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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CAIM E ABEL / Jeffrey Archer
CAIM E ABEL / Jeffrey Archer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Ela parou de gemer, de gritar — e morreu. E ele começou a chorar.

Um menino que caçava coelhos na floresta não soube ao certo o que o alertara, se o último grito da mulher ou o primeiro grito e choro da criança. Voltou-se rapidamente, pressentindo possível perigo, procurando o animal que, sem dúvida, estava sofrendo. Nunca ouvira um bicho gritar daquele modo. Andou com cautela na direção do alarido. O grito transformara-se num lamento choroso, mas ainda não lembrava nenhum animal conhecido. Tomara fosse um animal pequeno, que ele pudesse matar; pelo menos, em vez de coelho, teriam outra coisa para a ceia.

O garoto caminhou sorrateiramente para o rio, de onde vinha o barulho estranho, correndo de uma árvore a outra, sen­tindo contra as omoplatas a proteção que o tronco oferecia, algo que pudesse tocar. "Nunca fique em campo aberto", ensinara-lhe o pai. Quando chegou à borda da floresta, teve uma clara linha de visão, desde o vale lá embaixo até o rio, e ainda assim demo­rou algum tempo a perceber que os gemidos não eram de nenhum bicho comum. Continuou a insinuar-se na direção do choro, mas se viu sozinho em campo aberto. De súbito avistou a mulher, o vestido levantado até a cintura, as pernas estendidas, bem abertas. Pela primeira vez viu uma mulher naquela posição. Cor­reu depressa até onde ela estava e olhou a barriga, com muito medo de tocá-la. Ali, entre as pernas da mulher, estava o corpo de um bichinho úmido e rosado, atado a uma espécie de cordão grosso. O jovem caçador largou no chão os coelhos recém-esfolados e se pôs de joelhos ao lado da criaturinha.

 

 

 

 

Fitou-a, atordoado, por um longo momento, e tornou a olhar a mulher, arrependendo-se logo da decisão. Ela já estava lívida e fria; o rosto cansado daquela jovem de vinte e três anos pa­receu ao menino o de uma mulher de meia-idade; ninguém pre­cisava lhe dizer que ela estava morta. Pegou o corpinho escorregadio — se lhe perguntassem por quê, o que nunca fizeram, teria respondido que ficara preocupado com as unhas pequeninas que arranhavam o rostinho enrugado — e se deu conta de que mãe e filho eram inseparáveis, por causa do cordão viscoso.

Procurou se lembrar do parto de um cordeirinho que havia presenciado alguns dias antes. Sim, o pastor tinha feito exata­mente aquilo, mas, e a coragem para fazer o mesmo com uma criança? O choro parou, e o menino sentiu que era o momento de tomar uma decisão. Desembainhou a faca com a qual pelara os coelhos, limpou-a na manga da camisa, e, vacilando apenas um instante, cortou o cordão perto do corpo da criança. O san­gue escorreu livremente das duas extremidades. E que fez o pastor depois que nasceu o cordeiro? Dera um nó a fim de es­tancar o sangue. Claro, claro. O menino arrancou da terra um punhado de capim e rapidamente fez um nó grosseiro no cordão. Em seguida apanhou a criança nos braços. Levantou-se com cuidado, deixando ali os três coelhos mortos e a mulher que havia dado à luz, também morta. Antes de finalmente voltar as costas à mulher, juntou-lhe as pernas e cobriu-lhe os joelhos com o vestido. Pareceu-lhe o mais acertado.

— Santo Deus! — exclamou em voz alta, como sempre fazia ao praticar uma ação muito boa ou muito má. Não sabia ainda de que natureza era essa.

O jovem caçador correu à choupana onde a mãe preparava o jantar, esperando apenas pelos coelhos, tudo o mais quase pronto. Estaria ansiosa por saber quantos animaizinhos o filho havia apanhado nesse dia; eram oito bocas para alimentar, e seriam necessários pelo menos três. Às vezes ele conseguia um pato, um ganso, ou mesmo um faisão extraviado da herdade do barão, onde o pai trabalhava. Nessa noite levava um animal diferente, e, ao chegar à choupana, não tirou as mãos da presa, batendo na porta com a sola do pé. A mãe veio abri-la. Sem dizer nada, ofereceu-lhe o presente. Ela não esboçou nenhum gesto imediato de pegar a criatura dos braços dele; com a mão sobre o peito, ficou atônita, diante da triste visão.

— Santo Deus! — exclamou, fazendo o sinal-da-cruz.

O garoto olhou com insistência o rosto da mãe, aguardando uma manifestação de alegria ou de raiva. Nesse momento, aos olhos dela aflorou uma ternura que antes ele nunca vira. Soube então que o que tinha feito podia ser uma coisa muito boa.

— É um bebê, matka?

— É um menininho — respondeu a mãe, balançando a cabeça, penalizada. — Onde o encontrou?

— Perto do rio, matka.

— E a mãe dele?

— Morreu.

Ela fez outro sinal-da-cruz.

— Depressa, corra e conte ao seu pai o que aconteceu, e que ele procure Urszula Wojnak na fazenda, e você os leve aonde está a mãe. Depois venha com eles para cá.

O jovem caçador entregou o menino à mãe, contente por não ter derrubado a criatura escorregadia. Em seguida, livre de sua presa, esfregou as mãos nas calças e saiu à procura do pai.

A mãe fechou a porta com o ombro, chamou a filha mais velha e pediu-lhe que pusesse a panela no fogão. Sentou-se num banco de madeira, desabotoou o corpete e aproximou da boqui­nha contraída seu bico de seio cansado. Sophia, a caçula, de seis meses, nessa noite ficaria sem refeição, como, aliás, toda a família.

— De que vai adiantar isso? — falou em voz alta a mu­lher, cobrindo com um xale o braço e a criança. — Coitadinho, amanhã cedo este pingo de gente estará morto.

Mas não revelou seus sentimentos à velha parteira Urszula Wojnak, que, mais tarde, nessa noite, lavou o corpinho e tratou do toco umbilical retorcido. O marido observava a cena em si­lêncio.

— Hóspede em casa, Deus em casa — comentou a mulher, citando o antigo provérbio polonês.

— Ao diabo com ele! — explodiu o homem. — Temos crianças demais aqui em casa.

A mulher fez que não ouviu, acariciando o cabelo fino e negro do bebê.

— Que nome vamos dar a ele? — e olhou para o marido.

— Isso não me importa. — Deu de ombros. — Que vá sem nome para a sepultura.

 

O médico ergueu o recém-nascido pelos tornozelos e deu-lhe uma palmada nas nádegas. O bebê começou a chorar.

Em Boston, há um hospital que acolhe sobretudo os que padecem das doenças dos ricos, mas, em ocasiões especiais, per­mite-se oferecer serviços de parto também aos novos-ricos. No Hospital Geral de Massachusetts as mães não gritam e, por certo, não dão à luz completamente vestidas. Não é apropriado.

Um homem jovem andava de um lado para outro, fora da sala de parto. Lá dentro, dois obstetras e o médico da família. Ao pai parecia impossível que o primogênito corresse algum pe­rigo. Os dois obstetras receberiam altos honorários apenas pelo trabalho de presenciar e testemunhar os acontecimentos. Um deles, usando traje a rigor por debaixo do avental branco e comprido, mais tarde compareceria a um jantar, mas não quisera se ausen­tar justamente desse parto. Os três haviam tirado a sorte no palitinho para decidir quem faria o parto da criança, e o dr. MacKenzie, clínico-geral da família, fora o vencedor. "Um nome concei­tuado e de confiança", ponderava o pai, indo e vindo no corredor. Não que tivesse motivos para se preocupar. Roberts levara Anne para o hospital na carruagem, na manhã desse dia, que ela cal­culava ser o vigésimo oitavo do nono mês. Anne começara a sentir as dores logo após o desjejum, mas o marido fora informado de que o parto não ocorreria antes do encerramento do expediente do banco. Era um homem disciplinado e não via por que sua vida bem-organizada devesse ser interrompida por um parto. Todavia, não parava de andar. Enfermeiras e médicos passavam apressados por ele e, cientes de sua presença, baixavam a voz ao se aproxima­rem, para só a erguerem de novo quando não podiam ser ouvidos. Como todos o tratavam dessa forma, ele não lhes prestava aten­ção. A maioria dos funcionários jamais o conhecera pessoalmente, mas todos sabiam quem ele era.

Se fosse menino, um filho, provavelmente mandaria construir a ala infantil de que o hospital tanto precisava. Já construíra antes uma biblioteca e uma escola. Enquanto esperava, ele passou a vista no vespertino, sem maior atenção. Estava nervoso, quase apreen­sivo. Dificilmente eles (considerava quase todos como "eles") compreenderiam que tinha de ser menino, um menino que um dia ocuparia seu lugar na presidência do banco. Virou as páginas do Evening Transcript. O Red Sox de Boston derrotara o Highlanders de Nova Iorque — muitos estariam comemorando. Lembrou-se então da manchete da primeira página e voltou a ela. O pior terremoto em toda a história dos Estados Unidos. Devastação em San Francisco, pelo menos quatrocentas pessoas mortas — pran­teadas por muitos. Como isso o aborreceu! O nascimento do seu filho ficaria em segundo plano. As pessoas lembrar-se-iam de outro acontecimento nesse dia. Nunca lhe passara pela cabeça, nem mesmo por um segundo, a idéia de que poderia nascer uma me­nina. Voltou às páginas de economia e verificou rapidamente o mercado da Bolsa de Valores; o abominável terremoto havia redu­zido o valor de seus títulos no banco em cem mil dólares, mas, como sua fortuna pessoal se conservava satisfatoriamente acima de dezesseis milhões de dólares, seria necessário mais de um ter­remoto californiano para abalá-lo. Tinha condições de manter-se com os juros das participações, deixando intacto o capital de de­zesseis milhões, que colocaria à disposição do futuro filho. Con­tinuou a andar e a fingir que lia o Transcript.

O obstetra de traje a rigor avançou pelas portas de vaivém da sala de parto com o propósito de lhe dar a notícia. Sentia-se na obrigação de justificar os honorários imerecidos, e, ademais, era o único que trajava uma roupa adequada para tal comunica­ção. Os dois homens olharam-se fixamente por alguns segundos. O médico também estava um pouco nervoso, mas esforçava-se por não demonstrá-lo.

— Parabéns. O senhor tem um filho, um menino pequeno e saudável.

"Que comentários tolos se costuma fazer quando nasce uma criança!", pensou o pai; "claro que só poderia ser pequeno." Finalmente, ele agora tinha certeza — um filho. Ele quase agra­deceu a Deus.

Para quebrar o silêncio, o obstetra arriscou uma pergunta:

— Já escolheu o nome que dará ao menino?

O pai respondeu sem hesitação:

— William Lowell Kane.

 

Mais tarde, passadas as emoções provocadas pelo aparecimento do bebê, o resto da família já recolhido, a mãe continuou des­perta com a criancinha entre os braços. Helena Koskiewicz tinha fé na vida, e, para confirmá-lo, gerara nove filhos. Embora tivesse perdido três ainda pequenos, vira-os partir inconformada.

Aos trinta e cinco anos, sabia que seu outrora vigoroso Jasio não mais lhe daria filhos. Este lhe fora dado por Deus e, segura­mente, estava destinado a viver. Helena tinha uma fé simples, o que era bom, pois o destino jamais lhe propiciaria algo além de uma vida simples. Era grisalha e franzina, não por escolha, mas por ser pouca a comida, pesado o trabalho e escasso o dinheiro. Nunca chegara a se queixar, mas as rugas de seu rosto condiziam mais com uma avó do que com uma mãe do mundo de hoje. Em nenhum momento em toda a vida vestira uma roupa nova.

Apertou os seios esgotados com tanta força que surgiram man­chas vermelho-escuras em torno dos mamilos. Pequeninas gotas de leite saíram num jato. Aos trinta e cinco anos, a meio caminho do ajuste com a vida, todos temos alguma experiência valiosa a transmitir, e a de Helena Koskiewicz era inestimável.

— Pequenino da matka — sussurrou ela com meiguice, reti­rando a mama da boca franzida. Os olhinhos azuis se abriram, e pequeninas gotas de suor brotavam no nariz do bebê, que se esforçava por sugar. Finalmente, sem querer, a mãe mergulhou num sono profundo.

Ao levantar-se, às cinco horas da manhã, Jasio Koskiewicz, um homem bronco e melancólico, de bigode cheio, único traço de auto-afirmação numa existência servil, encontrou a mulher e o bebê dormindo na cadeira de balanço. Não sentira falta dela durante a noite. Baixou o olhar e fixou-o no bastardozinho, que, graças a Deus, pelo menos havia parado de chorar. Estaria morto? Jasio imaginou que a melhor maneira de resolver a situação era ir trabalhar e não se meter com o intruso. Que a mulher se preo­cupasse com a questão da vida ou da morte: sua única preocupa­ção era chegar à propriedade do barão ao raiar do dia. Sorveu uns poucos e prolongados goles de leite de cabra e limpou o bigode exuberante com a manga da camisa. Com uma mão, arre­batou um naco de pão; com a outra, pegou os laços de caça; e saiu de mansinho da choupana, com receio de acordar a mulher e se ver envolvido no problema. Caminhou a passos largos em direção à floresta, sem voltar a pensar no pequeno intruso e achan­do que o tinha visto pela última vez.

Florentyna, a filha mais velha, foi a primeira a entrar na cozi­nha, bem antes que o velho relógio — que por muitos anos manti­nha o seu próprio tempo — assinalasse as seis horas da manhã. Ele não tinha outra função senão a de auxiliar quem desejasse saber a hora de se levantar ou de se deitar. Entre as obrigações de Florentyna estava o preparo da primeira refeição do dia, em si uma tarefa de menor importância, que implicava a simples par­tilha de um odre de leite de cabra e de um pedaço de pão de centeio entre as oito pessoas da família. Contudo, era preciso uma sabedoria de Salomão para levar a cabo a tarefa, de modo que ninguém reclamasse da porção distribuída.

Aos olhos de quem a visse pela primeira vez, Florentyna parecia uma coisinha graciosa, andrajosa e frágil. Era injusto que, nos últimos três anos, tivesse tido um só vestido, mas quem sou­besse vê-la, independentemente do meio onde vivia, compreenderia por que Jasio tinha se apaixonado pela mãe dela. O cabelo claro e longo luzia, e os olhos castanhos faiscavam, num desafio à in­fluência de sua origem e de sua alimentação.

Pé ante pé, Florentyna foi até a cadeira de balanço e con­templou a mãe e o bebê, a quem adorara à primeira vista. Ao longo dos seus oito anos, nunca possuíra uma boneca. Apenas vira uma, quando a família fora convidada a ir à festa de São Nicolau, no castelo do barão. Mesmo naquela ocasião não havia posto as mãos no belo brinquedo, mas agora sentia uma inexpli­cável necessidade de tomar o bebê nos braços. Inclinou-se, tirou a criança do colo dá mãe e, fitando os olhinhos azuis — que lindos olhos azuis! —, começou a cantarolar. O choque da mudança de temperatura, do calor do peito da mãe para o frio das mãos da menina, irritou o pequerrucho. Ele imediatamente pôs-se a cho­rar, acordando a mãe, cuja única reação foi sentir-se culpada por ter adormecido.

— Santo Deus! Ele ainda vive — disse Helena a Florentyna. Prepare o café dos meninos que eu vou dar de mamar a ele.

A contragosto, Florentyna entregou a criança à mãe e obser­vou-a apertar mais uma vez os peitos doloridos. A menina parecia magnetizada.

— Ande, Floreia — a mãe repreendeu-a —, o resto da famí­lia também tem de comer.

Florentyna obedeceu-lhe, e os irmãos, ao descerem do sótão onde todos dormiam, cumprimentaram a mãe, beijando-lhe as mãos, e se puseram a olhar com temor reverente para o recém-chegado. Tudo o que sabiam era que aquele menino não tinha saído da barriga da mãe. Inquieta demais para tomar o café da manhã, Florentyna viu os irmãos dividirem a porção dela entre si sem pestanejar, deixando sobre a mesa a cota que cabia à mãe. Aliás, ninguém tinha reparado que a mãe não comera desde a chegada do bebê.

Helena Koskiewicz sentia-se satisfeita por ver que os filhos haviam aprendido a se arranjar muito cedo na vida. Alimentavam os animais, ordenhavam as cabras e as vacas, cuidavam da horta e realizavam as tarefas cotidianas sem a ajuda ou o estímulo dela. A noite, logo que Jasio voltou do trabalho, reparou subita­mente que ela não lhe havia preparado o jantar, mas Florentyna pegou os coelhos trazidos por Franck, o irmão caçador, e tratou de cozinhá-los. A menina orgulhava-se de ter sido encarregada da refeição noturna, uma responsabilidade que lhe confiavam apenas quando a mãe se mostrava indisposta, um luxo que só raramente Helena Koskiewicz se permitia. O jovem caçador trou­xera quatro coelhos, e o pai, seis cogumelos e três batatas: nessa noite haveria um verdadeiro banquete.

Depois do jantar, Jasio Koskiewicz sentou-se em sua cadeira junto ao fogo e pela primeira vez examinou detidamente a criança. Segurando o pequenino pelas axilas e amparando-lhe o pescoço frágil com os dois polegares, lançou-lhe seu olhar de armador de laços. A feiúra do rosto, enrugado e sem dentes, só era redi­mida pelos olhos inquietos, azuis e perfeitos. Ao dirigir o olhar para o tronco franzino, um detalhe chamou imediatamente a aten­ção do pai, que assumiu um ar sério e esfregou o peito delicado do bebê com os polegares.

— Helena, viu isto aqui? — perguntou, cutucando as cos­telas do pequeno. — O bastardozinho feioso tem um mamilo só.

A mulher franziu a testa, passando o polegar sobre a pele do bebê, como se o movimento lhe pudesse suprir a falta do órgão. O marido tinha razão: o mamilo esquerdo, diminuto e incolor, estava lá, mas, no lugar do seu par, no lado direito do peito raso, a pele era completamente lisa e regularmente rosada.

A inclinação de Helena à superstição foi imediatamente des­pertada.

— Ele me foi dado por Deus! — exclamou. — Este é o sinal dele.

Num gesto brusco, o homem empurrou a criança na direção da mulher.

— Não seja boba, Helena. A criança foi dada à mãe dela por um homem de sangue ruim.

E cuspiu dentro do fogo, mais precisamente para exprimir sua opinião sobre a ascendência do menino.

— De qualquer maneira, não apostaria uma batata sequer na sobrevivência desse bastardo.

Jasio Koskiewicz, por natureza, não era um homem insen­sível, mas a criança não era sua, e uma boca a mais para alimentar só lhe agravava os problemas. Bem, se tinha de ser assim, não cabia a ele contrariar o Todo-Poderoso. Sem pensar mais no bebê, caiu num sono pesado, ao lado do fogo.

 

 

À medida que os dias iam passando, até mesmo Jasio Kos­kiewicz começou a acreditar que o menino sobreviveria, e, se fosse um homem de apostas, teria perdido uma batata. Com a ajuda dos filhos o caçador fez um berço com a madeira reco­lhida na floresta do barão. Florentyna costurou as roupas com retalhos de seus próprios vestidos. Tê-lo-iam chamado de Arlequim, caso soubessem o que significava o nome. Na verdade, a escolha do nome causou mais desavenças no seio da família do que qualquer outro problema em tantos meses; apenas o pai não tinha nenhum palpite. Finalmente concordaram em chamá-lo de Wladek. No domingo seguinte, na capela da vasta herdade do barão, a criança foi batizada de Wladek Koskiewicz; a mãe estava grata a Deus por ter-lhe poupado a vida; o pai, resignado ao que desse e viesse.

Nessa noite, houve uma festa modesta em comemoração ao batizado, enriquecida com um ganso presenteado pelo barão. Todos comeram fartamente.

A partir desse dia, Florentyna aprendeu a dividir por nove.

 

Anne Kane dormira tranqüilamente a noite toda. Depois do café da manhã, quando uma enfermeira lhe trouxe o filho William, não via a hora de tê-lo de novo nos braços.

— Agora, sra. Kane — disse animadamente a enfermeira —, que tal também alimentar o bebê?

E ajudou Anne, que de repente sentiu os peitos intumescidos, a sentar-se na cama, orientando os dois novatos nos procedimen­tos. Anne, ciente de que poderia ser considerada pouco maternal se demonstrasse embaraço, fixou o olhar nos olhos azuis de William, mais azuis que os do pai, e adaptou-se à nova condição, na qual seria ilógico sentir outra coisa que não contentamento. Aos vinte e um anos de idade, nada lhe faltava. Nascida uma Cabot, ligada pelo matrimônio a um ramo da família Lowell, dera à luz seu primeiro filho, que continuaria a tradição sucinta­mente resumida num cartão que uma velha amiga de escola lhe enviara:

 

Viva a cidade de Boston,

terra do feijão e do bacalhau,

onde os Lowells só falam com os Cabots,

e os Cabots só falam com Deus.

 

Anne passou meia hora falando com William, que permaneceu indiferente e, em seguida, foi levado para dormir pela mesma en­fermeira que o havia trazido. Anne resistiu nobremente às frutas e aos doces acumulados ao lado da cama. Estava decidida a voltar aos seus vestidos no próximo verão e a reassumir o lugar a que tinha direito nas revistas de moda. Pois o príncipe de Garonne não lhe havia dito que ela era a única beleza de Boston? O cabelo longo e dourado, os traços finos e delicados e o corpo esguio tinham sido objeto de exaltada admiração em cidades que nem chegara a visitar. Examinou-se ao espelho: nenhuma ruga alarmante no rosto; dificilmente alguém acreditaria que ela era mãe de um menino forte. "Graças a Deus, é um menino forte", ela pensou.

Anne saboreou um almoço leve e arrumou-se para receber as visitas que começariam a chegar à tarde, já passadas pelo crivo da secretária particular. Somente os familiares e os membros das melhores famílias haviam obtido permissão para vê-la nos primei­ros dias; os demais seriam informados de que a mãe não se achava ainda preparada para receber visitas. Todavia, visto que Boston era a única cidade dos Estados Unidos em que todos ainda sabiam reconhecer seu lugar em relação ao mais alto grau de dis­tinção social, era pouco provável que aparecesse algum visitante inesperado.

Anne ocupava um quarto abarrotado de flores, que, de outro modo, comportaria facilmente mais cinco leitos. Não estivesse ali a jovem mãe sentada a prumo na cama, quem passasse poderia imaginar uma exposição de floricultura. Anne ligou a luz elétrica, que ainda era uma novidade; ela e Richard precisaram aguardar que os Cabots os instruíssem sobre o seu funcionamento, o que toda Boston interpretara como um indício oracular de que a indu­ção eletromagnética era, daquele momento em diante, socialmente aceitável.

A primeira visitante foi a sogra de Anne, sra. Thomas Lo­well Kane, à frente da família desde a morte do marido, no ano anterior. Mulher de meia-idade, elegante, ela aperfeiçoara a técnica de irromper majestosamente num aposento, para sua completa satisfação e total desgosto de seus ocupantes. Vestia um chemisier longo, e era impossível ver-lhe os tornozelos; o único homem que os vira estava morto. Sempre fora magra. Em sua opinião, mu­lheres gordas significavam má nutrição e educação ainda pior. Era a mais velha dos Lowells ainda vivos; a mais velha Kane, aliás. Por isso esperava, como todos, ser a primeira a chegar e a conhecer o novo neto. Afinal, não fora ela que planejara o encontro entre Anne e Richard? O amor sempre levara a sra. Kane a resultados de pouca monta. A riqueza, a posição social e o prestígio, ao contrário, sempre lhe haviam garantido um bom acordo. O amor era desejável, embora raramente se mostrasse um bem durável como os três anteriores. Ela beijou a fronte da nora em sinal de aprovação. Anne apertou um botão na parede, e ouviu-se o som de uma campainha discreta. A sra. Kane surpreendeu-se; não podia acreditar que um dia a eletricidade viesse a se tornar po­pular. A enfermeira reapareceu com o herdeiro. A sra. Kane o inspecionou, suspirou, satisfeita, e fez-lhe um aceno de despedida.

— Muito bem, Anne — disse a velha senhora, como se a nora tivesse recebido um prêmio numa gincana. — Todos nós nos orgulhamos muitíssimo de você.

A mãe de Anne, sra. Edward Cabot, chegou pouco depois. Tal como a sra. Kane, enviuvara recentemente e diferia tão pouco dela na aparência que quem as visse de longe correria o risco de confundi-las. Mas, justiça lhe seja feita, demonstrou maior inte­resse pelo novo neto e pela filha. Transferiu sua inspeção às flores.

— Os Jacksons foram muito gentis em mandar uma lem­brança — murmurou a sra. Cabot.

A sra. Kane adotou um procedimento mais superficial. Passou os olhos pelas flores viçosas e pousou-os sobre os cartões de feli­citação. Murmurou para si mesma os nomes confortadores das famílias Adamses, Lawrences, Lodges, Higginsons. As avós não fizeram nenhum comentário sobre os nomes que desconheciam; tinham passado da idade de aprender coisas ou de conhecer novas pessoas. Saíram juntas, muito satisfeitas: nascera um herdeiro que parecia, à primeira vista, adequado. Ambas julgavam ter cumprido com êxito o dever supremo da família, ainda que indiretamente, e, a partir daquele momento, poderiam passar a um papel secun­dário.

Estavam ambas enganadas.

Durante a tarde, os amigos de Anne e Richard entraram e saíram do aposento, levando-lhes presentes — de ouro e de prata — e os melhores votos de felicidade, com forte sotaque aristo­crático.

Quando o marido chegou, após o trabalho, Anne sentia-se um tanto exausta. Pela primeira vez na vida Richard tomara champanhe na hora do almoço — o velho amigo Amos Kerbes insistira nisso, e, com todo o Somerset Club presente, ele não vira como recusar o convite. Dava à mulher a impressão de estar um pouco menos tenso que o habitual. De aspecto sólido, com a sobrecasaca preta comprida e as calças riscadas, revelara o metro e oitenta que tinha; o cabelo preto partido ao meio brilhava à luz da enorme lâmpada elétrica. Poucos lhe dariam a idade que tinha, apenas trinta e três anos: para ele a juventude nunca fora importante; interessava-lhe a essência. Mais uma vez William Lowell Kane foi convocado e examinado, como se o pai confe­risse o balancete ao final do expediente no banco. Tudo parecia em boas condições. O menino nascera com duas pernas, dois braços, dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés, e Richard nada notara que mais tarde pudesse vir a embaraçá-lo. Desse modo, William foi dispensado.

— Ontem à noite telegrafei ao diretor da St. Paul’s School. William foi aceito para setembro de 1918.

Anne permaneceu calada. Era evidente que Richard havia começado a planejar a carreira de William.

— Bom, minha querida, já se recuperou? — indagou ele, que nunca passara um dia sequer num hospital durante seus trinta e três anos.

— Sim... Não... Acho que sim — respondeu timidamen­te a mulher, reprimindo o choro, que, ela o sabia, apenas o irri­taria.

Richard não poderia compreender essa resposta. Beijou a mulher no rosto e voltou na carruagem para a Red House, na Louisburg Square, a residência da família. Incluindo os familia­res, os criados, o bebê e uma babá, haveria nove bocas para ali­mentar. Richard não se preocupou com isso.

William Lowell Kane recebeu a bênção, e o nome que o pai escolhera para ele antes do nascimento, na Catedral Protestante Episcopal de St. Paul, na presença de todas as pessoas ilustres de Boston e de umas poucas que não o eram. Oficiou a cerimônia o bispo W. Lawrence; foram padrinhos J. P. Morgan e Alan Lloyd, banqueiros de reputação inatacável, juntamente com Milly Preston, a amiga mais próxima de Anne. Sua Eminência espargiu água-benta sobre a cabeça de William, que nada murmurou. Anne agradeceu a Deus pelo nascimento normal do filho, e Richard agradeceu a Deus — a quem considerava um guarda-livro ex­terno, cuja função era registrar os feitos da família Kane de gera­ção a geração — por ter tido um filho homem, a quem poderia deixar a fortuna. Contudo, refletiu, o melhor talvez fosse afastar todas as dúvidas por meio de um segundo filho. Ainda de joelhos, olhou de lado para a mulher, plenamente satisfeito com ela.

 

Wladek Koskiewicz crescia devagar. A mãe adotiva com­preendeu com clareza que a saúde do menino seria um eterno problema. Ele pegava todas as enfermidades que crianças em cres­cimento normalmente pegam, além de outras que não costumam pegar, e passava-as indistintamente ao resto da família. Helena tratava-o como filho legítimo e defendia-o com firmeza toda vez que Jasio responsabilizava o Diabo, e não Deus, pela presença dele na minúscula choupana. Florentyna, por seu turno, também cuidava de Wladek como de um filho. Desde a primeira vez em que viu o menino, amou-o com uma intensidade que brotava do receio de que nunca ninguém quisesse esposá-la, a ela, a filha paupérrima de um armador de laços. Já que não seria mãe, Wla­dek seria seu filho.

O irmão mais velho, o caçador que encontrara Wladek, tra­tava-o como brinquedo, mas temia demais ao pai para poder admitir que gostava da criança delicada, que dava os primeiros passos e ia se tornando robusta. Em todo caso, no próximo mês de janeiro, o caçador deixaria a escola e passaria a trabalhar na propriedade do barão, e, ademais, dissera-lhe o pai, crianças eram coisa de mulher. Os três irmãos mais novos, Stefan, Josef e Jan, pouco se interessavam por Wladek, e a outra irmã, Sophia, con­tentava-se em acariciá-lo.

Nenhum dos pais, porém, estava preparado para lidar com uma índole e uma mentalidade tão diversas das dos filhos legí­timos. Era impossível não perceber as diferenças físicas e inte­lectuais. Os Koskiewicz eram altos, espadaúdos, louros e tinham olhos cinza, exceto Florentyna. Wladek era roliço, atarracado, moreno, os olhos de um azul intenso. Os Koskiewicz aspiravam a um mínimo de instrução, e, tão logo a idade ou o discernimento o permitiam, eram retirados da escola da aldeia. Wladek, por outro lado, embora tivesse demorado a andar, começara a falar aos dezoito meses. Aos três anos, lia, mas ainda não aprendera a vestir-se sozinho. Aos cinco, escrevia, mas continuava a urinar na cama. Transformara-se no desespero do pai e no orgulho da mãe. Os primeiros quatro anos de sua vida foram marcados apenas pelo esforço físico contínuo de sobreviver às enfermidades e procurar se imunizar a elas, no que era encorajado por Helena e Floren­tyna. Dentro da roupa de Arlequim, ele corria descalço em torno da choupana de madeira, atrás da mãe. Quando Florentyna voltava da escola, o menino transferia para ela sua fidelidade, só a lar­gando no momento de ser posto na cama. Ao dividir a comida por nove, Florentyna amiúde sacrificava metade de sua porção em benefício de Wladek, ou, quando ele adoecia, a porção inteira. Wladek usava as roupas que ela lhe fazia, cantava as canções que ela lhe ensinava e partilhava os poucos brinquedos e presentes que ela ganhara.

Florentyna passava a maior parte do dia na escola, e, por essa razão, desde pequeno, Wladek demonstrou o desejo de acompa­nhá-la. Quando foi admitido (segurava com força a mão de Floren­tyna até chegarem à escola da aldeia), andava as dezoito wiorsta, cerca de quinze quilômetros, atravessando bosques de bétulas co­bertas de musgo, de ciprestes, e pomares de limeiras e cerejeiras, até Slonim, a fim de iniciar sua educação.

Wladek gostou da escola desde o primeiro dia; via ali uma oportunidade de escapar à choupana humilde que, até aquele mo­mento, havia sido todo o seu mundo. A escola também o defron­tou, pela primeira vez na vida, com as implicações brutais da ocupação da Polônia oriental pelos russos. Wladek logo aprendeu que na escola deveria falar o russo, reservando a língua pátria, o polonês, apenas para a privacidade da choupana. Sentindo nos colegas um forte orgulho pela língua e pela cultura materna, tão oprimidas, ele também foi dominado pelo mesmo orgulho. Sur­preso, Wladek descobriu que o sr. Kotowski, o professor, não o menosprezava como fazia o pai em casa. Embora fosse o garoto mais novo, como em casa, não demorou a se destacar em tudo entre os colegas, exceto na altura. Sua estatura baixa levava-os a subestimar-lhe freqüentemente as reais capacidades: crianças sem­pre imaginam que o maior é o melhor. Aos cinco anos de idade, Wladek era o primeiro da classe em todas as matérias.

À noite, quando voltava à choupana, enquanto os demais cuidavam das violetas e dos choupos — que cresciam, aromáticos, no jardim durante a primavera —, colhiam frutas, cortavam lenha, apanhavam coelhos ou costuravam roupas, Wladek lia e lia, até que chegou a ler os livros intactos do irmão mais velho e, em breve, os da irmã mais velha. Aos poucos, Helena Koskiewicz foi se certificando de que tinha conseguido mais do que esperara, quando o jovem caçador levara para casa, em lugar dos três coe­lhos, aquele animalzinho; Wladek já lhe fazia perguntas a que ela não sabia responder. Compreendendo imediatamente que seria incapaz de lidar com a situação, Helena ficou em dúvida sobre o que fazer. Mas, como conservava uma fé inabalável no destino, não se surpreendeu quando a decisão lhe foi tirada das mãos.

Certa noite, no outono de 1911, ocorreu o primeiro mo­mento decisivo na vida de Wladek. A família havia terminado a refeição singela, constituída de sopa de beterraba e almôndegas, Jasio Koskiewicz roncava sentado perto do fogo, Helena costu­rava e os filhos brincavam. Wladek estava sentado aos pés da mãe, imerso na leitura, quando, cobrindo o clamor de Stefan e Josef, que disputavam a posse de uma pinha recém-pintada, ecoou uma sonora batida na porta. Todos ficaram em silêncio. A família Koskiewicz sempre se surpreendia com uma pancada na porta, pois a choupana ficava a dezoito wiorsta de Slonim e a mais de seis da herdade do barão. Os visitantes eram na maioria foras­teiros, a quem eles só podiam oferecer um suco de frutas e a com­panhia de crianças barulhentas. A família inteira olhou apreensiva para a porta. Esperaram nova batida. Ela veio, talvez um pouco mais forte. Ainda sonolento, Jasio levantou-se da cadeira, foi até a porta e abriu-a cautelosamente. Quando viram o homem que ali estava, todos curvaram a cabeça numa reverência, menos Wla­dek, que ficou olhando fixamente a enorme figura elegante e aristocrática, metida num pesado casaco de pele de urso, uma presença que dominava o minúsculo cômodo e fazia o medo aflorar aos olhos do pai. Um sorriso cordial atenuou-lhe o medo, e o armador de laços convidou o barão Rosnovski a entrar. Ficaram todos silenciosos. Nunca antes tinham recebido a visita do barão, e não sabiam bem o que dizer.

Wladek pousou o livro no chão, ergueu-se e aproximou-se do estranho, estendendo a mão antes que o pai pudesse impe­di-lo.

— Boa noite, senhor — disse-lhe.

O barão apertou-lhe a mão, e os olhos de Wladek caíram sobre a magnífica pulseira de prata em seu pulso, na qual havia uma inscrição que não pôde ver direito.

— Você deve ser Wladek.

— Sim, senhor — respondeu o menino, sem indicar ou demonstrar surpresa pelo fato de o barão conhecer-lhe o nome.

— Vim falar com seu pai por sua causa — disse o barão.

Wladek continuou diante do barão, fitando-o com insistência.

Com um gesto de braço, o armador deu a entender às crianças que o deixassem sozinho com o patrão, e assim duas delas fize­ram uma reverência com a cabeça, quatro inclinaram o corpo e as seis subiram em silêncio para o sótão. Wladek ficou, e nin­guém lhe sugeriu que fizesse o contrário.

— Koskiewicz — começou o barão, ainda de pé, já que não o haviam convidado a sentar-se. O armador de laços não lhe oferecera uma cadeira por dois motivos: primeiro, porque era muito acanhado, e, segundo, porque tomara como certo que a presença do barão se devia a uma reprimenda. — Vim pedir-lhe um favor.

— O que quiser, senhor, o que quiser — disse o pai, ima­ginando o que poderia dar ao barão que ele já não tivesse cem vezes mais.

— Meu filho Leon — prosseguiu o barão — está com seis anos de idade e vem recebendo instrução particular no castelo com dois professores, um nascido aqui na nossa Polônia, o outro vindo da Alemanha. Segundo eles, o menino é inteligente, mas falta-lhe espírito de competição, uma vez que só tem a si mesmo a superar. O sr. Kotowski, o professor da escola da aldeia de Slonim, diz que Wladek é o único menino capaz de propiciar a competição de que Leon tanto necessita. Interessa-me saber, pois, se vocês permitiriam que o garoto deixasse a escola da aldeia e ficasse com Leon e os professores no castelo.

Wladek continuou diante do barão, olhando-o atentamente, enquanto à sua frente se descortinava a extraordinária visão de uma mesa posta com comidas e bebidas, de livros e de professo­res muito mais sabidos que o sr. Kotowski. Olhou para a mãe. Também ela não deixava de olhar o barão, tomada de espanto e de tristeza. O pai voltou-se para a mãe, e o instante de comuni­cação silenciosa entre os dois pareceu ao menino uma eternidade.

O armador de laços falou bruscamente, olhando para os pés do barão.

— Seria uma honra para nós, senhor.

O barão interrogou Helena Koskiewicz com o olhar.

— A Virgem Maria me proíbe de me pôr no caminho do meu filho — disse, a voz baixa. — Mas só ela sabe o quanto isso vai me custar.

— Sra. Koskiewicz, ele poderá vir vê-la com regularidade.

— Sim, senhor. Espero que o faça, no começo. — Pensou em acrescentar uma objeção, mas resolveu não fazer.

— Bom — sorriu o barão —, está decidido então. Por favor, levem o garoto ao castelo amanhã cedo, às sete horas em ponto. Durante o período de aulas, Wladek fica conosco, e no Natal volta para vocês.

Wladek rompeu em choro.

— Quieto, menino — disse o armador.

— Não vou — disse Wladek com determinação, querendo ir.

— Quieto, menino — tornou o armador, dessa vez erguendo um pouco mais a voz.

— Nunca vou deixar Florcia, nunca.

— Florcia? — inquiriu o barão.

— Minha filha mais velha, senhor — explicou o armador. — Não se preocupe com ela, senhor. O menino fará o que lhe foi ordenado.

Sobreveio um silêncio. O barão refletiu por um instante. Wladek continuava a chorar lágrimas controladas.

— Que idade tem a menina? — indagou o barão.

— Catorze — disse o armador.

— Ela sabe fazer serviços de cozinha? — perguntou o barão, percebendo com alívio que Helena Koskiewicz não romperia em choro também.

— Oh, sim, barão — respondeu ela —, Florcia sabe cozi­nhar, sabe costurar, sabe...

— Ótimo, ótimo, então ela também virá. Espero vê-los amanhã pela manhã, às sete.

O barão foi até a porta e, voltando-se, olhou e sorriu para Wladek, que lhe sorriu também. Wladek triunfara na sua pri­meira negociação, e recebeu o abraço apertado da mãe enquanto olhava a porta fechada e a ouvia murmurar:

— Ah, pequenino da matka, que vai ser de você daqui para a frente?

Wladek estava ansioso por saber.

 

Durante a noite, Helena Koskiewicz arrumou as coisas de Wladek e Florentyna, mas nem mesmo juntar todos os pertences da família demandaria tanto tempo. Pela manhã, os irmãos e a mãe, à porta da choupana, observaram-nos partir rumo ao cas­telo, cada um levando seu embrulho debaixo do braço. Floren­tyna, espigada e graciosa, voltava-se o tempo todo para trás, cho­rando e acenando; mas Wladek, baixote e desajeitado, não olhou para trás uma vez sequer. Florentyna segurou-lhe a mão com fir­meza durante todo o percurso até o castelo do barão. Seus papéis agora se tinham invertido; a partir desse dia, ela é que estaria na dependência dele.

Sem dúvida, estavam sendo esperados pelo homem pomposo de libré verde enfeitada, que viera atender às tímidas batidas na enorme porta de carvalho. Quando passaram pela cidade, ambos se tinham encantado com a farda cinza dos soldados que vigiavam a vizinha fronteira da Rússia com a Polônia, mas era a primeira vez que viam algo tão deslumbrante como aquele criado unifor­mizado, elevando-se acima deles com uma importância franca­mente esmagadora. No saguão, depararam com um espesso tapete, e Wladek arregalou os olhos ante os desenhos em verde e ver­melho, admirado com tanta beleza, sem saber se devia tirar os sapatos, surpreso por não ouvir o ruído de seus passos ao andar sobre ele. A criatura ofuscante os conduziu aos quartos situados na ala oeste. Quartos separados — será que conseguiriam pegar no sono? Felizmente havia uma porta de comunicação, assim nunca ficariam um longe do outro, e, com efeito, durante muitas noites, dormiram juntos na mesma cama.

Depois que desfizeram os embrulhos, Florentyna foi levada à cozinha, e Wladek, ao quarto de brincar, na ala sul do castelo, onde se achava o filho do barão. Leon era um garoto alto e bo­nito, e se mostrou tão prontamente agradável e receptivo que Wladek abandonou, com surpresa e alívio, à atitude agressiva que ensaiara. Leon tinha sido uma criança solitária, sem ninguém com quem brincar a não ser a babá, uma lituana dedicada que o amamentara e o assistira desde a morte prematura da mãe. O garotinho forte saído da floresta prometia ser um bom compa­nheiro. Ao menos num aspecto podiam se considerar iguais.

Leon logo se ofereceu para mostrar a Wladek o castelo, e a excursão ocupou-lhes o resto da manhã. Wladek ficou perplexo com suas dimensões, a suntuosidade do mobiliário, das cortinas e dos tapetes em cada aposento. A Leon admitiu apenas estar favoravelmente impressionado: afinal, conquistara por mereci­mento seu lugar no castelo. A parte principal da construção per­tencia ao gótico antigo, explicou-lhe o filho do barão, como se o recém-chegado soubesse o que "gótico", significava. Wladek anuiu. Em seguida, Leon conduziu o novo amigo às imensas adegas, cheias de prateleiras de garrafas de vinho cobertas de pó e teias de aranha. O lugar mais apreciado por Wladek foi o amplo salão de jantar, com as imponentes abóbadas sustentadas por colunas e o piso lajeado. Das paredes pendiam cabeças de animais. Leon disse-lhe que eram bisão, urso, alce, javali e carcaju. Num extre­mo da sala, abaixo da galhada de um veado, estava o resplendente brasão. O lema da família Rosnovski dizia: "A boa sorte protege os bravos". Após a refeição, que Wladek mal saboreou por não saber manejar a faca e o garfo, ele foi apresentado aos dois preceptores, que não o receberam com o mesmo calor de Leon, e à noite deitou-se na cama mais comprida que já vira em toda a vida e contou suas aventuras a Florentyna. Ela não tirou os olhos excitados do rosto do irmão, boquiaberta, ouvindo-o talar do maravilhoso jantar e especialmente do garfo e da faca.

As aulas começavam pontualmente às sete, antes do desjejum, e prosseguiam por todo o dia, com breves intervalos para as refeições. No início, Leon estava nitidamente à frente de Wla­dek, mas este, resoluto, lutou corpo a corpo com os livros, e assim, no curso de algumas semanas, a distância começou a dimi­nuir, enquanto a amizade e a rivalidade entre os dois evoluíam simultaneamente. O preceptor alemão e o polonês encontravam dificuldade em tratar os dois alunos — o filho de um barão e o filho de um armador de laços — com igualdade, embora tivessem admitido com relutância, ao serem consultados pelo barão, que o sr. Kotowski havia feito uma escolha escolar correta. Wladek, porém, nunca se preocupou com o tratamento que lhe era dispen­sado pelos preceptores, porque Leon sempre o tratava como igual.

O barão fazia saber o quanto se sentia satisfeito com o progresso deles, e às vezes recompensava Wladek com roupas e brinquedos. A princípio distante e desinteressada, a admiração de Wladek pelo barão foi evoluindo para o respeito, e, ao chegar o momento de retornar à moderna choupana da floresta e passar o Natal ao lado do pai e da mãe, o garoto começou a se angustiar com a simples idéia de se afastar de Leon.

Havia motivos para essa angústia. Embora, no início, o fato de rever a mãe desse alegria a Wladek, o curto espaço de três meses que vivera no castelo do barão tinha bastado para lhe re­velar as deficiências da casa familiar que não havia percebido antes. As férias iam se arrastando. Wladek sentia-se asfixiado na minúscula choupana, de um cômodo térreo e sótão, desgostoso com a comida escassa e devorada com as mãos: não se dividia por nove no castelo. Duas semanas depois, Wladek já ansiava retomar a Leon e ao barão. Algumas tardes caminhava seis wiorsta até o castelo e, sentado, punha-se a olhar os altos muros que cercavam a propriedade. Florentyna, que apenas convivera com os empre­gados da cozinha, aceitara sem relutância a idéia do retorno e não entendia por que a choupana deixara de ser um lar para Wladek. O armador de laços não sabia como tratar o menino, agora bem-vestido, bem-falante, conversando aos seis anos sobre coisas que o homem não compreendia e não queria compreender. O menino não fazia outra coisa senão ler o dia inteiro. O que havia de ser dele?, perguntava-se o armador. Se não sabia utilizar um ma­chado ou capturar uma lebre, como esperava ganhar a vida ho­nestamente? Também ele desejava que aquelas férias passassem depressa.

Helena orgulhava-se de Wladek, e no começo procurou não aceitar que existisse um abismo entre ele e os outros filhos. No final, entretanto, foi impossível evitá-lo.

Brincando de soldado, certa noite, Stefan e Franck, ambos generais em flancos inimigos, recusaram-se a ter Wladek em seus exércitos.

— Por que fico sempre de fora? — queixou-se Wladek. — Também quero aprender a lutar.

— Porque não é dos nossos — afirmou Stefan. — Não é nosso irmão de verdade.

Fez-se longo silêncio, antes que Franck continuasse:

— Para começar, ojciec nunca quis você. Só matka estava do seu lado.

Imóvel, Wladek percorreu o olhar pelo círculo de crianças, buscando Florentyna.

— Não sou irmão de vocês? O que Franck quer dizer com isso? — inquiriu.

E então Wladek soube como veio ao mundo e compreendeu por que fora sempre rejeitado pelos irmãos e por uma irmã. Em­bora a aflição da mãe se tornasse opressiva agora, com o total isolamento do menino, no íntimo Wladek sentia-se secretamente contente por ter descoberto que provinha de uma estirpe desco­nhecida, intocada pela inferioridade do sangue do armador, e que isso continha o germe do espírito que tornaria possíveis todas as coisas.

Finalmente, as infelizes férias terminaram, e Wladek voltou ao castelo cheio de júbilo. Leon recebeu-o de braços abertos; ele também, tão isolado pela riqueza do pai, como Wladek pela po­breza do camponês, tivera poucos motivos para comemorar o Natal. A partir daquele momento, estreitaram relações e logo se tornaram inseparáveis. Quando se anunciaram as férias de verão, Leon pediu ao pai que Wladek permanecesse no castelo. O barão acedeu, pois também aprendera a amar Wladek. Wladek ficou radiante, e só uma vez mais pôs os pés na choupana do armador de laços.

 

Quando terminavam as tarefas escolares, Wladek e Leon aproveitavam as últimas horas do dia para brincar. A brincadeira preferida era o chowanego, uma espécie de esconde-esconde; como o castelo tinha setenta e dois aposentos, eram mínimas as chances de uma repetição. O esconderijo favorito de Wladek eram as masmorras, onde a única luz pela qual se podia descobrir alguém penetrava por uma pequena grade de pedra situada bem no alto na parede, e ainda assim se fazia necessário o auxílio de uma vela. Wladek ignorava a que propósitos tinham servido no passado as masmorras, e nenhum criado chegara a mencioná-las, como se não se lembrassem de que um dia elas tinham sido utilizadas.

Wladek sabia que só estava à altura de Leon nos estudos, e que, afora o jogo de xadrez, não rivalizava com o amigo em nenhuma outra brincadeira. O rio Shchara, que confinava com a propriedade, tornara-se extensão do espaço de recreio. Na prima­vera pescavam, no verão nadavam, e no inverno, quando as águas do rio se congelavam, punham os patins de madeira e corriam um atrás do outro sobre o gelo, enquanto Florentyna, sentada à mar­gem, alertava-os apreensiva, quanto aos lugares em que a super­fície se apresentava mais fina. Wladek, porém, nunca lhe dava atenção e sempre caía. Leon ia se desenvolvendo sadia e rapida­mente; corria bem, nadava bem, nunca se cansava ou adoecia. Pela primeira vez Wladek tomou consciência do que significava ser bem-nascido e bem-formado, e estava certo de que jamais alcançaria Leon, fosse nadando, correndo ou patinando. O pior era que aquilo que Leon chamava de botão da barriga, no amigo quase não se notava, mas nele era um coto feioso, sobressaindo, grosseiro, no meio do corpo rechonchudo. Wladek ficava, na tranqüilidade do quarto, estufando o peito na frente do espelho, sempre se perguntando por que ganhara um mamilo só, quando todos os meninos que vira de peito nu tinham os dois que a sime­tria do corpo humano parecia exigir. Por vezes, deitado na cama, incapaz de dormir, tocava com os dedos o peito despido, e lágri­mas de desconsolo caíam no travesseiro. Finalmente adormecia, pedindo que, ao acordar na manhã seguinte, as coisas fossem dife­rentes. Seus pedidos nunca foram atendidos.

Todas as noites Wladek reservava um momento para fazer exercícios físicos que não podiam ser testemunhados por ninguém, nem mesmo por Florentyna. Graças a uma firme determinação, aprendeu a colocar o corpo numa postura que o fazia parecer mais alto. Desenvolveu os músculos dos braços e das pernas, e pen­durava-se pelas pontas dos dedos numa viga do quarto, na espe­rança de com isso crescer; mas Leon crescia mais que ele até mesmo enquanto dormia. Wladek, forçosamente, tinha de aceitar o fato de que seria sempre um palmo mais baixo que o filho do barão, e de que nada faria gerar o mamilo ausente. O des­gosto de Wladek pelo próprio corpo não era causado por Leon, que jamais comentara qualquer coisa sobre a aparência do amigo; seu conhecimento de outras crianças limitava-se a Wladek, a quem adorava sem restrições.

O barão Rosnovski foi aos poucos se afeiçoando ao menino impetuoso e moreno, que substituíra o irmão mais novo de Leon, tragicamente perdido quando a esposa morrera de parto.

Os dois meninos jantavam na companhia dele todas as noites no grande salão de paredes de pedra, enquanto as chamas bruxuleantes das velas que incidiam sobre as cabeças empalhadas dos animais projetavam sombras sinistras nas paredes, e os criados entravam e saíam silenciosamente, carregando enormes salvas de prata e pratos dourados, que continham carne de ganso e de porco, lagostas, vinhos excelentes, frutas, e, de quando em quando, mazureks, que se haviam tornado a predileção de Wladek. Mais tarde, quando a escuridão se adensava em torno da mesa, o barão dis­pensava os criados e contava aos garotos episódios da história da Polônia, permitindo-lhes um trago de vodca de Dantzig, na qual pequeninas folhas douradas brilhavam, magníficas, à luz das velas. Wladek muitas vezes atrevia-se a pedir que ele lhe narrasse a história de Tadeusz Kosciuszko.

— Um grande patriota e herói — explicava o barão. — O símbolo perfeito da nossa luta pela independência, educado na França...

— ... cujo povo admiramos e amamos assim como apren­demos a odiar todos os russos e austríacos — completava Wladek, cujo prazer em ouvir a narrativa aumentava pelo fato de já conhe­cê-la palavra por palavra.

— Quem é que está contando a história, Wladek? — pro­testava o barão, sorrindo. — ... E depois lutou pela liberdade e pela democracia ao lado de George Washington na América. Em 1792, liderou os poloneses na batalha de Dubienka. Quando Estanislau Augusto, nosso desventurado rei, desertou e uniu-se aos russos, Kosciuszko retornou à sua amada terra natal, a fim de livrá-la do jugo czarista. Leon, qual foi a batalha que ele venceu?

— A de Raclawice, senhor, e depois libertou Varsóvia.

— Muito bem, meu filho. Depois, por infelicidade, os russos concentraram uma forte tropa em Maciejowice, e ele foi final­mente derrotado e aprisionado. Meu tataravô lutou ao lado de Kosciuszko naquele dia, e, mais tarde, nas legiões de Dabrowski, ao lado do poderoso imperador Napoleão Bonaparte.

— E pelo serviço prestado à Polônia recebeu o título de barão Rosnovski, um título que a família conservará sempre como lembrança daqueles dias gloriosos — arrematava Wladek com denodo, como se destinado a herdar o título.

— Aqueles dias gloriosos hão de voltar — afirmava calma­mente o barão. — Só espero viver para vê-los.

 

Na época do Natal, os camponeses que trabalhavam na pro­priedade celebravam no castelo a vigília santa com os familiares. Ao longo da noite de Natal, jejuavam, e as crianças, às janelas, aguardavam a primeira estrela, cuja aparição anunciava o início do banquete. Com sua bela voz grave, o barão recitou a oração de ação de graças: "Benedicte nobis, Domine Deus, et his donis quae ex liberalitate tua sumpturi sumus", e todos sentaram-se à mesa. Wladek sentiu-se embaraçado com a desmedida capacidade de comer de Jasio Koskiewicz, que se entregava, resoluto, a cada um dos treze pratos, desde a sopa de barsasz até as tortas e uvas passas, e, como nos anos anteriores, sentiu enjôo na floresta a caminho de casa.

Depois do banquete, Wladek divertiu-se distribuindo os pre­sentes da árvore de Natal, carregada de velas e frutas, às inti­midadas crianças do camponês — uma boneca para Sophia, um facão para Josef e um vestido novo para Florentyna, o primeiro presente que Wladek jamais ousara pedir ao barão.

— É verdade, matka — disse Josef à mãe, ao receber seu presente das mãos de Wladek —, ele não é nosso irmão.

— Não — replicou ela —, mas sempre será meu filho.

 

Durante o inverno e a primavera de 1914, Wladek tornou-se mais forte e fez progressos nos estudos. Mas no mês de julho, de súbito, o preceptor alemão deixou o castelo sem ao menos se despedir; os garotos não sabiam por quê. Nunca lhes ocorrera associar a partida dele ao assassínio, em Sarajevo, do arquiduque Francisco Ferdinando por um estudante anarquista, que lhes fora relatado pelo outro preceptor de maneira estranhamente solene. O barão retraiu-se; os garotos não sabiam por quê. Os criados mais jovens, os mais queridos pelas crianças, começaram a desa­parecer um após o outro; os garotos não sabiam também por quê. À medida que o ano foi passando, Leon cresceu, Wladek encor­pou, e ambos ficaram mais experientes.

Certa manhã do verão de 1915, uma estação de dias belos e indolentes, o barão partiu numa viagem a Varsóvia com o pro­pósito de, como o qualificou, pôr os negócios em ordem. Ausen­tou-se durante vinte e cinco dias, que Wladek foi assinalando toda manhã no calendário do seu quarto; a ele parecia a duração de toda uma vida. No dia em que o barão deveria retornar, os me­ninos foram à estação de Slonim esperar o trem semanal de um único carro para saudar sua chegada. Os três fizeram o caminho de volta em silêncio.

Wladek achou cansado e envelhecido aquele homem notável, outro detalhe estranho. No curso da semana seguinte, o barão manteve repetidamente com os chefes dos criados um diálogo rápido e aflitivo, interrompido toda vez que Leon ou Wladek entravam no aposento, uma dissimulação incomum que deixava os garotos apreensivos e receosos de terem sido a causa involun­tária daquilo. Wladek temia que o barão o mandasse de volta à choupana do armador de laços — sempre ciente de que era um estranho no castelo.

Certa noite, algum tempo depois do seu retorno, o barão chamou-os ao grande salão. Entraram tímidos e temerosos. Sem nenhum esclarecimento, o barão disse-lhes que fariam uma longa viagem. A curta conversa, sem importância, como pareceu a Wla­dek na ocasião, ficou gravada em sua memória para o resto da vida.

— Queridos filhos — começou o barão, a voz grave e trê­mula —, os beligerantes da Alemanha e do Império Austro-Húngaro entraram em Varsóvia e em breve cairão sobre nós.

Wladek lembrou-se de uma inexplicável frase que o preceptor polonês lançara ao preceptor alemão durante os últimos dias tensos que tinham passado juntos.

— Isso quer dizer que a hora dos povos oprimidos da Europa está chegando? — perguntou.

O barão fitou com ternura o rosto inocente de Wladek.

– Nossa consciência nacional não morreu em um século e meio de conflitos e repressão — respondeu. — É possível que o destino da Polônia esteja em jogo, como o da Sérvia, mas não temos poderes para interferir na história. Estamos à mercê dos três impérios poderosos que nos rodeiam.

— Somos fortes, lutaremos — disse Leon. — Temos espa­das e escudos de madeira. Não tememos alemães nem russos.

— Meu filho, você apenas brincou de fazer guerra. Esta batalha não se travará entre crianças. Temos agora de encontrar um lugar tranqüilo para viver até que a história decida nosso destino, e precisamos partir o mais depressa possível. Só espero que este não seja o fim da infância de vocês.

Leon e Wladek ficaram perplexos e irritados com as palavras do barão. A guerra parecia ser uma aventura excitante, que certa­mente perderiam se deixassem o castelo. Os criados levaram alguns dias arrumando a bagagem do barão. Wladek e Leon foram avi­sados de que na segunda-feira seguinte estariam partindo para a pequena casa de verão ao norte de Grodno. Os dois garotos prosseguiram, em grande parte sem acompanhamento, com suas tarefas e brincadeiras, mas não encontraram ninguém no castelo com disposição ou tempo para responder às suas inúmeras per­guntas.

Aos sábados, as aulas eram ministradas apenas pela manhã. Estavam traduzindo para o latim o Pan Tadeusz, de Adam Mickiewicz, quando ouviram os disparos. A princípio, Wladek imaginou que o barulho familiar significasse apenas que um armador de laços estava caçando na herdade; os garotos voltaram à poesia. Uma segunda descarga, mais próxima, fê-los levantar a cabeça, e em seguida ouviram gritos que partiam do andar inferior. Entreolharam-se, aturdidos; não sentiram medo, uma vez que em suas curtas vidas nunca haviam experimentado nada que neles despertasse o medo. O preceptor retirou-se apressado, deixando-os sozinhos, e em seguida ouviram outro disparo, dessa vez no cor­redor, junto aos seus quartos. Os dois meninos ficaram paralisa­dos, estarrecidos e sem fôlego.

Subitamente, a porta escancarou-se, e acima deles elevou-se o corpo de um homem da idade do preceptor, de uniforme cinza de soldado e capacete de aço. Leon agarrou-se a Wladek, que encarou o invasor. Aos brados, o soldado lhes falou em alemão, querendo saber quem eram. Os meninos nada lhe responderam, apesar de dominarem a língua alemã tão bem quanto a língua materna. Logo atrás surgiu outro soldado; o primeiro avançou contra os garotos, e, pegando-os pelo pescoço como se pegam galinhas, puxou-os para o corredor, levou-os para o saguão do andar de baixo, até a frente do castelo, e depois para os jardins, onde encontraram Florentyna, que chorava histericamente, de olhos pregados no gramado à sua frente. Leon não conseguiu olhar e enterrou a cabeça no ombro de Wladek. Entre surpreso e hor­rorizado, Wladek fixou o olhar numa fileira de cadáveres, na maio­ria de criados, os corpos virados de bruços. Ficou hipnotizado pela visão do perfil de um bigode mergulhado numa poça de sangue. Era o armador de laços. Wladek não sentiu nada, mas Florentyna continuava a chorar.

— Papai está aí? — perguntou Leon. — Papai está aí?

Wladek esquadrinhou mais uma vez a fileira de corpos. Agra­deceu a Deus por não haver nenhum sinal do corpo do barão Rosnovski. Estava prestes a dizer isso a Leon, quando um sol­dado se aproximou.

— Wer hat gesprochen? — inquiriu, ameaçador.

— Ich — retrucou Wladek em tom provocador.

O soldado levantou o fuzil e golpeou a cabeça de Wladek com a coronha. Ele caiu, enquanto o sangue lhe escorria pelo rosto. Onde estava o barão? O que estava acontecendo? Por que os maltratavam em sua própria casa? Leon atirou-se imediatamen­te sobre Wladek, tentando protegê-lo do segundo golpe, que o soldado destinara ao estômago do amigo. Mas, na descida, a coro­nha atingiu-lhe brutalmente a nuca.

Os dois garotos permaneceram imóveis: Wladek, porque ainda estava atordoado com a pancada e com o peso inesperado do corpo do amigo, e Leon, porque morria.

Wladek pôde ouvir outro soldado censurar seu algoz pelo que tinha feito. Apanharam Leon do chão, mas Wladek grudou-se a ele. Foram necessários dois soldados para remover o corpo do amigo e abandoná-lo bruscamente junto dos outros, com o ventre voltado contra o chão. Os olhos de Wladek só se des­prenderam do corpo inerte do querido amigo quando finalmente foi levado de volta para dentro do castelo e, na companhia de uns poucos sobreviventes atônitos, conduzido às masmorras. Nin­guém ousou falar, temendo juntar-se à fileira de corpos abando­nados no relvado, até que as portas da masmorra foram aferrolhadas e o último resmungo dos soldados se perdeu a distância.

Foi então que Wladek exclamou:

— Santo Deus!

O barão estava caído contra a parede num canto, ileso mas atordoado, a fitar o vazio, vivo ainda apenas porque os conquis­tadores precisavam de alguém que se responsabilizasse pelos pri­sioneiros. Wladek foi até ele, enquanto os demais se afastavam o mais possível do amo. Olharam-se como no primeiro dia em que se conheceram. Wladek estendeu-lhe a mão, e, como no pri­meiro dia, o barão segurou-a. Wladek viu as lágrimas escorrerem por aquele rosto altivo. Nada disseram. Ambos haviam perdido a pessoa que mais amavam no mundo.

 

William Kane cresceu espantosamente depressa. Era consi­derado um menino adorável por todos os que o cercavam — os parentes deslumbrados e os criados afetuosos.

O último andar da casa dos Kanes, construída no século XVIII e situada na Louisburg Square, em Beacon Hill, transfor­mara-se numa ala infantil atulhada de brinquedos. Um dormitório e uma sala de estar adicionais foram colocados à disposição da babá recém-contratada. O pavimento ficava longe dos aposentos de Richard Kane, possibilitando-lhe ignorar problemas tais como dentição, fraldas molhadas e os choros irregulares e indisciplina­dos por mais comida. O primeiro som, o primeiro dente, o pri­meiro passo e a primeira palavra foram devidamente registrados no livro da família pela mãe, além de seu aumento em altura e peso. Anne surpreendeu-se ao notar que esses dados diferiam muito pouco dos de outras crianças de Beacon Hill com quem entrara em contato.

A babá, trazida da Inglaterra, criava o menino num regime que alegraria o coração de um oficial da cavalaria prussiana. O pai visitava-o todas as noites às seis horas em ponto. Como se recusasse a dirigir-se ao bebê em linguagem infantil, terminavam por não se comunicar; simplesmente trocavam olhares. William segurava o dedo indicador do pai, com o qual os balancetes eram examinados, e apertava-o com força. Richard permitia-se um sor­riso. Ao final do primeiro ano, tal rotina alterou-se um pouco e o menino pôde descer para ver o pai. Richard sentava-se na cadeira de couro vermelho-acastanhado de encosto alto e punha-se a observar o primogênito, que de gatinhas dava voltas em torno das pernas dos móveis, reaparecendo quando menos se esperava, o que fez Richard concluir que, sem dúvida, o menino seria se­nador. Aos treze meses, William deu os primeiros passos agarran­do-se à aba do sobretudo do pai. "Papá" foi sua primeira palavra, o que alegrou a todos, inclusive a avó Kane e a avó Cabot, que eram visitas costumeiras. Não chegavam a empurrar o carrinho no qual William passeava por Boston, mas, nas tardes de quinta-feira, acediam em andar pelo parque logo atrás da babá, lançando olhares dardejantes aos bebês acompanhados por um séquito menos disciplinado. Enquanto algumas crianças davam de comer aos patos dos jardins públicos, William fazia o mesmo aos cisnes da lagoa do extravagante Venetian Palace, propriedade do sr. Jack Gardner.

Passados dois anos, as avós deram a entender, através de indiretas e insinuações, que já era tempo de outra criança pro­dígio, de um irmão para William. Procurando satisfazê-las, Anne engravidou e, ao entrar no quarto mês, aflita, viu-se progressiva­mente indisposta.

O sorriso do dr. MacKenzie foi se apagando à medida que ele examinava a barriga cada vez mais crescida da mãe esperan­çosa, e quando, na décima sexta semana, Anne abortou, ele não se mostrou de todo surpreso, mas procurou impedi-la de entregar-se ao sentimento de frustração. No relatório, anotou "pré-eclampsia?", e em seguida disse:

— Anne querida, o mal-estar se deveu a uma pressão arterial alta, que, provavelmente, tenderia a subir mais à medida que a gravidez evoluísse. Os médicos ainda não descobriram a causa desse fenômeno, e, de fato, o pouco que sabemos é que se trata de um estado perigoso para qualquer um, principalmente para a gestante.

Anne conteve as lágrimas, considerando as conseqüências de um futuro sem outros filhos.

– Se eu engravidar de novo, isso poderá se repetir? — perguntou, colocando a questão de modo a predispor o médico a uma resposta favorável.

– Minha cara, eu me surpreenderia se isso não voltasse a acontecer. Lamento dizê-lo, mas desaconselho seriamente uma nova gravidez.

– Mas não me importaria de sentir indisposição durante uns poucos meses, desde que...

– Anne, não me refiro a uma simples indisposição. Refiro-me anão arriscar desnecessariamente a sua vida.    

Foi um tremendo golpe para Richard e Anne, eles próprios filhos únicos, em grande parte devido à morte prematura dos respectivos pais. Ambos se tinham proposto constituir uma famí­lia à altura da importância de suas casas e de suas responsabili­dades para com a geração futura.

— O que mais poderá fazer uma jovem? — indagou a avó Cabot à avó Kane.

Ninguém voltou a falar no assunto, e William tornou-se o alvo de todas as atenções.

Richard, que assumira a presidência do Kane & Cabot Bank & Trust Company quando o pai falecera, em 1904, vivera sem­pre mergulhado na atividade bancária. O banco, situado na State Street, um baluarte da solidez financeira e arquitetônica, tinha agências em Nova Iorque, Londres e San Francisco. Esta última transformara-se num problema para Richard logo após o nasci­mento de William, quando, juntamente com o Crocker National Bank, o Wells Fargo e o Califórnia Bank, ruiu, não financeira­mente, mas literalmente, no grande terremoto de 1906. Richard, homem prudente por natureza, tinha um seguro, como é com­preensível, no Lloyd's de Londres. Cavalheiros que eram, paga­ram-lhe até o último cent, permitindo-lhe assim a reconstrução do edifício. Todavia, Richard passou um ano penoso, atravessando o continente em viagens de trem que duravam quatro dias, entre Boston e San Francisco, com o propósito de fiscalizar a reedificação. Inaugurou a nova agência localizada na Union Square em outubro de 1907, mal tendo tido tempo de cuidar de outros pro­blemas que emergiam na costa Leste. Reduzira-se a corrida aos ban­cos nova-iorquinos; muitos dos pequenos estabelecimentos, des­preparados para enfrentar grandes retrações, começaram a falir. J. P. Morgan, o lendário presidente do poderoso banco que le­vava seu nome, propôs a Richard participar de uma associação cujo objetivo era sobreviver à crise. Richard aceitou. O corajoso plano de resistência resultou positivo, e aos poucos o problema foi se dissipando, embora não antes de ter custado a Richard algu­mas noites em claro.

William, por sua vez, dormia sonos profundos, alheio a terremotos e bancos arruinados. Afinal, havia cisnes a alimentar e intermináveis excursões de ida e volta a Milton, Brookline e Beverly, a fim de que pudessem mostrá-lo aos ilustres parentes.

