Deus, rapaz, você não sabe?
   
- Sei o quê?
   
- Tara Williams era sua colega de classe! É por isso que estávamos tão preocupados... Achamos que vocês dois estavam junto quando o assassino atacou.
   
Consultei minha memória, mas não conseguia associar o nome da garota a um rosto. Conheci muitas pessoas desde que entrei para a Mahler’s mas não tantas assim. E quase nenhuma das que me aproximei era do sexo feminino.
   
- Você deve conhecê-la – insistiu o Sr. Chivers. – Você senta ao lado dela nas aulas de inglês!
   
Congelei, de repente seu rosto veio à mente. A menina baixinha, de cabelo castanho-claro, aparelho nos dentes, muito quieta. Ela se sentava à minha esquerda naquelas aulas. Dividiu seu livro de poesia comigo um dia quando esqueci o meu no hotel, sem querer.
   
- Ah, não – lamentei-me, certo de que isso não era mera coincidência.
   
- Você está bem? – perguntou o Sr. Chivers. – Gostaria de beber alguma coisa?
   
Balancei a cabeça como se estivesse entorpecido.
   
- Tara Williams – murmurei, sentindo um frio se espalhar pelo meu corpo, vindo de dentro para fora. Primeiro foram os vizinhos de Débora. Agora um dos meus colegas de turma. Quem será o próximo...?
   
- Ah, não – lamentei novamente, porém mais alto. E desta vez porque havia acabado de lembrar de quem sentava à minha direita nas aulas de inglês: Richard!
   
 
    Capítulo Dezessete
   
 
   
Perguntei ao Sr. Chivers se poderia ser dispensado das aulas naquele dia. Como justificativa, disse que não estava me sentindo muito bem e que não conseguiria me concentrar nas disciplinas com Tara na minha cabeça. Ele concordou que era melhor eu ir para casa.
   
- Darren – disse ele enquanto eu saía -, você vai ficar em casa durante o fim de semana e tomar cuidado?
   
- Sim, senhor – menti. Logo depois, desci para procurar Richard.
   
No momento em que cheguei ao andar da rua, Smickey Martin e dois de seus amigos estavam na entrada da escola matando aula. Ele não se dirigia a mim desde a nossa discussão nas escadas, quando revelou sua covardia ao fugir, mas gritou com escárnio ao me ver.
   
- Vejam só, aquele sujeito de novo! Que pena... Achei que os vampiros tinham acabado com você, como fizeram com Tara Williams. – Parei e bati o pé para encará-lo. Ele assumiu um ar cauteloso. – Vê se te enxerga, Horstinho – disse, num resmungo. – Se pensar em acertar a minha cara, eu vou...
   
Agarrei a parte da frente de sua jaqueta, ergui-o do chão e o segurei acima da minha cabeça. Ele gritava como uma criancinha, me batia e me chutava. Mas eu não o larguei, só fiquei sacudindo-o até que parasse quieto.
   
- Estou procurando Richard Montrose. Você o viu? – Smickey me encarou com os olhos arregalados e não disse nada. Com os dedos da mão esquerda, apertei seu nariz esperando que começasse a choramingar. – Você o viu? – repeti a pergunta.
   
- Sim – disse ele, num guincho.
   
Larguei seu nariz.
   
- Quando? Onde?
   
- Há alguns minutos – murmurou. – Seguindo para a sala dos computadores.
   
Suspirei aliviado, e, lentamente, desci Smickey.
   
- Obrigado – agradeci. Smickey me respondeu dando uma sugestão do que fazer com o meu “obrigado”. Sorrindo, despedi-me sarcasticamente do brigão humilhado e saí do prédio, feliz por Richard estar em segurança. Pelo menos até a noite.
   
 
   
Na casa de Lucas, acordei os vampiros e os humanos que dormiam, pois Harkat já estava acordado, e conversamos sobre a última reviravolta. Como Débora não havia lido os jornais, somente nessa conversa soube da menina que fora assassinada. A notícia a deixou
muito abatida.
   
- Tara – sussurrou, com lágrimas nos olhos. – Que tipo de animal pegaria uma jovem inocente como Tara?
   
Falei sobre Richard para o grupo e expus minha tese de que ele era a próxima vítima dos vampixiitas.
   
- Não necessariamente – disse o Sr. Crepsley. – Acho que ele irão atrás de outro dos seus colegas de classe, assim como assassinaram os vizinhos de Débora, mas podem ir atrás da garota ou do garoto que sentam atrás de você ou na sua frente.
   
- Mas Richard é meu amigo – assinalei. – Mal conheço os outros.
   
- Não creio que os vampixiitas estejam a par disso – afirmou. – Se estivessem, teriam atacado Richard antes.
   
- Precisamos vigiar todos os três – disse Vancha. – Sabemos onde eles moram?
   
- Posso descobrir – afirmou Débora, enquanto limpava as lágrimas do rosto. Vancha lhe atirou um pedaço de pano sujo, que ela aceitou agradecida. – Os arquivos dos alunos podem ser acessados por um computador conectado com o sistema central do colégio. Eu conheço a senha. Irei até uma lan house e acessarei os arquivos para obter os endereços.
   
- O que faremos quando... se eles atacarem? – perguntou Lucas.
   
- Faremos com eles o que fizeram com Tara – rosnou Débora, antes que qualquer um dos outros pudesse responder.
   
- Você acha que isso é inteligente? – perguntou Lucas. – Sabemos que há mais de um deles em atividade. No entanto, duvido que todos gostem de matar adolescentes. Não seria mais sábio atrair o agressor para...
   
- Espera aí – interrompeu Débora. – Você está dizendo que devemos deixá-lo matar Richard ou um dos outros.
   
- Faz sentido. Nossa meta principal é...
   
Débora acertou um tapa em seu rosto antes dele prosseguir.
   
- Animal! – disse ela, sibilando.
   
Lucas a encarou com frieza.
   
- Sou o que tenho que ser – disse ele. – Não iremos deter os vampixiitas sendo
civilizados.
   
- Você... você... – Ela não conseguia pensar em nada horrível o bastante para
xingá-lo.
   
- Há algum sentido no que ele disse – intercedeu Vancha. Débora se voltou em sua direção, amedrontada. – Bem, algum há – murmurou Vancha, baixando o rosto. – Não gosto da ideia de deixar eles matarem outro garoto, mas se isso significa a salvação dos outros...
   
- Não – disse Débora. – Nada de sacrifícios. Não permitirei.
   
- Nem eu – opinei.
   
- Vocês têm alguma sugestão alternativa? – perguntou Lucas.
   
- Feri-lo respondeu o Sr. Crepsley, enquanto todos os outros estavam em silêncio. – Ficaremos de prontidão nas casas. Quando o vampixiita aparecer, o acertamos com uma flecha antes dele atacar. Mas não o mataremos, pois miraremos nos braços ou nas pernas. Então o seguiremos e, se tivermos sorte, ele nos levará aos seus companheiros.
   
- Não sei – murmurou Vancha. – Você, eu e Darren não podemos usar essas armas... não é assim que os vampiros agem... o que significa que teremos que contar com a mira de Lucas, Harkat e Débora.
   
- Não errarei – jurou Lucas.
   
- Eu também não – disse Débora.
   
- Nem eu – acrescentou Harkat.
   
- Talvez vocês não errem – concordou Vancha -, mas se houver dois ou mais deles vocês não terão tempo de acertar uma segunda flecha... as balistas só dão um tiro de cada vez.
   
- É um risco que teremos que correr – afirmou o Sr. Crepsley. – E, Débora, você deve ir logo a essa praga de lan house para encontrar os endereços o mais rápido possível e depois voltar para a cama e dormir. Temos que estar prontos para entrar em ação assim que a noite chegar.
   
 
   
O Sr. Crepsley e Débora ficaram de vigília na casa de Derek Barry, o garoto que sentava na minha frente nas aulas de inglês. Vancha e Lucas se responsabilizaram por Gretchen Kelton (Gretch, a Infeliz, como Smickey Martin a chamava), que ficava atrás de mim. Eu e Harkat protegeríamos a casa dos Montrose.
   
A noite de sexta-feira estava escura, fria e úmida. Richard vivia numa casa grande, com seus pais e alguns irmãos e irmãs. Havia várias janelas superiores que os vampixiitas poderiam usar para entrar, e não podíamos vigiar todas elas. Entretanto, eles quase nunca matam as pessoas em suas casas – daí a origem do mito de que os vampiros não podem atravessar uma soleira sem serem convidados. E todas as outras vítimas foram atacadas a céu aberto, embora os vizinhos de Débora tivessem sido mortos em seus apartamentos.
   
