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CORAÇÃO ARDENTE / Richelle Mead
CORAÇÃO ARDENTE / Richelle Mead

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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NÃO VOU MENTIR: entrar no quarto e encontrar sua namorada lendo um livro de nomes de bebê pode assustar um pouco.
— Não sou nenhum especialista — comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Quer dizer... na verdade, sou sim. E tenho quase certeza de que a gente precisa fazer certas coisas antes de começar a ler esses livros.
Sydney Sage, a namorada em questão e luz da minha vida, nem ergueu os olhos, embora um sorriso perpassasse seu rosto.
— É para a iniciação — ela disse, com um tom prático, como se estivesse falando sobre pintar as unhas ou fazer compras, e não sobre entrar para um clã de bruxas. — Preciso de um nome “mágico” para usar nas convenções.
— Certo. Nome mágico, iniciação. Mais um dia como outro qualquer na sua vida, né? — Não que eu pudesse falar alguma coisa, já que era um vampiro com a capacidade incrível mas complicada de curar e compelir pessoas.
Dessa vez, recebi um sorriso completo, e ela levantou os olhos. A luz do fim de tarde que entrava pela janela do meu quarto refletiu neles, salientando seu brilho amarelo-âmbar. Eles se arregalaram de surpresa quando ela notou as três caixas empilhadas que eu estava carregando.
— O que tem aí?
— Uma revolução musical — respondi, pondo-as no chão com reverência. Abri a primeira caixa, revelando um toca-discos. — Vi o cartaz de um cara vendendo no campus. — Abri outra caixa cheia de vinis e peguei Rumours, do Fleetwood Mac. — Agora posso ouvir música da forma mais pura.
Ela não pareceu impressionada, o que era surpreendente considerando que via meu Mustang 1967, que batizara de Ivashmóvel, como uma espécie de santuário sagrado.
— Tenho quase certeza de que música digital é tão pura quanto. Foi um desperdício de dinheiro, Adrian. Consigo pôr as músicas de todas essas caixas no meu celular.
— Consegue pôr no seu celular as outras seis que estão no carro?
Ela pestanejou, perplexa, e pareceu desconfiada.
— Adrian, quando gastou nisso tudo?
Ignorei a pergunta.
— Ei, ainda consigo pagar o carro. Eu acho. — Pelo menos não precisava gastar com aluguel, já que o apartamento estava pago, mas eu tinha muitas outras contas. — Além disso, tenho um orçamento maior para esse tipo de coisa agora que alguém me fez parar de fumar e beber.
— Você bebia o dia todo! — ela exclamou. — Estou cuidando da sua saúde.
Sentei ao lado dela na cama.
— Assim como estou cuidando de você e do seu vício em cafeína. — Era um acordo que havíamos feito, formando um tipo de grupo de apoio. Eu tinha parado de fumar e passado a beber apenas uma dose por dia. Ela tinha trocado as dietas obsessivas por uma quantidade saudável de calorias e não tomava mais que uma xícara de café por dia. Por incrível que pareça, era mais difícil para ela do que para mim. Nos primeiros dias, achei que precisaria interná-la numa clínica de reabilitação para viciados em cafeína.
— Não era um vício — ela resmungou, ainda com rancor. — Era mais um... estilo de vida.
Ri e a puxei para um beijo, fazendo o resto do mundo desaparecer. Não existiam livros de nomes, discos ou vícios. Havia apenas ela e o gosto de seus lábios, a forma maravilhosa como conseguiam ser macios e ardentes ao mesmo tempo. O resto do mundo achava que ela era fria e rígida. Só eu conhecia a intensidade e o desejo escondidos dentro dela — quer dizer, eu e Jill, a menina que conseguia enxergar o que se passava na minha cabeça por causa do laço psíquico que compartilhávamos.
Quando deitei Sydney na cama, tive, como sempre, aquela sensação vaga e passageira de que o que estávamos fazendo era proibido. Humanos e Moroi não se misturavam desde que minha raça tinha se escondido do resto do mundo na Idade Média. Fizemos isso por segurança, achando que era melhor os humanos não saberem da nossa existência. Agora, meu povo e o dela (os que sabiam sobre os Moroi) consideravam relações como a nossa erradas e, em certos círculos, sinistras e perversas. Mas eu não me importava. Só ligava para ela e para a forma como seu toque me enlouquecia, por mais que sua presença calma aplacasse as violentas tempestades que se agitavam dentro de mim.
Mas nem por isso alardeávamos nossa relação. Na verdade, nosso romance era um segredo muito bem guardado, que exigia muitas escapadas e um planejamento cuidadosamente calculado. Mesmo naquele momento, nosso tempo era curto. Essa era nossa rotina durante a semana. Ela tinha uma sessão de estudo independente no último horário, ministrada por uma professora indulgente que a deixava sair mais cedo e correr até a minha casa. Tínhamos uma única hora preciosa para nos beijar ou conversar — normalmente, nos beijar, com ardor ainda maior devido à pressão do tempo — e, depois, ela voltava para a escola particular, na hora exata em que Zoe, sua irmã grudenta e vampirofóbica, saía da aula.
Sabe-se lá como, Sydney tinha um relógio interno que lhe avisava quando o tempo estava terminando. Acho que tinha a ver com seu talento inato de pensar em centenas de coisas ao mesmo tempo. Eu não. Nessas horas, meus pensamentos normalmente estavam concentrados em tirar a blusa dela e ver se, dessa vez, conseguiria me livrar do sutiã também. Até agora, nada.
Ela sentou com as bochechas avermelhadas e o cabelo loiro desgrenhado. Era tão bonita que fazia minha alma doer. Naqueles momentos, sempre queria pintá-la e imortalizar sua expressão. Seus olhos adquiriam uma suavidade que eu raramente via em outras ocasiões, uma vulnerabilidade total e absoluta em alguém que costumava ser reservada e analítica nas outras áreas da vida. Mas, por mais que eu fosse um pintor razoável, registrar Sydney em tela estava além da minha capacidade.
Ela pegou sua blusa marrom e a abotoou, escondendo a renda azul-turquesa com a camisa formal com que gostava de se resguardar. Tinha trocado os sutiãs durante o mês anterior e, por mais que eu sempre ficasse triste quando desapareciam, era bom saber que estavam lá, aqueles pontos coloridos e secretos na vida dela.
Enquanto ela caminhava até o espelho sobre a cômoda, invoquei um pouco da magia de espírito para vislumbrar sua aura, a energia que rodeava todos os seres vivos. A magia trouxe uma breve onda de prazer e, então, vi aquela luz reverberante em torno dela. Estava como sempre: o amarelo dos estudiosos balanceado com um roxo mais ardente de paixão e espiritualidade. Num piscar de olhos, a aura se apagou e, junto com ela, a euforia avassaladora do espírito.
Ela terminou de arrumar o cabelo e baixou os olhos.
— O que é isso?
— Hum? — Levantei e fui até ela, pondo os braços ao seu redor. Então, meu corpo ficou rígido ao ver o que tinha pegado: abotoaduras cintilantes com rubis e diamantes encravados. De repente, a ternura e a alegria que eu tinha acabado de sentir foram substituídas pela velha escuridão gélida. — Ganhei de presente da minha tia Tatiana faz alguns anos.
Sydney pegou uma delas e a estudou com um olhar de especialista. Então abriu um sorriso largo.
— Você tem uma fortuna aqui. Isso é platina. Se vender isso, vai ter pensão pro resto da vida. E todos os discos que quiser.
— Prefiro dormir numa caixa de papelão a vender isso.
Ela percebeu a mudança em mim e virou para me encarar, com o rosto preocupado.
— Ei, eu estava brincando. — Sua mão tocou meu rosto de leve. — Tudo bem. Está tudo bem.

 


 


Mas não estava. De repente, o mundo era um lugar cruel e inóspito, vazio desde a morte da minha tia, a rainha dos Moroi e única parente que nunca me julgou. Senti um nó na garganta e as paredes pareceram se fechar ao meu redor quando me lembrei de como ela havia sido apunhalada até a morte e as fotos divulgadas em todo canto para encontrar o assassino. Não importava que a assassina estivesse presa e condenada à morte. Isso não traria minha tia de volta. Ela havia partido para um lugar aonde não podia segui-la, ao menos não ainda, e eu estava ali, sozinho e insignificante e sem rumo...

— Adrian.

A voz de Sydney era calma mas firme e, lentamente, fui saindo daquele desespero que podia surgir tão rápida e intensamente, uma escuridão que vinha aumentando ao longo dos anos quanto mais eu usava o espírito. Era o preço daquele poder, e essas mudanças repentinas estavam ficando cada vez mais frequentes. Eu me concentrei nos olhos dela e a luz voltou ao mundo. Ainda sofria pela morte da minha tia, mas Sydney estava lá, minha esperança e minha âncora. Eu não estava sozinho. Não era incompreendido. Engolindo em seco, assenti e dei um sorriso frágil enquanto me libertava das garras sombrias do espírito. Por enquanto.

— Estou bem. — Vendo a descrença no rosto dela, dei-lhe um beijo na testa. — Mesmo. Você precisa ir, Sage. Senão Zoe vai estranhar e você vai se atrasar para o encontro com as bruxas.

Ela me olhou preocupada por mais alguns segundos e então relaxou um pouco.

— Certo. Mas se precisar de alguma coisa...

— Eu sei, eu sei. Ligo no Celular do Amor.

Ela voltou a sorrir. Fazia pouco tempo que tínhamos comprado celulares pré-pagos que a organização dos alquimistas, para a qual ela trabalhava, não conseguiria rastrear. Não que costumassem rastrear o celular normal dela, mas sem dúvida poderiam se tivessem alguma suspeita, e não queríamos deixar um rastro de mensagens e ligações.

— E farei uma visitinha hoje à noite — acrescentei.

Seus traços voltaram a se endurecer.

— Adrian, não. É arriscado demais.

Outra vantagem do espírito era a capacidade de visitar as pessoas nos sonhos. Era um bom jeito de conversar, já que tínhamos pouco tempo acordados — e não o gastávamos conversando —, mas, como qualquer uso do espírito, apresentava um risco contínuo à minha sanidade. Ela ficava preocupada, mas eu achava que valia a pena para ficar com ela.

— Sem discussão — avisei. — Quero saber como vão as coisas. E sei que você quer saber sobre mim.

— Adrian...

— Vai ser rápido — prometi.

Relutante, ela concordou, sem parecer nem um pouco satisfeita, e eu a acompanhei até a porta. Enquanto atravessávamos a sala, ela parou na frente de um pequeno aquário perto da janela. Sorrindo, ajoelhou-se e cutucou o vidro. Dentro, havia um dragão.

Sério. O nome exato era callistana, mas raramente nos referíamos a ele assim. Normalmente o chamávamos de Pulinho. Sydney o invocara de alguma dimensão demoníaca como uma espécie de ajudante. Na maior parte do tempo, ele parecia querer nos ajudar a comer todas as besteiras que eu tinha no meu apartamento. Nós dois estávamos ligados ao bichinho e, para mantê-lo saudável, precisávamos nos revezar tomando conta dele. Desde que Zoe se mudara, porém, minha casa era seu lar principal. Sidney levantou a tampa do tanque e ofereceu a mão para que a criaturinha de escamas douradas subisse correndo. Ele a olhou com veneração, e eu não podia culpá-lo.

— Ele está nessa forma faz um tempo — ela disse. — Quer umas férias? — Pulinho podia existir em sua forma viva ou ser transformado numa estatuazinha, o que ajudava a evitar perguntas constrangedoras quando alguém vinha visitar. Mas só ela conseguia transformá-lo.

— Sim. Ele vive tentando comer minhas tintas. E não quero que me veja dando um beijo de despedida em você.

Ela fez um carinho de leve no queixo dele e falou as palavras que o transformavam em estátua. A vida era sem dúvida mais fácil assim, mas a saúde dele exigia que o libertássemos de vez em quando. Além disso, tinha me apegado ao bichinho.

— Fico com ele um pouco — ela disse, colocando a pedra na bolsa. Mesmo inerte, era bom para ele ficar perto dela.

Livre dos olhinhos redondos do callistana, dei um longo beijo de despedida nela, daqueles que nunca terminam. Deixei as mãos no rosto dela.

— Plano de fuga no 17 — falei. — Fugir e abrir uma barraca de suco em Fresno.

— Por que Fresno?

— Parece um bom lugar pra tomar suco.

Ela sorriu e me beijou de novo. Os “planos de fuga” eram uma brincadeira entre nós, sempre mirabolantes e numerados ao acaso. Normalmente eu os inventava na hora. O triste, porém, era que passávamos muito mais tempo pensando neles do que em qualquer plano real. Era difícil, mas ambos sabíamos muito bem que estávamos vivendo cada momento, com o futuro incerto.

Romper aquele segundo beijo também foi difícil, mas por fim ela conseguiu e fiquei olhando enquanto se afastava. Meu apartamento parecia mais sombrio sem ela.

Levei as outras caixas que estavam no carro para dentro e examinei os tesouros que havia nelas. A maioria dos vinis era dos anos 1960 e 1970, com alguns dos anos 1980 aqui e ali. Não estavam organizados, mas nem pensei em arrumá-los. Quando Sydney parasse de pensar que tinham sido um desperdício de dinheiro, não conseguiria se conter e acabaria arrumando-os por artista, gênero ou cor. Por enquanto, coloquei a vitrola na sala e peguei um álbum ao acaso: Machine Head, do Deep Purple.

Eu ainda tinha algumas horas até o jantar e me agachei diante de um cavalete, olhando para a tela em branco enquanto pensava sobre o trabalho para a aula de pintura a óleo avançada: um autorretrato. Não precisava ser exatamente igual. Podia ser abstrato. Podia ser qualquer coisa, desde que me representasse. E eu não sabia o que fazer. Seria capaz de pintar qualquer pessoa que conhecia. Ainda que não conseguisse capturar exatamente aquele olhar de arrebatamento que Sydney tinha em meus braços, poderia retratar a aura ou a cor dos olhos dela. Poderia recriar o rosto melancólico e frágil da minha amiga Jill Mastrano Dragomir, uma jovem princesa Moroi. Poderia pintar rosas flamejantes em homenagem à minha ex-namorada, que havia partido meu coração mas, mesmo assim, ganhado minha admiração.

Mas eu mesmo? Não sabia o que fazer. Talvez fosse só um bloqueio artístico. Talvez eu só não me conhecesse. Enquanto olhava fixamente para a tela, cada vez mais frustrado, lutei contra a ânsia de ir até o armário de bebidas esquecido e pegar um copo. O álcool nem sempre me tornava um bom artista, mas costumava inspirar alguma coisa. Quase conseguia sentir o gosto da vodca. Poderia misturar com suco de laranja e fingir que estava sendo saudável. Meus dedos tremeram e meus pés quase me levaram até a cozinha, mas resisti. A seriedade nos olhos de Sydney brilhou na minha mente e voltei a me concentrar na tela. Eu podia fazer aquilo sóbrio. Havia prometido que só tomaria uma dose por dia e vinha me mantendo fiel à promessa. E, por enquanto, precisava daquela dose no fim do dia, quando ia me deitar. Eu não dormia bem. Nunca tinha dormido, em toda a minha vida, então qualquer ajuda era bem-vinda.

Mas minha decisão de ficar sóbrio não me trouxe inspiração e, às cinco da tarde, a tela continuava em branco. Levantei e me alonguei, sentindo o retorno daquela velha escuridão. Fiquei mais nervoso que triste dessa vez, além de frustrado por não conseguir pintar. Meus professores de arte diziam que eu tinha talento, mas, em horas como aquela, eu me achava o moleque mimado que a maioria das pessoas pensava que eu era, destinado a uma vida de fracassos. Era especialmente deprimente quando me comparava a Sydney, que sabia tudo sobre todas as coisas e se daria bem em qualquer carreira que escolhesse. Esquecendo o problema entre vampiros e humanos, eu precisava pensar o que tinha para oferecer a ela. Não conseguia nem pronunciar metade das coisas que a interessavam, muito menos conversar sobre elas. Se um dia conseguíssemos ter uma vida normal juntos, ela sairia para pagar as contas e eu ficaria em casa fazendo faxina. E nem nisso era muito bom. Se ela só quisesse chegar em casa à noite e encontrar um cara bonito com um cabelo legal, pelo menos isso eu podia garantir.

Eu sabia que esses medos que me consumiam estavam sendo ampliados pelo espírito. Nem todos eram reais, mas era difícil ignorá-los. Dei as costas para o quadro e saí, na esperança de encontrar alguma distração na noite que caía. O sol estava se pondo e o anoitecer do inverno em Palm Springs mal pedia um casaco leve. Era o período favorito dos Moroi, quando ainda havia luz, mas não o bastante para incomodar. Conseguíamos lidar com um pouco de luz, ao contrário dos Strigoi, os vampiros mortos-vivos que matavam para conseguir sangue. O sol os destruía, o que era uma vantagem para nós. Toda ajuda para lutar contra eles era bem-vinda.

Dirigi até Vista Azul, um bairro a dez minutos do centro da cidade que abrigava a Escola Preparatória Amberwood, o internato particular que Sydney e o resto do nosso grupo heterogêneo frequentavam. Normalmente Sydney era a motorista do grupo, mas essa honra duvidosa havia recaído sobre mim naquela noite, enquanto ela saía às pressas para sua reunião clandestina com o clã das bruxas. Todo o grupo estava esperando no meio-fio em frente ao alojamento feminino quando estacionei. Inclinei-me sobre o banco de passageiro e abri a porta.

— Todos a bordo — eu disse.

Eles entraram correndo. Eram cinco agora, além de mim, o que daria um sete da sorte se Sydney estivesse lá. Quando chegamos a Palm Springs, éramos só quatro. Jill, o motivo por que estávamos ali, sentou-se correndo ao meu lado e abriu um sorriso.

Se Sydney era a principal força tranquilizante na minha vida, Jill era a segunda. Ela só tinha quinze anos, sete a menos que eu, mas possuía um encanto e uma sabedoria irradiantes. Sydney podia ser o amor da minha vida, mas Jill me entendia como ninguém. Era meio difícil não entender, com nosso laço psíquico. Ele havia sido criado quando usei o espírito para salvar a vida dela no ano anterior. E quando digo salvar, estou falando sério. Jill esteve tecnicamente morta — por menos de um minuto, mas morta. Usei o poder do espírito para realizar um milagre de cura e trazê-la de volta à vida antes que ela partisse para o outro mundo. Isso nos ligou com um laço que lhe permitia ver e sentir o que se passava na minha cabeça — mas não o contrário.

Pessoas trazidas de volta à vida daquele jeito eram chamadas de “beijadas pelas sombras”, e só o nome bastaria para perturbar qualquer um. Jill tinha o azar extra de ser uma das duas remanescentes de uma linhagem minguante da realeza Moroi. Isso ainda era novidade para ela, e sua irmã, Lissa, rainha Moroi e grande amiga minha, precisava que Jill permanecesse viva para continuar no trono. Quem se opunha ao governo liberal de Lissa queria a morte de Jill, para invocar uma antiga lei que exigia que o monarca tivesse outro membro vivo na família. Assim, alguém teve a ideia supostamente genial de mandar Jill se esconder no meio de uma cidade humana no deserto. Afinal, que vampiro ia querer morar lá? Era uma pergunta que eu vivia me fazendo.

Os três guarda-costas de Jill sentaram no banco traseiro. Eram todos dampiros, uma raça mestiça que remontava à época em que humanos e vampiros ainda viviam juntos. Eles eram mais fortes e rápidos que o resto de nós, o que os tornava guerreiros ideais na batalha contra os Strigoi e os assassinos da realeza. Eddie Castile era o líder do grupo, um guardião sólido e confiável que estava com Jill desde o início. Angeline Dawes, a ruivinha esquentada, era um pouco menos confiável. Na verdade, não era nem um pouco confiável, mas arrasava nas lutas. O mais novo reforço do grupo era Neil Raymond, também conhecido como Alto, Certinho e Chato. Por motivos que eu não entendia muito bem, Jill e Angeline pareciam achar que o comportamento rígido dele era sinal de caráter nobre. O fato de que tinha estudado na Inglaterra e adquirido um leve sotaque britânico parecia excitar o estrogênio delas ainda mais.

A última integrante do grupo ficou parada na porta do carro, recusando-se a entrar. Zoe Sage, a irmã de Sydney.

Ela se debruçou na janela e me encarou com olhos castanhos quase iguais aos de Sydney, mas um pouco menos dourados.

— Não tem lugar — ela disse. — Não cabe todo mundo no seu carro.

— Não é verdade — eu disse para ela. Seguindo a deixa, Jill se aproximou de mim. — Cabem três neste banco. O último dono até colocou um cinto de segurança extra. — Embora fosse mais seguro para os tempos modernos, Sydney quase tivera um ataque cardíaco ao saber da mudança no estado original do Mustang. — Além disso, somos uma família, certo? — Para termos acesso fácil uns aos outros, tínhamos dito em Amberwood que éramos todos irmãos ou primos. No caso de Neil, porém, os alquimistas tinham finalmente desistido de inventar um parentesco porque as coisas já estavam ficando ridículas.

Zoe olhou para o lugar vago durante vários segundos. Por mais que o assento realmente fosse longo, ela ficaria apertadinha com Jill. Zoe estava em Amberwood fazia um mês, mas ainda tinha todas as reservas e preconceitos do seu grupo em relação a vampiros e dampiros. Eu os conhecia muito bem porque Sydney também os tivera. Era irônico porque a missão dos alquimistas era manter o mundo dos vampiros escondido dos outros humanos, que eles consideravam incapazes de lidar com o sobrenatural. Os alquimistas eram movidos pela crença de que minha raça era uma parte perversa da natureza que devia ser ignorada e mantida longe dos humanos, senão os corromperíamos com nossa maldade. Apesar dessa aversão, eles nos ajudavam e eram úteis em situações como a de Jill, quando era preciso fazer negociações secretas com autoridades humanas e funcionários da escola. Eram ótimos em fazer as coisas acontecerem. Assim, Sydney tinha sido recrutada no começo para facilitar a vida de Jill no exílio, já que os alquimistas não queriam uma guerra civil entre os Moroi. E havia pouco tempo mandaram Zoe como aprendiz, tornando um pé no saco esconder nossa relação.

— Não precisa ter medo — eu disse. Não podia ter falado nada que a motivasse mais. Ela queria se tornar uma superalquimista, principalmente para impressionar o pai delas, que, pelo que concluí depois de várias histórias, era um grande babaca.

Zoe respirou fundo, desconfortável. Sem dizer outra palavra, entrou ao lado de Jill e bateu a porta, apertando-se o máximo possível contra ela.

— Sydney devia ter deixado o SUV — ela murmurou um pouco depois.

— Onde está Sage, aliás? A mais velha, quero dizer — corrigi, dando partida no carro. — Não que eu não goste de ser o chofer de vocês. Devia ter me trazido um quepe preto, Chave de Cadeia. — Cutuquei Jill, que me cutucou de volta. — Podia me fazer um no clube de costura.

— Ela saiu para fazer um projeto da sra. Terwilliger — Zoe respondeu, em tom desaprovador. — Ela vive fazendo essas coisas. Não entendo por que uma pesquisa de história precisa levar tanto tempo.

Mal sabia Zoe que o tal projeto envolvia a iniciação de Sydney no clã da professora. A magia humana ainda era estranha e misteriosa para mim — e completamente detestável para os alquimistas —, mas, pelo jeito, Sydney tinha um talento natural para a coisa. Não era nenhuma surpresa: ela tinha um talento natural para tudo. Havia vencido seus medos da magia, assim como vencera o medo que tinha de mim, e agora estava completamente imersa no aprendizado do ofício, ao lado de sua mentora estabanada mas amável, Jackie Terwilliger. Dizer que os alquimistas não aprovariam era um eufemismo. Na verdade, era difícil saber o que os deixaria mais furiosos: que ela estivesse aprendendo as artes arcanas ou namorando um vampiro. Seria cômico se não fosse pelo meu medo de que os fanáticos mais violentos entre eles fizessem algo terrível com Sydney caso ela fosse descoberta. Era por isso que a companhia constante de Zoe tinha tornado tudo mais perigoso nos últimos tempos.

— Porque é a Sydney — Eddie disse, do banco de trás. Pelo espelho retrovisor, vi o sorriso tranquilo no rosto dele, embora houvesse uma atenção constante em seus olhos, sempre alertas para qualquer perigo. Ele e Neil haviam sido treinados pelos guardiões, uma organização de dampiros treinados para proteger os Moroi. — Dedicar-se cem por cento a uma tarefa é pouco para ela.

Zoe meneou a cabeça, não vendo tanta graça quanto a gente.

— É uma aula idiota. Ela só tem que passar.

Não, pensei. Ela tem que aprender. Sydney não se alimentava de conhecimento só por vocação. Fazia isso porque adorava estudar. O que adoraria mais do que qualquer outra coisa era se entregar à intensidade acadêmica da faculdade, onde poderia aprender tudo o que quisesse. Em vez disso, tinha sido criada para o negócio da família, obedecendo quando os alquimistas a mandavam para novas missões. Já tinha se formado no ensino médio, mas tratava esse segundo último ano tão seriamente quanto tinha tratado da primeira vez, louca para aprender tudo o que pudesse.

Algum dia, quando tudo isso acabar e Jill estiver em segurança, vamos fugir. Eu não sabia para onde, nem como, mas Sydney resolveria esses detalhes. Fugiria das garras dos alquimistas e viraria a dra. Sydney Sage, Ph.D., enquanto eu... bom, eu faria alguma coisa.

Senti uma mão delicada tocar meu braço e baixei os olhos rapidamente. Jill me encarava com carinho em seus olhos brilhantes cor de jade. Ela sabia em que eu estava pensando, sabia das fantasias que costumava inventar. Retribuí com um sorriso frágil.

Atravessamos a cidade até os arredores de Palm Springs, onde ficava a casa de Clarence Donahue, o único Moroi louco o bastante para morar naquele deserto antes de aparecermos no outono anterior. O velho Clarence era meio maluco, mas havia acolhido nosso grupo confuso de Moroi e dampiros e nos deixava usar sua fornecedora/ governanta. Os Moroi não precisavam matar para tomar sangue, como os Strigoi, mas precisávamos beber pelo menos algumas vezes por semana. Felizmente, havia muitos humanos no mundo que ficavam felizes em nos dar seu sangue em troca das endorfinas causadas pela mordida dos vampiros.

Encontramos Clarence na sala, sentado em sua enorme poltrona de couro e lendo um livro antigo com uma lupa. Ele levantou os olhos, espantado com nossa chegada.

— Vocês aqui numa quinta! Que surpresa agradável!

— Hoje é sexta, sr. Donahue — Jill disse, com doçura, inclinando-se para dar um beijo no rosto dele.

Ele a olhou com carinho.

— É mesmo? Mas vocês não vieram aqui ontem? Enfim, não importa. Tenho certeza que Dorothy vai ter o maior prazer em servir vocês.

Dorothy, a velha governanta dele, realmente sentia muito prazer em nos servir. Havia tirado a sorte grande quando eu e Jill chegamos em Palm Springs. Moroi mais velhos não bebiam tanto sangue quanto os mais jovens e, embora Clarence ainda pudesse lhe dar um barato ocasional, as nossas visitas frequentes a deixavam quase constantemente chapada. O que ninguém além de Jill sabia era que, embora o grupo só trouxesse Jill duas ou três vezes por semana, eu vinha todos os dias beber o sangue de Dorothy. Devia ser por isso que Clarence estava tão confuso em relação ao dia da semana. Eu nunca tinha ficado sedento por sangue em momentos íntimos com Sydney, e achava que nunca ficaria. No entanto, por mais que ela tivesse superado seus medos em relação aos vampiros, o fato de eu beber sangue ainda a deixava um pouco nauseada, e eu não queria correr o risco de pensar em mordê-la no calor do momento. Outros Moroi faziam esse tipo de coisa entre si e com os dampiros, mas eu não faria isso com ela. Era o corpo dela que eu queria, não o sangue.

Jill foi correndo até Dorothy.

— Posso ir? — A velhinha fez que sim, ansiosa, e as duas saíram para acomodações mais privadas. Um olhar de repulsa passou pelo rosto de Zoe, mas ela não falou nada. Sua expressão e a forma como sentou longe de todos a deixavam tão parecida com a Sydney de antigamente que quase sorri.

Angeline estava praticamente pulando no sofá de ansiedade.

— O que tem pra jantar? — Ela tinha um sotaque sulista estranho por ter crescido numa comunidade rural de Moroi, dampiros e humanos nas montanhas, que era o único lugar, até onde eu sabia, em que viviam livremente juntos e casavam entre si. Todos os outros de suas respectivas raças os viam com um misto de horror e fascínio. Por mais interessante que fosse essa brecha, morar com eles nunca havia passado pela minha cabeça nas minhas fantasias sobre o futuro. Eu odiava acampar.

Ninguém respondeu. Angeline olhou de um para outro.

— E então? Por que não tem comida aqui? — Os dampiros não bebiam sangue e podiam comer os alimentos normais dos humanos. Os Moroi também precisavam desse tipo de comida, mas não nas mesmas quantidades. Já o metabolismo rápido dos dampiros requeria muita energia.

Aqueles encontros regulares haviam se tornado uma espécie de jantar familiar, não apenas de sangue, mas também de comida normal. Era uma boa maneira de fingir que levávamos uma vida comum.

— Sempre tem comida — ela comentou, caso nunca tivéssemos percebido. — Gostei daquele prato indiano que a gente comeu um dia desses. Masala-alguma-coisa, ou seja lá o que for. Mas acho que não deveríamos comer mais lá até eles começarem a chamar de comida nativo-americana. É mais politicamente correto.

— Normalmente é a Sydney quem cuida da comida — Eddie disse, ignorando a tendência que Angeline tinha de mudar de assunto.

— Normalmente, não — corrigi. — Sempre.

O olhar de Angeline se voltou para Zoe.

— Por que não se lembrou de pegar alguma coisa pra gente comer?

— Porque esse não é meu trabalho! — Zoe ergueu a cabeça. — Estamos aqui para manter o disfarce de Jill e garantir que ela fique escondida. Não tenho que fornecer comida pra vocês.

— Fornecer em que sentido? — perguntei. Eu sabia muito bem que era maldade dizer uma coisa dessas, mas não consegui resistir. Ela levou um tempo para entender o duplo sentido. Primeiro ficou pálida, depois vermelha de raiva.

— Nenhum! Não sou empregada de vocês. E a Sydney também não. Não entendo por que ela faz tudo pra vocês. Só deveria cuidar das coisas essenciais para sobrevivência. Pedir pizza não é uma delas.

Fingi um bocejo e me recostei no sofá.

— Talvez ela ache que, se estivermos bem alimentados, vocês duas não parecerão tão apetitosas.

Zoe ficou horrorizada demais para responder e Eddie me lançou um olhar furioso.

— Chega. Não é tão difícil pedir pizza. Deixem que eu faço isso.

Quando ele terminou a ligação, Jill voltou com um sorriso no rosto. Pelo jeito, havia presenciado a conversa. O laço não ficava ativo o tempo todo, mas parecia estar forte naquele dia. Acabado o dilema da pizza, todo mundo entrou numa camaradagem inesperada — quer dizer, todo mundo menos Zoe, que só ficava olhando e esperando. As coisas estavam surpreendentemente cordiais entre Angeline e Eddie, apesar do recente namoro desastroso dos dois. Ela tinha superado e agora fingia estar obcecada por Neil. Se Eddie ainda estava magoado, não demonstrava, o que era típico dele. Sydney tinha me contado que ele estava secretamente apaixonado por Jill, outra coisa que era bom em esconder.

Eu aprovaria a relação dos dois, mas Jill, assim como Angeline, fingia estar apaixonada por Neil. As duas estavam mentindo, mas ninguém, nem mesmo Sydney, acreditava em mim.

— Gostou do que a gente pediu? — Angeline perguntou para Neil. — Você não falou nada.

Neil balançou a cabeça, impassível. O cabelo castanho dele tinha um corte insuportavelmente curto e eficiente. Era o tipo de coisa prática que os alquimistas adorariam.

— Não posso perder tempo com coisas bobas como pepperoni e cogumelos. Se tivesse frequentado minha escola em Devonshire, entenderia. Em uma das matérias do segundo ano, nos deixaram sozinhos num pântano para aprendermos técnicas de sobrevivência. Depois que você passa três dias comendo galhos e arbustos, aprende a não discutir sobre a comida que vem até você.

Angeline e Jill suspiraram como se aquela fosse a coisa mais máscula que já tivessem ouvido. Eddie estava com uma expressão que refletia o que eu pensava: sem saber se o cara era tão sério quanto parecia ou só um bom ator com falas apaixonantes.

O celular de Zoe tocou. Ela olhou para a tela e levantou afobada.

— É meu pai. — Sem olhar para trás, atendeu e saiu correndo da sala.

Eu não era o tipo intuitivo, mas senti um calafrio na espinha. O sr. Sage não era o tipo de pai carinhoso que ligava para dizer oi em horário comercial, quando sabia que Zoe estava em missão alquimista. Se havia algum problema com ela, também havia com Sydney. E isso me preocupou.

Mal prestei atenção no resto da conversa enquanto contava os segundos até Zoe voltar. Quando finalmente entrou na sala, seu rosto pálido indicava que havia alguma coisa errada. Algo ruim tinha acontecido.

— O que foi? — perguntei. — Sydney está bem? — Tarde demais, percebi que não deveria ter demonstrado nenhuma preocupação especial com Sydney. Nem nossos amigos sabiam da nossa relação. Felizmente, toda a atenção estava voltada para Zoe.

Devagar, ela meneou a cabeça, com os olhos arregalados e incrédulos.

— N-não sei. São meus pais. Eles vão se divorciar.


2

 

Sydney

EU NÃO IMAGINAVA QUE UMA INICIAÇÃO SECRETA num clã de bruxas fosse começar com um chá.

— Querida, me passa o biscoitinho?

Peguei rápido o prato de porcelana da mesa de centro e entreguei para Maude, uma das bruxas mais velhas do grupo e a anfitriã, que havia nos oferecido a casa naquela noite. Estávamos sentadas num círculo de cadeiras dobráveis em sua sala de estar impecável e a sra. Terwilliger, minha professora de história, comia um sanduíche de pepino ao meu lado. Eu estava nervosa demais para falar qualquer coisa e só fiquei bebendo chá enquanto as outras conversavam sobre assuntos triviais. Maude estava servindo chá de ervas, então não precisei quebrar o acordo de cafeína com Adrian. Mas não acharia ruim ter uma desculpa caso ela só estivesse servindo chá preto.

Éramos sete ao todo e, embora permitissem qualquer quantidade de candidatas merecedoras no grupo, todas pareciam especialmente contentes por ter um número primo. Dava sorte, Maude insistiu. Vez ou outra, Pulinho colocava a cabeça para fora e depois entrava correndo debaixo dos móveis. Como nenhuma bruxa ficava surpresa com callistanas, eu o havia deixado livre naquela noite.

Alguém começou a falar dos prós e contras das iniciações de inverno em comparação às de verão e me distraí. Pensei em como estariam as coisas na mansão de Clarence. Desde setembro, era eu a responsável por levar Jill para seus fornecimentos, e era estranho (e um pouco triste) estar ali enquanto todos se divertiam juntos. Com uma pontada de preocupação, lembrei de repente que não havia planejado o jantar. Adrian seria apenas o motorista, então não tinha dito mais nada a ele. Será que Zoe teria assumido o controle? Provavelmente não. Reprimi meus instintos maternais que diziam que todos morreriam de fome. Claro que alguém seria capaz de pedir comida.

Pensar em Adrian me trouxe de volta as memórias doces da nossa tarde juntos. Mesmo horas depois, eu ainda sentia os lugares em que ele tinha me beijado. Respirei fundo e tentei me concentrar, com medo de que minhas futuras irmãs percebessem que magia era a última coisa na minha cabeça. Na verdade, naqueles dias, parecia que tudo era a última coisa na minha cabeça, exceto ficar seminua com Adrian. Tinha me orgulhado a vida toda de preferir, estoicamente, a mente ao corpo, e estava meio surpresa que alguém tão cerebral como eu pudesse se acostumar à atividade física com tanta rapidez. Às vezes me dizia que era um instinto natural. Mas tinha que admitir a verdade: meu namorado era incrivelmente atraente, mesmo sendo vampiro, e eu não conseguia tirar as mãos dele.

Percebi então que tinham me feito uma pergunta. Relutante, parei de pensar em quando Adrian desabotoou minha camisa e me virei para a bruxa. Levei um tempo para lembrar o nome dela: Trina. Tinha vinte e poucos anos e era a pessoa mais nova ali depois de mim.

— Desculpe, não ouvi — falei.

Ela sorriu.

— Eu disse que você faz alguma coisa com vampiros, não é verdade?

Ah, eu fazia várias coisas com um vampiro em particular, mas claro que não era isso que ela queria dizer.

— Mais ou menos — respondi, evasiva.

A sra. Terwilliger riu.

— Os alquimistas guardam muito bem seus segredos.

Algumas bruxas assentiram. Outras só me olharam com curiosidade. O mundo mágico das bruxas não se cruzava com o dos vampiros. A maioria deles, de ambos os lados, nem sabia uns dos outros. Descobrir sobre Moroi e Strigoi tinha sido uma surpresa para algumas ali, o que significava que os alquimistas estavam fazendo um bom trabalho. Pela reação delas, ficou claro que já haviam se deparado com coisas místicas e sobrenaturais suficientes para aceitar que criaturas mágicas bebedoras de sangue andavam pela Terra e que existiam grupos como os alquimistas escondendo essa informação a sete chaves.

As bruxas aceitavam o paranormal tranquilamente. Os alquimistas nem tanto. O grupo em que eu havia sido criada achava que humanos precisavam ficar livres da magia para manter a alma pura. Em outros tempos, eu também tinha acreditado nisso, e pensado que criaturas como vampiros não podiam ser amigos. Nessa época eu também achava que os alquimistas falavam a verdade. Agora eu sabia que havia pessoas na organização que mentiam tanto para os humanos como para os Moroi e que chegariam a extremos para proteger seus próprios interesses, doesse a quem doesse. Com os olhos abertos para a verdade, não podia mais obedecer de maneira cega aos alquimistas, embora tecnicamente ainda trabalhasse para eles. Entretanto, também não estava em rebelião (como meu amigo Marcus), visto que algumas de suas doutrinas originais ainda mereciam crédito.

No fim das contas, a verdade era que eu estava trabalhando por conta própria.

— Sabe com quem você deveria conversar? Se ela quiser falar com você, pelo menos? Inez. Ela teve vários encontros com aqueles monstros. Não os vivos, os mortos — disse Maude. Ela havia reconhecido imediatamente o lírio na minha bochecha que me identificava (para aqueles que sabiam o que procurar) como alquimista. Era uma tatuagem feita de sangue vampírico e outros componentes que nos davam parte da capacidade de cura e resistência deles, ao mesmo tempo que nos impedia de discutir questões sobrenaturais com pessoas que não conheciam o mundo mágico. Pelo menos, era o que a minha costumava fazer.

— Quem é Inez? — perguntei.

Várias bruxas começaram a rir baixinho.

— Acho que a mais poderosa da nossa ordem, pelo menos neste lado do país — Maude disse.

— Neste lado do mundo — a sra. Terwilliger corrigiu. — Ela tem quase noventa anos e já viu e fez coisas que a maioria de nós nem consegue imaginar.

— Por que não está aqui? — perguntei.

— Ela não faz parte de nenhum clã — outra bruxa, chamada Alison, explicou. — Tenho certeza de que já participou de um, mas pratica por conta própria desde... sei lá, desde que ouvi falar dela. É difícil para ela andar por aí agora, então passa a maior parte do tempo sozinha. Mora numa casa antiga perto de Escondido e quase nunca sai.

Clarence surgiu na minha cabeça.

— Acho que conheço uma pessoa com quem se daria bem.

— Ela lutou contra muitos Strigoi no passado — Maude comentou. — Deve conhecer alguns feitiços que podem ser úteis para você. E as histórias que tem sobre eles... Era uma lutadora e tanto. Lembro que contou sobre um que tentou beber o sangue dela. — A bruxa estremeceu. — Mas parece que não conseguiu e ela aproveitou para acabar com ele.

Congelei enquanto erguia a xícara.

— Como assim, não conseguiu?

Maude deu de ombros.

— Não lembro os detalhes. Talvez ela tivesse algum feitiço de proteção.

Senti meu coração acelerar enquanto uma lembrança sombria me voltava à mente. No ano anterior, eu tinha caído na armadilha de uma Strigoi que queria beber meu sangue. Ela não conseguiu, teoricamente porque o gosto era ruim. O motivo ainda era um mistério, que alquimistas e Moroi tinham deixado de lado quando surgiram outras questões mais importantes. Mas eu não tinha esquecido. Era algo que vivia me incomodando, a pergunta sem resposta sobre o que em mim a havia repelido.

A sra. Terwilliger, acostumada às minhas expressões, adivinhou meus pensamentos.

— Se quiser conversar com ela, posso arranjar um encontro entre vocês. — Seus lábios se abriram num sorriso. — Mas não garanto que consiga tirar alguma coisa útil dela. Ela tem um jeito muito... peculiar de revelar as coisas.

Maude ironizou:

— Não era bem nessa palavra que eu estava pensando, mas a sua é mais gentil. — Ela olhou para um relógio de pêndulo ornado e pôs a xícara na mesa. — Bom, então. Vamos começar?

Eu me esqueci de Inez e até de Adrian conforme o medo tomava conta de mim. Em menos de um ano, tinha me afastado muito da doutrina alquimista que antes governara minha vida. Não via nada de mal em me relacionar com vampiros agora, mas, vez por outra, lembrava de avisos contra a magia. Tentei me fortalecer com o pensamento de que evitar magia era um caminho que eu já havia superado e que ela só era má se usada para o mal. Membros do Stelle, como esse grupo se denominava, juravam não ferir ninguém com seus poderes, a menos que fosse para se proteger ou proteger outras pessoas.

Realizamos o ritual no quintal de Maude, um terreno grande com palmeiras e flores de inverno. Fazia uns dez graus lá fora, agradável se comparado com o fim de janeiro em outras partes do país, mas um tempo para se usar jaqueta em Palm Springs. Ou melhor, manto. A sra. Terwilliger havia me dito que não importava o que eu vestisse naquela noite, pois me dariam o que fosse necessário. E pelo visto o necessário era um manto composto de seis retalhos de veludo em cores diferentes. Eu me senti como uma gata-borralheira quando o joguei sobre os ombros.

— Esse é nosso presente para você — a sra. Terwilliger explicou. — Cada uma costurou e contribuiu com um retalho. Você vai usar esse manto sempre que tivermos uma cerimônia formal. — As outras vestiam mantos parecidos com quantidades diferentes de retalhos, dependendo de qual tinha sido o número de bruxas no clã quando foram iniciadas.

O céu estava limpo e sem estrelas, e a lua cheia brilhava como uma pérola reluzente contra a escuridão. Era a melhor hora para fazer magia.

Percebi então que as árvores no quintal estavam dispostas em círculo. As bruxas formaram uma roda dentro dele, diante de um altar de pedra equipado com velas e incenso. Maude indicou que eu deveria me ajoelhar no centro, em frente a ela, enquanto assumia uma posição perto do altar. Uma brisa se agitava ao nosso redor e, embora eu costumasse pensar em bosques enevoados quando imaginava rituais arcanos, as palmeiras altas e o ar fresco pareciam certos também.

Eu tinha relutado em entrar para o grupo e a sra. Terwilliger precisou me garantir centenas de vezes que eu não estaria jurando fidelidade a nenhum deus primitivo. “Você vai fazer um juramento à magia”, ela havia me explicado. “À busca do conhecimento mágico e ao uso dela para o bem. Na verdade, é um voto intelectual. Parece uma coisa que você toparia.”

E topei. Então me ajoelhei diante de Maude e o ritual começou. Ela me consagrou aos elementos, primeiro andando ao meu redor com uma vela para representar o fogo. Depois borrifou água na minha testa. Pétalas de violeta amassadas foram usadas no lugar da terra e uma baforada de incenso invocou o ar. Algumas tradições usavam uma lâmina para esse elemento e foi bom saber que esse não era o caso.

Os elementos eram o coração da magia humana, e da magia vampírica também. Mas, assim como os Moroi, as bruxas não falavam do espírito. Essa era uma magia redescoberta recentemente e poucos Moroi a usavam. Quando tinha perguntado à sra. Terwilliger sobre isso, ela não conseguira me dar uma boa resposta. Sua melhor explicação era que a magia humana era tirada do mundo exterior, onde residiam os elementos físicos. O espírito, ligado à essência da vida, ardia dentro de todos nós, portanto já estava presente. Pelo menos era o palpite dela. O espírito era um mistério para os usuários de magia humana e vampírica, e seus efeitos eram temidos e desconhecidos — e era por isso que eu não dormia à noite, preocupada já que Adrian não conseguia ficar longe dele.

Quando Maude acabou com os elementos, disse:

— Faça seu juramento.

O juramento era em italiano, pois aquele clã tinha suas raízes no mundo romano medieval. A maior parte do que jurei estava de acordo com o que a sra. Terwilliger me dissera, uma promessa de usar magia com prudência e ajudar minhas irmãs. Eu havia decorado as palavras fazia um tempo e as pronunciei com perfeição. Enquanto falava, sentia uma energia arder dentro de mim, uma consciência agradável da magia e da vida que irradiava em torno de nós. Era doce e estimulante, e me perguntei se era essa a sensação do espírito. Quando terminei, levantei os olhos e o mundo pareceu mais claro e brilhante, com muito mais beleza e maravilha do que as pessoas comuns podiam ver. Mais do que nunca, acreditei que não havia mal na magia, a menos que você fosse atrás do mal.

— Qual é o seu nome entre nós? — Maude perguntou.

— Iolanthe — respondi prontamente. Significava “rosa púrpura” em grego e me ocorreu quando lembrei das várias vezes em que Adrian me contara sobre as faíscas roxas na minha aura.

Ela estendeu as mãos e me ajudou a levantar.

— Seja bem-vinda, Iolanthe. — Então, para minha surpresa, me deu um abraço carinhoso. As outras, saindo do círculo agora que o ritual havia terminado, também me abraçaram. A sra. Terwilliger foi a última. Ela me segurou por mais tempo do que as outras, e mais surpreendente do que tudo que eu tinha visto naquela noite foram as lágrimas em seus olhos.

— Você vai fazer coisas magníficas — ela disse com firmeza. — Estou muito orgulhosa de você, mais do que ficaria de qualquer filha.

— Mesmo depois de eu botar fogo na sua casa? — perguntei.

Ela retomou o ar irônico:

— Talvez exatamente por isso.

Eu ri e o clima sério se transformou em celebração. Voltamos para a sala, onde Maude trocou o chá por vinho quente, agora que a magia havia terminado. Não bebi, mas o nervosismo já havia passado fazia tempo. Eu estava leve e contente... e o mais importante era que, sentada ouvindo as histórias delas, senti que pertencia àquele lugar, uma coisa que nunca havia experimentado entre os alquimistas.

Meu celular tocou na bolsa, bem quando a sra. Terwilliger e eu estávamos finalmente nos preparando para sair. Era minha mãe.

— Desculpe — eu disse. — Preciso atender.

A sra. Terwilliger, que havia bebido mais vinho do que todas as outras, fez um aceno e se serviu de mais um copo. Ela ia pegar carona comigo, então não tinha por que se apressar. Atendi a caminho da cozinha, não muito surpresa por minha mãe estar ligando. Sempre nos falávamos e ela sabia que o fim de tarde era uma boa hora para conversar comigo. Mas, quando começou a falar, havia uma urgência em sua voz que deixou claro que aquela não era uma chamada de rotina.

— Sydney? Você falou com Zoe?

Meu alarme mental disparou.

— Hoje à tarde não. Aconteceu alguma coisa?

Minha mãe respirou fundo.

— Sydney... seu pai e eu estamos nos separando. Vamos nos divorciar.

Por um momento, o mundo girou e me apoiei no balcão da cozinha para manter o equilíbrio. Engoli em seco.

— Entendo.

— Sinto muito — ela disse. — Sei que você não estava esperando por isso.

Pensei um pouco.

— Não... não exatamente. Quer dizer, acho que... enfim, não é uma grande surpresa.

Certa vez, ela havia me dito que meu pai era mais relaxado na juventude. Era difícil imaginar, mas obviamente ela havia se casado com ele por algum motivo. Ao longo dos anos, ele foi ficando frio e rígido, lançando-se na causa alquimista com uma devoção que ganhou prioridade sobre todas as coisas na sua vida, inclusive as próprias filhas. Havia se tornado ríspido e cabeça-dura, e eu percebera fazia tempo que, aos olhos dele, eu era mais uma ferramenta para o bem maior do que uma filha.

Minha mãe, por sua vez, era engraçada e afetuosa, sempre disposta a demonstrar carinho e ouvir quando precisávamos dela. Tinha um sorriso contagiante... por mais que não andasse sorrindo muito nos últimos tempos.

— Sei que vai ser difícil emocionalmente para você e Carly — ela disse. — Mas não vai afetar tanto a vida de vocês.

Ponderei a escolha de palavras dela. Eu e Carly.

— Mas Zoe...

— É menor de idade e, mesmo trabalhando para os alquimistas, ainda está legalmente sob a tutela dos pais. Ou de um deles. Seu pai quer pedir guarda exclusiva para manter Zoe onde está. — Houve uma longa pausa. — Pretendo disputar com ele. E, se vencer, vou trazer sua irmã para morar comigo e ver se ela consegue levar uma vida normal.

Eu estava perplexa. Não conseguia imaginar o tipo de batalha que ela estava propondo.

— Precisa ser tudo ou nada? Vocês não podem ter guarda conjunta?

— Seria o mesmo que entregar minha filha nas mãos dele. Seu pai a controlaria... psicologicamente, quero dizer. Você é adulta. Consegue tomar suas próprias decisões e, mesmo tendo definido seu caminho, a forma como segue esse caminho é diferente. Você é você, ela é mais...

Ela não terminou a frase, mas eu entendi. Ela é mais parecida com ele.

— Se eu conseguir a custódia, vou mandar Zoe para uma escola comum e tentar garantir uma vida normal para ela, se não for tarde demais. Você deve me odiar por isso... por tirar sua irmã da causa de vocês.

— Não — respondi rápido. — Acho que... acho que é uma ótima ideia. — Se não for tarde demais.

Pude ouvir que ela estava com a voz um pouco embargada e me perguntei se estava contendo as lágrimas.

— Teremos de ir ao tribunal. Ninguém vai falar dos alquimistas, inclusive eu, mas vai haver muita discussão sobre adequação e análise de caráter. Zoe vai testemunhar... você e Carly também.

E foi então que entendi por que ela disse que aquilo seria difícil.

— Vocês querem que a gente escolha um de vocês.

— Quero que falem a verdade — ela disse com firmeza. — Não sei o que seu pai quer.

Eu sabia. Ele iria querer que eu falasse mal da minha mãe, que dissesse que ela era incapaz, apenas uma dona de casa que consertava carros por fora e não podia se comparar a um acadêmico sério como ele, que oferecia a Zoe todo tipo de experiências culturais e educacionais. Ele iria querer que eu fizesse isso pelo bem dos alquimistas. Iria querer que fizesse isso porque sempre conseguia as coisas do seu jeito.

— Amo você e apoio o que achar certo. — A coragem na voz da minha mãe era de partir o coração. Ela teria que lidar com mais do que complicações familiares. Os contatos alquimistas se estendiam por toda parte. Era possível que chegassem até o sistema jurídico. — Eu só queria que você ficasse preparada. Tenho certeza de que seu pai vai querer conversar com você também.

— Sim — eu disse, melancólica. — Não tenho dúvida. Mas e agora? Você está bem? — Zoe à parte, o divórcio seria uma mudança enorme na vida da minha mãe. O casamento dela podia ter se tornado difícil, mas eles haviam ficado juntos durante quase vinte e cinco anos. Sair de um relacionamento desses exigiria uma grande adaptação, independentemente das circunstâncias.

Senti que ela estava sorrindo.

— Estou bem. Estou na casa de uma amiga. E trouxe Cícero comigo.

Pensar que ela tinha levado o gato me fez rir, apesar da gravidade da conversa.

— Pelo menos tem companhia.

Ela riu também, mas havia uma fragilidade em seu tom.

— E minha amiga precisa de uns ajustes no carro dela, então juntamos o útil ao agradável.

— Bom, fico contente, mas se precisar de alguma coisa, qualquer coisa mesmo, dinheiro ou...

— Não se preocupe comigo. Cuide de você... e de Zoe também. É o mais importante agora. — Ela hesitou. — Não falei com ela ainda... ela está bem?

Estava? Pensei que dependia do conceito de “bem”. Minha irmã estava empolgada em aprender o ofício alquimista tão jovem, mas era arrogante e fria com meus amigos, como todos os outros alquimistas. Além disso, era uma sombra constante pairando sobre minha vida amorosa.

— Está ótima — tranquilizei minha mãe.

— Bom saber — ela disse, claramente aliviada. — Que bom que você está com ela. Não sei como ela vai receber a notícia.

— Tenho certeza de que vai entender seus motivos.

Era uma mentira, claro, mas eu não podia falar a verdade para minha mãe: que Zoe resistiria com unhas e dentes durante o processo todo.


3

 

Adrian

EU NÃO SABIA SE SYDNEY TERIA RECEBIDO UMA LIGAÇÃO dos pais ou só enfrentado a surpresa de Zoe, mas tinha certeza de que já saberia sobre o divórcio quando fosse visitá-la em sonho.

Os poucos usuários de espírito que eu conhecia eram muito bons em cura, mas nenhum podia andar por sonhos com tanta habilidade quanto eu. Eu gostava de saber que era bom em alguma coisa, e por incrível que pareça requeria um nível baixo de espírito: apenas um zumbido constante, em vez da explosão que a cura exigia. O lado ruim era que, ao contrário da pessoa que eu visitava, eu não estava dormindo — ficava num tipo de estado meditativo —, portanto, acabaria exausto se o sonho durasse muito tempo. Mas, como nunca dormia muito mesmo, não fazia grande diferença.

Levei Sydney para um sonho por volta da meia-noite, fazendo com que nos materializássemos em um dos lugares preferidos dela: o pátio da Getty Villa, um museu de história antiga em Malibu. Ela correu até mim imediatamente, com o olhar transtornado.

— Adrian...

— Fiquei sabendo — eu disse, segurando as mãos dela. — Estava lá quando Zoe recebeu o telefonema.

— Ela contou a pior parte a vocês?

Ergui a sobrancelha.

— Fica pior?

Então Sydney me contou da batalha sangrenta pela custódia que estava por vir. Embora eu entendesse a vontade de dar à filha uma vida normal, precisava admitir que meus motivos para torcer pela mãe delas eram bem egoístas. Se Zoe fosse embora de Palm Springs, as coisas ficariam muito mais fáceis para mim e Sydney. Mas eu sabia que a principal preocupação de Sydney era a ruptura de sua família, e a minha principal preocupação era sua felicidade. Uma parte específica da história chamou minha atenção.

— Acha mesmo que seu pai pode coagir o juiz? — perguntei. Isso nunca teria me passado pela cabeça, mas não parecia tão impossível. Os alquimistas conseguiam criar identidades novas, colocar um grupo de dampiros e Moroi numa escola particular sem aviso prévio e esconder mortes de Strigoi da imprensa.

Ela meneou a cabeça e sentou à beira da fonte.

— Sei lá. Talvez não precise se Zoe fizer questão de ficar com ele. Não sei como esse tipo de audiência funciona.

— E o que você vai fazer? — perguntei. — O que vai falar?

Ela me olhou com calma.

— Não vou falar mal de nenhum dos dois, disso tenho certeza. Mas não sei quem vou defender. Vou ter que pensar. Entendo o ponto de vista da minha mãe e até concordo com ela. Mas, se eu ficar ao lado dela, Zoe vai me odiar para sempre, sem falar nos problemas que vou ter com meu pai e os alquimistas. — Um sorriso triste perpassou seus lábios. — Quando voltei pro quarto hoje, Zoe nem perguntou o que eu pensava. Simplesmente assumiu que a questão estava decidida e que eu ficaria do lado do nosso pai.

— Quando vai rolar?

— Não tão cedo. Ainda não marcaram uma data.

Ela ficou em silêncio e percebi que talvez fosse bom mudar de assunto.

— Como foi a iniciação? Vocês dançaram nuas ou fizeram algum sacrifício animal?

O sorriso dela se alargou.

— Chá e abraços.

Ela fez um resumo rápido da noite e não pude deixar de gargalhar quando imaginei Jackie enchendo a cara de vinho. Mas não me contou seu nome secreto, por mais que eu tentasse arrancá-lo dela.

— Não foi Jetta, foi? — perguntei, esperançoso. Sempre que eu precisava usar um nome falso, usava Jet Steele, porque, convenhamos, era o nome mais durão que existia.

— Não — ela disse, rindo. — De jeito nenhum.

Então ela perguntou sobre minha noite, naturalmente preocupada que ninguém tivesse comido na sua ausência. Conversamos por bastante tempo e, embora fosse difícil não me distrair com seus lábios perfeitos ou com seu decote, eu gostava dessas conversas em sonho. Claro que não me incomodava com nossos amassos à tarde, mas a verdade era que, antes de tudo, tinha me apaixonado pela beleza interior dela.

Como sempre, foi ela quem se deu conta da hora.

— Ah, Adrian. É hora de ir para a cama.

Eu me aproximei.

— Isso é um convite?

Ela me afastou de leve.

— Você entendeu o que quis dizer. Nunca fica bem quando está cansado. — Era um jeito sutil de dizer que o cansaço me deixava suscetível a ataques do espírito, e eu não podia contra-argumentar. Pelo seu olhar de preocupação, percebi que ela também não estava contente com o uso de espírito que aquele sonho exigia.

— Acha que consegue sair amanhã? — Os fins de semana eram sempre difíceis porque Zoe a seguia para todo lado.

— Não sei ainda. Vou tentar... Ai, meu Deus.

— Que foi?

Ela levou a mão à testa e soltou um resmungo.

— Pulinho. Deixei Pulinho na casa da bruxa. Ele estava correndo pra lá e pra cá durante a festa e fiquei tão perdida depois que minha mãe ligou que saí direto com a sra. Terwilliger.

Apertei a mão dela com força.

— Não se preocupe. Ele vai ficar bem. Uma noite selvagem na cidade, na casa de uma mulher mais velha... fico contente por ele.

— Que bom que é um pai orgulhoso. O problema é trazê-lo pra casa. Posso dar uma fugidinha e ver você amanhã à noite, mas acho que não vou ter tempo de passar lá. E acho que a sra. Terwilliger também vai estar ocupada.

— Ei — eu disse, um tanto indignado. — Acha que se você e Jackie não podem, é um caso perdido? Eu resgato o bichinho. Se ele quiser ser resgatado, pelo menos.

Ela sorriu.

— Seria ótimo. Mas achei que precisasse fazer seu projeto de arte.

O que eu estava oferecendo era uma coisa tão pequena — não exigia nenhum esforço, na verdade —, e senti um calorzinho no peito ao ver como era importante para ela. Sydney estava tão acostumada a ser responsável e ter de cuidar de todos os detalhes que devia ser uma surpresa quando alguém fazia um favor a ela.

— Vou ter tempo depois. Ela não vai ficar assustada quando aparecer um vampiro por lá, vai?

— Não. Só não mencione seu papel de pai. — Ela me beijou de leve, mas a puxei mais para perto e fiz o beijo durar muito, muito mais. Quando finalmente nos separamos, estávamos os dois sem ar.

— Boa noite, Adrian — ela disse, enfática.

Entendi a indireta e o sonho desapareceu ao nosso redor.

De volta ao meu apartamento, bebi minha dose diária, torcendo para que me fizesse dormir logo. Não funcionou. Antes, eu costumava tomar pelo menos três antes de cair num sono embriagado. Agora, meus dedos continuaram ao redor da garrafa de vodca, prestes a encher o copo de novo. Não enchi. O que era uma pena. Além da névoa agradável que o álcool trazia, também entorpecia o espírito por um tempo e, embora a magia fosse um vício gostoso, era bom ficar livre dela. Essa automedicação tinha me protegido dos efeitos negativos do espírito durante anos, mas aquele novo acordo estava permitindo que ele ganhasse força.

Mais alguns momentos se passaram e soltei a garrafa, cerrando o punho. Então me joguei na cama e enfiei a cabeça no travesseiro. Tinha um leve aroma de jasmim e cravo, de um perfume que eu tinha comprado para Sydney fazia pouco tempo. Ela não gostava muito de perfumes em geral, dizendo que o álcool e as substâncias químicas não faziam bem. Mas não teve argumentos contra a combinação pura e orgânica que eu havia encontrado, ainda mais quando soube do preço. Era pragmática demais para deixar que uma coisa daquelas fosse desperdiçada.

Fechei os olhos e desejei que ela estivesse ali comigo — não para transar, só pelo conforto da presença dela. Mas, considerando o risco de nossas tardes breves, era provável que uma noite juntos não acontecesse tão cedo, o que era uma pena. Eu tinha certeza de que dormiria se ela estivesse em meus braços. O frustrante era que meu corpo estava exausto, mas minha mente agitada se recusava a relaxar.

Finalmente caí no sono uma hora e meia depois, sendo despertado pelo alarme quatro horas mais tarde. Continuei na cama, com os olhos turvos cravados no teto, pensando se poderia cancelar a reunião que tinha marcado com uma colega para trabalhar num projeto. Sério, o que eu tinha na cabeça? Oito da manhã num sábado? Talvez estivesse mais louco do que temia.

Pelo menos nos encontraríamos num café. Ao contrário da minha querida alma gêmea, eu não tinha restrições com cafeína e pedi a maior xícara que eles serviam. O barista me garantiu que tinha mais de onde tinha vindo aquela. Do outro lado do café, minha colega me observou com o olhar irônico enquanto eu me aproximava da mesa.

— Bom dia, raio de sol. Bom ver que você já está todo animado e pronto pra começar o dia.

Levantei a mão em advertência enquanto me sentava.

— Nem vem. Vou precisar de pelo menos mais uma xícara para achar você charmosa e engraçada.

Ela sorriu.

— Não, sou sempre assim, de dia ou de noite.

Rowena Clark e eu havíamos nos conhecido no primeiro dia de aula de multimídia. Eu tinha sentado na mesa dela e dito: “Posso ficar aqui? Acho que a melhor maneira de aprender sobre arte é ao lado de uma obra-prima”. Eu podia estar apaixonado, mas ainda era Adrian Ivashkov.

Rowena me fixara um olhar frio. “Vamos deixar uma coisa bem clara. Consigo identificar cretinos de longe, e gosto de meninas, não de meninos, então se não aguentar que eu jogue umas verdades na sua cara, é melhor levar suas cantadinhas e seu gel de cabelo pra outro lugar. Não venho pra faculdade pra ouvir besteira de caras bonitinhos que nem você. Estou aqui para seguir uma carreira incerta em pintura e tomar cerveja depois da aula.”

Puxei minha cadeira para perto da mesa. “A gente vai se dar muito bem.”

E assim foi, tanto que nos juntamos para fazer um projeto em dupla para a aula de escultura ao ar livre. Logo teríamos que ir para o campus trabalhar na obra, mas, antes, precisávamos finalizar o rascunho que tínhamos começado no bar depois da aula no começo da semana. Eu tinha desistido do meu drinque antes de dormir para tomar uma cerveja com ela e, embora o álcool não tivesse muito efeito em mim, ficou claro que Rowena ficava bêbada fácil. Nosso rascunho não havia avançado muito.

— Ficou na balada até tarde? — ela perguntou.

Tomei um longo gole de café, sentindo uma pontinha de culpa porque Sydney estaria salivando se pudesse me ver naquela hora.

— Só fiquei acordado até tarde. — Bocejei. — Em que pé estamos?

Ela tirou da bolsa o nosso rascunho — um guardanapo de bar em que se lia: Inserir rascunho aqui.

— Humm — eu disse. — É um bom começo.

Depois de uma hora discutindo ideias, decidimos fazer uma escultura igual ao monólito de 2001: Uma odisseia no espaço, e então cobri-la com slogans de propaganda e jargão de internet. Para falar a verdade, eu tinha achado aquele filme muito chato, mas Rowena insistiu que era um símbolo da evolução avançada e que nosso projeto seria uma declaração irônica sobre a que ponto nossa sociedade tinha chegado. Aceitei principalmente porque não exigiria muito esforço. A pintura eu levava a sério, mas aquela era só uma matéria obrigatória que eu tinha que fazer.

Passamos boa parte do dia arranjando os materiais. Rowena tinha pegado a caminhonete de um amigo emprestada e fomos para uma loja de materiais de construção na esperança de encontrar um retângulo de concreto gigante para nosso monólito. Demos sorte e até encontramos alguns blocos menores para colocar na base.

— Podemos fazer um círculo — Rowena explicou. — E depois pintar os vários estágios da evolução. Macaco, homem das cavernas, até um cara moderninho mandando mensagem no celular.

— A gente não evoluiu dos macacos — falei enquanto nos esforçávamos para colocar o retângulo em cima de uma paleta. — O ancestral humano mais antigo se chama australopiteco. — Eu não sabia exatamente onde a evolução dos vampiros entrava nessa história, mas eu é que não traria o assunto à tona.

Rowena soltou o bloco e me encarou, espantada.

— Como sabe uma coisa dessas?

— Porque falei do lance dos macacos um dia desses e minha namorada tinha algumas coisinhas pra dizer a respeito. — “Algumas coisinhas” acabaram virando uma aula de uma hora sobre antropologia.

Rowena riu e levantou um dos blocos menores. Eles eram bem pesados, mas não era preciso duas pessoas para erguê-los.

— Eu adoraria conhecer essa sua namorada misteriosa, só pra saber quem aguentaria alguém como você. Posso chamar Cassie e a gente sai para beber todo mundo junto.

— Ela não bebe — respondi rápido. — E só tem dezoito anos, aliás. Quer dizer, quase dezenove. — De repente lembrei que o aniversário da Sydney já era no começo do mês seguinte, fevereiro, e eu não tinha comprado nenhum presente. Na verdade, depois do meu investimento em vinis, estava quase sem dinheiro até o próximo depósito do meu pai, que cairia no meio do mês.

Rowena sorriu, irônica.

— Gosta de mulheres mais novas, hein?

— Ei, não é ilegal.

— Não quero saber dos detalhes sórdidos da sua vida sexual. — Ela pegou outro bloco. — Podemos ir ao Denny’s ou alguma coisa assim. Se não me apresentar essa menina logo, vou achar que inventou uma namorada.

— Não conseguiria inventar uma pessoa como ela nem se tentasse — declarei dramaticamente. Mas, por dentro, não pude deixar de me sentir um tanto triste. Adoraria sair com Sydney, Rowena e a namorada dela. Tinha certeza que Sydney se daria bem com Rowena, mesmo que fosse só para falarem mal de mim. Mas não poderíamos aparecer em público tão cedo, a menos que fizéssemos uma visita aos Conservadores.

Levamos nosso estoque de concreto de volta para o campus da Faculdade Carlton e começamos a árdua tarefa de transportar os blocos para um grande pátio que nossa turma tinha recebido permissão para usar. Alguns dos nossos colegas também estavam trabalhando lá e nos ajudaram a carregar a peça central, o que facilitou as coisas. Mesmo não sendo do tamanho do monólito do filme, ainda foi um saco erguer aquilo. Faltou levar os blocos menores e ficamos trabalhando em silêncio. Ambos estávamos cansados e felizes de estar quase acabando. A pintura propriamente dita seria feita no dia seguinte. Também era a especialidade de Rowena e queríamos estar prontos e descansados para fazer o melhor possível. Fazia frio lá fora, mas o céu estava limpo, o que me deixava em contato direto com o sol. Era por isso que eu tinha aceitado um encontro tão cedo: evitar o pior da luz. Em breve poderia resgatar Pulinho da casa da bruxa e então ir para o apartamento torcendo para que Sydney conseguisse dar uma escapada.

Depois que todos os blocos estavam no pátio, Rowena ficou obcecada em dispô-los com perfeição. Eu não me importava mais e me ocupei mandando uma mensagem para Sydney pelo Celular do Amor, dizendo que minha arte não era nada comparada com a beleza radiante dela. Ela respondeu: *revirando os olhos*. Ao que eu respondi: Também te amo.

— Poderíamos fazer assim — Rowena disse, colocando três blocos menores um em cima do outro. — Minimonólitos.

— Como quiser.

Ela mudou de ideia e começou a erguer o bloco de cima. Não sei exatamente o que aconteceu em seguida. Acho que fez um movimento errado com a mão. Fosse o que fosse, o bloco deslizou e caiu com força, esmagando a mão dela contra o chão.

Seu grito ecoou pelo pátio e me movi com uma velocidade que teria deixado Eddie impressionado. Levantei o bloco, mas, ao fazer isso, percebi que era tarde demais. Faíscas de espírito me avisaram que ela tinha quebrado alguns ossos da mão. E, naqueles milésimos de segundo de confusão, eu agi. Era a mão direita e sem ela Rowena não conseguiria pintar pelo resto do semestre. Ela sabia fazer coisas delicadas e intrincadas com aquarela que eu não conseguiria nem em sonhos. Eu não podia colocar aquilo em risco. Disparei uma onda de espírito na mão dela, usando minha própria energia vital para reparar os ossos. Quem recebia a cura costumava sentir um formigamento e percebi, pela surpresa no rosto dela, que ela havia sentido.

— O que você fez? — ela exclamou, assustada.

Fixei os olhos nela e emanei uma onda de compulsão.

— Nada — respondi. — Só tirei o bloco. Essa é uma experiência muito traumática e confusa para você.

O olhar dela ficou vidrado por um momento e então ela assentiu. Interrompi a magia, um vazio súbito sendo a única indicação do quanto a cura e a compulsão haviam exigido de mim. Sem se lembrar do formigamento, Rowena ficou esfregando a mão machucada enquanto nossos colegas corriam para ver o que tinha acontecido.

— Caramba — um deles disse. — Você está bem?

Rowena fez uma careta.

— Não sei. Não parece que... Quer dizer, dói... mas não como na hora em que caiu.

— Você precisa ver um médico — o mesmo cara insistiu. — Pode ter quebrado alguma coisa.

Rowena teve um sobressalto e pude ver que os mesmos medos que eu havia sentido estavam passando pela cabeça dela. Eu sabia que não havia dano permanente, mas precisava fingir porque era a coisa sensata a fazer.

— Me dê sua chave — eu disse. — O hospital do campus está aberto.

A triagem nos deu prioridade, já que ter um bloco de concreto de quase quinze quilos caindo em cima de você era bastante grave. Mas, depois de um exame e do raio X, o médico deu de ombros.

— Está tudo bem. Talvez não fosse tão pesado quanto vocês acharam.

— Era bem pesado — Rowena disse, mas estava aliviada. Tive a impressão de ver lágrimas em seus olhos quando ela me encarou. — Acho que você só tirou o bloco rápido o bastante. — Não havia sinal de que ela se lembrava da rajada de cura.

— Porque sou másculo e corajoso — eu disse solenemente.

Deram alta para ela e, quando estávamos saindo, chegou Cassie, a namorada. Rowena era bonita, mas Cassie era maravilhosa. Ela deu um abraço forte em Rowena e balancei a cabeça, melancólico.

— Como você arranjou uma namorada dessas? — perguntei.

Rowena me abriu um sorriso por sobre o ombro de Cassie.

— Falei pra você: sou sempre charmosa e engraçada.

Combinamos de terminar o projeto no dia seguinte e voltei para o apartamento. Fazia tempo que não usava uma quantidade tão grande de espírito e era como estar chapado. O mundo se encheu de vida e luz e eu estava quase flutuando enquanto entrava. Como o espírito podia ser ruim se me fazia sentir daquele jeito? Era maravilhoso. Fazia dias que não me sentia tão vivo.

Peguei um disco das caixas ao acaso. Pink Floyd. Não, não estava no clima. Troquei por um dos Beatles e então me dediquei ao autorretrato com vigor renovado. Ou melhor, retratos. Porque não conseguia parar. Minha mente estava cheia de ideias e era impossível escolher uma só. As cores voavam velozes e furiosas na tela enquanto eu experimentava diferentes conceitos. Fiz uma pintura abstrata da minha aura, da forma como Sonya e Lissa sempre diziam que era. Então um retrato mais preciso, o mais realista que consegui a partir de uma foto do celular, exceto pelo fato de que me pintei em tons de vermelho e azul. E assim por diante.

Pouco a pouco, a energia começou a perder força. Meu pincel foi ficando lento e, por fim, afundei no sofá, sentindo-me esgotado e exausto. Fiquei olhando para o que tinha feito: cinco pinturas diferentes, todas secando. Minha barriga roncou e tentei me lembrar da última vez que tinha comido. Um bolinho com Rowena? Estava ficando pior do que Sydney. Coloquei uma pizza no micro-ondas e, enquanto esperava, minha mente começou a girar com outros pensamentos.

O aniversário de Sydney. Como eu podia ter me esquecido? Bom, na verdade não tinha me esquecido. A data estava gravada na minha mente, 5 de fevereiro. Só não tinha pensado sobre a parte prática de dar um presente. Fiquei olhando com desalento para as caixas de discos bagunçadas, sentindo um ódio súbito pelo buraco que elas tinham feito no meu orçamento mensal. Sydney tinha razão, aquela compra havia sido uma idiotice. O que eu poderia ter comprado para ela com aquele dinheiro? Imaginei um buquê de rosas aparecendo no seu alojamento anonimamente. Talvez dois buquês. Ou até três. Igualmente interessante era a ideia de uma pulseira de diamantes no seu pulso fino. Uma coisa sutil e elegante, claro. Ela nunca aceitaria nada muito espalhafatoso.

Pensar em diamantes me fez lembrar das abotoaduras da tia Tatiana. Ignorei quando o micro-ondas apitou avisando que a pizza estava pronta e fui até o quarto. As abotoaduras ainda estavam lá, um conjunto ofuscante de chamas vermelhas e brancas reluzindo sob a luz. “Se vender isso, vai ter pensão pro resto da vida”, Sydney havia brincado. Não só pensão ou dinheiro para as prestações do carro. Eu poderia dar um presente para ela. Vários presentes. As rosas, a pulseira, um jantar romântico.

