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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CURA FATAL / Robin Cook
CURA FATAL / Robin Cook

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Decidindo abandonar a grande cidade, os jovens médicos David e Angela Wilson mudam-se para uma pequena localidade no estado do Vermont para exercerem medicina no Hospital local. O ritmo mais lento, a vida mais simples e o ar revigorante da montanha deviam ser bons para a filha doente, Nikki. Eles estão convencidos de que encontraram o seu paraíso. Mas o paraíso da família Wilson não tarda a transformar-se num pesadelo, pois David e Angela não só enfrentam uma catástrofe profissional como também se vêm confrontados com uma conspiração sinistra, que inicia-se com a morte de um paciente, após ter sido submetido a uma cirurgia ortopédica e vai entrelaçando-se com outras mortes, estupros e algo que envolve um plano de saúde e o hospital. Enfim, uma obra carregada de suspense, com uma boa trama, envolvendo médicos, pacientes e administradores, burocratas da saúde...

 

 

 

 

DEZESSETE DE FEVEREIRO foi um dia fatídico para Sam Flemming.

Sam considerava-se uma pessoa extremamente afortunada. Como corretor de uma das grandes empresas de Wall Street, tornara-se rico aos vinte e seis anos. Depois, como um jogador que sabia quando parar, recolhera seus ganhos e fora para o Norte, fugindo dos cânions de concreto de Nova York para a idílica Bartlet, em Vermont. Ali começara afazer o que realmente sempre quisera: pintar.

Parte de sua boa sorte fora sempre a saúde. Mas às quatro e meia de 17 de fevereiro alguma coisa estranha começou a acontecer. Numerosas moléculas de água dentro de muitas de suas células começaram a se partir em dois fragmentos: um átomo de hidrogénio relativamente inofensivo e um radical livre hidroxila, altamente reativo e perversamente destrutivo.

Enquanto ocorriam esses eventos ao nível molecular, as defesas celulares de Sam foram ativadas.

Mas especificamente naquele dia essas defesas contra os radicais livres se exauriram depressa;

até mesmo as vitaminas antioxidantes E, C e betacaroteno que ele tomava diligentemente todos os dias não puderam impedir a maré súbita e avassaladora.

Os radicais livres hidroxilas começaram a abocanhar o cerne do corpo de Sam Flemming. Em pouco tempo, as membranas das células afetadas começaram a vazar líquido e eletrólitos. Ao mesmo tempo, algumas das enzimas das células foram partidas e desativadas. Até mesmo muitas moléculas de DNA foram atacadas, e genes específicos foram danificados.

Em sua cama no Hospital Comunitário de Bartlet, Sam permanecia inconsciente da perigosa batalha molecular dentro de suas células. O que ele percebia eram algumas seqüelas: uma elevação da temperatura, alguns distúrbios digestivos e o princípio de uma congestão peitoral.

Quando veio examiná-lo no final daquela tarde, o Doutor Portland notou com alarme e desapontamento a febre. Depois de ouvir-lhe o peito, tentou explicar-lhe que aparentemente houvera uma complicação. Disse que um princípio de pneumonia estava interferindo com a recuperação da cirurgia no quadril, que afora isso vinha correndo bastante bem. Mas Sam tinha começado a ficar apático e ligeiramente desorientado. Não compreendia o relatório do Doutor Portland sobre seu estado. A prescrição de antibióticos e a garantia de uma recuperação rápida não se registraram em seu pensamento. E, pior ainda, os prognósticos do médico se mostraram errados. O antibiótico prescrito não conseguiu interromper o desenvolvimento da infecção. Sam jamais se recuperou suficientemente para apreciar a ironia de sobreviver a dois assaltos em Nova York, à queda de um avião em Westchester County e a um terrível acidente entre quatro veículos na auto-estrada de Nova Jersey somente para morrer de complicações resultantes da queda numa calçada coberta de gelo diante da Loja de Ferragens Staley’s, na Main Street em Bartlet, Vermont.

 

QUINTA-FEIRA - 18 DE MARÇO

Diante dos empregados mais importantes do Hospital Comunitário de Bartlet, Harold Traynor fez uma pausa por tempo suficiente para desfrutar o momento. Ele acabara de pedir silêncio. O grupo reunido - todos os chefes de departamentos - havia se calado em obediência. Todos os olhos estavam grudados nele. A dedicação de Traynor ao seu cargo de chairman da diretoria do hospital era um motivo de orgulho. Ele saboreava esses momentos, quando ficava claro que sua simples presença provocava admiração e reverência.

- Obrigado a todos por terem saído de casa no meio da neve, esta noite. Convoquei esta reunião para deixar claro como a diretoria do hospital está levando a sério o infeliz ataque contra a enfermeira Prudence Huntington no estacionamento de baixo, na semana passada. O fato do estupro ter sido impedido pela chegada súbita de um membro da segurança do hospital não diminui em nada a seriedade do crime.

Traynor fez uma pausa, deixando os olhos pousarem significativamente em Patrick Swegler. O chefe da segurança evitou o olhar acusatório de Traynor. O ataque contra a Srta. Huntington fora o terceiro episódio do mesmo tipo no ano anterior, e Swegler sentia-se, compreensivelmente, responsável.

- Esses ataques devem parar! - Traynor olhou para Nancy Widner, diretora de enfermagem. Todas as três vítimas tinham sido enfermeiras sob sua supervisão.

”A segurança de nosso pessoal é uma questão básica - disse Traynor enquanto seus olhos saltavam de Geraldine Polcari, chefe da nutrição, para Gloria Suarez, chefe do departamento de limpeza. -Conseqüentemente, a diretoria executiva propôs a construção de um prédio-garagem na área do estacionamento de baixo. Ele será ligado diretamente ao prédio principal do hospital e terá iluminação adequada e câmeras de vigilância.

Traynor acenou com a cabeça para Helen Beaton, presidente do hospital. Pegando a deixa, Beaton levantou um pano sobre a mesa de reuniões para revelar uma maquete detalhada do complexo hospitalar existente, além do acréscimo proposto: uma estrutura maciça, de três andares, projetando-se atrás do prédio principal.

Entre exclamações aprovadoras, Traynor caminhou ao redor da mesa para se posicionar perto da maquete. A mesa de reuniões do hospital costumava ser repositório de parafernálias médicas a serem avaliadas para compra. Traynor estendeu a mão para remover um suporte com tubos de ensaio afunilados, de modo que a maquete pudesse ser mais bem observada. Em seguida, examinou a audiência. Todos os olhos estavam grudados na maquete; todo mundo menos Werner Van Slyke, que ficara de pé.

O estacionamento sempre fora um problema no Hospital Comunitário de Bartlet, especialmente quando fazia mau tempo. Traynor sabia que o acréscimo proposto seria bem recebido mesmo antes da seqüência de ataques no estacionamento de baixo. Ficou satisfeito ao ver que sua revelação estava acontecendo com o sucesso que ele previra. A sala reluzia de entusiasmo. Somente o carrancudo Van Slyke, chefe de engenharia e manutenção, continuava impassível.

- Qual é o problema? - perguntou Traynor. - Você não aprova esta proposta?

Van Slyke olhou para Traynor, ainda com a expressão vazia.

- E então? - Traynor sentiu que ficava tenso. Van Slyke tinha uma capacidade especial de irritá-lo. Traynor jamais gostara da natureza lacônica e sem emoção do sujeito.

- Está bom - disse Van Slyke em voz opaca.

Antes que Traynor pudesse responder, a porta da sala de reuniões foi aberta com violência, chocando-se contra o batente preso ao chão. Todos saltaram, especialmente Traynor.

De pé na entrada estava Dennis Hodges, um homem vigoroso e atarracado de setenta anos, com feições grosseiramente esculpidas e pele envelhecida. Seu nariz era róseo e bulboso, os olhos saltados e remelentos. Vestia um paletó de lã verde-escuro sobre calças de veludo cotelê sem vincos. No topo da cabeça tinha um boné de caçador vermelho xadrez, pintalgado de neve. Na mão esquerda, que mantinha erguida, segurava um maço de papéis.

Não havia qualquer dúvida de que Hodges estava irado. Além disso, fedia a álcool. Seus olhos, escuros como cano de espingarda, metralharam as pessoas reunidas, e em seguida miraram Traynor.

- Quero conversar com você sobre alguns de meus ex-pacientes, Traynor. Com você também, Beaton.-Hodges lançou um olhar rápido e enojado para a mulher.-Não sei que tipo de hospital vocês pensam que estão dirigindo aqui, mas posso dizer que não gosto nem um pouco!

- Ah, não! - murmurou Traynor assim que conseguiu se recuperar do aparecimento inesperado de Hodges. Rapidamente a irritação superou seu choque. Um olhar rápido pela sala asseguroulhe que os outros estavam quase tão felizes quanto ele por verem Hodges. - Doutor Hodges - começou Traynor, forçando-se a ser educado. - Acho que dá para notar que estamos no meio de uma reunião. Se nos desculpar...

- Estou me lixando para o que vocês fazem. O que quer que seja, não é tão importante quanto o que estão fazendo com meus pacientes. - Hodges aproximou-se lentamente de Traynor.

Instintivamente, Traynor recuou. O cheiro de uísque era intenso.

- Doutor Hodges - disse Traynor com irritação evidente.-Isto não é hora para interrupções desse tipo. Ficarei satisfeito em marcar uma reunião com você amanhã, para conversarmos sobre suas queixas. Agora, se puder fazer a gentileza de nos deixar e cuidar de seus afazeres...

- Eu quero falar agora! - gritou Hodges. - Não gosto do que você e sua diretoria estão fazendo.

- Escute, seu velho bobo! Baixe a voz! Eu não tenho a menor idéia do que se passa na sua cabeça. Mas vou dizer o que eu e a diretoria estamos fazendo: estamos nos arrebentando para manter este hospital aberto, e não é uma tarefa simples para qualquer hospital hoje em dia. Portanto, não gosto de qualquer alusão em contrário. Agora, seja razoável e deixe-nos prosseguir com a reunião.

- Não vou esperar - insistiu Hodges. - Quero falar com você e Beaton agora mesmo. As bobagens da enfermagem, da nutrição e da limpeza podem esperar. Isto é importante.

- Ah! - disse Nancy Widner. - É bem o seu feitio, Doutor Hodges, entrar feito um louco aqui dentro e sugerir que as questões da enfermagem não são importantes. Pois saiba que...

- Parem! - disse Traynor, estendendo as mãos num gesto conciliatório. - Não vamos começar um quebra-quebra. O fato, Doutor Hodges, é que estamos aqui falando sobre a tentativa de estupro que aconteceu na semana passada. Tenho certeza de que não está sugerindo que um estupro e duas tentativas de estupro feitas por um homem com máscara de esquiador não são importantes.

- São importantes - concordou Hodges. - Mas não tão importantes quanto o que se passa na minha cabeça. Além disso, o problema do estupro é obviamente uma questão interna.

- Espere um segundo. Você está sugerindo que conhece a identidade do estuprador?

- Vamos colocar a coisa do seguinte modo: eu tenho minhas suspeitas- Mas no momento não estou interessado em discuti-las. Estou interessado nestes pacientes. - Para enfatizar o que dizia, Hodges bateu com os papéis sobre a mesa.

Helen Beaton fez uma careta e disse:

- Como ousa entrar aqui como se fosse dono de tudo, dizendo o que é importante e o que não é? Como administrador emérito, esse não é o seu papel.

- Obrigado pelo conselho que não pedi - disse Hodges.

- Certo, certo - Traynor suspirou frustrado. Sua reunião degringolará numa confusão verbal. Ele pegou os papéis de Hodges, colocou-os nas mãos dele e em seguida conduziu-o para fora da sala. A princípio, Hodges resistiu, mas acabou permitindo que o outro o levasse.

- Nós precisamos conversar, Harold - disse Hodges assim que chegaram ao corredor. - Este negócio é sério.

- Tenho certeza de que é. - Traynor tentou parecer sincero. Sabia que acabaria tendo de ouvir as queixas de Hodges. Hodges fora administrador do hospital quando Traynor ainda estava na escola primária. Mantivera o cargo quando a maioria dos médicos não se interessava pela responsabilidade. Nos trinta anos que passara no comando, construíra o Hospital Comunitário de Bartlet a partir de um pequeno hospital rural, transformando-o num verdadeiro centro de atendimento terciário. Fora essa instituição em pleno processo expansivo que ele entregara a Traynor ao deixar o cargo três anos antes.

”Olhe - disse Traynor -, o que quer que esteja se passando em sua cabeça pode esperar até amanhã. Vamos conversar na hora do almoço. Vou providenciar para que Barton Sherwood e o Doutor Delbert Cantor se reunam conosco. Se o que você deseja discutir tem a ver com política, que é o que eu presumo, seria melhor termos também o vice-diretor e o chefe do pessoal médico. Não concorda?

- Acho que sim - admitiu Hodges relutante.

- Então está combinado - disse Traynor em tom apaziguador, ansioso por voltar e salvar o que pudesse da reunião, agora que Hodges estava aplacado. - Vou contactá-los esta noite.

- Eu posso não ser mais o administrador, mas ainda me sinto responsável pelo que acontece aqui. Afinal de contas, se não fosse por mim, você não teria sido indicado para a diretoria, muito menos eleito diretor geral.

- Sei disso - disse Traynor, e em seguida brincou: - Mas não sei se agradeço ou se lhe rogo uma praga por essa honra dúbia.

- Estou preocupado com a possibilidade de ter deixado o poder subir-lhe à cabeça – disse Hodges.

- Que história é essa? O que está querendo dizer com ”poder”? Este cargo não passa de uma dor de cabeça depois da outra.

- Você está dirigindo uma instituição de cem milhões de dólares. E que é o maior empregador nesta parte do estado. Isso significa poder.

Traynor riu nervosamente.

- Ainda assim é uma chateação. E temos sorte de ainda estarmos funcionando. Não preciso lembrá-lo de que nossos dois concorrentes não existem mais. O Hospital Valley fechou, e o Mary Sackler foi transformado numa casa de repouso.

- Continuamos funcionando, mas temo que o pessoal das finanças esteja esquecendo qual é a missão do hospital.

- Ah, besteira! - disse Traynor rispidamente, perdendo um pouco de controle.-Vocês, médicos da antiga, precisam despertar para uma nova realidade. Não é fácil dirigir um hospital no clima atual, com cortes nos custos, planos de saúde particulares e intervenção do governo. Não é mais uma questão de um pequeno lucro acima dos custos, como na sua época. Os tempos mudaram, exigindo novas adaptações e novas estratégias de sobrevivência. Washington está exigindo isso.

Hodges riu zombeteiro:

- Washington certamente não está exigindo o que você e seus seguidores estão fazendo.

- Não estão é o cacete! Isso se chama competição, Dennis. A sobrevivência do mais adaptado e do mais econômico, e não a prestidigitação com os custos, como você costumava fazer.

Traynor parou, notando que estava perdendo a compostura. Enxugou o suor que surgira em sua testa e respirou fundo.

- Escute, Dennis, preciso voltar para a sala de reuniões. Vá para casa, acalme-se, relaxe, durma um pouco. Vamos nos encontrar amanhã e conversar sobre o que o está preocupando, certo?

- Estou meio exausto - admitiu Hodges.

- Sem dúvida que está.

- No almoço, amanhã? Promete? Sem desculpas?

- Prometo - disse Traynor, dando um tapinha de encorajamento nas costas de Hodges. – No restaurante, ao meio-dia em ponto.

Aliviado, Traynor observou seu antigo mentor arrastar-se pelo corredor do hospital com seu característico andar desajeitado, como se tivesse os quadris rígidos. Virando-se para a sala de reuniões, sentiu-se pasmo com o incrível talento que o sujeito tinha para causar tumultos.

Infelizmente, Hodges estava se tornando algo mais além de um simples incômodo. Estava se tornando virtualmente um grande estorvo.

- Será que podemos pôr alguma ordem aqui? - gritou Traynor acima da confusão para a qual retornara. - Desculpem pela interrupção. Infelizmente, o velho doutor Hodges tem uma capacidade especial de aparecer nos momentos mais inoportunos.

- Isso é um eufemismo - disse Barton. - Ele vive irrompendo em minha sala para reclamar que um de seus ex-pacientes não está recebendo o que ele considera um tratamento VIP. Age como se ainda fosse o diretor.

- A comida nunca está do seu agrado - acrescentou Gloria Suarez.

- Ele vai à minha sala mais ou menos uma vez por semana - disse Nancy Widner. - É sempre a mesma reclamação. As enfermeiras não estão atendendo suficientemente rápido aos pedidos de seus ex-pacientes.

- Ele se auto-elegeu representante deles - disse Beaton.

- São as únicas pessoas da cidade que conseguem suportá-lo - completou Nancy.-Praticamente todas as outras acham-no um velho bobo e extravagante.

- Vocês acham que ele sabe qual é a identidade do estuprador? - perguntou Patrick Swegler.

- Meu Deus, não! - disse Nancy. - Ele não passa de um fanfarrão.

- O que o senhor acha, Senhor Traynor? - insistiu Patrick Swegler.

Traynor encolheu os ombros.

- Duvido que ele saiba de alguma coisa, mas sem dúvida vou perguntar-lhe amanhã, no almoço.

- Não invejo esse almoço - disse Beaton.

- Não estou nem um pouco ansioso - admitiu Traynor. - Sempre achei que ele merecia um certo respeito, mas, para ser honesto, minha decisão vem esmorecendo. - Bom, vamos voltar ao assunto do dia. - Logo Traynor conseguiu recolocar a reunião nos trilhos, mas para ele a alegria da noite estava perdida.

Hodges caminhava pelo meio da Main Street. No momento não havia veículos andando em qualquer direção. As escavadeiras ainda não tinham aparecido; cinco centímetros de neve cobriam a cidade, enquanto continuavam a cair mais flocos.

Ele xingou em voz baixa, dando vazão parcial à sua ira nãoaplacada. Agora que estava a caminho de casa, sentiu-se enraivecido por ter permitido que Traynor o dispensasse.

Chegando próximo ao parque da cidade, com seu mirante vazio coberto de neve, Hodges olhou em direção ao norte, para além da igreja metodista. Lá, à distância, seguindo pela Front Street, dava para vislumbrar o prédio principal do hospital. Parou, observando melancolicamente a estrutura.

Uma sensação de mau agouro baixou com um tremor. Havia dedicado sua vida ao hospital, para que ele servisse às pessoas. Mas agora temia que ele não estivesse cumprindo sua missão.

Virando-se, retomou sua caminhada pela Main Street. Enfiou no bolso do casaco os papéis que estava segurando. Seus dedos tinham ficado dormentes. Meio quarteirão depois, parou de novo.

Dessa vez, olhando para as janelas do Iron Horse Inn. Um brilho convidativo e incandescente vazava para a calçada frígida e coberta de neve.

Hodges precisou apenas de um instante de racionalização para decidir que gostaria de outro gole. Afinal de contas, agora que sua esposa Clara passava mais tempo com a família em Boston do que com ele em Bartlet, não era como se ela o estivesse esperando. Certamente havia algumas vantagens em seu virtual afastamento. Hodges sabia que iria gostar do reforço extra para a caminhada de vinte minutos até chegar em casa.

No saguão, bateu a neve de suas botas com solas de borracha e pendurou o casaco num cabide de madeira. O chapéu foi para um escaninho acima. Passando por um balcão vazio, usado para guardar casacos nas festas, Hodges atravessou um pequeno corredor e parou na entrada do bar.

O salão era construído de pinho bruto, que tinha uma aparência de queimado devido aos dois séculos de uso. Uma imensa lareira onde o fogo rugia dominava uma das paredes.

Hodges examinou a sala. De seu ponto de vista, o conjunto de personagens reunidos era insípido, mal lembrando o Cheers, da NBC. Viu Barton Sherwood, presidente do Banco Nacional de Green Mountain e agora, graças a Traynor, WCQ-chairman da diretoria do hospital. Sherwood estava num reservado com Ned Banks, o antipático proprietário da New England Coat Hanger Company.

Em outra mesa, o Doutor Delbert Cantor estava sentado com o Doutor Paul Darnell. A mesa estava coberta por garrafas de cerveja, cestos de batata frita e pratos de queijo. Para Hodges, eles pareciam dois porcos no cocho.

Por um segundo, pensou em pegar os papéis no casaco e fazer com que Sherwood e Cantor conversassem com ele. Mas imediatamente abandonou a idéia. Não estava com energia, e tanto Cantor quanto Darnell davam-lhe engulhos. Cantor, um radiologista, e Darnell, patologista, tinham sofrido quando Hodges conseguira que o hospital assumisse esses departamentos há cinco anos. Certamente não seriam uma audiência receptiva para suas queixas.

No bar estava John MacKenzie, outro que Hoges faria tudo para evitar. Tinha um desentendimento de longa data com ele. John era dono do posto Mobil perto da interestadual, e cuidara dos veículos de Hodges durante muitos anos. Mas da última vez o defeito no carro de Hodges não fora consertado. Hodges tivera de ir até o vendedor em Rutland para fazer o conserto. Conseqüentemente, não pagara a John.

Dois bancos depois de John MacKenzie, Hodges viu Pete Bergan e gemeu por dentro. Pete fora um ”bebé azul”, uma criança que sofria de cianose, e nunca terminara a sexta série.

Aos dezoito anos, abandonara a escola, sustentando-se através de biscates. Hodges conseguira-lhe uma vaga de ajudante do pessoal da limpeza no hospital, mas tivera de concordar com sua demissão quando ele se mostrara muito pouco digno de confiança. Desde então Pete guardava rancor.

Depois de Pete havia uma fila de bancos vazios. E além do bar, descendo um degrau, ficavam duas mesas de bilhar. Música jorrava de uma antiga vitrola automática estilo anos 60, encostada junto à parede mais distante. Ao redor das mesas de bilhar estava reunido um punhado de alunos do Bartlet College, uma pequena instituição de ciências humanas que recentemente passara a aceitar alunos de ambos os sexos.

Por um instante Hodges hesitou junto à entrada, tentando decidir se uma bebida valeria o encontro com qualquer uma dessas pessoas. No final, a lembrança do frio e a antecipação do gosto do scotch impeliram-no para a sala.

Ignorando todo mundo, Hodges foi para a extremidade mais distante do bar e sentou-se num banco vazio. O calor que irradiava da lareira esquentou suas costas. Um copo surgiu à sua frente, e Carleton Harris, o gordo barman, serviu-lhe uma dose de Dewar’s sem gelo.

Carleton e Hodges se conheciam há muito tempo.

- Acho que você vai querer arranjar outro lugar - avisou Carleton.

- Por quê? - perguntou Hodges. Ele tinha ficado satisfeito porque ninguém percebera sua entrada.

Carleton balançou a cabeça na direção de um copo de highball pela metade, sobre o balcão, a dois bancos de distância.

- Nosso destemido chefe de polícia, o Senhor Wayne Robertson, parou para tomar um trago. Está no banheiro dos homens.

- Droga!

- Não diga que não avisei - acrescentou Carleton enquanto ia na direção de vários estudantes que se aproximavam do balcão.

- Inferno! Não adianta correr, dá tudo na mesma - murmurou Hodges consigo mesmo. Se fosse para a outra ponta, teria de encarar John MacKenzie. Decidiu ficar onde estava.

Levantou o copo até os lábios.

Antes que pudesse tomar um gole, sentiu um tapa nas costas. Controlou-se para impedir que o copo batesse contra os dentes e a bebida derramasse.

- Ora, vejam só, o nosso charlatão!

Virando-se, Hodges encarou o rosto inebriado de Wayne Robertson. Robertson tinha quarenta e dois anos e era grandalhão. Houvera um tempo em que fora todo músculos. Agora era metade músculos e metade gordura. O aspecto mais proeminente de seu perfil era o abdome, que praticamente se dobrava sobre a fivela de seu cinto oficial. Robertson ainda estava de uniforme, com revólver e tudo.

- Wayne, você está bêbado - disse Hodges. - Por que não vai para casa dormir? – Em seguida virou-se para o bar e tentou mais uma vez tomar um gole de sua bebida.

- Não há nada me esperando em casa, graças a você. Hodges virou-se lentamente e olhou para Robertson. Os olhos do policial estavam vermelhos, quase tão vermelhos quanto suas bochechas gordas. Seu cabelo louro era cortado curto, no estilo dos anos 50.

- Wayne - começou Hodges -, não vamos passar por tudo de novo. Sua esposa, que Deus a tenha, não era minha paciente. Você está bêbado. Vá para casa.

- Você dirigia aquela droga de hospital.

- Isso não quer dizer que eu fosse responsável por todos os casos, seu palerma. Além disso, já faz dez anos. - Outra vez Hodges tentou virar-se para o outro lado.

- Seu filho da mãe! - rosnou Robert. Estendendo a mão, agarrou a camisa de Hodges pelo colarinho e tentou levantá-lo do banco.

Carleton Harris rodeou o bar com uma rapidez que contrariava seu tamanho e meteu-se entre os dois homens. Abriu a mão de Robertson, livrando o colarinho de Hodges, um dedo de cada vez.

- Vocês dois. Para os seus cantos. Não permitimos boxe aqui no Iron Horse.

Hodges esticou a camisa, indignado, pegou a bebida e foi até a outra extremidade do bar.

Enquanto passava por trás de John MacKenzie, ouviu-o murmurando:

- Caloteiro!

Hodges recusou-se a ser provocado.

- Carleton, você não devia ter interferido - gritou o Doutor Cantor para o barman. – Se Robertson tivesse dado uma surra no velho Hodges, toda a cidade teria comemorado.

O Doutor Cantor e o Doutor Darnell gargalharam com o comentário. Ficaram se encorajando mutuamente até que estavam os dois batendo nos joelhos e engasgando com a cerveja.

Carleton ignorouos enquanto rodeava o balcão para colocar mais uma dose para Barton Sherwood.

- O Doutor Cantor está certo - disse Sherwood alto, para que todo mundo ouvisse. – Da próxima vez que Hodges e Robertson se estranharem, deixe por conta deles.

- Não venha você, também - disse Carleton enquanto misturava destramente a bebida de Sherwood.

- Deixem-me falar sobre o Doutor Hodges - continuou Sherwood em voz alta para que todos ouvissem. - Um bom vizinho, eis o que ele não é. Por um acidente histórico, é dono de uma pequena faixa de terra que separa meus dois sítios. E sabe o que ele fez? Construiu uma cerca gigantesca.

- Claro que construí - gritou Hodges, incapaz de segurar a língua. -Foi o único meio de impedir os seus malditos cavalos de cagarem em toda a minha propriedade.

- Então por que não vende aquilo? - perguntou Sherwood, virando-se para encarar Hodges. - Não tem utilidade para você.

- Não posso. Está no nome da minha mulher.

- Bobagem. Isso não passa de um velho estratagema para proteger seus bens no caso de um julgamento por erro médico. Você mesmo me contou.

- Então talvez você devesse saber da verdade. Eu estava tentando ser diplomático. Não vendo a terra a você porque o desprezo. É mais fácil para seu cérebro de amendoim entender isso?

Sherwood virou-se para o salão e dirigiu-se a todos os presentes:

- Vocês são testemunhas. O Doutor Hodges está admitindo que age por despeito. Isso não é surpresa, claro, e nem é uma atitude cristã.

- Ah, fique quieto! - retrucou Hodges. - É hipocrisia um presidente de banco questionar a ética cristã de outra pessoa, com todas as cobranças de hipoteca que estão na sua consciência. Você tirou famílias de suas casas.

- Isso é diferente - disse Sherwood. - São negócios. Tenho de pensar nos meus acionistas.

- Babaquice! - disse Hodges com um gesto que pretendia encerrar a conversa.

Uma agitação súbita na porta atraiu a atenção de Hodges. Ele virou-se a tempo de ver Traynor e o resto dos participantes da reunião entrarem no bar. Deu para perceber que Traynor não ficou satisfeito ao vê-lo. Hodges encolheu os ombros e virou-se para a sua bebida. Mas não conseguiu deixar de perceber o fato fortuito de que os principais diretores estavam ali: Traynor, Sherwood e Cantor. Agarrando o uísque, escorregou para fora de seu banco e seguiu Traynor até a mesa de Sherwood e Banks. Deu-lhe um tapinha no ombro.

- Que tal conversar agora? Estamos todos aqui.

- Que droga, Hodges! - reagiu Traynor abruptamente. - Quantas vezes preciso lhe dizer? Não quero falar sobre isso esta noite. Vamos conversar amanhã!

- Sobre o que ele quer falar? - perguntou Sherwood.

- Algo sobre alguns de seus antigos pacientes. Eu disse que almoçaríamos com ele amanhã.

- O que está acontecendo? - perguntou o Doutor Cantor, juntando-se ao bate-boca. Havia pressentido sangue, e fora atraído para a mesa como um tubarão pela isca.

- O Doutor Hodges não está satisfeito com o modo como dirigimos o hospital - disse Traynor. - Vamos ter de ouvir sobre isso amanhã.

- Sem dúvida é a mesma velha reclamação - exclamou Sherwood. - Não está sendo dado um tratamento VIP aos seus antigos pacientes.

- Isso é que é gratidão! - disse o Doutor Cantor, interrompendo Hodges, que tentava responder. -

Aqui estamos, doando graciosamente nosso tempo para manter o hospital à tona, e o que recebemos em troca? Somente críticas.

- Graciosamente é o cacete - disse Hodges com escárnio. - Nenhum de vocês me engana. Seu envolvimento não tem nada a ver com caridade. Traynor, você passou a usar o cargo para apoiar sua recém-descoberta grandiosidade. Sherwood, seu interesse nem mesmo é tão sofisticado. É puramente financeiro, já que o hospital é o maior cliente do banco. E o seu, Cantor, é tão simples quanto o dele. Só está interessado no Imaging Center, aquela joint venture com a qual concordei num momento de insanidade. De todas as decisões que tomei como administrador do hospital, é a de que mais me arrependo.

- Na época, achou que era um bom negócio.

- Só porque pensei que era o único meio de atualizar o tomógrafo computadorizado do hospital. Mas isso foi antes de perceber que a máquina se pagaria em menos de um ano. O que, claro, me fez entender que você e os outros radiologistas particulares estavam roubando o dinheiro que o hospital deveria estar recebendo.

- Não estou interessado em reabrir essa batalha antiga - disse o Doutor Cantor.

- Nem eu - concordou Hodges. - Mas o ponto é que há muito pouca, ou nenhuma, caridade em vocês. Sua preocupação é o ganho financeiro, não o bem de seus pacientes ou da comunidade.

- Quem é você para falar? - disse ríspido Trayner. - Dirigiu o hospital como se fosse seu feudo pessoal. E quem vem cuidando da sua casa durante todos estes anos?

- O que você quer dizer? - Hodges hesitou, com o olhar saltando de um para outro dos homens que estavam à sua frente.

- Não é uma pergunta complicada - disse Traynor, impulsionado pela raiva. Ele havia cutucado Hodges com uma faca e agora queria enfiá-la até o cabo.

- Não sei o que minha casa tem a ver com isto – conseguiu dizer Hodges.

Traynor ficou na ponta dos pés para examinar o salão.

- Onde está Van Slyke? - perguntou. - Ele está aqui, em algum lugar.

- Está perto da lareira - disse Sherwood, apontando. Teve de lutar para reprimir um sorriso contente. Essa questão da casa de Hodges o apoquentara durante algum tempo. O único motivo pelo qual nunca o trouxera à tona fora a proibição imposta por Traynor.

Traynor chamou Van Slyke, mas ele pareceu não ouvir. Chamou de novo, desta vez suficientemente alto para que todos no bar ouvissem. A conversa parou. A não ser pela música que emanava da vitrola automática, o salão ficou momentaneamente silencioso.

Van Slyke movimentou-se devagar pelo salão, sentindo-se desconfortável na berlinda. Estava consciente de que a maioria das pessoas olhava para ele. Mas logo elas perderam o interesse e as conversas recomeçaram de onde tinham sido interrompidas.

- Nossa! Você parece que está andando em cima de melaço - disse Traynor para Van Slyke. - Algumas vezes age como se tivesse oitenta anos, e não trinta.

- Desculpe - disse Van Slyke, mantendo sua expressão facial vazia.

- Quero fazer uma pergunta - prosseguiu Traynor.-Quem vem cuidando da casa e da propriedade do Doutor Hodges?

Van Slyke olhou de Traynor para o Doutor Hodges, um sorriso torto encurvando-lhe os lábios. Hodges olhou para o outro lado.

- E então? - perguntou Traynor.

- Nós - disse Van Slyke.

- Seja um pouco mais específico - disse Traynor. – Quem são ”nós”?

- O pessoal da manutenção do hospital - disse Van Slyke, sem afastar os olhos de Hodges. E seu sorriso não mudou.

- Há quanto tempo isso vem acontecendo? - perguntou Traynor.

- Desde antes de eu chegar.

- E vai parar a partir de hoje - disse Traynor. - Compreende?

- Certo - disse Van Slyke.

- Obrigado, Werner. Por que não vai até o balcão e toma uma cerveja enquanto nós terminamos de conversar com o Doutor Hodges?

Slyke voltou para o seu lugar junto à lareira.

- Você conhece o antigo ditado - disse Traynor. - Quem tem telhado de vidro...

- Cale-se! - reagiu Hodges rispidamente. Em seguida começou a dizer alguma coisa, mas interrompeu-se. Saiu do salão aparentando uma ira frustrada, agarrou o casaco e o chapéu e mergulhou na noite cheia de neve. - Velho idiota - murmurou enquanto seguia para o sul, saindo da cidade.

Estava furioso com ele mesmo por permitir que um sujeito pretensioso fizesse descarrilhar momentaneamente sua indignação com o atendimento aos pacientes. Entretanto, era verdade que o serviço de manutenção do hospital cuidava de sua propriedade. Isso começara há anos. A equipe simplesmente aparecera um dia. Hodges nunca pedira o serviço, mas também nunca fizera nada para impedi-lo.

A longa caminhada para casa, na noite gélida, ajudou a amortecer a culpa que Hodges sentia pelo serviço de manutenção. Afinal de contas, isso não tinha nada a ver com o atendimento aos pacientes. Enquanto entrava no caminho que levava à sua casa, cuja neve não fora retirada, resolveu oferecer-se para pagar alguma quantia razoável pelos serviços prestados. Não pretendia deixar que esse caso impedisse seu protesto com relação a questões mais sérias.

Ao chegar à metade do caminho, pôde ver o gramado de baixo. Através da neve que caía, conseguiu vislumbrar a cerca que havia erguido para impedir que os cavalos de Sherwood atravessassem sua propriedade. Jamais venderia o terreno para aquele filho da mãe. Sherwood conseguira o segundo sítio cobrando a hipoteca de uma família cujo chefe fora um dos pacientes de Hodges. Na verdade, era um dos pacientes cujas cópias das fichas de admissão estavam em seu bolso.

Saindo do caminho, Hodges pegou um atalho que rodeava o lago das rãs. Dava para ver que alguns garotos da vizinhança tinham vindo patinar, porque a neve fora retirada de cima do gelo e fora erguida uma meta de hóquei improvisada. Por trás do lago, a casa vazia pairava por entre a escuridão cheia de neve.

Rodeando a construção, Hodges aproximou-se da porta lateral do anexo de madeira, que ligava a casa ao celeiro. Bateu a neve das botas e entrou. Na saleta, tirou o casaco e o chapéu, pendurando-os. Remexendo no bolso do casaco, pegou os papéis que estivera carregando e levou-os para a cozinha.

Depois de colocá-los sobre a mesa da cozinha, foi até a biblioteca pegar uma bebida para substituir a que deixara no bar. Batidas insistentes na porta interromperam-no no meio da sala de jantar.

Hodges olhou espantado para o relógio. Quem poderia estar chamando àquela hora, numa noite assim? Mudando de direção, voltou a atravessar a cozinha e a entrar na saleta dos fundos. Usando a manga da camisa, enxugou a condensação de um dos painéis de vidro da porta. Podia apenas vislumbrar a figura do lado de fora.

- O que será? - murmurou Hodges enquanto destrancava a porta. Abriu-a e disse:

- Considerando tudo, é meio estranho você vir me visitar, especialmente a esta hora.

Hodges encarou o visitante, que não disse nada. A neve redemoinhou ao redor de suas pernas.

- Ah, droga - disse Hodges, encolhendo os ombros. - O que quer que você queira, entre.-

Largou a porta e dirigiu-se para a cozinha.

- Apenas não espere que eu faça o papel do anfitrião hospitaleiro. E feche a porta!

Quando chegou ao degrau que levava ao nível da cozinha, Hodges começou a se virar para se assegurar de que a porta tivesse sido trancada, por causa do mau tempo. Com o canto dos olhos viu alguma coisa vindo em direção à sua cabeça. Num reflexo, encolheu-se.

O movimento súbito salvou-lhe a vida. Uma haste chata de metal passou ao lado de sua cabeça, mas não antes de cortar fundo o seu couro cabeludo. A força do golpe levou a haste de metal à parte de cima de seu ombro, onde fraturou a clavícula. O ímpeto lançou-o para dentro da cozinha.

Hodges colidiu com a mesa da cozinha. Suas mãos agarraram as bordas, mantendo-o de pé. De sua cabeça o sangue jorrava em pequenos jatos pulsantes, caindo sobre os papéis. Hodges virou-se a tempo de ver o atacante aproximar-se com o braço erguido. Na mão enluvada, ele segurava uma haste que parecia um pequeno pé-de-cabra chato.

Quando a arma começou a baixar num segundo golpe, Hodges estendeu a mão e agarrou o braço exposto, impedindo o impacto. Mesmo assim o metal cortou seu couro cabeludo junto à linha dos cabelos. Mais sangue jorrou das artérias rompidas.

Hodges enfiou desesperado as unhas no braço do atacante. Sabia intuitivamente que não poderia largá-lo; tinha de impedir outro golpe.

Por alguns instantes, as duas figuras lutaram. Numa dança da morte, fizeram piruetas pela cozinha, batendo contra as paredes, derrubando cadeiras e quebrando pratos. Sangue pingava indiscriminadamente sobre tudo.

O atacante gritou de dor enquanto libertava o braço do aperto de Hodges. Mais uma vez a haste de aço subiu num apogeu assustador antes de baixar contra o braço erguido de Hodges. Os ossos se partiram como gravetos sob o impacto.

De novo a barra de metal levantou-se sobre Hodges, agora impotente, e desceu com força. Desta vez, o arco do movimento não foi interrompido, e a arma bateu diretamente contra a cabeça desprotegida, quebrando um fragmento agudamente definido do crânio e penetrando fundo no cérebro.

Hodges despencou no chão, misericordiosamente insensível.

 

SÁBADO, 24 DE ABRIL

- ESTAMOS CHEGANDO perto de um rio, ali em cima - disse David Wilson para sua filha Nikki, que estava no banco do passageiro ao seu lado. - Sabe qual é o nome dele?

Nikki virou seus olhos cor de mogno na direção do pai e empurrou para o lado uma mecha de cabelos. David lançou um olhar na direção da filha, e com a ajuda da luz do sol que atravessava o pára-brisa captou alguns raios sutis de amarelo que irradiavam de suas pupilas através das íris. Combinavam com as faixas cor de mel em seus cabelos.

- Os únicos rios que eu conheço são o Mississippi, o Nilo e o Amazonas - disse Nikki. – Como nenhum deles fica na Nova Inglaterra, tenho de dizer que não sei.

Nem David nem sua esposa, Angela, conseguiram reprimir um riso.

- O que é tão engraçado? - reagiu Nikki indignada. David olhou pelo retrovisor e trocou um olhar significativo com Angela. Ambos tinham o mesmo pensamento e falavam dele com freqüência: Nikki costumava parecer mais madura do que o esperado para sua idade cronológica de oito anos. Ao mesmo tempo, eles percebiam que a filha estava amadurecendo mais depressa por causa dos problemas de saúde.

- Por que vocês riram? - insistiu Nikki.

- Pergunte a sua mãe - disse David.

- Não. Eu acho que seu pai é que deve explicar.

- Qual é a de vocês? Isso não é justo. Mas não me importo se vocês riem ou não, porque posso descobrir sozinha o nome do rio.

Nikki pegou um mapa no porta-luvas.

- Estamos na Rodovia 89 - disse David.

- Eu sei! - reagiu Nikki irritada. - Não quero ajuda.

- Desculpe - disse David com um sorriso.

- Está aqui - disse Nikki triunfante, enquanto dobrava o lado do mapa para poder ler as legendas. - É o rio Connecticut. O mesmo nome do estado.

- Certo - disse David. - E ele é a fronteira entre o que e o que?

Nikki voltou a olhar por um instante para o mapa.

- Ele separa Vermont de New Hampshire.

- Certo outra vez. - Em seguida, apontando para a frente, David acrescentou: - E ali está ele.

Ficaram todos quietos enquanto o furgão Volvo azul, de onze anos, atravessava a ponte. Embaixo a água corria para o sul.

- Acho que a neve ainda está derretendo nas montanhas - disse David.

- Nós vamos ver as montanhas? - perguntou Nikki.

- Com certeza. As Green Mountains.

Chegaram ao outro lado da ponte, onde a rodovia gradualmente virava para o noroeste.

- Agora estamos em Vermont? - perguntou Angela.

- Estamos, mamãe! - disse Nikki impaciente.

- Quanto falta até Bartlet?

- Não tenho certeza - disse David. - Talvez uma hora.

Uma hora e quinze minutos depois, o Volvo dos Wilsons passou pela placa que dizia: ”Bem-vindos a Bartlet, Cidade do Bartlet College.”

David soltou o acelerador e o carro reduziu a velocidade. Estavam numa ampla avenida apropriadamente chamada Main Street. Era ladeada por grandes carvalhos. Por trás das árvores havia casas brancas de madeira. A arquitetura era um potpoum colonial e vitoriano.

- Até aqui parece um livro de histórias - observou Angela.

- Algumas dessas casas da Nova Inglaterra parecem pertencer ao Disney World - disse David.

Angela gargalhou.

- Algumas vezes penso que você acha que uma réplica é melhor do que o original.

Em pouco tempo, as casas deram lugar a prédios comerciais e públicos, em sua maioria construídos de tijolos e com decorações vitorianas. Placas de madeira entalhada anunciavam o ano em que cada um fora construído. A maioria das datas era do final do século XIX ou do início do século XX.

- Olhem! Tem um cinema - disse Nikki, apontando para um letreiro gasto que anunciava um filme atual em grandes letras de fôrma. Junto ao cinema ficava a agência dos correios, com uma desgastada bandeira americana balançando à brisa.

- Nós tivemos sorte com o tempo - observou Angela. O céu estava de um azul pálido pontilhado por pequenas nuvens brancas e fofas. A temperatura, por volta dos vinte graus.

- O que é aquilo? - perguntou Nikki. - Parece um bonde sem rodas.

David gargalhou.

- É chamado de diner, uma lanchonete construída como se fosse um carro-restaurante de trem. Era comum nos anos 50.

Nikki estava forçando o corpo contra o cinto de segurança, olhando empolgada através do pára-brisa.

Enquanto se aproximavam do coração da cidade, descobriram vários prédios de granito cinza, significativamente mais imponentes do que as estruturas de tijolos, especialmente o Banco Nacional de Green Mountain, com sua torre do relógio cheia de ressaltos e ameias.

- Aquele prédio realmente parece ter saído do Disney World - disse Nikki.

- Tal pai, tal filha - disse Angela.

Chegaram ao parque da cidade, cuja grama já alcançara uma cor luxuriante, quase de meio de verão. Açafrões, jacintos e narcisos pontilhavam o verde, especialmente ao redor do ostentoso mirante central. David levou o carro para a beira da rua e parou, dizendo:

- Comparado com o trecho de Boston ao redor do Hospital Municipal de Boston, isto aqui parece o céu.

Ao norte do parque havia uma grande igreja branca cujo exterior era bastante simples, a não ser pelo enorme campanário. Era uma torre neogótica, repleta de elaborados arabescos e espiras. O campanário ficava entre colunas que apoiavam arcos pontudos.

- Temos várias horas antes das entrevistas. O que vocês acham que devemos fazer? – perguntou David.

- Por que não damos mais uma volta e depois almoçamos? - propôs Angela.

- Para mim, tudo bem.

David engrenou o carro e continuou pela Main Street. No lado oeste do parque da cidade, passaram pela biblioteca, que, como o banco, era construída de granito cinza. Mas parecia mais uma villa italiana do que um castelo.

Logo depois da biblioteca ficava a escola primária. David seguiu com o carro perto da calçada para que Nikki pudesse olhar. Era um atraente prédio de tijolos da virada do século, com três andares, ligado a uma ala indefinível, de construção mais recente.

- O que você acha? - perguntou David a Nikki.

- É aí que eu estudaria se a gente viesse morar aqui?

- Provavelmente - disse David. - Não imagino que haja mais de uma escola numa cidade deste tamanho.

- É bonita - disse Nikki em tom descomprometido.

Continuando em frente, passaram pela área comercial. E se encontraram no meio do campus do Bartlet College. Os prédios, em sua maioria, eram do mesmo granito cinza que eles viram na cidade e tinham o mesmo estilo. Muitos eram cobertos de hera.

- Bem diferente da Brown University - disse Angela. - Mas é charmoso.

- Às vezes me pergunto como teria sido se eu tivesse freqüentado uma faculdade pequena como essa - disse David.

- Você não teria conhecido a mamãe - sugeriu Nikki. - E eu não estaria aqui.

David riu.

- Você está totalmente certa e eu estou muito feliz por ter ido para Brown.

Fazendo uma volta através do campus, dirigiram-se de novo para o centro da cidade. Atravessaram o Roaring River e descobriram dois moinhos antigos. David explicou a Nikki como a força da água era usada antigamente. Um dos moinhos abrigava agora uma empresa de software, mas sua roda- d’água girava lentamente. Um cartaz anunciava que o outro moinho agora era a New England Coat Hanger Company.

De volta à cidade, David estacionou no parque. Desta vez, todos saíram e caminharam pela Main Street.

- É espantoso, não é? Nada de lixo, nem pichações nem mendigos - disse Angela. - Parece um país diferente.

- O que você acha das pessoas? - perguntou David. Eles vinham passando por pedestres desde que haviam saído do carro.

- Eu diria que parecem reservadas. Mas não inamistosas. David parou junto à Loja de Ferragens Staley’s.

- Vou entrar e perguntar onde podemos comer.

Angela assentiu. Ela e Nikki estavam olhando a vitrine da sapataria ao lado.

David voltou num instante.

- Disseram que o diner é melhor para um lanche rápido, mas que a Iron Horse Inn tem a melhor comida. Voto pelo diner.

- Eu também - disse Nikki.

- Bom, isso resolve as coisas - concordou Angela.

Os três pediram hambúrgueres ao estilo antigo: com pão torrado, cebola crua e um monte de ketchup. Quando terminaram, Angela se desculpou:

- Não há a menor hipótese de eu ir para uma entrevista sem escovar os dentes.

David pegou um punhado de balas de menta depois de pagar a conta.

No caminho de volta para o carro, aproximaram-se de uma mulher que vinha em sua direção com um cãozinho de caça, de pêlo dourado, preso a uma correia.

- Ah, que bonitinho! - exclamou Nikki.

A mulher parou gentilmente para que Nikki pudesse fazer festa no cãozinho.

- Qual é a idade dele? - perguntou Angela.

- Doze semanas - disse a mulher.

- Poderia nos dizer onde fica o Hospital Comunitário de Bartlet? - perguntou David.

- Certamente. Sigam até o parque da cidade. A rua da direita é a Front Street. Ela passa bem na porta do hospital.

Agradeceram à mulher e continuaram a andar. Nikki caminhava de lado, para olhar o cãozinho.

- Ele é uma gracinha - falou. - Se a gente vier morar aqui, eu posso ter um cachorro?

David e Angela trocaram olhares. Ambos sentiam-se tocados. A exigência modesta de Nikki, depois de todos os problemas médicos pelos quais passara, derreteu seus corações.

- Claro que você pode ter um cachorro - disse Angela.

- Você pode até escolher - disse David.

- Bom, então eu quero vir para cá - disse Nikki com convicção. - Nós podemos?

Angela olhou para David, na esperança de que ele respondesse, mas ele fez um gesto indicando que ela abordasse a questão. Angela lutou com a resposta. Não sabia o que dizer.

- É difícil dizer se podemos ou não vir para cá - disse finalmente. - Há muitas coisas que precisamos avaliar.

- Que tipo de coisas? - perguntou Nikki.

- Se eles vão querer a mim e ao seu pai - disse Angela, aliviada por ter conseguido uma explicação simples, enquanto os três voltavam a entrar no carro.

O Hospital Comunitário de Bartlet era grande e mais imponente do que David e Angela haviam esperado, mesmo sabendo que era um centro de referência para uma parte significativa do estado.

A despeito de uma placa que dizia claramente ”Estacionamento nos Fundos”, David se aproximou do meio-fio diante da porta da frente. Parou o carro, mas deixou o motor funcionando.

- É realmente bonito - falou.-Nunca pensei que diria isso de um hospital.

- Que vista! - disse Angela.

O hospital ficava na metade de uma colina ao norte da cidade. Era virado para o sul, e sua fachada estava banhada pela luz brilhante do sol. Logo abaixo de onde estavam, na base da colina, podiam ver toda a cidade. O campanário da igreja metodista era especialmente notável. À distância, as Green Mountains proporcionavam uma borda ornamental para o horizonte.

Angela deu um tapinha no braço de David.

- É melhor a gente entrar. Minha entrevista é dentro de dez minutos.

David engrenou o carro e rodeou o hospital. Havia dois estacionamentos em terraços contíguos, separados por uma fileira de árvores. Encontraram vagas para visitantes junto à entrada dos fundos do hospital, no estacionamento de baixo.

Placas adequadamente localizadas tornaram fácil encontrar os escritórios administrativos, e uma secretária solícita indicou-lhes a sala de Michael Caldwell, diretor médico do Bartlet.

Angela bateu na porta aberta. Dentro, Michael Caldwell levantou os olhos de sua mesa e em seguida ergueu-se para recebê-la. Imediatamente Angela achou-o parecido com David: a pele morena, o porte e a compleição atlética. Também tinha mais ou menos a mesma idade de David, trinta anos, bem como a altura, aproximadamente um metro e oitenta. Seu cabelo, como o de David, tendia a formar uma divisão natural no centro. Mas terminavam aí as semelhanças. As feições de Caldwell eram mais duras do que as de David; seu nariz era aquilino e mais estreito.

- Entre! - disse Caldwell com entusiasmo. - Por favor! Vocês todos.

Rapidamente pegou mais cadeiras.

David olhou para Angela, pedindo orientação. Ela encolheu os ombros. Se Caldwell queria entrevistar toda a família, tudo bem.

Depois de rápidas apresentações, Caldwell voltou para trás da mesa, com a pasta de Angela à sua frente.

- Estive olhando sua requisição, e devo dizer que estou realmente impressionado.

- Obrigada.

- Francamente, não esperava uma patologista. Depois fiquei sabendo que é um campo que vem atraindo cada vez mais mulheres.

- Os horários tendem a ser mais previsíveis - disse Angela. - Torna a prática da medicina mais compatível com a família.

Ela analisou o homem. Seu comentário deixara-a ligeiramente desconfortável, mas estava disposta a adiar qualquer julgamento.

- Pelas cartas de recomendação, sinto que o departamento de patologia do Hospital Municipal de Boston acha que você foi um de seus melhores residentes.

Angela sorriu.

- Tentei dar o máximo.

- E o seu currículo da escola de medicina de Colúmbia é igualmente impressionante. Conseqüentemente, gostaríamos de tê-la aqui no Hospital Comunitário de Bartlet. É simples. Mas talvez você tenha algumas perguntas para mim.

- David também se candidatou para um trabalho em Bartlet - disse Angela.-Numa das maiores empresas de planos de saúde da área: a Comprehensive Medical Vermont.

- Nós a chamamos de CMV - disse Caldwell.-E é a única da região.

- Na carta, dei a entender que minha disponibilidade está contingenciada à aceitação dele - disse Angela. - E vice-versa.

- Estou consciente disso - disse Caldwel. - De fato, tomei a liberdade de contactar a CMV e falar sobre a proposta de David com o gerente regional, Charles Kelley. O escritório regional da CMV fica aqui no nosso prédio ambulatorial. Claro que não posso falar oficialmente por eles, mas, pelo que entendi, não há qualquer problema.

- Vou me encontrar com o Senhor Kelley assim que terminarmos aqui - disse David.

- Perfeito - falou Caldwell. - Assim, Dra. Wilson, o hospital gostaria de oferecer-lhe um cargo de patologista associada. Irá trabalhar com dois outros patologistas em tempo integral. O salário do primeiro ano será de oitenta e dois mil dólares.

Quando Caldwell baixou os olhos para a pasta sobre a mesa, Angela olhou para o lado de David. Oitenta e dois mil dólares pareciam uma fortuna, depois de tantos anos de dívidas e salários magros. David devolveu-lhe um olhar conspirador, obviamente compartilhando os pensamentos dela.

- Também tenho algumas informações em resposta à sua carta com perguntas específicas - disse Caldwell. Por um instante ele hesitou, acrescentando em seguida: -Talvez devamos conversar sobre isso em particular.

- Não é necessário - disse Angela. - Presumo que esteja falando sobre a fibrose cística de Nikki. Ela é uma participante ativa no tratamento, de modo que não há segredos.

- Muito bem - disse Caldwell, e sorriu mansamente para Nikki antes de continuar: - Descobri que há uma paciente com o mesmo problema aqui no Bartlet. Seu nome é Caroline Helmsford. Tem nove anos. Providenciei para que você se encontrasse com o médico dela, o Doutor Bertrand Pilsner. Ele é um dos pediatras da CMV.

- Obrigada por ter-se dado ao trabalho - disse Angela.

- Não tem problema. Obviamente queremos que vocês venham para nossa maravilhosa cidade. Mas confesso que não li sobre esse problema de saúde quando fiz os levantamentos. Talvez haja alguma coisa que eu deva saber para poder ajudar.

Angela olhou para Nikki.

- Por que não explica ao Senhor Caldwell o que é fibrose cística?

- Fibrose cística é uma condição herdada - disse Nikki, num tom sério e ensaiado. - Quando ambos os pais são portadores, há vinte e cinco por cento de possibilidade de que os filhos tenham a doença. Cerca de um em cada dois mil bebês é afetado.

Caldwell assentiu e tentou manter o sorriso. Havia alguma coisa enervante em receber uma aula de uma criança de oito anos.

- O problema principal é com o sistema respiratório - prosseguiu Nikki. -- O muco nos pulmões tende a ficar mais espesso do que nas pessoas normais. Os pulmões têm dificuldade para limpar esse muco, o que leva à congestão e à infecção. Bronquite crônica e pneumonia são as principais preocupações. As condições variam bastante: algumas pessoas são seriamente afetadas; outras, como eu, só precisam se cuidar para não pegar resfriados e fazer a terapia respiratória.

- Muito interessante - disse Caldwell. - Sem dúvida você parece uma profissional. Talvez deva ser médica quando crescer.

- Eu pretendo. Vou estudar medicina respiratória.

Caldwell levantou-se e fez um gesto em direção à porta.

- Que tal vocês, doutores e futura doutora, irem até o prédio ambulatorial encontrar o Doutor Pilsner?

Foi uma pequena caminhada da área administrativa no velho prédio central até o prédio ambulatorial, mais novo. Em alguns minutos atravessaram uma porta corta-fogo, e o piso do corredor mudou de vinil para um carpete elegante.

O Doutor Pilsner estava no meio do seu horário de trabalho da tarde, mas gentilmente recebeu os Wilsons. Sua barba branca e espessa deixava-o parecido com Kris Kringle. Nikki gostou imediatamente quando ele se curvou e apertou sua mão, tratando-a mais como um adulto do que como uma criança.

- Temos um grande terapeuta respiratório aqui no hospital - disse o Doutor Pilsner aos Wilsons. - E estamos bem equipados para o atendimento respiratório. Além disso, eu tive uma bolsa de estudos em medicina respiratória no Children’s, em Boston. Acho que podemos cuidar muito bem de Nikki.

- Nossa! - disse Angela, obviamente impressionada e aliviada. - Sem dúvida alguma, isso é confortador. Desde que foi feito o diagnóstico de Nikki, temos uma consideração especial pelas necessidades dela em todas as nossas decisões.

- E estão certos - disse o Doutor Pilsner. - Bartlet é uma boa escolha, com sua baixa poluição e seu ar puro. Desde que ela não tenha alergia a árvores ou a grama, acho que será um ambiente saudável para a sua filha.

Caldwell levou os Wilsons à sede regional da CMV. Antes de sair, fez com que prometessem voltar à sua sala depois da entrevista de David.

A recepcionista da CMV dirigiu os Wilsons para uma pequena área de espera. Os três mal tiveram tempo de pegar revistas antes que Charles Kelley emergisse de sua sala.

Kelley era um homem grande, pairando uns vinte centímetros acima de David enquanto apertavam as mãos. Tinha o rosto bronzeado, e seu cabelo cor de areia apresentava faixas de louro puro. Vestia um terno de corte meticuloso. Seus modos eram expansivos e entusiasmados, mais próprios de um supervendedor do que de um administrador de uma empresa de saúde.

Como Caldwell, Kelley convidou toda a família Wilson para seu escritório. Foi igualmente cortês.

- Francamente, nós o queremos, David - disse Kelley, batendo o punho fechado sobre a mesa. - Precisamos de você como parte de nossa equipe. Ficamos satisfeitos por ter prestado residência em medicina interna, especialmente num lugar como o Hospital Municipal de Boston. À medida que boa parte da cidade se estende para o campo, descobrimos que precisamos do seu tipo de especialização. Você será uma contribuição valiosa para nossa equipe de atendimento e triagem primária, sem dúvida.

- Fico satisfeito por estarem satisfeitos - disse David encolhendo os ombros embaraçado.

- A CMV está se expandindo rapidamente nesta área de Vermont, especialmente na própria Bartlet - alardeou Kelley. - Assinamos convênios com a fábrica de cabides, com a faculdade e com a empresa de softwares de computador, além de todos os funcionários estaduais e municipais.

- Parece um monopólio - brincou David.

- Preferimos pensar que isso se deve à nossa dedicação para com a qualidade no atendimento e o controle de custos.

- Claro - concordou David.

- Seu salário será de quarenta e um mil no primeiro ano. David assentiu. Tinha certeza de que Angela iria implicar com ele, ainda que os dois soubessem todo o tempo que o salário dela seria maior do que o seu. Por outro lado, eles não esperavam que o dela fosse o dobro.

- Posso mostrar sua futura sala - disse Kelley, ansioso. - Isso dará uma visão melhor de nosso funcionamento e de como será trabalhar aqui.

David olhou para Angela. A abordagem de Kelley era a de um vendedor mais agressivo do que Caldwell.

Para David, a sala parecia um sonho. A vista para o sul, na direção das Green Mountains, era tão perfeita que parecia uma pintura.

David notou quatro pacientes sentados na sala de espera, lendo revistas. Olhou para Kelley em busca de uma explicação.

- Você vai compartilhar esta suíte com o Doutor Randall Portland - explicou Kelley. - Ele é um cirurgião ortopédico. Um bom sujeito, devo acrescentar. Descobrimos que compartilhar recepcionistas e enfermeiras é um modo eficiente de utilizar os recursos. Deixe-me ver se ele está disponível para um alô.

Kelley deu alguns passos e bateu no que David pensara que fosse apenas um espelho. Ele deslizou. Por trás havia uma recepcionista. Kelley falou com ela por um instante antes da divisão espelhada deslizar de novo, fechando-se.

- Ele vai sair num segundo - disse Kelley, voltando para perto dos Wilsons. Em seguida explicou a divisão do consultório. Abrindo uma porta no lado oeste da sala de espera, guiou-os por salas de exame vazias, recém-decoradas. Também levou-os até a sala que seria o consultório particular de David. Tinha a mesma visão fabulosa para o sul, como a sala de espera.

- Alô, todo mundo - disse uma voz. Os Wilsons viraram-se, afastando-se da estupefação junto à janela, para ver um homem jovem, porém de aparência cansada, entrando na sala. Era o Doutor Randall Portland. Kelley apresentou-o a todos, inclusive a Nikki, que apertou sua mão como fizera com o Doutor Pilsner. - Me chame de Randy - disse o Doutor Portland enquanto cumprimentava David.

David sentiu que o sujeito o estava avaliando.

- Joga basquete? - perguntou Randy.

- De vez em quando. Ultimamente não tenho tido muito tempo.

- Espero que fique em Bartlet. Precisamos de mais jogadores aqui. Pelo menos alguém para ficar no meu lugar.

David sorriu.

- Foi bom conhecer vocês. Mas acho que preciso voltar para o trabalho.

- Ele é um sujeito ocupado - explicou Kelley depois que o Doutor Portland saiu. - Atualmente só temos dois ortopedistas. Precisamos de três.

David virou-se outra vez para a vista hipnotizante.

- Bem, o que você diz? - perguntou Kelley.

- Diria que estamos muito impressionados - disse David. E olhou para Angela.

- Vamos ter de pensar um bocado a respeito - disse Angela.

Depois de deixar Charles Kelley, os Wilsons voltaram à sala de Caldwell. Ele insistiu em levar David e Angela num passeio rápido pelo hospital. Nikki foi deixada na creche, atendida por voluntários usando guarda-pós cor-de-rosa.

A primeira parada foi no laboratório. Angela não se surpreendeu ao descobrir que era moderníssimo. Depois de mostrar-lhe a seção de patologia, onde ela faria a maior parte de seu trabalho, Caldwell levou-a para conhecer o chefe do departamento, o Doutor Benjamin Wadley.

O Doutor Wadley era um cavalheiro de aparência distinta, de cabelos prateados, com cinqüenta e poucos anos. Angela ficou imediatamente espantada, pensando em como ele se parecia com o seu pai.

Depois das apresentações, o Doutor Wadley disse que sabia que David e Angela tinham uma filha. Antes que eles pudessem responder, começou a falar empolgado sobre o sistema escolar da cidade.

- Meus filhos realmente se deram bem. Um está agora no Wesleyan, em Connecticut. O outro está terminando o colegial e já foi aceito no Smith College.

Alguns minutos mais tarde, depois de se despedir do Doutor Wadley, Angela puxou David para o lado, enquanto seguiam Caldwell, e sussurrou:

- Notou a semelhança entre o Doutor Wadley e o meu pai?

- Agora que você falou, sim. Ele tem o mesmo tipo de pose e de confiança.

- Eu achei que era evidente.

- Não vamos começar nenhuma transferência histérica - zombou David.

A parada seguinte foi na sala de emergências, seguida pelo Imaging Center. David ficou especialmente impressionado com o recém-adquirido aparelho de ressonância magnética.

- É melhor do que o do Hospital Municipal de Boston - observou. - De onde vem o dinheiro para isso?

- O Imaging Center é umajoint venture entre o hospital e o Doutor Cantor, um dos médicos da equipe - explicou Caldwell. - Eles vivem atualizando o equipamento.

