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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DEITY / Jennifer L. Armentrout
DEITY / Jennifer L. Armentrout

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

A história está se repetindo, e as coisas não correram bem da última vez. Alexandria não tem certeza de que vai conseguir sobreviver até seu aniversário de dezoito anos – até o seu Despertar. Uma ordem fanática há muito esquecida está tentando matá-la, e se o Conselho alguma vez descobrir o que ela fez no Catskills, ela é um caso perdido... e Aiden também. Se isso não é ruim o suficiente, sempre que Alex e Seth passam tempo "treinando" - o que realmente é apenas a palavra de código de Seth para algum tempo de contato próximo e pessoal - ela acaba com outra marca de Apollyon, o que a traz um passo mais perto de Despertar antes do previsto. Ótimo.  Mas à medida que o seu aniversário se aproxima, seu mundo inteiro quebra com uma revelação surpreendente e ela fica presa entre o amor e o destino. Um vai fazer de tudo para protegê-la. Um tem mentido para ela desde o início. Uma vez que os deuses se revelarem, libertando sua ira, vidas serão irrevogavelmente mudadas... e destruídas. Os que sobreviverem vão descobrir se o amor é realmente maior do que o destino...

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Seda vermelha se agarrava aos meus quadris, torcendo-se em um corpete apertado que acentuava as minhas curvas. Meu cabelo estava solto, sedoso em volta dos meus ombros como as pétalas de uma flor exótica. As luzes no salão pegavam cada curva do tecido, de modo que, a cada passo, parecia que eu estava florescendo do fogo.
Ele parou, lábios se abrindo como se a simples visão de mim tivesse o tornado incapaz de fazer qualquer outra coisa. Um rubor quente tomou a minha pele. Isso não terminaria bem - não quando nós estávamos cercados por pessoas e ele estava olhando para mim desse jeito, mas eu não podia me forçar a ir embora. Eu pertencia aqui, com ele. Essa havia sido a escolha certa.
A escolha que eu... não havia feito.
Os dançarinos se moviam lentamente a minha volta, seus rostos escondidos atrás de impressionantes máscaras incrustadas de joias. A melodia assombrosa que a orquestra tocava deslizava pela minha pele e se afundava nos meus ossos enquanto os dançarinos se separavam.
Nada nos separava.
Eu tentei respirar, mas ele não havia roubado apenas o meu coração, mas o ar que eu precisava.
Ele estava parado lá, vestido com um smoking preto de corte feito para se ajustar às linhas duras do seu corpo. Um sorriso torto, cheio de malícia e brincadeira, curvava seus lábios enquanto ele se curvava na cintura, estendendo seu braço na minha direção.
Minhas pernas estavam fracas quando eu dei o primeiro passo. As luzes cintilantes de cima iluminaram o caminho até ele, mas eu o teria encontrado no escuro se necessário. A batida de seu coração parecia com a minha.
Seu sorriso aumentou.
Esse era todo o incentivo que eu precisava. Eu disparei na direção dele, o vestido fluindo atrás de mim em um rio de seda escarlate. Ele se endireitou, pegando-me pela cintura enquanto eu colocava meus braços ao redor de seu pescoço. Eu enterrei meu rosto contra seu peito, absorvendo o cheiro do oceano e de folhas queimadas.
Todo mundo estava assistindo, mas isso não importava. Nós estávamos em nosso próprio mundo, onde apenas o que nós queríamos - o que nós desejamos por tanto tempo - importava.
Ele riu profundamente, enquanto me girava. Meus pés nem mesmo tocavam o piso do salão. — Tão imprudente. — Ele murmurou. 
Eu sorri em resposta, sabendo que ele secretamente amava essa parte de mim.
Colocando-me de pé, pegou minha mão e colocou a outra na parte debaixo das minhas costas. Quando falou novamente, sua voz era um sussurro baixo, abafado. — Você está tão linda, Alex.
Meu coração se encheu. — Eu te amo, Aiden.
Ele beijou o topo da minha cabeça, e então nós giramos em círculos vertiginosos. Casais lentamente se juntaram a nós, e eu peguei vislumbres de sorrisos largos e olhos estranhos por trás das máscaras - olhos completamente brancos, sem íris. Uma inquietação tomou conta. Aqueles olhos... Eu sabia o que eles significavam. Nós fomos levados para um canto onde eu ouvi choros suaves vindo da escuridão.
Olhei para o canto escuro do salão. — Aiden...?
— Shh. — Sua mão deslizou pela minha espinha e segurou a minha nuca. — Você me ama?
Nossos olhos se encontraram e pararam. — Sim. Sim. Eu te amo mais do que qualquer coisa.
O sorriso de Aiden desapareceu. — Você me ama mais do que a ele?
Paralisei em seu repentino abraço frouxo. 
— Mais do que quem? 
— Ele, — Aiden repetiu. — Você me ama mais do que ele?
Meu olhar passou por ele e foi novamente para a escuridão. Um homem estava de costas para nós. Ele estava pressionado contra uma mulher, seus lábios no pescoço dela.
— Você me ama mais do que ele?
— Quem? — Tentei chegar mais perto, mas ele me segurou longe. Incerteza floresceu na minha barriga quando eu vi a decepção em seus olhos prateados. — Aiden, o que há de errado?
— Você não me ama. — Ele deixa suas mãos caírem, dando um passo para trás. — Não quando você está com ele, quando você o escolhe.
O homem vira, ficando de frente para nós. Seth sorri, seu olhar oferecendo um mundo de promessas obscuras. Promessas que eu havia concordado, que havia escolhido.
— Você não me ama, — Aiden disse de novo, sumindo nas sombras. — Você não pode. Nunca pôde.
Eu tento alcança-lo. — Mas...
Era tarde demais. Os dançarinos se juntaram e eu estava perdida em um mar de vestidos e palavras sussurradas. Eu os empurrei, mas não consegui passar por eles, não conseguia encontrar Aiden ou Seth. Alguém me empurrou e eu caí de joelhos, a seda vermelha se rasgando. Gritei por Aiden e então por Seth, mas nenhum deu atenção aos meus pedidos. Eu estava perdida, encarando os rostos atrás das máscaras, encarando os olhos estranhos. Eu conhecia aqueles olhos.
Eles eram os olhos dos deuses.
Eu me levantei repentinamente da cama, uma fina camada de suor cobrindo o meu corpo enquanto o meu coração continuava tentando sair do meu peito. Vários momentos se passaram antes que os meus olhos se ajustassem à escuridão e eu reconhecesse as paredes vazias do meu dormitório.
— Que diabos? — Eu passei minha mão sobre a minha testa quente e úmida. Fechei os meus olhos lacrimejantes.
— Humm? — Murmurou um meio acordado Seth.
Eu espirrei em resposta, uma vez, e então duas vezes.
— Isso é sexy. — Ele cegamente alcançou a caixa de lenços. — Não acredito que você ainda está doente. Aqui.
Suspirando, peguei a caixa de lenços dele e embalei a caixa no meu peito enquanto pegava alguns lenços. — É culpa sua... atchim! Foi sua ideia estúpida de ir nadar num... atchim!... Clima de dez graus, seu idiota.
— Eu não estou doente.
Limpei meu nariz, esperando mais alguns segundos para me certificar que eu tinha terminado de espirrar meu cérebro para fora, e então deixei a caixa de lenços cair no chão. Resfriados são uma droga. Nos meus dezessete anos de vida, eu nunca havia pegado um resfriado até agora. Eu nem mesmo sabia que podia pegar um. — Você não é simplesmente tão malditamente especial?
— Pode apostar, — Foi sua resposta abafada.
Virando-me pela cintura, eu encarei a nuca do Seth. Ele quase parecia normal com seu rosto plantado no travesseiro - meu travesseiro. Não como alguém que se tornaria um Matador de Deuses em menos de quatro meses. Para o nosso mundo, Seth era como qualquer outra criatura mística: lindo, mas francamente mortal. — Eu tive um sonho estranho.
Seth virou de lado. — Vem aqui. Volte a dormir.
Desde que nós retornamos do Catskills uma semana atrás, ele estava pegando no meu pé como nunca antes. Não era como se eu não entendesse o porquê, com todo o problema com as fúrias e eu matando um puro. Ele provavelmente nunca iria me deixar sair da vista dele novamente. — Você realmente precisa começar a dormir na sua própria cama.
Ele virou um pouco sua cabeça. Um sorriso sonolento se espalhou em seu rosto. — Eu prefiro a sua cama.
— Eu preferia que nós realmente celebrássemos o Natal aqui, e então eu ganharia alguns presentes de Natal e cantaria músicas de Natal, mas não consigo tudo o que quero.
Seth me puxou para baixo, seu braço fez um peso que me prendeu de costas. — Alex, eu sempre consigo o que quero.
Arrepios se espalharam pela minha pele. — Seth?
— Sim?
— Você estava no meu sonho.
Um olho cor de âmbar se abriu. — Por favor, me diga que nós estávamos pelados.
Eu revirei meus olhos. — Você é tão pervertido.
Ele suspirou pesarosamente enquanto se aproximava. — Vou tomar isso como um não.
— Pode estar certo disso. — Incapaz de voltar a dormir, comecei a morder meu lábio. Tantas preocupações surgiram de uma vez que o meu cérebro girou. — Seth?
— Humm?
Eu o vi se aconchegar mais no travesseiro antes que eu continuasse. Havia algo de encantador sobre o Seth quando ele estava assim, uma vulnerabilidade e infantilidade que faltava quando estava totalmente acordado. — O que aconteceu quando eu estava lutando com as fúrias?
Seus olhos se abriram em fendas finas. Esta era uma pergunta que eu havia feito diversas vezes desde que nós retornamos da Carolina do Norte. O tipo de força e poder que eu havia demonstrado enquanto enfrentava os deuses era algo que apenas o Seth, um Apollyon completo, deveria ter sido capaz de realizar.
Eu, como uma mestiça não-Despertada? Sim, acho que não. Eu deveria ter meu traseiro espancado quando lutei com as fúrias.
A boca do Seth ficou tensa. — Volte a dormir, Alex.
Ele se recusou a responder. De novo. Raiva e frustração chegaram à superfície. Eu tirei o braço dele de mim. — O que você não está me contando?
— Você está sendo paranoica. — Seu braço pousou no meu estômago de novo.
Tentei sair do seu alcance, mas seu aperto aumentou. Rangendo os dentes, eu virei de lado e me acomodei ao lado dele. — Não estou sendo paranoica, seu idiota. Algo aconteceu. Eu te falei isso. Tudo... tudo parecia ter a cor âmbar. Como seus olhos.
Ele soltou um longo suspiro. — Eu já ouvi que pessoas em altos níveis de estresse têm um aumento na força e nos sentidos.
— Não foi isso.
— E que as pessoas podem alucinar quando sob pressão. 
Balancei meu braço para trás, por pouco não acertando a cabeça dele. — Eu não alucinei.
— Não sei o que te dizer. — Seth ergueu seu braço e virou de costas. — De qualquer forma, você vai voltar para as aulas de manhã? — Instantaneamente uma nova preocupação surgiu.
Aulas significavam encarar todo mundo - Olívia - sem o meu melhor amigo. A pressão cresceu no meu peito. Eu apertei meus olhos, mas o rosto pálido do Caleb apareceu, olhos arregalados e cegos, uma adaga do Covenant enfiada profundamente em seu peito. Parecia que eu apenas conseguia me lembrar como era realmente a aparência dele nos meus sonhos.
Seth sentou-se, e eu senti os olhos dele fazendo buracos nas minhas costas. — Alex...?
Eu odiava a nossa super ligação especial - absolutamente odiava que seja qual fosse o meu sentimento, isso passava para ele. Não havia mais privacidade. Suspirei. — Estou bem.
Ele não respondeu.
— Sim, eu vou para a aula de manhã. Marcus terá um ataque quando voltar e perceber que eu não estou indo para a aula. — Coloquei-me de costas. — Seth?
Ele inclinou a cabeça na minha direção. Sombras camuflavam suas feições, mas seus olhos cortaram a escuridão. — Sim?
— Quando você acha que eles vão voltar? — Por eles eu queria dizer Marcus e Lucian... E Aiden. Minha respiração ficou presa. Isso acontecia sempre que eu pensava no Aiden e no que ele havia feito por mim - o que ele havia arriscado.
Acomodando-se na cama, Seth me alcançou e pegou a minha mão direita. Seus dedos se entrelaçaram nos meus, uma palma na outra. Minha pele formigou em resposta. A marca do Apollyon - aquela que não deveria estar na minha mão - esquentou. Eu encarei nossas mãos juntas, nem um pouco surpresa quando vi os leves traços - também marcas do Apollyon - subindo pelo braço do Seth. Eu virei minha cabeça, observando as marcas se espalharem pelo rosto do Seth. Seus olhos pareciam ter ficado mais claros. Eles estavam fazendo isso com mais frequência ultimamente, as runas e seus olhos.
— Lucian disse que eles voltariam logo, possivelmente mais tarde hoje. — Muito lentamente, ele moveu o seu polegar pela linha da runa. Meus dedos do pé se curvaram quando a minha mão livre se afundou nas cobertas. Seth sorriu. — Ninguém mencionou o Guarda puro-sangue. E Dawn Samos já retornou. Parece que a compulsão do Aiden funcionou.
Eu queria soltar minha mão. Era difícil se concentrar quando o Seth mexia com a runa na minha mão. Claro, ele sabia disso. E sendo o idiota que era, ele gostava.
— Ninguém sabe o que realmente aconteceu. — O polegar dele agora traçava a linha horizontal. — E permanecerá dessa forma.
Meus olhos se fecharam. A verdade de como o Guarda puro-sangue havia morrido teria que permanecer em segredo, ou tanto Aiden quanto eu estaríamos em apuros. Não apenas nós tínhamos quase ficado durante o verão - e então eu tive que ir e contar a ele que eu o amava, o que era totalmente proibido - eu havia matado um puro-sangue em auto-defesa. E Aiden havia usado compulsão em dois puros para encobrir tudo. Matar um puro significava morte para um mestiço, não importa a situação, e um puro era proibido de usar compulsão em outro puro. Se alguma coisa sobre isso escapasse, nós dois estaríamos totalmente ferrados.
— Você acha? — Sussurrei.
— Sim. — A respiração de Seth estava quente na minha têmpora. — Vá dormir, Alex.
Deixando a sensação calmante de seu polegar contra a runa me acalmar, eu voltei a dormir, momentaneamente esquecendo todos os erros e decisões que tomei nos últimos sete meses. O meu último pensamento consciente foi o meu maior erro - não no garoto ao meu lado, mas naquele que eu nunca poderia ter.
Em um dia bom e normal, eu odiava a aula de trigonometria. Quem se importava com Pitágoras quando eu estava frequentando o Covenant para aprender como matar coisas? Mas hoje o meu ódio pela aula tinha atingido outro nível.
Quase todo mundo estava com os olhos em mim, até a Sra. Kateris. Eu afundei no meu assento, enfiando o meu nariz no livro que eu não iria ler nem que o Apollo descesse e exigisse que o fizesse. Apenas um par de olhos realmente me afetava. O resto podia ir se ferrar.
O olhar de Olivia era pesado, condenador.
Por que, ah por que, nós não podíamos trocar de lugares? Depois de tudo que aconteceu, sentar ao lado dela era o pior tipo de tortura.
Minhas bochechas queimavam. Ela me odiava, me culpava pela morte do Caleb. Mas eu não havia matado Caleb - um daimon mestiço havia feito isso. Eu apenas tinha sido aquela que havia feito ele sair escondido do campus que estava sob toque de recolher, que no final das contas, era mesmo preciso.
Então de uma forma, era minha culpa. Eu sabia disso, e deuses, eu faria qualquer coisa para mudar aquela noite.
A explosão de Olivia no funeral de Caleb era provavelmente o motivo de todo mundo estar me olhando. Se eu me lembrava corretamente, acho que ela gritou algo como, — Você é o Apollyon. — Enquanto eu a encarava.
Lá no Covenant de Nova Iorque no Catskills, os garotos mestiços haviam achado que eu era bem legal, mas aqui - nem tanto. Quando eu encontrava os olhares deles, eles não desviavam o olhar rápido o bastante para esconder o seu desconforto.
No final da aula, enfiei meu livro na mochila e me apressei para a porta, me perguntando se o Deacon falaria comigo na próxima aula. Deacon e Aiden eram polos opostos em quase tudo, mas tanto Aiden quanto seu irmão mais novo pareciam ver os mestiços como seus iguais - uma coisa rara entre a raça purosangue.
Sussurros me seguiram pelo corredor. Ignorá-los era mais difícil do que eu imaginei. Cada célula no meu corpo exigia que eu os confrontasse. E fazer o quê? Pular neles como uma aranha macaca louca e derrubar a todos? Sim, eu não ganharia nenhum fã com isso.
— Alex! Espera!
O meu coração se afundou com o som da voz de Olivia. Eu acelerei minha passada, praticamente derrubando alguns mestiços mais jovens que me encaravam com olhos arregalados e assustados. Por que eles estavam com medo de mim? Não era eu que viraria Matadora de Deuses logo. Mas ah não, eles viam o Seth como se ele fosse um deus. Apenas mais algumas portas e eu poderia me esconder na aula de Verdades Técnicas e Lendas.
— Alex!
Reconheci o tom de Olivia. Era o mesmo que ela usava sempre que ela e Caleb estavam prestes a ter uma de suas desavenças - determinada e teimosa como o inferno.
Merda.
Ela estava bem atrás de mim agora e eu estava apenas a um passo da minha aula. Eu não iria conseguir. — Alex, — ela disse. — Nós precisamos conversar.
— Não vou fazer isso agora. — Porque realmente, me dizer que era minha culpa que o Caleb estava morto não estava no topo da minha lista de coisas para ouvir hoje.
Olivia pegou o meu braço. — Alex, eu preciso falar contigo. Sei que você está chateada, mas você não é a única que tem permissão de sentir falta de Caleb. Eu era a namorada dele...
Eu parei de pensar. Me virando, deixei minha bolsa cair no meio do corredor e a peguei pelo pescoço. Em um segundo, eu a tinha contra a parede e na ponta dos dedos. De olhos arregalados, ela pegou o meu braço e tentou me empurrar.
Eu apertei um pouquinho.
Do canto dos meus olhos eu vi a Lea, seu braço não mais com a braçadeira. O daimon mestiço que havia quebrado o braço dela também havia matado o Caleb. Lea deu um passo para frente como se ela quisesse interferir.
— Olha, eu entendo, — Sussurrei roucamente. — Você amava Caleb. Adivinha? Eu também. E sinto a falta dele, também. Se pudesse voltar no tempo e mudar aquela noite, eu faria isso. Mas eu não posso. Então, por favor, apenas me deixe...
Um braço do tamanho da minha cintura apareceu do nada e me jogou para trás uns bons três metros. Olivia desabou contra a parede, esfregando seu pescoço.
Eu me virei e gemi.
Leon, o Rei do Tempo Impecável, me olhava de cara feia. — Você está precisando de uma babá profissional.
Abri minha boca, mas então a fechei. Considerando algumas coisas que o Leon interrompeu no passado, ele não tinha ideia de como a afirmação dele era verdadeira. Mas então eu percebi algo mais importante. Se Leon estava de volta, então meu tio e Aiden também haviam voltado.
— Você, — Leon gesticulou para Olivia, — Volte para a aula. — Ele virou sua atenção de volta para mim. — Você vai vir comigo.
Mordendo minha língua, peguei minha mochila do chão e comecei a minha caminhada da vergonha pelo corredor agora lotado. Eu peguei um lampejo de Luke, mas desviei o olhar antes que pudesse avaliar sua expressão.
Leon pegou as escadas - deuses sabem como eu as amava - e nós não conversamos até estarmos no lobby. As estátuas das fúrias tinham sumido, mas o espaço vazio deixou um buraco no meu estômago. Elas voltariam. Eu tinha certeza disso. Era só uma questão de quando.
 
Ele se elevou sobre mim quando ele parou, quase 2.10 metros de puro músculo. — Por que é que toda vez que eu te vejo, você está prestes a fazer algo que não deveria?
Dou de ombros. — É um talento.
Um divertimento relutante cintilou através de seu rosto enquanto ele tirava algo do seu bolso traseiro. Parecia como um pedaço de um pergaminho. — Aiden me pediu para dar isso a você.
Meu estômago afundou quando alcancei a carta, as mãos tremendo. — Ele... Ele está bem?
Suas sobrancelhas se enrugaram. — Sim. O Aiden está bem.
Eu nem mesmo tentei esconder o meu suspiro de alívio quando virei a carta. Estava selada com um carimbo vermelho de aparência oficial. Quando eu olhei para cima, Leon havia sumido. Balançando minha cabeça, fui até um dos bancos de mármore e sentei. Eu não tinha ideia de como o Leon conseguia mexer um corpo tão maciço de forma tão furtiva. O chão deveria tremer quando ele passasse.
Curiosa, deslizei meu dedo sob o vinco e quebrei o selo. Desdobrando a carta, eu vi a assinatura elegante da Laadan na parte inferior. E rapidamente li o pergaminho de uma vez, e então voltei para o início e li novamente.
E eu li uma terceira vez.
Senti um calor e um frio insuportável de uma vez. Minha boca secou, a garganta se fechou. Leves tremores atormentavam meus dedos, fazendo com que o papel se mexesse. Eu fiquei em pé e então me sentei. As quatro palavras sendo repetidas diante dos meus olhos. Era tudo o que eu podia ver. Tudo que eu queria saber.
Seu pai está vivo.
Com o coração acelerado, eu subi dois degraus por vez. Espiando Leon perto do escritório do meu tio, eu comecei a correr. Ele parecia levemente alarmado quando me viu.
— O que foi Alexandra?
Eu parei repentinamente. — Aiden deu isso a você?
Leon franziu a testa. — Sim.
— Você leu?
— Não. Não era endereçado a mim.
Apertei a carta ao meu peito. — Você sabe onde Aiden está?
— Sim. — O franzido na testa dele se tornou severo. — Ele está de volta desde ontem à noite.
— Onde ele está nesse momento, Leon? Eu preciso saber.
— Não vejo por que haveria alguma razão para você precisar do Aiden tanto assim para interromper o treinamento dele. — Ele cruzou seus grossos braços no peito. — E você não deveria estar indo para a aula?
Eu o olhei por um momento antes de me virar e dar o fora novamente. Leon não era estúpido, então não havia me dito acidentalmente onde o Aiden estava, mas eu não me importava o bastante para procurar o motivo por detrás disso.
Se Aiden estava treinando, então eu sabia onde encontra-lo. Uma brisa úmida e fria pulverizou minhas bochechas quando eu passei pelas portas do lobby e segui na direção da área de treinamento. O céu cinza leitoso era típico do final de novembro, fazendo parecer como se o verão já tivesse sido há muito tempo atrás.
As aulas para as turmas de nível inferior estavam sendo dadas nas salas maiores de treinamento. O latido impaciente do treinador Romvi por detrás de uma das portas fechadas seguiu meus passos rápidos por um corredor vazio. Em direção ao final do último prédio, cruzando a sala médica onde o Aiden havia me trazido depois que o Kain havia me dado uma surra no treinamento, era uma sala menor equipada com necessidades básicas e uma câmara de privação sensorial.
Eu ainda não havia treinado naquela coisa.
Espiando pela fresta da porta, eu vi Aiden. Ele estava no meio do tapete, brigando com um saco de pancadas. Um brilho fino de suor revestia seus músculos enquanto ele balançava, derrubando o saco para trás por alguns metros.
Qualquer outra hora eu teria admirado-o bem obsessivamente, mas meus dedos tremiam, apertando a carta. Eu deslizei pela abertura e cruzei a sala.
— Aiden.
 
Ele virou, os olhos esquentando de um cinza frio para um tom estrondoso. Ele deu um passo pra trás, limpando a testa com o braço. — Alex, o que... O que você está fazendo aqui? Você não deveria estar na aula?
Eu ergui a carta. — Você leu o que estava na carta?
Ele tinha o mesmo olhar que Leon. — Não. Laadan me pediu para ter certeza que você a recebesse.
Por que ela havia confiado no Aiden com essa notícia? Eu não podia sequer começar a entender isso, a menos que... — Você sabia o que estava nessa carta?
— Não. Ela apenas me pediu para entrega-la a você. — Ele se inclinou, pegando uma toalha do tapete. — O que tem nessa carta que fez você vir atrás de mim?
Uma pergunta totalmente sem importância e estúpida veio à tona. — Por que você a entregou para o Leon?
Ele desviou os olhos, ficando em silêncio. — Eu pensei que seria o melhor.
Meu olhar caiu de seu rosto até o seu pescoço. Lá estava aquela corrente prateada fina novamente. Eu me cocei para saber o que ele usava, já que ele não era o tipo de cara que usava joia. Arrastei meus olhos de volta para o seu rosto. — O meu pai está vivo.
Aiden inclinou sua cabeça na minha direção. — O quê?
Uma sensação amarga se acomodou no meu estômago. — Ele está vivo, Aiden. E ele está no Covenant de Nova Iorque há anos. Ele estava lá quando eu estava lá. — O turbilhão de emoções que eu senti quando li a carta pela primeira vez voltou. — Eu vi ele, Aiden! Eu sei que vi. O servo com os olhos castanhos. E ele sabia... Ele sabia que eu era a filha dele. Deve ter sido por isso que sempre me olhava de uma maneira estranha. Provavelmente era por isso que eu era tão atraída a ele sempre que o via. Eu apenas não sabia.
 
Aiden parecia pálido embaixo de seu bronze natural. — Posso?
Entreguei a ele a carta e então passei minhas mãos trêmulas pelo meu cabelo. — Sabe, havia algo diferente nele. Ele nunca parecia dopado como os outros servos. E quando o Seth e eu estávamos indo embora, eu o vi lutando com os daimons. — Pausei, respirando fundo. — Eu apenas não sabia, Aiden.
Suas sobrancelhas se franziram enquanto ele examinava a carta. — Deuses. — Ele murmurou.
Afastando-me dele, abracei meus cotovelos. A sensação doentia que eu estava protelando fluiu através do meu estômago. A raiva ferveu o sangue em minhas veias. — Ele é um servo - um maldito servo.
— Você sabe o que isso significa, Alex?
Eu o encaro, chocada por vê-lo tão próximo. De uma vez, sinto o cheiro de loção pós-barba e água salgada. 
— Sim. Que tenho que fazer alguma coisa! Eu tenho que tira-lo de lá. Sei que não o conheço, mas ele é meu pai. Eu tenho que fazer algo!
Os olhos do Aiden se arregalaram. — Não.
— Não o quê?
Ele dobrou a carta em uma mão e pegou o meu braço com a outra. Eu pisei firme nos meus calcanhares. — O que você...
— Não aqui. — Ele ordenou baixinho.
Confusa e um pouco atordoada com o fato de que o Aiden estava realmente me tocando, eu o deixei me levar para o consultório médico do outro lado do corredor. Ele fechou a porta atrás dele, virando a fechadura. Um calor desconfortável inundou meu sistema quando percebi que nós estávamos sozinhos em uma sala sem janelas, e Aiden havia acabado de trancar a porta. Sério, eu precisava me controlar porque essa realmente não era a hora para os meus hormônios ridículos. Ok, realmente não havia hora nenhuma para isso.
Aiden me encarou. Sua mandíbula ficou tensa. — O que você está pensando?
— Hum... — Dei um passo para trás. De jeito nenhum eu iria admitir isso. Então percebi que ele estava bravo - furioso comigo. — O que eu fiz agora?
Ele colocou a carta na mesa que eu havia sentado. — Você não vai fazer algo louco.
Meus olhos se estreitaram enquanto eu pegava a carta de volta, finalmente entendendo por que ele estava tão bravo. — Você espera que eu não faça nada? E apenas deixe o meu pai apodrecer na servidão?
— Você precisa se acalmar.
— Me acalmar? Aquele servo em Nova Iorque é o meu pai. O pai que haviam me falado que tinha morrido! — De repente, eu me lembrei de Laadan na biblioteca e como ela havia falado do meu pai, como se ele ainda estivesse vivo. A raiva meu deu um soco no estômago. Por que ela não me contou? Eu poderia ter falado com ele. — Como posso me acalmar?
— Eu... Eu não posso imaginar o que você está passando, ou o que está pensando. — Ele franziu a testa. — Bem, sim, posso imaginar o que está pensando. Você quer entrar com tudo em Catskills e libertá-lo. Sei que é isso que está pensando.
Claro que estava.
Ele começou a se aproximar de mim, seus olhos um tom de prata brilhante. — Não.
Recuei, apertando a carta de Laadan ao meu peito. — Tenho que fazer alguma coisa.
— Eu sei que você acha que tem que fazer algo, mas Alex, você não pode voltar ao Catskills.
— Eu não entraria com tudo. — Dei a volta na mesa quando ele se aproximou. — Pensarei em algo. Talvez eu me meta em problemas. Telly disse que tudo que eu precisava fazer era cometer mais um erro e eu seria mandada para Catskills.
Aiden me encarou.
A mesa estava agora entre nós. — Se pudesse voltar lá, então poderia falar com ele. Eu nunca falei com ele.
— Absolutamente não. — Aiden grunhiu.
Meus músculos ficaram tensos. — Você não pode me impedir.
— Quer apostar? — Ele começou a dar a volta na mesa.
Na verdade não. A ferocidade em sua expressão me disse que ele faria qualquer coisa para me impedir, o que significava que eu precisava convencê-lo. — Ele é o meu pai, Aiden. O que você faria se fosse o Deacon?
Golpe baixo, eu sei.
— Nem ouse trazer ele nisso, Alex. Não vou permitir que você se mate. Não me importo por causa de quem. Eu não vou permitir.
Lágrimas queimaram no fundo da minha garganta. — Eu não posso deixá-lo naquele tipo de vida. Não posso.
Dor cintilou em seu olhar de aço. — Eu sei, mas ele não vale a sua vida.
Meus braços caíram nas minhas laterais e eu parei de tentar conseguir uma vantagem sobre ele. — Como você pode tomar essa decisão? — E então as lágrimas que eu estava tentando segurar se libertaram. — Como eu posso não fazer nada?
 
Aiden não diz nada enquanto ele coloca as mãos nos meus antebraços e me guia até ele. Ao invés de me puxar para o seu abraço, ele vai para trás contra uma parede e desliza para baixo, me trazendo junto com ele. Eu estava aninhada em seus braços. Minhas pernas curvadas contra ele, uma das minhas mãos agarrando sua camiseta.
O fôlego que eu puxei era raso, cheio com um tipo de dor que eu nunca poderia esquecer. — Estou cansada das pessoas mentirem para mim. Todo mundo mentiu sobre a minha mãe, e agora isso? Pensei que ele estava morto. E deuses, eu queria que ele estivesse, porque a morte é muito melhor do que o que ele tem vivido. — Minha voz se quebrou e mais lágrimas se derramaram pelas minhas bochechas.
Os braços de Aiden se apertaram ao meu redor e sua mão fez círculos nas minhas costas para me acalmar. Eu queria parar de chorar porque era fraco e humilhante, mas eu não podia parar. Descobrir o verdadeiro destino do meu pai era aterrorizante. Quando o pior das lágrimas passou, me afastei um pouco e ergui meu olhar lacrimejante.
Ondas sedosas de cabelo escuro grudavam na sua testa e têmporas. A luz fraca da sala ainda iluminava bochechas salientes e lábios que eu havia memorizado há muito tempo. Aiden raramente sorria, mas quando ele o fazia, era de tirar o fôlego. Foram poucas as vezes que eu havia me regozijado naquele raro sorriso; a última vez havia sido no zoológico.
Vendo ele agora, verdadeiramente vendo-o, a primeira vez depois que ele havia arriscado tudo para me proteger... Eu queria começar a chorar de novo. Na última semana, eu havia repassado o que havia acontecido várias vezes. Poderia ter feito algo diferente? Desarmado o Guarda ao invés de enfiar minha lâmina profundamente em seu peito? E por que Aiden havia usado compulsão para encobrir o que eu havia feito? Por que ele arriscaria tanto?
E nada disso parecia importante agora, não depois de descobrir sobre o meu pai. Limpei os meus olhos com as mãos. — Desculpa por... chorar em você todo.
 
— Nunca se desculpe por isso, — Ele disse. Esperava que ele fosse me soltar naquela hora, mas seus braços ainda estavam ao meu redor. Eu sabia que não deveria, porque apenas me traria um monte de dor depois, mas me deixei relaxar contra ele. — Você tem uma reação precipitada a tudo.
— O quê?
Ele baixou um braço e deu um tapinha no meu joelho. — É a sua reação inicial. O pensamento imediato que você tem quando ouve algo. Você age ao invés de analisar as coisas.
Enterro minha bochecha contra seu peito. — Isso não é um elogio.
Sua mão se moveu para a minha nuca, seus dedos se enroscando na bagunça do cabelo na minha nuca. Perguntando-me se ele estava ciente do que estava fazendo, segurei minha respiração. A mão dele se apertou, me segurando de uma maneira que eu não pudesse me afastar muito. Não que eu fosse - não importa o quão errado era, o quão perigoso e estúpido.
— Não é um insulto, — ele disse suavemente. — É apenas quem você é. Você não para pra pensar no perigo, somente no que é certo. Mas algumas vezes não é... certo.
Eu ponderei sobre isso. — Usar compulsão na Dawn e no outro puro foi uma reação precipitada?
Ele pareceu demorar para sempre para responder. — Foi, e não foi a coisa mais inteligente a se fazer, mas eu não poderia fazer outra coisa.
— Por quê?
Aiden não respondeu.
Eu não tentei forçar. Havia um conforto em seus braços, na maneira como sua mão traçava círculos calmantes ao longo das minhas costas, que eu não encontraria em outro lugar. Não queria estragar isso. Em seus braços, eu era mais calma - estranhamente. Eu podia respirar. Sentia-me segura, confiante. Ninguém oferecia isso. Ele era como a minha receita particular de calmante.
— Se tornar Sentinela foi uma reação precipitada, — Eu sussurrei.
O peito do Aiden subiu e desceu embaixo da minha bochecha. — Sim, foi.
— Você... Se arrepende?
— Nunca.
Eu queria ter esse tipo de confiança. — Não sei o que fazer, Aiden.
O queixo dele se abaixou, roçando na minha bochecha. Sua pele era macia, quente, arrebatadora, e calmante, tudo de uma vez. — Nós vamos descobrir uma maneira de entrar em contato com ele. Você disse que ele nunca parecia estar sob o efeito do Elixir? Nós podíamos mandar uma carta para a Laadan; ela poderia passar para ele. Esse seria o passo mais seguro.
Meu coração fez uma dança feliz e estúpida. Esperança estava se tornando descontrolada dentro de mim. — Nós?
— Sim. Eu posso facilmente mandar uma carta para a Laadan - uma mensagem. É a maneira mais segura nesse momento.
Eu queria apertá-lo, mas me segurei. — Não. Se você for pego... Não posso deixar isso acontecer.
Aiden riu suavemente. — Alex, nós provavelmente já quebramos cada regra que há. Não estou preocupado sobre ser pego por passar uma mensagem.
Não, nós não havíamos quebrado todas as regras.
Ele se afastou um pouco, e eu podia sentir o seu olhar intenso no meu rosto. — Você pensou que eu não ajudaria com algo tão importante como isso?
 
Mantive meus olhos fechados, porque olhar para ele era uma fraqueza. Ele era minha fraqueza. — As coisas estão... diferentes.
— Eu sei que as coisas estão diferentes, Alex, mas sempre vou estar do seu lado. Sempre vou te ajudar. — Ele pausou. — Como você pode duvidar disso?
Como uma tola, eu abri meus olhos. Eu fui sugada totalmente. Era como se tudo que havia sido dito, tudo que eu conhecia, não importasse mais. — Não duvido disso. — Sussurrei.
Seus lábios se inclinaram de um lado. — Algumas vezes eu apenas não te entendo.
— Eu não me entendo metade do tempo. — Abaixei meus olhos. — Você já fez... tanto. O que você fez em Catskills? — Engoli o caroço na minha garganta. — Deuses, nunca te agradeci por aquilo.
— Não...
— Não diga que não vale a pena te agradecer. — Meu olhar subiu, se prendendo ao dele. — Você salvou minha vida, Aiden, ao risco da sua própria. Então, obrigada.
Ele desviou o olhar, seus olhos se focando em um ponto acima da minha cabeça. — Eu te falei que nunca deixaria nada acontecer contigo. — Seu olhar voltou ao meu e divertimento cintilou naquelas piscinas prateadas. — Parece mais como um trabalho integral, no entanto.
Meus lábios se curvaram. — Eu estive realmente tentando, sabia. Hoje foi o primeiro dia que fiz algo remotamente estúpido. — Deixei de fora a parte onde eu tinha ficado isolada em meu quarto com uma gripe horrível.
— O que você fez?
— Você realmente não quer saber.
Ele riu de novo. — Imaginei que Seth estaria te mantendo fora de problemas.
 
Percebendo que eu não havia pensado em Seth desde o momento em que havia lido a carta, eu endureci. Nem havia pensado sobre a ligação. Droga.
Aiden respirou fundo e deixou seus braços caírem. — Você sabe o que isso significa, Alex?
Eu me esforcei para me recompor. Havia coisas importantes a tratar. Meu pai, o Conselho, Telly, as fúrias, uma dezena ou mais de deuses enfurecidos, e Seth. Mas meu cérebro parecia mingau. — O quê?
Aiden olhou para a porta, como se ele tivesse medo de falar em voz alta. — O seu pai não era mortal. Ele é um mestiço.
 
Não voltei para as minhas aulas. Ao invés disso, voltei para o meu dormitório e me sentei na cama, a carta descansando na minha frente como uma cobra pronta para espalhar o seu veneno. Estava confusa em saber que o meu pai ainda estava vivo e... eu me sentia tão estúpida por não ter descoberto isso logo de cara. A carta da Laadan não disse explicitamente. Obviamente, eu entendia o porquê ela contornou a bomba verdadeira que havia colocado nessa carta breve. De que forma o Conselho tinha conseguido ter meu pai sob o controle deles? E eu havia visto ele lutar. Ele era como um ninja com aqueles castiçais.
O meu pai era um maldito mestiço - um mestiço treinado. Inferno, ele provavelmente havia sido um Sentinela, o que totalmente explicava como a minha mãe o conheceu antes de conhecer o Lucian.
Então o que, pelo sagrado Hades, isso me tornava?
A resposta parecia tão simples. Eu me joguei de costas, encarando cegamente o teto. Deuses, eu queria o Caleb para falar sobre isso, porque isso não poderia ser o que era.
Uma pura que tinha um filho com outros puros faziam pequenos e felizes bebês puros. Um puro que ficava com um mortal criava os sempre úteis mestiços. Mas um puro-sangue e um mestiço ficando juntos - o que era tão proibido, tão tabu, que eu não podia pensar em uma situação onde uma criança havia realmente sido produzida - fazia... O quê?
Eu me ergui subitamente, com o coração trovejando. A primeira vez que Aiden havia estado no meu dormitório e eu havia olhado para ele - bem, eu estava cobiçando-o, mas tanto faz - e me perguntei por que os relacionamentos entre os mestiços e os puros haviam sido proibidos por eras. Não era por medo de um Ciclope de um olho, mas meio que era.
Um puro-sangue e um mestiço faziam um Apollyon.
— Merda, — eu disse, encarando a carta.
Mas tinha que ser mais do que isso. Havia normalmente um Apollyon nascido a cada geração, com a exceção de Solaris e o Primeiro, e Seth e eu. O que deveria significar que um mestiço e um puro apenas produziram uma criança umas cinco vezes desde o tempo que os deuses andavam nessa terra. Devem ter havido mais vezes quando isso aconteceu. Ou esses bebês foram mortos? Eu não descartaria que os puros e os deuses fariam tal coisa se eles soubessem o que poderia sair ao juntar um puro e um mestiço. Mas por que Seth e eu havíamos sido poupados? Obviamente eles sabiam o que o meu pai era já que eles o mantiveram por perto seja por qual for a razão. Meu coração se apertou, assim como os meus punhos. Empurrei a raiva para longe para voltar a ela depois. Eu havia prometido a Aiden que não faria nada precipitado, e minha raiva sempre me levava a algo idiota.
Um arrepio percorreu a minha espinha. Um som veio da porta, bem parecido com uma fechadura sendo aberta. Eu olhei para a carta, mordendo meu lábio inferior. Então olhei para o relógio ao lado da cama. Estava atrasada para o meu treinamento com Seth.
A porta se abriu e fechou. Eu peguei a carta, rapidamente dobrando-a. Eu sabia o momento que ele parou no batente da porta sem olhar para cima. Um nível de consciência dançou pela minha pele e o ar se encheu de eletricidade.
— O que aconteceu hoje? — Ele perguntou simplesmente.
Havia pouco que eu podia esconder de Seth. Ele deve ter sentido minhas emoções desde o momento que eu li a carta e tudo o que eu havia sentido enquanto estava com Aiden. Ele não saberia exatamente o que estava causando para deixar meus sentimentos ensandecidos - graças aos deuses - mas o Seth não era burro. Eu estava um pouco surpresa que ele havia esperado tanto para vir me encontrar.
Ergui meu olhar. Ele parecia como uma daquelas estátuas de mármore que enfeitavam a frente de cada prédio daqui, exceto que sua pele era de um tom único de dourado - uma perfeição de outro mundo. Algumas vezes ele parecia frio, impassível. Especialmente quando o seu cabelo loiro que batia nos ombros estava preso, mas ele estava meio solto agora, suavizando as linhas de seu rosto. Seus lábios carnudos normalmente estavam curvados em um sorriso pretensioso, mas agora eles estavam pressionados em uma linha dura e tensa.
Aiden havia sugerido que eu mantivesse a carta e seu conteúdo para mim mesma. Laadan havia quebrado sabe se lá quantas regras ao me contar sobre o meu pai, mas eu confiava no Seth. Nós éramos, afinal de contas, destinados a ficar juntos. Há uns dois meses eu teria rido se alguém tivesse dito que nós estaríamos fazendo isso que estamos fazendo hoje. Foi um caso de desgosto mútuo quando nós nos conhecemos, e nós ainda tínhamos momentos épicos. Não foi há muito tempo atrás que eu havia ameaçado esfaquear ele no olho. E eu estava falando sério.
Silenciosamente, eu estendi a carta.
 
Seth a pegou, rapidamente desdobrando com dedos longos e ágeis. Enfiei minhas pernas embaixo de mim, observando-o. Não havia nada na expressão dele que entregava o que estava pensando. Depois do que pareceu ser uma eternidade, ele olhou para cima. — Ah, deuses.
Não era exatamente a resposta que eu estava pensando.
— Você vai fazer algo incrivelmente estúpido em resposta a isso.
Joguei minhas mãos para cima. — Afe, todo mundo acha que eu vou invadir Catskills?
As sobrancelhas do Seth se levantaram.
— Que seja, — Resmunguei. — Eu não vou atacar o Covenant. Tenho que fazer algo, mas não será... Precipitado. Contente? De qualquer forma, você se lembra do mestiço que nós passamos quando nós estávamos vendo o Conselho no primeiro dia?
— Sim. Você ficou encarando-o.
— É ele. Eu sei disso. É por isso que ele parecia tão familiar para mim. Seus olhos. — Mordi meu lábio, desviando o olhar. — Minha mãe sempre falava sobre os olhos dele.
Ele sentou ao meu lado. — O que você vai fazer?
— Vou mandar uma carta de volta para a Laadan, uma carta para o meu pai. Depois disso, não sei. — Olhei para ele. Grossas mechas de cabelo cobriam seu rosto. — Você sabe o que isso significa, certo? Que ele é um mestiço. E isso... — Eu gesticulei para nós. — Nós somos a razão por que as relações do tipo divertidas são proibidas entre mestiços e puros. Os deuses sabem o que acontecerá se um puro e um mestiço ficarem juntos.
— É provavelmente mais do que isso. Os deuses gostam da ideia de subjugar os mestiços. O que você acha que eles fizeram com os mortais durante o auge deles? Os deuses subjugaram os mortais até ter ido longe demais. Eles ainda tratam os mestiços como sujeira apenas válida para ser pisada em cima.
Cara, Seth estava em um humor de odiar os deuses ou o quê? Eu encarei a minha mão direita, o traço fraco da runa que apenas o Seth e eu podíamos ver. — Era ele - meu pai - na escadaria. Eu não consigo explicar, mas sei que era.
Seth olhou para cima então, seus olhos um tom estranho de amarelo. — Quem sabe sobre isso?
Balanço a cabeça. — O Conselho tem que saber. Laadan sabia porque ela era amiga da minha... da minha mãe e pai. Não me surpreenderia se o Lucian e o Marcus soubessem, também. — Franzi a testa. — Você se lembra quando nós ouvimos o Marcus e o Telly conversando?
— Eu me lembro de ter te derrubado de bunda.
— Sim, você fez isso porque estava encarando a Peitos.
Seus olhos se arregalaram e ele soltou uma risada chocada. — Peitos? O quê?
— Você sabe... Aquela garota que estava toda em cima de você em Catskills. — Quando as sobrancelhas dele levantaram, eu revirei os olhos. Bem a cara do Seth, ter problemas para se lembrar qual garota era. — Estou falando sobre aquela que tinha, bem... Peitos enormes.
Ele encarou o nada por um momento e então riu de novo. — Ah. Sim, ela... Espera um segundo. Você a chama de Peitos?
— Sim, e eu aposto que você nem lembra o nome dela.
— Ah...
— Fico contente que estamos na mesma página agora. De qualquer forma, lembra como o Telly disse que eles já tinham um lá? Que eles podiam manter os dois juntos? Você acha que eles estavam falando do meu pai e de mim? — Se Marcus e Lucian soubessem, eu queria quebrar a cabeça dos dois, mas confrontá-los iria colocar a Laadan em perigo.
Seth olhou para a carta. — Isso faria sentido. Especialmente considerando o quanto o Telly queria que você fosse colocada em servidão.
O Ministro Telly era o Ministro Chefe de todos os Conselhos e ele me persegue desde o começo. O meu testemunho sobre os eventos em Gatlinburg fora uma artimanha completa para me colocar na frente do Conselho inteiro para que eles pudessem votar e me colocar em servidão. E eu realmente acreditava que o Telly estava por trás da compulsão que havia sido usada em mim na noite que eu quase fui transformada em um picolé humano. Se o Leon não tivesse me encontrado, teria congelado até a morte. E daí houve a noite que o equivalente a um boa noite cinderela olimpiano havia sido dado a mim em uma tentativa grosseira de me pegar em uma posição comprometedora com um puro. Teria funcionado se não fosse pelo Seth e o Aiden terem me visto com a bebida.
Minhas bochechas queimaram quando me lembrei daquela noite. Eu praticamente havia molestado o Seth - não que ele tenha reclamado. Seth sabia que eu estava sob a influência da bebida e ele havia tentado se controlar, mas a ligação entre nós havia derramado toda a minha luxúria amplificada sobre ele. Eu teria perdido minha virgindade se não tivesse terminado a noite vomitando meu estômago. Eu sabia que a situação toda incomodava o Seth. Ele se sentia culpado por ter cedido. E o punho do Aiden havia feito um estrago no olho do Seth depois de ter me descoberto no chão do banheiro... com as roupas do Seth. Aiden não podia entender como eu havia perdoado Seth - e algumas vezes eu não entendia também. Talvez fosse a ligação, porque o que nos conectava era tão forte. Talvez fosse algo mais.
E então havia o Guarda puro-sangue que havia tentado me matar, dizendo que ele precisava ‘proteger o seu povo’. Eu suspeitava que o Ministro Telly estivesse por detrás disso, também.
— Quem mais sabe sobre isso? — Seth me tirou das minhas reflexões.
— A Laadan pediu a Aiden para me entregar a carta, mas foi o Leon que me entregou. O Leon diz que ele não olhou a carta, e eu acredito nele. Estava selada. Viu. — Apontei para o selo rasgado. — Aiden não sabia o que estava nela, também.
A mandíbula do Seth se mexeu. — Você foi até o Aiden?
Eu sabia que precisava proceder com cuidado. Seth e eu não estávamos juntos nem nada, mas também sabia que ele não estava ficando com mais ninguém nesse momento. Os calorões que eu havia sentido desde que nós retornamos de Catskills haviam sido apenas quando ele estava perto de mim, na maioria das vezes durante nossas sessões de treinamento mano-a-mano. Seth era, acima de tudo, um cara. Acontecia... bastante.
— Eu pensei que talvez ele soubesse, já que Laadan confiou nele com a carta, mas ele não sabia. — Eu disse finalmente.
— Mas você contou a ele?
Não havia motivo para mentir. — Sim. Ele sabia que eu estava chateada. Obviamente, é confiável. Não vai dizer nada.
Seth ficou em silêncio por um momento. — Por que você não veio até mim?
Ah, não. Eu estava concentrada no chão, então em minhas mãos, e finalmente na parede. — Eu não sabia onde você estava. E Leon me disse onde o Aiden estava.
— Você pelo menos tentou me encontrar? É uma ilha. Não teria sido algo difícil de fazer. — Ele colocou a carta na cama, e do canto do meu olho, eu vi seus pés apontados para mim.
Mordi meu lábio. Não devia nada a ele, não é? De qualquer forma, eu não queria ferir seus sentimentos. Seth podia agir como se ele não tivesse nenhum, mas eu sabia que não era assim. — Eu apenas não estava pensando. Não é grande coisa.
— Ok. — Ele se aproximou e sua respiração esquentou minha bochecha. — Eu senti suas emoções essa tarde.
Engoli. — Então por que você não veio me procurar?
— Estava ocupado.
— Então qual é o grande problema de eu não ter ido te procurar? Você estava ocupado.
Seth tirou uma mexa grossa de cabelo do meu pescoço, jogando-a por cima do meu ombro. Meus músculos ficaram tensos. — Por que você estava tão chateada?
Eu virei minha cabeça. Nossos olhares se prenderam. — Eu havia acabado de descobrir que o meu pai está vivo, e que ele é um servo. Esse tipo de coisa é emocional.
Seus olhos ficaram com um tom quente de âmbar. — Esse é um bom motivo.
Não havia muito espaço entre nossas bocas. Um nervoso repentino tomou conta. Seth e eu não havíamos nos beijado desde o dia no labirinto. Eu acho que a minha gripe deixou ele com nojo, e não era como se eu estivesse forçando algo, mas não havia espirrado e fungado desde hoje cedo. — Você sabe o quê?
Ele sorriu de leve. — O quê?
— Você não parece muito surpreso sobre o meu pai. Você não sabia, sabia? — Segurei o meu fôlego, porque se ele soubesse, nem sei o que eu faria. Mas não seria bonito.
— Por que você pensaria uma coisa dessas? — Seus olhos se estreitaram. — Você não confia em mim?
— Não. Eu confio. — E eu realmente confiava... Na maior parte do tempo. — Mas você não está nem um pouco surpreso.
Seth suspirou. — Nada me surpreende mais.
Pensei em outra coisa. — Você sabe qual dos seus pais era mestiço?
— Eu acho que teria que ser o meu pai. A minha mãe era uma pura em todas as formas.
Eu não sabia disso. Mas então, havia bem pouca coisa que sabia sobre o Seth. Claro, ele gostava de falar sobre si mesmo, mas era tudo em um nível superficial. Então havia o grande mistério de todos. — Qual é o seu sobrenome?
— Alex, Alex, Alex, — Ele me repreendeu suavemente, ficando de joelhos.
Apertei minhas mãos juntas, reconhecendo a extremidade calculada em seu olhar. Ele estava totalmente tramando algo. — O quê?
— Eu quero tentar algo.
Já que nós estávamos na minha cama e o Seth era um pervertido na maior parte do tempo, o meu nível de suspeita estava bem alto. Isso saiu na minha voz. — Como o quê?
Seth me pressionou para trás até eu estar deitada de costas. Ele pairou em cima de mim, uma leve curva em seus lábios. — Me dê sua mão esquerda.
— Por quê?
— Por que você é tão desconfiada?
Eu arqueei uma sobrancelha. — Por que você sempre invade o meu espaço pessoal?
— Porque eu gosto. — Ele deu um tapinha no meu estômago. — E lá no fundo você gosta quando eu faço isso.
Meus lábios se pressionaram juntos. Estava bem certa que a ligação entre nós gostava quando ele fazia isso. Eu podia senti-la nesse momento. Ela praticamente ronronava. Se eu gostava era algo que ainda estava tentando descobrir.
— Me dê sua mão esquerda, — Ele ordenou de novo. — Nós vamos trabalhar na sua técnica de bloqueio.
— E nós temos que dar as mãos para fazer isso? — Na minha cama?, eu queria acrescentar.
— Alex.
Suspirando alto, dei a ele minha mão. — Nós vamos cantar músicas agora?
— Bem que você queria. — Ele montou minhas coxas, colocando um joelho de cada lado. — Tenho uma adorável voz para cantar.
— Nós temos que fazer isso justo agora? Eu realmente não estou no clima depois de tudo. — Praticar técnicas de bloqueio do tipo mental requeria concentração e determinação - duas coisas que eu não tinha no momento. Bem, para ser honesta, concentração era algo que eu normalmente não tinha na maioria dos dias.
— Agora é a melhor hora. As suas emoções estão em todo lugar. Você precisa aprender como passar por isso. — Seth pegou minha outra mão, entrelaçando seus dedos nos meus. Ele se abaixou tanto que as pontas de seus cabelos roçaram nas minhas bochechas. — Feche seus olhos. Imagine os muros.
Fechar meus olhos era algo que eu não queria fazer com Seth sentando em cima de mim. A ligação entre nós estava ficando mais forte a cada dia. Eu podia senti-la se movendo na minha barriga, zumbindo até a superfície. Meus dedos do pé se curvaram dentro das minhas meias peludas. A mesma sensação que eu tive no dia que explodi aquela pedra me inundou. Eu queria tocá-lo. Ou a ligação queria que eu tocasse nele.
Seth inclinou sua cabeça para o lado. — Sei o que você está sentindo agora. Eu totalmente aprovo.
Minhas bochechas queimaram. — Deuses, eu te odeio.
Ele deu uma risada. — Imagine os muros. Eles são sólidos, não podem ser invadidos.
Imaginei os muros. Na minha cabeça, eles eram de um rosa néon. Com brilhos. Pus brilhos nos muros porque eles me davam algo no qual me concentrar. Seth havia dito que a técnica podia funcionar contra as compulsões se fosse feita corretamente, mas ao lidar com emoções, os muros não eram construídos ao redor da mente, eles eram construídos pelo estômago e através do coração. Os muros se formavam na minha mente primeiro e então iam para baixo, dando a mim mesma uma armadura corporal.
— Eu ainda posso senti-la. — Seth disse, se mexendo incansavelmente em cima de mim.
Isso realmente deve ser horrível para ele, eu percebi. Ele podia sentir que eu ainda estava obcecada com o Aiden, chateada com o meu pai, e em conflito sobre ele. E a única coisa que eu conseguia sentir dele era quando ele estava se sentindo excitado.
A maldita corda dentro de mim - a minha conexão com o Seth - começou a zumbir, exigindo que eu prestasse atenção. Era como um bichinho de estimação querendo atenção - ou como o Seth. Eu me perguntei se podia usar a corda para bloquear minhas emoções. Abrindo meus olhos, eu comecei a perguntar mas então fechei minha boca.
Seth estava com seus olhos fechados e ele parecia como se estivesse realmente se concentrando em algo. Suas pálpebras vibravam frequentemente, lábios desenhados em uma linha apertada, tensa. Então as marcas correram sobre sua pele, movendo-se tão rápido que os glifos não eram nada mais do que um borrão enquanto eles corriam pelo pescoço dele, sob o colarinho de sua camiseta.
Meu coração pulou. E também a corda dentro de mim. Eu tentei puxar minha mão antes que aquelas marcas chegassem à minha pele. — Seth.
Seus olhos se abriram repentinamente, vidrados. As marcas deslizaram sobre sua pele. Uma explosão de luz âmbar irradiava de seu antebraço. Lutando para sair de debaixo dele e para longe daquela corda, eu apenas consegui ter as minhas mãos presas.
Pânico se desenrolou, rasgando-me. — Seth!
— Está tudo bem. — Ele disse.
Mas não estava tudo bem. Eu não queria que aquela corda fizesse o que eu sabia que ela iria fazer. E então ela estava fazendo. A corda âmbar se envolveu ao redor das minhas mãos, estalando e faiscando, se espalhando pelo meu braço. Eu me afastei, tentando ir para longe, mas Seth me segurou, seus olhos presos nos meus.
— A corda - é o poder mais puro. Akasha, — ele disse. Akasha era o quinto e último elemento, e apenas podia ser colhido pelos deuses e o Apollyon. As matizes dos olhos de Seth se tornaram luminosas. Elas quase pareciam loucas. — Segure-se.
Ele não estava me dando muita escolha. Meu olhar caiu para nossas mãos. Pulsando, a corda ficou tensa e queimou um âmbar brilhante. Uma corda azul se mexeu por debaixo da corda âmbar, derramando gotas de luz incandescente sobre a colcha. Vagamente, eu esperava que a cama não pegasse fogo. Isso seria difícil de explicar.
A corda azul cintilou, vibrando. Vagamente, eu percebi que era minha e mais fraca do que a âmbar. Então a azul pulou e pulsou. Minha mão esquerda começou a queimar enquanto a dele começava a picar. Reconhecendo a sensação, eu me apavorei.
Contorci-me, tentando fugir. Eu não queria outra runa, e nós não havíamos nos segurado por tanto tempo da última vez. Alguma coisa estava muito diferente nisso. — Seth, isso não parece... — Meu corpo estremeceu, cortando minhas próprias palavras.
O corpo do Seth ficou tenso. — Bons deuses...
E então eu senti - akasha - mexendo pelas cordas, deixando-me e entrando no Seth. Era tipo como uma mordida de daimon, mas não dolorosa. Não... Isso era legal, inebriante. Parei de lutar, deixando o puxão glorioso me puxar para longe. Não pensei sobre nada. Não havia preocupações ou medos. A dor na minha cabeça sumiu, deixando apenas uma dor maçante que estava se espalhando em outro lugar. Havia apenas isso - e o Seth. Meus olhos se fecharam e um suspiro vazou. Por que eu estive com tanto medo disso?
Houve um lampejo de luz que eu ainda podia ver mesmo com os meus olhos fechados. Seth soltou a minha mão e ela caiu mole na minha lateral. A cama afundou ao lado da minha cabeça, onde ele colocou suas mãos. Eu senti a respiração dele na minha bochecha, e era como ar quente e salgado saindo do oceano.
— Alex?
— Humm...?
— Você está bem? — Ele colocou seus lábios na minha bochecha.
Eu sorri.
Seth riu, e então sua boca fez seu caminho até a minha, e eu a abri para ele. As pontas de seu cabelo faziam cócegas nas minhas bochechas enquanto o beijo se aprofundou. Seus dedos se direcionaram para a frente da minha blusa e então eles estavam deslizando sobre a pele nua do meu estômago. Eu coloquei minhas pernas ao redor dele, e nós estavamos nos movendo juntos na cama. Seus lábios estavam praticamente dançando sobre a minha pele quente enquanto suas mãos deslizavam para baixo, seus dedos encontrando os botões do meu jeans.
Um segundo depois, houve uma batida na porta e uma voz estrondosa. — Alexandria?
Seth congelou acima de mim, ofegante. — Você tem que estar brincando comigo.
Leon bateu novamente. — Alexandria, eu sei que você está aí.
Atordoada, eu pisquei diversas vezes. O quarto lentamente voltou ao foco, assim como a expressão descontente de Seth. Eu quase ri, exceto que me sentia... Estranha.
— É melhor você responder a ele, anjo, antes que invada aqui dentro.
Eu tentei, mas falhei. Respirei fundo. — Sim. — Limpei minha garganta. — Sim, estou aqui.
Houve uma pausa. — Lucian está requerendo sua presença imediatamente. — Outro intervalo de silêncio se seguiu. — Ele também está requerendo a sua presença, Seth.
Seth fez uma careta enquanto o brilho nos seus olhos desapareceu. — Como ele sabe que estou aqui dentro?
— Leon... Apenas sabe. — Eu o empurrei sem força. — Sai1.
— Eu estava tentando fazer isso. — Seth virou para o lado, correndo suas mãos pelo seu rosto.
Fiz uma careta para ele e me sentei. Uma onda de tontura me inundou. Meu olhar se moveu do Seth para a minha mão curvada. Lentamente, eu a abri. Brilhando em um azul iridescente estava um glifo com um formato de um grampo. Minhas duas mãos estavam marcadas.
Ele se inclinou sobre o meu ombro. — Ei, você conseguiu outra.
                                                         
 1 Aqui é um trocadilho, porque o que ela diz no original é ‘get off’, que significa sai mas também pode significar dar amassos.
 
Tentei acertá-lo e errei por um quilômetro. — Você fez isso de propósito.
Seth deu de ombros enquanto endireitava sua camiseta. — Você não se importou, não é?
— Não é esse o ponto, seu idiota. Eu não deveria estar com elas.
Ele olhou para cima, sobrancelhas arqueadas. — Olha, eu não fiz de propósito. Não tenho ideia de como ou por que isso aconteceu. Talvez esteja acontecendo porque tem que ser assim.
— As pessoas estão esperando, — Leon chamou do corredor. — O tempo é essencial.
Seth revirou os olhos. — Eles não podiam esperar outros trinta ou sessenta minutos?
— Eu não sei o que você acha que vai conseguir nesse tempo extra.
Ainda me sentindo um pouco zonza, eu balancei quando fiquei em pé e olhei para a minha camiseta desabotoada e meu sutiã. Agora, como isso aconteceu?
Seth sorriu para mim. 
Eu me atrapalhei com os botões, ficando em milhares tons de vermelho. Minha raiva com o Seth ardia dentro de mim, mas eu estava muito cansada para entrar em uma luta verbal. E então havia o Lucian. Que infernos ele queria?
— Você falhou um. — Seth se levantou e fechou o botão acima do meu umbigo. — E pare de corar. Todo mundo vai pensar que nós não estávamos treinando.
— Nós estávamos?
Seu sorriso se espalhou, e eu queria bater na cabeça dele. Mas eu aproveitei o tempo para ajeitar meu cabelo e alisar os amassados na minha camiseta.
Quando nós encontramos o Leon no corredor, a minha sensação é que eu estava bem decente.
Leon me olhou como se ele soubesse exatamente o que havia acontecido no dormitório. — Que bom que vocês dois finalmente decidiram se juntar a mim.
Seth enfiou as mãos em seus bolsos. — Nós levamos o treinamento bem a sério. Algumas vezes nós ficamos tão imersos nisso, que demora alguns minutos para nós voltarmos a si.
Eu fiquei boquiaberta. Agora eu realmente queria bater nele.
Os olhos de Leon se estreitaram no Seth e então ele se virou tensamente, gesticulando para nós o seguirmos. Eu trilhei atrás dos dois, me perguntando por que Leon iria se importar com o que eu estava fazendo no quarto. Todo mundo queria que nós assumíssemos o nosso Apollyon interior. Então eu pensei no Aiden e o meu coração parou.
Bem, provavelmente não todo mundo.
Uma sensação estranha e sinuosa tomou contra do meu estômago. O que havia acontecido lá?
Nós fomos de conversar para nos pegar quando nada como isso havia acontecido desde Catskills. Eu olhei para as minhas mãos.
A corda super especial havia acontecido.
Eu me senti um pouco doente quando olhei e vi o Seth pavonear-se pelo corredor. Bochechas brilhando, ele parecia como se mal pudesse conter a energia percorrendo dentro dele. Confusão me atingiu. Todo o negócio de transferir energia tinha uma sensação realmente boa, e também o negócio depois, mas o rosto do Aiden me assombrava.
Seth olhou por cima do ombro para mim enquanto o Leon abria a porta. Escuridão já havia começado a cair, mas a sombra que havia subido no rosto do Seth não era um produto da noite.
Eu tentei subir o muro ao meu redor.
E eu falhei.
 
 Eu estava exausta quando caí na cadeira mais distante possível da mesa do Marcus. Aqueles degraus eram uma droga, mas eu estava grata por não ter que caminhar até a ilha vizinha, onde Lucian morava. Não acreditava que eu teria conseguido isso. Tudo o que queria fazer era me enrolar em uma bola e ir dormir - ir para qualquer outro lugar ao invés dessa sala bem iluminada.
— Onde estão todos? — Seth perguntou, em pé atrás de mim. Suas mãos repousavam sobre o encosto da cadeira, mas seus dedos, protegidos pelo meu cabelo, estavam pressionados nas minhas costas. — Eu pensei que tempo era essencial.
Leon parecia presunçoso. — Eu devo ter confundido a hora.
Um sorriso cansado puxou meus lábios enquanto eu colocava minhas pernas para cima, dobrando-as embaixo de mim. Como eu disse, Leon era o Rei do Timing Impecável. Talvez eu poderia tirar uma soneca antes que todos aparecessem. Fechei meus olhos, mal prestando atenção a Leon e Seth sendo sarcásticos um com o outro.
— A maioria dos treinamentos não ocorrem no dormitório, — Leon disse. — Ou eles mudaram drasticamente os métodos?
Dois pontos de sarcasmo para Leon.
— O tipo de treinamento que nós temos que fazer não é convencional. — Seth pausou e eu sabia que ele tinha aquele sorriso horrível no rosto. Aquele que eu quis chutar tantas vezes. — Não que um Sentinela entenderia completamente a quantidade de esforço necessária para preparar um Apollyon.
Três pontos de sarcasmo para Seth.
Eu bocejei enquanto deslizava para baixo na cadeira, descansando minha bochecha nas costas da cadeira.
— Tem alguma coisa errada, Alexandria? — Leon perguntou. — Você parece terrivelmente pálida.
— Ela está bem, — Seth respondeu. — Nosso treinamento foi bastante... exaustivo. Você sabe, exige muito movimento. Suor, treme...
— Seth. — Eu disparei, relutantemente entregando os pontos quatro, cinco e seis de sarcasmo para ele.
Felizmente as portas do escritório do Marcus se abriram e uma comitiva de pessoas entrou. Primeiro estava meu tio puro-sangue, o Diretor do Covenant da Carolina do Norte. Atrás dele estava meu padrastro puro-sangue Lucian, o Ministro do Covenant da Carolina do Norte. Ele estava em seu robe branco ridículo, seu cabelo absolutamente preto pendurado nas costas, preso em uma tira de couro. Ele era um homem bonito, mas sempre havia um nível de frieza e falsidade nele não importa quão calorosas suas palavras podiam ser. Estava acompanhado por quatro de seus Guardas, como se esperasse que uma frota de daimons pulass nele e chupasse todo o seu éter. Suponha, dado os eventos recentes, que não se podia ser demasiado cuidadoso. E atrás deles estavam o Guarda Linard e Aiden.
Desviei meus olhos e rezei que Seth realmente mantivesse sua boca fechada.
Marcus olhou para mim enquanto sentava atrás da sua mesa, sobrancelhas levantadas curiosamente. — Nós estamos impedindo-a de um cochilo, Alexandria?
Sem, como você está? Ou bom ver você viva. Sim, ele me amava muito.
Leon recuou para o canto, cruzando os braços. — Eles estavam treinando, — ele pausou, — No quarto dela.
Eu queria morrer.
Marcus franziu a testa, mas Lucian - oh, querido Lucian - tinha uma resposta típica. Sentando em uma das cadeiras do outro lado de Marcus, ele espalmou o robe e riu. — É o esperado. Eles são jovens e destinados um para o outro. Você não pode culpa-los por procurar privacidade.
Eu não podia me impedir. Meus olhos encontraram Aiden. Ele estava em pé ao lado de Leon e Linard, seus olhos esvoaçando pela sala, parando e demorando em mim antes de desviarem. Deixei escapar a respiração que estava segurando e foquei no meu tio.
Os olhos de Marcus eram como joias de esmeralda, assim como os da minha mãe, mas mais duros. — Destinados ou não, as regras do Covenant ainda se aplicam a eles, Ministro. E do que eu tenho ouvido, Seth tem tido dificuldade em permanecer em seu próprio quarto na sua casa durante a noite.
Agora isso seriamente não poderia ficar ainda mais embaraçoso.
Seth se inclinou nas costas da minha cadeira e abaixou a cabeça. Ele sussurou no meu ouvido. — Eu acho que nós fomos descobertos.
Não havia maneira de que Aiden pudesse ter ouvido Seth, mas raiva rolou para fora dele em ondas, tanto que Seth inclinou a cabeça para cima, encontrou o olhar de Aiden, e sorriu.
Era o suficiente. Sentando reta, soquei o braço de Seth para fora da cadeira. — É por isso que nós estamos tendo a reunião? Porque, seriamente, eu poderia tirar um cochilo ao invés disso.
Marcus me olhou friamente. — Na verdade, nós estamos aqui para discutir os eventos do Conselho.
Gelo encharcou meu estômago. Tentei manter meu rosto em branco, mas meus olhos dispararam para Aiden. Ele não parecia muito preocupado. De fato, ele ainda estava em uma batalha de olhar com o Seth.
— Há muitas coisas que nós descobrimos em relação a nossa viagem. — Lucian disse.
Marcus assentiu, seus dedos formando uma torre sob seu queixo. — O ataque daimon é um deles. Eu sei que alguns têm sido capazes de planejar ataques.
Minha mãe tinha sido uma deles. Ela estava por trás do ataque no Lago Lure durante o verão, era a primeira prova de que alguns daimons podiam formar planos coesos.
— Mas esse tipo de ataque em larga escala é... É inédito, — Marcus continuou, olhando para mim. — Eu sei... Eu sei que sua mãe tinha insinuado que tal coisa estava vindo, mas ter algo assim daquele tipo de natureza parece improvável.
Aiden inclinou a cabeça para o lado. — O que você está dizendo?
— Eu acho que eles tiveram ajuda.
Meu coração tropeçou. — De dentro - de um mestiço ou um puro?
Lucian bufou. — Isso é um absurdo.
— Eu não acho que isso está totalmente fora de questão. — Leon disse, os olhos estreitando no Ministro.
— Nenhum mestiço ou puro estaria disposto a ajudar de bom grado um daimon. — Lucian cruzou as mãos.
— Pode não ter sido de bom grado, Ministro. O puro ou o mestiço pode ter sido coagido. — Marcus continuou, e onde eu deveria ter encontrado alívio, alguma coisa feia ainda estava me martelando. E se alguém tivesse realmente os deixado passar nos portões?
Não. De forma alguma isso poderia ter acontecido. Se as suspeitas de Marcus estivessem certas, tinha que ser sob coação.
Marcus olhou para mim. — É algo que nós temos que ter em mente pela segurança de Alexandria. Os daimons estavam lá por ela. Eles podem tentar isso de novo. Capturar um Guarda ou Sentinela mestiço ou puro, levaria os daimons direto para ela. É algo para se ter em conta.
Fiquei muito quieta e imaginei que Seth e Aiden também ficaram. Os daimons não tinham estado atrás de mim. Isso tinha sido uma mentira que nós contamos para eu poder partir do Catskills imediatamente depois... Depois que eu tinha matado um Guarda puro-sangue.
— Eu concordo. — A voz de Aiden estava notavelmente calma. — Eles poderiam fazer outra tentativa.
— Falando da segurança dela, — Lucian se virou em seu assento na minha direção. — As intenções do Ministro Telly foram dolorosamente claras, e se eu tivesse tido conhecimento sobre o que ele estava planejando, nunca teria concordado com a sessão do Conselho. Minha prioridade máxima é ver que você permanece segura, Alexandria.
Mexi-me desconfortavelmente. Enquanto eu crescia, Lucian não tinha sequer fingido se importar comigo. Mas desde que eu tinha retornado ao Covenant no fim de Maio, ele tinha atuado como se eu fosse sua filha perdida há muito tempo. Ele não me enganava. Se eu não fosse a segunda Apollyon, ele não estaria sentado aqui bem agora.
Quem eu estava tentando enganar? Eu teria provavelmente sido comida por daimons em Atlanta.
Seus olhos encontraram os meus. Nunca tinha gostado daqueles olhos. Eles eram de um preto não-natural - a cor de obsidiana2 e frios. Bem de perto, não parecia ter nenhuma pupila. — Tenho medo de que o Ministro Telly possa ter estado por trás da compulsão e do ato repugnante de te dar aquela bebida.
Eu também suspeitava disso, mas ouvi-lo dizer me deixou enjoada. Como o Chefe de todos os Ministros, Telly exercia muito controle. Se não tivesse sido pelo voto da Ministra mais velha, Diana, eu teria sido mandada para a escravidão.
— Você acha que ele vai tentar mais alguma coisa? — A voz profunda e melódica de Aiden era difícil de não responder.
Lucian balançou a cabeça. — Gostaria de dizer não, mas temo que ele tentará alguma coisa de novo. O melhor que podemos fazer nesse ponto é assegurar que Alexandria fique fora de problema e não dê nenhuma desculpa ao Ministro Chefe para colocá-la em servidão.
Vários pares de olhos pousaram em mim. Sufoquei outro bocejo e inclinei meu queixo para cima. — Eu tentarei não fazer nenhuma loucura.
Marcus arqueou a sobrancelha. — Isso seria uma boa mudança.
Olhei para ele, esfregando minha palma esquerda sobre meu joelho dobrado. Ainda sentia a pele estranha e formigando.
                                                         
 2 Obsidiana: É uma pedra de cor escura, produzida pelo esfriamento rápido de lavas de vulcão. Considerada um vidro natural.
 