Não. Nada de jantar. Nada em público. Essa ideia me atingiu com força enquanto eu contemplava nosso futuro juntos. Será que poderíamos ter um futuro juntos? Que tipo de relação era aquela, à base de momentos roubados? Sydney era racional demais para continuar com aquilo para sempre. Mais cedo ou mais tarde se daria conta de que era hora de deixar para lá. De me deixar para lá. Guardei as abotoaduras de volta na caixa, sabendo que nunca poderia vendê-las e que agora estava apenas sentindo a depressão que se seguia ao uso do espírito.

Isso acontecia com essas ondas de magia. Eu mal tinha conseguido sair da cama depois de trazer Jill de volta à vida. Usar o espírito tinha um custo e, quanto maior a altura, maior o tombo. Pelo menos era assim comigo. Lissa não tinha esses altos e baixos tão acentuados. Ela sentia mais uma escuridão constante que a acompanhava por dias, deixando-a triste e emotiva até que ia embora. Sonya tinha um pouco dos dois.

“Meu jovem artista”, tia Tatiana costumava dizer, rindo, quando eu estava em um desses humores. “O que entrou na sua cabecinha agora?” Ela falava com carinho, como se fosse uma coisa fofa. Eu quase conseguia ouvir a voz dela agora, quase conseguia vê-la ali, ao meu lado. Ofegante, fechei os olhos e afastei a imagem da minha cabeça. Ela não estava lá. Pessoas beijadas pelas sombras conseguiam ver os mortos. Pessoas loucas só imaginavam vê-los.

Comi a pizza em pé no balcão, repetindo para mim mesmo que aquilo iria passar. Eu sabia que sim. Sempre passava. Mas, nossa, a espera era insuportável.

Quando terminei, voltei para a sala e olhei para as pinturas. O que antes parecera inspirado e maravilhoso agora parecia idiota e superficial. Fiquei com vergonha delas. Juntei todas e joguei num canto, uma em cima da outra, sem me importar com as telas rasgadas ou a tinta úmida.

Então, fui ao armário de bebidas.

Quando a porta se abriu algumas horas depois, eu já tinha tomado boa parte de uma garrafa de tequila, estirado na cama, ouvindo Pink Floyd. Sorri quando Sydney entrou. Eu estava à deriva na onda da tequila, que conseguira acalmar o espírito e abrandar aquela tristeza tão terrível. Não que estivesse alegre e bem-disposto, mas já não queria me esconder num buraco. Eu tinha derrotado o espírito e ver o rosto lindo de Sydney me animou ainda mais.

Ela retribuiu o sorriso, mas então, com um olhar rápido, avaliou a situação. O sorriso se desfez.

— Ai, Adrian — foi tudo o que disse.

Ergui a garrafa.

— É dia de festejar o México, Sage.

Os olhos dela varreram a sala rapidamente.

— Pulinho está celebrando com você?

— Pulinho? Por que ele... — Fechei a boca por alguns segundos. — Ai. Eu, hum, meio que me esqueci dele.

— Eu sei. Maude mandou uma mensagem pela sra. Terwilliger perguntando se alguém pegaria o callistana.

— Droga. — Depois de tudo o que acontecera com Rowena, meu dragão adotivo tinha passado a ser a última coisa na minha cabeça. — Desculpe, Sage. Esqueci completamente. Mas tenho certeza de que ele está bem. Não é nenhuma criança de verdade, né? E, como eu disse, deve estar adorando.

Mas a expressão dela não mudou; na verdade, ficou ainda mais grave. Ela se aproximou e tirou a tequila da minha mão, e então foi até a janela. Tarde demais, percebi o que estava fazendo. Ela abriu a janela e jogou o resto da garrafa lá fora. Eu me sentei como um raio.

— Isso é caro!

Ela fechou a janela e se virou para me encarar. Aquele olhar acabou comigo. Ela não estava brava. Não estava triste. Estava... decepcionada.

— Você me prometeu, Adrian. Beber socialmente não é um problema, mas automedicação é.

— Como sabe que eu estava me automedicando? — perguntei, embora não tivesse negado.

— Porque conheço você e conheço os sinais. Além disso, às vezes dou uma olhada nas suas garrafas. Você virou bastante dessa hoje, muito mais do que uma dose social. — Quase apontei que, tecnicamente, ela é quem tinha virado a garrafa.

— Não consegui evitar — eu disse, sabendo o quanto essa desculpa soava esfarrapada. Era tão ruim quanto o mantra de “não foi culpa minha” de Angeline. — Não depois do que aconteceu.

Sydney colocou a garrafa vazia em cima da cômoda e se sentou ao meu lado na cama.

— Me conte.

Expliquei sobre Rowena e a mão dela, e como o resto do dia tinha se desenrolado. Era difícil não perder o fio da meada porque eu ficava dando voltas e me justificando. Deixei de fora meu desespero por causa dos presentes de aniversário. Quando finalmente acabei, Sydney pôs a mão no meu rosto.

— Ai, Adrian — ela repetiu e, dessa vez, sua voz estava triste.

Pus a mão sobre a dela.

— O que eu podia fazer? — sussurrei. — Foi igual o que aconteceu com Jill. Quer dizer, não foi tão grave. Mas ela estava lá, precisando de mim, e eu podia ajudar. Então, quando percebeu, precisei garantir que esquecesse. O que mais poderia ter feito? Devia ter deixado a mão dela quebrada?

Sydney me abraçou e ficou em silêncio por um tempo.

— Não sei. Quer dizer, sei que você não poderia não ajudar. É o seu jeito. Mas preferia que não tivesse ajudado. Quer dizer... na verdade, não. Fico feliz que tenha ajudado. Mesmo. Só queria que as coisas não fossem tão... complicadas. — Ela balançou a cabeça. — Não estou explicando direito. Não sou boa nessas coisas.

— Você odeia isso, né? Não saber o que fazer. — Encostei a cabeça no ombro dela, sentindo o leve aroma do seu perfume. — E odeia quando fico assim.

— Eu amo você — ela disse. — Mas fico preocupada. Você já pensou em... Quer dizer, Lissa não tomou antidepressivos por um tempo? Não funcionaram pra ela?

Levantei a cabeça rápido.

— Não. Tudo menos isso. Não posso abandonar a magia completamente.

— Mas ela se sentiu melhor, não? — Sydney insistiu.

— Ela... sim. Mais ou menos. — Eu não via problemas em “medicação líquida”, mas comprimidos me deixavam com um pé atrás. — Ela se sentiu melhor, é verdade. Não ficava deprimida. Não se cortava mais. Mas sentiu falta da magia, então parou com os comprimidos. Você não sabe como é, aquela onda do espírito. Parece que você está sintonizado com todos os seres vivos do planeta.

— Talvez eu entenda melhor do que você pensa — ela disse.

— Mas não é só isso. Ela parou também porque precisava da magia para ajudar Rose. E se eu precisar? E se você estiver ferida ou morrendo? — Agarrei os ombros dela, tentando fazê-la entender meu desespero e o quanto ela significava para mim. — E se você precisar de mim e eu não puder fazer nada?

Ela tirou minhas mãos e as segurou entre as dela, com o rosto calmo.

— A gente dá um jeito. É o que a maioria das pessoas faz. Corre riscos. Eu preferia que você estivesse estável e feliz a arriscar sua sanidade pela chance mínima de um bloco de concreto cair em cima de mim.

— Você conseguiria não fazer nada se tivesse o poder de ajudar alguém?

— Não. E é por isso que estou tentando ajudar você. — Mas pude ver que ela estava dividida e entendia a preocupação dela.

— Nada de comprimidos — eu disse, com firmeza. — Isso não vai acontecer mais. Vou continuar tentando. Vou ser mais forte. Tenha fé em mim, vou conseguir fazer isso sozinho.

Ela pareceu inclinada a continuar a discussão, mas, por fim, assentiu, resignada. Então me deitou na cama e me beijou, embora eu soubesse que não gostava do gosto da tequila. O beijo conseguiu ser ao mesmo tempo doce e intenso, e fortaleceu a conexão entre nós, aquela sensação ardente que eu sempre tinha de que éramos feitos um para o outro. Eu a enchi de beijos, desejando fazer muito mais. Sem dúvida, se pudesse simplesmente me afogar nela, nunca mais precisaria de álcool ou de comprimido nenhum.

Mas, apesar do coração acelerado e do ardor nos olhos dela, as coisas não avançaram mais do que o de costume. E, como sempre, não a pressionei. Ela podia não concordar com as ideias dos alquimistas, mas ainda mantinha muitos hábitos deles. Usava roupas conservadoras. Não bebia. Na verdade, eu nem sabia qual a opinião dos alquimistas sobre sexo antes do casamento, mas, como a maioria deles era religiosa, não seria nenhuma surpresa se Sydney acreditasse na abstinência. O assunto nunca tinha surgido entre nós. Eu imaginava que, quando ela estivesse pronta, me avisaria.

— Preciso ir — ela disse, enfim. — Teoricamente, só saí para comprar pasta de dente. Era a única coisa sem graça o bastante para Zoe não querer vir comigo.

Tirei alguns fios dourados do seu rosto.

— A gente se vê no Clarence amanhã, então?

Ela assentiu.

— Não perderia por nada nesse mundo.

Eu a levei até a porta. Ela olhou de novo para os quadros destruídos, mas não disse nada e manteve o rosto neutro.

— Estou falando sério — insisti. — Vou me esforçar.

— Eu sei — ela disse. O olhar decepcionado de antes ainda me perturbava.

— Consigo ser forte — acrescentei.

Ela sorriu e ficou na ponta dos pés para me dar um beijo de despedida.

— Você já é — murmurou, antes de desaparecer na noite.


4

 

Sydney

AS LÁGRIMAS SÓ COMEÇARAM A CAIR quando eu estava de volta ao carro, bem longe de Adrian. Voltei para Amberwood com a visão turva e o rosto úmido. Não me sentia tão inútil fazia muito tempo. Esquecer Pulinho não era a pior coisa que poderia ter acontecido, mas e da próxima vez? O espírito levava seus usuários a fazer coisas malucas. Eles se feriam. Cometiam suicídio. Era disso que eu tinha medo, e queria controlar a situação antes que ela nos controlasse. E isso — como Adrian, sempre sagaz, tinha notado — era o que mais me perturbava: minha incapacidade de arranjar uma solução imediata. Não era uma sensação que eu tinha com frequência.

Não conseguia impedir o espírito de consumir Adrian e não podia condenar seu instinto de ajudar as pessoas. Meu coração doía quando pensava naquela bondade que ardia dentro dele e que pouquíssimas pessoas viam. A única coisa que eu podia fazer era ficar ao seu lado e encorajá-lo a reunir as forças que eu sabia que existiam dentro dele. Talvez não derrotasse o espírito para sempre, mas com certeza poderia resistir melhor a suas antigas estratégias para lidar com o problema. Deveria haver maneiras mais saudáveis de sobreviver, e eu não tinha dúvidas de que ele possuía o autocontrole e a força de vontade necessários para colocá-las em prática. Só gostaria que ele acreditasse em si mesmo tanto quanto eu.

Estacionei na garagem de Amberwood depois de procurar diligentemente por uma vaga entre dois carros bem estacionados. Sério, qual era a dificuldade das pessoas para estacionar dentro das faixas? Meu Mazda ainda era novo e reluzente, e eu tinha medo de que fosse amassado ou arranhado. Meu carro anterior, uma perua Subaru marrom chamada Pingado, tinha sido explodido por uma bruxa maligna que estava atrás da sra. Terwilliger. Depois que Neil e Zoe se juntaram a nós, os alquimistas ordenaram que o substituto de Pingado fosse um carro com sete lugares. Esse CX-9, apelidado de Mercúrio por causa da cor prateada, era o SUV Crossover mais interessante que eu conseguira encontrar. Adrian dissera que eu estava a um passo de virar a tia da perua.

Quando cheguei ao dormitório, já estava mais calma, mas não consegui evitar umas fungadas no travesseiro. Zoe, que eu pensava estar dormindo, falou no escuro:

— Está triste por causa da mamãe e do papai?

— Sim — menti.

— Não se preocupe — ela disse. — Não vão me tirar do papai.

Fingi cair no sono.

Na manhã seguinte, minhas emoções estavam mais controladas, especialmente porque tinha o que fazer. A sra. Terwilliger, fiel à sua palavra como sempre, havia tomado providências para que ao meio-dia eu visitasse Inez, a bruxa que as outras integrantes do Stelle viam com um misto de ironia e nervosismo. Para Zoe, eu estava fazendo uma excursão para uma biblioteca universitária em San Diego.

— Por que você vive saindo com essa mulher? — Zoe perguntou. Ela estava em pé na frente do espelho, amarrando seu longo cabelo castanho num rabo de cavalo.

— Ela é minha professora e faz parte do meu estudo independente. — Eu estava remexendo nas gavetas em busca do que vestir e minha mão se demorou sobre uma camiseta roxa com um coração prateado em estilo celta, do qual saíam chamas. Adrian havia feito o desenho para mim, meio de brincadeira, mas aquela camiseta acabou virando um dos meus bens mais preciosos. — Além disso, praticamente já aprendi todas as outras matérias com o papai. Essa é minha única aula interessante.

— Entendi. — Ela não pareceu muito convencida, mas então abriu um sorriso. — Vai falar isso pra eles, não vai? No tribunal? Como a educação do papai foi perfeita? Vai ajudar muito.

— Tenho certeza que sim. — Abri um sorriso forçado enquanto fechava a gaveta e procurava alguma coisa mais formal no guarda-roupa. Não sabia muito sobre Inez, mas, se era uma anciã venerável, talvez eu devesse mostrar mais respeito. Escolhi uma saia grafite e uma camisa branca de manga longa coberta por pontinhos pretos. Meu único acessório era uma pequena cruz de madeira com glórias-da-manhã desenhadas por Adrian.

Zoe franziu a testa.

— Você vai assim na biblioteca?

— É uma biblioteca famosa — eu disse, evasiva. — Acho que volto a tempo de ir para o Clarence, senão Eddie leva vocês. Vou pegar carona com a sra. Terwilliger, então podem ficar com o Mercúrio.

— Graças a Deus — ela disse, estremecendo. — Você não imagina como foi no carro de Adrian. Tive que sentar bem do lado de Jill.

Por incrível que pareça, depois de dividir o quarto com Zoe durante um mês, eu tinha ficado imune a esse tipo de comentário e chegado à conclusão de que seria melhor para todos se simplesmente não reagisse, mesmo quando as opiniões dela eram extremas até em comparação com as crenças alquimistas.

— E não se esqueça de pegar comida dessa vez.

— Não é nosso trabalho ficar lembrando disso — ela protestou.

— Nosso trabalho é garantir que Jill vá para a mansão de Clarence em segurança e que a vida siga sem problemas para todo mundo. Esses “jantares em família” são um bom jeito de todo mundo relaxar e se dar bem. Não dá trabalho nenhum apanhar alguma coisa no caminho. Pegue comida chinesa — acrescentei, decisiva. — Faz tempo que eles não comem. — Além disso, outro dia Adrian havia comentado que estava com vontade de comer frango xadrez.

— Você já quis ter um carro mais legal? — Zoe perguntou, inesperadamente.

Comecei a rir.

— Sim, mas a missão é mais importante do que nossos carros preferidos. Não sabia que você pensava nesse tipo de coisa.

Ela se sentou na cama com um sorriso.

— Ei, cresci na mesma casa que você. Lembra quando a mamãe trabalhou naquele Jaguar em casa? Aquele sim era um carro legal.

— Claro que lembro. — Uma onda de carinho surgiu no meu peito enquanto olhava para ela. — Mas você tinha o quê? Oito? Nove anos?

— Idade suficiente para querer dirigir aquele carro. À noite eu entrava na garagem escondida e me sentava nele. Pensava que estava sendo discreta, mas acho que mamãe sempre soube. — Aquele sorriso leve se abriu por completo e prendi a respiração. Meu pai não tinha controle total sobre ela. Será que havia alguma chance de Zoe não ter abandonado nossa mãe? Será que havia alguma chance de a audiência correr de maneira amigável?

E será que havia alguma chance de Zoe um dia ver Moroi e dampiros como pessoas de verdade? Até aquele momento, quando entrevi a irmã que eu conhecia e amava, nunca havia passado pela minha cabeça que fosse possível mudar a maneira como ela pensava sobre muitas questões. Desde sua chegada, eu vinha andando na ponta dos pés, concordando com tudo e repetindo frases feitas. Será que havia um modo de influenciá-la? Eu não queria aumentar minhas esperanças e sabia que era melhor não abrir o jogo tão cedo para não arruinar aquele momento de distração. Guardei essas dúvidas para mais tarde e assumi uma expressão neutra.

Pouco depois, a sra. Terwilliger me pegou em seu Beetle vermelho, usando óculos escuros com armação de leopardo. Depois de cinco minutos na estrada, parou num café.

— Você ainda está fazendo aquela abstinência ridícula? — ela perguntou.

— Sim, mas ainda não bebi minha xícara de hoje. — Eu tinha me contido exatamente por isso, sabendo que ela faria uma parada. Ficar sem café por tanto tempo já estava me dando tremedeira.

Ela estacionou o carro e apontou com a cabeça para a porta do café.

— Bom saber.

Segui seu olhar e fiquei embasbacada quando vi Adrian encostado na frente do prédio, com um copo em cada mão. Ele sorriu para nós e veio na direção do carro.

— É o Adrian — eu disse, boba.

— Sim, eu sei — a sra. Terwilliger disse. — Ele me ligou hoje de manhã e perguntou se poderia vir com a gente. Inez conhece vampiros, então imaginei que não seria um problema. Na verdade, talvez a deixe um pouco surpresa, o que pode ser uma vantagem para nós. Obrigada, querido. — O agradecimento foi para Adrian enquanto ela pegava o café pela janela.

Ele entrou no banco de trás e me deu o outro copo. Uma série de emoções se acendeu no meu peito. O encontro da noite anterior havia me deixado insegura, mas vê-lo naquele momento, à luz do dia, com o olhar lúcido e aquele sorriso malandro, me fez acreditar que ele realmente conseguiria cumprir o prometido. Como não poderia? Ele irradiava confiança, com todo aquele charme e beleza que haviam me atraído antes mesmo que eu pudesse notar o que estava acontecendo. Não havia álcool ou desespero. Ele parecia capaz de qualquer coisa e, naquele momento, eu precisava acreditar que era. Havia tantas coisas me afligindo, tantas coisas — incluindo um futuro com ele — que pareciam impossíveis. Ter esse Adrian invencível ao meu lado me enchia de uma alegria que eu raramente me permitia sentir. Nossos dedos se tocaram quando aceitei o café, e senti um arrepio. Olhei em seus olhos por vários segundos e, enquanto seu sorriso arrogante se suavizava e ficava mais sério, percebi que ele conseguia sentir todas as coisas que eu não podia formular.

— Você não devia estar pintando o monólito? — perguntei quando já estávamos na estrada.

— Rowena remarcou. Deu tempo de pegar um presente pra você — ele respondeu.

— Eu sei. Estou bebendo seu presente agora... Ah!

Uma sombra escamosa e brilhante subiu correndo pela minha perna e se enrolou no meu colo. Segurando o café com cuidado em uma mão, usei a outra para afagar a cabeça do callistana enquanto fazia alguns cálculos mentais.

— Você precisaria ter acordado de madrugada pra dar tempo de pegar o Pulinho e voltar — eu disse. — Quantas horas dormiu hoje? — Minha visão luminosa de Adrian começou a fraquejar. Falta de sono era a maior inimiga dele.

— Mais do que o suficiente para a aventura. Não tem um boneco gigante em Escondido? Dá tempo de tirar uma foto?

— A gente mal tem tempo para a visita — eu disse, me lembrando da decepção de Zoe. Mas a conversa e o entusiasmo de Adrian animaram o trajeto, e até a sra. Terwilliger gostou da companhia dele, embora rugas de preocupação surgissem em seu rosto à medida que nos aproximávamos do destino.

— Como eu disse antes, não sei se Inez vai poder ajudar em alguma coisa — ela explicou. — Ela é muito excêntrica e faz o que der na telha. Se gostar de você, pode contar alguma coisa. Senão, enfim... — A sra. Terwilliger encolheu os ombros. — Daí talvez a gente tenha tempo para tirar fotos.

— Legal — Adrian disse. Quando me voltei para ele, acrescentou rápido: — Mas claro que ela vai gostar de você.

Quando estávamos perto da cidade, a sra. Terwilliger fez uma parada, não para tomar café, mas para comprar um buquê de rosas bordô. Quando voltou para o carro, jogou-o no meu colo, para o desespero de Pulinho.

— Segure isso — ela me disse. Obedeci sem questionar e aproveitei para transformar Pulinho de volta em estátua. Ele tinha ficado livre mais do que o suficiente nos últimos dias.

A ideia de uma bruxa reclusa me fazia pensar em Clarence, então foi uma surpresa quando estacionamos diante de uma casa moderna de estilo espanhol que era quase o oposto de uma mansão gótica. Um El Camino com um pneu murcho parado na frente da casa deixava a cena ainda mais estranha. Depois do que as outras bruxas disseram, eu estava esperando alguma coisa excêntrica e bizarra, então aquela aparência de normalidade quase me decepcionou.

Mas então entramos.

Foi como entrar em um santuário... dedicado a rosas e toalhinhas de renda. Todas as superfícies pareciam estar cobertas. Não era muito diferente do que a sra. Terwilliger tinha feito — apesar de ter a casa e os móveis destruídos recentemente, ela havia conseguido encher a casa nova de tralhas em menos de um mês. Mas, enquanto as coisas dela ficavam jogadas ao acaso porque tinha preguiça de arrumar a bagunça, todo o amontoado ali parecia pensado. Havia vasos com rosas de seda colocados cuidadosamente no centro de toalhinhas de crochê, bonecas com rosas na boca sobre toalhinhas de renda e delicados conjuntos de chá com rosas pintadas sobre toalhinhas de papel. E isso era só o começo. Tudo tinha um ar muito estranho também, como se eu tivesse sido transportada para os anos 1980.

Adrian estava atrás de mim, ainda na porta, e tive certeza que o ouvi murmurar:

— Precisa de mais coelhos.

— Ah, oi, Inez — a sra. Terwilliger disse para nossa anfitriã. Com surpresa, percebi que nunca tinha visto minha professora tão nervosa perto de alguém. — Você está linda como sempre.

Inez Garcia era uma senhora pequena e frágil, como uma fada das colinas. Seu cabelo branco estava amarrado em uma longa trança que descia pelas costas, e os óculos caíam de uma longa corrente de contas azuis no pescoço. Ela usava uma calça jeans com a cintura mais alta que eu já tinha visto, além de uma camiseta com estampa de rosas, o que não era nenhuma surpresa. As rugas de seus noventa anos eram visíveis, mas seus olhos escuros eram tão penetrantes que explicavam a apreensão da sra. Terwilliger.

— Nem comece, Jaclyn Terwilliger! Sei por que está aqui. Quer alguma coisa. É o único motivo por que as pessoas vêm me visitar hoje em dia. Nada de elogio, nada de chá. Só quero isso, quero aquilo.

A sra. Terwilliger engoliu em seco e me empurrou para a frente.

— Inez, esta é Sydney Melrose. Olhe só o que ela trouxe para você.

Levei um momento para me lembrar das rosas e ofereci o buquê com um sorriso forçado. Inez as pegou, desconfiada, e cheirou cada uma antes de soltar um leve resmungo de aprovação.

— Entrem. — Entramos em fila indiana e foi então que ela notou Adrian. — Ora, ora, olhe só o que vocês trouxeram. Poderiam ter economizado o dinheiro das flores e só me trazido o vampiro. Faz tempo que não recebo um jovem Moroi bonito.

— Faz tempo que não conheço uma mulher que aprecie rosas tanto quanto eu — Adrian disse, sempre rápido no gatilho. — Não que minha experiência com elas tenha sido muito boa. Mas devo dizer que nunca vi uma decoração tão magnífica. Você gosta de cor-de-rosa também, né? Falei para elas quando compraram as flores, mas não me deram ouvidos. Insistiram nas bordô.

Inez estreitou os olhos enquanto examinava a sra. Terwilliger.

— Em que você se meteu, trazendo um deles aqui? A raça deles quase nunca pede nossa ajuda.

— O assunto aqui não é ele — a sra. Terwilliger explicou. — É Sydney. Minha aprendiz.

Inez ponderou a resposta enquanto colocava as rosas em um vaso (que tinha rosas pintadas) e nos convidou para sentar na sala de visitas lilás. O cheiro de rosas era nauseante e contei pelo menos três ambientadores de ar responsáveis por aquela atmosfera opressiva. Inez se acomodou em uma cadeira de veludo acolchoada que quase pensei ser a única coisa sem rosas até ver mais algumas entalhadas na madeira.

— Então. — Inez me examinou enquanto eu sentava com cuidado ao lado da sra. Terwilliger no sofá. Adrian se acomodou em uma cadeira que mais parecia um trono. — Uma aprendiz, hein? E eu aqui pensando que você passava seu tempo livre defendendo o uso de semente de chia em fóruns de comida natural. — Os olhos da velhinha se arregalaram subitamente ao ver minha bochecha esquerda. Ela riu baixinho. — Isso está ficando cada vez mais estranho. Você tem mais coragem do que eu pensava se está ensinando um deles.

— Ela é muito forte — a sra. Terwilliger disse, em um tom quase defensivo.

Inez soltou um “tsc, tsc” e pegou uma xícara de chá. Cheirava a Earl Grey e torci para que ela nos oferecesse um pouco.

— E acha que não sei? Percebi assim que abri a porta. Como conseguiu uma coisa dessas? Menina, não está com medo de se entregar ao demônio? Ou seja lá no que vocês alquimistas acreditam? — Ela olhou de soslaio para Adrian. — Bom, deve ter superado alguns medos do sobrenatural se andou no mesmo carro que o limpador de piscina da Jaclyn.

Eu sabia que Inez conhecia o mundo dos vampiros. Afinal, era por isso que estávamos ali: para ouvir sobre os combates dela contra os Strigoi. Participando do clã, também tinha aprendido que os vampiros não eram nada de especial para algumas bruxas. Mesmo assim, era uma experiência completamente nova e desconcertante estar com alguém de fora que se sentia tão à vontade com um Moroi.

— Estas mãozinhas nunca fazem trabalho pesado — Adrian disse.

— Fique quieto, rapaz — ela retrucou. — Antes que perca seu encanto.

Limpei a garganta.

— Não me entrego ao demônio, senhora. — Só a um vampiro insolente e insuportavelmente bonito. — Normalmente traduzo feitiços e aprendo a me defender.

— O treinamento fez dela uma grande estudiosa — a sra. Terwilliger insistiu.

— Estudiosa, é? — Inez fez um gesto de desprezo. — Para mim só parece uma adolescente desmiolada que deve se achar rebelde por ficar brincando com magia. A força dela não importa se ela não conseguir se concentrar e tratar a arte com seriedade. Menina, você tem namorado? Claro que tem. Isso só piora as coisas. Não dá pra falar com elas se a única coisa em que pensam é ficar se agarrando no banco de trás do carro com o namorado. No meu tempo, isso não era um problema. Éramos enviadas para nossas mentoras e ficávamos isoladas. Sem garotos. Sem tentações. Menina, se perder a virgindade, vai perder metade da sua magia. Algo em que você devia ter pensado, Jaclyn. — Ela finalmente parou para tomar fôlego e beber mais chá. Fiz questão de ficar olhando para a xícara porque sabia que, se olhasse para Adrian, começaria a rir. — Não, não tem por que se dar ao trabalho com essas garotas de hoje, não com todos esses celulares e reality shows e energéticos. Ela se veste bem, admito, mas isso não é motivo para eu perder meu tempo com uma jovenzinha.

— A senhora nem sabe o que eu quero — falei sem pensar. — E não sou tão jovem. Vou fazer dezenove daqui a duas semanas.

Inez revirou os olhos.

— Aquário? Pior ainda.

A sra. Terwilliger havia recuperado a confiança e encarou o olhar arguto de Inez.

— Ela é extremamente disciplinada e avançada. Leva a arte muito a sério e já entrou para o Stelle.

Isso, pelo menos, foi uma surpresa para Inez, que me olhou com mais respeito, embora ainda sem aprovação.

— Suponho que seja alguma coisa.

— É só o começo — Adrian disse.

Lancei outro olhar de advertência para ele, não querendo que me “ajudasse” no meu argumento.

— Por favor, preciso da sua orientação. Soube que a senhora teve vários encontros com Strigoi. Que lutou com alguns deles. Queria saber mais sobre isso.

Ela não pareceu nem um pouco impressionada.

— É isso que você quer? Pensei que alguém como você saberia mais do que eu.

— Não em termos mágicos — eu disse. — Como a senhora lutou contra eles?

— Do mesmo jeito que todo mundo luta. Estacas, fogo ou decapitação. Não que os Moroi nos dessem muitas estacas. Mas botei fogo em alguns Strigoi no meu tempo. Só precisa de um bom feitiço de bola de fogo.

Essa não era nenhuma grande revelação.

— É... conheço bem esse feitiço.

Inez olhou zombeteira para a sra. Terwilliger.

— Sua casa não pegou fogo recentemente? Vocês não estavam praticando bolas de fogo dentro de casa, estavam?

Minha professora se remexeu, desconfortável.

— Não. Essa honra foi de Alicia DeGraw. — Havia um leve embaraço na voz dela. — A aprendiz de Veronica.

— A que se voltou contra ela — Inez disse.

— Essa mesma. Sydney a derrotou e salvou minha vida.

O olhar de Inez dizia que talvez eu não fosse uma completa perda de tempo, e aproveitei a oportunidade.

— Por favor. Por favor, me ajude. A senhora parece alguém que realmente gosta de conhecimento e aprendizado, e eu ficaria muito grata se compartilhasse um pouco de sua sabedoria.

— Por que eu deveria ajudar? — ela perguntou. Mas pude ver que estava intrigada. Elogios realmente funcionavam às vezes. — Você não tem nenhum conhecimento superior para me oferecer.

— Mas sou superior em outras coisas. Se a senhora me ajudar, eu... conserto seu carro. Troco seu pneu.

Isso a pegou de surpresa.

— Você está de saia.

— Estou oferecendo o que posso. Trabalho manual em troca de sabedoria.

— Duvido que você consiga — ela disse, depois de vários segundos.

Cruzei os braços.

— É uma pena.

— Você tem quinze minutos — ela disse, ríspida.

— Só preciso de dez.

Obviamente, Adrian achou necessário “supervisionar” o trabalho.

— Vai ficar brava se eu disser que isso é muito sexy? — ele perguntou, ajoelhando perto de mim, com cuidado para não sujar a roupa.

Eu não tinha tempo para conversar enquanto examinava o estepe, que parecia estar num estado apenas ligeiramente melhor que o pneu murcho.

— Imagino que esteja se referindo ao carro. — Eu estava começando a suar, o que não ajudava muito.

— Acha mesmo que ela gosta desse carro o bastante para querer ajudar? Estou com a impressão de que a última coisa que ela dirigiu foi uma carroça.

Abri a caixa de ferramentas que estava na traseira do carro da sra. Terwilliger, contente por estar bem equipada e ser compatível.

— O importante não é o carro. É um teste para provar que não sou uma “desmiolada”. Acho que Inez gosta de ver as pessoas se esforçando pra ganhar o respeito dela. Tomara que dê certo.

Ele ficou em silêncio e me observou trabalhar por mais um minuto.

— É verdade aquilo que ela disse? A virgindade afeta a magia?

— Para alguns feitiços, sim — respondi. — Para outros, nem tanto. Algumas bruxas do Stelle são casadas e a sra. Terwilliger ainda é bem incrível.

Ele não disse mais nada, mas pude adivinhar seus pensamentos. Estava considerando se aquilo influenciava minhas opiniões sobre sexo. Na verdade, era só um dos fatores pelos quais eu estava adiando passar para a próxima fase com ele. O fato de ele ser um vampiro era apenas um detalhe. Mas outras coisas — algumas mais vagas, como simplesmente esperar a hora certa, e outras mais específicas, como saber que Jill estaria vendo — sem dúvida me afligiam. A magia também era uma questão, mas de menor importância.

O que mais pesava era um forte instinto para ser cuidadosa. O simples fato de estar naquela relação era loucura e parte de mim precisava compensar indo com calma em outros aspectos. Não que eu não quisesse transar. Queria... Tanto que estava guardando um segredo que nem Adrian sabia: tinha começado a tomar pílulas anticoncepcionais. Eu tinha um plano sexual definido? Não, ainda não. Mas minha natureza precavida achava melhor estar preparada.

Quando terminei em nove minutos, ele estendeu a mão para me levantar e comentou que achava uma graça meu corpo suado e imundo. Entramos e encontrei Inez e a sra. Terwilliger sentadas confortavelmente na sala lilás com ar-condicionado. Hesitei em sentar no sofá de novo. Em vez disso, me acomodei no chão diante de Inez.

— Demorou, hein — ela disse. Então me olhou de cima a baixo e assentiu. — Vá em frente. Faça as suas perguntas.

Eu sabia que não poderia desperdiçar aquela chance.

— Soube que a senhora foi atacada por Strigoi e que tentaram beber seu sangue, mas não conseguiram. Como? O que aconteceu?

— Ah, eles mais que tentaram — Inez disse. Ela tocou o pescoço. — O monstro me mordeu bem aqui, mas você tem razão. Parou quando sentiu o gosto. Quando percebeu que não conseguiria se alimentar de mim, ficou furioso e tentou torcer meu pescoço, mas então lancei uma bola de fogo. — Havia um brilho em seus olhos, como se estivesse vendo a batalha se desenrolando diante dela. — Mordidas de vampiro são estranhas. De um ponto de vista, são magníficas. Magníficas, mas letais.

— Sim, eu sei — eu disse, pegando-a de surpresa mais uma vez. — Uma Strigoi tentou beber meu sangue, mas não conseguiu.

Inez assentiu.

— É a magia. Deixa um resíduo no sangue quando você usa. Jaclyn não ensinou isso pra você?

— Ah, sim... — comecei. — Mas por que isso impediria um Strigoi?

— Magia é vida. Os Strigoi não têm vida, então, quando são atingidos por alguma coisa viva, como uma estaca encantada por um Moroi, isso vai contra a essência deles. Uma estaca no coração os mata. O sangue de uma bruxa é só desagradável.

— Mas eu não tinha... — Parei, lembrando que, embora não tivesse trabalhado com grandes feitiços antes do ataque Strigoi, já havia preparado alguns por ordem da sra. Terwilliger. Eles exigiam um nível baixo e inconsciente de magia, mas suficiente, pelo jeito, para deixar uma marca que havia salvado minha vida. Aceitando esse fato, passei para a próxima pergunta. — Mas se o sangue mágico pode fazer mal aos Strigoi, como eles conseguem beber o dos Moroi? Não seria ainda mais potente? Afinal, a magia já está dentro deles, ao contrário da nossa.

Minhas perguntas pareceram agradar Inez.

— Exatamente porque a magia é intrínseca. Está misturada no sangue e não causa o mesmo choque para o sistema de um Strigoi. A nossa magia... — Ela procurou as palavras. — ... cobre nosso sangue porque a puxamos do mundo para dentro de nós. O mesmo acontece com uma estaca encantada. A magia é colocada nela à força, por isso ela se torna uma arma tangível contra os mortos-vivos.

Eu mal conseguia acompanhar.

— São muitas nuances envolvendo magia interna e externa.

— Muitas mesmo. — Inez quase me abriu um sorriso sincero. — E fica mais complicado ainda quando você compara a magia Moroi com a humana. Às vezes elas têm um comportamento parecido, às vezes completamente oposto. E, claro, tem toda a questão de se contradizerem.

— Contradizerem? — Algo nessa palavra disparou meus alarmes internos.

Inez cerrou os punhos e bateu um contra o outro.

— Externo, interno. Os dois lados da moeda mágica. Às vezes eles colidem. Sua tatuagem, por exemplo. Os alquimistas usaram sangue de vampiro para infundir compulsão nela, não foi?

Assenti devagar.

— Sim. Para nos impedir de discutir questões sobrenaturais com pessoas de fora. — E para nos impedir de fazer outras coisas também.

— Bom, não no seu caso. Tenho certeza de que sua tatuagem parou de funcionar quando você mexeu com magia pela primeira vez.

Todo o universo parou com o impacto daquelas palavras.

— Não... não pode ser. Quer dizer, acho que pode, mas juro que não teve nenhuma diferença. Não naquela época. — Mais tarde, as coisas definitivamente mudaram.

O olhar de Inez me prendeu no lugar.

— Chegou a tentar alguma coisa, como falar sobre vampiros com pessoas normais?

— Não...

— Então como sabe?

— Não sei, mas imaginei que a magia da tatuagem ainda estava forte até...

— Até o quê? — ela perguntou. Até a sra. Terwilliger estava me olhando agora.

No mês anterior, eu havia encontrado um ex-alquimista chamado Marcus Finch, que se rebelara e fugira da organização. Assim como eu, acreditava que os alquimistas eram severos demais com os vampiros, mas chegou ao ponto de alegar que havia facções alquimistas trabalhando com caçadores de vampiros. Marcus dissera ter descoberto uma forma de desfazer a magia nas nossas tatuagens, nos libertando da compulsão que assegurava a lealdade aos alquimistas e nos obrigava a guardar segredo sobre assuntos sobrenaturais. Eu havia passado pelo primeiro de dois passos para anular a tatuagem: receber injeções de tinta nova com magia elemental vampírica “rompida”. Teoricamente, isso me libertara da compulsão inicial. O segundo passo era tatuar por cima do lírio dourado com uma tinta azul que Marcus precisava comprar no México. Ele havia dito que, sem esse passo, os alquimistas poderiam simplesmente restabelecer a compulsão. No entanto, eu tinha recusado a oferta de ir para o México, preferindo correr o risco sem o selamento azul. Não poderia abandonar Adrian, Jill e os outros, e não teria como voltar à minha vida em Palm Springs depois de me rebelar abertamente.

Escolhi minhas palavras com muito cuidado enquanto tocava minha bochecha.

— Essa tatuagem é infundida com elementos de magia vampírica. O que aconteceria se elementos derivados de magia humana fossem colocados na tatuagem, e elas entrassem em conflito? Que magia iria dominar?

Definitivamente não era uma pergunta pela qual elas estavam esperando. Inez franziu a testa.

— Em você? A magia humana, com certeza. Pelo menos nesse caso, os iguais se atraem. A sua própria humanidade fortaleceria o que estivesse ali.

— Então... qualquer que fosse o encanto ou feitiço na tinta com magia vampírica seria desfeito por uma tinta nova fortalecida com magia humana.

— Sim.

O mundo estava girando de novo, mas quase não percebi. Estava prestes a descobrir uma coisa muito, muito grande. Só precisava entender o que era. Estava próxima, eu podia sentir.

— Para ter magia Moroi no corpo, você precisa de um componente físico — comecei. — Nesse caso, tinta feita do sangue deles. Para ter magia humana, precisaria de uma tinta física também... feita de sangue humano?

— Não — Inez respondeu rápido, franzindo a testa enrugada. — Sangue é um bom meio para a magia Moroi porque ela está muito ligada ao corpo deles. Como nós tiramos a magia do mundo, é melhor estabilizá-la com algum tipo de componente físico. Alguma coisa da natureza.

— Como o quê?

— Difícil dizer. — Ela olhou para a sra. Terwilliger no que suspeitei ser uma rara demonstração de respeito. — Alguma coisa vegetal?

A sra. Terwilliger mordeu os lábios enquanto refletia.

— Acho que rochas ou minerais.

Meu coração acelerou.

— Azuis?

— Acho que a cor não importa muito nesse caso — ela disse. — Algumas substâncias retêm determinados tipos de magia melhor do que outras. Sinceramente? Você teria que estudar geologia a fundo. Olhar a estrutura cristalina e ver quais minerais funcionariam melhor com o feitiço que você pretende fazer. É um trabalho árduo e cansativo. Você iria adorar.

— Onde posso descobrir isso? — exclamei.

— Há muitos e muitos livros a respeito — Inez disse, num tom que sugeria que eu já deveria saber disso. Ela respirou fundo e, pela primeira vez, pareceu indecisa. Por fim, tomou uma resolução. — Se eu puder confiar que você não vai fazer nada idiota com eles, talvez possa emprestar alguns dos meus livros a você.

Juntei as mãos.

— Nossa, isso seria... Obrigada. Muito obrigada.

— Pare de tagarelar — ela me cortou. — Eu disse “talvez”. Ainda não decidi. São livros de qualidade, herança de família. Não sou uma bruxa que surgiu do nada. Minha linhagem mágica data de gerações.

— Claro, senhora — eu disse.

Ela hesitou mais um pouco.

— Se conseguir encontrá-los, pode pegar. Estão no sótão. — Ela apontou com a cabeça para um alçapão do outro lado da sala.

Levantei imediatamente e Adrian fez menção de me seguir.

— Você não, bonitinho — ela advertiu. — Quero que ela faça isso sozinha. Eles estão numa caixa com a etiqueta “Mecânica de feitiços”.

Ele me lançou um olhar solidário, mas balancei a cabeça.

— Não tem problema. — Pelo menos eu estava usando saltos baixos. Com certeza seria capaz de andar pelo sótão.

E andei... mas não foi fácil. O lugar estava cheio de pó e ferragem, e a caixa “Mecânica de feitiços” estava embaixo de outras cinco caixas pesadas. Quando, meia hora depois, finalmente desci a escada com meu tesouro, a expressão divertida de Adrian e da sra. Terwilliger deixou claro como estava minha aparência. Inez aprovou com a cabeça.

— Acho que gosto de você — ela disse, pensativa. — Deveria me visitar mais. Você é interessante.

Mais tarde, na estrada para Palm Springs, a sra. Terwilliger ficou rindo, incrédula.

— Você entende o que conseguiu? Não só a convenceu a emprestar os livros, coisa que ela nunca faz, aliás, como também chegou o mais perto de um convite pessoal que já a ouvi fazer. — Ela balançou a cabeça e riu. — Você nunca deixa de me impressionar, Sydney. Quer guardar os livros na minha casa? — Era onde ficava a maioria dos meus suprimentos mágicos. Eu não podia mais deixá-los no dormitório, não com Zoe morando lá.

— Vou deixar com Adrian — respondi automaticamente. Ela não fez nenhum comentário e fiquei pensando se eu havia cometido um erro. A sra. Terwilliger fazia poucas perguntas sobre minha vida pessoal, amorosa ou alquimista, mas não era cega nem burra. As bruxas podiam não ter problemas com vampiros, mas eu não sabia se ela imaginava, ou julgava, toda a extensão do meu relacionamento com Adrian.

Ele se debruçou do assento de trás.

— Você deu duro para conseguir esses livros. Foi lindo, mas muito trabalhoso. Tem algum plano genial nessa cabecinha?

Desviei a atenção da minha saia amassada e experimentei novamente o entusiasmo que havia sentido quando as palavras de Inez fizeram surgir uma ideia na minha cabeça.

— Não sei se é genial — respondi. — Mas... acho que consigo fazer uma tinta igual à de Marcus.


5

 

Adrian

SYDNEY PASSAVA MUITO TEMPO NA MINHA CAMA nos últimos dias. Mas infelizmente não era comigo.

Não entendi direito como a conversa com Inez dera a Sydney a ideia de produzir tinta antialquimista, mas eu nunca conseguia acompanhar o ritmo do raciocínio dela. Depois daquele encontro, nossa hora de amassos virou hora de pesquisa. Ela não podia trabalhar perto de Zoe e, embora Jackie costumasse deixá-la fazer o que bem entendesse, o tempo delas também era limitado. Assim, nossos interlúdios românticos foram substituídos.

Eu estaria mentindo se dissesse que não sentia falta do velho esquema, mas queria que ela pesquisasse a tinta. Ainda que não gostasse de Marcus Finch, sempre apoiara os objetivos dele de acabar com a influência e as tentativas dos alquimistas de controlar a mente das pessoas. Sydney não tinha finalizado o processo com ele porque não estava pronta para seguir aquele estilo de vida errante; além disso, achava que poderia conseguir mais coisas se mantivesse relações com os alquimistas. Esses motivos eram nobres, mas eu sabia muito bem que outro motivo — talvez o maior de todos — era que ela não queria me abandonar.

E quem eu estava enganando? Também não queria que ela me abandonasse. Ao mesmo tempo, sentia uma pontada de culpa porque era responsável por ela estar vulnerável a um retoque. E também sabia que todos nossos momentos roubados a faziam correr o risco terrível de enfrentar a fúria alquimista. Por mais que Inez tivesse alegado que Sydney já estava imune a outras tatuagens por causa da prática da magia, ambos queríamos o lírio dourado selado para evitar o pior. Mas a questão não era só ela. Sydney sabia que, se pudesse descobrir uma tinta facilmente reproduzível, capaz de anular as tatuagens alquimistas, teria muito poder em mãos.

Essas tardes de pesquisa não eram tão ruins. Levei minhas tintas para o quarto e comecei a trabalhar no maldito autorretrato enquanto ela ficava sentada com as pernas cruzadas na cama, cercada por livros e pelo laptop. Sydney ficava tão concentrada que nem percebia quantas vezes eu me distraía e ficava olhando para ela. Podia ser loucura, mas eu achava incrivelmente atraente aquela expressão pensativa junto com a postura casual quando ela descruzava as pernas e se debruçava para ler algum texto arcano. Os Moroi fugiam da luz, mas, ao ver como o sol a iluminava, eu tinha certeza que os humanos tinham sido feitos para aquilo.

— É boleíte — ela anunciou, certo dia.

Tirei os olhos da tela, que, até então, tinha uma única linha verde pintada.

— Como aqueles musicais indianos?

— Boleíte, não Bollywood. — Ela apontou para a tela do laptop. — É um mineral azul-escuro que existe em grandes reservas no México. Li tudo sobre mecânica de feitiços nos livros de Inez e a coisa é quase científica. A composição de diferentes plantas e materiais afeta o tipo de componentes do feitiço elemental que eles conseguem estabilizar. Os cristais cúbicos e o sistema isométrico da boleíte seriam um meio excelente para suspender os quatro elementos de forma que ficassem na pele e anulassem os efeitos da magia Moroi. A gravidade específica e a clivagem perfeita também ajudam muito.

Não entendi nada do que ela falou. Em vez disso, fiquei olhando para o decote dela, que era tão perfeito quanto a tal da clivagem.

— Então, hum, o que isso quer dizer?

Ela se recostou, com o olhar arrebatado.

— Não é só o mineral. Marcus acha que vai pro México pegar um material que, sozinho, combate a tinta dourada. Mas é mais do que isso. Aposto que a tatuadora dele é uma usuária de magia que encanta a boleíte antes de misturar na tinta. Os rebeldes alquimistas estão usando magia humana sem nem imaginar.

Isso eu conseguia entender. Guardei o pincel e peguei um copo de água que estava perto.

— Então acha que consegue fazer o mesmo? Encantar o mineral e fazer tinta com ele para selar a tatuagem?

— Não sei. Precisaria da ajuda da sra. Terwilliger para descobrir o feitiço. Não há registro de nada desse tipo, então precisaríamos criar um novo. Nunca fiz nada parecido. — Ela franziu a testa. — Mais difícil ainda seria conseguir boleíte. Não vai ser nada fácil em Palm Springs. Acho que eu poderia comprar pela internet... ou talvez encontrar um substituto mais comum. Alguma outra coisa da família dos haletos pode ter propriedades parecidas.

— E você ficaria duplamente protegida. — Essa era a parte mais importante para mim, e não todo o jargão geológico.

— Se eu conseguir, sim. Claro que, se Inez tiver razão, já estou protegida. — Seu rosto se iluminou com uma ideia súbita. — E posso poupar muito trabalho para Marcus. Ele perde tempo com as viagens pro México. Se eu puder replicar a tinta, ele teria um fornecimento doméstico e poderia ajudar muito mais gente. Só espero que ele apareça algum dia pra eu poder contar pra ele.

Encolhi os ombros.

— Por que esperar? Vamos encontrá-lo num sonho. Não que eu goste da ideia de passar a noite com ele, mas aguento se você estiver comigo.

Ela ficou séria imediatamente.

— Não. Nada de sonhos desnecessários.

— Mas esse é necessário. Você acabou de dizer que pode ser uma descoberta incrível e, por mais que eu odeie o cabelo dele, o Robin Hood é seu contato com o submundo. Você precisa falar com ele.

— E vou falar — ela disse, obstinada. — Da próxima vez que o vir. Ele sempre volta. Você não precisa desperdiçar espírito com isso.

— Não é desperdício. Um sonho é fichinha, Sage.

— E é exatamente o que eu estava falando antes. Sei que não consegue evitar esse tipo de coisa, e amo isso sobre você. Mas é arriscado demais.

— Ah, é? Algumas pessoas, não eu, claro, poderiam dizer que toda essa missão de fazer tinta em que você está se metendo é um risco inacreditável. Acha que insubordinação irritaria os alquimistas? E se eles descobrirem que é movida a magia? Isso sem considerar o que aconteceria se descobrissem sobre mim. — Apontei para ela com o copo para dar ênfase. — Amor, você está correndo muitos riscos. Se os alquimistas descobrirem qualquer uma dessas coisas...

— O quê? — ela perguntou, desconfiada. — Acha que eu deveria desistir?

— Não, claro que não — eu disse, com mais confiança do que realmente sentia. Parte de mim queria que ela nunca corresse perigo nenhum, mas esse não seria o mundo real. Pelo menos, não o nosso. — Sei que não pode. É o que você faz. E os sonhos de espírito são o que eu faço. — Apontei para o laptop e os livros dela. — Não posso ajudar com toda essa investigação e trabalho mágico, mas me deixe fazer alguma coisa pequena como isso. Me deixe contribuir com alguma coisa para nós.

Os olhos dela se arregalaram.

— Adrian, você já contribui muito. Nem sabe o quanto. É a maior alegria da minha vida. A maior alegria que já tive.

— Então está combinado — eu disse. — Vamos fazer uma conferência em sonho.

O amor e o encanto vacilaram.

— Espere. Como assim, combinado? Desde quando uma declaração de amor significa que estou aceitando sua ideia?

— É a lógica de Adrian Ivashkov. Não tente entender, só se deixe levar.

— Falar é fácil.

Assenti solenemente.

— É só porque não está acostumada a levar a vida espontânea e imprevisível que eu levo. O inesperado é o esperado para mim. Nada me surpreende mais.

Ela me olhou com um olhar travesso.

— Não sei, não. Aposto que consigo contar uma coisa que vai pegar você completamente de surpresa.

— Fique à vontade para tentar.

— Se eu surpreender você, desiste de fazer o sonho?

— Primeiro vamos ouvir o que tem a dizer.

Ela hesitou e, embora ainda estivesse com um brilho malandro nos olhos, percebi uma ponta de nervosismo também.

— Então... estou tomando pílula.

Eu estava bebendo água de novo e engasguei. Demorei vários segundos pra recuperar o fôlego.

— O quê?

Ela deu de ombros, incrivelmente tranquila, como se a sugestão de fazer sexo não fosse grande coisa. E, sim, não havia dúvida. Eu estava surpreso. Muito surpreso. Nunca deveria ter duvidado dela.

— Demora um pouco pra começar a fazer efeito, então imaginei que deveria ficar preparada, por via das dúvidas.

— Por via das dúvidas — repeti, ainda perplexo.

Seu nervosismo se transformou em divertimento com a minha perplexidade.

— Vai me dizer que não pensa nisso?

— Ah, pode crer, eu penso nisso o tempo todo. Só não achava que você pensasse. Quer dizer, imaginei que, quando o assunto fosse sexo, os alquimistas tivessem todos aqueles princípios sobre pureza e casamento e pecado... e tudo mais.

— A maioria tem — ela concordou. — Mas eu? Meus princípios são de amor e de fazer as coisas com significado e compromisso. Uma folha de papel nem sempre prova alguma coisa. Teria algum pecado envolvido se fosse... não sei. Fazer por fazer. Com alguém que você não ama. Sem nenhum sentimento.

Não consegui formular uma resposta porque a maior parte das minhas transas não tinham envolvido sentimento. Não lembrava o nome de metade das meninas com quem tinha ido para a cama. Sydney sabia muito bem disso, mas não me condenou e passou para um tópico que combinava muito mais com a personalidade dela.

— E, claro, fazer com responsabilidade também é muito importante. Tem milhões de pílulas no mercado, por isso tive que compilar todas as informações. — Então, para minha surpresa, ela tirou da bolsa uma tabela com o título Comparação de contraceptivos orais. Era feita à mão, mas quase não dava para perceber vendo as linhas perfeitas e a letra caprichada. Havia várias cores e colunas cheias de termos incompreensíveis, como estradiol e andrógenos.

Fiquei olhando com o queixo caído, embora aquilo tivesse tudo a ver com a Sydney que eu conhecia e amava.

— Há quanto tempo você está trabalhando nisso?

— Na verdade, já terminei. Não demorou muito. — Ela me olhou e suspirou. — Todas têm muitos efeitos colaterais. Quer dizer, muita gente não tem nenhum problema, mas há algumas coisas que podem acontecer que é preciso levar em consideração. Muitas fazem ganhar peso.

Eu a examinei com atenção, percebendo o que isso significava para ela. Apesar dos novos hábitos mais saudáveis, eu sabia que a silhueta ainda era uma preocupação constante para ela, o que era ridículo, considerando como era linda.

— Estou surpreso por você correr esse risco. Existem outras opções de sexo seguro, sabe? Que não envolvem pílulas.

— Eu sei. — Ela colocou a tabela na cama. — Mas não precisamos nos preocupar com doenças e esse é um dos métodos mais eficazes, além de ser um que consigo controlar. Meu médico me deu a pílula com menor incidência de ganho de peso, então vamos ver o que acontece.

Levantei e sentei ao lado dela na cama.

— Promete que, se notar alguma coisa, vai parar de tomar? Não quero que compense com uma dieta maluca.

Ela me encarou.

— Acha mesmo que eu faria uma coisa dessas?

— Acho melhor não correr o risco.

— E ficar sem transar?

— Não estou transando agora e estou tranquilo — eu disse, muito nobre. — Embora... hum, só por curiosidade, quando você está pensando em...

Sydney riu e me beijou de leve.

— Não sei. Quando eu estiver pronta. — De repente, ela ficou mais séria. — E tem a questão da Jill também...

— Ah — eu disse, sem saber o que mais poderia dizer.

Jill. Jill, a menina que conseguia ver dentro do meu mundo e as coisas que eu fazia, inclusive o que fazia com Sydney. Eu sabia que isso incomodava Sydney e não podia culpá-la. Ter uma testemunha relutante às nossas atividades mais íntimas também não era uma coisa de que eu gostava, ainda mais quando essa testemunha era a doce e inocente Jill. Não que ela ainda fosse tão doce e inocente depois de viver dentro da minha cabeça. Eu suspeitava que Jill, mais que qualquer outra coisa, era o que impedia minha relação física com Sydney. Havia certas coisas que, mesmo com má vontade, ela admitia que Jill soubesse. Outras não.

E eu não tinha argumentos nem palavras conciliadoras para oferecer. Não sabia como resolver esse problema e não ia pressionar Sydney a fazer uma coisa com que não estivesse à vontade. A única coisa que eu esperava era que Jill e eu conseguíssemos desenvolver um controle para bloquear um ao outro. A minha ex, Rose, tinha um laço psíquico com Lissa, e, aos poucos, elas haviam desenvolvido essa capacidade... embora tivesse levado alguns anos. Será que eu estava disposto a esperar tanto tempo por Sydney? Olhei para ela enquanto segurava sua mão e soube a resposta imediatamente. Sim. Sim, eu estava.

Dei um sorriso que esperava ser encorajador.

— Então vamos ver o que acontece. Se funcionar, ótimo. Senão, você para de tomar. É uma pílula, não um compromisso pra vida. Além disso, há várias outras coisas que podemos fazer enquanto isso.

Ela voltou a sorrir e meu coração ficou mais leve.

— Suponho que essas “coisas” em que você está pensando também não sejam adequadas para Jill.

— Esquece esses livros e eu mostro para você.

Jill ainda ficou na minha cabeça depois que Sydney foi embora, principalmente porque eu tinha marcado um jantar com ela naquela noite. Era algo que tentava fazer com certa frequência. Jill podia saber tudo sobre a minha vida, mas eu queria ouvir sobre a dela. Além disso, apesar de todos os jantares em grupo, era bom sair só nós dois. Quer dizer, mais ou menos. Às vezes, Jill podia sair da escola só com Sydney, mas todo mundo preferia que um dampiro fosse junto. Eu sabia que Jill achava isso sufocante de vez em quando, mas era um das regras rígidas dos alquimistas que eu conseguia entender. Eu estava lá quando os assassinos a atacaram. Tinha visto o sangue e a respiração dela se esvair. Aquelas imagens viviam me acordando durante a noite e eu não deixaria nada parecido acontecer de novo.

Por isso, Eddie nos acompanhava nesses jantares, e eu não via tanto problema. Ele era um cara legal, que também havia passado por muitos traumas e sofrimentos. Faziam parte dele, e ele os usava para se fortalecer e seguir em frente. Era leal e eu admirava isso nele.

Mas, dessa vez, não era Eddie quem estava esperando no meio-fio ao lado de Jill.

— Droga — murmurei.

Um olhar irônico passou pelo rosto de Jill quando notou minha reação. Embora conhecesse meus pensamentos e sentimentos a respeito, essa era uma questão em que se opunha firmemente a mim.

— Oi, Adrian — ela disse alegremente, entrando no carro. — Neil quis vir junto hoje.

— Estou vendo. — Ele entrou no banco traseiro, me cumprimentando com um curto aceno pelo retrovisor. — Castile tem um encontro?

— Não, mas achamos que seria divertido para Neil sair um pouco. — O que ela quis dizer, claro, era que ela achava que seria divertido sair com Neil. Eu não precisava de um laço psíquico para saber disso.

— Além disso, tenho um ano de experiência a mais do que Eddie — Neil acrescentou. — Então, na verdade, eu é que sempre deveria acompanhar Sua Alteza em ocasiões públicas.

Jill costumava ficar irritada com o título, mas, sempre que Neil o usava, parecia um antigo cavaleiro que fazia o coração dela bater mais forte.

— Castile enfrentou algumas situações bem brutais — eu disse. — Quantos Strigoi e assassinos você já enfrentou? — Lancei um olhar pelo retrovisor e, apesar daquele ar durão, percebi que ele ficou constrangido.

— Eu fazia parte de um regimento de guardiões que protegia uma família real quando dois Strigoi decidiram atacar — ele disse.

— Dois Strigoi contra um regimento inteiro de guardiões? Puxa. Deve ter sido difícil.

Pelo canto do olho, vi Jill me disparar um olhar furioso.

— Neil já fez e viu muitas coisas. O treinamento dele é excelente.

Em um grande ato de generosidade, decidi parar de atormentar o cara de quem ela fingia gostar... por enquanto. Minha atenção logo se voltou à luta para estacionar no centro, em meio a todas as outras pessoas que tinham saído para jantar. Um lugar vagou exatamente quando eu estava chegando ao restaurante grego em que tinha feito reserva.

— Adrian Ivashkov vence novamente — declarei.

Esperamos pouco tempo e, quando a recepcionista nos levou para nossa mesa, passamos pela vitrine de sobremesas.

— Baclava fresco — Jill comentou, com uma expressão inocente.

— Pois é — eu disse, com a mesma inocência. — Acho que podemos levar pra viagem. — Baclava era um dos doces favoritos de Sydney. Eu não disse nada, mas tinha sido o motivo de escolher aquele restaurante.

Dispensei saudoso a garrafa de uzo e perguntei a Jill sobre a equipe de natação. Todos os alunos de Amberwood precisavam participar de um esporte além de assistir às aulas, e natação era a escolha perfeita para ela, visto que a maior parte dos treinos era em lugar fechado e a especialidade elemental dela era água. Eu, particularmente, não era nenhum fã de esportes, mas gostava das festas de final de campeonato, especialmente se não tivesse que assistir ao jogo. Tinha ido a algumas das competições de Jill e achava que valia a pena aguentar os pais ultra-animados para vê-la se destacar.

Mesmo agora, havia felicidade no rosto dela enquanto descrevia como tinha atingido um novo recorde pessoal, o que era uma distração agradável das tormentas que viviam fervilhando na minha cabeça. Ela tivera muitas dificuldades para se adaptar a Amberwood e eu ficava contente em ver que algo estava dando certo em sua vida. O momento foi destruído quando ela se virou para Neil com os olhos brilhando.

— Neil está na equipe de luta livre. Ele é incrível. O melhor. Ganha todas as lutas.

Me recostei na cadeira, já sem escrúpulos para perseguir o cara se ela insistia em falar dele.

— Bom, claro que é. Qualquer dampiro vai vencer um humano. É natural.

Neil pensou sobre o assunto enquanto mastigava seu souvlaki.

— Suponho que sim — ele disse, finalmente.

— Não parece justo — continuei. — Quer dizer, eles têm categorias de peso, mas não há nenhuma regulamentação sobre isso. Você está competindo com pessoas que não têm como acompanhar você.

Jill me lançou um olhar de advertência e disse:

— Bom, não há nada que ele possa fazer, se Amberwood não separa as equipes entre humanos e dampiros.

— Você sempre pode perder de propósito — falei para Neil.

Ele ficou pálido.

— Perder de propósito? Não posso fazer uma coisa dessas! Vai contra meu código de ética pessoal.

— E vencer pessoas que não têm chance contra você faz parte dessa ética? — perguntei. — Na minha opinião, essa é a verdadeira transgressão moral. — Queria que Sydney estivesse ali porque teria gostado de me ver usando a palavra “transgressão”. — Mas, enfim, a vida é sua. Não julgo ninguém e, pra falar a verdade... — Ri baixinho. — Sempre costumo tender um pouquinho demais para o moralismo. É um dos meus poucos defeitos.

Nem mesmo Neil era bobo o bastante para cair nessa. Ele estreitou os olhos.

— Não sei como não percebi isso antes. Fale mais sobre suas opiniões morais.

Fiz um gesto de pouco-caso.

— Ah, não temos tanto tempo assim. Mas sabe com quem você deveria conversar? Castile. Esse sim é um cara que sabe a coisa certa a fazer. Até fingiu uma lesão no joelho pra escapar da maior parte da temporada de basquete; assim não teve que lidar com, hum, a ética de competir contra humanos. Anda sempre na linha, o Castile.

Eu ainda não tinha certeza de que Neil estivesse interessado em Jill, mas sabia, sem sombra de dúvida, que via Eddie como um rival na vida. Eddie não chegava a esse ponto, mas também tinha uma veia competitiva. Acho que só havia espaço para um dampiro alfa em Amberwood.

— Mentir também não é honrado — Neil disse, inflamado.

— Não, mas a humildade é. — Suspirei por Eddie com o mesmo ardor com que Jill suspirava por Neil. — Ele prefere enfrentar a humilhação de estar fora do jogo a colher louros não merecidos.

Talvez eu tenha ido longe demais, julgando pela fúria ardente nos olhos de Neil.

— Neil — Jill disse rápido. — Pode ir até o balcão e pedir um baclava para viagem? De nozes. E um de pistache.

Jill realmente estava virando minha aprendiz. Pistache não era um dos tipos mais comuns, então eles não costumavam deixar na vitrine. Fazer Neil esperar enquanto caçavam o baclava nos daria tempo.

— Você é terrível — ela me disse quando Neil foi embora. Ele não tirou os olhos de nós enquanto aguardava, mas, pelo menos, não nos ouvia mais.

— Você arranja coisa melhor, princesa Chave de Cadeia. — Enunciei cada palavra com o garfo. — Além disso, o sr. Big Ben ali é casado com o dever. Nunca vai conseguir nada com ele. Encontre algum príncipe Moroi e desista dos dampiros. Eles só dão trabalho. — E eu não sabia? — Além disso, pode ter enganado todo mundo, mas eu sei que não gosta dele.

— Ah, é? Tem um laço psíquico agora?

— Não preciso. — Apontei para minha cabeça. — Tenho visão de aura. E também conheço você. O que está fazendo? Por que está fingindo interesse nele?

Ela suspirou.

— Porque quero ficar interessada nele.

— Acha que, se fingir bem o suficiente, vai conseguir se convencer?

— Alguma coisa assim.

— Isso não faz nenhum sentido. E olhe que, vindo de mim, é uma acusação grave.

Ela me deu um chute por baixo da mesa.

— Se eu conseguir me apaixonar por Neil, talvez eu pare... — A voz dela vacilou por um momento. — Talvez eu pare de pensar no Eddie.

Ignorei os comentários sarcásticos que vinha preparando mentalmente.

— Acho que não funciona assim. Na verdade, sei bem que não funciona assim.

— Preciso fazer alguma coisa, Adrian. Queria ter percebido o que sentia por Eddie antes... Fui uma tonta e perdi a chance. Agora a Sydney diz que ele só pensa em honra e dever, e acha que nenhuma princesa poderia se rebaixar ao nível dele.

— Parece uma coisa que ele diria — concordei. Na verdade, eu nunca tinha ouvido a história da boca de Eddie, mas Sydney tivera uma conversa franca com ele e havia descoberto tudo. Ele já tinha sido apaixonado por Jill, o que agora negava firmemente. Ninguém sabia se essa paixão havia sobrevivido ao namoro com Angeline, mas eu suspeitava que, se tinha, a visão dele de cavalheirismo não havia mudado.

— Talvez, em vez de tentar se enganar pra se apaixonar por outro cara, você deveria simplesmente confrontar Eddie e falar a verdade — sugeri.

— Como você fez com Sydney? — Jill perguntou, irônica. — Não deu muito certo.

— Na época, não. — Dizer que a reação da Sydney à minha primeira declaração de amor “não deu muito certo” era gentileza da parte dela. — Mas olhe pra mim agora, flutuando nas nuvens do amor.

Jill voltou a sorrir.

— Você devia fazer um jantar para Sydney. De aniversário.

Em momentos como aquele, era bom ter alguém que já sabia da minha vida. Poupava o esforço de explicar o que me afligia. A mudança de assunto súbita também era a forma sutil de Jill dizer que não queria mais conversar sobre sua vida amorosa.

— Não é um presente de verdade. Ela merece mais.

— Rosas e diamantes? — Jill balançou a cabeça. — Você conhece Sydney. Ela não é materialista e você não precisa comprar nada caro. Um jantar feito em casa é romântico.

— E desastroso também. Você sabe melhor do que ninguém que não sei cozinhar.

— E é por isso que ela vai adorar. Ela admira quando as pessoas se esforçam... e aprendem. Descubra como fazer um prato simples, e ela vai amar. Um errinho ou outro é até fofo.

Jill tinha razão, mas era difícil admitir. A maioria dos meus encontros, mesmo aqueles que não passaram de uma noite, envolveram coisas caras. Flores e mais flores. Refeições com sete pratos e vinho. Fazer macarrão não chegava nem aos pés disso.

— Vou pensar — concordei.

Isso deixou Jill mais animada.

— Talvez, se o clima estiver bem romântico, vocês possam...

— Não, Chave de Cadeia. — Ergui a mão em advertência. — Nem comece.

— Mas você quer — Jill insistiu. — E ela também, senão não teria feito aquela tabela.

— Sei não. É o tipo de coisa que ela faria no tempo livre pra se divertir. Enfim. Sydney e eu não pensamos igual em tudo, mas se tem um ponto em que concordamos é que não queremos você envolvida na nossa vida sexual, então não tem por que discutir esse assunto.

Ela apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na mão, fazendo com que seu cabelo fino e ondulado caísse para a frente e envolvesse seu rosto como um véu. Seria uma pose formidável para uma pintura.

— Eu me sinto péssima. É culpa minha que a sua vida amorosa esteja tão complicada. Se não fosse pelo laço...

— Você estaria morta — eu disse, categórico. — E não tem por que discutir esse assunto. Estou falando sério: preferia ser celibato pro resto da vida a não ter você neste mundo.

Jill engoliu em seco e pude ver que estava contendo as lágrimas.

— Cuidado — provoquei. — Se você chorar, o sr. Ponte de Londres ali vai achar que fui grosso e me pegar na saída.

Ela fungou, mas abriu um sorriso.

— Não, ele não faria uma coisa dessas, mas já está terminando lá. Talvez eu pudesse beber ou alguma coisa assim se você e Sydney... sabe. Deixaria o laço dormente.

— Não — respondi com firmeza. Neil começou a andar na nossa direção. — De jeito nenhum. Já basta um alcoólatra em recuperação neste laço. Não se preocupe por enquanto. Vamos dar um jeito.

— Como? — ela perguntou.

— Eu tenho um plano.

Jill me conhecia bem demais e me lançou um olhar astuto.

— Tem nada.


6

 

Sydney

EU NÃO SABIA HÁ QUANTO TEMPO ESTAVA DORMINDO quando me vi envolvida pelo sonho de espírito. O peristilo repleto de colunas da Getty Villa se materializou ao meu redor, e a luz do sol brilhava sobre a fonte enorme. Naqueles sonhos, o sol não afetava Adrian. Olhei ao redor e o encontrei encostado num pilar, as mãos no bolso enquanto me observava com aquele seu sorriso malandro. Por um momento, fiquei deslumbrada por ele e pela forma como a luz do sol iluminava seu rosto e seu cabelo. Era de tirar o fôlego. Ele poderia ser uma das obras de arte clássica daquele lugar.

Então lembrei que Adrian não deveria estar ali.

Fui até ele e o puxei pela gola da camiseta.

— Ei! O que está fazendo? Pensei que tínhamos concordado em parar com os sonhos!

— Você concordou. Eu nem cheguei a aceitar sua aposta de me surpreender.

— Mas eu... — Parei e repassei, palavra por palavra, nossa conversa de antes, quando desferi o golpe da pílula anticoncepcional. Ele realmente não tinha dito que abandonaria a ideia do sonho se eu o pegasse de surpresa. — Você me enganou.

— Não fiz nada desse tipo. Se tem uma vítima aqui, sou eu depois que você soltou aquela notícia torturante da pílula. Como vou conseguir fazer alguma coisa agora? — Ele me deu um longo beijo antes de continuar. — A Chave de Cadeia entregou o baclava?

— Sim, mas não pense que vai comprar meu perdão com isso.

Ele me puxou para outro beijo.

— Você já me perdoou.

Finalmente conseguimos nos separar, mas Adrian continuou com o braço na minha cintura. A luz do sol realçava os tons castanhos de seu cabelo, e aquela pele clara que antes representava algo assustador e sobrenatural agora me parecia maravilhosa. Seus traços se endureceram com uma resolução.

— Pronta para chamar o Robin Hood? — ele perguntou.

A menção a Marcus me afastou daqueles pensamentos carnais e me lembrou da descoberta que eu estava prestes a fazer, e também da situação perigosa em que nos encontrávamos. Adrian era um mestre em me fazer esquecer dessas coisas.

— Você não deveria fazer isso — adverti.

— Já estou fazendo — ele disse, alegre. — Então vamos acabar logo com isso.

Ele me soltou e se concentrou no horizonte, com os olhos verdes muito focados enquanto tentava encontrar Marcus no mundo dos sonhos. Havia uma grande chance de não funcionar. Marcus poderia estar acordado. Ou Adrian poderia não conhecê-lo bem o suficiente. Dos usuários de espírito que eu conhecia, Adrian era o que melhor sabia caminhar entre sonhos, mas algumas coisas nem ele conseguia fazer.

No entanto, depois de quase um minuto de silêncio tenso, vi surgir uma luz do outro lado do pátio. Aos poucos, foi se expandindo para a figura de um homem e, de repente, Marcus estava diante de nós. Tinha a mesma aparência de sempre, com seu cabelo loiro na altura do ombro e a tatuagem azul sobre o lírio dourado já desbotado. Parecia muito confuso, o que era compreensível. Na primeira vez que Adrian me invocara, achei que estava em um sonho normal e, aos poucos, fui percebendo que havia alguma coisa errada.

— É bom ver você de novo, Marcus — eu disse para ele.

Ele franziu a testa e examinou as próprias mãos, tocando-as como se esperasse que não tivessem substância.

— Isso é de verdade?

— Mais ou menos — Adrian disse.

— Você está num sonho de espírito — expliquei.

Marcus pareceu incrédulo por um momento, mas logo seu olhar ficou maravilhado.

— Uau. — Ele olhou ao redor. — Onde estamos?

— Malibu — eu disse, surpreendendo-o ainda mais. — Onde você está? No México?

Ele desviou o olhar da construção ao nosso redor.

— Sim, mas logo mais a gente volta. Amelia e Wade fizeram a tatuagem, e fiquei sabendo de uns rebeldes que precisam de mim no Arizona. Só estamos esperando um cara que vai nos ajudar a atravessar a fronteira. É sempre mais difícil entrar do que sair.

Marcus estava na lista de mais procurados dos alquimistas. Todo alquimista que saísse do controle já era ruim, mas um que trabalhasse para recrutar outros rebeldes era prioridade. Com seus muitos contatos, Marcus precisava tomar cuidado extra em suas movimentações, ainda mais em lugares de segurança máxima como as fronteiras.

Então ele se tocou de que aquela não era uma visita social.

— O que aconteceu? Você está bem? — Parecia temer que eu não estivesse. Apesar de todas suas peculiaridades, havia ficado sinceramente preocupado por me deixar para trás.

— Por incrível que pareça, sim. Tenho uma coisa que pode ajudar você. — Fiz uma pausa dramática igual às que ele vivia fazendo. — Acho que consigo fabricar a tinta que você usa para selar as tatuagens.

O queixo dele caiu.

— Mas... mas é impossível.

— Ah, é? — Adrian ironizou. — Ela invadiu uma fortaleza alquimista de segurança máxima e caçou você. Acha que não conseguiria fazer o mesmo que um cara qualquer que você encontrou?

Marcus não teve argumento contra isso e voltou a fixar os olhos em mim.

— Você tem a tinta azul?

— Não exatamente. Não consigo achar o mineral que seu amigo provavelmente usa, mas acho que conheço outros que podem servir.

— Você “acha” — ele repetiu.

— Não é o mineral que importa. Quer dizer, importa um pouco. Mas o processo de fabricar a tinta é o mais importante, e eu sei como funciona. — Não era exatamente verdade. Eu entendia os princípios, mas ainda precisava testá-los. Torci para que Marcus não pedisse detalhes. Embora ele aceitasse muitas coisas estranhas, eu não sabia exatamente qual seria sua reação ao meu envolvimento com magia.

Ele pensou um pouco e então abriu um sorriso arrependido.