 

No início da primavera do ano seguinte, Richard ganhou um novo brinquedo, como retorno de um cauteloso investimento de capital num homem chamado Henry Ford, que afirmava ter con­dições de fabricar um automóvel popular. O banco ofereceu um almoço ao sr. Ford, e Richard foi persuadido a adquirir um Modelo T pela elevada quantia de oitocentos e cinqüenta dólares. Henry Ford garantiu a Richard que, caso o banco o apoiasse, o custo posteriormente baixaria para trezentos e cinqüenta dólares num prazo de poucos anos, e todos poderiam comprar seus carros, assegurando desse modo grande margem de lucro aos financia­dores. Richard financiou o projeto e pela primeira vez aplicou bom dinheiro em alguém que desejava ver reduzido à metade o preço de seu produto.

A princípio Richard receou que seu automóvel, ainda que de um preto sombrio, fosse visto como um meio de transporte não-apropriado ao presidente de um banco, mas os olhares de ad­miração dos passantes atraídos pelo veículo devolveram-lhe a con­fiança. A dezesseis quilômetros por hora, fazia mais barulho que um cavalo, mas com a virtude de não deixar aquela imundície no meio da Mount Vernon Street. Richard discordara do sr. Ford apenas num ponto, já que o homem se recusara a ouvir-lhe a su­gestão de que o Modelo T deveria chegar ao mercado com várias opções de cor. O sr. Ford insistira em que, para evitar a elevação de preços, todos os carros deveriam ser pretos. Anne, mais sen­sível que o marido à aprovação da boa sociedade, não entraria no veículo enquanto os Cabots não adquirissem o deles.

William, por seu turno, adorara o "automóvel", como a imprensa o chamava, e imediatamente concluíra que o veículo lhe fora comprado para substituir o então desnecessário e não-motorizado carrinho de bebê. Também preferira o chauffeur — com seus óculos de proteção e boné — à babá. A avó Kane e a avó Cabot declararam que jamais andariam naquele veículo medonho, e cumpriram a palavra, embora a avó Kane tenha andado num automóvel no dia de seu funeral, fato de que, diga-se de passagem, nunca chegou a ser informada.

Durante os dois anos seguintes, o banco cresceu em força e tamanho, tal qual William. Os americanos voltavam a investir com olhos no desenvolvimento; grandes somas entraram no Kane & Cabot Bank e saíram na forma de investimentos em projetos como o da expansão da fábrica de tecidos Lowell, em Lowell, Massachusetts. Richard acompanhava o crescimento do banco e o do filho com uma satisfação já esperada. No quinto aniversário de William, tirou o menino dos cuidados das mulheres e entregou-o a um professor particular, um certo sr. Munro, contratado a quatro­centos e cinqüenta dólares anuais, selecionado pessoalmente por Richard de uma relação de oito candidatos previamente escolhidos pela secretária particular. O sr. Munro fora encarregado de garantir que William estivesse preparado para ingressar na St. Paul’s School aos doze anos de idade. William simpatizou imediatamente com o sr. Munro, que lhe pareceu muito velho e muito inteligente. Na verdade, o professor tinha vinte e três anos de idade e fora diplomado sem distinção em inglês pela Universidade de Edimburgo.

William logo aprendeu a ler e a escrever com fluência, mas reservava aos números seu verdadeiro entusiasmo. Queixava-se unicamente de que, das oito aulas diárias, uma apenas fosse de­dicada à aritmética. Não tardou em fazer ver ao pai que um oitavo do dia de trabalho era um investimento de tempo insignificante para quem um dia seria presidente de banco.

Com o propósito de compensar a falta de visão do preceptor, William seguia os passos dos parentes mais acessíveis, pedindo-lhes com obstinação cálculos que fazia de cabeça. A avó Cabot, que nunca se convencera de que a divisão de um número inteiro por quatro produzia necessariamente o mesmo resultado que a sua multiplicação por um quarto — e, com efeito, nas suas contas as duas operações davam totais diferentes —, viu-se muito de­pressa superada pelo neto; a avó Kane, porém, com leve propen­são à destreza, lutava bravamente corpo a corpo com frações ordinárias, juros e a divisão de oito tortas entre nove crianças.

— Vovó — disse William branda mas firmemente, quando ela fracassou em encontrar a resposta ao seu último enigma —, a senhora pode me comprar uma régua de cálculo, assim não precisarei mais incomodá-la.

Maravilhada com a precocidade do neto, a avó Kane com­prou-lhe uma régua, mesmo duvidando que o garoto soubesse realmente usar o invento. Pela primeira vez na vida, ela escolhia a maneira mais fácil de resolver um problema.

Os problemas de Richard começaram a gravitar para o Leste. O presidente da filial de Londres morrera no exercício do dever, e Richard julgou indispensável sua presença na Lombard Street. Propôs a Anne que ela e William o acompanhassem à Europa, opinando que a interrupção dos estudos não prejudicaria o me­nino: ele poderia visitar todos os lugares de que o sr. Munro freqüentemente lhe falara. Anne, que nunca fora à Europa, en­tusiasmou-se com a possibilidade e encheu três malas de roupas novas, sóbrias e caras, com que enfrentaria o Velho Mundo. Aos olhos de William, a mãe cometia uma injustiça para com ele, não consentindo que levasse aquela acompanhante igualmente impres­cindível, sua bicicleta.

Os Kanes partiram de trem para Nova Iorque e lá embar­caram no Aquitania com destino a Southampton. Anne estarreceu-se ao ver os mascates imigrantes nas ruas a impingir mercadorias, mas alegrou-se na segurança do navio, descansando no camarote. William, por sua vez, maravilhou-se com a grandeza de Nova Iorque; até aquele momento acreditava que o banco do pai fosse o maior edifício dos Estados Unidos, senão do mundo. Um homem de terno branco e chapéu de palha passou vendendo um sorvete cor-de-rosa e amarelo, e William teve vontade de comprar um, mas o pai não lhe deu ouvidos; em todo caso, isso não era ne­nhuma novidade.

William apaixonou-se pelo enorme vapor assim que o viu, e fez logo amizade com o capitão, que lhe mostrou todos os segre­dos da prima-dona dos Cunard Steamships. Antes de o navio deixar o porto, Richard e Anne, que naturalmente se sentaram à mesa do comandante, houveram por bem desculpar-se pelo filho, que lhe tomava o tempo.

— De jeito algum — replicou o comandante, de barba branca. — William e eu já nos tornamos bons amigos. Gostaria de responder às perguntas que ele me faz sobre tempo, velo­cidade e distância. Todas as noites tomo aulas com meu primeiro-maquinista, na esperança de estar preparado para desincumbir-me de minha tarefa no dia seguinte.

O Aquitania atravessou o estreito de Solent e aportou em Southampton depois de uma viagem de seis dias. William desem­barcou a contragosto, e as lágrimas teriam sido inevitáveis não fosse a visão majestosa de um Rolls-Royce Silver Ghost, que os aguardava no cais com motorista e tudo, pronto para levá-los a Londres. Richard, inesperadamente, determinou que no final da viagem o carro seria transportado para Nova Iorque, tomando assim a decisão mais insólita do resto de sua vida. Explicou a Anne, de maneira pouco convincente, que queria mostrar o veículo a Henry Ford.

A família Kane, quando em Londres, costumava hospedar-se no Riz Hotel, no Piccadilly Circus, o que convinha ao escritório de Richard, situado na City. Anne aproveitava o tempo em que o mando estava ocupado no banco para mostrar a William a Torre de Londres, o Palácio de Buckingham e a troca da guarda. Tudo era "esplêndido" para William, menos a pronúncia britâ­nica, que ele compreendia com dificuldade.

— Mamãe, por que eles não falam que nem a gente? — inquiriu ele, surpreendendo-se com a resposta da mãe, que o corrigiu dizendo que se preferia o uso de "como" ao de "que nem".

O passatempo favorito de William era olhar com interesse os guardas, de uniforme escarlate e botões de metal reluzente, que montavam guarda à entrada do Palácio de Buckingham. Tentou uma conversa com eles, mas os guardas pareciam atravessá-lo com o olhar, fitando o vazio, sem piscar.

— Vamos levar um pra casa? — perguntou à mãe.

— Não, meu bem, eles precisam ficar aqui e proteger o rei.

— Mas o rei tem tantos! Não podemos levar um só?

Atendendo a um "convite especial" — palavras de Anne —, Richard tirou uma tarde de folga e levou a esposa e o filho ao West End para assistirem à tradicional pantomima inglesa Joãozinho e o Pé de Feijão, representada no London Hippodrome. William gostou muito de Joãozinho e imediatamente desejou abater todas as árvores que via, imaginando um monstro escondido atrás de cada uma delas. Após o espetáculo, tomaram chá na Fortnum & Mason, no Piccadilly, e Anne permitiu a William comer dois confeitos de passas de Corinto com creme e uma novidade a que davam o nome de sonho. Depois disso, diariamente William exi­gia dela que o acompanhasse ao salão de chá da Fortnum para comer outro "confeito de sonho", como passou a chamá-lo.

As férias passavam com rapidez para William e a mãe, en­quanto Richard, contente com os progressos que fazia na Lombard Street e satisfeito com o presidente recém-nomeado, começava a desejar o dia do regresso. Todos os dias recebia de Boston telegramas que o deixavam ansioso por retornar a seu gabinete. Finalmente, quando uma dessas mensagens o informou de que dois mil e quinhentos trabalhadores de uma fiação de Lawrence, Massachusetts, na qual o banco investira uma soma considerável, tinham entrado em greve, Richard respirou aliviado ao verificar que estava a apenas três dias da data marcada para o retorno.

William não via o momento de voltar, para reunir-se com as avós e contar ao sr. Munro as coisas emocionantes que fizera na Inglaterra. Estava convencido de que nunca haviam experi­mentado nada tão emocionante quanto a visita a um teatro de verdade, com seu público costumeiro. Também Anne sentia-se feliz com a volta, embora tivesse desfrutado a viagem quase tanto quanto William, pois suas roupas e sua beleza tinham sido admiradas pelos normalmente discretos ingleses. Como último passeio oferecido a William um dia antes de embarcarem, Anne o levou a uma reunião de chá na Eaton Square, organizada pela esposa do recém-empossado presidente da filial de Londres. Ela também tinha um filho, Stuart, de oito anos — e William apren­dera a considerá-lo, durante as duas semanas em que haviam brincado juntos, um insubstituível amigo mais crescido. A reunião, porém, transcorreu numa atmosfera algo melancólica, porque Stuart sentia-se indisposto e William, num gesto de solidariedade, anunciou à mãe que também adoecera. Anne e William retornaram ao Ritz Hotel antes do horário previsto. Convencida de que William simplesmente fingira indisposição para agradar a Stuart, o fato não a preocupou seriamente, uma vez que ganhava um pouco mais de tempo para verificar a arrumação das grandes malas de viagem. Nessa noite, porém, ao colocá-lo na cama, des­cobriu que o menino tinha dito a verdade, pois estava levemente febril. Durante o jantar, comentou o fato com Richard.

— Talvez seja apenas um excitamento pela perspectiva de voltar para casa — sugeriu ele, sem mostrar-se preocupado.

— Espero que sim — disse Anne. — Não quero que ele adoeça numa viagem marítima de seis dias.

— Amanhã ele estará bem — disse Richard, sem dar impor­tância.

Na manhã seguinte, porém, Anne encontrou William coberto de manchas vermelhas e com temperatura de trinta e oito graus. O médico em serviço no hotel diagnosticou sarampo e insistiu polidamente em que o menino não viajasse de modo algum, não apenas para o bem dele, mas também dos demais passageiros. Nada havia a fazer senão mantê-lo em repouso com uma bolsa de água quente e esperar a partida do próximo navio. Richard não estava em condições de arcar com um atraso de três semanas e resolveu embarcar, como planejara. A contragosto, Anne concordou com as apressadas alterações de reserva de passagens. William pediu ao pai que o deixasse acompanhá-lo: o Aquitania só voltaria a Southampton dali a vinte e um dias, um período que lhe parecia uma eternidade. Richard manteve-se inflexível e contratou uma enfermeira para cuidar de William e convencê-lo de seu precário estado de saúde.

Anne acompanhou Richard até Southampton no novo Rolls-Royce.

— Vou me sentir sozinha sem você aqui, Richard — aven­turou-se ela a dizer, timidamente, na hora da despedida, expondo-se à desaprovação de Richard quanto às mulheres emotivas.

— Bom, minha querida, acho provável que sem você eu também vá me sentir um tanto sozinho em Boston — disse ele, com o pensamento voltado para os grevistas da fiação.

Anne voltou de trem a Londres, sem saber como empregaria o tempo nas três semanas seguintes. William passou uma noite tranqüila, e pela manhã as erupções pareciam menos ameaçado­ras. O médico e a enfermeira foram unânimes, porém, em insistir no prolongamento do repouso. Anne ocupava o tempo livre escre­vendo longas cartas à família, enquanto William, não sem queixas, continuava deitado; mas na manhã de quinta-feira, já de volta ao seu estado normal, William levantou-se cedo e foi ao quarto da mãe. Subiu na cama, chegando-se bem próximo dela, e suas mãos frias a despertaram imediatamente. Com alívio, Anne o viu de todo recuperado. Telefonou à gerência e solicitou que o café da manhã para dois fosse servido na cama, uma concessão com a qual o pai de William não teria concordado.

Após bater levemente à porta, um camareiro de libré dourada e vermelha entrou, carregando enorme bandeja de prata. Ovos, bacon, tomate, torrada e geléia de laranja. William devorou a refeição, como se não se lembrasse da última vez em que havia se alimentado fartamente. Anne, despreocupada, folheou o jornal matutino. Em Londres, Richard costumava ler The Times, e a gerência presumira que ela também o pediria.

— Olhe aqui — disse William, arregalando os olhos ante a fotografia impressa numa das páginas internas —, é o navio do papai. Mamãe, o que quer dizer ca-tás-tro-fe?

A fotografia do Titanic ocupava quase toda a página do jor­nal.

Esquecendo-se de como deveria comportar-se uma Cabot ou uma Kane, Anne explodiu num choro desesperado, agarrando-se ao filho único. Sentados na cama, ficaram abraçados, sem que William atinasse com o que estava acontecendo. Anne compreen­deu que ambos tinham perdido a pessoa que mais amavam neste mundo.

Sir Piers Campbell, pai do pequeno Stuart, chegou quase imediatamente em seguida à suíte 10 do Ritz Hotel. Aguardou na saleta enquanto a viúva vestia um tailleur, a única peça de roupa escura de que dispunha. William trocou-se, sem saber ainda o que significava "catástrofe". Anne solicitou a sir Piers que expusesse todas as implicações da notícia ao filho, que simplesmente disse: "Eu quis ir no navio com ele, mas ninguém deixou". Não chorou, porque se recusava a crer que algo pudesse matar o pai. Ele esta­ria entre os sobreviventes.

Em toda a sua carreira de político, diplomata e então presi­dente do Kane & Cabot, de Londres, sir Piers nunca vira numa criança tal autodomínio. "Poucos têm presença de espírito", diria anos mais tarde. "Richard Kane era um deles, e a transmitira ao único filho." Na quinta-feira dessa semana, William fez seis anos, mas não abriu o pacote de nenhum dos seus presentes.

As listas de sobreviventes, que chegavam com intermitência dos Estados Unidos, eram examinadas e reexaminadas por Anne. Cada uma delas confirmava que Richard Lowell Kane estava desa­parecido no mar. Depois de uma semana, até mesmo William quase abandonou a esperança de encontrar o pai entre os sobre­viventes.

Anne relutou em subir a bordo do Aquitania, mas William mostrou-se estranhamente ansioso por embarcar. Hora após hora, ficava sentado no convés, olhando as águas.

— Amanhã vou encontrá-lo — prometeu à mãe, a princípio confiante, mas depois com um tom de voz que mal escondia a descrença.

— William, ninguém consegue sobreviver três semanas no Atlântico Norte.

— Nem mesmo meu pai?

— Não, meu filho.

Em Boston, Anne era aguardada pelas avós na Red House, atentas ao dever que se lhes impusera.

A responsabilidade de novo se transferira às avós. Anne aceitou passivamente o papel de proprietárias que elas passa­ram a assumir. A vida não tinha agora quase nenhuma finali­dade, a não ser William, cujo destino as duas mulheres pareciam decididas a controlar. William era cortês, mas não demonstrava espírito de colaboração. Durante o dia, permanecia silencioso na aula do sr. Munro, e à noite chorava no regaço da mãe.

– Ele precisa é da companhia de outras crianças — afirmaram energicamente as avós, e, depois de despedirem o sr. Munro e a babá, colocaram William na Sayre Academy, na esperança de que uma iniciação ao mundo real e a companhia regular de outras crianças o fizessem recuperar a antiga vivacidade.

Richard deixara a William a maior parte de seus bens, que permaneceriam em depósito junto com o legado da família até que ele completasse vinte e um anos. Uma cláusula adicio­nal acompanhava o testamento. Richard desejava que o filho se tornasse presidente do Kane & Cabot por méritos próprios, e este foi o único aspecto do testamento do pai que o animou, pois o restante lhe pertencia por direito natural. Anne recebera um capital de quinhentos mil dólares e pensão vitalícia de cem mil dólares anuais, livre de obrigações legais, que seria suspensa com um segundo casamento. Recebeu ainda a casa de Beacon Hill, a mansão de verão de North Shore, a casa do Maine e uma ilhazinha próxima de Cape Cod, que seriam transmitidas ao filho por ocasião de sua morte. As avós receberam duzentos e cinqüenta mil dólares e cartas que não deixavam dúvida quanto às suas responsabilidades para com o menino, se Richard falecesse antes delas. A herança da família seria administrada pelo banco, e os padrinhos de William desempenhariam as funções de co-curadores. Os rendimentos do capital seriam reinvestidos a cada ano em empreendimentos conservadores.

Passado um ano, as avós abandonaram o luto, e Anne, em­bora com vinte e oito anos, pela primeira vez na vida aparentava a idade que tinha.

As avós, ao contrário de Anne, ocultavam seu sofrimento ao neto, que um dia as censurou por isso.

— Não sentem falta de papai? — e fitava a avó Kane com os olhos azuis que despertavam nela a lembrança do próprio filho.

— Sim, filhinho, mas ele não gostaria de que ficássemos sentadas, chorando.

— Quero que a gente sempre se lembre dele, sempre — retrucou o menino, a voz embargada.

— William, pela primeira vez vou me dirigir a você como se fosse um homem feito. Zelaremos sempre pela memória de seu pai, e a você caberá desempenhar seu papel, vivendo de acordo com as expectativas dele. Você agora é o chefe da família, o herdeiro de uma imensa fortuna. Por isso, com o trabalho, deverá se preparar para assumir essa herança com a mesma disposição de espírito com que seu pai, pensando em você, trabalhou para aumentar seu patrimônio.

William não respondeu. Tinha acabado de encontrar o estí­mulo para viver que antes lhe faltava, e começou a agir segundo os conselhos da avó. Sem nenhum lamento, aprendeu a conviver com a dor, e, resoluto, entregou-se, a partir desse momento, às tarefas escolares, dando-se por satisfeito apenas quando a avó Kane se mostrava impressionada. Era excelente em todas as ma­térias, e em matemática não só alcançou o primeiro lugar da classe, como também estava bastante adiantado para a sua idade. Decidira superar o pai em tudo. Pouco a pouco foi estreitando as relações com a mãe, e passou a ver com desconfiança qualquer pessoa que não pertencesse ao círculo familiar, de modo que muitos o consideravam amiúde um menino solitário e, injusta­mente, pretensioso.

No sétimo aniversário de William, as avós decidiram que já era tempo de lhe ensinar o valor do dinheiro. Assim, deram-lhe, para pequenas despesas, um dólar por semana, mas persua­diram-no a contabilizar cada cent que viesse a gastar. Com esse conselho em mente, muniram-se de um livro razão com capa de couro verde, comprado por noventa e cinco cents, que foram deduzidos da primeira mesada semanal de um dólar. A partir da segunda semana, a cada manhã de sábado as avós dividiam o dólar. William investia cinqüenta cents, gastava vinte, doava dez a uma instituição de caridade de sua escolha e guardava vinte. Ao final de cada trimestre, as avós fiscalizariam o livro razão e o registro que ele tivesse feito de alguma eventual transação. Passados os primeiros três meses, William já estava preparado para prestar contas por si mesmo. Doou um dólar e trinta cents à recém-fundada Associação dos Escoteiros dos Estados Unidos da América e investiu cinco dólares e cinqüenta e cinco cents que, a seu pedido, a avó Kane aplicou numa caderneta de pou­pança no banco do padrinho, J. P. Morgan. Gastou dois dólares e sessenta cents, que não precisou registrar, e reservou também dois dólares e sessenta. O livro razão constituiu uma fonte de grande alegria para as avós: sem dúvida, William era filho de Richard Kane.

Na escola, William fizera poucas amizades, em parte por­que relutava em se relacionar com quem não fosse um Cabot ou um Lowell, ou com crianças de famílias menos abastadas que a sua. Suas escolhas eram rigorosamente cerceadas por essa atitude, que o tornava um menino algo cismarento, motivo de apreensão para a mãe, que lhe desejava uma vida mais normal e no íntimo desaprovava o livro razão e os programas de in­vestimento. Na opinião de Anne, seria preferível que William tivesse vários amiguinhos novos em lugar das velhas assessoras; que se sujasse e machucasse e não se conservasse limpo e ileso; que apanhasse sapos e tartarugas em vez de colecionar relatórios sobre ações e sociedades comerciais; que fosse, em suma, igual a qualquer garoto da idade dele. Mas Anne nunca teve coragem de confessar às avós suas preocupações, e, de qualquer modo, elas não se interessariam por outro tipo de garoto.

No nono aniversário, William apresentou às avós o livro razão para que fosse feita a segunda inspeção anual. O volume de couro verde registrava uma economia de mais de cinqüenta dólares em dois anos. Ele se mostrou particularmente orgulhoso de si mesmo ao destacar uma anotação assinalada com um B6, que revelava que ele havia sacado o dinheiro do banco de J. P. Morgan imediatamente após a morte do grande financista ter sido anunciada. Ele próprio tinha observado a queda do valor das ações do banco do pai depois de divulgado seu falecimento. Três meses depois, voltara a aplicar a mesma importância, antes que o público tomasse consciência de que a companhia era bem maior do que um único homem.

As avós ficaram devidamente impressionadas e permitiram que William vendesse a velha bicicleta e comprasse uma nova. Depois dessa transação, ele contava ainda com um capital supe­rior a cem dólares, que, a seu pedido, a avó aplicou na Standard Oil Company de Nova Jersey. O petróleo, assinalou o menino com conhecimento de causa, só tenderia a subir. William mante­ve escrupulosamente em dia o razão até completar vinte e um anos. Estivessem vivas as avós por essa época, ter-se-iam orgu­lhado do último registro na coluna da direita: "Ativo".

 

Entre os que não morreram, apenas Wladek conhecia bem as masmorras. Nos dias em que brincara de esconde-esconde com Leon, passara horas felizes na liberdade dos cubículos de pedra, despreocupado por saber que acharia o caminho de volta ao castelo quando o desejasse.

No conjunto, havia quatro masmorras em dois planos. Dois dos cárceres, um grande e um pequeno, situavam-se ao nível do solo. O menor era contíguo à parede do castelo, o que propi­ciava um fraco filtro de luz, que atravessava a abertura gradeada feita nas pedras, bem no alto. Cinco degraus abaixo havia mais dois cubículos de pedra, mergulhados numa perpétua es­curidão e mal-arejados. Wladek levou o barão à pequena masmorra do plano superior, em cujo canto o homem se sentou, calado e imóvel, fitando fixamente o vazio; em seguida, o me­nino designou Florentyna como serviçal do barão.

Uma vez que Wladek era o único que ousava ficar na companhia do barão, sua autoridade nunca foi posta em dúvida pelos criados. Assim, aos nove anos de idade, Wladek assumiu a responsabilidade sobre o cotidiano de seus companheiros de cela. Na masmorra, transformou-se no senhor deles. Dividiu os vinte e quatro criados em três grupos de oito, procurando, na medida do possível, manter juntas as famílias. Substituía-os regularmente, em turnos: as primeiras oito horas eram passadas nas masmorras superiores, para ver a luz do dia, respirar, ali­mentar-se e fazer exercícios; o segundo turno, e o mais comum, era constituído por oito horas de serviços no castelo, para o oficial e os soldados, e as oito horas finais eram dedicadas ao sono numa das masmorras inferiores. Exceto o barão e Floren­tyna, ninguém sabia ao certo em que momento Wladek dormia, uma vez que ao final de cada turno estava presente, supervisio­nando a troca de criados. O alimento era distribuído a inter­valos de doze horas. Os guardas entregavam-lhe um odre de leite de cabra, pão preto, painço e, por vezes, algumas casta­nhas, que Wladek dividia por vinte e oito, sempre dando ao barão, mas sem permitir que ele tomasse conhecimento disso, duas partes. Os novos ocupantes das masmorras, já com a sere­nidade convertida pelo confinamento num deplorável estupor, nada viam de estranho numa circunstância que colocara suas vidas sob o controle de um menino de nove anos.

Tão logo organizava um turno, Wladek voltava ao seu lugar junto do barão, na masmorra pequena. A princípio esperou ser orientado por ele, mas o olhar sempre parado do amo era tão implacável e desolado quanto o das sentinelas alemãs, cons­tantemente substituídas. Desde o momento em que fora feito cativo dentro do próprio castelo, o barão não tinha dito uma palavra. Sua barba crescera, emaranhada, até o peito, e o corpo forte começava a definhar. O olhar altivo de outrora dera lugar à resignação. Wladek guardava uma vaga lembrança da voz agradável do benfeitor e habituara-se à idéia de que jamais tornaria a ouvi-la. Em pouco tempo aprendeu a atender às von­tades tácitas do barão, permanecendo em silêncio na presença dele.

Wladek não se lembrava de alguma vez, quando vivia na segurança do castelo, ter ficado horas pensando no dia anterior. Agora era incapaz de se lembrar até mesmo da hora precedente, pois nada mudava. Minutos desesperançados se transformavam em horas, horas em dias, e depois em meses, cuja seqüência ele logo perdia. Não fosse pela chegada do alimento, das trevas e da luz, nunca tomaria conhecimento do transcorrer de outras doze horas. A intensidade da luz, que de vez em quando cedia lugar a temporais, sucedida pela neve que se moldava às paredes da masmorra e que só se derretia com o surgimento de um novo sol, anunciava cada estação de uma maneira que Wladek jamais teria aprendido numa aula sobre a natureza. No decurso das noites intermináveis, o mesmo sentia com maior agudez o cheiro repugnante de morte que impregnava os cantos mais re­cuados das quatro masmorras, de quando em quando atenuado pelo sol da manhã, por uma brisa gelada ou, alívio bendito, pelo retorno das chuvas.

Ao final de um dia de chuva incessante, Wladek e Florentyna aproveitaram uma poça de água que se formara no chão de pedras da masmorra superior para lavarem-se. Nenhum deles reparou que o barão, com olhar atento, observava Wladek, que arrancara a camisa rota e, como um cão, rolava sobre a água um pouco turva, esfregando-se até que aparecessem traços bran­cos de pele limpa. De repente, o barão falou:

— Wladek — a palavra saiu quase inaudível —, não o vejo com nitidez — disse, a voz vacilante. — Chegue até aqui.

Wladek nem sequer olhou para ele, estupefato por ouvir a voz do benfeitor depois de tão prolongado período de silêncio. Estava convencido de que ela predizia o começo da loucura que já se tinha apoderado dos dois criados mais velhos.

— Chegue até aqui, menino.

Receoso, Wladek obedeceu, parando na frente dele. Num esforço de máxima concentração, o barão estreitou os olhos enfraquecidos enquanto tateava na direção do garoto. Correu o dedo pelo peito de Wladek e, incrédulo, perguntou:

— Wladek, saberia me explicar o porquê desta pequena anomalia?

— Não, senhor — Wladek ficou embaraçado. — É de nascença. Minha mãe adotiva dizia que era o sinal de Deus nosso Pai em mim.

— Que mulher tola. É a marca do seu próprio pai — disse com brandura o barão, e mergulhou por alguns minutos no silêncio.

Wladek continuou diante dele, imóvel.

Quando por fim o barão voltou a falar, sua voz soou forte:

— Sente-se, garoto.

Wladek obedeceu imediatamente. Ao se sentar, de novo teve a atenção atraída pela pesada pulseira de prata, que agora pendia frouxamente do pulso do barão. Um raio de luz que penetrava por uma fenda na parede caía sobre a magnífica gra­vação do brasão dos Rosnovskis, que rutilava na obscuridade da masmorra.

— Não tenho idéia de quanto tempo mais os alemães pre­tendem nos manter trancados aqui. No começo acreditei que essa guerra terminaria numa questão de semanas. Errei, e agora devemos considerar a possibilidade de que continue durante muito tempo. Tenhamos isso em mente e procuremos empregar de modo mais construtivo nosso tempo, pois sei que minha vida está chegando ao fim.

— Não, não — objetou Wladek. Mas o barão prosseguiu:

— Sua vida, meu pequeno, mal começou. Por esse motivo, quero assegurar-lhe a continuação do seu aprendizado.

Nesse dia o barão não tornou a falar, como se refletisse nas conseqüências de sua decisão. Assim Wladek ganhou um novo preceptor, e, como não dispusessem de material de leitura e de escrita, seguiu a orientação do barão, repetindo tudo o que ele lhe dizia. Aprendeu longos trechos de poemas de Adam Mickiewicz e Jan Kochanowski e extensas passagens da Eneida. No interior daquela sala de aula sombria, Wladek aprendeu geogra­fia, matemática e quatro línguas: russo, alemão, francês e inglês. Mas, mais uma vez, seus momentos mais felizes eram reservados às aulas de história: a história de sua nação ao longo de centenas de anos de divisões, as frustradas esperanças de uma Polônia unida, a angústia ulterior dos poloneses com a derrota esmaga­dora de Napoleão pela Rússia em 1812. Wladek ficou conhe­cendo as admiráveis narrativas de uma época mais antiga e venturosa, quando o rei João Casimiro consagrou a Polônia à Virgem Santa, depois de ter rechaçado os suecos em Czestochowa, e soube como o poderoso príncipe Radziwill, grande proprietário de terras e amante da caça, defendera sua corte no enorme cas­telo próximo de Varsóvia. A última lição de cada dia era sobre a história da família dos Rosnovskis. Repetidas vezes, ele ouviu — sem nunca se cansar — como o ilustre antepassado do barão, que lutara em 1794 sob o comando do general Dabrowski, e mais tarde, em 1809, sob as ordens do próprio Napoleão, fora recompensado pelo grande imperador com uma propriedade e um baronato. Aprendeu também como o avô do barão se tor­nara membro do conselho de Varsóvia, e como o pai dele de­sempenhara seu dever na construção da nova Polônia. Wladek sentia uma grande felicidade quando o barão transformava a masmorra numa sala de aula.

Os guardas que se postavam à porta da masmorra se reve­zavam de quatro em quatro horas, e a comunicação entre eles e os prisioneiros era strengst verboten. A intervalos, e aos pedaços, Wladek tomava conhecimento do curso da guerra, dos avanços de Hindenburg e Ludendorff, do surgimento da revolução na Rússia e de sua posterior retirada da guerra pelo Tratado de Brest-Litovsk.

Wladek começara a crer que seus companheiros só sairiam da masmorra mortos. Ao longo dos dois anos que se seguiram, as portas foram abertas nove vezes, e Wladek já se perguntava se não estaria destinado a passar o resto de seus dias trancafiado naquela cela infernal, lutando uma batalha vã contra o desespero, enquanto enriquecia o espírito com um conhecimento inútil, pois jamais conheceria a liberdade.

Não obstante o progressivo enfraquecimento da visão e da audição, o barão continuava a educá-lo. A cada dia, Wladek pre­cisava sentar-se mais e mais perto dele.

Florentyna — sua irmã, mãe e amiga íntima — consumia-se numa luta mais física contra a sordidez da prisão. De vez em quando as sentinelas lhe forneciam um novo balde com areia ou palha com que cobria o chão sujo, e durante alguns poucos dias o mau cheiro se tornava menos opressivo. Na obscuridade, inse­tos nocivos surgiam por toda parte, à cata de farelos de pão ou de batata, e com eles traziam doença e mais imundície. O fedor ácido de urina e dos excrementos decompostos, humanos e ani­mais, agredia-lhes as narinas e constantemente causava a Wladek um estado de mal-estar e de náusea. Ele desejava sobretudo poder voltar ao asseio, e sentava-se durante horas, a fitar o teto da masmorra, relembrando os canos fumegantes de água quente e o bom sabonete com o qual a babá costumava, não muito longe dali e não muito tempo atrás, limpar a sujeira adquirida por ele e por Leon num mero dia de brincadeiras, enquanto resmungava sem parar por causa de joelhos enlameados ou sacudia a cabeça devido a uma unha encardida.

Na primavera de 1918, apenas quinze dos vinte e seis pri­sioneiros ali jogados com Wladek continuavam vivos. O barão era sempre tratado por todos como patrão, e Wladek tinha se tornado seu ecônomo. Wladek sofria por sua amada irmã, agora com vinte anos. Havia muito Florentyna perdera as esperanças, e estava convencida de que passaria o resto dos seus dias na masmorra. Na presença dela, Wladek nunca dera mostras de de­sespero, mas, embora estivesse apenas com doze anos, também começava a duvidar se teria a coragem de acreditar em algum futuro.

Certa noite, no começo do outono, Florentyna procurou Wladek na masmorra mais espaçosa.

— O barão quer falar com você.

Wladek levantou-se prontamente, e, encarregando o criado mais velho da distribuição da comida, foi até ele. O sofrimento físico da barão era agudo, e Wladek viu, com uma nitidez estarrecedora — pela primeira vez —, como a doença havia corroído partes inteiras da carne do barão, e como restava apenas uma pele mosqueada de verde a cobrir um rosto já esquelético. Ele pediu água, e Florentyna a trouxe numa caneca, que se equili­brava na ponta de uma vara metida entre as grades de pedra. Quando terminou de beber, o barão falou pausadamente e com grande dificuldade:

— Você presenciou tantas mortes, Wladek, que mais uma não fará muita diferença. Confesso que já não temo deixar este mundo.

— Não, não, não será assim — exclamou Wladek, abraçando-se ao velho pela primeira vez. — Estamos quase triunfando. Barão, não desista. Os guardas me disseram que a guerra está chegando ao fim e seremos logo libertados.

— Wladek, há meses eles vêm falando do fim da guerra. Não podemos continuar confiando nisso, e, de qualquer maneira, acho que não tenho vontade de viver no novo mundo que estão criando.

O barão interrompeu-se ao ouvir o garoto chorar. Pensou em recolher essas lágrimas como se fossem água potável, mas então lembrou-se de que lágrimas são salgadas e sorriu.

— Wladek, vá chamar meu mordomo e meu lacaio.

Wladek obedeceu-lhe prontamente, sem saber por que se fazia necessária a presença deles.

Os dois criados, despertados de um sono pesado, foram postar-se diante do barão. Depois de três anos de cativeiro, o sono era a comodidade mais fácil de se obter. Eles ainda trajavam as librés enfeitadas, mas já não se podia dizer que outrora aque­las tinham sido as gloriosas cores verde e dourada dos Rosnovskis. Ficaram ali de pé, em silêncio, aguardando a palavra do amo.

— Eles estão aqui, Wladek? — perguntou o barão.

— Sim, senhor. Não pode vê-los?

Wladek compreendeu, pela primeira vez, que o barão estava completamente cego.

— Traga-os para mais perto, para que eu possa tocá-los.

Wladek fez com que os dois homens se aproximassem dele, e então o barão tocou-lhes o rosto.

— Sentem-se — ordenou. — Ludwik, Alfons, estão me ouvindo?

— Sim, senhor.

— Eu me chamo barão Rosnovski.

— Sabemos, senhor — replicou ingenuamente o mordomo.

— Não me interrompa — disse o barão. — Estou prestes a morrer.

A morte se tornara tão comum que os dois homens não fizeram nenhuma objeção.

— Estou impossibilitado de fazer um novo testamento, uma vez que não tenho papel, pena ou tinta. Sendo assim, faço-o na presença de vocês, que servirão de testemunhas, tal como reco­nhece a antiga lei da Polônia. Entendem o que digo?

— Sim, senhor — responderam os dois homens em unís­sono.

— Meu filho, Leon, está morto. — O barão fez uma pausa. — Por essa razão, deixo toda a minha propriedade e todos os meus bens para o menino conhecido como Wladek Koskiewicz.

Havia muitos anos que Wladek não ouvia seu sobrenome, e não foi capaz de compreender imediatamente o significado das palavras do barão.

— E como prova da minha decisão — continuou o barão —, dou a ele a pulseira da família.

O velho ergueu devagar o braço direito, tirou do pulso a pulseira de prata e estendeu-a para um Wladek emudecido, a quem segurou com firmeza, correndo os dedos pelo peito do me­nino, como que querendo certificar-se de que era ele mesmo.

— Meu filho — disse, colocando a pulseira de prata no pul­so do menino.

Wladek chorou, e ficou nos braços do barão a noite toda, até que não mais ouviu o pulsar do coração dele e sentiu seus dedos se enrijecerem. Pela manhã o corpo do barão foi removido pelas sentinelas, que permitiram a Wladek enterrá-lo ao lado de Leon, no cemitério da família, junto à capela. Quando o corpo foi baixado na cova rasa, que Wladek mesmo cavou, a camisa rota do barão se abriu. Wladek olhou perplexo o peito do morto.

Ele tinha um mamilo só.

 

Foi desse modo que, aos doze anos de idade, Wladek Kos­kiewicz herdou vinte e quatro hectares de terra, um castelo, dois solares, vinte e sete chalés e uma valiosa coleção de quadros, mó­veis e jóias, embora continuasse vivendo numa estreita cela de pedra abaixo do solo. Desse dia em diante passou a ser consi­derado pelos prisioneiros como amo legítimo, cujo império se limitava a quatro masmorras, o séquito de treze criados alquebrados e o amor de Florentyna.

Retornou ao que já era uma rotina interminável, até que chegou o inverno de 1918. Num dia ameno e seco, uma rajada de tiros e o ruído de uma luta rápida atingiu os ouvidos dos cativos. Wladek teve como certo que o Exército polonês vinha resgatá-lo e que então poderia requerer a herança que lhe cabia de direito. Quando os alemães abandonaram a porta de ferro das masmorras, os ocupantes correram às pressas para as celas inferiores e lá se encolheram, num silêncio aterrador. Wladek ficou sozinho diante da porta, girando a pulseira de prata em torno do pulso, triunfante, aguardando os salvadores. Finalmente surgiram os combatentes que tinham derrotado os alemães, fa­lando a rude língua eslava, com a qual ele se familiarizara nos dias de estudo e que aprendera a temer bem mais que a alemã.

Wladek e seus companheiros foram levados ao corredor, onde, depois de esperarem algum tempo, foram sumariamente inspe­cionados e então devolvidos às masmorras. Os conquistadores recém-chegados não sabiam que aquele menino de doze anos de idade era o senhor de todos os que estavam sob a vigilância deles. E não falavam a língua de Wladek. As ordens eram claras e in­contestáveis: matar os inimigos que resistissem ao acordo de Brest-Litovsk, que transformara em domínio deles aquela região da Polônia, e enviar os não-resistentes ao campo de prisioneiros 201, onde passariam o resto de seus dias. Os alemães haviam ba­tido em retirada para se refugiar no novo limite de fronteira, enquanto Wladek e seu séquito esperavam por uma vida nova, ignorantes do destino que os espreitava.

Após duas noites nas masmorras, Wladek se convenceu de que continuariam encarcerados por um longo espaço de tempo. Em nenhum momento as novas sentinelas lhes dirigiam a pala­vra, o que o fazia lembrar-se da vida de três anos atrás; ele co­meçava a perceber que a disciplina, que com os alemães pouco a pouco fora se abrandando, agora voltava de novo a ser severa.

Na manhã do terceiro dia, para extrema surpresa de Wladek, todos foram levados ao gramado situado em frente ao castelo, quinze corpos imundos e debilitados. Dois dos criados desmaia­ram com o impacto da luz do sol, à qual já estavam desacostu­mados. Wladek também viu na intensa luminosidade um incon­veniente, e protegeu o rosto com as mãos. De pé no gramado, e em silêncio, os prisioneiros aguardavam; afinal, os soldados lhes ordenaram que se despissem e descessem ao rio para se ba­nhar. Depois de esconder entre as roupas a pulseira de prata, Wladek correu em direção à margem, as pernas bamboleando antes mesmo de alcançá-la. Saltou dentro do rio, arquejando ao entrar em contato com a água gelada, embora agradável à pele. Os demais prisioneiros o seguiram e em vão procuraram remover três anos de sujeira.

Quando Wladek, já exausto, saiu do rio, reparou que alguns soldados observavam estranhamente Florentyna lavar-se. Riam e apontavam para ela, mas não demonstravam ter o mesmo grau de interesse pelas outras mulheres. Um deles, um sujeito granda­lhão e repulsivo, que em nenhum momento tirou os olhos de cima de Florentyna, esperou-a voltar do rio e, quando ela passou por ele, agarrou-a pelo braço e arrojou-a ao chão. Em seguida, ávido e apressado, começou a arrancar as próprias roupas, dis­pondo-as metodicamente na grama. Sem acreditar naquela visão, perplexo diante do pênis ereto e dilatado do homem, Wladek investiu contra o soldado, que imobilizava Florentyna no chão, metendo a cabeça contra a boca do estômago dele com toda a força que pôde reunir. O homem recuou, cambaleante, e um se­gundo soldado, num salto, apossou-se de Wladek, torcendo-lhe os braços atrás das costas. Atraídos pelo tumulto, outros solda­dos acorreram. O que tinha agarrado Wladek desatou num riso sonoro e sôfrego, que nada tinha de engraçado. As palavras dos soldados só contribuíram para agravar o desespero de Wladek.

— Comece com esse valente defensor — falou o primeiro.

— Venha cá defender a honra da sua nação, venha — pro­vocou o segundo.

— Pelo menos ele vai poder ver o palco de ação da primeira fila - zombou o soldado que o prendia.

Mais risos entrecortaram os comentários, que nem sempre Wladek compreendia. O soldado nu, o corpo rijo e gordo, avan­çou devagar em direção a Florentyna, que se pôs a gritar. Wla­dek se debateu, numa tentativa desesperada de escapar às garras que o apertavam como um torno, mas viu-se impotente nos bra­ços do soldado. O homem nu jogou-se desastradamente sobre Florentyna e a beijou, para em seguida esbofeteá-la, revidando os esforços que ela fazia para repeli-lo e desviar o rosto. Afinal penetrou-a violentamente. Ela emitiu um grito agudo e longo como nunca Wladek ouvira antes. Os guardas continuaram a conversar e a rir entre si, indiferentes ao que estava aconte­cendo.

— Eta virgem danada! — exclamou o primeiro soldado, afastando-se dela.

Todos romperam em risos.

— Você acabou de me facilitar um pouco a coisa — falou o segundo guarda.

E gargalhavam. Florentyna olhou fundo nos olhos de Wla­dek, que não pôde conter a ânsia de vômito. O soldado que o agarrava não demonstrou outra preocupação a não ser a de evitar que o vômito lhe sujasse o uniforme e as botas. O primeiro sol­dado, com o pênis coberto de sangue, disparou para o rio, sol­tando urros ao mergulhar na água. Enquanto o segundo homem se despia, um terceiro esforçava-se por manter Florentyna con­tra o solo. O segundo guarda prolongou o prazer um pouco mais, e, ao que parecia, encontrava gosto em maltratá-la; quando afi­nal a penetrou, ela tornou a gritar, mas dessa vez mais fraco.

— Saia pra lá, Valdi. Já aproveitou bastante.

O homem separou-se dela bruscamente e foi juntar-se ao outro no rio. Wladek obrigou-se a erguer o olhar para Floren­tyna, já machucada e sangrando entre as pernas. O soldado que o detinha voltou a falar:

— Boris, venha segurar este bastardo. Agora é a minha vez.

O primeiro soldado deixou o rio e segurou Wladek com firmeza. De novo ele estrebuchou, querendo esmurrá-lo, o que só provocou risos mais fortes.

— Agora a gente sabe qual é a força do Exército polonês.

Enquanto reverberavam os risos intoleráveis, um outro guarda se despiu e desempenhou sua parte no revezamento, mas Florentyna permaneceu indiferente a seus encantos. No momen­to em que corria para o rio, depois de ter terminado, o segundo soldado retornou, recolheu as roupas e vestiu-se.

— Ela já está começando a gostar da coisa — falou, sen­tando-se ao sol e observando o companheiro.

O quarto soldado se aproximou de Florentyna. Quando a alcançou, virou-a de bruços e abriu-lhe as pernas, afastando-as o mais possível, fazendo as mãos enormes deslizarem rapidamente pelo corpo frágil. O grito que ela soltou ao ser penetrada logo se transformou num gemido.

Wladek contou dezesseis soldados que sucessivamente estu­praram a irmã.

- Acho que trepei com um cadáver — praguejou o último soldado, tão logo consumou o ato e a abandonou, inerte, na relva.

Enquanto, mal-humorado, o último soldado rumava para o rio, todos gargalharam ainda mais alto. Por fim Wladek foi solto e correu para Florentyna. Os soldados estiraram-se, bebendo o vinho e a vodca saqueados da adega do barão e comendo o pão tirado da cozinha.

Auxiliado por dois criados, Wladek levou o corpo delicado de Florentyna à margem do rio, onde, entre soluços, limpou-lhe o sangue e as machucaduras. Era inútil, porém, pois ela estava coberta de lesões e ensangüentada, insensível a cuidados e inca­paz de falar. Após tentar tudo o que pôde, Wladek cobriu-a com a camisa e tomou-a nos braços. Com ternura, beijou-a nos lábios — a primeira mulher que ele beijava. Embora a mantivesse nos braços, sabia que ela não o reconhecia, e quando as lágrimas que lhe escorriam pelas faces caíram sobre o corpo injuriado, sentiu que ela desfalecera inteiramente. Chorando, afastou-se da margem, carregando o corpo morto. Os soldados, agora emudecidos, segui­ram-no com o olhar até a capela. Ele a deitou na grama junto ao túmulo do barão e começou a escavar a terra com as mãos. Quando terminou, o sol agonizante já projetava a longa sombra do castelo sobre o cemitério. Wladek enterrou Florentyna ao lado de Leon, e à cabeceira dela fincou uma cruz feita com dois gravetos. De­pois, deixou-se cair ao chão entre Leon e Florentyna e, extenua­do, adormeceu, sem se preocupar se voltaria a acordar.

 

No mês de setembro, William retornou à Sayre Academy disposto a encontrar um rival entre os colegas mais velhos. Fosse qual fosse a natureza daquilo que se propunha a aprender, só se dava por satisfeito quando alcançava distinção, e os garotos de sua idade quase sempre se mostravam adversários fracos. Wil­liam logo percebeu que os meninos de educação privilegiada, como a sua, na grande maioria careciam de estímulo para a com­petição; a rivalidade mais ferrenha procedia daqueles que, com­parados com ele, contavam com relativamente poucos privilé­gios.

Em 1915, a mania de colecionar rótulos de caixas de fósfo­ro tomou conta da Sayre Academy. Durante uma semana William acompanhou esse frenesi com enorme interesse, mas não aderiu. Poucos dias depois, os rótulos comuns estavam mudando de dono por uma moeda de dez cents, enquanto as raridades chegavam a valer cinqüenta. William estudou essa conjuntura e resolveu se tornar não um colecionador, mas um negociante.

No sábado seguinte, foi à Leavitt & Peirce, uma das maiores tabacarias de Boston, e passou toda a tarde anotando os nomes e os endereços de todos os principais fabricantes de caixas de fósforo do mundo, tomando o cuidado de destacar os países não envolvidos na guerra. Investiu cinco dólares em papel de carta, envelopes e selos, e escreveu ao diretor ou ao presidente de todas as companhias listadas. Sua carta era simples, embora a tivesse reescrito sete vezes.

 

Prezado senhor diretor ou presidente,

Sou um dedicado colecionador de rótulos de caixas de fós­foro, mas não posso me dar ao luxo de comprar todas as caixas. Tenho uma mesada de apenas quatro dólares, mas incluo um selo de três "cents" para a remessa, numa prova de que levo a sério meu passatempo favorito. Lamento aborrecê-lo pessoalmente, mas o único nome que encontrei, a quem pudesse escrever, foi o do senhor.

Seu amigo,

William Kane (tenho nove anos de idade)

P S.: Seu rótulo é um dos meus favoritos

 

Em três semanas, William recebeu cinqüenta e cinco por cento de respostas, o que lhe rendeu setenta e oito rótulos dife­rentes. Quase todos os correspondentes também lhe devolveram o selo de três cents, como William havia previsto.

Durante os sete dias seguintes, William organizou um co­mércio de rótulos dentro da escola, sempre verificando o que poderia vender antes mesmo de efetuar uma compra. Observou que alguns garotos não mostravam interesse na raridade dos ró­tulos das caixas de fósforos, e sim apenas na sua aparência, e com eles fez trocas inteligentes com o fim de obter relíquias que se­riam oferecidas a colecionadores de maior discernimento. Passa­das mais duas semanas de compras e vendas, pressentiu que o negócio estava chegando ao apogeu e, se não agisse com cautela, uma vez que as férias se aproximavam rapidamente, o interesse poderia morrer. Com uma publicidade antecipada e bastante di­vulgada, na forma de folhetos impressos que lhe custaram meio cent cada, colocados nas carteiras dos garotos, William anunciou que realizaria um leilão de seus rótulos de caixas de fósforo, num total de duzentos e onze. O leilão teve lugar no amplo banheiro da escola durante o horário de almoço e recebeu uma audiência mais numerosa do que a habitual nos jogos de hóquei.

Como resultado, William obteve a quantia de cinqüenta e sete dólares e trinta e dois cents, um lucro líquido de cinqüenta e dois dólares e trinta e dois cents sobre o investimento. Depo­sitou no banco vinte e cinco dólares a juros de dois e meio por cento, comprou uma máquina fotográfica por onze dólares, doou cinco dólares à Associação Cristã de Moços, que havia expandido suas atividades para atender a um novo fluxo de imigrantes, pre­senteou a mãe com um buquê de flores e embolsou os poucos dólares que lhe sobraram. O negócio de rótulos de caixas de fós­foro acabou antes mesmo do fim do período letivo. Essa seria a primeira das muitas ocasiões semelhantes em que William se retirou no ápice do negócio. As avós ter-se-iam orgulhado dele; não fora de outro modo que seus maridos tinham feito fortunas durante o pânico de 1873.

Quando chegaram as férias, William não resistiu à tentação de descobrir uma maneira de obter um retorno do capital inves­tido superior aos dois e meio por cento que lhe rendia a cader­neta de poupança. Nos três meses seguintes, investiu — mais uma vez por intermédio da avó Kane — em ações altamente re­comendadas pelo Wall Street Journal. Durante o período letivo seguinte, perdeu mais da metade do dinheiro que tinha feito com os rótulos de caixas de fósforo. Essa foi a única vez em que con­fiou na experiência do Wall Street Journal ou em informações obteníveis em qualquer esquina.

Indignado com a perda de mais de vinte dólares, resolveu se ressarcir do prejuízo durante as férias da Páscoa. Assim que chegou a casa, computou as festas a que devia comparecer e as funções de que deveria se encarregar, segundo as expectativas da mãe, e constatou que lhe sobravam livres apenas catorze dias, tempo suficiente para encetar sua nova iniciativa. Vendeu todas as ações que lhe restavam das recomendadas pelo Wall Street Journal, o que lhe rendeu, líquidos, somente doze dólares. Com o dinheiro, adquiriu uma prancha de madeira, dois pares de ro­das, dois eixos e um pedaço de corda, ao preço, após um regateio, de cinco dólares. Pôs um boné de pano na cabeça, vestiu um velho terno que não lhe cabia mais e partiu para a estação de trens. No portal de saída, com ar de faminto e fatigado, infor­mava aos distintos viajantes que os hotéis principais de Boston se localizavam próximo à estação, de modo que não havia neces­sidade de tomar um táxi ou uma das raras carruagens que ainda existiam, já que ele, William, poderia lhes transportar as baga­gens na prancha móvel por vinte por cento da tarifa dos táxis; acrescentava que, além do mais, andar a pé só lhes faria bem. Trabalhando seis horas diárias, verificou que poderia ganhar apro­ximadamente quatro dólares por dia.

Cinco dias antes da data marcada para o início do novo pe­ríodo letivo, ele havia se refeito de todos os prejuízos anteriores e obtido um lucro adicional de dez dólares. Foi então que deparou com um problema. Os motoristas de táxi começaram a se sentir incomodados com ele. William lhes garantiu que se apo­sentaria, aos nove anos de idade, desde que cada um deles lhe desse cinqüenta cents para cobrir o custo do veículo de fabrica­ção caseira — com o que eles concordaram. Ganhou com isso mais oito dólares e cinqüenta cents. No caminho de volta à casa de Beacon Hill, vendeu o carrinho por cinco dólares a um colega de escola dois anos mais velho, o qual não demorou a descobrir o quanto aquele mercado já estava em declínio; além disso, cho­veu durante toda a semana seguinte.

No último dia de férias, William tornou a depositar o di­nheiro no banco, a dois e meio por cento. Tal decisão, ao longo do período letivo subseqüente, não lhe causou nenhuma ansie­dade, uma vez que suas economias aumentavam regularmente. O naufrágio do Lusitânia em maio de 1915 e a declaração de guerra feita por Wilson à Alemanha, em abril de 1917, não che­garam a preocupá-lo. Nada ou ninguém jamais conseguiria der­rotar os Estados Unidos da América, assegurou ele à mãe. Para sustentar essa opinião, William até mesmo investiu em obrigações Liberty.

Por ocasião do seu décimo primeiro aniversário, a coluna de créditos do seu livro razão registrava um ganho de quatrocen­tos e doze dólares. Dera à mãe uma caneta-tinteiro, e às avós, dois broches adquiridos numa pequena joalheria. A caneta-tin­teiro era da marca Parker, e as jóias foram entregues nas casas das avós em caixas da Shreve, Crump & Low, que ele achou, depois de muita procura, dentro da lata de lixo nos fundos da famosa loja. Diga-se, para fazer justiça ao garoto, que sua inten­ção não era enganar as avós. É que sua experiência com os rótu­los das caixas de fósforo tinha lhe ensinado que uma embalagem adequada vende produtos. As avós, que repararam na falta da marca registrada da Shreve, Crump & Low, ainda assim usaram os broches com muito orgulho.

As duas velhas senhoras continuaram a acompanhar cada pas­so dado por William e decidiram que, tão logo ele completasse doze anos, seria encaminhado, tal como fora planejado, à St. Paul’s School, em Concord, New Hampshire. Pela boa decisão, o garoto as recompensou ganhando como prêmio uma bolsa de estudos máxima, destinada ao curso de Matemática, poupando à família, desnecessariamente, cerca de trezentos dólares anuais. William aceitou a bolsa de estudos, e as avós utilizaram o dinhei­ro em benefício, na expressão delas, de "uma criança menos afor­tunada". Anne aborreceu-se com a idéia de William ir para um internato tão distante, mas as avós não arredaram pé da idéia, e o que era mais importante: ela sabia que esse também era o desejo de Richard. Anne marcou e examinou as roupas e os sa­patos de William, e finalmente arrumou-lhe as malas, dispensan­do a ajuda dos criados. Quando chegou o momento de William partir, a mãe lhe perguntou quanto gostaria de receber de mesada no próximo período letivo.

— Nada — respondeu ele, sem qualquer comentário pos­terior.

William beijou as faces da mãe; ignorava com que intensi­dade ela sentiria a sua falta. Desceu pelo passeio, trajando suas primeiras calças compridas, o cabelo cortado muito curto, carre­gando na mão uma pequena mala, e foi ter com Roberts, o mo­torista. Entrou na parte traseira do Rolls-Royce, e o veículo o levou embora. Não olhou para trás. A mãe ficou longo tempo acenando e depois chorou. William também sentiu vontade de chorar, mas seu pai não teria aprovado isso.

A primeira coisa que causou estranheza a William Kane na nova escola preparatória foi que os colegas não demonstraram interesse em saber quem ele era. Os ares de admiração e o reco­nhecimento tácito de sua presença não existiam ali. Um garoto mais velho chegou a lhe perguntar o nome, e, o que foi pior, ao ouvi-lo não se mostrou impressionado. Outros chamaram-no até mesmo de Bill, falta que ele se apressou a corrigir, acrescentan­do a explicação de que nunca ninguém se tinha referido ao seu pai como Dick.

O novo território de William era um quartinho com estan­tes de madeira, duas mesas, duas cadeiras, duas camas e um sofá confortável de couro gasto. A outra cadeira, a outra mesa e a outra cama eram ocupadas por um garoto de Nova Iorque cha­mado Matthew Lester, cujo pai era presidente de Lester & Company — outra tradicional família de banqueiros.

Em pouco tempo William habituou-se à rotina escolar. Às sete e meia, levantava-se, lavava-se, tomava o café da manhã no refeitório principal junto com a garotada da escola inteira — duzentos e vinte meninos mastigando ruidosamente ovos, bacon e engolindo mingau de aveia. Depois, vinham o ofício religioso na capela, três aulas de cinqüenta minutos antes do almoço e duas depois, seguidas de uma aula de música que William abo­minava, primeiro porque era incapaz de cantar uma nota sem desafinar, e segundo porque não tinha a menor disposição de aprender a tocar um instrumento. O rúgbi no outono, o hóquei e o squash no inverno, e o remo e o tênis na primavera lhe to­mavam quase o tempo todo. Como era bom em matemática, William recebia explicações especiais da matéria três vezes por semana do ilustríssimo sr. G. Raglan, o diretor, conhecido pelos garotos como Zangado.

Durante o primeiro ano, William mostrou-se merecedor da bolsa de estudos, colocando-se entre os primeiros em quase todas as matérias e, é claro, reinando absoluto na aula especial de matemática. Só o novo amigo, Matthew Lester, parecia-lhe um rival de verdade, e havia pouca dúvida quanto a isso, já que par­tilhavam o mesmo quarto. Enquanto se firmava em termos co­legiais, William também ganhava a reputação de financista. Em­bora seu primeiro investimento no comércio tivesse resultado num fracasso, ele não abandonou a convicção de que para se obter uma soma considerável eram indispensáveis lucros vanta­josos no mercado de valores. Com desconfiança, foi acompa­nhando no Wall Street Journal os informes empresariais, e, aos deve anos de idade, lançou-se a experiências com uma carteira simulada de investimentos. Registrou todas as compras e vendas hipotéticas, as boas e as regulares, num livro razão de várias cores recentemente adquirido, e ao final de cada mês comparava o comportamento de suas aplicações em relação às outras do mer­cado. Punha de lado as ações das companhias mais cotadas, con­centrando-se, ao contrário, nas de empresas obscuras, algumas das quais eram negociadas tão-somente em agências financeiras, de modo a tornar quase impossível a compra de mais que umas poucas cotas por vez. William esperava obter quatro coisas de seus investimentos: um mínimo múltiplo de rendimentos, uma taxa de crescimento elevada, uma base segura de capital e uma perspectiva de negociação favorável. Poucas ações satisfaziam critérios rígidos como esses, mas, quando as encontrava, inva­riavelmente lhe proporcionavam lucros.

Ao verificar que o índice Dow-Jones batia regularmente com seu programa de investimento hipotético, William teve a certeza de que se achava preparado para tornar a aplicar o pró­prio dinheiro. Iniciou com cem dólares e nunca parou de aperfeiçoar o método. Via sempre seus lucros aumentados e os prejuízos reduzidos. Uma vez dobrado o valor de uma ação, vendia metade dos títulos e conservava intacta a outra metade, nego­ciando as ações que mantinha como bônus. Algumas de suas pri­meiras descobertas, como a Eastman Kodak e a IBM, chegaram à posição de líderes nacionais. Apostou também na primeira em­presa de serviço de reembolso postal, convencido de que se tra­tava de uma tendência que vingaria.

Ao final do primeiro ano, tinha se convertido em consultor de metade dos funcionários da escola e de alguns parentes. Wil­liam Kane sentia-se feliz no colégio.

 

Anne Kane sentia-se infeliz e solitária em casa, com William na St. Paul’s School e um círculo familiar que consistia apenas nas duas avós, que agora já entravam na velhice. Doía-lhe ter consciência de que passara dos trinta e que sua graça jovial e doce tinha desaparecido, deixando-lhe quase nada em troca. Co­meçara a reatar os laços de amizade, cortados pela morte de Richard, que a ligavam a velhos conhecidos. John e Milly Preston, madrinha de William, a quem Anne conhecia fazia muito tempo, passaram a convidá-la para jantares e teatro, incluindo sempre uma companhia masculina, numa tentativa de lhe encon­trar um bom casamento. As escolhas dos Prestons, no mais das vezes, eram péssimas, e, intimamente, Anne costumava rir-se dos esforços de Milly de vê-la de novo casada. Até que num certo dia de janeiro de 1919, pouco depois de William ter voltado ao colégio para o período letivo do inverno, ela recebeu um novo convite para jantar. Milly confessou jamais ter visto o convida­do, Henry Osborne, mas achava que havia cursado a Universi­dade de Harvard na mesma época que John.

— Para falar a verdade — admitiu Milly ao telefone —, John sabe muito- pouco a respeito dele. Só sabe dizer ao certo, querida, que é de boa aparência.

No tocante a isso, Anne e Milly puderam comprovar a opi­nião de John. Henry Osborne aquecia-se ao fogo quando Anne chegou, e imediatamente se levantou para que Milly os apresen­tasse. Com sua sombra, que se alongava, contra a luz do fogo, à altura de quase dois metros, os olhos escuros, quase negros, o cabelo preto e liso, tinha uma aparência esguia e atlética. Anne sentiu um lampejo de alegria por ter como companhia nessa noite um homem forte e cheio de vida, enquanto Milly teve de se contentar com o marido, o qual, comparado ao colega de uni­versidade, que irradiava energia, já mostrava sinais de velhice.

O braço de Henry Osborne se apoiava numa tipóia que cobria quase inteiramente a gravata de Harvard.

— Ferimento de guerra? — indagou Anne, condoída.

— Não, caí de uma escada uma semana depois que voltei da guerra — retrucou ele, rindo.

Foi um daqueles jantares, ultimamente raros na vida de Anne, em que o tempo à mesa passou agradável e despercebida-mente. Henry Osborne respondeu a todas as perguntas indiscretas que Anne lhe fez. Depois de deixar Harvard, tinha trabalhado numa administradora de imóveis de Chicago, sua cidade natal. E, quando estourou a guerra, não pudera resistir ao impulso de lutar contra os alemães. Contava muitos casos interessantes da Europa e sobre sua vida como jovem tenente que defendia no Marne a honra dos Estados Unidos. Desde a morte de Richard Milly e John não viam Anne rir tanto, e trocaram um sorriso de cumplicidade quando Henry lhe perguntou se podia levá-la de carro para casa.

— Que pensa fazer, agora que está de volta a uma terra propícia aos heróis? — perguntou Anne, enquanto Henry Osborne avançava com seu Stutz em direção à Charles Street.

— Ainda não resolvi ao certo. Felizmente, conto com algu­mas economias, assim não preciso ir atrás do primeiro emprego que aparecer. Talvez abra minha própria administradora de imó­veis aqui em Boston. Desde meus dias de Harvard, sempre me senti à vontade nesta cidade.

— Então não voltará a Chicago?

— Não, não há nada que me atraia lá. Meus pais morre­ram, e sou filho único. Desse modo posso começar vida nova no lugar que escolher. Que rua devo tomar?

— Oh, a primeira à direita — disse Anne.

- Mora em Beacon Hill?

— Sim, a uns cem metros à direita, um pouco além de Chestnut, na casa vermelha à esquina da Louisburg Square.

Henry Osborne estacionou o automóvel e acompanhou Anne até a porta da casa. Despediu-se e partiu logo em seguida, mal lhe dando tempo de agradecer-lhe a companhia. Ela observou o carro descer devagar a Beacon Hiil, ciente de que queria revê-lo. Ficou encantada, embora não inteiramente surpresa, quando, na manhã seguinte, ele lhe telefonou.

– A Orquestra Sinfônica de Boston vai tocar Mozart e aquele sujeito incrível, Mahler, na próxima segunda-feira. Será que consigo convencê-la a me acompanhar?

Anne espantou-se com a ansiedade com que ficou aguardan­do a segunda-feira. Fazia muito tempo que um homem que ela achava simpático quis namorá-la.

Henry Osborne chegou pontualmente. Cumprimentaram-se meio sem jeito, e ele aceitou um copo de uísque escocês com soda.

— Deve ser agradável viver na Louisburg Square. Você é uma moça de sorte.

— Sim, talvez seja, nunca pensei nisso antes. Nasci e fui criada na Commonwealth Avenue. Se existe alguma diferença, acho esta casa um pouco apertada.

— Se eu resolver mesmo me fixar em Boston, provavelmen­te comprarei uma casa em Beacon Hill.

— Nem sempre se acham casas à venda — disse Anne —, mas quem sabe tenha sorte. Não é melhor irmos andando? De­testo chegar atrasada a um concerto e ter de pisar nos pés das pessoas até a minha poltrona.

Henry consultou o relógio de pulso.

— Sim, realmente, seria lamentável perder a entrada do re­gente, mas não me preocupo com os pés dos outros, só com os meus. Nossas poltronas são as duas primeiras junto ao corredor da platéia.

O enlevo pela música grandiosa fez com que Henry Osborne espontaneamente segurasse o braço de Anne enquanto andavam em direção ao Ritz. A única outra pessoa que o fizera antes, desde a morte de Richard, tinha sido William, e só depois de muitos argumentos de persuasão, visto que, na opinião dele, isso era coisa de maricas. Outra vez as horas voaram: seria a comida ex­celente ou a companhia de Henry? Nesse dia, ela riu com as histórias sobre Harvard que ele lhe contou e se comoveu com histórias da guerra. Embora ele parecesse mais jovem do que ela, havia passado por tantas experiências na vida que na companhia dele Anne sentia-se deliciosamente moça e ingênua. Falou-lhe sobre a morte de Richard e chorou um pouco mais. Enquanto ele lhe segurava a mão, falou-lhe do filho com orgulho e carinho apaixonados. Henry lhe disse que sempre desejara ser pai. Poucas vezes mencionou Chicago ou a vida familiar, mas Anne não teve dúvidas de que ele sentia a falta dos pais. Nessa noite, quando a levou para casa, Henry ficou para tomar um drinque rápido e, ao partir, beijou-a levemente no rosto. Anne rememorou a noitada minuto por minuto antes de adormecer.

Na terça-feira foram ao teatro, na quarta-feira visitaram a casa de verão de Anne em North Shore, na quinta-feira passea­ram de carro pelas zonas rurais de Massachusetts, cobertas de neve, na sexta-feira compraram antigüidades e no sábado fizeram amor. Depois do domingo, poucas vezes se separaram. Milly e John Preston estavam "simplesmente maravilhados" com o fato de seus arranjos de casamento finalmente terem dado resultado. Milly espalhou por Boston a notícia de que tinha sido a respon­sável pela união do casal.

Durante esse verão, o anúncio do casamento não causou sur­presa a ninguém, exceto a William. Ele antipatizara com Henry, de maneira radical, desde o dia em que Anne, com apreensão jus­tificada, os apresentara. O primeiro contato entre os dois assumiu a forma de extensas perguntas por parte de Henry, que tentava demonstrar que queria se tornar amigo, e de respostas monossilábicas por parte de William, que demonstrava que não queria. E nunca mudou de opinião. Anne atribuiu o ressentimento do filho a um compreensível ciúme; desde a morte de Richard, William fora o centro de sua vida. Ademais, era perfeitamente natural que, no juízo de William, ninguém pudesse ocupar o lugar do próprio pai. Anne convenceu Henry de que, com o correr do tempo, William esqueceria a hostilidade.

