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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ALMA GUERREIRA / Margaret Moore
ALMA GUERREIRA / Margaret Moore

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

   Roanna Westercott viu-se arrastada em louca disparada, afastando-se rapidamente das terras onde deveria começar uma nova vida. O jovem guerreiro solitário, que a arrebatara da proteção do noivo e da comitiva que os acompanhava, parecia possuído de força sobrenatural, da obstinação cega dos que passam por intensa dor para se tornarem mais fortes.

   Com medo e fascínio, observou o rosto de seu raptor. As marcas de guerra eram mais suaves que as cicatrizes da alma ali espelhadas. Roanna não tinha ilusões. Ela seria usada como arma contra seu noivo por algum motivo que desconhecia. E não ousava imaginar o final de uma luta entre dois homens de orgulho feroz e vontade implacável!

 

 

 

  

   Gales, 1201

   - Não mudou muito, não?

   O guerreiro alto, ajoelhado no alto do rochedo, voltou-se para o irmão de criação, sem se importar com a chuva que ensopava a túnica de couro comprida, sem mangas, e as calças de lã, nem com o vento frio nos braços nus e na cabeça.

   Lá embaixo um pequeno cortejo de cavaleiros molhados, duas velhas e rangentes carroças, vários soldados a pé, avançava com lentidão pela estrada enlameada.

   Observando no cavaleiro à frente, o guerreiro mais alto emitiu um som zombeteiro e comentou:

   - Cynric ainda cavalga como se tivesse uma lança enfiada na...

   - Emryss! - exclamou o mais baixo, abafando uma gargalhada.

   - Pelos deuses, Gwil! Eu ia dizer armadura. Às vezes você parece uma mulher velha! - Emryss apontou para a pequena figura que montava um cavalo de dorso curvo. - Aquela deve ser a noiva. Cavalga como um saco de batatas! Garanto que ele não vai se casar com ela pelo jeito que monta!

   Ajustando o tapa-olho sobre a órbita direita, vazia, Emryss sorriu para o irmão adotivo. Para qualquer outro guerreiro, o sorriso pareceria absurdo. Mas Gwilym sabia que quando Emryss sorria a encrenca ia começar.

   - E não tem grande dote, também - comentou Gwilym, preocupado com o que Emryss ia fazer, uma vez que sua prolongada ausência não diminuíra o ódio que alimentava pelos DeLanyea de Beaufort. - A filha da cunhada do ferreiro ouviu, no mercado de Beaufort, que o dote dela é de dar pena.

   - Então, ela é bonita?

   - Dizem que não. E magra como um vara-pau e tem cara de doente. Bem, você vai ver.

   - Cynric não escolheria uma noiva assim... - disse Emryss, pensativo. - O que mais dizem, Gwil?        

   Gwilym suspirou, sentando-se, enquanto a coluna, lá embaixo, começava a entrar na floresta.

   - O velho barão é que acertou o casamento. O tio da noiva, aquele ao lado dela, que parece um urubu, pode introduzi-lo na corte e os DeLanyea precisam de...

   Emryss apontou para o guerreiro que estava do outro lado da noiva:

   - E quem é aquele, de cabelos negros, com cara de que espera confusão?

   - Fitzroy. Cuidado com ele, Emryss, ele luta bem.

   - De onde ele veio?

   - Ninguém sabe - Gwilym deu de ombros. - Pelo que sei, guerreia por dinheiro.

   Emryss ergueu-se quando o último soldado desapareceu entre as árvores.

   - Não me surpreende Cynric ter que alugar guerreiros, sem dúvida homens procurados por assassinato ou algo parecido. - Tirou o tapa-olho e prendeu-o no cinto. - Bem Gwil, chegou a hora de mostrar a meu primo que voltei.

   - Está louco, Emryss! - Gwilym também se levantou, evitando olhar para a cicatriz terrível que marcava a face direita de Emryss.

   - Vai aparecer à frente dele e dar bom dia ? Ele odeia você, homem! Vai matá-lo assim que o enxergar.

   - Duvido, não vai querer chocar a noiva. E acho que vou dar bom dia em gales. Acho que ele vai gostar...

   Gwilym sacudiu a cabeça, enquanto Emryss montava devagar, ajeitando a perna esquerda, com cuidado.

   - Loucura. Vai deixá-lo ver o que aconteceu com você? Assim que acabou de falar Gwilym teve vontade de morder a língua, ao ver o rosto de Emryss endurecer.

   - Meu rosto é a prova de que sarraceno nenhum vai me matar até que acerte as contas com os Beaufort.

   - Está bem, Emryss - assentiu Gwilym, montando. - Estou com você.

  

   - Todos são uns bárbaros estúpidos - queixou-se Cynric DeLanyea, a voz zumbindo como um inseto nos ouvidos de lorde Raynald Westercott. - Não entendo por que o rei se importa com esta região selvagem. Só tem atoleiros que engolem carneiros e até pastores!

   Westercott apontou o nariz adunco para Cynric e deu um sorriso forçado. Sentia-se cansado das lamentações do nobre, mas não queria criar antagonismo antes que sua sobrinha estivesse casada e fora de sua vida.

   - Bem, milorde, com certeza a floresta tem algum valor. Seu pai nunca se lamentou pelo baronato que recebeu aqui.

   - Ele tem certas... compensações! O sorriso de Cynric fez Westercott sentir-se pouco à vontade.

   Ouvira dizer que os DeLanyea gastavam fortunas para satisfazer a luxúria e esmagavam seus rendeiros com impostos. Precisavam de apoio para entrar na corte do novo rei, John, por isso o barão DeLanyea resolvera casar o filho. As loucuras do barão serviam para que ele resolvesse o problema da sobrinha. A moça vivia vagando pela propriedade como uma alma penada, aparecendo diante dele quando menos a esperava. Não via a hora de se livrar dela.

   - Temo que a chuva aperte... Ainda estamos muito longe de Beaufort? - indagou Westercott.

   Seu estômago reclamava, avisando-o que passara muito tempo da última refeição.

   - Não. Chegaremos antes da noite cair.

   Westercott assentiu, olhando de relance para os que vinham atrás. Roanna parecia uma galinha molhada, pensou. Graças a Deus ia se casar...

   - É uma pena não haver um convento na região do senhor - comentou Cynric, que lhe seguira o olhar. - Sua sobrinha daria uma ótima freira.

   Voltando-se, Westercott viu o desgosto estampado no rosto do noivo. Clareou a garganta antes de falar:

   - Pensei nisso, mas custa caro pagar a ordenação de uma freira. Seu pai me fez a proposta e achei bem melhor Roanna nos beneficiar a todos, não, milorde?.

   Antes que Cynric pudesse responder, um corvo saiu voando contra o céu cinzento, crocitando roucamente.

   Lady Roanna Westercott puxou as rédeas e ergueu os olhos. Os soldados que estavam a pé pararam, nervosos, e observaram as árvores.

   - Pelo amor de Deus, é apenas um pássaro! - gritou Cyrinc, voltando-se sobre a sela e olhando a escolta com frieza.

   Em seguida, seus olhos azuis estreitaram-se e os lábios se apertaram. Roanna, escorrendo água, viu a repulsa pintar-se no rosto do noivo, quando a fitou.

   - Nem os covardes ladrões galeses seriam idiotas o bastante para nos atacar, seus medrosos! - continuou ele.

   Com prática de muitos anos, Roanna demonstrou-se calma. Ouvira falar nos corajosos ataques dos galeses contra os normandos, que ainda consideravam invasores, apesar de Guilherme, duque da Normandia, ter invadido a Inglaterra há mais de duzentos anos. Calou-se, no entanto, pois sabia que não devia contradizer o noivo e que precisava tomar muito cuidado com ele.

   Conhecia a barganha do tio: os DeLanyea tinham aceito um pobre dote que era um insulto a ela. Sabia que o barão se tornara inimigo tanto dos galeses quanto dos normandos e que em troca do casamento seu tio o faria ser aceito na corte normanda; que os DeLanyea cometiam crimes hediondos contra seus rendeiros; que Cyrinc DeLanyea era conhecido por seduzir mulheres, tanto da nobreza quanto do povo, e que os soldados faziam apostas que ele não consumaria o matrimônio a não ser que estivesse quase desacordado de tanto beber. E sabia que nada poderia fazer para livrar-se daquele casamento, por mais que quisesse. Seu tio fizera um acordo e era obrigada a honrá-lo.

   À chuva tornou-se pesada e os cascos dos cavalos chapinhavam mais profundamente na lama.

   De repente, um som meio abafado chamou-lhe a atenção e Roanna olhou para trás. Uma enorme pedra havia caído na estrada, impedindo a passagem da carroça que continha seu pobre dote e algumas roupas. Dois musculosos carroceiros normandos, do baronato dos DeLanyea, saltaram da carroça e forcejaram para deslocar a pedra, empurrando-a sobre o barro.

   Num movimento súbito, Cynric fez seu cavalo recuar. Roanna viu Fitzroy levar a mão ao punho da espada e seu tio puxar as rédeas da égua, fazendo-a relinchar em protesto. Os soldados empunharam as espadas e trataram de ficar mais perto um do outro.

   Procurando dominar o medo que lhe apertava a garganta, Roanna dirigiu sua montaria para junto de Fitzroy, que considerava o melhor lutador presente. Então, viu porque haviam parado.

   Um homem, montado em enorme cavalo negro, permanecia imóvel no meio da estrada, indiferente à chuva que escorria do elmo para a longa túnica de couro. O elmo cobria-lhe completamente a cabeça e tinha apenas uma fenda estreita que permitia a visão. Era velho e bem polido, provavelmente roubado. A água da chuva escorria pelos braços nus, pois ele não usava camisa, nem túnica. As pernas musculosas estavam recobertas por calças justas de lã e botas de couro. Tinha um dos tornozelos apoiado sobre a outra perna, que balançava como se estivesse seguindo o ritmo de uma canção.

   Roanna quase perdeu a respiração: ele seria facilmente dominado pelos soldados de Cynric. Só um maluco se atreveria assaltá-los sozinho.

   Cynric empunhou a espada e no mesmo instante algo passou silvando perto do rosto de Roanna, que estremeceu, enquanto uma flecha cravava-se no tronco da árvore ao lado dela. Agarrando-se mais às rédeas, ela olhou para as árvores: o homem não estava sozinho!

   Ele riu, enquanto deixava-se escorregar da sela para o chão, a pesada espada batendo-lhe na coxa.

   - Dydd da ich! - cumprimentou ele em galês, em voz alta e clara, como se dissesse algo divertido.

   Roanna olhou para o noivo e para o homem. Aquele estranho devia ser louco!

   Ele se aproximou do cavalo de Cynric, parando a pouco mais de um metro:

   - Como é, Cynric ? - Havia riso contido na voz do homem. - Não fala mais galês e perdeu a educação?

   - O que você quer? - perguntou Cynric.

   - Por favor, quanta grosseria! - continuou o estranho. - Eu acho que você deveria ser um pouquinho gentil com um velho amigo.

   Então, o homem recuou um pouco e tirou o elmo. Uma brutal cicatriz ia da raiz dos cabelos, na testa, até a orelha, passando pela órbita vazia. O lado esquerdo do rosto, o nariz reto, os maxilares fortes mostravam-se perfeitos.

   A boca de Cynric abriu-se e nenhum som saiu. Fez-se um pesado silêncio ate que o estranho inclinou a cabeça para trás e riu.

   Roanna ficou abismada. Que tipo de homem era capaz de sobreviver a um ferimento como aquele e gostar do choque que as pessoas sentiam ao ver seu rosto devastado? Enquanto ela o fitava, o riso transformou-se em um sorriso, mas houve um reluzir de ódio no bonito olho castanho, intocado.

   - Pensamos que você tivesse morrido - disse Cynric, por fim, com a voz alterada.

   - Bem, como vê, não morri. - A voz do estranho denotava desprezo. - Mas não vim aqui para trocar gentilezas com você, menino. Deixe-me ver sua noiva...

   A garganta de Roanna apertou-se, enquanto o homem ria e aproximava-se dela, passando por Cynric, que não fez um gesto para detê-lo. Ao contrário, olhava a cena, encolhido como se tivesse medo.

   Desamparada, ela olhou para o tio, por entre os cílios longos, das pálpebras abaixadas: estava trêmulo, pálido, incapaz de defendê-la. Mesmo Fitzroy afastou-se, à medida que o estranho avançou. Ela fixou os olhos nas próprias mãos crispadas nas rédeas, sem saber o que fazer.

   Viu os pés do homem pararem junto de sua montaria.

   - Isto deve ser uma lady...

   A voz profunda mostrava-se interessada e íntima. Respirando fundo, ela reuniu toda a coragem, assumiu uma expressão indiferente e olhou-o sem demonstrar medo.

   Ele sorriu e o rosto moreno pelo sol pareceu iluminar-se. Mechas de cabelos castanho-claros emolduravam-lhe as faces e pequeninas rugas formaram-se ao redor do olho bom, que parecia enxergar-lhe até a alma.

   Por longos momentos ela se concentrou no homem a seu lado. O que viu foi alguém que conhecera intensa dor e profundo sofrimento, mas que saíra deles mais forte.

   Ele voltou-se para Cyrinc:

   - Ela é boa demais para você, menino.

   Roanna tentou abafar o orgulho que cresceu em seu peito ao ouvir aquilo. Notando que Fitzroy e os soldados a fitavam, ergueu a gola da capa, para ocultar o rubor que lhe subiu ao rosto.

   O homem virou-lhe as costas e encaminhou-se para seu cavalo, as pernas fortes e longas percorrendo a distância com rapidez, movimentando-se com a agilidade de guerreiro bem treinado. Montou, pendurou o elmo na sela, fez o cavalo virar-se, então olhou para trás. Sem pensar, Roanna o encarou. De repente, ele incitou o cavalo e foi em sua direção. Antes que ela pudesse gritar e que os demais percebessem o que acontecia, agarrou o cabresto do cavalo dela.

   - Chegou a hora de aprender os costumes galeses, Cynric! - gritou o homem.                                              

   Esporeou seu cavalo e disparou por entre as árvores, puxando a montaria de Roanna. Assustada, ela agarrou-se às rédeas, inclinando o corpo para evitar os galhos mais baixos, um grito preso na garganta. Seu estômago revirava-se como a lama sob as patas dos cavalos, folhas molhadas batiam-lhe no rosto, galhos prendiam-se em sua roupa, desalinhando-a. Mal podia respirar.

   O homem prosseguia a cavalgada louca, sem se importar com o barro, a chuva, as árvores. Afinal, chegaram a uma clareira, mas ele não parou. Entraram por uma trilha estreita, novamente entre as árvores, que os levou a um prado, onde ele pôs os cavalos a galope. Roanna sentiu que escorregava na sela e segurou-se com mais força às rédeas.

   Não, pensou em seguida. Não se deixaria levar. Respirou fundo e saltou da sela.

   Caiu, batendo com tanta violência no chão que o ar escapou-lhe dos pulmões. Tentou respirar, mas não conseguia. Tudo começou a girar e um rumor surdo invadiu-lhe os ouvidos. Sentiu uma forte dor no peito, o ar conseguiu entrar, e ela arrastou-se para uns arbustos. Teve que parar ao ver as botas de couro diante do seu rosto. Imediatamente dois braços musculosos, nus, a ergueram.

   - Largue-me! - gritou ela, ofegando.

   Ele obedeceu e ela caiu no chão como uma boneca de pano.

   Depressa, Emryss a ergueu de novo. Não queria que a moça de olhos maravilhosos se machucasse, já equilibrada, ela soltou-se, recuou e fitou-o:

   - Não me toque! - sibilou, os olhos verdes brilhando como os de uma gata.

   Não fez um movimento sequer para escapar. Se não fosse pelo fogo em seus olhos e o arfar do busto, dir-se-ia que era uma estátua.

   - É só uma brincadeira - disse ele, esperando pelo costumeiro choro de medo. - Não vou machucá-la.

   - Prefiro morrer a ser desonrada - respondeu ela.

   Emryss não se surpreendeu com as palavras, mas sim com a firmeza que havia na voz. Aquela moça sabia o que dizia.

   - Dou-lhe minha palavra que não vou forçá-la - prometeu ele., com ênfase.

   A desconfiança que havia nos olhos verdes diminuiu e ele sentiu-se contente.

   - Então, deixe-me ir embora - exigiu ela.

   - A senhorita deveria ficar e me agradecer - retrucou ele, com azedume. - Só uma idiota ficaria feliz em se casar com aquele grosseiro e a senhorita não é idiota.

   - O senhor não sabe quem eu sou, nem o que quero! - Ela deu um passo e ele surpreendeu-se, como se visse pedra adquirir vida. - Leve-me de volta.

   - Por que levaria? Não daria nem um cão a Cynric DeLanyea! - respondeu ele.

   - Não sou um cão e o senhor não vai me dar a ele. - A voz dela subiu, os olhos verdes incendiaram-se. - Se preza a minha honra, leve-me de volta a meu noivo.

   Uma veia começou a pulsar nas têmporas dele:

   - Não recebo ordens, milady. Enfie isso nessa sua cabeça normanda.                                                                

   Ela abaixo a os olhos e uniu as mãos:

   - Por favor... - pediu.

   Ele se aproximou, segurou-lhe o queixo e ergueu-lhe a cabeça, abrigando-a olhá-lo:

   - Não se faça de inocente comigo, milady. Não combina com a senhorita.

   Então, ela o fitou com intensidade e a raiva dele dissipou-se. Em seu lugar ficou uma profunda tristeza, um desejo enorme de tê-la encontrado de modo diferente, em outra ocasião.

   - Poderá voltar para aquele imprestável amanhã. Por enquanto, vai comigo. - Ela não se mexeu e ele continuou: - Não me importa se está determinada a se casar com Cyrinc e não vou ficar discutindo na chuva.

   Com incrível facilidade, ergueu-a e colocou-a sobre o cavalo negro. Com pavor de cair do enorme animal, ela agarrou-se ao cabeçote da sela. Ele montou atrás dela e seus braços a rodearam como cálidas tiras de ferro.

   Roanna tentou se manter ereta, enquanto o cavalo se movimentava, devagar, por uma trilha que mal se esboçava entre as árvores.

   - Não pule de novo - ordenou Emryss e ela não respondeu. - Podia ter morrido. É melhor morrer do que se casar com Cyrinc, claro, mas há outras maneiras de evitá-lo.

   Roanna fez um trejeito de pouco caso.

- Bem, talvez eu esteja enganado. A senhorita quer se casar com aquele amharchus ffieidd-dra? Pensei que fosse esperta demais para fazer isso...

   A voz profunda, suave, tão perto de seu ouvido a fez responder:

   - Meu tio fez um contrato.

   - Mas uma lady tem direito a recusar, se não quiser.

   - Eu não tinha escolha.

   - Concordou, então? Formalmente?

   - O senhor não entende dessas coisas! - irritou-se ela. As mãos dele, diante dela, apertaram mais as rédeas:

   - Se acha que não...

- O senhor não pode entender as obrigações da nobreza - insistiu Roanna.

   - Não?

   Ela achou que era melhor ficar em silêncio. Já falara demais com aquele homem, no mínimo um ladrão, no máximo um rebelde. Deveria estar horrorizada com o que ele poderia fazer-lhe, mas não estava. Por quê? O que havia de errado com ela?

   Emryss não falou mais. Apenas o som da chuva caindo nas árvores e o rumor dos cascos do cavalo perturbavam a quietude da floresta que atravessavam.

   Depois de algum tempo chegaram a um rio. Salgueiros inclinavam seus galhos sobre a água. A margem era um barranco pedregoso e as mãos de Roanna apertaram mais o cabeçote da sela. Ele impeliu o cavalo à frente, dizendo:

   - É menos perigoso do que parece.

   Atravessaram o rio devagar, o animal pisando com segurança. Era evidente que conhecia o caminho. Do outro lado, havia uma trilha que ia floresta a dentro. O cavalo seguiu por ela, passando por salgueiros, aveleiras, carvalhos e pinheiros. Ela tentava memorizar tudo, para o caso de conseguir escapar, mas a trilha era tão estreita e as árvores tão juntas umas das outras que seria como procurar um caminho na água.

   O odor de folhas molhadas e de agulhas de pinheiro era forte. Gotas geladas pingavam das árvores sobre eles e ela precisava de muito esforço para não se recostar no peito quente e firme atrás de si.

   A trilha passou a subir e em cima o terreno estendia-se num platô. Uma colina pedregosa erguia-se à distância e perto dela Roanna divisou pequenas construções. Uma aldeia, pensou.

   Quando chegaram mais perto, viu que não era uma aldeia: tratava-se de quatro cabanas, com certeza usadas por pastores.

   Um cachorro latiu e alguns homens, pobremente vestidos com lã e couro, saíram das cabanas. Dois deles eram quase meninos e estavam armados com arcos; outro era um velho alto, de costas retas e barba longa, branca. Os outros, de mãos vazias, pareciam mais acostumados a tosquiar lã do que a lutar. Todos gritaram, cumprimentando.

   Um guerreiro ainda jovem, com densa cabeleira negra, aproximou-se e pegou as rédeas, olhando para Roanna. Era Gwilym, que perguntou em galês:

   - Deus! Brawdmaeth, por que a trouxe?

   - Porque eu quis - respondeu seu irmão de criação, descendo do cavalo. - Há fogo em algum lugar?

   - Lá - Gwilym apontou para a cabana mais distante. Emryss ajudou Roanna a desmontar, tentando ignorar a suave, deliciosa, curva da cintura esguia.

   - Venha - ordenou em francês normando, segurando-lhe uma das mãos.

   Sentia na sua a mão delicada e morna como um pássaro, enquanto a levava. Cerrou os dentes e encaminhou-se para a cabana, quase arrastando Roanna atrás de si.

   Pelo sangue dos deuses! Pensou, o que estou fazendo aqui com está mulhe que pertence ao homem que desprezo?

   Não, corrigiu-se. O que estava fazendo a si mesmo? Ele a trouxera por causa do modo como ela o olhara, mas na verdade poderia não significar nada. Talvez ele tivesse imaginado o apelo que vira nos olhos verdes, no momento em que ia embora.

   Perdido nos pensamentos, não reparara que a moça tinha de correr para acompanhar seus largos passos, a ampla saia molhada enroscando-se em suas pernas diminuiu um pouco o passo.

   Abriu a porta da pequena cabana e a fez entrar. A luminosidade da fogueira que queimava em cova rasa, no chão de terra, ofuscou os olhos de Roanna. Ela soltou-se da mão de Emryss e tropeçou num monte de palha. Ele não se moveu para ampará-la e ficou à espera de que recuperasse o equilíbrio. Então, cruzou os braços no peito musculoso e disse:

   - Tire o vestido.

  

   A velha e magra senhora voltou à estreita janela.

   - Já escureceu e aqueles dois não voltaram, Bronwyn! - disse com voz que parecia um mecanismo enferrujado precisando de graxa.

   - Na certa vão passar a noite nas colinas, Mamaeth - respondeu a sorridente jovem de cabelos castanhos.

   - Ou lorde Emryss meteu-se numa briga! - resmungou Mamaeth, apertando os olhos para ver através da chuva e do escuro.

   - Gwilym não deixaria...

   - E desde quando Gwil segura lorde Emryss? - indagou Mamaeth, preocupada. -Ainda mais quando se trata desses normandos!

   Bronwyn suspirou e ergueu os olhos da costura:

   - Como lorde Emryss aprendeu com a senhora a odiar todos os normandos, menos seu pai, não censure Gwilym. Ele faz o que pode, não tem direito de dar ordens ao senhor das terras!

   Mamaeth abriu a boca para praguejar, mas o temor à ira de Deus segurou-lhe a língua. Aproximou-se do pequeno braseiro que dava um pouco de luz e calor à grande sala das criadas, em Craig Fawr:

   - Bem, pode ser... - disse, erguendo um canto do lençol de linho que a jovem bordava. - Seria melhor ele parar de pensar em guerras e se casar. Seus pontos estão muito grandes, menina.

   Bronwyn viu que Mamaeth tinha razão e passou a desmanchar o ultimo trecho do bordado.

   - Vai ver que lorde Emryss ainda não encontrou a moça de seus sonhos.

   - Ele? - cacarejou Mamaeth. - Começou a caçar meninas desde que largou os cueiros e apanhou mais que uma, garanto, sem ser apanhado por qualquer uma delas. - Calou-se por um instante. - Bem, tenho que ir cuidar do jantar...

   Bronwyn também estava preocupada com os dois homens pois sabia que tinham ido ao baronato de Beaufort. Mamaeth saiu da sala, com andar rápido para sua idade. Cuidar da mãe de Emryss, quando ficara viúva, e dele a tinha conservado ativa. Bronwyn olhou-a sair, depois voltou ao bordado.

   Gwilym havia dito onde iriam não por que soubesse o que ela sentia por ele, mas porque era muito chegada a Mamaeth. Ele não quisera deixar a velha ama preocupada, mas alguém precisava saber onde se encontravam. Talvez um dia ele percebesse o quanto o amava. Enquanto isso, ela daria seus recados e serviria seu vinho, escondendo o amor dentro do coração.

  

   - Idiota! Imbecil! Simplório!

   A cada palavra o barão dava um soco no braço da poltrona de carvalho, a grotesca cena repetindo-se, em sombra imensa, na tapeçaria que cobria a parede. Cynric empurrou para trás o cabelo que lhe caía na testa e abriu a boca para falar, mas o pai voltou a gritar:

   - Como diabo você deixou aquele bastardo meio cego levá-la diante de seu nariz?

   Cynric olhou o punho fechado bater de novo na madeira e controlou o impulso de berrar. Fitou o rosto vermelho do pai, as bochechas trêmulas. Ele não parecia saudável e esses ataques de raiva não iam fazer-lhe bem.

   - Deixou que ele o fizesse de bobo! Precisamos daquela moça ou está querendo perder nossas terras?

   Ao ouvir falar nas terras, Cyrinc tornou-se atento. Terra significava poder e ele queria ser poderoso.

   - O senhor não estava lá, milorde - disse, de mau humor. - Era impossível dizer quantos homens ele tinha e...

   - Você tinha obrigação de lutar e não podia ficar ali, olhando, como se fosse uma mulher!

   Cynric empurrou o cabelo molhado para trás, outra vez:

   - Não havia motivo para arriscar a vida de meus homens - retrucou, com voz tensa.

   Notou que o peito do pai estremecia a cada respirada e pensou que ele poderia morrer naquele momento.

   - Não havia motivo? Ele só fez você de bobo!

   - Por que eu iria me importar por ele tirar aquela bruxa magrela do meu caminho? Prefiro casar com meu cavalo.

   O barão levantou-se, furioso. Cynric sentiu medo, mas apenas por um instante.

   - Não me interessa se ela parece um cadáver! - berrou o pai. - Você vai buscá-la e se casará com ela.

   - Não, se Emryss a tiver possuído.

   - Você sabe, tanto quanto eu, que ele jamais possui uma mulher contra a vontade dela. - O barão atravessou a sala e parou diante do filho, arregalando os olhos pela ira. - Idiota! E mesmo que ele a tenha desonrado o que é que tem? O que será de você se o rei tirar minhas terras e as der a outro?

   A mão de Cynric fechou-se no punho da espada, mas seus lábios sorriram:

   - Tem razão, pai. O que é que tem? Como o senhor sempre diz, todas as mulheres são iguais no escuro!

   - Sim, isso mesmo - confirmou o barão, olhando-o com desconfiança.

   Cynric disse, mais a si mesmo do que ao pai:

   - Se eu me casar com ela, ninguém se atreverá a falar no rapto. O pai assentiu. -Então, acho que vou ficar com ela. Que Emryss se divirta um pouco... Ele não vai ter vontade de rir quando perceber que me deu a desculpa perfeita para invadir suas terras.

   - Creio que subestimei você, meu filho - retratou-se o barão, olhando Cynric com renovado respeito.

   Era tarde demais para o pai se retratar, pensou Cynric. Tomara-se apenas um homem doente em seu caminho.

   - Acha, mesmo? - indagou, cínico. - Vou começar a busca ao amanhecer.

   Ele não esperou para ouvir a resposta. Saiu da pequena câmara e foi para o enorme hall. Subiu ao estrado e sentou-se no trono do pai. Pouco depois sobressaltou-se ao ouvir passos pesados no piso de pedra. Ergueu-se, rápido. Uma sombra enorme desenhou-se na parede. O homem que a projetava se encontrava à porta da cozinha e era bem grande. Cyrinc tornou a sentar-se no trono e indagou:

   - Quem é você, em nome de Deus?

   - Jacques de Ia Mere, o cozinheiro de lorde Westercott - respondeu o homem. - Por favor, milorde, quando vai salvar lady Roanna?

   - Ao amanhecer - respondeu Cynric.

   - Posso ir com o senhor?

   - Um cozinheiro? - O nobre riu, zombeteiro. - Vai bater com uma concha neles até matá-los?

   - Quero estrangular quem a ofendeu! - respondeu o cozinheiro, erguendo as mãos enormes.

   - Bem, creio que posso salvá-la sem ajuda - disse Cynric, erguendo as finas sobrancelhas.

   O jovem lorde ergueu-se, arregaçou a túnica e dirigiu-se à escada que levava ao andar de cima, onde ficavam os quartos.

   Jacques voltou para a cozinha. Chegara ao castelo certo de que imediatamente reuniriam todos os homens para salvar lady Roanna. Em vez disso, tinham-no mandado para a cozinha e dito que lorde Westercott queria jantar. Ele obedecera e, depois de jantar, todos tinham se recolhido.

   Esse Cynric DeLanyea não se importava com lady Roanna, pensou Jacques e seu coração doeu, no peito enorme. Ela já sofrerá tanto e agora isso!

   Uma criada lavava pratos em uma tina, num dos cantos da imensa cozinha. O fogo no fogão havia sido abafado e restavam só algumas brasas. Os demais criados já haviam ido dormir.

   Jacques sentou-se no banco encostado a uma parede e apoiou a cabeça nas mãos. O que ia acontecer com lady Roanna? Ele parecia ser o único a temer por ela, nas mãos daquele herege.

   A criada pigarreou e Jacques olhou-a. Ela endireitou o corpo, ajeitando o amplo decote que mostrava um colo alvo e cheio.

   - Não se preocupe - disse. - Ele não vai machucá-la. Lorde Emryss DeLanyea jamais ofende uma mulher.

   - Como sabe? - indagou Jacques. - Ele não é um fora-da-lei?

   - Santo Deus, não! - riu ela. - Foi lorde Emryss DeLanyea que a levou. Ele é sobrinho do barão.

   - Mon Dieu, que sobrinho é esse? - gemeu Jacques.

   - Ah, eles se odeiam, mas eu ouvi meus patríes dizendo que lorde Emryss DeLanyea jamais toca numa mulher contra a vontade dela.- A moça foi se acomodar no banco, ao lado dele. - Não precisa, porque todas o querem. Disseram-me que ele era lindo, mas que agora está assustador. É verdade?

   - Ele tem uma cicatriz feia no rosto e perdeu um olho - assentiu Jacques.

   - Sinto por ela, então. Vai ter medo, pois não sabe que ele não maltrata mulheres.

   - A cara dele não vai assustar lady Roanna - garantiu o cozinheiro. - Ela é muito corajosa!

   - Melhor assim... Agora, com licença, tenho que trabalhar - a moça levantou-se.

   - Espere! - Jacques segurou-a por um braço. - Sente aqui...?

   - Lynette.

   - Lynette. E me fale sobre esta gente.

   - Bem... - ela hesitou. - Não sei se devo. Preciso lavar os pratos e...

   - Deixe os pratos!

   Jacques levantou-se e foi até o armário. Pegou uma garrafa de vinho, encheu dois copos, sentou-se no banco junto à mesa e fez sinal para Lynette sentar-se a seu lado. Ela sorriu e sentou-se, tomando logo um gole de vinho.

   - Hum, está bom!

   Jacques anuiu e esperou, enquanto ela voltava a beber, quase esvaziando o copo.

   - Bem - começou Lynette, vendo que ele não se mexia para tornar a enchê-lo -, a mãe de lorde Emryss DeLanyea, Angharad, era uma princesa galesa, lindíssima. Tinha cabelos escuros, olhos castanhos, enormes, e muita coragem, dizem. O rei normando apossou-se de todas as terras dos galeses, menos de um pedaço, que ficou com Angharad e ela o deu ao marido, um normando. Contam que ela não quis saber de homem algum até conhecer lorde Ralf DeLanyea, que era lindo como lorde Emryss. Muito alto, com cabelos e olhos claros. Casaram-se.

   Ela calou-se e olhou para o copo. Jacques serviu mais vinho.

   - Obrigada... Tudo estaria bem se lorde Ulfrid DeLanyea, o barão naquela época, não quisesse Angharad para ele, com casamento ou não. Claro, o rei era contra...

   A criadinha baixou a voz até se tornar um murmúrio e chegou mais perto de Jacques:

   - ... mas isso não deteve o barão que tentou raptá-la, mesmo depois de casada. Não deu certo. Ele era rancoroso. Um dia encontrou Angharad com as damas de companhia na floresta e mandou as damas embora. Elas buscaram socorro, que chegou depois que ele abusara de Angharad e a espancara até ela desmaiar. Desde então, as duas famílias vivem brigando, mesmo depois que lorde Ralf morreu...

   Jacques ficou deprimido. Lady Roanna ia viver com aquela gente?

   - Lorde Emryss foi lutar nas Cruzadas. Os outros voltaram e ele não. Pensamos que tivesse morrido. O barão queria apoderar-se das terras, mas Angharad era uma mulher determinada e agarrava-se a sua propriedade como uma raposa no pescoço de uma galinha. Ela morreu não faz muito tempo e deixou Mamaeth encarregada de tudo. É outra fera! O barão foi uma vez falar com ela, dizendo que a terra deveria passar para ele, já que seu sobrinho havia morrido e ela o pôs para fora correndo.

   - Por que tem tanta certeza que esse lorde Emryss não vai machucar lady Roanna? - perguntou Jacques. - Ele pôde ter mudado e usá-la para se vingar.

   - Eu não tinha pensado nisso...

   Jacques sentiu um peso no peito: Cynric DeLanyea era um covarde que fugia ao primeiro sinal de perigo, e seu primo, Emryss DeLanyea podia ser pior.

  

   Emryss atravessou a clareira, indo para outra cabana. Não sabia se devia lamentar ou rir do impulso que o levara a apoderar-se da noiva de Cynric. Não esperava que fosse a mulher orgulhosa e determinada que era. Imaginara-a uma normanda bobinha e sem graça.

   Com os negros cabelos longos e enormes olhos verdes, ela dava impressão de uma criança indefesa, à primeira vista. No entanto, tinha um coração de ferro, era valente como a mãe dele. Sustentara seu olhar quando lhe dissera para tirar o vestido e não se movera, mesmo ele dizendo que acabaria doente se ficasse com as roupas encharcadas. Mas, coisa que sua mãe nunca faria, ela se deixara manejar por um parente...

   Seqüestrar a noiva de Cynric iria causar-lhe problemas. Fora uma loucura. Devolveria a moça no dia seguinte, sã e salva.

   Uma enxurrada de pragas em galês recebeu-o quando ele abriu a porta da outra cabana e entrou.

   - Pelas chagas dos deuses, Emryss, estou gelado até os ossos! - Ele fitou o irmão adotivo, agachado perto da pequena fogueira.

   - Você a deixou sozinha?

   - Onde estão os outros? - perguntou Emryss, tentando evitar a conversa que viria.

   Gwilym era mais novo e um bastardo, que não conhecera os pais, mas queriam-se como irmãos e ele considerava sua obrigação lembrar a Emryss que devia tomar cuidado com o barão e seu filho.

   - Foram para suas casas.

   - E Hu?

   - Não entendo esse menino! Não quis ir embora sem você. Mandei-o cuidar dos cavalos.

   - Diga-lhe para vigiar a moça e levar-lhe pão e água. É inofensiva e ele pode nos chamar, se ela der trabalho.

   Gwilym deu-lhe um odre de vinho, dirigiu-se à porta, então parou e voltou-se:

   - Emryss - disse, com suavidade -, o que pretende, homem? O plano era mostrar a eles que você está vivo, no fim roubou a mulher!

   Emryss passou os dedos pela cicatriz no rosto:

   - Anda esquecendo os costumes galeses, Gwil? Virou normando? , As sobrancelhas de Gwilym ergueram-se e ele deu de ombros.

   - Está bem, cyfathranchwr - suspirou Emryss. - Tive vontade de roubá-la e não parei para pensar.

   Gwilym saiu, deixando Emryss com os olhos fixos na fogueira fumacenta. Ele tomou dois grandes goles de vinho. Aquela moça o intrigava. Qualquer outra teria caído no choro, mas ela o enfrentara como... bem, como um homem. Queria saber tudo que ela tivesse para contar.

   Um golpe de vento indicou que a porta se abrira, mas Emryss, pendido em pensamentos, não se voltou para ver quem entrara. Gwilym foi sentar-se a seu lado e bebeu um pouco de vinho.

   - Ele não vai perdoar o que você fez - disse, como se Emryss fosse uma criança.

   Emryss colocou mais lenha no fogo, bebeu vinho de novo e disse:

   - Desde quando me importo se Cyrinc me perdoa ou não?

   - É verdade... - concordou Gwilym. - A coitadinha está aterrorizada - tomou outro gole de vinho.

   - Ela é mais forte do que parece - respondeu Emryss, sacudindo a cabeça. - Seus olhos podem matar um homem.

   O irmão de criação riu e a tensão se dissipou:

   - É o que queremos que aconteça com Cyrinc! Coitado... E ela não tem carne cobrindo os ossos! Não entendo por que ele vai se casar com ela. Devia ter visto a cara dele quando você pegou o cavalo dela!

   Emryss soltou uma gargalhada ao lembrar da expressão apavorada do primo quando ao vê-lo surgir na estrada.

   - Agora ele aprendeu o costume galês de roubar noivas! - exclamou, piscando maliciosamente para o irmão adotivo. - Ela sabe quem você é?

   O riso desapareceu do rosto de Emryss.

   - Não, mas vai ficar sabendo. Gwilym soltou uma risadinha e ergueu-se, dizendo:

   - Eu gostaria de estar perto para ver. Boa noite, milorde - disse, brincando, pois jamais tratava o irmão adotivo por "senhor"..

   - Boa noite, Gwil.

   Depois que Gwilym saiu, Emryss colocou mais uma acha no fogo. Deitou-se de lado, sentindo um pouco de dor na perna esquerda, que também fora ferida. Imaginou como ela estaria e desejou que não sentisse frio demais. Teriam que cavalgar muito para chegar a Craig Fawr, debaixo de chuva, por isso decidira parar ali. Esperava que ela tivesse tirado as roupas molhadas. Sua respiração acelerou-se ao ter a visão dos cabelos negros ao redor do rosto delicado, dos brilhantes olhos verdes, do corpo esguio ao qual o vestido molhado se colava.

   Gemeu baixinho. Por que o sarraceno não danificara sua imaginação, como fizera com seu corpo?

   Tocou a cicatriz, que ficara dolorida por causa da pressão do elmo. Não sabia o nome dela... Talvez fosse melhor.

  

   Roanna pôs mais lenha na fogueira que morria, ficava mais frio a cada minuto. Seu corpo parecia estar rodeado de gelo.

   Certamente Cyrinc viria buscá-la. Sentada, encolheu-se, colocando a cabeça sobre os joelhos e obrigou-se a encarar os fatos. Não se importava se nunca mais visse Cyrinc DeLanyea, se não mais ouvisse sua voz arrogante, mas o que lhe aconteceria se ele não viesse? Será que aquele ladrão, aquele criminoso que dizia estar apenas seguindo um costume galês, iria cumprir a palavra e devolvê-la?

   Quando ela se recusara a tirar o vestido, ele sorrira e dissera:

   - Eu só não queria que a senhorita apanhasse frio e morresse. E se retirara, calçando a porta da cabana, por fora, com uma pedra. Seu tio exigiria que a procurassem. Mas, e se ele ficasse contente por se ver livre dela sem ter que pagar o dote?

   Jacques devia estar aflito. Ele era apenas um cozinheiro, mas era também seu único amigo. A amizade começara quando Jacques a encontrara, chorando, diante de um monte de farinha de trigo e a ensinara a fazer pão. Ele assustava muita gente com seu gênio violento e o vozeirão, mas ela sabia que era bom.

   Pulou em pé, de repente. Havia alguém abrindo a porta da cabana. Recuou, até sentir a parede nas costas e esperou.

   Um menino, que devia ter no máximo oito anos, abriu a porta o mínimo para esgueirar-se para dentro. Trazia uma caneca de barro e um pedaço de pão. Colocou-os perto da fogueira e fitou-a com os enormes olhos negros.

   Roanna percebeu que ele estava tão assustado quanto ela.

   - Obrigada - murmurou.

   Os olhos do menino abriram-se mais, seu rostinho lindo lembrava o de um querubim.

   - Emryss... disse... você comer - murmurou, numa voz que combinava com o rosto angelical.

   Ela percebeu que ele dizia as palavras sem entendê-las, como uma mensagem decorada. Assentiu, aproximou-se, pegou o pão e partiu-o em dois pedaços, oferecendo um a ele.

   O menino recuou, como se ela o tivesse ameaçado. Em seu olhar misturaram-se ódio e medo, então ele virou-se e saiu. Roanna gostaria muito de dizer-lhe que não devia sentir-se assim em sua presença.

   Notou, então, algo que fez seu coração disparar: o menino não recolocara o bloco de pedra que segurava a porta.

  

   Roanna comeu o pão com avidez e tomou um gole de água fresca, prestando atenção para ver se alguém vinha corrigir o erro do menino.

   Ninguém se manifestou, nada rompeu o silêncio da noite, a não ser rumor da chuva, um ou outro relincho dos cavalos e o canto ocasional de algum pássaro noturno.

   A cautela aconselhava a esperar mais, porém ela caminhou silenciosamente até a porta, empurrou-a com suavidade e viu que se movia. Então ouviu um som que a encheu de desespero: passos que se dirigiam para a cabana.

   Recuou, rápida, enrodilhou-se sobre o monte de palha e fechou os olhos Talvez viessem ver, apenas, se ela estava ali. A porta abriu-se e tornou a se fechar. Ela entreabriu os olhos, cautelosa.

   O homem da cicatriz sentara-se junto ao fogo, as longas pernas esticadas, os ombros largos encostados na parede. Tinha uma adaga no cinto e a espada estava ao lado dele. Um tapa-olho de couro negro cobria a órbita vazia e o olho bom estava fechado. Seu peito erguia-se e abaixava, ao ritmo da respiração leve.

   Ela ficou imóvel, observando-o, enquanto ele descansava como se estivesse numa cama confortável. Aquele homem seria galês ou normando? Nobre ou plebeu? Falava como um galês, mas seu normando era perfeito e fluente. Bem, devia ser normando, pois era muito mais alto do que todos os galeses que vira. Mas vestia-se tão pobremente e era tão familiar com os galeses que devia ser um deles, então por que não temia o mais poderoso normando da região? Ao contrário: Cynric DeLanyea é que demonstrara ter medo dele. Sabia que havia bandidos galeses que atacavam viajantes normandos, mas aquele homem não parecia ser um deles.

   O que ele parecia? Um bravo guerreiro, bem treinado, confiante e aquela cicatriz só podia pertencer a um homem com força de vontade férrea, já que não sucumbira a um ferimento tão terrível. Passeou o olhar pelo corpo forte, pelo rosto de traços marcados, porém atraente, pelos ombros largos, depois desceu-o ao peito musculoso, em seguida aos braços poderosos que a tinham erguido como se fosse uma boneca e, afinal, para as pernas longas firmes e robustas.

   Um suave calor foi se estendendo pelo seu corpo, avançando mansamente, como ondas num lago tranqüilo. Ela movimentou as pernas, consciente de um estranho calor entre elas e do pulsar mais forte e rápido do sangue nas veias. Virou-se e o vestido roçou em seus seios, fazendo-os se arrepiarem. Tornou a olhá-lo. O cheiro dele, uma mistura de cavalo, couro e cabelos molhados, invadiu-lhe as delicadas narinas como fumaça de um incêndio distante.

   Precisava fugir. Seu corpo traidor avisava-a do perigo de permanecer ali. Aquele homem a tentava, como se ela fosse Eva e ele a serpente oferecendo a maçã. Tinha que sair, pegar um cavalo e ir embora.

   Levantou-se, devagar, fazendo o menos ruído possível. Ele continuava dormindo. Pegou a capa e envolveu-se nela, cobrindo o vestido ainda úmido. Deu um passo e ele não se mexeu. Deu outro passo cuidadoso, mais outro, sempre com os olhos fixos no homem. Quando chegou perto dele, hesitou. Teria que passar por cima das pernas dele. Respirou fundo e ergueu um pé...

   - Levantando-se, tão cedo?

   Ela quase caiu, enquanto ele se erguia, rápido. Roanna recuou, fitando-o desafiadoramente.

   - Tenho um olho só, mas ele é muito bom - disse ele. - E devo confessar que gosto do que vejo.

   O sorriso dele era atrevido, íntimo, como ela imaginava que seria o sorriso de um amante depois de fazer amor. Recuou. Procurou regularizar a respiração agitada, lutando contra as sensações que a dominavam. Ele se aproximou.

   - O senhor deu sua palavra - disse ela, dando um passo atrás. Ele cruzou os braços sobre o peito musculoso.

   - Dei. - O sorriso morreu-lhe nos lábios e suas feições tornaram-se duras. - Não julgue o carneiro pela lã. Não sou um demônio sob forma humana, só porque pareço uma figura saída de um pesadelo.

   Ela abaixou a cabeça, para esconder o rubor que lhe cobriu o rosto. Se ele soubesse o que pensara alguns momentos atrás...

   - Não queira me enganar! - exclamou ele, seco. - Tarde demais para se fazer de virgenzinha tímida. Passou mais coisas por essa cabecinha do que quer admitir.

   Emryss fitava a moça de pé diante dele, de olhos baixos e mãos entrelaçadas. Talvez se tivesse enganado a respeito dela, vai ver que era uma nobre convencida como todas as outras, disposta a fazer um casamento conveniente e agora estava aflita por seu plano ter falhado.

   Queria fazê-la olhar para ele, mesmo que seu rosto marcado lhe causasse repugnância.

   - Diga, milady, costuma bancar sempre a inocente? Ou só quando Ihe convém?

   Imediatamente a cabeça dela ergueu-se e os olhos flamejaram:

   - Os homens julgam todas as mulheres tolas. Quem sou eu para contrariá-los?

   Os olhos verdes despendiam chamas apaixonadas e o queixo delicado estava erguido, oferecendo a boca macia que parecia pedir beijos.

   - Desculpe-me, milady - ironizou ele, com uma reverência, sem desfitar o rosto indignado. - Mais do que nunca, agora tenho certeza de que Cyrinc não é o homem para a senhorita.

   E que espécie de homem era ele?, pensou Roanna. A raiva crescia quanto mais fitava o rosto sarcástico. Suas mãos começaram a tremer, mas manteve a voz firme:

   - Quem é o senhor para dizer com quem devo me casar? O que sabe da minha vida?

   Ele se aproximou e tocou-lhe o rosto de leve, surpreendendo-a com a suavidade do gesto.

   - Sei que Cyrinc tornaria sua vida miserável.

   Lagrimas subiram aos olhos dela, mas Roanna as impediu de rolar.

   - O que eu poderia fazer? Há um acordo.

   - Foi a senhorita quem o fez? - a voz dele era calma, suave.

   - A honra pede que eu cumpra a promessa de meu tio.

   - Mas é o que quer?

   Ele se aproximou mais, tão perto que ela ouvia sua respiração. Roanna sabia que deveria recuar, mas não pôde.

   - Eu...eu... - balbuciou, nervosa.

   Antes que ela pudesse se mover ele a tomou nos braços. Seus lábios tocaram os dela, acariciando-os de leve, como a brisa acaricia as flores. Apertou-a contra si. Estranhas sensações se apoderaram do corpo de Roanna, as batidas de seu coração acelerando-se enquanto correspondia ao beijo que se tornara mais insistente. A urgência de tocá-lo levou as mãos dela ao peito forte. Consciente da rigidez dos músculos sob o couro, sentindo o palpitar do coração dele, deliciou-se com a pressão dos lábios exigentes contra os seus. Nunca imaginara que aquele prazer existia. Não para ela.

   O beijo aprofundou-se e ele abraçou-a com mais força. Seus dedos acariciaram a pele nua do pescoço e ela sentiu que desamarrava os cordões, nas costas do vestido. A sensação das mãos masculinas em sua pele a fez gemer, enquanto ela se apoiava nele, as pernas fracas e trêmulas. Tinha noção apenas dos lábios, das mãos dele e do crescente desejo que se apoderava dela.

   A língua dele entreabriu-lhe os lábios, com gentileza, percorrendo o interior quente de sua boca. O choque a tornou consciente do que fazia e com quem. Ela o empurrou, implorando:

   - Por favor, pare!

   - Se assim quer... - sorriu ele, sedutor.

   O rosto dela ardia de humilhação. Agira como uma prostituta com aquele estranho. Ela, lady Roanna Westercott, tão orgulhosa de sua honra! Voltou-lhe as costas, com vergonha de encará-lo, mas ele disse, com suavidade:

   - Foi um beijo, apenas. Não chore por isso.

   - Eu nunca choro - disse com firmeza. Voltou-se: - O senhor, não pode entender... - a voz tornou-se um sussurro - minha honra é tudo que tenho.

   Nesse momento a porta abriu-se e o menino surgiu. O homem foi até ele e falou-lhe com meiguice, acariciando-lhe os cabelos cacheados. Qualquer um poderia perceber que a criança venerava o imenso guerreiro. Sorriu-lhe com adoração e foi embora.

   - É seu filho? - perguntou Roanna, sem pensar. Uma expressão estranha passou pelo rosto dele:

   - Não. Eu não tenho filhos.

   Algo no tom daquela voz atingiu o coração dela, fazendo-o confranger-se. Depressa, disse a si mesma que a vida dele não era de sua conta. Ele a fitava, os lábios apertados numa linha fina.

   - Não preciso da piedade de ninguém - disse, com dificuldade, O silêncio cresceu, enchendo a cabana, até que ele o rompeu:

   - Não tenho filhos porque não tenho esposa. Com pouco dinheiro, poucas terras e esta cara, quem iria me querer?

   - Nem todas as mulheres querem dinheiro e rostos lindos! - exclamou Roanna, sem pensar no que dizia.

   Quando os lábios dele se curvaram num sorriso é que ela percebeu o que dissera. Levou as mãos aos lábios e enrubesceu. Ele se aproximou e ela recuou, tentando passar pelos ilhoses superiores os cordões do vestido que ele desatara.

   - Eis um problema: nenhuma mulher aqui para ajudar... - Ela percebeu o riso na voz dele e sentiu-se ainda mais humilhada. - Vire-se.

   Ela obedeceu, percebendo impaciência na ordem. Surpresa com a habilidade das mãos enormes, viu que ele enfiava os cordões facilmente. Estremeceu e apelou para o restinho de dignidade para não pensar que aquelas mãos tinham tocado seu pescoço, a pele nua das suas costas.

   - Pronto - disse ele, ao amarrar os cordões. - Há muito tempo que eu não fazia isto...

   Roanna voltou-se e encarou-o, fazendo-o sentir-se atrapalhado como um rapazinho diante de seu primeiro amor. Pelos deuses, pensou, era melhor sair dali. Se ela continuasse a olhá-lo daquela maneira, não se conteria. Não pretendia beijá-la, mas aqueles olhos...

   - Quero ir para Beaufort - disse Roanna, procurando parecer firme.

   Ela ainda quer casar-se com Cyrinc, conclui, com amargura. Devia ter deixado que seguisse seu caminho, fora um louco em trazê-la para ali.

   - Está bem - respondeu, decepcionado. - Irá, agora mesmo.

   E saiu, batendo a porta com tanta força que a cabana estremeceu.

  

   - Pelo amor de Deus, montem e vamos logo ou mando chicoteá-los até a morte!

   Cyrinc olhou para o céu. Pelo menos uma vez o tempo miserável daquela região maldita parecia querer melhorar. Como odiava aquela terra, pensou pela milésima vez. Desprezava cada árvore, cada pedra, cada rio e todos os ignorantes galeses.

   Dirigiu o cavalo para junto dos degraus que levavam à porta principal de Beaufort, onde seu pai e o tio da moça esperavam.

   - Não se atreva a voltar sem ela - rosnou o barão. Lorde Westercott olhou nervosamente para lorde DeLanyea, depois voltou-se para Cyrinc, com um sorriso conciliador:

   - Tenho certeza, milorde, que a encontrará, se for possível. Claro, Compreendo que vai haver... complicações no casamento, mas chegaremos a um entendimento.

   O jovem lorde sorriu de leve. Talvez pudesse fazer o velho urubu aumentar o dote, principalmente se a noiva hão fosse mais virgem.

   - Não tema, lorde Westercott - afirmou ele -, eu a encontrarei.

   Fez o cavalo girar e foi colocar-se à frente da coluna de guerreiros mal-encarados. Tinha vontade de rir. O próprio, bravo e inteligente Emryss havia lhe dado a desculpa perfeita para invadir suas terras. Depois que o derrotasse, talvez devesse agradecer-lhe.

   A coluna deslocou-se rapidamente até o rio, seguiu ao longo da margem e Cyrinc notou os profundos sulcos deixados pelas rodas das carroças que traziam o cozinheiro e seus utensílios e o dote e a bagagem de sua noiva, que havia chegado depois deles, na noite interior;

   Puxava as rédeas com força, tentando desviar o cavalo das poças de lama. Maldito lugar e maldito seu pai por obrigá-lo a ficar lá! Jamais estivera em Londres, na corte, e quando dissera que queria ir combater nas Cruzadas, o pai ficara fora de si:

   - O quê?! - berrara o barão. - Gastar meu dinheiro e perder soldados em um deserto do diabo? O que ganharíamos com isso, menino?

   Ele não tinha a menor preocupação pela vida do filho, só pensava em dinheiro. Então, tivera de ouvir todo mundo gabar os valentes guerreiros que tinham ido salvar na Terra Santa que estava em poder dos malditos infiéis.

   Agora Emryss voltara, mutilado mas vivo, para atormentá-lo de novo.

   Chegaram a uma encruzilhada, uma estrada levando para o sul, onde ficava a aldeia, a outra para a propriedade de Emryss. Ele estendeu o braço, indicando a estrada para o norte.

  

   Pouco tempo depois três pessoas iam pela estrada que levava a Beaufort. Gwilym, cavalgando em silêncio e bem atrás da moça, via Emryss olhá-la de vez em quando. Pelas chagas dos deuses o que seu irmão de criação fizera? Será que ele pensava que o barão iria ignorar aquela afronta?

   Como explicar a Emryss o que o barão conseguira fazer durante sua ausência? Passara a usar dinheiro para influenciar o rei e a corte, ao passo que seu irmão jamais se importara com riqueza, dando valor apenas à coragem e à honra. Tentara explicar-lhe as mudanças havidas no país nos últimos anos, mas ele não quisera ouvir. A única vez em que Gwilym mencionara Ricardo I, Coração de Leão, Emryss praguejara e lhe dissera para não falar de reis em sua presença, muito menos naquele.

   Talvez, no fundo, ele queria que tudo houvesse permanecido como eram quando fora embora. Talvez, pensava Gwilym enquanto Emryss olhava para a moça de novo, ele queria acreditar que também não mudara.

   Gwilym lembrava-se bem do modo que seguia Emryss como um carneirinho, quando seu irmão adotivo desfilava pela aldeia, alto, forte, confiante, com um sorriso que aquecia até mesmo o coração das damas mais velhas, que se dedicavam a fiar em suas rocas. Muitas vezes Emryss lhe dissera que tinha um "negócio" a tratar e o mandara embora. Mas, uma noite, ele o seguira, escondido nas sombras, e o vira entrar em uma cabana. Espiando por uma fresta na parede de madeira, ele vira uma moça com Emryss, Ela estava praticamente arrancando as roupas dele e os dois riam. Depois, o riso parará, sendo substituído por suspiros e, em seguida, por gemidos. Espiando pela fresta, Gwilym ficara sabendo o que acontecia entre homens e mulheres, à noite.

   Será que Emryss pretendia reviver aquele tempo?, pensou, olhando as costas largas e fortes do irmão de criação. Precisava descobrir. Pretendia, sim, se quisesse aquela moça. Procurou chamar a atenção dele com sinais. Não conseguiu e perdeu a paciência:

   - Delff! - gritou, achando mesmo que Emryss estava sendo um estúpido.

   Ao ouvir o insulto, Emryss voltou-se, a sobrancelha sobre o olho bom erguida, enquanto Gwilym se adiantava, passando pela dama que causava toda aquela complicação. Falou em voz baixa, sem tirar os olhos da estrada atrás de Emryss.

   - Não vai levá-la a Beaufort, vai, irmão?

   - Por que não?

   - Deus, homem! Perdeu o juízo? Sua vida não valerá um pence se chegar lá perto.

   - Eles não vão me matar - declarou Emryss, tranqüilo.

- Se fosse você, eu não teria tanta certeza... - Viu que o irmão olhava para a moça. -Duw Lwyd, não pode tirar os olhos dela e me ouvir?

   - Você quer dizer tirar "o olho" dela... - riu Emryss.

   - Não importa! - Gwilym mostrava-se impaciente. - Já lhe disse que as coisas hoje são diferentes. O barão é como uma aranha que teceu uma teia de ferro enquanto você esteve fora. Não pode levar a moça para lá.

   Emryss desviou o olhar, ergueu o queixo, naquele gesto teimoso Gwilym conhecia muito bem, e disse:

- Até o barão conhece o antigo costume de raptar a noiva.

   - Sim, se quiser lembrar-se disso. E pare de olhar para ela, homem! Hu disse que ela o enfeitiçou e começo a achar que ele tem razão.

   - Bobagem, Gwil - Emryss riu mansamente. - Que Hu pense que ela é uma feiticeira, apesar de saber que estamos longe do dia das bruxas, eu entendo. Mas você...

   - Pelo amor de Deus, fale sério! Devemos deixá-la ir sozinha, é só seguir a estrada...

   - Não vou deixar uma mulher abandonada na floresta, mesmo ela sendo de Cyrinc. Você mesmo disse que está infestada de ladrões. Pouco atrás deles, Roanna mantinha a cabeça baixa, para evitar o penetrante olhar do homem com tapa-olho. Toda vez que a olhava, ela se agitava. Claro que não ia tentar fugir, pois não sabia onde estava. Procurava prestar atenção na discussão deles, para fugir da sensação que aquele olhar lhe causava.

   Era evidente que o rapaz moreno, mais baixo, estava aborrecido com o homem alto. Pelo tom repreensivo dele seria difícil acreditar que era um soldado falando com seu líder, mas ela sabia que assim era.

   Naquele momento recomeçou a chover, então o homem alto virou seu cavalo e aproximou-o do dela, enquanto o homem moreno permanecia à frente. As mãos dela apertaram o cabeçote da sela.

   - Precisa de ajuda, milady? - perguntou, pegando seu manto e colocando-a sobre ela.

   O joelho dele esbarrou numa das pernas dela. Carada, Roanna aceitou a atenção dele, não querendo ficar ensopada de novo e não sabendo como recusá-la. Depois que ajeitou o manto sobre os ombros dela, ele fez seu cavalo recuar um pouco, enquanto Roanna se agarrava com mais força ao cabeçote da sela, dizendo a si mesma que era o medo de cair na lama que fazia seu coração bater descompassado.

   O homem de tapa-olho pôs seu cavalo para andar, mas dessa vez manteve-se ao lado dela. Com a garoa forte, um cheiro acre de folhas e terra molhada espalhou-se no ar.

   - Não gosta de chuva? - indagou ele, depois de observá-la por alguns minutos.

   - O senhor gosta de ficar molhado? - perguntou ela, por sua vez, rezando para ele deixar de olhá-la.

   - Depois que se conhece o deserto aprende-se a amar a chuva... - comentou ele, baixinho.

   O deserta a que se referia só poderia ser a Terra Santa.

   - Esteve nas Cruzadas? - perguntou Roanna, então.

   - Sim.

   - Talvez tenha conhecido meu pai, Edmund de Westercott? - perguntou, ansiosa.

   Ele a fitou, a chuva molhando o tapa-olho de couro negro.

   - Sim, conheci. Diziam que era um homem honrado.

   - Sim, sim... ele era!

   As lembranças desfilaram diante dos olhos rasos d'água de Roanna. Os momentos felizes com seus pais, antes de lorde Westercott ir às Cruzadas, para nunca mais voltar. A febre que atacara sua mãe, depois a morte dela, deixando-a só no mundo, a não ser por um tio que ela jamais vira, até então.

   - Ele morreu e foi uma pena... - disse Emryss, compungido. - Perdemos muitos homens de honra naquele inferno.

   Ela o fitou e viu que ele estava muito sério.

   - Com certeza todos os cruzados são homens de honra - comentou. - Lutam a serviço de Cristo...

   0 queixo dele endureceu e uma pequena veia começou a pulsar nas suas têmporas.

   - Então, honra inclui roubo, estupro, assassinato, sodomia...

   Roanna soltou uma exclamação horrorizada e ele calou-se.

   - O senhor deve estar enganado! - disse, revoltada. - Como podem aqueles homens...

   - Milady, eu estava lá - interrompeu-a ele, calmo.

   Ela não teve o que dizer. Com certeza ele estava enganado, os cruzados não podiam fazer tais coisas. Se não, devia estar mentindo. E se mentia, não era um homem de honra. E se não era um homem de honra, ela não devia ter aqueles sentimentos por ele. Mas, que Deus a ajudasse, ela os tinha.

   - Perdoe-me, milady, se a decepcionei. Pensei que quisesse saber verdade - disse Emryss.

   - Eu o conheço tão pouco quanto o senhor me conhece - concluiu ela. - Talvez esteja querendo desacreditar os normandos.

   Ele riu. Um riso amargo que chamou a atenção de Gwilym.

   - Eles não precisam que eu fale: desacreditam-se a si mesmo, todos os dias.

   - Parece que conhece poucos normandos, provavelmente por não ser um deles! - rebateu ela, indignada.

   O sorriso dele tornou-se zombeteiro:

   - Sabe tão pouco sobre mim quanto eu sobre a senhorita. Pensei em remediar isso, mas vejo que é tão cega quanto seus conterrâneos.

   - Enxergo mais claramente do que o senhor pensa.

   - É, mesmo? Então, por que vai se casar com Cyrinc?

   Ele sempre voltava a esse assunto. Por quê? Será que não entendia que ela precisava honrar o compromisso, apesar das palavras dele, apesar do de seu beijo? Ele disse que a seqüestrara por brincadeira:

   Pelo jeito, era tempo da brincadeira terminar e ela ser devolvida.

   A não ser que ele estivesse brincando com seus sentimentos. E como se demonstrava sensível à sedução que emanava dele, sentiu-se humilhada. Que triunfo seria para aquele homem fazer a noiva de Cyrinc romper o compromisso tão facilmente, apenas por um beijo!

Cerrou os dentes, enquanto uma onda de calor subia-lhe ao rosto. Ergueu o queixo. Ouviu que o homem alto falava algo em galês e o outro passou à frente deles, adiantando-se pela estrada.

   - Milady - ele disse então, com suavidade -, tem certeza que quer se casar com ele?

   Ela respondeu com ar desafiante, as palavras saindo num impulso:

   - Já lhe disse: foi feito um acordo e tenho que cumpri-lo.

   - A senhorita não fez o acordo.

   - Se eu não me casar, como meu tio quer, serei menos do que um mendigo ao portão dele. Não terei lar, não terei qualquer chance de ser feliz.

   - É preciso que a senhorita concorde para o acordo ser legal, milady - explicou ele, olhando-a com atenção.

   - O que o senhor conhece da lei? - perguntou ela, ignorando o acelerar das batidas de seu coração e a esperança que começara a florescer em seu peito. - Tenho que cumprir o acordo que meu tio fez, como manda a honra.