— Se existe alguém capaz de fazer isso, é você.

— Pense no que isso pode significar — eu disse, animada com a descoberta. — Se conseguíssemos fazer a tinta em massa, você poderia falar com mais gente. Também não precisaria viajar. Economizaria tempo e poderia fazer muito mais.

Adrian, tomando cuidado para manter distância de mim, riu.

— Não acho que Marcus veja problema em viajar. Praias e margaritas, certo?

Marcus o encarou.

— Não é pra isso que viajo. E quem é você pra falar alguma coisa?

Uma tensão hostil encheu o lugar de repente. Eles já haviam saído no braço certa vez, depois de Marcus ter me dado um soco por causa de um mal-entendido. Adrian não tinha gostado nada daquilo e, embora tivesse aceitado que havia sido um engano, eu sabia que o incidente ainda o incomodava muito.

— Ei, foco, pessoal — retruquei. — Não temos tempo pra isso.

Eles se encararam intensamente por mais alguns segundos agonizantes e, então, Marcus voltou a olhar para mim e relaxou os punhos, que eu não havia percebido que estavam cerrados.

— Então, quando vai saber se consegue produzir a tinta?

Boa pergunta. Eu tinha aprendido muitas coisas com minha pesquisa rápida, mais ainda precisava descobrir outras. Além disso, precisaria de tempo longe de Zoe para trabalhar na tinta. Embora ainda conseguisse alegar que estava saindo para realizar projetos para a sra. Terwilliger, sabia que Zoe estava começando a achar que essas excursões eram frequentes demais. Ela poderia não ter suspeitas sobre magia, mas sempre havia o risco de contar para nosso pai que eu estava mais concentrada nas minhas aulas falsas do que na missão.

— Uma semana. Talvez duas — eu disse, com mais confiança do que sentia.

Marcus franziu a testa e assentiu devagar.

— Acho que até lá já estarei de volta. Preciso de mais informações do meu contato. Pode me avisar na semana que vem e dizer como estão indo as coisas?

Hesitei.

— Seria melhor se você conseguisse me ligar...

— Sem problemas — Adrian disse, ignorando meu olhar incisivo. — Desde que você esteja dormindo a essa hora, e não ocupado demais em festas na praia.

Ele sabia tão bem quanto eu que Marcus era obrigado a ficar em esconderijos nessas viagens.

— Ótimo — eu disse. — Vamos entrar em contato.

Adrian tomou isso como uma despedida e mandou Marcus embora.

— Sempre um prazer.

— Não devia ter feito isso... mas, enfim, obrigada. Ajudou bastante — admiti.

Novamente a sós, Adrian me envolveu em seus braços.

— Faria qualquer coisa por você, Sage. Passe em casa amanhã e vou considerar a dívida paga.

Fiquei arrepiada, tanto pela sugestão como pela maneira como a mão dele subiu pelo meu quadril e brincou com a barra da minha camiseta. Naqueles sonhos, as coisas pareciam reais. Muito reais.

— Não posso — admiti. — Preciso usar esse tempo para conseguir ajuda da sra. Terwilliger.

A decepção nos olhos dele sumiu tão rápido que quase acreditei que a havia imaginado. O sorriso malandro que ele abriu fez parecer que não havia nada de errado no mundo. Era o jeito de Adrian e o motivo de tão poucos saberem dos tormentos que fervilhavam dentro dele.

— Bom, então, acho que vai ter mais tempo pra pensar em mim — ele disse. — Porque claro que é isso que você faz secretamente em vez de trabalhar.

— Claro — eu disse, rindo. Depois de longos beijos de despedida, desapareci rumo a um sono real.

Quando cheguei ao estudo independente no dia seguinte, a sra. Terwilliger estava esperando com o casaco e as chaves em mãos.

— Primeiro para o Spencer’s — ela disse, seca. — Está sendo um dia daqueles.

— A gente não tem tanto tempo — protestei. Além disso, ir para o meu café favorito era uma tortura nos últimos tempos.

— Podemos conversar no caminho — ela disse.

Ela foi fiel à sua palavra, explicando no carro alguns dos aspectos mais pragmáticos da mecânica de feitiços e da manipulação de elementos.

— É uma arte complicada, trabalhar com eles na forma mais pura — ela refletiu. — Ao mesmo tempo simples e infinitamente complexa. — Igual meu relacionamento com Adrian.

Quando entramos no Spencer’s, torci para que meu amigo Trey Juarez estivesse atrás do balcão. Então lembrei que, tecnicamente, ainda era horário escolar e que nem todo mundo podia sair mais cedo como eu. Entre Adrian e Zoe, eu estava com pouco tempo para conversar com Trey ultimamente. Nossos horários haviam mudado naquele semestre, então não tínhamos mais nenhuma aula em comum. Eu não sabia se a distância era uma coisa boa ou ruim. Havia muitas coisas complexas acontecendo na vida dele, coisas que influenciavam a minha vida — porque Trey tinha nascido em um grupo de caçadores de vampiros.

Eles se chamavam Guerreiros da Luz e diziam que seu objetivo era destruir os Strigoi, mas, assim como os alquimistas, também não viam os Moroi e dampiros com bons olhos. Trey tinha sido expulso do grupo depois de, sem querer, ter me ajudado a acabar com um ritual maluco de assassinato que eles estavam realizando. Por um tempo, ficara triste por ser banido, ainda mais por causa da pressão do pai. Então, uma coisa mudou.

Trey se apaixonou por Angeline.

De todas as coisas inacreditáveis em que já estive envolvida, essa foi a que mais me pegou de surpresa. O drama era ainda mais complexo porque, tecnicamente, Angeline ainda namorava Eddie na época, que, por sua vez, havia dado uma chance a ela depois de decidir que seu amor por Jill não daria em nada, pois nunca seria digno dela. A relação de Eddie e Angeline havia acabado de repente quando ele descobriu que as sessões de monitoria dela com Trey haviam virado sessões de pegação.

Ficar com um humano não era um conceito tão estranho para Angeline, tendo crescido entre os Conservadores. Trey não ficou tão tranquilo quando percebeu quantos princípios dos guerreiros estava violando; além disso, sentia-se culpado por Eddie. Eu tinha quase certeza de que Trey ainda nutria sentimentos por ela. Quanto a Angeline, era mais difícil dizer. Assim como Jill, ela parecia ter entrado para o fã-clube de Neil. Adrian dizia que as duas estavam fingindo gostar dele e eu não conseguia nem começar a entender por quê.

Dizer que meus amigos estavam vivendo uma novela mexicana era um eufemismo. Eles quase faziam minha relação perigosa com Adrian parecer monótona.

A única vantagem era que todos pareciam estar em modo de espera. Os princípios divididos de Trey o mantinham longe de Angeline. A firmeza de propósito de Eddie o mantinha longe de todos, e o mesmo servia para Neil. E, enquanto Neil permanecesse fiel a essa postura, Jill e Angeline não teriam o que fazer. Seria bom se todos tivessem um final feliz, mas, por mais egoísta que fosse da minha parte, eu precisava admitir que minha vida era muito mais fácil sem todo esse drama.

Embora Trey não estivesse atrás do balcão naquele dia, eu conhecia o barista que estava lá. O nome dele era Brayden, e havíamos saído por um tempo. Mesmo naquela época, ele parecia um pouco frio e excêntrico, e, agora, vivendo altas emoções com Adrian, mal conseguia entender como havia pensado que o que Brayden e eu tínhamos fosse um relacionamento. Não havia nenhuma paixão com Brayden, nenhum momento de tirar o fôlego e, sem dúvida, nenhum toque que me deixasse em chamas. Pensando agora, os pontos altos de sair com ele foram os cafés grátis e uma conversa particularmente interessante sobre a queda do Império Romano.

— Oi, Sydney — ele disse. Já tínhamos nos encontrado ali algumas vezes e as coisas foram bem civilizadas, ainda mais depois que Trey me contou que Brayden tinha uma namorada nova. “Quase tão inteligente quanto você”, Trey havia dito. “Mas bem menos bonita.”

Respondi com um sorriso:

— Como vão as coisas?

— Bem, bem. Acabei de sair da aula e descobri que meu trabalho sobre as implicações psicossociais dos experimentos associativos de Pavlov me fez ganhar uma bolsa. — Ele pegou um copo para mim. — Latte de baunilha light?

Olhei para o copo, melancólica.

— Chá de menta.

— Vai ficar tudo bem — a sra. Terwilliger disse, depois de pedir um cappuccino triplo, o que, aliás, foi bem cruel da parte dela. — Você não poderia tomar cafeína mesmo. — Ela tinha razão, já que eu pretendia usar magia mais tarde. — Força.

— É verdade — uma voz atrás de mim disse. — Nada fortalece o caráter como um teste de autocontrole.

Dei meia-volta, completamente despreparada para quem estava atrás de nós na fila.

— Wolfe? — Levei um susto. — O senhor... o senhor sai de casa?

Malachi Wolfe, instrutor e proprietário da Escola de Defesa Wolfe, me lançou um olhar gélido com seu único olho.

— Claro que saio. De que outro jeito compraria coisas?

— N-não sei. Imaginei que o senhor mandasse entregar.

— Algumas coisas eu mando — ele concordou. — Mas preciso vir aqui pessoalmente comprar grãos integrais de torra francesa. Os cachorros adoram.

Embora fizesse sentido que ele saísse do terreno desolado que chamava de lar, um café moderninho simplesmente não era onde eu esperava encontrar Wolfe. Adrian e eu havíamos feito o curso de defesa pessoal dele alguns meses antes e, por mais bizarro que tivesse sido, havíamos aprendido algumas dicas úteis. O próprio Wolfe era uma visão e tanto, com seu longo cabelo grisalho e seu tapa-olho.

— Hum-hum — a sra. Terwilliger pigarreou. — Não vai nos apresentar, Sydney?

— Hein? — Eu ainda estava perplexa por Wolfe estar usando calça jeans, e não a bermuda de sempre. — Ah. Esse é Malachi Wolfe. Foi com ele que eu e Adrian fizemos aquele curso de defesa pessoal. Wolfe, essa é minha professora de história, a sra. Jaclyn Terwilliger.

— É um prazer — ela disse.

A sra. Terwilliger foi cumprimentá-lo, mas, em vez de apertar sua mão, ele fez uma reverência exagerada e deu um beijo na mão dela.

— Não, não, acredite em mim. O prazer é todo meu.

Para meu horror total e absoluto, ela não puxou a mão de volta quando Wolfe não a soltou.

— Você também é professor, então? — ela perguntou. — Pensei ter sentido uma afinidade quando o vi.

Ele fez que sim, solene.

— Não existe objetivo mais elevado do que educar e formar as mentes dos jovens para a grandeza.

Achei que isso já era exagero, considerando que pelo menos metade das aulas dele envolviam histórias sobre como tinha escapado de piratas na Nova Zelândia e lutado contra um bando de corvos-presa-de-gancho. (Quando comentei que essa espécie de pássaro não existia, ele insistiu que o governo estava escondendo a existência deles.) Adrian e eu estávamos tentando montar uma linha do tempo das supostas aventuras de Wolfe, porque tínhamos quase certeza de que era impossível que elas tivessem acontecido como ele dizia.

— O que traz as senhoritas aqui hoje? — Wolfe perguntou. Ele olhou ao redor. — E onde está seu rapaz?

— Quem? Ah, o senhor está falando de Adrian? — perguntei como se não fosse nada. — Acho que ainda está na aula. Ele estuda arte em Carlton.

Wolfe ergueu as sobrancelhas.

— Arte? Sempre achei que ele fosse meio maluco, mas não sabia que era um caso perdido.

— Ei, ele é muito talentoso! Foi muito elogiado por um projeto de multimídia que fez.

— E o que era? — Wolfe não parecia nada convencido.

— Uma obra usando o monólito de 2001 como símbolo da evolução da humanidade para um mundo de publicidade e mídia social.

O bufo de desprezo de Wolfe deixou claro o que ele achava da ideia.

— Malditos universitários idealistas.

— É genial — insisti.

— Sydney — a sra. Terwilliger disse. — É um pouquinho exagerado.

Nem consegui formular uma resposta às palavras traiçoeiras dela. Wolfe, porém, não perdeu a chance.

— Se gosta de arte, deveria ver a exposição no estaleiro de San Diego. Eles recriaram uma batalha da Guerra Civil só com facas Bowie.

Abri a boca para responder, não consegui pensar em nenhuma resposta, e então a fechei.

Os olhos da sra. Terwilliger se iluminaram.

— Parece fascinante.

— Quer ir comigo? — ele perguntou. — Vou de novo neste fim de semana. Pela quinta vez.

Enquanto eles trocavam números de telefone, olhei de soslaio para Brayden, que estava segurando nossas bebidas com o queixo caído, sem conseguir tirar os olhos dos dois. Pelo menos eu não era a única a ter aquela reação. Peguei o Celular do Amor e escrevi uma mensagem para Adrian.

Encontrei o Wolfe. Ele chamou a sra. T para sair.

A resposta de Adrian foi mais ou menos o que eu esperava: ...

Então, dei o golpe de misericórdia: E ELA ACEITOU.

Adrian ainda não conseguiu passar dos sinais de pontuação:?!?

No caminho de volta para Amberwood, eu ainda estava sem palavras, o que era agravado pelo ar apaixonado da sra. Terwilliger.

— Professora — eu disse, por fim. — A senhora acha mesmo que sair com ele é uma boa ideia? Da última vez que contei, ele tinha onze chihuahuas.

— Melbourne — ela disse, voltando a usar o antigo apelido —, não faço nenhuma crítica às suas escolhas amorosas discutíveis. Então não questione as minhas.

O flerte com Wolfe havia consumido mais uma parte do nosso tempo, mas, pelo menos, ela aproveitou nossos últimos vinte minutos. Juntamos algumas carteiras e nos debruçamos sobre um dos livros de Inez, ao lado de um pequeno pote de terra. Ela apontou para um diagrama no livro que representava um palmo com quatro montinhos de terra dispostos em formato de diamante.

— Na verdade, não há um encantamento para isso — ela disse, salpicando a terra na minha mão no formato certo. — É um daqueles feitiços mais meditativos. Só que você não está tentando atingir um resultado concreto, mas se ligar à essência da terra. Qual é a primeira coisa que vem à cabeça quando você pensa em terra?

— Não usar branco.

Ela apertou os lábios, mas não perdeu o fio da meada.

— Entre em um transe e pense em tudo o que a terra é no mundo e na função que ela representa nos feitiços que você conhece.

Eu sabia entrar em transe para lançar feitiços, mas comungar com uma substância era um pouco mais difícil. Mesmo assim, fechei os olhos e me concentrei na respiração, entrando em um estranho estado em que minha mente ficava ao mesmo tempo vazia e concentrada. A terra na minha mão era fria e imaginei florestas úmidas, cobertas por névoa, como o Parque Nacional de Redwood, no norte, onde as árvores se ancoravam na terra e o cheiro de terra úmida pairava por toda a parte. A terra propriamente dita nem sempre estava presente em feitiços, mas muitas coisas em que ela se escondia estavam: joias, plantas e...

— Abra os olhos — a sra. Terwilliger disse, baixinho.

Abri e vi uma leve luminescência cercando a mão que segurava a terra.

— Tente colocar na outra mão e segurar.

A luz não tinha substância e eu precisava contê-la com a força da mente. Virei a mão e a luz caiu na outra. O brilho começou a vazar por entre os dedos, dissipando-se no ar. Fechei a mão, tentando segurar aquelas últimas faíscas de luz.

A porta da sala se abriu e levantei de um salto, perdendo todo o controle mental do resto de luz.

— Sydney? — Zoe colocou a cabeça para dentro.

— Entre, Ardmore — a sra. Terwilliger disse com frieza, fechando o livro sem olhar para baixo. — Mas, da próxima vez, faça a gentileza de bater na porta antes.

Zoe ficou vermelha com a repreensão.

— Mil desculpas. Eu estava ansiosa para ver Sydney. — Ela não ficou ofendida, mas envergonhada. Assim como eu, havia sido criada com regras muito rígidas de etiqueta e educação. Seus olhos passaram pela carteira. A sra. Terwilliger havia tomado o cuidado de virar a capa do livro para baixo, mas dava para ver minhas mãos sujas de terra. — O que vocês estavam fazendo?

A sra. Terwilliger pegou o livro e a tigela e caminhou até sua mesa, enquanto eu limpava as mãos.

— Sendo bobas e sentimentais. Peguei um pouco de terra do Partenon na minha viagem para a Grécia ano passado e guardei como lembrança. Fiquei encantada com a ideia de ter alguma coisa que tinha estado presente durante todo o avanço de uma grande civilização.

Era uma história mirabolante, mas muito menos estranha que tentar extrair a magia da essência da terra. Engoli em seco e tentei continuar com a mentira.

— Sim, e você sabe o quanto quero ir para a Grécia, Zo. Pensei que, talvez, se tocasse nessa terra, teria alguma ligação com a história. — Soltei uma risadinha nervosa. — Mas era só terra.

A sra. Terwilliger também riu.

— Nós duas temos cada fantasia romântica, Melrose. Algum dia você vai ter que ver por si mesma. Por enquanto, isso vai voltar para minha coleção. — Com reverência, ela colocou a tigela no escaninho. Antes de entrarmos, eu a tinha visto pegar aquela terra de um dos canteiros de flores de Amberwood.

Zoe estava com a testa franzida, mas finalmente assentiu porque, sério, o que mais ela poderia fazer?

— Certo... Então, já que acabou a aula, eu estava pensando se você queria sair pra fazer algumas coisas comigo. A gente não tem passado muito tempo juntas e preciso de tênis novos para a educação física. Os que eu trouxe estão velhos. Ninguém precisa da gente hoje. — A indireta era clara para mim. Não havia fornecimentos na mansão de Clarence e Jill ficaria na escola, protegida e em segurança.

Deu para sentir que a sra. Terwilliger estava me observando, esperando minha deixa. Se eu dissesse que tinha algum projeto para fazer para ela, ela concordaria. Mas Zoe tinha razão em um ponto: a gente não vinha passando muito tempo juntas. Isso não só levantava suspeitas sobre minhas ausências como também prejudicava minha relação com ela. Afinal, ela era minha irmã e eu a amava. Queria ter uma boa relação com ela. Queria que as coisas fossem como antigamente, embora isso parecesse cada vez mais impossível a cada dia que passava. Pelo menos um passeio no shopping seria uma coisa normal entre irmãs, apesar de, por dentro, não ser o que eu sentia.

— Você tem sorte — Zoe disse quando estávamos perto do shopping. O sensor de ponto cego do carro havia acabado de apitar. — Ele sempre fala quando tem um carro atrás. Na autoescola tínhamos que olhar nós mesmos. Aqueles carros eram uma porcaria.

Não pude deixar de rir.

— É sempre bom dar uma olhada, mesmo que não dirija uma porcaria. Costumo ver os outros carros antes de o sensor apitar.

Ela soltou um suspiro chateado.

— Queria dirigir. Eu tinha acabado de tirar a carteira provisória em Utah.

— Você não pode dirigir sem um responsável nem lá nem na Califórnia — eu a lembrei.

— Pois é. — Ela relaxou no assento, parecendo quase uma menina normal, e não parte de uma organização antiga e ramificada que acobertava o mundo sobrenatural. — Alguém poderia mexer uns pauzinhos na burocracia e tornar você minha guardiã. Quer dizer, de que outro jeito eu conseguiria uma carteira de motorista? A menos que alguém simplesmente faça uma falsa para Zoe Ardmore. Sou uma boa motorista.

— Você vai ter que perguntar para o papai — eu disse, sentindo uma pontada de culpa. Na verdade, não seria tão difícil usar contatos alquimistas para conseguir uma coisa do tipo. Mas se fizéssemos isso sem confirmar com nosso pai antes, era provável que ele nos desse uma bronca e, se pedíssemos para ele... enfim, algo me dizia que ele acharia desnecessário. — Se ele mesmo não sugeriu, deve querer que você se concentre em aprender as coisas. O trabalho é prioridade.

Ela não podia argumentar contra isso. Depois de olhar para os carros por um longo tempo, disse:

— Por falar em prioridades... você já pensou que o que está fazendo com a sra. Terwilliger talvez não seja bom?

Congelei, embora soubesse que não teria como ela estar falando de magia.

— Como assim?

— Não sei. É só que você já terminou o ensino médio. Está aqui para fazer o trabalho alquimista, mas parece que está levando as aulas bem a sério, especialmente a dela. Parece pessoal também, como se vocês fossem amigas. Quer dizer, falar sobre viagens? Não seria um problema se fosse só no horário letivo, mas você vive fazendo trabalhos pra ela que não parecem trabalhos. Nada contra querer amigos ou um tempo social... mas você não pode fazer isso à custa da missão. O que o papai diria?

Fiquei em silêncio e pensei por um tempo antes de responder.

— Você tem razão. Preciso tomar cuidado. É que é difícil quando falamos da Grécia, já que eu quero tanto ir pra lá. Adoro as histórias dela. Mesmo assim, não justifica meu comportamento. Acho que às vezes me esqueço disso quando está tudo tão tranquilo com Jill e os outros. Preciso fazer alguma coisa pra passar o tempo e definitivamente não quero ficar com eles.

— Você poderia ficar comigo — ela disse, esperançosa.

Olhei para ela por um bom tempo e abri um sorriso.

— Vou ficar. Vamos fazer mais coisas, e não só conversar sobre a missão. Sair da escola assim é uma boa ideia. Vou tentar fazer isso mais vezes, mas não quero parecer muito desinteressada nas aulas. Não posso arriscar problemas por estudar menos. — Na verdade, os professores gostavam tanto de mim que era bem possível que eu conseguisse matar o resto do semestre.

No entanto, Zoe acreditou na história e pareceu animada com a ideia de uma relação mais próxima. O mais importante foi que não voltou a mencionar nosso pai. Assim como ela, ele não suspeitaria de magia, mas também não gostaria que eu tivesse uma vida pessoal. Selei o acordo dizendo:

— Vamos parar pra tomar sorvete depois de comprar o tênis. Quem sabe a gente encontra um de noz-pecã.

Ela abriu um sorriso com a referência a um velho restaurante perto de onde a gente cresceu. O cardápio sempre dizia: “Pergunte sobre nosso sorvete especial do dia”. Mas, todo dia, era de noz-pecã. Quando meu pai comentou com a dona, que era uma velhinha, ela deu de ombros e disse: “Não consigo encontrar nada mais especial. Por que mudar?”. Tinha virado uma piada entre a gente e até uma espécie de tradição familiar.

Enquanto tomávamos nossas casquinhas no restaurante, tive uma ideia súbita.

— Você quer mesmo dirigir? — perguntei.

O brilho nos olhos dela respondeu antes que abrisse a boca.

— Sim! Vai tentar me arranjar uma carteira?

Fiquei mastigando uma noz-pecã, com a cabeça a mil.

— Então, sabe, o objetivo da provisória é praticar antes de ter a carteira definitiva.

— Mas eu não preciso...

Lancei um olhar severo de irmã mais velha.

— Regras são regras, e elas existem por um motivo. Não posso emitir sua carteira definitiva, mas, se quiser, pode praticar numa propriedade privada, como estacionamentos e tal. Acompanhada por um motorista com carteira — acrescentei.

Ela pensou na ideia e então fez que sim, ansiosa.

— Tudo bem, eu topo. A gente vai se divertir.

— Então — eu disse, com delicadeza. — Talvez eu não consiga praticar sempre com você, porque ainda estou atarefada com as coisas na escola. Mas a gente pode encontrar outra pessoa.

— Quem?

Era a hora da verdade. Eu tinha dois motoristas com carteira à minha disposição: Eddie e Neil. As meninas pareciam achar o sotaque de Neil encantador, mas eu não estava procurando alguém para encantar Zoe. Precisava de alguém que fosse acessível e simpático para mostrar a ela que nem todos os dampiros eram criaturas perversas da noite.

— Eddie — respondi.

Os olhos dela se arregalaram.

— Eddie? Mas ele é um...

— Eu sei, mas é um bom motorista. Quer dizer, se quiser esperar até eu ter tempo... — Fiz uma pausa significativa. — Vou entender. Você não vai conseguir praticar tanto assim, mas não é como se a gente fosse sair daqui tão cedo, né?

Ela ficou em silêncio e terminei minha casquinha. Tinha certeza que a minha atuação havia sido impecável. Ela não fazia ideia de que minha sugestão era algo além de preocupação de irmã. Agora era o momento de ver se eu era tão inteligente quanto pensava.

Eu vinha pensando nisso fazia um tempo, em como fazer com que ela começasse a ver os dampiros e Moroi com outros olhos. As barreiras dela eram muito fortes e eu sabia que não conseguiria obrigá-la a se envolver ou acreditar em alguma coisa que não quisesse. Mas dirigir? Isso ela queria e, se entrasse nessa achando que a decisão havia sido dela, talvez houvesse a chance de quebrar as regras rígidas que haviam sido inculcadas na sua cabeça. Era uma esperança fugaz, mas eu precisava arriscar. Afinal, tinha sido assim comigo: uma série de acontecimentos me obrigou a trabalhar com os Moroi e dampiros, e a entendê-los de verdade. Além disso, gostava de acreditar que minha capacidade de pensar por conta própria havia desempenhado um papel.

— Está bem — Zoe disse, finalmente. — Vou tentar. Mas promete ficar junto na maior parte do tempo?

Fiz que sim, solene.

— Pode deixar.

Ela relaxou um pouco e ficou girando o resto da casquinha na mão.

— Acho que é uma coisa boa ele ser dampiro. Pelo menos eles parecem humanos.

— Pois é — eu disse, tentando esconder um sorriso. Eu havia dito a mesma coisa quando fui obrigada a viajar com Rose Hathaway pela Rússia. Aquele plano era tão maluco que poderia dar certo. — Parecem mesmo.


7

 

Adrian

EU ESTAVA TRABALHANDO naquele maldito autorretrato de novo.

Pensava em descartar minha última tentativa, não por um pessimismo causado pelo espírito, mas porque o quadro não era bom mesmo. Quer dizer, era razoável e eu poderia inventar uma história sobre simbolismo para minha professora. Ela acreditaria e eu poderia ganhar uma nota decente. Mas eu sabia a verdade. Simplesmente não era bom.

Eu estava um tanto irritado, sobretudo porque não tinha dormido bem. Tinha virado de um lado para o outro, sem conseguir descansar de verdade. As coisas eram ainda piores porque Sydney não passaria em casa naquele dia. Ela havia decidido ficar na escola para fazer alguma coisa com Zoe depois da aula. Eu entendia a lógica de manter a mini-Sage calma, mas nem por isso deixava de sofrer de saudade. Pelo menos, nos veríamos no jantar de sexta na mansão de Clarence, mas nunca era a mesma coisa com os outros por perto.

O celular tocou, me tirando do meu momento sentimental. Procurei o aparelho loucamente até descobrir que ele tinha ido parar entre as almofadas do sofá, e consegui atender pouco antes de a caixa postal pegar a ligação. Foi uma total surpresa ver quem era.

— Vossa Majestade — eu disse, com reverência.

— Oi, Adrian. — Pude perceber que ela já estava sorrindo. — Como está?

— Ah, você sabe. A vida glamorosa do sul da Califórnia. Palmeiras e estrelas de cinema. — Era fácil assumir a máscara petulante, escondendo o que eu realmente sentia. Lissa não teria se deixado enganar pessoalmente, mas, por telefone, eu estava protegido.

— Bom, espero que consiga se afastar um pouco dessa vida... porque tenho uma missão pra você.

— Missão? — As palavras dela e sua mudança de tom me alertaram de que alguma coisa grande estava acontecendo.

— Houve outra restauração de Strigoi.

As surpresas não paravam de chegar.

— Quem foi? E quem fez? Você?

— Não, foi outra usuária de espírito. Uma que não conhecíamos. O nome dela é Charlotte Sinclair, e ela acabou de restaurar a irmã. Olive.

— Charlotte. Olive. Certo. Que mais?

Até eu sabia da seriedade daquilo. A única coisa que chegava perto de ser tão incrível quanto trazer os mortos de volta à vida com o espírito era restaurar os que haviam sido transformados em Strigoi. Era extremamente difícil porque não era só uma questão de usar muito espírito. Primeiro era preciso dominar o Strigoi. Depois, o usuário de espírito precisava cravar a estaca no Strigoi enquanto realizava a magia. Só tínhamos conhecimento direto de três pessoas com quem isso havia acontecido. Também não conhecíamos muitos usuários de espírito, então a descoberta de mais uma era uma grande notícia.

— Preciso que você largue tudo e vá até elas — Lissa disse. Não era exatamente a voz que ela usava na sala do trono, mas seu tom definitivamente não deixava espaço para discussão. — Precisamos descobrir se dá pra notar alguma diferença em alguém que acabou de ser salvo que possa nos ajudar a entender por que eles não podem ser transformados de novo. Sonya está na Europa e não posso abandonar a corte. Você é o único usuário de espírito que pode ir e investigar agora.

Foi então que entendi a importância daquilo. Os Strigoi eram criados por dois métodos. O primeiro era quando um Strigoi drenava a vítima e depois dava o próprio sangue para ela. Mas os Moroi também podiam se transformar por livre e espontânea vontade se drenassem um fornecedor. Recentemente, havíamos descoberto que Strigoi que tinham sido restaurados não podiam se transformar outra vez. Ninguém sabia exatamente se era uma característica específica deles ou se havia uma maneira de usar o espírito para espalhar essa capacidade para outras pessoas. Não podíamos evitar que um Strigoi matasse por outros meios, mas, se houvesse uma forma de criar uma proteção mágica que impedisse as pessoas de entrar naquele estado de mortos-vivos, seria revolucionário. Sonya e eu trabalhamos por quase dois meses, fazendo toda espécie de testes e exames para ver se conseguíamos manipular o espírito até chegar no que havia sido alterado nos restaurados. Não tivemos sorte.

— Largar tudo, hein? — Não pude deixar de sentir certo rancor. Ainda que ela soubesse que eu estava na faculdade, pelo jeito esperava que eu deixasse tudo de lado a qualquer momento.

Ela suspirou.

— Sei que você tem sua vida. Não pediria se não fosse tão importante. Ela foi restaurada faz pouco tempo... muito pouco tempo. Menos de vinte e quatro horas. Se houver algum sinal do que exatamente aconteceu no processo, não podemos desperdiçar um segundo. Podemos colocar você num voo para Dallas daqui a algumas horas. Rose e Dimitri já estão a caminho.

— Sério? — Àquela altura, nada deveria me surpreender. Passar o fim de semana com minha ex e seu guerreiro russo era provavelmente só o começo da palhaçada. — Bom, pelo menos ele vai poder usar roupas de cowboy.

Pude ouvir um riso baixinho.

— Você sabe por que ele precisa ir.

Eu sabia. Dimitri Belikov era um dos três sortudos — quer dizer, quatro agora — que haviam sido restaurados. Ele não tinha o poder de ver o espírito, mas havia passado pela experiência de “acordar” de repente e descobrir que vinha sendo um monstro sedento por sangue. Eu conseguia imaginar como isso deveria ser devastador. Uns conselhos de alguém que havia passado pela mesma coisa seriam úteis, para dizer o mínimo.

— Entendo. E claro que vou, Vossa Majestade.

— Não me chame assim. E não diga que está fazendo isso só porque é meu súdito. Quero que aceite por amizade... e porque é a coisa certa a fazer. — Havia um tom triste na voz dela. Devia ser difícil, pensei, quando as pessoas viam você mais como rainha do que como uma pessoa de verdade.

Minha resposta foi sincera.

— Estou fazendo isso por todos esses motivos, prima.

— Faz tempo que você não me chama assim — ela disse, com carinho. Não éramos primos de verdade, mas era um termo carinhoso que as famílias reais usavam entre si.

— Faz tempo que não vejo você.

— Pois é. — A voz dela ficou mais saudosa e pensei que a vida deveria ser difícil para uma rainha polêmica de dezoito anos com o peso de uma nação nas costas. — Não tivemos muito tempo no casamento. Como está, Adrian? Estou falando sério, está tudo bem? Com Jill... e tudo mais...

— Sabe como é. — Sem petulância. — Alguns dias são mais fáceis do que outros. E você?

Houve um longo silêncio.

— Também. Não sabia o quanto Rose me ajudava até perder nosso laço. Ela estava carregando tanta escuridão. Agora está tudo em cima de mim. O que é melhor — ela acrescentou rápido. — Mas mesmo assim é difícil.

— Eu sei. — Entendia perfeitamente o peso do espírito e mal conseguia imaginar como isso deveria agravar o estresse dela. — Pelo menos Jill e eu não chegamos a esse ponto. Ela está segura.

— Por enquanto — Lissa disse. — Demorou um tempo até a escuridão começar a passar para Rose. Se vocês conseguirem bloquear um ao outro, vai ajudar muito.

E como, pensei.

— É, estamos trabalhando nisso. Até agora nada.

Tivemos outro momento de silêncio, mas foi um silêncio agradável. Mesmo pelo telefone, havia um carinho e uma cumplicidade entre nós por causa do espírito que mais ninguém, exceto Sonya e essa tal de Charlotte, era capaz de entender. O preço do espírito era alto.

— Rainha ou não, vou estar sempre aqui — Lissa disse, com ternura. — Se algum dia precisar conversar sobre alguma coisa, vou entender.

De novo achei bom estarmos ao telefone porque tinha quase certeza de que não conseguiria esconder toda a perturbação sentimental e o conflito por causa de Sydney. E, por mais que Lissa falasse aquilo de coração, eu sinceramente duvidava que ela fosse entender esse assunto em específico.

— Eu também, prima — eu disse, o mais galante possível. — Me fale a hora e o lugar que vou pra lá imediatamente.

— Vamos mandar as informações do voo para... Ah. Já ia esquecendo. Você precisa levar um dos dampiros com você.

— Você tem milhas para um acompanhante grátis ou coisa assim?

— Não — ela respondeu, rindo. — É só mais seguro. Se Charlotte tiver alguma ligação com outros Strigoi... Bom, nunca se sabe se eles podem aparecer para farejar informações. É mais por precaução. Mas você pode escolher qual levar.

Nem havia o que decidir. Eu estava prestes a dizer Eddie, quando tive uma ideia súbita.

— Neil.

— Neil? — Lissa pareceu surpresa, mas não questionou. — Está bem. Vamos tomar as providências.

Tirar o sr. Palácio de Buckingham de Palm Springs por alguns dias poderia fazer com que Jill — e talvez até Angeline — pensassem melhor sobre aquela história com ele. Claro, Jill ficaria com raiva, mas me agradeceria depois, quando percebesse que precisava parar de usar Neil como distração e simplesmente dar um jeito na situação com Eddie.

Assim que desliguei, mandei uma mensagem para Sydney no Celular do Amor: Pode falar agora? As aulas ainda não tinham terminado, então havia uma chance de ela estar livre de Zoe. Dito e feito: o celular tocou um minuto depois.

— Que foi? — ela perguntou, sem disfarçar a preocupação. — Você está bem?

— Tirando o fato de que o mundo é um lugar frio e solitário sem você, sim, estou bem. Mas vou fazer uma viagem inesperada. — Dei um resumo rápido da história de Charlotte e Olive.

— Puxa — ela disse quando terminei. — Pra onde você vai?

— Adivinha. “À noite as estrelas brilham no céu...”

Ela ficou em silêncio.

— Não conhece essa música? — perguntei.

— Não.

— Vou pro Texas. Dallas. Tentarei encontrar uma fantasia de cowgirl pra você. Saia de couro, camisa curta...

— Só preciso de você de volta — ela disse. Mas parecia estar rindo. O limite entre exasperação e adoração era muito tênue entre nós às vezes. — Quando você vai?

— Pelo que Lissa disse, daqui a algumas horas, então acho que preciso ir para o aeroporto em breve. Ela ainda vai me enviar as informações e mandar alguém avisar Neil. — Eu tinha certeza que ele não mereceria uma ligação pessoal da realeza. Ao contrário de certas pessoas.

— Bom, então tome cuidado... Mas, poxa, que oportunidade! — Senti que ela estava entrando no modo intelectual. Quer dizer, sempre estava nesse modo, mas em alguns momentos era mais forte do que em outros. — Eu tinha quase desistido de encontrar uma maneira de impedir a transformação.

— Não é certeza — eu lembrei. — Talvez não tenha nada pra ser descoberto. Ou talvez eu não consiga encontrar. — Comecei a me tocar da gravidade do que estava sendo colocado nas minhas costas. Aquele mistério havia consumido as mentes mais brilhantes nos últimos meses. Agora, tínhamos uma pista gigantesca... e cabia a mim examiná-la? Quem era eu para descobrir os segredos do espírito? Sonya era muito mais adequada para aquele trabalho.

— Se der pra descobrir, você consegue — Sydney disse, adivinhando minha insegurança. — Acredito em você.

— Você diz isso porque namora comigo.

— Digo isso porque é verdade.

Mais tarde, enquanto arrumava a mochila, quase desejei que Sydney não tivesse ligado. Falar com ela só tornava nossa separação mais amarga. Nunca, nem quando eu era obcecado por Rose, achei que poderia ficar tão apaixonado por uma garota. Alguns dias longe bastavam para que eu entrasse em desespero. Era irônico porque houve meninas no passado de quem eu até queria ficar longe por alguns dias. Tá, muitos dias. Tudo parecia muito louco, mas, enfim, eu era louco por Sydney.

Lissa mandou as informações da viagem e peguei um táxi para o aeroporto. Sydney me mataria se eu tivesse deixado o Ivashmóvel no estacionamento. Eu tinha que encontrar Neil no balcão da companhia aérea e o avistei imediatamente com sua altura e postura rígida. E, para minha surpresa, uma figura loira mais baixa estava ao lado dele. Sydney se virou quando cheguei, com uma expressão fria de alquimista no rosto.

— Ora, a Sage mais velha — eu disse, torcendo para não demonstrar que estava louco para jogá-la na parede e dar um beijo nela. — Arrastaram você pra essa aventura doida também?

— Sydney fez a gentileza de me dar uma carona — Neil disse, sem suspeitar de nada.

— Que gentil da sua parte — concordei, tentando parecer o mais condescendente possível. — Achei que você e sua irmã estariam fazendo gráficos coloridos ultrassecretos. Ou seja lá o que vocês fazem no seu tempo livre.

Sydney cruzou os braços e fingiu uma expressão séria.

— Remarcamos para eu poder me certificar de que vocês pegariam o voo. Precisava ver com meus próprios olhos se você ia aparecer. É um assunto sério, sabia?

Encolhi os ombros.

— Se você diz...

Ela conseguiu parecer uma perfeita alquimista irritada. Mais do que nunca, quis dar um beijo nela.

— Não temos tempo para discutir — Neil disse. — E é um assunto sério. — Ele se virou para o monitor e, nesse breve instante, Sydney me olhou nos olhos. A sombra de um sorriso perpassou seus lábios, desaparecendo assim que Neil se voltou para nós outra vez. — É hora de ir. Precisamos fazer o check-in.

Ela fez que sim, com o mesmo ar profissional.

— Boa viagem e boa sorte.

— Nós fazemos nossa própria sorte, Sage.

Isso quase a fez trair a atuação. Era uma velha piada entre nós e foi bom que Neil estava distraído demais para notar quaisquer indícios ou linguagem corporal. Estávamos a uma distância segura um do outro, mas eu tinha plena consciência de cada centímetro que nos separava e cada detalhe do corpo dela. Para qualquer outra pessoa, devia ser completamente óbvio que faltava pouco para arrancarmos as roupas um do outro.

Ela nos deu tchau e saiu sem olhar para trás, mas, enquanto eu entrava na fila do check-in, recebi uma mensagem no celular: Te amo.

Como estava em cima da hora, precisamos voar de terceira classe. Ficar longe da tentação das bebidas gratuitas era bom, já que eu precisaria manter a cabeça fria para me sintonizar com o espírito. Felizmente, Neil era uma companhia silenciosa e tentei me distrair lendo O grande Gatsby. Sydney havia ficado horrorizada quando descobriu que minha biblioteca consistia em um dicionário de drinques e uma edição antiga da Esquire e, com a insistência dela, eu prometera ler alguma coisa mais substancial. Estava tentando ter pensamentos profundos enquanto lia Gatsby, mas, na maior parte do tempo, só ficava com vontade de dar festas iguais às do livro.

Charlotte e Olive estavam sendo mantidas em um abrigo secreto nas imediações de Dallas, onde havia poucos vizinhos para notar a estranha movimentação de guardiões patrulhando a área. Estacionamos nosso carro alugado na entrada e, pela janela, reconheci uma silhueta familiar sentada na cadeira de balanço da varanda, com os pés apoiados no parapeito. Uma comichão de ansiedade perpassou meu peito.

— Aqui vamos nós — murmurei.

Rose se levantou quando chegamos. Por um momento, fui transportado para nosso primeiro encontro mais de um ano antes, também em uma varanda. Aquela estivera coberta de neve e ficava em um resort de esqui luxuoso. A beleza dela me fizera perder o fôlego na época e, mesmo agora, depois de tanto tempo, não fiquei impassível. Seu longo cabelo escuro caía sobre os ombros e havia uma chama em seus olhos castanhos tão perigosa quanto sedutora. A mesma combinação irradiava de seu corpo, mesmo naquela postura descontraída, de calça jeans.

No entanto, ainda que admirasse Rose, não senti aquela velha atração nem sofri com a visão dela. Claro, sempre haveria uma dor pela maneira insensível como ela tinha acabado nosso breve relacionamento, mas meu coração não batia mais rápido em sua presença. Eu não sentia aquela tristeza de ver partir o amor da minha vida, nem ódio por ela. Na verdade, me peguei pensando em Sydney, sentada com as perninhas cruzadas enquanto estudava seus livros na minha cama, com a luz dourada do sol iluminando seu rosto quando levantava os olhos para mim com aquele sorriso de quem sabia das coisas.

— Vocês chegaram rápido — eu disse, a título de cumprimento. — Belikov mudou as leis do espaço-tempo pra reduzir o trajeto? Ele consegue fazer isso, né? — A corte real dos Moroi ficava na Pensilvânia, o que tornava a viagem deles muito mais longa do que a nossa.

Rose sorriu com a piada, embora eu pudesse notar que também estava desconfiada. Não sabia ao certo o que esperar de mim e tinha medo que eu pudesse fazer uma cena. Não tirava a razão dela. Devia ser por isso que estava me recebendo ali antes de me deixar entrar numa situação explosiva lá dentro.

— Hoje não precisou. Tivemos muita sorte e pegamos um voo assim que ficamos sabendo do caso. E chegamos faz mais ou menos uma hora só. — Ela apertou a mão de Neil. — Sou Rose.

— Neil — ele disse, fazendo uma reverência formal com a cabeça. — É uma honra conhecer você. Suas histórias heroicas com Dimitri Belikov são lendárias.

— Hum, valeu — ela disse. Era bom finalmente ver uma mulher imune àquele sotaque. Não que ela não tivesse um fraco por sotaques, mas preferia os do outro lado da Europa. — Dimitri está lá dentro, se quiser falar com ele.

Neil abriu um sorriso.

— Seria maravilhoso. — Ele me lançou um olhar inseguro e fiz sinal de que estava tudo bem.

— Vai lá. Vou ficar bem. Além disso, essa é a maneira não tão sutil de Rose dizer que quer conversar a sós comigo. Vai lá venerar seu herói, vai.

Não precisei dizer duas vezes. Ela ficou olhando para ele, rindo, e então se voltou para mim, um pouco mais séria.

— Também imaginei que você quisesse um cigarro. Deve ter sido difícil não fumar por... quanto tempo? Três horas? — ela ironizou.

— Três horas? Caramba, Rose. Faz seis semanas que não fumo.

O choque completo no rosto dela foi uma das melhores coisas que eu tinha visto naquele dia. Para ser sincero, a surpresa de Rose não era completamente injustificada. Eu supostamente tinha parado enquanto a gente namorava, mas tinha sofrido algumas recaídas e desistido por completo depois.

— Você... parou de fumar?

Enfiei as mãos no bolso do casaco e me recostei no parapeito.

— Não é bom pra saúde.

— Nossa... que ótimo. — Ela superou o espanto e, pelo visto, decidiu testar os limites da minha nova respeitabilidade. — E ouvi dizer que está na faculdade também.

— Pois é. Estudando arte. Acabei de terminar um trabalho examinando a evolução simbólica da era do australopiteco até a nossa era de obsessão superficial com a mídia. — As palavras saíram fáceis da minha boca e fiquei pensando quantos pontos eu teria ganhado com Sydney se ela estivesse ali.

— Nossa — Rose repetiu, arregalando os olhos.

Fiz que não era nada.

— Só uma coisinha que montei. Mas vamos nos concentrar no trabalho. O que vou encontrar lá dentro?

Ela se focou imediatamente.

— Mais ou menos o que vi em Lexington quando Robert Doru salvou Sonya. Uma usuária de espírito exausta e uma paciente confusa. Dimitri está conversando com Olive, o que parece ter ajudado, e tenho certeza que Charlotte vai se sentir melhor com você por perto.

Era um bom momento para mencionar como todas as mulheres adoravam me ter por perto, mas achei melhor conter meu senso de humor incrível até ver a situação com meus próprios olhos.

— Como vocês descobriram?

— Um guardião chamou a gente. Acho que Charlotte estava procurando a irmã fazia um bom tempo e usou um guardião amigo dela pra criar uma armadilha elaborada a fim de restaurá-la. — Rose assumiu uma expressão solidária. — Mas Charlotte não estava preparada para o impacto físico e mental que isso teve sobre elas. Foi aí que o guardião pediu ajuda. Tudo aconteceu faz menos de vinte e quatro horas.

— O que explica a urgência — murmurei. Todos realmente tinham agido rápido. — Bom, vamos ver o que consigo descobrir então. O espírito é imprevisível.

— Pois é, acredite em mim, sei do que está falando. Sinto falta do laço com Lissa, mas não de sentir o espírito na pele. — Ela inclinou a cabeça para me examinar. — Como vão as coisas com Jill?

Dei a mesma resposta que havia dado a Lissa.

— O mesmo de sempre. Os efeitos colaterais negativos não estão indo muito pra ela, mas ainda não aprendemos a criar barreiras. Então ela ainda está vivenciando as incríveis aventuras de Adrian Ivashkov.

— Tenho medo do significado de “incríveis” nesse caso. — Ela trocou o olhar desconfiado por um de puro horror. — Ai, meu Deus, Adrian! Você não está ficando com todas as Moroi do sul da Califórnia, está?

— Claro que não — respondi. — Sou muito mais seletivo.

Ela soltou um resmungo.

— Mesmo uma já é demais. Você deveria se envergonhar de expor Jill à sua vida sexual. Não consegue ficar sem suas noitadas baratas por um tempo? Pelo bem de Jill?

Parte de mim queria defender a grandeza da minha relação com Sydney. Outra parte sabia que, se o mundo achasse que eu tinha milhões de casos com meninas Moroi, ninguém nunca suspeitaria que eu era devotado a uma única garota humana.

Abri um sorriso petulante.

— Ei, preciso aproveitar a vida, não é?

Ela balançou a cabeça com desgosto e seguiu para a porta.

— Acho que algumas coisas nunca mudam.

Era uma casa antiga, mas bem conservada, e fiquei me perguntando onde tinham arranjado aquele lugar. Segundo Lissa, não era de nenhuma das irmãs e havia sido preparada pelos guardiões para servir de abrigo. Quando entramos na sala, uma menina Moroi mais ou menos da minha idade estava em pé à nossa espera. O cabelo dela era um emaranhado de cachos escuros e ela estava enrolada em um cobertor como se fosse uma capa.

A expressão de Rose se abrandou imediatamente.

— Charlotte, você deveria voltar pra cama.

A menina fez que não e olhou para nós com os olhos cinza arregalados.

— Quero saber o que está acontecendo. Por que tem gente nova aqui? O que vai acontecer com Olive? Vão fazer experimentos nela como se fosse um animal de laboratório? — A menina começou a tremer, com o rosto cheio de medo e fúria, e meu coração doeu por ela.

— Vai ficar tudo bem — eu disse, enviando uma onda de compulsão para acalmá-la. — Não precisa se preocupar.

Ela começou a relaxar, mas então, de repente, piscou e cravou os olhos em mim.

— Não tente isso comigo.

Exausta ou não, Charlotte Sinclair ainda era uma usuária de espírito. Ri e fiz um gesto apaziguador.

— Só estou tentando ajudar.

— Vai ficar tudo bem mesmo — Rose disse a ela. — Este é Adrian. Ele só precisa conversar com ela. Você pode vir junto se quiser.

Charlotte me lançou um olhar desconfiado, mas não disse nada enquanto nos seguia para o interior da casa. Chegamos a um quarto espaçoso com papel de parede descascado e uma cama acolchoada. Uma dampira estava sentada nela. Escondi minha surpresa. Ninguém havia mencionado isso e simplesmente supus que as duas irmãs eram Moroi. Embora tivessem o mesmo cabelo preto, os traços das duas eram completamente diferentes. A pele de Olive era marrom avermelhada, o que me fez suspeitar de uma ascendência indígena, e seus olhos eram grandes e escuros. Ela tinha a constituição mais atlética da maioria dos dampiros, ao contrário da silhueta alta e magra da irmã. Só o formato do rosto e os maxilares altos sugeriam um parentesco, provavelmente por parte de pai, já que os homens Moroi gostavam de pular a cerca com mulheres dampiras. Isso me deu um novo respeito por Charlotte, visto que meios-irmãos dampiros nem sempre eram reconhecidos. Charlotte havia arriscado a vida pela sua.

Além de Rose, Dimitri e Neil, havia três outros guardiões no quarto, criando um cenário quase cômico, considerando como Olive estava calma. Dimitri estava apontando exatamente isso para um dos guardiões que eu não conhecia:

— Não tem mais nenhum resquício de Strigoi nela, confie em mim. Vocês não precisam de tanta segurança. Ela está a salvo.

O outro guardião não pareceu tão confiante.

— Temos nossas ordens.

Frustrado, Dimitri passou a mão pelo cabelo, sabendo melhor do que ninguém que Strigoi restaurados não retinham nenhuma parte daquela condição de mortos-vivos. Tecnicamente, todos sabiam, mas algumas pessoas ainda tinham muito medo. Ao me ver, ele deixou a discussão de lado e abriu um sorriso sincero. Pouco antes, eu e ele havíamos passado bastante tempo juntos e, embora fosse difícil esquecer que Rose tinha me largado por ele, eu não podia deixar de respeitá-lo, ainda que de má vontade.

— Adrian — ele disse. — Que bom que conseguiu vir. Estamos torcendo para que agir rápido nos dê alguma informação que os experimentos não deram.

Ele continuou falando, mas minha atenção estava toda em Olive. Invoquei o espírito para observar a aura dela, que era um misto do que eu esperava ver em uma dampira com o que eu não esperava: as chamas douradas reluzentes de um usuário de espírito. Enquanto observava, aquele dourado já ia perdendo o brilho. Invoquei ainda mais espírito e ouvi Charlotte prender o fôlego. Ela poderia estar cansada demais para produzir muito espírito por conta própria, mas devia ser óbvio para ela o quanto eu estava usando. Voltei a me concentrar em Olive, tentando olhar mais profundamente, além de sua aura, até sua própria essência. Nunca havia feito isso antes e foi muito mais difícil do que eu imaginara. Nem sabia se conseguiria alguma coisa. Estava só seguindo minha intuição.

Cerrei os dentes e me concentrei mais. Ali — era difícil de ver. Na verdade, era mais uma sensação que uma visão propriamente dita. Mas tudo em Olive estava infundido com aquele brilho dourado. Eu não conseguia enxergar em nível microscópico ou coisa assim, mas, de repente, tive certeza que todo o ser dela estava envolvido em espírito. E, assim como na aura, esse brilho estava desaparecendo a cada respiração. Ainda havia muito, mas, pensando no que eu via ali e no tempo que se passara desde que ela tinha sido salva, suspeitei que tudo se dissiparia dentro de poucas horas. Pisquei e o espírito que ardia dentro de mim desapareceu. Olive parecia normal novamente.

O quarto estava em silêncio. Tirei os olhos dela e me voltei para os outros. Todos estavam me encarando com expectativa. Engoli em seco e, por um momento, o nervosismo de antes cresceu dentro do meu peito. A magnitude do que eu enfrentava caiu com tudo em cima de mim. Estávamos à beira de uma das maiores descobertas da história de nossa raça e todos estavam esperando que eu a desvendasse. Logo eu! O que tinham na cabeça? Eu não era um gênio como Sydney. Não passava de um moleque mimado que lutava diariamente contra a tentação do armário de bebidas e não conseguia terminar O grande Gatsby. Quem era eu para fazer aquilo?

Uma imagem de Sydney surgiu na minha mente, calma e graciosa. Acredito em você.

O nervosismo passou. Respirei fundo e enfrentei os olhares de todos que me observavam no quarto. Quem era eu para fazer aquilo?

Eu era Adrian Ivashkov. E estava prestes a provar do que era capaz.

— Se querem ter alguma chance de aprender a salvar outras pessoas, precisam fazer exatamente o que eu mandar. E agora.


8

 

Sydney

A VIAGEM DE ADRIAN NÃO DEVERIA TER ME INCOMODADO TANTO. Afinal, eu não teria como passar muito tempo com ele naquele fim de semana mesmo. Mas pensar na distância física entre nós me afetou muito. Em Palm Springs, podíamos não estar juntos, mas eu sempre tinha a sensação de que ele estava por perto, mesmo que “perto” significasse em Carlton, do outro lado da cidade. Eu me sentia no controle, como se pudesse medir os passos entre nós ou imaginar feixes de luz nos ligando onde quer que estivéssemos. Mas o Texas estava além do meu alcance, além do meu controle. Adrian havia saído do nosso abrigo seguro — por menos seguro que fosse — e estava no mundo lá fora, à deriva.

Pelo menos não precisei mentir para Zoe quando cancelei nosso passeio. Neil precisava de uma carona para o aeroporto e descobrir como evitar a transformação em Strigoi era prioridade máxima para os alquimistas, um assunto em que queríamos ajudar os Moroi. Quando Zoe perguntou por que Neil não poderia simplesmente pegar um táxi, dei a mesma desculpa que havia dado a ele e Adrian: que precisava ver com meus próprios olhos os dois indo embora. Como Zoe achava que em sua maioria os Moroi e dampiros eram dissimulados e pouco confiáveis, acreditou em mim.

Isso também me deu um pouco de tempo para passar em uma loja esotérica na volta e procurar alguns cristais e rochas para arriscar a vinculação elemental. Embora eu tivesse muitas teorias sobre o que poderia substituir a boleíte, não havia tido muita sorte até então. Ainda tinha tempo até que Marcus voltasse, mas estava com medo de não conseguir cumprir minha promessa se não descobrisse logo o cristal certo.

Passei na sala da sra. Terwilliger com as compras e a encontrei corrigindo provas em sua mesa. Ela me lançou uma olhadela rápida e voltou para sua papelada, sem nem precisar perguntar por que eu estava ali. Fechei a porta, depois de virar a placa de Bata, por favor, e comecei a trabalhar.

Terra e fogo eram os elementos em que eu era melhor, mas, para aqueles testes, me concentrei na terra. Se aparecesse alguém, seria mais fácil limpar as mãos que disfarçar o cheiro de fumaça. Trabalhei com a primeira pedra, zircão, e, embora sentisse a transferência de magia para ela, algo pareceu estranho. Levei a pedra para a sra. Terwilliger, visto que ela era mais experiente do que eu em sentir a magia em objetos e pessoas. Ela ergueu o zircão sob a luz e o estudou por alguns segundos antes de balançar a cabeça.

— Tem alguma coisa aí, mas não tanto quanto senti você invocar. Nem tudo entrou. — Ela me devolveu a pedra. — Pode ser suficiente para o que você precisa, mas imagino que queira o máximo possível.

Fiz que sim. Eu não tinha explicado meu objetivo e ela não tinha feito perguntas. Parecia contente que eu tivesse resolvido estudar as artes por conta própria. Voltei para minha carteira e continuei com as duas últimas pedras, chegando a resultados igualmente decepcionantes. Uma não absorveu nada da magia. A outra a conteve por pouco tempo, mas então a magia vazou. Me afundei na carteira, derrotada.

— Estão acabando minhas opções acessíveis — eu disse, mais para mim que para ela. — Um haleto como a boleíte é minha melhor aposta, mas não tem nenhum fácil de encontrar. Daqui a pouco vou ter que encomendar de vendedores de pedra na internet.

A sra. Terwilliger não teve tempo de responder às minhas divagações geológicas porque alguém bateu na porta. Enfiei as rochas discretamente no bolso e tentei fingir que estava estudando enquanto ela mandava a pessoa entrar. Imaginei que Zoe tivesse me encontrado, mas, por incrível que pareça, quem entrou foi Angeline.

— Você sabia — ela começou — que é muito mais difícil colocar órgãos de volta no corpo do que tirar?

Fechei os olhos e, em silêncio, contei até cinco antes de abri-los de novo.

— Por favor, me diga que você não arrancou as tripas de ninguém.

— Não, não — ela disse. — É só que deixei meu trabalho de biologia na sala da sra. Wentworth, mas, quando voltei pra pegar, ela já tinha ido embora e trancado a porta. Mas como é pra amanhã e eu já estou com problemas nessa matéria, precisava pegar. Daí dei a volta, e a fechadura da janela não foi tão difícil de abrir e...

— Espere — interrompi. — Você arrombou uma sala de aula?

— Sim, mas o problema não é esse.

Atrás de mim, ouvi o riso abafado da sra. Terwilliger em sua mesa.

— Continue — eu disse, resignada.

— Então, quando entrei, não vi que tinha um monte de coisa no caminho e dei de cara com aqueles modelos do corpo humano que ela tem. Sabe, aqueles de tamanho real com todas as partes dentro? Daí bam! — Angeline estendeu os braços para efeito dramático. — Órgãos por toda a parte. — Ela parou e me olhou com expectativa. — Então, o que a gente faz agora? Não posso criar encrenca com ela.

— A gente? — exclamei.

— Tomem — a sra. Terwilliger disse. Olhei para trás e ela me jogou um molho de chaves. Pela cara dela, parecia estar usando todo seu autocontrole para não dar uma gargalhada. — A chave quadrada é a mestra. A sra. Wentworth tem ioga agora e não volta mais hoje. Imagino que você consiga arrumar a bagunça e recuperar o trabalho antes que alguém descubra.

Eu sabia que esse “você” se referia a mim. Com um suspiro, me levantei e guardei minhas coisas.

— Obrigada — eu disse.

Enquanto Angeline e eu caminhávamos para a ala de ciências, eu disse:

— Sabe, da próxima vez que tiver problemas, pode vir falar comigo antes que o problema piore.

— Ah, não — ela disse, com um tom nobre. — Não quero incomodar.

A descrição que ela havia feito da cena foi bem precisa: órgãos por toda parte. A sra. Wentworth tinha dois modelos, um masculino e um feminino, com torsos secionados que engenhosamente abrigavam partes do corpo removíveis que poderiam ser examinadas em mais detalhes. Felizmente, ela havia comprado modelos que chegavam apenas até a cintura. Mesmo assim, era um bagunça e tanto só para nós duas, ainda mais porque era difícil dizer a qual dos corpos os vários órgãos pertenciam.

Eu tinha uma boa noção de anatomia; mesmo assim, abri um livro didático para usar como referência. Angeline, percebendo que não estava sendo de grande ajuda, se sentou no balcão do outro lado da sala e ficou balançando as pernas enquanto me observava. Eu tinha começado a remontar o boneco masculino quando ouvi uma voz atrás de mim.

— Melbourne, sempre soube que você precisava aprender esse tipo de coisa, mas estava torcendo pra que fosse com um homem de verdade.

Olhei para trás e vi Trey, encostado no batente com ar irônico.

— Muito engraçado. Se fosse meu amigo de verdade, viria me ajudar. — Apontei para o modelo feminino. — Vamos ver sua suposta experiência em ação.

— Suposta? — Ele pareceu indignado, mas entrou mesmo assim.

Eu não tinha pensado muito quando pedi a ajuda dele. Estava mais preocupada que aquilo demorasse demais, porque tinha coisas mais importantes a fazer com meu tempo. Foi só quando ele parou de repente que me dei conta do erro.

— Ah — ele disse, ao ver Angeline. — Oi.

Ela parou de balançar as pernas e seus olhos se arregalaram como os dele.

— Erm, oi.

A tensão subiu de zero a sessenta em questão de segundos, e tentei não soltar um grunhido. Afinal, a situação deles não era muito diferente da minha. Como eu me sentiria se Adrian e eu terminássemos o namoro por causa dos tabus enraizados em nossas raças? Trey e Angeline tinham se separado por pressões externas, não por alguma coisa entre eles. E, quando vi a saudade nos olhos dela, entendi que o charme que ela jogava para Neil não passava mesmo de atuação.

Ninguém parecia saber o que dizer. Angeline apontou com a cabeça para os modelos e falou de repente:

— Causei um acidente.

Isso tirou Trey de seu estupor e ele abriu um sorriso. Enquanto as palhaçadas de Angeline quase me faziam arrancar os cabelos, ele as achava bonitinhas.

— Isso acontece bastante — ele disse.

— Não foi culpa minha — ela insistiu.

— Nunca é.

— Só tenho má sorte.

— Ou é encrenqueira.

— Vê algum problema nisso?

— Problema nenhum — ele disse, baixinho.

— Ai, meu Deus — exclamei. — Você vai ajudar ou não?

Não sabia como, mas a tensão constrangedora tinha se transformado em tensão sexual e eu queria sair correndo dali. Trey, depois de mais um olhar inflamado para Angeline, começou a remontar o modelo feminino. Eu não tinha botado fé quando ele se gabou, mas, para minha surpresa, terminou bem rápido.

— Falei que sou um especialista — ele disse, olhando de lado para Angeline.

Os dois pareceram se esquecer de mim mais uma vez e estavam com o olhar completamente apaixonado. Pigarreei.

— Angeline, está quase na hora da janta. Você não precisa se trocar?

— Hum? Ah. Sim. — Ela teve presença de espírito suficiente para pegar a lição que havia causado tudo aquilo. — Obrigada pela ajuda — ela disse a Trey, como se eu não tivesse feito nada.

Ele deu de ombros, como se fizesse aquilo todo dia.

— Não foi nada.

Ele lançou um olhar sugestivo e saiu, e Angeline soltou um suspiro triste.

— Ai, Sydney. Por que ele tem que ser um daqueles malditos guerreiros?

Tranquei a sala.

— Bom, tecnicamente não é mais.

— Mas pode voltar a ser — ela disse, arrastando os pés enquanto íamos até o ponto do circular que passava no alojamento. — E, se for, nunca mais vai superar toda aquela baboseira de não se misturar com dampiros. Daqui a pouco, vai começar a namorar humanas de novo e, como a gente está aqui, não vou poder fazer nada para impedir.

— Como assim? — perguntei, desconfiada.

Ela se animou um pouquinho.

— Bom, se a gente estivesse na minha terra, eu poderia desafiar as namoradas dele para duelos.

— Vamos torcer para que ele fique solteiro, então.

Eu a deixei com suas fantasias quando chegamos ao alojamento e cada uma foi para seu quarto. Zoe estava esperando no meu, olhando pesarosa para um livro velho.

— Onde você estava? — ela perguntou. — Não passou todo esse tempo no aeroporto, né? — Ela me olhou, pensativa. — Estava com a sra. Terwilliger?

— Com Angeline, na verdade. Precisei ajudá-la com um... probleminha na aula de biologia dela.

— Lá vai você de novo, fazendo coisas que não precisa.

Os problemas entre Angeline e Trey tinham me feito pensar na minha própria situação, e eu estava com pouca paciência para a retórica alquimista de Zoe.

— Preciso fazer essas coisas, sim. Preciso de Angeline em Amberwood e isso significa garantir que ela não arranje problemas com os professores. — Virei a cadeira e me sentei, pousando o queixo no assento. — Se quer tanto ser uma alquimista, não espere para reagir ao problema à sua frente. Pense adiante. Se olhar a situação de modo amplo, nunca vai ter que lidar com o problema. É melhor evitar uma grande catástrofe do que ficar resolvendo um monte de pequenos incômodos.

— Está bem — ela disse, parecendo magoada com a bronca. — Entendi. Não precisa dar sermão.

— Desculpe — eu disse, me sentindo só um pouco arrependida. — Você veio aqui para aprender. Só estou tentando ajudar.

Ela abriu um sorriso tênue.

— Eu sei. Estou aqui por motivos profissionais. É que às vezes é difícil esquecer que você é minha irmã. Mas você é boa nisso... em me tratar como só mais uma alquimista. Vou me esforçar para fazer o mesmo.

Vacilei. Para Zoe era um elogio dizer que eu conseguia colocar nossa relação de lado e me focar inteiramente nas ordens alquimistas. Mas eu não sentia tanto orgulho disso. Na verdade, aquilo me deixou profundamente incomodada e apontei com a cabeça para o livro.

— O que você está lendo?

Ela saiu do modo profissional, mas fez uma careta.

— Não sei. Um livro de Shakespeare para a aula de inglês. Precisamos escolher um pra amanhã e pensei que esse seria bom porque é curto. — Ela levantou o livro. Ricardo III. — Mas não estou entendendo nada.

— Ah — eu disse.

— A peça é ruim? — ela chutou.

— A peça é ótima, mas não sei se é a melhor pra você. Tente encontrar uma cópia de Sonhos de uma noite de verão. Talvez seja mais o seu estilo. — Ao pensar nos sofrimentos amorosos dos meus amigos, não pude conter um sorriso pesaroso. — E você está praticamente no meio da peça. — Eu ri quando ela não entendeu a referência. — Esqueço que literatura não fazia parte do currículo do papai. Fiz a maior parte da minha pesquisa por conta própria.

Ela assentiu e, de repente, arregalou os olhos.

— Ah! Quase esqueci de contar. Ele está vindo pra cá. O papai.

Me endureci na cadeira.

— Quando?

— Semana que vem. — Tentei relaxar, sabendo que tinha parecido um pouco chocada demais. Claro que não podia deixar transparecer que estava com medo. — Ele quer conversar com a gente sobre a audiência com a mamãe. Eles marcaram uma data no mês que vem.

Disso eu não sabia, mas não deveria ter ficado surpresa por meu pai me deixar de fora. Afinal, Zoe havia se mostrado uma filha muito mais interessada que eu. Era natural que ele contasse para ela antes.

— Ele vem ajudar a gente a se preparar — ela continuou. — Para lutar por ele quando chegar a hora.

— Ah — eu disse.

Zoe mergulhou de costas na cama e ficou olhando, melancólica, para o teto.

— Queria que isso já estivesse acabado. Não, melhor: queria ter dezoito anos que nem você e ser livre.

Embora eu pudesse pensar em muitos adjetivos para me descrever, “livre” não era um que costumava vir à mente.

— Ai, Sydney — Zoe lamentou. — Por que ela está fazendo isso?

— Porque ama você — respondi baixinho.

— Isso não é amor.

Foi bom que Zoe não elaborou, porque eu tinha quase certeza que não conseguiria me manter calma diante das definições rasas de amor que ela sem dúvida me daria.

— A mamãe não vai conseguir se equiparar ao discurso educacional e cultural do papai — comentei. — Ela só tem histórias. Como aquela vez que você quebrou o pé.

— Foi a perna toda — Zoe corrigiu, baixinho. Eu não disse mais nada. Nem precisava, julgando pelo olhar distante dela. Ambas tínhamos estudado em casa, mas, quando Zoe tinha dez anos, quis fazer aulas de ginástica, então nossa mãe a matriculou num curso. Um acidente em um treino fez com que Zoe quebrasse a perna e ela teve que passar a noite no hospital, o que foi terrível porque era a mesma noite da comemoração da vitória da equipe dela. Nossa mãe deu um jeito de levar a equipe e a festa toda para o quarto do hospital, para espanto dos funcionários. Zoe, que na época ansiava por contato social, havia adorado. Já nosso pai tinha pensado que o incidente era prova de como aquela aula era inútil.

 

 

Quando levei o grupo para a mansão de Clarence no fim da tarde, ouvi uma mensagem chegar no Celular do Amor, que estava na bolsa. Meus princípios rígidos contra mandar mensagens enquanto dirigia me impediram de pegar o celular, mas não foi fácil. Além disso, eu tentava não mexer nele quando havia outras pessoas por perto. No entanto, assim que saímos do carro na frente da mansão de Clarence, li a mensagem de Adrian: Plano de fuga no 5: Abrir um rancho de alpacas no Texas que obrigue todas as meninas loiras e inteligentes de olhos castanhos a usar roupas sexy de cowgirl. Reli as palavras e sorri antes de apagar a mensagem, como fazia com todas que ele mandava. Quando passou por mim, Jill sorriu também. Às vezes, o conhecimento em primeira mão dela era assustador. Mas, às vezes, o fato de ela saber sobre meu romance era reconfortante, quase como ter um diário. Eu não gostava de ter uma vida cheia de segredos, ainda que tivesse sido criada para viver uma.

Ninguém estava bem naquela noite. Eu estava mal por causa de Adrian, Jill por causa do seu dilema entre Neil e Eddie, Angeline por causa de Trey, e Zoe por causa de nossos pais. Só Eddie e Clarence pareciam estar se divertindo. Bom, e Dorothy também, depois de fornecer sangue para Jill. Clarence estava em um dos seus momentos mais coerentes e nos contava algumas histórias de viagens, do tempo em que era jovem e ainda não tinha se retirado do mundo Moroi. Uma delas era sobre uma academia de treinamento para dampiros na Itália que tinha uma reputação excelente. Eddie ouvia com atenção a todos os detalhes que Clarence conseguia lembrar.

— Mortal por dentro, linda por fora. O segundo andar era um terraço panorâmico e os alunos passavam o fim da tarde lá em cima, depois do treino, claro, tomando um expresso e olhando o lago de Garda. — Ele franziu a testa. — Qual era mesmo o outro nome dele?

— Benàco — respondi automaticamente.

— Isso. E não era muito longe de Verona também. Dava para ter um pouco de inspiração shakespeariana — ele disse, rindo.

Zoe levantou os olhos do seu resto de pizza e fez uma rara demonstração de interação com Clarence.

— Nem me fale dele.

— Por que não? É um grande escritor. Pensei que gostasse de literatura.

Zoe apontou com a cabeça para mim.

— É ela quem gosta. Eu tenho que escrever sobre uma peça dele e não tenho o livro ainda. E minha professora quer que a gente mande a escolha amanhã. Num sábado! Vou ter que procurar uma versão on-line no computador quando a gente voltar.

— Entendi. — Clarence abriu um sorriso magnânimo. — Bom, então por que não pega um meu emprestado?

Por um minuto, pensei que Clarence estava falando que ela poderia pegar um computador emprestado, o que seria uma surpresa, já que, até onde eu sabia, o micro-ondas era o aparelho mais avançado da casa. Então lembrei que todos os cômodos tinham prateleiras de livros.

— Você tem alguma peça dele? — perguntei.

— Tenho todas. Estão no depósito extra da garagem. Podem ir lá procurar.

— Você tem... — Zoe olhou para mim, interrogativa. — Como era? Sonho de uma noite de verão?

— Claro — Clarence disse. — Uma ótima peça sobre o amor.

Ironizei:

— Não sei, não. Está mais para uma série de desventuras malucas em um cenário mágico.

— Você não falou que a gente estava praticamente no meio dela? — Zoe perguntou.

— Pela minha experiência — Clarence começou —, o amor costuma ser uma série de desventuras malucas.

— O amor é... — Uma antiga lembrança com Adrian me veio à mente e parte das emoções turbulentas que eu andava carregando dentro de mim nos últimos dias cresceu no meu peito. Era idiota sentir tanta saudade de alguém que eu tinha visto no dia anterior, mas não conseguia tirar Adrian e suas descrições do amor da cabeça. — ... uma chama na escuridão. Uma brisa quente numa noite de inverno. Uma estrela que nos guia pra casa. — Quando percebi que todos estavam me encarando, tentei mudar de assunto. — Li isso num livro. Você deveria dar uma olhada na biblioteca de Clarence, Zoe. Mesmo que não tenha o Sonho de uma noite de verão, pode encontrar alguma outra coisa interessante.

Quando a vi empalidecer, percebi que a distração tinha dado certo. Todos se voltaram para ela, embora Eddie tenha sido o último. Não demorei para entender em que Zoe estava pensando. Explorar a garagem de um vampiro deveria ser, aos olhos dela, como entrar em uma catacumba. Provavelmente ela achava que encontraria alguns caixões. Abri um sorriso.

— Quer que eu vá com você? — Eu estava um pouco curiosa para saber o que havia nesse “depósito extra”.

— Faria isso? — ela perguntou, fazendo que sim, ansiosa.

— Claro. — Senti uma onda de carinho ao poder fazer alguma coisa por ela, mesmo que tão minúscula. Não havia me esquecido de seu comentário sobre sermos irmãs ou colegas de trabalho, e consolar Zoe em um lugar assustador era algo que eu fazia quando ela era pequena.

No fim das contas, porém, a garagem de Clarence não tinha nada da ostentação gótica do resto da casa. Seu Porsche, que quase nunca era usado, estava estacionado lá, deixando Zoe boquiaberta. Havia algumas ferramentas de jardinagem e reparos, um aquecedor de água, uma mesa de trabalho e toda uma área com livros encaixotados. Eu estremeci um pouco ao ver aquilo. Palm Springs poderia não ser tão úmida quanto outras cidades, mas, mesmo assim, era um risco desnecessário deixar os livros ali. Ajudei Zoe a encontrar a caixa de Shakespeare e deixei que fizesse sua escolha, recomendando que lesse a quarta capa em vez de decidir pelo número de páginas. Passando os olhos pelos outros livros de Clarence, vi uma coletânea de poesia que coloquei embaixo do braço para levar para Adrian.

Enquanto Zoe continuava sua busca, me sentei num banquinho, apoiando os pés confortavelmente em um saco de cascalho. Certa de que Zoe estava concentrada na tarefa, peguei o celular às escondidas para ver se havia alguma mensagem nova de Adrian. Não havia. Escrevi: Peguei um livro de poesia para você. Talvez obras menores sejam mais fáceis que o Gatsby. Esperançosa, fiquei olhando para a tela, desejando uma resposta. Não veio nenhuma e precisei me lembrar de que ele estava em uma viagem profissional, provavelmente imerso no caso do espírito.