Nada aconteceu naquela noite. Richard ficou de casa o tempo todo. Pude ver os membros da família algumas vezes de relance, através das cortinas e tive inveja de sua vida simples... nenhum dos Montrose jamais teria de vigiar uma casa no intuito de antecipar o
ataque de monstros noturnos de almas malignas.
   
Quando a família estava toda recolhida e as luzes foram apagadas. Harkat e eu fomos para o telhado da casa, onde permanecemos de guarda durante o resto da noite, escondidos nas sombras. Saímos quando o sol estava nascendo e encontramos o restante do grupo na volta aos apartamentos. A noite dos outros também havia sido tranquila. Ninguém viu vampixiita algum.
   
- O exército voltou – notou Vancha, referindo-se aos soldados que haviam retornado para tomar conta das ruas depois do assassinato de Tara Williams. – Teremos que tomar cuidado para não cruzar com eles em nossas vigílias... podem nos confundir com os assassinos e abrir fogo.
   
Depois que Débora foi dormir, o resto de nós ficou discutindo os planos já para a semana seguinte. Embora o Sr. Crepsley, Vancha e eu tivéssemos concordado em partir na segunda-feira, mesmo sem pegar os vampixiitas, eu achava que deveríamos reconsiderar. As coisas haviam mudado, agora que lidávamos com o assassinato de Tara e a ameaça a Richard.
   
Os vampiros se recusavam a aceitar isso.
   
- Um juramento é um juramento – insistiu Vancha. – Estabelecemos um prazo e temos que nos prender a ele. Se adiarmos uma vez a nossa partida, acabaremos adiando novamente.
   
- Vancha tem razão – concordou o Sr. Crepsley. – Localizando ou não nossos oponentes, partiremos na segunda-feira. Isso não será agradável, mas nossa busca tem prioridades. Temos que fazer o que é melhor para o clã.
   
Eu tinha que acompanhá-los. A indecisão é a origem do caos, como Paz Celestial costumava dizer. Não era hora de colocar nossa aliança em risco com um racha.
   
Contudo, logo eu não precisaria mais me preocupar com a partida dos vampiros. Mais tarde, naquele sábado, enquanto nuvens pesadas encobriam uma lua quase cheia, o vampixiita finalmente atacaria. E o derramamento de sangue teria início!
   
 
    Capítulo Dezoito
   
 
   
Harkat foi o primeiro a vê-lo. Eram 8:15, Richard e um dos seus irmãos haviam saído de casa para ir a uma loja nas redondezas e estavam voltadno cheio de sacolas com compras. Fomos suas sombras em cada um de seus passos. Richard estava rindo de uma piada qualquer que seu irmão havia contado quando Harkat colocou a mão no meu ombro e apontou para o horizonte. Levei menos de um segundo para avistar a figura que atravessava o telhado de uma grande loja de departamentos, seguindo os garotos que estavam lá embaixo?
   
- É o Gancho Matador? – perguntou Harkat.
   
- Não sei – afirmei, forçando a visão. – Ele não está perto o bastante da beirada. Não consigo enxergar.
   
Os garotos estavam se aproximando da entrada de uma viela pela qual tinham de
passar para chegar em casa. Um ataque ali seria o mais lógico para vampixiitas, por isso eu e Harkat corremos atrás dele até ficarmos a pouco metros de distância. Harkat armou sua balista, que estava sem a trava de gatilho para poder acomodar seu dedo mais grosso e a carregou. Tirei duas facas (cortesia de Vancha) do meu cinto, pronto para ajudar Harkat caso ele errasse o alvo.
   
Richard e seus irmãos estavam no meio da viela quando os vampixiitas apareceu. Primeiro vi seus ganchos dourados e prateados – era o Gancho Matador! -, e depois sua cabeça ficou visível, escondida pela mesma balaclava de antes. Ele teria nos visto se tivesse checado, mas só tinha olhos para os humanos.
   
O Gancho Matador avançou até a beira do muro. Em seguida, moveu-se sorrateiramente na direção dos garotos, furtivo como um gato. Ele se mostrava como um alvo perfeito e fiquei tentado a mandar Harkat atirar para matar. Contudo, havia outros peixes naquele mar, e, se não usássemos este como isca, jamais pegaríamos aqueles.
   
- A perna esquerda – cochichei. – Abaixo do joelho. Isso reduzirá sua
velocidade.
   
Harkat acenou com a cabeça sem tirar os olhos do vampixiita. Dava para ver que o Gancho Matador se preparava para pular. Queria perguntar a Harkat o que ele estava esperando para atirar, mas isso o teria distraído. Então, no instante em que o Matador se agachava para saltar, Harkat apertou o gatilho e fez com que sua flecha voasse através da
escuridão. Ela acertou o monstro exatamente onde eu havia sugerido. O vampixiita urrou de dor e caiu do muro toscamente. Richard e seu irmão pularam para trás e deixaram cair suas sacolas. Encaram o ser que se debatia no chão, sem saber se deviam fugir ou socorrê-lo.
   
- Saiam daqui! – berrei, dando um passo à frente, cobrindo meu rosto com as mãos para que Richard não pudesse me identificar. – Corram agora se quiserem viver! – Isso bastou para que os garotos abandonassem as sacolas de vez, e saíssem em disparada. Era incrível como dois humanos podiam correr tão rápido.
   
Nesse momento, Gancho Matador se levantou.
   
- Minha perna! – rugiu, puxando a flecha. Mas Lucas era um projetista astuto e ela não sairia. O Matador a puxou novamente com mais força e a seta acabou se partindo em suas mãos, deixando a ponta enterrada nos músculos do seu membro inferior. – Aaaaaaaai! – gritava, enquanto tentava nos acertar com a flecha inútil.
   
- Vamos até lá – falei para Harkat, num volume deliberadamente mais alto do que o necessário. – Vamos prendê-lo e depois acabar com ele.
   
Gancho Matador contraiu todos os seus músculos quando ouviu isso, as queixas morreram nos seus lábios. Percebendo o perigo que estava correndo, tentou pular de novo para cima do muro. Como sua perna esquerda não estava boa, ele não conseguiu dar o salto. Almadiçoando a tudo e a todos, puxou uma faca de seu cinto e a arremessou em nossa direção. Tivemos que desviar para que não fôssemos atingidos, o que deu ao monstro o tempo necessário para se virar e fugir – exatamente o que queríamos!
   
Assim que começamos a perseguir o vampixiita. Harkat telefonou para os outros e lhes disse o que estava acontecendo, pois era sua função mantê-los informados dos acontecimentos. Coube a mim garantir que não perdêssemos Gancho Matador de vista.
   
Ele havia desaparecido do nosso campo de visão quando chegamos no final da viela, e por um terrível instante achei que tinha escapado. Então vi um rasto de sangue na calçada e o segui até a entrada de uma outra alameda, onde avistei meu alvo escalando um muro baixo. Deixei que ele subisse e chegasse ao telhado de uma casa vizinha antes de voltar a persegui-lo. Era muito melhor para mim tê-lo acima das ruas durante a perseguição: seria iluminado pelo brilho das luzes urbanas e estaria fora do alcance da polícia e dos soldados.
   
Gancho Matador estava à minha espera no telhado: começou a jogar algumas telhas que havia arrancado na minha direção, uivando que nem um cachorro com raiva. Desviei-me de uma delas e precisei usar as mãos para proteger da outra, que se despedaçou sobre as minhas juntas, porém sem me arranhar. O Matador avançou, rosnando. Fiquei momentaneamente confuso quando notei que um dos seus olhos não tinha aquele brilho vermelho característico, e sim uma tonalidade azul ou verde. Sem tempo para pensar nisso, saquei minhas facas e me preparei para o desafio proposto pelo assassino. Não queria matá-lo antes que ele tivesse uma chance de nos levar até onde estavam os seus companheiros, mas se tivesse que fazê-lo eu o faria.
   
Vancha e Lucas apareceram antes que ele pudesse me testar. O último atirou uma flecha no vampixiita, errando de propósito, e Vancha pulou para cima do muro. Gancho Matador uivou novamente e jogou mais algumas telhas sobre nós. Então subiu no telhado e pulou para o outro lado.
   
- Você está bem? – perguntou Vancha, aproximando-se de mim.
   
- Sim. Nós o acertamos na perna. Ele está sangrando.
   