   Ele assentiu, mas ela não sabia se por concordar com suas palavras ou por concluir que não adiantava insistir.

   De súbito, ouviu um grito e viu o homem moreno fazer o cavalo virar e voltar a galope. Imediatamente os três ocultaram-se na floresta e viram uma coluna de homens armados se aproximando.

   - Cynric - disse o homem mais baixo.

   - Sim - concordou o homem da cicatriz. Então, voltou-se para ela: - Cynric DeLanyea aqui está, à frente de seus homens. Sem dúvida, procura pela senhorita. O que diz, milady?

   Ela fitou o homem que a seqüestrara. A chuva escorria por seu rosto másculo. Podia ver a feia cicatriz nos locais que o tapa-olho não alcançava. Os cabelos molhados emolduravam-lhe o rosto. Seu olhar demonstrava todo respeito que ela almejava e algo mais, uma profunda emoção que tornava a decisão dela muito dolorosa e lhe dizia que nunca iria esquecê-lo.

   No entanto, Roanna deslizou da sela e caminhou para a estrada, na direção do vale de onde vinham os cavaleiros.

   Era a única coisa honrada a fazer.

  

   - Ele a violentou?

   O olhar de Roanna fixou-se no barão, que esperava pela resposta, depois passou para o tio, que a olhava como se tudo tivesse sido culpa dela, em seguida deteve-se em Cyrinc sentado displicentemente em uma cadeira, num dos extremos da mesa enorme. A sala estava fria, mas não foi por isso que ela estremeceu.

   Num canto da sala achava-se um padre com uma pena na mão e um tinteiro sobre a pequena mesa diante dele, que continha também uma folha de pergaminho desenrolada. O contrato de casamento, com certeza, pensou.

   Olhou de novo para o tio, sentado ao lado do barão, com os cotovelos sobre a mesa e as mãos erguidas, unidas pelas pontas dos dedos. Muitas vezes o vira nessa posição, o rosto impassível, quando julgava seus rendeiros. Ela devia ter imaginado que não devia esperar apoio dele.

   - Responda! - trovejou o barão, com impaciência.

   Ela olhava diretamente para seu interrogador, pela primeira vez desde que fora levada para aquela sala, sem que lhe permitissem sequer ir tirar as roupas molhadas. Os olhinhos dele, mergulhados na gordura da cara pálida, fitavam-na com malícia.

   - Então? - insistiu ele.

   - Não, milorde, ele não me violentou - respondeu ela, num fio de voz, ansiando para que a deixassem sair dali. Ouviu as vozes dos soldados conversando, do outro lado da porta, mas forçou-se a concentrar-se nos homens à sua frente.

   0 barão grunhiu e olhou para o filho. Roanna também voltou-se para ele. Tão diferente do homem da cicatriz, no entanto, enquanto Cyrinc permanecia sentado, à vontade, havia algo vagamente similar nas longas e fortes pernas, na impressão de força inerente ao corpo esguio, mas robusto.

   Lorde Westercott separou os dedos e disse:

   - É evidente, barão DeLanyea, que nada reprovável aconteceu. Creio que o casamento pode se realizar.

   O barão encarou o filho, que falou depois de alguns segundos:

   - Muito bem. Assim seja, se o senhor quer. Caso-me com ela.

   Roanna baixou os olhos. Então, nada mudara. Quando se encontrara com Cyrinc, no vale, ele não falara com ela. Seus lábios tinham permanecido com esboço de algo entre um franzir e um sorriso. Não dissera uma palavra durante todo o caminho até Beaufort.

   - Suponho que Emryss vai ficar sossegado depois desse insulto! - explodiu Cyrinc, beligerante.

   Emryss. O nome dele era Emryss. Parecia uma carícia ou a água do rio murmurando junto da margem.

   - Supõe certo - respondeu o barão, depois empurrou a cadeira para trás e levantou-se para sair.

   Roanna uniu as mãos, respirou profundamente e perguntou:

   - Por que não me perguntaram se consinto neste casamento?

   Suas palavras pareceram ficar flutuando no ar, por alguns momentos. O tio encarou-a, não acreditando em tanto atrevimento. O barão fitou-a, estatelado. Cynric olhou-a como se ela tivesse anunciado que ia matar alguém.

   Por fim o tio sacudiu os ombros e seus olhos cravaram-se nela, incisivos, enquanto dizia:

   - Não era preciso.

   Sem ninguém esperar, o padre adiantou-se. Enquanto apertava mais o nó do cordão que ajustava a batina à cintura, pigarreou e disse:

   - Perdoem-me, milordes, mas a lady tem razão. Ela precisa dar seu consentimento para a união se realizar.

   O barão voltou-se para ele e o padre correu de volta a seu canto, como um coelho assustado.

   - Os senhores mentiram para mim - Roanna falava com voz firme e determinação. - Os senhores são homens sem honra, são menos do que as pedras que meus pés pisam. Não quero ter nada a ver com os senhores.

   O queixo de Westercott endureceu. Ele reconhecia aquela voz, o tom, as palavras. Era como se o seu irmão mais novo estivesse vivo e lhe falasse.

   Pela primeira vez em muitos anos ele sentiu vergonha. Mas quando Cynric empurrou a cadeira para trás, arrastando-a no chão, lembrou-se de que se não houvesse casamento não haveria dinheiro. Apressou-se a dizer:

   - Não se apresse, milorde - seu tom era de comando e pedido ao mesmo tempo. - Dê-me tempo para fazer a lady mudar de idéia... e eu garanto que vou conseguir.

   Roanna encarava o tio, sem esconder o desprezo que sentia por ele.

- Creio que o melhor lugar para o senhor conversar com ela é "sala" da torre norte - disse o barão, com frieza.

   Lorde Westercott anuiu, o rosto contraído. Pegou a sobrinha por um braço e dirigiu-se com ela para uma estreita escada de pedra no extremo da sala. Sentia a bile amargando-lhe a garganta e praguejava contra Roanna enquanto subiam. Não fora até ali para ver a barganha desfeita por aquela menina tola. Como se o consentimento de uma mulher importasse! E para o inferno esses padrecos que falavam nos momentos mais inoportunos! Estava quase conseguindo tirar algum proveito e ela ameaçava estragar tudo.

   Entraram numa saleta no alto da escada, que mais era uma cela. Curioso, Westercott exclamou:

   - Menina louca, você vai se casar com Cyrinc DeLanyea! Ficará aqui pensando nas vantagens desse casamento até resolver aceitá-lo. Saiu e bateu a porta.

   Roanna olhou ao redor. Nada mais havia na cela além de um monte de palha e um balde. Uma janela pequenina deixava entrar pouca luz. Ouviu a chave girar na fechadura e, depois, os passos do tio afastando-se escada abaixo.

   O céu escurecera e os sons que vinham lá de baixo aquietaram.

   O jantar devia estar pronto, pensou Roanna, cansada, sentada na palha, com a cabeça encostada nos joelhos. Não lhe haviam levado comida e nem ela esperara que o tio pensasse em alimentá-la. Estava claro que o plano era dobrá-la pela fome.

   Ergueu-se de um salto ao ouvir passos se aproximando e tratou de preparar-se para enfrentar o tio pela segunda vez.

   Mas foi Cyrinc quem abriu a porta e entrou.

   - Ah, milady, tão só? - disse ele, com um sorriso desagradável. Roanna nada disse quando ele se aproximou. Com esforço, manteve a expressão serena, apesar de sentir-se como um animal em uma armadilha. Ele deu uma volta lenta ao seu redor, parou diante dela, pegou a adaga e passou a limpar as unhas com a ponta aguda. Ela aguardava que ele falasse, os punhos cerrados com força, sentindo-se cada vez mais tensa. Cyrinc queria alguma coisa, talvez apenas brincar com ela, e sua indiferença era estudada.

   - Então, ele não a tocou... - disse, afinal.

   Baixando os olhos, ela lembrou-se do beijo. Como os lábios dele eram suaves, gentis.

   - Ele não me desonrou - respondeu, forçando-se a manter a calma.

   - Isso é o que diz. - Cyrinc aproximou-se mais dela. - A senhorita não é uma beleza, mas é difícil acreditar que Emryss não tenha tirado prazer de seu corpo. Ele ficou muito tempo entre os pagãos e talvez tenha esquecido como são os homens honrados.

   Ela manteve os olhos fixos em uma pedra no chão, enquanto dizia, com firmeza:

   - Não, ele não esqueceu.

   Cyrinc foi para trás dela, seu corpo desagradavelmente próximo, a respiração pesada em seu ouvido.

   - De fato? - Passou uma das mãos devagar por um braço de Roanna, que se contraiu ao indesejável toque. - Então, fale-me sobre meu honorável primo.

   - O quê? - surpreendeu-se ela, encarando-o. Ele sorriu, de maneira repulsiva:

   - Ah, isso a espanta? Ele não lhe contou que é o Lorde Emryss DeLanyea, primo de seu noivo?

   - Não... - Ela ficou confusa. - Ele não disse nada.

   - Bem, minha querida, aquele bárbaro de um olho só, de cara marcada, é o descendente de meu falecido tio. Claro que a senhorita não poderia imaginar isso, pelas roupas dele, pelo seu modo de falar. Emryss é a desgraça dos DeLanyea, sempre foi.

   Mediu-a de alto a baixo, depois continuou:

   - Ele a seqüestrou para nos aborrecer. É um simplório grotesco. Não a violentou porque tinha certeza de que isso não iria me importar... - Aproximou-se mais dela. - Sabe que a surpresa lhe fica bem, minha querida? Torna-a viva, deixa de ser como uma estátua de mármore.

   Os lábios dele apoderaram-se dos dela, brutais e exigentes. Roanna se debateu, procurando livrar-se daquele beijo repulsivo. Não conseguia respirar, nem pensar. Quando ele a soltou, ela recuou e limpou a boca com as costas da mão.

   - Nunca mais faça isso! - disse, arquejante.

   Viu a raiva brilhar nos olhos azuis, gelados, e se afastou mais ainda. Ele sacudiu os ombros. Havia tanto de Emryss naquele gesto que lhe pareceu um cruel arremedo do outro homem e do outro beijo.

   - Não, por enquanto, se a senhorita assim quer. Posso esperar até o casamento.

   Ele voltou-lhe as costas e dirigiu-se para a porta. De repente parou e virou-se. Havia um brilho feroz nos olhos frios, quando disse:

   - E não se preocupe se na noite de núpcias eu descobrir que mentiu... - Passou a língua pelos lábios finos, fazendo o estômago de Roanna se revolver. - Prefiro mulheres experientes.

   - Acha que menti? - gritou ela, a raiva irrompendo como fogo em palha seca.

   - Sim, acho. Mas não importa - disse Cyrinc, em tom de mofa. - Que Emryss fique com sua virgindade! Eu ficarei com o dote, por pequeno que seja, e com a influência de seu tio.

   - Não - agora a voz dela soava fria, controlada. - Não vai ter nada disso, porque não me casarei com o senhor. Nunca!

   Num movimento rápido, ele chegou junto dela, agarrou-a pelos braços e puxou-a, seus rostos ficando a poucos centímetros um do outro.

   - Pensa que eu quero me casar com você, seu feixe de ossos? Posso ter centenas de mulheres, muito mais atraentes e com dotes mas ricos do que o seu. Mas meu pai quer o casamento e como lucro estas terras depois que ele morrer, tenho que me casar com você! E vamos para a cama juntos, quer você queira ou não. - Ele , apertou-lhe mais os braços e aproximou os lábios dos dela. - Se me odeia, até que vai ser divertido possuí-la!

   Roanna desvencilhou-se das mãos dele, enquanto murmurava, entre os dentes:

   - Prefiro morrer. Eu não suportaria ser maculada por uma pessoa como o senhor! -As pequenas mãos encontravam-se cerradas com força, pela raiva impotente.

   Os lábios dele entreabriram-se num sorriso aterrador:

   - Só por guerreiros aleijados, como Emryss?

   - Pelo menos ele tem honra, o que falta ao senhor!

   - E a senhorita - ele voltou a tratá-la com falso respeito, a voz controlada - não tem beleza. Mas passarei por cima disso.

   Agarrou-a de novo, num forte abraço. Passou os lábios úmidos pela face de Roanna, que se debateu por alguns momentos, depois aquietou-se, transformando-se num pedaço de granito, ao perceber que ele se divertia, se excitava com a repulsa e o medo dela. Se não reagisse, talvez ele mudasse de idéia.

   - Ah, Roanna, desiste tão facilmente? Ou será que começa a ver que está errada?

   Beijou-a com brutalidade, depois largou-a. Sua risada cruel, zombeteira, encheu a pequena cela.

   - Creio que vou convidar meu primo para a festa do nosso casamento - disse, virou as costas e saiu.

  

   No dia seguinte, Emryss encontrava-se na velha estrebaria de pedra de Craig Fawr, a fortaleza onde morava. Devagar, passava a escova no pêlo lustroso de seu cavalo, enquanto ouvia, distraído, as vozes de seus empregados que estavam no pátio. A noite se aproximava e logo estaria escuro demais para trabalhar. Todos se reuniriam no enorme salão, que haviam terminado de reconstruir, para a última refeição do dia.

   Sorriu, contente, porque o trabalho começado por seu pai iria terminar logo. Faltavam apenas dois trechos da muralha para serem refeitos. Com sorte, tudo estaria pronto antes do inverno chegar.

   Graças a Deus sua mãe conseguira anular as tentativas do avarento barão de se apoderar de sua propriedade, antes de ele voltar.

   Seus pensamentos se tornaram sombrios. Só a incrível força de vontade da mãe conseguira mantê-la viva para realizar o sonho de seu pai: reconstruir o castelo que fora construído há séculos. Nem mesmo os romanos tinham conseguido invadi-lo. Apenas os rudes normandos, determinados a conquistar a terra a qualquer preço, haviam terminado por derrotar os guerreiros galeses. Tinham derrubado a velha muralha e durante todos aqueles anos as pedras caídas não haviam sido tocadas. Os galeses nem sequer tinham pensado em usá-las, pois pertenciam a Great Rock.

   Com o tempo, o respeito e paciência dos galeses haviam recebido a recompensa. O pai de Emryss, se bem que fosse um cavaleiro normando, amara Angharad, a princesa galesa, reconhecera o valor daquela propriedade, da lealdade galesa e em compensação recebera a admiração e amor dos galeses.

   A morte prematura dele significaria o fim de seu sonho, pois o filho mais velho morrera anteriormente. Apenas a esposa, com sua vontade de ferro, mantivera o sonho e o passara para o filho mais novo. Mesmo quando todos achavam que Emryss estava morto, ela não permitira que o trabalho de reconstrução da muralha parasse. Muita gente lhe dissera que ela trabalhava para o barão, que ele se apoderaria de Craig Fawr quando tudo estivesse pronto, mas Angharad mantivera a esperança, certa de que seu filho voltaria.

   Dois meses antes que ele chegasse, ela falecera.

   Logo, pensava ele, enquanto escovava o cavalo, com fúria, logo estaria pronto para fazer o barão pagar o sofrimento que causara. O lindo garanhão negro relinchou, protestando, e ele passou a escová-lo com delicadeza.

   - Não, estou com raiva de você, Wolf... - murmurou-lhe ao ouvido. - É melhor pensar em coisas agradáveis, antes que me dê um coice.

   Coisas agradáveis. A moça. Ele a observara durante longos minutos, enquanto ela estivera adormecida na cabana, sentindo vontade de afastar os cabelos negros que cobriam parte do rosto suave, de acaricia-los. Os longos cílios escuros punham uma sombra suave na pele branca e macia das faces. No entanto, gostara mais de olhá-la quando ela estava acordada. Aqueles olhos maravilhosos, tão verdes e cheios de fogo! Vira mulheres lindas, em muitas terras, mas nenhuma o fascinara como essa moça.

   - Está pensando no deserto dos infiéis, menino? - a voz de sua velha ama, Mamaeth, trouxe-o de volta à realidade.

   Como gostava de ouvi-la, pensou ele, voltando-se com um sorriso. Ela fitou-o, os olhos negros cheios de ternura e apreensão, como se ele ainda fosse um menino.

   - No verão, está bem assim - continuou ela -, mas agora, principalmente à noite, não deve ficar com os braços nus.

   - Ah, Mamaeth, tem razão, como sempre! - riu ele. Largando a escova sobre uma mureta, ergueu a velha ama no colo e plantou-lhe um beijo na face ressequida.

   - Ei, menino! Ponha-me já no chão e não faça mais isso! - gritou ela, fazendo-se de zangada, mas não conseguindo ocultar o prazer na voz.

   - Não fazer mais o quê? - Ele colocou-a no chão e deu um passo para trás, fingindo surpresa. - Quem vivia me pedindo beijos, quando eu era pequeno? - Seus lábios bem feitos tremiam no esforço de manter-se sério.

   - Não se pode com você! - A velha ama bateu-lhe carinhosamente num braço. - Alguma coisa errada eu fiz quando o criei. Não respeita os mais velhos, menino, e não os escuta. Está frio demais para andar por aí quase nu.

   Emryss não pôde mais segurar o riso:

   - Mamaeth - disse, por fim -, como eu consegui sobreviver sem você?

   Os olhos da velha se apagaram e ele arrependeu-se por lembrá-la do tempo em que não sabiam se ele estava vivo ou morto em um distante campo de batalha.

   - Eu acho - disse, aparentando alegria -, que como seu senhor devo escolher-lhe um marido, para que você tenha com quem implicar.

   - O quê? - Imediatamente os olhos negros faiscaram, vivos. - Para que quero um marido? Já tenho muito que fazer olhando por você! Aha! Um marido? Seria como ter um filho e já estou velha demais para isso. - Mamaeth fitou-o com astúcia. - Você é que precisa se casar.

   Dessa vez Emryss teve que fazer força para manter a aparência despreocupada:

   - Qualquer dia vou pensar no assunto.

   Mamaeth sacudiu os magros ombros:

   - Uma moça que não se impressione com você, com seu título, é o que você precisa. E que lhe dê filhos... - ela riu e tratou de voltar para a cozinha.

   Emryss ficou olhando a velha ama afastar-se, depois tornou a pegar a escova. Suspirou profundamente. Gwilym ou os filhos dele seriam seus herdeiros. Não contara a ninguém a extensão de seus ferimentos. Como dizer-lhes que o golpe que lhe rasgara a coxa esquerda atingira também um dos testículos, que infeccionara e se tornara inútil? Abram, que o salvara dos homens de Saladino e tratara de suas feridas, dissera que com um testículo apenas ele ainda podia ser pai. Mas, na viagem de volta, fora com uma mulher para a cama, em uma estalagem, e a tentativa de fazer amor terminara em humilhante fracasso. Não queria se arriscar a fracassar de novo.

   - Que animação para escovar o cavalo! - comentou Gwilym, rindo.

   Ele expulsou os pensamentos angustiantes e voltou-se para o irmão de criação, sorrindo:

   - Mamaeth diz que eu não respeito os mais velhos, mas parece que isso é um mal comum em Craig Fawr. Meus homens não respeitam seu senhor...

   Gwilym sentou-se num banco.

   - E por que respeitaríamos? Só porque você é um normando?

   - Pelas chagas dos deuses! - Emryss ergueu a escova como se fosse jogá-la no amigo, pela audácia, mas continha a risada a custo. - Agora, está me insultando! Têm de me respeitar porque minha mãe era uma princesa galesa e porque eu sou o senhor de Craig Fawr!

   Gwilym pulou de pé e fez uma reverência caricata:

   - Mil perdões, honorável lorde! Perdoai vosso humilde servo, eu vos rogo!

   Emryss tocou a cabeça de cabelos negros com uma das extremidades da escova, dizendo, solene:

   - Eu te perdôo!

   - Claro que perdoa! - caçoou Gwilym e saltou de lado, para evitar a pancada da escova atirada nele. - Afinal, sou seu melhor guerreiro. -riu, atrevido, depois tornou-se muito sério.- Emryss, atacaram viajantes de novo, perto do rio.

   - Alguém foi morto?

   - Não, mas roubaram-lhes tudo, até mesmo a roupa do corpo.

   - Os ladrões eram galeses, saxões ou normandos?

   - Não sei.

   - E as vítimas?

   - Eram normandos, porém muito pobres.

   Emryss colocou uma manta sobre Wolf, determinando:

   - É melhor fazermos uma patrulha amanhã. Levaremos vinte homens.

   Gwilym assentiu, depois disse, hesitante:

   - Não espera qualquer encrenca com Beaufort, então?

   - Não - respondeu Emryss, dirigindo-se para o castelo.

   - Acha, mesmo, que eles vão deixar passar? - Gwilyn corria para acompanhar o irmão adotivo.

- Acho que sim. Ela não foi tocada. Mas o insulto...

   - Eles são covardes.

   Gwilym pôs uma das mãos sobre um braço de Emryss, fazendo-o parar no centro do enorme pátio cheio de blocos de granito, madeiras, andaimes e ferramentas.

   - Emryss, não subestime o barão, nem Cynric. O lorde colocou a mão sobre a do amigo.

   - Eu sei, Gwil. O mundo inteiro pode ver que uma vez subestimei meu inimigo. Pode ter certeza, não vou cometer o mesmo erro.

  

   Roanna saltou de pé, fixando os olhos brilhantes num buraco na argamassa da parede. Com repugnância, afastou-se, sentindo as pernas tremulas e fracas.

   Durante toda a noite anterior permanecera acordada, com medo dos ratos e que Cynric voltasse. Depois viera a luz do dia e as horas se haviam arrastado, lentas. Ergueu os olhos para a pequena janela. Era noite outra vez e os ratos começavam a aparecer.

   Se tivesse pelo menos uma vela, talvez eles não chegassem perto. De súbito a porta se abriu. Seu tio, com o rosto muito vermelho, entrou na cela. Ela podia sentir o cheio de vinho em sua respiração, apesar de ele estar do outro lado.

   - Então, sobrinha, recon... recon... pensou melhor? - perguntou ele, as palavras engroladas, amparando-se na porta.

   Roanna fitou-o receosa, mas falou com determinação:

   - Nunca me casarei com Cynric DeLanyea.

   - Ficou louca? - Westercott andou até o meio da cela. - Moça estúpida! Se não se casar com ele vou mandá-la para algum convento gelado do norte, juro! Nenhum outro homem irá querer casar-se com você.

   Ela continuou fitando o tio, imóvel, calada. Ele avançou e agarrou-a pelos braços. Roanna empurrou-o para trás e ele cambaleou, indo bater contra a porta aberta.

   - Por Deus, vou surrá-la até que seus olhos saltem das órbitas! - berrou ele, investindo de novo.

   Roanna saiu de lado e Westercott foi bater a cabeça na parede de pedra. Tonto pela pancada, caiu sentado.

   - Vai fazer o que eu mandar! - resmungou, esfregando a cabeça dolorida. - Malditas mulheres! Por que seus pais a largaram nas minhas costas? - Fitou-a com os olhos raiados de vermelho. - Não providenciaram nada para você, deixaram só complicação para mim. E eu lhe arranjei casamento. Um bom casamento. E que agradecimento recebo, hein?

   Continuou a resmungar, segurando a cabeça.

   - Por Jesus e José, vou surrá-la, deixar seu rosto marcado... Tentou levantar-se, cambaleante, e ela aproximou-se da porta.

   Ele voltou a falar, com ressentimento:

   - Roanna, minha querida, não acha que deve casar-se para ser grata ao homem que a amparou, que pagou suas roupas e sua comida todos estes anos?

   Ela parou à porta e retrucou, altiva:

   - O senhor quer dizer que devo me prostituir?

   Ele se levantara e, mais vermelho ainda, saltou sobre ela, atirando-a ao chão.

   - Ah, não, minha querida - disse, triunfante, seu hálito nojento fazendo-a se contrair. - Vai ficar aqui até concordar.

   Colocou-a de pé e empurrou-a para dentro da cela, antes de fechar a porta. Soltou uma gargalhada, enquanto girava a chave na fechadura.

   - Pensou que ia me enganar e fugir, menina? Vamos ver quem ganha esta batalha!

   Os passos dele, sobre o chão de pedra, foram se afastando até sumirem.

   Roanna colocou às mãos sobre um quadril, que machucara ao cair, lutando contra a dor e o desespero. Jamais concordaria em se casar com Cynric. Jamais. O tio podia matá-la de fome.

   Arrastou-se até o monte de palha e sentou-se, molhando os lábios ressequidos com a língua, que estava quase seca e pouco adiantou. Como gostaria de ter um dos macios pãezinhos de Jacques e um copo de água cristalina!

   Deitou-se. Jacques já devia estar sabendo de tudo, pensou. Os criados sempre sabiam o que se passava num castelo e falavam entre si. Ele devia estar preocupado, ela podia até ouvi-lo chamando-a... Ergueu-se de um salto e correu para a grossa porta. Era Jacques, chamando por ela, do outro lado.

   - Estou aqui, Jacques - disse baixinho, com medo que a ouvissem.

   - Está machucada, senhorita? - perguntou ele, aflito.

   - Não.

   - Ótimo. Eu lhe trouxe pão...

   Havia pouco espaço entre a porta e o chão, mas o cozinheiro conseguiu empurrar por ele um pano, que tinha uma fatia de pão em cima, e ela puxou-o do outro lado. Roanna comeu, sôfrega, olhando agradecida para a porta que a separava do amigo. Seus olhos voltaram-se para as dobradiças de couro.

   - Jacques - indagou, esperançosa -, tem uma faca aí com você?

   - A senhorita não pretende lutar com eles para fugir, não é?

   - O couro das dobradiças da porta está velho e gasto. Com uma faca eu poderia...

   - A porta pode cair e esmagar a senhorita! Mesmo que consiga segurar esta pesada porta, como pensa sair do castelo? Ele é muito vigiado. E mesmo que consiga sair, não tem dinheiro...

   Roanna compreendeu que seu amigo tinha razão e sentiu-se derrotada.

   - A não ser que eu possa ajudá-la... - sussurrou ele.

   - Como? - Roanna prendeu a respiração para não perder uma só palavra.

   - Estou cansado de cozinhar para um homem que não me deixa usar pimenta. Acho que está na hora de deixá-lo.

   - Para onde pretende ir, Jacques?

   - Para onde a senhorita quiser. Um bom cozinheiro como eu pode arranjar um patrão melhor!

   A esperança começou a renascer no coração dela, mas o risco seria grande.

   - Jacques - começou, incerta -, não posso permitir que se arrisque por mim.

   - É por mim, também - respondeu ele, com voz tão indignada que ela sorriu. - Eles pensam que estou dormindo e ninguém irá me procurar, até amanhã cedo, quando já estaremos longe.

   - Vai ser perigoso nós dois andarmos sozinhos pelas estradas.

   - E pretendia ir sozinha? Está insultando minha coragem! - O vozeirão do homem suavizou-se, como sempre que falava com ela.

   - Deixe-me ajudá-la, senhorita...

   Ouviu os passos de Jacques se distanciando e olhou de novo as dobradiças, depois começou a andar, ansiosa, de um lado para outro da cela, imaginando se ele demoraria muito fazendo os preparativos. Empurrou os cabelos para trás e passou os dedos pelos lábios gretados de tão secos. Tremendo de repulsa, lembrou-se claramente do brilho de luxúria nos olhos de Cynric. Santo Deus, o que ele faria com ela se viessem a casar-se? E se ele resolvesse não esperar, se voltasse e...

   Sua respiração parou ao ouvir passos por trás da porta.

   - Jacques? - chamou, angustiada.

  

   - Jacques! - chamou Roanna de novo, com angústia na voz, sentindo o medo crescer a cada respiração.

   - Sim, sou eu - respondeu ele.

   Ela suspirou, descontraindo-se, enquanto ele empurrava uma estreita faca sob a porta.

   - Vou terminar de preparar tudo e voltarei já. Não se desespere! - sussurrou ele.

   Roanna ouviu seus passos se afastando. O remanescente do medo lhe deu uma sensação de urgência. Cynric não viera... ainda. Rápida, pegou a faca e começou a cortar a velha dobradiça de couro. Pareceu levar horas para fazer um pequeno corte, mas assim que a faca atingiu o outro lado do couro, o trabalho foi rápido. Absorta no que fazia, ela não percebeu a volta de Jacques, até que ele a chamou.

   - Acho que está quase pronto, Jacques - sussurrou ela, voltando a lidar com a afiada faca na segunda dobradiça. - Mais um minuto e estará cortada.

   Quando terminou, afastou-se da pesada porta:

   - Pronto, Jacques - disse, ofegante. - Empurre a porta, agora. O homenzarrão meteu um ombro na porta e forçou. A fechadura rangeu, resistiu, mas acabou cedendo e a porta caiu, fazendo um barulho que pareceu-lhes retumbante.

   Jacques apareceu do outro lado, o rosto grande iluminado por um sorriso. Mas logo ficou sério:

   - Venha, senhorita, depressa!

   Roanna não precisava de incentivo. Passou por cima da porta caída, reunindo-se a ele, e os dois correram escada abaixo.

   - Tenho uma carreta à espera - sussurrou o cozinheiro, enquanto a levava pelo longo corredor.

   Entraram na enorme cozinha, onde ela nunca havia estado. O fogo que crepitava no grande fogão fazia as sombras deles, imensas, desfilarem pela parede, enquanto percorriam o aposento deserto.

   Um burro atrelado a uma carreta, daquelas usadas pelos fazendeiros para ir ao mercado, esperava no pátio, Jacques ajudou Roanna a acomodar-se no fundo e cobriu-a com um cobertor. Ela sentiu o rústico veículo balançar quando o corpulento cozinheiro subiu à boléia. Com uma praga abafada do homenzarrão, começaram a movimentar-se. Depois de alguns momentos ela sentiu um sobressalto, quando pararam e uma voz desconhecida perguntou:

   - Quem é você?

   - Sou Jacques de la Mere, o cozinheiro de lorde Westercott, e se você quer comer amanhã, abra o portão.

   - O que quer dizer? - voltou a voz, irritada.

   - A farinha de trigo está mofada e se quiserem ter pão amanhã, precisa me deixar sair. Eu mesmo quero escolher a farinha, no moinho. Não me atrase, pois devo estar de volta antes do amanhecer, se não milorde ficará muito zangado. E vou dizer a ele que o sentinela não me deixou passar!

   Roanna sentia-se sufocar sob o cobertor, porém ficou melhor ao ouvir o portão ranger. A carreta balançou, movimentando-se de novo, e em seguida o portão fechou-se. Precisando de um pouco de ar puro, ela ergueu o cobertor um pouquinho e espiou para fora, enquanto atravessavam o espaço entre o castelo e a muralha. Tudo lhe pareceu deserto, até que olhou para o alto muro de pedra. Vários homens achavam-se sentados no chão, encostados nele, com as espadas rebrilhando ao suave luar.

   Chegaram ao outro portão e Jacques repetiu sua história. De novo convenceu o sentinela a deixá-los passar. Quando se distanciaram um pouco, ela sentou-se, ainda meio escondida pelo cobertor escuro, e Jacques lhe disse que uma linda criadinha lhe contara que Roanna fora levada ao alto de uma das torres do castelo e que não havia nada lá, a não ser a pequena cela. Por isso fora fácil encontrá-la.

   Não foram perturbados, a não ser por latidos de cães, enquanto atravessavam a aldeia que ficava perto da fortaleza do barão DeLanyea. Pouco depois percorriam a estrada.

   - Iremos para o norte, senhorita - explicou Jacques. - É para esse lado que fica o moinho e se alguém estiver observando verá que me dirijo para lá. A criadinha disse que na encruzilhada devemos rumar para o sul, onde se encontram lugares mais civilizados.

   Roanna afastou o cobertor da cabeça e admirou o céu noturno. As estrelas brilhavam, tranqüilizadoras. A lua, em quarto crescente, derramava sua luminosidade diáfana sobre o rio, à beira da estrada. Passaram pelo moinho e Jacques deu-lhe uma bolsa, depois começou a cantar em voz baixa. Dentro havia alguns de seus deliciosos pãezinhos e ela os devorou, enquanto a carreta avançava.

  

   Ele precisava encontrar comida. No calor inclemente, multiplicado pela armadura, arrastava-se pelo campo de batalha. Moscas esvoaçavam, zumbindo, sobre cadáveres de homens e de cavalos. Um abutre bicava um cavalo caído, ensangüentado, tirando grandes nacos de carne. Tentou umedecer os lábios rachados, com a língua seca. Comida. Precisava encontrar comida. Os tambores recomeçaram a soar, seu barulho tornando-se mais e mais pesado, enquanto ele se arrastava, a dor na coxa tornando-se cruciante.

   Morreria de fome se não encontrasse algo para comer. O insistente bater de tambores o atordoavam. Pôs-se de pé, tentando enxergar algo. Então, ouviu o alto sibilar de uma espada, voltou-se e, antes que a espada atingisse seu elmo, ouviu o soldado muçulmano gritar:

   - Allah ackbar!

   Emryss sentou-se na cama com um grito estrangulado na garganta, o corpo empapado de suor. Esfregou o rosto com as duas mãos, depois deixou-se cair sobre os travesseiros. Um sonho. Outro sonho. As batidas alucinadas do coração foram se acalmando, enquanto ele respirava fundo. Outro pesadelo sobre a Terra Santa. Santo Deus, pensara estar livre deles, quando chegara em casa.

   Os primeiros albores da madrugada entravam pela estreita janela de seu quarto. Saltou da cama, enrolando um lençol no corpo nu. Pela janela, pôde ver o horizonte colorido de rosa, que se tornava mais e mais claro à medida que o sol subia. Os campos de trigo faziam lembrar a areia dourada do deserto. Suspirou, reparando nos ocasionais brilhos da água do rio que atravessava o vale rochoso. Divisou manchas brancas na colina distante: ovelhas que já estavam pastando.

   Voltou-se e foi até a cômoda. Derramou água do jarro na bacia e lavou o rosto, estremecendo quando a friagem fez a cicatriz ainda nova reagir. Dirigiu-se à arca ao lado da cama e pegou as roupas que deixara sobre ela. Começou a vestir-se, parando para examinar o corpo, onde fora ferido, em busca de algum sinal de infecção.

   A porta abriu-se.

   - Maldição! - exclamou Emryss, subindo a calça depressa.

   - Aprendeu a blasfemar nas Cruzadas? - perguntou Mamaeth, inclinando a cabeça para um lado.

   Ela trazia roupas de cama limpas.

   - Desculpe... - disse ele, pegando uma camisa. - Era só você ter batido.

   Mamaeth colocou os lençóis sobre a larga cama e colocou as mãos na cintura, indagando:

   - Para quê?

   - Não sou mais criança, Mamaeth, e gostaria que você batesse antes de entrar - respondeu ele, sentando-se na beira da cama e procurando as botas.

   O rosto escuro e magro de Mamaeth demonstrou consternação, depois um sorriso o iluminou:

   - Trouxe alguma mulher para cá? - perguntou, maliciosa. Emryss calçava as botas e sua voz saiu meio abafada:

   - Não, não trouxe.

   - Por quê? - Ele ergueu a cabeça, encarou-a e ela apressou-se a acrescentar:

   - Perguntei só por perguntar...

   Emryss ergueu-se, pegou a túnica de couro e Mamaeth pôs-se a arrumar a cama, com os lençóis limpos.

   - Tomara que você faça algo de bom - resmungou a velha ama.

   Ele jogou a túnica no chão, zangado:

   - O que você disse?

   Mamaeth endireitou o corpo e encarou-o:

   - Eu disse: tomara que você faça algo de bom.

   - Não! - retrucou ele, brusco.

   Pegou o cinturão com a espada e atrapalhou-se com a fivela, ao coloca-lo. Pelo sangue de Deus, pensou, quando aprenderia a conter sua língua e o gênio? Afinal, conseguiu afivelar o cinturão.

   - Gwilym já comeu? - perguntou, esperando que Mamaeth esquecesse sua resposta e seu gesto agressivos.

   - Comeu por dez, pelo menos. Que apetite! Acho que está na estrebaria, agora, preparando-se para sair. - A velha ama pegou um travesseiro e socou-o, antes de colocá-lo na fronha. - Você também vai sair?

   - Vou. O último assalto foi muito perto daqui.

   - Como eu queria pôr as mãos nesses assaltantes! - exclamou Mamaeth, socando o outro travesseiro.

   Emryss achou que os ladrões a achariam pior do que um homem, se dessem com ela pela frente.

   - Então, deseje-me boa sorte - pediu ele, vestindo a túnica e saindo do quarto.

   - Boa sorte, mas fique longe das terras de Beaufort... e das mulheres de Beaufort.

   Ele afastou-se sem responder. Provavelmente todos em Craig Fawr já estavam sabendo de sua façanha. Iriam encará-la como parte da velha inimizade e a esqueceriam logo, se não houvesse conseqüências.

   Quando chegou ao salão, cumprimentou os homens que comiam a primeira refeição do dia e pegou um pedaço de pão. Deu uma mordida, mastigou e engoliu, com um grande gole de cerveja. Continuou a comer e beber, enquanto se dirigia à porta e atravessava o pátio.

   Vários pedreiros já se encontravam sobre os andaimes, trabalhando no reerguimento da muralha. Verificou a pilha de pedras. Teria que arranjar dinheiro para tornar a fortificação de Craig Fawr mais segura. Seus pais haviam gasto muito para mandá-lo combater pelas Cruzadas, inutilmente. Como havia sido impetuoso e louco, cheio de jovem ardor para libertar Jerusalém das mãos dos infiéis!

   Encontrou Gwilym e Wolf, selado, à espera na entrada da estrebaria. Os demais homens destacados para a patrulha já se encontravam montados. Gwilym deu-lhe bom dia, com um amplo sorriso, e saltou sobre a sela de seu garanhão. Emryss terminou o pão, a cerveja, colocou o caneco sobre uma mureta e montou, devagar.

   - Você não dormiu bem, não é? - indagou o irmão de criação, preocupado.

   - Já dormi melhor outras vezes... - respondeu Emryss, seco. - Vai ver que estou estranhando a cama macia.

   Gwilym riu:

   - Está é precisando de uma mulher em sua cama. A imagem de um rosto pálido emoldurado por cabelos negros, surgiu na mente de Emryss, porém ele a expulsou.

   - Por que todo mundo acha que a batalha com uma mulher, numa cama, vai resolver tudo para mim? - desabafou, irritado. - Daqui a pouco vocês vão dizer que minhas cicatrizes desaparecerão se eu fizer amor. - Fez Wolf virar-se para o portão. - Chega de conversa. Onde, exatamente, os ladrões atacaram?

   - Poucas milhas abaixo, na estrada, junto ao rio, onde a floresta é mais densa, milorde - respondeu Gwilym com ar ofendido.

   - Perto do vau?

   - Sim, milorde.

   - Onde estão os demais homens?

   - Esperando, do outro lado do portão, milorde.

   - Bom, então, vamos.

   - Sim, milorde.

   Emryss suspirou e fitou longamente o irmão, que se mantinha ereto, a cabeça erguida.

   - Gwil... - começou, tentado a explicar por que o assunto mulheres o perturbava tanto.

   Mas conteve-se, esporeou o cavalo, e dirigiu-se para o portão.

  

   O ranger da carreta soava alto no silêncio da estrada. O sol brilhava no céu, fazendo vapor subir da terra ainda molhada pela chuva. Roanna olhou os salgueiros-chorões que se inclinavam para o rio, como mulheres mirando-se no espelho da água, e sorriu quando dois esquilos gritaram, perseguindo-se na copa de um velho carvalho. Alguns pássaros cantavam, mas a maioria permanecia nos ninhos, em silêncio, à espera de que o sol expulsasse toda a umidade para saírem voando.

   A distância, uma parede de altas colinas rochosas erguia-se como se quisessem atingir as fofas e alvas nuvens que flutuavam contra o azul do céu.

   Roanna deliciava-se com tanta suavidade e beleza, inesperadas em um lugar onde só havia encontrado, até então, dias cinzentos, frio e chuva.

   Emryss DeLanyea era como sua terra, pensou, e como ele a terra mostrava-se mais atraente do que ela supusera.

   Obrigou-se a encarar a verdade: não queria ir embora.

   Claro, tivera que deixar Beaufort depois de romper o compromisso. Ficar seria intolerável, além de perigoso. Mas não queria ir embora do lugar onde encontrara, por fim, um homem que a fascinara.

   Pensou no rosto marcado de Emryss. Na certa fora um ferimento limpo, com arma muito afiada, se não ele teria morrido pela infecção. Lembrava-se de seu pai dizer que os soldados mais difíceis contra os quais lutar eram os que tinham cicatrizes, pois tratava-se de homens determinados a viver. E com certeza Emryss era um homem determinado a viver ou jamais teria regressado da Terra Santa.

   O que pensaria quando soubesse que ela fugira? Iria se preocupar ou apenas ficaria satisfeito por ver que os planos de Cynric haviam falhado?

   - Não se preocupe, senhorita... Seu tio não sairá do quarto até a hora do almoço, tenho certeza - disse Jacques, a voz cheia de desprezo, interpretando o silencio dela como aflição. - Ele ficou até tarde bebendo o vinho do barão.

   Roanna sorriu para o amigo:

   - Eu gostaria de saber o que farão quando descobrirem...

   - Nós os enganamos direitinho, não? - O cozinheiro riu com gosto. - Vão sair atrás de nós, claro. - A expressão dele tornou-se astuta. - Vão pensar que fomos para o sul.

   - Tem certeza que a moça não vai dizer nada? - perguntou Roanna, querendo sentir-se tão confiante quanto Jacques.

   Ele sacudiu os enormes ombros:

   - Vão precisar de tempo para preparar a "caçada". Temos algumas horas de vantagem e acho que... - calou-se, muito vermelho.

   - Acha que meu prometido não vai se afligir por eu ter fugido - concluiu ela.

   - Bem, ele é um fanfarrão arrogante e a senhorita deve estar feliz por se ver longe daquele homem. De qualquer modo, acho melhor não pararmos.

   Roanna concordou e quando voltou-se para pegar uma garrafa de água, Jacques gritou e o burro parou. Quando se voltou viu, horrorizada, uma flecha cravada no ombro do cozinheiro. A camisa já começara a se manchar de sangue.

   - Jacques! - gritou, tentando ajudá-lo.

   Ele olhou para a flecha e empalideceu. Deu as rédeas para Roanna, dizendo:

   - Toque o burro, não pare! - Respirava com dificuldade. - Precisamos continuar, se não...

   Antes que terminasse, um grupo de homens armados saiu do mato e rodeou a carreta. Tinham cabelos longos, ensebados, que desciam até os ombros, roupas em farrapos, rostos assustadores.

   Roanna sacudiu as rédeas sobre o lombo do burro e Jacques gemeu, quando outra flecha cravou-se em uma de suas pernas. Os rostos sujos ao redor deles se contraíram em grotescos sorrisos.

   Um dos homens, armado com espada e adaga, segurou o cabresto do burro e riu, mostrando dentes podres.

   Jacques gemeu, mas Roanna não tirou os olhos do homem que segurava o cabresto. O pânico crescendo em seu peito, ela lembrou-se que não tinha arma alguma.

   O homem com dentes podres aproximou-se da carreta, agarrou-a por um braço e puxou-a, fazendo-a cair no chão. Roanna permaneceu de joelhos, como caíra, olhando-o através da cortina formada pelos cabelos que lhe haviam tombado sobre o rosto. Sem prestar maior atenção a ela, o homem começou a remexer o conteúdo da carreta. Ela não movia um músculo, mas achava-se pronta para saltar se ele se aproximasse de Jacques.

   Outro homem, magro e mal-cheiroso, aproximou-se e segurou uma madeixa dos longos cabelos negros. Riu, roucamente, e murmurou algo, com voz gutural, para os companheiros.

   O homem que examinava a carreta praguejou e disse algumas palavras ininteligíveis, Roanna não sabia se num desabafo por não ter encontrado nada de valor ou se para dizer algo aos outros. Depois, sacudiu Jacques com brutalidade. Ela começou a erguer-se, mas o magro forçou a mão num de seus ombros, obrigando-a a ficar como estava. Afinal, o homem dos dentes podres encontrou uma pequena no céu, fazendo vapor subir da terra ainda molhada pela chuva. Roanna olhou os salgueiros-chorões que se inclinavam para o rio, como mulheres mirando-se no espelho da água, e sorriu quando dois esquilos gritaram, perseguindo-se na copa de um velho carvalho. Alguns pássaros cantavam, mas a maioria permanecia nos ninhos, em silêncio, à espera de que o sol expulsasse toda a umidade para saírem voando.

   A distância, uma parede de altas colinas rochosas erguia-se como se quisessem atingir as fofas e alvas nuvens que flutuavam contra o azul do céu.

   Roanna deliciava-se com tanta suavidade e beleza, inesperadas em um lugar onde só havia encontrado, até então, dias cinzentos, frio e chuva.

   Roanna teve esperanças que eles os deixassem prosseguir, mas o homem magro começou a falar com o outro, enquanto a agarrava e punha de pé. As mãos dele eram surpreendentemente fortes e as unhas longas, sujas, magoaram-na. Encarou com firmeza o homem de dentes podres, que parecia ser o líder, como se pudesse obrigá-lo a deixá-los ir embora, só com a força do olhar.

   A voz do homem magro tornou-se mais insistente e o líder voltou-se, encaminhando-se para ela. O hálito mal-cheiroso a fez enjoar. Ele a observou, atento, de alto a baixo, rindo, enquanto Roanna tremia e engolia em seco.

   Santo Deus, ajudai-me a me defender dele!, orou em silêncio, certa das más intenções do assaltante.

   O líder falou e o homem magro agarrou-a pelos pulsos, juntando-os atrás das costas dela. Roanna fechou os olhos, assustada demais para conseguir pensar. Aponta da adaga encostou-se em sua garganta e ela ouviu um gemido de agonia, sem saber se partira dela ou de Jacques. A ponta aguçada magoava-lhe a pele.

   Arquejou quando a adaga desceu para o corpete de seu vestido e forçou, rompendo o tecido. O homem que a segurava puxou-lhe mais os braços para trás exibindo os seios cobertos apenas pelo fino tecido da camisa para os homens ao redor.

   De repente, um grito horrível rompeu o ar e os olhos verdes de Roanna se abriram. O homem magro soltou-a e caiu no chão. Dois cavaleiros surgiram na estrada, enquanto os ladrões sumiam instantaneamente na floresta. Ela teve a rápida visão de um rosto familiar antes que os cavaleiros também sumissem no mato, atrás dos ladrões.

   Ela juntou como pôde o vestido sobre os seios e correu para a carreta, onde Jacques permanecia largado sobre a boléia. Por uma terrível fração de segundo, teve impressão de que estava morto, mas suas pálpebras entreabriram-se e ele forçou um leve sorriso.

   - Como viu, senhorita - murmurou -, minha coragem foi de pouca valia...

   Ela sorriu também. Se Jacques conseguia falar, conseguiria viver.

   Os sons da perseguição fizeram-na sentir medo. Ouvia gritos e esforçava-se para distinguir uma voz entre as muitas. Teve certeza de que "ele" apanharia os ladrões, depois lembrou-se que não poderiam ficar ali para ver quem venceria.

   Precisavam ir para uma aldeia, para algum lugar onde pudesse encontrar ajuda para Jacques.

   Subiu para a boléia, ao lado do amigo, e sacudiu as rédeas sobre o dorso do burro. O animal começou a andar, mas quando a carreta balançou o cozinheiro gemeu alto.

   - A senhorita está ferida? - perguntou uma voz.

   Emryss surgiu da mata, afastando um denso galho de árvore, com a mão que empunhava a espada. Deslizou-a para dentro da bainha e ajeitou o tapa-olho, enquanto se aproximava.

   De novo Roanna teve a sensação da força enorme que emanava dele e sentiu-se assustada com a raiva demonstrada pelo rosto bonito. O cavalo se deteve perto dela.

   - Não estou machucada - respondeu, consciente das roupas em desordem e das batidas loucas de seu coração. - Mas Jacques está muito ferido.

   Emryss olhou para o homenzarrão.

   - Não é nada sério, creio - disse, acalmando-a. - Já vi coisas bem piores... - inclinou-se e segurou o cabresto do burro. - Peço-lhe desculpas, milady, por tal coisa acontecer nas minhas terras. Eu a levarei para onde seu amigo e a senhorita queriam ir.

   Roanna olhou Jacques, muito pálido, recostado em seu colo. Não era justo ela sentir-se tão feliz, quando seu amigo sofria.

   - Obrigada, milorde - agradeceu, erguendo o rosto. Ele pareceu surpreso:

   - Sabe quem sou, milady?

   - Sei. Cynric contou-me. Emryss sorriu, com sarcasmo:

   - Ah! Tenho certeza que ele fez questão de enumerar minhas qualidades.

   Ela fitou-o, o coração transparecendo nos olhos verdes e ele retribuiu o olhar por alguns instantes, depois sacudiu as rédeas. O cavalo negro começou a andar e a carreta também.

   Roanna sentiu os olhos arderem, com lágrimas quentes, quando Jacques gemeu de dor com o movimento do veículo. Ajeitou a cabeça dele em seu colo e segurou-a com uma das mãos, mantendo juntas, com a outra, as partes do vestido cortado. Os sons da perseguição na floresta se tornavam mais distantes à medida que a carreta avançava pela estrada. Emryss parecia não se preocupar com a captura dos ladrões.

   Chegaram a uma bifurcação e entraram pela estrada à direita, que pouco depois passou a subir, íngreme, por uma colina. As sacudidelas da carreta arrancavam gritos de dor de Jacques e Roanna falava com ele, com meiguice, dizendo-lhe que logo seria socorrido. Pegou a garrafa cora água e ofereceu-lhe, mas ele recusou, meneando a cabeça cansadamente. Ela desejou que estivessem perto da aldeia, pois as dores dos ferimentos pareciam aumentar a cada balanço.

   Depois de um tempo que lhe pareceu um século, chegaram a um platô. A distância, numa elevação central, recortava-se contra o céu a silhueta maciça de um antigo castelo, rodeado por alta muralha, em torno da qual erguiam-se casas que formavam uma aldeia. Na beira do rio que passava ao lado da fortificação, havia um pequeno moinho.

   - O castelo é do senhor? - perguntou Roanna, surpresa com o tamanho da fortaleza.

   Um homem que se encontrava sobre a muralha, junto do enorme portão, gritou ao vê-los, Emryss respondeu e trocaram algumas palavras em galês. O homem desapareceu por trás do muro.

   - Ele foi avisar Mamaeth. Ela vai cuidar do seu amigo - disse Emryss, enquanto se aproximavam do portão, sob os olhares curiosos dos aldeões.

   Ele parecia nem reparar na curiosidade que despertavam e ela tentou não se importar, também, mas seu rosto ardia, ruborizado, enquanto procurava compor o melhor possível o vestido arruinado.

   Atravessaram o primeiro portão, depois outro e chegaram a um pátio que fervilhava em atividade. Havia andaimes e rampas de tábuas junto da muralha interior, pelos quais pedreiros e seus ajudantes movimentavam-se sem descanso; outros homens estavam pendurados por fortes cordas ao longo da muralha, como aranhas em seu fio. Enormes blocos de granito e placas de pedra encontravam-se amontoados no chão. Mulheres iam de um grupo a outro, incansáveis, os cântaros com água apoiados nos quadris, para matar a sede dos trabalhadores. Crianças corriam por entre os andaimes, perseguindo-se, rindo e gritando, sem se importar com as repreensões berradas pelos pedreiros.

   Parecia mais uma festa do que trabalho, pensou Roanna, quando entraram no enorme pátio.

   A cacofonia de marteladas, sons de serrotes, de ferro sendo batido, de gritos, risos e imprecações cessou abruptamente quando trabalhadores e criados viram Emryss. Roanna endireitou o corpo e ergueu o queixo, tentando ignorar os olhares cravados nela. Ele desmontou, enquanto uma mulher pequena, magra e morena, de certa idade, saía de uma construção de pedra, junto à base da torre mais alta do castelo, e chegava à carreta com surpreendente rapidez. Ignorando os demais, ela inclinou-se para o ferido e observou as duas flechas. Apalpou o ombro atingido, fazendo Jacques gemer. Depois, examinou o ferimento na perna, resmungando algo para si mesma, enquanto Roanna olhava, sem saber o que fazer.

   De súbito, Jacques abriu os olhos e perguntou à mulher que mexia na perna ferida:

   - Não posso morrer em paz?

   - I ffwrdd! Morrer? Você não vai morrer, seu ffwl. Os homens são uns chorões! Desça daí, menina, me dê espaço.

   Roanna assentiu e olhou depressa para Jacques, que gemia de novo. Mamaeth voltou-se para ela, fitou-a com atenção e fez um gesto de aprovação com a cabeça.

   - Não precisa se afligir, menina. Não passam de ferimentos só na carne, que sangram muito, mas não são graves. Com repouso e meus remédios ele vai ficar bom logo.

   Jacques gemeu outra vez e praguejou baixinho. Mamaeth deu-lhe um pequeno tapa no braço sadio:

   - Pare com isso ou vai ter que se tratar sozinho! Emryss - chamou ela e Roanna estremeceu ao vê-la falar com tamanha intimidade com o senhor, mas ele respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo -, mande levá-lo para o alojamento. Diga-lhes que o peguem e carreguem com cuidado. Preciso tirar essas flechas para tratar os ferimentos. Onde está Gwil?

   -Foi atrás dos que fizeram isso.

   Mamaeth assentiu, subiu na carreta e continuou:

   - E leve ela para Bronwyn. Precisa de roupas decentes. Roanna corou ao ouvir aquilo e baixou os olhos para as pedras do chão. Emryss chamou dois carpinteiros, que olhavam para eles de boca aberta, e passou-lhes as ordens de Mamaeth. Os homens retiraram Jacques da carreta, com surpreendente delicadeza, e carregaram-no para uma grande construção de pedra, num canto do enorme pátio. Roanna ficou olhando, tentando não pensar em seu vestido destruído e no homem de pé junto dela, tão perto que percebia o calor de seu corpo.

   Sentiu a leve pressão da mão dele em seu braço, enquanto Emryss dizia:

   - Suponho que agora a senhorita possa me contar o que fazia nas minhas terras.

   Ela procurou unir mais as duas partes do vestido, consciente da situação em que se encontrava. Estava praticamente sozinha, sem qualquer parente que a protegesse, sem dinheiro para pagar o que comer, numa terra estranha, sem um vestido sequer. Ouviu murmúrios, risadinhas, e olhou para os trabalhadores perto deles. Emryss voltou-se para encará-los e eles se calaram, sérios, voltando ao trabalho.

   - Venha - pediu ele, fitando-a com seriedade. - Lá dentro poderemos conversar mais à vontade.

   Ofereceu-lhe o braço e, embaraçada por ser o centro das atenções, ela mal apoiou uma das mãos nele e o acompanhou na direção do longo edifício anexo à torre mais velha. Mantinha os olhos baixos, agudamente consciente da nudez da pele sob os dedos que seguravam as duas partes do corpete do vestido.

   Quando entraram, ela examinou o local. Parecia ser uma adição recente à fortaleza, com uma abertura no centro da parede oposta à da porta. Numa das extremidades, que se ligava à torre, um tabique pintado com cores brilhantes criava um espaço isolado no salão imenso.

   Por mais que tentasse se concentrar apenas na construção original, Roanna sentia os macios pêlos do braço dele, os músculos rijos sob a pele firme. Seu sangue passou a circular mais quente nas veias.

   - Agora, milady, conte-me. O que aconteceu?

   A voz de Emryss tinha uma gentileza que ela não ouvia na voz de homem algum, há muito tempo. Pela primeira vez desde que colocara a mão no braço dele, ergueu os olhos para fitá-lo.

   Ele encarou-a por momentos, depois desviou o olhar, passeando-o pelo aposento, enquanto ela notava, surpresa, que um ligeiro corado se apresentava sob a pele amorenada pelo sol.

   - Peço que me desculpe - murmurou ela. - Meu tio disse várias vezes que não devo olhar diretamente para as pessoas.

   - Não faz mal - respondeu ele, com um rápido sorriso. - Eu já me acostumei a ser olhado...

   Ela sentiu vontade de se enfiar embaixo da mesa, tal seu embaraço, mas em vez disso, disse com emoção:

   - Obrigada por me ter salvo dos ladrões... e a Jacques também.

   - Felizmente eu ia por aquele caminho. Mas quero saber por que não está em Beaufort, casando-se.

   - Eu recusei o acordo.

   - Por quê?

   Ela baixou o olhar para as próprias mãos e, em seguida, Emryss falou, contrito:

   - Perdoe-me perguntar-lhe, mas preciso saber. Aqueles DeLanyea e eu somos inimigos há muito tempo e o que aconteceu pode causar um embate. Se assim for, gostarei de saber por que estarei lutando.

   Roanna ergueu o rosto, rápida:

   - Não quero causar qualquer transtorno. Iremos embora agora mesmo.

   - Sente-se. - Ela teve impressão que Emryss a dominaria com um simples alçar da sobrancelha, mas ele lhe falou com suavidade, quase se desculpando: - Não estou dizendo que a senhorita deve ir embora. É bom que eu saiba o motivo de tudo isto.

   Ela sentou-se, pensando no que deveria contar. Não devo esquecer que não o conheço, disse a si mesma, fitando o rosto dele. A intuição lhe dizia que podia confiar naquele homem, mas a experiência aconselhava que não acreditasse em ninguém. Afinal, corando, ela disse:

   - Não concordei em me casar com Cynric DeLanyea.

   - Só isso? - ele fitava, atento, a moça sentada, à sua frente. Ela corou mais:

   - Ele... ele me insultou - disse, hesitante.

   - Cynric insulta todo mundo. Ele nasceu para isso. E o seu tio, não veio com a senhorita?

   - Não. - Ela desviou os olhos.

   Sentada naquele salão enorme, segurando o vestido cortado, ela era uma figura frágil, indefesa. No entanto, os olhos verdes brilhavam desafiantes ao fitá-lo, o queixo delicado mantinha-se erguido, demonstrando que a moça tinha uma força de vontade a toda prova.

   - Estou surpreendido por Cynric a ter deixado partir e com o fato de nem sequer oferecer-lhe uma escolta, apesar de saber que meu primo não tem dessas gentilezas.

   - Ele não sabe...

   - O quê? - Emryss não ocultou a profunda surpresa.

   - Eu... eu fugi. Meu tio me trancou numa cela, para me obrigar a casar. Jacques me ajudou a escapar.

   Emryss bateu com um dos pés no chão de pedra, pensando no que deveria fazer. Aquela era uma boa encrenca. Não queria mandá-la de volta a Beaufort e o primo poderia alegar que ele a mantinha ali contra a vontade. Seu olhar fixou-se no corpete destroçado do vestido de Roanna. Os seios pequenos e bem feitos arfavam sob o fino algodão branco da camisa. Rápido, fitou as próprias mãos, tentando esquecer que ela estava ali, mas sentia os olhos verdes fixos nele e teve uma sensação estranha, como se estivesse nu diante dela.

   - Jacques e eu iremos embora amanhã, se o senhor permitir que fiquemos aqui esta noite - disse Roanna. - Sou-lhe muito grata por sua ajuda.

   Emryss fitou o rosto pálido, cansado.

   - Não precisa ir tão depressa. Poderá permanecer o tempo que quiser.

   Que Deus o ajudasse, pensou ele, aflito. O que estava fazendo?

   - Não, milorde, acho melhor Jacques e eu seguirmos nosso caminho. Devemos ir para um lugar onde nossa presença não prejudique ninguém.

   Ele deveria sentir-se aliviado ao ouvir aquilo. A moça tinha razão: só poderia causar-lhe encrenca. Ela ergueu-se:

   - Há um outro motivo pelo qual eu não quis ficar na casa de Cynric DeLanyea - disse, a franqueza evidente nos lindos olhos verdes. - Ele me acusou de estar mentindo quando eu disse que o senhor não... não tinha abusado de mim.

   O lorde bateu com um punho fechado sobre a mesa, desejando que fosse o rosto do primo.

   - Melltigedig da ì ddim! - praguejou, furioso. - Ele me conhece bem demais para dizer tal coisa, aquele maldito! Aquele... - calou-se, caindo em si. - Desculpe o desabafo, milady - disse, com voz contida na tentativa de se acalmar.- Creio que agora conhece aquele amaldiçoado vilão!

   Aproximou-se mais dela, porém, antes que pudesse falar, uma jovem apareceu por trás do tabique, os olhos castanho-escuros arregalando-se, surpresos, ao ver o estado das roupas de Roanna.

   - Com licença, milorde - disse ela, procurando agir com naturalidade. - Mamaeth mandou-me para ajudar a lady...

   - Está bem - concordou ele e, voltando-se para Roanna: - Esta é Bronwyn. Ela vai lhe arranjar um vestido. Mas, antes, creio que ela a levará para o meu quarto.

  

   Roanna olhou a cama enorme, que tomava conta de quase metade do aposento. Ela se recusara a usar o quarto de Emryss DeLanyea, mas acabara concordando ao saber que era o único lugar em que poderia ter alguma privacidade.

   - É uma cama onde cabem seis pessoas - comentou Bronwyn, com seu jeito tímido.

   A atenção de Roanna passou da cama imensa para a bonita criada de cabelos negros.

   - Mamaeth disse que a senhorita deve tomar um banho e é para eu lhe arranjar o que vestir. Não tenho muitos, nem lindos vestidos a oferecer...

   - Qualquer um servirá - respondeu ela, agradecida.

   Até mesmo um saco de estopa, desde que inteiro, seria melhor do que a roupa que usava no momento, pensou.

   Bateram à porta, Bronwyn atendeu e várias criadas entraram, trazendo uma enorme tina, roupas, baldes com água quase fervendo e baldes com água fria. Por último entrou uma menininha carregando uma pequena jarra. Roanna permaneceu de pé, ao lado da cama, enquanto as mulheres preparavam seu banho, rápidas e eficientes.

   Quando a mistura de água quente e fria ficou na temperatura certa, a menina aproximou-se e derramou nela o conteúdo da jarra. No mesmo instante um delicioso perfume de flores espalhou-se pelo ambiente. As mulheres retiraram-se, não sem antes fitar Roanna, cheias de curiosidade.

   Bronwyn entrecerrou os olhos e aspirou o perfume com delícia:

   - Maravilhoso! - exclamou, encantada. - Lorde DeLanyea trouxe essa essência de terras distantes... - Voltou-se para Roanna. - Precisa de ajuda, milady?

   - Não, obrigada - respondeu ela.

   Não estava costumada à ajuda de criadas e, em geral, ficava atrapalhada com sua presença. Preferia ficar a sós.

   - Muito bem, milady. Vou buscar um vestido. - E Bronwyn saiu, fechando a porta atrás de si.

   Devagar, Roanna tirou o vestido inutilizado, depois as roupas de baixo e estremeceu, com frio, ao ficar nua. O banho era convidativo e entrou depressa na tina. A água quente, cheirando a terras ensolaradas, acariciou e aliviou os músculos doloridos. Há muito tempo não sabia o que era a delícia de um banho com essências perfumadas.

   Olhou ao redor. O quarto era parcamente mobiliado, contendo apenas, além da cama, uma pequena mesa com uma bacia e um jarro, uma cadeira, dois braseiros, apagados no momento, e uma arca.

   Bronwyn tinha razão quanto à cama: abrigaria comodamente seis pessoas, deixando solitário um homem por mais alto e musculoso que fosse. Ele dissera que não tinha esposa, mas isso não queria dizer que dormia sozinho, pensou. Com certeza ela não era a única mulher que o achava atraente. Tudo nele era tão vivo e cheio de energia! Até mesmo o rosto, que era forte e muito bonito, apesar da imperfeição. Com certeza a linda e meiga Bronwyn servisse ao seu senhor com prazer.

   Ajeitou-se na tina de maneira a ficar de costas para o enorme leito e de frente para a porta. Lavou o rosto. Que lhe importava quem ele levava para sua cama? Além do mais, não era da sua conta.

   Inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos, tentando não pensar em nada, procurando deixar a mente em branco. Em geral conseguia livrar-se de todas as preocupações com esse sistema.