Mudei os pés de posição e algumas pedrinhas caíram do saco. Porém, quando olhei mais de perto, percebi que não era cascalho, e sim sal-gema para o degelo de ruas. A julgar pelo pó e pela sujeira cobrindo o saco, não era muito usado. Mas tinha que dar crédito a Clarence pela precaução. Me ajoelhei e peguei algumas pedrinhas que haviam caído. Segurando os cristais na mão, tive uma revelação súbita.

Sal-gema. Cloreto de sódio. O haleto mais comum que existia, com uma formação de cristal cúbico, assim como a da boleíte. Na verdade, era tão comum que nem havia passado pela minha cabeça como candidato para a tinta dos rebeldes. Eu vinha me concentrando em minerais mais exóticos. Ergui um cristal, observando a maneira como a luz se refletia nele. Mentalmente, listei as propriedades de que conseguia me lembrar, fazendo comparações com a boleíte. Será que a resposta estava bem embaixo do meu nariz? Será que minha busca poderia ter uma solução tão simples?

Meu coração acelerou e tomei coragem para olhar para Zoe. Ela estava concentrada na busca e parecia folhear Como lhe aprouver. Era idiota e imprudente fazer um experimento ali, mas senti uma necessidade urgente de saber. Recuando para o lado oposto da garagem, fui para um canto que me dava uma boa visão de Zoe, mas a deixava de costas para mim. Foi fácil sujar as mãos naquele chão imundo e, depois de mais uma olhada nervosa na direção dela, invoquei a essência da terra.

Eu tinha feito aquilo tantas vezes que já era quase natural para mim. Uma luminosidade envolveu a minha mão e cobri rapidamente a outra, na qual estava o sal, transferindo a luz. O cristal brilhou por um tempo, então a luz desapareceu. Será que tinha funcionado? Tinha infundido a magia? Parecia ter dado certo, mas eu não tinha como ter certeza. A sra. Terwilliger poderia me dizer no dia seguinte, mas, de novo, minha urgência foi maior.

Voltei para o banquinho, como se nada tivesse acontecido, e mandei uma mensagem para ela: A senhora teria como passar no meu alojamento hoje à noite pra pegar um trabalho? Se ela não pudesse, eu poderia arranjar uma desculpa para sair, mas Zoe faria perguntas. Felizmente, a resposta que recebi foi: Sim, dou uma passada lá depois do encontro com MW. Levei um minuto para lembrar que MW era Malachi Wolfe. Ai.

Zoe se levantou, se alongando, e mostrou uma edição de Sonho de uma noite de verão.

— Decidi. Tomara que dê certo.

— Tomara mesmo — concordei, colocando o cristal no bolso.

Foi fácil sair do dormitório mais tarde, quando a sra. Terwilliger entrou em contato para dizer que estava no saguão. Eu a encontrei perto da porta e tentei não deixar o queixo cair quando a vi. Ela estava não só maquiada como também usando um vestido tubinho lindo que não parecia um resquício de Woodstock.

— Uau... a senhora está linda.

Ela sorriu, alisando a saia.

— Acha mesmo? Fazia anos que não usava este vestido. Malachi disse que esse tom de rosa me faz parecer um anjo de Botticelli.

— Ele disse o quê?

— Nada de mais. Aquelas coisas que a gente fala em momentos íntimos. — Meu queixo caiu de verdade dessa vez. — Enfim. Do que você precisa?

Engoli em seco e tentei lembrar.

— Ah, só queria devolver isso.

Entreguei um livro de história qualquer ao mesmo tempo que coloquei o sal discretamente na mão dela. Todos os traços de paixão desapareceram de seu rosto. Ela estava séria quando pôs o sal cuidadosamente em cima do livro. Apertei os punhos com tanta força que meus dedos começaram a doer.

— Ora, ora — ela disse, baixinho. — Veja só.

— O quê?

Ela ergueu os olhos e sorriu.

— Parabéns, Sydney. Você fez um feitiço elemental impecável.


9

 

Adrian

EU ESTAVA SENDO MANDÃO, MAS NEM LIGUEI.

A verdade era que ninguém ligou também. Talvez tivessem entendido o que estava em jogo. Talvez conseguissem sentir minha urgência. Fosse o que fosse, o tempo estava passando diante dos meus olhos e eu não perderia aquela chance por nada.

— Tragam um médico — ordenei. — Ou uma enfermeira. Qualquer pessoa que consiga tirar sangue de maneira segura. — Não precisei especificar que era um médico Moroi. Isso ficou subentendido, mas a pessoa era uma incógnita. Alguns Moroi viviam juntos em comunidades isoladas. Outros tentavam se esconder dos Strigoi morando em áreas humanas altamente povoadas. O importante era encontrar alguém dessa segunda categoria com treinamento médico que estivesse perto.

Dimitri saiu do quarto imediatamente, já discando no celular e, mais uma vez, admirei sua eficiência altruísta.

Charlotte e Olive trocaram olhares assustados.

— O que está acontecendo? — Charlotte perguntou, incisiva. — Por que vão tirar sangue dela?

— É melhor ter um bom motivo — Olive exclamou, firme. — Ou vou sair daqui agora mesmo. — Ela estremeceu. — Já vi sangue demais nos últimos três meses.

Sorri e minha tensão diminuiu um pouco. As duas irmãs tinham um fervor admirável, e também achei graça na convicção de Olive de que conseguiria sair andando dali. Além do fato de a restauração ter um impacto físico gigantesco, ela nunca conseguiria passar por um daqueles guardiões.

— Seu sangue pode salvar muitas vidas. — Reconsiderei minha escolha de palavras. Um Strigoi, ao descobrir que não podia transformar uma vítima, poderia simplesmente matá-la. — Ou, enfim, almas. Nenhum Strigoi vai poder transformar você de novo.

A petulância de Olive vacilou.

— Você... você está falando sério? Porque realmente preferiria morrer a passar por aquilo de novo. — Ela cerrou os olhos, o que não impediu algumas lágrimas de cair. — Foi horrível...

— Eu sei — eu disse, enquanto Charlotte abraçava a irmã. Só que, na verdade, não sabia. Não fazia ideia do inferno que devia ter sido. — Mas você está imune agora. E vamos tentar descobrir se podemos usar o que Charlotte fez por você para ajudar outras pessoas.

Charlotte tirou a cabeça do peito da irmã.

— Posso fazer alguma coisa pra ajudar?

— Acho que sua parte acabou, mas a ajudinha de uma usuária de espírito não vai fazer mal. Quando conseguir usar o espírito de novo — acrescentei.

Ela me encarou com seus raros olhos cinzentos.

— Consegui reunir o bastante pra ver o quanto você estava usando naquela hora. Não consigo usar tanto assim.

Balançou a cabeça e ignorei o olhar curioso que Rose me lançou.

— Não é verdade. Para salvar sua irmã, deve ter usado pelo menos a mesma quantia.

Dimitri voltou alguns segundos depois.

— Tem uma enfermeira a caminho. Vai levar mais ou menos uma hora. — Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, ele olhou para mim com respeito. — Vai dar?

— Tem que dar — eu disse, sentindo novamente o espírito que irradiava ao redor de Olive. Perderíamos um pouco, mas eu tinha quase certeza de que ainda teríamos um resquício.

Enquanto isso, eu precisava planejar. Sonya sempre tivera a esperança de que, estudando a magia no sangue, conseguiríamos replicar aquele feitiço. Eu não sabia se era possível. Considerando a maneira como o espírito brilhava ao redor de Olive agora, não conseguia ver nada claro que me permitisse lançá-lo da mesma forma. Talvez eu simplesmente não tivesse a mesma habilidade. Fiquei pensando se não poderia ser algo tão simples como usar o espírito do mesmo modo que Charlotte havia feito para restaurar Olive. Se era esse o segredo, tínhamos alguns problemas. Um era que o feitiço exigia uma estaca prateada no coração. O outro era que lançá-lo deixava o usuário de espírito esgotado. Definitivamente não estávamos em posição de produzir uma vacina mágica em massa.

Por falar em vacina... fiquei me perguntando se não seria tão fácil quanto parecia. Será que poderíamos simplesmente injetar o sangue de Olive em outra pessoa? Ou fazer uma tatuagem com ele? O lado biológico da questão não era comigo. Isso exigia alguém como Sydney.

Pensar nela me fez desejar que estivesse ali. Olhei meu celular e encontrei uma mensagem sobre poesia que me fez sorrir. Tentei pensar em uma resposta inteligente e acabei indo com a verdade nua e crua: Preciso de você. Em todos os sentidos.

Era verdade. Crises como aquela eram especialidade dela, não minha. Guardei o celular no bolso e tentei ignorar a saudade que sentia. Se Sydney estivesse ali, não ficaria distraída. Eu não podia fazer diferente. Acredito em você.

— Preciso de um pouco de prata — eu disse, sem dirigir as palavras a ninguém em particular. — O ideal seria uma cápsula forjada especialmente para conter um frasco de sangue, mas, como imagino que nenhum de vocês seja um ourives, aceito qualquer coisa.

Infelizmente, não tinha nada na casa. Nem as meninas tinham joias. Rose se voltou para um dos guardiões como se fosse um general no campo de batalha.

— Encontre uma joalheria — ela ordenou. — E traga um pouco de prata.

— Anéis masculinos grandes, se encontrar — acrescentei. — Acho que cinco ou seis vão funcionar para um frasco.

— Só um frasco? — Olive perguntou. Aquele ardor de antes voltou. — Pode tirar o quanto precisar. Faço qualquer coisa pra pôr um fim nisso.

— Vá com calma, campeã — eu disse. — Não vamos drenar você logo depois de ter literalmente mudado de vida. Além disso, nem sei se o sangue vai reter a magia quando o extrairmos. — Ao ver o olhar confuso de todos, percebi que ainda não tinha explicado minha ideia. — O corpo dela está transbordando de espírito. Não sei se é isso que cria a imunidade, mas é a melhor pista que temos. Acontece que o espírito está escapando rápido e por isso precisamos correr.

O faz-tudo de Rose saiu correndo. Sem nada para fazer além de esperar, ela se recostou em Dimitri e soltou um suspiro. Neil, para a minha surpresa, começou a elogiar a determinação e a coragem de Olive. Eu estava inquieto demais para ficar parado e fui até a varanda, pela primeira vez em muito tempo desejando um cigarro — não só por causa do nervosismo, mas também porque fumar suavizaria a força do espírito. Em vez disso, me contentei em andar de um lado para o outro e checar o celular obsessivamente para ver se Sydney havia enviado alguma mensagem.

— Esperando uma ligação? — Charlotte apareceu no batente, novamente envolvida no cobertor.

Guardei o celular.

— Só torcendo para receber uma mensagem.

— Namorada?

— Amiga — eu disse, presunçoso. — Tenho várias “amigas” assim.

Ela se recostou na porta, iluminada pelas luzes de dentro em meio à escuridão da noite.

— Ouvi dizer. Não reconheci você quando o vi pela primeira vez.

— Deveria ter reconhecido?

Ela deu de ombros.

— Você e sua família são famosos.

Não pedi que ela explicasse. Ela poderia estar falando da tia Tatiana... ou da minha mãe, que estava trancafiada em alguma prisão. Nunca me disseram onde e, quando tentei visitá-la em sonho, ela tinha me mandado embora com tanta veemência que obedeci. Não sabia ao certo se tinha surtado por causa do sonho de espírito ou se só estava envergonhada pelo fato de eu a ver naquele estado. Eu me apegava à esperança de que seria mais bem recebido pessoalmente, mas uma visita não parecia provável tão cedo. Com todas as complicações na minha vida, eu evitava pensar nela e me contentava em escrever cartas que nunca enviava. Nem Sydney sabia disso.

— Bom — eu disse, assumindo o ar arrogante que todos esperavam de mim —, não é nenhuma surpresa. Meu charme e beleza são famosos, especialmente entre as mulheres.

— Aposto que sim — Charlotte disse, com um sorriso triste. — Mas você não é como eu imaginava. Obrigada por ajudar Olive.

— Agradeça a si mesma por isso. Não fiz nada.

— Pelo contrário, está ajudando minha irmã a superar isso mentalmente. Quer dizer, a gente não teve chance de conversar muito, mas dá pra ver. Conheço Olive e sei como foi traumático pra ela.

Balancei a cabeça.

— Não conheço sua irmã e até eu consigo ver que foi traumático. Também conheço algumas pessoas que passaram pela mesma coisa.

Charlotte ficou em silêncio por um bom tempo.

— Elas superaram? — ela perguntou baixinho.

Pensei no olhar perturbado que às vezes ainda via em Dimitri e Sonya.

— Não. Mas aprenderam a seguir em frente. Olive também vai aprender.

— Sabe como aconteceu? — Charlotte apertou o cobertor com mais força quando uma brisa fria agitou seu cabelo encaracolado. — Ela estava protegendo nosso pai. Nunca passou pela cabeça dele nos deixar crescer separadas, sabe. Ele e minha mãe se separaram, e depois ele se casou com a mãe de Olive. Ela é uma dampira, óbvio. Quer dizer, era. Faleceu faz alguns anos.

— Um homem corajoso — comentei. Os Moroi costumavam manter suas amantes dampiras escondidas.

— Ele é incrível. Mas não é da realeza. Quando Olive estava na escola, descobriu que nunca teria como proteger meu pai quando virasse guardiã. Falaram para ela que teria que ir para onde a mandassem depois de formada, pra proteger alguém da família real. — Charlotte riu com a lembrança. — Ela não ficou nada feliz.

Lembrei do rosto de Olive, determinado mesmo naquele estado enfraquecido.

— Imagino.

— Então ela largou a escola e virou a guardiã extraoficial do meu pai. Ele não gostou que ela abandonasse os estudos. Mas respeitou os motivos dela e a deixou fazer o que queria, desde que frequentasse um curso supletivo para humanos. Estava tudo bem até que... — Ela perdeu a fala.

— Strigoi? — adivinhei.

— Ele foi atacado numa viagem de negócios. Olive os distraiu para que meu pai pudesse escapar. Ele fugiu. Ela não. Por muito tempo achei que estivesse morta e, quando descobri que não, li tudo que consegui sobre Dimitri Belikov e Sonya Karp. Chamei meu amigo James para ajudar... e aqui estamos nós.

— Foi muito corajoso — eu disse. Tinha sido incrivelmente perigoso também, mas quem era eu para julgar? Não tinha dúvida de que correria o mesmo risco para salvar alguém que amava. Afinal, tinha trazido Jill de volta à vida.

O guardião que tinha ido procurar prata voltou mais tarde, pouco antes da enfermeira. Ninguém se deu ao trabalho de contar a ela o que estava acontecendo — estávamos todos agitados demais. Ela olhou nervosa de um lado para o outro quando entrou no quarto de Olive e então começou a trabalhar em silêncio. Foi uma coisa bem simples para tanta confusão. Ela levou um minuto para tirar o sangue. Então tampou o frasco e o ergueu, sem saber o que fazer com ele. Peguei o sangue das mãos dela e o observei com atenção. O espírito ainda emanava lá dentro, mas estava perdendo a força.

Praguejei e peguei os anéis de prata. Nosso mensageiro tinha feito um bom trabalho. Os anéis eram grossos, lisos e grandes o bastante para ficar ao redor do frasco. Mas eu nunca havia encantado prata antes e tinha uma noção bem vaga do assunto, com base nas explicações de Lissa. Sentir todos os olhares voltados para mim só piorava as coisas. A sensação do metal na minha mão era fria e o espírito me preencheu enquanto eu tentava enviá-lo para um dos anéis. Minha ideia era criar um tipo de compulsão que prendesse o espírito no sangue. Faria com que as duas variantes de magia batessem uma contra a outra, algo que eu nem sabia se era possível. Levantei os olhos para a enfermeira.

— Você não é usuária de terra, é?

— Não — ela respondeu. — Ar.

O oposto do que eu precisava. Usuários de espírito faziam compulsão melhor que qualquer outro tipo de Moroi, mas os usuários de terra tinham uma afinidade com metais e outras coisas que habitavam o solo. Prata aceitava magia com facilidade, mas seria bom ter uma ajudinha, e me arrependi de não ter pedido para que chamassem um usuário de terra. Agora era tarde.

— Aqui. — Charlotte veio até mim e pousou a mão sobre o anel que eu segurava. Senti a magia dela crescer. Não era quase nada comparada à minha, mas ajudou a guiar meu feitiço para o anel. Minha força vacilou enquanto eu a encarava, surpreso.

— Você já fez feitiços antes.

— Alguns.

Imitei o que ela fez e consegui infundir o espírito na prata. Fiz o mesmo com os outros quatro anéis e, embora continuasse repetindo para mim mesmo que Sydney acreditava em mim, também me lembrei da preocupação nos olhos dela, de seus avisos sobre como o uso contínuo do espírito faria mal à minha cabeça. E eu não estava simplesmente usando o espírito. Eu estava mergulhando nele. Entre “olhar” dentro do sangue de Olive e fazer aquele feitiço agora, sentia como se eu mesmo fosse feito de espírito. Era avassalador, mas o que mais poderia fazer? Todos estavam contando comigo e, quando terminei, mal conseguia ficar em pé. Encostei a mão no assento de uma cadeira para me equilibrar e entreguei os anéis para Dimitri.

— Coloque em torno do frasco.

Os anéis eram um pouco mais largos, então ele acomodou o frasco numa caixinha acolchoada de algodão para que não deslizassem. Um silêncio tenso tomou conta do quarto e ele me devolveu a caixa. Usei o que sobrava da minha força para analisar o espírito no sangue. A magia ainda estava lá e eu tinha quase certeza de que não estava mais vazando. Olhei para Charlotte em busca de confirmação, mas ela balançou a cabeça.

— Não consigo ver o que você está vendo.

— Melhor que isso, impossível. — Devolvi a caixa para Dimitri. — Entregue para Sonya na corte o mais rápido possível. Ela é nossa melhor chance para descobrir isso agora. Acho que consegui estabilizar o espírito, mas não sei por quanto tempo. — Enquanto os outros corriam para fazer os planos da viagem, senti o quarto balançar. Precisava sair dali, mas não queria demonstrar fraqueza na frente de todas aquelas pessoas que haviam depositado tantas esperanças em mim. Finalmente, pedi ajuda para a única pessoa que não me julgaria, tocando no braço de Charlotte. — A gente pode conversar sobre, hum, coisas de espírito?

— Claro. — Ela disse algumas palavras tranquilizadoras para Olive e deixou Neil fazendo companhia para a irmã. Charlotte saiu do quarto comigo e me olhou com preocupação. — Sobre o que queria conversar?

— Nada — eu disse, entredentes. — Só preciso que encontre um lugar para eu deitar porque me recuso a desmaiar na frente de Rose e Belikov.

Ela arregalou os olhos, mas não perdeu tempo e me levou até seu quarto. Em outras circunstâncias, talvez eu tivesse a nobreza de dizer que não poderia ficar com a cama dela. Mas a exaustão venceu o cavalheirismo. Caí com tudo na cama estreita e, pela primeira vez na vida, não tive dificuldade para dormir.

 

 

Acordei com a luz do sol matinal entrando pela janela. Sentando-me de supetão, olhei ao redor, sem saber direito onde estava. Aos poucos, fui me lembrando. Parte das minhas forças voltou, mas eu ainda me sentia cansado. Rose estava sentada perto com uma humana que trazia as mordidas no pescoço e o olhar entorpecido que denunciavam os fornecedores.

— Café da manhã — Rose disse.

Não perdi tempo com formalidades e enfiei os dentes no pescoço da mulher. O barato me pegou de surpresa. Eu andava tão saciado com Dorothy nos últimos tempos que tinha passado a beber sangue com tranquilidade, como se fosse um copo de leite. Agora, fraco e exausto, senti como meu corpo precisava do sangue de outras pessoas. Era algo tão essencial para os Moroi quanto o ar e a água e, enquanto bebia, sedento, tive certeza que nunca havia experimentado nada tão doce e puro.

A fornecedora relaxou contente na cadeira quando terminei, à deriva em um mar de endorfinas.

— Que bom que também foi bom pra você — eu disse a ela, me acomodando nos travesseiros. Respirei, satisfeito, enquanto a energia do sangue continuava a circular pelo meu corpo. — Então, quais as novidades, dampirinha?

Os olhos escuros de Rose me observaram com ironia.

— Você dormiu por dez horas. Dimitri foi embora com Charlotte, Olive e os outros guardiões. Sonya está a caminho da corte, então, se tudo der certo, vão se encontrar em breve. Só sobramos eu, você e Neil.

— Acha que Charlotte e Olive estão bem pra viajar? — perguntei.

— Elas estavam bem melhor hoje de manhã. E não queríamos perder tempo, caso Sonya ainda consiga encontrar alguma coisa.

Joguei as pernas ao lado da cama e me levantei, contente por ver o mundo estável de novo.

— Também não quero perder tempo. Preciso voltar para Palm Springs. — Voltar para Sydney. — Obrigado por ficar.

Rose assentiu e também se levantou.

— Obrigada por tudo o que você fez. Não entendo muito dessas coisas, mas Charlotte entende e ficou muito impressionada.

— Ossos do ofício — eu disse, torcendo para que ela acreditasse em mim. Eu sabia muito bem que tinha usado espírito demais. E também sabia que haveria um preço.

Um sorriso malicioso passou pelos lábios de Rose.

— Acho que Charlotte gostou de você. Talvez possa procurar por ela da próxima vez que estiver na corte. Faria bem pra você sossegar o facho. — Era um comentário perigoso, considerando nosso passado, mas não me incomodava mais.

— Como assim? E decepcionar todas as outras mulheres do mundo? Não sou tão cruel quanto você pensa.

Ela segurou meu braço quando eu estava prestes a ir para a sala encontrar Neil.

— Adrian, falando sério... muito obrigada, de verdade. Desculpe pelo que eu disse ontem. Você mudou. E... combina com você.

— Tudo combina comigo — respondi.

Isso tirou o ar sério dela.

— Tudo vira piada com você. Isso nunca vai mudar.

Então, para minha surpresa, ela me abraçou. Mais uma vez, fiquei imune ao gesto. Não que não tenha sentido nada, mas não experimentei a dor ou a saudade de uma ex-namorada. O abraço era um gesto de amizade.

Fomos todos para o aeroporto juntos, Rose rumo à Pensilvânia enquanto Neil e eu seguimos de volta a Palm Springs. Quando olhei o celular no portão de embarque, encontrei várias mensagens de Sydney, empolgada com uma descoberta sobre seu feitiço. Senti um calor no peito ao imaginar o rosto dela e aquele brilho em seus olhos quando fazia uma descoberta intelectual.

Escrevi: Nunca tive dúvidas. Acredita que eu também fiz uma descoberta com feitiços?

A resposta veio rápido. Claro que acredito. Quando você volta?

No começo da noite. Pode passar em casa?

Vou tentar. Precisamos comemorar.

Devo preparar o champanhe e o bolo?

Vai preparando a cama só.

Use o sutiã preto.

Não estava planejando usar sutiã.

— Nossa senhora — murmurei, recebendo um olhar surpreso de Neil.

Eu sinceramente duvidava que transaríamos durante uma dessas visitas furtivas, mas a simples insinuação do toque dela fazia com que o resto do mundo perdesse a importância. Senti o coração bater mais forte quando pensei naquele olhar que ela tinha em certos momentos, um olhar animal que não se interessava por livros e costumava vir antes da urgência dos seus lábios nos meus e o aperto de suas mãos nas minhas costas. Todos achavam que Sydney só sentia paixão por buscas intelectuais. Mal sabiam eles.

Pensar em Sydney me manteve bem durante o resto da viagem, fazendo até a conversa com Neil parecer suportável. Ele tinha ficado excepcionalmente tagarela, querendo saber como ajudar com a “vacina Strigoi”. Também não parou de falar da coragem das irmãs Sinclair, especialmente de Olive. Eu conseguia identificar uma paixonite a quilômetros de distância e assumi um ar mais sério para dizer a ele:

— Nunca vi coragem como a dela. Nem consigo imaginar. Você deve ser a única pessoa que entende esse tipo de bravura. Ela também consegue ver, sabe. Ficou claro pela maneira como falou com você.

Neil prendeu a respiração.

— Acha mesmo?

— Claro. Estava nos olhos dela. Vocês deviam manter contato. Vou pegar o telefone dela quando voltarmos. Acho que vai ajudar se ela tiver alguém com quem conversar.

Essa ideia, pelo menos, o manteve quieto e contente. Eu teria problemas com Jill por causa disso, mas continuava acreditando que ela acabaria me agradecendo quando fugisse com algum príncipe Moroi. Ou com Eddie. Qualquer um dos dois estava valendo.

Quando aterrissamos em Palm Springs, meio que tinha esperança de que Sydney estivesse lá para nos dar uma carona, mas, em vez disso, recebemos mensagens dizendo para pegarmos táxis até nossos respectivos lares. Também havia uma mensagem de Jill: Sei o que está fazendo com Neil. Você é malvado. Como vou ter um relacionamento saudável desse jeito?

Ficando com outra pessoa, respondi.

Depois de deixar a mala em casa, peguei meu próprio carro e fui para uma mercearia perto de casa. Andava como se estivesse nas nuvens, animado com o que tinha conseguido em Dallas e ansioso para rever Sydney. Não só pela chance de ver seu sutiã (ou de tirá-lo). Só queria estar perto dela. Eu me sentia sozinho na minha própria cabeça. Mesmo que tivesse Jill ou outros amigos, não havia ninguém além de Sydney com quem eu realmente me sentisse à vontade. Ela era a única pessoa que me via e ouvia de verdade.

Tive uma ideia súbita e decidi fazer alguma coisa naquela noite. Por que esperar até o aniversário dela? Como Sydney tinha dito, era uma ocasião especial. Ambos estávamos comemorando sucessos. Não sei por que, mas fiquei obcecado com a ideia de fazer crème brulée. Eu nunca tinha feito nenhum tipo de sobremesa, a não ser que abrir um pote de sorvete contasse. Mas crème brulée parecia elegante, eu estava apaixonado e me sentia invencível depois de realizar uma façanha com o espírito que poucas outras pessoas conseguiriam. Não devia ser muito difícil fazer uma sobremesa, não é?

Antes que eu pudesse responder a essa pergunta, uma pesquisa no celular me informou que eu precisava de muito mais equipamentos do que tinha na minha cozinha escassa. Quando finalmente cheguei no caixa com um minimaçarico, forminhas, creme, separador de ovos, panela de banho-maria e grãos de baunilha orgânicos, me deparei com um valor surpreendentemente alto, muito maior do que o que tinha no banco. Ou que meu cartão de crédito permitia, na verdade.

— Sinto muito — a caixa disse, devolvendo o cartão para mim. — Recusado.

Senti um frio na barriga.

— Pode tentar de novo?

Ela deu de ombros e passou mais uma vez, com o mesmo resultado.

— Recusado — repetiu.

Quase pedi para passar mais uma vez, mas, no fundo, eu sabia que não faria diferença. Sentindo-me um idiota completo, abandonei as compras e saí da loja, sem saber o que fazer. O pânico começou a tomar conta de mim. Fiquei repetindo para mim mesmo que nem minha conta bancária nem meu cartão de crédito estavam zerados. Só não tinham o suficiente para pagar pelos equipamentos do crème brulée. Mas quanto exatamente me restava? Tinha que descobrir. Só precisava sobreviver às duas semanas até meu próximo pagamento e, durante o trajeto agonizante de volta para casa, fiquei somando as despesas com que teria de lidar. Gasolina. Comida... a menos que Dorothy fornecesse para mim. Será que tinha pagado a luz? Não conseguia lembrar, mas sabia que a TV a cabo já estava paga — não que fizesse muita diferença se cortassem a luz.

Calma, Adrian, disse a mim mesmo. Você ainda tem dinheiro. E não vão cortar a luz se você atrasar um pouquinho.

Mas, quando cheguei em casa e verifiquei o saldo, vi que, mesmo não estando zerado, estava bem perto disso. O que eu iria fazer? Mal conseguiria sobreviver com as despesas diárias, quanto menos cuidar da tarefa cada vez mais próxima de dar um presente para Sydney. Sentei no chão perto dos vinis ainda empacotados e fiquei olhando para as caixas.

— Idiota, idiota — murmurei. — Sou um idiota.

A felicidade que estava sentindo por causa do triunfo no Texas evaporou. O desespero tomou conta de mim, com seus tentáculos subindo devagar pela minha pele. Depois do que eu tinha feito no dia anterior, era esperado que ficasse suscetível aos altos e baixos da magia. Já tinha sentido os altos naquele dia... agora os baixos tentavam vir, aproveitando perturbações como aquela e fazendo com que parecessem maiores do que eram. E então, de repente, ouvi a voz dela.

Por que está tão triste? Você não é idiota. Você é brilhante, meu menino lindo. Vai arranjar um jeito de sair dessa.

Conseguia ouvir a voz da tia Tatiana com tanta clareza que ela parecia estar do meu lado. Escondi o rosto nas mãos.

— Vai embora, tia. Não preciso acrescentar alucinações à minha lista cada vez maior de problemas.

Desde quando sou um problema?

— Desde que morreu e comecei a imaginar que estou ouvindo sua voz.

Quer dizer que não consegue ouvir, docinho?

— Sim! Quer dizer, não. É uma ilusão. Está tudo dentro da minha cabeça. — Esse era outro segredo que eu escondia de Sydney, o fato de que, nos meus momentos mais sombrios, eu vinha tendo conversas com minha tia morta. Era uma das coisas mais assustadoras que já haviam acontecido comigo, porque, embora certos atos pudessem ser chamados de malucos em tom de brincadeira, não havia dúvidas de que imaginar fantasmas era loucura de verdade. — Não quero falar com você.

Por quê? Sempre estive ao seu lado, não é verdade? Sempre cuidei de você.

— Sim — eu disse, entredentes. — Mas você morreu e eu preciso cuidar de...

Ergui a cabeça subitamente quando tive uma ideia. Levantei com um salto e corri até a cômoda, onde brilhavam as abotoaduras que a tia Tatiana havia me dado. Sydney tinha dito que eu ganharia uma fortuna se as vendesse, mas eu não precisava vender. Pelo menos não tecnicamente. Poderia levá-las até uma casa de penhores e pegar um empréstimo. Em duas semanas, teria como pagar. Eufórico com a revelação, apanhei as duas e já estava a caminho quando parei. Uma voz sábia dentro de mim me fez reconsiderar a logística. Depois de pensar um pouco, guardei uma delas e procurei uma pinça no meio da bagunça de coisas empilhadas por ali. Com um pouco de dificuldade, arranquei um dos rubis e o ergui contra a luz. Não havia necessidade de arriscar os outros. Um rubi era tudo de que eu precisava. Mais do que o suficiente para aguentar as duas semanas seguintes. Na minha cabeça, ecoou o riso da tia Tatiana.

Viu? Estou sempre cuidando de você.

— Você não é real — eu disse, caminhando a passos largos até a porta da frente. — É o espírito que está fazendo isso com a minha cabeça. É só o efeito colateral de tudo que fiz com Olive.

Se não sou real, então por que me responde em voz alta?

Eu sabia que aquilo aconteceria, que não poderia sair ileso usando todo aquele espírito. Só não havia esperado que ficasse alternando entre aqueles altos e baixos ou que chegasse a ter longas conversas com minha tia morta. Precisava acabar com aquilo imediatamente. Não queria que a tia Tatiana ficasse falando comigo enquanto eu negociava com o penhorista e definitivamente não a queria por perto quando Sydney estivesse ali. Uma olhada no relógio me disse que ainda tinha um tempo até ela aparecer, o que me dava uma boa oportunidade para arrumar minhas finanças e apagar minha tia da cabeça.

Eu não tinha bebido minha dose diária e decidi que valia a pena tomá-la mais cedo para retomar o controle. Os termos do acordo só delimitavam “uma dose”, sem especificar a força da bebida. Por isso, quando encontrei uma garrafa antiga de Bacardi 151, a bebida mais forte que eu tinha, não achei que estava trapaceando, por mais que tivesse álcool para duas doses ali. Depois de um copo, saí porta afora. E, novamente, tive um acesso de sensatez. A dose ainda não havia tido efeito, mas tive a prudência de ir andando para o centro em vez de dirigir. Era menos de quinze minutos de caminhada e, quando cheguei em frente à casa de penhores pela qual já tinha passado algumas vezes, estava alegre graças ao rum. No entanto, a avaliação do dono da loja não me deixou tão contente.

— Duzentos — ele disse.

— Você está louco — retruquei, pegando o rubi de volta. — Vale pelo menos o dobro disso. — Naquela hora, me ocorreu que, se eu não tivesse tomado o rum, teria controle total do espírito e poderia compelir o homem a me dar um preço mais alto. Me arrependi da ideia imediatamente. Até eu tinha princípios. Havia um motivo por que os Moroi proibiam o uso da compulsão.

O cara deu de ombros.

— Então faz um anúncio. Vende na internet. Mas, se quer dinheiro rápido, não vai conseguir mais do que isso.

Quase fui embora, mas o desespero me fez ficar. Duzentos era menos para pagar de volta depois e eu não precisava de muito mais para sobreviver durante duas semanas.

— Você não vai vender? — perguntei.

— Não se pagar os juros ou vier quitar o empréstimo. — Havia algo no olhar dele que dizia que a maioria das pessoas nunca voltava para pagar o empréstimo. Em alguns dos meus momentos mais sombrios, eu me afundava em autopiedade pensando em como minha vida era horrível. Mas, naquela hora, não pude deixar de pensar em como devia ser deprimente ver os fracos e oprimidos do mundo entrando para vender suas posses mais valiosas.

— Vou pagar de volta — eu disse. — Volto daqui a duas semanas, então cuide bem dele.

— Se é o que você diz — ele respondeu.

Entreguei a papelada preenchida para o homem. Ele me deu o dinheiro. E, assim, ao sair por aquela porta, senti que tinha tirado um peso das minhas costas. Tinha resolvido o problema. Estava no controle da minha vida de novo. Admito que pensar que o rubi da tia Tatiana estava nas mãos daquele velho imundo me fez hesitar e quase esperei que ela reclamasse. Mas o rum a manteve em silêncio e fiquei repetindo a mim mesmo que não havia feito nada de mal.

Não tentei repetir o experimento do crème brulée, mas comprei alguns pains au chocolat no caminho de volta para ter alguma coisa legal quando Sydney passasse em casa. Poderíamos comer à luz de velas e contar os acontecimentos dos últimos dias um para o outro. Custaram só sete dólares, então ninguém poderia questionar minha responsabilidade financeira.

Meu telefone tocou quando eu estava perto da porta e, para a minha surpresa, a tela mostrou o nome de Rowena.

— Ei, príncipe Encantado! Estou indo com uma galera para o Matchbox hoje. A entrada é a partir de dezoito anos, então você pode levar sua namorada imaginária.

— Ela vem aqui hoje para atividades bem pouco imaginárias — eu disse. — Faz dois dias que não a vejo.

— Coitadinho! Nem sei como aguentou tanto tempo. Mas sabe onde encontrar a gente se mudar de ideia.

Minha energia estava alta e comecei a pintar intensamente. Depois de um tempo, perdi o interesse e decidi passar o resto do dia limpando a casa de cima a baixo. Estava sentindo uma necessidade ardente de provar meu valor, não só para Sydney, mas para mim mesmo. Não queria sentir que estava perdido na vida. Queria ser responsável e estar no controle. Queria ser um namorado digno dela, e me dediquei mais à limpeza do que me dedicava desde... bom, nem lembrava quando, já que odiava limpar a casa. Mas, naquela noite, estava a mil. Nada poderia me deter e cheguei a ponto de esfregar os ladrilhos da cozinha com uma escova de dente. Estava agitado e eufórico, e não havia sinal do humor sombrio de antes... pelo menos até eu começar a tirar o pó da cômoda e ver as abotoaduras com um rubi a menos. O espanador vacilou e fiquei olhando para o buraco aberto na armação de platina. De repente, senti como se um buraco igual tivesse surgido na minha alma.

— Não — eu disse para Pulinho, que estava sentado na cama, sem dúvida estranhando minha atividade frenética. — Não foi embora para sempre. Vou pegar de volta.

Poderia jurar que ouvi de novo a risada da tia Tatiana e corri até o armário de bebidas, atrás de outra dose. Claro, seria uma violação do acordo, mas aquelas eram circunstâncias especiais. Eu tinha direito a uma margem de tolerância para lutar contra os efeitos negativos do espírito... não tinha?

Não. Não era desculpa e me mantive fiel a Sydney. Não perderia o controle. Não podia. Estava tudo bem. Eu tinha dito a ela que seria forte, que não teria mais recaídas. E, para provar aquilo para mim mesmo, segui um impulso nobre e comecei a jogar minha coleção de bebidas pelo ralo. Vacilei um pouco diante do desperdício, mas fora isso estava orgulhoso. Agora não teria nenhuma tentação.

Sydney ligou quando estava quase no fim.

— Bem na hora, Sage. Estou terminando de arrumar a casa.

Ela suspirou.

— Não posso ir aí hoje. Zoe enfiou na cabeça que quer ajuda com um banco de dados alquimista e ouviu a sra. Terwilliger falar de um encontro... com o Wolfe, acredita? Então não posso usá-la como justificativa. Desculpe.

Pelo menos ela não podia ver meu rosto.

— Tudo bem. Você tem que fazer suas coisas. E, assim, vou ter mais tempo pra escrever minha lista de maneiras de celebrar.

O riso dela pareceu aliviado.

— Em quantas já pensou?

— Alguém já contou o número de estrelas no céu ou grãos de areia na praia? É inútil.

— Ai, Adrian. — A ternura na voz dela agitou meu sangue e meu coração, e agravou ainda mais a dor da sua ausência. — Amanhã passo aí. Prometo.

— Eu ia dizer que vou contar os segundos, mas daria um número grande demais pra mim.

— Eu conto por nós dois. Te amo.

Aquelas palavras foram como uma faca em meu peito, ao mesmo tempo doces e cruéis. Desligamos e olhei para o apartamento impecável, com as últimas pinturas em estilo livre. No balcão da cozinha, Pulinho parecia me julgar com seus olhinhos dourados. O que eu faria agora? Até me envergonhava dessa pergunta, como se eu fosse uma criança que precisava de outras pessoas para cuidar dela. Mas as telas não me interessavam mais, e eu me sentia desperto e agitado. Teria que enfrentar mais uma noite de insônia.

Coloquei Supertramp para tocar na vitrola e me afundei na cama para ler O grande Gatsby. Mas não conseguia me concentrar. Estava inquieto demais, agitado demais pensando em Sydney e nas velhas perguntas sobre o rumo que minha vida estava tomando. Tínhamos nos metido num jogo perigoso que parecia não ter fim. Nada mais parecia ter sentido também. O que aconteceria depois que Jill saísse de Palm Springs? Eu iria atrás dela? Ficaria para terminar a faculdade? E depois? Rowena sempre fazia piadas sobre o fato de que não tínhamos muitas opções de carreira, mas ela não estava muito longe da verdade. Deixando o livro de lado, joguei um braço sobre os olhos e tentei acalmar as engrenagens do meu cérebro. Tia Tatiana voltou.

Por que está se preocupando com essas coisas? Não combina com você. Viva o momento.

— Vai embora — eu disse em voz alta. — Você não está aqui e não vou conversar com um fruto da minha imaginação. Não estou tão maluco assim. Além disso... preciso pensar no meu futuro com Sydney. Preciso pensar no meu próprio futuro.

Você vai dar um jeito, a maldita voz disse. Sempre dá. Seu sorriso e seu charme vão livrar você de qualquer problema. Não se preocupe.

Meu lado racional me lembrou que aquela conversa era imaginária, apenas um efeito do espírito. Mesmo assim, me peguei respondendo.

— Não. Não vou ficar pulando de momento em momento sem me preocupar com as consequências. Chega de decisões impulsivas. Passei dessa fase.

Então por que vendeu minhas abotoaduras?

Abri os olhos. Sentimentos indefiníveis fervilhavam dentro de mim e eu não sabia o que fazer, mas precisava fazer alguma coisa, senão explodiria. Precisava sair de dentro da minha cabeça. Precisava sair dali.

— Chega. Cansei disso. Cansei de você.

Levantei de um pulo e voltei para a sala para procurar o celular. Ele estava do lado das minhas pinturas a óleo descobertas. Liguei para Rowena.

— Ei — eu disse. — Vocês ainda estão aí?


10

 

Sydney

EU TINHA ACABADO DE DEITAR quando alguém surgiu na porta, batendo com tanta fúria quanto era possível, considerando que o alojamento estava no sétimo sono. Zoe, que tinha acabado de adormecer, sentou rapidamente e abafou um grito, provavelmente achando que uma multidão de vampiros com asas de morcego estivesse invadindo o dormitório. Trêmula, atravessei o quarto em silêncio, sem saber que maluquice encontraria dessa vez.

Era Jill.

— Oi — ela disse, entrando como se não fosse quase meia-noite. — Preciso de um favor.

A presunção na voz dela parecia tanto com a de Angeline que precisei piscar algumas vezes para ter certeza que estava falando com a pessoa certa.

— Sabe que horas são?

— Não é tão tarde assim. Quer dizer, pelo menos não pra nossa raça. A gente está só começando. — Seu tom malicioso e a risadinha que soltou fizeram Zoe se agarrar ainda mais às cobertas. Já eu ergui as sobrancelhas, incrédula. — E é exatamente esse o problema — Jill continuou, fazendo bico. — Sei que a gente foi pro Clarence ontem... mas você não imagina como preciso de sangue. Tipo, só consigo pensar nisso. Você precisa me levar pra lá agora, senão... não sei se vou aguentar!

Eu a examinei por vários momentos, cogitando várias explicações para aquilo, uma mais maluca que a outra. Antes que tivesse a chance de responder, Zoe disse:

— Já passou da hora do toque de recolher. Você não pode sair do alojamento.

— Sydney consegue me tirar daqui — Jill disse. — É só ligar para sua professora e dizer que quer estudar fora do campus até tarde. Ela faria qualquer coisa por você. Vai, por favor?

Zoe engoliu em seco, dividida entre a indignação e o medo.

— A gente não pode atender a todos os seus caprichos. E a sra. Terwilliger está ocupada hoje. A gente ouviu ela falando.

— Não é um capricho, é uma necessidade! Não incomodaria vocês se não fosse sério. — Jill pôs as mãos nos quadris para enfatizar. — E o pior é que estou presa num prédio cheio de humanas. Dá pra imaginar a tentação? — Ela deu um olhar significativo para nós.

— Ela tem razão, Zoe — eu disse, inexpressiva. — Se ficar nesse estado, pode ser perigoso para os humanos. Faz parte do nosso trabalho evitar esse risco. Além disso, a sra. Terwilliger já deve ter voltado. — Quer dizer, se não fosse passar a noite na casa do Wolfe. Que nojo! — E, mesmo se não tiver, tenho certeza que ligaria para a recepção se eu pedisse.

— Ligaria? — Zoe perguntou, esquecendo as ameaças de vampiro por um momento.

Jill sorriu, mostrando as presas para ela.

— Viu? Não é problema nenhum. Vamos lá. — Ela se virou para a porta. — Não demorem.

Assumi um ar severo.

— Só eu vou com você. Além de a sra. Terwilliger não poder tirar todo mundo da escola, não acho que... — Fiz a pausa mais longa e melodramática que consegui. — Enfim, Zoe, acho melhor você ficar aqui. Quer dizer, precisamos de uma alquimista no campus, né? — Tentei fazer essa última afirmação parecer animada ao mesmo tempo que lançava um olhar de É para o seu próprio bem. Ela engoliu em seco.

— Sydney, você vai para a mansão de Clarence no meio da noite...

— Vai ficar tudo bem — prometi, querendo soar ao mesmo tempo amedrontada e destemida. Não foi tão difícil, considerando que meu nervosismo estava no ápice. O que estava acontecendo? Qualquer progresso que Eddie tivesse feito com Zoe em suas aulas de direção devia ter regredido com Jill se comportando como a noiva do Drácula. Peguei o casaco e a bolsa. — Envio uma mensagem quando chegar lá.

Jill pigarreou e apontou para as minhas roupas.

— Melhor você se trocar. Clarence é muito formal, sabe.

Eu não estava exatamente de pijama, e tinha pensado que a camiseta larga e a calça de flanela serviriam para o que Jill tinha em mente. Quer dizer, imaginando que houvesse um plano.

— O que você sugere? — perguntei, desconfiada.

Ela deu de ombros.

— Jeans e camiseta servem.

Troquei de roupa rápido, disse outras frases animadoras para Zoe e, então, segui Jill até o fim do corredor, perto da escadaria. Abaixei a voz quando tive certeza que tínhamos privacidade.

— Certo. Por que está agindo assim? Tenho duas teorias. Uma é que o laço está no controle e você está seguindo um daqueles impulsos malucos de Adrian. A outra é que está nos ajudando a fugir para uma escapadinha romântica, mas acho que teria me feito pôr um vestido nesse caso.

Jill nem tentou sorrir.

— Queria que fosse tão simples. Desculpe se exagerei lá em cima. Imaginei que ficar histérica por sangue seria grave o bastante para Zoe deixar você sair sem fazer muitas perguntas... e que ela não iria querer vir junto. Mas me sinto meio mal de assustar sua irmã.

— Funcionou. Mas, sério... o que está acontecendo? — Senti um aperto no peito. — Adrian está bem?

— Não sei — ela disse, devagar. — Mas acho que não, já que o laço entorpeceu depois que eles começaram a tomar doses de Jäger meia hora atrás.

— Depois que eles... espere. Quê?

— Adrian está num bar perto de Carlton. Ele saiu depois que você cancelou hoje... mas não se sinta culpada — ela acrescentou, rápido. — Sei que não tinha escolha.

— Não estou me sentindo culpada. Estou me sentindo... — Como escolher uma emoção só? Minha cabeça estava a mil. Adrian. Num bar, tão bêbado que conseguiu enfraquecer o laço. Tive vontade de chorar enquanto vários sentimentos surgiam em mim. Tristeza. Raiva. Decepção. Esses eram só os primeiros sentimentos que ameaçavam explodir no meu coração. Assumi uma expressão impassível. — Enfim. Não importa o que estou sentindo. A escolha foi dele e não preciso fazer nada a respeito. Ele pode lidar com as consequências amanhã.

Comecei a dar meia-volta, mas Jill me segurou pelo braço.

— Sydney, por favor. As coisas devem estar bem ruins se perdi o contato com ele desse jeito. E foi muito difícil pra ele em Dallas ontem. Muito mesmo. Você nem imagina o poder que ele usou. — Ela estremeceu com a lembrança.

— Não diga que a culpa não é dele — adverti.

— Não vou... mas não me surpreende que isso tenha acontecido depois de todo aquele espírito. Ouça, você tem todo o direito de ficar chateada. Sei que ele quebrou o trato, mas, por favor, vá atrás dele. Só para ajudar. Estou preocupada.

Foi difícil. Não conseguia identificar um sentimento porque estava começando a ficar fria, me recusando a sentir o que quer que fosse. Porque, se sentisse, teria de aceitar que Adrian havia me traído. Bom, talvez “trair” não fosse a palavra certa. Mas definitivamente tinha me decepcionado. Se outra pessoa que não Jill me dissesse que Adrian havia sofrido uma recaída, eu não teria acreditado. Ele parecera tão determinado que eu tinha depositado toda a minha confiança nele.

— Está bem — eu disse. O olhar suplicante de Jill quase me fez chorar. — Onde ele está?

Ela me deu o nome do bar e voltou para o quarto. No andar de baixo, encontrei uma das moças da recepção. Ela sabia das várias tarefas que eu fazia para a sra. Terwilliger e mal prestou atenção enquanto eu explicava que conseguiria permissão retroativa para sair. Depois de assentir, distraída, voltou para sua edição da Vogue e abafou um bocejo.

O Matchbox não era exatamente uma espelunca, mas também não era o tipo de lugar moderninho que Adrian gostava de frequentar. Mesmo assim, servia álcool e estava lotado de universitários — provavelmente os únicos critérios dele. O segurança me deixou entrar depois de marcar minha mão com um carimbo vermelho para mostrar que eu era menor de vinte e um. A música de uma banda local enchia o lugar e, por um momento, não consegui me concentrar com toda aquela gente e movimento.

Quando consegui me acostumar com o ambiente, não vi sinal de Adrian. Mas avistei um grupo de pessoas que tinham cara de estudantes de arte. Arriscando, caminhei até a mesa deles e esperei que alguém me notasse. A mesa estava cheia de garrafas e copos vazios. Quando finalmente me viram, perguntei:

— Por acaso vocês conhecem Adrian?

Um menino riu.

— Claro. Ele é a alma da festa. Pagou duas rodadas.

Embora surpreendente, essa era a menor das minhas preocupações agora.

— Onde ele está?

Uma menina de cabelo lilás, mais séria que os outros, me respondeu:

— Ele acabou de sair. Disse que tinha que pegar uma coisa.

— Falou pra onde estava indo? — perguntei.

Ela fez que não e a menina loira abraçada a ela respondeu:

— Ele comentou alguma coisa sobre “despenhorar”. Existe essa palavra?

— Não — murmurei, confusa. Uma casa de penhores? Por que Adrian iria para lá? E para qual? Havia muitas na região.

— Ele pegou um táxi — acrescentou a primeira menina. — Disse que depois voltaria para casa a pé.

Isso já era alguma coisa. Peguei o celular e pesquisei casas de penhores de onde dava para ir a pé até o apartamento dele. Havia duas. Então mandei uma mensagem: Onde você está? Não sabia se poderia esperar uma resposta, mas, nesse meio-tempo, não seria difícil dar uma olhada nas duas lojas.

— Obrigada — eu disse para as meninas. Já estava perto da porta quando a de cabelo lilás veio correndo na minha direção.

— Ei, espere — ela disse. — É você, né? Sydney? A namorada?

Hesitei. Teoricamente não deveríamos admitir nosso relacionamento em público, mas, pelo jeito, ele vinha divulgando um pouco.

— Sim.

— Sou Rowena. — O rosto dela ficou grave e, pela lucidez em seus olhos azuis, percebi que não estava tão bêbada quanto os outros. — Desculpe. Eu não fazia ideia.

— Não fazia ideia de quê?

— Que Adrian tem um problema com bebida. Ele quase nunca sai com a gente e, nas poucas vezes que aceitou o convite, não bebeu nada. Fiquei meio surpresa hoje quando topou e então... quanto mais eu olhava, mais entendia. Ele estava com o mesmo olhar do meu padrasto quando voltava a beber. Como se estivesse vivendo num deserto e de repente encontrasse uma máquina de bebida. E, quanto mais a noite seguia... — Ela suspirou. — Eu sei. Desculpe. Devia ter ido com ele, mas ele parecia tão confiante.

A seriedade e a preocupação nas palavras dela me deixaram emocionada.

— Não tem por que pedir desculpas. Não é sua obrigação cuidar dele. — Era minha obrigação.

— Sim, eu sei... é só que... — Ela hesitou e entendi por que Adrian falava tão bem dela.

Abri o melhor sorriso que consegui, por mais que me sentisse péssima.

— Obrigada.

— Tomara que ele esteja bem — ela acrescentou. — Ele bebeu bastante.

— Aposto que vai ficar — eu disse, tentando parecer tranquila.

A primeira loja de penhores em que passei estava vazia, e o rapaz atrás do balcão disse que ninguém tinha passado lá na última hora. Torci para que minhas deduções estivessem certas. Senão, estaria sem sorte, já que Adrian não havia respondido à minha mensagem. Mas, quando cheguei à outra loja, o encontrei. Ele estava do lado de fora, bloqueado por uma grade de metal atrás da qual eles trabalhavam à noite. Dava para entender, visto que pessoas de aparência duvidosa deveriam aparecer de madrugada. E, de fato, Adrian parecia uma delas.

— Preciso dele de volta! — ele exclamava. — Preciso de volta. Ela precisa de volta. É uma herança real!

O homem de aparência desalinhada atrás da grade o encarou com firmeza.

— Claro que é. Mas, se não conseguir pagar, não posso devolver. — Eu tive a impressão clara de que não era a primeira vez que ele falava aquilo para Adrian.

— Adrian — eu disse. Ele deu meia-volta e me assustei com a agressividade em seus olhos avermelhados. Seu cabelo normalmente perfeito estava desgrenhado e suas roupas, amarrotadas. Se não o conhecesse, iria querer uma grade entre nós também.

— O que está fazendo aqui? — ele perguntou.

— Procurando você. — Me obriguei a ficar calma, tentando conter o pânico que crescia dentro de mim. — Vem. Precisamos ir. Vou levar você pra casa.

— Não! Não antes de eu pegar de volta. — Ele apontou um dedo acusatório para o penhorista. — Ladrão!

O homem suspirou.

— Meu filho, você penhorou o item em troca de dinheiro.

— Que item? — perguntei. — O que você vendeu?

Adrian passou a mão no cabelo, bagunçando-o ainda mais.

— Não vendi nada. Nunca venderia. Só emprestei pra ele. E agora preciso de volta. — Ele enfiou a mão no bolso e tirou dez dólares. — Olha, devolve pra mim e dou isso para você. É tudo o que tenho, mas dou o resto daqui a duas semanas. Prometo. É um ótimo trato.

— Não é assim que funciona — o homem respondeu.

— O que você... emprestou? — insisti.

— O rubi. Um dos rubis das abotoaduras da tia Tatiana. Não deveria ter deixado aqui. Num lugar como esse. É um sacrilégio! Uma coisa daquelas não pode ficar aqui. Ela me mandou fazer isso, mas sei que não estava falando sério.

Senti um calafrio na espinha.

— Quem mandou você fazer isso?

— Ela. A tia Tatiana.

— Adrian, ela não pode falar nada. Ela... se foi.

Ele apontou para a cabeça.

— Não, ela está aqui. Quer dizer, não agora, mas sei que ela está esperando. E, quando eu estiver sóbrio, ela vai voltar e brigar comigo por causa disso! Preciso pegar o rubi de volta! — Ele se virou com uma velocidade assustadora e bateu na grade.

O dono da loja recuou.

— Vou chamar a polícia.

— Não, espere — eu disse, avançando rápido. — Quanto ele está devendo para o senhor?

— Duzentos e cinquenta.

— Era duzentos! — Adrian gritou.

— Mais taxas e juros — o homem disse, com muito mais paciência do que eu teria.

Tirei a carteira do bolso.

— Que cartões de crédito você aceita?

— Todos — ele respondeu.

Paguei o rubi e, enquanto o homem ia pegá-lo, Adrian gritou:

— É melhor não ter nenhum arranhão nele! — Quando pegou o rubi de volta, o ergueu e estreitou os olhos para examiná-lo, como se fosse um mestre joalheiro.

— Vem — eu disse, puxando-o pelo braço. — Vamos embora.

Adrian ficou parado onde estava, apertando o rubi com o punho cerrado, e deu um beijo nele. Seus olhos se fecharam por um momento e então, depois de respirar fundo, ele me seguiu até o carro.

Ele falou muito no caminho, contando as aventuras e desventuras da noite, e repetindo sem parar que tinha sido enganado pelo penhorista. Eu não disse nada e mal ouvi uma palavra que saiu da boca dele. Em pânico, apertava o volante e só conseguia pensar na expressão transtornada em seu rosto enquanto batia contra a grade.

Ele começou a se acalmar enquanto eu procurava um lugar para estacionar no quarteirão dele. Quando entramos no apartamento, ele começou a cair em si. Eu não sabia se me sentia aliviada ou com pena dele.

— Sydney, espere — ele disse, quando percebeu que eu estava prestes a dar meia-volta e ir embora. — A gente precisa conversar.

Soltei um suspiro.

— Não. Agora não. Estou cansada e quero minha cama. E não quero conversar com você nesse estado. Amanhã vamos ter tempo de sobra.

— Vamos? — ele perguntou. — Ou você vai ter que manter distância e ficar com Zoe?

— Nem comece — adverti. — Você sabe muito bem que a gente não tem como evitar. Sabia desde o começo, então não me culpe por termos que tomar cuidado.

— Não estou culpando você — ele disse. — Mas por que continuar com isso? Vamos fazer um plano de fuga de verdade. Vamos embora. Podemos nos juntar aos Conservadores ou alguma coisa assim e escapar de toda essa baboseira.

— Adrian — eu disse, cansada.

— Não fale “Adrian” desse jeito — ele disse, com uma faísca de fúria surpreendente no olhar. — Não sei como você consegue, mas só de dizer meu nome assim, sinto como se tivesse cinco anos.

Quase disse que ele estava agindo como se tivesse cinco anos, mas consegui manter a calma.

— Certo. Não podemos nos juntar aos Conservadores porque os alquimistas vivem indo pra lá. E você não sobreviveria uma hora naquelas condições. Além disso, conseguiria abandonar Jill?

O olhar atormentado em seu rosto serviu como resposta.

— Exato. Estamos presos aqui e só podemos nos esforçar ao máximo até que... sei lá. Alguma coisa mude. Você sabe disso. Sempre soube.

— Eu sei — ele disse. Ele passou a mão pelo cabelo de novo e, dessa vez, virou um caso perdido. — Eu sei... e odeio isso. E não preciso ficar bêbado para me sentir assim. Até quando, Sydney? Aonde isso vai dar? Quando vamos sair dessa? Quando você e Marcus vão fazer sua revolução contra os alquimistas?

— Não é tão fácil assim. — Desviei os olhos. — Também estamos fazendo uma revolução contra os tabus das nossas raças.

— E o que vai acontecer com a gente? — Ele se recostou na parede da cozinha e ficou olhando para uma janela escura, perdido em pensamentos. — Qual é nosso plano de fuga?

O silêncio caiu. Eu não tinha respostas e resolvi ser covarde, voltando a conversa contra ele.

— Foi por isso que agiu assim hoje? Por nossa causa? Ou foi por causa do espírito? Jill comentou que você usou muito.

— Não, Sydney. — Era desconcertante ouvi-lo usar meu primeiro nome. Ficava difícil continuar com raiva. Ele veio até mim e segurou minhas mãos, o olhar perturbado. — Não é que usei o espírito. Era como se eu fosse feito de espírito. Ele me preencheu. Precisei olhar dentro daquela menina, Olive, para descobrir o que tinha acontecido com ela. O espírito tinha penetrado todas as partes dela e precisei invocar muito para ver. Depois tive que confiná-lo. Sabe como é difícil? Faz alguma ideia? A única coisa que já fiz que exigiu mais de mim foi salvar Jill.

— Daí o efeito colateral — eu disse.

Ele balançou a cabeça.

— Eu tentei. Tentei me segurar. Mas, quando estou balançando desse jeito... enfim, mais cedo ou mais tarde o pêndulo cai. É difícil explicar.

— Eu já fiquei mal também.

— Não desse jeito — ele disse. — E não estou querendo dizer que sei mais que você. Eu me sinto... é como se o mundo começasse a se desmoronar em volta de mim. Todas as dúvidas, todos os medos... me consomem. Caem sobre mim até que sou engolido pela escuridão e não consigo mais diferenciar o que é real do que não é. E, mesmo quando sei que não é real... como com a tia Tatiana... enfim, mesmo assim é difícil...

Congelei, me lembrando das palavras dele na casa de penhores.

— Com que frequência ouve a sua tia?

A voz dele era quase um sussurro.

— Não muito. Mas uma vez já é demais. É estranho. Sei que ela não está aqui. Sei que partiu. Mas consigo imaginar o que ela diria e parece tão real... é quase como se eu conseguisse vê-la. Ainda não vi, mas algum dia... tenho medo que algum dia eu a veja de verdade e então vou saber que sou um caso perdido...

Eu estava tão assustada que não sabia o que dizer. Já tínhamos conversado muito sobre loucura e espírito, mas nunca tinha parado para pensar que poderia haver mais além das variações de humor dele. Eu o puxei para perto e finalmente encontrei palavras.

— Adrian, você precisa procurar ajuda.

O riso dele foi seco.

— Como? Essa é a minha vida. Algumas doses de Jäger é o máximo de ajuda que vou conseguir. Pelo menos me acalmam um pouco.

— Isso não é a solução. Você precisa de ajuda de verdade. Pegue uma receita, como Lissa fez.

Ele se afastou abruptamente.

— E acabar com o espírito de uma vez?

— Bloqueando o espírito, você se livra da depressão e... de outras coisas também. Como ter que beber até ficar berrando com um penhorista.

— Mas daí não vou ter o espírito.

— Pois é, esse é o objetivo.

— Não posso. Não consigo abandoná-lo. — Rugas de sofrimento surgiram no rosto dele.

— Você consegue fazer o que quiser — eu disse, com firmeza. Havia um sofrimento agudo dentro de mim que fiz o máximo para esconder. Pulinho estava sentado ali perto e o peguei como uma distração, fazendo carinho em suas escamas douradas. — Se fizer isso, vai se salvar. E salvar Jill. Você sabe que essa escuridão pode passar para ela.

— Eu já salvei Jill! — ele exclamou. Um brilho frenético e desesperado voltou a se agitar em seus olhos. — Ela estava morta e eu a salvei. Com o espírito. Salvei a mão de Rowena. Salvei o sangue de Olive. Tem ideia do trabalho que foi? Não era só a quantidade... a magia era tão complicada, Sydney. Não sei se outra pessoa teria conseguido. Mas eu consegui. Com o espírito. Com o espírito consigo fazer coisas boas, pra variar!

— Você faz muitas coisas boas.

— Ah, é? Tipo isso? — Ele apontou para sua última tentativa de autorretrato, que até eu precisava admitir que era bem ruim.

— Você não é só a sua magia — insisti. — Não amo você por causa dela.

Ele hesitou por um momento.

— Mas como posso abandonar a capacidade de ajudar outras pessoas? Já falamos sobre isso antes. Eu deveria ter deixado Jill morrer? Deixado Rowena perder a carreira dela? Perdido a chance de impedir que as pessoas sejam transformadas em Strigoi?

Finalmente perdi o controle e coloquei Pulinho de volta no chão.

— Existe um limite! Em algum momento, existe um limite que você não pode ultrapassar! Sim, você faz coisas incríveis, mas está chegando a um ponto em que precisa pagar um preço grande demais por isso. Está disposto a pagar esse preço? Porque eu não estou! Adrian, você precisa parar um pouco e pesar as suas necessidades contra as dos outros. O que vai acontecer se usar o espírito a ponto de perder o controle? A ponto de ser internado? Ou morrer? E aí? O que vai conseguir fazer então? Nada. Você não sabe o que o futuro guarda. Não sabe o que pode fazer se estiver livre da influência do espírito.

Ele avançou e segurou minhas mãos de novo.

— Mas não vou conseguir. Acha que não vou fazer nada da próxima vez que puder curar alguém? Acha que vou deixar as pessoas sofrerem? É uma tentação que não vou conseguir suportar.

— Então não suporte. Fale com um médico. Tire a escolha das suas mãos e veja as coisas maravilhosas que pode fazer quando está no controle de si mesmo.

Aqueles olhos verdes, verdíssimos, pareceram me encarar por uma eternidade. Finalmente, ele engoliu em seco e balançou a cabeça.

— Não posso, Sydney. Não posso desistir do espírito.

Naquele momento, não consegui mais me conter. Começou com algumas lágrimas e, quando me dei conta, estava soluçando sem parar. Escondi o rosto nas mãos e toda a dor, todo o medo que sentia por ele explodiram com tudo dentro de mim. Eu quase nunca chorava. Muito menos na frente de outras pessoas. E, embora considerasse a maior parte das lições de meu pai completamente inúteis nos últimos tempos, ainda acreditava que perder o controle daquele jeito e demonstrar tantas emoções era sinal de fraqueza. Mas não consegui evitar. Não conseguia parar.

Eu estava assustada. Muito assustada por ele. Eu dava conta de coisas lógicas e racionais, mas era muito difícil ter que lidar com o irracional. E eu estava falando sério. Tinha medo de que, um dia, a pintura frenética e as palhaçadas de bêbado não fossem suficientes. E se o penhorista tivesse chamado a polícia antes de eu chegar? E se a tia dele tivesse dito para ele pular de um prédio?

Senti os braços de Adrian me envolverem e, ainda que ele me abraçasse forte, sua voz era frágil.

— Sydney... você está... a gente... a gente está terminando?

Levei quase um minuto para conseguir falar. Levantei os olhos para ele em choque, sem acreditar que ele achava que eu o largaria porque ele estava sofrendo.

— Como assim? Não! Por que pensaria uma coisa dessas?

O efeito do álcool estava passando, e a frustração e a tristeza de antes estavam agora completamente superadas pelo medo e pela confusão.

— Então por que está chorando?

— Por você! — Bati meus punhos no peito dele. — Porque amo você e não sei o que fazer! Consigo resolver quase qualquer problema, mas não esse. Não sei como lidar com isso. E estou com medo. Com medo por você! Consegue imaginar como eu me sentiria se alguma coisa acontecesse com você? — Parei de bater nele e pus as mãos no meu próprio peito, como se houvesse perigo de meu coração sair. — Isso! Isso iria se partir. Se despedaçar. Se desintegrar até virar pó. — Abaixei as mãos. — O vento levaria até que não sobrasse nada.

O silêncio caiu entre nós, quebrado algumas vezes pela minha respiração arquejante enquanto tentava me recuperar dos soluços. Estava tudo tão silencioso que ouvi meu celular vibrando dentro da bolsa. Zoe, lembrei. Depois do que aconteceu com Adrian, ela parecia vir de outra realidade. Aos poucos, fui caindo em mim. Ela era, na verdade, uma parte grande dessa realidade, e ainda deveria estar com medo de que Jill me fizesse de lanchinho.

Me separei de Adrian e li a mensagem, que era mais ou menos o que eu estava esperando. Respondi que estava tudo bem e que estava voltando para casa. Quando levantei os olhos, Adrian me observava com um ardor e um desespero que me fizeram querer voltar para junto dele. Mas eu sabia que, se fizesse isso, nunca mais iria embora, e estava na hora de partir. O resto do mundo continuava seguindo sua marcha.

— Depois a gente se fala — murmurei, por mais que não fizesse ideia do que dizer. Tirei a carteira e coloquei um pouco de dinheiro no encosto do sofá. — Para você passar esses dias.

— Sydney... — Ele deu um passo à frente e estendeu a mão para mim.

— Depois — repeti. — Vai dormir um pouco. E lembre-se: amo você. Aconteça o que acontecer, eu amo você.

Isso não parecia nada perto de tudo que o atormentava, mas, por enquanto, teria que bastar.


11

 

Adrian

FORAM AS LÁGRIMAS QUE ACABARAM COMIGO.

Eu poderia ter me mantido firme e argumentando, criando justificativas de por que estava preso ao espírito. Era bem provável que tivesse feito um trabalho razoável, até contra a lógica forte dela. Mas, à medida que ficava sóbrio depois que ela foi embora, a imagem daquelas lágrimas me atormentava. Eu sempre me alegrava com aqueles raros momentos de paixão que via nos olhos dela, aquele lado emocional mais profundo que ela mantinha escondido. Sydney não era daquelas pessoas que demonstravam sentimentos facilmente, e eu era especial o bastante para ver toda a riqueza de suas emoções quando ela estava cheia de alegria e desejo. E, naquela noite, pelo jeito, tinha sido especial o bastante para presenciar a tristeza dela também.

Isso me consumia, especialmente porque, na próxima vez que a vi, ela agiu como se nada tivesse acontecido. Foi fiel à sua palavra: não terminou comigo. Mas, apesar dos sorrisos e do rosto calmo, eu sabia que ela devia estar frustrada. Eu tinha um problema. Não, eu era um problema. Um problema que ela não conseguia resolver. Ela devia estar enlouquecendo e, quanto mais pensava, mais percebia que ela não deveria ter que resolver aquilo por mim. Era minha responsabilidade. Ninguém nunca tinha chorado por minha causa antes. Para ser sincero, não achava que era digno das lágrimas de ninguém.

— Mas preciso ser — falei para Jill um dia. — Ela se importa tanto e sofre tanto por mim... como posso deixar os sentimentos dela serem em vão? Ela acha que sou importante. Preciso provar que posso ser.

— Você é importante — Jill me garantiu.

Estávamos sentados na frente do alojamento dela, curtindo uma onda de calor no meio do inverno. A sombra do grande prédio nos protegia da luz.

Balancei a cabeça.

— Sei lá. Não sei o que tenho a oferecer pra ela ou pro mundo. Eu achava que era o espírito. Achava que as coisas que podia fazer com ele seriam minha contribuição. Como você e Olive. — Na verdade, não tinha ouvido nenhuma notícia sobre Olive desde que ela fora para a corte, e meus esforços bem que podiam ter sido em vão.

Jill apertou minha mão e sorriu.

— Bom, do meu ponto de vista, são sem dúvida uma contribuição, mas Sydney está certa: você não sabe do que é capaz. A maioria das pessoas não deixa uma marca no mundo com grandes milagres. Algumas sim — ela acrescentou rápido. — Mas, às vezes, o impacto maior é feito com uma série de pequenas coisas silenciosas. Você não vai conseguir fazer nada se estiver...

— ... internado ou morto? — completei, repetindo as palavras de Sydney.

Jill teve um sobressalto.

— Não vamos pensar nesses termos. Não tem por que se preocupar com o que não aconteceu. Vamos trabalhar no que você consegue controlar agora.

Passei o braço ao redor dela.

— Olhe só você, Chave de Cadeia. Tão sábia e tão jovem.

— A sua sabedoria deve estar passando pra mim. Você já está fazendo coisas grandiosas sem nem tentar. — Ela se encostou em mim. — Mas, sério, Adrian. Tente. Tente parar com o espírito e veja o que acontece.

— Não uso nada desde aquele dia. Nem para ver auras. — Eu também não tinha bebido nada, nem minha cota diária permitida.

— Foram só alguns dias. Não estou dizendo que seu sacrifício não é nobre. Mas vai aguentar se... sei lá... Sydney cortar a perna se depilando? Vai resistir ao espírito ou vai pensar: “Ah, um pouquinho de magia nesse corte não vai fazer mal”?

— As pernas dela são lindas — admiti. — Odiaria que acontecesse alguma coisa com elas.

— Exato. E acharia que um pouquinho de espírito não faria mal a ninguém. E depois pensaria a mesma coisa da outra vez. E da outra...

Ergui as mãos.

— Tá, tá. Entendi. Ainda bem que Sydney toma cuidado demais para que esse desastre de depilação aconteça. — Rimos com a piada e, então, me lembrei da gravidade da situação. — Está bem. Vou tentar, mas... não consigo deixar de me sentir egoísta. Fui egoísta minha vida toda. Seria bom superar isso.

Jill me olhou diretamente nos olhos.

— Sempre que você usa o espírito... é só pra fazer o bem?

Demorei um bom tempo para responder.

— Você já sabe a resposta dessa pergunta — eu disse. Eu usava o espírito por causa do barato, porque fazia eu me sentir livre e poderoso. Às vezes, tinha o mesmo efeito de beber ou fumar.

— Viu? — ela disse. — Veja o que acontece. Se não funcionar, você para. É uma pílula, não um compromisso pra vida toda.

— Por que isso me soa familiar?

Ela sorriu, irônica.

— Foi o que você falou para Sydney sobre o anticoncepcional.

Era difícil acreditar que eu tinha me esquecido disso.

— Ah, sim. É melhor você ficar fora dessa conversa. A gente precisa preservar sua inocência pelo maior tempo possível.

A expressão sarcástica de Jill também a fez parecer velha demais para sua idade.

— Perdi a inocência no momento em que criamos o laço.

Foi então que Sydney e Zoe saíram do alojamento. Elas não nos viram, já que estávamos sentados num banco afastado, e Jill chamou por elas. Zoe congelou. Sydney abriu seu sorriso educado de alquimista.

Eu me recostei e cruzei as pernas, querendo parecer o mais insolente possível.

— Ora, ora. As irmãs Sage. Aonde vão? Fazer trabalho voluntário na biblioteca? Ou está tendo liquidação de estantes em algum lugar?

Por incrível que pareça, Sydney conseguiu se manter séria. Além de reforçar meu amor por ela, aquilo também me deu vontade de levá-la para um jogo de pôquer qualquer dia. Com aquela cara e minha leitura de auras, quebraríamos a banca.

— Quase. Zoe precisa de papel quadriculado para a aula de matemática.

— Ah — eu disse. — Material de escritório. Seria meu próximo palpite. Só não falei porque pensei que vocês tinham caixas dessas coisas embaixo da cama.

Mesmo depois dessa, Sydney conseguiu manter um controle incrível, embora seus lábios se contorcessem muito de leve. Ela olhou para Jill.

— Precisa de alguma coisa?

Jill fez que não, mas me intrometi:

— Preciso de um caderno de desenho novo, algumas tintas em bastão e...

Sydney suspirou e assumiu uma expressão irritada.

— Adrian, eu não estava falando com você. Vem, Zoe. Vejo vocês dois mais tarde. — Elas começaram a se afastar, mas então Sydney parou subitamente. — Ah! Preciso conversar com Jill rapidinho. Toma. — Ela jogou as chaves para Zoe. — Pode tirar o carro da garagem.

Os olhos da garota se arregalaram como se Sydney tivesse acabado de dizer que o Natal estava chegando mais cedo. Foi até bonitinho, na verdade, e precisei me lembrar que Zoe era um flagelo constante na minha vida amorosa.

— Sério? Ah! Obrigada! — Ela pegou as chaves sem pensar duas vezes e se afastou, saltitante.

Sydney olhou para ela com carinho.

— Sério? — ela me perguntou. — Liquidação de estantes?

— Ah, vá — eu disse. — Não finja que não adoraria uma.

Ela sorriu e se voltou para nós. A luz do sol deixava seu cabelo da cor de ouro derretido e eu perdi o fôlego.

— Talvez — ela concordou. — Depende, se as cores forem de bom gosto.

— Acho que você não precisa conversar comigo de verdade — Jill comentou, com um sorriso irônico.

Sydney encolheu os ombros e pôs uma mecha daquele cabelo maravilhoso atrás da orelha.

— Não especificamente. Na verdade, só queria um pouquinho de ar. Gosto de conversar com vocês. — Mas o olhar dela recaiu sobre mim e dava para sentir a tensão entre nós. Eu sabia que ela, assim como eu, estava tendo dificuldade em manter a distância. Eu daria qualquer coisa para abraçá-la naquela hora, para passar a mão na sua bochecha ou sentir seu cabelo entre os dedos.

Pigarreando, ela desviou o olhar e pareceu estar procurando um assunto mais seguro. Enfim, quase seguro. Ela abaixou a voz quando voltou a olhar para nós com um brilho nos olhos.