Depois do Imaging Center, David e Angela percorreram o novo prédio de radioterapia, que abrigava um dos mais recentes aceleradores lineares. Dali voltaram ao hospital principal e à nova unidade de tratamento neonatal.

- Não sei o que dizer - admitiu David quando o passeio terminou.

- Tínhamos ouvido dizer que o hospital era bem equipado - disse Angela -, mas isso é muito melhor do que havíamos imaginado.

- Dá para compreender por que temos orgulho dele - disse Caldwell enquanto guiava-os de volta à sua sala. - Tivemos de melhorar significativamente para obter o contrato com a CMV. Foi preciso concorrer com o Hospital Valley e com o Hospital Mary Sackler, em nome da sobrevivência. Felizmente, vencemos.

- Mas todo esse equipamento e essas melhorias custaram uma fortuna - disse David.

- Isso é dizer pouco - concordou Caldwell. - Hoje em dia não é fácil manter um hospital, especialmente nesta época de competição determinada pelo governo. Os lucros estão baixos, os custos crescem. É difícil até mesmo continuar funcionando. - Caldwell entregou a David um envelope pardo. - Aqui estão algumas informações sobre o hospital. Talvez ajudem a convencêlos a vir para cá e aceitar as nossas ofertas de emprego.

- E quanto a moradia? - perguntou Angela como se tivesse pensado na última hora.

- Fico feliz por ter perguntado - disse Caldwell. - Eu deveria ter pedido que fossem até o Banco Nacional de Green Mountain para ver Barton Sherwood. O Senhor Sherwood é vice-chairman da diretoria do hospital. Também é presidente do banco. Ele vai dar a vocês uma idéia sobre o quanto a cidade apoia o hospital.

Depois de resgatar uma relutante Nikki da creche onde estivera se divertindo, os Wilsons voltaram para o parque da cidade e caminharam até o banco. Como fora típico em toda a sua recepção em Bartlet, Barton Sherwood recebeu-os de imediato.

- Suas propostas foram discutidas favoravelmente na última reunião da diretoria executiva - disse Barton Sherwood enquanto voltava a se recostar em sua cadeira e enfiava os polegares nos bolsos do colete. Era um homem magro, com quase sessenta anos, cabelo ralo e um bigode parecido com um risco a lápis. - Esperamos sinceramente que entrem para a família Bartlet. Para encorajá-los, quero que saibam que o Banco Nacional de Green Mountain está preparado para oferecer-lhes hipotecas, de modo que possam comprar uma casa.

David e Angela ficaram perplexos e seus queixos caíram ao mesmo tempo. Nunca, em seus sonhos mais loucos, tinham pensado que poderiam comprar uma casa no primeiro ano após suas residências. Tinham pouco dinheiro guardado e uma montanha de dívidas com o crédito educativo: mais de cento e cinqüenta mil dólares.

Sherwood prosseguiu, falando sobre questões específicas, mas nem David nem Angela conseguiam se concentrar nos detalhes. Só ousaram falar depois de terem voltado para o carro.

- Não consigo acreditar - disse David.

- É quase bom demais para ser verdade - concordou Angela.

- Isso significa que estamos vindo para Bartlet?-perguntou Nikki.

- Vamos ver - disse Angela.

Como David tinha dirigido desde Boston, Angela se ofereceu para guiar de volta. Enquanto ela dirigia, David examinou o envelope com informações que lhes fora entregue por Caldwell.

- Isto é interessante - disse.-Há um recorte do jornal local noticiando a assinatura do contrato entre o Hospital Comunitário de Bartlet e a CMV. Diz que o acordo foi consumado quando a diretoria do hospital, sob a liderança de Harold Traynor, finalmente concordou com a exigência da CMV de proporcionar hospitalização por uma quantia não-especificada de capitação mensal, um método de controle de custos encorajado pelo governo e preferido pelas empresas de planos de saúde.

- É um bom exemplo de como os fornecedores de serviços, como os hospitais e os médicos, estão sendo forçados a fazer concessões - disse Angela.

- Você está certa. Ao aceitar o plano de capitação mensal, o hospital foi forçado a agir como uma companhia de seguros. Eles estão assumindo parte do risco de saúde dos clientes da CMV.

- O que é capitação? - perguntou Nikki.

David virou-se.

- Capitação é quando uma empresa recebe uma certa quantidade de dinheiro por pessoa. Com os planos de saúde geralmente é um pagamento mensal.

Nikki continuava parecendo confusa. David tentou outra vez.

- Sejamos específicos. Digamos que a CMV paga ao Hospital Bartlet mil dólares por mês por cada pessoa que esteja no plano. Se alguém tiver de ser hospitalizado durante aquele mês, por qualquer motivo, a CMV não precisa pagar mais nada. E se ninguém ficar doente naquele mês, o hospital ganha rios de dinheiro. Mas e se todo mundo ficar doente e vier para o hospital? O que você acha que vai acontecer?

- Acho que você continua falando difícil demais para ela - observou Angela.

- Eu entendi - disse Nikki. - Se todo mundo ficar doente, o hospital vai à falência.

David sorriu satisfeito e deu uma cutucada na costela de Angela.

- Ouviu só? - disse triunfante. - Essa é a minha filha!

Algumas horas depois, estavam de volta ao apartamento em Southend. Angela teve sorte de encontrar uma vaga a meio quarteirão do prédio. Gentilmente, David acordou Nikki, que caíra no sono. Juntos, os três caminharam para o prédio e subiram a escada até o quarto andar.

- Epa! - disse Angela, que fora a primeira a chegar ao apartamento.

- Qual é o problema? - perguntou David, olhando por cima do ombro dela.

Angela apontou para a porta. O portal estava quebrado no ponto onde fora enfiado um pé-de-cabra.

David estendeu a mão e empurrou a porta. Ela se abriu sem resistência. Todas as três fechaduras tinham sido quebradas.

David acendeu a luz. O apartamento fora saqueado: mobília virada, o conteúdo de armários e gavetas espalhado no chão.

- Oh, não! - gritou Angela, enquanto lhe vinham lágrimas aos olhos.

- Calma! - disse David. - O que está feito está feito. Não vamos ficar histéricos.

- O que quer dizer com ”não vamos ficar histéricos”? Nossa casa foi arruinada. Levaram a TV.

- Podemos comprar outra - reagiu David, aparentando calma.

Nikki voltou do seu quarto e disse que ele não fora tocado.

- Pelo menos podemos agradecer por isso - disse David.

Angela desapareceu no quarto do casal, enquanto David examinava a cozinha. A não ser por um pote de sorvete quase vazio, derretido sobre a bancada, a cozinha estava intacta.

David pegou o telefone e discou 911. Enquanto ele esperava que a ligação fosse completada, Angela apareceu com lágrimas escorrendo pelo rosto, segurando uma pequena caixa de jóias.

Depois de dar os detalhes à telefonista do 911, David virou-se para Angela. Ela lutava para manter o controle.

- Só não diga nada extremamente racional - conseguiu dizer Angela por entre as lágrimas. - Não diga que podemos comprar mais jóias.

- Certo, certo - disse David em tom conciliador. Angela enxugou o rosto com a manga.

- Voltar e encontrar essa violência em nosso apartamento faz Bartlet parecer muito mais atraente. Agora estou mais do que pronta para deixar essa doença urbana para trás.

- Não tenho nada contra ele pessoalmente-disse o Doutor Randall Portland para a esposa, Arlene, enquanto se levantavam da mesa de jantar. Ela fez um gesto para os filhos, Mark e Allen, ajudarem a limpar a mesa. - Só não quero compartilhar meu consultório com um clínico.

- Por que não? - perguntou Arlene, pegando os pratos com os filhos e jogando os restos de comida na lixeira.

- Porque não quero meus pacientes em pós-operatório compartilhando uma sala de espera com um punhado de doentes. - Randy falou ríspido. Em seguida recolocou a rolha na garrafa de vinho branco e guardou-a na geladeira.

- Ah! - disse Arlene.-Isso dá para entender. Eu temia que fosse alguma richa juvenil entre um cirurgião e um clínico.

- Não seja ridícula.

- Bom, você se lembra de todas as piadas que costumava fazer sobre os clínicos, quando era residente?

- Aquilo era uma gozação saudável. Mas isto é outra coisa. Não quero pessoas infectadas junto de meus pacientes. Pode chamar de superstição. Não me importo. Mas já tive complicações demais com meus pacientes, e isso me deixou deprimido.

- Nós podemos ver televisão? - perguntou Mark. Allen, com seus olhos angelicamente enormes, estava ao seu lado. Tinham sete e seis anos, respectivamente.

- Nós já concordamos que... - começou Arlene, mas logo parou. Era difícil resistir às expressões implorantes dos filhos. Além disso, queria um momento a sós com Randy. -

Certo. Meia hora.

- Oba! - exclamou Mark. Allen fez eco, antes que os dois saíssem correndo para a sala íntima.

Arlene pegou Randy pelo braço e levou-o para a sala de estar. Fez com que ele se sentasse no sofá e acomodou-se numa cadeira em frente.

- Não gosto do jeito como você está falando. Ainda está chateado por causa de Sam Flemming?

- Claro que ainda estou chateado por causa de Sam Flemming - falou Randy irritado. - Não perdi nenhum paciente durante toda a minha residência. Agora perdi três.

- Há coisas que você não pode controlar.

- Nenhum deles deveria ter morrido. Especialmente sob os meus cuidados. Sou apenas um médico de ossos, remexendo nas extremidades das pessoas.

- Pensei que tinha superado a depressão.

- Voltei a ter problemas para dormir - admitiu Randy.

- Talvez devesse ligar para o Doutor Fletcher.

Antes que Randy pudesse responder, o telefone tocou. Arlene deu um salto. Estivera aprendendo a odiar aquele som, especialmente quando Randy tinha pacientes em pós-operatório no hospital. Atendeu ao segundo toque, esperando que fosse uma ligação social. Infelizmente não era. Uma das enfermeiras de serviço no Hospital Comunitário de Bartlet queria falar com o Doutor Portland.

Arlene entregou o fone ao marido. Ele pegou-o relutante e encostou no ouvido. Depois de ouvir por um momento, seu rosto ficou branco. Recolocou lentamente o fone no gancho e levantou os olhos para Arlene.

- É o joelho que operei esta manhã. William Shapiro. Não está passando bem. Não consigo acreditar. Parece a mesma coisa. Desenvolveu uma febre e está desorientado. Provavelmente pneumonia.

Arlene chegou perto do marido, passou os braços ao seu redor e deu-lhe um abraço apertado.

- Sinto muito - falou, sem saber o que dizer.

Randy não respondeu. Nem tentou se mexer durante alguns minutos. Depois soltou silenciosamente os braços de Arlene e foi para a porta dos fundos sem falar nada. Arlene ficou olhando da janela da cozinha enquanto o carro descia pelo caminho e chegava à rua.

Em seguida espreguiçou-se e sacudiu a cabeça. Estava preocupada com o marido, mas não sabia o que fazer.

 

SEGUNDA-FEIRA, 3 DE MAIO

HAROLD TRAYNOR segurou o martelo de juiz, de mogno incrustado com ouro, que comprara na Shreve Crump & Low, em Boston. Estava de pé junto à cabeceira da mesa da biblioteca no Hospital Comunitário de Bartlet. À sua frente encontrava-se a estante de leitura que ele mandara fazer para a sala de reuniões do hospital. Sobre ela estavam as anotações que ele pedira à secretária que datilografasse no início da manhã. Sobre a mesa havia a parafernália médica de sempre, em vários estágios de avaliação por parte da diretoria. Dominando a confusão estava a maquete da garagem proposta.

Traynor checou o relógio. Eram exatamente seis da tarde. Pegando o martelo com a mão direita, bateu-o com força contra a sua base. Atenção aos detalhes e pontualidade eram duas características que ele valorizava particularmente.

- Gostaria de chamar a atenção do Comitê Executivo do Hospital Comunitário de Bartlet - gritou com o máximo de pompa que conseguiu reunir.

Estava vestindo seu melhor terno de risca. Nos pés tinha sapatos com palmilha especial, recém-engraxados, que o faziam parecer mais alto. Ele media apenas um metro e sessenta e nove, e sentia-se traído em questão de estatura. Seus cabelos escuros e ralos estavam perfeitamente cortados e cuidadosamente penteados sobre a parte calva no topo da cabeça.

Traynor gastava muito tempo e esforço preparando-se para as reuniões de diretoria, tanto em termos de conteúdo quanto de sua aparência. Naquele dia fora direto para casa tomar um banho e mudar de roupa depois de uma viagem a Montpelier. Sem tempo a perder, não parara no escritório.

Harold Traynor era advogado em Bartlet, especializado em planejamento estatal e impostos. Também era um empresário com participação em vários empreendimentos comerciais na cidade.

Sentado à sua frente estavam Barton Sherwood, vice-chairman; Helen Beaton, presidente e executiva-chefe do hospital; Richard Arnsworth, tesoureiro; Clyde Robeson, secretário; e o Doutor Delbert Cantor, atual chefe de pessoal.

Seguindo estritamente os procedimentos parlamentares especificados no Robert’s Rules ofOrder, que ele comprara depois de ser eleito chairman, Traynor pediu que Clyde Robeson lesse a minuta da última reunião.

Assim que a minuta foi lida e aprovada, Traynor limpou a garganta preparando-se para seu relatório mensal. Olhou para cada membro de seu comitê executivo, certificando-se de que todos estavam atentos. Estavam, a não ser pelo Doutor Cantor que, tipicamente, parecia entediado limpando as unhas.

- Estamos enfrentando desafios significativos no Hospital Comunitário de Bartlet – começou Traynor. - Como centro de referência, fomos poupados de alguns problemas financeiros dos pequenos hospitais rurais, mas não de todos. Precisaremos trabalhar ainda mais do que no passado para que o hospital sobreviva a esses dias.

”Entretanto, mesmo nestes tempos difíceis há uma luz ocasional. Como, sem dúvida, alguns de vocês ouviram falar, um estimado cliente meu, William Shapiro, faleceu de pneumonia na semana passada, após uma cirurgia no joelho. Apesar de lamentar muito o seu falecimento extemporâneo, estou feliz por anunciar oficialmente que o Senhor Shapiro designou generosamente o hospital como único beneficiário de um seguro de três milhões de dólares.

Um murmúrio de aprovação percorreu os presentes. Traynor ergueu a mão, pedindo silêncio.

- Esse gesto caridoso não poderia ter vindo em hora melhor. Irá retirar-nos do vermelho, ainda que não por muito tempo. A notícia no mês é a descoberta recente de que nossos fundos de amortização para as grandes emissões de títulos estão consideravelmente menores do que os objetivos projetados.

Traynor olhou direto para Sherwood, cujo bigode se contraía nervosamente.

- O fundo precisa ser resguardado - disse Traynor. - Boa parte desses três milhões de dólares terá de se destinar a esse objetivo.

- Não foi culpa minha - interrompeu Sherwood intempestivamente. -Exigiram que eu maximizasse o retorno sobre o fundo de amortização. Isso requeria riscos.

- A mesa não deu a palavra a Barton Sherwood - disse Traynor ríspido.

Por um instante Sherwood pareceu que iria responder, mas continuou em silêncio.

Traynor examinou suas anotações num esforço para se recompor depois da explosão de Sherwood. Ele odiava desordem.

- Graças ao legado do Senhor Shapiro - prosseguiu -, o problema do fundo de amortização não será letal. A questão é impedir que qualquer observador externo fique sabendo da redução. Não podemos nos dar ao luxo de mudar a cotação de nossos títulos. Conseqüentemente, seremos forçados a adiar a emissão de títulos para construir a garagem até que os fundos sejam restaurados. ”Como medida temporária para impedir ataques contra nossas enfermeiras, pedi à nossa executiva-chefe, Helen Beaton, que mandasse instalar iluminação no estacionamento.

Traynor correu o olhar pela sala. De acordo com o Robert’s Rules ofOrder, a questão deveria ser apresentada como uma moção, debatida e votada, mas ninguém se mexeu.

- O último ponto refere-se ao Doutor Dennis Hodges. Como vocês sabem, o Doutor Hodges desapareceu em março último. Na semana passada me reuni com nosso chefe de polícia, Wayne Robertson, para discutir o caso. Não surgiram pistas de seu paradeiro. Se o Doutor Hodges se meteu em encrenca, não há qualquer evidência, ainda que Robertson tenha dado a entender que quanto mais tempo o Doutor Hodges permanecer desaparecido, maiores as probabilidades de que não esteja vivo.

- Aposto que ele ainda está por aí - disse o Doutor Cantor. - Conhecendo aquele filho da mãe, ele provavelmente está na Flórida, morrendo de rir cada vez que pensa em nós, lutando aqui com toda essa baboseira burocrática.

Traynor usou seu martelo.

- Por favor! - ergueu a voz. - Vamos manter alguma ordem!

A expressão de tédio de Cantor transformou-se em desdém, mas ele permaneceu quieto.

Traynor encarou feroz o Doutor Cantor antes de retomar o tema:

- Independentemente dos sentimentos pessoais que tenhamos pelo Doutor Hodges, permanece o fato de que ele representou um papel importantíssimo na história deste hospital. Não fosse por ele, esta instituição seria apenas mais um minúsculo hospital rural. Seu bem-estar merece nossa consideração. Gostaria que o comitê executivo soubesse que a ex-esposa do Doutor Hodges, a Senhora Hodges, decidiu vender sua casa. Ela voltara a morar em Boston há alguns anos. Sua esperança era de que o marido pudesse aparecer, mas, baseada nas conversas que tivera com o Robertson, decidiu cortar suas ligações com Bartlet. Só levanto esse assunto agora porque acho que num futuro próximo a diretoria pode desejar construir um memorial em homenagem à contribuição considerável dada pelo Doutor Hodges ao Hospital Comunitário de Bartlet.

Tendo terminado o discurso, Traynor reuniu suas anotações e passou formalmente a palavra a Helen Beaton, para que ela apresentasse seu relatório mensal de presidente. Beaton levantou-se, empurrando a cadeira para trás. Tinha trinta e poucos anos, o cabelo castanho- avermelhado cortado curto. Seu rosto era largo, não muito diferente do de Traynor. Usava um conjunto azul, formal, acentuado por uma echarpe de seda.

- Este mês conversei com vários grupos da cidade - disse ela. - Meu tópico, em cada uma dessas ocasiões, abordava as necessidades financeiras do hospital. Para mim, foi interessante perceber que a maioria das pessoas geralmente não tinha idéia de nossos problemas, ainda que as questões de saúde estivessem quase sempre no noticiário. O que enfatizei em minhas conversas foi a importância económica do hospital para a cidade e suas imediações. Deixei bastante claro que se o hospital fechasse todos os negócios todos os comerciantes sofreriam. Afinal de contas, o hospital é o maior empregador desta parte do estado. Também lembrei que não existe dotação de impostos para o hospital, e que o levantamento de fundos tem sido e será fundamental para manter as portas abertas.

Beaton fez uma pausa enquanto virava a primeira página de suas anotações.

- Agora, a má notícia - falou, referindo-se a vários gráficos grandes que ilustravam as informações que iria apresentar. Segurou os gráficos diante do peito. - As admissões em abril estiveram vinte por cento acima dos prognósticos. Nosso censo diário esteve oito por cento acima do de março, e o período médio de permanência esteve seis por cento acima. Obviamente, essas são tendências sérias, como tenho certeza de que irá relatar nosso tesoureiro, Richard Arnsworth.

Beaton levantou o último gráfico.

- E finalmente preciso dizer que houve uma queda na utilização da sala de emergência, que, como vocês sabem, não faz parte de nosso acordo de capitação com a CMV. E, para piorar as coisas, a CMV recusou-se a pagar várias de nossas requisições vindas da emergência, dizendo que os sócios violaram as regras da CMV.

- Droga, isso não é culpa do hospital - disse o Doutor Cantor.

- A CMV não quer saber dessas tecnicalidades - disse Beaton. - Em conseqüência, fomos forçados a cobrar direto dos pacientes, e eles estão chateados, o que é compreensível. Amaioria se recusou a pagar, dizendo que procurássemos a CMV.

- O sistema de saúde está se tornando um pesadelo – disse Sherwood.

- Diga isso ao nosso representante em Washington - retrucou Beaton.

- Não vamos desviar o assunto - disse Traynor.

Beaton voltou a olhar para suas anotações e em seguida prosseguiu:

- Os indicadores de qualidade para abril estiveram dentro das expectativas normais. Os relatórios sobre incidentes aconteceram em quantidade menor do que em março, e não foi iniciado nenhum processo sobre erro médico.

- As maravilhas jamais se acabarão - comentou o Senhor Cantor.

- Outras notícias perturbadoras em abril referem-se à agitação sindical – prosseguiu Beaton. - Os setores de nutrição e de limpeza estão sendo visados. Não preciso dizer que a sindicalização aumentaria significativamente nossos problemas financeiros.

- É uma crise depois da outra - disse Sherwood.

- Duas áreas de subutilização-prosseguiu Beaton - são a unidade de tratamento intensivo neonatal e o acelerador linear. Durante o mês de abril, discuti essa questão com a CMV, já que nossos custos fixos para manter essas unidades são altos demais. Enfatizei que foram eles que exigiram esses serviços. A CMV prometeu que procuraria transferir para Bartlet pacientes de áreas que não tenham essas instalações e reembolsar-nos de acordo com o uso.

- Isso me lembra uma coisa - disse Traynor. Como chairman, sentia que tinha o direito de interromper. - Qual é a situação da velha máquina de cobalto-60 que foi substituída pelo acelerador linear? Houve algum inquérito da divisão de licenciamento do estado ou da comissão reguladora nuclear?

- Nem uma palavra - respondeu Beaton. - Informamos a eles que a máquina está para ser vendida a um hospital do governo no Paraguai, e que estamos esperando pela verba.

- Não quero me envolver em nenhuma confusão burocrática por causa daquela máquina - alertou Traynor.

Beaton assentiu e passou para a última página de suas anotações.

- Finalmente, tenho mais uma notícia ruim. Ontem, pouco antes da meia-noite, houve outra tentativa de estupro no estacionamento.

- O quê? - gritou Traynor. - Por que não fui informado disso?

- Só fiquei sabendo esta manhã - explicou Beaton. - Tentei ligar-lhe assim que soube, mas você não estava. Deixei uma mensagem para que me ligasse, mas não tive resposta.

- Passei o dia inteiro em Montpelier - explicou Traynor, sacudindo desanimado a cabeça.-Droga, isso precisa parar. É um pesadelo. Odeio imaginar o que a CMV pensa a respeito.

- Precisamos daquela garagem - disse Beaton.

- A garagem tem de esperar até que possamos lastrear uma emissão de títulos. Quero que a iluminação seja feita rapidamente, compreendeu?

- Já falei com Werner Van Slyke - disse Beaton. - Ele me disse que entrou em contato com o empreiteiro eletricista. Vou ficar em cima para que seja feito o quanto antes.

Traynor deixou-se cair na cadeira e soltou com força o ar dos pulmões.

- Hoje em dia, dirigir um hospital é de deixar qualquer um louco. Por que entrei numa dessas? - Pegou a pauta da reunião, olhou-a e em seguida pediu que Richard Arnsworth, o tesoureiro, fizesse seu relatório.

Answorth levantou-se. Era um sujeito de óculos, preciso, do tipo contabilista, com a voz tão baixa que todos precisavam fazer força para ouvir. Começou falando do balancete que todos haviam recebido no pacote de informações que ele distribuíra naquela manhã.

- O que é imediatamente óbvio – falou - é que as despesas mensais continuam suplantando significativamente os pagamentos de capitação mensal da CMV. De fato, o rombo se expandiu, devido ao aumento nas internações e no período de permanência. Também estamos perdendo dinheiro com os pacientes daMedicare, que não são sócios da CMV, e com todos os indigentes que não têm nenhum plano. A percentagem de pacientes particulares ou dos que têm seguros de indenização padrão é tão minúscula que não podemos controlar os custos de modo a cobrir o prejuízo. ”Como resultado desse prejuízo constante, deteriorou-se o capital disponível. Conseqüentemente, recomendo substituir os investimentos de cento e oitenta dias pelos de trinta.

- Isso já foi providenciado - anunciou Sherwood.

Quando Answorth sentou-se, Traynor pediu uma moção para aprovar o relatório do tesoureiro. Isso foi feito imediatamente, sem qualquer oposição. Em seguida, Traynor virou-se na direção do Doutor Cantor, para que ele fizesse o relatório sobre o pessoal médico.

O Doutor Cantor levantou-se devagar e apoiou os punhos sobre a mesa. Era um homem grande e pesado, de pele oleosa. Diferentemente dos outros, não se baseou em anotações.

- Só duas coisas este mês - falou em tom casual.

Traynor olhou para Beaton e atraiu seu olhar, em seguida sacudiu a cabeça em desgosto. Odiava o comportamento desleixado de Cantor nas reuniões.

- Os anestesiologistas estão todos em pé de guerra - disse o Doutor Cantor. - Mas claro que isso seria de se esperar, agora que foram oficialmente informados de que o hospital estava assumindo o departamento e que receberiam um salário fixo. Sei como eles se sentem, já que passei pela mesma situação na gestão de Hodges.

- Você acha que eles vão abrir um processo? - perguntou Beaton.

- Claro que vão.

- Deixemos que façam isso - disse Traynor. - Foi estabelecido o precedente com a patologia e a radiologia. Não posso acreditar que eles pensem que podem continuar cobrando particularmente quando estamos sob um sistema de capitação. Não faz sentido.

- Foi escolhido um novo gerente de utilização - disse o Doutor Cantor, mudando de assunto. - Seu nome é Peter Chou.

- O Doutor Chou pode causar algum problema para nós? - perguntou Traynor.

- Duvido. Ele nem mesmo queria o cargo.

- Vou me reunir com ele - disse Beaton.

Traynor assentiu.

- E o último item relativo ao pessoal médico - disse o Doutor Cantor - refere-se ao médico 91. Soube que ele não ficou bêbado o mês inteiro.

- Mantenha-o sob vigilância assim mesmo - disse Traynor. - Não vamos nos arriscar. Ele já se mostrou relapso antes.

O Doutor Cantor sentou-se.

Traynor perguntou se havia mais alguma questão. Quando ninguém se moveu, ele pediu uma moção para encerrar o encontro. O Doutor Cantor disse um ansioso ”então vamos”, depois de um sonoro coro de ”sim”. Traynor bateu o martelo e encerrou a reunião.

Traynor e Beaton juntaram lentamente os seus papéis. Todos os outros saíram, dirigindo-se para o Iron Horse Inn. Quando o som da porta externa se fechando atrás do grupo chegou até a sala, os olhos de Traynor encontraram os de Beaton. Largando sua pasta, Traynor rodeou a mesa e abraçou- a apaixonadamente.

Saíram de mãos dadas da sala de reuniões e seguiram pelo corredor até um sofá no escritório de Beaton, como tinham feito tantas vezes. Ali, na semi-escuridão, fizeram um amor frenético, como acontecia há quase um ano depois de cada reunião da diretoria executiva. Era um cenário familiar, e a coisa não demorou. Não se incomodaram em tirar as roupas.

- Achei uma boa reunião - disse Traynor enquanto se arrumavam.

- Concordo. - Beaton acendeu a luz e foi até um espelho de parede. - Gostei do modo como resolveu a questão das luzes para o estacionamento. Evitou debates desnecessários.

- Obrigado - disse Traynor, satisfeito consigo próprio.

- Mas estou preocupada com a situação financeira - admitiu Beaton enquanto restaurava a maquiagem. - O hospital precisa, no mínimo, empatar os custos.

- Você está certa - admitiu Traynor com um suspiro. - Também estou preocupado. Adoraria apertar o pescoço de algumas daquelas pessoas da CMV. É irônico que esse absurdo de ”concorrência administrada” possa nos forçar à falência. Se não tivéssemos concordado com o sistema de capitação, não faríamos o contrato e teríamos de fechar, como o Valley. Agora que concordamos com o sistema, ainda podemos ter de fechar.

- Todos os hospitais estão com problemas - disse Beaton. - Não devemos esquecer isso, ainda que não sirva como consolo.

- Você acha que há alguma chance de podermos renegociar o contrato com a CMV?

Beaton riu desdenhosa.

- Nenhuma.

- Não sei o que fazer. Estamos perdendo dinheiro a despeito do plano FUD, que o Doutor Cantor propôs.

Beaton riu, divertida.

- Temos de alterar essa sigla. Parece ridícula. Que tal mudar de Fator de Utilização Drástica para Sistema de Utilização Drástica? SUD soa melhor do que FUD.

- Eu até gosto de FUD - disse Traynor. - Me faz lembrar que foi idiotice colocar nossa taxa de capitação num valor tão baixo.

- Caldwell e eu tivemos uma idéia que pode ajudar bastante.

- Beaton puxou uma cadeira e sentou-se diante dele.

- Será que não deveríamos ir ao Iron Horse?-disse Traynor. - Não queremos que ninguém suspeite. Esta é uma cidade pequena.

- Só vai levar um instante - prometeu Beaton. - O que Caldwell e eu fizemos foi um brainstorm sobre como os consultores que contratamos chegaram a uma taxa de capitação que se mostrou baixa demais. Nós percebemos que tínhamos dado a eles as estatísticas de hospitalização mandadas pela CMV. O que ninguém lembrou foi que essas estatísticas se baseavam na experiência que a CMV tivera com seu hospital em Rutland.

- Você acha que a CMV deu números fraudulentos?

- Não. Mas como fazem todas as empresas de planos de saúde quando lidam com seus próprios hospitais, a CMV tinha um incentivo econômico para que seus médicos limitassem a hospitalização, uma coisa da qual o público não faz idéia.

- Você está falando de pagamentos aos médicos?

- Exatamente. É um suborno em forma de bonificação. Quanto mais o médico reduz suas taxas de hospitalização, maior o bônus. É muito eficaz. Caldwell e eu achamos que podemos criar um incentivo econômico semelhante aqui no Hospital Comunitário de Bartlet. O único problema é que precisaremos de algum capital inicial. Uma vez que esteja funcionando, o sistema irá se pagar, reduzindo a hospitalização.

- Parece ótimo - disse Traynor entusiasmado. - Vamos fazer isso. Talvez esse tipo de programa, combinado com o FUD, elimine o vermelho.

- Vou acertar uma reunião com Charles Kelley para discutir o assunto - disse Beaton enquanto colocava o casaco.

- Já que estamos no tópico da utilização - disse Beaton enquanto seguiam pelo corredor comprido em direção à saída -, espero ardentemente que não recebamos o Certificado de Necessidade para cirurgias de coração aberto. É fundamental que isso não aconteça. Precisamos que aCMV continue mandando seus pacientes de outros lugares para Boston.

- Concordo totalmente - disse Traynor enquanto abria a porta para Beaton. Os dois saíram do hospital para o estacionamento de baixo. - Esse foi um dos motivos pelos quais estive hoje em Montpelier. Comecei a fazer um lobby negativo por baixo dos panos. - Se recebermos aquele CDN, vamos ficar ainda mais no vermelho.

Os dois chegaram aos seus carros, que estavam estacionados juntos. Antes de entrar, Traynor olhou o estacionamento escuro ao redor, particularmente na direção do grupo de árvores que separava o terraço de baixo do de cima.

- Isto aqui é mais escuro do que eu me lembrava - falou. - Não há a menor segurança. Precisamos daquelas luzes.

- Vou ficar em cima - prometeu ela.

- Que saco! Com tanta coisa importante, ainda temos de nos preocupar com esse maldito estuprador. Quais são os detalhes do último episódio?

- Ocorreu por volta da meia-noite. E dessa vez não foi uma enfermeira. Foi uma das voluntárias, Marjorie Kleber.

- A professora?

- Isso. Desde que ficou doente, ela passou a fazer serviço voluntário nos finais de semana.

- E quanto ao estuprador?

- A mesma descrição: cerca de um e oitenta, usando máscara de esquiador. A Senhora Kleber disse que ele tinha algemas.

- Um estilo interessante - disse Traynor. – Como ela se livrou?

- Foi sorte. O vigia noturno passou por acaso, fazendo a ronda.

- Talvez devêssemos aumentar o pessoal da segurança.

- Não temos dinheiro para isso, lembra?

- Talvez eu devesse conversar com Wayne Robertson e ver se a polícia pode fazer mais alguma coisa.

- Já fiz isso. Mas Robertson não tem homens suficientes para deixar um aqui todas as noites.

- Fico me perguntando se Hodges realmente sabia da identidade do estuprador.

- Você acha que o desaparecimento dele pode ter alguma coisa a ver com as suspeitas?

Traynor encolheu os ombros.

- Não tinha pensado nisso. Acho que é possível. Ele não era do tipo que guardava suas opiniões.

- É um pensamento assustador - disse Beaton.

- De fato. De qualquer modo, quero ser informado imediatamente sobre qualquer ataque. Isso pode ter conseqüências desastrosas para o hospital. E especialmente não quero nenhuma surpresa numa reunião da diretoria executiva. Isso me deixa mal.

- Desculpe, mas eu realmente tentei ligar. De agora em diante vou me certificar de que você seja informado.

- Vejo você no Iron Horse - disse Traynor enquanto entrava no carro e dava a partida.

 

QUINTA-FEIRA, 20 DE MAIO

- PRECISO PEGAR MINHA filha na escola - disse Angela para um de seus colegas de residência, Mark Danforth.

- E essas lâminas?

- O que posso fazer? - respondeu Angela rispidamente. - Preciso pegar minha filha.

- Certo. Não precisa ficar nervosa. Só perguntei. Achei que talvez pudesse ajudar.

- Desculpe. Só estou nervosa. Se você pudesse olhar pelo menos estas aqui, eu ficaria em dívida eterna. - Angela pegou cinco lâminas no suporte.

- Sem problema. - Mark acrescentou as lâminas à sua pilha.

Angela cobriu seu microscópio, juntou suas coisas e disparou para fora do hospital. Mal saíra do estacionamento, viu-se engarrafada no trânsito da hora do rush em Boston.

Quando finalmente chegou à escola, encontrou Nikki sentada, triste, nos degraus da frente. Não era um lugar bonito. A escola estava completamente coberta de pichações e rodeada por um made concreto. A não ser por um grupo de garotos da sexta e da sétima séries jogando basquete atrás de uma alta cerca de arame, não havia nenhuma criança do primeiro grau à vista. Um grupo de adolescentes apáticos, vestidos em roupas ridiculamente grandes, matava o tempo junto ao prédio. Do outro lado da rua ficava o barraco de papelão de um mendigo.

- Desculpe o atraso - disse Angela enquanto Nikki subia no carro e prendia o cinto de segurança.

- Tudo bem. Mas eu fiquei meio apavorada. Aconteceu uma tremenda encrenca na escola hoje. A polícia esteve aqui.

- O que aconteceu?

- Um dos garotos da sexta série estava com um revólver no pátio - disse Nikki calmamente. - Deu um tiro e acabou sendo preso.

- Alguém se machucou?

- Não. - Nikki sacudiu a cabeça.

- Por que ele estava com um revólver?

- Ele vende drogas.

- Sei - disse Angela, tentando manter a compostura tanto quanto a filha. - Como você ficou sabendo disso tudo? Pelas outras crianças?

- Não, eu estava lá - disse Nikki, reprimindo um bocejo. Involuntariamente, Angela apertou mais forte o volante.

A Escola pública fora idéia de David. Os dois tinham passado um aperto para escolher uma para Nikki. Até este episódio, Angela estivera razoavelmente satisfeita. Mas agora sentia-se horrorizada, em parte porque Nikki conseguia falar sobre o incidente de modo tão casual. Era apavorante perceber que a filha via essa história como um evento comum.

- Hoje tivemos uma substituta outra vez - disse Nikki. - E ela não me deixou fazer a drenagem postural dos pulmões depois do lanche.

- Que pena, querida. Está se sentindo congestionada?

- Um pouco. Meu peito chiou um pouco quando vim para fora, mas agora passou.

- Vamos fazer a drenagem assim que chegarmos em casa. E vou ligar de novo para a secretaria da escola. Não sei qual é o problema deles.

Angela sabia qual era o problema: crianças demais e funcionários de menos, e os poucos funcionários estavam sempre mudando.

Angela vivia tendo de ligar para eles sobre a necessidade de Nikki fazer a terapia respiratória.

Enquanto Nikki esperava no carro, Angela estacionou em fila dupla e disparou para a mercearia, em busca de algo para o jantar. Quando voltou, havia uma multa de estacionamento sob o limpador do pára-brisa.

- Eu falei pra moça que você já estava voltando - explicou Nikki. - Mas ela disse ”legal” e deu a multa do mesmo jeito.

Angela xingou entre dentes.

Durante a meia hora seguinte, ficaram rodando pela vizinhança de casa em busca de uma vaga. Justo quando Angela estava para desistir, encontraram.

Depois de colocar as compras na geladeira, Angela e Nikki cuidaram da terapia respiratória.

Em geral, só faziam isso de manhã. Mas em certos dias, principalmente quando havia muita poluição, tinham de fazer mais vezes.

A rotina que haviam estabelecido começava com Angela ouvindo com seu estetoscópio para certificar-se de que Nikki não precisava de um broncodilatador. Depois, usando uma grande cadeira de lona que tinham comprado de segunda mão, Nikki assumia nove posições diferentes, que utilizavam a gravidade para ajudar a drenar áreas específicas dos pulmões.

Enquanto Nikki ficava em cada uma das posições, Angela batia na área do pulmão com a mão em concha. Cada posição demorava de dois a três minutos. Em vinte minutos haviam terminado.

Com a terapia respiratória feita, Nikki começou o dever de casa, enquanto Angela ia para a cozinha minúscula fazer o jantar. Meia hora depois, David chegou. Estava exausto, depois de passar toda a noite anterior atendendo a vários pacientes.

- Que noite! - Ele tentou dar um beijo na bochecha de Nikki, mas ela afastou o rosto, concentrando-se no livro. Estava sentada na mesa da sala de jantar. Seu quarto não era suficientemente grande para ter uma escrivaninha.

David entrou na cozinha e foi afastado do mesmo modo por Angela, ocupada com o jantar.

Recusado por duas vezes, virou-se para a geladeira. Depois de alguma dificuldade em manter a porta aberta enquanto compartilhava com Angela a área minúscula, conseguiu tirar uma cerveja.

- Tivemos dois pacientes de AIDS que chegaram da sala de emergência com praticamente todas as doenças conhecidas - falou. - Além disso, houve dois pacientes com ataques cardíacos. Nem por um momento consegui entrar na sala de descanso, quanto mais dormir.

- Se procura solidariedade, está falando com a pessoa errada - disse Angela enquanto colocava um pouco de macarrão para ferver. - Além disso, está me atrapalhando.

- Você está com excelente humor!-disse David. Em seguida saiu da cozinha e sentou-se num dos bancos junto ao balcão que separava a cozinha da sala de jantar e esperou.

- Meu dia também foi estressante - disse ela. - Tive de deixar trabalho pela metade para poder pegar Nikki na escola. Não acho legal fazer isso todo dia.

- Então é por isso que está histérica? Por ter de pegar Nikki? Pensei que isso tinha sido discutido e decidido. Droga, foi você quem se ofereceu, dizendo que seu horário era muito mais previsível do que o meu.

- Não dá para vocês falarem mais baixo? - disse Nikki. - Estou tentando ler.

- Eu não estou histérica - disse Angela, ríspida, em voz baixa. - Só estou estressada. Não gosto de depender dos outros para fazer meu trabalho. E, além disso, Nikki veio hoje com uma história perturbadora.

- O que foi?

- Pergunte a ela.

David saiu do banco e espremeu-se numa das cadeiras da sala de jantar. Nikki contou-lhe sobre o dia. Angela veio até a sala e começou a arrumar a mesa ao redor dos livros de Nikki.

- Você continua apoiando a escola pública depois de ouvir falar sobre armas e drogas na sexta série? - perguntou.

- As escolas públicas precisam ser apoiadas - disse David. Eu freqüentei uma escola pública.

- Os tempos mudaram - disse Angela.

- Se as pessoas como nós fugirem, as escolas não terão a menor chance.

- Não estou disposta a ser idealista quando se trata da segurança de minha filha.

Com o jantar pronto, eles comeram espaguete marinara e salada, em meio a um silêncio constrangedor. Nikki continuou a ler, ignorando os pais. Angela suspirou alto várias vezes, passando os dedos por entre os cabelos. Parecia à beira das lágrimas. David estava irritado. Depois de trabalhar duro durante trinta e seis horas, não achava que merecesse esse tipo de tratamento.

De súbito, Angela arrastou sua cadeira, pegou o prato e jogou-o na pia. Ele se quebrou, e David e Nikki se assustaram.

- Angela - disse David, lutando para manter a voz sob controle. - Você está sendo exageradamente emocional. Vamos conversar sobre quem pega Nikki. Tem de haver outra solução.

Angela enxugou algumas lágrimas extraviadas no canto dos olhos. Resistiu à tentação de contra-atacar David e dizer que sua auto-imagem de homem racional e parceiro agradável não fazia parte da realidade.

Virou-se de costas para a pia.

- Você sabe - falou. - O verdadeiro problema é que estamos evitando uma decisão sobre o que fazer quando chegar primeiro de julho.

- Não acho que este seja o momento oportuno para discutir o que vamos fazer com o resto de nossas vidas. Estamos exaustos.

- Droga!-Angela voltou à mesa e sentou-se.-Você nunca acha que é a hora certa. O problema é que o tempo está acabando, e não tomar decisão nenhuma é uma espécie de decisão. Primeiro de julho é somente daqui a um mês e meio.

- Certo - disse David, resignado. - Deixe-me pegar minhas listas.

Ele começou a se levantar. Angela segurou-o.

- Não precisamos das suas listas. Temos três escolhas. Estávamos esperando que Nova York respondesse e eles responderam há três dias. Eis nossas opções: podemos ir para Nova York, eu para começar uma bolsa de estudos em medicina legal e você em medicina respiratória; podemos ficar aqui em Boston, onde eu faria medicina legal e você iria para a Escola de Saúde Pública em Harvard; ou podemos ir para Bartlet e começar a trabalhar.

David passou a língua pelo interior da boca. Tentou pensar. Estava atordoado de cansaço. Queria as listas, mas Angela continuava segurando seu braço.

- É meio assustador largar a academia - disse finalmente.

- Concordo totalmente. Somos estudantes há tanto tempo que é difícil pensar em outro tipo de vida.

- É verdade que tivemos pouco tempo para a vida pessoal nos últimos quatro anos - disse ele.

- Em algum momento, a qualidade de vida precisa ser uma questão importante – concordou Angela. - A realidade é que se ficarmos aqui em Boston provavelmente teremos de continuar neste apartamento. Temos dívidas demais.

- Seria mais ou menos a mesma coisa se fôssemos para Nova York.

- A não ser que aceitássemos ajuda de meus pais.

- Nós já evitamos isso no passado. Eles sempre condicionam a ajuda a um monte de coisas.

- Concordo. Outra coisa em que precisamos pensar é a situação de Nikki.

- Eu quero um cachorro - disse Nikki.

- Nikki tem estado bem - disse David.

- Mas há muita poluição aqui e em Nova York. Isso acaba cobrando um preço alto. E eu estou ficando cansada da criminalidade aqui.

- Está dizendo que quer ir para Bartlet?

- Não. Só estou tentando pensar em todas as questões. Mas tenho de admitir que quando ouço falar em armas e drogas na sexta série, Bartlet começa a parecer cada vez melhor.

- Fico me perguntando se lá é tão paradisíaco quanto nos lembramos. Como vamos a tão poucos lugares, talvez tenhamos idealizado demais.

- Há um meio de descobrir - disse Angela.

- Vamos voltar lá! - gritou Nikki.

- certo - disse David. - Hoje é quinta-feira. Que tal no sábado?

- Oba! - gritou Nikki.

 

SEXTA-FEIRA, 21 DE MAIO

TRAYNOR ASSINOU AS CARTAS que havia ditado naquela manhã e empilhou-as cuidadosamente no canto da mesa. Levantou-se ansioso e colocou o casaco. Estava saindo da sala externa de seu escritório, a caminho do almoço no Iron Horse, quando sua secretária, Collette, chamou-o de volta para atender a um telefonema de Tom Baringer.

Murmurando entre dentes, Traynor voltou à sua escrivaninha. Tom era um cliente importante demais para não ser atendido.

- Não vai adivinhar onde estou - disse Tom. - Estou na sala de emergência esperando que o Doutor Portland venha me remendar.

- Meu Deus, o que aconteceu?

- Uma coisa estúpida. Eu estava tirando folhas da minha calha, quando a escada caiu. Quebrei a bacia. Pelo menos foi o que o médico disse aqui na sala de emergência.

- Sinto muito - disse Traynor.

- Ah, podia ter sido pior. Mas obviamente não poderei estar na reunião que marcamos para esta tarde.

- Claro. Havia alguma coisa importante que você desejava discutir?

- Isso pode esperar. Mas, escute, já que estamos falando, que tal dar um toque nas pessoas aqui do hospital? Acho que mereço um tratamento VIP.

- Sem dúvida. Vou cuidar disso pessoalmente. Estou indo almoçar com a presidente do hospital.

- Então aconteceu na hora certa - disse Tom. - Interceda por mim.

Depois de desligar, Traynor mandou a secretária cancelar a reunião com Tom e deixar o horário vago. A folga iria dar-lhe a chance de continuar com os ditados.

Traynor foi o primeiro a chegar para o almoço. Depois de pedir um martíni seco, examinou a sala forrada de madeira. Como era comum ultimamente, ele recebera a melhor mesa, num reservado aconchegante que tinha uma vista particularmente estupenda do Roaring River, que passava por trás do restaurante. O prazer de Traynor aumentou quando ele viu Jeb Wiggins, seu antigo rival, rebento de uma das poucas famílias antigas e ricas de Bartlet, sentado numa mesa muito menos importante. Jeb sempre tratara Traynor com condescendência. O pai de Traynor trabalhara na fábrica de cabides, que naquela época era uma das propriedades do« Wiggins. Traynor adorou a reversão de papéis: agora ele dirigia o maior negócio da cidade.

Helen Beaton e Barton Sherwood chegaram juntos.

- Desculpe por estarmos atrasados - disse Sherwood, segurando a cadeira para Beaton.

Beaton e Sherwood receberam seus drinques de sempre e todos pediram a comida. Assim que o garçom os deixou, Beaton disse:

- Tenho boas notícias. Encontrei Charles Kelley esta manhã e ele não colocou nenhum problema quanto à nossa idéia de instituir um programa de bonificação para os médicos da CMV. Sua única preocupação é se isso iria custar alguma coisa à CMV, o que não acontecerá. Prometeu levar a idéia aos seus chefes, mas não prevejo nenhum problema.

- Maravilhoso - disse Traynor.

- Vamos nos encontrar de novo na segunda - acrescentou Beaton. -Eu gostaria que você participasse da reunião, caso tenha tempo.

- Sem dúvida alguma.

- Agora, tudo de que precisamos é o capital inicial. Por isso me reuni com Barton e acho que resolvemos a questão. - Beaton sacudiu de leve o braço de Sherwood.

Sherwood inclinou-se para a frente e falou, em voz baixa:

- Lembra-se daquele pequeno fundo que criamos com as devoluções da construção do prédio de radioterapia? Eu o depositei nas Bahamas. O que vou fazer é trazê-lo de volta em pequenas quantidades, conforme a necessidade. Também podemos usar uma parte para pagar férias nas Bahamas. É o mais fácil. Podemos até mesmo pagar passagens de avião nas Bahamas.

A comida chegou e ninguém falou até que a garçonete fosse embora.

- Achamos que férias nas Bahamas podem funcionar como o grande prêmio – explicou Beaton. - Pode ser dado ao médico que tenha tido a menor taxa de hospitalização no ano.

- Perfeito - disse Traynor. - Essa idéia está parecendo cada vez melhor.

- É melhor colocá-la em prática o quanto antes - disse Beaton. - Até agora, os números de maio estão piores do que os de abril. As internações são maiores e o prejuízo também.

- Eu tenho boas notícias - disse Sherwood. - O fundo de amortização do hospital voltou ao seu nível projetado com a entrada da doação do seguro. Foi feito de modo que nenhum analista externo irá detectar.

- É uma crise depois da outra - reclamou Traynor. Não estava disposto a dar crédito a Sherwood por solucionar um problema que ele próprio criara.

- Quer que eu prossiga com a questão dos títulos para a construção do estacionamento? - perguntou Sherwood.

- Não. Infelizmente não podemos. Temos de pedir outro voto ao Conselho Municipal. A aprovação deles estava contingenciada à execução imediata do projeto.-Com uma expressão de escárnio, Traynor fez um gesto com a cabeça na direção da mesa vizinha. -

O chefe do Conselho Municipal, Jeb Wiggins, acha que a temporada de turismo pode sair prejudicada se construirmos durante o verão.

- Que coisa chata! - disse Sherwood.

- Eu também tenho boas notícias - acrescentou Traynor. - Acabei de saber esta manhã que nossa CDN para as cirurgias de coração aberto não foi concedida para este ano. Não é terrível?

- Oh, que tragédia! - gargalhou Beaton. - Graças a Deus!

Depois que o café foi servido, Traynor lembrou-se da ligação de Tom Baringer. Passou a informação para Beaton.

- Eu já soube da internação do Senhor Baringer - disse Beaton. -Há algum tempo, programei um arquivo no computador para me alertar quando um paciente assim fosse hospitalizado. Já falei com Caldwell e ele vai cuidar para que o Senhor Baringer receba tratamento VIP. Qual é o valor do fundo?

- Um milhão - disse Traynor. - Não é nada de extraordinário, mas sempre ajuda.

Depois de terminarem o almoço, saíram à luz forte do sol da tarde.

- Como anda a questão da iluminação para o estacionamento? - perguntou Traynor.

- Já está tudo providenciado - disse Beaton. - Há uma semana. Mas decidimos restringir a iluminação ao estacionamento de baixo. O de cima só é usado durante o dia; iluminando apenas o de baixo, economizamos um bocado de dinheiro.

- Parece razoável - disse Traynor.

Perto do Green Mountain National Bank, encontraram Waynei Robertson. Seu chapéu de aba larga estava caído sobre a testa, para proteger os olhos da luz solar. Como proteção extra ele usava óculos escuros espelhados.

- Boa tarde - disse Traynor em tom amigável. Robertson tocou a aba do chapéu num gesto de saudação.

- Alguma novidade no caso de Hodges?-perguntou Traynor.

- Não. Na verdade, estamos pensando em arquivar.

- Não seria prematuro demais?-disse Traynor.-Lembre-se de que o velhote tinha um pendor especial por aparecer quandomenos era esperado.

- E menos desejado - acrescentou Beaton.

- O Doutor Cantor acha que ele está na Flórida - disse Robertson. - Também estou começando a acreditar. Acho que aquele pequeno escândalo sobre o hospital estar cuidando da sua casa deixou-o envergonhado e ele abandonou a cidade.

- Eu achava que ele era mais durão - disse Traynor. - Mas quem sou eu para dizer?

Depois de se despedirem e desejarem bom fim de semana, os quatro voltaram para seus respectivos trabalhos.

Enquanto dirigia colina acima na direção do hospital, Beaton pensou em Traynor e no relacionamento que mantinham. Um ou dois encontros por mês não era exatamente o que ela esperava.

Conhecera Traynor há vários anos, quando ele fora a Boston fazer um curso de reciclagem em direito tributário. Ela trabalhava na cidade como administradora assistente de um dos hospitais de Harvard. A atração fora instantânea e mútua. Passaram juntos uma semana tórrida, depois se encontraram intermitentemente até que ele a chamou para dirigir o hospital em Bartlet. Ela acreditara que os dois iriam viver juntos, mas até agora isso não tinha acontecido. Traynor não obtivera o divórcio, que, segundo ele, era iminente. Beaton sentia que precisava fazer alguma coisa para acertar a situação; só não sabia o quê.

De volta ao hospital, foi direto ao quarto 204, onde esperava encontrar Tom Baringer.

Pretendia certificar-se de que Tom estava confortável. Ele não se encontrava lá. Beaton surpreendeu-se ao descobrir outro paciente: uma mulher chamada Alice Nottingham.

Beaton alisou o queixo, desceu ao primeiro andar e marchou para a sala de Caldwell.

- Onde está Baringer? - perguntou sem rodeios.

- Quarto 204.

- A não ser que tenha feito uma operação para troca de sexo e tenha mudado o nome para Alice, o Senhor Baringer não está no 204.

Caldwell levantou-se de um salto.

- Alguma coisa está errada.

Ele passou por Beaton e foi depressa pelo corredor até o setor de internações. Ali procurou Janice Sperling e perguntou-lhe o que acontecera com Tom Baringer.

- Coloquei-o no 209 - disse Janice.

- Eu disse para colocá-lo no 204.

- Sei disso. Mas depois de falarmos, o 209 ficou disponível. É um quarto maior. Você disse que o Senhor Baringer era um paciente especial. Achei que ele gostaria mais do 209.

- A vista do 204 é melhor, além disso tem uma cama ortopédica - disse Caldwell. - O homem quebrou o quadril. Mude-o de quarto ou troque a cama.

- Certo - falou Janice, revirando os olhos. Algumas pessoas nunca ficavam satisfeitas.

Caldwell foi até a sala de Beaton e enfiou a cabeça pela porta.

- Desculpe por não ter seguido sua ordem neste caso - falou. - Mas isso será retificado imediatamente. Prometo.

Beaton assentiu e voltou ao seu trabalho.

 

SÁBADO, 22 DE MAIO

DAVID AJUSTARA O despertador para cinco e quarenta e cinco, como se fosse um dia normal de trabalho. Às seis e quinze, estava a caminho do hospital. A temperatura já subira para uns vinte e três graus, e o céu estava limpo. Antes das nove, tinha terminado sua ronda e estava a caminho de casa.

- Tudo certo, pessoal - gritou ao entrar no apartamento. - Não quero esperar o dia inteiro. Vamos botar o pé na estrada.

Nikki apareceu na porta do quarto.

- Isso não é justo, papai. A gente estava esperando você.

- Estou brincando - falou David, rindo, enquanto dava um peteleco em Nikki.

Logo saíram. Em pouco tempo, a visão urbana dava lugar aos subúrbios pontilhados de árvores, seguidos por longos trechos de floresta. Quanto mais iam para o norte, mas bela ficava a paisagem, especialmente agora que havia folhas nas árvores.

Quando chegaram a Bartlet, David reduziu a velocidade. Como turistas ansiosos, eles bebiam as paisagens.

- É ainda mais pitoresco do que eu me lembrava - disse Angela.

- Olhem, aquele mesmo cachorrinho! - gritou Nikki, apontando para o outro lado da rua. - Podemos parar?

David levou o carro até uma vaga em diagonal.

- Você está certa - falou. - Estou reconhecendo a mulher.

- E eu estou reconhecendo o cachorro - disse Nikki, abrindo a porta do carro e saindo.

- Espere um segundo - gritou Angela. Em seguida, saiu do carro e pegou a mão de Nikki para atravessar a rua. David foi atrás.

- Olá outra vez - disse a mulher quando Nikki se aproximou. O cãozinho viu Nikki e fez força contra a coleira. Enquanto Nikki se curvava, o cão lambeu seu rosto. Nikki riu, surpresa.

- Não sei se vocês estariam interessados, mas o cão de caça do Senhor Staley teve filhotes há algumas semanas - disse a mulher. - É ali na loja de ferragens, do outro lado da rua.

- Podemos ir ver? - implorou Nikki.

- Por que não? - disse David, e agradeceu à mulher. Voltando a atravessar a rua, os Wilsons entraram na loja de ferragens. Num cercadinho perto da entrada estava Molly, a cadela do Senhor Staley, amamentando cinco filhotes peludos.

- São lindos - gritou Nikki. - Posso fazer carinho neles?

- Não sei - disse David e virou-se procurando algum funcionário, praticamente trombando com o Senhor Staley, que estava logo atrás.

- Claro que ela pode fazer carinho neles - disse o Senhor Staley depois de se apresentar. - Na verdade, eles estão à venda. Eu não preciso nem um pouco de seis retrievers dourados.

Nikki ficou de joelhos e, estendendo a mão dentro do cercadinho, acarinhou um dos filhotes. Ele respondeu agarrando o dedo da” menina como se fosse uma teta. Nikki guinchou de satisfação.

- Pegue-o no colo, se quiser - disse o Senhor Staley. - Ele é o fortão da ninhada.

Nikki pegou o filhote nos braços. O cãozinho acomodou-se contra seu rosto e lambeu seu nariz.

- Adoro ele - disse Nikki.-Gostaria que pudéssemos ficar com o cachorrinho. Podemos? Eu cuido dele.

David forçou-se a reprimir uma inesperada onda de lágrimas. Afastou o olhar e fixou-o em Angela. Ela passou um lenço no canto dos olhos e encarou o marido. Seus olhos se encontraram num instante de compreensão total. O pedido modesto de Nikki afetou-os ainda mais do que na primeira visita a Bartlet. Considerando todas as coisas pelas quais ela passara com sua fibrose cística, não era pedir muito.

- Você está pensando o mesmo que eu?-perguntou David.

- Acho que sim. - As lágrimas de Angela deram lugar a um sorriso. - Isso significaria que poderíamos comprar uma casa.

- Adeus, crimes e poluição - disse ele. David baixou os olhos para Nikki. - Certo. Você pode ter um cachorro. Vamos nos mudar para Bartlet!

O rosto de Nikki se iluminou. Ela abraçou o cãozinho contra o peito enquanto ele lambia seu rosto.

David virou-se para o Senhor Staley e combinou um preço.

- Acho que eles estarão prontos para deixar a mãe dentro de umas quatro semanas – disse o Senhor Staley.

- Vai ser perfeito - disse David.-Viremos para cá no início do mês.

Com alguma dificuldade, Nikki foi separada de seu cãozinho e os Wilsons saíram da loja.

- O que faremos agora? - disse Angela, excitada.

- Vamos celebrar. Vamos almoçar no restaurante.

Alguns minutos mais tarde, estavam sentados a uma mesa forrada, com vista para o rio.

David e Angela pediram vinho branco. Nikki escolheu um suco de uva-do-monte. Todos bateram os copos.

- Gostaria de brindar à nossa chegada ao Jardim do Éden - disse David.

- E eu gostaria de brindar ao início do pagamento de nossas dívidas - disse Angela.

- Tintim! - disse David, e todos beberam.

- Dá para acreditar?-perguntou Angela.-Nossos salários anuais, juntos, vão passar de cento e vinte mil dólares.

David cantou o trecho de uma canção:

- Estamos nadando em dinheiro.

- Acho que vou chamar meu cachorro de Ferrugem – falou Nikki.

- É um nome maravilhoso - concordou David.

- O que você acha de eu ganhar o dobro do seu salário? - implicou Angela.

David tinha consciência de que a farpa viria em algum momento, de modo que estava preparado.

- Você vai estar ganhando isso num laboratório escuro, pavoroso - zombou de volta. – Pelo menos eu estarei vendo gente real, viva, compreensiva.

- Sua delicada masculinidade não vai se sentir ameaçada? - prosseguiu ela.

- Nem um pouco. E é bom saber que, se nos divorciarmos eu é que receberei a pensão.

Angela curvou-se sobre a mesa para dar uma cutucada nas costelas de David.

David devolveu o gesto.

- Além disso - falou -, esse tipo de diferencial não vai durar muito tempo. É o legado de uma era passada. Os patologistas como os cirurgiões e outros especialistas bem remunerados, logo terão de cair na real.

- Quem diz isso?

- Eu digo.

Depois do almoço decidiram ir direto ao hospital informar Caldwell sobre a decisão. Assim que se apresentaram à secretária foram levados imediatamente para a sala.

- Isso é fantástico! - disse Caldwell ao ser informado da decisão. - A CMV já sabe?

- Ainda não - disse David.

- Venham. Vamos dar-lhes a boa notícia.

Charles Kelley ficou igualmente satisfeito com a novidade. Depois de parabenizar David com um aperto de mão, perguntou-lhe quando estaria pronto para atender aos pacientes.

- Imediatamente - disse David sem hesitar. - Dia primeiro de julho.

- Sua residência só termina no dia trinta - disse Kelley. Não quer um tempo para se estabelecer?

- Com as nossas dívidas - falou David -, quanto mais cedo começarmos a trabalhar, melhor.

- Você também pensa assim? - perguntou Caldwell a Angela.

- Sem dúvida.

David perguntou se eles poderiam voltar ao consultório que ele ocuparia. Kelley concordou com satisfação.

Ele parou do lado de fora da sala de espera, fantasiando como ficaria seu nome na porta, sob o do Doutor Randall Portland. Fora um caminho duro e longo desde o momento, na oitava série, em que decidira ser médico. Mas finalmente tinha conseguido.

David abriu a porta e entrou. Seu devaneio rompeu-se quando uma figura vestida com roupas cirúrgicas saltou do sofá da sala de espera.

- O que significa isso? - perguntou o sujeito, irritado. David demorou um instante para reconhecer o Doutor Portland. Em parte devido à surpresa do encontro, mas também porque o Doutor Portland mudara em um mês, desde que David o conhecera. Perdera peso considerável; seus olhos pareciam fundos e o rosto estava magro.

Kelley passou à frente do grupo, reapresentou David a Randall, e em seguida explicou a Randall por que estavam ali. A raiva do Doutor Portland desapareceu. Como um balão que perdesse o ar, ele voltou a cair no sofá. David percebeu que Randall não somente perdera peso como estava pálido.

- Desculpe por ter incomodado - disse David.

- Eu só estava tirando um cochilo - explicou o Doutor Portland. Sua voz parecia chapada. Tão exausta quanto sua aparência.-Tive uma cirurgia esta manhã, e estou cansado.

- Tom Baringer? - perguntou Caldwell. O Doutor Portland confirmou.

- Espero que tenha corrido bem.

- A operação foi boa. Agora precisamos cruzar os dedos para o pós-operatório.

David desculpou-se de novo e em seguida saiu com os outros do consultório.

- Desculpem - disse Kelley.

- O que há de errado com ele? - perguntou David.

- Nada que eu saiba - disse Kelley.

- Ele não parece bem.

- Achei que estava deprimido - disse Angela.

- Ele anda ocupado - admitiu Kelley. - Tenho certeza de que é apenas trabalho demais.

O grupo parou do lado de fora da sala de Kelley.

- Agora que sabemos que vocês vêm - disse Kelley -, há algo que possamos fazer para ajudar?

- Precisamos olhar algumas casas - disse Angela. - Quem o senhor sugere?

- Dorothy Weymouth - disse Caldwell.

- Ele está certo - disse Kelley.

- Ela é de longe a melhor corretora da cidade - acrescentou Caldwell. - Venham à minha sala e usem o telefone.

Meia hora depois, toda a família estava no escritório de Dorothy Weymouth, no segundo andar do prédio que ficava em frente ao diner. Era uma mulher enorme e agradável, metida num vestido sem forma, parecido com uma barraca.

- Devo dizer que estou impressionada - disse Dorothy. Sua voz era surpreendentemente aguda para uma mulher tão grande. - Enquanto vocês estavam vindo do hospital, Barton Sherwood ligou para dizer que está ansioso por ajudá-los. Não acontece com freqüência o presidente do banco ligar antes mesmo de eu encontrar o cliente.