   De repente, a porta escancarou-se e, ao mesmo tempo, Roanna abriu os olhos. Mamaeth entrou, trazendo um vestido.

   - Seu amigo vai sarar logo, se ficar deitado e tomar a poção que lhe dei. Mas, sendo um homem, na certa vai ignorar tudo que lhe disse e matar-se.

   Os olhos verdes de Roanna arregalaram-se, cheios de apreensão.

   - Não se aflija, menina. Fui bem clara com o que lhe acontecerá se ele agir como um tolo, mas desde quando os homens ouvem conselhos de uma mulher? - Mamaeth fungou, farejando o ar. - Ah, gostoso esse cheiro! Trouxeram a essência, como eu mandei. Está se sentindo melhor?

   - Sim, creio que sim...

   Roanna tinha impressão de tentar falar com um tufão e que não seria ouvida, tão agitada era a pequena mulher.

   - Bom, bom... Agora, saia daí, antes que apanhe um resfriado.

   - A água ainda está quente - pretextou ela, não querendo ficar nua diante de uma estranha.

   - Sem modéstia, menina! Eu vi uma porção de homens e mulheres nus na minha vida. Aqui está uma toalha grande o bastante para ocultar todos os seus segredos, se é isso que a está preocupando.

   Roanna pegou a toalha, que era quase do tamanho de um lençol, e ergueu-se, envolvendo-se toda com ela.

   Mamaeth observou-a, depois olhou o vestido sobre a cama.

   - É de Bronwyn e vai ficar grande para você, tenho certeza. Meus olhos já não estão bons o bastante para usar uma agulha, se não eu o ajustaria.

   - Eu sei costurar - disse Roanna.

   - Sabe?

   - Passei muito tempo de minha vida costurando e bordando. Eram as únicas coisas que meu tio me deixava fazer.

   Mamaeth assentiu, animada.

   - Bom. Então vou trazer tudo que é preciso. - Aproximou-se e fixou o rosto de Roanna. - Parece muito cansada, menina. Por que não se deita e dorme um pouco? Ainda temos bastante tempo até a hora do jantar.

   Ela concordou. O banho deixara suas pálpebras pesadas como ferro e sentia todo o cansaço e tensões acumulados.

   Mamaeth saiu e ela verificou o vestido. Não queria ser vista com uma roupa que ficasse pendurada sobre seu corpo esguio, como se estivesse num cabide. Já era ruim o bastante ela parecer mais um rapazinho do que uma moça, tão poucas carnes tinha.

   Deitou-se na cama. O colchão era macio e acolheu-a com aconchego. Adormeceu de imediato, nem viu Mamaeth voltar, pouco depois. A velha ama colocou linha e agulha sobre a mesinha, depois aproximou-se e olhou a moça adormecida.

   - É magra, mas um pouco de comida dá um jeito nisso. Quadris que parecem os de uma criança, mas é meiga, bondosa. E pelo jeito que olha para ele... - Os olhos negros ficaram úmidos de lágrimas. - E o modo que ele olha para ela, aquele menino louco! Sim, ela foi feita para ele.

   Caminhou nas pontas dos pés pelo quarto. Roanna mexeu-se e o lençol escorregou, descobrindo-lhe as longas e bem feitas pernas até quase os quadris. Com um sorriso astuto, Mamaeth aproximou-se da cama e, com o maior cuidado, puxou o lençol para baixo, até que os pequenos e macios seios ficaram à mostra.

   - Agora, vamos procurar Emryss - murmurou a velha ama, saindo silenciosamente.

  

   Emryss e Rhys, o administrador, encontravam-se à entrada do celeiro.

   - Não estou gostando disso - comentou o administrador, o rosto, em geral sorridente, sombrio e preocupado. Passou a mão na barba longa e negra. - Há muito tempo que o barão vem esperando por uma desculpa como essa, milorde.

   Como Emryss nada respondesse, ele continuou, deliberadamente:

   - Eu acho que ela deve ir embora, apesar de sentir muito... Não vejo outra solução. A situação me parece muito ruim, com ameaça de dias piores.

   - Mamaeth disse que se o amigo dela se movimentar agora poderá morrer - disse o lorde.

   - Podíamos levá-la para o convento, as freiras a receberiam - sugeriu Rhys, o rosto redondo brilhando de esperança contida. - Ela estaria fora de nossas mãos e a salvo.

   Uma porta bateu e a voz de Mamaeth foi ouvida no pátio inteiro, enquanto ela se aproximava dos dois homens.

   - Vocês, homens! Falando de besteiras, como sempre, não é?

   - Rhys está preocupado por eu ter trazido lady Roanna e seu amigo para cá. Teme um ataque do barão, por causa disso.

   - I ffwrdd! - A velha ama encarou Rhys, que ficou vermelho. - Aquela aranha está velha demais para sair da teia. Claro que os dois devem ficar aqui, pelo menos por uns dias. A menina está mortalmente cansada e aquele tolo vai sangrar feito um porco, até morrer, se andar de carreta de novo.

   Emryss sacudiu os ombros.

   - Então, é isso. Eles ficam - disse com tranqüilidade.

   - Não temos o suficiente para agüentar um sítio - disse Rhys, na defensiva, mostrando o celeiro meio vazio.

   O lorde observou o trigo armazenado, depois olhou, pensativo, para Mamaeth com uma das mãos batendo ritmadamente na perna esquerda. Suspirou, por fim:

   - Tem razão, Rhys. Assim que o homem estiver em condições de viajar, os dois irão embora. Enquanto isso, diga a todos que conservem em segredo a presença deles aqui.

   Rhys sorriu e assentiu com a cabeça, aliviado.

   - Bem, já que está resolvido - disse Mamaeth, rápida -, é bom eu ir obrigar aquele gigante teimoso a tomar mais uma colher do meu remédio. Ah, Emryss, a menina quer falar com você, provavelmente para saber o que deve fazer - comentou e dirigiu-se para o alojamento.        

   - Gwil e os homens deverão voltar logo, com os assaltantes, creio - disse Emryss a Rhys. - Avise-me assim que eles chegarem ao portão.

   - Sim, milorde - respondeu o administrador, observando o senhor dirigir-se para o castelo.

   Enquanto subia para seu quarto, ele imaginava se Roanna mandara chamá-lo por ter decidido contar-lhe mais sobre a fuga de Beaufort.

   Bateu à porta com suavidade. Ela estava apenas encostada e abriu-se ao seu toque. Ele entrou. Roanna encontrava-se adormecida, sobre a cama, mal coberta pelo lençol, cuja brancura tornava mais negros seus cabelos e mais rosada a pele suave de seu corpo.

   Santo Deus, como tinha vontade de tocá-la, de passar as mãos pelas pernas longas, esguias! Como queria beijar os tentadores mamilos dos seios arredondados, acariciar os cabelos macios, beijar-lhe as pálpebras, as faces, os lábios cor-de-rosa...

   Com um gemido ele saiu do quarto, batendo a porta. Quase sem saber o que fazia, querendo apenas fugir da perturbadora seminudez de Roanna, ele saiu do castelo e dirigiu-se ao alojamento. Ao chegar perto, ouviu a voz insistente de Mamaeth e uma voz de homem respondendo. Como de hábito, a velha ama discutia com alguém e sua voz se tornava mais e mais insistente, à medida que ele se aproximava da porta. De repente, ela se abriu num repelão.

   - Então, faça o que quer e fique com o sangue envenenado! - gritou Mamaeth, ao passar por Emryss. - Homens!

   Ele acharia graça, se não estivesse tão preocupado. Com súbita determinação, entrou no enorme barracão e aproximou-se de Jacques, que se encontrava meio sentado na cama.

   - Como vai, meu amigo? - perguntou, solícito.

   - Iria bem, se não fosse aquela feiticeira querer me obrigar a engolir sua infernal beberagem! Mon Dieu, é um insulto ao meu paladar! - Jacques balançou a cabeça e olhou para Emryss. - E lady Roanna, milorde?

   - Está bem. Apenas cansada, segundo me disse Mamaeth. - Emryss sentou-se em um banquinho, junto da cama. - Como vocês se meteram nesta situação?

   - Ela não contou?

   - Disse que se recusou a casar com Cynric DeLanyea, que o tio a prendeu e que você ajudou-a a fugir.

   - Foi o que aconteceu, milorde - assentiu o cozinheiro.

   - Tão simples, assim? - o lorde inclinou-se mais para ele.

   - Se foi só isso que lady Roanna quis dizer, é o que digo, também - respondeu o cozinheiro, baixando os olhos.

   Emryss disse a si mesmo que os dois não tinham por quê confiar nele, mas a teimosia do ferido aborreceu-o.

   - O que ela pretende fazer agora? Tem família com que ficar? Jacques fez que não com a cabeça e disse:

   - Apenas o tio, tenho certeza.

   - E ele não quer ajudá-la?

   O homenzarrão fungou, mal disfarçando a raiva que sentia:

   - Ele não se importa com lady Roanna! - Baixou a voz, - Quando não ignora a pobre moça, trata-a pior do que a uma criada.

   - Existe algum homem com quem ela deseje casar-se?

   O coração de Emryss passou a bater descompassado, enquanto esperava a resposta, e o sorriso malicioso de Jacques aumentou seu mal-estar.

   - Não, milorde - respondeu ele, por fim -, se bem que qualquer homem ficaria orgulhoso em merecer as atenções dela.

   Emryss tratou de mudar o rumo da conversa:

   - Para onde iam?

   - Para o sul. Lady Roanna é uma moça de valor, milorde. É nobre, mas também é prática e corajosa. Costura muito bem, borda como uma fada e pretende trabalhar para viver.

   O lorde observou o homenzarrão e notou que estava abatido, com olheiras profundas. Devia deixá-lo descansar. Levantou-se, mas Jacques segurou-o por uma das mangas:

   - Ela jamais pediria a ajuda do senhor, milorde, mas eu peço. Deixe-nos ficar um pouco aqui, para descansarmos. O que aconteceu foi mais cansativo e horrível para lady Roanna do que ela demonstra...

   - Claro que podem ficar.

   Jacques suspirou e soltou-lhe a manga:

   - Agora, o difícil vai ser convencê-la...

   - Fale com ela, irá ouvi-lo.

   O homem ferido sacudiu a cabeça:

   - O senhor não a conhece, milorde! Lady Roanna tem grande sabedoria para uma mulher mas, como mulher, também é muito teimosa. Não posso simplesmente dizer-lhe "faça isto"... - Ao ver o ar de incredulidade do lorde, acrescentou: - Ela tem vontade própria, acredite-me, senhor.

   Jacques recostou-se no grande travesseiro, as pálpebras quase se fechando. Ficou calado, respirando com certa dificuldade, por alguns momentos, depois continuou:

   - Ela é assim desde pequenina... - Abriu os olhos outra vez. - O tio não foi buscá-la, quando os pais dela morreram, então ela foi a pé até a propriedade dele, porque achava que assim deveria ser. E era muito, muito longe. Eu já trabalhava para lorde Westercott quando ela foi para lá. Pense nisso, milorde! Era uma menina de apenas nove anos, sozinha... - De novo as pálpebras baixaram, pesadas. - Quando ela resolve uma coisa, está resolvido.

   - A não ser quanto a casamento - comentou Emryss, em voz baixa, erguendo-se.

   Os olhos de Jacques abriram-se mais uma vez, com esforço, mas quando ele falou sua voz soou firme:

   - Não, milorde. O senhor ainda não entendeu. Ela teria se casado com aquele... Um acordo foi feito pelo homem que está no lugar do pai dela, milorde, por pior que ele seja. Lady Roanna aceitou, como aceitaria qualquer coisa por isso, mas descobriu que eles lhe mentiram. Na verdade, eu gostaria de saber como ela descobriu isso...

   Emryss hesitou em responder, achou melhor não explicar, depois disse:

   - Obrigado por ter me falado sobre ela.

   - Falei, milorde, porque acho que podemos confiar no senhor. O lorde assentiu, depois voltou-se e saiu para o pátio. Um homem sobre a muralha gritou seu nome e ele olhou para cima.

   - A patrulha está de volta! - disse um dos pedreiros. Emryss correu para o portão, esperando que Gwil e os outros tivessem capturado os assaltantes que se atreviam a agir em suas terras. Não podia deixar que ameaçassem seus aldeões. Essa era a sua primeira preocupação. A segunda era que a lady e seu amigo fossem embora.

   Afinal, ele nada tinha para oferecer a uma mulher.

  

   Raynald Westercott gemeu baixinho quando se virou e a luz do sol que entrava pela janela feriu-lhe os olhos. Fechou as pálpebras com força. Sentia um gosto horroroso na boca. O vinho estava uma delícia, mas pagava caro o prazer que lhe dera, na noite anterior.

   O estalar de lenha no braseiro o fez abrir um olho. Haviam ativado o fogo. Um horrível desperdício de madeira, pensou, sentando-se na cama, que também achava um exagero, com as cobertas de luxo e colchão de plumas.

   Uma criada bonita, redondinha e loira, abriu a porta e fitou-o com ar tentador.

   - Bem? - resmungou Westercott.

   A moça sorriu, num claro oferecimento, mas ele não lhe deu atenção.

   - Bom dia, milorde - cumprimentou ela. - Precisa de alguma coisa?

   - Vá embora! - ordenou ele, seco. - Não, espere! - chamou, antes que a porta se fechasse. Enquanto a criada entrava e o fitava, indecisa, ordenou-lhe: - Vá dizer ao meu cozinheiro para me mandar o desjejum. Ele sabe o que eu quero.

   A moça forçou mais um sorriso e saiu, enquanto lorde Westercott voltava a reclinar-se nos travesseiros. Sua cabeça doía terrivelmente. Onde aquela idiota se havia enfiado?, pensou, notando que a moça demorava a voltar. Criados! Gente suja, miserável, sempre tentando roubar e enganar os patrões... Bateram à porta.

   - Já era tempo! - gritou ele. - Entre! Cynric DeLanyea entrou no quarto:

   - Bom dia, milorde - disse, em tom zombeteiro, mas a cabeça de Westercott doía demais para ele prestar atenção. E o jovem lorde continuou: - Na verdade, talvez não seja um dia tão bom assim! Parece que minha noiva fugiu com o seu cozinheiro.

   - O quê?! - Westercott saltou da cama e sua cabeça pareceu que ia estourar de dor. - O que disse?

   - Lady Roanna foi embora. Seu cozinheiro, também. Devo confessar que não é muito agradável ver a prometida fugir com um criado gordo e velho, mas aconteceu.

   - Vou torcer o pescoço dela! - exclamou Westercott, tornando a se aproximar da cama.

   Cyrinc sentou-se numa cadeira, indagando:

   - Acha que ela merece tanto esforço? - Enquanto o velho lorde vestia uma túnica de veludo, continuou: - Talvez seja melhor desfazermos o acordo. É claro que a lady não está interessada.

   - Seu pai e eu assinamos um contrato e não se discute mais - respondeu lorde Westercott, azedo.

   O outro aproximou-se e disse, com voz melíflua:

   - Bem, se o dote fosse maior eu poderia até pensar em engolir meu orgulho, mas assim...

   Os olhos de Westercott arredondaram-se e ele balbuciou:

   - Bem... Eu vou... dar... mais.

   - Quanto "mais"? - Os olhos azuis, gelados, do jovem lorde brilharam de cobiça.

   - Vinte cabeças de gado - sugeriu o velho, hesitante.

   - Quero ouro - escarneceu Cynric.

   - Cinqüenta peças, então.

   - Duzentas - insistiu o jovem lorde.

   - O quê? Ficou louco? Não tenho tanto dinheiro! - revoltou-se Westercott, recuando.

   Cynric riu, baixinho, com cinismo:

   - Está bem, milorde. Cem peças de ouro e vinte cabeças de gado.

   - Espere aí, patife arrogante! Gado, não!

   - Então, o acordo está desfeito. Boa sorte e espero que encontre um idiota que se case com a bruxa magrela. - Cynric voltou-lhe as costas e encaminhou-se para a porta. - Ouvi dizer que é muito conseguir colocar uma moça em um convento, principalmente se ela já não for uma ingênua virgem...

   - Espere! - gritou Westercott e o rapaz voltou-se. - Está me propondo um negócio ruim, DeLanyea. Mas como seu primo deve ter arruinado a reputação da minha sobrinha, vou dar-lhe o que pede.

   Cynric assentiu. Ia sair quando o outro segurou-o por um braço e disse, retirando depressa a mão, diante do olhar entediado do jovem nobre.

   - Naturalmente estou agradecido pelo senhor relevar o mau comportamento de minha sobrinha... - disse, suntuoso. - Tenho certeza que nada de censurável se passou com o cozinheiro. Ele gosta dela como se fosse sua filha...

   O sorriso de Cynric era repulsivo:

   - Claro, acredito no que diz, milorde - respondeu, seco. - Talvez ela tenha perdido o juízo, de tanta fome. Sim, deve ter sido isso e quem sabe neste momento ela já compreendeu seu erro. Quando a encontrarmos, com certeza ficará feliz por eu ainda a querer como esposa, não? Todo homem deve ter sua mulher, para proteger...

   Westercott olhou longamente o jovem bonito, mas repelente.

   - É por isso que vai se casar com minha sobrinha? Cynric limpou a manga, no local que o lorde tocara:

   - Minhas razões não lhe dizem respeito.

  

   Cynric olhou ao redor, enquanto o dia ia clareando aos poucos. Seu cavalo pateava nervosamente como se, do mesmo jeito que os homens da tropa, pouco atrás, esperasse ver uma porção de galeses atacar, saindo de repente de trás das árvores. O cavaleiro puxou as rédeas, fazendo o animal imobilizar-se.

   À sua esquerda Cyrinc viu um carvalho, atingido há muito tempo por um raio, chamuscado, inclinado perigosamente na encosta rochosa. A sua direita, afloramentos de rocha avançavam como dedos monstruosos tentando agarrar os galhos das árvores.

   Aquele era o lugar que procurava.

   - Espere aqui - disse a Fítzroy, que assentiu e recuou, indo juntar-se aos demais homens.

   O lorde sorriu, enquanto desmontava. Urien Fitzroy era um excelente soldado, principalmente porque sempre obedecia sem fazer perguntas.

   Cynric atravessou o rio pela parte mais rasa e desapareceu entre o mato, do outro lado, inclinando-se para evitar bater com a cabeça nos ramos mais baixos. Encontrou a trilha quase invisível e pôs-se a subir a colina arborizada, evitando com cautela o rio que passava entre duas altas rochas. Mais ou menos na metade da encosta, divisou duas enormes pedras meio encobertas por um espinheiro. Praguejando contra os espinhos que lhe prendiam a túnica, ele passou por uma estreita abertura e entrou numa caverna oculta pelos ramos da planta.

   De repente, percebeu o tilintar de adagas.

   - Guardem as armas - disse aos homens reunidos na úmida gruta.

   Os sujeitos andrajosos, de má catadura, resmungaram, mas obedeceram.

   - Bem-vindo, milorde - disse o líder, com um forçado sorriso. Como sempre, seus dentes podres causaram repulsa em Cynric, mas disfarçou e sentou-se no chão, diante dele.

   - O que podemos fazer pelo senhor? - perguntou o homem. O modo do líder dos bandidos falar revelava sua baixa origem, aumentando a aversão do lorde, mas ele precisava daqueles indivíduos fora-da-lei, sem chão nem teto, que fariam qualquer coisa desde que lhes pagassem o preço certo.

   - Quero que encontrem uma moça. O sorriso nojento do líder ampliou-se.

   - Mais uma, milorde?

   - Não, uma especial.

   - Ah! Agora está preferindo caça de luxo?

   Num piscar de olhos a adaga de Cyrinc estava encostada na garganta do bandido.

   - Escute aqui, seu resto de forca, quero que você encontre uma moça jovem, magra, de cabelos negros, que está viajando com um velho gordo. Quero que a encontre e a leve para mim... sem que lhe falte um só fio de cabelo. Entendeu?

   - Cuidado, milorde, cuidado! - ameaçou o assaltante. Cynric abaixou a adaga e recuou, rápido. - Ela tem cabelos negros, o senhor disse, e viaja com um gordão?

   O lorde notou o brilho que passou pelos olhinhos apertados do ladrão.

   - Sim. Sabe algo a respeito?

   - Bem, talvez eu saiba alguma coisa, milorde, talvez não... Cynric pegou a bolsa que trazia presa ao cinto e jogou algumas moedas no chão. Os outros assaltantes precipitaram-se para catá-las, mas o líder não se moveu.

   - Então - ordenou Cynric-, conte-me o que sabe.

   - Bem, milorde, vimos duas pessoas como as que descreveu. Os dois estavam em nossas mãos, por assim dizer.

   Os olhos azuis, frios, do lorde estreitaram-se, mas ele se manteve calado.

   - Estávamos certos de que iríamos nos divertir um bocado, mas interromperam nossa festa... - O líder calou-se e foi pegar um odre de vinho. Bebeu alguns goles, depois disse: - Quando falo demais fico com sede, milorde. Aceita um trago?

   - Não, não quero. - Cyrinc observou enquanto o outro bebia mais. - Vamos, fale logo! O que os interrompeu?

   - Aqueles malditos de Craig Fawr.

   O ladrão percebeu que o lorde engolia seco e que seus olhos cintilavam. Decidiu pedir mais dinheiro por aquele trabalho, pois parecia muito importante. Em geral, o jovem DeLanyea dava suas ordens com tanta emoção quanto se emocionavam as paredes de rocha daquela caverna.

   - Uma verdadeira tropa acabou com a nossa brincadeira - explicou, depois de beber de novo. - Devia haver uns cinqüenta, sessenta homens. Havia um soldado novo entre eles, um grandalhão, bom lutador, cego de um olho, mas muito esperto.

   - E a moça?

   - Não sei, milorde. Não fiquei lá para ver o que acontecia com ela, o senhor compreende... Perdi um dos meus homens e juro que vou fazer aqueles malditos pagarem por isso.

   Cynric pegou a bolsa de novo e tirou dela uma moeda de ouro. Os olhinhos do bandido faiscaram, cobiçosos, enquanto a pegava da mão do nobre.

   - Vou lhe dar muitas mais, quando me entregar a moça - prometeu Cynric.

   - E quanto ao nosso acordo, milorde?

   - Continua o mesmo: faça o que quiser nas terras de Emryss, não se meta nas minhas e me entregue a moça.

   - Vou fazer tudo que puder, milorde... uma vez que o senhor é tão generoso! E o que devo fazer com o gordão, se encontrar a ele e a moça?

   - Mate-o.

  

   Gwilym estava de pé diante de Emryss no salão. Ao redor deles, criados vigiados e espicaçados pela sempre atenta Mamaeth, agitavam-se, colocando pão, tigelas e copos sobre as mesas.

   Emryss passou a mão na cicatriz dolorida e teve de lutar contra o impulso de cerrar os dentes de tanta raiva: os atacantes de lady Roanna e Jacques tinham escapado. Seus homens os haviam procurado até o escurecer e, então, tinham acabado sendo obrigados a desistir e a voltar para casa.

   Gwilym estendeu a mão para pegar um pedaço de pão, mas recolheu-a, depressa, ao levar um tapa de Mamaeth, que passava com um candelabro no qual brilhavam velas recém-acesas.

   - Então, ela resolveu fugir, hein? - perguntou ele ao irmão de criação.

   Os dedos de Emryss tamborilavam, nervosos, sobre o tampo da mesa onde agora estavam várias travessas de madeira cheias de comida.

   - E por que não fugiria? - indagou ele. - Querem forçá-la a se casar com Cynric. Ela está muito melhor fora de Beaufort.

   - Bem, pelo menos por enquanto...

   - É, por enquanto. - Os dedos de Emryss imobilizaram-se, as mãos fecharam-se e ele baixou a voz, pois sua gente começava a entrar no salão, falando, rindo, todos animados com o jantar. - Cynric disse que ela mentia, quando contou que eu não a violentara.

   - Como eu gostaria de ter o pescoço dele nas minhas mãos! - exclamou Gwilym, a voz apertada de ódio.

   - Primeiro, vai ter que passar por cima do meu cadáver - respondeu Emryss, zombeteiro.

   Nesse momento, Roanna apareceu à porta. O vestido modelava o corpo esguio que Emryss vira quase nu. Os cabelos, bem escovados, pareciam flutuar ao redor do rosto dela como uma névoa escura. Ele fitou os grandes e meigos olhos verdes.

Tratou de lembrar a si mesmo, então, que logo ela iria embora.

   Roanna piscou diante da luminosidade de tantas velas, estranhando, pois estava acostumada a uma ou duas permitidas pela avareza do tio. Fez-se um silêncio profundo no salão e todos a fitaram.

   Ela hesitou, sem saber onde devia sentar-se. Não tinha um lugar marcado, no imenso salão. Era uma intrusa indesejada e não uma amiga, uma convidada ou... nada. No gesto de autodefesa que adotara desde pequena, abaixou a cabeça e esperou.

   O salão inteiro pareceu soltar um único suspiro e ela ergueu os olhos. Emryss, alto, forte, com a expressão séria, encaminhava-se para ela.

   A respiração lhe faltou quando ele lhe ofereceu um braço. Timidamente, trêmula, ela colocou a mão sobre o braço musculoso e o acompanhou pelo salão. Ele a fez sentar-se no lugar reservado a convidados de honra: ao seu lado direito, na mesa maior. Levou-a até lá e a fez sentar-se com calma, como se aquela atitude fosse a mais natural do mundo.

   Atenta, Roanna não percebeu surpresa em qualquer dos rostos que fitou. Nem no rosto redondo e sorridente do homem sentado diante dela, numa das outras mesas. Nem no rosto moreno e bonito de Bronwyn, quando passou por ela. Nem no rosto de Mamaeth, sentada na outra extremidade da mesa principal, os olhos atentos percorrendo o salão para ver se tudo estava em ordem.

   O salão encontrava-se repleto e ninguém demonstrou estranhar a atitude do lorde. Todos a olhavam com benevolência e franqueza. Talvez o respeito que tinham por Emryss tomava qualquer decisão dele aceitável, mas ela sabia, melhor do que ninguém, que não merecia tanta honra.

   Quando Emryss sentou-se, os demais acomodaram-se em seus lugares, silenciosos. Roanna observou-os, imaginando como os poucos campos cultivados que tinha visto ao ir para lá podiam fornecer alimento para tanta gente. Com certeza aquela aldeia tirava seu sustento também do comércio de ovelhas, que vira pastando nas colinas. Ou talvez tivesse outras fontes de riqueza.

   Olhou ao redor, procurando pelo padre que deveria abençoar a refeição. Todos os lugares estavam ocupados, o vinho servido, o aroma da comida era convidativo, mas nenhum homem ergueu-se para dizer uma oração. Todos pegaram seus pães e começaram a comer, enquanto o som de conversas e risos enchia o ambiente.

   - Perdoe-me, milorde - ela se atreveu a dizer, em voz baixa, perplexa com a situação -, mas ninguém vai dar graças?

   Olhava-o de frente pela primeira vez, desde que entrara no salão, e só então notou que se encontrava de seu lado cego. Ele precisava voltar a cabeça completamente para fitá-la.

   Emryss pegou seu copo, que Bronwyn enchera de vinho:

   - Não tenho padres aqui. Fiquei farto deles na Terra Santa. Roanna procurou não demonstrar o quanto ficara chocada. Fixou os olhos em seu copo. Até mesmo seu avarento tio mantinha um velho padre na propriedade, até o velho barão gastara uma elevada soma, ou poderia ter sido Cyrinc, para construir um mosteiro nas terras de Beaufort. A igreja era importante demais para ser ofendida daquela maneira e, com certeza, o bem-estar espiritual dos aldeões estaria garantido por um padre residente.

   Mas o tom em que ele falara fora absolutamente final. O delicioso odor de pão recém-assado fizeram vibrar as delicadas narinas de Roanna. Ela notou, então, que fazia muito tempo que não comia e os alimentos que enchiam as mesas pareciam-lhe mais adequados a um banquete do que um jantar normal. Esperando que Deus compreendesse, persignou-se e agradeceu silenciosamente o alimento que estava diante dela.

   Enquanto jantava, procurava prestar atenção nas pessoas que a rodeavam. Ouvia, atenta, esforçando-se por compreender todas as nuances da linguagem a que não estava acostumada. Procurava ver se ali existiam pessoas que riam com os lábios, mas não com os olhos, que demonstravam uma jovialidade forçada, que eram inimigas e não amigas, como pareciam. Não encontrou uma só.

   Era difícil ficar calma com Emryss a seu lado. Mantinha-se consciente demais das longas e fortes mãos tão próximas das suas, dos lábios dele na borda do copo, do arfar do peito musculoso ao ritmo da respiração. Nem mesmo o leve cheiro de couro que emanava da roupa dele era dominado pelo delicioso cheiro da comida.

   E que comida! Roanna nem podia acreditar em tanta qualidade e variedade. O pão da mesa principal era branco, leve e gostoso, rivalizando com o de Jacques. Mesmo o que fora servido nas outras mesas era de qualidade muito superior ao que se costumava destinar aos aldeões.

   Ao partir um pedaço de pão, fitou Emryss, mas desviou os olhos, depressa, não querendo que ele visse o quanto estava perplexa. Passara muito tempo comendo na mesa miserável de lorde Westercott e esquecera-se da generosidade da maioria dos nobres. Travessas após travessas eram trazidas, as pessoas pareciam tão verdadeiramente felizes, tão honestas e francas que ela, afinal, esqueceu a desconfiança e entregou-se ao prazer do maravilhoso jantar.

   Havia na mesa principal várias travessas de carne tais como cabrito, porco, frango e boi, cada qual feita de um modo especial, com seu molho. Estava uma delícia a fritada de migalhas de pão e os bolinhos cozidos em caldo de carne. Vários tipos de frutas encontravam-se espalhadas pelas mesas e nunca faltava pão. Serviam vinho e cerveja em grandes quantidades, mas Roanna não estava acostumada a beber e mal provava o vinho. Tinha muita dificuldade em impedir que seus olhos se fixassem no seu bonito benfeitor e temia que um pouco a mais de bebida a levasse a perder o rígido autocontrole.

   Enquanto os criados agitavam-se ao redor das mesas, servindo os comensais, ela reparou que Bronwyn sempre se movia mais devagar quando passava pela mesa principal, o cântaro de vinho apoiado no generoso quadril. Por instantes, sentiu-se consternada, até que disse a si mesma que não importava se a jovem tinha rosto e corpo muito mais robustos do que os seus. Assim mesmo, toda vez que a linda morena voltava para junto deles, a fim de repor vinho nos copos, ela a acompanhava com o olhar atento. Notou, então, que em geral a moça ignorava seu copo e mal servia o de Emryss. Era o de Gwilym que ela enchia até a borda, demoradamente, ficando o mais possível junto dele.

   Roanna sentiu-se uma tola quando percebeu que exultava ao descobrir que Bronwyn estava interessada em Gwilym e não no senhor de Graig Fawr, como temera. Pouco depois, sentiu pena da bonita criada. Apesar das atenções que ela lhe dava, Gwilym nem parecia notar sua presença. Continuava a conversar, animado, com Emryss como se os olhos negros de Bronwyn, cheios de amor, fossem invisíveis.

   - Posso receber mais um pouco de vinho, por favor? - disse Roanna, por fim, não conseguindo mais agüentar ver a moça ignorada.

   Emryss tentou não olhar para ela, apesar de já estar se perguntando por quanto tempo mais iria se manter calada. E quando falara, pensou decepcionado, fora para pedir mais vinho! Até então Roanna se demonstrara interessada apenas na comida, deixando-o um tanto frustrado. Comia como se estivesse morta de fome e isso talvez não estivesse muito longe da verdade, pelo que lhe tinham contado.

   E não havia por quê, argumentou consigo mesmo, ela estar interessada nele. Por enquanto, mostrava-se muito mais atenta ao pão e ao vinho, o que não era motivo para ele sentir-se frustrado. Procurando não olhar para a mão de Roanna, esguia, branca e delicada, que pegara uma maçã, ele brincava com seu copo, enquanto escutava a longa história que Gwilym contava sobre algumas ovelhas que julgava terem sido roubadas, mas que tinham sido "emprestadas".

   - Emryss! - Ele voltou-se para Gwilym, que o fitava com um brilho zombeteiro nos olhos negros. - Pare de brincar com seu copo, homem! Beba ou então largue dele, pois está me deixando maluco, revirando-o desse jeito.

   Emryss forçou um sorriso e ergueu o copo. Conseguira esboçar um gesto despreocupado, mas seus dedos roçaram pela manga do vestido de Roanna e ele estremeceu como se tivesse levado um choque, fazendo algumas gotas de vinho caírem sobre a mesa. Por sorte Gwilym naquele instante estava ocupado, bebendo, e não viu o acontecido, se não iria ter que suportar os comentários jocosos do irmão.

   - Os fora-da-lei devem conhecer a região - disse Emryss. Tentava se convencer de que tinha coisas mais sérias a pensar do que na mulher a seu lado.

   - Com certeza, a julgar pela rapidez com que desapareceram - concordou Gwilym. - Sumiram como flocos de neve ao sol e tínhamos os melhores rastreadores. Pareceu uma coisa quase sobrenatural.

   - Será que eles têm ajuda de outras pessoas?

   O lorde detestava considerar tal possibilidade, não podia admitir que seus aldeões o traíssem, mas o fato é que ela existia.

   - Não... Roubar é uma coisa que quase todos fazem, galeses ou não, porém nossa gente jamais protegeria criminosos como aqueles, tenho certeza. Mas... - Gwilym fez uma pausa e seu olhar tornou-se frio - os DeLanyea...

   - Acha que eles chegariam a tal ponto de baixeza? - duvidou Emryss.

   - Acho que são capazes de usar quaisquer meios, por mais infames que sejam. Não pense em honra e neles, juntos.

   O senhor de Craig Fawr deixou a respiração escapar, lentamente, e disse:

   - Meu Deus! Eu sabia que Cynric era um irresponsável, mas não que chegasse a tal ponto. Algum tempo atrás ele tinha alguns princípios...

   - Isso foi há muito tempo, meu irmão.

   Emryss inclinou-se para trás e soltou uma praga em galês.

   - Perdoe-me, o que disse, milorde?

   Ele voltou-se para olhar Roanna, que tinhas as bem desenhadas sobrancelhas franzidas, numa expressão de espanto.

   - Foi... Ora, não tem importância, milady - respondeu ele e fitou o prato vazio diante dela. - Parece que gostou do jantar...

   Ela enrubesceu:

   - Está maravilhoso - Abaixou a cabeça e observou-o com o canto dos olhos. - Com certeza, Jacques daria dez anos de sua vida para cozinhar deste jeito.

   Ele teve de se esforçar para não tocar-lhe a face aveludada.

   - Mesmo que ninguém dê graças pela comida? - perguntou ele.

   - De fato, seria justo agradecer a Deus por tanta fartura - replicou ela.

   Ergueu os olhos, para fitá-lo, evidentemente com intenções de deixá-lo envergonhado. Mas ele se mostrou impassível, enquanto se continha para não lhe dizer que não sentia necessidade de se desculpar pela falta de sagrada hipocrisia em sua casa.

   De repente Rhys, com um sorriso luminoso no rosto redondo, gritou alguma coisa em galês e todos começaram a berrar:

   - Emryss! Emryss!

   Batiam nas mesas com as palmas das mãos e no chão com os pés. O barulho produzido era ensurdecedor.

   Roanna olhou ao redor, imaginando o motivo da exaltada demonstração. Emryss, então, ergueu as mãos, pedindo silêncio, e disse poucas palavras. Todos gritaram uma palavra galesa, ao mesmo tempo, e ele assentiu, com a cabeça.

   Então, o lorde levantou-se, tomou um gole de vinho e foi para um canto do enorme salão. Só então Roanna notou que ali havia uma harpa. O pessoal voltou a gritar, numa cacofonia em galês, quando ele pegou o instrumento.

   Roanna mal podia acreditar nos próprios olhos ao ver o senhor das terras sentar-se no meio do salão e tocar, tímido como um amante que relutasse em demonstrar seu amor. Em seguida, começou a cantar, em uma voz de baixo, melodiosa e suave.

   Já às primeiras notas Roanna sentira-se enfeitiçada. A música e a voz, contida mas poderosa, transmitiam um doce apelo que lhe atingia o mais íntimo do ser. Se bem que não entendesse galês, a canção a emocionava, como se lhe perguntasse se ela entendia os sentimentos que ele trazia no peito. E ela entendeu. Santo Deus no paraíso, era como se Emryss tivesse visto a negra solidão em que a sua alma vivia!

   As últimas, tocantes notas ecoaram nas paredes de pedra. Ninguém falou por alguns instantes, então o clamor de gritos e aplausos explodiu. Emryss agradeceu e chamou Mamaeth. Assim que ela se aproximou, ele começou a tocar uma música viva, alegre, e a velha ama, animada como uma jovenzinha, passou a cantar, com uma voz rascante, insegura e fina. A julgar pelas caretas e gestos que ela fazia, a canção era claramente obscena e o pessoal desandou a rir, acompanhando-a.

   Roanna observou os rostos alegres e viu que todos cantavam. Eles pertenciam àquele lugar. Só ela, a estranha, a desamparada normanda, não tinha direito de estar ali.

   Abafava um soluço quando percebeu que Gwilym estava falando com ela.

   - Linda canção, não, milady? Nosso Emryss é um grande bastynwr, um grande menestrel! - ele inclinara-se para ela e falava alegremente.

   - É uma beleza - respondeu Roanna, abaixando a cabeça, envergonhada pelo fato de ele poder notar que estava a ponto de chorar.

   - Ele é assim, milady! Um homem que não se detém diante de nada - continuou o guerreiro moreno, entusiasmado. - Emryss luta tão bem quanto toca e canta!

   - Se o senhor me perdoa... preciso de um pouco de ar fresco - a voz de Roanna era quase um murmúrio, enquanto ela se levantava.

   Rápida, ela atravessou o salão e saiu para a quietude da noite clara de verão. A luz brilhava no céu sem nuvens e as estrelas, suas velhas amigas, pareciam-lhe muito próximas.

   Uma rampa feita de tábuas levava para o cimo da muralha e Roanna, erguendo um pouco a saia, subiu por ela. Quando chegou em cima, ficou parada, olhando para a aldeia. Aos poucos, sua respiração foi se acalmando e a vontade de chorar se tornando menos doída. A música do salão chegava até ela, abafada, dando-lhe impressão de que eram fantasmas tocando e cantando, que estava só no mundo. Lá embaixo, os campos se estendiam, como um mar escuro e imóvel.

   - Espero que não esteja doente...

   Ela não percebera a aproximação de Emryss e a súbita proximidade provocou intenso calor em seu corpo, enquanto se voltava para ele. O luar iluminava os traços fortes e o tapa-olho parecia apenas uma sombra.

   - Não... - respondeu, tensa. - Só precisava de ar livre. Ele assentiu e voltou o olhar para suas terras.

   - Lindo, não? -perguntou, a voz embargada pela emoção.

   - Sim, é lindo.

   - Santo Deus, como senti falta disto!

   - O senhor esteve fora muito tempo? - perguntou ela, com a sensação de que não era errado perguntar-lhe coisas da vida dele, agora que estavam a sós.

   - Onze anos. - Ele voltou-se para olhá-la e ela não percebeu piedade no rosto másculo. - Eles me deixaram lá, em Acra, depois de uma das "gloriosas vitórias" de Ricardo... - A expressão dele demonstrava com clareza o que pensava de tais glórias, depois ele riu. - Creio que pensaram que eu estivesse morto. Felizmente Abram me encontrou, arrastando-me pelo campo de batalha, e cuidou de meus ferimentos. Quando fiquei bom o bastante para andar, Ricardo tinha ido embora.

   - Não havia ninguém que pudesse ajudá-lo?

   - Era perigoso ajudar-me - respondeu ele, amargurado -, mesmo para Abram, depois do que Ricardo fez com a guarnição muçulmana que derrotou.

   - O que ele fez? - perguntou Roanna, a voz alterada pela idéia de Emryss ter estado tão perto da morte.

   Parecia-lhe impossível que um dia aquele homem pudesse ter estado enfraquecido e desamparado.

   - Ricardo ordenou que os amarrassem e os fez alinharam-se diante da muralha da cidade. Então, mandou degolá-los, como se fossem animais. - Emryss fechou o olho, a sobrancelha franzida, angustiado como se ainda escutasse os gritos dos homens sacrificados. - Depois disso, a vida de um cruzado não significava nada para Saladino. - Sacudiu a cabeça. -Ricardo era um bom guerreiro, mas também era um irresponsável! - Voltou-se, sorrindo tristemente, e ela percebeu que aquele sorriso ocultava profunda dor. - De qualquer modo, consegui voltar para Gales, sem dinheiro, sem cavalo e sem armadura.

   - E como conseguiu? Roanna teve impressão de que ele corava, mas talvez fosse um engano causado pelo luar.

   - Cantei para viver - respondeu ele, depressa. - Eu não tinha armas, portanto não podia vender meus serviços de guerreiro. Além disso - continuou, em tom ressentido -, não sabia se minha perna ferida agüentaria uma batalha. Mas sobrevivi e isso me bastou. Jacques contou-me que a senhorita, uma vez, também viajou sozinha.

   Ela voltou o rosto para um lado, confusa. A presença daquele homem a impedia de pensar com clareza.

   - Fez isso, mesmo? - insistiu ele, demonstrando dúvida. - Caminhou, sozinha, até a casa de seu tio?

   - Sim - respondeu ela, fitando-o.

   - Deve ter sido preciso muita coragem... - a voz dele, suave e baixa, assemelhava-se a uma carícia.

   - Era a única coisa que eu podia fazer - disse ela, com simplicidade.

   Ele deu um passo, aproximando-se mais:

   - Não sentiu medo? - perguntou.

   Roanna voltou-lhe as costas, desejando que ele fosse embora e, ao mesmo tempo, temendo que ele o fizesse.

   - Eu me senti apavorada -> confessou, olhando para o céu. - Então, dizia a mim mesma que cada estrela era um anjo zelando por mim.

   As mãos dele pousaram em seus ombros.

   - Acho, lady Roanna, que fez uma jornada mais difícil do que a minha. Eu, afinal, cheguei em casa.

   Os lábios dele estavam próximos do ouvido dela, sentia a respiração quente em seu pescoço. Voltando-se para ele, Roanna murmurou:

   - Espero encontrar minha casa, quando Jacques e eu formos embora daqui.

   Ele sorriu e ela sentiu-se como que envolta em cálida proteção.

   - Jacques não poderá viajar por alguns dias. Enquanto isso... Ele ia tocá-la novamente e ela compreendeu que se o permitisse iria implorar-lhe que a deixasse ficar.

   - Nós precisamos ir embora o mais depressa possível - foi o que falou, no entanto. - É muito perigoso.

   - Por que não deixa que eu me preocupe com esse problema?

   - Porque, milorde, eu sou o problema. Não sou uma criança, a quem se alisa a cabecinha e põe na cama.

   O queixo dela tremeu, mas Emryss teve certeza que não era porque sentisse vontade de chorar. Ela estava zangada: podia perceber isso claramente.

   - Desculpe-me - murmurou. - Sei que a senhorita não é nenhuma tola.

   - Não, não sou. O senhor também não é, milorde, e parece considerar Cyrinc e o pai dele dois ignorantes imbecis, incapazes de enfrentá-lo numa batalha leal. Prezo muito o senhor, por isso peço-lhe que me ouça. Sabia que eles cultivam poderosos amigos na corte? Pessoas que não podem ser benévolas com os que serviram Ricardo? O rei John está no poder, agora, e não hesitará em usá-lo em sua vantagem.

   - E daí? O que isso tem a ver comigo? - indagou Emryss. - Nada mais tenho a ver com os reis normandos.

   - O barão não pretende lutar contra o senhor com armas e soldados. Ele vai usar a lei e influências. Por isso queria que Cynric se casasse comigo. Meu tio têm amigos poderosos, na corte, que lhe devem favores. Cynric chegou a me dizer que foram espertos o bastante para acolher os mais cultos monges no mosteiro que construíram em sua propriedade. Trata-se de monges versados em todo tipo de leis. Seu tio poderá tirar-lhe estas terras sem erguer um dedo, desde que tenha a lei e o poder do seu lado.

   Emryss abaixou a cabeça e ficou pensativo, mordendo o lábio, por alguns momentos.

   - E como vou lutar contra eles? - perguntou, por fim, em voz muito baixa, como se falasse consigo mesmo.

   - Aprendendo leis, lendo um tratado a respeito, ou procurando a ajuda de alguém que as conheça.

   Ele ergueu a cabeça e ela ofegou diante da intensidade de seu olhar.

   - Você conhece leis, Roanna? - perguntou, mal notando que a tratava com intimidade e pegando-lhe as mãos.

   - Não... - murmurou ela. - Nunca tive oportunidade de aprender a ler.

   Ele a puxou para perto de si, muito perto.

   - Se conhecesse, eu lhe pediria que ficasse aqui, para me ajudar.

   As palavras apenas sussurradas pairaram no ar, enquanto os lábios dele encontravam os dela, gentilmente. Roanna percebeu que todo seu corpo se aquecia. Colou-se a ele, desejando ficar bem próxima, necessitando sentir a dureza do peito masculino contra os seios macios, querendo que o beijo se aprofundasse mais. O corpo dele moveu-se, contra o dela, insistente e, no entanto, tão paciente! Nada pedia, mas perguntava tudo. Instintivamente, as mãos dela ergueram-se e tocaram o rosto de Emryss.

   Talvez, afinal, pensou, sua solidão houvesse chegado ao fim. Mas, lembrou-se em seguida, a que custo? A custo das pessoas que dependiam dele? E o que seria da honra dela, se fizesse amor com ele naquele momento?

   Com um soluço que era quase um grito de dor, ela desceu as mãos para o peito dele e afastou-o de si:

   - Eu... eu não posso!

   - Tem medo de tocar meu rosto? - perguntou ele, amargurado, entendendo mal o recuo dela.

   O coração de Roanna confrangeu-se pela dor que havia na voz e pela angústia estampada no rosto dele.

   - Não, não, Emryss! - exclamou, desesperada. - Eu te amo! Mas, que Deus me ajude, não posso! Não devo!

   Ela voltou-se e desceu a rampa correndo.

  

   A chuva caía do céu escuro, batendo contra a parede e fazendo um forte barulho. Roanna levantou-se da cama enorme e foi até a janela.

   Tinha visto nuvens irem cobrindo as estrelas, à medida que a noite avançava. O sono chegara depois de muitas horas e fora superficial, inquieto e agitado por sonhos.

   Não conseguia esquecer-se de Emryss e dos sentimentos que haviam irrompido nela, como um rio caudaloso. Sim, ela o amava, mas como fora tão fraca, deixando que ele a tocasse? O que Emryss estaria pensando de sua atitude? Será que sentia o mesmo por ela? E caso sentisse, o que iria acontecer? Os pensamentos atropelavam-se em sua mente e como não tinha as respostas sentia-se angustiada. Vestida apenas com a camisa, os pés descalços sobre a pedra fria, ela estremeceu.

   Precisava ir à missa. Com certeza o recolhimento religioso iria ajudá-la a decidir o que era melhor a fazer.

   Uma batida à porta precedeu à entrada de Bronwyn, carregando um jarro de água quente. Colocou-o sobre a mesinha e deu bom dia a Roanna, que respondeu enquanto punha o vestido. Antes que a criada saísse, ela perguntou:

   - Onde é a missa?

   - Como, milady?

   - Onde devo ir para assistir à missa?

   O rosto de Bronwyn ficou vermelho, enquanto Roanna a fitava, surpreendida com a reação da moça.

   - Milady - começou a criada, hesitante. Calou-se e, afinal continuou: - Não temos missa aqui, milady, a não ser aos domingos.

   - Quer dizer que vocês passam uma semana sem assistir missa?

   - Sim, milady - respondeu Bronwyn, baixinho, dessa vez corando furiosamente, como se fosse culpada dessa estado de coisas. Roanna considerou mais essa informação. Por algum motivo, Emryss DeLanyea dava pouco espaço para a Igreja em sua vida, mas não devia impor sua decisão aos seus aldeões. Ele podia dispensar a religião como guia e sentir-se em paz. Ela, não. Muito menos naquele momento.

   Não disse mais nada a Bronwyn, porém quando saiu do quarto, pouco depois, estava decidida a assistir a missa de qualquer jeito.

   Ao aproximar-se do salão ouviu o som de espadas se chocando e apressou o passo.

   Alguns homens, cada qual com seu caneco de cerveja, formavam um círculo ao redor de dois outros que lutavam exortados pelos gritos ferozes dos que assistiam. O barulho das espadas se tocando e gemidos dos oponentes tornaram-se mais audíveis quando ela se aproximou. Erguendo-se nas pontas dos pés, pôde ver quem eram os lutadores.

   Emryss e Gwilym, nus da cintura para cima, circulavam um diante do outro, cautelosos e agressivos. O rosto molhado de suor de Emryss encontrava-se sem o tapa-olho e ela teve que abafar uma exclamação de surpresa ao ver que o peito musculoso mostrava-se coberto por pequenas cicatrizes. No torso forte havia uma longa cicatriz avermelhada que começava no mamilo esquerdo e descia, desaparecendo sob o cós da calça.

   As pesadas espadas que eles empunhavam pendiam soltas, tocando o chão, mas ela sabia que a tranqüilidade e indiferença deles eram aparentes: seus dedos se enrijeceriam em torno dos punhos das espadas e seus braços se ergueriam, ameaçadores, num piscar de olhos.

   Os gritos de encorajamento aumentaram, misturando-se ao som da chuva, mas os dois contendores pareciam não ouvi-los. Os poderosos músculos de suas coxas retesavam-se, enquanto giravam, de frente um para outro, numa tensa dança mortal. Gotas de suor brotavam-lhes na testa e nas frontes, descendo pelo rosto. Então, por algum motivo ignorado por ela, ergueram as espadas ao mesmo tempo. As lâminas tiniram, soltando faíscas e os dois voltaram a girar lentamente, frente a frente, sem tirar os olhos um do outro.

   Roanna aproximou-se mais, observando Emryss. Ele apoiava-se mais na perna direita e mantinha a cabeça um pouco voltada para a direita. Para compensar a falta do olho, pensou ela. Seus ombros eram largos, poderosos, e Roanna poderia contar-lhe os músculos, quando passou por ela. Sabia muito bem o quanto eram fortes aqueles braços amorenados pelo sol.

   Então, ao ficar de frente, ele a viu.

   Parou imediatamente de lutar, ignorando os protestos decepcionados de Gwilym, e se aproximou. Roanna desejou que não tivessem ficado a sós na noite anterior, pois agora mal sabia o que dizer-lhe.

   - Sim? - indagou ele, parando diante dela.

   Enquanto o fitava, silenciosa, ela viu a expressão dele suavizar-se, o olhar tornar-se terno. Foi apenas um instante, mas a fez esquecer-se dos homens que os rodeavam. Por fim, ela forçou-se a voltar à realidade e perguntou:

   - Onde posso assistir missa?

   A pergunta fez com que ele erguesse as sobrancelhas e, pelos cantos dos olhos, Roanna notou que os homens se entreolhavam, com caras esquisitas. Fazendo um movimento lento, sem deixar de fitá-la, Emryss entregou sua espada para Gwilym.

   - Em uma igreja, suponho - respondeu, sério.

   Os homens riram e, de repente, ela imaginou que a atitude arrogante dele se devia à presença de espectadores. Era evidente que Emryss não pretendia demonstrar-se amolecido por uma normanda diante de seus guerreiros, principalmente daquela que estava colocando a aldeia em situação perigosa.

   - Onde fica a igreja? - insistiu ela. Ele vestiu a camisa, devagar:

   - Há uma capela na aldeia, no caminho junto da floresta. Disseram-me que nela há missa todos os dias.

   - Obrigada.

   Roanna agradeceu e passou por ele, determinada a parecer tão fria, distante e indiferente quanto Emryss se mostrava. No entanto, sentia-se feliz por ele ter entrado em sua vida e ficava triste sempre que pensava que um dia, em breve, já não mais faria parte dela.

   - A senhorita vai ficar toda molhada!

   A voz dele se superpôs às risadas dos homens, que cessaram quando ela pegou a capa mais ao seu alcance, entre as que se encontravam penduradas em ganchos perto da entrada. Colocou-a sobre os ombros, abriu a porta e saiu. A chuva e o vento a fustigaram, mas ela caminhou, decidida, pelo pátio enlameado.

   - Pelas chagas dos santos, que mulher mais teimosa! - disse Gwilym, assim que a porta se fechou atrás de Roanna. - Ela é louca?

   Emryss pegou um caneco de cerveja e encaminhou-se para a mesa maior. Os homens, compreendendo que o treino estava encerrado por aquele dia, sentaram-se nos bancos alinhados junto das outras mesas. Se falavam a respeito do senhor e sua hóspede, faziam-no tão baixo e discretamente que ele não podia ouvir.

   O lorde sentou-se em seu lugar e Gwilym acomodou-se ao lado dele.

   - Nunca vi, tomar toda essa chuva para assistir missa! Será que ela está decidida a se tornar uma freira? - indagou Gwilym, ansioso por fazer um sorriso alegre substituir a expressão triste que havia no rosto do amigo.

   - Como posso saber? - foi a única resposta que obteve.

   - Mamaeth está mimando demais esses dois... - comentou Gwilym, procurando fazê-lo falar.

   Mas Emryss nada disse. Mantinha-se pensativo, partindo seu pão em pequenos pedaços, sem comer. Estava exausto, mais pela noite em claro do que pelo treino. Nesse dia, decidira cansar-se até a exaustão para não pensar, pois seus pensamentos eram sempre em torno de uma mulher esguia, de cabelos negros e luminosos olhos verdes, que o amava.

   E ele também a amava, porém ela jamais deveria saber disso.

   Gwilym, aparentemente decidido a deixar Emryss em paz, comia seu pão em silêncio.

   De repente, a porta abriu-se e o lorde saltou de pé ao ver a figura pequenina que se apresentou no umbral.

   - Milorde - a voz cansada de Hu mal pôde ser ouvida entre o barulho da chuva e do vento.

   Mas Emryss encontrava-se ao lado dele num piscar de olhos:

   - O que foi? O que foi, Hu? - perguntou, erguendo a criança trémula no colo.

   - A ovelha... o rebanho de Ianto... morto... - Hu conseguiu balbuciar, com a respiração difícil.

   Mamaeth atravessou o salão, a preocupação evidente no rosto magro e moreno, quando viu o menino.

   - Mamaeth, leve-o e arranje-lhe roupas secas, comida. Gwilym, reúna a patrulha. - Emryss pôs para trás os cabelos molhados que caíam sobre o rostinho do garoto e lhe sorriu, conseguindo acalmar o medo que havia nos grandes olhos negros. - Você é um excelente menino, Hu!

   Mamaeth envolveu o pequeno numa toalha e foi para a cozinha, levando-o no colo. Emryss vestiu a túnica de couro e foi pegar sua capa. Desaparecera. Ela a levara. Praguejando, ele pegou pegou o cinturão, a espada, e saiu para o pátio.

   Gwilym e os outros já estavam em seus cavalos. Um cavalariço terminou de ajustar a sela na montaria de Emryss e ele montou, rápido. Ergueu a mão direita e a coluna movimentou-se, saindo a galope pelo portão.

   Foi uma difícil cavalgada, sob a chuva cerrada, até o pasto de Ianto. Durante todo o caminho os homens da patrulha procuravam por sinais dos ladrões, por rastros de raposas ou por algo errado, ao mesmo tempo que vigiavam as rochas que por trechos ladeavam o caminho e que podiam ocultar o perigo.

   Afinal chegaram ao pasto. A alguma distância, Emryss viu o vulto de Ianto, de pé, imóvel no meio da campina, como um marco sinistro. Ergueu a mão, indicando, e a coluna dirigiu-se para ele.

   A medida que se aproximavam, viam pelo chão carcaças de ovelhas com as gargantas dilaceradas. Podiam ter sido atacadas por raposas. Elas às vezes faziam aquilo, ninguém sabia por quê. O único outro animal capaz de fazer esse tipo de matança impiedosa era o homem.

   A raiva cresceu, fervendo no peito de Emryss, violenta como o vento que soprava forte. Homens pobres, famintos, poderiam ter matado as ovelhas, para levá-las e comer. Isso seria compreensível. Mas aquela chacina inútil, cruel...

   Ianto, acompanhado como sempre por seu cão Mott, foi ao encontro deles e disse:

   - Hu correu muito, chamou-os depressa!

   - Sim. Quando? - perguntou Emryss, em voz baixa.

   - Difícil de dizer, milorde. Como a terra está seca embaixo delas, foi antes da chuva. Examinei tudo primeiro, para depois mandar Hu chamá-lo, mas nada encontrei.

   - Raposas? - quis saber o lorde.

   - Talvez...

   - Alguma ovelha faltando?

   - Pode ser - respondeu Ianto. - Encontrei umas dez pastando por aí. Quem sabe elas fugiram ao sentir o cheiro das raposas.

   - Sim... - murmurou Emryss, olhando ao redor.

   As ovelhas deviam ter fugido, se não teriam sido mortas. Aqueles eram animais que permaneciam sempre juntos, geração após geração, e não se separavam a não ser que fossem forçadas a isso.

   Um pequeno vulto de pêlos marrons passou pelo pasto como um raio. No mesmo instante Mott saiu atrás, latindo.

   - Cadno! - gritaram os homens.

   E saíram em disparada para caçar a raposa, desmontando e prosseguindo a pé onde o solo tornava-se irregular e rochoso. Ianto, que conhecia bem as montanhas, seguiu o animal que se enfiara entre as rochas, precedido pelo cachorro branco e preto. Mas a presa era muito rápida e esperta. Entrou no pequeno rio que passava mais adiante e sumiu entre as pedras do outro lado. Mott também se enfiou na água, mas perdeu a pista quando chegou do outro lado. Farejando o ar, ele avançou mais um pouco, depois voltou-se para o dono, olhando-o como se pedisse desculpa.

   Os homens da patrulha atravessaram o riozinho, no entanto não encontraram rastros do animal. Emryss levou mais algum tempo andando entre as pedras.

   - Foi ela, você acha? - perguntou ao pastor.

   - Não há jeito de saber, milorde. Pode ter sido, pode não ter...

   Emryss assentiu:

   - Vou mandar alguns homens ficarem de vigia, para termos certeza.

   - Sim, milorde.

   - Eu mesmo trarei Hu de volta - disse o lorde.

   - Obrigado, milorde. Ele vai gostar. O nobre sorriu. Hu fora o primeiro a vê-lo quando ele chegara de volta da Terra Santa; parecia achar que Emryss lhe pertencia e o senhor de Craig Fawr não negava que a adoração que o menino lhe devotava o envaidecia.

   Os dois homens pararam na margem do riozinho e fitaram-se, tristes pela morte das ovelhas. Emryss sabia que Ianto sentia-se como se tivesse perdido filhos e o pastor sabia que seu senhor compreendia seus sentimentos.

   Ianto assobiou, chamando por Mott, e afastou-se, enquanto Emryss observava-o caminhar com o passo cauteloso e joelhos dobrados, do homem nascido e criado nas montanhas. Logo depois os homens da patrulha regressaram, sem a raposa. A uma ordem do lorde, passaram a recolher as ovelhas mortas, para que a carne fosse aproveitada.

   Enquanto Emryss caminhava para seu cavalo, Gwilym alcançou-o e perguntou:

   - É melhor que o velho Daffyd dê uma olhada, não, Emryss?

   - É, sim. O velho pastor poderia dizer-lhes se deveriam ir atrás de homens ou de raposas.

   A patrulha montou e iniciou a volta a Craig Fawr. A chuva passou a diminuir e tinha parado quando chegaram ao vale.

   Emryss passou a mão no rosto para enxugá-lo um pouco e tocou a cicatriz. Teve de fazer esforço para conter a praga que lhe subiu aos lábios. Deus, não devia lembrar-se do suave toque dos dedos dela em seu rosto devastado. Já havia perdido bastante sono. Um arrepio gelado percorreu-lhe o corpo, fazendo-o estremecer. Estivera tanto tempo longe de Gales, que até uma chuva de verão o fazia tremer? Olhou ao redor, para ver se algum de seus homens havia reparado. Não gostaria que julgassem o tremor uma fraqueza. Pôs o cavalo a trote. Quanto antes chegasse a Craig Fawr e vestisse roupas secas, melhor.

  

   Roanna sentia-se gelada desde o momento em quê entrara na capela de madeira, mas esquecera o frio durante a cerimónia. A missa, agora, chegara ao fim e ela ergueu-se, os joelhos doendo, encaminhando-se para a porta.

   A chuva havia parado. Olhou, com desânimo, a estradinha que ia dar na fortaleza, mas não havia jeito: teria de enfiar os pés na lama outra vez.

   Vários aldeões bem vestidos passaram por ela, sem nada dizer, desviando os olhos. Não podia recriminá-los: devia estar fazendo uma triste figura, com os cabelos escorridos, as roupas molhadas, a barra do vestido e as botinhas enlameadas.

   Colocou a capa nos ombros e puxou o capuz sobre a cabeça, sentindo cheiro de metal e couro. Algum dos soldados devia ter ficado aborrecido por ter de enfrentar a chuva sem sua capa, pensou. Não devia ter-se apoderado daquele abrigo, mas não pensara no momento, quando ficara zangada com a zombaria que percebera no riso dos homens de Emryss.

   No entanto, sentia-se feliz por ter assistido a missa. Durante algum tempo esquecera-se dele, de Seu toque, de seu beijo, do que sentia por aquele homem. Era algo que a encantava e envergonhava, ao mesmo tempo.

   Caminhava depressa, perdida nos pensamentos, apesar do caminho estar escorregadio e perigoso. Seus pés, quase adormecidos de tão frios, mal sentiam o chão, tornando a caminhada mais difícil. Pouco depois atravessava o portão da fortaleza e teve de tomar mais cuidado: a lama sobre as pedras que calçavam o pátio era pior, mais lisa e traiçoeira, do que o barro da estrada. Decidida, entrou no alojamento.

   - Senhorita! Que alegria tornar a vê-la! O vozeirão de Jacques ecoou no barracão vazio, enquanto Roanna tirava a capa e a sacudia, fazendo voar gotas de água. Pendurou-a em um gancho na parede e aproximou-se da cama do amigo.

   - Como vai, Jacques? - perguntou, carinhosa.

   - Melhor, apesar daquela mulher horrorosa e dos venenos dela! - Ele inclinou-se para a frente, fazendo a cama ranger de maneira preocupante. - Estou espantado com a comida, que quantidade, que delícia! - Uniu as mãos como numa prece e tornou a recostar-se no enorme travesseiro. - Já imaginou o que um génio como eu poderia fazer numa cozinha assim?

Roanna pegou um banco e sentou-se ao lado dele.

   - Fico feliz por você estar melhor - disse, alegre. Então; Jacques ficou sério e olhou-a, atento:

   - E a senhorita? - perguntou, ansioso. - Como está?

   - Muito bem - respondeu Roanna, depois de breve hesitação. - Lorde DeLanyea é muito generoso.

   - Um homem generoso, um homem nobre, um homem de muita honra! Concorda, senhorita?

   Roanna levantou-se e foi até a estreita janela, ficando de costas para o amigo.

   - Sim - respondeu. - Acho que sim.

   - Mas é um homem muito estranho, também, não?

   - Sim, é...

   - E uma pena termos que ir embora daqui - suspirou o homenzarrão.

   - Se ficarmos, traremos problemas para esta boa gente, Jacques.

   - Lorde DeLanyea não está preocupado com isso.

   - Mas vai ficar - retrucou ela, voltando-se. Os olhos de Jacques arregalaram-se ao notar que o rosto dela mostrava-se pálido, com uma expressão estranha. Mas ele logo se recompôs, assumindo ar alegre:

   - Bem, não adianta nos preocuparmos com isso agora - disse, animado. - Felizmente escapamos daqueles bandidos. - Observou o vestido dela. - Creio que já ficou o bastante comigo, senhorita. Vai apanhar friagem com essa roupa molhada... - Calou-se, de repente, olhando assustado para a porta onde Mamaeth aparecera. -Mon Dieu! Não me venha com outra de suas infernais beberagens!