— Eu consegui. — Ela olhou ao redor rapidamente antes de continuar. — O sal. Consegui infundir os quatro elementos nele.

Jill perdeu o fôlego, tão consumida pela tarefa quanto Sydney e eu.

— Acha que consegue copiar a tinta de Marcus?

Sydney assentiu, animada.

— O mais difícil já foi. Só precisa ficar mergulhado e suspenso numa solução de tinta para usar na tatuagem. Depois, vou precisar de uma cobaia. Acho que o mais corajoso seria experimentar em mim mesma.

— Tenho total confiança nas suas habilidades — eu disse —, mas talvez seja melhor esperar e testar num dos recrutas idealistas de Marcus.

— Suponho que sim. Quer dizer, não acho que vá causar nenhum mal. O máximo que pode acontecer é não funcionar. E a única maneira de descobrir é se os alquimistas tentarem retocar a cobaia, o que ninguém quer que aconteça. — Ela franziu as sobrancelhas, pensativa. Era uma graça. — A não ser que eu pegue um pouco de tinta alquimista e experimente retocar eu mesma... mas, ai. Não seria nem um pouco fácil sem permissão. E não tenho um usuário de terra por perto também.

Ironizei:

— Aposto que Abe adoraria ajudar.

— Ah, sim — Sydney respondeu. — Aposto que ele adoraria saber tudo sobre meu projeto paralelo.

Naquele exato momento, Zoe parou o carro gigante delas. Ela não subiu no meio-fio nem bateu no prédio, o que era um avanço. Mesmo assim, vi os olhos aguçados de Sydney examinando o exterior do carro em busca do menor arranhão. Satisfeita, ela tirou Zoe do banco de motorista e nos deu tchau. Seus olhos pousaram nos meus e, por alguns segundos, fiquei suspenso naquele olhar cor de âmbar. Suspirei enquanto ela ia embora e, quando baixei os olhos, vi Jill me observando com aquele ar de quem sabe das coisas.

— Certo — eu disse. — Vou marcar uma consulta. — Ela me abraçou.

Liguei para um psiquiatra recomendado pelo centro médico de Carlton e torci para que não tivesse um horário tão cedo. Afinal, especialistas estavam sempre ocupados, certo? Aquele parecia ser bastante requisitado, mas alguém tinha acabado de cancelar uma consulta no dia seguinte. A recepcionista me disse que eu tinha muita sorte. Que escolha eu tinha? Aceitei e matei a aula de multimídia no dia seguinte. Rowena me chamou de preguiçoso quando perguntei a ela o que tinha perdido.

O médico se chamava Ronald Mikoski, mas logo esqueci esse nome porque ele era a cara do Albert Einstein, tendo até o cabelo e o bigode brancos desgrenhados. Eu tinha imaginado que deitaria num divã e falaria sobre minha mãe, mas, em vez disso, ele me indicou uma poltrona acolchoada enquanto se acomodava atrás da mesa. Em vez de um bloco de notas, tinha um laptop.

— Então, Adrian — Einstein começou. — O que traz você aqui hoje?

Comecei a dizer “Minha namorada me obrigou”, mas soaria meio petulante.

— Minha namorada achou que seria uma boa ideia — disse em vez disso. — Quero tomar antidepressivos.

Ele ergueu a sobrancelha felpuda.

— É mesmo? Então, a gente não sai dando receitas por aqui. Vamos chegar à raiz do problema primeiro. Você está deprimido?

— Agora não.

— Mas às vezes fica?

— Sim. Quer dizer, todo mundo fica às vezes, né?

Ele me olhou longamente.

— Claro, mas sua depressão é pior do que a de uma pessoa normal?

— Quem pode dizer? — Encolhi os ombros. — É tudo subjetivo, não é?

— A sua namorada acha que é pior do que a de uma pessoa normal?

Hesitei.

— Sim.

— Por quê?

Isso me fez vacilar. Não sabia se estava pronto para conversar sobre aquilo. Por essa eu não esperava. Tudo que Lissa tinha me contado sobre saúde mental era que os psiquiatras prescreviam remédios e os terapeutas conversavam sobre os problemas. Achei que era só entrar ali, dizer que precisava de antidepressivos e pegar os remédios.

— Porque... eu bebo quando fico mal.

Einstein começou a digitar.

— Muito?

Estava prestes a dizer que também era subjetivo, mas decidi dar uma resposta franca.

— Sim.

— Quando está feliz também?

— Acho que sim... mas qual é o problema de relaxar um pouco?

— Me fale como você se sente quando “fica mal”.

De novo, eu poderia ter feito uma piada. Poderia ter dito que ia para a balada e dançava até cair. Afinal, como poderia descrever o que sentia naqueles momentos sombrios em que o espírito enfiava as garras na minha alma? E, mesmo se conseguisse encontrar palavras, como ele poderia entender? Como alguém poderia entender de verdade? Ninguém sabia como era aquilo, o que piorava as coisas. Eu sempre me sentia sozinho. Nem outro usuário de espírito conseguiria entender completamente meu sofrimento. Cada um passava pelo seu próprio calvário e, claro, eu não podia citar o espírito especificamente.

Mesmo assim, me peguei falando com Einstein, descrevendo tudo do melhor jeito que pude. Depois de um tempo, ele parou de digitar e ficou ouvindo, fazendo uma ou outra pergunta para esclarecer meus sentimentos. Depois, parou de perguntar como eu me sentia quando ficava deprimido e quis saber como me sentia quando ficava alegre. Pareceu especialmente interessado nas minhas compras impulsivas e em “comportamentos incomuns”. Quando esgotamos esse tópico, ele me deu um monte de questionários com variações das mesmas perguntas.

— Cara — eu disse, devolvendo os papéis. — Não fazia ideia que era tão difícil se qualificar como louco.

Entrevi uma faísca divertida nos olhos dele.

— “Louco” é um termo usado demais e de maneira incorreta. Cria um estigma e tem um caráter final. — Ele apontou para a própria cabeça. — Nós somos todos substâncias químicas, Adrian. Nosso corpo, nosso cérebro. É um sistema simples, mas incrivelmente sofisticado e, de vez em quando, alguma coisa dá errado. Uma mutação celular. Um neurônio que dispara na hora errada. A falta de um neurotransmissor.

— Minha namorada adoraria isso — eu disse. Apontei para a papelada. — Então, mesmo sem ser louco, ganho os comprimidos?

Einstein folheou os papéis, assentindo, como se estivesse vendo exatamente o que tinha esperado.

— Se é o que você quer... mas não aqueles que queria. Seu caso é ainda mais complexo do que uma depressão. Você exibe muitos sintomas clássicos de distúrbio bipolar.

Havia algo sinistro na palavra “distúrbio”.

— O que isso quer dizer, em palavras que não começam com “neuro”?

Consegui que ele sorrisse com essa, embora fosse um sorriso um tanto triste.

— Significa, em termos muitos simples, que seu cérebro torna suas tristezas muito mais tristes e suas alegrias muito mais alegres.

— Você quer dizer que é possível ser feliz demais? — Eu estava começando a ficar incomodado com aquilo. Talvez o fato de os pacientes dele cancelarem em cima da hora era um sinal de que ele não era um médico tão bom assim.

— Depende do que você faz. — Ele olhou para os papéis que eu tinha preenchido. — Você gastou oitocentos dólares num conjunto de vinis recentemente?

— Sim, e daí? É a forma mais pura de música.

— Era uma coisa que você queria fazia tempo? Uma coisa que estava procurando?

Lembrei de quando tinha passado na frente do cartaz escrito à mão no campus.

— Hum, não. Apareceu a oportunidade e achei que era uma boa ideia.

— Você tem um histórico de fazer compras por impulso?

— Não. Quer dizer, teve um mês em que mandei flores pra uma menina todo dia. Também mandei entregar uma caixa gigante de perfume na casa dela. E comprei um perfume personalizado pra minha namorada atual que foi meio caro. E, tecnicamente, comprei um carro por causa dela também. Mas não pode me julgar por isso — acrescentei rápido, vendo o olhar desconfiado dele. — Eu estava apaixonado. Todo mundo faz coisas assim quando está apaixonado, não é? — Ele me respondeu com silêncio. — Talvez eu só precise de uma aula de gestão financeira.

Ele soltou um resmungo incompreensível.

— Adrian, é normal ficar alegre e triste. Faz parte da vida. — Não o corrigi nesse ponto. — O que não é normal é ficar tão triste que você não consegue fazer as tarefas do dia a dia ou tão alegre que se atira impulsivamente em atos grandiosos sem pensar nas consequências, como gastos excessivos. E definitivamente não é normal alternar tão rápido entre esses humores drásticos sem ou com pouco motivo.

Eu queria dizer que havia sim um motivo, que era o espírito que fazia aquelas coisas comigo. Mas será que a causa importava? Se um usuário de fogo se queimasse usando magia, ele precisaria de primeiros socorros de qualquer jeito. Se o espírito estava causando aquele negócio bipolar, eu precisava de tratamento, não? Minha mente estava girando e, de repente, me vi preso no dilema do ovo ou da galinha. Talvez não fosse o espírito que causasse a doença mental. Talvez pessoas como Lissa e eu já tivessem problemas químicos e isso nos aproximasse do espírito.

— Então, o que eu faço? — perguntei finalmente.

Ele tirou um bloquinho e rabiscou alguma coisa nele. Quando terminou, arrancou a página e a entregou para mim.

— Você leva essa receita.

— É um antidepressivo?

— É um estabilizador de humor.

Fiquei olhando para o papel como se ele fosse me morder.

— Espere. Isso vai me “estabilizar” para que eu não sinta alegria nem tristeza? Então não vou sentir nada? — Eu me levantei abruptamente. — Não! Não ligo se é perigoso. Não vou largar minhas emoções.

— Sente-se — ele disse com calma. — Ninguém vai levar suas emoções embora. É como eu disse: somos todos substâncias químicas. Você tem algumas que não estão nos níveis certos. Esse remédio vai ajustar a quantidade dessas substâncias, assim como um diabético corrigiria a insulina. Você vai continuar sentindo. Vai ficar feliz. Vai ficar triste. Vai ficar com fome. Só não vai ficar mudando de maneira imprevisível, passando de um extremo a outro. Não tem nada de errado nisso... e é muito mais seguro do que se automedicar com álcool.

Voltei a me sentar e fiquei olhando inexpressivo para a receita.

— Isso vai acabar com a minha criatividade, não vai? Sem meus sentimentos, não vou conseguir pintar como antes.

— É o medo de todos os artistas — Einstein disse, com a expressão mais grave. — Talvez afete algumas coisas, mas sabe o que realmente vai interferir na sua capacidade de pintar? Ficar deprimido demais para sair da cama. Acordar na cadeia depois de uma noite regada a álcool. Se suicidar. Essas coisas é que vão acabar com sua criatividade.

Era surpreendentemente parecido com o que Sydney havia dito sobre como eu conseguiria ter sucesso nas coisas.

— Eu vou ser normal — resmunguei.

— Você vai ser saudável — ele corrigiu. — Com isso, pode se tornar extraordinário.

— Gosto da minha arte do jeito que ela é. — Eu sabia que estava parecendo uma criança.

Einstein encolheu os ombros e se recostou na cadeira.

— Então vai ter que decidir o que é mais importante pra você.

Nem precisei pensar.

— Sydney.

Ele ficou em silêncio, mas sua expressão disse tudo.

Soltei um suspiro e me levantei.

— Vou pegar o remédio.

Ele me deu algumas informações sobre os efeitos colaterais e me avisou que talvez precisasse de um pouco de tentativa e erro para acertar a dose. Sair de lá e ir para uma farmácia, em vez de uma loja de bebidas, exigiu mais autocontrole do que eu vinha usando nos últimos tempos. Me obriguei a prestar atenção enquanto o farmacêutico me falava sobre a dosagem e me advertia contra beber álcool enquanto estivesse sob efeito do medicamento.

Mas, quando voltei para casa, não tive coragem de abrir o frasco. Coloquei um disco ao acaso e sentei no sofá, olhando fixamente para o frasco na minha mão, mais confuso do que imaginava que ficaria. Aquele estabilizador de humor era um mistério. Eu tinha achado que entraria lá e começaria a tomar a mesma coisa que Lissa havia tomado e, mesmo não sendo nenhum grande fã de comprimidos, pelo menos teria Lissa como referência. Mas isso? O que aconteceria? E se Einstein estivesse errado e eu parasse de sentir qualquer emoção? E se aquilo não fizesse nada além de causar os efeitos colaterais medonhos que ele havia dito que eram extremamente raros?

Por outro lado... e se não acabasse com o espírito, mas controlasse a escuridão? Seria um sonho realizado. Era o desejo original de Lissa quando começou a tomar antidepressivos. O entorpecimento total do espírito havia sido uma surpresa. Era incrível pensar que eu poderia ficar com a magia e ter o controle da minha vida. A ideia era tão tentadora que abri o frasco e coloquei um dos comprimidos na mão.

Mas não consegui tomar. Estava com muito medo — medo de perder o controle e medo de assumi-lo. Tentei pensar em Sydney, mas não consegui ter uma ideia clara dela na minha cabeça. Numa hora, ela estava rindo, reluzente sob o sol. Em outra, estava chorando. Eu queria o que fosse melhor para ela... mas sabia que o que ela realmente queria era o que fosse melhor para mim. No entanto, era difícil saber o que era melhor para mim. Em cima da mesa, Pulinho, que estava na forma de estátua, parecia me julgar, e o virei de lado para que não ficasse me olhando.

A música me levou para longe e levei um susto ao perceber que tinha colocado Jefferson Airplane para tocar. Dei uma risada, mas ela logo se transformou num suspiro.

— “Um comprimido te faz crescer, o outro te faz encolher.” — Apertei o comprimido com força. — “E os que a sua mãe te dá não fazem absolutamente nada.”

Tome esse maldito comprimido, Adrian. A voz mandona na minha cabeça era minha, e não da tia Tatiana, felizmente. Abri a mão e fiquei observando o comprimido. Tome logo. Eu estava com um copo de água e tudo.

Mesmo assim, fiquei enrolando.

Dei um pulo quando o Celular do Amor tocou. Segurando o comprimido com uma mão, peguei o celular com a outra e li a mensagem de Sydney.

Falei para Z que tinha deixado o celular na loja, daí voltei e comprei um caderno de desenho e algumas tintas em bastão. Conhece algum artista faminto que precise disso?

Meu coração bateu mais forte. Eu não sabia como um corpo físico era capaz de conter tanto amor. Sentia que meu peito iria explodir.

— Está bem, Alice — falei, olhando para o comprimido. — Vamos ver do que você é capaz.

Coloquei o comprimido na boca e engoli.


12

 

Sydney

NEM PESTANEJEI QUANDO A PROFESSORA DE QUÍMICA FALOU que teríamos uma prova surpresa. Mas, quando Zoe contou que nosso pai estava perto de Palm Springs, quase tive um ataque de nervos.

— Como assim? Quando ele vai chegar? — exclamei. Tínhamos acabado de nos sentar para o almoço no refeitório.

— Hoje à noite. Ele quer jantar com a gente. — Ela pegou uma batata frita e ficou olhando para ela como se fosse mais interessante que a notícia que ela tinha acabado de me dar. — Queimaram as batatas hoje.

Comida era a última coisa na minha cabeça, e não porque eu estava preocupada com meu peso.

— Há quanto tempo você sabia que ele ia chegar hoje?

Ela encolheu os ombros.

— Eu disse para você na semana passada.

— É, mas não especificou a data e a hora! Custava ter me avisado direito?

Finalmente, mereci mais atenção que o almoço dela.

— Qual é o problema? É o papai. Você deveria estar animada. Não é como se tivesse que se preparar.

Bom, eu bem que gostaria de ter me preparado mentalmente. Por mais que soubesse que ele estava chegando, não ter uma data certa havia feito com que eu relaxasse um pouco. O resto do grupo estava sentado com a gente — Jill, Eddie, Angeline e Neil — e pude ver que estavam ouvindo a conversa com interesse. Só Jill sabia do drama com meus pais e, quando ficou claro que nem eu nem Zoe falaríamos mais sobre aquilo, ela fez o favor de mudar o assunto e começou a contar sobre um desfile que o clube de costura dela estava organizando.

Comecei a mastigar a comida chinesa roboticamente, sem nem sentir o gosto. Talvez, se fingisse estar interessada no almoço, ninguém perceberia que eu estava à beira de um ataque de pânico. Meu pai iria chegar naquela noite! Calma, falei para mim mesma. Era só um jantar e, como devia ser em público, ele teria que limitar seus discursos extravagantes. Não ficaria me seguindo para todo canto nem revistaria meu quarto.

No entanto, por mais que tentasse me acalmar com essa lógica, não conseguia esquecer minha apreensão. Palm Springs havia se tornado um santuário para mim, onde eu escondia todos os meus segredos. Não só meu romance com Adrian, mas também minha amizade sincera com os outros. E, claro, meu uso ilícito de magia. Eu mantinha todas essas coisas bem guardadas, e só saber que ele estaria ali, no meu território, me fazia sentir como se toda a minha vida tivesse acabado de ser exposta.

— Ei, Neil — Angeline disse, de repente. — Já enfiou uma estaca em algum Strigoi?

Considerando que Jill estava falando sobre iluminação na passarela, era uma mudança de assunto um tanto estranha. Pela expressão de Neil, ele achou o mesmo.

— Hum, nenhum de verdade.

— Mas já praticou muito com alguns de mentira, né?

— Sim, claro. — Ele relaxou um pouco, agora que estava em território conhecido. — Era parte obrigatória do currículo.

Ela sorriu.

— Acha que pode me dar algumas dicas depois da aula hoje?

Eddie franziu a testa.

— Praticamos isso faz alguns meses.

— Então, sim — ela disse —, mas não faz mal ter opiniões diferentes sobre o assunto, né?

— Como pode haver opiniões diferentes sobre enfiar uma estaca no coração de um monstro? — Jill perguntou. O rosto dela demonstrava que não gostava da ideia de Neil e Angeline passando tempo juntos.

— Tenho certeza que Neil e Eddie têm habilidades diferentes — Angeline insistiu.

Era um comentário perigoso, sugerindo que talvez um fosse mais habilidoso que o outro. O rosto dos meninos confirmou essa ideia.

— Seria um prazer — Neil disse, se enchendo de orgulho. — Você tem razão. Pode ser bom pra você conhecer outro estilo.

— Quero ver esse outro estilo — Eddie comentou.

— Eu também — Jill disse.

— Não. — Angeline teimou. — Vocês seriam uma distração e esse é um assunto sério. Só eu e Neil. — Ela deu uma piscadinha para ele e me perguntei qual seria seu plano. Mais tarde, quando estávamos nos separando para ir cada um para sua aula, a puxei pelo braço.

— Por que deu em cima do Neil daquele jeito? — perguntei. — Não faz nem um mês você estava caidinha pelo Trey.

O sorriso dela se desfez.

— Ainda estou. Não consigo tirar Trey da cabeça. Então acho que preciso ir atrás de Neil.

Demorei um pouco para responder.

— Mas você disse que não conseguiria gostar mesmo dele.

— É por isso que preciso tentar — ela explicou, com um olhar que sugeria que eu talvez não fosse tão esperta quanto todo mundo afirmava. — Assim não vou mais pensar em Trey.

Não tinha por que discutir e, embora eu duvidasse dos métodos românticos de Angeline, sabia que era um bom plano ela ficar longe de Trey.

— Bom, então boa sorte.

O nervosismo em relação ao meu pai continuou a me afligir durante o resto do dia. Embora eu soubesse que era melhor ficar longe de Adrian, não consegui me conter. Quando entrei na sala da sra. Terwilliger para meu estudo independente, ela olhou para mim e sorriu.

— Vá — ela disse. — Vá fazer o que precisa fazer, seja lá o que for.

— Obrigada! — Eu estava correndo antes que ela terminasse a frase.

Fui até a casa dele e entrei com a minha chave. Ele estava sentado na sala, trabalhando em um projeto inesperado: várias pinturas suas estavam no chão e ele as estava cortando em pedacinhos meticulosos. Foi o bastante para acalmar o pânico em relação ao meu pai por alguns momentos.

— O que é isso? — perguntei. — Odeia todas elas?

Ele levantou a cabeça e sorriu.

— Não exatamente. Tive uma ideia pro autorretrato. Percebi que essas tentativas que eu rejeitei tecnicamente são parte de mim, então vou combinar todas numa colagem ali. — Ele apontou com a cabeça para uma tela em cima de um cavalete, que já estava com alguns pedaços da pintura que ele tinha feito da aura dele.

— Você está mudando um pouquinho a tarefa — comentei, me sentando ao lado dele.

Ele voltou a cortar.

— Aposto que a professora vai ficar tão impressionada com minha genialidade e brilhantismo que vai querer comprar o retrato e pendurar em cima da lareira. Ou talvez no quarto. Tudo bem pra você? Ou seria meio estranho?

— Vou ter que aprender a dividir você com ela — respondi.

— Você aguenta tudo, Sage. — Deixando a tesoura de lado, ele voltou toda a atenção para mim e ergueu a sobrancelha. — Qual é o problema?

Quase sorri. Todo mundo vivia falando que eu escondia minhas emoções, mas ele sempre sabia como eu estava me sentindo.

— Você leu minha aura?

Procurei usar um tom leve. Tínhamos conversado muito pouco sobre o espírito nas duas últimas semanas, desde a crise na casa de penhores. Pensar em como a magia o levava a extremos ainda acabava comigo, mas eu vinha tomando cuidado para não ser chata. Ele já sabia que eu estava preocupada, então eu não pretendia trazer o assunto à tona de novo, a menos que ele falasse alguma coisa ou eu visse motivo. E, nos últimos tempos, ele parecia estar se comportando bem. Eu não tinha visto sinais de consumo de álcool ou uso excessivo do espírito. Não que o problema tivesse desaparecido, claro, mas era um alívio ter um descanso enquanto eu tentava descobrir uma maneira de ajudá-lo.

— Não precisei ver sua aura. — Ele apontou para minha testa. — Você fica com uma ruga bonitinha quando alguma coisa incomoda você.

— Nem tudo em mim é bonitinho.

— Verdade. Algumas coisas são bonitinhas. As outras são atraentes. — Ele abaixou a voz enquanto se aproximava. — Tão incrivelmente, insuportavelmente atraentes que eu nem sei como consigo fazer qualquer coisa quando tudo em que consigo pensar é no gosto dos seus lábios e no toque dos seus dedos na minha pele e na maciez das suas pernas quando eu...

— Adrian — interrompi.

Seu olhar estava em chamas.

— Sim?

— Cala a boca.

Nós nos aproximamos ao mesmo tempo e todos os pensamentos em relação ao meu pai desapareceram quando senti a boca de Adrian contra a minha. Antes dele, eu sempre achava que conversas sobre a tabela periódica ou declinações em latim me excitariam. Não. Quando tocava Adrian, tudo em que conseguia pensar era ele. Eu ganhava vida de uma maneira que nunca tinha achado possível e ficava obcecada com a sensação dos nossos corpos apertados um contra o outro. Às vezes, acho que ele devia pensar que eu estava adiando nossa primeira vez porque não estava disposta a passar daquele limite físico. Mas, na verdade, eu estava. Muito. Era um limite mental que ainda me impedia: a ideia de que, uma vez que eu atravessasse essa fronteira, não haveria retorno.

Mas, em momentos como aquele, quando ele me deitava no chão e se inclinava sobre mim, eu não sabia por que pensava em voltar. Ele deslizou a mão pela minha perna e pelo meu quadril, e foi subindo por baixo da camisa. Havia confiança em cada um de seus movimentos, uma certeza de saber exatamente como cada toque me levaria à loucura. Seus olhos, ardendo de desejo e urgência, encararam os meus à procura da minha reação e, então, seus lábios sedentos voltaram de encontro aos meus. Enquanto isso, meus dedos se atrapalhavam com os botões dele, mas não tirei sua camisa. Só abri o bastante para passar a mão no tórax e sentir o calor de sua pele entre os meus dedos. Um dia, eu saberia a sensação de ter toda a minha pele contra a dele, mas, quando ele finalmente rompeu nossos beijos febris, soube que aquele não era esse dia, ainda mais quando ele apontou o óbvio.

— Não estou dizendo que não quero continuar — ele disse, rouco —, mas, pela minha conta, temos dez minutos até você ter que voltar correndo pra escola. A não ser... — Ele abriu um sorriso. — Sua irmã foi transferida? — Quando ri e fiz que não, ele suspirou e se afastou de mim. — Bom, então, por mais que seja difícil acreditar, sua cabecinha é mais importante que seu corpo. O que aconteceu?

Não precisei imaginar como essa concessão era difícil para ele; tinha quase certeza de que estava sentindo o mesmo. Relutante, me sentei e recostei no sofá.

— Então, Zoe me contou hoje que...

— Espere. Você vai falar assim?

Abaixei os olhos e me dei conta de que ele estava se referindo ao fato de minha camisa estar no chão.

— Ainda estou de sutiã. Qual o problema?

— O problema é que eu me distraio. Muito. Se quer toda a minha atenção e bom senso, é melhor vestir a camisa de volta.

Sorri e me aproximei dele.

— Ora, ora, Adrian Ivashkov, está admitindo fraqueza?

Estendi a mão para o seu rosto e ele segurou meu punho com uma força que era surpreendentemente provocante.

— Mas é claro. Nunca aleguei ser forte diante dos seus encantos, Sage. Sou só um homem comum. Agora, vista a camisa.

Eu me debrucei, testando a força do seu aperto.

— Ou o quê? — Com minha mão livre, peguei uma das alças do sutiã e fiz menção de abaixá-la...

E foi assim que acabamos nos beijando e rolando no chão de novo.

— Droga — ele disse depois, rompendo o beijo outra vez. — Não me obrigue a ser a pessoa responsável aqui. A gente só tem cinco minutos agora.

— Tá, tá. — Voltei a ficar decente e dei um resumo muito breve da notícia sobre meu pai. — Desde que cheguei a Palm Springs, senti como se estivesse no comando. Com ele aqui... sei lá. De repente acho que vai ter uma mudança no poder.

Adrian estava completamente sério agora.

— Você não vai perder nenhum poder. Ele não pode tirar sua vida das suas mãos. Não pode tirar isso. — Ele apontou para nós. — É só um jantar. Provavelmente só quer falar sobre o divórcio.

— Eu sei, eu sei. É só que... está sendo difícil guardar segredos de Zoe, mas estou conseguindo. Com ele é muito mais difícil.

— Você é mais inteligente que ele. E é uma pessoa melhor. — Ele segurou minhas mãos e deu um beijo nelas, mas era um gesto de carinho e apoio, não de paixão intensa. — Não tem por que se preocupar. Seja a pessoa genial de sempre e me conte mais tarde como foi.

— Se você estiver acordado — provoquei. As visitas de Adrian em sonhos vinham sendo raras na última semana. Ele estava dormindo melhor do que de costume e, embora eu sentisse falta das nossas conversas noturnas, estava contente pela insônia dele ter melhorado. — E a gente também precisa conversar com Marcus de novo, então você vai ter que se preparar pra isso.

— Acho que vou ter que tomar mais café pra ficar acordado — ele disse, com um brilho malandro nos olhos.

— Cuidado — adverti. Me provocar com cafeína era um golpe baixo. — É melhor você se comportar direitinho se quiser mais indecências.

— Sério? E eu aqui achando que era o mau comportamento que me fazia merecer.

Demos um beijo de despedida e voltei para Amberwood um pouco mais tarde que o previsto. Mas tinha valido a pena. Aquela conversa rápida com Adrian, além do contato físico mais demorado, tinha me dado forças. Eu estava me sentindo confiante, cheia de meu amor por Adrian e disposição para lutar minhas batalhas. Conseguiria lidar com meu pai.

A menção a Marcus me fez pensar no sal encantado. Até aquele momento, eu não tinha feito nada com ele. Talvez Adrian estivesse certo e Marcus quisesse testar a tinta em um recruta novo. A sra. Terwilliger estava guardando o sal na casa dela e, embora eu conhecesse o processo de tatuagem alquimista, queria conversar sobre as propriedades mágicas de algumas substâncias que poderiam entrar na mistura. Mas, quando cheguei à sala, vi que não poderíamos falar sobre magia. Zoe estava lá, esperando com ar impaciente. Embora eu estivesse um pouquinho atrasada, tinha conseguido voltar alguns minutos depois do fim da aula. Ela devia ter saído correndo da última aula dela.

— Finalmente — ela disse.

A sra. Terwilliger ergueu os olhos da mesa e me lançou um olhar maroto.

— Obrigada por levar aqueles papéis para a secretaria. Estava explicando para sua prima como você tem sido útil para mim.

Abri um sorriso tenso.

— É um prazer ajudar. Estou dispensada?

— Sim, sim, claro. — Ela voltou para a papelada sem olhar duas vezes.

— Por que a urgência? — perguntei enquanto saíamos da sala.

— A gente vai encontrar o papai agora — ela respondeu.

— Agora? Mas não é hora do jantar. Não é hora nem do lanche da tarde.

— Ele chegou na cidade mais cedo e não quer perder tempo.

Tentei não fazer uma careta.

— De novo, sou a última a saber.

Ela me lançou um olhar ofendido.

— Parece que você tem outras coisas mais importantes na cabeça. Pensei que não fosse se importar.

— Não comece — avisei. Chegamos à garagem e dei a examinada de sempre no Mercúrio para ter certeza de que nenhum idiota tinha arranhado a pintura ao estacionar.

Para minha surpresa, Zoe baixou a cabeça.

— Você tem razão. A gente não devia brigar. Hoje somos irmãs, não só alquimistas. Precisamos nos unir contra o inimigo em comum.

— Você está falando da mamãe? — perguntei, incrédula. Zoe assentiu e tive que morder a língua para não dar uma resposta que começasse uma briga de verdade.

O restaurante que meu pai escolheu era exatamente o que eu estava esperando. Ele não tinha paciência para o que via como bobagens e excessos, então qualquer lugar que brincasse com mistério ou romantismo seria descartado. No entanto, apesar do seu pragmatismo, não conseguiria suportar um café barato que fosse muito barulhento ou tivesse padrões de limpeza ou comida questionáveis. Então, tinha escolhido um restaurante japonês chique que se vangloriava pelo minimalismo. A decoração era simples, com muitas linhas retas, mas a comida e a reputação eram incríveis.

— Oi, pai — eu disse. Ele já estava na mesa quando chegamos e não se levantou para nos abraçar. Nem Zoe esperava que isso acontecesse.

— Sydney, Zoe — ele disse. Falar meu nome primeiro não era um sinal de preferência, mas sim de respeito pela ordem de nascimento. Se Carly estivesse lá, ele a teria cumprimentado antes. Além disso, era também a ordem alfabética. Na mesma hora, chegou o garçom para nos oferecer água e chá, e meu pai devolveu o cardápio para ele. — Esse é o cardápio de jantar. Pode trazer o de almoço?

— A hora do almoço acabou — o garçom respondeu, com educação. — Já estamos trabalhando com o jantar.

Meu pai o olhou diretamente nos olhos.

— Está dizendo que três e meia é hora de jantar?

— Não... — Hesitante, o garçom olhou de um lado para o outro do restaurante, vazio exceto por dois executivos bebendo no balcão. — Na verdade não é hora de nada.

— Então, nesse caso, não vejo por que eu deveria pagar o preço do jantar. Me traga o cardápio de almoço.

— Mas o almoço acaba às duas.

— Então me traga o gerente.

O garçom saiu e voltou logo depois, com o cardápio de almoço. Tentei não afundar na cadeira.

— Então — meu pai disse, orgulhoso de si. — Vamos comer logo e partir pro que interessa.

Senti um frio na barriga imaginando exatamente em que ele estava interessado. Mesmo sem o nervosismo, não estava com muita fome, mas fiz um esforço e pedi sushi.

— Que prato pequeno — meu pai comentou.

As palavras certas fluíram pela minha boca.

— Também é o mais barato. Mesmo com o cardápio de almoço, esse lugar é caro demais. Não tem por que passar dos limites, afinal, comer em reuniões é só uma convenção. Além disso, a gente ganha jantar no alojamento como parte da bolsa.

Ele aprovou com a cabeça.

— Tem toda a razão. Você parece ter ganhado um pouquinho de peso também, então é bom tomar cuidado.

Abri um sorriso tenso, engolindo a vontade de dizer que eu ainda cabia muito bem nas minhas calças justas. Só estava com uma aparência muito mais saudável e menos malnutrida. Enquanto isso, Zoe, que havia acabado de colocar o cardápio na mesa, o reabriu rapidamente quando ouviu a censura. Ela devia ter escolhido tempurá, um de seus pratos favoritos, e agora estava com medo da fúria do meu pai contra frituras. Eu conseguia aguentar os comentários sobre meu peso, mas, se ele dissesse alguma coisa para ela, teria que me esforçar muito para não jogar meu chá na cara dele. No fim, ela pediu o mesmo que eu, por mais que eu soubesse que não gostava muito de sushi.

Depois que o garçom saiu com os nossos pedidos, meu pai pegou dois envelopes pardos e entregou um para cada uma.

— Não tem por que perder tempo. Como podem ver, juntei algumas informações para usarem no depoimento contra sua mãe.

Precisei me esforçar para não deixar o queixo cair enquanto folheava páginas e mais páginas sobre a vida da minha mãe. Registros acadêmicos, histórico profissional. Havia várias fotografias, incluindo uma que parecia ter sido tirada numa aula de ioga. Dei uma olhada nessa. Mostrava vários alunos, incluindo minha mãe, saindo da sala com suas esteiras.

— O que é isso? — perguntei.

— Está vendo aquele homem ali? — Meu pai apontou para um rapaz conversando com minha mãe. — É o professor dela. Ela vivia falando com ele durante as aulas.

— E por que não falaria se é o professor?

Meu pai sorriu com desprezo.

— A menos que haja outros motivos.

— Como assim? — Deixei a foto cair. — Não. De jeito nenhum. Minha mãe nunca teria um caso.

Ele deu de ombros.

— Ela não quer o divórcio?

Eu poderia ter citado uma dezena de motivos para ela querer o divórcio, mas achei melhor me manter neutra.

— Você tem alguma prova?

— Não — ele admitiu. — Mas não importa. A insinuação já basta. Basta fazer com que ela não pareça confiável. Ter largado a faculdade ajuda, assim como o péssimo histórico profissional. Ela nunca teve um emprego em tempo integral.

— Porque estava cuidando da gente — eu disse. Meu pai havia sido responsável pela nossa educação, mas era ela quem cuidava da vida diária, tomando conta da casa e fazendo curativos nos nossos machucados.

— Também não importa. Tem documentos de sobra aí pra provar que ela foi uma figura materna instável. No mínimo, vai nos garantir guarda conjunta, embora eu vá ficar surpreso se não conseguir guarda exclusiva.

— Você tem alguém infiltrado no lado jurídico? — perguntei, com o mesmo sorriso forçado.

Ele fez uma careta.

— Não, e não é por falta de tentativa.

— Então vamos ter que basear os argumentos nos fatos — comentei, inexpressiva.

— Sim. Vai correr tudo bem se vocês fizerem sua parte. — Ele fez uma pausa enquanto o garçom entregava as toalhas quentes. — Sei que não preciso explicar a importância disso pra vocês. Zoe é um membro valioso da causa, e nosso trabalho está ficando cada vez mais importante. A volta dos caçadores de vampiros chamou muita atenção. Não podemos deixar o caos que eles criaram destruir tudo por que trabalhamos tanto.

Pelo menos isso foi um alívio. A maioria dos alquimistas achava os Guerreiros da Luz um grupo primitivo de rebeldes terroristas, mas Marcus tinha descoberto evidências de que alguns alquimistas estavam trabalhando com eles. Além disso, havia indícios de que os guerreiros sabiam sobre Jill. Era bom saber que meu pai estava do lado da razão e do pensamento alquimista oficial nesse ponto.

Para minha surpresa, ele olhou diretamente para mim.

— Boa parte do que sabemos é graças aos seus esforços. — Era o mais perto que ele já tinha chegado de um elogio.

— Só cumpri meu dever.

— Entre isso, revelar os crimes de Keith e suportar aquele casamento, você chamou a atenção do alto escalão.

Caiu um silêncio constrangedor. Era mais comum ele me condenar do que elogiar e eu não sabia bem como lidar com aquilo. Zoe limpou a garganta.

— Eu supervisionei um fornecimento sozinha — ela disse, orgulhosa. — Quer dizer, não a parte em que eles bebem sangue. Mas Sydney não pôde ir para a casa de Clarence Donahue para o fornecimento, então eu assumi.

Meu pai voltou o olhar fixo para mim.

— Por que não pôde ir?

— Precisei fazer um trabalho para a escola — expliquei.

— Entendi. — Mas ele franziu um pouco a testa.

— Sydney vive fazendo trabalhos para a escola — Zoe acrescentou. Acho que ela ficou magoada que seu papel de “supervisão” não tivesse recebido tanto reconhecimento. — Sempre some depois da aula. Vive fazendo tarefas e se divertindo com a professora de história dela.

— A gente não se diverte — argumentei.

— Vocês tomaram café juntas, não? — Zoe perguntou, triunfante.

— Sim, mas isso não é...

— Que matéria é essa? — meu pai interrompeu. — Química?

Zoe e eu respondemos em uníssono:

— História.

Ele franziu ainda mais a testa.

— Não é uma matéria importante. Nenhuma é, na verdade. Vocês já receberam uma educação melhor.

— Sim, mas é importante manter o disfarce — argumentei. — Ser uma aluna exemplar me dá muitas vantagens. Eles me dão mais liberdade, e poder sair do campus depois do toque de recolher com autorização da sra. Terwilliger significa que consigo sair para ajudar os Moroi se precisar, sem chamar atenção indesejada. A gente não pode correr o risco de fazer alguma idiotice e criar um escândalo.

Isso pareceu apaziguar nosso pai, mas Zoe estava na ofensiva agora.

— É mais do que isso. Vocês são amigas. Ficam falando sobre férias na Grécia e em Roma.

O que tinha inspirado aquilo? Eu esperara enfrentar um interrogatório do meu pai, não dela.

— E daí que a gente conversa de vez em quando? Ela é humana. Não tem problema.

— O problema é que você não dá atenção plena à missão. — Havia uma expressão dura no rosto de Zoe de que não gostei nem um pouco. — E ela pode até ser humana, mas você sem dúvida tem amigos Moroi e dampiros.

Nosso pai arqueou as sobrancelhas imediatamente, mas a comida chegou na mesma hora, o que me deu tempo de formular uma resposta. Meu pai se adiantou:

— O que isso quer... amigos Moroi e dampiros?

— Sydney socializa com eles — Zoe declarou. — Faz favores para eles.

Lancei um olhar duro que a fez recuar.

— Faz parte do meu trabalho cuidar deles. Existe uma linha tênue entre socializar com eles e ganhar sua confiança para que façam o que eu preciso que façam, uma coisa que você ainda não aprendeu. Meu Deus, eu tive que morar com uma! Fui obrigada a ficar o tempo todo com ela, uma coisa que você nunca aguentaria, já que teve um chilique “supervisionando” aquele jantar. Então não julgue meus métodos, porque não foi você quem desmascarou Keith, os guerreiros e tudo mais.

— Ora, ora, meninas. Não briguem. — No entanto, não pude deixar de notar que ele parecia estar adorando aquilo. Acho que pensava que a competição nos fortalecia. — Ambas têm ótimos argumentos. Zoe, Sydney demonstrou mais de uma vez sua lealdade e como consegue realizar seu trabalho de maneira extraordinária. Sydney, Zoe tem razão no sentido de que não deve se envolver demais com essa professora ou com os Moroi, mesmo que faça parte de seu disfarce. Existem certos limites que nunca devem ser ultrapassados. Você viu isso acontecendo com Keith, quando ele passou a fazer negócios com os Moroi.

Zoe e eu ficamos intimidadas por alguns momentos.

— Você sabe como Keith está? — perguntei.

O rosto do meu pai se suavizou.

— Sim, ele foi liberado.

Fiquei tão surpresa que derrubei o sushi que tinha pegado cuidadosamente com os hashis.

— Foi?

— Sim. Ele foi reeducado com sucesso e agora está em Charleston. Num escritório, claro. É óbvio que não está pronto para o trabalho em campo. Mas é um alívio para todos nós que a educação tenha funcionado. Nem sempre é assim, infelizmente. Mesmo quando reforçam a tatuagem.

Senti um arrepio na nuca.

— Reforçar a tatuagem? Você quer dizer retocar?

— Mais ou menos. — Ele estava escolhendo as palavras com muito cuidado. — Digamos que existem certas modificações na tinta que podem ajudar almas perturbadas como Keith.

Até Marcus me contar sobre o processo, eu nunca tinha ouvido ninguém admitir isso.

— Tinta com maior compulsão de obediência e lealdade ao grupo?

Os olhos do meu pai se estreitaram.

— Como sabe sobre isso? — ele perguntou.

— Ouvi boatos. — Torci para que ele não exigisse detalhes, mas estava totalmente preparada para mentir. Seu olhar me mediu por vários segundos angustiantes até ele finalmente decidir não insistir.

— Não é uma coisa de que a gente se orgulhe — ele disse, por fim. — E depende muito da ajuda deles. Mas é necessário. Pessoas como Keith são um perigo não só para nós, mas para toda a humanidade. Os Moroi podem não ser tão horríveis quanto os Strigoi, mas também não são naturais. Não fazem parte da ordem deste mundo e não podemos deixar que se aproximem dos humanos. É nosso dever. Nosso dever divino. Qualquer pessoa que não entenda o equilíbrio que mantemos com aqueles monstros representa um mal à causa. Sim, foi preciso muita intervenção, mas Keith se regenerou. Salvamos a alma dele. Você salvou, Sydney. — Ele pareceu ter uma ideia. — Você devia falar com ele. Ver o bem que fez.

Eu me ajeitei na cadeira, desconfortável.

— Ah, eu...

— Depois do jantar — meu pai decidiu. — Vamos ligar pra ele depois do jantar.

Meu lado rebelde quis perguntar: “A gente não está almoçando?”. Mas mordi a língua. Não queria falar sobre mais nada. Felizmente, Zoe ainda estava louca para chamar a atenção dele e falou o bastante por nós duas. E, com o passar da refeição, o assunto voltou para o tribunal. Fiquei assentindo mecanicamente.

— Estou feliz em poder contar com vocês — ele disse, enquanto nos levantávamos para sair. — Não que eu tivesse dúvidas... mas, enfim, depois de Carly... É difícil dizer.

— O que tem a Carly? — perguntei rápido. Percebi que ele não tinha dado gorjeta e, discretamente, deixei uma nota na mesa enquanto saíamos.

Ele fez uma careta.

— Ela vai defender sua mãe. Mas não se preocupem. Não vai ser suficiente.

Eu me enchi de alegria e me esforcei para manter o rosto inexpressivo. Carly estava enfrentando nosso pai! Claro, ela não tinha que lidar com as mesmas pressões que Zoe e eu, mas fiquei muito orgulhosa da minha irmã mais velha. Ela costumava ser a tímida da família. Era um grande avanço que estivesse do lado da nossa mãe. Fiquei pensando se talvez um dia ela teria coragem de contar que Keith a havia estuprado. Isso era um começo.

Por falar em Keith... meu pai estava determinado a me mostrar “o bem” que eu tinha feito, por mais que eu insistisse que não era necessário. Quando chegamos ao estacionamento, ele fez algumas ligações para entrar em contato com Keith e — pior de tudo — usou o aplicativo de vídeo. Em silêncio, torci para que Keith estivesse fazendo alguma coisa, qualquer coisa, que o mantivesse longe. Não tive essa sorte. Depois de mais ou menos um minuto, meu pai finalmente conseguiu falar com ele, e o rosto de Keith surgiu na tela do celular. Zoe e eu nos aproximamos.

— Sr. Sage — Keith disse, inexpressivo. — É um prazer falar com o senhor.

Abri a boca de espanto sem perceber. Antigamente, Keith era arrogante e desagradável. Na reeducação, estivera frenético e apavorado. Agora... não havia nada. Ele não tinha expressão. Era um robô. Um de seus olhos era de vidro, mas, se eu não soubesse qual, nunca teria conseguido diferenciá-los.

— Estou com Sydney e Zoe aqui — meu pai explicou. — Sydney estava preocupada com você.

— Oi, Sydney. — Pensei ter visto um sorriso, mas era difícil saber ao certo. — Faz tempo que queria agradecer a você. Eu estava doente, mas agora estou melhor. Eu me deixei ser enganado por aquelas criaturas perversas. Não fosse por você, eu teria perdido a alma.

Fiquei sem palavras.

— Q-que bom, Keith. Como vão as coisas? Além do trabalho alquimista?

Ele franziu a testa.

— O que você quer dizer?

— Hum, não sei. Viu algum filme bom? Está namorando? — Eu sabia que isso deveria parecer frívolo para meu pai. — Está feliz?

Keith mal piscou.

— Minha felicidade não importa. Só o trabalho importa. E terminar minha penitência.

— Penitência... pelo quê? Pelo esquema de enriquecimento com Clarence? Quer dizer, bom não foi... mas poderia ter sido pior. — Eu não fazia ideia de por que estava tentando defendê-lo de si mesmo, mas havia algo profundamente perturbador em toda aquela conversa sobre alma e penitência, ainda mais porque eu sabia que o verdadeiro problema dos alquimistas não era tanto as consequências da conspiração de Keith, mas o simples fato de ele ter trabalhado com um Moroi. — E você mesmo disse que está melhor.

— Melhor, mas não curado. — O tom dele me causou um arrepio na espinha. — Quem colabora com aquelas criaturas para algum fim que não o bem maior tem um longo caminho a percorrer para a redenção, e estou pronto para percorrer esse caminho. Pequei contra os meus e deixei minha alma ser corrompida. Estou pronto para expurgar essa escuridão.

— Você parece sinceramente arrependido — eu disse, baixinho. — Quer dizer, isso é bom, né? Deve significar alguma coisa.

— Estou pronto para expurgar essa escuridão — ele repetiu. Era difícil dizer se ele sabia que estava falando comigo. Parecia estar recitando alguma coisa. Alguma coisa que havia recitado inúmeras vezes.

Quem colabora com aquelas criaturas para algum fim que não o bem maior tem um longo caminho a percorrer para a redenção. O impacto dessas palavras foi forte no meu peito. Eu estava fazendo muito mais do que “colaborar” com Adrian. Era aquele o risco que eu corria? Aquela... apatia? Na última vez que vira Keith, ele estava gritando para ser liberado dos alquimistas. Tinha sido horrível, mas, ao mesmo tempo, havia algo de real naquilo. Uma luta. Uma chama dentro dele. Agora não havia nada. Keith era odioso e egoísta, mas sempre tinha sido expansivo e cheio de personalidade, por mais que fosse uma personalidade irritante. Como ele tinha virado... aquilo? O que era necessário para tirar de uma pessoa tudo o que ela era e fazer com que concordasse com qualquer coisa que lhe falassem?

A tatuagem, pensei. Eles deviam ter retocado com uma compulsão muito forte. No entanto... meu instinto me dizia que havia mais. A tinta alquimista fazia uma pessoa obedecer a comandos simples e a deixava suscetível a sugestões. Mas aquela mudança completa de personalidade exigiria uma intervenção maior. Eu estava vendo o que devia ser uma combinação da tatuagem reforçada com o que tinham feito na reeducação.

Também estava vendo meu futuro caso fosse descoberta.

— Keith — consegui dizer, enfim. — Como exatamente você está expurgando essa escuridão?

— É hora de ir — meu pai interrompeu de repente. — Estamos muito felizes de ver que você está bem, Keith. Depois a gente se fala.

Keith se despediu e seguimos para nossos respectivos carros. Zoe criou coragem para dar um abraço rápido e contido em nosso pai antes de entrar no Mercúrio. Eu me dirigi para a porta do motorista, mas ele me puxou pela mão. Não resisti porque ainda estava aturdida pelo que tinha acabado de ver.

— Sydney — ele disse, com o olhar frio. — Você realmente fez um trabalho incrível. Estou contente que Zoe esteja com você. Ela é cabeça-dura e inexperiente, mas vai acabar aprendendo. E está certa em relação a uma coisa: você não deve se distrair. Mesmo que seja com uma professora. Em certos momentos, um pouco de recreação não faz mal. Sem dúvida seria bom você continuar conversando com aquele jovem respeitável, Ian Jansen. Mas, por enquanto, qualquer interação social, mesmo com uma humana, é perigosa. Você precisa se manter focada na missão. E sei que nem preciso falar sobre amizade com Moroi e dampiros.

— Claro que não. — Eu me sentia enjoada.

Ele abriu um sorriso, à maneira dele, e deu meia-volta sem dizer outra palavra. Levei Zoe de volta para Amberwood e o constrangimento da briga de antes perdurou entre nós. Por mais que eu não tivesse gostado que ela me dedurasse para nosso pai, eu ainda a amava... e não achava que a culpa fosse toda dela. Ele era intimidador e tinha um talento para fazer as pessoas se sentirem inadequadas. Eu tinha experiência de sobra com isso.

— Ei — eu disse, percebendo que estávamos passando pela sorveteria a que tínhamos ido na semana anterior. — Quer um sorvete de noz-pecã?

Zoe estava com o olhar fixo na estrada e nem se voltou para a sorveteria.

— Tem gordura e açúcar demais, Sydney. — Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Acho que eu deveria parar as aulas de direção com Eddie.

— Ele é um professor ruim? Fez alguma coisa, hum, sinistra?

— Não... — Ela estava visivelmente dividida. — Mesmo assim, é um deles. Você ouviu o que o papai falou... o que Keith falou. Nenhuma colaboração.

— Não é uma colaboração, é trabalho — eu disse, pragmática. — E se acontecer uma emergência e você tiver que dirigir? Precisamos estar preparadas. É pelo bem maior.

Ela relaxou.

— Acho que você está certa.

Depois disso, ela voltou a ficar em silêncio, me dando tempo de sobra para contemplar as possíveis consequências daquela refeição. Meu histórico impecável deveria me manter segura, mas Zoe havia tagarelado sobre minhas outras atividades. Será que meu pai suspeitava de alguma coisa? Era difícil dizer, mas eu preferiria que ele não tivesse motivo para duvidar de mim.

E, claro, eu ainda estava transtornada por causa de Keith. A lembrança do seu rosto me atormentava. O que tinham feito com ele? O que ele tinha sofrido na reeducação? E quanto daquilo era o retoque? Essas perguntas ficaram girando na minha cabeça várias e várias vezes e, quando chegamos à escola, eu tinha tomado uma decisão. Era uma decisão difícil e que não necessariamente resolveria todos os meus problemas. Mas eu precisava agir. Ver Keith havia feito com que me desse conta da gravidade da minha situação.

Eu tinha que fazer a tinta. E tinha que injetá-la em mim mesma.

Não havia outra maneira. Eu precisava descobrir se a tinta era capaz de impedir a manipulação mental dos alquimistas. Um dos recrutas de Marcus seria uma cobaia melhor, mas não podíamos esperar. Inez tinha dito que o uso de magia poderia confundir os resultados, mas que escolha eu tinha? Não havia uma pessoa livre de magia em quem testar e não fazer nada era inaceitável. Se havia uma maneira de prevenir que outras pessoas — inclusive eu mesma — se transformassem em Keith, eu precisava descobrir. Esse seria meu ponto de partida e eu me recusava a perder mais tempo.

Depois do jantar, Zoe saiu para um grupo de estudos e eu me preparei para ir à casa da sra. Terwilliger, depois de ligar para ela com um pedido inesperado. Poderia ser perigoso deixar Zoe depois daquele sermão, mas, se ela me questionasse depois, eu alegaria que era um trabalho obrigatório. Enquanto ia até o estacionamento de estudantes, dei de cara com Trey. Ele parecia estar a caminho do trabalho.

— Ei, Melbourne — ele disse, parando na minha frente. — Preciso perguntar uma coisa. Angeline está passando tempo demais com aquele dampiro. Acabei de ver os dois juntos. Está rolando alguma coisa entre eles?

— Que dampiro? — perguntei.

— Aquele com o sotaque britânico falso.

— Não acho que seja falso.

— Bom, enfim. — Até eu conseguia ver o ciúme no rosto de Trey. — O que está rolando entre eles?

— Quase certeza que nada.

— Então por que eles vivem juntos?

Porque ela está tentando superar você, pensei.

— Acho que estão praticando ou algo assim. Você sabe. Coisa de dampiro. — Ele não pareceu convencido. — Talvez, em vez de ficar atrás de Angeline, você devesse sair com outra pessoa.

Ele suspirou.

— E acha que não tentei? Não tem comparação. Você pode até não acreditar, mas não tem ninguém nessa escola como ela.

— Ah, eu acredito — eu disse, me lembrando da vez que ela tinha esquecido a combinação do armário e tentou arrombá-lo com um machado. Ninguém sabia direito onde ela tinha conseguido um.

— Ela vai pra festa com alguém?

— Que festa?

Ele apontou para um cartaz na janela do alojamento que dizia: FESTA DO DIA DOS NAMORADOS.

— Sério, como você não vê essas coisas?

— Ando com muita coisa na cabeça.

— Você não acha que ela vai com Neil, acha?

Pensei na indiferença de Neil e em sua concentração no dever.

— Não. Tenho quase certeza que não.

Ele enfiou as mãos nos bolsos e ficou olhando para o vazio. Esperei que ele fizesse mais algum comentário, mas, quando não disse nada, senti meus olhos se arregalarem de surpresa.

— Importa tanto assim? Ela ir para a festa com alguém?

— Ela importa — ele disse, virando o rosto para mim. — Acho... acho que cometi um erro. Pensei que queria que os guerreiros me aceitassem de volta. Mas será que é a única saída? O que quero mesmo é acabar com os vampiros do mal e fazer o bem. Esse tipo de coisa. Não preciso deles pra isso. Posso achar um jeito de pensar e agir por conta própria. Talvez um jeito que envolva Angeline.

Fiquei surpreendentemente fascinada, ainda mais porque o que ele estava sugerindo era muito próximo dos meus próprios desejos.

— Então? Vocês vão voltar?

— Não sei. Preciso de tempo pra pensar em como dar um jeito nisso tudo. E preciso que ela não saia com Neil nem com nenhum outro cara enquanto isso. — Ele me olhou de soslaio. — Eu sei, eu sei. Parece muito sexista querer que ela pare a vida dela enquanto eu descubro o que quero. Mas não é exatamente uma situação típica.

— Pois é — murmurei. Ficamos em silêncio e tive duas grandes revelações. Uma era que, por mais maluca que fosse a relação entre Trey e Angeline, eu queria que desse certo. A outra era que, de repente, havia uma oportunidade diante de mim. — Vou ajudar você. Posso convencer Angeline a ficar solteira.

— Quê? — Ele me examinou atentamente. — Pode fazer isso?

— Claro — respondi. Era uma promessa fácil de cumprir, considerando que ela ainda estava apaixonada por ele e que o menino de quem fingia gostar estava completamente desinteressado em namorar, mas Trey não sabia disso. Um sorriso surgiu em seus lábios... e então se desfez.

— O que quer em troca? — ele perguntou, desconfiado.

— Por que acha que quero alguma coisa?

— Você é uma alquimista. — Mais uma vez ele não conseguiu manter o sorriso. — Alquimistas não fazem nada de graça.

— Amigos fazem — eu disse, sem saber se me sentia magoada com a insinuação ou culpada porque ele estava certo nesse caso. — Vou ajudar você com Angeline. Mas preciso de um favor, um grande favor, e você, como amigo, vai ter que confiar em mim.

Trey considerou por alguns momentos.

— Que favor?

Meu peito se encheu de adrenalina, e tentei parecer calma e confiável.

— O que acha de outra tatuagem? Uma que ninguém vai ver?

Ele ficou me encarando, confuso.

— Você está se sentindo bem?

— Estou falando sério! Estou tentando fazer uma coisa, meio que um projeto paralelo, que pode ajudar muitas pessoas. Muitos humanos. Se puder fazer isso, seria incrível.

Mais que incrível. Trey seria a cobaia perfeita.

— Quando você está envolvida com tatuagens, elas nunca são meramente decorativas — ele disse. Era verdade. Quando tinha chegado em Amberwood, descobri que Keith estava controlando um esquema de tatuagens mágicas anabolizantes. Foi isso que o colocou em maus lençóis com os alquimistas. Trey tinha visto os terríveis efeitos colaterais causados por aquelas tatuagens.

— Não, mas essa não vai controlar você. Na verdade, se funcionar, vai te proteger do controle mental.

Ele ergueu a sobrancelha.

— Nem sabia que estava correndo esse risco. E se não funcionar?

— Não vai acontecer nada. Você só vai provar que é durão aguentando mais uma tatuagem. — Quer dizer, eu tinha quase certeza de que não aconteceria nada. Noventa e nove por cento de certeza. Não tinha por que mencionar esse um por cento. — Mas... vamos precisar fazer outra tatuagem depois pra provar que essa funciona.

— Sydney...

— Por favor, Trey — pedi, segurando seu braço. — Não posso contar todos os detalhes, mas confie em mim quando digo que isso é muito importante. Você me conhece bem o suficiente para saber que eu não pediria uma coisa dessas sem motivo. — Ele confirmou com a cabeça. — Você disse que queria fazer o bem. Acredite, isso é fazer o bem. E vai ajudar você a ficar com Angeline.

— Então não vai me ajudar se eu não fizer isso?

Hesitei e parte do meu vigor perdeu a força. Eu nunca faria uma chantagem com ele.

— Não. Não faria uma coisa dessas. Independentemente do que decidir, vou convencer Angeline a ficar solteira.

Ele me observou com os olhos castanhos durante alguns segundos.

— Talvez me arrependa disso, mas tudo bem. A gente nem sempre concorda em tudo, mas, quando você diz que vai ajudar as pessoas, está falando sério. Quando vai rolar?

— Quando você sair do trabalho. Não é para lá que está indo agora? — Eu não queria adiar, mas valeria a pena para ter uma boa cobaia.

— Não. Só estou indo pegar meu cheque.

Cada vez mais sorte.

— Pode passar na casa da sra. Terwilliger depois? Mando uma mensagem com o endereço e ela dá um jeito de liberar você do toque de recolher.

— Vai rolar na casa da sra. T?

— Sim. Você pode conhecer o namorado dela. Ele usa um tapa-olho.

Trey pensou um pouco.

— Por que não falou isso antes? É óbvio que eu topo.

Mandei o endereço para ele e entrei no carro. Quando estava na estrada, liguei para Adrian.

— Como foi com o seu pai? — ele perguntou.

— Mais ou menos — respondi. — Estou indo pra casa da sra. Terwilliger e preciso de você lá.

— Está bem — ele disse, sem hesitar. — Posso saber por quê?

— Achei uma cobaia.


13

 

Adrian

O ROSTO DE JACKIE DEIXOU CLARO QUE NÃO ERA UMA BRINCADEIRA.

— Adrian — ela disse, abrindo a porta e fazendo sinal para eu entrar. — Espero que você entenda o que está acontecendo.

— Um pouco — eu disse, sem saber se entendia mesmo. Sydney havia indicado por telefone que era hora de testar a tinta, mas era difícil imaginar por que ela teria se precipitado daquele jeito. Da última vez que tínhamos conversado, ela ainda pretendia esperar que Marcus encontrasse uma cobaia. Se agora, do nada, estava pronta para fazer uma tatuagem, e nela mesma, como eu só podia supor, alguma coisa bem grave devia ter acontecido.

Embora Jackie tivesse se mudado para uma casa mais moderna depois que seu bangalô sofreu um incêndio, o interior da casa nova era quase igual ao da antiga. Desviei de uma pilha de livros sobre cristais de cura e me ajoelhei para fazer carinho num gato branco e felpudo que roçou no meu tornozelo em cumprimento. Alguns segundos depois, Sydney apareceu no corredor retorcendo as mãos. Quando me viu, correu na minha direção e se atirou nos meus braços. Educadamente, Jackie desviou o olhar e fingiu estar interessada em endireitar algumas velas. Nunca havíamos falado abertamente sobre nossa relação perto dela, mas costumávamos relaxar um pouco, e eu tinha aprendido duas coisas importantes sobre Jaclyn Terwilliger. Uma era que ela não era tonta. A outra era que não julgava ninguém.

— O que aconteceu? — perguntei para Sydney. — Seu pai? — Era a única coisa que poderia causar uma mudança de opinião como aquela.

Ela assentiu.

— Sim. E Keith também.

— Keith? Ele estava no jantar?

— Não. Não exatamente. Meu pai ligou pra ele. Por videoconferência. — Ela se afastou e começou a andar de um lado para o outro. — Foi horrível. Não sei o que fizeram com ele. Nem parecia humano. Parecia um robô. Sem sentimentos. Sem pensar por conta própria. Fizeram alguma coisa com ele na reeducação, e não foi só o treinamento e aconselhamento que sempre fazem. Também usaram a tinta de que Marcus falou, aquela com uma compulsão mais forte, que estimula lealdade. Meu pai falou que não funciona em todo mundo... mas, meu Deus. Com ele funcionou. Com Keith funcionou.

Ela estava falando sem parar e Sydney não era o tipo de pessoa que ficava histérica, o que tornava tudo aquilo ainda mais perturbador. Ela estava com um olhar transtornado e quis puxá-la de volta para os meus braços. Mas me contive, relutante. Jackie podia se manter neutra quanto à nossa relação, mas era melhor continuarmos discretos.

— E o que mais? — perguntei. — Eles ameaçaram fazer o mesmo com você? — Algo me dizia que, se tivessem ameaçado, ela não estaria ali agora.

— Não — ela respondeu. — Na verdade, meu pai não parava de falar sobre como sou incrível... quer dizer, do jeito dele. Não usou exatamente essas palavras. Foi Zoe quem ficou me dando bronca! Falando que é um problema eu me dar tão bem com todo mundo e passar tanto tempo com você. — Ela apontou para Jackie, que arqueou a sobrancelha.

— Não sabia que você falava dos nossos passeios para seus, hum, colegas.

Sydney soltou um riso amargurado.

— Da magia, você quer dizer? Não. Claro que não. Mas nem preciso disso para arranjar problemas com eles. Levei bronca porque ser uma assistente acadêmica dedicada pode me distrair das prioridades alquimistas.

Agora eu estava incrédulo.

— Eles mandariam você pra reeducação por isso?

— Não. Mas é um rastro de migalhas, como Marcus sempre fala. Chama atenção para mim e, se eles descobrirem o que ando fazendo... podem tentar me retocar também e não posso deixar que façam isso. Não vou deixar. Não vou ficar igual a Keith.

Havia uma faísca dourada de fúria em seus olhos castanhos, mas, apesar da determinação e da firmeza, tive a impressão que ela estava apavorada. Como não ficaria? Tive vontade de olhar a aura dela, mas me contive, tanto por força de vontade quanto porque... bem, porque não sabia ao certo se conseguiria olhar.

Fazia quase duas semanas que eu estava tomando o remédio do Einstein. Na primeira, não tinha notado quase nada de diferente, exceto uma coisa. Meu sono. Estava conseguindo dormir bem. Não ficava mais olhando para o teto durante horas, tentando relaxar. Eu deitava na cama, ficava lá uns quinze minutos e, aos poucos, ia mergulhando no sono. Não era como se eu estivesse sedado também. A sensação era mais de que as engrenagens do meu cérebro não estavam fora de controle. Meus pensamentos ficavam mais calmos à noite, o que me permitia fazer o que a maioria das pessoas fazia normalmente.

Na última semana, eu vinha notando mudanças mais gradativas. Eu estava um pouco mais paciente. Pensava um pouco mais sobre as coisas. Não que tivesse me tornado uma pessoa normal e calma, com os sentimentos sob controle. Não mesmo. Ainda passava pelo que Sydney chamaria de “momentos Adrian Ivashkov”. Certa noite, ouvir The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, me deixou taciturno, pensando no sentido da vida, o que me levou a comprar umas tintas de luz negra para expressar essas reflexões metafísicas. E, quando finalmente entreguei o maldito autorretrato, disse para minha professora que, se ela quisesse ficar com o quadro para pendurar no quarto, eu entenderia. Ela não viu muita graça na piada.

Essa devia ter sido minha atitude mais idiota das duas últimas semanas e, sério, dado o meu histórico, não era nada tão horrível. O mais importante era que eu não vinha mais perdendo o controle. Não sentia mais aquela escuridão debilitante. E a tia Tatiana andava quietinha.

Pensei que tinha tirado a sorte grande até que, no dia seguinte à piada do quarto, vi a professora no campus e quis saber se estava em apuros por causa do comentário. Invoquei um pouco de espírito para dar uma olhada na aura dela e... não aconteceu nada. Era como tentar ligar o motor de um carro num dia frio. Por fim, na terceira tentativa, a magia funcionou e a aura dela se acendeu diante dos meus olhos.

Fazia quatro dias desde que isso tinha acontecido e eu estava com medo de usar o espírito de novo. Não sabia se conseguiria lidar com o que descobriria. Será que aquele dia tinha sido uma exceção? Será que o espírito ainda estava funcionando? Ou será que estava perdendo a força, talvez até sumindo de vez? Eu nem sabia como me sentir em relação a isso. Aliviado? Devastado?

O pânico ameaçava tomar conta de mim e precisei de um momento para tirar esses pensamentos da cabeça e me acalmar. A questão agora não era o espírito. Era Sydney. Ela precisava de mim.

O problema era que eu não tinha contado para ela sobre o estabilizador de humor. Não tinha contado nem sobre Einstein. Parte de mim queria que ela soubesse que eu estava tentando mudar de verdade e que faria qualquer coisa por ela, mas outra parte estava com medo das consequências do remédio. Tinha vergonha da ideia de falar mil maravilhas dos comprimidos e eles acabarem não servindo para nada. E também estava com certo medo de que funcionassem... e eu parasse de tomá-los por não conseguir lidar com os efeitos colaterais. Antes de saber o que estava acontecendo, não queria falar nada para Sydney. Preferia que achasse que eu nem tinha tentado do que saber que havia tentado e fracassado.

— O que precisa de mim? — perguntei.

— De nós — Jackie corrigiu.

Não pude deixar de abrir um sorriso para ela. Não era difícil para mim ser sorridente e charmoso com as pessoas. Mas gostar e admirar alguém de verdade era raro, e Jackie havia atingido esses dois níveis na minha estima. Boa parte do motivo era que ela gostava muito de Sydney e faria qualquer coisa por ela. Eu adorava Jackie por isso. E também adorava que ela só precisava saber metade da história para querer ajudar. Era uma das vantagens de já estar envolvida em questões sobrenaturais: ela tinha uma excelente capacidade para se deixar levar por complicações novas e inexplicáveis.

— Vou usar o composto que fiz — Sydney disse. Ela retorceu as mãos e percebi que estava fazendo isso para que parassem de tremer. — Acabei de misturar o sal com a tinta numa solução para dar liga. Parece estável, então só falta tatuar a cobaia.

— Você tem uma cobaia? — Olhei ao redor para ver se não tinha visto alguém, mas só havia nós três. — Um dos gatos? — perguntei.

Houve uma batida na porta e, um momento depois, Jackie deixou Trey Juarez entrar, o que foi uma surpresa. Eu tinha conversado com ele algumas vezes. Tirando o fato de ter nascido dentro do grupo que tentara matar Sonya Karp, Trey parecia um cara mais ou menos decente. Eu sabia que Sydney o via como um amigo, apesar de tudo o que acontecera, e a opinião dela valia muito. O fato de o ter convidado para aquela reunião significava ainda mais.

— Sr. Juarez, que surpresa agradável. — Ficou claro que Jackie estava realmente surpresa.

— A surpresa é minha por não ter sido convidado antes, sra. T. Fui seu assistente também! Mas é a Melbourne que a senhora sempre traz para cá.

Ele abriu um sorriso parecido com os meus e que devia ser ótimo com as mulheres. Ao contrário de Neil, que parecia deixá-las encantadas sem querer, Trey era um profissional. Eu ficava feliz que ele estivesse metido numa paixão bizarra e disfuncional com Angeline porque, convenhamos, um estudante humano bonito e esportista era um partido muito melhor para Sydney do que um vampiro mentalmente instável metido a artista.

Jackie revirou os olhos, mostrando que aquele sorriso não funcionava com ela.

— Desculpe a negligência. Imagino que seja Juarez quem você vai tatuar?

Quando Sydney fez que sim, perguntei:

— Como exatamente vai fazer? Vai criar um desenho novo? Ou só dar uma retocada?

Marcus só tinha precisado de uma seringa para “romper” a tatuagem de Sydney. Foi uma das coisas úteis que fez por ela antes de ir embora: injetar pequenas quantidades de tinta feita de sangue de vampiro na tatuagem de lírio. Isso havia acabado com todos os poderes da tatuagem, mas ainda a deixava suscetível a um retoque dos alquimistas caso não fosse selada.

— Nada de seringa — ela disse. — Acho que a gente precisa de uma grande quantidade, e também quero ter certeza de que entrará na derme. É a camada da pele embaixo da superfície.

— Certo — eu disse, achando ter entendido. Também tive a impressão de que a definição de “derme” tinha sido só para mim. — Você precisa de mais tinta lá dentro. Como vai fazer isso?

Outra batida na porta nos assustou e Jackie se dirigiu à entrada.

— Deve ser Malachi.

Pisquei algumas vezes.

— Por acaso ela disse...

Não precisei terminar a frase porque ela abriu a porta com tudo, revelando nosso amalucado ex-professor de defesa pessoal com seu tapa-olho característico. Ele apontou o dedão para trás.

— Oi, querida. Estou com os equipamentos na van. Onde você quer que eu monte? — Ele olhou para nós. — Ah. Oi, crianças.

Jackie o levou para a garagem e tentei me recuperar do espanto enquanto perguntava para Sydney:

— Ele é seu tatuador?

Ela encolheu os ombros.

— Quando falei para a sra. Terwilliger do eu que precisava, ela disse que ele tinha uma máquina. Parece que ele faz as próprias tatuagens.

— Nunca vi nenhuma.

— Talvez estejam em lugares que não dê para ver — ela disse.

Fiz uma careta.

— Pronto. Agora nunca mais vou conseguir tirar essa imagem da cabeça.

— Ei, espere aí. — Trey apontou para a frente da casa, onde Wolfe contava para Jackie um de seus contos de coragem malucos. — Aquele é o cara que vai usar uma agulha de alta potência em mim? Ele só tem um olho! As palavras “percepção de profundidade” significam alguma coisa pra você?

— A sra. Terwilliger jura que ele sabe o que está fazendo — Sydney disse. — E, como a tinta é incolor, não vai aparecer de qualquer jeito. Desde que esteja tudo esterilizado e ele seja minimamente competente, a habilidade não importa. A gente só precisa que a tinta funcione. Mas, se quiser... — Ela entreabriu um sorriso. — Deve ser fácil colocar um pouco de cor. Aposto que Wolfe poderia fazer um chihuahua em você.

Trey se arrepiou.

— Não, obrigado. Estou bem.

Sydney franziu a testa de repente.

— Sua tatuagem de guerreiro é uma tatuagem comum, né? Sem poderes?

— Isso. A gente não precisa de habilidades incríveis. É só decorativa.

— Certo — ela disse. — Vai servir de desculpa pro Wolfe. Não se preocupe: não importa o que eu diga, não vai acontecer nada com sua tatuagem atual. — Trey não pareceu convencido.

Pensei sobre aquilo.

— Mas ele não precisa de uma tatuagem especial? — perguntei. Não elaborei na frente de Trey, mas o objetivo do experimento era ver se a tinta dela era capaz de desativar a dos alquimistas.

Ela concordou, compreendendo minha pergunta subentendida.

— Sim, mas a gente se preocupa com isso depois, quando eu conseguir os materiais. Daí fazemos uma segunda tatuagem.

Trey abriu a boca, mas não teve tempo de fazer um comentário. Jackie e Wolfe voltaram nesse momento e ele esfregava as mãos, ansioso.

— Certo, qual é a emergência noturna? Vocês dois querem tatuar o nome um do outro? Consigo fazer uma ótima fonte Courier.

Sydney estivera prestes a falar, mas hesitou por um momento. Wolfe não tinha provas do nosso relacionamento, mas sempre imaginara que havia um, mesmo antes de isso ser verdade. Ela logo se recuperou e riu do comentário, como se fosse uma piada. Trey, como era compreensível, estava atordoado demais com a ideia de ser tatuado por um homem caolho para perceber alguma coisa.

— O contrário, na verdade — Sydney disse a Wolfe. — A gente queria remover a tatuagem do meu amigo e está com uma tinta especial que vai fazer a antiga sumir com o tempo.

Ele soltou um grunhido.

— Sério? Nunca ouvi falar disso. Pensei que a única maneira de se livrar de uma tatuagem fosse com laser.

— É uma técnica nova — ela explicou tranquilamente, apontando com a cabeça para Trey. — Os pais dele estão vindo pra cá e vão enlouquecer se virem a tatuagem.

Pestanejei, surpreso. Ela era tão convincente que quase acreditei na história dela, mesmo sabendo da verdade. Wolfe sem dúvida acreditou. Era uma coisa que eu vivia esquecendo: os alquimistas mentiam muito bem. Se um dia Sydney mentisse para mim, era provável que eu nunca descobrisse.

— Onde é? — Wolfe perguntou.

Trey demorou para reagir. Imagino que também quase acreditou em Sydney. Virando de costas para nós, levantou a camisa e mostrou uma tatuagem atrás do ombro.

Wolfe se debruçou para examiná-la.

— Qual é o problema? Seus pais sempre veem você sem camisa?

Sydney hesitou quando percebeu a falha em sua lógica.

— Mesmo assim, é melhor não estar aí quando eles voltarem.

— Pois é — Trey concordou. — Às vezes a gente vai pra praia. — Precisei dar crédito a ele por entrar na brincadeira.

Sydney explicou a Wolfe que ele só precisava injetar a tinta na tatuagem antiga. Ele pareceu decepcionado por não ter a chance de provar suas habilidades artísticas, mas imagino que estava tão contente com a visita noturna a Jackie que nem reclamou sobre o tempo e o esforço.