- Não sei exatamente qual é o gosto de vocês - prosseguiu ela, enquanto começava a colocar sobre a mesa fotos de propriedades à venda.-De modo que terão de me ajudar. Vocês acham que vão gostar de uma casa branca, de madeira, na cidade ou uma casa de pedra, isolada no campo? E quanto ao tamanho? É uma consideração importante? Estão planejando ter mais filhos?

David e Angela ficaram tensos com a pergunta sobre mais filhos. Até o nascimento de Nikki, nenhum dos dois suspeitava de que eram portadores do gene da fibrose cística. Era uma realidade que não poderiam ignorar.

Sem perceber que pusera o dedo sobre um nervo exposto, Dorothy prosseguiu apresentando fotos de casas, enquanto mantinha um monólogo contínuo.

- Eis aqui uma propriedade particularmente charmosa, que acaba de ser posta à venda. É uma beleza.

Angela prendeu o fôlego. Pegou a foto. Nikki tentou olhar sobre o seu ombro.

- Gosto muito desta - disse Angela, e entregou a foto a David. Era uma casa de tijolos, estilo georgiano tardio ou federal antigo, com janelas duplas em arco de cada lado de uma porta central. Colunas acaneladas sustentavam um pórtico com um frontão, sobre a porta. Acima do frontão havia uma grande janela paladiana.

- É uma das mais antigas casas de tijolos da região - disse Dorothy. - Foi construída por volta de 1820.

- O que há nos fundos? - perguntou David apontando para a foto.

Dorothy olhou.

- É o antigo silo. Fica atrás da casa, ligado ao celeiro. Não dá para ver o celeiro porque a foto foi tirada da frente da casa, debaixo da colina. A propriedade era uma fazenda de leite, muito lucrativa, pelo que eu soube.

- É linda - disse Angela em tom melancólico.-Mas tenho certeza de que nunca poderíamos pagar por ela.

- Poderiam sim, pelo que Barton Sherwood me contou. Além disso, eu conheço a dona, Clara Hodges, e ela está ansiosa para vender. Tenho certeza de que poderíamos entrar num bom acordo. De qualquer modo, vale a pena dar uma olhada. Vamos pegar mais umas quatro ou cinco e ver.

Orquestrando inteligentemente a ordem das visitas, Dorothy deixou a casa de Hodges para o final. Ela ficava cerca de quatro quilômetros ao sul do centro da cidade, no topo de uma pequena colina. A casa mais próxima estava a uns duzentos metros, pela estrada. Quando entraram no caminho que levava a casa, Nikki viu o lago das rãs e ficou imediatamente apaixonada.

- O lago não é só pitoresco - disse Dorothy. - É ótimo também para patinar no inverno.

Dorothy parou entre a casa e o lago das rãs, ligeiramente de lado. Dali podiam ver a estrutura com o celeiro ligado a ela. Nem Angela nem David disseram uma palavra.

Estavam espantados com o caráter nobre e imponente da casa. Agora percebiam que tinha três andares, e não dois. Dava para ver duas águas-furtadas de cada lado do telhado de ardósia escurecida.

- Tem certeza de que o Senhor Sherwood acha que nós podemos comprar essa casa? - perguntou David.

- Absoluta. Venham, vamos olhar por dentro.

Num estado de quase hipnose, David e Angela seguiram Dorothy num passeio pelo interior da casa. Dorothy continuava seu fluxo contínuo de conversa de corretora, dizendo coisas como: ”Este quarto promete muito” e ”Com um pouquinho de criatividade e trabalho, este quarto vai ficar muito aconchegante”. Qualquer problema, como papel de parede soltando ou caixilhos de janelas apodrecendo, ela minimizava. Os pontos bons, como o tamanho das muitas lareiras e o belo trabalho das cornijas, ela alardeava com um fluxo ininterrupto de superlativos.

David insistiu em olhar tudo. Até mesmo desceram os degraus de granito para o porão, que parecia excepcionalmente úmido e mofado.

- Parece haver um cheiro estranho - disse ele.-Há algum problema de água aqui?

- Não que eu saiba - disse Dorothy. - Mas é um ótimo porão, e grande, Há espaço suficiente para uma oficina, se você for do tipo habilidoso.

Angela reprimiu um risinho, bem como um comentário depreciativo. Quase falou que David tinha dificuldade até para trocar lâmpadas, mas segurou a língua.

- Não tem piso - falou David, curvando-se e raspando um pouco de terra com a unha.

- É chão de terra batida - explicou Dorothy. - É comum em casas mais antigas, como essa. E este porão tem outras características típicas de uma casa do século XIX. – Ela abriu uma pesada porta de madeira.

- Aqui é o antigo depósito de alimentos

Havia prateleiras para conservas e caixas para batatas e maçãs. O cômodo era mal iluminado, com apenas uma lâmpada incandescente.

- É assustador - disse Nikki. - Parece uma masmorra.

- Vai servir para quando seus pais vierem nos visitar - disse David. - Podemos colocá-los aqui.

Angela revirou os olhos.

Depois de mostrar o depósito, Dorothy levou-os para o outro canto do porão e apontou orgulhosamente para um grande freezer horizontal.

- Esta casa tem os métodos antigos e novos de armazenamento de comida.

Antes de deixarem o porão, Dorothy abriu outra porta. Por trás havia mais um lance de degraus de granito que levava a uma porta-alçapão.

- Esta escada leva ao quintal dos fundos. Por isso a lenha está aqui. - Ela apontou para vários feixes de lenha empilhados contra a parede.

A última coisa digna de nota no porão era a enorme fornalha. Quase parecia uma antiga locomotiva a vapor.

- Antes ela usava carvão, mas foi convertida para óleo - continuou explicando, e apontou para um grande tanque de combustível colocado sobre blocos de concreto, no canto oposto àquele onde estava o freezer.

David assentiu, ainda que não soubesse nada sobre fornalhas, independente do que elas usassem como combustível.

Na volta para a escada que levava à cozinha, David sentiu de novo o cheiro de mofo e perguntou sobre o sistema de esgoto.

- Está ótimo - disse Dorothy. - Nós o inspecionamos. A fossa séptica fica a oeste da casa. Posso mostrar o filtro de lixívia, se você quiser.

- Se foi inspecionado, tenho certeza de que está bem - disse David. Ele não tinha a menor idéia do que fosse um filtro de lixívia ou de qual seria sua aparência.

David e Angela pediram que Dorothy os deixasse no Green Mountain National Bank.

Estavam nervosos e excitados ao mesmo tempo. Barton Sherwood recebeu-os quase imediatamente.

- Encontramos uma casa do nosso agrado - disse David.

- Não fico surpreso - disse Sherwood. - Há muitas casas maravilhosas em Bartlet.

- A casa pertence a Clara Hodges - prosseguiu David, entregando ao outro a descrição da propriedade. - O preço que ela está pedindo é duzentos e cinqüenta mil dólares. O que o banco acha?

- É uma casa ótima, eu a conheço bem. - disse Sherwood examinando o papel. - E a localização é fabulosa. Na verdade, fica junto à minha propriedade. Quanto ao preço, acho que é uma pechincha.

- Então o banco concorda com esse preço? - perguntou Angela. Queria ter certeza. Parecia bom demais para ser verdade.

- Claro que vocês vão oferecer menos - disse Sherwood. - Sugiro uma oferta inicial de cento e noventa mil. Mas o banco se dispõe a apoiar a compra até o preço pedido.

Quinze minutos depois, David, Angela e Nikki voltavam ao brilho do sol de Vermont.

Nunca tinham comprado uma casa antes. Era uma decisão monumental. Mas, depois de terem resolvido vir para Bartlet, estavam num clima decisivo.

- E então? - perguntou David.

- Não posso imaginar que consigamos alguma coisa melhor - disse Angela.

- Dá até para ter uma mesa no meu quarto - disse Nikki. David estendeu a mão e tocou o cabelo da filha.

- A casa tem tantos quartos que você pode até ter uma sala de estudos.

- Vamos em frente - disse Angela.

De volta ao escritório de Dorothy, contaram a decisão à satisfeita corretora. Alguns minutos depois, Dorothy estava falando ao telefone com Clara Hodges e, mesmo sendo pouco convencional, foi apalavrado um acordo em duzentos e dez mil dólares.

Enquanto Dorothy preparava os documentos formais, David e Angela trocaram olhares.

Estavam perplexos ao perceber que eram os novos proprietários de uma casa mais fantástica do que poderiam esperar possuir em muitos anos. Entretanto, havia também alguma ansiedade. Sua dívida mais do que duplicara, passando de trezentos e cinqüenta mil dólares.

No final do dia, depois de mais algumas caminhadas entre o escritório de Dorothy e o banco, todos os papéis foram preenchidos, sendo estabelecida uma data para o fechamento do negócio.

- Tenho alguns nomes para indicar a vocês - disse Dorothy quando eles terminaram com a papelada.-Pete Began faz biscates na cidade. Não é o sujeito mais inteligente do mundo, mas trabalha bem. E para a pintura eu costumo recorrer a John Murray. David escreveu os nomes e os números de telefone.

- E se precisarem de alguém para tomar conta de Nikki, minha irmã mais velha, Alice Doherty, adoraria ajudar. Ela perdeu o marido há alguns anos. Além disso, mora perto de vocês.

- É uma dica maravilhosa - disse Angela.-Com nós dois trabalhando, vamos precisar de alguém para ajudar quase todo o dia.

Depois, naquela mesma tarde, David e Angela encontraram o biscateiro e o pintor na casa nova. Combinaram uma limpeza geral e um mínimo de pintura e reparos, para deixar a casa à prova de mau tempo.

Depois de mais uma visita à loja de ferragens para que Nikki pudesse fazer carinho outra vez em Ferrugem e dizer adeus, os Wilsons pegaram a estrada para Boston. Angela dirigiu.

Nem David nem Nikki cochilaram. Estavam todos ligados no que tinham feito e cheios de sonhos com a vida nova que estava para começar.

- O que você achou do Doutor Portland? - perguntou David depois de um período de silêncio.

- O que quer dizer?

- O sujeito não pareceu nem um pouco amigável.

- Acho que nós o acordamos.

- Mesmo assim, a maior parte das pessoas não ficaria tão irritada. Além do mais, ele parecia mais morto do que vivo. Mudou drasticamente em um mês.

- Achei que ele estava muito deprimido.

David encolheu os ombros.

- Agora que penso a respeito, o sujeito não pareceu tão amigável da primeira vez em que o vi. Tudo que ele quis saber era se eu jogava basquete. Ele tem alguma coisa que me deixa desconfortável. Espero que dividir um consultório com ele não se torne um ponto de atrito.

Estava escuro quando chegaram a Boston; tinham parado para jantar no caminho. Quando chegaram ao apartamento, olharam espantados ao redor, surpresos por terem sido capazes de morar durante anos num espaço tão minúsculo e claustrofóbico.

- Este apartamento inteiro caberia na biblioteca da casa nova - comentou Angela.

David e Angela decidiram ligar para os pais, para compartilhar a empolgação. Os pais de David ficaram deliciados. Tendo-se mudado para Amherst, New Hampshire, achavam que Bartlet estava ali pertinho.

- Vamos ver vocês mais vezes - disseram. Os pais de Angela tiveram uma reação diferente.

- É fácil abandonar a vida académica - disse o Doutor Walt Christopher. - Difícil é voltar para ela. Acho que vocês poderiam ter pedido minha opinião antes de tomar uma atitude tão idiota. fale com a sua mãe.

A mãe de Angela entrou na linha e expressou seu desapontamento por Angela e David não terem ido para Nova York.

- Seu pai perdeu um bocado de tempo falando com todo tipo de gente para garantir que vocês tivessem bons cargos aqui. Acho que foi falta de consideração não aproveitarem o esforço que ele fez.

Depois de desligar, Angela virou-se para David.

- Eles nunca foram muito de dar apoio - falou. - Acho que eu não deveria ter esperado que mudassem agora.

 

SEGUNDA-FEIRA, 24 DE MAIO

TRAYNOR CHEGOU CEDO ao hospital para sua reunião da tarde. Em vez de ir direto à sala de Helen Beaton, foi à ala dos pacientes no segundo andar e caminhou até o quarto 209. Depois de respirar fundo para juntar forças, abriu a porta. Ser chairman da diretoria do hospital, não modificava a aversão que Traynor sentia por situações médicas, particularmente quando eram ruins.

Consciente de estar respirando com cuidado na presença de um doente, Traynor moveu-se pelo quarto escuro e se aproximou da grande cama ortopédica. Curvando-se e evitando escrupulosamente tocar em qualquer coisa, olhou para o cliente, Tom Baringer. Tom não parecia bem, e Traynor não queria chegar perto, para não pegar nenhuma doença horrível. O rosto de Tom estava cinzento e sua respiração era dificultosa. Um tubo plástico descia por trás de sua cabeça, levando oxigênio ao nariz. Seus olhos estavam fechados com esparadrapo e um ungüento escorria de entre suas pálpebras.

- Tom - chamou Traynor em voz baixa. Quando não houve resposta, chamou mais alto.

Mas Tom não se moveu.

- Ele não pode responder.

Traynor deu um salto e o sangue fugiu-lhe do rosto. Afora Tom, ele pensava estar sozinho.

- Sua pneumonia não reage ao tratamento - disse irritado o estranho. Estava sentado num canto, envolto em sombras. Traynor não conseguia ver seu rosto. - Está morrendo como os outros.

- Quem é você? - perguntou Traynor. Em seguida enxugou o suor que aparecera subitamente na testa.

O homem levantou-se. Só então Traynor viu que ele usava vestes cirúrgicas, cobertas por um paletó branco.

- Sou o médico do Senhor Baringer, Randy Portland. - Ele avançou até o lado oposto da cama e olhou para o paciente comatoso. -A operação foi um sucesso, mas o paciente está para morrer. Suponho que já tenha ouvido antes uma variação dessa piada.

- Creio que sim - disse Traynor nervoso. O choque pela presença do Doutor Portland estava se transformando numa preocupação ansiosa. Havia algo decididamente estranho com os modos do sujeito. Traynor não sabia o que fazer.

- O quadril foi reparado - disse o Doutor Portland e levantou a barra do lençol para que Traynor visse a sutura. - Nenhum problema. Mas infelizmente foi uma cura fatal. Não há como o Senhor Baringer sair daqui andando. - Portland soltou o lençol e ergueu os olhos desafiadores para Traynor. - Há algo de errado com este hospital. Eu não vou ficar com toda a culpa.

- Doutor Portland - disse Traynor hesitante. - O senhor não está com uma aparência boa. Talvez devesse ver um médico.

O Doutor Portland jogou a cabeça para trás e gargalhou. Mas foil um riso vazio, sem alegria, que terminou tão subitamente quanto começara.

- Talvez o senhor esteja certo. Talvez eu faça isso. - Em seguida virou-se e saiu do quarto.

Traynor sentiu-se atordoado. Olhou para Tom como se esperasse que ele fosse levantar e explicar o comportamento do Doutor Portland. Traynor entendia que os médicos podiam se envolver emocionalmente com a saúde dos pacientes, mas Portland parecia perturbado demais.

Tentou mais uma vez se comunicar com Tom. Reconhecendo a futilidade, recuou para longe da cama e saiu do quarto. Cautelosamente, procurou pelo Doutor Portland. Não o vendo, caminhou depressa até a sala de Beaton. Caldwell e Kelley já estavam lá.

- Vocês todos conhecem o Doutor Portland? - perguntou Traynor enquanto se sentava.

Todos assentiram. Kelley falou:

- É um dos nossos. Um cirurgião ortopédico.

- Acabo de ter um encontro estranho e irritante com ele. Vindo para cá, fui dar uma olhada no meu cliente, Tom Baringer, que está muito mal. O Doutor Portland estava sentado no escuro, num canto do quarto. Eu nem o vi quando entrei. Ele agiu de modo estranho, até mesmo de modo beligerante. Imagino que esteja perturbado com a condição de Tom, mas disse alguma coisa sobre não assumir toda a culpa e que havia algo de errado com o hospital.

- Acho que ele está tenso por causa do excesso de trabalho - disse Kelley. – Precisamos pelo menos de mais um cirurgião ortopédico. Infelizmente, nossos esforços de recrutamento não deram resultado até agora.

- O sujeito me pareceu doente - disse Traynor. - Aconselhei-o a procurar um médico, mas ele riu.

- Vou conversar com ele - prometeu Kelley. - Talvez precise de uma licença. Podemos conseguir um substituto por algumas semanas.

- Bom, chega desse assunto - disse Traynor tentando se compor e assumir o papel de chairman. - Vamos começar a reunião.

- Antes disso, há algo que preciso falar - disse Kelley com um de seus sorrisos de vencedor. -Meus superiores ficaram muito chateados com a negativa do CDN para cirurgias de coração aberto.

- Também ficamos desapontados - disse Traynor nervosamente. Ele não gostava de começar uma reunião com um tema negativo. - Infelizmente, não está nas nossas mãos. Montpelier negou, mesmo eu achando que fizemos um esforço considerável.

- A CMV esperava que o programa de coração aberto já estivesse funcionando. Fazia parte do contrato.

- Fazia parte do contrato, desde que obtivéssemos o CDN - corrigiu Traynor. - Mas não obtivemos. Então vamos olhar o que foi feito. Nós atualizamos o aparelho de ressonância magnética, construímos a UTI neonatal e substituímos a velha máquina de cobalto-60 por um acelerador linear de último tipo. Acho que mostramos uma boa-fé notável, e estamos fazendo isso ao mesmo tempo em que o hospital vem tendo prejuízo.

- Se o hospital está tendo prejuízo, não é preocupação da CMV - disse Kelley. – Sobretudo porque isso provavelmente se deve a pequenas ineficiências administrativas.

- Acho que você está errado - disse Traynor, engolindo a raiva pela insinuação insultuosa de Kelley. Ele odiava ser posto na defensiva, especialmente por esse burocrata jovem e metido a besta. - Acho que a CMV precisa se preocupar por estarmos perdendo dinheiro. Se as coisas ficarem piores, seremos forçados a fechar as portas. Isso seria ruim para todos. Precisamos trabalhar juntos. Não há outra saída.

- Se o Hospital Comunitário de Bartlet falir - disse Kelley -, a CMV fará negócios com outro.

- Isso não é mais tão fácil. Os dois outros hospitais da região não estão mais funcionando para atendimento de casos agudos.

- Isso não será problema - disse Kelley em tom casual. Se for necessário, transportaremos nossos pacientes para o hospital da CMV emRutland.

O coração de Traynor falhou uma batida. A possibilidade da CMV transportar os pacientes nunca lhe ocorrera. Ele esperava que a falta de hospitais nas proximidades lhe desse algum poder de barganha. Aparentemente isso não ocorria.

- Não estou querendo dizer que não pretendo trabalhar com vocês - disse Kelley.-Afinal de contas, temos o mesmo objetivo: a saúde da comunidade. - Ele sorriu de novo, como se quisesse mostrar os dentes brancos e perfeitos.

- O problema é que a taxa de capitação é muito baixa - disse Traynor em tom rude. – As hospitalizações pela CMV estão mais de dez por cento acima das projeções. Não podemos sustentar uma sobrecarga dessas por muito tempo. Precisamos renegociar a taxa de capitação. É isso.

- A taxa de capitação não será renegociada até que termine o contrato - disse Kelley em tom amigável. - O que acham que nós somos? Vocês ofereceram a taxa atual num processo de concorrência. E assinaram o contrato. Então fica como está. O que posso fazer é iniciar negociações para uma taxa de capitação para os serviços de emergência, que ficaram de fora no acordo final.

- Capitar a emergência não é uma coisa que possamos fazer no momento - disse Traynor, sentindo o suor descer pela parte interna dos braços. - Primeiro temos de sair do vermelho.

- Que é o motivo para nossa reunião desta tarde - disse Beaton, falando pela primeira vez. Em seguida apresentou a versão final para o programa de bónus para os médicos da CMV. – Cada médico da CMV responsável pela triagem receberá uma bonificação, desde que o número de dias de internação por sócio permaneça num determinado nível. À medida que o nível cair, o pagamento sobe, e vice-versa.

Kelley riu.

- Para mim, isso parece suborno. Do jeito que os médicos são sensíveis aos incentivos financeiros, isso certamente vai reduzir a hospitalização e as cirurgias.

- Em essência, é o mesmo plano que a CMV tem no hospital de Rutland.

- Se funciona lá, deve funcionar aqui - disse Kelley.-Por mim, não há problema, desde que não custe nada à CMV.

- Será totalmente pago pelo hospital - disse Beaton.

- Vou apresentar a idéia aos meus superiores - disse Kelley. - É só?

- Só - disse Beaton. Kelley ficou de pé.

- Gostaríamos que cuidasse disso o mais rápido possível - disse Traynor. - Estamos com muito vermelho em nosso balancete.

- Vou providenciar hoje mesmo. Tentarei conseguir uma resposta definitiva para amanhã. - Dito isso, Kelley apertou a mão dos outros e saiu da sala.

- Eu diria que as coisas estão correndo de acordo com o previsto - disse Beaton assim que ele saiu.

- Estou me sentindo encorajado - falou Caldwell.

- Não gostei de ele ter sugerido que a administração é incompetente - disse Traynor. – Não gosto dessa atitude provocadora. É ruim termos de lidar com ele.

- O que não gostei de ouvir foi a ameaça de transportar pacientes para Rutland – disse Beaton. - Isso me preocupa. Significa que nosso poder de barganha é menor do que eu pensava.

- Acabo de pensar numa coisa - disse Traynor. - Uma reunião de alto nível, capaz de determinar o destino do hospital, e nenhum médico presente.

- Sinal dos tempos - disse Beaton. - O fardo de lidar com a crise no serviço de saúde caiu sobre nós, administradores.

- Acho que é o equivalente da expressão ”a guerra é muito importante para ficar na mão dos generais”, no mundo médico - disse Traynor.

Todos riram. Foi uma boa tirada para quebrar a tensão.

- E quanto ao Doutor Portland?-perguntou Caldwell. - Deve fazer alguma coisa?

- Não creio que haja alguma coisa a ser feita - disse Beaton - Só tenho ouvido coisas boas a respeito de sua capacidade como cirurgião. Ele certamente não violou nenhuma regra ou regulamento. Acho que teremos de esperar e ver o que a CMV faz.

- Ele não me pareceu bem - reiterou Traynor. - Não sou psiquiatra e não sei como fica alguém que está em vias de um colapso nervoso, mas se eu tivesse de adivinhar, acho que a aparência seria igual à dele.

O ruído do interfone surpreendeu a todos, especialmente Beaton, que deixara instruções explícitas contra interrupções.

- Má notícia - falou depois de desligar. - Tom Baringer morreu.

Os três ficaram quietos. Traynor foi o primeiro a falar:

- Nada como uma morte para lembrar que, apesar dos lucros e prejuízos, um hospital é na verdade um tipo de negócio muito diferente.

- Verdade - disse Beaton.-O difícil do trabalho é que toda a cidade e toda a região tornam-se uma família ampliada. E como em qualquer família grande, há sempre alguém morrendo.

- Qual é a taxa de mortalidade no Hospital Comunitário Bartlet? - perguntou Traynor. -

Nunca me ocorreu perguntar.

- Estamos na média - disse Beaton. - Um ponto a mais, a menos. Na verdade, nosso índice é melhor do que o da maioria dos hospitais-escola nas cidades.

- É um alívio. Por um momento, tive medo de que precisaria me preocupar com mais uma coisa.

- Chega dessa conversa mórbida - disse Caldwell.-Tenho boas notícias. Os dois médicos, marido e mulher, que estivemos recrutando ativamente, decidiram vir para Bartlet. De modo que teremos uma patologista fantasticamente treinada.

- Fico feliz em saber - disse Traynor. - Isso coloca a patologia em dia.

- Eles até compraram a antiga casa de Hodges - acrescentou Caldwell.

- Não me diga! Gosto disso. Há algo maravilhosamente irônico no fato.

Charles Kelley entrou no seu Ferrari, deu partida no motor e apertou o acelerador. A máquina respondeu como a maravilha de engenharia que era, pressionando-o contra o banco enquanto ele acelerava para fora do estacionamento do hospital. Era uma delícia o modo como o carro aderia à estrada e fazia as curvas.

Depois da reunião com o pessoal do Hospital Bartlet, Kelley telefonara diretamente para Duncan Mitchell, achando que era uma boa oportunidade de mostrar presença para o homem que ocupava o pináculo do poder. Duncan Mitchell era executivo-chefe da CMV, bem como de vários outros planos de saúde e empresas administradoras de hospitais no Sul. Convenientemente, a sede geral ficava em Vermont, onde o Senhor Mitchell tinha uma fazenda.

Kelley não sabia o que esperar, e ficara nervoso ao fazer a ligação, mas o executivo-chefe mostrara-se gentil. Apesar de Kelley ter feito o contato enquanto ele se preparava para ir a Washington, Mitchell concordara generosamente em se encontrar com ele do lado de fora do prédio de aviação geral do aeroporto de Burlington

Com o Learjet da CMV em estágio final de abastecimento, Mitchell convidou Kelley para entrar na sua limusine. Ofereceu uma bebida do bar do veículo. Kelley educadamente recusou.

Duncan Mitchell era um homem impressionante. Não era tão alto quanto Kelley, mas emanava uma sensação de poder. Estava meticulosamente vestido com um terno executivo, gravata de seda e abotoaduras de ouro. Os sapatos italianos eram de crocodilo, marrom-escuros.

Kelley se apresentou e fez um breve resumo de sua ligação com a CMV, mencionando que era o diretor regional para a área atendida pelo Hospital Comunitário de Bartlet, para o caso de Mitchell não saber. Mas Mitchell parecia a par da posição de Kelley.

- Eventualmente pretendemos comprar aquele hospital - falou.

- Presumi isso - disse Kelley. - E foi por este motivo que quis conversar diretamente com o senhor.

O Senhor Mitchell tirou uma cigarreira de ouro do bolso do colete e pegou um cigarro. Bateu-o pensativamente contra a superfície da cigarreira.

- Há um bom lucro a ser obtido com esses hospitais rurais - falou. - Mas é preciso uma administração cuidadosa.

- Concordo totalmente.

- Sobre o que você desejava falar?

- Duas coisas. A primeira é com relação a um programa bônus que o hospital quer iniciar, semelhante ao que temos com nossos hospitais. Eles querem reduzir o índice de hospitalização.

- E qual é o outro? - disse Mitchell soprando fumaça para o teto do carro.

- Um de nossos médicos começou a agir de modo estranho, reagindo a complicações pós-operatórias em seus pacientes. E está dizendo coisas como ”não vou assumir a culpa por erros que estejam acontecendo no hospital”.

- Ele tem alguma história de problemas psiquiátricos?

- Não que possamos determinar.

- Com relação ao primeiro item, deixe que façam o programa de bônus. Nesse ponto, o balancete deles não tem importância.

- E quanto ao médico?

- Obviamente, você precisará tomar alguma atitude. Não podemos deixar que esse tipo de comportamento prossiga.

- Alguma sugestão?

- Faça o que for necessário. Deixo os detalhes por sua conta, parte da capacidade de dirigir uma grande organização como a nossa está em saber quando delegar responsabilidade. Este caso é um exemplo.

- Obrigado, Senhor Mitchell. - Kelley parecia satisfeito. Era óbvio que estava recebendo um voto de confiança.

Empolgado, Kelley desceu da limusine e voltou ao seu Ferrari. Enquanto saía do aeroporto, viu rapidamente Mitchell caminhando de seu carro para o Learjet.

- Algum dia - prometeu Kelley -, eu estarei usando aquele avião.

 

QUARTA-FEIRA, 30 DE JUNHO

TANTO o DEPARTAMENTO de medicina interna quanto o de patologia fizeram pequenas cerimônias informais para o grupo que terminava as residências naquele ano.

Depois de pegarem seus diplomas, David e Angela abriram mão das festas programadas para tarde e correram para casa. Era o dia em que deixariam Boston em busca de sua nova casa e de suas novas carreiras em Bartlet Vermont.

- Você está empolgada? - perguntou David a Nikki.

- Estou doida para ver o Ferrugem.

Alugaram uma caminhonete para ajudar na mudança. Foi preciso fazer várias viagens subindo e descendo as escadas para colocar tudo nos dois veículos. Quando finalmente terminaram, Angela entrou no furgão e David pegou a caminhonete. Na primeira metade da viagem, Nikki escolheu ir com o pai.

David aproveitou para conversar com Nikki sobre a escola nova e perguntar se ela sentiria falta dos amigos.

- Vou sentir falta de alguns. Mas de outros, não. De qualquer modo, acho que consigo enfrentar isso.

David sorriu, prometendo que se lembraria de contar a Angela o comentário precoce de Nikki.

Logo ao sul da fronteira de New Hampshire, pararam para o almoço. Ansiosos por chegar a casa nova, comeram depressa.

- Estou me sentindo ótima por deixar essa cidade frenética e cheia de crimes – disse Angela enquanto saíam do restaurante e se aproximavam dos veículos.-Neste momento, nem me importo se nunca mais voltar.

- Não sei - brincou David. - Vou sentir falta de ouvir sirenes, tiros, vidros quebrando e gritos de socorro. A vida no campo vai ser um tédio só.

Nikki e Angela deram-lhe socos de brincadeira.

No resto da viagem, Nikki foi com Angela no furgão.

Enquanto seguiam para o norte o tempo melhorou. Em Boston estava quente, abafado e nevoento. Quando chegaram a Vermont, continuava quente, mas estava claro e muito menos úmido.

Bartlet parecia serena no calor de início de verão. Floreiras adornavam praticamente todas as janelas. Reduzindo a velocidade, a caravana de dois veículos entrou na cidade preguiçosa. Havia poucas pessoas nas ruas. Era como se todos estivessem tirando a sesta.

- Podemos parar para pegar o Ferrugem? - perguntou Nikki enquanto se aproximavam da Loja de Ferragens Staley’s.

- Vamos primeiro ajeitar as coisas - disse Angela.-Temos de construir algum cercadinho para ele, até ele se acostumar a não sujar a casa.

David e Angela dirigiram até a entrada da casa e estacionaram lado a lado. Agora que ela era oficialmente deles, sentiam-se ainda mais espantados do que na visita inicial.

David saiu da caminhonete, os olhos fixos na casa.

- O lugar é fantástico. Mas parece que precisa de mais cuidados do que eu pensei.

Angela foi até David e seguiu o seu olhar. Parte do rendilhado decorativo tinha caído da cornija.

- Não estou preocupada - disse ela.-Não foi à toa que me casei com uma pessoa habilidosa em coisas do lar.

David riu.

- Dá para ver que você vai precisar de muito esforço para aprender a mentir.

- Vou tentar manter a mente aberta - zombou ela.

Com uma chave que haviam recebido pelo correio, abriram a porta da frente e entraram. A casa parecia muito diferente sem os móveis. Quando a tinham visto, antes, estava cheia dos pertences de Hodges.

- Parece um salão de dança - disse David.

- Tem até eco - disse Nikki. Em seguida gritou: - Alô! - e a palavra reverberou.

- É assim que você sabe que chegou ao posto que merecia na vida - disse David imitando um sotaque inglês. - Quando sua casa tem eco.

Lentamente os Wilsons atravessaram ofoyer. Agora que não havia tapetes, seus calcanhares ressoavam no piso de madeira. Tinham esquecido a enormidade da casa nova, especialmente em contraste com o apartamento de Boston. Afora alguns móveis que tinham concordado que Clara poderia deixar - um banco, uma mesa de cozinha -, o lugar estava desnudo. i No hall central, diante da grande escada, pendia um lustre imenso. Havia uma biblioteca e uma mesa de jantar do lado esquerdo, e uma enorme sala de estar do lado direito. Um corredor central levava à espaçosa cozinha que se estendia pela parte de trás da casa. Por trás da cozinha ficava o acréscimo de dois andares de madeira, ligando a casa ao celeiro. Ali havia uma saleta de entrada, várias despensas e uma escada que levava ao segundo pavimento.

Voltando à grande escadaria, os Wilsons subiram ao segundo andar. Havia dois quartos com banheiros, um de cada lado, e uma grande suíte sobre a área da cozinha.

Abrindo uma porta no corredor, junto à suíte principal, subiram ao terceiro andar, onde havia quatro quartos sem aquecimento.

- Não falta lugar para guardar coisas - disse David.

- Qual vai ser o meu quarto? - perguntou Nikki.

- O que você quiser - disse Angela.

- Eu quero o que dá para o lago das rãs.

Desceram ao segundo andar e foram até o quarto que Nikki escolhera. Discutiram sobre o posicionamento dos móveis, inclusive a mesa que ela ainda não tinha.

- Certo, pessoal - ordenou Angela. - Chega de embromação. Hora de descarregar. David prestou continência.

Voltando aos veículos, começaram a trazer os pertences para a casa e a colocá-los nos respectivos cômodos. O sofá, as camas e as pesadas caixas de livros exigiram grande esforço. Ao terminar, David e Angela pararam sob o arco que levava à sala de estar.

- Seria divertido se não fosse tão patético - disse ela. O tapete que no apartamento ia praticamente de parede a parede parecia pouco mais do que um capacho no meio da sala enorme. O sofá, as duas poltronas e a mesa de café pareciam ter sido resgatados de um bazar de caridade.

- Elegância moderada - disse David. - Decoração minimalista. Se estivesse no Architectural Digest, todo mundo tentaria imitar.

- E o Ferrugem? - perguntou Nikki.

- Vamos pegá-lo - disse David. - Você foi legal, e ajudou muito. Quer vir, Angela?

- Não, obrigada. Vou ficar e organizar mais as coisas, especialmente na cozinha.

- Pensei que iríamos comer no restaurante esta noite - disse David.

- Não. Quero comer aqui, na nossa casa nova. Enquanto David e Nikki iam até a cidade, Angela desfez algumas das caixas da cozinha, retirando inclusive os potes, as panelas, os pratos e as bandejas.

Também descobriu como funcionava o fogão e ligou a geladeira.

Nikki voltou carregando o cãozinho adorável, de rosto enrugado e orelhas caídas. Vinha com o animal apertado contra o peito. Ele crescera consideravelmente desde que o tinham visto. Os pés eram do tamanho dos punhos de Nikki.

- Vai virar um cachorrão - disse David. Enquanto Nikki e David preparavam um cercado para o Ferrugem na saleta dos fundos, Angela preparou o jantar para Nikki. A menina não gostou de comer antes dos pais, mas estava muito cansada para reclamar. Depois de ter comido e feito drenagem postural, ela e Ferrugem, ambos exaustos, foram postos para dormir.

- Agora tenho uma surpresinha para você - disse Angela enquanto os dois desciam do quarto de Nikki. Pegou David pela mão e levou-o até a cozinha. Abrindo a geladeira, retirou uma garrafa de Chardonnay.

- Uau! - exclamou David inspecionando o rótulo. - Não é o bagulho que a gente costuma comprar.

- Claro que não - disse Angela. Voltando à geladeira, retirou um prato coberto por uma toalha de papel. Levantou a toalha e expôs dois grossos bifes de vitela.

- Sinto que estamos preparando um festim - disse David.

- Pode acreditar. Salada, alcachofra, arroz integral e vitela. E o melhor Chardonnay que pude comprar.

David preparou a carne numa churrasqueira construída no terraço junto à biblioteca. No momento em que ele entrou em casa, Angela havia posto o resto da comida sobre a mesa da sala de jantar.

A noite baixara suavemente, enchendo a casa de sombras. Na escuridão, o brilho das duas velas que formavam o arranjo de centro de mesa só iluminava a área imediatamente ao redor. A bagunça do resto da casa estava escondida.

Sentaram-se, um em cada cabeceira. Não disseram nada. Simplesmente se olharam enquanto comiam. Ambos haviam passado para uma atmosfera romântica, percebendo que o romance sumira de suas vidas nos últimos anos; as exigências da residência médica e os contínuos problemas de saúde de Nikki obtiveram precedência.

Depois de terminarem de comer, continuaram sentados por muito tempo, encarando-se enquanto a sinfonia de sons de uma noite de verão em Vermont penetrava pelas janelas abertas. As chamas das velas tremiam sensualmente, enquanto o ar limpo e fresco atravessava a sala acariciando seus rostos. Era um momento mágico que os dois queriam saborear.

O desejo mútuo levou-os para o escuro da sala de estar. Caíram no sofá, os lábios se encontrando enquanto os dois se envolviam num abraço cálido. Tiraram as roupas, ajudando-se ansiosos. Com um coro de grilos ao fundo, fizeram amor em sua casa nova.

A manhã trouxe uma confusão em massa. Com o cão latindo para ser alimentado e Nikki gritando que não conseguia encontrar seus jeans favoritos, Angela sentiu que a paciência estava no fim. David não ajudava em nada. Não conseguia encontrar a lista que fizera sobre o que estava em cada uma das dezenas de caixas ainda fechadas.

- Certo, já chega - gritou Angela.-Não quero ouvir mais berros nem latidos.

Por um instante, até Ferrugem ficou quieto.

- Calma, querida - disse David. - Ficar chateada não vai resolver nada.

- E não me diga para não ficar chateada!

- Tudo bem - falou David calmamente. - Vou pegar a baby-sitter.

- Eu não sou um bebé! - gritou Nikki.

- Oh, Deus! - disse Angela com o rosto voltado para o teto. Enquanto David estava fora procurando Alice Doherty, a irmã mais velha de Dorothy Weymouth, Angela conseguiu recuperar o autocontrole. Percebeu que fora um equívoco dizerem aos patrões que estariam dispostos a começar no dia primeiro de julho.- Deveriam ter-se dado alguns dias para se estabelecer.

Alice terminou se mostrando uma dádiva divina. Parecia uma avó, com seu rosto caloroso, seu piscar de olhos e os cabelos brancos. Tinha modos ativos e uma energia surpreendente para uma mulher de setenta e nove anos. Também tinha a compaixão e a paciência que uma criança cronicamente doente e decidida requeria. Melhor que tudo, amou Ferrugem de cara, o que de imediato fez com que Nikki a adorasse.

A primeira coisa que Angela fez foi demonstrar a terapia respiratória de Nikki. Era importante que Alice aprendesse o procedimento, e ela se mostrou uma aluna brilhante.

- Não se preocupem com nada - gritou Alice para David e Angela enquanto eles saíam pela porta dos fundos. Nikki estava segurando Ferrugem e abanava a pata do cachorro para dar adeus.

- Quero ir de bicicleta - anunciou David assim que ele e Angela saíram.

- Está falando sério?

- Absolutamente.

- Faça como quiser - disse Angela subindo no Volvo e dando partida no motor. Acenou para David enquanto descia o longo caminho e virava para a direita, na direção da cidade.

Apesar de ter confiança em sua capacidade profissional, Angela sentiu-se nervosa por começar seu primeiro trabalho de verdade.

Juntando a coragem e lembrando-se de que era natural o nervosismo do primeiro dia, apresentou-se na sala de Michaell Caldwell. Imediatamente Caldwell levou-a para conhecer HelenBeaton, presidente do hospital. Por acaso, Beaton estava em reunião com o Doutor Delbert Cantor, chefe do pessoal médico, mas interrom-peu a reunião para dar as boas-vindas a Angela. Convidou-a para sua sala e apresentou-a ao Doutor Cantor.

Enquanto apertava sua mão, o Doutor Cantor examinou Angela despudoradamente de cima a baixo. Ela escolhera um de seus melhores vestidos de seda para o primeiro dia.

- Minha nossa! - disse ele. - Sem dúvida alguma, não se parece com as poucas garotas que havia na minha turma na escola de medicina. Eram todas umas bruxas. – Em seguida, riu vigorosamente.

Angela sorriu. Sentiu vontade de dizer que sua turma for exatamente o oposto - os poucos homens eram todos uns bruxos -, mas segurou a língua. Instantaneamente achou o Doutor Cantor ofensivo. Sem dúvida ele fazia parte da minoria antiga, que continuava sentindo-se desconfortável com as mulheres na medicina.

- Estamos muito felizes por tê-la na família do Hospital Comunitário de Bartlet – disse Beaton enquanto a acompanhava até a porta.-Tenho certeza de que achará a experiência desafiadora e recompensadora.

Deixando a área de administração, Caldwell levou Angela ao laboratório clínico. Assim que a viu, o Doutor Wadley saltou de sua mesa e até mesmo abraçou-a, como se fossem velhos amigos.

. - Bem-vinda à equipe - disse o Doutor Wadley, com um sorriso caloroso, as mãos ainda agarrando os braços de Angela. - Há semanas venho esperando este dia.

- Vou sair - disse Caldwell a Angela. - Vejo que está em boas mãos.

- Foi um excelente trabalho o recrutamento dessa talentosa patologista - disse Wadley a Caldwell. - Você receberá uma medalha.

Caldwell curvou-se em reverência.

- É um bom sujeito - disse Wadley olhando-o se retirar.

Angela assentiu, mas estava pensando em Wadley. Apesar de mais uma vez achá-lo muito parecido com o pai, agora também tinha consciência das diferenças. O fervor entusiasmado de Wadley era uma boa mudança em relação à reserva altiva do pai. Angela chegou a sentir- se encantada com a demonstração de boas-vindas. Era reconfortante sentir-se tão benquista no primeiro dia.

- Vamos começar pelo começo - disse Wadley esfregando as mãos. Seus olhos verdes brilhavam de excitação infantil. - Deixe-me mostrar sua sala.

Wadley empurrou uma porta que conectava sua sala a uma outra, que parecia ter sido recentemente decorada. Era totalmente branca: as paredes, a mesa, tudo.

- Gosta?

- É maravilhosa.

Wadley apontou para a porta de ligação.

- Vai estar sempre aberta. Literal e figuradamente.

- Maravilhoso - repetiu Angela.

- Agora vamos passear de novo pelo laboratório. Sei que você já viu uma vez, mas quero apresentá-la ao pessoal. - Ele pegou um jaleco branco, comprido e impecável, e vestiu-o.

Nos próximos quinze minutos, Angela conheceu mais gente do que poderia esperar lembrar-se. Depois de circular pelo laboratório, pararam numa sala sem janelas perto da seção de microbiologia. Pertencia ao Doutor Paul Darnell, o outro patologista.

Em contraste com Wadley, Darnell era um sujeito baixo, com a roupa amassada e o jaleco branco manchado aleatoriamente com material usado na preparação de lâminas. Parecia agradável, mas simples e distante, quase a antítese do afável e caloroso Wadley.

Quando terminou o passeio, Wadley levou Angela de volta à sua sala, onde explicou seus deveres e responsabilidades.

- Vou tentar fazer de você uma das melhores patologistas do país - disse, com verdadeiro entusiasmo de mentor.

David gostara imensamente de seu passeio de bicicleta por quase seis quilômetros. O ar limpo e frio da manhã era delicioso, e os pássaros ainda mais abundantes do que ele imaginara. Tinha visto vários beija-flores pelo caminho. Para completar, vislumbrara vários cervos num campo orvalhado logo depois de atravessar o Roaring River.

Ao chegar no prédio ambulatorial, descobriu que era cedo demais. Charles Kelley só apareceu pouco antes das nove.

- Nossa, você está ansioso! - disse Kelley ao ver David folheando revistas na sala de espera da CMV. - Venha.

David acompanhou Kelley até a sua sala, onde preencheu alguns formulários de rotina.

- Você está entrando numa equipe de primeira - disse Kelley enquanto David preenchia os papéis. -Vai adorar isto aqui; instalações ótimas, colegas maravilhosamente treinados. O que mais se pode querer?

- Não consigo pensar em mais nada - admitiu David. Ao terminar com a papelada, e depois de explicar algumas regras básicas, Kelley acompanhou David até sua sala nova. Enquanto Kelley abria a porta do consultório e entrava, David parou para examinar a placa com o seu nome, que já fora colocada no lugar próprio. Ficou surpreso ao ver o nome ”Doutor Kevin Yansen acima do seu.

- É o mesmo consultório? - perguntou em voz baixa depois de chegar perto de Kelley.

Havia seis pacientes na sala de espera.

- O mesmo - disse Kelley. Em seguida bateu no espelho depois que este deslizou, apresentou David à recepcionista que também atenderia ao Doutor Yansen.

- Muito prazer - disse Anne Withington com um sotaque forte do sul de Boston. Estalou seu chiclete e David piscou.

- Venha ver sua sala - disse Kelley. Por sobre o ombro pediu que Anne mandasse o Doutor Yansen procurar o Doutor Wilson numa folga entre dois pacientes.

David sentiu-se confuso. Seguiu Kelley até a sala que fora do Doutor Portland. As paredes haviam sido repintadas de cinza-claro e fora instalado um novo carpete cinza-esverdeado.

- O que acha? - perguntou Kelley, curvando-se.

- Acho ótimo. Para onde foi o Doutor Portland?

Antes que Kelley pudesse responder, o Doutor Yansen apareceu junto à porta e entrou na sala com a mão estendida. Ignorando Kelley, ele se apresentou, pedindo que David o chamasse de Kevin. Em seguida deu-lhe um tapinha nas costas.

- Bem-vindo! É bom tê-lo no esquadrão. Você joga basquete ou tênis?

- Um pouco de cada. Mas nenhum dos dois recentemente.

- Vamos ter de colocá-lo de novo em forma.

- Você é ortopedista? - perguntou David enquanto olhava para o novo colega de consultório. Era um sujeito atarracado, com um rosto de aparência agressiva. Um nariz meio aquilino sustentava óculos grossos. Ele era dez centímetros mais baixo do que David, e perto de Kelley parecia minúsculo.

- Ortopedista? - Kevin riu com desdém. - De jeito nenhum! Estou no extremo oposto do espectro operacional. Sou oftalmologista.

- Onde está o Doutor Portland? Kevin olhou para Kelley.

- Ainda não contou para ele?

- Não tive oportunidade - disse Kelley abrindo os braços, com as palmas para cima. - O Doutor Wilson acaba de chegar.

- O Doutor Portland não está mais conosco - disse Kevin.

- Ele deixou o grupo? - perguntou David.

- Pode-se dizer que sim - disse Kevin com um sorriso torto.

- O Doutor Portland cometeu suicídio em maio - disse Kelley.

- Exatamente aqui, nesta sala - completou Kevin. - Sentado naquela mesa. – Kevin apontou para a mesa; em seguida, imitou um revólver com a mão, o indicador servindo como cano, e apontou-a para a testa. - bann! Deu um tiro na testa, que saiu pela nuca. Por isso, as paredes tiveram de ser pintadas, e o carpete trocado.

David ficou com a boca seca. Olhou para a parede branca por trás da mesa e tentou não imaginar qual seria a aparência dela logo depois do ocorrido.

- Que horrível. Ele era casado?

- Infelizmente - disse o Doutor Yansen, assentindo. - Esposa e dois meninos. Uma verdadeira tragédia. Eu sabia que alguma coisa estava errada. De repente ele parou de jogar basquete nas manhãs de sábado.

- Ele não parecia bem na última vez em que o vi - disse David. - Estava doente? Parecia ter perdido um bocado de peso.

- Deprimido - disse Kelley. David suspirou.

- É, a gente nunca sabe!

- Vamos passar para um assunto mais alegre - disse Kelley depois de limpar a garganta. – Fiz o que você determinou, DoutorWilson. Marcamos pacientes para esta manhã. Está preparado?

- Totalmente.

Kevin desejou boa sorte a David e voltou para uma das salas de exame. Kelley apresentou David a Susan Beardslee, a enfermeira que trabalharia com ele. Susan era uma mulher atraente, por volta dos vinte e cinco anos, com o cabelo escuro cortado curto a emoldurar-lhe o rosto. O que David gostou imediatamente foi de sua personalidade viva e entusiasmada.

- Sua primeira paciente já está na sala de exame - disse Susan, alegre, e em seguida entregou-lhe o prontuário. - Quando precisar de mim, é só tocar a campainha. Vou estar preparando o próximo paciente. - A seguir, desapareceu na segunda sala de exame.

- Acho que é aqui que eu saio - disse Kelley. - Boa sorte, David. Se houver alguma pergunta ou algum problema, é só dar um grito.

David abriu a capa do prontuário e leu o nome: Marjorie Kleber, trinta e nove anos. A reclamação era dor no peito. Ele estava para bater na porta da sala de exame, quando leu o resumo do diagnóstico:

câncer no seio tratado com cirurgia, quimioterapia e radiação. O câncer fora diagnosticado há quatro anos, quando tinha trinta e cinco. Na época da descoberta, o câncer havia se espalhado para os nódulos linfáticos.

David examinou rapidamente o resto do prontuário. Estava meio nervoso, e precisou de um instante para se preparar. Um paciente com câncer que havia desenvolvido metástase - se espa se espalhara do seio para outras áreas do corpo - era um caso sério para se começar uma carreira de médico. Felizmente Marjorie estava bem.

David bateu na porta e entrou. Marjorie Kleber estava sentada pacientemente na mesa de exame, vestida com uma camisola de hospital. Encarou David com olhos grandes e inteligentes. Seu sorriso era do tipo que aquecia o coração.

David se apresentou e estava para perguntar sobre o problema atual quando ela estendeu o braço e segurou uma de suas mãos. Apertou-a e trouxe-a para o peito, na base do pescoço.

- Obrigada por vir para Bartlet - falou. - Nunca saberá o quanto rezei para que alguém como o senhor viesse para cá. Estou felicíssima.

- Estou feliz por ter vindo - disse David em tom hesitante.

- Antes do senhor chegar, eu tinha de esperar quatro semanas para uma consulta – falou enquanto finalmente soltava a mão de David. - Foi assim desde que o sistema de saúde da escola foi passado para a CMV. E cada vez era um médico diferente. Agora me disseram que o senhor vai ser meu médico. É muito reconfortante.

- Sinto-me honrado por ser seu médico - disse David.

- Era assustador ter de esperar quatro semanas para uma consulta. No inverno passado tive uma gripe tão ruim que pensei que fosse pneumonia. Felizmente, quando consegui a consulta, o pior já havia passado.

- Talvez a senhora devesse ter procurado o setor de emergência.

- Gostaria de ter podido. Mas nós não temos direito. Eu fui uma vez, no penúltimo inverno, mas a CMV se recusou a pagar porque era uma gripe. A não ser que o problema seja de vida ou morte, tenho de vir aqui no consultório. Não posso ir para a sala de emergência sem aprovação prévia do médico da CMV. Se eu fizer isso, eles não pagam.

- Mas isso é absurdo - disse David. - Como você pode saber antecipadamente que seu problema não é de vida ou morte?

Marjorie encolheu os ombros.

- Foi a pergunta que eu fiz, mas eles não responderam. Só repetiram a regra. De qualquer modo, estou feliz por ter vindo. Se eu tiver um problema, ligo para o senhor.

- Por favor, faça isso. Agora vamos começar a falar sobre sua saúde. Quem está fazendo o acompanhamento do seu câncer?

- O senhor.

- A senhora não tem um oncologista?

- A CMV não tem oncologista. Vou me consultar rotineira- mente com o senhor e com o Doutor Mieslich, o oncologista, quando o senhor achar necessário. O Doutor Mieslich não é da CMV. Não posso me consultar com ele a não ser que o senhor dê autorização.

David assentiu, reconhecendo que em seu novo trabalho havia realidades sobre as quais demoraria a aprender. Também sabia que teria de passar um tempo considerável estudando em detalhes o prontuário de Marjorie.

Nos próximos quinze minutos, David dedicou-se ao processo de inteirar-se sobre a dor no peito de Marjorie. Enquanto a auscultava durante e entre respirações profundas, perguntou o que ela fazia na escola.

- Sou professora.

- De que série? - David retirou o estetoscópio dos ouvidos e começou os preparativos para um eletrocardiograma.

- Terceira - disse ela, orgulhosa.-Durante vários anos deaulas para a segunda série, mas prefiro a terceira. Nessa fase, as crianças realmente estão desabrochando.

- Minha filha vai começar a terceira série no outono.

- Que maravilha! Então ela vai estar na minha classe.

- Você tem família?

- Claro que sim! Meu marido, Lloyd, trabalha na empresa software. É programador. Temos dois filhos: um menino no segundo grau e uma menina na sexta série.

Meia hora depois, David sentiu-se suficientemente confiant para garantir a Marjorie que sua dor no peito não era séria e que não tinha nada a ver com o coração nem com o câncer, suas preocupações fundamentais. Mais uma vez ela lhe agradeceu profusamente por ter vindo a Bartlet.

David entrou em sua sala particular com um sentimento de exuberância. Se todos os seus pacientes fossem tão calorosos e gratos como Marjorie, ele poderia contar com uma carreira recompensadora em Bartlet. Colocou o prontuário dela sobre a mesa, para estudá-lo mais detalhadamente.

Retirando a pasta do suporte na porta da segunda sala de exames, David examinou o prontuário do segundo paciente. O resumo de diagnóstico dizia: leucemia tratada com quimioterapia maciça.

David gemeu por dentro; outro caso difícil que exigiria mais ”dever de casa”. O nome do paciente era John Tarlow. Um homem de quarenta e oito anos que estava em tratamento nos últimos dois anos e meio.

Entrando na sala, David se apresentou. John Tarlow era um sujeito simpático e amigável, cujo rosto refletia inteligência e calor equivalentes aos de Marjorie. A despeito de sua história complicada, a reclamação de insónia de John era mais fácil e mais rápida de ser enfrentada do que a dor no peito de Marjorie. Depois de uma conversa curta, ficou claro para David que o problema era uma compreensível reação psicológica a uma morte na família. David prescreveu-lhe um remédio para dormir, que com certeza colocaria John de volta em sua rotina.

Depois de terminar a consulta, David juntou o prontuário de John ao de Marjorie, para exame posterior. Em seguida procurou Susan. Encontrou-a no minúsculo laboratório usado para testes simples de rotina.

- Há muitos pacientes de oncologia se tratando aqui? - perguntou hesitante.

David admirava o tipo de gente que optava por trabalhar com oncologia. Ele se conhecia bem demais para saber que não era feito para essa especialidade. Assim, foi com certo abalo que viu que os dois primeiros pacientes da CMV estavam com câncer.

Susan garantiu que havia poucos pacientes desse tipo. David quis acreditar. Ao voltar para pegar o prontuário na caixa da sala de exame número um, sentiu-se mais tranqüilo; o caso era de diabetes.

A manhã de David passou-se rápida e tranqüila. Os pacientes foram um deleite. Todos afáveis, atentos ao que David tinha a dizer e em contraste com os pacientes pouco dóceis que ele atendera durante a residência, ansiosos por seguir suas recomendações.

Além disso, todos mostraram apreciação por sua vinda, não de modo tão fervoroso quanto Marjorie, mas o bastante para que David se sentisse bem com a recepção.

No almoço, encontrou-se com Angela na cafeteria dirigida pelos voluntários. Comendo sanduíches, discutiram a manhã.

- O Doutor Wadley é fantástico - disse Angela. - É muito solícito e interessado em ensinar. Quanto mais o vejo, menos ele lembra meu pai. É muito mais expansivo do que meu pai jamais será; muito mais entusiasmado e cordial. Me deu um abraço quandocheguei esta manhã. Meu pai morreria antes de fazer isso.

David contou a Angela sobre os pacientes que atendera. Ela ficou particularmente tocada ao ouvir sobre a reação de Marjorie Kleber à chegada de David.

- Ela é professora - acrescentou David. - Dá aulas para a terceira série, de modo que será professora de Nikki.

- Que coincidência! Como ela é?

- Parece calorosa, generosa, inteligente. Aposto que é uma professora maravilhosa. O problema é que tem câncer de seio com metástase.

- Puxa!

- Mas está se saindo bem. Não creio que tenha tido nenhuma recorrência, mas não estudei o prontuário em detalhes.

- É uma doença ruim - disse Angela, pensando em quantas vezes ela própria se preocupara com isso.

- A única reclamação que eu tenho até agora é que já há muitos pacientes de oncologia.

- Eu sei que não é o seu trabalho favorito.

- A enfermeira disse que foi coincidência eu ter começado de cara com dois. Vou manter os dedos cruzados.

- Bom, não fique deprimido. Tenho certeza de que sua enfermeira estava certa. - Angela se lembrava bem demais da reação de David à morte de vários pacientes de oncologia quando e iniciara a residência.

- Falando sobre depressão - disse ele. - Ouviu alguma coisa sobre o Doutor Portland?

Angela sacudiu a cabeça.

- Cometeu suicídio. Matou-se com um tiro na mesma sala que eu estou usando.

- Que coisa terrível! Você precisa ficar lá? Talvez possa mudar para outro consultório.

- Não seja ridícula. O que vou dizer a Kelley? Que sou supersticioso com morte e suicídio? Não posso fazer isso. Além do mais, eles repintaram as paredes e puseram carpete novo no chão. -

David encolheu os ombros.

- Vai estar tudo bem.

- Por que ele fez isso?

- Depressão.

- Eu sabia. Sabia que ele estava deprimido. Cheguei a dizer isso, lembra?

- Eu não disse que ele não estava deprimido. Disse que ele parecia doente. De qualquer modo, deve ter se matado logo depois que o encontramos, porque Charles Kelley disse que foi em maio.

- Coitado. Ele tinha família?

- Esposa e dois meninos.

Angela sacudiu a cabeça. O suicídio entre os médicos era um tema que ela conhecia bastante bem. Um de seus colegas residentes tinha se matado.

- Um assunto mais leve - disse David. -- Charles Kelley me contou que há um plano de bônus, recompensando os médicos por manter a hospitalização num nível mínimo. Quanto menos eu hospitalizar, mais recebo. Posso até ganhar uma viagem às Bahamas. Dá para acreditar?

- Já ouvi falar desse tipo de incentivo. É uma manobra usada pelas empresas de planos de saúde para reduzir custos.

David sacudiu a cabeça, incrédulo.

- Algumas realidades desse negócio de ”atendimento administrado” ou ”concorrência administrada” são muito doidas. Pessoalmente, acho isso um insulto.

- Bom, e agora um assunto mais leve de minha parte: o Doutor Wadley convidou-nos para jantar na casa dele esta noite. Eu lhe disse que precisava perguntar a você. O que acha?

- Você quer ir?

- Sei que temos um monte de coisas para fazer em casa, mas acho que devemos ir. Ele está sendo cortês e generoso. Não quero parecer ingrata.

- E Nikki?

- Essa é outra parte da boa notícia. Fiquei sabendo, com um dos técnicos do laboratório, que Barton Sherwood tem uma filha no segundo grau que costuma trabalhar como baby-sitter. Eles são os nossos vizinhos mais próximos. Telefonei para ela, e ela se dispôs a ir.

- Não acha que Nikki vai ficar chateada?

- Já perguntei. Ela disse que não se importa, e que está querendo conhecer Karen Sherwood. Ela é uma das chefes de torcida.

- Então vamos - disse David.

Karen Sherwood chegou logo antes das sete. David convidou-a a entrar. Não dava para imaginar que fosse chefe de torcida. Era uma jovem magra e quieta, que infelizmente se parecia um pouco com o pai. Entretanto, era agradável e intuitiva. Ao ser apresentada a Nikki, foi suficientemente esperta para dizer que gostava de cachorros, especialmente de filhotes. Enquanto David dirigia, Angela terminava de fazer a maquiagem. David podia ver que ela estava tensa, e tentou tranqüilizá-la, dizendo que tudo estaria bem e que ela estava fantástica. Quando chegaram à casa de Wadley, ambos ficaram impressionados. Não era tão grande quanto a deles, mas estava em condições muito melhores, e o gramado era imaculado

- Bem-vindos - disse Wadley, abrindo a porta da frente. O interior da casa era ainda mais impressionante do que o exterior. Cada detalhe fora cuidado. Móveis antigos sobre grossos tapetes orientais. Pinturas pastorais do século XIX adornavam as paredes.

Gertrude Wadley era bastante diferente de seu educado marido, confirmando o ditado ”os opostos se atraem”. Era uma mulher distante e tímida, com pouco a dizer. Parecia submersa pela personalidade do marido.

A filha adolescente, Cassandra, a princípio parecia com a mãe, mas com o correr da noite tornou-se mais expansiva, como o pai.

Mas foi Wadley quem dominou a noite. Pontificou sobre uma variedade de temas. E estava claramente louco por Angela. Num determinado momento, olhou para o céu e agradeceu o destino por ter sido recompensado com uma equipe tão competente, agora que Angela chegara.

- Uma coisa é certa - disse David enquanto voltavam para casa. - O Doutor Wadley está parado na sua. Claro que não posso culpá-lo.

Angela se aconchegou ao marido.

Ao chegar, David acompanhou Karen até em casa, mesmo ela insistindo em que não precisava.

Quando David voltou, Angela recebeu-o na porta, com uma língeríe que não usava desde a lua-de-mel.

- Parece melhor agora que não estou grávida. Não concorda?

- Estava fantástica na época, e está fantástica agora.

Indo furtivamente até a penumbra da sala de estar, deixaram-se cair no sofá. Mais uma vez fizeram amor lenta e carinhosamente. Sem o frenesi da noite anterior, foi ainda mais satisfatório.

Depois de terminar, ficaram abraçados ouvindo a sinfonia de grilos e sapos.

- Fizemos mais amor aqui, nos últimos dois dias, do que nos últimos dois meses em Boston - disse Angela num suspiro.

- Estávamos passando por muita tensão.

- Isso me faz pensar em outro filho.

David movimentou-se de modo a poder ver o perfil de Angela na escuridão.

- Verdade?

- Com uma casa deste tamanho, poderíamos ter um monte - disse ela com um risinho.

- Vamos querer saber se a criança tem fibrose cística. Podemos fazer uma amniocentese.

- Acho que sim - disse Angela sem entusiasmo. - Mas o que faríamos se desse positivo?

- Não sei. É assustador. É difícil saber qual é a coisa certa.

- Bom, como disse Scarlett O’Hara: vamos pensar nisso amanhã.

 

VERÃO EM VERMONT

Os DIAS VIRARAM semanas, e as semanas viraram meses, enquanto o verão prosseguia. O milho branco e doce cresceu até a altura do peito junto à estrada para a casa dos Wilsons, e da porta da frent era possível ouvi-lo sussurrando à brisa da tarde. Tomates gorduchos amadureciam em vermelho profundo na horta junto ao terraço. Maçãs silvestres do tamanho de bolas de golfe começaram a cair da árvore perto do celeiro. Cigarras zumbiam incessantemente: calor de agosto.

O trabalho de David e de Angela continuou estimulante recompensador, à medida que se adaptavam. Cada dia trazia alguma experiência nova que eles compartilhavam entusiasmados em seus jantares.

O apetite de Ferrugem não diminuiu, e o cachorro continuuou uma fonte de espanto, crescendo depressa e com grande exuberância, ficando proporcional ao tamanho dos pés. E, a despeito do seu crescimento, ele mantinha a mesma qualidade adorável de quando era um filhote minúsculo. Todo mundo achava impossível passar por perto sem fazer um carinho na sua cabeça ou coçar por trás uma das orelhas douradas.