   - Meus remédios, seu grosseirão! Vejo que já está bem... - Mamaeth parou ao lado de Roanna. - É bom ir se trocar, se não vou ter que tratar também de você.

   - E isso é pior do que morrer, eu lhe garanto - resmungou Jacques.

   - Acontece que não tenho outro ves...

   - O seu foi limpo, remendado - interrompeu-a a velha ama - e Bronwyn levou-o para o quarto. Não ficou grande coisa, reconheço, mas é melhor do que nada.

   Roanna assentiu:

   - Muito obrigada. - Voltou-se e deu um beijo na testa de Jacques. - Cuide-se... Mais tarde eu voltarei.

   - Se eu sobreviver aos remédios desta mulher! - exclamou o cozinheiro, sombrio.

   Roanna riu e retirou-se, levando a capa molhada. Mamaeth voltou-se para seu paciente:

   - Uma moça muito fina, eu acho. Respeitável, que sabe quando deve ouvir e quando deve falar.

   - Ela é a lady mais refinada da Terra, posso jurar! -entusiasmou-se Jacques.

   - Eu gosto dela e meu menino gosta, também.

   - E devo me orgulhar pelo fato de um labrego gostar dela? - reagiu ele, de cenho franzido.

   A ama fitou-o com expressão indecifrável:

   - Estou falando de lorde DeLanyea, seu tolo! Jacques anuiu, pensativo, depois disse:

   - Todos que conhecem lady Roanna ficam impressionados com ela. - Observou Mamaeth disfarçadamente. - O que quer dizer, direitinho, isso do lorde gostar dela?

   - 0'r annwyl! Como se pode ser tão estúpido? Ele gosta dela do modo que um homem gosta de uma mulher. Como você é tapado!

   O cozinheiro reagiu, zangado:

   - Se você fala de um homem feito como se fosse uma criança, o tapado não sou eu! No entanto, creio que entendo o que quer dizer...

   - O que ela pensa dele? - perguntou a velha ama, a curiosidade fazendo os olhos negros luzirem.

   - Como posso saber? Uma lady não conversa sobre essas coisas. Não era da conta daquela bruxa o que lady Roanna pensava do "menino" dela, mas se ele quisesse responder, diria que Emryss DeLanyea a havia impressionado de um modo que homem algum conseguira até então.

   Mamaeth fitou-o, irritada, e colocou uma xícara fumegante debaixo do nariz dele. O cheiro desagradável, já familiar, encheu-lhe as narinas e Jacques se rebelou:

   - Está querendo me matar com suas poções venenosas? Antes que ela pudesse responder, a porta escancarou-se:

   -Ah, Mamaeth - disse Emryss, sacudindo os cabelos molhados, como um cão se sacode para livrar o pêlo da água, depois da chuva. - Preciso de outra camisa. Pode me trazer?

   Mamaeth fez um gesto de enfado:

   - Não. No seu quarto tem camisas limpas.

   - Vá buscar uma para mim.

   Os olhos negros da mulher brilharam, indignados:

   - Tenho que cuidar do almoço! Não sou sua escrava, lembre disso! - Caminhou, furiosa, para a porta. - Homens! - Voltou-se para o lorde, com as mãos na cintura. - Um bando de ingratos, todos vocês! Vá buscar a camisa você! - E saiu, batendo a porta do barracão.

   Emryss gemeu e olhou para Jacques:

   - Pelas chagas dos deuses, eu apenas pedi uma camisa! - Voltou-se e saiu.

   Conformado, Jacques tomou um gole do chá, fez uma careta e colocou a xícara no chão, torcendo para alguém tropeçar nela e derramar o conteúdo.

   Esfregou o queixo com barba de dias, pensativo. Roanna e Emryss DeLanyea. Formariam um lindo casal. Claro, ela seria boa esposa para qualquer homem, mas precisava de alguém como ele, generoso, bom, que transpusesse a muralha atrás da qual ela escondera o coração...

   Arregalou os olhos, de repente. A lady fora trocar de roupa no quarto dele e Emryss ia para lá! O rosto grande iluminou-se com um sorriso.

  

   Quando Emryss chegou aos degraus que levavam ao seu quarto a raiva pela explosão de Mamaeth já tinha desaparecido. Ele chegou a rir, ao lembrar-se do olhar chocado de Jacques ao ver de que jeito a velha ama falava com seu senhor. Provavelmente não podia acreditar que o lorde permitia a seus criados falarem daquele jeito com ele.

   Bem, de fato ele não permitia, a não ser Mamaeth. Ela não respeitava nenhum homem simplesmente pelo fato se ser um homem. Além disso, ela o criara desde que nascera e sabia que aquela mulher dedicada o amava mais do que a própria vida.

   Terminou de subir a escada e percorreu o corredor, com o pensamento voltado para a velha ama que tivera coragem para defender suas terras enquanto estava longe, dado por morto. Mas ela não acreditara na morte dele e... Abriu a porta do quarto e a visão que teve expulsou os pensamentos. Estacou, vermelho, confuso.

   Roanna, vestida apenas com a camisa, encontrava-se perto da mesinha com a bacia, tendo nas mãos um vestido ensopado e sujo de lama. Ela recuou depressa, colocando o tecido encharcado contra o peito na tentativa de escapar do olhar dele.

   Emryss voltou-se e saiu do quarto no mesmo instante, fechando a porta atrás de si. Ficou imóvel, com a respiração suspensa, esperando que ela começasse a gritar, chamando por Mamaeth ou Bronwyn. Como nada acontecesse, ele recuperou os movimentos, andou apressadamente até o alto da escada e berrou o nome da velha ama com tal ímpeto que Roanna estremeceu, enquanto enfiava o vestido consertado, com as mãos trêmulas.

   Ao pensar que fora vista por ele vestindo apenas a fina camisa de algodão, corou de tal modo que seu pescoço e rosto pareciam arder, em chamas. Já vestida, caminhou rápida até a porta, abriu uma fresta e espiou por ela. Emryss encontrava-se parado no alto da escada, com o pé direito batendo nervosamente no chão, os braços cruzados ao peito e os ombros evidentemente tensos. Não podia ver-lhe as feições, mas conseguia imaginar como estariam transtornadas pela zanga. Sempre silenciosa, fechou a porta e foi para a janela.

   Olhou o pátio lá embaixo, tentando não pensar no profundo embaraço que tomara conta dela ao ser vista em roupa de baixo. Reparou que os pedreiros e seus ajudantes arrumavam enormes blocos de granito recém-chegados, no fundo do pátio. Ritmavam o trabalho cantando e suas vozes musicais chegavam até ela como um bonito coro. Era evidente que trabalhavam com prazer. Talvez por isso o trabalho rendesse tanto.

   Já bem mais calma, livre da onda escaldante de vergonha, ela lembrou-se da expressão surpreendida de Emryss, quando abrira a porta, com uma camisa ensopada numa das mãos. Ele ficara estatelado, com uma cara que, agora, ela achava engraçada. Os cantos de seus lábios começaram a tremer e pouco depois Roanna ria às gargalhadas, tentando em vão se acalmar. Com certeza ela também ficara com cara apalermada ao vê-lo no quarto, dizia a si mesma.

   Parou de rir ao ouvir vozes zangadas que vinham do patamar e se aproximavam. Imediatamente depois, bateram à porta do quarto.

   - Entre - disse, tentando imaginar o que estaria acontecendo. Mamaeth entrou, esbaforida, como se fosse perseguida por um cachorro louco.

   - Com licença, menina. Vim pegar uma camisa.

   Foi até a arca, abriu-a, inclinou-se tanto que sua cabeça sumiu lá dentro e pegou uma camisa de Emryss. Durante todo o tempo resmungava em galês, parecendo enfurecida. Ao erguer-se, lançou um olhar a Roanna.

   - Emryss mandou lhe dizer que o desculpe por ele ter entrado daquele jeito, mas precisava de uma camisa limpa e ninguém disse a ele que você estava aqui.

   - Sim, acredito que foi isso que aconteceu... - concordou Roanna, com ar profundamente sério, mas ainda sentindo vontade de rir.

   - E eu peço desculpa por ele ser um mal-criado, que não bate antes de entrar! - gritou Mamaeth, enquanto saía.

   Pobre Emryss, pensou Roanna, sorrindo para a porta fechada. Certamente Mamaeth iria atormentá-lo até a morte por causa daquilo. Responsável pela educação dele, já que o criara, a velha dama devia estar mais zangada consigo mesma do que com o filho de criação.

   Aproximou-se da mesinha, onde o vestido sujo encontrava-se embolado. Precisava ir até a cozinha e pegar mais água, se queria lavá-lo direito. Esperava que Bronwyn estivesse ocupada em outro lugar, pois não queria que a moça visse em que estado se encontrava seu vestido. Pretendia devolvê-lo limpo e em ordem, como o recebera.

  

   Cynric DeLanyea inclinou-se por cima da mulher adormecida e serviu se de outro copo de vinho. Tomando a bebida devagar, recostou-se na cama desfeita e sorriu, satisfeito. As coisas iam se desenvolvendo como ele queria, depois que aquela ridícula Roanna conseguira escapar das garras do tio.

   Na noite anterior seu pai esbravejara, gritara, chamando lorde Westercott de safado e imbecil, por ter deixado a sobrinha fugir, e ameaçara romper o contrato de casamento. Lorde Westercott ficara abalado diante dessa possibilidade e fizera o possível e o impossível para colocar panos quentes na situação.

   Quando, afinal, o violento barão se acalmara, Cyrinc o lembrara de que era possível que seu primo, o detestável DeLanyea dono de Craig Fawr, que eles tanto queriam, se houvesse apoderado da fugitiva. Afinal de contas, uma nobre jamais fugiria com um imundo cozinheiro sem um pence! Com certeza tratava-se de mais uma das proezas de Emryss, portanto deveriam enviar um mensageiro para chamá-lo à ordem. O pai aceitara a ideia e fora posta em prática imediatamente.

   Cyrinc olhou através da janela. Estava amanhecendo. Àquela altura, o idiota do padre Robelard devia estar chegando ao seu destino. Dificilmente o estúpido conseguiria ver, muito menos falar com Emryss, se a história que contavam fosse verdadeira. Diziam que ele, depois da morte de sua mãe, a princesa galesa Angharad, proibira qualquer padre de pôr os pés em seu castelo. O que Cyrinc desejava, exatamente, era que o emissário fosse expulso de volta, sem transmitir a mensagem. Quanto menos explicações houvesse, melhor, mais motivos ele teria para atacar a propriedade do primo, sem que ninguém pudesse censurá-lo por isso.

   A figura de mulher ao lado dele, envolta no lençol, mexeu-se, virando-se de lado.

   - Lynette - disse ele, cutucando-a com um pé. - Quero mais vinho.

   Como a única resposta fosse um suspiro sob o lençol amarfanhado, ele chutou-a, derrubando-a da cama e berrando:

   - Eu disse que quero mais vinho! Lynette se pôs de pé imediatamente. Trémula, os olhos redondos de medo, tratou de pegar um lençol e enrolou-o no corpo nu.

   - Sim, milorde - balbuciou, assustada, e o lorde adorou ver que a apavorava.

   - Se andar logo - disse, com ar indulgente -, deixo que venha para minha cama outra vez.

   Assim que ela serviu o vinho, ele agarrou o lençol e puxou-o, rindo de modo canalha diante da confusão da moça, que tentava, inutilmente, ocultar com as mãos os seios e o ventre. Com incrível rapidez, olhando de soslaio para o nobre, a criada vestiu-se e saiu correndo do quarto.

   Cyrinc gargalhou. Divertira-se um bocado naquela noite com Lynette. Ah, porém iria ser muito mais divertido fazer aquela magrela da Roanna sofrer!

   Pelo que os assaltantes lhe haviam dito, tinha quase certeza de que a fugitiva se encontrava em Craig Fawr. Ela seria uma boa desculpa para um ataque à fortaleza meio destruída e é claro que Emryss sabia disso. Podia, até mesmo, realizar um ataque direto, pois a lei estava do lado deles, por causa dos acontecimentos: afinal, sua prometida fora sequestrada e ninguém podia provar que o primo não a tirara de dentro de Beaufort. Assim, iria apoderar-se da propriedade dele sem grandes lutas e sem muito esforço. Depois que tivesse acabado com Emryss, restaria resolver o caso daquela lady insípida.

   Quando a trouxesse de volta, trataria de se casar imediatamente com ela, aí ele poderia usar a influência do tio de sua esposa, além de receber o dote. Deitou-se de costa, com ar satisfeito, fitando o teto.

   A ideia de se casar com ela deixava-o estranhamente excitado, pensando em como iria deliciar-se quando a fizesse pagar pelo insulto que infligira ao seu orgulho fugindo para não se casar com ele. Depois, não teria a menor dificuldade em tornar a vida daquela mulher atrevida insuportável e enquanto alguma "misteriosa" doença a enfraquecesse até levá-la à morte, poderia dedicar-se a outras fontes de prazer. Por fim, quando ela morresse, deixando-o livre, com certeza teria feito boas amizades na corte e encontraria uma segunda esposa, mais rica e mais bonita.

   Sorriu, as narinas frementes de excitação. Terminou de beber o vinho e olhou o fundo vazio do cálice de prata.

   - Lynette! - berrou, impaciente.

   Em seguida ouviu leves batidas à porta.

   - Entre! - ordenou, petulante.

   Mas em vez de Lynette, quem entrou foi Urien Fitzroy.

   - Milorde, precisa vir, depressa. Seu pai... ele teve um ataque! Cynric fitou o soldado, sem entender direito:

   - Como assim, um acesso? - conseguiu dizer, por fim.

   - Ele estava chamando o criado e, de repente, inclinou-se todo para um lado... depois caiu. Trataram de socorrê-lo, imediatamente, mas ninguém conseguiu levantá-lo.

   Cynric saltou da cama, vestiu as calças, a túnica e quando sentou-se na cama para calçar as botas, sorriu, os olhos reluzindo de satisfação.

  

   Ainda meio longe, o padre Robelard ergueu os olhos para a maciça muralha que rodeava Craig Fawr.

   Oh, meu Deus, por que eu?, indagou, numa prece silenciosa enquanto impelia para a frente o burro que montava. Por que o barão o enviara para descobrir se a lady se encontrava em Craig Fawr e, se estivesse, para insistir na ameaça de ataque à propriedade e de repúdio, se ela não voltasse para junto do tio e de seu prometido? Ele não era um diplomata, não era a pessoa indicada para tratar de um caso delicado como aquele. E Lynette lhe dissera, outro dia, que Emryss DeLanyea odiava padres!

   Ele tentara protestar, mas o barão apenas fixara os olhos frios, cruéis, nos dele e dissera:

   - É preciso que o enviado seja alguém neutro. Tem de ser o senhor!

   E ainda por cima a cena humilhante para ele acontecera diante do tio da pobre moça! O homem assistira a tudo, sentado ao lado do barão, pálido e vestido de escuro, como um corvo de mau agouro, depois dissera, com sua voz rouca e desagradável:

   - Diga a Roanna que volte de imediato. Se não o fizer, não vou mais querer saber dela, para sempre!

   Coitadinha, se aquele era todo afeto que recebera na vida! Lorde Westercott não demonstrava a menor preocupação pelo que poderia ter acontecido com ela. Exibia, apenas, uma raiva fria e uma determinação cruel de ser obedecido a qualquer custo.

   Sempre impelindo o burro vagaroso, o padre passou pela aldeia. O sol já se erguera bem no horizonte e todos estavam em atividade. As pessoas paravam e olhavam para ele, com frieza, fazendo-o estremecer e sentir-se pouco à vontade. Ouvia-se tanta coisa a respeito desses povos bárbaros, mas era impossível acreditar nelas, dizia a si mesmo, aflito. Ninguém poderia ser tão sanguinário e cruel como diziam que os galeses eram.

   Chegou ao primeiro portão e um dos guardas aproximou-se do outro, rindo e cochichando em galês.

   - Eu trago uma mensagem do barão DeLanyea - disse o padre Robelard, erguendo a cabeça e tentando parecer confiante.

   Os guardas riram abertamente, sem responder e sem se mexer para abrir o portão.

   - Já disse: trago uma mensagem do barão DeLanyea! - repetiu o padre, com voz menos firme.

   Dessa vez os guardas assentiram e deixaram-no passar. Depois de mais uma curta caminhada em que se sentia humilhado pelos olhares e cochichos à sua passagem, ele chegou ao segundo portão. Ouviu marteladas, ruídos de serras e vozes de homens, gritando, rindo, cantando, que vinham do outro lado da muralha. Não era segredo que Emryss DeLanyea estava reconstruindo e reforçando a sua fortaleza. Pelo jeito, o trabalho se desenvolvia depressa e o pessoal se mostrava animado.

   Quando padre Robelard passou para o pátio interno, fez-se um súbito silêncio e todos os olhares fixaram-se nele. Quase imediatamente ele viu um homem de pé diante da entrada da cocheira, nu da cintura para cima, que carregava uma camisa numa das mãos. O homem encarou-o ostensivamente, como quem espera alguma explicação. Padre Robelard parou e fitou-o por alguns instantes, então percebeu que ele era cego de um olho. Pobre homem, pensou, com certeza precisava fixar bem as pessoas para enxergá-las direito, por isso o fitava com aquela insistência incômoda e não muito gentil.

   Tratou de chegar perto dele, desceu do burro e pigarreou. Como ele se encontrava à porta da estrebaria, o padre deduziu que se tratava de um cavalariço. Assim mesmo, uma sensação de insegurança apoderou-se dele enquanto o homem se aproximava, a passos largos.

   - O que quer? - indagou ele, com certa rudeza.

   - Trago uma mensagem do barão DeLanyea - repetiu padre Robelard, mais uma vez.

   - E qual é a mensagem?

   O padre empertigou-se e procurou falar em tom autoritário:

   - A mensagem é para lorde Emryss DeLanyea - respondeu, indignado.

   O homem de um só olho fungou, voltou-se para uma longa construção anexa a uma alta torre e disse:

   - Venha por aqui.

   Padre Robelard teve que trotar para acompanhar as passadas enormes do alto e arrogante homem.

   De repente, um pensamento fulgurou, como um raio, em sua cabeça aturdida. Cego de um olho! Lynette lhe contara que Emryss DeLanyea voltara das Cruzadas sem um dos olhos. Oh! Mas aquele homem, tão simplesmente vestido, que usava uma camisa desabotoada, não podia ser um nobre! Mas era difícil, pensou, que houvesse dois homens com um só olho numa propriedade como Craig Fawr, se bem que fosse bastante grande.

   Como se ouvisse seus pensamentos, o homem alto voltou-se, uma expressão aborrecida no rosto que era quase uma cópia do rosto de Cynric DeLanyea, menos um olho e mais uma cicatriz, claro. O padre sentiu-se apavorado, gemeu baixinho e continuou quase correndo atrás do lorde, que já entrava no edifício.

   Inúmeros criados agitavam-se pelo salão, limpando e arrumando, as várias mesas encostadas nas paredes, com as cadeiras em cima, como costumavam ficar quando fora de uso.

   O homem, ou melhor, lorde DeLanyea, continuou andando até um tabique no fundo do salão. Parou, com ar impaciente, e esperou que padre Robelard o alcançasse.

   - Vinho - pediu o lorde, sem se dirigir a ninguém em particular. Acrescentou:

   - E todos fora daqui.

   Fez um sinal para o padre entrar atrás do tabique e sentar-se a uma cadeira que se encontrava junto de uma mesa de carvalho. Em seguida, foi sentar-se na única outra cadeira que havia ali, em frente a dele.

   - Eu... eu peço desculpas - gaguejou padre Robelard, enquanto se sentava. - Que... quero dizer... Creio que tenho a honra de estar falando com lorde DeLanyea?

   - Isso mesmo. Diga-me, o que meu tio quer?

   O padre precisou clarear de novo a garganta, todo nervoso.

   - Então? - insistiu o lorde, fitando o padre com frieza. - O que ele quer?

   - O barão DeLanyea -- conseguiu o padre dizer, por fim, depois de grande esforço -, exige o regresso de lady Roanna Westercott, imediatamente.

   - De fato? - Um sorriso irónico desenhou-se nos lábios bem feitos do nobre. - Ele acha que ela está aqui?

   O pequeno padre começou a dar um nó no cordão que ajustava a batina à sua cintura. Parecia tratar-se de um tique nervoso que se revelava quando ele se via em situações críticas. Em Beaufort todos haviam se mostrado tão certos de que a lady se encontrava em Craig Fawr que o religioso não pensara sequer em outra possibilidade. Agora compreendia que poderia não estar, mas precisava cumprir sua missão até o fim.

   - Bem, sim, milorde. Ele acha, sim - disse, meio hesitante. - O tio dela e o noivo também são da mesma opinião. Ela não está?

   De repente, uma velha magra e morena apareceu atrás do tabique, com Um jarro de vinho e dois cálices, numa bandeja de prata. Co-locou-a sobre a mesa, com um estalido.

   - Chame lady Roanna - ordenou-lhe lorde DeLanyea.

   Então, a lady fugitiva estava mesmo em Craig Fawr! Aliviado, o padre suspirou de leve, apesar de sentir que suas mãos estavam molhadas de suor e que ficava cada vez mais nervoso diante do olhar firme do lorde.

   A mulher pareceu emitir um quase inaudível som de indignação, mas saiu sem dizer uma palavra.

   - Milorde - começou padre Robelard, inseguro a princípio - estou feliz por saber que lady Roanna se encontra sob seus cuidados. Foi um ato impensado dela sair de Beaufort, esconder-se desse jeito e...

   - Ela fugiu, não "saiu"... - interrompeu-o lorde DeLanyea, brusco.

   - Bem, milorde... - O padre remexeu-se na cadeira, inquieto. - Seja qual for a palavra que se escolha para designar o modo pouco ortodoxo de lady Roanna viajar, estamos felizes em saber que ela não sofreu nada de grave.

   Emryss DeLanyea riu, secamente.

   - Estão, mesmo? - O olhar e a voz do lorde demonstravam profunda ironia.

   Àquela altura o padre já não tinha dificuldade alguma em acreditar que aquele homem era parente do barão.

   - Bem, é claro que o tio dela ficará contente em saber que nada de mal lhe aconteceu. Quero dizer... - O religioso sentia um suor frio escorrer-lhe pelas costas. - Não aconteceu nenhum mal a ela, aconteceu?

   O lorde pôs-se de pé, devagar.

   - Sim, padre, eu estou bem - foi Roanna quem respondeu, entrando atrás do tabique, nesse momento.

   Lorde DeLanyea ofereceu-lhe sua cadeira e, depois de breve hesitação, ela sentou-se.

   - Este padre tem algo a dizer e como se refere à senhorita, achei que deveria chamá-la - explicou o lorde.

   Lady Roanna assentiu, em seguida voltou os maravilhosos olhos verdes para o padre que, depois de clarear a garganta, disse:

   - Ah, milady, é tão difícil! - Olhou para o lorde, sentindo-se perdido. - Senhor, eu acho que agora que vi que lady Roanna está perfeitamente bem, seria muito melhor se nós dois conversássemos em particular.

   Emryss DeLanyea fez sinal que concordava, mas Roanna juntou as mãos no colo, apertando-as com nervosismo, e olhou de um homem para o outro. Decepcionada, via que as coisas não seriam diferentes para ela, nem mesmo ali. Tudo acontecia como na casa de seu tio e em Beaufort. Estava sendo dispensada num momento em que iam tratar de seu futuro, mandavam-na embora como se ela não os interessasse. Cerrou os lábios com força, e não fez um só movimento para se levantar.

   Depois de um longo momento de espera, em que o silêncio se tornara tenso e desagradável, padre Robelard ergueu as mãos, num gesto de apelo.

   - Milady, as palavras do barão poderão perturbá-la - disse, incerto e nervoso, pegando nos cordões do hábito.

   - Tenho direito de ouvir, uma vez que se refere a mim-retrucou ela, imperturbável.

   - Mas, milady...

   - Ela fica - determinou Emryss.

   Roanna não olhou para ele. Baixou os olhos para as próprias mãos, a fim de poder se concentrar no que o padre Robelard tinha a dizer.

   - Milorde, o barão exige que lady Roanna volte imediatamente a Beaufort, para que sejam cumpridos os termos do contrato de casamento.

   - Não - respondeu lorde DeLanyea.

   As mãos de Roanna apertaram-se mais em seu colo. Ele a estava defendendo, pensou, entre confusa e feliz.

   - Então, milorde, devo comunicar-lhe que o tio dela, lorde Westercott, ameaçou de repudiá-la, dizendo que nada mais terá a ver com a sobrinha deste momento em diante.

   - Ele teve muito pouco a ver com ela, antes deste momento também - respondeu o lorde, frio.

   - Mas, milorde, ela vai ficar sem um pence! - Padre Robelard demonstrava-se de fato aflito.

   - Ela não quer se casar com aquele cão - respondeu Emryss, calmo.

   - Talvez ela possa convencer o tio a anular o contrato - tentou ainda o religioso -, sob condição de um pequeno pagamento pelos transtornos.

   - Ele a prendeu numa cela, por ter se recusado a casar - disse o lorde, com a testa franzida. - O senhor acha que irá ouvi-la, agora?

   Roanna ergueu-se, de repente:

   - Senhores, não sou um osso para que fiquem rosnando e se atacando por mim. Padre Robelard -prosseguiu ela, fitando-o francamente -, não quero me casar com Cyrinc DeLanyea. Vou embora daqui assim que meu companheiro esteja em condições de viajar. Não peço nada e nada espero de meu tio. Não há mais o que falar a respeito, senhor. Tenha uma boa viagem de volta.

   Com a cabeça erguida, ela ia se retirando, porém o padre Robelard a chamou:

   - Um momento, milady! - Mas em seguida voltou-se para lorde DeLanyea. - Seu primo me disse que se a lady se recusar a voltar, eu deveria avisá-lo de que o senhor vai lamentar mais do que lamentou quando roubou as maçãs preferidas dele.

   Ao ouvir o recado, que não entendia, Roanna olhou depressa para Emryss e o que viu a fez gelar até a medula dos ossos. O rosto bonito demonstrou um ódio tão intenso, tão feroz, que ela mal podia acreditar que se tratava do homem que amava.

   - Por favor, aguarde um pouco lá fora, padre - pediu o lorde, a voz não deixando transparecer a tempestade que lhe ia na alma. - Preciso falar com lady Roanna a sós.

   Padre Robelard saiu de trás do tabique e ouviram seus passos se afastando pelo enorme salão, até que se perderam no pátio.

   Lady Roanna voltou-se para Emryss, que esfregava com força uma das mãos no tampo da mesa.

   - O que ele quis dizer? - perguntou, tensa. Emryss a olhou com expressão estranha.

   - Que a senhorita é importante para ele, uma vez que falou em maçãs preferidas, não acha?

   - Não é o momento de brincar com enigmas e não estou com vontade de rir - declarou ela, com solenidade. - O que Cyrinc DeLanyea quis dizer, realmente?

   - Pelas chagas dos deuses! Incrível como a senhorita mantém a cabeça fria! - resmungou ele, suspirando. Voltou-lhe as costas e foi até a janela. Quando falou, sua voz soava contida e tensa:

   - Uma vez, quando eu era pequeno, entrei no pomar de Beaufort e roubei umas maçãs. Uma traquinagem de criança, claro, mas Cyrinc me pegou e tomou satisfações. Acabamos lutando. Eu bati nele, tirei sangue de seu nariz, só isso. Nada que tivesse maiores consequências. Pelo menos foi o que eu pensei.

   Ele se calou por instantes, respirou fundo e prosseguiu:

   - E não teve, mesmo, por um ano. Eu tinha um cachorro, Cil. Ianto me dera esse cão ainda bem pequenino e me ajudou a criá-lo. Cil e eu éramos inseparáveis, passávamos horas passeando pelas colinas e as montanhas. Ele até dormia comigo, na minha cama. Era meu melhor companheiro. Um dia, encontrei Cil morto. Havia uma maçã envenenada ao lado dele.

   - Oh! Não posso acreditar em tanta maldade! - horrorizou-se ela.

   - Cynric matou meu cão porque eu havia batido nele. E o que ele quer dizer agora é que, a menos que a senhorita volte para ele, não vai me atingir diretamente, de novo... mas vai matá-la.

   - Então, Jacques e eu temos que ir embora hoje mesmo! Emryss chegou perto dela, em poucos passos, e segurou-a pelos braços, voltando-a de frente e obrigando-a a encará-lo.

   - Roanna, você não entendeu! - disse ele, sem lembrar do tratamento cerimonioso. - Não conhece aquele diawl como eu conheço. Ele não vai esquecer de você, nem que o fez de bobo. Aguardará o momento certo e sairá atrás de você amanhã, no mês que vem ou mesmo no ano que vem, mas um dia ele a alcançará. E se você tiver sorte, morrerá depressa.

   Roanna mal compreendia o sentido do que Emryss lhe dizia, tentando não pensar do calor das mãos dele em seus braços, fixando-se na expressão angustiada do rosto bonito.

   - Vou embora agora mesmo - repetiu com firmeza, quando conseguiu se refazer.

   - Não pode ir sozinha - retrucou ele, aflito.

   - Jacques irá comigo.

   - Ele não poderá protegê-la de Cynric.

   Ela soltou-se das mãos dele e indagou, altiva:

   - Então, milorde, uma vez que o senhor tem todas as respostas, o que sugere?

   - Case-se comigo.

   Roanna ficou olhando para ele, imóvel, incrédula ao ouvir tais palavras. Se tivesse sido atingida por um raio, não estaria mais atordoada. Sem fala e sem saber o que dizer, recuou, colocando-se atrás da cadeira e apoiando-se no espaldar, pois sentia as pernas fracas demais para sustentá-la.

   O lorde lhe oferecia a situação com que ela se proibira de sonhar, para não sofrer. Nada mais pedia à vida do que ser esposa dele, não queria nada mais nesse mundo! No entanto, obrigara-se a sufocar esse sonho maravilhoso que surgira, impetuoso, na noite anterior. Era algo fora de seu alcance, que lhe parecia impossível de acontecer.

   Enquanto esses pensamentos se atropelavam em sua cabeça, ela se manteve calada, olhando-o, e o rosto de Emryss tornou-se triste, sombrio. Interpretara mal o silêncio surpreendido dela.

   - Compreendo que o pedido de casamento de um homem desfigurado, que é perseguido pela própria família, não é gratificante... - murmurou ele, com a voz embargada. - Mas tenho certeza que posso protegê-la.

   - Por que quer se casar comigo? - indagou Roanna, num fio de voz.                                        

   Ele sorriu, amargamente, e respondeu, conseguindo demonstrar uma calma que não sentia:

   - Bem, se não fosse por mais nada, para irritar Gyrinc, roubando-lhe a noiva.

   Ela se aproximou dele, os olhos verdes suplicantes:

   - Por favor, milorde, não pode ser franco? Trata-se de algo muito sério para mim.

   - Como queira, milady -- respondeu ele, corando de leve. - Vou ser franco. - Endireitou o corpo, abrindo um pouco as pernas musculosa e cruzando os braços ao peito. - Todas as outras ladies que encontrei jamais me impressionaram e sempre as vi como uma combinação de falsa fragilidade com forte ambição e puro interesse. Você não choraminga, não sorri estupidamente, nem derrama falsas lágrimas. Neste momento, está enfrentando uma discussão séria, que envolve sua vida, com uma determinação férrea, sem se deixar abater e determinada a resolver a situação de algum jeito.

   Calou-se por instantes, fitando-a com intensidade, depois continuou:

   - Digo-lhe, francamente, que pouco mais posso oferecer além da minha proteção, pois todo dinheiro que tenho e quanto mais conseguir arranjar, pretendo investir na reconstrução de Craig Fawr. Se puder aceitar uma vida simples, sem riquezas, sei que vou ganhar uma tranquila, determinada esposa que sabe manter a cabeça fria e que terá o mesmo interesse que eu em manter nossa propriedade. Satisfeita?

   Roanna baixou os olhos e fixou o chão. Ela pedira que lhe dissesse honestamente seus motivos e ele o fizera. Por que, iludida que era, no fundo da alma esperara que ele dissesse que ia casar-se com ela porque a amava? Teria sido por causa do beijo que haviam trocado? Pois parecia que não tivera a menor importância para ele. Isso significava que o que ela pensava sobre aquele beijo e os sentimentos que tinha despertado nela, também não importavam para Emryss.

   Então, pensando com lógica, o que poderia uma mulher na situação dela fazer, a não ser escolher o mais aceitável e, ao mesmo tempo, mais intolerável marido? Sabia que seria um tormento viver ao seu lado, sabendo que Emryss não a amava. Mas isso era melhor do que viver longe dele...

   - Quero me casar com você - respondeu, baixinho.

   Ele não fez um movimento sequer na direção dela e o que disse a seguir deixou-a perdida, sem saber o que pensar.

   - Roanna, há circunstâncias que farão de mim menos do que um verdadeiro marido, por isso você terá sua independência o quanto for possível. Jamais irei lhe perguntar o que faz e você também não deverá me questionar. Está combinado?

   - Está.

   - Bem, então nos casaremos amanhã. - A voz dele soava estranhamente sem emoção. - Vou falar com Mamaeth e tenho certeza que padre Robelard irá concordar em abençoar nossa união.

   Emryss desapareceu por trás do tabique e, sem forças, Roanna deixou-se cair na cadeira.

  

   - 0'r annwyl! Você é um louco furioso, Emryss! - a voz áspera de Mamaeth ecoou pelo enorme salão vazio.

   O nobre não respondeu e ficou esperando que a velha ama continuasse o violento protesto, dizendo que ele não podia casar-se com uma normanda, principalmente aquela que até poucos dias atrás havia sido a prometida de Cyrinc DeLanyea.

   - Amanhã! Isso é impossível! - Mamaeth olhava para seu filho de criação com ar desafiante, o corpo inteiro tremendo pela indignação contida. - Se o casamento for amanhã, não teremos tempo para fazer o banquete e as roupas que a noiva precisa. Só um homem, essa é a verdade, tomaria uma decisão dessas tão de repente, sem pensar em quanto tempo é preciso para se organizar tudo. E garanto que o senhor, como lorde desta propriedade, iria ser o primeiro a perceber e reclamar se algo fosse esquecido!

   - Então, daqui a dois dias - cedeu o lorde. - Não mais do que isso.

   Assim que terminou de falar, Emryss fitou Mamaeth, esperando uma série de imprecações em galês, mas elas não vieram.

   - Está bem, meu filho... - a velha ama sorriu, maliciosa. - Como homem que é, mostra-se afoito, como todos são, e deixa tudo nas costas das mulheres. Paciência! Em dois dias pode ser que consigamos fazer tudo que for preciso, desde que aquele cozinheiro tolo tire o corpanzil da cama e se digne a nos ajudar na cozinha. - De repente, um amplo sorriso iluminou o rosto moreno e magro. - Estou muito contente com seu noivado, meu filho. Estamos precisando de crianças por aqui e há muitas mulheres piores do que ela soltas neste mundo! - O sorriso tornou-se maior e ela chegou mais perto de Emryss: - E vai ser um grande golpe no orgulho de Cyrinc, não? - Sem esperar resposta, tornou-se muito séria e exclamou, preocupada: - Por todos os santos! Não tenho tempo pára ficar aqui conversando besteiras com você! - E saiu quase correndo pelo enorme salão.

   - Mande Rhys aqui! - gritou Emryss, antes que Mamaeth saísse, batendo a porta com estrondo.

   A sós, ele sentou-se e ficou imóvel, esperando que sua respiração se acalmasse. Estava agitado demais e à-toa, disse a si mesmo. Lembrou-se daquele dia em que o capitão do navio que os levava para a Terra Santa fizera a tripulação enlouquecer, preparando-se para aguentar uma violenta tempestade e, afinal, o que entrara fora apenas um vento sem importância, que mais se assemelhava a uma brisa forte.

   Suspirando, olhou para a escada, lembrandõ-se do momento em que Roanna subira para o quarto, enquanto ele ia "persuadir" o padre Robelard a ficar em Craig Fawr, para abençoar o casamento. Não fora preciso insistir muito, pois o pobre religioso ficara completamente sem ação, terrificado diante do novo impedimento ao matrimónio que deveria realizar-se em Beaufort.

   Roanna sempre se movimentava com extrema graça, como um galho delicado de salgueiro tanto à brisa suave quanto ao vento furioso. Sim, pensou, com um leve sorriso, ela era como o salgueiro: capaz de dobrar-se e muito difícil de quebrar.

   Deus, como ele estava precisando de um pouco de vinho!

   Levantou-se e pôs-se a andar de um lado para outro, com evidente nervosismo. O que realmente ia fazer, casando-se com ela? Nunca poderia ser um verdadeiro marido para Roanna, nem para qualquer outra mulher.

   Gwilym com certeza iria ficar enfurecido quando soubesse o que ele havia feito. Iria dizer que agira de maneira insensata e que, como sempre, deixara que sua impetuosa natureza agisse, impedindo-o de julgar com clareza.

   Para ser franco, o próprio Emryss achava que havia sido uma decisão impulsiva e impensada. Mas a verdade era que a proposta saíra de seus lábios sem o menor esforço, como se a ideia de casar-se com ela tivesse nascido em seu coração desde que a vira pela primeira vez.

   Rhys atendeu imediatamente ao seu chamado, entrando no salão com o simpático rosto redondo aberto em um sorriso.

   - Ah, milorde - disse, antes que o nobre dissesse qualquer coisa -, tenho boas notícias. Chegou o último carregamento de pedras. Já foi descarregado no pátio e trata-se de rochas lindas. Como um dos blocos tinha um defeito pequenino, consegui fazer o preço descer consideravelmente. O homem era teimoso, difícil de barganhar, mas eu insisti e acabei conseguindo. - Só então Rhys reparou no ar preocupado de Emryss e ficou sério. - Problemas, milorde?

   - Não... - respondeu ele, com um sorriso. - Vai haver um casamento aqui.

   - Oh! - Os olhos já redondos do administrador alargaram-se mais. - Quem?

   - Eu.                                                                                    

   - Parabéns, milorde! - balbuciou Rhys, quando conseguiu re-cuperar-se um pouco da surpresa. - Posso perguntar quem é a feliz escolhida?

   - Lady Roanna Westercott.

   O administrador empalideceu, vacilou, pigarreou para limpar a garganta e, por fim, perguntou:

   - Quando o feliz acontecimento terá lugar?

   - Daqui a dois dias. E durante esse tempo, quero que você providencie duzentas peças de prata e vinte peças de ouro.

   Rhys empalideceu ainda mais, embora tal coisa parecesse impossível. Quando faiou, sua voz era um fio:

   - Duzentas peças... - a voz falhou e ele teve que pigarrear de novo. - Mas, milorde...

   - Há algum problema, Rhys?

   - Bem, milorde, eu acabo de gastar... Deixe-me pensar... com o desconto que consegui, cinquenta peças de prata para pagar as pedras. E até que o trigo seja colhido, eu não acho que...

   - Venda isto - ordenou Emryss.

   Retirou o cordão com um saquinho de couro que trazia preso ao pescoço e despejou o conteúdo na mesa.

   O crucifixo incrustado de diamantes rebrilhou sobre a madeira escura, enquanto Rhys o fitava com profundo respeito. Mal conseguiu falar, tão grande era sua emoção e ressentimento:

   - Não posso, milorde... Era de sua querida mãe.

   - Venda isto.

   Cedendo, o administrador pegou o crucifixo, com ma o írêmula:

   - Se assim ordena, milorde...

   - Obrigado, Rhys - foi a única e seca resposta do nobre.

   O administrador abriu a boca para dizer algo, mas pareceu arrepender ~se e se manteve caiado. Voltou as costas ao senhor e dirigiu-se lentamente para a porta do salão, enquanto Emryss pegava o saquinho vazio e o fitava com ar triste e pensativo. Por fim, suspirou e guardou-o no cinto.

  

   Ao voltar da missa, na manhã seguinte, Roanna atravessou o pátio com passo apressado. Todos os operários pararam o trabalho, entreolhando-se, rindo e falando baixinho, mas ela ergueu o queixo e caminhou, altiva, como se os ignorasse.

   O que poderia esperar, afinal, depois que Emryss anunciara o casamento deles, do jeito que o fizera?

   Na noite anterior, depois do jantar, ele se levantara e começara a falar com sua voz sonora. Todos tinham escutado atentos o longo discurso que ele fizera em galês e depois, de repente, enquanto aplaudiam, ele dera a mão a Roanna, fazendo-a levantar-se, e a beijara rapidamente nos lábios. Antes que ela pudesse recuperar-se do choque que lhe causara aquela exibição de afeto em público, homens e mulheres se haviam aproximado, rumorosos, batendo nas costas de Emryss e rindo, alegres. Todas as mulheres a haviam abraçado, dizendo palavras galesas que ela supusera serem de congratulações.

   Mas nem todos se demonstravam felizes e contentes. Principalmente Gwilym, que não se mexeu do lugar em que se encontrava sentado. Não se aproximara deles, não os cumprimentara.

   Roanna esperara que mais gente reagisse do modo que Gwilym reagira. Ela sabia que aquele casamento iria enfurecer Cynric e o pai. Todos ali deveriam preocupar-se com a reação violenta que eles poderiam vir a ter. Mas não. O pessoal mostrava-se encantado com a notícia. Até mesmo Mamaeth sorria, deliciada, olhando para eles.

   Será que aquela gente se achava invulnerável?, pensara ela, preocupada. Quando, pouco depois, sentara-se junto do futuro marido, ela pudera compreender por que todos eles se sentiam tão seguros. Emryss parecia emanar uma aura de invencibilidade e poder que impressionava. Lembrara-se, então, que todas as vezes que o encontrara sentira-se a salvo e protegida ao íado dele.

   No entanto, ela não podia deixar de imaginar os transtornos que aquele casamento poderia desencadear. Tinha a sensação de que Emryss encarava o compromisso nupcial mais como uma aliança do que propriamente como um casamento. Ele não lhe dissera uma só palavra de amor ou afeição.

   Mas, de qualquer maneira, pensara ela, estaria a salvo. E quem sabe, com o tempo, o marido aprenderia a amá-la. Aquilo era, ela o sabia bem, a melhor coisa que uma esposa poderia desejar.

   Não ficara no salão, bebendo cerveja com os outros, preferindo ir para seu solitário quarto. Custara a adormecer, pensando em tudo que acontecera em sua vida, naquele pouco tempo. E quando o sono viera, trouxera consigo sonhos confusos, em que sempre estava presente um homem alto, forte, de quem ela tentava se aproximar, sem conseguir.

   Foi ver como estava Jacques e, em seguida, subiu para seu quarto, tendo a maior surpresa ao entrar. O aposento sóbrio onde Emryss dormia se transformara em um verdadeiro ateliê de costura. Rolos de tecido, enormes carretéis de linha, agulhas e tesouras achavam-se espalhados por todo lado, inclusive sobre a cama, que fora empurrada até encostar numa das paredes. Haviam tirado os lençóis e o colchão, a fim das costureiras poderem trabalhar sobre o estrado de madeira lisa. Até mesmo a arca, que antes continha as roupas do lorde, en-contrava-se aberta e vazia.

   Nem bem ela chegou, parando aturdida, um grupo de mulheres a rodeou, pedindo desculpas, e passou a girar alegremente a seu redor, tirando medidas. Roanna, sem saber o que fazer, deixou que agissem. Os rostos desfilavam, sorridentes, diante dela e achava que já vira a maior parte daquelas mulheres, mas não sabia o nome de nenhuma.

   Por fim, viu Bronwyn entrando no quarto, com um rolo de linho alvo. Chamou-a e a moça se aproximou, com um sorriso no rosto bonito.

   - Milady, tire o vestido, por favor - pediu a criada.

   - Mas, Bronwyn...

   Mamaeth surgiu do meio daquela atordoante algazarra de mulheres, determinada a pôr ordem na confusão.

   - Vamos, vamos, deixem de conversa, gansas bobas! Ao trabalho, vamos! - disse ela e todas trataram de se calar. Examinou Roanna de alto a baixo e indagou, sem tirar os vivos olhinhos negros dela: - Bronwyn, por que ainda não tirou o vestido de milady? Não se pode tirar as medidas direito por cima de toda essa roupa velha.

   Roanna compreendeu de imediato que não adiantava discutir com a decidida mulher. Apesar de relutante, ela mesma tirou o vestido, passando-o pela cabeça. Irrompeu uma série de risadinhas e cochichos, em galês, entre as mulheres. Mamaeth, com as mãos na cintura, voltou-se e as encarou, sem dizer uma palavra. Os risos e cochichos morreram no mesmo instante.

   - Queira perdoar essas tolas, milady - disse a velha ama, com sua voz vibrante. - Elas não têm modos.

   Voltou a falar asperamente, em galês, com as mulheres e Roanna ficou triste por ter sido a causa da reprimenda que Mamaeth lhes passava.

   - Agora, chega de fazer comentários a respeito dela! - esbravejava a velha ama. - Vocês todas estão vendo que os quadris de milady são bons para ter filhos. Os seios podem estar pequenos, mas esperem só para ver depois que ela se alimentar direito por alguns dias. Vão ficar o suficientemente grandes... Agora, aquietem-se e vamos ao trabalho. - Ela hesitou, por um momento. - Escutem... - sorriu, sugestiva, - façam com que os vestidos mostrem o melhor dela. A honra do lorde de Graig Fawr é importante.

   Dali por diante, todas se entregaram febrilmente ao trabalho. A certo momento, Roanna notou que Bronwyn olhava, pensativa, uma peça de macia lã azul. Teve um ideia e pegou a criada pela mão, afastando-a das demais, apesar de todas protestarem.

   - Bronwyn - disse-lhe, determinada, apontando o bonito tecido -, quero que você fique com essa lã.

   - Oh, milady, não posso! - recusou a moça, apesar dos olhos negros brilharem, esperançosos. - O que milorde iria dizer, se soubesse que fiquei com ela?

   - Eu estraguei um dos seus vestidos e este é um jeito de substituí-lo. Quem sabe você consegue fazer um vestido novo, para o meu casamento, com essa lã... Eu ficaria muito feliz se aceitasse esse pequeno presente, com meus agradecimentos.

   Bronwyn ficou olhando para Roanna, em dúvida, depois voltou os olhos para Mamaeth, que observava a cena e disse:

   - É um tecido muito fino e bom. Uma mulher ficou muitas horas no tear para fiá-lo...

   - Quero que você o aceite, Bronwyn - insistiu Roanna, fitando os olhos negros da criada. - Você vai ficar linda nessa cor e tenho certeza de que todos irão notar sua beleza.

   Aquele argumento era o mais eficiente que ela poderia ter usado. Bronwyn assentiu, muito vermelha, sem jeito, e pegou a peça de lã, alisando-a, maravilhada.

   Roanna olhou para Mamaeth, esperando que ela fizesse algum comentário, no entanto, ela apenas ordenou:

   - Voltem todas ao trabalho!

   As mulheres se mantiveram caladas, até que Roanna voltou para o meio do quarto. Aos poucos, voltaram a conversar e a sorrir, enquanto cortavam tecido, costuravam, experimentavam cada peça alinhavada, armando e deixando de lado as mangas, o corpinho dos vestidos que faziam com entusiasmo. Roanna mal tinha tempo de sentar-se, depois de experimentar uma peça, pois logo outra costureira se aproximava, para fazer verificações e ajustar uma ou outra parte quase terminada.

   Quando, afinal, ela teve chance de perguntar sobre as roupas de cama que se encontravam na cómoda e haviam sumido, arrependeu-se por tê-lo feito.

   - Vamos preparar lençóis, colchas e cobertores novos, maiores, que agasalhem bem duas pessoas - respondeu Mamaeth. Depois acrescentou, com um sorriso e olhar maliciosos: - Na verdade, isso será inútil, porque vai acabar tudo caindo no chão, mesmo!

   Bronwyn riu com gosto, enquanto Roanna pegava uma peça de roupa semicosturada e passou a trabalhar nela. Tinha de concentrar-se em alguma coisa, a fim de parar de pensar. Costurar iria distraí-la, pelo menos era o que esperava.

   De repente, Bronwyn fez um comentário em galês que provocou risos em todas as mulheres. Mamaeth exclamou, em normando, com fingido horror:

   - Oh, vocês são umas criaturas terríveis! É claro que ele irá deixá-la descansar um pouco, na primeira noite!

   Vermelha, Roanna abaixou mais o rosto para a costura que tinha nas mãos, tentando ocultar o embaraço e o alarme. Aquelas mulheres achavam que ela sabia o que ia acontecer na noite de núpcias. No entanto, órfã desde os nove anos, vivendo só com o tio e seus criados, ela não tivera quem a orientasse e ignorava quase por completo o que a esperava.

   As únicas informações que tinha a respeito do que acontecia entre um homem e uma mulher, numa cama, eram as que haviam transpirado das conversas entre as criadas, no castelo de seu tio.

   Infelizmente, essas informações eram confusas. Pelo que ouvira, tratava-se de uma experiência agradável e se tornava melhor ainda se o casal estivesse nu, se bem que uma das criadas, a mais assanhada delas, tivesse afirmado que as roupas não eram empecilho; ao contrário, adicionavam uma excitação a mais.

   Era claro, pensara Roanna então, que aquela criadinha havia passado pela experiência várias vezes, em vários lugares e com vários homens.

   As mulheres conversavam no seu musical galês, as palavras acompanhando o ritmo das agulhas, trabalhando rápidas e seguras de si, enquanto Roanna, afogueada, descobria que se tornara desajeitada, ela que costurava tão bem. Talvez isso acontecesse porque o quarto se encontrava muito cheio de gente e abafado demais.

   Houve uma outra onda de risos entre as mulheres e Roanna olhou para Mamaeth, à espera de explicação.

   - Essas mulheres deveriam sentir vergonha, milady! - exclamou a velha ama, que não se encontrava nem um pouco envergonhada. Ao contrário, divertia-se com a situação. - Imagine, estão tentando adivinhar o que ele irá fazer primeiro...

   - Bem, Mamaeth - disse Roanna, procurando manter a voz normal. - O que elas acham que ele irá fazer primeiro?

   As mulheres pararam suas atividades, imobilizando-se, umas com as agulhas no ar ou no pano, outra com as tesouras no tecido, a fim de prestar atenção na conversa realizada em normando. Precisavam fazer certo esforço para entender. Mamaeth ergueu as sobrancelhas e fitou a lady, em silêncio, por alguns momentos. Depois, disse com tranquilidade:

   - É melhor que esteja avisada, lady Roanna. Ele sempre foi um menino impaciente, impetuoso.

   - Devo concluir então, Mamaeth, que se for com calma será melhor? - indagou a lady.

   Uma a uma, as mulheres começaram a sorrir.

   Roanna sentiu o rosto queimar de vergonha quando percebeu que a maioria delas entendia o normando. Em seguida, percebeu que a vergonha desaparecia e deixava uma profunda satisfação em seu lugar: era maravilhoso poder juntar-se àquelas mulheres, aos risos e sentimentos delas. Era uma alegria saber que elas a entendiam e que poderia entendê-las. Pela primeira vez deixou de sentir-se uma estranha.

   Durante o resto do dia, as horas passaram rápidas e ela divertiu-se imensamente. Com o correr do tempo, as mulheres conversavam entre si e com ela cada vez mais livres, num normando inseguro, mas inteligível.

   Mas à noite, durante o jantar, de repente ela sentiu-se de novo brutalmente arrancada daquele mundo.

   Encontrava-se há algum tempo sentada ao lado de Emryss, na grande mesa principal, sem que se dissessem nada. Afinal, ela lhe perguntou por que a gente dele aprendera a falar normando tão bem.

   - Para conhecer seus inimigos - respondeu ele, com brusquidão. Depois disso, ela se manteve em silêncio e comeu com menos apetite do que tivera até então. Assim que terminaram o último prato, pediu licença, retirou-se da mesa e saiu do salão, para ir visitar Jacques.

   Ele parecia estar muito melhor e sentou-se, com agilidade, quando ela se aproximou.

   - Ah, minha querida lady! - exclamou ele, os olhos brilhantes de emoção. - Como estou feliz em saber que a vai se casar com alguém que a merece!

   Roanna sorriu desejando, também, sentir-se completamente feliz e não cheia de dúvidas, como se encontrava.

   - O que há, querida menina? - voltou a falar o cozinheiro, prestando atenção no ar triste dela. - Por que não está cantando e dançando de alegria? Este DeLanyea é um bom homem.

   Roanna baixou os olhos para as mãos, unidas em seu colo, e sentiu que corava. Clareou a garganta, antes de falar:

   - Eu... Eu não tenho certeza se esta é a coisa certa a fazer, Jacques.

   Calou-se, insegura. Tinha muita vontade de contar-lhe tudo que sentia, mas não sabia como fazê-lo. Era difícil pôr em palavras seus pensamentos mais íntimos, mesmo para o dedicado Jacques.

   Respirou fundo è olhou, pensativa, para o amigo. Enfim, pergun-tou-lhe:

   - Você acha certo colocar esta gente em perigo, fazê-la arriscar-se a sofrer com a ira do barão DeLanyea? Lorde Emryss afirma que o barão pouco poderá fazer... e eu gostaria de ter tanta certeza quanto ele.

   Jacques inclinou-se e pegou as pequenas mãos de Roanna, que sumiram entre as deles, enormes e no entanto tão gentis.

   - Lady Roanna, sua vida nunca foi feliz. Agora, tenho certeza de que a felicidade se encontra ao seu alcance. - Apertou-lhe as mãos, com entusiasmo. - Agarre-se à felicidade, não a deixe fugir!

   Roanna gostaria tanto de poder acreditar em Jacques! Desejava que seu casamento afetasse apenas a ela e ao homem com quem ia se casar, que não trouxesse ameaças sobre uma propriedade que abrigava tanta gente. Não se conformaria se algo de ruim viesse a acontecer para pessoas que a tinham recebido tão bem, que não mereciam sofrer violências.

   O cozinheiro soltou as mãos dela e reclinou-se de novo no travesseiro.

   - Por favor, deixe-nos ser felizes, lady Roanna - pediu, com um suspiro. - Tenho certeza de que o seremos, se ficarmos aqui e a senhorita se casar com lorde Emryss.

   Vendo como seu amigo tinha tanta certeza, ela resolveu nada lhe dizer sobre suas dúvidas e preocupações.

   Animado, ele passou a discorrer sobre as numerosas delícias que pretendia preparar para a festa de casamento até que, cansada de passar o dia inteiro falando e ouvindo falar nesse assunto, ela desculpou-se e ergueu-se para se retirar.

   Jacques deu uns tapinhas delicados na mão dela, sorrindo e dizendo, animado:

   - Não tenha medo, milady. Confie nele.

   Roanna assentiu. Atravessou o pátio com passo rápido e entrou no salão, no qual ainda se achava boa parte dos homens. Era evidente, eles continuavam a erguer brindes ao noivo. Caminhando quase colada à parede, ela conseguiu chegar na escada sem que a vissem.

   Mesmo dentro do quarto, continuava a ouvir as fortes, ribombantes vozes dos homens lá embaixo. Pouco depois, eles começaram a cantar, com a maior animação.

   Não vou conseguir dormir esta noite, pensou ela, Jembrando-se dos gracejos das mulheres. Os homens agiam como elas, só que eram menos inibidos e muito mais barulhentos. Além disso, não tinham Mamaeth para contê-los.

   A cama havia sido recolocada em seu lugar e arrumada com os lençóis e cobertas velhos. Depois de tirar o vestido, ela deitou-se e cobriu-se até a cabeça.

   Se ficasse com a cabeça descoberta, iria tentar perceber a voz de Emryss entre as demais. Mesmo assim, de olhos fechados, a imagem dele surgia-lhe na mente, o torso nu e suado, como quando o vira treinando espada.

   Adormeceu pensando nele, como vinha fazendo nos últimos dias.

  

   Roanna acordou, no dia de seu casamento, quando os primeiros albores da madrugada começaram a colorir o céu. Saltou da cama e, enrolando-se em uma manta, foi até a janela e ficou olhando o sol nascer.

   Quantas vezes, desde que seus pais tinham morrido, ela ficara junto a uma janela, olhando o sol nascer, com os olhos marejados de lágrimas? Sentia-se tão só, tão ignorada, e encontrava algum conforto em pensar que o sol nascia para ela, a fim de aquecê-la, e que as cores maravilhosas que ele colocava no céu ao surgir eram dedicadas a ela, para tornar sua vida mais bonita e menos infeliz.

   Emryss era como o sol. Brilhante e quente, ele mergulhara em uma longa noite, quando fora para a Terra Santa, mas voltara a nascer e a brilhar sobre a sua terra e para as pessoas que amava.

   O que o pai dela pensaria dele, se o tivesse conhecido? Admiraria suas proezas como guerreiro, sem dúvida alguma. E ficaria impressionado com sua profunda e determinada vontade de viver. "Observe bem os homens que têm cicatrizes", ele lhe dissera várias vezes, "e tome cuidado com eles. Suas marcas são testemunhas de que eles jamais aceitam a derrota."

   E além disso, o que mais ele pensaria de Emryss? Com certeza, pensava Roanna, não admiraria a habilidade dele em tocar harpa e cantar, pois acharia esses dons inúteis em um lorde e guerreiro. E caso seu pai decidisse declarar honestamente o que pensava, diria que não aprovava o modo como ele tratava e era tratado por seus homens. Consideraria que tanta intimidade o enfraqueceria diante dos homens, fazendo com que o respeitassem menos.

   Mas isso acontecia? Outrora teria concordado com o pai, que um homem que brincasse e risse com seus homens jamais seria um líder poderoso. Agora, compreendera que não era bem assim. A gente de Emryss o amava e ele preocupava-se com todos que dependiam de suas decisões. Essa não era uma parte do que se chamava respeito? Aliás, não era a melhor parte do respeito?

   Olhou para baixo, para o vale ainda meio encoberto pela bruma, onde havia pontos que o sol ainda não tocara com sua maravilhosa e antiga mágica. Começava-se a divisar retalhos de verde e manchas douradas dos campos de trigo, aqui e ali.

   Era uma terra muito bonita. Era o lar dele e Roanna começava a compreender por que Emryss amava tanto essa terra.

   Voltou-se, de repente, ao ouvir uma série de rápidas batidas na porta. Mamaeth entrou, seguida por Bronwyn que trazia uma grande tina. Várias mulheres entraram atrás delas, carregando baldes enormes.

   - Vamos ter um dia bonito - declarou Mamaeth. - O velho Daffyd disse que não vai chover e ele jamais errou uma previsão de tempo em vinte anos.

   Primeiro, Roanna tomou um banho perfumado, durante o qual seus cabelos foram lavados com essências de ervas cheirosas. Depois de enxuta, Mamaeth passou-lhe no corpo um óleo com deliciosa fragrância, enquanto Bronwyn escovava seus cabelos, até que ficassem macios como seda. Vestiram-lhe, então, uma camisa de linho tão fino que chegava a ser transparente. Em seguida, fizeram-na pôr uma simples túnica branca, de um tecido que Roanna jamais vira e que foi como uma deliciosa e leve carícia em sua pele. A túnica descia-lhe pelo corpo ajustando-se suavemente a ele, valorizando cada curva com delicadeza.

   - Seda - explicou Mamaeth, quando Roanna mostrou-se admirada com a suavidade e brilho daquela fazenda. - Emryss comprou-a no Oriente, para trazer de presente para a mãe dele. Disse-me que deveria ser usada no seu enxoval de noiva.

   Roanna passou as mãos pelo tecido, enquanto Bronwyn se aproximava com um magnífico vestido de finíssima lá branca, da Borgonha. O decote redondo e os punhos largos eram rematados por fina fita dourada.

   Mamaeth e Bronwyn colocaram o vestido em Roanna, passando-o por sua cabeça; enquanto a jovem criada ajeitava a saia ampla, Mamaeth abotoava o corpinho justo e longo, que tornava a silhueta ainda mais delicada, modelando a curva dos seios e dos quadris com perfeição. O decote não era baixo o bastante para ser considerado ousado, nem alto a ponto de ser considerado modesto demais.

   Bronwyn pegou mais uma quantidade de fitinhas douradas e tran-çou-as, juntamente com os longos e negros cabelos de Roanna. A trança, grossa e luzidia, foi colocada sobre um dos ombros, chegando logo abaixo do seio. Afinal, Mamaeth trouxe um largo e macio cinto de couro, que tinha uma grande rodela adornada por anéis dourados. Colocou-o na delicada cintura, fechou-o atrás, deu a volta em Roanna e recuou alguns passos, a fim de admirá-la.

   - Você é mesmo uma beleza, sem dúvida - murmurou, encantada.

   Roanna sentiu-se lisonjeada com as palavras simples da velha ama. Bronwyn não disse nada mas, com um sorriso, ergueu ura dos baldes de cobre polido que haviam sido usados para carregar água quente para o banho.

   - Não é muito bom - falou, com meiguice -, mas a senhorita poderá ver-se nele.

   A jovem lady olhou a figura distorcida que a fitava, refletida na superfície brilhante. Seus cabelos negros brilhavam, suas faces es-lavam coloridas por suave rubor e o vestido era lindo. Mas e ela? Nunca fora bonita e Mamaeth fora muito bondosa dizendo que era.

   A velha ama olhou para a janela.

   - Vamos deixá-la. Precisamos nos vestir, também. Ainda não é meio-dia, mas o tempo passa depressa...

   As duas mulheres saíram.  

   Meio-dia. Era a hora em que deveriam sair para dirigir-se à capela.

   Não querendo sentar-se, com medo de amarrotar o vestido, Roanna foi para a janela. Ninguém se encontrava trabalhando na muralha: lodos deviam estar se preparando para ir assistir ao casamento.

   Apurou os ouvidos e percebeu o vozeirão de Jacques ecoando ua cozinha. Sorriu, emocionada. O bom homem devia estar felicíssimo, dando os últimos retoques no banquete, e devia estar aterrorizando os ajudantes de cozinha.

   Então, ouviu um outro som, de cascos de cavalos, e olhou para a estrada que ia dar no portão da fortaleza.

   Dois cavaleiros entravam nesse momento, usando armaduras sob os imensos mantos negros que cobriam parte do lombo dos cavalos.

   - Com licença, milady...

   Roanna voltou-se para ver Bronwyn parada à porta, usando o novo vestido azul. A moça devia ter passado a noite costurando, mas seus esforço valera a pena.

   - Pois não, Bronwyn? O que é?

   A moça agitou as mãos, atrapalhada, e seu sorriso era tímido.

   - Tudo já está... A senhorita já... Quero dizer, Mamaeth mandou-me ver se a senhorita está pronta para a cerimónia.

   - Estou, sim. Seu vestido está maravilhoso!

   Em vez de se acalmar, Bronwyn pareceu ficar ainda mais nervosa.

   - O que foi? - perguntou Roanna, baixinho.

   - Nada, milady... - respondeu Bronwyn, depressa demais.

   Intrigada, Roanna teve certeza de que algo errado estava se passando lá embaixo. Aproximou-se da porta e passou pela criada. Apressou-se pelo corredor, desceu a escada, atravessou o salão quase correndo e saiu.

   Cynric DeLanyea e Urien Fitzroy encontravam-se, ainda montados, no meio do pátio. Quando a viu, os lábios do lorde se curvaram num sorriso maldoso.

   - Como está linda, milady! - disse, enquanto desmontava. - Parece que o ar de Gales lhe faz muito bem.

   A novidade havia corrido e as pessoas começavam a juntar-se ao redor dos cavaleiros recém-chegados. De repente, a porta do alojamento se abriu com estrondo e Emryss surgiu.

   Vestia uma elegante túnica de lã branca, com debrum dourado, que chegava até os altos canos das botas negras. Por baixo da túnica, trazia uma camisa de seda pura, branca. Ele se aproximou até poucos passos de Cyrinc e cruzou os braços, deixando a maior parte do peso descansar casualmente sobre a perna direita, como costumava fazer.

