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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FRAGIL / Jodi Picoult
FRAGIL / Jodi Picoult

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                   

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Willow, a linda, muito desejada e adorada filha de Charlotte O'Keefe, nasceu com osteogénese imperfeita - uma forma grave de fragilidade óssea. Se escorregar e cair pode partir as duas pernas, e passar seis meses enfiada num colete de gesso.
Depois de vários anos a tratar de Willow, a família enfrenta graves problemas financeiros. É então que é sugerida a Charlotte uma solução. Ela pode processar a obstetra por negligência - por não ter diagnosticado a doença de Willow numa fase inicial da gravidez, quando ainda fosse possível abortar. A indemnização poderia assegurar o futuro de Willow. Mas isso implica que Charlotte tem de processar a sua melhor amiga. E declarar em tribunal que preferia que Willow não tivesse nascido...

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"Estavas a dormir profundamente deitada de barriga para cima, sobre a espuma ondulada com que forraram o berço de plástico. Tinhas ligaduras nos bracinhos, nas perninhas e no tornozelo esquerdo.
À medida que fosses crescendo, seria mais fácil perceber que tens OI - as pessoas que soubessem o que procurar vê-la-iam na curvatura dos teus braços e pernas, na forma triangular do rosto e no facto de nunca vires a crescer muito mais para além de um metro de altura - mas naquele momento, mesmo com as ligaduras, parecias perfeita. Tinhas a pele da cor do mais pálido pêssego, a boca era uma pequena framboesa. Os cabelos eram esvoaçantes, loiros, as pestanas do tamanho da unha do meu dedo mindinho. Estendi a mão para te tocar e, lembrando-me, afastei-a.
Estivera tão ocupada a desejar que sobrevivesses que não tinha pensado muito nos desafios que isso implicava. Tinha uma filha linda, que era tão frágil como uma bola de sabão. Como tua mãe, devia proteger-te. Mas e se tentasse e acabasse por te fazer mal?"
14 de Fevereiro de 2002
Há sempre coisas que se quebram. Vidro, pratos e unhas. Carros, contratos e batatas fritas. Podemos quebrar um recorde, quebrar a fúria bravia de um cavalo para
o domar, quebrar um dólar em trocos. Podemos quebrar o gelo. Há quebras no trabalho para fazer um intervalo para o café ou para almoçar, para se evadir da prisão.
Quebra-se a noite para ceder o lugar ao alvorecer, quebram-se as ondas, quebram-se as vozes. Podem-se quebrar as correntes. Também o silêncio e a febre.
Ao longo dos últimos dois meses da minha gravidez, fiz listas destas coisas, na esperança de tornar mais fácil o teu nascimento.
Quebram-se as promessas.
Quebram-se os corações.
Na noite antes de nasceres, fiquei sentada na cama com qualquer coisa para acrescentar à minha lista. Vasculhei na mesa-de-cabeceira à procura de lápis e papel,
mas o Sean colocou a sua mão quente na minha perna. "Charlotte?", perguntou. "Está tudo bem?"
Antes que pudesse responder, abraçou-me, encostou-me a ele, e adormeci sentindo-me segura, esquecendo-me de anotar o que sonhara.
Só passadas algumas semanas, quando já aqui estavas, é que me lembrei do que me tinha acordado naquela noite: falhas tectónicas. São os locais em que a terra se
quebra e se divide. São os sítios onde se originam os terramotos, onde nascem os vulcões. Ou, por outras palavras: o mundo está a desmoronar-se por baixo de nós; o chão firme que pisamos é que é uma ilusão.
Chegaste durante uma tempestade que ninguém previra. De nordeste, disseram mais tarde os meteorologistas, uma tempestade de neve que devia dirigir-se para norte,
para o Canadá, em vez de avançar num frenesim e fustigar a costa da Nova Inglaterra. Os noticiários deixaram de parte as reportagens sobre namorados de liceu que
voltaram a encontrar-se num lar e casaram, sobre a história dos rebuçados em forma de coração e, em vez disso começaram a transmitir constantemente boletins meteorológicos
sobre a intensidade da tempestade e das comunidades onde o gelo cortara a electricidade. Amélia estava sentada à mesa da cozinha, a recortar corações num papel
dobrado enquanto eu observava a neve a acumular-se em montes de um metro e oitenta junto aos vidros. Na televisão viam-se imagens de carros a deslizarem para fora
das estradas.
Semicerrei os olhos para o ecrã, para as luzes azuis a piscarem de um carro da polícia que parara atrás de um veículo virado ao contrário, tentando ver se o polícia
que estava ao volante seria Sean.
Qualquer coisa a bater no vidro fez-me dar um salto.
- Mamã! - gritou Amélia, assustando-se também. Virei-me mesmo a tempo de ver uma saraivada de granizo
atingi-lo pela segunda vez, fazendo uma racha no vidro que não era maior do que a minha unha e que se alargou diante dos nossos olhos numa rede de vidro partido
do tamanho do meu punho.
- O papá depois arranja isto - disse eu.
Foi nessa altura que me rebentaram as águas. Amélia olhou para baixo, entre os meus pés.
- Descuidaste-te.
Dirigi-me pesadamente para o telefone e, visto que Sean não atendeu o telemóvel, telefonei para a Central.
- Fala a mulher do Sean O'Keefe - disse. - Estou em trabalho de parto. - O operador da central disse que podia enviar-me uma ambulância, mas que provavelmente demoraria
algum tempo: estavam assoberbados com acidentes de viação.
- Não faz mal - disse, lembrando-me do longo trabalho de parto que tive da tua irmã. - Provavelmente ainda tenho algum tempo.-
De repente dobrei-me com uma contracção tão forte que o telefone me caiu da mão. Vi Amélia observar, de olhos muito abertos.
- Estou bem - menti, sorrindo até me doerem as faces. - O telefone escorregou-me da mão. Apanhei-o e dessa vez telefonei a Piper, em quem confiava mais do que em qualquer outra pessoa no mundo, para me salvar.
- Não podes estar em trabalho de parto - disse ela, embora soubesse que não devia ser assim. Não só era a minha melhor amiga, como também era a minha obstetra. - A cesariana está marcada para segunda-feira.
- Acho que o bebé não recebeu o recado - arquejei e cerrei os dentes para aguentar outra contracção.
Ela não disse o que ambas estávamos a pensar: que eu não te podia dar à luz por parto natural.
- Onde está o Sean?
- Não... sei... oh, Piper!
- Respira - disse Piper automaticamente, e comecei a arfar, ha-ha-hee-hee, tal como ela me tinha ensinado. - vou telefonar à Gianna e dizer-lhe que vamos a caminho.
Gianna era a Dr.a Del Sol, a obstetra de medicina materno-fetal que entrara em cena havia apenas três semanas a pedido de Piper.
- Vamos?
- Estavas a pensar em ires tu a conduzir?
Passados quinze minutos, tinha calado as perguntas da tua irmã instalando-a no sofá para ver As Pistas das Blue. Sentei-me ao lado dela, com o casaco do teu pai
vestido, o único que na altura me servia.
Da primeira vez que estive em trabalho de parto, tinha uma mala feita à espera junto à porta. Tinha um plano para o parto e uma cassete de músicas variadas para
pôr a tocar na sala de partos. Sabia que ia doer, mas a recompensa era um prémio inacreditável: a criança que há meses estava à espera de conhecer. Da primeira vez que estive em trabalho de parto, estava tão entusiasmada!
Desta vez, estava aterrorizada. Estavas mais segura dentro de mim do que ficarias quando saísses cá para fora.
Nesse preciso momento a porta abriu-se de rompante e Piper preencheu o espaço todo com a voz segura e a gabardine rosa-vivo. O marido, Rob, vinha atrás, com Emma, que trazia uma bola de neve.
- As Pistas da Blue? - disse ele, instalando-se ao lado da tua irmã.
- Sabes, é o meu programa preferido... a seguir ao Jerry Sprínger.
Amélia. Nem sequer tinha pensado em quem ficaria a tomar conta dela enquanto estivesse no hospital para te dar à luz.
- com que intervalo? - perguntou Piper.
As minhas contracções surgiam de sete em sete minutos. Enquanto outra me assolava como uma vaga, agarrei-me ao braço do sofá e contei até vinte. Concentrei-me na racha da porta de vidro.
Rastos de gelo saíam em espiral do ponto de origem, espalhando-se para fora. Era lindo e ao mesmo tempo aterrorizador.
Piper sentou-se ao meu lado e segurou-me na mão.
- Charlotte, vai correr tudo bem - prometeu e, porque fui uma idiota, acreditei nela.
O serviço de urgências estava cheio de gente ferida em acidentes de viação durante a tempestade. Jovens seguravam toalhas ensanguentadas junto à cabeça; crianças
gemiam em macas. Piper levou-me rapidamente dali, passando por todos eles, para a maternidade, onde a Dr.a Del Sol já estava a andar de um lado para o outro no corredor.
Passados dez minutos, estavam a administrar-me uma epidural e a levarem-me para a sala de operações para fazer uma cesariana.
Fazia jogos comigo própria: se houver um número par de lâmpadas fluorescentes no corredor, então Sean chegará a tempo. Se estiverem mais homens do que mulheres no
elevador, tudo o que os médicos me disseram afinal estava errado. Sem eu ter de pedir nada, Piper vestira uma bata médica para poder tomar o lugar de Sean como acompanhante
no parto.
- Ele vai chegar a tempo - disse ela, olhando para mim.
A sala de operações era clínica, metálica. Uma enfermeira de olhos verdes - era tudo o que conseguia ver acima da máscara e abaixo da touca - levantou-me a bata
e passou-me uma gaze com Betadine na barriga. Comecei a entrar em pânico quando colocaram a cobertura esterilizada no lugar. E se não me tivessem dado anestesia
suficiente na parte inferior do corpo e sentisse o bisturi a dilacerar-me? E se, apesar das minhas esperanças, nascesses e não sobrevivesses?
De repente a porta abriu-se. Sean entrou de rompante na sala com uma lufada de ar frio de Inverno, segurando uma máscara junto ao rosto, com a bata médica amarfanhada.
- Esperem - gritou. Aproximou-se da cabeceira da mesa de operações "e tocou-me na face. - Querida - disse ele. - Desculpa. Vim assim que soube...
Piper deu uma palmadinha no braço de Sean.
- Três é demais - disse ela, afastando-se de mim, mas só depois de me apertar o braço mais uma vez.
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E então, Sean estava ao meu lado, o calor das palmas das suas mãos nos meus ombros, o hino da sua voz a distrair-me enquanto a Dr.a Del Sol erguia o bisturi.
- Pregaste-me um susto de morte - disse ele. - Onde é que tu e a Piper estavam com a cabeça para virem as duas de carro?
- Por não querermos que o bebé nascesse no chão da cozinha?
Sean abanou a cabeça.
- Podia ter acontecido qualquer coisa terrível.
Senti um puxão debaixo da coberta branca e sustive a respiração, virando a cabeça para o lado. Foi nessa altura que a vi: a tua ecografia aumentada das vinte e sete
semanas com os teus sete ossos partidos, os teus membros como rebentos de feto, curvados para dentro. "Já aconteceu alguma coisa terrível", pensei.
E então choraste, apesar de te terem segurado como se fosses feita de algodão doce. Estavas a chorar, mas não era o choro entrecortado, simples, de um recém-nascido.
Berravas como se te tivessem cortado ao meio.
- Cuidado - disse a Dr.a Del Sol à enfermeira. - Tem de apoiar todo o...
Ouviu-se um estalido, como uma bolha a rebentar, e embora não julgasse possível, berraste ainda mais alto.
- Oh, meu Deus - disse a enfermeira, com a voz a subir em histeria. - Foi uma fractura? A culpa foi minha? - Tentei ver-te, mas só consegui distinguir uma boca,
o rubor ardente de rubi das tuas faces.
A equipa de médicos e enfermeiras reunida à tua volta não conseguiu parar o teu pranto. Acho que até ao momento em que te ouvi chorar, estava preocupada por não
saber como te havia de amar.
Sean espreitou por cima dos ombros deles.
- Ela é perfeita - disse ele, virando-se para mim, mas as palavras enrolaram-se no fim como a cauda de um cachorrinho, à procura de aprovação.
Os bebés perfeitos não choravam tanto que nos fizessem sentir o coração dilacerar-se no seu âmago. Os bebés perfeitos pareciam perfeitos por fora, e eram perfeitos
por dentro.
- Não lhe levante o braço - murmurou uma enfermeira. E outra:
- Como quer que eu a envolva sem lhe tocar?
E tu sempre a berrar, numa nota que nunca tinha ouvido antes.
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- Willow - sussurrei, o nome que o teu pai e eu escolhemos. Tive de convencê-lo. "Não vou dar-lhe esse nome", dissera ele. "Os salgueiros1 choram." Mas eu queria
dar-te uma profecia para levares contigo, o nome de uma árvore que verga em vez de quebrar.
- Willow - voltei a sussurrar, e através da cacofonia do pessoal médico, do ruído da maquinaria e da tua dor estridente e febril, ouviste-me.
- Willow - disse em voz alta e voltaste-te para o som como se a palavra fosse os meus braços a envolverem-te. - Willow - repeti,
e sem mais nem menos, paraste de chorar.
Quando estava grávida de cinco meses, recebi uma chamada do restaurante onde trabalhara. A mãe do chefe de pastelaria tinha fracturado a anca e, nessa noite, estavam
à espera de um crítico gastronómico do Boston Globe. Embora fosse incrivelmente presunçoso e com certeza nada agradável para mim, queriam saber se podia ir até lá
e fazer o meu mil-folhas de chocolate, aquele com o gelado de chocolate e especiarias, abacate e bananas caramelizadas.
Admito, estava a ser egoísta. Sentia-me letárgica e gorda, e queria recordar-me de que já fora boa a fazer outras coisas sem ser a jogar ao Peixinho com a tua irmã
e a separar a roupa suja em claros e escuros. Deixei Amélia com uma baby-sitter adolescente e dirigi-me para o Capers.
A cozinha não mudara desde que eu lá estivera, há anos, embora o novo chefe de cozinha tivesse mudado o lugar das coisas dentro das despensas. Comecei imediatamente
a libertar o meu espaço de trabalho e a fazer a minha massa folhada. Algures, no meio de tudo aquilo, deixei cair uma barra de manteiga e baixei-me para apanhá-la
antes que alguém escorregasse e caísse. Mas nessa altura, quando me inclinei para a frente, apercebi-me de que já não conseguia dobrar a cintura. Senti que me tiravas
o fôlego, como eu te tirava o teu.
- Desculpa, bebé - disse em voz alta, e voltei a endireitar-me. Agora interrogo-me: Terá sido nessa altura que ocorreram , aquelas sete fracturas? Ao tentar impedir
que alguém se magoasse, ter-te-ei magoado a ti?
Dei à luz pouco depois das três da tarde, mas só voltei a ver-te às oito da noite. De meia em meia hora, Sean saía para obter
1. Willow, na versão original em inglês, significa salgueiro. (N. da T.)
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informações actualizadas: "Estão a radiografá-la. Estão a tirar-lhe sangue. Acham que talvez também tenha o tornozelo partido." E então, às seis horas, deu-me a
melhor notícia de todas: "Tipo III", disse. "Tem sete fracturas a sarar e quatro novas, mas está a respirar bem." Fiquei deitada na cama de hospital, a sorrir incontrolavelmente,
certa de que era a única mãe naquela maternidade que alguma vez fora agraciada com tais notícias.
Já há dois meses que sabíamos que ias nascer com OI - osteogénese imperfeita, duas letras do alfabeto que se tornariam numa segunda natureza. Era um defeito no colagénio
que tornava os ossos tão quebradiços que podiam partir-se com um tropeção, um mau jeito, um espirro. Há vários tipos - mas apenas dois apresentavam fracturas dentro
do útero, como as que tínhamos visto na ecografia. Além disso a radiologista ainda não conseguia dizer conclusivamente se tinhas o Tipo II, que era fatal à nascença,
ou o Tipo III, que provocava deformações graves e progressivas. Agora sabia que podias sofrer centenas de outras fracturas ao longo dos anos, mas isso quase não
importava:
terias uma vida em que elas pudessem ocorrer.
Quando a tempestade amainou, Sean foi a casa buscar a tua irmã para te conhecer. Fiquei a observar o radar meteorológico a localizar a tempestade de neve a dirigir-se
para sul, transformando-se numa chuva gelada que deixaria os aeroportos de Washington D.C. paralisados durante três dias. Ouvi alguém bater à porta e esforcei-me
para me sentar, apesar de sentir os pontos recentes arderem.
- Olá - disse Piper, entrando no quarto e sentando-se na beira da cama. - Já soube as notícias.
- Eu sei - disse eu. - Tivemos tanta sorte.
Hesitou muito ligeiramente antes de sorrir e acenou com a cabeça.
- Ela já vem cá para baixo - disse Piper e, precisamente nessa altura, uma enfermeira empurrou um berço para dentro do quarto.
- Aqui está a mamã - disse alegremente.
Estavas a dormir profundamente deitada de barriga para cima, sobre a espuma ondulada com que forraram o berço de plástico. Tinhas ligaduras nos bracinhos, nas perninhas
e no tornozelo esquerdo.
À medida que fosses crescendo, seria mais fácil dizer que tens OI - as pessoas que soubessem o que significa vê-la-iam na curvatura dos teus braços e pernas, na
forma triangular do rosto e no
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facto de nunca vires a crescer muito mais para além de um metro de altura - mas, naquele momento, mesmo com as ligaduras, parecias perfeita. Tinhas a pele da cor
do mais pálido pêssego, a boca era uma pequena framboesa. Os cabelos eram esvoaçantes, loiros, as pestanas do tamanho da unha do meu dedo mindinho. Estendi a mão
para tocar-te e, lembrando-me, afastei-a.
Estivera tão ocupada a desejar que sobrevivesses que não tinha pensado muito nos desafios que isso implicava. Tinha uma filha linda, que era tão frágil como uma
bolha de sabão. Como tua mãe, devia proteger-te. Mas e se tentasse e acabasse por fazer-te mal?
Piper e a enfermeira trocaram um olhar.
- Queres pegar-lhe ao colo, não queres? - disse ela, e enfiou o braço para servir de apoio por baixo do forro de espuma enquanto a enfermeira levantava as pontas
como asas parabólicas que te apoiariam os braços. Devagar, colocaram-me a espuma na curva do braço.
- Olá - sussurrei, aconchegando-te para mais perto de mim. A mão, presa debaixo de ti, sentia as bordas ásperas da almofada de espuma. Interroguei-me sobre quanto
tempo teria que passar antes de te poder pegar, sentir o teu corpo, sentir a tua pele na minha. Lembrei-me de todas as vezes em que Amélia chorara quando era recém-nascida;
de como lhe dava de mamar na cama e adormecia com ela nos braços, sempre com medo de virar-me e magoá-la. Mas no teu caso, até tirar-te do berço podia ser um perigo.
Até esfregar-te as costas.
Olhei para Piper.
- Talvez devesses levá-la...
Ela sentou-se ao meu lado e passou um dedo pela moleirinha da tua cabeça.
- Charlotte - disse Piper - ela não se parte.
Ambas sabíamos que era mentira, mas antes que eu pudesse confrontá-la, Amélia entrou repentinamente no quarto, com neve nas luvas e no gorro de lã.
- Ela está aqui, ela está aqui - cantarolou a tua irmã. No dia em que lhe disse que vinhas a caminho, perguntou se podias vir à hora de almoço. Quando lhe disse
que tinha de esperar cerca de cinco meses, decidiu que isso era muito tempo e fingiu que já tinhas chegado, transportando a sua boneca preferida e chamando-lhe Maninha.
Às vezes, quando Amélia ficava aborrecida ou distraída, deixava cair a boneca de cabeça e o teu pai ria. "Ainda bem que é a versão de treino", dizia ele.
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Sean apareceu à entrada da porta no momento em que Amélia subia para cima da cama, para o colo de Piper, para dizer de sua justiça.
- Ela é demasiado pequena para patinar comigo - disse Amélia. - E porque é que está vestida de múmia?
- São fitas - disse eu. - É como num embrulho de oferta.
Foi a primeira vez que menti para te proteger e, como se soubesses, escolheste aquele momento para acordar. Não choraste, não te mexeste.
- O que aconteceu aos olhos dela? - arquejou Amélia, enquanto todos olhávamos para a característica distintiva da tua doença: a parte branca das escleróticas, que
refulgiam num azul-vivo, eléctrico.
A meio da noite, as enfermeiras do turno da madrugada entraram de serviço. Tu e eu estávamos a dormir profundamente quando a mulher entrou no quarto. Recuperei a
consciência, concentrando-me na farda dela, na placa de identificação, nos seus cabelos ruivos frisados.
- Espere - disse eu, enquanto ela alcançava o teu cobertor. Tenha cuidado.
Ela sorriu indulgentemente.
- Tenha calma, mãe. Só verifiquei fraldas umas dez mil vezes. Mas isso foi antes de eu ter aprendido a ser a tua voz e,
quando ela desentalou a ponta do cobertor que te envolvia, puxou demasiado depressa. Viraste-te de lado e começaste a guinchar - não era o choramingar que fizeras
pouco antes, quando estavas com fome, mas o guincho penetrante que ouvi quando nasceste.
- Magoou-a!
- Ela só não gosta de ser acordada a meio da noite...
Não conseguia imaginar nada pior do que os teus gritos, mas então a tua pele ficou tão azul como os teus olhos, e a respiração transformou-se numa sucessão de arquejos.
A enfermeira debruçou-se com o estetoscópio.
- O que aconteceu? O que é que ela tem? - perguntei.
Ela franziu a testa enquanto te auscultava o peito e então de repente ficaste inerte. A enfermeira carregou num botão por trás da cama.
- Paragem cardio-respiratória - ouvia-a dizer, e o pequeno quarto ficou subitamente cheio de gente, apesar de estarmos a meio da noite. As palavras voavam como mísseis:
"hipoxémica...
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gás do sangue arterial... SO2 a quarenta e seis por cento... administrando FIO2."
- vou começar as compressões torácicas - disse alguém.
- Ela tem OI.
- É melhor viver com algumas fracturas do que morrer sem elas.
- Precisamos de um aparelho de radiologia torácica portátil...
- Não havia ruídos respiratórios do lado esquerdo quando isto começou...
- Não vale a pena esperar pela radiografia. Pode haver um pneumotórax de tensão...
Por entre as colunas de corpos a deslocarem-se, vi o reflexo de uma agulha afundar-se entre as tuas costelas e, depois, passados alguns instantes, um bisturi a fazer
um corte um pouco abaixo, a gota de sangue, a pinça, a extensão de tubo que estava a ser inserida dentro do teu peito. Vi-os coserem o tubo no lugar, saindo do teu
corpo a serpentear.
Quando Sean chegou, de olhos desvairados, muito agitado, já tinhas sido levada para a unidade de cuidados intensivos neonatais.
- Eles fizeram-lhe um corte - solucei, as únicas palavras que consegui encontrar e, quando ele me envolveu nos braços, finalmente deixei correr todas as lágrimas
que não chorara por estar demasiado aterrorizada.
- Sr. e Sr.a O'Keefe? Sou o Dr. Rhodes - um homem que parecia ter idade para estar no liceu espreitou para dentro do quarto, e Sean apertou-me a mão com força.
- A Willow está bem? - perguntou Sean.
- Podemos vê-la?
- Em breve - disse o médico, e o nó que tinha dentro de mim dissolveu-se. - Uma radiografia torácica confirmou uma costela fracturada. Esteve hipoxémica durante
alguns minutos, o que deu origem a um pneumotórax em expansão, um desvio do mediastino e uma paragem cardio-respiratória.
- Na nossa língua - rugiu Sean. - Por amor de Deus.
- Esteve alguns minutos sem oxigénio, Sr. O'Keefe. O coração, a traqueia e os vasos sanguíneos mais importantes desviaram-se para o lado oposto do corpo devido ao
ar que lhe encheu a cavidade torácica. O tubo torácico permitirá que voltem para o seu lugar.
- Sem oxigénio - disse Sean, e as palavras ficaram-lhe presas na garganta. - Está a falar de lesões cerebrais.
- É possível. Só saberemos daqui a algum tempo.
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Sean inclinou-se para a frente, de mãos tão firmemente cruzadas que os nós dos dedos sobressaíam num relevo muito branco.
- Mas o coração...
- Agora ela está estável... embora haja a possibilidade de ter outro colapso cardiovascular. Mas não temos a certeza de como reagirá o corpo ao que fizemos para
a salvar.
Irrompi num pranto.
- Não quero que ela volte a passar por aquilo. Não posso deixá-los fazerem-lhe isso, Sean.
O médico parecia abalado.
- Talvez queiram considerar uma ONR. É uma ordem de não reanimação que ficará registada no ficheiro clínico dela. Basicamente diz que se voltar a acontecer algo
semelhante a isto, não querem que sejam tomadas medidas extraordinárias para reanimar a Willow.
Passei as últimas semanas de gravidez a preparar-me para o pior e, afinal, nem sequer cheguei lá perto.
- Pensem nisso - disse o médico.
- Talvez - disse Sean -, ela não esteja destinada a ficar aqui connosco. Talvez seja a vontade de Deus.
- Então e a minha vontade? - perguntei. - Eu quero-a. Sempre a quis.
Ele olhou para mim, magoado.
- E achas que eu não?
Pela janela, via a encosta do relvado do hospital coberta de neve resplandecente. Estava um dia luminoso, ofuscante; nunca poderíamos adivinhar que há algumas horas
houvera uma violenta tempestade de neve. Um pai empreendedor, tentando distrair o filho, levara um tabuleiro da cantina lá para fora. O rapaz estava a deslizar pela
encosta abaixo, aos gritos de entusiasmo, levantando um rasto de neve atrás de si. Levantou-se e acenou para o hospital, onde alguém devia estar a olhar lá para
fora por uma janela igual à minha. Interroguei-me se a mãe estaria no hospital, a ter outro bebé. Se estaria no quarto ao lado, naquele preciso momento, a ver o
filho deslizar.
"A minha filha", pensei distraidamente, "nunca poderá fazer aquilo."
Piper segurou-me na mão enquanto olhava para ti na UCIN. O tubo torácico ainda serpenteava por entre as tuas costelas maltratadas; braços e pernas firmemente ligados.
Vacilei um pouco, de pé.
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- Estás bem? - perguntou Piper.
- Não é comigo que deves preocupar-te - olhei para ela. Perguntaram-me se queria assinar uma ONR.
Piper abriu muito os olhos.
- Quem te perguntou isso?
- O Dr. Rhodes...
- Ele é um médico interno - disse ela, com tanto desagrado como se tivesse dito "Ele é um nazi." - Ainda nem sabe o caminho para a cantina, quanto mais qual o protocolo
para falar com uma mãe que acabou de ver a filha recém-nascida sofrer uma paragem cardio-respiratória com os seus próprios olhos. Nenhum pediatra recomendaria uma
ONR a um recém-nascido antes de serem realizados exames cerebrais que provem lesões irreversíveis...
- Eles cortaram-na à minha frente - disse, com a voz trémula.
- Ouvi as costelas dela partirem-se quando tentaram pôr o coração a bater outra vez.
- Charlotte...
- Assinarias uma?
Visto que ela não respondeu, dirigi-me ao outro lado do berço, e tu ficaste presa entre nós como um segredo.
- É assim que vai ser o resto da minha vida?
Piper não respondeu durante bastante tempo. Ficámos a ouvir a sinfonia de zumbidos e apitos que te rodeava. Vi-te acordar sobressaltada, os dedinhos dos pés a enrolarem-se
para cima, os braços muito abertos.
- O resto da tua vida não - disse Piper. - O resto da vida da Willow.
Mais tarde, nesse dia, com as palavras de Piper a ressoarem-me nos ouvidos, assinei uma ordem de não reanimação. Era um apelo de misericórdia preto no branco, até
lermos nas entrelinhas: foi a primeira vez que menti e disse que desejava que nunca tivesses nascido.
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"A maioria das coisas quebra-se, incluindo os corações. As lições da vida não se medem em sabedoria, mas em cicatrizes e calosidades."
WALLACE STEGNER, THE SPECTATOR BIRD
Engrossar: tornar mais consistente.
Na maioria das vezes, quando nos referimos a uma pessoa grossa, estamos a referir-nos a uma pessoa mal educada. Mas na cozinha, engrossar é tornar qualquer coisa
mais consistente sem pressas. Engrossamos os ovos acrescentando um líquido quente em pequenas quantidades. A ideia é aumentar a temperatura sem que coagulem. O resultado é um creme que pode ser usado como molho de uma sobremesa ou ser incorporado numa sobremesa complexa.
Eis uma coisa interessante: a consistência do produto acabado não tem nada a ver com o tipo de liquido utilizado para aquecer. Quanto mais ovos se utilizarem, mais espesso e rico será o produto acabado.
Ou, por outras palavras, é a substância que temos de início que determinará o resultado.
CREME PATISSERIE
2 chávenas de leite gordo
6 gemas à temperatura ambiente
150 gramas de açúcar
50 gramas de amido de milho
1 colher de chá de baunilha
Deixar o leite levantar fervura numa frigideira antiaderente. Numa tigela de aço inoxidável bater as gemas, o açúcar e o amido de milho. Engrossar as gemas utilizando
leite. Voltar a aquecer a mistura de leite e gemas, mexendo sempre. Quando a mistura começar a ficar mais espessa, mexer mais depressa até levantar fervura, depois
retirar do lume. Juntar a baunilha e deitar numa tigela de aço inoxidável. Polvilhar com um pouco de açúcar e colocar película aderente mesmo por cima do creme.
Colocar no frigorífico e servir fresco. Pode ser usado como recheio para tartes de fruta, mil-folhas, choux, éclairs, etc.
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Amélia
Fevereiro de 2007
Nunca tive férias em toda a minha vida. Nem sequer nunca saí de New Hampshire, a menos que contemos com aquela vez que fui contigo e com a mãe ao Nebraska - e até
tu terás de admitir que ficar sentada num quarto de hospital durante três dias a ver desenhos animados muito antigos do tom e jerry enquanto te faziam exames no
hospital pediátrico Shriners é muito diferente de ir à praia ou ao Grand Canyon. Por isso podes imaginar como fiquei entusiasmada quando soube que a nossa família
estava a planear ir ao Disney World, íamos durante as férias escolares de Fevereiro. Ficaríamos num hotel que tinha um monocarril que passava mesmo a meio.
A mãe começou a fazer uma lista dos divertimentos em que podíamos andar: Small World, Dumbo o Elefante Voador; o Voo do Peter Pan.
- Esses são para bebés - queixei-me.
- São aqueles que são seguros - disse ela.
- Space Mountain - sugeri.
- Piratas das Caraíbas - respondeu ela.
- Boa - gritei. -vou de férias pela primeira vez na vida e nem sequer vou divertir-me. - Depois saí dali intempestivamente dirigindo-me para o nosso quarto e, embora
já nem sequer estivesse lá em baixo, era capaz de imaginar o que os nossos pais estavam a dizer: "Lá está a Amélia a ser difícil outra vez."
É engraçado, quando acontecem coisas destas (ou seja, a toda a hora), não é a Mãe que tenta suavizar as coisas. Está demasiado ocupada a ver se estás bem, por isso
essa tarefa cabe ao pai. Ah, estás a ver, é outra coisa de que tenho ciúmes: ele é o teu verdadeiro pai, mas é só o meu padrasto. Não conheço o meu verdadeiro pai;
ele e a minha mãe separaram-se mesmo antes de eu nascer e ela jura que a ausência dele foi o
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melhor presente que me podia ter dado. Mas o Sean adoptou-me e parece que gosta de mim tanto quanto gosta de ti - embora eu tenha aquela nuvem negra a pairar sobre
a minha cabeça que não me deixa esquecer que isso pode não ser verdade.
- Meei - disse ele quando entrou no quarto (é a única pessoa que deixo que me trate assim, faz-me lembrar os vermes que aparecem na farinha, mas não quando é o pai
a dizê-lo) - sei que estás preparada para andar nos divertimentos para os mais crescidos. Mas estamos a tentar que a Willow também se divirta.
"Porque quando a Willow está a divertir-se, todos estamos a divertir-nos." Ele não disse isso, mas eu ouvi na mesma.
- Só queremos ser uma família de férias - disse ele. Hesitei.
- O carrossel das chávenas - ouvi-me dizer.
O pai disse que ia interceder por mim e, embora a mãe estivesse firmemente contra - e se batesses nas paredes rígidas de gesso da chávena? - ele convenceu-a de que
podíamos rodopiar em círculos contigo, enfiada no meio de nós, para não te magoares. Depois sorriu para mim, tão orgulhoso de si próprio por ter mediado este acordo
que não tive coragem de lhe dizer que me estava nas tintas para o carrossel das chávenas.
Lembrei-me dele porque há alguns anos tinha visto um anúncio do Disney World na televisão. Mostrava a Fada Sininho a voar por cima das cabeças dos alegres visitantes.
Havia uma família com duas filhas da nossa idade, e iam no carrossel das chávenas do Chapeleiro Louco. Não conseguia tirar os olhos delas - a filha mais velha até tinha cabelos castanhos, como eu; e se semicerrássemos os olhos, o pai delas era muito parecido com o pai. A família parecia tão feliz que me fez doer o estômago só de vê-la. Sabia que as pessoas do anúncio provavelmente nem sequer eram uma família verdadeira - que a mãe e o pai provavelmente eram dois actores solteiros, que o mais provável era terem conhecido as filhas a fingir; naquela mesma manhã, ao chegarem ao cenário para filmarem o anúncio - mas eu queria que fossem. Queria
acreditar que riam, sorriam, enquanto rodopiavam descontroladamente.
Escolham dez desconhecidos ao acaso, metam-nos numa sala e perguntem-lhes de qual de nós sente mais pena - de ti ou de mim - e todos sabemos quem escolherão. É um
bocado difícil ignorar os teus moldes de gesso; e o facto de seres do tamanho de uma criança de dois anos, embora tenhas cinco; e o movimento estranho das tuas ancas quando tens saúde suficiente para andar Não estou a dizer que seja fácil para ti. Só que para mim é pior, porque de cada vez que acho que a minha vida
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é uma porcaria, olho para ti e fico a odiar-me ainda mais por ter pensado primeiro em mim própria.
Eis um exemplo de como é estar no meu lugar:
"Amélia, não saltes em cima da cama, vais magoar a Willow."
"Amélia, quantas vezes te disse que não deixes as meias no chão porque a Willow pode tropeçar nelas?"
"Amélia, desliga a televisão" (embora só estivesse a ver há meia hora, e tu já estivesses a fitá-la como um zombie há cinco horas a fio).
Sei como isto me faz parecer egoísta, mas, por outro lado, saber que uma coisa é verdade não faz com que não a sintamos. E posso só ter doze anos, mas acreditem,
é tempo suficiente para saber que a nossa família não é como as outras, e nunca será. Um exemplo ilustrativo: Que família leva uma mala suplementar cheia de ligaduras
e moldes de gesso à prova de água, só para prevenir? Que mãe passa dias a investigar os hospitais de Orlando?
Era o dia da partida e, enquanto o pai punha as coisas no carro, tu e eu estávamos sentadas à mesa da cozinha a jogar à Pedra, Papel ou Tesoura.
-Vai - disse eu, e ambas fizemos tesoura.Já devia saber; fazes sempre tesoura. -Vai - disse eu outra vez, e desta vez fiz pedra. - A'pedra quebra a tesoura - disse
eu, colocando o punho por cima da tua mão.
- Cuidado - disse a mãe, embora estivesse virada para o lado oposto.
- Ganhei.
- Ganhas sempre. Ri de ti.
- Isso é porque fazes sempre tesoura.
- O Leonardo da Vinci inventou as tesouras - disseste tu. De maneira geral, eras um poço de informações que mais ninguém sabia ou se dava ao trabalho de saber, porque
estavas sempre a ler, ou a navegar na Internet ou a assistir a programas do Canal de História que me faziam dormir As pessoas ficavam impressionadas por se depararem
com uma criança de cinco anos que sabia que os autoclismos se despejavam em Mi bemol ou que a palavra mais antiga da língua inglesa é town, mas a mãe disse que
muitas crianças com OI aprendem a ler com facilidade e possuem capacidades verbais avançadas. Calculei que fosse como um músculo: o teu cérebro habituou-se melhor do que
o resto do corpo, que estava sempre a partir-se; não admira que parecesses um pequeno Einstein.
- Não me esqueci de nada? - perguntou a mãe, mas estava a falar sozinha. Verificou a lista pela enésima vez. - A carta - disse, e depois virou-se para mim. -Amélia, precisamos do bilhete do médico.
Era uma carta do Dr Rosenblad a afirmar o óbvio: que tens OI e que, em caso de emergência, estás a ser tratada por ele no Hospital Pediátrico
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- o que era realmente bastante engraçado, visto que as tuas fracturas eram uma emergência atrás da outra. Estava no porta-luvas da carrinha, ao lado do registo de
propriedade e do livrete daToyota, juntamente com um mapa rasgado do Massachusetts, um recibo da Jiffy Lube um pedaço de pastilha elástica que perdera o papel de
embrulho que estava cheio de pêlos. Tinha feito uma vez o inventário quando a mãe estava a pagar a gasolina.
- Se está na carrinha, porque não podes tirá-la quando formos a caminho do aeroporto?
- Porque vou esquecer-me - disse a mãe quando o pai entrou.
- já está tudo pronto - disse ele. - O que dizes, Willow? Vamos visitar o Mickey?
Mostraste-lhe um enorme sorriso, como se o Rato Mickey fosse real e não apenas uma rapariga adolescente a usar uma grande cabeça de plástico num emprego durante as férias.
- O aniversário do Rato Mickey é no dia dezoito de Novembro anunciaste, enquanto ele te ajudava a descer da cadeira. - A Amélia ganhou-me à Pedra, Papel ou Tesoura.
- Isso é porque fazes sempre tesoura - disse o pai.
A mãe franziu a testa ao olhar para a lista uma última vez.
- Sean, arrumaste o Motrin?
- Dois frascos.
- E a máquina fotográfica?
- Bolas, tirei-a cá para fora e deixei-a em cima da cómoda lá em cima...
- olhou para mim. - Querida, podes ir buscá-la enquanto eu ponho a Willow no carro?
Acenei com a cabeça e subi as escadas. Quando desci, com a máquina fotográfica na mão, a mãe estava de pé, sozinha na cozinha a virar-se lentamente num círculo, como se não soubesse o que fazer sem a Willow ao seu lado. Desligou as luzes, trancou a porta de entrada, e eu corri para a carrinha. Dei a máquina fotográfica ao pai e apertei o cinto ao lado da tua cadeirinha e admiti para mim própria que por mais pateta que fosse ter doze anos e estar entusiasmada com uma viagem ao Disney World, eu estava mesmo. Estava a pensar no sol, nas canções da Disney e nos monocarris, em tudo menos na carta do Dr Rosenblad.