Nikki florescia no novo ambiente. Sua condição respiratória permaneceu normal e os pulmões continuaram limpos. Além disso, fez novos amigos. A mais íntima era Caroline Helmsford; Caroline era uma menina pequena, com um ano a mais do que Nikki, e que também sofria de fibrose cística. Com tantas experiências em comum, formaram um laço particularmente forte.

Haviam-se conhecido por acaso. Os Wilsons, embora tivessem ouvido falar de Caroline em sua primeira viagem a Bartlet, não tinham feito qualquer tentativa para contactá-la. As duas meninas se trombaram na mercearia dos pais de Caroline.

Nikki também ficou amiga do filho de Yansen, Arni, que tinha exatamente a mesma idade dela.

Faziam aniversário com apenas uma semana de diferença. Arni era como o pai: baixo, atarracado e agressivo. Os dois passavam horas entrando e saindo do celeiro, sempre com alguma coisa para fazer.

Apesar de adorar seus trabalhos, os Wilsons aproveitavam bem os fins de semana. Nas manhãs de sábado, David acordava junto com o sol e fazia a ronda no hospital, depois jogava basquete com um grupo de médicos, três contra três, no ginásio da escola.

As tardes de sábado e domingo David e Angela dedicavam ao trabalho na casa. Enquanto Angela trabalhava no interior, ocupando-se com cortinas e móveis antigos, David enfrentava projetos externos, como consertar o pórtico ou substituir as calhas. Ele mostrou-se ainda menos habilidoso do que Angela temera. Estava sempre correndo até a Loja de Ferragens Staley’s, em busca de conselhos. Felizmente, o Senhor Staley ficou com pena e lhe deu várias aulas sobre como consertar janelas quebradas, torneiras pingando e interruptores queimados.

No sábado, dia primeiro de agosto, David levantou-se cedo como sempre, fez café e saiu para o hospital. A ronda foi rápida, já que ele só precisava atender a um paciente, John Tarlow, o que tinha leucemia. Como os outros pacientes de oncologia de David, John precisava ser freqüentemente hospitalizado devido a vários problemas. Esta última hospitalização resultara de um abscesso no pescoço. Felizmente estava reagindo bem. David previu que iria lhe dar alta nos próximos dias.

Depois de completar a ronda, David foi de bicicleta até a escola, para o jogo de basquete. Ao entrar no ginásio, descobriu que havia mais gente do que o usual querendo jogar. Quando finalmente entrou no jogo, percebeu que a competição estava mais feroz do que normalmente. O motivo é que ninguém queria perder, já que os perdedores tinham de sair.

David reagiu à competição acirrada jogando com mais vigor. Descendo depois de um rebote, seu cotovelo colidiu solidamente com o nariz de Kevin Yansen.

David parou no meio da corrida e virou-se a tempo de ver Kevin segurando o nariz com as duas mãos. Pingava sangue por entre seus dedos.

- Kevin - gritou David, alarmado. - Você está bem?

- Puta que pariu! - rugiu Kevin por entre as mãos. - Seu babaca!

- Desculpe. - David sentia-se envergonhado pela própria agressividade. - Deixe-me ver - disse, estendendo a mão e tentando afastar as mãos de Kevin do rosto.

- Não toque em mim! - rugiu Kevin.

- Calma, Senhor Agressivo - gritou Trent Yarborough de longe. Trent era cirurgião e um dos melhores jogadores. Havia jogado em Yale. - Deixe-me ver esse narigão. Francamente, fico satisfeito vendo você receber de volta um pouco do seu próprio remédio.

- Vá se foder, Yarborough - disse Kevin baixando as mãos. Sua narina direita pingava sangue. A cartilagem do nariz estava torta para a direita.

Trent aproximou-se para ver melhor.

- Parece que o seu bico quebrou.

- Merda!

- Quer que eu conserte? - perguntou Trent. - Não vou cobrar muito.

- Espero que seu seguro contra erro médico esteja pago - disse Kevin. Em seguida curvou a cabeça para trás e fechou os olhos.

Trent agarrou o nariz de Kevin entre o polegar e a junta do indicador e empurrou-o rapidamente para a posição correta. O estalo fez com que todos - até mesmo o cirurgião - se encolhessem.

Trent deu um passo atrás para examinar seu trabalho.

- Parece melhor do que o original - falou.

David perguntou se poderia levar Kevin para casa, mas Kevin disse que iria sozinho, ainda parecendo com raiva.

Um substituto entrou no jogo, assumindo o lugar de Kevin. Por um instante, David ficou parado olhando a porta por onde Kevin saíra. Em seguida encolheu-se quando alguém lhe deu um tapa nas costas. David virou-se e olhou para o rosto de Trent.

- Não deixe Kevin incomodá-lo - disse Trent. - Que eu saiba, ele já quebrou o nariz de duas pessoas aqui. Kevin não é particularmente um bom esportista, mas afora isso é um sujeito legal.

Relutantemente, David voltou ao jogo.

Quando voltou para casa, Nikki e Angela estavam prontas para sair. Não havia projetos de consertos para aquele sábado, já que tinham sido convidados para passar a noite num lago ali perto. Depois de uma tarde nadando, haveria uma refeição ao ar livre. Os Yansens, os Yarboroughs e os Youngs, os três ” Y”, como eles se chamavam, tinham alugado um chalé no lago durante o mês. Steve Young era obstetra/ginecologista, além de jogador regular de basquete.

- Vamos, papai - disse Nikki impaciente.-Nós já estamos atrasados.

David olhou a hora. Tinha jogado basquete por mais tempo do que o usual. Correu escada acima e entrou no chuveiro. Meia hora depois estavam no carro e a caminho.

O lago era uma jóia verde-esmeralda aninhada num vale luxuriante entre duas montanhas.

Numa delas ficava uma estação de esqui, uma das melhores da região, como David e Angela ficaram sabendo.

O chalé era encantador. Uma estrutura esparramada, com muitos quartos, construída ao redor de uma enorme lareira de pedra. Uma espaçosa varanda ocupava toda a frente da casa, voltada para o lago. Estendendo-se da varanda, havia um grande deque. Um lance de degraus de madeira ligava o deque a um cais em forma de T, que penetrava quinze metros na água.

Imediatamente Nikki juntou-se a Arni Yansen e os dois correram para a floresta, onde Arni estava ansioso por mostrar uma casa na árvore. Angela foi para a cozinha, onde Nancy Yansen, Claii Young e Gayle Yarborough estavam alegres, envolvidas na preparação da comida. David juntou-se aos homens que bebiam cerveja, enquanto olhavam casualmente um jogo dos Red Sox numa portátil.

A tarde passou languidamente, só interrompida pelas pequenas tragédias associadas a oito crianças ativas que tinham a tendênciia comum de tropeçar em pedras, ralar joelhos e ferir os sentimentos das outras. Os Yansens tinham dois filhos; os Youngs, um; e os Yarboroughs, três.

A única falha no dia impecável foi o humor de Kevin. Seus olhos tinham ficado pretos devido ao nariz quebrado. Em mais de uma ocasião, ele gritou com David, chamando-o de desajeitado, acusando-o de atrapalhá-lo constantemente. Por fim, David chamou-o de lado, perplexo por Kevin estar levando aquilo tão a sério.

- Eu me desculpei - disse David. - E peço desculpas de novo. Foi um acidente. Claro que não fiz de propósito.

Kevin olhou David irritado, dando a impressão de que não iria perdoá-lo. Mas em seguida suspirou:

- Tudo bem. Vamos tomar outra cerveja.

Depois do jantar, os adultos sentaram-se ao redor da mesa enorme enquanto as crianças iam até o cais pescar. O céu ainda estava vermelho no oeste, e a cor se refletia na água. Os sapos, grilos e outros insetos haviam começado seu incessante coro noturno. Vaga-lumes pontilhavam as sombras profundas sob as árvores.

A princípio, a conversa foi sobre a beleza do lugar e os benefícios de se morar em Vermont, aonde a maioria das pessoas só ia nas férias curtas. Mas em seguida passaram a falar de medicina, para desgosto das outras três mulheres.

- Prefiro ouvir sobre esportes - reclamou Gayle Yarough. Nancy Yansen e Claire Youg concordaram com veemência.

- É difícil não falar sobre medicina com essa chamada ”reforma” acontecendo – disse Trent. Nem Trent nem Steve eram médicos da CMV. Apesar de estarem tentando formar uma organização de serviços com uma grande companhia de seguros, a BI Shield, não estavam tendo muita sorte. Tinham chegado um pouco tarde. A maioria dos pacientes fora atraída pela CMV, devido ao marketing agressivo e competitivo da empresa.

- Essa coisa toda me deixa deprimido - disse Steve. - Se eu pudesse pensar num meio de me sustentar e à minha família, deixaria a medicina num piscar de olhos.

- Seria um terrível desperdício de sua capacidade - disse Angela.

- Acho que sim - disse Steve,-Mas seria tremendamente melhor do que explodir meus miolos, como você-sabe-quem.

A referência ao Doutor Portland intimidou a todos durante alguns instantes. Foi Angela quem rompeu o silêncio.

- Nunca ouvimos toda a história sobre o Doutor Portland. Tenho de admitir que fiquei curiosa. Eu conheci a coitada da esposa. Obviamente ela está tendo uma enorme dificuldade para enfrentar a morte dele.

- Ela se culpa - disse Gayle Yarborough.

- Só ficamos sabendo que ele estava deprimido - disse David. - Foi devido a alguma coisa específica?

- Na última vez em que jogou basquete, ele estava preocupado com a morte de um de seus pacientes que tinha fraturado o quadril - disse Trent. -Era Sam Flemming, o artista. E acho que ele perdeu alguns outros.

David sentiu um tremor na espinha. A lembrança de sua reação à morte de alguns pacientes, no início da residência, atravessou-o como um calafrio desagradável.

- Nem tenho certeza se ele se matou - disse Kevin de súbito, chocando a todos. Além de reclamar da falta de jeito de David, Kevin tinha falado muito pouco naquele dia. Até mesmo sua esposa Nancy olhou-o como se ele tivesse blasfemado.

- Acho melhor você se explicar - disse Trent.

- Não há muito o que dizer, só que Randy não tinha arma. É um desses detalhes irritantes, que ninguém pôde explicar. Onde foi que ele conseguiu o revólver? Ninguém veio dizer que tinha emprestado a ele. Ele não saiu da cidade. Onde encontrou a arma? No meio da rua? - Kevin deu um riso vazio. - Pensem nisso.

- Ora! - disse Steve.-Ele devia ter o revólver, e ninguém sabia.

- Arlene disse que não sabia de nada a respeito - insistiu Kevin. - Além do mais, ele levou o tiro direto na frente da cabeça com ângulo para baixo. Por isso o cerebelo espirrou na parede. Pessoalmente, nunca ouvi falar de alguém que se matasse assim. Em geral, as pessoas põem o cano na boca, se querem ter certeza de não errar. Outras pessoas atiram no lado da cabeça. É difícil atirar em si próprio na testa, especialmente com uma Magnum de cano longo. - Kevin imitou um revólver com a mão, como fizera no primeiro dia de trabalho de David. Desta vez, quando tentou apontar o revólver direto na testa, fez com que o gesto parecesse particularmente desajeitado.

Gayle estremeceu, sentindo uma súbita náusea. Mesmo sendo casada com um médico, falar sobre sangue deixava-a enjoada.

- Está tentando sugerir que ele foi assassinado?-perguntou Steve.

- Só estou dizendo que não estou pessoalmente convicto de que ele se matou - repetiu Kevin. - A partir daí, qualquer um pode avaliar o que quiser.

O som dos grilos e das pererecas dominou a noite enquantotodos pensavam nos comentários perturbadores de Kevin.

- Bom, eu considero tudo isso papo furado - disse Gayle Yarborough finalmente. - Acho que foi um suicídio covarde, e fico com pena de Arlene e dos dois meninos.

- Concordo - disse Claire Young.

Outro silêncio desconfortável seguiu-se, até ser rompido por Steve:

- E vocês dois? - perguntou ele, olhando para Angela e David, do outro lado da mesa. - O que estão achando de Bartlet? Estão gostando?

David e Angela se entreolharam. Ele falou primeiro:

- Estou gostando imensamente. Adoro a cidade e, como já faço parte da CMV, não tenho de me preocupar com a política médica. Peguei um trabalho grande, talvez um pouco grande de mais. Tenho mais pacientes de oncologia do que imaginava, e mais do que gostaria.

- O que é oncologia? - perguntou Nancy Yansen. Kevin dirigiu à esposa um irritado olhar de descrença.

- Câncer - falou com desdém. - Meu Deus, Nancy, você sabe disso.

- Desculpe - disse Nancy com irritação equivalente.

- Quantos pacientes de oncologia você tem? – perguntou Steve.

David fechou os olhos e pensou por um instante.

- Vejamos. Tenho o John Tarlow com leucemia. Ele está agora no hospital. Mary Ann Schiller tem câncer no ovário. Jonathan Eakins tem câncer de próstata. Há o Donald Anderson, que a princípio se pensava que tivesse câncer do pâncreas; no final, constatou-se que era um adenoma benigno.

- Reconheço esse nome - disse Trent. - Esse paciente passou por um procedimento de Whipple.

- Obrigada por contar - disse Gayle, sarcástica.

- São somente quatro pacientes - disse Steve.

- Há mais. Também tenho Sandra Hascher com melanoma e Marjorie Kleber com câncer no seio.

- Estou impressionado como você guarda todos na memória - disse Claire Young.

- É fácil, já que fiquei amigo de todos. Vejo-os regularmente porque eles têm um bocado de problemas médicos, o que não é surpresa quando consideramos a quantidade de tratamento por que passaram.

- Bom, e qual é o problema? - perguntou Claire.

- O problema é que, agora que fiquei amigo de todos e aceitei a responsabilidade pelo tratamento, temo que eles possam morrer da doença e eu me sinta responsável.

- Sei exatamente o que isso significa - disse Steve. - Não compreendo como alguém pode fazer oncologia. Que Deus os abençoe. Metade dos motivos de eu ter feito obstetrícia está no fato de que geralmente é uma especialidade feliz.

- O mesmo se aplica à oftalmologia - disse Kevin.

- Discordo - disse Angela. - Posso compreender muito bem por que as pessoas fazem oncologia. Tem de ser uma coisa recompensadora, porque as pessoas com doenças potencialmente terminais sentem grandes carências. Com um monte de outras especialidades, você nunca tem certeza se ajudou ou não seus pacientes. Com a oncologia, isso nunca é questionável.

- Conheço Marjorie Kleber muito bem - disse Gayle Yar borough. - Tanto o Júnior quanto o nosso do meio, Chandlerforam alunos dela. É uma mulher maravilhosa. Tem um jeito criativo de fazer com que as crianças se interessem pela leitura, usando aviõezinhos de plástico que se movem num cartaz.

- Gosto de vê-la, sempre que ela aparece para uma consulta - admitiu David.

- E como vai o seu trabalho, Angela? - perguntou Nancy Yansen.

- Não podia ser melhor. O Doutor Wadley, chefe do departamento, tornou-se um verdadeiro mentor. O equipamento é de última geração. Trabalhamos muito, mas não ficamos atolados. Estamos fazendo entre quinhentas e mil biópsias por mês, o que é um número respeitável. Temos uma patologia interessante, porque o hospital Bartlet atua como centro de atendimento terciário. Temos até um laboratório viral, que eu não esperava. De modo que é tudo muito desafiador.

- Já teve algum problema com Charles Kelley? - perguntou Kevin a David.

- Nenhum - disse David com surpresa. - Nós nos damos muito bem. Na verdade, esta semana mesmo encontrei Kelley e o diretor de gerenciamento de qualidade da CMV, que veio de Blington. Os dois me cumprimentaram pelas respostas que os pacientes deram nos formulários de avaliação do tratamento.

- Ah! - Kevin riu,com desdém. - Gerenciamento de qualidade é moleza. Espere até passar pela revisão de utilização. Geralmente leva dois ou três meses. Então você vai me dizer o que acha de Charles Kelley.

- Não estou preocupado. Estou fazendo um trabalho bem cuidadoso. Não estou nem aí para o programa de bónus de hospitalização, e certamente não estou concorrendo ao grande prémio de viagem às Bahamas.

- Eu não me importaria - disse Kevin. - Acho que é bom programa. Por que não pensar duas vezes antes de hospitalizar alguém? Aqui os pacientes obedecem às suas ordens. As pessoas ficam melhor em casa do que no hospital. Se o hospital quiser mandar-me e a Nancy às Bahamas, não vou reclamar.

- A medicina interna é um pouco diferente da oftalmologia - disse David.

- Chega desse papo de medicina - disse Gayle Yarborough.

- Eu estava pensando que deveríamos ter trazido uma fita de O Reencontro. É um ótimo filme para assistir com um grupo assim.

- Pelo menos iria gerar alguma discussão - disse Nancy Yansen. - E seria muito mais estimulante do que esse papo médico.

- Eu não preciso do filme para pensar se deixaria meu marido transar com uma de minhas amigas para que ela pudesse ter um filho - disse Claire Young. - Nem pensar!

- Ora, deixe disso - disse Steve, sentando-se ereto. - Eu não me importaria, especialmente se fosse Gayle. - Ele estendeu a mão e abraçou Gayle. Gayle estava sentada ao seu lado. Ela riu e fingiu que se retorcia em seus braços.

Trent jogou um pouco de cerveja na cabeça de Steve. Steve tentou pegá-la com a língua.

- Teria de ser uma situação desesperada - disse Nancy Yansen. - Além do mais, há sempre o injetor de tempero.

Nos minutos seguintes, todos, menos David e Angela, se dobraram de rir. Depois seguiu-se uma série de piadas pesadas e alusões sexuais. David e Angela mantiveram meios-sorrisos, mas não participaram.

- Esperem um minuto, vocês - disse Nancy Yansen ainda rindo de uma piada de médico especialmente pesada. Ela lutava para se controlar.-Acho que devemos colocar as crianças na cama para podermos dar um mergulho pelados. O que acham?

- Vamos fundo! - disse Trent enquanto batia seu copo de cerveja no de Steve.

David e Angela se entreolharam, imaginando se a sugestão era outra piada. Todos os outros se levantaram e começaram a chamar os filhos, que ainda estavam no cais, pescando em meio à escuridão.

Mais tarde, no quarto, enquanto lavava o rosto na pia presa à parede, Angela reclamou com David, dizendo ter pensado que o grupo regressara de súbito a algum estágio adolescente. Enquanto ela falava, ambos ouviram o restante dos adultos mergulhando no cais, em meio a risinhos, gritos e barulho de água espadanando.

- Parece comportamento de fraternidade universitária - concordou David. - Mas não creio que haja nenhum mal. Não devemos fazer julgamentos.

- Não tenho certeza. O que me preocupa é sentir que estamos num romance de John Updike passado num subúrbio. Todo aquele papo sexual e agora essa exibição me deixam desconfortável. Acho que pode ser um reflexo do tédio. Talvez Bartlet não seja o Édem que pensamos.

- Ah, por favor! - disse David, espantado.-Acho que você está sendo exageradamente crítica e cínica. Eles só têm uma atitud exuberante, divertida e jovem com relação à vida. Talvez nós é que sejamos atrasados.

Angela virou-se da pia, para encarar David. Sua expressão era de surpresa, como se ele fosse um estranho.

- Esteja completamente à vontade para ir pelado lá fora juntar-se à bacanal, se é isso que deseja. Não deixe que eu o impeça

- Não fique tão abalada. Não quero participar. Mas ao mesmo tempo não vejo as coisas tão preto no branco, como aparentemente ocorre com você. Talvez isso faça parte de sua formação católica

- Me recuso a ser provocada - disse Angela, virando-se de novo para a pia.-E especificamente me recuso a ser levada a uma de suas discussões religiosas sem sentido.

- Por mim, tudo bem.

Mais tarde, depois de terem ido para a cama e apagado a luz, os sons de alegria vindo do cais foram substituídos pelos dos sapos e insetos. Estava tão silencioso que eles podiam ouvir a água batendo contra a margem.

- Você acha que eles ainda estão lá fora? - sussurrou Angela.

- Não faço a mínima idéia. Além disso, não me importo.

- O que você achou dos comentários de Kevin sobre o Portland?

- Não sei o que pensar. Para ser sincero, Kevin se transformou numa espécie de mistério para mim. Ele é um sujeito estranho. Nunca vi ninguém ficar tão possesso por levar uma pancada no nariz num jogo de basquete.

- Achei os comentários dele no mínimo perturbadores. Pensar num assassinato em Bartlet, por um segundo que seja, me dá um frio estranho. Estou começando a ter um sentimento incômodo de que vai acontecer alguma coisa ruim, talvez porque estejamos felizes demais.

- É essa sua personalidade histérica - disse David, meio de gozação. - Você está sempre procurando um drama. Isso a deixa pessimista. Acho que estamos felizes porque tomamos a decisão correta.

- Espero que você esteja certo - disse Angela enquanto se aninhava no braço de David.

 

SEGUNDA-FEIRA, 6 DE SETEMBRO

TRAYNOR DIRIGIU SEU Mercedes para fora da estrada e seguiu aos solavancos pelo campo, na direção de uma linha de carros estacionados perto de uma cerca baixa. Durante os meses de verão, o terreno plano por trás da cerca era usado principalmente para feira de artesanato, mas hoje Traynor e sua esposa, Jacqueline, estava ali para o piquenique anual do Hospital Comunitário de Bartlet, em comemoração ao Dia do Trabalho. As festividades haviam começado às nove, com corridas para as crianças.

- Que maneira de arruinar um feriado perfeito - disse Traynor à esposa. - Odeio esses piqueniques.

- Besteira! - reagiu Jacqueline.-Você não me engana nen um segundo. - Ela era uma mulher pequena, ligeiramente gorda, que se vestia de modo exageradamente conservador. Estava usando chapéu branco, luvas brancas e saltos altos, mesmo para uma refeição ao ar livre com milho, mariscos fervidos e lagosta Maine.

- Do que está falando? - perguntou Traynor enquanto parava o carro e desligava a ignição.

- Sei o quanto você adora essas coisas do hospital, de modo que não banque o mártir comigo. Você adora as luzes da ribalta. Representa o papel de Senhor Chairman da Diretoria até o último fio de cabelo.

Traynor olhou indignado para a mulher. Seu casamento era cheio de antagonismos, e sua rotina era contra-atacar, mas ele segurou a língua. Jacqueline estava certa quanto ao piquenique, e ele ficava irritado porque, depois de vinte e um anos de casamento, ela passara a conhecê-lo tão bem.

- E então? - perguntou Jacqueline. - Vamos ou não? Traynor grunhiu e saiu do carro.

Enquanto caminhavam junto à fila de veículos estacionados, Traynor viu Beaton, que acenou e veio ao encontro deles. Ela estava com Wayne Robertson, o chefe de polícia, e imediatamente Traynor suspeitou de que havia algo errado.

- Que conveniente - disse Jaqueline, vendo Beaton se aproximar. - Aí vem uma de suas maiores puxa-sacos.

- Fique quieta, Jacqueline! - rugiu Traynor entre dentes.

- Tenho más notícias - disse Beaton sem preâmbulos.

- Por que você não vai até a barraca e pega um refresco? - sugeriu Traynor a Jacqueline e deu-lhe uma cutucada. Depois de lançar um olhar depreciativo na direção de Beaton, ela se afastou.

- Ela não parece nem um pouco feliz por estar aqui esta manhã - comentou Beaton.

Traynor deu um risinho, para encerrar o assunto.

- Qual é a má notícia?

- Houve outro ataque contra uma enfermeira, a noite passada. Ou melhor, esta manhã. A mulher foi estuprada.

- Droga! - rugiu Traynor. - Foi o mesmo cara?

- Acreditamos que sim - disse Robertson. - A mesma descrição. E também a mesma máscara de esquiador. Desta vez, a arma era um revólver, em vez de uma faca, mas ele continuava com as algemas. Também forçou-a a ir até as árvores, o mesmo que havia feito no passado.

- Eu esperava que a iluminação impedisse isso - disse Traynor.

- Deveria ter impedido - disse Beaton, hesitante.

- O que quer dizer?

- O ataque aconteceu no estacionamento de cima, onde não há luzes. Como você se lembra, nós só iluminamos o de baixo, por economia.

- Quem sabe desse estupro? - perguntou Traynor.

- Não muita gente - disse Beaton. - Decidi entrar em contato com George O’Donald, no Bartlet Sun, e ele concordou em não publicar a notícia. De modo que poderemos ter uma certa folga. Sei que a vítima não vai sair contando por aí.

- Eu gostaria de manter isso o mais longe possível do pessoal da CMV - disse Traynor.

- Acho que isso mostra o quanto precisamos daquela garagem nova.

- Precisamos, mas talvez não a tenhamos. É a minha má notícia para a reunião executiva desta noite. Meu velho padroeiro, Jeb Wiggins, mudou de idéia. Pior, convenceu o Conselho Municipal de que a garagem nova é má idéia. Convenceu a todos de que seria um problema.

- Isso é o fim do projeto? - perguntou Beaton.

- Não é o fim, mas é um golpe. Eu posso colocá-lo de novo em votação, mas depois de uma coisa assim é difícil ressuscitá-lo. Talvez esse estupro, por pior que tenha sido, possa ser o catalisador de que precisamos para que o projeto seja aprovado.

Traynor virou-se para Robertson. Podia ver dois reflexos turvos de si próprio nos óculos espelhados do homem.

- A polícia não pode fazer nada?

- Afora colocar um guarda aqui toda noite - disse Robertsonn -, não há muito que possamos fazer. Já mandei meus homens vasculharem o estacionamento com lanternas, sempre que estiverem na área.

- Onde está o chefe de segurança do hospital, Patrick Swegler? - perguntou Traynor.

- Vou procurá-lo - disse Robertson e afastou-se na direção do lago.

- Está pronta para esta noite? - perguntou Traynor assim que Robertson estava fora do alcance das vozes.

- Está falando da reunião?

- Da reunião depois da reunião - disse Traynor com um sorriso lascivo.

- Não tenho certeza. Precisamos conversar.

- Conversar sobre o quê? - Aquela não era a resposta que Traynor queria ouvir.

- Este não é o momento propício - disse Beaton. Ela já podia ver Patrick Swegler e Wayne Robertson a caminho.

Traynor apoiou-se na cerca. Sentia-se meio fraco. A única coisa com que contava era o afeto de Beaton. Tentou imaginar se ela o estaria enganando, encontrando-se com alguém como aquele imbecil do Charles Kelley. Suspirou; sempre havia algo errado.

Patrick Swegler aproximou-se de Traynor e encarou-o direto nos olhos. Traynor pensava nele como um garoto durão. Havia jogado futebol na Bartlet High School durante o breve período em que o Bartlet dominara sua liga interescolar.

- Não havia muita coisa que pudéssemos fazer - disse Swegler, recusando-se a ficar intimidado com o incidente. - A enfermeira tinha acabado um plantão duplo e não chamou a segurança antes de sair, como recomendamos repetidamente às enfermeiras sempre que saem tarde. Para piorar as coisas, ela havia deixado o carro no estacionamento de cima quando chegou para o turno do dia. Como o senhor sabe, o estacionamento de cima não é iluminado.

- Jesus Cristo! - murmurou Traynor. - Eu deveria estar dirigindo uma organização de muitos milhões de dólares, e preciso me preocupar com os detalhes mais mundanos. Por que ela não chamou a segurança?

- Não me contaram - disse Swegler.

- Se tivermos a garagem nova, o problema acabará - observou Beaton.

- Onde está Werner Van Slyke, o responsável pela engenharia? -perguntou Traynor. - Tragam-no aqui.

- Você sabe mais do que ninguém que o Senhor Van Slyke não comparece a nenhuma das atividades sociais do hospital - disse Beaton.

- Droga, você está certa! Mas quero que diga a ele que desejo ver o estacionamento de cima iluminado como o de baixo; diga para duminar o espaço como se fosse um campo de futebol.

Em seguida, Traynor virou-se para Robertson.

- E por que você ainda não descobriu quem é esse estuprador? Considerando o tamanho da cidade e o número de estupros feitos presumivelmente pela mesma pessoa, acho que você teria pelo menos um suspeito.

- Estamos trabalhando nisso.

- Você não gostaria de ir até a barraca?-perguntou Beaton.

- Por que não? - rugiu Traynor. - Eu gostaria pelo menos de aproveitar alguma coisa disto aqui. - Traynor pegou Beaton pelo braço e foi em direção à comida.

Traynor estava para voltar ao assunto do encontro proposto quando Caldwell e Cantor viram os dois e se aproximaram. Caldwell estava num clima especialmente alegre.

- Acho que vocês já ouviram dizer como o programa bônus está funcionando bem - disse a Traynor. - Os números de agosto são encorajadores.

- Não, não ouvi falar - disse Traynor, virando-se para Beaton.

- É verdade - disse ela. - Esta noite vou apresentar estatísticas. O balancete está bom. As admissões de agosto, pelo CMV, baixaram quatro por cento em relação a agosto passado. Não é muito, mas estamos na direção certa.

- É bom ouvir boas notícias de vez em quando - disse Traynor. - Mas não podemos relaxar.

Estive falando com Arnsi worth na sexta-feira, e ele me alertou que o vermelho vai responder como uma vingança quando os turistas forem embora. Em julho agosto boa parte do censo hospitalar foi composto por pacientes pagantes, e não por sócios da CMV. Agora, depois do Dia do Trabalho, os turistas vão embora. Não podemos nos dar ao luxo de relaxar.

- Acho que devemos reativar nosso controle de utilização estrita-disse Beaton. - É a única esperança de manter a situação até terminar o contrato de capitação.

- Claro que temos de recomeçar - disse Traynor. - Não temos escolha. A propósito, para informação de todos, mudamos oficialmente o nome de FUD para SUD. Agora é ”Sistema Utilização Drástica”.

Todos riram.

-- Devo dizer que fico desapontado - falou Cantor, ainda rindo. - Como arquiteto do plano, eu era parcial com relação ao FUD. - A despeito do verão longo e ensolarado, sua palidez facial mudara muito pouco. A pele de suas pernas surpreendentemente finas era ainda mais branca. Ele estava usando bermudas e meias pretas.

- Eu tenho uma pergunta política - disse Caldwell. - No SUD, qual é o status de uma doença crônica como fibrose cística?

- Não me pergunte - disse Traynor.-Não sou médico. Que diabo é fibrose cística? Quero dizer, já ouvi o termo, mas só isso.

- É uma doença crônica herdada - explicou Cantor. - Causa um bocado de problemas respiratórios e GI.

- GI significa gastrointestinais - explicou Caldwell. - Do sistema digestivo.

- Obrigado - disse Traynor em tom sarcástico. - Eu sei o que significa GI. E quanto à doença? É letal?

- Geralmente - disse Cantor. - Mas com tratamento respiratório intensivo, alguns pacientes podem ter vidas produtivas até os cinqüenta anos.

- Qual é o custo atual por ano? - perguntou Traynor.

- Depois que os problemas respiratórios se estabelecem, pode chegar a mais de vinte mil por ano.

- Santo Deus! Com um custo desses, tem de ser incluída nas considerações de utilização. É uma doença comum?

- Um caso em cada dois mil nascimentos - disse Cantor.

- Oh, que diabo! - Traynor deu de ombros.-É rara demais para causar tanta agitação.

Depois de prometer o comparecimento à reunião da diretoria executiva naquela noite, Caldwell e Cantor seguiram rumos separados. Caldwell dirigiu-se a um jogo de voleibol que estava começando na minúscula praia junto ao lago. Cantor foi em linha reta até o barril de chope.

- Vamos até a comida - disse Traynor.

Mais uma vez eles se dirigiram para o toldo que cobria a fila de churrasqueiras. Todos por quem Traynor passava assentiam ou o cumprimentavam em voz alta. A esposa de Traynor estava certa: ele realmente adorava esse tipo de ocasião pública. Fazia com que se sentisse um rei. Havia se vestido informalmente, mas com decoro: calças feitas sob medida, sapatos com palmilhas e sem meias, e uma camisa de mangas curtas, aberta no pescoço. Ele nunca usava bermudas numa ocasião assim, e estava espantado pelo fato de Cantor se importar tão pouco com a aparência.

Sua felicidade foi embaçada pela aproximação da esposa.

- Divertindo-se, querido? - perguntou ela, sarcástica. - Está parecendo.

- O que eu deveria fazer? Andar de cara amarrada?

- Não vejo por que não. É assim que você fica a maior parte do tempo em casa.

- Acho que vou indo - disse Beaton começando a se afastar. Traynor segurou-a pelo braço.

- Não. Quero saber mais sobre a estatística de agosto, para a reunião desta noite.

- Nesse caso, eu vou indo - disse Jacqueline.-- Na verdade, acho que vou para casa, querido Harold. Comi um pouquinho e falei com as duas pessoas que me interessam. Tenho certeza de que seus muitos colegas ficarão mais do que contentes em lhe dar uma carona.

Traynor e Beaton ficaram olhando Jacqueline se afastar de salto alto através da grama crescida.

- De repente perdi a fome - disse Traynor depois de Já queline ter desaparecido de vista.

- Vamos circular mais um pouco.

Caminharam por perto do lago e olharam algum tempo o jogo de voleibol. Em seguida foram até a área onde jogavam softball.

- Sobre o que você quer falar?-perguntou Traynor, juntando coragem.

- Sobre nós, nosso relacionamento, eu. Meu trabalho é bon Estou gostando. É estimulante. Mas quando você me contratou, deu a entender que nosso relacionamento iria dar em alguma coisa. Falou que estava para se divorciar. Isso não aconteceu. Não quero passar o resto da vida me escondendo. Esses encontros não bastam. Preciso de mais.

Traynor sentiu um suor frio brotando na testa. Com tudo que acontecia no hospital, ele não poderia lidar com aquilo. Não queria interromper seu caso com Helen, mas não havia como enfrentar Jacqueline.

- Pense nisso - disse Beaton. - Mas até que mude alguma coisa, nossos pequenos encontros em minha sala têm de acabar.

Traynor assentiu. No momento, era o melhor que podia fazer. Chegaram ao campo de softball e ficaram olhando sem prestar atenção. Um jogo estava sendo organizado.

- Lá está o Doutor Wadley - disse Beaton. Ela acenou e Wadley acenou de volta. Perto dele estava uma mulher jovem e atraente, de cabelos castanho-escuros, vestida de shorts. Usava um boné de beisebol elegantemente caído de lado.

- Quem é aquela mulher que está com ele? - perguntou Traynor, ansioso para mudar de assunto.

- É nossa mais nova patologista. Angela Wilson. Quer conhecer?

- Acho que seria adequado.

Chegaram perto e Wadley fez as honras. Durante a longa apresentação, elogiou Traynor como o melhor chairman que o hospital já tivera, e Angela como a mais nova e mais brilhante patologista.

- É um enorme prazer conhecê-lo - disse Angela.

Um grito dos outros jogadores levou Angela e Wadley para longe. O jogo estava para começar.

Beaton ficou olhando enquanto Wadley levava Angela à sua posição na segunda base. Ele estava jogando de shortstop.

- O velho doutor Wadley está mudado - comentou Beaton. - Angela Wilson evocou o professor que andava oculto nele. Deu-lhe um novo estímulo na vida. E ele está no sétimo céu desde que ela chegou.

Traynor observou Angela Wilson treinando pegar bolas baixas e jogá-las graciosamente para a primeira base. Dava para entender o interesse de Wadley. Só que, diferentemente de Beaton, ele não o atribuía apenas a um entusiasmo de mentor. Angela Wilson não parecia uma doutora. Pelo menos não como qualquer outra que Traynor já conhecera.

 

OUTONO EM VERMONT

MESMO TENDO PASSADO quatro anos em Boston durante o período de residência, David e Angela não tinham realmente experimentado toda a glória de um outono na Nova Inglaterra. Em Bartlet, era de tirar o fôlego. A cada dia, as cores esplendorosas das folhas tornavam-se mais intensas, como se tentassem ultrapassar os esforços do dia anterior.

Além do apelo visual, o outono trouxe prazeres mais sutis associados à sensação de bem-estar. O ar ficou mais fresco, cristalino e muito mais puro. Havia um sentimento revigorante na atmosfera, que tornava um prazer caminhar de manhã. Cada dia era cheio de energia e excitação; cada noite oferecia um contentamento aconchegante, com os estalidos do fogo na lareira mantendo longe o frio.

Nikki adorou a escola. Marjorie Kleber era sua professora. Como David supôs, era fantástica. Apesar de Nikki ter sempre sido boa aluna, agora se tornou excelente. Esperava ansiosamente as segundas-feiras, para o início de uma nova semana de aulas. Toda noite, tinha um monte de histórias sobre o que aprendera nas aulas.

A amizade de Nikki com Caroline Helmsford cresceu e as duas se tornaram inseparáveis nas atividades depois da escola. Aamizade com Arni também cresceu. Depois de muitas discussões sobre os prós e os contras, Nikki obteve o direito de ir para a escola de bicicleta, desde que ficasse fora das ruas principais. Para ela, era um tipo de liberdade totalmente novo, uma liberdade que ela adorava. No caminho, passava pela casa dos Yansens, e todas as manhãs Arni a esperava. O último quilômetro e meio, os dois percorriam juntos.

A saúde de Nikki continuou boa. O ar frio, seco e limpo parecia terapêutico para seu sistema respiratório. A não ser por sua terapia matutina na cadeira de lona, era quase como se ela não tivesse uma doença crônica. O fato de estar tão bem era fonte de grande conforto para David e Angela.

Um dos grandes acontecimentos do outono foi a chegada dos pais de Angela no final de setembro. Angela sentira muitas dúvidas quanto a convidá-los. O apoio de David fizera pender a balança.

O Doutor Walter Christopher, pai de Angela, teceu elogios reservados a casa e à cidade, mas foi condescendente quanto ao que chamava de ”medicina rural”. Recusou-se teimosamente a visitar o laboratório de Angela, com a desculpa de que passara muito tempo da vida dentro de hospitais.

Bernice Christopher, mãe de Angela, não encontrou nada para elogiar. Achou a casa grande demais e com muitas correntes de ar, especialmente para Nikki. Também era sua opinião que a cor das folhas do Central Park era tão bonita quanto em Bartlet, e que ninguém precisava viajar seis horas de carro para olhar árvores.

O único episódio realmente desconfortável ocorreu no jantar de sábado à noite. Bernice insistiu em beber mais vinho do que devia e, como sempre, ficou de pileque. Então acusou David e sua família de serem a fonte da doença de Nikki.

- Nunca houve fibrose cística do nosso lado - falou.

- Bernice! - cortou o Doutor Christopher.-Demonstrações de ignorância não são bem-vindas.

Seguiu-se um silêncio tenso até que Angela conseguiu conter sua raiva. Em seguida, ela mudou o assunto para a procura de móveis que ela e David estavam fazendo nos antiquários e lojas de usados da redondeza.

Todos ficaram aliviados quando chegou a hora da partida dos Christophers, ao meio-dia de domingo. David, Angela e Nikki postaram-se respeitosamente diante da casa e acenaram até que o carro desapareceu na estrada.

- Me chute da próxima vez em que eu falar em convidá-los - disse Angela. David riu e garantiu que não fora tão ruim.

O magnífico clima de outono continuou até meados de outubro. Apesar de alguns dias frios no final de setembro, o veranico de outono chegou e trouxe dias tão quentes quanto os do verão. Uma combinação auspiciosa de temperatura e umidade preservou as últimas folhas por muito mais tempo do que os nativos de Bartletdiziam ser o usual.

No meio de outubro, numa pausa no jogo de basquete da manhã de sábado, Steve, Kevin e Trent seguraram David num canto.

- Que tal você e sua família virem conosco neste fim de semana? - disse Trent. – Vamos todos para o Waterville Valleem New Hampshire. Gostaríamos que vocês também fossem.

- Diga por que queremos que eles venham - disse Kevin.

- Fique quieto! - disse Trent, dando um cascudo de brincadeira na cabeça de Kevin.

- O verdadeiro motivo é que alugamos uma casa com quatro quartos - insistiu Kevin, afastando-se de Trent.-Esses mãos-fechadas fazem de tudo para reduzir o custo.

- Besteira! - disse Steve - Quanto mais gente, mais divertido.

- Por que vocês vão a New Hampshire?

- Vai ser a última semana com folhas nas árvores, com certeza - disse Trent. – É diferente em New Hampshire. Paisagens mais rústicas. Tem gente que acha que a folhagem lá é ainda mais espetacular.

- Não consigo imaginar que seja mais bonita do que aqui em Bartlet - disse David.

- Waterville é divertido - disse Kevin. - A maioria das pessoas só conhece o lugar para esquiar no inverno. Mas tem tênis, golfe, hipismo e até mesmo uma quadra de basquete. As crianças adoram.

- Vamos lá, David! - disse Steve. - Logo vai chegar o inverno. Você precisa aproveitar o outono o máximo possível. Confie em nós.

- Para mim parece bom. Vou falar com Angela esta noite, e ligo para vocês.

Tendo decidido, o grupo juntou-se aos outros para terminar o jogo de basquete.

Naquela noite, Angela não ficou entusiasmada quando David mencionou o convite. Depois da experiência do fim de semana no lago, e com todo o trabalho a ser feito na casa, David e Angela não tinham participado de muitas atividades sociais. Angela não queria outro fim de semana com piadas e alusões sexuais. A despeito de David achar o contrário, ela continuou a imaginar se os amigos não eram entediados, especialmente as mulheres, e a idéia de ficarem juntos lhe parecia um tanto claustrofóbica.

- Vamos - disse David. - Vai ser divertido. Nós precisamos conhecer melhor a Nova Inglaterra. Como disse Steve, logo vai chegar o inverno, e na maior parte do tempo vamos ficar presos dentro de casa.

- Vai ser caro - disse Angela, tentando encontrar motivos para não ir.

- Vamos, mamãe - disse Nikki. - Arni me disse que Waterville é legal.

- Como pode ser caro? - questionou David. - Vamos dividir o aluguel por quatro. Além disso, pense no nosso salário.

- Pense nas nossas dívidas. Temos duas hipotecas sobre a casa, uma delas cresce sempre, e começamos a pagar o crédito estudantil. E não sei se o carro vai suportar um inverno em Vermont.

- Você está sendo boba. Eu estou cuidando atentamente das nossas finanças, e estamos nos saindo perfeitamente bem. Não é um cruzeiro extravagante. Com quatro famílias dividindo uma casa, não vai ser mais caro do que ficar num camping.

- Vamos, mamãe! - gritou Nikki.

- Certo - disse Angela finalmente. - Eu sei admitir quando perco.

Com o correr da semana, cresceu a empolgação pela viagem. David conseguiu que outro médico da CMV, Dudley Markham, cobrisse o seu plantão. Na quinta-feira à noite eles fizeram as malas para partir na tarde do dia seguinte.

O plano inicial era sair às três horas, mas a dificuldade de retirar cinco médicos do hospital no meio da tarde mostrou-se impossível de ser superada. Só conseguiram partir às seis.

Foram em três veículos. Os Yarboroughs em seu furgão, com os três filhos; os Yansens e os Youngs seguiram juntos no furgão dos Yansens; David, Angela e Nikki foram no Volvo. Poderiam ter-se espremido com os Yarboroughs, mas Angela preferia a independência de contar com seu próprio carro.

A casa era enorme. Além dos quatro quartos, havia um sótão onde as crianças podiam passar a noite em sacos de dormir. Depois da viagem estavam todos cansados. Foram direto para a cama.

Na manhã seguinte, Gayle Yarborough decidiu acordar todo mundo cedo. Marchou pela casa batendo com uma colher de pau no fundo de uma panela, gritando que iriam sair para o café da manhã dentro de meia hora.

Meia hora terminou sendo uma estimativa otimista. Apesar de quatro quartos e um sótão, só havia três banheiros e um lavabo. Tomar banho e fazer barba acabaram resultando num pesadelo em trânsito. Além disso, Nikki tinha de fazer a drenagem postural. Demorou quase uma hora e meia até que o grupo estivesse pronto para sair.

Subindo nos veículos na mesma ordem da noite anterior, saíram do vale com seu círculo de montanhas e entraram na Interestadual 93. Ao passar pelo Desfiladeiro de Franconia, David e Angela foram tomados pela beleza avassaladora das folhagens de outono silhuetadas contra paredões íngremes de granito cinza.

- Estou morrendo de fome - disse Nikki depois de uma hora na estrada.

- Eu também - concordou Angela. - Para onde estamos indo?

- Um lugar chamado Pensão das Panquecas de Polly. Steve me disse que é uma verdadeira instituição aqui no norte de New Hampshire.

Chegando ao restaurante, foram informados de que haveria uma espera de quarenta minutos por uma mesa. Felizmente, quando por fim começaram a comer, todos disseram que tinha valido a pena. As panquecas, ocultas sob um puro xarope de bordo de New Hampshire, eram deliciosas, assim como o bacon defumado e as salsichas.

Depois do desjejum, eles passearam por New Hampshire, olhando as folhas e a paisagem das montanhas. Houve discussões sobre se a folhagem de outono era mais bonita em Vermont ou em New Hampshire. Ninguém venceu. Como disse Angela, era como comparar superlativos.

Enquanto voltavam na direção do Waterville Valley, num trecho de estrada particularmente bonito chamado Kancamagus Highway, David percebeu que altos cirros deslizavam pela vasta abóbada do céu. Quando chegaram a Waterville, as nuvens estavam mais espessas, bloqueando a luz do sol e fazendo com que a temperatura caísse para uns treze graus.

Assim que chegaram a casa, Kevin mostrou-se ansioso por um jogo de ténis. Ninguém estava interessado, mas ele conseguiu convencer David. Depois de dirigir durante boa parte do dia, David achou que algum exercício iria fazer bem.

Kevin era um bom jogador e geralmente vencia David com relativa facilidade. Mas naquela ocasião em especial, ele não estava em sua melhor forma. Para tristeza de Kevin, David começou ganhando.

Com sua natureza altamente competitiva, Kevin se esforçou ainda mais, mas sua veemência só fez com que cometesse mais erros. Começou a ficar com raiva de si próprio e depois de David. Quando David disse que uma bola tinha caído fora, Kevin largou a raquete, numa demonstração de descrença.

- Essa não foi fora! - gritou.

- Foi. - David fez um círculo no saibro com sua raquete ao redor da marca.

Kevin deu a volta na rede para olhar.

- Essa não foi a marca - disse, irritado.

David olhou para seu companheiro de consultório. Dava para ver que o sujeito estava com raiva.

- Certo - falou, esperando aliviar a tensão. - Por que não disputamos o ponto outra vez?

Quando repetiram o ponto e ele venceu de novo, David gritou, para aliviar a atmosfera:

- Não adianta trapacear, viu?

- Vá se foder! - gritou Kevin de volta. - Dê o saque! Qualquer diversão que David pudesse ter com o jogo foi destruída com a atitude do adversário, que ficou cada vez com mais raiva, contestando quase tudo que ele dizia. David sugeriu que parassem, mas o outro insistiu que jogassem até o fim. Fizeram isso e David ganhou.

No caminho de volta a casa, Kevin recusou-se a falar, e David desistiu de manter uma conversa. Alguns pingos fizeram com que os dois se apressassem. Quando chegaram, Kevin entrou num dos banheiros e bateu a porta. Todos olharam para David, que encolheu os ombros.

- Eu ganhei - falou, sentindo-se estranhamente culpado.

A despeito de um fogo alegre na lareira, da boa comida e de uma enorme quantidade de cerveja e vinho, a noite foi prejudicada pelo mau humor de Kevin. Até mesmo Nancy, sua esposa, disse que ele estava agindo como criança. O comentário provocou uma discussão feia entre marido e mulher, que deixou todos com uma sensação desconfortável.

O abatimento de Kevin terminou por se espalhar. Trent e Steve começaram se lamentando de que o número de seus clientes caiu tanto que estavam pensando seriamente em ir embora de Bartlet. A CMV já tinha contratado gente da sua especialidade.

- Vários dos meus ex-pacientes disseram que gostariam de voltar para mim, mas não podem - disse Steve. - Os patrões negociaram o plano de saúde da CMV. Se esses pacientes me procurarem, terão de pagar do próprio bolso. É uma situação ruim.

- Talvez seja melhor vocês se mandarem enquanto podem - disse Kevin, falando pela primeira vez sem que lhe houvessem especificamente dirigido a palavra.

- Esse é um comentário bastante cifrado para exigir uma explicação - disse Trent. – Será que o Doutor Carranca tem alguma informação privilegiada que nós, simples mortais, não conhecemos?

- Você não acreditaria, se eu contasse - disse Kevin, indo em direção à lareira. O brilho das brasas refletidas em seus óculos grossos dava-lhe uma aparência de fantasma sem olhos.

- Experimente contar - encorajou Steve.

David olhou para Angela, para ver o que ela estava achando daquela noite deprimente. Quanto a ele, achava a experiência muito mais perturbadora do que no lago, em agosto. Ele conseguia lidar com piadas e alusões sexuais, mas tinha problemas com hostilidade e mau humor, em especial quando eram expressos abertamente.

- Fiquei sabendo um pouco mais sobre Randy Portland - disse Kevin sem tirar os olhos da lareira. - Mas vocês não acreditariam. Não depois do modo como reagiram à minha sugestão de que talvez não tenha sido suicídio.

- Ora, Kevin! - disse Trent. - Não faça tempestade num copo d’água. Conte o que ficou sabendo.

- Eu almocei com Michael Caldwell. Ele quer que eu participe de uma de suas inumeráveis comissões. Disse que o chairman da diretoria do hospital, Harold Traynor, tivera uma conversa estranha com Portland no dia em que ele morreu. E Traynor contou a Charles Kelley o que fora conversado.

- Vá ao ponto, Yansen - disse Trent.

- Portland disse que havia alguma coisa errada com o hospital.

O queixo de Trent caiu, num horror fingido.

- Há algo de errado com o hospital? Estou chocado, simplesmente chocado. – Trent sacudiu a cabeça. - Pelo amor de Deus, cara, há um monte de coisas erradas com o hospital. Se essa é a conclusão da história, eu não estou exatamente impressionado.

- Houve mais - disse Kevin. - Portland disse a Traynor que não iria assumir a culpa.

Trent olhou para Steve.

- Estou deixando de captar alguma coisa aqui?

- Portland estava se referindo a algum paciente quando fez essa declaração? – perguntou Steve.

- Obviamente - disse Kevin. - Mas é uma coisa sutil demais para um cirurgião como Trent captar. Para mim, está claro que Portland achava que alguma coisa esquisita estava acontecendo com um de seus pacientes. Acho que ele deveria ter mantido a boca fechada. Se o fizesse, ainda estaria por aqui.

- Parece que Portland estava simplesmente ficando paranóico - disse Trent.-Ele já vinha deprimido. Não engulo essa. Você está tentando fazer uma conspiração a partir do nada. De que morreu o paciente de Portland, afinal de contas?

- Pneumonia e choque de endotoxina - disse Steve. Como foi apresentado na reunião para discutir a morte.

- Aí está - disse Trent. - Não há muito mistério numa morte quando há um bocado de bactérias gram-negativas na corrente sangüínea do cadáver. Desculpe, Kevin, mas você não convenceu.

Kevin levantou-se de súbito.

- Por que me importo? - falou erguendo as mãos. - Você são cegos como morcegos. Mas sabem de uma coisa? Não estou nem aí.

Passando por cima de Gayle, que estava deitada no chão dibaixo da lareira, Kevin subiu o lance de degraus até o quarto que ele e Nancy ocupavam. Bateu a porta com força suficiente para estremecer os bibelôs sobre o consolo da lareira.

Todos ficaram olhando o fogo. Ninguém falou. Podia-se ouvir a chuva batendo na clarabóia como se fosse grãos de arroz. Finalmente, Nancy levantou-se e disse que ia dormir.

- Desculpe - disse Trent. - Eu não quis provocar o Kevin.

- Não é culpa sua - disse Nancy. - Ultimamente o Kevin parece um urso bravo. Há uma coisa que ele não contou a vocês. Ele perdeu um paciente há pouco tempo, o que não é uma ocorrência exatamente comum para um oftalmologista.

No dia seguinte, acordaram em meio a um vento forte, névoa pesada e chuva fria. Quando Angela olhou pela janela, gritou chamando David. Temendo alguma catástrofe, David saltou da cama. Olhu para fora, erguendo as pálpebras pesadas. Viu o carro. Viu a chuva.

- O que eu deveria estar vendo? - perguntou, sonolento.

- As árvores. Estão nuas. Não há folhas. Toda a folhagem desapareceu em uma noite!

- Deve ter sido o vento. As janelas chacoalharam a noite inteira. - David tombou na cama e voltou a se enfiar sob o edredom.

Angela ficou junto à janela, hipnotizada pelos restos esqueléticos das árvores.

- Parecem todas mortas - falou. - Não consigo acreditar em tamanha diferença. É difícil não ver como um mau presságio. Faz aumentar aquele sentimento que eu tive, de que alguma coisa ruim está para acontecer.

- É melancolia que sobrou do réquiem que foi a conversa de ontem à noite. Não venha com esse drama mórbido para cima de mim. É cedo demais. Volte, vamos ficar mais um pouco na cama.

O choque seguinte foi a temperatura. Mesmo às nove da manhã, ainda estava por volta de um grau. Era o inverno chegando.

O tempo feio não melhorou o humor geral dos adultos, que acordaram com o mesmo ar taciturno com que tinham ido para a cama. A princípio, as crianças estavam felizes, mas até elas começaram a se afetar com o mau humor dos pais. David e Angela sentiram-se aliviados ao irem embora.

Enquanto viajavam montanha abaixo, David pediu que Angela o lembrasse de nunca mais jogar tênis com Kevin.

- Vocês, homens, conseguem ser tão crianças nos esportes! - exclamou ela.

- Ei - reagiu David. - O problema não fui eu. Foi ele. Ele é competitivo demais. Eu nem queria jogar.

- Não fique tão irritado.

- Fico chateado porque você dá a entender que eu tive culpa.

- Eu não dei a entender nada disso. Só estava fazendo um comentário sobre homens e esportes.

- Certo, desculpe. Acho que estou meio alterado. Ficar perto de gente mal-humorada me deixa doido. Esse não foi o melhor dos fins de semana.

- É um pessoal estranho - disse Angela. - Parecem normais na superfície, mas por baixo não tenho certeza. Pelo menos não vieram com discussões sexuais nem começaram a agir como no lago. Por outro lado, conseguiram trazer à baila outra vez a tragédia do Doutor Portland. Para Kevin, é uma espécie de obsessão.

- Kevin é estranho. É isso que eu vinha tentando dizer. Odeio que me lembrem do suicídio de Portland. Torna um suplício ir para o consultório. Sempre que ele puxa o assunto, não consigo deixar de imaginar como deve ter ficado a parede por trás da minha mesa com sangue e cérebro espirrados.

- David, por favor! - disse Angela em tom cortante. - Si não se preocupa com minha sensibilidade, pense na de Nikki.

David olhou para Nikki pelo retrovisor. Ela estava olhando a frente, sem se mexer.

- Tudo bem, Nikki? - perguntou ele.

- Minha garganta está doendo. Não me sinto bem.

- Oh, não! - Angela virou-se para trás e encarou a filha. Em seguida esticou a mão e colocou-a na sua testa.

- E você insistiu nesta viagem estúpida - murmurou Angela. David começou a se defender, mas mudou de idéia. Não queria começar uma discussão. Já estava suficientemente irritado.

 

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO

NIKKI NÃO PASSOU bem a noite, nem seus pais. Angela estava particularmente aflita. De madrugada, ficou claro que Nikki estava progressivamente mais congestionada. Antes do alvorecer, Angela tentou a drenagem postural de sempre, combinada com percussão.

Quando terminaram, ela ouviu Nikki com o estetoscópio. Escutou roncos, sons que significavam que os canais respiratórios de Nikki estavam se tornando entupidos com muco.

Antes das oito horas, David e Angela ligaram para seus empregos, explicando que chegariam tarde. Enrolando Nikki em múltiplas camadas de roupas, levaram-na ao Doutor Pilsner. Inicialmente, a recepção não foi encorajadora. A recepcionista informou-lhes que o Doutor Pilsner estava com a agenda cheia. Nikki teria de voltar no dia seguinte.

Angela recusou-se a ceder. Disse à recepcionista que ela era a Dra. Wilson, da patologia, e que queria falar com o Doutor Pilsner. A recepcionista desapareceu no interior do consultório.

O próprio Doutor Pilsner apareceu logo depois e se desculpou.

- A garota pensou que vocês eram sócios comuns da CMV - explicou o Doutor Pilsner. - Qual é o problema?

Angela contou ao médico que, durante a noite, uma irritação da garganta levara à congestão, que não reagira à drenagem postural de sempre. O Doutor Pilsner levou Nikki para uma das salas de exames e ouviu o seu peito.

- Definitivamente congestionado - falou removendo o estetoscópio dos ouvidos. Depois, dando um beliscão de leve nabochecha de Nikki, perguntou como ela se sentia.

- Não me sinto bem - disse a menina, com a respiração dificultosa.

- Ela vinha tão bem ultimamente! - disse Angela.

- Vamos fazer com que ela volte ao normal num piscar de olhos - disse o Doutor Pilsner, coçando a barba branca. - Mas acho melhor interná-la. Quero começar com antibiótico intravenoso e terapia respiratória intensiva.

- O que for preciso - disse David. Em seguida, ele acariciou os cabelos de Nikki. Sentia-se culpado por ter insistido no fim de semana em New Hampshire.

Janice Sperling, do departamento de admissão, reconheceu David e Angela. Solidarizou-se com eles pelo que Nikki estava passando.

- Temos um quarto ótimo para você - falou para Nikki. Tem uma linda vista das montanhas.

Nikki assentiu e deixou que Janice lhe pusesse um bracelet plástico de identificação. David checou-o. Era o quarto 204, tinha uma vista particularmente agradável.

Graças a Janice, os procedimentos de internação correram depressa. Em apenas alguns minutos, estavam subindo. Janice levou-os ao quarto 204 e abriu a porta.

- Desculpe - disse Janice confusa. O quarto 204 já estava ocupado; havia uma paciente na cama.

- Senhora Kleber - disse Nikki com surpresa.

- Marjorie?-perguntou David.-O que está fazendo aqui.

- Veja o meu azar - disse ela. - Justo no fim de semana em que o senhor não está, eu tenho problema. Mas o Doutor Markham foi muito gentil.

- Desculpe incomodá-la - disse Janice a Marjorie. - Não entendo por que o computador me deu o quarto 204 quando ele já estava ocupado.

- Não há problema - disse Marjorie. - Eu gosto de companhia.

David disse a Marjorie que voltaria logo. Os Wilsons acompanharam Janice até o posto de enfermagem, onde ela ligou para a admissão.

- Quero me desculpar pela confusão - disse Janice depois da chamada. - Vamos colocar Nikki no quarto 212.

Minutos depois da chegada ao quarto 212, uma equipe de enfermeiras e técnicos apareceu para atender Nikki. Teve início o tratamento com antibióticos e foi marcada hora para o terapeuta respiratório.

Quando tudo estava sob controle, David disse a Nikki que voltaria a vê-la periodicamente durante o dia. Também lhe disse que fizesse tudo que as enfermeiras e os técnicos pedissem. Deu um beijo no rosto de Angela e um na testa de Nikki e saiu.

Em seguida, voltou ao quarto de Marjorie e olhou para a paciente. Ela se tornara uma de suas favoritas naqueles meses. Parecia minúscula na grande cama ortopédica. David pensou que, naquela cama, Nikki praticamente desapareceria.

- Muito bem - falou, fingindo irritação.-Qual é a história?

- Começou na tarde de sexta - disse Marjorie. - Os problemas sempre começam na sexta, quando a gente não quer chamar o médico. Eu não me sentia bem. Na manhã de sábado, minha perna direita começou a doer. Quando liguei para o seu consultório, eles me puseram em contato com o Doutor Markham. Ele me atendeu imediatamente. Disse que eu estava com flebite, e que precisava me internar no hospital para tomar antibióticos.

David examinou Marjorie e confirmou o diagnóstico.

- O senhor acha que era necessário eu me internar no hospital?

- Sem dúvida. Nós não gostamos de correr riscos num caso de flebite. A inflamação nas veias anda par a par com coágulos sangüíneos. Mas sua aparência está boa. Acho que já melhorou.

- Não há dúvida de que melhorei. Estou me sentindo cem vezes melhor do que quando vim no sábado.

Apesar de já estar atrasado para o consultório, David passou mais dez minutos conversando com Marjorie sobre a flebite, para certificar-se de que ela compreendia o problema. Ao terminar, foi para o posto de enfermagem e leu o prontuário. Estava tudo em ordem.

Em seguida, ligou para Dudley Markham, para agradecer-lhe por ter coberto seu plantão no fim de semana e por ter atendido Marjorie.

- Esqueça - disse Dudley. - Eu gostei de Marjorie. Nós conversamos sobre o passado. Elafoi professora do meu mais velho na segunda série.

Antes de sair do posto de enfermagem, David perguntou à enfermeira-chefe, Janet Colburn, por que Marjorie estava numa cama ortopédica.

- Por nada - disse Janet. - Aconteceu de a cama estar lá. No momento, não é necessária em lugar nenhum. Marjorie vai ficcar melhor naquela cama, pode acreditar. Os controles eletrônicos para levantar e baixar a cabeça e os pés nunca se quebram, coisa que não se pode dizer das camas comuns.

David escreveu uma pequena anotação no prontuário de Marjorie para oficializar sua responsabilidade por seu tratamento; em seguida, foi verificar Nikki. Ela estava muito melhor, mesmo terapeuta respiratório não tendo chegado ainda. Sua melhora provavelmente se devia à hidratação através do soro.

Finalmente, David foi até o prédio ambulatorial para começçar a atender seus pacientes. Estava quase uma hora atrasado.

Susan parecia transtornada quando David chegou. Tentou fazer malabarismo com as consultas e cancelar as que pudesse, mas ainda havia várias pessoas esperando. David acalmou-a enquanto entrava no consultório e colocava o jaleco branco. Susan seguiu-o como um sabujo, segurando recados telefônicos e pedidos de consulta.

Com o jaleco branco meio vestido, David parou abruptament de se mexer. Susan parou no meio da frase, vendo-o ficar pálido.

- Qual é o problema? - perguntou, alarmada.

David não se mexeu nem falou. Estava olhando a parede atrás de sua mesa. Para seus olhos cansados e carentes de sono, ela estava manchada de sangue.

- Doutor Wilson! - gritou Susan. - O que foi?

David piscou e a imagem perturbadora desapareceu. Indo até a parede, passou a mão pela superfície lisa, para certificar-se de que fora uma alucinação visual.

David suspirou, espantado com sua própria suscetibilidade. Virou-se de costas para a parede e desculpou-se com Susan.

- Acho que talvez eu tenha visto muitos filmes de terror quando era criança - falou. - Minha imaginação está funcionando demais.

- Acho melhor começarmos a atender os pacientes - disse Susan.

- Concordo.

Atirando-se com vontade ao trabalho, David compensou o tempo perdido. No meio da manhã, já estava em dia. Então fez uma breve interrupção nas consultas para responder a alguns dos recados telefônicos. A primeira pessoa com quem tentou falar foi Charles Kelley.