   - O que quer? - perguntou, a voz sonora rompendo o pesado silêncio.

   Cynric sorriu de novo para Roanna, depois voltou-se para Emryss:

   - Achei que devia vir informá-lo, meu caro primo, de que seu tio está muito mal e que provavelmente morrerá.

   Roanna sabia que Cynric não gostava do pai, mas a voz fria e indiferente com que falara a fez estremecer.

   - Obrigado,primo - respondeu Emryss, sua ironia tão profunda quanto a do outro. - Agora, saia das minhas terras.

   - Ora, ora, ora... Não é esse o modo de tratar um parente que vem trazer notícias tristes. Vê, milady - acrescentou, voltando-se para Roanna -, como são bárbaros os galeses?

   Ela nada disse, mantendo a duras penas uma expressão indiferente no rosto pálido.

   Cyrinc aproximou-se dela:

   - Se o tio da senhorita a vestisse direito, como deveria, eu jamais teria dito aquelas coisas indelicadas, e agora vejo que injustas, que disse quando nos conhecemos. Poderá perdoar-me por só ter visto as roupas miseráveis e não a maravilhosa mulher que elas escondiam?

   Emryss riu zombeteiramente.

   - Está perdendo o bonito palavreado, primo - disse, com frieza -, agindo como um galanteador com minha esposa.

   - Esposa!?

   Cynric voltou-se para encarar o primo. Por um instante, o retesamento de seus ombros traiu a raiva que o tomava, mas quando ele se voltou para Roanna havia apenas pesar em seu rosto.

   - Quem dizer que eu cheguei tarde demais? - perguntou.

   A expressão dura que se refletiu no rosto bonito de Emryss chocou Roanna quase mais do que as palavras dele:

   - Ainda não nos casamos.

   Os olhos azuis de Cynric tornaram-se astutos:

   - Roanna - começou e sua voz era suave, quase submissa -, Eu... Eu agi muito mal. Sinto muito e peço-lhe, humildemente, que volte para Beaufort. - Aproximou-se mais e pegou uma das mãos geladas da jovem lady. - Tudo que houve pode ser esquecido e nós devemos nos casar, como foi planejado. É o que desejo, de todo coração.

   Emryss aproximou-se e retirou a mão de Roanna dentre as de Cynric, segurando-a com força. Ela libertou a mão, que ele não insistiu em reter, e deu um passo atrás. Os dois homens fitaram-se, o ódio flamejando em seus olhos por longos momentos. Por fim, Emryss fitou-a e disse, com voz áspera:

   - E livre para fazer o que quiser, Roanna. Para ir ou ficar. A escolha é sua.

   Manteve-se imóvel, as pernas musculosas ligeiramente separadas, os braços cruzados, desafiante como se pouco lhe importasse qual dos homens ela escolheria.

   Cynric ergueu as mãos, suplicante:

   - Por favor, Roanna, rogo-lhe que me dê outra oportunidade!

  

   Roanna acreditaria tanto nas palavras de Cynric como nas de uma víbora, se esse animal falasse. Sem dispensar mais um olhar sequer ao cínico homem, em silêncio, aproximou-se de Emryss, deu-lhe a mão e sorriu para ele.

   Assim que o tocou, sentiu uma onda de emoção invadi-la e teve absoluta certeza de que ele se importava muito com ela, por mais frio que parecesse. Então, voltou-se para Cynric DeLanyea, os olhos verdes cheios de desprezo, e disse, em voz baixa mas bem clara:

   - Saia de nossas terras.

   - Espero, minha querida, que não venha a se arrepender do que está fazendo - rugiu Cynric, o rosto bonito retorcido pela raiva.

   Montou, rápido, e passou pelo portão a galope, seguido por Fitzroy.

   Ela olhou para Emryss, esperando ver algum sinal de emoção no rosto dele. Insperadamente, o lorde abraçou-a, apertando-a contra o peito forte.

   - Eu te amo, Roanna - sussurrou, apaixonado.

   - Por Maria, José e todos os santos do paraíso, não há tempo para vocês dois ficarem com essas bobagens! - gritou Mamaeth, de súbito. - Há um casamento a se realizar!

   A tais palavras, todos começaram a se movimentar para o portão. Emryss pegou uma das mãos de Roanna, apertou-a com calor e a depositou sobre seu braço, encaminhando-se imediatamente para a pequena capela de madeira. Ela precisava quase correr, para acompanhar-lhe os largos e determinados passos.

   Depois de alguns torturantes minutos daquele esforço, de repente, Roanna parou, enquanto ele a puxava, segurando-lhe a mão que pousava em seu braço.

   - Não quero ser arrastada como um burro teimoso para meu próprio casamento! - exclamou ela, batendo um pé no chão.

   Emryss parou, fitou-a, suas sobrancelhas ergueram-se, demonstrando surpresa. Ele não tinha reparado que caminhava depressa demais e que estava quase arrastando sua noiva.

   - Twt eigywilydd! Que vergonha, menino! - repreendeu-o Mamaeth, em voz que não podia ser ouvida pela pequena multidão que os seguia. - Não corra desse jeito para a capela! Ah, mas devo reconhecer que todas as mulheres gostariam de ter um noivo assim apressado...

   Roanna sentiu que corava violentamente. Relanceou os olhos por Emryss e notou que ele tentava aparentar calma e dignidade, mas não com muito sucesso. No entanto, quando ele lhe deu o braço novamente e voltaram a caminhar, seus passos eram um pouco menores e menos rápidos.

   Padre Robelard encontrava-se de pé, junto aos degraus que levavam ao altar. Era evidente o nervosismo com que aguardava os noivos. Quando eles entraram, o religioso assentiu de modo quase imperceptível. O coração de Roanna apertou-se por ele, pois era evidente que o pobre homem preferiria estar em qualquer outro lugar, bem longe dali. Ela gostaria de ter certeza que ele não viria a sofrer qualquer represália por abençoar sua união.

   - Lady Roanna Westercott - começou padre Robelard, pouco depois, fazendo um nó no cordão da cintura, naquele seu movimento nervoso -, antes de dar início à cerimônia é meu dever perguntar-lhe se é por sua livre e espontânea vontade que vai unir-se a este homem pelo resto de sua vida.

   - Sim.

   Padre Robelard anuiu e voltou a falar:

   - Lorde Emryss DeLanyea, o senhor jura tomar esta mulher por esposa, protegê-la e honrá-la, nos bons e nos maus momentos, e permanecer a seu lado até que a morte os separe?

   - Sim, eu juro.

   Emryss pegou uma argola de ouro e segurou a mão esquerda de Roanna. Colocou-a ao redor da ponta do dedo anular e esperou que 0 padre começasse a dizer:

   - Em nome do Padre...

   Ele movimentou a aliança até passar a primeira junta.

   - ... do Filho...

   Desceu a aliança até a segunda junta.

   Padre Robelard parecia prestes a desfalecer quando murmurou as palavras finais:

   - ... e do Espírito Santo, eu os declaro marido e mulher.

   O lorde desceu a aliança até o fim do dedo e murmurou à Roanna, a intensidade de seu olhar fazendo-a vibrar de antecipação:

   - Devemos nos beijar, milady...

   Dessa vez, o beijo que trocaram foi casto e ela precisou lembrar a si mesma que havia uma porção de gente olhando. Um murmúrio de decepcionada reprovação ergueu-se dos assistentes. Com um sorriso quase tímido, Emryss fez um gesto para sua gente, como se pedisse desculpa, então abraçou a esposa, apertando-a contra si, as mãos quase circulando a fina cintura e dessa vez seus lábios apoderaram-se dos dela com maior entusiasmo.

   - Você chama isso de beijo? - gritou um dos homens do lorde, zombeteiro, quando o casal separou-se.

   Aturdida de tanta felicidade, Roanna decidiu aceitar o desafio. Colocando as mãos nos poderosos ombros dele, ela o beijou com toda paixão de que era capaz, com um atrevimento do qual nunca se julgara capaz.

   O olhar de Emryss tornou-se vago por alguns instantes, depois a pálpebra desceu, ocultando-o, quando a língua dela procurou, hesitante e inexperiente, a morna maciez de sua boca.

   - Eles terão um filho na primavera que vem!

   A voz alegremente áspera de Mamaeth trouxe Roanna de volta à realidade. Os assistentes gritavam e riam, cheios de entusiasmo, depois todos se aquietaram ao ver que a missa ia começar.

   Ajoelhada ao lado de Emryss, que se mantinha de pé, Roanna conservava as costas retas e procurava não tirar os olhos do altar. No entanto, de vez em quando eles se desviavam, atraídos pelo homem ao lado dela. Seu marido. Ele parecia tão diferente nas roupas elegantes. Mais imponente. Mais senhoril. Mais distante.

   O padre Robelard ergueu a hóstia, mas antes que a desse a Emryss, ele balançou a cabeça, recusando. O padre parou, confuso, e depois, claramente chocado, ofereceu-a à Roanna, que comungou, contrita.

   Depois da cerimônia, todos saíram da capela e começaram a subir a colina, em direção da fortaleza, dando vivas aos noivos, parando-os para cumprimentá-los e desejar-lhes um futuro cheio de felicidade.

   Roanna notou várias vezes que diferentes pessoas faziam referências ao amobr dela e riam-se, meio às escondidas. Ficou curiosa em saber do que se tratava, imaginando se não seria algo que se referia a dinheiro, dote ou algo parecido. Em qualquer outra ocasião, ela nada teria perguntado, mas caminhando colina acima, rodeada de gente alegre, feliz e amigável, tornou-se audaciosa.

   - Emryss - começou e quando ele se voltou, com aquele sorriso maravilhoso, ela quase esqueceu o que ia perguntar, - o que é amobrl.

   Para grande surpresa dela, Emryss corou violentamente e depois respondeu, de modo muito vago:

   - Bem, Roanna... é... é uma espécie de prêmio que dão à noiva.

   - Pela virgindade dela - disse logo Mamaeth, com sua franqueza áspera. - Em geral é um prêmio muito generoso.

   Roanna enrubesceu até nas solas dos pés e procurou aparentar naturalidade, como se falasse em sua virgindade todos os dias.

   Quando chegaram ao salão, tudo estava pronto. Os candelabros tinham sido polidos e brilhavam, havendo muitos outros, novos, munidos de velas com pavio de junco, que cheiravam gostosamente a ervas. Várias mesas haviam sido acrescentadas às que já havia no salão e todas encontravam-se cobertas por toalhas brancas e enfeitadas com guirlandas de flores.

   Emryss pegou Roanna pela mão e levou-a para a mesa principal, que se encontrava no fundo do salão, sobre uma plataforma, de maneira a ficar bem mais alta do que as outras. Quando os dedos longos seguraram os seus, ela sentiu-se invadida por seu calor e força. Procurou não tremer ao toque dele, mas não pôde controlar essa reação, assim como não podia impedir que seu sangue corresse mais rápido e que o coração batesse mais depressa.

   Quando chegaram aos seus lugares, Emryss ergueu a mão, pedindo silêncio. Começou a falar em galês. Uma vez que não podia entender o que ele dizia, Roanna passou a observar o salão. Jacques, terminado seu trabalho, encontrava-se de pé, junto ao seu lugar, num canto da plataforma sobre a qual estava a mesa dos noivos. Ela ficou feliz ao ver que ele fora colocado ali, pois tratava-se de uma honra que todos os cozinheiros almejavam. Padre Robelard achava-se ao lado dele, parecendo assustado e com medo de cair do alto estrado. Havia feito tantos nós no cordão de seu hábito que Roanna duvidava que conseguisse desatá-los.

   Mamaeth, ardorosa como um cavaleiro preparando-se para a batalha, encontrava-se de sentinela à entrada do corredor que dava para a cozinha. Seus olhinhos, brilhantes como contas negras, estavam atentos, vigiando a tudo e a todos.

   Bronwyn se localizara logo atrás de Mamaeth. O vestido novo valorizava o corpo bem feito, voluptuoso, suas faces mostravam-se vermelhas, como que afogueadas pelo calor da cozinha. Roanna ficou contente: a moça estava lindíssima e se Gwilym não reparasse nela naquela noite, não iria reparar nunca mais.

   Todos os presentes, inclusive o pequeno Hu, de pé junto do seu lugar em uma mesa um pouco mais distante, ouviam atentos o discurso de Emryss. Ela abafou um suspiro, dizendo a si mesma que era normal ele falar com sua gente na língua deles, se bem que não tivesse a menor idéia do que o marido dizia.

   Seu olhar percorreu as feições de Emryss, agora tão familiares e queridas para ela. De pé ali, no salão, ele se mostrava descontraído e parecia-lhe mais o homem que conhecia do que quando se encontravam na capela, durante o casamento.

   Observou-lhe os lábios bem feitos, cheios, enquanto ele falava o lírico e sonoro galês. Incrível pensar que quando aquela boca colava-se à dela d espertava-lhe um prazer intenso, indescritível. Roanna repreendeu a si mesma e olhou para as mãos juntas no colo, tentando não imaginar o que mais os lábios dele poderiam fazer.

   Por fim, Emryss ergueu seu cálice de vinho:

   - Cymru am byth! - exclamou, encerrando o discurso, e bebeu. Todos brindaram com ele, sentaram-se, e o marido inclinou-se para ela, dizendo:

   - Gales para sempre, Roanna! Agora você pertence a esta terra, também.

   Rhys pôs-se de pé, erguendo seu cálice:

   - Riqueza, vida longa e um herdeiro para lorde DeLanyea de Craig Fawr!

   A resposta dele, em galês, e o olhar que deu à noiva, fez todo mundo rir, enquanto Roanna sentia-se pouco à vontade. Ela não gostava de saber que faziam gracejos a respeito do que iria acontecer mais tarde e começava a se afligir por ver Emryss e os demais rirem de coisas que não entendia.

   Apareceram criadas com enormes travessas de metal e começaram a servir o banquete, colocando-as sobre as mesas. Todos os pratos mostravam-se lindos, pareciam estar deliciosos, e ela reconheceu o toque especial de Jacques em muitos deles. Mas não conseguia comer. Esforçou-se por engolir alguns pequenos bocados e parecia que cada vez que decidia estender a mão para servir-se de algo na travessa à frente deles, Emryss também resolvia pegar algo. Então, de vez em quando sua mãos tocavam-se, sem querer, e ela tremia. Numa das vezes tremeu tão violentamente que derramou um pouco de vinho sobre a mesa.

   Por mais que se zangasse consigo mesma, chamando-se de criança tola, Roanna não conseguia olhar diretamente para Emryss.

   Pelo jeito, ele não tinha qualquer desses problemas. Ria e brincava com Gwilym, que se encontrava sentado à esquerda do irmão de criação e amigo, mas falava pouquíssimo. Dava impressão de que entre toda aquela gente, Gwilym era o único a compreender o quanto 0 casamento do lorde era perigoso para Craig Fawr e sua gente. Sentindo um estranho frio envolver-lhe o peito ao pensar nisso, Roanna desejou que o temor dele não viesse a prejudicar sua felicidade com Emryss. E se um dia fosse preciso, estava determinada a provar ao dedicado guerreiro que era uma aliada.

O banquete estendeu-se, festivo, barulhento, pela tarde inteira e o bolo da noiva foi servido ao crepúsculo. Roanna não conseguia acreditar em tudo que fora consumido e não pôde deixar de pensar, preocupada, nos longos e gelados meses do inverno. Não deveriam ter feito tanto desperdício numa festa!

   De repente, ela percebeu que Gwilym falava com Bronwyn e prestou atenção nos dois. O rapaz olhava para a linda moça, que enrubescera, como se fosse a primeira vez que a visse.

   - Eu começava a pensar que você estava doente - disse Emryss, em voz baixa, fazendo Roanna estremecer e fixar de novo os olhos na mesa. - Será que essa toalha é tão fascinante que não consegue desviar o olhar dela?

   Roanna fez que não, com a cabeça. Se falasse, tinha certeza que sua voz iria tremer.

   - Bonito, o vestido novo de Bronwyn - continuou ele, pois notara que ela observava o jovem casal. - Mamaefh me disse que você deu aquela bonita lã azul para ela.

   Roanna assentiu, com um aceno, de novo com a cabeça, os lábios cerrados.

   - Meu Deus, mulher! Eu sabia que você era calada, mas será que me casei com uma muda?

   - Não, milorde.

   - Ainda bem... - Ele riu, com suavidade. - Precisamos tomar muito cuidado com eles, Roanna, pois parece que vai haver um caru yn y qwety, pelo jeito que estão olhando uns para os outros.

   Roanna encarou-o, com ar interrogador e ele explicou, rindo mais:

   - Cortejo até a cama... - O riso aumentou, quando ele viu que os olhos verdes se arregalavam de temor. - Não fique tão chocada. Os galeses têm... como vou explicar? Eles têm uma visão mais natural do amor. Para que tenha uma idéia, eles acham que duas pessoas que se amam podem demonstrar e dar vazão a seus sentimentos, sejam casadas ou não.

   Ela sentiu um calor desconfortável percorrê-la dos pés à cabeça. Não concordava com aquele modo de pensar, mas era difícil falar sobre aquele assunto, principalmente com ele.

   - Não... não é... direito. Se... Acontece que quando... quando duas pessoas fazem... amor, pode nascer um filho - disse Roanna, criando coragem. - Se não forem casados, isso será ruim para a moça.

   - Ah! Ninguém liga para isso. O rapaz poderá casar-se com a moça ou não. Essa é uma questão que depende apenas dos dois interessados. De qualquer modo, o filho deles será legítimo e querido por todos. E é a coisa mais certa, se você pensar bem a respeito. Não acha que essa atitude é justa para com a criança, que não pediu para nascer?

   Roanna pigarreou, sem jeito. Não sabia o que responder, se bem que fosse obrigada a admitir que aquela atitude tinha muito sentido. Gostaria de conversar com ele sobre outras coisas que não filhos legítimos ou não. No entanto, por mais que procurasse um assunto, sua mente apresentava-se vazia.

   - Veja Gwilym, por exemplo - continuou Emryss. - Ele é o que os normandos chamam de bastardo. Na verdade, é filho ilegítimo do homem que era o melhor amigo de meu pai. Os pais dele não queriam casar-se, então Gwilym foi enviado para nossa casa e meus pais o adotaram como filho. De acordo com a lei dos normandos, ele não poderia herdar nada do pai natural, mesmo que fosse o mais velho.

   - E ele herdou? - quis saber Roanna.

   - Nem uma moeda, porque o pai dele nada tinha. Mas, em compensação, é herdeiro de Craig Fawr.

   - A não ser que você tenha filhos - disse ela, sem pensar. Emryss a fitou e como ela lhe sustentasse o olhar, ele sorriu, suave. No entanto, no rosto dele havia uma sombra, uma expressão indefinível que a fez sentir uma pontada no coração.

   Nesse momento Gwilym chamou-o, ele virou-se para responder ao amigo e Roanna pôde voltar a respirar normalmente.

   Havia alguma coisa no sorriso dele que fazia o coração dela disparar, como que enlouquecido.

   Pegou um pedacinho do leve e delicado pão de casamento, pondo-se a mastigá-lo, enquanto sua mente continuava a divagar. Não era nada estranho um homem esperar ter filhos, quando se casava, no entanto havia algo muito infeliz no sorriso dele, que parecia o de um homem que sonha com o impossível.

   Será que Emryss achava que ela iria recusar-se a cumprir os deveres de esposa? A simples idéia do que iria acontecer aquela noite, na cama enorme, a fazia corar furiosamente. Não. Ela não iria recusar-lhe nada. Nada.

   Talvez ele achasse que ela era estéril. Será que Mamaeth lhe havia dito algo que o levara a supor isso?

   De repente, sentiu-se aterrorizada com essa possibilidade. As mulheres mais idosas conheciam bem essas coisas, sabiam tudo... Como se algo explodisse em sua cabeça, pela primeira vez Roanna compreendeu o quanto queria um filho, um filho que a amasse. E, mais do que isso, o filho dele.

   Lembrou-se das risadas de Mamaeth e do brilho dos olhinhos escuros dela, enquanto a preparava para o casamento. Com um profundo suspiro de alívio e uma luz de esperança, disse a si mesma que a velha ama jamais se mostraria tão animada se achasse que seu amado Emryss ia casar-se com uma mulher incapaz de lhe dar filhos.

   Antes que pudesse pensar algo mais a respeito, Emryss levantou-se, de repente.

   - Y rhibo! - gritou ele.

   No mesmo instante, todos se movimentaram, afastando as mesas para as paredes, criando um espaço vazio no meio do salão. Vários homens começaram a discutir acaloradamente, até que pareceram chegar a um acordo e uma parte do grupo retirou-se, enquanto seis deles permaneciam no espaço. Os homens ficaram três a três, de frente, os braços erguidos e os dedos entrelaçados com os do companheiro à frente, de maneira a formar uma ponte, como crianças brincando. Olharam, então, expectantes, para Emryss. Ele acenou que sim, com a cabeça, e apontou para Gwilym.

   Gwilym soltou um estrondoso grito de júbilo, correu para Bronwyn, pegou-a pelas mãos e levou-a para o centro do salão. Os homens desceram os braços, formando um estrado, Gwilym colocou Bronwyn deitada sobre os braços deles e depois deitou-se também, ao lado dela, enquanto Roanna sentia um sobressalto. Como era possível duas pessoas se colocarem numa situação tão estranha, pensou, impressionada.

   Os seis homens começaram a balançar o casal, como se não pesassem mais do que uma pluma. Gwilym achava-se tão emaranhado no vestido novo de Bronwyn que se tornava difícil dizer qual era um, qual era o outro.

   A voz de Emryss soou junto ao ouvido de Roanna, que fitava a cena com os olhos estatelados, os lábios entreabertos:

   - É só uma brincadeira, Roanna. Não vão derrubá-los. Esses homens estão habituados a carregar blocos de rocha que pesam muito mais.              

   Os homens jogaram o casal para o alto e o ampararam na queda, dando aos assistentes uma ampla visão do que havia por baixo da saia rodada da jovem. Eles voltaram a cair sobre o estrado vivo, Gwilym por cima de Bronwyn, e todos soltaram estrondosas gargalhadas, menos Roanna.

   Depois de jogar o casalzinho mais duas vezes para cima, afinal, os homens o colocaram no chão, de pé e com o máximo cuidado. Gwilym pediu vinho aos berros e fez um sinal ameaçador para Emryss, entre risadas e gracejos. Muito vermelha, com os olhos negros brilhando de excitação e alegria, Bronwyn tratava de recompor suas roupas.

   Emryss ergueu-se de novo e olhou lentamente para todos que se encontravam no salão. Vários nomes foram sugeridos, aos gritos, mas ele fez que não. Por fim, ergueu uma das mãos e apontou para... Jacques.

   Os seis homens reclamaram amargamente. Erguer o homenzarrão seria tarefa dura.

   Jacques levantou-se, com ar digno e majestoso. O cozinheiro deu a volta no salão, parando de vez em quando diante de uma mulher que ria, nervosa e corada. Chegou até mesmo a piscar, maroto, paira algumas delas.

   De repente, com inesperada energia, o cozinheiro atravessou o salão, correndo, e segurou Mamaeth para surpresa de todos.

   - Tire as mãos de mim, seu bruto! - gritou ela, enquanto Jacques a arrastava para o centro do salão. - Está pensando que vai me matar esmagada? Pois se pensa está muito enganado! - Mamaeth conseguiu libertar-se e fuzilou Emryss com os olhos: - Emryss DeLanyea, não vou terminar meus dias embaixo de um estrangeiro gordo!

   O lorde sacudiu a cabeça, com fingido ar triste, contendo o riso a custo, e disse:

   - Como queira, Mamaeth... Sinto muito, Jacques. Quem sabe da próxima vez você encontre uma companheira de boa vontade. - Levantou-se. - Quer dizer que devo indicar outro cavalheiro... Roanna esperava, curiosa, enquanto ele percorria os presentes com o olhar.

   - Não! - exclamou o senhor de Craig Fawr, depois de instantes.

   - Acho que agora é minha vez!

   Recuou, afastando-se da mesa, saltou da plataforma para o chão e foi, rápido, para o centro do salão.

   - Então, quem quer vir comigo? - perguntou, sorrindo amplamente.

   Roanna olhou para as próprias mãos. De fato, aquilo era o costume mais infantil que já vira! Que tipo de mulher poderia gostar de dar semelhante espetáculo? Não era nada decente porque todos podiam ver... tudo.

   Então, para horror dela, Emryss voltou correndo para a mesa e pegou-a pela cintura, erguendo-a da cadeira.

   - Eu não quero! Não posso! - gritou em vão, enquanto ele a carregava até os seis homens. - Por favor, Emryss, não faça isso comigo! - implorou, quase chorando de aflição. - Não é digno... não é certo!

   Ele parou e um sorriso diabólico iluminou-lhe o rosto.

   - Pode ser que não, mas é muito divertido!

   Ergueu-a e parecia prestes a atirá-la nos braços dos homens, mas cm vez disso jogou-a para cima de um ombro, fazendo-a soltar todo ar que tinha nos pulmões, com o choque.

   - Amigos, minha esposa tem outros planos para nós, esta noite, por isso peço-lhes que nos desculpem. Vamos nos retirar.

   Como ela começasse a protestar contra a posição indigna, dobrada sobre o ombro dele, deu-lhe uma boa palmada no traseiro e carregou-a escada acima.

   Não adiantava se debater, pois ele era muito forte, mas Roanna continuava tentando, ao mesmo tempo que procurava recuperar a respiração. Era difícil recuperar a calma, consciente como estava da gritaria e risadas que vinham lá de baixo e que os acompanhavam enquanto subiam.

- Se não ficar quieta, vai acabar me fazendo cair! - disse Emryss, rindo e dando-lhe outra sonora palmada, para reforçar o que dizia.

   Quando entraram no corredor, ele parou por instantes, diante da porta do quarto, abriu-a e entrou. Com poucos passos, aproximou-se da cama e jogou-a em cima dela. Roanna sentou-se, erguendo o queixo e endireitando os ombros. Ia começar a repreendê-lo por ter agido daquele modo, mas quando abriu a boca um bando de mulheres irrompeu no quarto, chilreando como pássaros assanhados, rindo e falando atropeladamente. Desamparada, ela olhou para Emryss, que apenas deu de ombros, deixando as mulheres passarem.

   No instante seguinte, Mamaeth pegava-a pela cintura e a fazia sair da cama, colocando-a de pé. Roanna procurou por ajuda, olhando para todos os lados, porém não mais viu o marido, enquanto era impelida para o centro do círculo de mulheres.

   Alguém lhe ofereceu um cálice de vinho e ela viu o rosto bonito de Bronwyn, corado, rindo, enquanto tinha a terrível impressão de que centenas de mãos avançavam, tentando tirar-lhe o vestido. Gritou c procurou .afastá-las.

   - Não tenha medo, milady - disse Mamaeth, com sua voz áspera, enquanto atravessava o quarto. -Só viemos prepará-la para... a cama!

   O quarto pareceu explodir em risos e gritinhos. Bronwyn, ainda vermelha pela performance do rhibo, passou a desatar os cordões que fechavam o vestido de noiva, nas costas. Em seguida, retiraram-no, deixando-a, felizmente pensou ela, com a túnica de seda. Apesar de ser evidente que haviam bebido, as mulheres lidavam com ela demonstrando enorme cuidado. Pouco depois, para sua consternação, a túnica também foi retirada.

   Roanna ouviu passos se aproximando, muitos passos, acompanhados por vozes masculinas que cantavam, animadas. A porta escancarou-se, mais uma vez.

   As mulheres moveram-se para os lados, para revelar Emryss parado no umbral. Ele já não usava a longa túnica. Mantinha a camisa de seda, com um laço no pescoço, as calças de lã fina, justas, e as botas de couro negro e cano alto.

   Gwilym empurrou-o para a frente e entrou também no quarto, o rosto brilhando pela entusiasmo. Trazia um cálice na mão e o vinho respingou por cima da borda quando ele fez uma reverência exagerada, que arrancou risos das mulheres.

   Mamaeth disse alguma coisa e no momento seguinte ela sentiu-se carregada para junto da cama, vestida apenas com a fina camisa de linho. Um grito elevou-se da boca de todos os homens e só então, aturdida, Roanna percebeu que os outros também tinham entrado no quarto.

   Será que aquela gente ia ficar ali, olhando?, pensou, apavorada.

   Tentou escapar, mas as mulheres a impediram.

   - Não olhe agora, milady! - avisou-a Bronwyn, morrendo de rir.

   Os homens voltaram a gritar e, pelo menos Roanna teve essa impressão, a ralhar com Emryss.

   Bronwyn, mal podendo falar de tanto rir, disse:

   - Estão tirando a camisa dele!

   Mamaeth puxou os lençóis de cima, na cama. De imediato, Bronwyn empurrou Roanna de leve, e ela recuou; suas pernas bateram na beirada, fazendo-a cair sobre o enorme e macio colchão de plumas. Procurou levantar-se, porém Mamaeth a manteve deitada, seguran-do-a com firmeza pelos ombros.

   Ergueu-se outra gritaria entre os homens, mas dessa vez Roanna percebeu que Emryss também gritava e não parecia que era de contentamento.

   Bronwyn inclinou-se para ela:

   - Ele não quer deixá-los tirarem sua calça! Está zangado!

   Roanna desistiu de lutar e descontraiu-se sobre a cama, conformada. O que estava por acontecer era inevitável e um direito de seu marido... mas não com toda aquela assistência!, pensou, recomeçando a se revoltar.

   Um murmúrio de aprovação foi emitido pelas mulheres. Roanna, à beira do desespero, preparava-se para o pior quando todos ficaram cm silêncio e movimentaram-se, passando a sair do quarto. Ao ver aquilo, ela fez uma prece mental, de agradecimento.

   Em seguida, viu Emryss, sem camisa, junto dos pés da cama. Os homens não haviam conseguido tirar a calça dele e a lã fina, branca, modelava as pernas fortes, contrastando com a pele amorenada, tornando-o mais atraente. O musculoso peito nu, marcado por cicatrizes, brilhava à luz das velas.

   O desejo, ardente, percorreu o corpo de Roanna, livre de todo o constrangimento imposto pela honra e pelo dever. Era como se conseguisse respirar profunda e livremente, desde a primeira vez que vira aquele homem.

   - Bem, brawdmaeth, minha senhora, desejamos-lhe uma boa noite - disse Gwilym, do umbral, as palavras meio engroladas pelo vinho. - Boa noite, boa noite, boa noite!

   Mamaeth também se retirou, dizendo:

   - Lembrem-se: filho, primeiro; filha, depois! E, rindo, fechou a porta.

  

   Quando o dia seguinte amanheceu, Roanna encontrava-se na enorme cama. Sozinha.

   Na noite anterior, Emryss permanecera aos pés da cama de pé, imóvel, durante vários minutos. Depois dissera, com voz sufocada:

   - Preciso de ar fresco... - Virara-se e saíra.

   E não voltara mais. A noite se arrastara, angustiante, e por fim ela adormecera, exausta de chorar. Ao amanhecer, acordara e vira que, ele ainda não voltara.

   O sol surgira, subira no horizonte, acordando-a de novo para que visse, mais uma vez, que seu marido continuava ausente.

   Por quê?, perguntava-se. Por quê? Haveria algo errado com ela? Ou seria mais um dos estranhos costumes galeses, que ninguém se dera ao trabalho de lhe explicar?

   Ao perceber que alguém entrava no quarto, ela permaneceu deitada e fechou os olhos, Não queria falar com Mamaeth ou com Bronwyn, que certamente fariam uma porção de perguntas embaraçosas ou comentários zombeteiros.

   A pessoa que chegara caminhou pelo quarto, como se procurasse alguma coisa. Desconfiada e tensa, Roanna não conseguiu continuar fingindo que dormia. Abriu os olhos.

   Emryss, vestindo uma calça justa de lã e camisa, colocava água na bacia.

   Ela se levantou:

   - Suponho que tenha tomado bastante ar fresco na noite passada, milorde... - disse, friamente.

   - Sim, tomei - respondeu ele, sem olhá-la.

   Lavou o rosto, passou água nos cabelos, começou a alisá-los para trás e parou, de súbito, inclinando-se para a frente, com um gemido sufocado de dor. Uma praga escapou por entre seus lábios cerrados.

   - Você está bem? - perguntou Roanna, ao vê-lo apoiar-se na mesinha.

   Pensou que talvez ele tivesse bebido demais na noite anterior e agora sentia-se mal.

   - Já estive melhor... - Emryss endireitou o corpo com esforço - e já estive pior. - Voltou-se de frente para ela. - Roanna, eu...

   Antes que ele pudesse continuar, gritos, assobios e cânticos irromperam no salão, lá embaixo, depois soaram passos pesados na escada, aproximando-se rapidamente.

   - Emryss, brawdmaethl - gritou a voz de Gwilym. - Bom dia! Está na hora de se levantar, apesar de sabermos que você está exausto!

   A tais palavras seguiram-se estrondosas gargalhadas e gritos que foram se tornando mais fortes, fazendo com que Roanna compreendesse que eles se encontravam todos no corredor, diante do quarto. Emryss aproximou-se da porta fechada e parou, as pernas abertas, as mãos na cintura, esperando.

   Incerta sobre o que iria acontecer a seguir, Roanna puxou as cobertas até o queixo e esperou também.

   Uma voz desconhecida elevou-se, entoando algo que parecia ser uma canção sem música. Eram versos...

   - Isso é traição! - gritou Emryss, para os homens que estavam atrás da porta. - Trouxeram um bardo para o pwncol

   - Também não é justo termos que nos dar a esse trabalho, a esta hora da manhã! - respondeu Gwilym, zombeteiro. - Vamos logo, noivinho, estamos esperando!

   - O que é isso? - perguntou Roanna, em voz baixa.

   - O pwnco - respondeu Emryss, com ar ausente, olhando fixo para a porta.

   - A palavra eu ouvi, mas não sei o que quer dizer! - reclamou cia, impaciente.

   - É uma espécie de desafio em versos. Fique quieta, eu preciso pensar.

   Roanna levantou-se, rápida, e foi se lavar. Sentia-se ofendida. Pois bem, se ele queria que ela se calasse, ficaria calada.

   Depois de um momento, Emryss começou a falar, o ritmo das palavras bastante parecido com o do homem que dissera os versos, antes. Quando terminou, ele voltou-se para ela, com ar de menino travesso:

   - Agora ele vai levar algum tempo para responder - disse, satisfeito.

   Roanna manteve-se em silêncio.

   - Desculpe se fui rude - pediu Emryss, com a testa franzida, num ar de perplexidade -, mas precisava pensar. É um desafio poético, entende? Mas ele deveria ter acontecido à porta do quarto da noiva antes da cerimônia. Eles estão embrulhando tudo, só para me arreliar!

   O bardo recomeçou a recitar e Emryss voltou-se para ouvi-lo, concentrando-se com toda atenção. Quando a voz se calou, ele deu um soco na própria mão e soltou o que Roanna supôs ser uma praga em galês. Procurando não ligar para aquela tolice, ela abriu a tampa da arca a fim de pegar um vestido. As roupas dele encontravam-se ao lado das dela, consistindo na primeira prova palpável de que era uma mulher casada. Roanna imobilizou-se por um momento, olhando-as estupidamente, antes de pegar o vestido que Bronwyn lhe emprestara. Junto com ele havia uma touca branca.

   De repente, Emryss voltou-se, arrancou o vestido das mãos dela, levou-a consigo até a porta e abriu-a, num repelão. Gwilym e outros homens encontravam-se amontoados no corredor. Olharam curiosamente para Roanna, que tentava soltar-se das mãos do marido e esconder-se atrás dele.

   - Vão embora e deixem-nos em paz! - exclamou Emryss, com ar de grande alegria. - Não vêem que nós queremos ficar sozinhos?

   - Está bem - respondeu Gwilym, ainda com cara de embriagado. - Pedimos que nos perdoe, milady... Só queríamos saber se ele está sendo um marido como se deve...

   Os homens voltaram-lhes as costas e seguiram pelo corredor, descendo a escada entre risos e gritos.

   Roanna livrou-se das mãos de Emryss e ele fechou a porta.

   - Como se atreve? -perguntou ela, com a voz ameaçadoramente baixa, num indício de fervente raiva contida. - Como se atreve a me mostrar seminua aos seus homens? Será que vocês não têm senso de dignidade? Não têm decência?

   Emryss foi até a arca e pegou as calças e a túnica de couro.

   - Eu queria que eles fossem embora - respondeu, sem olhá-la - e esse era o modo mais eficiente de consegui-lo.

   Contendo-se, ela se aproximou do marido e pegou-o por um braço, fazendo-o voltar-se para encará-la.

   - E eu? - perguntou, enfurecida. - Quer que eu também vá embora? Foi por isso que ficou fora deste quarto a noite inteira?

   Os lábios dele se apertaram.

   - Casei-me com você, não? - As palavras saíam com dificuldade dos lábios cerrados. - Não o teria feito, se quisesse que fosse embora.

   Roanna pegou o vestido, suspirando. Pelo jeito que as coisas iam, achou que jamais conseguiria entender esse homem e sua gente. Ficou de costas para ele, enquanto se vestia.

   - Por favor, quer me ajudar? - pediu, com suavidade. Percebeu que Emryss se aproximava, depois parou.

   - Vou chamar Mamaeth - disse ele.

   - É só apertar o cordão e amarrá-lo - respondeu ela, lembrando-se bem de outra ocasião em que ele a ajudara.

   Com uma imprecação abafada, ele puxou os cordões e amarrou-os, com gestos apressados, como se não gostasse de estar ajudando.

   Quando ela se voltou, Emryss encontrava-se junto da arca, vestindo a calça de couro. Roanna passou a escovar os cabelos devagar, ignorando-o como ele a ignorava. Em seguida, trançou os cabelos, prendeu a trança enrolada na cabeça e colocou a touca. Diante do olhar perplexo de Emryss, que não acreditava no que ela fazia com a maravilhosa cabeleira, ela segurou as longas fitas e amarrou-as num laço sob o queixo.

   - Para que essa coisa horrível? - perguntou ele, que sentara-se sobre a arca e se imobilizara, com uma das botas nas mãos.

   - Agora sou uma mulher casada e devo cobrir meus cabelos.

   - Essa touca faz você ficar parecendo uma velha freira...

   - Talvez seja isso mesmo o que vou ser - ela não conseguiu deixar de replicar, com azedume.

   - O quê? - a voz dele soou abafada, pois estava tirando a camisa.

   Ela tratou de calçar os sapatos, determinada a não olhar para o torso nu do marido. A cabeça dele surgiu, por fim, livre da camisa, e perguntou de novo, com o cenho franzido:

   - O que você disse?

   - Apenas disse que talvez eu venha a ser uma freira velha.

   - Deixe-me esclarecer bem uma coisa - começou ele, fuzilando-a com o olhar. - Eu sou o senhor aqui. Você é minha mulher. Pelos deuses, que eles me fulminem se eu queria passar a noite longe de você!

   Roanna assentiu, com ar submisso:

   - Claro, milorde. Que loucura a minha, pensar de outra maneira! - ironizou, voltando-lhe as costas. - Não tinha o menor motivo, não é?

   Ela sabia que se concordasse ele não teria desculpa para discutir e, tinha certeza, essa era a melhor maneira de irritar um homem, principalmente quando se encontrava zangado com uma mulher sem que ela tivesse qualquer culpa.

   Emryss aproximou-se dela em três longos passos e a fez voltar-se para ele. Segurou-a pelos braços e sacudiu-a. Seu rosto estava transtornado pela raiva:

   - Não se atreva a bancar a esperta comigo e nunca me trate como um bobo! Está entendendo?

   Roanna fitou-o, surpreendida coma extensão da ira que despertara.

   Ele a largou; respirava ruidosamente e seu peito arfava. Ela correu para a janela e ficou olhando para fora, sem enxergar nada. Ele a olhara com tanto ódio! E por quê? Por ter dito a verdade?

   - Roanna, por favor - a voz dele soava contida -, não chore. Ela voltou-se e viu que a raiva dele desaparecera, como se tivesse sido apenas um vento passageiro.

   - Homem nenhum pode me fazer chorar! - respondeu, com firmeza. - E, agora, se me der licença, milorde, vou assistir a missa, já que temos a sorte de haver um padre aqui.

   - Ele foi embora. Saiu quando mal amanhecia. Achei que era melhor... - Calou-se e ficou olhando para ela, por instantes. - Não se preocupe, eu mandei uma escolta com ele.

   - Então, vou assistir a missa na capela, milorde - disse Roanna, depois de breve silêncio. - E, quando voltar, vou conversar com Mamaeth sobre a melhor maneira para eu dirigir a casa.

   Ele sentou-se na cama, com a túnica de couro nas mãos.

   - Por quê? - perguntou. - Mamaeth cuida de tudo.

   - Então, vou combinar com Jacques o que deve ser feito para as refeições.

   - Mamaeth e Rhys tratam disso.

   - Mas, agora, esses são deveres que me competem.

   - Pensei que você gostaria de ter seu tempo livre. E seu único dever é fazer o que eu quiser.

   Ele falou de modo gentil, numa voz cariciosa que fez os joelhos dela amolecerem.

   - Emryss - murmurou ela, sentindo suas defesas desabarem -, tudo que eu quero é agradar você.

   O olhar dele tornou-se estranho.

   - Ótimo - disse, a voz transformada em gelo. - Então, me deixe sozinho, agora.

   Roanna obedeceu. Saiu correndo do quarto e continuou a correr, escada acima, até chegar no alto da torre. Lá fora o ar estava frio e úmido, nuvens negras cobrindo o céu, numa promessa de chuva para breve. Uma pilha de pedras preparadas encontrava-se junto da parede, provavelmente esperando o conserto das ameias que, semi-demolidas como estavam não serviriam de proteção a um arqueiro.

   Ela sentou-se, encostada na pedra fria, e escondeu o rosto nos braços apoiados sobre os joelhos.

   Por quê? Por que ele lhe pedira que fosse sua esposa? Teria sido apenas para humilhá-la? Como ele pudera tê-la beijado daquela maneira, que despertara um violento desejo em seu corpo, para depois repeli-la?

   Querido Senhor no céu, pensou, corando só de lembrar, ela praticamente lhe pedira que a possuísse e ele a mandara sair!

   Nada havia mudado. Nada. Ela teria de continuar inativa, olhando as coisas acontecerem e esperar, dependente de um homem que decidiria tudo a seu respeito.

   Ergueu-se, lentamente, e olhou para as terras lá embaixo.

   Não. Outra vez, não. Ela decidira ser mulher dele e o seria. Se Emryss não pretendia tocá-la, que assim fosse. Nunca mais se humilharia diante dele, porém seria a senhora de Craig Fawr, como era seu direito.

   Ele que procurasse entendê-la.

   Com a cabeça erguida e as costas retas, Roanna começou a descer as escada.

  

   Algumas noites depois, Cynric DeLanyea olhava a ruína em que ele transformara o senhor de Beaufort, enquanto o padre Robelard saía apressado no quarto. A pele do rosto do velho barão pendia, amarelada e flácida; o corpo, antes cheio e poderoso, tornara-se menos da metade de seu volume e parecia a casca vazia de um velho carvalho tombado.

   Então, assim era a vida, pensou Cynric, com um sorriso maldoso. Ele jovem, forte, com toda vida pela frente, diante daquele homem cujo peito mal se movimentava com a fraca respiração. Não demoraria muito, seu pai seria apenas um monte de carne e ossos sem vida, levando seu segredo para a sepultura.

   Uma pena que o padre e Urien, que ainda se encontrava ali, encostado à parede, tivessem ouvido o chocante segredo que o barão revelara na confissão para receber a extrema unção. Bem, não importava. O padre seria convencido a se calar, caso pensasse sequer em trair o segredo da confissão, pois era muito fácil de se aterrorizar, e Urien manteria a boca fechada, desde que fosse bem pago.

   Havia sido muito bom, pensava Cynric, ver-se obrigado a permanecer em Gales, à cabeceira do pai; assim, vira quem se encontrava perto do moribundo e ficava sabendo da verdade sobre seu parentesco com Emryss DeLanyea.

   Olhou o quarto ao redor, admirando as preciosas tapeçarias, muito mais finas do que as que se encontravam em seu quarto, no piso de baixo. Sua preferida era a que estava pendurada na parede diante da cama do pai e representava a tentação de Eva. A luz emanada de várias velas fazia as figuras nuas darem impressão de movimento, com os jogos de luz e sombra. Logo aquela tapeçaria e tudo mais que havia no opulento quarto seria dele: a prataria fina, os grossos tapetes que recobriam o chão de pedra, o espelho enorme, as roupas de cama de linho macio, a cama.

   Urien Fitzroy remexeu os pés, inquieto, no lugar em que permanecera, perto da porta. Cynric olhou-o, depois voltou-se para o pai.

   Nesse momento, o barão abriu os olhos e tentou sentar-se.

   Urien correu para junto do velho incapacitado e o ajudou, mantendo-lhe os ombros erguidos do travesseiro.

   - Emryss... - sussurrou o velho, cansadamente. - Eu quero... Emryss... meu filho.

   Urien olhou para Cynric, interrogador.

   - Deixe-nos a sós - ordenou o lorde.

   Depois de um momento de hesitação, o guerreiro fez o barão recostar-se de novo sobre os travesseiros e retirou-se. O velho nobre tentou sentar-se, outra vez, inutilmente.

   - Emryss... meu filho...

   A voz do moribundo era quase um sopro e ele calou-se, aquietando-se. Cynric achou que chegara a hora.

   - Boa noite, meu pai, e adeus... - disse, com olhar decidido e malévolo.

   Pegou um travesseiro e apertou-o contra o rosto do barão, até que o peito dele imobilizou-se completamente.

   Tão simples, pensou a seguir. Tão simples que eu poderia ter feito isto há muitas horas, antes que ele dissesse o que não devia. Mas quem iria imaginar que o velho levaria tanto tempo para morrer e que iria cismar de se arrepender do que fizera há tantos anos?

   Colocou as mãos do pai cruzadas sobre o peito. Era melhor fazer as coisas como se o barão tivesse alguma importância para ele. Pelo menos um pouco. Atravessou o quarto em largas passadas e abriu a porta.

   Urien, que estava diante dela, expectante, endireitou o corpo, atento às ordens que viriam.

   - Avise o abade que o barão morreu. Eu quero uma missa solene no funeral - disse Cynric, tratando de apagar o ar de satisfação que lhe iluminava o rosto.

   Os olhos de Urien arregalaram-se, ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas pareceu desistir. Fechou-a sem emitir um som sequer.

   Cynric gritou por qualquer criado e quando um deles apareceu, ordenou-lhe, com brevidade, que o corpo de seu pai deveria ser lavado e totalmente vestido, com sua armadura inclusive. Então, movimentou-se em passos lentos pelo longo corredor, desceu a escada e foi para seu quarto.

   Livre, enfim! As palavras ecoavam sem parar em seu cérebro, como as batidas surdas de um tambor de guerra.

   Livre, enfim, para fazer o que bem quisesse.

   Livre, enfim, do medo que seu pai cismasse de, um dia, reconhecer o filho bastardo, Emryss, que os galeses reconheceriam como o filho mais velho do barão, sem levar em conta o rapto que o havia gerado.

   Livre, enfim, para se vingar de Emryss e dela.

   Livre, enfim, da dor de nunca ter sido considerado bom o bastante.

   Abriu a porta de seu quarto. Um movimento na cama expulsou os pensamentos e a visão de uma bonita perna nua o fez sorrir.

   - Ah, Lynette, você é uma mulherzinha maravilhosa pelo entusiasmo.

   A moça descobriu a cabeça, que estava sob as cobertas. Seus lábios cheios entreabriram-se em convidativo sorriso.

   - Sim, milorde.

   O jovem nobre sentou-se na beira da cama e passou uma das mãos num seio, firme e branco.

   - Preciso de muito consolo, minha querida. O barão acaba de morrer.

   Lynette afastou-se dele e cobriu-se, perturbada.

   - Oh, milorde, sinto muito que tenha acontecido!

   Ele retirou as cobertas, descobrindo-a, e puxou-a para si.

   - Sente, mesmo? - Ela acenou que sim e ele acrescentou: - Então, acho que é a única a sentir!

   - Oh, milorde, claro que não! - protestou a criadinha, os olhos muito redondos. - Tenho certeza que o padre Robelard vai sentir, também.

   Cynric ergueu-se, devagar.

   - O padre Robelard... - murmurou, entre os dentes. Fitou Lynette. - Você gosta do padre Robelard, não é, menina?

   - Sim, milorde - respondeu ela, as sobrancelhas erguendo-se em surpresa.

   Ele começou a andar pelo quarto, de um lado para outro.

   - E ele, gosta de você? - perguntou, parando diante dela.

   - O padre Robelard gosta de todos...

   - Mas não tanto quanto ele gosta de você, não é verdade? - insistiu o lorde.

   - Bem... - Lynette riu. - A maioria dos homens gosta de mim, milorde.

   - E se entende porque eles gostem... - Cynric deu mais alguns passos e parou de novo diante da criada. - Eu queria que você me fizesse um favor, querida.

   - Quantos o senhor quiser, milorde! - respondeu ela, sorrindo, recostando-se sobre os travesseiros, numa pose lasciva.

   - Não. Não se trata disso. Pelo menos, não agora. - Sentou-se ao lado dela e brincou com os longos cabelos loiros. - Quero que você demonstre ao padre Robelard o quanto gosta dele.

   Os olhos azuis arregalaram-se:

   - O que o senhor quer dizer, milorde? - balbuciou ela.

   Ele inclinou-se até os lábios encostarem na concha da orelha rosada, enquanto seus dedos continuavam a brincar com os cabelos macios:

   - O que acha que eu quero dizer? - murmurou, malicioso. Lynette quase engasgou. Quando, afinal, pôde falar, foi com voz trêmula que disse:

   - O senhor quer que eu... Mas ele é um padre! Não posso.

   - Acho que pode, sim. Aliás, eu só quero saber se você pode. Dizem por aí que o padre Robelard anda... digamos... se divertindo como não deve. E é meu dever, como o novo barão de Beaufort, descobrir se isso é verdade, para tomar atitudes a respeito.

   Ele calou-se e como a criadinha não dissesse nada, continuou:

   - Então, minha querida Lynette, se você verificar e for mentira, tudo fica como está... E, é claro, terá uma alta recompensa por esse trabalho tão delicado, além de eu lhe ficar eternamente agradecido.

   Lynette fitou o rosto bonito, mas arrogante, de Cynric DeLanyea. De fato, ele sempre soubera recompensá-la todas as vezes que ela o agradara. Tinha vovó Granny para cuidar... os ossos velhos dela inchavam e doíam demais no inverno e nos dias úmidos. Uma casinha nova, decente, seria o ideal para abrigá-la. E Gwenyth, sua irmã mais nova, era apaixonada pelo filho do mercador de lã, que nem sequer a olhava porque ela não tinha um dote. Afinal, muitas amantes de lordes ganhavam casas, terras e montes de dinheiro. Tudo que ela teria que fazer seria tentar seduzir um homem que era seu amigo e padre.

   - Se não quiser ajudar-me - disse Cynric, de repente -, pode se levantar e ir embora agora mesmo.

   Lynette levantou-se, chegou perto dele e acariciou-lhe o rosto.

   - Farei tudo que me pedir, milorde.

   Nesse momento a porta do quarto abriu-se e o jovem lorde voltou-se para ver quem se atrevia a entrar sem bater. Era Urien. Ele olhou para a moça nua, depois para Cynric, que ergueu as sobrancelhas, irritado.

   - Há uns homens aí que exigem vê-lo, milorde - disse o soldado.

   - Exigem? - O nobre pôs as mãos na cintura e ergueu a cabeça. - Quem se atreve a exigir, na minha casa?  

   - Um deles disse que seu nome é Dolf, milorde.

   Era evidente que Urien ficara impressionado com os visitantes e Cynric começou a rir:

   - Está bem, irei falar com eles. Espere aqui - disse para Lynette. Percebeu que a moça olhava para Urien e acrescentou: - Sozinha.

   Saiu do quarto, seguido pelo soldado.

   O grupo de homens sujos e esfarrapados achava-se no meio do ha II, mostrando-se constrangidos. Quando viram Urien e Cynric apro-xiiuarem-se, o líder adiantou-se. Era um homem moreno, magro, de dentes podres, mal visíveis entre o bigode e a barba hirsutos.

   - Eu lhe disse para nunca vir aqui - disse-lhe Cynric, friamente.

   - Disse, sim, milorde, disse... Mas como precisamos lhe falar, eu e meus homens resolvemos vir.

   Urien fechou a porta enquanto o lorde falava com o homem e ficou imóvel, as mãos atrás das costas, mas no rosto uma demonstração evidente de seu desagrado.

   - Falar sobre o quê? - perguntou o lorde.

   - Sobre uma coisa que estivemos pensando.

   Cynric ergueu uma das sobrancelhas, com ar enfastiado, e aguar-dou.

   - Estivemos pensando que merecemos mais... recompensa - disse o homem dos dentes podres, com um brilho cobiçoso nos olhos Bicuros.

   - Merecem?

   O lorde fez a pergunta com ar natural, indiferente, porém um observador pais atento notaria que seus olhos, frios como gelo, se haviam estreitado quase de modo imperceptível.

   - Sim, milorde. Achamos que seria o certo, pois somos nós que corremos todos os riscos. E como o senhor exigiu que deixássemos as ovelhas degoladas lá... Bem, não se tratou de um trabalho muito pratico e rendoso para mim e meus homens, não?

   Os homens que o acompanhavam grunhiram e acenaram com as cabeças de cabelos sujos, desgrenhados, demonstrando aprovação.

   - Compreendo... - murmurou Cynric, aproximando-se do líder com passo lentos.

   A coisa seguinte de que o homem barbudo teve conhecimento foi de se encontrar imobilizado por um braço de ferro apertando-lhe o pescoço e a ponta de uma adaga cutucando-lhe a garganta. Os homens que o acompanhavam movimentaram-se para a frente, decididos a ajudar seu líder.

   - Mais um passo, eu corto a garganta dele - declarou Cynric, com voz calma, fria -, e chamo os guardas.

   Os homens pararam, hesitantes, enquanto o homem de dentes podres, o rosto congestionado pela respiração insuficiente, parava de se debater. Compreendera que não ia conseguir escapar e que só conseguiria que o braço apertasse mais, sufocando-o, a cada tentativa de se soltar.

   - Vocês, estúpidos saxões, são muito mais bem pagos do que merecem! - O lorde parecia cuspir as palavras, cheio de desprezo. Largou o líder, que cambaleou e foi amparado pelo seu homem mais próximo. - Vou passar por cima do atrevimento que tiveram vindo aqui, porque me pouparam uma boa caminhada até vocês. Há algo que eu quero que façam.

   Enquanto Cynric lhes dizia o que deveriam fazer e quanto iria pagar pelo "trabalho", os fora-da-lei se entreolharam, sentindo-se pouco à vontade.

   - Não sei, milorde... - disse Dolf, o líder dos renegados, com certa cautela. - Parece-me muito arriscado chegar tão perto do castelo.

   - Claro que é arriscado, seu idiota! Se não fosse, por que eu iria lhe dar tanto dinheiro para fazer isso? - respondeu Cynric, asperamente. - Vai recusar?

   Alguns dos homens acenaram que sim, ansiosos por irem embora, mas Dolf esperou, calado e imóvel.

   - Porque se pretende recusar - continuou o nobre -, é bom que saiba: vou mandar prendê-los, agora, e entregá-los a meu primo. Com certeza a mulher dele irá reconhecê-los como os assaltantes que feriram seu cozinheiro e tentaram estuprá-la. Além disso, vou dizer-lhe que vocês são os responsáveis pela morte das ovelhas.

   Dolf deu um passo para trás, mas o som da espada de Urien sendo tirada da bainha o fez parar no mesmo instante.

   - E eu vou dizer que o senhor nos pagou para fazermos isso tudo - retrucou o fora-da-lei, os olhos brilhando de ódio contido -, inclusive para seqüestrar a mulher e trazê-la para cá.

   Cynric sentou-se numa das grandes cadeiras de madeira, com espaldar alto, esticou as longas pernas e cruzou-as à altura dos tornozelos. Brincava calmamente com a adaga, enquanto falava:

   - Não acredito que você pretenda, realmente, fazer o que está dizendo...

   O tom frio e claramente ameaçador da voz do novo barão persuadiu o bandido Dolf de que era tarde demais para abandonar o barco. Engolindo a raiva que o queimava por dentro, ele disse, com dificuldade:

   - Como o senhor queira, então, milorde... Mas o pagamento terá que ser em dobro.

   O lorde voltou a falar, com um sorriso cruel nos lábios bem-feitos:

   - Vou pagar-lhes o que já disse. Dêem ao casalzinho algum tempo, o bastante para eles acharem que aceitei os fatos, e que não irei reagir contra a ofensa que me fizeram. Então, tratem de agir e fazer tudo direito. - Respirou fundo e elevou a voz, irritado: - Agora, fora daqui, todos! Vocês fedem. E não se atrevam a vir a Beaufort de novo, porque cortarei suas gargantas tão facilmente quanto vocês cortaram as das ovelhas de Ianto. Entenderam?

   Fez-se um silêncio pesado e o lorde esperou, até que os bandidos responderam que sim, as vozes abafadas.

   - Bom! - rosnou o lorde.

   Sem dizer uma só palavra, os homens trataram de se retirar. Dolf, ainda esfregando o pescoço dolorido, foi o último a sair e fechou a porta.

   - Logo não terei mais de tratar com esses idiotas fedorentos! - exclamou Cynric, guardando a adaga. - Eles não merecem uma morte rápida, precisam sofrer...

   Calou-se e olhou para Urien, que recolocava a espada na bainha.

   - Você não me aprova, Urien? - perguntou com ironia. - Não aprova minha ligação com esses bandidos ou não aprova minha tática?

   - Ambas - respondeu o guerreiro, seus olhos negros sustentando o olhar frio do novo barão.

   - Muito bem - disse Cynric, olhando ao redor, pensando que, agora, aquele era o seu castelo. - Um incêndio no moinho de Craig Fawr será providencial para distrair a todos e afastá-los do castelo, quando, então, será fácil atear fogo lá, no depósito de armas. Tudo será destruído e meu caro primo ficará sem nada. Depois, será fácil invadirmos o castelo e tomar conta dele. Craig Fawr passará para as mãos que o merecem... - Um sorriso cruel iluminou o rosto de Cynric, tornando-o menos bonito. - As minhas.

  

   Roanna ajeitou-se, impaciente, na cadeira que ocupava, junto à mesa principal. Sabia que Emryss chegara, pois o vira da janela do quarto. Pela primeira vez em muitos dias ele voltava para o castelo a tempo do jantar.

   Fixou os olhos, pela milésima vez, no pergaminho que se encontrava sobre a mesa. Aquele havia sido um dos piores dias para ela, pois tivera que reconhecer sua inabilidade para ler até mesmo as mais simples palavras.

   Naquela tarde, um mensageiro lhe entregara o rolo de pergaminho selado, dizendo, apenas:

   - É para o lorde e a lady de Craig Fawr.

   Vira-se obrigada a esperar pela volta de Emryss para saber o que dizia a mensagem. Mais uma vez lamentava, amargamente, o tio não ter permitido que tomasse sequer as mais básicas aulas para aprender a ler e escrever.

   Emitiu um som que era uma mistura de suspiro e soluço, enquanto observava os trabalhadores que entravam e iam tomando seus lugares às mesas. Todos conversavam, animados, em sua língua musical, mas que soava ininteligível para ela. No entanto, tinha quase certeza de que a maioria deles a entendia muito melhor do que demonstravam, quando falava. Deviam ter algum conhecimento de normando. Muitas vezes apanhara olhares de soslaio, quando conversava com Mamaeth. Acontecera também, e mais de uma vez, uma ou outra criada olhar para a velha ama, como que pedindo sua autorização, quando ela mandava que fizesse qualquer coisa, esquecendo-se de que falava outra língua; e fora obedecida, sem que a ordem precisasse ser repetida em galês.

   As juntas dos dedos de Roanna se haviam tornado brancas, tal era a força com que fechava as mãos. Sentia-se completamente só entre tanta gente e sofria com isso. Até mesmo o dedicado Jacques encontrava-se feliz demais para reparar na tristeza dela. Nada perturbava a alegria do homenzarrão, nem mesmo as discussões que de vez em quando tinha com Mamaeth, quando discordavam sobre algum ponto, na cozinha.

   Passou os olhos pelo salão, procurando por Bronwyn. A linda criada faltava cada vez mais aos seus deveres. Parecia ter decidido cuidar da própria vida, já que Gwilym continuava a ignorá-la.

   Roanna tentou não olhar para a porta quando percebeu que os soldados entravam, mas não conseguiu conter o impulso de observar Emryss, enquanto ele caminhava pelo salão.

   Como parecia triste e cansado! Subiu com agilidade no estrado sobre o qual ficava a mesa principal, mas ela percebeu que tentava esconder a dor que sentia na perna esquerda. Afligiu-se, preocupada por ele, e tentou disfarçar a aflição, já que não tinha jeito de expulsá-la.

   O que mais poderia fazer? Só tinha que se afligir, enquanto ele saía todos os dias para patrulhar as terras, do amanhecer à noite alta, quando chegava e comia um pouco, para em seguida cair exausto na cama deles e dormir, quase sem se mexer, até a aurora seguinte.

   Emryss deixou-se cair, pesadamente, sobre sua cadeira. No mesmo instante as criadas, com exceção da ausente Bronwyn, apressaram-se. a servir o jantar.

   Roanna empurrou o pergaminho na direção do marido:

   - Um mensageiro trouxe isto - disse-lhe, em voz baixa.

   Sem dizer nada, ele pegou o pergaminho, rompeu o selo e desenrolou-o. Fingindo-se indiferente, Roanna começou a comer um pedaço de pão.

   Com uma exclamação de desagrado, Emryss colocou o pergaminho de lado.

   - Então, milorde? - perguntou ela depois de alguns instantes, incapaz de conter a curiosidade por mais tempo.

   - Leia você mesma - respondeu o lorde, entregando-lhe o pergaminho.

   - Eu... - Ela corou, envergonhada, mas forçou-se a continuar - Não sei ler.

   - Ah - fez ele, com ar distraído.

   Com certeza, pensou Roanna, ele esquecera também que se haviam beijado, aquela noite na muralha, como havia esquecido que ela lhe dissera que não sabia ler, quando ele lhe perguntara se conhecia leis.

   - O barão morreu - comunicou Emryss. - É a notícia que esse pergaminho traz.

   Ela olhou-o depressa, e ele continuou, em tom sarcástico:

   - Meu dedicado primo nos convida para assistirmos à missa solene do funeral, amanhã. Será realizada no mosteiro-acrescentou, pegando o cálice e tomando um grande gole de vinho.

   - Naturalmente, nós iremos... - disse Roanna.

   - Naturalmente, não iremos - contradisse ele, em tom frio.

   - Precisamos ir - insistiu ela. - É uma questão de respeito.

   - Respeito? - A voz de Emryss subiu de tom, mostrando-se zangada e fazendo os presentes voltarem os olhares para eles. - Nunca respeitei aquele canalha enquanto estava vivo e não vou começar a respeitá-lo depois de morto.

   - Ele era seu tio - contrapôs Roanna, com suavidade.

   - Sinto vergonha de ter sido parente de um homem desprezível como ele.

   Roanna fitou o rosto alterado pelo ódio, em silêncio, por alguns instantes, depois indagou:

   - Você e Cynric vão continuar brigando eternamente, como faziam quando eram crianças?

   O lorde ergueu a cabeça, o olhar fixo nela, os lábios pálidos formando uma fina linha que demonstrava profunda raiva. Por fim ele conseguiu controlar-se e falou, com aparente calma:

   - Escute bem, mulher, eu vou odiar aquele filhote de víboras pelo resto da minha vida pelo que eles fizeram à minha mãe. Palavras macias, gestos sociáveis nunca irão mudar isso. Você entendeu?