— Não há um método mais proativo? — Seth perguntou, inclinando-se na minha cadeira. — Acho que todos nós podemos concordar de que Telly tentará alguma coisa de novo. Ele não quer que Alex Desperte. Ele tem medo de nós.
— Medo de você. — Murmurei, então bocejei novamente.
Seth inclinou minha cadeira para trás em resposta, me fazendo agarrar os braços dela. Ele sorriu para mim, o que estava tão em desacordo com suas próximas palavras. — Ele quase conseguiu, Alex. Era apenas um único voto para a servidão. Quem diz que ele não vai construir alguma acusação forjada contra ela e balançar seus votos em seu favor?
— Diana nunca comprometeria sua posição para servir aos desejos de Telly. — Marcus disse.
— Uau. Chamando-a pelo primeiro nome? — Eu disse.
Marcus ignorou meu comentário. — O que você sugere, Seth?
Seth empurrou as costas da minha cadeira e se moveu para ficar em pé ao meu lado. — E quanto a removê-lo da sua posição? Então ele não tem nenhum poder.
Lucian observou Seth com um olhar de aprovação em seus olhos e eu juraria que Seth sorriu. Quase como se tivesse trazido seu boletim para casa com todos os A’s nele e estava prestes e conseguir um afago na cabeça. Estranho. Estranho e extremamente assustador.
— Você está sugerindo um golpe político? Que nós nos rebelemos ao Ministro Chefe? — Marcus virou sua descrença para Lucian. — E você não tem nenhuma resposta para isso?
— Eu nunca iria querer rebaixar-me para algo tão detestável, mas o Ministro Chefe Telly está enraizado nos velhos tempos. Você sabe que ele não quer nada mais do que nos ver regredir como uma sociedade, — Lucian respondeu suavemente. — Ele irá a grandes extremos para proteger suas crenças.
— Quais são as crenças dele, exatamente? — Eu perguntei. O couro fez um ruído pouco atraente espremendo enquanto em afundava no assento.
— Telly amaria nos ver não nos misturarmos mais com os mortais. Se ele pudesse, não faria nada além de nos mandar adorar os deuses. — Lucian alisou uma mão pálida sobre seu robe. — Ele sente que é o dever do Conselho proteger o Olimpo ao invés de liderar a nossa espécie para o futuro e entrar em nosso lugar de direito.
— E ele nos vê como uma ameaça aos Deuses, — Seth disse, cruzando seus braços. — Ele sabe que não pode vir atrás de mim, mas Alex é vulnerável até que Desperte. Alguma coisa tem que ser feita sobre ele.
Fiz uma careta. — Não sou vulnerável.
— Mas você é, — Os olhos de Aiden estavam de um cinza metálico quando pousaram em mim. — Se o Ministro Chefe Telly verdadeiramente teme que Seth será uma ameaça no caminho, então ele vai procurar tirá-la fora da equação. Ele tem o poder para tanto.
— Entendo isso, mas Seth não vai ficar louco no Conselho. Ele não vai tentar dominar o mundo depois que eu Despertar. — Olhei para ele. — Certo?
Seth sorriu. — Você estaria ao meu lado.
Ignorando-o, passei meus braços em volta das minhas pernas. — Telly não pode querer me tirar do caminho baseado apenas em uma ideia de ameaça. — Pensei no meu pai. Eu sabia sem dúvida de que ele estava por trás disso, também. — Tem que ser mais do que isso.
— Telly vive para servir os Deuses, — Lucian disse. — Se ele sentir que eles podem ser ameaçados, isso é toda a razão que ele precisa.
— Você não vive para servir aos Deuses? — Leon perguntou.
Lucian mal olhou na direção do Sentinela puro-sangue. 
— Eu vivo, mas também vivo para servir aos melhores interesses do meu povo.
Marcus esfregou a testa cansativamente. — Telly não é nossa única preocupação. Também há os próprios Deuses.
— Sim. — Lucian assentiu. — Também há a questão das fúrias.
Corri minha mão sobre a testa, me forçando a concentrar nessa conversa. Era um grande negócio que eles sequer estavam me incluindo nela. Então eu achava que devia prestar atenção e manter o sarcasmo no mínimo.
— As fúrias atacam somente quando percebem uma ameaça para os purossangue e para os Deuses, — Marcus explicou. — Suas aparições nos Covenants antes do ataque daimon foi apenas um ato de precaução dos Deuses. Foi um aviso de que se nós não pudermos manter a população daimon sob controle, ou se nossa existência for exposta aos mortais através das ações dos daimons, eles responderiam. E quando os daimons lançaram seu ataque ao Covenant, as fúrias foram liberadas. Mas elas foram atrás de você, Alex. Muito embora houvesse daimons que elas poderiam ter lutado, elas perceberam você como a maior ameaça. 
As fúrias tinham rasgado através de daimons e inocentes de forma igual naqueles momentos sangrentos depois do cerco daimon e tinham vindo atrás de mim. Não vou mentir - eu nunca tinha estado com tanto medo em toda a minha vida.
— Elas voltarão, — Leon adicionou. — É a natureza delas. Talvez não imediatamente, mas virão.
Minha cabeça estava girando. — Mas eu não fiz nada de errado.
— Você existe, minha querida. Isso é tudo o que elas precisam, — Lucian disse. — E você é a mais fraca dos dois.
Eu também era a mais dorminhoca dos dois.
Seth balançou para trás em seus calcanhares. — Se elas voltarem, vou destruí-las.
— Boa sorte com isso. — Fechei meus olhos, dando-lhes uma pausa da dura luz. — Elas só vão queimar e voltar de novo.
— Não se eu as matar.
— Com o quê? — Aiden perguntou. — Elas são Deuses. Nenhuma arma feita pelo homem ou semideus irá matá-las.
Quando eu abri meus olhos, Seth estava sorrindo. — Akasha, — ele disse. — Isso as colocaria abaixo permanentemente.
— Você não tem esse tipo de poder agora. — Leon declarou, a mandíbula tensa.
Seth apenas continuou a sorrir até que Lucian clareou a garganta e falou. — Eu nunca consegui ver as fúrias. Isso seria... Algo para testemunhar.
— Elas eram lindas, — eu disse. Todos se viraram para mim. — A princípio, elas eram. Então se transformaram. Nunca tinha visto algo como aquilo. De qualquer forma, uma disse que Thanatos não ficaria satisfeito com seu retorno depois... Que eu me livrasse delas. Ela disse alguma coisa sobre o caminho que  os Poderes tinham escolhido e que eu seria uma ferramenta. O oráculo tinha dito alguma coisa assim também, antes de desaparecer.
— Quem são “os Poderes”? — Leon perguntou.
Aiden assentiu. — Essa é uma boa pergunta.
— Isso não é uma preocupação. As fúrias são. — Lucian respondeu, descartando o conceito com um movimento de seu pulso delgado. — Como Telly, elas estão operando em velhos medos. As fúrias são leais a Thanatos. Se as fúrias vierem novamente, temo que Thanatos não estará tão longe.
Marcus derrubou a mão no topo da mesa de mogno brilhante. — Não posso ter os deuses atacando a escola. Tenho centenas de alunos que devo manter em segurança. As fúrias não mostram nenhuma discriminação em seus assassinatos.
Nenhuma vez ele mencionou me manter em segurança. Isso meio que machucou. Nós podiamos estar relacionados, mas isso não nos fazia uma família de verdade. Marcus nunca sequer sorriu para mim - nem uma vez. Eu realmente não tinha mais ninguém. Isso fazia com que chegar ao meu pai fosse mais importante.
— Eu sugiro movermos a Alex para um local seguro, — Lucian ofereceu.
— O quê? — Minha voz chiou.
Lucian me olhou. — As fúrias sabem procurar por você aqui. Nós podíamos muda-la para algum lugar seguro.
Seth sentou no braço da minha cadeira, cruzando suas pernas longas no tornozelo. Ele não parecia surpreso por nada disso.
Eu dei um tapa nas costas dele, ganhando sua atenção. — Você sabia sobre isso? — Sussurrei. Ele não respondeu.
O olhar que dei a ele prometia problemas mais tarde e não era do tipo divertido. Seth poderia ter ao menos me dado uma ideia sobre isso.
Aiden franziu a testa. — Onde vocês a levariam?
Meus olhos foram para ele de novo. Os músculos no meu peito apertaram quando nossos olhares se travaram momentaneamente. Nesse instante, se me concentrasse o bastante, eu ainda podia sentir seus braços ao meu redor. Não é a melhor tática quando todos estão discutindo meu futuro como se eu nem sequer estivesse sentada aqui.
— Quanto menos pessoas souberem, melhor, — Lucian replicou. — Ela estaria bem protegida pelos meus melhores Guardas e Seth.
Marcus pareceu considerar isso. — Nós não teríamos que nos preocupar com as fúrias atacando aqui. — Ele olhou na minha direção, sua expressão guardada. — Mas se ela deixar o Covenant agora, ela não irá se graduar e tornar uma Sentinela.
Meu estômago revirou. — Então eu não posso sair. Tenho que graduar.
Lucian sorriu, e eu queria soca-lo. — Querida, você não tem que se preocupar em se tornar uma Sentinela agora. Você se tornará uma Apollyon.
— Não me importo! Ser uma Apollyon não é toda a minha vida! Eu preciso me tornar uma Sentinela. Isso é o que eu sempre quis. — Aquelas últimas palavras assentaram estranhamente em meu peito. O que eu sempre quis foi ter escolhas. Tornar-me uma Sentinela era o menor de dois males na verdade.
— Sua segurança é mais importante do que seu desejo. — A voz de Lucian estava dura, me jogando de volta quando eu era uma garotinha que se aventurou em uma sala que supostamente eu não deveria entrar ou quando me atrevi a falar fora de hora. Esse era o Lucian real e isso esgueirou através de sua fachada.
Ninguém mais notou.
Apertei minhas coxas até doerem. — Não. Eu preciso me tornar uma Sentinela. — Olhei para Seth por ajuda, mas ele estava de repente interessado nas pontas de suas botas. — Nenhum de vocês entende. Daimons levaram a minha mãe de mim e a transformaram em um monstro. Olhem para o que eles fizeram para mim! Não. — Lutei para respirar, sabendo que estava a dois segundos de perder o controle. — Além disso, não importa para onde vocês me levem, as fúrias vão me encontrar. Elas são deuses! Não é como se eu pudesse me esconder para sempre.
Lucian me olhou inteiramente. — Isso nos daria tempo.
Raiva correu através de mim. Quase saí da cadeira. — Tempo para eu Despertar? E então o quê? Você não se importa com o que acontece comigo?
— Bobagem. — Lucian disse. — Não só você terá poder, Seth será capaz de proteger a ambos.
— Não preciso que Seth me proteja!
Seth olhou sobre seu ombro para mim. — Você sabe como fazer um cara se sentir útil.
— Cala a boca. — Eu assobiei. — Você sabe o que quero dizer. Posso lutar. Matei daimons e lutei contra as fúrias e vivi. Não preciso que Seth seja a minha babá.
Leon bufou. — Você precisa sim de uma babá, mas eu duvido que ele esteja qualificado para o trabalho.
Aiden tossiu, mas parecia muito com um riso abafado.
— Você acha que pode fazer um trabalho melhor? — A voz de Seth estava casual, mas eu o senti tenso. Eu também sabia que ele não estava falando com Leon. — Porque você é mais do que bem vindo a tentar. — Ele adicionou.
Os olhos de Aiden foram de cinza para prata. Seus lábios cheios inclinaram em um sorriso malicioso enquanto encontrava o olhar de Seth. — Eu acho que ambos sabemos a resposta para isso.
Meu queixo bateu no chão.
Ficando reto, Seth endireitou os ombros. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, o que eu tinha certeza que seria muito ruim, pulei do assento. — Não posso partir... — Pontos brilhantes dançaram em frente aos meus olhos, tornando tudo um borrão enquanto meu estômago inclinou perigosamente. — Uouu...
Seth estava ao meu lado em um instante, um braço ao redor da minha cintura. — Você está bem? — Ele me abaixou de volta à cadeira. — Alex?
— Sim, — Respirei, lentamente levantando minha cabeça. Todos estavam me encarando. Aiden tinha dado um passo para frente, os olhos arregalados. Minhas bochechas queimaram com calor. — Estou bem. Seriamente. Estou apenas um pouco cansada.
Seth ajoelhou ao meu lado, pegando minha mão. Ele apertou gentilmente enquanto olhava sobre o ombro. — Ela teve gripe a semana toda.
— Ela teve gripe? — Lucian enrolou o lábio. — Que coisa... tão mortal.
Atirei a ele um olhar de ódio.
— Mas nós... mestiços não ficam doentes. — Marcus disse, estreitando os olhos em mim.
— Bem, você pode contar isso para a caixa de Kleenex3 que tem vivido comigo. — Arrastei meus dedos pelo cabelo. — Sério, estou bem agora.
Marcus de repente se levantou. — Eu acho que nós terminamos pela noite. Nós todos podemos concordar que nada precisa ser decidido nesse momento.
Lucian, que tinha ficado quieto e dócil, assentiu.
A discussão terminou e eu tive um alívio momentâneo. Não estaria deixando o Covenant agora, mas não conseguia afastar o pavor torturante em meu estômago que, eventualmente, a decisão não seria minha.
                                                         
 3 Kleenex: Marca americana famosa de caixa de lenços.
Eu dormi demais na manhã seguinte e perdi minhas duas primeiras aulas. Meio que funcionou, já que não tive que enfrentar Olivia depois de tentar sufoca-la no dia anterior, mas a exaustão da noite anterior continuou a me arrastar. Passei o intervalo antes das aulas da tarde discutindo com Seth.
— Qual é seu negócio? — Ele empurrou a cadeira para trás.
— Já disse a você. — Olhei ao redor da sala comum pouco cheia. Era melhor do que comer no refeitório onde todos nos encaravam. — Eu sei que você sabia sobre os planos de Lucian de me colocar no Programa de Recolocação de Apollyon.
Seth gemeu. — Ok. Ótimo. Ele deve ter mencionado isso. Então o quê? É uma ideia inteligente.
— Não é uma ideia inteligente, Seth. Preciso me graduar, não sair me escondendo. — Olhei para baixo para meu mal tocado sanduíche frio cortado. Meu estômago revirou. — Não vou fugir.
Ele se inclinou para trás na cadeira, enlaçando as mãos atrás da cabeça. — Lucian realmente tem seus melhores interesses em mente.
— Oh, deuses. Não comece com as merdas do Lucian. Você não o conhece como eu.
— As pessoas mudam, Alex. Ele pode ter sido um enorme idiota antes, mas ele mudou.
Nivelei um olhar para ele, e de repente, eu nem sequer sabia porque estava discutindo. Meus ombros caíram. — Qual é o ponto, de qualquer forma?
Seth franziu a testa. — O que você quer dizer?
— Nada. — Brinquei com meu canudinho.
Ele se inclinou para frente, empurrando meu prato. — Você deveria comer mais.
— Obrigada, Papai. — Eu atirei.
Ele ergueu as mãos, sentando para trás. — Calminha, coelhinha4.
— Tudo isso é culpa sua, de qualquer forma.
Seth bufou. — Como isso é minha culpa?
Fiz uma carranca. — Ninguém quer te matar, mas você será aquele que terá o potencial para eliminar o Tribunal do Olimpo inteiro. Mas todos estão tipo, ‘Vamos matar aquela que não está fazendo nada!’ e você pode simplesmente fugir no pôr-do-sol enquanto eu estou morta.                                                          
 4 O termo usado no original é ‘cuddle-bunny’. Seth usa esse termo porque ele diz que dorme melhor quando está abraçado a Alex, como se ela fosse seu ursinho de dormir. Anteriormente estava sendo usado ‘coelhinha do afago’, deste livro em diante será traduzido como ‘coelhinha’.
Seus lábios se contraíram novamente. — Eu não cairia fora se você estivesse morta. Eu ficaria triste.
— Você ficaria triste porque não seria o Assassino de Deuses. — Peguei meu sanduíche, virando-o lentamente. — Olivia me odeia.
— Alex...
— O quê? — Olhei para cima. — Ela odeia, porque deixei Caleb morrer.
Seus olhos se estreitaram. — Você não deixou Caleb morrer, Alex.
Suspirei, de repente com vontade de chorar. Era oficial: eu estava comprovadamente maluca hoje. — Eu sei. Sinto saudade dela.
— Você tentou falar com ela? — Os olhos dele se arregalaram com meu olhar. Ele apontou para o sanduíche. — Coma.
A contragosto, dei uma mordida enorme e desleixada.
Seth arqueou uma sobrancelha enquanto me observava. — Com fome?
Engoli. A comida formando um caroço pesado no meu estômago. — Não.
Nós não conversamos por alguns minutos. Sem querer, virei minha mão esquerda e olhei para onde a forma de runa estampada brilhava suavemente.
— Você... Você fez isso de propósito?
— O quê? A runa? — Ele pegou minha mão, segurando-a de forma que minha palma estava para cima. — Não, eu não a fiz de propósito. Já te disse isso.
— Não sei. Você parecia como se estivesse se concentrando realmente quando aconteceu.
— Estava concentrando na suas emoções. — Seth correu seu polegar ao redor dos hieróglifos, chegando perto de tocá-los. — Você não gosta disso, pois não?
— Não. — Sussurrei. Outra marca significava um passo a mais na direção de me tornar alguém diferente - alguma coisa diferente.
— É natural, Alex.
— Não parece natural. — Meus olhos voaram para os dele. — O que essa daqui significa?
— Força dos deuses, — Ele respondeu, me surpreendendo. — A outra significa coragem da alma.
— Coragem da alma? — Eu ri. — Isso não faz sentido.
Sua mão deslizou para meu punho, apoiando o polegar sobre meu pulso. — Elas são as primeiras marcas que o Apollyon recebe.
Meu punho parecia tão pequeno na mão dele, frágil até. — As suas vieram cedo?
— Não.
Suspirei. — O que aconteceu... Entre nós na noite passada?
Um sorriso malicioso jogou sobre seus lábios. — Bem, a maioria das pessoas chama isso de ‘ficar’.
— Isso não é o que quero dizer. — Puxei minha mão livre e esfreguei a palma sobre a borda da mesa. — Eu senti isso, a energia ou o que quer que você queira chamar isso, me deixando e indo para você.
— Te machucou?
Balancei a cabeça. — Meio que me senti bem.
Suas narinas se dilataram como se ele tivesse cheirado algo que gostou. Então, sem nenhum aviso, ele se inclinou sobre a mesa entre nós, agarrou minhas bochechas e trouxe sua boca à minha. O beijo era suave, provocante, e parecia realmente estranho. Beijar na noite passada realmente não tinha contado - ou pelo menos eu tinha me convencido disso. Então esse era o primeiro beijo real desde Catskills, e era uma exibição totalmente pública. E eu ainda estava segurando o sanduiche na minha mão direita. Então é, parecia bizarro.
Seth voltou a sua posição sorrindo. — Acho que nós deveríamos fazer isso com mais frequência, então.
Minhas bochechas estavam queimando, porque eu sabia que as pessoas estavam nos encarando. — Beijar?
Ele riu. — Sou todo a favor de beijar mais, mas quis dizer o que aconteceu ontem à noite.
Do nada, raiva se apoderou de mim. — Por quê? Você sentiu alguma coisa?
Uma sobrancelha arqueou. — Oh, eu senti alguma coisa.
Tomei uma respiração profunda e a deixei sair lentamente. — Quero dizer quando estava segurando minha mão e a marca apareceu. Você sentiu alguma coisa?
— Nada sobre o que aparentemente você quer que eu fale.
— Deuses. — Apertei meu sanduíche. Pingos de maionese salpicaram para fora no prato de plástico. — Eu nem sequer sei porquê estou falando com você.
Seth exalou lentamente. — Você está de TPM ou algo assim? Porque suas mudanças de humor estão me matando.
Encarei-o por um momento, pensando uau, ele realmente falou isso? E então inclinei para trás o meu braço e lancei o sanduíche através da mesa. Bateu no peito dele com um tipo de plop satisfatório, mas foi o olhar no rosto dele enquanto pulava para fora da cadeira que quase me fez sorrir. Um cruzamento entre descrença e horror marcaram as suas feições enquanto ele batia pedaços de alface e presunto para fora da sua camisa e calça.
Havia apenas um punhado de pessoas na sala comum, a maioria purossangues mais novos. Todos eles encararam, com olhos arregalados.
Jogar um sanduíche no Apollyon provavelmente não era algo que podia ser feito em público. Mas não pude me impedir; eu ri.
Seth ergueu a cabeça. Seus olhos eram de um ocre aquecido com raiva. — Isso a fez se sentir melhor?
Meus olhos lacrimejavam de tanto rir. — Sim, meio que sim.
— Você sabe, vamos cancelar o treino depois da aula por hoje. — Seu queixo flexionou, as bochechas coradas. — Descanse um pouco.
Rolei meus olhos. — O que seja.
Seth abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas parou. Sacudindo o resto do presunto e queijo, ele girou e saiu. Eu não podia acreditar que tinha acabado de jogar meu almoço no Seth. Isso parecia meio extremo, mesmo para mim.
Mas foi engraçado.
Eu ri de mim mesma.
— Você vai limpar isso?
Pulando um pouco na minha cadeira, olhei para cima. Linard saiu detrás de uma das colunas, olhando a bagunça no chão. — Você está, tipo, me observando?
Ele sorriu apertadamente. — Estou aqui para garantir que você está segura.
— E isso é meio que assustador. — Me empurrei para fora da cadeira, agarrando um guardanapo do meu prato. Peguei o que pude, mas a maionese estava presa no tapete. — Essa é uma ideia de Lucian?
— Não. — Ele cruzou as mãos atrás das costas. — Foi um pedido do Diretor Andros.
Acalmei-me. — Mesmo?
— Mesmo, — Ele respondeu. — Você devia ir. Sua próxima aula vai começar em breve.
Assenti distraidamente, joguei meu lixo, e peguei minha bolsa. A ordem de Marcus me surpreendeu. Esperava que Lucian mandasse seus Guardas atrás de mim. Ele não iria querer que nada acontecesse para sua preciosa Apollyon. Talvez Marcus não me achasse tão detestável quanto pensei que ele achava.
Linard me seguiu para fora da sala comum, mantendo uma distância discreta. Lembrei-me do dia que comprei os barcos dos espíritos que Caleb e eu tínhamos liberado no mar. A memória puxou meu coração e piorou meu mal humor. Estava como um zumbi no resto das minhas aulas. Depois de uma mudança rápida para as minhas roupas de treinamento, andei em direção à aula de Gutter. O Instrutor Romvi parecia absurdamente satisfeito com a minha aparição.
Derrubei minha bolsa e me inclinei contra a parede, fingindo que não estava incomodada com o fato de que eu não tinha ninguém com quem conversar. Da última vez que tinha estado na aula, Caleb ainda estava vivo.
Pressionando meus lábios fechados, deixei meu olhar vagar sobre a parede onde as armas eram mantidas. Eu tinha crescido tão acostumada com essa sala durante minhas práticas com Aiden que era como estar em casa para mim. Em pé perto da parede de coisas destinadas a morte de daimons, Jackson sorriu para alguma coisa que um outro mestiço disse. Então ele olhou diretamente para mim e sorriu.
Agora parecia tão longe a época que eu o tinha achado gostoso, mas em algum lugar entre minha mãe daimon assassinando os pais da sua namorada - se ele na verdade ainda estivesse com Lea - e da última vez que treinei com ele, eu tinha parado de pensar tão bem dele.
Segurei seu olhar até que ele olhou para longe. Então continuei minha leitura atenta. Olivia estava em pé perto de Luke, prendendo seu cabelo cacheado em um rabo de cavalo. Machucados marcavam a pele cor de caramelo de seu pescoço. Olhei para baixo para minhas mãos. Eu tinha feito isso.
Deuses, no que eu estava pensando? Culpa e vergonha rasgaram através de mim. Quando olhei para cima, Luke estava me observando. Seu olhar não era hostil ou qualquer coisa, apenas... Triste.
Desviei o olhar, mordendo o lábio. Sentia falta dos meus amigos. E realmente sentia saudades de Caleb.
A aula começou rapidamente, e muito embora eu estivesse cansada, me joguei nisso. Fiz par com Elena para uma série de ‘esquivar e segurar’. Indo através das várias técnicas, meu cérebro estava sendo finalmente capaz de desligar. Aqui, no treinamento, eu não pensava em nada. Não havia nenhuma tristeza ou perda, nenhum destino com o qual lidar ou pai para salvar. Imaginei que isso era o que ser uma Sentinela pareceria. Quando eventualmente eu saísse para caçar, não teria que pensar sobre nada além de localizar daimons e os matar. Talvez essa fosse a razão real atrás de querer ser uma Sentinela, porque então eu poderia passar pela vida... E fazer o quê? Matar. Matar. E matar um pouco mais.
Isso não era o que eu realmente queria, bem lá no fundo. Eu estava apenas percebendo isso agora? Mesmo com meu pé lento, era um pouco mais rápida que Elena. Quando nos movemos para ‘quedas e rolamentos’, que consistia em ser jogado para baixo e tentar sair disso, eu era capaz de mantê-la presa, mas estava desacelerando, ficando cansada.
Ela quebrou meu aperto e inclinou seu quadril, me rolando de costas. Olhando para baixo para mim, ela franziu a testa. — Você está... Está se sentindo bem? Você parece realmente pálida.
 
Eu verdadeiramente precisava buscar no Google quanto tempo os efeitos prolongados da gripe duravam, porque isso estava seriamente ficando chato. Tudo o que eu queria era uma cama.
Antes que pudesse responder a pergunta de Elena, Instrutor Romvi apareceu atrás de nós. Mordi de volta um gemido.
— Se vocês são capazes de conversar, talvez não estejam treinando duro o suficiente. — Os olhos pálidos de Romvi eram como geleiras. Ele amava me aterrorizar em aula; tenho certeza que ele sentiu a minha falta. — Elena, para fora do tatame.
Ela ficou em pé e escapuliu, me deixando com o Instrutor. Ao redor de nós, os alunos estavam lutando. Rolei para meus pés e mudei o peso sem descanso, me preparando mentalmente para o que quer que ele estava indo jogar em mim. Virei-me, colocando as mãos nos meus quadris.
Sua mão bateu no meu ombro. — Nunca se deve virar as costas em uma guerra.
Encolhendo para fora de seu aperto, eu o encarei. — Não percebi que estávamos em guerra.
Alguma coisa brilhou em seus olhos. — Nós sempre estamos em guerra, especialmente na minha aula.
Ele olhou para baixo de seu nariz de falcão para mim, o que era uma prática comum desde que ele era um puro-sangue que uma vez tinha sido um Sentinela. — Falando nisso, foi legal da sua parte finalmente se juntar a nós, Alexandria. Eu estava começando a acreditar que você pensava que treinar não era mais necessário.
Muitas respostas rolaram da ponta da minha língua, mas eu sabia melhor do que deixá-las sair.
 
Ele parecia desapontado. — Ouvi que você lutou durante o cerco dos daimons.
Sabendo que menos palavras geralmente terminavam com menos de minha bunda sendo chutada, eu assenti enquanto imaginava um pegasus5 pousando na cabeça dele e mordendo-o no pescoço.
— Você também lutou contra as fúrias e sobreviveu. Apenas Guerreiros poderiam reivindicar tal feito.
Meu olhar passou por ele para onde Olivia e Luke agora estavam me observando da borda do tatame. Quantas vezes nós tínhamos estado nessa posição? Mas dessa vez era diferente, porque Caleb costumava estar entre eles.
— Alexandria?
Concentrei-me nele, encolhendo mentalmente. Nunca deveria tirar meus olhos do Romvi quando ele estava falando. — Eu lutei sim contra as fúrias.
Interesse despertou em seus olhos. — Mostre-me o que você fez.
Pega fora de guarda, dei um passo para trás. — O que você quer dizer?
Um sorriso pequeno puxou de um lado de seus lábios. — Mostre-me como você lutou contra as fúrias.
Umedeci meus lábios nervosamente. Eu não tinha nenhuma ideia de como tinha lutado com as fúrias e sobrevivido - apenas que tudo tinha se tornado âmbar, como se alguém tivesse espirrado uma cor amarelada sobre meus olhos. — Eu não sei. Tudo estava acontecendo tão rápido.
— Você não sabe. — Ele levantou uma mão e a manga da sua camisa estilo túnica escorregou para cima de seu braço, revelando a tatuagem de tocha virada para baixo. — Acho difícil de acreditar nisso.
                                                         
 5 Pegasus/Pégaso: É um cavalo símbolo da imortalidade, nascido do sangue de Medusa. Vivia em função dos deuses na constelação pegasus.
 
Experimentei um lapso momentâneo de sanidade. — O que há com a tatuagem?
Seu queixo se apertou, e eu esperei que ele atacasse. Mas ele não atacou. — Jackson!
Galopando sobre o tatame, Jackson veio parar e descansou as mãos em seus quadris estreitos. — Senhor?
Os olhos de Romvi seguraram os meus. — Eu quero que vocês lutem.
Olhei para o rosto sorridente de Jackson. O que Romvi queria que eu fizesse era mostrar para ele como tinha lutado contra as fúrias e sobrevivido, usando Jackson para isso. Não importava com quem eu estivesse lutando; não poderia mostrar o que não sabia.
Enquanto Romvi caminhava para fora do tatame, ele parou e sussurrou para Jackson. O que quer que ele estava dizendo trouxe um sorriso fácil para o rosto de Jackson bem antes dele assentir.
Esfregando a mão sobre minha testa úmida, eu acalmei minha respiração e tentei ignorar os tremores finos correndo pelas minhas pernas. Mesmo cansada, eu poderia derrubar Jackson. Ele era um bom lutador, mas eu era melhor. Tinha que ser melhor.
— Você vai estar machucada até o final da aula. — Jackson provocou, estalando os dedos.
Levantei uma sobrancelha e com uma mão fiz sinal para ele vir para frente. Talvez eu tivesse um desejo sério por um travesseiro, mas poderia derrubá-lo.
Esperei até que ele estivesse a apenas um pé de distância antes de me lançar em uma ofensiva brutal. Eu era rápida e leve nos meus pés. Ele simularia em uma direção para evitar um golpe afiado e acabar com um chute lateral em suas costas. Em pouco tempo, ele acabou de costas, ofegante e xingando devido a um chute feroz.
— Vou me machucar? — Eu disse, ficando em pé sobre ele. — Nah, eu não acho.
Respirando com dificuldade, ele saltou para a ponta dos pés. — Espere e veja, bebê.
— Bebê? — Eu repeti. — Não sou seu bebê.
Jackson não respondeu a isso. Ele voou em um chute de borboleta, o qual eu esquivei. Aqueles chutes eram brutais. Golpe após golpe, nós fomos atrás um do outro - cada acerto mais violento do que o último. Admitidamente eu estava levando isso um pouco sério demais para mim mesma. Eu não ia facilitar para o babaca. Um tipo estranho de escuridão cresceu em mim enquanto bloqueava uma série de chutes e socos que teria trazido ate mesmo Aiden para baixo. Eu sorri, apesar do suor escorrendo em mim e da forma como meus antebraços doíam. Canalizei toda a minha raiva de mais cedo em lutar com Jackson.
Nossa luta eventualmente atraiu a atenção dos outros alunos. Eu só estava um pouco surpresa quando o punho de Jackson ricocheteou minha mandíbula e o Instrutor Romvi não parou a luta. Fora qualquer coisa, parecia como se ele estivesse se divertindo ao assistir a luta brutal.
Então Jackson não queria jogar pelas regras e Romvi não se preocupava? Que seja. Ele balançou seu punho ao redor de novo, mas dessa vez eu peguei sua mão e a torci para trás.
Jackson quebrou o aperto com muita facilidade, o que mostrou que eu estava alcançando meus próprios limites. Virei-me em meus calcanhares, vi que as luzes do teto piscaram - ou isso foram meus olhos? - e com um chute circular poderoso, tirei as pernas de Jackson de debaixo dele. Não houve um momento para comemorar sua derrota óbvia. Eu vi Jackson se mover para minhas pernas. Tentei pular como tínhamos sido treinados, mas desgastada, estava muito lenta. Suas pernas pegaram as minhas, e eu aterrissei de lado, imediatamente rolando fora de alcance.
— Tenho certeza de que não foi assim que você derrotou as fúrias. — Instrutor Romvi soou presunçoso.
Não tive um segundo para pensar sobre o quanto eu desejava que pudesse soltar um chute em Romvi. Jackson se virou. Eu me arrastei para o lado, mas seu chute me pegou nas costelas. Dor explodiu, tão inesperada e tão intensa, que eu congelei.
Sentindo que Jackson ainda não tinha terminado, trouxe minhas mãos para cima, mas aquele pequenino e minúsculo segundo me custou. O calcanhar de Jacskon deslizou pelas minhas mãos, me acertando no queixo e cortando meu lábio bem aberto. Algo quente jorrou em minha boca, e eu vi flashes de luz. Sangue - eu provei sangue. E além das luzes piscando, vi a bota de Jackson chegando mais uma vez.
Jackson ia chutar minha cabeça.
Isso não fazia parte do treinamento.
No último segundo possível, alguém pegou Jackson pela cintura e atirou-o no tapete. Minhas mãos voaram para a minha boca. Algo pegajoso e quente a cobriu imediatamente.
Tudo o que eu provei era sangue. Hesitante, corri minha língua ao longo do interior da minha boca, verificando se tinha perdido algum dente. Quando percebi que eu ainda tinha um conjunto completo, fiquei de pé, cuspindo sangue. Então investi contra Jackson.
Isso durou pouco tempo. O choque quase me deixou de joelhos.
Jackson já estava preocupado em se soltar de alguém e esse alguém era Aiden. A dor foi momentaneamente esquecida quando eu vagamente me perguntei de onde ele tinha vindo. Aiden não assistia mais as minhas aulas. Ele nem sequer me treinava, por isso não era como se ele tivesse um motivo para estar pendurado em torno destas salas.
Mas ele estava aqui agora.
Extasiada pela mistura ímpar de graça e brutalidade, eu assisti Aiden puxar Jackson para fora do tatame, pela nuca, puxando sua camisa. Seus rostos estavam a centímetros de distância. A última vez que eu tinha visto Aiden tão zangado daquele jeito, foi quando ele tinha ido atrás de Seth na noite que eu estava doida pela bebida.
— Não é assim que você treina com o seu parceiro. — Aiden disse em uma voz fria e baixa, — Tenho certeza que o instrutor Romvi lhe ensinou melhor do que isso. 
Os olhos de Jackson cresceram incrivelmente grandes. Ele estava nas pontas dos pés, os braços balançando em seus lados. Foi então que eu percebi que o nariz de Jackson estava sangrando - sangrando mais que a minha boca estava. Alguém tinha batido nele, mais provável que tenha sido Aiden.
Porque só um puro seria capaz de fazer isso e não ter ninguém intervindo.
Ele soltou Jackson. O mestiço caiu de joelhos, segurando seu rosto.
Aiden virou, os olhos rapidamente avaliando os danos. Então ele se virou para o instrutor Romvi, falando muito baixo e rápido para mim ou para o resto dos alunos entendermos.
Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, Aiden cruzou as esteiras e agarrou meu braço. Nós não falamos enquanto ele me tirava da sala de treinamento. — Minha bolsa. — Eu protestei.
— Vou mandar alguém recuperá-la para você.
No corredor, ele agarrou meus ombros e me virou. Seus olhos foram do cinza escuro para prata, quando seu olhar caiu para o meu lábio. — O instrutor Romvi nunca deveria ter permitido que ele fosse tão longe.
 
— Sim, eu acho que ele não se importava.
Ele xingou.
Eu queria dizer alguma coisa. Como “essas coisas acontecem...” ou, pelo menos, sobre como isso já poderia ser esperado, uma vez que eu não tenho um monte de amigos aqui. Ou talvez eu devesse agradecer Aiden, mas pelas emoções em guerra em seu rosto marcante, eu sabia que ele não ia apreciar nada disso. Aiden estava furioso - furioso por todas as razões erradas. Ele reagiu como se um cara comum tivesse me batido e não um meio-sangue.
Como um puro sangue, não havia razão para ele intervir. Esse era o trabalho do instrutor. Aiden tinha se esquecido disso em um momento de completa fúria desenfreada.
— Eu não deveria ter feito isso, perdi o controle. — Ele disse em voz baixa, soando e parecendo terrivelmente jovem e vulnerável para alguém que eu acreditava ser tão poderoso. — Eu não deveria ter batido nele.
Meus olhos atravessaram seu rosto. Mesmo que meu rosto latejasse, eu queria tocá-lo. Eu queria que ele me tocasse. E então ele fez, mas não da maneira que eu queria. Colocou a mão na parte inferior das costas e me guiou em direção ao escritório médico. Eu queria tocar minha boca para ver o quão ruim estava. Na verdade, eu queria um espelho.
A médica puro-sangue deu uma olhada no meu rosto e balançou a cabeça. — Em cima da mesa.
Levantei-me para cima. — Será que vai deixar cicatriz?
A médica pegou uma garrafa nublada com aparência branca e vários maços de algodão. — Não tenho certeza ainda, mas tente não falar agora. Pelo menos até ter certeza de que não há danos no interior do lábio, ok?
— Se deixar cicatriz, eu vou ficar muito puta.
— Pare de falar. — Disse Aiden, inclinando-se contra a parede.
 
A médica lançou-lhe um sorriso, aparentemente, não estava curiosa para saber o porquê de eu ter sido escoltada por um puro. Ela se virou para mim. — Isso pode doer um pouco. — Tocou de leve o algodão por cima do meu lábio. Um pouco? Isso queimou para caramba. Eu quase pulei para fora da mesa.
— Anti-séptico. — disse ela, oferecendo um olhar solidário, — Nós queremos ter certeza de que você não obterá qualquer infecção. Caso aconteça, então você teria cicatriz.
Queimação? Eu podia lidar com isso. Levou o um par de minutos para limpar meu lábio. Eu esperei, um tanto impaciente, pelo veredicto.
— Eu não acho que você vai precisar de pontos no lábio. Vai inchar e ficar dolorido por um pouco de tempo. — Ela inclinou a cabeça para trás e gentilmente cutucou a minha boca, — Mas eu acho que vamos precisar de um ponto...  Bem aqui, embaixo do seu lábio.
Estremeci quando ela começou a cutucar lá também e foquei em seu ombro. Não mostre nenhuma dor. Não mostre nenhuma dor. Não mostre nenhuma dor. A médica mergulhou os dedos no pote marrom e pressionou a pele rasgada. Eu gritei quando uma dor irradiou queimaduras da pele sob o lábio e se espalhou pelo meu rosto.
Aiden começou a avançar, parando quando ele pareceu perceber que não havia nada que pudesse - ou devesse - fazer. Suas mãos caíram para os lados, e seu olhar encontrou o meu, os olhos de um cinza infinito trovejante.
— Só um pouco mais. — Disse ela suavemente, — Então, tudo vai estar acabado. Você tem sorte de não perder todos os dentes.
Então, ela apertou a pele mais uma vez. Desta vez eu não fiz nenhum som, mas eu apertei meus olhos até que luzes dançaram por trás de meus olhos fechados. Eu queria pular para fora da mesa e encontrar Jackson. Atingi-lo me faria sentir melhor. Eu acreditava nisso.
A médica deu um passo atrás para os armários. Retornando com um pano úmido, ela começou a limpar o sangue, levando em conta o ponto. — Da próxima vez que treiná-la, seja um pouco mais cuidadoso. Ela só será jovem e bonita uma vez. Não estrague isso por ela.
Meus olhos encontraram Aiden. — Mas...
— Sim, senhora. — Aiden interrompeu, dando-me um olhar severo.
Eu olhei para ele.
A médica suspirou, balançando a cabeça de novo. — Por que vocês, mestiços, escolhem isto? Certamente, a alternativa é melhor. De qualquer forma, você tem algum outro ferimento?
— Uh, não. — Murmurei. As palavras da médica me surpreenderam.
— Sim. — disse Aiden, — Verifique o lado esquerdo de suas costelas.
— Oh, qual é. — Eu disse, — Não está tão ruim assim... —  Minhas palavras foram cortadas quando a médica puxou a barra da minha camisa.
A médica pressionou em minhas costelas, passando as mãos ao longo da lateral. Seus dedos estavam frios e rápidos. — Nenhuma está quebrada, mas isso... — Ela franziu o cenho, inclinando-se mais perto. Inalando a grosso modo, ela deixou cair a minha camisa e enfrentou Aiden. Pareceu levar-lhe um momento para se recompor. — Suas costelas não estão quebradas, mas estão machucadas. Ela deve pegar leve por alguns dias. Além disso, ela deve falar o mínimo possível para o ponto não rasgar.
Aiden parecia que queria rir da última sugestão. Quando ele concordou com a médica, ela saiu da sala rapidamente.
— Por que você deixou-a acreditar que você fez isso? — Perguntei. — Você não está nem me treinando mais.
— Você não deveria estar limitando sua fala? 
Revirei os olhos. — Agora ela pensa que você é um grande e terrível espancador de mestiços ou algo assim.
Ele apontou para a porta. — Não seria algo tão distante da imaginação. Seu instrutor permitiu que isso acontecesse. A médica vê mais casos como este do que ela provavelmente se preocupa.
E ela provavelmente via muito poucos puros que ainda se importavam o suficiente para garantir que um mestiço estivesse bem. Eu suspirei. — O que você está fazendo aqui, afinal?
Houve o começo de um fantasma de um sorriso, — Eu não te disse que ter certeza sobre sua segurança é um trabalho em tempo integral?
Comecei a sorrir, mas rapidamente me lembrei que não deveria. — Ai.
Ignorei seu olhar divertido. — Então, por que você estava aqui, de verdade?
— Eu apenas estava por perto e parei para olhar a sala. — Ele deu de ombros, olhando por cima do meu ombro, — Eu vi você brigando e assisti. O resto é história.
Eu realmente não acreditei nele, mas deixei para lá. — Eu teria dado conta de Jackson, sabe? Mas este resfriado maldito está acabando comigo. 
O olhar de Aiden caiu em mim novamente, — Você não deveria estar doente. — Ele deu um passo para frente, estendendo a mão e com cuidado, colocando a mão no meu queixo, então franziu a testa, — Como é que você ficou doente?
— Eu não posso ser a primeira mestiça a ficar doente.
Seu polegar se moveu sobre meu queixo, com cuidado para evitar o ponto sensível. Esse era Aiden, sempre tão cuidadoso comigo, mesmo que ele soubesse que eu era durona. Meu coração deu um pulo. — Eu não sei. — Disse ele, abaixando a mão.
Sem saber como reagir, dei de ombros. — De qualquer forma, obrigado por, hum... ter feito Jackson parar.
Um olhar duro e letal cintilou em seu rosto. — Eu vou ter certeza de que Jackson será punido por aquilo que ele fez. O Covenant tem o suficiente em seus ombros sem mestiços tentando matar uns aos outros.
Toquei levemente meu queixo e fiz uma careta. — Não sei se foi ideia dele.
Aiden agarrou a minha mão e puxou-a para longe do meu rosto. — O que você quer dizer?
Antes que eu pudesse responder, um tremor fino desceu pela minha espinha. Segundos depois, a porta do quarto voou. Seth apareceu, os olhos e os lábios diluídos. Seu olhar passou do meu lábio para onde Aiden segurava minha mão. — O que diabos aconteceu?
Confusão e então entendimento passaram pelo rosto de Aiden. Ele soltou minha mão e deu um passo para trás. — Ela estava praticando. 
Seth atirou um olhar mordaz a Aiden quando ele fez o seu caminho para onde eu estava sentada na mesa. Ele apertou meu queixo com dois dedos finos, assim como Aiden tinha feito. Meu coração não vibrou, mas o fio entre a gente sim. — Com quem você estava praticando?
— Não é grande coisa. — Senti meu rosto começar a queimar.
— Não parece assim. — Os olhos de Seth estreitaram. — E você se machucou em outro lugar. Eu posso sentir isso.
Deuses, eu realmente precisava trabalhar nesse escudo.
— Obrigado por manter um olho nela, Aiden. — Seth não tirou os olhos de mim. — Eu cuidarei de tudo agora.
Aiden abriu a boca para dizer alguma coisa, mas depois fechou. Ele virou-se e saiu da sala em silêncio. A vontade de saltar da mesa e correr atrás dele era difícil de ignorar.
— Então o que aconteceu com seu rosto? — Ele solicitou novamente. 
— Eu o quebrei. — Murmurei, esforçando para me distanciar.
Seth inclinou meu queixo para o lado, franzindo a testa. — Eu posso ver isso. Isto realmente aconteceu enquanto treinava?
— Sim, bem, isso foi feito no meu rosto em sala de aula.
Sua carranca se aprofundou. — O que é que isso quer dizer?
Eu bati em sua mão para afastá-la e deslizei para fora da mesa, — Não é nada. Apenas um lábio arrebentado.
— Lábio arrebentado? — Ele me pegou pela cintura, me puxando para trás, — Tenho certeza que vi um ponto no seu queixo.
— Realmente está tão ruim assim? — Eu cautelosamente toquei meu queixo, imaginando o que ele pensaria se visse a marca cinzenta nas minhas costelas.
— Tão vaidosa. — Seth agarrou minha mão. — Com quem você estava lutando?
Suspirei e tentei me soltar, mas foi inútil. Seth - e a corda entre nós - me queriam aqui com ele. Eu coloquei minha bochecha contra seu peito. 
— Isso não importa. E não é você que ainda está com raiva de mim por jogar comida em você, afinal?
— Oh, eu não estou muito feliz com isso. Acho que as manchas de maionese ainda não sumiram. — Seu abraço afrouxou um pouco. — Dói?
Mentir era inútil, mas foi o que eu fiz. — Não. Nem um pouco.
— Sim. — Ele murmurou contra o topo da minha cabeça, — Então, com quem você estava treinando? 
Fechei os olhos. Estar tão perto dele, com a corda e tudo, era fácil parar de pensar. Assim como tinha sido enquanto lutava. — Eu sempre faço par com Jackson.
 
Após a aula no dia seguinte, andei ao redor do centro de treinamento.
Eu me vi caminhando para a sala menor em que Aiden tinha estado quando descobri sobre o meu pai. É claro que ele não estava lá agora. Ninguém estava. Soltando minha bolsa ao lado da porta, me aproximei do saco de pancadas pendurado no meio dos tapetes. Era uma coisa velha maltrapilha que tinha visto dias melhores. Partes do couro preto tinham saído. Alguém tinha colocado fita adesiva e remendado. Corri meus dedos sobre as bordas da fita.
Inquietação avançou sobre a minha pele. A ideia de voltar para o meu dormitório e passar um tempo sozinha não era atraente. Eu não tinha visto Seth desde que ele me deixou ontem. Imaginei que ele ainda estava chateado com a questão.
Eu empurrei o saco com as palmas das mãos. Então virei minhas mãos para cima. Dois glifos suavemente brilhantes olharam de volta para mim.
Meu olhar voltou para o saco de pancadas. Esteve meu pai treinando neste Covenant? Esteve na mesma sala? Isso explicaria como ele tinha conhecido minha mãe tão bem. Mais uma vez, a melancolia se apoderou de mim.
A porta da sala se abriu. Eu me virei, esperando o Guarda Linard. Mas não era ele. Meu coração deu uma breve dança estúpida feliz.
Aiden entrou na sala de treinamento, a porta de correr fechou atrás dele.
Ele usava o traje de um sentinela: uma camisa de manga comprida preta e calça preta. Eu apenas olhei para ele como uma idiota.
A maneira como meu corpo respondia a ele - um puro-sangue - era totalmente imperdoável. Eu sabia disso, mas não conseguia me impedir de ficar sem fôlego ou de sentir calor que queimava a minha pele. Não era apenas a sua aparência. Não me interpretem mal - Aiden tinha toda a coisa da beleza rara masculina - mas era mais do que isso. Ele me entendia de uma forma que muito poucas pessoas conseguiam. Ele não precisava de uma ligação para fazê-lo, como Seth. Aiden me entendia através de sua inabalável paciência... e de não suportar qualquer uma das minhas porcarias. Durante o verão, tínhamos passado horas juntos treinando e conhecendo um ao outro. Eu gostava de pensar que algo bonito tinha crescido ali. Depois do que ele fez para me proteger, em Nova York... E depois com Jackson, eu já não podia estar realmente brava com ele sobre o dia em que me disse que não poderia me amar.
Aiden me observava com curiosidade. — Eu vi Seth entrar na parte principal da Ilha Divindade e você não estava com ele. Então achei que estaria aqui.
— Por quê?
Ele deu de ombros. — Eu sabia que você estaria em uma das salas de treinamento, apesar de terem te dito para pegar leve.
Sempre que ele estava lidando com algo, ele batia as esteiras. Eu era do mesmo jeito, o que me lembrava da noite em que o abordei depois de saber o destino verdadeiro da minha mãe. Eu me virei, passando os dedos no centro do saco.
— Como você está - suas costelas e o lábio?
Ambos estavam doloridos, mas eu já me tinha sentido pior. — Bem.
— Você já escreveu a carta para eu dar a Laadan? — Ele perguntou, depois de alguns momentos.
Meus ombros caíram. — Não. Não sei o que dizer. — Não é como se eu não tivesse pensado nisso, mas o que você diria a um homem que acreditava estar morto - um pai que nunca conheceu?
— Basta dizer-lhe como você se sente, Alex.
Eu ri. — Não sei se ele quer saber tudo isso.
— Ele quer. — Aiden parou, e o silêncio se estendeu entre nós. — Você parece meio... desligada ultimamente.
Eu ainda me sentia meio estranha. — É o resfriado. 
— Você parecia que ia desmaiar no escritório de Marcus e, vamos encarar, não havia nenhuma razão para que você não pudesse ter dado conta de derrubar Jackson ontem... Ou pelo menos tirá-lo do caminho. Você tem parecido exausta, Alex.
Suspirando, eu o encarei. Ele estava largado contra a parede, as mãos enfiadas nos bolsos. — Então o que você está fazendo aqui? — Perguntei, procurando tirar o foco de cima de mim.
A expressão de Aiden era conhecedora, — Observando você.
Calor vibrou em meu peito, — Sério? Isso não é assustador ou algo assim.
Um sorriso minúsculo apareceu, — Bem, eu estou de serviço.
Olhei ao redor da sala, — Você acha que há daimons aqui?
— Eu não estou caçando agora. — Uma mecha de cabelo ondulado castanho escuro caiu em seus olhos cinzentos quando ele inclinou a cabeça para o lado, — Eu tenho uma nova atribuição.
— Me conte.
— Além de caçar, estou te protegendo.
Eu pisquei e então ri tanto que minhas costelas doíam. — Deuses, isso deve ser um saco para você.
Suas sobrancelhas franziram. — Por que você acha isso?
— Você não pode se livrar de mim, não é? — Me virei para o saco, procurando por um ponto fraco, — Quero dizer, mesmo que não queira, você continua selado a mim. 
— Eu não considero um saco vigiar você. Por que você acha isso?
Fechei os olhos, me perguntando por que eu mesma disse isso. — Então, Linard também tem uma nova missão?
— Sim. Você não respondeu minha pergunta.
E eu não ia. — Será que Marcus lhe pediu para fazer isso?
— Sim, ele fez. Quando você não está com Seth, ele quer Linard, ou Leon, ou eu, te vigiando. Há uma boa chance de que quem quer que te queira mal...
— Ministro Telly. — Eu acrescentei, cerrando meu punho.
— Quem quer que seja que queria te prejudicar em Catskills, vai tentar algo aqui. Depois, há as fúrias.
Eu dei um soco no saco, imediatamente estremecendo quando isso puxou os músculos doloridos das minhas costelas. Deveria ter envolvido-as primeiro. Estúpida. — Vocês não podem lutar contra as fúrias.
— Se elas aparecerem, vamos tentar.
Apertando a minha mão, eu dei um passo para trás. — Você vai morrer tentando. Essas coisas, bem, você viu o que elas são capazes. Se eles vierem, apenas saia do caminho.
— O quê? — Descrença coloriu seu tom.
— Eu não quero ver as pessoas morrerem sem nenhuma razão.
— Morrer sem razão?
— Você sabe que elas vão apenas continuar a voltar e eu não quero que alguém morra quando tudo parece... inevitável.
A respiração que ele deu foi afiada e audível na sala pequena, — Você está dizendo que acredita que sua morte é inevitável, Alex?
 
Empurrei o saco de pancadas de novo. — Eu não sei o que estou dizendo. Apenas esqueça isso.
— Alguma coisa... Alguma coisa está diferente em você.
Um desejo de fugir da sala encheu-me, mas eu enfrentei ele em vez disso. Olhei para minhas mãos. As marcas ainda estavam lá. Por que eu continuava a verificá-las como se elas fossem embora ou algo assim? — Tanta coisa aconteceu, Aiden. Eu não sou a mesma pessoa.
— Você ainda era a mesma pessoa no dia em que descobriu sobre seu pai. — ele disse, seus olhos ficando da cor de uma nuvem de tempestade.
A raiva começou baixo no meu estômago, cantarolando pelas minhas veias. — Isso não tem nada a ver com isto.
Aiden saiu da parede, tirando as mãos de seus bolsos. — O que é isto?
— Tudo! — Meus dedos cravaram em minhas mãos, — Qual é o ponto em tudo isso? Vamos apenas pensar hipoteticamente aqui por um segundo, ok? Digamos que Telly, ou quem quer que seja, não consiga me enviar à servidão, ou matar-me, e as fúrias não acabem comigo, eu ainda vou fazer 18 anos. Eu ainda vou Despertar. Então, qual é o ponto? Talvez eu deva ir embora. — Caminhei para onde eu tinha deixado minha bolsa, — Talvez Lucian me deixe ir para a Irlanda ou algo assim. Eu gostaria de ir lá antes de ser...
Aiden agarrou meu braço, me virando para que eu o encarasse. — Você disse que tinha de ficar no Covenant para que pudesse se formar, porque você precisava ser uma sentinela mais do que qualquer outra pessoa na sala. — Sua voz caiu baixo quando seus olhos procuraram os meus atentamente, — Você acreditava nisso. Isso mudou?
Eu puxei meu braço para longe, mas ele segurou. — Talvez.
As pontas das maçãs do rosto de Aiden ficaram vermelhas. — Então você está desistindo?
— Não acho que isso seja desistir. Chame isso de... aceitar a realidade.
 
Eu sorri, mas me senti mal.
— Isso é bobeira, Alex.
Abri minha boca, mas nada saiu. Eu argumentei em ficar no Covenant para que pudesse me tornar uma Sentinela. E eu sabia que, no fundo, ainda queria tornar-me uma, pela minha mãe, por mim, mas eu não tinha certeza se era o que eu ainda precisava. Ou o que eu poderia concordar, se eu fosse honesta comigo mesma. Depois de ver aqueles servos abatidos no chão e ninguém se importando... Ninguém veio para ajudá-los.
Não tinha certeza se poderia ser parte de tudo disso.
— Você nunca foi de se afundar na auto-piedade quando as probabilidades estão contra você.
Meu queixo estalou. — Não vou me afundar na auto-piedade, Aiden.
— Sério? — disse ele baixinho. — Assim como você não se contentou com Seth?
Ah, bons deuses, não era o que eu queria ouvir. — Eu não estou me contentando. — Mentirosa, sussurrou uma voz na minha cabeça. — Eu não quero falar sobre Seth.
Ele desviou os olhos por um segundo e então me encarou novamente. — Eu não posso acreditar que você o perdoou pelo que... pelo que ele fez com você.
— Isso não foi culpa dele, Aiden. Seth não me deu a bebida. Ele não forçou...
— Ele ainda sabia melhor do que isso! 
— Não vou falar sobre isso com você. — Comecei a recuar.
A mão ao lado dele se apertou. — Então você ainda... está com ele?
Parte de mim se perguntou o que tinha acontecido com o Aiden que me segurou em seus braços quando eu disse a ele sobre meu pai. Essa versão tinha sido mais fácil de lidar. Então, novamente, obviamente, eu não estava me comportando como a pessoa que eu era antes de qualquer maneira. E uma parte de mim gostava da maneira como Aiden disse ‘ele’ - como se até o nome dele o fizesse querer socar alguma coisa. — Defina 'com', Aiden. 
Ele me olhou fixamente.
Ergui minha cabeça. — Você está me perguntando se nós ainda saímos juntos ou se somos apenas amigos? Ou você quis perguntar se estamos dormindo juntos?
Seus olhos se estreitaram em fendas finas que brilhavam uma prata feroz.
— E por que você está perguntando, Aiden? — Eu me afastei, e ele soltou, — Qualquer que seja a resposta não importa mesmo.
— Importa.
Pensei sobre as marcas e o que elas significavam. — Você não tem ideia. Isso não importa. É o destino, lembra? — Peguei minha bolsa novamente, mas ele pegou meu braço novamente. Olhei para cima, expirando lentamente, — O que você quer de mim?
Então seus olhos pareceram compreender, tornando-se mais suaves, — Você está com medo.
— O quê? — Eu ri, mas soou como um grasnido nervoso, — Eu não estou com medo.
Os olhos de Aiden flutuaram sobre a minha cabeça e determinação apareceu em seus olhos. — Sim. Você está. — Sem dizer nada, ele me virou e me puxou para a câmara de privação sensorial.
Meus olhos se alargaram. — O que você está fazendo?
Ele continuou puxando até que parou em frente da porta. — Você sabe para que eles usam isso?
— Hum, para treinar?
Aiden olhou para mim, sorrindo com força. — Você sabe como antigos guerreiros treinavam? Eles costumavam lutar com Deimos e Phobos6, que usavam os piores temores dos guerreiros contra eles durante a batalha.
— Obrigada pela lição de história estranha, mas...
— Mas desde que os deuses do Medo e do Terror estão fora do circuito por algum tempo, eles criaram esta câmara. Eles acreditavam que a luta usando apenas seus outros sentidos para guiá-los era a melhor maneira de aprimorar suas habilidades e enfrentar seus medos.
— O medo de quê?
Ele abriu a porta e um buraco negro nos cumprimentou. — Qualquer temor que esteja te prendendo. 
Cavei nos meus calcanhares. — Eu não estou com medo.
— Você está com medo.
— Aiden, estou a dois segundos de... — Meu grito de surpresa me cortou quando ele me arrastou para dentro da câmara, fechando a porta atrás de si, me lançando no quarto, na escuridão total. Minha respiração congelou na minha garganta. — Aiden... eu não consigo ver nada.
— Esse é o ponto.
— Bem, obrigado, Capitão Óbvio. — Procurei às cegas, mas só senti o ar, — O que você espera que eu faça aqui? — Assim que a pergunta saiu da minha boca, eu fui tomada por imagens totalmente inadequadas de todas as coisas que poderíamos fazer aqui.
— Nós lutamos.
                                                         
 6 Deimos (pânico) é uma figura da mitologia grega. Ele é um dos três filhos de Ares e de Afrodite, sendo irmão de Phobos, o Medo. O terrível Deimos é a personificação do Pânico e acompanhava seu pai e seu irmão Phobos, fazendo as tropas abandonarem a formação e fugirem desordenamente.
 