- Eu estava me perguntando quando você ligaria - disse Kelley, com a voz incomumente profissional. - Estou com um visitante em minha sala. Seu nome é Neal Harper. É do departamento de utilização da CMV, em Burlington. Acho que precisamos resolver uma coisa com você.

- No meio do meu horário de consultas?

- Não vai demorar muito. Eu insisto. Você pode vir até aqui?

David recolocou devagar o fone no gancho. Sentia-se imensamente ansioso, apesar de não saber por quê, como se fosse um adolescente chamado à sala do diretor da escola.

Depois de dizer a Susan aonde estava indo, David saiu. Assim que chegou aos escritórios da CMV, a recepcionista lhe disse que entrasse.

Kelley levantou-se de detrás de sua mesa, parecendo alto e bronzeado como sempre. Mas seus modos eram diferentes. Estava sério, quase duro, muito distante de seu jeito expansivo. Apresentou Neal Harper, um homem magro e preciso, de tez pálida e algumas espinhas. David achou-o a apoteose do burocrata eternamente trancado no escritório, preenchendo formulários.

Sentaram-se todos. Kelley pegou um lápis e ficou brincando com ele nas duas mãos.

- Foram levantadas as estatísticas do seu primeiro trimestre - falou em tom sombrio. – E elas não são boas.

David olhou de um para outro, sentindo-se cada vez mais ansioso.

- Sua produtividade não é satisfatória - prosseguiu Kelley. - Com relação ao número de pacientes por hora, você tem a menor percentagem de toda a CMV. Obviamente, está gastando tempo demais com cada paciente. Para piorar as coisas, você tem o mais alto percentual de pedidos ao laboratório da CMV por paciente. Quanto a pedir consultas fora da comunidade da CMV, você está completamente fora da tabela.

- Eu não sabia que esse tipo de estatística era feito - disse David humildemente.

- E não é só isso - disse Kelley. - Muitos de seus pacientes têm sido atendidos na emergência do Hospital Comunitário de Bartlet, em vez de em seu consultório.

- Isso é compreensível - disse David. - Estou com agenda lotada para duas semanas. Quando alguém liga com problema obviamente agudo, necessitando atenção imediata, mando para a emergência.

- Errado!-rugiu Kelley.-Você não manda pacientes a emergência. Você os atende em seu consultório, desde que estes não estejam à beira da morte

- Mas esse tipo de interrupção vai tumultuar minha agenda. Se eu tiver de atender a emergências, não vou poder atender pacientes marcados.

- Que seja assim - disse Kelley. - Ou então faça com que os supostos pacientes de emergência esperem até que você tenha atendido aos que marcaram consulta. A decisão é sua, mas qualquer que seja, não use a sala de emergência.

- Então para que serve a sala de emergência?

- Não tente bancar o espertinho comigo, Doutor Wilson - disse Kelley. – Você sabe muito bem para que serve a sala de emergência. É para emergências de vida ou morte. E isso me faz lembrá-lo que não sugira que seus pacientes peçam uma ambulância. A CMV não paga por ambulância, a não ser que haja aprovação prévia, e isso só se garante em casos de real ameaça à vida.

- Alguns de meus pacientes vivem sós. Se estiverem doentes...

- Não vamos tornar as coisas mais difíceis do que o necessário - interrompeu Kelley. - A CMV não opera uma linha de ônibus. Isso tudo é bastante simples. Vou deixar claro: você deve aumentar seriamente sua produtividade, deve baixar drasticamente o uso de testes laboratoriais, deve reduzir, ou melhor, parar de usar consultas fora da CMV, e deve manter seus pacientes longe da sala de emergência. Compreende?

David saiu atordoado do escritório da CMV. Estava pasmo. Jamais se considerara extravagante no uso dos recursos médicos. Sempre se orgulhara de priorizar as necessidades dos pacientes. O discurso de Kelley fora no mínimo enervante.

Chegando ao consultório, entrou sentindo-se vacilante. Teve um vislumbre de Kevin desaparecendo com um paciente por trás de uma porta, e lembrou-se de sua profecia quanto à avaliação do departamento de utilização. Kevin acertara no alvo: fora devastador. O que também incomodou David foi que Kelley não fizera uma única referência à qualidade ou à aprovação por parte dos pacientes.

- É melhor correr - disse Susan no instante em que o viu. - Você está de novo atrasado.

No meio da manhã, Angela saiu do laboratório e foi verificar Nikki. Ficou satisfeita ao ver como ela ia bem. O fato de não estar com febre era particularmente encorajador. Também houvera um claro decréscimo subjetivo na congestão de Nikki, depois de uma prolongada visita do terapeuta respiratório. Angela usou o estetoscópio de uma enfermeira para ouvir o peito de Nikki. Ainda havia sons de muco excessivo, mas nem de longe como estivera de manhã cedo.

- Quando vou poder ir para casa?

- Você nem bem chegou aqui! - disse Angela, desgrenhando o cabelo de Nikki.-Mas, se continuar melhorando desse jeito, tenho certeza de que o Doutor Pilsner não vai querer segurar você por muito tempo.

De volta ao laboratório, Angela foi até a seção de microbiologia para verificar a amostra de escarro de Nikki; queria ter certeza de que a lâmina havia sido preparada. Era crucial determinar que bactérias havia no trato respiratório da menina. O técnico garantiu que a lâmina estava pronta.

De volta à sua sala, Angela pendurou o jaleco branco, preparando-se para examinar uma série de lâminas de hematologia. Logo antes de se sentar, percebeu que a porta de ligação entre sua sala e a de Wadley estava escancarada.

Foi até a porta e olhou. Wadley se encontrava diante de um microscópio duplo, usado para ensino. Ele viu-a e acenou para que ela se aproximasse.

- Quero que veja isso - falou.

Angela foi até o microscópio e sentou-se diante do mentor. Seus joelhos praticamente se tocavam sob a mesa. Ela aproximou-se do ocular. Imediatamente reconheceu a amostra como sendo de um tecido de seio.

- Este é um caso complicado - disse Wadley. - A pacient só tem vinte e dois anos. Temos de fazer um diagnóstico, e precisamos ter certeza. Não tenha pressa.-Para enfatizar, ele estende a mão sob a mesa e agarrou a perna de Angela logo acima do joelho.

- Não seja impulsiva quanto à sua impressão. Observe cuidadosamente os dutos.

Os olhos experimentados de Angela começaram a analisar metodicamente a lâmina, mas ela perdeu a concentração. A mão de Wadley continuava em sua coxa. Ele continuou falando, explicando os pontos que achava fundamentais para o diagnóstico. Angela tinha dificuldade em ouvir. O peso da mão fazia com que ela se sentisse tremendamente desconfortável.

Várias vezes Wadley a tinha tocado antes, e ela também tiver ocasião de tocá-lo. Mas sempre dentro de limites sociais aceitáveis, como o contato num braço, ou um tapinha nas costas, ou um abraço exuberante. Até mesmo tinham dado vários abraços comemorativos durante o jogo de softball no piquenique do dia do trabalho. Nunca houvera qualquer implicação de intimidade. Nada como agora, quando a mão dele continuou presa à sua perna, com o polegar do lado interno de sua coxa.

Angela quis mover-se ou afastar a mão, mas não fez nenhuma das duas coisas. Continuou esperando que Wadley percebesse subitamente como ela estava desconfortável e se recolhesse. ”

isso não aconteceu. A mão continuou em sua coxa durante toda a longa explicação sobre o motivo da biópsia precisar ser considerada positiva como câncer.

Finalmente Angela se levantou. Sabia que estava tremendo. Mordeu a língua e voltou para a sua sala.

- Estou pronto para revisar essas lâminas de hematologia assim que você terminar com elas - gritou Wadley.

Fechando a porta entre as duas salas, Angela foi até a sua mesa e afundou na cadeira.

Sentia-se à beira das lágrimas, e apoiou o rosto nas mãos enquanto uma torrente de pensamentos atravessava sua mente. Repassando os eventos dos meses anteriores, lembrou-se de todos os episódios em que Wadley se oferecera para ficar até mais tarde ou examinar lâminas, e todas as vezes em que ele aparecia quando ela tinha alguns momentos livres. Se ela ia até a cafeteria, ele aparecia e sempre ocupava o lugar ao seu lado. E quanto aos toques, agora que ela pensava a respeito, ele nunca deixava passar uma oportunidade.

De repente, todos os esforços de Wadley como mentor e a afeição que vinha demonstrando passavam a ter uma conotação diferente, menos generosa e mais desagradável. Até a conversa recente sobre ir a um congresso de patologia em Miami no mês seguinte fez com que ela se sentisse inquieta.

Baixando as mãos, Angela olhou para a frente. Seráque não estaria reagindo de modo exagerado? Talvez estivesse colocando o episódio acima de sua proporção, ficando tão abalada. Afinal de contas, David sempre a acusava de dramatizar demais. Talvez Wadley não tivesse se dado conta. Talvez ele se encontrasse tão envolvido em seu papel didático que não percebesse o que estava fazendo. Sacudiu a cabeça, irritada. Bem no fundo sabia que não estava reagindo exageradamente.

Ainda se sentia grata pelo tempo e pelo esforço despendidos por Wadley, mas não conseguia esquecer como era ter sua mão na coxa. Era uma coisa tão inadequada! Ele tinha de saber. Tinha de ser deliberado. A questão era o que fazer para acabar com essa familiaridade não-desejada. Afinal de contas, ele era o seu chefe.

No final de seu horário de consultas, David foi até o prédio central do hospital para verificar como estavam Marjorie Kleber e alguns outros pacientes. Vendo que tudo estava bem, ele parou para visitar Nikki.

Sua filha estava se sentindo bem, graças a uma combinação adequada de antibióticos, agentes mucolíticos, broncodilatador hidratação e fisioterapia física. Achava-se recostada numa pilha de travesseiros e segurando um controle remoto de televisão. Assistia a um programa de jogos, passatempo para o qual torcia o nariz quando estava em casa.

- Bem, bem - disse David. - Isso é que é uma mulher preguiçosa!

- Ora, pai! Eu não tenho visto muita televisão. A Senhora Kleber veio até o meu quarto, e eu até fiz muitos deveres de escola.

- Que coisa terrível - disse David com uma consternação improvisada. - Como vai a respiração?

Depois de tantas estadas em hospitais, Niki tinha verdadeira experiência em avaliar sua situação. Os pediatras tinham aprendido a ouvir suas avaliações.

- Boa - disse Nikki. - Ainda um pouco difícil, mas definitivamente melhor.

Angela apareceu junto à porta.

- Parece que cheguei justo na hora para uma reunião de família. - Ela veio e deu um abraço em Nikki e em David. Com Angela sentada de um lado da cama e Davíd do outro, os três conversaram durante meia hora.

- Quero ir para casa - gemeu Nikki quando David e Angela se levantaram para sair.

- Tenho certeza de que sim - disse Angela. - E nós queremos você em casa, mas temos de obedecer às ordens do DOUTOR Pilsner. Vamos falar com ele de manhã.

Depois de acenar um adeus e olhar os pais desaparecendo pélo corredor, Nikki enxugou uma lágrima no canto do olho e pegou controle remoto. Estava acostumada a ficar em hospitais, mas não gostava. A única coisa boa era que podia ver televisão o quanto quisesse, e qualquer tipo de programa, coisa que definitivamente não era possível em casa.

David e Angela não falaram até estarem do lado de fora, sob o toldo que cobria a entrada dos fundos do hospital. Mesmo então a conversa foi mínima. David disse simplesmente que era bobagem os dois se molharem, e em seguida correu até o carro.

No caminho para casa não houve conversas. O único ruído era o som repetitivo e lúgubre dos limpadores de pára-brisa. Cada um achava que o outro estava reagindo a uma combinação da hospitalização de Nikki com o final de semana desapontador e a chuva incessante.

Como para confirmar as suspeitas de David, Angela rompeu o silêncio enquanto eles pegavam o caminho de entrada para a casa, dizendo que uma vista preliminar na cultura do catarro de Nikki sugeriu pseudomonas aeruginosa.

- Não é bom sinal - prosseguiu Angela. - Quando esse tipo de bactéria se estabelece em alguém com fibrose cística, geralmente permanece.

- Não precisa me dizer.

O jantar foi tenso, sem a presença de Nikki. Comeram na mesa da cozinha enquanto a chuva batia contra as janelas. Finalmente, depois de terminarem de comer, Angela conseguiu reunir forças e palavras para descrever o que acontecera entre ela e Wadley.

O queixo de David foi caindo enquanto a história prosseguia. No momento em que Ângela terminou, sua boca estava escancarada de espanto.

- Aquele desgraçado! - disse ele, batendo com a palma da mão na mesa e sacudindo irado a cabeça. - Umas duas vezes me passou pela cabeça que ele estava parecendo apaixonado demais, como no dia do piquenique. Mas me convenci de que estava com um ciúme ridículo. Parece que minha intuição estava certa.

- Não tenho certeza - disse Angela.-Em parte foi por isso que hesitei em contar a você. Não quero que tiremos conclusões apressadas. É uma coisa que me envergonha, além de ser irritante. É injusto as mulheres terem de enfrentar esse tipo de problema.

- É um problema antigo. O assédio sexual sempre aconteceu, especialmente depois que as mulheres passaram a trabalhar fora. Faz parte da medicina há muito tempo, especialmente quando todos os médicos eram homens e só havia mulheres enfermeiras.

- E ainda acontece, a despeito do número cada vez maior de médicas. Você se lembra de algumas babaquices que tive de ouvir de alguns professores da escola de medicina.

David assentiu.

- Lamento que isso tenha acontecido. Sei como você estava satisfeita com o Doutor Wadley. Se quiser, eu pego o carro, vou até à casa dele e dou-lhe um soco no nariz.

Angela sorriu.

- Obrigada pelo apoio.

- Achei que você estivesse quieta esta noite por causa da preocupação com Nikki. Ou com raiva por causa do fim de semana

- O fim de semana já é passado. E Nikki está bem.

- Eu também tive um dia ruim - admitiu finalmente David. Em seguida pegou uma cerveja na geladeira, tomou um gole longo e contou a Angela sobre sua revisão de utilização com Kelley e o sujeito da CMV de Burlington.

- Mas isso é ultrajante! - disse Angela quando David termi nou. - Que petulância falar com você desse jeito! Especialment com o tipo de resposta positiva que você está recebendo dos pacientes.

- Pelo visto, isso não é prioridade - disse David em tom melancólico.

- Está falando sério? Todo mundo sabe que o relacionamento médico-paciente é a pedra fundamental do serviço médico.

- Talvez isso seja passado. A realidade atual é determinada por pessoas como Charles Kelley. Ele faz parte de um novo exército de burocratas da medicina que está sendo criado pela intervenção governamental. De repente, a política e a economia ganha prioridade na arena médica. Acho que a principal preocupação é o resultado do balancete e não o atendimento ao paciente.

Angela sacudiu a cabeça.

- O problema é Washington - disse David.-Cada vez que o governo se envolve seriamente na medicina, parece que estraga tudo. Tenta agradar a todo mundo e termina sem agradar a ninguém. Veja o Medicare e o Medicaid; os dois sistemas são uma porcaria e os dois tiveram um efeito desastroso sobre a medicina em geral.

- O que vai fazer?

- Não sei. Vou tentar conseguir um meio-termo. Vou me preocupar com os problemas quando eles aparecerem e ver o que acontece. E você?

- Também não sei. Continuo com esperança de que esteja errada, de que esteja reagindo exageradamente.

- É possível - disse David em tom gentil. - Afinal de contas, foi a primeira vez que sentiu a coisa assim. E o tempo todo Wadley foi o tipo de pessoa que gosta de contato físico. Como você nunca disse nada até agora, talvez ele pense que você não se importa em ser tocada.

- O que, exatamente, você quer dizer? - perguntou Angela, irritada.

- Nada - disse David rapidamente.-Só estava respondendo ao que você falou.

- Está dizendo que eu provoquei isso?

David segurou o braço de Angela por cima da mesa.

- Calma! Eu estou do seu lado. Não pensei nem por um segundo que você tivesse alguma culpa.

A súbita raiva de Angela desapareceu. Ela percebeu que estava reagindo exageradamente, refletindo suas próprias incertezas. Havia a possibilidade de que, sem saber, estivesse encorajando Wadley. Afinal de contas, queria agradá-lo, como qualquer estudante quereria, especialmente porque se sentia em dívida para com ele, por todo o tempo e esforço que Wadley despendera em seu favor.

- Desculpe - falou. - Só estou muito desgastada.

- Eu também. Vamos para a cama.

 

TERÇA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO

PARA DESAPONTAMENTO de David e Angela, continuou chovendo de manhã. Mas em contraste com o tempo triste, Nikki estava animada e se recuperando maravilhosamente. Até mesmo sua alegria havia retornado. A irritação na garganta, pressagiando uma doença longa, desaparecera com os antibióticos. Isso indicava que a possível infecção tinha sido bacteriana e não virótica. Felizmente a menina continuava sem febre.

- Quero ir para casa - repetiu Nikki.

- Nós ainda não falamos com o Doutor Pilsner - lembrou David - Mas vamos falar agora de manhã. Seja paciente.

Depois da visita a Nikki, Angela foi para o laboratório, enquanto David caminhava até o posto de enfermagem para pegar o prontuário de Marjorie. Estava pensando em lhe dar alta. A resposta de Marjorie ao seu cumprimento mostrou que havia alguma cois errada.

- Qual é o problema, Marjorie? - perguntou, sentindo o próprio pulso acelerar. Ela estava letárgica. David encostou a mão na testa e nos braços da paciente. A temperatura da pele estava alta. Ela parecia ter febre.

Marjorie respondeu às perguntas insistentes de David com murmúrios mal compreensíveis. Parecia drogada, se bem que não aparentasse dor. Percebendo que a respiração de Marjorie era um tanto dificultosa, David auscultou cuidadosamente o seu peito. Ouviu fracos sons de congestão. Em seguida verificou a área da flebite e descobriu que estava praticamente curada. Com ansiedade cada vez maior, examinou a paciente por inteiro. Não encontrando nada, voltou ao posto de enfermagem e ordenou uma bateria de testes laboratoriais.

A primeira coisa a voltar do laboratório foi a contagem sangüínea, mas isso só fez aumentar a confusão de David. O nível de células brancas, que estivera adequadamente caindo com a diminuição da flebite, continuara a cair e agora estava no nível mais baixo da percentagem normal.

David coçou a cabeça. A baixa contagem de células brancas parecia contradizer o estado clínico da paciente, o que sugeria o desenvolvimento de uma pneumonia. Levantando-se de junto da mesa, voltou ao quarto de Marjorie e ouviu mais uma vez o seu peito. A congestão incipiente era real.

Voltando ao posto de enfermagem, David ficou pensando no que fazer. Mais testes de laboratório chegaram, mas eram todos normais - até mesmo a radiografia do peito, feita com o aparelho portátil - e não ajudaram em nada. David pensou em pedir algumas consultas, mas, depois da revisão de utilização que tivera na véspera, sentia-se relutante. O problema era que os médicos que poderiam ajudar não faziam parte da CMV.

Em vez de requisitar consultas, David pegou o Physicians’ Desk Reference na estante. Como sua preocupação maior era a possibilidade de ter surgido uma superinfecção por bactéria gramnegativa, procurou um antibiótico específico para esse tipo de eventualidade. Quando encontrou, sentiu-se confiante em que ele cuidaria do problema.

Depois de escrever as ordens apropriadas, inclusive uma para ser chamado imediatamente se houvesse qualquer mudança no estado de Marjorie, David dirigiu-se ao seu consultório.

Era a vez de Angela assumir as seções de biópsia de congelação. Ela sempre achava a tarefa desgastante para os nervos, sabendo que, enquanto trabalhava, o paciente permanecia anestesiado esperando seu veredicto, para ver se a biópsia era cancerosa ou benigna.

As biópsias de congelação eram feitas num pequeno laboratório dentro da suíte de operações. Raramente a sala era visitada pela equipe de cirurgia. Angela trabalhava com concentração intensa, estudando os padrões de células na amostra sob o microscópio.

Não ouviu a porta se abrir silenciosamente atrás dela. Não tinha consciência de alguém na sala até que ele falou.

- E então, doçura, como vão as coisas?

Assustada, Angela moveu a cabeça para trás como se uma porção de adrenalina estivesse penetrando em seu corpo. Com a pulsação ressoando nas têmporas, ela se viu olhando o rosto sorridente de Wadley. Odiava ser chamada de doçura por qualquer pessoa, exceto, talvez, David. E não gostava de ser vigiada.

- Algum problema? - perguntou Wadley.

- Não - respondeu ela em tom cortante.

- Deixe-me dar uma olhada - disse Wadley, indo em direção ao microscópio. - Qual é o caso?

Angela deu seu lugar a Wadley e explicou sucintamente a história. Ele olhou para a lâmina e em seguida se levantou.

Por um instante, os dois falaram sobre a lâmina em jargão dos patologistas. Era aparente que concordavam em que o tumor er benigno, boas-novas para o paciente anestesiado.

- Quero ver você mais tarde na minha sala - disse Wadley e deu uma piscadela.

Angela assentiu, ignorando a piscadela. Virou-se e estava se sentar de novo, quando sentiu a mão de Wadley passar de leve sobre suas nádegas.

- Não trabalhe demais, doçura! - disse ele e saiu da sala. O episódio aconteceu tão depressa que Angela não pôde reagir. Mas sabia que não fora sem querer, e agora tinha certeza de que o apertão do dia anterior não fora um exagero inocente.

Por alguns minutos, ficou sentada no laboratório minúsculo, tremendo de indignação e perplexidade. Perguntou-se se não estaria encorajando essa ousadia súbita. Certamente não mudara seu comportamento nos últimos dias. E o que deveria fazer? Não podia ficar parada, deixando a coisa prosseguir. Seria um convite aberto.

Decidiu que tinha duas possibilidades. Poderia enfrentar Wadley diretamente ou poderia ir ao diretor médico, Michael Caldwell. Mas em seguida pensou no Doutor Cantor, atual chefe de pessoal. Talvez devesse procurá-lo.

Angela suspirou. Nem Caldwell nem Cantor lhe pareciam as autoridades ideais para se procurar num caso de assédio sexual. Os dois eram machões, e Angela lembrou-se de suas atitudes quando os conhecera. Caldwell parecera chocado pelo fato de haver mulheres patologistas, ao passo que Cantor fizera aquela observação ignorante, dizendo que as poucas mulheres na escola de medicina eram ”bruxas”.

Pensou de novo em enfrentar Wadley sozinha, mas não achava uma boa alternativa.

O barulho irritado da campainha do interfone lançou-a de volta à realidade. A estática precedeu a voz da enfermeira-chefe:

- Dra. Wilson. Estão esperando os resultados da biópsia na Sala Três.

Naquela manhã, David achou mais difícil concentrar-se nos problemas dos pacientes do que na tarde anterior. Não apenas continuava perturbado por sua entrevista com Kelley; agora tinha também a piora de Marjorie Kleber para preocupá-lo.

No meio da manhã, atendeu a outro de seus visitantes freqüentes, John Tarlow, o paciente de leucemia. John não tinha marcado hora; David pediu que Susan o colocasse entre duas consultas, como uma semi-emergência, depois de ele ter ligado de manhã. Se fosse no dia anterior, David teria mandado John para a emergência, mas, sentindo-se castrado pelo sermão de Kelley, via-se obrigado a atender ele mesmo o sujeito.

John estava se sentindo mal. Depois de uma refeição com mariscos crus na noite anterior, tivera sérios problemas gastrointestinais, com vômitos e diarréia. Estava desidratado e com fortes cólicas abdominais.

Vendo como John estava mal, e lembrando-se de sua história de leucemia, David hospitalizou-o de imediato. Pediu uma série de testes para tentar determinar a causa dos sintomas. Também iniciou um tratamento com soro, para reidratá-lo. Por enquanto, evitov antibióticos, preferindo esperar até ter alguma idéia do que estava enfrentando. Poderia ser uma infecção bacteriana ou poderia ser meramente uma reação a toxinas: intoxicação alimentar, no vernáculo.

Pouco antes das onze da manhã, Traynor recebeu a má notícia por sua secretária, Collette.

Ela acabara de ser informada pelo telefone de que Jeb Wiggins mais uma vez influenciara o Conselho Municipal. A votação final sobre a garagem, que mais uma vez Traynor conseguira colocar na agenda, fora negativa. Agora provavelmente não haveria como colocá-la de novo em votação antes da primavera.

- Droga! - rugiu Traynor, socando com as duas mãos o tampo da mesa. Collette nem piscou. Estava acostumada às explosões de Traynor. - Eu adoraria agarrar aquele pescoço gordo Wiggins e apertar até ele ficar azul.

Collette saiu discretamente da sala. Traynor ficou andando de um lado para o outro, diante da mesa. A falta de apoio que tinha que enfrentar quando se tratava de dirigir o hospital deixava-o possesso. Ele não conseguia entender como o Conselho Municipal podia ter uma visão tão estreita. Era óbvio que o hospital era a empresa mais importante da cidade. Era igualmente óbvio que o hospital precisava da garagem.

Incapaz de trabalhar, Traynor pegou sua capa de chuva, chapéu e o guarda-chuva e saiu furioso do escritório. Entrando no carro, dirigiu até o hospital. Se não haveria garagem, pelo menos ele inspecionaria pessoalmente a iluminação. Não queria correr risco de mais estupros no estacionamento.

Encontrou Werner Van Slyke em seu cubículo sem janelas. Servia como escritório do departamento de engenharia e manutenção. Traynor nunca se sentira particularmente à vontade junto a Slyke. Ele era quieto demais, solitário demais e um tanto descuidado na aparência. Além disso Traynor achava Van Slyke fisicamente intimidador; era vários centímetros mais alto do que Traynore significativamente mais robusto, com o tipo de musculatura que sugeria o halterofilismo como hobby.

- Quero ver as luzes dos estacionamentos - pediu Traynor.

- Agora? - perguntou Van Slyke, sem erguer o tom de voz do jeito que as pessoas normais fazem ao perguntar. Cada palavra que ele dizia era chapada e arranhava os ouvidos de Traynor.

- Estou com um tempinho livre. Quero me certificar de que a iluminação é adequada.

Van Slyke vestiu um impermeável amarelo e saiu da sala. Fora do hospital, apontou para cada uma das luzes no estacionamento de baixo, indo de um poste ao outro sem fazer qualquer comentário.

Traynor acompanhava-o, debaixo de seu guarda-chuva, assentindo a cada apresentação.

Enquanto seguia Van Slyke, atravessando o pequeno bosque de coníferas e subindo os degraus de madeira que separavam os dois estacionamentos, Traynor perguntou-se o que Van Slyke fazia quando não estava trabalhando. Percebeu que nunca o vira caminhando pela cidade ou fazendo compras. E o sujeito era conhecido por não comparecer às atividades sociais do hospital.

Sentindo-se desconfortável com o silêncio contínuo, Traynor limpou a garganta.

- Como vão as coisas em casa? - perguntou.

- Bem.

- A casa está boa, sem problemas?

- Sim.

Traynor começou a se sentir desafiado a conseguir que Van Slyke respondesse com mais do que simples monossílabos.

- Gosta mais da vida civil do que da Marinha?

Van Slyke encolheu os ombros e começou a apontar para as luzes no estacionamento de cima. Traynor continuou assentindo a cada uma delas. Parecia haver um número suficiente.

Ele fez uma anotação mental para vir alguma noite de carro, com o objetivo de ver como era a iluminação no escuro.

- Parece bom - falou. Começaram a voltar para o hospital.

- Você está cuidando bem do seu dinheiro? - perguntou Traynor.

- Estou.

- Acho que está fazendo um ótimo serviço aqui no hospital, Tenho orgulho de você.

Van Slyke não respondeu. Traynor olhou para o perfil molhado do sujeito, com seu ar denso. Imaginou como Van Slyke podia ser tão sem emoção, mas outra vez percebeu que nunca o entendera, desde que era um garoto. Algumas vezes, Traynor achava difícil acreditar que eram parentes, mas eram. Van Slyke era o único sobrinho de Traynor, filho de sua falecida irmã.

Quando chegaram ao grupo de árvores que separavam os estacionamentos, Traynor parou. Olhou por entre os galhos.

- Por que não há luzes neste caminho?

- Ninguém disse nada sobre luzes no caminho. - Era primeira frase inteira que Van Slyke dizia. Traynor quase ficcou satisfeito.

- Acho que seria bom colocar uma ou duas. Van Slyke assentiu.

- Obrigado por ter vindo comigo - disse Traynor ao se afastar. Estava aliviado por sair de perto. Sempre sentira culpa por ser tão afastado dos parentes, mas Van Slyke era um tremendo enigma. Tinha de admitir que sua irmã não fora exatamente um exemplo de normalidade. Seu nome era Sunny, mas seu estado de ânimo era qualquer coisa, menos ”ensolarado”. Sempre fora quieta, afastada, e sofrera de depressão a maior parte da vida.

Traynor continuava tendo dificuldades para entender porque Sunny se casara com o Doutor Werner Van Slyke, sabendo que o sujeito era um bêbado. O suicídio dela foi o golpe final.

Se ao menos o tivesse procurado, ele teria tentado ajudar.

De qualquer modo, conhecendo os pais de Van Slyke, não era surpresa que ele fosse estranho assim. Entretanto, com seu treinamento como maquinista da Marinha, ele era útil e confiável. Traynor sentia-se satisfeito por ter sugerido que o hospital o contratasse.

Traynor procurou levantar o ânimo, afastando esse tipo de reflexão, e dirigiu-se para a sala de Beaton.

- Tenho más notícias - falou, assim que a secretária Beaton o fez entrar. Contou sobre o voto do Conselho Municipal com relação à garagem.

- Espero que não tenhamos mais ataques - disse Beaton. Ela estava claramente desapontada.

- Eu também. Espero que as luzes sirvam como impedimento. Acabo de dar uma volta pelos estacionamentos. Elas parecem adequadas, menos no caminho entre os dois pátios. Pedi que Van Slyke colocasse mais umas duas ali.

- Sinto não ter feito a iluminação nos dois estacionamentos ao mesmo tempo – disse Beaton.

- Como estão as finanças este mês?

- Eu estava com medo de que perguntasse. Arnsworth me deu ontem os números da quinzena, e eles não são bons. Outubro será definitivamente pior do que setembro, se a segunda quinzena for igual à primeira. O programa de bónus está ajudando, mas as internações pela CMV ainda estão acima do nível projetado. Para piorar as coisas, parece que estamos recebendo pacientes mais graves.

- Suponho que isso significa que temos de colocar mais pressão sobre a nossa utilização - disse Traynor. - O SUD tem de dar resultado. Afora o programa de bónus, estamos sem nada. Não prevejo mais nenhuma doação de seguros num futuro próximo.

- Há mais algumas coisinhas que você deve saber - disse Beaton. - O médico 91 teve uma recaída. Robertson pegou-o bêbado. Estava dirigindo o carro em cima da calçada.

- Acabe com os privilégios dele - disse Traynor sem hesitar. - Médicos alcoolizados já causaram problemas demais na minha vida. - Mais uma vez ele se lembrou do marido da irmã, que não servia para nada.

- O outro problema é que Sophie Stephangelos, a enfermeira-chefe da cirurgia, descobriu um roubo significativo de instrumentos cirúrgicos no decorrer do ano passado. Ela acha que um dos cirurgiões está levando o material.

- E o que virá em seguida? - perguntou Traynor com um suspiro. - As vezes, acho que dirigir um hospital é uma tarefa impossível.

- Ela tem um plano para pegar o culpado - disse Beaton. - Quer uma autorização para levá-lo adiante.

- Sem dúvida nenhuma - disse Traynor. - E, se ela o pegar, vamos fazer dele um exemplo.

Saindo de uma de suas salas de exame, David surpreendeu-se ao ver que a caixa na porta da outra sala estava vazia.

- Nenhum prontuário? - perguntou.

- Você está adiantado - explicou Susan. - Tire uma folga. David aproveitou a oportunidade para dar um pulo no hospital.

A primeira parada foi no quarto de Nikki. Ao entrar, espantou-se por ver Caroline e Arni sentados na cama. De algum modo, as crianças tinham conseguido entrar no hospital sem serem impedidas. Deveriam estar acompanhadas por um adulto.

- O senhor não vai colocar a gente em encrenca, vai, DOUTOR Wilson?-perguntou Caroline. Ela parecia ter muito menos de ( nove anos. Nela a doença atrapalhara o crescimento muito mais que em Nikki. Mais parecia uma criança de sete ou oito anos.

- Não, não vou colocar vocês em encrenca. Mas como conseguiram sair tão cedo da escola?

- Para mim foi fácil - disse Arni com orgulho. - A professora substituta não sabe das coisas. É uma enrolada.

David voltou a atenção para a filha.

- Falei com o Doutor Pilsner, e ele disse que você pode ir para casa esta tarde.

- Legal - disse Nikki, empolgada. - Posso ir à escola amanhã?

- Não sei. Temos de discutir com sua mãe.

Depois de sair do quarto de Nikki, David foi ver John para certificar-se de que ele estava acomodado, tomando soro e que estavam sendo feitos os testes que pedira. John disse que se sentia melhor. David disse-lhe para ser paciente e garantiu que haveria melhoras depois que ele se reidratasse.

Finalmente, David parou no quarto de Marjorie. Esperava que o antibiótico já tivesse melhorado sua situação, mas isso não aconteceu. Na verdade, David chocou-se ao ver como ela havia piorado; estava praticamente em coma.

Em pânico, auscultou-lhe o peito. Havia mais congestão do que antes, mas ainda não era o bastante para explicar seu estado clínico. Correndo de volta ao posto de enfermagem, exigiu saber por que não fora chamado.

- Chamado para quê? - perguntou Janet Colburn. Janet era a enfermeira-chefe.

- Marjorie Kleber - gritou David enquanto prescrevia mais um exame de sangue e outra radiografia do tórax.

Janet consultou várias outras enfermeiras do andar e em seguida disse a David que nenhuma percebera qualquer alteração. Disse que uma das enfermeiras de plantão estivera no quarto há menos de meia hora e não relatara qualquer mudança.

- Isso é impossível - disse David rispidamente enquanto pegava o telefone e começava a fazer ligações. Antes, relutara em pedir outros médicos. Agora estava em pânico, querendo que eles viessem o quanto antes. Chamou o oncologista de Marjorie, Doutor Clark Mieslich, e um especialista em doenças infecciosas, o Doutor Martin Hasselbaum. Nenhum dos dois era da CMV. Além disso, convocou um neurologista chamado Alan Prichard, que fazia parte da CMV.

Todos os três especialistas estavam disponíveis. Quando ouviram o apelo frenético de David e a descrição que ele fez do caso, concordaram em vir imediatamente. Em seguida, David ligou para Susan, alertando-a sobre o que estava acontecendo. Pediu que ela dissesse aos pacientes que aparecessem no consultório que ele se atrasaria.

O oncologista foi o primeiro a chegar, logo seguido pelo especialista em doenças infecciosas e pelo neurologista. Eles examinaram o prontuário e discutiram a situação com David, antes de baixarem em massa sobre Marjorie. Depois de examiná-la atentamente, foram conferenciar no posto de enfermagem. Mal tinham começado a discutir a situação quando veio o desastre.

- Ela parou de respirar - gritou uma enfermeira do quarto de Marjorie. Ela ficara para limpar a bagunça deixada pelos especialistas.

Enquanto David e os outros médicos voltavam correndo, Janet Colburn chamava a equipe de ressuscitação. A equipe chegou em minutos e convergiu para o quarto 204.

Com tanto material humano imediatamente disponível, Marjorie foi rapidamente entubada e posta sob respiração artificial. Isso foi feito com tamanha velocidade que sua taxa cardíaca não alterou. Todos estavam confiantes em que ela só tivera um curto período com baixa de oxigênio. O problema era que não sabiam que ela parara de respirar. Enquanto começavam a discutir as causas possíveis, seu coração subitamente rebentou e em seguida parou. O monitor mostrava uma fantasmagórica linha reta. A equipe de ressuscitação aplicou um choque, na esperança de que o coração voltasse a funcionar, mas não houve resposta. Rapidamente deram outro choque, e quando isso não funcionou, começaram a fazer massagem cardíaca.

Trabalharam freneticamente durante trinta minutos, tentando cada truque em que conseguissem pensar, mas nada funcionava, o coração não reagia nem mesmo a um marcapasso externo. O desânimo instalou-se gradualmente e, por fim, num consenso geral, Marjorie Kleber foi considerada morta.

Enquanto a equipe de ressuscitação desligava seus fios e as enfermeiras começavam a limpar a área, David voltou ao posto de enfermagem com os outros médicos. Estava sentindo-se devastado. Não poderia imaginar uma situação pior. Marjorie viera ao hospital com um problema relativamente pequeno, enquanto ele viajara para se divertir. Agora ela estava morta.

- É terrível - disse o Doutor Mieslich. - Ela era uma pessoa formidável.

- Eu diria que ela até se saiu bem, considerando-se a história do prontuário - disse o Doutor Prichard. - Mas a doença iria mesmo acabar com ela.

- Espere um segundo - disse David. - Você acha que ela morreu do câncer?

- Obviamente - disse o Doutor Mieslich. - Marjorie tinha um câncer disseminado quando a examinei pela primeira vez. Apesar de se sair melhor do que eu teria previsto, era uma mulher doente.

- Mas não havia nenhuma evidência clínica do tumor - disse David.-Os problemas que levaram a esse caso fatal parecem sugerir algum tipo de disfunção no sistema imunológico. Como vocês podem relacionar isso ao câncer?

- O sistema imunológico não controla a respiração ou o coração - disse o Doutor Prichard.

- Mas a contagem de células brancas estava caindo.

- O tumor não estava aparente, isso é verdade - disse o Doutor vlieslich. - Mas se nós a abríssemos, acho que descobriríamos câncer em todo canto, inclusive no cérebro. Lembre-se, ela tinha metástase ampla quando foi originalmente diagnosticada.

David assentiu. Os outros fizeram o mesmo. O Doutor Prichard deu um tapinha nas costas de David.

- Não dá para vencer todas - falou.

David agradeceu aos outros médicos por terem vindo. Todos lhe agradeceram polidamente pela indicação, em seguida tomaram seus caminhos. David ficou sentado na escrivaninha do posto de enfermagem. Sentia-se fraco e desconsolado. Sua tristeza e sua sensação de culpa pela morte de Marjorie eram ainda mais agudas do que ele temera. Tinha passado a conhecê-la muito bem. Para piorar as coisas, ela era a adorada professora de Nikki. Como explicar isso à menina?

- Desculpe incomodar - disse Janet Colburn em voz baixa. -Lloyd Kleber, marido de Marjorie, está aqui. Ele gostaria de falar com o senhor.

David levantou-se. Sentia-se atordoado. Não sabia por quanto tempo estivera sentado no posto de enfermagem. Janet levou-o à sala de espera dos pacientes.

Lloyd Kleber estava olhando a chuva através da janela. David imaginou que ele tivesse uns quarenta e cinco anos. Seus olhos estavam vermelhos de chorar. O coração de David apiedou-se do homem. Ele não somente perdera a esposa; agora também tinha a responsabilidade por dois filhos sem mãe.

- Sinto muito - disse David em tom claudicante.

- Obrigado - disse Loyd, engolindo as lágrimas. - E obrigado por ter cuidado de Marjorie. Ela realmente admirava seu envolvimento.

David assentiu. Tentou dizer coisas que refletissem sua comPaixão. Nunca se sentia adequado em situações assim, mas fez o melhor que pôde.

Finalmente tomou coragem e pediu permissão para fazer uma autópsia. Sabia que era pedir demais, mas estava profundamente perturbado pela rápida deterioração de Marjorie. Queria desesperadamente compreender aquilo.

- Se puder ajudar outras pessoas de algum modo - disse o Senhor Kleber-, tenho certeza que Marjorie gostaria de que fosse feita.

David ficou e conversou com Lloyd Kleber até a chegada de outros membros da família. Em seguida, deixando-os, foi até o laboratório. Encontrou Angela em sua sala. Ela ficou satisfeita ao vê-lo, e disse isso. Em seguida percebeu sua expressão desgastada.

- O que há de errado? - perguntou ansiosa. Levantou-se pegou sua mão.

David contou. Teve de parar várias vezes para se recompor.

- Sinto muito - disse ela, dando-lhe um abraço confortador.

- Isso é que é médico! - zombou ele de si mesmo, lutano contra as lágrimas. - Era de se pensar que eu já estivesse ajustado a esse tipo de coisa.

- A sensibilidade faz parte do seu charme – tranquilizou Angela. - É também o que faz de você um bom médico.

- O Senhor Kleber concordou com uma autópsia. Achei bom porque não tenho a menor idéia do motivo da morte, especialmente por ter ocorrido tão rápida. A respiração parou, e em seguida, parou o coração. Os médicos que consultei acham que foi por causa do câncer. Provavelmente foi. Mas eu gostaria que o Bartlet confirmasse. Você pode cuidar para que isso seja feito?

- Sem dúvida. Mas, por favor, não fique tão deprimido. Não foi culpa sua.

- Vejamos o que mostra a autópsia. E o que vou dizer a Nike?

- Isso vai ser difícil - admitiu Angela.

David voltou ao consultório para tentar atender aos pacientes o mais rapidamente possível. Odiava se atrasar tanto, mas não houvera como evitar. Só tinha conseguido atender a quatro, quando Susan interrompeu-o entre duas salas de exame.

- Desculpe incomodá-lo, mas Charles Kelley está aqui e exige vê-lo imediatamente.

Temendo que a visita de Kelley tivesse algo a ver com a morte de Marjorie, David atravessou o corredor até sua sala. Kelley estava andando de um lado para o outro, impaciente. Interrompeu-se assim que David chegou. David fechou a porta depois de entrar. O rosto de Kelley estava duro e irado.

- Achei o seu comportamento particularmente irritante - disse, partindo para cima de David.

- Do que está falando?

- Ontem mesmo falei com você sobre utilização. Pensei que estivesse claro e que houvesse entendido. E hoje, irresponsavelmente, você pede duas consultas com médicos de fora da CMV para uma paciente terminal. Esse tipo de comportamento sugere que você não tem compreensão do principal problema enfrentado pela medicina atual: despesas desnecessárias e perdulárias.

Com as emoções à flor da pele, David lutou para se controlar.

- Espere um minuto. Eu gostaria que você me dissesse como sabe que as consultas eram desnecessárias.

- Ora, meu caro! - disse Kelley com um movimento petulante de cabeça. - É óbvio. O estado da paciente não se alterou. Ela estava morrendo e morreu. Todo mundo deve morrer em algum momento. Dinheiro e outros recursos não devem ser jogados fora em nome de heroísmo sem esperança.

David encarou os olhos azuis de Kelley. Não sabia o que dizer. Estava perplexo.

Esperando evitar Wadley, Angela procurou o Doutor Paul Darnell em seu cubículo sem janelas, do outro lado do laboratório. A mesa dele estava cheia de cubas com cultura de bactérias. Sua área de interesse especial era a microbiologia.

- Posso falar com você um instante?-disse Angela da porta. Ele acenou para que ela entrasse e recostou-se em sua cadeira giratória.

- Qual é o protocolo para autópsias aqui? Não vi nenhuma desde que cheguei.

- Essa é uma questão que você deve discutir com o Doutor Wadley. É problema de política interna. Desculpe.

Relutantemente, Angela foi até a sala de Wadley.

- O que posso fazer por você, doçura? - Wadley deu o tipo de sorriso que anteriormente Angela via como paternal, mas que agora sabia ser lascivo.

Encolhendo-se ao ser chamada de doçura, Angela engoliu oorgulho e perguntou sobre o procedimento para conseguir uma autópsia.

- Nós não fazemos autópsias. Se for caso de um médico, o corpo vai para Burlington. Autópsias são muito caras e o contrato com a CMV não as inclui.

- E se a família pedir?-perguntou Angela, sabendo que isso não era exatamente verdade no caso de Marjorie Kleber.

- Se eles quiserem gastar oitocentos e noventa dólares, nós damos um jeito. Caso contrário, não fazemos.

Angela assentiu e saiu em seguida. Em vez de voltar ao seu trabalho, foi até o prédio ambulatorial e dirigiu-se ao consultório de David. Ficou espantada com o número de pacientes que esperavam. Todas as cadeiras da sala de espera estavam ocupadas. Haviam algumas pessoas de pé no corredor. Viu David enquanto ele corria de uma sala para outra. Ele estava claramente em frangalhos.

- Não posso fazer autópsia em Marjorie Kleber.

- Por que não?

Angela contou o que Wadley tinha dito.

David sacudiu a cabeça, frustrado, e soltou o ar dos pulmões.

- Minha opinião é que este lugar está escorregando morro abaixo, e depressa. – Em seguida, contou a Angela sobre a opinião de Kelley quanto ao modo como ele tratara o caso de Marjorie.

- Isso é ridículo - disse Angela. Ela estava furiosa. - Quer dizer que ele sugeriu que as consultas eram desnecessárias porque a paciente morreu? Isso é loucura.

- O que eu posso dizer? - David sacudiu a cabeça. Angela não sabia o que dizer. Kelley estava começando a parecer perigosamente desinformado. Angela gostaria de poder conversar mais, mas sabia que David não tinha tempo. Fez um gesto por cima do ombro.

- Você está com o consultório cheio de pacientes. Quando acha que vai terminar?

- Não tenho a menor idéia.

- E se eu levar Nikki para casa e você me ligar quando estiver para sair? Eu poderia voltar e pegá-lo.

- Parece bom.

- Agüente firme, querido. Conversamos mais tarde. Angela voltou ao laboratório e, terminando o trabalho do dia, pegou Nikki e foi para casa. A filha estava em êxtase por sair do hospital. Ela e Ferrugem tiveram um encontro exuberante.

David ligou às sete e quinze. Com Nikki confortavelmente aninhada diante da televisão, Angela voltou ao hospital. Dirigiu devagar. Estava chovendo tanto que os limpadores tinham de lutar para manter o pára-brisa em condições.

- Que noite! - disse David entrando no carro.

- Que dia! - disse Angela, começando a descer a colina na direção da cidade.

Especialmente para você. Como está se sentindo?

- Estou me virando. Foi bom ter tanto trabalho, pelo menos não pensei muito. Mas agora preciso enfrentar a realidade: o que vou dizer a Nikki?

- É só contar a verdade.

- É mais fácil dizer do que fazer. E se ela me perguntar por que Marjorie morreu? O problema é que não sei, nem fisiológica nem metafisicamente.

- Andei pensando mais sobre o que Kelley disse. Parece que ele tem uma incompreensão fundamental sobre o que é básico no atendimento ao paciente.

- Isso é dizer pouco - afirmou David, com um riso curto e sarcástico. - A parte assustadora é que ele está num cargo de supervisão. Os burocratas como Kelley estão se intrometendo na medicina sob o disfarce de reforma no serviço de saúde. Infelizmente, o público não faz a menor idéia.

- Tive outro probleminha com Wadley hoje.

- Aquele cretino! O que ele fez desta vez?

- Me chamou de doçura algumas vezes. E passou a mão nas minhas nádegas.

- Meu Deus, que canalha!

- Realmente vou ter de fazer alguma coisa. Só gostaria de saber o quê.

- Acho que você deveria falar com Cantor. Andei pensando nisso. Pelo menos Cantor é médico e não somente um burocrata dos serviços de saúde.

- O comentário dele sobre as garotas da escola de medicina, como ele disse, não foi muito inspirador.

Chegaram à entrada de carros da casa. Angela parou o mais perto possível da saleta dos fundos. Os dois se prepararam para correr até o abrigo.

- Quando será que essa chuva vai parar?-reclamou David - Está chovendo direto há três dias. «

Assim que entraram, David decidiu acender a lareira para animar a casa, enquanto Ângela esquentava a comida que fizera antes. Descendo até o porão, David percebeu que estava brotando umidade por entre os blocos de granito do alicerce. Junto com a umidade havia o odor mofado que ele sentira ocasionalmente. Enquanto pegava a lenha, consolou-se pensando no chão de terra. Se entrasse uma quantidade significativa de água no porão, ela penetraria na terra e acabaria desaparecendo.

Depois de comer, David juntou-se a Nikki diante da TV. Sempre que ela ficava doente, eles cediam com relação ao tempo que podia dedicar a esse entretenimento. David fingiu interesse pelo programa, enquanto juntava coragem para contar sobre Marjorii. Finalmente, durante um intervalo comercial, passou o braço ao redor da filha.

- Preciso contar uma coisa - disse em tom gentil.

- O quê? - Nikki estava satisfeita, acariciando Ferrugem enrolado no sofá.

- Sua professora, Marjorie Kleber, morreu hoje. Nikki não disse nada durante alguns instantes. Olhou Ferrugem, fingindo estar preocupada com um nó atrás de sua orelha.

- Isso me deixa muito triste - prosseguiu David. - Especialmente porque eu era o médico dela. Tenho certeza que vc também fica chateada.

- Não - disse Nikki rapidamente, sacudindo a cabeça, afastou uma mecha de cabelos da frente dos olhos. Em seguida, olhou para a televisão como se estivesse interessada no comercial.

- Não há problema em ficar triste - disse David, e começou a falar sobre perder pessoas de quem se gosta, quando subitamente Nikki lançou-se para ele, envolvendo-o numa torrente de lágrimas. Ela abraçou-o mais forte do que em qualquer outra ocasião que ele recordasse. David deu-lhe tapinhas nas costas e continuou consolando-a.

Angela apareceu na porta. Ao ver David segurando a filha em soluços, aproximou-se. Empurrando Ferrugem gentilmente para o lado, sentou-se e colocou os braços ao redor de David e Nikki. Os três ficaram juntos, balançando lentamente enquanto a chuva batia contra a janela.

 

QUARTA-FEIRA, 20 DE OUTUBRO

A DESPEITO DOS CONTÍNUOS protestos de Nikki, David e Angela insistiram em que ela ficasse em casa, deixando de ir à escola por mais um dia. Considerando o mau tempo e o fato de que ela ainda estava tomando antibióticos, não havia motivo para arriscar.

Apesar de Nikki não estar tão cooperativa como ocorria geralmente, sua terapia respiratória foi feita com grande diligência. David e Angela auscultaram seu peito e ambos ficaram satisfeitos.

Alice Doherty chegou exatamente na hora que prometera. David e Angela agradeceram por ter alguém tão confiável e convenientemente disponível.

Enquanto os dois entravam no Volvo azul, David reclamou não poder andar de bicicleta a semana inteira. Não estava chovendo tão forte quanto antes, mas as nuvens eram baixas e pesadas, e uma névoa densa se erguia da terra saturada.

Chegaram ao hospital às sete e meia. Enquanto Angela se dirigia ao laboratório, David foi até o andar dos pacientes internos. Quando entrou no quarto de John Tarlow, surpreendeu-se ao ver panos no chão, escadas de pintor e a cama vazia. Prosseguindo até o posto de enfermagem, perguntou pelo paciente.

- O Senhor Tarlow foi removido para o 206 - disse Janeth Colburn.

- Porquê?

- Queriam pintar o quarto. A manutenção apareceu e nos informou. Perguntamos à admissão, e eles disseram para transferir o paciente para o 206.

- Acho isso uma falta de consideração - reclamou David.

- Bom, não coloque a culpa em nós. Converse com a manutenção.

Sentindo-se irritado pelo paciente, David seguiu a sugestão de Janet e foi até a manutenção.

Bateu na porta do escritório de manutenção e engenharia. Dentro, curvado sobre uma mesa, estava um sujeito aproximadamente da sua idade. Vestia uma camisa de trabalho, de sarja esverdeada, amarrotada. O rosto estava áspero com barba de dois dias.

- O que é? - perguntou Van Slyke levantando os olhos de sua agenda. A voz era inerte, e o rosto sem emoção.

- Um de meus pacientes foi trocado de quarto. Quero saber por quê.

- Se está falando do quarto 216, ele está sendo pintado - disse Van Slyke em voz monótona.

- É óbvio que está sendo pintado. O que não é óbvio é por quê.

- Nós temos uma programação.

- Com ou sem programação, acho que os pacientes não devem ser perturbados, especialmente quando estão doentes. E os pacientes que chegam ao hospital invariavelmente estão doentes.

- Fale com Beaton, se está com algum problema - disse Van Slyke, voltando-se de novo para a agenda.

Pasmo com a insolência de Van Slyke, David ficou parado na porta por um instante. Van Slyke ignorou-o. David sacudia a cabeça e em seguida virou-se para ir embora. No caminho de volta ao andar dos pacientes, considerou seriamente o conselho de Van Slyke, de discutir a situação com a presidente do hospital, até que entrou no quarto novo de John Tarlow. De súbito, viu-se diante de um problema maior: o estado de John Tarlow havia piorado.

Os vômitos e a diarréia, que inicialmente tinham sido controlados, reapareceram mais intensos. Além disso, John estava entorpecido, e ao ser acordado mostrou-se apático. David não conseguia entender esses sintomas, já que John recebera soro desde a internação, e claramente não estava desidratado.

David examinou cuidadosamente o paciente, mas não conseguiu encontrar uma explicação para a nítida mudança em seu estado clínico, particularmente em seu estado mental deprimido. A única coisa em que podia pensar era na possibilidade de que John fosse exageradamente sensível ao sonífero que lhe prescrevera, e que lhi deveria ser administrado caso solicitasse.

Correndo de volta ao posto de enfermagem, David pegou o prontuário de John na estante. Examinou desesperadamente informações mandadas do laboratório durante a noite, numa tentativa de compreender o que acontecia e decidir o que fazer em seguida. Em conseqüência da discussão com Kelley no dia anterior, ele estava relutante em requisitar qualquer outra consulta, já que nenhum dos dois médicos que ele queria – o oncologista e o especialista em doenças infecciosas - era da CMV.

David fechou os olhos e esfregou as têmporas. Não achava estar fazendo muitos progressos. Infelizmente, faltava uma peça fundamental de informação: os resultados das culturas de fezes preparadas no dia anterior ainda não tinham chegado. Conseqüentemente David não sabia se estava ou não lidando com uma bactéria. E se estivesse, que tipo de bactéria seria. Pelo lado positivo, havia o fato de que John continuava sem febre.

Redirecionando a atenção para o prontuário, David certificcou-se de que John tinha recebido a medicação para dormir. Achando que ela pudesse ter contribuído para a sua letargia, cancelou-a.

Também requisitou outra cultura de fezes e outra contagem sangüínea. Como requisição final, pediu que a temperatura de John fosse medida a cada hora, junto com a ordem expressa de ser chamado caso ela subisse acima do normal.

Depois de terminar a biópsia programada, Angela saiu do pequeno laboratório de patologia na suíte de cirurgia e foi para a sua sala. A manhã fora produtiva e agradável; conseguira evitar Wadley.

infelizmente sabia que teria de vê-lo em algum momento, e estava preocupada com o comportamento dele. Ainda que se considerasse uma pessoa otimista, tinha medo de que o problema com Wadley não se resolvesse espontaneamente.

Entrando na sala, percebeu de imediato que a porta de ligação com o escritório de Wadley estava aberta. O mais silenciosamente possível, foi até ela e começou a fechá-la.

- Angela! - gritou Wadley, fazendo-a encolher-se. Não percebera o quanto estava tensa. - Venha aqui. Quero mostrar uma coisa fascinante.

Angela suspirou e abriu relutantemente a porta. Wadley estava sentado diante de seu microscópio comum, não o de ensino.

- Venha - gritou ele de novo. Acenou para Angela e deu um tapinha no microscópio. - Dê uma espiada nesta lâmina.

Cautelosamente, Angela avançou pela sala, hesitando a alguns passos de distância. Sentindo sua relutância, Wadley empurrou a cadeira para trás, afastando-se da mesa. Angela parou junto ao microscópio e curvou-se para ajustar as oculares.

Antes que ela pudesse olhar, Wadley curvou-se para a frente e agarrou-a pela cintura. Puxou-a para o colo e travou os braços ao seu redor, gritando:

- Peguei você!

Angela soltou um guincho e lutou para se soltar. A impetuosidade inesperada do contato chocou-a.

Ela estava preocupada com a possibilidade de ele tocá-la sutilmente, e não com violência.

- Me solte! - exigiu irritada, tentando soltar os dedos dele e libertar-se do aperto.

- Não antes de você me deixar contar uma coisa - disse Wadley, rindo.

Angela parou de lutar. Tinha os olhos fechados. Estava tão humilhada quanto furiosa.

- Assim está melhor - disse Wadley.-Tenho boas notícias. A viagem está arranjada. Já consegui até as passagens. Vamos para o congresso de patologia em Miami, em novembro.

Angela abriu os olhos.

- Maravilhoso - falou com o máximo sarcasmo que conseguiu juntar. - Agora me solte!

Wadley liberou-a e Angela pulou do seu colo. Mas assim que ela se levantou, ele conseguiu agarrá-la pelo pulso.

- Vai ser fantástico - disse ele.-O tempo vai estar perfeito.! É a melhor época do ano em Miami. Vamos ficar na praia. Consegui quartos no Fontainebleau.

- Me solte! - exigiu Angela, com os dentes trincados.

- Ei! - Wadley inclinou-se para a frente e olhou-a - Está zangada? Desculpe se a assustei. Só queria fazer uma surpresa. - Em seguida soltou sua mão.

Angela estava fora de si, tamanha a sua raiva. Mordeu o lábio para evitar uma explosão e voltou depressa para a sua sala. Sentindo-se mortificada e aviltada, bateu a porta de ligação.

Em seguida esfregou o rosto com as duas mãos, tentando recuperar algum controle. Estava tremendo com a adrenalina que percorria seu corpo. Levou alguns minutos para se acalmar, para sua respiração voltar ao normal. Assim que conseguiu, pegou o casaco e saiu irritada da sala. Pelo menos o ataque idiota e inadequado de Wadley finalmente a pusera em ação.

Evitando o máximo possível a chuva que caía, saiu correndo do prédio principal do hospital para o Imaging Center. Assim que chegou sob a marquise, passou a andar rapidamente. Ao entrar, foi direto para a sala de Cantor.

Não tendo marcado o encontro antes, teve de esperar quase meia hora antes que o Doutor Delbert Cantor pudesse recebê-la. Enquanto esperava, acalmou-se consideravelmente e até mesmo começou a considerar se não teria alguma culpa pelo comportamento de Wadley. Perguntou-se se não poderia ter previsto, se não foi ingênua demais.

- Entre, entre - disse Cantor em tom agradável. Finalmente pôde recebê-la. Ele havia se levantado de sua escrivaninha desarrumada e viera buscá-la na porta. Precisou remover uma pilha de jornais de radiologia, ainda não abertos, para que ela pudesse se sentar, e ofereceu um refresco. Angela recusou educadamente. Ele sentou-se, cruzou as pernas e os braços e perguntou o que poderia fazer por ela.

Agora que estava cara a cara com o chefe do pessoal médico, Angela não se sentia encorajada. Todas as suas dúvidas com relação ao sujeito e à sua atitude para com as mulheres voltaram em torrente. O rosto dele assumira um meio riso, como se já houvesse decidido que o que quer que estivesse em sua mente feminina era de pouca importância.

- Para mim não é fácil - começou Angela. - De modo que, por favor, seja paciente comigo. Foi difícil vir aqui, mas não sei o que fazer.

Cantor encorajou-a a prosseguir.

- Vim porque estou sendo assediada sexualmente pelo Doutor Wadley.

Cantor descruzou as pernas e curvou-se para a frente. Angela sentiu-se encorajada por ele ao menos se mostrar interessado, mas em seguida percebeu que o meio riso permanecera.

- Há quanto tempo isso vem acontecendo? - perguntou Cantor.

- Provavelmente desde que cheguei - disse Angela, pretendendo elaborar a idéia, mas Cantor interrompeu-a.

- Provavelmente? - perguntou ele, com as sobrancelhas erguidas. - Quer dizer que não tem certeza?

- A princípio não era uma coisa aparente. Achei que ele estivesse agindo como um mentor especialmente entusiasmado, quase um pai. - Em seguida, ela passou a descrever o que acontecera desde o início; como a coisa começara parecendo um problema de limites. - Ele sempre se aproveitou de oportunidades para estar perto de mim e me tocar de um modo que parecesse inocente. Também insistia em me contar problemas familiares, coisa que eu achava inadequada.

- Esse comportamento que você está descrevendo pode estar dentro de uma estrutura de amizade e do papel de mentor.

- Concordo. Por isso não fiz nada. O problema é que a coisa foi adiante.

- Você quer dizer que mudou?

- Definitivamente. Há pouco tempo. - Em seguida, ela descreveu o incidente da mão na coxa, parecendo estranhamente embaraçada enquanto o fazia. Mencionou a mão passando nas suas nádegas e o súbito uso da palavra doçura.

- Pessoalmente não vejo nada de errado com a palavra doçura - disse Cantor. – Costumo usá-la o tempo todo com as garotas ali do Imaging Center.

Angela só pôde ficar olhando para o sujeito, enquanto imaginava o que as mulheres do Imaging Center pensavam do seu comportamento. Sem dúvida estava no lugar errado. Não poderia esperar uma audiência justa por parte de um médico cujas visões sobre as mulheres eram provavelmente mais arcaicas do que as de Wadley. Mesmo assim, achou que deveria terminar o que começara e descreveu o incidente mais recente: Wadley colocando-a no seu colo para anunciar a viagem a Miami.

- Não sei o que dizer sobre tudo isso - disse Cantor assim que ela terminou.-O Doutor Wadley deu a entender que o seu trabalho depende de favores sexuais?

Angela gemeu por dentro, achando que a compreensão que Cantor tinha sobre o assédio sexual estava limitada às circunstâncias mais explícitas.

- Não. O Doutor Wadley nunca deu a entender nada do tipo. acho muito perturbadora essa familiaridade não-desejada. Isso além dos limites da amizade num relacionamento profissional, mesmo do respeito mútuo. Torna o trabalho muito difícil.

- Talvez você esteja reagindo exageradamente. Wadley é um sujeito expansivo. Você mesma disse que ele é entusiasmado. Ao ver a expressão no rosto de Angela, Cantor acrescentou: Bom, é uma possibilidade.

Angela levantou-se. Forçou-se a agradecer-lhe pelo tempo despendido.

- Por nada - disse Cantor enquanto também se levantava. - Mantenha-me informado, jovem senhora. Enquanto isso, prometo que vou falar com o Doutor Wadley assim que tiver uma oportunidade.

Angela assentiu e caminhou para fora do escritório. Enquanto voltava à sua sala, não conseguiu evitar o pensamento de que ter procurado Cantor não iria ajudar em nada. No mínimo, tornara a situação ainda pior.

Durante toda a tarde, David correu para ver John Tarlow sempre que havia uma oportunidade.

Infelizmente, John não melhorou, Mas também não piorou, já que David se certificara de que a aplicação de soro compensasse a perda de líquido com os vómitos e a diarreia. Enquanto entrava no quarto dele, no fim da tarde, para a última visita do dia, tinha a esperança de pelo menos ver a condição mental de John melhorada. Mas isso não aconteceu. John estava tão apático quanto de manhã, talvez até um pouco mais. Pressionado, ainda conseguia dizer seu nome, e sabia que estava no hospital, mas não tinha a menor idéia do mês do ano.