O que significa que tudo o que aconteceu foi por minha culpa.
Nem sequer chegámos a ir às malditas chávenas. Quando aterrámos e chegámos ao hotel já era fim de tarde. Dirigimo-nos para o parque temático e tínhamos acabado de
chegar à Main Street, EUA - o Castelo da Gata Borralheira estava ali à vista - quando se abateu sobre nós a tempestade perfeita. Disseste que estavas com fome e
fomos a uma geladaria
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tradicional. O pai ficou à espera na fila enquanto a mãe trazia guardanapos para a mesa onde eu estava sentada.
- Olha - disse eu, apontando para o Pateta a apertar a mão a uma criança pequena aos berros. No preciso instante em que a mãe deixou cair ao chão um guardanapo e
o pai te largou a mão para tirar a carteira, correste para a janela para ver o que eu queria mostrar-te e escorregaste no pequeno quadrado de papel.
Todos ficámos a ver em câmara lenta, a forma como as tuas pernas simplesmente cederam debaixo de ti e caíste com força com o traseiro no chão. Olhaste para nós e o branco dos teus olhos refulgiu azul, como acontece sempre que partes alguma coisa.
Era quase como se as pessoas no Disney World estivessem à espera que isto acontecesse. Assim que a mãe disse ao homem que servia o gelado que tinhas fracturado a perna, dois homens do departamento médico apareceram com uma maca. com a mãe a dar ordens, como costuma fazer sempre quando está ao pé dos médicos, conseguiram colocar-te em cima dela. Não estavas a chorar mas também quase nunca choras quando fracturas qualquer coisa. Uma vez, fracturei o dedo mindinho quando estava a jogar tetherball na escola e não consegui evitar perder o controlo quando começou a ficar vermelho e inchado como um balão, mas tu nem sequer choraste quando partiste um braço numa fractura exposta.
- Não te dói? - murmurei, enquanto levantavam a maca para que ganhasse subitamente rodas.
Estavas a morder o lábio inferior e acenaste com a cabeça.
Estava uma ambulância à nossa espera quando chegámos ao portão do Disney World. Lancei um último olhar a Main Street, EUA, para o cimo do cone de metal que albergava a Space Mountain, para as crianças que corriam lá para dentro, em vez de estarem a sair e então entrei no carro que alguém tinha arranjado para que o pai e eu pudéssemos
ir contigo e com a mãe para o hospital.
Era esquisito ir a um serviço de urgências que não era o habitual.Toda a gente no hospital da nossa zona te conhecia e os médicos ouviam sempre aquilo que a mãe
lhes dizia. Mas aqui ninguém lhe prestava atenção. Disseram que podia ser não apenas uma mas duas fracturas femorais, e isso podia significar hemorragia interna.
A mãe entrou na sala de exames contigo para fazeres uma radiografia, e o pai e eu ficámos sentados em cadeiras de plástico verdes na sala de espera.
-Tenho muita pena, Meei - disse ele, e eu limitei-me a encolher os ombros. -Talvez não seja uma fractura complicada e possamos voltar ao parque amanhã. - Um homem de fato preto no Disney World disse ao
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meu pai que seríamos compensados, o que quer que seja que isso signifique, se quiséssemos voltar noutro dia.
Era sábado à noite e as pessoas que entravam no serviço de urgências eram muito mais interessantes do que o programa da televisão que estava a dar. Havia dois rapazes que pareciam ter idade suficiente para estarem na faculdade, ambos a sangrarem do mesmo sítio na testa e a rirem sempre que olhavam um para o outro. Havia um homem idoso, de calças de lantejoulas, agarrado ao lado direito do estômago e uma rapariga que só falava espanhol, com dois bebés gémeos a chorarem.
De repente, a mãe saiu de rompante pela porta dupla à direita, com uma enfermeira a correr atrás dela e outra mulher de saia justa às riscas finas e sapatos de
salto alto vermelhos.
- A carta - gritou. - Sean, o que lhe fizeste?
- Que carta? - perguntou o pai, mas eu já sabia ao que ela se referia e de um momento para o outro achei que ia vomitar.
- Sra O'Keefe - disse a mulher - por favor Vamos fazer isto num local mais privado.
Tocou no braço da mãe, e... bem, a única forma de descrever a cena é dizer que a mãe se dobrou ao meio. Fomos levados para uma sala com um sofá vermelho muito gasto,
uma pequena mesa oval e flores artificiais numa jarra. Havia uma fotografia de dois pandas na parede, e fiquei a olhar para ela enquanto a mulher da saia justa - disse que se chamava Donna Roman, e que era do Departamento de Crianças e Famílias - falava com os nossos pais.
- O Dr Rice contactou-nos porque tem algumas preocupações acerca das lesões da Willow - disse ela. - A curvatura do braço e as radiografias indicam que esta não foi a sua primeira fractura, não é verdade?
-A Willow sofre de osteogénese imperfeita - disse o pai.
- Já lhe disse - disse a mãe. - Ela não quis saber
- Sem a declaração de um médico, temos de investigar isto mais pormenorizadamente. É apenas um protocolo, para proteger as crianças...
- Eu gostava de proteger a minha filha - disse a mãe, numa voz afiada como uma lâmina. - Gostava que me deixasse voltar lá para dentro para poder fazê-lo.
- O Dr Rice é um especialista...
- Se fosse um especialista saberia que estou a dizer a verdade - ripostou a mãe.
- Pelo que percebi, o Dr Rice está a tentar contactar o médico da sua filha - disse Donna Roman - mas, visto que é sábado à noite, está a
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ter dificuldade em fazê-lo. Por isso, entretanto, gostaria que assinassem autorizações para podermos fazer um exame completo à Willow: uma cintigrafia óssea e um
exame neurológico e, entretanto, podemos conversar um pouco.
- A última coisa de que a Willow precisa é de fazer mais exames disse a mãe.
- Olhe, Sr.a Roman - interrompeu o pai. - Sou um agente da polícia. Acha realmente que ia mentir-lhe?
- Já falei com a sua mulher, Sr O'Keefe, e também quero falar com o senhor... mas primeiro gostaria de conversar com a irmã da Willow.
Abri e fechei a boca, mas não disse nada. A mãe estava a olhar para mim como se quisesse usar percepção extra-sensorial e eu olhei para o chão até ver aqueles sapatos de salto alto vermelhos pararem à minha frente.
- Deves ser a Amélia - disse ela, e eu acenei com a cabeça. - Porque não vamos dar um passeio?
Quando saímos dali, um agente da polícia, que parecia o pai quando vai para o trabalho, entrou pela porta.
- Separe-os - disse Donna Roman, e ele acenou com a cabeça. Então levou-me até à máquina dos doces ao fundo do corredor. O que preferes? Eu sou viciada em chocolate, mas talvez prefiras as batatas fritas!
Era muito mais simpática para mim quando os pais não estavam lá apontei imediatamente para uma barra de Snickers, calculando que o melhor era aproveitar enquanto
podia.
- Calculo que não era bem isto que esperavas das tuas férias - disse ela, e eu abanei a cabeça. - Isto já aconteceu à Willow antes?
- já. Está sempre a partir algum osso.
- Como?
Embora devesse ser uma pessoa inteligente, a verdade é que esta senhora não parecia. Como é que as pessoas partem ossos?
- Cai, acho eu. Ou qualquer coisa lhe bate.
-Alguma coisa lhe bate? - repetiu Donna Roman.- Ou queres dizer alguém?
Houve uma vez no jardim-de-infância em que uma criança te deu um encontrão no recreio. Eras perita em esquivares-te, mas naquele dia não foste suficientemente rápida.
- Bem - disse eu - às vezes isso também acontece.
- Quem estava com a Willow quando ela se magoou desta vez, Amélia?
Recordei-me do balcão da geladaria, do pai, a dar-te a mão.
- O meu pai.
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A boca dela apertou-se numa linha. Enfiou moedas noutra máquina e saiu uma garrafa de água. Abriu a tampa. Queria que ela ma oferecesse, mas tinha vergonha de pedir
- Estava perturbado?
Lembrei-me do rosto do meu pai enquanto nos dirigíamos para o hospital a acelerar atrás da ambulância. Dos punhos dele apoiados nas coxas enquanto esperávamos para que nos dissessem alguma coisa sobre a última fractura da Willow.
- Sim, muito perturbado.
Donna Roman ajoelhou-se para olhar-me nos olhos. -Amélia - disse ela - podes contar-me o que aconteceu verdadeiramente. Eu garanto que ele não vai magoar-te.
De repente, apercebi-me do que ela achava que eu queria dizer
- O meu pai não estava zangado com a Willow - disse eu. - Não lhe bateu. Foi um acidente!
- Acidentes desses não têm de acontecer
- Não, não está a perceber., é por causa da Willow...
- Nada do que as crianças possam fazer justifica os maus tratos resmungou Donna Roman em voz baixa, mas eu conseguia ouvi-la perfeitamente. Naquela altura já estava a regressar à sala onde estavam os meus pais e, embora eu gritasse tentando fazê-la ouvir-me, não me prestava atenção.
- Sr e Sr.a O'Keefe - disse ela - vamos colocar as vossas filhas sob protecção legal.
- Porque não vamos até à esquadra conversar? - dizia o polícia ao pai. A mãe abraçou-me.
- Protecção legal? O que significa isso?
com uma mão firme - e a ajuda do polícia - Donna Roman tentou afastá-la de mim.
-Vamos apenas manter as crianças em segurança enquanto esclarecemos este assunto. A Willow vai passar aqui a noite. - Ela começou a levar-me para fora da sala, mas eu agarrei-me à ombreira da porta.
- Amélia - disse a minha mãe, extremamente agitada. - O que disseste?
-Tentei dizer-lhe a verdade!
- Para onde levam a minha filha?
- Mãe! - gritei, e tentei alcançá-la.
-Vem, minha querida - disse Donna Roman, e puxou-me as mãos até ter de largar, até ser arrastada para fora do hospital aos pontapés e aos gritos. Fiquei assim durante cinco minutos, até ficar completamente inerte. Até perceber porque não choras, mesmo que doa: há algumas dores que não podemos exprimir em voz alta.
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Já vira e ouvira as palavras lar de acolhimento antes, em livros que li e em programas de televisão que vi. Achei que se destinavam a órfãos e crianças de bairros
degradados cujos pais eram traficantes de droga e não para raparigas como eu que viviam em boas casas, recebiam muitos presentes no Natal e nunca se deitavam com fome. Mas, afinal, a Sr.a Ward, que dirigia aquele lar de acolhimento temporário, podia ter sido uma mãe normal. Acho que já tinha sido, a avaliar pelas fotografias que cobriam todas as superfícies como papel de parede. Recebeu-nos à porta de roupão vermelho e chinelos que pareciam porquinhos cor-de-rosa.
- Deves ser a Amélia - disse ela, ao abrir a porta um pouco mais. Estava à espera de um grupo de crianças, mas afinal eu era a única que
ia ficar em casa da Sr.a Ward. Levou-me para a cozinha que cheirava a detergente da loiça e a massa cozida. Colocou um copo de leite e um monte de Oreos à minha frente.
- Deves estar cheia de fome - disse ela e, embora estivesse, abanei a cabeça. Não queria aceitar nada dela; podia parecer que estava a ceder.
O meu quarto tinha uma cómoda, uma pequena cama e um edredão com cerejas estampadas. Havia um televisor com comando. Os meus pais nunca me deixariam ter um televisor
no quarto; a minha mãe dizia que era a Raiz de Todo o Mal. Disse isso à Sr.aWard e ela riu.
-Talvez seja - disse ela - mas, por outro lado, às vezes Os Simpson são o melhor remédio. - Abriu uma gaveta e tirou uma toalha limpa e uma camisa de noite dois tamanhos acima do meu. Interroguei-me de onde teria vindo. Interroguei-me durante quando tempo a última rapariga que a usou teria dormido naquela cama.
- Estou mesmo ali ao fundo do corredor se precisares de mim - disse a Sra Ward. - Queres mais alguma coisa?
A minha mãe.
O meu pai.
Tu.
Ir para casa.
- Durante quanto tempo - consegui dizer, as primeiras palavras que disse em voz alta naquela casa - tenho de ficar aqui?
A Sra Ward sorriu tristemente.
- Não sei, Amélia.
- Os meus pais... também estão num lar de acolhimento? Ela hesitou.
- É mais ou menos isso.
- Quero ver a Willow.
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- Amanhã logo de manhã, vamos ao hospital - disse a Sr.a Ward. Que achas?
Acenei com a cabeça. Queria tanto acreditar nela. com aquela promessa aconchegada nos braços como se fosse o meu alce de peluche lá de casa, conseguiria dormir a noite toda. Conseguiria convencer-me de que as coisas tinham de melhorar.
Deitei-me e tentei recordar-me daquelas informações inúteis que costumavas enumerar antes de dormir quando eu estava sempre a mandar-te calar: as rãs têm de fechar
os olhos para engolir Um lápis consegue traçar uma linha de cinquenta e seis quilómetros de comprimento. Cleveland, lida ao contrário é DNA levei C.
Estava a começar a perceber porque trazias contigo todos aqueles factos estúpidos como outras crianças trazem uma mantinha - se os repetisse vezes sem conta, quase
me fazia sentir melhor. Só não tinha a certeza se era porque isto me ajudava a saber mais qualquer coisa, quando o resto da minha vida parecia ser um grande ponto
de interrogação, ou se era porque me fazia lembrar de ti.
Ainda tinha fome, ou estava vazia, não sabia muito bem. Depois de a Sra Ward ter ido para o quarto dela, saí da cama em bicos de pés. Acendi a luz do corredor e
fui à cozinha. Ali, abri o frigorífico e deixei que a luz e o frio me incidissem nos pés descalços. Fiquei a olhar para a carne do almoço, guardada em embalagens
de plástico; para a mistura de maçãs e pêssegos num recipiente; para os pacotes de sumo de laranja e leite alinhados como soldados. Quando me pareceu ter ouvido um rangido lá em cima, agarrei no que pude: um cacete, um Tupperware de esparguete já cozinhado, uma mancheia daquelas Oreos. Corri de volta para o quarto e fechei
a porta, espalhando o meu tesouro em cima dos lençóis à minha frente.
Ao princípio foram só as Oreos. Mas depois o meu estômago roncou e comi o esparguete todo - com os dedos, porque não tinha garfo. Comi um pedaço de pão, e depois
outro, e mais outro, e quando dei por isso, só restava a película aderente. "O que se passa comigo?" pensei, olhando para o meu reflexo ao espelho. "Quem come um
cacete inteiro?" O meu aspecto já era suficientemente repulsivo - cabelos castanhos sem graça que ficavam todos frisados quando o tempo estava mau, olhos demasiado
afastados, aquele dente da frente torto, gordura suficiente para me sair um pneu da cintura das calças de ganga - mas por dentro era ainda pior. Imaginei-me como
um buraco negro, como aqueles que aprendemos em ciências no ano passado, que sugam tudo para o seu âmago. "Um vazio cheio de nada", chamou-lhe o professor.
Tudo o que eu tinha de bom e generoso, tudo o que as pessoas pensavam que eu era, fora envenenado pela parte de mim que desejava, no recesso mais escuro da noite,
ter uma família diferente. O meu verdadeiro
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ser era uma pessoa repulsiva que imaginava uma vida em que não tivesses nascido. O meu verdadeiro ser via-te a seres enfiada numa ambulância e desejara, por meio
segundo, poder ficar para trás no Disney World. O meu verdadeiro ser era uma alma sem fundo que era capaz de comer um cacete inteiro em dez minutos e ainda ter espaço
para mais.
Odiava-me a mim própria.
Não sei dizer-te o que me fez ir à casa de banho ao lado do quarto
- com papel de parede salpicado de rosas cor-de-rosa, sabonetes com formas que se enroscavam em pratinhos junto ao lavatório - e enfiar o dedo pela garganta abaixo.
Talvez fosse por sentir aquela substância tóxica a penetrar na corrente sanguínea e quisesse fazê-la sair cá para fora.Talvez fosse um castigo. Talvez quisesse controlar
uma parte de mim, que era incontrolável, para que o resto voltasse ao seu lugar "As ratazanas não conseguem vomitar", disseste-me uma vez; ocorreu-me naquela altura.
Segurando nos cabelos com uma mão, vomitei para a sanita até estar afogueada, a suar, vazia e aliviada por saber que, sim, podia fazer uma coisa certa, embora me
fizesse sentir-me pior do que antes. com o estômago às voltas e o gosto amargo da bílis por trás da língua, sentia-me pessimamente - mas daquela vez havia uma razão
física a apontar.
Fraca e vacilante, voltei aos tropeções para a minha cama emprestada e alcancei o comando da televisão. Os olhos pareciam lixa e doía-me a garganta, mas não conseguia
dormir. Em vez disso mudei os canais de televisão, passando por programas de decoração de interiores, desenhos animados, talk shows e concursos de culinária
do Iron
Chef. Foi no Nick ot N/te, quando o D/ck van Dyke Show já estava a dar há vinte e dois minutos, que o velho anúncio da Disney foi transmitido - como uma piada, uma
brincadeira, um aviso. Foi como um murro no estômago: tinha a Fada Sininho, tinha gente alegre; tinha uma família que podíamos ser nós no carrossel das chávenas.
E se os meus pais nunca mais voltassem?
E se não melhorasses?
E se tivesse de ficar aqui para sempre?
Quando comecei a chorar, enfiei a ponta da almofada na boca para que a Sra Ward não ouvisse. Carreguei no botão do comando da televisão para tirar o som, e fiquei a ver a família no Disney World andar às voltas.
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Sean
É engraçado como podemos ter a certeza absoluta da nossa opinião sobre uma coisa até nos acontecer a nós. Como prender alguém - as pessoas que não pertencem à autoridade
acham aterrador saber que, mesmo quando existe causa provável, se cometam erros. Se for esse o caso, liberta-se a pessoa e diz-se que se estava apenas a cumprir o dever. É melhor do que correr o risco de deixar um criminoso em liberdade, sempre disse, e que se danem os defensores dos direitos civis que não seriam capazes de reconhecer um perpetrador se este lhes cuspisse em cima. Era nisto que acreditava, do fundo do coração, até ser levado para a esquadra da polícia de Lake Buena Vista sob suspeita de maus tratos infantis. Bastou olharem uma vez para as tuas radiografias, para as dúzias de fracturas saradas, para a curvatura do teu braço direito, que devia estar recto - para os médicos ficarem completamente descontrolados e telefonarem para o Departamento de Crianças e Famílias. O Dr. Rosenblad deu-nos um bilhete há anos que devia ter servido para nos tirar da prisão, visto que muitos pais de crianças com OI são acusados de maus tratos infantis quando se desconhecem
os antecedentes do caso - e Charlotte trá-lo sempre na carrinha, para prevenir. Mas naquele dia, com tudo aquilo que tínhamos de lembrar-nos de levar na viagem,
a carta ficou esquecida e, em vez disso, fomos levados para a esquadra da polícia para sermos interrogados.
- Isto é um disparate - gritei. - A minha filha caiu em público. Houve pelo menos dez testemunhas. Porque não os arrastam a eles para aqui? Aqui não há casos a sério que vos mantenham ocupados?
Estava a alternar, assumindo o papel de polícia bom e de polícia mau, mas, afinal, nenhum deles resulta quando se está perante
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outro polícia de uma jurisdição que não nos é familiar. Já era quase meia-noite de sábado - o que significava que o Dr. Rosenblad talvez só resolvesse o assunto
na segunda-feira. Já não via Charlotte desde que nos levaram para a esquadra para sermos interrogados
- em casos como este, separamos os pais para terem menos hipóteses de inventar uma história. O problema era que até a verdade parecia disparatada. Uma criança escorrega
num guardanapo e acaba com fracturas compostas em ambos os fémures? Não são precisos dezanove anos de serviço, como eu tenho, para suspeitar dessa história.
Imaginava que Charlotte estivesse muito abalada - estar longe de ti, enquanto estavas a sofrer, deixá-la-ia dilacerada e saber que Amélia estava sabia Deus onde era ainda mais devastador. Não conseguia deixar de pensar em como Amélia detestava dormir de luzes apagadas, em como tinha de entrar sorrateiramente no quarto a meio da noite para desligá-las quando já estivesse a dormir. "Tens medo?" perguntei-lhe uma vez, e ela disse que não. "Só não quero perder nada." Vivemos em Bankton, New Hampshire uma cidadezinha em que é possível percorrermos a rua e as pessoas buzinarem ao reconhecerem o carro; um lugar onde, se nos esquecermos do cartão de crédito, a rapariga da caixa da mercearia nos deixa levar as compras e voltar mais tarde para pagar. Não quer dizer que não tenhamos a nossa dose de coisas escabrosas
- os polícias vêem para além das vedações brancas de madeira e das portas envernizadas, onde se escondem todo o tipo de pesadelos: pessoas importantes da comunidade
que batem nas mulheres, alunos exemplares toxicodependentes, professores com pornografia infantil nos computadores. Mas parte do meu objectivo, enquanto agente da polícia, é deixar toda essa imundície na esquadra e garantir que tu e Amélia cresçam numa ignorância abençoada em relação a tudo isto. E em vez disso o que acontece? Vês a polícia da Florida entrar no serviço de urgências para levar os teus pais. Amélia é levada para um lar de acolhimento. Que marcas deixaria esta viagem de férias em ambas?
O detective deixou-me sozinho após duas rondas de interrogatório. Sabia que aquela era a maneira de ele me apertar - presumindo que a informação que estava a recolher entre as nossas sessõezinhas seria suficiente para me levar a confessar ter-te partido ambas as pernas.
Interroguei-me se Charlotte estaria algures naquele edifício, noutra sala de interrogatório ou numa cela. Se queriam que ficássemos aqui durante a noite, teriam de prender-nos - e tinham
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argumentos para isso. Uma nova lesão ocorrera ali, na Florida - e isso, juntamente com as lesões mais antigas que surgiam na radiografia, constituíam uma causa provável, até que alguém pudesse corroborar as nossas justificações. Mas que se dane - estava cansado de esperar. Tu e a tua irmã precisavam de mim.
Levantei-me e bati no vidro espelhado através do qual sabia que o detective estava a observar-me.
Ele voltou a entrar. Magro, ruivo, com borbulhas - ainda não devia ter trinta anos. Eu peso cem quilos - tudo músculo - e tenho um metro e noventa de altura; nos últimos três anos ganhei o concurso não oficial de levantamento de pesos da nossa esquadra. Podia tê-lo partido ao meio se quisesse. O que me fez recordar a razão pela qual estava a interrogar-me.
- Sr. O'Keefe - disse o detective. - Vamos recapitular isto mais uma vez.
- Quero ver a minha mulher.
- Agora não será possível.
- Pelo menos pode dizer-me se ela está bem?
A minha voz vacilou naquela última palavra e foi o suficiente para amolecer o detective.
- Ela está bem - disse. - Está com outro detective neste momento.
- Quero fazer um telefonema.
- Não está detido - disse o detective. Ri.
- Pois, está bem.
Ele indicou o telefone a meio da secretária com um gesto.
- Marque nove para ter linha - disse ele e, recostando-se na cadeira, cruzou os braços, como se quisesse deixar claro que não me daria privacidade.
- Sabe o número do hospital onde a minha filha está internada?
- Não pode telefonar-lhe.
- Porque não? Não estou detido - repeti.
- É tarde. Nenhum bom pai desejaria acordar a filha. Mas você não é um bom pai, pois não, Sean?
- Nenhum bom pai deixaria a filha sozinha no hospital, assustada e a sofrer - argumentei.
- Vamos recapitular o que precisa de ser recapitulado e talvez possa falar com a sua filha antes de ela adormecer.
- Não vou dizer nem mais uma palavra até poder falar com ela
- negociei. - Dê-me o número e eu conto-lhe o que aconteceu realmente hoje.
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Ficou a olhar para mim durante um minuto - também conhecia aquela técnica. Quando se faz isto há tanto tempo como eu faço, pode ler-se a verdade nos olhos de outra
pessoa. Quem sabe o que terá visto nos meus. Desilusão, talvez. Ali estava eu, um agente da polícia, e nem sequer era capaz de manter-te em segurança.
O detective agarrou no telefone e marcou. Pediu que ligassem para o teu quarto e falou numa voz suave com a enfermeira que atendeu. Depois passou-me o telefone.
- Tem um minuto - disse.
Estavas meio adormecida, depois de teres sido acordada pela enfermeira. O teu fio de voz era tão ténue que podia enfiá-lo no bolso.
- Willow - disse eu. - É o papá.
- Onde estás? Onde está a mamã?
- Vamos voltar para o pé de ti, querida. Vamos visitar-te amanhã, logo de manhã - não sabia se isso era verdade, mas não ia deixar que pensasses que te tínhamos
abandonado. - De um a dez? - perguntei.
Era um jogo que costumávamos jogar quando fazias uma fractura - dava-te uma escala de dor, e tu mostravas-me como eras corajosa.
- Zero - sussurraste, e foi como um soco.
Devias saber uma coisa sobre mim: não choro. Não choro desde que o meu pai faleceu, quando tinha dez anos. Já estive lá perto, deixa-me que te diga. Como quando nasceste, e quase morreste logo a seguir. Ou quando vi aquela expressão no teu rosto quando, aos dois anos, tiveste de voltar a aprender a andar depois de teres estado cinco meses engessada devido a uma fractura da anca. Ou hoje, quando vi Amélia a ser levada para longe. Não é que não me apeteça ceder - é que alguém tem de ser forte, para que vocês todas não tenham de o ser.
Por isso recompus-me e pigarreei.
- Diz-me qualquer coisa que eu não saiba, amor.
Era outro jogo que tínhamos: chegava a casa e recitavas qualquer coisa que tivesses aprendido naquele dia - sinceramente, nunca vi uma criança absorver informação como tu. O teu corpo pode estar sempre a atraiçoar-te, mas o teu cérebro compensou essa falha.
- Uma enfermeira disse-me que o coração de uma girafa pesa onze quilos - disseste.
- É enorme - respondi. Quanto pesaria o meu? - Agora, Wills, quero que te deites e tenhas uma noite descansada, para estares bem acordada amanhã de manhã quando
for buscar-te.
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- Prometes? Engoli.
- Claro, amor. Dorme bem, está bem? - voltei a dar o telefone ao detective.
- Que comovente - disse ele friamente, desligando. - Muito bem, sou todo ouvidos.
Apoiei os cotovelos na mesa que estava entre nós.
- Tínhamos acabado de chegar ao parque e havia uma geladaria perto da entrada. A Willow estava com fome, por isso decidimos ir lá. A minha mulher foi buscar guardanapos, a Amélia sentou-se à mesa e a Willow e eu ficámos à espera na fila. A irmã viu qualquer coisa pela janela e a Willow foi a correr para ver também. Caiu e fracturou ambos os fémures. Sofre de uma doença chamada osteogénese imperfeita e isso significa que os ossos dela são extremamente quebradiços. Uma em dez mil crianças nasce
com essa doença. Que raio de merda quer saber para além disto?
- É precisamente o depoimento que prestou há uma hora - o detective deixou cair a caneta. - Achei que ia contar-me o que aconteceu.
- E contei. Só que não lhe disse o que queria ouvir. O detective levantou-se.
- Sean O'Keefe - disse ele. - Está detido.
Às sete da manhã de domingo, estava a andar de um lado para o outro na sala de espera da esquadra da polícia e era um homem livre, à espera que Charlotte fosse libertada. O sargento de serviço que me deixou sair da cela arrastava os pés atrás de mim, pouco à vontade.
- Tenho a certeza de que compreende - disse ele. - Dadas as circunstâncias, estávamos apenas a cumprir o nosso dever.
Os meus maxilares cerraram-se.
- Onde está a minha filha mais velha?
- Alguém do Departamento de Crianças e Famílias vem cá trazê-la.
Disseram-me - por cortesia profissional - que Louie, o operador da central da esquadra de Bankton, confirmou que eu era um agente da polícia e também lhes disse que tinhas uma doença que fazia os teus ossos quebrarem-se facilmente, mas o Departamento de Crianças e Famílias só liberou a Willow depois de obter confirmação de um médico. Por isso fiquei metade da noite a rezar embora deva admitir que atribuo mais mérito à tua mãe do que a Jesus pela tua liberação. Charlotte viu episódios suficientes de Law
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Order para saber que assim que lhe lessem os direitos podia fazer uma chamada telefónica - e, para minha surpresa, não a utilizou para te contactar. Em vez disso,
telefonou a Piper Reece, a melhor amiga.
Gosto de Piper, a sério, é verdade. Deus sabe que a adoro pelos conhecimentos a que recorreu para telefonar a Mark Rosenblad às três da manhã num fim-de-semana e
convencê-lo a telefonar para o hospital onde estavas a ser tratada. Até devo o meu casamento a Piper - ela e Rob é que me apresentaram a Charlotte. Mas dito isto, às vezes Piper é... um bocadinho de mais. É inteligente, opinada e a maior parte das vezes está frustrantemente certa. A maioria das discussões que tive com a tua mãe basearam-se em coisas em que Piper a pôs a pensar. A questão é que, enquanto Piper consegue exibir aquela confiança e ousadia, em Charlotte isso parece um pouco deslocado - como uma criança a vestir as roupas da mãe. A tua mãe é mais sossegada, mais misteriosa; a força dela envolve-nos sem nos apercebermos em vez de nos atingir directamente. Se é em Piper que reparamos quando entramos numa sala, com os cabelos loiros curtos à rapaz, as pernas intermináveis e sorriso rasgado, é em Charlotte que damos por nós a pensar muito depois de termos saído. Mas, por outro lado, aquela ferocidade directa que torna Piper às vezes tão cansativa foi também o que me levou a eu ter sido libertado da prisão em Lake Buena Vista. Acho que significa, no grande registo cósmico, que tenho mais uma coisa a agradecer-lhe.
De repente a porta abriu-se e eu vi Charlotte - fatigada, pálida, com os caracóis castanhos a caírem-lhe do elástico do rabo-de-cavalo. Estava a repreender o polícia que a acompanhava:
- Se a Amélia não estiver aqui antes de eu contar até dez, juro que...
Meu Deus, como amo a tua mãe. Ela e eu pensamos exactamente o mesmo, quando é mesmo importante. Então reparou em mim e parou bruscamente.
- Sean! - gritou, e correu para os meus braços.
Quem me dera que soubesses o que é encontrar o pedaço que nos falta, aquilo que nos torna mais fortes. Charlotte para mim é isso. É pequena, só mede um metro e cinquenta e sete, mas debaixo das curvas sinuosas - com as quais está sempre a preocupar-se, por não vestir um tamanho trinta e seis como Piper - há músculos que nos deixariam surpreendidos, desenvolvidos ao longo de anos a pegar em sacas de farinha quando era chefe de pastelaria e - mais tarde - em ti e no teu equipamento.
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- Estás bem, querida? - murmurei junto aos cabelos dela. Cheirava a maçãs e a protector solar. Obrigou-nos todos a pô-lo mesmo antes de chegarmos ao aeroporto de Orlando. "Para ficarmos protegidos", disse ela.
Não respondeu, limitou-se a acenar com a cabeça junto ao meu peito.
Ouvimos um grito vindo da porta e ambos olhámos para cima a tempo de vermos Amélia correr para nós.
- Esqueci-me - soluçava ela. - Mãe, esqueci-me de levar o bilhete do médico. Desculpa. Desculpa.
- Ninguém teve culpa - ajoelhei-me e limpei-lhe as lágrimas com os polegares. - Vamos embora daqui.
O sargento de serviço ofereceu-se para nos levar ao hospital num carro da polícia, mas eu pedi-lhe para chamar um táxi; queria que ficassem a remoer o erro que cometeram em vez de tentarem compensar-nos. Quando o táxi parou em frente à porta da esquadra da polícia, os três movemo-nos em bloco saindo pela porta principal. Deixei Charlotte e Amélia entrarem no táxi antes de mim.
- Para o hospital - disse ao condutor. Fechei os olhos e encostei a cabeça ao apoio do assento.
- Graças a Deus - disse a tua mãe. - Graças a Deus que acabou.
Nem sequer abri os olhos.
- Ainda não acabou - disse eu. - Alguém vai ter de pagar.
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Charlotte
Basta dizer que a viagem de regresso não foi agradável. Colocaram-te um molde de gesso - certamente um dos piores aparelhos de tortura alguma vez criados pelos médicos. Era uma cobertura de gesso que ia dos joelhos às costelas. Estavas numa posição semi-reclinada, porque os teus ossos precisavam disso para poderem unir-se. O gesso mantinha as tuas pernas bem abertas para que os fémures pudessem sarar na posição correcta. Foi isto que nos disseram:
1. Ias ficar com este gesso durante quatro meses.
2. Depois seria cortado ao meio, e ficarias algumas semanas sentada nele como uma ostra na concha, para que os músculos do estômago recuperassem a força e conseguisses voltar a sentar-te direita.
3. A pequena abertura cortada na zona da barriga permitiria que o teu estômago pudesse expandir-se enquanto comias.
4. A ranhura entre as pernas era para poderes ir à casa de banho.
Foi isto que não nos disseram:
1. Não podias sentar-te completamente direita, nem deitares-te por completo.
2. Não podias voltar para New Hampshire num assento normal de avião.
3. Nem sequer podias deitar-te no assento de um carro normal.
4. Não podias sentar-te confortavelmente por longos períodos de tempo na tua cadeira de rodas.
5. As tuas roupas não te serviam por cima do gesso.
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Devido a tudo isto, não partimos imediatamente da Florida. Alugamos uma Suburban, com três assentos corridos, e instalámos Amélia atrás. Tu tinhas o banco do meio
todo para ti e almofadámo-lo com cobertores que comprámos no Wal-Mart. Também comprámos T-shirts e boxers de homem - as cinturas elásticas podiam ser esticadas por
cima do gesso e apertadas com um elástico de cabelo se puxássemos o tecido que sobrava para o lado e, se não olhássemos com muita atenção, quase passavam por calções.
Não eram bonitos, mas tapavam-te o meio das pernas que estavam abertas devido à posição do gesso.
Então começámos a percorrer o longo caminho para casa. Dormias; os analgésicos que te deram no hospital ainda te corriam nas veias. Amélia alternava entre fazer quebra-cabeças
e perguntar se faltava muito para chegarmos a casa. Comemos em restaurantes onde podíamos levar a comida ao carro porque não conseguias sentar-te à mesa.
Quando já viajávamos há sete horas, Amélia remexeu-se no banco de trás.
- Sabes como a professora Grey nos obriga sempre a escrever sobre coisas divertidas que fizemos nas férias? vou falar de vocês a tentarem arranjar maneira de levar a Willow à sanita para fazer chichi.
- Não te atrevas - disse eu.
- Bem, então a minha composição vai ser mesmo curta
- Podíamos tornar o resto da viagem mais divertida - sugeri a dada altura. - Parávamos em Memphis, em Graceland ou em Washington, D.C....
- Ou podíamos ir directos a casa e despachar isto - disse Sean. Olhei para ele. No escuro, uma faixa de luz verde do tablier
reflectia-se-lhe em volta dos olhos como uma máscara
- Podíamos ir à Casa Branca? - perguntou Amélia, mais animada.
Imaginei como Washington estaria uma estufa cheia de humidade; imaginei-nos a carregar-te em volta das nossas ancas ao subirmos os degraus do Museu do Ar e do Espaço. Pela janela a estrada negra era uma fita que estava sempre a desenrolar-se à nossa frente; não conseguíamos chegar à ponta.
- O teu pai tem razão - disse.
Quando finalmente chegámos a casa, já todos sabiam o que tinha acontecido. Havia um bilhete de Piper na bancada da cozinha, com uma lista de todas as pessoas que nos tinham trazido
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guisados que ela enfiara no frigorífico e um sistema de classificações: cinco estrelas (come este primeiro), três estrelas (melhor do que o Chef Boyardee), uma estrela
(alerta de botulismo). Aprendi há muito tempo, por causa de ti, que as pessoas que tentam ser amáveis preferem fazê-lo com um prato de macarrão com queijo
em vez de se envolverem pessoalmente. Entrega-se uma travessa, cumpre-se o dever - não é preciso envolver-se pessoalmente e fica-se com a consciência limpa. A comida
é a moeda de troca da
ajuda.
As pessoas estão sempre a perguntar-me como tenho passado, mas a verdade é que não querem realmente saber. Olham para os teus moldes de gesso - com padrão de camuflagem, ou rosa-vivo ou laranja-fluorescente. Vêem-me descarregar o carro e colocar o teu andador com os pés de bolas de ténis para poder subir o passeio enquanto, atrás de nós, os filhos balançam-se em barras de ferro e jogam ao mata e fazem todas aquelas coisas que te provocariam fracturas. Sorriem porque querem ser educadas ou politicamente correctas, mas estão sempre a pensar, "Graças a Deus. Graças a Deus que foi ela, em vez de ter sido eu".
O teu pai diz que não estou a ser justa quando digo estas coisas. Que algumas pessoas, quando perguntam, querem realmente dar uma ajuda. Digo-lhe que se quisessem realmente ajudar, não traziam tachos de macarrão com queijo - ofereciam-se antes para levar a Amélia a apanhar maçãs ou a patinar no gelo para poder sair de casa quando tu não podes, ou limpavam as sarjetas aqui de casa, que estão sempre a entupir-se depois das tempestades. E se quisessem ser realmente os nossos salvadores, telefonavam para a companhia de seguros e passavam quatro horas ao telefone a discutir por causa das contas, para eu não ter de o fazer.
Sean não percebe que a maioria das pessoas que se oferecem para ajudar fazem-no para se sentirem melhor e não para nos fazerem sentir melhor. Para ser sincera, não as censuro. É superstição: se ajudarmos uma família que precisa de ajuda... se lançarmos sal para trás das costas... se não pisarmos em rachas, então talvez fiquemos imunes. Talvez possamos convencer-nos de que isso nunca poderia acontecer-nos. ;
Não me interpretem mal; não estou a queixar-me. As outras pessoas olham para mim e pensam: "Coitada daquela mulher; tem uma filha incapacitada." Mas quando olho para ti só vejo uma menina que aos três anos já tinha decorado a letra toda da "Bohemian Rhapsody", a menina que vem ter comigo à cama sempre que há uma trovoada
- não porque tenhas medo, mas sim
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porque eu é que tenho - a menina cujo riso sempre vibrou dentro do meu corpo como um diapasão. Nunca desejaria uma criança com um corpo são, porque essa criança
não serias tu.
Na manhã seguinte passei cinco horas ao telefone com a companhia de seguros. Os percursos de ambulância não estavam cobertos pela nossa apólice; contudo, o hospital
na Florida não daria alta a ninguém com um molde de gesso como o teu a menos que a pessoa em questão fosse transportada numa ambulância. Era um paradoxo, mas eu
era a única pessoa a aperceber-me disso e deu origem a uma conversa que parecia um teatro do absurdo.