Bem, isso era uma droga. Eu inalei, pegando o cheiro de tempero e do oceano. Lentamente, levantei a minha mão. Meus dedos roçaram algo duro e quente - seu peito? Então não havia nada além do espaço vazio. Oh deuses, isto não ia ser nada bom.
De repente, ele agarrou meu braço e me virou. — Posicione-se.
— Aiden, eu realmente não quero fazer isso agora. Estou cansada e fui chutada no...
— Desculpas. — disse ele, sua respiração perigosamente perto de meus lábios.
Eu congelei.
Sua mão se foi. — Entre em posição. 
— Eu estou.
Aiden suspirou. — Não, você não está.
— Como você sabe?
— Eu posso dizer. Você não se mexeu, — disse ele, — Agora, entre em posição.
— Caramba, você é como um gato que pode ver no escuro ou algo assim? — Quando ele não respondeu, eu gemi e me movi para a posição: os braços a meia altura, pernas e pés enraizados no lugar, — Tudo bem.
— Você precisa enfrentar seus medos, Alex.
Eu olhava, mas não via nada. — Pensei que você disse que eu era destemida.
— Você normalmente é. — De repente, ele estava na minha frente e seu cheiro estava me deixando distraída, — É por isso que ter medo agora é tão difícil para você. Ter medo não é uma fraqueza, Alex. É apenas um sinal de algo que você deve superar.
— O medo é uma fraqueza. — Esperando que ele ainda estivesse na minha frente, eu decidi ir junto com ele. Joguei um cotovelo, mas ele não estava lá. 
E então ele estava atrás de mim, sua respiração dançando ao longo da parte de trás do meu pescoço. Eu me virei, segurando o ar. — Do que você tem medo?
Uma lufada de ar e ele estava atrás de mim novamente. — Isso não é sobre mim, Alex. Você tem medo de se perder.
— Claro que não. No que eu estava pensando? — Eu me virei, xingando quando ele se foi. Isso estava me deixando tonta, — Então por que você não me diz do que eu tenho medo, grande destemido?
— Está com medo de se tornar algo que você não tem controle. — Ele pegou meu braço enquanto eu balançava na direção do som de sua voz, — Isso a assusta até a morte. — Ele soltou, recuando.
Ele estava certo, e por isso, a raiva e a vergonha me inundaram. Fora da escuridão em torno de mim, havia uma mancha mais espessa do que o resto. Eu me joguei para ele. Antecipando o movimento, ele me pegou pelos ombros. Eu balancei, pegando-o no estômago e no peito.
Aiden me empurrou para trás. — Você está com raiva porque eu estou certo.
Um som rouco subiu na minha garganta. Eu apertei a minha boca fechada e balancei novamente. Meu cotovelo conectou com alguma coisa. — Uma Sentinela nunca tem medo. Eles nunca recuam e fogem.
— Você está recuando e fugindo, Alex?
O ar agitou em torno a mim e eu pulei, por pouco não levei o que era, provavelmente, uma rasteira perfeita. — Não! 
— Isso não é o que parecia antes. — disse ele. — Você queria aceitar a oferta de Lucian. Visitar a Irlanda? 
— Eu... Eu estava... — Droga, eu odiava quando ele estava certo.
Aiden riu de algum lugar na escuridão.
Segui o som. Indo longe demais, muito presa na minha raiva, eu perdi meu senso de equilíbrio quando ataquei. Aiden pegou meu braço, mas nenhum de nós poderia ganhar a batalha nessa escuridão. Quando caí, ele veio comigo.
Caí de costas, com Aiden bem em cima de mim.
Aiden pegou meus pulsos antes que eu pudesse acertá-lo novamente, fixando-os em cima da minha cabeça e para baixo sobre as esteiras. — Você sempre deixa suas emoções ter o melhor de você, Alex.
Tentei empurrá-lo, não confiando em mim mesma para falar. Um soluço foi crescendo em minha garganta enquanto eu mexia com ele, conseguindo uma perna livre.
— Alex. — Avisou baixinho. Ele pressionou para baixo, e quando ele respirava, seu peito se levantava contra o meu. Na completa escuridão da sala de privação sensorial, sua respiração estava quente contra meus lábios. Eu não ousei me movimentar. Nem mesmo uma fração de uma polegada.
Seu aperto em torno de meus pulsos se afrouxou e sua mão escorregou sobre meu ombro, tocando meu rosto. Meu coração estava tentando sair do meu peito naqueles segundos e todos os músculos travaram, ficaram tensos com antecipação. Ele ia me beijar? Não. Meu lábio estava machucado, mas se ele fizesse, eu não iria impedi-lo e eu sabia que era tão errado. Calafrios desceram na minha espinha, e eu relaxei com ele.
— Não há problema em ter medo, Alex.
Eu joguei minha cabeça para trás, em seguida, querendo estar tão longe dele quanto eu queria estar perto dele.
— Mas você não tem nada a temer. — Ele guiou meu queixo para baixo com dedos suaves. — Quando você vai aprender? — Sua voz era pesada, áspera, — Você é a única pessoa que tem controle sobre quem você se torna. Você é muito forte para que se perca. Eu acredito nisso. Por que você não pode acreditar?
Minha respiração saiu trêmula. Sua fé em mim era quase minha ruína. O inchaço no meu peito teria me levantado das esteiras. Vários momentos se passaram antes que eu pudesse falar. — Do que você tem medo? — Perguntei de novo.
— Pensei que você disse que não eu tinha medo de nada, uma vez. — Ele jogou de volta.
— Eu disse.
Aiden se mexeu um pouco e seu polegar acariciou a curva do meu rosto, — Eu tenho medo de uma coisa.
— Do que? — Sussurrei.
Ele deu um suspiro profundo e trêmulo. — Eu tenho medo de nunca ser permitido sentir o que eu sinto.
O ar ficou preso enquanto eu tentava respirar. Desejei poder ver seu rosto, seus olhos. Quis saber o que ele estava pensando neste exato momento, tocá-lo. Mas fiquei deitada lá, meu coração era a única parte de mim que estava se movendo.
Seu polegar roçou minha bochecha mais uma vez. — Isso é o que me assusta. — Então ele se ergueu de cima de mim. Recuou, as esteiras rolando sob seu passo instável, — Eu vou estar na outra sala de treinamento quando você estiver pronta... Para caminhar de volta para o seu dormitório.  
Houve um breve flash de luz das salas de treinamento externas quando ele deslizou para fora da porta e, em seguida, escuridão me cobriu de novo.
Não me movi, mas meu cérebro correu disparado. Ele estava com medo de nunca ser autorizado a sentir o que sentia. Deuses, eu não era estúpida, mas desejei que eu fosse. Eu sabia o que ele queria dizer e também sabia que isso não queria dizer uma maldita coisa. Parte de mim estava com raiva, porque ele se atreveu a dizer isso quando tudo o que fez foi tornar meu peito pesado com um dolorido desejo - um desejo tão intenso que sentia como se pudesse me esmagar sob o seu peso. E por que admitir isso agora, quando eu lhe implorara antes para apenas me dizer que sentia o mesmo e ele negara? O que era tão diferente agora?
E ele estava certo sobre a outra coisa. Eu estava aterrorizada de me tornar algo que eu não pudesse controlar, de perder-me para o vínculo, para Seth. Parecia que, mesmo se eu conseguisse passar todos os outros obstáculos no meu caminho, haveria esse - o que eu não poderia ultrapassar com a boa imprudência de Alex.
A porta se abriu novamente e o suave murmúrio de duas vozes masculinas flutuou pela sala. Houve uma risada profunda e rouca conforme as esteiras mergulhavam sob os seus pés. Eu poderia ter dito algo, mas estava perdida demais em meus próprios pensamentos para sequer pronunciar uma única palavra.
Um segundo depois, pés se emaranharam com minhas pernas e um ganido de surpresa soou. As esteiras cederam quando um corpo desabou, meioesparramado em cima de mim. Soltei um “oomph” e empurrei as mãos do meu peito.
— Deuses, Alex! — Exclamou Luke, rolando de cima de mim e sentando-se, — Santo Hades, o que você está fazendo aqui dentro?  
— Como você soube que era eu apenas sentindo meus peitos? — Resmunguei, jogando um braço sobre meu rosto.
— É um superpoder.  
— Uau.  
Luke bufou. Senti as esteiras rolarem quando ele ficou de frente para seu parceiro misterioso, silencioso. — Hey, — Luke disse. — Você pode nos dar alguns minutos?  
— Claro. Tanto faz. — O cara respondeu, mergulhando de volta para fora da porta. A voz era super familiar, mas por mais que eu tenha tentado, não pude identificá-la.
— Pervertido. — Eu disse, — Para quê você tem usado essas salas, Luke? Seu travesso.  
Ele riu. — Eu uso para algo malditamente mais divertido e mais normal do que o motivo que você tem usado. Você é a que está deitada em uma sala escura sensorial como uma pequena aberração. O que você está fazendo aqui dentro? Conspirando para destruir o Covenant? Meditando? Se auto-satisfazendo?  
Fiz uma careta. — Você não tem algo melhor para fazer?  
— Yeah, tenho.  
— Então vá. Esta sala já está ocupada.  
Luke suspirou. — Você está sendo ridícula.  
Achei que isso era engraçado considerando que ele não tinha ideia de por que eu estava sendo uma “pequena aberração” na sala sensorial. Luke não tinha ideia do que acabara de acontecer aqui dentro. Ele provavelmente pensava que eu estava me escondendo de todo mundo ou tendo algum tipo de colapso mental. Essa última parte ainda estava indecisa e poderia ser uma forte possibilidade. Se Caleb tivesse sido quem tinha tropeçado em cima de mim, ele teria sabido. Suguei uma respiração afiada.
Perdê-lo não estava ficando nada mais fácil, percebi de repente.
— É uma droga não ter nenhum amigo, não é? — Luke perguntou depois de alguns momentos.
Franzi o cenho. — Sabe, é uma coisa boa que você não pode se tornar um terapeuta, porque você realmente é uma droga em toda a coisa de “fazer as pessoas se sentirem melhores sobre si mesmas”.  
— Mas você tem amigos. — Ele continuou como se eu não tivesse dito uma maldita coisa. — Você apenas parece ter se esquecido de nós. 
— Como quem?  
— Como eu. — Luke estendeu-se ao meu lado, — E há Deacon. E Olivia.  
Bufei. — Olivia odeia minhas tripas.  
— Ela não odeia.  
— Besteira. — Deixei cair meu braço, enfrentando-o na escuridão. — Ela me culpa pela morte de Caleb. Você a ouviu no dia do funeral dele e no corredor ontem.  
— Ela está ferida, Alex.  
— Eu estou ferida, também! — Sentei-me, cruzando as pernas.
As esteiras sacudiram quando Luke rolou para o lado. — Ela amava Caleb. Tão impraticável como é qualquer um de nós amar alguém, ela o amava.  
— E eu o amava. Ele era o meu melhor amigo, Luke. Ela me culpa pela morte do meu melhor amigo.  
— Ela não culpa você, não mais.  
Alisei para trás os minúsculos cabelos que tinham escapado meu rabo de cavalo. — Quando isso aconteceu? Nas últimas vinte e quatro horas?
Destemido, Luke sentou-se e de alguma forma encontrou a minha mão na escuridão. — No dia em que ela se aproximou de você no corredor, ela queria te pedir desculpas.  
— Isso é engraçado, porque eu me lembro dela dizendo algo como que eu precisava refrear meu sofrimento. — Eu não afastei minha mão da dele, porque era meio que agradável alguém me tocar e nada bizarro acontecer, — Essa é uma nova forma de pedido de desculpas que eu não conheço?  
— Eu não sei no que ela estava pensando. Ela queria pedir desculpas, mas você não iria parar para conversar com ela. — Luke explicou suavemente. — Ela perdeu a calma. Ela foi uma vadia sobre isso. Olivia sabe disso. Depois você chutando o traseiro dela na frente de todo mundo não ajudou, também.  
A velha Alex teria dado uma risadinha debochada com isso, mas isso não me fez sentir bem.
— Você precisa conversar com ela, Alex. Vocês duas precisam uma da outra agora.  
Puxei minha mão livre e fiquei de pé rapidamente. A sala de repente parecia sufocante e insuportável. — Eu não preciso dela ou de qualquer um.  
Luke estava de pé ao meu lado em um instante. — E essa foi provavelmente a coisa mais infantil que você já disse.  
Estreitei meus olhos em sua direção geral. — E eu tenho algo ainda mais infantil para te dizer. Eu estou a tipo dois segundos de bater em você.  
— Isso não é muito agradável, — Luke provocou, pisando em torno de mim. — Você precisa de amigos, Alex. Tão sexy quanto Seth é, ele não pode ser seu único amigo. Você precisa de um tempo para garotas. Precisa de alguém com quem você possa chorar, alguém que não esteja tentando entrar em suas calças. Você precisa de alguém que queira estar perto de você não pelo que você é, mas quem você é.
Meu queixo atingiu a esteira. — Uau. 
Luke deve ter sentido minha reação atordoada, porque riu. — Todo mundo sabe o que você é, Alex. E a maioria das pessoas acha que é muito malditamente legal. O que elas não acham que é legal - a razão pela qual todo mundo está te evitando - é a sua atitude. Todo mundo percebe que você está ferida sobre Caleb e o que aconteceu com sua mãe. Entendemos isso, mas não significa que tenhamos que tolerar você constantemente sendo uma vadia.  
Abri minha boca para dizer a Luke que eu não era aquela sendo a vadia, que foram todos eles que vinham me tratando como um cão de três cabeças desde que eu retornara - e até mesmo antes disso - mas nada saiu. Além de passar o tempo com Seth, eu tinha me isolado de todo mundo.
E às vezes eu era uma pessoa terrível. Eu tinha razões - boas razões, mas eram apenas desculpas. Peso se assentou sobre meu peito.
No silêncio e na escuridão nos rodeando, Luke me encontrou e envolveu seus braços em meus ombros rígidos. — Bem, talvez nós tenhamos que tolerar isso um pouquinho. Você é uma Apollyon afinal de contas. — Pude ouvir o sorriso em sua voz, — E mesmo que você tenha sido uma vadia gigante, nós ainda te amamos e estamos preocupados.  
Um caroço se formou na minha garganta. Lutei contra isso, realmente lutei, mas senti lágrimas picando meus olhos enquanto meus músculos começavam a relaxar. Minha cabeça de alguma forma encontrou seu ombro e ele acariciou minhas costas de forma tranquilizadora. Por um momento, eu pude acreditar que Luke era Caleb e na minha cabeça, fingi contar a ele tudo o que tinha acontecido. Meu Caleb de faz de conta sorriu para mim, me segurou mais perto, e ordenoume a tirar minha cabeça do meu traseiro. Que sem importar o que tinha acontecido e tudo que eu aprendi, o mundo não tinha acabado e não ia acabar.
E por enquanto, isso pareceu ser o suficiente.
Aiden estava esperando por mim quando finalmente me arranquei da sala sensorial. Ele não disse nada enquanto nos dirigíamos para fora. Ambos havíamos dito e provavelmente pensado o suficiente. Não havia qualquer estranheza entre nós, mas havia este sentido vasto de… incerteza. Embora, pudesse só ter sido eu projetando meus próprios sentimentos nele.
 
Nos dirigimos para o caminho que ia em direção aos dormitórios. O vento chutava areia para cima e havia uma sensação fria e úmida no ar enquanto nos aproximávamos do jardim.
Dois garotos puros estavam encarando a estátua de mármore de Apollo alcançando Daphne enquanto ela se transformava numa árvore. Um acotovelou o outro, — Hey, olhe. Apollo está pegando lenha.  
Seu amigo riu. Revirei os olhos.
— Alex. — Houve algo na voz de Aiden, uma aspereza que me disse que o que quer que ele estivesse prestes a dizer ia ser poderoso. Seu olhar se moveu para o meu rosto, em seguida, para trás de mim. — Que diabos?  
Não era o que eu estava esperando.
Aiden passou roçando por mim, focado exclusivamente em algo diferente de mim. Droga. Girei ao redor. — Você não… Oh.  
Agora eu via o que tinha interrompido Aiden.
Dois caras mestiços carregavam um Jackson quase inconsciente entre eles - um dificilmente reconhecível Jackson. Parecia que ele tinha acordado no lado errado de uma porradaria. Cada centímetro visível de sua pele estava machucado ou ensanguentado - olhos inchados fechados, lábios divididos bem abertos - e a marca profunda, irritada espalhada através de sua bochecha esquerda suspeitosamente se assemelhava a uma marca de bota.
— O que aconteceu com ele? — Aiden exigiu, tomando o lugar de um dos mestiços e praticamente apoiando todo o peso do garoto.
O mestiço balançou a cabeça. — Eu não sei. Nós o encontramos assim no pátio.  
— Eu... Eu caí. — Jackson disse, sangue e saliva escorrendo de sua boca. Acho que ele estava com alguns dentes faltando.
Uma expressão dúbia atravessou o rosto de Aiden. — Alex, por favor, vá direto para o seu dormitório.  
Assentindo mudamente, saí do caminho. Eu ainda estava puta com Jackson. Ele tentou pisotear na minha cabeça, mas o que tinha sido feito com ele foi horrível e calculista. Comparado com o punho que Aiden plantara em seu rosto quando Jackson tinha…
Meus olhos arregalados encontraram os de Aiden por um segundo antes de ele carregar Jackson em direção ao edifício de medicina. Minha conversa com Seth voltou para mim.
— Então, com quem você treinou? — Ele perguntara.
— Eu sempre treino com Jackson.  
Meus deuses, Seth tinha feito isto.
Parecia que Seth estava me evitando, provavelmente por causa de todo o incidente do sanduíche de presunto. Nossas práticas eram ou cancelados ou consistiam em trabalhar em meus escudos mentais. Por uma semana inteira, sempre que o via, eu perguntava a ele sobre Jackson. Com um olhar de completa inocência, ele me dissera que não tinha feito isso. Eu não acreditei nele e disselhe exatamente isso.
Ele olhara para mim, expressão lindamente vazia e disse, — Agora, por que eu alguma vez faria tal coisa?  
Eu não queria acreditar que ele tinha, porque quem quer que tivesse feito isso com Jackson o pusera fora de serviço por um longo tempo. Jackson não estava falando, literalmente. Sua mandíbula estava lotada de pontos, e eu tinha ouvido que ele precisaria de um monte de tratamento dentário. Mesmo que ele se curasse muito mais rápido do que um mortal, eu sabia que ele ainda não estava falando. O garoto deve ter levado um susto de morte.
E mesmo que não quisesse acreditar que foi Seth, eu não conseguia me libertar das minhas suspeitas. Quem mais faria uma coisa dessas com Jackson? Seth tinha motivo - um motivo que me fazia sentir doente. Se ele tivesse feito isso, teria sido por causa do que Jackson fizera comigo na aula. Mas como ele poderia fazer algo tão... violento, tão instável? Essa pergunta me assombrava.
A única coisa boa foi que o medo esquisito que se instalara em cima de mim, como um cobertor que coça, desapareceu. Uma minúscula parte de mim sentia falta da companhia de Seth durante as noites e do jeito que ele sempre conseguia me transformar em um travesseiro humano durante a noite, mas havia outra parte de mim que estava meio que aliviada. Como se não houvesse nada adicional esperado de mim.
Mesmo que ninguém tivesse tentado me drogar ou me matar, Linard e Aiden ainda me seguiam por aí. E quando eles estavam ocupados, era a massiva sombra de Leon que espreitava atrás de mim. Eu tinha desenvolvido o hábito de sair pelos corredoes das salas de treinamento, até mesmo nos dias em que Seth e eu não iríamos praticar. Eu sabia que Aiden eventualmente me encontraria lá. Nós não conversamos sobre estar com medo de novo, mas nós meio que só… passávamos o tempo juntos… Na sala de treinamento.
Pode parecer algo pequeno, mas eu me sentia como nos velhos tempos, antes de tudo ficar tão incrivelmente ferrado. Às vezes Leon aparecia para nós. Ele nunca parecia surpreso ou suspeito. Nem mesmo da última vez, quando estávamos sentados de costas contra a parede, discutindo sobre se fantasmas existiam ou não.
Eu não acreditava neles.
Aiden acreditava.
Leon pensara que éramos ambos idiotas.
Mas droga, eu ficava ansiosa por isso. Apenas sentar ali e conversar. Sem treinar. Sem tentar tocar e usar akasha. Esses momentos com Aiden, mesmo quando Leon decidia se juntar a nós, eram a minha parte favorita do dia.
Eu não tinha estrangulado Olivia de novo, mas as coisas eram super desajeitadas quando eu a via - nenhuma grande surpresa aí. Mas comecei a comer o meu almoço no refeitório com Seth. Depois do segundo dia, Luke se juntou a nós, em seguida Elena, e finalmente Olivia. Nós não conversávamos, mas também não berrávamos nada uma para a outra.
Algumas coisas não mudaram, entretanto. Os feriados mortais de Natal e Ano Novo chegaram e passaram, junto com a maior parte de janeiro. A maioria dos puros ainda parecia esperar que cada mestiço se transformasse em uma criatura sugadora-de-éter-do-mal e saltasse neles. Deacon, irmão de Aiden, era um dos poucos que ousava sentar ao nosso lado na aula ou conversar conosco ao redor do campus. Outra coisa que não mudara era a minha incapacidade de escrever uma carta para o meu pai. O que eu deveria dizer? Não tinha ideia. Cada noite que estive sozinha, eu tinha começado uma carta, e depois parado. Bolas de papel cobriam meu chão.
— Apenas escreva o que você está sentindo, Alex. Você está pensando demais nisso. — Aiden dissera depois que eu tinha reclamado, — Você sabe que ele está vivo já há dois meses agora. Você precisa apenas escrever sem pensar.  
Dois meses? Não tinha parecido tanto tempo assim. E isso significava que eu tinha um pouco mais de um mês antes de eu Despertar. Talvez eu estivesse tentando desacelerar o tempo. De qualquer forma, meus sentimentos estavam em todo o lugar, e se o meu pai fosse tão competente quanto eu acreditava que ele fosse, eu não queria que ele pensasse que eu tinha problemas.
Então, depois da prática com Seth, recolhi meu caderno e me dirigi a uma das menos lotadas salas de recreação. Enrolando-me no canto de um sofá vermelho brilhante, encarei uma página em branco e mastiguei a ponta da minha caneta.
Linard assumiu a posição na porta, parecendo entediado. Quando ele me apanhou observando-o, fiz uma careta e retornei a contemplar as linhas azuis no papel. Luke interrompeu algumas vezes, tentando atrair-me para um jogo de hóquei de mesa. 
Quando sua sombra caiu sobre meu caderno de novo, eu gemi. — Eu não quero…
Olivia estava de pé na minha frente, vestindo um suéter grosso de caxemira que comecei imediatamente a cobiçar. Seus olhos castanhos estavam arregalados.
— Uh… Desculpe, — eu disse. — Pensei que você fosse Luke.  
Ela alisou uma mão sobre seu cabelo cacheado. — Ele está tentando fazer você jogar skee ball7?  
— Não. Ele passou para hóquei de mesa. 
Sua risada foi nervosa quando olhou de relance para o grupo nos jogos de arcade. Em seguida, endireitou os ombros enquanto fazia um gesto para o local ao meu lado. — Posso me sentar?  
Meu estômago revirou. — Yeah, se você quiser.  
Olivia se sentou, correndo as mãos sobre suas pernas vestidas de jeans. Vários momentos se passaram sem que nenhuma de nós falasse. Ela foi a primeira a quebrar o silêncio. — Então, como... como tem passado?  
Foi uma pergunta carregada, e minha risada saiu embargada e áspera. Eu trouxe o bloco de notas para o meu peito enquanto olhava de relance para Luke. Ele estava fingindo não ter nos notado juntas.
Ela soltou um pequeno fôlego e começou a se levantar. — Okay. Acho que… 
                                                         
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— Sinto muito. — Minha voz foi baixa, as palavras roucas. Senti minhas bochechas queimarem, mas me forcei a continuar, — Sinto muito por tudo, especialmente a coisa no corredor.  
Olivia apertou suas coxas. — Alex... 
— Eu sei que você amava Caleb e tudo em que eu estive pensando foi a minha própria dor. — Fechei os olhos e engoli o caroço na minha garganta, — Eu realmente queria poder voltar atrás e mudar tudo naquela noite. Já pensei um milhão de vezes sobre todas as coisas que poderíamos ter feito de forma diferente.  
— Você não deveria… Fazer isso consigo mesma. — Ela disse baixinho, — No início, eu não queria saber o que realmente aconteceu, sabe? Como os detalhes. Eu simplesmente não pude… lidar com eles por algum tempo, mas finalmente consegui que Lea me contasse tudo há cerca de uma semana.  
Mordi o lábio, incerta do que dizer. Ela não tinha aceitado o meu pedido de desculpas, mas estávamos conversando.
Ela atraiu uma respiração superficial, seus olhos cintilando. — Ela me contou que Caleb a salvou. Que você estava lutando com outro daimon, e se ele não a tivesse agarrado, ela teria morrido.  
Assenti, apertando o caderno. Lembranças da noite vieram à tona, de Caleb passando rapidamente por mim.
— Ele era realmente corajoso, não era? — Sua voz travou.
— Sim, — Concordei com paixão. — Ele nem sequer hesitou, Olivia. Ele foi tão rápido e tão bom, mas o daimon... Foi apenas mais rápido.  
Ela piscou várias vezes, e seus cílios pareceram úmidos. — Sabe, ele me contou o que aconteceu em Gatlinburg. Tudo pelo que vocês passaram e como você o tirou da casa.  
— Foi sorte. Eles, minha mãe e os outros, começaram a lutar. Eu não fiz nada de especial.  
Olivia olhou para mim então. — Ele pensava o mundo de você, Alex. — Ela fez uma pausa, rindo baixinho, — Quando começamos a namorar, eu tinha ciúmes de você. Era como se eu não pudesse fazer jus a tudo o que vocês tinham vivido juntos. Caleb realmente te amava.  
— Eu o amava. — Tomei uma respiração, — E ele te amava, Olivia.  
Seu sorriso foi aguado. — Acho que eu precisava culpar alguém. Poderia ter sido Lea, ou os Guardas que falharam em manter os daimons fora. Eu não sei. É só que você é esta força imparável... Você é uma Apollyon. — Cachos elásticos saltaram quando ela balançou a cabeça, — E…
— Não sou uma Apollyon, ainda. Mas entendo o que você está dizendo. Eu sinto muito. — Apertei o arame no caderno, — Eu só desejo… 
— E eu sinto muito.  
Minha cabeça sacudiu em direção a ela.
— Não foi sua culpa. E eu fui uma vadia total por te culpar. Naquele dia no corredor, eu queria pedir desculpas, mas só saiu tudo errado. E sei que Caleb me odiaria por te culpar. Eu não deveria ter feito isso, em primeiro lugar. Eu só estava tão ferida. Sinto tanta falta dele. — Sua voz falhou e ela se virou, respirando fundo, — Sei que essas são só desculpas, mas eu não te culpo.  
Lágrimas obstruíram minha garganta. — Não culpa?  
Olivia balançou a cabeça.
Eu queria abraçá-la, mas não tinha certeza se isso seria legal. Talvez fosse cedo demais, — Obrigada. — Havia mais que eu queria dizer, mas não consegui encontrar as palavras certas.
Seus olhos se fecharam. — Quer ouvir algo engraçado?  
Pisquei. — Yeah.  
Voltando-se para mim, ela sorriu abertamente embora seus olhos brilhassem com lágrimas. — Depois do dia em que você e Jackson tiveram aquela luta, todo mundo estava falando sobre isso no refeitório. Cody estava passando e disse algo ignorante. Eu não me lembro o quê, mas provavelmente algo sobre o quanto era ótimo ser um puro-sangue. — Ela revirou os olhos, — De qualquer forma, Lea se levantou toda casualmente e despejou seu prato inteiro de comida na cabeça dele. — Uma risadinha se libertou, — Sei que não deveria rir, mas desejei que você tivesse visto aquilo. Foi hilário.  
Minha boca caiu aberta. — Sério? O que Cody fez? Lea ficou com problemas?  
— Cody teve um ataque, chamando-nos de um bando de bárbaros ou algo lamentável assim. Acho que Lea foi notificada e sua irmã não estava muito feliz com ela.  
— Uau. Isso não soa como Lea.  
— Ela está meio que mudada. — Olivia ficou séria, — Você sabe, depois de tudo? Ela não é a mesma. De qualquer forma, tem algumas coisas que preciso fazer, mas eu estou... Estou contente que nós conversamos.  
Encontrei o seu olhar e senti um pouco da tensão escoar. Não seria como antes, não por algum tempo. — Eu também.  
Ela pareceu aliviada quando sorriu. — Vejo você no refeitório para o almoço amanhã?  
— Claro. Eu estarei lá.  
— Vou partir para férias de inverno na próxima semana com a minha mãe. Algum tipo de negócio do Conselho que ela tem que comparecer e quer que eu vá com ela, mas quando eu voltar, nós podemos fazer alguma coisa? Como talvez assistir a um filme ou sair?  
Enquanto mortais tinham férias de inverno durante o feriado de Natal, nós tínhamos o nosso o mês inteiro de Fevereiro, na celebração de Anthesterion. Nos dias antigos, o festival era apenas três dias e todo mundo praticamente ficava bêbado em honra a Dionísio. Era como Noite de Finados e Carnaval rolados em uma enorme e bêbada orgia. Em algum ponto, os puros tinham estendido o festival a um mês inteiro, o acalmado, e o enchido com sessões do Conselho. Escravos e servos costumavam ser capazes de participar, mas isso também tinha mudado. — Yeah, isso seria ótimo. Eu amaria.  
— Bom. Vou te manter nisso. — Olivia se levantou para sair, mas parou na porta. Virando-se, ela deu-me um pequeno aceno e um sorriso hesitante antes de mergulhar para fora.
Olhei de relance para o meu caderno. Um pouco da dor e da culpa que ficaram após a morte de Caleb tinha se erguido. Respirei fundo e rabisquei um rápido bilhete para Laadan, dizendo-lhe para não se preocupar com o incidente da bebida e agradecendo-lhe por me dizer sobre o meu pai. Depois escrevi duas frases sob o breve parágrafo.
 
Por favor, diga ao meu pai que eu o AMO.
Vou consertar isto.
 
Mais tarde naquela noite, selei a carta e entreguei-a para Leon, que estava pairando fora do meu dormitório, com instruções explícitas para dá-la a Aiden.
— Posso perguntar por que você está passando bilhetes para Aiden? — Ele fitou a carta como se fosse uma bomba.
— É um bilhete de amor. Estou pedindo a ele para marcar um “X” em "sim" ou "não" se ele gosta de mim.  
Leon me prendeu com um olhar brando, mas enfiou a carta no seu bolso traseiro. Dei-lhe um sorriso atrevido antes de fechar a porta. Sentia como se um semi-reboque tivesse sido levantado dos meus ombros agora que eu tinha escrito a carta. Girando para longe da porta, disparei em direção à mesa do computador. Meus pés descalços bateram contra algo grosso e pesado.
 
— Ai! — Pulando em uma perna, eu olhei para baixo, — Oh, meus deuses, eu sou tão estúpida.  
O livro Mitos e Lendas encarou acima para mim. Inclinei-me rapidamente e o agarrei. De alguma forma, durante toda essa loucura, eu tinha esquecido sobre ele. Sentando-me, abri a coisa empoeirada e comecei a procurar a seção que Aiden mencionara em Nova York.
Não tive sorte na parte escrita em Inglês. Suspirando, inverti para a frente do livro e comecei a roçar as páginas cobertas com o que parecia linguagem sem nexo para mim. Meus dedos ficaram imóveis a cerca de cem páginas, não porque reconheci qualquer coisa da escrita, mas porque reconheci o símbolo no topo da página.
Era uma tocha virada para baixo.
Havia várias páginas escritas em Grego antigo, completamente inúteis para mim. Deveriam estar ensinando isso em vez de trigonometria no Covenant, mas o que eu sabia? Então, novamente, aos puros era ensinada a língua antiga.
Aiden conhecia a língua antiga - meio nerd, de uma forma totalmente quente.
Se eu pudesse descobrir mais sobre a Ordem, então talvez pudéssemos conseguir a evidência necessária para provar que algo louco estava começando com Telly e Romvi. Eu não estava cem por cento certa de que isso tinha alguma coisa a ver com o que acontecera, mas era muito melhor do que a sugestão de Seth.
A última coisa de que precisávamos era de uma revolta… ou um de nós matando outro puro-sangue.
 
Mais tarde naquela noite, quando eu estava meio dormindo, ouvi o clique familiar da minha porta. Ergui-me apoiando no cotovelo e afastando a bagunça de cabelo do meu rosto. O tremor fino deslizando pela minha espinha me disse que era Seth. Trancas não tinham a menor chance contra ele. Ele as derretia ou usava o elemento de ar para soltá-las a partir do outro lado.
Ele parou apenas dentro da porta. Seus olhos eram de um dourado suave, brilhando no escuro.
Surpresa por vê-lo, me levou alguns momentos para dizer algo. — Você supostamente não deveria estar em meu quarto tão tarde Seth.
— Isso alguma vez me parou antes? — Ele se sentou na beira da minha cama e eu podia sentir seu olhar em mim, — Você está em um humor muito melhor esta noite.
— E eu que pensava que estava ficando melhor em te bloquear.
— Você está. Você se saiu muito bem no treino de hoje.
— É por isso que você está aqui? — Ouvi-o tirando seus sapatos. — Porque eu estou menos propensa a jogar comida em você agora?
— Talvez. — Eu podia ouvir o sorriso em sua voz.
— Eu estava começando a pensar que achava sua própria cama mais atraente agora. 
— Você sentiu a minha falta. 
Dei de ombros. — Seth, sobre Jackson...
— Já disse a você. Não tive nada a ver com isso. E por que eu faria uma coisa tão má? 
— Eu não sei porquê. Talvez porque você é psicopata?
Seth riu. — 'Psicopata' é um termo tão extremo. Isso sugeriria que eu não me sinto culpado por minhas ações.
Eu arquei uma sobrancelha. — Meu ponto é exatamente esse.
Quando ele puxou as cobertas, eu fui para o lado e observei-o deslizar as pernas sob elas. Ele virou para o lado, de frente para mim. 
— Você percebe que eu tenho um guarda. Eles saberão que você está aqui.
— Passei por Linard no meu caminho até aqui. — Ele afastou uma mecha do meu cabelo que tinha caído sobre o meu rosto, colocando-o atrás da minha orelha. Sua mão permaneceu, — Ele me disse que eu estava quebrando as regras. Eu disse-lhe para me morder.
— E o que ele disse sobre isso?
A mão de Seth caiu para meu ombro, cobrindo a alça fina da parte superior da minha camisola. O vínculo dentro de mim começou a cantarolar baixinho. — Ele não pareceu muito feliz. Disse que ia me denunciar para Marcus.
Meu coração caiu um pouco. Não havia nenhuma dúvida em minha mente que isso significava que Aiden iria ouvir sobre isto; Aiden tinha que estar ciente dos hábitos de dormir do Seth. Nós se formaram no meu estômago enquanto eu olhava para Seth. Eu não estou com Aiden. Eu não estou com Aiden. Eu não estou fazendo nada de errado. Ainda assim, tensão cavou meus músculos.
— Não que Marcus realmente possa fazer algo sobre isso. — Ele se inclinou, gentilmente me guiando para baixo, de modo que eu estava deitado de costas. Seus dedos deslizaram sob a alça, e eu tremi com os nós dos dedos ásperos roçando minha clavícula, — Ele é só o Diretor.
— É o meu tio, — Eu apontei. — E duvido que ele goste da ideia de meninos dormindo na minha cama.
— Hmm, mas eu não sou apenas um garoto qualquer. — Ele inclinou a cabeça para baixo. Seu cabelo caindo para frente, protegendo o rosto. — Eu sou o Apollyon. 
Meu peito aumentou bastante. — As regras... ainda se aplicam a você e eu.
— Ah, eu me lembro dessa garota que não poderia seguir uma regra simples, mesmo se sua vida dependesse disso. — Ele inclinou a cabeça, o que resultou no seu nariz escovando o meu. — E eu acho que o que nós estamos fazendo agora é a menos chocante das regras que você já quebrou.
Eu corei quando coloquei minhas mãos em seu peito, impedindo-o de ultrapassar os últimos centímetros que nos separavam. — As pessoas mudam. — Eu disse sem convicção.
— Algumas pessoas o fazem. — Ele colocou seu braço ao lado da minha cabeça, apoiando-se.
O vínculo estava realmente começando a ficar louco, exigindo que eu prestasse atenção a ele. Meus pés enrolaram. — Você veio aqui para falar sobre as regras que eu quebrei ou o quê? 
— Não, na verdade eu tinha uma razão para vir.
— E qual é? — Eu me mexi desconfortavelmente, tentando ignorar a forma como a minha pele, principalmente nas palmas das mãos, começou a formigar. Graças aos deuses que ele tinha uma camisa.
— Dê-me um segundo.
Eu fiz uma careta. — Por que...
Seth baixou a cabeça, roçando os lábios nos meus, e ser apanhada entre a vontade de apertar a minha boca fechada e querer abrir para ele era uma sensação frustrante. Eu ansiava por estar perto dele da mesma forma como queria ficar longe dele.
— Isso é... é por isso que você veio aqui? — Perguntei quando ele levantou a cabeça.
— Não foi a principal razão.
— Então por que você está... — Sua boca cortou minhas palavras, e o beijo se aprofundou, roubando meus protestos. O vínculo se apertou quando sua mão escorregou pelo meu braço, sobre o meu estômago e sob a barra da minha camisa.
Ele sorriu contra meus lábios. — Tenho que viajar com Lucian durante as férias de inverno. Não vou voltar até o final de fevereiro.
— O quê? — O zumbido do vínculo estava ficando excessivo, o que tornava difícil de me concentrar. Eu estava meio surpresa que ele me deixaria tão perto do meu aniversário de dezoito anos, havia imaginado que ele acamparia no meu quarto nas semanas que antecederiam o meu Despertar. — Aonde você vai?
— Para o Covenant de Nova Iorque. — Respondeu ele, deslizando a outra mão no meu cabelo. — Houve alguns problemas que exigem a atenção do Conselho.
Um pouco do torpor recuou, — Eu quero ir com você. Meu pai está... 
— Não, você não pode ir. Não é seguro para você lá.
— Eu não me importo. Eu quero ir. Tenho que ver o meu pai. — Pelo olhar no rosto de Seth, eu poderia dizer que não estava ganhando qualquer terreno, — Você vai estar lá. Nada vai acontecer. E eu estaria menos segura aqui sem você. — Me feriu fisicamente dizer as últimas palavras, mas eu joguei meu orgulho pela janela. Ver o meu pai era mais importante.
Seth sorriu um pouco, desfrutando do pequeno derrame de ego. — Marcus assegurou Lucian que você estará bem protegida. Seu querido puro-sangue cortaria os pulsos antes de deixar algo acontecer com você.
Eu fiquei boquiaberta.
— O quê? — Ele moveu a mão até que a descansou sob minhas costelas, — É a verdade. E Leon e Linard estarão aqui, cuidando de você. Você vai ficar bem.
Eu não estava com medo de ser deixada para trás. Só queria ver meu pai. — Seth, eu tenho que ir.
Ele beijou meu lábio inferior, que tinha ficado com uma pequena cicatriz. — Não, você não tem. E você não vai. Nem mesmo eu poderia convencer Lucian a levá-la de volta ao inferno.
Minha mente correu freneticamente, tentando encontrar uma maneira de convencê-lo. — E nem sequer pense em fugir daqui, porque todo mundo está esperando que você faça isso. Não sei se vou ser capaz de te sentir, estando tão distantes, mas a partir do momento em que eu sair, alguém estará te observando. Portanto, nem sequer pense nisso. Estou falando sério.
— Eu não preciso de uma maldita babá.
— Sim, você precisa. — Seus lábios encontraram meu queixo, — A menina que não pode seguir regras para salvar sua própria vida ainda está dentro de você.
— Você é um idiota.
— Fui chamado de pior por você, então eu vou tomar isso como um elogio. — Ele sorriu, mesmo tendo sentido a fúria crescente em mim.
— Quando você vai? — Perguntei, tentando manter a voz firme.
— Estou saindo na noite de domingo, então você está completamente presa comigo até então. — Ele beijou a minha garganta.
— Ótimo. — Murmurei. As aulas seriam suspensas na quarta-feira. Quase todos os puros partiriam para férias super chiques, o que significava que a maior parte dos guardas iria também para protegê-los. Alguns dos mestiços estariam fora daqui, - qualquer um que ainda mantivesse contato com um dos pais mortais, ou se fosse algum queridinho de um puro sangue. Ainda havia uma chance que eu poderia fugir, mas como diabos eu iria chegar a Nova York? Eu não tinha sequer uma carteira de motorista, mas isso era o menor dos meus problemas.
Eu teria que chegar a Nova York sem ser morta no processo.
Seth me beijou novamente e eu me debati sobre puxar seu cabelo com o meu punho, enquanto o vínculo entre nós tentou o seu melhor para me sufocar. 
— Por que você tem que ir, de qualquer maneira? — Perguntei quando ele fez uma pausa. Eu precisava de algo, qualquer coisa, para me concentrar em não deixar a corda entre nós continuar me apertando e apertando.
Ele entrelaçou fios do meu cabelo em seus dedos. — Há um problema com os… servos em Catskills.
— O quê? — Pavor floresceu no meu estômago, crescendo tão rapidamente como uma erva daninha, — O que você quer dizer?
— Alguns deles desapareceram após o ataque. Seus corpos não foram encontrados e nenhum daimon escapou. — Outro beijo rápido e profundo antes de falar novamente, — E algo parece estar errado com o elixir.
— Você sabe alguma coisa sobre os que desapareceram? — Peguei seu pulso antes que a mão se arrastasse mais alto debaixo da minha camisa.
— Eu não acredito que seu pai está entre os desaparecidos, mas assim que eu confirmar isso, te avisarei. — Ele abaixou-se, e desde que eu tinha agarrado seu pulso, não havia nada para detê-lo. — Não quero mais falar. Vou ficar fora por semanas.
Seu peso fez o vínculo extremamente feliz, e eu me esforcei para prestar atenção. — Seth, isso... isso é importante. O que aconteceu com o elixir?
Ele suspirou. — Eu não sei. Ele não parece estar trabalhando tão fortemente.
— Tão fortemente?
— Sim, os mestiços... estão se tornando autoconscientes. Igual os computadores em ‘O exterminador do futuro’.
Comparação estranha, mas eu entendi o que ele quis dizer. E uau, isso era uma coisa séria por lá. O elixir era uma mistura de ervas e produtos químicos que funcionava para manter um mestiço complacente e confuso. Sem ela, eu duvidava que os mestiços em servidão ficassem encantados com o seu papel na sociedade, — Parece estar funcionando aqui. 
— Esse é o problema. Parece estar funcionando normal em todos os outros lugares, menos lá. O Conselho quer que vamos até lá para ter certeza que nada aconteça em Nova York, especialmente após o ataque.
— Mas por que você tem que ir?
— Eu não sei, Alex. Podemos falar sobre isso mais tarde? — Ele olhou para mim, os olhos brilhando. — Há outras coisas que eu quero fazer.
A corda entre nós zumbiu sua aprovação. — Mas...
Seth me beijou novamente e sua mão pressionou contra o meu estômago. Eu soltei seu pulso, com a intenção de empurrá-lo, mas então eu estava agarrando sua camisa. O ar ao nosso redor parecia crepitar. Houve algo dentro de mim, um aviso de que o vínculo maldito não estava aprontando coisa boa.
Eu senti a corda deslizar para a superfície antes de realmente abrir meus olhos. Luzes âmbar e azuis criavam sombras estranhas em toda a parede do meu quarto. Eu fiquei paralisada por elas por um momento. Era tão bizarro que éramos responsáveis por elas. Que vinham de dentro de nós.
Isso me assustou um pouco.
Mas a mão livre de Seth estava em toda parte, deslizando pelo meu braço, na minha perna, e as nossas cordas se uniram em espiral, ligando-nos. Meus dedos apertaram sua camisa e eu estava puxando-o para baixo um segundo, em seguida, empurrando-o para longe.
De repente, a pele que estava sob a palma da minha mão, queimou. Pequenas pontadas de dor roubaram meu fôlego. Senti a descarga correndo no meu estômago, akasha deslizando por nossas cordas. Um lampejo breve de sanidade me lembrou do que tinha acontecido da última vez que isso tinha acontecido. Nós, movendo-nos juntos na cama, e havia menos roupas para ser removidas desta vez.
Pânico cavou suas garras profundas em mim. Eu não estava pronta para isso - com Seth. Soltando sua camisa, eu o empurrei com força o suficiente para que fosse capaz de escapar debaixo dele, quebrando a conexão. Subi em meus joelhos, segurando meu estômago. — Isso... machuca.
Seth parecia atordoado. — Desculpe, meio que aconteceu. 
Com mãos trêmulas, eu puxei minha camisa para cima o suficiente para ver o que eu suspeitava que ia estar lá. Centrada acima do meu umbigo, bem debaixo da minha costela, havia uma marca brilhante que pareciam duas marcas unidas no topo.
— A marca do poder dos deuses. — Seth sussurrou, sentando-se. — Porra Alex, essa é grande. Amanhã, devemos tentar explodir alguma coisa. Eu sei que você foi completamente uma droga quando o fez pela primeira vez, mas aposto que funcionaria agora.
Eu não podia acreditar o quão rapidamente ele foi de querer conseguir algo comigo a querer explodir alguma coisa. Seth parecia mais animado com a runa do que a outra coisa. Inferno, seus olhos tinham um olhar louco novamente.
Ele colocou as mãos em torno da marca reverentemente. — Há quatro marcas que aparecem em primeiro lugar: coragem, força, poder e invencibilidade. Mas a do poder, é o akasha. Você vê como foi colocada aqui? — Ele foi para tocála mas eu me afastei. Ele franziu a testa. — De qualquer forma, é daí que você puxa o poder. 
Era também onde a corda dormia quando não estava tentando me transformar em um gigantesco hormônio furioso. — O que acontece quando aparecer a quarta marca?
Seth passou a mão pelos cabelos, afastando-os de seu rosto. O luar cortou através das persianas, iluminando seu rosto. — Eu não sei. As minhas vieram todas de uma vez, mas eles apareceram nessa ordem: em ambas as palmas das mãos, meu estômago, e em seguida, na parte de trás do meu pescoço. Então, em todo o lugar.
Minha boca de repente se sentiu seca. Eu soltei minha camisa e fui até a borda da cama. — Você acha que eu vou Despertar mais cedo se a quarta aparecer?
Ele ergueu os olhos. — Eu não sei, mas seria uma coisa tão ruim?
Tontura passou por mim. — Talvez devêssemos parar de nos tocar... ou o que quer que seja, até eu completar dezoito anos.
— O quê?
— Seth, eu não posso Despertar antes do previsto.
Ele balançou a cabeça. — Eu não entendo, Alex. As coisas vão ser muito melhores uma vez que você acordar. Não teria que se preocupar com Telly ou com as fúrias. Inferno, os deuses não vão nem mesmo ser capazes de nos tocar. Como isso não é uma coisa boa?
Não era uma coisa boa, porque uma vez que eu  Despertasse, havia uma grande chance de eu me perder no processo. Seth tinha me avisado há muito tempo que seria como duas metades se unindo, que a vontade dele iria colorir as minhas escolhas e decisões. Eu não teria controle sobre mim ou meu futuro. E Aiden estava certo naquele dia na câmara de privação sensorial. Isso me aterrorizava.
— Alex. — Seth pegou a minha mão com cuidado, delicadamente. — Você Despertar agora, seria a melhor coisa para... nós. Podemos até tentar. Ver se podemos conseguir que a quarta marca apareça. Talvez nada vai acontecer depois disso. Talvez você Desperte.
Eu soltei minha mão dele. A ansiedade em sua voz me assustou. — Nós... você está fazendo isso de propósito, Seth?
— Fazendo o quê?
— Tentar me fazer Despertar cedo tocando em mim ou algo assim?
— Estou tocando em você porque eu gosto. — Então ele chegou para mim de novo, mas eu bati em sua mão. — Qual é o seu problema? — Perguntou ele.
— Eu juro para os deuses, Seth, se você está fazendo isso de propósito, vou acabar com você.
As sobrancelhas de Seth franziram. — Você não acha que está sendo um pouquinho melodramática aqui?
— Eu não sei. — E eu realmente não sabia. Minhas mãos formigavam, meu estômago queimava, e a corda estava finalmente sossegando. — Você não fez nada comigo, exceto o treinamento nas últimas semanas e então você apareceu esta noite, todo delicado e sentimental. Então isso acontece?
— Eu estou todo delicado e sentimental, porque vou ficar fora por semanas. — Seth deslizou para fora da cama, ficando de pé em um movimento fluido, — E eu não estava realmente evitando você. Estava apenas dando-lhe algum espaço.
— Então por que você veio aqui hoje?
— Seja qual for o motivo foi claramente um erro. — Ele se inclinou, agarrando seus sapatos. — Aparentemente, eu só estou aqui para te usar para meus planos nefastos.
Me levantei da cama, abraçando meus cotovelos. Eu estava sendo paranoica? — O que você está fazendo?
— O que lhe parece? Eu não quero estar onde não sou querido.
Uma sensação de desconforto começou a torcer minhas entranhas. — Então por que você veio aqui se... não foi por causa disso?
Sua cabeça se levantou, os olhos de um tom furioso de ocre. Como um leão que estava encurralado, preso entre a vontade de correr e atacar. — Eu senti sua falta, Alex. É por isso. E eu vou sentir sua falta ainda mais. Será que isso já passou pela sua mente?
Oh, oh deuses. Culpa trouxe calor ao meu rosto. Isso nem tinha passado pela minha cabeça. Eu me senti como o pior tipo de vadia.
Um momento se passou e algo brilhou em seus olhos. — É Aiden, não é?
Meu coração disparou sobre si próprio. — O quê?
— É sempre Aiden. — Ele riu, mas não havia humor lá.
Isso não era sobre Aiden - não tinha nada a ver com ele. Tratava-se de Seth e eu, mas antes que eu pudesse dizer uma palavra, Seth olhou para longe.
— Acho que nos vemos quando eu voltar. — Ele começou a ir para a porta. — Só... apenas tenha cuidado.
— Merda. — Murmurei. Corri em volta da cama, bloqueando a porta. — Seth...
— Saia do caminho, Alex.
Suas palavras me incomodaram, mas eu respirei fundo. — Olha, toda essa coisa das marcas e meu Despertar, me deixam maluca. Você sabe disso, mas... mas eu não deveria ter acusado você.
Não houve nenhuma mudança em sua expressão. — Não, você não devia.
— E isso não tem nada a ver com Aiden. — Não tinha. Ou pelo menos, era o que eu dizia para mim mesma. Eu peguei sua mão livre, e ele se retraiu. — Eu... sinto muito, Seth.
Ele olhou para trás, lábios finos.
— Eu realmente sinto muito. — Soltei sua mão e coloquei minha cabeça contra seu peito. Cuidadosamente, passei meus braços em torno dele. — Eu só não quero me tornar outra pessoa.
Seth respirou fundo. — Alex...
Eu apertei meus olhos fechados. Com o vínculo ou não, eu me importava com ele. Ele era importante para mim e talvez, eu sentia por ele algo além do que o vínculo me fazia sentir. Talvez apenas fosse algo parecido ao que eu sentia por Caleb. De qualquer maneira, eu não queria ferir seus sentimentos.
Ele deixou cair seus sapatos e colocou seus braços em volta de mim. — Você me deixa louco.
— Eu sei. — Sorri, — O sentimento é mútuo.
Ele riu e depois escovou os lábios sobre minha testa. — Vamos. — E começou a me puxar de volta para a cama.
Eu fiquei parada um pouco. Não querendo ferir seus sentimentos e não querendo terminar com uma marca na parte de trás do meu pescoço.
Seth caiu, puxando-me para a frente. — Para dormir, Alex. Nada mais... A não ser que... — Seu olhar caiu para o meu top, — Sabe, você deveria usar isso mais vezes. Ele deixa muito pouco para a imaginação, o que é algo que eu gosto. 
Eu corei até as raízes do meu cabelo e rapidamente subi sobre ele e puxei as cobertas até o queixo. Seth riu quando se deitou. Jogou um braço em volta da minha cintura, se aconchegando perto. Sua respiração era constante. Nada como a minha, que parecia estar fazendo uma corrida. E ele estava sorrindo facilmente, como se não tivéssemos acabado de nos desentender.
— Você é um pervertido. — Eu disse pela centésima vez.
— Você já me chamou de coisas piores. 
E eu tinha a sensação de que iria fazê-lo no futuro também.
 Uau. Olha quem está sorrindo. O mundo vai acabar. — Dois olhos prateados espiaram atrás de um tufo de cabelos loiros encaracolados, e Deacon St. Delphi sorriu quando ele se deixou cair no assento ao meu lado, — Como vai minha mestiça favorita?
— Bem. — Olhei para o meu livro, lábios franzidos. — Desculpe, eu não tenho sido uma faladora.
Ele se inclinou, me cutucando na lateral. — Eu entendo.
Ele realmente entendia. Isso é provavelmente o porquê de não ter me pressionado a falar com ele desde que eu voltei. Apenas se sentou ao meu lado na sala de aula, sem dizer uma palavra. Eu não tinha percebido que ele estava esperando que eu superasse.
Eu o olhei novamente. Essa é a coisa sobre Deacon. Todos, incluindo Aiden, o viam como um preguiçoso garoto festeiro que não presta atenção em nada, mas ele era muito mais observador do que lhe davam crédito. Ele teve um momento muito duro crescendo sem seus pais, e eu acho que estava finalmente saindo da fase ‘garoto festeiro que não se importa com nada’.
— Você vai fazer algo nas férias de inverno?
Ele revirou os olhos, — Isso exigiria que Aiden também tirasse uma folga, já que ele não me deixa sair desta ilha sozinho. Ele tem sido super paranóico depois da coisa toda em Catskills. Eu acho que ele está esperando daimons ou fúrias chegando aqui a qualquer minuto. 
Eu me encolhi. — Sinto muito.
— Tanto faz. — respondeu ele. — Não é culpa sua. Então, eu não vou fazer nada de emocionante. Ouvi dizer que meu estimado irmão mais velho está brincando de ser seu guarda-costas. 
Revirei os olhos. 
— Você sabe, eu o ouvi conversando com o Diretor, quando ele visitou a casa. 
— Que casa? A cabana de Aiden? 
Deacon arqueou uma sobrancelha. — Não, a casa. — Ele viu o meu olhar estupefato e teve pena de mim, — A casa dos nossos pais? Bem, é na verdade a casa de Aiden agora. É do outro lado da ilha, perto da de Zarak.
Eu não tinha ideia de que havia uma outra casa. Apenas presumi que Aiden ficava na cabana e que Deacon ficava em um dos dormitórios. Pensando sobre isso, por que diabos Aiden preferia viver naquele barraco minúsculo se possuía uma daquelas enormes e opulentas casas na ilha principal?
Como se soubesse o que eu estava pensando, Deacon suspirou. — Aiden não gosta de ficar em casa. Lembra muito de nossos pais, e ele odeia a coisa toda do estilo de vida luxuoso.
— Oh. — Sussurrei, olhando para frente da sala de aula. Nosso professor estava sempre atrasado.
 
— Enfim, de volta a minha história. Ouvi-os falar. — A cadeira de Deacon fez um barulho terrível se arrastando, quando ele chegou mais perto de mim, — Quer saber?
Luke, que estava sentado na mesa de Elena, se virou para nós. Suas sobrancelhas levantaram quando nos viu. 
— Claro. Desembucha. — Disse eu.
— Há algo acontecendo com o Conselho, que tem a ver com os meiossangues.
— Como o quê? — Perguntei.
— Não sei exatamente. Mas eu sei que tem algo a ver com o Conselho em Nova York. — Deacon desviou o olhar, com foco na frente da classe. — Eu achei que você poderia saber, já que acabou de chegar de lá. 
Eu balancei a cabeça. Há sempre alguma coisa acontecendo com o Conselho, e que provavelmente tinha a ver com o elixir. Então eu percebi que Deacon ainda olhava para frente da sala de sala. Eu segui seu olhar. Ele estava olhando para Luke.
E Luke estava olhando para ele.
De um jeito muito intenso, como às vezes eu olhava para... Aiden.
Meus olhos dispararam de volta para Deacon. Eu não podia ver seus olhos, mas as pontas de suas orelhas estavam rosa. Após alguns momentos, longo demais para um cara estar olhando para outro cara casualmente, Deacon se inclinou para trás. Eu pensei sobre a voz fantasma que ouvi com Luke na sala sensorial. Tinha soado familiar... mas não, de jeito nenhum.
— De qualquer forma, — Deacon limpou a garganta. — Acho que eu poderia dar uma festa para aqueles deixados para trás durante as férias de inverno. Você acha que Aiden deixará?
— Uh, provavelmente não.
 
Deacon suspirou. — Vale a pena tentar.
Olhei para Luke novamente. — Sim, acho que sim.
 
— Não está funcionando.
Seth fez um som impaciente em sua garganta. — Tente se concentrar.
— Eu estou concentrada. — Rebati, empurrando o cabelo despenteado pelo vento para fora do meu rosto.
— Tente mais, Alex. Você pode fazer isso.
Abracei-me, tremendo. Estava um gelo nos pântanos. O frio e o vento úmido batiam contra mim, e o meu suéter pesado não ajudava em nada. Estivemos nisto durante a maior parte do sábado. Quando Seth sugeriu eu tentar explodir alguma coisa, eu tinha assumido que ele estava brincando.
Eu estava errada.
Fechando os olhos, imaginei a pedra grossa em minha mente. Eu já conhecia a textura, a cor de areia, e sua forma irregular. Eu estava olhando para a maldita coisa por horas.
Seth passou por trás de mim, segurando minha mão e colocou-a contra a mais recente marca que tinha aparecido. — Sinta-o aqui. Está sentindo?
Sentindo a corda entre a gente? Confirmo. Eu também gostei do fato de que ele agora estava bloqueando o pior do vento.
— Tudo bem. Se imagine explorando a corda, sinta-a viva.
Eu tinha a sensação de que Seth estava gostando disto um pouco demais, considerando como ele estava pressionado contra mim.
— Alex?
— Sim, eu sinto a corda. — Eu realmente a senti abrindo, deslizando pelas minhas veias.
— Ótimo. A corda não é apenas sobre nós, — Ele disse suavemente. — É akasha, o quinto e último elemento. Você deve sentir o akasha agora. Toque nele. Imagine o que você quer em sua mente.
Eu queria tacos8, mas duvidava que o akasha pudesse servir-me alguns Tacos Bell. Deuses, eu faria algumas coisas terríveis por Tacos Bell agora mesmo.
— Alex, você está prestando atenção?
— É claro. — Sorri.
— Então faça isso. Faça a rocha explodir.
Seth fez parecer tão fácil. Como se uma criança pudesse fazer isso. Eu queria dar uma cotovelada em seu estômago, mas imaginei a rocha e então imaginei a corda indo até ela, saindo da minha mão. Eu fiz isso uma e outra vez.
Nada aconteceu.
Abri os olhos. — Desculpe, isso não está funcionando.
Seth se afastou, afastando as mechas mais curtas de seu cabelo que caíram do rabo de cavalo para atrás da orelha. Ele colocou as mãos nos quadris e me encarou.
— O quê? — Outra rajada de vento cortante me obrigou a mexer para ficar quente. — Eu não sei o que você quer que eu faça. Estou com frio. Estou com fome. E eu vi que Férias Frustradas de Natal está na TV por algum motivo estranho e devo vê-lo, uma vez que você tomou todo o meu tempo enquanto estava dando na TV durante o Natal.
                                                         
 8 Comida mexicana.
 
Suas sobrancelhas levantaram. — Assistir o quê? 
— Oh, meus deuses! Você não sabe das dificuldades e tribulações da família Griswold?
— Hein?
— Uau. Isso é um pouco triste, Seth.
Ele acenou com a mão. — Isso não importa. Algo deve acionar sua capacidade de fazer o akasha. Se apenas... — Um olhar pensativo rastejou sobre sua expressão e, em seguida, juntou as mãos. — A primeira vez que você fez isso, você estava chateada. E então, quando você passou fez toda a coisa de ninja louca com as fúrias, você estava zangada e com medo. Você tem que ser encurralada
— Oh, não, não, não. — Comecei a entender, — Eu sei onde você está indo com isso e eu não vou fazer isso com você. E falo sério, Seth. Você não...
Seth levantou a mão e o elemento ar bateu no meu peito, jogando-me de costas. Combater o uso dos elementos era algo que eu tinha ficado um pouco melhor. Eu reuni meu poder e senti a corda ficando tensa. Eu me dobrei, rompendo o que parecia a força de ventos de furacão. Erguendo a cabeça, o meu cabelo foi completamente soprado para trás.
Eu ia mutilar o Seth.
Então ele estava em cima de mim, usando seu peso para forçar-me de volta contra a grama. Pequenas pedras escavando nas minhas costas enquanto eu contorcia sob ele. — Saia, Seth!
— Me faça sair. — Disse ele, abaixando o rosto para o meu.
Eu subi meus quadris, envolvi minhas pernas em volta da sua cintura e rolei. Por um segundo, eu tinha a vantagem e queria envolver meus dedos gelados ao redor de seu pescoço e sufocar a porcaria da vida fora dele. Eu não gosto de ser presa ou da sensação de desamparo que se seguia. E Seth sabia disso.
— Não assim. — Seth resmungou. Ele agarrou meus ombros, lançando-me em minhas costas. — Use o akasha.
Nós lutamos, rolando por entre os arbustos de pequeno porte. Ele estava ficando mais frustrado cada vez que me dominava contra o chão, e eu estava me sentindo assassina.
Raiva, doce e inebriante, correu através de mim, torcendo ao redor da corda. Eu a senti construir. Minha pele estava formigando. As marcas da Apollyon queimavam e pulsavam.
Os lábios de Seth se curvaram. — É isso. Faça-o.
Eu gritei.
E então, Leon estava acima de nós, agarrando Seth pela nuca de seu pescoço e jogando-o vários metros para trás. Ele torceu no ar como um gato, caindo agachado. As marcas do Apollyon vieram de uma vez, obscurecendo através de sua pele em velocidade vertiginosa. Ele se concentrou em Leon. Havia algo mortal em seus olhos, o mesmo olhar que ele tinha dado ao Mestre depois que ele me bateu. Pensei em Jackson.
Eu pulei para os meus pés, correndo para Seth. — Não! Não, Seth!
— Você realmente não deveria ter feito isso. — Seth avançou, suas intenções claras.
Leon arqueou uma sobrancelha. — Você quer tentar isso, menino?
— Você quer morrer?
— Parem com isso. — Eu assobiei, contorcendo-me entre eles. Olhei por cima do ombro, para Leon. O Sentinela puro-sangue nem sequer parecia preocupado. Ele era louco. — Leon, nós estávamos treinando.
— Isso não é o que parecia para mim.
Sobre o ombro largo de Seth, eu vi vários guardas e Aiden vindo em nossa direção. Eu esperava que eles apanhassem o seu ritmo e chegassem aqui antes que um desses idiotas fizesse algo estúpido.
— Leon, ele não estava me machucando. — Tentei novamente.
— O que você acha que vai fazer? — Seth exigiu. — Comigo? 
Ele olhou para Seth. — Você realmente acha que pode me vencer, não é?
— Eu não acho. — Akasha, brilhante e bonito, cercou sua mão direita. O ar crepitava em torno da esfera. — Eu sei.
Isto era insano. Eu agarrei o braço de Seth e um ímpeto de raiva me bateu. Eu queria atacar Leon, precisava mostrar a ele que ele estava brincando com a pessoa errada, que eu era melhor que ele. Ele não ousaria me tocar novamente. Eu ia mostrar-lhe.
— Vamos ver isso. — disse Leon, com a voz baixa.
— Hey! — Gritou Aiden, — Já chega! 
Seth e Leon se moveram ao mesmo tempo, ambos batendo-me de lado. A combinação de seus braços atacando e batendo-me, me mandou voando para trás. Eu bati na pedra que estava tentando explodir, caindo por cima. Me virando para que eu não atingisse o rosto no pântano primeiro, eu caí de mãos e joelhos. Lama gelada encheu meus jeans e salpicou meu rosto.
Atordoada, mais pela pura raiva que qualquer outra coisa, eu levantei a cabeça e olhei entre meus cabelos. O que diabos tinha acontecido? Todo a coisa de me empurrar tinha sido um acidente, mas a violência que eu senti não tinha sido minha.
Tinha sido Seth. Não era como aqueles momentos que eu tinha essas ondas de calor. Esta tinha sido diferente. Eu senti o que ele sentiu, queria o que ele queria.
Tinha acontecido antes? Acho que não. Minhas mãos tremeram.
Os guardas chegaram a Leon. Eu não tinha certeza se eles estavam tentando proteger Leon ou Seth. Aiden, no entanto, foi logo atrás do Apollyon, como eu deveria ter sabido que iria no momento em que o vi correndo através do terreno com areia.
Eu tinha certeza que Aiden sabia que o que tinha acontecido tinha sido um acidente, mas parecia que ele queria bater nos dois rapazes. Pelos sons de sua discussão e eles empurrando um ao outro, Leon culpava Seth. Seth culpava todo mundo, menos a si mesmo. A Guarda parecia cada vez mais preocupada.
Cambaleando para fora do pântano, eu fui em direção a eles, ao mesmo tempo que Seth tentou contornar Aiden.
Com os olhos piscando, Aiden agarrou-o pelo colarinho da camisa e empurrou-o para trás vários metros. Era como se ele nem sequer notasse o mais forte e mortífero elemento conhecido dos deuses, a centímetros de seu corpo - ou como se ele não se importasse.
— Isso é o suficiente. — disse Aiden, empurrando Seth enquanto o soltava. — Cai fora.
— Você realmente quer se envolver nisso? — Seth perguntou. — Agora?
— Mais do que você poderia imaginar.
Akasha fracassou e Seth empurrou Aiden. — Ah, acho que imagino. E você sabe o quê, é algo que eu penso... toda a vez. Você entende o que eu estou dizendo?
— Isso é o melhor que você tem, Seth? — Aiden foi de igual para igual com o Apollyon. E, de repente, eu sabia que isso não era apenas sobre o que tinha acontecido. Era algo mais. — Porque eu acho que você e eu sabemos a verdade sobre isso. 
Oh, queridos deuses, isso estava se transformando em uma luta de meninos.
Seth se moveu tão rápido que era difícil vê-lo. Um braço inclinado para trás, com o objetivo certo para a mandíbula de Aiden. Reagindo igualmente rápido, Aiden agarrou o braço de Seth e jogou-o de volta.
— Tente outra vez, e eu não vou parar. — Avisou Aiden.
Um segundo depois eles estavam colidindo um contra o outro. Ambos bateram no chão, rolando e dando socos – um borrão de roupa negra quando cada um ganhava e perdia o controle. Comecei a andar para frente, mas parei. Eles não estavam sequer lutando como Sentinelas. Não havia nada de gracioso em seus golpes ou bloqueios. Eles brigavam como dois idiotas cheios de testosterona, e eu tive a maior vontade de andar até lá e chutá-los duro na cabeça.
Joguei minhas mãos para cima. — Você tem que estar brincando comigo.
Os guardas e Leon dispararam para frente, agarrando os dois rapazes. Levou várias tentativas para tirar Aiden fora de Seth. Um corte marcava sua bochecha direita. Com sangue. Havia um corte no lábio de Seth.
— Já acabou? — exigiu Leon, forçando Aiden a recuar alguns passos. — Aiden, você precisa parar. 
Aiden passou as costas da mão sobre o rosto quando afastava a mão de Leon. — Sim, eu acabei. 
Os guardas estavam dizendo a mesma coisa para Seth, mas quando eles o soltaram, Seth cambaleou em torno deles. — Você acha que eu estou com medo de que você vai me entregar por lutar? Qualquer um de vocês? Eles não podem me tocar! Eu sou...
— Pare com isso! — Gritei. — Apenas pare! — Seth congelou, e vários conjuntos de olhos centraram em mim. — Deuses! Nós estávamos treinando. Não há nenhuma razão para matar uns aos outros sobre isso. — Olhei para Aiden, — Não há razão para fazer nada disso. Apenas parem. 
Tensão ainda amadurecia o ar, mas Seth se afastou e cuspiu a boca cheia de sangue. Enquanto ajeitava a camisa, as marcas começaram a desaparecer. — Como eu estava dizendo, mas, aparentemente, todos vocês são muito burros para entender, nós estávamos...
— Cale-se, Seth. — Apertei minhas mãos. 
Suas sobrancelhas se levantaram.
Aiden ainda parecia furioso. Seus olhos eram como piscinas de prata, consumindo seu rosto inteiro.
— Está feito e acabado, certo? — Eu disse, principalmente para ele. — Eu estou bem. Ninguém está morto. E se vocês três quiserem continuar tentando matar o outro, eu vou tomar um banho, porque agora estou cheirando como uma bunda que não é lavada há 10 dias. 
Os lábios de Leon tremeram como se quisesse sorrir, mas com o olhar que eu joguei em sua direção, sua expressão voltou à estoica com que eu estava familiarizada.
Fui ao redor deles, tremendo. Sincelos9 estavam se formando no meu jeans.
Seth virou. — Alex...
— Não. — Parei. Não havia nenhuma maneira que ele ia voltar comigo. Eu precisava ficar longe dele, colocar alguma distância entre sua raiva e eu antes de começar a dar socos. Eu precisava descobrir o que aconteceu lá atrás, por que eu senti o que Seth queria tão fortemente.
— Alex! — Seth chamou. — Qual é.
— Deixe-me em paz agora. — Comecei a andar novamente, — Já chega disso por hoje. E falo sério. Chega.
 