De volta ao posto de enfermagem, David examinou os resultados que tinham chegado do laboratório, e a maioria estava normal. A contagem sangüínea mostrara um certo decréscimo no número de células brancas, mas, com a história de leucemia de John, David não tinha como interpretar essa queda. A cultura de fezes preliminar era negativa para bactérias patológicas.

- Por favor, me liguem se a temperatura do Senhor Tarlow subir ou se seus sintomas gastrointestinais piorarem - pediu às enfermeiras antes de sair do posto.

David e Angela se encontraram na portaria do hospital. Juntos correram até o carro. O tempo estava ficando pior. Não somente continuava chovendo, como tinha ficado muito mais frio.

No caminho de casa, Angela contou a David sobre o último incidente com Wadley e a reação de Cantor à sua reclamação.

David sacudiu a cabeça.

- Do Wadley eu nem quero saber. Ele é um imbecil. Mas esperava mais do Cantor. Especialmente em sua posição de chefe do pessoal médico. Mesmo sendo insensível, é de se esperar que tenha consciência da lei e da responsabilidade do hospital. Você acha que ele passou a última década dormindo e não ouviu falar das decisões legais relativas a assédio sexual?

Angela encolheu os ombros.

- Não quero mais pensar nisso. Como foi o seu dia? Continua pensando na morte de Marjorie?

- Nem tive tempo. Estou com John Tarlow no hospital, e ele está me deixando apavorado.

- O que há?

- O problema é exatamente esse: não sei. É isso que me apavora. Ele está ficando apático, bem parecido com o modo como Marjorie ficou. Está com várias disfunções gastrointestinais. Foi o que o trouxe para o hospital, e vem piorando. Não sei o que está acontecendo, mas meu sexto sentido está tocando todas as campainhas de alarme. Só que não sei o que fazer. Por enquanto só estou tratando dos sintomas.

- É o tipo de história que me deixa satisfeita por ter feito patologia.

Em seguida, David contou a Angela sobre sua visita a Werner Van Slyke.

- O cara foi mais do que grosseiro. Mal me deu atenção. Dá uma idéia da posição dos médicos no novo ambiente hospitalar. Agora o médico é só outro empregado, apenas trabalhando num departamento diferente.

- Fica difícil defender o paciente quando até o departamento de manutenção não faz sua parte.

- É exatamente o que eu acho - disse David.

Quando os dois chegaram em casa, Nikki ficou feliz por vê-los. Passara a maior parte do dia entediada, até que Arni parou em sua casa para contar sobre quem iria dar aulas para eles.

- É um homem - disse Arni a David. - E bem durão.

- Espero que seja um bom professor - disse David e sentiu outra pontada de culpa pelo falecimento de Marjorie.

Enquanto Angela começava a preparar a comida, David levou Arni para casa. Quando David voltou, Nikki foi recebê-lo na porta reclamando.

- Está frio na sala íntima.

David foi até a sala e bateu no aquecedor. Estava quentíssimo. Foi até as portas envidraçadas que levavam ao terraço e certificou-se de que estavam fechadas.

- Onde foi que você sentiu frio? - perguntou.

- Sentada no sofá - disse Nikki. - Venha experimentar. David acompanhou a filha e sentou- se ao seu lado. Imediatamente pôde sentir uma corrente fria na nuca.

- Você está certa - disse ele e verificou as janelas por trás do sofá. - Acho que descobri o que é. - Precisamos colocar janelas de tempestade.

- O que é janela de tempestade?

David lançou-se a uma explicação sobre perda de calor, correntes de convexão, isolamento e janelas de material térmico.

- Você a está confundindo - gritou Angela da cozinha. - Ela só perguntou o que é uma janela de tempestade. Por que não mostra uma?

- Boa idéia - disse David. - Venha. Aproveitamos para pegar lenha.

- Não gosto de vir aqui embaixo - disse Nikki enquanto os dois desciam ao porão.

- Porquê?

- Dá medo.

- Ora, não seja como a sua mãe - zombou David.-Já basta uma mulher histérica na casa.

Havia uma pilha de janelas de tempestade encostadas atrás da escada de granito. David afastou uma delas para que Nikki pudesse ver.

- Parece uma janela comum - disse ela.

- Mas não abre. Ela prende o ar entre esse vidro e o da janela que já existe. O ar serve como isolamento.

Enquanto Nikki inspecionava a janela, David percebeu uma coisa pela primeira vez.

- O que é, papai? - perguntou Nikki, notando que o pai estava distraído.

- Uma coisa que eu nunca tinha percebido antes. - David estendeu a mão e passou pela parede que formava a parte de trás da escada. - São blocos de concreto.

- O que são blocos de concreto?

Preocupado com a descoberta, David ignorou a pergunta de Nikki.

- Vamos afastar as janelas de tempestade. - David levantou a janela que estava segurando e levou-a para a parede do alicerce. Nikki levantou a que estava atrás.

- Essa parede é diferente do resto do porão - disse David depois que a última janela fora removida.-E não parece ser muito antiga. Fico imaginando por que ela está aqui.

- Do que você está falando? - perguntou Nikki.

David mostrou que os degraus eram feitos de granito. Em seguida levou-a para trás da escada e mostrou os blocos. Expliccou que eles deviam estar encobrindo algum tipo de depósito triangular.

- E o que tem nele? David encolheu os ombros.

- Não faço idéia.-Em seguida disse: - Por que não damos uma espiada? Talvez seja um tesouro.

- Verdade?

David pegou a marreta que era usada junto com uma cunha para rachar lenha e trouxe-a para a base da escada.

Exato na hora em que David levantava a marreta, Angela gritou perguntando que travessura eles estavam fazendo. David baixou a marreta e encostou um dedo nos lábios. Em seguida gritou, dizendo que dentro de um minuto subiriam com a lenha.

- Vou estar lá em cima, tomando um banho - gritou Angela - Depois disso vamos jantar.

- Certo - gritou David de volta. Em seguida, disse Nikki: - Ela pode não gostar de saber que a gente arrebentou um pedaço da casa.

Nikki deu um risinho.

David esperou um tempo suficiente para que Angela chegasse ao segundo andar, antes de pegar de novo a marreta. Depois de dizer para Nikki proteger os olhos, arrebentou um pedaço de um bloco perto do alto da parede, criando um pequeno buraco.

- Corra lá em cima e pegue uma lanterna - disse David. O cheiro de mofo saiu do espaço fechado.

Quando Nikki saiu, David usou a marreta para aumentar o buraco. Com um golpe final, um bloco inteiro se soltou e David arrancou-o da parede. Nesse momento, Nikki estava de volta com a lanterna. David pegou-a e olhou para dentro do espaço.

Seu coração pulou dentro do peito. Ele retirou a cabeça dentro do buraco tão depressa que arranhou a nuca na aresta de um bloco.

- O que você viu? - perguntou Nikki, não gostando da expressão no rosto do pai.

- Não é um tesouro. Acho que é melhor você chamar sua mãe. Enquanto Nikki estava longe, David alargou mais ainda o buraco. No momento em que Angela desceu a escada vestida com seu roupão de banho, David tinha desmantelado uma fila inteira de blocos de concreto.

- O que está acontecendo? - perguntou ela. - Você assustou Nikki.

- Dê uma olhadinha. - David entregou-lhe a lanterna e fez um gesto para que ela se aproximasse.

- É melhor não ser uma piada.

- Não é.

- Meu Deus! - A voz de Angela ecoou no pequeno espaço fechado.

- O que é? - perguntou Nikki. - Também quero ver. Angela retirou a cabeça do buraco e olhou para David.

- É um corpo. E obviamente está aí há algum tempo.

- Uma pessoa?-perguntou Nikki, incrédula. - Posso ver? Angela e David quase gritaram:

- Não!

Nikki começou a protestar, mas sua voz não tinha convicção.

- Vamos subir e acender a lareira-disse David. Em seguida, levou Nikki até a pilha de lenha e entregou-lhe um pedaço de madeira. Depois pegou um feixe e começou a levar para cima.

Enquanto Angela ligava para a polícia, David e Nikki acenderam o fogo. Nikki estava cheia de perguntas que David não podia responder.

Meia hora depois, o carro da polícia parava junto à casa dos Wilsons.

Dois policiais tinham atendido ao chamado de Angela.

- Meu nome é Wayne Robertson - disse o mais baixo dos dois. Estava vestido à paisana, com um casaco de sarja de algodão sobre uma camisa de flanela xadrez. Na cabeça trazia um boné de beisebol dos Red Sox. - Sou o chefe de polícia, e este é um dos meus auxiliares, Sherwin Morris.

Sherwin tocou a aba do chapéu. Alto e magro, estava vestido de uniforme. Carregava uma lanterna comprida, do tipo que usa quatro pilhas.

- O policial Morris parou para me pegar depois que a senhora telefonou – explicou Robertson. - Eu não estava de serviço, mas isso parecia importante.

Angela assentiu.

- Aprecio que o senhor tenha vindo.

Angela e David indicaram o caminho. Somente Nikki ficou em cima. Robertson pegou a lanterna com Morris e enfiou a cabeça no buraco.

- Cacete! É o velhote. Robertson encarou os Wilsons.

- Sinto muito isso ter acontecido com vocês. Mas reconheço a vítima, a despeito de ele estar com a aparência pior, depois de tanto tempo. Seu nome é Dennis Hodges. Na verdade, esta casa era dele, como vocês provavelmente sabem.

Os olhos de Angela encontraram os de David, e ele estremeceu. Sua nuca ficou arrepiada.

- Temos de derrubar o resto da parede para poder remover o corpo – prosseguiu Robertson. - Vocês têm alguma restrição quanto a isso?

David disse que não.

- Não é preciso chamar um perito médico? - perguntou Angela. Com seu interesse em medicina legal, sabia que era normal chamar um perito médico em qualquer caso de morte suspeita. Era um caso assim.

Robertson olhou Angela durante alguns instantes, tentando pensar em algo para dizer. Não gostava que ninguém dissesse como fazer seu trabalho, especialmente uma mulher. O único problema é que Angela estava certa. E agora que fora lembrado, não poderia ignorar isso.

- Onde fica o telefone? - perguntou.

- Na cozinha - disse Angela.

Nikki teve de ser arrancada do telefone. Estivera ligando para Caroline e Arni, com a notícia empolgante sobre o encontro de um cadáver no porão.

Assim que o perito médico foi chamado, Robertson e seu colega passaram a remover a parede de blocos de concreto.

David trouxe uma extensão elétrica e uma lâmpada para ajudá-los no trabalho. O acréscimo na iluminação também permitiu uma visão melhor do corpo. Apesar de estar bem preservado, havia alguma esqueletização na parte inferior do rosto. Parte dos maxilares e a maioria dos dentes estavam ostentosamente expostas. A parte superior do rosto parecia surpreendentemente intacta. Os olhos estavam arregalados, de um modo assustador. No centro da testa, junto à raiz dos cabelos, havia uma área afundada, coberta por musgo verde.

- Aquelas coisas no canto parecem sacos de cimento vazios -disse Robertson, que usava o facho da lanterna como apontador. -E ali está a colher de pedreiro. Droga, ele está com tudo aí dentro. Talvez tenha sido suicídio.

David e Angela se entreolharam com o mesmo pensamento: ou Robertson era o pior detetive do mundo ou um devoto do humor negro.

- O que serão esses papéis?-perguntou Robertson, dirigindo a luz para várias folhas espalhadas no fundo do túmulo improvisado.

- Parecem cópias xerox - disse David.

- Olha só - disse Robertson apontando para uma ferramenta parcialmente escondida sob o corpo. Parecia uma alavanca chata.

- O que é? - perguntou David.

- Um pé-de-cabra - disse Robertson. - Uma ferramenta de uso geral, utilizada principalmente em demolição.

Nikki gritou lá de cima, dizendo que o perito médico havia chegado. Angela subiu para recebê-lo.

O Senhor Tracy Cornish era um sujeito magro, de altura mediana, com óculos de aro metálico. Carregava uma maleta de médico antiga, de couro. Angela se apresentou e disse que era patologista no Hospital Comunitário de Bartlet. Perguntou se o Doutor Cornish tinha formação como legista. Ele admitiu que não, e explicou que tinha o cargo de perito médico do distrito como complementação ao serviço no seu consultório.

- Mas venho fazendo isso há um bocado de anos - falou.

- Só perguntei porque tenho interesse em medicina legal - disse Angela. Ela não pretendia embaraçar o sujeito.

Angela levou o Doutor Cornish até o túmulo. Ele ficou de pé, olhando a cena por alguns minutos.

- Interessante - disse por fim. - O corpo está particularmente bem preservado. Há quanto tempo ele havia desaparecido?

- Cerca de oito meses - disse Robertson.

- Isso mostra o que faz um lugar frio e seco - disse o DOUTOR Cornish.-Esse túmulo parece um depósito de alimentos. Está seco mesmo com toda essa chuva.

- Por que os ossos estão aparecendo na mandíbula? - perguntou David.

- Roedores, provavelmente - respondeu o Doutor Cornish enquanto se curvava e abria a maleta.

David estremeceu. Sua boca ficou seca com o pensamento de roedores comendo o cadáver. Olhando para Angela, percebeu que ela estava recebendo essa informação ao pé da letra, fascinada pelos procedimentos.

A primeira coisa que o Doutor Cornish fez foi tirar várias fotografias, inclusive em doses detalhadas. Em seguida, colocou luvas de borracha e começou a retirar os objetos do túmulo, colocando em sacos plásticos destinados a evidências. Quando chegou aos papéis, todos se juntaram para olhar. O Doutor Cornish certificou-se que ninguém os tocasse.

- São partes de registros médicos do Hospital Comunitário de Bartlet - disse David.

- Aposto que essas manchas são sangue - disse o Doutor Cornish, apontando para grandes áreas marrons nos papéis. Colocou todos os papéis num saco plástico, lacrou-o e etiquetou.

Quando todos os objetos tinham sido retirados, o Doutor Cornis voltou sua atenção para o corpo. A primeira coisa que fez foi procurar nos bolsos. Imediatamente encontrou a carteira com dinheiro dentro. Também havia vários cartões de crédito em nome de Dennis Hodges.

- Bom, não foi assalto - disse Robertson.

Em seguida o Doutor Cornish removeu o relógio de Hodges, que ainda funcionava. A hora estava certa.

- Um fabricante de baterias deveria usar isso num daqueles comerciais idiotas - sugeriu Robertson.

Morris gargalhou, até que ninguém mais estava rindo.

Então o Doutor Cornish tirou de sua bolsa a tiracolo um saco para o corpo e pediu que Morris o ajudasse a colocar Hodges dentro.

- Que tal colocar sacos nas mãos dele? - sugeriu Angela. O Doutor Cornish pensou durante um instante e em seguida assentiu.

- Boa idéia.

Depois pegou sacos de papel em sua bolsa e enfiou neles as mãos de Hodges. Feito isso, ele e Morris colocaram o corpo no saco e fecharam o zíper.

Quinze minutos depois, os Wilsons viram o carro de polícia e o furgão do perito fazendo a curva da entrada e desaparecendo na noite.

- Todo mundo com fome? - perguntou Angela. Nikki e David grunhiram.

- Eu também não - admitiu Angela. - Que noite! Foram todos até a sala íntima, onde David avivou o fogo e colocou mais lenha. Nikki virou-se para a televisão. Angela sentou-se para ler.

Às oito horas, os três decidiram que poderiam comer alguma coisa, afinal de contas. Ângela requentou o jantar que tinha feito, enquanto David e Nikki colocavam a mesa.

- Toda família tem um esqueleto no armário - disse David quando estavam pelo meio da refeição. - O nosso simplesmente estava no porão.

- Não acho isso muito engraçado - disse Angela.

Nikki disse que não tinha entendido, e Angela teve de explicar o sentido figurado. Depois de entender, Nikki também não achou engraçado.

David não gostou da descoberta horripilante no porão. Estava particularmente preocupado com o efeito potencial sobre Nikki. Esperava que colocar um pouco de humor na situação poderia aliviar o clima tenso. Mas mesmo ele teve de admitir que a piada era de mau gosto.

Depois do tratamento respiratório de Nikki, foram todos para a cama. Ainda que não servisse como antídoto, dormir parecia a melhor alternativa. Nikki e David estavam com sono, mas Angela não, e enquanto deitava na cama tornou-se tremendamente cônscia de todos os sons que a casa fazia. Nunca tinha percebido o quanto ela era barulhenta, particularmente numa noite com vento e chuva. No fundo do porão, ouvia o aquecedor a óleo funcionando. Havia até mesmo um zumbido intermitente, muito grave, vindo da entrada do aquecimento para o quarto principal.

Uma súbita série de batidas fez com que Angela pulasse, sentando ereta.

- O que foi isso? - sussurrou nervosa e deu uma sacudida em David.

- O que foi o quê?-perguntou David, ainda meio dormindo. Angela disse para ele ouvir. As batidas aconteceram de novo.

- Essas batidas.

- São as venezianas batendo contra a casa. Pelo amor de Deus, acalme-se.

Angela se recostou no travesseiro, mas tinha os olhos arregalados. Estava com menos sono ainda do que quando viera para cama.

- Não gosto do que vem acontecendo por aqui - falou.

David gemeu.

- Verdade - disse Angela. - Não consigo acreditar que tanta coisa tenha mudado em tão poucos dias. Eu estava com medo de que isso acontecesse.

- Está falando especificamente sobre encontrar o corpo Hodges?

- Estou falando de tudo. A mudança no tempo, Wadley me assediando, a morte de Marjorie, Kelley pressionando você, e agora um cadáver no porão.

- Só estamos sendo eficientes - disse David. - Estamos tirando de uma vez todas as coisas ruins do caminho.

- Estou falando sério e...- começou a dizer Angela, mas foi interrompida por um grito de Nikki.

Num átimo, David e Angela estavam fora da cama e disparando pelo corredor central. Entraram no quarto de Nikki. Ela estava sentada na cama, com um olhar perplexo. Ferrugem estava ao lado igualmente confuso.

Fora um pesadelo sobre um fantasma no porão. Angela sentou-se de um lado da cama e David, do outro. Juntos consolaram a filha mesmo não sabendo muito bem o que dizer. O problema é que o pesadelo de Nikki fora uma mistura de sonho e realidade.

David e Angela fizeram o máximo para confortar Nikki. No final, chamaram-na para dormir na cama deles. Nikki concordou e todos voltaram para o quarto principal. Depois de subir na cama eles se acomodaram. Infelizmente, David terminou dormindo na beiradinha, porque convidar Nikki significava convidar Ferrugem também.

 

QUINTA-FEIRA, 21 DE OUTUBRO

O TEMPO NÃO ESTAVA muito melhor na manhã seguinte. A chuva tinha parado, mas baixara um nevoeiro tão denso que era como se estivesse chovendo. Não havia qualquer brecha na pesada cobertura de nuvens e parecia ainda mais frio do que na véspera.

Enquanto Nikki fazia a drenagem postural, o telefone toccou. David atendeu. Considerando a hora da manhã, estava com receio de que a chamada tivesse a ver com John Tarlow. Mas não tinha. Era do escritório do promotor público requisitando permissão para mandar um assistente examinar a cena do crime.

- Quando? - perguntou David.

- Agora seria muito inconveniente? Temos uma pessoa nas imediações.

- Nós estaremos aqui por mais uma hora, mais ou menos.

- Perfeito.

Cumprindo a palavra, uma assistente do promotor público chegou em quinze minutos. Era uma mulher agradável, com cabelos vermelho-fogo. Estava vestida de modo conservador, com um conjunto azul-escuro.

- Desculpe incomodá-los tão cedo - disse a mulher e se apresentou como Elaine Sullivan.

- Tudo bem - disse David segurando a porta aberta.

David levou-a até o porão e acendeu a lâmpada ligada à extensão, para iluminar a tumba vazia. A mulher pegou uma máquina fotográfica e tirou algumas fotos. Em seguida se curvou e passou uma unha no chão do túmulo. Angela desceu a escada e olhou por cima do ombro de David.

- Soube que a polícia municipal esteve aqui ontem à noite - disse Elaine.

- A polícia municipal e o perito médico do distrito - informou David.

- Acho que vou recomendar que sejam chamados os investigadores da polícia estadual, especializados em cenas de crime. Espero que isso não seja um incômodo.

- Acho a idéia boa - disse Angela.-Não creio que a polícia municipal esteja acostumada com investigações de homicídio.

Elaine assentiu, diplomaticamente evitando comentários.

- Temos de ficar aqui quando chegar o pessoal da polícia estadual? - perguntou David.

- Isso é com vocês. Algum investigador pode querer falar com vocês em algum momento. Quanto ao pessoal da cena do crime, porém, eles podem simplesmente aparecer e fazer o serviço.

- Eles virão hoje? - perguntou Angela.

- Virão o mais breve possível. Provavelmente esta manhã.

- Vou dar um jeito para Alice estar aqui - disse Angela.

David assentiu.

Pouco depois da saída da assistente do promotor, os Wilsons também se retiraram. Seria o primeiro dia de Nikki na escola, depois de ter ficado no hospital. Ela estava fora de si, de tanta excitação, e tinha trocado de roupa duas vezes.

Enquanto os pais a levavam até a escola, Nikki não conseguia falar de outra coisa a não ser do cadáver. Quando a deixaram, Angela sugeriu que ela evitasse comentar o incidente, mas sabia que o pedido era inútil: Nikki já tinha contado a Caroline e Arni, e sem dúvida eles já tinham passado a história adiante.

David engrenou o carro e eles partiram para o hospital.

- Estou preocupado com a situação do meu paciente esta manhã - disse ele. - Mesmo não tendo recebido nenhum telefonema.

- E eu estou preocupada em como enfrentar Wadley. Não sei se Cantor falou ou não com ele, mas, de qualquer modo, não vai ser agradável.

Com um beijo de boa sorte, David e Angela se separaram para os respectivos trabalhos.

David foi direto checar John Tarlow. Ao entrar no quarto, percebeu imediatamente que a respiração dele estava dificultosa. Não era bom sinal. David pegou o estetoscópio e deu uma sacudida no ombro de John. Queria que ele se sentasse. John mal reagiu.

O pânico tomou conta de David. Era como se seus piores medos se realizassem.

Rapidamente examinou o enfermo e logo descobriu que John estava desenvolvendo uma pneumonia geral.

David saiu do quarto e correu até o posto de enfermagem, gritando ordens para que John fosse transferido imediatamente para a UTI. As enfermeiras estavam no meio da passagem de plantão.!

- Não pode esperar até a gente terminar a reunião? - perguntou Janet Colburn.

- Não, droga! Quero que o levem imediatamente. E gostaria de saber por que não me chamaram. O Senhor Tarlow desenvolveu pneumonia bilateral.

- Ele estava dormindo confortavelmente na última vez que medi sua temperatura - disse a enfermeira da noite. - Nós deveríamos chamá-lo caso a temperatura dele subisse ou se os sintomas gastrointestinais piorassem. Nenhuma das duas coisas aconteceu.

David pegou o prontuário e abriu-o para ver o gráfico da temperatura. Tinha subido um pouquinho, mas não como ele esperaria depois de ter auscultado o sujeito.

- Vamos levá-lo para a UTI. E quero contagem sangüínea e uma chapa de pulmão.

Com eficiência elogiável, John Tarlow foi transferido para UTI, e logo David começou a olhar os resultados dos exames. A contagem de células brancas, que tinha estado baixa, descera Ainda mais, indicando que o sistema estava assolado pela pneumonia que se desenvolvera. Era o tipo de falta de resposta que se pode esperar de um paciente sob quimioterapia, mas David sabia que John não fazia quimioterapia há meses. Pior de tudo era a radiografia dos pulmões: confirmava uma extensa pneumonia bilateral.

Ajunta médica chegou logo, para examinar o paciente e verificar o prontuário. Ao terminar, afastaram-se da cama. O Doutor Mieslich confirmou que John não fazia nenhuma quimioterapia há bastante tempo.

- Como você explicaria a baixa contagem de células brancas? - perguntou David.

- Não sei dizer. Suponho que esteja relacionada à sua pneumonia. Precisamos de uma amostra de medula para descobrir, mas não recomendo agora, dada a infecção que ele está desenvolvendo. Além do mais, é uma questão acadêmica. Temo que ele esteja moribundo.

Era a última coisa que David desejava ouvir, mesmo tendo começado a esperá-la. Não conseguia acreditar que estava para perder outro paciente em sua breve carreira no Bartlet.

Virou-se para o Doutor Hasselbaum.

O Doutor Hasselbaum foi igualmente insensível e pessimista. Achava que John tinha desenvolvido uma pneumonia maciça com um tipo de bactéria particularmente letal e que, secundariamente, estava sofrendo um choque. Alertou para o fato de a pressão sangüínea de John estar baixa e os rins, funcionando mal.

- Não parece bem. O Senhor Tarlow parece ter defesas fisiológicas muito fracas, indubitavelmente devido à leucemia. Se o tratarmos, teremos de fazê-lo maciçamente. Eu tenho acesso a alguns agentes experimentais criados para ajudar a combater esse tipo de choque de endotoxina. O que você acha?

- Vamos fazer isso - disse David.

- Essas drogas são caras - disse o Doutor Hasselbaum.

- A vida de um homem está na balança.

Uma hora e quinze minutos depois, quando o tratamento fora iniciado e não havia mais nada a fazer, David correu para o consultório. Outra vez, todos os lugares da sala de espera estavam ocupados. Alguns pacientes se encontravam de pé no corredor. Todos estavam chateados, até a recepcionista.

David respirou fundo e mergulhou em suas consultas. Nos intervalos entre os pacientes ligava para a UTI, perguntando sobre o estado de John. Todas as vezes lhe diziam que não havia qualquer mudança.

Além de seus pacientes marcados, várias semi-emergências fizeram aumentar a confusão.

Antes do sermão de Kelley, David teria mandado esses casos para a sala de emergência. Dois desses pacientes eram como velhos amigos: Mary Ann Schiller e Jonathan Eakins.

Apesar de estar meio desconfiado pelo modo como havia progredido o caso de Marjorie Kleber e, agora, o de John Tarlors, David sentiu-se compelido a hospitalizar Mary Ann e Jonathan.

Simplesmente não se sentiu confortável em tratá-los como pacientes ambulatoriais. Maryann apresentava um caso extremamente sério de sinusite e Jonathan estava com uma perturbadora arritimia cardíaca. Entregando-lhes guias de internação, David mandou-os para o hospital.

Duas outras pacientes em semi-emergência eram enfermeiras do turno da noite, do segundo andar.

David as havia encontrado várias vezes, quando fora chamado para emergências no hospital. As duas tinham a mesma reclamação: aparentemente síndromes gripais, consistindo em mal-estar geral, um pouco de febre e contagem de células brancas, além de problemas gastrointestinais, como cólicas, náuseas, vômitos e diarréia. Depois de examiná-las, David mandou-as para casa descansar e prescreveu uma terapia sintomática.

Quando teve um minuto de folga, perguntou à sua enfermeira Susan, se havia um surto de gripe no hospital.

- Que eu saiba, não - disse Susan.

O dia de Angela estava correndo melhor do que ela esperava. Não tivera nenhum entrevero com Wadley. Na verdade, nem mesmo o vira.

No meio da manhã, ligou para o chefe da perícia médica, Doutor Walter Dunsmore, depois de conseguir o seu número na lista de Burlington. Explicou que era patologista no Hospital Comunitário de Bartlet. Continuou falando sobre seu interesse no caso do DOUTOR Hodges. Acrescentou que chegara a pensar em fazer carreira em patologia legal.

Imediatamente o Doutor Dunsmore convidou-a para ir a Burlington um dia desses, visitar as instalações.

- Na verdade, por que não aparece e acompanha a autópsia de Hodges? Gostaria de tê-la aqui, mas devo avisar que, como a maioria dos patologistas legais, sou um professor frustrado.

- Para quando o senhor planeja a autópsia? - Angela achou que se pudesse ser adiada até o sábado, havia chance de ir.

- Está marcada para esta manhã, mas há alguma flexibilidade. Eu poderia fazê-la à tarde.

- É muito generoso de sua parte - disse Angela. - Infelizmente não sei o que meu chefe diria se eu saísse.

- Eu conheço Ben Wadley há anos - disse o Doutor Dunsmore. - Vou ligar para ele e resolver as coisas.

- Não tenho certeza se será uma boa idéia.

- Bobagem! Deixe por minha conta. Estou ansioso para conhecê-la.

Angela ia protestar mais, quando percebeu que o Doutor Dunsmore havia desligado. Colocou o fone no gancho. Não tinha idéia de qual seria a reação de Wadley ao telefonema de Dunsmore, mas imaginou que logo saberia.

Ficou sabendo antes do que esperava. Mal tinha desligado, o telefone tocou de novo.

- Estou preso aqui na sala de cirurgia - disse Wadley em tom gentil.-Acabo de receber um telefonema do chefe da perícia médica. Ele me disse que deseja que você vá assistir a uma autópsia.

- Eu acabei de falar com ele. Não tinha certeza de como o senhor reagiria.

Pela animação de Wadley, era óbvio que Cantor ainda não tinha conversado com ele.

- Acho uma ótima idéia - disse Wadley. - Minha opinião é que sempre que o perito pede um favor, nós fazemos. Não faz mal ficar do lado dele. Nunca se sabe quando vamos precisar de um favor em troca. Acho que você deve ir.

- Obrigada. Eu vou.

Angela desligou e fez uma chamada para David, para contar seus planos. Quando ele atendeu, sua voz parecia tensa e cansada.

- Você não parece bem - disse Angela. - O que há de errado?

- Não pergunte. Conto mais tarde. Agora estou atrasado de novo e os nativos estão inquietos.

Angela falou rapidamente sobre o convite do perito e disse que recebera permissão para ir.

David desejou que se divertisse e em seguida desligou.

Pegando o casaco, Angela saiu do hospital. Antes de partir para Burlington, foi em casa trocar de roupa. Enquanto se aproximava ficou surpresa ao ver um furgão da polícia estadual estacionado em frente. Sem dúvida, os investigadores da cena do crime ainda estavam ali.

Alice Doherty recebeu-a na porta, preocupada de que houvesse algo errado. Ângela tranqüilizou-a de imediato. Em seguida perguntou sobre o pessoal da polícia estadual.

- Foram todos para baixo. Estão lá há horas.

Angela desceu ao porão para falar com os técnicos. Havia três deles. Tinham bloqueado toda a área atrás da escada com fitas de isolamento e iluminado tudo com refletores. Um deles estava usando técnicas avançadas na tentativa de conseguir impressões digitais nas pedras. Outro remexia cuidadosamente a poeira do chão do túmulo. O terceiro usava um instrumento manual, chá luma-light, procurando fibras e marcas latentes. O único que se apresentou era o que trabalhava com impressões digitais. Seu nome era Quillan Reilly.

- Desculpe por estarmos demorando tanto - disse ele.

- Não tem importância.

Angela observou-os trabalhando. Não falavam muito, cada qual absorvido em sua tarefa. Ela estava para sair quando Quillan perguntou se o interior da casa fora repintado nos últimos meses.

- Acho que não - disse Angela. - Nós, certamente, pintamos.

- Bom - disse Quillan. - A senhora se importaria se voltássemos esta noite, para usar um pouco de luminol nas paredes lá em cima?

- O que é luminol?

- É uma substância química usada para encontrar marcas de sangue.

- A casa foi limpa - disse Angela, um tanto ofendida por eles pensarem que algum sangue ainda fosse detectável.

- Mesmo assim, vale a pena olhar - disse Quilllan.

- Bom, se o senhor acha que ajuda. Nós queremos cooperar.

- Obrigado, senhora.

- O que aconteceu com as evidências levadas pelo perito médico? Estão com a polícia local?

- Não, senhora. Estão conosco.

- Certo.

Dez minutos depois, Angela estava a caminho. Em Burlington, encontrou facilmente o escritório do perito médico.

- Estávamos esperando por você - disse o Doutor Dunsmore quando Angela foi levada ao seu escritório moderno e parcamente mobiliado. Ele fez com que ela se sentisse imediatamente à vontade. Até mesmo pediu para chamá-lo de Walt.

Dentro de minutos, Angela estava vestida com roupas cirúrgicas. Enquanto colocava máscara, gorro e óculos, sentiu uma onda de empolgação. Para ela, a sala de autópsia sempre fora uma arena de descobertas.

- Acho que você vai achar que somos muito profissionais aqui - disse Walt assim que eles se encontraram diante da sala de autópsias. - Antigamente, fora das grandes cidades se fazia o tipo de patologia legal que era vista como piada. Este não é mais o caso.

Dennis Hodges se encontrava sobre a mesa de autópsia. As radiografias tiradas já estavam presas à caixa de luz. Walt apresentou o assistente a Angela, explicando que Peter iria auxiliá-los.

Primeiro examinaram as radiografias. A fratura penetrante no topo da testa era certamente um ferimento mortal. Também havia uma fratura linear na nuca. Além disso, havia outras fraturas na clavícula esquerda, no cúbito direito e no rádio esquerdo.

- Não há dúvida de que foi homicídio - disse Walt. - Parece que o coitado do velho travou uma luta tremenda.

- O chefe de polícia local sugeriu suicídio - disse Angela.

- Ele só podia estar brincando.

- Na verdade, não sei. Ele não me impressionou, nem ao meu marido, pela sua capacidade investigativa. É possível que nunca tenha lidado com um homicídio.

- Provavelmente não. Outro problema é que algumas pessoas que cuidam da lei nesses lugares nunca tiveram uma formação muito boa.

Angela descreveu o pé-de-cabra que fora encontrado com corpo. Usando uma régua para determinar o tamanho da fratura penetrante, e depois examinando o próprio ferimento, determinaram que o pé-de-cabra poderia ter sido a arma do crime.

Em seguida voltaram suas atenções para as mãos ensacadas.

- Adorei quando vi os sacos de papel - disse Walt. – Há muito tempo venho tentando convencer meus peritos distritais de usá-los nesse tipo de caso.

Angela assentiu, secretamente satisfeita por ter sugerido isso ao Doutor Cornish na noite anterior.

Walt retirou cuidadosamente as mãos de Hodges de dentro dos sacos e usou uma lente para examinar sob as unhas.

- Há um pouco de material estranho sob algumas delas - disse Walt. Em seguida ele recuou para que Angela pudesse olhar.

- Alguma idéia do que seja?

- Teremos de esperar pelo microscópio - disse Walt, revendo cuidadosamente o material e colocando-o em frascos especiais. Cada um foi etiquetado de acordo com o dedo do qual vinha.

A autópsia propriamente dita ocorreu depressa; foi como se Angela e Walt fizessem parte de uma equipe antiga. Havia patologia suficiente para tornar as coisas interessantes e Walt, como prometera, gostava de seu papel didático. Hodges tinha uma arteriosclerose significativa, um pequeno câncer no pulmão e uma cirrose avançada do fígado.

- Acho que ele gostava de um uísque - disse Walt. Terminada a autópsia, Ângela agradeceu a Walt por sua hospitalidade e pediu para ser informada sobre o caso. Walt encorajara a ligar sempre que quisesse.

No caminho de volta ao hospital, Angela sentia-se melhorque há dias. Fazer a autópsia fora uma boa distração. Estava feliz por Wadley ter permitido que ela fosse.

Ao chegar no estacionamento, não conseguiu encontrar uma vaga na área reservada perto da entrada dos fundos. Teve de colocar o carro no final do estacionamento de cima. Sem guarda-chuva, ficou bastante molhada antes de conseguir entrar.

Foi direto à sua sala. Nem bem pendurara o casaco, quando a porta de ligação para a sala de Wadley foi aberta violentamente. Angela saltou. Wadley estava na passagem. Seu queixo quadrado estava tenso, os olhos estreitados, e seus cabelos brancos, em geral sempre bem penteados, se encontravam revoltos. Parecia furioso. Angela instintivamente deu um passo atrás e olhou para a porta que dava no corredor, pensando em fugir.

Wadley entrou na sala, indo direto até Angela e espremendo-a contra a mesa.

- Eu gostaria de uma explicação - rugiu ele. - Por que foi procurar Cantor, dentre todas as pessoas, com essa história absurda, essas acusações ridículas, doidas e sem base? Assédio sexual? Meu Deus, isso é absurdo.

Wadley parou, encarando Angela. Ela se encolheu, sem saber se deveria dizer alguma coisa. Não queria provocar o sujeito. Estava com medo de que ele lhe batesse.

- Por que não diz alguma coisa? - gritou Wadley.

Em seguida interrompeu seu ímpeto, subitamente percebendo que a porta para o corredor estava escancarada. Do lado de fora, os teclados das secretárias tinham emudecido. Wadley foi até a porta e bateu-a.

- Depois de todo o tempo e todo o esforço que empreguei com você, essa é a recompensa que obtenho - gritou.-Não creio que precise lembrar que você está em fase de experiência aqui. É melhor começar a andar na linha, caso contrário não receberá nenhuma recomendação minha.

Angela assentiu, sem saber o que fazer.

- Não vai dizer nada? - O rosto de Wadley estava a centímetros do de Angela. – Vai ficar aí, só balançando a cabeça?

- Sinto muito por termos chegado a este ponto - disse ela.

- É isso? - berrou Wadley. - Você mancha minha reputação com acusações sem fundamento e é só isso que consegue dizer? isso é calúnia, mulher, e vou lhe dizer uma coisa: eu poderia levá-la aos tribunais.

Tendo dito isso, Wadley girou nos calcanhares, entrou em sua sala e bateu a porta.

Angela soltou o ar dos pulmões enquanto lutava contra as lágrimas. Afundou na cadeira e sacudiu a cabeça. Era uma coisa injusta!

Susan enfiou a cabeça numa das salas de exame e disse a David que estavam ligando da UTI.

Temendo o pior, ele pegou o fone. A enfermeira da UTI disse que o Senhor Tarlow tivera uma parada cardíaca e que a equipe de ressuscitação estava trabalhando com ele.

David bateu o fone. Sentiu o coração saltar no peito e instantaneamente começou a suar frio.

Deixando a enfermeira e a recepcionista em estado de aflição, disparou para a UTI, mas já era tarde. Quando chegou, tudo estava terminado. O médico da sala de emergência, encarregado da equipe de ressuscitação, já tinha declarado John Tarlow como morto.

- É, não tinha jeito-disse o médico.-Os pulmões estavam cheios, os rins arruinados, e ele estava sem pressão sangüínea.

David assentiu, distraído. Olhou para o paciente, enquanto as enfermeiras da UTI desligavam o equipamento e o soro, para em seguida limpar a área. David foi até a bancada principal e sentou-se. Começou a imaginar se levava jeito para a medicina. Tinha problemas com essa parte do trabalho, e a repetição, longe de facilitar as coisas, tornava-as mais difíceis.

Os parentes de Tarlow chegaram e, como a família Kleber, foram compreensivos e gratos.

David aceitou as palavras gentis, sentindo-se um impostor. Não tinha feito nada por John. Nem mesmo sabia por que ele morrera. Sua história de leucemia não fora uma explicação real.

Mesmo sabendo da política do hospital, perguntou à família se poderiam autorizar uma autópsia. Por David, não havia problema em tentar. A família disse que iria pensar.

Deixando a área da UTI, David teve suficiente presença de espírito para checar Mary Ann Schiller e Jonathan Eakins. Queria certificar-se de que estivessem acomodados e com o tratamento iniciado. Queria particularmente ter certeza de que o cardiologista da CMV tinha visitado Eakins.

Infelizmente, descobriu algo que o fez parar. Mary Ann fora posta no quarto 206: o quarto que John Tarlow tinha deixado recentemente. Chegou a pensar em mandar removê-la, mas percebeu que estava sendo irracionalmente supersticioso. O que diria no departamento de internação? Que não queria nenhum paciente de novo no 206? Isso era ridículo.

David checou o soro de Mary Ann. Ela já estava recebendo o antibiótico. Depois de prometer que voltaria mais tarde, foi até o quarto de Jonathan. Ele também estava confortável e relaxado. Um monitor cardíaco fora instalado. Jonathan disse que o cardiologista viria logo.

Quando voltou ao seu consultório, Susan recebeu-o dizendo que Charles Kelley havia ligado.

- Ele quer vê-lo imediatamente. E enfatizou o imediatamente.

- Quantos pacientes estão esperando?

- Muitos - disse Susan. - Tente não demorar.

Com uma sensação de estar carregando o mundo nos ombros, David arrastou-se até o escritório da CMV. Não tinha certeza total do motivo para Charles Kelley querer vê-lo, mas podia adivinhar.

- Não sei o que fazer, David - disse Charles Kelley, assim que David chegou à sua sala, e sacudiu a cabeça.

David ficou maravilhado com a capacidade de interpretação do sujeito. Agora fazia o papel do amigo ferido.

- Tentei ser razoável com você, mas ou você é teimoso ou simplesmente não se importa com a CMV. Justamente um dia depois de eu falar sobre evitar consultas desnecessárias fora da CMV, você faz isso de novo com um paciente terminal. O que vou fazer com você? Compreende que os custos médicos têm de ser levados em conta? Você sabe que existe uma crise neste país?

David assentiu. Isso era verdade.

- Então por que isso é tão difícil? - Kelley começava a Parecer mais irado. - E não é somente a CMV que está chateada desta vez. É o hospital também. Helen Beaton me ligou há pouco, reclamando sobre as drogas caríssimas, de biotecnologia, que você prescreveu para esse paciente à beira da morte. É papo de heroísmo! O cara estava morrendo, até mesmo os outros médicos disseram isso. Ele tinha leucemia há anos. Compreende? É desperdício de dinheiro e de recursos.

Kelley tinha chegado a um tom febril. Seu rosto ficara vermelho. Mas então fez uma pausa e suspirou. Sacudiu a cabeça de novo, como se não soubesse o que fazer.

- Helen Beaton também reclamou que você requisitou autópsia - disse ele numa voz cansada. - As autópsias não fazem parte do contrato com a CMV, e você foi informado disso recentemente. Precisa ser razoável, David. Precisa me ajudar, ou... Kelley parou, deixando a frase incompleta no ar.

- Ou o quê? - David sabia o que Kelley estava sugerindo, mas queria que ele dissesse.

- Gosto de você, David. Mas preciso que me ajude. Tenho superiores a quem preciso prestar contas. Espero que você consiga compreender isso.

David sentiu-se mais deprimido do que nunca enquanto voltava para o consultório. A intrusão de Kelley o irritara, embora, de certo modo, ele tivesse razão. Dinheiro e recursos não deveriam ser jogados fora com pacientes terminais, quando poderiam ser bem gastos em outro lugar. Mas seria este o caso?

Mais confuso e desalentado do que nunca, abriu a porta do consultório. Foi confrontado por uma sala de espera cheia de pacientes infelizes, olhando irritados para os relógios e folheando revistas ruidosamente.

O jantar na casa dos Wilsons foi tenso. Ninguém falou. Estavam todos agitados. Era como se seu Shangri-la fosse assolado por uma tempestade.

Até Nikki tivera um mau dia. Estava chateada com o novo professor, Senhor Hart. As crianças já o tinham apelidado de Senhor Fú. Quando David e Angela chegaram em casa naquela tarde, descreveu-o como um velho cagão. Quando Angela censurou a linguagem, Nikki admitiu que a descrição fora feita por Arni.

O maior problema com o novo professor era que ele não permitira a Nikki avaliar seu nível adequado de exercícios na aula de educação física e nem que ela fizesse drenagem postural. A falta de comunicação levara a um confronto que tinha deixado Nikki constrangida.

Depois do jantar, David disse que era tempo de se alegrarem. Numa tentativa de melhorar a atmosfera, ofereceu-se para acender a lareira. Mas quando desceu ao porão, sofreu o choque de ver fitas amarelas, de isolamento da cena do crime, ao redor da escada do porão. Isso trouxe de volta a imagem horrível do cadáver de Hodges.

Ele pegou a lenha depressa e subiu correndo a escada. Normalmente, não era supersticioso nem se amendrontava fácil, mas nos últimos tempos isso já não correspondia tanto à realidade.

Depois de acender o fogo, David começou a falar entusiasmado sobre o inverno próximo e sobre os esportes que eles praticariam: esquiar, patinar e andar de trenó. Justo quando Angela e Nikki entravam no espírito que ele imaginara, luzes de faróis atravessaram a parede da sala íntima. David foi até a janela.

- É um furgão da polícia estadual. O que será que eles querem?

- Eu tinha esquecido por completo - disse Angela, começando a se levantar. - Quando a perícia esteve aqui, perguntou se poderia vir à noite, para procurar manchas de sangue.

- Manchas de sangue? Hodges foi morto há oito meses.

- Eles disseram que valia a pena tentar.

Os técnicos eram os mesmos três que tinham estado ali de manhã. Angela ficou impressionada com o tamanho da jornada de trabalho deles.

- Nós viajamos um bocado pelo estado - disse Quillan. Angela apresentou Quillan a David.

Quilan parecia ser o encarregado.

- Como funciona esse teste? - perguntou David.

- O luminol reage com qualquer ferro residual do sangue - disse Quillan. - Quando isso acontece, ele fica fluorescente.

- Curioso - disse David, mas continuou cético.

Os técnicos estavam ansiosos para fazer o teste e partir, de modo que Angela e David ficaram fora de seu caminho. Eles começaram na saleta dos fundos, colocando uma câmera num tripé. Em seguida, acenderam todas as luzes.

Borrifaram luminol nas paredes, usando um frasco de sprayí parecido com os de limpa-vidros. O frasco fazia um leve chiado a cada borrifo.

- Aqui tem um pouco - disse Quillan na escuridão. David e Angela curvaram-se para dentro da sala. Na parede havia uma fluorescência leve, em pequenas marcas.

- Não é bastante para uma foto - disse um dos outros técnicos.

Eles circularam pela sala, mas não encontraram outras positivas. Em seguida levaram a máquina fotográfica para a cozinha. Quillan perguntou se as luzes da sala de jantar e do corredor poderiam ser apagadas. Os Wilsons concordaram prontamente.

Os técnicos continuaram com seu trabalho. David, Angela e Nikki esperavam junto à porta.

De repente, partes da parede perto da saleta dos fundos começaram a ficar fluorescentes.

- Está fraco, mas temos um bocado aqui - disse Quillan. Vou continuar borrifando e você abre o obturador da câmera.

- Meu Deus - sussurrou Angela. - Estão a descobrir manchas de sangue na minha cozinha toda!

Os Wilsons podiam ver vagas silhuetas dos homens e ouvi-los enquanto eles se moviam pela cozinha. Aproximaram-se da mesa que fora deixada por Clara Hodges, e que os Wilsons usavam quando comiam na cozinha. De súbito, as pernas da mesa começaram a luzir de um jeito fantasmagórico.

- Acho que é o lugar do crime - disse um dos técnicos. Aqui, perto da mesa.

Os Wilsons ouviram a câmera sendo deslocada, e em seguida o clique alto do obturador se abrindo, seguido por um chiado longo do frasco de spray. Quillan explicou que as manchas de sangue eram tão fracas que o luminol tinha de ser borrifado continuamente.

Depois que os investigadores saíram, os Wilsons voltaram a sala íntima ainda mais deprimidos do que estavam antes. Não houve mais conversas sobre esquiar ou andar de trenó na colina atrás do celeiro.

Angela sentou-se junto à lareira, de costas para o fogo, e ficou olhando David e Nikki, que tinham desmoronado no sofá. Com a família à sua frente, uma poderosa onda protetora varreu Angela. Ela não gostava do que tinha acabado de saber: sua cozinha tinha restos de sangue de um assassinato brutal. Aquele era o cómodo que, de muitas maneiras, ela via como o coração de seu lar, e que ela julgava ter limpado. Agora sabia que fora dessacralizado pela violência. Na mente de Angela, isso era uma ameaça direta à família. De súbito, ela rompeu o silêncio tristonho.

- Talvez devêssemos nos mudar.

- Espere um pouco - disse David. - Sei que você está chateada; todos estamos. Mas não vamos ficar histéricos.

- Eu não estou histérica - contra-atacou Angela.

- Sugerir que temos de nos mudar por causa de um acontecimento infeliz que nada tem a ver conosco, e que ocorreu há quase um ano, não é nem um pouco racional.

- Aconteceu nesta casa.

- Só que esta casa está hipotecada até o telhado. Temos uma primeira e uma segunda hipotecas. Não podemos simplesmente ir embora por causa de um problema emocional.

- Então eu quero trocar as fechaduras. Um assassino esteve aqui.

- A gente nem costuma trancar as portas! - disse David.

- De agora em diante vamos trancar, e quero as fechaduras trocadas.

- Certo - disse David. - Vamos trocar as fechaduras.

Traynor estava num clima péssimo enquanto se dirigia ao Iron Horse Inn. O tempo parecia adequado ao seu temperamento: a chuva tinha voltado numa intensidade quase tropical.

Nem o seu guarda-chuva estava querendo cooperar. Vendo que não conseguia Bbri-lo, xingou e jogou-o no assento de trás. Decidiu que simplesmente teria de dar uma corrida até a porta do restaurante.

Beaton, Caldwell e Sherwood já estavam sentados num reservado. Cantor chegou logo depois. Enquanto os dois se sentavam, Carleton Harris, o garçom, apareceu para anotar os pedidos.

- Obrigado a todos por virem neste tempo inclemente - disse Traynor. - Mas acho que os eventos recentes exigem sessão de emergência.

- Isto não é uma reunião formal da diretoria executiva - reclamou Cantor. - Não vamos ser tão formais.

Traynor franziu a testa. Mesmo numa crise, Cantor insistia em irritá-lo.

- Será que posso continuar? - perguntou Traynor, encarando Cantor.

- Pelo amor de Deus, Harold, vá em frente! - disse Cantor.

- Como todos vocês sabem, o corpo de Hodges apareceu em circunstâncias bastante desagradáveis.

- A história atraiu a atenção da mídia - disse Beaton. Recebeu primeira página do Boston Globe.

- Estou preocupado com o efeito dessa publicidade potencialmente negativa sobre o hospital - disse Traynor. - Os assuntos macabros da morte de Hodges podem atrair ainda mais a imprensa. Aúltima coisa que desejamos é um punhado de repórteres de fora da cidade, fuçando tudo. Graças, em grande parte, a Helen Beaton, pudemos manter nosso estuprador mascarado fora das manchetes. Mas os repórteres da cidade grande podem intrometer-se nesse possível escândalo quando chegarem aqui. Com isso, e com a morte estranha de Hodges, podemos passar uma fase de péssima publicidade.

- Ouvi dizer, pelo pessoal de Burlington, que a morte de Hodges está sendo definitivamente colocada como homicídio - disse Cantor.

- Claro que será colocada como homicídio - rugiu Traynor. - O que mais poderia ser? O corpo do sujeito foi emparedado atrás de blocos de concreto. Para nós, o caso não é se foi homicídio ou não, mas o que podemos fazer para reduzir o impacto sobre a reputação do hospital.

Estou particularmente ansioso em saber como esses eventos irão afetar nosso relacionamento com a CMV.

- Não sei como a morte de Hodges pode ser um problema do hospital - disse Sherwood. - Não é como se nós o tivéssemos matado.

- Hodges dirigiu o hospital durante mais de vinte anos - disse Traynor. - Seu nome está intimamente associado ao Bartlet. Um monte de gente sabe que ele não estava satisfeito com o modo como estávamos levando as coisas.

- Acho que quanto menos o hospital se manifestar, melhor - disse Sherwood.

- Discordo - contrapôs Beaton. - Acho que o hospital deveria divulgar uma declaração lamentando a sua morte e enfatizando a grande dívida para com ele. A declaração deveria incluir condolências à sua família.

- Concordo - disse Cantor. - Ignorar a morte seria estranho.

- Concordo - disse Caldwell. Sherwood encolheu os ombros.

- Se todo mundo acha isso, estou de acordo.

- Alguém falou com Robertson? - perguntou Traynor.

- Eu - disse Beaton. - Ele não tem nenhum suspeito. - Fanfarrão como é, certamente diria, caso tivesse.

- Do jeito que se sentia com relação a Hodges, ele mesmo poderia ser um suspeito - observou Sherwood, rindo.

- Você também - disse Cantor.

- E você também - devolveu Sherwood.

- Isso não é uma disputa - disse Traynor.

- Se fosse, você seriaum dos principais concorrentes - disse Cantor para Traynor. - É de conhecimento geral como você se sentia com relação a Hodges depois que sua irmã cometeu suicídio.

- Calma aí - disse Caldwell. - A questão aqui é que ninguém se importa com quem cometeu o ato.

- Isso pode não ser totalmente verdade - disse Traynor. - A CMV pode se importar. Afinal de contas, esse negócio sórdido reflete mal no hospital e na cidade.

- E é por isso que eu acho que devemos divulgar uma declaração - disse Beaton.

- Alguém gostaria de fazer uma moção para votar?

- Por Deus, Harold, somos só cinco - disse Cantor. – Não temos de seguir um procedimento parlamentar. Diabo, todo mundo concorda!

- Certo - disse Traynor.-Todos concordam em que devemos fazer uma declaração formal como Beaton sugeriu?

Todos assentiram. Traynor olhou para Beaton.

- Acho que isso deve sair do seu departamento.

- Vou gostar de fazer - disse Beaton.

 

SEXTA-FEIRA, 22 DE OUTUBRO

FORA UMA NOITE turbulenta na casa dos Wilsons. Logo depois das duas da madrugada, Nikki começara a gritar de novo e tivera de ser acordada de outro pesadelo terrível. O episódio perturbara todo mundo, mantendo-os acordados durante mais de uma hora. David e Angela se arrependeram de ter deixado Nikki presenciar o trabalho da perícia, achando que isso podia ter contribuído para o seu terror.

Pelo menos o tempo amanheceu claro e luminoso. Depois de cinco dias de chuvas contínuas, o céu estava azul-claro e sem nuvens. Em lugar da chuva havia um frio enorme. A temperatura mergulhara para cinco graus negativos, deixando o chão coberto por uma geada excepcionalmente densa.

Houve pouca conversa enquanto os Wilsons se vestiam e tomavam o café da manhã. Todos evitavam referências ao teste com luminol, apesar de Angela ter se recusado a sentar-se à mesa da cozinha. Ela comeu o cereal de pé, encostada na pia.

Antes de Angela e Nikki saírem, David perguntou a Angela sobre o almoço. Ela disse que iria encontrá-lo na portaria ao meio-dia e meia.

No caminho para a escola, Angela tentou encorajar Nikki a dar mais uma chance ao Senhor Hart.

- É difícil para um professor assumir a turma de outro professor. Especialmente de alguém excepcional como Marjorie.

- Por que papai não conseguiu salvá-la?

- Ele tentou. Mas simplesmente foi impossível. Os médicos só podem fazer uma parte.

Ao chegarem diante da escola, Nikki saltou do carro e estava pronta para entrar, quando Angela chamou-a de volta.

- Você esqueceu a carta.

Angela entregou-lhe uma carta explicando os seus problemas e as suas necessidades.

- Lembre-se, se o Senhor Hart tiver alguma pergunta, deve ligar para mim ou para o Doutor Pilsner.

Angela sentiu-se aliviada ao ver que Wadley não estava nas proximidades quando chegou ao laboratório. Rapidamente mergulhou no trabalho, mas nem bem começara, quando uma das secretárias informou que o chefe da perícia médica estava no telefone.

- Tenho notícias interessantes - disse Walt. - O material que tiramos das unhas do Doutor Hodges era realmente pele.

- Parabéns - disse Angela.

- Já iniciei uma análise de DNA. Não é pele de Hodges. Aposto mil dólares como é do criminoso. Pode se tornar uma evidência fundamental, caso surja algum suspeito.

- O senhor já encontrou esse tipo de evidência antes?

- Sim. Não é raro em lutas mortais encontrar restos da pele do atacante sob as unhas da vítima. Mas tenho de admitir que este caso representa o intervalo mais longo entre o crime e a descoberta do corpo. Se pudermos associar isso a algum suspeito, poderá valer a pena escrever um artigo para uma revista científica.

Angela agradeceu-lhe por mantê-la informada.

- Quase ia esquecendo - disse Walt. -Encontrei uma porção de partículas de carvão nas amostras de pele. É estranho. Como se o assassino tivesse se arranhado numa lareira ou num fogão a lenha durante a luta. De qualquer modo, achei curioso, e isso pode ajudar aos investigadores da cena do crime.

- Temo que isso possa apenas confundi-los - disse Angela. - Ela explicou sobre o teste com luminol feito na noite anterior. As manchas de sangue não estavam perto de uma lareira ou fogão. Talvez o assassino tenha se sujado de carvão antes, em outro lugar.

- Duvido - disse Walter.-Não havia inflamação, só alguns glóbulos vermelhos de sangue. O carvão tinha de ser da mesma época da luta.

- Talvez Hodges tivesse carvão sob as unhas - sugeriu Angela.

- É uma boa idéia. O único problema é que o carvão está igualmente distribuído nas amostras de pele.

- É um mistério. Especialmente porque não combina com o que a perícia encontrou.

- Acontece o mesmo em qualquer mistério - disse Walt. - Para resolver, é necessário ter todos os fatos. Obviamente, estamos perdendo alguma peça crucial de informação.

Depois de ver negada a oportunidade de andar de bicicleta durante toda uma semana, David adorou o passeio de casa ao hospital. Aproveitando o tempo, pegou um caminho ligeiramente mais longo do que o usual, mas muito mais bonito.

A animação proporcionada pelo ar frio e limpo e pela visão dos bosques cobertos de geada clareara a mente de David. Durante alguns minutos, aliviou-se da angústia pelos recentes fracassos médicos. Ao entrar no hospital, sentiu-se melhor do que há vários dias. O primeiro paciente que visitou foi Mary Ann Schiller.

Infelizmente, Mary Ann não estava desperta e alegre. David teve de acordá-la, e enquanto a examinava, ela voltou a cair no sono. Começando a sentir-se um pouco preocupado, David acordou-a de novo. Perguntou qual era a sensação quando ele batia sobre seus pulmões.

Com uma voz sonolenta, ela disse que parecia haver menos desconforto, mas não tinha certeza.

Em seguida, David auscultou seu peito com o estetoscópio, e enquanto ele se concentrava nos sons da respiração, ela mais uma vez caiu no sono. David deixou que ela se recostasse nos travesseiros. Olhou para o rosto pacífico; era um contraste agudo com o estado mental dele. A sonolência era uma coisa alarmante.

David foi até o posto de enfermagem verificar o prontuário de Mary Ann. A princípio, sentiu-se um pouco melhor, vendo que a febre baixa que ela tivera no dia anterior continuava sem mudanças. Mas a apreensão cresceu quando ele leu as anotações das enfermeiras e soube que haviam aparecido sintomas gastrointestinais durante a noite.

David não conseguia avaliar o motivo desses sintomas. Nem tinha certeza de como agir.

Como a sinusite parecia ligeiramente melhor, ele não alterou os antibióticos, mesmo havendo uma pequena possibilidade de que eles estivessem causando os problemas gastrointestinais. Mas e quanto à sonolência? Como precaução cancelou a medicação opcional com sonífero, como fizera com John Tarlow.

Chegando ao quarto de Jonathan Eakins, o estado relativamente animado de David voltou.

Jonathan estava expansivo. Sentia-se melhor, e disse que o monitor cardíaco soltava bipes tão regulares quanto um metrônomo, sem a menor sugestão de irregularidade.

David pegou o estetoscópio e auscultou o peito de Jon. Ficou satisfeito ao constatar que os pulmões estavam perfeitamente limpos. Não se surpreendeu com a melhora rápida do paciente. Na tarde anterior, passara várias horas conversando com o cardiologista sobre o caso.

O cardiologista dera certeza de que não haveriam problemas com o coração.

Os outros pacientes de David que estavam no hospital mostravam-se tão bem quanto Jonathan. Ele conseguiu passar rapidamente de um a outro, até mesmo dando alta a alguns. Ao terminar sua ronda, foi para seu consultório, feliz por chegar cedo. Depois das experiências dos últimos dias, prometera a si mesmo fazer o máximo para não se atrasar de novo.

Enquanto a manhã progredia, David permaneceu agudamente cônscio do tempo gasto com cada paciente. Sabendo que sua produtividade estava sendo monitorada, tentou manter cada consulta num tempo curto. Apesar de não se sentir bem com isso, achava não ter muita escolha. A ameaça implícita de Kelley de demiti-lo tinha-o abalado. Com a dívida que tinham assumido, a família não poderia se dar ao luxo de que ele ficasse sem emprego.

Por ter começado cedo, David pôde manter-se adiantado a manhã inteira. Quando duas enfermeiras do segundo andar ligaram pedindo para serem atendidas como semi-emergências, David pôde recebê-las no momento em que elas chegaram à porta.

Ambas tinham sintomas parecidos com gripe, idênticos aos das duas outras que ele atendera. David tratou-as do mesmo modo: recomendando repouso e terapia sintomática para os problemas gastrointestinais.

Com tempo suficiente para atender a outras questões, David pôde dar um pulo no consultório do Doutor Pilsner. Disse ao pediatra que já estava vendo alguns casos de gripe, e perguntou sobre a vacina contra gripe para Nikki.

- Ela já tomou - disse o Doutor Pilsner. - Ainda não tive nenhum caso de gripe, mas não espero ter para depois começar a vacinar, especialmente os meus pacientes com fibrose cística.

David também quis ouvir sua opinião quanto ao uso de antibióticos profiláticos para Nikki. O pediatra disse que não era a favor. Achava melhor esperar até que o estado de Nikki sugerisse a necessidade deles.

David terminou com seus pacientes da manhã antes do meio-dia, e teve tempo até mesmo para ditar algumas cartas antes de encontrar Angela na portaria do hospital.

- Com um tempo tão bonito, o que você acha de irmos à cidade almoçar no diner? - sugeriu. Ele achava que um pouco de ar fresco seria bom para ambos.

- Eu ia sugerir a mesma coisa. Mas vamos indo. Quero parar na delegacia e descobrir como eles pretendem fazer a investigação do caso Hodges.

- Não acho uma boa idéia.

- Por que não?

- Não tenho muita certeza - admitiu David. - Intuição, acho. E a polícia municipal não me inspirou muita confiança. Para dizer a verdade, tive a impressão de que eles não estão lá muito interessados em investigar o caso.

- É por isso que eu quero ir. Quero ter certeza de que eles sabem que estamos interessados. Vamos, me dê uma força!

- Se você insiste... - disse David com relutância.

Compraram sanduíches de atum e foram comê-los nos degraus do mirante. Apesar da temperatura ter estado abaixo de zero durante a manhã, o sol aquecera o ar até uns agradáveis vinte graus.

Depois de terminar o lanche, foram até a delegacia. Era uma estrutura simples de tijolos, com dois andares, junto ao parque da cidade e logo em frente à biblioteca.