- Deixe-me esclarecer isto - disse eu ao quarto funcionário com quem falava naquele dia. - Está a dizer-me que não tinha de ir de ambulância; portanto não vão cobrir os custos.
- Exactamente, minha senhora.
No sofá, estavas apoiada em almofadas, a desenhar riscas no gesso com marcadores.
- Pode dizer-me qual seria a alternativa? - perguntei.
- Parece que podia ter mantido a paciente no hospital.
- Sabe que ela deve ficar com o gesso durante meses. Está a sugerir que mantenha a minha filha hospitalizada durante tanto tempo?
- Não, minha senhora. Só até poder ser disponibilizado um transporte.
- Mas a ambulância é o único transporte em que o hospital nos permite sair! - disse. Nessa altura a tua perna já parecia uma bengala de rebuçado. - A apólice cobriria a estadia adicional?
- Não, minha senhora. O número máximo de noites permitido para lesões como esta é...
- Pois, já falámos sobre isso - suspirei.
- Parece-me - disse o funcionário num tom áspero - que, considerando a hipótese de ter que pagar por noites extra no hospital ou por uma viagem não autorizada de ambulância, não tem muito de que se queixar.
Senti as faces em chamas.
- Bem, parece-me que o senhor é um perfeito imbecil! - gritei, e desliguei o telefone violentamente. Virei-me para trás e vi-te, com o marcador na mão, precariamente perto do tecido das almofadas do sofá. Estavas torcida como uma rosca, com a metade inferior do corpo no gesso ainda virada para a frente, a cabeça inclinada para trás, por cima do ombro, para poderes olhar pela janela.
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- Boião dos palavrões - murmuraste. Tinhas um boião de vidro que cobriste com fita de embrulho iridescente e, cada vez que Sean praguejava à tua frente, tiravas-lhe
vinte e cinco cêntimos. Só naquele mês juntaste quarenta e dois dólares - estiveste a contar durante todo o caminho para casa, desde a Florida. Tirei vinte e cinco
cêntimos do bolso e coloquei-os no boião que estava em cima da mesa ali perto, mas não estavas a ver; ainda estavas concentrada a olhar lá para fora, para um charco gelado junto ao relvado onde Amélia patinava.
A tua irmã fazia patinagem no gelo desde, bem, desde que tinha a tua idade. Ela e a filha de Piper, Emma, tinham lições juntas duas vezes por semana e aquilo que mais querias era imitar a tua irmã. Só que patinar era um desporto que nem nunca sequer poderias experimentar. Uma vez partiste um braço quando estavas a fingir que patinavas só com um pé no linóleo da cozinha, de meias.
- Entre os meus palavrões e os do teu pai vamos juntar dinheiro suficiente para comprar um bilhete de avião e sairmos daqui muito em breve - gracejei, tentando distrair-te. - Para onde? Las Vegas?
Desviaste o rosto da janela e olhaste para mim.
- Isso seria uma estupidez - disseste. - Só posso jogar Blackjack quanto tiver vinte e um anos.
Sean ensinou-te a jogar. Também te ensinou a jogar às Copas, Texas Hold'Em e Síud de cinco cartas. Fiquei horrorizada, até perceber que jogar ao Peixinho horas seguidas
podia ser oficialmente considerado uma forma de tortura.
- Então as Caraíbas?
Como se alguma vez fosses poder viajar livremente, como se alguma vez fosses de férias sem pensar nestas últimas.
- Estava a pensar em comprar alguns livros. Por exemplo, do Dr. Seuss.
Lias como uma criança do sexto ano, embora os teus colegas ainda soletrassem o alfabeto. Era um dos poucos aspectos positivos da OI: quando tinhas de estar imóvel, lias livros ou navegavas na Internet. Por acaso, quando Amélia queria irritar-te, chamava-te Wikipedia.
- Do Dr. Seuss? - perguntei. - A sério?
- Não são para mim. Pensei que podíamos enviá-los para aquele hospital na Florida. A única coisa que havia para ler era Where's Spot? e isso torna-se mesmo aborrecido
à quinta ou sexta vez.
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Isso deixou-me sem fala. Só queria esquecer-me daquele estúpido hospital, amaldiçoar o pesadelo das apólices de seguro que causou e o facto de teres de estar presa
num inferno de quatro meses naquele molde de gesso - e ali estavas tu, já tinhas ultrapassado a parte da comiseração. Embora tivesses todo o direito de sentir pena
de ti própria, nunca aproveitaste a oportunidade para o fazeres. Por acaso, às vezes, tinha a certeza de que a razão pela qual as pessoas olhavam para ti, com as
tuas muletas e cadeira de rodas, não tinha nada a ver com a tua incapacidade mas sim com o facto de teres capacidades que elas não tinham nem em sonhos.
O telefone voltou a tocar - por um instante fugaz imaginei que era o presidente executivo da companhia de seguros a telefonar para pedir desculpas pessoalmente.
Mas era Piper, para ver se estava tudo bem.
- É boa altura?
- Nem por isso - respondi -, porque não voltas a telefonar daqui a alguns meses?
- Ela está com muitas dores? Telefonaste ao Dr. Rosenblad? perguntou Piper. - Onde está o Sean?
- Sim, não e espero que esteja a ganhar o dinheiro suficiente para pagar as contas do cartão de crédito por causa das férias que não tivemos.
- Bem, olha, amanhã, quando for levar a Emma, vou buscar a Amélia para as aulas de patinagem. É menos uma coisa com que te preocupares.
Preocupar? Nem sequer sabia que a Amélia tinha treino. Não era só estar no fim da minha lista de prioridades, era nem sequer constar dela.
- De que mais precisas? - perguntou Piper. - Qualquer coisa da mercearia? Gás? O Johnny Depp?
- Ia dizer Xanax... mas agora sou capaz de aceitar o terceiro.
- Já calculava. És casada com um homem que parece o Brad Pitt, com um corpo melhor, e ficas caidinha pelos que têm cabelos compridos e ar de artistas.
- Acho que a relva é sempre mais verde do outro lado da vedação. - Observei-te distraidamente a agarrar no computador portátil que estava ao teu lado e a tentar equilibrá-lo no colo. Estava sempre a tombar para o lado por causa da posição do gesso, por isso agarrei numa almofada do sofá e coloquei-a no teu colo como se fosse uma mesa. - Infelizmente, neste preciso momento, as coisas estão bastante negras do meu lado da vedação - disse-lhe.
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- Ups, tenho de desligar. Parece que a minha paciente está a ter a criança.
- Se tivesse um dólar por cada vez que ouvi essa desculpa... Piper riu.
- Charlotte - disse ela - tenta deitar abaixo a vedação. Desliguei. Estavas a escrever ao computador febrilmente com
dois dedos.
- O que estás a fazer?
- Estou a abrir uma conta de Gmail para o peixinho dourado da Amélia - disseste.
- Duvido muito que ele precise de uma...
- Foi por isso que ele ma pediu a mim e não a ti... "Deitar abaixo a vedação."
- Willow - anunciei - desliga o portátil. Tu e eu vamos patinar.
- Estás a brincar.
- Não.
- Mas disseste...
- Willow, queres discutir ou queres ir patinhar? - Esboçaste um sorriso radioso como já não via desde antes de irmos para a Florida. Vesti uma camisola e calcei
as botas, depois fui buscar o meu casaco de Inverno ao bengaleiro para te tapar a parte superior do corpo. Envolvi as tuas pernas em cobertores e apoiei-te na anca.
Sem o gesso eras leve como um elfo. com ele, pesavas vinte e quatro quilos.
A única coisa para que um molde de gesso daqueles servia era quase feito para isso - era para te apoiar na anca. Ficavas um pouco afastada de mim, mas ainda conseguia colocar um braço à tua volta para passar pela sala e descer os degraus da entrada.
Quando Amélia nos viu chegar, lentas como uma tartaruga, percorrendo montes de neve e faixas de gelo enlameado, parou de rodopiar.
- vou patinar - cantarolaste, e os olhos de Amélia fixaram-se
nos meus.
- Ouviste o que ela disse.
- Vais trazê-la para patinar. Não eras tu que querias que o pai atulhasse o charco onde costumamos patinar? Disseste que era um castigo cruel e inusitado para a Willow.
- vou deitar abaixo a vedação - disse.
- Que vedação?
Coloquei os cobertores debaixo do teu traseiro e pousei-te delicadamente em cima do gelo.
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- Amélia - disse - agora preciso da tua ajuda. Quero que fiques a tomar conta dela, nunca deixes de olhar para ela, enquanto eu vou buscar os meus patins.
Voltei para casa a correr, parando apenas à entrada da porta para me assegurar de que Amélia ainda estava a olhar para ti, tal como a tinha deixado. Os meus patins estavam no fundo de um cesto cheio de botas, na arrecadação - já nem me lembrava da última vez em que os usara. Os atacadores prendiam-nos um ao outro como amantes. Atirei-os por cima do ombro e depois agarrei na cadeira do computador com as suas rodinhas. Lá fora, virei-a ao contrário, para apoiar o assento na cabeça. Lembrei-me
das mulheres africanas com as suas saias de cores garridas, com cestos de fruta e sacas de arroz em cima da cabeça enquanto caminhavam em direcção a casa para alimentarem
as famílias.
Quando cheguei ao pequeno charco, pousei a cadeira no gelo. Inclinei as costas e afastei os braços para que acomodassem o teu molde de gesso. Depois peguei em ti
e instalei-te no aconchego do assento.
Sentei-me para atar os patins.
- Agarra-te bem, Wiki - disse Amélia, e agarraste-te aos braços da cadeira. Ela pôs-se atrás de ti e começou a mover-se no gelo. Os cobertores que te envolviam as pernas enfunaram-se, e eu gritei à tua irmã para que tivesse cuidado. Mas Amélia já estava a ser cuidadosa. Debruçava-se sobre as costas da cadeira de forma a agarrar-te bem com um braço junto ao assento enquanto patinava cada vez mais depressa. Então mudou de direcção rapidamente, virando-se de frente para ti, puxando os braços da cadeira enquanto andava para trás.
Inclinaste a cabeça para trás e fechaste os olhos enquanto Amélia te fazia girar em círculos. Os caracóis escuros de Amélia saíam-lhe do gorro de lã às riscas; o teu riso esvoaçava pelo gelo como um estandarte.
- Mãe - gritaste. - Olha para nós! Levantei-me, com os tornozelos a vacilarem.
- Esperem por mim - disse, ganhando confiança a cada passo.
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Sean
No meu primeiro dia de volta ao trabalho entrei no vestiário e encontrei um poster a dizer PROCURA-SE pendurado ao lado da farda limpa. Escrito por cima da minha
cara, a marcador vermelho, estava a palavra APREENDIDO.
- Muito engraçado - resmunguei, e arranquei o panfleto.
- Sean O'Keefe! - disse um dos rapazes, fingindo ter um microfone na mão enquanto a colocava em frente a outro polícia. Acabou de ganhar a Super Taça. O que vai
fazer a seguir?
Dois punhos erguidos no ar.
- vou ao Disney World!
O resto dos rapazes desatou a rir-se.
- Olha, a tua agente de viagens telefonou - disse um deles. Reservou os teus bilhetes para Guantanamo, para as próximas férias.
O meu capitão mandou-os calar e aproximou-se de mim.
- A sério, Sean, sabes que estamos só a brincar contigo. Como está a Willow?
- Está bem.
- Bem, se pudermos fazer alguma coisa... - disse o capitão, e deixou o resto da frase dissipar-se como fumo.
Franzi o sobrolho, fingindo que aquilo não me afectava, que estava a entrar no jogo em vez de ser alvo de chacota.
- Não têm nada de construtivo para fazer? O que acham que isto é, a esquerda de Lake Buena Vista?
Ao ouvirem isto, todos riram às gargalhadas e saíram do vestiário, deixando-me a vestir-me sozinho. Dei um soco na estrutura de metal do meu cacifo e a porta abriu-se. Saiu de lá um pedaço de papel a esvoaçar - outra vez a minha cara, com orelhas de Rato Mickey na cabeça. E no fundo: "Afinal o Mundo é Pequeno."
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Em vez de me vestir, percorri os corredores da esquadra até ao gabinete da central e tirei uma lista telefónica de um monte que estava numa prateleira. Olhei para o anúncio até encontrar o nome que procurava, que vira em inúmeros anúncios na televisão, à noite: "Robert Ramirez, Advogado de Defesa das Vítimas: Porque você merece o melhor."
"Pois mereço", pensei. "E a minha família também."
Então marquei o número.
- Sim - disse. - Gostaria de marcar uma entrevista.
Eu fora nomeado guarda. Depois de vocês as duas estarem a dormir profundamente e Charlotte ter tomado duche e estar a enfiar-se na cama, competia-me a mim apagar as luzes, trancar as portas, dar uma última volta pela casa. Visto que ainda tinhas o molde de gesso, a tua cama improvisada era o sofá da sala. Quase desliguei a luz da cozinha, mas depois lembrei-me, aproximei-me, puxei-te o cobertor até ao queixo e beijei-te na testa.
Lá em cima, fui ver Amélia e depois entrei no nosso quarto. Charlotte estava de pé na casa de banho enrolada numa toalha, a lavar os dentes. Ainda tinha os cabelos molhados. Aproximei-me dela por trás e coloquei-lhe as mãos nos ombros, enrolando um caracol nos dedos.
- Adoro a maneira como os teus cabelos fazem isto - disse eu, observando-os a voltarem a enrolar-se na mesma espiral de há um minuto atrás, como uma mola. - Têm
memória própria.
- É mais uma vontade própria - disse ela, sacudindo os cabelos antes de debruçar-se para lavar a boca. Quando voltou a endireitar-se, beijei-a.
- Frescura de mentol - disse eu. Ela riu.
- Escapou-me alguma coisa? Estamos a filmar um anúncio de pasta de dentes?
Ao espelho, os nossos olhares cruzaram-se. Sempre me interroguei se ela verá o que eu vejo quando olho para ela. E também se repara que estou a ficar com pouco cabelo no cimo da cabeça.
- O que queres? - perguntou.
- Como sabes que quero alguma coisa?
- Porque já sou casada contigo há sete anos?
Entrei no quarto atrás dela e vi-a deixar cair a toalha e vestir uma T-shirt demasiado grande para dormir. Sei que não deves querer ouvir isto - que criança haveria de gostar? - mas isso é outra coisa que adoro na tua mãe. Mesmo depois de sete anos, ainda
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parece esconder-se um pouco quando troca de roupa à minha frente, como se já não soubesse de cor cada centímetro dela.
- Preciso que tu e a Willow venham comigo amanhã a um sítio
- disse. - A um escritório de advogados.
Charlotte sentou-se no colchão.
- Para quê?
Esforcei-me para transmitir por palavras os sentimentos que eram a minha justificação.
- A forma como fomos tratados. A detenção. Não posso deixá-los escaparem impunes a tudo isso.
Ela ficou a olhar para mim,
- Pensei que tu é que querias ir para casa para continuarmos a viver as nossas vidas.
- Pois, e sabes o que isso implicou hoje? A esquadra inteira acha que eu sou uma enorme piada. vou ser sempre o polícia que arranjou maneira de ser preso. No trabalho só tenho a minha reputação. E eles arruinaram-na. - Sentei-me ao lado de Charlotte, hesitante. Defendia a verdade todos os dias, mas nem sempre gostava de dizê-la, sobretudo quando isso implicava dizer qualquer coisa que me deixasse vulnerável. - Eles levaram a minha família. Estava naquela cela, a pensar em ti, na Amélia e na Willow, e só me apetecia fazer mal a alguém. Só me apetecia transformar-me na pessoa que pensavam que eu era.
Charlotte olhou-me nos olhos.
- Quem são eles? Entrelacei os dedos nos dela.
- Bem - disse - é isso que espero que o advogado nos diga.
As paredes da sala de espera do escritório de advogados de Robert Ramirez estavam forradas com os cheques de indemnizações que ele obtivera para antigos clientes.
Andava de um lado para o outro com as mãos cruzadas atrás das costas, debruçando-me para ler alguns deles. "Pagamento de 350 000 dólares." "1,2 milhões de dólares."
"890 000 dólares." Amélia estava de volta da máquina de café, um aparelho fabuloso que nos permitia colocar uma única chávena, carregar num botão e escolher o aroma
que quiséssemos.
- Mãe - perguntou ela - posso beber um?
- Não - disse Charlotte. Estava sentada ao teu lado no sofá, tentando impedir que o gesso escorregasse no couro rígido.
- Mas há chá. E cacau.
- Não, é não, Amélia!
A secretária levantou-se atrás da secretária.
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- O Dr. Ramirez pode receber-vos agora.
Apoiei-te na anca e fomos todos atrás da secretária ao longo do corredor até uma sala de reuniões com paredes de vidro martelado. A secretária segurou na porta,
mas, apesar disso, tive de inclinar-te para o lado para que as tuas pernas passassem pelo espaço livre. Mantive os olhos fixos em Ramirez; queria observar a reacção
dele quando te visse.
- Sr. O'Keefe - disse ele, e estendeu a mão. Apertei-a.
- Apresento-lhe a minha mulher, Charlotte, e as minhas filhas, Amélia e Willow.
- Minhas senhoras - disse Ramirez, e depois virou-se para a secretária. - Briony, pode ir buscar os lápis de cera e alguns livros de colorir?
Atrás de mím, ouvi Amélia bufar: sabia que ela estava a pensar que aquele tipo não tinha a menor noção que livros de colorir eram para crianças pequenas e não para
raparigas que já usavam sutiã.
- O centésimo bilionésimo lápis de cera feito pela Crayola foi o Azul-Pervinca - disseste.
Ramirez ergueu as sobrancelhas.
- É bom saber - respondeu, e depois indicou com um gesto uma mulher que estava junto a ele. - Gostaria de apresentar-lhes a minha colega, Marin Gates.
Tinha o aspecto apropriado. com os cabelos negros presos atrás com um gancho e fato azul-marinho, podia ser bonita, mas alguma coisa nela destoava. A boca, decidi.
Parecia que tinha acabado de cuspir qualquer coisa com um péssimo sabor.
- Convidei Marin para assistir a esta reunião - disse Ramirez.
- Por favor, sentem-se.
Mas antes que pudéssemos sentar-nos, a secretária voltou a aparecer com os livros de colorir. Entregou-os a Charlotte, uns panfletos a preto e branco que diziam
DR. ROBERT RAMIREZ na parte de cima em letras grandes.
- Oh, olha - disse a tua mãe, lançando-me um olhar fulminante. - Quem adivinharia que iam inventar livros de colorir sobre acidentes pessoais?
Ramirez sorriu.
- A Internet é assombrosa.
As cadeiras da sala de reuniões eram demasiado estreitas para acomodarem o teu molde de gesso. Após três tentativas abortadas para sentar-te, acabei por voltar a
apoiar-te na anca e virei-me para o advogado.
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- Como podemos ajudá-lo, Sr. O'Keefe? - perguntou ele.
- Sargento O'Keefe - corrigi. - Trabalho na polícia de Bankton, New Hampshire; já trabalho lá há dezanove anos. A minha família e eu acabámos de regressar do Disney
World, e é por isso que estou aqui hoje. Nunca fui tão maltratado em toda a minha vida. Quero dizer, o que há de mais normal do que uma viagem ao Disney World, não
é verdade? Mas não, em vez disso a minha mulher e eu acabámos por ser detidos, tiraram-me as minhas filhas e colocaram-nas sob protecção legal. A minha filha mais
nova ficou sozinha no hospital, absolutamente aterrorizada... - inspirei. - A privacidade é um direito fundamental e a privacidade da minha família foi inacreditavelmente
violada.
Marin Gates pigarreou.
- Vejo que ainda está muito perturbado, agente O'Keefe. Vamos tentar ajudá-lo... mas precisamos que recue um pouco e fale mais devagar. Porque foi ao Disney World?
Então contei-lhe. Falei-lhe da tua OI, e do gelado e de como caíste. Falei-lhe dos homens de fato preto que nos levaram para fora do parque temático e chamaram a
ambulância, como se quanto mais depressa se livrassem de nós melhor. Falei-lhe da mulher que levara Amélia, sobre os interrogatórios que se prolongaram por horas na esquadra da polícia, como ninguém acreditava em mim. Falei-lhe das piadas que disseram sobre mim na minha própria esquadra.
- Quero nomes - disse eu. - Quero processar, e depressa. Quero que alguém seja responsabilizado no Disney World, no hospital, no Departamento de Crianças e Famílias. Quero os empregos dessas pessoas, quero dinheiro para compensar o inferno por que passámos.
Quando acabei, tinha o rosto quente. Não conseguia olhar para a tua mãe; não queria ver a cara dela depois de tudo o que tinha dito. Ramirez acenou com a cabeça.
- O tipo de caso que está a sugerir é muito dispendioso, sargento O'Keefe. Qualquer advogado que aceite defendê-lo, terá de fazer primeiro uma análise dos custos e benefícios e, posso dizer-lhe desde já que, embora queira um julgamento para obter uma indemnização, não é isso que terá.
- Mas todos aqueles cheques na sala de espera...
- São de casos em que o queixoso apresentou uma queixa válida. A avaliar pelo que nos descreveu, as pessoas que trabalhavam no Disney World, no hospital e no Departamento de Crianças e Famílias estavam só a cumprir o seu dever. Os médicos têm uma
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responsabilidade legal de comunicar suspeitas de maus tratos infantis. Sem a carta do vosso médico, a polícia tinha uma causa provável para efectuar a detenção no estado da Florida. O Departamento de Crianças e Famílias tem a obrigação de proteger as crianças, sobretudo quando a criança em questão é demasiado jovem para fazer um relato detalhado dos seus próprios problemas de saúde. Como agente da autoridade, tenho a certeza de que se recuar um pouco e mantiver as emoções afastadas dos factos, perceberá que, assim que receberam as informações médicas de New Hampshire, as suas filhas foram-lhe imediatamente devolvidas; o senhor e a sua mulher foram libertados... claro, fê-lo sentir-se pessimamente. Mas a vergonha não é uma causa justa para tomar medidas.
- E os danos emocionais? - disse intempestivamente. - Faz ideia do que isso significou para mim? Para as minhas filhas?
- Tenho a certeza de que não foi nada comparado com a sobrecarga emocional de viver o dia-a-dia com uma criança com estes problemas de saúde - disse Ramirez e, ao meu lado, Charlotte olhou para mim. O advogado sorriu compreensivamente para ela. - Quero dizer, deve ser bastante exigente. - Inclinou-se para a frente, franzindo um pouco a testa. - Não sei muito sobre, como se chama? Osteo...
- Osteogénese imperfeita - disse Charlotte numa voz suave.
- Quantas fracturas já sofreu a Willow?
- Cinquenta e duas - disseste. - E sabia que o único osso que ainda ninguém partiu num acidente de esqui se situa no ouvido interno?
- Não sabia - disse Ramirez, surpreendido. - Ela é extraordinária, não é?
Encolhi os ombros. Eras pura e simplesmente a Willow. Não há ninguém como tu. Soube-o no primeiro instante em que te peguei ao colo, envolta em espuma para não te magoares nos meus braços: a tua alma é mais forte do que o corpo e, apesar do que os médicos me disseram vezes sem conta, sempre acreditei que era essa a razão das tuas fracturas. Que esqueleto normal poderia conter um coração do tamanho do mundo?
Marin Gates pigarreou.
- Como foi concebida a Willow?
- Ugh - disse Amélia; até àquela altura tínhamo-nos esquecido de que ela estava connosco - isso é absolutamente nojento. Abanei-lhes a cabeça, num aviso.
- Foi difícil - disse Charlotte. - Estávamos prestes a experimentar in vitro quando descobri que estava grávida.
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- Ainda mais nojento - disse Amélia.
- Amélia! - Passei-te para o colo da tua mãe e puxei a tua irmã pela mão. - Podes ficar à espera lá fora - disse em voz baixa.
A secretária olhou para nós quando voltámos para a sala de espera, mas não disse nada.
- De que vão falar a seguir? - perguntou Amélia em tom de desafio. - Da vossa experiência pessoal com hemorróidas?
- Basta - disse eu, tentando não perder a calma em frente à secretária. - Saímos daqui a pouco.
Quando me dirigia para o fundo do corredor, ouvi os sapatos de salto alto da secretária ao aproximar-se de Amélia.
- Queres uma chávena de cacau? - perguntou ela. Quando voltei a entrar na sala de reuniões, Charlotte ainda
estava a falar.
- ... mas eu tinha trinta e oito anos - dizia. - Sabem o que escrevem nas nossas fichas, quando temos trinta e oito anos? "Gravidez geriátrica." - Estava preocupada por poder ter uma criança com Síndroma de Down: nem sequer tinha ouvido falar em OI.
- Fez amniocentese?
- A amniocentese não diz automaticamente se um feto tem OI; temos que saber se é hereditário. Mas no caso da Willow foi uma mutação espontânea. Não foi herdado.
- Então antes de a Willow nascer não sabia que ela tinha OI?
- perguntou Ramirez.
- Soubemos quando a segunda ecografia da Charlotte revelou uma série de ossos partidos - respondi. - Olhe, já terminámos? Se não quer aceitar este caso, tenho a
certeza de que poderei encontrar...
- Lembras-te daquela coisa estranha na primeira ecografia? disse Charlotte, virando-se para mim.
- Que coisa estranha? - perguntou Ramirez.
- A técnica achou que a imagem do cérebro estava demasiado nítida.
- Isso é impossível - disse eu. Ramirez e a colega trocaram um olhar.
- E o que disse a sua obstetra?
- Nada - Charlote encolheu os ombros. - Ninguém mencionou sequer a OI até fazermos outra ecografia às vinte e sete semanas, e virmos todas aquelas fracturas.
Ramirez virou-se para Marin Gates.
- Veja se alguma vez foi diagnosticada ainda no útero tão precocemente - ordenou, e depois virou-se novamente para Charlotte.
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- Estaria disposta a ceder-nos os seus ficheiros clínicos? Teremos de fazer alguma pesquisa para ver se temos ou não motivo para tomar medidas...
- Achei que não tínhamos bases para instaurar um processo legal - disse eu.
- Talvez tenha, sargento O'Keefe - Robert Ramirez olhou para ti como se estivesse a memorizar as tuas feições. - Só que não é aquele que pensava.
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Marin
Há doze anos estava no último ano do liceu, sem rumo, quando me sentei à mesa da cozinha para conversar com a minha mãe (mais tarde falarei mais sobre esse assunto).
- Não sei o que quero ser - disse eu.
Isto era imensamente irónico no meu caso porque também não sabia o que tinha sido. Desde os cinco anos que sei que sou adoptada, que é o termo politicamente correcto
para não fazermos nenhuma ideia sobre as nossas próprias origens.
- O que gostarias de ser? - perguntou a minha mãe, bebendo um pouco de café. Tomava-o forte e simples; eu tomava o meu fraco e doce. Era uma das milhares de discrepâncias
entre nós que conduziam sempre a perguntas silenciosas: A minha mãe que me deu à luz também tomaria o café fraco e doce? Também teria os olhos azuis, as maçãs do
rosto altas, e seria canhota como eu?
- Gosto de ler - disse eu, e depois revirei os olhos. - Isto é uma estupidez.
- E gostas de argumentar. Soltei um risinho afectado.
- Ler. Argumentar. Querida - disse a minha mãe, animada foste feita para seres uma advogada.
Avancemos nove anos: fui chamada ao consultório médico devido a uma citologia anómala. Enquanto esperava que o ginecologista entrasse, a vida que nunca tive passou-me
diante dos olhos: os filhos que fui adiando por estar demasiado ocupada na faculdade de direito e a construir a carreira; os homens com quem não saí por querer publicar
artigos jurídicos; a casa de campo que não comprei por trabalhar tanto que nunca poderia desfrutar daquele dispendioso alpendre de teca, daquela paisagem de montanha.
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- Vamos recapitular os seus antecedentes médicos familiares disse o meu médico, e eu dei a minha resposta habitual:
- Sou adoptada; não conheço os antecedentes médicos da minha família.
Embora afinal estivesse tudo bem - os resultados anómalos foram um erro de laboratório - acho que foi nesse dia que resolvi procurar os meus pais verdadeiros.
Sei o que estão a pensar: não era feliz com os meus pais adoptivos? Bem, a resposta é sim - e foi por isso que só pensei em procurá-los aos trinta e um anos. Sempre me senti feliz e grata por poder ter crescido com a minha família; não precisava nem queria outra. E a última coisa que desejava fazer era dar-lhes um desgosto ao dizer que estava a fazer uma busca.
Mas, apesar de ter sabido sempre que os meus pais adoptivos me queriam desesperadamente, algures, na minha cabeça, sabia que os meus verdadeiros pais não. A minha mãe tinha vindo com aquela conversa de eles serem demasiado novos e não estarem preparados para terem uma família - e logicamente compreendi isso - mas, emocionalmente, sentia-me posta de lado. Acho que queria saber porquê. Por isso, depois de ter tido uma conversa com os meus pais adoptivos - em que a minha mãe esteve sempre a chorar enquanto me prometia que ia ajudar-me - empenhei-me com alguma hesitação na busca em que andara a pensar nos últimos seis meses.
Ser adoptada era como ler um livro cujo primeiro capítulo foi arrancado. Podemos estar a gostar da intriga e dos personagens, mas provavelmente também gostaríamos de ler aquela primeira parte. Mas ao voltarmos à livraria com o livro para dizer que lhe faltava o primeiro capítulo, dizem-nos que não poderão vender um exemplar intacto. E se lêssemos aquele primeiro capítulo e descobríssemos que detestávamos o livro e colocássemos uma crítica negativa na Amazon? E se magoássemos os sentimentos do autor? O melhor é ficarmos com a cópia incompleta e desfrutarmos do resto da história.
Os registos de adopção não estão acessíveis a toda a gente nem a uma pessoa como eu que sabia como funcionavam as coisas legalmente. Isso implicava que cada passo era um esforço hercúleo e que havia muito mais falhanços do que êxitos. Passei os primeiros três meses da minha busca a pagar mais de seiscentos dólares a um detective privado para depois me dizer que não tinha descoberto absolutamente nada. Isso podia ter feito eu de graça.
O problema era que o meu trabalho estava sempre a interferir.
Assim que acompanhámos os O'Keefe até à porta do escritório de advogados, interpelei o meu chefe.
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- Quer mesmo ir para a frente com isto? Este tipo de processo legal é completamente intragável para mim - disse eu.
- Vai continuar a dizer isso - disse Bob pensativamente - se acabarmos por receber a maior indemnização devido a negligência médica no diagnóstico pré-natal em New
Hampshire?
- Não sabe se isso vai acontecer... Ele encolheu os ombros.
- Depende do que revelarem os ficheiros clínicos.
Um processo legal por negligência médica no diagnóstico pré-natal implica que, se a mãe soubesse durante a gravidez que a criança nasceria com uma incapacidade grave,
teria decidido abortar. Isso coloca o ónus da responsabilidade pelas incapacidades subsequentes da criança no obstetra. Do ponto de vista do queixoso, trata-se de
um processo por negligência médica. Para a defesa, torna-se numa questão de moral: quem tem o direito de decidir se uma vida demasiado limitada merece, ou não, ser
vivida?
Muitos estados baniram os processos legais por negligência médica no diagnóstico pré-natal. New Hampshire não é um deles. Houve várias indemnizações para os pais
de crianças nascidas com espinha bífida ou fibrose quística e houve o caso de um rapaz deficiente mental profundo, numa cadeira de rodas, devido a uma anomalia genética
- apesar de a doença nunca ter sido diagnosticada antes, muito menos notada ainda no útero. Em New Hampshire, os pais têm a responsabilidade de cuidarem dos filhos
com incapacidade durante toda a vida - e não apenas até aos dezoito anos - o que constitui uma razão tão boa como qualquer outra para procurar uma indemnização por
danos. Não havia dúvida de que Willow O'Keefe tinha uma história triste, com aquele molde de gesso enorme, mas sorriu e respondeu a perguntas quando o pai saiu da sala e Bob fê-la falar. Para ser franca: ela era gira, inteligente e exprimia-se com clareza - e portanto seria um caso muito mais difícil de apresentar a um júri.
- Se a médica da Charlotte não lhe prestou os cuidados devidos
- disse Bob - então devia ser responsabilizada, para que isto não volte a acontecer.
Revirei os olhos.
- Não pode invocar questões de consciência quando pretende receber alguns milhões, Bob. E vai ser difícil: se um obstetra decidir que uma criança com ossos de vidro não devia nascer, o que virá a seguir? Um teste de diagnóstico pré-natal para um QI reduzido, para eliminarmos os fetos que, quando crescerem, não forem para Harvard?
Deu-me uma palmada nas costas.
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- Sabe, é bom ver uma pessoa tão arrebatada. Pessoalmente, sempre que as pessoas começam a falar sobre curar demasiadas doenças através da ciência, fico sempre satisfeito por ainda não se falar em bioética no tempo da poliomielite, da tuberculose e da febre amarela
- dirigíamo-nos para os nossos gabinetes individuais, mas ele de repente parou e virou-se para mim. - É neonazi?
- O quê?
- Bem me parecia. Mas se lhe pedissem para defender um cliente que fosse neonazi num processo criminal, seria capaz de fazer o seu trabalho mesmo que achasse repulsivas as suas ideias?
- Claro, e isso é uma pergunta que se faz a um estudante do primeiro ano de direito - disse imediatamente. - Mas isto é completamente diferente.
Bob abanou a cabeça.
- A questão é essa, Marin - respondeu. - Por acaso não é.
Fiquei à espera que ele fechasse a porta do gabinete e depois soltei um gemido de frustração. No meu gabinete, tirei os sapatos de salto alto e dirigi-me para a secretária, para me sentar. Briony trouxera-me a correspondência bem presa com um elástico. Seleccionei-a, separando os envelopes em pilhas por cada caso, até me deparar com um remetente que não me era familiar.
Há um mês, depois de despedir o investigador privado, tinha enviado uma carta para o tribunal do Condado de Hillsborough para obter a minha sentença de adopção. Por dez dólares, podemos obter uma cópia do documento original. Munida disso, e do facto de ter nascido no Hospital St. Joseph, em Nashua, planeava reunir algumas informações e descobrir o nome da minha mãe verdadeira. Tinha esperança de que um estagiário do tribunal que talvez não soubesse o que estava a fazer, se esquecesse de apagar o nome com que primeiro me registaram no documento. Em vez disso, deparei-me com uma secretária chamada Maisie Donovan, que já trabalhava no tribunal do condado desde a extinção dos dinossáurios - e que me enviara o envelope que agora segurava nas mãos trémulas.
TRIBUNAL DO CONDADO DE HILLSBOROUGH,
NEW HAMPSHIRE
ASSUNTO: ADOPÇÃO DE BEBÉ DO SEXO FEMININO.
SENTENÇA FINAL
E NO PRESENTE dia 28 de Julho de 1973, após ter sido considerada a petição anexa e a audiência, e após o tribunal ter investigado para confirmar as afirmações feitas na petição e
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outros factos para que o tribunal tenha todas as informações relativas à exequibilidade da adopção proposta; O Tribunal, tendo ficado esclarecido, declara que as
afirmações feitas na petição são verdadeiras, e que o bem-estar da pessoa proposta para adopção será promovido, deverá ter direitos de filha e herdeira de Arthur William Gates e Yvonne Sugarman Gates e estará sujeita a todos os respectivos deveres; e de hoje em diante deverá assumir o nome de MARIN ELIZABETH GATES.
Li-o uma segunda vez, e depois uma terceira. Fiquei a olhar para a assinatura do juiz - Alfred qualquer coisa. Por dez dólares fiquei a saber surpreendentemente que:
1. Sou do sexo feminino.
2. O meu nome é Marin Elizabeth Gates.
Bem, de que estava à espera? De um postal ilustrado da minha mãe verdadeira e um convite para a reunião familiar deste ano? Suspirando, abri o armário dos ficheiros e coloquei a sentença na pasta que tinha marcado como PESSOAL. Depois tirei outra pasta e escrevi O'KEEFE na etiqueta.
- Negligência médica no diagnóstico pré-natal - disse em voz alta, só para testar o efeito verbal; era (tal como esperava) amargo como grão de café. Tentei concentrar-me num processo legal com a mensagem vagamente velada de que há crianças que nunca deviam ter nascido e enviei o meu agradecimento à minha mãe verdadeira por não ter pensado o mesmo.
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Piper
Teoricamente, eu sou tua madrinha. Parece que isso significa que sou responsável pela tua educação religiosa, o que é uma grande anedota visto que nunca ponho os
pés na igreja (por causa daquele receio saudável de que o telhado de repente irrompa em chamas), enquanto a tua mãe raramente perde uma missa de domingo. Em vez
disso, prefiro pensar na versão dos contos de fadas. Que um dia, com ou sem a ajuda de ratinhos vestidos com jardineiras minúsculas, hei-de fazer-te sentir como uma princesa.
Para isso, raramente apareço em tua casa de mãos vazias. Charlotte diz que te estrago com mimos, mas não te cubro de diamantes nem te entrego as chaves de um Hummer. Trago-te truques de magia, barras de chocolate, cassetes de vídeo infantis que a Emma já não vê. Mesmo quando te visito vinda directamente de um turno no hospital, costumo improvisar: uma luva de látex a que dou um nó, cheia como um balão. Uma rede para prender os cabelos, da sala de operações. "No dia em que lhe trouxeres um especulo", costumava dizer Charlotte, "deixas de ser oficialmente bem-vinda."
- Olá - gritei ao entrar pela porta da frente. Para ser sincera, não me lembro de alguma vez ter batido à porta. - Cinco minutos - disse, quando Emma subiu as escadas a correr para ir ter com Amélia. - Nem tires o casaco. - Percorri o corredor até à sala de Charlotte, onde estavas apoiada no teu molde de gesso, a ler.
- Piper! - disseste, e o teu rosto iluminou-se.
Às vezes, ao olhar para ti, não vejo a curvatura comprometedora dos teus ossos nem a baixa estatura que faz parte da tua doença. Em vez disso, lembro-me da tua mãe a chorar quando me disse que não conseguira engravidar mais uma vez; lembro-me de ela me tirar o Doptone dos ouvidos numa visita ao consultório para
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também poder ouvir o bater do teu coração, como o de um beija-flor.
Sentei-me ao teu lado no sofá e tirei o teu presente do dia do bolso do casaco. Era uma bola de praia - acredita, não é fácil encontrar uma em Fevereiro.
- Não chegámos a ir à praia - disseste. - Caí.
- Ah, mas isto não é só uma bola de praia - corrigi, e enchi-a até estar firme e redonda como a barriga de uma mulher no nono mês de gravidez. Depois enfiei-a entre
os teus joelhos, a bola ficou bem entalada no gesso, e comecei a bater-lhe com a palma da mão aberta. Isto - disse eu - é um tambor.
Riste-te, e começaste também a bater na superfície. O som fez Charlotte vir à sala.
- Estás com péssimo aspecto - disse. - Quando dormiste pela última vez?
- Caramba, Piper, também gostei muito de te ver...