   - Sim, milorde.

   - Então, quer dizer que nós não iremos.

   - Se o senhor assim quer, milorde... - disse Roanna, em voz baixa.

   Nós não iremos, terminou ela, em pensamento.

   - Mulher - trovejou Jacques e a calma da manhã foi abalada por seu vozeirão -, tire essas ervas com cheiro infernal da minha mesa e fora da minha cozinha!

   - Sua mesa? Sua cozinha? - guinchou Mamaeth. - Como se atreve, homem, a querer me dar ordens aqui? Por que não tira esse seu umbigo gordo do meu caminho?

   Jacques endireitou os ombros, encolheu a barriga e seu volume diminuiu um pouquinho.

   - Sou o melhor cozinheiro de toda Europa - vangloriou-se, os olhos brilhando de orgulho -, de toda Inglaterra e, com certeza, de todas estas terras selvagens, por isso exijo que você me trate com o devido respeito.

   Mamaeth aproximou-se do homenzarrão e espetou-lhe o estômago com o dedo indicador.

   - Escute aqui, seu saco de banha! Eu não o trataria com respeito, nem que fosse o rei em pessoa. Esta é a minha cozinha e já era quando você estava anotando sobre o ombro de sua mãe. Portanto, saia daqui!

   - Não saio! E vou contar à lady Roanna a sua falta de respeito, isto tem que acabar, de uma vez por todas!

   - Conte! Eu vou contar para lorde Emryss. Ele é o senhor, aqui! E os dois, ela pequena, escura e delgada como uma vagem seca, ele loiro, alto e redondo como um barril, tentaram passar pela porta da cozinha ao mesmo tempo. Forcejaram, entalados, e Mamaeth conseguiu safar-se primeiro. Deu alguns passos, mas então, deteve-se.

   Emryss saiu do salão como um raio e montou seu cavalo de um salto, o rosto desfigurado pela raiva. Imediatamente Roanna saiu, também, o queixo erguido e, com o rosto pálido demonstrando tensão, dirigiu-se para a cocheira.

   Jacques parou ao lado de Mamaeth, acompanhando a cena com olhos esbugalhados.

   - O que é isso? - perguntou, num sussurro temeroso.

   - Psiu! Cale-se e ouça, seu grande tolo!

   - Onde você vai? - indagou Emryss, friamente, ao ver a esposa atravessando o pátio.

   - Ao mosteiro - respondeu Roanna, com voz igualmente despida de emoção.

   - O diabo que você vai!

   Emryss desmontou de repente, assustando Wolf. Colocou-se diante dela, as pernas abertas e as mãos na cintura.

   - Não vou viver a vida inteira presa entre estas paredes - declarou ela, sem piscar. - Cynric fez um gesto de boa vontade e não podemos ignorá-lo. Eu vou ao mosteiro.

   - A pé? - indagou ele, irônico.

   - Se for preciso... - teimou ela.

   Mamaeth colocou uma das mãos num braço de Jacques.

   - Ela não vai desistir, vai? - perguntou, com ar incrédulo.

   - Não, não vai - suspirou o homenzarrão. - Já vi aquele olhar antes.

   Pelo jeito, Emryss também percebeu que sua esposa estava determinada e não cederia.

   - Gwil! - chamou, com voz áspera. - Você e outro homem, escolha-o, irão acompanhá-la ao mosteiro. Mande selar um cavalo para ela. - Riu forçada, ironicamente. - Não devemos dar nenhum motivo para o querido Cynric nos odiar, devemos?

   Roanna permaneceu imóvel, com o rosto bonito sem qualquer expressão, enquanto ele montava Wolf de novo e saía a galope pelo pátio, dirigindo-se para o portão.

   Mamaeth relanceou os olhos por Jacques:

   - O que há de errado? - perguntou, num murmúrio. - O que ela terá feito para Emryss tratá-la assim?

   - Lady Roanna não tem culpa, com certeza - fungou o cozinheiro, de cara feia.

   A velha ama fitou-o com ar de desafio:

   - Emryss também não! Uma porção de moças vivem me procurando, pedindo que eu lhes arranje uma poção do amor para que ele as leve para sua cama ou, pelo menos, que olhe para elas... No entanto ela - indicou Roanna com o queixo - ainda é virgem.

   - Como pode saber disso? -perguntou Jacques, não acreditando no que ouvia. - Tenho certeza que lady Roanna não conversa essas coisas com você.

   - Eu sei e pronto. E alguma coisa está errada. O meu menino está apaixonado por ela, isso é evidente! - conjeturou a velha ama. - No entanto, todas as manhãs sai por aí cavalgando como se estivesse possuído pelo demônio e sua aparência torna-se a cada dia mais lamentável! Ela deve estar se negando a cumprir os deveres de uma esposa!

   Jacques sacudiu a cabeça, incrédulo.

   - Não. Não acredito nisso. Ela gosta muito dele. Ele é que está faltando com os deveres de marido, por menos que você acredite.

   - Bem, algo muito estranho anda acontecendo por aqui e vou descobrir o que é - disse Mamaeth, com determinação. - Duas pessoas feitas uma para outra, como eles, se casam e depois agem dessa maneira!

   O homenzarrão assentiu:

   - Concordo com você. Talvez nós dois possamos ajudá-los. Mamaeth sorriu:

   - Para um saco de banha, até que você tem cérebro!

  

   As notas vibrantes da missa cantada chegou ao fim, ecoando pela nave da maciça igreja. Roanna olhou para a porta, onde Gwilym encontrava-se à sua espera, demonstrando-se ainda bravo por ter sido obrigado a acompanhá-la.

   Cynric, sentado à frente todos, junto ao altar, tinha a cabeça inclinada e parecia recolhido em prece. Um guerreiro silencioso, de cabelos negros, encontrava-se ao lado dele, mas não prestava atenção ao serviço religioso, ajoelhando-se e levantando-se automaticamente, toda vez que era necessário.

   O abade em pessoa rezara a missa, assistido pelo padre Robelard, que sorrira para ela ao dar-lhe a hóstia. Roanna sentira-se confortada pelo cálido sorriso, pois sentia-se aflita e gelada, desde que dera com os olhos frios de Cynric fitando-a intensamente, quando se ajoelhara junto do altar, a fim de receber a santa hóstia.

   Ela ergueu-se para ir embora. Cumprira seu dever para com um parente e queria sair logo do imenso, frio edifício que, era evidente, fora construído mais para satisfazer o orgulho e glória dos DeLanyea do que em honra a Deus. Gwilym desapareceu assim que a viu levantar-se, provavelmente para pegar os cavalos, pensou ela.

   Quando Roanna se aproximava da porta monumental da grande igreja, ouviu passos se aproximando, rápidos.

   - Milady! - chamou Cynric, com voz abafada.

   Ela voltou-se e viu-o abrindo caminho entre os rendeiros de sua propriedade, que se movimentavam devagar. Quando a alcançou, ele a fez recuar para perto de um desvão com uma abertura dando para uma escada estreita, que se enrolava em caracol, subindo. A escada para o campanário da torre, com certeza, imaginou Roanna.

   - Obrigado por ter vindo, milady - disse o novo barão, com um melancólico sorriso. - Estou muito feliz com sua presença.

   - Era meu dever - respondeu ela, seca.

   Estava consciente da mão dele ainda em seu braço e do rosto desagradavelmente próximo.

   - Eu esperava, loucura bem sei, que talvez a senhora acreditasse em mim, quando lhe pedi desculpas pelo que fiz. Se estou errada, se não acredita em mim, por favor não me diga. Deixe que eu viva nessa doce ilusão.

   Roanna corou, de leve. Tinha que admitir a si mesma: duvidara dele, mas agora não tinha tanta certeza. Sorriu e retirou o braço, fazendo-o soltá-lo.

   - Eu espero, Cynric - disse, com suavidade -, que termine todo esse ressentimento e o ódio que separam nossas famílias.

   Ele tomou-lhe a mão, num gesto respeitoso:

   - Esse é meu mais caro desejo também, Roanna.

   Nesse momento ela ouviu um som perto deles e tentou ver o que se tratava, mas Cynric movimentou-se, bloqueando-lhe a visão com o corpo forte.

   Sem que ela esperasse, levou a pequena mão aos lábios, murmurando com imensa tristeza:

   -Esse é meu mais caro desejo porque abriga uma tênue esperança para a realização de um sonho maravilhoso que acalento em meu peito.

   Roanna, então, teve certeza de que havia alguém no desvão escuro, atrás deles.

   - E que sonho é esse? - perguntou, distanciando-se do nobre.

   - Ter você - a voz de Cynric foi um sussurro quase inaudível.

   Ela o empurrou de lado e, com alívio, viu que não havia ninguém por perto. Encaminhou-se, rápida, para a porta da igreja. Como fora idiota!, pensava, zangada consigo mesma. Esfregou a mão no vestido, querendo limpar o ponto que os lábios dele haviam tocado.

   Cynric aproximou-se da porta e ficou olhando Roanna afastar-se, a cavalo. Então, começou a rir, cinicamente.

   Gwilym nada disse durante o caminho de volta e o outro cavaleiro galopando à esquerda dela, também se mantinha calado. Era tarde quando chegaram a Craig Fawr. O jantar já terminara e Mamaeth disse-lhe que colocara uma bandeja com comida no quarto, para ela. Roanna subiu imediatamente, apressada.

   Queria lavar as mãos, livrar-se de todos os traços do contato com Cynric, e dizia a si mesma que as mentiras daquele homem não mereciam crédito. Deveria ter escutado Emryss, em vez de teimar em fazer o que lhe parecera a coisa mais certa. Deveria ter acreditado no julgamento dele e tê-lo aceitado, em vez de se preocupar com o que os outros poderiam dizer se nenhum deles aparecesse na missa do tio.

   Mas já fizera o que não devia e, agora, só podia desejar nunca mais encontrar-se com Cynric.

   Abriu a porta, entrou no quarto e parou. Emryss, aparentemente adormecido, encontrava-se deitado na enorme cama. Um suave perfume de ervas evolava-se no ar e vários braseiros aqueciam o ambiente. As roupas dele encontravam-se amontoadas no chão, o tapa-olho em cima de tudo.

   Era a primeira vez que ela via Emryss tão calmo.

   Fechou a porta com cuidado e aproximou-se, observando-o. A cicatriz no rosto bonito achava-se enrugada e avermelhada pelo calor. O espaço onde seu olho direito estivera mostrava-se vazio, recoberto pela pálpebra meio afundada. Ficou olhando, tentando imaginar como ele seria antes do ferimento, mas era impossível. Para ela, a cicatriz fazia parte daquele rosto, como os lábios, o nariz reto, o queixo forte.

   Deu outro passo, aproximando-se mais. Os ombros largos achavam-se apoiados na cabeceira de madeira maciça da cama, um véu de suor fazendo-os brilhar e ressaltando mais os músculos possantes. Sentiu vontade de chegar-se a ele e limpar as gotículas de suor...

   Envergonhada com a audácia de seus pensamentos, desviou os olhos do corpo dele, mas apenas por alguns instantes. A nudez de Emryss a tentava além de todo pudor, com uma violência que lhe tirava o fôlego. Deu outro passo à frente.

   A água dentro da bacia, sobre o fogareiro perto da cama, encontrava-se coberta por ervas cheirosas. Ela fechou os olhos e aspirou profundamente o perfume.

   - O que está fazendo?

   A voz dele a fez sobressaltar-se e recuar.

   - Eu... eu ia... Ia me lavar - ela conseguiu dizer, num supremo esforço.

   - Dê-me aquela toalha ali - pediu ele.

   Roanna aproximou-se de uma cadeira e pegou uma das toalhas que se encontravam sobre ela.

   - Não - recusou Emryss. - Me dê a maior.

   Ela procurou uma toalha maior e voltou-se, indecisa. Ele a fitou por alguns momentos, depois sorriu, com ar insinuante. Afastou as cobertas de cima de seu corpo, devagar, e começou a levantar-se.

   Roanna virou-lhe as costas, depressa, e esticou o braço, dando-lhe uma toalha. Ele a pegou da mão trêmula, rindo.

   Ela sentiu o rosto arder de vergonha e fixou os olhos na parede cm frente. Ouviu barulho de água, e percebeu que Emryss se achava junto da mesinha onde estavam o jarro e a bacia.

   - Pode voltar-se, agora - avisou ele. - Estou apresentável. Ela olhou-o de relance, enquanto ele passava a seu lado. Voltou a fixar os olhos na parede: apresentável, para ele, era estar com uma toalha enrolada ao redor da cintura!

   De repente, ele cambaleou, dando impressão de que sua perna esquerda falhara.

   - Precisa de ajuda? - perguntou Roanna, preocupada.

   - Não - rosnou ele em resposta, passando uma das mãos nos cabelos.

   Continuou a andar, arrastando um pouco a perna que fora ferida.

   - Onde está o maldito tapa-olho? - resmungou, encaminhando-se para a arca.

   Roanna foi até a pilha de roupas e o pegou.

   - Aqui está - disse, solícita, estendendo-o para ele. Emryss segurou-o, com um sorriso triste.

   - Meu rosto não é coisa muito bonita de se ver, não é? - perguntou, tentando parecer indiferente.

   Por que não se vestia, de uma vez?, pensou ela, aflita, mas respondeu, com voz tranqüila:

   - A mim ele não perturba.

   Emryss pegou o cântaro de vinho que estava sobre a mesinha e serviu um dos dois cálices.

   - O que aconteceu com sua perna? - perguntou ela, criando coragem.

   - É um velho ferimento e uma longa história... Não quero falar nisso agora. Estou tão cansado! - Olhou-a e ela parou de respirar. - Tire essa touca horrorosa.

   - Sim, milorde.

   Ela retirou a touca e os cabelos, que se achavam presos por ela, desceram, exuberantes e macios, pelos ombros delicados. Ele ficou olhando-a em silêncio, depois murmurou:

   - Pelo sangue dos deuses, como você é bonita, Roanna! Devagar, ela caminhou para ele:

   - Emryss... - disse, com suavidade.

   Os braços poderosos a envolveram e ele apertou-a contra o forte peito nu. Gentil, mas ansiosamente, seus lábios procuraram os dela. O desejo fiamejou no íntimo de Roanna, levando-a a colar seu corpo mais ao dele. Sentiu as fortes mãos mexerem nos cordões que fechavam o vestido, soltá-los e, depois, deslizarem, quentes, sob o tecido, em suas costas.

   Ela gemeu baixinho e seus joelhos dobraram-se, fracos. Agarrou-se com mais força a ele, para não cair. Sentir contra a sua a pele dele, molhada de suor, excitou-a mais do que poderia imaginar, enquanto a língua de Emryss abria caminho entre seus lábios macios.

   De repente, encontrava-se nos braços dele, sem peso, suspensa no ar e sendo carregada para a cama, sem que o beijo se interrompesse. As mãos grandes, que também sabiam ser delicadas, acariciaram-lhe os cabelos, desceram para o pescoço esguio, pelos ombros e envolveram os seios que arfavam, com a respiração entrecortada. Uma estranha e deliciosa agonia tomou conta de todo seu ser e ela retesou o corpo, erguendo o busto, entregando-se mais ao toque de Emryss.

   Quando os lábios dele seguiram o mesmo caminho que as mãos haviam feito, ela desejou retribuir o delicioso prazer que Emryss lhe proporcionava. Suas mãos delicadas moveram-se devagar sobre os músculos retesados dos braços e passaram para o peito forte. Os mamilos dele eram duros e ela esfregou-os com a ponta macia dos dedos.

   Emryss gemeu e passou a lamber os mamilos dela, fazendo-a arquear as costas e inclinar-se para trás, enquanto continuava a acariciar cada centímetro do peito masculino com as mãos inexperientes, mas excitantes em sua ansiedade. Ela sentiu que um joelho dele se introduzia entre suas pernas e separou-as, abrindo-se para ele.

   Era tão certo, tão bom, tão maravilhoso!

   - Oh, Deus! - gemeu Emryss, desesperado, e rolou para o lado, ficando deitado junto dela, de costas, olhando para o teto.

   - O que... o que foi?... -murmurou ela, assustada.

   - Eu... eu não posso! - arquejou ele, com voz entrouquecida. Roanna sentou-se, esquecida do corpinho do vestido que se encontrava caído abaixo da cintura.

   - Por favor, Roanna, não me olhe, assim! - implorou ele e virou-lhe as costas. - Eu nunca devia ter me casado com você...

   - Você disse que sou bonita... - a voz dela era apenas um fio.

   Ele voltou-se, estendeu a mão para acariciar-lhe o rosto, porém retraiu-a, com expressão de profunda dor.

   - Você é. Muito bonita... - disse, baixinho, depois levantou-se, ajeitando a toalha ao redor da cintura.

   - Então, por que não me ama, Emryss? - Os olhos verdes, lindos, fitavam-no com amor e confusão.

   Sentindo-se mais angustiado diante daquele olhar, ele deu a volta na cama, até parar de pé, ao lado dela.

   - Porque sou apenas meio homem - disse, com voz que parecia rasgar a garganta.

   Ele deixou a toalha cair e ela sufocou um grito ao ver a terrível cicatriz que começava sob o mamilo esquerdo e descia até o joelho, lira vermelha e mais profunda abaixo da cintura. Uma outra cicatriz auzava-se com ela e chegava até junto do membro viril.

   - Um sarraceno quase me tornou um eunuco - explicou ele, amargo, enquanto pegava a toalha e se envolvia nela de novo. - Fez um bom serviço com a espada e foi ajudado por uma infecção.

   Roanna não tirava os olhos do rosto contraído de Emryss que continuou, amargo:

   - Ah, sim, a maior parte "deles" está aí e funciona... mas por pouco tempo...

   O lorde foi até a mesa e tomou mais vinho.

   - Tem certeza?

   A voz dela soou abafada, enquanto desejava, com doloroso desespero, que ele estivesse errado.

   Ele riu, triste, e respondeu, obrigando a voz a se manter firme:

   - Já tentei, Roanna... e foi um completo fracasso. Como vê, minha esposa, eu jamais devia ter lhe proposto casamento. Fui injusto fazendo isto com você.

   Roanna ajeitou o vestido no corpo e saiu da cama, também.

   - Por que me pediu em casamento? - perguntou, fitando-o com intensidade.

   Ele olhou para o copo de vinho durante um momento.

   - Porque você me olhava como uma mulher olha para um homem. Sem medo, sem repulsa e sem piedade. Olhava-me com respeito e... - a voz dele tremeu um pouco - com desejo.

   Calou-se, suspirou profundamente. Então, tornou a falar, dessa vez com voz mais firme:

   - É por isso que cavalgo todos os dias, até a exaustão. Você é tentadora demais... quase me enlouquece de desejo...

   Pegou a calça de couro do chão e vestiu-a. Pôs a camisa, calçou as botas e saiu do quarto, sem dizer mais nada.

   Roanna ficou olhando para a porta por um tempo enorme, depois jogou-se na cama. Em vez de sentir-se aliviada por ter descoberto que o problema não era ela, achava-se chocada e sentia uma terrível opressão no peito.

   Duas grandes lágrimas rolaram-lhe pelas faces.

   De repente, um grito de mulher a fez arrepiar-se. Ela saiu correndo do quarto, deixando a porta aberta. Havia um barulhento movimento no salão. Sem enxergar nada, precipitou-se pela escada a baixo.

   Emryss encontrava-se caído no chão, inconsciente. O coração de Roanna pareceu subir para a garganta e ela correu para junto do marido.

   - O que aconteceu? - gritou, no momento em que Mamaeth ajoelhava-se a seu lado.

   - Eu estava conversando com ele - contou Gwilym, angustiado, - quando, de repente, Emryss caiu.

   Havia um ar de acusação no rosto do rapaz moreno quando fitou ele Roanna, mas ela não prestou atenção, porque nesse momento Emryss gemeu surdamente.

   - O que ele tem? - perguntou, aflita, para Mamaeth.

   - Febre e não sei mais o quê - respondeu a velha ama, rispi-damente. - Cavalgar o dia todo, com qualquer tempo... o que esse menino pensava? Vamos, Gwil, ajude-me a levá-lo para a cama.

   Gwilym passou por Roanna, indo para o outro lado de Emryss, e ajudou Mamaeth a colocá-lo de pé. Ela ergueu-se e tentou auxiliar, também.

   - Pode deixar, milady, eu faço isso - disse Gwilym, frio, enquanto passava um braço do amigo pelos seus ombros.

   Ele e Mamaeth saíram andando, amparando Emryss, e Roanna seguiu atrás deles. As pessoas reunidas no hall, permaneceram imóveis, em um silêncio angustiado e solene.

   No quarto, Gwilym ajudou Mamaeth a deitar Emryss.

   - Vá e traga minha bolsa - disse-lhe a velha ama. Roanna esperou que o guerreiro saísse e só então se aproximou.

   - Ajude-me a tirar-lhe as roupas - pediu Mamaeth. Tiraram a camisa dele, com grande esforço.

   - Jesus, Maria e José! - exclamou a velha ama. - Meu menino está ardendo em febre! Tire as botas e a calça dele, enquanto vou avivar o fogo nos braseiros.

Roanna tirou as botas, depois colocou as mãos no cós da calça e puxou-a. Ela não se moveu e Emryss gemeu, baixinho.

   Santo Deus, ajudai-o!, orou ela, em silêncio. Seu marido estava muito doente e ela, tola, não percebera, recriminava-se, aflita.

   Mamaeth soltou uma risadinha abafada e aproximou-se da cama.

   - Eu lhe disse para tirar a calça dele, menina!

   Enfiou a mão na braguilha, abrindo os ganchos que a fechavam, e desceu a calça, num repeláo. Imediatamente endireitou o corpo, com uma exclamação horrorizada.

   - Santo Deus!... - Fitou Roanna, que não retribuiu seu olhar. - É por isso que você continua virgem, menina? - perguntou, com seu jeito brusco.

   Ela ficou muito corada e nada disse.

   - Homens! - suspirou Mamaeth, zangada. - Deixar-se ficar tão doente e não ter me dito uma só palavra sobre isto! Deixe esse menino melhorar e ele vai ter que se explicar comigo!

   Num gesto irado, jogou as cobertas sobre Emryss. Roanna tocou um braço de Mamaeth e perguntou, ansiosa:

   - Ele vai ficar bom, não é?

   - Claro que sim. Está com muita febre, mas já tratei e curei homens em pior estado. Não se deve deixar uma doença chegar a este ponto. Se, pelo menos, esses idiotas entendessem isso!

   Roanna desejou ter tanta confiança quanto Mamaeth demonstrava.

   Bateram à porta e Bronwyn entrou, com a bolsa de ervas de Mamaeth.

   - Já que está aqui, menina - ordenou a velha ama -, traga-me água quente, depressa. Não pare para fazer olhos melados para Gwilym, enquanto não tiver me trazido a água!

   Bronwyn saiu correndo do quarto.

   - Agora, sente-se aqui e descanse, querida - disse Mamaeth para Roanna, com seu desajeitado jeito carinhoso.

   Nos dias seguintes, Emryss ficou de cama, com febre alta e delírios. Roanna não saiu de seu lado, assim como Mamaeth, quando não tinha que se ausentar por algum tempo, a fim de providenciar o andamento da casa.

   Várias vezes ele falava coisas desconexas, parte de palavras, entoava trechos de canções, às vezes em voz muito alta. Cuspia e praguejava quando Mamaeth forçava seus estranhos remédios pela sua garganta abaixo.

   Muitas vezes ele gritava de dor, dizia que tinha sede, mas tomava água sem que sua agonia diminuísse. Murmurava, dizendo que comia carne de cavalo, ora tremia dizendo-se sob uma chuva gelada ou que sentia um cheiro horrível de carne apodrecendo. Entoava litanias intermináveis, até que sua voz se tornava rouca. Só então ficava em silêncio.

   O sofrimento dele atingia Roanna como um tormento indizível e ela não tinha coragem de afastar-se dele. Falava-lhe continuamente, carinhosa, exortando-o a ficar bom. Às vezes tomava-lhe as mãos, conservando-as entre as suas, num silêncio aflito, como se pudesse infundir-lhe a própria vida.

   Uma vez ela até se atreveu a beijar os lábios gretados pela febre.

   Não queria perdê-lo. Não conseguia conceber a vida sem o sorriso dele, sem seus gracejos, sem suas canções. O mundo seria incompleto sem Emryss.

   Afinal, uma noite, quando Roanna se desesperava, achando que ele não ficaria bom, Mamaeth entrou no quarto, fitou-o e colocou a mão na testa suada.

   - Jesus, Maria e todos os santos sejam louvados! - exclamou, com os olhos negros rasos de lágrimas. - A febre acabou.

   Roanna sentiu-se profundamente cansada, como se a vida se esvaísse de seu corpo ao alcançar a margem, depois de longa luta contra águas revoltas e traiçoeiras.

   - Ele vai ficar bom, minha querida - afirmou Mamaeth, com suavidade. - Agora, ele vai dormir profundamente, durante um bom tempo. Você deve descansar, também.

   Roanna assentiu, sem conseguir falar, e pôs-se de pé. Num grande esforço, conseguiu indagar, por fim:

   - Mamaeth, como poderei agradecer-lhe?

   - Tendo um filho - respondeu a mulher, voltando-se bruscamente e saindo do quarto.

   Roanna olhou para Emryss. Era evidente que ele não contara à sua velha ama que tentara e não conseguira. Suspirou e passou os dedos, de leve, nos lábios dele.

   Depois, aproximou-se da janela e olhou para o céu noturno.

   Como poderia convencer o marido a tentar de novo, com ela?

   Passeou o olhar pelas terras que aprendera a amar, que se estendiam para muito além do rio. As pás do moinho giravam, lentamente. Logo chegaria o inverno, pensou, olhando a lua alta no céu de veludo negro, e o moinho ficaria inativo.

   Sentiu o peito encher-se de profunda gratidão enquanto admirava a beleza da paisagem.

   - Obrigada, meu Deus - murmurou e as estrelas pareceram piscar para ela, amigas, lá do alto.

   Teve impressão de ver algumas nuvens escuras começando a cobrir o céu, enquanto respirava fundo. Como estava cansada!

   Encheu de novo os pulmões com ar, passeando o olhar embevecido pela paisagem lá embaixo, pela aldeia adormecida.

   De repente, sentiu que algo estava errado. Aspirou o ar, atenta, então procurou compreender o que se encontrava fora de lugar.

   Fixou os olhos no moinho.

   - Fogo - murmurou, meio engasgada, e correu para a porta. Fogo! - gritou, em desespero. - O moinho está pegando fogo! O pânico apoderou-se dela enquanto descia a escada correndo.

   Se o moinho fosse destruído, levariam vários meses para consertá-lo. Meses sem trigo e sem qualquer outra farinha o que significava falta de alimento no inverno.

   Saiu como louca pelo pátio, gritando, em alarme. Pessoas apareceram, também correndo, desorientadas, encaminhando-se por fim, ao moinho.

   Grandes chamas surgiam pelo teto da construção e, pouco depois, irromperam pelas janelas superiores. A enorme roda imobilizou-se, 0 logo devorando-a por baixo.

   Para seu maior desespero, Roanna notou que o fogo progredia rapidamente. Parou e olhou em torno. A construção era de pedra e com certeza agüentaria, podendo ser reparada logo. Se conseguissem salvar a roda, o moinho voltaria a funcionar em pouco tempo.    

   Gente corria por todo lado, sem saber o que fazer. Ela olhou para trás, desejando que Emryss estivesse ali para orientá-los. O que viu aumentou o pânico.

   Surgia fogo em uma das alas da fortaleza de Craig Fawr: o depósito de armas também estava em chamas!

   Gritou por Mamaeth e no mesmo momento percebeu o rosto da Velha ama entre a fumaça que já enchia o ar.

   - Graças a Deus você está bem - disse a ela, ofegando. - Junte as mulheres aqui e trate de acalmá-las e organizá-las. Faça com que apaguem as chamas na roda do moinho. Vou chamar os homens, para que voltem a Craig Fawr. A fortaleza também incendiou se.                                                                          

   Mamaeth ficou estatelada, olhando-a como se não tivesse entendido, e Roanna percebeu que estavam no meio dos aldeões, que esperavam, apavorados, sem saber o que fazei.

   - Vocês, mulheres, fiquem aqui e apaguem o fogo no moinho, com Mamaeth - ordenou, enérgica. - Vocês, homens, voltem comigo: a fortaleza pegou fogo!

   Imediatamente todos se movimentaram, obedecendo. Os homens saíram correndo colina acima e ela os seguiu como podia, o vestido comprido atrapalhando-lhe os movimentos.

   Quando chegou ao pátio, encontrou o caos. Homens corriam, carregando baldes com água, tropeçando uns nos outros na pressa de chegar ao depósito das armas. Pequenas chamas, surgindo aqui e ali, iluminavam a cena alucinante. Um homem que passava por ela correndo, carregando arcos e flechas, atrapalhou-se e derrubou-os, tanta era sua ansiedade.

   Uma lufada de vento carregou a fumaça limpando o ar por momentos. Ela sentiu um alívio, que se transformou em aflição ao lembrar-se que o vento poderia também levar fagulhas para a cocheira: o teto de madeira e a palha pegariam fogo num instante!

   Começou a gritar, mas ninguém a escutava, na confusão terrível que se havia estabelecido.

   Rápida, ela subiu para um dos andaimes mais altos e, então, gritou com a voz mais potente que pôde.

   Todos pararam instantaneamente e a fitaram. Só se ouvia o crepitar das chamas.

   - Rhys - gritou ela. - Onde Rhys está?

   - Aqui! - a figura maciça do administrador destacou-se dos demais homens, dando um passo à frente.

   - Faça os homens se colocarem em uma linha contínua, do poço até o galpão de armas. Eles devem passar os baldes cheios de água uns para os outros. Mande os mais velhos jogarem água nos pequenos focos de fogo e as crianças molharem bem o teto da cocheira. Todos devem se empenhar nesses trabalhos, precisamos apagar o fogo o mais rápido possível.

   Os homens se entreolharam, indecisos.

   De repente, Roanna divisou uma figura alta, forte, na porta do salão.

   - Façam o que ela disse! - gritou Emryss. - O que estão esperando? A senhora de Craig Fawr está ordenando e não pedindo!

   Os homens movimentaram-se, de imediato, e passaram a agir de maneira eficiente. Roanna desceu da andaime e correu para junto do marido.

   - Obrigado... - disse ela.

   - Eles iam obedecê-la, mesmo que eu não aparecesse - respondeu ele, sorrindo. - Você parecia um anjo vingador.

   Roanna riu, apesar de estar muito pálida.

   - Venha - chamou-a, movimentando-se. - Vamos ajudá-los a apagar o fogo.

   - Mas, a sua perna...

   - Eu posso ir para a cocheira e ajudar os velhos.

   Ela abriu a boca para protestar, porém ele já se afastara, desaparecendo na fumaça.

   Roanna ajudou Rhys a manter funcionando a ponte para o transporte rápido de água e reparou que não havia baldes suficientes para a corrente chegar até o galpão. Foi correndo para a cozinha e pegou todas as panelas que poderiam servir, até mesmo a favorita de Jacques, e entregou-as aos homens.

   Os mais velhos e as crianças, entusiasmados com a responsabilidade de salvar a cocheira, trabalhavam com afinco, animando-se mais quando o lorde juntou-se a eles. Ouvindo a voz calma dele, dirigindo-se aos aldeões, Roanna voltou sua atenção na ajuda para apagar o fogo no depósito de armas.

   E, atenta ao trabalho como estava, não percebeu que a barra de seu vestido pegara fogo.

  

   Com o amanhecer chegou uma chuva bem-vinda, que terminou com os poucos focos de fogo que restavam.

   Emryss olhou para o céu, por uma das altas janelas da cocheira. Ele preferia ter ficado lá fora, ou no teto, com as crianças, mas o bom senso prevalecera e se conformara, empenhando seus esforços em evitar que o fogo tomasse conta do interior da cocheira. Ao sair, viu que o pátio era uma enorme confusão, com poças d'água, pedras e pedaços de madeira queimada espalhados por todo lado. A maioria dos aldeões tinha voltado para suas casas, mas alguns homens haviam ficado e se achavam reunidos junto do galpão dás armas, conversando, ainda nervosos. Se bem que as pedras do depósito estivessem enegrecidas pela fumaça, Emryss verificou, com alívio, que não havia rachaduras nas paredes. Poderia ter sido muito pior se Roanna não tivesse dado o alarme a tempo.

   Olhou ao redor e não a viu em lugar algum.

   - Maldito olho cego! - resmungou, voltando para a cocheira e subindo para a parte de cima, perto do teto, onde estocavam feno. Então, viu um menino espiando, semi-oculto atrás de um fardo. - Está tudo bem? - perguntou-lhe.

   - Sim, senhor - respondeu o garoto, aproximando-se de seu ídolo, os olhos negros brilhando de admiração.

   Emryss foi ao encontro dele e arrepiou-lhe os cabelos, com a mão:

   - Vocês, crianças, fizeram um bom trabalho - disse, sorrindo. - Estou orgulhoso!

   Um grupo de crianças desceu do telhado, por uma abertura no teto, com as carinhas pretas pela fumaça, o que tornava seus risos ainda mais brancos. Alegres, rodearam o lorde, que teve um carinho e uma palavra de amor para cada uma. Depois de verificar que o teto se encontrava em ordem, ele encaminhou-se para a escada de madeira e desceu, devagar, com dificuldade, até o chão da estrebaria. Subira com certa ligeireza, mas para descer a perna esquerda doía mais.

   Saiu para o pátio e Gwilym foi ao seu encontro:

   - Graças a Deus o estrago não foi muito grande - disse ele.

   - E o moinho?

   - Mamaeth fez as mulheres se mexerem depressa. A roda ficou meio chamuscada, mas ainda funciona.

   Emryss assentiu e só então notou o quanto estava cansado.

   - Você sabe onde Roanna está, Gwil? - perguntou, olhando cm volta.

   Uma expressão esquisita passou pelo rosto moreno de seu irmão de criação:

   - No salão... - respondeu ele, hesitante.

   O lorde encaminhava-se, devagar, para o salão quando viu um pequeno amontoado de pano, rasgado e chamuscado, no chão. Era um vestido. O vestido dela. Disparou a correr e entrou, ofegante, no salão, onde havia muita gente, a maioria irreconhecível, com rosto e mãos enegrecidos pela fuligem.

   Santo Deus, se ela estivesse machucada ou...

   - Roanna! - gritou, a voz carregada de aflição.

   Rhys, pelo menos ele achava que era Rhys, deu um passo à frente e respondeu:

   - Ela está em seu quarto, milorde.

   - O que aconteceu? - perguntou, angustiado e com medo de ouvir a resposta.

   - O vestido dela pegou fogo...

   Emryss não quis escutar mais nada. Atravessou o salão como um ralo, subiu a escada num instante, a perna esquerda falhando, doendo demais, porém não lhe deu importância. Quando entrou no corredor, viu Mamaeth saindo do quarto. A velha ama ergueu um dedo aos lábios, pedindo-lhe silêncio:

   - Ela adormeceu agora... Está mais calma... - sussurrou, cuidadosa.

   - Ficou muito machucada? - perguntou ele, ansioso.

   - Não... A pobrezinha está apenas exausta. Isso é tudo, não se preocupe. - Notou que o lorde parecia esquisito. - O que foi, Emryss? - indagou, curiosa.

   - Nada, Mamaeth - respondeu ele, tentando parecer normal. Mas teve que se encostar na parede para não cair, sentindo toda intensidade da dor que parecia rasgar-lhe a perna.

   - Nada, a não ser essa perna - resmungou a velha ama. - Vamos até lá embaixo, vou colocar um cataplasma nela.

   - Não precisa, não se incomode...

   - Eu disse, vamos até o alojamento, que dou um jeito nisso, Emryss sabia que não adiantava teimar, quando Mamaeth falava naquele tom.

   Quando chegaram ao alojamento, ela acendeu um braseiro, colocou algo em uma panela e levou-a ao fogo. Enquanto mexia o conteúdo, observava o filho de criação, com os cantos dos olhos.

   - Agradeça a Deus pela chuva - resmungou por fim, fitando-o de frente - e à sua mulher, pelos bons olhos. Tire a calça.

   De costas para ela, o lorde abaixou a calça, deitou-se numa das camas e cobriu-se com uma manta.

   - Você parece um cachorro doente! - exclamou Mamaeth, aproximando-se, com uma terrina fumegante nas mãos. Emryss torceu o nariz, com expressão de nojo. - Não faça cara feia para mim, menino! Isto vai ajudá-lo a ficar bom. E já estaria curado se não guardasse segredos de mim.

   Num gesto rápido, ela puxou a manta, descobrindo-o.

   - Sangue de Deus! - gritou Emryss, tentando cobrir-se de novo.

   - Não blasfeme, menino, ou não o ajudo!

   Ele resignou-se ao inevitável, mas tratou de não olhar para a velha ama, enquanto ela aplicava o fedorento cataplasma sobre a feia cicatríz do ferimento, na virilha e o fixava no lugar com uma faixa.

   - Então, sua mulher continua virgem... - comentou ela, com voz calma.

   Emryss pôs-se de pé e subiu a calça.

   - Você devia ter me contado menino - continuou ela.

   - E tornar minha vergonha conhecida?

   - Vergonha por quê?

   - Por eu não poder... - Ele se calou, deu de ombros, depois completou: - Por eu não poder ter filhos.

   - Claro que não vai ter filhos se não fizer amor com ela, seu bobo! - exclamou a velha ama, rindo.

   - Mamaeth... - começou ele e pigarreou, para firmar a voz -, eu não posso fazer amor com ela!

   - Por que não, por todos os santos? Só porque perdeu uma bola? - Mamaeth falava crua e diretamente, em sua exasperação. - Que o céu me proteja, mas às vezes eu acho que vocês têm o cérebro nas bolas! Homens!...

   Notou que seu querido filho de criação começava a se descontrair, que quase estava rindo, e continuou:

   - Você perdeu um olho, Emryss, mas não é cego.

   - Mas também não sou completo...

   Mamaeth olhou-o em silêncio, por alguns instantes, então declarou:

   - Então, considere-se um homem feliz, porque as partes que perdeu não fazem diferença alguma em você.

   - Não? Como assim?

   - Deus sabia o que estava fazendo quando criou Adão. Ele lhe deu duas bolas e perder uma não impede um homem de funcionar.

   Emryss, interessado, sentou-se ao lado de Mamaeth, na beira da Berna.

   - Foi isso que Abram me disse - murmurou. - O homem que salvou minha vida. Mas... - ele suspirou profundamente - tentei, quando cheguei aqui. Parecia que estava funcionando, então, quando...

   - Ah! - exclamou Mamaeth, sacudindo a cabeça, ao vê-lo hesitar. - Estava preocupado, talvez com medo, com uma mulher que não conhecia, que não queria dizer nada para você. Claro que tudo linha que dar errado, com todas essas coisas contra. Mas agora vai ser diferente.

   - Como você pode ter tanta certeza, Mamaeth?

   - Porque "esta" mulher quer você como marido. Ela o ama, meu menino. Olha para você de um jeito! E você casou-se com ela. É só conseguir dominar o medo de falhar, na primeira vez que tentar. Mas é melhor esperar um pouco, não a procure esta noite. Dê algum tempo ao seu corpo, para sarar.

   Emryss mostrava-se animado, como se pudesse voar pelo espaço, se quisesse.

   - Quanto tempo? - perguntou, sem esconder a ansiedade.

   - Agora, sim! Esse é o meu Emryss. Disposto, impaciente. Espere uma semana.

   A velha ama abraçou o homem que conhecera desde o nascimento,

   A quem amava profundamente, e o fez repousar a cabeça em seu ombro, como ele fizera tantas vezes, quando precisava de apoio e consolo.

   - Obrigado, Mamaeth, minha mãezinha - murmurou o lorde, emocionado.

   Ela passou as mãos pelos cabelos fartos dele, fungando para esconder o quanto também estava perturbada.

   - Ha! Você é como todos os homens! - esbravejou, sem grande convicção. - Não dizer nada do que acontecia, nem mesmo a mim. Até agora, você jamais tinha feito isso, menino, pois não é bom me esconder segredos. Mas desta vez me enganou. - Levantou-se.

   - Fico esperando alguns bebês, então. Sua mulher foi feita para ter filhos e ela também os quer. Se não estiver certa, eu juro que largo tudo e vou ficar sentada num canto, como uma velha imprestável!

   Emryss riu, sentindo vontade de gritar, correr, saltar, cantar e dançar. Era como se o seu coração, leve, subisse ao céu.

   - Diga-me, Mamaeth, meu mais antigo amor, como sabia que Roanna continuava virgem?

   - Pelo jeito de andar, menino. Os passos dela não se tornaram soltos, os quadris não têm o balanço bonito da mulher que conhece o amor.

   Ele olhou-a, em dúvida.

   - Vá para junto dela, seu bobo, mas por enquanto só para olhar! - admoestou Mamaeth, voltou-lhe as costas e saiu do alojamento.

   O jovem lorde pôs-se de pé, num ímpeto, mas uma pontada na perna advertiu-o para ir com calma. Cantarolava sua canção preferida quando saiu do alojamento.

   Olhou para a fortaleza, contente por ter sido tão pouco prejudicada pelo fogo. Tinham até dezembro para terminar os consertos e deixar tudo em ordem. Teriam, então, que parar. O frio poderia fazer a argamassa fresca rachar, por isso deveriam cobrir o topo da muralha com uma mistura de palha e esterco. A reconstrução estava indo mais depressa do que ele pensara, ao iniciá-la na primavera.

   Craig Fawr seria inexpugnável, a não ser com a ajuda das mais sofisticadas máquinas de guerra. Mas quem iria pensar nisso, para conquistar uma propriedade pequena demais para justificar grandes gastos?

   Encaminhou-se para o salão, onde cumprimentou e agradeceu a todos pela ajuda durante o incêndio. Viu Gwilym cochichando com Bronwyn num canto e disse, entusiasmado:

   - Bronwyn, avise Jacques para fazer um jantar especial, hoje. Todos nós o merecemos.

   A bonita criada fez uma reverência e sorriu:

   - Sim, milorde - depois, com um sorriso especial para Gwilym, correu para a cozinha.

   - Brawdmaeth - começou Gwilym, sério -, preciso falar com você.

   Emryss sorriu, despreocupado:

   - Mais tarde, Gwil. Agora tenho algo importante a fazer.

   O guerreiro abriu a boca para dizer algo, então desistiu e concordou, com um aceno de cabeça.

   Quando chegou à porta do quarto, Emryss bateu suavemente. Não ouviu resposta, então abriu a porta com cuidado e entrou.

   Roanna encontrava-se na cama, dormindo, as cobertas erguidas até o queixo. Os longos e sedosos cabelos negros achavam-se espalhados sobre o travesseiro e podia-se ver traços de fuligem nos cantos de seus olhos e dos lábios. Olhou as próprias mãos e só então notou que estavam negras.

   O mais silenciosamente possível, foi até a mesinha, despejou água na bacia e tratou de lavá-las, ansioso para ir para junto de sua adorável mulher, tocá-la, acariciá-la...

   - Emryss?

   Ele voltou-se e deu com ela a olhá-lo.

   - Sim, esposa!

   Ele sabia que estava rindo como um tolo, mas sentia-se feliz demais para se importar. Aproximou-se, sentou-se na beirada da cama, junto dela, e acariciou-lhe o rosto.

   - Obrigado por ter salvo o moinho e o depósito - disse, baixinho.

   - Eu só dei o alarme - respondeu Roanna, franzindo as finas e bem desenhadas sobrancelhas. - Você está bem?

   - Melhor do que nunca, Roanna...

   Inclinou-se e beijou-lhe os lábios, de leve. Ela começou a tremer e resistiu a custo o impulso de se jogar nos braços dele.

   - Mamaeth e eu tivemos uma conversinha - explicou Emryss. - Parece que eu tenho sido um bobo...

   Suas palavras provocaram um encantador olhar de espanto.

   - Ela disse que se eu... não fizer nada, nunca teremos filhos.

   O sorriso feliz de Roanna começou nos fascinantes olhos verdes e estendeu-se para os lábios adoráveis, que em seguida procuraram os dele. Abraçou-o com força, exigindo a retribuição que o marido tava ansioso por dar. Depois de longos instantes, ele a afastou, sem respiração:

   - Pelos deuses! E dizem que eu sou impaciente! - Riu, feliz. - Mamaeth disse que devo esperar uma semana, então acho que é melhor eu dormir no alojamento, durante esse tempo. - Ergueu-se.

   - Vai ser demorado e difícil - a voz dele tornou-se meio rouca-, mas acredito que teremos uma boa recompensa.

   Roanna sorriu, sentindo todo seu corpo aquecer-se com o olhar a moroso do marido.

   Soaram pancadas fortes na porta e a voz de Mamaeth vibrou, mas rascante e alta do que nunca:

   - O que está acontecendo aí dentro? É melhor que siga meus conselhos, Emryss!

   Ele foi abrir a porta e encontrou a velha ama quase escondida atrás da enorme tina de madeira que carregava.

- Então, seu piolho? - esbravejou ela, fjngindo-se zangada. - Ajude-me aqui ou deixo esta coisa cair e você vai perder algo mais!

   Ele riu e pegou a tina, levando-a para o meio do quarto. Mamaeth seguiu-o e olhou para os rostos felizes de ambos.

   - Traremos a água assim que aquele saco-de-banha aqueça uma quantidade suficiente. Acontece que ele está ocupado demais, contando como acabou com o incêndio sozinho, para poder trabalhar.

   - Não tenha pressa, podemos esperar - respondeu Emryss, com fingida solenidade.

   Mamaeth parou de reclamar, a expressão zangada desapareceu e ela riu.

   - Claro que podem esperar, milorde - ironizou, com duplo sentido. - Lembre-se, uma semana... ou talvez você sofra sérios danos, Emryss!

   - Não vou me esquecer! - gritou ele, enquanto Mamaeth saía.

   - Pense em quanto tempo perdeu, por ser um bobo! - revidou ela, fechando a porta.

   Emryss soltou uma gargalhada que se apagou quando fitou a esposa.

   - Roanna... - perguntou, sério, a voz muito doce e macia - o que há embaixo dessas cobertas?

   De repente, ela sentiu-se muito embaraçada e apertou os lábios, sem responder.

   - Eu lhe fiz uma pergunta, esposa - insistiu ele, caminhando para a cama.

   - Nada - respondeu ela, com voz fraca, pois estava nua.

   A aproximação dele despertava deliciosos arrepios de antecipação que percorriam cada centímetro de seu corpo.

   Ele sentou-se na cama e passou os dedos pelos seios dela, por cima da coberta.

   - Sabe, esposa? Ocorreu-me que há outros modos de sermos felizes juntos, durante a semana de espera...

   A mão dele deslizou por baixo da coberta e acariciou a pele macia. Roanna suspirou e fechou os olhos quando Emryss passou a mordiscar levemente o lobo de sua pequena e rosada orelha. As mãos dela movimentaram-se lentamente, pelos braços dele, até chegar ao pescoço forte, onde se agarraram, ansiosas.

   O toque dele tornou-se mais firme e Emryss tirou a coberta de cima dela. O corpo esguio arqueou-se ao ser acariciado mais intensamente e ela ergueu o rosto, para beijá-lo.

   - Vê? - sussurrou ele, a voz rouca de paixão. - Assim vai ficar mais fácil... e ao mesmo tempo mais difícil esperar! E há mais, muito mais do que isto.

   Separaram-se, bruscamente, quando Mamaeth abriu a porta e entrou no quarto. Roanna cobriu-se, rápida, enquanto Emryss punha-se de pé num salto, corando intensamente.

   - Água para seu banho, milorde - anunciou a velha ama, sorrindo diabolicamente - e para o seu, milady.

   Um grupo de criadas entrou, cada qual com um balde de água.

   - Deixem os baldes aí e saiam - ordenou Emryss, todo animado. As mulheres obedeceram, rindo disfarçadamente, e saíram, cacarejando como um bando de galinhas, seguidas por Mamaeth. Emryss começou a despejar a água dos baldes na tina.

   - Você vai tomar banho primeiro? - perguntou Roanna.

   Ele endireitou o corpo, depois de colocar o último balde no chão, soltou-se:

   - Primeiro? - Sacudiu a cabeça em negativa e se aproximou. -Vamos tomar banho juntos.

   Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ergueu-a nos braços colocou-a dentro da enorme tina. Em poucos segundos, ele livrou-se das roupas e, com um sorriso lascivo, entrou também. A princípio, limitou-se a jogar água no próprio peito, sem deixar de fitá-la, depois colocou as mãos nos ombros delicados, de pele cremosa e branca. Ela estremeceu, deliciada sob o toque das mãos fortes, grandes, e chegou mais perto dele.

   - Oh, não... - gemeu Emryss, soltando-a. - Estou começando a achar que esta não foi uma boa idéia. É melhor eu ir já para o alojamento ou acabo esquecendo tudo que Mamaeth recomendou. Roanna corou e olhou para baixo, vendo-se através da água e só então parecendo se tornar consciente da própria nudez. Sentia o corpo todo fervendo e não era por causa da água quente.

   - Mas, está tão gostoso e você é tão linda!-acrescentou Emryss, lindo. - Ah! Conte-me uma coisa. Por que o seu vestido estava jogado no meio do pátio? Ela desviou os olhos e engoliu seco, antes de responder.

   - Ele pegou fogo... a saia... a barra deve ter encostado em alguma brasa, não sei. - Não se atrevia a encará-lo, enquanto falava, e prosseguiu: - Começou a queimar, então... então, eu o tirei.

   Levou alguns momentos para ele entender o significado total dessas palavras.

   - Você tirou o vestido? Onde? - indagou, atordoado.

   - Ora, Emryss, lá! No pátio.

   Ele soltou uma sonora gargalhada.

   - Quer dizer que minha tímida esposa tirou a roupa no meio do pátio? Oh, que indignidade! Como vou poder continuar vivendo com tal vergonha?

   Roanna procurava aparentar indiferença, mas seu rosto queimava.

   - Não havia tempo para fazer qualquer outra coisa - justificou-se, séria.

   Emryss enfiou uma das mãos na água, pegou a mão dela e disse:

   - Roanna, olhe para mim. Isso, assim... Não me importaria nem um pouco se você tivesse ficado completamente nua diante de meus aldeões. - Ele calou-se por instantes e sorriu. - Bem, quer dizer, isso não é bem verdade. No entanto, acho que você se importa demais com o que os outros pensam e dizem. O importante é que salvou as armas e o moinho. Sem eles, ficaríamos indefesos como uma ovelha recém-nascida e passaríamos fome.

   O coração de Roanna vibrou de felicidade.

   - Isso, agora está melhor, com essa carinha alegre... - Emryss largou-lhe a mão e passou-a pelo próprio queixo, pensativo. - Sabe, andei pensando... Acho que você deveria ter seu padre, para conversar sobre tudo que a preocupa, para ter sua missa, seu conforto.

   Roanna ergueu-se a meio e se movimentou para a frente, a fim de segurar os ombros largos do marido. A água transbordou com a brusca agitação, mas ela nem percebeu.

   - Oh, Emryss! É verdade?

   - Se eu soubesse que dizer que vai ter um padre a faria agir assim, palavra que o teria feito muito antes! - exclamou ele, rindo. - Sim, vai ter seu padre. - O rosto dele escureceu por instantes.

   - Só que não me peça para ter qualquer coisa a ver com ele.

   - Não vou pedir, Emryss - prometeu ela, séria.

   - Gostaria muito de saber por que você faz tanta questão de ter um padre por perto - comentou o lorde.

   Ela voltou a se encostar do outro lado da tina.

   - Quando morava com meu tio, só me sentia em segurança quando estava na igreja. Para mim, era a mesma coisa que estar em casa.

   - Bem, esta é a sua casa, agora - disse ele, sorrindo-lhe com afeto. Depois, mergulhou a cabeça na água. - Meu Deus, estou cheirando a fumaça.

   Roanna aproximou-se dele, farejando graciosamente e dizendo:

   - É mesmo... Eu também!

   - Para trás, mulher! Desse jeito não vou conseguir ter a paciência de que preciso! - Ela recuou e ele olhou-a ressentido. - Hum... Vamos voltar a falar no seu padre. Creio que ele precisará ter algo melhor do que um barracão como capela. Na primavera, se conseguirmos bastante lã, trataremos de construir uma igreja de pedra.

   - Obrigada, Emryss! - sorriu Roanna, feliz.

   Ele gemeu:

   - Não me olhe assim! Sou apenas um simples mortal, sabe? - Brgueu-se e parecia furioso ao sair da tina. - Pelas chagas dos deuses, como diabo vou conseguir esperar uma semana?

   - Eu também não quero esperar... - murmurou ela, corando. Emryss fitou-a, a pele úmida e brilhante, os lábios róseos entreabertos, os olhos verdes cintilando. Virou-lhe as costas, enxugou-se e começou a vestir-se.

- Vou descer para verificar os estragos - disse quando estava pronto. - Vou ver se dou um jeito na estrebaria, também - acrescentou ao sair. - Está menos danificada.

   Roanna saiu da tina e enxugou-se, esfregando-se vigorosamente com a toalha. Seu corpo vibrava e ela não conseguia parar de sorrir, se bem que uma semana lhe parecesse tempo demais.

  

   Emryss saltou uma grande poça d'água que havia quase diante da entrada do salão. Rhys e Gwilym, carregando um enorme tronco, puniram à porta do galpão das armas, conversando em tom meio irrado.

   Enquanto ele atravessava o pátio, Rhys fez-lhe um sinal, chamando-o. O rosto do administrador e o de Gwilym mostravam-se sombrios e preocupados.

   - Preciso falar com você, Emryss - disse Gwilym, sério.

   - Está bem. Quantas armas perdemos?

   - Poucas. Conseguimos tirar quase tudo a tempo, graças ao alarme imediato - respondeu Rhys.

   - Depois me diga exatamente quantas queimaram - pediu Emryss assentiu e entrou no galpão. - Então, o que há de tão importante para me dizer, Gwilym?

   - O fogo foi ateado. Encontramos piche e restos de tochas no moinho e aqui.

   Emryss sentiu uma onda de raiva percorrer-lhe o corpo.

   - O moinho, eu entendo... - comentou, entre os dentes. - Mas quem poderia ter entrado aqui?

   - O moinho foi incendiado primeiro e, como loucos, corremos aflitos para lá. Deve ter sido então que entraram aqui e puseram fogo no depósito de armas.

   O lorde esfregou o queixo.

   - Alguém viu alguma coisa? - quis saber.

   - Aqui, não... - O rosto de Gwilym endureceu. - Mas eu vi uma coisa e preciso contar-lhe. No mosteiro.- Emryss fixou os olhos no chão e ele continuou: - Cynric bejjou a mão de sua mulher. Ele a levou para um canto e ela quis ir.

   - Como sabe disso? - a voz do nobre estava presa na garganta.

   - Tenho olhos, Emryss.

   - E acha que isso tem algo a ver com os incêndios?

   - Bem, foi ela quem deu o alarme e nos mandou todos para o moinho...

   - E quem viu o fogo, aqui? - indagou Emryss, frio.

   - Ela - respondeu Gwilym, sacudindo os ombros.

   - Então, ela teria mandado todos para lá e depois trazido os homens de volta, para combater um incêndio do qual teria sido cúmplice? Isso não faz sentido, Gwil.

   - Espero estar errado, por você, brawdmaeth

   - Está vendo conspiração onde não existe, Gwil. Ela não faria isso, tenho certeza. Vamos redobrar a vigilância. Por enquanto, venha comigo. Eu quero perguntar a ela.

   Roanna parou de escovar os cabelos e sorriu quando Emryss entrou no quarto.

   - Gwilym disse-me que Cynric falou com você na igreja - disse ele, abruptamente.

   Gwilym, que o acompanhara, olhou-a, pouco à vontade.

   - Sim, falou - respondeu ela, perplexa.

   O lorde continuou, decidido a terminar com todas as dúvidas do amigo:

   - O que ele queria?

   - Disse que gostaria de parar com a briga entre vocês - respondeu ela, tranqüila.

   - Que mentiroso! - bufou Gwilym. Roanna fitou-o, aborrecida, e comentou:

   - Ele criou uma abertura para a reconciliação.

   - Oh! Ele pode criar quantas aberturas quiser que eu não vou acreditar naquela cobra, nem por um momento - declarou Emryss. Encarou-a com firmeza: - Mais alguma coisa?

   - Ele pegou minha mão e beijou-a. Disse algo, mas eu notei que estávamos sendo observados e não entendi.

O lorde soltou a respiração, devagar, como se estivesse aliviado de um peso.

   - Viu, Gwil? Cynric fez mais uma de suas representações, isso é tudo.

   - Bem, então não há mais nada a dizer - finalizou Gwilym, voltando-lhes as costas e saindo do quarto.

   Roanna aproximou-se de Emryss:

   - Não gosto de ser espiada - declarou, fria -, nem mesmo por seu melhor amigo.

   Emryss tomou-lhe as mãos:

   - Ele só está preocupado. Gwil pode parecer rude, mas é bem intencionado. - Sério, acrescentou: - Não gosto da idéia de Cynric pondo as mãos em minha mulher.

   Os lábios tentadores de Roanna entreabriram-se num sorriso cativante:

   - Eu quero que apenas um homem ponha as mãos em mim. Ele segurou-lhe o rosto, delicado, e beijou-a de leve.

   - Pelas chagas dos deuses, mulher! - exclamou, rindo. - Começo a achar que consegui muito mais do que pensava, quando me casei com você.

  

   Enquanto isso, lá embaixo, Gwilym procurou Bronwyn, levou-a até a despensa, longe dos demais, e disse-lhe, com ar sombrio:

   - Quero que você esteja sempre por perto de lady Roanna.

   - Por quê? Alguma coisa errada? - Ela deu-lhe um rápido beijo e o rosto dele se descontraiu um pouco.

   - Talvez nada, talvez tudo... - respondeu, pensativo.

  

   Três dias depois, padre Robelard encontrava-se sentado diante da enorme mesa de carvalho, fazendo uma série de nós no cordão de seu manto. Cada ruído que penetrava na sala austera o fazia estremecer. A espera estava se tornando intolerável e a sensação de insegurança crescera cada vez mais dentro dele, desde o momento em que o seu superior o chamara, logo após mais uma missa pela alma.

   0 barão DeLanyea, e lhe dissera que fosse esperar em sua sala. Padre Robelard duvidava que missas e preces, por mais numerosas que fossem, conseguissem fazer a alma do velho nobre entrar no paraíso, mas afinal, pensou com um suspiro de resignação, era dever deles tentar salvar os pecadores.

   Estremeceu ao lembrar-se da última vez que vira o barão vivo. Um homem orgulhoso jazia devastado pelo ataque que caíra sobre ele com a mão justiceira de Deus. Pouco mais do que um cadáver, cada respiração era um esforço inaudito. Assim mesmo o velho nobre conseguira falar e pedira que todos saíssem do quarto, menos seu filho, Fitzroy e ele.

   O padre estremeceu de novo. Compreendera no mesmo instante que não se encontrava lá para oferecer alívio ou conforto, porém jamais esperara ouvir a narração de um ato de monstruosa vilania e crueldade, que não esperara de ninguém, nem mesmo do barão.

   Depois, ele também fora mandado embora do quarto, onde tinham ficado apenas Cynric e seu amigo, se é que alguém pode chamar um mercenário de amigo, para testemunhar os últimos momentos daquele sofredor.

   A porta da sala do abade abriu-se e padre Robelard levantou-se. Cynric DeLanyea, agora barão e lorde de March, entrou, com os ombros caídos e expressão insegura.

   A boca do padre abriu-se, tal sua surpresa. Ele esperava que o novo barão agisse com mais arrogância ainda e orgulho do que exibia quando era lorde. Já não sofria o domínio de seu imponente pai. No entanto, a atitude de Cynric era humilde, conciliadora. Fez sinal para o religioso sentar-se, enquanto se acomodava na cadeira do abade, atrás da mesa escura.

   - O senhor deve entender que este é um momento muito difícil para mim - disse o barão. - No entanto, preciso colocar meus sentimentos de lado e dirigir a propriedade. - Fez uma pausa, enquanto aparecia nos olhos azuis uma expressão mais astuta do que a que padre Robelard se habituara a ver nos olhos do velho barão.

   - Como o senhor já deve ter notado, meu pai já não necessita mais de seus serviços.

   O religioso assentiu:

   - Sim, milorde, sua missão é abençoada e... - Calou-se, confuso.

   - Quero dizer...

   Cynric observou os longos dedos das próprias mãos, com ar distante, depois voltou a encarar o padre:

   - Não pretendo que um homem inteligente e cheio de discernimento, como o senhor, acredite que tenha existido um grande amor entre meu pai e eu.

   O padre percebeu que a atitude inicial de Cynric fora apenas para divertir-se com ele e preferiu guardar um silêncio neutro. Esperou que o barão DeLanyea continuasse:

   - Preciso de assistência em um caso delicado e ocorreu-me que o senhor é a pessoa mais indicada para me ajudar. Afinal, meu pai quis ter certeza de que o senhor ficaria a par dos desagradáveis detalhes que cercam a verdadeira relação de parentesco entre Emryss DeLanyea e minha família.

   O padre remexeu-se na cadeira, inquieto, apesar do tom amigável de Cynric.

   - Acho que não é necessário divulgar esses detalhes. Concorda, padre?

   - Sim, milorde.

   - Bom. Afinal, trata-se de coisas do passado e que não podem ser alteradas.

   - E verdade, milorde - assentiu o religioso, tenso.

   - No entanto... - Cynric sorriu maldosamente -, eu gostaria de melhorar o relacionamento entre Emryss e eu.

   - Uma louvável atitude cristã, milorde, se me permite dizê-lo.

   - Mas existe um problema. Tenho certeza que Emryss não irá irsponder a qualquer tentativa de abertura que eu lhe ofereça. Ele ignorou meu convite para que comparecesse à missa solene pela morte de meu pai.

   Padre Robelard fez que sim com a cabeça, mim gesto triste.

   - Mas se um homem discreto, habilidoso, for assumir a capela de Craig Fawr, onde talvez possa se tornar amigo da mulher dele...

   - Seria ótimo, milorde, mas acontece que lorde Emryss é hostil a Igreja.

   - Parece-me, padre, que ela conseguiu convencê-lo a ter um padre na fortaleza.

   - Deus a abençoe! - regozijou-se o religioso.

   - Pois bem - continuou o nobre-, falei com o abade e ele concordou quando eu disse que o senhor é o melhor candidato.

   Padre Robelard tossiu, nervoso. Será que o abade pensava, mesmo assim ou soubera que ele caíra em desgraça diante do barão e achava melhor afastá-lo?

   - O abade entende que no caso é necessário um padre sensível, inteligente e, claro, pensou no senhor.

   - Sinto-me muito lisonjeado, milorde... Cynric ergueu-se e fechou sua túnica negra.

   - Então, está decidido, padre - declarou, incisivo, e ergueu-se, dirigindo-se para a porta. Deteve-se no umbral e acrescentou: - Ah, padre Robelard, estou certo que posso contar com seu silêncio sobre o que meu pai disse antes de morrer. Não devemos causar qualquer embaraço a Emryss e sua encantadora esposa. Os fatos podem ser alterados na boca de gente do povo.

   - Uma verdade triste, milorde. Falatórios são...

   - Isso, exatamente - interrompeu-o Cynric. Seu rosto se contraiu numa expressão de desprezo: - Deixe-me transmitir seu adeus, cheio de amor, à Lynette, padre. Tenho certeza de que a coitadinha vai sentir muito a sua falta.

   Um medo doentio transpareceu no olhar do padre, transformando-se em horror: era evidente que Cynric sabia que ele, um padre de Deus, quebrara seus votos e estivera com uma mulher.

   - Tenho certeza - continuou o barão, com ar cínico -, que o senhor arranjará desculpas para voltar ao mosteiro, de vez em quando, a fim de me trazer novidades sobre meu primo e a mulher dele.