O policial da recepção foi gentil. Depois de uma rápida chamada telefônica, levou David e Angela por um corredor de madeira que rangia até a sala de Wayne Robertson. Robertson convidou a entrar e apressadamente retirou jornais e sacos de biscoitos que estavam sobre duas cadeiras de metal. Quando David e Angela estavam sentados, ele recostou seu traseiro avantajado na mesa também de metal. Cruzou os braços e sorriu. A despeito de haver luz solar direta na sala, o chefe de polícia estava usando óculos espelhados estilo aviador.

- Fico satisfeito por terem aparecido - falou, assim que David e Angela se acomodaram. Ele tinha um ligeiro sotaque parecido com a fala arrastada do Sul. - Sinto muito por ter invadido sua casa. Eu gostaria de me desculpar por ter atrapalhado sua noite.

- Não se desculpe. Nós apreciamos o seu trabalho - disse David.

- O que posso fazer por vocês?

- Viemos oferecer nossa cooperação - disse Angela.

- Bom, só podemos agradecer. - Robertson deu um sorriso largo, revelando dentes quadrados.

- Nós dependemos da comunidade. Sem o seu apoio, não poderíamos realizar nosso trabalho.

- Queremos que o assassinato de Hodges seja resolvido - disse Angela. - Queremos ver o assassino atrás das grades.

- Bom, sem dúvida vocês não estão sozinhos - respondeu Robertson com o sorriso grudado no rosto. - Nós também queremos isso.

- É muito perturbador morar numa casa onde aconteceu um assassinato - disse Angela. - Particularmente se o assassino continua solto. Tenho certeza de que o senhor compreende.

- Totalmente.

- De modo que desejamos saber como ajudar.

- Bom, vejamos - disse Robertson, mostrando sinais de inquietação. Ele hesitou.-Na verdade, não há muito que qualquer pessoa possa fazer.

- O que, exatamente, a polícia está fazendo? - perguntou Angela.

O sorriso desapareceu do rosto de Robertson.

- Estamos trabalhando no caso - disse em tom vago.

- E isso significa o quê? - insistiu Angela.

David começou a se levantar, preocupado com a direção e o tom da conversa, mas Angela não queria ceder.

- Bom, o de sempre - disse Robertson.

- O que é o de sempre? - perguntou Angela.

Robertson estava claramente desconfortável.

- Bom, para dizer a verdade, não estamos fazendo muita coisa agora. Mas quando Hodges desapareceu, trabalhamos dia e noite.

- Fico um pouco surpresa ao ver que o interesse não ressurgiu agora que existe um cadáver. E o perito médico definiu o caso inquestionavelmente como homicídio. Temos um assassino andando pela cidade e quero que alguma coisa seja feita.

- Bom, certamente não queremos desapontá-los - disse Robertson com uma ponta de sarcasmo. - O que, exatamente, vocês desejariam que fosse feito, para que soubéssemos antecipadamente como satisfazê-los?

David começou a dizer alguma coisa, mas Angela fez com que ele se calasse.

- Queremos que vocês façam o que normalmente se faz com um homicídio. Vocês têm a arma do crime. Então procurem digitais, descubram onde foi comprada, esse tipo de coisa. Não deveríamos ter de dizer como fazer a investigação.

- O rastro está meio frio depois de oito meses. E francamente não acho bom vocês virem aqui me dizer como fazer meu trabalho. Eu não vou ao hospital dizer como devem fazer o seu. Além disso, Hodges não era o sujeito mais popular da cidade, e temos de estabelecer prioridades, com o efetivo pequeno de que dispomos. Para sua informação, temos problemas mais prementes agora mesmo, inclusive uma série de estupros.

- A minha opinião é que deve ser feito o básico neste caso - disse Angela.

- E foi feito. Há oito meses.

- E o que vocês descobriram?

- Um monte de coisas - respondeu Robertson rispidamente. - Descobrimos que não houve arrombamento nem roubo, o que agora foi confirmado. Descobrimos que houve alguma luta...

- Alguma luta?-ecoou Angela. - Ontem à noite, a perícia da polícia estadual provou que o assassino caçou o doutor na nossa casa, batendo nele com um pé-de-cabra, espalhando sangue pelas paredes. O Doutor Hodges teve múltiplas fraturas cranianas, uma clavícula fraturada e um braço quebrado. - Angela virou-se para David, levantando as mãos para o alto. - Não posso acreditar!

- Tudo bem, tudo bem - disse David, tentando acalmá-la. Ele temera que ela fizesse uma cena assim. Angela tolerava pouco a incompetência.

- Esse caso precisa ser visto com novos olhos - disse ignorando David. - Hoje recebi um telefonema do perito médico confirmando que a vítima tinha pele do atacante sob as unhas, para imaginar como foi a luta. Agora só precisamos de um suspeito. Os legistas podem fazer o resto.

- Obrigado pela dica - disse Robertson. - E obrigado por ser uma cidadã tão preocupada. Agora, se vocês me desculparem, tenho trabalho a fazer.

Robertson foi até a porta e abriu-a. David praticamente teve que arrastar Angela para fora da sala. Era tudo que ele podia fazer: impedi-la de dizer mais coisas enquanto saía.

- Você ouviu alguma coisa?-perguntou Robertson quando um de seus policiais apareceu.

- Pouca coisa.

- Odeio essa gente da cidade grande. Só porque foram Harvard, ou algum lugar do tipo, acham que sabem de tudo.

Robertson voltou a entrar na sala e fechou a porta. Pegando telefone, apertou um dos botões de ligação automática.

- Desculpe incomodá-lo - disse em tom deferente. - Acho que podemos ter um problema.

- Não ouse me tachar de mulher histérica - disse Angela assim que entrou no carro.

- Atormentar o delegado local desse jeito não é uma coisa racional. Lembre-se, esta é uma cidade pequena. Não devemos fazer inimigos.

- Uma pessoa foi brutalmente assassinada, o corpo foi emparedado em nosso porão e a polícia não parece interessada em descobrir o assassino. Você pretende deixar as coisas como estão?

- Por mais deplorável que tenha sido a morte de Hodges, ela não tem nada a ver conosco. É um problema que deve ser deixado com as autoridades.

- O quê? - gritou Angela. - O sujeito foi espancado até a morte na nossa casa, na nossa cozinha. Estamos envolvidos, quer você admita ou não, e quero descobrir quem fez isso. Não gosto de pensar no assassino andando pela cidade, e vou fazer alguma coisa a respeito. A primeira coisa é descobrir mais sobre Dennis Hodges.

- Acho que você está dramatizando demais e sendo pouco razoável.

- Você já deixou isso claro. Só que não concordo.

Angela estava fervendo de raiva, principalmente de Robertson, mas também se sentia um pouco irritada com David. Queria dizer que David não era o paradigma da racionalidade e da conveniência que pensava ser. Mas segurou a língua.

Chegaram ao estacionamento do hospital. O único espaço disponível ficava longe da entrada. Saíram e começaram a andar.

- Já tenho muito com que me preocupar - disse David. - Não é como se não tivéssemos problemas suficientes.

- Então talvez devêssemos contratar alguém para investigar por nós.

- Você não pode estar falando sério.-David parou de andar. -Não temos dinheiro para jogar fora num absurdo desses.

- Para o caso de você não ter me ouvido, não acho que isso seja absurdo. Repito: há um assassino solto nesta cidade. Alguém que esteve em nossa casa. Talvez já tenhamos nos encontrado com ele. Isso me deixa arrepiada.

- Por favor, Angela. - David voltou a caminhar. - Não estamos lidando com um assassino em série. Não acho tão estranho o assassino não ter sido encontrado. Você nunca leu histórias sobre assassinatos em cidades pequenas, onde nunca aparece o culpado mesmo que todo mundo saiba quem cometeu o crime? É uma espécie de justiça interna, em que as pessoas acham que a vítima recebeu o que merecia. Aparentemente, Hodges não era admirado por todos.

Chegaram ao hospital e pararam logo depois da porta de entrada.

- Não me sinto disposta a concordar com essa tal de justiça interna. Acho que a questão aqui é de responsabilidade social básica. Nossa sociedade tem leis.

- Você é demais. - A despeito de sua exasperação, David sorriu. - Agora está disposta a me dar uma aula sobre responsabilidade social. De vez em quando você consegue ser tão idealista que me deixa doido. Mas eu te amo. - David curvou-se e deu-lhe um beijo no rosto.

- Conversamos mais tarde. Por enquanto acalme-se! Você já tem problemas com Wadley, problemas suficientes para mantê-la ocupada por muito tempo.

Com um aceno final, David saiu para o prédio do ambulatório. Angela observou-o até que ele sumiu na esquina do corredor. Sentiu-se tocada pela súbita mostra de afeição. O fato de ter sido inesperada abrandou seu ânimo.

Alguns minutos depois, contudo, enquanto estava sentada à sua mesa tentando se concentrar, repassou na mente a conversa com Robertson e ficou furiosa de novo. Saiu da sala para procurar Por Darnell. Encontrou-o onde ele sempre estava: curvado sobre pilhas de placas de Petri cheias de bactérias.

- Você morou em Bartlet a vida inteira? - perguntou ela.

- Sim, menos os quatro anos de faculdade, quatro da escola de medicina, quatro de residência e dois na Marinha.

- Eu diria que isso faz de você um nativo.

- O que faz de mim um nativo é o fato dos Darnells viverem aqui há quatro gerações.

Angela aproximou-se e se encostou na mesa.

- Acho que você deve ter ouvido o boato sobre o corpo encontrado em minha casa.

Paul assentiu.

- Isso está me deixando realmente incomodada - disse ela. -- Você se importaria se eu fizesse algumas perguntas?

- De modo nenhum.

- Você conhecia Dennis Hodges?

- Claro que sim.

- Como ele era?

- Era um velho meio doido, de quem pouca gente sente falta. Tinha um dom especial para fazer inimigos.

- Como chegou a administrador do hospital?

- Por falta de opção. Ele assumiu o hospital numa época em que nenhum outro médico queria a responsabilidade. Todos achavam que dirigir o hospital ficava abaixo do status de médico. De modo que Hodges teve carta branca e transformou o lugar numa espécie de estado feudal, associando-se a uma escola de medicina para obter prestígio e registrando-o como um centro médico regional. Ele chegou até mesmo a botar dinheiro do próprio bolso, em tempos de crise. Mas Hodges era o pior diplomata do mundo, e não ligava a mínima para os interesses dos outros quando eles entravam em choque com os interesses do hospital.

- Como quando o hospital assumiu a patologia e a radiologia?

- Exato. Foi uma coisa boa para o hospital, mas criou um bocado de má vontade. Eu tive de fazer um corte enorme nos meus ganhos. Mas minha família queria ficar em Bartlet, de modo que me ajustei. Outras pessoas lutaram contra, e eventualmente tiveram de se mudar. Obviamente Hodges fez um monte de inimigos.

- O Doutor Cantor também ficou.

- Sim, mas porque convenceu Hodges a fazer uma joint venture entre ele e o hospital, para criar um centro de geração de imagens de classe internacional. Cantor acabou se dando bem financeiramente, mas foi uma exceção.

- Acabo de ter uma conversa com Wayne Robertson. Tive a clara impressão de que ele está empurrando com a barriga a investigação do assassinato de Hodges.

- Isso não me surpreende. Não há muita pressão para resolver o caso. A esposa de Hodges mudou-se para Boston, e o casal não estava se dando bem na época da morte. Para todos os efeitos, eles viviam separados nos últimos anos. Além disso, o próprio Robertson poderia ter cometido o crime. Robertson sempre demonstrou ter raiva de Hodges. Chegou mesmo a ter uma discussão com ele na noite em que o velho desapareceu.

- Qual o motivo dessa animosidade entre os dois?

- Robertson culpava Hodges pela morte da esposa.

- Hodges era médico da esposa dele?

- Não. Na época, ele praticamente não trabalhava como médico. Estava dirigindo o hospital em tempo integral. Mas, como diretor, permitiu que o Doutor Werner Van Slyke continuasse trabalhando, mesmo todo mundo sabendo que ele tinha problemas com bebida. Na verdade, Hodges deixou a questão de Van Slyke por conta do departamento médico. Van Slyke fez besteira com apendicite da mulher de Robertson, enquanto estava bêbado. A partir daí, Robertson culpou Hodges. Não foi uma coisa racional, mas geralmente o ódio não é racional.

- Estou começando a sentir que não vai ser fácil descobrir quem matou Hodges.

- Você não tem idéia de como está certa. Há um segundo capítulo no caso Hodges-Van Slyke. Hodges era amigo de Traynor, o atual chairman da diretoria do hospital. A irmã de Traynor era casada com Van Slyke, e quando finalmente Hodges negou privilégios a VanSlyke...

- Certo - disse Angela erguendo a mão. - Estou captando a idéia. Você está me esmagando. Eu não tinha idéia de que essa cidade era tão bizantina.

- É uma cidade pequena. Um bocado de famílias vive aqui há muito tempo. É uma coisa praticamente incestuosa. Mas a questão básica é que havia muita gente que não gostava de Hodges. Assim, quando ele desapareceu, não foram muitos os que se abalaram.

- Mas isso significa que o assassino de Hodges está solto aí. Presumivelmente um sujeito capaz de extrema violência.

- Você provavelmente está certa.

Angela estremeceu.

- Não gosto disso. Esse sujeito esteve em minha casa, talvez muitas vezes. Provavelmente conhece bem a casa.

Paul encolheu os ombros.

- Compreendo como se sente. Eu certamente me sentiria do mesmo jeito. Mas não sei o que você pode fazer a respeito. Se quer saber mais sobre Hodges, vá conversar com Barton Sherwood. Como presidente do banco, ele conhece todo mundo. Conhecia Hodges particularmente bem, já que sempre fez parte da diretoria do hospital, e antes dele o seu pai também fazia parte.

Angela voltou à sua sala e tentou trabalhar de novo, mas continuava sem conseguir se concentrar. Era impossível tirar Hodges da cabeça. Estendeu a mão para o telefone e ligou para Barton Sherwood. Lembrava-se de como ele fora amigável quando tinham comprado a casa.

- Dra. Wilson - disse Sherwood ao atender. - Que bom falar com a senhora. Como estão passando naquela casa maravilhosa?

- Bem, em termos gerais. Mas é sobre isso que eu gostaria de falar com o senhor. Se eu fosse até o banco, o senhor teria alguns minutos para conversar comigo?

- Sem dúvida. Quando quiser.

- Vou agora mesmo - disse Angela.

Depois de dizer às secretárias que voltava logo, Angela pegou o casaco e correu até o carro.

Dez minutos depois, estava sentada no escritório de Sherwood. Parecia ontem mesmo que ela, David e Nikki tinham estado ali, resolvendo a compra de sua primeira casa.

Angela foi direto ao ponto. Descreveu como se sentia desconfortável não só pelo fato de Hodges ter sido assassinado na sua casa, como pela liberdade do assassino. Esperava que Sherwood estivesse disposto a ajudar.

- Ajudar?-perguntou Sherwood, recostado em sua poltrona de couro e com os dois polegares enfiados nos bolsos do colete.

- A polícia local não parece preocupada com a solução do caso. Com sua importância na cidade, uma palavra sua certamente os levará a fazer alguma coisa.

Sherwood inclinou-se para diante. Estava claramente lisonjeado.

- Obrigado por seu voto de confiança, mas realmente não creio que a senhora tenha com que se preocupar. Hodges não foi vítima de uma violência insensata e aleatória, ou de um assassino em série.

- Como é que o senhor sabe? Sabe quem o matou?

- Meu Deus, claro que não! - disse Sherwood nervosamente. - Não quis dar a entender isso.

Eu quis dizer... bem, eu acho que não há motivo para que a senhora e sua família se sintam em risco.

- Há muita gente que sabe quem matou Hodges? - perguntou Angela, lembrando-se da teoria de David sobre justiça interna.

- Oh, não. Pelo menos não creio que haja. Só que o « Hodges era um sujeito impopular, que prejudicou muitas pessoas. Até eu tive problemas com ele. - Sherwood riu nervosamente.

Em seguida passou a contar a Angela sobre a faixa de terra que Hodges cercara, recusando-se a vendê-la e impedindo que Sherwood usasse suas duas propriedades em conjunto.

- O que o senhor está tentando me dizer é que ninguém se importa com quem matou Hodges porque as pessoas não gostavam dele?

- Em essência, sim - admitiu Sherwood.

- Em outras palavras, o que temos aqui é uma conspiração de silêncio.

- Eu não diria isso. É uma situação onde as pessoas acham que foi feita justiça, de modo que ninguém se importa muito se alguém for preso ou não.

- Eu me importo - disse Angela. - O assassinato ocorreu em minha casa. Além disso, hoje em dia não há mais lugar para justiça pelas próprias mãos.

- Normalmente eu seria o primeiro a concordar. Não estou tentando justificar esse caso em termos morais ou legais. Com Hodges era diferente. Acho que a senhora deveria conversar com o Doutor Cantor. Ele poderá dar uma idéia do tipo de animosidade e tumulto que Hodges era capaz de causar. Talvez então a senhora entenda e não julgue tanto.

Angela voltou a subir a colina na direção do hospital, sentindo-se confusa quanto ao que fazer. Não concordava com Sherwod nem por um segundo, e quanto mais ficava sabendo sobre o caso de Hodges, mais queria saber. No entanto, não queria falar com Cantor, não depois da conversa que tivera com ele na véspera.

Ao entrar no hospital, foi direto à seção do laboratório de patologia onde as lâminas eram preparadas. Sua escolha do momento foi perfeita: as lâminas que ela estivera esperando naquela manhã tinham acabado de ficar prontas. Pegando a bandeja, correu de volta à sua sala para começar a trabalhar.

No momento em que entrou, Wadley apareceu na porta de ligação. Como no dia anterior, estava visivelmente perturbado.

- Acabei de chamá-la pelo alto-falante. Onde, diabo, você estava?

- Tive de dar um pulo no banco - disse Angela em tom nervoso. Subitamente suas pernas ficaram fracas. Temia que Wadley estivesse para perder o controle, como no dia anterior.

- Restrinja suas visitas ao banco à hora de almoço. - Ele hesitou um momento, em seguida voltou a entrar em sua sala e bateu a porta.

Angela soltou um suspiro de alívio.

Sherwood não se mexeu da cadeira depois que Angela saiu. Estava tentando decidir o que fazer.

Não podia acreditar que essa mulher estava criando tamanho alarde por causa de Hodges. Esperava não ter dito nada de que pudesse se arrepender mais tarde.

Depois de alguma deliberação, pegou o telefone. Tinha concluído que era melhor não fazer nada, somente passar a informação.

- Acaba de acontecer uma coisa que eu acho que você deveria saber - disse, assim que a ligação se completou. - Acabo de ter uma visita da mais nova contratada da equipe do hospital, e ela está preocupada com o Doutor Hodges...

David terminou de atender ao último paciente do dia, ditou algumas cartas e em seguida correu ao hospital para fazer a ronda da tarde. Temendo o que encontraria, deixou Mary Ann Schiller para o final.

Como suspeitava intuitivamente, ela piorara. A febre baixa subira gradualmente durante a tarde. Agora estava ligeiramente acima de trinta e nove. A febre deixou-o preocupado, principalmente porque subira enquanto a paciente estava tomando antibiótico, mas houve algo que o incomodou ainda mais, o estado mental de Mary Ann.

Naquela manhã, ela estivera sonolenta. Mas agora, enquanto David tentava conversar, ela estava sonolenta e apática. Houvera uma nítida mudança. Não somente era difícil acordá-la e mantê-la desperta, mas, quando acordada, ela não se importava com coisa alguma, e prestava pouca atenção às suas perguntas. Também estava desorientada com relação ao tempo e ao lugar, apesar de ainda saber o próprio nome.

David virou-a de lado e auscultou seu peito. Nesse momento, entrou em pânico. Ouviu um coro de roncos e sons raspados, ela estava desenvolvendo uma pneumonia maciça. Era como John Tarlow de novo.

David correu ao posto de enfermagem, onde prescreveu uma contagem sangüínea e uma radiografia do pulmão. Examinando o prontuário de Mary Ann, não encontrou nada anormal. As anotações das enfermeiras do dia sugeriam que ela estivera bem.

A contagem sangüínea voltou mostrando muito pouca resposta celular à pneumonia, uma situação que lembrava tanto Tarlow quanto Kleber. A radiografia confirmou seu medo: havia uma extensa pneumonia se desenvolvendo nos dois pulmões.

Sentindo-se perdido, David ligou para o Doutor Mieslich, o oncologista, para consultá-lo por telefone. Depois de todos os problemas com Kelley, sentia-se relutante em pedir uma consulta formal, ainda que isso fosse muito melhor.

Sem ter visto a paciente, o Doutor Mieslich pôde ajudar pouco. Confirmou que, na última vez em que vira Mary Ann em seu consultório, não havia qualquer evidência de seu câncer no ovário. Ao mesmo tempo, disse a David que o câncer fora extenso antes de ser tratado, e que ele esperava um reaparecimento.

Enquanto David estava no telefone com o oncologista, a enfermeira apareceu na frente do posto de enfermagem e gritou, dizendo que Mary Ann estava tendo convulsões.

David bateu o telefone e correu para junto da cama. Mary Ann se encontrava nos estertores de um ataque epilético. Suas costas estavam arqueadas, e as pernas e braços batiam ritimicamente contra a cama. Felizmente, o equipamento de soro não tinha sido desativado, e David pôde controlar o ataque rapidamente com medicação intravenosa. Mas, no final da crise, Mary Ann entrou em coma.

Voltando ao posto de enfermagem, David pediu que chamassem o neurologista da CMV, Doutor Alan Prichard, pelo alto-falante. Como estava no hospital fazendo ronda, ele ligou de volta imediatamente. Depois de David contar sobre o ataque e dar um resumo da história de Mary Ann, o Doutor Prichard recomendou a David que pedisse uma tomografia computadorizada ou uma ressonância magnética, dependendo de qual aparelho estivesse disponível. E disse que viria examinar a paciente assim que pudesse.

David mandou Mary Ann ao Imaging Center, para fazer uma ressonância magnética, acompanhada por uma enfermeira, para o caso de ela ter outro ataque. Em seguida ligou de novo para o oncologista, explicou o que acontecera e pediu uma consulta formal. Como fizera com Kleber e Tarlow, também chamou o Doutor Hasselbaum, o especialista em doenças infecciosas.

Não conseguiu evitar a preocupação pelo modo como Kelley reagiria a essas consultas fora da CMV, mas achava que tinha pouca escolha. Não podia permitir que a preocupação com Kelley influenciasse sua decisão, depois do ataque convulsivo. A gravidade do estado de Mary Ann era aparente.

Assim que soube que a ressonância magnética estava pronta, David correu para o Imaging Center. Encontrou o neurologista na sala dos monitores, onde as primeiras imagens estavam sendo processadas. Junto com o Doutor Cantor, observaram silenciosamente os cortes que apareciam. Quando o estudo ficou pronto, David chocou-se ao ver que não havia sinal de tumor gerado por metástase. Ele poderia jurar que um tumor assim era o responsável pelo ataque.

- No momento não posso dizer por que ela teve um ataque - admitiu o Doutor Prichard. - Pode ter sido alguma microembolia, mas só estou especulando.

O oncologista ficou igualmente surpreso com o resultado da ressonância magnética.

- Talvez a lesão seja pequena demais para ser captada pela ressonância - sugeriu.

- Essa máquina tem uma resolução fantástica - disse o DOUTOR Cantor. - Se o tumor era pequeno demais para ela captar, então aschances de que ele tenha causado o ataque epilético são menores.

O especialista em doenças infecciosas foi o único que acrescentar algo específico, mas a notícia não era boa. Ele confirmou o diagnóstico de pneumonia extensa. Também demonstrou que a bactéria envolvida era um organismo do tipo gram-negativo semelhante, porém não idêntico, ao que causara as pneumonias em Kleber e em Tarlow. Pior ainda, ele sugeriu que Mary Ann já estava em choque séptico.

Do Imaging Center, David mandou Mary Ann para a UTI, e insistiu na terapia mais agressiva disponível. Deixou que o especialista em doenças infecciosas cuidasse do regime de antibiótico e passou o tratamento respiratório a um anestesiologista. A respiração de Mary Ann estava tão dificultosa que ela precisava de um respirador artificial.

Depois de ter sido feito tudo que era possível por Mary Ann e de os outros médicos terem partido, David sentiu-se atordoado. O grupo de pacientes de oncologia tinha provocado um desgaste emocional muito maior do que ele temera originalmente. Por fim, saiu da UTI e, só para se certificar, parou de novo para ver Jonathan. Felizmente, ele estava passando muito bem.

- Só tenho uma reclamação - disse Jonathan. - Esta cama é cheia de manias. Algumas vezes, quando aperto o botão, acontece. Não sobe a cabeceira nem a parte dos pés.

- Vou cuidar disso - garantiu David. Sentindo-se grato por um problema de fácil solução, voltou ao posto de enfermagem e mencionou o fato à enfermeira-chefe do turno da noite, Dora Maxfield.

- A dele também? - disse Dora. - Algumas dessas camas antigas vivem quebrando. Mas obrigada por informar. Vou pedir que a manutenção cuide disso agora mesmo.

David saiu do hospital e montou na bicicleta. A temperatura caíra assim que o sol baixara atrás do horizonte, mas ele achou que o frio agia de modo terapêutico.

Ao chegarem casa, encontrou um tumulto de atividades. Nikki estava com Caroline e Arni, e eles corriam pelo andar térreo com Ferrugem perseguindo-os ferozmente. David juntou-se à confusão, adorando ser socado e empurrado por três crianças ativas. Só o riso já valia a punição. Durante alguns minutos, esqueceu-se do hospital.

Quando eram quase sete horas, Angela perguntou se David levaria Caroline e Arni para casa. David concordou satisfeito e Nikki foi junto. Depois de deixar as duas crianças em casa, David aproveitou os momentos a sós com a filha. Primeiro conversaram sobre a escola e o novo professor. Em seguida ele perguntou se ela pensava muito no corpo encontrado no porão.

- Um pouco - disse Nikki.

- E como se sente?

- Nunca mais quero ir no porão.

- Entendo. Ontem à noite, quando fui pegar lenha, eu me senti meio apavorado.

- Está falando sério?

- Sim. Mas eu tenho um pequeno plano, que pode ao mesmo tempo ser divertido e ajudar. Você está interessada?

- Estou! - respondeu Nikki entusiasmada. - O que é?

- Você não pode contar a ninguém.

- Certo.

David contou as linhas gerais do plano enquanto iam para casa.

- O que você acha?-perguntou logo que acabou de contar.

- Acho legal.

- Lembre-se, é um segredo.

- Juro que não conto.

Assim que chegou em casa, David ligou para a UTI, perguntando sobre Mary Ann. Ele ficara chateado porque as enfermeiras que cuidavam dos quartos não haviam percebido a piora nos dois pacientes que tinham morrido. Ao mesmo tempo, reconhecia que os sinais vitais dos pacientes tinham apresentado pouca mudança enquanto o estado clínico deteriorava nitidamente.

- Não houve alteração no estado da Senhora Schiller - disse a enfermeira da UTI. Em seguida, ela deu um relatório geral dos sinais vitais, dos valores mandados pelo laboratório e até mesmo das indicações do aparelho de respiração. O profissionalismo da enfermeira alentou a confiança de que Mary Ann estava recebendo a melhor atenção possível.

Intencionalmente evitando a mesa da cozinha depois da revelação da noite anterior, Angela serviu a comida na sala de jantar. A sala parecia enorme com apenas três pessoas e a mobília tacanha. Mas Angela tentou torná-la mais animada acendendo a lareira e pondo velas sobre a mesa. Nikki reclamou que estava tão escuro que mal conseguia ver a comida.

Depois que acabaram de comer, Nikki pediu para ver sua meia hora de televisão. David e Angela ficaram na mesa.

- Não quer saber como foi minha tarde? - perguntou Angela.

- Claro. Como foi?

- Interessante.

Angela relatou a conversa sobre Dennis Hodges com Paul Darnell e Barton Sherwood. Admitiu que David poderia estar certo ao sugerir que algumas pessoas sabiam quem cometera o crime.

- Obrigado por me dar crédito - disse David. - Mas não fico satisfeito em saber que você anda fazendo perguntas sobre Dennis Hodges.

- Porquê?

- Por vários motivos. Principalmente porque temos outras coisas com as quais nos preocuparmos. Mas, além disso, será que não passou pela sua cabeça que você pode acabar fazendo perguntas ao próprio assassino?

Angela admitiu que não tinha pensado nisso, mas David não estava ouvindo. Olhava fixamente para o fogo.

- Você parece distraído - disse ela. - O que há de errado?

- Outra paciente minha está na UTI, lutando pela vida.

- Sinto muito.

- É outro desastre - disse David. Sua voz falhou, enquanto ele lutava com as emoções. - Tento lidar com isso, mas é difícil. Ela está muito mal. Francamente, estou com medo de que ela me escape como Kleber e Tarlow. Talvez eu não saiba o que venho fazendo. Talvez eu não devesse ser médico.

Angela rodeou a mesa e passou os braços ao redor de David.

- Você é um médico maravilhoso - sussurrou. - Tem um verdadeiro dom. Os pacientes amam você.

- Eles não me amam quando morrem. Quando me sento em minha sala, no mesmo lugar onde o Doutor Portland se matou, começo a pensar que agora sei por que ele fez isso.

Angela sacudiu os ombros de David.

- Não quero ouvir você falar assim. Andou conversando de novo com Kevin Yansen?

- Não sobre Portland. Ele parece ter perdido o interesse no assunto.

- Você está deprimido?

- Um pouco. Mas não perdi o controle.

- Promete que vai me contar, se a coisa ficar difícil?

- Prometo.

- Qual é o problema dessa nova paciente? - perguntou Angela, sentando-se ao lado de David.

- Isso é que é perturbador. Na verdade, não sei. Ela chegou com sinusite, que estava cedendo com antibiótico. Mas depois começou a desenvolver pneumonia por algum motivo desconhecido. Na verdade, primeiro ela ficou sonolenta. Depois ficou apática, e finalmente teve uma convulsão. Pedi consultas com o oncologista, o neurologista e o especialista em doenças infecciosas. Ninguém teve nenhuma idéia brilhante.

- Então você não deveria ser tão duro consigo mesmo.

- Só que eu sou o responsável. Sou o médico dela.

- Eu gostaria de poder ajudar.

- Obrigado - disse David. Em seguida, ele estendeu a mão e apertou o ombro de Angela.-Gosto de sua preocupação, porque sei que você está sendo sincera. Infelizmente, não há nada que você possa fazer, afora entender por que não consigo ficar tão abalado com a morte de Hodges.

- Eu simplesmente não consigo deixar isso de lado - disse Angela.

- Mas pode ser perigoso. Você não sabe contra quem está lutando. Quem matou Hodges não vai gostar de vê-la fuçando aí. Quem sabe o que uma pessoa dessas pode fazer? Veja o que ela fez com Hodges.

Angela olhou para a lareira, hipnotizada pelos carvões em brasa, brilhando no calor intenso. O perigo potencial sobre sua família era a sua motivação para resolver o assassinato de Hodges. Ela não havia considerado que a própria investigação poderia colocá-los em perigo ainda maior.

Entretanto, bastava fechar os olhos e ver o luminol brilhando em sua cozinha, ou lembrar-se das terríveis fraturas na radiografia vista na sala de autópsia, para saber que David tinha razão: uma pessoa capaz daquele tipo de violência não devia ser provocada.

 

SÁBADO, 23 DE OUTUBRO

PREOCUPADO COM MARY Ann, David levantou-se antes do sol. Saiu de casa sem acordar Angela e Nikki, e pegou a bicicleta. Exatamente quando o sol começava a surgir acima do horizonte, ele atravessou o Roaring River. Estava frio como na manhã anterior. Outra geada densa cobria os campos e os galhos nus das árvores com um brilho vítreo.

A chegada de David tão cedo surpreendeu as enfermeiras da UTI. O estado de Mary Ann não mudara significativamente, mas ela desenvolvera uma diarréia um tanto séria. David ficou espantado e grato pelo modo como as enfermeiras cuidaram disso. Era um tributo à compaixão e à dedicação que elas demonstravam.

Revendo desde o início o caso de Mary Ann, David não conseguiu ter qualquer idéia nova. Chegou a ligar para um de seus ex-professores em Boston, que, ele sabia, costumava acordar cedo. Depois de ouvir o caso, o professor se propôs a vir imediatamente. David ficou emocionado com o comprometimento e a generosidade dele.

Enquanto esperava a chegada do professor, fez a ronda para ver seus outros pacientes hospitalizados. Todos estavam passando bem. Pensou em mandar Jonathan Eakins para casa, mas decidiu mantê-lo por mais um dia, só para certificar-se de que sua condição cardíaca se encontrava estável.

Assim que o professor chegou, algumas horas depois, David apresentou Mary Ann como se estivesse de volta ao curso de medicina. O professor ouviu atentamente, examinou Mary An com grande cuidado e em seguida leu o prontuário em detalhes, Mas nem ele teve novas idéias. David levou-o até o carro, agradecendo-lhe profusamente por ter feito a viagem.

Sem mais nada para fazer no hospital, David foi para casa. Vinha evitando o basquete das manhãs de sábado porque continuava ressabiado pelo confronto desagradável com Kevin Yansen no jogo de tênis. Em seu estado emocional precário, David achava que tinha de evitar a competitividade de Kevin por mais uma semana.

Quando chegou em casa, Angela e Nikki estavam acabando de tomar o café da manhã. David zombou, dizendo que elas tinham perdido metade do dia. Enquanto Angela cuidava do tratamento respiratório de Nikki, David desceu ao porão e removeu a fita de isolamento da cena do crime. Em seguida levou algumas janelas de tempestade para o quintal, usando a escada que ligava o porão ao exterior.

Tinha acabado de colocar as janelas do primeiro andar, quando Nikki se aproximou.

- Quando é que nós vamos... - começou Nikki a perguntar. David pôs um dedo nos lábios, pedindo que ela ficasse quieta, enquanto apontava para a janela da cozinha, onde Angela podia ser vista.

- Assim que a gente guardar isso tudo - falou.

David deixou que Nikki o ajudasse a levar para o porão as telas que ele retirara. Sozinho, poderia ter feito tudo mais facilmente, mas Nikki gostava de imaginar que estava ajudando. Deixaram as telas encostadas contra a base da escada, onde originalmente ficavam as janelas de tempestade.

Depois de terminarem, David e Nikki anunciaram a Angela que estavam indo para a cidade, numa missão de compras. Em seguida, saíram, cada um em sua bicicleta. Angela gostou de vê-los, divertindo-se tanto, apesar de se sentir excluída.

Deixada só, começou a se sentir meio nervosa. Percebia o estalo da casa vazia. Tentou mergulhar no livro que estava lendo, mas logo começou a trancar as portas e até as janelas. Chegando à cozinha, não conseguiu impedir que a imaginação cobrisse as paredes com sangue.

- Não posso viver assim - disse em voz alta, percebendo como estava ficando paranóica. – Mas o que vou fazer?

Foi até a mesa da cozinha, cujos pés havia esfregado com o desinfetante mais forte que o Senhor Staley tinha em sua loja. Passou os dedos pela superfície. Imaginou se o luminol continuaria a ficar fluorescente agora que ela limpara a mesa tão bem. Ainda não gostava de pensar no assassino de Hodges solto. Entretanto, levou a sério o aviso de David, de que era perigoso ficar investigando o assassinato.

Indo até a lista telefônica, procurou ”Investigadores Particulares” mas não encontrou nenhum. Em seguida, procurou em ”Detetives” e encontrou uma lista. Na maior parte, eram empresas de segurança, mas também havia alguns indivíduos. Um deles - um tal de Phil Calhoun-era de Rutland, que ficava a pouca distância, de carro.

Antes de ter tempo de reconsiderar, Angela discou o número. Um homem de voz rouca, lenta e deliberada atendeu.

Angela não tinha pensado no que diria. Finalmente gaguejou, falando que queria investigar um assassinato.

- Parece interessante - disse Calhoun.

Angela tentou visualizar o sujeito do outro lado do fio. Julgando pela voz, imaginou um homem de compleição forte, com ombros largos, cabelos escuros e até um bigode.

- Talvez pudéssemos nos encontrar - sugeriu ela.

- A senhora quer que eu vá até aí, ou prefere vir aqui?

Angela pensou por um instante. Não queria que David descobrisse o que ela estava para fazer, pelo menos por enquanto.

- Eu vou até aí - falou.

- Estarei esperando - disse Calhoun depois de dar o endereço.

Angela subiu correndo a escada, trocou de roupa e deixou um bilhete para David e Nikki dizendo:

”Fui às compras.”

O escritório de Calhoun era também sua casa. Ela não teve dificuldade em encontrar. Na entrada de automóveis percebeu qi a pick-up Ford tinha um suporte para rifle atrás da cabine e um adesivo no pára-choque traseiro que dizia: ”Este Veículo SubiU Monte Washington.”

Phil Calhoun convidou-a a entrar na sala e indicou-lhe um sofá puído. Ele estava longe da imagem romântica do detetive particular. Apesar de ser um homem grande, era gordo e consideravelmente mais velho do que ela imaginara pela voz. Angela supôs que tivesse uns sessenta e poucos anos. O rosto era meio pastoso, mas os olhos eram brilhantes. Usava uma camisa de caçador, de xadrez em preto e branco. As calças de algodão eram mantidas por suspensórios pretos. Na cabeça tinha um boné com as palavras “Roscoe Electric” num brasão sobre a aba.

- Importa-se se eu fumar? - perguntou Calhoun, segurando uma caixa de charutos António y Cleopatra.

- A casa é sua - disse Angela.

- E qual é a história desse assassinato? - perguntou Calhoun, recostando-se na cadeira.

Angela deu um resumo do caso.

Para mim parece interessante. Eu adoraria pegar o caso, trabalhando por hora. E quanto a mim, sou um policial estadual aposentado e viúvo. É tudo. Alguma pergunta?

Angela estudou Calhoun enquanto ele fumava casualmente. Era lacónico como a maioria das pessoas da Nova Inglaterra. Parecia franco, uma característica que ela apreciava. Afora isso, não tinha como julgar sua competência, apesar de ser auspicioso o fato de ele ter sido da polícia estadual.

- Por que saiu da força policial? - perguntou.

- Aposentadoria compulsória.

O senhor já trabalhou em algum caso de assassinato?

- Como civil, não.

- Que tipo de casos costuma pegar?

- Problemas conjugais, roubos em lojas, desfalques por garçons, esse tipo de coisa.

- Acha que pode cuidar deste caso?

Sem dúvida. Eu cresci numa cidade pequena de Vermont, parecida com Bartlet. Sou familiarizado com o ambiente; o dia-a-dia; até conheço algumas pessoas de lá. Conheço o tipo de rixa que dura anos e o tipo de gente que se envolve com elas. Sou o homem certo para o trabalho, porque posso fazer perguntas sem chamar a atenção.

Angela voltou para Bartlet perguntando-se se tinha feito a coisa certa ao contratar Phil Calhoun.

Também se perguntou como e quando contaria a David.

Ao chegar em casa, ficou irritada por ver que Nikki estava sozinha. David fora ao hospital verificar o estado de sua paciente. Angela perguntou a Nikki se David tinha pedido a Alice para vir enquanto ele estava fora.

- Não - disse Nikki, despreocupada. - Papai disse que ia voltar logo, e que você provavelmente apareceria antes dele.

Angela decidiu que conversaria sobre isso com David. Sob as atuais circunstâncias, não gostava de ver Nikki sozinha em casa. Mal conseguia acreditar que David tivesse feito uma coisa dessas, e a atitude dele eliminou qualquer reserva que ela sentira ao contratar Phil Calhoun.

Disse a Nikki que queria as portas trancadas, e as duas foram verificá-las. A única aberta era a dos fundos. Enquanto preparava um lanche rápido, perguntou casualmente o que Nikki e o pai tinham feito naquela manhã, mas a menina se recusou a contar.

Quando David retornou, Angela chamou-o de lado para discutir o fato de ter deixado Nikki sozinha. A princípio, David mostrou-se defensivo, mas depois concordou em evitar aquilo no futuro.

Logo David e Nikki estavam tramando de novo, mas Angela ignorou-os. As tardes de sábado eram seu momento preferido. Com pouca oportunidade de cozinhar durante a semana, gostava de passar boa parte do dia folheando os livros de receitas e preparando uma refeição digna de um gourmet. Para ela, era uma experiência terapêutica.

No meio da tarde, tinha o menu planejado. Deixando a cozinha, abriu a porta do porão e começou a descer. Estava a caminho do freezer, em busca de alguns ossos de vitela para fazer caldo de carne, quando percebeu que não fora ao porão desde que os técnicos haviam estado lá. Seus passos diminuíram. Estava um tanto nervosa Por voltar sozinha ao porão, e avaliou a idéia de chamar David para ir junto. Mas percebeu que estava sendo boba. Além disso, não queria assustar Nikki ainda mais.

Desceu o resto da escada e foi na direção dofreezer, que ficava encostado na parede do fundo.

Enquanto caminhava, olhou na direção da antiga tumba de Hodges e sentiu-se aliviada ao ver que David tinha colocado as janelas de tela tapando o buraco.

Estava chegando aofreezer, quando ouviu um som de coisas arrastando atrás dela. Congelou.

Poderia ter jurado que o ruído viera de detrás da escada. Fechou a tampa do freezer antes de se virar lentamente e encarar o porão mal iluminado.

Com horror absoluto, viu as telas começarem a se mexer. Piscou e em seguida olhou de novo, esperando que tivesse sido sua imaginação. Mas logo as telas caíram com um ruído alto e ecoant

Angela tentou gritar, mas não saiu nenhum som. Tentou se mexer, mas não conseguiu. Com grande esforço, terminou por dar um passo, depois outro. Mas só estava a meio caminho da escada quando o rosto parcialmente descarnado de Hodges emergiu da tumba. Em seguida, o homem se arrastou para fora. Parecia desorientado, até ver Angela. Em seguida começou a andar em sua direção, com os braços estendidos.

O terror de Angela transformou-se em movimento. Ela correu até a escada, mas já era tarde. Hodges interceptou-a e agarrou seu braço.

Ao sentir a mão da criatura em seu pulso, Angela teve a voz libertada. Gritou, lutando para se soltar. Em seguida, viu outra criatura emergir da tumba. Menor, mas um monstro exatament com o mesmo rosto. De súbito, Angela percebeu que Hodges estava rindo.

Angela só pôde ficar olhando, perplexa, enquanto David tirava uma máscara de borracha. Nikki, o zumbi menor, retirou uma máscara idêntica do rosto. Os dois estavam rindo histericament

A princípio, Angela sentiu-se envergonhada, mas sua humilhação logo se transformou em fúria. Não havia nada engraçado naquela brincadeira. Ela empurrou David para o lado e subiu correndo a escada.

David e Nikki continuaram a rir, mas logo o riso foi cessado quando perceberam o quanto a haviam assustado.

- Você acha que ela está mesmo furiosa?-perguntou Nikki.

- Acho que sim - disse David. - Acho melhor a gente subir e conversar com ela.

Angela se recusou até mesmo a olhar para eles enquanto se ocupava na cozinha.

- Mas nós estamos nos desculpando - repetiu David pela terceira vez.

- Nós dois, mamãe - insistiu Nikki. Mas tanto ela quanto David tinham de reprimir o riso.

- Nunca imaginamos que você fosse ser enganada, nem por um minuto - disse David, tentando se controlar. - Sério! Achamos que você ia descobrir de cara; era uma coisa tão idiota!

- É, mamãe. A gente achou que você ia adivinhar, porque sábado que vem é o Dia das Bruxas.

Essas vão ser nossas fantasias. Nós até compramos uma máscara igual para você.

- Bem, podem jogar fora - disse Angela.

Nikki baixou a cabeça. Seus olhos se encheram de lágrimas. Angela olhou-a e sua ira se dissolveu.

- Oh, não fique assim. - disse e em seguida puxou Nikki para perto. - Sei que estou reagindo com exagero, mas fiquei realmente apavorada. E não acho que foi engraçado.

Ansioso por começar o que sem dúvida era o caso mais intrigante que já enfrentara desde o início de seu pequeno negócio destinado a suplementar a pensão e o seguro social, Phil Calhoun dirigiu seu carro até Bartlet no meio da tarde. Estacionou a pick-up à sombra da biblioteca de Bartlet e atravessou o gramado até a delegacia.

- Wayne está por aí? - perguntou ao policial de plantão.

O policial simplesmente apontou para o fim do corredor. Estava lendo um exemplar do Bartlet Sun.

Calhoun foi adiante e bateu na porta de Robertson, que estava aberta. Robertson levantou os olhos, sorriu e convidou Phil a entrar.

Robertson inclinou-se para trás na cadeira e aceitou um Antônio y Cleopatra de Calhoun.

- Trabalhando até tarde num tremendo sábado - disse Calhoun. - Deve estar acontecendo um bocado de coisas aqui e Bartlet.

- A droga da burocracia. É um saco. E fica pior a cada ano. – Calhoun assentiu.

- Li no jornal que oDoutor Hodges apareceu.

- É. Causou uma certa agitação, mas já está tudo calmo, foi merecido. O cara era um criador de casos.

- Como assim?

O rosto de Robertson ficou vermelho enquanto mais uma vez, ele soltava sua litania contra o Doutor Dennis Hodges. Admitiu muitas vezes que quase arrebentara o sujeito.

- Pelo visto, Hodges não era o cara mais popular da cidade - disse Calhoun.

Robertson deu um pequeno riso cáustico.

- Muita ação no caso? - perguntou Calhoun casualmente soprando fumaça para o alto.

- Não. A gente se mexeu um pouco quando Hodges desapareceu, mas só para constar. Ninguém se importou muito, mesmo a esposa. Praticamente ex-esposa. Ela se mudara para Boston antes mesmo de Hodges desaparecer.

- E agora? O Boston Globe disse que a polícia estadual está investigando.

- Eles também só estavam fazendo constar. O perito médico ligou para o promotor estadual. O promotor estadual mandou a assistente verificar. Ela ligou para a polícia estadual, que mandou vir a perícia. Mas depois disso o tenente da polícia estadual me ligou. Eu disse que não valia a pena gastar tempo com isso e que cuidaríamos do caso. E como você sabe, melhor do que a maioria das pessoas, num caso assim a polícia estadual pega as informações conosco, a não ser que haja pressão de alguém como o promotor estadual ou algum político. Ora, a polícia estadual tem casos mais importantes para resolver. O mesmo acontece com a gente. Além disso, já se passaram oito meses. O rasto está gelado.

- Em que vocês estão trabalhando atualmente?

- Estamos com uma série de estupros e ataques no estacionamento do hospital.

- Teve alguma sorte em descobrir o culpado?

- Ainda não.

Depois de sair da delegacia, Calhoun andou pela Main Street e parou na livraria. A proprietária, Jane Weincopp, fora amiga de sua esposa. A esposa de Calhoun fora uma grande leitora, especialmente no último ano de vida, quando ficara confinada à cama.

Jane levou Calhoun para o escritório, que era apenas uma mesa minúscula no canto do depósito.

Calhoun disse que só estava de passagem, e depois de um pouco de conversa fiada conseguiu direcionar a discussão para Dennis Hodges.

- A descoberta do corpo certamente foi uma grande notícia em Bartlet - admitiu Jane.

- Fiquei sabendo que ele não era um homem popular. Quem gostaria de acabar com ele?

Jane lançou um olhar estranho para Calhoun.

- Esta é uma visita profissional ou pessoal? - perguntou com um sorriso torto.

- Só curiosidade - disse Calhoun, piscando o olho. - Mas eu gostaria que você não contasse a ninguém.

Meia ”hora depois, Calhoun voltou a sair à luz baça do entardecer, levando consigo uma lista de vinte pessoas que não gostavam de Hodges. Nela estavam incluídos o presidente do banco, o dono do posto Mobil perto da interestadual, o biscateiro retardado da cidade, o chefe de polícia, que Calhoun já tinha encontrado, um punhado de comerciantes e proprietários de lojas e meia dúzia de médicos.

Calhoun ficou surpreso com a extensão da lista, mas não se mostrou infeliz. Afinal de contas, quanto maior a lista, mais horas teria para cobrar da cliente.

Continuando o passeio pela Main Street, parou na Farmácia Harrison’s. O farmacêutico, Harley Strombell, era irmão de um dos colegas de Calhoun na polícia, Wendell Strombell.

Como Jane, Harley não se enganou com a natureza das perguntas de Calhoun, mas prometeu ser discreto. Até mesmo aumentou a lista de Calhoun dando o seu próprio nome, além de Ned Banks, dono da fábrica de cabides New England, Harold Traynor e Helen Beaton, a nova presidente do hospital.

- Por que você não gostava dele? - perguntou Calhoun.

- Era uma coisa pessoal. Hodges não tinha um mínimo trato social. - Harley explicou que tinha uma pequena filial da farmácia no hospital, até que um dia, sem explicação ou aviso Hodges simplesmente o chutara fora. - Sei que era natural um hospital em expansão ter sua própria farmácia no ambulatório - continuou Harley. - Compreendo isso. Mas a coisa foi muito malfeita, graças a Dennis Hodges.

Calhoun saiu da farmácia imaginando o tamanho que sua lista teria antes que ele pudesse começar a levantar suspeitos sérios. Tinha chegado a vinte e cinco nomes, e ainda havia mais alguns contatos em Bartlet que ele poderia checar antes de considerar a lista completa.

Como a maioria das lojas fechava à noite, Calhoun atravessou a rua e foi até o Iron Horse Inn. Era um estabelecimento que guardava muitas lembranças agradáveis para ele. Fora o restaurant favorito de sua esposa para jantares especiais, como aniversários de casamento e nascimento.

Carleton Harris, o garçom, reconheceu Calhoun do outro lado do salão. No momento em que Calhoun chegou ao bar, havia um copo de Wild Turkey esperando por ele. Carleton até mesmo pegou meia caneca de cerveja, para que os dois pudessem brindar.

- Trabalhando em alguma coisa interessante ultimamente? - perguntou Carleton depois de beber seu gole de cerveja.

- Acho que sim - disse Calhoun. Em seguida inclinou-se sobre o bar e Carleton instintivamente fez o mesmo.

Ângela não trocou uma palavra com David e evitou encará-lo enquanto os dois se preparavam para dormir. David achou que ell ainda estava irritada pela brincadeira no porão com as máscaras do Dia das Bruxas. Ele não gostava de mau humor, e queria melhorar o clima.

- Pelo que vejo, ainda está com raiva porque assustamos você. Será que não podemos conversar sobre isso?

- O que o faz achar que estou com raiva? - perguntou Angela em tom inocente.

- Ora, Angela! Você está me dando gelo desde que Nikki foi para a cama.

- Acho que fiquei desapontada por você ter feito uma coisa daquelas sabendo como eu estava perturbada com o cadáver. Achei que você seria mais sensível.

- Eu pedi desculpas. Ainda não consigo acreditar que você não tenha rido no momento em que viu a gente. Nunca me ocorreu que fosse ficar tão apavorada. Além disso, não foi somente uma brincadeira. Eu fiz isso por Nikki.

- O que quer dizer? - perguntou Angela em tom cético.

- Com os pesadelos que ela vinha tendo, achei que tratar o assunto com humor fosse de grande ajuda. Foi um artifício para fazer com que ela fosse ao porão sem se apavorar. E funcionou: ela estava tão concentrada em surpreender você que nem pensou no medo.

- Você poderia ao menos ter me avisado.

- Não achei que fosse preciso. Como eu disse, nunca pensei que você seria enganada. E foi o tom de conspiração que manteve Nikki tão envolvida.

Angela encarou o marido. Dava para ver que ele estava com remorsos e sendo sincero. De súbito ela sentiu mais vergonha do que raiva por ter caído na peça. Largou a escova de dentes, foi até David e deu-lhe um abraço.

- Desculpe por ter-me irritado tanto - falou. - Acho que estou estressada. Eu te amo.

- Eu também te amo. Agora vejo que deveria ter contado o que íamos fazer. Você poderia ter fingido que não sabia. Mas nem pensei. Ando tão distraído ultimamente! Também me sinto muito estressado. Mary Ann Schiller não melhorou. Ela vai morrer, eu sei disso.

- Não fique assim. Nunca se pode ter certeza.

- Não sei. Venha, vamos para a cama.

Enquanto eles terminavam as abluções, David contou a Angela sobre o professor que viera de Boston, e nem mesmo ele conseguira acrescentar nada.

- Você está se sentindo mais deprimido?

- Estou na mesma. Acordei às quatro e quinze esta manhã e não consegui dormir de novo. Fico pensando que há alguma coisa que deixei de perceber com esses pacientes; talvez eles tenham pegado alguma doença viral desconhecida. Mas sinto as mãos amarradas. É muito frustrante ter de pensar em Kelley e na CMV cada vez que peço uma consulta especial. A coisa está ficando tão ruim que eu chego a achar que preciso correr com as consultas, com os diagnósticos.

- Para atender mais pacientes?-perguntou Angela enquanto os dois iam do banheiro para o quarto.

David assentiu.

- Mais pressão da CMV, através de Kelley. Odeio admitir, mas isso significa que tenho de evitar conversas com os pacientes e deixar de responder às suas perguntas. Não é difícil influenciar os pacientes, mas não gosto disso. Imagino se eles não percebem que estão sendo prejudicados. Muitas pistas fundamentais para o diagnnóstico certo vêm do tipo de comentários espontâneos que os pacientes fazem quando você passa algum tempo com eles.

- Eu tenho uma confissão a fazer - disse Angela de súbito.

- De que está falando? - perguntou David deitando-se na cama.

- Também fiz algo hoje sem o seu conhecimento.

- O quê?

Enquanto entrava sob as cobertas, Angela contou a David sobre sua ida a Rutland e a contratação de Phil Calhoun para investigar o assassinato de Hodges.

David encarou-a e em seguida olhou para o outro lado. Não disse nada. Angela soube que ele ficara irritado.

- Pelo menos, aceitei a sua sugestão de que era perigoso para mim investigar o crime. Agora temos um profissional.

- O que faz desse homem um profissional? - perguntou David, voltando a olhar para Angela.

- Ele é aposentado da polícia estadual.

- Eu esperava que você fosse razoável com esse caso Hodges. Contratar um detetive particular é ir um pouco longe demais. É jogar dinheiro fora.

- Não é não, desde que seja uma coisa importante para mim. E deveria ser importante para você, se espera que eu continue morando nesta casa.

David suspirou, apagou o abajur do seu lado e rolou para longe de Angela.

Ela sabia que deveria tê-lo avisado sobre a contratação. Suspirou também e estendeu a mão para o seu abajur. Talvez não tivesse feito a coisa do modo certo, mas continuava confiando em que fora uma boa idéia contratar Calhoun.

Mal as luzes foram apagadas, eles ouviram várias batidas altas, seguidas pelos latidos de Ferrugem.

Angela voltou a acender a luz e levantou-se da cama. David fez o mesmo. Os dois pegaram seus roupões e saíram do quarto. David acendeu a luz do corredor. Ferrugem estava no topo da escada, olhando para a escuridão do andar térreo. Rosnava ferozmente.

- Você verificou se a porta da frente estava trancada? - sussurrou Angela.

- Verifiquei.

David seguiu pelo corredor e deu um tapinha na cabeça de Ferrugem.

- O que foi, amigão?

Ferrugem desceu a escada e começou a latir junto à porta da frente. David seguiu-o. Angela ficou no topo da escada. David destrancou a porta da frente.

- Tenha cuidado - alertou Angela.

- Por que você não coloca uma daquelas máscaras do Dia das Bruxas? - gritou David para ela. - Assim damos um tremendo susto em quem estiver lá fora.

- Pare de brincar. Isso não é engraçado.

David saiu para a varanda segurando a coleira de Ferrugem. O céu escuro estava pontilhado de estrelas. Uma lua em quarto minguante dava luz suficiente para enxergar todo o caminho até a estrada, mas não havia nada incomum.

- Venha, Ferrugem - chamou David enquanto se virava. Ao se aproximar da porta, viu um bilhete datilografado, pregado ao portal. Arrancou-o e leu: ”Cuide da sua vida. Esqueça Hodges.”

Trancando a porta, David subiu a escada e entregou o bilhete a Angela. Ela seguiu-o até o quarto.

- Vou levar isto à polícia - disse Angela.

- Droga, o bilhete pode ter vindo da polícia!

David voltou para a cama e apagou a luz. Angela fez o mesmo. Ferrugem seguiu pelo corredor para juntar-se de novo a Nikki, que evidentemente nem se abalara no sono.

- Agora estou completamente acordado - reclamou David.

- Eu também.

A campainha do telefone fez com que os dois saltassem. David atendeu ao primeiro toque. Angela acendeu a luz e ficou olhando o marido. Ele baixou a cabeça enquanto ouvia. Em seguida desligou o aparelho.

- Mary Ann Schiller teve outra convulsão e morreu. Eu disse que isso ia acontecer.

David levantou uma das mãos para o rosto e cobriu os olhos. Angela se aproximou e envolveu-o com os braços. Percebeu que ele chorava em silêncio.

- Quando será que esse pesadelo vai acabar?-disse ele. Em seguida enxugou os olhos e começou a se vestir.

Angela acompanhou-o até a porta dos fundos. Depois de vê-lo sair, trancou a porta e vigiou enquanto as luzes traseiras do Volvo desciam pelo caminho e desapareciam.

Ao passar da saleta dos fundos para a cozinha, ainda pôde ver na imaginação o brilho fantasmagórico do luminol. Estremeceu. Não gostava de estar sem David naquela casa enorme, à noite.

No hospital, David encontrou pela primeira vez Donald, o marido de Mary Ann. Donald, seu filho adolescente Matt e os pais de Mary Ann estavam na sala de espera perto da UTI, conversando em voz baixa e consolando-se mutuamente. Como acontecera com a família Kleber e com a família Tarlow, eles agradeceram os esforços de David. Ninguém demonstrou qualquer ressentimento ou recriminação.

- Nós a tivemos por mais tempo do que o Doutor Mieslich avaliara - disse Donald. Seus olhos estavam vermelhos e o cabelo desgrenhado, como se ele tivesse estado dormindo. – Ela conseguiu voltar para o trabalho na biblioteca.

David consolou a família, dizendo o que eles queriam ouvir,que ela não tinha sofrido. Mas teve de confessar sua confusão quanto à causa dos ataques convulsivos.

- O senhor não esperava as convulsões? - perguntou Donald.

- De jeito nenhum. Especialmente porque a ressonância magnética foi normal.

Todos assentiram como se tivessem entendido. Depois, no calor do momento, David foi contra as ordens de Kelley e perguntou se a família permitiria uma autópsia. Explicou que isso poderia responder a muitas perguntas.

- Não sei - disse Donald e olhou para os sogros. Eles se mostraram igualmente indecisos.

- Por que não pensam nisso durante a noite? - sugeriu David. - Vamos manter o corpo aqui.

Saindo da UTI, David sentiu-se desanimado. Não foi direto para casa. Encaminhou-se para o posto de enfermagem do segundo andar, em meio à penumbra. A noite estava silenciosa.

Tentando pensar em outras coisas, olhou o prontuário de Jonathan Eakins. Enquanto o examinava, uma das enfermeiras da noite disse que o Senhor Eakins estava acordado, vendo TV. David foi até o quarto dele e enfiou a cabeça pela porta.

- Tudo bem? - perguntou.

- Que médico empenhado! - disse Jonathan com um sorriso. - O senhor deve morar aqui.

- O bipe do seu aparelho continua regular?

- Como um relógio - disse Jonathan. - Quando é que vou para casa?

- Provavelmente hoje. Vejo que trocaram a sua cama.

- Sem dúvida. Parece que não conseguiram consertar a outra. Obrigado por ter pedido a eles. Minhas reclamações não tinham dado resultado.

- Tudo bem - disse David. - Vejo-o amanhã.

David saiu do hospital e entrou no carro. Deu partida no motor mas não engrenou a marcha.

Tivera três mortes inesperadas em uma semana: pacientes que outros médicos vinham mantendo vivos e saudáveis. Não podia deixar de questionar sua competência. Perguntou-se se deveria ter escolhido essa profissão. Talvez aqueles três pacientes estivessem vivos se tivessem outro médico.

Sabia que não poderia ficar a noite inteira no estacionamento do hospital, de modo que finalmente engrenou o carro e foi para casa. Surpreendeu-se ao ver uma luz acesa na sala íntima. Logo que estacionou e saiu do carro, viu Angela na porta dos fundos. segurava um jornal de medicina.

- Tudo bem? - perguntou David. - Por que está de pé?

Ele tirou o casaco e fez um gesto para que Angela fosse na sua frente, para a cozinha.

- Não houve como dormir sem você em casa - disse Angela por sobre o ombro enquanto atravessava a cozinha e entrava no corredor. - Principalmente depois daquele bilhete pregado na porta. E estive pensando. Se você tiver que sair no meio da noite assim, quero ter um revólver aqui.

David estendeu a mão e fez com que Angela parasse.

- Não vamos ter nenhuma arma em casa. Você conhece tão bem quanto eu as estatísticas sobre armas em casa onde existem crianças.

- Essas estatísticas não são para famílias de médicos com uma filha única e inteligente. Além disso, eu me responsabilizo em garantir que Nikki tenha consciência do que é o revólver e do seu potencial.

David soltou a esposa e dirigiu-se para a escada.

- Não tenho energia nem força emocional para discutir.

- Muito bem! - disse Angela acompanhando-o. Depois de subir, David decidiu tomar outro banho. Quando chegou ao quarto, Angela estava lendo seu jornal de patologia, tão desperta quanto ele.

- Ontem à noite, depois do jantar, você falou que queria me ajudar - disse ele. - Lembra?

- Claro que lembro.

- Você pode realizar esse desejo. Há uma hora, perguntei se a família Schiller permitiria uma autópsia. Eles disseram que iriam pensar durante a noite e falariam comigo amanhã.

- Infelizmente, essa decisão não compete à família. O hospital não faz autópsias em pacientes da CMV.

- Mas eu tenho outra idéia. Você podia fazer por conta própria.

Angela avaliou a sugestão.

- Talvez pudesse. Amanhã é domingo, e o laboratório fica fechado, a não ser para análises de emergência.

- Foi exatamente o que pensei.

- Eu poderia ir com você amanhã ao hospital e conversar com a família - disse Angela, animando-se com a idéia.

- Eu gostaria muito. Se você pudesse descobrir algum motivo específico para ela ter morrido, eu me sentiria muito melhor.

 

DOMINGO, 24 DE OUTUBRO

DAVID E ANGELA ESTAVAM exaustos de manhã, mas Nikki descansara bastante. Tinha dormido toda a noite sem nenhum pesadelo e estava ansiosa para começar o dia.

Nos domingos, os Wilsons acordavam cedo para ir à igreja. Depois faziam um lanche no Iron Horse Inn.

Ir à igreja fora idéia de Angela. Sua motivação não era religiosa e sim social. Achava que seria uma boa maneira de se ligar à comunidade de Bartlet. Escolhera a igreja metodista que ficava no parque da cidade. Era de longe a mais popular.