- Notei.
   
Havia uma pequena poça de sangue por perto. Molhei um dedo nela e cherei: fedia a sangue de vampixiita. Ainda assim, pedi para que Vancha o testasse.
   
- É vampixiita – disse, ao prová-lo. – Por que não seria? – Expliquei o que vi nos olhos do Gancho Matador. – Que estranho – grunhiu ele, e não disse mais nada. Ajudoume à levantar e correu para o topo do telhado. Verificou se o monstro não estava esperando por nós e depois fez um sinal para que eu o seguisse. A temporada de caça estava aberta!
   
 
   
Enquanto eu e Vancha seguíamos o rastro do vampixiita pelos telhados, Harkat e Lucas mantinham o mesmo passo seguindo pelo chão, diminuindo o ritmo apenas para decidir como se livrar de eventuais obstáculos e patrulhas policiais. Passados cinco minutos de caçada, o Sr. Crepsley e Débora juntaram-se a nós. Ela se uniu aos que estavam na rua e o vampiro subiu nos telhados.
   
Gancho Matador estava tendo dificuldades em avançar, já que a perna ferida, a dor e a perda de sangue o obrigavam a andar mais devagar. Poderíamos tê-lo alcançado, no entanto permitimos que ele aumentasse um pouco a distância e ficasse na frente. Não havia como fugir de nós. Se quiséssemos matá-lo, bastaria cercá-lo. Mas não o queríamos morto – ainda não.
   
- Não podemos deixar que ele suspeite de nós – disse Vancha, depois de alguns minutos de silêncio. – Se ficarmos para trás durante muito tempo, ele perceberá que temos algo em mente. É hora de forçá-lo a descer. – Vancha avançou um pouco mais, até ficar a uma distância tal que poderia arremessar o seu shuriken no vampixiita. Pegou uma estrela, nos
cintos que envolviam o seu peito, mirou cuidadosamente e lançou a arma, cravando-a numa chaminé logo acima da cabeça do Gancho Matador.
   
O vampixiita se arrastava, rodopiando e gritava algo ininteligível na nossa direção, balançando furiosamente um gancho dourado. Vancha o silenciou com outro shuriken, que voou mais perto ainda do alvo que o anterior. Para desviar do golpe, Gancho Matador se curvou até a altura do estômago, deslizando para a beira do telhado. Ali, segurou-se na calha com seus ganchos, impedindo uma queda. Ficou dependurado por um instante. Então checou a área abaixo, soltou-se e caiu de uma altura de quatro andares. Mas isso não era nada para um vampixiita.
   
- Aqui vamos nós – murmurou o Sr. Crepsley, seguindo por uma escada de incêndio próxima. – Chame os outros e os deixe em alerta... não queremos que eles deem de cara com o Gancho Matador no meio da rua.
   
Fiz isso ao mesmo tempo que descia os degraus da escada de incêndio aos pulos. Eles estavam um quarteirão e meio atrás de nós. Avisei-os para que ficassem em suas posições até uma próxima mudança de planos. O Sr. Crepsley e eu seguíamos o monstro pelo chão. Vancha o mantinha em seu campo de visão observando-o dos telhados, e tomava cuidado para não deixar o vampixiita subir novamente, diminuindo suas alternativas e obrigando-o a optar pelas ruas ou pelos túneis.
   
Depois de três minutos de uma correria frenética, ele escolheu os túneis.
   
Encontramos uma tampa de bueiro jogada de lado e uma trilha de sangue que dava na escuridão.
   
- É isso – suspirei, nervoso, enquanto esperávamos por Vancha. Apertei o botão de discagem do meu celular e chamei os outros. Quando chegaram, nos dividimos nas nossas duplas habituais e descemos pelos túneis. Cada um de nós sabia o que tinha que fazer e nenhuma palavra foi trocada.
   
Vancha e Lucas lideraram a perseguição. O resto de nós vinha por trás, cobrindo túneis adjacentes, para que Gancho Matador não pudesse voltar. Não era fácil perseguir o monstro lá embaixo. A água nos túneis havia diluído grande parte de seu rastro de seu sangue e a escuridão prejudicava o alcance de nossa visão. Contudo, havíamos nos acostumado com esses espaços escuros e apertados e nos movíamos de forma rápida e eficiente, sem nos distanciarmos muito e reparando nos menores sinais de identificação.
   
Gancho Matador nos guiou por túneis mais profundos do que nunca. Nem mesmo o vampixiita louco, o Vampirado, havia explorado tanto essa zona desprotegida da cidade. Será que o Gancho Matador estava indo atrás dos seus companheiros e de ajuda ou, simplesmente, tentando fazer com que nos perdêssemos?
   
- É possível que estejamos atingindo os limites da cidade – observou Harkat, assim que resolvemos descansar por um instante. – Os túneis devem acabar em breve, ou então...
   
- Ou o quê? – perguntei, quando percebi que ele havia parado de falar.
   
- Ou pode ser que se abram. Talvez ele esteja seguindo por uma rota de fuga... em busca de liberdade. Se ele alcançar uma área aberta e... tiver o caminho livre, poderá voar para um lugar seguro.
   
- Será que os seus ferimentos não o impediriam de fazer isso? – perguntei.
   
- Talvez sim. Mas se ele estiver desesperado o bastante... talvez não.
   
Recomeçamos a perseguição e alcançamos Vancha e Lucas. Harkat disse a Vancha o que achava que o Gancho Matador estava planejando. O vampiro respondeu dizendo que já havia pensado nisso antes e que logo alcançaria o vampixiita fujão: se o Matador tomasse o rumo da superfície. Vancha iria interceptá-lo e acabar com a sua raça.
   
No entanto, para a nossa surpresa, em vez de seguir para cima, o vampixiita nos levou ainda mais para baixo. Não tinha ideia de que os túneis fossem tão profundos e não podia imaginar para que serviam, visto que tinham um design moderno e não havia sinais que indicassem que estavam em uso. Enquanto eu refletia sobre o caminho do monstro, Vancha fez uma pausa e quase caí sobre ele.
   
- O que foi? – perguntei.
   
- Ele parou – sussurrou Vancha. – Há uma sala ou uma gruta acima e ele fez uma
parada.
   
- Esperando por nós, numa última parada? – sugeri.
   
- É possível – respondi, inquieto. – Ele perdeu muito sangue e o ritmo da perseguição deve estar esgotando sua energia. Mas por que parar agora? Por que aqui? – O vampiro balançou a cabeça. – Não estou gostando disso.
   
Quando o Sr. Crepsley e Débora estava chegando, Lucas desapertou a correia de sua balista e a carregou com uma tocha acesa.
   
- Cuidado! – sibilei. – Ele vai ver a luz.
   
Lucas encolheu os ombros.
   
- E daí? Ele sabe que estamos aqui. Podemos muito bem nos mover com luz, já que estamos no maior breu.
   
Aquilo fazia sentido, por isso todos acendemos as tochas que havíamos trazido, mantendo as luzes turvas para não criarmos tantas sombras que pudessem nos distrair.
   
- Nós iremos atrás dele ou ficaremos aqui esperando pelo seu ataque? – perguntou Lucas.
   
- Iremos em frente – respondeu o Sr. Crepsley, depois de uma brevíssima pausa.
   
- Isso! – disse Vancha. – Em frente.
   
Observei Débora. Ela estava tremendo e parecia prestes a desmaiar.
   
- Você pode esperar aqui se quiser – falei para ela.
   
- Não. Estou indo – disse, determinada. – Por Tara – completou ao parar de
tremer.
   
- Lucas e Débora ficarão na retaguarda – afirmou Vancha, enquanto sacava alguns shurikens. – Larten e eu seguiremos na dianteira. Darren e Harkat no meio. – Todos acenaram, obedientes. – Se ele estiver sozinho, eu o pegarei – prosseguiu Vancha. – Será uma
luta de igual para igual, um contra um. Se ele tiver companhia... – sorriu, sem graça – é cada um por si.
   
Uma última olhada para ver se todos estávamos prontos e lá foi ele. O Sr. Crepsley estava à sua direita. Harkat e eu logo atrás e Lucas e Débora formando a retaguarda.
   
Chegamos a um salão amplo, em forma de abóboda, moderno como os túneis. Uma pequena quantidade de velas se projetavam das paredes, lançando uma luz sombria e bruxuleante. Havia uma maneira de chegar à sala pelo outro lado, mas estava bloqueada por uma porta de metal pesada e redonda, como aquelas que são usadas em caixas-fortes de bancos. Gancho Matador havia se agachado a alguns metros dessa porta. Seus joelhos estavam erguidos para cobrir o rosto enquanto suas mãos estavam ocupadas tentando extrair a ponta da flecha de sua perna.
   