   Sorriu cruelmente para o trêmulo padre, seu rosto como o de um demônio que capturou uma alma.

  

   Nos dias que se seguiram ao incêndio, Roanna descobriu como era delicioso ser cortejada. Emryss era o homem mais encantador com que uma mulher podia sonhar.

   Não houvera outros ataques a pastores e ovelhas, para sossego de Emryss, a quem Mamaeth proibira também de cavalgar durante uma semana. Roanna estava contente por tê-lo sempre perto. Confinado em Craig Fawr, ele supervisionava a reconstrução. Ela adorava vê-lo entre os trabalhadores, rindo e ajudando, mais do que dirigindo e olhando.

   Uma vez ele tivera uma discussão com um dos pedreiros e ela se admirara que um lorde, mesmo simples como Emryss, permitisse que lhe falassem de maneira tão familiar. Encontravam-se perto de um enorme bloco de pedra, gesticulando, até que Emryss parecera desistir. O pedreiro, então, acariciara a pedra e falara com ela em voz baixa, antes de aplicar-lhe o cinzel e bater com o martelo. O bloco, então, partira-se em duas perfeitas metades.

   Uma outra vez ouvira Emryss falar sobre as fortificações de Acre e de uma fortaleza no Leste. Então mais tarde, ao jantar, perguntara-lhe sobre as Cruzadas.

   Seria melhor que não o tivesse feito, pois a felicidade parecera desintegrar-se diante de seus olhos. Ele mencionara algumas das dificuldades que os cruzados tinham que enfrentar, como a chuva incessante que ensopava os alimentos e os fazia apodrecer, que em ferrujava as cotas de malha; as doenças, as febres, as tosses e um mal terrível que fazia os dentes cair; a fome, que muitas vezes os fazia matar seus cavalos a fim de ter o que comer, se bem que em geral eles também adoecessem.

   - E para quê? - terminara, amargamente. - Para que um papa receba a glória de conquistar uma terra que homem algum em seu juízo perfeito iria querer?

   - Mas deixar Jerusalém nas mãos de infiéis...- ela começara a dizer, horrorizada ao ver que uma causa tão nobre podia causar tanto sofrimento.

   Fora terrível ver o que transparecia no olhar dele. Pela primeira vez o marido a deixara ver todo seu sofrimento e ela compreendera poque Emryss não quisera lhe contar as histórias mais horríveis.

   - Emryss - dissera, meiga -, sei que jamais poderei compreender o quanto você sofreu. Mas, por favor, deixe-me ajudá-lo a esquecer.

   - Você é a única pessoa para quem contei essas coisas, Roanna - respondera ele, amargurado -, porque sei, desde o momento em que nos vimos pela primeira vez, que é o único ser no mundo que pode aliviar minha dor, conhecer minha alma.

   Aquele momento de sofrida emoção passara quando Rhys gritara, pedindo uma canção, os demais se haviam juntado a ele e Emryss livera que atender. Roanna sentira, então, que alguma coisa mudara, que tudo se tornara mais profundo entre eles.

   Ela já não passava o tempo todo andando pela fortaleza. Emryss tivera uma longa conversa com Mamaeth que concordara em deixá-la assumir alguns encargos. De vez em quando, também, dava passeios pela propriedade, acompanhada por Bronwyn e pelo atento Gwilym, convencido de que os fora-da-lei ainda se encontravam em seu território. Roanna conheceu alguns aldeões e começou a aprender galês. Ficou feliz ao conhecer a mãe de Hu, uma mulher magra, tranqüila, que usava o vestido mais encantador que já vira. Comprou dela uma peça de lã tingida de um profundo azul-escuro e soube que a mãe de Hu conseguira aquela cor com amoras. Contou a Emryss a descoberta. Ele ouviu, interessado, e concordou quando ela sugeriu que a mãe de Hu ensinasse seu método de tingimento para as outras mulheres que teciam a lã.

   Assim mesmo, com tanta atividade, a semana custava a passar e as noites solitárias, na enorme cama, eram muito longas. Tentava não pensar em Emryss a seu lado, perto dela, acariciando-a, mas isso só fazia intensificar os apaixonados sonhos, tão eróticos que se eles fossem com outro homem, que não seu marido, ela seria condenada às eternas chamas do inferno.

   Então, padre Robelard chegou, para formar uma paróquia, e ela começou a sentir Gales como sua casa.

   Estavam no último dia da colheita e último, também, daquela interminável semana. Roanna acordou com os sons de franca atividade no pátio. Vozes entrecruzavam-se, gritando, excitadas. Ela sentou-se na cama, o sol entrando pela janela.

   O velho Daffyd, um pastor sem dentes que já nem sabia quantos anos tinha, tivera razão: o dia seria quente, lindo, sem qualquer sinal de chuva.

   Ela levantou-se e foi até a janela. O pátio encontrava-se cheio de gente, de todas as idades. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foram os ombros largos do marido, sua altura acima dos demais homens e o riso alegre, sonoro, que se superpunha aos outros.

   Correu para a arca e pegou o vestido azul-escuro que terminara de fazer na noite anterior. Vestiu-o sobre a camisa, também nova, de linho fino e bordada por ela. Com um sorriso culpado, lembrou-se de que não teria tempo para costurar e bordar nas noites seguintes.

   Enquanto escovava os cabelos, percebeu que cantarolava a canção preferida de Emryss. Olhou para a touca em cima da mesa e suspirou, triste: não gostava de usá-la naquele dia quente, mas mulheres casadas deviam esconder os cabelos. Relutante, pegou-a e enfiou a linda e macia cabeleira para dentro da touca.

   A familiar batida de Mamaeth soou à porta e ela entrou.

   - Depressa, milady - disse, animada. - Eles não podem esperar, querem terminar a colheita hoje.

   Ela assentiu, voltou-se e pediu à velha ama que amarrasse o vestido e ela puxou os cordões com vontade, ignorando os protestos da lady, que estava apertando demais.

   - Solte um pouco - pediu.

   - Não precisa, milady. Assim está bonito.

   Roanna baixou os olhos e viu que, com a cintura e o estômago comprimidos, os seios mostravam-se mais. .   - Não posso ir assim - protestou, batendo o pé.

   - Mas tem de ir. Escute, não há tempo para fazer manha, hoje... - começou Mamaeth, então riu e tratou de soltar um pouco os cordões. - Tem razão, é melhor soltar. Ele não precisa de encorajamento. Se chegar perto dele assim, Emryss a possuirá atrás da primeira árvore que encontrar.

   O pátio achava-se repleto de pessoas a pé e a cavalo. Pelo jeito, todos os colonos e famílias das terras do lorde achavam-se reunidos ali. Rhys, com o rosto redondo brilhando e vermelho de tanto gritar, achava-se de pé em uma carroça, no meio de todos, dando ordens, distribuindo as pessoas em vários pontos do pátio.

   Roanna sentiu o peso de uma mão num ombro e voltou-se. Emryss sorriu-lhe e ela sentiu-se agudamente cônscia da camisa branca que caía, solta, sobre o cinturão de couro da espada, aberta no peito, mostrando a pele amorenada e os pêlos mais escuros do que os cabelos, crespos e sedosos.

   - Bonito vestido - disse ele, olhando-a com carinho -, mas detesto seus cabelos ocultos por essa coisa horrorosa!

   Roanna não respondeu, corando sob o olhar dele. Baixou a cabeça e deparou com as coxas musculosas, as pernas fortes, delineadas pela calça justa de lã, até o ponto em que começavam as botas de couro.

   A voz de Gwilym elevou-se acima dás outras:

   - Emryss, você vai participar da colheita?

   Todos os olhos voltaram-se para o lorde, expectantes. Mamaeth surgiu pela porta da cozinha, investindo como um touro furioso:

   - Claro que não - gritou, zangada. - Quer que meu menino fique aleijado, seu costog?

   Emryss sacudiu os ombros e balançou a cabeça.

   - Então, o que vocês estão esperando? - ralhou Mamaeth. - Rhys!

   - Estamos prontos, Mamaeth! - gritou ele.

   - Para os campos! Há uma carroça para você, em algum lugar por aí - disse Emryss, sorrindo para Roanna. - Encontro você lá.

   Ela sabia que a velha ama permitira que ele cavalgasse nesse dia, desde que não "galopasse como um louco", e Emryss não podia se conter, tinha que sair logo. Acenando para o marido, encaminhou-se para um lado do pátio, saindo do caminho da pequena multidão já em movimento, Jacques apareceu à porta da cozinha, enxugando as mãos no avental, e correu os olhos pelo pátio, até que viu e cumprimentou-a com um gesto.

   Bronwyn chamou-a e Roanna voltou-se. A linda criada encontrava-se diante da cocheira, numa pequena carroça, que ela reconheceu como sendo a que usara, com Jacques, para fugir de Beaufort. Um burro estava atrelado a ela. Tratava-se de um veículo pouco adequado à senhora de Craig Fawr, mas todos os demais eram necessários para o trabalho.

   A carroça pôs-se em movimento e saiu da fortaleza, junto com o pessoal que seguia a pé.

   - Vamos nos divertir, hoje! - exclamou a criadinha, contente, fazendo as rédeas estalarem sobre o lombo do burro.

   A lady segurou-se, quando a carroça balançou, ao primeiro arranco do animal. Em vez de ir pela estradinha, Bronwyn entrou pelo campo, a carroça rangendo e saltando, até que o burro resolveu parar embaixo de uma árvore.

   - Só faltava isso! - resmungou a criada.

   Roanna ergueu as sobrancelhas, indagadora, e comentou:

   - Eles estão indo para o campo mais adiante...

   - Não se preocupe, milady, que também logo chegaremos lá. É só o burro andar e...

   - Eu vou a pé, pois adoro caminhar. Quando convencer esse burro teimoso a andar vá para o campo e me espere lá - disse a lady, descendo.

   Saiu andando pela beira da estrada e, pouco depois, viu Bronwyn passar com a carroça, do outro lado do pessoal que caminhava. Por um instante, divisou Emryss cavalgando com elegância, ultrapassando o grupo a pé.

   Pouco depois, uma pedra entrou-lhe no sapato, machucou-lhe o pé e cia teve de parar. Sentou-se sob uma árvore, para se descalçar e livrar-se dia pedra. Esfregou o pé dolorido e olhou para a estrada. O pessoal estava terminando de passar. Calçou-se, depressa, e levantou-se. Recomeçou a andar, com dificuldade, pois o lugar em que a pedra comprimira a sola do pé encontrava-se dolorido. Com um suspiro, cerrou os lábios e obrigou-se a andar.

   Depois de algum tempo, as últimas pessoas do grupo já se encontravam longe, ela mal se agüentava: a touca escorregara para um lado da cabeça e sentia o suor molhar-lhe as costas. Parou e tentou respirar fundo, para se recuperar, porém o corpinho do vestido se encontrava apertado demais.

   - Roanma! - Era a voz de Emryss e ergueu os olhos para vê-lo aproximar-ste. - Estava procurando você - disse ele, desmontando. - O que aconteceu? Está doente?

   - Não... Entrou uma pedra no meu sapato e Mamaeth apertou demais os cordões do vestido.

   Emryss riu, malicioso, e comentou:

   - Gosto do jeito que Mamaeth apertou você.

   - É, mas não consigo andar e respirar ao mesmo tempo - respondeu ela, tentando manter sua traidora mente no próprio corpo e não no dele.

   - Deixe-me ajudá-la...

   Ele desmontou e aproximou-se, fazendo-a voltar-lhe as costas. Com agoniarnte lentidão, desamarrou os cordões, então Roanna sentiu as mãos dele, quentes, em suas espáduas.

   - Pensei que esta semana nunca mais iria acabar... - murmurou ele, com voz rouca, ao ouvido dela.

   - Eu também... - suspirou Roanna, encostando-se no peito forte.

   As mãos de Emryss movimentaram-se sob o vestido e envolveram os seios macios. A respiração dela parou, enquanto ele a acariciava, atordoando-a em delícia.

   Um grito meio distante a fez estremecer.

   - Emryss! - exclamou, assustada, e ele retirou as mãos, depressa.

   - Está bem... - disse, rindo com suavidade, enquanto atava os cordões. - Temos que ter um pouco mais de paciência.

   O som de vozes aproximava-se e ela pôde perceber a linha de homens se deslocando, lenta, no campo de trigo. Ajeitou o vestido, enquanto ele se aproximava de Wolf e pegava as rédeas. Estendeu a mão para ela:

   - Venha, esposa, dê-me sua mão - disse, com simplicidade, e saíram andando pela beira do trigal.

   As foices moviam-se ritmadamente à medida que a fileira de homens avançava, enquanto um grupo vinha atrás, ajeitando o trigo ceifado em feixes, que o último grupo recolhia e colocava nas carroças. Quando chegaram mais perto, Roanna ficou impressionada no constatar os movimentos rápidos e sincronizados com que todos trabalhavam. No entanto, eram lentos em comparação com a velocidade das batidas de seu coração, com Emryss tão perto, seguran-do-lhe a mão com carinho.

   Quando a colheita terminou naquele campo, todos pararam para conversar, comer e beber, enquanto os ceifadores descansavam. As mulheres estenderam mantas no chão e dispuseram pão, queijo e cerveja sobre elas. Bronwyn reapareceu, seguida por Gwilym, carregando uma grande cesta que retirara da carroça.

   Emryss observou a cesta e simulou espanto:

   - Tudo isso para minha graciosa esposa e para mim?

   - E para nós dois também, brawdmaeth - respondeu Gwilym. - Mas acho que Jacques pôs comida que daria para todos aqui!

   Roanna ajudou Bronwyn a estender a manta e os quatro sentaram-se sobre ela. Jacques se esmerara, de fato. Havia pão branco, Vários queijos, um jarro de cerveja, que Emryss e Gwilym acharam pouca, doces e uma garrafa de vinho.

   Enquanto ajeitavam as coisas, Roanna olhou, ao redor, toda aquela gente feliz com a animada refeição ao ar livre. Quando terminaram de comer, as crianças saíram correndo e brincando, sob os olhares tentos das mães. As mulheres riam e conversavam, às vezes aos cochichos, enquanto os homens se deixavam ficar deitados, meio sonolentos. Ao voltar a atenção para perto de si, ela notou que Gwilym e Bronwyn tinham sumido.

   Emryss encontrava-se deitado de lado, apoiado sobre um cotovelo, com um talo de grama na boca. Sorriu-lhe ao perguntar:

   - O que está olhando, Roanna?

   - São os aldeões mais felizes que já vi - respondeu ela, sentindo mu arrepio pelo corpo diante do olhar acariciante. - Onde está Bronwyn? - perguntou, procurando disfarçar.

   - Com Gwilym.

   Ele continuava a olhá-la de maneira perturbadora. Ela clareou a garganta:

   - Esse é o último campo? - indicou o trigal seguinte.

   - E - respondeu ele. Apontou para a touca: - Vai usar esse horror o dia inteiro?

   - Preciso usar, sou uma mulher casada.

   - Seu cabelo é lindo demais para ficar escondido - a voz dele soava cálida, íntima.

   Roanna ergueu-se, rápida.

   - Acho melhor eu ir procurar Bronwyn.

   - Sim... - Ele tentou ficar sério, com pouco sucesso. - Está na hora de seguirmos para o próximo campo e onde ela estiver, Gwilym também estará.

   - Por onde ela foi?

   - Acho que por esse caminho - Emryss apontou para uma trilha entre as árvores, que seguia em direção ao rio.

   Ela saiu pela trilha, procurando manter a dignidade, apesar de sentir-se estranha, tensa e flutuante, ao mesmo tempo, como se ca- j alinhasse sobre nuvens.

   Chamou por Bronwyn várias vezes, sem obter resposta. Quando chegou à margem do rio, olhou à esquerda e à direita, mas não viu ninguém.

   Não adiantaria sair procurando pela moça. Era melhor voltar e ela mesma arrumar as coisas na cesta. Talvez Bronwyn já tivesse ido para o trigal.

   Quando ia se voltar, alguém arrancou a touca de sua cabeça, fazendo os cabelos deslizarem pelos ombros.

   - Assim fica muito melhor - disse Emryss, indo ocultar-se atrás de uma árvore, com a touca na mão.

   - Emryss - havia um toque de zanga na voz de Roanna -, devolva minha touca. - Veja, você arrancou a fita!

   Ele se aproximou, com fingida contrição:

   - Oh, desculpe! - Sua voz soava cheia de riso. - Quer dizer que não vai poder colocá-la de novo?

   - Emryss, você é impossível!

   - Mamaeth sempre me disse isso. - Ele olhou ao redor. - Bem, esposa, parece que estamos a sós, afinal. Quem sabe não vamos ter que esperar até hoje à noite...

   Nesse momento, soou a voz de Mamaeth, berrando por Emryss. A cara dele era de quem queria esganar a velha ama e foi a vez de Roanna rir. Colocou-se nas pontas dos pés, apoiou as mãos nos ombros largos e beijou-lhe rapidamente a boca.

   - Hoje à noite - sussurrou, maliciosa.

   - Pelas chagas dos deuses! - exclamou ele, com raiva. - Pela primeira vez lamento ser o lorde de Craig Fawr!

   Jogou a touca no chão e caminhou de volta pela trilha. Roanna pegou a touca e, em vez de colocá-la, molhou-a na água fresca do rio e passou-a pela nuca, a fim de se refrescar. Nesse momento, arbustos agitaram-se a pouca distância e chamaram-lhe a atenção.

   - Bronwyn? - chamou, sem gritar.

   - Sim, milady - respondeu a moça, saindo do mato.

   - Ah! Pensei que você estivesse para lá - disse Roanna, apontando para outro lado, mais distante.

   - Hum... Acho que é Gwilym que está lá... - respondeu a linda criada, corando furiosamente.

   A lady apenas sorriu, uma vez que podia imaginar como Bronwyn se sentia. Se não fosse a interferência de Mamaeth, ela e Emryss teriam ido se esconder no mato, também.

   Emryss, imponente em seu cavalo negro, cavalgou para a extremidade do último campo. Os ceifadores aproximavam-se do trecho final e desta vez Gwilym encontrava-se entre eles.

   - Por que Gwilym está ceifando, agora? - perguntou Roanna a Bronwyn.

   - Porque é o último campo, milady. Lorde Emryss é que costuma fazê-lo, mas hoje está sendo substituído por Gwilym.

   O senhor de Craig Fawr ergueu o braço direito e todos, inclusive os ceifadores, se imobilizaram, em total silêncio.

   Quando a mão dele baixou, os homens voltaram a ceifar, com firme determinação estampada nos rostos morenos. O jeito que olhavam, de vez em quando, uns para os outros, demonstrou que se tratava de uma competição.

   Mamaeth mantinha-se atenta, soltando de vez em quando uns gritos de exortação e, pouco depois, Bronwyn começou a dar uns saltos nervosos, sacudindo as mãos, mordendo os dedos. Roanna disse a si mesma que devia manter a dignidade, não gritando, mas deslocou-se para ver melhor. De repente, Gwilym caiu e quando tentou se levantar seu rosto contorceu-se de dor. Imediatamente Emryss desmontou e correu para junto do amigo. As foices imobilizaram-se. Os dois falaram por instantes, depois o lorde ajudou-o a chegar até Wolf e o fez montar.

   - Bela hora de torcer um tornozelo! - exasperou-se Gwilym, enquanto se aproximava delas.

   Roanna viu que todos ao redor estavam desapontados. Era evidente que esperavam que o jovem guerreiro ganhasse a disputa. Então, Emryss tirou a camisa.

   O coração de Roanna disparou. Ele não ia ceifar trigo! Não nesse dia, depois de ter saído há pouco tempo de uma doença insidiosa. Não nesse dia, quando o que menos ela queria era um marido exausto! Um murmúrio percorreu a pequena multidão quando Emryss foi para o lugar de Gwilym e pegou a foice dele. O lorde observou a assistência com o olhar calmo, depois examinou o corte da foice.

   - Emryss... - começou Mamaeth, mas ele ergueu a mão, impondo-lhe silêncio.

   - Minha honra está em jogo - disse ele. Roanna prendeu a respiração, enquanto Gwilym, divertindo-se claramente com sua posição de substituto do senhor de Craig Fawr, ergueu um braço e fechou o olho direito, numa personificação de Emryss que fez o pessoal rir. O lorde fez cara feia, disse algumas palavras em galês, com certeza repreendendo o irmão de criação pela liberdade que tomava, depois desceu a foice, ficando, como os demais ceifadores, pronto para começar. Seu rosto demonstrava profunda concentração.

   Gwilym baixou a mão e no mesmo instante as foices se movimentaram. Roanna não tirava os olhos dos competidores, notando que seu marido movimentava-se com agilidade. Estava surpreendida pela rapidez com que ele ceifava e preocupadíssima que viesse a sofrer pelo esforço.

   Um fazendeiro de cabelos grisalhos tomou a dianteira, sua foice movendo-se entre as hastes do trigo como na manteiga.

   Emryss começou a ficar para trás, movimentando-se cada vez mais devagar, até que por fim parou. Roanna compreendeu, quando ele lhe dirigiu um sorriso malicioso, que estava se guardando para mais tarde.

   Correu para ele:

   - Você está bem? - perguntou, ansiosa.

   - Não sou assim tão orgulhoso da minha honra! Gwilym, que esperava no fim do trigal, fazia o cavalo andar de um lado para outro, observando os contendores. O fazendeiro grisalho deu a última ceifada e parou, apoiando a foice no chão.

   Aplausos ecoaram entre os assistentes, enquanto todos se aproximavam e cumprimentavam o vencedor. Exaustos, os demais ceifadores chegaram ao final do campo e pararam, aplaudindo também.

   Depois de um curto descanso, o lorde chamou os homens, que o rodearam e começou a falar, em tom calmo. Roanna voltou-se para Bronwyn, que estava a seu lado e a moça explicou:

   - É o caseg fedi, agora. Quer dizer "mãe-da-colheita"... Preste atenção, milady.

   Mulheres e crianças sentaram-se no chão enquanto os homens ceifadores voltaram ao campo onde tremulava uma haste solitária, com uma espiga de trigo. Mantinham-se, na mesma fileira de quando ceifavam o trigo, a considerável distância da haste. Os demais homens encontravam-se longe das mulheres e crianças, agrupados, também sentados no chão. Um murmúrio ergueu-se entre os assistentes quando o primeiro ceifador lançou a foice, que passou zunindo no ar, mas não atingiu a haste.

   Cada ceifador atirou sua foice e nenhum acertou o alvo, até que chegou a vez de Emryss e Gwilym tentarem. Emryss foi o primeiro e quando se ajeitou no local de lançamento, olhou para Roanna, depois lançou a foice, que rebrilhou ao sol.

   A haste tombou, cortada junto ao solo. Todos os homens se ergueram e, ao mesmo tempo, as mulheres puseram-se de pé e saíram correndo.

   - Venha! - gritou Bronwyn, pegando Roanna por um braço, arrastando-a para a carroça e fazendo-a subir para a boléia. - Depressa!

   Roanna obedeceu, sem saber o que acontecia, aturdida com as mulheres correndo de todo lado.

   - O que é isso? - perguntou, enquanto subia na carroça. - O que está acontecendo?

   Viu que os ceifadores pegavam suas foices, rápidos, e juntavam-se aos demais homens, enquanto Bronwyn incitava o burro a correr.

   - Oh, por todos os santos! Eles vão ganhar de nós! - gritou Bronwyn, olhando para trás por cima de um ombro.

   - Isto é uma corrida? - perguntou Roanna, quase aos berros, para ser ouvida acima do ranger das rodas e dos gritos do pessoal.

   Bronwyn não respondeu, tratando de incitar o burro a correr mais. A lady segurou-se na borda da carroça e olhou para trás. Gwilym liderava o grupo de homens, enquanto Emryss cavalgava de um lado para outro, mantendo-os unidos, como um pastor faz com as ovelhas.

   Quando se aproximavam de Craig Fawr, as mulheres começaram ti gritar e de imediato o portão foi se erguendo, lento. Roanna pôde ver Mamaeth na carroça que ia à frente, de pé como uma líder diante da coluna de guerreiras. As mulheres passaram rapidamente pelo primeiro portão, disparando em direção do segundo, sem diminuir a velocidade e os gritos.

   Quando a carroça com Roanna e Bronwyn entrou no pátio, as das outras mulheres encontravam-se espalhadas por todo lado, vazias. Aturdida, ela viu-as correr para a cozinha e tornar a sair carregando baldes e panelas, gritando alucinadamente enquanto corriam para o poço, enchiam as vasilhas de água e voltavam para a cozinha. Por um instante, pensou que se tratasse de outro incêndio, mas então percebeu que as mulheres riam perdidamente. Ouviu gritos de raiva de Jacques, seguidos por uma enfiada de pragas.

   Ele deve estar furioso, pensou, saltando da carroça e disparando para a cozinha.

   - Lady Roanna! - trovejou ele, assim que a viu. - O que essas bárbaras estão fazendo?

   Em vez de responder, ela olhou ao redor, aflita. Todas as panelas e vasilhas haviam sido levadas, menos os tachos com carne e com pão. Mulheres trançavam pela cozinha, rindo, dizendo gracejos, gritando, enquanto Mamaeth conservava-se à porta, atenta como uma sentinela.

   Roanna viu Bronwyn entrar, abrindo caminho entre as mulheres agitadas.

   - O que vai ser, agora? - perguntou, nervosa.

   A criadinha riu:

   - Eles vêm trazendo a mãe-da-colheita, aquela haste de trigo ceifada por último! Temos que descobrir com quem está, molhá-la e pendurá-la naquele gancho, para termos boa safra no ano que vem! Temos que impedir que um homem o pendure, eles não podem ganhar de nós!

   Só então Roanna viu um gancho que pendia na parede da cozinha, perto de onde Jacques se encontrava.

   Mamaeth soltou o que parecia ser um grito de batalha e todos os olhos voltaram-se, brilhantes, para a porta.

   - Pen medi bach mi ces! - gritou Gwilym, do outro lado.

   Bronwyn percebeu a confusão de Roanna e traduziu para ela:

   - Aqui está a pequena mãe-da-colheita!

   A velha ama, vendo que tudo estava pronto, abriu a porta. Viu-se apenas uma silhueta de homem no umbral, então Gwilym saltou para dentro. No mesmo instante foi submerso em água e rodeado por um grupo de mulheres. Parada ao lado de Jacques que, os olhos arregalados de estupor, armara-se com uma concha, para se defender, Roanna viu, chocada, que tiravam a roupa do rapaz.

   - Não está com ele! - gritou Mamaeth.

   As mulheres pegaram outras vasilhas com água quando um grupo de homens passou pela porta. Espirrou água para todos os lados, depois elas começaram a despir os recém-chegados que pareciam estar adorando a procura.

Roanna começou a se descontrair. Nesse momento, Emryss apareceu no umbral, com um sorriso matreiro iluminando-lhe o rosto. Seus olhos se encontraram e ele piscou-lhe, provocante.

   Ela percebeu que havia uma pontinha de haste de trigo aparecendo abaixo da camisa dele. Rápida, tirou a concha da mão de Jacques.

   - Mon Dieu, o que é isso, agora? - gritou o cozinheiro, mas ela ignorou-o.

   Correu para o balde mais próximo e encheu a grande concha com água. Escondendo-a atrás do corpo, observou Emryss, que deslizava, sorrateiro, junto da parede. Começou a se aproximar dele, lenta, mantendo a concha escondida. Esperou que ele olhasse para Mamaeth, que se aproximava pelo outro lado, com uma panela de água, e saltou, atirando o conteúdo da concha nele. A água escorreu-lhe pelo rosto, pelo peito, e ele soltou um rugido zangado, mas ela agarrou-o, enfiou as mãos sob sua camisa e pegou a haste de Irigo.

   Os dedos fortes de Emryss seguraram-na por um braço, impedindo-a de escapar com a mãe-da-colheita. Ela fitou-lhe o rosto que se mostrava surpreso, zangado e... molhado! Uma gargalhada cristalina irrompeu dos lábios róseos de Roanna. Mais surpreso ainda, ele abraçou-a:

   - Que maravilha! Afinal ouço você rir com gosto! - murmurou no ouvido dela.

   Corada pelo triunfo, Roanna ergueu as mãos, mostrando a todos a mãe-da-colheita.

   As mulheres gritaram, felizes, e os homens ficaram olhando, pasmos. De repente, Emryss arrancou a haste das mãos dela e correu. Ela saiu correndo atrás dele e quase caiu, ao tropeçar no vestido, agarrando-o no momento em que ele colocava a mãe-da-colheita no gancho.

   Aí foi a vez dos homens aplaudirem, aos gritos, enquanto o lorde cruzava os braços no peito, erguendo a cabeça, orgulhoso. O ar dele ora tão arrogante que Roanna não se conteve. Pegou um balde cheio de água e jogou-a nele, molhando inteiro.

   Emryss gritou, como que ferido de morte, enquanto ela saía correndo da cozinha, seguida pelas demais mulheres.

   Como se atrevera a fazer aquilo, pensava Roanna, incrédula, parando no pátio. Como se atrevera a molhar Emryss diante de seus aldeões?

   Bronwyn, rindo perdidamente, abraçou-a e ela viu-se rodeada e abraçada pelas mulheres, que a cumprimentavam pelo feito. Então, ela riu, feliz, sèntindo-se parte daquela gente.

   A risada alegre interrompeu-se quando a água fria atingiu-a, ensopando-a. Engasgada, cuspindo, ela ergueu os olhos, para ver Emryss à porta, segurando um balde vazio e rindo, vingativamente.

   - Emryss, meu vestido! Você... - começou ela, zangada. A voz irada de Mamaeth a interrompeu:

   - Oh, vocês, homens! Horas e horas para fazer um vestido tão lindo e olhe como está!

   As mulheres assentiram, solidárias, e algumas ofereceram seus aventais para ela enxugar o rosto.

   - Venha cá, esposa! - ordenou Emryss, com uma voz que fez o coração dela disparar.

   Mas não se moveu, pois suas pernas pareciam tão líquidas quanto a água que escorria pelo chão.

   - Fora do caminho, homens! Todo mundo vai se trocar, agora, e vamos fazer a festa!

   Mamaeth pegou Roanna pela mão e levou-a para o salão. Bronwyn e as outras mulheres fizeram uma parede em redor delas, abrindo caminho entre Emryss e os demais homens.

   - Sim, vamos celebrar - concordou o lorde, sério -, mas hoje eu vou cedo para a cama!

  

   As mulheres levaram Roanna até o salão.

   - Suba, milady - disse-lhe Mamaeth. - Nós temos muito a fazer.

   Ela subiu a escada correndo e entrou no quarto. Tremendo de frio, por causa da água que Emryss jogara nela, tirou o vestido e colocou-o, com cuidado, no espaldar de uma cadeira. Despiu a camisa de linho, enxugou-se e abriu a arca, cantarolando. Viu a linda camisa de seda, pegou-a, admirou-a por alguns instantes, acariciou-a, sentindo a deliciosa suavidade, e tomou a decisão: vestiu-a.

   O toque do delicado tecido na pele nua era como uma carícia lasciva, despertando uma sensação de prazer proibido que ela jamais imaginara. Logo, pensou, as mãos fortes dele deslizariam sobre aquela suave barreira...

   Pegou a escova e começou a escovar os cabelos, querendo adiar o momento de colocar um vestido sobre a insinuante camisa que se amoldava delicadamente às suas curvas.

   Será que ele iria tirar-lhe a roupa ou iria preferir olhar, enquanto ela a tirasse? Ao imaginar o que ia acontecer, os seios endureceram e os mamilos, rijos, delinearam-se sob o macio tecido. Será que ele ia beijar todo seu corpo? Fechou os olhos, já sentindo os lábios dele percorrerem-na, ardentes.

   - Hora da festa! - gritou Emryss, do outro lado da porta.

   Roanna deu um salto e enfiou o vestido de lã da Borgonha, com o qual se casara. Lutou por algum tempo com os cordões e, por fim, conseguiu atá-los. Havia outra touca na arca. Olhou-a bem, depois deixou a tampa cair. Naquela noite, pelo menos, deixaria seus cabelos livres, como seu marido gostava.

   Quando abriu a porta, viu uma expressão de alegria iluminar o rosto de Emryss, que lhe ofereceu o braço.

   Ele também vestira roupas novas. A túnica preta, que se ajustava ao pescoço por um alfinete de prata, descia até onde começavam os canos altos das botas também pretas; usava camisa, de mangas compridas, e calça de linho branco.

   Quando entraram no salão, ela surpreendeu-se com a transformação que ocorrera nele. Os candelabros achavam-se espalhados pelo chão e nas paredes havia várias tochas. Todos os esperavam, de pé, e sorriram, acompanhando-os com o olhar enquanto se dirigiam para a mesa principal.

   Ela ficou feliz ao ver que o padre Robelard encontrava-se junto à mesa em que iriam ficar. Depois que todos estavam em seus lugares, Emryss fez-lhe um sinal com a cabeça e o religioso pediu a bênção para os alimentos que iam receber. Quando ele terminou, Roanna voltou-se para o marido e agradeceu-lhe, com um sorriso radiante.

   Então, sentaram-se.

   A cozinha de Jacques era maravilhosa. Com alguns ingredientes básicos, criava verdadeiras obras-primas deliciosas. No entanto, ela não tinha apetite. Conseguia apenas beber o excelente vinho, que parecia acalmar a agitação do sangue em suas veias. Num certo momento, disse a si mesma que deveria ter vestido outra camisa.

   Toda vez que Emryss a olhava, ficava profundamente embaraçada ao sentir a seda roçar-lhe a pele como uma carícia.

   Ela não reparou que esvaziara o cálice de vinho pela terceira vez.

   Quando o estendeu para que lhe servissem mais, Emryss colocou a mão por cima.

   - Agora chega - murmurou ao ouvido dela, que voltou-se surpresa para ele. - Não quero que perca a noção das coisas...

   O significado dessas palavras era claro e o desejo que ela vinha conseguindo manter sob controle fez seu corpo inteiro vibrar, querendo Emryss.

   Quando todos terminaram de comer, o lorde levantou-se, ergueu seu cálice e falou, rapidamente, em galês. Roanna reconheceu algumas palavras e compreendeu que agradecia a todos pela boa colheita, Quando ele ergueu o cálice de novo, encerrando o pequeno discurso, ela viu Mamaetn sorrir, encantada. Assim que Emryss sentou-se, perguntou-lhe:

   - O que você disse no final, que fez Mamaeth sorrir tão feliz?

   - Eu disse que espero que o próximo ano seja tão fértil quanto este. Por quê?

   O olhar casual dele foi mudando, enchendo-se de significados, enquanto continuavam a se fitar, fazendo-a esquecer-se de que estavam no salão, com muita gente.

   Emryss pegou-ihe a mão por baixo da mesa:

   - Já esperei demais - murmurou. - Vamos nos retirar, agora mesmo, Roanna.

   Nesse momento, já meio bêbado, Rhys levantou-se:

   - Milorde - disse, oscilando perigosamente -, uma canção, por favor.

   Emryss fez cara feia, mas Roanna soltou-lhe a mão, pedindo:

   - Pelo menos uma Emryss. Seria muito grosseiro sairmos agora, sem atender ao pedido.

   - Está bem - concordou ele, suspirando. - Só uma. - Ergueu-se e perguntou, bem alto: - Então, qual vai ser?

   Várias pessoas sugeriram músicas, enquanto ele ia pegar a harpa. A jeitando-se, Emryss olhou para Roanna e entoou uma música triste, lenta; ele fitava a esposa e suspirava de maneira exagerada, ao fim de cada estrofe. O pessoal começou a rir e a cada verso a música e o canto iam se tornando mais e mais rápidos, enquanto o suspiro tornava-se quase um soluço; o pessoal acompanhava, fazendo coro, mexendo-se nas cadeiras, batendo palmas e pés. Por fim, a canção terminou com um grande gesto floreado, um profundo suspiro e o lorde largou o instrumento.

   - Estou muito cansado - anunciou ele, em voz sonora, e ergueu-se, enquanto Roanna não sabia onde esconder o rosto corado. - Vamos, esposa, para a cama!

   Mantendo os olhos no chão e tentando desesperadamente apare utar que nada de excepcional estava por acontecer, Roanna deu a mão para ele, que gentilmente ajudou-a a levantar-se.

   - Boa noite! - gritou Emryss para todos, enquanto se encaminhavam pelo salão.

   Sozinha com ele na escada escura, de repente Roanna sentiu-se envergonhada e tímida, como se o marido fosse um desconhecido. Seus joelhos tremiam e o coração disparou. Ele nada dizia e quando ela fitou-lhe o rosto, viu que estava sério.

   O lorde abriu a porta do quarto e deixou-a eritrar primeiro. Voltando-se, ela manteve-se calada, olhando-o enquanto fechava a porta. A madeira grossa e pesada abafou os sons da festa lá embaixo, mino se tivesse feito o salão desaparecer. Eles encontravam-se sozinhos em Craig Fawr. Roanna entrelaçou as mãos e esperou, mal respirando.

   Emryss foi até a mesinha, serviu um cálice de vinho e ela notou que as mãos dele tremiam tanto quanto as dela.

   - Deus, estou nervoso como um menino! - murmurou ele e tomou um grande gole.                                          

   Roanna estava aflita e assustada como nunca. Chegara à hora.

   No fundo do coração, ela sabia que estivera esperando, aquela noite por muito tempo. Descobria, agora, que esperara por Eniryss durante a vida inteira. A timidez dissipou-se como a neblina ao sol. Emryss - disse, encaminhando-se para ele -, marido...

   Colocou as mãos nos ombros largos e fitou-lhe o rosto. Ele colocou o cálice sobre a mesinha. Devagar, ela foi descendo as mãos, acariciando os músculos tensos dos braços fortes. Ele inclinou a cabeça e beijou-a com suave timidez.

   O desejo flamejou, ardeu nos seios, no ventre, no corpo inteiro dela. Dando um passo para trás, Roanna desatou os cordões do vestido e o fez escorregar pelo corpo, até que caiu no chão. Ficou imóvel, esperando, vestida apenas com a camisa de seda. Tremia, mas não era de medo, e seus lindos olhos verdes, fixos no marido, brilhavam como nunca.

   Com um suspiro abafado, Emryss tomou-a nos braços e seus lábios apoderaram-se dos dela, desta vez com firmeza, com paixão.

   Cada toque das mãos dele parecia atravessar a diáfana seda.

   Um beijo já não bastava.

   Ela ergueu as mãos e, sem interromper o beijo, retirou o alfinete de prata que prendia a túnica de Emryss. Ele gemeu quando a mão dela deslizou pelo peito musculoso e quente, por cima do linho fino da camisa. Afastou-se um pouco, apenas o bastante para tomá-la nos braços. Levou-a para a cama e ela ficou deitada, olhando enquanto ele tirava a túnica e as botas, ficando apenas de camisa e calça.

   No instante seguinte, encontrava-se ao lado dela. Seus lábios esmagavam e sugavam os dela, possessivos, com gosto de vinho e canela. Ela o abraçava cada vez com mais força, com uma necessidade urgente de sentir-se colada a ele, enquanto sentia-se flutuar num mar de chamas qlie em vez de queimar proporcionavam prazer. As mãos dela deslizavam pelo peito masculino sem precisar de guia, seus lábios percorriam o pescoço forte...

   - Oh, Deus, sim.. - gemeu ele, quando ela tirou-lhe a camisa.

   Então, rolou, ficando de costas e trazendo-a consigo, colocando-a por cima dele.

   Mais um profundo beijo. E outro. O peito firme contra os seios macios, as mãos fortes percorrendo-a, os dedos habilidosos tocando-a como se ela fosse sua harpa.

   Enlão, os lábios de Roanna desceram para o peito dele, a língua movendo-se em pequenos círculos, ardente, ao redor de seus mamilos. Ele forçou-a a erguer o corpo e, ignorando a seda que a cobria, seus beijos molharam os seios delicados, arrebatando-a para um mundo feito de delícias, aquecendo-a mais e mais, fazendo-a derreter-se.

   Giraram e ela ficou deitada de costas, arqueando o corpo a cada toque de Emryss. Carne contra carne. Lábios buscando-se, famintos, murmurando palavras amorosas contra a pele nua.

   Ela sussurrou o nome dele ao sentir a súbita e suave dor e ambos flutuaram, sentindo, pulsando, levados pela corrente impetuosa das ondas de prazer, uma após outra, cada vez mais denso e embriagador.

   Dois gritos abafados, intensos, triunfantes, formando um só acompanharam o gozo ainda mais profundo do que a dois.

   Depois, um estremecimento ainda repassado em êxtase, um longo gemido. A respiração acelerada se suavizando. Ela se realizara. Era uma mulher completa, feliz.

   - Amada... - murmurou Emryss, enquanto Roanna colava-se a ele, abraçando-o com toda força que tinha.

  

   - Roanna, volte para a cama.

   Ela tirou a custo os olhos dos tons de rosa e ouro que tingiam o horizonte, a leste, e olhou para o marido. A rústica manta de lã, que jogara nos ombros e a envolvia como uma nuvem, pinicava a pele nua. Em algum momento da noite a camisa de seda tornara-se um montículo branco no chão do quarto, junto da cama e das roupas de Emryss.

   Os cabelos muito negros e parte das pernas esguias era tudo que a manta o deixava ver.

   - Roanna? - chamou ele de novo, sonolento.

   Ela sorriu, deu um olhar final ao sol que se levantava com o novo dia e no instante seguinte enfiava-se na cama, sob as cobertas quentes como ele. Emryss passou os lábios de leve no pescoço dela, enquanto a apertava contra si:

   - Não vai descansar, Emryss? - perguntou Roanna, depois de um longo momento.

   - Estamos na cama, não? - respondeu ele, os lábios contra um seio alvo.

   - Mas não descansando... - insistiu ela, rindo. Ele virou-se de costas e fitou-a:

   - Eu só queria fazê-la cansar mais um pouquinho... - afirmou ele, tentando ficar sério.

   - Obrigada, milorde - respondeu ela, com a mesma seriedade - Mas acontece que temos deveres a cumprir.

   - Como senhor de Craig Fawr, acho que o seu dever mais importante é me beijar.

   Roanna obedeceu de boa vontade e mais de uma vez, depois empurrou-o, dizendo:

   - Daqui a um minuto Mamaeth vai estar derrubando a porta. O riso dele foi mais do que diabólico:

   - Ela adoraria nos apanhar na cama. Vivia me atormentado para me casar, desde antes de eu ir para as Cruzadas. - Puxou-a para li, - Estou feliz por não ter me casado, por ter esperado por você...

   Vários minutos mais tarde, Roanna saltou da cama e pegou a camisa de seda. Abrindo a tampa da arca, ela olhou para Emryss, que estava deitado de lado, um cotovelo apoiado na cama e a cabeça sobre a mão, admirando-a.

   De repente, ele riu.

   - O que foi? - perguntou ela, enquanto vestia a camisa, sem jeito diante da observação insistente e apaixonada.

   - Nada. Tudo. Eu me sinto... maravilhoso! - Ele pulou da cama. - E estou bem descansado.

   O olhar dele demonstrou suas intenções. Roanna fez que não com a cabeça e tentou sorrir.

   - Emryss, já é tarde e...

   - Nunca é tarde, minha mulherzinha! - interrompeu-a ele. Encaminhou-se para ela devagar, comum sorriso cheio de malícia.

   - Emryss, você vai ficar doente de novo...

   - Não vou, não.

   Roanna foi recuando, até que encostou na arca. Ele continuou a avançar e ela escapou de lado, dizendo:

   - Realmente, milorde, há coisas melhores para se fazer do que ficar na cama o dia inteiro.

   - O que, por exemplo?

   - Eu... Eu prometi a Jacques que o ajudaria a fazer pão. Padre Robelard e eu temos que ir visitar uns aldeões doentes e você tem que ir ver se está tudo bem no moinho...

   - Pretendo fazer um outro "trabalho".

   - Emryss, pare com isso! Muito mais importante do que todos que você disse.                                                                            

   Ele saltou sobre ela e abraçou-a. Roanna sorriu, fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, à espera do beijo. Em vez disso, sentiu os dedos dele movimentando-se ao longo de suas costelas. Ela desandou a rir e tentou afastar-lhe as mãos, mas ele imobilizou-a, com uma das mãos e continuou a fazer cócegas com a outra, rindo também.

   - Pare, Emryss, por favor! - implorou ela, quase engasgada de tanto rir.                                                                              

   Ele atendeu e ela cruzou os braços diante do peito.

   - Pretende ir fazer suas obrigações nu como quando veio ao mundo, milorde?

   O tom brincalhão, fingidamente irônico de Roanna o fez ficar deliciado. Ele riu baixinho:

   - Se você me acompanhar, eu vou - passou um dedo pelo braço dela, provocando-lhe delicioso arrepio na espinha.

   Nesse momento uma forte batida na porta fez o lorde correr para a arca e vestir uma camisa, justo antes de Bronwyn entrar, trazendo água quente. Ela parou a meio caminho, deu um olhar à enrubescida Roanna, vestida apenas com a camisa que os raios de sol tornavam transparente, relanceou os olhos por Emryss seminu, soltou um gritinho, largou o balde no chão e saiu correndo do quarto.

   Roanna nem tentou conter a gargalhada. Emryss tratou de vestir a calça, como se nada tivesse acontecido, mas os ombros dele sacudiam-se e ela percebeu que o marido também ria da expressão transtornada de Bronwyn.

   Nas pontas dos pés, contendo o riso que lhe borbulhava na garganta, ela aproximou-se dele, que estava calçando as botas, e fez-lhe cócegas na cintura, à altura dos rins, fazendo-o saltar, entre risadas. As mãos de ferro seguraram os pulsos delicados, enquanto ele voltava-se para ela. Devagar, levou as delicadas mãos aos lábios e beijou-as.

   Gritos vindos do pátio fizeram Emryss imobilizar-se e depois, num instante, largou as mãos dela e voou para a janela, olhando para baixo. Sem dizer uma palavra, voltou-se, pegou a túnica de couro, o cinturão com a espada e saiu do quarto.

   Roanna correu para a janela, mas nada viu a não ser um grupo de pessoas agitadas. Enfiou, rápida, o vestido azul e saiu atrás do marido.

  

   - Quem fez isso?

   - Você está machucado, Ianto?

   - Pôde ver quem atacou?

   - Estavam matando as ovelhas?

   O grupo de pedreiros, fazendo perguntas, reunia-se ao redor do alto pastor, que se encontrava parado no meio do pátio, com o corpo sem vida de seu cão apertado ao peito. Ianto olhava para a frente, sem dizer nada. Havia sangue seco num dos flancos de Mott e uma adaga achava-se cravada num profundo ferimento.

   Quando Emryss se aproximou, as pessoas recuaram para lhe dar passagem. Com uma raiva fria, contida a custo, ele olhava fixamente o rosto do pastor, que piscava, atordoado.

   - Ianto, quem fez isso? - perguntou, em voz baixa, porém li une.

   O pastor balançou a cabeça:

   - Não sei... - sua voz mostrava-se, fraca, apagada e despida de emoção.

   - Quando?

   - Eles chegaram à noite. - As palavras soavam inexpressivas, lecas. - Eu ouvi Mott latir e saí, correndo. Alguém me atingiu na cabeça. Não vi, nem ouvi, mais nada, até que acordei e encontrei meu pobre Mott assim.

   - Onde está Hu? - Emryss parecia muito preocupado. Só então houve uma expressão no rosto de Ianto: angústia.

   - Não o encontrei. Procurei, procurei e como não achasse, vim para cá, pedir ajuda.

   Emryss olhou o sol. Ianto devia ter levado horas caminhando de seu pasto até Craig Fawr. Os canalhas que tinham feito aquilo deveriam estar muito longe. No entanto, disse, determinado:

   - Ianto, vamos encontrar os homens que fizeram isto e eles serão punidos.

   - Sim, milorde.

   A voz do grande homem soava cansada, distante. Emryss aproximou-se e estendeu os braços para pegar o cão morto, mas Ianto apertou-o mais contra o peito.

   - Perdoe-me, milorde, mas ninguém além de mim toca em Mott. O lorde assentiu, enquanto Gwilym se aproximava, abrindo caminho entre a pequena multidão.

   - Preciso ver a adaga - disse Emryss, com suavidade. Ianto fez que sim e Gwilym, com cuidado, retirou a horrível arma do ferimento. Olhou-a por instantes, depois entregou-a ao irmão de criação. Ele examinou-a e, com um dar de ombros, devolveu-a a Gwilym:

   - Normanda ou talvez saxã -disse, sombrio. - E difícil afirmar. Organize uma patrulha - ordenou e encaminhou-se para a cocheira.

   Roanna foi atrás e segurou-lhe um braço:

   - Emryss, tome cuidado. Ele respondeu, com amargura:

   - Eu devia ter tomado cuidado antes, ter ordenado uma vigilância melhor. A culpa é minha...

   Continuou para a estrebaria e Roanna ficou a olhá-lo, sem perceber que cerrara as mãos em punhos, com força. Os homens ficaram em silêncio por minutos, então Gwilym começou a gritar nomes. Cada pessoa chamada corria para o galpão das armas.

   - Onde está Mamaeth? - perguntou Roanna, desesperada por fazer alguma coisa. Qualquer coisa!

   - Foi ao moinho - respondeu Bronwyn. - Vou chamá-la. Ianto começou a cambalear e, sem largar de Mott, o pastor caiu.

   - Emryss, depressa! - gritou Roanna, ajoelhando-se na lama ao lado dele. Com gentileza, tirou o cão morto dos braços inertes e o segurava quando o marido saiu da cocheira. Rápido, ele tirou o manto do pastor: havia um feio ferimento de flecha no peito dele, junto ao ombro. A haste se quebrara e a ponta de ferro encontrava-se cravada na carne. Saía sangue da ferida.

   A angústia de Roanna era tão grande que teve impressão de que Mamaeth levou horas para chegar. A velha ama ajoelhou-se no chão e examinou o rosto do pastor. Passou a mão no rosto dele, depois colocou-a no peito.

   - Morreu - disse, baixinho, depois de alguns instantes. Essa simples palavra pairou no ar, enquanto Roanna apertava o triste fardo contra o peito. Emryss manteve-se imóvel por um longo momento, olhando o homem grande, estendido no chão. Parecia uma estátua de granito, cujo rosto tivesse sido imobilizado num momento de intensa dor e ira.

   Por fim, ele voltou-se e correu para seu cavalo.

   - Vou encontrá-los e, pelas chagas dos deuses, eles vão sofrer! - gritou.

   Montou e galopou para junto dos homens que o esperavam no portão.

   - Sangrou até morrer - a voz de Mamaeth chamou a atenção de Roanna. - Se ele tivesse ficado deitado, se não tivesse feito essa caminhada estaria vivo... - Afastou os cabelos da testa e lágrimas correram pelas faces enrugadas. - Estúpido tolo... - murmurou, como uma bênção.

   Roanna continuava parada, com Mott nos braços. Então, inclinou-se e colocou o cão morto sobre o peito de Ianto.

  

   - Alguma coisa?

   - Não. Eles são cuidadosos - havia desapontamento na voz de Gwilym, que respondia do outro lado do rio. - Algum sinal de Hu?

   - Ainda não.

   Emryss apertou os lábios, agarrando-se à esperança de que Hu tivesse escapado dos malfeitores. Olhou ao redor, as poucas ovelhas espalhadas pela encosta da colina, pastando, sem ligar para a presença dos homens.

   Ergueu a cabeça e observou as nuvens, no céu. Não iria demorar muito a chover. Com crescente sensação de completa inutilidade, desmontou e Gwilym atravessou o rio, indo para junto dele e per-eu mando, também frustrado:

   - E agora?

   O lorde foi até a barranca do rio, olhou entre os salgueiros, procurando algo que seus homens pudessem ter deixado escapar. Poucos minutos depois, enfurecido, deu um soco na coxa:

   - Pelo sangue dos deuses, eles não podem ter sumido sem deixar um sinal!

   Largou as rédeas de seu cavalo e passou a caminhar em círculos concêntricos, olhando o solo com atenção.

   Maldito olho cego! Como fazia falta... Foi se movendo, devagar, até que percebeu uma tênue pista: o mato encontrava-se um pouquinho amassado. Começou a segui-la e logo depois chamou, com suavidade, procurando aparentar calma:

   - Hu? É você, Hu?

   - Sim... - a cabecinha do menino emergiu do mato, o rosto molhado de lágrimas.

   No momento seguinte, Emryss estava com Hu no colo, apertan-do-o ao peito.

   - Você está bem, Hu? Eles não o viram?

   - Não, mas eu vi eles... Eram muitos homens, Emryss, e foram por ali...

   Hu apontou a estreita trilha que levava para fora de Craig Fawr.

   Depois de verificar que o menino estava mesmo bem, Emryss ordenou que seguissem a trilha. Pouco depois, ela perdia-se no mato e os homens pararam, indecisos. Gwilym entrou um pouco pela mata e encontrou um pedaço de pano, manchado de sangue, preso num arbusto.

   - Os rastros se dirigem para Beaufort - disse, entre triunfante e duvidoso para Emryss, que se aproximava com o menino.

   - Então, vamos para lá - determinou o lorde.

  

   - Eles estão atrás de nós!

   O fora-da-lei voltou a cara retorcida pelo pânico para o líder, enquanto os sons de aproximação se tornavam mais audíveis. Um grupo de homens aproximava-se do esconderijo deles.

   Dolf, o líder, o homem dos dentes podres, aproximou-se da entrada da caverna e olhou para fora. De fato um grupo considerável de homens vinha vindo.

   - Que eles todos vão para o inferno! - resmungou, enquanto desembainhava a espada.

   Os demais bandidos, reunidos no fundo da caverna, também empunharam as armas, até mesmo o homem que tivera a perna mordida de modo feio pelo cão do pastor assassinado por eles.

   - Como puderam nos descobrir tão depressa? - murmurou um dos homens, para um companheiro.

   - Calado! - A voz de Dolf soou cortante. - O que menos importa, agora, é como eles ficaram sabendo.

   O cheiro do medo espalhou-se na atmosfera úmida da gruta, enquanto esperavam. Dolf olhou de novo para fora.

   - Estão bem perto... é a nossa oportunidade. Agora, atacar!

   O chefe dos bandidos permaneceu no lugar, à boca da caverna, enquanto seus homens saíam para o ataque, gritando injúrias aos homens de Emryss.

   O ferido começou a se arrastar, com a adaga numa das mãos, mas Dolf foi para junto dele:

   - Você espera aqui.

   Então, quando o outro parou e colocou a adaga no cinto, o líder enfiou uma faca em seu peito. O bandido atacado arfou e arregalou os olhos fixos no chefe, que aprofundou mais a faca:

   - Não podemos deixar ninguém para falar - disse Dolf, determinado. - Foi esse nosso trato, não?

   O homem morreu, o líder retirou a faca da ferida no peito dele, limpou-a na roupa do morto e saiu da gruta.

Deslizando, silencioso, entre o mato, ele fugiu, afastando-se do local onde se travava a batalha. Seus homens jamais venceriam os soldados de Craig Fawr, principalmente enquanto se encontrasse entre eles aquele bastardo de um olho só, que lutava como se tivesse todos os demônios do inferno a seu lado.

   Os sons da luta iam se tornando menos perceptíveis, à medida que Dolf se aproximava do alto da colina, correndo habilidosamente pelo mato, abaixado para não ser visto.

   - Então, vocês foram descobertos.

   Dolf estacou, ofegante, ao ouvir a voz de Cynric DeLanyea.

   Deu mais alguns passos e deparou com o novo barão encostado ao tronco de uma árvore, sorrindo com aquele seu jeito diabólico. Seu lacaio, Urien Fitzroy, mantinha-se a pouca distância do patrão, calado, mas os olhos atentos e uma das mãos no punho da espada.

   - De fato, fomos descobertos, milorde - disse o bandido, com voz presa.

   - E você resolveu dar uma voltinha, já que o dia de verão está tão lindo? - indagou Cynric, desdenhosamente.

- Meus homens e eu fomos atacados por adversário temível... os soldados de Craig Fawr.

   Cynric ficou sério e preocupado ao ouvir aquilo, então foi a vez de Dolf rir.

   - Como eles descobriram vocês? - quis saber o barão, irritado com o riso insolente do bandido.

   - Não sei, mas descobriram.

   - Seus homens vão conseguir escapar? Dolf deu de ombros, com pouco caso:

   - Não sei - respondeu, sem qualquer emoção -, e não quis ficar para ver.

   - É melhor que nenhum deles fale... - disse Cynric, aproximando-se do bandido.

   A mão de Dolf moveu-se, quase imperceptivelmente, em direção de sua adaga:

   - Acredito que a maior parte deles já esteja morta, agora.

   O barão parou junto do homem e seus lábios se curvaram num sorriso malévolo:

   - Acha, mesmo?

   Num gesto rápido, enfiou sua adaga no bandido, de baixo para cima, com incrível força. Dolf gemeu e largou a própria arma, que empunhara mas não tivera a menor chance de usar.

   - Seu bastardo! - gritou o fora-da-lei, levando as duas mãos ao ferimento à altura do estômago. -Seu bastardo sangrento! Depois de todos os riscos que corri por você! Depois de todas as mulheres que arranjei para você...

   Sem se abalar, Cynric limpou a adaga no mato, com gestos tranqüilos.

   - Um a menos para falar, não é, Dolf? - indagou com ironia. O homem caiu no chão, gemendo. O nobre passou por ele, indo em direção a Urien, a quem ordenou:

   - Acabe com este cão maldito e depois desça a colina. Quero saber se escapou algum dos bandidos.

   O guerreiro não se mexeu e perguntou:

   - O que ele quis dizer, com isso de lhe arranjar mulheres? Cynric riu, divertido:

   - Você também é daqueles que acham que não se deve possuir uma mulher contra a vontade dela, Urien? - perguntou, com cinismo.

Percebeu uma expressão de culpa nos olhos negros de Fitzroy, que se manteve calado.

   - Vejo que sim... Agora, termine com ele - ordenou, frio. - Faça isso ou nem precisa voltar para Beaüfort.

   Cynric DeLanyea montou seu cavalo, que o esperava, e começou a a se afastar.

   Urien Fitzroy obedeceu.

  

   A boca do homem abriu-se e contorceu-se em uma careta de ódio, medo e desespero quando desferiu o golpe de faca para atingir o peito de Emryss, que saltou de lado, caindo sobre o chão com grande dor na perna que fora ferida. A espada escapara-lhe da mão há alguns segundos. Rápido, ele a recuperou e avançou para o inimigo. Não via, nem ouvia a terrível confusão que se agitava ao seu redor, a atenção focalizada no atacante.

   O bandido passou a língua pelos lábios e esse gesto devolveu a esperança a Emryss. O homem estava com medo! O nobre sentiu o sangue acelerar-se nas veias, em uma antecipação ao triunfo. Com um grito selvagem, arrancou o tapa-olho do rosto.

   Os olhos do fora-da-lei se arregalaram e ele ficou paralisado durante o tempo suficiente para Emryss recuperar a espada.

   - Devia ter ficado longe das minhas terras, seu estúpido canalha! sibilou o nobre, sorriu terrivelmente e começou a avançar.

   - Sabe como perdi meu olho? Arranquei-o e joguei-o na cara de um sarraceno.

   O homem empalideceu, enquanto Emryss circulava ao seu redor, cada vez mais próximo, esperando pelo momento certo. O antagonista relanceou os olhos por todo lado e viu que não tinha escapatória, a não ser que saísse correndo entre as árvores.

   Inexoravelmente, o lorde chegava cada vez mais perto.

   - Vou matá-lo pelo que vocês fizeram a Ianto e ao cão dele - disse, por entre os dentes cerrados. - Só que você vai morrer devagar...

   Saltou para a frente, movendo a espada para atingir a mão que segurava a adaga. Errou, tentou de novo e dessa vez a arma do inimigo caiu no chão.

   O fora-da-lei chutou, desesperado, quando Emryss aproximou-se, atingindo-lhe a perna machucada. O nobre gemeu de dor, mas continuou segurando a espada e avançando, enquanto o inimigo recuava, até que parou, encostado a uma rocha.

   - Por Ianto - disse o lorde, mergulhando a espada em seu peito.

   O homem caiu.

   - Pensei que precisasse de ajuda, brawdmaeth - disse Gwilym, enquanto Emryss imobilizava-se, respirando penosamente. - Como vejo, eu estava errado.

   Só então o lorde reparou no silêncio. Olhando ao redor, viu que a luta terminara. Sete cadáveres, nenhum sendo de seus soldados, jaziam pelo chão, em várias posições. Ele sorriu, amargo.

   - Mas não estou pronto para descansar - disse ele, o ardor da batalha ainda circulando com o sangue pelo seu corpo.

   Gwilym manteve-se sério e comentou:

   - Uma pena todos terem morrido.

   - E tiveram morte bem melhor do que mereciam, garanto-lhe - respondeu o nobre, limpando sua espada no mato.

   - Não entende, meu irmão? - indagou Gwilym, de cenho franzido. - Eles nos teriam dito muitas coisas, mas estão todos mortos...

   Um galho de árvore estalou, na colina, acima deles. Emryss olhou, atento, mas nada viu e voltou-se para o companheiro:

   - E teriam dito o quê? Ianto, Mott e minhas ovelhas já estão mortos. É o fim de tudo.

   - Eu gostaria de saber por quê eles fizeram isso, Emryss. Talvez tenham sido pagos para agir assim. E o fogo no moinho, no depósito de armas?

   Emryss suspirou, cansado, e flexionou a perna dolorida.

   - Quem lhes pagaria para matarem as ovelhas e as deixarem espalhadas pelo campo? Cynric é muito miserável para fazê-lo e fora ele não existe mais ninguém por aqui que quisesse fazer-nos esse tipo de coisas. Quanto aos incêndios, esses homens não me parecem ter sido espertos o bastante para organizar um plano a fim de ultrapassar minhas defesas.

- Talvez tenham tido ajuda, Emryss.

   O lorde encarou Gwilym:

   - Está querendo dizer que alguém em Craig Fawr nos traiu? - perguntou, com voz contida.

   - Estou dizendo que tudo é malditamente suspeito, e talvez esses homens pudessem nos revelar algumas coisas.

   Emryss girou a espada, cortando mato ao redor.

   - Bem, agora está feito - disse e embainhou a arma. - Vou até lá. - Apontou para as árvores, colina acima. - Creio que ouvi alguma coisa. Apronte os homens para voltarmos a Craig Fawr. Vamos levar os mortos, talvez nossa gente reconheça algum deles.

   Movimentou-se pela estreita trilha, subindo o morro. Não viu ninguém e havia o mais profundo silêncio. Parou de andar e olhou em volta. Havia algo de familiar naquele lugar. De repente, notou que se encontrava junto do rio que separava suas terras das terras de Beaufort.

   Lembrou-se de ter vindo ali várias vezes com Ianto, para cortar galhos de salgueiro a fim de fazer varas para guiar as ovelhas. Havia uma caverna...

   Encontrou-a rapidamente. Empunhando a espada, foi entrando devagar no escuro e enorme buraco nas rochas.

   Um homem! Emryss preparou-se para lutar, mas imediatamente percebeu que fitava um corpo sem vida, os dentes à mostra num sinistro sorriso.

   Não encontrou mais nada de importante, então saiu da gruta, mordendo os lábios para não gritar por causa da dor que a posição forçada causava na perna ainda convalescente.

   Quando chegou na clareira, encontrou seus soldados limpando as espadas. Olhou com desgosto para os ladrões mortos e aproximou-se de Gwilym.

   - Há mais um cadáver lá em cima, na caverna. Não vi mais ninguém.

   Dois soldados foram buscar o morto da gruta, enquanto os demais ajeitavam os cadáveres nos cavalos dos bandidos, que tinham encontrado numa clareira próxima.

   A patrulha chegou a Craig Fawr depois do sol se pôr. Cansado e com muita dor na perna, Emryss desmontou devagar. Ordenou que pusessem os cadáveres no chão do pátio, perto da cocheira, e que dissessem aos habitantes da aldeia e aos moradores do castelo que fossem vê-los: quem tivesse qualquer informação a respeito deveria avisá-lo.