 
 
                                                         
 9 Sincelos são gotas de água congeladas, tornando-se uma espécie de cristal. A temperatura é cerca de -2 a -8°C.
 
Seth sabia melhor do que procurar pela minha companhia na noite de sábado. Eu estava grata por isso, porque não queria ver seu rosto. No entanto, abri a porta na noite de domingo, quando ele realmente bateu. Foi assim que eu soube que ele estava se sentindo arrependido. Seth nunca batia.
Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos de sua calça cargo escura. O lado direito de seu lábio estava inchado. 
— Hey. — Ele disse, olhando por cima da minha cabeça.
— Hey.
Ele mudou de um pé para o outro. — Alex, eu... sinto muito sobre ontem. Eu não...
— Pare. — Eu o interrompi, — Eu sei que você estava apenas tentando me fazer usar o akasha e você não quis me derrubar, mas vocês estavam loucos. Não de um jeito bom, Seth.
Um olhar tímido atravessou seu rosto. — Eu sei, mas Aiden me chateou...
— Seth.
— Tudo bem. Você está certa. Está feito. E eu não quero discutir com você. Estou me preparando para partir. — Ele olhou para mim então, — Pensei que seria legal se você andasse comigo até a ponte.
— Só me deixe pegar algo para vestir.
 Eu precisava falar com ele, de qualquer maneira. Depois que peguei um casaco com capuz, nós andamos para fora do dormitório em silêncio. O campus estava escuro, apenas as sombras dos guardas patrulhando se moviam. Quando eu soltei a minha respiração, formaram-se pequenas nuvens no ar.
— Eu senti a sua raiva ontem.
— Tenho certeza de que qualquer um, dentro de um raio de 10 quilômetros, sentiu a minha raiva ontem.
— Isso não é o que eu quis dizer. — Nós seguimos o caminho de mármore em torno dos dormitórios, indo em direção à ponte pelo prédio principal do Covenant, — Eu realmente senti. Eu queria bater a merda fora de Leon. Era como... como se fosse a minha raiva.
Seth não respondeu enquanto olhava para a frente, os olhos apertados.
— A raiva foi embora logo quando eu não estava tocando em você, mas foi muito estranho. — Parei de andar quando a ponte ficou a vista. 
Um Hummer preto estava sendo carregado com bagagem. O vapor do tubo de escape enchia o ar e vários Guardas do Conselho estavam em posição.
— Você não tem nada a dizer sobre isso?
Ele olhou para mim. — Você estava tão perto de alcançar o akasha, Alex. Se Leon não tivesse interferido, isso teria acontecido.
Como se isso fosse a coisa mais importante que me aconteceu. 
— Seth, você ouviu uma palavra do que eu disse?
— Ouvi, e eu não sei por que você sentiu minha raiva tão claramente. — Ele tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços. — Talvez tenha sido por que você estava alcançando o akasha. O que a deixou mais em sincronia com o que eu estava sentindo.
O que eu tinha sentido não parecia incomodar ou realmente surpreender Seth. Mas, para mim, era um negócio muito grande.
 — Quando eu despertar, eu irei sentir e querer o que você quiser. Você não entende o que estou dizendo? Eu já quis o que você quis.
— Alex. — Ele deixou cair as mãos sobre os meus ombros e me puxou contra seu peito. — Você não está Despertando. Pare de se preocupar.
Eu fiz uma careta e me afastei. Ele me deixou ir. 
— Mas está realmente começando a acontecer, não é? Com as marcas e agora isso? E eu estou a apenas um mês de distância.
— Não é algo tão...
— Alexandria, eu estou tão feliz que você veio se despedir de Seth. — Disse Lucian.
 Eu me virei e fui imediatamente envolvida em um fraco abraço. O cheiro de incenso e cravo me sufocaram.
 — Eu queria que fosse seguro traze-la. Aliviaria minhas preocupações ter você ao lado de Seth.
Meus braços ficaram presos ao meu lado desajeitadamente. Ugh. Eu odiava quando Lucian fazia isso.
Ele bateu nas minhas costas e se afastou, dirigindo-se a Seth. — Quantos guardas você acha que devemos trazer?
Lucian estava pedindo a opinião de Seth? O quê. Diabos. Eu me virei para Seth em descrença.
Seth ficou mais reto. — Pelo menos cinco, o que deixaria quatro atrás para ajudar a manter a guarda em caso de algo surgir aqui.
— Ótimo. Você tem um olho para liderança, Seth. — Lucian bateu em seu ombro, — Se tivéssemos mais Sentinelas como você, nós não teríamos um problema tão sério com daimons. — Ele fez uma pausa, sorrindo. — Se tivéssemos mais homens como você no Conselho, então o nosso mundo seria muito melhor.
Eu queria vomitar. Não havia maneira de que Seth caísse nesse nível épico de bajulação. A maneira como Lucian balbuciava e dava aquele sorrisinho afetado era tão óbvia. Era evidente, mas pelos deuses, Seth parecia como se tivessem acabado de oferecer a ele um milhão de dólares e tivessem dito que ele poderia gastar tudo em meninas e em bebidas.
— Eu tenho que concordar. — O sorriso presunçoso de Seth se espalhou.
Eu queria sacudir Seth. E estava seriamente considerando isso.
Lucian me encarou. — Você, minha querida, é sortuda em mais formas do que a maioria dos mestiços. Sendo abençoada como a Apollyon e tendo esse excelente rapaz como sua outra metade.
Eu franzi o rosto.
Ao meu lado, Seth ficou imóvel.
— Vou deixar vocês se despedirem. Nós estaremos partindo em alguns minutos, Seth.
Eu encarei a silhueta de Lucian enquanto ele se afastava. As vestes brancas fluíram, nunca se arrastando pelo chão. Eu pensei sobre como ele encarou o trono do ministro Telly enquanto eu dava o meu testemunho em Catskills.
Ninguém amava mais o poder do que Lucian.
— Você sabe... — Seth falou arrastando as palavras, — Você não precisa parecer tão chocada com o que Lucian disse. Podia ser pior.
Eu ri. — Você está falando sério?
Seth fez uma carranca. — Acontece que eu acho que sou um partido muito bom.
— Acontece que você acha que é a melhor coisa que alguma vez já respirou, mas não é sobre isso que eu estou falando. Ele estava puxando o seu saco, Seth. Ele está tramando algo.
— Ele não estava puxando saco. — Ele cruzou os braços novamente, — Acontece que Lucian parece pensar que eu sei o que estou falando. Ele também parece apreciar o que eu tenho a dizer.
— Você tem que estar brincando comigo. — Tentei não rolar meus olhos.
— O que é tão difícil de você acreditar? — Desgosto irradiava de sua voz e da sua postura, — Deixe-me lhe fazer uma pergunta, Alex. Se fosse Lucian ou seu tio dizendo coisas boas sobre Aiden, você acharia isso tão difícil de engolir?
— O que diabos isso supostamente quer dizer? E de onde veio isso? Aiden é um Sentinela. Sua capacidade em tomar decisões ou liderar é...
— O que você pensa que eu sou? — Seth inclinou a cabeça para frente, as sobrancelhas abaixadas, — Uma piada em vez de um Sentinela?
Caramba. Eu vi meu erro, — Isso não é o que eu quis dizer. Você é um Sentinela. Um muito bom, mas por favor me diga que você não confia nele. — Agarrei o seu antebraço e apertei, — Era só isso que eu queria dizer.
— Eu confio em Lucian, e você devia também. Diferente de todos ao seu redor, ele é o único que está tentando deixar nosso mundo diferente.
— O quê?
— Seth? — Lucian chamou. — Está na hora.
— Espera. — Segurei seu braço, — O que você quer dizer?
Agitação passou por ele enquanto me encarava atentamente. — Eu tenho que ir. Por favor, tenha cuidado, e lembre-se do que eu disse na outra noite. Nem sequer pense sobre encontrar uma forma de ir para Nova York.
Encarei-o.
Um pouco de um sorriso apareceu. Ele começou a se afastar, mas parou. — Alex?
— O quê?
Sua boca se abriu enquanto ele passava a mão sobre sua cabeça. 
— Só tenha cuidado, ok? — Quando eu assenti, ele enfiou a mão no bolso e tirou algo pequeno e fino. — Eu quase me esqueci. Peguei isto para que pudéssemos conversar enquanto eu estiver fora. 
Eu peguei o celular. Não era uma das versões baratas, e eu esperava que tivesse um monte de jogos pré-carregados nele. — Obrigada.
Seth assentiu. — Meu número está programado. Eu tenho o seu.
Não havia mais nada a dizer. Quando Seth alcançou o Hummer, Lucian bateu-lhe nas costas de novo.
Leon repentinamente apareceu do meu lado, minha escolta para a volta ao dormitório, eu percebi.
Seth subiu no Hummer, saindo para embarcar em um jato particular no aeroporto do continente. Ele olhou para mim quando o veículo começou a se mover.
Forcei um sorriso antes de Leon me guiar para longe da ponte, mas sob as lâmpadas, eu vi o breve olhar de decepção no rosto de Seth.
E o sorriso satisfeito que estava no de Lucian.
Era estranho sem Seth. A nossa ligação se acalmou, e eu tinha certeza de que se um deus aparecesse na minha frente, Seth não teria sentido um lampejo de surpresa.
Havia apenas um dia desde que ele partiu, mas eu já me sentia... normal. Como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros.
E isso era estranho, porque minha mochila estava ridiculamente pesada com o livro de Mitos e Lendas.
Estava carregando ele por aí, esperando encurralar Aiden quando ele assumisse as funções de babá. Agora Leon estava se arrastando atrás de mim, a uma distância não tão discreta.
Eu parei no meio do caminho pelo jardim e me virei. — Você não está com frio?
Leon olhou para a camisa de manga curta que ele usava. — Não. Por quê?
— Porque está congelando. — E estava. Eu usava uma camisa básica, uma térmica de manga comprida, e um suéter, e ainda estava com frio.
Leon parou ao meu lado. — Então, por que você está do lado de fora, se está com tanto frio?
— Infelizmente, vir para o lado de fora é o único método de ir para outras partes do Campus, ao menos que você saiba de algo que não sei.
— Você poderia apenas nos fazer um favor e ficar em seu dormitório. — Ele sugeriu.
Tremendo, abracei meus cotovelos. — Você tem alguma ideia de como é bom ser capaz de fazer algo diferente de treinar ou de ficar no meu quarto?
— Ou passar um tempo com Seth?
Eu olhei para ele de perto, tentando não sorrir. — Isso foi uma piada? Oh, meus deuses. Foi.
Sua expressão permaneceu impassível. — Não há nada sobre esse garoto que seja matéria de piada.
— Tudo bem. — Me virei e comecei a andar. Dessa vez Leon andou ao meu lado. — Você realmente não gosta de Seth, não é?
— Isso é tão obvio?
Olhei para ele. — Não. Nem um pouco.
— E você? — Ele perguntou enquanto nós dobrávamos a esquina do centro de treinamento. O vento do oceano estava estranhamente bruto. — Eu ouvi rumores de que... dois Apollyons compartilham um vínculo poderoso. Deve ser difícil saber como você realmente se sente sobre alguém, se esse é o caso.
Agora, isso foi estranho. De maneira alguma eu iria discutir meus problemas de relacionamento com Leon, de todas as pessoas.
Ele suspirou profundamente enquanto encarava uma estátua de Apolo e Daphne, um olhar distante no rosto. — Emoções que são forçadas sempre terminam em tragédia. 
Isso foi profundo. Outra rajada de vento gelado cortou através de mim. O olhar no rosto de Daphne era trágico. 
— Você acha que Daphne sabia que a única maneira para que pudesse escapar de Apollo seria morrendo?
Ele não respondeu imediatamente, e quando ele fez, sua voz estava grossa. — Daphne não morreu, Alex. Ela ainda permanece como ela estava no dia...  em que se perdeu. Uma árvore de louros.
— Cara, isso é uma droga. Apollo era uma aberração.
— Apollo foi atingido por uma seta de amor e Daphne foi atingida por uma de chumbo. — Ele olhou para baixo enquanto gesticulava para a estátua, — Como eu disse, o amor que não é de natureza orgânica é perigoso e trágico.
Colocando meu cabelo para trás, olhei para a estátua novamente. — Bem, espero que eu não tenha que me transformar em uma árvore.
— Então preste atenção no que é necessidade e no que é desejado.
— O quê? — Olhei para ele bruscamente, apertando os olhos. O sol começou a se pôr, lançando uma auréola dourada e estranha sobre ele. — O que você acabou de dizer? 
Ele deu de ombros. — Sua outra babá está aqui.
Distraída, eu me virei. Aiden estava andando até nós. Eu mataria para vê-lo novamente em jeans. Estremeci. Ok, talvez não matar, mas perto. Eu me virei de volta. Leon tinha ido.
— Droga, — Murmurei, fazendo uma varredura nas sombras crescentes em toda a praia e jardim.
— O quê? — Aiden perguntou.
Meu peito vibrou como sempre quando eu olhava para ele. Havia uma leve contusão ao longo de sua mandíbula de sua briga com Seth. 
 — Eu estava falando com Leon e ele subitamente desapareceu.
Aiden sorriu. — Ele tem o hábito de fazer isso.
— É apenas que ele falou algo… — Sacudi minha cabeça, — Isso não importa. Você é minha babá agora?
— Até você decidir que vai ficar lá dentro durante a noite. — Respondeu-me,
— Onde você vai?
— Eu estava indo para o centro de recreação, mas tenho algo que quero te mostrar. — Toquei no fundo da bolsa, — Você está pronto para isso?
Suas sobrancelhas se levantaram. — Eu deveria estar preocupado com o que está na sua bolsa?
Eu sorri. — Talvez.
— Bem, o que é a vida sem correr riscos? Será que precisamos de privacidade?
— Provavelmente.
— Eu sei exatamente o lugar. — Ele enfiou as mãos nos bolsos de suas calças cargo. — Siga-me.
Segurando a alça da minha bolsa, eu me forcei a acalmar. Eu não estava falando com ele só para poder cobiçar ou paquerá-lo. Ou fazer qualquer coisa que eu não devia fazer. Eu tinha um propósito para isso, então não havia razão para o meu coração estar correndo tão rápido como ele estava.
Nenhuma razão.
Aiden me cutucou com o cotovelo depois de alguns momentos de caminhar em silêncio. — Você está diferente.
— Estou?
— Sim, você parece como… — Ele ficou quieto. Quando falou de novo, o oceano estava num vermelho dourado enquanto o sol lentamente desaparecia no horizonte. — Você apenas parece mais relaxada.
— Bom, eu tenho algum tempo para mim mesma. Isso é relaxante. — Me perguntei se eu parecia diferente. Não parecia, quando me arrumei hoje de manhã.
A única coisa que realmente percebi de diferente, era que as marcas não tinham queimado nem formigado desde que Seth partiu.
— Ah, eu quase esqueci. Sua carta foi enviada para Nova York, à frente da equipe que acabou de ir lá... Laadan deve ter recebido ontem ou hoje.
— Sério? Espero que meu pai... não seja um dos que estão faltando.
— Como você sabe sobre isso? — Seus olhos se estreitaram, — Não importa. Seth?
— Ele me disse que alguns dos servos estavam sumidos e que o elixir não estava funcionando.
Um olhar perturbado escureceu seus olhos. — O que mais ele disse?
— Não muito.
Aiden assentiu secamente. — Claro que não. Alguns dos mestiços não estão respondendo ao elixir. Tem havido erupções de combates entre os servos; eles estão recusando as ordens dos senhores e desaparecendo. O Conselho teme que haja uma rebelião, e o Covenant de Nova York tem estado enfraquecido desde o ataque. E ninguém sabe exatamente como ou por que o elixir parou de funcionar.
Eu pensei no meu pai. Ele era um dos que tinham desaparecido, ou ele estava lutando de volta? Eu sabia que ele tinha de ser um dos que o elixir havia parado de funcionar. — Eu deveria estar lá.
— Você deveria estar em qualquer lugar, menos lá.
— Agora você soa como Seth.
Seus olhos se estreitaram. — Pela primeira vez, eu tenho que concordar com
ele.
— Isso é chocante. — Meu olhar caiu sobre o prédio principal da academia, e eu soube imediatamente para onde estávamos indo. — Você está me levando para a biblioteca.
O sorriso voltou. — É privado. Ninguém está lá neste momento, e se alguém vê a gente, você está estudando. 
Eu ri. — E alguém vai acreditar nisso? 
— Coisas mais estranhas do que isso já aconteceram antes. — Ele replicou enquanto íamos a passos largos.
Passamos por dois guardas postados na entrada. Desde o ataque que tirou a vida de Caleb, e logo depois o outro ataque em Catskills, a segurança tem aumentado absurdamente. Voltando atrás no tempo, eu teria reclamado sobre isso, porque me esgueirar por ai ficaria muito mais difícil. Mas agora, depois de tudo, eu estava aliviada ao ver os números aumentarem.
O ar quentinho nos saudou enquanto entrávamos. Silenciosamente, eu segui Aiden pelo corredor em direção à biblioteca. Vários instrutores ainda estavam em seus escritórios, e passamos por alguns alunos que saiam.
Aiden adiantou-se e abriu a porta para a biblioteca, sempre cavalheiro. Sorrindo em agradecimento, eu entrei e fiquei completamente paralisada.
Luke e Deacon estavam emergindo de uma das altas estantes, ombro a ombro. Quando eles nos viram, eu poderia jurar que pularam pelo menos três metros.
— Deacon? — Aiden soou chocado. — Você está na biblioteca?
— Sim. — Deacon afastou uma mecha de seus cachos da sua testa, — Nós estávamos estudando trigonometria.
Nenhum deles tinha um único livro em suas mãos. Eu olhei para Luke em expectativa. Ele olhou para longe, mas seus lábios se contraíram.
Os olhos de Aiden se arregalaram, — Uau. Eu estou meio que orgulhoso de você. Estudando?
Eu apertei a minha boca fechada.
— Virando a página e tal10. — Deacon esbarrou em seu irmão mais velho. — Levando a minha educação a sério.
Minha língua estava, literalmente, queimando para dizer alguma coisa.
Aiden assentiu para Luke. — Mantenha-o fora de problemas, Luke.
Oh, caramba. Pela forma que Deacon se balançava para frente e para trás em seus pés e do tamanho do sorriso forçado de Luke, eu percebi que Aiden não tinha a mínima ideia de que tipo de ‘problema’ esse dois estavam provavelmente se metendo. 
Relacionamento de pessoas do mesmo sexo no nosso mundo não tinha sequer um lugar na lista de coisas tabu. Para além do fato de que Deacon era um puro e Luke um meio-sangue.
E de todos os mestiços no mundo, eu sabia o quão estúpido e perigoso era o que seja que estavam fazendo. Lancei um olhar para Aiden.
Ele pegou meus olhos e sorriu. Minha barriga se revirou. Estúpido e perigoso, mas isso não mudava como eu me sentia.
                                                         
 10 No sentido de começar uma nova fase de sua vida.
 
Eu ainda estava lutando para manter minha boca fechada quando Aiden encontrou uma sala de estudo vazia no fundo da biblioteca, em algum lugar perto da seção de livros-que-eu-nunca-leria e a seção de livros-que-eununca-ouvi-falar. Ele deixou a porta semi-aberta, o que me aliviou e desapontou no mesmo fôlego.
Sentando-me, deixei minha bolsa na mesa. — É muito legal que Deacon esteja estudando e tudo.
Aiden tomou o assento ao meu lado, virando para que seu joelho pressionasse contra o meu e ele estivesse de frente para mim. — Posso fazer uma pergunta?
— Claro. — Retirei o livro enorme e coloquei-o entre nós.
— Eu pareço idiota?
Minha mão congelou sobre a borda do livro. — Uh, isso é uma pegadinha?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Não. Você não parece idiota. 
— Também acho. — Ele estendeu a mão, tirando o livro de mim. Sua mão roçou a minha quando ele o fez, enviando calafrios pelos meus dedos. — Eles estavam fazendo a mesma quantidade de estudo que estamos fazendo. 
Eu não tinha certeza de como proceder com isso. Então, eu não disse nada.
Aiden olhou para o livro, suas sobrancelhas abaixando. — Eu sei o que meu irmão está fazendo, Alex. E você sabe o quê? Isso me irrita.
— É mesmo?
— Sim. — Ele olhou para cima, encontrando meu olhar. — Eu não posso acreditar que ele acha que eu me importaria se ele gostasse de caras ou algo assim. Eu sempre soube que ele é assim.
— Eu não.
— Deacon é bom em esconder isso. O que estou olhando? — Perguntou. Estendi a mão e abri o livro na seção sobre a Ordem de Thanatos. Compreensão surgiu em seu rosto. Ele virou um par de páginas antes de voltar para o início da seção, — Ele sempre fingia estar interessado em meninas, e talvez também esteja. Mas nunca me enganou. 
— Ele me enganou. — Eu assisti um cacho ondulado de cabelo cair sobre a testa de Aiden. Um desejo insano de escová-lo de volta me bateu. — Então, ele nunca disse nada sobre isso?
Aiden bufou. — Não. Eu acho que ele acredita que eu ficaria chateado ou algo assim. E confie em mim, eu queria dizer a ele que não me importo, mas acho que o deixaria desconfortável. Você sabe, falar sobre isso. Então, eu só finjo que não vejo isso. Acho que ele vai falar comigo sobre isso, eventualmente.
— Ele vai. — Mordi o lábio, — Mas... é Luke.
Um músculo apareceu em sua mandíbula. — Eu não gosto do fato de que ele pode estar... envolvido com um mestiço, mas eu acredito que ele não vai fazer nada... — Ele parou, rindo. — Sim, bem, eu não sou a pessoa para dar uma palestra sobre todo negócio de puro e mestiço.
Um rubor se apoderou de mim. Aiden olhou para cima, e nossos olhos se encontraram. Ele abriu a boca, mas fechou-a rapidamente. Ele se voltou para o livro, limpando a garganta. — Então, a Ordem de Thanatos? Não é um material de leitura exatamente divertido.
Encontrando um terreno seguro, eu assenti. — Telly tinha este símbolo tatuado em seu braço. — Apontei para a tocha, cuidando para não tocá-la. — E também Romvi, que, por sinal, ainda me odeia, caso você esteja se perguntando. E lembrei-me que na seção que falava sobre o Apollyon, mencionou que Thanatos matou Solaris e o Primeiro. Talvez este negócio de Ordem ainda esteja em curso e têm algo a ver com o que... o que aconteceu em Catskills.
A sua mão ao lado do livro enrolou em um punho, mas Aiden não olhou para cima. — Até onde eu sei a Ordem não existe mais, mas nunca se sabe.
— Talvez isso possa nos dizer algo? Mas eu não posso lê-lo.
Ele sorriu brevemente. — Dê-me alguns minutos. Ler isso não é exatamente fácil.
— Tudo bem. — Além da fresta na porta, a biblioteca estava escura e silenciosa. Não havia nenhuma maneira que eu iria lá fora. Peguei um caderno e caneta. — Eu vou... fingir que estudo ou algo assim.
Aiden riu. — Faça isso.
Eu sorri quando comecei a rabiscar em uma página de papel em branco do caderno. Foi difícil, porque seu joelho ainda estava tocando o meu, e pode ter sido minha imaginação, mas parecia estar ficando mais perto. Sua perna inteira estava contra a minha.
Enquanto Aiden lia, esbocei uma versão muito ruim do Apollo e da estátua de Daphne. Várias vezes, Aiden olhou e fez comentários sobre o desenho. Ele se ofereceu para pagar por aulas de arte em um ponto. Eu dei um soco no seu braço por isso.
Desistindo de minha obra-prima, eu verifiquei para ver em que página ele estava. Enquanto eu olhava para o símbolo em cada página, senti um aperto na garganta. Em vez de pensar em Telly ou Romvi, pensei no puro eu tinha matado em Catskills. Inclinando-me para trás na cadeira, esfreguei as mãos sobre as coxas. A sensação de empurrar uma lâmina em um puro era muito diferente de empurrar em um daimon, mesmo daimon mestiço.
Havia sempre escolhas, e mais uma vez, eu tomei a decisão errada. Na verdade, eu tinha feito uma série de más decisões ao longo de um curto período de tempo, mas essa foi a pior de todas. Eu poderia ter desarmado o Guarda purosangue. Eu poderia ter feito algo diferente do que eu tinha feito. Eu tinha matado ele e ainda nem sequer sabia seu nome.
— Hey. — Aiden disse suavemente. — Você está bem?
— Sim. — Levantei a cabeça, forçando um sorriso, — Encontrou alguma coisa?
Ele estava me observando atentamente. Eu podia sentir isso, mesmo depois de voltar a olhar para as minhas mãos. — Somente o porque da ordem ter sido criada. — disse ele. — Parece que eles foram criados por nós, os puros-sangues, como uma organização para manter os costumes antigos vivos e para proteger os deuses. E parece que até mesmo alguns mestiços escolhidos foram iniciados na Ordem.
— Ótimo. — Alisei minhas mãos sobre a mesa, — Os deuses precisam de proteção?
— Não parece ser como você pensa, mas mais como proteger sua própria existência dos mortais e aqueles que poderiam ser uma ameaça para os deuses. — Aiden virou-se para o livro, passando vários capítulos à frente, — Aqui diz que os membros estão marcados, o que explicaria a tatuagem se eles pertencem à Ordem. Mas há algo mais.
— O quê? — Olhei para ele, — O que é?
Ele respirou fundo e virou o livro para mim. — Nós todos lemos errado. Compreensível, pela forma como está formulado. Olhe para isto. 
Aiden estava apontando para a seção sobre o Apollyon. — 'A reação dos deuses, nomeadamente da ordem de Thanatos, foi rápida e justa. Ambos Apollyons foram executados sem julgamento’. 
Sentei-me, compreensão me atingindo. — Não foi Thanatos que os matou, mas sim a ordem de Thanatos.
Aiden assentiu enquanto ele se voltou para a seção da Ordem. — Isso é o que parece.
— Mas como? Solaris e o Primeiro estavam totalmente Despertos. Pela maneira como Seth fala, uma vez que isso acontecer nós nos tornaremos indestrutíveis.
Ele balançou a cabeça. — A Ordem é muito mística ou pelo menos, é assim que se lê nesta seção. — Ele bateu com o dedo em algo que parecia nada para mim, — Diz aqui que a Ordem é como ‘os olhos e a mão de Thanatos’. Há algo aqui sobre a Ordem ter sido presenteada com adagas com sangue de Titãs.
— Adagas mergulhadas no sangue dos Titãs? Tipo, literalmente? Os Apollyons, de alguma forma, são alérgicos ao sangue Titã? — Balancei a cabeça, — O que eu não entendo é, se os deuses e os Apollyons podem ambos usar o akasha, então por que os deuses – Thanatos - precisam de mais alguém para matar o Apollyon? Eles poderiam usar apenas o akasha.
— Eu não sei. — Disse ele, olhando para mim. Seus olhos estavam cinza metal cor de arma, — E tenho dificuldade em acreditar que Seth não sabe, também. Será que ele não lhe disse que, uma vez que você Acordar, o conhecimento dos Apollyons anteriores vai passar para você?
— Sim, ele disse. Seth teria que saber. — Uma sensação desconfortável arranhou a minha atenção quando eu descansei meu queixo na minha palma. Se Seth sabia tudo o que os anteriores Apollyons sabiam, então não teria um deles, em todos esses anos, descoberto que eles eram um produto de uma união entre um puro e mestiço? E não teria um dos Apollyons que saber sobre a Ordem, especialmente se a vida de Solaris e do Primeiro passaram para Seth durante seu Despertar?
— O que é? — Aiden perguntou calmamente.
Raiva surgiu, cutucando a corda. — Eu não acho que Seth está sendo completamente honesto comigo.
Aiden não respondeu.
Dei uma respiração profunda. — Não entendo por que ele iria mentir sobre isso. Talvez... talvez ele simplesmente nunca tenha somado dois mais dois. — Isso soou falso até mesmo para mim, mas meu cérebro tinha dificuldade em aceitar que Seth poderia estar escondendo algo assim. Por que o faria?
Alguns momentos se passaram antes que Aiden falasse. — Alex, se a Ordem existe hoje, então eles poderiam estar por trás dos ataques nos Catskills. E se eles são os olhos e as mãos de Thanatos, eles consideram você como uma ameaça.
Pensei sobre o que a fúria havia dito antes que ela tentasse arrancar a minha cabeça, que eu era uma ameaça e que não era nada pessoal. Mas tentar me matar era muito pessoal. — Você acha que as fúrias estavam lá por causa do ataque daimon, ou por... mim?
— Elas não reagiram até o ataque daimon.
Esfregando minhas têmporas, eu fechei os olhos. Isso tudo estava me dando uma dor de cabeça. — Há tantas coisas que não entendo... a Ordem, as fúrias, Seth. Por que eles vêm atrás de mim, em vez dele?
Aiden fechou o livro. — Eu preciso dizer a Marcus sobre isso. Se a Ordem ainda está viva e bem, então isso é grave. E se Telly é membro, então temos de ter cuidado.
Assenti, abrindo os olhos. Eu podia sentir seu olhar em mim novamente. —
Ok.
— E eu não quero que você vá para a aula de Romvi mais. — Continuou ele. — Vou falar com Marcus e tenho certeza que ele vai concordar com isso.
— Isso não deve ser difícil. Amanhã é o último dia de aulas antes das férias, então eu vou apenas pular. — Tremi, — Você acha que a coisa de ‘os olhos de Thanatos’ é algo literal? E há punhais realmente mergulhados em sangue de Titã?
— Conhecendo os deuses, eu aposto em um sim. — Houve uma pausa, e Aiden estendeu a mão, capturando meu queixo com as pontas de seus dedos. Ele virou lentamente a minha cabeça na direção dele. — O que você não está me dizendo, Alex?
Uma rajada de calor passou por mim. — Nada. — Sussurrei, e tentei virar a cabeça, mas ele me manteve presa.
— Você sabe que pode me dizer qualquer coisa, certo? E eu sei que há algo que você está escondendo de mim.
O aviso de Seth sobre manter as marcas de Apollyon em silêncio foi dominado pelo desejo de dizer a alguém o que estava acontecendo. E quem melhor para dizer do que Aiden? Ele era a única pessoa no mundo que eu confiava, especialmente considerando o quanto ele arriscou para me manter segura. Seth não ficaria feliz se ele soubesse, mas, novamente, eu não estava particularmente feliz com Seth no momento.
— Está acontecendo. — Eu disse finalmente.
Os olhos de Aiden procuraram os meus. — O que está acontecendo?
— Isto, essa coisa estranha. — Levantei minhas mãos, as palmas para cima. Seu olhar caiu sem soltar meu queixo e quando seus olhos encontraram os meus novamente, eles estavam interrogativos. — Eu comecei a receber as marcas do Apollyon. Você não pode vê-las, mas elas estão aqui, em ambas as palmas das minhas mãos. E há uma no meu estômago.
Ele pareceu surpreso com isso, liberando o meu queixo, mas não se afastando. — Quando isso começou a acontecer?
Olhei para longe. — A primeira aconteceu enquanto nós estávamos no Catskills. Seth e eu estávamos treinando um dia e fiquei com raiva. De alguma forma, eu explodi uma rocha e então a próxima coisa que eu soube é que havia esta corda vindo de Seth e eu tinha uma runa.
— Por que você não me contou?
— Bem, nós realmente não estávamos nos dando bem naquela época, e você estava ocupado. E Seth me pediu para não dizer nada até que soubesse o que estava acontecendo. — Suspirando, eu disse a ele sobre o resto das vezes e como eu tinha visto a minha própria corda. Descontentamento rolou por Aiden no momento em que eu terminei dizendo. — Isso acontece quando estamos nos… tocando às vezes. Seth acha que, se eu conseguir a quarta marca na parte de trás do meu pescoço, então eu vou Despertar. Talvez antes do previsto, e ele está todo entusiasmado com essa perspectiva.
— Alex. — Ele respirou instável.
— Sim, eu sei. Sou uma aberração enorme até para os padrões Apollyon. — Eu ri, — Não quero a quarta marca. Você sabe, eu meio que gostaria de aproveitar o resto dos meus dezessete anos sem ser o Apollyon. Mas Seth está todo: ‘esta seria a melhor coisa do mundo’.
— A melhor coisa para quem? — Ele perguntou, — Você ou Seth?
Eu ri de novo, mas meu humor estranho secou quando lembrei de como eu suspeitava que Seth fazia as coisas das runas de propósito.
— Alex?
— Seth diz que seria melhor para mim, porque eu seria mais forte, mas acho que ele está... acho que ele está ansiando um aumento de poder. Lembra-me de Super Mario Brothers ou algo assim, porque eu posso sentir o akasha saindo de mim... — A minha boca abriu. — Filho da puta. 
— O quê? — Aiden franziu a testa.
Meu estômago revirou. — A segunda vez que eu tive uma marca, eu estive exausta por dias. — Endireitei-me, olhando para Aiden quando percebi finalmente, — Lembra-se da noite que todos se reuniram no escritório de Marcus? Outra runa tinha aparecido pouco antes, e dessa vez foi diferente de qualquer outra. — Senti calor rastejar sobre meu rosto quando eu me lembrei o quanto eu estava gostando da coisa toda, enquanto ela estava acontecendo, — De qualquer forma, eu andei realmente cansada e meio desligada depois durante dias. 
Aiden assentiu. — Eu me lembro. Você estava de muito mau humor.
Minha irritação tinha levado para a sala de privação sensorial... e o sussurro do medo de Aiden. — Bem, você teve mais sorte do que Seth. Eu joguei um sanduiche nele.
Ele estava tentando lutar contra um sorriso, mas seus olhos se iluminaram. — Ele provavelmente merecia.
— Ele fez, mas deuses, é isso que vai acontecer quando eu Despertar? — Arrepios deslizaram como dedos gelados sobre minha pele. — Ele irá me drenar. E acho que ele nem mesmo sabe disso.
Raiva brilhou em seus olhos, desfazendo a suavidade que se tinha reunido. Suas mãos se fecharam em punhos. — Seja o que for que... vocês dois estão fazendo que está causando o aparecimento das runas, você precisa parar.
Eu olhei para ele com suavidade. — Eu já tinha decidido isso, mas isso não vai impedir que aconteça, eventualmente. E você sabe quão realmente confusa a coisa é? Minha mãe me avisou que o Primeiro me esvaziaria. Eu apenas pensei que ela estava sendo uma daimon louca.
Aiden recuperou a pouca distância que eu tinha sido capaz de colocar entre nós. — Eu não vou deixar nada acontecer com você, Alex. Isso vale para Seth, também.
Uau. Meu coração fez uma coisa louca. E ele realmente parecia acreditar que podia. — Aiden, você não pode parar isso. Ninguém pode.
— Nós não podemos parar o Despertar, mas a transferência de poder só acontecerá se você o tocar depois ter 18, certo? Então você não o tocará.
Eu não poderia imaginar Seth concordando com a parte de “não-tocar”, mas ele entenderia, uma vez que ele soubesse o que poderia fazer. — Ele vai entender. — Eu disse, — Vou falar com ele quando ele voltar. Isto é provavelmente algo melhor para discutir face a face.
Aiden não parecia convencido. — Eu não gosto disso.
— Você não gosta dele. — Apontei gentilmente.
— Você está certa. Eu não gosto de Seth, mas há algo mais sobre isso.
— Não há sempre? — Me mexi um pouco e senti sua respiração sobre meus lábios. Se eu movesse um centímetro, nossos lábios se tocariam. E Aiden estava de repente olhando para a minha boca.
— Eu vou falar com Marcus. — Aiden disse, a voz rouca.
— Você já disse isso.
— Eu disse? — Sua cabeça inclinou ligeiramente, — Devemos voltar.
Eu engoli. Aiden não estava se movendo e cada músculo do meu corpo exigia que eu cruzasse o pequeno espaço entre nós. Mas eu empurrei a cadeira para trás, fazendo um barulho horrível. Me levantei. Não parecia ter bastante ar no pequeno quarto com paredes cor de ervilhas desbotadas. Comecei a ir em direção à porta, mas parei quando percebi que tinha deixado a minha bolsa na mesa. Eu me virei.
Aiden estava em frente a mim. Eu não tinha o ouvido levantar ou se mover em direção a mim. Ele tinha minha bolsa na mão, o livro já colocado para dentro. E ele estava tão perto que as pontas de seus sapatos encostavam-se aos meus. Meu coração estava acelerado e parecia que uma dúzia de borboletas tinha explodido no meu estômago. Eu estava meio com medo de respirar, sentir o que eu sabia que não era permitido.
Ele colocou a alça da minha bolsa no meu ombro e, em seguida, ele colocou meu cabelo para trás da minha orelha. Eu pensei que ele ia me abraçar — ou me sacudir, porque era sempre uma possibilidade. Mas, então, sua mão deslizou sobre meu rosto e seu polegar alisou meu lábio inferior, cuidando para não passar pela pequena cicatriz no centro, embora a dor há muito havia cessado.
Tomei uma respiração afiada. Seus olhos estavam cor de prata líquida. Meu pulso batia em mim. Eu sabia que ele queria me beijar, talvez fazer outras coisas. Minha pele estava formigando com excitação, antecipação e tanto desejo. E eu acho que ele estava sentindo o que eu estava sentindo, também. Eu não precisava de uma corda idiota para me dizer isso.
Mas Aiden não agiu. Ele tinha o tipo de auto-controle que rivalizava com o das sacerdotisas virgens que tinham servido o templo de Artemis. E lá estavam todos os outros motivos por que ele não deveria - por que eu não deveria.
Aiden fechou os olhos e exalou asperamente. Quando reabriu os olhos, deixou cair sua mão e me deu um sorriso rápido. — Pronta? — Ele perguntou.
Sentindo falta do seu toque já, tudo o que eu podia fazer era acenar a cabeça. Voltamos para meu dormitório em silêncio. Eu continuei roubando olhares para ele, e ele não parecia com raiva, só perdido em seus próprios pensamentos e talvez um pouco triste.
Aiden me levou direto para a minha porta, como se algum membro louco da Ordem ou uma fúria fosse saltar de um almoxarifado. A sala estava quase vazia desde que eu dividia o primeiro andar com um monte de puros. Seus pais os haviam tirado de suas classes na segunda-feira, dando início a pausa de Inverno mais cedo. Ele acenou com a cabeça bruscamente e esperou até que eu fechasse e trancasse a porta.
Soltando a minha bolsa ao lado do sofá, eu sentei e tirei o telefone celular que Seth tinha me dado. Havia apenas um contato salvo na agenda: Coelhinho.
Eu não pude deixar de rir. Parecia sempre haver dois lados de Seth - o lado engraçado e charmoso, o que podia ser paciente e gentil. E então havia um lado todo diferente de Seth - o que eu realmente não conhecia, o que parecia apenas dizer meias-verdades e era a personificação física de tudo o que eu temia.
Respirando fundo, eu pressionei sobre o nome e ouvi o telefone tocar uma vez, duas vezes, e depois cair em uma saudação de correio de voz padrão.
Seth não respondeu. Nem ligou de volta naquela noite inteira.
Eu não tinha ideia do que Seth poderia estar fazendo para que ele fosse incapaz de retornar uma chamada. Não era como se eu estivesse preocupada com sua segurança. Seth podia cuidar de si mesmo. Mas eu me perguntava se ele ainda estava com raiva de mim. O engraçado era, se ele não estivesse, ele ia estar depois que eu tivesse falado com ele. Empurrar Seth para fora da minha mente foi surpreendentemente fácil quando entrei em Técnicas de Verdades e Lendas.
Deacon olhou para cima, sorrindo quando eu me sentei ao lado dele. Fiquei surpresa ao vê-lo no último dia de aula. Eu achava que, de todos, ele teria balançado seu caminho para fora da classe. — Como foi a sua visita à biblioteca? Estudou alguma coisa?
Olhei na frente da sala de aula. Luke estava falando com Elena, mas ele estava nos observando, ou melhor, observando Deacon, com o canto do olho. — Minha visita à biblioteca? — Eu me concentrei em Deacon. — Como foi a sua?
— Ótimo. Estudamos um monte. — Deacon nem sequer perdeu uma batida.
— Uau. — Baixei minha voz, — Isso é incrível, considerando que nenhum de vocês tinha livros para estudar.
Deacon abriu a boca, mas fechou.
Eu pisquei.
As pontas de suas orelhas ficaram vermelhas. Ele bateu os dedos em cima da mesa. — Bem, então.
Parte de mim queria dizer a Deacon que Aiden sabia e que ele não tinha nada para se preocupar, mas não era da minha conta. Mas talvez eu pudesse dar um empurrãozinho na direção certa. — Não é um grande negócio. — Sussurrei, — Honestamente, ninguém aqui, puro ou mestiço, se preocupa com isso.
— Não é assim. — Ele sussurrou de volta.
Eu levantei uma sobrancelha. — Não é?
— Não. — Deacon suspirou, — Eu gosto de meninas também, mas... — Seu olhar encontrou Luke, — Ele é diferente.
Bem, pelo menos eu não tinha estado completamente fora da base quando se tratava das preferências de Deacon. — Sim, Luke com certeza é diferente.
Deacon esboçou um sorriso. — Não é o que você pensa. Nós não fizemos nada... 
— Tanto faz. — Eu sorri.
Ele se inclinou sobre a distância entre nossas mesas. — Ele é um mestiço, Alex. De todas as pessoas, eu acho que você sabe exatamente como isso é perigoso.
Recuei e olhei para ele.
Deacon piscou quando um sorriso malicioso atravessou seu rosto. — Mas a questão é: vale a pena quebrar a regra número um ou não?
Antes que eu pudesse abrir a boca para responder a isso e, honestamente, eu não tinha ideia do que dizer, dois guardas do Conselho entraram na classe, silenciando a sala inteira. Mudei de volta no meu lugar quando a minha inquietação floresceu, quase desejando que eu pudesse deslizar sob a mesa.
O que tinha cabelo curto castanho esquadrinhou a sala, seus lábios pressionados em uma linha dura. Seu olhar caiu sobre mim. O meu sangue gelou nas veias. Lucian não estava aqui, e eu não reconheci os dois guardas.
— Senhorita Andros? — Sua voz era suave, mas cheia de autoridade. — Você precisa vir com a gente.
Toda maldita pessoa na classe se virou e olhou. Pegando minha bolsa, eu encontrei os olhos arregalados de Deacon. Fui em direção à frente da classe, forçando um sorriso “tanto faz” no meu rosto. Mas meus joelhos tremiam.
Guardas do Conselho chamando alguém de classe nunca era uma coisa boa.
Houve um murmúrio baixo de onde Cody e Jackson sentavam. Eu ignorei e segui os guardas. Ninguém falou enquanto andávamos pelos corredores e subiamos o número ridículo de degraus. Pavor continuou a tecer o seu caminho através de mim. Marcus não teria enviado Guardas do Conselho para recuperarme. Ele enviaria Linard, ou Leon, ou mesmo Aiden.
Os Guardas do Covenant abriram a porta do escritório de Marcus e me conduziram para dentro. Meu olhar viajou sobre a sala, rapidamente procurando os ocupantes.
Meu passo estava hesitante.
O Ministro Chefe Telly estava na frente da mesa de Marcus, mãos cruzadas atrás dele. Aqueles olhos pálidos aguçaram no momento em que nossos olhares se encontraram. O cinza parecia ter se espalhado em sua têmpora desde a última vez que eu o vi, agora salpicando seu cabelo. Em vez dos trajes luxuosos que ele vestiu durante o Conselho, ele usava uma simples túnica branca e calças de linho.
A porta se fechou com um clique suave atrás de mim. Eu me virei. Não havia guardas, não havia Marcus. Eu estava completamente sozinha com o ministro babaca chefe. Ótimo.
— Você vai se sentar, Senhorita Andros?
Virei-me lentamente, obrigando-me a tomar uma respiração profunda. — Eu prefiro ficar em pé.
— Mas eu prefiro que você sente. — Ele respondeu de forma uniforme. — Sente-se.
Uma ordem direta do ministro chefe era algo que eu não podia recusar. Mas isso não quer dizer que eu estava indo me rebaixar para ele. Eu fiz o meu caminho para a cadeira o mais lentamente possível, sorrindo por dentro quando vi o músculo em sua mandíbula começar a contrair.
— O que eu posso fazer por você, ministro chefe? — Perguntei depois de ter feito um show lento de colocar minha bolsa nos meus pés, ajeitar a minha camiseta, e ficar confortável.
Nojo encheu seu olhar. — Eu tenho algumas perguntas para você sobre a noite que deixou o Conselho.
Ácido começou a comer o seu caminho através do meu estômago. — Não deveria Marcus estar aqui? E você não tem que esperar até o meu tutor legal estar presente? Lucian está em Nova York, onde você deveria estar.
— Eu não vejo nenhuma razão para incluí-los neste negócio... indecoroso. — Ele voltou sua atenção para o aquário, observando os peixes por alguns momentos, enquanto eu ficava mais desconfortável. — Depois de tudo, nós dois sabemos a verdade.
Que ele era um gigante cretino? Todo mundo sabia disso, mas eu duvidava que era onde ele queria chegar. — Qual verdade?
Telly riu quando ele se virou. — Eu quero conversar com você sobre a noite que os daimons e as fúrias atacaram o Conselho, sobre o real motivo porque você fugiu.
Meu coração gaguejou, mas eu mantive meu rosto em branco. — Eu pensei que você soubesse. Os daimons estavam atrás de mim. Tal como as fúrias. Veja, eu estava muito popular pelo final da noite.
— Isso é o que você diz. — Ele encostou-se à mesa e pegou uma pequena estátua de Zeus. — No entanto, houve um Guarda puro-sangue encontrado morto. Você tem alguma coisa a acrescentar a isso?
Um gosto amargo formou na parte de trás da minha boca. — Bem... havia um monte de puros e mestiços mortos. E um monte de servos mortos que ninguém deu a mínima. Eles teriam sido salvos se alguém tivesse ajudado.
Ele arqueou uma sobrancelha. — A perda de um meio-sangue não é um problema meu.
A raiva deu um gosto diferente na minha boca. Tinha gosto de sangue. — Dezenas e dezenas deles morreram.
— Como eu disse, como isso seria da minha preocupação?
Ele estava incitando-me. Eu sabia. E eu ainda queria dar um soco nele.
— Mas eu estou aqui pela morte de um de meus guardas. — Ele continuou. — Eu quero saber como ele morreu.
Fingi tédio. — Eu diria que provavelmente tem a ver com os daimons que pularam no edifício. Eles tendem a matar pessoas. E as fúrias estavam rasgando as pessoas.
O sorriso em seu rosto desapareceu. — Ele foi morto com um punhal do Covenant. 
— Tudo bem. — Encostei-me para trás na cadeira, inclinando a cabeça para o lado. — Você sabia que mestiços podem ser transformados agora?
 
Os olhos do ministro chefe se estreitaram.
Eu diminuí a velocidade do meu discurso. — Bem, alguns desses mestiços foram treinados como Sentinelas e Guardas. Eles carregam punhais. E eu acho que eles sabem como usar essas adagas, também. — Olhando-o bem nos olhos, eu assenti, — Foi provavelmente um deles.
Surpreendentemente, Telly riu. Não era uma risada agradável, era mais como uma risada de um doutor do mal. — Que boca você tem. Diga-me, é porque você acha que está tão segura? Que sendo a Apollyon, faz de você intocável? Ou é apenas estupidez cega?
Fingi pensar sobre isso. — Às vezes eu faço algumas coisas bem estúpidas. Isto poderia ser uma delas.
Ele sorriu com força, — Você acha que eu sou idiota?
Estranho. Essa foi a segunda vez que me perguntaram isso nas últimas 24 horas. Eu dei a mesma resposta. — Isso é uma pegadinha?
— Por que você acha que eu esperei até agora para questioná-la, Alexandria? Veja, eu sei sobre o seu pequeno vínculo com o Primeiro. E eu sei que esse tipo de distância nega esse vínculo. — Seu sorriso tornou-se real quando as minhas mãos apertaram os braços da cadeira. — Então, agora, você não é nada, além uma meio-sangue. Você me entende?
— Você acha que eu preciso de Seth para me defender?
As cavidades de seu rosto começaram a ficar cor de rosa. — Diga-me o que aconteceu naquela noite, Alexandria.
— Houve esse ataque daimon gigante que eu tentei avisar vocês, mas vocês me ignoraram. Você disse que era uma ideia ridícula que daimons poderiam conseguir sucesso. — Fiz uma pausa, deixando que o golpe afundasse. — Eu lutei. Matei alguns daimons e derrubei uma fúria ou duas.
 
— Ah, sim. Você lutou magnificamente pelo que ouvi. — Ele fez uma pausa, batendo no queixo, — E então um complô foi descoberto. Os daimons estavam atrás da Apollyon.
— Exatamente.
— Eu acho isso estranho. — Respondeu ele, — Considerando que eles estavam tentando matá-la na frente de Guardas e Sentinelas. Que, por sinal, são leais ao Conselho.
Bocejei alto, fazendo de tudo para mostrar que eu não estava com medo, enquanto eu estava tremendo por dentro. Se ele visse isso, em seguida, ele saberia que eu estava escondendo algo. — Não tenho ideia do que se passa dentro da mente de um daimon. Eu não posso explicar isso.
Telly empurrou para fora da mesa, ficando na minha frente. — Eu sei que você matou o Guarda puro-sangue, Alexandria. E também sei que outro purosangue cobriu você.
Meu cérebro esvaziou enquanto eu olhava para ele. Terror, tão potente e tão forte, bateu o ar dos meus pulmões. Como ele sabia? Tinha a compulsão de Aiden desgastado? Não. Porque eu estaria na frente do Conselho, algemada, e Aiden... Oh deuses, Aiden estaria morto.
— Você não tem nada a dizer sobre isso? — Telly perguntou, claramente desfrutando o momento.
Fale alguma coisa. Fale alguma coisa. — Eu sinto muito. Só estou um pouco chocada.
— E por que você iria ficar chocada?
— Porque essa é provavelmente a coisa mais estúpida que eu já ouvi em muito tempo. E você já viu as pessoas que eu conheço? Isso deve dizer algo.
Seus lábios diluíram. — Você está mentindo. E você não é uma boa mentirosa.
 
Meu pulso batia forte. — Na verdade, eu sou uma grande mentirosa.
Ele estava perdendo a paciência rapidamente. — Diga-me a verdade, Alexandria.
— Estou dizendo a verdade. — Forcei meus dedos a relaxarem ao redor dos braços da cadeira. — Eu sei melhor do que atacar um puro, quanto menos matar um.
— Você atacou um Mestre no Conselho.
Merda. — Eu realmente não ataquei-o, eu parei-o de atacar alguém. E, bem, eu aprendi minha lição depois disso.
— Eu discordo. Quem te ajudou encobri-lo?
Inclinei-me na cadeira. — Não tenho ideia do que está falando.
— Você está testando minha paciência. — disse ele, — Você não quer ver o que vai acontecer quando eu perdê-la.
— Parece que você já a perdeu. — Olhei ao redor do quarto, forçando o meu coração a voltar ao normal, — Não tenho ideia do por que você está me fazendo essas perguntas. E eu estou perdendo o último dia de aula antes das férias de inverno. Você vai me dar um passe livre ou algo assim?
— Você acha que é inteligente?
Eu sorri.
A mão de Telly serpenteou para fora tão rápido que eu nem sequer tive uma chance de desviar do golpe. A parte de trás de sua mão conectou com o meu rosto com força suficiente para virar a minha cabeça para o lado. Descrença e raiva misturaram, correndo através de mim. Meu cérebro se recusou a aceitar o fato de que ele tinha acabado de me bater, ele realmente se atreveu a me bater. E meu corpo já estava exigindo que eu batesse nele de volta, pô-lo de costas. Meu punho praticamente coçava para se conectar com sua mandíbula.
 
Segurei as bordas da cadeira, de frente para ele. Isso é o que Telly queria. Ele queria que eu ferisse-o de volta. Em seguida, ele teria a minha bunda em uma bandeja de ouro.
Telly sorriu.
Eu devolvi o gesto, ignorando a ardência em minha bochecha. — Obrigada.
Raiva brilhou no fundo de seus olhos. — Você acha que é durona, não é?
Dei de ombros. — Eu acho que você poderia dizer isso.
— Há maneiras de quebrar você, minha querida. — Seu sorriso aumentou, mas nunca chegou a seus olhos, — Eu sei que você matou um puro sangue. E eu sei que alguém, outro puro ou o Primeiro, acobertou você.
Um arrepio percorreu minha espinha, como dedos gelados de pânico e terror. Empurrei-o, certificando que ele voltasse mais tarde... se houvesse um depois. Arqueei uma sobrancelha. — Eu não tenho ideia do que você está falando. Eu já disse o que aconteceu.
— O que você me disse é uma mentira! — Ele disparou para frente, agarrando os braços da cadeira. Seus dedos estavam a centímetros do meu, os lábios puxados para trás, o rosto vermelho de raiva. — Agora me diga a verdade ou me ajude...
Recusei-me a afastar, como eu queria. — Eu já disse a você.
A veia estalou em sua testa. — Você está pisando em terreno perigoso, querida.
— Você não deve ter qualquer prova. — Eu disse suavemente, encontrando seu olhar enfurecido, — Se você tivesse, eu já estaria morta. Então, novamente, se eu fosse apenas uma meio-sangue você não precisaria de muita prova. Mas, para levar-me, você precisa da permissão do Conselho. Você sabe, sendo eu a Apollyon preciosa e tudo.
Telly foi para trás da cadeira, virando as costas para mim.
 
Eu sabia que precisava me calar. Provocá-lo era provavelmente a coisa mais estúpida que eu poderia fazer, mas eu não podia parar. A raiva e o medo nunca foram uma boa mistura para mim. — O que eu não entendo é como você tem tanta certeza de que eu matei um puro sangue. Não houve, obviamente, nenhuma testemunha de sua morte. Ninguém está apontando um dedo para mim. — Fiz uma pausa, apreciando a forma como os músculos de suas costas ficaram tensos sob a túnica fina. — Por que você...?
Ele virou-se, a face impressionantemente em branco. — Por que eu o que, Alexandria?
Meu estômago se agitou com a compreensão. Minhas suspeitas estavam corretas. Eu olhei para as suas mãos elegantes. — Como você pode estar tão certo, a menos que você tenha mandado alguém - o Guarda - me atacar? Só assim eu acho que você poderia estar tão certo, mas você não teria feito isso. Porque eu tenho certeza que o Conselho ficaria muito chateado. Você poderia até mesmo perder a sua posição.
Tão ocupada exultando-me, eu nem sequer vi-o se mover.
Sua mão pegou a mesma bochecha. A explosão de dor vermelha-quente me surpreendeu. Não era um golpe de maricas. A cadeira ficou equilibrada apenas sobre duas pernas antes de cair novamente no chão. Lágrimas brotaram dos meus olhos.
— Você... você não pode fazer isso. — Eu disse, minha voz rouca.
Telly agarrou meu pulso. — Eu posso fazer o que eu quiser. — Telly me arrastou para os meus pés, seus dedos fizeram contusões nos meus braços enquanto ele arrastou-me através do escritório do meu tio. Ele me empurrou em direção à janela com vista para o pátio. — Diga-me, o que você vê lá fora?
Eu pisquei lágrimas para longe, mordendo a fúria ameaçando transbordar. Estátuas e areia, e, além disso, o oceano rolava e caía com ondas fortes. As pessoas estavam espalhadas por todo o campus.
— O que você vê, Alexandria? — Seu aperto aumentou.
 
Eu estremeci, odiando o meu momento de fraqueza. — Não sei. Vejo as pessoas e areia. E o oceano. Eu vejo muita água.
— Vê os servos? — Ele fez um gesto em direção ao átrio, onde um grupo deles ficaram à espera de ordens de seu Mestre. — Eu sou dono deles. Eu possuo todos eles.
Os músculos do meu corpo tencionaram. Eu não conseguia afastar o meu olhar deles.
Telly se inclinou, seu hálito quente no meu ouvido. — Deixe-me contar um pequeno segredo sobre a verdadeira natureza da viagem de sua outra metade para o Catskills. Ele foi levado para lidar com qualquer servo que está fora do elixir e se recusa a submeter-se. Você sabia?
— Lidar com eles?
— Pegue um pouco dessa esperteza de sua boca e aplique-a. Tenho certeza que você pode descobrir isso.
Eu podia descobrir, mas não podia acreditar. Havia uma diferença entre essas duas coisas. Porque eu entendi que Telly estava afirmando que Seth iria derrubar qualquer meio-sangue que estivesse causando problemas, mas Seth não iria realmente concordar com algo assim. E eu também sabia que Telly estava me dizendo isso para me chocar.
E estava funcionando.
— Tem uma coisa que eu quero te dizer. — Telly disse, — Eu tenho um favorito de todos os servos, sabe. Há um que, eu pessoalmente, pedi há muitos anos atrás. Você sabia que eu conhecia sua mãe e seu pai?
Fechei os olhos.
— O que, Alexandria? Alguém já permitiu um passarinho fora da gaiola11? — Ele soltou o meu pulso, rindo. — Sua linda mãe manchou-se dessa forma,
                                                         
 11 No sentido de alguém já ter contado o segredo para ela.
 
misturando-se com um meio-sangue. Será que eles realmente acharam que fugiriam? E você realmente acha que Lucian esqueceu a desgraça que ela colocou sobre sua cabeça?
Papai. Paizinho. Pai. Todos os títulos que não tinham tido qualquer significado até que eu li a carta de Laadan. Mas agora eles significavam tudo.
— Eu sei que ele não deve significar nada para você. — Telly continuou, — Você nunca o conheceu, mas eu sei que quem cobriu o que você fez deve significar muito para você. E o que eles dizem? Tal pai, tal filha?
Desespero tomou qualquer alívio que senti. Telly não ia usar o meu pai contra mim. Ele ia apenas usar Aiden.
Telly me deixou perto da janela, retornando para o centro da sala. — Esta é sua última chance. Vou partir depois de amanhã, antes do amanhecer, e se você não cooperar até lá, não haverá mais chances. Isso poderia acabar facilmente.
Eu nem sequer sentia o pulsar na minha cara mais.
Telly sorriu, deleitando-se com o meu silêncio. — Admita que matou o guarda e eu não vou pressionar... — Seu lábio enrolou, — Quem cobriu tudo. E confie em mim, eu vou descobrir. Há apenas alguns que eu tenho notado que tomaram qualquer interesse em você, além do Primeiro. O quê? — ele riu. — Você acha que eu não estava prestando atenção?
Ar saiu dos meus pulmões tão rapidamente que eu me senti tonta.
— Vamos ver. — Telly bateu no queixo, — Há o seu tio, que eu acho que se importa com você muito mais do que deixa transparecer. Ele estava em Nova York. Depois, há o Sentinela que encontrou você naquela noite no labirinto. Leon? Depois, há o que gentilmente se ofereceu para treiná-la. Eu acredito que seria o St. Delphi. E depois há Laadan. Todos eles são suspeitos e eu vou garantir que todos eles sofram. Como o Ministro Chefe, eu posso revogar a posição de Marcus. Posso até remover Lucian. Eu posso apresentar acusações contra o resto. Com toda a agitação e incidentes recentes, seria muito fácil.
 
Um pedaço de horror e frustração se formou na minha garganta. Lágrimas apareceram atrás de meus olhos no mesmo momento em que eu queria esmagar a cabeça de Telly.
— Você vai entrar em servidão e vai tomar o elixir. Se recusar, bem, as coisas vão acabar mal. 
Minhas mãos se fecharam em punhos. — Você é... revoltante.
Telly começou a vir para mim, com a mão levantando para me bater de novo.
Eu peguei seu pulso, meus olhos se reuniram com os seus e segurei. — Eu fui atingida o suficiente, obrigada.
Uma comoção no corredor chamou a atenção de Telly, e ele puxou seu pulso livre. A voz de Marcus soou alta, exigindo a entrada para o seu escritório. Telly levantou uma sobrancelha para mim. — Você tem até o amanhecer de sexta-feira.
As paredes se fecharam.
Telly sorriu quando as demandas de Marcus ficaram mais altas. Nenhum de nós falou durante esses momentos.
— Por que você me odeia tanto? — Perguntei por fim.
— Eu não odeio você, Alexandria. Odeio o que você é.
Esse era o resultado de tudo isso - porque eu era uma Apollyon, porque eu ia transformar Seth no Assassino de Deuses. E eu sabia, sem mais dúvidas, que Telly era um membro da Ordem. Em sua mente, ele estava apenas protegendo os deuses de uma ameaça, e não via nada de errado no que fazia.
As portas se abriram quando virei de costas para a janela, lutando para me controlar.
— O que está acontecendo aqui? — Marcus exigiu.
— Eu tinha algumas… preocupações não respondidas sobre a noite em que Alexandria deixou o Conselho, — Telly respondeu. — No início, ela não foi muito cooperativa quanto às perguntas, mas eu acredito que nós chegamos a um entendimento. Depois disso, ela foi surpreendentemente útil.  
Sim, ele chegou a esse acordo no meu rosto.
Eu me perguntava quão rápido poderia arrancar um desses punhais da parede de Marcus e mergulhá-lo no olho de Telly antes de seus Guardas poderem reagir. A tensão na sala escalou, ondas serpenteando em todas as direções.
— E por que não fui envolvido neste questionamento? Ou melhor ainda, por que isso não pôde esperar até o retorno de Lucian? — Marcus disse uniformemente, mas eu reconheci o tom em sua voz. Deuses sabiam que eu o tinha recebido inúmeras vezes. — Ele é o tutor dela e deveria ter estado presente. 
Telly fez um tom de desaprovação suave. — Isso não foi um questionamento formal ou sancionado pelo Conselho. Eu tinha algumas preocupações que precisava esclarecer. Portanto, não havia necessidade da presença de Lucian ou sua. Isto é, associado ao fato de que eu sou o Ministro Chefe e não preciso de sua permissão.  
Ele tinha, efetivamente, colocado Marcus em seu lugar.
— Alexandria. — Telly chamou, — Por favor, não se esqueça do que discutimos. 
Eu não respondi, porque ainda estava pensando se poderia ou não atingi-lo antes que os Guardas me pegassem.
O Ministro Chefe Telly desculpou-se em seguida, dando gentilezas de maneira tão calma que eu quase achei difícil acreditar que ele tinha acabado de destruir a minha vida.
— Alexandria? — A voz de Marcus quebrou o silêncio, — O que ele queria discutir com você? 
— Ele tinha dúvidas sobre o que aconteceu no Conselho. — Minha voz estava anormalmente espessa, — Isso é tudo. 
— Alex? — Aiden disse, e meu coração caiu até os meus dedos dos pés. É claro que ele estava aqui. — O que aconteceu? 
De frente para eles, usei meu cabelo para proteger meu rosto golpeado e mantive meu olhar colado ao tapete, — Aparentemente, eu tenho uma má atitude. Tivemos que trabalhar nisso.   
Aiden estava de repente na minha frente, erguendo meu queixo. Meu cabelo deslizou de minha bochecha. Raiva saiu dele, engolindo o ar, como um buraco negro de fúria.
— Ele fez isso? — Sua voz era tão baixa que mal o ouvi.
Incapaz de responder, desviei o olhar.
— Isso é inaceitável. — Aiden girou para Marcus, — Ele não pode fazer isso. Ela é uma garota.  
Às vezes, Aiden esquecia que eu também era uma mestiça, o que praticamente anulava toda a coisa de ‘não bater em garotas’. Como com Jackson. Como com a maioria dos puros. Nossa sociedade - nossas regras e a forma como éramos tratados - era uma droga. Não havia palavras para isso.
E ao mesmo tempo, milhares de perguntas surgiram, mas uma se destacou. Como eu poderia continuar a ser uma parte deste mundo? Ser uma Sentinela, de certa forma, era apoiar a estrutura social, basicamente dizer que eu estava bem com isso, e eu não estava. Eu a odiava.
Balançando a cabeça, afastei esses pensamentos da minha mente por agora, — Ele é o Canalha Chefe. Pode fazer o que quiser, certo?  
Marcus parecia estupefato, enquanto continuava a olhar para mim. Ele estava realmente surpreendido pela violência de Telly? Se fosse esse o caso, ele tinha acabado de perder alguns pontos de inteligência. Ele se virou para Leon, — Ela não deveria ir a nenhum lugar sozinha. Por que Telly foi capaz de alcançá-la?  
— Ela estava na sala de aula, — Respondeu Leon. — Linard estava esperando que ela saísse. E ninguém esperava que Telly estivesse aqui. Não com tudo o que está acontecendo em Nova York.  
Marcus cortou um olhar perigoso em Linard. — Se você tem que sentar na sala de aula com ela, faça-o. 
— Não é culpa dele. — Eu disse, — Ninguém pode me vigiar todos os segundos do dia. 
Aiden amaldiçoou. — Isso é tudo o que você vai fazer? Ela é sua sobrinha, Marcus. Ele bateu em sua sobrinha e essa é a sua resposta?  
Os olhos de Marcus se aprofundaram para um verde brilhante. — Estou bem ciente do fato de que ela é minha sobrinha, Aiden. E não pense por um segundo que eu acho nada disso... — Ele acenou com a mão para mim, — Aceitável. Vou contatar o Conselho imediatamente. Eu não me importo que ela seja mestiça. Telly não tem nenhum direito.  
Mudei meu peso de um pé para o outro. — O Conselho vai se importar? Sério? Vocês batem em servos o tempo todo. Por que eu seria diferente?  
— Você não é uma serva. — Disse Marcus, avançando com fúria para sua mesa.
— Isso torna tudo certo? — Gritei, minhas mãos enrolando em punhos, — É certo bater em servos por causa de seu sangue? E não é certo porque eu tenho um me… — Parei antes que revelasse demasiado. Todos os olhos estavam em mim.
Atrás de sua mesa, Marcus respirou fundo e fechou os olhos brevemente. — Você está bem, Alexandria? 
— Estou bem. 
Aiden segurou meu braço, — Vou levá-la para a clínica. 
Soltei meu braço, — Eu vou ficar bem. 
— Ele bateu em você. — Aiden ferveu, os olhos faiscando.
— E só vai ficar uma contusão, ok? Esse não é o problema. — Eu precisava sair desta sala, ir para longe de todos eles. Precisava pensar, — Só quero voltar para o meu quarto.  
Marcus congelou com o telefone a meio caminho de seu ouvido. — Aiden, certifique-se que ela regresse para o quarto. E quero que ela fique lá até descobrirmos o que Telly quer ou até ele ir embora. Entrarei em contato com Lucian e o resto do Conselho. — Disse Marcus, e seu olhar encontrou Aiden novamente, — Estou falando sério. Ela não deve sair do quarto.  
Eu estava ocupada demais revendo tudo o que aconteceu para me preocupar com o fato de Marcus me ter sentenciado ao meu dormitório. E se Lucian ia descobrir sobre o que aconteceu, então isso significava que Seth iria descobrir, também. Pelo menos havia um revestimento brilhante na nuvem de sujeira. Se Seth estivesse aqui, ele provavelmente mataria Telly.
Marcus me parou na porta. — Alexandria? 
Eu me virei, esperando que ele acabasse com isso logo. Me desse um sermão por antagonizar Telly, dizer-me para não o fazer de novo, e me avisar sobre o meu mau comportamento.
Ele encontrou meu olhar. — Sinto muito por não estar aqui para detê-lo. Isso não vai acontecer de novo. 
Meu tio tinha um alienígena dentro dele. Pisquei lentamente. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele voltou para o seu telefonema. Meio atordoada, deixei Aiden me guiar para fora do escritório e até o corredor.
Assim que a porta na escadaria fechou atrás de nós, Aiden bloqueou as escadas. — Eu quero saber o que aconteceu. 
— Só quero voltar para o meu quarto. 
— Não estou pedindo, Alex. 
Não respondi e, finalmente, Aiden virou rigidamente e desceu as escadas. Eu segui atrás dele lentamente. Aulas ainda estavam em sessão, por isso a escada e o lobby do primeiro andar estavam praticamente vazios, com a exceção de alguns guardas e instrutores. Voltamos para meu dormitório em silêncio, mas eu sabia que ele não ia deixar isso passar. Aiden estava apenas esperando, então eu não fiquei completamente surpresa quando ele me seguiu até meu quarto, fechando a porta atrás dele.
Larguei minha bolsa e corri minhas mãos pelo meu cabelo. — Aiden.
Ele segurou meu queixo como havia feito no escritório de Marcus, inclinando minha cabeça para um lado. Sua mandíbula se apertou. — Como isso aconteceu? 
Quão ruim parecia? — Acho que não respondi corretamente após a primeira vez. 
— Ele bateu em você duas vezes?
Envergonhada, eu me afastei e sentei no sofá. Fui treinada para lutar e me defender. Eu saí de batalhas com daimon machucada. Essa situação toda me fazia sentir fraca e indefesa.
— Você não deveria estar aqui, — Eu disse finalmente. — Eu sei que Marcus disse para se certificar que eu fico no meu quarto, mas não devia ser você.
Aiden ficou na frente da pequena mesa de café, as mãos nos quadris. Sua postura me lembrava tanto de nossas sessões de treinamento, a que ele assumia quando sabia que eu ia ser difícil sobre alguma coisa. Ele estava com postura de batalha. — Por quê? 
Eu ri e depois fiz uma careta. — Você não deveria estar perto de mim. Acho que Telly tem alguém me... Nos, vigiando.  
Não havia um pingo de pânico nos olhos prateados. — Você precisa me dizer o que aconteceu, Alex. Nem pense em mentir para mim. Eu vou saber.  
Fechando os olhos, balancei a cabeça. — Não sei se posso. 
 
Ouvi Aiden contornar a mesa e sentar-se em uma borda na minha frente. Sua mão pressionou contra a minha outra face. — Você pode me dizer qualquer coisa. Sabe disso. Sempre vou te ajudar. Como você pode duvidar disso?  
— Não duvido disso. — Abri os olhos, envergonhada ao descobrir que estavam úmidos.
Confusão cintilou em seu rosto. — Então por que você não pode me dizer? 
— Porque... Porque não quero que você se preocupe. 
Aiden franziu a testa. — Você está sempre pensando em outra pessoa quando deveria estar mais preocupada com você mesma. 
Bufei, — Isso não é nada verdade. Eu tenho sido muito auto-centrada ultimamente.  
Ele riu suavemente, mas quando o som rico desapareceu, também o fez o seu breve sorriso. — Alex, fale comigo.
O terror e o pânico voltaram. Eu não tinha certeza de que eles alguma vez iriam embora. As palavras só saíram. — Telly sabe. 
O ligeiro estreitar de seus olhos foi sua única reação. — Quanto? 
— Ele sabe que eu matei um puro-sangue. — Sussurrei, — E ele sabe que Seth ou um puro ocultaram isso. 
Aiden não disse nada.
Eu realmente comecei a pirar. — Ele é definitivamente parte da Ordem, e acho que foi ele que enviou o Guarda para me matar. É a única maneira que ele podia saber a menos que a compulsão… 
— A compulsão não se desvaneceu. — Aiden passou a mão sobre sua cabeça. Ondas escuras caíram por entre os dedos, — Nós saberíamos. Eu já estaria preso.  
— Então, a única maneira de que ele poderia saber é se ele enviou o Guarda para me matar. 
Aiden apertou a parte de trás do seu pescoço. — Tem certeza que ele sabe? 
Eu ri duramente enquanto apontava para minha bochecha. — Ele fez isso quando eu não admiti.
A prata em seus olhos queimou. — Eu quero matá-lo.
— Eu também, mas isso não vai realmente ajudar em nada. 
Ele piscou-me um sorriso selvagem. — Mas nos faria sentir melhor. 
— Porra, você se tornou sombrio. Engraçado, mas sombrio. 
Aiden balançou a cabeça. — O que ele disse, exatamente?
Contei-lhe as perguntas que Telly tinha feito. — Você sabe, a única coisa boa sobre isso é que ele não achava que usar o meu pai teria qualquer efeito sobre mim. Mas ele disse que, se eu me entregasse, ele não iria tentar encontrar o puro que me encobriu. Se eu não lhe dissesse, então ele iria atrás de cada puro que parece tolerar-me: você, Laadan, Leon, até mesmo Marcus. Eu acho que ele pensa que não pode pegar Seth ou tem medo dele.  
— Alex… 
— Não sei o que fazer. — Levantei do sofá, evitando-o. Rondei o comprimento da pequena sala de estar, sentindo-me enjaulada. Eu parei, me virando para Aiden, — Estou ferrada, você sabe disso, não é? 
— Alex, vamos pensar em algo. — Senti-o vir atrás de mim. — Isto não é o fim. Há sempre opções.  
— Opções? — Cruzei os braços, — Havia opções quando o Guarda tentou me matar, e eu escolhi a errada. Eu cometi um erro enorme, Aiden. Não posso consertar isso. E você sabe o quê? Eu nem acho que ele se preocupa com o Guarda.
— Eu sei, — Ele respondeu suavemente. — Acho que ele enviou o Guarda sabendo que você seria capaz de se defender, que você provavelmente até ia matá-lo. Faz sentido.  
Eu me virei. — É mesmo? 
Ele acenou com a cabeça, estreitando os olhos. — É a armadilha perfeita, Alex. Telly envia o Guarda para te matar, sabendo que havia uma boa chance de você lutar e matar o guarda em auto-defesa. 
— E auto-defesa não significa nada neste mundo. 
— Exatamente. Então Telly teria você. Ninguém poderia impedi-lo de te matar ou pelo menos colocar você em servidão. Ele te coloca no elixir e você não Desperta. Problema resolvido, exceto que Telly não esperava que um puro usasse compulsão para encobrir você.  
Assenti. — Mas ele agora sabe que alguém o fez. 
— Isso não importa. — disse Aiden, — Ele pode saber, mas não tem provas que não incriminem também a ele. Telly pode ser o Ministro Chefe, mas ele não exerce o tipo de poder onde pode ir atrás de puros indiscriminadamente. Ele pode nos acusar de tudo o que quiser, mas não pode fazer nada sem provas.  
Uma pequena esperança se enraizou em meu peito, — Ele tem muito poder, Aiden. Ele tem a Ordem, também, e deuses sabem quantas pessoas pertencem a isso. 
— Não importa, Alex. — Aiden colocou mãos suaves e fortes nos meus ombros. — Tudo o que ele tem agora é o medo. Ele acha que pode assustar você para admitir a verdade. Ele está usando esse medo contra você.  
— Mas e se ele for atrás de todos? E você?  
Aiden sorriu. — Ele pode, mas não vai chegar a lugar nenhum. E quando você não admitir nada, então ele vai voltar para Nova York. E estaremos prontos se ele tentar algo novo. Este não é o fim. 
Assenti novamente.
Aiden me olhou diretamente nos olhos. — Eu quero que você me prometa que não vai fazer nada estúpido, Alex. Prometa-me que você não vai se entregar.  
— Por que todo mundo acha que eu sempre vou fazer algo estúpido? 
Seu olhar disse que ele sabia melhor. — Reação instintiva, Alex. Acho que já discutimos isso.
Suspirei. — Não vou fazer nada imprudente, Aiden. 
Aiden olhou para mim por um momento, depois assentiu. Em vez de relaxar como eu pensei que ele faria, pareceu ficar mais tenso. Ele exalou asperamente e depois acenou com a cabeça mais uma vez. O que quer que ele estivesse pensando, eu sabia que não era bom.
E quando o seu olhar de aço encontrou o meu, eu sabia que havia uma boa chance de ele não acreditar em qualquer uma das promessas que eu havia feito.
 
 Mais tarde naquela noite, segurei o celular a sessenta centímetros da minha cabeça e ainda me senti como se Seth estivesse berrando no meu ouvido.
— Eu vou matá-lo!  
— É, você não é o primeiro a dizer isso. — Saí de cima do sofá, fazendo uma careta para a porta. Eu não precisava verificar para saber que Leon estava de pé diretamente fora do meu quarto. Graças aos deuses a maioria das crianças tinham ido, porque ter um Guarda Sentinela pessoal me faria uma aberração ainda maior. — E é bastante triste quando eu sou a voz da razão.  
— O que mais você sugere? — Ele perguntou. — Ele é o Ministro Chefe, Alex. É óbvio que ele ordenou que aquele Guarda te atacasse.  
— Yeah. — Fui para o meu banheiro, virando a cabeça para o lado. O lado esquerdo da minha bochecha estava vermelho e ligeiramente inchado. Um pouco de azul alinhava minha mandíbula. Jackson tinha feito pior. Telly batia como uma garota. Comecei a sorrir, — Mas Aiden disse que ele não… 
— Aiden é um idiota.  
Revirei os olhos. — Enfim, por que você não atendeu ao telefone ontem à noite?  
— Você está com ciúmes?  
— O quê? Não. Só foi esquisito.  
Seth riu. — Eu estava ocupado e era tarde demais no momento em que tive a chance de ligar para você. Você sentiu minha falta ou algo assim?
 
Não realmente. Eu me afastei do espelho e fui para o quarto. — Seth, o que você está realmente fazendo aí?  
— Eu já te disse. — Estática encheu a linha por alguns segundos. — De qualquer forma, isso é realmente importante neste momento? Você deveria estar preocupada com Telly.  
Sentei-me na beirada da cama. — Telly disse que você estava aí para lidar com os mestiços que estavam causando problemas e não estavam respondendo ao elixir. Isso é verdade?  
Silêncio.
Nós começaram a se formar no meu estômago. — Seth.  
Ele suspirou ao telefone. — Alex, esse não é o problema neste momento. Telly é.  
— Eu sei disso, mas preciso saber o que você está fazendo aí em cima. — Arranquei a um fio solto na colcha. — Meu pai... Eu sei que ele não estava respondendo ao...
— Eu nem sequer vi seu pai, Alex. Certo, eu realmente não sei como ele se parece e Laadan não vai dizer. Ele poderia estar aqui. Ele poderia ter ido.  
 