Anne Kane tornou-se a sra. Henry Osborne em outubro desse ano na Catedral Episcopal de São Paulo, exatamente quando as folhas douradas começavam a cair das árvores, pouco mais que nove meses depois de se terem conhecido. William simulou uma doença para não comparecer ao casamento e permaneceu no colé­gio. As avós compareceram à cerimônia, mas mal conseguiram esconder sua reprovação ao segundo casamento de Anne, princi­palmente com um homem que aparentava ser bem mais novo do que ela.

— Esse casamento só poderá terminar em fracasso — co­mentou a avó Kane.

No dia seguinte, os recém-casados embarcaram num navio que os levaria à Grécia e só retornaram a Red House, em Beacon Hill, na segunda semana de dezembro, a tempo de receber William, que passaria em casa as férias de fim de ano. William ficou revoltado ao encontrar a casa inteiramente redecorada, quase sem mais nenhum vestígio do pai. Durante o Natal, o comporta­mento de William para com o padrasto não revelou sinais de melhora, não obstante o presente, na visão de Henry — o suborno, na interpretação de William —, de uma nova bicicleta. Henry Osborne aceitou a recusa com mal-humorada resignação. Causava tristeza a Anne o fato de o novo marido, tão bom, despender poucos esforços para conquistar a simpatia do filho.

William sentia-se tão mal dentro daquela casa, invadida, que desaparecia durante longos períodos do dia. Toda vez que lhe perguntava onde ia, Anne recebia como resposta uma explicação seca ou o silêncio total: naturalmente o menino não ia à casa das avós. Terminadas as férias, William estava contente por voltar ao colégio, e Henry nada aborrecido por vê-lo partir. Apenas Anne estava preocupada por causa dos dois homens de sua vida.

 

— De pé, garoto! De pé!

Um soldado cutucava as costelas de Wladek com a coronha do fuzil. O menino sentou-se, sobressaltado, e lançou um olhar para a sepultura da irmã e aquelas onde jaziam Leon e o barão. Quando se dirigiu ao soldado, não tinha mais os olhos úmidos de lágrimas.

— Vou continuar vivo. Ninguém vai me matar — disse em polonês. — Esta casa é minha, e vocês estão nas minhas terras.

O soldado cuspiu em Wladek e o fez retornar ao relvado, onde os criados esperavam, todos vestidos com uniforme pardo, semelhante a um pijama, com números impressos às costas. Wla­dek tomou-se de horror tão logo os viu, compreendendo o que lhe aconteceria. O soldado o conduziu bruscamente à parte norte do castelo e lá o obrigou a ajoelhar-se. De repente, ele sentiu que uma lâmina de faca lhe raspava a cabeça de través, enquanto o cabelo preto e basto ia caindo na relva. Depois de dez golpes terríveis, piores que a tosquia de uma ovelha, o serviço se com­pletou. Quando sua cabeça ficou raspada, o guarda ordenou-lhe que pusesse o novo uniforme, camisa e calças pardas malfeitas e de tecido grosseiro. Wladek conseguiu esconder a pulseira de prata e reuniu-se aos criados em frente ao castelo.

A certa altura, enquanto todos ainda esperavam, de pé, no gramado — números agora, não mais nomes —, Wladek se aper­cebeu de um ruído longínquo em nada comparável aos que ouvira durante os anos de sua vida. Volveu os olhos para o lugar de onde partia o som ameaçador. Um veículo de quatro rodas aca­bava de atravessar os portões de ferro, mas nenhum cavalo ou boi o puxava. Com uma expressão de espanto e de incredulidade, os prisioneiros observaram o objeto que se locomovia e que a seguir estacionou. Os soldados empurraram para o veículo os prisioneiros que ofereciam resistência e os forçaram a subir nele. O carroção sem cavalos fez o retorno, e de novo atravessou os portões. Ne­nhum cativo se atreveu a protestar. Wladek sentou-se no fundo da carroceria e contemplou o castelo, até perder de vista suas torres góticas.

O carroção sem cavalos movimentava-se de algum modo por si mesmo, rumo a Slonim. Wladek teria tido a curiosidade de descobrir o funcionamento do veículo, não estivesse mais preo­cupado em saber para que lugar seriam levados. Aos poucos, foi reconhecendo a estrada que, nos tempos de escola, percorrera muitas e muitas vezes, mas os três anos de encarceramento nas masmorras tinham enfraquecido sua memória, e em vão procurava ele se lembrar a que lugar essa estrada os levaria. Após uns poucos quilômetros, o caminhão parou, e todos desceram. À frente deles erguia-se a estação ferroviária da região. Wladek estivera ali uma vez só, no dia em que ele e Leon tinham ido receber o barão, de regresso da viagem a Varsóvia. Wladek lembrou-se de que, ao colocarem pela primeira vez os pés na plataforma, um guarda lhes fizera uma saudação; agora, porém, não havia guarda algum a saudá-los.

Os prisioneiros receberam rações de leite de cabra, sopa de repolho e pão preto, e de novo Wladek assumiu a distribuição dividindo eqüitativamente as porções entre os treze criados. Pro­curou um banco de madeira e sentou-se, suspeitando que aguarda­riam a chegada de algum trem. Nessa noite dormiram no chão e ao relento, um verdadeiro paraíso em comparação às masmorras. Wladek agradeceu a Deus pelo inverno moderado.

Quando amanheceu, ainda continuavam à espera. Wladek persuadiu os criados a movimentarem os músculos e as articula­ções do corpo, mas pouco depois muitos deles desfaleceram. Re­petiu na memória os nomes de todos os que tinham sobrevivido até ali. Dos vinte e seis iniciais encerrados nas masmorras, haviam sobrado onze homens e duas mulheres. "Mas para quê?", pensou.

Durante um dia inteiro, esperaram pelo trem, que não che­gou. De fato, a certo momento um trem aparecera, mas, assim que outros soldados desembarcaram, falando a língua odiosa, partiu sem o lastimoso grupo de Wladek. Aquela noite dormiram de novo na plataforma.

Sob um céu estrelado, Wladek ficou acordado, estudando uma maneira de fugir. Na calada da noite, um dos companheiros, na esperança de fugir, saiu correndo e foi morto a tiros por uma sentinela enquanto atravessava os trilhos, antes mesmo de alcançar o outro lado. Wladek olhou, espantado, o local em que o com­patriota caíra, sem ser capaz de socorrê-lo, dominado pelo medo de ter o mesmo fim. Quando amanheceu, o corpo ainda estava sobre os trilhos, por decisão dos guardas, como advertência a todos aqueles que tentassem a fuga.

No dia seguinte, ninguém ousou falar do incidente, mas Wladek sempre olhava para o cadáver. Era o mordomo do barão, Ludwik — uma das testemunhas do testamento e de sua herança.

Na noite do terceiro dia, um outro trem roncou estação adentro, uma gigantesca locomotiva que puxava vagões de carga abertos, os pisos cobertos de palha e a palavra "gado" escrita nas paredes laterais. A maioria dos vagões estava cheia de seres humanos, mas Wladek sentia dificuldade de reconhecê-los como tais, por causa do aspecto lamentável, aliás semelhante ao seu. Ele e seu bando foram arremessados dentro de um dos vagões, o que anunciava o começo da viagem. Após algumas horas de es­pera, o trem se afastou morosamente da estação em direção leste, como Wladek pôde concluir observando o pôr-do-sol.

Cada grupo de três carros era vigiado por uma sentinela, que se sentava com as pernas cruzadas no alto de um vagão pro­vido de cobertura. Ao longo da viagem interminável, de quando em quando uma rajada de tiros cortava o ar, demonstrando a Wladek a inutilidade de qualquer tentativa de fuga.

Em Minsk, o trem fez uma parada, e os prisioneiros recebe­ram outra refeição: pão preto, água, castanha e painço E a via­gem recomeçou. Por vezes, transcorriam três dias sem que pas­sassem por uma só estação. Muitos dos viajantes que se recusavam a acatar ordens morriam de fome e eram lançados fora do trem em movimento. Quando havia uma parada eventual, era comum que esperassem dois dias por um trem que vinha para oeste pelos mesmos trilhos. Esses trens que retardavam a viagem invariavel­mente transportavam dezenas de soldados, e Wladek compreen­deu que tais trens, pela natureza de sua carga, tinham prioridade sobre quaisquer outros. O pensamento obsessivo de Wladek era a fuga, mas pelo menos dois fatores o desanimavam; em primeiro lugar, o percurso dos trilhos era na vastidão do deserto; e, em segundo, os companheiros que haviam sobrevivido às masmorras dependiam inteiramente da proteção que ele lhes dava. Era Wladek que se incumbia da distribuição da comida e da água, e quem lhes inspirava o desejo de viver. Era o mais jovem de todos, e o único ainda a ter fé na vida.

Com a noite a temperatura se tornava implacavelmente baixa, atingindo com freqüência trinta graus abaixo de zero, e todos se deitavam, aconchegados uns aos outros, formando uma fileira de corpos que assim se conservavam aquecidos. Enquanto não pegava no sono, Wladek recitava mentalmente trechos da Eneida. Como era impossível virar o corpo na posição contrária, a não ser com a colaboração de todos, Wladek se deitava no extremo da fileira e, de hora em hora — como podia calcular pelos reveza­mentos das sentinelas —, dando uma batida com a mão na pa­rede do vagão, todos começavam a rolar para o outro lado. Um após outro, os corpos se viravam como peças de dominó que vão tombando. Uma noite, um deles não se mexeu — porque nunca mais poderia se mexer —, e logo o fato foi comunicado a Wladek, que por seu turno o informou à sentinela. Então, quatro soldados apareceram, pegaram o corpo e o jogaram fora do trem em mo­vimento. E lhe deram tiros na cabeça, porque talvez o prisioneiro fingisse estar morto, para fugir.

Atingiram a cidadezinha de Smolensk, a trezentos quilôme­tros de Minsk, onde receberam sopa de repolho quente e pão preto. Wladek viu o embarque de novos prisioneiros, que fala­vam a mesma língua dos guardas. O chefe deles aparentava ter a mesma idade de Wladek. Este e seus dez companheiros restan­tes, nove homens e uma mulher, ao desconfiarem dos recém-che­gados, dividiram o vagão em duas partes, em cada uma das quais, por vários dias, os dois grupos se mantiveram afastados.

Certa noite, enquanto olhava as estrelas e se protegia do frio, Wladek teve subitamente a atenção atraída por um vulto que se mexia. Era o líder do pessoal de Smolensk, que, levando na mão um pedaço de corda, rastejava na direção do último ho­mem da fileira. Wladek o observou passar a corda em torno do pescoço de Alfons, o lacaio do barão, que dormia. Se se movesse muito depressa, o rapaz o ouviria e voltaria para junto dos seus companheiros. Assim, esticou-se de bruços no chão e rastejou len­tamente ao longo da linha dos corpos dos poloneses. Estes o olha­ram, mas ficaram quietos. Quando alcançou o final da fileira, deu um bote e apoderou-se do agressor, acordando bruscamente os outros ocupantes do carro. As duas facções permaneceram em seus campos, e Alfons continuou deitado e imóvel diante deles.

O chefe adversário era mais alto e mais ágil que Wladek, mas, enquanto se agarravam no soalho, isso não parecia fazer diferença. A refrega durou alguns minutos, assistida pelas sentinelas, que riam, divertidas, e apostavam em qual dos gladiadores sairia vencedor. Um deles, enfarado pela ausência de sangue, jo­gou uma baioneta no meio do carro. Numa corrida os dois garotos disputaram a posse da lâmina fulgente, que foi apanhada pelo líder do grupo de Smolensk. Seus compatriotas instigaram-no, aos berros, quando ele estocou o lado da perna de Wladek, puxou a baioneta ensangüentada e tornou a investir sobre o adversário. No segundo golpe, a lâmina cravou-se firmemente no soalho do vagão sacolejante, próximo à orelha de Wladek. O líder do grupo de Smolensk tentou arrancá-la. Wladek chutou-lhe a virilha com toda a força que lhe restava e empurrou para trás o adversário, que soltou a baioneta. Wladek agarrou a arma e atirou-se sobre o antagonista, enterrando-lhe a lâmina inteira na boca. O rapaz emitiu um grito estridente de agonia que acordou todo o trem. Wladek puxou a lâmina, girando-a, e de novo a enterrou no corpo do rapaz, tornando a enterrá-la, até que ele enfim parou de se mexer. Com a respiração ofegante, Wladek arremessou-o fora do vagão. Ouviu o baque surdo do corpo ao se chocar contra um barranco. E os guardas ainda atiraram no corpo inanimado.

Cambaleando, Wladek foi até Alfons inerte sobre as pran­chas de madeira, e, ajoelhando-se ao seu lado, sacudiu o corpo sem vida: era a sua segunda testemunha morta. Quem acreditaria nele agora? Quem acreditaria que havia sido escolhido para herdar a fortuna do barão? E que outro sentido haveria na vida? Segurou a baioneta com as duas mãos e apontou-a contra o estômago. Uma sentinela surgiu prontamente e tomou-lhe a arma.

— Não, não. Você, não — grunhiu. — Precisamos de gente forte para trabalhar nos campos. Não pensa que a gente vai fazer todo o serviço, não é?

Wladek enterrou a cabeça nas mãos, sentindo pela primeira vez uma dor lancinante na perna ferida. Tinha perdido a herança, e em troca se tornara chefe de mais um bando de miseráveis prisioneiros. Desse momento em diante contava com vinte pri­sioneiros que dele esperavam proteção. Sem demora, separou-os em dois grupos, e de tal modo que um polonês dormia sempre ao lado de um homem de Smolensk, evitando assim o surgimento de um conflito entre eles.

Wladek passava parte considerável de seu tempo tentando aprender a língua estranha. Só depois de alguns dias se deu conta de que, em verdade, era russo, mas muito diferente do russo clássico que o barão lhe havia ensinado. Foi então que percebeu a importância da descoberta, pois lhe revelava o destino daquela viagem.

Durante o dia, Wladek tomava aulas da língua com dois russos que ele mesmo escolhia, e, tão logo se sentiam cansados, substituía-os por outros dois, e dessa maneira procedia até que todos estivessem exaustos.

Aos poucos foi adquirindo a capacidade de conversar com seus novos dependentes. Alguns eram soldados russos, exilados após a repatriação porque tinham cometido o crime de se deixa­rem capturar pelos alemães; os demais eram russos-brancos, cam­poneses, mineiros, operários, todos ferrenhos adversários da Revolução.

O trem se movimentava aos solavancos, passando pelas terras mais áridas que Wladek vira em toda a vida e por cidades de que nunca tinha ouvido falar — Omsk, Novosibirsk, Krasnoiarsk —, nomes que lhe soavam sinistros. Por fim, depois de três meses e de mais de quatro mil quilômetros, alcançaram Irkutsk, onde os trilhos se interromperam bruscamente.

Aos empurrões, os prisioneiros desceram do trem e se alimentaram, recebendo a seguir sapatos de feltro, blusões e casacos pesados. Aqui e ali surgiam disputas por agasalhos mais quentes, embora estes proporcionassem um mínimo de proteção contra o frio sempre crescente.

Novos carroções sem cavalos foram chegando, em nada dife­rentes daquele que havia separado Wladek de seu castelo, de dentro dos quais foram tiradas correntes muito compridas. Para surpresa e horror de Wladek, cada prisioneiro teve o pulso agrilhoado, vinte e cinco pares lado a lado em cada corrente. A massa de prisioneiros começou a andar atrás dos caminhões a que as correntes estavam firmemente presas, e as sentinelas iam na reta­guarda. Caminharam durante doze horas, pararam para descansar por duas horas, e de novo retomaram a caminhada. Três dias depois, Wladek imaginou que em breve morreria de frio e de cansaço. Mas assim que pisaram em regiões despovoadas, passa­ram a andar somente durante o dia e a descansar à noite. Uma viatura-cozinha, organizada por prisioneiros do campo de traba­lhos forçados, fornecia sopa de nabo e pão ao primeiro clarão da manhã e ao cair da noite. A julgar por aqueles cativos, refletiu Wladek, deveriam ser ainda piores as condições dentro do campo.

Na primeira semana, em nenhum momento lhes tiraram as algemas, mas, a partir da segunda, quando já era impossível qual­quer tentativa de fuga, à noite, na hora de dormir, concediam-lhes a liberdade, a fim de que abrissem buracos na neve e se aquecessem. Por vezes, num dia de sorte, davam com uma flo­resta em que se podiam deitar: era uma alegria extraordinária. Caminhavam sempre em frente, longa e penosamente, passando por grandes lagos, atravessando rios congelados, sempre para o norte, desafiando ventanias gélidas e tempestades de neve. A perna ferida de Wladek doía leve, mas constantemente, uma dor que logo era suplantada pelo martírio dos dedos e das orelhas queimados pelo frio. Em toda a vastidão branca não havia o me­nor indício de vida e de alimento, e Wladek tinha certeza de que tentar uma fuga à noite significaria simplesmente a morte lenta por inanição. Quando tinham sorte, os velhos e os doentes morriam silenciosamente à noite. Os desafortunados, porém, in­capacitados de manter o passo, eram desacorrentados e abandona­dos no meio da neve sem fim. Os sobreviventes caminhavam, caminhavam, sempre em direção ao norte. Wladek perdeu toda a noção de tempo, ciente apenas do puxão inexorável da corrente, e sem saber se, ao adormecer à noite no buraco que cavava na neve com as mãos, tornaria a acordar na manhã seguinte: os que não acordavam tinham aberto a própria sepultura.

Depois de uma caminhada de um quilômetro e meio, os so­breviventes depararam com os ostíacos nômades das estepes siberianas, em seus trenós puxados por renas. Os caminhões largaram sua carga e retornaram. Os cativos foram conduzidos acorrentados aos trenós. Na maior parte dos dois dias que se seguiram, uma nevasca intensa obrigou-os a interromper a viagem, e Wladek, aproveitando a oportunidade, comunicou-se com o jovem ostíaco a cujo trenó se achava preso. Falando em russo clássico com forte sotaque polonês, conseguiu fazer-se compreender apenas parcialmente, mas ficou sabendo que os ostíacos detestavam os russos, que os tratavam praticamente tão mal quanto tratavam seus prisioneiros. Os ostíacos não se mostravam de todo indiferentes aos pobres cativos sem futuro, os "infelizes", como os chamavam.

Nove dias depois, no lusco-fusco do início da noite do in­verno ártico, chegaram ao campo 201. Wladek jamais imaginara que um dia sentiria alegria ao ver um lugar como aquele: uma enfiada de barracos de madeira erguidos em terreno aberto e desolado. Como os prisioneiros, os barracos ostentavam número. O de Wladek tinha o número 33. No meio dele havia um pe­queno forno preto, e, destacando-se contra as paredes, beliches, sobre os quais havia colchões de palha duros e um único co­bertor fino. Poucos conseguiram dormir nessa primeira noite, e os gemidos e os gritos que se ouviam de dentro do barraco 33 ecoavam mais sonoros do que os uivos dos lobos lá fora.

Na manhã do outro dia, antes que o sol se erguesse, os prisioneiros foram acordados pelo som de um martelo que batia contra um triângulo de ferro. Ambos os lados da vidraça da ja­nela estavam cobertos de geada, o que deu a Wladek a certeza de que morreria de frio. A primeira refeição, servida num salão comum e gélido, durou exatamente dez minutos e consistiu numa tigela de mingau de aveia morno, pedaços de peixe e uma folha de repolho flutuando. Os recém-chegados cuspiam as espinhas de peixe em cima da mesa, enquanto os prisioneiros mais antigos engoliam até mesmo as espinhas e os olhos dos peixes.

Depois da refeição, os prisioneiros foram informados de suas tarefas. Wladek seria lenhador. Escoltaram-no através de onze quilômetros de estepes sem fim, até uma floresta, onde ele rece­beu a incumbência de cortar certa quantidade diária de árvores. O guarda partiu do local deixando a Wladek e ao seu pequeno grupo de seis homens a provisão que lhes cabia: um caldo grosso, amarelo e insípido, e pão. Os guardas não receavam que os pri­sioneiros tentassem a fuga, visto que o lugar se situava a mais de mil e quinhentos quilômetros da aldeia mais próxima; ainda que soubessem a direção correta a tomar, seria impossível escapar com vida.

Ao final de cada dia, o guarda voltava e contava o número de cepos; alertava os cativos de que, caso não conseguissem a quantidade de lenha exigida, suspenderia toda a provisão do dia seguinte. Quando, porém, retornava, às sete horas da noite, com a tarefa de reunir os lenhadores recalcitrantes, a escuridão já cobria tudo, e nem sempre ele lograva contar exatamente quantos cepos tinham sido cortados. Wladek instruíra os companheiros a aproveitar os últimos momentos da tarde para limpar a neve que cobria os toros cortados no dia anterior e alinhá-los com os que haviam conseguido cortar no dia. O plano sempre dava resultado, e desse modo o grupo de Wladek nunca se viu privado das provisões. Às vezes retornavam ao campo com um pequeno pe­daço de madeira, que prendiam às pernas por debaixo das calças, e com ele avivavam o fogo à noite. Todo o cuidado era pouco, visto que, toda vez que saíam ou entravam no campo, pelo menos um deles era inspecionado, obrigado quase sempre a tirar um sapato, ou os dois, e a ficar descalço na neve, cuja algidez causava dormência nos pés. Ser pego com algum objeto significava três dias de privação.

No decorrer de algumas semanas, Wladek foi sentindo que a perna se tornava rígida e dolorida. Aguardava com ansiedade a chegada de dias mais frios, quando a temperatura baixaria aos quarenta graus negativos e o trabalho a céu aberto seria suspenso, ainda que tivessem de repor no domingo o tempo perdido, dia que normalmente passavam deitados nos beliches.

Certa noite, ao puxar os toros que amarrara à cintura, sua perna começou a latejar insuportavelmente. Examinando as fe­ridas causadas pela luta no trem, verificou que haviam inchado e estavam supuradas. Nessa noite, mostrou-as a um guarda, que o autorizou a procurar o médico do campo antes da primeira luz da manhã. Permaneceu sentado a noite inteira, a perna quase encostada à estufa, cercado por botas molhadas, mas o calor era tão insuficiente que não lhe abrandava a dor.

Quando amanheceu, Wladek pôs-se de pé uma hora mais cedo que o habitual. Se não consultasse o médico antes do horá­rio de trabalho, só poderia fazê-lo no dia seguinte, e, por certo, com uma dor tão intensa, não resistiria a outra jornada. Apre­sentou-se ao médico com nome e número. Pierre Dubien era um senhor simpático, calvo, acentuadamente encurvado, e, pelo que Wladek pôde julgar, bem mais velho que o barão. Em silêncio, examinou-lhe a perna.

— A ferida vai sarar, doutor? — perguntou Wladek.

— Fala russo?

— Sim, senhor.

– Embora possa ficar manco para sempre, sua perna ficará boa. Mas boa para quê? Para passar toda uma vida carregando lenha!

— Não, doutor, eu penso em fugir e voltar para a Polônia.

O médico o fitou com um olhar penetrante.

— Fale baixo, seu tolo! Precisa compreender que por ora é impossível fugir. Estou preso aqui faz quinze anos, e não se passou um só dia sem que eu pensasse em fugir. Não há jeito. Ninguém conseguiu fugir e continuar vivo, e falar nisso significa dez dias de punição na cela. Lá, eles nos dão de comer a cada três dias e acendem o fogo só para derreter o gelo das paredes. Se sair vivo daquele lugar, pode se considerar um garoto de sorte.

— Vou fugir sim — disse Wladek, encarando o velho.

O médico olhava para Wladek e sorria.

— Meu amigo, não fale mais nisso, eles podem matar você. Volte ao trabalho, movimente a perna e procure-me amanhã cedo.

Wladek retornou à floresta e ao corte das árvores, mas não teve forças para arrastar os cepos mais de alguns metros. A dor era tão forte que a perna parecia querer se desprender do cor­po. Na manhã seguinte o médico examinou-lhe a perna com mais cuidado.

— Se houve alguma mudança, foi para pior — observou. — Que idade tem?

— Acho que treze —- respondeu Wladek. — Estamos em que ano?

— Em 1919.

— Então são treze mesmo. Quantos anos o senhor tem?

O velho fitou os olhos azuis de Wladek, surpreso com a pergunta.

— Trinta e oito — respondeu calmamente.

— Santo Deus! — exclamou Wladek, com espanto.

— Você terá esta mesma aparência quando completar seus quinze anos como prisioneiro, garoto — disse o médico, aparen­temente sem se perturbar.

— Mas por que o senhor está aqui? — indagou Wladek. — Por que não soltaram o senhor depois de todo esse tempo?

— -Prenderam-me em Moscou, em 1904, logo depois que fui habilitado a exercer a medicina, enquanto trabalhava na embaixada da França. Disseram-me que eu era espião e me encar­ceraram numa prisão de Moscou. Achei aquilo horrível, até estou­rar a Revolução, porque não conhecia este inferno para onde me mandaram depois. Até os franceses esqueceram que eu existo. Pelo que se sabe, poucos completam a sentença no campo 201. Devo morrer aqui, como todo mundo, e não vai demorar muito.

— Não, doutor, não deve perder a esperança.

— Esperança? Quanto a mim, já perdi a esperança faz muito tempo; talvez não a perca por você, mas lembre-se de nunca mencionar essa esperança a ninguém. Há por aqui pri­sioneiros que dão com a língua nos dentes por uma recompensa que não passa de um pedaço extra de pão ou um cobertor. Agora, Wladek, vou colocar você para trabalhar na cozinha durante um mês; enquanto isso, procure-me todas as manhãs. É sua única chance de conservar essa perna, e eu não sinto a menor alegria por ser o homem que irá cortá-la. Não contamos com o que se poderia chamar de modernos instrumentos cirúrgicos — comple­tou, fitando uma enorme faca de trinchar.

Wladek encolheu os ombros.

O dr. Dubien anotou o nome de Wladek num pedaço de papel. Na manhã seguinte, Wladek apresentou-se na cozinha onde lavou pratos com água gelada e ajudou no preparo de ali­mentos que dispensavam refrigeração. Depois de passar dias car­regando toros, acolheu com alegria essa mudança: sopa de peixe suplementar, um naco maior de pão preto com urtiga em tiras, e a oportunidade de ficar no interior do barraco e se manter aquecido. Numa ocasião, até mesmo dividiu um ovo com o cozi­nheiro, embora ambos ignorassem que ave o teria posto. Aos poucos a perna de Wladek foi melhorando, mas ainda o obrigava a mancar. Devido à carência de verdadeiros recursos médicos, quase nada podia fazer o dr. Dubien, exceto acompanhá-lo no processo de cura. À medida que os dias foram passando, o mé­dico tornou-se o protetor de Wladek, partilhando sua viva espe­rança quanto ao futuro. Todas as manhãs conversavam em línguas diferentes, mas o médico preferia o francês, sua língua materna.

— Dentro de sete dias, Wladek, você terá de retomar sua função na floresta. Os guardas irão examinar sua perna, e eu não terei condições de determinar sua permanência na cozinha. Por isso, escute com atenção o que vou lhe dizer, pois resolvi elaborar o plano de sua fuga.

— Nossa fuga, doutor — falou Wladek. — Nossa.

– Não, você irá sozinho. Estou velho demais para uma viagem tão longa, e, ainda que tenha sonhado com esse momento durante quinze anos, eu só o atrapalharia. Contentar-me-ei em saber que alguém teve êxito, e você, garoto, é o único que co­nheci que conseguiu me convencer de que terá êxito.

Wladek sentou-se no chão, em silêncio, e com os ouvidos aguçados escutou o plano do médico.

— Nestes últimos quinze anos, economizei duzentos rublos; não se consegue fazer horas extras como prisioneiro russo.

Wladek tentou sorrir com essa velha anedota sobre o campo de trabalhos forçados.

— Escondi o dinheiro num vidro de remédio, quatro notas de cinqüenta rublos. Quando estiver próximo o momento de sua partida, o dinheiro será costurado no forro da sua roupa. Eu mesmo farei isso.

— Mas que roupa? — inquiriu Wladek.

— Tenho um terno e uma camisa que comprei subornando um guarda doze anos atrás, quando ainda acreditava que poderia fugir. Não é exatamente a roupa da moda, mas servirá aos seus propósitos.

Quinze anos juntando duzentos rublos, guardando uma ca­misa e um terno, e o médico ainda se dispunha a sacrificá-los para ajudar Wladek, sem nenhuma hesitação. Nunca na vida ele testemunharia um gesto tão grandioso de altruísmo.

— Você terá sua única chance na próxima quinta-feira — continuou o médico. — Novos prisioneiros vão chegar de trem a Irkutsk, e os guardas sempre levam quatro serventes na viatura-cozinha. Já combinei com o cozinheiro-chefe — riu ao usar a expressão —, e ele, em troca de alguns medicamentos, o colo­cará entre os quatro na viatura. Não encontrei muita dificuldade em conseguir isso. Ninguém deseja fazer a viagem até lá e voltar em seguida. Mas você irá para sempre.

Wladek limitou-se a ouvi-lo atentamente.

— Quando chegar à estação, espere o trem de prisioneiros aparecer. Logo que todos tenham descido à plataforma, atravesse os trilhos e trate de subir no trem que se destina a Moscou, que não sairá antes de chegar o que transporta os prisioneiros, pois fora da estação existe só uma linha. Reze para que os guardas, que estarão preocupados com todo o agrupamento dos novos cativos, não percebam o seu desaparecimento. Dali em diante será o dono do seu destino. Lembre-se: cuidado, porque eles atiram. Existe uma última coisa que poderei fazer por você. Quinze anos atrás, quando me trouxeram aqui, desenhei um mapa, de memória, da rota que vai de Moscou à Turquia. Talvez não sirva mais como guia preciso, mas poderá ser útil aos seus objetivos. Procure descobrir se os russos já não dominaram a Turquia também. Só Deus sabe o que eles não fizeram ultima­mente! Se os conheço bem, não duvido que submetam inclusive a França.

O médico caminhou até o armário de remédios e dele tirou um vidro que, aparentemente, continha uma substância marrom. Desenroscou a tampa e puxou um pedaço de papel pergaminho envelhecido. A tinta preta havia esmaecido com os anos. Nele estava escrito "outubro 1904", no alto do desenho da rota de Moscou a Odessa e de Odessa à Turquia, dois mil e quatrocentos quilômetros que levavam à liberdade.

— Esta semana, procure-me todas as manhãs, que eu lhe repetirei o plano quantas vezes forem necessárias. Se vier a fra­cassar, não será por falta de preparo.

Wladek ficou acordado todas as noites, de olhos fixos nos vultos dos lobos que via através da janela, pensando em que atitude tomaria numa dada situação, preparando-se para qual­quer eventualidade. De manhã, recordava sempre o plano com o médico. Na noite de quarta-feira, uma antes da tentativa de fuga, o médico dobrou o mapa oito vezes, colocou-o junto com as quatro notas de cinqüenta rublos num pequeno invólucro e costurou-o no interior de uma das mangas do paletó. Wladek tirou a roupa, vestiu o terno e sobre ele tornou a pôr o uniforme da prisão. Enquanto recolocava o uniforme, os olhos do médico foram atraídos pela pulseira de prata do barão que Wladek, desde que se vira obrigado a vestir aquela roupa, mantivera sempre acima do cotovelo, temendo que os guardas descobrissem seu único tesouro e o roubassem.

— O que é isso? É magnífica!

— Um presente de meu pai — respondeu Wladek. — Você a aceitaria como forma de gratidão? — Escorregou a pulseira até o pulso, tirou-a e estendeu-a ao médico.

O médico contemplou a pulseira de prata e balançou a cabeça.

– Nunca — disse. — Ela só pode pertencer a uma única pessoa. — Fitou o garoto. — Seu pai deve ter sido um grande homem.

Prendeu a pulseira no pulso de Wladek e apertou-lhe calo­rosamente a mão.

— Boa sorte, Wladek. Que nunca mais nos vejamos.

Abraçaram-se, e Wladek partiu para o que, esperava, fosse sua última noite no barraco da prisão. Não conseguiu adorme­cer, porém, receando que os guardas percebessem por debaixo do uniforme o terno que usava. Pela manhã soou o toque, e Wladek, já vestido, tratou de chegar à cozinha na hora marcada. Tão logo os guardas apareceram para destacar os quatro prisio­neiros que seguiriam na viatura-cozinha, o prisioneiro encarregado fez com que Wladek avançasse um passo à frente. Quatro pes­soas integravam o grupo, e Wladek era o mais jovem deles.

— Este aqui? — perguntou um guarda, indicando-o. — Não faz um ano que está no campo!

O coração de Wladek ameaçou parar, e ele suou frio. O plano do médico ia falhar, e a próxima leva de prisioneiros che­garia no mínimo dali a três meses. Nessa época, já não estaria mais na cozinha.

— Esse garoto cozinha como ninguém — explicou o cozi­nheiro. — Foi treinado no castelo de um barão. Os guardas me­recem o melhor.

— Ah — fez o guarda, a gula triunfando sobre a descon­fiança. — Então pode ir.

Os quatro subiram na viatura-cozinha, e o comboio partiu.

A viagem se arrastava, vagarosa e árdua, mas desta vez ele não caminhava, e o frio não era insuportável, pois tinha come­çado o verão. Trabalhou arduamente no preparo da comida, e, não desejando chamar a atenção sobre si, ficou praticamente em silêncio durante o trajeto, dirigindo-se apenas a Stanislaw, o cozinheiro-chefe.

Finalmente, no décimo sexto dia de viagem, chegaram a Irkutsk. O trem com destino a Moscou já aguardava na estação. Havia horas estava lá, mas só sairia após a chegada do trem que transportava os novos prisioneiros de guerra. Wladek sen­tou-se à beira da plataforma na companhia dos cozinheiros, três deles sem nenhuma intenção ou interesse em qualquer coisa ao redor, enfastiados daquela rotina, mas um deles absorto em cada movimento, perscrutando cautelosamente o trem parado do outro lado da plataforma. Wladek verificou que havia várias portas abertas, e depressa escolheu a que utilizaria quando chegasse o momento.

— Vai tentar fugir? — perguntou subitamente Stanislaw.

Wladek começou a transpirar, mas não respondeu.

Stanislaw não tirou os olhos de cima dele.

— Vai?

Wladek continuou emudecido.

O velho cozinheiro estudou o garoto de treze anos de idade, que meneou a cabeça, concordando. Se tivesse um rabo, tê-lo-ia abanado.

— Boa sorte. Quanto a mim, por uns dois dias vou fazer de tudo para que não dêem pela sua falta.

Stanislaw apertou-lhe o braço, e a distância Wladek avis­tou o trem de prisioneiros, que avançava vagarosamente na direção deles. Wladek retesou o corpo, o coração batendo forte, os olhos seguindo de perto os movimentos dos soldados. Esperou o trem parar e observou os prisioneiros fatigados acotovelarem-se na pla­taforma, centenas deles, homens anônimos que traziam consigo apenas um passado. Quando a estação se transformou numa massa humana desordenada e os guardas ficaram ocupados em controlá-la, Wladek desceu da plataforma, passou por debaixo do vagão e saltou para o interior do outro trem. Ninguém se mostrou curioso em relação a ele quando atravessou o carro e entrou no cubículo sanitário. Trancou-se, esperou e rezou, imaginando a cada segundo que alguém bateria à porta. Teve a sensação de que toda uma existência tinha transcorrido até o trem dar os primeiros sinais de que ia deixar a estação. Passaram-se, com efeito, dezessete minutos.

— Até que enfim! Até que enfim! — exclamou Wladek, em voz alta. Espiou pela janela estreita e viu a estação diminuin­do cada vez mais ao longe, os prisioneiros sendo agrilhoados, prontos para a caminhada rumo ao campo 201, os guardas a se divertirem enquanto os acorrentavam. Quantos deles chegariam vivos ao campo? Quartos deles serviriam de comida aos lobos? Quanto tempo levariam para dar pela sua falta?

Sentou-se na privada durante mais alguns minutos, imobi­lizado pelo medo, sem saber o que fazer. Subitamente, bateram a porta. Viu diante de si uma rápida sucessão de imagens ater­radoras— um guarda, o cobrador de passagens, um soldado? Pela primeira vez, precisou realmente usar a privada. As batidas continuavam.

– Saia, saia — gritou um homem, em russo vulgar.

Wladek pensou: se fosse soldado, jamais escaparia; nem mesmo um anão se espremeria naquela janela minúscula. Se não fosse soldado, a sua simples presença ali chamaria a atenção.

Arrancou as roupas de prisioneiro, fez com elas a menor trouxa possível e a jogou janela afora. Depois tirou um boné flexível do bolso do paletó, cobriu a cabeça raspada, e finalmente abriu a porta. Um homem esbaforido precipitou-se para dentro, abai­xando as calças antes mesmo que Wladek saísse.

Uma vez no corredor, pressentiu que aquele terno antigo o distinguia dos passageiros e o tornava pavorosamente notável, como uma maçã no alto de uma pilha de laranjas. Depressa, saiu à procura de outro compartimento sanitário. Encontrando um desocupado, trancou-se e apressadamente desfez a costura na manga do paletó, dela tirando uma das notas de cinqüenta rublos. Recolocou as outras três no lugar e voltou ao corredor. Procurou o carro mais freqüentado que pôde encontrar e sentou-se num canto em que não fosse notado. Um grupo de homens jogava cara ou coroa no meio do carro, apostando rublos, como forma de passar o tempo agradavelmente. Wladek sempre derrotara Leon quando jogavam no castelo, e, se não temesse atrair as atenções sobre si ganhando, apreciaria juntar-se aos companheiros. O jogo estendeu-se por longo tempo, e Wladek foi relembrando os es­tratagemas. Quase cedeu à tentação de apostar seus duzentos rublos.

Um dos jogadores, que perdera considerável quantia, reti­rou-se, revoltado, e sentou-se ao lado dele, fraquejando.

— Não estava com sorte — comentou Wladek, querendo ouvir a própria voz.

— Não é uma questão de sorte — retrucou o jogador. — Volta e meia ganho de camponeses como esses aí. Acontece que terminaram meus rublos.

— Quer vender seu casaco? — indagou Wladek.

O jogador era um dos poucos passageiros a usar um casaco de pele de carneiro, espesso, bem-feito e antigo. Ele encarou o jovem.

— Olhando sua roupa, rapaz, diria que você não pode com­prá-lo.

Wladek não deixou de perceber, pelo tom da voz do homem, que ele acreditava que poderia.

— Eu o vendo por setenta e cinco rublos.

— Dou quarenta — disse Wladek.

— Sessenta — falou o jogador.

— Cinqüenta — tornou Wladek.

— Não. No mínimo sessenta. Custou-me mais de cem.

– Mas isso faz muito tempo — argumentou Wladek, en­quanto considerava a inconveniência de tirar mais dinheiro do forro do paletó. Melhor seria aguardar uma nova oportunidade.

Para demonstrar que podia comprar o casaco, tocou a gola e falou com acentuado desdém:

– Pagou muito por ele, meu amigo. Cinqüenta rublos, nem um copeque a mais.

E levantou-se, simulando desinteresse.

— Espere aí, espere aí — apressou-se o jogador. — É seu por cinqüenta rublos.

O casaco, grande demais, quase tocava o chão, mas era exa­tamente do que Wladek precisava para esconder o terno, que chamava muito a atenção. Ficou parado uns instantes observando o homem, que voltava a jogar e de novo perdia. E Wladek apren­deu duas coisas: só jogar se a sorte estiver do seu lado, e se retirar quando atingir seu limite.

Vestindo o novo casaco velho, Wladek passou para outro carro com a sensação de maior segurança. Observou o trem com um pouco mais de alento. Os carros se dividiam em duas classes; a comum, em que os passageiros viajavam de pé ou sentavam-se em bancos de madeira, e a especial, em que se sentavam em bancos estofados. Os carros estavam lotados, com a exceção de um, da classe especial, em que, estranhamente, só havia uma mulher. Tanto quanto pôde perceber, ela era de meia-idade, ves­tia-se um pouco melhor e tinha um pouco mais de carne sobre os ossos do que a maioria dos passageiros do trem. Tratava um vestido azul-escuro e trazia um lenço na cabeça. Sorriu para Wladek ao notar que estava sendo observada por ele, encorajando-o a aproximar-se.

— Posso me sentar?

— Por favor — disse a mulher, olhando-o atentamente.

Wladek não tornou a falar, mas examinou a mulher e o carro. A pele do rosto era pálida, vincada por linhas de fadiga, e o corpo, rechonchudo — aquele peso a mais que se podia atri­buir à comida russa. O cabelo preto e curto e os olhos castanhos insinuavam uma mulher que, no passado, deveria ter sido encan­tadora. No porta-bagagem havia duas grandes sacolas de pano, e ao lado dela uma valise. Não obstante o perigo da situação em que se encontrava, Wladek de repente se viu dominado por uma exaustão desesperadora. Estava pensando em dormir quando ouviu a voz da mulher.

— Para onde está indo?

Tomado de surpresa, procurou raciocinar com rapidez.

— Moscou — respondeu, suspendendo a respiração.

— Eu também — retrucou ela.

Wladek arrependeu-se de ter entrado no carro vazio e de ter dado essa informação. "Não converse com ninguém", alertara-o o médico; "lembre-se, não confie em ninguém."

Para seu alívio, a mulher não fez nenhuma outra pergunta. Quando começava a recuperar a confiança perdida, o cobrador de passagens apareceu. Wladek transpirou, embora a tempera­tura estivesse a vinte graus negativos. O condutor pegou o bi­lhete da mulher, rasgou-o, devolveu-o e dirigiu-se a Wladek:

— Bilhete, camarada — foi tudo o que disse, num tom de voz arrastado e monótono.

Wladek, emudecido, limitou-se a enfiar as mãos nos bolsos do casaco fingindo procurar a passagem.

— Ele é meu filho — afirmou a mulher com segurança.

O condutor transferiu o olhar para ela, tornou a Wladek e, cumprimentando a mulher com um movimento de cabeça, deixou o vagão sem dizer mais nada.

Wladek encarou-a.

— Obrigado — murmurou, sem saber o que mais poderia dizer.

— Vi você saindo de baixo do trem dos prisioneiros — ob­servou a mulher calmamente. Wladek estremeceu. — Mas não irei denunciá-lo. Tenho um primo, bastante jovem, num desses campos terríveis, e todos nós tememos terminar nossos dias num deles. O que tem por baixo desse casaco?

Wladek pesou a vantagem relativa de sair correndo do carro ou de desabotoar o casaco. Se abandonasse o carro, não haveria fuga. Melhor seria desabotoar o casaco.

— Hum, nada mal — fez ela. — Que destino deu à roupa da prisão?

— Joguei pela janela.

— Esperemos que não a descubram antes de você chegar a Moscou.

Wladek ficou calado.

— Tem onde morar em Moscou?

De novo lembrou-se do conselho do médico: não confie em ninguém. Mas precisava confiar nela.

— Não tenho onde ir.

– Então ficará comigo até encontrar um lugar onde mo­rar. Meu marido — explicou — é o chefe da estação de Moscou, e este carro é reservado apenas a funcionários do governo. Se cometer outro erro desses, vão colocá-lo num trem de volta para Irkutsk.

Wladek sentiu a garganta seca.

— Devo ir embora?

– Não, não agora que já foi visto pelo cobrador. Enquanto ficar ao meu lado estará seguro. Tem algum documento de iden­tidade?

— Não. Que é isso?

— Depois da Revolução, todo cidadão russo deve ter um documento de identidade, para mostrar quem é, onde mora e onde trabalha, do contrário ficará detido até poder apresentá-lo. Como jamais poderá apresentá-lo, uma vez na prisão, lá ficará a vida toda — acrescentou ela sem demonstrar emoção na voz. — Você terá de ficar ao meu lado quando chegarmos a Moscou, e procure não falar.

— A senhora está sendo muito boa para mim — disse Wla­dek, desconfiado.

— Depois da morte do czar, ninguém se sente seguro. Por sorte casei-me com o homem certo — acrescentou —, mas não existe na Rússia um só cidadão, incluindo os oficiais do governo, que não viva constantemente com medo de ser preso e levado aos campos. Como você se chama?

— Wladek.

— Muito bem. Agora, Wladek, durma, que você está can­sado. A viagem é longa e o perigo ainda não passou.

Wladek dormiu.

Horas depois acordou. Já era noite. Lançou um olhar à guardiã, que lhe sorriu. Retribuiu o sorriso, querendo acreditar que ela não o denunciaria às autoridades. Ou já o teria denun­ciado? De dentro de uma das sacolas, ela tirou uma fruta, que Wladek comeu em silêncio. Quando pararam na estação seguinte, a maioria dos passageiros desceu, uns para não mais retornar, outros, em grande parte, para comprar um lanche ou uma bebida que os reanimasse, ou esticar os membros enrijecidos do corpo.

A mulher de meia-idade ergueu-se e dirigiu-se a Wladek:

— Siga-me — disse.

Ele se levantou e acompanhou-a à plataforma. Iria entre­gá-lo? Como um menino normal de treze anos a acompanhar a mãe, pegou a mão que ela lhe estendeu. A estranha andou até a porta de um banheiro reservado exclusivamente a mulheres. Wladek ficou indeciso. Ela insistiu e, uma vez lá dentro, orde­nou-lhe que tirasse as roupas. Sem nenhuma queixa, ele obede­ceu-lhe; desde a morte do barão não obedecia a ninguém. Enquan­to ele se despia, ela girou a única torneira que ali havia, que, depois de resistir alguns segundos, soltou um jato escasso de água parda. A mulher teve uma expressão de desagrado, mas, para Wladek, em comparação à água do campo de prisioneiros, aquilo era um progresso. Com um trapo molhado, a mulher pôs-se a lavar-lhe as feridas e tentou limpá-lo sem sucesso. Ela estremeceu ao notar o corte na perna. Por mais cuidado que tomasse, cada toque seu causava em Wladek uma dor insuportável, mas ele não soltou um gemido sequer.

— Quando estivermos em casa, tratarei direito desses feri­mentos — disse ela. — Por ora, basta isso.

Foi então que viu a pulseira de prata. Examinou a inscrição e olhou Wladek atentamente.

— É sua? — perguntou. — De quem você a roubou?

Wladek ofendeu-se.

— Não a roubei. Papai me deu esta pulseira pouco antes de morrer.

Ela tornou a fitá-lo, e nos seus olhos surgiu uma nova luz. Medo ou respeito? Ela baixou a cabeça.

— Tome cuidado, Wladek, alguém pode até matá-lo para se apossar de um objeto valioso como este.

Ele meneou a cabeça, agradecendo-lhe o conselho, e come­çou a vestir-se apressadamente. Retornaram ao carro. Houve um atraso de uma hora na estação, o que não era incomum, e, quando o trem voltou a se movimentar, aos trancos, Wladek ouviu com alegria as rodas girarem ruidosas sobre os trilhos. O trem de­moraria doze dias e meio para chegar a Moscou. Toda vez que aparecia um cobrador de bilhetes, eles repetiam o mesmo procedi­mento: Wladek esforçava-se, sem muito sucesso, em passar por um garoto ingênuo e inexperiente. A mulher era uma mãe con­vincente. Os condutores invariavelmente reverenciavam a senho­ra de meia-idade, levando Wladek a pensar que chefes de estação deviam ser importantes na Rússia.

Quando completaram mil quilômetros da viagem, Wladek já confiava inteiramente naquela senhora e não via a hora de co­nhecer sua casa. No início de uma tarde, o trem chegou ao des­tino final. Embora tivesse passado por muitas coisas, Wladek nunca havia visitado uma cidade grande, quanto mais a capital de todas as Rússias. Tomou-se de pavor, e de novo experimentou o gosto do desconhecido. Havia muita gente andando apressada para lá e para cá. A mulher notou sua apreensão.

– Acompanhe-me. Não diga uma palavra. E em hipótese alguma tire o boné.

Wladek desceu a bagagem do estrado, enterrou o boné na cabeça –agora coberta por um cabelo curto e espetado — até as orelhas e a seguiu em direção à plataforma. Na barreira fiscal, formara-se uma fila de pessoas que esperavam para sair por um corredor estreito e causavam congestionamento, visto que todos eram obrigados a mostrar ao guarda os documentos de identida­de. À medida que se aproximava da barreira, Wladek podia ouvir seu coração bater; chegada a sua vez, porém, num instante o temor desapareceu. O guarda olhou os documentos da senhora.

– Camarada — disse ele, fazendo continência. Voltou-se para Wladek.

— É meu filho — explicou ela.

– Naturalmente, camarada. — E tornou a fazer continên­cia.

Wladek estava em Moscou.

A despeito da confiança que depositava na nova amiga, seu primeiro impulso foi fugir. Mas, como dificilmente poderia viver com cento e cinqüenta rublos, resolveu continuar ao lado dela. Mais tarde não lhe faltaria oportunidade de fugir. Um cavalo e uma carruagem os aguardavam fora da estação para levar para casa a mulher e o novo filho. Quando lá chegaram, o chefe da estação não estava, e desse modo a senhora tratou de arrumar a cama de hóspede. A seguir, ela despejou numa enorme banheira a água que esquentara no fogão, dizendo a Wladek que entrasse nela. Era aquele seu primeiro banho em mais de quatro anos, a menos que contasse o mergulho no rio. Ela esquentou mais água, apresentou-o de novo ao sabonete, e esfregou-lhe as costas, a única região do corpo em que a pele não estava ressecada. Aos poucos a água transparente foi ficando turva, e depois de vinte minutos estava preta. Após enxugar Wladek, a mulher untou-lhe de linimento os braços e as pernas, aplicando ataduras nas partes do corpo particularmente machucadas. Com surpresa, notou o único mamilo. Ele vestiu-se rapidamente e logo desceu à cozinha, onde ela o esperava com um prato de sopa quente e uma tigela de feijão. Wladek devorou o banquete. Nenhum dos dois disse qual­quer palavra. Terminada a refeição, a mulher aconselhou-o a ir deitar e descansar.

— Não quero que meu marido o veja antes que eu explique por que você está aqui. Wladek, se meu marido concordar, você gostaria de ficar conosco?

Agradecido, ele fez que sim com a cabeça.

— Então, vá dormir.

Wladek seguiu o conselho e esperou que o marido consen­tisse na sua permanência. Despediu-se com morosidade e deitou-se. Ele estava limpo, as roupas de cama estavam limpas, o colchão era macio, verificou, enquanto atirava o travesseiro ao chão; en­tretanto, apesar de querer sentir todo aquele conforto, estava tão cansado que adormeceu imediatamente. Horas mais tarde, foi des­pertado por vozes exaltadas que subiam da cozinha. Não saberia dizer quanto tempo tinha dormido. Já era noite quando desceu da cama, foi até a porta e, deixando-a entreaberta, escutou a conversa que vinha da cozinha.

Wladek ouviu uma voz estridente.

— Como pôde ser tão estúpida! Não imagina o que teria acontecido se fossem detidos? Era você que eles mandariam para o campo!

— Mas, Piotr, você precisava vê-lo, um animal acossado.

— Daí decidiu fazer de nós dois também animais acossados — retrucou o homem. — Ninguém estranhou o rapaz?

— Não — respondeu a mulher. — Acho que não.

— Graças a Deus! Ele deve ir embora imediatamente, antes que alguém fique sabendo da sua presença. É nossa única espe­rança.

— Ele não tem para onde ir, Piotr. Está desnorteado, sozi­nho — suplicou a defensora de Wladek. — Além do mais, eu sempre quis um filho.

— Pouco me importa o que você quer ou para onde ele vai. Não somos responsáveis pelo menino, e devemos nos livrar dele o mais depressa possível.

— Mas, Piotr, ele é de origem nobre, o pai foi barão. Usa uma pulseira de prata gravada com as palavras...

— Isso só complica as coisas. Por acaso ignora o que nossos líderes decretaram? Nada de czares, nada de nobreza, nada de privilégios. Não ficaríamos presos, seríamos fuzilados.

– Piotr, sempre quisemos um filho. Não podemos correr esse risco na nossa vida?

– Na sua vida, talvez, mas não na minha. Estou dizendo que ele irá embora, e já!

Wladek não precisava continuar escutando aquela discussão. Resolvendo que a única maneira de ajudar sua benfeitora seria desaparecer na noite sem deixar nenhuma pista, trocou-se a toda a pressa e olhou pela última vez a cama em que dormira, espe­rando não ter de passar outros quatro anos antes de deitar-se noutra. Quando abria a janela, a porta escancarou-se bruscamente, dando passagem ao chefe de estação — um homem baixo, não mais alto que Wladek, com uma barriga protuberante e cabeça calva com alguns fios muito compridos de cabelo branco. Ele usava óculos sem aro, o que causava marcas em semicírculo abaixo de cada olho. Segurava na mão um lampião a querosene. Deteve-se, encarando Wladek, que, num desafio, também o encarou.

— Desça comigo — ordenou.

A contragosto, Wladek o acompanhou à cozinha. A mulher, chorando, estava sentada à mesa.

— Escute aqui, garoto — começou ele.

— O nome dele é Wladek — interveio a mulher.

— Escute aqui, garoto — repetiu. — Você é um estorvo, e quero-o longe daqui o mais depressa possível. Digo-lhe o que vou fazer para ajudá-lo.

Ajudá-lo? Wladek cravou friamente os olhos nele.

— Dou-lhe uma passagem de trem. Para onde quer ir?

— Odessa — disse Wladek, sem saber onde ficava a cidade ou quanto custava a passagem, sabendo apenas tratar-se da cidade seguinte no mapa do médico, rumo à liberdade.

– Odessa, a terra do crime. Um destino que vem a calhar — escarneceu o chefe de estação. — Lá é que está a sua igualha, lá você pode fazer o que quiser.

– Pois então deixe-o ficar conosco, Piotr. Eu cuidarei dele, eu...

– Não, nunca! Prefiro dar dinheiro a esse degenerado!

— Mas de que modo ele passará pelas autoridades? — in­tercedeu ela.

– Serei obrigado a fornecer-lhe um salvo-conduto. — Voltou-se para Wladek. — Pegue esse trem, garoto, mas não me ponha mais os pés em Moscou; do contrário, assim que o vir, eu o deterei e o jogarei na prisão mais próxima. Depois, se não o matarem, mandarão você para o campo de prisioneiros no pri­meiro trem.

O homem lançou um olhar para o relógio que estava sobre um móvel da cozinha: vinte e três horas e cinco minutos. Diri­giu-se à esposa:

— À meia-noite parte um trem para Odessa. Vou levá-lo pessoalmente à estação. Quero ter certeza de que deixará Moscou. Tem alguma bagagem, garoto?

Prestes a responder "não", Wladek foi impedido pela mu­lher, que se adiantou.

— Sim. Vou buscá-la.

Wladek e o chefe de estação ficaram a sós, entreolhando-se com mútuo desprezo. A mulher se demorou, e, enquanto esteve ausente, o velho relógio soou uma vez. Ainda assim, ambos perma­neceram calados; o chefe de estação em nenhum momento despregou os olhos de Wladek. Finalmente a esposa retornou, tra­zendo um pacote amarrado com um cordão. Ao vê-lo, Wladek tentou objetar, mas imediatamente percebeu nos olhos dela um tal temor que só pôde dizer:

— Obrigado.

— Acabe isto — disse ela, empurrando-lhe a tigela de sopa fria.

Ele aceitou o oferecimento, embora com o estômago con­traído, e engoliu a sopa às pressas, não querendo causar-lhe mais transtorno.

— Animal! — exclamou o homem.

Wladek olhou-o com ódio. Sentiu pena da mulher, amarrada pela vida afora àquele homem.

— Vamos, garoto, é hora de ir embora — disse o chefe de estação. — Não queremos perder o trem, não é mesmo?

Wladek seguiu-o para fora da cozinha. Ao passar pela mu­lher, hesitou, tocou-lhe a mão e sentiu a resposta. Nada disse­ram; nenhuma palavra conseguiria ser expressiva. O chefe de estação e o refugiado esgueiraram-se pelas ruas de Moscou, ocultando-se nas sombras até alcançarem a estação. O homem com­prou uma passagem só de ida para Odessa e entregou o pequeno pedaço de papel vermelho a Wladek.

— Minha passagem? — perguntou Wladek, com ar desa­fiador.

O homem tirou do bolso um formulário oficial, assinou-o, apressado, e passou-o ao rapazinho dissimuladamente. Os olhos do chefe de estação se moviam, inquietos, sem se fixar em nada, como a querer prevenir algum risco possível. Wladek tinha visto essa espécie de olhar muitas vezes nos quatro anos passados: o olhar de um covarde.

– Nunca mais quero vê-lo nem ouvir falar de você — disse, com o tom de um fanfarrão.

Também esse tom Wladek tinha ouvido muitas vezes du­rante os últimos quatro anos. O menino levantou os olhos, como a querer dizer alguma coisa, mas o chefe de estação já se havia retirado, desaparecendo entre as sombras da noite. Estudou os olhos dos passantes que se apressavam à sua volta. Os mesmos olhos, o mesmo medo. Ninguém era livre naquele mundo? Pren­deu o embrulho de papel debaixo do braço, ajeitou o boné na cabeça e avançou em direção à barreira fiscal. Dessa vez, ao mos­trar o salvo-conduto ao guarda, sentiu-se confiante; sem fazer nenhum comentário, a autoridade o mandou passar. Embarcou no trem. Fora uma visita breve a Moscou, e jamais tornaria a ver de novo a cidade, embora soubesse que guardaria sempre na lembrança a bondade daquela mulher, a esposa do chefe de estação, a camarada... Nem sequer sabia o nome dela.

 

Wladek viajou de pé no carro comum. Odessa parecia mais próxima de Moscou do que Irkutsk, que, no mapa do médico, ficava a cerca de um dedão de distância, na realidade, mil e tre­zentos quilômetros. Wladek, que examinava o mapa rudimentar, distraiu-se e desviou a atenção para o jogo de cara ou coroa de um grupo de homens ali no carro do trem. Dobrou o papel pergaminho, recolocou-o cuidadosamente no forro do paletó e pouco a pouco foi sentindo maior interesse pelo jogo. Notou que um dos jogadores, mesmo quando as condições não lhe eram favoráveis, ganhava sempre. Observou com mais atenção o homem e percebeu que ele trapaceava.

Passou para o outro lado do carro com o objetivo de colo­car-se defronte do homem, e assim pegá-lo em flagrante, mas não o conseguiu. Tentando não chamar a atenção, adiantou-se e insi­nuou-se no círculo dos jogadores, conseguindo um lugar. Cada vez que o trapaceiro perdia duas vezes seguidas, Wladek jogava um rublo nele, dobrando sua aposta até que ele ganhasse. O trapaceador tanto podia estar se sentindo adulado, quanto conside­rando sensato permanecer omisso em relação à sorte de Wladek, porque nem uma vez sequer olhou na direção dele. Quando afinal o trem chegou à estação seguinte, "Wladek tinha ganho catorze rublos, e pagou dois por uma maçã e uma tigela de sopa quente. O dinheiro ganho bastaria para mantê-lo durante a viagem até Odessa, e, satisfeito com a idéia de que poderia obter muitos rublos aplicando o mesmo método, agradeceu no íntimo ao joga­dor desconhecido e tornou a subir no trem, preparado para repetir o estratagema. Ao pisar no último degrau, porém, recebeu uma pancada e foi impelido para um canto. Num movimento doloroso, torceram-lhe o braço nas costas e pressionaram-lhe fortemente o rosto contra a parede do carro. O nariz sangrou, e um ponta de faca tocou-lhe o lóbulo da orelha.

— Pode me ouvir, rapaz?

— Posso — respondeu Wladek, petrificado.

— Se entrar de novo no meu carro, arranco fora a sua orelha, e daí não vai poder mais me ouvir,, vai?

— Não, senhor — disse Wladek.

Wladek sentiu que a ponta da faca lhe cortava a pele atrás da orelha e que um filete de sangue lhe escorria pescoço abaixo.

— Isso é só um aviso, pivete.

Subitamente, com toda a força, o jogador golpeou-lhe os rins com o joelho. Wladek desabou no chão. Uma mão remexeu nos bolsos de seu casaco e tirou os rublos recentemente conseguidos.

— Meus, se não me engano — disse o homem.

Wladek sentiu que o sangue lhe escorria do nariz e da ore­lha. Reuniu coragem para levantar os olhos e espiar o corredor — o bandido desaparecera. Wladek experimentou pôr-se de pé, mas não pôde, e ali ficou caído no canto, durante alguns minutos. Quando afinal se reanimou e conseguiu se erguer, caminhou vaga­rosamente para o outro extremo do trem, o mais longe possível do carro em que estava o jogador, coxeando muito. Escondeu-se num carro ocupado quase que só por mulheres e crianças e caiu num sono pesado.

Na parada seguinte, Wladek não saiu do trem. Desfez o nó do cordão que envolvia o pequeno pacote e verificou seu conteú­do. Maçãs, pão, castanhas, duas camisas, um par de calças e até mesmo sapatos — tudo dentro do pacote. Que mulher! Que marido!

Comeu, dormiu, sonhou. E por fim, depois de cinco noites e quatro dias, o trem entrou com estrondo na estação de Odessa. Procedeu-se à inspeção na barreira fiscal, mas o guarda quase não lhe deu importância. Seu documento estava em ordem, dessa vez, mas estava sozinho. Ainda conservava os cento e cinqüenta rublos no forro do paletó e nem pensava em gastá-los.

Wladek passou o resto do dia andando pela cidade com o intuito de se familiarizar com ela, mas a todo instante ficava aturdido com as visões inusitadas: residências enormes, lojas com vitrines, mascates vendendo bugigangas coloridas, lampiões a gás, e até um macaco preso a uma vara. Caminhou até chegar ao porto, onde se pôs a contemplar o mar que se estendia para alem do horizonte. Sim, ali estava ele — o que o barão chamara de oceano. Contemplou com sofreguidão a vastidão de azul: aquele era o meio de encontrar a liberdade, o meio de fugir da Rússia. A cida­de devia ter conhecido de perto a guerra: casas arruinadas pelo fogo e pela miséria espalhadas por toda parte, incompatíveis com a brisa branda e perfumada que soprava do mar. Estaria a cidade ainda em guerra? Não havia a quem fazer a pergunta. Na hora em que o sol a pouco e pouco foi baixando até desaparecer atrás dos prédios elevados, Wladek saiu à procura de um lugar onde passar a noite. Entrou numa rua transversal e continuou andando. Devia parecer muito esquisito dentro do casaco de pele que se arrastava no chão e carregando o pacote debaixo do braço. Nada lhe inspirava segurança, até que, por fim, topou com um desvio de estrada de ferro onde um único e velho vagão de trem osten­tava sua solidão. Cautelosamente, olhou no seu interior; trevas e silêncio: não havia ninguém. Jogou o pacote dentro do carro, içou o corpo cansado sobre o soalho, engatinhou até um canto e deitou-se para dormir. Mal tinha encostado a cabeça no piso de madeira quando um corpo lançou-se sobre ele e duas mãos agar­raram-lhe rapidamente o pescoço. Quase não conseguia respirar.

— Quem é você? — falou entre dentes um menino que, pela voz, aparentava ser mais velho que ele.

— Wladek Koskiewicz.

— De onde veio?

— De Moscou. — A palavra "Slonim" esteve na ponta da língua de Wladek.

— Olhe aqui, moscovita, você não vai dormir no meu vagão.

— Desculpe — falou Wladek. — Eu não sabia.

– Tem algum dinheiro? — O menino pressionou os dedos contra a garganta de Wladek.

– Um pouquinho — respondeu Wladek.

— Quanto?

— Sete rublos.

— Me dá.

Enquanto Wladek mexia no bolso do casacão, o menino en­fiou decidido a mão dentro dele, afrouxando a outra que lhe aper­tava a garganta.

Num movimento célebre, e com toda a força que pôde reunir, Wladek atingiu com o joelho o escroto do menino. O agressor voou para trás, contorcendo-se de dor e segurando os testículos. Wladek saltou sobre ele, golpeando-o em regiões em que o me­nino jamais pensaria ser atingido. De repente as regras do jogo se tinham invertido. Ele não era um verdadeiro rival para Wladek. Comparado às masmorras e ao campo russo de trabalhos forçados, um vagão abandonado proporcionava o luxo de um hotel.

Wladek só parou de surrá-lo quando o adversário, impotente, caiu pregado ao piso do vagão. O menino implorou-lhe perdão.

— Vá para o fim do vagão e fique lá — exigiu Wladek. — Se se mexer, eu mato você.

— Eu vou, eu vou — disse o menino, arrastando-se.

Wladek ouviu-o chegar ao extremo do vagão. Sentou-se, imó­vel, e aguçou os ouvidos alguns instantes. Nenhum movimento. A seguir, pela segunda vez, deitou a cabeça no soalho e dali a pouco adormeceu completamente.

Quando acordou, o sol penetrava pelas fendas do vagão. Virou-se, sonolento e, pela primeira vez, olhou o adversário da noite anterior. Ele se deitara na posição fetal, no fim do vagão, e ainda estava dormindo.

— Venha cá — ordenou Wladek.

O menino acordou vagarosamente.

— Venha cá — tornou Wladek, erguendo a voz um pouco mais.

O menino lhe obedeceu prontamente. Era sua primeira opor­tunidade de vê-lo bem. Tinham mais ou menos a mesma idade, mas o menino era uns trinta centímetros mais alto. Tinha uma cara mais jovem e cabeleira loira, suja e emaranhada. Seu aspecto geral revelava que mencionar sabão e água seria insultá-lo.

— Primeiro, o mais importante — disse Wladek. — Como é que a gente arranja alguma coisa para comer?

— Venha comigo — respondeu o menino, saltando do vagão.

Wladek seguiu-o, mancando, subindo a colina em direção à cida­de, onde se montava a feira matinal. Nunca vira tanto alimento saudável desde os esplêndidos jantares em companhia do barão. Uma enfiada de barracas repletas de frutas, legumes e verduras, e até mesmo suas castanhas prediletas. O menino observou Wla­dek maravilhar-se com o espetáculo.

– Agora veja o que vamos fazer — disse o menino, pela primeira vez demonstrando maior segurança. — Vou até aquela barraca lá na ponta, pego duas laranjas e saio correndo. Então você grita bem alto: "Pega ladrão!" O vendedor vai sair atrás de mim, e nisso você chega e apanha as frutas. Não muitas. Pegue o suficiente para uma refeição. Depois volte aqui. Entendeu?

— Acho que sim — disse Wladek.

— Vamos ver se você faz isso, moscovita.

O menino lançou-lhe um olhar provocador, resmungou e afastou-se. Maravilhado, Wladek observou-o caminhar, emproado, até a primeira barraca, pegar uma laranja do topo de uma pirâ­mide, dizer alguma coisa rapidamente ao feirante e sair correndo sem muita afobação. O menino olhou para Wladek, que se esque­cera completamente de gritar "Pega ladrão", mas o feirante girou os olhos à procura do malandro e imediatamente saiu atrás dele. Enquanto todos os olhares se voltavam para seu cúmplice, Wladek avançou às pressas e apanhou três laranjas, uma maçã e uma ba­tata, colocando-as no bolso do casacão. Quando o feirante estava prestes a alcançar o garoto, este atirou-lhe de volta as laranjas. O homem deteve-se no mesmo instante, recolheu as frutas do chão e proferiu palavrões, brandindo a mão fechada e queixando-se com os outros comerciantes enquanto voltava à barraca.

Vendo a cena, Wladek riu, afastando-se dali. De repente, sentiu a mão de alguém apertar-lhe o ombro. Voltou-se, horrori­zado por ter sido pego.

— E aí, moscovita, pegou alguma coisa ou está aqui como turista?

Com grande alívio, Wladek explodiu numa risada e mostrou as três laranjas, a maçã e a batata. O menino também riu.

— Como é que você se chama? — perguntou Wladek.

— Stefan.

— Vamos fazer outra vez, Stefan.

— Calma lá, moscovita, não comece a dar uma de esperto. Se a gente trabalhar de novo do meu jeito, vamos ter que ir para a outra ponta da feira e esperar pelo menos uma hora. Você agora está trabalhando com um profissional. Fique sabendo que de vez em quando eles vão te pegar.