Embora o equipamento de Wolfe parecesse profissional, o ambiente na garagem dava um ar improvisado a toda a operação. Eu não sabia muito sobre o processo de tatuagem, mas Sydney examinava tudo com olhar crítico, fazendo perguntas sobre esterilização e parecendo contente quando Wolfe usava peças novas no equipamento a cada etapa do processo. Jackie não tinha o que fazer, assim como eu, e ficou perto de mim e de Trey, que estava com os olhos arregalados e cuja pele bronzeada havia empalidecido diante da aventura. No entanto, até Sydney pareceu tensa quando Trey deitou de bruços num banco para que Wolfe pudesse encostar a agulha em seu ombro.

— Tenho certeza que ele é muito bom — ela disse. Era difícil saber quem estava tentando convencer.

— Poxa, rapaz — Wolfe disse, apertando um dos enormes tríceps de Trey. — Que esporte você pratica?

— Todos.

— Ah, é? Já praticou patinação de velocidade com arremesso de chakram?

— Patinação de velocidade com o quê? — Trey perguntou.

Todos percebemos que Wolfe estava prestes a contar uma história e Sydney limpou a garganta.

— Erm, acho que a gente devia terminar logo. — Ela deu as instruções mais uma vez e Wolfe começou a tarefa.

Eu nunca tinha visto alguém ser tatuado antes. A agulha de alta potência parecia uma broca de dentista e, por mais que eu estivesse acostumado com sangue, ver aquilo em ação me deixava um pouco assustado. Devia doer, mas Trey aguentava firme, sem mover um músculo. Sydney observava tudo com olhar atento e tive a impressão de que, se Wolfe fizesse qualquer coisa minimamente irresponsável, ela se enfiaria entre eles. Naquele momento era, literal e figurativamente, a guarda-costas de Trey.

Eu me aproximei dela, tomando cuidado para não tocá-la, mas também sem deixar muito espaço entre nós.

— Certo. Se Wolfe não espetar Trey sem querer, qual vai ser o próximo passo? Entendi sua lógica de fazer uma tatuagem com tinta alquimista depois pra ver se essa vai proteger o cara, mas como você vai conseguir a tinta? Não precisa de sangue de vampiro e compulsão de terra? Não são coisas fáceis de encontrar.

Um tênue sorriso perpassou seus lábios.

— Não, nem os outros ingredientes são coisas que você encontra por aí. Também não dá pra pedir pela internet nem usar meios alquimistas normais pra comprar. Vou ter que pensar em outra maneira de consegui-los.

— Mesmo assim quis fazer isso primeiro? — Apontei com a cabeça para Trey.

O leve sorriso em seus lábios se desfez.

— Sim. Precisava, depois de ver Keith. Talvez tenha me precipitado. Talvez devesse esperar até ter a tinta alquimista, mas, quando penso em Keith... preciso fazer alguma coisa agora, Adrian. Não posso deixar que eles façam aquilo com outras pessoas. Faz tempo que estou falando em replicar essa tinta em teoria e não aguento mais esperar por Marcus ou pelas circunstâncias perfeitas. Isso já nos deixa um passo mais perto. Trey estará pronto quando eu conseguir a tinta alquimista e, depois que provarmos que a nossa funciona, Marcus vai distribuir.

Resisti à vontade de tomar seu rosto nas mãos. O que Sydney estava sugerindo não era um plano ruim. Claro que teria sido melhor se ela e Marcus conseguissem tatuar um dos discípulos dele que já tivesse a tatuagem de compulsão alquimista e, depois, ver se a tinta dela funcionava igual à tinta azul de Marcus. Esse seria o plano ideal. E era essa a questão. Sydney costumava esperar pelo ideal. Era meticulosa. Não era o tipo de pessoa que apressava as coisas ou aceitava a segunda opção. Mas tinha se precipitado dessa vez. Tinha deixado a ordem de lado para acelerar o processo. Era algo que muitas pessoas fariam. Que eu faria. O fato de Sydney ter feito isso, porém, me dizia uma coisa importantíssima. Ela havia agido por impulso e emoção, o que não era típico dela. Ela estava com medo.

Que diabos ela tinha visto em Keith?

— Seria bom pedirmos pra Wolfe tatuar você também — eu disse, com cuidado. — Quer dizer, se esse é o seu medo. Só por precaução, caso Inez esteja enganada sobre a magia anular o efeito da tatuagem.

Uma expressão atormentada surgiu em seu rosto.

— Acredite, pensei nisso. O problema é que não é fácil fazer uma tatuagem com Zoe por perto. O processo irrita a pele e, apesar de os efeitos óbvios passarem em alguns dias, não é uma coisa que dá para esconder enquanto moro com ela. Só posso aproveitar as chances que tenho e esperar.

— Vai contar pra Marcus?

— Se ele ligar — ela disse, revirando os olhos. — Deve estar desmaiado em algum bar.

— A gente pode ligar pra ele — sugeri.

— Adrian — ela disse, com a voz grave. — Você sabe que a gente não pode.

— Não sei de nada disso — declarei. — Faz tempo que não uso o espírito. Desde... enfim. Você sabe. Aquela noite. Um pouquinho pelo bem maior não é nada demais. — Falei sem pensar, mais por instinto de ajudar Sydney. Tarde demais, percebi que talvez não pudesse usar o espírito enquanto tomava os comprimidos.

— É perigoso — ela falou. Mas pude ver a indecisão em seus olhos. Ela queria falar com Marcus, mas não queria me pôr em risco.

— O perigo é não fazer tudo o que podemos para ajudar os outros. E, se isso significa falar com meu foragido favorito, a gente deveria fazer. Eu deveria fazer. — Precisava tentar, pelo menos. Poderia não conseguir, mas não podia deixar de ajudar Sydney.

Ela hesitou e então me deu a melhor resposta por que eu poderia esperar:

— Depois a gente conversa.

Quaisquer que fossem seus outros defeitos, Wolfe se provou surpreendentemente hábil. O processo de tatuagem pareceu durar uma eternidade, mas ele não fez nenhum buraco nas costas de Trey. Quando finalmente terminaram, uma hora depois, a pele de Trey estava irritada e vermelha, pontilhada com um pouco de sangue. Sydney e Wolfe juraram que isso era normal. Ele assentiu, satisfeito, e permitiu que Trey se sentasse para se limpar e fazer um curativo.

— Cobri tudo — Wolfe disse. — Quanto tempo leva pra desaparecer?

— Pode levar um tempo — Sydney disse, com calma. — Às vezes precisa de mais aplicações, mas estou com um bom pressentimento em relação a esta. Obrigada pela ajuda. — Mais uma vez, ela mentiu com tanta tranquilidade que quase acreditei que estávamos fazendo uma remoção estética, e não um experimento contra magias controladoras da mente.

— Uma pena que esse tipo de coisa não existisse na minha juventude — Wolfe disse, pensativo. — Se eu soubesse o que sei agora, nunca teria tatuado Tocllul na coxa. Mas, poxa, eu era jovem e achava que ficaria com Tocllul para sempre.

— Toc... o quê? — perguntei.

— Tocllul. Era uma princesa asteca que conheci quando viajei pelo México.

Trey se debruçou.

— Você disse asteca?

— Sim. A última de seu povo. A família dela estava passando por dificuldades e precisava vender souvenirs pra ganhar a vida. Participei de uma série de provas de honra mortais pra provar minha dignidade. Finalmente ganhei o direito de ser o consorte real, mas, depois de alguns meses, fui ficando inquieto. Não estava pronto pra sossegar em um lugar só. Parti o coração dela quando fui embora, mas o que poderia ter feito? Era jovem, louco pra correr o mundo. Precisava ser livre. Livre como um pássaro.

— E esse pássaro ninguém pode mudar — eu disse, solene, citando Lynyrd Skynyrd. Sydney me olhou de soslaio. — Então ainda tem o nome dela tatuado?

— Não. — Ele ergueu um pouco a bermuda, revelando a coxa cheia de pelos e a palavra Tactful escrita em tinta azul-marinho desbotada. — Voltei para os Estados Unidos e procurei um cara para mudar. Quer dizer uma pessoa com tato, delicada. Era o melhor que dava pra fazer com as letras que tinha.

— É uma qualidade muito nobre — Jackie disse. Também não consegui saber se estava mentindo ou não, o que aumentou ainda mais a tentação de entrar no modo de visão de aura. Ela ficou observando enquanto Sydney ajudava Trey a fazer o curativo. — Algum de vocês precisa de mais alguma coisa? Tenho que admitir que estou me sentindo inútil.

— Você foi a anfitriã — Sydney disse, dando um passo para trás enquanto Trey vestia a camisa. — Já fez muita coisa.

— Bom, eu adoraria fazer mais se vocês quiserem ficar mais um pouco.

Considerando o modo como Wolfe ergueu a sobrancelha sobre o tapa-olho, a única pessoa que ele queria que ficasse era ele mesmo.

— A gente precisa ir — eu disse, falando por todos. Se Jackie desse permissão para Sydney ficar fora do alojamento, pensei que poderíamos usar o tempo livre para comer alguma coisa. Trey poderia vir também. Eu não ligava, desde que ganhasse mais alguns momentos preciosos com Sydney. O toque do celular dela me disse que não era uma opção. Ela olhou a tela e soltou um suspiro.

— Ai. É a quarta mensagem de Zoe. Não tinha ouvido as outras por causa do barulho da agulha. — Ela guardou o celular. — Aposto que vou levar bronca por ter ficado tanto tempo fora.

— Não vá para casa — eu disse, por impulso. Trey estava fazendo uma pergunta para Wolfe e cochichei no ouvido de Sydney. — Plano de fuga no 31: a gente entra no meu carro e não para até encontrar um lugar seguro.

O amor nos olhos dela tinha um ar quase tangível e precisei lutar contra o impulso de pegá-la nos braços.

— A gente teria que parar uma dezena de vezes. Seu carro gasta muita gasolina.

Saímos com Trey, que, por incrível que pareça, estava lidando muito bem com a situação para alguém que tinha se metido num experimento sobre o qual não sabia quase nada. A princípio, imaginei que fosse porque confiava em Sydney. Depois, percebi que o motivo era outro.

— Você fez meu dia me apresentando aquele cara — Trey falou para ela. — Acho que meu ano. Ele é surreal. E ele e a sra. T... eles estão mesmo...?

Sydney fez uma careta.

— Acho que sim.

Ela saiu com Trey, me lançando um último olhar, e esperei mais alguns minutos dentro da casa para que não fôssemos vistos juntos. Mesmo num bairro estranho como aquele, não queríamos correr o risco. Eu sabia que a veria em breve se conseguisse entrar no sonho, mas fui tomado por aquela velha tristeza com o estado frustrante da nossa relação. Eu não queria um sonho. Queria a realidade e não tê-la ao alcance era horrível. Einstein estava certo. O remédio podia tirar os excessos, mas não me deixava livre dos sentimentos. Eles faziam parte da vida.

Depois de voltar para casa, fiquei de olho no relógio, tentando calcular quanto tempo levaria até que Sydney chegasse ao dormitório e fosse dormir. Ela tinha dito que depois a gente conversaria sobre o sonho, mas, como não tínhamos conversado ainda, tomei aquilo como um o.k. Eu estava cansado, uma sensação nova para mim, mas ansioso e curioso para saber se conseguiria ou não criar o sonho. Sabia que não tinha por que ter vergonha de contar a verdade para Sydney. Ela entenderia e até ficaria orgulhosa do que eu vinha fazendo. Mas aquilo trazia de volta meu maior medo em relação ao estabilizador de humor: de que, ao me livrar da escuridão do espírito, também perdesse a capacidade de ajudar as pessoas que amava.

Quando passou tempo suficiente, relaxei até entrar no estado meditativo necessário para caminhar entre os sonhos. Com esforço, invoquei a magia que dormia dentro de mim, o espírito ligado à minha essência de vida. Não estava vazio, não exatamente, mas foi como pegar água com as mãos. Ele ficava deslizando por entre os dedos. Senti o pânico crescer no meu peito, mas, firme, não me deixei dominar por ele. Assim como ao ler a aura da minha professora, tentei controlar a magia várias vezes. Havia ainda menos do que da última vez e o sonho de espírito exigia mais que a visão de auras. Finalmente, consegui reunir o bastante para instaurar um sonho. Meu quarto desapareceu e me vi no pátio da Getty Villa. O problema era que mal parecia com o pátio real. O mundo ao meu redor ficava piscando e perdendo a força, como uma TV com má recepção. E já precisava de toda minha energia para manter aquele sonho ruim. Sem perder tempo, levei Sydney para dentro dele.

— O que está acontecendo? — ela perguntou, olhando ao redor com surpresa.

— Estou cansado — eu disse. — É o lado ruim dos meus novos hábitos de sono.

Notei uma tênue faísca de desconfiança nos olhos dela e soube o que estava pensando.

— Não bebi, Sage. Juro. Só estou muito cansado. Vamos trazer Robin Hood logo porque não sei por quanto tempo consigo segurar isso aqui.

Ela pareceu preocupada, mas assentiu. Trazer outra pessoa foi ainda mais difícil, e precisei de várias tentativas, recebendo outros olhares surpresos de Sydney. Por fim, Marcus apareceu e, embora sua forma tivesse pouca consistência, seu sorriso irritante era o mesmo de sempre.

— Estava me perguntando quando vocês ligariam de novo. — Ele franziu a testa ao ver o lugar tremer. — O que está acontecendo?

— Não importa — eu disse rápido. — E a gente tem pouco tempo.

Sydney entendeu e não perdeu tempo para explicar as novidades. Ver como Marcus ficou boquiaberto quase fez meu esforço valer a pena.

— Você conseguiu mesmo? E usou? Deu certo?

— Ainda não sei — Sydney admitiu. — Por enquanto, tudo correu como o planejado... e também não aparece na pele. É mais ou menos invisível. — Marcus sorriu com essa notícia. Um dos pontos negativos da tinta azul era que chamava muita atenção para os rebeldes alquimistas. — Ainda preciso fazer mais alguns... experimentos no meu amigo. Mas estou com um bom pressentimento e, se conseguir arranjar tempo, não vai ser difícil produzir tinta pra você. Quando vocês voltam?

— Queremos atravessar a fronteira para El Paso esta semana — ele disse. — Temos mais uma pessoa para “resgatar” e depois acho que consigo ir até Palm Springs. Talvez uma semana e meia? Duas, no máximo? Acha que vai ter alguma coisa até lá?

Ela fez que sim.

— Consigo a tinta alquimista até lá. — Pude notar pelo seu tom de voz que ela ainda não tinha pensado num jeito de replicar a compulsão da tinta original. — Posso deixar na casa do Adrian. Lembra onde ele mora?

— Como poderia esquecer? — Marcus revirou os olhos. — Tantas lembranças de bater na cara dele.

— Ei — eu ameacei. — Fui eu que bati na sua cara.

Sydney lançou um olhar repreensivo contra nós.

— Vou deixar lá, então. Vocês já têm celular?

— Não, mas teremos quando estivermos de volta aos Estados Unidos, e Sabrina ainda tem seu contato, daí pego com ela. Ligo pra você e a gente finaliza as coisas.

— Acabamos, então? — perguntei. Estava começando a suar. — Preciso dormir um pouco.

— Acho que sim — Sydney disse, me olhando com ar preocupado. — Me ligue assim que puder, Marcus.

— Vou ligar — ele prometeu.

Tomei isso como uma despedida e o mandei embora. Pude ver pelo rosto de Sydney que ela queria conversar, mas havia um zumbido na minha cabeça e perdi o controle do sonho. Ele se desfez ao nosso redor e mal tive tempo de dizer:

— Amanhã a gente se fala. — Ela foi ficando transparente até desaparecer.

Quando voltei para o mundo real, descobri que o zumbido que tinha ouvido era meu celular, que eu havia deixado no modo silencioso em cima do criado-mudo. Fiquei surpreso ao ver o nome de Lissa na tela e atendi com as mãos trêmulas, espantado com meu cansaço.

— Meio tarde para Vossa Majestade, não?

— Você está seguindo um horário humano — ela me lembrou, divertida.

— Ah. Verdade. A gente acaba esquecendo depois de um tempo. A que devo o prazer?

— Nada social, infelizmente. Você não vai gostar, mas preciso abusar do meu papel de rainha e convocar você para a corte. Sei que é chato. Juro que sei e peço desculpas. Sinceramente.

— O que aconteceu? — perguntei, sentindo um frio na barriga.

— Sonya quer sua ajuda com o sangue de Olive. Ela disse que a magia está começando a sumir e ninguém sabe como detê-la.

— Ela não podia ligar?

— Ela falou que é muito complicado e que você devia vir pessoalmente, já que ajudou a conter a magia da primeira vez.

— Entendi. — Sonhos de espírito e auras já estavam me dando problemas... como eu chegaria perto de fazer o que tinha feito antes? No entanto, ainda não estava preparado para contar a Lissa sobre os medicamentos.

— Sonya estava pensando se... — Lissa hesitou. — Bom, você acha que Sydney poderia vir? Se conseguirmos permissão dos alquimistas?

Meu coração bateu mais rápido.

— Por que ela?

— Sonya achou que a gente podia fazer algum tipo de tatuagem com o sangue e disse que Sydney tem experiência com esse tipo de coisa. — Era verdade. Keith tinha sido pego organizando um esquema de tatuagens anabolizantes que Sydney havia descoberto. E, se eles realmente só precisassem de mim como conselheiro, talvez eu pudesse esconder a fragilidade do espírito. — E, convenhamos, ela deve ser a única alquimista que aguentaria passar um tempo aqui na corte. Pode levar alguns dias. Você acha que ela faria isso? Viajar com você? Ou... enfim, talvez em voos separados para esconder a conexão com Jill.

Eu mal podia acreditar nos meus próprios ouvidos. Lissa estava me oferecendo uma chance de ir embora com Sydney. Claro, não era exatamente uma escapada romântica, mas a corte Moroi devia ser o último lugar em que teríamos que nos preocupar com olhos alquimistas. Só teríamos que nos esconder da minha própria raça.

— Se os alquimistas mandarem, ela vai. — Fingi o máximo de indiferença possível. — As ordens são mais importantes que o medo para eles. Acho que ela aguentaria viajar comigo também, se você quiser que a gente se encontre numa escala como da última vez.

Deu para sentir o alívio de Lissa pelo telefone.

— Que bom. Vai facilitar muito se trouxerem Neil também.

— Neil?

— Sim. Vocês devem viajar com proteção, claro. A menos que prefira Eddie dessa vez.

E lá se foi meu tempo sozinho com Sydney. Talvez, com sorte, teríamos um pouco na corte.

— Não, pode mandar o Palácio de Buckingham. Ele vai causar menos problemas assim.

— Quê?

— Nada.

Ela prometeu que eu teria os detalhes do voo pela manhã e, depois de desligarmos, caí na cama e dormi quase imediatamente.

Outro zumbido me acordou, mas demorei um tempo para encontrar o celular, perdido no meio dos lençóis. Quase não atendi a tempo e estreitei os olhos diante da luz que entrava pela janela que eu havia esquecido de fechar na noite anterior.

— Adrian? — Era Jill, parecendo preocupada. — Acabei de saber que você vai para a corte.

— Pois é. Ordens da realeza e tudo mais. Não se preocupe, Chave de Cadeia. Trago uma lembrancinha pra você.

— Adrian. — A gravidade com que ela disse meu nome lembrava o tom que Sydney usava às vezes. — Tive que ouvir a notícia da boca de Neil.

Soltei um resmungo.

— Não comece. Lissa falou que seria só por alguns dias. Você consegue viver sem ele.

— Não — ela disse, impaciente. — Você não entendeu. Tive que ouvir da boca dele. Porque não fiquei sabendo por você.

Meu cérebro ainda estava lento por causa do sono e do cansaço, mas uma comichão na pele me dizia que eu estava à beira de entender alguma coisa importante.

— O que está querendo dizer?

— Estou querendo dizer que não sei mais o que acontece com você. O laço apagou.


14

 

Sydney

É INCRÍVEL COMO AS PESSOAS FICAM LEGAIS quando acham que você vai morrer.

— Sydney, desculpe. Desculpe mesmo.

— Falei pra você deixar pra lá. — Nem olhei para a cara de Zoe enquanto remexia minha coleção de suéteres. Minhas roupas ficavam em um sistema organizado por temperatura e ocasião. O inverno da Pensilvânia exigiria alguns dos meus casacos mais pesados.

— Só fiquei chateada porque o papai não me deu atenção — ela continuou.

Bem-vinda ao meu mundo, pensei. Era irônico que agora que eu finalmente tinha a atenção dele, não a desejava mais. Pelo menos estava contente por termos aquela conversa. Tínhamos falado pouco sobre o jantar com nosso pai e, se ela estava arrependida por ter me criticado, era um bom sinal tanto para mim, em particular, quanto para a possibilidade de que um dia, no futuro, abandonasse as crenças alquimistas mais radicais. Eu me sentia um pouco mal que o assunto tivesse surgido porque ela achava que minha viagem à corte colocaria minha vida em risco, mas era melhor não contestar essa ideia.

— Ele estava certo: você é muito boa no seu trabalho — ela acrescentou. — Se você não tivesse se acostumado tanto com eles, nunca conseguiria ir para a corte agora. Sei como é importante você ter sido escolhida. Poucas pessoas conseguiriam. Eu não conseguiria. — Ela suspirou. — Mas preferia que você não fosse. Fico tão preocupada.

Finalmente olhei para ela, sentada na cama com as pernas cruzadas. Senti uma pontada no peito. Apesar de todo o ciúme e desconfiança, Zoe ainda era minha irmã e gostava de mim. Só estava confusa e insegura quanto à vida agora, o que era totalmente compreensível. Eu tinha certeza que ela também não desejava essa rixa entre nós. Era tudo culpa da situação em que estávamos.

— Vou ficar bem. Os Moroi são inofensivos e querem minha ajuda. Não vai acontecer nada comigo.

Ela pareceu cética.

— Mas você vai passar a noite com eles. Cercada por eles. Não podia arranjar um hotel numa cidade por perto? Não é o que a gente costuma fazer quando viaja pra lá? Assim você ficaria longe deles.

Assim eu também ficaria longe de Adrian.

— Ficando lá posso terminar o trabalho mais rápido e voltar logo — eu disse, sensata. Era uma lógica difícil de rebater. — E sobrevivi cercada por vampiros bêbados de champanhe naquela festa de casamento. Pior que aquilo não pode ser.

— Mande mensagens de hora em hora para eu saber se você está bem.

Não pude conter um sorriso.

— Farei o possível. E você me mande mensagens sobre como vão as coisas por aqui.

— Vou mandar — ela prometeu, fazendo que sim. — Vou ser igual a você.

— Sei que vai fazer um bom trabalho. — Eu estava falando a verdade. Ela era esperta e competente... e estava motivada agora.

— E vou providenciar a janta deles na mansão de Clarence e tomar cuidado para que Angeline não faça nada muito maluco. Maluco demais, pelo menos. — Ela abriu um sorriso malicioso. — Sabia que ela ameaçou processar a escola por informação enganosa quando a professora de história falou que a Guerra de 1812 durou até 1815?

— Não, dessa eu não sabia. — Abanei a cabeça, exasperada, mas por dentro estava contente ao ouvir Zoe rindo de alguém que ela via como uma conhecida excêntrica, e não uma criatura das trevas.

— Vou manter aquela menina na linha, não se preocupe. — Zoe ficou um pouco mais séria. — Será que... será que posso dirigir seu carro até lá? Você sabe que consigo. E não é muito longe.

— É ilegal — respondi suavemente, odiando ver o desejo nos olhos dela. — Se você bater...

— Não vou bater! Tomo cuidado.

— É com os outros motoristas que você tem que se preocupar — eu disse, sabendo que parecia uma instrutora de autoescola. — Continue praticando com Eddie. Uma hora você vai conseguir sua carteira.

Ela soltou um suspiro.

— Mas quando?

— Quando voltar para Utah, imagino.

Caiu um momento de silêncio. Pelo rosto dela, pude imaginar em que estava pensando. Quando ela voltaria para Utah? Eu sabia que meu pai não deixaria que ela ficasse sem carteira para sempre. Era uma coisa de que ela precisava para o trabalho. No entanto, ele não via isso como uma prioridade agora, então ela teria que esperar. Mas, se voltasse a morar com nossa mãe...

— Acho... acho que vou ter paciência. — A tristeza em seu olhar se intensificou. — Enfim. Vou ficar preocupada até você voltar.

Dei um tapinha no ombro dela.

— Não se preocupe. Essa é uma daquelas vezes em que você não pode me ver como irmã. Tem que me tratar como se eu fosse só mais uma alquimista indo para uma missão.

— É difícil — ela disse, com uma voz que partiu meu coração.

Meu voo sairia em breve e passei o resto do nosso tempo juntas com uma atitude estoica e resignada àquela missão indesejada. Mas eu precisava admitir que, no fundo, estava feliz. Adrian e eu íamos viajar! Claro, não estaríamos completamente livres, mas seria um alívio ficar longe de olhares desconfiados e ter uma justificativa para passar um tempo juntos.

Assim como da última vez que eu tinha viajado para a corte com Adrian, nos encontramos em Los Angeles para a escala até a Filadélfia. Ele e Neil já estavam esperando no portão quando cheguei, e parei para observá-los. Neil estava lendo um livro de artes marciais. Adrian tinha o livro de poesia que eu lhe dera aberto no colo e olhava pela janela. A luz iluminava sua pele clara e seus traços maravilhosos e, mesmo de longe, quis passar os dedos pelo seu cabelo escuro. Ele tinha um ar pensativo e me perguntei se estava preocupado com a missão diante de nós. As coisas estavam calmas e estáveis nas últimas semanas, o que me fazia pensar que logo haveria outro ataque do espírito.

— Sage — ele disse, quando me aproximei. O olhar melancólico desapareceu, substituído por um de ironia e preguiça. — Pronta para a expedição no Ártico? — Ele apontou para o casaco de pele que eu estava carregando. Pele falsa, claro. — Aposto que recebeu um monte de olhares estranhos levando isso por aí.

— Não viu como vai estar o tempo lá? Deixa pra lá. Claro que não viu. — Neil, pelo menos, estava com um casaco de esqui pesado, mas a jaqueta de Adrian não me tranquilizou. Embora fosse um alívio que ele estivesse levando alguma coisa. — Só trouxe esse?

— É meu casaco mais bonito — ele respondeu.

— Vou tomar isso como um sim.

— O que importa são as aparências, Sage. Tenho um monte de fãs lá que esperam que eu esteja o mais bonito possível. Não posso decepcionar as coitadas.

Assumi minha melhor expressão de desprezo.

— Só não venha choramingar quando fizer menos cinco graus. Estou aqui pra trabalhar, não para ser sua babá.

Neil balançou a cabeça e me lançou um olhar solidário antes de voltar ao livro. Assim que a atenção dele foi desviada, olhei nos olhos de Adrian. Nenhum de nós ousou sorrir, mas o brilho naquelas profundezas verdes fez meu coração acelerar.

E... ele continuou a bater acelerado pelo restante da viagem. Nós três ficamos juntos na terceira classe (o que rendeu um melodrama sem fim de Adrian), e eu sentei no meio. Neil ficou em silêncio, lendo sobre técnicas de ataque, e mal trocou duas palavras com a gente. Teoricamente, Adrian e eu também estávamos ocupados com nossas leituras, mas eu sabia que, assim como eu, ele estava mais fixado na proximidade entre nós. Nossas pernas estavam encostadas uma na outra e vivíamos nos tocando “sem querer”. Quando a aeromoça chegou com as bebidas, quase caí no colo dele enquanto pegava minha Coca Diet. E, quando Adrian quis outra coisa para ler, decidiu pegar as revistas no compartimento à minha frente primeiro, se debruçando de modo que sua mão encostasse na minha coxa. Mesmo sobre a calça, aquele toque foi provocante e me fez lembrar de todas as vezes que ele tinha passado a mão nas minhas pernas.

Era agonizante... e maravilhoso.

Mas também frustrante. Passei a maior parte do voo obcecada com cada movimento e com a próxima vez em que nos encostaríamos. Aqueles toques acidentais me deixavam em chamas, mas, quando nos aproximamos do destino, tudo em que eu conseguia pensar era quando teríamos a chance de ficar a sós e deixar aqueles subterfúgios de lado. A julgar pelo silêncio cada vez maior de Adrian e pela maneira como ele perdia o fôlego ao me olhar nos olhos, tive a impressão de que não era a única a ter esses pensamentos indecentes. Controle-se, Sydney. Ou pelo menos tome um banho frio. Você não deveria estar se concentrando na busca elevada por conhecimento?

Eu estava tão focada em minhas emoções turbulentas que Neil me pegou completamente desprevenida quando o voo estava aterrissando.

— Acham que vou conseguir ver Olive?

Adrian levantou os olhos do livro de poesia.

— Acho que sim. A viagem toda é por causa do sangue dela; tenho certeza de que vai estar lá.

— Não era isso que eu... — Neil mordeu o lábio e olhou pela janela. — Deixa pra lá.

— Ahhh — Adrian disse, dando uma piscadinha que Neil nem notou. — Existe ver e ver. Você está querendo dizer ver. Aposto que entre uma descoberta de tirar o fôlego e outra vocês vão ter tempo para perder o fôlego um com o outro.

Neil se voltou, corando.

— Não era disso que eu estava falando. Desde aquele dia temos trocado e-mails e nos damos muito bem.

— Bom, existe se dar bem e...

— Adrian, pare de ajudar. — Me virei para Neil. — Não conheço essa menina, mas seja lá o que for que vamos fazer não vai ser resolvido em cinco minutos. Você vai ter tempo livre. Afinal, não vai ficar em serviço o tempo todo. — Ele abriu um sorriso de orelha a orelha.

Quando chegamos à Filadélfia, alugamos um carro para o resto da viagem. Viagens normais à corte, que ficava no sopé das montanhas Pocono, costumavam depender de aviõezinhos que pousavam em um aeroporto rural a trinta minutos de distância, mas esses voos eram raros, e por isso pegamos o carro. A viagem durava cerca de duas horas e meia, um trajeto que seria maravilhoso durante o dia. Mas, por causa dos voos e do fuso-horário, a noite já havia caído, deixando Neil em alerta. Ele estava sentando ao meu lado enquanto eu dirigia, observando os arredores quase sem piscar. Eu tinha convencido Zoe de que estava em segurança, mas isso era em relação aos Moroi. Tinha esquecido que, onde quer que os Moroi se reuniam, os Strigoi estavam logo atrás, e as estradas sombrias que levavam à corte eram perigosas àquela hora da noite. Eu achava que nenhum Strigoi pularia em cima do carro a sessenta quilômetros por hora, mas estava grata pela diligência de Neil. Por mais que Adrian o provocasse, acho que também estava contente.

Era meia-noite quando finalmente atravessamos a fronteira da corte. Neil estava sério e rígido como sempre, mas Adrian havia se esparramado e dormido no banco de trás. Ele bocejou e se espreguiçou enquanto eu desacelerava para falar com os guardas no portão. Para a maioria dos humanos, a corte era um colégio particular muito especializado. Definitivamente parecia um, com seus prédios respeitáveis cobertos de hera e seus pátios lindos e amplos. Mas, enquanto dampiros perscrutavam o carro, me lembrei dos avisos de Zoe. Eu estava prestes a entrar num complexo de criaturas sobrenaturais.

— Lorde Ivashkov — um dos guardas disse ao ver Adrian. — Bem-vindo de volta.

Adrian abafou outro bocejo e o cumprimentou com a cabeça. Lorde Ivashkov. Às vezes eu esquecia que Adrian fazia parte de uma família real e que mesmo os membros menos importantes eram chamados de “lorde” e “lady” quando viravam adultos. Era surreal pensar que eu estava namorando alguém da realeza. Era ainda mais surreal que, nos últimos tempos, o título dele me chocava mais do que o fato de ele ser um vampiro.

O dampiro apontou para uma estradinha de terra que contornava o terreno central da corte.

— Deem a volta por ali e estacionem atrás do palácio — ele disse. — Estão esperando pelos senhores.

— Palácio — murmurei, depois que ele fez sinal para que avançássemos. — Não estamos mais em Palm Springs.

— É só o nome da casa da rainha — Adrian disse. Ele se debruçou e colocou a cabeça entre mim e Neil. — Parece um prédio acadêmico. Você vai se sentir em casa.

Não era exatamente verdade. Depois que estacionamos e entramos pela porta dos fundos, um guia nos levou por corredores grandiosos iluminados por lustres de cristal e decorados com quadros retratando os monarcas Moroi dos últimos séculos. Aqueles rostos pálidos e delicados me observavam, me lembrando de que eu realmente estava em outro mundo, um mundo de que não fazia parte. Um velho medo alquimista começou a surgir em mim e repeti várias vezes a mim mesma que era uma convidada ali. Ninguém tentaria me machucar. E, mesmo se tentassem, Adrian não permitiria que fizessem nada comigo.

Eu sabia que a residência da rainha tinha uma sala do trono e outras áreas para funções de Estado, mas, naquele noite, nos levaram para um ambiente muito mais casual: uma sala de TV. Definitivamente não era o que me vinha à mente quando eu pensava em palácios. Uma tela enorme na parede exibia um programa em que as pessoas pareciam estar competindo em equipes numa pista de obstáculos enlameada. Em torno da tela, havia sofás grandes e luxuosos, e os vários Moroi e dampiros sentados neles não notaram nossa entrada. Os guardiões que estavam em guarda do outro lado da sala nos viram imediatamente, claro. Voltei minha atenção para os telespectadores no sofá, uma das quais reconheci na mesma hora.

— Ah, vá! — Rose levantou de um salto e ergueu as mãos para a tela, suplicante. — Estava bem na sua frente, idiota! Você é cego ou o quê? Acabou de dar a vitória pra eles!

— Na verdade — Adrian disse, parando ao meu lado —, a equipe verde vence. É uma reprise.

Todos voltaram a atenção para nós e alguém colocou a TV no mudo. Ouvi um gritinho agudo e uma garota magra e loira correu até Adrian e o abraçou.

— Você veio!

Ele sorriu e deu um tapinha nas costas dela.

— O que eu disse, prima? Sou seu súdito e um súdito serve à sua rainha.

Lissa Dragomir não parecia exatamente uma rainha naquele momento. Ela tinha a mesma idade que eu, e seu longo cabelo platinado estava amarrado num rabo de cavalo malfeito que descia pelas costas de seu moletom universitário. Eu mal a conhecia, mas a semelhança com Jill — principalmente os olhos verde-claros e os maxilares altos — a tornava familiar. Ela se separou de Adrian e voltou a atenção para mim. O sorriso contente que havia dado a Adrian se tornou um pouco mais formal, mas igualmente sincero.

— Sydney, é um prazer ver você de novo. Se houver alguma coisa que eu possa fazer por você, por favor, me avise. E você deve ser Neil.

— Vossa Majestade. — Neil fez uma reverência tão exagerada que sua testa tocou o chão. Ao seu lado, Adrian revirou os olhos.

— Vai com calma, Lancelot — Adrian disse. — Acho que não precisa fazer reverência quando ela está de jeans e pantufas de coelhinho.

Neil se ergueu sem perder a elegância.

— O poder de uma rainha não varia com seus trajes.

Adrian olhou para os outros em busca de solidariedade.

— A gente está junto há quase dez horas hoje.

Uma expressão divertida perpassou o rosto de Lissa.

— É um prazer conhecê-lo.

Foram feitas as apresentações necessárias. Eu conhecia a maior parte das pessoas importantes da sala. Dimitri e Sonya estavam lá, cheios de sorrisos, e Rose chegou a me dar um abraço. Em outra ocasião, eu tinha sido brevemente apresentada ao namorado de Lissa, Christian Ozera, e, embora não o conhecesse muito bem, ele me cumprimentou com a cabeça. Ele e Adrian se olharam com desconfiança e me lembrei de uma coisa que Adrian me dissera certa vez: “A tia dele está na cadeia por matar minha tia. Eu não o culpo por isso. Ele não me culpa por isso. A gente ainda gosta um do outro. Mesmo assim, fica um clima meio estranho, sabe?”.

Duas meninas estavam sentadas juntas num sofá de dois lugares e observavam o encontro em silêncio. Uma delas era dampira, e tinha o cabelo preto e a pele morena. A outra, Moroi, tinha volumosos cachos castanho-escuros e lindos olhos cinzentos. Pela maneira como Neil não tirava os olhos da dampira, pude imaginar quem eram. Adrian abriu um de seus sorrisos mais carismáticos.

— Ora, ora. Então sobreviveram à viagem, hein? Espero que estejam cuidando bem de vocês. Tratamento nobre e tudo o mais. Torneiras douradas. Roupões de veludo. Champanhe no café da manhã. E no almoço. E no jantar. Aliás, por que não tem uma garrafa aqui agora?

Olive e Charlotte Sinclair responderam com sorrisos, especialmente Charlotte.

— Você não trouxe? — ela perguntou, com simpatia demais para o meu gosto.

— Posso mandar trazer — Lissa disse.

Ela se voltou para um dos guardas na porta, mas Adrian a interrompeu:

— Não, a gente precisa ser responsável e tudo mais para lidar com o espírito, certo? A celebração fica pra depois. Além disso, Belikov não sabe beber.

Dimitri pareceu surpreso com essa e tive que conter uma risada com a mudança de assunto de Adrian. Ali, “lorde Ivashkov” devia conseguir o que quisesse, e eu estava orgulhosa por ele se manter fiel à promessa de evitar os vícios. Era bom que ele estivesse de costas para mim naquela hora, porque eu teria deixado transparecer meu carinho.

As irmãs Sinclair e eu fomos apresentadas formalmente. Elas murmuraram cumprimentos educados e me olharam, curiosas, antes de me esquecer e voltar a atenção para os demais. Uma alquimista era uma novidade, mas nada tão interessante.

Imaginei que voltaríamos a nos encontrar de manhã, mas, quando Sonya começou a discorrer sobre o que havia descoberto na amostra de sangue de Olive, percebi que o trabalho começaria imediatamente. Quase soltei um resmungo, então me dei conta do óbvio. É o meio do dia para eles. Estão todos acordados e prontos para o trabalho. Devia ser por isso que Adrian havia tirado aquela soneca rápida no carro. Neil, por ser um dampiro, tinha uma resistência maior e conseguia ficar mais tempo sem dormir. Mas eu era uma simples humana e já tinha passado da minha hora de ir para a cama em Palm Springs. No entanto, se eles estavam prontos para começar, eu também estava. Contive o bocejo que ia subindo pela minha garganta.

— Não há dúvida — Sonya estava dizendo. — Aquela amostra de sangue está vibrando com um tipo de espírito que a gente nunca viu antes. E aquele feitiço que você colocou na prata foi inteligente, mas...

A porta se abriu com tudo e um Moroi entrou a passos largos seguido por um guardião.

— Já está todo mundo aqui. Devem ter esquecido de me chamar.

Rose revirou os olhos.

— Pai, você não foi convidado.

Abe Mazur, como sempre vestido com roupas extravagantes, estalou a língua em desaprovação.

— Sim, porque faz todo o sentido deixar as maiores descobertas do nosso mundo nas mãos de crianças.

— Eu tenho quase trinta anos — Sonya protestou.

— Pois é. — Abe olhou em volta e sorriu ao me ver. — Minha alquimista preferida. Que gentil da sua parte compartilhar seu conhecimento.

Abri um sorriso rígido.

— É um prazer ajudar.

Após um comando tácito, um servo apareceu com refrescos e lanches, mas sem champanhe. Depois que todos se resignaram com a presença indesejada de Abe, Sonya retomou a apresentação e mostrou uma caixinha para Adrian. Curiosa, me aproximei para examiná-la, ciente dos poucos centímetros entre mim e ele. A caixa abrigava um pequeno frasco de sangue envolto por anéis de prata. Depois de observar por alguns segundos, ergui os olhos e vi Sonya olhando atentamente para mim e para Adrian, com a testa franzida. Seu rosto se suavizou ao me notar.

— O que acha? — ela perguntou. — Tem alguma maneira de reforçar a vedação?

Adrian estava visivelmente desconcertado.

— Hum, acho que não. Usei todos os meus truques da primeira vez.

— Mas dá pra sentir como o espírito está ligado ao sangue — ela comentou.

Mais uma vez, ele pareceu desconfortável.

— Sim, percebi. Não é nada que eu consiga replicar.

— Nem eu — Sonya disse.

— Eu também não — Lissa acrescentou.

Sonya soltou um suspiro.

— E acho que é essa a questão. Mesmo que a gente não sinta mais o espírito no sangue de Olive, tenho certeza que ele causou uma mudança que impede a conversão em Strigoi. Se pudermos fazer o mesmo por outras pessoas...

Ele concordou com a cabeça.

— Pois é. Mas não sei como. A não ser...

Percebi então que todos na sala estavam olhando para Adrian com expectativa. Eles admiravam seu conhecimento. Ele estivera certo sobre uma coisa quando defendera o uso do espírito: tinha feito algo que ninguém mais poderia ter feito. Fiquei pensando se alguém, inclusive ele mesmo, teria imaginado que um dia ele seria uma autoridade respeitada, e não uma piada entre os Moroi. Esse tipo de responsabilidade e prestígio combinava com ele. Lorde Ivashkov.

Ele se virou para Lissa.

— Você tinha comentado que a gente podia transformar o sangue numa espécie de tatuagem, certo? Será que não é só isso mesmo? Quem sabe não basta injetar o sangue em alguém? Tipo, não é assim que funciona uma vacina? Quando alguém passa por uma doença, adquire... — Ele ficou buscando a palavra certa e olhou para mim em busca de confirmação. — ... anticorpos? — Fiz que sim. — Será que não é a mesma coisa? A magia passa para outra pessoa?

— Não faço a menor ideia se existe uma equivalência — admiti. — Mas, quando o sangue de vampiro é misturado na tatuagem alquimista, parte da cicatrização rápida e da resistência a doenças que os Moroi têm passa pra gente. — Se o uso de magia realmente tinha anulado minha tatuagem, será que eu tinha perdido minha imunidade também? Eu odiava resfriados.

Adrian sorriu.

— Você conseguiria fazer uma tatuagem parecida com esse sangue?

Hesitei.

— Teoricamente, sim. Não dá pra saber se vai funcionar. E nunca fiz esse tipo de tinta antes.

— Seria fácil pra você — ele disse, confiante. — E sempre tem guardiões tatuadores por aqui. Do que mais você precisa?

— Consigo o que você quiser — Abe interpelou, confiante.

— Eu precisaria...

Parei e o mundo balançou um pouco. Consigo o que você quiser. Sim, ele provavelmente conseguiria. Abe Mazur era um homem capaz de obter qualquer coisa, inclusive os ingredientes para uma possível tatuagem de proteção contra Strigoi.

Ingredientes que deviam ser quase idênticos aos usados numa tatuagem alquimista normal.

Eles estavam fora do meu alcance, mas não do de Abe. Ele nem devia precisar usar meios ilícitos. Certa vez, havia conseguido levar um explosivo para dentro da corte sem ninguém ver. Eu sabia que ele tinha contatos alquimistas e poderia argumentar que era importante que os Moroi fizessem aquele experimento. Sem dúvida os alquimistas me apoiariam. Mas para mim não importava se Abe conseguiria os ingredientes por meios legais ou não. A questão era que ele poderia arranjar tudo de que eu precisava sem que isso fosse ligado a mim e a meu projeto pessoal de acabar com a compulsão alquimista.

— Posso fazer uma lista — eu disse, com o ar mais despreocupado que consegui. — Mas a gente devia pegar o dobro. Caso eu cometa algum erro. — Adrian me olhou por um instante e percebi que tinha entendido em que eu estava pensando.

Rose ironizou:

— Você já cometeu algum erro na vida?

— É o que vamos ver — murmurei. Contive um bocejo. — Se vocês me derem um papel, faço a lista agora. — Não consegui conter o bocejo seguinte.

Sonya me olhou com pena.

— Vamos deixar a coitada da Sydney ir pra cama. Ela não segue nosso horário. Não podemos esperar que consiga fazer alguma coisa sem dormir e nem temos os materiais ainda.

Lissa pareceu arrependida.

— Tem razão. Desculpe, Sydney. Eu não estava pensando direito.

Entrei no banco de dados alquimista pelo celular para encontrar a lista de ingredientes. Enquanto eu escrevia do que precisava, Lissa chamou outro servo. Durante a espera, Christian perguntou:

— Em quem vocês vão fazer a tatuagem?

Caiu um silêncio.

— Em mim — Rose disse, finalmente. — Tem que ser um dampiro. Nosso corpo é mais forte e, se funcionar, temos mais chance de nos depararmos com um Strigoi.

— Você é importante demais para a rainha — Neil disse. — Eu faço, caso alguma coisa dê errado.

— Não vai dar nada errado — Adrian disse, irritado.

Rose ignorou o comentário e encarou Neil.

— Eu faço. Ninguém mais vai se arriscar por isso.

— Qual é o tipo sanguíneo de vocês? — perguntei, olhando para os dois. Então me virei para Olive. — E o seu?

— Não mete Olive no meio disso — Neil avisou.

— O+ — Olive disse, desconfiada.

— B – — Rose falou.

Neil olhou frustrado para as duas.

— A+.

— Você venceu — falei para Neil. Eu sinceramente achava que um receptor Moroi seria melhor, mas tive a impressão de que nenhum deles aceitaria. Naquele caso, seguir as regras de tipo sanguíneo parecia a opção mais segura.

A expressão magoada de Rose dava a entender que eu a tinha traído de propósito. Olive, ainda que decepcionada, logo transferiu sua ansiedade para Neil e foi correndo até onde ele estava. Ele se encheu de orgulho com a atenção e o lado cientista de Sonya decidiu que ela não tinha paciência para mais drama.

— Certo. Neil venceu. Agora, pelo amor de Deus, levem Sydney para um quarto de hóspedes.

— Eu também vou — Adrian disse. Ele bocejou e tive quase certeza que estava fingindo. — Estou passando tempo demais com os humanos.

— Não vai ficar na casa dos seus pais? — Lissa perguntou.

Adrian riu.

— Não se meu pai estiver lá. Quero um pouco de paz.

O servo de Lissa chegou e Rose decidiu nos acompanhar, pensando ser a única com quem eu realmente me sentia à vontade. Enquanto saíamos, Charlotte correu até Adrian e o puxou pela manga. Eu estava perto o bastante para ouvir a conversa, apesar de ela ter abaixado a voz.

— Queria conversar com você — ela disse. — Acha que vai ter tempo amanhã?

Adrian abriu o sorriso sedutor que dava para a maioria das mulheres.

— Eu adoraria, mas não sei se vou poder. Acho que eles querem que eu trabalhe. É um saco ser responsável.

Rose ouviu a conversa.

— Ah, sim. É tão chato contribuir para uma grande descoberta na vida dos Moroi. Coitadinho do Adrian.

Ele piscou para Charlotte.

— Aviso você amanhã.

Saímos, mas antes notei o desejo no olhar de Charlotte. Até eu consegui adivinhar as intenções dela.

As acomodações de hóspedes ficavam em outro daqueles prédios respeitáveis, e cortamos caminho pelo pátio para chegar lá. Estava caindo uma neve fininha e apertei o casaco com força ao meu redor. Adrian não reclamou, mas estava um pouco azul quando chegamos ao saguão do prédio, que funcionava como um hotel. Rose tomou a iniciativa de providenciar nossos quartos. Fiquei esperando do outro lado do saguão e Adrian veio até mim.

— Você não faz ideia de como fica linda com todos esses flocos de neve no cabelo — ele murmurou.

— E você fica lindo com hipotermia. Tomara que consiga um casaco de verdade enquanto está aqui.

Ele sorriu.

— Você vai ter que me aquecer mais tarde. Sabe que eu estava fingindo com Charlotte, né? Só tenho olhos para uma garota, mas, aqui, preciso fingir que estou atrás de dez.

— Só dez? — questionei.

— Ei — Rose nos chamou. — Você ficou com um quarto com uma boa vista no segundo andar. Sydney, qual vai fazer você se sentir melhor em relação às criaturas das trevas? Uma rota de fuga fácil no primeiro andar ou mais distância no segundo?

— Segundo — eu disse, com o rosto neutro. — Saio descendo pela janela se precisar.

Ela nos guiou até nosso andar e deu boa-noite para Adrian. Ganhei uma escolta pessoal até meu quarto e ela o olhou com aprovação.

— É o mesmo que dariam para alguém da realeza. Vai ficar bem aqui?

Andei pela suíte gigantesca, observando os móveis de luxo e o centro de entretenimento de última geração.

— Hum, sim. Acho que sim.

— Sei que deve ser estranho — ela disse, suavemente. — Mas estamos fazendo coisas importantes. Pelo menos é o que todo mundo diz.

— Eles estão certos — eu disse. — E, depois de dividir o quarto com Jill e fugir das autoridades com você, isso não é nada de mais.

Ela me abriu um de seus sorrisos radiantes. Fiquei fascinada pela sua beleza e não pude deixar de sentir uma pontinha de insegurança ao lembrar que, antigamente, Adrian e ela tinham sido muito próximos, tanto romântica como fisicamente. Rose saiu depois de mais promessas e insistiu que eu a avisasse caso precisasse de alguma coisa. Quando finalmente foi embora, me sentei para desfazer as malas. Cinco minutos depois, Adrian apareceu na porta.

— Caramba — ele disse, fechando a porta com o pé. Ele me puxou e me jogou contra a parede. — Você não faz ideia de como meu dia foi difícil.

Envolvi o pescoço dele nos braços e o puxei para perto.

— Na verdade, faço sim — eu falei, antes de nossos lábios se encontrarem em um beijo avassalador.

Havia uma urgência nele que se igualava à minha, e toda a forte tensão que eu vinha carregando ao longo do dia explodiu entre nós. Ele passou a mão pelo meu corpo, segurou minha perna e a ergueu na altura do quadril. Meu sangue ardia e eu não estava mais nem um pouco cansada.

Por mais sexy que fossem os beijos contra a parede, acabamos passando para a cama, que facilitava o acesso às roupas, à pele...

Eu me sentei e o ajudei a tirar meu suéter.

— Quem imaginava que o plano de fuga no 71 seria “Férias na corte Moroi”? — eu disse.

Ele riu e encostou os lábios na minha nuca, me dando calafrios.

— Ué, por que não? Sem Zoe... sem alquimistas... sem limite de tempo. — Ele desceu os lábios pelo meu ombro e, devagar, abaixou a alça do sutiã. — A gente tem muita liberdade, Sage, e muita privacidade.

Não pude evitar um gemido quando seus lábios habilidosos continuaram com a exploração. Fechei os olhos e me afundei na cama, puxando-o para perto. Poderia ser agora, percebi. O momento para o qual estava me preparando. Finalmente tínhamos a chance de transar sem sermos descobertos ou interrompidos. Era inebriante. Quando teríamos uma oportunidade daquelas de novo?

No entanto, à medida que seu toque continuava a me enlouquecer, um velho instinto temeroso me deteve. Pelo que eu estava esperando? Por que ainda tinha medo? Eu desejava Adrian, estava apaixonada por ele, mas parte de mim continuava hesitando. Era enlouquecedor, ainda mais porque meu corpo pedia que Adrian arrancasse minhas roupas. Abri os olhos e dei de cara com ele me olhando.

— Não tem problema — ele disse, adivinhando meus pensamentos.

— Desculpe. Não sei o que há de errado comigo.

Ele deu um beijo na ponta do meu nariz.

— Não há nada de errado com você.

— Eu quero. Quero mesmo. Só acho que estou esperando por alguma coisa.

— Então espere. — A doçura e a paciência em seus olhos verdes, mescladas àquele desejo inquestionável, me causaram uma dor no peito.

— É que odeio desperdiçar o quarto e a noite — admiti.

Ele tirou a camisa e a jogou no chão.

— Quem disse que a gente vai desperdiçar? — Ele se deitou ao meu lado e me deu outro beijo. — A gente pode não ir até o fim, Sage, mas acredite: existem muitas outras maneiras de passar o tempo.


15

 

Adrian

A GENTE DORMIU JUNTO NAQUELA NOITE — literal, não sexualmente.

E foi maravilhoso. Eu nunca imaginei que podia sentir tanto prazer com uma coisa tão simples. Havia tanto tempo que desejava passar mais tempo com Sydney, estar com ela sem a pressão de todas as coisas que conspiravam contra nós. E ali estávamos.

Mas foi um pouco torturante também. Fez a tensão da viagem do dia anterior parecer fácil. Mesmo de camiseta e calça de flanela, Sydney era insuportavelmente sedutora. Com ela envolvida em meus braços, dormindo com a cabeça encostada no meu peito, me peguei pensando sobre como o tecido de sua camiseta era fino e como não havia nada sob ela. Pensei muito sobre como seria tirar aquelas roupas. Pensei muito sobre o que faria depois. Eu amava Sydney por sua alma linda e a desejava por seu corpo lindo. Não havia nada de sórdido nisso. Era natural.

Por isso, demorei um pouco para dormir. A soneca de antes também não ajudou. Quando não estava fantasiando sobre Sydney, minha mente se voltava à nossa missão e à ideia possivelmente maluca de usar o sangue de Olive para fazer uma tatuagem semelhante à dos alquimistas em Neil. Todos estavam esperando que Sydney e eu resolvêssemos o problema. Eu tinha quase certeza de que o sangue infundido de espírito não faria mal a Neil, assim como a tatuagem experimental de Sydney não fizera a Trey, e achei que valia a pena tentar. Afinal, não tínhamos muitas outras opções para o sangue. A ideia não era ruim, e não era o que me incomodava.

O que me incomodava era meu controle cada vez menor do espírito. Quando Sonya tinha me perguntado sobre o que eu sentia no frasco, precisei mentir. Ela era uma das melhores usuárias de espírito para identificar mentiras, mas, felizmente, estivera distraída demais para notar. O problema era que eu não tinha conseguido perceber nada no frasco. Eu sabia que deveria ter espírito no sangue, pelos comentários dela e de Lissa, mas não consegui senti-lo. Não conseguia mais ver auras e, embora não houvesse tentado curar ninguém, podia imaginar quais seriam os resultados.

As revelações de Jill sobre o laço tinham sido um tapa na cara. O desaparecimento do espírito sempre fora uma possibilidade, mas eu nunca havia parado para pensar nas consequências para ela. Jill havia explicado que, embora ainda sentisse que tínhamos uma ligação, era como se houvesse uma cortina entre nós que impedia minha mente de chegar até ela. Não era exatamente uma coisa ruim. Significava que minha vida voltaria a ser particular e que ela ficaria protegida de qualquer escuridão que eu pudesse passar para ela.

E eu não podia negar a verdade mais óbvia: agora, eu também parecia estar protegido do espírito. Eu me sentia... bem. Meu mundo estava calmo. Não tinha mais aquela necessidade febril de pintar uma galeria inteira por noite, mas ainda estava cheio de ideias — ideias que conseguia pôr em prática, porque minha concentração estava melhor. Ficar triste ao ouvir Pink Floyd não me fazia entrar em depressão. Meu amor por Sydney continuava forte como sempre.

A vida era boa.

Acordar com ela deixou isso claro para mim. Eu tinha finalmente adormecido, mas despertei quando a senti se mexendo. Tínhamos trocado de posição durante a noite, mas em momento nenhum nos separamos. Para mim, ela nunca estivera tão bonita quanto naquele instante, sonolenta e com o cabelo desgrenhado. Eu me aproximei para um beijinho e ela desviou o rosto.

— Preciso escovar os dentes — ela murmurou.

— Mal acordou e já está prática. Não sei por que estou surpreso.

— É só uma questão de bom senso. — Ela virou para o lado e a abracei por trás, envolvendo sua cintura.

— Quer tomar café? — perguntei.

— A gente não pode sair junto. Já vai ser ruim se alguém vir você saindo do meu quarto.

Dei uma olhada no relógio.

— Improvável. Eles estão indo pra cama agora.

— Então como a gente vai tomar café?

— Tem alguns lugares vinte e quatro horas aqui, porque sempre tem gente entrando e saindo do horário humano. — Dei um beijo em seu pescoço. — Vou liberar você da restrição de café, porque é uma ocasião especial.

— Ei, vou me manter fiel à promessa.

— Quero só ver quando os Moroi decidirem trabalhar até de madrugada.

Ela ficou em silêncio por alguns momentos.

— Faz tempo que você não bebe uma gota de álcool, não é? Nem seu drinque diário.

— É mais fácil assim. Não tem por que ficar testando meus limites.

A resposta dela foi simples e perfeita:

— Eu te amo.

Ela acabou me mandando embora para que a gente pudesse se arrumar cada um em seu quarto, apesar do meu ótimo argumento de que um banho juntos seria mais eficiente. Tomei uma ducha rápida, ao contrário do que costumava fazer, para poder dar uma passadinha no prédio ao lado, onde ficavam os fornecedores. Sydney e eu nos encontramos meia hora depois no saguão do prédio de hóspedes, como qualquer Moroi e alquimista decentes fariam. O cara trabalhando na recepção nem prestou atenção em nós, mas, mesmo assim, fizemos uma atuação digna de Oscar, com cumprimentos formais e a uma distância segura.

Do lado de fora, a pálida luz do sol não aquecia muito a manhã de inverno. Sydney parecia aconchegada e fofinha em seu casaco felpudo, e percebi a estupidez de ter levado apenas aquele casaco leve. Mas não reclamei. Precisava me manter firme à minha escolha de moda.

O lugar estava tão deserto quanto eu havia imaginado. As únicas pessoas que vimos foram guardiões ocasionais em suas patrulhas atentas, apesar das muralhas que protegiam a corte dos Strigoi. Claro, nos últimos tempos, com tantos Moroi se opondo ao reinado de Lissa, enfrentávamos muito mais perigos da nossa própria raça. Um dos restaurantes de que me lembrava ainda estava funcionando, e Sydney riu ao entrarmos.

— É incrível — ela disse. — Tem toda uma civilização escondida nesses prédios.

— Tem isso e muito mais. Um clube, um spa, uma pista de boliche. Não que eu seja besta de levar você pra lá. — Sydney era incrivelmente boa em quase todos os esportes. Não que tivesse poderes atléticos acima do normal. Na maioria das vezes, só usava lógica e cálculos matemáticos para medir seus movimentos.

O restaurante era mais uma lanchonete. Pedimos no balcão e depois nos sentamos em uma mesa com o café enquanto o cozinheiro fazia nossa comida. Ainda estávamos um tanto cansados e percebi o quanto eu adorava aquela normalidade.

— Um dia, Sage — falei para ela. — Todas as manhãs no nosso apartamento em Roma. Nós dois na cama, tomando café juntos... não sei como vamos fazer isso, mas a gente vai dar um jeito.

Ela voltou os olhos do cardápio que examinava na parede e sorriu.

— Roma, é? Qual plano de fuga é esse?

— Número um — respondi prontamente, sabendo que Roma era um dos sonhos dela.

O sorriso ficou mais largo.

— Vai aprender italiano?

— Não precisa. Consigo me comunicar muito bem com os olhos.

— Vai ter que aprender a falar os números, pelo menos, pra poder negociar com as pessoas quando estiver vendendo seus quadros na rua — ela provocou.

Levei a mão ao peito.

— Assim você me magoa, Sage. Imagino você frequentando uma universidade importante na minha fantasia, mas você me põe na rua.

— Ei, todos têm que começar de algum lugar. Eu começo com as aulas. Você na rua. Depois de um tempo, vou ter meu doutorado e você vai fazer exposições mundialmente famosas.

Convencido, fiz que sim.

— Certo, por mim tudo bem. Depois, acho que é só uma questão de tempo até levarmos os filhos pro treino de futebol.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Filhos?

— Calma, vai demorar alguns anos ainda. Mas imagine só. Sua inteligência, meu charme, nossa beleza... além das habilidades físicas dos dampiros, claro. — Ela pareceu mais divertida do que horrorizada com a ideia, o que era algo que eu nunca imaginaria ver. — Na verdade, nem é justo com as pessoas. Que bom que você está tomando anticoncepcional, porque é óbvio que o mundo não está preparado para nossos descendentes perfeitos.

— Óbvio — ela riu.

Nossos olhares se cruzaram e, como sempre, minha mente passou dos anticoncepcionais para o inevitável. Podia ser naquela viagem, pensei. Jill não era mais um problema e a noite anterior tinha provado que teríamos tempo de sobra. Pela maneira como ela me olhava fixamente, soube que estava pensando a mesma coisa. Será que ela estava pronta? Essa era a grande questão e eu esperaria o tempo que fosse necessário. Mas seria muito mais fácil se ela obviamente não desejasse tanto também.

— Não acredito! Ivashkov, é você?

Uma voz áspera me tirou do torpor. Devagar, abrindo o maldito sorriso que todos esperavam de mim, me voltei para a entrada da lanchonete. Lá estava Wesley Drozdov, uma das pessoas mais irritantes que já conhecera. E o pior era que ele estava com dois outros babacas da realeza, Lars Zeklos e Brent Badica.

Eu costumava beber com eles.

E os três estavam obviamente bêbados agora, a julgar pela maneira como cambalearam até nossa mesa. O cheiro de álcool emanando deles também os entregava. Wesley me deu um tapa nas costas, me fazendo ranger os dentes.

— Você voltou quando? — ele perguntou. — Por que não ligou?

— Ontem à noite. Quase não tive tempo — eu disse.

— Sério? Podia ter saído com a gente! A gente está na rua faz... — Brent se voltou para os outros, provavelmente porque a conta era difícil demais. — Seis horas. Abriu uma balada nova... depois Monique Szelsky deu uma festa insana e fomos os últimos a sair. Está na hora de comer um lanche e depois capotar.

Só então eles perceberam que eu não estava sozinho. Lars se aprumou e assumiu o ar pseudorresponsável que adotaria se seus pais chegassem mais cedo quando ele estava dando uma festa.

— Oi. — Ele estendeu a mão. — Sou Lars.

Sydney hesitou antes de apertar a mão dele, menos por medo de Moroi do que por desprezo por idiotas bêbados.

— Sydney Sage.

Os outros se aproximaram para apertar a mão dela e tive certeza de que aquele sorriso gélido de alquimista, que sugeria que ela só estava tolerando você e o qual costumava usar quando estávamos em público, era completamente sincero naquele momento.

— Fiquei sabendo que tinha humanos aqui. — Brent deu uma olhada na bochecha dela. — Você é um daqueles? Aqueles alqui... alquimistas? — Nem todos os Moroi sabiam quem eram os alquimistas.

— Isso — ela respondeu friamente.

— Ela está aqui pra fazer algum serviço ultrassecreto pra rainha. Um troço assim. — Ri e me recostei na cadeira. — Não faço ideia. Eles não me contaram as partes importantes. Só me pedem para ser o guia. Mas tem comida e bebida de graça, então vale a pena.

Wesley não tirava os olhos de Sydney.

— A gente vai sair de novo no pôr do sol. Quer vir? Você não vai conhecer a verdadeira vida Moroi se não for pra uma festa. Tem umas muito boas marcadas.

Sydney estava tão rígida que poderia ter se partido em duas.

— Não, obrigada. Preciso encontrar a rainha.

— Viu? — eu disse. — Não falei que esses alquimistas só pensam em trabalhar?

Lars me cutucou.

— Bom, mas você eu sei que não. Por que não sai com a gente? Cara, se umas meninas soubessem que você voltou, elas... — Ele mordeu a língua e lançou um olhar de desculpas para Sydney.

Nesse momento, o cozinheiro avisou que nosso pedido estava pronto. Sydney se levantou tão rápido que a cadeira quase caiu.

— Eu pego. — Ela saiu a passos largos sem dizer outra palavra ou olhar para trás. Os três a observaram, sem tentar esconder suas intenções. Sydney e eu já tínhamos passado por muitas coisas no nosso namoro, mas essa era a primeira vez que eu sentia tanto ódio de outros caras. Queria socar todos eles.

— Caramba — Wesley disse. — Eu não sabia que uma bunda podia ficar tão boa numa calça cáqui.

— Como é que você consegue ficar sentado aí com tanta calma? — Lars me perguntou.

Apoiei os pés em cima de uma cadeira vazia, entrelaçando os dedos atrás da cabeça. Com as mãos presas, talvez não tentasse enforcar ninguém.

— Como assim?

— Você entendeu o que eu quis dizer. — Lars balançou a cabeça. — Meu Deus, a gente estava agora mesmo com os fornecedores e não tinha nada, nadinha, como aquilo. São sobras da semana passada comparados a ela. A gente nunca pega nada tão bom assim.

— Nenhuma marquinha no pescoço — Brent suspirou, com os olhos arregalados. — Dá pra ver que ela nunca fez. Imagina como seria enfiar os dentes naquilo? Néctar dos deuses, cara. E aposto que ela adoraria. As mais certinhas sempre adoram.

Apertei as mãos com tanta força que enfiei as unhas na pele. Mesmo para imbecis como aqueles, sexo com uma humana era impensável. Mas beber de uma? Uma garota bonita que nunca tinha sido tocada antes? Era tão enlouquecedor quanto sexo, e os deixava malucos com um tipo diferente de desejo.

— Calminha aí — eu ri. — Sabem alguma coisa sobre alquimistas? Ela mal consegue ficar no mesmo ambiente que a gente. Vocês nunca conseguiriam encostar no pescoço dela.

Wesley se aproximou de mim.

— Leva essa menina pra sair com a gente depois! A rainha não vai ficar com ela a noite toda.

Eu tinha quase certeza que as unhas enfiadas nas minhas mãos já estavam tirando sangue a essa altura.

— Você ouviu uma palavra do que eu disse? Ela não é pro nosso bico.

Brent estava com a boca aberta e as presas à mostra, observando Sydney dar meia-volta com a bandeja.

— Não se a gente entretê-la.

— Você ainda está bêbado, cara. — Consegui abrir um sorriso, mas gargalhar era impossível.

— Vai ser fácil — ele sussurrou. — Fala que vai levar a menina para uma experiência cultural. Arranjo alguma coisa pra ela e depois a gente reveza. Adoraria ver a cara dela quando...

— Não — eu disse.

Lars fechou a cara.

— Você amoleceu, Ivashkov. Nunca se importou em entreter alguém antes.

Mas Sydney tinha chegado à mesa e os três tiveram o bom senso de calar a boca.

— Está ficando tarde — eu disse. — Melhor vocês comerem e descansarem para depois.

Eles entenderam a indireta e saíram rindo e cochichando em direção ao balcão, mas não sem antes dizer para eu ligar se mudasse de ideia. Respirei fundo para me acalmar e tentei demonstrar interesse pela rabanada para que Sydney não notasse meu humor.

— Desculpe — eu disse. — Amigos de outros tempos.

— O que ele quis dizer com “entreter”? — ela perguntou.

Xinguei por dentro. Então ela tinha ouvido essa última parte. Obviamente não tinha ouvido o resto, senão não estaria tão calma. Precisei escolher as palavras com cuidado. Se contasse uma mentira absoluta, poderia ter problemas se um dia ela descobrisse a verdade. No entanto, não podia ser totalmente sincero, então dei uma resposta mais ou menos próxima da verdade.

— É idiota. — Revirei os olhos e mordi um pedaço de bacon para ganhar tempo. — Babacas como eles acham divertido tentar recrutar humanos como novos fornecedores. Levam um pra sair, falam um monte de besteira e tentam conquistar o coitado.

Ela até deixou o garfo cair.

— Você está falando sério? — Ela olhou para os três por sobre o ombro, incrédula. — Eles... eles queriam me convencer a virar fornecedora? — Ela estava tão chocada com a ideia que nem pensou nas implicações de ter vampiros conversando abertamente sobre a nossa raça com humanos. Os fornecedores costumavam ser recrutados entre as pessoas à margem da sociedade, normalmente aquelas que já eram viciadas em alguma coisa e não tinham muito futuro. Morar com os Moroi era um avanço para elas. Membros normais e ativos da sociedade humana nunca eram abordados.

— Está tudo bem — prometi para ela. — Avisei que não vai rolar. Eles não vão tentar nada. Só acharam você bonita, o que é verdade, mas só sabem falar. Não vão nem lembrar disso quando ficarem sóbrios.

Mesmo assim, Sydney pareceu incomodada e cortou seu bolinho em silêncio.

— Sério — eu disse, querendo tocar a mão dela. — São uns imbecis. Um bando de caras insignificantes. Nunca deixaria que fizessem alguma coisa desse tipo com você.

Ela acabou fazendo que sim, e abriu um sorriso com tanto carinho e confiança que me arrependi de ter mentido.

— Eu sei — ela disse.

Engoli em seco e tentei não prestar atenção na mesa de Wesley e seus amigos, que ainda olhavam de soslaio para a gente.

— Vamos comer logo e passear. É a melhor hora pra fazer isso, com todo mundo dormindo. E talvez, talvez, a gente devesse buscar outro casaco pra mim.

Como eu esperava, a satisfação por estar certa a reanimou.

— Eu sabia! Sabia que você estava congelando.

— Sim, sim, você é um gênio, Sage. A gente pega o casaco, dá uma volta e depois pode ficar na cama como todo mundo por um tempo.

Não demorou para que aqueles idiotas bêbados virassem uma lembrança longínqua. Entramos escondidos na casa do meu pai e encontrei um velho casaco de inverno. Meu pai estava lá, dormindo, e nem soube que demos uma passadinha. Depois, me esforcei para mostrar toda a arquitetura antiga pela qual achava que ela se interessaria. Não sabia nenhum detalhe técnico, mas, como imaginava, ela sabia, e adorou tudo. Depois voltamos para o quarto dela e ficamos deitados juntos até a hora da reunião. Foi um dia maravilhoso.

De volta ao palácio, Lissa tinha mandado preparar um enorme café da manhã para todos. Era hora do jantar para mim e Sydney, mas não vimos mal em repetir, e ela sem dúvida não viu mal na quantidade de café descafeinado à disposição. As pessoas conversavam em grupos enquanto comiam, e Charlotte me chamou para o outro lado da sala, onde estava com Neil e Olive. Sorri e mexi os lábios, dizendo “talvez mais tarde”.

Rose veio até nós, carregando um prato com cinco rosquinhas. O metabolismo dos dampiros era doido, e comecei a entender os estranhos problemas de Sydney com seu corpo considerando que passava tanto tempo perto de gente que podia comer daquele jeito e não engordar.

— Teve um bom dia? — Rose perguntou. — Imagino que não dormiu o dia todo como a gente.

Sydney riu.

— Não. Adrian também não. Ele foi convertido para o horário de Palm Springs, então me levou para dar uma volta e me mostrou todas as maravilhas da corte Moroi.

Rose me lançou um olhar contente e orgulhoso, como se mal pudesse acreditar que eu tivesse feito tamanha gentileza.

— Que bom. Tomara que seja mais um passo para convencer você de que nem todos somos criaturas do inferno sedentas por sangue.

Sydney começou a rir, mas então ficou com ar pensativo.

— Bom... nem todos.

— O que quer dizer? — Rose perguntou, as palavras abafadas por uma rosquinha de chocolate.

— Não é nada — Sydney disse. — Só uns caras bêbados que a gente encontrou que queriam... o que eles disseram, Adrian? “Entreter”?

Rose quase engasgou com a rosquinha.

— Eles fizeram o quê?

— Eles não fizeram nada — respondi, com cautela. Uma sensação desagradável surgiu em meu peito e torci para que mudássemos de assuntou ou que Lissa começasse logo os trabalhos.

— Quem teve a coragem de sugerir uma coisa dessas? — Reconheci aquele olhar de Rose que dizia que seu punho tinha um encontro marcado com a cara de alguém. — Quem são os caras?

Sydney pareceu tocada pela preocupação.

— Não é nada, e Adrian tem razão. Eles não fizeram nada. Ele assustou os idiotas. Além disso, não conseguiriam me convencer a fazer nada.

Eu estava me sentindo mal. Olhei ao redor da sala.

— Ei, cadê o Abe? Ele não tinha que trazer os ingredientes para Sydney?

Rose nem me deu ouvidos. Seu olhar estava cravado em Sydney.

— Você sabe o que é “entreter”?

— Sim — ela disse, sem muita certeza. — É quando tentam convencer você a virar um fornecedor.

— Eu não diria que “convencer” é a palavra certa — Rose grunhiu. — É quando os Moroi drogam um humano pra beber o sangue dele. Em geral, humana, já que costumam ser homens por trás disso. A pessoa apaga por causa da droga e não lembra de nada depois, apesar dos machucados no pescoço. É basicamente estupro pra beber sangue.

Sydney ficou tão pálida que poderia ser confundia com um dos Moroi.

— Como ass...

Rose pareceu se tocar de como aquilo poderia ser traumatizante para uma alquimista e tentou suavizar um pouco.

— Quase nunca acontece — ela disse rapidamente. — E nunca aconteceria aqui, ainda mais se você tem Adrian como seu defensor. E eu também.

Sydney não conseguiu formular uma resposta.

Alguém chamou Rose e ela mordeu o lábio, olhando preocupada para mim e para Sydney.

— Olha, desculpa. Eu não devia ter falado nada. Não entre em pânico. Não tem por que se preocupar. — Ela tocou o braço de Sydney, que estremeceu e deu um passo para trás. Rose ouviu seu nome de novo e olhou para mim. — Converse com ela. Já volto.

Ela saiu correndo e dei um passo em direção a Sydney, que, felizmente, não se afastou de mim.

— Ela tem razão, não tem...

Sydney estreitou os olhos.

— Por que mentiu pra mim?

Apontei para ela.

— Exatamente por isso. Não queria assustar você.

— Você devia ter me explicado direito — ela disse. — Sou forte o bastante pra lidar com uma coisa dessas.

— Sei que é — eu disse, com carinho. — Eu é que não sou forte o bastante pra contar coisas horríveis pra você. Imaginei que, no fundo, fosse a mesma coisa: um bando de cretinos se aproveitando de alguém.

Ela fez que sim, e prendi a respiração, torcendo para que a conversa acabasse por ali. Então, aquela maldita memória dela entrou em ação.

— Um deles disse que você nunca se importara com aquilo antes. Você já entrou nessa? — Ela ficou pálida de repente. — Já fez isso?

O mundo girou ao meu redor. Desejei ter o espírito de volta para poder compeli-la a conversar sobre O grande Gatsby. Em vez disso, tomei coragem e dei a resposta mais concisa possível:

— Mais ou menos.


16

 

Sydney

— “MAIS OU MENOS”? — perguntei. — Como dá pra... fazer uma coisa dessas “mais ou menos”?

Eu não conseguia entrar em detalhes. O que Rose havia acabado de descrever era monstruoso. Era o tipo de coisa com que os alquimistas tinham pesadelos, o tipo de coisa que confirmava todas as alegações de que eles eram criaturas perversas e sombrias.

Adrian olhou ao redor, mas todos estavam ocupados em suas próprias conversas.