- Temos mesmo de ir? - gemeu David naquela manhã. Estava sentado na beira da cama, tentando se vestir com modos desajeitados. Mais uma vez tinha acordado antes do amanhecer, adespeito de ter dormido tão tarde. Ficara desperto durante horas, e tinha acabado de voltar a dormir quando Nikki e Ferrugem entraram pulando no quarto.

- Nikki vai ficar desapontada se não formos - gritou Angela do banheiro.

David acabou de se vestir com resignação. Meia hora depois, a família entrava no Volvo e ia para a cidade. Sabiam pela experiência que o melhor era estacionar no restaurante e andar atéo parque.

Estacionar perto da igreja era sempre um desastre.

O trânsito aos domingos era tão ruim que tinha de ser supervisionado por um dos policiais.

Naquela manhã, Wayne Robertson estava encarregado do controle de trânsito. Um apito de aço inoxidável se projetava de sua boca.

- Que ótima coincidência! - disse Angela assim que o viu. - Vocês dois ficam aqui.

Disparando antes que David pudesse impedi-la, foi direto ao chefe de polícia segurando o bilhete anônimo.

- Desculpe - falou. - Tenho uma coisa que gostaria que o senhor visse. Isto foi pregado em nossa porta ontem à noite, enquanto estávamos na cama.

Ela entregou o bilhete e em seguida apoiou as mãos nos quadris, esperando uma resposta.

Robertson deixou o apito cair da boca. Ele estava pendurado ao pescoço por um cordão. Em seguida, olhou para o bilhete e entregou-o de volta.

- Eu diria que é uma boa sugestão. Recomendo que siga o conselho.

Angela deu um risinho.

- Não estou pedindo sua opinião sobre o conselho do bilhete. Quero que descubra quem o colocou em nossa porta.

- Muito bem! - disse ele devagar, coçando a nuca. - Não há muita coisa a deduzir, a não ser que foi datilografado numa Smith Corona 1952 com o ”o” minúsculo defeituoso.

Por um instante, Angela começou a reavaliar as habilidades de Robertson. Mas depois percebeu que o policial estava zombando dela.

- Tenho certeza de que fará o máximo para descobrir - falou com um sarcasmo controlado -, mas considerando sua atitude com relação ao assassinato de Hodges, acho que não podemos esperar milagres.

Sons de buzinas e alguns gritos de motoristas frustrados forçaram a atenção de Robertson de volta ao trânsito, que rapidamente havia engarrafado. Enquanto fazia o máximo para resolver a confusão, ele disse:

- Você e sua pequena família são novos em Bartlet. Talvez devessem pensar duas vezes antes de interferir num assunto que não lhes diz respeito. Só vão causar problemas para vocês mesmos.

- Até agora só tive problemas com o senhor - disse Ângela. - E sei que o senhor é uma das pessoas que não lamentam a mort de Hodges. Sei que, equivocadamente, culpou-o pela morte de sua esposa.

Robertson parou de dirigir o trânsito e virou-se para Ângela. Suas bochechas gorduchas tinham ficado completamente vermelhas.

- O que a senhora disse?

Nesse momento, David surgiu entre Angela e Robertson, for çando-a a se afastar. Vinha escutando a conversa de perto, e não gostou da direção que ela tomava.

Angela tentou repetir a declaração, mas David deu-lhe um puxão no braço e sussurrou entre dentes, mandando que ela ficasse quieta. Quando chegou a uma distância razoável, apertou os seus ombros.

- Que diabo aconteceu com você? Está atiçando um sujeito que obviamente tem algum problema de personalidade. Sei que tem um certo pendor para o dramático, mas isso já é forçar a barra.

- Ele estava me ridicularizando - reclamou Angela.

- Pare com isso! Você está parecendo uma criança.

- Ele deveria estar nos protegendo - disse Angela com rispidez. - Deveria manter a lei. Mas não está nem um pouco interessado neste bilhete ameaçador, nem tampouco em quem assassinou Hodges.

- Acalme-se! Você está fazendo um escândalo.

Os olhos de Angela afastaram-se de David e observaram a rua ao redor. Várias pessoas tinham parado no caminho para a igreja. Estavam todas olhando.

Sem graça, Angela colocou o bilhete na bolsa, ajeitou o vestido e pegou a mão de Nikki.

- Venha - falou. - Não vamos nos atrasar.

Depois de recrutar Alice Doherty para tomar conta de Nike e Caroline, David e Angela foram para o hospital. Nikki encontrou Caroline depois do culto e ela fora com eles ao lanche no Iron Horse Inn.

No hospital, David e Angela encontraram Donald Schiller e seus sogros, os Josephsons. Sentaram-se todos nos bancos à direita da entrada, para discutir a autópsia proposta.

- Meu marido pediu a vocês uma permissão para autópsia - disse Angela. - Estou aqui para dizer que serei eu a fazer a autópsia, se vocês concordarem. Como nem o hospital nem a CMV pagam por esse serviço, estou me oferecendo para fazê-lo no meu tempo de folga. Não vai custar nada. E pode render algumas informações importantes.

- É muito generoso de sua parte - disse Donald. - Ainda não tínhamos certeza do que fazer, mas, depois de conversar com a senhora, acho que me sinto bem com relação a isso. – Em seguida Donald olhou para os Josephsons. Eles assentiram.

- Acho que Mary Ann iria querer também, se isso puder ajudar outras pessoas.

- Acho que pode - disse Angela.

David e Angela desceram ao porão para pegar o corpo de Mary Ann no necrotério. Levaram-no para o laboratório e empurraram a maca até a sala de autópsia. A sala não era usada para autópsias há vários anos, e tinha virado um depósito. Os dois tiveram de retirar caixas de cima da antiga mesa de aço inoxidável destinada às autópsias.

David planejara assistir, mas logo Angela percebeu que ele achava difícil lidar com a situação. Não estava acostumado a autópsias, e aquele era o corpo de uma paciente de quem ele tratara até a véspera.

- Por que não vai ver os seus pacientes? - sugeriu Angela quando estava pronta para começar.

- Tem certeza de que pode se virar sozinha?

Angela assentiu.

- Mando chamá-lo quando tiver terminado, e você pode me ajudar a levá-la de novo para baixo.

- Obrigado - disse David. Ao chegar na porta, ele se virou. - Lembre-se, considere a possibilidade de alguma doença viral desconhecida. Tenha cuidado. E, além disso, quero um exame toxicológico completo.

- Porquê?

- Quero me cercar de todas as garantias. Me dê uma força, está bem?

- Deixe comigo - disse Angela em tom animador. - Agora suma daqui!

Angela pegou um bisturi e acenou para que David fosse embora.

David deixou que as portas da sala de autópsia se fechassem antes de tirar o gorro, o jaleco e a máscara que pegara para a necrópsia. Em seguida saiu do laboratório e subiu até o andar dos seus pacientes.

Pretendia dar alta a Jonathan Eakins, especialmente depois que as enfermeiras disseram que o coração dele estava normal. Mas isso foi antes de entrar no seu quarto para dizer “alô”. Em vez de vê-lo animado como de costume, recepcionando-o calorosamente, encontrou-o deprimido. Jonathan disse que se sentia terrível.

Sensibilizado pelos acontecimentos recentes, David ficou ins-tantaneamente com a boca seca. Sentiu um jorro de adrenalina correndo pelo corpo. Com medo de ouvir a resposta, perguntou a Jonathan o que estava errado.

- Tudo - disse Jonathan. Seu rosto estava sem energia, seus olhos sem brilho. Um fio de saliva escorria pelo canto da boca. Comecei tendo cólicas, depois náusea e diarréia. Estou sem apetit e tenho de ficar engolindo o tempo todo.

- O que quer dizer com ficar engolindo? - perguntou David temeroso.

- Minha boca fica se enchendo de saliva. Tenho de engolir ou cuspir.

David tentou desesperadamente colocar esses sintomas em alguma categoria reconhecível. A salivação disparou uma lembrança da escola de medicina. Lembrou-se que era um dos sintomas de envenenamento por mercúrio.

- Você comeu alguma coisa estranha a noite passada?

- Não.

- E como está o seu soro?

- Foi retirado ontem, por recomendação sua.

David ficou em pânico. Afora a salivação, os sintomas de Jonathan se pareciam com os que Marjorie, John e Mary Ann apresentaram antes da rápida deterioração e da morte.

- O que há de errado comigo? - perguntou Jonathan, sentindo a ansiedade de David. - Não é coisa séria, é?

- Eu estava esperando lhe dar alta - disse David, evitando uma resposta direta. - Mas, se está se sentindo tão mal, é melhor ficar mais um dia.

- O senhor é quem sabe - disse Jonathan. - Mas vamos cortar esse mal pela raiz; eu tenho um aniversário de casamento no próximo fim de semana.

David correu até o posto de enfermagem com a cabeça num tumulto. Ficava dizendo a si próprio que aquilo não poderia acontecer de novo. Era impossível. As chances eram pequenas demais.

Deixou-se cair numa cadeira e pegou o prontuário de Jonathan. Examinou-o cuidadosamente, relendo tudo, inclusive todas as anotações das enfermeiras. Observou que, naquela manhã, a temperatura de Jonathan era de trinta e sete graus e meio. Será que isso representava febre? David não sabia; era a faixa limite.

Correndo ao quarto de Jonathan, fez com que ele sentasse na beira da cama, para ouvir seu peito. Os pulmões estavam perfeitamente limpos.

David voltou ao posto de enfermagem, apoiou os cotovelos sobre a bancada e cobriu o rosto com as mãos. Precisava pensar. Não sabia como agir, mas achava que tinha de fazer alguma coisa.

Impulsivamente, estendeu a mão para o telefone. Já sabia da reação que podia esperar de Kelley e da CMV, mas não se importou. Chamou o Doutor Mieslich, o oncologista, e o Doutor Hasselbaum, especialista em doenças infecciosas, e pediu que os dois viessem imediatamente. Disse que acreditava estar com um paciente nos primeiros estágios da mesma condição que havia se mostrado mortal três vezes em três dias.

Enquanto esperava a chegada dos médicos, requisitou uma bateria de testes. Sempre havia a chance de que Jonathan acordasse no dia seguinte sentindo-se bem, mas David achava que não poderia arriscar que o paciente seguisse o mesmo caminho de Marjorie, John e Mary Ann. Seu sexto sentido estava dizendo que Jonathan já se encontrava numa luta mortal, e ultimamente sua intuição não vinha falhando.

O especialista em doenças infecciosas foi o primeiro a chegar. Depois de uma conversa rápida com David, foi ver o paciente. O Doutor Mieslich apareceu em seguida. Trouxe consigo os registros do tratamento de Jonathan, quando este fora seu paciente. O Doutor Mieslich e David repassaram página por página os registros. Quando terminaram, o Doutor Hasselbaum estava acabando de examinar Jonathan. Ele juntou-se a David e ao Doutor Mieslich no posto de enfermagem.

Os três homens tinham apenas começado a discutir o caso, quando David percebeu que os dois médicos estavam olhando sobre seu ombro. David virou-se e viu Kelley agigantando-se sobre ele.

- Doutor Wilson - disse Kelley. - Posso trocar uma palavra com o senhor na sala de espera?

- No momento estou muito ocupado - disse David, virando-se de novo para os médicos.

- Acho que preciso insistir. - Kelley deu um tapinha no ombro de David. David empurrou sua mão. Não gostou de Kelley tê-lo tocado.

- Isso me dará a chance de examinar o paciente - disse o Doutor Mieslich, levantando-se e saindo do posto de enfermagem.

- Vou usar o tempo para anotar minhas observações da consulta - completou o Doutor Hasselbaum. Ele tirou uma caneta do bolso do paletó e pegou o prontuário de Jonathan.

- Certo - disse David levantando-se. - O senhor não vem, Senhor Kelley?

Kelley atravessou o corredor e entrou na sala de espera. Assim que David entrou na sala, Kelley fechou a porta.

- Presumo que conhece a senhora Helen Beaton, presidente do hospital, e o Senhor Michael Caldwell, diretor do serviço médico. - Ele fez um gesto na direção das duas pessoas sentadas no sofá.

- Sim, claro - disse David. Ele se lembrava de Caldwell das entrevistas de Angela, e havia encontrado Beaton em várias atividades do hospital. Aproximou-se e apertou as mãos dos ddois. Nenhum deles se preocupou em levantar.

Kelley sentou-se. David fez o mesmo.

David olhou ansiosamente os rostos ao redor. Esperava problemas vindos de Kelley, achando que essa reunião tinha a ver com a autópsia de Mary Ann Schiller. Imaginou que esse fosse o motivo da presença dos representantes do hospital. Esperava que isso não causasse problemas para Angela.

- Acho que devo ser direto - disse Kelley. - Provavelmente está se perguntando por que reagimos tão depressa ao que você fez com Jonathan Eakins.

David ficou pasmo: como aqueles três poderiam estar ali para conversar sobre Jonathan quando ele estava apenas começando a investigar os sintomas do sujeito?

- Fomos chamados pela coordenadora de utilização da enfermagem - explicou Kelley. - Ela fora alertada pelas enfermeiras do andar, de acordo com instruções prévias. O controle de utilização é vital. Sentimos a necessidade de intervir. Como eu lhe disse antes, você está usando consultas demais, especialmente fora da equipe da CMV.

- E muitos exames de laboratório - disse Beaton.

- E muitos testes de diagnóstico também - completou Caldwell.

David olhou incrédulo para os três administradores. Cada um deles devolveu o olhar de modo impassível. Aquilo era um tribunal em julgamento. Era como a Inquisição. Ele estava sendo julgado por heresia de economia médica, e nenhum dos inquisidores era médico.

- Queremos lembrar-lhe que está lidando com um paciente que foi tratado de câncer de próstata com metástase - disse Kelley.

- Achamos que o senhor já foi muito perdulário com suas prescrições – completou Beaton.

- O senhor tem uma história de uso excessivo de recursos em três pacientes anteriores, que eram claramente terminais - disse Caldwell.

David lutou contra as emoções. Como já estivera questionando a própria competência em razão das três mortes sucessivas, sentia-se vulnerável às críticas dos administradores.

- Meu compromisso é com o paciente - falou em tom humilde. - Não com uma organização ou uma instituição.

- Admiramos a sua filosofia - disse Beaton. - Mas essa filosofia levou à crise econômica no serviço médico. O senhor deve expandir seus horizontes. Temos um compromisso com toda comunidade de pacientes. Nem tudo pode ser feito por todo mundo!, É necessário um julgamento quanto ao uso racional de recursos limitados.

- David, a questão é que seu uso de serviços subsidiário excede em muito as normas desenvolvidas por seus colegas médicos - disse Kelley.

Houve uma pausa. David não tinha certeza do que dizer.

- Minha preocupação com esses casos em particular - falou - é que eu esteja diante de uma doença infecciosa desconhecida. Se for esse o caso, seria desastroso não fazer um diagnóstico.

Os três administradores se entreolharam, para ver quem falaria. Beaton encolheu os ombros e disse:

- Isso está fora de minha área de especialização; sou a primeira a admitir.

- Da minha também - disse Caldwell.

- Mas, por acaso, temos aqui um especialista em doenças infecciosas, e ele é independente - disse Kelley. - Como a CMV já o está pagando, vamos perguntar a sua opinião.

Kelley saiu e voltou com o Doutor Martin Hasselbaum e com o DOUTOR Clark Mieslich. As apresentações foram feitas. Foi perguntado para o Doutor Hasselbaum se achava que os pacientes de David que faleceram poderiam ter sido afetados por alguma doença infecciosa desconhecida.

- Duvido sinceramente - disse o Doutor Hasselbaum. - Não há qualquer evidência de que tenham tido uma doença infecciosa. Todos os três tiveram pneumonia, mas acho que ela foi causada por debilidade generalizada. Em todos os três casos, houve um agente patogênico reconhecido.

Em seguida Kelley perguntou aos dois médicos que tipo de tratamento eles achavam que deveria ser dado a Jonathan Eakins.

- Puramente sintomático - disse o Doutor Mieslich.

Em seguida olhou para o Doutor Hasselbaum.

- Minha recomendação também seria essa - disse o Doutor Hasselbaum.

- Os senhores também viram a longa lista de testes de diagnóstico pedidos pelo Doutor Wilson - disse Kelley. - Acham que algum desses testes é crucial desta vez?

O Doutor Mieslich e o Doutor Hasselbaum se entreolharam. O Doutor Hasselbaum foi o primeiro a falar:

- Se o caso fosse meu, eu esperaria para ver o que acontece. O paciente pode estar bem de manhã.

- Concordo - disse o Doutor Mieslich.

- Bom, então acho que todos concordamos - disse Kelley. - O que o senhor diz, Doutor Wilson?

A reunião terminou entre sorrisos, apertos de mão e aparente amizade. Mas David sentiu-se confuso e humilhado, até mesmo deprimido. Voltou ao posto de enfermagem e cancelou a maioria das prescrições que fizera para Jonathan. Em seguida foi olhar o paciente.

- Obrigado por trazer tanta gente para me examinar - disse Jonathan.

- Como se sente? - perguntou David.

- Não sei. Talvez um pouquinho melhor.

Quando David voltou à sala de autópsia, Angela estava arrumando as coisas. A avaliação de tempo de David fora boa. Ajudou a levar o corpo de Mary Ann de volta para o necrotério.

Percebeu que Angela não estava ansiosa para conversar sobre o que descobrira. Praticamente teve de arrancar as respostas.

- Não descobri muita coisa - admitiu Angela.

- Nada no cérebro?

- No geral estava limpo. Mas precisamos ver o que o microscópio vai mostrar.

- Algum tumor?

- Acho que havia um pequeno no abdome. Também vou ter de esperar o microscópio, para ter certeza.

- Então nenhuma coisa apareceu claramente como causa da morte?

- Ela teve pneumonia.

David assentiu. Já sabia disso.

- Sinto muito por não ter descoberto mais nada.

- Agradeço por ter tentado.

Enquanto iam para casa, Angela percebeu que David estava deprimido. Ele só respondia às perguntas em monossílabos.

- Acho que está chateado porque não descobri muita coisa na autópsia - falou antes de sair do carro.

David suspirou.

- Isso é só uma parte.

- David, você é um médico maravilhoso e talentoso. Por favor, pare de ser tão duro consigo mesmo.

Então David contou sobre ter sido levado por Kelley diante daquele tribunal. Angela ficou lívida.

- Que desplante! - falou. - Administradores de hospitais não devem se envolver nos tratamentos.

- Não sei - disse David. - De certa forma eles estão certos. O custo dos serviços médicos é um problema. Mas é bastante perturbador, quando se trata de coisas específicas num paciente individual. O pior é que os médicos que eu chamei ficaram do lado dos administradores.

No jantar, David descobriu que não tinha fome; simplesmente ficou mexendo a comida no prato. Para piorar as coisas, Nikki reclamou que não estava se sentindo bem.

Às oito horas, Nikki começou a ficar congestionada e Ângela levou-a ao andar de cima, para a terapia respiratória. Ao terminar, encontrou David sentado na sala íntima. A televisão estava ligada, mas ele não tinha olhos para ela; concentrava a atenção no telefone.

- Acho melhor Nikki não ir à escola amanhã - disse Ângela. David não respondeu. Ângela examinou seu rosto. No momento, não soube com quem estava mais preocupada: Nikki ou David. –

 

SEGUNDA-FEIRA, 25 DE OUTUBRO

ASSIM QUE ABRIU OS olhos ao som do despertador, Angela ficou desapontada por não encontrar David ao seu lado. Levantando-se, abriu as cortinas. O céu nublado trazia promessa de chuva.

Desceu para procurar David. Encontrou-o sentado na sala íntima.

- Acordado há muito tempo? - perguntou tentando parecer animada.

- Desde as quatro. Mas não se preocupe. Acho que estou um pouco melhor hoje. – David mostrou-lhe um meio-sorriso.

Apesar de continuar preocupada com David, Angela ficou satisfeita com a condição respiratória de Nikki. Ela acordou sem congestão. E mais uma vez tinha atravessado a noite sem pesadelos. Até Angela teve de admitir que David poderia estar certo quanto aos benefícios da brincadeira idiota com as máscaras do Dia das Bruxas.

Infelizmente, a própria Angela tivera um pesadelo. Um sonho onde vinha da rua, carregando sacos de compras, e encontrava a cozinha coberta de sangue. Mas não era sangue seco. Era sangue fresco, escorrendo pelas paredes e fazendo poças no chão.

Depois do tratamento respiratório, ela auscultou cuidadosamente o peito de Nikki. Estava limpo. Para o prazer da menina, Angela disse que ela poderia ir à escola.

A despeito da possibilidade de chuva, David insistiu em ir de bicicleta para o trabalho.

Angela não tentou demovê-lo. Achava encorajante ele conseguir entusiasmo para isso.

Depois de deixar Nikki, Angela foi para o laboratório, ansiosa por trabalhar. Geralmente as segundas-feiras eram cheias de serviço, já que havia muito trabalho laboratorial do fim de semana. Ao entrar em sua sala, ia pendurar o casaco no cabide quando percebeu Wadley. Ele estava de pé, imóvel, junto à porta de ligação.

- Bom dia - disse Angela, mais uma vez tentando parecer animada. Pendurou o casaco e virou-se para encarar o chefe. Imediatamente ficou claro que ele não estava satisfeito.

- Fiquei sabendo que você fez uma autópsia aqui no laboratório - disse Wadley em tom irritado.

- É verdade. Mas fiz no meu tempo de folga.

- Você pode ter feito no tempo de folga, mas foi no laboratório.

- Foi dito especificamente que as autópsias não são pagas pela CMV - disse ela.

Os olhos frios de Wadley se grudaram em Angela.

- Então permita que eu esclareça um mal-entendido. Nenhuma autópsia deve ser feita neste departamento sem a minha autorização. Eu dirijo o departamento, e não você. Ordenei que os técnicos não processassem as lâminas, as culturas ou as amostras toxicológicas..

Dito isto, Wadley voltou para sua sala e fechou a porta de ligação.

Como sempre, depois de um daqueles confrontos cada vez mais freqüentes, Angela sentiu-se perturbada. Assim que se recompôs, recuperou os espécimes de tecidos, as culturas e as amostras toxicológicas que tirara de Mary Ann. Em seguida, embalou cuidadosamente as culturas e o material toxicológico e mandou-os para o departamento onde estudara, em Boston.

Tinha amigos ali que poderiam processá-los. As amostras de tecido ela guardou, planejando fazer sozinha as lâminas.

David fez a ronda dos pacientes, deixando Jonathan para o fim. Ao entrar no quarto, ficou chocado. A cama estava vazia.

Presumindo que ele fora transferido para outro quarto por algum motivo ridículo, como acontecera com John Tarlow, foi até o posto de enfermagem perguntar onde encontraria Jonathan. Janet Colburn disse que o Senhor Eakíns fora transferido à noite para a UTI, por ordem do médico encarregado da emergência.

David ficou perplexo.

- O Senhor Eakins teve problemas respiratórios e entrou em coma - acrescentou Janet.

- Por que não fui chamado?

- Nós recebemos ordens específicas de não chamá-lo.

- Ordens de quem?

- De Michael Caldwell, o diretor médico do hospital.

- Isso é absurdo... - gritou David. Por que...

- Disseram que, se tivesse alguma pergunta, deveria falar com a Senhora Beaton – disse Janet. - Não nos culpe.

David estava fora de si, em fúria. O diretor médico não tinha o direito de deixar uma ordem assim. David nunca ouvira falar de nada mais absurdo. Já era suficientemente ruim que os administradores estivessem passando por cima dele. Interceder de modo tão direto no atendimento ao paciente parecia uma total violação.

Mas David percebeu que não era com a enfermeira que deveria discutir. Saiu de imediato para ver o paciente. Ao chegar, descobriu que a condição de Jonathan era realmente crítica.

Estava em coma e com respirador artificial, como acontecera tão recentemente com Mary Ann. David auscultou seu peito. Jonathan também estava desenvolvendo pneumonia. Virando o frasco de soro, viu que ele estava recebendo antibiótico intravenoso contínuo.

Foi até o balcão central examinar o prontuário de Jonathan. Rapidamente percebeu que o processo de Jonathan começava a espelhar o dos três pacientes falecidos. Jonathan desenvolvera problemas gastrointestinais, do sistema nervoso central e do sistema sangüíneo.

David pegou o telefone para comunicar-se com Helen Beaton, quando a coordenadora da UTI bateu em seu ombro e entregou-lhe outro telefone. Era Charles Kelley.

- As enfermeiras disseram que você tinha ido à UTI - disse Kelley. - Pedi que me chamassem no momento em que você aparecesse. Queria informar que o caso de Eakins foi transferido para outro médico da CMV.

- Você não pode fazer isso - disse David em tom irritado.

- Calma, Doutor Wilson. Claro que a CMV pode transferir um paciente, e eu fiz isso. Também notifiquei a família e eles concordaram.

- Por quê? - Ao saber que a família também concordava com a mudança, sua voz perdeu boa parte da decisão.

- Sentimos que você estava muito envolvido emocionalmente. Decidimos que era melhor para todos se você fosse afastado. Isso irá dar-lhe uma chance de se acalmar. Sei que andou passando por muita tensão.

David não sabia o que pensar nem o que dizer. Pensou em dizer que a condição de Jonathan piorara exatamente como ele previra, mas decidiu não fazê-lo. Kelley não parecia disposto a considerar o que quer que ele dissesse.

- Não se esqueça do que conversamos ontem - prosseguiu Kelley. - Sei que compreende nosso ponto de vista e que vai pensar a respeito.

David estava indeciso quando desligou. Por um lado, continuava furioso por ter sido unilateralmente afastado do caso. Por outro, havia um elemento de verdade no que Kelley dissera. David precisava olhar suas mãos trêmulas para reconhecer que estava emocionalmente envolvido.

Saiu vacilante da UTI. Nem mesmo olhou para Jonathan ao passar por ele. No corredor, checou o relógio. Ainda era muito cedo para ir ao consultório. Em vez disso, foi até o departamento de registros médicos.

Pegou os prontuários de Marjorie, John e Mary Ann. Sentado no isolamento de uma cabine, reviu cada um deles, examinando todos os registros feitos por conta do hospital. Leu tudo, todas as anotações das enfermeiras, e observou todos os valores laboratoriais e resultados dos testes de diagnóstico.

Ainda avaliava a idéia de uma infecção desconhecida, algo que seus pacientes poderiam ter contraído no hospital. Esse tipo de infecção era chamado de infecção hospitalar. David lera sobre esse tipo de acontecimento em outros hospitais. Todos os seus pacientes tinham tido pneumonia, mas cada caso fora provocado por uma cepa diferente de bactérias. A pneumonia teria de ser resultante de alguma infecção subjacente.

O único elemento comum nos três casos era a história. Cada paciente fora tratado de câncer com várias combinações de cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Das três modalidades, somente a quimioterapia era comum aos três pacientes.

David estava cônscio de que um dos efeitos colaterais da quimioterapia era uma baixa geral da resistência, devido a um sistema imunológico deprimido. Perguntou-se se o fato poderia ter algo a ver com a rápida deterioração que os pacientes haviam experimentado. Entretanto, o oncologista especializado nessas questões dera pouca importância a esse fator comum, já que nos três casos a quimioterapia fora encerrada muito antes da hospitalização. O sistema imunológico dos três pacientes voltara ao normal há muito tempo.

O bipe no cinto de David interrompeu seu pensamento. Ao olhar na tela de cristal líquido, reconheceu o número: era a sala de emergência. Recolocando os prontuários no lugar, David correu escada abaixo.

O paciente era Donald Anderson, outro de seus visitantes freqüentes. O diabetes de Donald se mostrava particularmente difícil de ser regulado. Era a principal fonte de suas freqüentes reclamações. Desta vez não era exceção. Quando entrou na sala de exame, David percebeu de imediato que a contagem de açúcar no sangue de Donald estava fora de controle. Donald estava semicomatoso.

David pediu uma contagem de açúcar no sangue e iniciou um tratamento intravenoso. Enquanto esperava o resultado do laboratório, falou com Shirley Anderson, a esposa de Donald.

- Ele está com problemas há uma semana - reclamou Shirley. - Mas o senhor sabe como ele é teimoso. Recusou-se a vir consultá-lo.

- Acho que vamos precisar interná-lo. Vai demorar alguns dias até colocá-lo num regime novo.

- Eu estava esperando que o senhor fizesse isso. Quando ele fica desse jeito, é difícil cuidar das crianças e das outras coisas.

Quando recebeu os resultados do açúcar no sangue, David ficou surpreso por Donald não estar ainda mais entorpecido. Enquanto ia conversar com Donald, que agora estava lúcido graças ao tratamento intravenoso, David teve uma surpresa. Ao olhar num dos outros cubículos de exame, viu um rosto familiar: era Caroline Helmsfor a amiga de Nikki. O Doutor Pilsner estava junto dela.

David entrou, ficando do outro lado da cama, de frente para o Doutor Pilsner. Caroline fitou-o com olhos implorantes. Cobrindo a parte inferior de seu rosto havia uma máscara plástica de oxigênio. Suas feições estavam abatidas, com um tom ligeiramente azulado. A respiração era dificultosa.

O Doutor Pilsner auscultava seu peito. Sorriu para David ao vê-lo. Quando terminou o exame, puxou David para o lado.

- A coitadinha está passando por um momento difícil - falou.

- O que há de errado?

- O de sempre. Está congestionada e com febre alta.

- Vai interná-la?

- Sem dúvida. Você sabe melhor do que a maioria das pessoas que não podemos nos arriscar com esse tipo de problema.

David assentiu. Ele sabia. Olhou para Caroline, que lutava para respirar. Ela parecia tão minúscula e tão vulnerável na maca enorme! A visão fez com que ele se preocupasse com Nikki. Pela fibrose cística, poderia ser Nikki a pessoa deitada na maca, e não Caroline.

- O chefe da perícia médica quer falar com a senhora - disse uma das secretárias.

Angela pegou o fone.

- Espero que não esteja perturbando você - disse Walt.

- De modo nenhum.

- Recebi algumas novidades sobre a autópsia de Hodges. Ainda está interessada?

- Claro que sim.

- Primeiro, o sujeito tinha uma quantidade significativa de álcool em seu fluido ocular.

- Não sabia que era possível detectar isso depois de tanto tempo.

- Quando se pode conseguir fluido ocular, é fácil. O álcool é razoavelmente estável. Também tivemos confirmação de que o DNA da pele sob as unhas é diferente do dele. De modo que, sem dúvida, é o DNA do assassino.

- E quanto àquelas partículas de carvão na pele? - perguntou Angela. - Teve mais alguma idéia a respeito?

- Para ser honesto, não pensei muito. Mas mudei de idéia quanto a elas serem contemporâneas da luta. Percebi que estavam na derme, e não na epiderme. Deve ter sido algum ferimento antigo, como uma espetadela de lápis no primário. Eu tenho um sinal desses no braço.

- Eu tenho um na palma da mão - disse Angela.

- O motivo para eu não ter feito muita coisa no caso é que não houve pressão do promotor nem da polícia estadual. Infelizmente estou atolado com outros casos em que há pressão considerável.

- Compreendo. Mas ainda estou interessada. De modo que se surgir alguma novidade, por favor, avise-me.

Depois de ter desligado, Angela continuou pensando no caso Hodges, imaginando o que Phil Calhoun estaria fazendo. Não recebera qualquer notícia dele desde que o visitara e pagara o sinal. E pensar em Hodges e Calhoun fez com que se recordasse de como se sentira vulnerável quando David saíra de casa para ir ao hospital durante a noite.

Checando o relógio de pulso, percebeu que estava na hora do almoço. Desligou o microscópio, pegou o casaco e foi até o carro. Tinha dito a David que queria uma arma, e realmente falara sério.

Não havia lojas de artigos esportivos em Bartlet, mas a Loja de Ferragens Staley’s tinha uma linha de armas de fogo. Quando explicou o que desejava, o Senhor Staley mostrou-se instantaneamente solícito. Perguntou quais os motivos para querer comprar uma arma. Quando ela falou em proteção para a casa, ele sugeriu uma espingarda de caça.

Angela demorou menos de quinze minutos para fazer a escolha. Comprou uma espingarda calibre doze. O Senhor Staley ensinou como carregar e descarregar a arma. Teve um cuidado especial ao demonstrar a trava de segurança. Além disso, a arma veio com um manual, que o Sr Staley encorajou-a a ler.

No caminho de volta ao carro, Angela ficou sem graça carregando a arma, mesmo tendo pedido ao Senhor Staley para embrulhá-la em papel manilha; o objeto continuava reconhecível. Ela nunca havia carregado uma arma antes. Na outra mão levava um saco contendo uma caixa de cartuchos.

Com tremendo alívio, colocou a arma no porta-malas do carro. Ao se dirigir para a porta do motorista, olhou para a delegacia, do outro lado do gramado, e hesitou. Desde o confronto com Robertson na manhã anterior, sentia-se culpada. Além disso, sabia que David estava certo; fora besteira tornar o chefe de polícia um inimigo, a despeito de ele ser um tremendo imbecil.

Largando a porta do carro, Angela atravessou o gramado e entrou na delegacia. Robertson concordou em vê-la depois de uma espera de dez minutos.

- Espero não estar incomodando - disse ela.

- Não é incômodo - respondeu ele, assim que Angela entrou na sala.

Angela sentou-se.

- Não quero ocupar muito o seu tempo.

- Sou um funcionário público - disse Robertson num tom descarado.

- Vim me desculpar pelo que houve ontem.

- Bem... - o chefe de polícia fora claramente pego de surpresa.

- Meu comportamento foi inadequado. E peço desculpas porque eu fiquei realmente perturbada pela descoberta daquele cadáver na minha casa.

- Bom, foi gentileza sua vir aqui - disse Robertson, totalmente aturdido. Ele não esperava aquilo.

- Sinto muito por Hodges. Vamos manter o caso aberto e informá-la de qualquer novidade que apareça.

- Apareceu uma coisa esta manhã - disse Ângela. Em seguida contou sobre a possibilidade de o assassino de Hodges ter no braço carvão proveniente de um lápis.

- De um lápis?

- Sim. - Angela levantou-se e estendeu a mão, apontando para uma pequena mancha escura sob a pele.-Algo assim. Ganhei isso na terceira série.

- Ah, sei - Robertson balançou a cabeça, enquanto um sorriso entortava os cantos de sua boca.-Bom, obrigado pela dica.

- Só pensei em passá-la adiante. O perito médico também disse que a pele debaixo das unhas de Hodges era definitivamente do assassino. Ele conseguiu uma impressão de DNA.

- O problema é que essa baboseira supersofisticada de DNA não ajuda muito se não houver um suspeito - disse Robertson.

- Houve uma pequena cidade na Inglaterra que resolveu um estupro usando uma impressão de DNA. Só precisaram fazer um teste de DNA em todas as pessoas da cidade.

- Nossa! Posso imaginar o que a Liga de Liberdades Civis da América diria se eu tentasse fazer isso em Bartlet.

- Não estou sugerindo que tente. Só queria que soubesse sobre o teste de DNA.

- Fico grato - disse Robertson. - E obrigado por ter vindo. Ele ficou de pé quando Angela se levantou para ir embora, e olhou pela janela enquanto ela entrava no carro.

Quando o carro já ia sumindo, Robertson pegou o telefone e apertou um dos botões de ligação automática.

- Você não vai acreditar, mas ela continua em ação. Parece um cachorro com um osso.

Angela sentiu-se um pouco melhor por ter tentado limpar a situação com Robertson. Ao mesmo tempo, não se iludia pensando que poderia mudar as coisas. Intuitivamente sabia que ele não mexeria um dedo para resolver o assassinato de Hodges.

No hospital, todas as vagas de estacionamento reservadas para os médicos perto da porta dos fundos estavam ocupadas. Angela teve de andar em ziguezague pelo estacionamento até encontrar um lugar. Não conseguindo, foi para o estacionamento de cima. Finalmente encontrou uma vaga no canto mais distante. Levou quase cinco minutos para voltar à porta do hospital.

- Hoje não é o meu dia - disse em voz alta enquanto entrava no prédio.

- Mas nem vai dar para ver o edifício-garagem da cidade - disse Traynor no telefone.

Mal conseguia mascarar a frustração Convergi savacom Ned Banks, que se tornara um dos membros do Conselho Municipal no ano anterior.

- Não, não, não - reiterou Traynor - Não vai ficar parecendo uma casamata da Segunda Guerra. Por que não nos reunimos no hospital, e eu lhe mostro a maquete? Acredite, o projeto é bastante atraente. E se o Hospital Comunitário de Bartlet pretende ser o centro de referência do estado, precisamos dela.

Collette, secretária de Traynor, entrou na sala e colocou um cartão de visitas no mata-borrão diante dele. Naquele momento, em que Ned estava falando sobre Bartlet perder o seu charme, Traynor pegou o cartão. Estava escrito: ”Phil Calhoun, Investigador Particular, Satisfação Garantida.”

Traynor cobriu o fone e sussurrou:

- Quem, diabos, é Phil Calhoun? - Collette encolheu os ombros.

- Nunca o vi antes, mas ele diz que conhece o senhor. De qualquer modo, está esperando aí fora. Eu preciso dar um pulo no correio.

Traynor acenou um adeus para a secretária e em seguida leu o cartão de visitas. Enquanto isso, Ned continuava lamentando mudanças recentes em Bartlet, especialmente o condomínio que estava sendo construído perto da interestadual.

- Olhe, Ned, eu preciso desligar - interrompeu Traynor. Realmente espero que pense um pouco nessa garagem. Sei que Wiggins vem falando mal dela, mas é importante para o hospital E, francamente, preciso de todos os votos que puder conseguir.

Traynor desligou o telefone sentindo-se enojado. Não conseguia entender a estreiteza de visão da maioria dos conselheiros. Nenhum deles parecia avaliar o significado econômico do hospital e isso tornava muito mais difícil o seu trabalho como chairman da diretoria.

Enfiou a cabeça pelo vão da porta, para olhar o investigador que ele supostamente conhecia.

Folheando um dos relatórios trimestrais do hospital, havia um sujeito de camisa xadrez preto e branco. Traynor achou-o vagamente familiar, mas não conseguiu situá-lo.

Convidou Calhoun a entrar. Enquanto se cumprimentavam, fez uma varredura na memória, mas continuava em branco. Fez um gesto na direção de uma cadeira. Os dois homens se sentaram.

Somente quando Calhoun mencionou que fora da polícia estadual, a lembrança voltou.

- Agora me lembro - disse Traynor. - O senhor era amigo do irmão de Harley Strombell.

Calhoun assentiu e elogiou a memória de Traynor.

- Nunca esqueço um rosto - vangloriou-se Traynor.

- Queria fazer algumas perguntas sobre o Doutor Hodges - disse Calhoun, indo direto ao ponto.

Traynor segurou nervosamente o martelo de juiz que usava para as reuniões da diretoria.

Não gostava de responder perguntas sobre Hodges, mas temia não fazê-lo. Não queria fazer um estardalhaço sobre o caso. Desejava que toda essa confusão sobre Hodges acabasse.

- Seu interesse é pessoal ou profissional?

- Os dois - disse Calhoun.

- O senhor foi contratado?

- Pode-se dizer que sim.

- Por quem?

- Não tenho autorização para dizer. Como advogado, tenho certeza que o senhor compreende.

- Se espera que eu coopere - disse Traynor -, terá de ser um pouco mais cooperativo.

Calhoun pegou sua caixa de charutos Antônio y Cleopatra e perguntou se podia fumar.

Traynor assentiu. Ofereceu-lhe um, mas Traynor declinou. Calhoun demorou para acender o charuto. Soprou fumaça para o alto e disse em seguida:

- A família está interessada em descobrir quem foi o responsável pelo assassinato brutal do doutor.

- É compreensível. O senhor pode me dar a palavra de que tudo que eu disser será mantido em segredo?

- Totalmente.

- Certo. O que quer perguntar?

- Estou fazendo uma lista das pessoas que não gostavam de Hodges. O senhor tem alguém para acrescentar?

- Metade da cidade - disse Traynor com um riso curto. Mas não me sinto confortável dando nomes.

- Soube que o senhor esteve com Hodges na noite do assassinato.

- Hodges irrompeu numa reunião que estávamos fazendo no hospital. Era um hábito desagradável, no qual ele incorria com freqüência.

- Fiquei sabendo que Hodges estava com raiva.

- Onde o senhor ouviu isso?

- Estive falando com várias pessoas na cidade.

- Hodges tinha raiva o tempo todo. Vivia cronicamente insa tisfeito com o modo como administramos o hospital. Tinha um sentimento de posse em relação à instituição. Além disso, seu pensamento era ultrapassado. Era um médico da velha escola, dirigiu o hospital numa situação em que bastava cobrir os custos. Ele não gostava do novo ambiente de atendimento administrado com concorrência administrada. Simplesmente não compreendia.

- Acho que eu também não entendo muito do assunto - admitiu Calhoun.

- É melhor aprender. Porque a coisa chegou para ficar. Que tipo de plano de saúde o senhor tem?

- CMV - disse Calhoun.

- Pois então. Atendimento administrado. O senhor já faz parte da coisa e nem sabe.

- Fiquei sabendo que quando entrou na reunião do hospital o Doutor Hodges trazia consigo alguns prontuários.

- Partes de prontuários - corrigiu Traynor. - Mas não olhei. Estava planejando almoçar com ele no dia seguinte, para discutir o assunto. Sem dúvida ele estava preocupado com alguns de seus ex-pacientes. Sempre reclamava pelo fato de seus ex-pacientes não receberem tratamento VIP. Falando francamente, ele era um sujeito indigesto.

- O Doutor Hodges incomodava a nova presidente do hospital, Helen Beaton?

- Meu Deus, claro que sim! Ele não hesitava em entrar na sala dela a qualquer hora do dia. Helen Beaton foi provavelmente a pessoa que mais sofreu com o assédio de Hodges. Afinal de contas, ela ocupa o cargo que foi dele. E quem sabia realizar o trabalho melhor do que ele?

- Soube que o senhor topou uma segunda vez com Hodges na noite em que ele invadiu a reunião.

- Infelizmente - disse Traynor. - No restaurante. Depois da maioria das reuniões do hospital, nós vamos ao Inn. Naquela noite Hodges estava lá, bebendo como sempre e beligerante como sempre.

- E ele trocou palavras desagradáveis com Robertson?

- Sem dúvida.

- E com Sherwood?

- Com quem o senhor esteve falando? - perguntou Traynor.

- Com um punhado de pessoas da cidade. Soube que o Doutor Cantor também disse algumas coisas desairosas sobre Hodges.

- Não me lembro. Mas Cantor não gostava de Hodges há anos.

- Porquê?

- Hodges pegou os departamentos de radiologia e patologia para o hospital. Queria ficar com tudo que eles geraram a partir de equipamentos do hospital.

- E quanto ao senhor? Ouvi dizer que também não gostava muito do Doutor Hodges.

- Eu lhe disse: ele não me fazia bem. Já era difícil dirigir o hospital sem sua interferência contínua.

- Me disseram que era uma coisa pessoal. Algo sobre sua irmã.

- Meu Deus, suas fontes são boas - disse Traynor.

- Só fofocas da cidade.

- O senhor está certo. Não é segredo. Minha irmã Sunny cometeu suicídio depois que Hodges retirou as prerrogativas do marido dela no hospital.

- E o senhor culpou Hodges?

- Mais na época do que atualmente. Droga, o marido de Sunny era um bêbado. Hodges devia ter retirado suas prerrogativas antes que ele tivesse chance de causar um verdadeiro mal.

- Só mais uma pergunta. O senhor sabe quem matou o Doutor Hodges?

Traynor riu e depois sacudiu a cabeça.

- Não tenho a mínima idéia e não me importo. A única coisa que me interessa é o efeito que essa morte pode ter sobre o hospital.

Calhoun levantou-se e esmagou o charuto num cinzeiro que estava no canto da mesa de Traynor.

- Faça-me um favor - disse Traynor. - Eu colaborei com o senhor. Não tinha de contar nada. Só peço que não faça estardalhaço com esse caso Hodges. Se descobrir quem foi o assassino, e quiser expor o indivíduo, me informe, para que possamos fazer planos com respeito à publicidade, especialmente se o culpado tiver algo a ver com o hospital. Já estamos com problema de relações públicas numa outra questão. Não queremos ser desviados disso por alguma outra coisa.

- Parece razoável - disse Calhoun.

Depois de ter levado Calhoun até a saída, Traynor voltou à sua mesa, procurou o número de Clara Hodges em Boston e discou.

- Queria fazer uma pergunta - disse ele depois das amenidades usuais. - A senhora conhece um cavalheiro chamado Calhoun?

- Não que eu me lembre - disse Clara. - Por que está perguntando?

- Ele acaba de sair de minha sala. É investigador particular. Veio fazer perguntas sobre Dennis e deu a entender que foi contratado pela família.

- Eu certamente não contratei nenhum investigador particular. E não posso imaginar alguém da família que tenha feito isso especialmente sem que eu soubesse.

- É o que eu temia. Se souber alguma coisa sobre esse sujeito, por favor, me informe.

- Sem dúvida - disse Clara.

Traynor desligou o telefone e suspirou. Tinha a sensação desagradável de que havia mais problemas pela frente. Mesmo do outro lado do túmulo, Hodges era uma praga.

- O senhor tem mais uma paciente - disse Susan enquanto entregava o prontuário a David. - Eu disse a ela que viesse logo. É uma das enfermeiras do segundo andar.

David pegou o prontuário e entrou na sala de exame. A enfermeira era Beverly Hopkins.

David a conhecia vagamente; ela trabalhava no turno da noite.

- Qual é o problema? - perguntou, com um sorriso. Beverly estava sentada na mesa de exames. Era uma mulher alta, magra, com cabelos castanho-claros. Segurava uma bacia que Susan lhe dera, por causa da náusea. Seu rosto estava pálido.

- Desculpe incomodá-lo, Doutor Wilson. Acho que é a gripe. Eu teria ficado em casa, de cama; mas, como o senhor sabe, nós temos ordem de vir saber se podemos tirar folga.

- Não se preocupe - disse David. - Estou aqui para isso. Quais são os seus sintomas?

Os sintomas eram semelhantes aos das outras quatro enfermeiras: mal-estar generalizado, problemas gastrointestinais e febre baixa. David concordou com a avaliação de Beverly. Mandou-a para casa, recomendando repouso, aconselhando-a a beber muito líquido e a tomar aspirina conforme a necessidade.

Depois de terminar o serviço no consultório, David foi ao hospital ver os pacientes.

Enquanto caminhava, começou a pensar no fato de que as únicas pessoas que vira com gripe até agora eram as enfermeiras, e todas as cinco trabalhavam no segundo andar.

Parou de repente. Imaginou se seria coincidência que todas as enfermeiras fossem do segundo andar, o mesmo onde tinham estado todos os seus pacientes que morreram. Claro, noventa por cento dos pacientes iam para o segundo andar. Mas David achou estranho que nenhuma enfermeira da sala de emergência ou da cirurgia aparecesse com gripe.

Recomeçou a caminhar, e enquanto isso seus pensamentos retornaram à possibilidade de seus pacientes terem morrido de uma doença infecciosa contraída no hospital. Os sintomas parecidos com gripe, apresentados pelas enfermeiras, poderiam estar relacionados. Usando uma abordagem dialética, David se fez uma pergunta: e se as enfermeiras, geralmente saudáveis, desenvolvessem uma reação moderada ao serem expostas à doença misteriosa, e os pacientes que tinham feito quimioterapia, conseqüentemente com os sistemas imunológicos um tanto comprometidos, desenvolvessem uma doença fatal e fulminante?

Achou que o raciocínio era válido, mas quando tentou pensar em alguma doença desconhecida que se ajustasse a esse quadro, não conseguiu imaginar nenhuma. A doença teria de afetar o sistema gastrointestinal, o sistema nervoso central e o circulatório E ainda assim ser de difícil diagnóstico até mesmo para um espescialista como o Doutor Martin Hasselbaum.

E quanto a um veneno ambiental?, pensou David, recordando-se do sintoma de salivação excessiva em Jonathan. A queixa fizera David pensar em mercúrio. Mesmo assim, a idéia de algum veneno parecia absurda demais. Como ele se espalharia? Se fosse transmitido pelo ar, muitas pessoas teriam aparecido com os sintomas, mais do que quatro pacientes e cinco enfermeiras. De qualquer modo, porém, um veneno era uma possibilidade. David decidiu guardar qualquer julgamento até receber os resultados toxicológicos de Mary Ann.

Apressando o passo, foi até o segundo andar. Os pacientes que ele deixara estavam bem. Até mesmo Donald não requeria maior atenção, mas apesar disso David ajustou outra vez sua dosagem

Quando terminou a ronda, David desceu ao primeiro andar para procurar Angela no laboratório. Encontrou-a na área de microbiologia tentando resolver um problema com um dos analisadores track.

- Já terminou? - perguntou Angela ao vê-lo.

- Para variar.

- Como vai Eakins?

- Mais tarde eu conto.

Angela olhou-o atentamente.

- Está tudo bem?

- Nem um pouco. Mas não quero falar sobre isso agora.

Angela pediu licença ao técnico de laboratório com o qual estava trabalhando e puxou David de lado.

- Tive uma surpresinha ao chegar aqui de manhã. Wadley subiu nas paredes por eu ter feito a autópsia.

- Sinto muito - disse David.

- Não é culpa sua. Wadley só está sendo mesquinho. Seu ego ficou arranhado. Mas o problema é que se recusou a deixar que qualquer material fosse processado.

- Droga! Eu realmente queria o exame toxicológico.

- Não precisa se preocupar. Mandei o material toxicológico e as culturas para Boston. E eu mesma vou cuidar das lâminas. Na verdade, vou ficar aqui esta noite para fazer isso. Faz o jantar para você e Nikki?

- Será um prazer.

David sentiu-se aliviado ao sair do hospital. Era empolgante andar de bicicleta no ar puro da Nova Inglaterra. Sentiu-se desapontado com o fim do passeio quando chegou.

Depois de mandar Alice para casa, David desfrutou o tempo com Nikki. Enquanto ela fazia o dever de casa, ele preparou uma refeição simples de bife e salada.

Depois do jantar, deu a notícia sobre Caroline.

- Ela está doente mesmo?

- Parecia muito desconfortável quando a vi.

- Quero fazer uma visita a ela amanhã - disse Nikki.

- Eu sei, querida. Mas, lembre-se, você também estava um pouco congestionada ontem à noite. Acho melhor esperarmos até termos certeza do que Caroline tem. Certo?

Nikki assentiu, mas não estava satisfeita.

Depois de Nikki ter ido para a cama, David começou a folhear a seção de doenças infecciosas de um de seus livros de medicina. Não estava procurando nada em particular. Achou que havia uma chance de descobrir algo parecido com a infecção que imaginara naquele dia, mas nada saltou à sua vista.

Antes que se desse conta, David estava acordando com o pesado livro de medicina sobre o colo. Lembranças da escola de medicina, pensou com um risinho. Já fazia algum tempo desde que ele dormira com um livro. Checando o relógio sobre a lareira, surpreendeu-se ao ver que já passava das onze. Angela ainda não estava em casa.

Sentindo-se um tanto ansioso, ligou para o hospital. A telefonista colocou-o em contato com o laboratório.

- O que está acontecendo? - perguntou ao ouvir a voz de Angela. - Só estou demorando mais do que pensei - disse ela. – É demorado colocar os corantes. Me faz admirar os técnicos que normalmente fazem isso. Eu deveria ter ligado para você, mas estou quase terminando. Chego em casa em menos de uma hora.

- Vou estar esperando.

Tinha-se passado mais de uma hora quando Angela terminou completamente. Pegou uma seleção de lâminas e colocou-as numa pasta de metal. Achava que David poderia querer examiná-las. O microscópio de Angela estava em casa, de modo que ele poderia ver, se estivesse interessado.

Angela despediu-se dos técnicos do turno da noite e dirigiu-se para o estacionamento.

Não encontrou o Volvo na área reservada. Por um instant pensou que o carro fora roubado, mas depois lembrou-se de que fora forçada a estacionar no final do estacionamento de cima.

Angela começou a andar num passo rápido, mas logo reduziu o ritmo. Não somente estava carregando uma pasta pesada, como também estava exausta. Na metade do caminho, teve de transferir a pasta para a outra mão.

No estacionamento havia alguns carros do pessoal do turno da noite, mas logo eles ficaram para trás, enquanto Angela se aproximava do caminho que levava ao estacionamento de cima. Percebeu que estava totalmente sozinha. Não havia outras pessoas. O pessoal do turno da tarde já havia partido há muito.

Enquanto chegava perto do caminho, começou a sentir-se inquieta. Não estava acostumada a estar fora de casa numa hhora daquelas, e certamente tinha esperado ver alguém. Nesse momento, pensou ter ouvido alguma coisa atrás. Quando se virou, não viu nada.

Continuando em frente, começou a pensar em animais selvagens. Ouvira dizer que ocasionalmente apareciam ursos pretos na área. Imaginou o que faria se subitamente se visse diante de um urso.

- Você está sendo idiota - falou consigo própria e continuou andando. Tinha de chegar em casa; já passava de meia-noite.

A iluminação do estacionamento de baixo era mais do que adequada. Mas enquanto penetrava no caminho que levava ao estacionamento de cima, Angela teve de parar um instante para ajustar os olhos à escuridão. Não havia luzes no caminho, e as árvores densas dos dois lados formavam uma arcada natural.

O latido de um cão à distância fez com que Angela saltasse. Nervosamente, penetrou mais fundo no túnel de árvores, começando a subir um lance de degraus construído com dormentes de estrada de ferro. Ouviu estalos na floresta e o barulho do vento no alto dos pinheiros. Sentindo-se apavorada, lembrou vividamente o episódio no porão, quando David e Nikki haviam-na assustado, e a lembrança deixou-a ainda mais tensa.

No topo da escada, o caminho nivelou-se e dobrou para a esquerda. Lá adiante, Angela podia ver a luz do estacionamento de cima. Só faltavam uns vinte metros para chegar.

Estava começando a se acalmar, quando um homem pulou das sombras. Veio para cima dela tão de súbito que ela não teve chance de fugir. O sujeito brandia um taco acima da cabeça; seu rosto estava coberto por uma máscara de esquiador escura.

Angela deu um passo atrás, tropeçou numa raiz exposta e caiu. O homem saltou para ela. Ângela gritou e rolou para o lado. Pôde ouvir o barulho do taco batendo contra o chão macio, onde ela estivera segundos antes.

Lutou para ficar de pé. O homem agarrou-a com a mão enluvada, ao mesmo tempo em que começava a erguer o taco outra vez. Angela girou a pasta para cima, batendo-a contra a virilha do homem com toda a força que conseguiu juntar. O homem afrouxou o aperto em seu braço ao mesmo tempo em que gritava de dor.

Com o caminho de volta ao hospital impedido pelo sujeito ofegante, Angela correu para o estacionamento de cima. Correu como nunca, com a força gerada pelo terror, os pés voando sobre o asfalto áspero. Podia ouvir o sujeito atrás, mas não ousava olhar. Correu até o Volvo com um único pensamento: a espingarda.

Largando a pasta no chão, pegou as chaves. Assim que abriu o porta-malas, arrancou o papel manilha da espingarda. Abriu a caixa de cartuchos e apressadamente jogou-os no fundo do porta-malas. Apanhou um deles, enfiou-o na espingarda e forçou-o para a câmara de disparo.

Virou-se, segurando a espingarda ao nível da cintura, mas não havia ninguém ali. O estacionamento estava completamente deserto. O homem não viera atrás dela. O que ouvira foram os sons de seus próprios passos.

- Não pode ser um pouquinho melhor do que isso? - perguntou Robertson. - ”Meio alto”?

Isso não é uma descrição. Como vamos encontrar esse sujeito, se vocês mulheres não conseguem descrevê-lo melhor do que isso?

- Estava escuro - disse Angela, com enorme dificuldade para controlar as emoções. – E aconteceu muito depressa. Além do mais, ele estava usando uma máscara de esquiador.

- E o que, diabo, a senhora estava fazendo entre as árvores depois da meia-noite? Droga, todas vocês, enfermeiras, foram avisadas.

- Eu não sou enfermeira - disse Angela. - Sou médica.

- Minha nossa! - disse Robertson em tom arrogante. - A senhora acha que esse estuprador estava preocupado se a senhora era médica ou enfermeira?

- Quero dizer é que eu não fui avisada. As enfermeiras podem ter sido avisadas, mas ninguém avisou a nós, médicos.

- Bom, a senhora deveria saber - disse Robertson.

- O senhor está tentando dizer que esse ataque, de certa forma, aconteceu por culpa minha?

Robertson ignorou a pergunta.

- Que tipo de taco ele estava usando?

- Não faço idéia. Já disse que estava escuro.

Robertson sacudiu a cabeça e olhou para o seu assistente.

- Você disse que Bill tinha acabado de passar por lá, para fazer a ronda?

- Isso - disse o auxiliar. - Menos de dez minutos antes do incidente, ele tinha feito uma passagem de rotina pelos dois estacionamentos.

- Meu Deus, não sei o que fazer - disse Robertson. Em seguida olhou para Angela e encolheu os ombros. - Se vocês mulheres fossem um pouco mais cooperativas, não teríamos este problema.

- Posso usar o telefone? - perguntou Angela.

Angela ligou para David. Pela voz, percebeu que ele estivera dormindo. Disse que estaria em casa dentro de dez minutos.

- Que horas são? - perguntou David. Depois, olhando para o relógio, respondeu à própria pergunta. - Santo Deus, já passa de uma. O que você está fazendo?

- Conto quando chegar em casa.

Depois de desligar, Angela virou-se para Robertson e perguntou, mal-humorada:

- Posso ir agora?

- Claro - disse Robertson. - Mas se pensar em alguma outra coisa, comunique. Quer que meu assistente a leve para casa?

- Acho que consigo me virar sozinha.

Dez minutos depois, Angela estava abraçando David na porta de casa. David ficara alarmado não somente pela hora, mas pela visão da esposa saindo do carro com uma pasta numa das mãos e uma espingarda na outra. Mas não perguntou sobre a arma. No momento apenas abraçou-a. Ela agarrou-se nele e parecia não querer soltá-lo.

Finalmente, Angela libertou David, tirou o casaco amarrotado e levou a pasta e a espingarda para a sala íntima. David seguiu-a, olhando para a arma. Angela sentou-se no sofá, abraçou os joelhos e levantou os olhos para David.

- Eu gostaria de me acalmar - falou com voz baixa. - Se importa de pegar um copo de vinho para mim?

David aquiesceu de imediato. Enquanto entregava o copo, perguntou se ela gostaria de alguma coisa para comer. Angela sacudiu a cabeça antes de tomar um gole de vinho. Segurava o copo com as duas mãos.

Numa voz controlada, começou a contar sobre o ataque. Mas não foi longe. Suas emoções extravasaram em lágrimas. Durante cinco minutos, não conseguiu falar. David envolveu-a com os braços, dizendo que era culpa dele: nunca deveria ter deixado que ela ficasse trabalhando no hospital até tão tarde.

Por fim, Angela recuperou a compostura. Continuou a história, prendendo as lágrimas.

Quando chegou à parte sobre Robertson tervindo conversar com ela, sua raiva explodiu.

- Não consigo acreditar naquele sujeito!-disse, irritada. - Ele me deixa louca. Agiu como se tivesse sido minha culpa.

- Ele é um idiota.

Angela pegou a pasta e entregou-a a David, enquanto enxugava as lágrimas.

- Todo esse esforço e, afinal de contas, as lâminas não mostraram grande coisa. Não havia nenhum tumor no cérebro. Havia um pouco de inflamação perivascular, mas nada específico. Alguns neurônios pareciam danificados, mas pode ter sido uma mudança pós-morte.

- Nenhum sinal de uma doença infecciosa sistêmica?

Angela sacudiu a cabeça.

- Eu trouxe as lâminas para casa, para o caso de você querer dar uma olhada nelas.

- Estou vendo que arranjou uma espingarda - comentou David.

- E está carregada, tenha cuidado. E não se preocupe. Amanhã vou conversar sobre isso com Nikki.

Um estrondo seguido pelo som de vidro se quebrando fez com que os dois se sentassem empertigados. Ferrugem começou a latir no quarto de Nikki e logo apareceu descendo a escada. David pegòl a espingarda.

- A trava de segurança é logo acima do gatilho - disse Angela.

Com David na frente, os dois atravessaram o escuro da sala de estar. David acendeu a luz.

Quatro vidros da janela da sala estavam quebrados, junto com seus caixilhos. No chão, a pouccos metros de onde eles se encontravam, havia um tijolo. Preso nele estava uma cópia do bilhete que haviam recebido na noite anterior.

- Vou ligar para a polícia - disse Angela. - Isso é demais.

Enquanto esperavam a chegada da polícia, David fez com que Angela se sentasse.

- Hoje você fez alguma coisa relacionada ao caso Hodges?

- Não - disse Angela em tom defensivo. - Bom, eu recebi um telefonema do chefe de perícia médica.

- Conversou sobre Hodges com alguém?

- O nome dele surgiu quando conversei com Robertson.

- Esta noite? - perguntou David, surpreso.

- À tarde. Parei na delegacia para conversar com Robertson, depois de comprar a espingarda.

- Por quê? - perguntou David, perplexo. - Depois do que aconteceu ontem em frente à igreja, fico surpreso que tivesse a coragem de ainda ir procurá-lo.

- Eu queria me desculpar. Mas foi um erro. Robertson não vai fazer nada sobre o assassinato de Hodges.

- Angela - implorou David. - Precisamos parar de mexer com esse caso Hodges. Não vale a pena. Um bilhete na porta é uma coisa; um tijolo atravessando a janela é outra completamente diferente.

Luzes de faróis correram pela parede enquanto um carro da polícia virava no caminho de entrada.

- Pelo menos não é Robertson - disse Angela quando viram o policial que se aproximava.

O homem se apresentou como Bill Morrison. De cara, ficou claro que não estava profundamente interessado em investigar este último incidente na casa dos Wilsons. Só estava fazendo perguntas suficientes para preencher o formulário de ocorrência.

Quando o policial ia se preparando para ir embora, Angela perguntou se ele estava pensando em levar o tijolo.

- Não tinha pensado nisso - disse Bill.

- E as impressões digitais? - perguntou ela.

O olhar de Bill passou de Angela para David, e em seguida voltou para ela. Seu rosto registrou surpresa e confusão.

- Impressões digitais?

- Por que a surpresa? Às vezes é possível conseguir impressões digitais em coisas como pedra e tijolo.

- Bom, não sei se a gente mandaria uma coisa dessas para a polícia estadual.

- Só para garantir, deixe que eu pego um saco – disse Angela.

Ela desapareceu na cozinha e voltou com um saco plástico. Virando-o pelo avesso, abaixou-se e pegou o tijolo. Entregou o saco a Bill.

- Pronto. Agora vocês estão preparados, para o caso de decidirem resolver um crime.

Bill concordou e foi para o carro. Angela e David olharam enquanto ele desaparecia no caminho.

- Estou perdendo a confiança na polícia local - disse David.

- Eu nunca tive.

- Se Robertson f