- A Amélia já está pronta?
- Para quê?
- Patinar?
Ela bateu na testa.
- Esqueci-me completamente. Amélia! - gritou, e depois virou-se para mim: - Acabámos de chegar do escritório de advogados.
- E? O Sean ainda está com aquela fúria de processar o mundo inteiro?
Em vez de responder, bateu com a mão na bola de praia. Não gostava que eu troçasse de Sean. A tua mãe é a minha melhor amiga no mundo inteiro, mas o teu pai conseguia deixar-me doida. Metia uma coisa na cabeça e estava decidido - não havia maneira de o demover. O mundo para Sean era simplesmente a preto-e-branco e acho que sempre fui daquelas pessoas que prefere um pouco de cor.
- Sabes uma coisa, Piper - interrompeste. - Também fui patinar. Olhei para Charlotte, que acenou com a cabeça. Normalmente
estava sempre aterrorizada por causa do charco nas traseiras e a tentação constante que representava. Mal podia esperar por saber os pormenores daquela história.
- Acho que se te esqueceste das aulas de patinagem, também deves ter-te esquecido da feira dos bolos?
Charlotte retraiu-se.
- O que fizeste?
- Fiz bolinhos de chocolate - disse-lhe. - com a forma de patins. com atacadores e lâminas de glacê. Percebeste? Patins para gelo com glacê?
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- Fizeste bolinhos de chocolate? - perguntou Charlotte, e eu fui atrás dela quando se dirigiu para a cozinha.
- Sozinha. O resto das mães já me pôs na lista negra por ter faltado ao espectáculo da Primavera por causa de um congresso médico. Estou a tentar redimir-me.
- Então quando os fizeste? Enquanto estavas a suturar uma episiotomia? Depois de estares de serviço há trinta e seis horas? Charlotte abriu a despensa e procurou nas prateleiras, agarrando por fim num pacote de Chips Ahoy! e, deitando-as numa travessa, exclamou. - Sinceramente, Piper, tens de ser sempre assim tão perfeita?
Estava a atacar as bordas das bolachas com um garfo.
- Bolas. Quem te deixou assim de tão mau humor?
- Bem, de que estavas à espera? Chegas aqui e dizes-me que estou com péssimo aspecto e depois fazes-me sentir completamente imprestável...
- És chefe de pastelaria, Charlotte. Eras capaz de fazer o que quisesses... mas que diabo estás a fazer?
- A dar-lhes um aspecto caseiro - disse Charlotte. - Porque já não sou chefe de pastelaria. Há muito tempo.
Quando conheci Charlotte, ela tinha acabado de ser nomeada a melhor chefe de pastelaria de New Hampshire. Até li um artigo sobre ela numa revista que elogiava a sua capacidade de agarrar em ingredientes inusitados e criar os doces mais notáveis. Nunca vinha a minha casa de mãos vazias - trazia queques com cobertura de fios de caramelo, tartes de frutos silvestres que explodiam como fogo de artifício, pudins que eram como bálsamos. Os souflés dela eram leves como nuvens de Verão; o fondant de chocolate tirava-nos da cabeça todos os obstáculos que nos bloquearam o dia. Disse-me que, quando cozinhava, sentia-se completamente preenchida, que tudo o resto não importava e fazia-a lembrar quem ela realmente era. Fiquei com inveja. Tenho uma vocação - e sou uma boa médica - mas Charlotte tem um dom. Sonhava em abrir uma pastelaria, em escrever o seu próprio livro de receitas, um bestseller. Na realidade, nunca imaginei que encontraria algo que amasse mais do que a pastelaria, até apareceres tu.
Afastei a travessa.
- Charlotte. Estás bem?
- Deixa-me ver. Fui presa no fim-de-semana passado; a minha filha está toda engessada; não tenho tempo nem para tomar um duche: sim, estou óptima. - Virou-se para a porta e para as escadas lá para cima. - Amélia! Vamos embora!
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- A Emma também está com surdez selectiva - disse eu. - Juro que me ignora de propósito. Ontem, pedi-lhe oito vezes para tirar as coisas de cima da bancada da cozinha...
- Sabes uma coisa - disse Charlotte, cansada. - Estou-me nas tintas para os teus problemas com a tua filha.
Abri a boca de espanto - sempre fora a confidente de Charlotte e não o seu saco de boxe - e ela abanou a cabeça e pediu desculpa.
- Desculpa. Não sei o que se passa comigo. Não devia estar a descarregar isto em ti.
- Não faz mal - disse eu.
Precisamente nessa altura as raparigas mais velhas desceram as escadas ruidosamente e passaram por nós num turbilhão de segredinhos e gargalhadas. Pousei a mão no braço de Charlotte.
- Para que fiques a saber - disse num tom firme. - És a mãe mais dedicada que já conheci. Abdicaste de toda a tua vida para tomares conta da Willow.
Baixou a cabeça e acenou antes de olhar para mim.
- Lembras-te da minha primeira ecografia? Fiquei a pensar por um instante e depois sorri.
- Vimo-la chuchar no dedo. Nem sequer tive de vos apontar; estava absolutamente nítida.
- Pois - repetiu a tua mãe. - Absolutamente nítida.
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Charlotte
Março de 2007
E se alguém tivesse a culpa?
A ideia era apenas uma semente a germinar que trazia no peito quando saímos do escritório de advogados. Mesmo deitada ao lado de Sean, ouvia-a como o bater de um tambor no sangue: "E se, e se, e se." Já há cinco anos que te amava, que andava sempre à tua volta, pegava-te ao colo quando sofrias uma fractura. Tinha recebido precisamente aquilo que desejara: uma bebé linda. Então como podia admitir a alguém - muito menos a mim própria - que não só eras a coisa mais maravilhosa que alguma vez me aconteceu... mas também a mais desgastante, a mais avassaladora?
Ouço as pessoas queixarem-se dos filhos por serem mal-educados ou mal-humorados, ou até por arranjarem problemas com a autoridade, e fico com inveja. Quando esses jovens fizerem dezoito anos, ficam por sua conta, para cometerem os seus próprios erros e serem responsáveis por eles. Mas tu não és uma criança que eu possa largar solta no mundo. Afinal, o que aconteceria se caísses?
E o que te acontecerá quando eu já aqui não estiver para te amparar?
Depois de passar uma semana, e mais outra, comecei a aperceber-me de que no escritório de advogados de Robert Ramirez encarariam uma mulher que albergasse aqueles pensamentos secretos com a mesma repulsa que eu. Em vez disso, concentreime em fazer-te feliz. Joguei Scrabble até saber de cor todas as palavras de duas letras; vi programas do Animal Planet até ter decorado os guiões. Naquela altura, o teu pai já tinha voltado a entrar na rotina do trabalho; Amélia tinha regressado à escola.
Naquela manhã, tu e eu encolhemo-nos para caber na casa de banho de baixo. Fiquei virada para ti, com os braços debaixo
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dos teus, equilibrando-te por cima da sanita para que pudesses fazer chichi.
- Os sacos - disseste. - Estão a atrapalhar!
com uma mão, ajeitei os sacos do lixo que estavam enrolados em volta das pernas enquanto gemia sob o peso do teu corpo. Tinha feito uma série de tentativas falhadas
para arranjar uma maneira de ires à casa de banho com um molde de gesso como o teu - mais uma informaçãozinha que os médicos não partilham. Através de fóruns de
pais online aprendi a entalar sacos de plástico para o lixo na borda da abertura do gesso, uma espécie de forro para que o gesso se mantivesse seco e limpo. Nem preciso de dizer que demoravas cerca de trinta minutos para ires à casa de banho e, após alguns acidentes, começaste a prever muito bem quando precisavas de ir, em vez de esperar até ao último minuto.
- Quarenta mil pessoas por ano magoam-se nas sanitas - disseste.
Rangi os dentes.
- Por amor de Deus, Willow, concentra-te antes que sejam quarenta mil e uma a contar contigo.
- Está bem, já estou despachada.
com mais um número de equilibrismo, passei-te o rolo de papel higiénico e deixei-te limpar entre as pernas.
- Boa - disse eu, debruçando-me para puxar o autoclismo e depois recuei com cautela para passar pela porta estreita da casa de banho. Mas o meu sapato de ténis ficou preso na borda do tapete, e senti-me cair para o chão. Virei-me para cair primeiro, para que o meu corpo te amparasse a queda.
Não sei bem qual de nós começou a rir primeiro, e quando a campainha da porta e o telefone começaram a tocar ao mesmo tempo, rimos ainda mais. Talvez devesse mudar a minha mensagem. "Desculpe, agora não posso atender. Estou a segurar na minha filha, com vinte e quatro quilos de gesso, por cima da sanita."
Apoiei-me nos cotovelos, endireitando-te juntamente comigo. A campainha da porta voltou a tocar, impaciente.
- Já vou - gritei.
- Mamã! - guinchaste. - As minhas calças!
Ainda estavas meio nua depois da ida à casa de banho, e vestir-te as calças de flanela do pijama era tarefa para demorar mais dez minutos. Em vez disso, agarrei num dos sacos do lixo que ainda estava entalado no gesso e enrolei-o à tua volta como uma saia preta de plástico.
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No alpendre estava a Sr.a Dumbroski, uma vizinha que vivia ao fundo da rua. Tem dois netos gémeos da tua idade que a visitaram no ano passado, roubaram-lhe os óculos e lançaram fogo a um monte de folhas secas que se teria propagado à garagem se o carteiro não tivesse aparecido no momento certo.
- Olá, minha querida - disse a Sr.a Dumbroski. - Espero não ter vindo em má altura.
- Oh não - respondi. - Estávamos só... - olhei para ti, com o saco do lixo, e começámos as duas a rir outra vez.
- Vinha buscar o meu prato - disse a Sr.a Dumbroski.
- O seu prato?
- Aquele que vinha com a lasanha que eu fiz. Espero que tenha tido oportunidade para prová-la.
Devia ser uma das refeições que tínhamos à nossa espera quando regressámos do inferno que foi o Disney World. Para ser sincera, só comemos algumas; o resto estava a secar no congelador naquele preciso momento. Uma pessoa não conseguia comer toda aquela quantidade de macarrão com queijo, lasanha e massa.
Se tivermos feito uma refeição para uma pessoa que está doente, parece-me um descaramento ir perguntar se já a comeu para poder devolver-nos o nosso Pyrex.
- E se eu procurar o prato, Sr.a Dumbroski, e depois pedir ao Sean para ir levá-lo a sua casa?
Franziu os lábios.
- Bem - disse - então acho que vou ter de esperar para fazer o meu guisado de atum.
Por um instante pensei em pôr-te nos braços flácidos da Sr.a Dumbroski e vê-la vacilar sob o teu peso enquanto eu ia ao congelador procurar a estúpida lasanha e atirá-la para o chão junto aos pés dela - mas em vez disso limitei-me a sorrir.
- Obrigada por ser tão amável. Agora tenho de ir deitar a Willow para fazer uma sesta - disse eu, e fechei a porta.
- Eu não faço a sesta - disseste.
- Eu sei. Só disse aquilo para que ela se fosse embora, para não a matar - virei-te para entrar na sala e coloquei-te uma legião de almofadas atrás das costas para poderes sentar-te confortavelmente. Depois fui buscar as calças do pijama e debrucei-me para carregar no botão que piscava no atendedor de chamadas.
- Primeiro a perna esquerda - disse, passando a larga cintura de elástico pelo gesso.
"Tem uma mensagem nova."
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Enfiei-te a perna direita nas calças e puxei-as por cima do gesso nas ancas.
"Sr. e Sr.a O'Keefe... fala Marin Gates do escritório de advocacia de Robert Ramirez. Gostaríamos de discutir um assunto com os senhores."
- Mãe - queixaste-te, quando as minhas mãos ficaram imóveis na tua cintura.
Prendi o tecido que sobrava com um nó.
- Sim - disse eu, com o coração aos saltos. - Já está quase.
Daquela vez a Amélia estava na escola, mas, mesmo assim, tivemos de levar a Willow para o escritório do advogado. E daquela vez eles estavam preparados: junto à máquina de café havia pacotes de sumo; junto às revistas lustrosas de arquitectura havia uma pequena pilha de livros ilustrados. Quando a secretária nos acompanhou para sermos recebidos pelos advogados, não nos levou para a sala de reuniões. Em vez disso abriu a porta de um gabinete com centenas de tons de branco: desde o chão de madeira tratada, aos painéis creme das paredes e aos dois sofás pálidos de couro. Esticaste o pescoço para observar tudo. Devia parecer o paraíso? E se fosse esse o caso, então o que seria Robert Ramirez?
- Achei que o sofá talvez fosse mais confortável para a Willow
- disse ele num tom suave. - E também pensei que ela talvez preferisse ver um filme em vez de estar a ouvir conversas aborrecidas de adultos. - Mostrou o DVD do Ratatui, o teu preferido, embora ele não soubesse isso. Depois de o teres visto pela primeira vez, fizemos o verdadeiro ratatouille para o jantar.
Marin Gates trouxe um leitor de DVDs portátil e um par de auscultadores Bose muito elegantes. Ligou-o, instalou-te no sofá, ligou o leitor de DVDs, e enfiou a palhinha
num pacote de sumo.
- Sargento O'Keefe e Sr.a O'Keefe - disse Ramirez. - Achámos melhor discutir este assunto com os senhores sem que a Willow estivesse presente, mas também percebemos que isso seria uma impossibilidade física, devido ao seu estado. Foi a Marin que teve a ideia do DVD. Também tem trabalhado muito ao longo das duas últimas semanas. Examinámos os ficheiros clínicos e dêmo-los a outra pessoa para os examinar. O nome Marcus Cavendish diz-vos alguma coisa?
Sean e eu olhámos um para o outro e abanámos a cabeça.
- O Dr. Cavendish é escocês. É um dos maiores especialistas do mundo em osteogénese imperfeita. E, segundo a sua opinião,
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parece que têm uma boa causa para processarem a vossa obstetra por negligência médica. Lembra-se que a ecografia que fez às dezoito semanas estava demasiado nítida,
Sr.a O'Keefe... É uma evidência suficientemente forte que a sua obstetra ignorou. Devia ter sido capaz de reconhecer a doença do bebé nessa altura, muito antes de
serem visíveis as fracturas na ecografia seguinte. E devia ter-vos dado a informação nessa altura da gravidez... que talvez lhes permitisse alterar o resultado final.
Tinha a cabeça a andar à roda e Sean parecia totalmente confuso.
- Espere um instante - disse ele. - De que tipo de processo legal estamos a falar?
Ramirez olhou para ti.
- Chama-se negligência médica no diagnóstico pré-natal disse ele.
O advogado olhou para Marin Gates, que pigarreou.
- Um processo legal por negligência médica no diagnóstico pré-natal dá direito aos pais de instaurarem um processo por danos, devido ao nascimento e cuidados de
uma criança com incapacidades graves - disse ela. - A questão é que se a sua médica tivesse dito antes que o bebé ia nascer com incapacidades graves, teriam podido
fazer escolhas e opções relativamente à continuação ou interrupção da gravidez.
Lembro-me de me zangar com Piper há algumas semanas atrás: "Tens sempre de ser assim tão perfeita?"
E se no teu caso fosse a única vez em que ela não foi perfeita?
Fiquei colada ao assento, tal como tu; não conseguia mexer-me, não conseguia respirar. Sean falou por mim:
- Está a dizer que a minha filha nunca devia ter nascido? acusou. - Que foi um erro? Não vou ficar a ouvir estes disparates.
Olhei para ti: tinhas tirado os auscultadores e estavas a ouvir cada palavra.
Quando o teu pai se levantou, Robert Ramirez fez o mesmo.
- Sargento CKKeefe, sei como isto parece horrível. Mas o termo negligência médica no diagnóstico pré-natal é apenas um termo legal. Não desejamos que a sua filha
não tivesse nascido: ela é simplesmente linda. Só achamos que, quando um médico não consegue providenciar os cuidados que um paciente merece, devia ser responsabilizado - deu um passo em frente. Trata-se de negligência médica. Pense em todo o tempo e dinheiro que gastou para cuidar da Willow: e que vai gastar para cuidar dela no futuro. Por que razão tem de pagar pelo erro de outra pessoa?
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Sean era muito mais alto do que o advogado e, por um instante, pensei que talvez fosse empurrar Ramirez para poder passar. Mas em vez disso espetou um dedo no peito
do advogado.
- Eu amo a minha filha - disse Sean, numa voz grossa. Amo-a.
Pegou-te ao colo arrancando a ficha dos auscultadores, derrubando o leitor de DVDs, entornando o pacote de sumo para cima do sofá de couro.
- Oh - gritei, procurando um lenço de papel dentro da mala para limpar a mancha. Aquele couro creme magnífico ficaria estragado.
- Não faz mal, Sr.a O'Keefe - murmurou Marin, ajoelhando-se ao meu lado. - Não se preocupe com isso.
- Papá, o filme ainda não acabou - disseste.
- Já sim - Sean arrancou-te os auscultadores e atirou-os para o chão. - Charlotte - disse ele - vamos embora daqui.
Já ia a meio do corredor, irado, enquanto eu limpava o sumo. Percebi que ambos os advogados estavam a olhar para mim e recuei, apoiada nos calcanhares.
- Charlotte! - a voz de Sean ressoou vinda da sala de espera.
- Hum... obrigada. Lamento imenso ter-vos incomodado - pus-me de pé, cruzando os braços, como se tivesse frio ou tivesse de me abraçar para me manter inteira. - Só
queria... há uma coisa... - olhei para os advogados e respirei fundo. - O que acontece se ganharmos?
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"Lancem-me ao fundo do mar.
Mandem-me para a água salgada.
Não há arado que me toque nos ossos.
Nem Hamlet que me segure nos maxilares para dizer
Como os gracejos se foram e a minha boca está vazia.
Necrófagos longos de olhos verdes furar-me-ão os olhos,
Peixes púrpura jogarão às escondidas,
E eu serei o ribombar do trovão, o rebentar das ondas,
Nas profundezas de água salgada.
Lancem-me... ao fundo do mar."
- CARL SANDBURG, "BONÉS"
Envolver: processo delicado no qual uma mistura é acrescentada a outra, utilizando uma grande colher ou espátula de metal.
A maioria das vezes, quando falamos em dobrar2, há um vinco. Dobramos roupa, dobramos notas ao meio. com a massa é diferente: juntamos duas substâncias distintas,
mas aquele espaço entre elas não desaparece completamente - uma mistura que foi envolta correctamente é leve, cheia de ar, com ambas as partes ainda a travarem conhecimento.
É uma combinação no limite, à medida que uma mistura cede diante da outra. Pensem num mau jogo depóquer, numa discussão, em qualquer situação em que, uma das partes, simplesmente se rende diante da outra.
SOUFFLÉ DE FRAMBOESAS E CHOCOLATE
2 litros de puré de framboesas passado por um coador
8 ovos, separados
120 g de açúcar
100 g de farinha
250 g de chocolate amargo de boa qualidade, cortado em pedaços
0,5 dl de licor Chambord
2 colheres de sopa de manteiga derretida
Açúcar para polvilhar as formas de porcelana
Aquecer o puré de framboesas, até ficar morno, numa frigideira pesada. Bater as gemas com 80 gramas de açúcar numa tigela grande; juntar a farinha e o puré de framboesas
e voltar a colocar a mistura na frigideira.
Cozinhar em lume brando, mexendo sempre, até obter um creme espesso. Não deixar ferver. Retirar do lume e deitar o chocolate mexendo sempre até estar todo derretido.
Juntar o licor. Tapar a mistura de base com plástico para impedir que se forme uma película.
2. Folding, na versão original em inglês significa envolver e dobrar simultaneamente. (N. da T.)
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Entretanto, untar seis formas de porcelana com manteiga e polvilhar com açúcar. Pré-aquecer o forno a
220? C.
Bater as claras em castelo com o restante açúcar. E aqui verão como é - a junção de duas misturas muito diferentes - ao envolver as claras no chocolate. Nenhuma
delas se mostrará disposta a abdicar da sua substância: o chocolate escuro tornar-se-á parte da espuma das claras, e vice-versa.
Deitar a mistura nas formas com uma colher, ficando a meio centímetro das bordas. Meter no forno de imediato. Os soufflés estão prontos quando estão bem crescidos,
dourados por cima, com as extremidades com aspecto seco - cerca de 20 minutos. Mas não se surpreendam se, quando os retirarem do forno, se afundarem sob o peso das suas promessas.
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Charlotte
Abril de 2007
Não podemos viver sem impacto. Foi uma das primeiras coisas que os médicos nos disseram quando começaram a explicar o paradoxo que é a osteogénese imperfeita: temos de ser activos, mas não podemos sofrer fracturas, porque se sofrermos fracturas, não podemos ser activos. Os pais que mantinham os filhos sedentários ou que os obrigavam a andar de joelhos para terem menos probabilidades de cair e sofrer uma fractura, também corriam o risco de que os músculos e as articulações deles nunca se desenvolvessem o suficiente para protegerem os ossos.
Era Sean quem gostava de correr riscos. No entanto, não era ele quem ficava em casa a maior parte das vezes quando sofrias uma fractura. Passou anos a convencer-me que, para teres uma vida normal, alguns moldes de gesso não seriam um custo demasiado alto a pagar; talvez agora eu conseguisse convencê-lo de que palavras tolas como negligência médica no diagnóstico pré-natal não significavam nada em comparação com o futuro que podiam assegurar-te. Apesar de Sean ter abandonado o escritório de advogados, eu não tinha perdido as esperanças de que talvez voltassem a telefonar. Adormecia a pensar no que Robert Ramirez dissera. Acordava com um gosto estranho na boca, agridoce; demorei dias a perceber que era apenas esperança.
Estavas sentada numa cama de hospital com um cobertor por cima do gesso, a ler um livro de perguntas e respostas enquanto esperavas pela infusão de pamidronato. Ao princípio vinhas de dois em dois meses; agora só tínhamos de vir duas vezes por ano a Boston. O pamidronato não é uma cura para a OI, apenas um tratamento, que
permite aos doentes do tipo III, como tu, andarem, em vez de ficarem presos a uma cadeira de rodas. Antes
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disto, até colocar os pés no chão podia provocar-te microfracturas nos pés.
- Nem ia acreditar, olhando para as fracturas dos fémures, mas os níveis dela estão muito melhores - disse o Dr. Rosenblad. Está no menos três.
Quando nasceste e fizeste um exame DEXA para verificar a densidade óssea, o teu nível era menos seis. Noventa e oito por cento da população situa-se entre valores positivos e menos dois. Os ossos estão sempre a renovar-se e a absorver o tecido ósseo velho; o pamidronato atrasa o ritmo a que o teu corpo absorve o osso; permite que te movimentes o suficiente para que os ossos criem resistência. Uma vez, o Dr. Rosenblad explicou-me mostrando uma esponja da cozinha: o osso é poroso, o pamidronato preenche um pouco os buracos.
Sofreste mais de cinquenta e duas fracturas em cinco anos com tratamento; nem posso imaginar como seria a vida sem ele.
- Hoje tenho um facto bom para ti, Willow - disse o Dr. Rosenblad. - Em breve, se precisarmos de um substituto para o plasma sanguíneo, podemos usar a água de coco.
Abriste muito os olhos.
- Já fez isso alguma vez?
- Estava a pensar em experimentar hoje... - sorriu-te. - Estou só a brincar. Queres fazer-me alguma pergunta antes de metermos mãos à obra?
Enfiaste a mão na minha.
- Duas picadas, está bem?
- É essa a regra - disse eu. Se uma enfermeira não conseguisse introduzir o cateter intravenoso na tua veia em duas tentativas, obrigava-a a chamar outra pessoa para fazê-lo.
É engraçado - quando saía com Sean, outro polícia e a mulher, eu é que era a mais tímida. Nunca era a alma da festa; não metia conversa com as pessoas que estavam atrás de mim na fila da mercearia. Mas quando estou num hospital, sou capaz de lutar por ti até à morte. Fui a tua voz até seres capaz de falar por ti própria. Nem sempre fui assim - quem não gosta de acreditar que os médicos é que sabem? Mas alguns não se deparam com um único caso de OI ao longo de toda a carreira. O facto de as pessoas me dizerem que sabem o que estão a fazer não me faz confiar nelas.
Excepto Piper. Acreditei nela quando me disse que seria impossível saber antes que ias nascer assim.
- Acho que podemos avançar - disse o Dr. Rosenblad.
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Os tratamentos duravam quatro horas cada, durante três dias seguidos. Após duas horas em que várias enfermeiras e médicos internos entravam para verificarem os teus
dados (sinceramente, achariam que o teu peso e altura poderiam alterar-se em meia hora?), chamavam o Dr. Rosenblad e então fazia-se uma colheita de urina. Depois disso era a colheita de sangue - seis tubos de ensaio enquanto agarravas na minha mão com tanta força que deixavas marcas de pequenas meias luas com as unhas na minha pele. Finalmente, a enfermeira colocaria o cateter intravenoso - a parte em que te mostravas mais renitente. Assim que ouvi os passos dela no corredor, tentei distrair-te referindo factos do teu livro.
"Na Roma antiga comiam-se línguas de flamingo como iguaria." "No Kentucky é ilegal trazer um gelado no bolso de trás."
- Olá, minha querida - disse a enfermeira. Tinha uma nuvem de cabelos de um amarelo pouco natural e um estetoscópio com um macaco preso de lado. Trazia um pequeno tabuleiro de plástico com uma agulha intravenosa, compressas com álcool e dois pedaços de adesivo branco.
- As agulhas são uma porcaria - disseste tu.
- Willow! Cuidado com a linguagem!
- Mas porcaria não é um palavrão. Os aspiradores limpam a porcaria.
- São uma porcaria, sobretudo se formos nós a fazer as limpezas - murmurou a enfermeira, passando uma compressa pelo teu braço. - Agora, Willow, vou contar até três antes de te picar. Estás pronta? Um... dois!
- Três - gemeste. - Mentiu!
- Às vezes é mais fácil se não estivermos à espera - disse a enfermeira, mas voltou a tirar a agulha. - Não ficou bem. Vamos tentar outra vez...
- Não - interrompi. - Não há outra enfermeira neste piso que possa fazer isso?
- Já coloco cateteres intravenosos há treze anos...
- Mas na minha filha não.
O rosto dela ficou duro como uma pedra.
- vou chamar a minha supervisora. Fechou a porta atrás de nós.
- Mas foi só a primeira picada - disseste. Sentei-me ao teu lado na cama.
- Ela era traiçoeira. Não vou correr riscos.
Passaste os dedos pelas páginas do livro, como se estivesses a ler Braille. Uma informação factual chamou-me a atenção: "O ano
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mais seguro da vida, em termos estatísticos, é quando temos dez anos."
Já estavas a meio caminho.
A parte melhor de passares a noite num hospital era eu não ter de preocupar-me por poderes ter de ir para lá por causa de uma escorregadela na banheira ou de prenderes um braço na manga do casaco. Assim que terminaram a primeira infusão e limparam o cateter, já dormias profundamente. Saí sorrateiramente do quarto às escuras e fui até à fileira de telefones públicos junto aos elevadores para telefonar para casa.
- Como está ela? - perguntou Sean assim que atendeu.
- Aborrecida. Inquieta. O costume. Como está a Amélia?
- Teve um Muito bom no teste de matemática e teve um ataque quando lhe disse que tinha de lavar a loiça depois do jantar.
Sorri.
- O costume - repeti.
- Adivinhas o que foi o jantar? - disse Sean. - Frango cordon bleu, batatas assadas e feijões verdes salteados.
- Pois, está bem - disse eu. - Nem sequer és capaz de cozer
um ovo.
- Não disse que fui eu que cozinhei. O balcão de pronto a comer estava particularmente bem fornecido esta noite.
- Bem, a Willow e eu banqueteámo-nos com pudim de tapioca, canja e gelatina vermelha.
- Quero telefonar-lhe amanhã de manhã, antes de ir para o trabalho. A que horas acorda?
- Às seis, para a mudança de turno das enfermeiras - disse eu.
- vou acertar o despertador - respondeu Sean.
- A propósito, o Dr. Rosenblad perguntou-me outra vez se queria fazer a cirurgia.
Isto era o pomo da discórdia entre Sean e eu. O teu cirurgião ortopédico queria fixar os teus fémures com varetas depois de tirares o molde de gesso para que, mesmo que houvesse fracturas no futuro, estes não se deslocassem. As varetas também impediriam a curvatura, visto que um osso afectado por OI cresce em espiral. Como o Dr. Rosenblad disse, era a melhor maneira de lidar com a OI, visto não poder ser curada. Mas embora eu seja fanática por fazer tudo o que te possa poupar algum sofrimento no futuro, Sean estava concentrado no presente - e no facto de uma cirurgia implicar que ficasses novamente incapacitada. Quase o ouvia fincar os calcanhares no chão.
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Não imprimiste um artigo qualquer sobre como as varetas impedem o crescimento das crianças com OI...
- Estás a pensar nas varetas para fixar a coluna vertebral disse eu. - Assim que fossem colocadas para combater a escoliose, a Willow não iria crescer mais. Mas
isto é diferente. O Dr. Rosenblad até disse que as varetas se tornaram tão sofisticadas que crescem quando ela crescer: são telescópicas.
- E se ela não sofrer mais nenhuma fractura nos fémures? Então vai fazer a cirurgia para nada.
As hipóteses de não voltares a fracturar uma perna eram mais ou menos iguais às de o Sol não nascer amanhã de manhã. Essa é a outra diferença entre Sean e eu - eu sou a pessimista de serviço.
- Queres mesmo ter de lidar com outro molde de gesso como este? Se ela tiver de ficar assim aos dez ou doze anos, quem vai conseguir pegar-lhe ao colo?
Sean suspirou.
- Ela é uma criança, Charlotte. Não devia poder andar por aí a correr durante algum tempo antes de voltares a tirar-lhe essa oportunidade?
- Eu não estou a tirar-lhe nada - disse, magoada. - A verdade é que ela vai cair. A verdade é que vai sofrer uma fractura. Não me faças passar por má da fita, Sean, só por estar a tentar ajudá-la a longo prazo.
Houve uma hesitação.
- Sei como é difícil - disse ele. - Sei o quanto fazes por ela. Estava o mais próximo possível de aludir à visita desastrosa ao
escritório de advocacia.
- Não estava a queixar-me...
- Nunca disse que estavas. Só estou a dizer... sabíamos que não ia ser fácil, não sabíamos?
Sim, sabíamos que não ia ser. Mas acho que não nos apercebemos de que ia ser assim tão difícil.
- Tenho de desligar - disse eu, e quando Sean disse que me amava, fingi não ter ouvido.
Desliguei e telefonei imediatamente a Piper.
- Qual é o problema dos homens? - perguntei.
Em ruído de fundo, ouvia a água a correr e os pratos a tilintarem no lava-loiça.
- Isso é uma pergunta retórica? - perguntou ela.
- O Sean não quer que a Willow faça a cirurgia de fixação com varetas.
- Espera lá. Não estás em Boston por causa do pamidronato?
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- Sim, e o Rosenblad mencionou o assunto hoje quando o vimos - disse eu. - Tem estado a incitar-nos para fazê-la há um ano, e o Sean está sempre a adiar, e a Willow continua a sofrer fracturas.
- Apesar de ficar melhor a longo prazo?
- Apesar disso.
- Bem - disse Piper - então tenho uma palavra para ti: Lisístrata.
Desatei a rir.
- Há um mês que durmo com a Willow no sofá da sala. Se eu dissesse ao Sean que ia deixar de fazer sexo com ele, isso seria uma ameaça bastante fraca.
- Então aí está a tua resposta - disse Piper. - Traz as velas, as ostras, o negligé, tudo a que tem direito... e quando ele estiver a deleitar-se num coma hedonístico, volta a perguntar-lhe. - Ouvi uma voz lá ao fundo. - O Rob diz que é infalível.
- Agradece-lhe o voto de confiança.
- Olha, a propósito, diz à Willow que o comprimento do polegar de uma pessoa é igual ao comprimento do nariz.
- A sério? - levei a mão ao rosto para verificar. - Ela vai adorar isso. :
- Oh, bolas, tenho uma chamada em espera. Por que é que os bebés não podem nascer às nove da manhã!
- Isso é uma pergunta retórica? - disse eu.
- E voltamos ao princípio. Amanhã falamos, Char.
Depois de ter desligado, fiquei a olhar para o auscultador durante bastante tempo. "Ela vai ficar melhor a longo prazo", dissera Piper.
Acreditaria nisso, incondicionalmente? Não só na cirurgia de fixação por varetas, mas também em qualquer acto de uma boa mãe?
Não sabia sequer se ia arranjar coragem para instaurar um processo por negligência médica no diagnóstico pré-natal. Dizer em abstracto que há crianças que nunca
deviam ter nascido já era difícil, mas isto ia mais além. Significava dizer que uma criança em particular - a minha filha - não devia ter nascido. Que tipo de mãe anunciaria diante de um juiz e de um júri que desejava que a filha nunca tivesse existido? O tipo de mãe que não ama a filha... ou o tipo de mãe que a ama demais? O tipo de mãe que diria qualquer coisa para que ela tivesse uma vida melhor.
Mas, mesmo que chegasse a uma conclusão relativamente a este dilema moral, o problema adicional era que a pessoa que ia ser processada não me era estranha - era a minha melhor amiga.
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Lembrei-me da almofada de espuma com que costumávamos forrar a cadeirinha do carro e o berço, de como, às vezes, quando te pegava ao colo, ainda conseguia ver a
marca do teu corpo, como uma memória ou um fantasma. E então, como por magia, desaparecia. A marca indelével que deixei em Piper, a marca indelével que ela deixou
em mim - bem, talvez não fossem permanentes. Durante anos, acreditei em Piper quando ela me disse que os exames nunca revelariam precocemente que sofrias de OI, mas ela estava a referir-se a análises ao sangue. Nem sequer aludiu que outros exames pré-natais - como as ecografias
- podiam revelar a tua OI. Teria andado a arranjar desculpas para mim, ou para si própria?
"Não irá afectá-la", murmurou uma voz na minha cabeça. "É para isso que servem os seguros contra negligência." Mas irá afectar-nos a nós. Para garantir que possas confiar em mim, perderei a amiga em quem confio desde antes de teres nascido.
No ano passado, quando Emma e Amélia estavam no sexto ano, o professor de ginástica veio por trás de Emma e apertou-lhe os ombros enquanto ela estava à espera, junto ao campo de jogos, de um jogo de softball. O mais provável era ter sido um gesto inócuo, mas Emma chegou a casa a dizer que tinha ficado assustada. "O que hei-de fazer?" perguntou-me Piper. "Dou-lhe o benefício da dúvida, ou vou ser uma mãe galinha?" Antes mesmo que eu pudesse dar-lhe a minha opinião, ela já estava decidida. "É a minha filha", disse ela. "Se não for lá e disser qualquer coisa, posso vir a arrepender-me."
Adorava Piper Reece. Mas sempre hei-de adorar-te muito mais.
com o coração aos saltos, tirei um cartão-de-visita do bolso de trás das calças e marquei o número antes que perdesse a coragem.
- Marin Gates - disse uma voz do outro lado da linha.
- Oh - hesitei, surpreendida. Estava à espera de um atendedor de chamadas àquela hora da noite. - Não estava à espera que atendesse...
- Quem fala?
- Charlotte O'Keefe. Estive no seu escritório há duas semanas com o meu marido por causa...
- Sim, eu lembro-me - disse Marin.
Torci o fio de metal em volta do braço, imaginando as palavras que ia enviar por ele, mandá-las para o mundo, tornar tudo aquilo real.
- Sr.a O'Keefe?
- Estou interessada em... tomar medidas legais.
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Fez-se um breve silêncio.
- Porque não marcamos uma hora para a senhora vir aqui falar comigo? Posso pedir à minha secretária para telefonar-lhe amanhã.
- Não - disse, e depois abanei a cabeça. - Quero dizer, está bem, mas não vou estar em casa amanhã. Estou no hospital com a Willow.
- Lamento muito.
- Não, ela está bem. Bem, não está bem, mas são tratamentos de rotina. Chegamos a casa na quinta-feira.
- vou tomar nota.
- Óptimo - disse eu, expirando subitamente. - Óptimo.
- Dê os meus cumprimentos à sua família - respondeu Marin.
- Tenho só uma pergunta - disse eu, mas ela já tinha desligado o telefone. Coloquei-o junto aos lábios, senti o sabor amargo do metal. - Se estivesse no meu lugar,
faria isto?
"Se deseja fazer uma chamada", disse a voz mecânica de uma operadora, "por favor desligue e tente novamente."
O que diria Sean?
Nada, apercebi-me, porque não ia dizer-lhe o que tinha feito.
Voltei a percorrer o corredor em direcção ao teu quarto. Estavas a ressonar suavemente na cama. O vídeo que estavas a ver quando adormeceste projectava um reflexo em tons vermelhos, verdes e dourados por cima da cama, um vislumbre extemporâneo de Outono. Deitei-me no divã estreito em que uma enfermeira prestável transformara uma das cadeiras para as visitas; deixara-me um cobertor puído e uma almofada que rangia como gelo polar.
O mural na parede do fundo era um mapa antigo, com um navio pirata a navegar nas margens. Não há muito tempo, os marinheiros acreditavam que os mares tinham abismos, que as bússolas podiam indicar os locais onde, mais além, haveria dragões. Pensei nos exploradores que navegaram com os seus navios até ao fim do mundo. Como deviam estar aterrorizados ao arriscarem-se a cair no precipício; como deviam ter ficado maravilhados ao descobrirem que, em vez disso, havia lugares que apenas tinham visto em sonhos..
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Piper
Conheci Charlotte há oito anos, num dos rinques mais frios de New Hampshire, quando estávamos a vestir as nossas filhas de quatro anos de estrelas cadentes para
uma exibição de quarenta e cinco segundos no espectáculo de patinagem de Inverno do clube. Estava à espera que Emma acabasse de atar os patins enquanto as outras
mães prendiam com facilidade os cabelos das filhas em carrapitos e atavam as fitas dos fatos cintilantes em volta dos pulsos e tornozelos. Conversavam acerca da
feira de papel de embrulho para o Natal que o clube de patinagem ia realizar para angariar fundos e queixavam-se dos maridos, que não tinham posto as baterias da
câmara de vídeo a carregar o tempo suficiente. Em contraste com esta competência extemporânea, Charlotte estava sozinha, a um canto, a tentar convencer uma Amélia muito teimosa a prender os longos cabelos.
- Amélia - disse ela - a tua professora não te vai deixar ir para o gelo assim. Todas têm de estar iguais.
Parecia-me familiar, embora não me lembrasse de alguma vez ter falado com ela. Ofereci alguns ganchos para o cabelo a Charlotte e sorri.
- Se precisar - disse eu - também tenho supercola e verniz ultra-resistente. Não é o nosso primeiro ano no Clube de Patinagem Nazi.
Charlotte desatou a rir e aceitou os ganchos.
- Elas têm quatro anos!