Nos espalhamos, Vancha na frente, o resto de nós formando um semicírculo por
trás.
   
- Acabou o jogo – disse o vampiro, contendo-se para examinar as sombras em busca de vestígios de outros vampixiitas.
   
- Você acha? – Gancho Matador bufou e levantou o rosto na nossa direção, um dos seus olhos era vermelho e o outro azul-esverdeado. – Eu acho que ele só está começando. – O vampixiita bateu seus ganchos um no outro. Uma. Duas. Três vezes.
   
E alguém caiu do teto.
   
Aterrissou ao lado do Gancho Matador, levantou e nos encarou. Seu rosto era púrpura e seus olhos cor de sangue: um vampixiita. Mais alguém pousou. E outro. E mais outro. Fiquei nauseado ao ver vampixiitas aparecendo do nada. Havia vampitietes entre eles também. Usavam camisas marrons e calças pretas, as cabeças raspadas, letras “V” tatuadas sobre ambas as orelhas e círculos vermelhos pintados em tornos dos olhos. Isso sem falar nos rifles, pistolas e bestas que carregavam.
   
Contei nove vampixiitas e cartoze vampitietes, tirando Gancho Matador. Havíamos caído numa armadilha. No momento em que olhei para os guerreiros armados e mal-encarados à nossa volta, soube que precisaríamos de toda a sorte dos vampiros somente para sairmos dessa vivos.
   
 
    Capítulo Dezenove
   
 
   
Por menores que fossem as minhas chances, elas estavam prestes a diminuir. Enquanto estávamos parados esperando o massacre, a porta atrás do Gancho Matador se abriu e dela saíram mais quatro vampixiitas para se juntarem aos outros. Com isso eram vinte e oito contra seis. Não tínhamos a mínima esperança.
   
- Agora não estão mais satisfeitos, ou estão? – zombou Gancho Matador, que mancava alegremente, tentando se locomover.
   
- Não sei de nada disso – desdenhou Vancha. – Isso só significa que temos mais de vocês para matar.
   
O sorriso do Gancho Matador desapareceu.
   
- Você é arrogante ou ignorante? – vociferou.
   
- Nem uma coisa ou outra – retrucou o vampiro, olhando calmamente para nossos adversários. – Sou um vampiro.
   
- Você realmente acha que tem alguma chance contra nós?
   
- Sim – respondeu Vancha, delicadamente. – Se estivéssemos lutando contra vampixiitas nobres ou honestos, eu pensaria de maneira diferente. Mas um vampixiita que envia humanos aramdos para lutar suas batalhas é um covarde sem honra. Não tenho motivos para temer bestas tão desprezíveis.
   
- Cuidado com o que diz – resmungou o vampixiita à esquerda do Gancho Matador. – Não gostamos de insultos.
   
- Somos nós os que foram insultados – respondeu Vancha. – Há honra quando morremos nas mãos de um inimigo valoroso. Se vocês tivessem enviado seus melhores guerreiros contra nós e nos assassinado, morreríamos com um sorriso nos lábios. Mas mandar esses... esses... – Ele cuspiu na poeira do chão. – Não existe nem palavrão para descrevê-lo.
   
Os vampitietes ficaram indignados com isso, mas os vampixiitas pareciam inquietos, quase envergonhados, e percebi que eles gostavam menos de seus lacaios do que nós. Vancha também notou isso e aproveitou para, lentamente, afrouxar seu cinto de shurikens.
   
- Larguem suas balistas – disse para Lucas, Harkat e Débora. Eles o encararam em silêncio. – Façam isso! – insistiu, asperadamente, e eles atenderam. Vancha ergueu suas mãos desarmadas. – Largamos nossas armas de longo alcance. Vocês não vão mandar seus lacaios fazerem o mesmo para nos enfrentarem com honra... ou vão atirar sangue-frio como os patifes que penso que são?
   
- Atirem neles! – gritou Gancho Matador, excitado pelo ódio. – Atirem em todos
eles!
   
Os vampitietes ergueram suas armas e fizeram mira.
   
- Não! – o vampixiita à esquerda do Gancho Matador berrou mais alto e os vampitietes pararam. – Por todas as sombras da noite, eu digo que não!
   
O Gancho Matador avançou em sua direção.
   
- Você está louco?
   
- Cuidado – alertou-o o colega. – Se passar por cima de mim nisso, juro que mato você aí mesmo onde está.
   
Gancho Matador deu um passo atrás, atordoado. O vampixiita encarou os
vampitietes.
   
- Larguem suas armas – ordenou. – Lutaremos com nossos recursos tradicionais.
Com honra.
   
Os lacaios obedeceram à ordem. Vancha se virou e piscou para nós enquanto nossos adversários punham suas armas de lado. Depois, encarou o vampixiita novamente.
   
- Antes de começarmos – afirmou – gostaria de saber que tipo de criatura é essa coisa com ganchos?
   
- Sou um vampixiita! – respondeu Gancho Matador, indignado.
   
- Sério? – Vancha sorriu, maliciosamente. – Nunca vi nenhum com olhos de cores diferentes antes.
   
Os olhos do Gancho Matador se contraíram de um jeito exploratório.
   
- Maldição! – gritou. – Deve ter escorregado quando eu caí.
   
- O que escorregou? – perguntou Vancha.
   
- Uma lente de contato – respondi, delicadamente. – Ele está usando lentes de contato vermelhas.
   
- De jeito nenhum! – berrou o Gancho Matador. – Isso é mentira! Diga a eles, Bargen. Meus olhos são tão vermelhos quanto os seus e minha pele possui o mesmo tom púrpura.
   
O vampixiita arrastou os pés, envergonhado.
   
- Ele é um vampixiita, mas só foi vampirizado recentemente. Queria ficar parecido conosco, por isso usa lentes de contatos e... – Bargen tossiu com o punho cerrado. – Ele pinta o rosto e o corpo de roxo.
   
- Traidor! – gritou novamente o Gancho Matador.
   
Bargen olhou para baixo em sua direção, aborrecido, e cuspiu no chão do mesmo jeito que Vancha fizera instantes atrás.
   
- Agora vejam: vampixiitas vampirizando sujeitos como esse e recrutando humanos para lutarem ao seu lado. A que ponto chegou o mundo? – perguntou Vancha calmamente, sem nenhum vestígio de sarcasmo na voz... era uma indagação de quem estava realmente perplexo.
   
- Os tempos mudam – respondeu Bargen. – Não gostamos das mudanças, no entanto as aceitamos. Nosso Deus disse que devia ser assim.
   
- É isso que o Senhor dos Vampixiitas trouxe para sua gente? – clamou Vancha. – Humanos assassinos e monstros debilóides cheios de ganchos.
   
- Não sou debilóide! – gritou Gancho Matador. – Estou sim é louco de raiva. – Ele apontou para mim e rosnou. – E é tudo sua culpa.
   
Vancha se virou e me encarou, assim como todos os demais no recinto.
   
- Darren? – perguntou, calmamente, o Sr. Crepsley.
   
- Não sei do que ele está falando – afirmei.
   
- Mentiroso! – Gancho Matador riu e começou a dançar. – Mentiroso, mentiroso, mentira tem perna curta!
   
- Você conhece essa criatura? – indagou o Sr. Crepsley.
   
- Não – insisti. – A primeira vez em que a vi foi quando me atacou na viela. Eu
nunca...
   
- Mentiras! – gritava o Matador, até que parou de dançar e me encarou. – Pode fingir o quanto quiser, mas você sabe quem sou. E sabe o que fez para que eu ficasse assim. – Ele ergueu os braços, fazendo com que os ganchos brilhassem à luz das velas.
   
- Eu juro. Não tenho a menor ideia de quem é você.
   
- Não? – ele me encarou com desprezo. – É fácil mentir para uma máscara. Vamos ver se você continuara mentindo quando ficar frente a frente com... – e retirou a balaclava com um rápido giro dos seus ganchos esquerdos, revelando o seu rosto! - ... isso!
   
Era um rosto redondo, pesado e barbado, todo manchado de tinta roxa. Durante alguns segundo eu não consegui decifrá-lo. Depois, associando-o com a ausência das mãos, a familiaridade da voz que eu notara previamente, acabei descobrindo:
   
- Chico Chicória? – arfei.
   