Calmamente, os dois meninos foram ao outro extremo da feira, Stefan andando com uma empáfia pela qual Wladek teria trocado as três laranjas, a maçã, a batata e os cento e cinqüenta rublos. Confundiram-se entre os fregueses da manhã, e, quando Stefan decidiu que já era tempo, ambos repetiram duas vezes a façanha. Contentes com os resultados, voltaram ao vagão e des­frutaram o espólio: seis laranjas, cinco maçãs, três batatas, uma pêra, uma variedade de castanhas, e, a presa especial, um melão. Stefan jamais contara com bolsos tão grandes para acolher um deles. Mas o casacão de Wladek era capaz de uma proeza como essa.

— Nada mau — comentou Wladek, enterrando os dentes numa batata.

— Você não tira a casca? — perguntou Stefan, horrorizado.

— Estive em lugares em que a casca era um luxo — expli­cou Wladek.

Stefan olhou-o com admiração.

— Nosso próximo problema é conseguir algum dinheiro — disse Wladek.

— Quer tudo de uma vez, não quer, mestre? — disse Stefan. — O mais garantido é o trabalho pesado lá no cais, se é que está disposto a trabalhar duro, moscovita.

— Mostre-me o que fazer — disse Wladek.

Depois de terem comido metade das frutas e escondido o resto debaixo da palha no fundo do vagão, Stefan levou Wladek até os últimos degraus do ancoradouro e mostrou-lhe todos os navios. Wladek não acreditava no que seus olhos viam. O barão tinha falado sobre grandes navios que atravessavam oceanos trans­portando carregamentos para terras estrangeiras, mas aqueles eram muito maiores do que os produzidos por sua imaginação, flutuan­do ao longe numa linha do mar que seus olhos mal alcançavam.

Stefan interrompeu-lhe os pensamentos.

— Vê aquele ali, grandão e verde? Bom, você deve fazer o seguinte: pegar um balde no fim da rampa de desembarque, enchê-lo de cereal, subir a escala e despejá-lo no porão. Para cada quatro viagens dessa, você ganha um rublo. Mas confira o di­nheiro, moscovita, porque o malandro do encarregado do pessoal vai querer enganá-lo.

Stefan e Wladek trabalharam metade da tarde carregando o cereal. Juntos, perceberam vinte e seis rublos. Após o jantar, que consistiu em castanhas, pão e uma cebola, todos roubados, em­bora a cebola não tivesse entrado em seus planos, dormiram, fe­lizes, no interior do vagão.

Na manhã seguinte, Wladek foi o primeiro a acordar, e Stefan o encontrou estudando o mapa.

— Que é isso? — perguntou Stefan.

– Uma rota que mostra como sair da Rússia.

– Mas pra que quer sair da Rússia, quando pode ficar e trabalharmos juntos? — perguntou-lhe Stefan. — Podemos ser sócios, não podemos?

— Não. Eu vou para a Turquia. Lá, pela primeira vez na minha vida, serei um homem livre. Stefan, por que não vem comigo?

— Nunca vou deixar Odessa. Esta cidade é a minha casa, a estrada de ferro é a minha casa. Eu vivo aqui, aqui está a gente que conheci durante toda a minha vida. Sei que não é bom, mas esse lugar que você chama de Turquia pode ser ainda pior. Se é o que quer, vou ajudar você a fugir, porque sei como descobrir de onde vêm esses navios todos.

— Como vou saber que navio vai para a Turquia? — inda­gou Wladek.

— Fácil, fácil. No fim do cais mora o Zé Banguela. Ele vai lhe dar a informação por um rublo.

— Aposto que ele racha o dinheiro com você.

— Meio a meio — concordou Stefan. — Está aprendendo depressa, moscovita.

Terminada a conversa, Stefan saltou do vagão. Wladek ten­tou segui-lo. Como ele corria ágil entre os vagões parados na linha férrea! Uma vez mais, Wladek tomou consciência da habi­lidade que os outros meninos tinham de se movimentar. A ele fora dado apenas mancar!

Quando atingiram a ponta do cais, Stefan o fez entrar num cômodo estreito, abarrotado de livros empoeirados e de velhos papéis com tabelas de horário. Wladek não viu ninguém, mas dali a pouco, detrás da enorme pilha de livros, soou uma voz.

— Que está querendo, pirralho? Não tenho tempo a perder com você.

— Uma informaçãozinha para o meu companheiro que anda viajando, Zé. Sabe quando sai o próximo navio de luxo para a Turquia?

— Só com dinheiro adiantado — disse o velho, cuja cabeça, coberta por um boné de marinheiro, foi emergindo atrás dos livros, o rosto vincado de rugas e desgastado pelas intempéries. Seus olhos pretos pregaram-se em Wladek.

— Ele já foi lobo-do-mar — sussurrou Stefan, mas tão alto que Zé Banguela pôde ouvi-lo.

— Não comece a debochar, pirralho. Cadê o rublo?

— Minha carteira está com o meu amigo — justificou Stefan. — Wladek, mostre-lhe o rublo.

Wladek mostrou uma moeda. Zé mordeu-a com seu único dente, remexeu na estante de livros em desordem e, num arroubo, puxou uma enorme tabela verde. O pó se dispersou por toda parte. Ele tossia enquanto folheava as páginas encardidas, desli­zando o dedo curto, grosso e endurecido pelas tralhas ao longo das compridas colunas de nomes.

— Quinta-feira o Renaska vem recolher a carga de carvão. Talvez zarpe no sábado. Se carregarem logo o navio, sairá na noite de sexta-feira, para economizar as tarifas da aduana. Atraca no ancoradouro 17.

— Obrigado, Zé Banguela — disse Stefan. — Vou ver se no futuro trago mais algum dos meus sócios ricos.

Irado, Zé Banguela brandiu o punho cerrado. Stefan e Wladek correram em direção ao cais.

Nos três dias que se seguiram, os dois garotos roubaram ali­mentos, transportaram cereais e dormiram. Quando o navio turco aportou, na quinta-feira seguinte, Stefan quase conseguira con­vencer Wladek a ficar em Odessa. Mas o medo que Wladek tinha dos russos derrotou o fascínio pela nova vida na companhia de Stefan.

Postaram-se no cais, os olhos cravados no recém-chegado navio, atracado no ancoradouro 17.

— Como vou entrar no navio? — perguntou Wladek.

— Simples — respondeu Stefan. — Amanhã cedo vamos tra­balhar com os estivadores. Fico atrás de você e, quando o porão estiver quase cheio, você pula dentro dele e se esconde. Enquanto isso, pego o seu balde e desço a rampa pelo outro lado.

— E aí fica com a minha parte do dinheiro, não é isso? — inquiriu Wladek.

— Mas é claro — confirmou Stefan. — Minha inteligência superior tem que ser recompensada de alguma maneira. Senão, como é que um sujeito pode continuar pondo fé na livre inicia­tiva?

Pela manhã, juntaram-se ao grupo de estivadores e carrega­ram carvão pela rampa de embarque, até que finalmente ambos se prepararam para interromper o trabalho. Mas a hora não havia chegado. O porão só se encheu, e ainda assim pela metade, ao anoi­tecer. Nessa noite, os dois moleques dormiram a sono solto. Na manhã seguinte, retomaram o trabalho, e, no meio da tarde, quando o porão estava quase cheio, Stefan deu o sinal: um cutucão no tornozelo de Wladek.

— Na próxima subida, moscovita — disse.

Ao atingirem o alto da rampa, Wladek despejou o carvão, largou o balde no convés, saltou o parapeito do porão e aterrissou sobre o carvão, enquanto Stefan pegava o balde e, assoviando, descia pelo outro lado da rampa de desembarque.

— Adeus, meu amigo — disse —, e boa sorte com os turcos infiéis.

Wladek espremeu-se num canto do porão e observou a queda dos carvões ao seu lado. O pó negro assaltava todo o espaço, seu nariz, sua boca, seus pulmões e seus olhos. Wladek esforçou-se para não tossir, temendo ser ouvido por algum homem da tri­pulação. Exatamente no momento em que achava que não supor­taria mais o pó de carvão e que o melhor seria se juntar de novo a Stefan e pensar numa outra maneira de fugir, viu acima dele as tampas se fecharem. Tossiu até se fartar.

Instantes depois, sentiu uma mordida no tornozelo. Gelou, compreendendo nitidamente o que poderia ser. Procurou ver o agressor. Tão logo arremessou um pedaço de carvão contra o monstro, fazendo-o escapulir em disparada, outro o atacou, seguido de outro e mais outro. Os mais ferozes avançavam até suas per­nas. Pareciam surgir do nada. Pretos, grandes e esfaimados. Pela primeira vez na vida, Wladek reparava que ratos tinham olhos vermelhos. Trepou no topo do monte de carvões e abriu uma escotilha. A luz do sol jorrou dentro e os ratos desapareceram, retirando-se nos seus túneis escavados entre os carvões. Wladek começou a escalar o monte de carvão, pronto para sair, mas o navio já estava bem distante do cais. Tornou a cair dentro do porão, aterrorizado. Se o navio voltasse ao porto e ele fosse en­tregue à polícia, sem dúvida seria uma viagem sem retorno ao campo 201. Preferiu ficar na companhia dos ratos, que, logo que ele fechou a escotilha, voltaram a atacá-lo. O mais rapidamente que podia, Wladek começou a atirar montes de carvão contra os animais repugnantes, que, apesar disso, continuavam a surgir de todos os cantos. A intervalos muito breves, ele abria a escotilha e deixava a luz do sol entrar; a luz era o único aliado capaz de afugentar os roedores.

Durante dois dias e três noites, Wladek travou um combate com os ratos, sem jamais conseguir um momento sequer de sono tranqüilo. Finalmente, o navio aportou em Constantinopla e um marinheiro de convés abriu o porão. Wladek estava preto de car­vão da cabeça aos joelhos e vermelho de sangue dos joelhos às pontas dos pés. O marinheiro retirou-o dali de dentro. Wladek tentou manter-se de pé, mas desmoronou no convés.

Quando voltou a si — ignorava onde ou quanto tempo mais tarde —, Wladek achou-se deitado numa cama, numa sala pe­quena, rodeado por três homens que trajavam aventais brancos e o examinavam com cuidado, conversando entre si numa língua desconhecida. Quantas línguas existiam no mundo? Wladek per­correu o olhar pelo próprio corpo, ainda vermelho e preto, e tentou sentar-se, mas um dos homens de branco, o mais velho, de rosto magro e enrugado, de cavanhaque, o impediu, fazendo-o deitar-se outra vez. O médico falou com ele na língua estranha. Wladek balançou a cabeça, dizendo que não o entendia. O ho­mem experimentou o russo. Mais uma vez Wladek balançou a cabeça — falar russo, nesse instante de sua vida, seria abrir o mais curto caminho de volta ao lugar de onde tinha escapado. O outro idioma em que o médico se expressou foi o alemão, e Wla­dek constatou que ele próprio dominava o idioma melhor que seu inquiridor.

— Fala alemão?

— Sim.

— Você não é russo?

— Não.

— O que estava fazendo na Rússia?

— Tentava fugir.

— Hum.

O médico virou-se para os colegas e aparentemente os infor­mou, na língua deles, do diálogo. Em seguida, os três se retiraram da sala.

Uma enfermeira entrou e o limpou, sem dar muita impor­tância aos seus gritos de dor. Passou-lhe nas pernas um ungüento grosso e o deixou sozinho. Wladek adormeceu. Ao acordar pela segunda vez, continuava sozinho. Permaneceu deitado, olhando para o teto branco e imaginando sua próxima iniciativa.

Não sabendo onde estava, e querendo sabê-lo, subiu no peitoril da janela e olhou. Divisou a praça do mercado, igual à que conhecera em Odessa, mas com a diferença de que os mercadores usavam roupas brancas e compridas e tinham pele morena. Usa­vam também chapéus de várias cores, que, vistos de cima, lem­bravam vasinhos de flores de ponta-cabeça. Calçavam sandálias. As mulheres, todas elas, vestiam-se de preto, e, a não ser pela região dos olhos, seus rostos estavam totalmente cobertos. Wladek observou aquela raça tão singular que se acotovelava na praça do mercado, fazendo suas pechinchas para comprar o pão de cada dia; pelo menos essa era uma coisa que parecia ser universal.

O menino assistiu à cena por alguns minutos e só então re­parou que, junto à parede do prédio, estava encostada uma escada de mão, de ferro pintado de vermelho, que se estendia até o chão lá embaixo, muito semelhante à escada de incêndio do seu castelo de Slonim. Seu castelo! Ninguém mais acreditaria nele! Desceu do peitoril, andou de mansinho até a porta, abriu-a e espiou o cor­redor. Homens e mulheres apressavam-se para lá e para cá, mas não pareciam reparar na sua presença. Ele fechou a porta deva­gar, pegou seus pertences, que encontrou dentro do armário en­costado na parede da sala, e vestiu-se com rapidez. As roupas ainda estavam sujas de carvão e raspavam desagradavelmente a pele limpa. Ele voltou ao peitoril. Abriu a janela sem dificuldade. Se­gurou-se firme na escada de incêndio e, num movimento rápido, saiu da janela e começou a descer, rumo à liberdade. O calor foi a primeira coisa que o incomodou. Gostaria de abandonar o pe­sado casacão.

Assim que atingiu o solo, procurou correr, mas as pernas, de tão fracas e doloridas, não agüentaram, permitindo-lhe apenas andar a passos lentos. Como seria bom se houvesse um jeito de nunca mais mancar! Só tornou a olhar para o hospital depois de se ter misturado às pessoas que se aglomeravam na praça do mer­cado.

Olhou os alimentos expostos nas barracas e decidiu comprar uma laranja e uma porção de castanhas. Enfiou os dedos no forro do paletó. Não tinha a certeza de ter colocado o dinheiro na manga direita? Naturalmente que sim, mas o dinheiro não estava ali, e, pior ainda, nem a pulseira de prata. Os homens de avental branco tinham roubado os seus bens! Ele ponderou sobre voltar ao hospital e reaver a herança perdida, mas resolveu que só o faria depois de se alimentar. Talvez dentro do bolso houvesse algum dinheiro. Remexeu no enorme bolso do casacão e achou as três notas e algumas moedas. Junto com elas, o mapa do mé­dico e a pulseira de prata. O achado o deixou radiante. Pôs a pulseira, puxou-a e conservou-a um pouco acima do cotovelo.

Wladek pegou a maior laranja que encontrou e pediu um punhado de castanhas. O vendedor disse alguma coisa que ele não compreendeu. O menino pressentiu que a maneira mais fácil de transpor a barreira da língua era mostrar uma nota de cinqüenta rublos. Batendo os olhos nela, o mercador riu e atirou os braços para o céu.

— Alá! — exclamou, tomando das mãos de Wladek as cas­tanhas e a laranja e expulsando-o dali com o dedo indicador em riste.

Wladek afastou-se, desalentado. Uma língua diferente, pre­sumiu, significava dinheiro diferente. Na Rússia estivera na po­breza; ali estava na penúria. Teria de furtar a laranja. Se o pe­gassem, ele a devolveria ao mercador. Andou até o extremo opos­to da feira, do mesmo jeito que Stefan o fizera, mas sem saber imitar o gingado dele, e, ademais, sem possuir a mesma segu­rança. Escolheu a última barraca e, após certificar-se de que nin­guém o notara, furtou a laranja e saiu correndo. Repentinamente, houve uma gritaria, como se a metade da cidade o perseguisse.

Um sujeito grandalhão atirou-se sobre ele, que coxeava, e o lançou ao chão. Seis ou sete populares agarraram-no e uns tan­tos outros se juntaram ao seu redor, enquanto o levavam de volta à barraca. Lá, um guarda os esperava. Ele anotou algumas declarações e a seguir, em altos brados, começou a discutir com o vendedor, e suas vozes se tornavam mais altas a cada nova afirmação. O policial se voltou para Wladek e também gritou com ele, mas o menino não entendia nada do que ele dizia. O policial deu de ombros e, pegando-o pela orelha, carregou-o dali. Os populares não pararam de xingá-lo. Alguns até cuspiram nele. Quando chegou à delegacia, conduziram-no ao subterrâneo e o empurraram para dentro de uma cela estreita, já ocupada por vinte ou trinta criminosos, bandidos, ladrões, e sabe-se lá o que mais. Wladek não conversou com eles, que também não demonstra­ram a menor vontade de falar com ele. Manteve-se encostado contra uma parede, todo encolhido, quietinho e aterrorizado. E pelo menos por um dia e uma noite dali não saiu, sem comida e sem claridade. O fedor de restos fecais fê-lo vomitar. Jamais teria imaginado que um dia as masmorras de Slonim parecer-lhe-iam vazias e tranqüilas.

No outro dia, Wladek foi retirado do subterrâneo por dois guardas, que o escoltaram até um saguão do posto policial e o mandaram entrar numa fila de prisioneiros. Depois de amarra­dos um ao outro pela cintura com uma corda, os presos começa­ram a marchar para a rua. Um mundo de gente se amontoava do lado de fora, e, a julgar pela recepção ruidosa, aguardavam havia algum tempo a aparição dos prisioneiros. Aquela multidão os acompanhou durante todo o trajeto até a praça do mercado, ber­rando, aplaudindo e emitindo gritos, cuja razão Wladek, atemo­rizado, esperava descobrir dali a pouco. Tão logo alcançou a praça, a fila recebeu ordens de parar. O primeiro prisioneiro foi desamarrado e levado ao centro da praça, já repleta de centenas de espectadores, todos gritando.

Perplexo, Wladek observou a cena. O prisioneiro ficou de pé no meio do pátio e um guarda deu-lhe uma pancada nas arti­culações dos joelhos, obrigando-o a ajoelhar-se. Um sujeito gi­gantesco prendeu-lhe a mão direita com uma correia de couro a um grande cepo. Em seguida ergueu uma espada enorme acima de sua cabeça e desceu-a com uma força e uma velocidade im­pressionantes, visando o pulso do prisioneiro. Apenas as pontas dos dedos foram cortadas. O prisioneiro soltou um desesperado grito de dor, enquanto a espada se elevava de novo no ar. O segundo golpe acertou-lhe o pulso, mas sem consumar o intento, pois a mão ficou balançando, ainda pendendo do braço do pri­sioneiro, enquanto o sangue jorrava na areia. Pela terceira vez a espada subiu e desceu, implacável. Por fim a mão do prisio­neiro caiu. A multidão vibrou num sinal de aprovação. Soltaram o prisioneiro, que tombou inconsciente. O guarda arrastou-o dali com indiferença e o largou junto à barreira humana. Uma mulher em prantos, esposa dele, presumiu Wladek, às pressas amarrou um lenço encardido em torno do toco sangrento. O segundo prisioneiro morreu, vítima de um ataque, antes que a espada descesse pela quarta vez. O executor, um brutamontes, não se incomodou com a morte e prosseguiu no cumprimento de sua tarefa. Era pago para decepar mãos.

Wladek percorreu com o olhar a multidão ao redor, tomado de horror, e, se houvesse alguma coisa dentro de seu estômago, com certeza a teria posto fora. Buscou, em todos os lados, algu­ma ajuda ou um meio de fugir; não sabia que, segundo a lei maometana, a punição por tentativa de fuga era a perda de um pé. Dardejou com o olhar a massa de rostos que se comprimiam em torno da praça e finalmente vislumbrou um senhor que se vestia como europeu, com um terno escuro. O homem, postado a cerca de vinte metros de Wladek, repudiava nitidamente o ma­cabro espetáculo. Mas em momento algum olhou na direção de Wladek, e jamais ouviria seus gritos de socorro, que se perde­riam entre os da multidão, mais altos cada vez que a espada descia. Seria ele francês, alemão, inglês ou, quem sabe, polonês? Wladek não desviou o olhar dele, suplicando-lhe mentalmente que olhasse na sua direção. Mas ele não o via. Wladek acenou com o braço livre, e ainda assim não logrou chamar a sua aten­ção. Soltaram o primeiro dos dois homens à frente de Wladek e o arrastaram até o cepo. A espada subiu outra vez, e a multi­dão exultou. O europeu de terno escuro virou o rosto, com re­pugnância, e Wladek acenou-lhe desesperadamente.

O homem finalmente o viu e voltou-se para o companheiro, cuja presença Wladek não tinha notado. O guarda, nesse mo­mento, estava entretido com o prisioneiro colocado imediata­mente à sua frente. O carrasco prendeu-lhe a mão com a correia de couro; a espada subiu e desceu, decepando-lhe a mão num só golpe. A multidão pareceu decepcionada. Wladek tornou a olhar os europeus. Ambos olhavam também para ele. Desejou ardentemente que interferissem pela sua libertação, mas estavam imóveis.

O guarda caminhou até Wladek, atirou ao chão seu casaco de cinqüenta rublos, desabotoou-lhe a camisa e enrolou a manga. Enquanto era arrastado ao longo da praça, Wladek debateu-se inutilmente. Já em frente ao toro, levou um pontapé na articula­ção do joelho e desabou no solo. A correia apertou-lhe o pulso direito. Nada havia a fazer senão fechar os olhos enquanto a espada se erguia acima da cabeça do carrasco. Aterrorizado, ele esperou o golpe terrível. Nisso, a multidão murmurou: a pul­seira de prata do barão escorregara-lhe pelo braço, indo parar sobre o cepo. O silêncio pairou sobre a massa humana, enquanto a herança cintilava à luz do sol. O carrasco se deteve, baixou a espada e examinou a pulseira. Wladek abriu os olhos. O brutamontes procurou afastá-la do pulso, mas a correia de couro não o permitiu. Um sujeito fardado correu até o carrasco. Também olhou a pulseira e a inscrição e sem demora foi ter com outro homem, que, pelo andar vagaroso, Wladek julgou ser seu supe­rior. A espada descansava no cepo, e a multidão escarnecia e vaiava. O segundo oficial também tentou afastar a pulseira do pulso, mas não conseguiu fazê-la passar pela correia. Ele gritou alguma coisa para Wladek, que não o entendeu e respondeu em polonês:

— Não falo a sua língua.

Surpreso, o oficial levantou os braços e bradou:

— Alá!

Devia significar o mesmo que "santo Deus", imaginou Wladek.

A passos arrastados, o oficial andou até os dois homens que trajavam roupas ocidentais e gesticulou amplamente, para todos os lados, como se fosse um moinho de vento desgovernado. Wla­dek suplicou a Deus; numa situação como aquela, todo homem suplica a alguém onipotente, seja Alá ou a Virgem Maria. Os europeus olhavam com insistência para Wladek, que acenava desesperadamente com a cabeça, para cima e para baixo. Um dos europeus, o de terno escuro, seguiu o oficial turco, que se adian­tava na direção de Wladek. O europeu agachou-se ao lado do rapaz, examinou a pulseira de prata e o fitou. Wladek, ansioso, aguardava. Falava cinco idiomas, e sua esperança era que o cava­lheiro falasse algum deles. Quando o homem conversou com o oficial na língua dele, foi como se o seu coração se desmanchas­se. A multidão vaiava e arremessava frutas podres contra o toro. O oficial fez que sim com a cabeça, concordando em alguma coisa com o europeu, que concentrava o olhar em Wladek.

— Sabe falar inglês?

Wladek suspirou, aliviado.

— Sim, senhor, um pouco. Sou polonês.

— Pode me dizer como essa pulseira veio parar com você?

- Ela pertenceu a meu pai. Ele foi morto na prisão por alemães, na Polônia, e eu fui preso e mandado a um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Fugi e vim para cá de navio. Faz dias que eu não como nada. O vendedor recusou meus rublos pela laranja, e peguei uma, porque estava com muita fome.

O inglês pôs-se lentamente de pé e dirigiu-se ao oficial num tom de voz firme. O oficial, por sua vez, deu uma ordem ao carrasco, que ficou imóvel e perplexo; o oficial repetiu a ordem autoritariamente, e o subalterno baixou a cabeça, soltando a cor­reia que prendia Wladek. Dessa vez ele vomitou.

— Vamos embora — disse o inglês. — E depressa, antes que eles mudem de idéia.

Ainda atordoado, Wladek apanhou o casaco e o seguiu. A multidão apupava, atirando cascas de frutas enquanto ele se re­tirava. Num instante o carrasco prendeu a mão do prisioneiro seguinte e no primeiro golpe arrancou-lhe o polegar. Isso bastou para acalmar a turba.

Aos empurrões, o inglês foi abrindo caminho entre a massa impaciente, até sair da praça e encontrar o companheiro, que o aguardava.

— Edward, o que está acontecendo?

— Este garoto diz que é polonês e que fugiu da Rússia. Aleguei ao oficial de serviço que ele é cidadão inglês. Ele agora está sob nossa responsabilidade. Vamos levá-lo à embaixada e verificar o que há de verdadeiro na história dele.

Wladek andava com dificuldade entre os dois homens, que iam apressados por entre as barracas, até entrarem na rua dos Sete Reis. Ainda lhe chegavam aos ouvidos, embora fracos, os gritos de satisfação da multidão cada vez que o carrasco descia a espada.

Os dois ingleses cruzaram um pátio coberto de seixos e di­rigiram-se a um imponente edifício cinzento, tocando-lhe nas costas para que os acompanhasse. Na porta, ele leu as confortadoras palavras: Embaixada Britânica. Uma vez dentro do prédio, pela primeira vez Wladek começou a sentir-se seguro. Andou por um corredor atrás dos dois homens e, juntos, pararam num saguão cujas paredes estavam apinhadas de retratos de soldados e de marinheiros com estranhas fardas. No outro extremo do amplo recinto, estava afixado um magnífico retrato de um velho com uniforme azul, prodigamente adornado com medalhas. A bar­ba longa e vistosa lembrava-lhe a do barão. Um soldado apare­ceu e fez continência.

— Cabo Smithers, leve este menino e providencie-lhe um banho. Depois, dê-lhe de comer. Assim que estiver alimentado e com um cheiro menos desagradável, traga-o ao meu gabinete.

— Sim, senhor — disse o cabo, fazendo continência.

— Venha comigo, rapaz.

O soldado afastou-se. Obediente, Wladek o seguiu, dando corridinhas para acompanhar seus passos longos. Entraram num quarto situado no subsolo da embaixada; dessa vez, porém, ha­via uma janela. Antes de sair, o soldado ordenou-lhe que se despisse, mas ao voltar minutos depois encontrou Wladek sen­tado na beira da cama, ainda completamente vestido, perplexo, girando a pulseira de prata em torno do pulso.

— Depressa, rapaz, isto aqui não é uma casa de saúde.

— Desculpe, senhor — disse Wladek.

— Não me chame de senhor, rapaz. Sou o cabo Smithers. Chame-me de cabo.

— Sou Wladek Koskiewicz. Chame-me de Wladek.

– Não se faça de engraçadinho, rapaz. O Exército britânico está cheio de engraçadinhos, e não precisamos de mais um.

Wladek não compreendeu o que o soldado quis dizer. Tra­tou de despir-se.

— Acompanhe-me. Mas ande depressa.

Outro maravilhoso banho de água quente com sabonete! Wladek lembrou-se de sua protetora russa e imaginou que filho não teria sido para ela, mas não para o marido. Um novo con­junto de roupas, estrangeiras, mas limpas e cheirosas. A que filho teriam pertencido? O soldado apareceu para buscá-lo.

O cabo Smithers o conduziu à cozinha e o deixou com uma cozinheira gorda e de faces avermelhadas, o rosto mais corado que ele vira desde que saíra da Polônia. Tinha jeito de babá. Não pôde deixar de imaginar como a cintura dela ficaria fina depois de umas semanas no campo 201.

— Olá — saudou ela, com um sorriso radiante. — Como se chama?

— Wladek.

— Escute, rapazinho, pelo seu aspecto acho que está pre­parado para devorar uma boa comida inglesa. Essas porcarias turcas não alimentam. Comece com este prato de sopa quente e um bife. Se tem que enfrentar o sr. Prendergast, precisa se ali­mentar bem. — Ela riu. — Mas lembre-se: ele não morde tanto quanto late. Apesar de ser inglês, o coração dele está no lugar certo.

— Não é inglesa, senhora cozinheira? — perguntou Wla­dek, surpreso.

— Valha-me Deus! Não, rapazinho, sou escocesa. Há um mundo de diferença. Detestamos os ingleses muito mais do que os alemães os detestam — disse, rindo.

Ela pôs na mesa um prato de sopa fumegante, enriquecido com carne e verduras. Wladek havia esquecido completamente que comida pudesse ter um cheiro e um sabor apetitosos. Sabo­reou a refeição vagarosamente, como se temesse ficar sem comer durante um longo período.

O cabo reapareceu.

— Comeu bastante, rapaz?

— Oh, sim, obrigado, senhor cabo.

Ele olhou Wladek com desconfiança, mas logo admitiu que na expressão do garoto não havia deboche.

— Ótimo, então vamos andando. Não deve se atrasar para se apresentar ao sr. Prendergast.

O cabo fez menção de sair, e Wladek fitou a cozinheira. Detestava ter sempre de dizer adeus a quem mal acabava de conhecer, principalmente quando as pessoas eram bondosas.

— Vá, rapazinho, se sabe o que é bom para você.

— Obrigado, senhora cozinheira — disse ele. — Não me lembro de ter comido uma comida tão gostosa.

A cozinheira lhe sorriu. Mais uma vez ele precisou mancar muito para alcançar o cabo, cujos passos apressados obrigavam-no a correr. O soldado parou bruscamente diante de uma porta que Wladek por pouco não abriu.

— Olhe o que faz, rapazinho, olhe o que faz!

O soldado deu duas batidas secas na porta.

— Entre.

O cabo abriu a porta e fez continência.

— O menino polonês, senhor, limpo e alimentado.

— Obrigado, cabo. Por favor, peça ao sr. Grant que faça a gentileza de vir até aqui.

Edward Prendergast levantou os olhos dos papéis na mesa. Indicou a Wladek uma cadeira e continuou a mexer em seus papéis. Wladek sentou-se, fitou-o por alguns instantes e depois passeou o olhar pelos retratos pendurados nas paredes. Mais ge­nerais, mais almirantes, e de novo aquele cavalheiro velho e bar­budo, dessa vez com um uniforme caqui. Momentos mais tarde, entrou o outro inglês que estivera na praça do mercado.

— Obrigado, Harry, por ter vindo. Sente-se, meu velho.

O sr. Prendergast dirigiu-se a Wladek.

— Muito bem, rapaz, conte-nos a sua história desde o co­meço, mas sem nenhum exagero. Somente a verdade. Compreen­de?

— Sim, senhor.

Wladek contou sua vida desde a infância na Polônia. De­morava-se um pouco, tentando encontrar as palavras inglesas ade­quadas. Era evidente, pelas expressões dos dois ingleses, que a princípio não estavam acreditando nele. De vez em quando o interrompiam com perguntas, e a cada resposta comunicavam-se com sinais afirmativos. Após uma hora, a história de Wladek tinha sido exposta ao segundo-cônsul de sua Majestade britânica na Turquia.

– A meu ver, Harry — começou o segundo-consul —, é nosso dever comunicar o fato imediatamente ao consulado polo­nês e entregar-lhe o jovem Koskiewicz, uma vez que nessas cir­cunstâncias, sem dúvida, o caso é da responsabilidade deles.

– Concordo — disse o homem chamado Harry. — Sabe, ra­paz, você escapou por um triz daquele massacre. A lei Sher, digo, a antiga lei religiosa maometana, que permite a extirpação de uma mão como castigo aos ladrões, foi abolida oficialmente, em teoria, anos atrás. De fato, segundo o código penal turco, apli­car uma punição dessa natureza é crime. Mas na prática os bár­baros ainda continuam a fazê-lo. — Encolheu os ombros.

— E por que não cortaram a minha mão? — perguntou Wladek, segurando o pulso.

— Disse ao oficial que ele poderia cortar a mão de quan­tos muçulmanos quisesse, mas não a de um inglês — interveio Edward Prendergast.

— Graças a Deus! — disse Wladek, a voz desfalecida.

— Agradeça a Edward Prendergast — observou ele, sor­rindo pela primeira vez.

O segundo-cônsul prosseguiu:

— Você passará a noite aqui e amanhã o levaremos a seu consulado. Na verdade, a Polônia não tem embaixada em Constantinopla — explicou, com leve desdém —, mas meu colega é um bom sujeito, se considerarmos que se trata de um estran­geiro.

Ele apertou um botão, e o cabo entrou imediatamente.

— Senhor.

— Cabo, guie o jovem Koskiewicz até o quarto. Pela ma­nhã, providencie-lhe um lanche e traga-o aqui às nove em ponto.

— Sim, senhor. Depressa, garoto.

Wladek saiu com o cabo, sem ter tido tempo de agradecer aos dois ingleses por lhe terem salvo a mão — e talvez a vida. De volta ao quarto limpo, com a cama pequena e asseada, per­feitamente arrumada, como se fosse um hóspede de honra, despiu-se, jogou o travesseiro no chão e dormiu a sono solto até a luz da manhã entrar pela janela estreita.

— Levante-se, e apronte-se, rápido!

Era o cabo, de uniforme impecável e bem-passado, dando a impressão de nunca ter se deitado numa cama. Por um instante, Wladek, ainda sonolento, pensou ter voltado ao campo 201, porque a batida que o cabo deu com seu bastão no ferro do pé da cama lembrou-lhe o toque da manhã a que se havia habitua­do. Ele saltou da cama e pegou as roupas.

— Lave-se primeiro, rapaz, lave-se primeiro. Eu e você não queremos incomodar o sr. Prendergast tão cedinho com a sua catinga, queremos?

Wladek ficou indeciso quanto a que partes do corpo deveria lavar, porque a higiene era uma novidade recente. O cabo não desviou o olhar dele.

— O que há com sua perna, rapaz?

— Nada, nada — retrucou Wladek, evitando o olhar insis­tente do cabo.

– Ótimo. Daqui a três minutos estarei de volta. Três mi­nutos, está ouvindo, rapaz? Quero encontrá-lo pronto.

Wladek lavou às pressas as mãos e o rosto e vestiu-se. Quando o cabo voltou para levá-lo ao segundo-cônsul, ele estava sentado à ponta da cama, trajando o comprido casaco de pele de carneiro. O sr. Prendergast o recebeu amavelmente e pareceu muito menos sisudo do que quando se haviam encontrado pela primeira vez.

— Bom dia, Koskiewicz

— Bom dia, senhor.

— Gostou do lanche?

— Eu não comi lanche, senhor.

— E por que não? — indagou o segundo-cônsul, fitando o cabo.

— Sinto, senhor, ele acordou tarde. Chegaria aqui com atraso.

— Bom, vejamos como reparar isso. Cabo, peça à sra. Henderson uma maçã ou alguma coisa nutritiva.

— Sim, senhor.

Wladek e o segundo-cônsul atravessaram calmamente o cor­redor que levava à entrada principal da embaixada, cruzaram o pátio coberto de seixos e entraram num carro que os esperava, um Austin, um dos raros veículos motorizados existentes na Turquia e o primeiro em que Wladek andava. Era com tristeza que deixava a embaixada britânica, o único lugar, em tantos anos, em que se sentira seguro. Duvidava que, no resto de sua vida, viesse a dormir por mais de uma noite numa mesma cama. O cabo desceu correndo os degraus da escadaria e sentou-se à di­reção. Entregou a Wladek uma maçã e pães frescos.

– Cuidado para não derrubar farelos de pão no carro, rapaz. A cozinheira mandou-lhe lembranças.

O carro andava em marcha lenta pelas ruas quentes e movi­mentadas, uma vez que os turcos acreditavam que nada pudesse andar mais depressa que um camelo e não se preocupavam em abrir passagem para o minúsculo Austin. Embora as janelas es­tivessem abertas, o calor opressivo fazia Wladek transpirar, mas o sr. Prendergast permanecia seco e imperturbável. Wladek es­condeu-se na traseira do carro, temendo que alguma testemunha do incidente do dia anterior o reconhecesse e incitasse a multi­dão contra ele. Quando o minúsculo Austin preto estacionou diante de um prédio pequeno e deteriorado, em cuja porta se lia Konsulat Polski, Wladek sentiu uma ponta de entusiasmo mis­turado com desapontamento.

Os três desceram do carro.

— Onde estão as sementes da maçã, garoto? — quis saber o cabo.

— Comi.

O cabo riu e, adiantando-se, bateu à porta. Um homenzinho cordial, de cabelo negro e queixo firme, atendeu-os. Estava em mangas de camisa e tinha a pele bastante bronzeada, naturalmen­te pelo sol turco. Cumprimentou-os em polonês. Desde que ha­via deixado o campo de trabalhos forçados, era a primeira vez que Wladek ouvia alguém se comunicar na sua língua materna. Apressou-se em responder ao bom-dia. O compatriota dirigiu-se ao segundo-cônsul.

— Entre, sr. Prendergast — disse então em perfeito inglês. — Foi muito gentil em trazer pessoalmente o menino.

Trocaram amabilidades diplomáticas antes de Prendergast e o cabo retirarem-se. Wladek os olhou fixamente, procurando uma expressão inglesa mais apropriada que "obrigado".

Prendergast afagou a cabeça de Wladek como o faria a um cocker spaniel. O cabo bateu a porta do carro e piscou. Boa sorte, rapaz. Deus sabe que você a merece.

O cônsul polonês apresentou-se a Wladek como Pawel Zaleski. Pela segunda vez Wladek contou a história de sua vida, encon­trando maior facilidade em fazê-lo em polonês do que em inglês, Pawel Zaleskt escutou-o em silêncio, balançando, contrito, a cabeça.

— Minha pobre criança! — disse com gravidade. — Você sofreu pelo nosso país muito mais do que deveria suportar uma criança da sua idade. E agora, o que faremos com você?

— Devo voltar à Polônia e reaver meu castelo — disse Wladek.

— Polônia — murmurou Pawel Zaleski. — Onde está a Polônia? A região em que você vivia continua sendo disputada, e russos e poloneses ainda lutam acirradamente entre si. O general Pilsudski está fazendo o que pode para defender a integridade territorial de nossa pátria. Mas seria tolice bancarmos os otimistas. Pouco restou para você na Polônia. Não, um plano mais sensato seria começar vida nova na Inglaterra ou nos Estados Unidos.

— Mas não quero ir para a Inglaterra ou para os Estados Unidos. Sou polonês.

— Sempre o será, Wladek, ninguém tirará isso de você, es­teja onde estiver, mas precisa encarar a vida com mais realismo. Sua vida mal começou.

Desesperançado, Wladek baixou a cabeça. Tinha então pas­sado por tudo aquilo para alguém lhe dizer que nunca mais pode­ria regressar à terra natal? Fez um esforço para não chorar.

Pawel Zaleski passou o braço em torno dos ombros de Wla­dek.

— Jamais se esqueça de que você é um daqueles que tive­ram a sorte de fugir e sobreviver ao holocausto. Vai compreen­der como seria sua vida, se se lembrar do seu amigo, o dr. Dubien.

Wladek nada respondeu.

— A partir de agora, abandone os pensamentos do passado e pense apenas no futuro. Quem sabe se no decorrer da sua vida você não assistirá ao surgimento de uma nova Polônia, que é o que todos nós esperamos?

Wladek permaneceu silencioso.

— Bom, Wladek, não há por que tomar já uma decisão — disse o cônsul com brandura. — Fique aqui o tempo que for necessário até decidir seu futuro.

 

O futuro preocupava Anne. Os primeiros meses de casa­mento tinham sido felizes, perturbados apenas pela sua inquieta­ção com respeito a William, cuja aversão por Henry aumentava, e ao novo marido, aparentemente incapaz de começar a trabalhar. Henry mostrava-se suscetível quando se tocava no assunto, expli­cando a Anne que ainda se sentia desorientado por causa da guerra e que não desejava assumir precipitadamente um compro­misso ao qual poderia ficar amarrado para o resto da vida — um argumento que ela encontrou dificuldade em aceitar e que finalmente provocou a primeira discussão entre eles.

— Não entendo por que ainda não abriu o negócio imobiliá­rio de que me falava com tanto entusiasmo.

— Não posso. As condições atuais não são propícias. O mer­cado imobiliário não é neste momento tão promissor quanto anti­gamente.

— Há um ano vem dizendo isso, Henry. Duvido que, na sua opinião, algum dia seja bastante promissor.

— Por certo que será. A verdade é que preciso de um ca­pital maior, que me ajude a começar. Se você me emprestasse seu dinheiro, amanhã mesmo eu faria um bom negócio.

— Isto é impossível, Henry. Você conhece os termos do testamento de Richard. Minha pensão vitalícia foi suspensa a par­tir do primeiro dia do nosso casamento, e agora só conto com o capital.

— Um pouquinho desse capital seria suficiente para eu co­meçar. E não se esqueça de que o seu precioso filho tem mais de vinte milhões de dólares depositados em seu nome.

— Você parece estar bem informado sobre a herança de William — disse Anne, com desconfiança.

— Ora, Anne, por favor, dê-me a oportunidade de ser seu marido. Não faça com que eu me sinta um hóspede dentro da minha própria casa;

– Henry, o que fez com o seu dinheiro? Você sempre me levou a acreditar que dispunha do dinheiro para abrir seu ne­gocio.

— Nunca pertenci financeiramente à classe de Richard, e você sempre soube disso. E houve um tempo, Anne, em que isso não fazia a menor diferença. "Mesmo que você fosse pobre, Henry, eu me casaria com você" — zombou ele.

Anne rompeu em lágrimas, e Henry tentou confortá-la. Ela ficou abraçada a ele, reconsiderando o problema. Convenceu-se de que estava agindo com mesquinhez e como uma esposa incompreensiva. Tinha mais dinheiro do que o necessário: não seria capaz de confiar um pouco desse dinheiro ao homem a quem estava disposta a confiar o resto de sua vida? Cedendo a esses pensamentos, Anne concordou em emprestar a Henry cem mil dólares, a fim de que ele estabelecesse em Boston sua própria administradora imobiliária. Em poucos dias, Henry alugou um sofisticado escritório num bairro elegante da cidade, formou o qua­dro de funcionários e começou a trabalhar. Em breve estava se relacionando com todos os políticos e os homens ligados a bens imobiliários de Boston, que lhe falavam sobre a febre de compra de propriedades rurais e o lisonjeavam. Anne dava-lhes pouca im­portância como relações sociais, mas Henry sentia-se feliz, e, ao que parecia, seu trabalho tinha êxito.

 

William, então com quinze anos, freqüentava o terceiro ano na St. Paul's School, estava entre os seis melhores alunos nas diversas matérias e era o primeiro em matemática. Tornara-se também uma personalidade em ascensão na Sociedade de Debates. Escrevia à mãe uma vez por semana, informando-a do andamento de seus estudos. Sempre endereçava as cartas à sra. Richard Kane, recusando-se a reconhecer até mesmo a existência de Henry Osborne. Anne não tinha certeza se deveria falar ao marido a res­peito disso, e, todas as segundas-feiras, cuidadosamente retirava as cartas de William da caixa de correspondência para que Henry não visse o envelope. Confiava que com o tempo William viesse a gostar do padrasto, mas logo se tornou evidente que tal espe­rança não tinha bases reais. Numa carta à mãe, o menino pedia-lhe permissão para ficar na companhia de seu amigo Matthew Lester, com quem passaria as férias de verão. Anne recebeu o pedido como um golpe doloroso, mas logo se recuperou e ace­deu aos planos do filho, aos quais Henry também foi favorável.

William odiava Henry Osborne e alimentava apaixonada­mente esse ódio, sem saber ao certo o que de fato faria com ele. Que Henry nunca o visitasse na escola por si só era um alívio; não admitiria que seus colegas vissem a mãe com aquele homem. Morar com ele em Boston já era por demais penoso.

 

Pela primeira vez desde o casamento da mãe, William aguar­dava com ansiedade a chegada das férias.

Silenciosamente, o Packard dos Lesters transportou William e Matthew à casa de campo de verão situada em Vermont. Du­rante a viagem, Matthew, sem nenhuma intenção mais séria, per­guntou a William o que ele pretendia fazer quando saísse da St. Paul's School.

– Quando me formar, serei o primeiro aluno em todas as matérias, o presidente dos quartanistas, e ganharei a bolsa de estudos do Hamilton Memorial para o curso de Matemática em Harvard — replicou William, sem nenhuma hesitação.

– Por que acha que tudo isso é tão importante? — inqui­riu Matthew ingenuamente.

— Meu pai conseguiu os três.

– Depois que tiver superado seu pai em tudo, vou apresen­tá-lo ao meu.

William sorriu.

Os dois meninos tiveram quatro semanas movimentadas e agradáveis em Vermont, praticando toda espécie de jogos, desde o xadrez ao futebol americano. Findo o mês, viajaram para Nova Iorque, onde passariam o resto das férias com a família de Lester. À porta foram recebidos por um mordomo, que tratava Matthew por senhor, e por uma menina de doze anos, toda manchada de sardas, que o chamava de Bolinha. William achou graça, porque o amigo era muito magro, e ela é que era gorda. A menininha sorriu e revelou os dentes que mal se viam por detrás do apare­lho.

— Ninguém diria que Susan é minha irmã, não acha? — perguntou Matthew com desdém.

— Acho que sim — disse William, sorrindo para Susan. — Ela é bem mais bonita que você.

Desse momento em diante, ela adorou o colega do irmão.

William gostou do pai de Matthew no momento em que o conheceu; ele lembrava seu pai em vários aspectos, e quando so­licitou a Charles Lester que lhe mostrasse o poderoso banco de que era presidente, este refletiu cuidadosamente sobre o pedido. Nunca antes uma criança havia entrado nas organizadas depen­dências da 17 Broad Street, nem mesmo seu filho. Ele transigiu, como amiúde fazem os banqueiros, e numa tarde de domingo mostrou a William o interior do edifício de Wall Street.

William ficou fascinado em ver os escritórios incomuns, as abóbadas, a sala em que se faziam as operações de câmbio, a sala da diretoria e a do presidente. Comparado ao Kane & Cabot, o banco de Lester era consideravelmente mais amplo, e William estava ciente, graças à sua pequena conta pessoal de investimentos, que lhe permitia receber um exemplar do relatório anual, de que este possuía um capital muito maior do que o do Kane & Cabot. Quando voltaram para casa, William permaneceu silencioso e pensativo.

— Então, William, gostou da visita ao banco? — perguntou animadamente Charles Lester.

— Oh, sim, senhor — respondeu William, — Sem dúvida — Fez uma pausa, e então adicionou: — Sr. Lester, penso um dia tornar-me presidente do seu banco.

Charles Lester riu, e se deliciou ao contar a história do pequeno William Kane, que desejava presidir a Lester & Co. Todos acharam graça.

Somente William não considerava seu comentário uma ane­dota.

 

Anne horrorizou-se quando Henry lhe pediu mais dinheiro.

— É tão seguro quanto uma casa — garantiu ele. — Per­gunte a Alan Lloyd. Como presidente do banco, ele só pode preocupar-se seriamente com os seus mais altos interesses.

— Mas duzentos e cinqüenta mil dólares? — inquiriu Anne.

— Uma excelente oportunidade, meu bem. Pense nisso como um investimento que renderá o dobro daqui a dois anos.

Depois de outra discussão prolongada, Anne cedeu de novo, e a vida retornou à mesma rotina serena. Quando verificou sua conta de investimentos, Anne viu que lhe restavam apenas cento e cinqüenta mil dólares, mas Henry dava a impressão de contactar todas as pessoas certas e de fechar todos os negócios certos. Refletiu sobre a possibilidade de discutir o problema com Alan Lloyd, do Kane & Cabot, mas acabou por afastar a idéia; se o fizesse, poderia dar a entender que não confiava no marido, para o qual desejava todo o respeito da alta sociedade, e por certo Henry não teria emitido aquela opinião se não estivesse seguro de que o empréstimo receberia o consentimento de Alan.

Anne retomou também suas consultas ao dr. MacKenzie, com o propósito de confirmar a possibilidade de ter outro filho. Mais uma vez, porém, o médico lhe desaconselhou a maternidade. Ain­da apresentava uma pressão arterial alta, causa do aborto ante­rior, e, já aos trinta e cinco anos, Andrew MacKenzie julgou-a numa situação inadequada para insistir em ser mãe pela segunda vez. Anne aconselhou-se com as avós, mas ambas concordaram sem reservas com os pontos de vista do médico notável que ele era. Nenhuma delas dava importância a Henry, menos ainda à idéia de um filho de sobrenome Osborne, um filho que, tão logo elas desaparecessem deste mundo, reivindicaria seu quinhão na fortuna da família Kane. Anne, por conseguinte, foi mais uma vez se resignando ao fato de que William seria seu único filho. Henry encolerizou-se com o que caracterizou como traição por parte dela, dizendo-lhe que, estivesse Richard vivo, teria feito uma nova tentativa. Como eram diferentes aqueles dois homens, refletiu Anne, sem conseguir explicar a si mesma o fato de ter amado a ambos. Procurou pacificar Henry, alimentando ao mes­mo tempo a esperança de que os projetos profissionais obtives­sem êxito e o absorvessem integralmente. Ele, com efeito, pare­cia entregar-se ao trabalho, demorando-se no escritório até tarde da noite.

Numa segunda-feira do mês de outubro, no fim de semana que se seguiu à comemoração do segundo aniversário de casa­mento, Anne recebeu a primeira de uma série de cartas de um "amigo" anônimo, que a informava de que Henry tinha sido visto, e podia continuar sendo visto, na companhia de outras mulheres de Boston; havia uma senhora em especial, cujo nome o autor das cartas não revelou. Incontinenti, Anne queimou todas as cartas, e, embora se sentisse amedrontada com elas, jamais chegou a mencioná-las a Henry, sempre na esperança de que cada carta recebida fosse a última. Nem mesmo teve a capaci­dade de criar coragem e abordar o assunto com Henry quando ele lhe pediu os últimos cento e cinqüenta mil dólares.

— Anne, se eu não tiver já esse dinheiro nas mãos, correrei o risco de perder todo o negócio.

— Mas, Henry, é tudo o que possuo. Ficarei sem nada se lhe der essa quantia.

– Só esta casa deve valer mais de duzentos mil dólares. Pode hipotecá-la amanhã.

— A casa pertence a William.

— William, William, William. É sempre William que im­pede meu sucesso! — bradou Henry, retirando-se tempestuosa­mente.

Após a meia-noite, ele voltou, arrependido, dizendo a Anne que o melhor seria que ela conservasse o dinheiro e que ele se arruinasse, assim ao menos teriam um ao outro. Reanimada por essas palavras, ela fez amor com ele. Na manhã seguinte, assinou um cheque de cento e cinqüenta mil dólares e esforçou-se por esquecer que, até o fechamento do negócio que Henry tinha em vista, aquele gesto a deixaria sem vintém. Não pôde, porém, evitar de se perguntar se seria uma mera coincidência o fato de Henry ter lhe pedido justamente a quantia que lhe restava da herança.

No mês seguinte, Anne constatou falha na menstruação.

O dr. MacKenzie se preocupou, embora não o tivesse de­monstrado; as duas avós escandalizaram-se, e o demonstraram; Henry, por sua vez, exultou, garantindo a Anne que essa era a coisa mais maravilhosa que lhe tinha acontecido em toda a sua vida, e até mesmo concordou em construir a nova ala infantil do hospital, que Richard havia planejado antes de falecer.

Quando William soube que poderia ter um irmão, por uma carta enviada pela mãe, permaneceu sentado, meditando, durante toda a noite, sem dizer a Matthew o que o preocupava. Na manhã do sábado seguinte, após obter uma permissão especial com o diretor, o sr. Raglan Zangado, embarcou num trem com destino a Boston. Tão logo desembarcou, retirou cem dólares de sua conta de poupança. Encaminhou-se a seguir aos escritórios de advocacia Cohen, Cohen & Yablons, na Jefferson Street. O sr. Thomas Cohen, sócio principal, homem alto e anguloso, de fisionomia sisuda, surpreendeu-se ao ver William ser introduzido na sala.

— Nunca, em toda a minha vida, fui contratado por um rapaz de dezesseis anos de idade — começou dizendo o sr. Cohen. — Para mim é uma completa novidade... — vacilou — sr. Kane. — Notou logo que o sr. Kane era de poucas palavras. — Mormente quando se sabe que seu pai não era propriamente... como direi?... simpatizante dos meus correligionários.

— Meu pai — retrucou William — foi um grande ad­mirador dos feitos da raça hebraica e, em particular, tinha um considerável respeito pela firma dos senhores, mesmo quando tra­balhavam em favor dos concorrentes dele. Em várias ocasiões ouvi-o mencionar o nome dos senhores. Por esse motivo, sr. Cohen, escolhi-o, e não o senhor a mim. Isso basta, creio eu, para renovar sua confiança.

O sr. Cohen não tardou em ignorar o fato de que William era um rapaz de apenas dezesseis anos.

— Sem dúvida, sem dúvida. Seja feita uma exceção ao filho de Richard Kane. Bem, em que posso ajudá-lo?

— Sr. Cohen, gostaria que me respondesse a três perguntas. Primeira: caso minha mãe, sra. Henry Osborne, dê à luz um outro filho, menino ou menina, esse filho teria algum direito legal à herança da família Kane? Segunda: tenho alguma obrigação legal com o sr Henry Osborne, por ser ele casado com minha mãe? E terceira: com que idade poderei expulsar o sr. Henry Osborne de minha casa da Louisburg Square, em Boston?

A pena de Thomas Cohen ia escrevendo rapidamente no papel diante dele, espirrando borrifos azuis sobre um tampo já salpicado de tinta.

William depositou cem dólares sobre a mesa. Colhido de sur­presa, o advogado se deteve, e, pegando as notas, contou-as.

— Sr. Cohen, empregue com prudência esse dinheiro. Preci­sarei de um bom advogado quando sair de Harvard.

— Já foi admitido em Harvard, sr. Kane? Meus cumpri­mentos. Espero que meu filho também ingresse lá.

— Não, não. Ainda não fui aceito, mas o serei dentro de dois anos. Daqui a uma semana, sr. Cohen, voltarei a Boston para vê-lo. Se algum dia eu vier a saber que alguém mais, além do senhor e de mim, está a par desse assunto, o senhor poderá considerar cortadas as nossas relações. Tenha um bom dia, senhor.

Thomas Cohen igualmente lhe teria desejado bom dia, se tivesse tido a chance de balbuciar as palavras antes que William saísse e fechasse a porta.

 

Sete dias depois, William retornou aos escritórios da Cohen, Cohen & Yablons.

— Olá, sr Kane — disse Thomas Cohen —, prazer em revê-lo. Aceita tomar um cafezinho?

— Não, agradecido.

— Um copo de refrigerante, então?

William permaneceu impassível.

— Bom, bom — disse Cohen, algo embaraçado —, ao tra­balho, ao trabalho. Fizemos algumas pesquisas em seu benefício, sr. Kane, com o auxílio de uma respeitável firma de investigado­res particulares, que nos forneceram os dados que nos permitem responder às perguntas formuladas pelo senhor, que, diga-se não foram puramente universitárias. Posso afirmar com segurança que encontramos as respostas satisfatórias. Pergunta o senhor se a descendência do sr. Osborne com a senhora sua mãe teria direitos sobre a herança dos Kanes, ou, mais especificamente, sobre o capital deixado ao senhor por seu pai. A resposta mais simples é “não”, embora naturalmente, a sra. Osborne esteja autorizada a legar a quantia que bem entender, do total de quinhentos mil dólares que a ela pertence por testamento, a quem lhe aprouver.

O sr. Cohen levantou os olhos.

— Entretanto, há uma coisa que talvez lhe interesse saber, sr. Kane. A senhora sua mãe retirou toda a quantia de quinhentos mil dólares de sua conta particular no Kane & Cabot durante os últimos dezoito meses. Infelizmente, porém, não descobrimos de que maneira o dinheiro foi empregado. Provavelmente ela terá resolvido depositar o mesmo valor em outro banco.

William mostrou-se impressionado, o primeiro indício de falha de autocontrole que o sr. Thomas Cohen pôde perceber nele.

— Não havia razão para que ela o fizesse — comentou William. — O dinheiro deve ter ido parar nas mãos de uma única pessoa.

O advogado aguardou, calado, que William prosseguisse, mas ele nada mais acrescentou. O sr. Cohen continuou:

— A resposta à sua segunda pergunta é que o senhor não tem nenhuma obrigação pessoal ou legal para com o sr. Henry Osborne. Segundo os termos do testamento de seu pai, a senhora sua mãe é curadora da herança, juntamente com o sr. Alan Lloyd e a sra. Milly Preston, seus padrinhos, até que o senhor complete vinte e um anos de idade.

Thomas Cohen de novo levantou os olhos. O rosto de William estava inteiramente inexpressivo. Isso já havia ensinado a Cohen que poderia continuar com sua exposição.

— Sua terceira pergunta. O senhor não poderá retirar o sr. Osborne de sua casa de Beacon Hill, desde que ele continue casado com a senhora sua mãe e more com ela. Por direito na­tural, a propriedade passará a lhe pertencer após a morte dela. Há de concordar, sr. Kane, que com isso respondemos a contento às suas três perguntas.

— Obrigado, sr. Cohen — disse William. — Fico-lhe agra­decido pela eficiência e discrição. Agora, por certo, o senhor me informará sobre quais foram suas despesas profissionais.

— Sr. Kane, cem dólares não cobrem nosso trabalho, entre­tanto confiamos no seu futuro e...

— Não pretendo contrair dívidas com ninguém, sr. Cohen. Trate-me como um cliente que não contratará de novo os seus serviços. Pensando assim, quanto devo pagar-lhe?

O sr. Cohen refletiu sobre a questão por um momento.

— Nessas circunstâncias, sr. Kane, fixemos o total de du­zentos e vinte dólares.

William tirou seis notas de vinte dólares do bolso interno do paletó e entregou-as a Cohen Dessa vez o advogado não as conferiu.

– Grato por sua colaboração, sr. Cohen. Estou certo de que nos veremos outra vez. Bom dia, senhor.

– Bom dia, sr. Kane. Se me permite dizer, nunca me foi dado o privilégio de conhecer seu distinto pai, mas, depois de ter a oportunidade de travar relações com o senhor, confesso que gostaria de tê-lo conhecido

William sorriu e abrandou-se.

— Obrigado, senhor

 

Anne ocupava-se o tempo todo nos preparativos para a chegada do bebê; sentia-se constantemente cansada e procurava descansar ao máximo. Quando indagado sobre o andamento do negócio, Henrv sempre tinha uma resposta pronta, plausível o bastante, a seu ver, para garantir a ela que tudo corria bem sem precisar entrar em minúcias.

Certa manhã, Anne começou de novo a receber as cartas anônimas. Dessa vez, forneciam mais detalhes, como os nomes das mulheres implicadas e os lugares em que poderiam ser vistas na companhia de Henry. Anne queimava-as antes mesmo de guar­dar na memória os nomes e os lugares. Não queria acreditar que o marido pudesse estar traindo-a, agora que esperava um filho. Devia ser alguém com ciúme, com raiva de Henry. Ele ou ela, quem quer que fosse o anônimo, devia estar mentindo.

As cartas não paravam de chegar, às vezes com novos nomes. Anne não parava de queimá-las, mas agora começavam a ator­mentar-lhe o espírito. Precisava falar do problema com alguém, mas não tinha ninguém em quem pudesse confiar. As avós ficariam horrorizadas, e, de qualquer modo, já estavam prevenidas contra Henry. Alan Lloyd dificilmente seria capaz de compreender o problema, uma vez que nunca fora casado, e William era jovem demais. Nenhuma pessoa pareceu-lhe indicada. Anne pensou em consultar um psiquiatra logo após ter assistido a uma conferência feita por Sigmund Freud, mas nunca um Lowell deveria expor qualquer problema familiar a uma pessoa completamente estranha.

A situação finalmente tornou-se crítica, de uma maneira tal que, nem mesmo Anne estava preparada. Certa manhã de se­gunda feira, ela recebeu três cartas, uma normalmente endereçada à Sra. Richard Kane pelo filho William, em que mais uma vez lhe pedia permissão para passar as férias de verão em Nova Iorque com o amigo Matthew Lester; outra, anônima, afirmando que Henry estava mantendo um caso amoroso com, com... Milly Preston; e a terceira enviada por Alan Lloyd, na qualidade de presidente do banco, solicitando-lhe a gentileza de telefonar, por­que desejava marcar uma entrevista. Anne deixou-se cair pesada­mente na cadeira, ofegando e sentindo-se mal. Forçou-se a reler as três cartas. A carta de William magoou-lhe pela indiferença. Anne detestava a idéia de que o filho preferisse passar as férias com Matthew Lester a visitá-la. Desde que se casara com Henry, a distância que os separava vinha aumentando cada vez mais. A carta anônima, que sugeria um caso amoroso entre Henry e sua melhor amiga, não podia ser ignorada. Difícil era evitar a lem­brança de que a própria Milly a havia apresentado a Henry, e, depois, ela era a madrinha de William. A terceira, de Alan Lloyd, de alguma maneira deixava-a ainda mais apreensiva. Até essa data, Alan escrevera-lhe apenas uma vez, e ainda assim para ma­nifestar seu pesar pela morte de Richard. Anne receava que uma segunda carta só pudesse reservar-lhe uma péssima notícia

Telefonou para o banco. A telefonista transferiu a ligação diretamente para a sala de Alan Lloyd.

— Alan, você queria me ver?

— Sim, minha querida, gostaria de conversar com você, se fosse possível. Quando lhe convém?

— Más notícias? — perguntou Anne.

— Não exatamente, mas prefiro não adiantar o assunto pelo telefone. Não há nada que possa preocupá-la. Por acaso estaria livre para almoçar comigo?

— Estou, Alan.

— Bom, podemos nos encontrar no Ritz às treze horas. Es­pero vê-la então, Anne.

Treze horas. Faltavam apenas três horas. Seu pensamento saltou de Alan para William, de William para Henry, e fixou-se em Milly Preston. Seria verdade? Resolveu tomar um demorado banho de chuveiro e pôs um vestido novo. Mas o vestido não a reanimava. Sentia-se, e isso começava a dar na vista, balofa. Os tornozelos e as pernas, que tinham sido sempre elegantes e esguios, estavam inchados e cobertos de manchas Amedrontava-a um pouco imaginar que as coisas poderiam ficar piores antes do nas­cimento do bebê. Olhando-se no espelho, suspirou de tristeza, e fez o possível para melhorar seu aspecto exterior.

 

– Você está muito elegante, Anne. Se não fosse um velho solteirão, eu a cortejaria, francamente — comentou o banqueiro grisalho, saudando-a com um beijo em cada face, como se fosse um general francês.

Ele a conduziu à sua mesa. Numa tradição tácita, a mesa situada no fundo era sempre ocupada pelo presidente do Kane & Cabot, quando não almoçava no restaurante do banco. Era o que Richard costumava fazer, e agora chegara a vez de Alan Lloyd. Quanto a Anne, sentava-se pela primeira vez àquela mesa sem um membro da família a acompanhá-la. Garçons agitavam-se em torno deles como pardais, sabendo exatamente em que momentos desaparecer ou aparecer, sem interromper uma conversa particular.

– Quando nasce o bebê, Anne?

— Oh, dentro de três meses.

– Sem complicações, espero. Lembro-me de que...

— Para falar a verdade — admitiu ela —, o médico me examina uma vez por semana e sempre faz cara torta por causa de minha pressão arterial. Mas eu não me preocupo muito, não.

— Fico contente, minha querida — disse, tocando-lhe a mão com a ternura de um tio. — Está com a fisionomia abatida. Espero que não esteja se excedendo em suas tarefas.

Alan Lloyd acenou com a mão discretamente. Um garçom materializou-se ao lado deles e anotou os pedidos.

— Anne, quero lhe pedir um conselho.

Constrangida, ela não ignorava o dom diplomático de Alan Lloyd. Ele não a convidara com o fito de ouvir-lhe um conselho. Ao contrário, sem dúvida estava ali para oferecer alguma sugestão, gentilmente.

— Você sabe como estão os projetos de Henry?

— Não sei — respondeu Anne. — Evito envolver-me nas atividades profissionais de Henry. Como você deve se lembrar, não o fazia com as de Richard também. Mas por que pergunta? Existe algum motivo que o deixe preocupado?

– Não, não, nenhum motivo que o banco não conheça. Muito pelo contrário, sabemos que Henry está para fechar um importante contrato comercial para construir o novo complexo do hospital. Perguntei-lhe isso simplesmente porque ele pediu ao banco um empréstimo de quinhentos mil dólares.

Anne espantou-se com a revelação.

– Vejo que isso a surpreende — disse. — Bom, sabemos que na sua conta de ações há de reserva um pouco menos que vinte mil dólares, e que na conta pessoal há um ínfimo saque a descoberto de dezessete mil dólares

Anne, horrorizada, largou a colher de sopa. Não sabia, até ali, o quanto sua conta estava a descoberto. Alan notou sua apreen­são.

— Mas não a convidei para almoçar para falar sobre isso, Anne —- acrescentou ele sem demora. — O banco não se preo­cupa em perder dinheiro com sua conta pessoal pelo resto de sua vida. O depósito de William está rendendo mais de um mi­lhão de dólares em juros anuais, de modo que seu saque a desco­berto é praticamente insignificante, assim como o serão os qui­nhentos mil dólares que Henry nos solicitou, caso você, como curadora de William, venha a autorizar o empréstimo.

— Eu não sabia que tinha qualquer poder de decisão legal sobre o depósito de William — disse Anne.

— Não o tem sobre a quantia capital, mas, em termos legais, os juros obtidos com o depósito poderão ser investidos em quaisquer projetos, desde que em benefício de William. Esses juros estão sob a nossa cautela — sua, minha e de Milly Preston — até que William complete vinte e um anos. Como adminis­trador do depósito de William, e com o seu consentimento, posso conceder a Henry o empréstimo de quinhentos mil dólares. Milly já me informou que ficaria felicíssima em aprovar, e se você con­cordar também serão dois votos favoráveis; não será válido então o meu parecer.

— Alan, você disse que Milly Preston já aprovou?

— Sim. Ela não lhe falou sobre isso?

Anne não deu uma resposta imediata.

— E qual é a sua opinião? — perguntou, afinal.

— Bom, ainda não examinei a contabilidade de Henry, por­que a firma dele foi montada há dezoito meses e não tem conta conosco. Assim, não sei em quanto as despesas excedem a receita no ano corrente e qual a previsão de retorno para 1923.

— Você constatou que, ao longo desses últimos dezoito me­ses, dei a Henry quinhentos mil dólares do meu próprio dinheiro? — indagou Anne.

— O chefe da contadoria me informa toda vez que uma quantia grande é retirada de qualquer conta. Eu ignorava para que propósitos você estava sacando o dinheiro, Anne, e isso não fazia parte do meu trabalho Aquele dinheiro lhe foi dado por Richard, e é seu para gastar onde ache conveniente. Em relação aos juros ganhos com a aplicação do depósito da família, a ques­tão é diferente. Se você resolve sacar quinhentos mil dólares para aplicá-los na firma de Henry, o banco terá de examinar a conta­bilidade de Henry, porque, nesse caso, o dinheiro seria conside­rado um investimento a ser convertido em proveito da carteira de William. Richard não deu aos curadores a autorização de fazerem empréstimos, mas tão-somente a de investir em benefício de William. Já expliquei essa condição a Henry, e, se dermos conti­nuidade à idéia e fizermos o investimento, os curadores deverão estabelecer que porcentagem da companhia de Henry constituiria um retorno conveniente para os quinhentos mil dólares. William, naturalmente, está sempre informado sobre o que fazemos com a renda de seu depósito, uma vez que não vimos por que não atender ao pedido dele de receber um extrato trimestral do programa de investimentos, a exemplo de todos os curadores. Quanto a mim, não tenho dúvidas de que ele terá suas próprias opiniões sobre a questão, da qual ficará sabedor assim que receber o próximo relatório. Talvez você goste de saber que, desde o seu décimo sexto aniversário, ele tem me mandado seus pareceres sobre todos os investimentos que fazemos. No começo encarei-os com o inte­resse superficial de um depositário benevolente. Ultimamente, po­rém, venho estudando-os com um respeito considerável. Quando William assumir o lugar dele na direção do Kane & Cabot, talvez este banco se revele pequeno demais para ele.

— Nunca fui solicitada a dar meu parecer sobre o depósito de William — lamentou Anne.

— Bem, minha querida, o banco envia a você um relatório ao primeiro dia de cada trimestre. Além disso, sendo uma cura­dora, sempre esteve em seu poder inquirir sobre quaisquer inves­timentos feitos por nós em favor de William.