- Parece que se não começarem cedo, não vão ter nada que dizer quando estiverem a fazer terapia - gracejei. - Sou a Piper. Uma mãe patinadora orgulhosamente rebelde.
Estendeu-me a mão.
- Charlotte.
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- Mãe - disse Emma - aquela é a Amélia. Falei-te nela na semana passada. Mudou-se para cá há pouco tempo.
- Viemos por causa do trabalho - disse Charlotte.
- Do seu ou do do seu marido?
- Não sou casada - disse ela. - Sou a nova chefe de pastelaria do Capers.
- É daí que a conheço. Li um artigo sobre si naquela revista. Charlotte corou.
- Não acredite em tudo o que lê...
- Devia estar orgulhosa! Eu nem sequer sei preparar as misturas para bolos da Betty Crocker sem as estragar. Felizmente, isso não faz parte do meu trabalho.
- O que faz?
- Sou obstetra.
- Bem, isso vence-me de caras - disse Charlotte. - com o meu trabalho, as pessoas ganham peso. com o seu, perdem-no.
Emma enfiou o dedo num buraco do fato.
- O meu fato vai cair porque não sabes coser - acusou ela.
- Não vai cair - suspirei, e depois virei-me para Charlotte. - Estava demasiado ocupada a suturar para coser um fato, por isso colei-lhe as bainhas a quente.
,
- Da próxima vez - disse Charlotte a Emma - eu coso o teu quando coser o da Amélia.
Isso agradava-me - a ideia de que ela já estava a contar com o facto de nos tornarmos amigas. Estávamos destinadas a ser parceiras no crime, mães subversivas que não se ralavam com o que ditavam as convenções. Precisamente nessa altura, a professora enfiou a cabeça no vestiário.
- Amélia? Emma? - disse ela bruscamente. - Estamos todas à vossa espera lá fora!
- Meninas, é melhor despacharem-se. Ouviram o que disse a Eva Braun.
Emma franziu o sobrolho.
- Mamã, ela chama-se Miss Helen. Charlotte riu.
- Partam uma perna3! - disse ela enquanto elas se apressavam a entrar no rinque. - Ou será que isso só funciona se o palco não for feito de gelo?
Não sei se consegue olhar para o passado e encontrar, escondido como os símbolos ocultos de um mapa do tesouro, o caminho que
3. Expressão para desejar boa sorte em palco. (N. da T.)
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indica o nosso destino, mas já tenho pensado muitas vezes nesse momento, na fase de boa sorte de Charlotte. Será que me lembro dela por causa de como nasceste? Ou
será que nasceste assim por causa de eu me lembrar dela?
Rob estava debruçado por cima de mim, com a perna a mover-se entre as minhas enquanto me beijava.
- Não podemos - sussurrei. - A Emma ainda está acordada...
- Ela não vai entrar aqui...
- Não sabes...
Rob escondeu o rosto no meu pescoço.
- Ela sabe que fazemos sexo. Se não, não estaria aqui.
- Gostas de imaginar os teus pais a fazerem sexo? Fazendo uma careta, Rob afastou-se de mim.
- Pronto, isso sem dúvida arruinou o momento. Ri.
- Dá-lhe dez minutos para que adormeça que eu volto a atiçar o fogo.
Deitou a cabeça nos braços, olhando para o tecto.
- Quantas vezes por semana achas que o Sean e a Charlotte o fazem?
- Não sei!
Rob olhou para mim.
- Claro que sabes. As mulheres falam dessas coisas.
- Muito bem, em primeiro lugar, não, não falamos. Em segundo, mesmo que falássemos, eu não ando por aí a pensar em quantas vezes por semana a minha melhor amiga faz sexo com o marido.
- Pois, sim - disse Rob. - Então nunca olhaste para o Sean e pensaste em como seria dormir com ele?
Apoiei-me num cotovelo. -E tu? Ele sorriu.
- O Sean não faz o meu género...
- Muito engraçado - olhei para ele. - A Charlotte? A sério?
- Bem... tu sabes... é só por curiosidade. Até o Gordon Ramsay4 tem de pensar em Big Mães de vez em quando, de passagem.
- Então, eu sou a refeição gourmet requintada e a Charlotte é comida rápida?
- Foi uma metáfora infeliz - admitiu Rob.
4. Chefe de cozinha famoso, detentor de várias estrelas Michelin, com vários programas na televisão. (N. da T.)
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Sean O'Keefe é alto, forte, fisicamente violento - o oposto da estrutura leve de corredor de Rob, das suas mãos cuidadosas de cirurgião, do seu vicio da leitura.
Uma das razões pelas quais me apaixonei por Rob foi o facto de ele parecer estar mais impressionado com a minha mente do que com as minhas pernas. Se é que alguma
vez pensara em como seria estar com uma pessoa como Sean, o impulso devia ter sido rapidamente refreado: passados todos aqueles anos, e depois de todas as conversas
com Charlotte, conhecia-o demasiado bem para achá-lo atraente.
Mas a intensidade de Sean também se notava no seu papel de pai
- é doido pelas filhas; é muito reservado e protector relativamente a Charlotte. Rob é cerebral e não visceral. Como seria ser o alvo de tanta paixão de uma vez?
Tentei imaginar Sean na cama. Usaria calças de pijama, como Rob? Ou não usaria nada?
- Hum - disse Rob. - Não sabia que podias corar até... Puxei os lençóis até ao queixo.
- Para responder à tua pergunta - disse eu - nem sequer tenho a certeza de que seja uma vez por semana. Entre a Willow e o horário de trabalho do Sean, provavelmente
nem sequer estão no mesmo quarto à noite a maior parte das vezes.
Apercebi-me de que era estranho que Charlotte e eu não falássemos sobre sexo. Não por eu ser a melhor amiga dela, mas por ser sua médica - parte do meu questionário
médico incidia sobre se a paciente tinha ou não problemas durante as relações sexuais. Ter-lhe-ia perguntado isso? Ou teria saltado essa parte por parecer demasiado
pessoal fazer essa pergunta a uma amiga em vez de a uma desconhecida? Nessa altura, o sexo era um meio para atingir um fim: um bebé. Mas e agora? Charlotte seria
feliz? Ela e Sean deitar-se-iam na cama a compararem-se comigo e com Rob?
- Bem, imagina. Tu e eu estamos no mesmo quarto à noite - Rob debruçou-se por cima de mim. - E se maximizássemos esse potencial?
- A Emma...
- Agora está perdida em sonhos - Rob puxou-me a camisola do pijama pela cabeça e ficou a olhar para mim. - Por acaso, eu também estou...
Coloquei os braços em volta do pescoço dele e beijei-o devagar.
- Ainda estás a pensar na Charlotte?
- Qual Charlotte? - murmurou Rob e beijou-me também.
Uma vez por mês Charlotte e eu íamos ao cinema e depois a um bar pouco sofisticado chamado Maxie's Padb - um lugar cujo nome me
5. Maxi pad significa toalhete para higiene íntima. (N. da T.)
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dá vontade de rir, dada a conotação ginecológica, embora tenha a certeza de ter passado despercebida ao próprio Maxie, um velho pescador grisalho do Maine que, quando
pedimos Chardonnay pela primeira vez, nos disse que não havia. Mesmo quando os únicos filmes em exibição eram filmes de terror mesmo maus ou comédias de adolescentes,
arrastava Charlotte para sair de casa à noite. Se não o fizesse, havia alturas em que nem sequer saía de casa.
A melhor coisa do Maxie's era o neto dele, Moose, um defesa de futebol americano que fora expulso da faculdade por causa de um escândalo desportivo. Tinha começado a trabalhar no bar do avô há três anos, quando veio para casa para avaliar as suas opções, e nunca mais foi embora. Tinha quase dois metros de altura, era loiro, musculoso e tinha a acuidade mental de uma espátula.
- Aqui tem, minha senhora - disse Moose, colocando uma cerveja pale ale em frente a Charlotte, que mal olhou para ele.
Havia qualquer coisa que não batia certo em Charlotte naquela noite. Tinha tentado cancelar o nosso encontro marcado, mas eu não deixei e nas últimas horas estava distante e distraída. Atribuí o facto a estar preocupada contigo - com o tratamento com pamidronato, as fracturas dos fémures e a cirurgia de fixação por varetas, tinha bastante em que pensar - e eu estava determinada a distraí-la.
- Ele piscou-te o olho - anunciei, assim que Moose virou costas para atender outro cliente.
- Oh, deixa-te disso - disse Charlotte. - Sou demasiado velha para que se metam comigo.
- Os quarenta e quatro anos são os novos vinte e dois.
- Pois, fala comigo quando tiveres a minha idade.
- Charlotte, só tenho menos dois anos do que tu! - ri e bebi um pouco de cerveja. - Meu Deus, somos patéticas. Ele provavelmente está a pensar, "Coitadas daquelas senhoras de meia-idade; o mínimo que posso fazer é fazê-las ganhar o dia fingindo que as acho minimamente sensuais."
Charlotte ergueu a caneca.
- A não sermos casadas com um homem demasiado novo para poder alugar um carro na Hertz.
Fui eu que apresentei a tua mãe ao teu pai. Acho que faz parte da natureza humana, aqueles que são casados não descansam enquanto não encontrarem parceiros para os amigos solteiros. Charlotte nunca se casara - o pai de Amélia era um toxicodependente que tentou recuperar-se durante a gravidez de Charlotte, falhou redondamente e foi para a índia com uma stripper de dezassete anos. Por isso, quando um polícia mesmo muito atraente, sem aliança de
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casamento, me mandou encostar à berma por excesso de velocidade, convidei-o para jantar para que pudesse conhecer Charlotte.
- Não saio com ninguém que não conheça - disse-me a tua mãe.
- Então faz uma pesquisa no Google.
Passados dez minutos ela telefonou-me, muito agitada, porque Sean O'Keefe também era o nome de um pedófilo recentemente em liberdade condicional. Passados dez meses, casou com o outro Sean
O'Keefe.
Observei Moose a empilhar copos atrás do balcão, com a luz a reflectir-se-lhe nos músculos.
- Como vão as coisas com o Sean? - perguntei. - Já conseguiste convencê-lo?
Charlotte ficou sobressaltada, quase derrubando a cerveja.
- A fazer o quê?
- A cirurgia de fixação por varetas da Willow. O que havia de ser?
- Pois - disse Charlotte. - Esqueci-me que te tinha dito.
- Charlotte, falamos todos os dias - olhei para ela com mais atenção. - Tens a certeza de que estás bem?
- Só preciso de uma boa noite de sono - respondeu ela, mas estava a olhar para a cerveja, passando um dedo pela borda do copo até fazê-lo cantar. - Sabes, estive a ler uma coisa no hospital, numa revista. Tinha um artigo sobre uma família que processou o hospital depois de o filho ter nascido com fibrose quística.
Abanei a cabeça.
- Essa mentalidade de colocar as culpas nos outros deixa-me fora de mim. O que é preciso é culpar outra pessoa qualquer para se sentirem melhor.
- Talvez a culpa fosse mesmo de alguém.
- É puro azar. Sabes o que um obstetra diria se um casal tivesse um bebé com FQ? "Oh, tiveram um bebé com um defeito." Não é uma questão de apreciação, é apenas
a constatação de um facto.
- Um bebé com um defeito - repetiu Charlotte. - É isso que achas que me aconteceu?
Às vezes, falo sem pensar - como naquele momento, ao lembrar-me demasiado tarde de que o interesse de Charlotte naquele assunto não era apenas teórico. Senti o calor a inundar-me o rosto.
- Não estava a falar da Willow. Ela é...
- Perfeita? - disse Charlotte em tom de desafio.
Mas és. Fazes a imitação mais engraçada da Paris Hilton que já vi; és capaz de dizer o alfabeto de trás para a frente; as tuas feições são delicadas, como um elfo, como num conto de fadas. Aqueles ossos frágeis são a parte menos importante de ti.
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De repente, Charlotte cedeu.
- Desculpa, não devia ter dito aquilo.
- Não, a sério, a minha boca só devia poder funcionar quando o cérebro estivesse envolvido no processo.
- É que estou exausta - disse Charlotte. - Devia ir-me embora. Quando comecei a levantar-me do banco, ela abanou a cabeça. - Fica aqui, acaba a tua cerveja.
- Deixa-me acompanhar-te até ao carro.
- Já sou uma mulher adulta, Piper. Esquece o que eu disse. Acenei a cabeça. E, estúpida, esqueci.
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Amélia
Ali estava eu na biblioteca da escola, um dos pouco sítios em que era capaz de fingir que a minha vida não era completamente dominada pela tua
OI, quando me deparei com ela: uma fotografia numa revista de uma mulher igualzinha a ti. Era estranho, era como uma daquelas fotografias do FBI em que envelhecem artificialmente uma
criança raptada há dez anos, para podermos reconhecê-la na rua. Tinha os teus cabelos finos e sedosos, o queixo pontiagudo, as pernas curvadas. Já tinha visto outras
crianças com OI e sabia que todas têm características semelhantes, mas aquilo era mesmo caricato.
E ainda mais estranho era o facto de esta senhora ter um bebé ao colo, e estar ao lado de um gigante. Ele tinha o braço em volta dela e sorria na fotografia com
uma saliência do maxilar superior mesmo horrível.
"Alma Dukins", estava escrito no texto mais abaixo, "mede apenas noventa e sete centímetros; o marido, Grady, mede um metro e noventa e três."
- O que estás a fazer? - perguntou Emma.
Era a minha melhor amiga; éramos melhores amigas desde sempre. Depois de todo aquele pesadelo da Disney, quando os miúdos na escola descobriram que tinha passado a noite num lar de acolhimento, ela (a) não me tratou como uma leprosa, e (b) ameaçou bater em quem o fizesse. Naquele momento, apareceu por trás de mim e apoiou o queixo no meu ombro.
- Olha, aquela senhora parece a tua irmã. Acenei com a cabeça.
-Também tem OI.Talvez a Wills tenha sido trocada à nascença. Emma sentou-se na cadeira vazia ao meu lado.
- Esse é o marido dela? O meu pai era capaz de lhe arranjar os dentes na boa - olhou para a revista. - Meu Deus, como é que conseguem sequer fazê-lo?
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- Isso é nojento - disse eu, embora estivesse a pensar o mesmo. Emma fez um balão com a pastilha elástica.
- Acho que toda a gente é da mesma altura quando está na cama disse ela. - Pensei que a Willow não pudesse ter filhos.
Eu também pensava. Acho que nunca ninguém falou contigo sobre isso, porque só tens cinco anos, e acredita que não queria pensar numa coisa tão repulsiva como isto, mas se podias partir um osso ao tossires, como é que um bebé poderia sair de dentro de ti, ou um tu sabes o quê
entrar?
Sei que se quiser ter filhos, um dia poderei tê-los. Mas se tu quiseres ter filhos, não será fácil, embora seja possível. Não é justo, mas por outro lado, no teu caso, o que há de justo?
Não podes patinar. Não podes andar de bicicleta. Não podes esquiar E mesmo quando jogas um jogo físico - como as escondidas - a Mãe costuma insistir para que eu conte até vinte. Finjo ficar furiosa com isso para que não sintas que estás a receber um tratamento especial, mas no fundo sei que está certo - não conseguirias movimentar-te tão depressa como eu, com os teus suportes, muletas ou cadeira de rodas, e demorarias mais tempo a esconder-te. "Amélia, espera!" dizes sempre quando vamos a pé a algum sítio e eu espero, porque sei que há um milhão de outras coisas em que te deixarei para trás.
vou crescer enquanto tu vais ficar do tamanho de uma criança pequena.
vou para a universidade, vou sair de casa, e não terei de preocupar-me com coisas tais como se vou chegar à bomba de gasolina ou aos botões do multibanco.
Talvez encontre um homem que não ache que eu sou um completo desastre, case com ele, tenha filhos e possa andar com eles ao colo sem me preocupar por poder fazer microfracturas na coluna.
Li o texto em letras mais pequenas no artigo da revista:
"Alma Dukins, de 34 anos, deu à luz no dia 5 de Março de 2007 uma bebé saudável. Dukins, que sofre de osteogénese imperfeita do Tipo III, mede noventa e sete centímetros
de altura e pesava dezanove quilos antes de engravidar. Aumentou oito quilos e meio durante a gravidez e a filha, Lulu, nasceu de cesariana às 32 semanas, quando
o pequeno corpo de Alma deixou de poder acomodar o útero dilatado. Pesava dois quilos e media quarenta e dois centímetros à nascença."
Quando brincas com bonecas é como se estivesses a representar num palco. A Mãe diz que eu também costumava fazer isso, embora só me lembre de desmembrar as minhas e de lhes cortar os cabelos. Às vezes
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apanho a mãe a observar-te a enrolar o braço do bebé improvisado, em gesso, e é como se uma nuvem de tempestade lhe ensombrasse o rosto - provavelmente pensa que o mais provável é que não venhas a ter um bebé a sério e, ao mesmo tempo, fica aliviada por não teres de saber o que é ver a tua própria filha partir um milhão de ossos, como ela.
Mas apesar do que a minha mãe pensa, ali estava a prova de que uma pessoa com OI podia ter uma família. Aquela Alma era do Tipo III, como tu. Não conseguia andar
como tu andas - estava presa a uma cadeira de rodas. E, apesar disso, encontrou um marido, com um sorriso pateta e tudo, e teve um bebé.
- Devias mostrar à Willow - disse Emma. - Leva-a. Quem irá reparar?
Então verifiquei para ver se a bibliotecária ainda estava ao computador; a encomendar roupa em Gap.com (tínhamos andado a espiá-la), e depois fingi um ataque de
tosse. Dobrei-me para a frente e enfiei a revista dentro do casaco. Sorri debilmente quando a bibliotecária olhou para mim para se certificar de que não estava a
cuspir um pulmão para o chão nem nada disso.
Emma estava à espera que guardasse a revista para ti, para te mostrar; ou até à Mãe, que um dia podias crescer; casar e ter um filho. Mas eu roubei-a por uma razão completamente diferente. Estás a ver; neste ano ias entrar para a pré-primária. E um dia vais estar no sétimo ano, como eu. E podes estar sentada nesta biblioteca e deparares-te com aquela estúpida revista e veres o que eu vi quando olhei para ela; o espaço entre Alma e o marido, aquele bebé, demasiado grande no colo dela.
Para mim, aquela não parecia uma família feliz. Era um espectáculo de circo, sem a tenda. Por que outra razão estaria numa revista? As famílias normais não aparecem nas notícias.
Na aula de inglês pedi para ir à casa de banho. Ali, arranquei a página da revista e rasguei a fotografia nos pedaços mais pequenos que consegui. Deitei-os pela sanita abaixo. Era o melhor que podia fazer para te proteger.
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Marin
As pessoas pensam na lei como um tribunal virtual consagrado, mas a verdade é que a minha profissão se assemelha muito mais a uma série cómica de má qualidade. Uma
vez representei uma mulher que estava a transportar um peru congelado da Stop-n-Save das redondezas, na véspera da Acção de Graças, quando o peru escorregou através do saco de plástico e lhe fracturou o pé. Processou a Stop-n-Save, mas também incluímos a empresa que fabricava os sacos de plástico, e ela foi para casa - sem muletas, reparem - várias centenas de milhar de dólares mais rica.
Depois houve o caso da mulher que ia para casa às duas da manhã, numa estrada secundária, a cento e trinta quilómetros por hora, quando colidiu com uma camioneta com um atrelado, que andava perdida e estava a fazer inversão de marcha. Teve morte instantânea e o marido queria processar a empresa que fazia os atrelados por estes não terem luzes de lado, para que a sua mulher pudesse vê-lo. Instaurámos um processo de morte por negligência ao condutor da camioneta, alegando perda do cônjuge - e pedimos milhões para compensar o facto de o marido ter perdido a companhia da sua querida mulher. Infelizmente, durante o julgamento, o advogado de defesa revelou que a mulher do meu cliente ia a caminho de casa vinda de um encontro com o amante.
Umas vezes ganhamos, outras vezes perdemos.
Olhando para Charlotte O'Keefe, que estava sentada no meu gabinete agarrada ao telemóvel, tive a certeza de como o caso ia desenrolar-se.
- Onde está a Willow? - perguntei.
- Na fisioterapia - disse Charlotte. - Vai lá estar até às onze.
- E as fracturas? Estão a sarar bem?
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- Estou a fazer figas - respondeu Charlotte.
- Está à espera de um telefonema?
Ela olhou para baixo, como se tivesse ficado admirada por estar a segurar no telemóvel.
- Oh, não, quero dizer, espero que não. Mas tenho de estar sempre contactável se a Willow se magoar.
Sorrimos educadamente uma para a outra.
- Deveríamos... esperar mais um pouco pelo seu marido?
- Bem - disse ela, corando. - Ele não virá ter connosco hoje. Para ser sincera, quando Charlotte me telefonou para marcar
uma reunião e falar sobre representação legal, fiquei surpreendida. Sean O'Keefe deixara bem clara a sua opinião quando saiu intempestivamente do gabinete de Bob.
O telefonema dela indicava que ele se acalmara o suficiente para avançar com a litigação, mas agora olhando para Charlotte - estava a começar a ter um mau pressentimento.
- Mas ele quer mesmo instaurar um processo legal, não quer? Ela remexeu-se na cadeira.
- Não percebo porque não posso fazer isso sozinha.
- Para além da resposta óbvia: que o seu marido vai ficar a saber mais tarde ou mais cedo, existe uma razão legal. A senhora e o seu marido são ambos responsáveis
por criarem e cuidarem da Willow. Digamos que a senhora contrata um advogado por sua iniciativa e faz um acordo com o médico, e depois é atropelada por um carro
e morre. O seu marido pode, por sua vez, processar o médico por não ter participado no acordo e, além disso, não ilibar o médico de futuras responsabilizações. Por causa disso, qualquer arguido irá insistir : para que, qualquer acordo a que se chegue ou sentença no julgamento, inclua ambos os pais. O que implica que, mesmo que o sargento O'Keefe não queira participar neste processo legal, vai ser implicado - ou seja vai ser implicado no processo legal - para que não haja litigação
no futuro.
Charlotte franziu o sobrolho.
- Compreendo.
- Isso vai ser um problema?
- Não - disse ela. - Não, não vai ser. Mas... não temos dinheiro para contratar um advogado. Mal nos chega para viver, com tudo o que a Willow precisa. É por isso... é por isso que estou aqui hoje para falar sobre o processo legal.
Todos os escritórios de advocacia - incluindo o de Robert Ramirez - dão início a um caso com uma análise para avaliar os custos e os benefícios. Foi por isso que demorámos tanto tempo a
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contactar os O'Keefe: tinha de verificar a validade da alegação junto de especialistas, tinha de proceder às diligências necessárias para verificar os processos
semelhantes a este e ver quais foram as indemnizações. Logo que soubesse que a estimativa de indenização pelo menos cobriria os custos do tempo que gastaríamos
e os honorários dos especialistas, telefonava aos nossos potenciais futuros clientes e dizia-lhes que a sua queixa era válida.
- Não tem de preocupar-se com os honorários dos advogados - disse num tom suave. - Faria parte do acordo judicial. No entanto, realisticamente, deve saber que na maioria dos processos por negligência médica no diagnóstico pré-natal se chega a acordo judicial fora do tribunal com uma indemnização menor do que a que um júri
concederia, porque as companhias de seguros não querem ser pressionadas. Dos casos que vão realmente a tribunal, em setenta e cinco por cento das vezes a decisão é a favor do arguido. No seu caso em particular, que se baseia na má interpretação de uma ecografia, pode não apelar ao júri: as ecografias não constituem provas muito convincentes em tribunal. E ficará sujeita a um considerável escrutínio do público. Acontece sempre que alguém instaura um processo legal por negligência médica no diagnóstico pré-natal.
Ela olhou para mim.
- Quer dizer que as pessoas vão pensar que faço isto pelo dinheiro.
- Bem - disse simplesmente. - E não é?
Os olhos de Charlotte encheram-se de lágrimas.
- Faço isto pela Willow. Fui eu que a pus neste mundo, por isso compete-me a mim fazer com que ela sofra o mínimo possível. Isso não me transforma em nenhum monstro. - Encostou os dedos aos cantos dos olhos. - Ou transforma?
Rangi os dentes e dei-lhe uma caixa de Kleenex. Bem, e essa não é a questão fundamental?
Era provável que, quando este processo legal chegasse ao tribunal, tivesses idade suficiente para compreender perfeitamente as implicações daquilo que a tua mãe estava a fazer - como um dia eu compreendi, quando me falaram acerca da minha adopção. Sabia como era saber que a nossa própria mãe não nos quisera. Por acaso, passei toda a minha infância a inventar desculpas para ela. Devaneio I: Estava desesperadamente apaixonada por um rapaz que a engravidara, e a família não conseguiu suportar
a mancha da vergonha, por isso enviaram-na para a Suíça e disseram a toda a gente que estava num colégio interno quando, em vez disso, estava a dar-me à luz. Devaneio
2: Ia para as Forças de Manutenção de Paz para salvar o
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mundo quando descobriu que estava grávida - e percebeu que tinha de colocar as necessidades dos outros acima do seu próprio desejo de ter um bebé. Devaneio 3: Era
actriz, a menina querida da América, que perderia a audiência com valores familiares tradicionais do midwest se se soubesse que era mãe solteira. Devaneio 4: Ela
e o meu pai eram muito pobres, produtores de leite que queriam que a filha tivesse uma vida melhor do que aquela que podiam oferecer-lhe.
Calculei que houvesse um momento seminal em que uma mulher percebesse o que significava ser mãe. Para a minha mãe verdadeira, talvez tivesse sido quando me entregou
a uma enfermeira e se despediu. Para a mãe que me criou, foi quando me fez sentar-me à mesa da cozinha e me disse que eu tinha sido adoptada. Para a tua mãe, era tomar a decisão de instaurar este processo legal, apesar das consequências públicas e privadas. Parecia-me que ser uma boa mãe significava correr o risco de perder o próprio filho.
- Queria tanto ter outro bebé - disse Charlotte num tom suave.
- Queria ter essa experiência, com o Sean. Queria que nós a levássemos ao parque e a empurrássemos nos baloiços. Queria fazer biscoitos com ela e assistir às peças de teatro da escola. Queria ensinar-lhe a montar a cavalo e a fazer esqui aquático. Queria que ela cuidasse de mim quando eu fosse velha - disse ela, olhando para mim. - E não ao contrário.
Senti um arrepio na nuca. Não queria acreditar que uma pessoa que tivesse posto um bebé neste mundo desistisse assim tão facilmente quando as coisas se tornavam difíceis.
- Acho que a maioria dos pais sabe que também há coisas más, juntamente com as boas - disse pausadamente.
- Não era ingénua: já tinha uma filha. Sabia que teria de tomar conta da Willow quando ela se magoasse. Sabia que teria de levantar-me a meio da noite quando tivesse pesadelos. Mas não sabia que ela ia estar magoada semanas a fio, anos a fio. Não sabia que ia estar acordada com ela todas as noites. Não sabia que ela nunca ficaria melhor.
Olhei para baixo, fingindo endireitar alguns papéis. E se a minha mãe tivesse abdicado de mim por eu não estar à altura daquilo que ela esperava?
- E a Willow? - disse eu, fazendo, sem rodeios, de advogada do diabo. - É uma menina inteligente. Como acha que ela lidará com o facto de a mãe afirmar que ela nunca
devia ter nascido?
Charlotte retraiu-se.
- Ela sabe que isso não é verdade - disse ela. - Nunca conseguiria imaginar a minha vida sem ela.
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Surgiu um sinal de aviso na minha cabeça.
- Pare imediatamente. Não diga isso. Nem sequer pode insinuá-lo. Se instaurar este processo legal, Sr.a O'Keefe, terá de ser capaz de afirmar, sob juramento, que
se soubesse da doença da sua filha mais cedo, se tivesse tido escolha, teria terminado a gravidez. - Fiquei à espera até ela olhar para mim. - Isso vai ser um problema?
Desviou os olhos, concentrando-se em qualquer coisa do outro lado da janela.
- É possível sentirmos falta de alguém que nunca tenhamos conhecido?
Alguém bateu à porta e a recepcionista espreitou.
- Desculpe interromper, Marin - disse Briony - mas o cliente das onze horas já está aqui.
- Onze? - disse Charlotte, pondo-se de pé num salto. - Estou atrasada. A Willow vai entrar em pânico. - Agarrou na mala, colocou-a ao ombro, e saiu apressadamente do meu gabinete.
- Entrarei em contacto consigo - disse, quando ela ia a sair. Só naquela tarde, quando comecei a pensar no que Charlotte
O'Keefe me dissera, é que me apercebi de que respondera à minha pergunta sobre aborto com outra pergunta.
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Sean
Às dez horas de sábado à noite, tornou-se claro que eu ia para o inferno.
As noites de sábado são sempre as que nos fazem lembrar que todas as cidades da Nova Inglaterra, tão tranquilas, de postal ilustrado, têm dupla personalidade, que os tipos sorridentes e saudáveis que vemos na revista Yankee podem desmaiar de bêbedos num bar perto de casa. Nas noites de sábado, os jovens solitários tentam enforcar-se nos varões dos roupeiros dos seus dormitórios e as raparigas do liceu são violadas por rapazes da faculdade.
Também é nas noites de sábado que apanhamos uma pessoa com o carro aos ziguezagues na estrada e torna-se só uma questão de tempo até o condutor embriagado embater em alguém. Naquela noite estava estacionado atrás do parque de estacionamento de um banco quando um Camry branco passou devagar, praticamente a pisar a linha amarela
tracejada. Liguei as luzes azuis intermitentes e segui o condutor, esperando até o carro encostar à berma.
Saí e aproximei-me da janela do condutor.
- Boa noite - disse eu - sabe porque... - mas antes que pudesse terminar de pedir ao condutor que me dissesse porque achava que o tinha mandado parar, a janela abriu-se
e dei por mim a olhar para o nosso padre.
- Oh, Sean, é você - disse o padre Grady. Tinha uma cabeleira branca que Amélia dizia que era o seu penteado à Einstein, e usava o colarinho clerical. Os olhos estavam vidrados e brilhantes.
Hesitei.
- Padre, vou ter de ver a sua carta de condução e o registo do automóvel...
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- Não há problema - disse o padre, procurando no porta-luvas. - Está só a cumprir o seu dever. - Vi-o esgravatar, deixando cair a carta de condução três vezes antes
de conseguir entregar-ma. Olhei para dentro do carro mas não vi garrafas nem latas.
- Padre, estava a andar aos ziguezagues na estrada.
- Estava?
Senti o cheiro a álcool no hálito dele.
- Tomou alguma bebida hoje à noite, padre?
- Não, não tomei...
Os padres não podiam mentir, pois não?
- Importa-se de sair do carro?
- Claro, Sean - saiu atrapalhadamente pela porta e apoiou-se no capo do Camry, de mãos nos bolsos. - Ultimamente não tenho visto a sua família na missa...
- Padre, o senhor usa lentes de contacto?
- Não...
Era esse o início do teste do nistagma, um movimento lateral involuntário do globo ocular que podia sugerir embriaguez.
- vou pedir-lhe que siga esta luz - disse eu, tirando uma pequena lanterna do bolso e segurando-a a alguns centímetros do rosto dele, um pouco acima do nível dos olhos. - Siga-a apenas com os olhos, não mexa a cabeça - acrescentei. - Percebeu?
O padre Grady acenou com a cabeça. Verifiquei se o tamanho das pupilas era igual e se seguia o feixe de luz, assinalando um movimento irregular e um nistagma final enquanto movia o feixe em direcção à orelha esquerda.
- Obrigado, padre. Agora, pode apoiar-se apenas no pé direito, assim? - demonstrei, e ele levantou o pé esquerdo. Vacilou mas manteve-se de pé. - Agora no esquerdo - disse eu e, desta vez, inclinou-se para a frente.
- Muito bem, padre, só mais uma coisa: pode caminhar com o calcanhar encostado à ponta do pé? - mostrei-lhe como devia fazer e vi-o tropeçar nos próprios pés.
Bankton era uma cidade tão pequena que não andamos acompanhados por um colega. Provavelmente podia ter deixado o padre Grady ir embora; ninguém ficaria a saber e talvez ele até intercedesse por mim no paraíso. Mas deixá-lo ir também implicaria mentir a mim próprio - e com certeza isso seria tão grave como um pecado. Quem poderia andar nas estradas que conduziam a sua casa... Um adolescente a caminho de casa vindo de um encontro amoroso? Um pai de regresso de uma viagem de negócios fora da cidade? Uma mãe com um filho doente, dirigindo-se para o
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hospital? Não era o padre Grady que eu estava a tentar salvar, eram as pessoas que ele podia magoar no estado em que estava.
- Detesto ter de fazer isto, padre, mas vou ter de detê-lo por conduzir sob efeito de álcool - li-lhe os direitos e conduzi-o delicadamente para o assento de trás do carro da polícia.
- E o meu carro?
- Será rebocado. Pode ir buscá-lo amanhã - disse eu.
- Mas amanhã é domingo.
Estávamos apenas a oitocentos metros da esquadra, o que era uma bênção, porque acho que não ia ser capaz de fazer conversa de circunstância com o meu padre depois de tê-lo detido. Na esquadra, expliquei os meandros do consentimento inerente e disse ao padre Grady que queria que ele fizesse um teste de alcoolemia.
- Tem o direito de submeter-se a outro teste ou testes semelhantes feitos por uma pessoa à sua escolha - disse eu. - Tem a possibilidade de requerer este teste adicional, se quiser. Se não permitir que lhe seja feito um teste por indicação do agente da autoridade, pode ficar sem a carta de condução por um período de cento e oitenta dias se for declarado culpado de conduzir sob efeito de álcool.
- Não, Seanie, confio em si - disse o padre Grady. Não fiquei surpreendido quando o resultado foi 0,15.
Visto que o meu turno estava a terminar, ofereci-me para levá-lo a casa. A estrada serpenteava à minha frente enquanto passava pela igreja e subia uma colina em
direcção a uma casinha branca que servia de residência ao padre. Estacionei na via de acesso e ajudei-o a caminhar relativamente a direito até à porta.
- Esta noite estive num velório - disse ele, dando a volta à chave na fechadura.
- Padre - suspirei. - Não precisa de explicar.
- Era um rapaz: só tinha vinte e seis anos. Foi um acidente de moto na terça-feira passada, provavelmente sabe o que se passou. Sabia que tinha de conduzir para casa. Mas ali estava a mãe, num pranto, e os irmãos, completamente destroçados: e eu queria deixar-lhes um tributo, em vez de toda aquela perda.
Não queria ouvir. Não precisava dos problemas de outra pessoa para me preocupar. Mas dei por mim a acenar com a cabeça para o padre, apesar disso.
- Por isso fizemos alguns brindes, foram alguns shots de whiskey - disse o padre Grady. - Não perca o sono por causa disto, Sean. Sei perfeitamente que fazer por
outra pessoa o que é certo pode, por vezes, implicar fazer o que não se quer.
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A porta abriu-se à nossa frente. Nunca tinha estado na casa do padre - era acolhedora e pequena, com salmos emoldurados pendurados nas paredes a servir de decoração,
uma taça de cristal cheia de MM's em cima da mesa da cozinha e uma faixa dos Patriots atrás do sofá.
- vou deitar-me - murmurou o padre Grady, e estendeu-se no sofá.
Descalcei-lhe os sapatos e tapei-o com um cobertor que tinha encontrado num armário.
- Boa noite, padre. Entreabriu os olhos.
- Vemo-nos amanhã na missa?
- Claro - disse eu, mas o padre Grady já estava a ressonar.
Quando disse a Charlotte que queria ir à igreja na manhã seguinte, ela perguntou-me se estava a sentir-me bem. Habitualmente tem de arrastar-me para ir à missa, mas uma parte de mim queria saber se o padre Grady ia dar um sermão sobre o nosso encontro da noite anterior. "Pecados dos padres, era o que devia chamar-lhe", pensei naquele momento, e soltei um risinho abafado. Ao meu lado, no banco da igreja, Charlotte beliscou-me.
- Chiu - disse ela baixinho.
Uma das razões que me fazia não gostar de ir à igreja eram os olhares. Piedade e pena são palavras demasiado parecidas para meu gosto. Ouvia uma senhora de cabelos azulados dizer-me que estava a rezar por ti, sorria e agradecia, mas por dentro ficava furioso. Quem lhe pediu para rezar por ti? Não percebia que eu já rezava o suficiente?
Charlotte dizia que oferecermo-nos para ajudar não queria dizer assumirmos a fraqueza de outra pessoa, e que um agente da policia devia saber isso. Mas caramba, se é que querem mesmo saber o que penso quando pergunto a um forasteiro se precisa de indicações ou quando dou o meu cartão a uma mulher maltratada pelo marido e lhe digo para me telefonar se precisar de ajuda, é o seguinte: recomponha-se e arranje maneira de sair da confusão onde se meteu. Em minha opinião, há uma grande diferença entre um pesadelo em que acordamos inesperadamente e um pesadelo que nós próprios criámos.
O padre Grady retraiu-se quando o organista começou a tocar uma versão particularmente entusiástica de um hino e eu deixei de sorrir. Em vez de deixar um copo de água ao pobre homem, devia ter-lhe juntado um remédio para a ressaca.
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Atrás de nós, um bebé começou a chorar. Mesmo que fosse condenável, era bom ver toda a gente fixar-se noutra família que não na nossa. Ouvi os sussurros furiosos dos pais a decidirem quem deveria levar o bebé para fora da igreja.
Amélia estava sentada do outro lado. Deu-me uma cotovelada e pediu uma caneta por gestos. Enfiei a mão no bolso e dei-lhe uma esferográfica. Virando a palma da mão para cima, fez sete tracinhos e uma forca. Sorri e tracei a letra A na coxa dela.
Escreveu: _A_A_A_
M, escrevi com o dedo.
Amélia abanou a cabeça.
T?
_ATA_A_
Tentei o L, o P e o R, mas não tive sorte. S?
Amélia sorriu e escreveu no quebra-cabeças: SATA_AS
Ri alto, e Charlotte olhou para nós, num aviso. Amélia agarrou na caneta e escreveu o N e depois estendeu a mão para eu poder ver. Precisamente nessa altura, disseste
bem alto:
- O que é Satanás? - e a tua mãe ficou muito vermelha, pegou-te ao colo, e apressou-se a sair lá para fora.
Passado um momento, Amélia e eu também saímos. Charlotte estava sentada contigo nos degraus da igreja, com o bebé que tinha estado a chorar durante a missa toda,
ao colo.
- O que estão aqui a fazer? - perguntou.
- Achei que estávamos mais seguros quando cair o relâmpago
- sorri para o bebé, que estava a meter erva na boca. - Arranjámos outro pelo caminho?
- A mãe está na casa de banho - disse Charlotte. - Amélia, toma conta da tua irmã e do bebé.
- E pagam-me para isso?
- Nem acredito que tenhas coragem para perguntar isso depois do que acabaste de fazer na missa - Charlotte levantou-se.