Raiva e frustração apressaram-se à superfície. — O que você está fazendo com os mestiços que não estão respondendo ao elixir? 
Um som de exasperação viajou através do telefone. — O que eu fui ordenado a fazer pelo Conselho, Alex. Cuidar deles.  
Sangue congelou nas minhas veias. — O que você quer dizer com “cuidar deles”?  
— Alex, isso não é importante. Olha, eles são só meio-sangues...
— O que diabos você acha que somos? — Fiquei de pé e comecei a marchar. De novo. — Nós somos meio-sangues, também, Seth.  
— Não, — Ele respondeu uniformemente. — Nós somos os Apollyons.  
— Deuses, eu desejo que você estivesse na minha frente.  
— Eu sabia que você sentia minha falta. — Seth disse. Pude ouvir seu sorriso.
— Não. Se você estivesse na minha frente, eu chutaria sua bunda, Seth. Você não pode estar bem com... Cuidar desses mestiços! Errado nem sequer resume o que isto é. É repugnante - revoltante.  
— Eu não estou matando ninguém, Alex. Deuses, o que você realmente pensa de mim?  
— Oh. — Parei, sentindo minhas bochechas ficarem vermelhas.
Um par de momentos se passou em silêncio. Soou como se Seth estivesse caminhando rapidamente em algum lugar. — Eu gostaria de estar em sua cabeça por apenas uma hora. — Ele riu. — Não. Esqueça isso. Eu não gostaria. Você mataria minha autoconfiança.  
— Seth… 
— Vamos nos focar na coisa importante aqui, que é Telly. Eu não acredito que ele não tenha uma maldita coisa. Ele não iria sustentar essa ameaça de ir atrás do puro responsável pela compulsão sem ter algo.  
Medo cravou. — Você seriamente acha que ele tem algo?  
— Telly é um monte de coisas, mas não é estúpido. Ele esperou até que soubesse que nem Lucian nem eu estávamos em qualquer lugar perto de você antes de fazer sua jogada. Eu não ficaria surpreso se Telly não tivesse estragado com o elixir semanas atrás, como um plano de contingência. Ele precisava de uma distração e ele conseguiu uma. E Aiden não é estúpido, também. — Ele disse. — Ele está te dizendo o que você precisa ouvir para te impedir de fazer algo estúpido.  
Sentindo-me tonta, eu me sentei de novo. — Merda.  
— Ouça-me, Alex. Nenhum deles, seu tio ou Aiden, é importante. Fique longe de Telly. Deixe-o agir sobre sua ameaça, quer ele tenha prova ou não.  
— O quê? — Encarei o telefone como se ele pudesse de alguma forma me ver, o que foi meio que idiota, — Eles são importantes para mim, Seth.  
— Não. Aiden é importante para você. Na realidade, você não poderia se importar menos com o resto. — Ele corrigiu.
— Isso não é verdade!  
Seth riu, mas não houve humor nisso. — Alex, você é uma péssima mentirosa.  
Que diabos? Será que todo mundo pensava que eu era propensa a atos de estupidez e uma péssima mentirosa? Mas eu não estava mentindo. Laadan e Marcus eram importantes para mim. Até mesmo Leon, embora ele fosse meio que esquisito.
Respirei fundo. — Então, você acha que Telly tem algo?  
— Eu não acho que Telly iria fazer ameaças vãs e esperar você cair por elas. Olhe para tudo o que ele fez até agora.  
Larguei minha cabeça na minha palma aberta. — Seth, eu não posso deixálo ir atrás deles.  
— Você pode e você vai. Eles. Não. São. Importantes. Você é. Nós somos.  
— Odeio quando você diz coisas assim, — Eu fervi.
— Porque é verdade, Alex. Por quê? Porque uma vez que você Despertar, nós poderemos mudar as coisas. — Seth fez uma pausa e então sua voz baixou, — Você não tem ideia do que a maioria do Conselho quer que seja feito para os meios-sangues aqui. Por sorte, minha presença parece estar mantendo a maior parte deles na linha, mas eles os querem mortos, Alex. Eles veem os mestiços como um problema com o qual não tem tempo ou mão de obra para lidar. Especialmente agora que os daimons não têm escrúpulos em atacar os Covenants.  
— Pensei que você não se importasse com os mestiços. — Levantei minha cabeça e encarei a parede branca em frente à cama.
— Não perder o sono por suas vidas de merda e estar bem com exterminálos são duas coisas diferentes, Alex.  
— Deuses, Seth. — Balancei a cabeça. — Às vezes eu nem sequer te conheço.  
— Você nunca tentou. — Ele disse, sem um traço de raiva. — E isso realmente não importa neste momento. Tudo o que importa é que você fique segura. Olha, tenho que ir. Apenas fique no seu quarto, pelo menos até Telly partir. Sei que ele tem que estar de volta aqui até sexta porque eles vão ter uma sessão.  
— Tudo certo, — eu disse. — Seth?  
— O quê?  
Mordi o lábio, sem ter ideia do que eu queria dizer a ele. Havia apenas tanto, e nada disso era algo em que eu estivesse disposta a entrar neste momento.
— Nada. Eu vou... vou falar com você mais tarde.  
Seth desligou, sem me fazer prometer ficar longe de problemas. Acho que ele sabia que a minha palavra era tão boa como a sua.
As próximas vinte e quatro horas se arrastaram dolorosamente devagar. Eu não estava autorizada a sair do meu quarto. Comida era trazida até mim por um dos meus babás. Além deles, eu não tive visitantes. Morrendo de tédio, limpei meu banheiro e comecei a reorganizar meu armário, o que terminou com roupas espalhadas pelo chão.
Houve um momento quando pânico perfurou um buraco pelo meu peito. Eu estava fazendo a decisão certa ao não me entregar?
Tentei ligar para Seth algumas vezes, mas isso foi um fracasso total. Ele eventualmente ligou de volta justo depois de eu ter mudado para a cama. Nós não falamos por muito tempo ou sobre qualquer coisa importante. Acho que ele estava apenas surpreso que eu ainda estivesse no meu dormitório e não tivesse feito nada idiota até agora.
Demorou horas de me virar e mexer na cama para cair no sono. Mas eu não fiquei adormecida por muito tempo. Acordei enquanto ainda estava escuro, o edredom torcido em torno das minhas pernas.
Observei lascas de luz atravessarem o teto, desaparecendo quando a lua mergulhava atrás de uma nuvem fora da minha janela. Meu cérebro imediatamente chutou para hipervelocidade, repetindo tudo o que acontecera com Telly, depois com Aiden e Seth. E se Seth estivesse certo e Telly tivesse uma maneira de descobrir que foi Aiden? Ou mesmo se não tivesse, e se ele fosse atrás dele? E não era apenas com Aiden que eu me importava. O que diria sobre mim se eu deixasse outros serem prejudicados para que eu passasse facilmente até a próxima vez? Porque haveria uma próxima vez, eu sabia disso. E quem iria arriscar seu futuro e sua vida, então?
Isso não era certo ou justo.
Sentando-me, balancei as minhas pernas para fora da cama e fiquei de pé. Ar fresco espalhou arrepios sobre minhas pernas nuas. Agarrei um suéter longo e corpulento do canto da minha cama e o deslizei sobre a minha regata. Rastejando para a janela, abri as cortinas e espiei o lado de fora. Eu não conseguia ver nada na escuridão e nem mesmo tinha certeza de pelo quê estava procurando.
— O que estou fazendo? — Perguntei a mim mesma.
— Absolutamente nada se eu tiver alguma coisa a ver com isso.  
Guinchando, larguei as cortinas e girei ao redor. Coração martelando, apertei os olhos para o contorno alto ocupando a entrada toda para o meu quarto. Uma vez que reconheci quem era, isso não fez nada para acalmar meu coração disparado. — Santos bebês daimon! Você me deu um ataque cardíaco.  
Aiden se adiantou, cruzando os braços. — Sinto muito por isso.  
Puxei o suéter mais perto, encarando-o. — O que você está fazendo no meu dormitório?  
— Você tem um problema com caras em seu dormitório agora?  
— Ha. Ha. — Apressei-me até a minha mesa-de-cabeceira e acendi a lâmpada. Um brilho suave encheu o quarto. — Na verdade, eu nunca convidei Seth para entrar aqui. Ele só tipo, fez-se em casa.  
Um fantasma de um sorriso apareceu em seu rosto. Como sempre, ele estava em seu traje de Sentinela. Então isso me atingiu. Minha boca caiu aberta.
— Você está trabalhando, não está? — Exigi.
— Bem, havia uma boa chance de que você tentasse se esgueirar para fora e se entregar antes de Telly poder partir pela manhã. Nós estávamos tomando precauções apenas caso você tentasse.
— Nós? — Gaguejei. — Tem mais alguém aqui dentro?  
— Não, mas Leon estava dentro logo depois que você caiu no sono. Linard está patrulhando o exterior. — Fez uma pausa, — Acabei de trocar de turno com Leon. Sinto muito se eu te acordei.  
Eu o encarei, estupefata. — Vocês tem trocado fora e dentro daqui enquanto eu dormia? Noite passada, também?  
Ele assentiu. — Agradecidamente, Marcus sugeriu a ideia. Caso contrário, tenho a sensação que Linard teria te perseguido por todo o campus e te parado antes que você fugisse.  
— Eu não sou estúpida. — Meus dedos se enrolaram em torno das bordas do meu suéter, — Você realmente acha que eu ia apenas me levantar e ir me entregar a Telly no meio da noite?  
Ele ergueu a cabeça para o lado. — Isto está vindo da garota que uma vez se esgueirou do Covenant para encontrar um daimon.  
Touché. — Tanto faz. Eu não estava planejando fazer algo assim novamente.  
— Não estava?  
Balancei a cabeça. Havia uma parte de mim que vinha considerando isso, — Eu não conseguia dormir. Tem muito acontecendo na minha cabeça.  
— Isso é compreensível. — Seus olhos vagaram sobre mim, se fixando na minha bochecha, — Como está isso?  
Derrubei minha cabeça, protegendo meu rosto. — Está ótimo.  
Ele desviou os olhos por um momento, então seu olhar balançou de volta para mim. — Você já passou por pior, eu sei, mas ainda assim. Você nunca deveria ter tido que lidar com o que lidou… ou com Jackson. Nada disto na verdade.  
— O que você quer dizer?  
— Nada, eu só estou divagando. — Os ombros de Aiden relaxaram quando ele deu uma olhada em torno do quarto, — Já faz um longo tempo desde que estive aqui dentro.  
Segui seu olhar, que tinha pousado na cama. Um rubor quente foi do meu cabelo para as pontas dos meus dedos dos pés. Uma dúzia ou mais de imagens vívidas dançou na frente dos meus olhos - todas elas completamente erradas considerando tudo o que estava acontecendo.
— Era o seu primeiro dia de volta aqui, — Ele disse, e um pequeno sorriso apareceu. — Havia roupas no chão naquela vez, também.  
Surpresa, foquei nele - o real, completamente vestido Aiden. Claro, ele esteve na minha área de estar, mas ele estava certo. Ele não tinha se aventurado mais longe do que o sofá. — Você se lembra disso?  
Ele assentiu. — Yeah, eu estava dando uma palestra para você.  
— Depois que eu tirei Lea de sua cadeira, pelos cabelos.  
Aiden riu e o som me aqueceu. — Você finalmente admite isso.  
— Ela meio que mereceu isso. — Mordi o lábio quando ele olhou para cima, seu olhar encontrando o meu. O que ele estava pensando neste momento? Sentei-me na beirada da cama. — Eu não vou fazer nada, mesmo que eu deva. Você não tem que ficar aqui dentro.  
Aiden ficou em silêncio um par de momentos, depois fez o seu caminho até onde eu estava sentada e se sentou ao meu lado. O ar no quarto de repente ficou mais pesado, a cama menor. A última vez que estivemos em uma cama - e eu estive tão perto assim de estar despida - tinha sido a noite em sua cabana. Incrivelmente, fiquei mais quente com a memória, e nervosa - bem mais nervosa. Eu deveria ter ficado adormecida.
— Por que você acha que precisa se entregar, Alex?  
Fui para trás e enfiei minhas pernas debaixo de mim. A distância ajudou um pouco. — Seth disse que há uma boa chance de que Telly possa provar que foi você, ou que ele vá fazer uma jogada contra todos de quem ele suspeita.  
Ele se torceu ao redor, ficando de frente para mim. — Não importa se ele fizer, Alex. Ir para Telly significa o seu fim. Você não entende isso?  
— Não ir para Telly poderia significar o seu fim, ou de qualquer um que ele ache que possa ter me ajudado.  
— Isso não importa. 
— Você soa como Seth, como se a vida de ninguém mais fosse importante exceto a minha. Isso é besteira. — Levantei-me aos meus joelhos, arrastando uma respiração profunda, — E se Telly fizer algo com você? Ou com Laadan ou Leon ou Marcus? Você espera que eu esteja bem com isso? Viva com isso?  
Os olhos de Aiden escureceram. — Sim, eu espero que você viva com isso.  
— Isso é insano. — Saí de cima da cama, sentindo o picante ímpeto de raiva. — Você é insano!  
Ele me observou calmamente. — É o jeito que é.  
— Você não pode dizer que a minha vida é mais importante do que a sua. Isso não é certo.  
— Mas sua vida é mais importante para mim.  
— Você ouve a si mesmo? — Parei na frente dele, mãos tremendo. — Como você pode tomar essa decisão por outras pessoas, por Laadan e Marcus?  
— Olhe, — Aiden disse, suas mãos subindo no ar. — Fique brava comigo. Me bata. Isso não muda nada.  
Eu me movi na direção dele, para empurrá-lo mas não realmente bater nele. — Você não pode... 
Aiden pegou meus dois pulsos e arrastou-me para o seu colo, trocando meus pulsos para uma mão. Ele suspirou. — Eu não quis dizer para você realmente me bater.  
Atordoada demais para responder, eu apenas o encarei. Nossas cabeças estavam a apenas centímetros de distância. Minhas pernas entrelaçadas com as dele, e então ele alcançou com sua mão livre, alisando a bagunça de cabelo para trás do meu rosto. Minha respiração ficou presa enquanto meu coração acelerou. Nossos olhares se trancaram e seus olhos se tornaram mercúrio.
Ele segurou minha nuca. Ouvi sua ingestão aguda da respiração. Em seguida, soltou meus pulsos e agarrou meus quadris. Antes que eu pudesse piscar, estava de costas, e Aiden pairava sobre mim. Usando um braço para se sustentar, ele abaixou a cabeça e roçou os lábios sobre minha bochecha inchada.
— Como nós sempre acabamos assim? — Ele perguntou, voz áspera conforme seu olhar viajava para longe do meu rosto e pelo meu corpo.
— Eu não fiz isso. — Lentamente, levantei minhas mãos e as coloquei contra seu peito. Seu coração pulava sob minha palma.
— Não. Isto foi tudo eu. — A metade inferior do seu corpo se deslocou para baixo. Nossas pernas estavam niveladas. Seus olhos procuraram os meus, — Fica cada vez mais difícil.  
Minhas sobrancelhas subiram e eu reprimi uma risadinha. — O que fica?  
Aiden sorriu abertamente e seus olhos se iluminaram. — Parar antes que seja tarde demais.  
Em um segundo, tudo - a fenda que viera entre nós no dia que eu lhe dera aquela estúpida palheta de guitarra, o que eu tinha visto no Catskills, a bagunça em que estávamos, e até mesmo Seth - tudo desapareceu. As palavras saíram de mim em uma corrida. 
— Não pare. 
 
Os olhos de Aiden pareciam brilhar enquanto ele olhava para mim. Como na biblioteca, eu sabia que ele queria me beijar. Sua determinação estava rachando e a mão no meu rosto tremeu.
Eu deslizei minhas mãos para baixo de seu estômago tenso, parando acima da faixa de suas calças. Mais do que qualquer coisa eu queria me perder nele, para esquecer tudo. Eu queria que ele se perdesse em mim.
Ele sugou o ar, os lábios entreabertos. — Provavelmente seria uma boa ideia se Leon ou outra pessoa estivesse te assistindo durante a noite.
— Provavelmente.
Seus lábios curvaram em um sorriso torto enquanto sua mão se afastou do meu rosto, deslizando para meu pescoço e sob a gola da minha camisola. Eu pulei um pouco quando a mão dele deslizou sobre meu ombro. — As pessoas dizem que a retrospectiva é sempre mais óbvia12. — disse ele.
Eu não me importava com a visão13 das pessoas. Tudo o que importava era a sua mão na minha pele, empurrando a camisola no meu braço. — Quando... Quando é que a próxima babá chega?
— Não até de manhã.
Borboletas foram à loucura no meu estômago. A manhã estava a várias horas de distância. Um monte de coisas poderia acontecer nessas horas. — Oh.
Aiden não respondeu. Em vez disso, seus dedos deslizaram sobre as marcas de mordida no meu braço e então ele fechou os olhos. Um tremor rolou através de todo o seu corpo, sacudindo-me até o meu núcleo. Em seguida, sua cabeça inclinou e escuras ondas de cabelo caíram para frente, mas não rápido o suficiente para proteger a fome em seu olhar.
Eu fiquei tensa, o meu peito apertou. Sua respiração era quente e tentadora em meus lábios, e então eles roçaram sobre os meus muito suavemente. Esse simples ato roubou minha respiração, meu coração. Mas mesmo enquanto ele se afastava, eu percebi que ele não poderia roubar algo que já tinha.
Aiden rolou para o lado, puxando-me com ele. Ele colocou um braço debaixo de mim, me segurando em seu peito com tanta força que eu podia sentir seu coração trovejando. Havia algo em sua camisa que pressionou contra a minha bochecha. Eu percebi que era o seu colar.
— Aiden?
Ele baixou o queixo até o topo da minha cabeça e deu um suspiro profundo. — Vá dormir, Alex.
Meus olhos se abriram. Eu tentei levantar a minha cabeça, mas não podia
                                                         
 12 Frase original ‘hindsight is 20/20’ que traduz o fenómeno de um indivíduo ter uma percepção sobre o evento que deveria ter sido óbvia desde o começo, mas que não foi, porque eles estavam agindo no calor do momento.  13 Aqui ela não entende o que ele quis dizer, porque visão em inglês é ‘eyesight’ e o que ele disse ‘hindsight’ é muito semelhante, daí ela não entende que ele estava falando sobre eles não deverem estar sozinhos.
 
me mover um centímetro. — Eu não acho que posso dormir agora.
— Bem, é melhor você tentar.
Tentei me soltar, mas ele moveu a perna, apertando uma das minhas entre as dele. Meus dedos se enroscaram em sua camiseta. — Aiden. 
— Alex.
Frustrada, eu empurrei seu peito. A risada de Aiden retumbou através de mim, e mesmo que eu quisesse bater nele, comecei a sorrir. — Por quê? Por que você me beijou? Quero dizer, você acabou de me beijar, né?
— Sim. Não. Mais ou menos. — Aiden suspirou. — Eu queria.
Meu sorriso começou a tornar-se leviano. Era como se houvesse uma parte de mim que não tinha percepção do mundo exterior ou todas as consequências - a parte que era completamente controlada pelo meu coração. 
— Tudo bem. Então, por que você parou?
— Podemos falar sobre outra coisa que não isso? Por favor? 
— Por quê?
Sua mão moveu-se em minhas costas, mergulhando no meu cabelo e enviando calafrios sobre minha pele. — Porque eu lhe pedi agradavelmente?
Estar tão perto dele não estava ajudando. Toda vez que eu respirava, o cheiro de sua loção pós-barba e sal marinho me inundavam. Se eu me movesse, só nos aproximaria mais. Não havia nenhuma maneira no inferno que eu dormisse logo. — Isso é tão errado.
— Isso é a coisa mais verdadeira que você disse esta noite.
Revirei os olhos. — E isso é completamente sua culpa.
— Não vou discutir com isso. — Aiden mudou para suas costas, e acabei presa ao seu lado. Tentei sentar, mas ele trancou os nossos braços juntos. Minha cabeça acabou em seu ombro com o braço preso contra seu estômago. — Diga-me uma coisa. — disse ele depois que eu parei de lutar.
— Eu não acho que você quer que eu lhe diga uma coisa agora.
— Verdade. — Ele riu. — Para onde você quer ser mandada quando se formar?
— O quê? — Fiz uma careta. Aiden repetiu a pergunta, — Sim, eu ouvi você, mas isso é uma pergunta tão aleatória.
— Então? Responda.
Desistindo de tentar me livrar e saltar nele, eu decidi fazer o melhor desta estranha situação e me aconcheguei mais perto. Eu provavelmente me arrependeria mais tarde, quando ele voltasse aos seus sentidos e me empurrasse. Os braços de Aiden apertaram em resposta. — Eu não sei.
— Você não pensou nisso?
— Não realmente. Quando retornei ao Covenant, eu nem achei que seria autorizada a voltar e depois eu aprendi sobre a coisa toda de Apollyon. — Parei, porque eu não estava certa de porque não tinha realmente pensado sobre isso. — Acho que eu só parei de pensar que seria sequer uma opção.
Aiden desbloqueou suas mãos e começou a traçar um círculo ocioso por cima do meu braço. Foi ridiculamente calmante. — Ainda é uma opção, Alex. Despertar não significa que sua vida acabou. Para onde você iria?
Desejando que tivéssemos apagado a luz antes de nossa improvisada festado-abraço, eu fechei os olhos. — Eu não sei. Acho que ia escolher algum lugar que eu nunca tinha estado, como Nova Orleans.
— Você nunca esteve lá? — Surpresa coloriu sua voz.
— Não. E você? 
— Eu estive lá um par de vezes.
— Durante o Mardi Gras14?
Aiden pegou minha mão que estava em seu estômago, enfiando seus dedos nos meus. Meu peito vibrou. — Uma ou duas vezes. — Respondeu ele.
Eu sorri, imaginando Aiden carregando miçangas15. — Sim, então talvez algum lugar como esse.
— Ou a Irlanda?
— Você se lembra das coisas mais estranhas que eu digo.
Seus dedos se fecharam sobre a minha mão. — Lembro-me de tudo o que diz.
Calor passou através de mim e eu o saboreei. Ele disse a mesma coisa no dia do zoológico, mas de alguma forma, eu tinha esquecido no meio de toda a confusão que tinha acontecido depois daquele dia, — Isso é meio constrangedor. Eu digo um monte de coisas estúpidas.
Aiden riu. — Você já disse algumas coisas realmente estranhas.
Eu não podia discutir com isso. Nós ficamos lá juntos em um silêncio sociável por algum tempo. Eu escutei os sons de sua respiração.
— Aiden?
Ele inclinou a cabeça para mim. — Sim?
Eu finalmente dei voz a algo que vinha me incomodando um pouco. — E se... e se eu não quiser ser mais uma Sentinela?
Aiden não respondeu imediatamente. — O que você quer dizer?
— Não é que eu não veja o propósito por trás de ser uma Sentinela e eu
 14 Festa carnavalesca, realizada em Nova Orleans, que acontece todos os anos. Conhecido pelo uso de máscaras de gesso, colares e bandinhas. Hoje em dia já é um evento universitário, que atrai muitos jovens. 15 Os colares, tradicionais do Mardi Gras, são de miçangas. Há uma tradição de que os homens deem colares para cada garota que mostre os seios.
 
ainda tenho essa necessidade, mas às vezes sinto que se eu me tornar uma Sentinela, estaria concordando com a maneira como as coisas são. — Respirei fundo. Dizer isso em voz alta estava quase perto de heresia, — É como se ser uma Sentinela significasse que eu estou bem com a forma como os mestiços são tratados e eu não... não estou bem com isso.
— Nem eu. — Disse ele em voz baixa.
— Eu me sinto... terrível por pensar isso, mas eu apenas não sei. — Apertei meus olhos fechados, um pouco envergonhada, — Mas depois que eu vi aqueles servos mortos em Catskills, eu não posso ser uma parte disso.
Houve uma pausa. — Entendo o que você está dizendo.
— Há um ‘mas’, não há?
— Não. Não há. — Aiden apertou minha mão, — Eu sei que se tornar o Apollyon não é algo que você quer, mas você vai estar na posição de mudar as coisas, Alex. Há puros que irão te ouvir. E há alguns que querem que as coisas mudem. Se isso é algo que você fortemente sente, então deve fazer o que puder.
— Isso não significa que eu estaria me esquivando dos meus deveres como uma Sentinela? — Minha voz parecia minúscula, — Porque o mundo precisa de Sentinelas e Guardas, e os daimons matam indiscriminadamente. Eu não posso simplesmente... 
— Você pode fazer o que quiser. — Sinceridade tocava em seu tom, e eu queria acreditar nele, mas esse não era o caso. Mesmo como Apollyon, eu ainda era uma meio-sangue e eu não podia fazer o que quisesse. — E isso não é se esquivar do seu dever. — Disse ele, — Alterar as vidas de centenas de mestiços vai ser mais importante do que caçar daimons. 
— Você acha?
— Eu sei que sim.
Um pouco da pressão diminuiu e eu bocejei. — E se alguém nos vê?
— Não se preocupe com isso. — Ele tirou meu cabelo para trás por cima do meu ombro. — Marcus sabe que eu estou aqui.
Eu duvidava que Marcus soubesse que Aiden estava na minha cama. Talvez tudo isso era um sonho, eu decidi. Mas meus lábios ainda formigavam do beijo breve. Queria perguntar a ele por que ele estava aqui, desse jeito. Não fazia sentido, mas eu não queria matar o calor entre nós com questões enraizadas na lógica. Às vezes a lógica era superestimada.
Lentamente, eu abri meus olhos e pisquei. Os raios escuros de sol da manhã filtravam através das persianas. Pequenos pontos de poeira flutuavam no fluxo de luz. Um braço pesado estava sobre o meu estômago e uma perna estava jogada sobre a minha, como se ele quisesse ter a certeza de que eu não poderia escapar enquanto ele dormia.
Não que um deus pudesse me fazer mover desta cama ou dos seus braços.
Eu adorava a sensação dele pressionado contra o meu lado, a forma como a sua respiração agitava o cabelo em minha têmpora. Ontem à noite não tinha sido um sonho estranho.
Ou se tivesse sido, eu não tinha certeza se queria acordar. Talvez ele não estivesse com medo que eu fosse fugir enquanto ele dormia. Talvez apenas tivesse fome de ficar perto de mim, assim como eu tinha de ficar perto dele.
Minha frequência cardíaca elevou, mesmo que eu não tivesse me movido. Aqui deitada, olhando para as pequenas partículas de poeira, eu me perguntei quantas vezes eu tinha sonhado em adormecer e acordar nos braços de Aiden. Uma centena ou mais? Definitivamente mais. Minha garganta apertou. Não parecia justo eu estar me burlando assim, tendo um gostinho do que um futuro com Aiden poderia ser, algo que eu nunca poderia ter.
Uma dor encheu meu peito. Estar em seus braços assim doía, mas não havia um pingo de arrependimento. No silêncio da madrugada, admiti que eu não tinha superado Aiden. Não importa o que acontecesse a partir de agora, meu coração ficaria com ele. Ele poderia ficar junto de uma pura e eu poderia ir embora desta ilha para sempre, mas isso não teria importância. Contra todas as probabilidades e bom senso, Aiden tinha deslizado sob a minha pele, se envolvido em torno de meu coração e incorporado a si mesmo em meus ossos. Ele era uma parte de mim e... 
Tudo de mim - meu coração e minha alma - sempre pertenceriam a ele.
E eu era tola por acreditar no contrário, até mesmo para entreter um cenário diferente. Pensei então no Seth e a dor no meu peito se espalhou, virou interna e queimava como uma marca feita por algum daimon. Seja o for que estivesse acontecendo entre eu e Seth, não era justo com ele. Se ele realmente gostava de mim, ele esperava ter algum tipo de posse em meu coração e sentimentos.
Com cuidado para não perturbar Aiden, me abaixei para a mão que descansava no meu quadril e estendi a minha mão sobre a dele. Eu lembraria esta manhã para sempre, não importa quão curto ou longo ‘para sempre’ se torne.
— Alex? — Aiden disse com a voz áspera do sono. 
— Hey. — Meu sorriso foi aguado.
Aiden se agitou ao meu lado, levantando um braço. Ele não falou quando virou a mão e apertou a minha. Seu olhar prateado passou pelo meu rosto e ele sorriu para mim, mas nunca chegou a seus olhos. — Vai ficar tudo bem. — disse ele, — Eu prometo.
Eu esperava que sim. Telly teria partido por agora, sem mim. Aposto que ele não estava satisfeito. Não havia nenhuma maneira de saber o que ele ia fazer agora. E se alguma coisa acontecesse com qualquer um deles, era minha culpa. Eu rolei para o meu lado, mas a posição era um pouco desconfortável desde que Aiden ainda segurava na minha mão.
— Você odeia isto... de não fazer nada quando você se sente responsável pelo que aconteceu.
Suspirei. — Eu sou responsável por isso.
— Alex, você fez isso para salvar sua vida. Não é culpa sua. — disse ele, — Você entende isso, certo?
— Você sabe se Telly partiu? — Perguntei ao invés de responder.
— Eu não sei, mas presumo que sim. Antes de eu vir aqui ontem à noite, Linard havia dito que ele não tinha deixado a ilha principal desde que esteve no Covenant.
— Vocês vigiaram-no, também?
— Precisamos ter certeza de que ele não estava aprontando nada. Os guardas que servem Lucian que ficaram para trás foram um ativo. Telly foi observado tão de perto que eu sei que ele cozinhou lagosta para o jantar na noite passada.
Fiz uma careta. Ontem à noite eu comi um sanduiche frio. — Vocês todos deviam iniciar os seus próprios negócios de espião.
Aiden riu. — Talvez em uma vida diferente, e se eu tiver dispositivos legais. 
Eu abri um sorriso. — Dispositivos tipo 007? 
— Ele tinha aquela moto BMW R1200 C em Tomorrow Never Dies. — Ele disse, soando melancólico, — Caramba, aquela moto era doce.
— Nunca vi o filme.
— O quê? Isso é triste. Nós vamos ter que corrigir isso.
Eu rolei para longe. O sorriso que Aiden usava agora chegou a seus olhos, tornando-os um cinza suave, — Eu não tenho vontade de assistir a um filme de James Bond.
Seus olhos se estreitaram. — O quê?
— Nope. Aqueles filmes parecem chatos para mim. O mesmo acontece com os do Clint Eastwood. Entediantes.
— Eu acho que não podemos ser mais amigos.
Eu ri e seu sorriso se espalhou. Aquelas covinhas apareceram, e oh caramba, tinha passado tanto tempo desde que eu as tinha visto. Parecia como uma eternidade, — Você não sorri o suficiente.
Aiden arqueou uma sobrancelha. — Você não ri o bastante.
Não havia muito para rir recentemente, mas eu não queria focar nessas coisas. Aiden iria sair em breve e tudo isso era como uma fantasia.
Uma que eu não estava pronta para deixar ir ainda. Ficamos assim por um tempo, conversando e de mãos dadas. Quando o tempo veio para enfrentar a realidade, Aiden saiu da cama e foi ao banheiro. Eu estava lá com um sorriso bobo no rosto.
Esta manhã estava cheia de opostos: tristeza e felicidade, desespero e esperança. Todas essas emoções variadas deveriam ter me deixado exausta, mas eu me senti pronta para ir... correr ou algo assim.
E eu nunca me senti pronta para correr.
Uma batida na porta tirou-me dos meus pensamentos.
— Isso é provavelmente Leon. — disse Aiden atrás da porta do banheiro. O resto do que ele disse foi abafado por uma torrente de água na pia.
Gemendo, eu saí da cama e vesti a minha camisola. O relógio no quarto dizia que eram apenas 7:30. Revirei meus olhos. Segundo dia de férias de inverno e eu estava fora da cama antes das oito da manhã. Havia algo cosmicamente de errado com isso.
— Estou indo! — Gritei quando bateu novamente. Eu abri a porta. — Bom dia, luz do dia.
Era Linard que estava na porta, com as mãos cruzadas atrás das costas. Seus olhos direcionavam sobre a minha cabeça, esquadrinhando o quarto. — Onde está Aiden?
— No banheiro. — Me afastei, deixando-o entrar, — Será que Telly partiu?
— Sim. Ele partiu de madrugada. — Linard virou-se para mim, sorrindo. — Ele esperou, como te disse que faria, mas você não veio.
— Aposto que ele estava puto.
— Não. Eu acho que ele estava mais... desapontado do que qualquer coisa. 
— É muito ruim. Tão triste. — Eu esperava que Aiden se apressasse, porque eu realmente precisava escovar os dentes.
— Sim. — disse Linard, — É muito ruim. As coisas poderiam ter terminado facilmente.
— Sim... — Eu fiz uma careta. — Espere. O q... 
Linard se moveu rápido, como qualquer Guarda treinado consegue. Houve um breve segundo, quando percebi que eu tinha estado nesta posição antes, exceto que na época tinha havido adrenalina nas minhas veias. Então, uma dor em vermelho-quente explodiu logo abaixo das minhas costelas, próximo a runa do poder, e todo o pensamento fugiu. Foi um tipo de dor repentina e dura, como se tivesse roubado o último fôlego da sua vida, antes mesmo que você tenha percebido.
Tropeçando para trás, olhei para baixo enquanto eu tentava puxar o ar em meus pulmões e dar sentido a dor angustiante disparando através do meu corpo. Um punhal preto estava enterrado até o fundo, embutido dentro do meu corpo. Em um canto da minha mente, eu sabia que isso não era uma lâmina comum de um punhal. Ela estava empapada com algo, - provavelmente com sangue de um Titã.
Eu queria perguntar por que, mas quando a minha boca se abriu, sangue borbulhou e escorreu para fora.
— Desculpe. — Linard puxou a lâmina livre. Eu caí por cima, incapaz de fazer um som, — Ele deu-lhe uma chance de viver, pelo menos. — Ele sussurrou.
— Ei, eu estava esperando Leon... — Aiden congelou a poucos metros de nós, e, em seguida, ele atacou Linard. Um som desumano, animalesco, saiu de Aiden quando ele passou um braço ao redor da garganta do Linard.
Minhas costas bateram na parede ao lado do balcão e senti como se elas tivessem rompido contato comigo. Eu deslizei para baixo enquanto apertava meu estômago, tentando estancar o fluxo. Sangue quente e pegajoso jorrava entre meus dedos. Houve um grito e depois uma trituração nauseante que assinalou o fim de Linard.
Aiden gritou por socorro quando ele caiu ao meu lado, batendo minhas mãos trêmulas para fora do caminho e pressionando minha ferida com força. O rosto ferido de Aiden pairava sobre o meu, os olhos arregalados de horror, — Alex! Alex, fale comigo. Fala comigo, porra!
Eu pisquei e seu rosto se formou novamente, mas foi vago. Eu tentei dizer seu nome, mas uma tosse rouca e molhada atacou meu corpo.
— Não! Não. Não. — Ele olhou por cima do ombro para a porta. Os Guardas estavam reunidos, parados em comoção. — Vão chamar ajuda! Agora! Vão!
Minhas mãos se contraíram em meus lados e depois, um entorpecimento se firmou profundo em meus ossos. Nada machucava realmente, exceto o meu peito, mas doía por um motivo diferente. A maneira como ele me olhou quando se virou para mim e seus olhos deslizaram para o meu estômago. Ele pressionou com mais força. Seu olhar era frenético, chocado e apavorado.
Eu queria dizer a ele que ainda o amava - que eu sempre tinha amado, - e queria pedir que ele cuidasse para que Seth não se perdesse. Minha boca se moveu, mas as palavras não saíram.
— Está tudo bem. Tudo vai ficar bem. — Aiden forçou um sorriso, os olhos brilhando. Ele estava chorando? Aiden nunca chorava, — Apenas aguente. Estamos chamando ajuda. Apenas se segure por mim. Por favor, agapi mou16. Persista por mim. Eu prometo...
Houve um som de estalo, seguido por um flash de luz, brilhante e ofuscante. E então não havia nada além da escuridão e eu estava caindo, girando e estava tudo acabado.
 
O chão sob meu rosto estava úmido e frio, e um cheiro almiscarado, molhado enchia o ar, que me fez lembrar estar no fundo de uma caverna cheia de musgo. Pensando sobre isso, eu não deveria sentir frio? Este lugar era escuro e úmido, a única luz era fornecida por tochas altas empurrando para fora da terra, mas eu me senti bem. Sentando-me, escovei o cabelo do meu rosto, ao sentir as pernas trêmulas.
— Oh... Oh, inferno para o não...
Eu estava na margem de um rio, e na minha frente estavam centenas, se não milhares de pessoas - de pessoas nuas - tremendo, enquanto se amontoavam juntas. O rio de cor ônix que nos separava ondulou e a massa de pessoas avançou, estendendo a mão e uivando.
Estremeci, querendo tapar os ouvidos.
As pessoas do meu lado do rio circulavam, alguns vestidos com trajes de Sentinela e outros em roupas casuais. Suas condições eram variadas. Os que estavam esperando na beira do rio pareciam mais felizes. Outros pareciam confusos, pálidos, com roupas manchadas de sangue e assustados17.
Homens vestidos com túnicas de couro montando cavalos pretos, reuniam os de aparência mais infeliz em grupos. Eu imaginei que eles eram guardas de algum tipo, e pela forma como alguns deles estavam me observando, tive a nítida impressão de que eu não deveria estar aqui, onde quer aqui fosse.
Espere. Virei-me para o rio, tentando ignorar as pobres... almas... do outro lado - oh, deuses, caramba. Este era o Rio Styx, onde Charon transportava as almas para o Submundo.
Eu estava morta.
Não. Não. Não. Eu não poderia estar morta. Eu ainda não tinha escovado os dentes, pelo amor de Deus. De jeito nenhum. E se eu estivesse morta, o que Seth ia fazer?
Ele ia ficar louco quando descobrisse, se é que já não tivesse. Nossa ligação diminuiu com a distância, mas ele poderia ter sentido a minha perda? Talvez eu não estivesse morta.
Abrindo meu suéter, eu olhei para baixo e xinguei.
Toda a frente da minha parte superior do corpo estava ensopada de sangue, meu sangue. Então me lembrei de tudo: a noite anterior e esta manhã com Aiden que parecia tão perfeita. Aiden - oh deuses - ele me pediu para aguentar e eu tinha partido.
Raiva correu através de mim. — Eu não posso estar morta.
Um riso suave e feminino veio atrás de mim. — Querida, se você está aqui, você está morta. Como o resto de nós.
Eu me virei pronta para dar um soco no rosto de alguém.
Uma menina que eu nunca tinha visto antes gritou em voz alta. — Eu sabia!
                                                         
 17 Do termo original ‘gore’, que é usado para retratar cenas de filmes de terror, ou sangramentos.
 
Você está morta.
Recusei-me a acreditar que eu estava morta. Isso tinha que ser um bizarro pesadelo induzido pela dor. E sério, por que a garota estava tão feliz que eu estava morta?
— Eu não estou morta.
A menina estava provavelmente na casa dos vinte, usando um par de jeans que pareciam ter custado caro e sandálias de tiras. Ela segurava algo na mão. Eu assumi que ela era uma puro sangue, mas o olhar aberto e simpático em seu rosto me disse que eu tinha que estar errada. — Como você morreu? — ela perguntou.
Abracei meu casaco em torno de mim. — Eu não morri.
Seu sorriso não vacilou. — Eu estava fazendo compras com meus Guardas ontem de noite. Gosta destes sapatos? — Ela estendeu o pé, me dando uma boa visão deles. — Não são divinos? 
— Uh, sim. Os sapatos são ótimos. 
Ela suspirou. — Eu sei. Eu morri por eles. Literalmente. Veja, decidi que queria usá-los para sair, mesmo que estava ficando tarde e meus Guardas estavam ficando nervosos. Mas falando sério, por que haveria um monte de daimons em Melrose Avenue? — Revirou os olhos, — Eles me drenaram até eu secar e aqui estou, esperando para o Paraíso. De qualquer forma, você está um pouco confusa.
— Eu estou bem. — Sussurrei, olhando ao redor. Isso não podia ser real. Não poderia estar presa no Submundo com Buffy. — Porque você não se parece como eles?
Ela seguiu o meu olhar e se encolheu. — Eles não receberam isso ainda. — Uma moeda de ouro brilhante estava em sua palma aberta, — Eles não podem atravessar até que tenham passagem. Uma vez que é colocado em seu corpo, eles vão estar todos frescos e novos. E eles vão ser capazes de pegar o próximo passeio.
— E se não receberem uma moeda?
— Eles esperam até que recebam.
Ela estava falando das almas do outro lado do rio. Tremendo, eu virei de costas para eles e percebi que eu... eu não tinha uma moeda. — O que acontece se você não tem uma moeda?
— Está tudo bem. É alguns deles recém chegaram aqui. — Ela colocou um braço em volta dos meus ombros. — É preciso um par de dias na maioria dos casos. Pessoas gostam de esperar para fazer os funerais, e isso é totalmente uma droga para nós, porque temos que esperar aqui pelo que se parece com a eternidade. — Fez uma pausa e riu, — Eu nem te disse meu nome. Sou Kari.
— Alex.
Ela franziu o cenho.
Revirei os olhos. Mesmo as pessoas mortas precisavam de uma explicação. — É a abreviação de Alexandria.
— Não. Eu sei o seu nome. — Antes que eu pudesse perguntar como ela sabia meu nome, Kari me guiou para longe de um grupo de guardas com aparência raivosa que estavam examinando minha roupa arruinada. — Aqui embaixo tende a ficar um pouco chato.
— Por que você está sendo tão boa para mim? Você é uma puro-sangue. 
Kari riu. — Nós somos todos iguais aqui, querida.
Minha mãe disse isso uma vez. Engraçado. Ela tinha razão. Deuses, eu não queria acreditar.
— E, além disso, quando eu estava viva... eu não era uma odiadora. — Continuou ela, sorrindo suavemente. — Talvez tenha sido porque eu era um oráculo.
Choque forçou-me a fechar a boca.  — Espera... você é o oráculo?
— É uma coisa da minha família.
Inclinei-me mais perto, avaliando o tom profundo de sua pele e os olhos escuros que de repente pareciam muito familiares. — Você não está relacionada com a avó Piperi, não é?
Kari riu roucamente. — Piperi é o meu sobrenome.
— Santo...
— Sim, estranho, né? — Ela encolheu os ombros, deixando cair o braço. — Eu tinha um propósito enorme na vida, mas o meu amor por sapatos meio que acabou com tudo. Isso leva o termo 'sapatos assassinos’18 para um nível totalmente novo, certo?
— Sim. — disse eu, totalmente pirando. — Então, você é o oráculo que iniciou... O que quer que tenha sido quando a avó Piperi faleceu?
Alguns momentos se passaram e então ela suspirou. — Sim, fui... Infelizmente. Nunca fui muito boa nessa coisa de ter sorte ou de destino, sabe? E visões... bem, elas são uma droga na maior parte do tempo. — Kari olhou para mim, seus olhos estreitando-se. — Você deveria estar aqui.
— Eu deveria? — Rangi. Ah, cara...
Ela assentiu com a cabeça. — Sim. Eu já tinha visto isto acontecendo. Como se eu soubesse que ia me encontrar com você, mas não tinha ideia de que seria aqui. Veja, oráculos não sabem quando a passagem do seu próprio tempo vai ser, o que é péssimo. — Riu de novo, — Deuses, eu sei o que vai acontecer.
Agora isso me chamou a atenção. — Você sabe?
Seu sorriso se tornou secreto. Meus dedos cravaram em meu suéter. — E você vai me dizer?
                                                         
 18 Trocadilho de quando falamos que um sapato é assassino por nos machucar o pé.
 
Kari ficou em silêncio, e que importava agora que ela estava fazendo pouco sentido? Ela era um oráculo e eu estava morta. Não era como se pudesse fazer qualquer coisa, certo? Balançando a cabeça, olhei ao meu redor. Eu não conseguia ver onde o rio levava, ele corria para onde era apenas um buraco, preto profundo. À nossa direita havia uma pequena abertura, e um brilho estranho azulado emanava do que fosse que existia além deste lugar.
— Onde é que isso vai? — Perguntei, apontando para a luz.
Kari suspirou. — O caminho de volta para lá, mas não é a mesma coisa. Você é uma sombra se você for por esse caminho, e isso se puder passar pelos guardas. 
— Os caras nos cavalos?
— Sim. Descendo ou subindo, Hades não gosta de perder nenhuma alma. Você deveria ter estado aqui quando alguém tentou fazer uma fuga dele. — Ela estremeceu delicadamente, — Nojento.
A comoção pelo rio nos fez dar voltas. Kari bateu palmas. — Deuses doces, finalmente! — Kari decolou em direção à multidão de pessoas enraivecidas perto do rio.
— O quê? — Corri atrás dela. Os guardas a cavalos estavam forçando as pessoas em linhas de ambos os lados do rio. — O que está acontecendo?
Ela olhou por cima do ombro para mim, sorrindo. — É Charon. Ele está aqui. É hora de ir para o Paraíso, baby!
— Mas como você sabe onde está indo? — Eu lutava para manter-me perto dela, mas quando cheguei à margem do grupo, eu congelei. Oh, merda.
— Sabe, — disse Kari, passando por aqueles que eu assumi que não tinham dinheiro para a passagem. — Foi bom conhecer você, Alexandria. E eu tenho 99% de certeza que nos encontraremos novamente. — Então, ela desapareceu no meio da multidão.
Muito ocupada com a cena que se desenrolava adiante, eu não prestei atenção no que ela disse. O barco era maior do que eles mostraram em pinturas. Ele era enorme, como o tamanho de um iate, e muito mais agradável do que a imagem de canoa velha e quebrada que eu estava familiarizada, pintada de um branco brilhante e acabamento em ouro. Ao leme estava Charon. Agora, ele parecia o que eu esperava.
A forma ligeira de Charon estava engolida por uma capa preta que cobria todo seu corpo. Em uma mão ossuda, ele segurava uma lanterna. Sua cabeça envolta se virou para mim e mesmo que eu não pudesse ver seus olhos, eu sabia que ele me viu.
Em segundos, o barco virou e deslizou pelo rio, desaparecendo através do túnel escuro. Eu não tinha ideia de quanto tempo fiquei ali, mas finalmente vireime e corri no meio da multidão. Onde quer que eu olhasse, havia rostos. Jovens e velhos. Expressões entediadas ou atordoadas. Havia pessoas mortas vagando por toda parte e eu estava sozinha, absolutamente sozinha. Eu tentei fazer-me tão pequena quanto possível, mas cruzei um ombro aqui, um braço ali.
— Com licença, — Uma velha disse. A camisola rosa berrante deixando sua forma frágil. — Sabe o que aconteceu? Fui dormir e... eu acordei aqui.
— Uh. — Comecei a recuar. — Desculpe. Eu estou tão perdida quanto você.
Ela parecia perplexa. — Você foi dormir também?
— Não. — Suspirei, virando-me para longe. — Eu fui esfaqueada até a morte.
Uma vez que essas palavras saíram da minha boca, eu queria tirá-las de volta, porque elas fizeram tudo verdadeiro.
Eu parei do lado de fora da multidão de pessoas e olhei para os meus pés descalços. Eu queria bater-me. Eu realmente estava morta.
Levantando minha cabeça, meus olhos encontraram a estranha luz azul. Se o que Kari disse era verdade, então essa era a maneira de sair dessa... área de espera. Então o quê? Eu seria uma sombra para a eternidade? Mas e se eu não estivesse realmente morta?
— Você está morta. — Murmurei para mim mesma. Mas eu comecei a ir em direção a luz azul. Quanto mais perto chegava do local, mais atraída por ela eu ficava. Parecia oferecer tudo - luz, calor, vida.
— Não vá para a luz! — Uma voz gritou, seguida por um riso, uma risada marota e amada, — Eles mentem sobre a luz, você sabe. Nunca vá para a luz. 
Eu congelei e, se o meu coração ainda estivesse batendo, o que eu não estava muito certa sobre isso, teria parado ali mesmo. Como se estivesse me movendo através de cimento, eu me virei lentamente, eu não podia acreditar, não queria acreditar no que estava vendo, porque se isso não fosse real...
Ele estava a poucos metros de distância, vestindo uma camisa branca de linho e calças. Seu cabelo loiro no comprimento do ombro estava escondido atrás de suas orelhas e ele estava sorrindo, realmente sorrindo. E aqueles olhos, a cor do céu de verão, eram brilhantes e vivos. Não como a última vez que eu o vi.
— Alex? — Caleb disse. — Parece que você viu um fantasma.
Todos os meus músculos entraram em ação ao mesmo tempo. Corri em direção a ele e saltei.
Rindo, Caleb me pegou pela cintura e me girou. Era como uma represa estourando aberta. Eu me transformei em uma bebê chorona em menos de um segundo. Meu corpo inteiro tremeu, eu não poderia impedir. Era Caleb - o meu Caleb, o meu melhor amigo. Caleb.
— Alex, qual é. — Ele me colocou em meus pés, mas ainda me segurou perto, — Não chore. Você sabe como eu fico quando você chora.
— Eu... sinto muito. — Nada neste mundo ia quebrar minha alegria de segurá-lo. — Oh, meus deuses, eu não posso acredita ... você está aqui.
Ele alisou o meu cabelo para trás. — Tem sentido a minha falta, hein? 
Eu levantei minha cabeça. — Não é o mesmo sem você. Nada é o mesmo sem você. — Subi, colocando minhas mãos em seu rosto e, em seguida, em seu cabelo. Ele era de carne e osso. Real. Não havia sombras sob seus olhos e seu olhar não tinha aquele olhar cansado que eles tiveram após Gatlinburg. As olheiras tinham desaparecido. — Oh deuses, você está realmente aqui.
— Sou eu, Alex. 
Pressionando meu rosto contra seu peito, comecei a chorar de novo. Nunca em um milhão de anos eu pensei que ia vê-lo novamente. Havia tanta coisa que queria dizer. — Eu não entendo, — Murmurei contra seu peito. — Como você pode estar aqui? Você não esteve esperando esse tempo todo, não é?
— Não. Perséfone me devia uma. Nós estávamos jogando Mario Kart Wii, e eu a deixei ganhar. Descontei o meu favor.
Eu me afastei, enxugando as lágrimas do meu rosto com as costas da minha mão. — Você tem Wii por aqui?
— O quê? — Ele sorriu, e oh deuses, eu pensei que nunca ia ver aquele sorriso novamente. — Nós ficamos entediados. Especialmente Perséfone, quando ela está por aqui durante estes meses. Normalmente Hades não joga, graças aos deuses. Ele é um maldito trapaceiro. 
— Espere. Você joga Mario Kart com Hades e Perséfone?
— Eu sou uma espécie de celebridade por aqui, por causa de você. Quando eu... cheguei, fui levado direto para Hades. Ele queria saber tudo sobre você. Eu acho que ele meio que começou a gostar de me ter por perto. — Caleb deu de ombros e, em seguida, ele me puxou de volta para mais um de seus abraços de mamute. — Deuses Alex, eu queria ver você de novo. Só não achei que seria assim.
— Nem me fale. — eu disse secamente. — Como... Como é que é?
— Não é ruim, Alex. Não é totalmente ruim, — Ele disse suavemente. — Há coisas que eu sinto falta, mas é como estar vivo, só que não.
Em seguida, fui atingida por algo. — Caleb, a... a minha mãe está aqui?
— Sim, ela está. E ela é muito legal. — Ele fez uma pausa, franzindo os lábios. — Muito legal considerando que ela não tentou me matar, desta vez, sabe.
Eu me senti enjoada, o que era estranho, já que eu deveria estar morta. — Você falou com ela?
— Sim. Ao vê-la pela primeira vez foi muito estranho, mas ela não é mais quem nós encontramos da última vez. Ela é sua mãe, Alex. A mãe da qual você se lembra.
— Você fala como se tivesse perdoado ela.
— Eu o fiz. — Ele limpou as lágrimas frescas reunidas em meu rosto. — Você sabe, eu não a teria perdoado em vida, não realmente. Mas uma vez que você finalmente aceita a coisa toda de morrer, isso meio que te ilumina um pouco. E ela foi forçada a se tornar um daimon. Eles realmente não usam isso contra você aqui.
— Eles não fazem? — Oh, deuses, eu ia começar a chorar de novo.
— Não, Alex.
Alguns dos guardas estavam se reunindo perto de nós. Eu me concentrei em Caleb, esperando que eles não estivessem vindo para nos separar. — Eu tenho que vê-la! Você pode...?
— Não, Alex. Você não pode vê-la. Ela ainda não sabe que você está aqui, e isso é provavelmente o melhor agora.
Decepção me inundou. — Mas...
— Alex, como você acha que a sua mãe se sentiria se soubesse que está aqui? Só há uma razão para você estar aqui. Isso iria aborrecê-la.
Droga, ele tinha um ponto. Mas eu estava aqui, o que significava que eu estava morta. Eu já não veria ela em breve, de todo jeito? Assim, a lógica não fazia sentido para mim.
— Eu sinto a sua falta. — Disse ele novamente, me puxando de volta para ele.
Eu apertei a frente de sua camisa, e as palavras que eu queria dizer derramaram. — Caleb, eu sinto muito, muito por tudo. O que aconteceu em Gatlinburg e... e eu realmente não prestei atenção ao que você estava passando depois daquilo. Eu estava tão presa em mim mesma.
— Alex...
— Não. Eu sinto muito. Então, o que aconteceu com você. Não foi justo. Nada disso é. E eu sinto muito. 
Caleb baixou a testa na minha e eu jurei que seus olhos brilhavam. — Não foi culpa sua, Alex. Ok? Nunca pense isso.
— Sinto tanto sua falta. Não sabia o que fazer depois que... você partiu. Eu o odiava por morrer. — Engasguei, — E eu só queria que você voltasse.
— Eu sei.
— Mas eu não odeio você. Eu te amo.
— Eu sei. — disse ele novamente. — Mas você precisa saber que nada disso foi sua culpa, Alex. Isto era para acontecer. Eu entendo isso agora.
Eu ri grossa. — Deuses, você parece tão sábio. Que diabos, Caleb?
— A morte me fez inteligente, eu acho. — Seu olhar procurou meu rosto. — Você não parece diferente. Só parece que passou tanto... tanto tempo desde que eu a vi pela última vez.
— Você parece melhor. — Tracei meus dedos pelo seu rosto, pressionando meus lábios. Caleb parecia maravilhoso para mim. Não havia uma pitada de nada do que ele tinha sofrido. Ele parecia em paz de uma maneira que não tinha sido quando era vivo. — Eu sinto tanto sua falta.
Caleb me apertou mais apertado e riu. — Eu sei, mas precisamos parar com essa porcaria de amizade, Alex. Primeiro, somos torturados por daimons juntos e agora nós dois fomos esfaqueados. Isso está levando a coisa de “nós fazemos tudo juntos” para um outro patamar. 
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas eu ri novamente. Ele parecia tão quente e real. Vivo. — Deuses, eu realmente estou morta.
— Sim, você meio que está.
Eu funguei. — Como posso estar meio morta?
Caleb recuou e inclinou o queixo para baixo. Um sorriso travesso puxou seus lábios. — Bem, tem esse deus grande e loiro que está fazendo Hades passar pelo inferno agora. Aparentemente você ainda está no limbo ou alguma coisa assim. Sua alma ainda está em aberto.
Minhas entranhas se reviraram e eu pisquei. — O quê?
Ele acenou com a cabeça. — Você não vai ficar morta por muito tempo.
Limpei sob meus olhos. — Eu estive aqui por horas. Eu estou morta.
— Horas aqui são apenas alguns segundos lá. — Explicou. — Quando eu cheguei aqui, estava preocupado que era tarde demais, que Hades já tinha lançado você.
— Eu não vou... ficar morta?
— Não. — Caleb sorriu, — Mas eu tinha que te ver. Há algo que eu preciso te dizer.
— Tudo bem. — Uma pontada de dor no meu estômago me assustou. Eu empurrei contra a sensação. — Caleb?
— Está tudo bem. — Seus braços esguios me seguravam quieta. — Nós não temos muito tempo, Alex. Eu preciso que você me ouça. Às vezes ouvimos coisas aqui em baixo... sobre o que está acontecendo lá em cima. É sobre Seth.
Uma chama acendeu dentro de mim. — O que... o que você quer dizer sobre
Seth?
— Ele realmente não sabe, Alex. Ele acha que está no controle, mas não está. Não... não acredite em tudo que você ouve. Ainda há esperança.
Eu tentei rir, mas a chama estava se transformando em um incêndio de grandes proporções. — Você ainda é… um fã de Seth.
Caleb fez uma careta. — Eu estou falando sério, Alex.
— Tudo bem. — Eu respirei, apertando o meu estômago. — Caleb, algo está errado...
— Nada há de errado, Alex. Basta lembrar o que eu disse. Às vezes as pessoas têm dificuldade de lembrar tudo depois desses tipos de coisas. Alex, você pode me fazer um favor?
— Sim.
— Diga a Olivia que eu escolheria Los Angeles. — Caleb colocou seus lábios contra a minha testa. — Ela vai entender, ok? 
Eu assenti, embora não entendesse porquê enquanto segurava sua camisa com todas as minhas forças. — Eu vou... vou dizer a ela. Prometo.
— Eu te amo, Alex. — disse Caleb, — Você é como a irmã que eu nunca quis, sabe?
Minha risada foi cortada pelo fogo rasgando minhas entranhas. — Eu também te amo.
— Nunca mude quem você é, Alex. É sua paixão, sua imprudente fé, que vai te salvar, salvar a vocês dois. — Ele me segurou mais apertado. — Prometa-me que você não vai esquecer isso.
Quando a dor aumentou e minha visão ficou nublada, eu segurei Caleb. — Eu prometo. Eu prometo. Eu prometo. Eu prom... 
Fui arrancada para longe dele, ou pelo menos, era assim que parecia. Eu estava girando e girando, desmoronando e caí novamente. A dor era tudo. E inundava meus sentidos, alimentando o terror. Meus pulmões queimavam.
— Respire, Alexandria. Respire.
Engoli em seco no ar enquanto minhas pálpebras se abriram. Dois olhos totalmente brancos – sem irís nem pupilas - olharam de volta para mim. Os olhos de um deus.
— Oh, deuses. — Eu sussurrei, e então perdi a consciência.
Pessoas deslocavam-se ao meu redor. Eu não podia vê-los, mas podia ouvir seus pés batendo no piso e vozes abafadas. Alguém pairava perto da cama. Sua respiração era uniforme e constante, embalando-me. Eu senti o cheiro de folhas queimadas e sal marinho.
Uma porta se abriu, e a pessoa ao lado da minha cama se mexeu.
Eu desliguei depois disso, deslizando de volta para a névoa agradável. Quando, finalmente, abri os olhos, eles pareciam como se tivessem sido costurados, e levou algumas tentativas para conseguir que minha visão funcionasse. Paredes brancas me cercavam - simples e chatas paredes brancas. Eu reconheci a sala da enfermaria. Não havia janelas, então eu não tinha ideia se era noite ou dia. Havia leves lembranças de Linard e dor, então um flash de luz e uma sensação de queda. Depois disso, as coisas ficaram nebulosas. Lembrei-me de um cheiro de mofo e havia mais, mas parecia existir fora do alcance de meus pensamentos.
Minha boca parecia seca como um pedaço de madeira. Uma dor surda pulsava em meu esterno. Eu respirei fundo e me encolhi.
— Alex? — Houve um movimento no outro lado da minha cama e Aiden apareceu. Sombras escuras floresceram sob seus olhos. Seu cabelo estava uma bagunça, caindo para todos os lados. Ele se sentou na cama, cuidadosamente para não me mover. — Deuses Alex, eu... eu nunca pensei...
Fiz uma careta e estiquei o braço para pegar a mão dele, mas o movimento puxou meu estômago. Minha pele se esticou, provocando uma dor aguda. Ofeguei.
— Alex, não se movimente muito. — Aiden colocou a mão na minha. — Você foi atendida, mas precisa ter calma.
Olhei para Aiden, e quando falei, minha garganta parecia uma lixa. — Linard me esfaqueou, não foi? Com o maldito sangue de Titã? 
Os olhos brilhantes de Aiden mudaram para um cinza trovão. Ele acenou com a cabeça.
— Rato bastardo. — Resmunguei.
Seu lábio se contraiu com o que eu disse. — Alex, eu... sinto muito. Isso não deveria ter acontecido. Eu estava lá para me certificar de que você permaneceria segura e...
— Pare. Isso não foi culpa sua. E, obviamente, eu estou bem pela maior parte. Eu só não esperava Linard - Romvi, sim. Mas Linard? — Comecei a mexer, mas Aiden foi mais rápido, empurrando levemente meus ombros para baixo, — O quê? Posso sentar-me.
— Alex, você precisa ficar quieta. — Exasperado, ele balançou a cabeça. — Aqui, beba isso. — Ele segurou um copo na frente do meu rosto.
Tomei a poção, olhando para ele por cima da borda do copo. A água com sabor de hortelã tinha um gosto absolutamente divino, aliviando a dor em minha garganta.
Aiden olhou para mim, bebendo-me como se nunca tivesse esperado me ver novamente. Uma imagem dele inclinando-se sobre mim, angustiado e suplicando, brilhou através de mim. Uma série de emoções cintilava em seu rosto agora: cansaço, diversão, mas acima de tudo, alívio.
Ele tirou o copo longe de mim. — Devagar.
Eu empurrei o cobertor para baixo, surpresa ao descobrir que eu usava uma camisa limpa e o suéter cinza que o Covenant normalmente entregava. Ignorando a pontada de dor, eu puxei a barra da minha camisa. — Oh merda.
— Não é tão ruim...
Minhas mãos tremiam. — Sério? Porque eu acho que isso faria James Bond orgulhoso. — A linha vermelha irritada era de dois centímetros de comprimento e pelo menos uma polegada de largura. A pele em torno da marca era rosa e enrugada. — Linard tentou me matar.
Aiden pegou as minhas mãos e moveu-as para longe da minha camisa. Então, ele puxou-a para baixo e puxou os cobertores em torno de mim com cuidado. Nunca deixou de me surpreender como ele era… cuidadoso e gentil comigo mesmo ele sabendo que eu era dura até o núcleo. Isso me fez sentir pequena, feminina. Protegida. Cuidada.
Para alguém como eu, que nasceu e foi treinada para lutar, sua atenção suave desfez a dureza em mim.
Um músculo flexionou em sua mandíbula. — Ele tentou. 
Olhei para Aiden, meio assombrada. — Eu sou como um gato. Juro que eu tenho nove vidas.
— Alex. — Ele olhou para cima, encontrando meus olhos. — Você usou todas essas vidas, e mais algumas.
— Bem... — O cheiro de mofo voltou para mim.
Aiden segurou meu rosto, e o calor correu através de mim. Seu polegar alisou minha mandíbula. — Alex, você... você morreu. Você morreu nos meus braços.
Abri a boca, mas depois a fechei. A luz brilhante e a sensação de queda não tinham sido um sonho estranho e havia mais... eu sabia.
Sua mão tremeu contra o meu rosto. — Você sangrou tão rapidamente. Não houve tempo suficiente.
— Eu... eu não entendo. Se eu morri, então, como estou aqui?
Aiden olhou para a porta fechada e exalou lentamente. — Bem, é aqui onde as coisas começam a ficar meio estranhas, Alex.
Eu engoli. — Estranhas como?
Um breve sorriso apareceu. — Houve um flash de luz...
— Eu me lembro disso.
— Você se lembra de algo depois disso?
— Queda. Lembro-me de cair e... — Franzi o rosto. — Eu não me lembro.
— Está tudo bem. Talvez você devesse descansar um pouco. Podemos falar sobre isso mais tarde.
— Não. Eu quero saber agora. — Encontrei o seu olhar. — Vamos lá, isso soa como se fosse ficar interessante.
Aiden riu, soltando a minha mão da dele. — Honestamente, eu não teria acreditado se não tivesse visto.
Eu comecei a rolar para o meu lado, mas lembrei-me da coisa toda de não se mover. Ficar parada ia ser um desafio. — A expectativa está me matando.
Ele avançou mais perto, seus quadris encostando na minha coxa. — Após o flash de luz, Leon apareceu agachado sobre nós. No início, pensei que ele tivesse apenas acabado de entrar no quarto, mas ele... ele não parecia normal. Ele estendeu a mão para você, e eu pensei que ele ia verificar seu pulso, mas ele colocou a mão em seu peito, em vez disso.
Levantei minhas sobrancelhas. — Você deixou Leon me apalpar?
Aiden parecia que queria rir outra vez, mas balançou a cabeça. — Não, Alex. Ele disse que a sua alma ainda estava em seu corpo.
— Uh.
— Sim. — Ele respondeu. — Então, me disse que eu precisava chegar à enfermaria e certificar-me de que os médicos começassem a cirurgia para parar o sangramento, que não era tarde demais. Eu não entendi, porque você... você estava morta, mas depois eu vi seus olhos.
— Olhos totalmente brancos. — Sussurrei, lembrando um breve vislumbre deles.
— Leon é um deus.
Olhei para Aiden, incapaz de formar qualquer resposta para isso. Meu cérebro praticamente desligou com esse pequeno pedaço de informação.
— Eu sei. — Ele se inclinou sobre mim, alisando meu cabelo para trás com uma mão grande. — Todo mundo praticamente ficou com a mesma expressão quando eu te trouxe aqui. Marcus chegou depois... e os médicos estavam tentando me fazer ir embora. Alguns foram fechando a ferida. Outros apenas ficaram lá. Foi um caos. Você já tinha... partido há um par de minutos - o tempo que levou-me a tirar você de seu dormitório para a clínica - e então Leon só apareceu na sala da enfermaria. Todo mundo congelou. Ele caminhou até você, colocou a mão em você de novo, e disse-lhe para respirar.
Respire, Alexandria. Respire.
— E você respirou. — Aiden disse, sua voz rouca enquanto ele embalava minha bochecha. — Você abriu os olhos e sussurrou algo antes de ficar inconsciente.
Eu ainda estava presa na parte do deus. — Leon é um... Deus?
Ele acenou com a cabeça.
— Bem. — Eu disse lentamente, — Santa bunda daimon!
 Aiden riu, realmente riu. Sua risada foi profunda e rica, cheia de alívio. — Você... você não tem ideia... — Evitando os meus olhos, ele passou a mão pelo cabelo, — Não importa.
— O quê?
Sua mandíbula se apertou, e ele sacudiu a cabeça.
Eu estendi a mão e no momento que ela tocou a dele, ele enfiou os dedos pelos meus e olhou para mim. — Eu estou bem. — Sussurrei.
Aiden olhou para mim pelo que pareceu uma eternidade. — Pensei que você tinha partido, você se foi, Alex. Você morreu, e eu estava... eu estava segurando você e não havia nada que eu pudesse fazer. Nunca senti uma dor assim. — Ele prendeu a respiração. — Não desde que eu perdi meus pais, Alex. Nunca mais quero sentir isso de novo, não com você.
Lágrimas deslizaram dos meus olhos. Eu não sabia o que dizer. Minha mente ainda estava se recuperando da total sobrecarga no meu cérebro. E ele estava segurando a minha mão, o que não era o caso mais chocante do dia, de qualquer jeito, mas me afetou da mesma forma. Eu tinha morrido. E um deus que aparentemente era um Sentinela aqui, me trouxe de volta, e todo esse jazz19. Mas era a maneira que Aiden estava olhando para mim, como se ele nunca fosse falar comigo de novo, ver o meu sorriso ou ouvir a minha voz. Ele parecia um homem que estava à beira do desespero e que tinha sido puxado para trás, no último segundo, mas ainda estava sentindo todas as emoções terríveis, ainda sem acreditar que ele não tinha me perdido, que eu ainda estava aqui.
Eu percebi uma coisa muito importante, muito poderosa, nesse momento.
Aiden podia me dizer que ele não sentia o mesmo que eu. Ele podia lutar contra o que havia entre nós noite e dia. Ele podia falar somente mentiras daqui em diante. Não importava.
                                                         