- Não me chame assim! – gritou. – É C.C. sim, só que significa Criatura
Carnívora!
   
Não sabia se devia rir ou chorar. C.C. era um sujeito que eu conhecera pouco depois de me juntar ao Circo dos Horrores, um guerreiro ecológico que devotar sua vida à proteção das florestas. Éramos amigos até me ver matando animais para alimentar os Pequeninos. Ele resolveu libertar o Homem-Lobo, pois achava que o estávamos maltratando, mas a fera arrancou seus braços. Na última vez em que o vimos, estava fugindo no meio da noite. Repetia em voz alta: “Minhas mãos, minhas mãos!”
   
E agora estava aqui. Com os vampixiitas. E comecei a entender por que armaram para cima de mim e que estava por trás disso.
   
- Foi você que mandou aqueles documentos para Mahler’s! – acusei-o.
   
Ele sorriu às escondidas e depois balançou a cabeça.
   
- Com mãos assim? – afirmou, enquanto acenava com os ganchos na minha direção. – Eles são bons para retalhar, cortar e destripar, mas não são para escrever. Fiz minha parte trazendo você até aqui, mas foi alguém mais esperto do que eu que bolou o plano.
   
- Não estou entendendo – interrompeu Vancha. – Quem é esse lunático?
   
- É uma longa história. Contarei mais tarde.
   
- Otimista até o fim – disse Vancha, gargalhando.
   
Aproximei-me e C.C., ignorando a ameaça dos vampixiitas e dos vampitietes, até ficar apenas um metro de distância, mais ou menos. Observei seu rosto, silenciosamente. Ele se remexeu, contudo não recuou.
   
- O que aconteceu com você? – perguntei, horrorizado. – Você amava a vida. Era doce e gentil. Era vegetariano!
   
- Não sou mais – riu C.C. – Agora como muita carne e gosto dela sangrando! – Seu sorriso desapareceu. – Foi você que aconteceu, foi você sua gangue de aberrações. Você arruinou a minha vida, cara. Vaguei pelo mundo, sozinho, amedrontado, indefeso, até os vampixiitas me adotarem. Eles me deram força. Equiparam-me com mãos novas. Em troca, ajudei-os a pegar você.
   
Balancei a cabeça com tristeza.
   
- Você está errado. Eles não o deixaram forte. Tranformaram-no numa aberração.
   
Seu rosto ficou turvo.
   
- Retire o que disse! Retire ou irei...
   
- Antes que isso continue – interrompeu Vancha, secamente – posso fazer mais
uma pergunta? É a última. – C.C. o encarou em silêncio. – Se não foi você que armou tudo isso, quem foi? -= Chico não disse nada. Nem os outros vampixiitas. – Vamos? – gritou Vancha. – Não seja tímido. Que é o garoto esperto?
   
O silêncio se prolongou por mais alguns instantes. Então, atrás de nós, alguém falou num tom suave, porém pernicioso.
   
- Eu.
   
Virei-me para ver quem havia se pronunciado. Vancha, Harkat e o Sr. Crepsley fizeram o mesmo. Débora não se virou porque estava imóvel, com uma faca pressionando a carne macia do seu pescoço. E Lucas Leopardo também não se virou, pois estava parado ao seu lado... segurando a faca!
   
Olhamos estupidamente para o par. Pisquei duas vezes, lentamente, achando que isso fosse devolver a sanidade ao mundo. Mas não. Lucas ainda estava ali, segurando sua faca no pescoço de Débora, com um sorriso macabro nos lábios.
   
- Tire suas luvas – disse o Sr. Crepsley, com a voz cansada. – Tire-as e mostre
nos as suas mãos.
   
Lucas sorriu, de propósito, e pôs as pontas dos dedos da mão esquerda, a que estava envolvendo o pescoço de Débora, na boca. Então mordeu as extremidades da luva e tirou-a. a primeira coisa para a qual os meus olhos se voltaram foi para a cruz entalhada na carne da sua palma, a que ele fizera na noite em que jurou me perseguir e me matar. Depois disso, meus olhos deixaram a palma e foram para os dedos, e entendi por que o Sr. Crepsley havia lhe pedido para tirar as luvas.
   
Havia cinco pequenas cicatrizes ao longo das pontas dos seus dedos, sinal de que ele era uma criatura da noite. Mas Lucas não havia sido vampirizado por um vampiro. E, sim, por um dos outros. Ele era um meio-vampixiita!
   
 
    Capítulo Vinte
   
 
   
À medida que o choque inicial ia passando, um ódio tenebroso foi crescendo na boca do meu estômago. Esqueci-me dos vampixiitas e dos vampitietes e me concentrei totalmente em Lucas. Meu melhor amigo. O garoto cuja vida eu salvara. O homem que eu recebera de volta com os braços abertos. Responsabilizara-me por ele. Confiara nele. Incluíra-o em meus planos.
   
E o tempo todo ele estava conspirando contra nós.
   
Teria avançado para cima dele na mesma hora e o partido em pedacinhos, mas o sujeito estava usando Débora como escudo. Por mais rápido que fosse, não teria como impedir que ele cortasse o seu pescoço com a faca. Se eu o atacasse. Débora morreria.
   
- Sabia que não podíamos confiar nele. – disse o Sr. Crepsley, que só parecia
estar um pouco menos furioso do que eu. – O sangue não muda. Devia tê-lo matado há anos.
   
- Não precisa agir como um perdedor magoado – riu Lucas, trazendo Débora para mais perto ainda do seu corpo.
   
- Era tudo uma manobra para nos enganar, não? – notou Vancha. – o ataque do sujeito com os ganchos e o salvamento de Darren foram encenados.
   
- É claro – disse Lucas, com um sorriso malicioso. – Sabia onde eles estavam o tempo todo. Fui eu que ao atraí para cá e mandei o C.C. para a cidade com a intenção de espalhar o pânico entre os humanos. Sabia que isso iria trazer o maldito Crepsley de volta.
   
- Como você sabia? – perguntou o Sr. Crepsley, abismado.
   
- Pesquisa. Descobri tudo o que podia sobre você. Fiz de você o trabalho da minha vida. Não foi fácil, mas fui até o fim. Encontrei a sua certidão de nascimento. Liguei-o a este lugar. Associei-me aos meus bons amigos, os vampixiitas, durante as minhas viagens. Eles não me rejeitaram como vocês. Atraves deles eu descobri que um de seus irmãos... o pobre e demente Vampirado... desaparecera há alguns anos. Com o que sabia sobre você e
seus movimentos, não foi difícil ligar os pontos.
   
- O que aconteceu com o Vampirado? – perguntou Lucas. – Vocês o mataram ou simplesmente o espantaram?
   
O Sr Crepsley não respondeu. Nem eu.
   
- Não importa – disse Lucas. – Não é importante. Como vocês voltaram para ajudar essas pessoas uma vez, imaginei que o fariam novamente.
   
- Muito esperteza de sua parte – rosnou o Sr. Crepsley. Seus dedos se contraíam como patas de aranhas e eu sabia que ele estava se coçando para usá-los para apertar a garganta de Lucas.
   
- O que eu não entendo – reparou Vancha – é o que esse bando está fazendo aqui. – Ele acenou na direção de Bargen e dos outros vampixiitas e vampitietes. – Com certeza vocês não estão aqui para ajudar esse sujeito na sua busca insana por vingança.
   
- É claro que não – retrucou Lucas. – Sou um humilde meio-vampixiita. Não tenho a ambição de comandar meus superiores. Falei-lhes sobre o Vampirado, o que os interessou, mas eles estão aqui por outras razões, sob as ordens de outra pessoa.
   
- De quem? – perguntou Vancha.
   
- Isso seria falar demais. E não estamos aqui para falar... e sim para matar.
   
Atrás de nós, os vampixiitas e vampitietes avançavam. Vancha, o Sr. Crepsley e Harkat se voltaram para enfrentar seus desafiantes. Eu não. Não conseguia tirar meus olhos de Lucas e Débora. Ela estava chorando, mas mantinha a firmeza, olhando suplicante na minha direção.
   
- Por quê? – perguntei, com a voz baixa e áspera.
   
- Por que o quê? – respondeu Lucas.
   
- Por que você nos odeia? Não fizemos nada para feri-lo.
   
- Ele disse que eu era mal! – Lucas se exaltou, acenando na direção do Sr. Crepsley, que não se virou para protestar. – E você escolheu o lado dele em vez do meu. Jogou aquela aranha sobre mim e tentou me matar.
   