   - Isso não faz sentido, brawdmaeth - dizia Gwilym, enquanto acompanhava o lorde para o salão. - Ladrões que não roubam, apenas matam!

   - Foras-da-lei não são famosos pela profunda inteligência, são? - replicou Emryss. - E os tolos não tinham contado com uma reação de Ianto.

   Ianto. O lorde ficou profundamente triste de novo. Por algum tempo havia esquecido do que acontecera com Ianto.

   - Espero que você tenha razão - disse Gwilym, balançando a cabeça com ar de dúvida. - Por que se não tiver, Emryss...

   - Procure esquecer isso, Gwil - pediu o outro, mal se agüentando de dor. - Pare, eu lhe peço por mim. Minha perna está doendo demais.

   Ele tentava não contrair o rosto, de tanta dor, enquanto caminhava, se bem que a perna doesse como se tivesse uma adaga aquecida enfiada nela.

   Quando abriu a porta para entrar, Roanna aproximou-se, correndo. O sorriso luminoso que lhe embelezava ainda mais o rosto, apagou-se no mesmo instante. Acompanhou o marido, que foi se deixar cair em sua cadeira, com um rouco gemido. Ela não se conteve mais:

   - Sangue! - murmurou, apavorada. - Você está ferido?

   - Não é sangue meu - respondeu ele, com voz cansada.

   - E Hu?

   - Está bem.                          

   Roanna passou a respirar com mais facilidade, ao saber que o menino estava bem. Aproximou-se da mesa e serviu um pouco de vinho para o marido. Ele sentia-se grato por ela não o atormentar com perguntas e bebeu com satisfação.

   Tudo o que desejava era descansar e esquecer-se da sangrenta batalha. Tinha lutado e matado tantas vezes que já não sentia mais nada, a não ser gratidão por estar vivo.

   Conhecera guerreiros que haviam encontrado a glória lutando, como fizera em sua juventude, mas esses eram em geral homens que utilizavam suas habilidades apenas em torneios, nos quais os campos não ficavam juncados de mortos e moribundos que gritavam horrivelmente de dores. Eram locais em que os campeões não eram obrigados a se apoderar das armas dos mortos. E esses guerreiros de torneios eram nobres, homens cujas vidas raramente eram arriscadas em campos de batalha, porque eram muito mais valiosos como reféns.

   Ele tinha vergonha porque, por um instante, sentira o sangue circular com mais entusiasmo nas veias e vibrara com o êxtase da vitória quando matara seu inimigo.

   Depois de alguns momentos sentado, pensando, ele percebeu que Roanna encontrava-se de pé ao seu lado, fitando-o. Fitando-o com amor.

   As lembranças da noite anterior fizeram com que esquecesse da perna que doía.

   - Esposa, venha cá - disse, com suavidade. Ela se aproximou e ele voltou a falar: - Felizmente, nenhum de meus homens ficou ferido e todos aqueles abutres estão mortos.

   Ela estremeceu:

   - Vocês mataram todos eles? - perguntou, com um fio de voz. Ele ergueu-se e firmou o peso mais na perna sadia, ao responder:

   - Sim, todos. Eles não nos deram muita escolha.

   - Mas, Emryss - começou ela, juntando as mãos, preocupada -, agora não saberemos por que eles fizeram isso ou se Cynric está envolvido.

   Inquieto, o lorde começou a andar de um lado para outro.

   - Parece que todos vocês acham que fiz uma enorme asneira! - explodiu, por fim. - Quem sabe eu devia ter permitido que aquele idiota desdentado me matasse! Assim, vocês teriam alguém para lhes dar as preciosas respostas que tanto querem!

   - Emryss... - disse ela, baixinho. Ele parou e voltou-se para olhá-la. - Emryss...

   O lorde aproximou-se e apertou-a nos braços, quase com desespero.

   - Perdoe-me... - murmurou, os lábios nos cabelos dela. - Eu sei que você tem razão, mas não há tempo para pensar quando um homem vai matar você!

   - Sinto muito, Emryss - a voz dela era tão caridosa quanto os lábios róseos que tocaram a face dele. - Se alguma coisa acontecesse com você, eu...

   Ele a interrompeu com um longo, profundo beijo. Quando pôde se afastar, ela encarou-o, sorrindo, e esbravejou:

   - Sente-se já aí e fique quieto, Emryss! Você está horrível.

   - Nunca mais deixei de estar horrível, desde que aquele infiel vazou-me o olho - respondeu ele, tentando sorrir.

   - Não brinque! Vou chamar Mamaeth. Por favor, sente-se aí.

   Mamaeth encontrou-se com Roanna no alto da escada:

   - Como está ele? - perguntou, ansiosa.

   - Cansado e a perna está doendo muito mais do que ele quer admitir.

   - Sempre a mesma coisa! Eu já sabia. Sempre sei quando ele vai exagerar e ficar pior. Mas não se preocupe. Vou dar um jeito para ele parar de fazer loucuras. - O rosto moreno ficou muito sério. - Deixaram os cadáveres lá no pátio. Emryss disse que todos devem ir olhá-los, para dizer se os conhecem. Você também precisa fazer isso, menina.

   - Claro... - respondeu Roanna, sentindo o estômago se revirar. Relutante, ela foi para o pátio. Tochas brilhavam na escuridão, seguras por alguns guerreiros. As pessoas desfilavam diante dos mortos. Ela entrou na fila e quando chegou sua vez obrigou-se a olhar com atenção para cada um dos rostos sem vida. Reconheceu neles os mesmos homens que a tinham atacado naquele dia horrível e ferido Jacques. Quando chegou ao final dos cadáveres expostos, sentiu um arrepio gelado na espinha. O bandido de hirsuta barba negra e dentes podres. O líder. Ele não se encontrava ali e Emryss achava que nenhum deles escapara.

   Jacques estava parado à porta da cozinha e a viu, à luz dos archotes que iluminavam os mortos. Correu para junto dela.

   - Venha, milady... É terrível olhar para esses corpos de abutres podres! Venha sentar-se perto do fogão e aquecer-se um pouco.

   - Não, Jacques - recusou-se ela, tremendo de frio e de horror. - Preciso falar com Emryss.

   - Falar o quê? - perguntou o cozinheiro, mas ela já corria para o salão.

   Deu um encontrão em Mamaeth, que saía do quarto dela no momento em que ia entrar.

   - Vá devagar, minha menina - disse a velha ama, segurando-a por um braço.- Ele está bem. Dei-lhe um remédio para fazê-lo dormir e descansar bastante.

   - Mas... - protestou Roanna, aflita.

   - Precisei fazer isso, se não esse menino teimoso ficaria andando de um lado para outro, quando precisa deixar a perna em repouso. O pior é que ele jamais conta o que está sentindo! - Fitou os olhos verdes que espelhavam desespero e acrescentou com simpatia:

   - Não é nada sério, por enquanto. Mas aquela perna precisa descansar durante algum tempo.

   Roanna hesitou. Se o acordasse, pensou, ele seria capaz de sair atrás do homem que faltava. Afinal de contas, que mal poderia haver se ele levasse algum tempo para saber do fato? Com certeza o líder dos bandidos iria embora, agora que sua quadrilha fora desmantelada.

   - Isso, menina, assim é muito melhor. Acalme-se. Vá buscar alguma coisa para Emryss comer, quando acordar.

   - Onde está Hu? - perguntou Roanna, enquanto acompanhava Mamaeth escada abaixo.

   - Na cozinha. Bronwyn está cuidando do pobre menino. Roanna fez que sim, ao mesmo tempo que a velha ama acrescentava, penalizada:

   - Pobrezinho... Ele tem que ir gwylio'r corff.

   Notou, pelo ar de espanto de Roanna, que ela não entendera nada c traduziu para o normando:

   - Ele tem que ir olhar o corpo de Ianto, na capela. Emryss irá mais tarde, depois que descansar, com os demais homens.

   Roanna parou, tinham chegado à porta, e perguntou, curiosa:

   -Tem que ir olhar o corpo de Ianto? Por quê? Mamaeth encarou-a, achando estranho que a lady não soubesse coisa tão simples:

   - Não seria direito deixar Ianto sozinho. Eu fiz Emryss dormir, porque enquanto isso Hu pode fazer companhia a ele, mas quem deve ficar com o pastor é meu menino. Ianto era como um pai para ele. Ensinou-lhe tudo sobre ovelhas, sobre cães e também sobre homens.

   - Entendo... - murmurou Roanna, emocionada.

   - Entende, mesmo? - indagou Mamaeth, de modo abrupto.

   - Sim, entendo - respondeu a moça, firme. - É o dever dele e não quero atrapalhá-lo. Mas - ela encaminhou-se para a cozinha - também não vou deixar que fique doente de novo.

  

   Emryss ainda dormia à hora do jantar e no começo da noite. Roanna permanecia sentada ao lado dele, velando-lhe o sono. A um certo momento, ele resmungou palavras ininteligíveis.

   - Oh, Deus! - conseguiu dizer de modo compreensível, pouco depois. - O que havia naquele chá?

   - Mamaeth queria que você dormisse - explicou-lhe Roanna, sorrindo com meiguice.

   - Já é noite?

   - É...

   Ele teve certa dificuldade de erguer o corpo e Roanna o ajudou, fazendo-o recostar-se nos travesseiros.

   - Onde está Ianto? - perguntou Emryss.

   - Na capela.

   O lorde passou as mãos pelos cabelos e murmurou:

   - Tenho que ir.

   Roanna fez que sim e foi pegar-lhe roupas, na arca. Quando voltou para junto da cama, ele estava sentado na beirada, os pés separados, 0 rosto oculto nas mãos.

   - Emryss, você está bem?

   Ele ergueu a cabeça a custo e fitou-a, com ar alheio:

   - Mais ou menos...

   Ergueu-se e ela ficou com as mãos entrelaçadas, enquanto o marido se vestia.

   - Mamaeth falou-me sobre... aquilo... Sei que você tem que ir e ficar ao lado de Ianto. Mas por favor, Emryss, prometa-me que voltará, se a perna recomeçar a doer.

   Emryss fitou-a com a mais profunda tristeza.

   - Dor? Ianto está morto por minha culpa e você não quer que eu sinta dor?

   Ela aproximou-se e passou a mão no rosto contraído, numa carícia leve, enquanto ele calçava as botas.

   - Sei como uma pessoa se sente ao perder alguém que ama, mas a culpa não é sua.

   Ele segurou-lhe a mão contra o rosto, com uma expressão profundamente amarga:

   - Não é minha culpai Fiquei por aqui, pensando apenas em mim, e agora Ianto está morto. - Largou a mão dela, ergueu-se e foi até a janela. - Que espécie de lorde eu sou, que não sabe nem proteger seus aldeões?

   Roanna foi para junto dele:

   - Você é o melhor dos lordes - disse, com fervor.-E generoso e honrado. Como poderia saber que aquele horror ia acontecer? - Aproximou-se mais e abraçou-o, enquanto ele continuava a olhar pela janela. - Ajudaria, por acaso, se você estivesse galopando por aí o dia inteiro e se matasse?

   Ela apoiou o rosto no peito forte, apertando-se mais contra ele, que suspirou profundamente:

   - Oh, Roanna - gemeu, com voz rouca -, eu queria tanto acreditar no que você disse!

Ela recuou um pouco e segurou o rosto atormentado com ambas as mãos:

   - Se quer culpar alguém, culpe a mim. Ou a Mamaeth. Nós duas fizemos você ficar aqui, não foi?

   - Acha que vou deixar uma mulher arcar com o peso de minha falta? Não. É meu dever proteger minha gente. - O peito masculino estremeceu com outro doloroso suspiro. - Mas pegamos os demônios...

   Essas palavras foram como pedras caindo no estômago dela. Antes que decidisse o que fazer, ele falou de novo:

   - Isso é para mim? - perguntou, olhando o prato de comida e o pão que estavam sobre a mesinha.

   - É - respondeu ela, tentando manter a voz despreocupada.

   Como poderia dizer a ele que um dos demônios havia escapado? Depois de levar dois bocados à boca, Emryss exclamou, erguendo-se:

   - Deus, não consigo comer. Vou até a capela. Roanna assentiu e lhe disse, carinhosa:

   - Vou esperar por você.

   - Não espere, porque irei passar a noite toda lá. Vá dormir.

   - Vou esperar.

   Ele fitou-a, com um sorriso tristonho:

   - É sempre assim tão teimosa, mulher? E o pior é que não discute: fica repetindo a mesma coisa, sem se cansar?

   - Sim.

   Enquanto ele abria a porta e saía do quarto, ela ouviu-o dizer:

   - Ianto era igual...

   Roanna foi para a janela e pouco depois viu-o passar pelo portão. Os ombros fortes encontravam-se caídos e o cumprimento que fez ao guarda foi simples, baixo, não vibrante e alegre como costumava ser.

   Ela olhou para a capela na aldeia. Nas pequenas janelas brilhava a luz insegura de círios e ela teve impressão de ouvir um cântico.

   Voltando-se e afastando-se da janela, torceu as mãos, devagar. Ele não podia ficar lá sentado, a noite inteira. Se adoecesse outra vez, dificilmente se recuperaria. Mamaeth procurara parecer despreocupada, mas Roanna já conhecia a velha ama bastante bem para notar que ela encontrava-se aflita e com medo.

   Se continuasse ali, parada, pensou Roanna, ficaria louca, pois cada minuto parecia um ano. Olhou para a bandeja de comida e decidiu levá-la para a cozinha.

   Quando se encontrava no corredor que dava para a ampla cozinha, percebeu que Mamaeth e Jacques encontravam-se no meio de outra de suas monumentais discussões, se bem que parecessem bem menos agressivos um com o outro. Quando o homenzarrão viu Roanna, correu para ela e pegou a bandeja de suas mãos.

   - Venha, milady, sente-se aqui. A senhora parece doente!

   - Estou bem, Jacques - respondeu ela, sentando-se no banco que ele lhe oferecia. - Só me sinto um pouco preocupada.

   - Hum! Eu imagino como está, pela minha preocupação. A senhora sabe o que é viver ao lado de mulheres incrivelmente imbecis Como esta? - E apontou para Mamaeth, cujos olhinhos negros fuzilaram, antes que ela saísse bufando da cozinha. - Veja só, ela veio me explicar como guardar a farinha de trigo!

   Roanna sorriu e seu rosto pálido iluminou-se um pouco. Os problemas de Jacques eram tão adoravelmente simples!

   Ele afastou-se e voltou de imediato, trazendo um pãozinho e uma caneca de cerveja para ela.

   - Coma - ordenou.

   Ela pegou o pãozinho e ficou a brincar com ele, em vez de comer. Jacques a observava com o canto dos olhos, enquanto se movimentava, preparando a cozinha para a rotina do dia seguinte.

   - Lady Roanna, o que há? - perguntou, afinal, enxugando as mãos no enorme avental, manchado de farinha. - Seu marido está bem. E, acredito, tudo deu certo entre a senhora e ele... pelo menos foi o que aquela bruxa me disse! Concordo que o que aconteceu com os fora-da-lei foi horrível, mas a senhora parece tão perdida, tão angustiada!

   - Estou só cansada, Jacques - respondeu ela, tomando uma decisão.

   Ficaria calada. O bandido que fugira seria apanhado mais tarde, se necessário. Por enquanto, a saúde de Emryss era muito mais importante. Ao decidir, sentiu como se um peso lhe saísse do peito e sorriu.

   - Ah! - entusiasmou-se o cozinheiro, todo contente. - Assim está muito melhor! Agora parece a minha lady Roanna! - Ao ver que ela comia um pedacinho do pão, animou-se ainda mais: - Pois é, minha comida faz isso com as pessoas: elas se animam! - Riu, com gosto. - Por que não fica aqui comigo, para conversarmos? Depois que a minha menininha se tornou uma lady, eu a vejo tão pouco!

   Roanna ficou bastante tempo com o velho amigo. Ele lhe contou todos os mexericos que andavam pelo castelo, inclusive um que dizia que Bronwyn e Gwilym iam se casar.

   Algumas horas depois, ela achou que devia ir. Era bem tarde e Jacques precisava levantar-se muito cedo a fim de preparar as refeições do dia.

   Mas, em vez de subir para seu quarto, ela saiu para o pátio. Craig Fawr encontrava-se imersa em silêncio. No céu, nuvens de vez em quando velavam a lua cheia, que se tornava misteriosa como uma dama cheia de segredos, enquanto sombras dançavam nas paredes, criando figuras fantasmagóricas.

   Roanna estremeceu, olhando para as estrelas e tentando ouvir o cântico que julgara ter percebido quando se encontrava na janela. Não. Tudo estava quieto.

   Ela se dirigiu, apressada, para o portão. Um guarda imediatamente quis saber quem se aproximava e ela se identificou, explicando depressa:

   - Vou à capela - e passou por ele, sem notar a expressão de surpresa que se estampou no rosto moreno.

   Quando chegou à capela, ela parou por instantes junto do edifício de madeira. Percebeu que vozes murmuravam, lá dentro. Com cuidado, empurrou a porta.

   Ianto jazia em um esquife diante do altar. Fora vestido com um fino manto e suas mãos brancas encontravam-se cruzadas sobre o peito. Mott jazia a seu lado, enrodilhado, como se estivesse dormindo. Havia um alto círio em cada canto do ataúde, iluminando vagamente a capela. Emryss achava-se sentado num banco, ao lado de Gwilym. Alguns soldados que ela reconheceu achavam-se em outros bancos, misturados a homens desconhecidos, que deviam ser pastores. Um cântaro de vinho passava de mão em mão.

   Ela entrou e fechou a porta, permanecendo oculta no escuro. Sabia que não devia se encontrar ali, mas recusava-se a ficar sozinha. Queria estar perto de Emryss.

   Inclinando o corpo vivamente, Gwilym pôs-se de pé e começou a falar. Suas palavras eram uma confusa mistura de galês e normando. Ouvindo com atenção, Roanna verificou que entendia muita coisa.

   - Naquele tempo, Emryss estava aprendendo a tosquiar... - Ele sorriu, triste. - Affwl escapava-lhe dos dedos inexperientes e ficava mal cortada, mas Ianto não reclamava. Sempre o tratou como um lorde.

   - Ele esperava que eu mesmo me transformasse em alguém prestavel! - continuou Emryss, com profunda tristeza. - Sempre me ensinava do modo mais árduo. Tratava-me como um lorde, sim... Mas lembra-se do dia em que deu um tapa em meu rosto?

   A confusão que se estampou no rosto de Gwilym fez todos os homens rirem.

   - E verdade - concordou o guerreiro moreno, quando os risos morreram. - E teve toda razão: você estava brincando com um dos cães dele.

   - O mais fino deles, que Ianto o treinava com afinco - disse um dos velhos pastores.

   - É mesmo, Dewey - confirmou um outro. - Era um bom homem e não vamos ter outro igual a ele por muito, muito tempo.

   Todos os homens reunidos na capela quase mergulhada na escuridão, assentiram e beberam.

   - Espero poder fazer por Hu o que ele fez por mim - declarou limryss com tristeza.

   Os homens assentiram de novo. O silêncio tomou conta da capela enquanto cada qual entregava-se às suas lembranças.

   Por fim, Roanna atreveu-se a espiar de novo, de seu esconderijo, na escuridão. Os homens encontravam-se encostados nas paredes, seus peitos subindo e descendo devagar, numa respiração lenta.

   Emryss saíra de seu lugar e estava ajoelhado junto do ataúde, um braço passado pelo peito de Ianto.

   Roanna deu alguns passos tímidos à frente, silenciosa. Ele não podia ficar ali, naquele local gelado. Nas pontas dos pés, ela aproximou-se do esquife.

   Então, parou. Emryss cantava, em voz tão baixa que ela só ouviu ao chegar muito perto.

   Virou as costas e começou a voltar para junto da porta quando o canto cessou. Em aflição crescente, ela girou sobre si mesma e viu os ombros do marido estremecerem enquanto dolorosos soluços irrompiam-lhe da garganta.

   Sem pensar, Roanna correu para o esquife e ajoelhou-se ao lado dele.

   - Emryss... - chamou, baixinho, querendo tocá-lo, mas não o fez, com medo que ele se zangasse por ter se intrometido.

   Ele voltou o rosto molhado de lágrimas para ela.

   - Oh, Deus me ajude, Roanna! Sinto-me como se eu tivesse disparado a flecha que o matou!

   Ela tomou o rosto transtornado pela dor entre as mãos.

   - Não, Emryss - disse, com voz firme.

   Ele abaixou a cabeça, sem dizer nada, mas envolveu-a em um forte abraço. E Roanna permaneceu junto dele, acalentando-o, ali-sando-lhe os cabelos, enquanto o marido chorava.

   À medida que o tempo passava, Roanna começou a achar que sua preocupação era infundada. Emryss enviava patrulha de buscas todos os dias e ninguém encontrava o fora-da-lei que faltava.

   O lorde foi se tornando a cada dia mais forte e parecia menos angustiado pela culpa, assemelhando-se mais com o Emryss que ela conhecera ao chegar ali. Todas as noites o marido a tomava nos braços e a amava com tal ardor que Roanna achava que a paixão que os unia era o paraíso na Terra. Quando ele a levava por novos caminhos do prazer, cada qual mais excitante do que o anterior, ela começou a entender por que diziam que a luxúria era pecado: quando Emryss a olhava, todos os pensamentos que não fossem de paixão e ardor desapareciam de sua cabeça.

   Ela começava a acreditar que os problemas com Cynric tinham terminado.

   Mas, em Beaufort, Cynric DeLanyea achava que chegara o momento de agir.

  

   Padre Robelard permanecia ajoelhado na catedral do mosteiro, esquecido da dor nos joelhos. O sol da tarde não conseguira dissipar a pesada neblina que cobria o vale, por isso a imensa igreja estava gelada como um túmulo.

   - Deus querido - rezava ele, com fervor -, livrai-me do mal. Ajudai-me em minha hora de necessidade. Mostrai-me o jeito de me livrar de Satã. - Apertou na mão suada o bilhete que recebera naquela manhã, transformando-o numa bola de papel amarrotada. Sua voz subiu em súplica: - Vosso servo que pecou implora pelo divino perdão e pela misericórdia.

   - Que oração tocante!

   O religioso sentiu o estômago apertar-se ao ouvir a voz bem conhecida. Ergueu-se e voltou-se.

   As chamas das velas no altar punham sombras bizarras na igreja. Cynric assomava como um demônio imenso no umbral da porta. Luzes e sombras dançavam em seu rosto, aumentando a sensação demoníaca. Aproximou-se do altar.

   - Sentindo-se culpado, padre? - disse, com um sorriso zom-beteiro contraindo o rosto bonito.

   - Mandou chamar-me, milorde. O que quer?

   - Quê? O que eu quero? Claro que não se trada de um encontro amigável, padre. Talvez eu queira me confessar...

Independentes da vontade dele, as mãos de padre Robelard começaram a dar nós no cordão do hábito. Cynric voltou a avançar, alé que o religioso precisou dar um passo para o lado a fim de sair de seu caminho.

   O barão fitou o homenzinho, com os olhos azuis mais frios e maldosos do que nunca, depois continuou:

   - Talvez não, ou melhor, claro que não chamei o senhor porque quero me redimir de meus pecados.

   Continuou andando, até que parou junto do altar e encostou-se, displicente, no enorme bloco de madeira entalhada. Chocado demais para falar, padre Robelard orou em silêncio, pedindo perdão pelo nobre.

   - Diga-me, padre, como vai meu primo? - perguntou Cynric, depois do silêncio penoso para o padre.

   - Está bem, milorde - respondeu o religioso, depois de uma tosse nervosa.

   - Fico feliz ouvindo isso. Creio que Emryss acha que acabou com todos os problemas, matando aqueles fora-da-lei.

   - Também creio que sim...

   - É uma pena que isso não seja verdade - a voz de Cynric era gelada.

   A mente de padre Robelard debatia-se no cérebro, como um pássaro assustado preso na gaiola, tentando descobrir o que o nobre queria dizer.

   - Fiquei sabendo que certos... como devo chamá-los?... descontentes querem causar mais perturbações a Emryss - prosseguiu o barão. - Afinal de contas, ele é normando, por mais que afirme ao contrário. Parece que ele pensa que os novos-ricos locais irão deixá-lo sossegado.

   Cynric forçou um suspiro, fingindo-se compungido, e continuou:

   - No entanto, por mais que ele acredite nisso, não está imune ao ódio que esses galeses têm pelos normandos. Eu gostaria de avisá-lo, mas Emryss não quer saber de mim.

   A essa altura, o cordão do hábito de padre Robelard era uma confusão de nós.

   - Será que ele ouviria o senhor? - O barão afastou-se do altar, enquanto o padre negava com a cabeça. - É, também acho que não. Afinal, não é nenhum segredo o fato de ele detestar padres.

   Esperou até que o religioso assentisse, antes de prosseguir:

- Então, em quem ele acredita? - Caminhou, lentamente, na direção do padre. - Talvez na encantadora lady Roanna? Se eu providenciar para que ela tenha certeza que querem prejudicar seu marido, acho que poderei ficar sossegado, pois ele acreditará na querida esposa e estará prevenido, para se defender.

   - Sim, milorde. Lorde Emryss ouve os conselhos dela. Cynric sorriu e foi como se uma serpente sorrisse:

   - Perfeito - murmurou. - Só que tenho uma dificuldade: como farei essa evidência chegar até lady Roanna? Não quero que a evidência caia era mãos erradas e não quero me arriscar a pôr os pés nas terras de Emryss de novo. No entanto, preciso entregá-la pessoalmente. Gostaria de poder demonstrar à graciosa lady o que eu quis dizer quando lhe pedi que interferisse para que a briga entre o marido dela e eu terminasse.

   - Lorde DeLanyea jamais permitirá que ela venha a Beaufort, milorde.

   - Eu sei - respondeu Cynric e sorriu de novo. - Pensei em um lugar neutro. Por exemplo, em algum ponto na beira do rio que divide nossas terras. O mato que chega até ele será uma boa cobertura e se alguma coisa der errada, será fácil eu voltar para minha propriedade, onde Emryss não se atreverá a entrar.

   O padre retorcia nervosamente o cordão e suas mãos estavam suadas. Não queria confiar naquele homem, mas talvez Cynric DeLanyea tivesse conhecimento de alguma coisa que poderia ajudar lorde Emryss.

   - Naturalmente, padre, o senhor acompanhará a lady até a beira do rio - acrescentava o nobre, naquele momento.

   Pigarreando para clarear a garganta, o religioso sentia os joelhos tremerem ao perguntar:

   - E se ela não quiser ir comigo? E como vou ter certeza que o senhor a deixará em paz?

   Os lábios de Cynric retorceram-se num sorriso escárnio:

   - Ah! Está querendo se tornar um herói, padre? Bem, não precisa ter medo: dou-lhe minha solene palavra, diante de Deus, que não farei mal a ela... ou ao senhor, se a trouxer até mim.

   O padre enxugou as mãos suadas no hábito e sua voz era quase um murmúrio:

   - Está bem, milorde.

   - Estou muito feliz por termos nos entendido. Então, amanhã de manhã. - Cynric voltou-se para sair da catedral. De repente, parou: - Ah, padre, devo avisá-lo que se amanhã lady Roanna não estiver na beira do rio, serei obrigado a revelar a vergonha de Lynette.

   Padre Robelard sentiu seu estômago enjoar:

   - Vergonha?

   - Ela vai ter um filho e o senhor sabe o que acontecerá se o segredo for revelado.

   Sim, o padre sabia muito bem o que o barão queria dizer: deixariam a pobre moça nua e a expulsariam da aldeia.

   Em pânico, ele agarrou-se à única chance que havia e gaguejou:

   - O filho... milorde... pode ser do... do senhor!

   Cynric agarrou o religioso pelo colarinho do hábito e sacudiu-o com violência, dizendo com voz abafada pela raiva:

   - Escute, padre, se eu disser que ela vai ter um filho seu, todos acreditarão. Por isso, não deixe de levar Roanna ao rio.

   Sacudiu-o mais uma vez e largou-o, fazendo padre Robelard cair.

   Sem forças, o religioso permaneceu jogado no chão frio, enquanto Cynric saía da catedral.

  

   Na manhã seguinte Roanna chegou cedo à capela. Emryss ainda dormia e ela queria estar de volta antes que ele acordasse.

   - Lady Roanna! Padre Robelard a olhava como se ela fosse um ser sobrenatural. - Foi Deus quem a mandou aqui! - Ele ergueu os olhos para o alto, contrito. - Com certeza é um sinal para este humilde servo d'Ele. Preciso lhe falar sobre algo muito importante.

   Roanna não escondeu a surpresa diante daquele estranho modo de agir do religioso, mas nada disse e ele continuou:

   - Fiquei sabendo que há uns galeses determinados a causar problemas para os senhores normandos.

   - Nenhum galês faria qualquer coisa contra Craig Fawr e Emryss, padre.

   - Eis uma coisa em que eu gostaria de acreditar, milady. Mas se ouvisse o que eu ouvi, acreditaria. Por isso, dei um jeito para a senhora falar a pessoa que sabe de todos os detalhes. Se quiser me acompanhar...

   - Com certeza seria melhor se meu marido fosse com o senhor, padre.

   - Sinto muito, milady, mas essa pessoa disse que só falaria com asenhora. Ele me deu sua palavra que nenhum mal irá acontecer-lhe.

   Roanna juntou as mãos, nervosa. Havia um tom de sinceridade nas palavras do padre Robelard. Emryss, apesar de meio normando, detestava os normandos e todos sabiam disso. No entanto se aqueles fora-da-lei tivessem agido nas terras de senhores galeses e eles imaginassem que poderiam estar ligados ao senhor de Craig Fawr...

   - Onde iremos? - perguntou ela.

   - Não vamos sair das terras de seu marido, milady, mas é bom que vá a cavalo.

   - Está bem.

   - Então, depois da missa, milady?

   - Se o senhor assim quer...

   Roanna montava sua tranqüila égua e seguia a passo atrás do burro montado pelo padre Robelard. Quando fora à cocheira, ninguém lhe perguntara nada. Em geral, Emryss insistia em que Gwilym ou outro soldado a escoltasse nos passeios que dava em companhia do religioso, mas dessa vez, preocupado com algo, nada dissera e ela não o lembrara, pois o padre insistira em que deveria ir sozinha.

   Quando começaram a descer a colina, o sol brilhou fracamente por entre nuvens pesadas. As chuvas fortes do dia anterior tinham deixado os caminhos enlameados. A cada passo, os cascos das montarias chapinhavam no barro, tornando o avanço muito lento.

   Roanna mantinha os olhos na estradinha, procurando desviar a égua das poças maiores. Depois de algum tempo, o padre deteve o burrinho e ela ergueu os olhos.

   Encontravam-se quase na beira do rio, no caminho que levava a Beaufort.

   - É aqui, padre? - perguntou ela, fazendo sua montaria parar lambem.

   Ele desmontou e olhou, nervoso, para as árvores.

   - Sim, milady - respondeu, com voz trêmula.

   Roanna percebeu um brilho de metal no mato. De repente, Cynric DeLanyea e Urien Fitzroy surgiram na estradinha, vindos da mata.

   O barão olhou fixamente a mulher que tinha diante de si. Mal podia acreditar que era a mesma moça que odiara à primeira vista. A pele suave parecia ter um brilho próprio, delicado. O corpo ganhara carne nos lugares certos, tornando-se muito atraente. Ele sentiu uma sensação bem familiar nas ao fitar os seios firmes, redondos.

   Roanna prendeu a respiração e segurou as rédeas com força quando viu que o barão se aproximava. Olhou para o padre, rapidamente, como pedindo explicações.

   - Não tema, milady - disse o religioso. - Ele deu sua palavra perante Deus que não vai prejudicá-la.

   - É verdade, milady. - Cynric sorriu com seu jeito mais encantador. - Só quero dar-lhe um aviso.

   - Isso é verdade? - indagou a lady, olhando-o com desconfiança.

   Ele deu um passo à frente e ergueu a mão direita:

   - Por favor, lady Roanna, ouça-me. Dou-lhe minha palavra que vim em paz e de boa vontade. - Ele notou a dúvida nos lindos olhos verdes. - Deve perdoar-me por este inocente ardil, milady. Emryss não me ouviria, se eu o avisasse pessoalmente. Por isso, decidi falar com a senhora.

   Roanna não fez um só movimento para desmontar.

   - Padre, fique aqui com Fitzroy - ordenou o barão. - Lady Roanna e eu precisamos conversar a sós.

   Aproximou-se dela e ergueu as mãos. Roanna hesitou por instantes, então aceitou a ajuda dele para desmontar.

   - Venha, milady - disse o lorde, levando-a gentilmente para o abrigo das árvores. - É melhor que falemos a sós. O que tenho a dizer não deve cair em ouvidos estranhos. Por favor! - pediu, em tom humilde.

   Levou-a para fora da estradinha, para junto de um grupo de ave-leiras que se erguiam perto do rio.

   - Quem está planejando nos atacar? Quando? - ela perguntou, assim que pararam em uma pequena clareira.

   - Roanna - disse o barão, com suavidade -, eu sabia que não viria falar comigo a não ser que seu marido se encontrasse em perigo. Foi por isso que convenci padre Robelard e trazê-la.

   - Então, não existe qualquer...

   - Problema com os galeses? - ele terminou por ela. - Não, pelo menos que eu saiba. Perdoe-me por essa pequenina decepção. - Ele sorriu, insinuante, pegando uma das mãos dela. - Sei, Roanna, que agi de modo terrível com você. E tentei desesperadamente esquecê-la. Está casada com meu primo e só isso basta para tornar meu sonho impossível. No entanto, vivo torturado pela culpa, pela lembrança do modo que a tratei. Não posso suportar mais e quero pedir-lhe perdão.

   Ele aproximou-se e Roanna deu um passo para trás, fazendo-o parar. Um sorriso de mofa curvou os lábios do nobre.

   - Vejo que ainda não confia em mim. Bem... talvez tenha sido loucura minha achar que seria de outro modo.

   De repente, ele ergueu a mão dela e colou os lábios na palma macia, morna, levemente perfumada. Como Roanna era desejável! Ela recuou mais e soltou a mão:

   - O que está fazendo, milorde - perguntou, os olhos verdes arregalados.

   - Roanna - disse ele -, eu a amo. Preciso de você.

   A lady permaneceu muda por instantes, fitando-o com incredulidade:

   - O senhor está louco! - conseguiu dizer, por fim.

   Cynric ajoelhou-se na lama e ergueu as mãos num gesto de súplica:

   - Sim, estou louco. Louco de amor por você.

   Suas palavras pareciam sinceras. Ele o percebeu e resolveu aproveitar o impacto:

   - Ah! Sei que não acredita em mim... - Fitou-a com intensidade, determinado a executar seu plano até o fim. - Eu mesmo mal consigo acreditar... E tentei negar esse amor, dizendo a mim mesmo que a tive e que a perdi para sempre! Porém não consegui ficar calado por mais tempo. Oh, Roanna! - Com um gemido, ele escondeu o rosto com as mãos.

   - Sinto muito, Cynric - disse ela, com meiguice.

   Ele baixou as mãos e fitou o rosto pálido no qual sobressaíam ós lábios róseos, tentadores.

   Ao diabo o seu plano!, impacientou-se. Saltou de pé e agarrou-a, apertando-a contra si, esmagando os lábios dela com os seus. Milagrosamente, Roanna não se moveu. Permaneceu inerte entre os braços dele, que deslizou a boca sobre as faces macias, depois desceu para o pescoço esguio.

   - Cynric - murmurou ela, o peito arfando de uma maneira que o fazia perder a cabeça -, pare, por favor!

   Pela primeira vez em sua vida o barão atendeu ao pedido de uma mulher. Ela não se afastou sequer um centímetro e quis saber:

   - Por que está fazendo isso, Cynric? Há tantas mulheres muito mais lindas do que eu...

   O lorde recuou, como se um soco o tivesse atingido. Confuso, não conseguia sequer olhar para ela. O que havia acontecido com seu plano, o perfeito plano de raptar a mulher de Emryss, violentá-la e devolvê-la em desgraça?

   O que estava acontecendo com ele?

   Sacudiu os ombros. Era o barão Cynric DeLanyea e se vingaria do senhor de Craig Fawr, do homem que se tornara um aguilhão na vida dele, desde que nascera.

   - Vê, Roanna? - disse ele, com voz melíflua. - Sempre fomos amantes secretos.

   Ela fitou-o, espantada, e ele deixou que a sensação de poder que sentia sobrepujasse todas as demais.

   - Surpresa? - prosseguiu, sorrindo. - É a verdade. Quem pode acreditar que uma mulher trocaria meu rosto por aquele rosto destruído? Deixe-me contar-lhe o que aconteceu... - Ele passou a caminhar de um lado para outro, sem fitá-la. - Você apaixonou-se por mim no momento em que nos vimos e teria sido perfeito se nos livéssemos casado. Infelizmente, eu cometi um pequeno erro e você, revoltada, casou-se com outro. Mas não se apaixonou pelo seu marido c pouco depois passou a consumir-se, pensando em mim.

   Ele contara essa história a si mesmo, mil vezes, para decorá-la, mas nesse momento sentia ódio ao pensar em Emryss fazendo amor com ela. Sua voz tornou-se áspera:

   - Mesmo quando fazia amor com Emryss, você pensava em mim... Então, implorou ao padre Robelard que arranjasse um encontro comigo. Ele relutou a princípio, porém terminou por concordar. Encontramo-nos e você me falou de seus sentimentos...

   Parou e fitou-a. Em seguida, aproximou-se dela:

   - Eu também me apaixonei por você... - Cynric não conseguia lirar os olhos do rosto lindo de Roanna. - Você estava transtornada pelos sentimentos indevidos, vergonhosos, e eu tentei convencê-la a abandonar seu marido. Você mostrava-se relutante em tomar uma atitude desonrosa.

   Ele tocou-lhe os cabelos, enrolando uma das sedosas madeixas nos dedos, enquanto fixava os olhos verdes:

   - Vê como a história é aceitável, Roarma? - Os olhos azuis e famintos pararam no colo dela, quando ele se obrigou a desviar os olhos. - Apesar de você hesitar um pouco, por causa de seus princípios, combinamos nos encontrar outras vezes e nos tornamos amantes. Infelizmente seu marido vai ficar sabendo de sua traição... irá me desafiar para um combate e eu o matarei.

   - Acha que Emryss vai acreditar em você?

   O barão olhou-a em silêncio, por instantes, então falou:

   - E isso importa? De qualquer maneira ele vai querer lutar comigo. Você sabe como uma pessoa se sente quando sua honra é aviltada... Não terei outra saída a não ser defender minha honra, também. E vou matá-lo.

   A voz dele elevou-se em triunfo, diante do pensamento de que a vingança se encontrava tão próxima. Sentia-se tão empolgado, saboreando o momento de matar Emryss que a fúria assassina se superpôs ao encanto dos olhos dela.

   - Conheci esse maldito bastardo durante toda minha vida. Eu o vi lutar muitas vezes. Sei cada movimento, cada negaceada, cada artimanha dele. E sei qual é sua fraqueza. Ele está muito fraco, agora. Por isso, vai morrer e sua terra se tornará minha. - Cynric calou-se e fitou-a, alterado. - Infelizmente, minha querida, sua única saída será enclausurar-se num convento e contemplar seus pecados.

   - Cynric - disse Roanna, carinhosa -, como adivinhou? - Aproximou-se dele. - Como descobriu que é você o homem que amo? Que na minha loucura de mulher desprezada e ofendida me vinguei casando-me com Emryss, mas só consegui me torturar mais?

   Os olhos azuis perderam a frieza e se arregalaram:

   - O que está dizendo?

   Ela chegou-se mais um pouquinho, devagar:

   - Que você tem razão. Eu o amo. Só amo a você. Sempre sonhei estar a seu lado, seus braços ao redor de meu corpo. Mas eu tinha medo. Medo que você zombasse de mim. Medo do que Emryss poderia fazer. - Tocou-lhe o braço, num gesto tímido. - Agora sei o que devo fazer. Vou deixar meu marido. Ele será desonrado, se você assim determinar. Vou dizer a todo mundo o que quiser que eu diga: que Emryss é depravado e cruel, que me bate, que prefere homens.

   O sangue disparou, ardente, nas veias de Cynric quando Roanna acariciou-lhe o braço, quando viu os lábios rosados, cheios e tentadores, sorrirem, enquanto ela continuava:

   - Se quiser, também, ninguém, a não ser nós dois, ficaremos sabendo. Poderemos ser amantes secretos. Seria excitante, não acha?

   Cynric teve impressão que seu peito ia explodir quando a tomou nos braços e beijou a boca doce e cálida.

   - E Emryss? - arquejou ele, passando os lábios na pele macia do colo de Roanna, acima do decote do vestido.

   A respiração dela mostrava-se tão ofegante quanto a dele e os dedos delicados mergulharam nos cabelos castanho-claros, como os de Emryss.

   - Ele nos deixará em paz. Veja como se isola em sua fortaleza, mesmo agora. E quanto a fazer amor, ele não... não me satisfez.

   - Eu vou fazê-la vibrar - sussurrou o lorde, apertando-a mais contra si, esfregando-se contra ela e gemendo de intenso desejo.

   - Aprendi coisas maravilhosas, do Oriente... Emryss me ensinou... - a voz dela falhava, talvez pela emoção.

   Como se fosse preciso mais para inflamar aquele homem! Devagar, ele deitou-a no chão, estendeu-se ao lado dela e sua respiração acelerou-se enquanto enfiava a mão por baixo do vestido.

   -Por favor, Cynric! Não aqui, agora - protestou ela, afastando-o de si. - Não como criados!

   Ele ergueu os olhos e fitou o rosto corado dela. As palavras tinham penetrado a espessa neblina de sua luxúria, mas o corpo dele se recusava a parar.

   - Tem que ser agora - teimou.

   Roanna pareceu assustar-se e voltou a cabeça, olhando para as árvores, indagando, nervosa:

   - O que é isso? Ouvi alguém ali. Cynric olhou na mesma direção e chamou:

   - Urien! Ninguém respondeu.

   - Cynric, por favor. Aqui, não. É muito perigoso... - Ela ergueu-se a meio e pegou uma pedra sobre a qual estivera deitada - e desconfortável. - Aproximou-se dele e murmurou: - Há coisas que são bem melhores numa cama.

   - Está bem - cedeu ele, por fim. - Quando?

   - Logo. Eu vou procurar um lugar bem seguro, e mando avisar você. - Beijou-lhe o rosto e levantou-se, parecendo muito perturbada. - Logo... Agora, preciso ir.

   Ele também se levantou, segurou-a por um braço e fixou-lhe os olhos verdes:

   - Primeiro - exigiu -, dê-me sua palavra que virá para mim. Ela assentiu, devagar, o corpo todo dele vibrou em triunfo, enquanto a ouvia dizer:

   - Dou-lhe minha palavra.

   Ele ajeitou a túnica, então disse:

   - Por enquanto é o bastante, meu amor. - De repente, sentiu medo e acrescentou: - Se você não vier, farei o que disse.

   Cynric saiu andando, na direção onde padre Robelard e Fitzroy tinham ficado à espera, enquanto Roanna apoiava-se numa árvore, fraca demais para andar.

   Mas não podia ficar ali. Depois de alguns minutos, reunindo as forças, ela caminhou entre as árvores, não desejando mais nada a não ser afastar-se daquele lugar. Erguendo um pouco a saia, correu para perto dos cavalos e do padre.

   O religioso fitou a mulher que corria para ele, o vestido sujo de lama, os cabelos em desalinho, o rosto pálido alterado pelo pânico.

   Um momento antes Cynric voltara, despedira-se com alegria, dizendo que a senhora viria já, montara e fora embora, mostrando-se satisfeito com o que se passara entre ele e lady Roanna.

   O que o canalha fizera com ela? Antes que o padre pudesse perguntar, Roanna saltou sobre a sela, sem pensar sequer em atitudes modestas, e bateu os calcanhares nos flancos da égua. Cora um relincho, o animal saiu a galope pelo caminho barrento.

   Padre Robelard ficou olhando a lady distanciar-se. O que quer que houvesse acontecido havia aterrorizado a pobre senhora. E ele sabia bastante a respeito de Cynric DeLanyea para supor o pior.

   Sabia que violentar mulheres era o esporte preferido do cínico lorde.

   Ficou imóvel, os pés na lama, sentindo todo o peso da culpa nos ombros frágeis. Sua falta de honestidade tornara possível Cynric obrigá-lo a trazer lady Roanna ali: ele era o culpado de tudo que acontecera.

   Padre Robelard endireitou as costas, envergonhado e disposto a corrigir seu erro. Era tarde demais para amenizar o que acontecera com lady Roanna, mas ele poderia ir até Cynric DeLanyea e dizer ao homem diabólico que não ia continuar assistindo às vis maquinações dele. Depois, iria procurar o abade e confessaria seus pecados. Todos eles.

  

   Tinha que voltar para Emryss. Precisava sentir-se a salvo nos braços dele.

   A lama espirrava em suas pernas nuas e na saia do vestido, mas ela não se importava. Precisava de um banho. De um quente, demorado banho que limpasse de sua pele qualquer resquício do toque diabólico de Cynric.

   Sentiu o estômago revolver-se e segurou-se com força nas rédeas, inclinando o corpo e encostando o rosto no pescoço da égua. Respirou fundo várias vezes, até que a náusea passou e pôde endireitar o corpo.

   Oh, santo Deus, fazei-me chegar salva em casa!, repetia sem cessar, mentalmente, enquanto o animal passava por um galho baixo de árvore, que quase a derrubou da sela. Viu-o no último momento e abaixou-se.

   Afinal, avistou a aldeia, vagamente, porque tinha os olhos rasos de lágrimas. Sem fazer a égua diminuir a velocidade, passou entre as casas, depois pelos portões. Fez a montaria parar e desmontou. Os cabelos desarrumados caíam-lhe sobre o rosto e a saia do vestido enlameado colava-se às pernas dela, enquanto corria.

   Afinal, o pátio entrou em foco, diante de seus olhos.

   Havia um grupo de pessoas, jovens e velhos, em silêncio, que a olhavam como se fosse uma estranha. Ela parou e passou os olhos ao redor, em busca de Emryss.

   Ele encontrava-se de pé diante da porta do salão, como uma estátua de granito, as pernas separadas e as mãos na cintura. Gwilym encontrava-se à sua esquerda e no chão, diante deles, percebeu uma forma humana, deitada. Um homem ensangüentado.

   Correu para Emryss, mas ele ergueu uma das mãos, fazendo-a parar.

   -Conhece esse homem? - perguntou ele, apontando para ô cadáver a seus pés.

   Ela acompanhou o dedo que apontava para ver o rosto sujo, barbudo. Os lábios encontravam-se retesados pelo estertor da morte, expondo os dentes podres.

   - Sim - respondeu ela, dando um passo para o marido.

   Claro, meu Deus, conhecia aquele homem! Mas não conhecia aquela expressão dura que fazia do rosto de Emryss uma máscara congelada. Não havia a menor centelha de amor no olhar dele, ao fitá-la.

   - Como o corpo dele não se encontrava entre os outros, achei que tinha fugido -disse ela, confusa. - Depois, nada mais aconteceu, e tive certeza disso. Achei que não havia motivo para alarmar você, por isso não contei que ele não se achava entre os outros.

   - Você estava com Cyrinc? - as palavras passaram pelos lábios apertados dele como se os machucassem.

   Não havia ar no pátio, não havia ar algum nos pulmões dela. Como ele soubera?

   Ela assentiu, sem falar.

   - Por quê? - o tom de acusação, o olhar cheio de dor travou a língua de Roanna, que nada conseguiu responder.

   Ele continuou calado, distante, até que ela conseguiu dizer, com voz incerta:

   - Ele me enganou para fazer com que fosse encontrá-lo. As outras coisas que tenho a dizer, só podem ser ouvidas por você, Emryss.

   - Quero que fale aqui, agora.

   - Emryss - pediu Roanna, consciente dos olhos de todos os presentes fixos nela. - Por favor, deixe-me falar a sós com você.

   - Quero que fale aqui, agora.

   Ela entrelaçou os dedos, as mãos apertadas uma contra a outra, com força, na tentativa de ordenar os pensamentos em tumulto. Por fim, cobrindo-se com a própria dignidade como se fosse um manto, começou:

   - Padre Robelard disse-me que alguém tinha informações sobre um ataque que seria feito contra nossa gente, mas que essa pessoa insistia em contar tudo apenas para mim. Então, eu fui com ele. Quando chegamos ao local, Cynric e Urien Fitzroy estavam à espera.

   Não se ouviu qualquer som, a não ser a voz dela, enquanto Roanna falava. Nenhum murmúrio, nenhuma tosse, nem sequer um riso ou choro de criança.

   Ninguém se movia.

   - Cynric levou-me para longe dos outros dois - continuou a lady - e disse que mandara me chamar porque queria tornar-se nosso amigo.

   Gwilym cruzou os braços no peito.

   - Mas era mentira. Pouco depois descobri por que ele quisera falar comigo. - Ela respirou fundo.- Sua intenção era me transformar na desculpa para lutar com você.

   Gwilym olhou para o irmão de criação, que continuava a fitar a esposa.

   - Como? - A voz de Emryss era como o fio de uma adaga na garganta dela.

   Roanna cerrou as mãos com tanta força que os nós se tornaram brancos.

   - Ele pretende dizer que somos amantes - murmurou ela.

   As pessoas ao redor soltaram exclamações, cochicharam e o olhar de Gwilym tornou-se brilhante de triunfo. Emryss ergueu uma sobrancelha ao indagar:

   - Vocês são amantes?

   Os olhos verdes soltaram chispas e ela endireitou o corpo, digna. Quando falou, sua voz soou clara e forte:

   - Uma vez que eu estava sendo espionada, você deve estar sabendo tudo que aconteceu. Mas fingi afeição por Cynric apenas para conseguir escapar dele e vir avisá-lo.

   - E foi também por isso que o deixou beijá-la e passar as mãos em você, como se fosse uma prostituta comum? - perguntou Gwilym, não podendo mais se conter.

   - Não! - gritou Roanna, agoniada. Deu um passo na direção do lorde. - O que mais eu poderia fazer? Ele me dominaria, se quisesse, pois é muito mais forte. Pensei que estava sozinha, a não ser pela presença do padre Robelard, e que gritar não adiantaria nada. Tratei de convencê-lo de que eu concordava, que me importava com ele, que iria encontrá-lo em outra ocasião. Só assim aquele homem horrível me deixaria vir embora. Precisa acreditar em mim, Emryss. Juro que essa é a verdade.

   Emryss não disse nada, durante alguns instantes. Então, de repente, a voz dele ergueu-se, firme:

   - Lady Roanna não mente.

   Um murmúrio perpassou pelos assistentes, enquanto Jacques saía de junto da porta da cozinha e ia colocar-se ao lado de Roanna. Ela foi-lhe ao encontro e escondeu-se em seus braços carinhosos e protetores.

   - Então, quer dizer que ela também não mentia quando disse a Cynric que faria tudo que ele quisesse? - comentou Gwilym, asperamente. - E não mentia quando prometeu que iria encontrar-se com ele e seria sua amante? - Voltou-se para lorde Emryss. - Brawdmaeth, eu a ouvi dizer essas coisas com meus próprios ouvidos. E ela não parecia assustada.

   - Então, por que não revelou sua presença? Por que não me ajudou? - perguntou Roanna, revoltada.

   - Por que eu iria ajudar uma traidora? - respondeu Gwilym, em tom inflamado.

   Emryss permaneceu imóvel, olhando para a esposa.

   - Eu acredito nela.

   Era a voz rascante de Mamaeth que se elevava entre as pessoas reunidas no pátio. A pequena mulher morena abriu caminho entre o grupo de soldados, que se encontrava mais à frente, e foi colocar-se ao lado de Jacques.

   - Vocês, homens, não sabem como pode sentir-se uma mulher apanhada em uma armadilha como essa. O que ela poderia ter feito? Deixar-se matar? Ou usar o cérebro que Deus lhe deu para enganar aquele demônio? Foi apenas isso que ela fez.

   - Sim! - Bronwyn também destacou-se da multidão e foi se colocar ao lado de Roanna, erguendo os ombros, desafiante, quando viu que os olhos negros de Gwilym flamejavam de raiva. - Devemos ser gratos por ela conseguir pensar depressa e com clareza. Por que ela galoparia, rápida como o vento, voltando para cá, se não fosse verdade o que acaba de afirmar?

   - Talvez ela soubesse que havia sido vista! - disparou Gwilym, agressivo. - E quem foi que deu o alarme na noite dos incêndios, fazendo-nos correr todos para o moinho, enquanto eles deslizavam aqui para dentro, como serpentes venenosas, para pôr fogo no depósito das armas? Talvez ela mesma tenha acendido o fogo, não?

   Emryss voltou as costas a todos e dirigiu-se para a estrebaria. Roanna aguardou, mas ele a ignorou ao passar e ela não conseguiu fazer um movimento sequer para segui-lo.

   Gwilym deu um rápido olhar para as mulheres reunidas, sob o olhar protetor do cozinheiro, depois correu atrás do amigo.

   Encontrou Emryss selando seu cavalo.

   - Vou subir as colinas - disse ele, quando viu Gwilym entrar. - Preciso pensar.

   - Vou com você.

   - Não, Gwil. Fique, tome conta de Craig Fawr e dela. Voltarei amanhã cedo e, então, saberei o que fazer.

  

   Roanna estava sentada junto do pequeno braseiro, em seu quarto, tentando não se deixar submergir pelo desespero.

   Ao lado dela, Bronwyn fitava as chamas, com ar triste.

   - Ele foi para as colinas, a fim de pensar, milady - disse a linda criada, com calma. - Esse é um bom sinal. O pai dele costumava dizer que Emryss se tornaria um grande líder se aprendesse a pensar mais. Parece-me que é o que ele está fazendo. Afinal de contas, Gwilym surpreendeu a todos chegando aqui com aquele morto no lombo do cavalo. Não houve tempo para ninguém pensar e fazer perguntas. Deixe que Emryss descanse um pouco, lá em cima, entre as rochas, e ele verá que a senhora não o está traindo.

   - Eu estava com Cynric - suspirou Roanna. - E foi tudo, de fato, como contei. Fiz a única coisa que pude imaginar para escapar dele.

   - Todas as mulheres a compreendem, milady. E ele também vai ver que essa é a verdade. - Bronwyn pegou-lhe a mão e apertou-a, companheira. - Ele a ama e vai acreditar na senhora.

   - Se pelo menos padre Robelard estivesse aqui! Ele diria a verdade a Emryss... - Roanna torceu as mãos, aflita. - Será que aconteceu alguma coisa com ele? Por que não voltou até agora?

   Pelo resto da tarde, desde o momento em que Roanna passara por ele e saíra cavalgando como se perseguida por mil demônios até aquele momento, em que o sol estava se pondo no horizonte, ninguém vira sequer sinal do padre.

   - Tem certeza que padre Robelard não tem culpa nessa trama toda? - perguntou Bronwyn, com evidente hesitação.

   Ela sabia o quanto a lady gostava e respeitava o padre, para fazer tal suposição sem se preocupar.

   - Ele não pode ter culpa - respondeu Roanna, com firmeza, depois de alguns momentos. - É um padre!

   - Eu andei ouvindo uns falatórios por aí, sobre ele e uma moça de Beaufort.

   - Uma moça? - os olhos verdes fixaram-se arregalados no rosto bonito da criada.

   - Uma mulher. Chama-se Lynette. Eu sempre soube que ela não era grande coisa. - Ao ver que Roanna ficava surpresa, ela explicou: - Lynette nasceu aqui e quando ficou mocinha foi trabalhar em Beaufort. Parece que a noção de trabalho dela é muito diferente da minha e da sua. - Fez uma pausa e respirou fundo. - Espero que nada tenha acontecido com o padre. Talvez ele tenha voltado para o mosteiro e logo saberemos de tudo direitinho. Pode ser que Cynric o tenha enganado, também. Pelo que ouvi dizer, o padre não é um homem muito esperto.

   Preciso convencer Emryss de que eu disse a verdade. Preciso - disse Roanna, os olhos fixos nas chamas alaranjadas, vermelhas e amarelas do fogo no braseiro. - Como vou poder apagar as conseqüências do que fiz?

   - Tudo vai dar certo, milady - murmurou Bronwyn, consola-dora. - Ele a ama.

   Ele me ama, pensou Roanna, girando a aliança na mão esquerda. Amaria, mesmo? O jeito que olhava para ela no pátio, naquela manhã, não era o de um homem que amava.

   Se pelo menos padre Robelard voltasse! Ou se ela pudesse ir até o mosteiro, falar com ele. Tinha certeza de que o convenceria a dizer a verdade.

   Roanna esperou até que a cabeça de Bronwyn se curvasse sobre o peito, enquanto a moça adormecia, e deslizou silenciosa até a porta. Abriu-a com cuidado e espiou para fora.

   Havia uma sentinela no topo da escada. Ordem de Gwilym, sem dúvida, para que ela não pudesse fugir. Em silêncio, começou a subir em direção da torre.

   Lá em cima, reuniu a saia ampla, segurando-a contra a cintura, e saltou do parapeito para o andaime que lá se encontrava. Percorreu-o até chegar ao ponto em que havia uma escada encostada nele e desceu. Mantendo-se oculta na escuridão, deslizou até o portão e esperou até que o guarda ficasse de costas para ela, em seu andar de um lado para outro; nesse instante, como um raio, deslizou e passou pelo portão.

   Depois de passar pelo segundo portão, com o mesmo sistema, tratou de caminhar depressa. Enquanto andava, ia lembrando de cada gesto assustado, de cada palavra nervosa dita pelo religioso e compreendeu que ela devia ter percebido que se tratava de uma trama de Cynric e que ele estaria no local do encontro.

   Ao deduzir tal coisa, não teve mais dúvida: padre Robelard com certeza fora se refugiar sob a proteção do mosteiro.

   Ela devia ir até lá e convencê-lo a voltar em sua companhia para Craig Fawr, a fim de contar a Emryss que o barão a enganara. Conseguiria falar com ele, nem que tivesse de invadir o mosteiro.

   Tinha que provar sua inocência.

  

   Urien aconselhava Lynette:

   - Menina, aceite esse dinheiro e vá embora, antes que seja posta fora de Beaufort sem nada.

   Os olhos azuis da moça brilharam à luz das velas, enquanto ela pegava a pesada bolsa.

   - Então, quer dizer que você está me dando todo este dinheiro e não quer nada em troca? - perguntou, olhando significativamente para a cama num canto do pequeno quarto de Fitzroy.

   Os lábios dele se apertaram, antes que respondesse:

   - Sim. É isso mesmo. E se você for esperta, vai guardar essa bolsa e ir embora, neste momento.

   Lynette aproximou-se do soldado, passando a língua úmida pelos lábios sensuais, balançando os quadris:

   - Você é um grande companheiro... Pena que não queira ir embora comigo.

   Ele esticou o braço musculoso e puxou-a para junto de si.

   - Ah! Assim está muito melhor, mas o que seu senhor diria, se nos visse? - disse ela, rindo maliciosamente.

   Os olhos negros de Urien Fitzroy pareciam penetrá-la.

   - Cynric DeLanyea não é o meu senhor, pelo menos não o será a partir de amanhã. Sabe, pequena louca, o que ele está tramando? Vai tomar a mulher do primo dele como sua amante! - Lynette gemeu, em desespero, mas ele continuou, sem misericórdia: - Quando isso acontecer, ele vai deixá-la. Acha que vai continuar querendo você, se tiver lady Roanna?

   - Mas eu vou ter o filho dele!

   - Meu Deus, como você é boba! - escarneceu o guerreiro, com certa tristeza. - Ele não liga para isso. Só pensa em acabar com seu primo. Concordei em trabalhar para Cynric DeLanyea porque pensei que ele fosse um grande homem e que iria se tornar o nobre senhor de imensa propriedade. Em vez disso, ele ficou obcecado pela vingança e pela idéia de ter aquela mulher. Quando vejo o modo que ele age, tenho vontade de vomitar.

   Lynette libertou o pulso que ele segurara com força demais e o esfregou, mas manteve a cabeça erguida ao dizer, desafiante:

   - Vou falar com o padre Robelard, ele vai me ajudar.

   - Como? De que jeito? - Urien fitou a moça com os olhos negros faiscantes de raiva. - Por que ele?

   - Porque ele... ele...

   Naquele momento, Fitzroy compreendeu tudo.

   - Porque o pobre homem foi usado, não? Porque você o seduziu, a mando de Cynric. E, agora, espera que o padre a ajude? - Urien riu, com amargura. - Meu Deus, menina, como você é simplória! Pegue esse dinheiro e vá embora, logo. O padre está morto. Cynric o matou.

   Os olhos azuis de Lynette pareceram querer saltar das órbitas e cia ficou sem voz. Balançou a cabeça, sem poder dizer uma só palavra.                                                  

   - Acredite no que estou dizendo. O padre Robelard, tolo como era, seguiu-nos, depois do encontro que Cynric obrigou-o a arranjar com lady Roanna, e recusou-se a continuar ajudando os planos dele. Disse que ia contar tudo ao abade...

   Urien balançou a cabeça, com pesar, depois continuou:

   - Ele nem soube o que estava acontecendo, pobre coitado! Cynric matou-o com a maior calma e facilidade, como se tivesse planejado fazê-lo há muito tempo. E, pensando melhor, creio que planejou, mesmo. - O soldado olhou-a, pensativo. - Sei o bastante sobre ele para ter certeza que provavelmente um dia me matará... e vai matar você, também. É melhor irmos embora enquanto ainda podemos fazê-lo.

   - Porque me deu este dinheiro? - Lynette perguntou, baixinho, mas assim mesmo sua voz fraca ecoou no quarto de pedra. - Não precisa dele?

   Os lábios de Urien entreabriram-se num cansado sorriso:

   - Você vai precisar mais do que eu.

   Lynette escondeu a bolsa sob a saia larga, bem franzida.

   - Você é um homem estranho, Urien Fitzroy - comentou, pen-sativa.

   Ele sacudiu os ombros largos e a criada inclinou-se, passando a ponta do indicador nos lábios dele, numa carícia suave:

   - Como posso agradecer-lhe? - perguntou, com voz insinuante.

   - Indo embora esta noite.

   Ela aproximou-se mais, fazendo os seios tocarem-lhe o braço.

   - De manhã eu vou.

   Urien afastou-a de si, com gentileza.

   - Quando alguém paga para você ir embora, trate de ir logo, sem fazer perguntas - disse ele, sério.

   Lynette assentiu e encaminhou-se para a porta, murmurando:

   - Está bem, Urien.

   Ele ficou olhando enquanto ela saía.

   Amanhã... Amanhã ele cavalgaria até Craig Fawr, contaria a Emryss DeLanyea tudo que sabia e iria embora daquela terra horrível para sempre.

   Era um mercenário que lutava por dinheiro, mas não desesperado e insensível a ponto de se tornar o desonrado guarda-costas de um canalha como Cynric DeLanyea.

  

   As chamas modestas da pequena fogueira brilhavam na escuridão da noite. Emryss deslizou sobre a rocha, aproximando-se mais do fogo, tentando se aquecer enquanto esperava pela aurora.

   À primeira luminosidade do dia ele montaria Wolf e voltaria para Craig Fawr, tendo no coração, a certeza de que Roanna dissera a verdade.

   Com a cabeça apoiada nos joelhos, lembrou-se de outra mulher, com pele morena e cabelos negros. Jovem e assustada para além de qualquer palavra, para além de gritos. A expressão horrorizada e de desamparo que vira nos olhos dela! Ele a deixara intocada, enojado ao ver que os demais cruzados podiam ignorar os rostos apavorados das mulheres cujos corpos usavam impiedosamente. Podia compreender que Roanna tivesse lançado mão de qualquer meio para escapar.

   Uma pedra rombuda começou a machucar-lhe as costas e ele ajeitou-se, mudando de posição pára evitá-la.<