 19 Do original ‘all that jazz’ que é usado no fim de uma frase ou lista em vez do termo "Etc."
 
Eu sempre, sempre, ia saber a verdade.
Mesmo se o espaço nos separasse ou uma dúzia de regras fosse imposta para nos manter separados, e nós nunca pudermos ficar juntos, eu sempre saberei.
E deuses, eu o amava, amava muito. Isso nunca iria mudar. Havia tantas coisas que eu não tinha certeza, especialmente agora, mas disso eu sabia. Antes que eu pudesse pará-la, uma única lágrima escapou, correndo pelo meu rosto. Eu apertei meus olhos fechados.
Ele soltou outra respiração, esta muito mais nítida, mais quebrada. A cama se moveu enquanto ele se sentou, e sua mão deslizou para o meu cabelo, onde seus dedos se enroscaram em torno dos fios. Seus lábios eram quentes e suaves contra minha bochecha, beijando a lágrima.
Eu fiquei muito quieta, com medo de que qualquer movimento iria manda-lo embora. Ele era como uma espécie de criatura selvagem prestes a quebrar.
Quando ele falou, sua respiração dançou sobre os meus lábios, provocando arrepios em mim. — Eu não posso me sentir assim novamente. Apenas não posso.
Ele estava tão perto, ainda segurando minha mão com força na sua, enquanto a outra saiu do meu cabelo e traçou uma linha invisível sobre meu rosto.
— Tudo bem? — Ele disse. — Porque eu não posso perder... — Ele cortou, olhando para a porta. O som de passos se aproximava. Seus lábios pressionaram em uma linha apertada quando ele se virou para mim. Soltou minha mão e se endireitou. — Nós vamos falar mais, mais tarde.
Sentei-me ali em silêncio, meu coração vibrando em espasmos, e disse a coisa mais eloquentemente que pude. — Ok.
A porta se abriu e Marcus entrou. Sua camisa estava apenas meio enfiada na cintura e suas calças que geralmente eram bem passadas estavam enrugadas.
Como Aiden, ele parecia uma bagunça, mas aliviado. Ele parou ao lado da minha cama, exalando alto.
Eu limpei minha garganta. — Você está enrugado.
— Você está viva.
Aiden assentiu. — Ela está. Eu só estava a deixando a par de tudo.
— Ótimo. Isso é bom. — Marcus olhou para mim. — Como você está se sentindo, Alexandria?
— Ok, eu acho, depois de morrer e tudo. — Me mexi, desconfortável com a atenção. — Então, sobre essa coisa de Leon ser um deus? Eu não sei de nenhum deus chamado Leon. Ele é tipo um filho bastardo de algum deus que ninguém quis assumir? 
Aiden recuou para o canto da sala, uma distância muito mais apropriada para um puro-sangue. Eu imediatamente senti falta de sua proximidade, mas ele manteve seus olhos em mim. Era como se  tivesse medo que eu desaparecesse. — Isso porque Leon não é seu nome real. — disse ele.
— Não é?
Marcus sentou-se junto de Aiden. Ele estendeu a mão, mas parou e baixou a mão em seu colo. — Você quer água?
— Hum, com certeza. — Estranhando um pouco, eu o vi encher o meu copo e segurá-lo para eu beber. O alien em meu tio tinha obviamente tomado o controle completo. Não ia demorar muito para ele sair rasgando por seu estômago e começar a dançar na minha cama.
Aiden encostou-se à parede. — Leon é Apollo.
Engasguei com a água. Chiando, eu apertei meu estômago com uma mão e sacudi a outra na frente do meu rosto.
— Alexandria, você está bem? — Marcus colocou o copo para baixo e olhou por cima do ombro para Aiden, que já estava ao lado da cama. — Vá chamar um dos médicos.
— Não! — Com olhos lacrimejando, eu puxei ar. — Eu estou bem. A água só foi para o buraco errado.
— Tem certeza? — Aiden perguntou, parecendo dividido entre querer arrastar um médico aqui e tomar minha palavra como verdade.
Assenti. — Sim, isso apenas me surpreendeu. Quer dizer, uau. Vocês tem certeza? Apollo?
Marcus me observava atentamente. — Sim. Ele é definitivamente Apollo.
— Santo... — Não havia palavras suficientes no mundo para fazer justiça a isso, — Será que ele deu alguma explicação?
— Não. — Marcus colocou o cobertor solto de volta em torno de mim. — Depois que ele te trouxe de volta, disse que precisava sair e que ele estaria de volta.
— Ele meio que desapareceu do nada. — Aiden esfregou os olhos. — Nós não o vimos desde então.
— E isso foi ontem. — Acrescentou Marcus.
— Então, eu dormi por um dia inteiro? — Meu olhar se lançou entre os dois. — Algum de vocês dormiu durante todo esse tempo?
Aiden olhou para longe, mas Marcus foi quem respondeu. — Muita coisa aconteceu, Alex.
— Mas vocês...
— Não se preocupe conosco, — Marcus interrompeu, — Nós vamos ficar bem.
Não me preocupar com eles era mais fácil dizer do que fazer. Ambos pareciam terríveis. — Hum... Linard está morto.
— Sim. — disse Marcus. — Ele estava trabalhando com essa... essa Ordem.
Olhei para Aiden, agora me lembrando do estalo revoltante que eu ouvi. Se eu estava esperando remorso em seu olhar firme, eu não encontrei. Na verdade, o olhar na cara dele disse que faria isso de novo. — E sobre Telly?
— Ele nunca desembarcou em Nova York. Agora, não temos ideia de onde está. Instrutor Romvi também desapareceu. — Marcus deixou cair às mãos em seu colo novamente, — Eu fiz algumas ligações e tenho uns poucos Sentinelas confiáveis procurando Telly agora.
— Confiáveis como Linard? — Tão logo essas palavras saíram da minha boca, eu desejei não ter dito. Minhas bochechas começaram a queimar. — Eu... sinto muito. Isso não foi justo. Você não sabia.
Os olhos verdes de Marcus brilharam. — Você está certa. Eu não sabia. Havia um monte de coisas que eu não estava ciente. Como a verdadeira razão  pela qual você saiu de Nova York mais cedo e o fato de que você já recebeu algumas marcas de Apollyon.
Oh, não. Eu não ousei olhar para Aiden.
— Não foi até algumas noites atrás que eu fiquei sequer ciente de que a Ordem de Thanatos poderia estar envolvida. — Marcus continuou, seus ombros enrijecendo. — Se eu soubesse a verdade, isso poderia ter sido evitado.
Eu me contorci tanto quanto poderia. — Eu sei, mas se tivéssemos envolvido você no que aconteceu em Nova York, então você estaria em risco.
— Isso não importa. Eu preciso saber quando esses tipos de coisas acontecem. Sou seu tio, Alexandria, e quando você mata um puro-sangue...
— Foi autodefesa... — disse Aiden.
— E você compeliu dois puros para protegê-la. — Marcus atirou um olhar sobre o ombro para Aiden. — Eu entendo, mas isso não muda o fato de que eu precisava saber. Tudo isso criou uma tempestade perfeita para algo como isso acontecer.
— Você não está... zangado com Aiden? Você não vai entregá-lo...?
— Às vezes eu duvido de suas habilidades de pensamento crítico, mas entendo porque ele fez isso. — Marcus suspirou, — A lei exige que eu faça, Alexandria. Ela até exige que eu te entregue, e por não fazê-lo, vou enfrentar acusações de traição. Assim como Aiden vai enfrentar acusações de traição se alguém descobrir o que ele fez.
Traição era igual à morte para eles. Engoli. — Eu sinto muito. Me desculpe, arrastei todos vocês para isso.
Aiden suavizou. — Alex, não se desculpe. Isso não é culpa sua.
— Não é. Você não pode se impedir... de ser o que é. E tudo isso é por causa do que você é. — Os lábios de Marcus curvaram em um meio sorriso, — Eu não concordo com muitas das decisões que você tomou, ou o fato de que ambos têm mantido em segredo coisas muito importantes de mim, mas não posso culpar Aiden por fazer o que eu teria feito na mesma situação. Eu sou seu tio, Alexandria e sou duro com você, mas isso não significa que não me importo com você.
Atordoada e em silêncio, eu olhei para ele. Eu poderia ter interpretado mal tudo sobre este homem? Porque eu realmente teria apostado a minha vida em como ele não me suportava. Mas isso tinha sido apenas a versão dele de... amor durão? Piscando para conter as lágrimas, de repente, eu queria abraçá-lo.
O olhar no rosto de Marcus me disse que ele provavelmente não estaria confortável com isso.
Okay. Nós definitivamente não estávamos abraçando-nos ainda, mas isso... Isso era bom. Eu limpei minha garganta. — Então... Uau. Leon é Apollo.
Aiden sorriu.
Sorrindo para ele, de repente senti pânico e me levou um segundo para perceber porquê. — Oh, meus deuses. — Comecei a sentar-me, mas Marcus me parou. — Eu preciso ligar para o Seth. Se ele suspeitar de alguma coisa, ele vai ficar louco. Vocês não fazem ideia. 
O sorriso de Aiden desapareceu. — Se ele soubesse – se tivesse sentido através de seu vínculo, então ele já teria enlouquecido. Ele não sabe.
Ele tinha um ponto, mas eu ainda precisava falar com ele.
— Nós achamos que o melhor é que ele não saiba, não até que esteja aqui com você. — disse Marcus, — Neste momento, não podemos permitir que ele perca o foco. E ele ligou para você ontem à noite. Aiden disse à ele que você estava dormindo.
Aiden revirou os olhos. — Depois de reclamar sobre eu atender ao telefone que ele lhe deu, ele desligou. Se sentiu alguma coisa, ele não sabe por quê. 
Soou como Seth. Aliviada, me acomodei de volta para baixo. — Alguém pode pegar meu telefone, então? Se ele não ouvir de mim, ele vai suspeitar de algo e explodir alguém.
— Isso pode ser arranjado.
— Eu vou pegá-lo. — disse Aiden, suspirando.
— Ótimo. E depois que for buscá-lo, por que você não toma um banho e descansa um pouco. Você não dormiu desde ontem de manhã. — disse Marcus. — Os Guardas de Lucian estão fora da porta. Ninguém vai passar por eles.
A única razão para que eu confiasse nos Guardas de Lucian, era o fato de que havia apenas uma pessoa que queria que eu Despertasse mais do que Seth, e esse era Lucian. — Lucian sabe o que aconteceu?
Marcus disse. — Sim, mas ele concordou que seria prudente manter Seth no escuro por um tempo.
— E você confia em Lucian?
— Eu acredito que ele entende que não podemos permitir qualquer ato de retaliação de Seth. Fora isso, não particularmente, mas ele precisava saber sobre Telly. Ele tem algumas de suas pessoas procurando o Ministro Chefe. — Fez uma pausa, passando a mão para o lado de seu rosto, — Não se preocupe com essas coisas agora. Descanse um pouco. Volto mais tarde.
Havia ainda uma série de perguntas, como quem eram os Sentinelas de confiança de Marcus? E como diabos poderíamos guardar um segredo como este de Seth? Mas eu estava cansada e poderia dizer que ambos estavam, também.
Aiden permaneceu após Marcus sair. Ele veio para o meu lado da cama, seu olhar prateado flutuando sobre mim.
— Você não saiu deste quarto, pois não? — Perguntei.
Em vez de responder, ele se inclinou e colocou seus lábios contra minha testa. — Eu vou estar de volta em breve. — Prometeu. — Basta tentar descansar um pouco e não ficar fora da cama até alguém estar com você.
— Mas eu não estou cansada, não realmente.
Aiden riu suavemente quando ele se afastou. — Alex, você pode estar se sentindo bem, mas você perdeu muito sangue e passou por uma cirurgia.
E eu tinha morrido, mas percebi que não havia nenhum ponto em adicionar isso. Eu não queria Aiden se preocupando mais do que ele já estava, especialmente quando parecia tão exausto. — Tudo bem.
Ele se afastou da cama e parou na porta. Olhando para trás, para mim, ele sorriu. — Eu não vou demorar.
Mudei minha posição com cuidado. — Eu não vou a lugar nenhum.
— Eu sei. Nem eu.
Dormi mais do que eu esperava. Quando acordei, o quarto estava vazio e meu celular tinha sido colocado na mesa de cabeceira. Eu esperava que Aiden estivesse descansando um pouco, e Marcus também. Empurrando-me em uma posição sentada, eu estremeci quando o movimento puxou a pele ao redor dos pontos.
Curiosa, eu inspecionei a cicatriz irregular novamente. Meio-sangues definitivamente se curavam mais rápido e as lâminas do Covenant foram projetadas para cortar de forma limpa, mas tinha que ter feito algum dano interno. Apollo tinha, de alguma forma, me curado ainda mais? Porque eu duvidava que os médicos pudessem ter revertido esse tipo de dano. Além de me sentir um pouco lenta, eu me sentia... Ok.
Mas quando olhei ao redor da sala, algo cutucou os recessos de minhas memórias. Eu estava me esquecendo de algo, algo extremamente importante. Estava na ponta da minha língua tal como quando eu estava sob a compulsão antes. Isso era diferente, porém. Era como acordar e não ser capaz de se lembrar de um sonho.
Suspirando, estendi a mão e pegei o telefone celular. Havia apenas uma chamada perdida do Coelhinho. Deslizando para baixo, eu liguei de volta.
Seth respondeu no segundo toque. — Então, você está viva?
Meu coração virou pesadamente. — Sim, por que não estaria?
— Bem, eu não falei com você tem cerca de dois dias. — Fez uma pausa. — O que você anda fazendo?
— Eu tenho dormido, não faz muito que acordei.
— Dormiu por dois dias seguidos?
Eu coloquei a mão na minha cicatriz e estremeci. — Sim, isso é tudo.
— Interessante... — Houve um som abafado, como se algo tivesse sido empurrado sobre o telefone. — Você foi dormir, mas Aiden ficou com o seu telefone?
Droga. — Ele está cuidando de mim. Eu não sei por que ele atendeu ao telefone quando você ligou. — Houve outro som abafado, e em seguida, Seth resmungou. 
— O que você está fazendo?
— Puxar minhas calças é difícil quando você está segurando um telefone.
— Hum, você quer que eu te ligue depois? Tipo quando você não estiver nu? 
Seth riu. — Eu não estou nu agora. Enfim, talvez tenhamos algum mal-estar estranho de Apollyon. Eu tenho estado esgotado por cerca de dois dias, mas me sinto bem agora.
Então, ele tinha sentido alguma coisa. Eu mordi meu lábio. — Posso perguntar uma coisa?
— Atire.
— Você disse que quando eu acordar, vou saber o que os últimos Apollyons sabiam, né?
Houve uma pausa. — Sim, eu disse isso.
Desconforto torceu minhas entranhas. — Então como você não sabia sobre a Ordem de Thanatos, e que eles tinham matado Solaris e o Primeiro? Você não viu o que eles viram?
— Por que você está perguntando? — Seth perguntou.
Eu tomei uma respiração profunda. — Porque não faz sentido, Seth. Você deveria ter me dito. E como você não sabia que um mestiço e puro faziam um Apollyon? Nenhum dos Apollyons no passado já tinha percebido isso? 
— Por que você está perguntando sobre isso... — Uma risada, distintamente muito feminina cortou suas palavras. Quando Seth falou de novo, parecia longe e parecia muito com ‘se comporte’.
Sentei-me, sugando o ar bruscamente quando meu estômago gritou em protesto. — Quem está aí com você, Seth?
— Por quê? Você está com ciúmes?
— Seth.
— Espere um segundo. — Ele respondeu, e então houve um som de uma porta fechando. — Droga, está frio aqui fora.
— É melhor ter cuidado. Não quer nada congelando e caindo.
Ele riu. — Ah, isso foi mal-intencionado. Eu acho que você pode estar com ciúmes.
Eu estava com ciúmes de que ele estava tão obviamente com uma menina enquanto estava nu? Eu não deveria estar? Mas não estava com ciúmes, era mais como irritada. Irritada porque enquanto eu estava sendo esfaqueada e morta Seth, estava transando. E como eu poderia estar zangada? Eu era aquela que estava apaixonada por outro cara. Eu realmente não podia falar muita coisa. Mas não tinha ficado nua com o cara, não em vários longos meses. Não desde que eu decidi ver o que poderia acontecer com Seth.
Deuses, eu estava tão confusa e não tinha ideia do que estava acontecendo e por que estava acontecendo agora.
— Eu não estou fazendo nada de errado. — Seth disse depois de um trecho de silêncio.
— Eu não disse que você estava. Espera. Você está com Peitos20, não é?
— Você realmente quer saber, Alex?
Não quando ele colocava as coisas assim. Mordi meu lábio, sem saber o que dizer. De repente, ouvi a voz de Caleb na minha cabeça. Ainda há esperança. Estranho.
— Nós nunca dissemos que estávamos em um relacionamento, e, além disso, tanto faz. Você está ai. Eu estou aqui. E em uma semana ou assim, eu vou estar de volta. E isso não vai importar.
Eu pisquei. — Realmente, é... ‘tanto faz’?
Seth suspirou. — Eu sei que ele esteve ao seu lado desde a hora que eu saí, fazendo a sua coisa irritante de mamãe galinha, tentando descobrir uma maneira de estar com você. E ele atende ao telefone enquanto você está dormindo? Sim, é ‘tanto faz’.
Minha boca cai aberta. — Isso não é totalmente o que está acontecendo aqui.
— Olha, isso não importa. Eu tenho que ir. Vou falar com você mais tarde. — Então ele desligou na minha cara.
Olhei para o telefone por vários minutos, chocada e um pouco perturbada. Ele tinha acabado de me dar permissão para fazer ‘tanto faz’ com Aiden, porque
                                                         
 20 É uma pura apresentada no segundo livro da série, Pure, e a Alex apelidou-a assim por ela ter peitos grandes.
 
ele está fazendo ‘tanto faz’ com Peitos? Meus deuses, eu tinha morrido e voltado em um universo alternativo?
A porta se abriu, então, e Aiden entrou. Deixando o telefone de lado, fiquei feliz em ver que ele parecia muito mais revigorado. Cabelo úmido se enrolava ao redor de suas têmporas e as sombras sob seus olhos tinham diminuído.
— Ei, você está acordada. — Ele sentou ao meu lado na cama e se aproximou. — Como você está se sentindo?
Inclinei-me para longe dele. — Nojenta.
Aiden franziu a testa. — Nojenta?
— Eu ainda não escovei os dentes ou lavei o rosto em dias. Não chegue perto de mim.
Ele riu. — Alex, qual é.
— Sério, eu estou nojenta. — Coloquei minha mão sobre a boca.
Ignorando meus protestos, ele se inclinou e roçou o meu cabelo pegajoso para trás. — Você está tão bonita como sempre, Alex.
Encarei-o. Ele não deve sair muito.
Aiden arqueou uma sobrancelha. — Você ligou para Seth?
Recusando-me a baixar a minha mão, eu assenti.
Seus olhos dançaram. — Ele parece suspeitar de algo?
— Não. — Eu disse atrás de minha mão. — Ele estava com Peitos, na verdade.
Ele parecia confuso. — Peitos?
— É uma garota de Nova York. — Expliquei.
— Oh. — Aiden se inclinou para trás, — O que você quer dizer com ele estava com essa garota?
— O que você acha? — Abaixei minha mão.
— Oh, Alex, eu sinto muito.
Fiz uma careta. — Por que você sente muito? É ‘tanto faz’. Seth e eu não estamos em um relacionamento. — Mas ele tinha se comportado desde que ele voltou para o Covenant comigo. Afastando isso da minha mente, me concentrei em algo mais importante. — Preciso sair dessa cama.
Algo cintilou no rosto de Aiden e então ele balançou a cabeça. — Alex, você realmente não deveria.
— Eu realmente preciso.
Ele segurou o meu olhar e, em seguida, ele pareceu entender, — Ok, aqui, deixe-me ajudá-la.
A ideia de ele ficar perto de mim quando eu estava com bafo não me atraía, mas não houve discussão com ele. Aiden me ajudou a sair da cama e depois insistiu em guiar-me para o pequeno banheiro. Eu meio que esperava que ele me seguisse para dentro.
Fechando a porta atrás de mim, eu fiz a minha coisa e olhei para o chuveiro com saudade. Aiden teria um ataque se eu o ligasse. Olhei para a porta, debatendo se ele iria ou não se atrever a entrar aqui. Aiden era muito santo.
Decidi testar essa teoria.
O segundo após eu ligar a água, ele gritou. — Alex, o que você está fazendo?
— Nada. — Tirei minhas roupas, desejando que eu tivesse alguma coisa limpa para vestir.
— Alex. — Frustração coloriu seu tom.
Eu sorri. — Estou tomando um banho rápido. Estou suja. Eu preciso me limpar.
— Você não deveria estar fazendo isso. — O puxador da porta tilintou. Ela não estava trancada. — Alex!
— Eu estou nua. — Avisei.
Silêncio e então, — Isso deveria fazer-me não quer entrar ai? 
Um rubor quente cobriu meu corpo enquanto eu olhava para a porta.
Houve um suspiro audível. — Faça isso rápido, Alex, porque eu vou entrar ai se você demorar mais de cinco minutos.
Tomei a mais rápida chuveirada da minha vida. Sequei-me e vesti-me rapidamente, me alegrando com a sensação de estar limpa de novo, mas o banho tinha tomado qualquer energia que eu tinha restando em mim. Sentei-me na frente da pia, porque o banheiro parecia muito longo, e comecei a escovar os dentes. Minha boca não se parecia mais como a de um mamute, mas quando eu olhei para a pia  e percebi que tinha que voltar lá de novo, eu meio que queria ter ficado na cama.
Eu sei que ele esteve ao seu lado desde a hora que eu saí, fazendo a sua coisa irritante de mamãe galinha, tentando descobrir uma maneira de estar com você.
Fechando os olhos, eu segurei a escova de dente de plástico entre as pernas.
Tanto faz. Você está ai. Eu estou aqui. E em uma semana ou assim, eu vou estar de volta. E isso não vai importar.
Creme dental espumoso escorreu do meu queixo. Isso não importaria por que Seth estaria por aqui? Ou não importaria, por que em cinco semanas, eu Despertaria? Era isso que Seth estava tentando dizer, entre o que Peitos estava fazendo?
— Alex? — Aiden bateu na porta do banheiro, — Você está bem?
Inclinei minha cabeça em direção à porta fechada. Mais creme dental vazou da minha boca. — Eu estou cansada.
A porta se abriu. O olhar de Aiden caiu e suas sobrancelhas se ergueram. Um sorriso lento rastejou sobre o seu rosto, suavizando o olhar duro que estava em seus olhos desde que acordei. Aiden riu.
Algo vibrou em meu peito. — Rir de uma menina morta não é bom.
— Eu lhe disse que você deveria ter ficado na cama. — A luz não saiu de seus olhos quando ele se ajoelhou. Ele estendeu a mão, limpando a pasta de dentes do meu queixo com o polegar. — Mas você nunca ouve. Espere um pouco.
Não era como se eu estivesse indo a lugar nenhum, então eu o vi olhar para a pia e, em seguida, se levantar. Aiden desapareceu de volta para a sala, retornando com dois pequenos copos de plástico e algumas toalhas de papel alguns segundos depois.
Erguendo a escova de dente das minhas mãos, jogou-a na pia e depois de encheu o copo. — Aqui está.
Com o rosto em chamas, eu peguei o copo e balancei a água na minha boca.
Aiden entregou-me outro copo vazio. — Enxague e repita.
Encarei-o chateada, mas secretamente fiz uma dança feliz na minha cabeça quando ele riu de novo. Uma vez que eu não tinha mais pasta de dente caindo da minha boca e minhas mãos estavam vazias, Aiden cuidadosamente deslizou um braço em volta de mim. — Eu posso fazer isso sem ajuda. — Resmunguei.
— Claro que você pode. — O cabelo de Aiden fez cócegas nas minhas bochechas. — É por isso que você está sentada no chão do banheiro. Vamos lá, de volta para a cama.
A porta principal do quarto abriu. — O que está acontecendo? — A voz de Marcus soou. — Alexandria está bem?
Vermelho manchou meu rosto inteiro.
— Ela está bem. — Aiden facilmente me arrastou para os meus pés. A pele macia puxou um pouco, mas eu mantive minha expressão vazia. Não queria que ele tivesse um ataque cardíaco. — Ela só se sente cansada. — Continuou ele, sorrindo enquanto me soltava. — Você está bem para andar de volta para a cama?
Assenti. — Não é minha culpa. Leon-Apollo-quem-quer-que-seja não corrigiu-me tão bem. Seus poderes de deus...
— Eu consertei você, mas você estava morta. Dê-me algum crédito. — Apollo disse.
Eu pulei, batendo a mão no meu peito. Apollo se sentou na beira do vaso sanitário, uma perna cruzada sobre a outra.
Ao meu lado, Aiden se curvou rigidamente. — Meu mestre.
— Oh, meus deuses. — eu disse. — Sério. Você está tentando me matar de novo, dando-me um ataque do coração?
Apollo inclinou a cabeça para Aiden. — Eu já disse a você. Não precisa fazer o negocio de 'mestre' e se curvar para mim. — Pequenas faíscas de eletricidade saíram daqueles olhos completamente brancos. — Por que você está fora da cama? Ser apunhalada não te deixa algum tempo na inatividade? — Ele sorriu para Aiden, que agora estava de pé. — Ela realmente é difícil de cuidar, não é?
Aiden parecia um pouco pálido. — Sim...
— Eu... eu estava suja.
Apollo desapareceu da casa de banho e apareceu atrás de Aiden. Marcus deu um passo para trás, os olhos arregalados. Ele curvou-se também, e eu realmente pensei por um momento que Marcus ia cair de joelhos.
— Bons deuses. — Aiden disse sob sua respiração quando ele me levou para fora do banheiro.
Eu olhei para o deus desmedido no canto do quarto, quando voltei para a cama. — Alguém sabe sobre isso?
Apollo deslizou para a cama. Era estranho olhar para ele e ver alguns traços de Leon. O rosto era basicamente o mesmo, mas mais refinado, mais nítido. Os cabelos pareciam como se fios de ouro substituiram o corte curto que Leon tinha usado, caindo logo abaixo de seus ombros largos. E ele parecia mais alto, se era mesmo possível. Ele era belíssimo, sem as bordas mais ásperas, mas seus olhos... eles me assustavam. Não havia pupilas ou íris, apenas uma cor branca que parecia cheia de eletricidade.
O Deus do Sol.
Eu estava olhando para o maldito Deus do Sol... E, no entanto, era como olhar para Leon. Era estranho que um deus estaria mesmo na terra, mas estar tão confortável como Apollo parecia irreal.
Apollo arqueou uma sobrancelha quando ele lentamente virou a cabeça para Marcus. — Eu sei que isso é um pouco... chocante, mas para o que eu estava fazendo era necessário que eu disfarçasse quem sou.
Marcus piscou, como se estivesse saindo de um transe. — Há mais como você por aqui?
Apollo sorriu. — Estamos sempre por perto.
— Por quê? — Aiden perguntou, arrastando os dedos pelo cabelo. Ele parecia um pouco fora de si também.
— As coisas estão complicadas. — Apollo disse.
— Então, Leon era uma pessoa real? Você apenas assumiu o seu corpo ou algo assim? — Dobrei minhas pernas sob o cobertor. — Ou você tem sido Leon todo esse tempo?
Os cantos dos lábios de Apollo contraíram. — Nós somos apenas um.
Lentamente, eu o alcancei e cutuquei seu braço. Parecia que a carne era real, quente e dura. Desapontada, eu cutuquei-o de novo. Eu estava esperando algo incrivelmente celestial ao tocá-lo. Em vez disso, tudo o que recebi foram olhares estranhos de todos na sala, incluindo Apollo.
— Por favor, pare de me tocar. — Apollo disse.
Cutuquei o seu braço novamente. — Desculpe. É que você é real. Quer dizer, eu apenas pensei que vocês não estavam realmente por aqui.
— Alex. — Aiden se sentou na beira da cama. — Você provavelmente deve parar de tocá-lo.
— Tanto faz. — Deixei a minha mão cair no meu colo. Eu ainda queria tocálo, porém, o que era muito estranho. Eu meio que queria me esfregar sobre ele, como um gato ou algo assim... E isso era mais do que estranho, e um pouco desconfortável.
— Normalmente nós não estamos, — Apollo disse, franzindo a testa para mim. — Quando estamos na terra nossos poderes são limitados. Tudo sobre esse lugar nos drena. Nós tendemos a ficar longe, e se fizermos visita, é só por um tempo curto.
— Tempo suficiente para se ligar com algumas garotas mortais?
— Alexandria. — Marcus retrucou.
Apollo me encarou. — Não. Nós não geramos quaisquer semideuses em séculos. 
Estremeci quando meu olhar encontrou o seu. — Seus olhos estão realmente me deixando assustada.
Ele piscou, e em um milésimo de segundo, seus olhos eram de um cobalto brilhante e intenso. — Melhor? 
Não na verdade. Não quando ele estava olhando para mim assim. — Claro.
Marcus limpou a garganta. — Eu realmente não sei o que dizer.
Apollo acenou com a mão em desdém. — Nós trabalhamos juntos há meses. Nada mudou.
— Não sabia que você era Apollo. — Aiden cruzou os braços. — Isso muda as coisas.
— Por quê? — Apollo sorriu. — Eu não espero que você esteja tão disposto a treinar comigo agora.
A pele ao redor dos olhos de Aiden se franziu quando ele sorriu. — Sim, você pode ter certeza disso. Tudo isso é apenas... quero dizer, como é que não sabíamos?
— Simples. Eu não queria que vocês soubessem de nada. Isso fazia as coisas mais fáceis... para me misturar entre vocês. 
— Desculpe, — Interrompi. Apollo arqueou uma sobrancelha, esperando. Senti meu rosto corar. — Isso é realmente muito estranho.
— Faça o seu ponto. — Apollo murmurou.
— Quero dizer, eu tenho te insultado como o inferno em seu rosto. Várias vezes. Como quando eu te acusei de perseguir meninos e meninas e como elas se transformaram em árvores para fugir…
— Como eu disse antes, algumas dessas coisas não são verdadeiras. 
— Então Daphne não se transformou em uma árvore para ficar longe de você?
— Oh, meus deuses. — Aiden murmurou, esfregando uma mão ao longo de sua mandíbula.
Um músculo apareceu na mandíbula de Apollo. — Isso não foi tudo culpa minha. Eros atirou em mim com uma maldita seta do amor. Confie em mim, quando você é atingido com uma dessas coisas, você não pode se conter.
— Mas você cortou parte de sua casca. — Estremeci novamente. — E a usou como uma grinalda. Isso é como um serial killer coletando itens pessoais de suas vítimas... ou dedos.
— Eu estava apaixonado. — Ele respondeu, como se estar apaixonado explicasse o fato de que a garota virou uma árvore para ficar longe dele.
— Tudo bem. E sobre Hyacinth? O pobre rapaz não tinha ideia...
— Alexandria. — Marcus suspirou, parecendo quase apoplético.
— Desculpe. Eu só não entendo por que ele não me machucou ou algo assim.
— O dia é ainda jovem. — Apollo disse, sorrindo quando meus olhos se arregalaram.
Marcus olhou para mim. — Você está aqui por causa dela.
Apollo assentiu. — Alexandria é muito importante.
Isso foi estranho para mim. — Eu pensei que os deuses não eram fãs dos Apollyons.
— Zeus criou o primeiro Apollyon há milhares de anos atrás, Alexandria, como uma forma de garantir que nenhum puro-sangue se tornaria demasiado poderoso e ameaçasse os mortais ou nós. — Explicou. — Eles foram criados como um sistema de freios e contrapesos. Nós não somos nem fãs, nem inimigos do Apollyon, mas os vemos apenas como uma necessidade que será precisa um dia. E esse dia chegou.
Por que agora? — Perguntei quando ninguém mais falou. Eu acho que os puros estavam um pouco deslumbrados21 ainda. Apollo era um astro do rock para eles, mas mesmo com sua beleza sobrenatural, ele ainda era apenas Leon para mim.
— A ameaça nunca foi tão grande. — Respondeu Apollo. Vendo a minha confusão, ele suspirou. — Talvez eu deva explicar algumas coisas.
— Talvez você deva. — Murmurei.
Apollo pairou sobre a mesa de cabeceira e pegou a jarra de água. Cheirandoa, colocou-a de volta. — Meu pai sempre foi... paranoico. Todo aquele poder, mas Zeus temia que todos seus filhos fizessem o que ele fez para seu pai. Matá-lo em seu sono, derrubando-o e assim conquistando Olympia - você sabe todo esse drama antigo da família.
Lancei a Aiden um olhar, mas ele estava fascinado por Apollo.
                                                         
 21 O termo usado no original é ‘star-struck’, seria como dizer que os puros ainda estavam deslumbrados por estarem em contato com Apollo, como se fossem ‘fãs’ dele.
 
— De qualquer forma, Zeus decidiu que ele deveria manter seus inimigos perto. É por isso que ele chamou todos os semideuses de volta ao Olimpo e destruiu os que não atenderem a sua chamada, mas ele se esqueceu de seus filhos. — Apollo sorriu, — Todo esse poder, e às vezes eu me pergunto se Zeus caiu e bateu a cabeça quando era um bebê. Ele esqueceu-se dos Hematoi, os filhos dos semideuses. 
Eu ri, mas Marcus olhou para o teto, como se esperasse Zeus atacar Apollo com um raio.
— Os Hematoi. — Apollo olhou para Marcus e Aiden incisivamente, — São uma versão mais fraca dos semideuses, mas vocês são muito poderosos em seu próprio mundo. Seus números francamente superam os deuses por milhares. Se alguma vez houvesse uma tentativa coesa para derrubar-nos, poderia ter sucesso. E os mortais, não teriam a menor chance contra os Hematoi.
— Eu pensei que vocês eram, tipo, oniscientes22. Não deveriam saber quando estivessem prestes a ser derrubados?
Apollo riu. — Lendas, Alexandria, é difícil saber o que é realmente verdade. Há coisas que nós sabemos, mas o futuro nunca está gravado em pedra. E quando se trata de qualquer criatura viva no planeta, não podemos ver ou interferir com eles. Nós temos... ferramentas que usamos para manter um olho nas coisas.
— É por isso que o oráculo vivia aqui. — Disse Aiden.
Mais uma vez, houve uma coceira na parte de trás da minha cabeça. Algo sobre um oráculo cutucou minhas memórias difusas. Continuou fora de alcance.
— Sim. O oráculo responde a mim e só a mim.
— Porque você é o deus da profecia... entre 500 outras coisas.  — Adicionei, entrando de volta na conversa.
                                                         
 22 Capacidade de saber tudo.
 
— Sim. — Ele voltou para a cama, inclinando a cabeça para o lado. — Uma vez que Zeus percebeu que tinha esquecido os Hematoi, ele sabia que tinha de criar algo que era poderoso o suficiente para controlá-los, mas não podia povoar como os Hematoi faziam.
Marcus se sentou na única cadeira do quarto. — E assim o Apollyon foi criado?
Apollo sentou ao lado de Aiden, o que realmente lotou a cama. — Um Apollyon só pode nascer quando a mãe é Hematoi e o pai é um meio-sangue. É o éter de uma pura com o de um mestiço que cria o Apollyon. É semelhante à maneira como um minotauro23 nasce. Apollyons são nada mais do que monstros, no esquema das coisas.
Fiz uma careta para as suas costas. — Oh, nossa! Obrigada.
— A mistura de duas raças foi proibida para garantir que não haveria muitos e aos Hematoi foi ordenado matar qualquer descendência de um puro e um mestiço.
Minha boca abriu. — Isso é terrível.
— Pode ser, mas não podíamos ter dúzias de Apollyons correndo por aí. — Ele olhou por cima do ombro para mim. — Dois são considerados ruins o bastante. Você pode imaginar se houvesse uma dúzia? Não. Você não pode. E, além disso, um sobreviveu a cada geração como o planejado. Embora, nós cometemos erros de vez em quando.
Eu estava realmente começando a não gostar de Apollo. — Então, eu sou um monstro e um erro?
Ele piscou. — O tipo perfeito de erro.
Eu fugi para longe dele um pouco.
                                                         
 23 Segundo a mitologia grega, Minos pediu que os deuses lhe enviassem um sinal de aprovação em forma de um touro branco, e lhe enviaram o Touro Cretense, e então ele teria que sacrificá-lo. Porém, Minos resolveu mantê-lo, e então Afrodite o castigou, fazendo com que a mulher de Minos, Pasífae, se apaixonasse pelo touro. Da união deles, nasceu Minotauro.
 
O sorriso alcançou seus olhos vibrantes. — Enquanto o Apollyon se comportar, ele é deixado sozinho para fazer o seu dever. Mas quando há um segundo na mistura, ele aumenta o poder do primeiro. Isso foi algo que não tinha sido contabilizado. Zeus pensa que é um tipo de piada cósmica.
Marcus se inclinou para frente. — Mas por que você sequer permitiu que o segundo vivesse, se um é uma ameaça tão grande?
Estremeci.
Apollo se levantou novamente, aparentemente sofrendo de um distúrbio de hiperatividade. — Ah, você vê, não podemos tocar no Apollyon. As marcas são... Como veneno para nós. Apenas a Ordem de Thanatos pode realizar um ataque bem sucedido ao Apollyon e, é claro, um Apollyon pode matar outro Apollyon. 
Minha cabeça estava começando a doer. — E Seth saberia disso, certo?
— Seth sabe de tudo isso.
Exalei alto. — Talvez deva mesmo matá-lo.
Apollo arqueou uma sobrancelha. — A humanidade e os Hematoi têm algo maior a temer que a… questão dos daimons. E para que conste, todo o problema dos daimons pode ser totalmente atribuído a Dionísio. Ele foi o primeiro a descobrir que o éter poderia ser viciante e ele apenas tinha de mostrar a alguém. Uma vez Dionísio ficou tão chapado com o material, que ele se mostrou a um rei da Inglaterra. Você sabe quantos problemas isso causou?
Era oficial. Os deuses eram crianças crescidas. — É bom saber isso, mas podemos voltar para a coisa toda do medo maior?
— O oráculo tinha uma profecia sobre o seu nascimento, que um poderia trazer a verdadeira morte para todos nós e o outro seria o nosso salvador.
— Oh, nossa. — Murmurei. — Vovó Piperi ataca novamente.
Apollo ignorou isso. — Ela não podia dizer qual, no entanto. E eu fiquei curioso. Quando Solaris apareceu, não houve tal profecia. O que faz desta vez  algo diferente? Então, eu chequei vocês durante toda a sua vida. Não há nada particularmente notável sobre qualquer um de vocês.
— Você realmente está fazendo maravilhas para minha autoestima.
Ele deu de ombros. — É apenas a verdade, Alexandria.
— Você não disse ao resto dos deuses sobre Seth e Alexandria? — Marcus perguntou.
— Não. Eu deveria ter dito, e minha decisão de não fazer, me fez perder muitos fãs. — Ele cruzou os braços. — Mas, então, há três anos, o oráculo previu sua morte, se você continuasse no Covenant, o que fez a sua mãe partir para protegê-la, apesar de sua profecia se realizar.
Percebi então. — Porque eu voltei para o Covenant...
— E você morreu. — Aiden terminou, suas mãos enrolando em punhos. — Deuses.
— O oráculo nunca está errado. — Apollo disse. — Eu fiquei de olho em você até a noite antes do ataque do daimon em Miami. Pensei que você tinha me notado uma vez. Você estava voltando da praia e parou fora de sua porta. 
Meus olhos se arregalaram. — Lembro-me de sentir algo estranho, mas eu... Não sabia.
— Se eu tivesse ficado por ali... — Ele balançou a cabeça. — Quando eu soube que o Covenant estava ativamente procurando você, me disfarçei como Leon para ver o que estava acontecendo. Eu não tinha ideia que Lucian estava consciente de sua verdadeira identidade.
— Eu nunca disse a ele. — disse Marcus. — Eu só soube porque minha irmã confiou em mim antes de partir. Lucian já sabia até então.
— Interessante. — Apollo murmurou. — Eu acredito que não sou o único deus por aí.
— Você não sabe se há outros deuses por aqui? — Aiden perguntou.
— Não, se eles não quiserem que eu saiba. — Ele respondeu. — E nós poderíamos estar nos movendo para dentro e para fora em momentos diferentes. Embora, eu não sei o que qualquer deus teria a ganhar com a garantia de que os dois Apollyons fossem reunidos.
— Algum de vocês quer vingança? — Perguntei.
Apollo riu. — Quando não queremos vingança contra o outro? Estamos constantemente aborrecendo um ao outro para aliviar o tédio. Não seria necessário um esforço de imaginação grande para alguém levar tudo demasiado a sério.
— Mas qual é o medo, Apollo? — Marcus perguntou. — Por que a Ordem tentou matar Alexandria quando ela não fez nada?
— Não é Alexandria que eles estão tentando estabilizar. 
— É Seth. — Sussurrei.
Aiden enrijeceu. Seus olhos ficaram uma nuvem cinza de tempestade. — É sempre sobre Seth.
— Mas ele não fez nada. — Eu protestei.
— Ainda. — Apollo respondeu.
— Você, sei lá... Previu ele fazendo alguma coisa?
— Não.
— Então isto é tudo baseado na louca da avó Piperi? — Coloquei meu cabelo para trás. — E isso é tudo?
Os olhos de Marcus estreitaram. — Isso realmente parece extremo.
Apollo revirou os olhos. — Você não pode me dizer que Seth não está preparado para o desastre. Ele já tem um ego de um deus, e confia em mim, eu sei. O tipo de poder de um Assassino de Deuses é astronômico e instável. Ele já está sentindo os efeitos disso.
— O que você quer dizer? — Aiden perguntou.
— Alex? — Apollo disse suavemente.
Eu balancei a cabeça. Houve momentos em que eu questionei a sanidade de Seth e até mesmo suas intenções. Em seguida, houve Jackson. Eu não poderia provar que tinha sido ele, mas... balancei a cabeça. — Não. Ele nunca faria algo tão estúpido.
— Que gracinha. — Em um segundo, Apollo estava na minha frente e ao nível dos meus olhos. — Eu sabia que você iria defendê-lo, embora eu saiba que você não confia nele inteiramente. Talvez até certo ponto você confiava, mas não mais.
Abri a boca, mas fechei-a. Baixando o olhar para minhas mãos, eu mordi meu lábio. Mais uma vez, algo cutucou minha memória. Eu engoli.
— Eu tenho que sair agora. — Apollo disse calmamente.
Olhei para cima, encontrando seu olhar. Apollo me assustava e me fazia realmente questionar o quão legal eu era, mas eu meio que gostava dele. — Você vai estar de volta?
— Sim, mas eu não posso ser Leon mais. Meu disfarce foi... destruído, e devo responder por não informar Zeus do que eu tenho feito. Eu provavelmente vou ficar de castigo. — Ele riu de sua própria piada. Eu só olhei para ele. — Sou Apollo, Alexandria. Zeus pode beijar isso.
Marcus, mais uma vez, parecia que ele queria esconder-se debaixo da cama.
— Vou checar você quando puder. — Ele virou-se para Marcus. — Vou ver também se eu consigo achar Telly. Ah, e veja se você pode ter Solos Manolis transferido para cá, de Nashville. Ele é um mestiço que você pode confiar.
— Eu já ouvi falar dele. — Aiden falou. — Ele é muito... franco.
Apollo sorriu e então, sem sequer uma palavra, desapareceu do quarto.
— Bem, ele com certeza sabe como fazer uma saída. — Aiden ficou de pé, sacudindo a cabeça.
Marcus e Aiden fizeram planos para contatar este Solos, mas eu estava apenas escutando metade. Me curvando de lado, eu pensei sobre o que Apollo tinha dito sobre Seth. Parte de mim se recusava a acreditar que Seth poderia ser perigoso, mas quando eu estava sendo honesta comigo mesma, não tinha tanta certeza sobre isso.
Houve momentos em que ele tinha provado que eu realmente não sabia o que estava acontecendo em sua cabeça ou o que esperar dele. Eu não poderia mesmo descobrir por que ele estava tão confiante em Lucian, um homem que era tão plástico24 como era possível.
Eu nem tinha percebido que Marcus havia deixado o quarto até Aiden sentar-se e colocar a mão no meu rosto. Eu me perguntava se ele tinha percebido o quanto estava me tocando ultimamente. Era quase como um movimento inconsciente de sua parte. Talvez ele fizesse isso para se lembrar que eu estava viva...
De repente, o nevoeiro sumiu de em torno de minhas memórias. Sentei-me tão rapidamente que ofeguei.
— Alex? Você está bem? — Aiden estava com os olhos arregalados. — Alex?
Demorei alguns segundos para dizer isso. — Eu me lembro... eu me lembro do que aconteceu quando morri.
O olhar em seu rosto disse que não esperava que eu dissesse isso. Sua mão deslizou em torno da minha nuca. — O que você quer dizer?
Lágrimas obstruíram minha garganta. — Eu estava no Submundo, Aiden. Havia todas aquelas pessoas lá, esperando sua passagem e os guardas a cavalo. Eu até vi Charon e seu barco e seu barco é muito, muito maior e mais bonito.
 24 Pessoa falsa.
 
Havia uma garota chamada Kari que tinha sido morta por daimons ao comprar sapatos e...
— E o quê? — Perguntou ele, gentilmente enxugando uma lágrima.
— Ela disse que era um oráculo. Que ela sabia que ia me conhecer, mas não daquele jeito. E eu vi Caleb. Eu falei com ele, Aiden. Deuses, ele parecia tão... tão feliz. E ele joga Wii com Perséfone. — Ri e limpei meu rosto, — Eu sei que parece loucura, mas eu o vi. E ele disse que minha mãe estava lá e que ela estava feliz. Ele me disse que um deus grande e loiro estava discutindo com Hades sobre a minha alma. Ele deve ter visto Apollo. Era real, Aiden. Eu juro.
— Eu acredito em você, Alex. — Ele me embalou contra seu peito. — Digame o que aconteceu. Tudo. 
Pressionei meu rosto contra seu ombro, apertando os olhos fechados. Eu disse a ele tudo o que Caleb havia me dito, incluindo o que ele disse sobre Seth. Quando pedi a Aiden para conseguir o número de Olivia para que pudesse passar a sua mensagem, ele balançou a cabeça, com uma expressão de dor.
— Eu sei que você quer dizer a ela, — disse ele — E você vai, mas agora nós não queremos que um monte de pessoas saibam o que aconteceu. Nós não sabemos em quem podemos confiar.
Em outras palavras, não era com Olivia que precisávamos estar preocupados, mas não podíamos correr o risco das coisas se repetirem. Eu odiava a ideia de não lhe dizer agora, porque era importante, mas como eu poderia dizer a ela sem dizer o que aconteceu? Eu não podia.
— Sinto muito, Alex. — Sua mão alisou minhas costas. — Mas tem que esperar.
Eu assenti.
Parte de mim doía pior que antes depois que percebi que tinha estado com Caleb, porque a sua perda era fresca novamente. Mas, quando Aiden me segurou muito tempo depois de eu ter acalmado, as lágrimas que vieram, apesar de tudo, foram alegres. A dor da perda de Caleb ainda estava lá, mas foi atenuada por saber que ele estava verdadeiramente em paz e minha mãe também. E nesse momento, isso era tudo que importava.
 
Meu coração estava disparado, bombeando sangue através do meu corpo rápido demais para alguém que tinha morrido e tudo. Eu tentei e falhei não olhar para Aiden enquanto o Guarda levava minhas malas para a casa dos seus pais. Era o meio da noite, e estava frio, mas eu me senti ridiculamente quente.
Especialmente depois de Deacon nos encontrar no hall de entrada com um sorriso engraçado no rosto.
— Este é provavelmente o lugar mais seguro para esconder você até encontrarem Telly e serem capazes de determinar se alguém aqui está ligado à Ordem. — Marcus deixou cair o braço sobre os meus ombros. — Quando eu voltar de Nashville, você vai ficar comigo, ou com Lucian, uma vez que ele retorne de Nova York.
— Ela deve ser mantida o mais distante da casa de Lucian quanto possível, — Apollo disse, aparecendo do nada. Vários dos Guardas recuaram com olhos arregalados e ficaram pálidos. Apollo sorriu para eles. — Em qualquer lugar que Seth está, sugiro que Alexandria não fique.
 
Cada puro e mestiço se curvou na cintura. Eu também, esquecendo-me dos pontos que estavam se curando e fiz uma careta.
— Precisamos colocar um sino nele. — Aiden murmurou.
Eu pressionei meus lábios para não rir.
— Na verdade, — Apollo disse lentamente. — Este lugar é provavelmente o mais seguro para ela. 
Deacon parecia que estava engasgando.
Marcus recuperou-se mais rápido do que fez da última vez. — Você já encontrou alguma coisa?
— Não. — Apollo olhou para Deacon curiosamente antes de seu olhar pousar sobre Marcus. — Eu queria falar com você em particular.
— É claro. — Marcus virou-se para mim, — Eu vou estar de volta em poucos dias. Por favor, ouça o que Aiden diz a você e... tente ficar longe de problemas. 
— Eu sei. Eu não estou autorizada a deixar a casa, a menos que Apollo me diga para o fazer. — Essas foram as palavras exatas de Marcus. Ninguém mais poderia me retirar dessa casa que não seja Apollo, Aiden, ou Marcus. Nem mesmo Lucian e alguém da Guarda. Se alguém tentasse, eu tinha a permissão para chutar alguns traseiros.
Marcus acenou para Aiden e se virou para sair. Passando, Apollo deu-nos uma saudação com dois dedos, que apenas era estranho vindo dele. Nos últimos dois dias, eu estava acostumada a suas aparições aleatórias. Parecia que ele tinha grande prazer em assustar a merda para fora de todos quando fazia isso.
— Você está pronta? — Aiden perguntou.
Deacon arqueou uma sobrancelha.
— Cale-se. — Eu disse quando passei por Deacon.
 
— Eu não disse uma única palavra. — Ele virou-se e seguiu-me entrando. — Nós vamos nos divertir muito. É como uma festa do pijama.
Uma festa do pijama na casa de Aiden? Oh deuses, as imagens que vieram com essas palavras me fizeram corar.
Aiden fechou a porta atrás dos outros quando eles saíram e atirou a seu irmão um olhar.
Deacon balançou para trás em seus calcanhares, sorrindo. — Só para você saber, eu fico incrivelmente entediado muito facilmente, e você será forçada a ser minha fonte de entretenimento. Você será o meu bobo da corte pessoal.
Mostrei-lhe o dedo. 
— Bem, isso não é nada engraçado.
Aiden passou por mim. — Desculpe. Você provavelmente vai desejar ter ficado na enfermaria. 
— Oh, eu aposto que não é o caso. — Deacon encontrou meu olhar com um sorriso travesso, — De qualquer forma, você comemorou o Dia dos Namorados enquanto estava confraternizando com os pobres mortais? 
Eu pisquei. — Não realmente. Por quê?
Aiden bufou e desapareceu em um dos quartos.
— Siga-me. — disse Deacon. — Você vai amar isto. Eu apenas tenho a certeza. 
Eu o segui pelo corredor mal iluminado e pouco decorado. Passamos por várias portas fechadas e uma escada em espiral. Deacon passou por um arco e parou, alcançado algo na parede. Luz inundou a sala. Era uma marquise típica, com janelas do chão ao teto de vidro, móveis de vime e plantas coloridas.
Deacon parou perto de um pequeno vaso de plantas sobre uma mesa de café cerâmica. Parecia um pinheiro em miniatura que estava faltando vários membros.
 
Metade das agulhas estavam espalhadas em torno do vaso. Havia uma lâmpada vermelha de Natal pendurada no galho mais alto, fazendo com que a árvore se inclinasse para a direita.
— O que você acha? — Deacon perguntou.
— Hum... Bem, isso é realmente uma árvore de Natal diferente, mas eu não tenho certeza do que isso tem a ver com o Dia dos Namorados.
— Isso é triste. — disse Aiden, entrando na sala. — É realmente embaraçoso de olhar. Que tipo de árvore é, Deacon?
Ele sorriu. — É chamado de Árvore de Natal Charlie Brown25.
Aiden revirou os olhos. — Deacon tira essa coisa todos os anos. O pinheiro não é sequer verdadeiro. E ele o deixa do dia de Ação de Graças até o Dia dos Namorados, o que, graças aos deuses, é o dia depois de amanhã. Isso significa que ele vai guardá-lo.
Corri meus dedos sobre as agulhas de plástico. — Eu vi o desenho animado.
Deacon vaporizou algo de uma lata de aerosol. — É a minha árvore AFM.
— Árvore AFM? — Questionei.
— Árvore dos Feriados dos Mortais. — Explicou Deacon, e sorriu. — Ela abrange os três principais feriados. Durante Ação de Graças fica uma lâmpada marrom, uma verde para o Natal, e uma vermelha para o Dia dos Namorados.
— E sobre a véspera de Ano Novo?
Ele baixou o queixo. — Agora, isso é realmente um feriado?
                                                         
 25 Charlie Brown é o protagonista da história de quadradinhos Peanut, e há um episódio de Natal em que o menino faz uma árvore de natal exatamente como a que Deacon copiou.
 
— Os mortais pensam assim. — Cruzei os braços.
— Mas eles estão errados. O Ano Novo é durante o solstício de verão. — Disse o Deacon. — A matemática deles está completamente errada, como a maioria de seus costumes. Por exemplo, você sabia que o Dia dos Namorados não era realmente sobre o amor até que Geoffrey Chaucer fez toda aquela coisa de amor cortês na Idade Média Alta?
— Vocês são tão estranhos. — Sorri para os irmãos.
— Isso somos. — Aiden respondeu. — Vamos, eu vou te mostrar o seu quarto.
— Ei Alex. — Deacon chamou. — Nós vamos fazer biscoitos amanhã, já que é véspera de São Valentim.
Fazer biscoitos na véspera do Dia dos Namorados? Eu nem sequer sabia se havia tal coisa como a Véspera do Dia dos Namorados. Eu ri enquanto seguia Aiden para fora da sala. — Vocês dois realmente são opostos.
— Eu sou mais legal! — Deacon gritou de seu quarto com a Árvore dos Feriados dos Mortais.
Aiden liderou as escadas. — Às vezes eu acho que um de nós foi trocado no momento do nascimento. Nós nem sequer somos parecidos.
— Isso não é verdade. — Peguei a guirlanda decorativa cobrindo o corrimão de mármore. — Seus olhos são iguais.
Ele sorriu por cima do ombro. — Eu raramente fico aqui. Deacon vem de vez em quando, e os membros do Conselho que estão visitando ficam aqui, às vezes. A casa está geralmente vazia.
Eu lembrei o que Deacon tinha dito sobre esta casa. Querendo dizer alguma coisa, mas sem saber o que dizer, eu fui atrás dele silenciosamente.
Nos últimos dois dias, Aiden tinha ficado ao meu lado constantemente. Como antes de todo o incidente, nós conversamos sobre coisas estúpidas e vazias. E ele não tinha sido capaz de conseguir o número de Olivia para mim. Tudo o que ele tinha acesso era o número da mãe dela.
— Deacon fica em um dos quartos do andar de baixo. Eu vou ficar aqui. — Fez um gesto para o primeiro quarto, chamando minha atenção.
O desejo de ver seu quarto era demais para resistir. Olhei para dentro. Como o da cabana, havia apenas o essencial. Roupas estavam cuidadosamente dobradas em uma cadeira ao lado da cama enorme. Não havia fotos ou objetos pessoais. — Este quarto era seu quando era mais jovem?
— Não. — Aiden encostou-se à parede do corredor, me olhando com os olhos encapuzados26. — Meu antigo quarto é o atual de Deacon. Lá tem todas as coisas que Deacon queria. Este aqui é um dos quartos de hóspedes. — Ele se desencostou da parede. — O seu é ao fundo do corredor. É um quarto mais agradável. 
Eu me afastei do seu quarto. Passamos por várias portas fechadas, mas uma das portas duplas fechadas era decorada com incrustações de titânio. Eu suspeitava que tivesse sido o quarto de seus pais.
Aiden abriu uma porta no fim do corredor carpetado e acendeu a luz. Deslizando por ele, minha boca caiu aberta. O quarto era enorme e belo. Tapete de pelúcia cobria os pisos, cortinas pesadas bloqueavam a janela, e minhas malas e itens pessoais estavam empilhados ordenadamente em cima de uma cômoda. Uma televisão de tela plana estava pendurada na parede e a cama era grande o suficiente para quatro pessoas. Avistei um banheiro com uma enorme banheira e meu coração ficou todo trêmulo.
Vendo minha expressão deslumbrada, Aiden riu. — Achei que você gostaria deste quarto.
Olhei dentro do banheiro, suspirando. — Eu quero me casar com aquela banheira. — Eu me virei, sorrindo para Aiden. — Isto é como ir a um desses hotéis altamente caros, exceto que tudo é de graça.
                                                         
 26 No sentido de não mostrarem as suas emoções.
 
Ele deu de ombros. — Eu não sei nada sobre isso.
— Talvez não para você e toda a sua riqueza infinita. — Eu me inclinei para a janela e abri as cortinas. Vista para o mar. Legal. A lua refletia nas águas paradas de cor ônix.
— Esse dinheiro não é realmente meu. É dos meus pais.
Que o torna dele e do Deacon, mas eu não o pressionei. — A casa é realmente muito bonita.
— Há dias em que é mais bonita do que outros.
Senti meu rosto corar. Pressionei minha testa contra a janela fria. — De quem foi a ideia de eu ficar aqui?
— Foi um esforço conjunto. Depois... do que aconteceu, não havia nenhuma maneira que você poderia ficar no dormitório.
— Não posso ficar aqui para sempre. — Eu disse calmamente. — Uma vez que as aulas recomecem, eu preciso estar na outra ilha.
— Nós vamos descobrir alguma coisa quando chegar a hora. — Disse ele. — Não se preocupe com isso agora. É meia-noite. Você tem que estar cansada.
Soltando as cortinas, eu o enfrentei. Ele estava ao lado da porta, mãos enroladas em punhos. — Eu não estou cansada. Estive presa no quarto do hospital e na cama pelo que me pareceu ser a eternidade.
Ele inclinou a cabeça para o lado. — Como você está se sentindo?
— Tudo bem. — Bati no meu estômago. — Eu não estou quebrada, você sabe.
Aiden ficou quieto por alguns momentos, e então ele sorriu um pouco. — Quer algo para beber?
— Você está tentando me embebedar, Aiden? Estou chocada.
Ele arqueou uma sobrancelha. — Eu estava pensando mais em algo do tipo chocolate quente para você.
Eu sorri. — E para você?
Virando-se, ele saiu do quarto. — Algo que eu tenho idade suficiente para beber.
Revirei os olhos, mas seguiu-o para fora do quarto. Aiden me fez chocolate quente com marshmallows pequenos e ele não bebeu nada além de uma garrafa de água. Ele, então, me levou para um rápido passeio na casa. Era semelhante à de Lucian, ricamente grande, mais quartos do que qualquer um poderia precisar na vida em sua propriedade pessoal, que provavelmente vale mais do que a minha vida. O quarto de Deacon era perto da cozinha, com a entrada através de uma porta de titânio, sob as escadas.
Bebendo a minha bebida, eu ri quando Aiden tentou endireitar a lâmpada na AFM do Deacon. Eu andei ao redor da sala, procurando algum tipo de coisa pessoal. Não havia uma única foto da família St. Delphi. Nada que provaria que eles sequer existiram.
Aiden ficou na frente de uma sala com porta fechada, a que ele não tinha me mostrado no mini-tour. — Como está o chocolate?
Eu sorri. — Está perfeito.
Ele colocou sua água sobre a mesa de café e cruzou os braços. — Eu tenho estado pensando sobre o que Apollo disse.
— Em que parte da loucura você está pensando? — Observei-o por cima da borda da minha caneca, amando o jeito que ele sorria em resposta às coisas estúpidas que saíam da minha boca. Isso tinha que ser amor verdadeiro, eu decidi.
— Você não deve ficar com Lucian quando ele retornar.
Baixei minha caneca. — Por quê?
— Apollo tem um ponto sobre Seth. Você está em perigo por causa dele. Quanto mais longe dele você ficar, mais segura você estará.
— Aiden...
— Eu sei que você se preocupa com ele, mas você suspeita que Seth não foi honesto com você. — Aiden avançou e caiu em uma cadeira. Seu olhar baixou e os pesados cílios espalharam por suas bochechas. — Você não deveria estar perto dele, não quando ele pode entrar e sair da casa de Lucian à vontade.
Aiden tinha um ponto. Eu dei-lhe isso, mas eu duvidava seriamente que era toda a razão. — E você se sente assim só por causa do que Apollo disse?
— Não. É mais do que isso.
— Você não gosta de Seth? — Perguntei inocentemente, colocando minha caneca para baixo.
Ele sorriu. — Além disso, Alex, ele não foi honesto sobre um monte de coisas. Ele mentiu sobre saber como um Apollyon é criado, sobre a Ordem, e há uma boa chance de que ele está... dando-lhe as marcas de propósito.
— Ok, além de todas estas razões?
Ele olhou para mim. — Bem, eu não gosto do fato de que você está se contentando com ele.
Revirei os olhos. — Eu odeio quando você diz isso.
— É a verdade. — Ele disse simplesmente.
Irritação começou a queimar abaixo da minha pele. — Isso não é verdade. Eu não estou me contentando com Seth.
— Deixe-me fazer uma pergunta, então. — Aiden se inclinou para frente. — Se você pudesse ter... quem você queria, você estaria com Seth?
 
Eu olhei para ele, um pouco chocada que ele falou isso. E realmente não era uma pergunta justa. O que eu poderia responder a isso?
— Exatamente. — Ele sentou-se, sorrindo presunçosamente.
Uma emoção forte soprou através de mim. — Por que você não pode simplesmente admitir isso?
— Admitir o quê?
— Que você está com ciúmes de Seth. — Esse era um daqueles momentos em que eu precisava calar a boca, mas não podia. Estava com raiva e emocionada ao mesmo tempo. — Você está com ciúmes do fato de que eu posso estar com Seth, se quiser estar.
Aiden sorriu. — Aí está. Você mesma disse. Estaria com Seth se você quisesse estar. Obviamente você não quer, então por que você está com ele? Você está se contentando. 
— Ugh! — Minhas mãos se fecharam em punhos e eu queria bater meu pé. — Você é absolutamente a pessoa mais frustrante que eu conheço. Certo. Tanto faz. Você não está com ciúmes de Seth ou do fato de que ele está dormindo na minha cama pelos dois últimos meses, porque é claro, você não queria que fosse você lá. 
Algo perigoso queimou em seus olhos prateados.
Com meu rosto em chamas, eu queria me bater. Por que eu disse isso? Para irritá-lo e fazer-me de boba? Eu consegui um pouco de ambos.
— Alex. — Disse ele, a voz baixa e enganosamente suave.
— Esqueça. — Comecei a passar por ele, mas sua mão disparou tão rápido como uma serpente impressionante. Um segundo eu estava andando e no próximo eu estava em seu colo, montada nele. Com olhos e coração trovejando, olhei para ele.
 
— Tudo bem. — disse ele, segurando meus braços. — Você está certa. Eu tenho ciúmes do idiota. Feliz?
Em vez de comemorar a glória de tê-lo feito admitir que eu estava certa, coloquei minhas mãos em seus ombros e me deleitei com algo totalmente diferente. — Eu... eu sempre esqueço o quão rápido você pode se mover quando quer.
Um sorriso pequeno e estranho jogou sobre seus lábios. — Você não viu nada ainda, Alex.
Meu pulso entrou em parada cardíaca. Eu tinha terminado de discutir, - de falar na verdade. Outras coisas estavam na minha mente. E eu sabia que ele estava pensando a mesma coisa. Suas mãos deslizaram de meus braços para os meus quadris. Ele me puxou para frente, a minha parte mais macia pressionada contra sua dureza.
Nossas bocas não se tocaram, mas o resto de nossos corpos fez. Nenhum de nós se moveu. Havia algo primitivo no olhar de Aiden, totalmente possessivo. Eu tremi, - mas um bom tipo de arrepio. Tudo o que eu conseguia pensar era em como era bom, como seu corpo ficava perfeitamente encaixado pressionando contra o meu.
Coloquei as mãos no seu rosto e então deslizei os dedos pelo seu cabelo, espantada que a intensidade do que eu estava sentindo era mais forte do que qualquer vínculo com Seth. Deliciosas sensações rolaram através de mim quando suas mãos apertaram meus quadris, e quando ele balançou contra mim, a maneira que suas mãos tremeram e a maneira poderosa como seu corpo se tencionou me desfizeram completamente. 
— Há algo que eu preciso te dizer. — Ele sussurrou, seus olhos procurando os meus. — Que eu devia ter dito…
— Não agora. — Palavras iriam estragar as coisas. Elas traziam a lógica e a realidade para o jogo. Baixei a boca para a dele.
Uma luz do corredor ligou fora da sala.
Eu pulei longe de Aiden, como se tivesse pegado fogo. De vários metros de distância, eu lutava para recuperar o fôlego enquanto meus olhos se encontraram com os de Aiden. Ele saiu da cadeira, seu peito subindo e descendo rapidamente. Houve um segundo quando eu pensei que ele ia mandar tudo para o inferno e me puxar de volta em seus braços, mas o som de passos invadindo bateu algum sentido nele. Fechando os olhos, ele inclinou a cabeça para trás e exalou alto.
Sem dizer uma palavra, eu girei e saí da sala. Passei por um sonolento Deacon de aparência confusa no corredor.
— Estou com sede. — Disse ele, esfregando os olhos.
Murmurando algo que parecia boa noite, eu fugi para cima. Uma vez dentro do quarto, caí na cama e olhei para o teto.
As coisas simplesmente não eram para acontecer entre nós. Quantas vezes tínhamos sido interrompidos? Parecia não importar o quão forte era a nossa ligação, a nossa atração. Algo sempre ficava no caminho.
Completamente vestida, rolei para o meu lado e me enrolei em uma bola. Eu queria chutar todo mundo que achava que eu ficar na casa de Aiden era uma boa ideia. Nós - eu - tinha problemas suficientes agora sem me jogar no Aiden.
Não que eu realmente tenha me jogado para ele desta vez... nem na última vez. Oh inferno...
Alcancei sob minha camisa e senti a cicatriz abaixo do meu peito. O ato serviu como um lembrete doloroso que minha vida amorosa, ou a falta dela, não eram o meu maior problema.
A primeira coisa que fiz quando acordei foi tomar um banho agradável e luxuoso na banheira. Eu fiquei nela até que minha pele começou a enrugar e mesmo assim foi difícil me puxar para fora.
Era o paraíso em um banheiro.
Depois disso, eu desci as escadas e encontrei Deacon esparramado em um sofá na sala de recreação. Batendo as suas pernas de lado, eu me sentei. Ele estava assistindo as reprises de Supernatural. — Boa escolha. — Comentei. — Eles são dois irmãos que eu gostaria de encontrar na vida real.
— Verdade. — Deacon bateu os cachos selvagens fora de seus olhos. — É o que eu vejo quando não estou em sala de aula ou fingindo estar na aula.
Eu sorri. — Aiden iria matá-lo se ele soubesse que você mata aula.
Ele chutou as pernas e deixou-as cair no meu colo. — Eu sei. Parei com a coisa de matar aula.
Ele também cortou a coisa de beber. Eu olhei para ele. Talvez Luke era uma boa influência sobre ele. — Você não vai fazer nada de especial para Dia dos Namorados? — Perguntei.
Seus lábios franziram. — Agora, por que você perguntou isso, Alex? Não celebramos o Dia dos Namorados.
— Mas você sim. Não teria essa… árvore se não celebrasse. 
— E você? — Ele perguntou, seus olhos cinzas dançando. — Eu posso jurar que vi Aiden na joalheri...
— Cale a boca! — Bati-lhe no estômago com uma almofada, — Pare de dizer coisas assim. Nada está acontecendo.
Deacon sorriu, e nós vimos o resto dos episódios que ele gravou. Já era de tarde quando eu consegui a coragem para perguntar onde estava Aiden. — Ele estava do lado de fora com a Guarda na última vez que eu verifiquei.
— Oh.
Parte de mim estava feliz que Aiden estava fazendo a coisa de babá lá fora. Minhas bochechas pegaram fogo só de pensar em nós na cadeira ontem à noite.
— Então, vocês dois ficaram acordados até muito tarde. — disse o Deacon.
Eu mantive minha expressão vazia. — Ele estava me mostrando a casa.
— Isso é tudo o que ele estava mostrando a você?
Chocada, eu ri quando virei para ele. — Sim! Deacon, credo. 
— O quê? — Ele se sentou e balançou as pernas do meu colo. — Foi só uma pergunta inocente.
— Tanto faz. — Eu o vi levantar-se. — Onde você vai?
— Para os dormitórios. Luke ainda está lá. Você é mais que bem-vinda para vir, mas eu duvido que Aiden vai deixar você sair desta casa.
Puros e mestiços poderiam ser amigos casuais, especialmente quando eles estavam na escola juntos, e muitos deles eram, embora não tanto desde os ataques daimons no início do ano letivo. Zarak não tinha feito nenhuma de suas grandes festas recentemente. Mas, um mestiço ficar passeando na casa de um puro, iria levantar questões.
— O que vocês dois vão fazer? — Perguntei.
Deacon piscou quando ele saiu da sala. — Ah, eu tenho certeza que a mesma coisa que você e meu irmão estavam fazendo ontem à noite. Você sabe, ele vai me mostrar o dormitório.
Algumas horas depois, Deacon e Aiden finalmente retornaram. Evitando o meu olhar, ele foi direto para cima. Deacon deu de ombros e convenceu-me a fazer biscoitos com ele.
Quando Aiden finalmente desceu, ele permaneceu na cozinha enquanto Deacon e eu fizemos biscoitos. Eu fiquei babando nele - vestido de jeans e uma camisa de mangas longas, - por tanto tempo, que Deacon me deu uma cotovelada na minha lateral. Uma vez que Aiden relaxou, ele brincou com seu irmão. De vez em quando nossos olhos se encontravam e eletricidade dançava sobre a minha pele.
Depois de comer o equivalente ao nosso peso em massa de biscoito cru, todos nós terminamos na sala de estar, afundando em sofás maiores do que as camas da maioria das pessoas. Deacon controlou a TV por quatro horas seguidas antes de ir para a cama e Aiden saiu para o check-in com os Guardas - por que, eu não tinha ideia. Eu percorri a casa. O que Aiden queria me dizer antes que eu lhe dissesse para parar? Ele tinha estado pronto para falar, como tinha sugerido, quando eu ainda estava na clínica de medicina? Inquieta, encontrei-me na sala da árvore AFM.
Eu cutuquei uma das lâmpadas, sorrindo quando ela balançou para frente e para trás. Deacon era tão bizarro. Quem tinha uma Árvore dos Feriados dos Mortais? Tão estranho.
Já era tarde, e eu deveria ter ido para cama, mas a ideia de dormir era desagradável. Cheia de energia e inquieta, eu fui andar pela sala até chegar a uma parada em frente à porta. Curiosa, e com nada melhor para fazer, eu tentei a maçaneta e a encontrei destrancada. Olhando por cima do meu ombro, eu abri a porta e arrastei-me dentro do comodo suavemente iluminado. E então percebi porque Aiden tinha mantido esta sala fora de sua turnê.
Todo tipo de coisas pessoais lotavam a sala circular. Fotos de Aiden cobriam as paredes, narrando sua infância. Havia fotos de Deacon como um garotinho precoce, cabeça cheia de cachos loiros e bochechas rechonchudas que sugeria feições delicadas.
Parei em frente à uma de Aiden e senti meu peito apertar. Ele devia estar com seis ou sete anos. Cachos escuros caíam em seu rosto, em vez das ondas mais soltas que ele tinha agora. Ele era adorável, todo olhos cinzentos e lábios. Havia uma foto dele com Deacon. Aiden tinha, provavelmente, em torno de 10 anos ou algo assim e ele tinha um braço magro caído sobre os ombros de seu irmão mais novo. A câmera tinha capturado os dois rapazes rindo.
Movendo-me para um sofá estofado, eu lentamente peguei o porta-retratos de titânio que estava na lareira. Minha respiração ficou presa.
Era de seus pais - sua mãe e seu pai.
Eles estavam atrás de Deacon e Aiden, com as mãos sobre os ombros dos meninos. Atrás deles, o céu era de um azul brilhante. Era fácil dizer qual menino era mais parecido com qual pai. Sua mãe tinha o cabelo da cor de seda de milho que caía pelos ombros em cachos elásticos. Ela era linda, como todos os puros eram, com traços delicados e risonhos olhos azuis. Foi chocante, porém, quanto Aiden parecia com seu pai. Desde o cabelo quase-preto e os olhos penetrantes de prata, ele era uma réplica exata.
 