Alan Lloyd tirou do bolso um pedaço de papel e permaneceu em silêncio enquanto o sommelier enchia as taças com o Nuits Saint-Georges. Tão logo o rapaz se retirou, Alan prosseguiu

– William possui mais de vinte e um milhões investidos no banco a quatro e meio por cento, até o seu vigésimo primeiro aniversário. A cada trimestre, em nome dele, reinvestimos os juros em ações e participações. Nunca antes investimos em firmas particulares. Provavelmente você ficará surpresa, Anne, em saber que atualmente realizamos este reinvestimento cinqüenta por cento segundo o conselho do banco e cinqüenta por cento segundo as sugestões que o próprio William apresenta. No momento estamos um pouco à frente dele, para satisfação de Tony Simmons, nosso diretor de investimentos, a quem William prometeu um Rolls-Royce no ano em que ele vencer o garoto por mais de dez por cento.

— Mas, se William perder a aposta, onde arranjará dez mil dólares para comprar um Rolls-Royce? Ele nem sequer pode tocar no dinheiro do depósito!

— Não tenho a resposta para isso, Anne. O que sei é que ele se sentiria extremamente orgulhoso se chegasse a nos dar ordens, e estou certo de que ele não se arriscaria a fazer a aposta se não estivesse em condições de honrá-la. Você teve oportunidade de ver ultimamente o famoso livro razão que ele mantém?

— O livro com que as avós o presentearam?

Alan Lloyd anuiu.

— Não, não o vejo desde que William foi para o internato. Não sabia que ele ainda o conservava.

— O livro ainda existe — afirmou o banqueiro —, e eu daria um mês do meu salário para descobrir em que pé está a coluna de crédito. Na certa você tem ciência de que ele deposita esse dinheiro no banco de Lester em Nova Iorque, e não no nosso. Eu não aceito contas pessoais abaixo de dez mil dólares. Tenho absoluta certeza de que eles também não abririam uma exceção, nem mesmo quando o cliente é o filho de Richard Kane.

— O filho de Richard Kane — repetiu Anne.

– Desculpe-me, Anne, minha intenção não era ofendê-la.

– Oh, não, não, sem dúvida alguma ele é filho de Richard Kane. Sabia que desde os doze anos de idade ele não me pede nem um cent? — Fez uma pausa. — Devo adverti-lo. Alan, de que ele não gostará de saber que terá de investir quinhentos mil dólares na empresa de Henry.

— O relacionamento deles não é cordial? — inquiriu Alan, erguendo as sobrancelhas.

— Receio que não —   retrucou Anne.

— Lamento saber disso. Se William se opuser a esse plano, por certo dificultará a transação. Embora até os vinte e um anos não tenha nenhum poder administrativo sobre o depósito, por intermédio de nossas fontes, descobrimos que não hesitou em con­sultar um advogado independente com o propósito de obter in­formações sobre sua situação legal.

— Deus do céu! — exclamou Anne. - Está falando sério?

— Oh, sim, bem sério. Mas não há por que se preocupar. Para ser franco com você, nós, do banco, ficamos todos muito impressionados, e, depois de verificarmos de onde procedia aque­la investigação, liberamos informações que normalmente guarda­mos em segredo. Por algum motivo pessoal, é evidente, ele não quis nos procurar diretamente.

– Deus do céu! — tornou Anne. — Como será ele aos trinta anos?

— Isso dependerá — comentou Alan — de ele ter a sorte de se apaixonar ou não por uma mulher tão encantadora quanto você. A força de Richard sempre esteve em você.

– Você é um lisonjeador incorrigível, Alan. Podemos adiar a solução do problema dos quinhentos mil dólares até eu ter a oportunidade de discutir o assunto com Henry?

— Naturalmente, minha querida. Eu disse que lhe pediria um conselho.

Alan pediu café e segurou com ternura a mão de Anne.

— Não deixe de cuidar de si mesma, Anne. Você é muito mais importante do que o destino de uns poucos milhares de dó­lares.

 

Anne voltou para casa e começou a se preocupar com as duas outras cartas recebidas nessa manhã. De uma coisa pelo menos agora estava certa: afinal Alan Lloyd dera-lhe informações sobre o filho; seria prudente consentir amigavelmente que William pas­sasse as próximas férias com o amigo Matthew Lester.

Henry e Milly, com o possível relacionamento, criavam um problema cuja solução ela se sentia incapaz de discernir. Sentou-se na poltrona de couro vermelho-acastanhado, a predileta de Ri­chard, e pôs-se a olhar através da janela da sacada, fechada pelo belo canteiro de rosas vermelhas e brancas. Mas não via nada, apenas pensava. Anne sempre demorava muito tempo para tomar uma decisão; quando a tomava, porém, raras vezes voltava atrás.

Nessa noite Henry chegou mais cedo que o habitual, e ela não pôde deixar de se perguntar por quê. Em breve descobriu-o.

– Soube que você almoçou com Alan Lloyd — foi dizendo ele ao entrar na sala.

— Quem lhe contou, Henry?

— Tenho espiões espalhados por toda parte — respondeu ele, rindo.

– Sim, Alan convidou-me para almoçar. Ele queria conhecer minha opinião sobre o investimento de quinhentos mil dólares do depósito de William que o banco faria em sua firma.

— E o que foi que você disse a ele? — Henry procurou não demonstrar ansiedade.

— Disse que primeiro discutiria o assunto com você. Mas, em nome de Deus, por que não me pôs a par dessa questão antes de consultar o banco, Henry? Senti-me uma tola quando fiquei sabendo de tudo pela informação de Alan.

— Não achei que tivesse algum interesse em negócios, meu bem, e só por puro acaso descobri que você, Alan Lloyd e Milly Preston são os três curadores, e que cada um tem direito a um voto sobre a renda dos investimentos de William.

— E como foi que descobriu? — perguntou Anne. — Eu mesma não sabia disso.

— É que você não lê os informes que eles nos enviam, meu bem. Para ser franco, também só fui lê-los recentemente. Por acaso Milly Preston falou-me sobre os detalhes do depósito e que ela, como madrinha, é curadora. Recebi a informação com verda­deira surpresa. Vamos ver agora se tiramos algum proveito dessa condição. Milly diz que me apoiará. Resta saber o que você pensa disso.

O simples som do nome de Milly deixou Anne embaraçada.

— Eu acho que não devemos mexer no dinheiro de William — respondeu. — Nunca considerei o depósito uma questão parti­cular minha. Ficarei muito feliz deixando-o, como está, e simples­mente continuarei concordando com o reinvestimento dos juros, tal como o banco vem fazendo há muitos anos.

— Por que se contentar com o programa de investimento do banco quando tenho a ótima oportunidade de assinar o con­trato com o hospital municipal? William ganharia dinheiro com uma porcentagem sobre os lucros da minha firma. Certamente Alan explicou-lhe isso, não?

— Não sei exatamente qual é a posição dele. Como sempre, foi bastante discreto, embora, de fato, tenha dito que o contrato seria um bom negócio e que você tinha boas chances de ganhar a concorrência.

— Perfeitamente.

— Mas, antes de tirar quaisquer conclusões definitivas, ele quer verificar seus livros de contabilidade. Chegou a me perguntar sobre o destino daqueles meus quinhentos mil dólares.

— Nossos quinhentos mil dólares, querida, foram bem apli­cados e em breve você saberá como. Amanhã enviarei meus livros a Alan, para que ele os examine pessoalmente. Posso ga­rantir que ele ficará muito impressionado.

— Espero que fique. Henry, para o nosso bem — disse Anne Aguardemos a opinião dele; você sabe o quanto confiei em Alan.

– Mas não em mim

- Oh. não. Henry, não quis dizer...

— Estou apenas provocando você. Por certo confia no seu próprio marido.

O choro que Anne sempre reprimira diante de Richard se avolumou dentro dela. Diante de Henry, ela não experimentou contê-lo.

- Espero que possa. Jamais precisei me preocupar com dinheiro, e agora me parece difícil enfrentar o problema. Sinto-me tão cansada e deprimida com esse bebê!

Imediatamente Henry mostrou-se apreensivo

– Eu não o ignoro, meu bem. Minha vontade é que você jamais se aborreça com questões financeiras; posso cuidar disso. Escute, por que não se deita mais cedo? Eu levo para você no quarto uma bandeja com um prato de sopa. Que tal? Enquanto você repousa, volto ao escritório e pego a documentação que Alan vai ver amanhã.

Anne aquiesceu. Depois que Henry saiu, porém, sentindo-se sem sono, sentou-se na cama com um livro de Sinclair Lewis. Henry levaria quinze minutos para chegar ao escritório, por isso ela esperou vinte minutos, e então discou o número do telefone dele. Deixou-o tocar por quase um minuto.

Vinte minutos mais tarde. Anne fez outra tentativa; ninguém atendeu ao chamado. Continuou tentando a cada vinte minutos, mas de novo ninguém estava presente para erguer o fone do gancho. O comentário de Henry sobre o depósito foi ecoando na sua cabeça de uma maneira áspera

Quando finalmente voltou para casa, após a meia-noite, Henry mostrou-se preocupado ao encontrar Anne sentada na cama, ainda lendo Sinclair Lewis.

— Não devia ter me esperado.

Ele deu-lhe um beijo caloroso. Anne pensou ter sentido cheiro de perfume – ou começava a se tornar desconfiada demais?

– Precisei me demorar mais do que tinha previsto porque não encontrei logo os documentos que Alan exigiria. A imbecil da minha secretária arquivou uma porção deles em gavetas erradas.

— Deve ser triste ficar sozinho no escritório durante a ma­drugada — observou Anne.

— Oh, se a gente tem um trabalho agradável a fazer, não é tão mau assim — comentou Henry, entrando debaixo das co­bertas e acomodando-se nas costas de Anne. — Pelo menos existe uma vantagem: o trabalho rende muito mais quando não há ne­nhum telefonema interrompendo a gente a toda hora.

Em poucos minutos ele adormeceu. Anne permaneceu acor­dada, decidida a levar avante o plano que formulara nessa tarde.

 

Na manhã seguinte, assim que Henry terminou de tomar o café e saiu para o trabalho — embora ela não soubesse mais ao certo onde Henry trabalhava —, Anne folheou o jornal Globe e fez um pequeno levantamento dos anúncios classificados. A se­guir, pegou o telefone e marcou um encontro que a levou à zona sul de Boston, poucos minutos antes do meio-dia. Os edifícios encardidos a escandalizaram. Nunca antes havia visitado o distrito sul da cidade, e, se não fossem os últimos acontecimentos, teria passado a vida inteira sem sequer tomar conhecimento da exis­tência de tais lugares.

Uma pequena escada de madeira juncada de palitos de fós­foro, tocos de cigarros e detritos conduzia a uma porta com janela de vidro fosco em que estava escrito em tinta preta: GLEN RICARDO, e, mais abaixo: Detetive particular (Registrado no Estado de Massachusetts). Anne bateu levemente.

— Entre, a porta está aberta — gritou uma voz grave e roufenha.

Anne entrou. O homem que estava com as pernas estiradas sobre a mesa ergueu a vista do que parecia ser uma revista mas­culina. A ponta de charuto quase lhe caiu da boca ao deparar com a figura de Anne. Era a primeira vez que um casaco de pele de vison adentrava seu escritório.

– Bom dia — disse ele, erguendo-se prontamente. — Meu nome é Glen Ricardo. — Inclinou-se sobre a mesa e estendeu a Anne a mão peluda e amarelada de nicotina. Ela a apertou, feliz por estar usando luvas. — Marcou uma entrevista? — perguntou Ricardo, sem na verdade dar importância ao fato de ela ter ou não marcado hora. Nunca estaria ocupado para um casaco de pele de vison.

– Sim, marquei.

– Ah, então deve ser a sra. Osborne Não quer tirar o casaco ?

— Prefiro ficar com ele — replicou Anne, sem ver um lugar em que Ricardo pudesse pendurá-lo. Provavelmente seria jogado na mesa.

— Claro, claro.

Anne observou Ricardo dissimuladamente, enquanto ele vol­tava a sentar-se e acendia outro charuto. Não se sentia incomodada com o terno verde-claro, com a gravata de cores mescladas ou o cabelo empastado de brilhantina. Perturbava-se apenas com o fato de que talvez tivesse sido melhor ter entrado em outro lugar.

— Qual é o problema? — indagou Ricardo, apontando um lápis já curto com um canivete de corte cego. As aparas caíam por toda parte, menos no cesto de papel. — Perdeu seu cãozinho, suas jóias ou seu marido?

— Em primeiro lugar, sr. Ricardo, quero que o senhor me garanta que será absolutamente discreto — começou Anne.

— Claro, claro, nisso a gente nem precisa falar — replicou Ricardo, sem desviar a atenção do lápis pequenino.

— Assim mesmo, eu estou falando — retrucou Anne.

— Claro, claro.

Se o homem dissesse "claro" mais uma vez, Anne seria capaz de gritar. Ela respirou fundo.

— Tenho recebido cartas anônimas que afirmam que meu marido mantém um caso amoroso com minha melhor amiga. Quero saber quem está me endereçando essas cartas e se as de­núncias são verdadeiras.

Anne sentiu uma enorme sensação de alívio ao formular em voz alta, pela primeira vez, seus temores. Ricardo olhou-a, impassível, como se incontáveis vezes tivesse ouvido esse tipo de revelação. Passou as mãos pelo longo cabelo negro, que, Anne notou, em nada se diferenciava da cor das unhas.

– Certo – anunciou- — O marido vai ser fácil. Mais difícil vai ser descobrir quem é o responsável pelas cartas. A senhora guardou as cartas, é claro!

– Apenas a última - respondeu Anne.

Glen Ricardo suspirou e, enfastiado, estendeu a mão por sobre a mesa. Com relutância, Anne tirou a carta de dentro da bolsa. Por um momento, parou, hesitante.

- Sei o que sente, sra. Osborne. mas não posso fazer o ser­viço com uma mão amarrada nas costas.

– Claro, sr. Ricardo, desculpe-me.

Anne não pôde acreditar que tivesse dito "claro".

Antes de fazer qualquer comentário, Ricardo leu a carta inteira duas ou três vezes.

" Todas elas foram datilografadas neste tipo de papel e enviadas neste tipo de envelope?

" Sim, acho que sim — disse Anne. — Tanto quanto me lembro.

— Bom, quando receber a próxima, não se esqueça de...

– Tem tanta certeza assim de que receberei uma outra? – interrompeu-o

- Claro, portanto não se esqueça de guardá-la. Agora me fale com detalhes sobre seu marido. Tem uma fotografia dele?

— Sim.

De novo ela hesitou.

– Só quero olhar o rosto dele. Seria perda de tempo seguir o homem errado, não? – explicou Ricardo.

Anne abriu a bolsa e entregou ao detetive uma fotografia velha de Henry com o uniforme de tenente.

– Um homem simpático, o Sr. Osborne — disse ele. — Quando foi tirada esta foto?

– Se não me engano, há uns cinco anos. Não o conhecia na época em que estava no Exército.

Ricardo fez algumas perguntas sobre a rotina diária de Henry. Com surpresa, Anne constatou que em verdade conhecia muitís­simo pouco os hábitos de Henry ou mesmo seu passado.

– Isso é de pouca ajuda, sra. Osborne, mas vou ver o que posso fazer. Bem, cobro dez dólares por dia, mais despesas. Uma vez por semana eu lhe apresentarei um relatório por escrito. Duas semanas de pagamento adiantado, por favor.

De novo ele esticou a mão por sobre a mesa, dessa vez num gesto mais vivo.

Mais uma vez Anne abriu a bolsa, dela retirando duas notas novas de cem dólares, que entregou a Ricardo. Ele examinou as notas com uma atenção exagerada, como se não conseguisse iden­tificar o notável americano impresso nelas. Benjamin Franklin olhava serenamente para Ricardo, que evidentemente não o via há algum tempo. O detetive devolveu a Anne sessenta dólares em notas imundas de cinco dólares

— Vejo que trabalha aos domingos, sr. Ricardo — comen­tou Anne, satisfeita com sua aritmética mental.

— Claro — respondeu ele. — Esta mesma hora lhe con­vém, na próxima semana, sra. Osborne?

— Claro — tornou ela, saindo apressadamente para não ter que dar a mão ao homem sentado à escrivaninha.

 

William recebeu o relatório trimestral de seu depósito envia­do pelo Kane & Cabot, e, ao ler que Henry Osborne — Henry Osborne, ele repetiu o nome em voz alta, não acreditando no que lia — solicitara um empréstimo de quinhentos mil dólares para um investimento pessoal, teve certeza de que este dia seria pés­simo. Pela primeira vez, ao longo dos quatro anos na St. Paul’s School, William caiu para o segundo lugar num exame de mate­mática. Matthew Lester, que o venceu, perguntou-lhe se estava se sentindo bem.

Nessa noite, William telefonou para a residência de Alan Lloyd. O presidente do Kane & Cabot não se espantou ao ouvir sua voz, uma vez que Anne já lhe havia revelado o precário rela­cionamento entre o filho e Henry.

— William, meu rapaz, como tem passado? E como vão as coisas na St. Paul's?

— Vai tudo bem por aqui, obrigado, senhor, mas não é por esse motivo que estou lhe telefonando.

"A sutileza de um caminhão Mack", pensou Alan.

— Sim, eu imaginei que não podia ser — replicou Alan com frieza. — Em que lhe posso ser útil?

— Gostaria de vê-lo amanhã à tarde.

— William, amanhã é domingo!

— Sim, e como é o único dia em que posso sair da escola poderei encontrá-lo onde quiser e à hora que quiser. — William formulou a frase como se fizesse uma concessão. — Em hipótese alguma minha mãe deverá tomar conhecimento desse nosso en­contro.

— Bem, William... — começou Alan Lloyd.

A voz de William foi mais firme.

— É necessário lembrá-lo, senhor, de que o investimento do dinheiro do depósito na especulação comercial de meu pa­drasto, embora não seja ilegal, sem dúvida poderá ser conside­rado contrário à ética profissional.

Alan Lloyd permaneceu silencioso por alguns instantes, refletindo sobre a possibilidade de tranqüilizar o garoto pelo tele­fone. O garoto! Pensou também em fazer-lhe uma advertência, mas então já era tarde.

— Ótimo, William. Por que não almoça comigo no Hunt Club? Que tal às treze horas?

— Esperarei com ansiedade esse momento, senhor.

A ligação foi desfeita.

"Pelo menos o confronto será no meu terreno", refletiu Alan Lloyd com certo alívio ao repor o fone no gancho, insul­tando Graham Bell por ter inventado o maldito aparelho.

Escolhera o Hunt Club porque não desejava que o encontro se desse num lugar extremamente privado. Quando William che­gou à sede do clube, a primeira coisa que pediu foi que o padri­nho lhe concedesse o prazer de uma partida de golfe após o almoço.

— Com grande prazer, meu rapaz — concordou Alan, e reservou o primeiro tee para as três horas em ponto.

Alan estava admirado de que William não tivesse discutido a proposta de Henry Osborne durante o almoço. Ao contrário, o rapaz conversou com inteligência sobre os pontos de vista do presidente Harding com respeito à reforma tarifária e sobre a incompetência de Charles G. Dawes como consultor financeiro do presidente. Alan estranhava que William, depois de ter ruminado o assunto durante toda a noite, tivesse desistido de discutir o empréstimo a Henry Osborne, mas dava continuidade ao en­contro sem querer admitir que houvesse mudado seu propósito. "Muito bem, se é desse modo que o garoto quer jogar", refletiu Alan, "isso é ótimo." Previa uma tarde tranqüila de golfe. Após um pequeno e agradável almoço, e mais da metade de uma gar­rafa de vinho — William restringiu-se a um só copo —, troca­ram de roupa no vestiário e encaminharam-se para o primeiro tee.

— O senhor ainda tem um handicap de nove pontos? — inquiriu William.

— Por aí, meu rapaz. Por quê?

— Quer apostar dez dólares por buraco?

Alan Lloyd titubeou, lembrando-se de que William era um bom golfista.

— Aceito.

Nada disseram ao atingir o primeiro buraco, em que Alan obteve quatro pontos, enquanto William alcançou cinco. Alan ganhou também o segundo e o terceiro sem esforço, o que lhe deu um pouco de tranqüilidade. Estava bastante satisfeito com o jogo. Quando chegaram ao quarto buraco, já tinham se distan­ciado quase um quilômetro da sede do clube. William esperou que Alan levantasse o taco.

– Em hipótese alguma o senhor emprestará quinhentos mil dólares de meu dinheiro a qualquer companhia ou pessoa associada a Henry Osborne.

Alan deu uma péssima tacada, atingindo em cheio o monte de areia. 0 único mérito desse golpe foi distanciá-lo de William, que dera um golpe vigoroso, e propiciar-lhe uns poucos minutos para refletir sobre como deveria se dirigir tanto a seu antagonista quanto à bola. Depois de ter errado mais três tacadas, voltou a encontrar William no gramado. Alan concedeu o buraco.

— William, você sabe que, como curador, tenho apenas um dos três votos. E deve também saber que você não conta com nenhum poder de decisão sobre o depósito, já que, por di­reito, só poderá controlar seu dinheiro quando completar vinte e um anos. Deve também estar ciente de que este assunto foi levantado inutilmente.

— Estou perfeitamente consciente das implicações legais, senhor, mas como as curadoras estão dormindo com Henry Os­borne. . .

Alan Lloyd deteve-se, assombrado.

— Não me diga que é a única pessoa de Boston a ignorar que Milly Preston anda tendo um caso amoroso com meu pa­drasto!

Alan Llovd continuou calado. William retomou a palavra.

— Quero a certeza de que seu voto estará a meu favor e de que usará todo o seu poder de influência para convencer mi­nha mãe a vetar a concessão do empréstimo, ainda que isso sig­nifique ir ao extremo de contar a ela a verdade sobre Milly Preston.

Alan deu um golpe com o taco e fez uma jogada ainda mais infeliz. William, por seu turno, lançou a bola para o meio da parte lisa do gramado. Na jogada seguinte, Alan arremessou a bola para dentro de uma moita, cuja existência ele não havia notado, e soltou um termo vulgar pela primeira vez em quarenta e três anos. Nesse momento, ele desapareceu à procura da bola.

– O que me pede é um pouco demais — disse Alan, en­contrando-se com William no quinto gramado.

— Não é nada comparado ao que farei, caso não conte com seu apoio, senhor.

— Creio que seu pai reprovaria ameaças, William — retru­cou Alan, observando a bola de William fazer um hole a quatro metros e meio de distância.

— Meu pai teria reprovado unicamente a presença de Os­borne.

Alan Lloyd deu dois arremessos a um metro do buraco.

— De qualquer modo, o senhor não ignora a cláusula inse­rida por meu pai na escritura, segundo a qual o dinheiro inves­tido pelo depósito permanece uma questão particular, e o bene­ficiário jamais deveria saber do envolvimento pessoal da família Kane. Essa norma jamais foi quebrada por ele, enquanto ban­queiro. Dessa forma, garantiu sempre a inexistência de conflitos entre os interesses do banco e os do depósito da família.

— Bom, sua mãe naturalmente acha que pode ser feita uma exceção para um membro da família.

— Henry Osborne não é um membro da minha família, e, quando eu controlar o depósito, tal qual meu pai, jamais quebra­rei esta norma.

— William, você viverá o bastante para se arrepender de uma posição tão rígida como essa.

— Creio que não, senhor.

— Procure considerar por um momento o efeito que essas medidas terão sobre sua mãe — ponderou Alan.

— Minha mãe já perdeu quinhentos mil dólares de seu pró­prio dinheiro, senhor. Não concorda que é o bastante para um único marido? Por que também eu terei que perder quinhentos mil dólares?

— William, não sabemos se será esse o caso. O investimento poderá ter um excelente retorno. Até agora ainda não tive a opor­tunidade de examinar com cuidado os livros contábeis de Henry.

William abalou-se ao ouvir Alan Lloyd chamar seu padrasto de Henry.

— Posso garantir, senhor, que ele queimou o dinheiro de minha mãe. Para ser preciso, restam-lhe trinta e três mil, qua­trocentos e doze dólares. Sugiro-lhe que examine superficialmente os livros de Osborne e investigue minuciosamente a sua vida pregressa, o histórico de sua firma e de seus associados. Isso, para não mencionar o fato de que ele joga — e joga pesado.

Do oitavo tee, Alan lançou a bola para dentro de um lago que estava à frente deles, um lago que até mesmo os jogadores mais inexperientes procuravam evitar. Concedeu o buraco.

– Como obteve essas informações sobre Henry? — indagou Alan ciente de que os escritórios de Thomas Cohen as ha­viam fornecido.

– Prefiro manter isso em segredo, senhor.

Alan também guardou seu próprio segredo. Achou que mais tarde precisaria desse ás, que conservaria dentro da manga, para lograr representar um papel na vida de William.

– Se tudo o que você alega se revelar exato, William, evidentemente aconselharei sua mãe a vetar quaisquer investimentos na firma de Henry, assim como será meu dever colocar tudo às claras também com ele.

— Assim seja, senhor.

Alan deu um golpe mais satisfatório, mas pressentiu que estava perdendo. William prosseguiu.

— Talvez tenha interesse em saber que Osborne precisa dos meus quinhentos mil dólares não para o contrato com o hos­pital, mas para liquidar uma antiga dívida em Chicago. Acredito que isso não era do seu conhecimento, senhor.

Alan não respondeu; certamente não era do seu conheci­mento. William ganhou a jogada.

Quando alcançaram o décimo oitavo buraco, Alan havia per­dido oito e estava na iminência de completar a pior partida de que se lembrava. Esperava-o um putt de um metro e meio, que pelo menos lhe permitiria empatar com William no último buraco.

— Tem mais alguma bomba, William? — inquiriu Alan.

— Antes ou depois do putt, senhor?

Alan riu, decidindo participar da pilhéria.

– Antes do putt, William — respondeu, baixando o taco.    

Osborne não obterá a concessão do contrato do hospital. Os interessados comentam que ele está subornando funcionários subalternos da administração pública. Nada disso virá a público, mas prevenindo repercussões posteriores, a firma dele foi excluída da lista final. O contrato em verdade será concedido à Kirkbride & Carter. Esta última informação, senhor, é confidencial. Os próprios Kirkbride & Carter só tomarão conhecimento disso uma semana depois da próxima terça-feira. Portanto, sou obri­gado a lhe pedir sigilo absoluto.

Alan perdeu o putt. William fez um hole, encaminhou-se para o presidente e apertou-lhe cordialmente a mão.

— Obrigado pela partida, senhor. Creio que me deve no­venta dólares.

Alan abriu a carteira, tirou uma nota de cem dólares e en­tregou-a a William.

— Na minha opinião, já é hora de você parar de me tratar por "senhor". Como sabe, meu nome é Alan.

— Obrigado, Alan.

William devolveu-lhe dez dólares.

 

Na manhã de segunda-feira, Alan Lloyd chegou ao banco com um pouco mais de trabalho a realizar do que havia planejado antes do fim de semana. Encarregou cinco chefes de departa­mento de verificar imediatamente a veracidade das asserções de William. Receava ter antecipado os resultados das investigações, e, devido à situação de Anne no banco, tomou todas as medidas necessárias para que nenhum outro departamento ficasse a par das tarefas daqueles cinco. Instruíra cada chefe de uma maneira inequívoca; todos os relatórios seriam estritamente confidenciais e deveriam ser entregues em suas mãos. Na quarta-feira da mesma semana, alguns relatórios preliminares já haviam chegado à sua mesa. Ao que parecia, concordavam com as afirmações de William, embora os cinco chefes tivessem pedido uma ampliação de prazo com o fito de confirmar alguns detalhes. Alan preferiu nada co­municar a Anne, poupando-lhe aborrecimentos, antes de obter provas concretas. Decidira que o melhor a fazer nesse ínterim seria desfrutar uma ceia que os Osbornes estavam oferecendo nessa noite e aproveitar a ocasião para aconselhar Anne a suspen­der qualquer decisão imediata sobre o empréstimo.

Ao chegar ao jantar, viu com espanto o estado de abati­mento em que ela se encontrava, o que o levou a tratar da questão com uma cautela ainda maior. Tiveram uma única e breve opor­tunidade de ficar a sós. Lamentou, de si para si, que ela estivesse grávida justamente nas presentes circunstâncias.

Anne aproximou-se para recebê-lo e sorriu.

— Foi muito gentil em ter aceitado nosso convite, Alan, porque sei que o banco o ocupa demais.

— Eu não poderia faltar a um jantar oferecido por você, querida; suas reuniões ainda são como um brinde à cidade de Boston.

— Pergunto-me se alguma vez você disse uma inconveniên­cia – e ela sorriu.

– Quase sempre. Anne, você teve tempo de voltar a pensar na questão do empréstimo? — inquiriu, simulando naturalidade.

– Não, infelizmente não tive. Houve tantas outras coisas com que me preocupar, Alan! O que me diz da contabilidade de Henry?

– Está em ordem, mas examinamos apenas os dados refe­rentes a um ano, de modo que pretendo enviar meus contadores à firma para um novo exame. Essa norma bancária é de praxe e se aplica a todos os clientes que operam há menos de três anos. Estou certo de que Henry compreenderá nossa posição e concor­dará conosco.

— Anne, minha cara, sua reunião está ótima — disse alguém de voz sonora por detrás do ombro de Alan, que não reconheceu a fisionomia do convidado. Provavelmente um político amigo de Henry. — Como vai passando a futura mãezinha? — perguntou o desconhecido, de voz efusiva.

Alan retirou-se discretamente, confiando ter ganho algum tempo em favor do banco. Havia diversos políticos na reunião, a maioria da Prefeitura, e alguns do Congresso, o que o fez pensar que William poderia estar equivocado em relação ao grande con­trato. O banco, entretanto, não precisaria investigá-lo: a Prefei­tura divulgaria o resultado na semana seguinte. Despediu-se dos anfitriões, pegou o sobretudo no vestiário e saiu.

— Até quarta que vem — disse para si mesmo em voz alta, como se quisesse restituir a si mesmo a confiança, enquanto descia a Chestnut Street em direção à sua casa.

No decorrer do jantar, Anne observava o comportamento de Henry toda vez que ele se aproximava de Milly Preston. Nada por certo evidenciava qualquer relação suspeita; com efeito, Henry praticamente não saía de perto de John Preston. Anne teve o pressentimento de que se enganara a respeito do marido, chegando mesmo a pensar em cancelar a entrevista com Glen Ricardo no dia seguinte. A reunião terminou duas horas depois do previsto; e ela esperava que isso fosse sinal de que todos a tinham apreciado.

– Excelente jantar, Anne, obrigado por ter nos convidado.

Era a voz sonora, cujo dono saía por último. Ela não conseguia lembrar-se do nome dele, alguém ligado à Câmara Municipal. O homem desceu para a calçada e desapareceu.

Anne subiu às pressas, desfazendo-se do vestido antes de chegar ao quarto de dormir e prometendo a si mesma não ofe­recer outro jantar antes do nascimento da criança, que se daria dali a dez semanas.

Henry já estava se despindo.

— Meu bem, teve oportunidade de conversar com Alan?

— Tive — respondeu Anne. — Ele disse que os livros estão em ordem, mas que, uma vez que a companhia apresentou ape­nas os dados referentes a um ano, será necessário um novo exame. Isso parece ser um procedimento normal do banco.

— Que se dane o procedimento normal do banco! Então você não percebe que William está por trás disso? Ele pretende sustar o empréstimo, Anne.

— Como pode afirmar isso? Alan nem sequer mencionou William.

— Não? — indagou Henry, elevando a voz. — Ele nem se importou de dizer que ele e William almoçaram juntos no clube de golfe, no último domingo, enquanto eu e você ficáva­mos sozinhos aqui?

— O quê? — admirou-se ela. — Não acredito. William jamais viria a Boston e partiria sem me fazer uma visita. Henry, você deve estar enganado.

— Minha querida, metade da cidade estava presente, e eu não sou capaz de acreditar que William tenha viajado oitenta quilômetros só para jogar uma partida de golfe com Alan Lloyd. Anne, preste atenção, preciso desse empréstimo, do contrário serei recusado como licitante não-habilitado para o contrato municipal. Algum dia e, nessas circunstâncias, espero que logo, você terá de decidir se confia em William ou em mim. Tenho de estar com o dinheiro nas mãos dentro de uma semana a partir de amanhã, oito dias a partir de hoje, porque, se não conseguir provar à Prefeitura que disponho dessa quantia, serei desqualificado. Des­qualificado porque William até agora não aprovou nosso casa­mento. Por favor, Anne, não quer telefonai amanhã para William e pedir-lhe que me ceda esse dinheiro?

Seu tom colérico ribombou na cabeça de Anne, deixando-a fraca e atordoada.

— Não, amanhã não, Henry. Não pode esperar até sexta? Tenho tantas coisas a fazer amanhã!

Henry esforçou-se por se recompor e aproximou-se de Anne, que observava o corpo nu ante o espelho. Deslizou a mão pela barriga saliente.

– Quero que esse camaradinha tenha a mesma sorte que teve William.

 

No dia seguinte Anne disse a si mesma, centenas de vezes, que não ia ver Glen Ricardo, mas pouco antes do meio-dia cha­mou um táxi.

Subiu os degraus de madeira que rangiam, receosa do que o detetive poderia lhe informar. Ainda havia tempo de desistir. Deteve-se, vacilante, e logo depois bateu calmamente à porta.

— Entre.

Anne abriu a porta.

– Ah, sra. Osborne, que bom revê-la. Sente-se.

Ela sentou-se.

— Receio não ter uma boa notícia para lhe dar — disse Glen Ricardo, passando a mão pelo cabelo.

O coração de Anne desfaleceu.

— O sr. Osborne não foi visto com a sra. Preston ou com qualquer outra mulher nestes últimos sete dias.

— Mas o senhor disse que a notícia não era boa — disse Anne.

— Claro, sra. Osborne. Presumi que a senhora procurava justificar um divórcio. Normalmente as esposas indignadas não vêm até mim esperando que eu prove que seus maridos são ino­centes.

— Não, não — replicou Anne, cheia de alívio. — Foi a melhor notícia que recebi nestas últimas semanas.

— Ótimo — comentou o sr. Ricardo, um pouco surpreso. — Tomara que a próxima semana também não revele nada.

— Oh, pode parar suas investigações já, sr. Ricardo. Tenho certeza de que na segunda semana o senhor não encontrará nada de significativo.

- Sra. Osborne, não creio que isso seja sensato. Tirar uma conclusão definitiva com base numa única semana de observação seria, no mínimo, precipitado.

— Concordo, se o senhor acredita que a continuidade das investigações o levará a uma conclusão mais segura. Quanto a mim, estou certa de que não descobrirá mais nada na próxima semana.

– De qualquer maneira — prosseguiu Glen Ricardo, soltando uma baforada do charuto, que parecia maior e tinha um cheiro mais agradável que o da semana anterior —, a senhora já me pagou as duas semanas.

— E o que me diz sobre as cartas? — indagou Anne, de repente lembrando-se delas. — Imagino que tenham vindo de uma pessoa invejosa do sucesso do meu marido.

— Bom, como salientei na semana passada, sra. Osborne, nunca é fácil descobrir um remetente de cartas anônimas. Entre­tanto, foi possível localizar a papelaria onde o envelope e o papel foram comprados, já que são de qualidade rara, mas por ora não tenho nada para informar-lhe sobre essa frente de operações. Re­pito: na próxima semana é provável que consiga alguns indícios. Recebeu alguma outra carta nestes dias?

— Não, nenhuma.

— Ótimo, tudo indica que haverá melhoras. Esperemos, para a sua felicidade, que nosso encontro da semana que vem seja o último.

— Sim — replicou Anne, com satisfação —, tomara que seja. Na próxima terça-feira acertamos as despesas?

— Claro, claro.

Anne havia quase se esquecido da frase, mas dessa vez achou graça e riu. A caminho de casa, resolveu que Henry merecia o empréstimo de quinhentos mil dólares e a oportunidade de mos­trar que William e Alan estavam errados. Ainda não se tinha recobrado da notícia de que William fora a Boston sem sequer avisá-la; talvez Henry tivesse razão em afirmar que William ten­tava uma manobra para impedir o empréstimo.

Nessa noite, Henry ouviu com prazer a decisão de Anne com respeito ao empréstimo, e, na manhã seguinte, apresentou-lhe os documentos em que ela poria sua assinatura. Anne não pôde deixar de pensar que os papéis havia algum tempo se acha­vam preparados, principalmente porque já traziam a assinatura de Milly Preston. Ou de novo exagerava na sua desconfiança? Afastou o pensamento e assinou-os rapidamente.

Quando Alan Lloyd telefonou na manhã da segunda-feira subseqüente, encontrou Anne já decidida.

— Dê-me a oportunidade de pelo menos segurar o processo até terça-feira. Até lá saberemos quem receberá a concessão do contrato.

— Não, Alan, a decisão tem de ser tomada agora. Henry precisa do dinheiro com urgência, caso contrário não conseguirá provar à Prefeitura que tem recurso financeiro suficiente para executar o contrato Ademais, como você já tem as assinaturas das duas curadores, a responsabilidade escapa as suas mãos.

– O banco poderá garantir a situação de Henry sem efetuar a transferência do dinheiro. Estou certo de que a Prefeitura acei­taria esse recurso. De qualquer modo, ainda não tive tempo de reconferir a escrituração da companhia.

– Mas você arranjou tempo para almoçar com William no domingo retrasado, e nem sequer me informou disso.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha.

– Anne, eu...

– Não me diga que não teve a oportunidade de fazê-lo. Na quarta-feira veio ao jantar aqui, e nada o impedia de falar. Preferiu omitir o fato, e também preferiu me aconselhar a adiar a decisão sobre o empréstimo de Henry.

– Sinto muito, Anne. Compreendo a maneira como encara o fato e por que motivo está contrariada, mas a verdade é que agi com razão, acredite em mim. Posso fazer-lhe uma visita para explicar lhe tudo?

— Não, Alan, não pode. Vocês dois uniram-se contra meu marido. Não querem dar a ele nem a oportunidade de se defender. Pois bem, eu mesma vou dar essa oportunidade.

Desligou o telefone, satisfeita consigo mesma, ciente de que fora leal com Henry de uma tal forma que reparava a sua des­confiança inicial.

Alan Lloyd tornou a ligar, mas Anne pediu à criada que dissesse que ela estaria fora o resto do dia. Quando Henry regres­sou a casa à noite, deliciou-se com o tratamento que Anne dera a Alan.

- Tudo vai dar certo, amor, você verá. Na terça-feira de manhã o contrato será meu, e então você poderá dar um beijo em Alan e fazer as pazes com ele. Até lá, porém, é melhor ficar bem longe dele. Se você estiver disposta, na terça-feira podere­mos comemorar com um almoço no Ritz e fazer um aceno com a mão para ele do outro lado do salão.

Anne sorriu e concordou. Não se esqueceu, entretanto, de que se comprometera a falar com o detetive pela última vez ao meio-dia de terça-feira. Naturalmente haveria tempo de sobra para chegar ao Ritz as treze horas e de uma só vez comemorar duas vitórias.

Repetidas vezes Alan tentou entrar em contato com Anne, mas a criada dava-lhe sempre a mesma desculpa. Uma vez que os documentos haviam sido assinados pelas duas curadoras, ele não poderia sustar o pagamento por mais de vinte e quatro horas. A redação era característica de um contrato legal elaborado por Richard Kane; não havia brechas por onde se pudesse escapulir. Depois que um portador especialmente designado saiu do banco com um cheque de quinhentos mil dólares, na tarde de terça-feira Alan sentou-se e escreveu uma longa carta a William, em que relatava todos os acontecimentos que haviam culminado na transferência do dinheiro, retendo apenas os dados não-confirmados que os relatórios apresentavam. Enviou uma cópia da carta a cada membro da diretoria, cônscio de que, embora se tivesse com portado com a máxima circunspecção, expunha-se a prováveis acusações de encobrimento de informações.

 

William recebeu a carta de Alan Lloyd na manhã de terça-feira, na St. Paul's School, enquanto tomava o café na companhia de Matthew.

 

O café na manhã de terça-feira em Beacon Hill constava dos habituais ovos com bacon, torradas quentes, mingau de aveia frio e um bule de café recém-coado e fumegante. Henry estava ao mesmo tempo nervoso e despreocupado. Repreendera a criada e gracejara com um funcionário subalterno do governo, que lhe telefonara dizendo que o nome da companhia escolhida na concorrência seria afixado no painel de informações da Prefeitura, por volta das dez horas. Anne mostrava-se algo ansiosa com o próximo encontro com Glen Ricardo. Passava os olhos pela Vogue, fingindo não ter notado que as mãos de Henry, segurando o Globe, estavam trêmulas.

— O que vai fazer agora de manhã? — indagou Henry, experimentando entabular uma conversa.

— Oh, praticamente nada, antes do nosso almoço de come­moração. Terá condições de construir a ala infantil em memória de Richard? — perguntou.

— Não, meu bem, não em memória de Richard. A obra será minha. Pois então que seja em sua honra: "Ala Sra. Henry Osborne" — acrescentou ele, solene.

— É uma idéia excelente — comentou Anne, depondo a revista e sorrindo ao marido. — Mas não me permita beber champanhe demais durante o almoço, porque marquei um checkup com o dr. MacKenzie esta tarde, e duvido que ele aprove uma bebedeira nove semanas antes do parto. Quando terá a confir­marão da concessão do contrato?

– Agora mesmo — respondeu Henry. — O secretario com quem acabei de falar estava cem por cento confiante, mas o anún­cio oficial será divulgado às dez horas.

– A primeira coisa a fazer, Henry, é telefonar a Alan e contar-lhe a boa notícia. Começo a me sentir culpada pela ma­neira como o tratei na semana passada.

– Não há motivos para se sentir culpada. Ele não se preo­cupou em informá-la sobre as manobras de William.

— Não, mas depois quis me explicar tudo, Henry, e eu nem sequer lhe dei a chance de me contar sua versão da história.

— Está bem, está bem, como você quiser. Se isso a deixa feliz, telefonarei às dez e cinco, e depois você poderá dizer a William que, graças a mim, ele lucrará mais um milhão de dó­lares.

Consultou o relógio.

— Acho melhor ir andando. Deseje-me sorte.

— Pensei que não precisasse mais de sorte — disse Anne.

— Não preciso, não preciso. Mera força de expressão. Vejo-a no Ritz às treze horas. — Beijou-a na testa. — À noite você poderá rir de Alan, de William, dos contratos, e considerá-los todos problemas do passado, acredite em mim. Adeus, querida.

— Espero que tenha razão, Henry.

 

A refeição matinal permanecia intocada diante de Alan Lloyd. Enquanto lia as páginas de economia do Globe, ele notou um pequeno parágrafo na coluna da direita. A Prefeitura anunciaria às dez horas da manhã a companhia ganhadora do contrato com o hospital, no valor de cinco milhões de dólares.

Já havia decidido que linha de procedimento tomaria, caso Henry perdesse o contrato e as denúncias de William se compro­vassem. Faria exatamente o que Richard teria feito ao se defron­tar com uma mesma situação embaraçosa, agindo exclusivamente em defesa dos interesses do banco. Os relatórios recentes sobre a situação financeira pessoal de Henry o haviam deixado extre­mamente abalado. Sem dúvida, Henry era um jogador inveterado, e o destino dos quinhentos mil dólares que teriam sido aplicados em sua firma permanecia ignorado. Alan Lloyd tomou o e laranja e não tocou no resto da refeição; depois de apre­sentar suas desculpas à governanta, saiu para o banco. O dia estava agradável.

— William, quer jogar uma partida de tênis esta tarde? — Matthew Lester postara-se ao lado de William, que lia pela segunda vez a carta enviada por Alan Lloyd.

— O que foi que você disse?

— Está ficando surdo ou virou um adolescente caduco? Não quer perder feio de mim na quadra de tênis esta tarde?

— Não, Matthew, não estarei aqui à tarde. Tenho coisas mais importantes a fazer.

— Naturalmente, meu velho camarada, esqueci que você precisa fazer mais uma de suas misteriosas visitas à Casa Branca. Sei que o presidente irá nomear um novo assessor de economia, e você é o homem indicado para ocupar o lugar daquele imbecil posudo, Charles G. Dawes. Diga-lhe que aceita o cargo, desde que Matthew Lester seja nomeado procurador-geral do governo.

William não lhe respondeu.

— Está certo, a piada é fraca, mas ao menos merece um comentário — disse Matthew, sentando-se ao lado de William e examinando a fisionomia do amigo. — Os ovos fizeram-lhe mal, não foi? Até parece que foram feitos num campo de prisioneiros de guerra da Rússia.

— Matthew, vou precisar da sua ajuda — disse William, repondo a carta de Alan dentro do envelope.

— Recebeu uma carta da minha irmã, informando-o de que ela o aceita como substituto de Rodolfo Valentino?

William levantou-se.

— Matthew, chega de brincadeira. Se o banco do seu pai tivesse sido roubado, ficaria aqui sentado, fazendo piadinhas?

A expressão de William era inequivocamente séria. Matthew mudou o tom da conversa.

— Não, não ficaria.

— Pois então vamos embora daqui. No caminho explico-lhe tudo.

 

Anne deixou Beacon Hill pouco depois das dez horas com o propósito de fazer algumas compras antes de ir ao último encontro com Glen Ricardo. O telefone tocou quando ela já descia a Chestnut Street. A criada, que atendeu, olhou pela janela e concluiu que a patroa estava longe demais para ser chamada de volta. Se Anne tivesse atendido ao telefone, teria sido informada da decisão final da Prefeitura sobre a questão do contrato, e não teria saído para escolher meias de seda e um novo perfume. Che­gou ao escritório de Glen Ricardo minutos depois do meio-dia, com a esperança de que o aroma do perfume neutralizasse o fedor da fumaça do charuto.

— Espero não ter me atrasado muito, sr. Ricardo — co­meçou ela animadamente.

— Sente-se, sra. Osborne.

Ricardo não se achava particularmente animado, mas, pensou Anne, esse era o seu estado habitual. Ela observou então que ele não fumava a marca de charuto costumeira.

Glen Ricardo abriu um elegante fichário marrom, o único objeto novo visível no escritório, e dele retirou alguns papéis.

— Podemos começar pelas cartas anônimas, sra. Osborne?

Anne não gostou nada do tom da voz dele nem da palavra "começar".

— Como queira — esforçou-se por dizer.

— Foram-lhe enviadas por uma certa sra. Ruby Flowers.

— Quem? Por quê? — indagou, ansiosa por uma resposta que não desejava ouvir.

— Desconfio de que um dos motivos possíveis resida no fato de que a sra. Flowers abriu um processo contra seu marido.

— Bem, isso explica todo o mistério — retrucou Anne. — Ela quer se vingar. Quanto Henry deve a essa senhora?

— Ela não alega dívida, sra. Osborne.

— O que alega, então?

Glen Ricardo levantou-se da cadeira como se esse movimento requeresse toda a forçados braços. Foi à janela e olhou para fora, observando uma a uma das pessoas que se movimentavam na apinhada enseada de Boston.

— Ela abriu um processo contra ele alegando quebra de compromisso, sra. Osborne.

— Oh, não!

— Ao que parece, estavam com casamento marcado na época em que o sr. Osborne a conheceu, quando então, sem nenhum motivo aparente, ele rompeu o noivado.

– Mulher interesseira. Provavelmente queria o dinheiro de Henry.

— Não, não acredito nisso. A sra. Flowers já é rica. Não pertence à sua classe, claro, mas é bastante rica também. O marido, já falecido, possuía uma fábrica de garrafas de refrigerantes e deixou-a em boa situação financeira.

— O marido falecido... Que idade tem ela?

O detetive voltou à escrivaninha e virou uma ou duas folhas do fichário antes de descer o dedão por elas. A unha encardida deteve-se.

— Vai fazer cinqüenta e três anos.

— Oh, Deus do céu! — exclamou. — Pobre mulher! Deve me odiar.

— Receio que sim, sra. Osborne, mas isso não nos ajudará. Agora devo falar sobre as outras atividades do seu marido.

O dedo amarelado de nicotina virou outras folhas.

Anne começou a sentir-se indisposta. Por que tinha vindo? Não precisaria ter tomado conhecimento desses fatos. Não queria saber deles. Por que não desistira na semana anterior? Por que não se erguia da cadeira e ia embora? Como seria bom se Richard estivesse ao seu lado! Ele saberia exatamente como lidar com toda essa situação. Anne viu-se incapaz de esboçar um movimento, paralisada pelo interesse no conteúdo do novo e elegante fichário de Glen Ricardo.

— Na semana passada, em duas ocasiões, o sr. Osborne passou três horas na companhia da sra. Preston.

— Isso nada prova — começou Anne, desesperada. — Sei que discutiram um importante documento financeiro.

— Num pequeno hotel na La Salle Street.

Anne não ousou interromper mais o detetive.

— Nessas duas ocasiões, foram vistos entrando no hotel de mãos dadas, cochichando e rindo. Isso não é definitivo, claro, mas tiramos fotografias dos dois juntos, entrando no hotel e saindo dele.

— Destrua as fotos — disse Anne calmamente.

Glen Ricardo pestanejou.

— Como queira, sra. Osborne. Receio que haja mais... Investigações posteriores comprovaram que o sr. Osborne jamais estudou em Harvard nem foi oficial das Forças Armadas america­nas. Em Harvard havia um Henry Osborne com um metro e sessenta e quatro de altura, ruivo e nascido no Alabama. Foi morto no Maine em 1917. Descobrimos também que seu marido é bem mais jovem do que afirma ser e que o verdadeiro nome dele é Vittorio Togna, tendo servido...

– Não quero ouvir mais nada! — explodiu Anne. As lágrimas desciam-lhe pelas faces. — Não quero ouvir mais nada!

– Claro, sra. Osborne, eu compreendo. Lamento que mi­nhas informações lhe causem sofrimento. Às vezes, no meu tra­balho...

– Obrigada, sr. Ricardo — cortou ela, tentando controlar-se. –Sou-lhe grata por tudo o que fez. Quanto lhe devo?

– Bom, como a senhora me pagou adiantado duas semanas, restam as despesas, que ficaram em setenta e três dólares.

Anne entregou-lhe uma nota de cem dólares e ergueu-se da cadeira.

— Espere o troco, sra. Osborne.

Ela balançou a cabeça, e com a mão fez um gesto de indi­ferença.

— Sra. Osborne, está se sentindo bem? Parece-me um pouco pálida. Não quer um copo d'água ou alguma outra coisa?

— Estou bem — mentiu ela.

— Permita-me levá-la de carro para casa.

— Não, obrigada, sr. Ricardo, estou em condições de ir sozi­nha. — Voltou-se antes de sair e sorriu. — Foi muito gentil em oferecer-me ajuda.

Glen Ricardo fechou suavemente a porta, andou com passos pesados até a janela, mordeu a ponta do último charuto, cuspiu-a e amaldiçoou a profissão.

 

Anne parou no alto da escada e agarrou-se ao corrimão, na iminência de perder os sentidos. O bebê deu um chute dentro dela, provocando-lhe náusea. Ela entrou num táxi que estava esta­cionado na esquina do quarteirão e, encolhendo-se no banco tra­seiro, rompeu em prantos, sem saber o que fazer. Tão logo saltou em Red House, subiu sem demora ao quarto de dormir, para não ser vista chorando pelos empregados. Quando entrou no quarto, o telefone tocou. Pegou o fone, mais por hábito que por curiosidade de saber quem chamava.

— Por gentileza, queria falar com a sra. Osborne.

Ela reconheceu a voz entrecortada e pesarosa de Alan.

– Alô, Alan. É Anne quem fala.

– Anne, minha querida, fiquei muito sentido ao saber da notícia hoje de manhã.

— Como soube, Alan? Como foi que soube? Quem lhe contou?

— Ligaram-me da Prefeitura, fornecendo-me detalhes, logo depois das dez horas. Liguei para sua casa, mas sua criada me disse que você havia saído para fazer compras.

— Oh, meu Deus! — exclamou. — Eu tinha me esquecido do contrato. — Ela se sentou, respirando com dificuldade.

— Está passando bem, Anne?

— Sim, estou bem — respondeu, tentando inutilmente es­conder o soluço que a impedia de falar. — O que disse a Prefei­tura?

— O contrato do hospital foi concedido à firma Kirkbrid & Carter. Ao que parece, Henry não estava nem entre os três primeiros favoritos. Tentei me comunicar com ele a manhã toda, mas Henry saiu do escritório depois das dez e desde então não voltou. Anne, por acaso você sabe onde ele está?

— Não, não faço idéia.

— Minha querida, quer que eu vá até aí? — perguntou Alan. – Não demoraria mais que alguns minutos.

— Não, Alan, obrigada. — Ela interrompeu-se, arquejando. — Por favor, perdoe-me por tê-lo destratado. Se Richard ain­da estivesse vivo, jamais me perdoaria.

— Anne, não seja tola. Nossa amizade veio se consolidando, em tantos anos que um incidente tão bobo quanto este jamais conseguiria abalá-la.

O tom amável com que falou predispôs Anne a romper em prantos mais uma vez. Titubeando, ela se pôs de pé.

— Preciso desligar, Alan. Há alguém na porta da frente. Deve ser Henry.

— Cuide-se, Anne, e não se aborreça com o que aconteceu hoje. Enquanto eu for presidente, o banco jamais deixará de apoiá-la. Não hesite em me chamar, caso venha a precisar de mim.

Anne pôs o aparelho no gancho, sentindo o barulho surdo ecoar em seus ouvidos. Fez um esforço espantoso para respirar. Tombou no piso, e, nisso, viu-se esmagada pela sensação de uma poderosa contração que há muito tempo não sentia.

Poucos instantes depois, a criada bateu de leve à porta. Abriu-a e espiou. William estava junto da criada. Desde que a mãe se casara com Henry Osborne ele não entrava no quarto. Ambos precipitaram-se sobre Anne, que tremia convulsivamente, incapa­citada de notar-lhes a presença. Gotículas de espuma salpicavam-lhe o lábio superior. Segundos depois, o acesso havia passado. Anne, prostrada, gemia fracamente.

— Mamãe — chamou-a William com insistência. — O que está sentindo?

Anne ergueu as pálpebras e, fora de si, fitou o filho.

— Richard. Graças a Deus você veio. Preciso de você.

— Mãe, sou William.

As pálpebras de Anne tremeram.

— Estou perdendo as forças, Richard. Tenho de pagar pelos meus erros. Perdoe-me por...

Sua voz transformou-se em gemido quando ela se viu assal­tada por nova e intensa contração.

— O que está acontecendo? — perguntou William, desnor­teado.

— Acho que é o bebê que está vindo — disse a criada —, mas se esperava para daqui a umas semanas.

— Telefone já para o dr. MacKenzie — ordenou William à criada, correndo para a porta do quarto. — Matthew — gritou —, suba aqui depressa!

Matthew subiu a escada, saltando os degraus, e juntou-se a William.

— Ajude-me a levar mamãe para o carro — disse. Matthew ajoelhou-se. Os dois meninos ergueram o corpo de Anne e o levaram cuidadosamente para dentro do carro. Ela ge­mia e arfava, tomada por uma dor insuportável. William voltou e arrancou o fone da mão da criada, enquanto Matthew o espe­rava no carro.

— Dr. MacKenzie?

— Sim, quem fala?

— Meu nome é William Kane. O senhor não me conhece.

— Como não o conheço, meu rapaz? Eu ajudei o seu nasci­mento. O que posso fazer por você?

– Acho que minha mãe está para ter o bebê. Vou levá-la ao hospital imediatamente. Estarei aí em cinco minutos.

O tom de voz do dr. MacKenzie mudou.

– Está bem, William, não se preocupe. Estarei esperando por você. Quando chegar, tudo ficará bem.

– Obrigado, senhor — William vacilou. — Ela teve uma espécie de ataque. Isso é normal?

As palavras de William gelaram o médico. Ele também vacilou.

– Bem, não é exatamente normal. Mas ela ficará boa quando tiver o bebê. Venha o mais rápido que puder.

William pôs o fone no gancho, correu para fora e pulou dentro do Rolls-Royce.

Dirigiu aos trancos e barrancos, sempre na primeira marcha, sem parar nos sinais fechados, até chegarem ao hospital. Os dois rapazes carregaram Anne, e uma enfermeira, que apareceu com uma maca de rodas, guiou-os à maternidade. O dr. MacKenzie os aguardava em frente à sala de parto. Encarregou-se da mãe e pe­diu-lhes que esperassem do lado de fora.

Os dois rapazes sentaram-se em silêncio no pequeno banco e esperaram. Choro e gritos agudos e assustadores, como nunca tinham ouvido, escaparam da sala de parto, seguidos de um silêncio absoluto ainda mais assustador. Pela primeira vez em sua; vida, William sentiu-se completamente atarantado. Os dois fica­ram ali sentados por mais de uma hora, sem trocar uma palavra. Finalmente o dr. MacKenzie, visivelmente cansado, saiu da sala. Os dois rapazes levantaram-se, e o médico encarou Matthew.

— William?

— Não, senhor, sou Matthew Lester. William é ele.

O médico olhou para William, pousando a mão em seu ombro.

— William, sinto muito... Sua mãe acaba de falecer e... a criança, uma menininha, também morreu.

As pernas de William amoleceram, e ele desabou sobre o banco.

— Fizemos o impossível para salvá-las, mas não houve jeito. — Balançou a cabeça, abatido. — Anne não quis me ouvir, in­sistiu em ter o bebê. Se tivesse ouvido meus conselhos, isso não teria acontecido.

William permaneceu sentado, emudecido, atordoado pelo golpes das palavras do médico.

— Como é que ela foi morrer? — murmurou. — Como que o senhor foi deixá-la morrer?

O médico sentou-se entre os dois rapazes.

— Ela não quis me ouvir — repetiu ele, a voz arrastada. —- Alertei-a várias vezes, depois do aborto que teve, no sentido de que não engravidasse de novo, mas ela e seu padrasto nunca levaram a sério minhas advertências. Tinha uma pressão arterial alta durante a última gravidez. E agora também, esse problema me preocupava, embora nunca tivesse atingido um nível perigoso. Mas quando ela chegou aqui hoje, não sei por que motivo, a pressão tinha subido a um nível que favoreceu a eclampsia.

– Eclampsia?

- Convulsões. Às vezes, o paciente consegue sobreviver a vários ataques. Às vezes, simplesmente... pára de respirar.

William resfolegou, trêmulo, e apoiou a cabeça nas mãos. Matthew Lester conduziu o amigo ternamente ao longo do corre­dor. O médico os seguiu. Quando chegaram à porta, olhou fixa­mente para William.

— A pressão arterial de sua mãe subiu tão bruscamente! Isso não costuma ocorrer com freqüência. E ela não lutou contra isso, como se não se importasse com o fato. Estranho... algo a afligia ultimamente?

William ergueu o rosto raiado de lágrimas.

— Algo, não — respondeu ele com ódio. — Alguém.

 

Alan Lloyd estava sentado num canto da sala de estar quan­do os dois rapazes voltaram à Red House. Ergueu-se ao vê-los entrar.

— William — adiantou-se. — Sou o único culpado pela cessão do empréstimo.

William encarou-o, não compreendendo o que ele dizia. Matthew Lester quebrou o silêncio.

— Acho que isso agora não tem importância nenhuma, senhor — disse com serenidade. — A mãe de William morreu durante o parto.

Alan Lloyd empalideceu, apoiou-se no consolo da lareira para não perder o equilíbrio e deu as costas aos rapazes. Pela primeira vez, ambos viam um homem adulto chorar.

— Tudo porque errei — disse o banqueiro. — Nunca vou me perdoar. Não contei a ela o que eu sabia. Eu a amava tanto que não queria magoá-la.

A angústia dele fez com que William se acalmasse.

— Por certo a culpa não é sua, Alan — disse ele com fir­meza. — Fez o que pôde, sei disso, e daqui para a frente eu é que vou precisar da sua ajuda.

Alan Lloyd tentou recobrar-se.

– Osborne já sabe da morte da sua mãe?

– Não sei, e pouco me interessa saber.

– O dia inteiro procurei encontrá-lo para falar sobre o investimento. Ele saiu do escritório depois das dez horas e não reapareceu.

— Cedo ou tarde ele virá para cá — disse William com gravidade.

Muito abatido, Alan Lloyd despediu-se. William e Matthew permaneceram sentados na sala a maior parte da noite, ora ador­mecendo, ora despertando, sobressaltados. Às quatro horas da ma­nhã, William contou as batidas do relógio que havia pertencido ao avô e, subitamente, ouviu um barulho na rua. Matthew correu à janela e espiou a calçada. William, todo tenso, aproximou-se do amigo. Ambos observaram Henry Osborne atravessar, cambalean­do, a Louisburg Square, segurando uma garrafa. Henry mexeu nas chaves, atrapalhado, e, depois de alguns instantes, finalmente abriu a porta. Parou no limiar e olhou atordoado para os dois rapazes.

— Quero ver Anne, não vocês. Por que não estão na escola? Não quero saber de vocês — disse, a voz empastada, as palavras atropeladas, tentando empurrar William de sua frente. — Onde está Anne?

— Minha mãe morreu — respondeu William, controlado.

Henry Osborne olhou-o, paralisado, por alguns segundos. O ar de incompreensão que seu olhar transmitia detonou a fúria de William.

— Onde você estava quando ela precisou do marido? — gritou.

Osborne continuou parado, oscilando levemente de um lado para outro.

— E o bebê?

— Uma menina. Também morta.

Henry Osborne afundou-se numa cadeira. Escorreram-lhe lá­grimas de bêbado.

— Ela perdeu meu bebê?

William descontrolou-se, tomado de raiva e amargura.

— Seu bebê? Pare de pensar só em você pelo menos uma vez na vida! — berrou. — O dr. MacKenzie tinha desaconselha­do uma nova gravidez, e você sabia disso!

— Sabichão nisso também, não, como em tudo! Se se me­tesse só na merda do seu negócio, eu bem que podia ter cuidado da minha própria esposa sem a sua interferência!

— Do dinheiro dela, pelo que sei!

— Dinheiro... Seu muquirana filho da puta! Perder seu dinheirinho dói mais que perder qualquer outra coisa!

— Levante-se daí — exigiu William, entre dentes.

Henry Osborne ergueu-se num esforço e arrebentou a gar­rafa contra o braço da cadeira. O uísque esparramou-se sobre o tapete. Ele oscilou na direção de William, agarrando na mão es­tendida a garrafa quebrada. William não se moveu, e Matthew interveio, colocando-se entre eles. Sem dificuldade, ele tirou a garrafa da mão do homem embriagado.

William afastou o amigo e avançou, ficando cara a cara com Henry Osborne.

— Agora você vai me ouvir com muita atenção. Saia desta casa dentro de uma hora. Se você interferir outra vez na minha vida, abrirei um processo para apurar onde foram aplicados os quinhentos mil dólares de minha mãe, que deveriam ter sido in­vestidos na sua firma. E mandarei investigar seu passado em Chi­cago e sua real identidade. Mas, se você desaparecer de uma vez por todas, tudo ficará encerrado. Agora, suma, antes que eu mate você.

Os dois amigos observaram-no sair, cambaleante, com raiva.

 

No outro dia, William fez uma visita ao banco. Assim que chegou, introduziram-no na sala do presidente. Alan Lloyd guar­dava um punhado de documentos numa pasta de couro. Ergueu os olhos, deteve-se e, sem nenhum comentário, passou uma folha de papel a William. Era uma breve carta dirigida a todos os mem­bros da diretoria em que apresentava sua demissão como presi­dente do banco.

— Pode pedir à sua secretária que venha até aqui? — inda­gou William com tranqüilidade.

— Como queira.

Alan Lloyd apertou um botão instalado num lado da mesa, e uma senhora de meia-idade, vestida com discrição, adentrou a sala por uma porta lateral.

— Bom dia, sr. Kane — disse ela, ao deparar com William. Sinto muito a respeito de sua mãe.

— Obrigado — disse William. — Alguém já leu esta carta?

– Não, senhor — respondeu a secretária. — Eu ainda ia datilografar doze cópias e entregá-las ao sr. Lloyd para que as assinasse.

– Pois então não as datilografe, sim? E, por favor, esqueça que essa minuta algum dia foi feita. Nunca se refira a ninguém sobre a existência dela, está entendendo?

Ela olhou dentro dos olhos azuis do rapaz de dezesseis anos de idade. "Tão parecido com o pai", refletiu.

— Sim, sr. Kane — e saiu, fechando a porta sem fazer ruído.

William olhou para o velho amigo.

— Alan, o Kane & Cabot neste momento não está preci­sando de um novo presidente. Você nada fez que meu pai, nas mesmas circunstâncias, não tivesse feito.

— Não é tão fácil assim — afirmou Alan.

— É tão fácil assim — retrucou William. — Poderemos voltar a conversar sobre o assunto quando eu completar vinte e um anos, mas não antes. Até lá, eu ficaria agradecido se diri­gisse meu banco com sua maneira diplomática e cautelosa, como sempre. Gostaria que o que aconteceu não fosse comentado fora destas quatro paredes. Dê sumiço a todas as informações de que dispõe sobre Henry Osborne e considere o caso encerrado.

William rasgou a carta de demissão e jogou os fragmentos de papel no fogo. Colocou o braço em torno do ombro de Alan.

— Agora, Alan, não tenho mais família, só você. Pelo amor de Deus, não me abandone.

William voltou de carro para Beacon Hill. Na chegada, o mordomo o informou de que a sra. Kane e a sra. Cabot o aguar­davam na sala de visitas. Ambas puseram-se de pé quando o neto entrou. Pela primeira vez William tomou consciência de que, a partir desse dia, era o chefe da família Kane.

 

Os funerais foram realizados discretamente, dois dias depois, na Catedral Episcopal de São Paulo. Não houve convidados além dos familiares e dos amigos mais próximos. A única ausência no­tável foi a de Henry Osborne. À medida que as pessoas iam se retirando, apresentavam condolências a William. As avós posta­ram-se imediatamente atrás dele como sentinelas, louvando sua serenidade e a maneira nobre como se comportava. Quando todos partiram, William acompanhou Alan Lloyd até o carro.

O presidente alegrou-se com o pedido que William lhe fez:

— Alan, como sabe, minha mãe sempre alimentou o sonho de construir a ala infantil do novo hospital em memória de papai. Quero que os desejos dela se tornem realidade.

 

Fazia um ano que Wladek estava na delegação polonesa de Constantinopla, trabalhando dia e noite para Pawel Zaleski, de quem passara a ser um indispensável ajudante e amigo íntimo. Pensara, no início, que ficaria ali poucos dias. Nenhuma tarefa lhe parecia difícil, e logo Zaleski percebeu, com certo espanto, como se sobrecarregava antes da chegada do rapaz. Wladek vi­sitava a embaixada britânica uma vez por semana, quando fazia uma refeição na companhia da sra. Henderson, a cozinheira esco­cesa, e, de quando em quando, com o próprio segundo-cônsul de Sua Majestade britânica.

Os antigos costumes islâmicos iam se dissolvendo e o Im­pério Otomano ameaçava ruir. O nome de Mustafá Kemal era pronunciado por toda parte. O pressentimento de uma mudança iminente inquietava Wladek, cujo pensamento se voltava sem cessar para o barão e todos aqueles a quem amara nos tempos em que vivera no castelo. A necessidade de sobreviver dia a dia na Sibéria o impedira de conservá-los vivos na memória; ali, porém, na Turquia, eles ressuscitavam e se corporificavam à sua frente, numa silenciosa e lenta procissão. Por vezes, surgiam vi­gorosos e felizes: Leon nadando no rio, Florentyna brincando de cama-de-gato em seu quarto de dormir, a face sadia e altiva do barão iluminada pela luz das velas que se acendiam à noitinha. Mas sempre cada um desses rostos, amados e inesquecíveis, tremulavam, enfraquecidos, e, embora Wladek se esforçasse por retê-los, assumiam de maneira assustadora aquela derradeira apa­rência pavorosa: Leon caindo morto sobre seu corpo, Florentyna agonizando, ensangüentada, e o barão cego e alquebrado.