- Vamos dar um passeio.
Acertei o passo com o dela. Charlotte sempre cheirou a biscoitos - mais tarde vim a saber que é baunilha, que costuma esfregar nos pulsos e atrás das orelhas, um
perfume próprio para uma chefe de pastelaria. É em parte por causa disso que a amo. Eis uma dica para as senhoras: para todas as que pensam que só queremos uma rapariga
como a Angelina Jolie, de cotovelos ossudos e angulosa; a verdade é que preferimos aconchegar-nos junto a uma mulher como Charlotte - que é macia quando a abraçamos;
que pode ter uma mancha de farinha na camisola o dia todo sem reparar nem se
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ralar com isso, mesmo quando vai a uma reunião da Associação de Pais; uma mulher que não se parece com umas férias exóticas mas é o lar a que ansiamos regressar.
- Sabes uma coisa? - disse alegremente, colocando um braço à volta dela. - A vida é óptima. Está um dia lindo. Estou com a minha família, não vou ficar naquela igreja que parece uma gruta...
- E tenho a certeza de que o padre Grady também gostou bastante de ouvir aquela intervençãozinha da Willow.
- Acredita, o padre Grady tem mais com que se preocupar disse eu.
Tínhamos atravessado o parque de estacionamento, dirigindo-nos para um campo cheio de cravos.
- Sean - disse Charlotte - tenho de confessar-te uma coisa.
- Então talvez o melhor seja voltares lá para dentro.
- Fui falar outra vez com a advogada. Parei de andar.
- O guê?
- Fui falar com a Marin Gates sobre instaurar um processo legal por negligência médica no diagnóstico pré-natal.
- Meu Deus, Charlotte...
- Sean! - lançou um olhar para a igreja.
- Como foste capaz de fazer isso? Nas minhas costas, como se a minha opinião não importasse?
Ela cruzou os braços.
- Então e a minha opinião? Não é importante para ti?
- Claro que sim, mas estou-me nas tintas para a opinião de um advogado aproveitador. Não percebes o que eles estão a fazer? Querem dinheiro, pura e simplesmente.
Não querem saber de ti, nem de mim, nem da Willow; não se ralam com quem vão destruir ao longo do processo. Somos apenas meios para atingir um fim - aproximei-me um pouco mais dela. - A Willow tem alguns problemas, mas quem é que não os tem? Há miúdos hiperactivos, miúdos que à noite saem de casa para fumar e beber e miúdos que apanham tareias na escola por gostarem de matemática: não vês esses pais a tentarem culpar outras pessoas para poderem receber dinheiro.
- Como é que estavas disposto a processar o Disney World e metade da administração pública da Florida em troca de dinheiro? Qual é a diferença?
Levantei o queixo.
- Eles tomaram-nos por idiotas.
- E se os médicos tiverem feito o mesmo? - argumentou Charlotte. - E se a Piper tiver cometido um erro?
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- Então cometeu um erro! - encolhi os ombros. - E isso teria alterado o resultado? Se tivesses sabido sobre todas as fracturas, as idas às urgências, tudo o que teríamos de fazer pela Willow, tê-la-ias desejado menos?
Ela abriu a boca, e depois fechou-a resolutamente. Fiquei deveras assustado com isso.
- E o que tem se ela tiver de ser engessada imensas vezes? disse eu, agarrando na mão de Charlotte. - Também sabe o nome de todos os ossos do corpo humano, detesta amarelo e disse-me ontem à noite que quer ser apicultora quando crescer. Ela é a nossa menina, Charlotte. Não precisamos de ajuda. Já lidamos com esta situação há cinco anos; vamos continuar a lidar com ela sozinhos.
Charlotte afastou-se de mim.
- Qual nós, Sean? Tu vais trabalhar. Sais com os teus amigos para jogar póquer. Até parece que estás com a Willow vinte e quatro horas por dia, mas não fazes ideia do que isso é.
- Então contratamos uma enfermeira. Uma empregada...
- E vamos pagar-lhe como? - ripostou Charlotte. - E já que falamos nisso, como vamos poder pagar um carro novo suficientemente grande para poder transportar a cadeira de rodas da Willow e as muletas, visto que o nosso já está com trezentos e vinte e dois mil quilómetros? Como vamos pagar as cirurgias dela, o que não estiver coberto pelo seguro? Como vamos poder garantir que a casa dela tenha uma rampa para deficientes e um lava-loiça suficientemente baixo para uma cadeira de rodas?
- Estás a afirmar que não sou capaz de sustentar a minha própria filha? - disse eu, levantando a voz.
De repente, a fúria abandonou Charlotte.
- Oh, Sean. És o melhor pai do mundo. Mas... não és mãe.
Ouviu-se um guincho e - por instinto - Charlotte e eu começámos a correr pelo parque de estacionamento, à espera de encontrar Willow toda torta no chão com um osso fracturado a sair-lhe pela pele. Em vez disso, Amélia estava a pegar no bebé a chorar, afastado dela, com uma mancha na frente da camisola.
- Vomitou para cima de mim! - lamuriou-se. A mãe do bebé saiu da igreja a correr.
- Lamento imenso - disse-nos ela, enquanto Willow estava sentada no chão a rir do azar da irmã. - Acho que está a ficar doente...
Charlotte aproximou-se e tirou o bebé a Amélia
- Talvez seja um vírus. Não se preocupe. Acontece. Afastou-se quando a mulher deu algumas toalhitas de bebé a
Amélia, para poder limpar-se.
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- Esta conversa acabou - murmurei a Charlotte. - Ponto final. Charlotte balançou o bebé ao colo.
- Claro, Sean - disse ela, com demasiada facilidade. - Como queiras.
Às seis da tarde daquele dia, Charlotte tinha apanhado o que o bebé tinha, e estava mesmo doente. A vomitar sem parar, fechara-se na casa de banho. Eu devia fazer o turno da noite, mas era bastante óbvio que isso não ia acontecer.
- A Amélia precisa de ajuda para fazer os trabalhos de casa de ciências - murmurou Charlotte, limpando o rosto com uma toalha húmida. - E as meninas precisam de jantar...
- Eu trato disso - disse eu. - De que mais precisas?
- De morrer? - gemeu Charlotte, e afastou-me da frente para se ajoelhar outra vez diante da sanita.
Saí da casa de banho, fechando a porta atrás de mim. Lá em baixo, estavas sentada no sofá da sala a comer uma banana.
- Vais ficar sem fome - disse eu.
- Não estou a comê-la, papá. Estou a consertá-la.
- A consertá-la - repeti. Em cima da mesa à tua frente estava uma faca, em que não devias mexer. Procurei não me esquecer de ralhar com a Amélia por te ter dado uma. Havia um corte mesmo no meio da banana.
Abriste a tampa de um estojo de costura que tínhamos trazido do quarto do hotel na Florida, tiraste uma agulha já com linha e começaste a coser o corte na casca de banana.
- Willow - exclamei -, o que estás a fazer? Olhaste para mim, pestanejando.
- Uma cirurgia.
Fiquei a ver-te dar alguns pontos para me certificar de que não te espetavas na agulha, e depois encolhi os ombros. Longe de mim levantar obstáculos à ciência.
Na cozinha, Amélia estava debruçada por cima da mesa com marcadores, cola e uma folha de cartolina.
- Podes dizer-me o que está a Willow ali a fazer com uma faca? - perguntei.
- Ela pediu-me uma.
- Se ela te tivesse pedido uma serra eléctrica, tê-la-ias ido buscar à garagem?
- Bem, isso seria um bocado drástico para cortar uma banana, não achas? - olhando para o projecto, Amélia suspirou. - Isto é mesmo uma chatice. Tenho de fazer um jogo de tabuleiro sobre o
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aparelho digestivo, e toda a gente vai gozar comigo porque todos sabemos onde é que o aparelho digestivo acaba.
- Era engraçado que usasses essa palavra - disse eu.
- Isso é nojento, pai.
Comecei a tirar panelas e frigideiras que estavam debaixo da bancada e decidi-me por uma frigideira.
- O que acham de comermos panquecas ao jantar? - embora não houvesse escolha; era a única coisa que eu sabia preparar, para além de sandes de manteiga de amendoim
e geleia.
- A mãe fez panquecas ao pequeno-almoço - queixou-se Amélia.
- Sabem que os pontos absorvíveis são feitos de tripas de animais? - gritaste.
- Não, e agora acho que preferia não saber... Amélia passou um tubo de cola pela cartolina.
- A mãe já está melhor?
- Não, querida.
- Mas ela prometeu que me ajudava a desenhar o esófago.
- Eu posso ajudar - disse.
- Não sabes desenhar, pai. Quando jogamos ao Pictionary fazes sempre uma casa, mesmo quando não tem nada a ver com a resposta.
- Bem, será que desenhar um esófago é assim tão difícil? É um tubo, não é? - procurei uma caixa de preparado Bisquick.
Ouviu-se um baque; a faca rebolou para debaixo do sofá. Estavas a contorcer-te desconfortavelmente.
- Espera aí, Wills, eu vou buscar - gritei.
- Já não preciso dela - disseste, mas não paraste de contorcer-te.
Amélia suspirou.
- Willow, deixa de ser um bebé antes que faças chichi nas cuecas.
Olhei para a tua irmã e depois para ti.
- Precisas de ir à casa de banho?
- Está a fazer aquela cara que costuma fazer quando está aflita...
- Amélia, já chega - fui para a sala e agachei-me ao pé de ti.
- Querida, não precisas de ficar com vergonha.
Cerraste os lábios.
- Quero que a mamã me leve.
- A mamã não está aqui - disse Amélia bruscamente. Levantei-te do sofá para te levar à casa de banho de baixo.
Tinha acabado de passar as tuas pernas engessadas pela porta quando disseste:
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- Esqueceste-te dos sacos do lixo.
Charlotte contara-me como forrava o gesso com eles antes de ires à casa de banho. Ao longo de todo aquele tempo em que estiveste engessada, não tinha precisado de
fazer isso - tinhas vergonha que eu te puxasse as calças para baixo. Estendi a mão pela ombreira da porta para alcançar a máquina de secar onde Charlotte escondera
uma caixa de sacos do lixo.
- Pronto - disse eu. - É a primeira vez que faço isto, por isso tens de me dizer o que devo fazer.
- Tens de jurar que não espreitas - disseste.
- Juro.
Desataste o nó que segurava as boxers gigantescas que vestias por cima do gesso, e eu levantei-te para que caíssem pelas ancas. Quando as tirei, queixaste-te:
- Olha aqui para cima!
- Está bem - fixei resolutamente os meus olhos nos teus, tentando tirar-te os calções sem ver o que estava a fazer. Depois levantei o saco do lixo, que ia ter de
ser entalado junto à virilha. Queres ser tu a fazer isto? - perguntei, corando.
Segurei-te debaixo dos braços enquanto te esforçavas por forrar o gesso com o plástico.
- Já está - disseste, e coloquei-te por cima da sanita.
- Não, mais para trás - disseste, e eu ajeitei-te e esperei. E esperei.
- Willow - disse eu - vá lá, faz chichi.
- Não consigo. Estás a ouvir.
- Não estou a ouvir...
- Estás sim.
- A tua mãe ouve...
- Isso é diferente - disseste, e começaste a chorar.
Assim que as comportas se abriam, abriam-se completamente. Olhei para a sanita e começaste a chorar ainda mais.
- Disseste que não ias espreitar!
Virei os olhos para norte, equilibrei-te no braço esquerdo e alcancei o papel higiénico com o direito.
- Pai! - gritou Amélia. - Acho que está qualquer coisa a queimar-se...
- Oh, merda - resmunguei, lembrando-me apenas fugazmente do boião dos palavrões. Meti-te um bocado de papel na mão. - Despacha-te, Willow - disse eu, e depois puxei
o autoclismo.
- Tenho de lavar as mãos - soluçaste.
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- Depois - disse rispidamente, e levei-te outra vez para o sofá, atirando-te os calções para o colo antes de ir a correr para a cozinha.
Amélia estava de pé em frente ao fogão, onde as panquecas estavam carbonizadas.
- Desliguei o lume - disse ela, tossindo por causa do fumo.
- Obrigado.
E ela acenou com a cabeça e estendeu a mão para a bancada para ir buscar... Aquilo seria o que eu pensava? Amélia sentou-se e agarrou na pistola de cola. Tinha colado cerca de trinta das minhas fichas de póquer profissionais em volta das bordas da cartolina.
- Amélia! - gritei. - Essas são as minhas fichas de póquer!
- Tens imensas. Só precisava de algumas...
- E eu disse-te que podias usá-las?
- Não me disseste que não podia - disse Amélia.
- Papá - chamaste da sala - as minhas mãos!
- Pronto - disse em voz baixa. - Pronto - contei até dez, e depois levei a frigideira para junto do caixote do lixo para raspar o conteúdo. A borda de metal roçou-me no pulso e deixei cair a frigideira.
- Filha da mãe - gritei, e abri a torneira da água fria colocando o braço debaixo dela.
- Quero lavar as minhas mãos - lamuriaste-te. Amélia cruzou os braços.
- Estás a dever vinte e cinco cêntimos à Willow - disse ela.
Às nove horas vocês já estavam a dormir, as panelas já estavam lavadas e a máquina de lavar a loiça zumbia na cozinha. Dei uma volta pela casa, apaguei as luzes e depois entrei suavemente no quarto às escuras. Charlotte estava deitada com um braço por cima da cabeça.
- Não tens de andar em bicos de pés - disse ela. - Estou acordada.
Deitei-me ao lado dela.
- Sentes-te melhor?
- Diminuí um tamanho de roupa. Como estão as meninas?
- Bem. Embora lamente dizer que o paciente da Willow não sobreviveu.
-Ha?
- Nada - virei-me de barriga para cima. - Comemos sandes de manteiga de amendoim e geleia ao jantar.
Ela deu-me umas palmadinhas no braço, distraidamente.
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- Sabes o que adoro em ti? -Hum?
- Fazes-me parecer tão competente em comparação contigo... Coloquei os braços atrás da cabeça e fiquei a olhar para o
tecto.
- Já não fazes bolos.
- Pois, mas não queimo as panquecas - disse Charlotte, sorrindo um pouco. - A Amélia denunciou-te quando veio dizer boa noite.
- Estou a falar a sério. Lembras-te de como costumavas fazer leite-creme, petit fours e éclairs de chocolate?
- Acho que outras coisas se tornaram mais importantes - respondeu Charlotte.
- Costumavas dizer que um dia terias a tua própria pastelaria. Querias que se chamasse Sílaba...
- Syllabub - corrigiu ela.
Podia não me lembrar bem do nome, mas sabia o que significava porque te tinha perguntado: syllabub é a sobremesa inglesa mais antiga, feita quando as leiteiras deitavam o leite ainda morno tirado directamente das vacas para uma celha com cidra ou xerez. Era parecido com o eggnog, disseste-me, e prometeste que a farias para eu provar, e na noite em que fizeste, mergulhaste um dedo no creme doce e passaste-o no meu peito, limpando o rasto com beijos.
- É o que acontece aos sonhos - disse Charlotte. - A vida mete-se no caminho.
Sentei-me, puxando um ponto da colcha.
- Queria ter uma casa, um quintal, um bando de filhos. Umas férias de vez em quando. Um bom emprego. Queria ser treinador de softball, levar as minhas filhas a esquiar e não saber o nome de todos os malditos médicos do serviço de urgências do Hospital Regional de Portsmouth - virei-me para ela. - Posso não estar sempre com ela,
mas quando ela sofre uma fractura, Charlotte, eu sinto. Juro que sim. Faria tudo por ela.
Ela virou-se de frente para mim.
- A sério?
Sentia o peso no colchão: o processo legal, a verdade óbvia a ser ignorada.
- Parece... feio. Parece que estamos a dizer que não a amamos, por ela ser... como é.
- É por a amarmos, por a desejarmos que jamais pensámos nisto como uma prioridade - disse Charlotte. - Não sou estúpida,
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Sean. Sei que as pessoas vão falar, dizer que quero uma indemnização choruda. Sei que vão pensar que sou a pior mãe do mundo, a mais egoísta, o que quiseres. Mas
não me interessa o que digam sobre mim, interessa-me a Willow. Quero ter a certeza de que ela vai poder ir para a universidade, viver sozinha e fazer tudo o que sonha fazer. Mesmo que isso implique que toda a gente ache que sou horrível. Será que é assim tão importante o que os outros dizem, quando eu sei porque vou fazê-lo? - Virou-se para mím. vou perder a minha melhor amiga por causa disto - disse ela. Não quero perder-te também.
Quando ela era chefe de pastelaria, sempre me espantou ver Charlotte, tão pequena, a carregar sacas de farinha de vinte e cinco quilos de um lado para o outro. Tinha uma força que ultrapassava largamente o seu tamanho e resistência. Eu vejo o mundo a preto e branco; é por isso que sou um profissional da polícia. Mas, e se aquele processo legal com um nome incómodo fosse, apenas, um meio para atingir um fim? Algo que parecia tão errado por fora poderia revelar-se inegavelmente certo?
A minha mão passou por cima da colcha para cobrir a de Charlotte.
- Não vais perder-me - disse.
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Charlotte
Fim de Maio de 2007
As tuas primeiras sete fracturas ocorreram antes de vires a este mundo. As quatro seguintes ocorreram minutos após o nascimento, quando uma enfermeira te tirou de dentro de mim. Outras nove, quando estavas a ser reanimada no hospital, depois da paragem cardio-respiratória. A vigésima primeira: quando estavas deitada no meu colo e de repente ouvi um estalido. A vigésima segunda foi quando te viraste e bateste com o braço na borda do berço. A vigésima terceira e a vigésima quarta foram fracturas femorais; a vigésima quinta foi uma tíbia; a vigésima sexta uma fractura por compressão da coluna. A vigésima sétima foi ao saltares de um alpendre; a vigésima oitava foi quando uma criança chocou contigo num parque infantil; a vigésima nona foi quando escorregaste numa capa de um DVD que estava em cima do tapete. Ainda não sabemos o que provocou a número trinta. A número trinta e um foi quando Amélia estava aos pulos na cama onde estavas sentada; a trigésima segunda foi quando uma bola de futebol te bateu com demasiada força na perna; a trigésima terceira foi quando descobri os materiais ortopédicos à prova de água e comprei o suficiente
para abastecer um hospital inteiro e que agora estavam guardados na garagem. A trigésima quarta aconteceu enquanto dormias; a trigésima quinta e a trigésima sexta
ocorreram numa queda para a frente na neve que te fez fracturar ambos os braços de uma só vez. A trigésima sétima e a trigésima oitava foram fracturas graves, o perónio e a tíbia que romperam a pele numa festa do Dia das Bruxas de um jardim-de-infância, em que, ironicamente, estavas disfarçada de múmia, cujas ligaduras usei para ligar as fracturas. A trigésima nona ocorreu durante um espirro; a quadragésima e a quadragésima primeira foram costelas
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que fracturaste na beira da mesa da cozinha. A quadragésima segunda foi uma fractura da anca que precisou de uma chapa de metal e seis parafusos. Depois disso deixei de contar, até às do Disney World, que não numerámos, mas demos nomes: Mickey, Donald e Pateta.
Quatro meses depois de te terem engessado, o molde foi aberto. Isso queria dizer que foi partido em dois e preso com molas baratas que se partiram passadas algumas horas, por isso substituí-as por tiras de velcro de cores vivas. Gradualmente, íamos tirando a parte de cima, para poderes sentar-te como uma amêijoa na metade inferior da concha, e poderes fortalecer os músculos do estômago e da barriga das pernas, que se tinham deteriorado. Segundo o Dr. Rosenblad, ficarias umas duas semanas na parte inferior da concha; depois passavas a só dormir lá. Passadas oito semanas, estarias a ir à casa de banho sozinha.
Mas a parte melhor era poderes voltar à escola. Era uma escola privada, que funcionava todas as manhãs durante duas horas na cave de uma igreja. Eras um ano mais velha do que as outras crianças da turma, mas faltavas tanto à escola por causa das fracturas que decidimos que devias repetir o ano - lias como uma criança do sexto ano, mas precisavas de estar com crianças da tua idade por causa do convívio. Não tens muitos amigos - as crianças ou ficavam assustadas com a tua cadeira de rodas e andador, ou, estranhamente, com inveja dos moldes de gesso com que aparecias na escola. Nesse dia, enquanto conduzia em direcção à igreja, olhei pelo espelho retrovisor.
- Então, o que vais fazer primeiro?
- A mesa do arroz - a professora Katie, que para ti estava apenas um pouco abaixo de Jesus na escala de adoração, tinha colocado uma enorme caixa de areia cheia de grãos de arroz coloridos que as crianças podiam deitar em recipientes de vários tamanhos. Adoravas o som que fazia; disseste-me que parecia chuva. - E o pára-quedas.
Era um jogo em que uma criança ia a correr por baixo de um círculo de seda colorida enquanto as outras seguravam nas pontas.
- Terás de esperar algum tempo até poderes fazer isso, Wills disse eu, e virei para o parque de estacionamento. - Um dia de cada vez.
Tirei a cadeira de rodas da parte de trás da carrinha e instalei-te nela, depois empurrei-te pela rampa que a escola acrescentara no Verão anterior, depois de te teres inscrito. Lá dentro, os outros
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alunos estavam a pendurar os casacos nos cacifos; as mães enrolavam pinturas já secas, feitas com os dedos, que estavam penduradas num suporte para roupas.
- Estás de volta! - disse uma mulher, sorrindo para ti. Depois olhou para mim.
- A Kelsey fez a festa de aniversário no fim-de-semana passado: guardou um saco de guloseimas para a Willow. Nós queríamos convidá-la, mas, bom, foi na Cabana da Ginástica e tive receio que ela se sentisse posta de parte.
"Ao contrário de não ser convidada?" pensei. Mas em vez disso sorri.
- Foi muito atenciosa.
Um rapazinho tocou na ponta do teu molde de gesso.
- Uau - disse em voz baixa. - Como é que fazes chichi com isso?
- Não faço - disseste sem esboçar um sorriso. - Já não faço há quatro meses, Derek, por isso é melhor teres cuidado porque posso explodir como um vulcão a qualquer instante.
- Willow - murmurei - não precisas de ser sarcástica.
- Foi ele que começou...
A professora Katie veio até ao corredor quando ouviu o tumulto da nossa chegada. Hesitou muito ligeiramente quando te viu no molde de gesso aberto a meio, mas depressa se recompôs.
- Willow! - disse ela, ajoelhando-se para ficar ao teu nível. É tão bom ver-te! - Chamou a assistente, a professora Sylvia. Sylvia, pode ficar a tomar conta da Willow enquanto a mãe dela e eu conversamos?
Segui-a até ao fundo do corredor, passando pelas casas de banho com as sanitas incrivelmente baixas, até chegar ao espaço que servia de sala de música e de ginásio.
- Charlotte - disse Katie - devo ter percebido mal. Quando telefonou para dizer que a Willow vinha, pensei que já tinha tirado aquele molde de gesso!
- Bem, e vai tirar. É um processo gradual - sorri-lhe. - Ela está mesmo entusiasmada por estar outra vez aqui.
- Acho que está a apressar as coisas...
- A sério, não há problema. Faz-lhe falta a actividade. Mesmo que sofra outra fractura, uma fractura depois de algumas semanas de brincadeira é melhor para o corpo dela do que ficar em casa inactiva. E não tem de se preocupar por as outras crianças poderem magoá-la mais do que o normal. Nós brincamos com ela. Fazemos-lhe cócegas.
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- Sim, mas fazem isso em casa - fez notar a professora. - Na escola... Bem, é mais arriscado.
Recuei, percebendo perfeitamente o que ela queria dizer: "nós somos os responsáveis quando ela está no nosso estabelecimento." Apesar da Lei dos Cidadãos Americanos com Incapacidade, lia habitualmente nos fóruns online sobre OI que escolas privadas sugeriam amavelmente que uma criança em recuperação devia ficar em casa. Aparentemente seria para bem da criança, mas o mais provável seria ficar a dever-se ao aumento dos prémios dos seguros. Isto é um paradoxo: legalmente, há motivos claros para processar por discriminação, mas assim que fizéssemos isso, mesmo que ganhássemos o caso, o nosso filho seria tratado de maneira diferente quando regressasse.
- Mais arriscado para quem? - perguntei, sentindo um calor no rosto. - Paguei as mensalidades para que a minha filha pudesse frequentar a escola. Kate, sabe muito bem que não pode dizer-me que ela não é bem-vinda.
- Tenho todo o gosto em devolver-lhe as mensalidades do período em que ela faltar. E nunca lhe diria que a Willow não é bem-vinda: gostamos muito dela e sentimos a sua falta. Só queremos ter a certeza de que ela fica em segurança - abanou a cabeça. - Coloque-se no nosso lugar. No próximo ano, quando a Willow estiver na pré, terá uma auxiliar a tempo inteiro. Aqui não temos esses recursos.
- Então eu serei a auxiliar dela. Ficarei com ela. Mas deixe-a
- a minha voz cedeu, como um ramo -, deixe-a sentir-se normal.
Kate olhou para mim.
- Acha que ser a única criança com a mãe na sala de aulas a vai fazer sentir-se normal?
Sem fala -furiosa - percorri o corredor a passos largos até ao sítio onde a professora Sylvia estava contigo, a ver-te exibires as tiras de Velcro do molde de gesso.
- Temos de ir embora - disse eu, pestanejando para conter as lágrimas.
- Mas eu quero brincar na mesa do arroz...
- Sabes uma coisa? - disse Kate. - A professora Sylvia vai arranjar-te um saco para levares para casa! Obrigada por teres vindo dizer olá aos teus amigos, Willow.
Confusa, viraste-te para mim.
- Mamã? Porque não posso ficar?
- Falamos sobre isso depois.
Sylvia regressou com um saco de plástico Ziploc cheio de grãos de arroz violeta.
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- Toma, fofinha.
- Digam-me uma coisa - disse eu, olhando para cada uma das professoras à vez. - De que serve uma vida que não pode ser vivida?
Empurrei-te para fora da escola, ainda tão zangada que demorei um instante a perceber que estavas absolutamente silenciosa. Quando chegámos à carrinha, tinhas lágrimas nos olhos.
- Não faz mal, mãe - disseste, com uma resignação na voz que nenhuma criança de cinco anos devia ter. - Também não queria ficar.
Era mentira; sabia como estavas ansiosa por ver os teus amigos.
- Sabes como quando há uma pedra dentro de água e a água se move junto dela como se ela não estivesse lá? - disseste. - Foi mais ou menos isso que os outros miúdos fizeram enquanto estiveste a falar com a professora Katie.
Como podiam aquelas professoras - ou aquelas crianças - não verem como te magoavas com tanta facilidade? Beijei-te na testa.
- Tu e eu - prometi - vamos divertir-nos tanto esta tarde que nem imaginas. - Debrucei-me para te levantar da cadeira de rodas, mas uma das fitas de Velcro do gesso soltou-se.
- Bolas - resmunguei, e enquanto te equilibrava de lado na anca para prendê-la, deixaste cair o saco de plástico.
- O meu arroz! - disseste, e torceste-te instintivamente nos meus braços para apanhá-lo. Foi precisamente nesse instante que ouvi um estalido: como um ramo a partir-se, como a primeira dentada numa maçã de Outono.
- Willow? - disse eu, mas já sabia: o branco dos teus olhos refulgia, azul como um relâmpago, e estavas a afastar-te de mim, a entrar naquele transe sonolento que se apoderava de ti quando a fractura era particularmente grave.
Quando acabei de te instalar no banco de trás da carrinha, tinhas os olhos quase fechados.
- Querida, diz-me onde dói - implorei, mas não respondeste. Começando no pulso, apalpei-te suavemente o braço, tentando encontrar o ponto sensível. Tinha acabado de tocar numa depressão abaixo do ombro quando gemeste. Mas já tinhas sofrido fracturas no braço antes, e esta não tinha perfurado a pele nem torcia o braço num ângulo de noventa graus, nem apresentava nenhuma das características distintivas que eu associava àquelas fracturas graves que te faziam cair num estado de estupor. O osso teria perfurado algum órgão?
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Podia ter voltado à escola e pedido que ligassem para o 112, mas um técnico de emergências médicas não podia fazer nada por ti que eu não soubesse fazer também. Por isso procurei na parte de trás da carrinha e encontrei uma velha revista People. Utilizando-a como tala, enrolei uma ligadura em volta do teu braço e rezei para que não tivesses de ser engessada - reduzia a densidade óssea e cada sítio que tivesse de ser engessado seria um ponto fraco onde poderia ocorrer uma futura fractura. Na maioria das vezes conseguias ficar apenas com uma bota ortopédica Wee Walker, um molde ortopédico pneumático Aircast ou uma tala - excepto quando se trata de uma fractura da anca, vértebras ou fémures. Eram essas as fracturas que te deixavam quieta e calada, como agora. Eram essas as fracturas que me faziam ir directa às urgências, por ter medo de lidar com elas sozinha.
No hospital, estacionei num lugar para deficientes e levei-te para a triagem.
- A minha filha tem osteogénese imperfeita - disse à enfermeira. - Fracturou o braço.
A mulher franziu os lábios.
- E se fizesse o diagnóstico depois de tirar o curso de medicina?
- Trudy, há algum problema? - um médico que parecia nem sequer ter idade para fazer a barba estava de repente de pé à nossa frente, a olhar para ti. - Será que a ouvi dizer OI?
- Sim - disse eu. - Acho que é o úmero.
- Eu trato deste caso - disse o médico. - Sou o Dr. Dewitt. Quer colocá-la numa cadeira de rodas...
- Estamos bem assim - disse eu, levantando-te um pouco mais nos braços. Enquanto percorríamos o corredor em direcção à Radiologia, expliquei-lhe os teus antecedentes
médicos. Interrompeu-me apenas uma vez - para convencer o técnico a arranjar-nos uma sala depressa.
- Muito bem - disse o médico, debruçando-se sobre ti na marquesa das radiografias, com a mão no teu antebraço. - vou só deslocar-te um bocadinho...
- Não - disse eu, avançando. - Pode deslocar a máquina, não pode?
- Bem - disse o Dr. Dewitt, confuso. - Normalmente não o fazemos.
- Mas pode.
Voltou a olhar para mim e depois ajustou o equipamento, colocando-te o pesado colete de chumbo sobre o peito. Fui para o fundo da sala para poderem tirar a radiografia.
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- Muito bem, Willow. Agora só mais uma do antebraço - disse o médico.
- Não - disse eu.
O médico olhou para cima, exasperado.
- com todo o respeito, Sr.a O'Keefe, preciso mesmo de fazer o meu trabalho.
Mas eu também estava a fazer o meu. Quando sofrias alguma fractura, tentava limitar o número de radiografias que te faziam; às vezes evitava completamente fazê-las, se não fossem alterar o resultado do tratamento.
- Já sabemos que ela tem uma fractura - argumentei. - Acha que está deslocado?
O médico abriu muito os olhos quando lhe falei na sua própria linguagem.
- Não.
- Então não precisa realmente de fazer uma radiografia à tíbia e ao perónio, pois não?
- Bem - admitiu o Dr. Dewitt. - Depende.
- Faz ideia de quantas radiografias a minha filha terá de fazer ao longo da vida? - perguntei.
Ele cruzou os braços.
- Ganhou. Realmente não precisamos de radiografar o antebraço.
Enquanto esperávamos que a película fosse revelada, esfreguei-te as costas. Devagar, estavas a regressar de onde quer que fosses quando sofrias uma fractura. Estavas mais agitada, gemias. Estavas a tremer, o que ainda agravava mais as dores.
Espreitei pela porta para perguntar a uma técnica se tinha um cobertor em que pudesse embrulhar-te e vi o Dr. Dewitt aproximar-se com as tuas radiografias.
- A Willow está com frio - disse eu, e ele tirou a bata e colocou-ta por cima dos ombros assim que entrou na sala.
- As boas notícias - disse ele - são que a outra fractura da Willow está a sarar bem.
Que outra fractura?
Só percebi que tinha falado em voz alta quando o médico indicou um sítio no teu braço. Era difícil de ver - o defeito no colagénio deixava os teus ossos leitosos - mas claro, estava lá a saliência calosa que sugeria uma fractura a sarar.
Senti uma punhalada de culpa. Quando te tinhas magoado e como é que eu não tinha reparado?
- Parece que tem cerca de duas semanas - disse o Dr. Dewitt pensativamente e, sem mais nem menos, lembrei-me: uma noite,
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quando te levava para a casa de banho a meio da noite, quase te deixara cair. Embora tivesses insistido que estavas bem, estavas a mentir por minha causa.
- Estou admirado, Willow, por ver que fracturaste um dos ossos mais difíceis de fracturar no corpo humano: a omoplata apontou para a segunda imagem no quadro luminoso,
para uma racha mesmo a meio da omoplata. - Movimenta-se tanto, que raramente se fractura quando há impacto.
- Então o que vamos fazer? - perguntei.
-Bem, ela já está toda engessada... é quase uma mumificação, provavelmente o melhor será uma faixa. Vai doer durante alguns dias, mas a alternativa parece um castigo particularmente cruel. Ligou-te o braço ao peito como a asa partida de uma ave. - Está muito apertado?
Olhaste para ele.
- Uma vez parti a clavícula. Doeu mais. Sabia que clavícula significa "pequena chave", não apenas porque parece uma chave, mas porque liga todos os outros ossos do peito?
O Dr. Dewitt ficou de boca aberta.
- És uma menina-prodígio do género do Doogie Howser?
- Ela lê muito - disse, sorrindo.
- Omoplata, esterno e xifóide - acrescentaste. - Também sei escrevê-los.
- Caraças - disse o médico em voz baixa, e depois corou. Quero dizer, caramba. - Olhou para mím por cima da tua cabeça.
- Ela é a minha primeira paciente com OI. Deve ser de loucos.
- Sim - disse eu. - De loucos.
- Bem, Willow, se quiseres vir trabalhar aqui como médica ortopedista interna, há uma bata branca com o teu nome - acenou-me com a cabeça. - E se a senhora precisar
de alguém com quem falar... - tirou um cartão-de-visita do bolso da camisa.
Enfiei-o no bolso de trás das calças, envergonhada. Provavelmente não era tanto boa vontade da parte do médico, era mais querer proteger a Willow - o médico tinha provas da minha incompetência, duas fracturas ali a preto e branco. Fingi estar ocupada a procurar qualquer outra coisa na mala, mas, na verdade, estava apenas à espera que ele se fosse embora. Ouvi-o oferecer-te um chupa-chupa e despedir-se.
Como podia afirmar que sabia o que era melhor para ti, o que merecias, se a qualquer momento o destino podia pregar-me uma partida e perceber que não te protegera tão bem quanto devia?
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Estaria a pensar naquele processo legal por tua causa ou para compensar tudo aquilo que fizera de mal até à altura?
Tal como desejar um bebé. Todos os meses, quando me apercebia que Sean e eu não tínhamos concebido, costumava despir-me e ficar de pé no duche com a água a correr
no rosto, a pedir a Deus; a rezar para engravidar, a qualquer custo.
Peguei-te ao colo, apoiando-te na anca esquerda, visto que era o ombro direito que estava fracturado, e saí da sala de exames. O cartão do médico estava a queimar-me o bolso de trás, abrindo um buraco. Estava tão distraída que quase atropelei uma menina que estava a entrar pela porta do hospital quando nós estávamos a sair.
- Oh, querida, desculpa - disse eu, e recuei. Tinha mais ou menos a tua idade, e vinha de mão dada com a mãe. Vestia um tutu cor-de-rosa e calçava botas de borracha
com rãs na ponta. Era completamente careca.
Fizeste precisamente o que mais detestavas que te fizessem: ficaste a olhar para ela.
A menina também ficou a olhar para ti.
Aprendeste cedo que os desconhecidos ficam a olhar para uma menina de cadeira de rodas. Ensinei-te a sorrir-lhes, a dizer olá, para que percebessem que és uma pessoa e não apenas uma curiosidade da natureza. Amélia era a tua mais acérrima defensora - se visse alguma criança especada a olhar para ti, ia ter com ela e dizia-lhe que era isso que lhe aconteceria se não arrumasse o quarto ou comesse os vegetais todos. Uma ou duas vezes, fez a criança desatar a chorar, e eu quase nem a repreendi, porque isso fazia-te sorrir e endireitares-te na cadeira de rodas, em vez de tentares ser invisível.
Mas isto era diferente; era de igual para igual.
Apertei-te a cintura.
- Willow - repreendi suavemente.
A mãe da menina olhou para mim. Mil palavras passaram entre nós, embora ninguém tivesse falado. Ela acenou-me com a cabeça, e eu acenei-lhe também.
Tu e eu saímos do hospital num dia de final de Primavera com aroma de canela e asfalto. Semicerraste os olhos, tentando levantar o braço para protegê-los, mas lembraste-te que tinhas o braço ligado junto ao corpo.
- Aquela menina, mamã - disseste. - Porque tinha aquele aspecto?
- Porque está doente e fica assim quando toma os remédios dela.
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Reflectiste sobre isso durante alguns instantes.
- Tenho tanta sorte... os meus remédios deixam-me ter cabelo.
Tinha o cuidado de não chorar à tua frente, mas daquela vez não consegui evitar. Ali estavas tu, com três das tuas quatro extremidades fracturadas. Ali estavas tu, com uma fractura a sarar que eu nem sequer sabia que tinha ocorrido. Ali estavas tu, ponto final.
- Sim, temos sorte - disse eu. Encostaste-me a mão à face.
- Não faz mal, mãe - disseste. E tal como te fizera nas urgências, deste-me umas palmadinhas nas costas, precisamente no mesmo local que fracturaste no teu próprio corpo.
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Sean
- Pára, caraças! - gritei enquanto corria pelo parque vazio, com a lata de tinta em spray na mão. O miúdo levava-me um bom avanço, para além de ter a vantagem de
ser trinta anos mais novo, mas eu não ia deixá-lo escapar. Nem que isso me matasse, o que, a avaliar pela dor que sentia de lado, talvez fosse mesmo acontecer.
Era um daqueles dias de Primavera invulgarmente quentes que me fazia lembrar, quando era jovem, o ruído dos chinelos das raparigas a passar na piscina municipal. Admito, durante o intervalo do almoço, vesti uns calções e dei um mergulho rápido. Há tempos que não nadávamos - por solidariedade para contigo, visto que não podias ir à piscina até tirares o gesso. Não havia nada que desejasses mais fazer do que nadar - ainda não tinhas aprendido devido às várias fracturas. Mesmo depois de Charlotte ter descoberto os moldes de fibra de vidro - que são à prova de água e extraordinariamente caros - acabaste por deixar passar a época das aulas de natação. Quando Amélia estava a passar uma fase particularmente difícil da pré-adolescência, gabava-se, à tua frente, que ia a uma festa na piscina ou que ia à praia. Depois passavas o dia a amuar ou, numa ocasião inesquecível, a fazer ofertas num leilão na Internet para comprar uma piscina - para a qual não tínhamos espaço nem dinheiro. Às vezes pensava que estavas obcecada por água - gelada no Inverno ou com cloro no Verão; só querias precisamente o que não podias ter.