- Não, eu salvei você. Dei tudo de mim para que pudesse sobreviver.
   
- Bobagem – disse, bufando. – Eu sei o que realmente aconteceu. Você se aliou a ele para conspirar contra mim, para que pudesse pegar meu lugar de direito entre os vampiros. Tinha ciúmes de mim.
   
- Não, Lucas – suspirei. – Isso é loucura. Você não sabe o que...
   
- Poupe-me! – interrompeu-me Lucas. – Não estou interessado. Além do mais, aí vem o convidado de honra... um homem que tenho certeza que todos vocês estão morrendo de vontade de encontrar.
   
Não tirei meu foco de atenção de Lucas, porém tinha que ver do que ele estava falando. Olhando para trás, vi duas formas vagas atrás de um grupo de vampixiitas e vampitietes. Vancha, o Sr. Crepsley e Harkat ignoravam as zombarias de Lucas e a dupla que estava nos fundos. Preferiram se concentrar nos adversários que estavam bem a sua frente, desviando-se dos primeiros golpes que eles davam para testar os oponentes. Então, os vampixiitas abriram espaço e pude ter uma clara noção de quem eram os dois que estavam mais atrás.
   
- Vancha! – gritei.
   
- O quê? – vociferou o vampiro.
   
- Nos fundos... é... – Engoli em seco. O mais alto da dupla me avistou e agora me fitava com uma expressão neutra e curiosa. O outro usava um manto verde-escuro e sua cabeça estava coberta por um capuz.
   
- Quem? – gritou Vancha, jogando para o lado a faca de um vampitiete com as mãos desarmadas.
   
- É o seu irmão, Gannen Harst – falei, calmamente, e Vancha parou de lutar. O Sr. Crepsley e Harkat fizeram o mesmo. E também os vampixiitas perplexos.
   
Vancha esticou os pés ao máximo e ficou olhando por sobre as cabeças dos que estavam a sua frente. Os olhos de Gannen Harst desviaram dos meus e se fixaram nos de Vancha. Os irmãos se encararam. Então o olhar de Vancha se voltou para a pessoa que usava o manto e o capuz: o Senhor dos Vampixiitas!
   
- Ele! Aqui! – ofegou Vancha.
   
- Vocês já se encontraram antes, admito – comentou Lucas maliciosamente.
   
Vancha ignorou o meio-vampixiita.
   
- Aqui! – ofegou novamente, com os olhos fixos no líder dos vampixiitas, o homem que havíamos jurado matar. Então ele fez a última coisa que os vampixiitas estavam esperando... com um rugido de pura adrenalina, ele atacou!
   
Era uma insanidade, um vampiro desarmado enfrentando vinte e oito oponentes dispostos e com armas, mas tal loucura acabou trabalhando a seu favor. Antes que os vampixiitas e os vampitietes tivessem tempo de chegar a um acordo sobre a maluquice do ataque de Vancha, ele havia passado por nove ou dez deles, jogando-os no chão ou uns sobre os outros. E já estava quase sobre Gannen Harst e o Senhor dos Vampixiitas, sem que nossos antagonistas percebessem o que estava acontecendo.
   
Aproveitando o ensejo, o Sr. Crepsley reagiu mais rápido do que todos os demais e saiu atrás de Vancha. Mergulhou no meio dos vampixiitas e vampitietes segurando as facas nas mãos esticadas como se fossem um par de garras nas extremidades das asas de um morcego, e três de nossos adversários tombaram, com as gargantas ou peitos rasgados.
   
Harkat movia-se livremente para trás dos vampiros, afundando seu machado nos crânios de vampitietes. Enquanto isso, o último da fileira de vampixiitas fechou a passagem para Vancha impedindo-o de se aproximar de seu Senhor. O Príncipe os atacou com as mãos, que pareciam laminas, porém agora eles sabiam o que estavam fazendo. Embora o adversário tivesse assassinado um dos seus, os outros se lançaram à frente, forçando-o a parar.
   
Devia ter ido atrás dos meus companheiros, já que matar o Senhor dos Vampixiitas era mais importante do que tudo, mas meus sentidos só gritavam um nome. E era um nome ao qual eu reagia impulsivamente.
   
- Débora! – Virei e me desviei da batalha, rezando para que Lucas tivesse sido distraído pela súbita deflagração. Então joguei uma faca em sua direção. Não tinha a intenção de acertá-lo, pois não podia correr o risco de atingir Débora, só queria obrigá-lo a desviar.
   
Funcionou. Assustado com a velocidade do meu movimento. Lucas enfiou sua cabeça atrás da de Débora para se proteger. Seu braço esquerdo soltou levemente a garganta dela e a mão direita – a que segurava a faca - desceu um pouco. Corri em disparada, sabendo que aquele golpe momentâneo do destino não seria o bastante. O meio-vampixiita ainda teria tempo de se recuperar e matar Débora antes que eu o alcançasse. Mas, naquele instante, ela afundou seu cotovelo bem nas costelas de Lucas, agindo como uma guerreira treinada, e se livrou de seu agressor jogando-se no chão.
   
Antes que Lucas pudesse recuperar sua refém, eu estava em cima dele. Agarrei-o pela cintura e o joguei para trás, contra a parede. Ele me atacou asperamente e gritou. Afastando-me do sujeito, acertei-lhe um soco em cheio no rosto com o meu punho direito. A força do golpe o derrubou. Quase quebrei alguns ossos do dedo, no entanto, isso não me incomodou. Caindo sobre ele, o agarrei pelas orelhas, puxei sua cabeça para cima e depois a bati contra o chão duro de concreto. Ele grunhiu e as luzes se apagaram em seus olhos. Estava entorpecido e indefeso – a luta esgotara suas energias.
   
Minha mão foi até o cabo da minha faca. Depois, vi a do próprio Lucas caída ao lado de sua cabeça e decidi que seria mais adequado matá-lo com esta. Ao pegá-la, posicionei acima do seu coração perverso e monstruoso e cutuquei o tecido na camisa para me certificar de que ele não estava protegido por uma placa peitoral ou alguma outra espécie de armadura. Então, ergui a faca bem acima da minha cabeça e a trouxe lentamente, determinado a cumprir o meu dever e dar um fim à vida do homem que cheguei a considerar meu melhor amigo.
   
 
    Capítulo Vinte e Um
   
 
   
- Pare! – gritou C.C., enquanto minha faca descia. Algo em sua voz fez com que eu parasse e olhasse para trás. Meu coração se apertou... ele estava com Débora! Segurava-a do mesmo jeito que Lucas fizera antes: com os ganchos dourados de sua mão direita apertando seu pescoço. Dois ganchos haviam perfurado levemente a pele e filetes de sangue escorriam pelas laminas douradas. – Largue a faca ou irei feri-la como a um porco! – sibilava C.C.
   
Se eu largasse a faca. Débora morreria de qualquer maneira, junto com todos nós. Só havia uma coisa a fazer: tinha que tentar forçar um empate. Agarrei Lucas pelo cabelo longo e grisalho e apertei a faca contra o seu pescoço.
   
- Se ela morrer, ele morre – anunciei, rugindo, e vi a dúvida invadir os olhos de
C.C.
   
- Não brinque comigo – avisou o vampixiita cheio de ganchos. – Largue-o ou eu
a mato.
   
- Se ela morrer, ele morre.
   
C.C. me xingou e olhou para trás em busca de ajuda. A batalha estava a favor dos vampixiitas. Aqueles que haviam tombado nos primeiros segundos da luta levantaram-se. Agora cercavam Vancha, o Sr. Crepsley e Harkat, que lutavam de costas um para o outro, protegendo-se, incapazes de avançar ou de recuar. Longe da aglomeração, Gannen Harst e o Senhor dos Vampixiitas observavam tudo.
   
- Esqueça deles – afirmei. – Isso é entre mim e você. Não tem nada a ver com mais ninguém. – Consegui sorrir de leve. – Ou você está com medo de me enfrentar sozinho?
   
C.C. sorriu com desprezo.
   
- Não tenho medo de nada. Exceto... – Ele parou.
   
Tentando adivinhar o que ele estava prestes a dizer, coloquei minha cabeça para trás e uivei como um lobo. Os olhos de C.C. se arregalaram de medo com o som, mas logo se recompôs e se manteve firme.
   
- Uivos não irão salvar a sua namoradinha gostosa – provocou-me.
   