Wladek convenceu-se de que jamais conseguiria retornar à terra habitada por aqueles fantasmas sem antes, de alguma forma, dar dignidade à própria vida. Com esse único pensamento, pre­parou o coração para ir para a América, como antes dele fizera o compatriota Tadeusz Kosciuszko, sobre quem o barão lhe contara tantas histórias fascinantes. Pawel Zaleski descrevia-lhe os Esta­dos Unidos como o "Novo Mundo". O nome por si só incutia nele a esperança no futuro e acenava-lhe com a oportunidade de retornar triunfante à Polônia.

Pawel Zaleski lhe deu dinheiro para comprar uma passagem como imigrante para os Estados Unidos. Não era fácil adquirir uma passagem, pois as reservas eram feitas sempre com um ano de antecedência. Wladek teve a sensação de que toda a Europa ocidental desejava fugir e recomeçar a vida no Novo Mundo.

Na primavera de 1921, finalmente Wladek Koskiewicz dei­xou Constantinopla e embarcou no vapor Black Arrow, com des­tino à Ellis Island, em Nova Iorque. Levava uma valise, que continha todos os seus pertences e os documentos emitidos por Pawel Zaleski.

O cônsul polonês o acompanhou ao porto e lá o abraçou carinhosamente.

— Vá com Deus, meu rapaz.

A tradicional resposta polonesa surgiu naturalmente das pro­fundezas da meninice de Wladek.

— Fique com Deus — respondeu.

Quando atingiu o alto da escada de embarque, lembrou-se da terrível viagem que fizera de Odessa a Constantinopla. Mas dessa vez não havia carvão à vista, apenas homens e mulheres, gente que viera de toda parte, poloneses, lituanos, estonianos, ucranianos e tantos outros tipos de povos que ele desconhecia. Wladek segurou firme seus poucos bens e ficou na fila, à espera, a primeira de muitas esperas às quais associaria sua entrada nos Estados Unidos.

Os documentos foram examinados rigorosamente por um oficial de plantão, que parecia desconfiar de que Wladek esti­vesse fugindo ao serviço militar da Turquia. Mas o trabalho de Pawel Zaleski havia sido executado à perfeição; em silêncio, Wla­dek abençoava seu compatriota enquanto observava alguns imi­grantes serem mandados de volta ao cais.

Em seguida, submeteu-se à vacinação e a um exame médico superficial, no qual, não tivesse tido a oportunidade, durante aqueles doze meses, de se nutrir bem e recuperar a saúde, certa­mente não teria sido aprovado. Quando afinal terminaram todas as inspeções de praxe, permitiram-lhe descer pelo convés em di­reção aos alojamentos de terceira classe. Havia compartimentos separados para homens, mulheres e casais. Sem demora ele pro­curou um dos compartimentos reservados aos homens e deparou com um grupo de poloneses que ocupava um grande conjunto de beliches de ferro, dispostos em fileiras de quatro, cada qual com dois leitos. Em cada estrado havia um colchão de palha muito fino, um cobertor leve e nenhum travesseiro. A falta de travesseiro não incomodou Wladek, que, desde a Sibéria, habi­tuara-se a dormir sem ele.

Wladek escolheu a parte inferior de um beliche em que se acomodava um garoto mais ou menos de sua idade e logo tratou de se apresentar.

— Meu nome é Wladek Koskiewicz.

— O meu é Jerzy Nowak, de Varsóvia — apresentou-se o outro falando polonês. — Estou partindo para fazer fortuna nos Estados Unidos — estendeu-lhe a mão com entusiasmo.

Enquanto o navio permaneceu atracado, Wladek e Jerzy pas­saram boa parte do tempo narrando suas experiências, ambos contentes por contar com um companheiro com quem partilhar o total desconhecimento da América. Jerzy, como Wladek veio a saber, havia perdido os pais na guerra, mas tinha alguns planos para o futuro. As histórias narradas por Wladek o arrebatavam; o filho de um barão, criado na choupana de um armador de laços, aprisionado por alemães e russos, fugitivo da Sibéria e finalmente salvo da espada de um carrasco turco graças à pe­sada pulseira de prata da qual o novo companheiro não con­seguia desviar o olhar. Nos seus quinze anos de idade, Wladek havia passado por mais experiências do que Jerzy teria sonhado em toda a sua existência. À noite, Wladek continuou a discor­rer sobre seu passado, enquanto Jerzy o escutava com interesse, ambos se recusando a dormir e a confessar um ao outro suas preocupações com o futuro.

Na manhã seguinte, o Black Arrow zarpou. Wladek e Jerzy debruçaram-se na balaustrada e ficaram observando Constantino­pla ir desaparecendo na distância azulada do Bósforo. Passada a calmaria das águas do mar de Mármara, afligiram-se, tal como os demais passageiros, com as águas encapeladas do mar Egeu. Os banheiros da terceira classe, cada qual com dez bacias, seis privadas e torneiras de água salgada e gelada, ficaram rapida­mente alagados. Dois dias mais tarde, o cheiro nos alojamentos era nauseante.

As refeições eram servidas num refeitório imenso e imun­do, atravancado de mesas compridas: sopa quente, batatas, pei­xe, carne e repolho cozidos, pão preto, ou de centeio. Há muito tempo Wladek não experimentava comida tão ruim, e ele aben­çoou as provisões que a cozinheira escocesa lhe dera: lingüiça, castanhas e uma garrafinha de conhaque. Ele e Jerzy as parti­lhavam escondidos a um canto do beliche. A partilha era um acordo tácito. Comiam juntos, juntos exploravam a extensão do vapor e, à noite, partilhavam o beliche.

No terceiro dia em alto-mar, à hora do jantar, Jerzy sen­tou-se à mesa na companhia de uma garota polonesa. O nome dela, Wladek soube pelo amigo, era Zaphia. Pela primeira vez em toda a sua vida, Wladek olhou duas vezes para uma mulher. Nada podia fazê-lo parar de olhá-la. A menina reacendeu-lhe lem­branças de Florentyna: olhos acinzentados e meigos, cabelo claro e longo, que lhe caía sobre os ombros, e voz suave. Wladek sentia vontade de tocá-la. Às vezes ela lhe sorria, e nesses momentos, desconsolado, ele notava que Jerzy tinha melhor aparência do que ele. Jerzy acompanhou Zaphia de volta ao alojamento feminino, e Wladek os seguiu de perto.

Mais tarde, Jerzy chamou-lhe a atenção, levemente irritado:

— Por que não arruma uma menina para você? Zaphia é minha.

Wladek não tinha condições de confessar que estava des­preparado para arrumar uma menina só sua.

— Quando chegarmos na América, haverá tempo de sobra para sair com meninas — respondeu ele com desdém.

— Por que esperar até lá? Vou pegar quantas puder en­quanto estiver neste navio.

— Como conseguirá? — indagou Wladek, com vontade de aprender como fazer isso, mas sem querer admitir sua igno­rância.

— Faltam doze dias para a gente sair desta banheira me­donha, e eu vou conseguir doze mulheres — gabou-se Jerzy.

— E o que vai fazer com doze mulheres? — perguntou Wladek.

— Comê-las. O que mais poderia fazer com elas?

Wladek fez uma careta de perplexidade.

— Deus do céu! — exclamou Jerzy. — Não me diga que o homem que sobreviveu aos alemães e fugiu da Rússia, que aos doze anos matou um sujeito e por um triz não teve a mão cortada por um bando de bárbaros turcos nunca teve uma mu­lher na vida!

E desatou a rir, um riso de caçoada, e logo dos beliches à volta deles ecoou a ordem num coro poliglota: "Calem a boca!"

— Bom — prosseguiu Jerzy, agora sussurrando —, chegou a hora de você ampliar seus conhecimentos. Pelo menos descobri uma coisa que posso ensinar-lhe. — Baixou o olhar lá de cima do seu beliche, embora não pudesse enxergar o rosto de Wla­dek, que sumira na penumbra. — Zaphia é uma garota bastante compreensiva. Acho que conseguirei persuadi-la a aperfeiçoar um pouco a sua formação. Deixe por minha conta.

Wladek não ousou responder.

E nada mais falaram sobre o assunto. No dia seguinte, po­rém, Zaphia se mostrou mais atenciosa com Wladek. Nas refei­ções, sentou-se perto dele, e depois, durante horas, conversaram a respeito de suas experiências e esperanças. Ela era órfã, natu­ral de Poznan, e estava indo encontrar-se com os primos que moravam em Chicago. Wladek lhe disse que seu destino era Nova Iorque e que provavelmente moraria com Jerzy.

— Tomara que Nova Iorque seja bem perto de Chicago — comentou Zaphia.

Jerzy interveio, com euforia:

— Quando eu for prefeito, você poderá me fazer uma visi­ta.

— Jerzy, você é polonês demais — ela replicou, torcendo o nariz. — Nem sabe inglês direito, como Wladek!

— Mas eu aprendo — retrucou Jerzy, confiante. — Vou até americanizar meu nome. A partir de agora me chamem de George Novak. Com esse nome não vou ter problema nenhum. Todos nos Estados Unidos pensarão que sou americano. E você, Wla­dek Koskiewicz? Seu nome não ajuda muito, não é?

Wladek olhou em silêncio o rebatizado George, aborrecido com o próprio nome. Impossibilitado de adotar o título que por direito lhe pertencia, rejeitava Koskiewicz e a permanente lem­brança de sua ilegitimidade.

— Darei um jeito — respondeu. — Se quiser, posso ajudar você a melhorar o seu inglês.

— E eu posso ajudar você a arranjar uma menina.

Zaphia deu uma risadinha.

— Não se preocupe com isso. Uma ele já arranjou.

Jerzy, ou George, como teimou que o chamassem, todas as noites depois do jantar se retirava com uma menina diferente para dentro de um dos botes salva-vidas cobertos com lona. Wladek sentia curiosidade de saber o que ele fazia com elas lá, porque as mocinhas que George escolhia não eram apenas sujas, como de resto todas eram, mas também nada atraentes, e sem dúvida assim continuariam mesmo que tomassem um bom banho e ficas­sem limpinhas.

Certa noite, depois do jantar, durante uma das desaparições de George, Wladek e Zaphia demoraram-se no convés. Ela pas­sou os braços em torno dele e pediu-lhe que a beijasse. Ele com­primiu os lábios enrijecidos contra os dela, e de repente seus dentes se tocaram. Sentiu-se tremendamente esquisito fazendo isso. Para sua surpresa e embaraço, a língua dela pressionou e separou seus lábios. Após um instante de receio, Wladek descobriu que a boca aberta de Zaphia lhe proporcionava um prazer intenso e ficou assustado ao sentir que seu pênis endurecia. Teve a intenção de recuar, envergonhado, mas Zaphia não pareceu perturbada. Pelo contrário, estreitou o corpo contra o dele num movimento lento e cadenciado e guiou-lhe as mãos sobre suas nádegas. O pênis inchado pulsava naquele contato, dando-lhe um prazer quase insuportável. Ela desprendeu os lábios e sussurrou-lhe no ouvido:

— Wladek, quer que eu tire a roupa?

Ele não encontrou resposta. Ela afastou-se, rindo.

— Bom, quem sabe amanhã — disse, e, saindo do convés, largou-o sozinho.

Wladek foi para o dormitório com as pernas bambas e dei­tou-se, atordoado, resolvendo que no dia seguinte terminaria o serviço que Zaphia havia começado. Mal se acomodara, ainda pensando em como levaria a cabo a tarefa, quando uma mão o pegou pelo cabelo, puxou-o para fora do beliche e o derrubou no chão. Num instante a excitação sexual desapareceu. Dois ho­mens desconhecidos o olhavam de cima. Eles o arrastaram até um canto e o jogaram contra a parede. Uma mão enorme lhe tapou a boca com energia enquanto a outra lhe encostava uma faca na garganta.

— Não dê um pio — grunhiu o homem que segurava a faca, pressionando-lhe a lâmina contra a pele. — A gente quer só a pulseira de prata.

A súbita percepção de que seu tesouro ia ser roubado cau­sou-lhe um pavor tão grande quanto o que sentira quando estivera prestes a perder a mão. Antes que tivesse tempo de pensar numa maneira de reagir, um dos homens arrancou-lhe a pulseira. A es­curidão não lhe permitia ver a cara dos atacantes, e Wladek temeu ter perdido a pulseira para sempre. Nisso, porém, um vulto se lan­çou sobre o homem da faca e esta caiu. O bote inesperado deu a Wladek tempo de esmurrar o homem que o apertava contra o chão. Os emigrantes começaram a acordar e a interessar-se pelo que acontecia. Os dois homens trataram de fugir o mais depressa possível, mas George ainda conseguiu golpear com a faca a perna de um dos agressores.

— Vão pro inferno! — gritou Wladek, enquanto eles fugiam.

— Acho que cheguei bem na hora — disse George. — Duvido que tenham pressa de voltar. — Baixou o olhar e viu a pulseira de prata caída na serragem que cobria o piso. — Ela é magnífica — exclamou, quase pomposamente. — Sempre vai haver alguém querendo roubá-la de você.

Wladek pegou a pulseira e a recolocou no pulso.

— Bom, ainda não foi desta vez — continuou George. — Teve sorte de eu ter voltado um pouco mais tarde esta noite.

— E por que está voltando mais tarde?

— Minha fama — jactou-se — cresceu além do meu con­trole. Quer dizer, hoje à noite encontrei um idiota dentro do meu bote. Logo me livrei dele, porque lhe disse que a menina que estava com ele era para ter sido minha na semana passada, e só não o foi porque desconfiei de que ela tem sífilis. Nunca vi ninguém se vestir tão depressinha.

— O que você faz no bote, Jerzy? — indagou Wladek.

— Eu como elas, seu asno. O que mais poderia fazer? — Irritado, subiu no beliche e deitou-se para dormir.

Wladek fitou o teto e, segurando a pulseira de prata, refle­tiu sobre a expressão usada por George, imaginando o que seria "comer" Zaphia.

Na manhã seguinte, foram atingidos por uma tormenta e todos os passageiros se refugiaram debaixo do convés. O mau chei­ro, agravado pelo sistema de aquecimento do navio, causava mal-estar a Wladek.

— E o pior dessa situação — gemeu George — é que quero completar uma dúzia.

Quando a tormenta abrandou, quase todos os passageiros voltaram ao convés. À força, Wladek e George abriram caminho pelo passadiço abarrotado de pessoas e buscaram o ar fresco da coberta. Várias garotas sorriam para George, sem fazer caso de Wladek. Se trajasse o casaco de cinqüenta rublos, refletiu ele, por certo elas não o ignorariam. Uma garota de cabelo preto, cujas faces o vento deixava avermelhadas, passou por George e deu-lhe um sorriso. Ele cochichou com Wladek:

— Hoje à noite vai ser essa.

Wladek observou a menina e o jeito com que ela olhava para George.

— Hoje à noite — propôs George, de modo que ela o ou­visse.

A garota fingiu não ouvi-lo e afastou-se a passos rápidos.

— Wladek, vire-se e veja se ela está me olhando.

Wladek virou-se.

— Está, sim — disse, admirado.

— Vai ser minha esta noite — falou George. — Já comeu Zaphia?

— Não. Hoje à noite.

— Estava na hora, não acha? Quando chegarmos a Nova Iorque nunca mais vai vê-la de novo.

Naturalmente, George jantou nessa noite acompanhado da garota de cabelo preto. Sem dizer uma palavra, Wladek e Zaphia retiraram-se da mesa abraçados pela cintura, subiram ao convés e deram algumas voltas pelo navio. Wladek olhava de lado o per­fil belo e jovial de Zaphia. Tinha de ser agora ou nunca, decidiu. Conduziu-a a um canto escuro e beijou-a do jeito como ela o tinha beijado, de boca aberta. Ela recuou um pouco e encostou-se numa amurada, com Wladek unido a ela. Zaphia pegou-lhe as mãos e devagar colocou-as sobre os seios. Ele os apertou, experimentando-os, maravilhado com a maciez deles. Ela abriu alguns botões da blusa e deslizou a mão dele pela abertura. A primeira sensa­ção ao tocar o seio nu foi deliciosa.

— Oh!, que mão fria! — exclamou Zaphia.

Ele a abraçou com força, sentindo a boca seca e a respiração pesada. Ela afastou um pouco as pernas, e Wladek empurrou-se desajeitadamente contra uma barreira de várias camadas de roupa. Ela respondeu com movimentos suaves durante alguns minutos e logo o afastou com as mãos.

— Aqui no convés, não — disse. — Vamos procurar um bote.

Os três primeiros já estavam ocupados, mas finalmente en­contraram um escaler vazio e esconderam-se debaixo da lona. Na escuridão, Zaphia ajeitou as roupas de um modo que Wladek não podia imaginar fosse possível e puxou-o delicadamente sobre ela. Em pouco tempo, ela o levou ao grau de excitação da vez anterior, que ele pôde sentir através das poucas camadas de rou­pa que ainda os separavam. Ele introduziu o pênis na fofura de­licada entre as coxas, e, quando estava a ponto de atingir o orgasmo, ela abriu os lábios de novo.

— Tire as calças — sussurrou.

Ele se achou um idiota, mas tirou-as a toda a pressa e de novo penetrou na doçura e suavidade concedida, alcançando ime­diatamente o mais extraordinário gozo. Sentiu o líquido viscoso escorrer na coxa de Zaphia. Prostrou-se, maravilhado com a impetuosidade do ato, percebendo de repente que as rachaduras da madeira do barco lhe machucavam os cotovelos e os joelhos.

— É a primeira vez que faz amor com uma garota? — in­dagou Zaphia, desejando que ele saísse de cima dela.

— Não, é claro que não.

— Wladek, você me ama?

— Sim, amo — respondeu —, e depois que acertar minha vida em Nova Iorque, vou buscar você em Chicago.

— Eu ficaria tão contente, Wladek! — disse ela, abotoando o vestido. — Também o amo.

Logo que Wladek chegou ao beliche, George tinha uma per­gunta a fazer:

— Comeu ela?

— Sim.

— E foi bom?

— Foi — respondeu, vagamente, e adormeceu.

De manhã, foram acordados pelo alarido dos passageiros, todos muito excitados e felizes por ser o último dia a bordo do Black Arrow. Alguns, antes mesmo do nascer do sol, haviam su­bido ao convés para avistar os primeiros sinais de terra. Wladek recolheu seus poucos pertences, guardou-os na valise, vestiu seu único terno, pôs o boné e reuniu-se a George e Zaphia no convés. Os três olhavam para dentro da névoa que pairava sobre o mar, aguardando em silêncio a primeira visão dos Estados Unidos da América.

— Olhem lá! — gritou um passageiro, em pé sobre a co­berta acima deles, e gritos alegres encheram o ar à aparição da listra acinzentada que era Long Island, cada vez mais próxima à luz da manhã de primavera.

Pequenos rebocadores surgiram ao lado do Black Arrow e o guiaram entre Brooklyn e a Staten Island ao porto de Nova Iorque. A estátua da Liberdade parecia acompanhá-los com um olhar austero, sua lâmpada na mão erguida; e eles a contempla­vam, na paisagem emergente de Manhattan.

Finalmente, o navio atracou perto dos edifícios de tijolos vermelhos e torres pontiagudas da Ellis Island. Os passageiros que haviam ocupado cabines de primeira classe começaram a descer. Só nesse dia Wladek tomou conhecimento deles. Deviam ter fre­qüentado um convés separado e comido em salão próprio. Suas bagagens eram levadas por carregadores, e pessoas sorridentes os esperavam no cais. Wladek sabia que ninguém sorriria para ele.

Após o desembarque dos poucos privilegiados, o capitão anunciou pelo alto-falante que os demais passageiros deveriam permanecer ainda algumas horas dentro do navio. Ouviram-se brados de desapontamento e de protesto; Zaphia sentou-se no convés e pôs-se a chorar. Wladek procurou confortá-la. Por fim, um tripulante distribuiu café. Um funcionário do serviço de imi­gração apareceu, trazendo placas numeradas que foram pendu­radas no pescoço dos passageiros. O número de Wladek era B. 127, o que o fez lembrar-se da última vez que fora um número. Para que havia feito essa viagem? Os Estados Unidos tinham campos como os da Sibéria?

No meio da tarde, sem que tivessem recebido alimentação ou informação, foram colocados em barcas, que, movendo-se vagarosamente, deixaram as docas e rumaram para a Ellis Island. Lá homens e mulheres foram separados e conduzidos a galpões diferentes. Wladek beijou Zaphia e abraçou-a, não querendo que ela se fosse, o que perturbou a ordem da fila. Um funcionário que passava os apartou.

— Chega, chega, continuem andando — disse. — Se insisti­rem muito nisso, vamos casar vocês já, já.

Wladek perdeu Zaphia de vista enquanto era empurrado jun­to com George. Passaram a noite num galpão velho e úmido, sem poder dormir, uma vez que alguns intérpretes, lacônicos mas cor­teses, andavam ao longo das fileiras de bancos abarrotados, ofe­recendo ajuda aos imigrantes desorientados.

Quando o dia seguinte clareou, os imigrantes foram envia­dos aos postos médicos onde seriam examinados. A primeira pro­va foi a mais difícil: pediram a Wladek que subisse um lanço de escada extremamente alto. O médico de uniforme azul obrigou-o a repetir a escalada duas vezes, observando seu andar com atenção. Wladek esforçou-se por disfarçar a coxeadura, e afinal o médico deu-se por satisfeito. Recebeu ordens de tirar o chapéu e o cola­rinho, para que o rosto, os olhos, o cabelo, as mãos e o pescoço pudessem ser cuidadosamente examinados. O homem que vinha imediatamente atrás de Wladek tinha um lábio leporino; o mé­dico barrou-o de pronto, riscou uma cruz com giz no seu ombro e mandou-o ao outro extremo do galpão. Terminado o exame médico, Wladek juntou-se de novo a George, que se achava em outra longa fila em frente ao posto de investigação, onde cada pessoa demorava cerca de cinco minutos. Três horas mais tarde, George foi introduzido na sala; Wladek sentiu curiosidade de saber que tipo de perguntas lhe seriam feitas.

Ao sair da sala, George dirigiu-se a Wladek e lhe sorriu.

— Fácil, você vai se sair bem. Entre.

Wladek deu um passo à frente, sentindo as palmas das mãos molhadas de suor. Seguiu o oficial até uma sala pequena e sim­ples. Dois examinadores estavam sentados a uma mesa e escre­viam sem parar em formulários oficiais.

— Fala inglês? — inquiriu o primeiro.

— Sim, senhor, falo bem — respondeu ele, arrependendo-se de não ter exercitado o inglês durante a viagem.

— Nome?

— Wladek Koskiewicz, senhor.

O homem estendeu-lhe um livro preto.

— Sabe que livro é este?

— Sim, senhor, a Bíblia.

— Acredita em Deus?

— Sim, senhor, acredito.

— Ponha a mão em cima da Bíblia e jure não mentir nas respostas às nossas perguntas.

Wladek pegou a Bíblia com a mão esquerda, pousou a direita sobre ela e disse:

— Prometo dizer a verdade.

— Qual é a sua nacionalidade?

— Polonesa.

– Quem lhe pagou a passagem para vir para cá?

— Eu mesmo, com o dinheiro que ganhei trabalhando no consulado da Polônia em Constantinopla.

Um dos funcionários examinou os documentos de Wladek, fez um sinal afirmativo com a cabeça e perguntou:  

— Tem onde ficar?

— Tenho, sim, senhor. Vou ficar na casa do sr. Peter Novak, tio do meu amigo. Ele mora em Nova Iorque.

— Está bem. Tem trabalho em vista?

— Tenho, sim, senhor. Vou trabalhar na padaria do sr. Novak.

— Foi preso alguma vez?

A Rússia passou num relâmpago pela sua cabeça. Não devia valer. Turquia... não, não mencionaria a Turquia.

— Não, senhor, nunca.

— É anarquista?

— Não, senhor. Odeio os comunistas. Mataram minha irmã.

— Está disposto a respeitar as leis dos Estados Unidos da América?

— Sim, senhor.

— Tem algum dinheiro?

— Sim, senhor.

— Pode mostrá-lo?

— Sim, senhor.

Ele depositou sobre a mesa um bolo de notas e algumas moedas.

— Obrigado — disse o examinador. — Pode guardar o di­nheiro.

O outro examinador o encarou.

— Quanto é 21 mais 24?

— Quarenta e cinco — respondeu Wladek, sem hesitar.

— Quantas pernas tem uma vaca?

Wladek não acreditou no que ouviu.

— Quatro, senhor — respondeu, achando que a pergunta era uma armadilha.

— E um cavalo?

— Quatro, senhor — respondeu, ainda admirado.

— Se estivesse num bote em alto-mar e precisasse fazer menos peso, o que jogaria na água, pão ou dinheiro?

— Dinheiro, senhor — respondeu.

— Bem. — O funcionário pegou um cartão em que esta­va impresso Admitido e entregou-o a Wladek. — Depois que trocar seu dinheiro, mostre este cartão ao funcionário de imigra­ção. Diga-lhe seu nome inteiro e ele lhe dará uma ficha de regis­tro. Em seguida, você receberá um certificado de entrada. Se em cinco anos não cometer nenhum delito e for aprovado num exa­me simples de escrita e de leitura, e concordar em defender a Constituição, terá o direito de requerer cidadania americana. Boa sorte, Wladek.

— Obrigado, senhor.

Sobre o balcão de câmbio, Wladek pôs suas economias de dezoito meses na Turquia e três notas de cinqüenta rublos. Pelo dinheiro turco, recebeu quarenta e sete dólares e vinte cents. Quanto aos rublos, ouviu apenas que não tinham valor. Lembrou-se do dr. Dubien e dos seus quinze anos de economia extenuante.

A etapa derradeira deu-se diante do funcionário de imigra­ção, sentado atrás de um balcão à barreira fiscal da saída, de­baixo de uma fotografia do presidente Harding. Wladek e George postaram-se diante dele.

— Nome completo? — perguntou o funcionário a George.

— George Novak — respondeu com segurança.

O funcio­nário escreveu o nome no formulário.

— Endereço?

— 286, Broome Street, N. Y.

O oficial entregou-lhe uma ficha.

— Este é o seu certificado de imigração, 21871, George Novak. Bem-vindo aos Estados Unidos, George. Também sou polonês. Vai gostar daqui. Minhas felicitações e boa sorte.

Sorrindo, George apertou a mão do funcionário, afastou-se e esperou por Wladek. O oficial estudou Wladek, enfiado em seu casaco de pele de carneiro. Wladek passou-lhe o cartão em que estava escrito Admitido.

— Nome completo?

Wladek hesitou.

— Seu nome? — tornou o funcionário, erguendo um pouco a voz, um tanto impaciente, desconfiado de que o rapaz não sou­besse inglês.

Wladek encontrou dificuldade em falar. Como detestava o nome de camponês!

— Pela última vez, qual é o seu nome?

George não tirava os olhos de cima de Wladek. E também as pessoas na fila. Wladek continuava mudo. De repente, o oficial agarrou-lhe o pulso, leu com atenção a inscrição da pulseira de prata, preencheu a ficha e entregou-a a Wladek.

— 21872, barão Abel Rosnovski. Bem-vindo aos Estados Unidos. Minhas felicitações e boa sorte, Abel.

 

Em setembro de 1923, William regressou à St. Paul's School para iniciar seu último ano de estudos e foi eleito presidente da classe sênior, exatamente trinta e três anos após seu pai ter ocupa­do o mesmo posto. William não foi eleito segundo os padrões costumeiros, em razão de ser um excelente atleta ou o rapaz mais popular da escola. Matthew Lester, seu amigo íntimo, sem dúvi­da teria ganho qualquer competição que se baseasse nesses crité­rios. Acontece que William era o rapaz que mais impressionava em toda a escola, e, por esse motivo, Matthew Lester jamais con­seguiria concorrer com ele. A St. Paul's School apresentou o nome de William como seu candidato à bolsa de estudos para o curso de Matemática Hamilton Memorial, de Harvard. William traba­lhou durante todo o período letivo de outono com o único pro­pósito de arrebatá-la.

No Natal, quando retornou a Beacon Hill, estava preparado para um período ininterrupto de estudos, em que pudesse dedi­car-se ao Principia Mathematica. Isso não foi possível, porém, pois ao chegar encontrou diversos convites para festas e bailes. Pôde recusar a maioria deles com diplomacia, mas um era abso­lutamente irrecusável. As avós haviam organizado um baile que teria lugar na Red House, na Louisburg Square. William pergun­tou-se em que idade estaria capacitado a defender sua casa da invasão das duas ilustres senhoras e concluiu que esse momento ainda não havia chegado. Na verdade, contava com poucos amigos em Boston, mas isso não constituiu impedimento às avós, que elaboraram uma extensa lista de convidados.

Com o fim de registrar a ocasião, elas o presentearam com o primeiro smoking de sua vida, um modelo na última moda, tipo jaquetão. William aceitou-o simulando indiferença. Mais tarde, porém, na privacidade de seu quarto de dormir, desfilou com ele, parando a toda hora para olhar-se no espelho. No dia seguinte, telefonou para Nova Iorque e convidou Matthew Lester para reu­nir-se a ele no fatídico fim de semana. A irmã de Matthew quis acompanhá-lo, mas a mãe julgou o acontecimento pouco adequado à idade da menina.

William foi esperá-lo na estação de trem.

– Pensando bem, William — comentou Matthew, enquanto o motorista os levava a Beacon Hill —, não acha que já é tempo de arranjar uma garota? Em Boston as mulheres devem ser muito sem graça.

— Por quê, você já teve alguma, Matthew?

— Lógico. Em Nova Iorque, no último inverno.

— Hum... Que fazia eu nesse tempo?

— Provavelmente devorava Bertrand Russell.

— Você nunca me falou sobre o assunto.

— Nem havia muito a dizer. De qualquer forma, você se envolvia mais com o banco do meu pai do que com a minha vida amorosa. Tudo aconteceu na festa que papai deu aos funcionários para comemorar o aniversário de Washington. Uma típica inicia­ção de um dente-de-leite. Falando francamente, fui violentado por uma das secretárias do diretor, uma senhora enorme chamada Cynthia, com seios balouçantes bem maiores do que...

— Gostou?

— Naturalmente, mas não acredito que Cynthia tenha gos­tado. Ela estava bêbeda demais e nem sequer me notou junto dela. Enfim, a gente tem de começar de alguma maneira, e a dona estava disposta a dar uma mãozinha ao filho do patrão.

Num lampejo, William viu diante de si a secretária madura e empertigada de Alan Lloyd.

— Não creio que tenha oportunidade de me iniciar com a secretária do presidente do banco — cismou.

— Nem imagina o que é — observou Matthew, com conhe­cimento de causa. — As que andam com as pernas bem juntinhas são as que não vêem a hora de abri-las. Agora eu aceito a maioria dos convites, formais ou informais, e nem me importa com as roupas.

O motorista estacionou o carro na garagem, e os rapazes subiram os degraus que levavam ao interior da casa.

— Fez algumas mudanças desde a última vez em que estive aqui — comentou Matthew, encantando-se com os móveis de bam­bu e o papel de parede de padrões aveludados em relevo. Apenas a cadeira de couro permanecia intocada, como que enraizada no mesmo lugar.

— A casa precisava de um pouco mais de luminosidade — explicou William. — Era com se a gente vivesse na Idade da Pedra. Ademais, não queria me lembrar de... Ora, não é o mo­mento de discutir decoração de interiores.

— Quando chegam os convidados da festa?

– Do baile, Matthew, do baile. As minhas avós insistem em chamar o acontecimento de reunião dançante.

– Nessas ocasiões, só uma coisa merece o nome de dan­çante.

– Matthew, uma simples secretária de um certo diretor não o autoriza a se considerar especialista em educação sexual.

— Puxa, quanta inveja! E partindo do meu melhor amigo! — suspirou, Matthew, motejando.

William riu e consultou o relógio de pulso.

— O primeiro convidado deve chegar daqui a duas horas. Tempo de sobra para tomar um banho de chuveiro e trocar de roupa. Lembrou-se de trazer um smoking?

— Sim, e mesmo que tivesse esquecido poderia usar meu pijama. Sempre me esqueço de um ou de outro, mas nunca dos dois. Sabe, acho que de fato poderia inaugurar uma nova moda, se chegasse ao baile de pijama.

— Estou imaginando quanta graça minhas avós achariam disso —disse William.

Vinte e três entregadores do serviço de bufê chegaram às dezoito horas em ponto, e as avós, às dezenove, magníficas em seus longos rendilhados que se arrastavam no soalho. William e Matthew reuniram-se a elas na sala de visitas poucos minutos antes das vinte horas.

William estava na iminência de roubar um tentadora cereja vermelha do alto de um bolo majestoso, quando ouviu a avó Kane repreendê-lo às suas costas.

— William, não toque nesse bolo. Não é para você.

O rapaz virou-se para vê-la.

— De quem é, então? — perguntou ele, beijando-a na face.

— Não se faça de tolo, William. Não é porque tem mais de um metro e oitenta que vou deixar de dar-lhe umas palmadas.

Matthew Lester caiu na gargalhada.

— Vovó, quero apresentar-lhe meu melhor amigo, Matthew Lester.

A avó Kane submeteu o rapaz a uma demorada apreciação através de seu pincenê.

— Como vai, meu jovem?

— Encantado em conhecê-la, sra. Kane. Acredito que a se­nhora deva conhecer meu avô.

— Se conheço seu avô? Caleb Longworth Lester? Certa vez propôs-me casamento, há mais de cinqüenta anos. Recusei-o. Dis­se-lhe que bebia demasiado e que a bebida cedo o levaria à se­pultura. Eu estava certa. Portanto, não beba; vocês dois, não bebam. Nunca se esqueçam disso: o álcool embota o cérebro.

— Não temos muita chance com a lei seca — observou Matthew inocentemente.

— Creio que em breve terá fim — respondeu a avó Kane, torcendo o nariz. — O presidente Coolidge esquece-se de sua educação. Jamais se teria tornado presidente se aquele idiota do Harding não tivesse morrido estupidamente.

— Sem dúvida, vovó — comentou William, rindo —, sua memória é deveras seletiva. Ninguém ousou dizer nada contra ele durante a greve da polícia.

A sra. Kane calou-se.

Os convidados pouco a pouco foram aparecendo, em sua maioria completamente desconhecidos do anfitrião, que exultou ao deparar com Alan Lloyd entre os que chegaram cedo.

— Está com um ótimo aspecto, meu rapaz — disse ele, pela primeira vez na vida reconhecendo isso.

— Você também, Alan. Foi muito gentil em vir.

— Gentil? Por acaso ignora que o convite partiu de suas avós? Talvez eu ainda tivesse coragem bastante de driblar uma delas, mas duas...

— Você também, Alan? — completou William, rindo. — Pode me conceder um instante do seu tempo para uma conversinha particular? — Ele levou o convidado até um canto tranqüilo. — Quero modificar um pouco meu plano de investimento e pre­parar-me para comprar as ações do banco de Lester tão logo este­jam à venda. Quando eu fizer vinte e um anos, quero ter cinco por cento das ações dele.

— Isso não é fácil — ponderou Alan. — As ações de Lester não chegam ao mercado com freqüência, porque são privativas. Mas verificarei quais são as possibilidades. O que é que essa ca­beça anda maquinando, hein, William?

— Bom, minha meta real é...

— William — chamou a avó Cabot, que se aproximava deles um pouco apressada. — Ah, está conspirando com o sr. Lloyd! Acontece que ainda não o vi dançar com nenhuma das moças aqui presentes. Por que acha que organizei este baile, hein?

— Tem razão — confirmou Alan Lloyd, levantando-se. — Eu cuidarei de que este rapaz entre de cabeça no mundo, enquanto a senhora se senta aqui comigo. Descansaremos, observaremos William dançar e ouviremos música.

– Música? Alan, que música?! Isso não passa de uma ba­rulhenta dissonância, sem nenhuma sugestão de melodia.

– Minha querida avó — disse William —, o que a senhora está ouvindo é Yes, we have no bananas, o sucesso das paradas.

– Se é assim, já é tempo de eu partir deste mundo — sen­tenciou a avó Cabot num estremecimento.

– Nunca! — replicou Alan Lloyd, galhardamente.

William dançou com duas moças de quem vagamente se lem­brava, embora seus nomes não lhe ocorressem. Ao ver Matthew sentado sozinho num canto, desculpou-se e com alegria fugiu do centro da pista. Ao se aproximar, porém, notou que Matthew es­tava acompanhado de uma mocinha. Quando a desconhecida le­vantou o olhar e o fitou, William sentiu a perna amolecer.

— Conhece Abby Blount? — indagou Matthew despreocupadamente.

— Não — respondeu William, erguendo a mão e endirei­tando a gravata, mas sem se dar conta disso.

— Este é o anfitrião, sr. William Lowell Kane.

A moça baixou o olhar timidamente, enquanto William se sentava ao seu lado. Matthew percebeu o olhar que William lan­çara a Abby e, erguendo-se, retirou-se para buscar mais ponche.

— Como é possível que, vivendo minha vida toda em Boston, não nos tenhamos visto até hoje? — perguntou William.

— Já nos vimos antes uma vez. Naquela ocasião, você me empurrou para dentro do lago Common. Tínhamos três aninhos nessa época. Só me recuperei do choque depois dos catorze anos.

— Sinto muito — disse William, após um breve silêncio, durante o qual procurou uma resposta mais espirituosa.

— Sua casa é linda, William.

Ele fez nova pausa.

– Obrigado — respondeu, a voz enfraquecida. Olhou Abby de soslaio, fingindo não observá-la. O corpo dela era esguio — oh!, como era esguio! —, e os olhos, grandes e castanhos. Tinha sobrancelhas longas e um perfil que o cativa­vam. Abby cortara o cabelo no estilo que até esse instante ele sempre detestara.

– Matthew disse que no ano que vem você vai para Harvard –     tentou ela recomeçar uma conversa.

– Pois é, vou... Quer dizer, gostaria de dançar?

— Oh, sim, obrigada.

Os passos da dança, minutos atrás tão bem executados por ele, pareceram-lhe extremamente difíceis. Pisava-lhe nos pés e a toda hora impelia-a contra os pares que dançavam à volta. Des­culpou-se. Ela sorriu. Ele estreitou-se um pouco mais. Continua­ram dançando.

— Aquela moça que está monopolizando William há uma hora é do nosso relacionamento? — indagou a avó Cabot, um tanto cismada.

A avó Kane ergueu o pincenê e, através das portas que da­vam para o terreno, perscrutou a moça que caminhava ao lado de William em direção ao gramado.

— Abby Blount — asseverou a avó Kane.

— A neta do almirante Blount? — quis saber a avó Cabot.

— Exatamente.

A avó Cabot meneou a cabeça, expressando certo grau de aprovação.

William conduziu Abby Blount ao extremo mais remoto do jardim e deteve-se debaixo de um castanheiro, o qual, no passado, utilizara apenas para suas escaladas.

— Sempre que sai com uma garota pela primeira vez você tenta beijá-la? — indagou Abby.

— Para ser sincero — começou William —, nunca beijei uma garota.

Abby soltou um risinho.

— Estou lisonjeada.

Ela ofereceu-lhe primeiro uma face corada, depois os lábios rosados, e em seguida sugeriu que entrassem. Com certo alívio, as avós observaram a volta prematura do casal.

Mais tarde, no quarto de dormir de William, os dois rapa­zes conversaram sobre o baile.

— A festa não foi má — observou Matthew. — Apesar de você ter roubado a minha garota, acho que valeu a pena ter vindo de Nova Iorque para a província.

— Na sua opinião, ela me ajudará a perder a virgindade? — indagou William, ignorando a zombaria de Matthew.

— Bem, três semanas são um tempo suficiente, mas receio que você descubra que Abby ainda não perdeu a dela — disse Matthew. — E minha experiência no assunto me autoriza a apos­tar cinco dólares em que ela não cederá nem mesmo ao charme de William Lowell Kane.

William elaborou um minucioso estratagema. Virgindade era uma coisa, perder cinco dólares para Matthew era outra inteira­mente diferente. Depois daquela noite, viu Abby Blount pratica­mente todos os dias, não sem aproveitar a vantagem, pela primeira vez de possuir uma casa própria e um automóvel aos dezessete anos de idade. A situação tomaria outro rumo, sem dúvida mais satisfatório, sem a vigilância discreta, mas persistente, dos pais de Abby, que pareciam estar sempre por perto; assim, ele não havia chegado muito mais perto de seu objetivo quando o último dia de férias se aproximou.

Decidido a ganhar os cinco dólares, naquela manhã William enviou a Abby uma dúzia de rosas, levou-a para jantar num res­taurante fino, o Joseph's, e por fim persuadiu-a a ir até sua casa, onde ficaram sentados na sala de estar.

— Com a lei seca em vigor, como conseguiu essa garrafa de uísque? — perguntou Abby.

— Oh, não é tão difícil assim — gabou-se William.

Na verdade, ele havia escondido em seu quarto uma garrafa de bourbon de Henry Osborne logo depois da partida dele, e agora sentia-se contente por não tê-la despejado no cano da pia, como inicialmente pretendera.

William serviu doses que o fizeram ofegar e encheram de lágrimas os olhos de Abby.

Ele sentou-se ao lado dela e, sem hesitar, passou-lhe o braço em torno dos ombros, tentando levar avante sua estratégia.

— Abby, você é tremendamente bonita — murmurou ele, numa preliminar, bem perto dos cachos ruivos.

Ela o fitou com seriedade, os olhos castanhos bem abertos.

— Oh, William — arquejou —, e você é encantador.

O rostinho de boneca de Abby era irresistível. Ela permitiu que ele a beijasse. Encorajado, William deslizou a mão hesitante que segurava o pulso dela e passou-a para o seio, esquecendo-a ali, como um guarda de trânsito que interrompesse um fluxo de automóveis. Ela corou de indignação e puxou a mão dele para baixo, de modo que o tráfego prosseguisse normalmente.

– William, você não deve fazer isso.

– Por que não? — retrucou, procurando inutilmente segu­rar-lhe a mão.

— Porque não sabe onde poderia parar.

— Sei perfeitamente.

Antes que pudesse retomar os avanços, ela o afastou e le­vantou-se apressadamente, alisando o vestido.

— William, eu já devia estar em casa.

— Você mal acabou de chegar!

— Mamãe vai perguntar o que estive fazendo.

— E terá condições de responder... nada!

— Acho melhor que seja assim — acrescentou.

— Mas amanhã eu vou embora. — Ele evitou completar: "para a escola".

— Escreva-me, William.

Ao contrário de Valentino, William reconhecia quando es­tava derrotado. Levantou-se, endireitou a gravata, pegou Abby pela mão e levou-a de carro para casa.

No dia seguinte, já de volta à escola, Matthew Lester aceitou o dinheiro da aposta, uma nota de cinco dólares, erguendo as sobrancelhas num sinal de falsa surpresa.

— Se abrir a boca e disser uma palavra, Matthew, saio cor­rendo atrás de você com um bastão de beisebol.

— Não encontro uma só palavra que de fato expresse meu profundo sentimento de solidariedade.

— Matthew, pode começar a correr!

 

No último semestre letivo da St. Paul's School, William co­meçou a reparar na esposa do diretor, uma mulher bonita, talvez de cintura e ancas um tanto flácidas, mas de seios fartos e rijos. Em seu cabelo abundante e preto, bem no alto da cabeça, mal se podiam contar os primeiros fios brancos. Certo sábado, quando William torceu o pulso no rinque de hóquei, a sra. Raglan fez-lhe uma compressa e pôs-lhe uma atadura, ficando tão próxima dele, mais que o necessário, que ele não pode evitar roçar o braço em seu seio. Ele gostou do contato. Noutra ocasião, quando pe­gou uma febre e precisou ficar alguns dias internado na enfer­maria, ela levava-lhe as refeições, sentava-se na cama enquanto ele comia e encostava o corpo na perna coberta pelo lençol. Tam­bém isso lhe deu prazer.

Corria o rumor de que era a segunda mulher de Raglan Zangado. Quase ninguém na escola podia imaginar de que maneira Zangado conseguia assegurar a posse de uma única esposa que fosse. Através de suspiros e silêncios deveras significativos, às vezes a sra. Raglan dava a entender que partilhava com eles a incredulidade a respeito de seu próprio destino.

Como parte de seus deveres como monitor veterano da es­cola todas as noites, às dez e meia, William obrigava-se a se apresentar a Raglan Zangado depois de ter apagado as luzes antes de se recolher. Na noite de uma segunda-feira, ele bateu como sempre à porta de Zangado e, surpreso, ouviu a voz da sra. Raglan, que o mandou entrar. Ela estava deitada num sofá e trajava um robe de seda que lembrava um quimono.

William abriu um pouco a porta, segurando firme a maçaneta fria.

– Sra. Raglan, apaguei todas as luzes e fechei a porta da frente. Boa noite.

Num volteio, ela baixou as pernas ao chão, revelando por um segundo um pedaço pálido de coxa sob o tecido estampado.

— William, por que está sempre apressado? Não vê a hora de começar a viver, não é mesmo? — Ela caminhou até uma mesinha. — Por que não fica um pouco e toma uma xícara de cho­colate? Sou tão distraída, que fiz chocolate para dois, esquecida de que o sr. Raglan só voltará no sábado.

Havia uma inequívoca ênfase na palavra "sábado". Com a xícara de chocolate quente na mão, ela se aproximou de William e fitou-o, querendo se certificar de que o significado da frase tinha sido registrado por ele. Satisfeita, estendeu-lhe a xícara e, de pro­pósito, tocou-lhe a mão. William tomou aplicadamente o choco­late quente.

— Gerard foi fazer uma conferência — continuou ela. Pela primeira vez ele ouvia o primeiro nome de Raglan Zangado. — Feche a porta, William, e venha sentar-se.

William hesitou. Fechou a porta. Não queria sentar-se na cadeira de Zangado nem perto da sra. Raglan, mas resolveu que a cadeira de Zangado era o menor dos dois males e encaminhou-se para ela.

– Não, não — disse ela, batendo a mão no estofado do assento que estava ao seu lado.

William deteve-se, andou, desajeitado e indeciso, e, muito nervoso sentou-se ao lado dela, buscando inspiração dentro da xícara, de onde não despregava o olhar. Não encontrando nela a inspiração que buscava, engoliu o conteúdo num só gole, queiman­do a língua. Com alívio, viu a sra. Raglan levantar-se. Ela encheu de novo a xícara, sem dar atenção aos seus murmúrios de recusa, atravessou em silêncio a sala e ligou a vitrola.

Quando ela se aproximou, ele ainda fitava o soalho.

— Não se deixa uma senhora dançar sozinha, não é mesmo, William?

Ele levantou os olhos. A sra. Raglan balançava o corpo sua­vemente, acompanhando o ritmo da música. William pôs-se de pé e formalmente encaixou o braço em torno da cintura da sra. Ra­glan. Zangado caberia perfeitamente no espaço que os esperava. Depois dos primeiros acordes, ela se chegou mais a ele, que olhava o vazio acima do ombro direito dela com o propósito de lhe mos­trar, pela sua rigidez, que não havia notado a mão esquerda dela escorregar do seu ombro e pousar em suas costas. Acabado o disco, William achou que chegara a oportunidade de retornar à segurança do chocolate quente, mas a sra. Raglan virou o disco e logo voltou aos seus braços, sem lhe dar tempo de se locomover.

— Sra. Raglan, sinto muito, mas eu...

— Relaxe um pouquinho, William.

Por fim ele encontrou coragem de olhá-la dentro dos olhos. Tentou dar-lhe uma resposta, mas a voz não saía. A mão delicada como que alisava suas costas, as coxas pressionavam-lhe as viri­lhas em movimentos suaves. Ele apertou o abraço em torno da cintura dela.

— Bem melhor — ela disse.

Fizeram uma volta lenta em torno da sala, estreitamente abraçados, os passos e movimentos tornando-se mais e mais lentos, harmonizando-se com a música que dali a pouco terminaria. Quando ela se afastou para apagar a luz, William desejou que voltasse logo. Ficou ali de pé, envolto pela penumbra, imóvel, escutando o farfalhar da seda, distinguindo somente uma silhueta a se despir.

Enquanto o cantor encerrava a canção e a agulha ia arranhan­do o disco, ela ajudou-o a tirar as roupas e o conduziu ao sofá. William procurou-a às apalpadelas, os dedos tímidos de novato tocando-lhe regiões do corpo que, ao tato, não correspondiam ao que antes ele havia imaginado. Afobado, levou-os ao território dos seios, relativamente mais conhecidos. Os dedos dela, que não eram assim tão inexperientes, logo lhe acenderam sensações que jamais sonhara possíveis. Ele sentiu vontade de gemer alto, mas conteve-se, receando parecer ridículo. As mãos dela seguraram-no pelas costas e sem pressa o colocaram sobre ela.

William apoiou-se, temendo denunciar sua real falta de ex­periência para penetrá-la. Não era tão fácil quanto pensara, e seu desespero foi aumentando. Uma vez mais, os dedos da mulher desceram-lhe abaixo do estômago e sabiamente o orientaram. Com a ajuda dela, ele a penetrou sem dificuldade e imediatamente alcançou o orgasmo.

Deixou-se ficar deitado em cima dela.

– Desculpe — disse, sem ter idéia do que faria em seguida.

– Amanhã você se sairá melhor — disse ela finalmente.

O ruído da agulha a arranhar o disco voltou a entrar-lhe nos ouvidos.

Durante o interminável dia seguinte, a sra. Raglan não lhe saiu da cabeça. Nessa noite, ela suspirou. Na quarta-feira, arquejou. Na quinta, gemeu. Na sexta, gritou.

No sábado, Raglan Zangado regressou da conferência, mas então a educação de William já estava concluída.

 

Durante as férias da Páscoa, mais exatamente no dia da As­censão, Abby Blount finalmente sucumbiu ao charme de William, o que custou a Matthew Lester cinco dólares, e a ela, a virgin­dade. Depois da sra. Raglan, Abby foi uma espécie de anticlímax. Foi esse, no entanto, o único acontecimento digno de nota nessas férias, porque Abby acompanhou os pais a Palm Beach e William passou a maior parte do tempo trancado em casa com os livros, sem receber ninguém além das avós e de Alan Lloyd. Os exames finais estavam marcados para dali a poucas semanas, e, como Ra­glan Zangado não assumira compromissos com outras conferências, William não tinha outra atividade fora de casa.

Ao longo do último período letivo, ele e Matthew estudavam horas a fio na St. Paul's School, sem abrir a boca, a não ser quando Matthew debatia com algum problema de matemática que real­mente não soubesse resolver. Os exames, há muito esperados, finalmente começaram. Duraram precisamente uma única semana febril. Assim que terminaram, os rapazes sentiram-se otimistas com os resultados, mas, à medida que os dias passavam, a expectativa aumentava mais e mais, e a confiança diminuía na mesma pro­porção. A bolsa de estudos para o curso de Matemática Hamilton Memorial de Harvard era concedida com base em critérios compe­titivos e oferecida a todos os estudantes dos Estados Unidos. Difi­cilmente William poderia avaliar a qualidade de seus concorrentes. O tempo escoava-se, e William, não tendo recebido nenhuma res­posta, preparava-se para o pior.

Quando o telegrama chegou, ele jogava beisebol com seis ex-alunos, matando os últimos dias de escola, aqueles dias quen­tes de verão em que os rapazes se arriscam a ser expulsos por alcoolismo, por quebrar vidraças ou por tentar levar para a cama as filhas dos professores, senão as próprias esposas.

William declarava em altos brados a quem quisesse ouvir que bateria o recorde de corrida no beisebol. "Ele é o Babe Ruth da St. Paul's School", afirmou Matthew. A essa pretensão exa­gerada, seguiram-se muitas risadas. Quando o telegrama lhe foi entregue, porém, as corridas foram imediatamente esquecidas. William soltou o bastão e abriu o pequeno envelope amarelo. O lançador esperava, impaciente, de bola na mão, assim como o jogadores que estavam no campo externo. William leu o comunicado com extrema atenção.

— Eles querem que você seja um profissional — gritou alguém da primeira base, considerando o telegrama um fato incomum numa partida de beisebol. Matthew deixou o campo externo e encaminhou-se para William, procurando descobrir, pela expres­são do amigo, se a notícia era boa ou má. Conservando a mesma fisionomia, William pôs o envelope nas mãos de Matthew, que o leu, deu um salto no ar, emocionado, e, jogando o papel no chão, seguiu o amigo, que corria de base em base, ambicionando bater o recorde, sem dar importância ao fato de que ninguém tinha batido a bola. O lançador observou os dois rapazes, pegou o tele­grama, leu a mensagem, e em seguida atirou a bola nas arqui­bancadas. O papel amarelo foi passando rapidamente de mão em mão. O último a ler a mensagem foi o ex-aluno que havia entre­gue o telegrama. Depois de ter causado tanta alegria sem ter recebido uma palavra de agradecimento, ele queria saber qual era a causa de tanto entusiasmo.

O telegrama era dirigido a William Lowel Kane, que o rapaz julgou ser aquele atirador incompetente. Dizia o seguinte: Feli­citações por ter ganho a bolsa Hamilton Memorial para o curso de Matemática de Harvard. Seguem maiores detalhes. Abbot Lawrence Lowel, diretor. William não alcançou o recorde, por­que foi carregado por vários interceptadores antes de chegar à base de partida.

Matthew mostrou-se contente com o êxito do amigo mais querido, mas ao mesmo tempo sentiu-se entristecido, porque aquilo significava que dali em diante deveriam se separar. William também estava triste, mas nada disse; os dois rapazes esperariam nove dias para tomar conhecimento de que Matthew também havia sido aceito em Harvard.

Então chegou outro telegrama, este de Charles Lester, que felicitava o filho e convidava os dois rapazes para um chá no Plaza Hotel de Nova Iorque. As avós enviaram os parabéns a William, mas, como informou a avó Kane a Alan Lloyd, não sem certa impertinência, "o menino fez o que dele se esperava, e nada mais do que o pai já conseguira".

 

Os dois jovens caminhavam tranqüilamente pela Fifth Avenue no dia marcado para o chá, incapazes de esconder seu orgulho. As moças que passavam sentiam-se atraídas pelo elegante par, que simulava não notá-las. Às quinze e cinqüenta e nove, eles transpuseram a porta do Plaza, tiraram a palheta, atravessaram despreocupadamente a sala e observaram os familiares, que os aguardavam no Palm Court. Lá, empertigadas, sentadas em ca­deiras confortáveis, estavam as avós Kane e Cabot, ladeadas por outra senhora idosa, que, presumiu William, devia ser a equiva­lente da avó Kane na família Lester. O sr. e sra. Charles Lester, a filha de Susan (com os olhos pregados em William) e Alan Lloyd completavam o círculo, em que havia duas cadeiras vagas, uma para William, outra para Matthew.

A avó Kane chamou o garçom que se achava mais perto e ergueu a sobrancelha imperiosamente.

— Outro bule de chá e mais tortas, por favor.

O garçom saiu apressado em direção à cozinha.

— Um bule de chá e tortas, madame — falou o garçom ao regressar.

— William, hoje seu pai se sentiria orgulhoso de você — disse o velho ao mais alto dos dois rapazes.

O garçom gostaria de saber o que o jovem elegante havia feito para merecer esse comentário.

William jamais teria prestado atenção ao garçom, não fosse a pulseira de prata que ele trazia no pulso. A peça sem dúvida poderia ter sido comprada na Tiffany's. Essa incongruência intri­gou-o.

— William — disse a avó Kane —, duas tortas bastam. Não é sua última refeição antes de ir para Harvard.

William fitou-a com ternura e esqueceu-se completamente da pulseira de prata.

 

À noite, deitado em seu pequeno quarto do Plaza Hotel e pensando naquele rapaz que teria dado um grande orgulho ao pai, Abel compreendeu pela primeira vez na vida o que precisamente desejava alcançar. Queria que todos os William do mundo o vissem como um igual.

Abel passara momentos difíceis desde a sua chegada a Nova Iorque. Ocupara um quarto que continha duas camas. Numa delas, ele se revezava com George e a outra era partilhada pelos dois primos do amigo. Como conseqüência, Abel dormia apenas quando uma das camas se achava livre. O tio de George não tinha meios de oferecer-lhe trabalho, e após algumas semanas de muita preo­cupação, em que se vira obrigado a gastar suas economias para sobreviver, Abel perambulou do Brooklyn ao Queens, até encon­trar uma vaga num açougue, que lhe pagava nove dólares por uma semana de seis dias e meio e oferecia-lhe um cômodo no andar de cima. O açougue ficava no coração de uma pequena comunidade polonesa praticamente autosuficiente, localizada na parte baixa do East Side. Abel não tardou a se chocar com o isolamento de seus compatriotas, muitos dos quais não faziam o menor esforço para aprender o inglês.

Todos os fins de semana, Abel encontrava-se com o amigo George e suas namoradas, que continuavam a se suceder num rodízio infindável, mas passava a maioria das noites livres estu­dando num curso noturno, onde aprendia a ler e a escrever em inglês. Progredia devagar, mas não se envergonhava disso, porque desde os oito anos tinha tido poucas oportunidades de estudar. Num prazo de dois anos, porém, já falava com fluência a língua, conservando um sotaque quase imperceptível. Chegara o momento de sair do açougue — mas para fazer o quê, e de que modo? Certa manhã, enquanto limpava a perna de um carneiro, por acaso escutou a conversa de um dos mais importantes fregueses do açougue; era o encarregado do abastecimento do Plaza Hotel, queixando-se de um ajudante de garçom, que fora despedido por furto.

— Como encontrar logo um substituto? — queixou-se o homem.

O açougueiro não tinha nenhuma sugestão a dar. Mas Abel tinha. Pôs o único terno que possuía, andou quarenta e sete quar­teirões e conseguiu o emprego.

Uma vez instalado no Plaza, inscreveu-se num curso noturno de inglês na Universidade de Colúmbia. Estudava com dedicação todas as noites, segurando o dicionário aberto, a outra mão em­punhando uma caneta; no período da manhã, no descanso entre o café e o almoço, transcrevia o editorial do New York Times e consultava as palavras que desconhecia no Webster comprado de segunda mão.

Durante os três anos seguintes, Abel conseguiu galgar os vários postos do Plaza até tornar-se garçom no Oak Room. Ga­nhava só em gorjetas vinte dólares por semana. Nada lhe faltava nesse seu mundo.

O professor da Universidade de Colúmbia impressionou-se tanto com seus progressos em inglês que terminou por aconselhá-lo a inscrever-se num curso noturno adiantado, o primeiro passo para a conquista do diploma de Bachelor of Arts. Das leituras que fazia nos períodos de folga, passou à área de economia, e começou a transcrever os editoriais do Wall Street Journal, deixan­do os do New York Times. Seu novo mundo o absorvia inteira­mente, de modo que ele perdeu contato com todos os amigos poloneses dos primeiros dias de Nova Iorque a não ser George.

Enquanto atendia às mesas do Oak Room, observava cuida­dosamente as personalidades que se misturavam aos clientes — os Bakers, os Loebs, os Whitneys, os Morgans e os Phelps —, esforçando-se por entender o que tornava os ricos diferentes dos outros. Leu H. L. Mencken, The American Mercury, Scott Fitzgerald, Sinclair Lewis e Theodore Dreiser, numa incessante busca de conhecimento. Enquanto os outros garçons folheavam o Mirror, ele lia o New York Times, e nos intervalos, enquanto os outros cochilavam, ele examinava o Wall Street Journal. Não era muito claro o caminho por onde esse acúmulo de conhecimentos o levava, mas ele nunca duvidara da máxima do barão: "Não há nada que substitua uma boa educação".

Numa terça-feira de agosto de 1926 — lembrava-se bem da ocasião, porque nesse dia morrera Rodolfo Valentino e muitas das mulheres que saíam às compras na Fifth Avenue trajavam preto —, Abel servia como sempre às mesas que se situavam no fundo do restaurante. Eram reservadas aos homens de negócios mais importantes, que desejavam ficar em isolamento e ter certeza de que suas conversas não seriam ouvidas por curiosos. Agradava-lhe servir essas mesas, pois constituíam a área dos negócios em ex­pansão, e amiúde os fragmentos de conversa ofereciam-lhe infor­mações de bastidores. Após a refeição, se o freguês era de um banco ou de uma grande companhia, Abel consultava a cotação das ações da empresa dos fregueses que haviam estado juntos no almoço, e, caso o encontro tivesse sido especialmente bem-sucedido, investia cem dólares na empresa de menor porte, esperando que fosse encampada ou se expandisse com a ajuda da companhia mais poderosa. Quando o freguês pedia charutos após a refeição, Abel aumentava seu investimento para duzentos dólares. Em sete ocasiões, de um total de dez, o valor das ações escolhidas segundo tais critérios dobrou num período de seis meses, durante o qual Abel segurou as ações. Empregando tal método, nos quatro anos em que trabalhou no Plaza, ele perdeu apenas três vezes.

Naquela terça-feira em especial, Abel estava parado junto à mesa, o que só raramente fazia, porque os fregueses pediram-lhe charutos antes mesmo de o almoço ser servido. Pouco depois novos convidados chegaram e, sentando-se à mesma mesa, pediram mais charutos. Abel verificou o nome do anfitrião no livro de reservas do maître: Woolworth. Vira o nome havia pouco tempo nas colunas financeiras, mas não conseguiu situá-lo de imediato. O outro conviva chamava-se Charles Lester, antigo freguês do Plaza, que Abel conhecia como ilustre banqueiro de Nova Iorque. Enquanto colocava os pratos na mesa, ele prestava o máximo de atenção à conversa. Os cavalheiros não davam a menor importân­cia ao atencioso garçom. Abel não descobriu nenhum detalhe digno de nota, mas ouviu que certo negócio havia sido fechado naquela manhã e seria divulgado à tarde, tomando de surpresa um pú­blico despreparado. Foi então que o fato lhe veio à memória. Lera aquele nome no Wall Street Journal. Woolworth era o homem que abrira as primeiras lojas barateiras, que vendiam artigos ao preço de cinco e dez cents. Abel decidiu valorizar seus cinco cents. Enquanto os fregueses deliciavam-se com a sobremesa — a maioria deles pedira torta de queijo com morangos por sugestão de Abel —, ele se retirou do salão por alguns instantes e telefonou ao corretor estabelecido na Wall Street.

— A que preço estão as ações de Woolworth?

Houve um silêncio do outro lado da linha.

— Dois e um oitavo. Têm sido muito procuradas ultima­mente, não sei por quê — respondeu a voz.

– Compre-as no limite da minha conta. Hoje à tarde você saberá do anúncio que a empresa vai fazer.

— Que dirá esse anúncio? — perguntou, intrigado, o cor­retor.

– Não posso dar essa informação — retrucou Abel.

O corretor ficou impressionado. O pouco que conhecia de Abel levava-o a não inquirir demasiado sobre as fontes de infor­mação de seu cliente.

Abel voltou às pressas ao Oak Room, a tempo de servir o café. Os fregueses se demoraram ainda algum tempo, e Abel só voltou à mesa quando se preparavam para sair. O homem que recebeu a nota agradeceu a Abel pelo serviço atencioso e, virando-se para os amigos, de modo que pudessem ouvi-lo, disse:

— Quer uma gorjeta, meu jovem?

— Obrigado, senhor — disse Abel.

— Compre as ações de Woolworth.

Todos caíram na risada. Abel também riu, aceitou os cinco dólares que o homem lhe estendeu e agradeceu. Nos seis meses que se seguiram lucrou dois mil quatrocentos e doze dólares com as ações de Woolworth.

 

Quando lhe conferiram a cidadania americana, poucos dias depois de ele completar vinte e um anos, Abel resolveu que a ocasião merecia ser comemorada. Convidou George, Monika e uma garota chamada Clara. A primeira era a atual, e a segunda, uma ex-namorada de George. Iriam ao cinema ver Dom Juan, com John Barrymore, e jantariam no Bigo's. George ainda trabalhava como aprendiz na padaria do tio e ganhava oito dólares semanais, e, embora o considerasse seu amigo mais íntimo, Abel não ignorava a diferença cada vez maior que se formara entre eles. George não tinha um vintém, e ele, agora com um depósito de oito mil dólares no banco, cursava o último ano de bacharel em Economia na Universidade de Colúmbia. Abel tinha consciência do rumo que tomara, enquanto George simplesmente havia parado de dizer a todo mundo que seria prefeito de Nova Iorque.

Os quatro passaram uma noite memorável, em particular porque Abel sabia perfeitamente o que um bom restaurante tinha a oferecer. Seus três convidados haviam comido mais do que o suficiente, e, quando o garçom trouxe a conta, George espantou-se ao ver que o total ultrapassara o que ganhava num mês inteiro. Abel pagou a conta sem olhá-la duas vezes. Se você tem de pagar uma conta, dê a entender que o total não é o mais importante. Se, porém, julga-o importante, não volte ao restaurante; mas, seja como for, não faça comentários ou demonstre surpresa — essas eram outras coisas que Abel havia aprendido com os ricos.

As duas da madrugada, quando a comemoração chegou ao final, George e Monika regressaram à parte baixa do East Side, e Abel pressentiu que havia conquistado Clara. Sorrateiramente, entrou com ela pela porta de serviço do Plaza. Subiram ao quarto dele pelo elevador da lavanderia. Abel não precisou seduzi-la demasiado para levá-la à cama. Incumbiu-se de Clara com certa pressa, sem esquecer que teria de dormir um pouco antes de descer e executar os serviços do café da manhã. Completou a tarefa a contento por volta das duas e meia e mergulhou num sono con­tínuo até o despertador soar, às seis em ponto. Tinha ainda algum tempo para possuir Clara mais uma vez antes de pular da cama e vestir-se.

Clara sentou-se na beira da cama e, mal-humorada, obser­vou-o ajustar a gravata borboleta.

Abel deu-lhe um rápido beijo de despedida.

— Saia por onde entrou — alertou-a Abel —, senão vai me meter em apuros. Quando a verei de novo?

— Não vai me ver mais — respondeu Clara com frieza.

— Por que não? — perguntou ele, surpreso. — Alguma coisa que eu fiz?

— Não, uma coisa que não fez. — Ela saltou da cama e começou a vestir-se às pressas.

— Que foi que não fiz? — tornou Abel, magoado. — Quis dormir comigo, não quis?

Clara parou de vestir-se e encarou-o.

— Achei que sim, mas só até perceber que você e o Rodolfo Valentino só têm uma coisa em comum: ambos estão mortos. Num ano de azar, para o Plaza você pode ser o máximo. Mas uma coisa eu lhe digo: na cama você não é de nada! — Ela aprontou-se para ir embora e, já completamente vestida, parou à porta com a mão na maçaneta, prestes a dar o bote derradeiro. — Responda-me: já conseguiu persuadir uma garota a ir para a cama com você uma segunda vez?

Atônito, Abel viu-a bater a porta. Durante todo o dia, ele refletiu gravemente nas palavras de Clara. Não tinha ninguém com quem pudesse discutir o assunto. George acharia graça, e o pessoal do Plaza acreditava que ele conhecia todas as coisas desse mundo. Concluiu que tal problema, como os demais com que se defrontara até então, só poderia ser superado por meio do conhe­cimento e da experiência.

Depois do almoço, no meio da tarde, rumou para a livraria Scribner, na Fifth Avenue. Lá encontrava sempre a solução para a maioria dos problemas econômicos e lingüísticos, mas não en­controu nenhum livro que o ajudasse a resolver seus problemas sexuais. O livro especializado, publicado sob a etiqueta da livraria e editora, mostrou-se inútil, e o The moral dilemma não era apropriado.

Ele saiu da livraria sem ter feito nenhuma aquisição e pas­sou o resto da tarde enfiado na sala sombria de um cinema da Broadway, olhando as imagens sem lhes prestar atenção e ruminando as palavras de Clara. O filme, uma história de amor com Greta Garbo, que só chegou ao primeiro beijo no último mo­mento, não lhe deu mais ajuda que a livraria Scribner.

Quando saiu do cinema, o céu se tornara escuro e um vento gélido soprava nas ruas da Broadway. Abel ainda se surpreendia com o fato de uma cidade poder ser à noite tão barulhenta e clara quanto durante o dia. Caminhou pela parte alta da cidade em direção à 59th Street, esperando que o ar fresco lhe desanu­viasse a cabeça. Parou na banca de jornais da esquina da 52nd Street e comprou um jornal.