— Não foi bem assim. Nunca droguei ninguém. Faz muito tempo, e foi só uma vez, quando eu era muito mais jovem e idiota. Estávamos numa balada, e acabamos saindo com umas humanas. Elas estavam bebendo muito e a gente também, e tinha uma que gostou de mim. Ela ficou muito bêbada, uma coisa levou à outra...

— ... e você bebeu sangue dela — completei. — Quando ela nem sabia o que estava acontecendo.

— Não bebi muito. — Pude ver pela sua expressão que até ele sabia que era uma desculpa esfarrapada. — E, tecnicamente, foi ela quem se drogou.

Engoli em seco e tentei responder de maneira objetiva, como uma alquimista.

— Mesmo assim, foi extremamente descuidado. Vocês poderiam ter exposto o mundo dos vampiros! Como podemos fazer nosso trabalho se vocês saem por aí e simplesmente se mostram para o mundo?

— Acho que ela não lembrou de nada depois.

— Isso é quase pior. — Minha objetividade se reduziu a pó. — O que você fez... como você pôde? Não importa se não era uma droga! Na verdade, era sim. Álcool é tão ruim quanto qualquer coisa que você poderia ter dado para ela. Você se aproveitou de uma pessoa que não estava no controle de si mesma. Foi uma violação.

Uma expressão de dor perpassou o rosto dele.

— Caramba, Sydney. Eu não estava no controle de mim mesmo.

— E isso justifica? — murmurei, furiosa. — E mesmo se foi “só uma vez”, quantas vezes você fez vista grossa enquanto seus amigos faziam coisas muito piores?

— Eles não são mais meus amigos. E você realmente acha que eu poderia ter impedido?

— Chegou a tentar alguma vez? — perguntei, furiosa.

— Eu era outra pessoa naquela época! — Percebendo que estava quase gritando, Adrian deu um passo à frente e abaixou a voz. — Mais que qualquer pessoa, você deveria entender. Há menos de um ano fazia o sinal contra o mal quando a gente estava por perto e não apertava a mão de um Moroi porque achava que éramos filhos de Satã.

— É, e talvez eu estivesse certa. E nem tente comparar superstição com... com... estupro de sangue.

Ele pestanejou.

— Não estou falando que é a mesma coisa. Só estou dizendo que as pessoas mudam. A gente cresce e aprende. Você sabe que tipo de pessoa eu sou. Sabe que eu nem sonharia em fazer esse tipo de coisa agora.

— Sei? — Tentei invocar o máximo de indignação possível porque, senão, talvez começasse a chorar. Eu me recusava a perder o controle em uma sala cheia de Moroi. — Está dizendo que não beberia meu sangue se tivesse a chance? Que nem pensa sobre isso?

— Nunca. — Ele falou com tanta certeza que quase acreditei nele. — A única coisa que quero do seu corpo é... enfim, não seu sangue. Você sabe disso.

Eu não sabia mais. Virei o rosto, tentando me acalmar com aquela revelação que desequilibrara meu mundo. Fazia tempo que eu tinha aceitado o extenso passado romântico dele. Surpreendentemente, não me incomodava mais. Tudo aquilo tinha acontecido antes de nos conhecermos. Aquelas meninas não faziam mais parte da vida dele. Ele não as amava. Era livre na época e, se quisesse ficar com garotas que também queriam, era problema dele.

No entanto... ali estava ele, admitindo que havia ficado com uma menina que não queria. Na verdade, “ficar” era um eufemismo para o que ele havia feito. Beber sangue era o maior pecado que os Moroi cometiam aos olhos alquimistas. Eu tinha aceitado esse fato, aceitado que fazia parte da vida deles, mas era uma coisa que ainda me deixava incomodada. Com certeza não conseguia assistir, e sempre ficava aliviada quando Jill e Adrian terminavam na mansão de Clarence. Agora, não conseguia parar de pensar naquela coisa horrível que ele havia feito. De repente, ele tinha encarnado todos os medos alquimistas sobre monstros à espreita de vítimas indefesas.

— Sydney...

A tristeza em sua voz era de partir o coração, mas eu não tinha palavras de consolo para dar a ele. Não conseguia nem me consolar. Ele disse que havia mudado, mas será que era o bastante? Será que poderia compensar algo tão hediondo?

— Desculpem o atraso. — Abe entrou a passos largos com um dampiro que eu não conhecia, desviando minha atenção do rosto angustiado de Adrian. Ele estava segurando uma caixa e vestindo um cachecol de seda azul-esverdeado. Devia adorar que era inverno. — Algumas dessas coisas não são fáceis de encontrar.

— Mas conseguiu tudo? — Lissa perguntou, ansiosa.

— Claro. — Abe apontou dramaticamente para o dampiro ao seu lado. — Inclusive o nosso tatuador, Horace. Estamos prontos quando você estiver.

Foi só quando todos os olhos se voltaram para mim que percebi que era comigo que ele estava falando. Por um momento, não entendi nada. Por que todos estavam me encarando? O que eu precisava fazer? As únicas coisas em que conseguia pensar eram Adrian e aquela confissão sombria. Então, aos poucos, a cientista dentro de mim foi tomando conta. Claro. A tinta. Medições, substâncias químicas. Isso eu conseguia fazer. Não havia ambiguidade moral nenhuma nisso.

Endireitando a postura, fui até Abe e disse com uma voz fria que não usava fazia muito tempo:

— Deixe-me ver o que você trouxe.

Ele colocou os materiais em uma mesa grande. Examinei um por um com olhar crítico e assenti, satisfeita.

— Está tudo aqui.

— O que você precisa que a gente faça? — ele perguntou.

— Não me atrapalhem.

Puxei um banquinho de madeira e peguei o celular, que continha a fórmula exata e as instruções para fazer a tinta alquimista. Caiu um silêncio pesado e tentei ignorar o fato de que tinha uma plateia. Fazia tempo que não trabalhava com substâncias alquimistas, mas exigiam a mesma concentração e cuidado que os ingredientes de um feitiço. Eu apenas estava facilitando reações químicas, em vez de reações mágicas.

Era um trabalho simples, mas minhas mãos tremiam enquanto eu media e misturava as substâncias. Precisava concentrar minha mente na tarefa, e não no meu coração partido. Quando perceberam que aquilo não ia levar cinco minutos, se dispersaram e ficaram conversando baixinho entre si, finalmente me dando um pouco de privacidade. Rose e Dimitri, pensando que eu estava incomodada por ajudar os Moroi, pararam uma vez para dizer como era incrível o que eu estava fazendo. Respondi o elogio com um curto aceno de cabeça.

Sonya passou na mesa quando eu estava terminando e demonstrou um sentimento parecido.

— Isso pode ser muito útil pra gente, Sydney.

Levantei os olhos rapidamente.

— Eu sei. Fico feliz em ajudar.

Ela viu alguma coisa no meu rosto que a pegou de surpresa.

— Qual é o problema?

— Nada. — Abaixei os olhos de novo. — Só estar na corte e num horário bizarro.

— É mais do que isso. Acha que não consigo ver?

Sim, claro que ela conseguia, pensei, amargurada. Ela devia ver o sofrimento na minha aura porque era isso que fazia: olhava dentro das pessoas, quisessem elas ou não. Eu estava aprendendo que limites eram uma coisa discutível entre os Moroi.

— Vi você conversando com Adrian — ela continuou. — O que ele falou pra você? — A voz dela vacilou. — Sydney, vi algumas coisas entre vocês que...

Levantei os olhos outra vez e minha raiva de antes explodiu.

— Se quer ajudar, me deixe trabalhar e esqueça o que acha que viu.

Ela se assustou, e senti uma pontinha de arrependimento. Sonya era minha amiga e devia ter boas intenções. Eu só não queria aquelas boas intenções agora e, depois de alguns segundos, ela desistiu.

Completei a suspensão e afastei o frasco para admirar a substância que havia criado. Estava tão perfeita quanto possível. Os outros voltaram para perto, fazendo com que me sentisse oprimida e encurralada.

— É isso? — Neil perguntou. — Pode me tatuar agora?

— Não. — Apontei para o frasco de sangue intocado, ainda envolto nos anéis de prata. — A suspensão precisa descansar por um tempo antes que a gente possa misturar tudo.

Ficou claro que eles não estavam esperando por essa.

— Quanto tempo? — Abe perguntou.

— Algumas horas devem bastar.

Sonya soltou um suspiro decepcionado.

— A cada hora, o espírito enfraquece. — Ela se voltou para Adrian. — Acha que o sangue ainda tem espírito suficiente pra ser útil?

— Precisa ter — ele respondeu, enigmático.

— Não há nada que eu possa fazer pra acelerar o processo — expliquei. — A menos que vocês queiram mudar o que a gente faz há séculos. — Eu estava sendo rude, mas não conseguia evitar. — Vou para meu quarto descansar um pouco. Volto quando estiver na hora do próximo passo.

— Quer que eu vá com você? — Dimitri perguntou. Meu mau humor estava transparecendo para todos.

Levantei e, cuidadosamente, guardei os ingredientes repetidos de volta na caixa.

— Obrigada, mas sei o caminho. — Eu preferia assumir os riscos de caminhar pela corte sozinha do que lidar com mais conselhos bem-intencionados. — Mas... Abe, se tiver um minuto, queria fazer uma pergunta.

Algumas pessoas, especialmente Abe, foram pegas de surpresa com o pedido. No entanto, ele logo escondeu o choque e se deixou levar pela curiosidade.

— É claro. Espere, deixe que eu carrego pra você. Ou então, se quiser deixar aí, eu cuido disso, já que você não precisou do segundo conjunto.

Ergui o queixo da maneira arrogante dos alquimistas.

— Esses ingredientes são usados para um dos nossos objetivos mais importantes. Não posso deixá-los pra trás.

Saímos, passando por Adrian e Charlotte perto da entrada. Ele me olhou com sofrimento e mal ouvia Charlotte, que lhe contava, com ar preocupado, que Olive e Neil tinham ficado juntos até tarde. Desviei o olhar dele, com medo do que pudesse revelar.

A noite estava fria, agradável e cheia de estrelas enquanto Abe me levava até o prédio dos hóspedes.

— Então — ele disse. — A que devo o prazer da companhia?

— Os ingredientes que você me deu. Um deles era sangue Moroi.

— Estava na sua lista, embora parecesse estranho — ele acrescentou. — Quer dizer, sei que costuma ser usado na tinta alquimista, mas hoje já tínhamos uma amostra de sangue específica para usar. Na verdade, era o objetivo de tudo isso.

Abe, sempre esperto. Nada escapava dele.

— Está encantado? — perguntei.

— Não. Você não deu nenhuma outra instrução, então só peguei uma amostra comum. Como a gente não estava fazendo a tinta normal, pensei que não precisasse. De qualquer modo, nem saberia que tipo de compulsão inserir.

— Já fez isso antes? — Havia chegado a hora da verdade. Abe nunca pensaria que era uma questão hipotética. — Um encanto de compulsão para os alquimistas?

Silêncio. Ele sabia que algo estava por vir, mas não sabia o quê.

— Não, nunca. Mas entendo os princípios. Um feitiço de compulsão relativamente simples estimulando discrição e lealdade ao grupo.

— Relativamente simples — repeti. Era um eufemismo.

Ele riu.

— Para um usuário de terra, sim.

— Então, acha que conseguiria, mesmo nunca tendo feito um? Poderia fazer um com essas amostras?

— Sim, poderia... — Já dava para ver meu prédio e ele parou de repente. — Srta. Sage, deixe-me ver se entendi corretamente. Você está me pedindo para colocar um feitiço de compulsão nessas amostras de sangue. E o que não está pedindo explicitamente, mas também deseja, é que eu não conte para os outros alquimistas.

Chutei um galho de árvore com a bota. Uma tempestade recente devia ter derrubado alguns, porque eles estavam espalhados pelas calçadas e paralelepípedos.

— Você é esperto demais para o seu próprio bem.

— Você também. E é isso que torna esse pedido absolutamente fascinante. E deixe-me adivinhar. Você não está levando os ingredientes extras só para ter certeza de que vão voltar para as mãos dos alquimistas. — Seus olhos estavam sombrios e desconfiados sob a luz fraca. — Quem vai tentar compelir? Algum menino? Compulsões de amor quase nunca funcionam.

— Não! Não é nada desse tipo. Só preciso de um encanto de compulsão simples, que sirva para todos os propósitos, como o que você faria numa tinta normal. Do resto cuido eu.

— Do “resto” cuida você — ele disse, visivelmente interessado. — E o “resto” seria a parte em que a magia na tinta é ativada para inserir seu comando em alguém.

— Consegue fazer ou não? — perguntei. Bateu um vento mais forte, derrubando alguns flocos de neve de uma árvore próxima.

— Ah, posso fazer agora mesmo — ele disse, alegre. — A questão é: o que ganho em troca?

Soltei um suspiro.

— Sabia que chegaria a esse ponto. Sempre tem que haver alguma vantagem? Você não pode fazer as coisas só por gentileza?

— Minha querida, faço muitas coisas por gentileza. O que não faço é deixar escapar uma chance dessas. Acha que cheguei até onde estou dando de mão beijada coisas que podem resultar em poder e conhecimento?

— Poder e conhecimento? — Balancei a cabeça. — Você está pedindo coisas que estão além da minha capacidade.

— Explique para mim por que está interessada numa tatuagem secreta. É um pagamento mais do que suficiente.

Hesitei. Abe não me denunciaria para os alquimistas, mas de jeito nenhum eu contaria a ele sobre o movimento rebelde de Marcus. Esse era um segredo muito bem guardado.

— Não estou tentando controlar ninguém. Faz parte de um experimento, puramente científico. É a mais pura verdade. Mas não posso falar nada além disso. Esse é todo o conhecimento que tenho. Se quiser negociar outro pagamento, fique à vontade. Mas vamos fazer isso em um lugar mais quente.

Fiquei tremendo e me aconcheguei no casaco enquanto Abe decidia. Finalmente, ele disse, em voz baixa:

— Já sei mais do que você imagina. Sei que Sydney Sage, benfeitora e queridinha dos alquimistas, está trabalhando em projetos clandestinos contrários às diretrizes de sua ordem. É pagamento mais do que suficiente. Me dê seu sangue. As amostras, quero dizer.

Eu me ajoelhei no chão e abri a caixa.

— E o que vai fazer com o que sabe?

— Não vou anunciar para o resto do mundo, se é disso que tem medo. — Ele fez uma pausa e riu. — Mas claro que não tem. Nunca teria me pedido para fazer esse feitiço se achasse que eu denunciaria você.

Entreguei os dois frascos de sangue Moroi fechados para ele. Eu só precisava de um, mas não queria desperdiçar o outro.

— Não — concordei. — Não pensei que me denunciaria. Nem pensei que ficaria chocado.

— Não estou chocado, só surpreso. — Ele ergueu um dos frascos e vi rugas de concentração surgirem em seu rosto enquanto se focava no sangue. Não senti nada com minhas habilidades humanas e, como a magia de terra afetava diretamente a substância do sangue, não haveria uma explosão luminosa de fogo ou água como a que se veria com um dos outros elementos. — Pronto. — Ele me devolveu o frasco e se concentrou no segundo.

— Você não respondeu a minha pergunta — eu o lembrei.

— Porque não sei o que vou fazer — ele disse, alguns segundos depois. Recebi o segundo frasco das mãos dele. — No fim das contas, imagino que vá servir ao mesmo propósito pelo qual uso todo o meu conhecimento.

— Seu próprio bem?

— O bem dos meus entes queridos.

Fiquei sem palavras. Definitivamente não era a resposta que eu esperaria de Abe “Zmey” Mazur. Ele deu um passo à frente para me olhar diretamente nos olhos.

— Você me acha manipulador e ardiloso, srta. Sage? É tudo pelo bem deles. Pelo bem dos meus entes queridos, em primeiro lugar. Do meu povo, em segundo. E, sim, também pelo meu próprio bem, mas não pense por um segundo que não me sacrificaria se pudesse salvar alguém que amo. E não pense, por um instante, que não faria coisas terríveis e abomináveis para salvar alguém que amo. — Quando ele recuou, percebi que eu estava prendendo a respiração. — Boa sorte com seu experimento. Me avise se eu puder ajudar em mais alguma coisa.

Eu o observei ir embora no meio da noite, com suas palavras ecoando na minha cabeça. Quando desapareceu na escuridão, voltei para o meu quarto com a caixa. Lá, o encontro sinistro com Abe desapareceu da minha mente quando problemas incrivelmente maiores desabaram com tudo em cima de mim.

Adrian.

Adrian, que escondera de mim que havia se aproveitado de uma menina humana.

Adrian, em quem eu confiava tanto.

Me joguei na cama e esperei as lágrimas. Mas elas não vieram. A tempestade de emoções de antes havia se transformado num vazio. Eu me sentia fria, com um buraco dentro do peito e as engrenagens da razão girando no cérebro. Será que Adrian estava certo? Será que era errado responsabilizá-lo por algo que ele havia feito tanto tempo antes? Havíamos nos tornado pessoas diferentes, e quem era eu para julgar, sendo que tinha armado um ato de vingança que custara o olho de Keith? Eu não era nenhuma santa.

Mas Keith havia cometido um crime terrível, e a menina cujo sangue Adrian bebera não tinha feito nada além de estar no lugar errado na hora errada. Por que tinha de ser aquilo? Por que tinha de ser com sangue, a coisa que tocava meus medos mais profundos?

Ele me mandou três mensagens no Celular do Amor, perguntando se podia passar para conversar. Não respondi. Pelo menos ele teve o bom senso de não aparecer sem avisar. Passei o resto do intervalo na cama, com Pulinho enrolado sobre meu peito, em formato de estátua.

Quando voltei para o palácio, estava me sentindo mais calma, em grande parte porque tinha decidido ignorar meus sentimentos. A cena que encontrei foi parecida, embora algumas pessoas tivessem saído durante o intervalo. Adrian e Charlotte estavam sentados juntos, conversando. Ela parecia radiante e, embora ele estivesse sorrindo, eu o conhecia bem o bastante para saber que era um sorriso falso. Nossos olhares se cruzaram por um instante, e então fui rapidamente até a mesa.

O resto do procedimento era simples: acrescentar o sangue à suspensão que eu havia criado. O líquido ficou prateado, rendendo um grunhido surpreso de Abe.

— Não era para ser dourado?

Hesitei.

— Mudei essa parte. Prata combina mais com a magia Moroi. Pensei que seria melhor.

Os olhos de Sonya se arregalaram de repente.

— O espírito está vazando agora que está fora da proteção! Me ajudem!

Charlotte e Lissa correram para o lado dela, assumindo uma expressão concentrada. Percebi que elas estavam usando magia para tentar proteger o frasco. Não tinha certeza se teriam sorte, mas sabia o bastante para entender que não podíamos perder tempo.

— Rápido — eu disse a Horace, o tatuador.

Ele tinha uma máquina parecida com a de Wolfe e colocou a tinta na agulha. Neil se sentou ao lado dele e Olive ficou por perto, observando.

— Precisa ser no rosto? — ele perguntou.

— Não — respondi. — A gente só faz no rosto para identificarmos uns aos outros.

Depois de um momento de hesitação, Neil tirou a camiseta, revelando um físico musculoso. Ele apontou para o braço direito.

— Aqui.

Horace desceu a agulha e então pareceu desconcertado.

— O que eu desenho?

Houve alguns segundos de silêncio cômico.

— O que for mais rápido — eu disse.

— Eu gostaria de uma cruz — Neil disse, hesitante. Então retomou a máscara impassível. — Mas faça o que for preciso.

— Faça uma cruz com linhas simples — Adrian disse inesperadamente. — Depois faço um desenho ao redor e você pode usar tinta comum para enfeitar.

Até eu fiquei surpresa com a oferta, considerando como Neil costumava deixar Adrian irritado. Horace já estava em ação. Mesmo com um desenho simples, tatuar não era algo que podia ser feito às pressas. Ficou claro que ele estava trabalhando o mais rapidamente possível, mas pude ver pelo rosto tenso das usuárias de espírito que elas estavam perdendo o controle. Fiquei tão concentrada no drama que até me esqueci de Adrian. Meu mundo se reduziu a cada gota de tinta que entrava na pele de Neil.

Quando Horace terminou, todos pareciam prestes a desmaiar de exaustão pelo estresse. Lissa apoiou a cabeça no ombro de Christian, e Sonya, mais pálida que de costume, se afundou na minha cadeira.

— Ainda tinha magia na tinta quando você terminou — ela disse. — Mas não consigo ver mais nada. Não tenho como saber se funcionou... exceto pelo jeito óbvio.

De repente, me dei conta dos paralelos entre Neil e Trey. Ambos tinham sido marcados com tinta experimental para protegê-los de poderes insidiosos... mas ninguém sabia de verdade se os procedimentos haviam dado certo. A possibilidade de solucionar o mistério de Trey estava em uma caixa no meu quarto. A resposta para o de Neil, infelizmente, dependia dos dentes de um Strigoi.

Sonya fechou os olhos e pousou a mão na testa. Eu mal conseguia imaginar o que ela estava sentindo. Proteger os Moroi dos Strigoi tinha virado uma obsessão para ela, um projeto com implicações profundamente pessoais. Devia ser incrível para ela estar próxima da possível conclusão de seu trabalho. De repente, ela abriu os olhos e os fixou em Adrian, parecendo se dar conta de alguma coisa.

— Por que não ajudou a gente? Poderíamos ter salvado mais magia. Você não fez nada.

— Ela tem razão — Lissa disse, surpresa. — Só agora percebi. Fomos só nós três.

Todos se voltaram para Adrian e até eu fiquei surpresa. Aquilo tinha virado um projeto pessoal para ele também, ainda mais considerando seu papel importante em salvar o sangue de Olive. Por que tinha se recusado a ajudar agora? Havia conflito em seu rosto. Por fim, ele suspirou, resignado.

— Não ajudei porque... porque não consigo.

Lissa se desencostou de Christian, endireitando o corpo.

— E isso quer dizer o que, exatamente?

Ele abriu um sorriso melancólico.

— Quer dizer, prima, que faz três semanas que estou tomando estabilizadores de humor e não tenho mais acesso ao espírito.

Meu coração parou.

— Por que... por que você faria uma coisa dessas? — Lissa perguntou.

— Você sabe por quê — ele replicou. — Já fez isso uma vez. Ou uma coisa parecida. Quero minha vida de volta. Não quero mais ser controlado pelo espírito. Você sabe do que ele é capaz. — Ele olhou para Lissa, Sonya e Charlotte, uma por uma. — Todas vocês sabem.

Pela expressão angustiada no rosto delas, sabiam mesmo. Mas ficou claro que também estavam confusas.

— Por que foi fazer isso agora? — Sonya exclamou. — Quando sabe que a gente precisa de você?

Ele se virou para ela, defensivo.

— E eu lá ia saber? Fiz a minha parte... uma parte grande. Não fazia ideia que as coisas chegariam a esse ponto. Além do mais, até quando deveria ter esperado? Até estar prestes a pular de uma ponte?

As palavras atingiram Sonya como um tapa na cara.

— Claro que não. Mas... existem outras formas de lidar...

Adrian riu.

— Ah, é? Intoxicação alcoólica? Automutilação? Virar Strigoi?

Era uma coisa cruel de se dizer a Lissa e Sonya, mas nenhuma delas conseguiu formular um argumento. Quem respondeu foi Charlotte, com confusão nos olhos cinzentos.

— Mas você aguenta ficar longe da magia? Da sensação? Não sente falta?

— Sinto — ele respondeu com sinceridade. — Mas outras coisas na minha vida são mais importantes.

Minhas pernas fraquejaram e dei um passo para trás, afundando numa poltrona acolchoada. Apertei as mão para que parassem de tremer.

— Desculpe por não ter ajudado dessa vez, mas nenhuma de vocês tem o direito de me julgar — Adrian acrescentou. Havia uma força e uma convicção em sua voz que duvidei que alguma delas tivesse ouvido antes. — A vida é minha e nada que vocês digam vai me fazer mudar de ideia, a menos que Sua Majestade queira dar um comando real para me impedir.

Lissa empalideceu.

— Claro que não.

Tudo ficou meio estranho depois disso.

Mantive distância dos outros e, dessa vez, ninguém pareceu perceber ou se importar. Adrian virou a nova atração. Sonya e Lissa pediram desculpas, e Charlotte tentou conversar com ele sobre como era ficar sem o espírito. Ele me lançou mais um olhar angustiado do outro lado da sala, mas precisei desviar o rosto. Estava confusa demais.

E, com o passar da noite, ficou claro que nenhum deles o deixaria em paz tão cedo. As usuárias de espírito queriam saber mais sobre os medicamentos. Todos os outros queriam saber qual seria o próximo passo com Neil. Meu trabalho estava feito e, quando a exaustão começou a pesar, saí da sala discretamente para dormir um pouco. Eles fariam planos para a viagem do dia seguinte e ninguém precisaria de mim. O bom de ser obrigada a seguir aquele horário era que meu corpo cansado não deixaria minha mente ficar acordada com dúvidas. E elas eram muitas. Eu precisava entender o Adrian do passado. Precisava entender o Adrian que eu amava. E precisava entender por que ele não havia me contado que estava enfrentando um de seus maiores medos tomando os remédios.

Lágrimas brotaram nos cantos dos meus olhos, mas congelaram. Parei no meio de uma passagem ladeada de árvores ornamentais e tentei limpar o rosto da melhor maneira possível.

— Ei, você está bem?

Levantei a cabeça de repente ao som da voz desconhecida. Bom, não totalmente desconhecida. Um rapaz se materializou por entre as árvores e, segundos depois, outro apareceu. Cansada e fragilizada emocionalmente, demorei para reconhecê-los. Então, percebi que eram os amigos — ou, enfim, ex-amigos — de Adrian. Meu corpo ficou tenso, subitamente acordada e alerta.

E morrendo de medo.

— Sydney, não é? — O primeiro cara falou. — Eu sou...

— Wesley — eu disse. — Eu lembro.

— Lembra? Que ótimo. Então deve se lembrar do Lars também.

A luz tênue de um poste à distância, filtrada pelos galhos da árvore acima de nós, iluminava um sorriso que ele devia achar simpático. Não precisei me aproximar para saber que ele estava bêbado, assim como estivera no dia anterior. Adrian era assim antigamente? Acordava e passava de um estado de embriaguez para outro? Era uma vida patética e lastimável.

— Para onde está indo? — Lars perguntou. — Precisa de ajuda?

— Estou voltando pro quarto para dormir um pouco. — Apontei para o prédio, que de repente parecia muito distante. — Logo ali.

— Dormir? — Lars riu. — É verdade. Você está num horário invertido. Ouça, por que não vem com a gente? Aproveite a vida enquanto está aqui. A gente arranja um pouco de cafeína pra você e a gente vai pra alguma festa.

— Ou, se preferir um lugar mais tranquilo, a gente pode ir pra minha casa conversar. — Esse foi Wesley. Ele parecia ter dificuldades para fingir ser sério e responsável.

— Não, obrigada — respondi, dando dois passos em direção ao prédio. Infelizmente, deviam faltar mais uns duzentos. — Estou muito cansada.

Lars deu um cutucão em Wesley.

— Viu, é isso que acontece quando Adrian é o seu guia. Você se contenta com tédio.

— Adrian não é entediante — defendi. — E, pelo que ouvi dizer, também não era antigamente.

Wesley riu.

— Mesmo naquela época ele nunca levou a vida louca que a gente leva.

— A gente pode contar tudo sobre ele se você quiser — Lars exclamou, aparentemente se achando inspirado. Ele lançou uma olhadela rápida atrás de mim e depois voltou a se concentrar nos meus olhos. — A gente conta tudo que você quiser saber. Vamos pra casa do Wesley.

— Não, obrigada — repeti. Eu já sabia tudo que precisava sobre Adrian, principalmente que ele não era nada parecido com aqueles imbecis. — Preciso ir. — Não me esforcei nem um pouco para ser educada e comecei a caminhar rápido na direção do prédio.

— Ei, espere — Lars exclamou, se movendo a uma velocidade impressionante para alguém tão bêbado. Ele me segurou pelo braço na mesma hora em que dois pensamentos alarmantes passaram pela minha cabeça. Por que eles não param de olhar atrás de mim? E não havia três deles?

Comecei a dar meia-volta, no mesmo momento em que o terceiro surgiu atrás de mim e cobriu minha boca. A fração de segundo de antecipação foi o bastante para acionar o treinamento de Wolfe. Dei um chute para trás em Brent e tive a satisfação de ouvir um gemido. Sua mão escorregou da minha boca, me dando a chance de colocar em prática outra tática de Wolfe: gritar por socorro.

Velhos medos alquimistas, inculcados em mim desde o berço, vieram à tona. Ali estava o mal de que sempre fora avisada: vampiros correndo atrás de mim no meio da noite. Criaturas do inferno, loucas para beber meu sangue agora que eu estava sozinha e vulnerável. Por um momento, o medo e o pânico me enfraqueceram. Mas então uma voz firme surgiu dentro de mim: Você não é vulnerável. Ainda tem alternativas. Agora, CORRE! Mas, quando tentei correr, descobri que Lars estava me segurando com uma força surpreendente. Wesley apareceu do outro lado e tentou ajudar os amigos a me conter.

— A gente precisa dar o fora daqui — Brent exclamou.

— Não — Wesley disse. — Ainda dá tempo. A gente pode ir pra minha casa e depois toma cuidado pra que ela não se lem...

Você não é vulnerável.

A magia se agitou dentro de mim, subindo em direção à arvore acima de nós. Um dos galhos, já pesado com a neve, cedeu facilmente ao meu poder e caiu com tudo na cabeça de Lars. Foi o bastante para ele me soltar, e consegui me afastar. Wesley estava entre mim e o prédio, então corri na direção oposta, sabendo que só precisava ficar longe por tempo suficiente até algum guardião aparecer. Alguém devia ter me ouvido.

E, realmente, alguém tinha. Adrian surgiu perto da trilha em que eu estava correndo, segurando um galho parecido com o que eu havia acabado de derrubar. Parei enquanto ele se punha entre mim e os outros três, que foram obrigados a parar a perseguição.

— O que você está fazendo? — Wesley perguntou.

— Praticando árvores marciais. Você nunca deve ter ouvido falar, mas pode crer que é o bastante pra acabar com a sua raça e tirar esse sorrisinho convencido da sua boca.

Um comentário típico de Adrian, mesmo em uma situação medonha como aquela. No entanto, apesar do tom irônico, seu olhar estava duro de um jeito que raramente ficava. Era um olhar que dizia que, mesmo se houvesse um exército diante de nós, ele continuaria desafiando os soldados com um galho de árvore se tentassem encostar em mim. A tensão encheu o ar entre nós enquanto nossos adversários contemplavam seu próximo passo. Mesmo bêbados e sem coordenação, eles estavam em maior número e teriam vantagem se decidissem vir para cima de nós com força bruta. Adrian e eu tínhamos um pouco do treinamento de Wolfe — e a “árvore marcial” dele — para nos defender, mas, mesmo assim, poderia ser uma briga feia. Invoquei mais magia dentro de mim, mas me controlei para não usá-la por enquanto. A queda de um galho poderia ser vista como um fenômeno natural. Uma bola de fogo não.

— Estou fora — Lars disse, se levantando cambaleante. Sem demorar, ele deu meia-volta e saiu correndo, deixando Wesley e Brent para trás.

— Você realmente está me ameaçando com um galho? — Brent exclamou. — Não era pra você ser um grande usuário de espírito malvado? Não devia fazer minha cabeça girar? Meu Deus, sabia que você tinha mudado, mas por essa eu não esperava.

— Ele não mudou — Wesley disse, recuperando a coragem. — Adrian Ivashkov não suja as mãos. Ele está blefando. Pegue a menina.

— Não toque nela — Adrian avisou, quando Brent deu um passo à frente.

— Ah, vá, Adrian — Wesley bajulou. — Abaixa esse galho e vem com a gente. A gente deixa você dar a primeira mordida.

Brent lançou um olhar espantado para ele.

— Deixa?

— Ele pode usar uma compulsão de espírito pesada pra ela esquecer tudo depois. — Pelo tom orgulhoso de Wesley, era de se imaginar que ele tivesse acabado de fazer alguma descoberta revolucionária. — A gente nem vai precisar da droga.

— Ah, verdade. — Brent pareceu fascinado e voltou a se aproximar de mim. — Fica muito mais gostoso assim. Claro, ela vai gritar mais, mas depois de um tempo... ai!

Adrian bateu o galho na cabeça de Brent com tanta rapidez que quase pensei ter imaginado. Quando Brent caiu de joelhos no chão, percebi que o golpe tinha sido muito real.

— Parece que acabei fazendo sua cabeça girar — Adrian disse, em pé diante de Brent.

Wesley fez menção de ir atrás de Lars, mas não teve tempo. Ouvimos gritos por perto e avistei dois guardiões correndo na nossa direção. Reconheci um deles: Mikhail Tanner, marido de Sonya. Ele olhou para cada um de nós, com uma expressão cômica de espanto.

— O que está acontecendo? — ele exclamou.

Os guardiões foram eficientes em seu trabalho, levando todos nós (incluindo Lars) para seu quartel-general e averiguando os acontecimentos da noite. No fim, ficou claro que o trio de bêbados tinha tentado avançar para cima de mim, mas não havia conseguido nada além disso. Eles foram acusados do equivalente Moroi ao atentado contra a ordem pública, o que, pelo que Mikhail explicou, entre mil desculpas, resultaria em prisão por uma noite e multa. Eu sentia um frio na barriga toda vez que pensava no que eles queriam fazer comigo e achei que estavam escapando impunemente.

Eu estava praticamente dormindo em pé quando Adrian me acompanhou até a saída principal do prédio dos guardiões. Ficamos perto da porta por alguns instantes, aproveitando o calorzinho de dentro antes de sair.

— Desculpe — ele disse. — Desculpe por essa noite.

A briga tinha durado menos de um minuto, mas a onda de pânico e adrenalina havia me dilacerado, trazendo à tona as emoções que eu vinha tentando evitar com tanta cautela. Meu amor por Adrian me consumia com força total, e eu estava prestes a abraçá-lo quando lembrei que havia um recepcionista do outro lado da sala. Ele não podia nos ouvir, mas sem dúvida veria se eu empurrasse Adrian contra a parede e o beijasse.

— Não tem por que pedir desculpa — eu disse, olhando diretamente em seus olhos.

— Eu devia ter contado o que aconteceu com aquela menina. — Uma expressão de culpa perpassou seu rosto. — Não devia ter feito aquilo.

— Nem se compara com o que aqueles caras fazem. E você não era você mesmo.

Ele balançou a cabeça.

— Era eu mesmo, sim... bêbado. Eu podia não estar num estado racional, mas foi decisão minha ficar daquele jeito. Sou responsável por isso.

— Já passou. Você não é mais a pessoa que era naquela época. Poderia ter sido muito pior, sim, mas você teve sorte e não houve quase nenhuma consequência. O mais importante é que aprendeu com aquilo. É mais do que se pode dizer daqueles caras.

Havia uma tensão vibrando no corpo de Adrian e tive a impressão de que ele também estava se esforçando para não me abraçar.

— Não sou uma pessoa violenta, Sydney. Nem um pouco. Meu lema é “faça amor, não faça guerra”. Mas juro que se eles tivessem machucado você...

— Mas não machucaram — eu disse, firme. Eu me recusei a demonstrar o quanto tinha ficado assustada porque estava com medo de que ele fosse atrás deles. — Estou bem. Você veio ao meu resgate.

Ele entreabriu um sorriso.

— Algo me diz que você teria resgatado a si mesma. — De repente, seu sorriso se desfez. — Mas o espírito teria funcionado muito melhor do que aquele galho.

— Suas árvores marciais funcionaram muito bem. — O recepcionista estava digitando e tomei coragem para apertar a mão de Adrian. — Por que não me contou? Por que não falou nada sobre os estabilizadores de humor?

Ele demorou um momento para responder.

— Porque não teria como encarar você se não conseguisse. Se fosse fraco demais pra continuar tomando. Mesmo agora, não sei. Depois daqueles caras e do que aconteceu no palácio...

— Pare — interrompi. — Você está fazendo a coisa certa. E o pior é que nem faz ideia de como está sendo forte e corajoso. Estou muito orgulhosa e vou ajudar você a passar por isso. Amo muito você.

Meu amor por ele não era uma surpresa. O que me surpreendeu foi a noção de que, no fim das contas, era só isso que importava entre nós. Eu vinha tentando descobrir o que me impedia de perder a virgindade. Não era Jill. Não era uma fronteira física que eu tinha medo de ultrapassar. Não havia nada, nada além de um medo que meu amor tinha mandado para longe. E parada ali, naquele lugar improvável, a força do meu desejo por Adrian quase me nocauteou. Um desejo tão espiritual quanto físico ardia em meu corpo e, de repente, senti que não tinha como passar mais um minuto sem tê-lo em meus braços.

— Vem — eu disse, baixinho. — Vamos voltar pro meu quarto.

Uma chama em seus olhos me disse que eu não precisava explicar nada.

— Você está exausta.

— Quem disse?

Uma voz despedaçou o encanto ao nosso redor.

— Ah, vocês ainda estão aqui — Mikhail exclamou, entrando às pressas no saguão. — Que bom. Odeio tomar ainda mais do seu tempo, mas essas coisas se espalham, e a rainha já ficou sabendo do que aconteceu. Ela quer conversar com você, Adrian. — Ele me lançou um olhar gentil. — Mas você está liberada, Sydney. Vou te acompanhar até o quarto pra poder descansar um pouco.

Engoli em seco, por um momento incapaz de me concentrar em nada que não a eletricidade entre mim e Adrian. Eu queria falar para Mikhail nos deixar em paz porque precisava sentir o gosto dos lábios de Adrian e passar a as mãos na sua pele. Em vez disso, disse:

— Obrigada. É muito gentil da sua parte.

Adrian me abriu um sorriso triste.

— A gente continua essa conversa em outra hora. Quando você estiver mais acordada.

— Vou estar acordada quando você terminar com a rainha — eu disse. Achei melhor não acrescentar mais nada; porém, enquanto Mikhail me levava embora, lancei um olhar de despedida para Adrian que dizia todas as coisas sobre as quais eu queria “conversar”.


17

 

Adrian

POR MUITO POUCO NÃO IGNOREI MINHA RAINHA e fui direto para o quarto de Sydney. Tinha entendido o que ela queria dizer mais claramente do que se a aura dela tivesse se acendido diante dos meus olhos. Sabia o que ela desejava e, meu Deus, como eu queria também.

Mas o rosto severo de Mikhail quebrou o clima e, por mais que fôssemos amigos, eu ainda era súdito de Lissa. Então voltei quase correndo para o palácio, louco para narrar a história para ela e depois voltar às pressas para os braços de Sydney.

Infelizmente, Lissa tinha outros planos.

— Você vai embora — ela disse, assim que entrei. Christian estava ao seu lado, com os braços cruzados e uma expressão furiosa. — Fiquei sabendo de tudo. Os alquimistas vão ficar malucos quando Sydney contar o que aconteceu e é melhor a gente controlar os danos tirando-a daqui o mais rápido possível, o que significa que você e Neil também precisam ir.

— Não se preocupe — Christian disse. — Vou terminar o que você começou com aqueles caras amanhã.

— Christian — Lissa repreendeu, com um tom incrivelmente parecido com o de Sydney quando estava exasperada.

Ele ergueu as mãos.

— Que foi? Aqueles caras merecem coisa muito pior do que estão recebendo e você sabe disso, Liss.

— Sei que existem leis — ela retrucou, paciente. — E preciso respeitar essas leis.

Christian não falou nada, mas nossos olhares se cruzaram por um breve momento de compreensão mútua. Ele podia não saber que eu tinha sido movido por sentimentos românticos para defender Sydney, mas eu sabia que ele odiava pessoas que intimidavam as outras. Eu e ele ainda tínhamos muito a resolver entre nós, mas, naquele momento, me consolei por saber que Wesley e seus amigos cretinos encontrariam suas roupas ligeiramente chamuscadas no dia seguinte.

— Marcamos um voo matutino na Filadélfia — Lissa continuou. — Se saírem agora, vão conseguir chegar a tempo.

Todos os pensamentos sobre uma vingança chamejante desapareceram. Sair agora? E abandonar a privacidade do quarto de Sydney e de uma rara noite juntos? Eu queria rir e chorar ao mesmo tempo. Estávamos tão perto! Tão perto de finalmente dar esse passo na nossa relação. E não havia nenhum argumento lógico que eu pudesse dar, porque o que Lissa e Christian estavam sugerindo era absolutamente válido para uma alquimista naquela situação... ou seria, se Sydney fosse qualquer outra alquimista.

— Neil não vai querer deixar Olive — eu disse, pouco convincente.

— Neil é a pessoa menos importante no momento — Lissa afirmou, incisiva. — Além disso, está com Sonya. Ela o está monitorando em busca de efeitos colaterais.

E assim, em menos de uma hora, estávamos na estrada. Sydney estava dirigindo de novo e, dessa vez, consegui ficar no banco do passageiro. De vez em quando, ousava dar um toque discreto no braço ou na perna dela quando achava que Neil não estava olhando. Ela sorria toda vez, embora sempre mantivesse os olhos na estrada. Eu adorava aqueles sorrisos, ainda que nenhum de nós estivesse animado com a partida súbita. Neil realmente não queria deixar Olive. E Sydney e eu não queríamos abandonar nosso santuário.

— Está mais escuro do que eu imaginava — ela comentou em certo momento. Tínhamos partido ao entardecer, mas nuvens pesadas fizeram anoitecer mais cedo.

— O que a previsão do tempo dizia? — perguntei.

— Não sei — ela admitiu. — Esqueci de olhar.

Pus a mão no peito, fingindo espanto. Brincadeiras à parte, era muito raro ela esquecer essas coisas.

— Sydney Sage despreparada? A que ponto chegamos?

Ela sorriu de novo.

— Não fui eu quem planejou a viagem.

— Que bom que você me tem como copiloto, então. — Peguei o celular e senti meu bom humor se desfazer ao olhar o aplicativo de tempo. — Droga. Aviso de nevasca nas montanhas.

— Como assim? Por que ninguém nos avisou? — ela exclamou.

— Também não devem ter olhado. Quem marcou o voo só deve ter se preocupado com o horário. Aposto que o tempo não está assim na Filadélfia.

O rosto de Sydney ficou grave e, pela primeira vez, prestei atenção de verdade nas condições em que estávamos. Mal conseguia ver a estrada através da grossa cortina de névoa que descia. Ela suspirou.

— Ainda vai demorar quase duas horas para chegarmos. Acho que a gente devia dar meia-volta e esperar passar. Vocês tem ideia da direção da tempestade?

— A corte está numa altitude mais baixa — Neil disse, do banco de trás. Ele devia querer voltar para onde Olive estava. — Menos neve e menos curvas...

Talvez fosse o gelo na estrada, talvez fosse a neve. Talvez Sydney estivesse mais cansada do que eu imaginava. O que quer que fosse, ela fez uma curva na montanha sinuosa e os pneus do carro cantaram e deslizaram, nos jogando para o acostamento. Ela deu um grito e mal tive tempo de ver o pinheiro antes de o carro bater nele com tudo e os air bags bloquearem minha visão.

O tempo parou. Pareceu levar uma eternidade — ou uma fração de segundo — até eu recuperar a consciência.

Era um pesadelo ganhando vida.

E, naqueles segundos depois que os air bags se desinflaram, quando tudo estava parado, eu só conseguia pensar uma coisa: Sydney morreu e não há nada que eu possa fazer.

Eu me virei para ela, com o coração na garganta, e a vi tentando tirar o cinto.

— Graças a Deus — murmurei, estendendo o braço para ela. Ela apertou a minha mão, com firmeza e confiança. Lembrando-me de Neil, eu estava prestes a me virar quando o ouvi se mexendo no banco de trás.

— Está todo mundo bem? — ele perguntou.

— Acho que sim — Sydney disse. — Talvez um pouco tonta. Já do carro não posso falar o mesmo.

Saímos para ver o estrago. Minhas pernas estavam bambas, mas era principalmente o choque. Eu podia ver a mesma sensação no rosto deles. Felizmente, não havia nada além disso. Nenhum ferimento de verdade. Tínhamos batido contra um pinheiro, esmagando a frente do carro, mas o impacto não teve força suficiente para nos esmagar também. Eu não passava muito tempo pensando em forças superiores, mas, se uma delas tinha sido responsável pela nossa salvação, eu estava grato.

Neil se ajoelhou para dar uma olhada no para-lama amassado.

— Podia ter sido muito pior. Não sei o que você fez, mas minimizou o acidente.

— Só girei o volante para dentro da curva da derrapagem — Sydney disse, com todo o seu talento de direção. — Sem freios.

— E sem sinal — falei, olhando para o celular. — Acabei de perder o meu.

Ela pegou o dela.

— Eu tenho. — Claro que tinha. Os celulares alquimistas deviam estar conectados a uma antena de alta tecnologia na Lua. Não que conseguíssemos ver a lua naquela noite. Era tudo neve, escuridão e um frio intenso. Mesmo no meu casaco mais pesado, o frio penetrava em meus ossos enquanto eu a esperava ligar atrás de ajuda.

Ela fez uma careta ao desligar.

— Estão mandando um guincho, mas pode levar mais de uma hora.

— Então vamos voltar pro carro — eu disse.

Entramos, mas descobrimos que o carro não estava ligando. Só podíamos torcer para que o calorzinho de antes continuasse lá dentro. Eu queria trazer Sydney para os meus braços, mas mantivemos uma distância respeitável no assento dianteiro. Mesmo assim, fora do campo de visão de Neil, ela pousou a mão na minha perna.

O tempo foi passando e o carro ficava cada vez mais frio. Sydney se aconchegou em seu casaco de pele e pude ouvir Neil esfregando as mãos no banco de trás. Eu estava prestes a mandar as boas maneiras para o inferno e abraçar Sydney — talvez até Neil — quando ela colocou a mão no trinco da porta e disse:

— Chega.

Para o meu assombro, ela saiu andando até a beira da estrada, desaparecendo em meio à cortina de neve. Juntos, Neil e eu fomos correndo atrás dela.

— Sydney? — chamei.

Nós a encontramos ajoelhada numa clareira que já estava coberta por uns trinta centímetros de neve. Eu ia perguntar o que ela estava fazendo quando uma chama se acendeu de repente na ponta de seus dedos. Uma bola de fogo surgiu entre suas mãos, mais ou menos do tamanho de uma bola de praia. Com cuidado, como se segurasse uma porcelana delicada, ela a colocou no chão, onde o impossível aconteceu: o fogo continuou a queimar sobre a neve. Depois de estudar a chama por mais alguns momentos, ela removeu as mãos lentamente e as pousou no joelho.

Prendi a respiração. Eu a tinha visto fazer aquele feitiço várias vezes, mas ela havia progredido a uma velocidade assustadora. A princípio, Jackie lhe ensinara a bola de fogo como uma arma que ela poderia lançar, e dissera que sustentar o feitiço consumia muita energia. Sydney, porém, parecia perfeitamente tranquila. Eram os olhos de Neil que estavam enormes sob a luz bruxuleante.

— Como você fez isso? — ele exclamou.

— Não — ela disse, sem olhar para ele. — Não fale nada. — Havia uma autoridade em sua voz que Neil logo entendeu. Sem dizer uma palavra, ele se sentou ao lado dela no chão para aproveitar o calor da chama. Ficamos assim por muito tempo, até vermos o brilho de faróis em meio à neve. Sydney deixou o fogo arder até eles pararem e, então, rapidamente apagou a chama e foi até a estrada.

Um guincho havia estacionado no acostamento e o motorista saiu, estreitando os olhos na direção de que viemos.

— Que luz era aquela? — ele perguntou.

— A gente tinha um sinalizador — Sydney respondeu.

O carro não tinha entrado em nenhuma vala e só foi preciso um pouco de jeito para encaixar no guincho.

— Não faço ideia de quanto tempo vai demorar — ele disse, lentamente puxando o carro para a estrada. — Tenho a impressão de que vai ser uma noite difícil. Tem um lugar a alguns quilômetros daqui onde vocês podem ficar. Deixo vocês lá e volto para a oficina, que fica um pouco depois. Amanhã a gente pensa nos detalhes.

Esses poucos quilômetros demoraram uma eternidade a trinta quilômetros por hora, mas, por fim, distinguimos as luzes de uma casa. Ele tomou uma saída e parou o guincho em frente a um lugar aconchegante em cuja placa se lia Pousada do Vale Poconos. Sydney trocou informações com o motorista e todos lhe agradecemos por ter ido ao nosso resgate. Então ele partiu com o guincho, para salvar outros motoristas perdidos.

Dentro da pousada, uma senhora na recepção ergueu os olhos, surpresa, quando nos viu entrar.

— Minha nossa — ela disse, se levantando. — Não estava esperando ninguém hoje.

— A gente também não estava esperando vir aqui — eu disse. — Sofremos um acidente alguns quilômetros para trás.

— Coitadinhos. Bom, estamos bem vazios hoje, então não tem problema nenhum ficarem aqui.

Ela tinha um jeito doce de avó e até pensei que nos alojaria de graça, mas seus olhos brilharam quando Sydney tirou o cartão de crédito do bolso. Olhei ao redor enquanto ela preenchia a papelada, observando o lugar. Pouco tempo antes, Sydney e eu havíamos feito uma investigação numa pousada que redefinia o conceito de cafona. Essa era o contrário: embora estivesse cheia de antiguidades, a decoração era simples e delicada, expondo objetos e quadros sem que ficassem amontoados.

A dona da pousada nos deu três chaves e fez um tour rápido pelo andar térreo, mostrando onde tomaríamos café da manhã e onde guardava os lanchinhos para os hóspedes. Quando finalmente subimos, puxei Neil para trás e deixei que a mulher e Sydney seguissem na frente.

— Escute aqui — eu disse baixinho. — Sydney pode ter impedido que você perdesse um dedo para o frio. Se realmente vive segundo o código de honra de que sempre fala, não vai dizer uma palavra sobre o que viu. Se disser, vai arruinar a vida dela, o que seria uma coisa horrível de se fazer considerando que ela acabou de salvar a sua. Estamos entendidos?

Neil me encarou por alguns segundos tensos.

— Perfeitamente.

Eu teria gostado de usar um pouco de compulsão para garantir seu silêncio, mas havia algo em seu olhar firme que me fez confiar nele.

Ao chegar ao andar de cima, quis ir para o quarto de Sydney, mas decidi me acomodar no meu antes. Havíamos pegado nossa bagagem antes de o motorista ir embora e joguei minha mala de qualquer jeito num canto. Como o resto da pousada, o quarto era de bom gosto. A cama era de dossel e havia flores novas nos vasos. Passei os dedos sobre as pétalas macias das hortênsias azuis, admirado com o cuidado da dona da pousada mesmo quando nem estava esperando hóspedes. No banheiro, encontrei uma grande banheira de mármore e um chuveiro com box de vidro igualmente impressionante. Sentindo a sujeira da estrada no corpo, tirei as roupas e liguei a água no máximo. Ela escaldou minha pele, mas a sensação era maravilhosa depois daquele frio cortante.

Ao sair, ouvi uma mensagem de texto chegar no Celular do Amor. Corri até ele. Você recebeu?, Sydney perguntou.

Recebi o quê?

Olha embaixo da porta.

Olhei e descobri que ela tinha passado a chave do quarto por ali. Sem me dar ao trabalho de responder, me vesti rápido e saí para o corredor, tomando a direção do número do quarto que estava na chave. Fiz menção de bater, mas imaginei que tivesse carta branca e entrei.

Fechei a porta atrás de mim, encontrando um quarto ainda mais bonito que o meu. Quase todas as luzes estavam apagadas e um fogo ardia na lareira a lenha. Sydney estava sentada na cama e se levantou quando me aproximei.

Ela estava nua.

Estanquei, deixando a chave cair no chão de madeira. Meu coração parou por alguns segundos para depois voltar a bater mais acelerado do que nunca.

— Venha — ela disse, com uma voz que não aceitava discussão.

Meus pés avançaram, mas tudo que eu conseguia ver era ela. Nem eu, nem qualquer outro artista do mundo teria habilidade o bastante para imortalizar sua beleza. Era impossível acreditar que ela tinha inseguranças em relação ao corpo. A luz do fogo reluzia em sua pele dourada e perfeita, e ela parecia uma deusa radiante das lendas. Quis me ajoelhar a seus pés e oferecer obediência eterna.

Quando me aproximei, ela pegou minhas mãos e as colocou em seu quadril. Fiquei surpreso ao me ver tremendo. Sob os cílios longos, aqueles olhos marrons e cor de âmbar com todos os tons de ouro possíveis encararam os meus com uma segurança que fez eu me sentir o novato naquela situação.

— Estou bem acordada agora — ela acrescentou.

Engoli em seco duas vezes antes de conseguir falar alguma coisa. Estávamos muito perto. Havia apenas alguns centímetros entre mim e o corpo glorioso que dominava meus sonhos — sonhos que, como descobri naquele momento, não eram nada perto da realidade.

— Não mereço isso — murmurei. Levantei as mãos para envolver seu rosto. — Não depois do que já fiz na vida.

— Já disse: esse capítulo da sua vida é passado — ela falou. — Não somos mais as mesmas pessoas. Estamos sempre mudando, sempre ficando melhores. Só o fato de você ter tomado o remédio... enfim, a questão não é só o que ele pode fazer. É a coragem que você teve para dar esse passo. Sempre acreditei em você, mas...

— Eu fiz você chorar — eu disse. Essa lembrança sempre seria uma ferida no meu peito.

— Chorei porque amo você e não sabia como ajudar. — Ela ergueu a mão e passou a ponta dos dedos nos meus lábios. O mundo estava girando à minha volta. — Esse foi meu erro. Você mesmo se ajudou. Não precisava de mim.

— Não, Sydney. — Minha voz estava rouca. — Preciso de você, sim. Você não faz ideia do quanto.

Aproximei meus lábios dos dela e foi como se todas as coisas que haviam acontecido na minha vida tivessem sido apenas uma preparação para aquele momento, como se minha vida começasse de verdade só naquele instante. Eu a puxei para perto e, se ela ainda tinha dúvidas se eu queria sentir o gosto de seu sangue, soube que elas desapareceram naquele momento. Era o gosto de sua boca que eu queria sentir, o gosto de sua pele... eram esses gostos que eu desejava ardentemente, essas coisas que me deixavam maluco. Suas mãos seguraram a ponta da minha camiseta e paramos o beijo rapidamente para que ela pudesse tirá-la. Ela passou a mão pelo meu peito e, dessa vez, era ela quem tremia. Olhei em seus olhos e vi que, embora eles ardessem de paixão, desejo e daquela necessidade primitiva que animava nossas raças desde o início dos tempos, havia nervosismo também.

Sydney não tinha experiência com aquilo, o que era uma situação rara para ela. Cabia a mim guiar, mas o problema era que eu também era inexperiente ali: nunca tinha estado com uma virgem antes. Nunca havia sentido essa pressão. Eu tinha sido descuidado com as outras meninas, mas sabia que, quer ficássemos juntos para sempre, quer acabássemos seguindo caminhos diferentes, Sydney julgaria todas as outras vezes em comparação com aquela.

Mas, enquanto guiava as mãos dela para meu cinto e depois a deitava na cama, eu sabia qual caminho seguiríamos. Ficaríamos juntos para sempre. Tinha de ser assim. Não havia como todos aqueles sentimentos entre nós diminuírem ou desaparecerem. Sua respiração estava acelerada e ela emaranhou as mãos no meu cabelo enquanto eu beijava seu pescoço e começava a descer para o seu peito. Percebi que ela estava esperando que partíssemos direto para a ação, rápida e furiosamente, mas fazia tanto tempo que eu queria ter acesso ao seu corpo que não estava disposto a acelerar as coisas. Por isso, não tive pressa para explorar toda aquela beleza que ela nem sabia que tinha. Era agonizante, mas também era doce e, pela primeira vez na vida, eu estava pensando mais na pessoa com quem estava do que em mim.

Quando voltei a aproximar minha boca da dela, com meu corpo deitado sobre o seu, ela se agarrou em mim com uma urgência em que não havia mais medo algum. E, então, aconteceu — aquilo com que eu vinha sonhando havia tanto tempo. Eu me perdi em seus braços, em seu toque, em tudo. Sonya costumava dizer que não acreditava em almas gêmeas, mas, naquela união, acreditei que alguma coisa em minha alma falou com a de Sydney, que essa conexão entre nossos corpos evocava algo maior que nós, algo predestinado.

E, quando acabou, eu não queria soltá-la. Olhei para o rosto dela, com as bochechas coradas e os fios de cabelo úmido, e pensei: Não importa se é uma união de animais selvagens ou uma junção sublime de almas: ela é minha e eu sou dela.

Deitamos de lado, ainda abraçados com força, e havia tantas emoções ardendo dentro de mim que pensei que explodiria. Queria repetir cem vezes que a amava, mas, ao olhar para ela, soube que não era preciso.

— Em que você está pensando? — perguntei.

— Que a gente devia ter feito isso há muito tempo.

Dei um beijo na sua testa.

— Não, a hora certa era essa. A hora em que tinha de ser. — Eu sabia que ela não acreditava em sorte e destino e, em outras circunstâncias, me daria um sermão sobre livre-arbítrio. Em vez disso, passou os dedos pelo meu pescoço e sorriu.

— Em que você está pensando? — ela perguntou.

— Em Rudyard Kipling.

Sua mão parou.

— Está falando sério?

— Que foi? Acha que não consigo pensar em poesia depois do sexo?

Ela riu.

— Adrian, faz tempo que aprendi que você é capaz de qualquer coisa. Só que esperaria Keats ou Shakespeare.

— Gosto do livro que você me deu. Os poemas são menores, e os mais malucos falam comigo. — Deitei de costas, joguei o braço acima da cabeça e fiquei olhando para o dossel transparente. — Estava pensando em A fêmea da espécie.

— Certo, por essa eu realmente não esperava.

— Não é sobre uma mulher cruel, por mais que pareça.

— Eu sei. — Claro que ela sabia.

— “Ela sabe, porque o avisa, e seus instintos não falham/ Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.” — Fechei os olhos por um momento, sentindo o amor, a exaustão e o êxtase no corpo. — Nós somos péssimos nisso, Sydney. Nós, homens. Estou completamente indefeso nas suas mãos agora. Vocês são tão bonitas e fascinantes e não conseguimos evitar. Fazemos guerras por vocês, seduzimos vocês... e vocês suportam tudo. A vida fica fácil pra nós aqui na cama.

Ela virou meu rosto na direção do dela.

— Não foi exatamente difícil pra mim.

— Mas mesmo assim a vida é fácil pra nós. Vocês são a força, os pilares... nossas defensoras, as defensoras de nossos filhos.

— Você está se subestimando. É tão forte quanto eu. Se não fosse, eu não estaria com você. Somos iguais, aconteça o que acontecer.

Eu não me sentia igual a ela. Ainda tinha a sensação vertiginosa de que Sydney era uma deusa vinda à terra e que eu não era digno dela. Ao mesmo tempo, não queria depender somente de sua força para manter minha vida nos eixos. Não queria uma mãe... quer dizer, pelo menos não para mim. Queria uma parceria, uma união como aquela que havíamos acabado de ter, mas em todos os aspectos da nossa vida. Seguiríamos em frente de mãos dadas, e eu passaria o resto dos meus dias fazendo tudo para que nosso amor crescesse cada vez mais.

— Estou estragando tudo — eu disse. — Devia ter escolhido Keats.

— Não, é bom saber que o Adrian pensativo e metafísico ainda está aqui.

— É difícil se livrar dele, mesmo com os comprimidos.

Seu rosto se suavizou.

— É muito ruim? Ficar sem o espírito?

— Não, porque estar com você me dá um barato muito melhor que o do espírito, da bebida ou de qualquer coisa.

Seus olhos brilharam e ela piscou rapidamente para se recuperar.

— Você não estragou nada com Kipling. Entendi o que quis dizer. E espero que saiba que sinto exatamente a mesma coisa em relação a você. Eu me sinto fraca perto de você, mas forte ao mesmo tempo.

Eu não tinha mais dúvidas de que era digno. Éramos a força um do outro, mas também tínhamos nossa própria força. Suspirei e a puxei mais para perto.

— Acho que nunca vou conseguir expressar o quanto amo você.

— Bom — ela disse, com o olhar inflamado que eu conhecia bem —, você pode tentar.

E eu tentei, por boa parte da noite. E, como já sabíamos, ela aprendia rápido.

Fazia muito tempo que não me sentia tão feliz como quando acordei na manhã seguinte e a vi parada diante da janela usando só minha camiseta. Era tão insanamente sexy que todos os pensamentos racionais cessaram por um momento. Finalmente, consegui me levantar. Fui até a janela e a abracei por trás. Ela se recostou em mim.

— Olhe lá — ela murmurou.

Eu só queria olhar para ela, mas ergui os olhos para a janela. Tudo estava coberto por uma grossa camada de neve. Cercas, carros... tudo estava escondido. Havia uma camada de gelo sobre os galhos das árvores. A luz pálida do sol de inverno reluzia sobre a cena, transformando todas as coisas em um conjunto resplandecente.

— É surreal — ela disse. — Parece que tudo foi esculpido em diamante. É difícil acreditar que o mundo pode voltar ao normal depois disso.

Apertei o abraço.

— Eu sei — eu disse. — Eu sei.


18

 

Sydney

DEMOROU DOIS DIAS para que as estradas ficassem limpas e arrumassem nosso carro. Tanto os alquimistas quanto os Moroi falaram para não nos preocuparmos com o carro alugado e que pagariam outro, já que não poderíamos esperar o tempo do conserto. Eu disse que não me sentiria bem largando aquele carro — afinal, era minha culpa ele estar destroçado — e, assim, consegui atrasar nossa estadia enquanto a oficina arrumava todos os vários veículos que havia recuperado naquela noite. Fomos convidados a voltar para a corte, mas também recusei, falando para os alquimistas que me sentiria melhor numa estalagem administrada por humanos. Naturalmente, eles me apoiaram.

Esses dois dias passaram como um sonho. Foi como uma lua de mel para mim e Adrian. Víamos Neil no café da manhã, mas no resto do tempo ele ficava no quarto, nos deixando com nossas atividades.

Nem tudo era sexo. Mas a maior parte era.

Adrian brincou que eu estava compensando o tempo perdido. Talvez estivesse, mas não achava que era porque, para ser sincera, não conseguia imaginar ter perdido a virgindade com qualquer pessoa além dele. Não havia o que compensar. Também não conseguia entender como transas de uma noite só ou qualquer forma de sexo sem sentimento funcionavam. Conhecia gente que sempre fazia essas coisas, mas parecia um desperdício para mim. Com Adrian, cada toque... cada ato entre nós... enfim, tudo era enaltecido pelo nosso amor. Como as pessoas faziam sexo sem isso? Era uma dúvida que eu não tinha vontade de responder.

Mesmo quando não estávamos transando, passávamos bastante tempo na cama. Eu lia ou trabalhava no laptop. Ele assistia TV ou dormia. Ele disse que eu era exaustiva, embora nunca ficasse sem energia durante o ato. Na verdade, eu achava o sexo revigorante. Ficava elétrica depois. Queria fazer centenas de projetos. Sentia muita fome.

No entanto, finalmente nos chamaram à realidade e tivemos de voltar para Palm Springs e nossas responsabilidades. Muita gente precisava de nós. Ao contrário do voo cheio de tensão para a Pensilvânia, nossa viagem de volta foi repleta de contentamento. Seis horas de puro êxtase. Adrian e eu nos sentamos um ao lado do outro, inflamados pela conexão entre nós e, mesmo querendo nos tocar, não era necessário.

Quando descemos no aeroporto de Palm Springs, fomos atingidos pelo ar quente do deserto, confirmando de uma vez por todas que nosso paraíso de inverno havia chegado ao fim. E, em poucas horas, me vi retomando meu velho papel. Eu não era mais a heroína perdida nos braços do amante em meio à nevasca. Era Sydney Sage, alquimista vigilante, e estava de volta ao trabalho.

Adrian foi para casa descobrir o que tinha perdido em Carlton, enquanto Neil e eu voltamos a Amberwood. Neil ficou em silêncio no táxi e finalmente pude dar atenção plena a ele. Durante nosso interlúdio na neve, tinha ficado tão distraída com Adrian que havia considerado a solidão de Neil mero traço de personalidade. Agora podia ver que alguma coisa o perturbava.

— Está tudo bem?

Ele desviou o olhar da janela.

— Sim, só estou com muita coisa na cabeça.

— Olive?

— Às vezes. — Ele começou a sorrir e então parou. — Entre outras coisas.

Um pensamento apavorante passou pela minha cabeça.

— Você está se sentindo bem? Está tendo algum efeito colateral?

— Não. Só estou com muita coisa na cabeça. — Dessa vez ele sorriu. — Não se preocupe. Você já tem coisa demais com que lidar.

Por um momento, pensei que ele sabia a respeito de Adrian. Será que era por isso que estava tão pensativo? Não sabia o que fazer em relação a nós? Mas não, era egoísmo da minha parte pensar isso. Minha escapada romântica com Adrian havia sido a coisa mais importante da minha vida, mas Neil mal havia notado que estávamos no mesmo hotel que ele. Ele tinha suas próprias preocupações. Depois de tudo por que havia passado, era compreensível.

O táxi parou no alojamento masculino primeiro e ele começou a sair do carro.

— Sydney... — hesitou. — Sei que ainda precisa ficar a par de como estão as coisas por aqui, mas eu queria conversar a sós com você, se for possível. Não precisa ser hoje. Mas em breve.

— Claro — eu disse. — A gente dá um jeito.

Só no caminho para o alojamento me dei conta de que era bem possível que ele quisesse conversar sobre como eu havia criado uma chama no meio da nevasca. Mesmo enquanto fazia aquilo, sabia que era imprudente e perigoso, mas meu bom senso havia perdido a força diante da perspectiva de morrer de frio.

— Sydney!

Zoe correu para os meus braços quando entrei no quarto. Por um momento, fiquei com medo de que houvesse alguma coisa errada, mas então percebi que o rosto dela estava radiante.

— Correu tudo bem enquanto você estava fora! Quer dizer, fiquei com saudade, mas não tivemos nenhum problema. Tomei conta de tudo pro fornecimento na casa de Clarence e Eddie até me deixou dirigir. Tipo, não só em estacionamentos.

Eu tinha começado a abrir minha mala e deixei a tampa cair de novo.

— Ele deixou o quê?

— Só em ruas pequenas entre a estrada e o terreno de Clarence, então não teve problema.

— A polícia pode estar em qualquer lugar — protestei. — Acidentes acontecem em qualquer lugar. — E eu não sabia?

— Correu tudo bem — ela disse. — Ele falou que fiz um ótimo trabalho. Que dirijo como uma profissional.

Talvez eu devesse ficar contente porque ela estava agindo de maneira amigável em relação a um dampiro, mas não consegui.

— Não acredito que Eddie faria uma coisa dessas. É muito irresponsável.

Ela assentiu.

— Ele disse que você falaria isso e mandou dizer que pelo menos não foi a Angeline.

Não consegui conter o riso.

— É verdade. Ele tem limites.

Ao me ver relaxar, ela voltou a ficar animada.

— Por falar em Angeline... acredita que ela nunca tinha tomado sorvete de noz-pecã? Mostrei pra eles o lugar aonde fui com você e foi superengraçado. Todo mundo ficou tentando não encarar, mas era impossível porque ela estava com os olhos arregalados. Tomou três potes e aposto que teria tomado mais um se não tivéssemos que voltar por causa do toque de recolher.

Fiquei encantada ao ver os olhos cintilantes de Zoe e ouvi-la falando de seu passeio com Jill e os dampiros como se fossem amigos humanos.

— Desculpe — Zoe disse, entendendo mal meu silêncio. — Nem deixei você falar. Como foi lá? Aconteceu alguma coisa importante?

Com certeza.

— A gente está esperando pra ver o que acontece — eu disse, voltando a desfazer as malas. — Eles injetaram o sangue de Olive em Neil e estão com esperança de que sirva de proteção contra a transformação em Strigoi.

— Foi muito corajoso da parte dele — ela reconheceu.

Ergui os olhos da mala.

— Ora, Zoe, acho que você acabou de dizer duas coisas boas sobre dampiros em menos de cinco minutos.

— Não vai pensando besteira — ela disse, com um sorriso. — Mas... é, talvez eles não sejam tão maus assim. Quer dizer, não são como nós, mas também não são má companhia. Na verdade, as coisas ficam mais fáceis se você não sente ódio deles.

— Tem razão — concordei. Uma pontinha de esperança surgiu dentro de mim. Conviver com Zoe e suas posturas alquimistas inflexíveis vinha sendo angustiante nos últimos tempos. Mas a culpa não era dela. Eu já fora igual. Tinha levado muito tempo para superar aquelas posturas. Por que ela não poderia superar também? Talvez, com o tempo, desistisse de impressionar nosso pai e percebesse que Moroi e dampiros eram pessoas como nós. Era maravilhoso pensar que um dia poderíamos voltar a ser irmãs e compartilhar da mesma filosofia alquimista rebelde. Talvez, no futuro, Marcus rompesse a tatuagem dela também.

Guardei esses pensamentos para mim mesma, sabendo que não devia me precipitar. Mas foi difícil não ter esperanças quando jantamos com os outros e vi que ela não parecia mais ter vontade de levantar e sair correndo. Todos estavam de bom humor — até que os olhos de Jill se focaram em algo atrás de mim e ela soltou um suspiro pesado. Me virei e vi duas meninas pendurando um cartaz para a Festa do Dia dos Namorados.

— Queria poder ir — ela disse, chateada.

— Eu também — Angeline concordou.

— Então por que não vão? — perguntei.

Jill olhou de soslaio para Neil. Ele estava perdido em seu próprio mundo.

— Não tenho ninguém pra me acompanhar — ela disse. Angeline concordou com a cabeça.

— Aposto que vocês conseguem encontrar alguém. — Voltei o olhar para Zoe. — E você também.

Os olhos dela se arregalaram.

— O quê? Para uma festa?

— Claro. É o que todo mundo faz. Você deveria tentar.

— Por que você não tenta? — ela perguntou. — Parece frívolo na nossa linha de trabalho.

— Já tentei. — Fiquei em silêncio por alguns segundos, envolvida pela lembrança da minha primeira e única festa. Adrian havia aparecido bêbado e eu o levara para casa, onde ficamos presos em um blecaute. — Às vezes um pouco de frivolidade não faz mal.

Eddie, que não parecia nada interessado na festa, sorriu.

— Sydney, quando conheci você, nunca teria imaginado essas palavras saindo da sua boca. O que aconteceu?

Tudo, pensei.

Respondi com um sorriso.

— Todo mundo precisa se divertir um pouco. A gente devia esquecer essa festa e sair pra ver um filme. Quando foi a última vez que fizemos isso?

— Acho que a resposta é “nunca” — Jill respondeu.

— Bom, então está combinado. A gente compra os ingressos e leva Adrian também. — Lancei um olhar significativo para Angeline, mas ela nem notou. — E talvez mais gente também. — Eu estava me sentindo um pouco culpada por ter prometido a Trey que manteria Angeline longe de Neil, já que o próprio Neil estava resolvendo a questão se mantendo distante. Achei que devia uma para Trey por ele ter sido minha cobaia e talvez levá-lo junto em um passeio em grupo o ajudasse em seu processo de “dar um jeito” na situação.

A vida logo retomou o ritmo normal. Voltei à rotina de visitas rápidas a Adrian depois da aula, embora as coisas que fizéssemos agora estivessem definitivamente em outro nível. Eu sentia falta daquelas horas lânguidas na hospedaria, mas sem dúvida fazíamos o melhor com o tempo que tínhamos. Continuei “compensando pelo tempo perdido” e até li alguns livros sobre sexo. Estava me sentindo nerd por isso até o dia em que ele comentou, impressionado:

— Onde você aprendeu isso, Sage?

As novidades com Adrian me motivaram ainda mais a proteger nossa relação, o que significava que eu fazia de tudo para apaziguar Zoe. Ainda não passávamos tanto tempo juntas quanto ela gostaria, mas eu fazia outras coisas para agradá-la, como deixar que ela dirigisse o carro de vez em quando. Também estimulava atividades não ameaçadoras com o resto do grupo e continuei a ver que ela ficava cada vez mais à vontade com eles.

A única coisa que ainda atrapalhava nossa relação era a ameaça do divórcio de nossos pais. Zoe continuava achando que eu estava do lado do nosso pai. Qualquer dúvida que eu ainda tivesse sobre o assunto havia desaparecido depois do almoço/ jantar com ele. Eu pretendia testemunhar a favor da minha mãe, por mais que isso pudesse trazer consequências graves para a vida tranquila que havia criado para mim mesma. Ainda faltava um mês para a audiência e fiquei lembrando Zoe de que nossa mãe nos amava e realmente não era má pessoa. Cheguei até a sugerir que, caso o tribunal concedesse guarda conjunta, Zoe poderia conseguir dividir seu tempo entre os dois, em vez de se dedicar cem por cento ao trabalho alquimista, como minha mãe temia. Ela havia considerado a ideia por um momento, mas então balançou a cabeça.

— O papai não iria gostar — ela disse. O medo que tinha dele ainda era grande demais.

Uma das coisas mais estranhas que fiz foi aprender a usar o equipamento de tatuagem de Wolfe. Meu triunfo ao voltar com a tinta alquimista caiu por terra quando me dei conta de que não poderia pedir a Wolfe que a usasse em Trey. Não só porque acabaria com nossa história falsa de remoção da tatuagem, mas também porque ele presenciaria a ativação do encanto. Por isso, pedi à sra. Terwilliger que convencesse Wolfe a deixar a máquina na casa dela para o caso de precisarmos da ajuda dele outra vez. Nesse meio-tempo, pesquisei sobre o modelo e li tudo sobre como usá-lo. Quando contei a novidade para Trey, ele não se empolgou.

— Como posso ser mais assustadora que um homem caolho? — perguntei, irritada, quando nos encontramos na casa dela.

— Pelo menos ele faz tatuagens há anos. Quantas você já fez?

— Nenhuma — admiti. — Mas aposto que sei mais sobre o assunto do que ele.