Tive uma estranha sensação de dejà vu. Vampirado costumava se referir assim a Débora, e por um instante foi como se o espírito do vampixiita morto estivesse vivo dentro de C.C. Rapidamente descartei tais pensamentos macabros e me concentrei.
   
- Vamos parar de desperdiçar o nosso tempo – afirmei. – Deixe Débora de lado que eu farei o mesmo com Lucas. Vamos resolver isso homem contra homem e o vencedor fica com tudo.
   
C.C. sorriu e balançou a cabeça.
   
- Nada feito. Não tenho que arriscar o meu pescoço. Estou com todas as cartas na
mão.
   
Segurando Débora a sua frente, ele começou a se dirigir para a saída que ficava do outro lado do salão, beirando a fileira de vampixiitas.
   
- O que você está fazendo? – gritei, enquanto me movia para bloqueá-lo.
   
- Volte para trás! – rugiu, e cravou ainda mais seus ganchos no maxilar de Débora, fazendo com que ela ofegasse de dor.
   
Parei, indeciso.
   
- Largue-a – falei calma e desesperadamente.
   
- Não. Vou levá-la. Se você tentar me deter, eu a mato.
   
- Se você o fizer, eu mato o Lucas.
   
Ele gargalhou.
   
- Não ligo tanto para Lucas quanto você para sua pequena e preciosa Débora. Sacrificarei meu amigo se você sacrificar a sua. Que tal, Shan? – Fitei os olhos arregalados e aterrorizados de Débora e então me afastei, abrindo caminho para C.C. passasse. – Sábia memória – resmundou o monstro, passando por mim, sem dar as costas.
   
- Se você a machucar... – solucei.
   
- Não o farei. Não por enquanto. Quero vê-lo sofrer antes disso. Mas se matar Lucas ou vier atrás de mim... – Seus olhos frios e descombinados me disseram o iria
acontecer.
   
Rindo, o monstro de ganchos passou pelos vampixiitas e depois por Gannen Harst e seu Senhor. Então sumiu na escuridão lúgubre do túnel que estava mais atrás, levando Débora consigo e deixando a mim e aos outros à mercê dos vampixiitas.
   
 
   
Como eu não poderia salvar Débora naquelas circunstâncias, minhas opções eram claras. Poderia tentar salvar os meus amigos, que estavam aprisionados pelos vampixiitas, ou ir atrás do Senhor dos Vampixiitas. Não tinha tempo para escolher. Não podia salvar meus amigos, já que havia oponentes demais. E mesmo se pudesse, não deveria fazê-lo, porque o Senhor dos Vampixiitas vinha em primeiro lugar. Esquecera-me momentaneamente disso quando Lucas pegou Débora, mas agora o meu treinamento estava falando mais alto. Do outro lado do salão, Lucas ainda estava inconsciente. Não havia tempo de acabar com ele de vez – eu o faria depois, se possível. Contornei os vampixiitas sem ser percebido e saquei a minha espada, no intuito de enfrentar Gannen Harst e a figura que ele protegia.
   
Harst me avistou, colocou os dedos na boca e assobiou com vontade. Quatro dos vampixiitas que estavam na retaguarda do grupo olhavam para ele e depois seguiram a direção que seu dedo apontava: para mim. Dando as costas para a balbúrdia, eles bloquearam o meu caminho e então avançaram.
   
Poderia tentar abrir caminho entre eles, por mais impossível que fosse, então vi Gannen Harst chamar dois outros vampixiitas e pedir para que se afastassem da briga. Ele lhes entregou a guarda do seu Senhor e os três entraram no túnel pelo qual C.C. havia fugido. Harst bateu a enorme porta assim que o grupo saiu, e girou uma trava gigantesca e circular, como se fosse um segredo, que ficava bem no centro. Sem essa combinação, seria impossível atravessar uma porta tão espessa quanto aquela.
   
O irmão de Vancha veio atrás dos quatro vampixiitas que convergiam sobre mim. Estalou a língua contra o céu da boca e os vampixiitas pararam. Harst me encarou e depois fez o sinal da morte: pressionou o dedo médio contra o centro de sua testa, os dois dedos adjacentes contra os olhos e estendeu o polegar e o midinho para os lados.
   
- Mesmo na morte, que você seja vitorioso. – afirmou.
   
Olhei em volta rapidamente, para ter uma ideia de como estavam as coisas. À minha direita, a batalha ainda era devastadora. O Sr. Crepsley, Vancha e Harkat estavam cortados em muitas partes do corpo, sangrando generosamente, contudo nenhum deles apresentava ferimentos fatais. Eles estavam de PE, com as armas nas mãos – exceto Vancha, cujas armas eram suas mãos -, ainda mantendo o círculo de vampixiitas e vampitietes em xeque.
   
Não dava para entender. Dada a superioridade numérica de nossos adversários, já deviam ter subjugado e despachado o trio. Quanto mais a luta prosseguia, mais baixas estávamos causando – pelo menos seis vampitietes e três vampixiitas estavam mortos – e alguns mais ostentavam ferimentos que poderiam lhes custar a vida. Mesmo assim, lutavam com cautela, decidindo com cuidado que golpes iriam desferir, quase como se não quisessem não nos matar.
   
Cheguei a uma rápida decisão e sabia o que tinha de fazer. Encarei Gannen Harst
e gritei:
   
- Serei triunfante na vida! – desafiei. Depois saquei uma faca e a arremessei na direção dos vampixiitas, jogando-a para o alto deliberadamente. Enquanto os cinco vampixiitas que estavam na minha frente desviavam para evitar a lamina, eu girei e brandi minha espada para atacar os vampixiitas e vampitietes que se apertavam em torno do Sr. Crepsley, de Vancha e de Harkat. Agora que o Senhor dos Vampixiitas estava fora de alcance, eu estava livre para ajudar ou perecer com meus amigos. Alguns momentos antes, certamente teríamos perecido, mas o pendulo havia balançado a nosso favor. O bando havia sido reduzido a uns seis membros, pois dois já haviam partido com seu Senhor e quatro estavam ao lado de Gannen Harst. Os vampixiitas e vampitietes haviam se dispersado para compensar os membros de seu clã que tombaram.
   
Minha espada acertou o vampixiita à minha direita e errou por pouco a garganta de um vampixiita que estava à minha esquerda. Ambos desviaram para o lado ao mesmo tempo, instintivamente em direções opostas, criando um vão.
   
- Aqui! – gritei para o trio no meio da confusão.
   
Antes que o vão pudesse ser preenchido. Harkat irrompeu pelo meio, retalhando o que podia com seu machado. Mais vampixiitas e vampitietes recuaram. Com isso o Sr. Crepsley e Vancha correram atrás de Harkat, espalhando-se a sua volta e virando-se de modo que todos ficassem voltados para a mesma direção, em vez de ficarem um de costas para o outro.
   
Recuamos em velocidade na direção do túnel que nos levava para fora da
caverna.
   
- Rápido, bloqueiem a saída! – gritou um dos vampixiitas que estavam com Gannen Harst, seguindo em frente para fechar o nosso caminho.
   
- Espere – pronunciou-se calmamente Harst, fazendo o vampixiita parar onde estava. Este olhou para trás, perplexo na direção do primeiro. No entanto, Harst balançou a cabeça, inflexivelmente.
   
Não sabia ao certo por que Harst havia impedido que seus homens bloqueassem nossa única rota de fuga, mas não parei para pensar nisso. Continuamos nossa retirada, batendo em um e outro oponente que vinha em nossa direção, quando passamos por Lucas. Ele estava recobrando seus sentidos e estava quase conseguindo se sentar. Parei logo que passamos por ele, agarrei-o pelo cabelo e o obriguei a se levantar. O sujeito deu um uivo e se debateu, então encostei a ponta da minha espada em sua garganta e ele ficou quieto.
   
- Você vem conosco! – cochichei ao seu ouvido. – Se morrermos, você também morrerá. – Eu o teria matado na mesma hora, mas me lembrei do que C.C. havia dito: se eu matasse Lucas, ele mataria Débora.
   
Assim que chegamos à boca do túnel, um vampitiete girou uma pequena corrente na direção de Vancha. O vampiro agarrou a corrente, puxou o adversário, pegou-o pela cabeça e fez com que ela virasse bruscamente para a direita, na intenção de quebrar o pescoço do seu antagonista e matá-lo.
   
- Chega! – berrou Gannen Harst. Os vampixiitas e vampitietes que nos cercavam pararam de lutar no mesmo instante e deram dois passos para trás.
   