— Procurando a companhia de uma mulher? — A voz veio do lado da banca.

Abel arregalou os olhos. A mulher devia ter uns trinta e cinco anos. Maquilagem bastante carregada, os lábios ostentando o mais novo tom de batom. O botão da blusa de seda branca estava solto; saia preta e longa, meias e sapatos também pretos.

— Só cinco dólares, cada cent um prazer — disse ela, ba­lançando os quadris. A abertura da saia revelou a liga na coxa.

— Onde? — perguntou Abel.

— Tenho um quarto, perto daqui.

E virou a cabeça, indicando o lugar. Só então Abel pôde ver nitidamente o rosto dela, iluminado pela luz do poste. Uma mulher simpática. Abel tomou-a pelo braço e começou a andar.

— Se a polícia incomodar a gente — avisou —, somos velhos amigos, e meu nome é Joyce.

Andaram um quarteirão e subiram a escada de um pequeno prédio de apartamentos de aspecto miserável. Abel ficou assom­brado com a decadência do cômodo: uma lâmpada pendurada no teto, uma cadeira, uma bacia e uma cama de armar amarfanhada, que, evidentemente, era usada diversas vezes durante o dia.

— Mora aqui? — perguntou, com ar de descrença.

— Pelo amor de Deus! Oh, não! Só trabalho aqui.

— Por que faz isso? — inquiriu Abel, duvidando que ainda tivesse vontade de continuar no seu propósito.

— Tenho dois filhos para criar e nenhum marido. Quer melhor razão? Como é, vai me querer ou não?

— Vou, sim, mas não do jeito que está pensando — res­pondeu.

A mulher o olhou, desconfiada.

— Não é desses maníacos, leitores do marquês de Sade, é?

— Claro que não — respondeu.

— Não vai me queimar com cigarro, vai?

— Não, nada disso — retrucou, chocado. — Quero apren­der direito. Quero que me dê umas aulas.

— Aulas? Está brincando! Que é que está pensando, queridinho, que isso aqui é um curso noturno para aprender relações sexuais?

— Mais ou menos — disse Abel, sentando-se na ponta da cama.

Explicou-lhe então como Clara havia reagido na noite an­terior.

— Vai me ajudar?

A dama da noite esquadrinhou Abel, achando que esse era o dia 1.° de abril.

— Pois não! — disse ela afinal. — Mas vou cobrar cinco dólares por uma aula de meia hora.

— Mais caro que o curso de Economia em Colúmbia — disse Abel. — De quantas lições vou precisar?

— Depende de você aprender rápido ou não, certo?

— Podemos começar já, então — sugeriu Abel, tirando cinco dólares do bolso interno do paletó e entregando-os à mulher.

Ela pegou o dinheiro e guardou-o na liga, num claro indício de que não ia tirar as meias.

— Sem roupa, benzinho — ela disse. — Não se aprende muito com tanta roupa.

Depois que ele se despiu, ela o analisou com olhos críticos.

— Não é exatamente um Douglas Fairbanks. Mas não se preocupe. Com a luz apagada isso não tem a menor importância. Interessa só o que sabe fazer.

Abel sentou-se na beira da cama, ouvindo-a explicar de que modo devia tratar uma mulher. Ela ficou surpresa ao ver que Abel não a desejava de fato, e surpreendeu-se ainda mais nas semanas seguintes, quando ele continuou a procurá-la.

— Como vou saber se aprendi direito?

— Vai saber, baby — replicou Joyce. — Se me fizer gozar, será capaz de dar prazer até a uma múmia egípcia.

Em primeiro lugar, ela ensinou-lhe as regiões sensíveis do corpo de uma mulher; em segundo, a ser paciente no ato de amar e quais os indícios pelos quais ele saberia se o que fazia dava prazer à mulher. Em terceiro, como usar a língua e os lábios em todas as partes do corpo afora a boca da mulher.

Abel prestava atenção a tudo o que ela lhe dizia e seguia suas instruções escrupulosamente, embora, no começo, um tanto mecanicamente. Embora Joyce lhe assegurasse que progredia a olhos vistos, ele duvidara de sua sinceridade. Depois de três sema­nas e cento e dez dólares, para sua surpresa e alegria, pela primeira vez Joyce ressuscitou em seus braços. Ela lhe segurava a cabeça com as mãos, enquanto ele lhe lambia gentilmente os bicos dos seios. Passando-lhe a mão de leve entre as pernas, ele sentiu que ela estava úmida — pela primeira vez, — e, depois de penetrá-la, ouviu-a gemer, um som que nunca antes havia escutado e que lhe agradou intensamente. Joyce agarrou-lhe as costas e pediu que não parasse. Os gemidos continuaram, às vezes fortes, às vezes fracos. Finalmente, ela emitiu um grito estridente, e os seus dedos, que antes quase se enterravam nas costas dele e o aperta­vam impetuosamente, afrouxaram.

Após recobrar o fôlego, Joyce falou:

— Baby... Acaba de tirar o diploma como o primeiro da classe.

Mas ele mesmo nem sentira o gozo máximo.

Para comemorar a conquista dos dois diplomas, Abel com­prou ingressos na primeira fileira a preços de cambista e levou George, Monika e Clara, ainda contrariada, para assistir a Gene Tunney enfrentar Jack Dempsey na disputa do campeonato mun­dial de pesos pesados. Nessa noite, depois da luta, Clara achou que não era mais que sua obrigação dormir com Abel, já que ele havia gasto tanto dinheiro com ela. Quando amanheceu, implo­rou-lhe que não a deixasse.

Abel jamais tornou a procurar Clara.

Depois de conseguir o bacharelado em Colúmbia, Abel co­meçou a ficar descontente com a vida que levava no Plaza Hotel, mas não via como conseguir uma mudança. Embora se visse cer­cado por alguns dos homens mais ricos e bem-sucedidos dos Esta­dos Unidos, achava difícil abordá-los diretamente, cônscio de que uma tal imprudência lhe custaria o emprego, e, em todo caso, os fregueses não encarariam com seriedade as aspirações de um sim­ples garçom. Havia muito ele decidira tornar-se chefe dos garçons.

Certo dia, o sr. e a sra. Ellsworth Statler almoçaram no Edwardian Room do Plaza, para onde Abel fora escalado durante uma semana, em substituição a um colega. Ele fez tudo o que pôde para causar boa impressão no célebre hôtelier, e a refeição servida estava esplêndida. Ao sair, Statler agradeceu sinceramente a Abel e deu-lhe dez dólares, mas esse foi o fim de seu breve relacionamento. Abel observou-o desaparecer atrás das portas gira­tórias do Plaza, perguntando-se quando seria agraciado com outra oportunidade.

Sammy, o chefe dos garçons, deu-lhe um tapinha no ombro.

— O que conseguiu com o sr. Statler?

— Nada — respondeu Abel.

— Nem mesmo uma gorjeta? — perguntou Sammy, duvi­dando da resposta.

— Sim, sim, uma gorjeta — disse Abel. — Dez dólares — e entregou o dinheiro a Sammy.

— Isso é mais plausível — disse Sammy. — Estava come­çando a imaginar que você tinha a intenção de me burlar, Abel. Dez dólares! Bom demais até mesmo para o sr. Statler. Você deve tê-lo impressionado bastante.

— Não acredito.

— O que quer dizer com isso? — indagou Sammy.

— Não tem importância — respondeu ele, afastando-se.

— Espere aí, Abel. Tenho um recado para você. O cava­lheiro da mesa 17, um certo sr. Leroy, quer conversar com você pessoalmente.

— Sobre o quê, Sammy?

— Como posso saber? Provavelmente gostou dos seus olhos azuis.

Abel relanceou os olhos à mesa número 17, buscando um ilustre desconhecido, porque a mesa estava mal colocada, ao lado da porta de vaivém da cozinha. Abel costumava evitar a mesa localizada naquele extremo do restaurante.

– Quem é ele? — perguntou. — O que quer de mim?

– Não sei — disse Sammy, sem se incomodar de olhar para a mesa. — Não estou a par da vida de todos os fregueses, como você. Minha filosofia é a seguinte: servir-lhes uma boa comida, garantir uma boa gorjeta e fazer votos para que retor­nem. Pode parecer simplória a você, mas para mim é excelente. Talvez a Universidade de Colúmbia não lhe tenha ensinado as coisas mais elementares. Aponte sua mira para aquele alvo, Abel, e, se gorjeta for o assunto, não se esqueça de entregar-me o dinheiro.

Abel sorriu, olhando a calva de Sammy, e dirigiu-se para a mesa, onde estava um homem que trajava uma jaqueta de tecido axadrezado de cores variegadas, para o qual ele torceu o nariz, e uma mulher ainda jovem, de cabeleira encaracolada, loira e desalinhada, que por um momento o distraiu, levando-o a supô-la a namorada nova-iorquina do sujeito de jaqueta xadrez. Abel pôs nos lábios seu sorriso de conveniência, apostando consigo mesmo que o homem armaria uma confusão por causa da porta de vai­vém e exigiria a troca de mesa só para impressionar a loira eston­teante. Quem afinal gostava de ficar tão perto do cheiro da cozinha e do estalo que a porta fazia ao ir e vir com o contínuo movi­mento dos garçons? Mas seria impossível trocar de mesa, porque o hotel já estava abarrotado de residentes e de nova-iorquinos que utilizavam o restaurante como local predileto e por pouco não consideravam os visitantes como meros intrusos. Por que Sammy sempre largava nas mãos dele os fregueses mais compli­cados?

Abel aproximou-se com cautela.

— Deseja falar comigo, senhor?

— Sem dúvida — afirmou o homem, com um sotaque sulis­ta. — Meu nome é Davis Leroy, e esta é minha filha, Melanie.

Os olhos de Abel deixaram momentaneamente o sr. Leroy e depararam com os olhos mais verdes jamais vistos.

— Tenho observado você nestes últimos cinco dias, Abel — foi dizendo o sr. Leroy com sua fala arrastada de sulista.

Se o inquirissem, Abel teria de admitir que só notara o sr. Leroy nos últimos cinco minutos.

— O que vi me impressionou muitíssimo, Abel, porque você tem classe, classe autêntica, e é isso exatamente o que tenho procurado. Ellsworth Statler foi um tolo em não contratá-lo imediatamente.

Abel começou a estudar o sr. Leroy mais atentamente. Suas bochechas rosadas e sua papada denunciavam que nunca na vida ele ouvira falar na lei seca, e os pratos vazios à sua frente expli­cavam seu ventre proeminente, mas nem o nome nem o rosto tinham qualquer significado para ele. Num almoço normal, Abel familiarizava-se com o histórico de todas as pessoas que se senta­vam a trinta e sete das trinta e nove mesas do Edwardian Room. Nesse dia, o sr. Leroy era um dos dois desconhecidos.

O sulista continuava a falar.

— Bem, não sou um dos multimilionários que se sentam às mesas do Plaza.

Abel ficou impressionado. O freguês comum não costumava apreciar os méritos relativos das diferentes mesas.

— Não que esteja em má situação. Com efeito, meu melhor hotel deverá também crescer muito, a ponto de, algum dia, tor­nar-se tão imponente quanto esse.

— Estou certo que sim, senhor — disse Abel, não querendo contrariá-lo.

Leroy, Leroy, Leroy. O nome nada significava para ele.

— Mas deixe-me ir direto ao assunto, filho. O hotel prin­cipal da minha cadeia precisa de um novo subgerente. Se estiver interessado, procure-me no meu apartamento depois que largar o serviço.

O homem entregou-lhe um cartão impresso em relevo.

— Obrigado, senhor — e Abel leu o cartão: Davis Leroy. Grupo Richmond de Hotéis, Dallas. Abaixo: No futuro, um hotel em cada Estado. O nome ainda nada lhe dizia.

— Espero revê-lo — disse amistosamente o texano de ja­queta axadrezada.

— Obrigado, senhor — e Abel sorriu para Melanie, cujos olhos continuaram gelidamente verdes. Retornou para perto de Sammy, que, com a cabeça inclinada, ainda contava sua receita em gorjetas.

— Sammy, já ouviu falar do Grupo Richmond de Hotéis?

— Claro! Meu irmão chegou a trabalhar como ajudante de garçom num deles. Deve haver uns oito ou nove, todos espalha­dos pelo Sul, dirigidos por um texano maluco de que me esqueci o nome. Por que pergunta? — inquiriu Sammy, olhando-o, des­confiado.

— Por nenhum motivo em particular, Sammy.

– Sempre existe uma intenção por trás do que você faz, Abel. O que queria o fulano da mesa 17?

– Queixou-se do barulho da cozinha. Não posso deixar de concordar com ele.

– E o que ele quer que eu faça? Que o ponha na varanda? Quem pensa que é? John D. Rockefeller?

Abel deixou Sammy contando o dinheiro e resmungando e limpou suas mesas o mais depressa possível. Em seguida, subiu para o quarto e começou a pesquisar o Grupo Richmond. Satisfez logo sua curiosidade com alguns telefonemas. A cadeia pertencia a uma empresa particular com um total de onze hotéis, o maior deles, o Richmond Continental, em Chicago, com trezentos e quarenta e dois apartamentos de luxo. Resolveu que nada perderia visitando o sr. Leroy e Melanie. Verificou o apartamento em que se hospedavam: 85 — o melhor entre os menores. Bateu à porta um pouco antes das dezesseis horas e decepcionou-se ao descobrir que Melanie não se achava na companhia do pai.

— Estou contente de que tenha vindo, Abel. Sente-se.

Pela primeira vez em mais de quatro anos no Plaza, Abel sentou-se na qualidade de convidado.

— Quanto ganha aqui? — perguntou o sr. Leroy.

A pergunta foi feita tão à queima-roupa que Abel descon­certou-se.

— Vinte e cinco dólares por semana, incluindo gorjetas.

— Para começar, pago-lhe trinta e cinco por semana.

— A que hotel se refere? — indagou Abel.

— Como sou um bom observador do caráter alheio, Abel, posso afirmar que, depois de ter largado o serviço, às quinze e trinta, você passou meia hora tentando descobrir a qual hotel me refiro. Acertei?

Abel começou a gostar do texano.

— O Richmond Continental de Chicago? — arriscou.

Davis Leroy riu ruidosamente.

— Acertou! E eu acertei escolhendo você!

Abel começou a raciocinar cada vez mais depressa.

— Quantas pessoas estão acima do subgerente na direção do hotel?

— O gerente, eu e mais ninguém. O gerente é fleumático, cortês, e está perto da aposentadoria; como ainda tenho outros dez hotéis com que me preocupar, não creio que você vá encon­trar muitas dificuldades, embora, confesso, o de Chicago seja meu favorito, o primeiro hotel do Norte. Como Melanie estuda lá, passo mais tempo na Cidade do Vento do que devia. Não cometa o mesmo engano dos nova-iorquinos de minimizar Chicago. Pensam que Chicago é um mero selo postal colado num envelope gigantesco; e, naturalmente, o envelope são eles.

Abel sorriu.

— Atualmente, o hotel acha-se um pouco abandonado — continuou o sr. Leroy —, e o último subgerente saiu do emprego de repente, sem sequer notificar-me ou dar-me qualquer explica­ção. Por isso estou precisando colocar no cargo um homem forte, que desenvolva todo o seu potencial. Mas escute o que tenho a lhe dizer, Abel: observei-o cautelosamente nestes últimos cinco dias, e tenho certeza de que você é esse homem. Interessa-lhe ir para Chicago?

— Quarenta dólares, mais dez por cento sobre os lucros que vierem do crescimento, e aceito o emprego.

— O quê?! — exclamou Davis Leroy, estupefato. — Ne­nhum dos meus gerentes recebe um salário desses. Todos se revol­tariam caso viessem a saber disso!

— Se o senhor não contar a eles, eu também nada direi — disse Abel.

— Agora, sim, não há dúvida de que escolhi o homem certo, ainda que saiba fazer um negócio vantajoso com mais inte­ligência que um ianque com seis filhos. —- Deu uma batida com a mão no braço da poltrona. — Aceito suas condições, Abel.

— O senhor quer referências, sr. Leroy?

— Referências! Conheço sua formação e a história da sua vida desde que imigrou da Europa até a luta para diplomar-se em Economia na Universidade de Colúmbia. Que pensa que andei fazendo nestes últimos cinco dias? Se quisesse referências, não o colocaria no segundo posto mais importante do meu melhor hotel. Quando poderá começar?

— Em um mês, a partir de hoje.

— Ótimo! Estarei aguardando você.

Abel levantou-se da cadeira do hotel; de pé, sentiu-se bem mais feliz. Cumprimentou o sr. Davis Leroy, o homem da mesa número 17 — reservada exclusivamente aos desconhecidos.

 

Ao contrário do que havia imaginado, deixar Nova Iorque e o Plaza Hotel, seu primeiro e verdadeiro lar desde o castelo situado nas proximidades de Slonim, logo se revelou uma sepa­ração dolorosa. Não esperava que fosse tão difícil dizer adeus a George, a Monika e aos poucos amigos que fizera na universi­dade. Sammy e os garçons o surpreenderam com uma reunião de despedida no bar.

– Esperamos notícias suas, Abel Rosnovski — disse Sam­my, com o que todos concordaram.

 

O Richmond Continental Hotel de Chicago ficava na privi­legiada Michigan Avenue, no coração da cidade que crescia mais depressa nos Estados Unidos. Tal situação alegrou Abel, que conhecera a máxima de Ellsworth Statler, segundo a qual apenas três coisas interessavam de fato no negócio de hotelaria: localiza­ção, localização e localização. E era essa quase a única qualidade do Richmond. Davis Leroy havia atenuado o problema ao dizer-lhe que o hotel no momento estava um tanto abandonado. Desmond Pacey, o gerente, não era fleumático e nem sequer cortês, como o descrevera o proprietário; não passava de um mandrião consumado, e, numa clara demonstração de que não simpatizava com Abel, instalou-o num cubículo do anexo residencial dos fun­cionários do outro lado da rua, excluindo-o do hotel. Um rápido exame dos livros de registro do Richmond mostrou a Abel que o índice de ocupação diária estava abaixo dos quarenta por cento e que só a metade do restaurante era ocupada, porque, para dizer o mínimo, a comida era repugnante. Os funcionários falavam três ou quatro línguas entre si, mas nenhuma delas parecia ser o inglês, e não deram boa acolhida ao parvo polonês que chegara de Nova Iorque. Não causava admiração o fato de que o último subgerente tivesse desaparecido. Se o hotel predileto de Davis Leroy era de fato o Richmond, que pensar dos outros dez que integravam a cadeia? Mesmo que o novo patrão tivesse uma arca de tesouro sem fundo no fim do arco-íris do Texas!

Durante os primeiros dias de Chicago, a melhor informação obtida por Abel foi que Melanie Leroy era a filha única do sr. Leroy.

 

No outono de 1924, William e Matthew já eram calouros da Universidade de Harvard. Não obstante a objeção das avós, William aceitou a bolsa de estudos Hamilton Memorial, e, ao custo de duzentos e noventa dólares, presenteou-se com o último Ford Modelo T, ao qual batizou de "Daisy", seu primeiro e ver­dadeiro amor na vida. Pintou "Daisy" de um amarelo vivo, re­duzindo seu valor à metade e dobrando o número de namoradas. Eleito por maioria esmagadora, Calvin Coolidge retornou à Casa Branca, e o volume de negócios da Bolsa de Valores de Nova Iorque alcançou o recorde de dois milhões, trezentos e trinta e seis mil, cento e sessenta ações.

Os dois rapazes (não podemos continuar chamando-os de meninos, anunciou a avó Cabot) mostravam-se entusiasmados com a universidade. Após um movimentado verão de jogos de tênis e golfe, determinaram que se ocupariam com atividades mais sé­rias. Tão logo adentraram o novo quarto da Costa Dourada, sen­sivelmente melhor que o antigo e pequeno gabinete da St. PauPs School, William entregou-se aos estudos e Matthew saiu à procura do clube de remo da universidade. Matthew foi eleito líder da turma de calouros, e William, abandonando os livros todas as tardes de domingo, sentava-se às margens do rio Charles e assistia ao desempenho do amigo. No íntimo, apreciava o sucesso de Matthew, embora fizesse ironias.

— A vida não tem nada a ver com oito homens puxando pesados pedaços de madeira disformes contra águas agitadas, en­quanto um homem lhes dá ordens aos gritos — afirmou William, desdenhoso.

— Diga isso a Yale — retrucou Matthew.

Nesse meio tempo, William não tardou a provar aos profes­sores de Matemática que era nos estudos exatamente o equivalente de Matthew no esporte: estava mil metros à frente dos competi­dores. Tornou-se presidente da Sociedade de Debates dos Calouros e expôs ao tio-avô, o diretor Lowell, o primeiro plano de seguro universitário, de acordo com o qual todos os estudantes que saís­sem de Harvard levariam uma apólice de seguro de vida por ape­nas mil dólares, designando a universidade como beneficiária. Segundo os cálculos de William, cada participante gastaria menos de um dólar por semana, e, se quarenta por cento dos alunos se associassem ao plano, Harvard obteria um lucro garantido de aproximadamente três milhões de dólares ao ano, a partir de 1950. O diretor ficou impressionado com o projeto e deu-lhe total apoio; um ano depois, convidou William para integrar o conselho da Comissão de Levantamento de Fundos da universidade. William aceitou o convite com satisfação, sem tomar consciência de que era um compromisso para toda a vida. O diretor Lowell informou à avó Kane que ele havia capturado uma das maiores autoridades financeiras de sua geração, sem nenhuma despesa. Com certa irri­tação, a avó Kane respondeu ao primo que "todos têm o seu destino, e que aquilo ensinaria William a ver a letra com a qual o dele havia sido escrito".

 

Quase imediatamente após o início do segundo ano, chegou o momento de William escolher (ou de ser escolhido para) um dos clubes que dominavam o panorama social dos endinheirados de Harvard. William foi "empurrado" para o Porcellian, o mais antigo, o mais rico, o mais exclusivo e o menos ostentoso desses clubes. Quando ia à sede da Massachusetts Avenue, impropria­mente situada sobre a lanchonete de auto-serviço Hayes-Bickford, William costumava sentar-se numa poltrona bastante confortável, refletindo sobre o problema dos mapas de quatro cores, discutindo as repercussões do julgamento Loeb-Leopold e olhando distraidamente para a rua lá embaixo através de um espelho estrategica­mente colocado, enquanto ouvia o enorme aparelho de rádio, de invenção recente.

Durante as férias de Natal, Matthew convenceu-o a esquiar em Vermont, e William passou uma semana ofegando encostas acima, seguindo as pegadas do habilidoso amigo.

— Matthew, qual é vantagem de subir uma encosta íngre­me durante uma hora, para depois descê-la numa questão de se­gundos, além de correr o sério risco de fraturar um membro ou mesmo de perder a vida?

— Tem sobre mim um efeito bem mais estimulante do que o gráfico de uma equação — resmungou. — Por que não admite que, seja na subida, seja na descida, você é um fracasso?

No segundo ano, os amigos se defrontaram com muitas tare­fas a cumprir, embora para cada um o sentido de "cumprir" fosse naturalmente diferente. Nos dois primeiros meses do verão, tra­balharam como assistentes do gerente do banco de Charles Lester, que, havia muito, desistira de manter William afastado do banco. Chegaram finalmente os dias quentes de agosto e os rapazes pas­saram a maior parte do tempo percorrendo no "Daisy" as zonas rurais da Nova Inglaterra, navegando o rio Charles com a maior variedade de garotas possível e freqüentando todas as festas a que eram convidados. Num abrir e fechar de olhos, haviam se colocado entre as personalidades mais procuradas e aceitas da universidade, passando a ser conhecidos pelos apelidos de Doutor e Suador. A sociedade de Boston compreendeu perfeitamente que a garota que se casasse com William Kane ou com Matthew Lester não precisaria se preocupar com o futuro, mas, tão depressa quanto as mamães esperançosas apareciam com suas filhas de rostos fresquinhos, as vovós Kane e Cabot despachavam-nas sem a menor cerimônia.

 

Aos 18 de abril de 1927, William festejou seu vigésimo primeiro aniversário comparecendo à última reunião dos curado­res de seus bens. Alan Lloyd e Tony Simmons apresentaram toda a documentação destinada a receber sua assinatura.

— William, meu querido — começou Milly Preston, como se lhe tivesse tirado um grande peso dos ombros —, tenho cer­teza de que você será capaz de cuidar direitinho de seus bens, como nós o fizemos.

— Espero que sim, sra. Preston, mas, se alguma vez na vida eu quiser perder meio milhão de dólares da noite para o dia, já sei a quem procurar.

Milly Preston enrubesceu e não tentou responder.

O depósito montava nessa data a mais de trinta e dois mi­lhões de dólares, para cuja proteção William já definira seus pla­nos. Por outro lado, já havia também se lançado à empresa de fazer um milhão de dólares antes de deixar Harvard, um valor ínfimo se comparado à quantia do depósito, mas os bens herdados importavam menos que o saldo de sua conta no banco de Lester.

No verão, as avós, temendo nova invasão de garotas rapaces, enviaram William e Matthew à Europa numa grande excursão, que ao final resultou num grande êxito para ambos. Matthew, superando a barreira das línguas, conheceu uma linda moça em cada capital importante da Europa — o amor, garantiu a William, era um artigo internacional. William teve contatos com os dire­tores dos bancos mais importantes da Europa — o dinheiro, ga­rantiu a Matthew, também era um artigo internacional. De Lon­dres a Berlim e Roma, os dois jovens deixaram atrás de si corações partidos e banqueiros convenientemente impressionados. Retor­naram a Harvard, no mês de setembro, preparados para se agar­rar aos livros e concluir o último ano letivo.

 

No implacável inverno de 1927, a avó Kane faleceu, aos oitenta e cinco anos, e William chorou pela primeira vez desde a morte da mãe.

– Tranqüilize-se — disse Matthew, após tolerar a depres­são de William alguns dias. — Ela viveu bastante e esperou muito para descobrir se Deus era um Cabot ou um Lowell.

William não deu atenção às palavras judiciosas que tão pouco compreendera enquanto a avó vivia e organizou um funeral ao qual ela própria se orgulharia de comparecer. Embora a grande dama tivesse chegado ao cemitério num carro fúnebre Packard ("Uma dessas engenhocas modernas, só por cima do meu cadá­ver", embora, com efeito, o carro estivesse por baixo), esse meio aviltante de transporte seria o único aspecto que ela censuraria na cerimônia de adeus ideada pelo neto. A morte da avó levou William a entregar-se com afinco aos estudos nesse último ano em Harvard. Desejava arrebatar o mais importante prêmio de Matemática em sua memória. A avó Cabot morreu seis meses depois; provavelmente, comentou William, por não ter ninguém com quem conversar.

 

Em fevereiro de 1928, William foi procurado pelo presi­dente da Sociedade de Debates. Em março haveria um debate sobre o tema "Socialismo ou capitalismo para o futuro da Amé­rica", e, como parecia natural, William deveria representar o capitalismo.

— E se eu lhe dissesse que gostaria de falar apenas em favor das massas oprimidas? — indagou William, surpreendendo o representante e levemente irritado com o fato de que seus pontos de vista fossem simplesmente presumidos por pessoas estranhas porque ele tinha herdado um nome célebre e um banco próspero.

– Bom, William, falando francamente, imaginamos que sua preferência seria, bem...

– Está certo, aceito o convite. Terei, naturalmente, a liber­dade de escolher meu parceiro, não?

— Oh, sim, naturalmente.

– Ótimo, escolho então Matthew Lester. Quem serão nossos adversários, se é que posso saber?

– Só ficará sabendo um dia antes do debate, quando afixar­mos os cartazes no pátio.

Durante todo o mês seguinte, Matthew e William trans­formaram as críticas aos jornais de esquerda e de direita, que faziam durante o café da manhã, e as conversas noturnas sobre o sentido da vida em exercícios de estratégia com os quais se pre­paravam para aquilo que o campus já começara a chamar de "O Grande Debate". Matthew seria o primeiro a falar, decidira William.

À medida que o dia fatídico se aproximava, já se sabia que a maioria dos estudantes e professores politicamente mais conscientes e até mesmo algumas das pessoas mais ilustres de Boston e de Cambridge haviam prometido comparecer. Na manhã ante­rior ao debate, os rapazes foram ao pátio verificar os nomes dos adversários.

— Leland Crosby e Thaddeus Cohen. Esses nomes lhe di­zem alguma coisa, William? Esse Crosby deve ser membro da família Crosby de Filadélfia.

— Sem dúvida. "O Fanático Vermelho da Rittenhouse Square", como o definiu com propriedade a própria tia dele. Trata-se do revolucionário mais convincente do campus. É abastado e gasta todo o dinheiro em causas populares radicais. Já posso imaginar como vai abrir o debate. — William imitou o modo exacerbado de Crosby falar. — "O que conheço, em primeiro lugar, é a ganância e a conseqüente falta de consciência social da classe bur­guesa americana." Se cada um na audiência já não tiver ouvido isso umas cinqüenta vezes, acho que será um excelente adversário.

— E Thaddeus Cohen?

— Nunca ouvi falar dele.

Na noite seguinte, recusando-se a admitir o nervosismo que sentiam, os amigos saíram para o encontro em meio à neve e ao vento gélido, os casacões açoitados pela ventania, passando pelas colunas fulgurantes da recém-construída Biblioteca Widener — tal como o pai de William, o filho do doador havia morrido no Titanic —, até chegarem ao Boylston Hall.

— Se levarmos uma surra, com esse frio, pelo menos não haverá ninguém para testemunhá-la — comentou Matthew, espe­rançoso.

Mas, ao darem a volta pela lateral da biblioteca, viram um fluxo constante de figuras ruidosas e irrequietas que subiam a escadaria e ordenadamente ocupavam as poltronas do auditório. Uma vez lá dentro, mostraram-lhes os lugares no pódio. William sentou-se e permaneceu imóvel, mas seus olhos pinçavam na as­sistência as pessoas conhecidas: o diretor Lowell, sentado discre­tamente na fileira do meio; o venerável Newbury St. John, pro­fessor de Botânica; uma senhora metida a sabida da Brattle Streea, que ele havia visto nas reuniões da Red House; e, à sua direita, um grupo de homens e mulheres bastante jovens e com ar de boêmios, alguns deles sem gravata, que, virando-se para o lado, começaram a aplaudir: os oradores oficiais — Crosby e Cohen – dirigiam-se ao tablado.

Crosby era o mais notável dos dois, alto e magro, quase uma caricatura. Vestia com displicência — ou com extremo cuidado – um terno de lã grossa, mas usava uma camisa engomada e justa. Um cachimbo que aparentemente não tinha nenhuma re­lação com o corpo, a não ser com o lábio inferior, pendia-lhe da boca. Thaddeus Cohen era mais baixo. Usava óculos sem aro e um terno de tecido de lã penteada e escura, de corte perfeito.

Os quatro oradores apertaram-se as mãos, sisudos, enquanto se faziam os arranjos de última hora. Os sinos da Igreja Memo­rial, a uma centena de metros dali, deram sete badaladas.

— Sr. Leland Crosby Júnior — anunciou o presidente da sociedade.

O discurso de Crosby deu a William razões para se congra­tular. Previra tudo, desde o tom ríspido com que Crosby falaria, até os pontos que abordaria de forma exagerada, quase histérica. Foram repetidas as fórmulas do radicalismo americano — o Hay-market, o truste monetário, a Standard Oil e até a Cruz de Ouro. Segundo William, ele não fizera mais que se exibir, embora hou­vesse recebido o esperado aplauso da claque situada à esquerda da platéia. Quando Crosby voltou a sentar-se, era evidente que não lograra obter novos partidários e, ao que parecia, perdera alguns dos antigos. O confronto com Matthew e William — igualmente ricos, igualmente bem posicionados em termos sociais, mas que, egoisticamente, recusavam tornar-se mártires em nome da causa da justiça social — prometia ser devastador.

Matthew falou com desenvoltura e objetividade. Era a encarnação da tolerância liberal. Ao retomar o assento, debaixo de um aplauso estridente, William o cumprimentou calorosamente.

— Tudo vai bem, a julgar pela vibração — segredou.

Mas Thaddeus Cohen surpreendeu virtualmente a todos. Expressava-se de maneira agradável e tímida, mas com um discurso cordato. Suas referências e citações eram de caráter universal, precisas e iluminadoras. Sem transmitir à assistência a sensação de que tencionava causar impressão, exsudava uma seriedade moral capaz de fazer tudo o que não fosse retidão parecer um ver­dadeiro fracasso para o ser humano racional. Mostrava-se disposto a reconhecer os excessos de sua própria facção e as deficiências de seus líderes, mas deixou a impressão de que, a despeito de seus perigos, não havia alternativa fora do socialismo, caso se desejasse dignificar a condição da humanidade.

William ficou aturdido. Um ataque rigorosamente lógico à plataforma política dos adversários seria inútil depois da exposi­ção pacífica e persuasiva de Cohen. Contudo, superá-lo como porta-voz da esperança e da fé no espírito humano seria impos­sível. William, em primeiro lugar, concentrou-se em refutar algu­mas das investidas de Crosby e em seguida rebateu os argumentos de Cohen, afirmando sua própria fé na capacidade do sistema americano de produzir os melhores resultados através da com­petição, fosse intelectual, fosse econômica. Concluída sua expo­sição, achou que fizera um bom jogo defensivo, mas nada mais, e foi sentar-se, admitindo ter sido derrotado por Cohen.

Crosby era o orador dos adversários encarregados de refu­tá-lo. Começou com violência, como se a partir daquele instante precisasse derrotar não apenas William e Matthew, mas também Cohen. Perguntou aos assistentes se conseguiriam identificar o "inimigo do povo" presente entre eles ali no auditório. Durante longos segundos, olhou ferozmente para todas as pessoas, enquan­to estas se mostravam incomodadas pelo silêncio embaraçoso, e seus partidários baixavam os olhos e os fixavam nos sapatos. Então ele inclinou-se para a frente e rugiu.

— Ele está aqui, diante de todos vocês. Ele acabou de falar. O nome dele é William Lowell Kane. — E apontando a cadeira em que William se sentava, sem olhá-lo, trovejou: — O banco de sua propriedade possui minas nas quais os operários morrem para dar aos patrões um milhão extra em dividendos anuais. O banco dele apóia as ditaduras sanguinárias e corruptas da Amé­rica Latina. Por intermédio do banco dele, o Congresso se deixa subornar e arruína os pequenos fazendeiros. O banco dele...

E a diatribe avançou durante alguns minutos. William per­maneceu silencioso, impassível, de vez em quando rabiscando al­gum comentário em seu bloco de notas de papel amarelo. Algumas pessoas na platéia começaram a gritar "Não!". Os partidários de Crosby retrucavam lealmente. Os funcionários não escondiam seu nervosismo.

O tempo concedido a Crosby estava prestes a terminar. Então ele ergueu o punho e disse:

– Cavalheiros, afirmo que a pouco mais de duzentos me­tros daqui encontraremos a resposta à situação em que se acham os Estados Unidos. Lá está a Biblioteca Widener, a maior biblio­teca particular de todo o mundo. Nela vêm estudar imigrantes e pobres, juntamente com americanos da melhor formação, com o intuito de aumentar o conhecimento e a prosperidade do mundo. Por que ela existe? Porque um rico playboy teve a infelicidade de, há dezesseis anos atrás, embarcar num navio chamado Titanic. Senhoras e senhores, enquanto o povo desta nação não entregar nas mãos de cada membro da classe dominante uma passagem que lhe dê direito a um camarote no Titanic do capitalismo, a riqueza amealhada neste grande continente não será libertada e destinada à liberdade, à igualdade e ao progresso.

Enquanto Matthew ouvia o discurso de Crosby, seus senti­mentos passaram do regozijo de que, por essa falta de tato, a vitória se tivesse transferido para o seu lado, ao embaraço pelo comportamento do adversário, e até ao acesso de ira à mera men­ção do Titanic. Não tinha idéia de como William responderia à provocação.

Quando os ânimos se acalmaram um pouco, o presidente caminhou até a tribuna.

— Sr. William Lowell Kane.

William dirigiu-se para a plataforma e percorreu o olhar pela assistência. Um silêncio cheio de expectativa pairou na sala.

— É minha opinião que os pontos de vista emitidos pelo sr. Crosby não são dignos de resposta.

E voltou a sentar-se. Houve um momento de perplexidade, e então irrompeu uma salva de palmas.

O presidente retornou à plataforma, sem saber que atitude tomar. A voz que ecoou por trás dele rompeu a tensão.

— Se me permite, senhor presidente, quero perguntar ao sr. Kane se posso utilizar o tempo de réplica a que ele teria direito.

Era Thaddeus Cohen.

William, fazendo um sinal de cabeça ao presidente, acedeu.

Cohen subiu à tribuna e olhou para a platéia tranqüilamente.

– Sabe-se há muito — começou — que o maior obstáculo ao sucesso do socialismo democrático nos Estados Unidos tem sido o extremismo de alguns de seus adeptos. Nada exemplificaria tão bem esse tato lastimável como o discurso que meu colega acabou de fazer. A predisposição a comprometer o avanço da causa através do apelo ao extermínio físico de todos os que se opõem a ela poderia ser compreensível num imigrante endure­cido pela luta, num veterano em lutas estrangeiras bem mais violentas do que as nossas. Nos Estados Unidos, essa atitude é patética e injustificável. Falando por mim, apresento minhas sin­ceras desculpas ao sr. Kane.

Dessa vez o aplauso foi instantâneo. Toda a audiência pôs-se de pé e o aplaudiu demoradamente.

William levantou-se para cumprimentar Thaddeus Cohen. Ambos não ficaram surpresos ao constatar que William e Matthew haviam ganho a votação por uma margem de mais de cento e cinqüenta votos. O debate estava encerrado, e a assistência saiu ordenadamente pelos caminhos cobertos de neve, conversando animadamente.

William insistiu em que Thaddeus Cohen o acompanhasse, e a Matthew, ao clube para um drinque. Os três atravessaram a Massachusetts Avenue, vendo com dificuldade o caminho que tomavam sob a nevasca, e detiveram-se diante de uma enorme porta preta, quase em frente ao Boylston Hall. William abriu-a com sua chave, e entraram no vestíbulo.

Antes que a porta se fechasse, Thaddeus Cohen resolveu falar.

— Receio não ser bem recebido aqui.

William fitou-o, surpreso por um segundo.

— Bobagem. Você está comigo.

Matthew lançou um olhar ao amigo, tentando preveni-lo, mas compreendeu que William não mudaria de idéia.

Subiram a escada que levava a uma sala de grandes dimen­sões, bem-mobiliada, embora não luxuosa, na qual havia cerca de doze rapazes, que tinham vindo do debate, e conversavam de pé em grupos de dois ou três. Assim que William surgiu no limiar da porta, começaram as felicitações.

— Você esteve esplêndido, William. É assim que se deve tratar esse tipo de gente.

— Entre o vitorioso matador de bolcheviques.

Thaddeus Cohen recuou, ainda semi-oculto no batente da porta, mas William não o esqueceu.

— Senhores, quero apresentar-lhes meu mais valioso adver­sário, o sr. Thaddeus Cohen.

Cohen deu um passo à frente, vacilante.

Todos os ruídos cessaram. Todas as cabeças voltaram-se para o outro lado, e os olhares concentraram-se nos olmos do pátio, cujos galhos curvavam-se com o peso da neve.

De repente, a tábua do soalho estalou quando um rapaz se dirigiu para outra porta e retirou-se. Outro saiu em seguida. E sem pressa, sem que aparentemente estivessem de acordo, todo o grupo se retirou numa procissão. O último olhou demorada­mente para William antes de sair.

Matthew fitou, espantado, os companheiros. Thaddeus Cohen, enrubescido, inclinou a cabeça. William comprimiu os lábios com a mesma ira que sentiu quando Crosby fez referência ao Titanic.

Matthew apertou o braço do amigo.

— É melhor irmos embora.

Os três caminharam a passos pesados até a residência de William e em silêncio beberam um medíocre conhaque.

Quando William acordou de manhã, encontrou um envelope debaixo da porta. Dentro havia uma nota breve, escrita pelo presidente do clube Porcellian, dizendo que ele esperava que o incidente da noite anterior jamais voltasse a acontecer e que o melhor seria esquecê-lo.

À hora do almoço, o presidente recebeu duas cartas de de­missão.

 

Após meses de longos dias de estudo, William e Matthew estavam praticamente preparados — ninguém nunca se sente to­talmente preparado — para prestar os exames finais. Durante seis dias, responderam a questões e encheram folhas e folhas dos pequenos cadernos, e depois esperaram; não em vão, pois ambos se graduaram em Harvard, como haviam previsto, em junho de 1928.

Uma semana depois, William recebeu o President's Mathematics Prize. Desejou que o pai estivesse vivo para assistir à cerimônia de entrega. Matthew conseguiu um honesto "C", que recebeu com alívio e que não surpreendeu a ninguém. Nenhum dos dois estava interessado em prosseguir nos estudos, pois am­bos haviam escolhido entrar no mundo "real" o mais rápido pos­sível.

Uma semana antes de William deixar Harvard, sua conta no banco de Nova Iorque atingira a marca de mais de um milhão de dólares. Foi então que ele expôs em detalhes a Matthew seu plano de conseguir a longo prazo o controle do banco de Lester, incorporando-o ao Kane & Cabot.

Matthew mostrou-se entusiasmado com a idéia e confessou:

— Essa é a única maneira de eu conseguir tocar naquilo que meu velho me deixará quando morrer.

No dia da colação de grau, Alan Lloyd, então com sessenta anos, foi a Harvard. Após a cerimônia, William levou o convi­dado para tomar chá na praça. Alan lançou um olhar afetuoso ao homem alto e jovem.

— O que pretende fazer agora que vai deixar a universi­dade?

— Vou trabalhar no banco de Charles Lester em Nova Iorque, a fim de ganhar alguma experiência, e daqui a alguns anos entrarei no Kane & Cabot.

— Mas, William, você não sai do banco de Lester desde os doze anos! Por que não vem trabalhar conosco imediatamente? Nós o nomearíamos diretor.

Alan Lloyd aguardou a resposta de William, que não veio.

— Sabe, William, permita-me dizê-lo, nunca pensei que al­guma coisa pudesse deixá-lo sem palavras.

— Mas como poderia imaginar que você me convidaria para integrar a diretoria antes dos vinte e cinco anos, exatamente a idade em que meu pai...

— Sim, sim, seu pai foi eleito aos vinte e cinco anos. Mas não há nada que o impeça de ocupar o cargo antes disso, caso os outros diretores concordem, e tenho certeza de que concor­darão. Em todo caso, tenho razões pessoais para querer nomeá-lo diretor sem demora. Dentro de cinco anos estarei me aposen­tando, e precisaremos eleger o presidente adequado. Se estiver trabalhando no Kane & Cabot durante esses cinco anos, e não como alto funcionário no banco de Lester, você ocupará uma posição capaz de influenciar essa decisão. Então, meu rapaz, aceita participar da diretoria?

Pela segunda vez nesse dia, William desejou que o pai ainda vivesse.

— Aceito-o com prazer, senhor — disse.

Alan levantou os olhos para William.

— Desde que jogamos aquela partida de golfe, é a primeira vez que me chama de "senhor". Ficarei de olho em você.

William abriu um sorriso.

— Ótimo — disse Alan Lloyd —, estamos acertados. — Você será diretor júnior encarregado dos investimentos e trabalhará diretamente com Tony Simmons.

– Posso nomear meu assistente? — perguntou.

Alan Lloyd encarou-o com um ar zombeteiro.

– Matthew Lester, sem dúvida?

— Sem dúvida!

– Não! Não quero que ele faça com o nosso banco o que você pretendia fazer com o dele. Thaddeus Cohen devia ter lhe ensinado isso.

William nada disse, mas jamais tornou a subestimar Alan. Charles Lester riu quando William lhe contou a conversa sem omitir nenhuma palavra.

— Lamento saber que não ficará conosco, ainda que como espião — comentou ele amavelmente. — Não duvido, porém, de que um dia acabará voltando aqui, numa posição ou noutra.

 

Quando William começou a trabalhar como diretor júnior do Kane & Cabot, em setembro de 1928, pela primeira vez na vida sentiu que fazia algo de valioso. Sua carreira começou num pequeno gabinete com painéis de madeira de carvalho, contíguo ao de Tony Simmons, o diretor de finanças do banco. A partir da primeira semana, William compreendeu, sem que nada preci­sasse ser dito, que Tony Simmons sucederia Alan Lloyd na pre­sidência.

Todo o programa de investimentos achava-se sob a respon­sabilidade de Simmons. Rapidamente ele delegou a William algu­mas de suas atribuições; em especial, investimentos privados em pequenos negócios, terras e quaisquer outras atividades de empreendimentos externos nas quais o banco estivesse implicado. Entre as obrigações de William estava a elaboração de um rela­tório mensal dos investimentos que ele desejasse aconselhar numa reunião geral da diretoria. Os catorze membros da diretoria reu­niam-se numa ampla sala revestida de painéis de carvalho, domi­nada, nas suas extremidades, por retratos, um do pai de William, outro de seu avô. William não chegara a conhecer o avô, mas sempre o julgara um louco por ter se casado com a avó Kane. Havia espaço de sobra nas paredes onde pendurar seu próprio retrato.

Nos primeiros meses no banco, William procurou agir com cautela, e em pouco tempo os membros da diretoria respeitavam suas opiniões e seguiam, com raras exceções, as suas recomenda­ções. Como logo se revelou, os conselhos rejeitados estavam entre os melhores sugeridos por William. Na primeira oportunidade, um certo sr. Mayer pediu empréstimo ao banco com o propósito de investir no "cinema falado", mas a diretoria se recusou a veri­ficar se essa novidade tinha algum mérito ou futuro. Em outra oportunidade, um certo sr. Paley procurou William para mostrar-lhe um ambicioso plano da United, a cadeia de rádio. Alan Lloyd, que respeitava a telegrafia tanto quanto a telepatia, não viu ne­nhuma perspectiva nesse plano. A diretoria endossou o ponto de vista de Alan, e, anos mais tarde, Louis B. Mayer dirigia a MGM, e W. Paley, a empresa que viria a ser conhecida como CBS. Wil­liam, acreditando nos seus palpites, apoiou os dois com seus próprios recursos, e, a exemplo do pai, nunca informou aos benefi­ciários esse apoio.

Um dos aspectos mais desagradáveis do cotidiano de William referia-se às falências de clientes que haviam pedido grandes empréstimos ao banco e viam-se impossibilitados de pagá-los. Por natureza, William não era uma pessoa flexível, como Henry Osborne descobrira por experiência própria, mas obrigar antigos e respeitáveis clientes a liquidar seu capital em ações ou mesmo vender suas propriedades não lhe proporcionava um sono tran­qüilo. Logo ele percebeu que tais clientes podiam ser classificados em duas categorias distintas: os que consideravam a falência uma parte do cotidiano dos negócios, e os que estremeciam ao ouvir cada termo de compromisso e se dispunham a passar o resto da vida pagando cada cent devido. William julgava apenas natural ser inflexível com a primeira categoria, mas quase sempre mos­trava-se tolerante com a segunda, após ter obtido a aprovação de Tony Simmons, invariavelmente relutante.

Ao lidar com um desses casos em particular, William que­brou uma das normas áureas do banco e envolveu-se pessoalmente com uma cliente. Chamava-se ela Katherine Brookes, e seu marido, Max Brookes, havia feito um empréstimo superior a um milhão de dólares no Kane & Cabot, e o investira na febre de compras de terras da Flórida em 1925, um investimento que William jamais teria apoiado, caso estivesse trabalhando no banco na época. Max Brookes, porém, havia ascendido à posição de herói de Massachusetts como um dos novos e intrépidos aviadores, e, além do mais, mantivera estreitas relações com Charles Lindbergh. A trágica morte de Brookes, ocorrida quando o pequeno avião que pilotava chocou-se contra uma árvore a apenas uns cem metros do ponto de onde decolara, fora noticiada nos Estados Unidos como uma perda nacional.

No desempenho de suas funções no banco, William assumiu imediatamente a administração dos bens de Brookes, que já esta­vam insolventes, solveu-os e procurou reduzir os prejuízos do banco vendendo as terras da Flórida, menos o grande terreno em que a casa da família fora erguida. Apesar disso, os prejuízos do banco permaneciam acima de trezentos mil dólares. Alguns dire­tores discordaram da súbita decisão de William de vender as ter­ras, decisão que Tony Simmons vetou. O veto de Simmons foi incluído na ata da reunião, o que, meses mais tarde, deixou-o em posição de fazer ver aos outros diretores que, se tivesse con­servado as terras, o banco teria perdido a maior parte do milhão de dólares originalmente investido. Essa demonstração de hábil previsão não o fez cair na simpatia de Tony Simmons, embora desde então toda a diretoria tivesse tomado consciência de sua singular perspicácia.

Após ter liquidado todos os bens que o banco administrava em nome de Max Brookes, William voltou a atenção para a sra. Brookes, que dera caução pessoal pelas dívidas do marido falecido. Embora William sempre procurasse assegurar ao banco tal tipo de garantia em quaisquer empréstimos, nunca recomendava esse procedimento aos amigos, por mais confiantes que eles se sentis­sem, uma vez que, quase invariavelmente, a falência colocava o fiador numa situação extremamente difícil.

William escreveu uma carta formal à sra. Brookes, propondo-lhe uma entrevista em que pudessem discutir a situação. Havia lido escrupulosamente a ficha da viúva e sabia que ela estava com vinte e dois anos, era filha de Andrew Higginson, de uma famí­lia tradicional e distinta, sobrinha-neta de Henry Lee Higginson, fundador da Sinfônica de Boston, e que possuía bens próprios sujeitos a penhora. A idéia de que ela os transferisse ao banco não o comprazia, mas, pela primeira vez, ele e Tony Simmons estavam de acordo quanto à medida a ser tomada. Desse modo, William preparou-se para um encontro que não prometia ser nada agradável.

William, porém, não conhecia Katherine Brookes pessoalmen­te. Mais tarde, lembrar-se-ia com detalhes dos acontecimentos da manhã da entrevista. Ele indispusera-se com Tony Simmons em relação a um investimento de vulto em cobre e estanho que de­sejava aconselhar à diretoria. A demanda industrial desses dois metais continuava aumentando, e William julgava que em breve se seguiria uma escassez mundial. Tony Simmons discordara dele, argumentando que deveriam investir mais dinheiro no mercado de valores. A questão fervilhava em sua cabeça quando a secre­taria introduziu Katherine Brookes em seu escritório. Bastou um sorriso tímido para que ele esquecesse o cobre, o estanho e todo tipo de escassez em todo o mundo. Antes que ela tivesse tempo , sentar-se. ele contornou a mesa e indicou-lhe uma cadeira, sim­plesmente para se assegurar de que aquela visão não se esvaneceria, tal qual uma miragem, a um escrutínio mais íntimo. Nunca conhecera uma mulher que chegasse a ter metade do encanto que emanava de Katherine Brookes. O cabelo claro caía-lhe em cachos sobre os ombros, e as têmporas estavam cobertas por deli­cados anéis que escapavam graciosamente por debaixo do chapéu. De modo algum o luto lhe diminuía a beleza do corpo esguio. A compleição delgada anunciava uma mulher que permaneceria bela por toda a existência. Seus olhos grandes e castanhos revelavam inequivocamente que ela o temia, tanto quanto àquilo que ouviria dele.

William esforçou-se por usar um tom profissional.

— Sra. Brookes, não preciso dizer como lamento a morte de seu marido e quanto julgo desagradável ter precisado chamá-la aqui.

Nunca única sentença, duas mentiras que, cinco minutos antes, teriam sido apenas a verdade. Ele aguardou que ela falasse.

— Obrigada, sr. Kane. — A voz suave saiu num tom baixo e brando. — Estou ciente das minhas obrigações para com o seu banco, e posso lhe garantir que farei tudo ao meu alcance para cumpri-las.

William não respondeu, aguardando que ela prosseguisse. Como ela não o fez, explicou-lhe que destino havia dada aos bens de Max Brookes. Ela o ouviu com os olhos fixos no chão.

— Agora, a senhora foi fiadora do empréstimo de seu ma­rido e isso nos leva à questão que envolve os seus créditos ativos. — Ele consultou o histórico. — A senhora possui cerca de oito mil dólares, suponho que em conta conjunta, e dezessete mil, quatrocentos e cinqüenta e seis dólares em sua conta pessoal.

— Seus informes sobre minha situação financeira merecem elogio, sr. Kane. Deve acrescentar, porém, nossa casa na Flórida, o Buckhurst Park, que estava no nome de Max, e algumas jóias valiosas que possuo. Calculo que, no total, disponho dos trezen­tos mil dólares que o senhor reclama, e já tomei providência para perfazer essa soma o mais depressa possível.

Havia um tremor quase imperceptível em sua voz; William a contemplou, cheio de admiração.

— Sra. Brookes, não é intenção do banco privá-la de todas as posses que lhe restam. Com seu consentimento, gostaríamos de vender suas ações e títulos. Tudo o mais que mencionou, in­clusive a casa, a nosso ver deve continuar lhe pertencendo.

— Aprecio a sua generosidade, sr. Kane. — Ela hesitou. — Entretanto, não pretendo dever nada ao banco ou prejudicar o nome de meu marido. — De novo o tremor, imediatamente contido – De qualquer modo, resolvi vender a casa da Flórida e voltar à casa de meus pais, tão logo seja possível.

Ao ouvi-la dizer que retornaria a Boston, o coração de Wil­liam pulsou mais forte.

– Nesse caso, talvez possamos chegar a um acordo sobre o lucro da venda.

– Sim, podemos fazer isso — disse ela num tom neutro. – O senhor precisa receber todo o valor da dívida.

William desejava uma outra entrevista.

– Não tomemos decisões apressadas. Creio que seria mais sensato consultar os demais diretores, e então, numa outra data, voltaríamos a discutir o assunto.

– Como queira — retrucou ela, encolhendo levemente os ombros. — De qualquer maneira, não estou preocupada com o dinheiro nem pretendo criar-lhe inconvenientes.

– Sra. Brookes — disse ele, pestanejando —, confesso-me surpreso com sua nobreza de atitude. Ao menos conceda-me o prazer de levá-la para almoçar.

Ela sorriu pela primeira vez, revelando uma inesperada covinha na face direita. William contemplou-a, encantado, e fez de tudo para que ela reaparecesse durante o longo almoço no Ritz.

Quando regressou ao banco, passavam das quinze horas.

— Almoço demorado, William — comentou Tony Simmons.

— Sim, o problema Brookes revelou-se mais delicado do que eu imaginara.

— Quando reexaminei os documentos, pareceu-me razoavel­mente simples — disse Simmons. — Ela se queixou de nossa proposta? Julguei que estivéssemos sendo bastante generosos, da­das as circunstâncias.

— Ela é da mesma opinião. Precisei convencê-la a não se desfazer dos poucos dólares que ainda lhe restam só para aumen­tar as nossas reservas.

Tony Simmons observou-o.

– Você não está falando como o William Kane que todos conhecemos e tanto amamos. Entretanto, nunca houve tempos melhores para que o banco pudesse mostrar-se magnânimo.

William fez um trejeito. Desde seu primeiro dia no banco, ele e Tony Simmons vinham discordando cada vez mais a respeito dos rumos do mercado de valores. O mercado ascendia de ma­neira estável desde a eleição de Herbert Hoover à presidência, em novembro de 1928. Com efeito, dez dias depois, a Bolsa de Nova Iorque atingiu o recorde de mais de seis milhões de ações num só dia. William, porém, estava convencido de que a tendên­cia para a alta, resultante do grande afluxo de dinheiro que saía da indústria automobilística, provocaria inflação e instabilidade do mercado. Tony Simmons, por sua vez, confiava em que o boom continuaria, de tal modo que, quando William advogasse cautela nas reuniões de diretoria, invariavelmente suas opiniões seriam rejeitadas. Entretanto, uma vez que contava com o dinheiro legado, William sentia-se livre para seguir suas próprias intuições, e assim começou a investir decididamente em terras, ouro, mercadorias, inclusive em pinturas impressionistas cautelosamente escolhidas, reservando às ações apenas cinqüenta por cento do seu nume­rário.

Quando o Federal Reserve Bank publicou um edital decla­rando que não faria redesconto de empréstimos aos bancos que liberassem dinheiro aos clientes que objetivavam unicamente a especulação, William entendeu que se começava a apressar a morte do especulador. Imediatamente, procedeu a uma revisão do pro­grama de empréstimos do banco e descobriu que mais de vinte e seis milhões de dólares do Kane & Cabot haviam sido destinados àquele fim. Pediu a Tony Simmons que recolhesse essa quantia, na certeza de que, com aquela regulamentação do governo, os preços dos papéis, a longo prazo, inevitavelmente baixariam. Na reunião mensal da diretoria, William e Simmons estiveram na imi­nência de uma briga acirrada, e William perdeu numa votação de doze contra dois.

Em 21 de março de 1929, a Blair & Company anunciou sua fusão com o Bank of America, a terceira de uma série de incor­porações que pareciam apontar para um amanhã mais feliz. E em 25 de março Tony Simmons enviou a William um memorando interno informando-o de que a Bolsa alcançara o maior recorde de todos os tempos, e por isso continuaria a aplicar dinheiro em ações. Nessa ocasião, William havia redistribuído seu capital de modo a aplicar tão-somente vinte e cinco por cento na Bolsa uma medida que já lhe havia custado mais de dois milhões de dólares — e uma aflitiva reprimenda de Alan Lloyd.

— William, espero que saiba o que está fazendo.

— Alan, desde os catorze anos tenho sido bem-sucedido no mercado de valores, e sempre consegui isso acompanhando a tendência.

Mas ao longo do verão de 1929, o mercado continuou a subir e William parou de vender suas ações, perguntando-se se a visão de Tony Simmons não seria de fato a correta.

 

À medida que a época da aposentadoria de Alan Lloyd se aproximava, a intenção de Tony Simmons de sucedê-lo na presi­dência começava a assumir as características de um fato consu­mado. Tal perspectiva preocupava William, que considerava as idéias de Simmons por demais convencionais. Ele estava sempre atrasado em relação ao mercado, o que é uma virtude em anos de boom, quando as coisas correm bem, mas em épocas mais ma­gras e de maior competitividade pode colocar em risco um banco. Aos olhos de William, um investidor perspicaz nem sempre se­gue o rebanho, aos berros ou calado, mas procura antecipar por que caminho o rebanho voltará. William concluíra que o futuro do investimento em ações ainda se anunciava perigoso, enquanto Tony Simmons mostrava-se convencido de que os Estados Unidos entravam numa idade de ouro.

Tony Simmons era trinta e nove anos mais velho que Wil­liam, o que constituía um novo problema para ele, que não via possibilidade de tornar-se presidente do Kane & Cabot em menos de vinte e seis anos. Com efeito, dificilmente isso se ajustava ao que em Harvard chamavam de "modelo de carreira".

 

Entrementes, era-lhe difícil esquecer Katherine Brookes, tal a nitidez com que a imagem dela persistia em sua mente. Apro­veitava todas as oportunidades para escrever-lhe sobre ações e títulos: cartas formais, datilografadas, que obtinham não mais que respostas formais escritas a mão. Ela devia imaginar que se correspondia com o banqueiro mais escrupuloso do mundo. Sou­besse ela que suas fichas se avolumavam como as de nenhum outro cliente sob o controle de William, certamente pensaria nelas ou ao menos nele — com mais atenção. No início do outono, ela escreveu-lhe dizendo que havia uma pessoa interes­sada em comprar a propriedade da Flórida. William respondeu-lhe solicitando permissão para negociar os termos da venda em nome do banco, com o que ela concordou.

No início de setembro de 1929, ele viajou para a Flórida. A sra. Brookes foi esperá-lo na estação, e William se espantou ao constatar o quanto ela era mais bela que a imagem que ele guar­dava na memória. Enquanto ela o esperava, de pé na plataforma, o vento leve comprimia-lhe o vestido preto contra o corpo, reve­lando um perfil que, por certo, todos os homens, exceto William, se sentiriam impelidos a olhar uma segunda vez. Mas agora os olhos de William não se desviavam dela.

Ela ainda conservava o luto e comportava-se de modo tão discreto e correto que a princípio William desistiu da intenção de causar-lhe impressão. Ele passou a expor os termos do negócio com um fazendeiro interessado em adquirir o Buckhurst Park, demorando-se nisso tanto quanto pôde. Convenceu Katherine Brookes a aceitar um terço do preço de venda estabelecido, en­quanto o banco reteria dois terços. Finalmente, depois que toda a documentação foi assinada, e não encontrando mais desculpas que o impedissem de retornar a Boston, convidou-a para jantar no restaurante do hotel em que se hospedara, decidido a revelar-lhe parte de seus sentimentos por ela. Ela o pegou de surpresa, e não pela primeira vez. Antes que pudesse encaminhar o assunto, perguntou-lhe, girando o corpo sobre a mesa com o propósito de não olhá-lo, se gostaria de passar alguns dias no Buckhurst Park.

— Algo assim como umas férias, que merecemos — e enrubesceu. William permaneceu silencioso. Por fim, ela reuniu cora­gem para prosseguir. — Sei como isso pode soar insensato, mas você não ignora quanto tenho me sentido solitária. O extraordi­nário é que tenho a impressão de que, nestes dias, vivi com você os momentos mais agradáveis de que consigo me lembrar, mais que em qualquer outra época. — Ruborizou-se mais uma vez. — Não me expressei bem, e a culpa é minha se fizer mau juízo de mim.

Isso ecoou forte no coração dele.

— Kate, nestes últimos nove meses tenho tentado dizer-lhe uma coisa que pode levá-la a fazer um juízo de mim ainda pior.

— Então ficará por alguns dias, William?

— Sim, Kate, ficarei.

Nessa noite, ela o acomodou no quarto de hóspedes no Buck­hurst Park. Posteriormente, William sempre relembraria esses dias como um interlúdio dourado. Passeou a cavalo com Kate, e ela o venceu nas corridas. Nadaram juntos, e ela o deixou para trás. Percorreram distâncias a pé, e ela sempre retornou primeiro, até que, finalmente, ele recorreu ao jogo de pôquer e ganhou três milhões e meio de dólares em três horas e meia de jogo.

— Aceita um cheque? — indagou ela majestosamente.

— Esquece-se de que estou a par do valor de sua fortuna, sra. Brookes, mas aceito fazer um negócio. Continuaremos jogan­do até que consiga recuperar o dinheiro perdido.

– Pode levar alguns anos — disse Kate.

– Não tenho pressa — retrucou ele.

William viu-se contando incidentes do passado há muito es­quecidos, coisas sobre as quais mal conversara até mesmo com Matthew. O respeito pelo pai, o amor pela mãe, o ódio cego por Henry Osborne, suas ambições no Kane & Cabot. E ela falou sobre a meninice em Boston, os tempos de escola na Virgínia, e de como se casara cedo com Max Brookes.

Cinco dias depois, quando ela lhe disse adeus na estação, pela primeira vez ele a beijou.

— Kate, vou dizer uma coisa por demais presunçosa. Espero que um dia você venha a sentir por mim mais do que sentiu por Max Brookes.

— Já começo a perceber que assim será — disse ela calma­mente.

William fitou-a com firmeza.

— Não fique outros nove meses longe da minha vida.

— Não poderia... vendi minha casa.

A caminho de Boston, sentindo-se mais seguro e feliz do que em qualquer outro tempo desde a morte do pai, William elabo­rou um relatório sobre a venda do Buckhurst Park, o pensamento retornando continuamente a Kate e aos cinco dias que passaram juntos. Antes que o trem entrasse na South Station, com sua letra simples e elegante, embora ilegível, ele rabiscou um rápido bi­lhete:

 

Kate, começo a sentir saudades. E só se passaram algumas horas. Por favor, escreva-me e diga-me quando virá a Boston, enquanto isso, voltarei ao meu trabalho no banco, onde conse­guirei esquecê-la por longos períodos (de cinco a dez minutos, mais ou menos).

Com amor, William

 

Acabara de pôr o envelope dentro da caixa de correio da Charles Street, quando os brados de um jornaleiro afugentaram todas as lembranças de Kate.

— Pânico na Wall Street!

William arrebatou um exemplar da mão do menino e passou os olhos pela notícia. O mercado caíra da noite para o dia; alguns financistas viam isso como nada mais que um reajustamento; William compreendeu que começara o desmoronamento que havia meses ele estava prevendo. Correu ao banco e foi diretamente à sala do presidente.

— Tenho certeza de que o mercado voltará a se firmar den­tro de certo período — afirmou Alan Lloyd brandamente.

— Nunca — replicou William. — O mercado está sobre­carregado. Sobrecarregado com pequenos investidores que pensa­ram em fazer fortuna rapidamente e agora sabem que suas vidas correm perigo. Não percebe que o balão vai explodir? Vou ven­der tudo. No final deste ano, não haverá fundos nesse mercado, e eu avisei disso em fevereiro, Alan.

— Continuo discordando de você, William, mas convocarei para amanhã uma reunião geral da diretoria, e então discutiremos com mais detalhes seus pontos de vista.

— Obrigado — disse William.

Foi para a sala dele e pegou o interfone.

— Alan, esqueci-me de lhe dizer uma coisa. Encontrei-me com a moça com quem vou me casar.

— Ela já sabe disso? — perguntou Alan.

— Não.

— Compreendo — disse Alan. — Seu casamento terá es­treitos pontos de contato com sua carreira bancária, William. A pessoa diretamente envolvida só tomará conhecimento do fato depois de sua definitiva decisão.

William riu, pegou o telefone, colocou a maior parte de suas ações no mercado e examinou sua conta corrente. Tony Simmons, que acabara de entrar, deteve-se à porta e observou-o, imaginando que ele havia enlouquecido.

— Você corre o risco de perder da noite para o dia a camisa que está usando se vender as ações com o mercado nesta situação.

— Perderei muito mais se as conservar — retrucou William.

O prejuízo que ele viria a ter na semana que se seguiu, uma soma superior a um milhão de dólares, seria suficiente para aba­lar um homem menos confiante.

Na reunião da diretoria do dia seguinte, voltou a perder, vendo sua proposta de liquidar os títulos do banco derrotada por oito votos contra seis. Tony Simmons convenceu a diretoria de que seria uma atitude irresponsável não aguardar mais algum tempo. William conquistara uma pequena vitória ao lograr per­suadir os demais diretores a não efetuar nenhuma outra compra.

Nesse dia o mercado ergueu-se um pouco, o que deu a Wil­liam a oportunidade de vender outra parte de seus títulos. Ao final da semana, quando o índice havia subido de maneira estável durante quatro dias seguidos, William começou a se perguntar se não havia exagerado em sua reação, enquanto toda a sua expe­riência passada e sua intuição lhe diziam ter tomado a decisão acertada. Alan Lloyd nada opinou; o dinheiro que William estava perdendo não lhe pertencia, e, ademais ele ansiava por uma apo­sentadoria tranqüila.

Em 22 de outubro, a Bolsa tornou a abalar-se, com prejuízos bastante elevados, e mais uma vez William solicitou a Alan Lloyd que retirasse do mercado os títulos do banco enquanto ainda era possível. Alan ouviu-o afinal, permitindo-lhe pôr à venda alguns dos principais títulos do banco. No dia seguinte, o mercado tor­nou a cair numa avalanche de vendas. Pouco importava que títulos o banco havia colocado à disposição do mercado, pois já não havia compradores. O despejo de ações se havia transformado num es­touro, porque os pequenos investidores dos Estados Unidos as tinham posto em oferta na esperança de recuperar seus prejuízos. Tal era o pânico que a fita de cotações da Bolsa não conseguia acompanhar as transações. Apenas na manhã seguinte, quando a Bolsa abriu, depois de seus funcionários terem varado a noite em intenso trabalho, os operadores e corretores puderam confirmar o valor exato do prejuízo do dia anterior.