Não parece justo que seus pais foram levados tão jovens, roubados de ver seus meninos crescerem. E Aiden e Deacon tinham perdido tanto.
Eu corri meu polegar sobre a borda da fotografia. Por que Aiden fechou todas essas memórias? Ele vinha aqui? Olhando ao redor da sala, vi um violão apoiado ao lado de uma pilha de livros e quadrinhos. Este era o seu quarto, eu percebi. Um lugar onde ele achava que estava tudo bem para lembrar seus pais e talvez fugir.
Voltei minha atenção para a foto e tentei imaginar a minha mãe e pai. Se puros e mestiços fossem autorizados a estar juntos, nós teríamos momentos como estes? Fechando os olhos, tentei imaginar nós três. Minha mãe não era difícil lembrar agora. Eu podia vê-la antes da transformação, mas o meu pai tinha a marca da escravidão em sua testa e não importa o que eu fizesse, a lembrança não iria embora.
— Você não deveria estar aqui.
Assustada, eu me virei, segurando a moldura para o meu peito. Aiden estava na porta, braços esticados ao lado do corpo. Ele andou pelo quarto e parou na minha frente. Sombras esconderam sua expressão. — O que você está fazendo? — Ele exigiu.
— Eu estava apenas curiosa. A porta não estava trancada. — Engoli nervosamente. — Não estou aqui há muito tempo de qualquer maneira.
 Seu olhar caiu e seus ombros se enrijeceram. Ele arrancou a imagem dos meus dedos e colocou de volta na prateleira. Sem falar, ele se inclinou e colocou as mãos sobre os gravetos. Fogo deflagrou e cresceu imediatamente. Ele pegou uma vara.
Envergonhada e machucada por sua frieza repentina, eu recuei. — Sinto muito. — Sussurrei.
Ele cutucou o fogo, sua espinha rígida.
— Eu vou embora. — Voltei-me, e de repente ele estava na minha frente. Meu coração tropeçou.
Ele apertou o meu braço. — Não, fique.
Eu procurei seus olhos atentamente, mas não consegui ganhar nada deles. — Ok.
Aiden respirou fundo e soltou o meu braço. — Gostaria de algo para beber?
Abraçando meus cotovelos, eu assenti. Este quarto era seu santuário, um memorial silencioso para a família que ele tinha perdido, e eu tinha invadido. Eu duvidava que até Deacon se atrevesse a pisar aqui. Essas coisas de invasão tem que ser só comigo.
Atrás do bar, Aiden puxou duas taças de vinho e abaixou-as. Preenchendoas, ele olhou para mim. — Vinho está bem?
— Sim. — Minha garganta estava seca e apertada. — Eu realmente sinto muito, Aiden. Eu não devia ter vindo aqui.
— Pare de pedir desculpas. — Ele veio ao redor do bar e me entregou um copo.
Peguei-o, esperando que ele não percebesse como os meus dedos tremiam. O vinho era doce e suave, mas não se contentou em meu estômago direito.
— Não queria ter falado com você daquele jeito. — Disse ele, movendo-se em direção ao fogo. — Fiquei apenas surpreso de ver você aqui.
— É... uh, um bom quarto. — Me senti uma idiota por dizer isso.
Seus lábios se inclinaram nos cantos.
— Aiden...
Ele olhou para mim por tanto tempo que pensei que ele nunca iria falar e quando ele fez não era o que eu esperava. — Depois do que aconteceu com você em Gatlinburg, lembrei-me do que tinha sido para mim... depois do que aconteceu com os meus pais. Eu tinha pesadelos. Podia ouvir... ouvir seus gritos uma e outra vez pelo que pareciam anos. Eu nunca disse isso. Talvez eu devesse ter dito. Poderia ter ajudado você.
Sentei-me na ponta do sofá, apertando o copo frágil.
Aiden encarou o fogo, tomando um gole de vinho. — Você se lembra do dia no ginásio, quando você me contou sobre seus pesadelos? Isso ficou comigo, seu medo de Eric e seu retorno. — Continuou ele. — Tudo o que eu pensava era, e se um dos daimons tivesse escapado do ataque dos meus pais? Como eu poderia ter seguido em frente?
Eric era o daimon que escapou de Gatlinburg. Eu não tinha parado de pensar nele, mas ouvir seu nome atou o meu estômago. Metade das marcas em meu corpo foram graças a ele.
— Eu pensei que tirar você de lá, levando-a ao zoológico ajudaria a deixar sua mente fora das coisas, mas eu tive... eu tive que fazer mais. Entrei em contato com alguns dos Sentinelas por aqui. Eu sabia que Eric não teria ido longe, não depois que ele sabia o que você era e tinha provado o seu éter. — Disse ele, — Com base em Caleb e sua descrição, não foi difícil encontrá-lo. Ele estava perto de Raleigh.
— O quê? — O nó cresceu, — Raleigh é tipo, a menos de cem quilômetros daqui.
Ele acenou com a cabeça. — Assim que foi confirmado que era ele, eu saí. Leon - Apollo - foi comigo.
No começo, eu não conseguia descobrir quando ele poderia ter feito isso, mas então me lembrei daquelas semanas depois que eu disse a ele que o amava e ele terminou nossas sessões de treinamento. Aiden tinha tido tempo para fazer isso sem eu nunca saber. — O que aconteceu? 
— Nós o encontramos. — Ele sorriu sem graça antes de voltar para o fogo. — Eu não o matei imediatamente. Não sei o que isso diz sobre mim. No final, acho que ele realmente se arrependeu apenas por saber da sua existência.
Eu não sabia o que dizer. Parte de mim estava impressionada com o fato de que ele tinha ido tão longe por mim. A outra parte estava um pouco horrorizada com isso.
Debaixo da pessoa calma e controlada que Aiden usava como uma segunda pele havia algo escuro, um lado dele que eu só tinha vislumbrado. Olhei para o seu perfil, de repente percebendo que eu não tinha sido justa com Aiden. Eu coloquei-o sobre este pedestal muito alto, onde ele era absolutamente impecável em minha mente. Aiden não era impecável.
Engoli um gole de meu vinho. — Por que você não me contou?
— Nós realmente não estávamos em condições de conversar, e como eu poderia te dizer? — Ele riu asperamente, — Não era como uma caça normal aos daimons. Não foi uma morte precisa e humana como nós somos ensinados.
O Covenant basicamente nos ensinou a não brincar com nossas mortes, por assim dizer. Que mesmo que o daimon fosse além da salvação, ele tinha sido um puro-sangue... Ou um meio-sangue. Ainda assim, por mais perturbador que seja saber que Aiden tinha provavelmente torturado Eric, eu não estava aborrecida com ele.
Os deuses sabem o que isso diz sobre mim.
— Obrigada. — Eu disse finalmente.
Sua cabeça virou na minha direção bruscamente. — Não me agradeça por algo parecido. Eu não fiz apenas por...
— Você não fez isso só por mim. Você fez isso por causa do que aconteceu com a sua família. — E eu sabia que estava certa. Não foi tanto que ele tinha feito isso por mim. Era a sua maneira de se vingar. Não estava certo, mas eu entendi. E no lugar dele eu teria provavelmente feito a mesma coisa e mais.
Aiden ficou imóvel. As chamas enviaram um brilho quente sobre seu perfil quando ele olhou para seu copo. — Nós estávamos visitando amigos de meu pai em Nashville. Eu não os conhecia muito bem, mas eles tinham uma filha que era da minha idade. Pensei que nós estávamos de férias antes do início da escola, mas logo que chegamos lá, minha mãe praticamente me empurrou na direção dela. Ela era uma coisa minúscula, com o cabelo loiro pálido e esses olhos verdes.
Ele respirou fundo, os dedos apertados em torno da haste frágil do copo. — O nome dela era Helen. Olhando para trás, eu sei por que meus pais quiseram que eu passasse tanto tempo com ela, mas por alguma razão, na altura não entendi.
Eu engoli. — Ela era sua companheira?
Um sorriso triste apareceu. — Eu realmente não queria ter nada a ver com ela. Passei a maior parte do meu tempo como uma sombra dos Guardas mestiços, enquanto eles treinavam. Minha mãe estava tão chateada comigo, mas eu me lembro do meu pai rindo sobre isso. Dizendo-lhe para me dar algum tempo, e deixar a natureza seguir seu curso. Que eu ainda era muito menino e que a luta dos homens me interessaria mais do que as meninas bonitas.
Havia um nó se formando em meu peito. Sentei-me de volta, o copo de vinho esquecido.
— Era noite quando eles vieram. — Seus cílios grossos espalharam por suas bochechas quando seus olhos baixaram, — Eu ouvi a luta lá fora. Levantei-me e olhei para fora da janela. Eu não conseguia ver nada, mas eu sabia. Houve um barulho lá embaixo e eu acordei Deacon. Ele não entendia o que estava acontecendo ou por que eu estava fazendo ele se esconder no armário e cobrir-se com roupas. Tudo aconteceu tão rápido depois disso. — Ele tomou um gole do vinho e depois colocou o copo sobre a borda. — Havia apenas dois daimons, mas eles controlavam o fogo. Eles eliminaram três Guardas, queimando-os vivos.
Eu queria que ele parasse, porque sabia o que estava por vir, mas ele tinha que tirar isso do peito. Eu duvidava que ele já tivesse colocado aquela noite em palavras, e eu precisava lidar com isso.
— Meu pai estava tentando jogar o elemento contra eles. Os Guardas estavam caindo à esquerda e direita. Helen foi despertada pela comoção, e eu tentei mandá-la ficar no andar de cima, mas ela viu um dos daimons atacar seu pai - rasgando a garganta dele bem na frente dela. Ela gritou e... eu nunca me vou esquecer do som. — Um olhar distante rastejou em seu rosto quando ele continuou, quase como se ele estivesse lá, — Meu pai se assegurou de que minha mãe conseguiria subir as escadas, mas então eu não podia vê-lo mais. Eu o ouvi gritar e eu apenas... — Ele balançou a cabeça, — fiquei lá. Aterrorizado.
— Aiden, você era apenas um menino.
Ele assentiu distraidamente. — Minha mãe gritou comigo para pegar Deacon e levá-lo para fora de casa com Helen. Eu não queria deixá-la, então eu comecei a descer as escadas. O daimon veio do nada, agarrando-a pelo pescoço. Ela estava olhando para mim, quando ele quebrou seu pescoço. Seus olhos... apenas nublaram. E Helen... Helen estava gritando e gritando. Ela não iria parar. Eu sabia que ele ia matá-la também. Eu comecei a correr as escadas, e eu agarreilhe a mão. Ela estava em pânico e lutando contra mim. Isso nos deixou mais lentos. O daimon nos alcançou e ele agarrou Helen primeiro. Ela ficou em chamas. Simples assim.
Engoli em seco. Lágrimas queimaram meus olhos. Isso... isso era mais terrível do que eu imaginava, e me lembrou do menino que o daimon que tinha queimado em Atlanta.
Aiden virou-se para o fogo. — O daimon foi atrás de mim depois. Eu não sei por que ele me poupou do fogo e atirou-me para o chão, mas eu sabia que ele estava indo para drenar meu éter. Então, havia esse Guarda que tinha sido queimado lá embaixo. De alguma forma, e enfrentando o que deve ter sido o pior tipo de dor, ele conseguiu subir as escadas e matou o daimon.
Ele me encarou e não havia qualquer dor em sua expressão. Talvez tristeza e arrependimento, mas havia também um pouco de admiração. — Ele era um meiosangue. Um dos que eu ficava seguindo pela casa. Ele tinha, provavelmente, a minha idade agora, e você sabe, em toda essa dor horrível, ele ainda fez o seu dever. Ele salvou minha vida e a de Deacon. Descobri alguns dias depois que ele havia sucumbido às queimaduras. Eu nunca tive a chance de agradecer a ele.
Sua tolerância aos mestiços fazia sentido. As ações de um Guarda haviam mudado séculos de crenças em um menino, transformando prejuízo, em reverência. Não era de admirar que Aiden nunca visse diferença entre mestiços e puros.
Aiden fez o seu caminho até mim e se sentou. Ele encontrou meu olhar. — É por isso que eu escolhi me tornar um Sentinela. Não tanto por causa do que aconteceu com os meus pais, mas por causa do meio-sangue que morreu para salvar a minha vida e do meu irmão.
Eu não sabia o que dizer ou se havia algo que podia falar. Então, coloquei minha mão em seu braço enquanto pisquei as lágrimas.
Ele colocou sua mão sobre a minha quando desviou o olhar. Um músculo trabalhou em sua mandíbula. — Deuses, eu não acho que alguma vez falei com ninguém sobre aquela noite.
— Nem mesmo Deacon?
Aiden balançou a cabeça.
— Eu me sinto honrada... Que você partilhou isso comigo. Eu sei que é muito. — Apertei seu braço, — Só queria que você nunca tivesse tido uma experiência assim. Não foi justo para nenhum de vocês.
Vários momentos se passaram antes que ele respondesse. — Eu tive justiça para esses daimons, pelo que fizeram para mim. Eu sei que é diferente do que você passou, mas queria dar-lhe essa justiça. Eu gostaria de ter dito antes.
— Um monte de coisas estava acontecendo. — Eu disse. Nós não estávamos nos falando, e depois aconteceu a morte de Caleb. Meu coração não apertou tão dolorosamente como costumava com seu nome. — Eu entendo o que aconteceu com Eric.
Ele sorriu um pouco. — Foi uma reação instintiva.
— Sim. — Procurei algo para distrair nossas mentes. Nós dois precisávamos. Meu olhar encontrou o violão encostado na parede. — Toque algo para mim.
Ele se levantou e pegou o violão com reverência. Caminhando de volta para o sofá, sentou-se no chão em frente de mim. Ele inclinou a cabeça para baixo e mechas de cabelo caíram para frente enquanto ele brincava com os botões ao longo do cabeçote. Seus dedos longos passavam pelas cordas tensas.
Ele olhou para cima, seus lábios derrubando em um meio sorriso. — Não vale. — Ele murmurou, — Você sabia que eu não iria recusar.
Deitei-me de lado lentamente. Meu estômago raramente doía, mas eu tinha me acostumado a ser cuidadosa. — Você sabe disso.
Aiden riu quando ele zumbia seus dedos nas cordas levemente. Depois de mais alguns momentos ajustando o tom, ele começou a tocar. A canção era tão assustadora quanto suave, lançando alto em algumas notas, e então seus dedos deslizavam para baixo suavizando os acordes. Minhas suspeitas foram confirmadas. Aiden sabia tocar. Não houve um erro, nem vacilo.
Ele me extasiou.
Descansando minha cabeça no travesseiro, eu me enrolei e fechei os olhos, deixando a melodia encher a sala e flutuar sobre mim. O que fosse que ele estava tocando no violão era calmante, como a canção de ninar perfeita. Um sorriso puxou meus lábios. Eu poderia perfeitamente vê-lo sentado na frente de um bar lotado, tocando músicas que encantariam a todos na sala.
Quando a música terminou, eu abri meus olhos. Ele estava olhando para mim, o olhar tão suave, tão profundo, que eu nunca queria desviar o olhar. — Isso foi lindo.
Aiden deu de ombros e gentilmente colocou o violão ao lado dele. Ele estendeu a mão, cuidadosamente, pegando a taça de vinho mal tocada de meus dedos.
Meus olhos o seguiram quando ele tomou um gole, e então colocou o copo de lado, também. Minutos poderiam ter passado enquanto olhávamos um para o outro, nenhum de nós falando.
Eu não sei o que deu em mim, mas estendi a mão e a coloquei em seu peito, ao lado de seu coração. Sob a minha mão direita, havia algo duro e em forma de lágrima debaixo de sua camisa. Eu senti o colar antes e nunca prestei muita atenção, mas agora havia algo... familiar sobre ele.
Tomei um suspiro agudo quando a compreensão passou por mim. Aiden olhou para mim intensamente em resposta, os olhos incrivelmente brilhantes. Um arrepio percorreu minha espinha, se espalhando por toda a minha pele com uma velocidade estonteante. Eu subi, deslizando os dedos sob a corrente fina.
— Alex... — Aiden ordenou, pediu realmente. Sua voz estava grossa, áspera. — Alex, por favor...
Eu hesitei por um instante, mas eu tinha que vê-lo. Eu só tinha que fazer. Com cuidado, puxei a corrente para cima. Minha respiração ficou presa na minha garganta quando levantei a corrente até que ela estava completamente para fora de sua camisa.
Pendendo da corrente de prata, estava a palheta preta que eu tinha dado a ele no seu aniversário. No dia que eu tinha dado a ele, ele me disse que não me amava. Mas isso... isso tinha que significar alguma coisa, e meu coração estava inchado, em perigo de explodir.
Sem palavras, eu corri meu polegar sobre a pedra polida. Havia um pequeno buraco na parte superior, onde a corrente estava enfiada.
Aiden colocou sua mão sobre a minha, fechando os dedos em torno da palheta. — Alex...
Quando nossos olhos se encontraram, houve um nível brutal de vulnerabilidade em seu olhar, um sentimento de desamparo que eu compartilhava. Eu queria chorar. — Eu sei. 
E eu realmente sabia. Eu sabia que, mesmo que ele nunca falasse essas palavras, mesmo que ele se recusasse a fazê-lo, eu ainda sabia.
Seus lábios se separaram. — Não foi possível enganá-la por muito tempo, eu acho.
Apertei os olhos fechados, mas uma lágrima se libertou, deslizando pela minha bochecha.
— Não chore. — Ele pegou a lágrima com o dedo enquanto pressionava sua testa contra a minha. — Por favor. Eu odeio quando você chora por minha causa. 
— Eu sinto muito. Não quero ser toda chorosa. — Limpei meu rosto, sentindo-me tola. — É só que... eu nunca soube.
Aiden apertou os lados do meu rosto, pressionando um beijo na minha testa. — Eu queria um pedaço de você sempre comigo. Não importa o que aconteça. 
Estremeci. — Mas eu não... eu não tenho nada de você.
— Sim, você tem. — Aiden roçou os lábios sobre meu rosto úmido. Um sorriso suave enchendo sua voz. — Você vai ter um pedaço do meu coração - ele todo na verdade. Para sempre. Mesmo que o seu coração pertenca à outra pessoa.
Meu coração caiu, mas eu fiquei parada. — O que você quer dizer?
Ele deixou cair as mãos, inclinando-se para trás. — Eu sei que você se importa com ele.
Sim, eu me importava com Seth. Mas ele não era o meu coração. Quando Aiden estava ali, na minha frente, a conexão entre nós era algo mais do que a profecia. Meu verdadeiro destino e não uma ilusão. Profecias são apenas sonhos; Aiden era a minha realidade.
— Não é o mesmo. — Sussurrei, — Nunca foi. Você tem meu coração... E eu só quero compartilhar meu coração com você.
Os olhos de Aiden estavam de volta à prata líquida. Eu vi isso antes que ele baixasse o olhar. Momentos se passaram antes que seus olhos se voltassem para cima, encontrando os meus.
Parecia haver algum tipo de batalha interna que ele lutava com ele mesmo. Quando falou, eu não tinha certeza se ele ganhou ou perdeu. — Devemos ir para a cama.
Um choque correu através de mim, rubor coloriu minha pele. Mas espera... Ele estava sugerindo que fossemos para cama juntos ou em camas separadas? Eu realmente não tinha ideia, estava com muito medo de ter esperança, e estranhamente, eu estava assustada com a ideia. Era como se tivessem me oferecido algo que eu queria há tanto tempo e, de repente, não tinha ideia do que fazer com ele.
Ou como fazê-lo.
Seus lábios se curvaram, e então ele se levantou. Apertando as minhas mãos agora em gelatinha nas suas, ele me puxou para os meus pés. Minhas pernas se sentiam fracas. — Vá para a cama. — disse ele.
— Você... você está vindo, também?
Aiden assentiu. — Eu vou subir em breve.
Eu não conseguia respirar.
— Vá. — Ele insistiu.
E eu fui.
           
Eu tinha certeza que ia ter um ataque cardíaco. Raramente doenças mortais nos afligiam, mas desde que eu tive um resfriado já, imaginei que nada era impossível.
Ainda não conseguia realmente respirar.
Escovei meus dentes e tirei os emaranhados do meu cabelo. Encarei a cama obscenamente grande no meio do quarto. Eu não conseguia decidir o que vestir. Ou eu não deveria vestir nada? Oh deuses, o que eu estava pensando? Não era como se ele tivesse dito que ia vir para fazer sexo. E se não estivesse e me visse deitada na cama nua, isso seria muito constrangedor. Talvez ele só quisesse passar mais tempo comigo. Com a questão de Seth de lado, ainda havia toda a questão sobre nós não podermos ficar juntos.
Mas ele tinha a palheta. Ele teve a palheta pairando sobre seu coração todo esse tempo.
 
Coloquei uma blusa e shorts de dormir, depois fui em direção à cama. Então baixei os olhos para os meus braços. Na luz do luar fluindo através da janela, eu ainda podia ver a pele desigual, irregular. Eu não queria que Aiden visse isso. Então troquei rapidamente, colocando uma camisa fina, de mangas compridas. Continuei com a parte de baixo. Então, pulei na cama, puxei as cobertas até o queixo, e esperei.
Houve uma batida suave na porta alguns minutos depois. — Está tudo bem. — Estremeci com a forma como a minha voz grasnou.
Aiden entrou, fechando e trancando a porta atrás dele. Ele tinha trocado, também, vestindo um par de calças escuras de dormir e uma regata cinza que exibia braços musculosos. Engoli nervosamente e quis que o meu coração desacelerasse antes que eu tivesse espasmos.
Ele ficou de frente para mim e ficou rígido. O quarto estava sombreado demais para eu ver a expressão dele, e desejei que eu pudesse, porque então poderia ter tentado descobrir o que ele estava pensando. Sem dizer nada, ele foi para as janelas primeiro e arrastou as cortinas. O quarto foi lançado em completa escuridão, e meus dedos cavaram no rico edredom. Ouvi-o andando descalço ao redor do quarto, e então um brilho suave apareceu. Aiden trouxe uma vela para a cama, colocando-a sobre uma mesinha. Ele olhou para mim, expressão suavizada pela luz da vela. Ele sorriu.
Comecei a relaxar, afastando o cobertor aos poucos dos meus dedos.
Cuidadosamente, ele retirou as cobertas do seu lado e subiu, nem uma vez quebrando o contato visual comigo. — Alex? 
— Yeah? 
Ele ainda estava sorrindo. — Relaxe. Eu só quero estar aqui com você... Se estiver tudo bem?
— Está tudo bem. — Sussurrei.
— Bom, porque eu realmente não quero estar em qualquer outro lugar. 
 
Oh, o calor que inundou o meu peito poderia ter me feito flutuar para as estrelas. Eu o observei se estender ao meu lado. Meu olhar disparou para a porta fechada mesmo sabendo que Deacon não estava em nenhum lugar perto de nós. E não era como se ele já não suspeitasse de algo. Ou como se ele se importasse. Mordi o lábio, ousando dar um rápido olhar para Aiden. Seu queixo estava inclinado para cima e seus olhos queimavam prateados, brilhantes e intensos. Eu não conseguia desviar o olhar.
Aiden atraiu uma respiração superficial, levantando o braço mais próximo a mim. — Vem? 
Coração batendo forte, deslizei até que minha perna roçou a sua. Seu braço subiu, envolvendo em torno da minha cintura. Ele me guiou para baixo de modo que eu estivesse aninhada contra ele, minha bochecha em seu peito.
Pude sentir seu coração correndo tão rápido quanto o meu. Deitamos em silêncio por pouco tempo, e naqueles minutos, foi como estar no paraíso. O simples prazer de estar ao lado dele parecia tão certo que realmente não poderia ser errado.
Aiden trouxe seu outro braço por cima dele, colocando minha bochecha em sua mão. Seu polegar alisou minha mandíbula. — Sinto muito por aquele dia no ginásio. Por como falei com você, por quanto te machuquei. Eu só pensei que estava fazendo a coisa certa. 
— Eu entendo, Aiden. Está tudo bem. 
— Não está tudo bem. Eu te machuquei. Sei que machuquei. Eu quero que você saiba por que fiz aquilo, — ele disse. — Depois que você me contou como se sentia, no zoológico... Isso… Despedaçou meu autocontrole. — Não pareceu assim, eu pensei enquanto ele continuava. — Eu sabia que não poderia mais estar perto de você, porque sabia que eu tocaria em você e não pararia. 
Levantei, encarando ele de baixo e abri a boca para dizer algo que provavelmente teria arruinado o momento, mas nunca tive a chance. A mão de Aiden encontrou minha nuca e me puxou para baixo. Seus lábios encontraram os meus, e como todas as vezes antes, houve esta faísca indefinível que corria através de nós. Ele fez um som contra meus lábios, beijando-me cada vez mais duro.
Ele recuou apenas o suficiente para que seus lábios roçassem os meus quando ele falou. — Eu não posso continuar fingindo que não quero isto, que não quero você. Eu não posso. Não depois do que aconteceu com você. Eu pensei... Eu pensei que tinha te perdido, Alex, para sempre. E eu teria perdido tudo. Você é meu tudo. 
Muitas emoções cresceram em mim todas de uma vez - temor, esperança, e amor. Tanto amor que tudo fora de nós desapareceu naquele instante. — Isto… Isto é o que você tem tentado me dizer. 
— É o que eu sempre quis te dizer, Alex. — Ele se sentou, trazendo-me junto com ele. — Eu sempre quis isto com você. 
Deslizei minhas mãos às suas bochechas, encontrando seu olhar aquecido com o meu próprio. — Eu sempre te amei. 
Aiden fez um som estrangulado e seus lábios estavam nos meus novamente. Sua mão se enterrou no meu cabelo, me segurando imóvel. — Esta não era a minha intenção… vindo aqui. 
— Eu sei. — Meus lábios roçaram os seus enquanto eu falava. — Eu sei. 
Enquanto me beijava de novo, ele relaxou de costas. Meu coração estava martelando contra minhas costelas quando seus dedos deixaram meu rosto e viajaram para baixo. Ele ergueu-se apenas o suficiente para eu tirar sua camisa e jogá-la de lado. Minhas mãos se espalharam sobre cada dura ondulação e eu beijei o meu caminho para baixo até seu peito arfar sob meus lábios e ele sussurrar meu nome de uma forma suplicante. Ele agarrou meus braços e me puxou de volta para seus lábios.
Encolhi os ombros para fora de seu aperto e levantei meus braços sem falar. Ele obedeceu à ordem silenciosa e jogou minha camisa de lado. Sem qualquer aviso, eu estava de costas, encarando-o em cima de mim. Suas mãos deslizaram sobre a minha pele nua enquanto seus lábios mergulhavam na minha garganta e sobre a curva do meu ombro. Cada cicatriz foi beijada ternamente, e quando ele chegou à que a lâmina de Linard tinha deixado, estremeceu.
Meus dedos peneiraram por seu cabelo enquanto eu o segurava para mim. Seus beijos estavam fazendo coisas malucas, estranhas, e maravilhosas comigo. Sussurrei seu nome uma e outra vez como algum tipo louco de oração. Então estava me movendo contra ele, sendo guiada por algum instinto primitivo que me disse o que fazer. O resto de nossas roupas acabou em uma pilha no chão. No momento em que nossos corpos estavam nus um contra o outro, um sentido de selvageria tomou conta de mim.
Nossos beijos se aprofundaram, sua língua varreu a minha, e eu balancei contra ele. Tudo isto foi maravilhoso, requintadamente agradável. Aiden derramou beijos por toda a minha pele corada. Eu estava perdida nas sensações inebriantes, completamente despreparada para isso. Isto podia não ter sido o que pretendíamos, mas isto... isto estava acontecendo.
Aiden levantou a cabeça. — Tem certeza?  
— Sim, — Respirei. — Eu nunca tive mais certeza.  
Sua mão tremeu contra o meu rosto corado. — Você já recebeu…?  
Ele estava perguntando se eu tive minha dose de controle de natalidade mandatado pelo Conselho para todas as fêmeas mestiças. Assenti.
Os olhos prateados queimaram. Sua mão tremeu contra minha bochecha de novo e enquanto se levantava, seus olhos vagavam sobre mim. Minha recémdescoberta coragem praticamente desapareceu sob seu olhar escaldante. De alguma forma sentindo meu nervosismo, seu beijo foi gentil e doce. Ele foi paciente e perfeito, persuadindo para longe a timidez até que eu me enrolei em torno dele.
Havia uma borda quase em pânico nele, impulsionada pelo conhecimento de que não havia nenhum recuo, nenhuma parada desta vez. Com um beijo que me deixou tremendo, sua mão derivou com tal detalhe requintado. Seus beijos seguiram o mesmo padrão e quando ele fez uma pausa, seus olhos imploraram por permissão. Esse simples momento, esse minúsculo ato, trouxe lágrimas aos meus olhos.
Eu não conseguia - não queria - negar qualquer coisa a ele.
Aiden estava por toda parte, em cada toque, cada suave gemido. Quando eu pensava que não podia aguentar mais, que eu certamente quebraria, ele estava lá para provar que eu podia. Quando seus lábios desceram sobre os meus novamente, eles o fizeram febris.
— Eu te amo, — ele sussurrou. — Eu amo desde a noite em Atlanta. Eu sempre vou amar.  
Ofeguei contra a sua pele. — Eu te amo.  
Ele quebrou. Qualquer que fosse o controle que ele tinha envolvido em torno de si, finalmente escapou. Eu me deleitei com isso, a pura simplicidade de estar em seus braços e saber que ele sentia a mesma loucura afiada que eu sentia. Apoiando-se com seu antebraço conforme seus beijos assumiam o mesmo sentido de urgência que eu sentia, ele levantou a boca para sussurrar algo em um lindo idioma que eu não entendia. Eu estava quase à beira de um precipício, correndo em direção a um final glorioso.
Fomos cercados por nosso amor um pelo outro. Tornou-se uma coisa tangível, eletrificando o ar à nossa volta até eu ter certeza de que ambos iríamos incendiar sob seu poder. Então, em um momento irracional de pura beleza, não éramos uma meio-sangue e um puro-sangue, éramos simplesmente apenas duas pessoas loucamente, profundamente apaixonadas.
Éramos um.
 
Acordei algum tempo depois, enfiada nos braços de Aiden. A vela ainda tremulava ao lado da cama. O lençol tinha se emaranhado em torno de nossas pernas, e o edredom fora empurrado para o chão. Percebi que estive mais ou menos usando-o como um travesseiro. Levantei a cabeça e o absorvi. Eu nunca poderia me cansar de olhar para ele.
Seu peito subia uniformemente sob minhas mãos. Ele parecia tão jovem e relaxado enquanto dormia. Cachos de ondas escuras caíam em sua testa e seus lábios estavam abertos. Inclinei-me e dei um beijo suave contra aqueles lábios.
Seus braços imediatamente se apertaram, traindo que ele não estava tão profundamente adormecido como eu pensara inicialmente. Sorri abertamente ao ser pega. — Olá. 
Os olhos de Aiden tremularam abertos. — Há quanto tempo você tem me encarado? 
— Não muito tempo. 
— Conhecendo você, — Ele arrastou as palavras preguiçosamente, — Você tem me encarado desde que eu adormeci. 
— Isso não é verdade. — Dei uma risadinha.
— Uh huh, vem aqui. — Ele me puxou para baixo. Meu nariz roçou contra o seu. — Nem assim você está próxima o suficiente. 
Eu me movi para mais para perto. Minha perna enrolou em torno da sua. — Próxima o suficiente? 
— Deixe-me ver. — Suas mãos deslizaram pelas minhas costas e descansaram sobre a curva da minha cintura com a mais leve pressão. — Ah, isso é melhor.  
Eu corei. — Sim… Yeah, é.  
Aiden deu um sorriso de lobo e um brilho perverso encheu seus olhos prateados. Eu deveria ter sabido naquele momento que ele estava tramando algo, mas este lado de Aiden - este lado brincalhão e sensual - era desconhecido para mim. Sua mão deslizou mais baixo, provocando um arquejo satisfeito de surpresa. Ele se sentou em um rápido movimento e eu me encontrei inesperadamente em seu colo.
Não tive um momento para considerar muito. Aiden me beijou, dispersando todos os pensamentos ou reações. O lençol escapou e eu derreti contra ele. Foi bastante tempo depois, quando o sol estava prestes a se levantar e a vela há muito se extinguira, que Aiden gentilmente me despertou.
— Alex. — Ele roçou os lábios na minha testa.
Abri meus olhos, sorrindo. — Você ainda está aqui.  
Sua mão acariciou minha bochecha. — Onde mais eu estaria? — Então ele me beijou, e os meus dedos dos pés se curvaram. — Você pensou que eu apenas iria embora?
Eu me maravilhei com o fato de que podia correr a minha mão até seu braço, sem tê-lo se afastando. — Não. Eu não sei, na verdade.  
Ele franziu a testa enquanto traçava o formato da minha maçã do rosto. — O que você quer dizer?  
Eu me aconcheguei mais perto dele. — O que acontece agora?
Entendimento queimou em seu olhar. — Eu não sei, Alex. Temos que ser cuidadosos. Não vai ser fácil, mas... vamos descobrir um jeito.  
Meu coração pulou uma batida.
Um relacionamento ia ser malditamente perto de impossível em qualquer lugar que fôssemos, mas eu não pude parar a esperança inchando dentro de mim ou as lágrimas se construindo em meus olhos. Era errado esperar por um milagre? Porque era isso que nós precisaríamos para fazer isto funcionar.
— Oh, Alex. — Ele recolheu-me em seus braços, segurando-me firmemente contra ele. Enterrei meu rosto no espaço entre seu pescoço e ombro, inalando profundamente. — O que fizemos, foi a melhor coisa que já fiz e não foi apenas uma espécie de caso.  
— Eu sei, — Murmurei.
— E eu não vou te deixar ir, não porque alguma lei estúpida diz que não podemos ficar juntos.  
Palavras perigosas, mas derreti junto com elas, as apreciei. Enrolei meus braços ao redor dele, tentando manter velhos medos e preocupações à distância. Aiden estava assumindo um risco enorme para ficar comigo - assim como eu - e eu não podia negar nossos sentimentos por causa do que tinha acontecido com Hector e Kelia. Esse medo não era justo para Aiden ou para mim.
Aiden rolou de costas, encaixando-me ao seu lado. — E eu não vou te perder para Seth.  
O ar prendeu em meus pulmões. De alguma forma, estando tão perdida em Aiden, eu tinha completamente esquecido o inesquecível - o fato de que eu estaria Despertando em duas semanas - e todas as ramificações disso. Medo tinha gosto de sangue na parte de trás da minha garganta. E se isso mudasse a forma como eu me sentia sobre Aiden?
Porra. E se o vínculo torcesse esses sentimentos de volta para Seth?
E como no inferno eu tinha esquecido sobre Seth em primeiro lugar? “Fora da vista e fora da mente” era totalmente não justificável. A coisa era que eu me importava com Seth - muito. Parte de mim até mesmo o amava, mesmo que eu quisesse machucá-lo na maior parte do tempo. Mas meu amor por Seth não era nada como o que era por Aiden. Não me consumia, não me fazia querer fazer coisas malucas, ser imprudente, e no mesmo fôlego, ser mais segura e mais cautelosa. Meu coração, meu corpo, não respondiam da mesma forma.
A mão de Aiden deslizou de leve sobre meu braço. — Eu sei o que você está pensando, agapi mou, zoi mou.  
Tomei uma respiração superficial. — O que isso quer dizer?  
— Quer dizer, ‘meu amor, minha vida’. 
Apertei meus olhos fechados contra a corrida de lágrimas enquanto me lembrava da primeira vez que ele dissera “agapi mou” para mim. Meus deuses, Aiden não tinha mentido. Ele me amara desde o início. Saber disso me encheu com resolução de aço. Levantei-me e encarei abaixo para ele.
Ele sorriu, e meu coração pulou. Estendeu o braço, enfiando meu cabelo de volta atrás da minha orelha. Sua mão demorou. — O que você está pensando agora?  
— Nós podemos fazer isto. — Inclinei-me e o beijei. — Nós vamos fazer isto, droga.  
Seu braço circulou minha cintura. — Eu sei.  
— Deuses, sei que isto soa realmente fraco, então, por favor, não ria de mim. — Sorri abertamente, — Mas eu estive... aterrorizada com este Despertar, com me perder. Mas… mas eu não estou mais. Eu não vou me perder, porque… Bem, como me sinto sobre você, isso nunca me deixaria esquecer quem eu sou. 
— Eu nunca te deixaria esquecer quem você é. 
Meu sorriso se espalhou. — Deuses, nós somos loucos. Você sabe disso, certo? 
Aiden riu. — Acho que somos muito bons em loucura, entretanto. 
Permanecemos nos braços um do outro mais tempo do que deveríamos. Eu estava relutante em deixá-lo ir embora e acho que ele estava também. Rolando para o meu lado, eu o observei vestir suas roupas rapidamente. Ele sorriu abertamente quando me pegou. Mexi as sobrancelhas. — O quê? É uma vista agradável. 
— Perversa. — ele disse, sentando-se ao meu lado. Sua mão deslizou de leve sobre meu quadril. Havia algo feroz em seu olhar. — Nós vamos fazer isto. 
Eu me aconcheguei mais perto dele, desejando que ele não tivesse que ir embora. — Eu sei. Acredito nisso. 
Aiden me beijou mais uma vez e sussurrou, — Agapi mou. 
Tudo e nada mudou depois de fazer sexo. Eu não parecia nem um pouco diferente. Bem, havia o sorriso bobo estampado no meu rosto que eu não podia me livrar. Fora isso, eu parecia a mesma. Mas eu me sentia diferente. Eu sentia dor em lugares que não fazia ideia que seria possível que alguém pudesse sequer se machucar. Meu coração também fazia aquela coisa esvoaçante cada vez que eu pensava no nome dele, o que era uma coisa tão menininha e eu amava isso.
Deixar meu coração, ao invés dos meus hormônios, decidirem quando fazer isso, tornou o que Aiden e eu fizemos algo especial. E quando nós nos encontrávamos durante o dia, os olhares que roubávamos de repente significavam mais. Tudo significava mais, porque ambos estávamos arriscando tudo e nenhum dos dois se arrependia disso.
Eu passei a maior parte da tarde e da noite jogando Scrabble27 com Deacon. Eu acho que ele se arrependeu de me chamar para jogar, porque eu era uma
                                                         
 27 Jogo em que você mistura as letras para formar palavras, geralmente, as peças são de madeira.
 
daquelas jogadoras de Scrabble – o tipo que montava palavras de três letras a cada chance que eu tinha.
Havia uma parte de mim que continuava esperando que os deuses dessem um tiro em um de nós por finalmente quebrarmos todas as regras. Então quando Apollo apareceu na nossa quarta rodada de Scrabble, eu quase tive um ataque do coração.
— Deuses! — Apertei meu peito, — Você pode parar de fazer isso?
Apollo me olhou estranhamente. — Onde está Aiden?
Lentamente ficando em pé, Deacon clareou a garganta e se curvou. — Senhor, eu acho que ele está lá fora. Vou buscá-lo.
Eu encarei para a forma de Deacon recuando. Deixada sozinha com Apollo, eu não tinha certeza do que fazer. Deveria ficar em pé e me curvar, também? Era considerado rude se sentar na presença de um deus? Mas então Apollo se sentou ao meu lado, cruzou as pernas, e começou a bagunçar as letras no tabuleiro.
Acho que não.
— Eu sei o que aconteceu, — Apollo disse depois de alguns segundos.
Minhas sobrancelhas franziram. — Sobre o que você está falando?
Ele apontou para o tabuleiro.
Meu olhar caiu para o jogo e eu quase desmaiei. Ele tinha formado SEXO e AIDEN com aquelas letrinhas estúpidas. Horrorizada, eu me atirei de joelhos e varri as letras para fora do tabuleiro. — Eu... Eu não tenho ideia sobre o que você está falando!
Apollo jogou a cabeça para trás e riu, tipo, gargalhando realmente alto.
Acho que o odiava, deus ou não.
— Eu sempre soube. — Ele se encostou no sofá, cruzando os braços. Seus olhos azuis queimavam de maneira estranha, iluminados por dentro. — Estou apenas surpreso que vocês dois aguentaram tanto tempo.
Meu queixo bateu no chão. — Espera. Aquela noite que Kain voltou? Você... Você sabia que eu estava na cabana de Aiden, não sabia?
Ele assentiu.
— Mas... Como você sabe agora? — Meu estômago afundou. — Oh, meus deuses, você tem feito algum tipo de espionagem divina assustadora ou algo assim? Você nos viu?
Os olhos de Apollo se estreitaram quando ele inclinou a cabeça para mim. — Não. Eu realmente tenho coisas melhores para fazer.
— Como o quê?
Suas pupilas começaram a queimar brancas. — Oh, eu não sei. Talvez rastrear Telly, manter um olho no Seth e, se eu tiver sorte, trazer você de volta da morte. Ah, e eu esqueci de fazer algumas aparições no Olimpo, para não ter cada um dos meus irmãos curiosos sobre o que estou fazendo.
— Oh. Desculpe. — Sentei, me sentindo envergonhada. — Você é realmente ocupado.
— De qualquer forma, eu posso cheirar Aiden em você.
Meu rosto pegou fogo. — O quê? O que quer dizer, você pode cheirá-lo? Cara, eu tomei banho.
Apollo se inclinou, seu olhar encontrando o meu. — Cada pessoa tem um aroma único. Se você mistura o seu o suficiente com alguém, leva um tempão para tirar o cheiro dele de você. Na próxima vez você pode querer tentar o sabonete Dial28 ao invés daqueles sabonetes líquidos femininos.
Eu cobri meu rosto em chamas. — Isso é tão errado. 
                                                        
 28 Marca de um sabonete antibactericida.
 
— Mas me diverte muito.
— Você... Você não vai fazer nada sobre isso? — Sussurrei, levantando minha cabeça.
Ele rolou os olhos, — Acredito que esse seja o último dos nossos problemas no momento. Além do mais, Aiden é um cara bom. Ele sempre colocará você em primeiro lugar, acima de tudo. Mas eu tenho muita certeza que ele ficará superprotetor em algum momento. — Apollo deu de ombros enquanto eu encarava, boquiaberta, para ele, — Você só vai ter que colocá-lo na linha.
Apollo estava me dando conselhos amorosos? Esse era oficialmente o momento mais estranho da minha vida, e isso dizia alguma coisa. Felizmente, Aiden e Deacon retornaram, e eu estava salva de morrer por humilhação.
Deacon enfiou as mãos nos bolsos. — Estou indo me ocupar com... algo. Sim. — Girando, ele fechou a porta enquanto saía.
Havia algo muito estranho sobre a reação de Deacon com Apollo. Para o bem dele, eu esperava seriamente que ele não tivesse feito nada com Apollo. Ele podia acabar como uma flor ou um tronco de árvore.
Aiden entrou na sala e se curvou. — Há novidades? — Ele perguntou se endireitando.
— Ele sabe sobre nós. — eu disse.
Um segundo depois, Aiden me puxou para ficar em pé e me empurrou para trás dele. Em ambas as suas mãos estavam adagas do Covenant.
Apollo arqueou uma sobrancelha dourada. — E o que eu disse sobre toda a coisa da super-proteção?
Bem, ele disse isso. Com o rosto queimando, agarrei o braço de Aiden. — Ele não parece se importar, aparentemente.
Os músculos de Aiden se tencionaram embaixo da minha mão. — E porque eu devo acreditar nisso? Ele é um deus.
Eu engoli. — Bem, provavelmente porque ele poderia já ter me matado se fosse ter um problema com isso.
— Isso é verdade. — Apollo esticou as pernas, cruzando-as no calcanhar, — Aiden, você não pode na verdade estar chocado que eu saiba. Eu preciso lembrálo sobre a nossa caçada especial em Raleigh? Porque mais um homem caçaria alguém como aquilo, a menos que fosse por amor? E, confie em mim, eu sei as loucuras que as pessoas fazem por amor.
O topo das bochechas de Aiden corou e ele relaxou uma fração. — Me desculpe por... Puxar isso para você, mas...
— Eu entendo. — Ele balançou a mão com desdém, — Sente-se, fique a vontade, o que for. Nós precisamos conversar, e eu não tenho muito tempo.
Respirando fundo, eu sentei onde tinha estado antes. Aiden sentou no braço do sofá atrás de mim, permacendo perto. — Então o que está rolando? — Perguntei.
— Eu estava com Marcus. — Apollo respondeu. — Ele tem Solos a bordo.
— A bordo do quê? — Olhei para Aiden. Ele olhou para longe. Igualmente curiosa e brava, porque eu sabia que isso significava que ele estava mantendo alguma coisa longe de mim, eu dei uma cotovelada na sua perna. — A bordo de quê, Aiden?
— Você não disse a ela, disse? — Apollo deslizou para longe. — Não me bata.
— O quê? Eu não bato nas pessoas. — Ambos me encararam com conhecimento. Eu cruzei os braços para evitar bater neles. — Ótimo. Que seja. O que está rolando?
Apollo suspirou. — Solos é um Sentinela meio-sangue.
— Jesus. Eu deduzi essa parte. — Aiden me empurrou para trás com o joelho. Atirei a ele um olhar de morte. — O que ele tem a ver com isso?
— Bem, estou tentando dizer a você. — Apollo ficou em pé fluidamente. — O pai de Solos é um Ministro em Nashville. Ele é, na verdade, o único filho do Ministro; ele foi mimado e criado com muito conhecimento das políticas do Conselho.
— Ok. — Eu disse lentamente. Puros se preocupando com seus filhos mestiços não era algo inédito. Raro, sim, mas eu era um exemplo disso.
— Nem todos do Conselho são fãs de Telly, Alex. Alguns até gostariam de vêlo sendo removido da sua posição. — Aiden explicou.
— E se eu me lembro bem, ele foi minoria quando se tratou de colocá-la em servidão. — Apollo deslizou para a janela, — Palavra no que ele está envolvido não cairá bem com aqueles membros do Conselho, incluindo o pai de Solos, que, a propósito, é um molenga quando se trata do tratamento dos mestiços. Tê-los ao nosso lado só pode nos ajudar.
— O que você quer dizer, o pai dele é um molenga?
Apollo me encarou. — Ele é um daqueles que não acredita que os meiosangues devem ser forçados à servidão se eles não se encaixarem no molde de Sentinela ou Guarda.
— Bem, você não tem ninguém para culpar por essa regra além de vocês mesmos. — Raiva acendeu dentro de mim, — Vocês são responsáveis pela maneira que temos sido tratados.
Apollo franziu a testa. — Nós não temos nada a ver com isso.
— O quê? — Surpresa coloriu a voz de Aiden.
— Nós não somos responsáveis pela submissão dos mestiços. — Apollo disse. — Isso foi tudo dos puro-sangues. Eles decretaram a separação das duas raças em castas séculos e séculos atrás. Tudo o que nós pedimos foi que puros e mestiços não se misturassem.
Aquelas palavras puxaram o mundo para fora debaixo dos meus pés. Tudo o que tinha sido ensinada a acreditar já não era verdade. Desde quando eu era uma criança pequena, tinha sido dito que os deuses nos viam como inferiores e nossa sociedade atuava naquela crença. — Então por que... Por que vocês nunca fizeram nada?
— Não era nosso problema. — Apollo respondeu alegremente.
Raiva chicoteou por mim como um bala em brasa e eu pulei em pé. — Não era seu problema? Os puros são seus filhos! Assim como nós. Vocês todos poderiam ter feito algo anos atrás. 
Aiden pegou meu braço. — Alex.
— O que você espera que nós fizéssemos, Alexandria? — Apollo disse. — As vidas dos meio-sangues estão literamente um degrau, um pequeno degrau, acima das vidas dos mortais. Nós não podemos interferir em coisas tão triviais.
A escravidão de milhares e milhares de mestiços era uma coisa trivial?
Me livrando de Aiden, eu avancei para Apollo. Pensando nisso agora, não foi uma boa ideia, mas eu estava tão brava, tão chocada que os deuses tinham estado lá desde o começo e permitido que os puros nos tratassen como animais em rebanho. Uma parte pequena e racional do meu cérebro sabia que não devia tomar isso pessoalmente, porque assim era como os deuses eram. Se não os involvesse diretamente, eles não se importavam. Era tão simples assim. A parte puta bateu a parte racional.
— Alex! — Aiden gritou, se esticando em minha direção.
Eu era muito mais rápida quando eu queria ser. Ele não poderia me parar. Consegui chegar a meio metro de Apollo antes que ele levantasse a mão. Eu bati em uma parede invisível. A força soprou meu cabelo para trás.
Apollo sorriu. — Eu realmente gosto do seu temperamento mal-humorado.
Eu chutei o escudo. Dor queimou pelo meu pé. Eu manquei para trás. — Ai! Porra isso dói!
 
Aiden conseguiu um agarrar seguramente ao meu redor. — Alex, você precisa se acalmar.
— Estou calma!
— Alex. — Aiden repreendeu, obviamente tentando não rir.
Apollo abaixou a mão, parecendo arrependido. — Eu... entendo sua raiva, Alexandria. Os meio-sangues não foram tratados de forma justa.
Eu tomei muias respirações profundas e calmantes.
— A propósito, — Apollo disse, — Da próxima vez que você atacar um deus, e não seja eu, você será destruída. Se não por aquele deus, então pelas fúrias. Você tem sorte que as fúrias e eu não nos damos bem. Elas amariam ver minhas entranhas amarradas em vigas...
— Tudo bem. Eu tenho a imagem. — Abaixei meu pé dolorido. — Mas eu não acho que você realmente entende. Vocês criaram tudo isso e então apenas deixaram para lá. Não tomando nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu. Vocês caras, levam ‘egocentrismo’ para um nível épico, todo novo. E todos os nossos problemas, os daimons e mesmo a porcaria do Apollyon, são culpa dos deuses. Você mesmo disse isso! Se você me perguntar, vocês caras são aberrações inúteis 99% do tempo.
Aiden colocou a mão na parte inferior das minhas costas. Eu esperava que ele me mandasse calar a boca, porque eu estava gritando com um deus, mas não foi o que ele fez.
— Alex tem um ponto, Apollo. Eu nem sequer sabia a... a verdade. Até nós somos ensinados que os deuses decretaram a separação das duas raças.
— Eu não sei o que dizer. — Apollo disse.
Alisei meu cabelo para baixo. — Por favor, não diga que você sente muito, porque sei que não seria verdade.
Apollo asentiu.
— Tudo bem. Agora que nós tiramos isso dos nossos sistemas, vamos voltar ao ponto dessa visita. — Aiden me puxou para o sofá, me forçando a sentar. — E sério Alex, sem bater.
Eu rolei meus olhos. — Ou o quê? Você vai me colocar de castigo?
O sorriso de Aiden foi ousado, como se ele estivesse pronto para o desafio e podia até se divertir com isso.
— Solos e o pai dele estarão ativos para ter certeza que Telly seja removido da posição de Ministro chefe e que uma investigação extensiva seja feita para determinar quantos membros da Ordem podem estar lá fora. E antes que vocês me perguntem por quê, como um deus, eu não posso apenas ver isso, eu devo lembrá-los que nós não somos oniscientes.
— Porque vocês estavam preocupados com como eu reagiria a isso? — Perguntei, confusa, — Soa como uma coisa boa.
— Não é tudo. — Aiden respirou fundo, — O pai de Solos é dono de uma extensa propriedade através dos Estados, lugares que nós podemos escondê-la até que todos os membros da Ordem sejam descobertos.
— Não só isso, — Apollo adicionou. — Nós podemos mantê-la segura até que saibamos como lidar com Seth e o seu Despertar.
Pisquei, positivamente eu não tinha os escutado direito. — O quê?
— A pior coisa que pode acontecer bem agora é Seth pegar o seu poder e se tornar o Assassino de Deuses. — Apollo cruzou os braços. — Por isso, precisamos ter certeza que você estará longe o suficiente quando você Despertar, que a ligação seja cortada pela distância e que você não possa se conectar com ele. Ele não pode ser confiável.
— Por quê? Por que ele não pode ser confiável? O que ele fez?
— Ele tem mentido para você sobre muitas coisas. — Aiden apontou.
 
Balancei a cabeça. — Além das mentiras sobre as coisas de Apollyon, o que ele fez?
— Não é o que ele tem feito, Alexandria, mas o que ele fará. O oráculo viu isso.
— Você está falando sobre toda aquela porcaria ‘um para salvar e um para destruir’? Por quê? Porque isso seria o caso com eu e Seth, quando nós não somos o primeiro par de Apollyons? — Joguei o meu cabelo para trás, frustrada e cheia de necessidade de... proteger o nome do Seth. Não como se ele tivesse um bom nome, mas qual é.
De repente, Apollo estava ajoelhando na minha frente ao nível dos olhos. Aiden enrijeceu ao meu lado. — Eu não desperdicei meu tempo tentando mantêla segura, e discuti com Hades pela sua alma, apenas para ter você jogando tudo isso para longe baseada em confiança tola e ingênua.
Eu apertei minhas mãos em bolas. — Por que você sequer se preocupa, Apollo?
— É complicado. — Foi tudo o que ele disse.
— Se tudo o que você pode dizer é ‘é complicado’ então você pode esquecer isso. E quanto a escola?
— Marcus nos assegurou que você se graduaria em tempo. — Aiden disse.
— Você sabia sobre isso?
Ele assentiu. — Alex, eu acho que é a coisa inteligente a se fazer.
— Correr é a coisa inteligente a se fazer? Desde quando você acredita nisso? Porque eu me lembro de você me dizer que correr não resolvia nada.
Os lábios de Aiden afinaram. — Isso foi antes de você ser assassinada, Alex. Antes que eu... — Ele se cortou, balançando a cabeça. — Isso foi antes.
 
Eu sabia o que ele queria dizer e eu me magooei por isso. Eu sofria, porque ele tinha que se preocupar comigo, mas isso ainda não extinguia completamente a minha raiva. — Você deveria ter me dito que isso era o que vocês estavam planejando. É o mesmo que Seth e Lucian planejando me chicotear para longe em algum país distante. Eu deveria ter sido inclusa nesses planos.
— Alexandria...
— Não. — Cortei Apollo e fiquei em pé antes que Aiden pudesse me parar. — Eu não vou me esconder porque há uma chance de que Seth possa fazer alguma coisa.
— Então esqueça a questão com Seth. — Aiden ficou em pé, cruzando os braços. — Você precisa ser protegida da Ordem.
— Nós não podemos esquecer sobre Seth. — Comecei a andar, querendo puxar meu cabelo, — Se eu desaparecer, o que vocês acham que Seth vai fazer? Especialmente se nós não dissermos para ele, o que eu sei que é o que vocês estão pensando. 
Apollo levantou-se e inclinou a cabeça para trás. — Isso seria muito mais fácil se você tivesse uma personalidade agradável.
— Desculpa, amigão. — Parei, encontrando os olhos de aço de Aiden. — Mas eu não posso estar de acordo com isso. E se vocês realmente acham que a Ordem vai tentar alguma coisa de novo, então nós precisamos da ajuda de Seth.
Aiden virou no meio do caminho, seus ombros largos tensos enquanto ele resmungou baixinho. Normamente, eu estaria irritada com a exibição de testosterona, mas sim, eu meio que achava isso sexy.
O Deus do Sol suspirou. — Por agora, você ganha, mas se eu sequer achar que isso vai acabar mal...
— Como as coisas podem acabar mal? — Perguntei.
— Além do óbvio? — Apollo franziu a testa. — Se Seth faz o que é temido, os deuses trarão suas iras para baixo por todos os puros e mestiços, apenas para fazer um ponto. E como eu estava dizendo, se sequer chegar a esse ponto, você não terá escolha nenhuma.
— Então por que você não deixa apenas a Ordem me matar? Isso resolveria todos os seus problemas, não resolveria? — Não que eu quisesse morrer, mas fazia sentido. Mesmo eu podia ver isso. — Seth não se tornaria o Assassino de Deuses então.
— Como eu disse, é complicado. — Então Apollo simplesmente desapareceu.
— Eu odeio quando ele faz isso. — Olhei para Aiden. Ele me encarou de volta, sobrancelhas franzidas e mandíbula apertada. Eu suspirei. — Não olhe para mim como se eu tivesse chutado um bebê pegasus para a rua.
Aiden exalou lentamente. — Alex, eu não concordo com isso. Você tem que saber que nós estamos apenas procurando o que é melhor para você.
Sexy ou não, lá se foi o aperto frágil em meu temperamento. — Eu não preciso que você procure o que é melhor para mim, Aiden. Eu não sou uma criança!
Os olhos dele estreitaram. — Eu, de todas as pessoas, sei que você não é uma criança, Alex. E estou certo como o inferno que não te tratei como uma na noite passada.
Minhas bochechas coraram com uma mistura quente de vergonha e algo muito, muito diferente. — Então não tome decisões por mim.
— Nós estamos tentando ajudá-la. Por que você não pode ver isso? — Então os olhos dele se aprofundaram em um cinza tumultuado. — Eu não vou perdê-la novamente.
— Você não me perdeu, Aiden. Juro a você. — Um pouco da raiva escoou para fora de mim. Medo estava por trás da sua fúria. Eu podia entender isso. Era o que dirigia meus acessos de raiva em uma base regular. — Você não me perdeu e não me perderá.
— Isso não é uma promessa que você pode fazer. Não quando há tantas coisas que podem dar errado.
Eu não sabia o que dizer para isso.
Aiden atravessou a sala, varrendo-me em um abraço apertado. Não houve uma palavra dita por vários minutos apenas o subir e descer de seu peito.
— Eu sei que você está bava, — Ele começou, — E que você odeia a ideia de qualquer um tentar controlá-la ou forçá-la a fazer alguma coisa.
— Não estou brava.
Ele se afastou, arqueando uma sobrancelha.
— Ok. Estou brava, mas eu entendo porque você acha que eu deveria me esconder.
Ele me levou para o sofá. — Mas você não está de acordo com isso.
— Não.
Aiden me puxou no seu colo, circulando os braços ao meu redor. Meu coração se sacudiu e me tomou alguns segundos para acostumar com esse Aiden abertamente afetuoso que não se afastava e mantinha distância.
— Você é a pessoa mais frustante que eu conheço. — Ele disse.
Eu descansei minha cabeça no ombro dele, sorrindo. — Nenhum de vocês está dando uma chance a Seth. Ele não fez nada, e eu não tenho nenhuma razão para temê-lo.
— Ele tem mentido para você, Alex.
— Quem não tem mentido para mim? — Eu apontei. — Olhe, eu sei que não é uma grande desculpa, e você está certo, ele tem mentido para mim. Eu sei disso, mas ele não tem feito nada que justifique que eu saia correndo para me esconder. Nós temos que dá-lo uma chance.
 
— E se nós corrermos esse risco e você estiver errada, Alex? Então o quê?
Esperava que esse não fosse o caso. — Então eu terei que lidar com isso.
O ombro dele tensionou embaixo da minha bochecha. — Eu não estou de acordo com isso. Eu já falhei com você uma vez e...
— Não diga isso. — Torcendo-me em seu abraço, eu encontrei seu olhar e segurei seu rosto. — Você não tinha ideia de que Linard estava trabalhando para a Ordem. Você não tem culpa disso.
Ele pressionou a testa na minha. — Eu deveria ter sido capaz de protegê-la.
— Eu não preciso que você me proteja, Aiden. Eu preciso de você para fazer o que você está fazendo agora.
— Segurar você? — Os lábios dele se torceram. — Eu posso fazer isso.
Eu o beijei, e meu peito apertou. Nunca em um milhão de anos eu me acostumaria a ser capaz de beijá-lo. — Sim, isso, mas eu só preciso... Seu amor e sua confiança. Eu sei que você pode lutar por mim, mas eu não preciso que você faça isso. Esses problemas, eles são meus, não seus, Aiden.
Seus braços apertaram ao meu redor, tão apertado, que eu achei difícil respirar. — Porque eu amo você, nós dividimos os nossos problemas. Quando nós lutamos, lutamos juntos. Eu estarei ao seu lado não importa o que aconteça, você gostando disso ou não. Isso é o que é o amor, Alex. Você não tem que encarar nada sozinha novamente. E eu entendo o que você está dizendo. Não concordo com isso, mas vou apoiá-la de qualquer maneira que eu puder.
Fiquei chocada em silêncio. Realmente não havia nada que eu pudesse dizer para isso. Eu não era assim tão boa com as palavras, não esses tipos de palavras. Então eu me enrolei ao redor dele como um polvo super amigável. Quando ele se inclinou para trás, me acomodei sobre ele, sem me importar que ele ainda estivesse em suas vestes de Sentinela, adagas e tudo.
Algum tempo se passou antes que qualquer um de nós falasse.
— Seth não é um cara mal de verdade. — Eu disse, — Ele pode ser propenso a grandes momentos de estupidez, mas ele não faria algo como eliminar o Conselho.
Os dedos de Aiden escorregaram sobre meu rosto. — Eu não duvidaria de nada vindo de Seth.
Eu decidi não responder a isso. Desde a ligação telefonica depois do ataque de Linard, eu nem sequer ouvi sobre Seth. E agora que eu tinha me acalmado um pouco, comecei a pensar logicamente sobre o que Apollo tinha dito. — Todos temem Seth, os deuses, os puros, e a Ordem, porque ele se tornará o Assassino de Deuses, certo?
— Certo. — Ele murmurou. Sua mão flutuando para o meu ombro, escovando meu cabelo para trás.
— Bem, e se ele não se tornar o Assassino de Deuses?
Sua mão parou. — Você quer dizer, se nós pararmos a transferência de poder? Isso é o que estamos tentando fazer mantendo-a longe de Seth.
— Eu duvido seriamente que esse é o único propósito de me manter longe de Seth.
— Você me pegou. — Ele disse, e eu podia ouvir o sorriso em sua voz.
Jogando minha cabeça para cima, eu decidi que era passado da hora de clarear o ar. Aiden primeiro... E depois Seth, porque a última coisa que eu queria era que qualquer um se machucasse por isso. 
— Eu me preocupo por Seth, de verdade. Ele é importante para mim, mas não é o mesmo. Você sabe que não tem nada com o que se preocupar, certo? O que Seth e eu tivemos... bem, eu nem sequer sei o que tivemos. Não era um relacionamento, não de verdade. Ele pediu para tentar e ver o que acontecia. E isso é o que aconteceu.
Aiden pegou uma mecha do meu cabelo entre seus dedos. — Eu sei. Confio em você, Alex. Mas isso não quer dizer que eu confio nele.
Não havia como vencer isso com ele. — De qualquer forma, eu posso falar com Seth e deixá-lo saber o que está acontecendo com a Ordem e o que as pessoas temem.
— E você acha que ele vai concordar com isso?
— Acho. Seth não vai me forçar a nada usando a... conexão contra nós. — Eu me mexi no colo de Aiden e o beijei no queixo. — Seth me disse uma vez que se as coisas se tornassem... demais, ele iria embora. Portanto, há uma saída.
— Hum, ele disse mesmo isso? — Os olhos dele queimaram prateados. — Talvez ele não seja tão mal. 
— Ele não é.
— Eu não gosto disso, mas como disse, vou apoiá-la de qualquer forma que eu possa.
— Obrigada. — O beijei na bochecha novamente.
Um suspiro estremeceu através dele. — Alex?
— O quê? 
Ele se inclinou para trás, me observando através de pesados cílios. — Vocês comeram toda a massa de bolinho na noite passada ou na verdade fizeram algum bolinho?
Eu ri com a virada da conversa. — Nós fizemos alguns. Acho que deve tem uns poucos sobrando. 
— Bom. — Ele colocou as mãos no meu quadril e me puxou para frente, pressionando nossos corpos juntos. — O que é o Dia dos Namorados sem bolinhos?
— Eu acho que os mortais colocam muita ênfase em chocolate nessa época do ano. — Descansei minhas mãos nos ombros dele, e a coisa com deuses raivosos, membros da Ordem, Seth, e tudo o mais pegou o banco de trás. — Mas bolinhos funcionam.
Uma mão deslizou pela curva da minha espinha, deslizando sobre a massa de cabelo embaraçado e enviando um tremor fino sobre minha pele. — Então não há uma árvore de Natal estranha envolvida?
— Não há tal coisa como uma Árvore dos Feriados dos Mortais. — Minha respiração ficou presa enquanto ele guiava a minha boca em direção a dele, parando bem quando nossos lábios roçaram. — Mas... mas tenho certeza que os mortais apreciariam o pensamento daquele tipo de árvore.
— Você acha? — Ele pressionou a boca em um canto dos meus lábios e então o outro canto. Olhos derivando fechados, meus dedos cavaram em sua camisa. Quando ele me beijou lentamente, colocando toda a sua paixão não mencionada em um ato, seu corpo poderoso tensionou embaixo do meu.
Eu não podia me lembrar sobre o que estávamos falando. Havia apenas a inebriante corrida selvagem de sentimentos que invadiram através de mim. Esse era Aiden – o homem que eu tinha amado pelo que parecia ser para sempre, em meus braços, embaixo de mim, contra mim, e me tocando.
— Feliz Dia dos Namorados. — Ele murmurou.
Aiden me segurou perto e apertado, naqueles momentos, ele me mostrou ao invés de me dizer apenas o quanto estávamos nisso juntos.
Eu fantasiei tantas vezes sobre como seria estar em um relacionamento com Aiden. Houve dias, não há muito tempo atrás, que eu teria esmagado esse sonho da minha cabeça porque parecia não haver esperanças. Mas por uma semana, eu vivi essa fantasia ao máximo. Nós roubamos o máximo de tempo que conseguiamos, sozinhos, enchendo-os com beijos profundos e risadas silenciosas. E planos, nós realmente fizemos planos. Ou pelo menos tentamos.
Minhas costas arquearam e uma risadinha escapou.    
— Oh, então você tem cosquinhas? — Aiden murmurou contra a pele corada do meu pescoço, — Isso é um fato muito interessante. — Parecia que quando estávamos juntos nunca conseguiamos manter nossas mãos longe um do outro por muito tempo. Aiden tinha que estar tocando uma parte de mim. Mesmo que fosse apenas um ligeiro contato de pele, sua mão enrolada com a minha, ou os nossos corpos e pernas preguiçosamente emaranhados, sempre nos tocando.
 
Talvez fosse porque ele tinha lutado contra isso por tanto tempo, ou talvez nós dois estivéssemos loucos, intoxicados pelo simples ato de deitarmos juntos e estivessemos viciados. Nossas pernas pressionadas juntas e nossas cabeças repousando sobre o braço do sofá da sala com os porta-retratos de família. Era seguro aqui, ninguém se atreveria a entrar. O que uma vez foi o santuário de Aiden, agora era o nosso. Hoje não foi diferente.
Mas nem tudo era diversão. À medida que os dias iam passando, e eu sabia que o retorno de Seth estava se aproximando, uma energia ansiosa crescia dentro de mim. Havia também uma pontada de culpa que me afundava profundamente. Às vezes, quando eu pensava nele, eu tinha aqueles vislumbres de vulnerabilidade que ele havia mostrado depois do nosso encontro à meia-noite, quando nadamos no Catskills e no dia seguinte depois de eu ter recebido a bebida. Seth era muitas coisas, quase um enigma completo às vezes, mas acima de tudo, ele era um cara que... que se preocupava, e ele se preocupava comigo. Talvez mais até do que eu por ele. Talvez não, mas eu não queria machucá-lo.
Eu me mexi no sofá ao lado do Aiden, tentando sacudir a nuvem escura que repentinamente caiu sobre mim. Falar com Seth não iria ser fácil.
Então novamente, eu não tinha a menor ideia de como ele iria reagir. Ele tinha estado com Peitos... Talvez não fosse tão difícil.
— Então me diga, — Aiden continuou, ociosamente me puxando de volta para o presente, para ele. — Onde era mesmo aquele lugar? Era aqui? — Ele arrastou seus dedos sobre o meu estômago.
— Não. — Meus olhos fecharam, enquanto meu coração saltou e minúsculos arrepios deslizaram sobre mim.
— Aqui? — Seus dedos dançaram sobre minhas costelas. Sem palavras, eu balancei a cabeça negativamente
— Agora, onde era mesmo aquele lugar? — Seus agéis dedos pularam do meu estômago para meu lado. Eu fechei minha boca, mas meu corpo tremeu enquanto eu tentava conter minha reação natural, — Aha! É aqui? — Ele vagamente aumentou a pressão. Eu me contorci, mas ele era implacável. Ele riu quando tentei me libertar, e eu teria caído no chão se não fosse por seu rápido movimento. 
— Para. — Eu ofeguei entre acessos de risos, — Não aguento mais.
— Tudo bem, talvez eu devesse ser bonzinho. — Aiden me puxou de volta para o seu lado e se inclinou sobre mim. Ele puxou uma mecha do meu cabelo e torceu ao redor de seus dois dedos, — Enfim, de volta à questão em mãos. Que outro lugar que não seja Nova Orleans?  
Deslizei minha mão em seus braços, amando a forma como seus músculos se contraíam sob a pele que eu tocava, — O que você acha de Nevada? Não existem Covenants por lá. O mais perto é o da Universidade.
Ele se inclinou, roçando os lábios em minha bochecha. — Você está sugerindo Las Vegas? — Fixei um olhar inocente em meu rosto, — Bem, terão vários daimons, já que vocês, puros, adoram as festas por lá, mas não terá nenhum estabelecimento Hematoi de qualquer espécie.
— Primeiro Nova Orleans e agora Las Vegas? — Ele roçou os lábios para trás e para frente enquanto seus dedos acariciavam a parte de trás da minha cabeça, — Estou começando a ver um padrão aqui.
— Eu não sei. — Minha respiração ficou presa quando ele pressionou mais sobre mim, — Talvez você não consiga lidar com Las Vegas. 
Aiden sorriu, — Eu amo um desafio.
Eu dei uma risadinha, mas todo o humor sumiu no momento em que seus lábios tocaram os meus novamente. Eu poderia ficar beijando-o para sempre. No começo eram beijos suaves, macios e questionadores. Meus dedos afundaram em seus cabelos, puxando-o mais para perto e os beijos se aprofundaram. Eu me movi e passei meus braços em torno dele, querendo ser capaz de apertar o botão para parar no tempo. Eu poderia ficar aqui para sempre, sentindo seu corpo moldado ao meu, nos fundindo. 
Eu congelei contra ele.
 