Vancha relaxou a sua pegada, olhando em volta desconfiado, sem soltar o
oponente.
   
- O que agora? – murmurou.
   
- Não sei – disse o Sr. Crepsley, enxugando o suor e o sangue que lhe molhavam sua testa. – Mas eles estão lutando de um jeito muito bizarro. Nada que façam irá me surpreender.
   
Gannen Harst rompeu a barreira de vampixiitas até ficar frente a frente com o irmão. Os dois não se pareciam: enquanto Vancha era forte, áspero e bruto, Gannen era magro, refinado e sereno. Contudo, tinham uma certa maneira de parar e inclinar a cabeça que era muito semelhante.
   
- Vancha – Gannen cumprimentou seu irmão e desafeto.
   
- Gannen – respondeu Vancha, sem largar o oponente, olhando para os outros vampixiitas como um falcão, alerta para qualquer movimento súbito.
   
Gannen olhou para o Sr. Crepsley, para Harkat e para mim.
   
- Nos encontramos novamente, como estava previsto. Na última vez, vocês nos derrotaram. Agora o jogo virou. – Ele fez uma pausa e olhou em volta do salão na direção dos vampixiitas e vampitietes calados e para os colegas mortos e moribundos. Depois, se voltou para o túnel que estava atrás de nós. – Poderiamos matá-los aqui, neste túnel, mas vocês levariam muitos de nós também – suspirou. – Estou cansado desse derramamento de sangue desnecessário. Podemos fazer um acordo.
   
- Que tipo de acordo? – resmungou Vancha, tentando esconder seu espanto.
   
- Seria mais fácil para nós massacrá-los nos túneis mais largos acima deste. Poderíamos abatê-los um por um, no nosso tempo, possivelmente sem ter que perder mais nenhum homem.
   
- Você quer que tornermos o seu trabalho mais fácil? – Vancha deu uma
gargalhada.
   
- Deixe-me terminar – continuou Gannen. – Do jeito que as coisas estão, vocês não alimentam mais esperanças de voltar para a superfície vivos. Se os atacarmos aqui, nossas perdas serão grandes, e vocês quatro certamente morrerão. Se, por outro lado, nós lhe déssemos uma vantagem... – Sua voz foi diminuindo até ele ficar em silêncio, mas logo prosseguiu. – Quinze minutos, Vancha. Deixem os seus reféns... vocês podem seguir muito mais rápido sem eles... e fujam. Durante quinze minutos, ninguém irá segui-los. Vocês têm a minha palavra.
   
- Isso é um truque – rosnou Vancha. – Você não nos deixaria partir, não assim.
   
- Eu não minto – disse Gannen, com firmeza. – A vantagem ainda está conosco... conhecemos esses túneis muito melhor de que vocês e, provavelmente, nós o alcançaríamos antes que conseguissem a liberdade. Mas, desta maneira, vocês terão como alimentar esperanças... e não terei que enterrar mais nenhum dos meus amigos.
   
Vancha trocou um olhar furtivo com o Sr. Crepsley.
   
- E quanto a Débora? – gritei, antes que qualquer um dos vampiros pudessem falr. – Quero levá-la também!
   
Gannen Harst balançou a cabeça.
   
- Comando aqueles que estão nesta sala, não aquele dos ganchos. Ela é dele
agora.
   
- Não é o suficiente – bufei. – Se Débora não vier, eu também não sairei daqui. Ficarei e matarei quantos de vocês eu puder.
   
- Darren... – Vancha começou a protestar.
   
- Não discuta – disse o Sr. Crepsley. – Eu conheço Darren... suas palavras são inúteis, Vancha. Ele não partirá sem ela. E se ele não partir, eu também não sairei daqui.
   
Vancha disse um palavrão e depois fitou seu irmão, olho no olho.
   
- Então é isso. Se eles não forem, eu também não irei.
   
Harkat pigarreou.
   
- Esses idiotas não falam... por mim. Eu irei. – Depois ele sorriu para mostrar que estava brincando.
   
Gannen cuspiu entre os pés, aborrecido. Nos meus braços, Lucas se mexia e gemia. Gannen o observou por um instante e depois se voltou para o seu irmão.
   
- Vamos tentar isso então: C.C. e Lucas Leopardo são amigos íntimos. Foi Leopardo que projetou os ganchos de C.C. e nos persuadiu a vampirizá-lo. Não creio que C.C. vá matar a mulher se isso significar a morte de Leopardo, apesar de suas ameaças. Quando partirem, podem levar Leopardo com vocês. Se escaparem, talvez possam usá-lo mais tarde como moeda de troca pela vida da mulher. – Ele me olhou de lado, como se quisesse me prevenir sobre o que falaria a seguir. – Isso é o melhor que eu posso fazer... e é mais do que o que voces têm direito.
   
Pensei bem, percebi que essa era a única esperança real que Débora tinha, e acenei de um jeito quase imperceptível.
   
- Isso é um sim? – perguntou Gannen.
   
- Sim – respondi, em voz baixa.
   
- Então vão embora! – vociferou. – No momento em que começarem a andar, o relógio começa a contar. Em quinze minutos partiremos atrás de vocês, e se os alcançarmos, morrerão.
   
A um sinal de Gannen, os vampixiitas e vampitietes recuaram e se reagruparam a sua volta. Ele ficou na frente de todos, com os braços cruzados sobre o peito, esperando que partíssemos.
   
Arrastei os pés na direção dos meus três amigos, empurrando Lucas para longe de mim. Vancha ainda retinha o vampitiete que havia capturado e o segurava da forma que eu fizera com Lucas.
   
- Ele está falando sério? – perguntei num sussurro.
   
- Parece que sim – respondeu Vancha, embora eu pudesse garantir que ele também não estava acreditando muito nessa história.
   
- Por que ele está fazendo isso? – perguntou o Sr. Crepsley. – Ele sabe que nossa missão é matar o Senhor dos Vampixiitas. Ao nos oferecer essa oportunidade, está nos livrando para talvez nos recuperarmos e atacarmos novamente.
   
- Isso é uma loucura – concordou Vancha -, mas seríamos mais loucos ainda se não aproveitarmos essa oportunidade. Vamos nos mandar daqui antes que ele mude de ideia. Podemos conversar sobre isso depois... se sobrevivermos.
   
Segurando seu vampitiete como se fosse um escudo a sua frente, Vancha recuou. Eu o segui, levando Lucas com um dos braços. O traidor estava plenamente consciente agora,
porém grogue demias para correr rumo à liberdade. O Sr. Crepsley e Harkat vinham atrás de nós. Os vampixiitas e vampitietes ficaram assistindo a nossa partida. Muitos dos olhos vermelhos viam aquela cena com aversão e desgosto... mas nenhum deles se moveu para nos perseguir.
   
Andamos de marcha ré pelo túnel durante um tempo, até nos certificarmos de que não estávamos sendo seguidos. Então paramos e trocamos olhares incertos. Quando ia me pronunciar Vancha me silenciou antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
   
- Não vamos perder tempo. – Virando-se, ele empurrou seu refém para a frente e começou a correr. Harkat seguiu-o às pressas, encolhendo-os ombros enquanto passava por mim. O Sr. Crepsley acenou para que eu fosse em seguida, com Lucas. Empurrando meu refém à frente, cutuquei-o nas costas com a minha espada, fazendo com que se apressasse.
   
Subindo pelos túneis longos e escuros, seguíamos a passos surdos – caçadores e prisioneiros exaustos, ensanguentados, feridos e desnorteados. Pensei no Senhor dos Vampixiitas, no insano do C.C. e em Débora, sua prisioneira infeliz. Sentia-me dilacerado por tê-la deixado para trás, mas não tive escolha. Depois, caso sobrevivesse, voltaria para resgatá-la. No momento, eu tinha que pensar na minha própria vida.
   
Fazendo um grande esforço, tirei tudo que estava relacionado a Débora da minha cabeça e me concentrei na trilha que tinha pela frente. No fundo da minha mente, um relógio foi acionado espontaneamente. A cada passo, eu podia ouvir as mãos cortando os segundos,
diminuindo nosso período de benevolência. O tempo nos levava, inevitavelmente, para mais perto do momento em que Gannen Harst soltaria seus vampixiitas e vampitietes atrás de nós – liberando os cães do inferno.

 

 

                                                                                                    Darren Shan

 

 

 

                                          Voltar a Série

 

 

 

                                       

O melhor da literatura para todos os gostos e idades