Alan Lloyd conversou com J. P. Morgan pelo telefone e con­cordou em que o Kane & Cabot faria bem em se associar a um grupo de bancos que tentaria escorar o colapso nacional em tí­tulos. William não se opôs a esse plano de ação, alegando que, se se fazia necessário o esforço conjunto, o Kane & Cabot deveria aderir a ele de uma maneira responsável. E, naturalmente, se desse certo, todos os bancos se reergueriam. Richard Whitney, vice-presidente da Bolsa de Valores de Nova Iorque, e o repre­sentante do Grupo Morgan reuniram-se nesse dia e, de comum acordo, desceram ao pavimento da Bolsa de Valores para adquirir trinta milhões de dólares em blue-chips. O mercado começou a deter-se. Foram negociados doze milhões, oitocentos e noventa e quatro mil, seiscentos e cinqüenta títulos, e nos dois dias que se seguiram o mercado permaneceu equilibrado. Todos, do presidente Hoover aos operadores das corretoras, acreditaram ter superado a crise.

William vendera quase todas as suas ações, e seus prejuízos pessoais haviam sido proporcionalmente bem menores que os do banco, que, em quatro dias, perdera mais de três milhões de dó­lares; até o próprio Tony Simmons passara a acatar todas as su­gestões de William. Em 29 de outubro, a Quinta-Feira Negra, como a batizaram, o mercado ruiu mais uma vez. Foram negocia­dos dezesseis milhões, seiscentos e dez mil e trinta títulos. Os bancos de todo o país não ignoravam que a verdade, naquele ins­tante, era que todos estavam insolventes. Se cada um dos clientes procurasse dinheiro vivo — ou tentasse resgatar seus empréstimos —, o sistema bancário como um todo ruiria.

Uma reunião da diretoria, realizada em 9 de novembro, foi aberta com um minuto de silêncio em memória de John J. Riordan, presidente do Country Trust e um dos diretores do Kane & Cabot, que havia se suicidado em sua casa. Em duas semanas, esse era o décimo primeiro suicídio nos círculos bancários de Boston; o morto tinha sido o amigo mais próximo de Alan Lloyd. O presidente iniciou a reunião anunciando que o Kane & Cabot havia tido um prejuízo de aproximadamente quatro milhões de dólares, que o Grupo Morgan havia fracassado nos esforços de união, e que a partir dali, esperava-se, todos os bancos passariam a agir segundo os seus mais altos interesses. Quase todos os pe­quenos investidores do banco tinham-se arruinado, e os mais im­portantes enfrentavam problemas de caixa insuportáveis.

Grupos de populares enfurecidos se haviam reunido em fren­te aos bancos de Nova Iorque, e os encarregados da segurança começavam a receber reforço da polícia. "Se as coisas continuarem desse modo por mais uma semana", disse Alan, "seremos aniqui­lados." Ele apresentou demissão, mas os diretores recusaram-se a aceitá-la. Sua decisão acompanhava a dos demais presidentes dos principais bancos dos Estados Unidos. Seguindo-lhe o exemplo, Tony Simmons também apresentou demissão, e, mais uma vez, os colegas recusaram-se a considerá-la. Era evidente que Tony Simmons não estava mais destinado a assumir o lugar de Alan Lloyd, e, ante essa constatação, William permaneceu quieto, num silêncio magnânimo.

Após chegarem a um comum acordo, Simmons foi para Lon­dres com a tarefa de se encarregar dos investimentos estrangeiros. "O caminho está livre", refletiu William, que agora fora promo­vido a diretor de finanças, encarregado de todos os investimentos do banco. Sem demora, convidou Matthew Lester para trabalhar ao seu lado como assessor imediato. Dessa vez Alan Lloyd não ergueu às sobrancelhas.

Matthew concordou em trabalhar com William na primavera, quando o pai o liberaria. Também o banco dos Lester estava com graves problemas. William, pois, conduziu sozinho o departamento de investimentos até a chegada de Matthew. Considerou o inver­no de 1929 um período demasiado deprimente, vendo as empre­sas, tanto pequenas quanto grandes, a maioria delas dirigidas por antigos conhecidos, irem à bancarrota. Em certos momentos, che­gou mesmo a duvidar de que seu próprio banco conseguisse sobre­viver.

Por ocasião do Natal, William passou uma magnífica semana na Flórida na companhia de Kate, ajudando-a a encaixotar seus pertences para retornar a Boston.

— Os de Kane & Cabot eu mesmo guardo — brincou ele.

Os presentes de Natal que William lhe havia dado encheram outra caixa, e Kate sentiu-se constrangida diante da generosidade dele.

— Como uma viúva pobre poderá lhe retribuir? — troçou ela.

William respondeu-lhe indicando-lhe que terminasse de ar­rumar as coisas na última caixa, e escrevesse nela: "Presentes de William".

Ele voltou reanimado para Boston, esperando que a estada com Kate pressagiasse o início de um ano melhor. Instalou-se no velho gabinete antes ocupado por Tony Simmons e pôs-se a ler a correspondência da manhã lembrando-se de que presidia às duas ou três reuniões habituais de liquidação marcadas para essa se­mana. Perguntou à secretária a quem deveria receber primeiro.

— Receio que seja outra falência, sr. Kane.

— Oh, sim, lembro-me do caso — disse William. O nome nada lhe dizia. — Ontem à noite dei uma olhada no fichário. Um caso demasiado infeliz. A que horas será nossa entrevista?

— Às dez em ponto, mas o cavalheiro já está à sua espera na sala, senhor.

— Muito bem — disse William —, por gentileza, faça-o entrar. Enfrentemos mais esta tarefa.

William reexaminou o fichário com o intuito de relembrar rapidamente os fatos mais importantes. Havia um traço cobrindo o nome do clientes anterior, um certo Davis Leroy. Fora substi­tuído pelo do visitante que estava na iminência de entrar na sala, Abel Rosnovski.

William recordou-se vivamente da última conversa que tivera com o sr. Rosnovski e manifestou previamente um sentimento de pesar.

 

Só depois de cerca de três meses Abel se deu conta do al­cance dos problemas que o Richmond Continental enfrentava e compreendeu o motivo por que o hotel perdia tanto dinheiro. A conclusão simples a que chegou, depois de ter mantido os olhos bem abertos durante doze meses, enquanto, simultaneamente, da­va a entender aos empregados que os mantinha fechados, foi a de que os rendimentos do hotel vinham sendo roubados. Os empre­gados trabalhavam num sistema fraudulento, numa escala com a qual o próprio Abel não havia se deparado anteriormente. O sis­tema, porém, não levava em consideração que o novo subgerente era um homem que no passado precisara roubar para não morrer de fome. O primeiro problema de Abel era ocultar a extensão das suas descobertas até concluir as investigações. Não demorou a compreender que cada seção tinha aperfeiçoado um método par­ticular de roubo.

A fraude começava na recepção, onde os funcionários regis­travam apenas oito entre dez hóspedes, embolsando os pagamen­tos à vista efetuados pelos dois restantes. Utilizavam uma rotina deveras simples; quem a experimentasse no Plaza Hotel de Nova Iorque seria apanhado em questão de minutos e despedido no ato. O chefe dos recepcionistas escolhia um casal de velhos pro­cedente de outro Estado que reservava apartamento por uma noite. Discretamente, verificava se os hóspedes tinham alguma relação comercial na cidade e, não a encontrando, não os registrava. Na manhã seguinte, se a conta era liquidada em dinheiro, o paga­mento ia para o bolso do recepcionista. Como as assinaturas dos hóspedes não constavam do registro, não havia vestígio de sua passagem pelo hotel. Abel nunca duvidara de que todos os hotéis registravam automaticamente os nomes de seus hóspedes, já que era esse o procedimento no Plaza.

No restaurante, o sistema fora elaborado em detalhes. Natu­ralmente, os fregueses ocasionais pagavam em dinheiro. Abel acre­ditava que esses pagamentos fossem contabilizados, e levou algum tempo para perceber que o recepcionista trabalhava de comum acordo com os funcionários do restaurante, de forma a garantir que não fossem emitidas notas aos hóspedes que não constavam do registro. Além do mais, havia uma série regular de defeitos e reparos fictícios, equipamentos que sumiam, alimentos que fal­tavam, lençóis que se perdiam, e até um ou outro colchão desa­parecia. Após inspecionar cada departamento detidamente, e de manter os olhos e os ouvidos aguçados, Abel concluiu que mais da metade do quadro de funcionários do Richmond achava-se im­plicada na conspiração e que nenhum departamento apresentava um registro inteiramente insuspeito.

Quando pisou no Richmond pela primeira vez, Abel sentiu curiosidade de saber por que o gerente, Desmond Pacey, não no­tava o que se passava debaixo de seu nariz havia tanto tempo. Erradamente, presumiu que o homem era displicente demais para se incomodar com as irregularidades. Só depois de algum tempo Abel pôde entender que o gerente era o cabeça de toda a opera­ção, razão por que ela funcionava tranqüilamente. Pacey traba­lhava para o Grupo Richmond havia mais de trinta anos. Em cada hotel do grupo, ocupara posição de chefia, o que despertou em Abel o receio de que todos os hotéis deveriam estar muito mal. Ademais, Desmond Pacey era amigo pessoal do proprietário, Da­vis Leroy. O Richmond de Chicago perdia anualmente trinta mil dólares, uma situação, ponderou Abel, que só seria sanada da noite para o dia com a demissão de metade dos funcionários. A começar por Desmond Pacey. Isso constituía um problema, por­que, em trinta anos, raramente Davis Leroy dispensara funcio­nários. Ele simplesmente tolerava os problemas, esperando que, com o passar do tempo, se normalizassem. Até onde Abel podia perceber, os empregados do Richmond continuariam a roubar o hotel descaradamente até o dia em que, a contragosto, se aposen­tassem.

Abel sabia que a única maneira de modificar radicalmente o destino do hotel seria pôr as cartas na mesa com Davis Leroy. Com tal propósito, no início de 1928 embarcou no trem expresso da Illinois Central para St. Louis, e de lá, pela Missouri Pacific, até Dallas. Debaixo do braço, levou um relatório de duzentas pá­ginas, cuja elaboração havia lhe tomado três meses de trabalho no pequeno cômodo dos alojamentos anexos ao hotel.

Ao terminar de ler o acúmulo de provas, Davis Leroy deixou-se ficar sentado, olhando-o, estarrecido.

— Esse pessoal é meu amigo. — Foram suas primeiras pa­lavras ao fechar o dossiê. — A maioria trabalha comigo há trinta anos. Que diabo! Sempre houve malandragem nesse tipo de ne­gócio, mas agora você vem e me diz que eles andam me roubando descaradamente nas minhas costas!

— Alguns deles, creio, durante todos esses trinta anos — disse Abel.

— Mas que droga de providência posso tomar? — inquiriu Leroy.

— Posso pôr fim a essa loucura se o senhor afastar Desmond Pacey e me der carta branca para despedir os que estão implica­dos nos roubos, a começar de amanhã.

— Abel, bem que eu gostaria que fosse simples desse jeito.

— Acontece que é simples desse jeito — disse Abel. — Se não me autorizar a despedir os culpados, apresento-lhe minha demissão imediatamente, porque não me interessa fazer parte da gerência de hotel mais corrupta da América.

— Poderíamos simplesmente rebaixar Desmond Pacey a sub­gerente? Eu promoveria você a gerente, e o problema ficaria sob seu controle.

— Nunca — replicou Abel. — Pacey se aposentará daqui a dois anos e tem nas mãos todos os empregados do Richmond. Quando eu conseguir colocá-lo na linha, você já estará morto ou arruinado, já que, imagino, os outros hotéis têm sido dirigidos segundo o mesmo método. Se quer que a situação se inverta em Chicago, terá de tomar já uma decisão drástica em relação a Pacey. Caso contrário estará decretando sua própria falência. Faça o que achar melhor.

— Nós, texanos, temos a fama de dizer o que pensamos, Abel, mas não desse jeito. Muito bem, muito bem, dou a você a autorização. Como forma de reconhecimento. Você é o novo ge­rente do Richmond de Chicago. Mas espere o Al Capone saber que você está em Chicago; ele virá correndo para cá, gozar, na minha companhia, a paz e a tranqüilidade do grande Sudoeste. Abel, meu rapaz — prosseguiu Leroy, levantando-se e dando um tapinha no ombro do novo gerente —, não pense que sou mal­agradecido. Você fez um excelente trabalho em Chicago, e, a par­tir de hoje, passo a considerá-lo meu braço direito. Para ser franco, Abel, tenho ganho tanto dinheiro na Bolsa de Valores que nem notei os prejuízos, por isso agradeço a Deus pelo amigo honesto que ganhei. Por que não fica esta noite e come alguma coisa com a gente?

– Gostaria de ficar, sr. Leroy, mas quero passar a noite no Richmond de Dallas, por motivos pessoais.

– Não deixará ninguém escapar, não é isso, Abel?

— Não, se eu puder.

Nessa noite, Davis Leroy ofereceu a Abel um magnífico jan­tar e algumas doses exageradas de uísque, que, teimou, faziam parte da hospitalidade dos sulistas. Contou-lhe que procurava uma pessoa que dirigisse o Grupo Richmond, de modo que pudesse viver sem preocupações.

— Tem certeza de que vai querer um polonês pateta? — perguntou Abel, enrolando as palavras por causa da bebida.

— Abel, pateta tenho sido eu. Se você não tivesse se mos­trado tão decidido a pôr para correr aqueles ladrões, certamente eu iria à bancarrota. Agora que conheço a verdade, juntos vamos dar-lhes uma lição. Vou dar a você a oportunidade de recolocar o Grupo Richmond no mapa.

Abel ergueu o copo com a mão trêmula.

— Brindemos a isso, então, e à nossa sociedade, que será duradoura e bem-sucedida.

— Vá e acabe com eles, rapaz!

Abel hospedou-se no Richmond de Dallas, sob nome falso. Intencionalmente, disse à recepcionista que ficaria uma só noite. Pela manhã, vendo a única via do recibo de pagamento desapa­recer dentro do cesto de papéis, Abel pôde confirmar as suspeitas. O problema não se restringia a Chicago. Resolveu endireitar as coisas primeiramente no hotel de Chicago; o resto dos trapaceiros teria de esperar mais um pouco. Telefonou a Davis Leroy e aler­tou-o de que a praga se havia espalhado por todo o grupo.

Regressou pelo mesmo meio de transporte. O vale do Mississípi se desenrolava, sombrio, pela janela do trem, devastado pelas inundações do ano anterior. Abel imaginou a devastação que pro­vocaria tão logo retornasse ao Richmond de Chicago.

Quando chegou, não havia nenhum porteiro de serviço. Ape­nas um funcionário no balcão de recepção. Abel decidiu deixá-lo passar uma noite tranqüila antes de dizer-lhe adeus. Um jovem mensageiro abriu-lhe a porta de entrada, quando ele decidiu voltar ao anexo.

— Fez boa viagem, sr. Rosnovski? — perguntou-lhe o rapaz.

— Sim, obrigado. As coisas correram bem por aqui?

— Oh, sim. Tudo tranqüilo.

"Amanhã estarão ainda mais tranqüilas", pensou Abel, "quan­do então você será um dos poucos remanescentes."

Abel desfez a mala e telefonou ao serviço de restaurante, pedindo uma refeição leve, que chegou uma hora depois. Quando terminou de tomar o café, despiu-se e entrou debaixo do chuveiro, onde se demorou refletindo sobre o plano que colocaria em prá­tica no dia seguinte. O extermínio ocorreria numa época de ano propícia. Fevereiro mal começara, o hotel tinha apenas vinte e cinco por cento das acomodações ocupadas, e ele acreditava poder dirigir o Richmond com metade do atual quadro de funcionários. Abel deitou-se, arrojou o travesseiro no chão e dormiu, tal qual dormiam os empregados, a sono solto, ignorantes do que os aguar­dava.

Desmond Pacey, amplamente conhecido no Richmond como Pacey Preguiça, tinha sessenta e três anos de idade. Consideravel­mente obeso e pesado, suas pernas curtas só muito vagarosamente o levavam a algum lugar. Desmond Pacey vira sete ou oito sub-gerentes chegarem ao Richmond e partirem pouco depois. Uns, gananciosos, queriam mais do que lhes cabia; outros simplesmente não logravam entender como funcionava a máquina. 0 polonês não ia se revelando mais brilhante que os outros, resmungava ele consigo mesmo enquanto caminhava lentamente na direção do es­critório de Abel, onde todos os dias eles se reuniam, às dez em ponto. Quando entrou, eram dez e dezesseis.

— Sinto tê-lo feito esperar — desculpou-se o gerente, sem de forma alguma mostrar-se sentido.

Abel nada comentou.

— Tive de me demorar na recepção. Você sabe como é.

Sim, Abel sabia exatamente como era a recepção.

Ele abriu morosamente a gaveta da escrivaninha diante de Pacey e dela tirou quarenta recibos amarrotados, alguns em quatro ou cinco pedaços, recibos que resgatara nos cestos de papel e nos cinzeiros, recibos de hóspedes que haviam pago e não tinham sido registrados. Observou o gerente baixo e gordo, que procurava descobrir a natureza dos recibos, virados de cabeça para baixo.

Por mais que os examinasse, Desmond Pacey não conseguia compreender o que significavam. Não que desse alguma impor­tância àquilo. Nada o preocupava. Se o estúpido do polonês tinha descoberto o funcionamento do sistema, pegaria a cota da pilha­gem ou iria embora. Pacey se perguntava que porcentagem lhe daria. Quem sabe um quarto confortável dentro do hotel por en­quanto o deixasse de bico calado.

— Sr. Pacey, está despedido, e dou-lhe uma hora para deixar o hotel.

Desmond Pacey não se abalou com essas palavras, simples­mente porque não acreditava tê-las ouvido.

— Que foi que disse? Acho que não o ouvi direito.

— Ouviu — disse Abel. — Está despedido.

— Não pode me despedir. Eu sou o gerente e trabalho para o Grupo Richmond há mais de trinta anos. Se alguém deve des­pedir alguém, esse alguém sou eu. Quem diabo pensa que é?

— O novo gerente.

— O quê?

— O novo gerente — repetiu Abel. — O sr. Leroy me no­meou ontem, e eu acabo de despedi-lo, sr. Pacey.

— Sob que alegação?

— Furto em grande escala.

Abel virou os recibos, colocando-os na posição correta para que o homem de óculos os visse adequadamente.

— Estes hóspedes pagaram as contas, mas nem um dólar entrou na caixa do Richmond, e todos estes recibos têm sua assi­natura.

— Nem mesmo em cem anos você prova isso.

— Eu sei — disse Abel. — Seu método é muito bom. Acon­tece que o senhor vai embora para aplicar o método onde quiser. Aqui o senhor deu azar. Sr. Pacey, há um antigo provérbio po­lonês que diz o seguinte: "Carregamos água no cântaro enquanto não se quebram as asas". Pois as asas se quebraram, e o senhor está despedido.

— Não tem poderes para me despedir — insistiu Pacey. Gotas de suor pontilhavam-lhe a testa, a despeito do dia frio de fevereiro. — Davis Leroy é meu amigo pessoal, e é o único ho­mem que pode me despedir. Você chegou de Nova Iorque há me­nos de três meses. Depois que conversarmos, o sr. Leroy não lhe dará ouvidos. Bastaria um simples telefonema meu, e ele o poria para fora deste hotel.

— Vejamos — desafiou Abel.

Pegou o telefone e pediu à telefonista que ligasse para Davis Leroy, em Dallas. Os dois homens aguardaram, sem tirar os olhos um de cima do outro. As gotas de suor agora pingavam da ponta do nariz de Pacey. Por um segundo, Abel duvidou que o patrão sustentasse sua posição.

— Bom dia, sr. Leroy. É Abel Rosnovski falando de Chica­go. Acabo de despedir Desmond Pacey, e ele deseja falar com o senhor.

Pacey pegou o telefone. Sua mão tremia. Escutou apenas alguns segundos.

— Mas, Davis, eu... O que é que eu podia fazer?... Juro que não é verdade... Deve haver algum engano.

Abel ouviu o clique na linha.

— Uma hora, sr. Pacey — tornou Abel. — Senão entrega­rei estes recibos à polícia.

— Espere aí — disse Pacey. — Não seja precipitado. — O tom de voz e a atitude mudaram completamente. — Se você par­ticipar da nossa operação, ganhará uma pequena fortuna. Pode­mos dirigir juntos este hotel, sem essa coisa de um ser mais es­perto que o outro. Ganharia bem mais do que está ganhando como subgerente. Depois, nós dois sabemos que essas perdas não afetam Davis...

— Sr. Pacey, não sou mais subgerente. Sou o gerente. Por­tanto, saia já do hotel antes que eu o ponha na rua.

— Seu polaco de merda! — exclamou o ex-gerente, dando-se conta de que jogara a última cartada e perdera. — Abra os olhos, polaco, antes que eu arranque o seu penacho.

E retirou-se. À hora do almoço, estavam com ele na rua o chefe dos garçons, o cozinheiro-chefe, o chefe dos camareiros, o chefe dos recepcionistas, o chefe dos porteiros e mais dezessete empregados do Richmond que Abel julgou irrecuperáveis. À tarde, ele convocou uma reunião com os empregados restantes, explicou-lhes detalhadamente por que se vira obrigado a tomar aquelas medidas, e garantiu-lhes que seus empregos estavam assegurados.

— Mas se eu der pela falta de um só dólar —- disse Abel, —, repito, um único dólar, o implicado será posto no olho da rua sem mais explicações. Fui claro?

Todos permaneceram calados.

No decorrer das semanas seguintes, ao constatar que Abel não pretendia continuar aplicando o sistema de Desmond Pacey, diversos outros funcionários deixaram o Richmond e foram rapi­damente substituídos.

No final do mês de março, Abel havia contratado quatro empregados do Plaza. Tinham três coisas em comum: eram jovens, ambiciosos e honestos. Em seis meses, apenas trinta e sete do antigo quadro de cento e dez funcionários continuavam empre­gados no Richmond. Ao final do primeiro ano, Abel abriu uma enorme garrafa de champanha com Davis Leroy, e comemoraram a renda anual do Richmond de Chicago. Haviam apurado um lu­cro de três mil, quatrocentos e sessenta e oito dólares. Baixo, sem dúvida, mas o primeiro em trinta anos de existência do hotel. Abel previa um lucro superior a vinte e cinco mil dólares para o ano de 1929.

Davis Leroy estava tremendamente impressionado. Visitava Chicago uma vez por mês, e passou a confiar incondicionalmente nas providências de Abel. Refletiu que o que era certo para o Richmond de Chicago também o seria para os outros hotéis do grupo. Abel queria ver o hotel de Chicago deslanchar suavemente como uma empresa honesta e rentável, antes de pensar em atacar os demais; Leroy concordou, e disse que daria sociedade a Abel caso ele conseguisse realizar nos demais hotéis o que fizera no Richmond.

Juntos, costumavam ir a jogos de beisebol e corridas de ca­valo toda vez que Davis visitava Chicago. Certa ocasião, depois de ter perdido setecentos dólares em seis páreos, Leroy atirou os braços ao ar num sinal de desgosto e disse:

— Abel, por que é que eu me preocupo com cavalos? Você é a melhor aposta que fiz na vida!

Nessas visitas, Melanie Leroy sempre jantava com o pai. Cal­ma, bonita, magra, e de pernas compridas, o que atraía dezenas de olhares dos hospedes do hotel, ela tratava Abel com certa ar­rogância, desencorajando-o a levar avante as aspirações que ele começara a alimentar em relação a ela, e sem nunca lhe dar opor­tunidade de substituir o tratamento formal de "Miss Leroy" por um simples "Melanie". Mas ao saber que ele tinha um diploma de Economia da Universidade de Colúmbia e sabia mais sobre fluxo de caixa do que ela própria, Melanie abrandou um pouco. De tempos em tempos, jantava sozinha com Abel no restaurante do hotel e pedia-lhe orientação sobre o trabalho que estava fazen­do para seu curso de Ciências Humanas na Universidade de Chicago. Encorajado, Abel às vezes a acompanhava a concertos e teatros, e logo passou a sentir ciúme dos colegas que ela levava para jantar no hotel, embora Melanie nunca estivesse duas vezes com o mesmo sujeito.

Sob as mãos de ferro de Abel, a cozinha do Richmond me­lhorara de tal maneira que pessoas que viviam havia mais de trinta anos em Chicago e nunca tinham notado a existência do restaurante começaram a fazer programas gastronômicos no hotel todas as noites de sábado. Pela primeira vez em vinte anos, Abel havia redecorado todo o hotel e fornecido aos funcionários ele­gantes uniformes, nas cores verde e ouro. Um freguês, que cos­tumava hospedar-se no Richmond uma semana por ano, ao che­gar deteve-se na porta, acreditando estar entrando no estabeleci­mento errado. Quando Al Capone reservou uma mesa para de­zesseis pessoas num salão privado a fim de comemorar seu trigésimo aniversário, Abel teve a certeza de que havia ganho a pa­rada.

 

As excelentes economias pessoais de Abel foram crescendo nesse período, enquanto o mercado de valores florescia. Dezoito meses antes, ele havia deixado o Plaza com oito mil dólares, e agora seu fundo de investimentos apresentava uma soma supe­rior a trinta mil. Tinha certeza de que o mercado continuaria em alta, e, por essa razão, reinvestia constantemente seus rendimentos. Suas necessidades pessoais continuavam relativamente modestas. Comprara dois ternos novos e o primeiro par de sapatos marrons. Morava no hotel, ali fazia as refeições e, além disso, gastava pou­co. Aparentemente, seu futuro não poderia ser menos do que bri­lhante. O Continental Trust trabalhava com a conta do Richmond havia mais de trinta anos, e, assim que chegara a Chicago, Abel transferira sua conta pessoal para lá. Todos os dias ele depositava no banco a receita do hotel do dia anterior. Numa manhã de sex­ta-feira, surpreendeu-se com o aviso de que o gerente lhe pedia que o procurasse. Sabia que sua conta nunca estivera sem saldo, e presumiu que a entrevista deveria estar relacionada com o Rich­mond. Dificilmente o banco se queixaria de que a conta do hotel, pela primeira vez em trinta anos, se achasse numa situação anor­mal. Um auxiliar de escritório conduziu Abel ao longo de um emaranhado de corredores e parou diante de uma bela porta. Uma batida leve, e em seguida ele foi introduzido no gabinete do gerente.

— Meu nome é Curtis Fenton — começou o homem, esten­dendo a mão a Abel e indicando-lhe uma cadeira de couro verde. Era um homem gorducho mas elegante, que usava óculos de len­tes de meia-lua, camisa de colarinho impecavelmente branco e gra­vata preta, que combinavam perfeitamente com a indumentária, de colete, de banqueiro.

– Obrigado — falou Abel, nervoso.

A situação evocou-lhe lembranças do passado, associadas tão-somente ao temor da incerteza do que estava para acontecer.

– Eu o teria convidado para almoçar, sr. Rosnovski...

O coração de Abel voltou a bater mais devagar. Os gerentes de banco não costumam dispensar refeições informais quando têm notícias desagradáveis a dar.

— ... mas surgiu um pequeno problema que exige medi­das urgentes, e, assim, espero que não se importe de discutirmos a questão sem delongas. Sr. Rosnovski, irei direto ao ponto. Uma de minhas clientes mais respeitáveis, uma senhorita chamada Amy Leroy — o nome fez Abel retesar-se na cadeira —, possui vinte e cinco por cento das ações do Grupo Richmond. Várias vezes, no passado, ela ofereceu essa porcentagem ao irmão, o sr. Davis Leroy, mas ele não se mostrou absolutamente interessado em comprar-lhe as ações. Compreendo o raciocínio do sr. Leroy. Setenta e cinco por cento da companhia já lhe pertencem e, acredito, ele não tem motivos para se preocupar com os vinte e cinco por cento restantes, os quais, por sinal, foram legados a Amy Leroy pelo falecido pai. Entretanto, ela está disposta a vender as ações, uma vez que nunca lhe deram dividendos.

Abel não ficou nada surpreso ao ouvir essa explicação.

— O sr. Leroy não faz objeção alguma a que ela venda as ações, e a srta. Amy acha que, na idade em que está, seria melhor dispor de dinheiro para gastar agora em vez de aguardar que um dia o grupo se torne rentável. Tendo isso em mente, sr. Ros­novski, decidi informá-lo da situação, acreditando que talvez o senhor conheça alguém interessado no negócio do hotel e, por conseguinte, na compra das ações de minha cliente.

– Quanto a srta. Leroy espera receber pelas ações? — per­guntou Abel.

– Oh, creio que se contentaria em liquidá-las por cerca de sessenta e cinco mil dólares.

– Mas é um preço alto demais para ações que jamais ren­deram um dividendo sequer — comentou Abel — e que não prometem fazê-lo no prazo de alguns anos.

— Ah — fez Curtis Fenton —, mas lembre-se de que o valor dos onze hotéis também deve ser levado em consideração.

— Mas o controle da companhia continuaria nas mãos do sr. Leroy, o que transforma os vinte e cinco por cento da srta. Leroy em nada mais que papéis.

— Ora, ora, sr. Rosnovski, vinte e cinco por cento de onze hotéis constituem uma posse valiosa por apenas sessenta e cinco mil dólares.

— Não enquanto o sr. Davis Leroy tiver o controle total. Sr. Fenton, ofereça à srta. Leroy quarenta mil dólares e talvez eu encontre algum interessado nas ações.

— Não vê possibilidades de essa pessoa pagar um pouco mais? — As sobrancelhas do sr. Fenton ergueram-se quando ele disse "um pouco mais".

— Nem um penny a mais, sr. Fenton.

Delicadamente, o gerente cruzou os dedos, satisfeito com a atitude de Abel.

— Nessas circunstâncias, só me resta consultar a srta. Amy a respeito de sua proposta. Entrarei em contato com o senhor tão logo receba instruções dela.

Após deixar o gabinete de Fenton, o coração de Abel batia tão aceleradamente como quando ele entrara. Correu ao hotel e verificou o total de suas ações. O fundo de investimentos estava com trinta e três mil, cento e doze dólares, e a conta corrente, com três mil e oito dólares. Em seguida procurou desempenhar suas tarefas rotineiras. Encontrava dificuldade em se concentrar no serviço, imaginando de que modo a srta. Amy Leroy reagiria à sua proposta e devaneando sobre o que faria, caso viesse a se tornar detentor de vinte e cinco por cento das ações do Grupo Richmond.

Hesitou antes de informar Davis Leroy de seu lance, recean­do que o bondoso texano considerasse suas ambições uma ameaça. Mas após dois dias, durante os quais refletiu sensatamente sobre o assunto, resolveu que a atitude mais honesta seria telefonar a Davis Leroy e informá-lo de suas intenções.

— Sr. Leroy, queria que tomasse conhecimento da minha decisão. Acredito no futuro do Grupo Richmond, e o senhor pode ficar certo de que darei tudo de mim para o sucesso do empreen­dimento, uma vez que meu próprio dinheiro estará em jogo. — Interrompeu-se por um segundo. — Mas se o senhor desejar com­prar os vinte e cinco por cento, naturalmente eu o compreenderei.

A alternativa, para sua surpresa, não foi aceita.

– Bem, escute, Abel, se confia de fato no futuro do grupo, vá em frente, filho, e compre a parte de Amy. Sentirei orgulho em tê-lo como sócio. Você o merece. A propósito, estarei no Reds-Cubs na semana que vem. Vejo-o lá.

– Obrigado, Davis — disse Abel, exultante —, nunca se arrependerá dessa decisão.

— Sei que não, parceiro.

Passada uma semana, Abel retornou ao banco. Dessa vez, pediu para ver o gerente. E de novo sentou-se na cadeira verde, aguardando a palavra do sr. Fenton.

– Fiquei surpreso — começou Curtis Fenton, nada surpreso — quando a srta. Leroy aceitou a proposta de quarenta mil dó­lares pelos vinte e cinco por cento de ações do Grupo Richmond. — Fez uma pausa e levantou os olhos. — Agora que obtive o consentimento dela, posso perguntar se não se importa de revelar quem é o comprador?

— Sim — respondeu Abel com segurança. — Eu mesmo.

— Entendo, sr. Rosnovski — murmurou, ainda sem mos­trar-se surpreso. — Permite-me perguntar como conseguirá os quarenta mil dólares?

— Vendo minhas ações e libero o dinheiro que tenho em conta corrente, e me faltarão apenas quatro mil dólares. Confio em que o senhor poderá me emprestar essa quantia, uma vez que o senhor mesmo avaliou abaixo do valor real as ações do Grupo Richmond. Em todo caso, provavelmente os quatro mil dólares não representarão mais que a comissão do banco sobre o negócio.

Curtis Fenton franziu o cenho. Cavalheiros jamais fariam esse tipo de comentário dentro de seu gabinete; ofendera-o mais ainda o fato de Abel ter a soma exata.

— Dê-me tempo para pensar, sr. Rosnovski, e então voltare­mos a conversar sobre a proposta, sim?

— Se precisar de muito tempo, dispensarei o empréstimo — arrematou Abel. — Meus outros investimentos em breve cobrirão os quarenta mil dólares, uma vez que o mercado anda subindo rapidamente nos últimos tempos.

Abel esperou uma semana para receber a informação de que o Continental Trust dispunha-se a conceder-lhe o empréstimo. Imediatamente, fez os saques e tomou emprestados pouco menos que quatro mil dólares, para completar os quarenta mil.

Em seis meses, Abel saldou o empréstimo mediante caute­losas operações de compra e venda de ações entre março e agosto de 1929, um dos melhores períodos já vividos pelo mercado de valores.

Por volta de setembro, suas duas contas já apresentavam saldos razoáveis. Ele pôde, inclusive, comprar um novo Buick, além de se ter tornado detentor de vinte e cinco por cento do Grupo Richmond de Hotéis. Abel sentia-se satisfeito por ter ad­quirido tal participação no império de Davis Leroy, o que lhe dava segurança para pensar de novo em sua filha e nos outros setenta e cinco por cento.

No início de outubro, Abel convidou Melanie para assistir a um concerto de Mozart no Chicago Symphony Hall. Envergando o terno apertado, o que apenas acentuava o peso que ganhara, e usando a primeira gravata de seda de toda a sua vida, exami­nou-se ao espelho e sentiu que a noite seria um sucesso. Termi­nado o concerto, Abel evitou retornar ao Richmond, embora o serviço fosse excelente, e levou Melanie para jantar no Loop. Prudentemente, conversou apenas a respeito de economia e polí­tica, dois assuntos que ele conhecia muito melhor que ela. Final­mente, propôs-lhe que tomassem um drinque em seus aposentos no hotel. Era a primeira vez que Melanie os visitava, e seu re­quinte a deixou ao mesmo tempo interessada e surpresa.

Abel serviu-lhe o refrigerante que ela pedira, jogou duas pedras de gelo dentro do líquido efervescente e, ao passar-lhe o copo, recebeu um encorajador sorriso de agradecimento. Mal con­seguia afastar os olhos daquele corpo esguio, das pernas cruzadas. Serviu-se de um bourbon.

— Obrigada, Abel, pela noite deliciosa.

Sentou-se ao lado dela e, com um ar compenetrado, agitou o líquido dentro do copo.

— Há muitos anos não ouvia música. Mozart fala-me direto ao coração, como nenhum outro compositor.

— Às vezes você fala como um europeu da Europa central, Abel. — Ela puxou a barra do vestido de seda, sobre a qual Abel se havia sentado. — Ninguém poderia imaginar que um gerente de hotel desse importância a um compositor como Mozart.

— Um dos meus antepassados, o primeiro barão Rosnovski — comentou Abel —, certa vez conheceu o maestro, que logo se tornou grande amigo da família. Sempre achei que ele fazia parte da minha vida.

O sorriso de Melanie foi enigmático. Abel inclinou-se e bei­jou-lhe o rosto junto da orelha, onde o cabelo se prendia. Ela continuou a falar, sem demonstrar estar ciente de seu progresso.

– Frederick Stock captou o espírito do terceiro movimento de uma maneira perfeita, não acha?

Abel tentou beijá-la de novo. Desta vez, ela virou o rosto de frente para ele, permitindo-se ser beijada nos lábios. Em seguida, esquivou-se.

— Já é hora de eu voltar à universidade.

— Mas você acabou de chegar — disse Abel, desolado.

— Sim, sei disso, mas amanhã de manhã tenho de me levan­tar muito cedo. O dia vai ser puxado.

Ele tornou a beijá-la. Ela recostou-se no sofá, e Abel experi­mentou tocar-lhe o seio com a mão. Ela interrompeu o beijo e o afastou.

— Preciso ir embora, Abel — insistiu.

— Ora — fez ele. — Não precisa ir tão depressa. — E tentou beijá-la mais uma vez.

Ela o deteve, desta vez evitando-o com firmeza.

— Abel, o que está fazendo? Não é porque me levou a um jantar e a um concerto que tem o direito de ficar me apalpando.

— Mas temos estado juntos há meses — justificou-se Abel. — Achei que você não ia se importar.

— Não temos estado juntos há meses, Abel. De vez em quando, jantamos no restaurante de papai, mas você não deve deduzir daí que estamos juntos há meses.

— Desculpe-me — pediu Abel. — A última coisa que gos­taria que pensasse de mim era que pretendia abusar de você. Só queria tocá-la.

— Eu jamais consentiria que um homem me tocasse — respondeu ela —, a menos que fôssemos nos casar.

– Mas eu quero me casar com você — declarou ele calma­mente.

Melanie explodiu numa gargalhada.

– O que há de tão engraçado? — tornou Abel, ruborizando-se.

– Abel, não seja bobo, eu nunca me casaria com você.

– Por que não? — inquiriu Abel, abalado com a veemên­cia com que ela falara.

– Não ficaria bem uma moça do Sul casar-se com um imi­grante polonês de primeira geração — replicou, sentando-se em­pertigada e ajeitando o vestido sobre os joelhos.

— Mas eu sou um barão — asseverou Abel com certa alti­vez.

Melanie tornou a gargalhar.

— Abel, como é que alguém pode acreditar nisso? Nunca notou que todo o pessoal do hotel ri de você pelas costas toda vez que você menciona esse título?

Ele ficou pasmo, sentindo-se tonto, o rosto agora sem cor, desconcertado.

— Eles riem de mim? — O leve sotaque polonês por um instante tornou-se acentuado.

— Claro. Então não sabe qual é o seu apelido no hotel? O Barão de Chicago.

Abel perdeu a fala.

— Deixe de ser bobo e não se aborreça por causa disso. Tem feito um ótimo trabalho em benefício de papai, e ele o admira, sei disso. Mas eu nunca me casaria com você.

Abel sentou-se, quieto.

— "Eu nunca me casaria com você" — repetiu ele.

— É lógico que não. Papai gosta de você, mas não o aceitaria como genro.

— Sinto tê-la ofendido — falou Abel.

— Abel, você não me ofendeu. Sinto-me lisonjeada. Bem, agora vamos esquecer essa conversa. Faria a gentileza de levar-me para casa?

Ela levantou-se e caminhou até a porta. Abel permaneceu sentado, ainda perplexo. Sem saber como, ele conseguiu erguer-se lentamente e ajudou Melanie a vestir a capa. Enquanto andava pelo corredor, teve consciência de que mancava. Desceram pelo elevador e tomaram um táxi. Permaneceram calados durante o trajeto. Abel pediu ao motorista que o esperasse, acompanhou Melanie até a porta da frente do dormitório da universidade e beijou-lhe a mão.

— Espero que isso não impeça que continuemos amigos — disse Melanie.

— Claro que não.

— Obrigada por ter me levado ao concerto, Abel. Estou certa de que ainda conhecerá uma garota polonesa com quem po­derá se casar. Boa noite.

— Adeus — respondeu Abel.

 

Abel não se dera conta de que a Bolsa de Nova Iorque estava u real dificuldade, até o dia em que um hóspede lhe perguntou se poderia pagar a conta do hotel em ações. Desde que investira seu dinheiro no Grupo Richmond, ele tinha apenas uma pequena quantia aplicada em ações, mas acatou o conselho da corretora e vendeu o restante com um mínimo de prejuízo, aliviado por ter a maior parte das economias asseguradas em tijolos e argamassa. Desde esse dia, seu interesse pelo índice Dow-Jones decaiu.

O hotel apresentou bom faturamento no primeiro semestre do ano, e Abel ponderou que, se as coisas corressem daquele modo, atingiria os lucros previstos para 1929, da ordem de mais de vinte e cinco mil dólares. Mantinha Davis Leroy permanente­mente informado dos acontecimentos. Em outubro, porém, em decorrência do colapso financeiro, metade do hotel estava vazia. Abel telefonou para Davis Leroy na Quinta-Feira Negra. O texano pareceu deprimido e preocupado, e recusou-se a tomar quaisquer decisões sobre o afastamento temporário de funcionários do hotel, o que, segundo Abel, era uma medida urgente.

— Agüente firme, Abel. Irei aí na semana que vem e juntos encontraremos uma solução, ou, pelo menos, tentaremos.

Abel não gostou do tom da última frase.

— Há algum problema, Davis? Posso ajudá-lo em alguma coisa?

— Por enquanto, não.

Abel continuou intrigado.

— Por que não me autoriza a tomar as providências neces­sárias? Assim, quando chegar, na semana que vem, eu já poderei fazer-lhe um relatório.

— Abel, as coisas não estão nada fáceis para mim. Não queria falar sobre meus problemas pelo telefone, mas o banco está me dando dor de cabeça com meus prejuízos na Bolsa. Amea­çam obrigar-me a vender os hotéis, caso eu não consiga levantar dinheiro suficiente para pagar os débitos.

Abel esmoreceu.

— Meu rapaz, não há por que se preocupar — prosseguiu Davis, num tom de voz nada convincente. — Na próxima semana, assim que chegar, eu lhe darei todos os detalhes da situação. Tenho certeza de que até lá terei posto algumas coisas em ordem.

Abel ouviu o ruído do fone no gancho, e ficou preocupado. Como primeira reação, procurou descobrir uma maneira de ajudar Davis. Telefonou para Curtis Fenton, e, depois de muita insistência, obteve o nome do presidente do banco que controlava o Grupo Richmond, pressentindo que, se lograsse uma entrevista com ele, facilitaria as coisas para o amigo.

Telefonou para Davis diversas vezes nos dias que se segui­ram, dizendo-lhe que os acontecimentos iam de mal a pior e que se fazia necessário tomar uma decisão imediata, mas ele se mos­trava cada vez mais apreensivo, ainda relutando em atender aos seus apelos. Quando tudo começou a escapar ao controle, Abel tomou uma decisão. Pediu à secretária que telefonasse ao ban­queiro responsável pelas contas do Grupo Richmond.

— Com quem deseja falar, sr. Rosnovski? — perguntou uma voz feminina alambicada.

Abel olhou o nome anotado num pedaço de papel que tinha diante de si e o pronunciou com firmeza.

— Um momento, sim?

— Bom dia — disse uma voz em tom formal. — Posso aju­dá-lo em alguma coisa?

— Espero que sim. Meu nome é Abel Rosnovski — começou nervosamente. — Sou o gerente do Richmond de Chicago e gos­taria de marcar uma entrevista com o senhor a fim de que pudés­semos discutir o futuro do Grupo Richmond.

— Não estou autorizado a tratar da questão com ninguém, exceto com o sr. Davis Leroy — respondeu a voz, numa emissão entrecortada.

— Mas possuo uma participação de vinte e cinco por cento no Grupo Richmond — retrucou Abel.

— Nesse caso, poderiam ter lhe explicado que enquanto não possuir uma participação de cinqüenta por cento não estará habi­litado a tratar com o banco, a menos que o sr. Davis Leroy o autorize.

— Mas ele é meu amigo pessoal...

— Não duvido disso, sr. Rosnovski.

— ... e estou tentando ajudá-lo.

— O sr. Leroy o autorizou a representá-lo?

— Não, mas...

— Então, sinto muito. Seria até mesmo pouco profissional da minha parte continuar esta conversa.

— O senhor não poderia ser menos prestativo, não é mes­mo? — falou Abel, arrependendo-se imediatamente de ter pro­ferido essas palavras.

– Não resta dúvida de que é essa a sua opinião, sr. Ros­novski. Tenha um bom dia, senhor.

"Ora vá para o inferno!", pensou Abel, batendo o telefone, aflito por encontrar um meio de ajudar Davis. Entretanto, não demoraria muito a descobri-lo.

Na manhã seguinte, Abel avistou Melanie no restaurante. Ela não ostentava a habitual segurança, estava abatida e ansiosa, a ponto de quase levá-lo a perguntar se tudo ia bem. Abel desistiu de aproximar-se, e, ao deixar o restaurante a caminho do escritório, encontrou Davis Leroy sozinho no saguão. Ele vestia a mesma jaqueta axadrezada que usava no dia em que Abel o conhecera no Plaza.

— Melanie está no restaurante?

— Sim — respondeu Abel. — Não sabia que viria hoje, Davis. Vou providenciar imediatamente a suíte presidencial.

— Só por esta noite, Abel. E mais tarde gostaria de vê-lo em particular.

— Naturalmente.

Abel não apreciou o tom com que ele dissera "em parti­cular". Então Melanie queixara-se ao pai a seu respeito? Teria sido por isso que Davis não havia tomado nenhuma decisão du­rante aqueles últimos dias?

Davis Leroy afastou-se apressadamente e entrou no restau­rante, enquanto Abel foi ao balcão de recepção e verificou se a suíte do décimo sétimo andar estava vaga. Metade dos aparta­mentos estavam vazios, e, desse modo, não era de admirar que a suíte presidencial também estivesse livre. Abel reservou-a para o patrão e esperou-o ali mesmo, na recepção, durante mais de uma hora. Observou Melanie saindo do restaurante, o rosto congestio­nado, como se tivesse chorado. O pai saiu poucos minutos depois.

— Abel, pegue uma garrafa de bourbon, não me diga que não conseguirá uma, e venha à minha suíte.

Abel pegou as duas garrafas de bourbon que guardava no cofre e foi ter com Leroy na suíte do décimo sétimo andar, ainda desconfiado de que Melanie contara alguma coisa ao pai.

– Abel, abra a garrafa e sirva-se de uma dose grande — instruiu-o Davis Leroy.

Uma vez mais, Abel sentiu medo do desconhecido. As palmas de suas mãos estavam suadas. Naturalmente, não seria despedido só porque quisera se casar com a filha do chefe! Ele e Leroy eram amigos há um ano, amigos íntimos. Não tardou a saber o que era o desconhecido.

— Termine seu bourbon.

Abel esvaziou o copo num só trago. Davis Leroy fez o mesmo.

— Abel, estou falido. — Interrompeu-se e serviu duas doses. — Aliás, metade dos Estados Unidos faliu.

Abel não disse nada, em parte porque não tinha o que dizer. Permaneceram sentados, olhando um para o outro em silêncio du­rante alguns minutos, e então, depois de outro copo de bourbon, Abel arriscou-se a falar.

— Mas ainda é dono de onze hotéis.

— Fui dono — disse Davis Leroy. — Abel, precisamos falar no pretérito perfeito, agora. Nenhum deles me pertence mais. O banco se apossou de todas as minhas propriedades na sexta-feira passada.

— Mas pertencem ao senhor, pertenceram à sua família por duas gerações — disse Abel.

— Pertenceram. Não pertencem mais. Agora são do banco. A mesma coisa está acontecendo neste momento a quase todos os homens de negócios dos Estados Unidos, pequenos e grandes. Abel, não há razão para não lhe contar toda a verdade. Dez anos atrás, mais ou menos, tomei emprestado ao banco dois milhões de dólares, usando os hotéis como garantia, e investi o dinheiro imediatamente em ações e títulos, de maneira prudente, e em com­panhias bem estabelecidas. Fui acumulando um capital de quase cinco milhões, razão pela qual nunca me importei muito com os prejuízos do hotel — eram sempre um ônus deduzível dos lucros que eu auferia no mercado de valores. Hoje, porém, não pude liquidar essas ações. Podemos utilizá-las como papel higiênico nos onze hotéis. Nestas últimas três semanas, tentei vendê-las o mais depressa que pude, mas já não existem compradores. Na última sexta-feira, o banco executou a hipoteca para reaver o empréstimo.

Abel não se lembrou de que havia conversado com o ban­queiro exatamente na sexta-feira.

— A maioria das pessoas afetadas pela crise contam apenas com pedaços de papel para pagar seus empréstimos, mas, no meu caso, o banco que tinha me apoiado financeiramente possui as es­crituras dos onze hotéis, como garantia do empréstimo. Assim, quando os fundos estouraram, o banco imediatamente se apossou delas. Os desgraçados informaram-me que pretendem vender o grupo o mais rápido que puderem.

– Mas isso é loucura! Nada lucrariam com os hotéis neste momento. Mas, se nos apoiassem neste período, juntos poderíamos apresentar-lhes um bom retorno pelo investimento.

– Abel, sei que você seria capaz disso, mas eles têm o his­tórico do meu passado e o jogaram na minha cara. Fui procurá-los e lhes propus a mesma coisa. Contei-lhes sobre você e disse-lhes que me entregaria de corpo e alma ao grupo se nos oferecessem apoio, mas definitivamente eles não se interessaram. Fizeram-me conversar com um janota de fala macia que sabia de cor todas as respostas que constam dos manuais sobre circulação de dinheiro, falta de fundos e restrições de créditos. Por Deus! Se um dia eu voltasse lá, torceria o pescoço dele e depois quebraria aquele banco. A melhor coisa que podemos fazer por ora é encher a cara até não mais agüentar, por que estou liquidado, na miséria, na bancar­rota.

— E eu também — disse Abel calmamente.

— Não, há uma grande fortuna esperando por você, filho. Quem quer que seja que compre este grupo não conseguirá lucros sem você.

— O senhor se esquece de que possuo vinte e cinco por cento do grupo?

Davis Leroy fitou-o demoradamente. Esquecera-se desse fato.

— Oh, por Deus, Abel! Espero que não tenha posto todo o seu dinheiro no negócio! — Ele começava a falar num tom de voz grave.

— Até o último cent — respondeu Abel. — Mas não o lamento, Davis. Melhor perder junto com um homem inteligente do que junto com um idiota. — Serviu-se de outra dose de bour­bon.

Lágrimas se equilibraram nos cantos dos olhos de Davis Leroy.

– Abel, você é o melhor amigo que um sujeito poderia ter. Colocou este hotel em ordem, investiu seu próprio dinheiro nele, empobreceu, e nem se queixa; ainda por cima, para melhorar as coisas, minha filha se nega a casar com você.

— Não se importou com o fato de eu tê-la pedido em casa­mento? — perguntou Abel, menos incrédulo graças ao bourbon.

– A tola da minha filha não sabe reconhecer uma boa coisa. Quer se casar com um procriador de cavalos do Sul que tenha três generais da Confederação na árvore genealógica da família, ou com um cavalheiro do Norte que tenha um bisavô chegado no Mayflower. Se todos os que sustentam ter tido um parente na­quele navio estivessem dizendo a verdade, aquela droga de geringonça teria afundado mil vezes e não teria alcançado a América. Lamento não ter outra filha, para você, Abel. Ninguém que tenha trabalhado comigo foi tão leal quanto você. Eu me orgulharia de tê-lo como membro da família. Nós dois formaríamos uma dupla espetacular. Mas ainda assim confio em que você sozinho conse­guirá vencê-los. É jovem ainda, tem o mundo inteiro à sua frente. Repentinamente, aos vinte e três anos, Abel sentiu-se velho.

— Obrigado por confiar em mim, Davis, e, seja como for, quem é que se importa com o mercado de valores? Você é o me­lhor amigo que tive em toda a minha vida. — A bebida começava a falar por ele.

Abel despejou no copo uma nova dose de bourbon e engo­liu-a.

Quando amanheceu, ambos haviam esvaziado as duas gar­rafas. Abel deixou Davis dormindo, sentado na cadeira, foi cam­baleando até o décimo andar, arrancou a roupa e desmaiou na própria cama. Acordou do sono pesado com uma sonora batida na porta. Sua cabeça girava, girava sem parar, e a batida conti­nuava, cada vez mais forte. Ele se arrastou sobre a cama e, conseguindo equilibrar-se de pé, experimentou alcançar a porta. Era um mensageiro do serviço interno.

— Depressa, sr. Abel, depressa! — e saiu correndo.

Abel vestiu o roupão, enfiou os pés nos chinelos e arremeteu corredor afora para ir ter com o garoto, que segurava a porta do elevador aberta.

— Depressa, sr. Abel — insistiu o garoto.

— Por que tanta pressa? — inquiriu Abel, sentindo a cabeça zonza enquanto o elevador descia devagar. Recordou então a con­versa da noite anterior. Talvez os representantes do banco o esti­vessem procurando para tomar posse da propriedade.

— Alguém se jogou lá de cima pela janela — disse o garoto.

Abel recobrou-se da ressaca.

— Um hóspede?

— Acho que sim, senhor — disse o mensageiro. — Mas não tenho certeza.

O elevador parou no térreo. Abel abriu a porta de grades de ferro e saiu em disparada em direção à rua. A polícia já havia chegado. Não fosse a jaqueta axadrezada, Abel não teria reconhe­cido o corpo. Um policial fazia anotações. Um homem à paisana aproximou-se de Abel.

– O senhor é o gerente?

— Sou.

– Tem idéia de quem e este homem?

– Tenho – respondeu Abel, mastigando a palavra. — O nome dele é Davis Leroy.

– Sabe de onde ele é ou como poderemos entrar em contato com um parente mais próximo?

Abel desviou o olhar do corpo arrebentado e respondeu auto­maticamente:

– Ele é de Dallas, e a filha dele, Melanie Leroy, reside no campus da Universidade de Chicago.

— Certo, vamos procurá-la.

— Não, não, eu mesmo vou procurá-la — disse Abel.

— Obrigado. É sempre melhor não se ouvir esse tipo de notícia de uma pessoa estranha.

— Que coisa terrível e inútil ele foi fazer! — murmurou Abel, os olhos voltados para o corpo do amigo.

— É o sétimo suicídio hoje em Chicago — informou o agen­te policial, secamente, enquanto fechava o livro de notas de capa preta. — Nós precisamos examinar o apartamento dele. Ninguém pode ocupá-lo, por enquanto.

— Perfeitamente — disse Abel.

O policial afastou-se na direção da ambulância.

Abel observou os homens recolherem o corpo de Davis Leroy da calçada e colocarem-no na maca. Sentiu frio, caiu sobre os joelhos e, curvando-se, vomitou violentamente na sarjeta. Uma vez mais, tinha perdido seu melhor amigo. Se tivesse bebido me­nos e pensado mais, talvez tivesse encontrado uma maneira de salvá-lo. Abel ergueu-se e retornou ao quarto. Tomou um banho de chuveiro demorado e frio e de algum modo conseguiu vestir-se. Pediu que lhe trouxessem café preto, e em seguida, com certa relutância, subiu à suíte presidencial e abriu a porta. À parte as duas garrafas vazias de bourbon, não havia nenhum indício da tragédia ocorrida minutos antes. Viu então as cartas que estavam sobre o criado-mudo, cartas que não haviam sido enviadas. A pri­meira era endereçada a Melanie; a segunda, ao advogado de Dallas; e a terceira, a ele próprio. Abriu a que lhe era endereçada, mas por pouco não teve forças para ler as últimas palavras de Davis Leroy.

 

Caro Abel,

Encontrei a única solução, em vista da decisão do banco. Não tenho mais nada que me faça viver. Estou velho demais para co­meçar tudo de novo. Saiba que acredito que você é a única pessoa capaz de conseguir algo de bom em meio a esta terrível desor­dem.

Fiz um novo testamento, em que deixo a você os outros setenta e cinco por cento das ações do Grupo Richmond. Sei que não têm valor, mas pelo menos lhe garantirão a condição legal de propriedade do grupo. Como você teve a coragem de comprar com seu próprio dinheiro os outros vinte e cinco por cento, me­rece o direito de tentar um acerto junto ao banco. Deixo a Me­lanie todos os meus demais bens, inclusive a casa. Por favor, não deixe que outra pessoa conte a ela o que aconteceu. Que não seja a polícia. Eu teria me sentido orgulhoso de tê-lo como genro, parceiro.

Seu amigo, Davis

 

Abel leu a carta duas vezes, dobrou-a demoradamente e guardou-a na carteira.

Foi à universidade e, da maneira mais suave que pôde en­contrar, transmitiu a notícia a Melanie. Nervoso, sentou-se num sofá, sem saber o que acrescentar à mera notícia da morte. Para seu espanto, ela a recebeu bem, como se soubesse que aquilo estava na iminência de acontecer. Nenhuma lágrima foi derramada diante dele — quem sabe depois, quando tivesse partido. Pela primeira vez, sentiu pena dela.

Abel retornou ao hotel, e, decidido a não almoçar, pediu ao garçom que lhe preparasse um suco de tomate enquanto exami­nava a correspondência. Havia uma carta de Curtis Fenton, do Continental Trust. Sem dúvida seria um dia de muitas cartas. Fenton recebera a comunicação de que um banco de Boston, o Kane & Cabot, havia assumido a responsabilidade financeira pelo Grupo Richmond. O negócio prosseguiria normalmente, até que o sr. Davis Leroy conseguisse uma entrevista em que seria dis­cutida a transmissão de todos os hotéis do grupo. Abel meditou sobre o comunicado e, depois do segundo suco de tomate, escreveu uma carta ao presidente do Kane & Cabot, sr. Alan Lloyd. Cinco dias depois, recebeu a resposta, solicitando-lhe que comparecesse a uma entrevista em Boston, no dia 4 de janeiro, quando então discutiria a liquidação do grupo com o diretor encarregado de falências. Esse espaço de tempo daria ao banco oportunidade de refletir sobre as implicações da súbita e trágica morte do sr. Leroy. Súbita e trágica morte?

– E quem é o responsável pela sua morte? — bradou Abel em alta voz, tomado de ira, lembrando-se de repente das próprias palavras de Davis Leroy: "Fizeram-me conversar com um janota de fala macia... Por Deus! Se um dia eu voltasse lá, torceria o pescoço dele e depois quebraria aquele banco". — Não se preo­cupe, Davis, eu farei esse serviço por você — prometeu Abel, erguendo ainda mais a voz.

 

Nas últimas semanas do ano, Abel dirigiu o Richmond com um rígido controle do quadro de funcionários e das despesas, e ainda assim conseguiu apenas manter a cabeça fora d'água. O que estaria acontecendo com os outros dez hotéis do grupo? Ele não dispunha de tempo para averiguar, e, além do mais, isso não mais lhe competia.

 

No dia 4 de janeiro de 1930, Abel Rosnovski desembarcou em Boston. Na estação ferroviária, pegou um táxi até o Kane & Cabot, onde chegou minutos antes da hora marcada. Sentou-se na sala de recepção, que era maior e mais pomposa do que qual­quer um dos quartos de dormir do Richmond de Chicago. Abriu o Wall Street Journal. O ano de 1930 prometia ser melhor, o jornal afiançava. Ele duvidava disso. Uma senhora de meia-idade, um tanto empertigada, entrou na sala.

— O sr. Kane o receberá agora, sr. Rosnovski.

Abel acompanhou-a por um longo corredor, que deu num pequeno escritório de paredes forradas de painéis de carvalho, com uma mesa de tampo coberto de couro, à qual se sentava um moço vistoso que devia ser, pensou Abel, da mesma idade que ele. Os olhos, tão azuis quanto os de Abel. Na parede atrás do jovem, o retrato de um homem mais velho, com o qual ele era por demais parecido. "Aposto que é o papai", imaginou Abel com rancor. "Tenho certeza de que ele sobreviverá à crise; os bancos sempre saem vitoriosos, de uma forma ou de outra."

— Meu nome é William Kane — disse o jovem, alto, levantando-se e estendendo-lhe a mão. — Tenha a bondade de sentar-se, sr. Rosnovski.

— Obrigado.

William fitou o homem de pequena estatura e terno desa­linhado, mas notou determinação em seus olhos.

— Se o senhor me permite, gostaria de expor o estado atual da situação tal como a vejo — continuou o jovem.

— Naturalmente.

— A trágica e inesperada morte do sr. Leroy... — William começou, aborrecido com a própria linguagem empolada.

"Que a sua insensibilidade provocou", pensou Abel.

— ... deixou-o como responsável direto pela direção do grupo até o momento em que o banco tenha condições de encon­trar um comprador para os hotéis. Embora cem por cento das ações do grupo estejam agora em seu nome, a propriedade dos onze hotéis, que serviam de garantia ao empréstimo de dois mi­lhões de dólares efetuado ao falecido sr. Leroy, passou legalmente ao nosso patrimônio, o que o exime de qualquer tipo de respon­sabilidade. Em vista disso, caso o senhor deseje desligar-se de todo o processo, nós, naturalmente, o compreenderemos.

"Uma proposta ultrajante", refletiu William, "mas é neces­sário que seja feita."

"O tipo da coisa que um banqueiro espera que um homem faça", refletiu Abel: "cair fora no exato instante em que surge um problema."

William Kane prosseguiu:

— Até que se liquide o débito de dois milhões, lamento, consideraremos insolvente a propriedade do sr. Leroy. Nós, do banco, prezamos seu envolvimento pessoal com o grupo, e nada fizemos no sentido de vender os hotéis antes de conversarmos com o senhor pessoalmente. Acreditamos que talvez conheça al­gum interessado na compra da propriedade, uma vez que os edi­fícios, as terras e o negócio evidentemente são valiosos.

— Mas não valiosos a ponto de o senhor me apoiar — re­trucou Abel, passando a mão enfadonhamente pelo cabelo preto e basto. — Quanto tempo me dará para procurar um comprador?

William vacilou um segundo ao perceber a pulseira de prata no pulso de Abel Rosnovski. Vira-a antes em algum lugar, mas não conseguia lembrar-se onde.

— Trinta dias. Entenda que o banco está arcando com os prejuízos diários de dez dos onze hotéis. Apenas o Richmond de Chicago tem apresentado um pequeno lucro.

– Sr, Kane, se o senhor me desse tempo e apoio financeiro, eu transformaria todos os hotéis em empresas rentáveis. Sei que o conseguiria — acrescentou Abel. — Basta dar-me a oportunidade de provar que posso consegui-lo, senhor. — Sentiu que a última palavra ficara presa na garganta.

— O sr. Leroy nos prometeu o mesmo quando nos procurou no último outono — comentou William. — Mas vivemos tempos difíceis. Não existem previsões de que o negócio se recupere, e nós, sr. Rosnovski, não somos hoteleiros. Somos banqueiros.

Abel começava a perder a paciência com o banqueiro impecavelmente vestido — o "janota". Davis estava certo.

— E as coisas ficarão piores para os funcionários — disse Abel. — O que farão, se o senhor vender o teto que os abriga? O que imagina que acontecerá com eles?

— Sinto muito, sr. Rosnovski, mas isso escapa à nossa responsabilidade. Devo agir segundo os melhores interesses do banco.

— Os seus melhores interesses, não é o que está querendo dizer, sr. Kane? — indagou Abel, com raiva.

O jovem enrubesceu.

— Fez uma afirmação injusta, sr. Rosnovski, e eu me sentiria ofendido se não compreendesse a situação em que se encontra.

— É lamentável que o senhor não tenha sido compreensivo com o sr. Leroy em tempo hábil — disse Abel. — Sua compreen­são teria sido muito útil para ele. O senhor o matou, como se o senhor mesmo o tivesse empurrado para fora daquela janela, o senhor e seus fiéis colegas, que acomodam aqui o traseiro enquan­to nós damos nosso sangue, garantindo que, nos tempos fáceis, os senhores possam receber um grande quinhão, e, nos tempos difíceis, passem por cima de nós.

Também William começava a ficar irado, mas, ao contrário de Abel Rosnovski, não o demonstrou.

— Esse tipo de discussão não nos levará a lugar algum, sr. Rosnovski. Previno-o de que, se não puder encontrar um compra­dor dentro de trinta dias, não terei outra alternativa senão pôr os hotéis em leilão.

– O senhor está me aconselhando a pedir outro empréstimo em outro banco – disse Abel com sarcasmo. - Conhece meu histórico e não quer me apoiar. Espera que eu vá para que outro inferno quando sair daqui?

— Lamento, mas não tenho a mínima idéia — replicou William. — O problema é inteiramente seu. As instruções do conselho são uma só, simplesmente limpar o débito o mais rápi­do possível, e é isso o que tenho a intenção de fazer. Talvez o senhor possa entrar em contato comigo até o dia 4 de fevereiro, no mais tardar, quando então me informará se teve a sorte de encontrar um comprador. Bom dia, sr. Rosnovski.

William ergueu-se de trás da mesa e de novo ofereceu a mão a Abel. Dessa vez, ele a ignorou e caminhou em direção à porta.

— Depois da nossa conversa pelo telefone, sr. Kane, pensei que o senhor fosse se sentir numa situação embaraçosa e resolvesse me ajudar. Enganei-me. Você é exatamente um filho da puta. Quando se deitar à noite, sr. Kane, pense em mim. Quando acor­dar de manhã, pense em mim outra vez, porque não me cansarei de pensar numa maneira de acertar nossas contas.

William parou, pensativo, diante da porta fechada. A pulseira de prata ainda o perturbava. Em que lugar e quando a tinha visto? A secretária voltou.

— Mas que homenzinho desagradável! — comentou.

— Não, não exatamente — respondeu William. — Ele acha que nós matamos o sócio dele e agora dissolvemos a empresa sem pensar nos empregados, sem falar nele próprio, que de fato foi um gerente muito capaz. O sr. Rosnovski comportou-se de um modo extraordinariamente educado, se considerarmos as circuns­tâncias. E confesso que quase me senti penalizado, porque infeliz­mente o conselho decidiu não apoiá-lo.

Voltou-se para a secretária.

— Ligue para o sr. Cohen.

 

 

                                                CONTINUA

 

 

Na manhã do dia seguinte, Abel voltou a Chicago ainda preo­cupado e irritado com a intransigência de William Kane. Enquanto parava um táxi e se sentava no banco de trás, não ouviu direito o que o jornaleiro gritava junto à banca de jornais da esquina.

— Richmond Hotel, por favor.

— É repórter? — perguntou o motorista, dirigindo-se à State Street.

— Não, por que pergunta?

— Oh, porque pediu para levá-lo ao Richmond. Hoje aquilo lá está cheio de repórteres.

Abel não se lembrava de nenhuma programação marcada para esse dia que pudesse chamar a atenção da imprensa.

— Se não é jornalista — continuou o homem —, acho me­lhor levá-lo a outro hotel.

— Por quê? — indagou Abel, ainda mais curioso.

— Se fez reserva lá... o Richmond pegou fogo.

Quando o carro virou a esquina do quarteirão, Abel deparou com a carcaça fumacenta do Richmond Hotel. Viaturas policiais, caminhões do corpo de bombeiros, madeiras carbonizadas, água alagando a rua. Ele desceu do carro e olhou os escombros da capi­tânia do grupo de Davis Leroy.

 

 

 

 

"O polonês se mantém sereno diante da desgraça", refletiu Abel, cerrando o punho e socando-o contra a perna aleijada. Não sentiu dor — nada lhe restara que pudesse lhe doer.

— Filhos da puta! — bradou. — Já fui humilhado mais que isso, mas vou derrotar cada um de vocês! Alemães, russos, turcos, o filho da puta do Kane, e agora isto! Todo mundo! Vou vencer todos vocês! Ninguém vai destruir Abel Rosnovski!

O subgerente avistou Abel, que gesticulava ao lado do táxi, e correu até ele. Abel esforçou-se por acalmar-se.

— Os empregados e os hóspedes saíram do hotel a salvo? — perguntou.

— Sim, graças a Deus. O hotel estava quase vazio. Foi fácil evacuá-lo. Uma ou duas pessoas machucaram-se e queimaram-se, mas já foram levadas ao hospital. Não há com que se preocupar.

— Bom, isso já é um alívio. Graças a Deus, o hotel estava segurado, se não me engano, em mais de um milhão. Essa des­graça ainda pode se tornar a nossa salvação.

— Creio que não, se o que os jornais dizem for verdadeiro.

— Como assim? — perguntou Abel.

— Leia o senhor mesmo, chefe — respondeu o subgerente.

Abel foi à banca de jornais e pagou ao menino dois cents pela última edição do Tribune. A manchete explicava tudo.

 

FOGO NO RICHMOND HOTEL

INCÊNDIO PREMEDITADO?

 

Incrédulo, Abel balançou a cabeça e releu a manchete.

— Que mais poderá acontecer? — murmurou.

— Algum problema, senhor? — quis saber o jornaleiro.

— Um probleminha — respondeu Abel, e foi ter com...

 

 

                                                                 

 

                                                   

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