Tal como todos nós, suponho.
Agora, os meus cabelos ainda estavam molhados; cheirava a cloro - e estava a tentar arranjar maneira de esconder isso de ti quando voltasse para casa. Tinha as janelas do carro abertas
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enquanto passava pelo parque local, onde um jogo de basebol com equipas juniores tinha acabado havia pouco tempo. Então reparei num rapaz a fazer graffiti no
banco
dos jogadores em pleno dia.
Não sei o que me deixou mais frustrado, se o facto de este rapaz estar a danificar propriedade pública, se o facto de o estar a fazer mesmo debaixo do meu nariz,
sem sequer parecer esconder-se. Estacionei o carro longe e apareci sorrateiramente atrás dele.
- Olha - gritei. - És capaz de me dizer o que estás a fazer? Ele virou-se, apanhado em flagrante. Era alto e muito
magro, com cabelos amarelos finos e uma triste tentativa de bigode por cima do lábio superior. Cruzou o olhar com o meu, penetrante e desafiador, e depois deixou
cair a lata de spray e começou a correr.
Eu também corri. O rapaz acelerou, saindo do parque e atravessando por baixo de um viaduto, onde escorregou com o sapato de ténis numa poça de lama. Tropeçou, o
que me deu o tempo suficiente para me atirar para cima dele e encostá-lo a uma parede de betão, com o braço encostado à garganta.
- Fiz-te uma pergunta - disse de dentes cerrados. - Mas que merda andavas tu a fazer?
Arranhou-me o braço, sufocando e, de repente, vi-me através dos olhos dele.
Não era um daqueles polícias que gostam de servir-se da profissão para intimidar as pessoas. Então o que me fizera perder as estribeiras tão depressa? Quando recuei,
percebi: não era o facto de o rapaz estar a pintar os bancos dos jogadores com spray, nem não ter demonstrado remorsos quando cheguei ao local. Foi o facto de ele
ter fugido. De ele poder fugir.
Estava furioso com ele porque tu, na mesma situação, não podias ter escapado.
O rapaz estava dobrado para a frente, a tossir.
- Caramba! - arquejou.
- Desculpa - disse eu. - Desculpa, a sério.
Ele ficou a olhar para mim como um animal encurralado.
- Acabe lá com isto. Prenda-me. Virei-me para o outro lado.
- Vai-te embora. Antes que mude de ideias.
Fez-se um momento de silêncio e depois novamente o som de passos a correr.
Encostei-me à parede do viaduto e fechei os olhos. Ultimamente, parecia que a raiva era um geiser dentro de mim destinado
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a explodir em intervalos regulares. Às vezes acontecia que um rapaz como aquele se tornava o alvo. Outras vezes era a minha própria filha - dava por mim a gritar
com Amélia por qualquer coisa sem importância, como deixar a taça de cereais em cima da televisão, quando isso era uma infracção que eu próprio também cometia. E
por vezes queixava-me a Charlotte - por fazer rolo de carne quando eu queria frango panado, por não manter as crianças em silêncio quando eu estava a dormir depois
do turno da noite, por não saber onde deixara as chaves, por fazer-me achar que devia era estar zangado com outra pessoa.
Os processos legais não me eram estranhos. Uma vez processei a Ford, depois de ter andado num carro da polícia que me provocou uma hérnia discal. E, quem sabe,
talvez
a culpa fosse deles, talvez não fosse, mas deram-me uma indemnização e usei o dinheiro para comprar uma carrinha para poder transportar a tua cadeira de rodas e
o equipamento adaptativo de um lado para o outro - e tenho a certeza de que a Ford Motor Company nem sequer pestanejou ao passar o cheque de vinte mil dólares por
danos. Mas isto era diferente; não se tratava de um processo legal devido a qualquer coisa que nos tivesse acontecido - era um processo legal devido ao facto de
estares aqui. Embora pudesse nomear facilmente o que poderíamos fazer por ti com uma grande indemnização, não conseguia deixar de pensar que, para poder obtê-la,
teria de mentir.
Para Charlotte isso não parecia constituir um problema. E isso fez-me pensar sobre que mais estaria a mentir, neste preciso momento, sem que eu me apercebesse? Seria
feliz? Desejaria poder começar de novo, sem mim, sem ti? Amar-me-ia?
Em que tipo de pai me tornaria ao recusar-me a instaurar um processo legal que podia render dinheiro suficiente para poderes viver confortavelmente para o resto da vida, e, em vez disso, andasse a poupar dinheiro aqui e ali e a fazer turnos extra em jogos de basquetebol do liceu e em bailes de finalistas para podermos ter dinheiro suficiente para te comprar um colchão de espuma com memória, uma cadeira de rodas eléctrica, um carro adaptado para conduzires? Por outro lado, em que tipo
de pai me tornaria se a única maneira de conseguir essa recompensa fosse fingir que não queria que estivesses aqui?
Encostei a cabeça para trás, no betão, de olhos fechados. Se tivesses nascido sem OI e acabasses por ter um acidente de automóvel que te deixasse paralisada, teria
ido a um escritório de advogados para que examinassem todos os relatórios de acidentes em
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que estivessem envolvidos os mesmos modelos de carros para ver se o veículo teria algum defeito que pudesse ter conduzido ao acidente - para que as pessoas responsáveis
por te terem magoado tivessem de pagar por isso. Um processo legal por negligência médica no diagnóstico pré-natal seria assim tão diferente?
Era. Era porque, mesmo quando sussurrava as palavras para comigo próprio em frente ao espelho enquanto estava a fazer a barba, ficava com náuseas.
O meu telemóvel começou a tocar, lembrando-me que já estava longe do carro há mais tempo do que planeava estar.
- Estou?
- Pai, sou eu - disse Amélia. - A mãe não chegou a vir buscar-me.
Olhei para o relógio.
- As aulas já acabaram há duas horas! "
- Eu sei. Ela não está em casa, e não atende o telemóvel.
- vou já para aí - disse.
Passados dez minutos, uma Amélia amuada entrou no carro da polícia.
- Óptimo. Adoro que me levem a casa num carro da polícia. Imagina só o que vão dizer.
- Tens sorte por toda a gente da cidade saber que o teu pai é polícia. Diva do Drama.
- Falaste com a mãe?
Tinha tentado, mas, tal como Amélia tinha dito, não atendia o telemóvel. A razão tornou-se perfeitamente evidente quando virei para casa e a vi tirar-te com cuidado do assento de trás - não só confinada pelo gesso, mas exibindo uma nova ligadura que te prendia o braço ao peito.
Charlotte virou-se ao ouvir-me chegar e retraiu-se.
- Amélia - disse ela. - Oh, meu Deus. Desculpa, esqueci-me completamente.
- Pois, e qual é a novidade? - resmungou Amélia, entrando em casa.
Tirei-te dos braços da tua mãe.
- O que aconteceu, Wills?
- Foi a omoplata, acreditas? - disse Charlotte. - Mesmo a meio.
- Não atendeste o telemóvel.
- Fiquei sem bateria.
- Podias ter telefonado do hospital. Charlotte olhou para cima.
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- Não podes estar a zangar-te comigo, Sean. Estive um bocadinho ocupada...
- Não achas que mereço saber quando a minha filha se
magoa?
- Podes baixar a voz?
- Porquê? - perguntei. - Porque não hei-de deixar que toda a gente ouça? De qualquer maneira vão ficar a saber assim que instaures...
- Recuso-me a discutir esse assunto em frente à Willow...
- Bem, é melhor ultrapassares isso depressa, querida, porque ela vai ficar a saber tudo até à última palavra mais horrível.
O rosto de Charlotte ficou vermelho, tirou-te dos meus braços e levou-te para dentro de casa. Instalou-te no sofá, deu-te o comando da televisão e foi para a cozinha, esperando que eu fosse atrás dela.
- Mas que raio se passa contigo?
- Comigo? Foste tu que deixaste a Amélia à espera durante duas horas depois de terem acabado as aulas...
- Foi um acidente...
- Falando em acidentes - disse eu.
- Não foi uma fractura grave.
- Sabes uma coisa, Charlotte? A mim parece-me bastante grave.
- O que terias feito se eu te telefonasse? Saías mais cedo do trabalho outra vez? Era menos um dia que te pagavam, o que significava que estávamos duplamente lixados.
Senti a pele da parte de trás do pescoço retesar-se. Eis a mensagem subjacente naquele maldito processo legal, a tinta invisível que ia revelar-se nas entrelinhas de todos os documentos do tribunal: "Sean O'Keefe não ganha dinheiro suficiente para suprir as necessidades especiais da filha... e é por isso que se chegou a este ponto."
- Sabes o que eu acho? - disse eu, tentando manter a voz pausada. - Que se fosse ao contrário, se eu é que estivesse com a Willow quando ela se magoou, e não te tivesse telefonado, terias ficado furiosa. E sabes o que acho mais? Que a razão por que não me telefonaste não tem nada a ver com o trabalho nem com a bateria do telemóvel. É que já resolveste. Vais fazer tudo o que quiseres, quando quiseres, diga eu o que disser. - Saí intempestivamente de casa entrando no carro da polícia que ainda estava parado na via de acesso a casa, porque Deus me livrasse de sair do trabalho mais cedo.
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Bati no volante com a mão, buzinando inadvertidamente. O barulho fez Charlotte vir à janela. O rosto dela era pequeno e branco, uma forma oval cujas feições estavam
esbatidas àquela distância.
Pedi Charlotte em casamento com petit fours. Fui a uma pastelaria e pedi que escrevessem uma letra em glacê em cima de cada um deles: MARRYME6, e depois misturei-os
e servi-os numa travessa. É um quebra-cabeças, disse-lhe. Tens de colocá-los por ordem.
ARMY REM1
Charlotte ainda estava à janela, a observar-me de braços cruzados. Mal conseguia ver nela a rapariga a quem tinha dito para tentar outra vez. Já não conseguia lembrar-me
da expressão no rosto dela quando, da segunda vez, acertou.
6. Casa comigo. (N. da T.)
7. Gestor de eficiência de recursos do exército. (N. da T.)
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Amélia
Quando naquela noite a mãe me chamou para ir jantar; movi-me com o moribundo entusiasmo de um prisioneiro a dirigir-se para a execução. Quero dizer não era preciso ser nenhum génio para perceber que ninguém estava feliz naquela casa e que isso estava relacionado com aquele escritório de advogados a que tínhamos ido. Os meus pais não se esforçavam muito por baixar a voz quando estavam a gritar um com o outro. Nas três horas em que o pai tinha saído e voltado novamente a casa, e em que a mãe tinha chorado para dentro da tigela onde estava a misturar o rolo de carne, tu estiveste sempre a gemer Por isso fiz o que fazia sempre que estavas com dores: enfiei os auscultadores do iPod nos ouvidos e aumentei o som.
Não o fiz pela razão que pensas - para abafar o barulho que estavas a fazer. Sei que é isso que os meus pais pensam: que eu sou absolutamente indiferente.Também não
ia tentar explicar-lhes, mas a verdade é que precisava daquela música. Precisava de distrair-me do facto de que, quando estavas a chorar; eu não podia fazer nada
para impedi-lo, o que me fazia odiar-me ainda mais.
Todos - até tu, na parte de baixo do teu molde de gesso, com o braço ligado ao peito - estavam já sentados à mesa para jantar quando eu cheguei. A mãe tinha cortado o teu rolo de carne em pequenos quadrados, como selos do correio. Fez-me lembrar de quando eras pequena, sentada na cadeirinha de bebé. Costumava brincar contigo - a fazer rolar uma bola ou a empurrar-te num carrinho - e diziam-me sempre a mesma coisa: "Tem cuidado."
Uma vez, estavas sentada na cama e eu estava a saltar lá em cima, e caíste. Num minuto éramos astronautas a explorar o planeta Zurgon e, no minuto seguinte, a tua canela esquerda estava virada num ângulo de noventa graus e estavas a entrar naquele transe sinistro em que costumas
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entrar quando sofres uma fractura grave. A mãe e o pai esforçaram-se ao máximo para dizer que a culpa não tinha sido minha, mas quem achavam eles que estavam a enganar?
Eu é que estava aos saltos, mesmo que a ideia tivesse sido tua. Se eu não estivesse lá, não te tinhas magoado.
Sentei-me na cadeira. Não temos lugares marcados, como nalgumas famílias, mas sentámo-nos sempre nos mesmos em cada refeição. Ainda tinha os auscultadores, com a
música alta - emo, músicas que me faziam achar que havia pessoas com vidas ainda mais ranhosas do que a minha.
- Amélia - disse o meu pai. - À mesa não.
Às vezes penso que tenho um monstro a viver dentro de mim, na caverna onde o meu coração devia estar e que, de vez em quando, me preenche cada centímetro de pele, até eu não poder evitar fazer qualquer coisa desapropriada. Tem um hálito cheio de mentiras; cheira a despeito. E, naquele preciso momento, decidiu recuar a cabeça
horrorosa. Olhei para o meu pai, pestanejando, aumentei o som, e disse - demasiado alto:
- Passa-me as batatas.
Parecia a miúda mais mal comportada do mundo, e talvez quisesse sê-lo: como o Pinóquio, se me comportasse como uma adolescente egocêntrica, acabaria por me tornar numa, e todos reparariam em mim e satisfariam os meus pedidos, em vez de te darem o rolo de carne à boca e te observarem para terem a certeza de que não estavas a escorregar pela cadeira. Por acaso, ficaria satisfeita se apenas alguém reparasse que eu pertenço a esta família.
- Wills - disse a mãe - tens de comer alguma coisa.
- Sabe a chulé - respondeste.
- Amélia, não vou voltar a pedir-te - disse o pai.
- Mais cinco garfadas... -Amélia!
Não olhavam um para o outro; tanto quanto sabia nem sequer tinham falado desde a tarde. Interroguei-me se perceberiam que seria exactamente igual se, neste momento, estivessem a jantar e a conversar em lados opostos do globo.
Afastaste-te do garfo que a Mãe agitava à tua frente.
- Pára de tratar-me como um bebé - disseste. - Lá por ter partido o ombro não quer dizer que tenhas de me tratar como se tivesse dois anos!
- Para provar isto, tentaste alcançar o copo com o braço livre, mas derrubaste-o. O leite derramou-se em parte sobre a toalha, mas a maior parte caiu mesmo em cima do prato do pai.
- Caramba! - gritou ele e estendeu o braço na minha direcção arrancando-me os auscultadores dos ouvidos.
- Fazes parte desta família e vais comportar-te como tal à mesa do jantar.
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Fiquei a olhar para ele.
-Tu primeiro - disse.
O rosto dele ficou vermelho-vivo.
- Amélia, vai para o teu quarto.
- Óptimo! - arrastei a cadeira para trás com um guincho e corri lá para cima. De lágrimas nos olhos e o nariz a pingar, tranquei-me na casa de banho. A rapariga no espelho era uma pessoa que eu não conhecia: tinha a boca contorcida, os olhos escuros e vazios.
Ultimamente parecia que tudo me irritava. Ficava irritada quando acordava de manhã e estavas a olhar para mim como se eu fosse algum animal no jardim zoológico; ficava irritada quando ia para a escola e o meu cacifo ficava ao pé da sala de aulas de francês, uma vez que a Madame Riordan tinha feito sua missão pessoal transformar-me a vida num inferno; ficava irritada quando via um bando de chefes de claque, com as suas pernas perfeitas e as suas vidas perfeitas, que se preocupavam com coisas como quem iria convidá-las para o próximo baile e se o verniz vermelho dava um ar ordinário, em vez de se as mães se lembrariam de ir buscá-las à escola ou se estariam mais ocupadas no serviço de urgências. As únicas vezes em que não estava irritada, estava com fome - como naquele momento. Ou pelo menos pensava que estava com fome. Parecia que estava a ser consumida de dentro para fora; já não conseguia distinguir a diferença.
Da última vez que os meus pais discutiram - o que foi para aí no dia anterior - tu e eu estávamos no nosso quarto e ouvíamo-los perfeitamente bem. As palavras passavam por baixo da porta, embora estivesse fechada: "negligência médica no diagnóstico pré-natal... testemunho... depoimento." A dada altura ouvi mencionarem a televisão:"Não achas que os jornalistas ficariam a saber? É mesmo isso que queres?" disse o pai, e por um instante pensei como seria fixe aparecer nas notícias, até que me lembrei de que ser o exemplo de uma criança pertencente a uma família disfuncional não era propriamente a forma como eu queria gastar os meus quinze minutos de fama.
"Estão zangados comigo", disseste.
"Não. Estão zangados um com o outro."
Então, ambas ouvimos o pai dizer: "Achas mesmo que a Willow não vai descobrir?"
Olhaste para mim. "Descobrir o quê?"
Hesitei, e em vez de responder; agarrei no livro que tinhas no colo e disse-te que ia ler em voz alta.
Normalmente não gostas disso - ler, é talvez a única coisa que consegues fazer excepcionalmente bem, e habitualmente, gostas de te exibir; mas provavelmente naquele instante apetecia-te que eu o fizesse: como se
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tivesses um esfregão de arame no estômago que te dilacerasse as entranhas de cada vez que te mexesses.Tinha amigas com pais divorciados. Não era assim que tudo começava?
Abri numa página ao acaso, de factos, e comecei a ler-te em voz alta sobre mortes improváveis e horripilantes. Havia o guarda de um carro blindado para transporte de dinheiro que morreu quando cinquenta mil dólares em moedas de vinte e cinco cêntimos caíram da camioneta e o esmagaram. Uma rajada de vento empurrou o carro de um homem para dentro de um rio perto de Nápoles, em Itália, por isso ele partiu o vidro da janela, saiu cá para fora e nadou para a margem, acabando por ser morto por uma árvore que foi derrubada pelo vento e o esmagou. Um homem caiu nas cataratas do Niágara dentro de um barril, em 1911, partindo quase todos os ossos do corpo, escorregou mais tarde numa casca de banana na Nova Zelândia e morreu da queda.
Gostaste mais daquele último, e eu fiz-te sorrir outra vez, mas, por dentro, ainda estava triste: como era possível ganhar quando o mundo estava sempre a derrubar-te?
Foi nessa altura que a mãe entrou no quarto e se sentou à beira da tua cama.
-Tu e o pai detestam-se um ao outro? - perguntaste.
- Não, Wills - disse ela, sorrindo, mas de uma forma que fazia parecer que a pele estava demasiado esticada dos lados do rosto. - Está tudo bem.
Levantei-me, de mãos nas ancas.
- Quando vais dizer-lhe? - perguntei.
O olhar da minha mãe podia ter-me cortado ao meio, juro.
- Amélia - disse ela num tom que não admitia argumentos - não há nada para dizer.
Agora, sentada na borda da banheira, percebi como a minha mãe era uma mentirosa. Interroguei-me se seria para aquilo que eu estaria destinada, se podíamos herdar essa tendência da mesma forma que ela me transmitiu a capacidade de dobrar muito os cotovelos ou de dar um nó num pé de cereja com a língua.
Debrucei-me para a sanita, enfiei o dedo na garganta e vomitei, para que, desta vez, quando dissesse para comigo que estava vazia e a sofrer, estivesse finalmente a dizer a verdade.
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Cozedura de massa para tarte: o processo de cozer a massa de uma tarte sem o recheio.
Às vezes, quando estamos a lidar com uma massa frágil, esta abaterá apesar das nossas melhores intenções. Por esta razão, a massa de algumas tartes deve ser cozida
antes de se acrescentar o recheio. O melhor método é forrar a forma para tartes com a massa tendida e colocar no frigorífico durante pelo menos 30 minutos. Quando
estiver pronta para cozer, picar a superfície em vários sítios com um garfo, forrar a forma para tartes com folha de alumínio ou papel vegetal e enchê-la com arroz
ou feijões secos. Cozer como indicado, e depois remover cuidadosamente a folha de alumínio e os feijões - a massa terá mantido a sua forma por causa deles. Gosto
de ver como uma substância pesada pode acabar por crescer; gosto de sentir os feijões, como um problema a escapar-se por entre os dedos. Acima de tudo, gosto de
tender a massa-, são as coisas que temos de suportar que nos fazem aquilo que somos.
MASSA DOCE PARA PASTELARIA
1 chávena de farinha, 1 Pitada de sal
1 colher de sopa de açúcar
1 chávena; duas colheres de sopa de manteiga sem sal fria, em pedacinhos 1 gema grande
1 colher de sopa de água gelada
Numa batedeira, juntar a farinha, o sal, o açúcar e a manteiga. Bater até obter uma massa grosseira. Numa pequena tigela, bater a gema de ovo com a água gelada.
com a batedeira a funcionar, juntar a mistura da gema à farinha e à manteiga até formar uma bola. Retirar a massa, embrulhá-la em película aderente, achatando-a
até formar um disco, e colocar no frigorífico durante uma hora.
Tender a massa com o rolo numa superfície levemente polvilhada com farinha e colocá-la numa forma para tartes com fundo amovível. Colocar no frigorífico antes de
cozer.
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Pré-aquecer o forno a uma temperatura de 200?C. Retirar a forma do frigorífico, picar a superfície da massa com um garfo, cobrir com folha de alumínio e colocar
os feijões secos. Meter no forno durante dezassete minutos, retirar a folha de alumínio e os feijões e deixar continuar a cozer durante mais seis minutos. Deixar
arrefecer completamente antes de colocar o recheio.
TARTE DE ALPERCE
Base de tarte de Massa Doce para Pastelaria - previamente cozida
2-3 alperces
2 gemas
1 chávena de natas para bater
Um quarto chávena de açúcar
1,5 colheres de sopa de farinha
2 chávena de avelãs picadas
Descascar os alperces, cortar e colocar no fundo de uma base de tarte previamente cozida.
Misturar as gemas, as natas, o açúcar e a farinha. Deitar por cima dos alperces e polvilhar com as avelãs. Cozer em forno pré-aquecido a 180? C durante 35 minutos.
Quando provamos isto, ainda sentimos o peso que fica para trás. É a sombra por baixo do doce, a pergunta na ponta da língua.
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Marin
Junho de 2007
O Facebook é suposto ser uma rede social, mas a verdade é que, a maior parte das pessoas que conheço - incluindo eu - passa tanto tempo online a compor os seus perfis
e a escrever comentários no Facebook dos outros que acaba por, na realidade, sociabilizar muito pouco. Talvez não fosse muito próprio abrir o Facebook a meio de
um dia de trabalho, mas, uma vez, apanhei Robert Ramirez às voltas com a sua página no MySpace e percebi que lhe seria difícil desculpar-se sem parecer hipócrita.
Ultimamente andava a usar o Facebook para me juntar a grupos
- Pesquisa de Mães Biológicas, Registo para Pesquisa de Crianças Adoptadas. Alguns membros encontraram realmente as pessoas que procuravam. Embora isso não me tivesse
acontecido, era agradavelmente reconfortante ligar-me e ler as mensagens que atestavam que eu não era a única pessoa que estava frustrada com todo este processo.
Liguei-me à Internet e abri as minhas mensagens. Tinha sido contactada por uma antiga colega do liceu que, há uma semana, me convidara para ser sua amiga mas que
eu já não via há quinze anos. Tinha sido desafiada pela minha prima em Santa Barbara para responder a um questionário no Flixster. Tinha sido eleita pelos meus outros
amigos a pessoa a cujo Facebook preferiam pertencer.
Olhei para a informação mesmo por cima disto, o meu perfil.
NOME: Marin Gates REDES: Portsmouth, NH/UNH Alumni/ Ordem dos Advogados do NH
SEXO: Feminino INTERESSES: Homens ESTADO CIVIL: Solteira
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Solteira?
Voltei a carregar a página. Durante os últimos quatro meses essa linha do Facebook tivera escrito: "Numa relação com Joe Mclntyre." Abri a página principal e examinei as notícias. Ali estava: uma fotografia do rosto dele e uma actualização: "Joe Mclntyre e Marin Gates terminaram a sua relação."
Fiquei de boca aberta; parecia que tinha levado um soco inesperado.
Agarrei no casaco e dirigi-me intempestivamente para a recepção.
- Espere! - disse Briony. - Aonde vai? Tem uma chamada em conferência marcada para as...
- Marque para outra altura - ripostei. - O meu namorado acabou de me deixar através do Facebook.
Joe Mclntyre não era o homem da minha vida. Conheci-o num jogo dos Bruins a que tinha ido assistir com clientes; passou por mim entre os assentos e entornou a sua cerveja para cima da minha camisola. Não foi um princípio auspicioso, mas tinha olhos anil e um sorriso que contribuía para o aquecimento global e, quando dei por mim, não só lhe tinha prometido que podia pagar a conta da lavandaria como também lhe tinha dado o meu número de telefone. No primeiro encontro, descobrimos que trabalhávamos a menos de um quarteirão de distância um do outro - ele era um advogado especializado em questões ambientais - e que ambos éramos licenciados pela Universidade de New Hampshire. No segundo encontro, fomos para minha casa e não saímos da cama durante dois dias seguidos.
Joe é seis anos mais novo do que eu, o que quer dizer que aos vinte e oito anos ainda evitava os compromissos e que eu, aos trinta e quatro, tinha trocado o relógio de pulso pelo relógio biológico. Estava à espera de divertir-me um pouco com aquele romance: ter alguém com quem ir ao cinema no sábado à noite e receber flores no Dia dos Namorados. Não estava a pensar que seria para sempre; achava que em determinada altura nos próximos meses lhe diria que naquele momento estávamos à procura de coisas diferentes nas nossas vidas.
Mas sem dúvida que não lhe ia dizer isso através do Facebook.
Virei a esquina e entrei na recepção do escritório de advocacia onde ele trabalhava. Era muito menos grandioso do que o de Bob, mas isso pouco importa, nós somos simplesmente advogados de vítimas, não estamos a tentar mudar o mundo. A recepcionista sorriu.
- Posso ajudá-la?
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- O Joe está à minha espera - disse eu, e dirigi-me para o fundo do corredor.
Quando abri a porta do gabinete dele, estava a ditar para um gravador digital.
- Para além disso, acreditamos que é do interesse da Cochran e Filhos... Marin, o que estás aqui a fazer?
- Acabaste a nossa relação no Facebook?
- Ia enviar-te uma mensagem, mas achei que ia ser pior - disse Joe, levantando-se de um salto para fechar a porta enquanto um colega passava ali perto. - Então,
Marin. Sabes que não tenho muito jeito para lamechices - sorriu -, bem, para as lamechices metafóricas...
- És um monstro insensível - disse eu.
- Assim foi muito mais civilizado, na minha opinião. Qual era a alternativa? Uma grande discussão em que me mandavas à merda?
- Sim! - disse eu, e depois respirei fundo. - Há outra pessoa?
- Há outra coisa - disse Joe num tom sério. - Por amor de Deus, Marin. Descartaste-te de mim das últimas três vezes em que tentei marcar um encontro. O que estavas
à espera que eu fizesse? Ficasse sentado à espera que tivesses tempo para mim?
- Isso não é justo - disse eu. - Estive a ler certidões de casamento...
- Precisamente - respondeu Joe. - Não queres sair comigo. Queres sair com a tua mãe biológica. Olha, ao princípio achei que era apaixonante: sabes, falavas tão apaixonadamente
sobre como encontrá-la. Só que afinal essa é a única coisa que fazes apaixonadamente, Marin. - Enfiou as mãos nos bolsos. - Estás tão ocupada a viver no passado
que agora não tens nada para dar.
Sentia o pescoço a ferver debaixo da gola do casaco.
- Lembras-te daqueles dois dias fabulosos, e noites, em minha casa? - disse eu, debruçando-me sobre ele até ficar a centímetros de distância. Vi as pupilas dilatarem-se.
- Se me lembro - murmurou.
- Fingi. Todas as vezes - disse eu, e saí do gabinete de Joe de cabeça erguida.
A minha data de nascimento é 3 de Janeiro de 1973. Como é óbvio sempre soube isto. O certificado de adopção que recebi do Condado de Hillsborough tinha a data de
fim de Julho, por causa do
8. Touchy-feely na versão original em inglês faz também uma alusão a tocar ou apalpar. (N. da T.)
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período de espera de seis meses para uma adopção poder ser finalizada e do tempo que demora a marcar a audiência. Há um grande debate acerca deste período de seis
meses na comunidade de adopção. Algumas pessoas acham que devia ser mais longo, para dar tempo à mãe biológica para mudar de ideias; outras pessoas acham que devia
ser mais curto, para dar paz de espírito aos pais adoptivos e terem a certeza de que o bebé recém-nascido não lhes vai ser tirado. O facto de nos identificarmos
com um lado ou com o outro depende de termos um bebé para dar ou um bebé a receber, claro.
Eu atrasei-me alguns dias. O meu pai costumava dizer que estava a contar que eu fosse a sua deduçãozinha aos impostos, mas eu frustrei-lhe os planos ao chegar no
ano seguinte. No papel que veio comigo para casa, quando saí do hospital, guardado no meu livro de bebé, estava um cartão com o meu nome rasgado - mas ainda conseguia
ver um arco a meio do último nome que não tinha sido rasgado: um y, ou um g, ou um j, ou um q. Sabia isto sobre a minha identidade anterior, e sabia que os meus
pais biológicos viviam no Condado de Hillsborough, e que a minha mãe tinha dezassete anos. Nos anos setenta ainda era bastante provável que uma rapariga de dezassete
anos casasse com o pai do seu filho, e isso conduziu-me ao registo civil.
Utilizando uma calculadora para calcular a data do parto num site sobre gravidez, achei que devia ter sido concebida por volta do dia dez de Abril para que a data
prevista para o parto fosse a véspera de Ano Novo. (Dez de Abril. Um baile de Primavera no liceu, imaginei. Uma viagem de carro até à costa à meia-noite. As ondas
na areia, o sol a despontar como uma gema de ovo sobre o oceano, de madrugada, ele e ela, a dormir nos braços um do outro.) De qualquer forma, se ela tivesse descoberto
que estava grávida um mês depois, isso significava que deviam ter-se casado no princípio do Verão de 1972.
Em 1972, Nixon foi à China. Onze atletas israelitas foram mortos nos Jogos Olímpicos. Um selo custava oito cêntimos. Os Oakland As ganharam o campeonato, e M't'ASH
estreava-se na CBS.
No dia 22 de Janeiro de 1973, dezanove dias após eu ter nascido e quando já estava a viver com a família Gates, o Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos
da América deliberou no caso Roe contra Wade?
9. A partir da deliberação do Supremo Tribunal de Justiça neste caso, as leis extremamente restritivas em relação ao aborto praticadas na maioria dos estados nos
EUA desde meados do século XIX, foram em grande medida revogadas. (N. da T.)
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A minha mãe teria ouvido falar nisso e amaldiçoado o seu sentido de oportunidade?
Há algumas semanas comecei a examinar os registos do Condado de Hillsborough em busca de certidões de casamento datadas do Verão de 1972. Se a minha mãe tinha dezassete
anos, devia haver um formulário de consentimento parental anexo. Sem dúvida que isso limitaria o número de documentos que eu teria de escrutinar.
Tinha-me descartado de Joe por dois fins-de-semana seguidos para examinar mais de três mil certidões de casamento e fiquei a saber coisas incrivelmente sinistras acerca do meu Estado (como por exemplo, uma rapariga entre os treze e os dezassete anos e um rapaz entre os catorze e os dezassete anos podem casar com o consentimento dos pais), mas não encontrei uma certidão que parecesse ser dos meus pais biológicos.
A verdade é que, mesmo antes de Joe me ter deixado, já estava resignada a desistir da minha busca.
Voltei para o trabalho depois de ter saído do gabinete dele e, na verdade, passei o resto do dia sem fazer nada de especial. Naquela noite, voltei para casa, abri uma garrafa de vinho e uma embalagem de gelado Coffe Heath Bar Crunch Ben Jerrys, e encarei a verdade: tinha de decidir se queria mesmo encontrar a minha mãe biológica. Supostamente, ela tinha-se debatido com um dilema moral bastante difícil de ultrapassar: decidir se ia abdicar de mim ou não; certamente devia-lhe o mesmo tipo de auto-avaliação para decidir se devia ou não ir à procura dela. A curiosidade não bastava; nem o receio de alguma complicação médica que me deixara a pensar nas minhas origens. Descobria um nome: e depois? Saber de onde vim não significa necessariamente que seja suficientemente corajosa para ouvir as razões pelas quais fui dada para adopção. Se ia prosseguir com isto, ia abrir as portas a uma relação que mudaria ambas as nossas vidas.
Agarrei no telefone e marquei o número da minha mãe.
- O que estás a fazer? - perguntei.
- A tentar descobrir como hei-de gravar The Colbert Report - disse ela. - O que estás tu a fazer?
Olhei para o gelado a derreter, para a garrafa de vinho meio vazia.
- Estou a começar a fazer uma dieta líquida - disse eu. - E tens de carregar no botão vermelho para aparecer o menu correcto no ecrã.
- Oh, aqui está ele. Óptimo. O teu pai fica rabugento quando eu vejo o programa e ele adormece.
- Posso perguntar-te uma coisa?
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- Claro.
- Sou apaixonada? Ela riu.
- As coisas devem andar a correr mesmo muito mal para estares a fazer-me essa pergunta.
- Não quero dizer a nível romântico. Quero dizer, tu sabes, em relação à vida. Tinha passatempos quando era pequena? Coleccionava cromos dos Garbage Pail Kids ou
implorava para me inscrever na equipa de natação?
- Querida, tiveste um medo terrível da água até aos doze anos.
- Pronto, se calhar não foi um exemplo muito bom - apertei a cana do nariz. - Não desistia das coisas, mesmo quando eram difíceis, ou costumava desistir?
- Porquê? Aconteceu alguma coisa no trabalho?
- Não, no trabalho não - hesitei. - Se estivesses no meu lugar, procuravas os teus pais biológicos?
Fez-se uma bolha de silêncio.
- Uau. É uma pergunta bastante difícil. E achei que já tínhamos falado sobre isso. Disse que te apoiava...
- Eu sei o que disseste. Mas isso não te magoa? - perguntei directamente.
- Não vou mentir, Marin. Ao princípio, quando começaste a fazer perguntas, sim. Acho que uma parte de mim achava que se me amasses o suficiente, não precisarias
de ir à procura de outras respostas. Mas quando apanhaste aquele susto no ginecologista, apercebi-me de que a questão principal aqui não sou eu. És tu.
- Não quero magoar-te.
- Não te preocupes comigo - disse ela. - Sou velha e rija. Isso fez-me sorrir.
- Não és velha, e és um coração de manteiga. - Inspirei. - É que estou sempre a pensar, sabes, que isto é uma questão muito importante. Desenterramos o baú e talvez
encontremos um tesouro escondido, mas talvez encontremos uma coisa podre.
- Talvez tenhas medo é de te magoares a ti própria.
A minha mãe acerta sempre em cheio. E se, por exemplo, eu fosse aparentada com o Jeffrey Dahmer10 ou com o Jesse Helms"? Não seria melhor não o saber?
10. Assassino em série, mais conhecido como o Canibal de Milwakee. (N. da T.)
11. Senador conservador da Carolina do Norte conhecido por ser um opositor implacável às iniciativas liberais. (N. da T.)
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- Ela livrou-se de mim há mais de trinta anos. E se eu for intrometer-me na vida dela e ela não quiser ver-me?
Ouviu-se um suspiro suave do outro lado da linha. Apercebi-me de que esse era o som que eu mais associava ao meu crescimento. Ouvi-o ao correr para os braços da minha mãe quando um rapaz me empurrou de um baloiço no parque infantil. Ouvi-o num abraço antes de o meu belo par do baile de finalistas e eu irmos para a festa; ouvi-o quando ela ficou à porta do meu dormitório na universidade, tentando não chorar ao deixar-me sozinha pela primeira vez. Toda a minha infância estava contida naquele som.
- Marin - disse simplesmente a minha mãe. - Quem é que não haveria de te querer?
Sinceramente, não sou daquele tipo de pessoa que acredita em fantasmas, no karma e na reencarnação. Mas no dia seguinte dei por mim a meter baixa no trabalho para poder ir a Falmouth, no Massachusetts, para falar sobre a minha mãe biológica com uma médium. Dei mais um gole no café do Dunkin' Donuts e imaginei como seria a
reunião; se sairia dela com informações que me colocariam na direcção certa para a minha busca sobre a adopção, como a mulher que me recomendou Meshinda Dows e as
suas profecias.
Na noite anterior estive em dez grupos de apoio para casos de adopção oníine. Criei um nome para mim própria (SeparStedatbirth@yahoo.com) e fiz listas a partir dos
sites num bloco Moleskine em branco.
1. UTILIZAR OS REGISTOS CIVIS ESTADUAIS.
2. REGISTAR-ME NO ISRR12 - o índice de Recursos de Busca e Reunião, o maior registo que existe.
3. REGISTAR-ME NO REGISTO MUNDIAL.
4. FALAR com OS PAIS ADOPTIVOS... E PRIMOS, TIOS, IRMÃOS MAIS VELHOS...
5. DESCOBRIR O INTERMEDIÁRIO. Por outras palavras, quem mediou a adopção? Uma igreja, um advogado, um médico, uma agência? Podem ser uma fonte de informação.
6. ASSINAR A RENÚNCIA À CONFIDENCIALIDADE, para que, se a nossa mãe biológica vier à nossa procura, saber que queremos ser contactados.
12. índex of Search and Reunion Resources, na versão original em inglês. (N. da T.)
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7. PUBLICAR REGULARMENTE INFORMAÇÕES. Há pessoas que realmente enviam as mensagens para toda a gente na esperança de que as informações cheguem ao local certo!
8. COLOCAR ANÚNCIOS NOS PRINCIPAIS JORNAIS DA CIDADE NATAL.
9. ACIMA DE TUDO, IGNORAR QUALQUER FIRMA DE INVESTIGAÇÃO QUE VEJAM EM ANÚNCIOS OU PROGRAMAS DA TELEVISÃO! SÃO TODOS FRAUDULENTOS!
Às duas da manhã ainda estava online num chat sobre adopção, a reagir às histórias de horror de pessoas que queriam poupar-me o trabalho de cometer os mesmos erros do que elas. Havia o RiggleBoy, que tinha contactado um número azul de busca, dando informações sobre o seu cartão de crédito, e foi surpreendido por uma conta de
6500 dólares ao fim de um mês. Havia a Joy4Eva, que descobriu que fora retirada da família por negligência e maus tratos. AllieCapone688 deu-me uma lista de três livros que usou quando começou - que lhe custaram menos do que os investigadores privados que contratou. Só uma mulher tinha um final feliz para contar: tinha ido consultar uma médium chamada Meshinda Dows que lhe dera informações tão precisas que ela encontrou a mãe biológica passada uma semana. "Experimente", sugeriu FantaC. "O que tem a perder?"