O sentimento deslizando pela minha espinha era inconfundível. As três runas que estiveram adormecidas desde que Seth se foi, agora acordaram com uma vingança, queimando e formigando. A corda estalou viva, respondendo a sua outra metade.
Seus lábios se moveram do meu pescoço para a minha clavícula, — O que  foi?
Não existia botão de pausa. Merda. — Seth está aqui, tipo, ele está lá fora.
Aiden levantou a cabeça, — Sério?
Eu assenti rigidamente. 
Ele xingou sob sua respiração e levantou. Eu comecei a me levantar mas ele estendeu a mão.
— Deixe-me checar isso primeiro Alex.
— Aiden... — Ele se inclinou, apertou meu ombro e me beijou, quase me fazendo esquecer da corda que estava se desvendando na boca do meu estômago. 
— Deixe me verificar isso, ok? — Ele sussurrou. Eu acenei com a cabeça e observei-o perambular em direção à porta. Com um sorriso tranquilizardor ele saiu da sala. Provavelmente era uma coisa boa ele sair para ir cumprimentar Seth. Eu precisava de alguns segundos para me recompor depois desse último beijo.
Energia ansiosa correu em mim e a corda se contorceu, feliz. Agitada eu levantei em menos de um segundo e atravessei a sala. Seth estava por perto. Eu sabia profundamente em meus ossos. Parei em frente da porta entre-aberta e prendi a respiração.
Eles estavam no corredor, sozinhos e é claro já estavam discutindo. Eu revirei os olhos.
— Você acha que eu não sei? — Ouvi Seth dizer em uma forma presunçosa e sabichona. — Que eu não sabia esse tempo todo em que estive fora?
— O que você sabe? — Aiden parecia surpreendentemente calmo. 
Seth riu suavemente. — Ela pode estar aqui com você agora, mas isso é apenas um momento no grande esquema das coisas. E todos os momentos acabam, Aiden. O seu também irá acabar.
Eu queria abrir a porta e mandar o Seth calar a boca.
— Soa como algo no verso de um cartão Hallmark só que de uma maneira bem esquisita. — Aiden respondeu, — Mas talvez o seu tempo já tenha acabado.
Houve uma pausa, e eu podia imaginar os dois. Aiden estaria olhando friamente para Seth, que estaria arrogantemente e secretamente apreciando todo esse confronto. Às vezes eu queria bater nos dois.
— Isso realmente não importa. — disse Seth, — É isso que você não entende. Ela pode te amar, e mesmo assim não importa. Nós pertencemos um ao outro. É o destino. Aproveite os seus momentos Aiden, porque no final das contas, isso não significará merda nenhuma.
É isso, já chega. Abri a porta e fui em direção ao corredor. Nenhum deles nem mesmo se virou, e eu sabia que eles me ouviram voar para fora da sala. Além deles, eu podia ver a sombra dos Guardas através das janelas minúsculas em cada lado da porta.
— Você realmente acha isso? — Aiden inclinou a cabeça para o lado, — Se sim, você realmente é um maldito idiota.
Seth sorriu, — Eu não sou o idiota aqui, puro-sangue. Ela não pertence a você.
— Ela não pertence a ninguém. — Aiden resmungou enquanto suas mãos flexionaram perto de seus quadris, onde seus punhais normalmente ficavam presos.
— Discutível. — Seth disse tão baixo que nem eu tinha certeza se tinha ouvido direito. Eu me enfiei entre os dois idiotas, antes que um deles fizesse algum dano.
— Você não é meu dono Seth.
Seth finalmente olhou para mim, seus olhos estavam em um tom âmbar bonito. — Nós precisamos conversar.
Totalmente. Eu olhei para o puro furioso ao meu lado. Isso não ia ser bonito. 
— Em particular. — Seth acrescentou.
— O que você possivelmente tem a dizer que não possa ser dito na minha frente? — Aiden perguntou.
— Aiden. — Eu falei, — Você prometeu lembra? — Eu não precisava falar mais nada. Aiden sabia. — Preciso falar com ele.
— Nada irá acontecer com ela. Não quando ela estiver comigo.
Eu me virei, — Deixa-me pegar meu moletom. Tentem não se matar.
— Sem promessas. — Seth sorriu.
Pegando meu moletom do sofá, me vesti rapidamente e voltei para o corredor. Deus sabia que um segundo com aqueles dois juntos era um segundo muito longo. Eu passei a Aiden um olhar significativo, enquanto segui Seth até a porta da frente. Ele parecia severamente infeliz, mas acenou com a cabeça.
A temperatura brutal sugou minha respiração quando eu saí da casa. Eu era incapaz de lembrar da última vez que tinha estado tão frio na Carolina do Norte. Seth estava usando apenas um Black Thermal29 e calças cargo. Mais nada. Eu me perguntei se sentiria todo esse frio insuportável uma vez que Despertasse.
Os Guardas imediatamente se afastaram, revelando o forte sol de inverno encarando as águas tranquilas. No começo, fiquei surpresa, mas então eu lembrei de quem eram esses Guardas - do Lucian.
Aiden se moveu inquieto. Suas mãos abrindo e fechando em seus lados. Seth fingiu um olhar de simpatia. — Não fique tão feliz com isso, Aiden.
                                                         
 29 Um tipo de moletom anti-térmico.
Eu chutei Seth na canela.
— AAAI. — Ele sussurrou, dando-me um olhar, — Chutar não é legal.
— Antagonizar as pessoas não é legal. — Eu respondi.
Aiden suspirou, — Você tem vinte minutos. E então nós vamos te procurar. — Descendo os degraus, Seth se curvou30 para Aiden e depois se virou.
Vento jogou seu cabelo ao redor de seu rosto. Às vezes eu me esquecia de quão... bonito Seth é. Ele quase batia Apollo no quesito da beleza. Ambos possuiam este tipo de beleza fria que não parecia real, porque era impecável tanto de longe quanto de perto.
Eu desci as escadas ao lado dele, e coloquei as mãos no bolso central do meu moletom, — Eu não estava esperando você de volta tão cedo.
Seth arqueou a sobrancelha dourada, — Sério? Não estou surpreso com isso.
Minhas bochechas coraram. Não havia maneira alguma de ele saber o que havia acontecido entre Aiden e eu. A ligação não funcionava diante de tantos kilômetros. Respirando fundo, eu criei coragem. — Seth, eu tenho que...
— Eu já sei Alex.
— O quê? — Parei, puxando meu cabelo para fora do rosto, — Você sabe o quê? 
Ele me encarou e se inclinou, trazendo seu rosto a meros centímetros do meu. O vínculo ficou louco dentro de mim, mas era administrável, contanto que ele não me tocasse. Oh deuses, isso não ia ser fácil. — Eu sei de tudo.
“Tudo” podia significar muitas coisas. Encolhi meus ombros, apertando-os contra o olhar duro que eu estava recebendo. — O que exatamente você sabe? 
                                                         
 30 Ironizando uma reverência.
 
Seus lábios formaram um pequeno sorriso. — Bem, vamos ver. Eu sei sobre aquilo. — Ele apontou para a casa dos St. Delphi, — Eu sabia que ia acontecer.
Fiquei quente e fria ao mesmo tempo, — Seth, eu realmente sinto muito. Não queria te machucar.
Ele me encarou por um momento e depois riu, — Me machucar? Alex, eu sempre soube como você se sentia em relação a ele.
Ok. Eu deveria estar drogada quando pensei ter visto vulnerabilidade em Seth antes. Como sou boba, ele é o cara sem sentimentos ou algo do tipo. Mas até mesmo na versão arrogante e irritante do Seth, ele estava levando isso surpreendentemente bem, bem demais. Minhas suspeitas dispararam.
— Por que você está lidando tão bem com isso?
— Eu deveria estar chateado? É isso que você quer? — Ele inclinou a cabeça para o lado, sobrancelhas levantadas, — Você quer que eu tenha ciúmes? É isso que é preciso?
— Não! — Senti meu rosto corar novamente, — Eu só não esperava que... Você estivesse tão bem com isso.
— Bem, eu não diria que estou bem com isso. Mas já aconteceu.
Eu o encarei e um pensamento me atingiu, — Você não vai acusá-lo no tribunal, pois não? 
Seth lentamente balançou a cabeça, — Como isso me beneficiaria? Você estaria em servidão e no elixir.
E não Despertaria, o que parecia ser sempre o ponto central. Eu era uma pessoa grande o bastante para admitir que isso era um saco. Eu me perguntei o que incomodava mais o Seth, minha vida virtualmente acabando ou o meu Despertar não acontecendo. Eu olhei para longe, mordendo meu lábio, — Eu descobri algumas coisas enquanto você esteve fora.
— Eu também. — Ele respondeu de forma uniforme. Isso foi enigmático.
— Você tinha que saber sobre a Ordem e como um Apollyon é feito. — Sua expressão não mudou. 
— Por que isso? 
Frustração me queimou, — Você disse uma vez, que quando Despertasse, eu saberia tudo sobre os Apollyons anteriores. Um deles tinha que saber sobre a Ordem e sobre como nasceram. Por que você não me disse?
Seth suspirou, — Alex, eu não te disse porque não vi um motivo pra isso.
— Como você não viu um motivo pra me dizer depois de tudo que aconteceu comigo em Nova York? Se tivesse me contado sobre a Ordem, eu teria estado muito mais preparada. 
Ele olhou para longe, seus lábios franzindo.
— E eu te perguntei, enquanto estavamos lá, se você sabia o que aquele símbolo significava. — Falei, raiva e muita decepção me inundando. Eu nem tentei esconder minhas emoções dele, — Você disse que não sabia. Quando te perguntei sobre um puro e um meio-sangue se misturando, você disse que achava que seu pai era um meio-sangue, que ele tinha de ser. Você sabia a verdade. O que eu não entendo é por que não me contou?
— Me disseram para não te contar.
— O quê? — Seth começou a andar e eu corri para alcançá-lo, — Quem te disse para não me contar?
Ele olhou para a praia, — Isso importa?
— Sim! — Eu praticamente gritei, — Isso importa. Como nós podemos ter qualquer coisa, se eu não confio em você? 
Suas sobrancelhas se ergueram, — O que nós temos exatamente Alex? Eu me lembro de te dizer que você tinha uma escolha. Eu não pedi rótulos ou expectativas.
Eu também me lembrava disso. A noite na piscina parecia ter sido há anos atrás. Parte de mim sentia falta daquele Seth brincalhão.
— E você fez a sua escolha. — Seth continuou suavemente, — Você fez sua escolha, mesmo quando disse que me escolheu.
Também me lembrava daquele satisfeito e passageiro olhar quando eu disse que tinha o escolhido. Balançando a cabeça, procurei algo para dizer, — Seth, eu...
— Não quero falar sobre isso. — Ele parou onde a areia desaparecia na calçada e estendeu sua mão, passando seus dedos em minhas bochechas. Eu recuei assustada pelo contato e o choque elétrico que se seguiu. Seth baixou a mão, olhando para as pequenas lojas alinhadas na estrada principal, — Tem mais alguma coisa que você quer falar?
Ele não respondeu nenhuma maldita pergunta, mas eu tinha mais uma, — Você viu meu pai, Seth?
— Não. — Ele encontrou meus olhos.
— Você ao menos procurou por ele?
— Sim. Alex, eu não consegui encontrá-lo. Isso não significa que ele não estivesse lá. — Ele puxou os curtos fios de cabelo que estavam soprando livre em seu rosto. — De qualquer forma, eu te trouxe um presente.
Eu não tinha certeza se tinha ouvido direito, e então ele repetiu e meu coração se afundou.
— Seth, você não deveria ter me trazido nada.
— Você vai mudar de ideia quando vir. — Um sorriso perverso atravessou seus lábios, — Confie em mim, esse é o tipo de presente que só se recebe uma vez na vida.
Otimo. Isso estava me fazendo sentir bem melhor. Se ele me entregasse um Diamante Azul31 eu iria vomitar. Ele e eu nunca tivemos um relacionamento, mas a culpa ainda me fazia contorcer. Quando olhava para ele, eu via Aiden. E quando ele me tocava, eu sentia Aiden. O pior de tudo, é que Seth sabia.
— Alex, vamos logo.
— Ok. — Eu respirei fundo e em seguida pressionei meus lábios. O vento que batia vindo do oceano estava escandalosamente frio e eu me encolhi em meu moletom com capuz, — Por que está tão frio? Não costumava ser tão frio por aqui.
— Os deuses estão furiosos. — Seth disse e depois riu. Eu fiz uma careta e Seth deu de ombros, — Eles estão colocando todo o foco neste pequeno pedaço de mundo. É por causa de nós, sabe. Os deuses sabem que a mudança está chegando.
— Você realmente me assusta algumas vezes. — Ele riu e eu fiz outra careta. 
Nós caminhamos em silêncio depois disso. Fiquei esperando ele ir em direção à ilha controlada pelo Covenant, e quando não fomos, pensei que talvez estivessemos indo em direção à casa de Lucian, mas ele me guiou diretamente para a cidade e em direção ao tribunal que era usado pelos membros do Conselho. 
— Meu presente está no tribunal?
— Sim.
Honestamente, eu nunca sabia o que esperar de Seth. Mesmo com a ligação, eu não tinha a menor ideia da metade das coisas que se passavam na cabeça dele. 
O número normal de Guardas do conselho ficava dentro do tribunal, escondido dos turistas mortais. Além deles, três dos Guardas de Lucian bloqueavam a porta. Eles se afastaram, abrindo-a para nós.
                                                         
 31 Como em Titanic.
Eu parei, sabendo para onde a porta e as escadas levavam.
— Por que estamos indo para as celas, Seth?
— Por que eu vou te trancar em uma delas e fazer coisas malucas com você. 
Revirei os olhos. Ele pegou meu cotovelo e me puxou para frente. Nós fomos para baixo. 
Meus olhos se ajustaram a escuridão das escadas, as tábuas velhas rangendo sob os nossos pés. As celas não eram subterrâneas. Na verdade, elas ficavam no primeiro andar. A entrada principal se abria para o segundo andar, mas ainda assim, parecia que estávamos em um lugar úmido e escuro. Uma luz fraca estava acesa no corredor. Sobre o ombro do Seth, eu podia ver várias celas que revestiam o corredor estreito. Estremecei, imaginando-me presa em uma dessas celas. Deuses, quantas vezes eu tinha chegado perto disso? À nossa frente, dois Guardas estavam posicionados onde exatamente era a última cela. Seth andou na direção deles e estalou os dedos.
— Deixem-nos. — Eu fiquei boquiaberta observando os Guardas saírem.
— Você tem algum super-poder Apollyon do tipo estalador de dedos? 
Ele inclinou a cabeça para o lado, — Eu tenho vários super-poderes de Apollyon no que se trata de dedos.
Eu o empurrei, — Onde está meu presente, seu pervertido? — Seth se afastou sorrindo. 
Ele parou em frente à porta trancada e abriu os braços, — Venha ver.
Ok, eu estava curiosa. Dei um passo para frente, parei em frente à porta e espreitei através das barras.
Minha boca caiu e meu estômago ficou oco. Encolhido no meio da cela, com suas mãos amarradas nos tornozelos, estava o Ministro Chefe Telly, nos encarando com olhos brancos. Seu rosto espancado, quase irreconhecível e suas roupas rasgadas e sujas estam penduradas em torno dele.
— Oh meus deuses, Seth.
 
Atordoada, eu recuei da porta da cela. Tudo que Apollo havia me alertado, correu sobre mim de uma só vez. Todos estavam com medo que algo assim acontecesse, todo mundo menos eu, e eu ainda não conseguia acreditar que isso realmente estivesse acontecendo.
— O que você fez? — Perguntei.
— O quê? Eu te trouxe um presente... Telly.
Eu me virei para ele, chocada em ter de explicar todas as coisas erradas sobre isso. — Seth, a maioria dos caras presenteiam as garotas com rosas e filhotinhos, não pessoas, Seth. Não o Ministro Chefe do Conselho.
— Eu sei o que ele fez, Alex. — Ele colocou a mão sobre a cicatriz que Linard deixou, — Sei que ele ordenou isso. 
Através da roupa pesada, eu podia sentir a mão de Seth, — Seth, eu...
— Senti algo quando isso aconteceu... Como se a nossa ligação tivesse desaparecido completamente. — Ele disse calmamente e rapidamente, — Não conseguia sentir suas emoções, mas sabia que você estava lá... E então você não estava mais lá por alguns minutos. Eu sabia. Então Lucian me contou. Minha primeira reação era de trazer apenas a cabeça dele para você, mas então fiz a segunda coisa melhor.
Eu me senti fisicamente mal enquanto encarava Seth. E quando olhei para Telly na cela, eu vi o rosto massacrado de Jackson. Eu deveria ter imaginado. Meus deuses, eu deveria ter imaginado que ele saberia... e que faria algo assim.
— Não demorou muito para eu encontrá-lo. — Ele continuou casualmente, — E eu sabia que as pessoas estavam procurando por ele. Leon. — Seth riu, — Ou eu deveria chamá-lo de Apollo? Sim, eu consegui pegar Telly primeiro que ele dessa vez. Aqueles dois dias que você não me ligou? Foi tudo que me levou para achá-lo.
O ar saiu dos meus pulmões. Gelo encharcou minhas veias. 
Ele franziu a testa, — Ele ordenou sua morte, Alex. Achei que você ficaria feliz em saber que nós o capturamos, e ele não será mais um problema.
Eu me virei para a cela, — Deuses, como as fúrias não reagiram a isso?
 — Não sou estúpido, Alex. — Ele se moveu para ficar ao meu lado, ombro com ombro, — Lucian ordenou isso e fez seus Guardas realizarem. Eu estava apenas... de carona. Eu sou inteligente, não sou?
— Inteligente? — Engoli em seco, me afastando da cela, de Seth. — Então isso foi ideia de Lucian?
— Isso importa? — Ele cruzou os braços, — Telly tentou te matar - ele realmente te matou. Por isso ele tem que ser punido.
— Isso não torna isso certo! — Apontei para a cela, me sentindo doente, — O que há de errado com ele?
— Ele está sob uma forte compulsão para não falar. — Seth bateu em seu queixo, pensativamente, — Eu nem mesmo tenho certeza se ele está pensando. Na verdade, eu acho que ele está meio frito.
— Deuses, Seth. Ninguém nunca te disse que dois erros não fazem um acerto?
Seth bufou, — Em meu livro, dois erros sempre fazem um acerto.
— Isso não é engraçado, Seth! — Tentei me acalmar, — Quem é que vai matá-lo? O Conselho puro-sangue?
— Não. O novo Conselho irá.
— O novo Conselho? Que diabos é isso?
Frustração queimou em seus olhos cor de âmbar, — Você só precisa entender o porquê disso estar acontecendo. Esse homem serve aos deuses que querem você... Nós... Mortos. Ele precisa ser eliminado.
Corri minhas mãos sobre a cabeça, querendo puxar meu cabelo, — Seth, isso foi ideia de Lucian ou não?
— Por que isso importa? E se foi? Ele quer nos manter a salvo. Ele quer mudança e...
— E ele quer o trono de Telly, Seth. Como você não consegue ver isso? — Frieza tomou conta das minhas entranhas enquanto eu encarava Seth. Lucian queria poder e, eliminar Telly, era uma maneira de consegui-lo. Mas não significava que ele poderia assumir total controle do Conselho... Ou será que poderia? Balancei a cabeça, — De maneira alguma os deuses irão permitir isso. Eles não querem o que Telly queria.
— Os deuses são os inimigos aqui, Alex! Eles não falam com o Conselho, mas falam com a Ordem.
— Apollo salvou minha vida, Seth! Não o Lucian!
— Apenas porque eles têm planos para você. — Ele disse dando um passo a frente, — Você não sabe o que eu sei.
Minhas mãos se fecharam em punhos, — Então me diz o que você sabe!
— Você não entenderia. — Ele se virou para a figura estática na cela, — Ainda não. Eu nem mesmo te culpo por isso. Você tem muito puro-sangue em si, agora mais do que nunca.
Eu vacilei, — Isso não... não foi justo.
Seus olhos se fecharam e ele passou o dorso da mão sobre sua testa, — Você está certa, não foi justo.
Agarrei o momento de clareza, — Você não pode mantê-lo aqui, Seth. Você está certo. Ele tem de ser punido pelo o que fez, mas ele precisa de um julgamento. Mantê-lo assim, sob compulsão em uma cela é errado. 
Deuses, era um dia louco quando eu era a voz da razão. 
Seth se virou para mim. Ele abriu a boca, mas depois fechou, — Eu já investi muito nisso.
Pavor correu pela minha espinha. Eu me dirigi a ele, mas parei. Cruzei os braços sobre o peito, — O que você dizer? 
Ele estendeu a mão para mim, mas eu me afastei. Confuso, ele abaixou a mão, — Como você pode querer ele vivo?
— Porque não é nosso dever, decidir quem vive ou quem morre. 
Ele franziu as sobrancelhas, — E se for? 
Balancei a cabeça, — Então eu não quero fazer parte disso. E eu sei que você também não quer.
Seth suspirou, — Alex, você está treinando para ser uma Sentinela. Você irá tomar decisões de vida e morte o tempo todo.
— É diferente.
— É mesmo? — Ele inclinou a cabeça em minha direção, com um sorriso presunçoso lavando qualquer hesitação.
 — Sim! Como uma Sentinela eu irei matar daimons. Não é o mesmo que brincar de juiza e executora.
— Como você não consegue ver que estou fazendo o que precisa ser feito, mesmo se você é fraca demais para fazer sozinha?
Quem diabos era essa pessoa ao meu lado? Era como discutir com um lunático... Agora eu sabia como as pessoas se sentiam quando tentavam argumentar comigo. Ironia era um inimigo cruel, muito cruel. — Seth, onde estão as chaves da cela?
Seus olhos se estreitaram, — Eu não vou deixá-lo sair.
— Seth. — Dei um passo hesitante em direção a ele, — Você não pode fazer isso. Nem o Lucian.
— Eu posso fazer o que eu bem entender!
Passei por ele, estendendo a mão para a alça da porta e então, de repente, eu estava contra a parede oposta, com Seth na minha cara. Medo floresceu em meu estômago enquanto o vínculo cantarolava loucamente, — Seth. — Eu sussurrei.
— Ele vai ficar lá. — Seus olhos brilhavam em um tom ocre perigoso, — Há planos para ele, Alex.
Engoli em seco o gosto repentino de bile, — Que planos?
Seu olhar caiu sobre meus lábios e um novo medo me tomou, — Você vai ver em breve. Não precisa se preocupar, Alex. Eu vou cuidar de tudo.
Plantando minhas mãos em seu peito eu o empurrei alguns metros para trás. Choque e depois raiva brilharam em suas feições, — Você está completamente louco, Seth. Não vá por esse caminho.
Girando ao redor, ele se voltou para a cela e apontou para Telly, — Então você prefere ver essa coisa livre? Livre para escravizar os mestiços, para ordenar suas mortes? Livre para continuar suas tentativas de assasinato contra você? E então esperamos por um julgamento, um julgamento arranjado para proteger os puros-sangues? Eles vão apenas dar um tapinha na mão dele. Inferno, eles podem até pedir que você se desculpe com ele, por estragar seus planos em te matar!
Raiva me inundou. Dei um passo a frente, de igual para igual com Seth, — Você não se importa com o que acontece com os mestiços! Não tem nada a ver com o que você está planejando! E você sabe disso. O que está fazendo, o que você está concordando, é errado. E eu não...
— Vá. — Ele me cortou, sua voz furiosa e baixa. 
Eu mantive minha posição, — Não vou deixar você fazer isso, Seth. Não sei o que Lucian te disse que o convenceu...
— Eu disse, vá embora. — Seth me empurrou duramente. Eu mal consegui me equilibrar, — Talvez na próxima vez eu te traga rosas e filhotinhos.
Isso me arrepiou, assim como o sorriso que ele me deu. Levou cada grama do meu auto-controle para eu conseguir virar as costas e ir embora. Corri até as escadas. Como milhares de vezes em minha vida, eu não tinha planejado ouvir o que me foi dito. Mas pela primeira vez, era provavelmente a coisa certa a se fazer. Aiden e Marcus precisavam saber o que Seth e Lucian estavam planejando. Talvez eles conseguissem parar isso antes que fosse tarde demais - antes que Seth cumprisse seu papel no plano e matasse o Ministro Chefe e selasse os nossos destinos.
Ainda tinha que haver esperanças para Seth. Claro que ele estava se envolvendo em algo louco, mas não epicamente louco. Tecnicamente, Seth não tinha feito nada ainda. Como Caleb disse, ainda havia esperanças. O que quer que Lucian tenha sobre Seth, ele estava puxando suas cordas e elas tinham de ser cortadas antes que a história se repetisse.
Eu abri as portas do tribunal e fiquei cara-a-cara com a raiz de todos os meus problemas.
Lucian estava rodeado por vários Guardas do Conselho, todos vestidos com aqueles rídiculos robes branco. O sorriso que se espalhou em seu rosto nunca alcançou seus olhos, — Eu pensei que te acharia aqui, Alexandria.
Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, seus Guardas me cercaram. Estranho, todos os guardas eram puros-sangues. Jogada inteligente, eu daria algum crédito a ele. — O que está acontecendo, Lucian?
— Quando você vai me chamar de 'pai'? — Ele subiu o último degrau parando em minha frente, vento soprando suas vestes dando a impressão que ele estava flutuando.
— Hum, que tal nunca?
Seu sorriso agradável permaneceu, — Um dia isso vai mudar. Nós seremos uma grande família feliz, nós três.
Agora isso foi perturbador, — Você quer dizer Seth? Ele é tão parte de você como um câncer no pulmão.
Lucian fez um som suave de desaprovação, — Você vai voltar para minha casa, Alexandria. Não há necessidade de permanecer mais tempo na residência dos St. Delphi.
Minha boca abriu para discutir, mas eu a fechei. Não havia maneira alguma de saber se Lucian estava ciente dos meus sentimentos por Aiden, ou se Seth tinha lhe dito qualquer coisa. Criar uma polêmica iria apenas levantar suas suspeitas. Não havia nada que eu pudesse fazer para impedir isso. Lucian era o meu guardião legal. Engolindo minha raiva e desgosto eu dei um passo à frente, — Eu só preciso pegar minhas coisas.
Lucian se afastou, fazendo sinal para eu segui-lo, — Isso não será necessário. Seus pertences serão enviados por Seth.
Maldito. Eu endureci quando Seth apareceu na porta. Ele nem me olhou quando passou por mim.
Lucian deu uma batidinha no ombro de Seth, — Encontre-nos em nossa casa. — Seth assentiu com a cabeça e desceu os degraus. Na calçada ele olhou para cima e me deu um sorriso sardônico antes de ir em direção a um dos Hummers32 parados no meio-fio.
— Agora, minha querida, você vem comigo. — Lucian disse. Fumegante, mas incapaz de fazer alguma coisa, eu segui Lucian para dentro do outro Hummer.
Deuses, não permitam que Lucian realmente ande até sua casa. 
Assim que ele subiu no banco de trás comigo, eu já estava rastejando para fora da minha pele para sair do carro.
Lucian sorriu, — Por que você fica tão desconfortável perto de mim?
Eu me afastei da janela, — É apenas algo sobre você.
Ele arqueou uma sobrancelha, — E isso seria?
— Bem, você é como uma serpente, mas viscosa.
Ele se inclinou para trás contra o banco, enquanto o Hummer se moveu, — Que fofo.
Eu sorri com força, — Vamos direto ao ponto Lucian. Eu sei sobre Telly. Por que você faria algo que até eu acho estúpido e imprudente?
— O tempo para mudança está em nossas mãos. Nosso mundo precisa de uma liderança melhor.
Meu riso escapou antes que eu pudesse detê-lo, — Você está drogado?
— Por muito tempo, nós tivemos que viver pelas leis antigas, existindo ao lado de mortais como se não fôssemos melhores do que eles. — Nojo escorria de
                                                         
 32 Carro.
 
suas palavras, — Eles devem tomar o lugar dos mestiços, servindo a cada necessidade ou capricho nosso. E quando eles o fizerem, nós, os novos deuses, iremos governar esta terra.
— Meus deuses, você é louco. — Não havia mais nada que eu pudesse dizer. E o pior de tudo, Vovó Piperi estava certa, mas como sempre, eu não tinha entendido. História estava se repetindo, mas da pior forma possível. E o mal estava escondido nas sombras, agindo como um mestre de marionetes puxando as cordas.
Vovó Piperi tinha se referido a Seth e Lucian. Eu me senti mal. Se eu tivesse percebido isso antes, poderia ter impedido de ir tão longe.
— Não espero que você entenda, mas Seth entende. Isso é tudo que eu preciso.
— Como você conseguiu convencer Seth?
Ele estudou suas unhas, — O menino nunca teve pai. Sua mãe puro-sangue mal queria saber dele. Eu suponho que ela tenha se arrependido de se envolver com um mestiço, mas tinha sido incapaz de se livrar dele enquanto ainda estava em seu ventre.  
Eu vacilei.
— É seguro supor que ela não era uma mãe muito amável. — Lucian continuou, — Mas esse menino ainda conseguiu impressionar o Conselho e ganhou entrada para o Covenant. Ele teve uma infância díficil, sempre sozinho. Eu suponho que tudo que Seth sempre quis era ser amado. — Ele olhou para mim, — Você pode fazer isso? Dar a ele a única coisa que ele sempre quis?
De repente, além de dúvidas, eu sabia que Seth não havia contado a Lucian sobre Aiden. Mas por quê? Remover Aiden da equação só beneficiaria Seth. Será que ele não contou por que sabia que iria me machucar? Se esse fosse o caso, então Seth ainda estava pensando. Ele não era uma causa perdida depois de tudo.
— Eu espero que sim. Seth é um bom menino.
Meus olhos se arregalaram, — Você soa... sincero.
Lucian suspirou, — Eu nunca tive um filho meu, Alexandria.
Choque me percorreu. Lucian realmente se importava com Seth. E Seth o via como um pai. Mas isso não mudava o que Lucian estava fazendo, — Você está usando ele.
O Hummer parou atrás da casa de Lucian. — Eu estou oferecendo a ele o mundo. A mesma coisa que estou te oferecendo.
— O que você está oferecendo é a morte certa para todo mundo que concordar com isso.
— Não necessariamente, minha querida. Nós temos parceiros nos lugares mais... incomuns - parceiros muito poderosos.
Minha porta abriu antes que eu pudesse responder. Um Guarda esperava eu sair, cuidadosamente me observando como se estivesse esperando eu sair correndo, o que eu havia considerado mas sabia que não conseguiria. Eu fui guiada para dentro da casa rapidamente, então deixada no opulento hall de entrada com meu padrasto.
— É uma vergonha que você tenha de dificultar isso, Alexandria.
— Desculpa ter que fazer chover em seu desfile louco, mas eu não vou concordar com isso. Ninguem vai.
— É mesmo? Você dúvida das minhas palavras? — Seu olhar pousou nos seus Guardas mestiços, — Eu quero ver uma vida melhor para os mestiços.
— Mentira. — Sussurrei e meu olhar se moveu para os Guardas. A condenação que encheu suas expressões quando eles retornaram o olhar, dizia que eles acreditavam em Lucian. E a verdadeira questão é, quantos meiossangues estavam por trás de Lucian? Os números poderiam ser astronômicos.
Lucian riu. Era um som áspero e frio, — Você realmente não tem controle sobre isso.
— Veremos. — Eu estendi a mão para a maçaneta da porta, mas quando eu girei ela estava trancada. Eu detestava o elemento ar com todo o meu coração. Lentamente eu o encarei, — Você não pode me manter aqui. Deixa-me sair.
Lucian riu novamente, — Não será permitido qualquer visitante até seu Despertar. E não espere que Apollo vá aparecer. Ele não será capaz de entrar em minha casa.
Eu fiz uma careta, — Você não pode parar um deus. — Lucian parecia satisfeito enquanto se afastava, meu olhar o seguiu. Olhei para trás dele, para a parede onde uma vez Seth havia pressionado um Guarda. Havia uma marca ali, um símbolo grosseiramente desenhado de um homem com corpo de serpente.
— Apollo não pode entrar em nenhuma casa que tenha a marca de Python of Delphi. Foi criada há muito tempo como um castigo por violar as regras do Olimpo. Engraçado, eu não sabia disso até recentemente.
Eu engoli. O desenho parecia ter sido feito em sangue, — Como... Como você descobriu isso?
— Eu tenho muitos amigos... De grande poder e magnitude. — Lucian olhou para o desenho, um leve sorriso em seu rosto angular, — Tenho muitos amigos que te surpreenderiam, minha querida. — Senti as paredes se fechando, apertando o fôlego dos meus pulmões. Eu estava presa aqui até o meu Despertar. Minha respiração ficou presa. Eu deveria ter ouvido Aiden e nunca ter deixado sua casa.
— Você não pode fazer isso.
— Por que eu não posso? — Ele caminhou em minha direção, — Sou seu guardião legal. Posso fazer o que eu bem quiser com você. 
Meu temperamento esticou e se alargou, — Sério? Quando foi que isso funcionou para você no passado?
— No passado eu não tinha Seth, e nós não estávamos tão perto do Despertar. — Ele pegou meu queixo, cravando seus dedos ossudos, — Você pode lutar contra mim nisso o quanto quiser, mas dentro de alguns dias você irá Despertar. Primeiro, você irá se conectar com Seth, e o que ele deseja, você deseja. E então seu poder será transferido para ele. Você não pode parar isso.
Eu empalideci, — Sou mais forte que isso.
— Você acha? Pense nisso, minha querida. Pense sobre o que isso significa e se existe ou não, um ponto em lutar contra o que está para acontecer.
Inquietação se apoderou de mim, mas mantive minha expressão vazia, — Se você não me soltar, vou quebrar seu braço.
— Você quebraria, não é mesmo? — Sua respiração era quente contra minha bochecha. Minha bile subiu em minha garganta, — Havia apenas uma coisa em que Telly e eu sempre concordamos.
— O que é?
— Você precisa ser contida. — Ele me soltou, o mesmo maldito sorriso estampado em seu rosto, — Exceto que ele foi pelo caminho errado. Eu não cometerei o mesmo erro que cometi com sua mãe. Eu permiti muita liberdade a ela. Por agora, você é minha, assim como Seth é. E te faria muito bem se lembrar disso. 
Eu recuei, — Você é um filho da puta.
— Isso pode ser verdade, mas em poucos dias, eu irei controlar ambos os Apollyons. Então nós seremos imparáveis.
 
O  jantar foi estranho por várias razões. Havia apenas três de nós juntos no final da longa mesa retangular, comendo à luz de velas, como se tivéssemos sido jogados em tempos medievais. Seth alternou entre brincar de papai-faz-de-conta com Lucian e olhar irritado para mim. Eu recusei qualquer tentativa de Lucian para me atrair à conversa. E não poderia nem mesmo me fazer comer o bife de dar água na boca, o que realmente era uma droga.
Este ia ser o meu último jantar.
Eu sabia. O que eu planejava, enquanto assistia aos dois, certamente acabaria comigo sendo morta, mas era ou ir por esse caminho ou ser parte de algo tão hediondo como destruir aqueles que não concordam com Lucian e escravizar a humanidade. Porque é isso que eles planejavam - ou pelo menos, Lucian planejava. Lucian precisava dos Apollyons, pelo menos, o Assassino de Deuses, - para o conseguir. Fazia sentido. Os Apollyons tinham sido originalmente criados para manter os puros na linha, mas se ele controlava os Apollyons, então ele não tinha nada a temer. Uma vez que eu acordasse, Seth poderia derrubar qualquer deus que fosse atrás de Lucian, tornando Lucian praticamente invencível. Era um plano brilhante. Um plano, que eu sabia, Lucian provavelmente tinha trabalhado a partir do momento em que tomou conhecimento de que havia dois Apollyons em uma geração.
Eles davam aos membros do Conselho uma opção. Ficar com eles ou cair. Com Seth em pleno poder Apollyon, - o Assassino de Deuses - ele seria capaz de apagar qualquer deus que viesse em sua caça. Não que Lucian acreditava em quaisquer deuses. Uma vez que Seth se tornasse o Assassino de Deuses, nenhum deus seria estúpido o suficiente para estar perto a uma milha dele. A única ameaça seria os membros da Ordem, mas eles também teriam um inferno para chegar até Seth. Lucian tinha Sentinelas em busca dos membros restantes. Estremeci com o que eu sabia que eles iriam fazer com eles.
E, no entanto, tanto quanto eles conversavam, eu senti que havia algo que eles não estavam compartilhando. Tinha algo a mais, assim como eu senti em relação ao porquê de Apollo ter estado tão determinado em me manter segura.
— Como é que a Ordem matou o Primeiro e Solaris? — Perguntei, falando pela primeira vez.
Lucian levantou as sobrancelhas para Seth enquanto ele girava o copo de cristal.
— Pegaram eles inesperadamente. — Seth olhou para o prato. — No mesmo momento, eles foram esfaqueados no coração. — Ele limpou a garganta, — Por que você pergunta?
Dei de ombros. Principalmente porque eu estava curiosa, uma vez que não era uma tarefa fácil matar dois Apollyons. Quando eu não respondi, eles retomaram a conversa. E eu retomei minha conspiração.
Eu ia fazer algo que nunca pensei que faria de novo. Eu ia matar um purosangue, Lucian. Meus dedos se enroscaram em torno da faca. Era a única maneira de parar isto. Retire Lucian da equação e Seth seria libertado de sua bizarra influência parental. E eu estaria morta, mas talvez... Talvez Aiden e Marcus pudessem provar a insanidade de Lucian. Valia a pena arriscar. Eu não podia deixar isso acontecer, e iria acontecer, se eles me mantivessem aqui, e então não haveria como pará-los.
Esta era, possivelmente, a coisa mais louca, mais espontânea e irresponsável que eu já tinha planejado, mas que outra escolha eu tinha? Lucian já controlava Seth e ele podia me controlar através dele, se Seth quisesse. Esse era o medo de todos - o meu maior medo.
Eu tinha que fazer alguma coisa.
— Posso ser dispensada? — Perguntei.
— Você não comeu nada. — Seth franziu o cenho, — Está se sentindo doente?
Uau, talvez eu tenha perdido o apetite porque tipo, eu estava cercada por lunáticos? — Eu estou cansada.
— Tudo bem. — Disse Lucian.
Tentando não pensar sobre o que eu estava fazendo, coloquei o guardanapo sobre a faca e deslizei, cabo primeiro, na manga. Fiquei com os joelhos fracos. Matar em batalha, ou quando eu precisava me proteger, era totalmente diferente disso. Parte de mim gritava que isso era errado - tão errado como o que pretendiam fazer para Telly, mas uma vida para proteger inúmeras mais? Parecia valer a pena.
Okay. Duas vidas, porque eu duvidava seriamente que ia me safar dessa. Guardas esperavam do lado de fora da sala de jantar. Se eles não me matassem, o Conselho que Lucian queria trair o faria. Irônico.
Andei ao redor da mesa lentamente, acalmando minha respiração e bloqueando minhas emoções. Eu tinha força suficiente para empurrar a faca pelas suas costas, cortando sua medula espinhal. Seria mais fácil ir para a garganta ou os olhos, mas deuses, eu estava enjoando só de pensar nisso.
 
Apenas faça. Cheguei ao lado de Lucian e inalei uma respiração profunda enquanto deixava a faca deslizar para fora da minha manga. Em seguida, um trem de carga me bateu no chão.
Eu bati forte no chão de azulejos com uma rachadura. Seth prendeu minhas pernas enquanto torcia meu pulso até que eu gritei e fui obrigada a largar a faca. Enquanto eu tentava sair de seu alcance, Guardas correram para a sala, mas Lucian levantou a mão, parando-os.
— Qual é o seu problema? — Seth perguntou furiosamente, dando-me uma pequena sacudida quando eu não respondi rápido o suficiente. — Você está louca?
Meu coração batia forte contra as minhas costelas. — Eu não sou a louca aqui!
— Sério, você não é a louca? — Seu olhar foi para a faca, — Eu preciso explicar isso para você?
— Lide com ela. — Lucian levantou-se e jogou o guardanapo de pano, a voz estranhamente calma, — Antes que eu faça algo do qual me arrependa.
Seth exalou duramente. — Sinto muito, Lucian. Eu vou corrigir isso.
O choque foi tanto que eu não podia falar. Ele estava se desculpando com Lucian? Eu estava na terra de loucos e não havia como escapar.
— Ela precisa aceitar isso. — Disse Lucian. — Eu não vou viver com medo de ser assassinado em minha própria casa. Ou ela está em conformidade, ou eu vou tê-la trancada.
Os olhos de Seth encontraram os meus. — Isso não será necessário.
Eu olhei para ele.
— Bom. — Lucian soou mais enojado do que com medo. Era como se eu tivesse cuspido nele em vez de tentar matá-lo, — Vou me retirar pela noite. Guardas!
Em uma corrida de movimentos, eles seguiram Lucian para fora da sala. Alguns deles eram puros. Será que ele prometeu alguma coisa que valesse a pena ir contra o Conselho e arriscar a morte? Eu sabia o que ele ofereceu aos mestiços.
Seth ainda me prendia ao chão. — Isso foi provavelmente a coisa mais estúpida que você já tentou fazer.
— Pena que não deu certo.
Parecendo incrédulo, ele me arrastou para os meus pés. O momento em que ele me deixou ir, eu corri para a porta. Ele me pegou antes que eu pudesse ir para fora da sala, apertando os braços em volta de mim. — Pare com isso!
Joguei minha cabeça para trás, por pouco não acertando a dele. — Deixe-me ir!
— Não torne isso difícil, Alex.
Eu lutei em seu aperto. — Ele está usando você, Seth. Porque não pode ver isso?
Seu peito subia e descia nas minhas costas. — É tão difícil para você aceitar que Lucian se importa comigo... com você?
— Ele não se importa com a gente! Ele só quer nos usar. — Chutei minhas pernas para usar a parede, mas Seth se antecipou e me virou, — Maldito seja! Você é mais esperto que isso!
Seth suspirou e começou a arrastar-me pelo corredor. — Você é um pouco tola às vezes. Não há nada que você não vai poder ter, Alex. Nada! Juntos, seremos capazes de mudar o mundo. Não é isso que você quer? — Nós tínhamos chegado à escada, e eu chutei a estátua de algum deus que eu não reconheci, — Deuses! Pare com isso, Alex. Para alguém tão pequena, você é estranhamente pesada. Eu não quero ter que carregá-la pelas escadas.
— Nossa. Obrigada. Agora você está me chamando de gorda.
— O quê? — Seus braços afrouxaram.
Eu bati meu cotovelo em seu estômago duro o suficiente para que o impacto sacudisse todo o meu corpo. Seth dobrou, mas não me soltou. Xingando descontroladamente, ele virou-me ao redor e se inclinou na cintura. Ele apertou meu braço para baixo e puxou-me sobre seu ombro. Antes que eu pudesse chutálo onde ele realmente sentiria a dor, ele pegou minhas pernas e imobilizou-as.
— Coloque-me no chão! — Eu bati em suas costas com os punhos.
Seth resmungou quando ele começou a subir as escadas. — Sério, não posso acreditar que eu tenho que fazer isso.
Continuei meu ataque sem sucesso. — Seth!
— Talvez você mereça uma surra, Alex. — Rindo, ele se contorceu enquanto eu lhe golpeava os rins. — Ai! Isso dói!
Nós estávamos fazendo barulho suficiente para acordar todo Guarda na casa, mas ninguém interveio. Eu reconheci o corredor de cabeça para baixo e Seth abriu porta. Era meu velho quarto na casa de Lucian.
Seth invadiu através do tapete branco de pelúcia que não estava em meu quarto quando eu estive na casa. Naquela época, eu tinha assoalhos desencapados que tinham sido frios no inverno. Ele me deixou sem a menor cerimônia na cama e então plantou as mãos nos quadris. — Comporte-se.
Eu pulei para os meus pés. Seth me pegou pela cintura e me empurrou de volta para baixo, com pouco esforço da sua parte. Uma incrível quantidade de raiva me encheu de energia, varrendo-me como uma corrida de ondas agitadas. E eu deixei que a crescente fúria se propagasse como a maré subindo.
— Você está sendo ridícula, Alex. E você precisa se acalmar. Você faz com que eu tenha vontade de ter alguns Valiums33.
Minhas mãos fecharam em punhos. — Ele está usando você, Seth. Ele quer nos controlar para que ele possa derrubar o Conselho. Ele quer ser maior do que
                                                         
 33 Calmantes tarja preta.
 
os deuses. Você sabe que nunca vou permitir isso! É por isso que os Apollyons foram criados em primeiro lugar.
Seth arqueou uma sobrancelha. — Sim, Alex, eu sei porque os Apollyons foram criados. Para garantir que nenhum puro-sangue alcançasse o poder dos deuses e blá blá. Deixe-me fazer uma pergunta. Você acha que os deuses se importam se você morrer lutando com um daimon?
— Obviamente que eles se importam, porque eles me trouxeram de volta.
Ele revirou os olhos. — E se você não fosse o Apollyon, Alex? E se você fosse apenas uma mestiça? Será que eles se importariam se você morresse?
— Não, mas...
— Você acha que isso é certo? Ser forçado a ser, ou um escravo ou um guerreiro?
— Não! Não é certo, mas os deuses não decretaram isso. Os puros fizeram, Seth.
— Eu sei, mas você não acha que os deuses podiam ter mudado isso se eles quisessem? — Ele se aproximou, baixando a voz. — A mudança precisa acontecer, Alex.
— E você acha que Lucian realmente vai trazer esse tipo de mudança? — Quis que Seth entendesse. — Que uma vez que ele assuma o controle completo do Conselho, ele vai libertar os servos? Aliviar os mestiços de seu dever?
— Sim! — Seth caiu de joelhos na minha frente, — Lucian vai.
— Então, quem vai lutar contra os daimons?
— Haverá aqueles que se oferecerão voluntários, assim como os puros fazem agora. Lucian vai fazer isso. Tudo o que temos que fazer é apoiá-lo.
Eu balancei a cabeça. — Lucian nunca se preocupou com os mestiços. Tudo o que ele já se preocupou foi com ele mesmo. Ele quer o poder supremo, para escravizar os mortais ao invés dos mestiços. Ele mesmo disse isso.
Com um humph enojado, ele se levantou. — Lucian não tem intenções de fazer uma coisa dessas.
— Ele me disse no carro! — Segurei suas mãos, ignorando a forma como a corda saltou. — Por favor, Seth. Você tem que acreditar em mim. Lucian não vai fazer nenhuma das coisas que ele prometeu.
Ele olhou para mim um momento. — Por que você se importa se escravizar mortais era o seu plano final? Eu não entendo. Você não aguentava viver entre eles quando vivia. Por que você quer proteger os deuses quando a Ordem a matou - a matou - para protegê-los? E você tem um problema com uns poucos puros morrendo ao longo do caminho? Olha como eles trataram você. Eu não entendo.
Às vezes nem eu conseguia entender. Os puros nos tratavam, os mestiços, como lixo. E os deuses, bem, eles eram tão culpados quanto os puros. Eles permitiram que isso acontecesse. Mas isso era mais errado. — Pessoas inocentes vão morrer, Seth. E o que você acha que os deuses vão fazer? Eles podem não ser capazes de tocar em você e em mim, mas eles podem ser vingativos e grandes sádicos. Eles vão começar o abate, os mestiços e puros vão morrer aos montes. Apollo disse isso.
Ele apertou minhas mãos. — Perdas de Guerra... acontece. 
Eu puxei minhas mãos livres. Meu estômago virou. — Como você pode ser tão insensível?
— Não é que eu seja indiferente, Alex. É chamado de força.
— Não. — Eu sussurrei. — Isso não tem nada a ver com força.
Seth se afastou de mim, passando a mão pelos cabelos, puxando fios livres do laço de couro. Ele sempre tinha sido assim? Sempre houve um grau de frieza nele, mas nada como isto.
— Vai ficar tudo bem. — Disse ele finalmente. — Eu prometo. Eu vou cuidar de você.
— Isso não vai ficar bem. Você tem que me deixar ir. Temos de ser afastados um do outro.
— Eu não posso, Alex. Talvez com o tempo você vai esquecê-lo e...
— Isto não é sobre Aiden!
De frente para mim, seus lábios torceram em um sorriso amargo, cínico. — É sempre sobre Aiden. Você não se importa com os mortais. Se você ainda pudesse ter ele e nos deixar com os nossos planos, você não se importaria.
— Eu me importo. Você vai ter que matar pessoas inocentes para fazer isso, Seth. Você pode viver com isso, de verdade? Porque eu não posso.
— Que puro é verdadeiramente inocente? — Perguntou ele, em vez de responder a minha pergunta.
— Há puros que não querem ver os mestiços escravizados. E sim, os deuses são um bando de idiotas, mas isso é o que eles são.
— Nós já passamos por isso, Alex. Nós não vamos concordar. Pelo menos, por enquanto. Mas seu aniversário é apenas alguns dias de distância. Você vai entender depois.
Eu fiquei boquiaberta. — Seth, por favor, ouça-me!
Uma máscara fria caiu sobre o seu rosto, trancando-o. — Você realmente não entende, Alex. Eu não posso, não vou deixar você ir.
— Sim, você pode! É muito simples. Você apenas me deixa sair dessa casa.
Seth estava em frente de mim dentro de um segundo. Ele agarrou minhas mãos, pressionando as palmas das mãos contra as minhas. — Você não sabe como se sente agora, mas você vai saber. Quanto mais marcas você adquirir, mais o akasha drena para mim. Nada, nada é como isto aqui. É puro poder, Alex.
E você ainda nem Despertou! Você pode imaginar como será então? — Seus olhos assumiram um brilho enlouquecido excessivamente apaixonado que eu tinha visto e ignorado antes. — Eu não posso abrir mão disso.
— Deuses, você está escutando a si mesmo? Você soa como um daimon desejando éter.
Ele sorriu. — Não é assim. É melhor.
Foi quando eu percebi que entre a influência de Lucian e a atração de akasha, Seth tinha se tornado algo perigoso.
Apollo tinha razão. Droga. Vovó Piperi tinha razão.
E eu tinha estado tão, tão errada. Eu estava em uma posição precária, ruim. Tudo era possível, meu ritmo cardíaco dobrou. Eu queria me bater por não deixar Apollo me esconder, quando ele fez essa sugestão, tudo que eu conseguia pensar era que era o que Lucian queria fazer. Eu estava com nojo de mim mesma pelo tempo em que queria jogar a toalha. Correr não era algo que eu já tivesse feito.
Mas agora eu precisava correr, porque essa era a única coisa inteligente a fazer.
— Eu quero que você saia do meu quarto. — Forcei meus joelhos a parar de tremer e levantei. — Agora.
— Eu não quero ir embora. — Ele respondeu de forma uniforme.
Meu coração foi parar na garganta. — Seth, eu não quero você aqui.
Ele inclinou a cabeça para o lado, os olhos aqueceram um pouco. — Não muito tempo atrás, você não tinha problema comigo em seu quarto... Ou sua cama.
— Você não tem o direito de estar aqui. Você não é meu namorado.
As sobrancelhas de Seth levantaram. — Você fala como se o que somos pudesse ser simplificado com pequenas etiquetas. Nós não somos namorados. Você está certa sobre isso.
Eu me afastei da cama, com os olhos desesperadamente à procura de um escape do quarto. Havia apenas um banheiro, armário, e uma janela. E a minha antiga casa de bonecas... O que diabos isso ainda estava fazendo aqui? Em cima da casa tinha uma boneca de porcelana assustadora que eu odiava quando criança e ainda o fazia agora.
Se esgueirando por trás de mim, ele sussurrou em meu ouvido. — Nós somos a mesma pessoa. Queremos e precisamos das mesmas coisas. Você pode amar quem você quiser e você pode dizer a si mesma o que quiser. Não temos de amar um ao outro; nós não temos sequer que gostar um do outro. Não importa, Alex. Nós estamos presos um ao outro, e a conexão entre nós é muito mais forte do que o que você sente em seu coração.
Girando ao redor, eu coloquei espaço entre nós. — Não. Chega. Eu estou cobrando a promessa que você me fez. Eu não quero fazer isso. Você precisa sair. Eu não me importo aonde vai. Basta ir...
— Eu não vou sair.
Terror se transformou em algo pior e muito mais poderoso. Medo serpenteava o seu caminho em mim, mordendo profundo e se espalhando por minhas veias como veneno. — Você me prometeu, Seth. Você jurou que iria sair se isso se tornasse demais. Você não pode voltar atrás!
Seus olhos encontraram os meus. — É muito tarde para isso. Sinto muito, mas essa promessa é nula e sem efeito. As coisas mudaram.
— Então, eu vou embora. — Tomei uma respiração profunda, mas isso não acalmou a batida no meu peito, — Você não pode me manter aqui! Eu não me importo se Lucian é meu tutor legal.
Ele inclinou a cabeça para o lado, seu olhar se tornando quase curioso. — Você acha que existe algum lugar no mundo no qual não poderia encontrá-la se eu quisesse?
— Deuses, Seth, você sabe quão perseguidor parece agora... Quão assustador?
— Estou apenas mostrando a verdade. — Respondeu ele despreocupadamente, — Quando você fizer 18, que é em o quê? Cinco dias? Você não terá nenhum controle sobre isso.
Minhas mãos fecharam em punhos. Deuses, eu odiava quando ele estava certo. Especialmente quando ele estava assustadoramente certo e Seth estava muito assustador agora. Eu não podia, eu me recusava, a mostrar isso. Então confiei na raiva. — Você não tem nenhum controle sobre mim, Seth!
Seth arqueou uma sobrancelha. Um sorriso lento e perverso se espalhou pelo seu rosto. Reconhecendo aquele olhar, eu recuei, mas ele era tão incrivelmente rápido. Seu braço serpenteou fora, me pegando pela cintura.
Instinto assumiu. Meu cérebro desligou e eu lancei em modo de luta. Deixando minhas pernas ficarem moles, me tornei um peso morto em seus braços. Seth xingou e enquanto ele caia para me pegar, eu saltei, batendo com o joelho em seu estômago. Uma lufada de ar deixou seus pulmões quando ele cambaleou para trás.
Girando, eu lancei fora meu braço, pegando-o no peito. Não foi um golpe dócil. Coloquei tudo nele e Seth caiu sobre um joelho.
Corri para a porta, pronta para lutar no caminho para fora da casa e da rua, se necessário.
Eu nunca fiz isso, não realmente.
Meus dedos estavam em volta da maçaneta no mesmo segundo em que senti uma onda de poder no quarto que levantou os minúsculos pêlos por todo o meu corpo. Então, de repente, eu estava fora de meus pés, voando para trás. Cabelo explodiu em volta do meu rosto, obscurecendo minha visão.
Os braços de Seth se enroscaram pela minha cintura e ele me puxou contra seu peito. — Sabe, eu gosto mais de você quando está furiosa. Você quer saber por quê?
Eu lutava em seu abraço, mas ele me segurou, e era como tentar mover um caminhão. — Não. Eu realmente não me importo, Seth. Deixe-me ir.
Ele riu profundamente, e o som retumbou através de mim. — Porque quando você está com raiva, você está sempre um passo de fazer algo irracional. E é assim que eu gosto de você.
Seth me soltou sem qualquer aviso e eu virei. Eu vi isso em seus olhos, então, na forma em que seus lábios se separaram. Pânico congelou o sangue em minhas veias. — Não...
A mão de Seth disparou, envolvendo em torno de meu pescoço. As marcas do Apollyon se espalharam através de sua pele com velocidade vertiginosa. O que existia em mim, aquela parte que tinha sido criada para completá-lo, respondeu em uma corrida emocionante. As marcas voaram abaixo do braço, atingindo mais de seus dedos. Um segundo depois, uma luz âmbar crepitava no ar, e, em seguida, um fraco brilho azul. Sua mão circulou, pressionando para baixo, queimando a pele na parte de trás do meu pescoço, criando a quarta runa.
Houve um segundo, pouco antes do meu cérebro ser sobrecarregado com a sensação, um instante em que me arrependi de permitir que Seth chegasse perto de mim, para forjar o vínculo que existia entre nós em algo que parecia inquebrável. Ele havia planejado tudo isso desde o começo.
E então eu não estava mais pensando.
Os olhos de Seth brilhavam quando a pressão dentro de mim se deslocou através da corda, deixando-me e fluindo para ele. De repente, a luz acendeu de quatro pontos: meu estômago, as palmas das mãos e, agora, a parte de trás do meu pescoço. Dor picou ao longo da minha pele como uma vespa irritada e então me entorpeceu. Minha cabeça ficou pesada, as pernas fracas enquanto o puxão agradável continuou.
Seu braço livre me pegou quando minhas pernas fraquejaram. Eu devo ter desmaiado, por quanto tempo, eu não sabia. Eu estava de costas quando o quarto entrou novamente em foco. Uma névoa espessa caiu sobre mim, me arrastando para baixo através da cama.
Havia um gosto estranho, quase metálico na parte de trás da minha garganta. — O que... o que aconteceu?
Seth deslizou a mão no meu cabelo. — Você não Despertou, mas... — Ele agarrou minha mão e pressionou minha palma.
 
A resposta foi imediata. Minhas costas arquearam. Parecia que algo tinha chegado até minha essência, agarrando e puxando. Não era doloroso, mas não era agradável também. — Seth...
Quando ele me soltou, os fios invisíveis foram cortados. Eu caí de volta na cama, desossada e fraca e Seth... ele sentou-se sobre as pernas traseiras, segurando sua mão na frente do rosto. Uma expressão reverente e infantil encheu o seu rosto quando a luz azul brilhante cobriu sua mão, queimando mais brilhante do que nunca.
— Akasha... isso é bom, Alex. Isso é mais... eu posso te sentir na minha pele.
Atordoada, eu assisti a bola de luz desaparecer e a emoção sair dos olhos de Seth. De alguma forma, eu sabia que, mesmo que ele cruzasse e pressionasse seus lábios na minha bochecha, Seth tinha possuído o tipo de poder necessário para matar um deus, mesmo que apenas por alguns momentos.
Um raio atingiu a janela do lado de fora, mas mesmo isso não foi tão brilhante como o vislumbre do fim. Eu sabia que precisava sair daqui, mas quando tentei sentar, senti como se estivesse colada a minha cama.
Ele sorriu enquanto se acomodava ao meu lado, passando a mão no meu rosto, virando a cabeça para ele. Seu polegar arrastou por cima do meu lábio inferior. — Você viu isso?
Eu queria olhar para longe, mas eu não podia e senti minha alma ficando enjoada. Trovão abafou as batidas do meu coração.
— Foi lindo, não foi? Tanto poder. Lucian vai ficar desapontado que você não Despertou após a quarta marca, mas algo aconteceu.
O que isso significava? Eu não entendia e meus pensamentos eram muito difusos. A corda saltou quando sua mão escorregou debaixo da minha cabeça e se voltou para a runa em meu pescoço. — Esta é a runa de invencibilidade. — Explicou, — Quando você Despertar, ela será ativada. Então, os deuses não podem tocar em você.
Encontrei seus olhos e forcei minha língua pesada a trabalhar — Eu não... Não quero que você me toque.
Seth sorriu e as marcas voltaram, deslizando sobre sua pele dourada. Eu soube o momento em que nossas marcas se tocaram. Ele abaixou sua cabeça até uma respiração separar nossos lábios. Meus sentidos enlouqueceram. Eletricidade sacudiu toda a minha pele.
— Você é tão bonita assim. — Ele murmurou, e pressionou sua testa contra a minha.
O que estava em mim, o que havia entre nós, era feio. Como eu não tinha percebido isso antes? Havia sinais desde o início. Na noite em que eu descobri o que Seth e eu éramos, ele tinha ficado para trás, com Lucian. A necessidade de Seth por poder e como minha resposta a ele parecia fora de meu controle, mesmo quando nós ficamos lado a lado meses atrás no pátio e de novo, várias vezes. Pensei no olhar fugaz de satisfação que eu tinha visto quando eu estava à beira da piscina e escolhi-o para ver o que aconteceria - eu escolhi-o. Todo o tempo que ele tinha passado com Lucian...
Eu fui tão cega.
Os lábios de Seth apertaram contra o meu pulso batendo descontroladamente e eu estremeci, revoltada, com raiva, medo e desamparada.
— Não. — Implorei, antes da conexão entre nós ficar tão forte que eu não conseguiria dizer onde ele começava e eu terminava.
— Você não quer isso? Não pode negar que uma parte de você precisa de mim.
— Essa parte não é real. — Meu corpo estava formigando, latejante, e ansiava por ele, mas o meu coração e alma estavam encolhendo, ficando frios. Lágrimas encheram os meus olhos. — Por favor, não me faça fazer isso, Seth. — Minha voz falhou. — Por favor.
 
Seth congelou. Confusão nublou seus olhos, o brilho duro de fogo âmbar quebrando com a dor. — Eu... eu nunca forçaria você, Alex. Eu não faria isso. — Sua voz era curiosamente frágil, vulnerável e insegura.
Eu comecei a chorar. Não sabia se era o alívio do medo ou que, no fundo, eu sabia que Seth ainda estava em algum lugar. Por enquanto.
Seth sentou-se, passando a mão pelo seu cabelo. — Alex, não... não chore.
Minhas mãos pareciam como blocos de cimento quando eu levantei-as e enxuguei meus olhos. Eu sabia que não devia chorar na frente de daimons, para não mostrar fraqueza, e Seth... Ele não era diferente.
Ele estendeu a mão, mas parou. Vários segundos se passaram antes que ele falasse. — Vai ficar mais fácil. Eu prometo.
— Só vá embora. — Eu disse com a voz rouca.
— Eu não posso. — Ele se afastou do meu lado, mantendo uma discreta distância entre nós. — O momento em que eu sair deste quarto você vai fazer algo estúpido.
Verdade seja dita, eu estava cansada demais para ficar de pé, muito menos realizar uma fuga ousada. Eu consegui rolar para o meu lado, longe dele. O sono não veio fácil naquela noite. O único conforto que eu tomei foi que, quando eu fechei os olhos, imaginei Aiden. E mesmo que a imagem não tenha lhe feito nenhuma justiça, seu amor fez a única coisa que eu pedi. Não para me proteger, mas para me dar força para descobrir uma maneira de sair dessa bagunça.
 
Seth raramente saiu do meu lado nos próximos dois dias, pedindo para a comida ser trazida para o quarto, e levou esses dois dias para eu recuperar alguma força real. A última runa tinha tomado mais de mim do que as outras, e eu sabia, exatamente como Seth havia dito, que algo estava diferente.
Ele só tirou akasha de mim mais uma vez, quando ele tinha trazido Lucian para testemunhar.
Seth tinha razão. Lucian tinha ficado decepcionado que eu não tinha Despertado, mas estava satisfeito com o novo poder que Seth ganhou, apesar de ter sido temporário.
E deuses, Seth sorriu como uma criança mostrando seu pai seu projeto de ciência premiado. Pensei que eu ia me sentir enojada com Seth, mas, durante as longas tardes que ele passou a falar comigo enquanto eu tentava convencê-lo a me deixar ir, eu comecei a sentir pena dele.
Havia dois lados dele, e o lado que eu tinha colocado junto ao meu coração estava perdendo para o que desejava poder como um daimon com sede de éter. Eu queria consertá-lo de alguma forma, salvá-lo.
Eu também queria estrangulá-lo, mas isso não era novidade.
Durante o começo da segunda noite, uma baixa comoção despertou-me da cama. Reconhecendo a voz profunda de Marcus crescendo, eu levantei com as pernas fracas e caminhei em direção à porta.
Seth estava ao meu lado em um instante, colocando a mão na porta. — Você não pode.
Eu afastei a tontura. — Ele é meu tio. Eu quero vê-lo.
— Desde quando? — Seth sorriu, e eu arfei, porque me lembrou de outro Seth, um que não iria me manter refém. — Você o odeia.
— Eu... Eu não o odeio. — Naquele momento, percebi que tinha sido uma idiota gigante para o meu tio. É verdade que ele não era a mais carinhosa das pessoas, mas ele não iria fechar-me em um quarto com um sociopata em potencial. Eu jurei que seria diferente... Se eu o visse novamente. — Seth, eu quero...
— Por que você se recusa a deixar Marcus ver sua sobrinha? Tem alguma coisa errada?
Minha respiração ficou presa na minha garganta enquanto eu pressionei minhas mãos contra a porta, sob as de Seth. A voz de Aiden era como uma explosão de luz solar e calor. Eu estava tão perto de chutar Seth onde doía só para fazê-lo se mover, e ele deve ter previsto, porque a advertência em seus olhos me disse para não pensar nisso.
— Ela está descansando, mas está bem. Não há necessidade de preocupação. — Eu ouvi Lucian dizer e então sua voz desapareceu.
Dando uma respiração superficial, eu fechei os olhos. Aiden estava tão perto e ainda assim eu não poderia estar com ele. Eu sabia que ele estava preocupado, assumindo o pior. Se eu pudesse vê-lo, deixá-lo saber que eu estava bem... iria aliviar um pouco a dor no meu coração.
— Você realmente o ama? — Seth perguntou em voz baixa.
— Sim. — Eu abri meus olhos. Seu olhar estava abatido. Cílios grossos espalhavam em suas bochechas, — Eu amo.
Ele levantou os olhos lentamente. — Eu sinto muito.
Aproveitei o momento. — E eu me importo com você, Seth. Eu realmente me importo. Vendo o que você está fazendo, o que está se tornando, está me matando. Você é melhor que isso, mais forte do que Lucian.
— Eu sou mais forte do que Lucian. — Ele se encostou na porta, olhando-me através de olhos pesados. — Eu vou ser mais forte do que um deus em breve.
E foi isso. Seth não se afastou da porta e, finalmente, fui à janela, esperando que eu pudesse ter um vislumbre do meu tio e Aiden. O telhado de terracota sobre a biblioteca bloqueou a vista.
Nós não falamos novamente.
O tempo estava acabando e eu tinha que fazer alguma coisa.
Seth estava impaciente na manhã seguinte, incapaz de ficar parado por mais do que alguns minutos. Seu ritmo constante e movimentos espasmódicos estavam tão em desacordo com a sua graça normal de outro mundo. Ele me deixou nervosa e cada vez que ele olhava em minha direção, eu senti um caroço de pavor e medo na minha garganta. Mas ele nunca se aproximou de mim e ele não me tocou novamente. Seth apenas virou e olhou pela janela em silêncio, esperando.
Na manhã após a visita de Marcus, eu tinha que ver a runa na parte de trás do meu pescoço novamente. Com a minha energia em níveis normais, eu encontrei um espelho de mão e estiquei o pescoço, torcendo, até que tive um vislumbre no espelho do banheiro. Era azul fraco, em forma de S, que aprofundava no final. A runa da invencibilidade. Alcancei o pescoço e toquei. A pele dos meus dedos formigou com o contato.
Baixei o espelho para o balcão e me virei. Meus olhos pareciam muito amplos, quase com medo. Havia sombras formando sob eles, entorpecendo a íris marrom. Não que meus olhos castanhos fossem extraordinários, em primeiro lugar, mas uau.
O olhar assustado em meus olhos não tinha ido embora, mesmo depois de eu tomar banho. O peso em meus ombros, apertou meu peito. Seth estava tentando Despertar-me este tempo todo, como eu temia. Ele mentiu. Eu empurrei meu cabelo úmido. Felizmente ele não tinha conseguido, mas inegavelmente havia algo diferente. Eu podia sentir isso logo abaixo da pele.
Houve uma batida na porta do banheiro. — Alex? — Seth chamou, e bateu novamente. — O que você está fazendo aí?
Reunindo a minha força, me concentrei nas paredes rosa néon e reforcei os escudos mentais, bloqueando-o.
Seu suspiro foi audível. — Você só está me bloqueando para me irritar, Alex.
Eu dei ao meu reflexo um sorriso fraco e então abri a porta. Passando por ele, eu joguei minhas roupas sujas no canto.
— Então, você não vai falar comigo? — Perguntou.
Sentei-me na cadeira e peguei um pente.
Seth se ajoelhou na minha frente. — Sabe, você não pode ficar em silêncio para sempre.
Penteando os emaranhados, eu decidi que poderia tentar.
— Você sabe quanto tempo vamos ficar juntos? Isso vai ficar chato e velho muito rápido. — Quando eu não respondi, ele agarrou meu pulso.
— Alex, você está sendo...
— Não me toque. — Empurrei o meu braço livre, pronta para transformar o pente em uma arma mortal se fosse necessário.
Ele sorriu enquanto se levantava. — Você está falando.
Eu joguei o pente para baixo e subi para os meus pés. — Você mentiu para mim uma e outra vez, Seth. Você me usou.
— Como &e