No entanto, me sentia mal sobre uma coisa: ao contrário da tinta de sal, a tinta de sangue tinha cor. Deixaria uma marca. Como, pelo que eu sabia, as tatuagens tinham que ser feitas uma em cima da outra, eu precisava tatuar em cima da que Wolfe havia feito, que, por sua vez, estava em cima do sol dos guerreiros de Trey. Minha esperança era traçar as linhas do sol, mas eu não sabia quanta precisão minhas mãos teriam.

— Se eu fizer besteira, pago pra você refazer — prometi.

Isso o tranquilizou um pouco, mas, enquanto ele se deitava na bancada, o ouvi resmungar:

— Por que aceitei fazer isso mesmo?

— Porque estou mantendo Angeline longe de outros caras. Aliás... você não quer, hum, ir ao cinema com ela no Dia dos Namorados, quer? Com todos nós, quero dizer.

Ele soltou um grunhido.

— Eu devia ficar longe dela.

— Bom, não precisa sentar ao lado dela. E não vão estar sozinhos.

— Vou pensar — ele falou, relutante.

Eu não sabia se aquele plano resultaria em alguma coisa. Não tinha muita experiência em fazer as vezes de cupido, mas estava claro que nem Trey nem Angeline conseguiam esquecer um ao outro. E me ocorreu que, se eles voltassem a namorar, ele sem dúvida teria que romper seus laços com os guerreiros. Não seria uma conquista pelo bem maior? Ou será que eu só estava complicando as coisas?

De todo modo, era um problema para depois. Por enquanto, meu foco era fazer uma tatuagem amadora — o que acabei conseguindo razoavelmente bem. Reforcei o desenho do sol e não desviei muito das linhas. Trey quis olhar em um espelho, mas, antes, eu precisava finalizar o feitiço. Os feitiços de compulsão de terra podiam ser adiados e ativados em determinado momento. Abe havia infundido o sangue com uma compulsão de obediência, mas sem um foco específico. Era aí que eu entrava. Quando o sangue era injetado na pessoa, a magia podia ser direcionada. Trey se sentou e eu me aproximei, olhando-o nos olhos.

No ritual alquimista, depois que o sangue era injetado, um hierofante dava ao novo recruta uma série de instruções tradicionais: “Nossas palavras são suas palavras, nossos objetivos são seus objetivos, nossas crenças são suas crenças”. Eu nunca havia prestado atenção nessas palavras. Elas tinham um ar ritualístico e, até pouco tempo, eu não entendia como ativavam o feitiço literalmente na pessoa. Depois, o hierofante acrescentava: “Não falarás a respeito do sobrenatural com aqueles que dele não partilham. Guardará os seus segredos”. O feitiço não suportava nada além disso. Não era possível dar comandos infinitos. Os Moroi eram tão desconfiados de feitiços de compulsão que infundiam o sangue com um nível baixo de magia. Ou, pelo menos, era o que a maioria deles fazia. Pelo jeito, como certos alquimistas vinham sendo programados com comandos mais poderosos, havia Moroi dispostos a violar as regras e potencializar o sangue.

Não me dei ao trabalho de falar nada disso para Trey. Tudo que eu precisava fazer era dar um comando enquanto o feitiço estava ativo no sangue e pronto para recebê-lo.

— Você não vai falar dos seus sentimentos por Angeline a ninguém — eu disse, muito séria.

Trey me encarou e vi seus olhos castanhos ficarem vítreos em obediência. Senti um aperto no coração. Tinha visto aquilo acontecer com outros alquimistas tatuados. Eu mesma tinha passado por aquilo. Era a compulsão tomando conta. Tínhamos fracassado. A magia ainda funcionava e...

De repente, ele piscou algumas vezes, como se estivesse saindo de um sonho.

— Por que não? — ele perguntou.

— Por que não o quê?

— Por que não posso falar sobre Angeline?

— Você quer falar?

— Não sei. Às vezes.

— Sabe, outro dia, no almoço, a gente estava falando sobre planos de férias e ela começou a falar sem parar sobre como odeia quando dizem que os leões são gatos grandes e que os zoólogos realmente deveriam parar de chamá-los assim porque poderia causar muitos problemas se alguém levasse um deles pra casa como animal de estimação. — Examinei a reação de Trey com atenção. — O que você acha disso?

Sua expressão se suavizou e ele abriu um sorriso largo.

— Ela me mata. Sério, adoro esses discursos dela. Sei que parecem malucos, mas é que tudo é tão novo pra ela, sabe? A gente acha tudo tão normal, mas, quando estou com ela, vejo o mundo com outros olhos. Ela faz o meu mundo melhor. É por isso que é tão incrível. — De repente ele voltou a prestar atenção em mim. — Por que está sorrindo desse jeito?

— Porque você está falando do que sente por Angeline.

— E daí? — ele perguntou, desconfiado.

— Mandei você não falar.

— Mandou?

A porta da garagem se abriu e Adrian entrou. Ele tivera que ficar no campus até tarde e só pôde chegar naquela hora.

— Ainda está fazendo tatuagens, Sage? Topa desenhar um esqueleto de pirata pra mim? — Então ele olhou melhor para a minha expressão. — O que está acontecendo?

Rindo, juntei as mãos diante do peito.

— Funcionou. A tinta de sal anulou a outra. Desfiz a compulsão! A magia humana venceu.

Trey caminhou até mim.

— Será que eu quero saber dos detalhes aqui?

Eu o surpreendi com um abraço rápido.

— Os detalhes são que você acabou de provar uma grande descoberta, que vai ajudar muita gente.

Ele ainda parecia confuso, o que era compreensível.

— Desde que você não tenha causado nenhum dano permanente.

— Você está livre pra ir ao cinema com a gente — eu disse.

— Mas vamos todos como amigos — Trey disse, ligeiro.

— É claro — concordei.

Ele tinha um turno dali a pouco e foi embora logo depois. Quando saiu, me lancei nos braços de Adrian e ele me girou.

— Minha menina genial — ele disse. — Você conseguiu.

Dei um beijo na bochecha dele.

— Não teria conseguido sem você.

— Sem mim? Não fui eu quem enganou vampiros para conseguir ingredientes ilícitos, arranjou uma cobaia e aprendeu a usar uma máquina de tatuagem em uma semana.

— Você me deu apoio moral — eu falei. — É a parte mais importante de todo o trabalho. E, agora que sei que funciona, preciso fazer mais tinta para quando Marcus aparecer. Você pode me fazer companhia.

Marcus havia mandado um recado para Adrian através de Sabrina dizendo que estaria na cidade na semana seguinte. Eu vinha fazendo tinta extra sempre que tinha tempo livre e não queria desperdiçar nem um segundo. Precisava dar a Marcus sua melhor chance. A sra. Terwilliger estava trabalhando na cozinha quando voltamos para dentro da casa. Ela me cumprimentou e falou que eu poderia usar sua oficina. Embora não entendesse os detalhes do projeto, não via problema em dividir o espaço comigo e me deixava guardar coisas ali. Adrian tinha aparecido lá algumas vezes antes e, como naquela noite, sentou perto de mim para fazer seu trabalho enquanto eu fazia o meu. Era gostoso, agradável e quase normal.

— Não é estranho? — ele disse, levantando os olhos enquanto eu media sal. — Todas as coisas que a vida oferece? Aqui estamos nós, eu lendo expressões de criatividade... — Ele ergueu o livro de poesia, que, para o meu horror, estava gasto e cheio de orelhas. — E você fazendo cálculos científicos e mágicos. Somos seres pensantes e racionais num minuto e... no minuto seguinte, nos entregamos completamente a atos físicos de paixão. Como a gente faz essas coisas? Ficar indo e voltando da mente pro corpo? Como podemos ir de um extremo a outro?

— É o que a gente faz — respondi com um sorriso. Eu estava contente que os remédios não haviam silenciado o Adrian filósofo. Adorava ouvir esses devaneios dele. — E nem sempre são extremos. Por exemplo, o que a gente fez ontem na sua casa... enfim, pode ter sido um “ato físico de paixão”, mas também foi bem criativo. Quem disse que mente e corpo não podem trabalhar juntos?

Ele se levantou da cadeira e veio até onde eu estava.

— Tem razão. E, se bem me lembro, foi graças à minha genialidade que tivemos aquela ideia.

Apoiei os materiais na mesa.

— Não foi, não. Foi tudo ideia minha.

— Só existe uma maneira de resolver essa questão. — Ele envolveu minha cintura e me pressionou contra a mesa. — Precisamos superar aquela criatividade. Está pensando o mesmo que eu?

— A sra. Terwilliger não está no quarto ao lado? — Mas meu coração havia acelerado com o toque dele na minha pele, e eu já estava pensando em uma maneira de esvaziar a mesa.

Ele se afastou e fechou a porta da oficina.

— Ela é discreta — ele disse. — E inteligente. Vai bater antes de entrar.

Achei que ele estava brincando até me segurar de novo e me erguer sobre a mesa, envolvendo minhas pernas em torno dele. Nossos lábios se encontraram com avidez, enquanto seus dedos hábeis de artista começaram a desabotoar minha camisa. Então o toque repentino de mensagem no celular normal me assustou.

— Ignore — Adrian disse, com o olhar inflamado e a respiração ofegante.

— E se aconteceu alguma crise na escola? — perguntei. — E se Angeline “sem querer” roubou um ônibus do campus e entrou com ele na biblioteca?

— Por que ela faria uma coisa dessas?

— Você acha que ela não faria?

Ele suspirou.

— Tudo bem.

Saí da mesa com as roupas amarrotadas e descobri, para a minha surpresa, que a mensagem era de Neil. Ainda precisamos conversar. Pode me encontrar hoje? Em um lugar privado? É importante.

— Hum — murmurei. Mostrei a mensagem para Adrian.

Ele ficou igualmente intrigado.

— Sabe sobre o que é?

— Não, ele só disse que queria falar comigo quando a gente voltou da corte. — O calor entre nós estava esfriando e comecei a reabotoar a camisa. — E se for sobre meu uso de magia?

Adrian ficou sério.

— Não, acho que não. Tenho certeza de que ele não vai comentar com ninguém.

— Mas eu deveria descobrir. Se tiver algum problema... Bom, sou eu quem vai ter que resolver, no fim das contas. — Eu me ajoelhei para guardar os ingredientes nas gavetas que a sra. Terwilliger havia separado para mim. — Pode ser importante. Além do mais, está ficando tarde.

— Sabe o que também é importante? Seu aniversário, que está chegando. Você vai tirar um dia de folga?

Sorri enquanto me levantava.

— Não sei. Zoe vai querer fazer alguma coisa comigo. Talvez a gente consiga sair todo mundo junto, e você pode ir.

Ele me envolveu em seus braços.

— Não é o bastante. Quero você, só você, na minha casa, onde vou cozinhar o jantar mais incrível que você já comeu feito por alguém que não sabe cozinhar. Depois... a gente entra no meu carro.

Esperei que ele continuasse para saber o destino.

— E depois?

Ele me deu um beijo leve na nuca.

— O que você acha?

Não pude conter uma exclamação de surpresa.

— Ah, nossa.

— Pois é. Eu estava quebrando a cabeça pra descobrir o melhor presente de todos os tempos e percebi que não poderia haver nada melhor do que nós dois no seu lugar favorito em todo o mundo.

Engoli em seco.

— Estou meio envergonhada com o quanto estou ansiosa por isso. — Nunca tinha pensado que meu amor por carros teria um papel na minha vida sexual. Eddie tinha razão. Alguma coisa tinha acontecido comigo.

— Não tem problema, Sage. Cada um com seu fetiche.

— Mas você meio que estragou a surpresa.

— Não. Faz parte do presente você pensar sobre isso durante os próximos três dias. Imaginei que seria um incentivo pra você fugir de Zoe também.

— É um ótimo incentivo.

Demos um beijo de despedida e marquei um encontro com Neil. O lugar privado que ele queria era um bosque perto da biblioteca. Tecnicamente, era um lugar proibido, ainda mais àquela hora da noite, mas, se fôssemos pegos, poderíamos dizer que estávamos cortando caminho para a biblioteca. Com minha fama de estudiosa, ninguém acharia estranho.

Foi uma surpresa quando Neil se atrasou, o que não era de seu feitio. Quando finalmente chegou, parecia meio aflito.

— Desculpe. Angeline ficou me seguindo pra todo lado e foi difícil me livrar dela.

— Ela gosta de você, sabia? — Não me senti mal por comentar porque ele não tinha como não saber. — Quer dizer, pelo menos gosta da ideia de estar com você. Ela quer ficar com você para esquecer outra pessoa.

— Como é? Deixa pra lá, não importa. — Ele balançou a cabeça. — Não tenho tempo para essas coisas.

Fiquei me perguntando se ele teria tempo para “essas coisas” se Olive morasse mais perto.

— Então, qual é o problema? — Eu me preparei para algum tipo de interrogatório sobre magia. O que ele disse, porém, me pegou de surpresa.

— Preciso que você me ajude a ir atrás de um Strigoi.

Caiu um silêncio entre nós por vários segundos tensos.

— Você vai precisar explicar isso melhor.

Neil apontou para o braço onde estava a tatuagem.

— Todo mundo está empolgado com isso, mas e daí? Vale alguma coisa? A gente nunca vai descobrir a menos que eu teste com um Strigoi.

Fui pega de surpresa. Eu sabia disso, claro, mas não estava pensando em procurar ativamente um Strigoi.

— Você quer ser transformado?

— Não, claro que não. A questão é a seguinte. Eu estava lendo relatos de guardiões e parece que alguns Strigoi foram vistos na região de Los Angeles.

Isso não era surpreendente. Sempre havia Strigoi em Los Angeles.

— Um Strigoi, na verdade — Neil continuou. — Quero encontrá-lo e atraí-lo antes que outros venham ajudar. Os guardiões conhecem os padrões dele o bastante para saber que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Normalmente, ele só bebe e mata, mas houve relatos de que transformou algumas vítimas. Enfim, se me usarmos como isca, ele vai sentir o gosto do meu sangue e a gente pode ver a reação dele.

Era uma daquelas coisas que pareciam tão racionais superficialmente que eu quase aceitei. Havia só alguns problemas.

— Se a tatuagem não funcionar, você vai acabar morto ou transformado em Strigoi.

— É aí que você entra — ele disse, empolgado. — Aquele negócio que você fez com o fogo...

— Neil...

Ele ergueu a mão.

— Não, não. Não vou contar a ninguém. Não vou nem perguntar como fez aquilo. Mas, se ficar escondida em algum lugar por perto e acender aquele fogo de novo, pode incinerar o Strigoi antes que ele faça alguma coisa comigo. — Parte do entusiasmo dele diminuiu. — E, se ele conseguir me transformar, pode me matar também.

— Neil! Está ouvindo o que está dizendo? Isso é loucura. Você está literalmente falando de suicídio.

Seu olhar encontrou o meu em meio às sombras.

— Sim, e a minha vida é um preço pequeno a pagar para conseguir essas respostas. E não estou sendo dramático. Sei que alguns de vocês, especialmente Adrian, me acham ridículo e exagerado, mas juro que o serviço aos Moroi é meu maior objetivo. Quero o que for melhor para o nosso povo. Tudo o que estamos fazendo agora é esperar... o que é o mesmo que nada. Se isso der certo, pode ser a grande descoberta de que todo mundo vive falando.

Precisei desviar os olhos. Era uma ideia maluca... mas fazia um pouco de sentido.

— Entendo o que você está falando, mas, se quiser brincar com um Strigoi, é melhor pedir autorização aos guardiões. Deixe que eles organizem alguma coisa.

— Você acha que eles me deixariam fazer uma coisa dessas? — Não respondi porque duvidava que deixariam. — Exato. Você criou uma chama bem grande naquela noite. Acha que conseguiria consumir um Strigoi com uma daquelas?

— Sim — respondi sem hesitar. — Mas não me sentiria muito bem sendo a única coisa entre você e a perdição.

— Não seria. — Neil apontou para um ponto atrás de mim. — Bem na hora.

Me virei e encontrei Eddie caminhando em nossa direção com ar confuso.

— Oi, recebi sua mensagem — ele disse. — O que está acontecendo?

Por incrível que pareça, Neil começou a contar a mesma ladainha para Eddie sobre se sacrificar pelo bem maior dos Moroi. Não mencionou minha magia, mas sua oferta a Eddie foi a mesma, explicando que seria preciso alguém para impedir o Strigoi se as coisas saíssem do controle. Na verdade, me dei conta de que não havia “se”. A questão era quando as coisas saíssem do controle.

Acho que Eddie ficou ainda mais chocado que eu.

— Não!

— Eddie — Neil disse, com a voz calma. — Sei que temos nossas diferenças, mas a verdade é que te respeito muito. Você é um dos melhores guardiões que já conheci e já fez mais coisas do que a maioria dos guardiões experientes vai fazer na vida. Você e Sydney são a equipe ideal para me apoiar. Preciso que entendam a importância disso. É verdade que nunca lutei contra um Strigoi, mas já os vi matando. Quando era jovem. — Sua expressão ficou grave. — Ainda tenho pesadelos com aquilo e, se houver alguma coisa que possamos fazer para deter aqueles monstros, precisamos agir. Pensem em como seria se conseguíssemos prevenir a conversão de mais gente!

Eddie não se deixou convencer. Havia uma expressão em seu rosto que eu nunca tinha visto antes.

— Não estou negando o princípio da coisa, mas é perigoso demais. E não só pra você. Já tentei algo parecido uma vez... — Uma dor tão intensa perpassou o rosto de Eddie que era de partir o coração. — Eu e alguns amigos. A gente achou que poderia dar conta de um Strigoi... e meu melhor amigo acabou morto. Não importa o quanto você se ache preparado. Mesmo contra um só, tudo pode acontecer. Você e eu podemos não ser o bastante. Sydney com certeza não é... sem ofensa. Precisaríamos de mais alguma vantagem para aumentar nossas chances.

De repente, Neil olhou para mim com expectativa. Demorei alguns segundos para me dar conta do que ele queria.

— Você falou que não iria contar!

— Não vou — ele concordou. — Mas pensei que você pudesse querer. Se não, eu deixo pra lá. Mas acha que Eddie trairia seu segredo?

Os dois ficaram me observando e quis dar um soco na cara de Neil. Ele tinha sido fiel à sua palavra... em certo sentido. Depois de ouvir seu discurso duas vezes, eu estava balançada. Talvez por causa da sensação de triunfo com a tatuagem de Trey. Seria incrível conseguir outra façanha de que tantas pessoas estavam dependendo. E, se Eddie estivesse envolvido, parecia possível lidar com um Strigoi.

Mas isso significava que eu teria de contar meu segredo a Eddie. O velho ditado me veio à cabeça: Duas pessoas podem guardar um segredo se uma delas estiver morta. Quanto mais a magia viesse à tona, em mais problemas eu me meteria.

No entanto, enquanto encarava o olhar firme de Eddie, me lembrei de nossa amizade e de tudo por que havíamos passado. Em um mundo de segredos e mentiras, havia poucas pessoas em quem eu podia confiar plenamente — e, naquele momento, soube, sem sombra de dúvida, que Eddie era uma delas.

Depois de respirar fundo, torcendo para que não estivesse fazendo uma grande besteira, levantei a mão. Olhei ao redor, preocupada, para confirmar que estávamos sozinhos, e fiz surgir uma centelha de fogo na palma da mão, que logo cresceu para o tamanho de uma bola de tênis.

Eddie se debruçou para olhar e perdeu o fôlego diante da chama alaranjada que refletia em seu rosto.

— Acho... acho que temos mais chances do que eu imaginava — ele disse.


19

 

Adrian

ERA ANIVERSÁRIO DE SYDNEY e meu carro não estava dando partida.

— Você só pode estar tirando uma com a minha cara — eu disse, virando a chave pela centésima vez. O motor ameaçava e ameaçava, mas não ligava nunca. Soltei um resmungo e bati a cabeça no volante. — Isso não pode estar acontecendo.

— Algum problema?

Levantei o rosto e vi Rowena em pé ao lado da porta do motorista, que eu tinha deixado entreaberta. Joguei as mãos para o alto.

— Como você pode ver.

Ela inclinou a cabeça para examinar o carro, deixando algumas de suas tranças lilás caírem para a frente.

— Essa lata-velha tem quantos anos?

— Cuidado com a língua, mocinha. Sydney ama este carro. Acho que mais do que me ama. Além do mais, você é uma artista. Pensei que apreciaria um carro clássico. Sabe, toda a história, a arte...

Ela balançou a cabeça.

— Prefiro carros modernos. Tenho um Prius.

Tentei dar partida no Mustang de novo. Sem sorte.

— Caramba, logo hoje. É aniversário da Sydney. A gente tinha planos.

— Chame um guincho e dou uma carona pra você. — Ela me deu um tapinha solidário no ombro. — Conheço um cara que trabalha numa oficina. Peço pra ele fazer um precinho camarada pra você.

— Não vai adiantar — eu disse, pegando o celular. — A menos que seja de graça. Estou duro pela próxima semana e meia.

— Comprou algum presente extravagante pra ela?

— Não exatamente. É uma longa história.

Eu acabara aceitando o fato de que não conseguiria encher Sydney de presentes. Não estava mais deprimido ou preocupado em vender as abotoaduras de tia Tatiana. Os remédios deviam estar ajudando com isso, mas havia outro motivo também. Depois do discurso motivador de Jill e do que tinha acontecido na Pensilvânia, bens materiais não tinham mais o apelo de antes. Claro que eu adoraria cobrir Sydney de diamantes, mas não precisava fazer isso. Havia coisas muito mais importantes entre nós. Eu estava satisfeito em preparar o jantar e aproveitar um tempo sozinho com ela. Era tudo o que importava agora. Nós dois.

Claro, eu tinha planejado passar parte desse tempo a sós no meu carro, que, naquele momento, parecia não estar funcionando. Eu podia não mergulhar mais num desespero a ponto de não conseguir sair da cama, mas ficava triste como qualquer pessoa quando meus planos não davam certo. Não abri a boca enquanto Rowena esperava comigo no estacionamento do campus e fiquei remoendo meu mau humor.

— Você é o exemplo perfeito do artista perturbado — ela ironizou. — Fez alguma aula pra aprender a ser desse jeito?

— Não, nasci com esse dom.

Ela sorriu e me cutucou.

— Anime-se. Levo você aonde precisar ir. Vamos salvar o dia, criança.

Era difícil continuar mal-humorado perto do rosto radiante dela. Além disso, eu não podia deixar que Sydney me encontrasse em casa à noite de bico. Ela precisaria de um milagre para fugir de Zoe naquela noite e adiar a celebração entre irmãs. Provavelmente pouparia muito estresse se simplesmente adiasse a comemoração comigo, mas celebrar no dia de verdade era importante para mim. Eu havia insistido por aquela noite e, agora, precisava fazer dar certo.

O guincho levou o Ivashmóvel embora, e eu e Rowena voltamos para a cidade. Eu tinha juntado todo o restante do dinheiro para comprar comida para o jantar, e Rowena quase teve um ataque cardíaco quando chegamos ao mercado e eu disse o que eu pretendia comprar.

— Lasanha congelada? Bolo pronto? Pensei que você amasse essa menina!

— Amo, mas não sou um estudante de culinária.

— Cassie é.

— Bom, ela não está aqui.

Rowena suspirou e pegou o celular.

— Sério, não sei como você vivia sem mim.

Uma hora depois, Cassie nos encontrou na minha casa com uma sacola de compras. Fiquei olhando enquanto elas esvaziavam ingredientes que eu nunca pensaria em usar, como andouille e quiabo. Tinha também uma garrafa de vinho branco.

— Sydney não bebe — eu disse a elas.

— E daí? — Cassie retrucou, pegando um saca-rolhas. — Essa é pra mim enquanto cozinho.

Rowena me olhou de soslaio. Depois que Sydney havia ido àquele bar, eu tinha certeza de que ela achava que eu deveria estar em um grupo de reabilitação. Talvez estivesse certa. Percebi que ela estava prestes a recriminar Cassie pela bebida e fiz que não precisava.

— Está tudo bem. — Para minha surpresa, percebi que estava mesmo. — Longe de mim interferir no gênio de uma cozinheira.

Cassie ergueu os olhos de sua taça.

— Ei, você vai ajudar. Eu é que não vou fazer esse gumbo sozinha.

— Quando penso em jantares românticos de aniversário, nunca penso em sopa.

— Sopa? — Ela quase engasgou com o vinho. — Você acha que isso é só uma sopa? Eu precisava de alguma coisa que você não conseguisse estragar enquanto espera a menina. Quanto mais ferver, melhor vai ficar e, quando ela chegar e sentir o gosto, vai ser sua pra sempre. Não precisa agradecer.

Apesar do que disse, Cassie não me obrigou a fazer muita coisa. Acho que estava com medo de que eu fizesse besteira, embora eu realmente estivesse tentando prestar atenção, na esperança de me aprimorar. Descascar pitu era um mistério para mim e nunca tinha ouvido falar de roux. Na verdade, cozinhar era divertido quando você tinha alguém que sabia o que estava fazendo. Quando o gumbo estava coberto e quase pronto, Cassie começou a misturar os ingredientes para os cupcakes de chocolate com hortelã. Ela tinha acabado de me dar uma colher pra mexer quando ouvi meu celular tocando. Eu costumava deixar no modo vibratório, mas, naquele dia, “Under Pressure”, do Queen, começou a tocar no volume máximo. Rowena e Cassie quase engasgaram de tanto rir.

Devolvi a colher e saí correndo para a sala, onde vi um número desconhecido no celular.

— Adrian? Aqui é Marcus. Estou de volta ao país.

Por um momento horripilante, imaginei Marcus chegando de surpresa no meio da nossa celebração de aniversário. Quase pude vê-lo tomando gumbo com a gente.

— A gente ainda está no Arizona, finalizando algumas coisas — ele continuou. — Mas o plano é chegar a Palm Springs no domingo. Imaginei que seria bom já ir combinando as coisas... e que seria melhor não falar diretamente com Sydney.

— Boa ideia. — O Celular do Amor era só para nós dois e o outro celular dela podia ser rastreado com facilidade pelos alquimistas. Sydney sempre tinha medo de ter problemas com eles, mas, na verdade, Marcus corria muito mais riscos. — Em que você está pensando?

— Você sabe quanta tinta ela fez?

Eu estivera por perto durante boa parte do processo.

— Mais ou menos o bastante para encher um balde.

— Humm. Acho que podemos nos encontrar no estacionamento de uma loja de materiais de construção. Pareceríamos clientes normais.

— Estacionar um ao lado do outro e trocar um balde de tinta? É, nem um pouco suspeito.

— Você tem uma ideia melhor? Nunca se sabe onde os alquimistas estarão de olho.

— É quase certeza que não vão estar vigiando uma professora de Sydney — eu disse. — A tinta está na casa dela mesmo. A gente se encontra lá e assim vocês têm uma chance de conversar também. Tenho certeza que Sydney vai querer dar algumas instruções.

— É uma boa ideia — ele disse, relutante. — Desde que vocês tenham certeza que essa professora é de confiança.

— Sem dúvida.

Dei o endereço e marcarmos um horário. Quando desliguei, Cassie e Rowena estavam rindo juntas enquanto mexiam nos cupcakes, então decidi deixar as duas sozinhas. Peguei o Celular do Amor e mandei uma mensagem para Sydney.

Robin Hood ligou. Ele vai encontrar você na casa da JT, domingo às 20h. Pode ser?

Ela respondeu imediatamente. Vou dar um jeito. Obrigada por marcar.

Ele achou que seria mais seguro falar comigo. Acha que consegue vir hoje?

Praticamente consegui ouvir o suspiro dela. Sim, mas foi difícil, e vai ser um saco compensar amanhã. Além disso, a gente teve outra briga por causa do divórcio. Depois te conto.

Você falou “saco”? É uma mulher completamente diferente com dezenove anos.

Fiz menção de guardar o celular quando vi duas ligações perdidas de Angeline de algumas horas antes. Fiquei pensando se ligava de volta ou não. Afinal, sempre havia a possibilidade de ela ter roubado um circular. Mas era óbvio que, se houvesse algum problema, Sydney saberia antes de mim. Angeline não havia deixado recado, então resolvi supor que estava tudo bem e que ela só tinha alguma dúvida aleatória.

Os cupcakes estavam no forno quando voltei para a cozinha e Cassie estava terminando de misturar uma tigela de cobertura.

— Espera, dá pra fazer essas coisas? — perguntei. — Pensei que só vinha em lata.

Ela tirou o excesso da colher na beira da tigela.

— Ro, tem certeza que confia nesse cara?

Rowena abriu um sorriso.

— Pra cozinhar, não. Mas em matéria de arte e boas intenções românticas, confio.

— Não esqueça conselhos de vida — eu disse. — Sou muito bom nisso também.

— Garanto que não esqueci — Rowena ironizou. Olhando ao redor, ela franziu a testa. — Essa casa é legal, mas nunca imaginaria que você tem uma namorada. Não tem fotos dela em lugar nenhum. Ela nunca deixa nada aqui? Um casaco ou bichinho de pelúcia?

Senti uma pontada no peito com essas palavras. Ela tinha razão. Pessoas normais deixavam que seus relacionamentos enchessem suas casas. No mínimo, deveria ter uma foto minha e de Sydney na porta da geladeira. Meu apartamento não dava sinais de que eu tinha uma namorada porque, para o resto do mundo, eu não tinha mesmo.

— Se conhecesse Sydney, saberia que ela nunca deixa nada para trás. — Não admiti a ausência de fotos. — É organizada demais. Sou eu quem costuma esquecer coisas.

Cassie apontou para o timer do forno.

— Acha que não vai esquecer de tirar os cupcakes e colocar a cobertura? Precisa esperar esfriar. A maioria das pessoas não espera.

— Claro. E, só pra provar, vou escrever aqui e...

Soou uma batida na porta e, por uma fração de segundo, tive medo de que Sydney tivesse chegado mais cedo. Por mais que Rowena e Cassie fossem apenas amigas, encontrar duas meninas no apartamento do namorado não devia ser uma surpresa de aniversário muito boa. Mas, quando olhei pelo olho mágico, fiquei surpreso ao ver Angeline.

Assim que abri a porta, ela foi entrando e jogou o cabelo ruivo para o lado.

— A gente precisa conversar e você não atende o telefone. Ah. — Seus olhos se focaram na cozinha. — Está acompanhado?

Rowena ironizou:

— Só nos sonhos dele.

Fiz as apresentações necessárias, fingindo que Angeline era minha prima, como costumávamos fazer em Palm Springs. Como não dava para saber o que sairia da boca dela, achei melhor me livrar de Rowena e Cassie o quanto antes.

— Vocês salvaram minha vida — eu falei para elas. — Sério. Isso é muito melhor do que lasanha congelada.

Rowena deu uma piscadinha para mim.

— Algo me diz que você compensaria com seu charme.

— Agora posso guardar o charme para outra coisa.

Até Cassie sorriu com essa.

— Não se esqueça de colocar a bala de hortelã amassada. E só coloque a cobertura...

— ... quando tiverem esfriado — completei.

Levei as duas até a porta e ela continuou me dando instruções de última hora até eu fechar a porta. Quando voltei para dentro, encontrei Angeline bisbilhotando na cozinha.

— Não toque em nada — adverti, vendo que ela estava prestes a erguer a tampa do gumbo.

Ela tirou a mão.

— Por que elas salvaram sua vida? Pra que tudo isso?

— Para uma amiga.

— Uma amiga que vai pra cama com você?

— Uma amiga que não é da sua conta.

— Esses cupcakes parecem bons. — Ela olhou pela porta do forno. — Sabia que hoje é aniversário da Sydney? Se você fosse uma boa pessoa, me daria alguns pra levar pra ela.

— Pra começo de conversar, nem sei por que você está aqui. Ou como chegou.

— Peguei o ônibus. — Angeline terminou a inspeção na cozinha e foi para a sala. — Tem alguma coisa estranha acontecendo.

Quase soltei uma gargalhada, mas ela estava séria.

— De que, hum, coisa estranha você está falando especificamente?

— Sydney, Neil e Eddie. Eles estão planejando alguma coisa. Vivem conversando e param sempre que chego perto.

Depois do que tinha acontecido na corte, não era nenhuma surpresa saber que Sydney e Neil andavam conversando. Eu não tinha dúvidas de que ela queria saber se estava tudo certo com a tatuagem — a qual, aliás, eu precisava ajudar Neil a decorar.

— Aconteceram muitas coisas na corte — eu disse para Angeline. — Coisas de que Sydney e Neil fizeram parte. Eles devem estar conversando sobre isso.

— Então por que Eddie está envolvido?

Boa pergunta. O papel dele era mais difícil de compreender, mas talvez Sydney só quisesse alguém que ouvisse suas ideias. Eu entendia por que ela preferiria Eddie a Angeline. Também era possível que Angeline estivesse exagerando o caráter secreto das conversas. De todo modo, confiava no quer que fosse que Sydney estivesse fazendo e, se ela não queria envolver Angeline, eu estava completamente de acordo.

— Ela não deve querer incomodar você, já que anda tão ocupada — eu disse. — Não está reprovando em inglês?

Angeline ficou vermelha.

— Não é culpa minha.

— Até eu sei que você não pode escrever um artigo na Wikipédia e usar como fonte. — Sydney estivera dividida entre horror e histeria quando me contou.

— Eu só aprimorei o conceito de “fonte primária”!

Sério, eu não sabia como tínhamos vivido tanto tempo sem Angeline. A vida devia ser tão sem graça antes dela.

— É a sua nota que você devia aprimorar — eu disse num tom quase tão responsável quanto o de Sydney. O timer do forno apitou e eu saí correndo para tirar os cupcakes. — Então pegue outro ônibus, pare de ficar imaginando teorias da conspiração e... ai, meu Deus. Você não deveria sair do campus sozinha!

O rosto dela mostrou que esse era o menor de seus problemas.

— Pensei que você podia me dar uma carona e inventar uma história se alguém disser alguma coisa.

— Meu carro está na oficina. Você vai ter que voltar sozinha. — Com cuidado, coloquei os cupcakes em cima do balcão. — E, por favor, não seja pega. Sydney não precisa desse tipo de encrenca.

— Sydney? Sou eu quem vai se encrencar — Angeline argumentou.

— Não, você vai ficar sentada enquanto ela arranja alguma desculpa pra você. — Eu preferia convidar Marcus para comer o gumbo de aniversário de Sydney do que não vê-la porque ela ficou sentada na sala do diretor de Amberwood tentando impedir que Angeline fosse expulsa. — Agora volte. Você é esperta. Consegue entrar sem ninguém perceber.

— Ainda acho que está rolando alguma coisa. — Quando me recusei a entrar na dela, Angeline apontou para os cupcakes. — Tem certeza de que não posso levar alguns?

— Não estão prontos. Falta a cobertura.

— Coloque agora. Eu ajudo. É besteira essa história de esperar esfriar.

Esse foi outro momento em que desejei ainda ter controle do espírito para poder compelir Angeline a ir embora. Finalmente, depois que arranjei algumas moedas para o ônibus, ela me deixou em paz para que eu pudesse terminar os preparativos do aniversário. Arrumei o apartamento e acendi algumas velas; então, vesti uma camisa verde-escura de que Sydney gostava. A essa altura, os cupcakes estavam prontos para a cobertura e, quando tomei coragem para experimentar o gumbo, vi que Cassie tinha razão. Era mais que uma simples sopa. Era divino.

Sydney apareceu umas oito e se deteve na porta.

— Está com cheiro de... camarão. E hortelã. E abacaxi.

— Jantar, sobremesa e isso aqui. — Apontei para a vela amarelo-brilhante. — Acabei de comprar. Chama “Sesta Havaiana”.

— Isso nem... Ah, não importa. — Ela fechou a porta e correu para me beijar. Foi um daqueles beijos ardentes que me faziam perder a noção de onde estava. — Meu melhor presente de aniversário até agora.

— Espere só pra ver — eu disse, fazendo um gesto grandioso para a cozinha.

Ela me seguiu e ficou olhando boquiaberta.

— Você fez roux?

— Se por “fez” você quer dizer “supervisionou”, então sim, eu fiz.

Comemos na mesa de centro, sentados no chão da sala sob a luz de velas, como dois meses antes. Eu nunca imaginaria que era possível ela ficar mais bonita do que naquele vestido vermelho maravilhoso, mas, a cada dia, ela provava que eu estava errado. Deixamos Pulinho sair, e ele se enrolou perto de Sydney, comendo pedacinhos de andouille.

Confessei sobre as minhas ajudantes de cozinha, o que fez com que ela me achasse ainda mais fofo. Jill estava certa, essa imperfeição me levaria mais longe do que qualquer perfeição. O sorriso de Sydney se desfez quando ela contou sobre seu dia.

— Zoe ficou furiosa. Nossa relação regrediu muito. Falei pra ela que tinha que fazer coisas para a sra. Terwilliger, como sempre, e que seria melhor a gente sair todo mundo junto no fim de semana para comemorar meu aniversário. Mais tempo e tudo mais. — Ela balançou a cabeça. — Zoe não acreditou. Todo o trabalho que tive pra ficar de bem com ela... jogado no lixo. Ela disse que eu estava negligenciando a missão por motivos pessoais e que só queria adiar o passeio para que aquelas criaturas pudessem vir com a gente. Mas essa nem foi a pior parte. Falei uma coisa que não deveria.

— Que iria passar o aniversário com uma dessas criaturas? — Mas claro que, se uma coisa tão terrível tivesse acontecido, ela não estaria ali.

Sydney entreabriu um sorriso.

— Falei que, se ela realmente gostasse de mim, me deixaria passar o aniversário como eu bem entendesse, como minha mãe fez no meu aniversário de doze anos.

— O que aconteceu quando você fez doze anos?

— Ah, ela se ofereceu para levar nós três, exceto meu pai, que estava fora da cidade, a um jantar de comemoração, mas eu não quis. Tinha acabado de sair um livro que eu estava esperando e a única coisa que eu queria fazer era ler a noite toda.

— Ai, meu Deus — eu disse, tocando a ponta do nariz dela. — Você é muito fofa.

Ela deu um tapinha na minha mão.

— Enfim, Carly e Zoe queriam muito sair pra comer, mas minha mãe falou: “É aniversário dela. Vamos deixar Sydney fazer o que quer”.

— Sua mãe é legal.

— Muito. — Ela ficou olhando para o nada por alguns segundos, com a luz das velas refletindo em seus olhos. — Enfim, mencionar minha mãe foi a pior coisa que eu podia ter feito com Zoe hoje. Eu estava tentando convencê-la a testemunhar a favor da guarda conjunta, para que pudesse morar com os dois. Acho que ela estava considerando... mas daí perguntou pro meu pai. E, enfim... ele teve muito a dizer. Bastou uma conversa pra fazer lavagem cerebral nela de novo, então, quando mencionei minha mãe, Zoe começou a falar sem parar que precisávamos lembrar que ela era uma pessoa horrível. Sem parar. — Ela soltou um suspiro. — Acho que a única coisa que me livrou do discurso foi quando disse que consegui permissão para ela praticar baliza sozinha no estacionamento da escola.

— Ah, sim, o caminho para o coração de uma mulher é o carro. Ouvi dizer que isso é tradição na família Sage.

Seu sorriso começou a voltar.

— O problema é que ela ainda é muito jovem em tantos sentidos. Num minuto, quer a carteira. No outro, tem o poder de me denunciar por quebrar regras alquimistas. É perigoso, ainda mais porque ela acha que sabe de tudo.

Juntei os pratos vazios e me levantei.

— E, como todos nós sabemos, só existe uma irmã Sage que sabe de tudo.

— Nem tudo. Não sei essa receita ainda — ela falou. — Mas preciso pegar. Estava incrível.

— Acho que a gente deveria ir para New Orleans em vez de Roma. — Coloquei alguns cupcakes em um prato e peguei uma velinha e meu isqueiro. Pulinho ficou observando com interesse, especialmente os cupcakes. — Plano de fuga no 37: Fugir para New Orleans e vender confetes de Carnaval a preços altíssimos para turistas desavisados. Menos sol. Menos problemas com a língua. Aposto que seria atraente se eu aprendesse a falar com sotaque cajun.

— Mais atraente ainda, você quer dizer. Sabe, aposto que Wolfe lutou contra jacarés no rio de New Orleans.

— Aposto que ele domou os jacarés para fugir dos piratas. — Voltei para a sala e sentei ao lado dela com o prato.

— Aposto que fez os dois — ela disse. Ficamos em silêncio por um segundo e depois desatamos a rir.

— Certo, aniversariante. — Coloquei um dos cupcakes na frente dela e enfiei a velinha nele. O isqueiro, embora não fosse usado havia um mês, acendeu o pavio. — Faça um pedido.

Sydney abriu um sorriso ainda mais radiante do que a chama diante dela, e se debruçou. Trocamos um olhar rápido, e senti uma pontada ao mesmo tempo doce e amargurada no peito. O que ela estaria desejando? Roma? New Orleans? Qualquer lugar que não ali? Como manda o figurino, ela não disse o desejo em voz alta e só apagou a velinha.

Bati palmas, assobiei e depois parti para meu cupcake, louco para saber que sabor tinham as minhas criações. E, considerando que eu tinha feito o trabalho árduo de passar a cobertura e decorar, achei que tinha sim o direito de chamá-los de meus. Cassie só tinha comprado os ingredientes, inventado a receita e feito todas as medições e misturas.

— Não imaginava que cupcakes depois de gumbo cairiam tão bem. — Sydney parou para lamber a cobertura dos dedos e, por um momento, perdi todas as funções cognitivas superiores.

— Era parte do plano de Cassie — eu disse, por fim. — Ela falou que os amassos são sempre mais gostosos depois de hortelã.

— Uau. Ela é mesmo um gênio da culinária. — Ela terminou de lamber a cobertura e limpou as mãos delicadamente com um guardanapo. — Por falar em amassos... você deixou o Mustang preparado?

— Ah. Então. — Eu tinha quase me esquecido disso. — Não entre em pânico, mas...

— Ai, não. O que você fez?

Ergui as mãos.

— Calma, não fiz nada.

Fiz um breve resumo do que tinha acontecido e vi o olhar sedutor dela se transformar em tristeza.

— Pobre carro. Vou ter que ligar pra oficina amanhã e descobrir qual o problema. A gente devia levá-lo para um lugar especializado.

— Ai. Não sei nem se eu vou ter dinheiro para essa oficina.

Ela colocou a mão sobre a minha.

— Eu pago.

Tinha a impressão de que ela falaria isso e que não teria como discutir.

— Vai me resgatar?

— Claro. É o que a gente faz. — Ela se aproximou, rápido. Pulinho tentou entrar no meio, mas eu o empurrei para o lado. — Eu resgato você, você me resgata. A gente fica alternando sempre que o outro precisa. E, se faz você se sentir melhor, pense que estou resgatando o Ivashmóvel, não você.

Ri e coloquei o braço em torno da sua cintura.

— Muito melhor. Mas, agora que não tenho carro, não vou conseguir cumprir minha promessa de aniversário.

Sydney pensou por alguns segundos.

— Bom. Eu tenho um carro.

Uma hora depois, prometi nunca mais fazer piada com o Mazda.

Aquela acabou sendo uma das nossas noites mais intensas e, sem dúvida, uma das mais inventivas também, considerando a falta de espaço do banco traseiro. Quando estávamos deitados juntos depois, embaixo do lençol que eu havia tido o cuidado de levar, tentei gravar todos os detalhes na minha cabeça. A suavidade de sua pele, a curva de seu quadril. A doce leveza que ardia na minha alma, por mais que eu sentisse o corpo letárgico de contentamento.

Sydney se levantou de repente e abriu o teto solar.

— É isso que eu chamo de aniversário — ela disse, triunfante. Uma meia-lua prateada reluzia sobre nós por entre os galhos.

Antes de tirarmos a roupa, ela havia dado uma volta no quarteirão para ter certeza de que não havia ninguém nos seguindo. Por mais que não tivesse motivos para achar que os alquimistas estivessem no seu encalço, ela tendia a ser precavida. Satisfeita, acabou estacionando em um ponto estratégico na minha rua, cheio de árvores e na frente de uma casa vazia a um quarteirão do meu prédio. Claro que, mesmo assim, alguém poderia passar e nos ver, mas as chances eram muito pequenas naquela escuridão.

Ela voltou a se aconchegar sob o lençol, repousando a cabeça no meu peito.

— Estou ouvindo seu coração — ela disse.

— Você confere de vez em quando pra ter certeza que não sou um morto-vivo?

Ela respondeu com um riso leve, seguido por um longo beijo sensual na nuca.

Apertei as mãos em seu corpo e de novo tentei memorizar aquele momento. Havia tanta perfeição na maneira como nossos corpos estavam entrelaçados. Não parecia possível que, fora da santidade daquele carro iluminado pelo luar, houvesse um mundo de que precisávamos nos esconder, um mundo que queria nos separar. Pensar no que nos rodeava fazia o que havia entre nós parecer muito mais frágil.

— “Tudo se despedaça, o centro não aguenta...” — murmurei.

— Está citando Yeats agora? — ela perguntou, incrédula, erguendo um pouco a cabeça. — Esse poema é sobre o apocalipse e a Primeira Guerra Mundial.

— Eu sei.

— Você tem umas escolhas poéticas muito estranhas depois do sexo.

Sorri e passei os dedos pelo cabelo dela. Naquela luz, não parecia nem dourado nem prateado, mas uma cor estranha entre as duas. Mesmo no auge do amor e do contentamento, eu podia sentir a melancolia Ivashkov surgindo dentro de mim.

— Bom... é que às vezes acho que isso é bom demais pra ser verdade. Eu não teria conseguido criar nada tão perfeito num dos meus sonhos de espírito. — Eu a puxei para perto e encostei minha bochecha contra a dela. — E sou pessimista o bastante pra saber que a gente sempre acaba acordando dos sonhos.

— Isso não vai acontecer — ela disse. — Porque isso não é um sonho. É de verdade. Ou, enfim, fazemos ser verdade. Você chegou à parte do “noventa e nove” do Edgar Allan Poe nos seus poemas?

— O Poe não escreve sobre morte e coisas do gênero? — E ela me acusava de citar poetas pouco românticos.

Ela virou para o outro lado e ficou remexendo nas roupas que estavam no chão do carro. Um pouco depois, ergueu o celular e fez uma busca.

— É assim: “Os noventa e nove se bastam com os sonhos, mas a esperança de renovar o mundo é do centésimo homem, que se dedica gravemente a tornar esses sonhos realidade”. — Ela jogou o celular de volta na pilha e se enrolou em mim outra vez, pousando a mão no meu peito. — É por isso que a gente é diferente. Parece um sonho, mas estamos tornando esse sonho realidade. E o que é real, o que fazemos... nada de ruim pode acontecer com isso.

Segurei as mãos dela e dei um beijo em cada uma.

— Como você foi virar a romântica sonhadora e eu o pessimista?

— Acho que a gente acabou pegando um do outro. E não faça piada — ela advertiu.

— Não dá margem, então.

Abri um sorriso, mas aquela nuvem de melancolia continuou pairando sobre mim, por maior que fosse a felicidade de estar deitado com ela. Eu nunca tinha pensado que poderia amar uma pessoa daquele jeito. Também nunca tinha pensado que teria tanto medo de perder alguém. Será que todos os apaixonados se sentiam assim? Abraçavam a pessoa amada com força e acordavam aterrorizados no meio da noite, com medo de ficar sozinhos? Era uma sensação inevitável quando se amava alguém tão profundamente? Ou éramos só nós dois, que andávamos à beira de um precipício, que convivíamos com esse pânico?

Aproximei o rosto a poucos centímetros do dela.

— Eu te amo tanto.

Ela piscou de um jeito que reconheci. Fazia aquilo quando achava que poderia chorar.

— Eu também te amo. Ei. — Ela ergueu a mão e a pousou na minha bochecha. — Não fique assim. Vai dar tudo certo. O centro vai aguentar.

— Como você sabe?

— Porque nós somos o centro.


20

 

Sydney

RECUEI, AINDA DE JOELHOS, e inspecionei minha obra. Um galão de tinta que poderia ajudar a libertar outros alquimistas cansados do controle de seus superiores. Aquilo mudaria a maneira como Marcus realizava suas missões. Aquilo mudaria tudo.

O poder do que tinha feito com Marcus era parte do motivo por que eu havia concordado com a loucura de Neil. Era outra chance de uma descoberta incrível. Eu vinha pesquisando o tal Strigoi em Los Angeles nos relatórios alquimistas e descobri que Neil estava certo em suas suposições. Tudo indicava que o Strigoi agia em um território muito específico e costumava atuar sozinho. A principal teoria era de que era um recém-transformado. Embora não fossem muito bons em termos de organização, os Strigoi mais experientes sabiam da força que tinham em grupo. Se aquele era um iniciante, melhor para nós. Eu só torcia para que dois dampiros e uma bruxa capaz de lançar fogo bastassem para destruir aquele monstro.

Mas eu sabia muito bem que alguma coisa poderia dar errado, e por isso não tinha contado nada a Adrian. Odiava isso. Sabia que vários relacionamentos acabavam porque uma das pessoas era idiota e escondia uma informação importante. Quando começara a me envolver com ele, jurei que nunca faria uma coisa dessas. No entanto, eu também sabia que duas coisas aconteceriam se ele soubesse dos nossos planos. Uma era que insistiria em ir junto. A outra era que, se alguma coisa desse errado e um de nós se ferisse — ou, no pior dos casos, morresse —, ele nunca se perdoaria por não conseguir nos curar. Já vira isso no rosto dele, tanto antes quanto depois dos medicamentos. A onda do espírito podia ser viciante, mas o que realmente o atormentava era não poder ajudar os outros. Eu não poderia fazê-lo enfrentar esse medo.

Meu último motivo para mantê-lo fora da aventura era puramente egoísta: eu não podia correr o risco de que acontecesse alguma coisa com ele.

Tudo se despedaça.

Eu sabia que as palavras de Adrian eram fruto de seus estados contemplativos e metafísicos. Mesmo assim, elas me atormentavam, talvez porque eu entendesse o que ele estava falando. Havia uma perfeição no que a gente tinha, por mais que fosse em momentos furtivos, e, às vezes, parecia que estávamos dançando no fio de uma navalha e acabaríamos caindo. Enquanto contemplava minha missão com Neil e Eddie, pensei, amargurada, se seria ela que me separaria de Adrian. Tínhamos tanto medo de ser pegos por outras pessoas, mas talvez tudo se despedaçasse porque eu estava entrando em uma missão ao mesmo tempo nobre e imprudente.

O centro não aguenta.

Soltei um suspiro e levantei. Não havia nada a fazer agora. Eu estava decidida. Sydney Sage seria a inconsequente, para variar.

Ao voltar para o quarto, encontrei Zoe terminando a lição de casa. As coisas estavam um pouco mais tranquilas depois da briga sobre o aniversário na véspera, mas ainda havia muita tensão entre nós.

— Oi — cumprimentei, tirando o casaco.

— Oi — ela respondeu. — Terminou o trabalho para a sra. Terwilliger?

Ignorei o tom acusatório.

— Sim. O projeto maior está quase terminado, então acho que vou ter mais tempo livre agora. — Pensei que ela ficaria contente com isso, mas ela ainda parecia chateada, por isso tentei outra abordagem. — Quer um cupcake? — Eu tinha trazido alguns e dito para ela que eram do Spencer’s, que tinha uma vitrine de doces bem estocada.

Zoe fez que não.

— É muito calórico. E também está quase na hora da janta.

— Você vai jantar com a gente? — perguntei, esperançosa. Assim como eu, ela tinha feito alguns amigos humanos e às vezes preferia ficar com eles em vez do grupo Moroi.

Percebi que ela estava hesitante, mas, depois de um tempo, abriu um sorriso inseguro que me encheu de esperança.

— Claro. — Ela queria que fôssemos irmãs. Mas, como eu, não sabia como fazer aquilo dar certo.

Um dia, pensei. Um dia vou dar um jeito em tudo. Adrian, Zoe. A vida vai ser mais tranquila.

O humor dela melhorou um pouco enquanto descíamos as escadas e falei que ela poderia pegar o carro mais tarde naquela noite para praticar curvas. Pela primeira vez em muito tempo eu ficaria na escola à noite, então poderia dar uma chance para ela treinar com o Mazda. Admito que foi um tanto difícil ceder o carro depois do que eu e Adrian havíamos feito na noite anterior. As memórias estavam no meu corpo e, mesmo naquele momento, eu ficava sem fôlego só de lembrar. O luar, o toque dele. Nunca olharia para aquele carro da mesma maneira, mas meu sentimentalismo não era suficiente para mantê-lo longe de Zoe.

Na lanchonete, encontramos um clima estranho na mesa dos meus amigos. Jill era a única animada, principalmente porque tinha encontrado um par para a festa. Ela iria com um amigo de Micah, o ex-namorado dela.

— É só platônico — ela disse, lançando um olhar significativo para Neil. — Mas vai ser divertido tirar o uniforme pra variar. E é aqui, então segurança não vai ser um problema.

Neil assentiu, mas ficou claro para mim que não tinha ouvido uma palavra do que ela falou. Eddie também parecia distante, o que era surpreendente, já que, por mais que ele negasse gostar de Jill, costumava ter problemas com os meninos com quem ela saía. Ele e Neil estavam com o mesmo ar preocupado e isso disparou um alarme na minha cabeça de que alguma coisa havia acontecido. Quando os vira no dia anterior, os dois estavam pensando na viagem a Los Angeles, mas não pareciam tão taciturnos. Será que algum guardião tinha se adiantado e matado nosso Strigoi “fácil”?

A última peça do drama era Angeline. Ela não se esforçou nem um pouco para esconder a desconfiança. Adrian tinha me contado que ela passara na casa dele no dia anterior, e fiquei observando os olhares fixos que ela lançava para mim e para os meninos. Como vivia distraída, nunca teria imaginado que perceberia sinais tão sutis. Mesmo agora, apesar da vigilância, ela às vezes mudava de assunto aleatoriamente, como quando disse que bolo de carne não era um bolo de verdade ou quando perguntou por que precisava ter aula de digitação se a tecnologia acabaria desenvolvendo robôs para digitar por nós.

Quando começou a falar sem parar sobre o bolo de cenoura da lanchonete e que a cobertura de cream cheese não devia se chamar cobertura porque não era doce, não aguentei mais. Peguei minha bandeja vazia e levantei para pegar mais água. Não foi uma surpresa quando Eddie me seguiu até o outro lado da lanchonete.

— O que aconteceu? — perguntei. — Angeline ainda está criticando o bolo de cenoura?

— Não, agora ela está falando de bolos em geral e discutindo se é melhor passar a cobertura antes ou depois de esfriarem. — Ele soltou um suspiro. — Mas acho que você percebeu que tem mais alguma coisa acontecendo.

— Fale logo.

— A gente acabou de ver uns relatórios de guardiões sobre um grupo de Strigoi que está descendo pela costa. Todos têm certeza que eles vão acabar em Los Angeles.

Entendi na hora o que estava implícito.

— E vocês estão com medo de que acabem se juntando com aquele cara.

Ele fez que sim.

— Quer dizer, a gente não tem certeza, mas é uma nova variável a considerar. Parte do que tornava essa ideia menos maluca era que havia menos atividade Strigoi naquela região.

— O que a gente vai fazer, então? — Eu estava começando a ficar contagiada com a apreensão dele.

— Neil e eu achamos melhor ir amanhã. Os outros Strigoi provavelmente ainda não vão ter chegado, e amanhã é sexta-feira. Sabemos que esse cara gosta de atacar pessoas que vão pra balada.

Soltei um resmungo.

— Eu tinha combinado de comemorar meu aniversário com Zoe. Se eu cancelar... meu Deus. A situação vai ficar feia. As coisas já estão bem ruins entre a gente.

Ele assumiu um ar solidário, mas seus olhos ainda estavam resolutos.

— Pode ser nossa única chance.

Desviando o olhar de Eddie, me voltei para o outro lado do refeitório. Neil tinha ido embora e Zoe estava se levantando, provavelmente para pegar o carro. Angeline ainda estava falando sem parar com Jill, e fiquei me perguntando se era sobre teorias da conspiração. Ou talvez bolos. Ou robôs.

— Está bem — falei para Eddie. — Vou dar um jeito.

E dei, mas, como tinha dito, as coisas ficaram feias.

Zoe estava de mau humor quando voltou do treino de baliza, e torci para que não tivesse batido em nada. No dia seguinte, depois das aulas, seu humor ainda estava péssimo, acabando com todas as chances que eu poderia ter de sair ilesa. Não havia o que fazer senão seguir em frente e dar a má notícia de que meu aniversário seria adiado mais uma vez. Ela estava quase em lágrimas ao fim da “conversa”.

— Por que você faz essas coisas? — ela berrou. — Qual é o seu problema? Quando vim para cá, pensei... pensei que tudo seria ótimo. Pensei que seríamos uma equipe!

— E somos — eu disse. — Estamos fazendo muita coisa, e achei... enfim, achei que você estava começando a se dar bem com os Moroi e os dampiros.

— Sim, mas não é com eles que quero passar meu tempo. É com você, Sydney. A minha irmã! Por que tudo é mais importante do que eu?

Avancei para dar um abraço nela, mas ela me empurrou.

— Zoe, você é importante. Amo você. Mas tem muita coisa que preciso fazer. É assim que nosso trabalho funciona. Às vezes a gente precisa se distanciar da família por um tempo.

— A gente não está distante! Eu estou bem aqui. — Ela limpou os olhos, furiosa. — Você disse que tinha terminado aquele negócio com a sra. Terwilliger! — Mais uma vez, eu havia confiado na velha justificativa, simplesmente porque era uma das poucas coisas sobre as quais ela não podia discutir.

— Era para ter terminado, mas agora a gente descobriu uma biblioteca em Pasadena que tem uma coisa de que a gente precisa. Lembra aquele cara maluco que eu falei que ela está namorando? — Consegui dar uma risada sem graça. — Eles vão a uma exposição de cachorros hoje, então ela só vai estar livre à noite. O bom é que a biblioteca fica aberta até...

— Não ligo pra sua biblioteca idiota! — Zoe me encarou com os olhos frios. Quase dava para tocar naquele gelo. — Quero saber uma coisa, Sydney. E não minta nem fuja da pergunta. O que você vai dizer na audiência?

Essa me pegou de surpresa. Eu estava prestes a contar uma mentira, mas, ao encarar a intensidade nos olhos dela, não consegui.

— Vou falar a verdade — eu disse.

— Que verdade?

— Que tanto a mamãe como o papai têm coisas boas a oferecer. A mamãe não é uma pessoa má, Zoe. Você sabe disso.

O rosto dela estava impassível.

— E, se perguntarem com quem você acha que eu deveria ficar, o que você vai responder?

Olhei em seus olhos, tão parecidos com os meus.

— Com a mamãe.

Ela caiu na cama como se eu tivesse lhe dado um soco.

— Por que faria isso comigo?

— Porque a mamãe ama você — respondi simplesmente. — E você devia ter uma vida normal antes de se comprometer com esta.

— Já me comprometi — ela me lembrou, apontando para a tatuagem na bochecha.

— Não é tarde demais. — Queria poder contar sobre a tinta de sal, mas era óbvio que ela não estava preparada para isso. — Zoe, quando vim para cá, tive a primeira chance na vida de fazer o que as outras pessoas fazem. Ter relacionamentos normais.

— É — ela disse, cheia de ódio. — Eu sei.

— Não é frívolo. É maravilhoso. Eu adoro. Queria que você tivesse essa vida.

— Não parece nenhuma crença alquimista que eu já tenha ouvido.

— E não é... porque estou falando com você como irmã, não como alquimista.

— Você vive alternando entre as duas coisas. Como sabe qual ser em cada momento?

Encolhi os ombros.

— Instinto.

Zoe se levantou. Sua expressão deixou claro que ela não estava convencida.

— Vou sair. Vejo você na mansão de Clarence.

As palavras dela me lembraram que aquela era uma noite de fornecimento e, quando caí na cama, desconsolada, desejei já estar lá. Peguei o Celular do Amor e mandei uma mensagem para Adrian. Mal posso esperar pra ver você hoje. Precisava de você agora. Ele não respondeu imediatamente, talvez porque estivesse fazendo algum trabalho para a faculdade. Continuei escrevendo mesmo assim porque era bom desabafar. Amo você. O centro vai aguentar e, algum dia, a gente vai se livrar de tudo isso.

Mais tarde, quando buscamos Adrian para ir à casa de Clarence, precisei resistir à vontade de sair do carro e correr para os seus braços. Estava com muita coisa na cabeça. Zoe. A viagem para Los Angeles. Não esperava que Adrian lutasse minhas batalhas por mim, mas queria que me desse coragem antes delas.

Ele fez isso sem perceber, quando tivemos um breve momento a sós. Eu tinha saído para jogar fora os restos de comida na cozinha e ele me seguiu um minuto depois.

— Oi — eu disse. Minha mão tremia de vontade de tocar nele.

— Está tudo bem? — ele perguntou. Eu podia ver o mesmo desejo em seus olhos. — Você não parecia muito bem lá na sala. Quer dizer, sempre está bem bonita, mas... enfim, você entendeu.

— Tive uma briga com Zoe. Os detalhes não importam. O resumo é que ela me odeia agora. — Encolhi os ombros. — Essa é minha vida. Recebeu minhas mensagens?

— Ah. — Ele desviou o olhar. — Era isso que eu queria falar com você... Eu, hum, meio que perdi o Celular do Amor.

— Como assim? — Meu mundo balançou. — Adrian! Aquele celular é um registro de tudo que acontece entre a gente. Por favor, me diga que você deletava tudo depois que lia.

A expressão culpada dele me disse que não.

— Relaxa. Não perdi no QG alquimista nem nada do tipo. Tenho quase certeza de que esqueci num café com Rowena ontem. Não tem meu nome nem nada. Clarence vai me emprestar o carro, então vou voltar lá e pegar.

Eu ainda não conseguia impedir o frio que se agitava na minha barriga.

— Isso pode ser um desastre.

— Como? Se não estiver simplesmente embaixo de uma mesa e alguém encontrar, vai no máximo ficar rindo das nossas conversas bobas. Ninguém vai pensar: “Rá! Prova de um romance proibido entre uma humana e um vampiro”.

Ele me fez sorrir, como sempre fazia, mas mesmo assim continuei preocupada. Jill entrou na cozinha nesse exato momento e sorriu ao nos ver. Ela não acompanhava mais nosso relacionamento em primeira mão, mas eu tinha certeza de que sabia que havíamos passado para o próximo nível.

— Boa notícia — ela disse, baixinho. — Acho que você tirou Angeline da sua cola. Ela estava tentando me convencer de que você, Neil e Eddie estavam fazendo coisas escondido. Deve achar que você está namorando um deles.

Ri com a piada, contente por Jill também não estar desconfiada da viagem a Los Angeles.

— Claro, porque não teria problema nenhum ela pensar uma coisa dessas.

Ela ia dizer mais alguma coisa, mas foi interrompida quando outras pessoas entraram para deixar os pratos. Isso também pôs fim à minha conversa com Adrian, e o máximo que pude fazer foi trocar um olhar profundo com ele antes de sair. Torci para sobreviver àquela noite e vê-lo novamente.

Eddie, Neil e eu pegamos o carro para Los Angeles. Só falamos durante o trajeto de duas horas para repassar o plano, o que fizemos centenas de vezes. Os dois estavam armados com estacas de prata e eu tinha praticado o feitiço de fogo o máximo possível. Antigamente, precisaria de materiais físicos e muita concentração. Agora, poderia lançá-lo dormindo.

A gente vai conseguir, eu ficava repetindo. É um ótimo plano.

Encontramos a balada que nosso Strigoi gostava de frequentar. Logo entendi o porquê. Era barulhenta e cheia de gente, e os seguranças não se esforçavam muito para conferir a idade das pessoas, o que significava que havia muitos jovens desavisados. O lugar também era cercado por ruelas escuras e tortuosas, a maioria deserta, exceto pelos bêbados cambaleando de volta para casa. Havia muitos cantos e sombras onde se esconder.

— Aqui — Eddie decidiu. Demos a volta no quarteirão e encontramos um beco sem saída ao lado de um prédio em péssimo estado. Marcus teria se sentido em casa. A janela do segundo andar estava quebrada e, quando Eddie subiu pela lata de lixo, encontrou um apartamento vazio e destruído. — Vamos esperar aqui. — Ele me ajudou a subir e assumimos uma posição que nos escondia quase por completo na escuridão, enquanto nos dava uma boa visão da rua. Neil esperou embaixo, torcendo para o Strigoi morder a isca. Ele tinha feito exercícios intensos antes de sairmos, suando para que o Strigoi sentisse seu cheiro com mais facilidade. Os Strigoi gostavam muito mais de beber sangue de dampiros que de humanos, e adoravam ainda mais o sangue Moroi — e era por isso que eu não queria Adrian nessa aventura. Se nossa vítima sentisse o cheiro de Neil, ele seria uma isca irresistível. Imaginamos que, se o Strigoi sentisse o cheiro de Eddie, o confundiria com o de Neil. O meu estaria misturado ao dos outros humanos da área.

Depois disso, não havia o que fazer além de esperar. Nosso Strigoi normalmente atacava em um horário específico, e tínhamos chegado com antecedência. Torci para que ele estivesse em sua toca enquanto montávamos a armadilha. Também torci para que ele realmente aparecesse naquela noite, senão nossa viagem teria sido em vão.

Quando aconteceu, foi tudo tão rápido que achei que tinha imaginado. O Strigoi saltou do prédio à nossa frente, caindo com facilidade no chão e derrubando Neil com um único movimento. Abafei um grito. Se o Strigoi tivesse olhado ao redor, teria visto nossa janela. Ele devia estar muito animado por encontrar um dampiro sozinho.

Neil estava preso no chão, sem chance de pegar a estaca. Quando o Strigoi se debruçou, ele começou a balbuciar:

— Espere... me transforme... me torne igual a você... me desperte...

O Strigoi parou, e então deu uma gargalhada.

— Despertar você? Sabe há quanto tempo não pego um dampiro? Não vou desperdiçar meu sangue com você. Vou saborear o seu até a última gota.

— Posso te ajudar. Posso te servir. — Não tinha dúvida de que o pavor na voz de Neil era verdadeiro, e mesmo assim ali estava ele, se oferecendo em sacrifício pelo bem maior. Eu queria chorar, mas precisava me manter forte e esperar pela minha parte. — Posso ajudar você a encontrar outros dampiros... e Moroi...

Quando o Strigoi voltou a rir, Eddie se aproximou da minha orelha, tão perto que seus lábios quase me tocaram. Os Strigoi tinham uma ótima audição.

— Ele é forte — Eddie murmurou. — E antigo. Muito antigo. A gente se enganou.

Neil gritou quando o Strigoi mordeu seu pescoço. Eddie ficou tenso, e segurei seu braço.

— Espere. A gente precisa saber.

Eu sabia a agonia que Eddie devia estar sentindo porque eu também a sentia. Ambos queríamos ajudar Neil. Não fazer nada, mesmo que por alguns segundos, ia contra tudo o que nos definia. Os gritos de Neil viraram gemidos de dor e, quando o Strigoi continuou a beber, eu soube a terrível verdade. A tatuagem era um fracasso e...

O Strigoi ergueu a cabeça de repente.

— O que tem de errado com você? — ele rosnou.

Era tudo o que Eddie precisava ouvir. Em um segundo, ele saltou da janela, caindo quase com a mesma leveza que o Strigoi. Eddie já estava com a adaga de prata em mãos quando caiu, mas, para nossa surpresa, o Strigoi se adiantou. Eddie tinha razão. Antigo e poderoso. Talvez antigo e poderoso demais para nós.

Eddie e o Strigoi entraram em uma dança mortal enquanto eu esperava uma oportunidade. Sabíamos que, se a luta se desse em um espaço pequeno, uma bola de fogo poderia nos incinerar também. Minhas instruções haviam sido claras e diretas. Usar o fogo apenas se o Strigoi matasse ou transformasse meus amigos. Eu seria o último recurso, mas desejei que houvesse uma maneira de ajudar Eddie antes disso, porque estava claro que o trabalho tinha sobrado para ele. Neil, ainda que estivesse vivo, estava fora da luta.

Eddie, por sua vez, foi esplêndido. Fazia tempo que eu não o via em ação, e tinha quase esquecido que o irmão adotivo com quem eu fazia piadas e almoçava era um guerreiro letal. Ele fez o Strigoi sofrer para conseguir o que queria, errando só uma vez, quando um golpe potente o jogou contra a parede de tijolos. Ele se recuperou imediatamente, mas pude prever o inevitável. Uma série de pequenos golpes, pequenos ferimentos... teriam seu preço. Combinados com a força e a resistência superiores do Strigoi, seria só uma questão de tempo.

Eu precisava agir. Não podia ficar parada e deixar Eddie ser aniquilado enquanto era capaz de fazer alguma coisa. Lançar uma bola de fogo ainda não era seguro, mas eu poderia criar uma bela distração. Pulei pela janela, usando a lata de lixo como degrau para descer até o chão. Foi uma desgraça depois da saída incrível de Eddie. Meu pé caiu de mau jeito, e eu tropecei. Nem precisei criar uma distração mágica porque o Strigoi me percebeu imediatamente. Ele empurrou Eddie para trás e disparou na minha direção.

O medo tomou conta de mim quando encarei o olhar fixo naquele rosto cadavérico. No entanto, apesar da vontade irresistível de gritar, ergui a mão e invoquei uma pequena bola de fogo. Minha esperança era assustá-lo o bastante para que Eddie tivesse a chance de enfiar a estaca nele. Para minha surpresa, não funcionou. Ele segurou meu punho e me jogou contra a parede de tijolos. A chama desapareceu, e soltei um grito.

— Não tente essa brincadeira comigo, bruxa — ele grunhiu. — Conheço seu tipo. Conheço seus truques. Seu sangue pode até ser proibido, mas seu pescoço quebra como o de qualquer pessoa.

Pude ver a minha morte nos olhos dele, e não foi medo que senti, mas tristeza, uma tristeza enorme e avassaladora por todas as coisas que nunca faria. Eu nunca voltaria a ver Adrian, nunca construiria uma vida com ele, nunca teria os filhos perfeitos sobre os quais ele brincava. Mesmo as pequenas coisas assumiram um ar terrível de perda. Eu nunca almoçaria com meus amigos novamente, nunca ouviria Angeline fazer seus comentários absurdos. Nunca daria um jeito na minha relação com Zoe.

Foi incrível como tantas coisas passaram pela minha cabeça em um milésimo de segundo. E era incrível como as pequenas coisas da vida se tornavam gigantescas quando se estava prestes a perdê-las.

De repente, o Strigoi deu meia-volta, antecipando um avanço de Eddie. Ele se esqueceu de mim enquanto pulava sobre Eddie outra vez, e não perdi tempo para correr em direção ao corpo caído de Neil. Estava tentando arrastá-lo para longe da luta quando dois vultos entraram correndo no beco. A princípio, pensei que pessoas da festa tinham topado com a gente por acaso. Então os reconheci.

Angeline e Trey.

— Não acredito — eu disse.

Ela estava desarmada, mas Trey estava portando uma espada, a arma favorita dos Guerreiros da Luz. A presença deles surpreendeu o Strigoi por um segundo, o bastante para que Eddie o empurrasse com força e finalmente desse um golpe ofensivo de verdade. Trey se aproximou pelo outro lado, brandindo a espada perto do pescoço do Strigoi. Angeline me ajudou a levar Neil para longe do perigo e depois se ajoelhou ao lado dele. Ele piscou algumas vezes e sua mão se moveu em direção ao bolso, onde pude ver um brilho prateado. Angeline pegou a estaca e a segurou enquanto observávamos o desenrolar do combate diante de nós.

O Strigoi estava preso entre Eddie e Trey, mas não parecia intimidado. Media os dois e pude adivinhar seus pensamentos. Mesmo armado e treinado, um humano como Trey era o alvo mais fácil. Seria melhor acabar com ele imediatamente ou cuidar da ameaça maior antes? O Strigoi escolheu a primeira opção, avançando contra Trey enquanto se esquivava de um ataque de Eddie. O impacto jogou Trey no chão, mas custou um momento de atenção do Strigoi, que Eddie aproveitou para acertar um golpe violento com a estaca.

O Strigoi soltou um uivo de dor, mas não recuou. Ele conseguia atacar e se defender sem esforço aparente. Ninguém ganhava terreno e minha frustração só crescia. Eu me sentia de mãos atadas e tentei me lembrar de algum feitiço que pudesse usar. Tinha um vasto repertório na ponta dos dedos, mas, com a maneira irregular como todos se moviam, não tinha como ter certeza de que não machucaria um dos meus amigos.

Eddie fez um ataque desesperado e conseguiu derrubar o Strigoi no chão. Sem que fosse preciso nenhuma comunicação, Trey avançou com a espada para decapitar o monstro. Mas o Strigoi voltou a nos frustrar. Ele se levantou em um salto, dando um chute giratório que derrubou os dois. Pelo jeito, decidiu mudar de tática e avançou contra Eddie dessa vez, e até eu pude ver que ele estava se levantando devagar demais.

Foi quando aconteceu o impensável. Uma densa névoa branca se ergueu de repente do chão coberto por poças d’água, envolvendo e cegando o Strigoi por um momento. Foi então que Angeline agiu. Todos tinham se esquecido dela, inclusive eu. Ela se ergueu de onde estava ao meu lado, avançou sem hesitar e enfiou a adaga de prata nas costas do Strigoi. Ele gritou. Não foi o bastante para matar a criatura, mas foi o suficiente para que Eddie se recuperasse e enfiasse a própria estaca no coração dele. O Strigoi se debateu um pouco, numa última tentativa de se salvar, e então caiu inerte. Reinou o silêncio enquanto todos continham a respiração.

— O que você está fazendo aqui? — Eddie perguntou.

— Salvando vocês — Angeline disse. — Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo.

— Não estou falando com você — ele retrucou. Ele derrubou a estaca e passou por ela, na direção da entrada do beco. Havia uma figura alta e magra parada ali, com o cabelo refletindo a luz do poste. Jill. Lembrei do momento em que a água no chão tinha se transformado em névoa e tudo fez sentido.

— Você não deveria estar aqui! — Eddie exclamou, parando diante dela. Foi uma das poucas vezes em que o vi bravo. Sem dúvida, nunca o vira bravo com ela. Ele lançou um olhar furioso para Angeline antes de se voltar para Jill outra vez. — Eles não deviam ter trazido você.

— Tenho o direito de estar aqui, sim — ela retrucou. — Quando Angeline finalmente nos convenceu, eu sabia que precisávamos ajudar. E ajudamos.