Bem, o respeito por mim própria, por exemplo. Mas, apesar disso, dei por mim a pesquisar Meshinda Dows no Google. Tinha um daqueles sites que demoram uma eternidade a carregar, por ter um ficheiro de música acoplado - neste caso, uma mistura lúgubre de espanta espíritos e canções de baleias-corcundas. "Meshinda Dows", estava escrito na página principal, "Conselheira psíquica certificada."
Quem certificaria os conselheiros psíquicos? O Departamento de Banha da Cobra e Charlatães dos Estados Unidos?
"Servindo a comunidade de Cape Cod há 35 anos."
O que significava que ficava a uma distância da minha casa em Bankton que podia ser percorrida de carro.
"Deixe-me ser a sua ponte para o passado."
Antes que perdesse a coragem, acedi ao email e enviei-lhe uma mensagem a explicar que estava à procura da minha mãe biológica. Passados trinta segundos após a ter enviado, recebi uma resposta:
Marin, acho que posso ser uma grande ajuda para si. Está livre amanhã à tarde?
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Não fiquei a pensar por que razão estaria aquela mulher online às três da manhã. Não pensei por que razão uma médium bem-sucedida teria uma vaga tão rapidamente.
Em vez disso, aceitei pagar os sessenta dólares da consulta e imprimi as indicações que ela me deu para chegar lá.
Cinco horas depois de ter saído de casa naquela manhã, estacionei em frente à casa de Meshinda Dows. Ela vivia numa casinha pintada de púrpura debruada com uma faixa
vermelha. Tinha à vontade sessenta anos, mas tinha os cabelos que lhe chegavam à cintura pintados de negro.
- Deve ser a Marin - disse ela.
Uau, já estava a mostrar as suas qualidades.
Conduziu-me para uma sala separada da entrada por uma cortina feita de lenços de seda. Lá dentro havia dois sofás virados um para o outro e no meio uma otomana quadrada
branca. Em cima da otomana havia uma pena, um leque e um baralho de cartas. As prateleiras da sala estavam cobertas por bonecos Beanie Babies, cada um fechado num pequeno saco de plástico com protectores de etiquetas em forma de coração. Pareciam estar todos a sufocar.
Meshinda sentou-se, e eu apressei-me a imitá-la.
- Primeiro recebo o dinheiro - disse ela.
Oh - enfiei a mão na mala e tirei três notas de vinte dólares, que ela dobrou e enfiou no bolso.
- Porque não começamos dizendo-me que razão a trouxe aqui? Olhei para ela, pestanejando.
- Não devia já saber isso?
- Os dons psíquicos nem sempre funcionam dessa maneira, minha querida - disse ela. - Está um bocadinho nervosa, não está?
- Acho que sim.
- Não devia estar. Está protegida. Tem espíritos à sua volta disse ela. Fechou os olhos e franziu-os. - O seu... avô? Ele quer que saiba que agora respira muito melhor.
Fiquei de boca aberta. O meu avô morreu quando eu tinha treze anos por complicações associadas a um cancro do pulmão. Fiquei aterrorizada quando o visitei no hospital e o vi a definhar.
- Ele sabia qualquer coisa importante sobre a sua mãe biológica
- disse Meshinda.
Bem, isso era conveniente, visto que o avô já não podia confirmar nem desmentir isso agora.
- Ela é magra e tem cabelos escuros - continuou a médium. Era muito jovem quando aconteceu. Estou a captar um sotaque...
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- Do sul? - perguntei.
- Não, do sul não... não consigo identificá-lo - Meshinda olhou para mim. -Também estou a captar alguns nomes. Nomes estranhos. Allagash... e Whitcomb... não, Whittier.
- Allagash Whittier é um escritório de advocacia em Nashua disse eu.
- Acho que têm alguma informação. Talvez fosse um advogado que ali trabalhasse a tratar da adopção. Se fosse a si contactava-os. E à Maisie. Uma pessoa chamada Maisie
também possui algumas informações.
Maisie era o nome da secretária do Condado de Hillsborough que me tinha enviado o certificado de adopção.
- Tenho a certeza de que sim - disse eu. - Tem acesso ao ficheiro completo.
- Estou a referir-me a outra Maisie. Uma tia ou uma prima... ela adoptou um bebé de África.
- Não tenho nenhuma tia nem prima chamada Maisie - disse eu. -Tem, sim - insistiu Meshinda. - Ainda não a conhece. -
Franziu o rosto, como se estivesse a chupar um limão. - O seu pai biológico chama-se Owen. Está relacionado com o direito.
Inclinei-me para a frente, intrigada. Teria sido por isso que me senti atraída pela carreira?
- Ele e a sua mãe biológica tiveram mais três filhos.
Fosse ou não verdade, senti um aperto no peito. Como é que aqueles três puderam ficar, mas eu fui dada para adopção? O velho adágio que me repetiram vezes sem conta
- que os meus pais biológicos gostavam muito de mim mas não podiam tomar conta de mim
- nunca me tinha soado completamente verdadeiro. Se gostavam assim tanto de mim, porque abdicaram de mim?
Meshinda levou a mão à cabeça.
- E é tudo - disse ela. - Já não estou a captar mais nada. - Deu-me umas palmadinhas no joelho. - Aquele advogado - aconselhou. É por aí que deve começar.
A caminho de casa, parei no McDonald's para comer qualquer coisa e sentei-me lá fora no espaço de diversão semelhante a um Habitrail13 humano cheio de crianças
pequenas
acompanhadas pelos pais. Telefonei para as informações e fizeram a ligação para Allagash Whittier. Ao dizer-lhes que era colaboradora de Robert Ramirez,
13. Conjunto de tubos e esferas de plástico para servir de habitação a pequenos animais de estimação como os hamsters. (N. da T.)
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consegui convencer os assistentes jurídicos a passarem a ligação para um dos advogados.
- Marm - disse a mulher - em que posso ajudá-la?
No pequeno banco onde estava sentada, enrolei-me um pouco mais sobre mim própria, para tornar a conversa mais privada.
- É um pedido um pouco estranho - disse eu. - Estou a tentar encontrar algumas informações sobre uma cliente que a sua firma pode ter tido no princípio dos anos setenta. Era uma rapariga muito jovem, de dezasseis ou dezassete anos.
- Não deve ser difícil de encontrar: não temos muitos clientes assim. Qual é o apelido dela?
Hesitei.
- Não sei propriamente o apelido. Fez-se silêncio do outro lado da linha.
- Trata-se de um caso de adopção?
- Bem. Sim, da minha adopção. A voz da mulher era fria.
- Sugiro que se dirija ao tribunal - disse ela, e desligou.
Agarrei no telemóvel com força entre as mãos e vi um rapazinho guinchar enquanto deslizava num escorrega violeta às curvas. Era asiático, a mãe não. Seria adoptado? Um dia, estaria ali sentado como eu, num beco sem saída?
Voltei a telefonar para as informações e, passado um instante, ligaram-me a Maisie Donovan, que dirigia o registo de adopções do Condado de Hillsborough.
- Provavelmente não se lembra de mim - disse. - Há alguns meses, enviou-me o meu certificado de adopção...
- Nome?
- Bem, era isso que eu queria saber...
- Estava a referir-me ao seu nome - disse Maisie.
- Marin Gates - engoli. - É a coisa mais disparatada - disse eu. - Hoje consultei uma médium. Quero dizer, não sou uma desequilibrada que costume consultar médiuns nem nada... embora não tenha nenhum problema em relação a isso, sabe, se uma pessoa gostar de ir de vez em quando... mas em todo o caso, fui a casa desta senhora
e ela disse-me que uma pessoa chamada Maisie possuía informações sobre a minha mãe biológica. - Forcei uma gargalhada. - Não me deu muitos mais pormenores, mas nisso
acertou, não foi?
- Senhora Gates - disse Maisie secamente -, em que posso ajudá-la?
Curvei a cabeça para o chão.
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- Não sei que mais posso fazer - admiti. - Não sei o que fazer a seguir.
- Por cinquenta dólares posso enviar-lhe a sua informação não identificativa numa carta.
- O que é isso?
- Tudo o que estiver no seu ficheiro que não implique revelar nomes, moradas, números de telefone, datas de nascimento...
- As coisas sem importância - disse eu. - Acha que vou ficar a saber alguma coisa através disso?
- A sua adopção não foi feita através de uma agência; foi privada - explicou Maisie - por isso não deve haver muita coisa, suponho. Provavelmente ficará a saber que é branca.
Lembrei-me do certificado de adopção que ela me enviou.
- Estou quase tão certa disso como de que sou do sexo feminino.
- Bem, por cinquenta dólares, terei todo o gosto em confirmá-lo.
- Sim - ouvi-me dizer. - Gostaria que o fizesse.
Depois de anotar, nas costas da mão, a morada para onde tinha de enviar o cheque, desliguei o telemóvel e fiquei a ver as crianças aos saltos como moléculas numa solução aquecida. Para mim, era difícil imaginar ter um filho. Era impossível imaginar dar um para adopção.
- Mamã! - gritou uma menina do cimo de uma escada. - Estás a ver?
Na noite anterior, nos quadros com as mensagens, vi pela primeira vez as designações mãea e mãeb. Não eram classificações, como pensei de início - só abreviaturas
para mãe adoptiva e mãe biológica. Afinal, há uma enorme controvérsia por causa desta terminologia. Algumas mães biológicas acham que a designação as faz parecer
procriadoras, e não mães, e gostariam de ser designadas por primeira mãe ou mãe natural. Mas segundo essa lógica, a minha mãe tornar-se-ia na segunda mãe, ou na
mãe artificial. Será o acto de dar à luz que nos torna mães? Será que perdemos esse estatuto quando abdicamos do nosso filho? Por um lado, se as pessoas fossem classificadas
pelos seus actos, há uma mulher que decidiu abdicar de mim; por outro lado, há uma mulher que ficou junto de mim à noite, quando estava doente, em criança, que chorou por causa dos meus namorados, que bateu palmas entusiasticamente quando me licenciei na faculdade de Direito. Qual das coisas nos torna mais mães?
Ambas, apercebi-me. Ser mãe não é só conceber uma criança. É estar lá para testemunhar a vida dela.
De repente, dei por mim a pensar em Charlotte O'Keefe.
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Piper
A paciente estava quase com trinta e cinco semanas de gravidez e acabara de mudar-se para Bankton com o marido. Não a tinha examinado em nenhuma consulta de rotina, mas fora introduzida no meu horário de consultas, no intervalo para o almoço, por se queixar de febre e outros sintomas que me pareciam típicos de uma infecção. Segundo a enfermeira que tinha anotado os antecedentes clínicos, a mulher não tinha problemas médicos.
Abri a porta com um sorriso no rosto, esperando acalmar quem eu tinha a certeza que seria uma futura mãe em pânico.
- Sou a Dr.a Reece - disse eu, apertando-lhe a mão e sentando-me. - Parece que não se tem sentido muito bem.
- Pensei que era gripe, mas nunca mais passava...
- É sempre bom verificar essas coisas quando estamos grávidas - disse eu. - A gravidez tem sido normal até ao momento?
- Uma maravilha.
- E há quanto tempo tem estes sintomas?
- Há cerca de uma semana.
- Bem, vou deixá-la vestir uma bata e depois vamos ver o que se passa - saí e voltei a ler os dados dela enquanto esperava alguns momentos para que se vestisse.
Adoro a minha profissão. Na maior parte das vezes, quando somos obstetras, estamos presentes num dos momentos mais felizes da vida de uma mulher. Claro, há incidentes que não são assim tão alegres - já tive a minha dose de ter de dizer a uma mulher grávida que ocorreu uma morte fetal; já fiz cirurgias em que uma placenta acreta
dá origem a uma coagulação intravascular disseminada e a paciente nem sequer chega a recuperar a consciência. Mas tento não pensar nestes casos; em vez disso gosto
de me concentrar no momento em
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que o bebé, escorregadio e a contorcer-se como um vairão nas minhas mãos, vem a este mundo num arquejo. Bati à porta.
- Está pronta?
Estava sentada na marquesa, com a barriga apoiada no colo como uma dádiva.
- Óptimo - disse eu, colocando o estetoscópio nos ouvidos. Vamos começar por auscultar-lhe o tórax. - Bafejei o disco de metal: enquanto obstetra, era particularmente
sensível a colocar objectos de metal frios no corpo de uma pessoa, e encostei-o suavemente às costas da mulher. Os pulmões dela estavam completamente limpos; nada
de expectoração, nada de ruídos. - Parece-me bem - disse eu. - Agora vamos ver o coração.
Afastei o decote da bata e vi uma grande cicatriz de uma esternotomia mediana, do tipo vertical, que ia até abaixo do peito.
- Isto é de quê?
- Oh, é só do meu transplante de coração. Ergui as sobrancelhas.
- Pensava que tinha dito à enfermeira que não tinha problemas médicos.
- E não tenho - disse a paciente, a sorrir. - O meu coração novo tem estado a funcionar muito bem.
Charlotte só começou a consultar-me como minha paciente quando estava a tentar engravidar. Antes disso, éramos apenas mães a fazer troça das professoras de patinagem das nossas filhas nas costas delas; guardávamos lugar uma à outra nas reuniões de pais na escola; juntávamo-nos ocasionalmente com os respectivos maridos para jantar fora num bom restaurante. Mas um dia, quando as miúdas estavam a brincar no quarto de Emma, Charlotte contou-me que ela e Sean já estavam a tentar engravidar há mais de um ano, sem acontecer nada.
- Já tentei tudo - confidenciou. - Testes para prever a ovulação, dietas especiais, botas para a neve: tudo o que possas imaginar.
- Já consultaste um médico? - perguntei.
- Bem - disse ela. - Estava a pensar em consultar-te a ti.
Não aceito pacientes que conheço pessoalmente. Apesar do que toda a gente diz, não podemos ser médicos objectivos quando, na mesa de operações, está uma pessoa de quem gostamos. Podemos argumentar que as expectativas são sempre altas relativamente ao trabalho de um obstetra - e não há dúvida que me empenho sempre a cem por cento de cada vez que entro numa sala de partos - mas as
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expectativas são um pouco mais altas se a paciente estiver pessoalmente ligada a nós. Se falharmos, não estamos apenas a deixar uma paciente ficar mal. Estamos a
deixar ficar mal uma amiga.
- Não me parece que seja uma boa ideia, Charlotte - disse eu. É uma fronteira difícil de ultrapassar.
- Estás a referir-te àquela parte de teres a mão enfiada no meu colo do útero e por isso ser difícil olhares-me nos olhos quando formos às compras?
Sorri.
- Não é isso. Os úteros são todos iguais - disse eu. - É que uma médica deve ser capaz de manter a distância, em vez de estar envolvida pessoalmente.
- Mas é precisamente por isso que és perfeita para mim - argumentou Charlotte. - Outro médico vai ajudar-nos a conceber mas na verdade está-se nas tintas. Quero uma pessoa que se interesse para além da responsabilidade profissional. Quero uma pessoa que queira que eu tenha um bebé tanto como eu quero.
Dito dessa forma, como podia eu negar-lhe isso? Telefonava a Charlotte todas as manhãs para podermos dissecar as cartas ao editor no jornal regional. Ela era a primeira pessoa que procurava quando estava furiosa com Rob e precisava de desabafar. Sabia que champô usava, de que lado do carro se situava o depósito de gasolina do seu carro, como costumava tomar o café. Era, pura e simplesmente, a minha melhor amiga.
- Está bem - disse eu.
Um sorriso explodiu-lhe no rosto.
- Começamos agora? Desatei a rir.
- Não, Charlotte, não vou fazer um exame pélvico no chão da sala enquanto as crianças estão a brincar lá em cima.
Em vez disso, pedi-lhe para ir ao meu consultório no dia seguinte. Afinal, não havia nenhuma razão médica para ela e Sean terem dificuldade em conceber. Falámos sobre os óvulos e sobre o seu declínio em qualidade após as mulheres terem trinta anos, o que significava que podia demorar mais tempo a acontecer - mas que ainda seria possível. Receitei-lhe ácido fólico e pedi-lhe que registasse a temperatura basal do corpo. Disse a Sean (na que certamente terá sido a conversa que gostou mais de ter comigo até à data) que deviam ter relações sexuais com mais frequência. Durante seis meses, registei o calendário menstrual de Charlotte na minha própria agenda; telefonava-lhe no vigésimo oitavo dia a perguntar-lhe se já iniciara o período - e durante seis meses, isso aconteceu.
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- Talvez devêssemos falar sobre medicamentos para aumentar a fertilidade - sugeri e, no mês seguinte, mesmo antes da consulta com um especialista, Charlotte engravidou
da maneira tradicional.
Tendo em conta o tempo que demorou, a gravidez em si foi tranquila. As análises ao sangue e à urina de Charlotte apresentaram sempre resultados normais; a tensão
arterial nunca esteve alta. Estava sempre enjoada e telefonava-me depois de vomitar à meia-noite para me perguntar porque raio se chamavam enjoos matinais.
Na décima primeira semana de gravidez, ouvimos o batimento cardíaco pela primeira vez. Na décima quinta, fiz-lhe o triplo teste ao sangue para verificar a existência de defeitos neurais e síndroma de Down. Passados dois dias, quando chegaram os resultados, fui a casa dela no intervalo para o almoço.
- O que se passa? - perguntou, quando me viu de pé à porta.
- Os resultados dos testes. Temos de conversar.
Expliquei que o triplo teste não é cem por cento exacto, que foi criado especificamente para ter uma taxa de cinco por cento de resultados positivos, o que significa que cinco por cento das mulheres vão ser informadas que têm um risco mais elevado do que o normal de ter um bebé com síndroma de Down.
- Tendo em conta apenas a tua idade, o teu risco de teres um bebé com síndroma de Down é de um em duzentos e setenta - disse eu. - Mas os resultados do teste dizem que realmente o teu risco é maior do que a média: um em cento e cinquenta.
Charlotte cruzou os braços por cima do peito.
- Tens algumas opções - disse eu. - Tens uma ecografía marcada para daqui a três semanas. Podemos ver se há alguns sinais reveladores durante a ecografía. Se houver qualquer coisa, podes fazer uma ecografía de nível dois. Se não, podemos voltar a reduzir as hipóteses para um em duzentos e cinquenta, que está quase na média, e presumir que o teste foi um falso positivo. Mas lembra-te: não podes ficar completamente descansada com uma ecografia. Se quiseres uma resposta definitiva, tens de fazer uma amniocentese.
- Achava que isso podia provocar um aborto - disse Charlotte.
- E pode. Mas o risco disso acontecer é de um em duzentos e setenta. Neste momento do que a probabilidade de o bebé ter síndroma de Down.
Charlotte passou uma mão pelo rosto.
- Então essa amniocentese - disse ela. - Se se verificar que o bebé tem... - a voz dela desvaneceu-se. - Então e depois?
Sabia que Charlotte era católica. Também sabia, como médica, que era da minha responsabilidade dar toda a informação disponível
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a toda a gente. O que eles decidissem fazer com ela, segundo as suas crenças pessoais, era com eles.
- Então poderás decidir se queres ou não terminar a gravidez disse pausadamente.
Ela olhou para mim.
- Piper, esforcei-me muito para ter este bebé. Não vou desistir assim tão facilmente.
- Devias discutir o assunto com o Sean...
- Vamos fazer a ecografía - decidiu Charlotte. - E depois logo
vemos.
Por todas essas razões, lembro-me muito bem da primeira vez que te vimos no ecrã. Charlotte estava deitada na marquesa; Sean segurava-lhe na mão. Janine, a técnica de ecografias que trabalhava no meu consultório, estava a tirar as medidas antes de eu interpretar os resultados. Ia procurar hidrocefalia, um defeito do septo aurículo-ventricular

ou um defeito da parede abdominal, espessamento da prega da nuca, ausência ou redução do osso nasal, intestino ecogénico, úmeros ou fémures curtos: todas elas características distintivas utilizadas no diagnóstico do síndroma de Down através de uma ecografia. Certifiquei-me de que a máquina utilizada era a que chegara recentemente, nova em folha, tecnologia de ponta da altura.
Janine entrou no gabinete assim que terminou a ecografía.
- Não vejo nenhuma das habituais características suspeitas de síndroma de Down - disse ela. - A única anomalia são os fémures: estão no percentil seis.
Estão sempre a sair resultados desses - uma fracção de milímetro num feto pode fazê-lo parecer mais pequeno do que o normal e, na ecografía seguinte, estar tudo perfeitamente bem.
- Pode ser genético. A Charlotte é muito pequena. Janine acenou com a cabeça.
- Pois, vou só assinalar para poder ser seguido - fez uma pausa.
- Mas havia uma coisa estranha.
Levantei a cabeça da ficha que estava a preencher.
- O quê?
- Verifique as imagens do cérebro quando estiver lá dentro. Senti um aperto no coração.
- O cérebro?
- Anatomicamente tem uma aparência normal. Mas é incrivelmente... nítido - abanou a cabeça. - Nunca vi nada assim.
A máquina de fazer ecografias funcionava excepcionalmente bem - percebia por que razão Janine estava encantada com ela, mas não tinha tempo para falar sobre o novo equipamento.
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- vou dar-lhes as boas notícias - disse eu, e entrei na sala de ecografías.
Charlotte sabia; soube assim que me viu.
- Oh, graças a Deus - disse ela, e Sean debruçou-se para beijá-la. Depois ela agarrou-me na mão. - Tens a certeza?
- Não. As ecografias não são cem por cento fiáveis. Mas eu diria que as probabilidades de teres um bebé normal e saudável aumentaram radicalmente - olhei para o ecrã, com uma imagem parada de ti a chuchares no dedo. - O vosso bebé - disse eu - é perfeito.
No meu consultório não somos apologistas de ecografias recreativas - em termos gerais, isso engloba as ecografias que não sejam clinicamente necessárias. Mas, a dada altura, na vigésima sétima semana da gravidez de Charlotte, ela veio buscar-me para irmos ao cinema e eu ainda estava a fazer um parto no hospital. Passada uma hora, encontrei-a no meu gabinete com os pés apoiados na secretária a ler uma revista médica recente.
- Isto é fascinante - disse ela. - Gestão Contemporânea da Neoplasia Trofoblástica Gestacional. Lembra-me de levar uma destas para a próxima vez que estiver com
insónias.
- Desculpa - disse eu. - Não pensei que ia atrasar-me assim tanto. Dilatou até aos sete centímetros e depois parou completamente.
- Não faz mal. Também não queria ir ao cinema. O bebé tem estado a tarde toda a dançar em cima da minha bexiga.
- Uma futura bailarina?
- Ou jogador de futebol, na opinião do Sean - olhou para mim, tentando encontrar pistas sobre o sexo do bebé no meu rosto.
Sean e Charlotte decidiram não saber com antecedência. Quando os pais nos dizem isso, assentamo-lo nas fichas deles. Tive de fazer um esforço hercúleo para não espreitar na ecografia, para não revelar inadvertidamente o segredo.
Eram sete horas; a recepcionista já tinha ido para casa: as pacientes já se tinham ido todas embora. Charlotte pôde ficar à minha espera porque toda a gente sabia que éramos amigas.
- Não precisávamos de dizer-lhe que sabemos - disse eu.
- Sabemos o quê?
- O sexo do bebé. Lá porque não fomos ao cinema não quer dizer que não possamos ver um filme...
Charlotte abriu muito os olhos.
- Queres dizer, uma ecografia?
- Porque não? - encolhi os ombros.
- É seguro?
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- Completamente - sorri para ela. - Vá lá, Charlotte. O que tens a perder?
Passados cinco minutos, estávamos na sala de ecografías de Janine. Charlotte puxara a camisola para cima, abaixo do sutiã, e as calças para baixo do abdómen. Deitei-lhe gel na barriga e ela guinchou.
- Desculpa - disse eu. - Está frio. - Depois agarrei no transdutor e movimentei-o por cima da pele dela.
A tua imagem surgiu no ecrã como uma sereia a emergir à superfície das águas: num instante estava tudo negro e, depois, solidificando-se devagar numa imagem reconhecível. Ali estava uma cabeça, uma coluna vertebral, a tua mão minúscula.
Coloquei o transdutor num ponto entre as tuas pernas. Em vez dos ossos cruzados de um feto encolhido dentro do útero, as plantas dos teus pés praticamente tocavam uma na outra, com as pernas quase a formarem um círculo. A primeira fractura que vi foi a do fémur. Era anguloso, dobrado num ângulo, em vez de direito. Na tíbia via uma linha negra, uma nova fractura.
- Então? - disse Charlotte alegremente, esticando o pescoço para te ver no ecrã. - Quando é que eu posso ver as jóias da família?
Engoli, movimentando o transdutor para cima para a caixa torácica em forma de barril, as costelas semelhantes a contas. Ali havia cinco fracturas a sarar.
A sala começou a girar à minha volta. Ainda a segurar no transdutor, inclinei-me para a frente, colocando a cabeça entre os joelhos.
- Piper? - disse Charlotte, apoiando-se nos cotovelos.
Estudei a osteogénese imperfeita na faculdade de Medicina, mas nunca vira realmente um caso. O que me lembrava sobre ela eram imagens de fetos com fracturas dentro do útero como as tuas. Fetos que tinham morrido à nascença ou pouco tempo depois.
- Piper? - repetiu Charlotte. - Estás bem? Endireitando-me, respirei fundo.
- Estou - disse, com a voz a ceder. - Mas Charlotte... a tua filha não está.
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Sean
A primeira vez que ouvi as palavras osteogénese imperfeita foi depois de Piper ter trazido Charlotte a casa, histérica, depois daquela ecografia imprevista no consultório
de Piper. com Charlotte a soluçar nos meus braços, tentei encontrar alguma lógica nas palavras com que Piper me bombardeava, como se fossem mísseis: deficiência
no colagénio, ossos angulosos e espessos, costelas semelhantes a fios de contas. Já tinha telefonado para uma colega, a Dr.a Del Sol, que era especialista em medicina
materno-fetal de alto risco no hospital. Tínhamos outra ecografia marcada para as sete e meia da manhã.
Tinha acabado de chegar a casa do trabalho - uma obra infernal porque chovera durante a tarde e a noite toda. Ainda tinha os cabelos molhados do duche, com a camisola
colada à pele húmida das costas. Amélia estava lá em cima a ver televisão no nosso quarto e eu estava com uma embalagem de gelado na mão, a comer directamente com
uma colher, quando Piper e Charlotte entraram em casa.
- Bolas - disse eu. - Apanharam-me mesmo em flagrante. Depois percebi que Charlotte estava a chorar.
Nunca deixava de me surpreender com a forma como um dia vulgar podia transformar-se em algo invulgar num abrir e fechar de olhos. Por exemplo, a mãe que num instante
está a dar um brinquedo ao filho pequeno no assento de trás do carro e, no instante seguinte, a sofrer um violento acidente de viação. Ou o estudante universitário
a beber uma cerveja no alpendre, quando chegamos para detê-lo por ter violado uma colega. A mulher que abre a porta e vê um polícia no alpendre que lhe traz notícias
da morte do marido. Na minha profissão estive muitas vezes presente no
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momento de transição em que o mundo que conhecemos se transforma numa tragédia que nunca esperaríamos - mas nunca tinha estado do outro lado antes.
Parecia que tinha algodão na garganta.
- É muito grave? Piper desviou o olhar.
- Não sei.
- Esta osteopato...
- Osteogénese imperfeita.
- Como é que se trata?
Charlotte afastara-se de mim, de rosto inchado, olhos vermelhos.
- Não se trata - disse ela.
Naquela noite, depois de Piper se ter ido embora e Charlotte finalmente ter caído num sono agitado, fui à Internet e pesquisei OI no Google. Há quatro tipos, mais
outros três que foram recentemente identificados, mas apenas dois provocam fracturas dentro do útero. Os bebés do Tipo II morrem antes do nascimento, ou pouco depois.
Os bebés do Tipo III podem sobreviver, mas podem sofrer fracturas das costelas que dão origem a dificuldades respiratórias que os colocam em risco de vida. As anomalias
dos ossos agravam-se cada vez mais. Estas crianças podem até nunca chegar a andar.
Outras palavras começaram a aparecer no ecrã:
Ossos suturais. Achatamento vertebral. Varetas intramedulares. Baixa estatura - algumas pessoas não crescem mais de noventa centímetros.
Escoliose. Perda de audição.
A falha respiratória é a causa de morte mais frequente, seguida de trauma acidental.
Dado que a OI é uma doença genética, não tem cura.
Quando é diagnosticada antes do nascimento, a maioria destas gravidezes acaba em interrupção voluntária.
Por baixo disto havia uma fotografia de um bebé morto com OI do Tipo II. Não conseguia tirar os olhos das pernas nodosas, do tronco torcido. Era aquele o aspecto
do nosso bebé? Se fosse, não seria melhor morrer à nascença?
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Perante aquela ideia, cerrei os olhos e rezei a Deus para que Ele não estivesse a ouvir. Amar-te-ia mesmo que nascesses com sete cabeças e uma cauda. Amar-te-ia
mesmo que nunca chegasses a respirar nem a abrir os olhos para me ver. Já te amava; e isso não ia mudar só porque tinhas um problema nos ossos.
Limpei rapidamente o registo da pesquisa para que Charlotte não acedesse acidentalmente à fotografia quando estivesse a navegar na Internet, e subi as escadas silenciosamente.
Despi-me às escuras e deitei-me na cama ao lado da tua mãe. Quando coloquei os braços em volta dela, ela aproximou-se mais de mim. Deixei a mão cair por cima do
volume da barriga dela mesmo quando deste um pontapé, como se quisesses dizer-me para não me preocupar, para não acreditar numa só palavra do que tinha lido.
No dia seguinte, depois de outra ecografia e de uma radiografia, a Dr.a Gianna Del Sol reuniu-se connosco no consultório para examinar o relatório.
- A ecografia revelou um crânio desmineralizado - explicou ela. Os ossos longos dela apresentam três desvios à média padrão, são angulosos e espessos, de uma forma
que indica a existência tanto de fracturas a sarar como de novas fracturas. A radiografia deu-nos uma imagem melhor das fracturas das costelas. Tudo isto indica
que a vossa bebé sofre de osteogénese imperfeita.
Senti a mão de Charlotte deslizar debaixo da minha.
- Baseando-me no facto de existirem múltiplas fracturas, parece-me que estamos perante um Tipo II ou um Tipo III.
- Um é pior do que o outro? - perguntou Charlotte. Olhei para o colo, porque já sabia a resposta.
- Os casos de Tipo II normalmente não sobrevivem após o nascimento. Os casos de Tipo III são gravemente incapacitantes e por vezes apresentam uma mortalidade precoce.
Charlotte começou novamente a chorar; a Dr.a Del Sol deu-lhe uma caixa de lenços de papel.
- É muito difícil distinguir se uma criança tem o Tipo II ou o Tipo III. O Tipo II pode por vezes ser diagnosticado através de ecografia às dezasseis semanas, o Tipo
III às dezoito. Mas cada caso é diferente, e a sua ecografia anterior não revelou nenhuma fractura. Por causa disso, não posso dar-lhe um prognóstico totalmente exacto:
para além de que no melhor dos casos será grave, e no pior será letal.
Olhei para ela.
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- Então mesmo que pense que se trata de um caso do Tipo II, e que o bebé não tem hipóteses de sobreviver, pode ir contra todas as probabilidades?
- Já aconteceu - disse a Dr.a Del Sol. - Li um caso de estudo em que apresentaram um prognóstico letal aos pais, mas estes decidiram continuar a gravidez e acabaram
com uma criança com o Tipo III. Mas as crianças do Tipo III são gravemente incapacitadas. Sofrem centenas de fracturas ao longo da vida. Podem não ser capazes de andar.
Pode haver problemas respiratórios, dores nos ossos, fraqueza muscular, deformações cranianas e da coluna vertebral - hesitou. - Há sítios onde vos podem ajudar,
se estiverem dispostos a considerar terminar a gravidez.
Charlotte estava grávida de vinte e sete semanas. Que clínica aceitaria fazer um aborto às vinte e sete semanas?
- Não estamos interessados em terminar a gravidez - disse eu, e olhei para Charlotte para que ela confirmasse, mas estava a olhar para a médica.
- Já nasceu aqui algum bebé com Tipo II ou Tipo III? - perguntou.
A Dr.a Del Sol acenou com a cabeça.
- Há nove anos. Não estava cá nessa altura.
- Quantas fracturas tinha esse bebé quando nasceu? -Dez.
Então Charlotte sorriu, pela primeira vez desde a noite anterior.
- A minha só tem sete - disse ela. - Já é melhor, não é? A Dr.a Del Sol hesitou.
- Aquele bebé não sobreviveu - disse ela.
Uma manhã, quando o carro de Charlotte estava na oficina, levei-te à fisioterapia. Uma rapariga muito simpática, com os dentes da frente separados, chamada Molly
ou Mary (esqueço-me sempre) mandou-te equilibrares-te numa grande bola vermelha, o que gostavas de fazer, e mandou-te fazer abdominais, que não gostavas. De cada
vez que te enrolavas do lado da omoplata a sarar, cerravas os lábios e escorriam-te lágrimas dos cantos dos olhos. Acho que nem sequer sabias que estavas a chorar
- mas depois de assistir a isto durante cerca de dez minutos, já não aguentava mais. Disse a Molly/Mary que tínhamos outra consulta, uma mentira, e instalei-te na
cadeira de rodas.
Detestavas estar na cadeira, e não posso dizer que te censurava. Uma boa cadeira de rodas pediátrica era melhor quando era feita por medida, porque assim ficavas
confortável, em segurança e
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com mobilidade. Mas essas cadeiras custam mais de 2800 dólares, e o seguro só paga uma de cinco em cinco anos. A cadeira de rodas em que andavas naquela altura fora
feita quando tinhas dois anos, e tinhas crescido bastante desde essa altura. Nem sequer imaginava como conseguirias enfiar-te lá aos sete anos.
Nas costas tinha pintado um coração cor-de-rosa e as palavras FRÁGIL. Empurrei-te até ao carro e coloquei-te na cadeirinha, depois dobrei a cadeira de rodas e meti-a
na parte de trás da carrinha. Quando me sentei no assento do condutor e verifiquei se estavas bem, através do espelho retrovisor, estavas agarrada ao braço magoado.
- Papá - disseste - não quero lá voltar.
- Eu sei, querida.
De repente soube o que fazer. Deixei passar a nossa saída na auto-estrada, e segui até ao Comfort Inn em Dover, onde paguei sessenta e nove dólares por um quarto
que não fazia intenções de usar. Empurrei-te na direcção da piscina coberta, presa à cadeira de rodas.
Estava vazia, numa terça-feira de manhã. O espaço cheirava intensamente a cloro e havia seis cadeiras reclináveis em vários estados de desarranjo espalhadas por
ali. Uma clarabóia era responsável por uma dança de diamantes à superfície da água. Uma pilha de toalhas às riscas verdes e brancas estava pousada em cima de um
banco debaixo de um letreiro: NADE POR SUA CONTA E RISCO.
- Wills - disse eu - tu e eu vamos nadar. Olhaste para mim.
- A mãe disse que eu não podia até o meu ombro...
- A mãe não está aqui para descobrir, pois não? Um sorriso iluminou-te o rosto.
- E os nossos fatos de banho?
- Bem, isso faz parte do plano. Se fôssemos a casa buscar os nossos fatos de banho, a mãe ia ficar a saber que andávamos a tramar alguma, não ia? - despi a minha
T-shirt, descalcei os ténis e fiquei com um par de calções de caqui desbotados. - Eu estou pronto.
Riste e tentaste tirar a camisola pela cabeça, mas não conseguias levantar o braço o suficiente. Ajudei-te e depois despi-te os calções para que ficasses sentada na cadeira de rodas de cuecas. Diziam QUINTA-FEIRA, na parte da frente, embora fosse terça. Na parte de trás tinham o rosto sorridente de um Smile amarelo.
Depois de teres estado quatro meses engessada, as tuas pernas eram brancas e magras, demasiado frágeis para aguentarem o
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teu peso. Mas segurei-te por debaixo dos braços enquanto caminhavas para junto da água e depois sentei-te nos degraus. Tirei um colete salva-vidas para criança,
de um contentor encostado à parede do fundo, e coloquei-to. Levei-te nos meus braços até ao meio da piscina.
- Os peixes são capazes de nadar a cento e dez quilómetros por hora - disseste tu, agarrada aos meus ombros.
- É impressionante.
- O nome mais vulgar para um peixinho dourado é Jaws - agarraste-te ao meu pescoço, num abraço mortal. - Uma lata de Coca-Cola Light flutua numa piscina. A Coca-Cola normal afunda-se...
- Willow? - disse eu. - Sei que estás nervosa. Mas se não fechares a boca, vai entrar muita água - e larguei-te.
Como seria previsível, entraste em pânico. Os braços e as pernas começaram a rodar, e a força combinada fez-te virares-te de costas, debatendo-te na água a olhares para o tecto.
- Papá! Papá! Estou a afogar-me!
- Não estás a afogar-te. - Endireitei-te. - São aqueles músculos do estômago. Os que não querias exercitar hoje na fisioterapia. Pensa em movimentares-te devagar e em ficares direita - soltei-te, desta vez com mais delicadeza.
Gargarejaste, com a boca debaixo de água. Lancei-me imediatamente para te alcançar, mas tu endireitaste-te.
- Eu consigo - disseste, talvez a mim, talvez a ti própria. Moveste um braço na água, e depois o outro, compensando o ombro que ainda estava a sarar. Bateste as pernas. E estavas cada vez mais perto de mim. - Papá! - gritaste, embora estivesse apenas a meio metro de distância. - Papá! Olha para mim!
Vi-te avançar, centímetro a centímetro.
- Olha para ti - disse eu, enquanto nadavas sob o peso da tua própria convicção. - Olha para ti.
- Sean - disse Charlotte naquela noite, quando pensava que ela já tinha adormecido ao meu lado - a Marin Gates telefonou hoje.
Estava virado de lado, a olhar para a parede. Sabia porque a advogada telefonara a Charlotte: porque eu não tinha respondido às seis mensagens que ela me tinha deixado no telemóvel a perguntar-me se já tinha devolvido os documentos assinados a declarar que aceitava instaurar um processo legal por negligência médica no diagnóstico pré-natal - ou se se teriam extraviado nos correios.
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Sabia exactamente onde estavam esses documentos: dentro do porta-luvas do meu carro, onde os tinha enfiado depois de Charlotte mos ter entregado há um mês.
- vou tratar disso - disse eu. Pousou-me a mão no ombro.
- Sean... Virei-me de barriga para cima.
- Lembras-te do Ed Gatwick? - perguntei.
- O Ed?
- Pois. O tipo que se formou ao mesmo tempo do que eu na academia? Estava de serviço em Nashua. Respondeu a uma chamada na semana passada por causa de actividades
suspeitas numa residência, feita por um vizinho. Disse ao colega que estava com um mau pressentimento em relação àquilo, mas entrou mesmo a tempo de o laboratório de metanfetamina, na cozinha, lhe explodir na cara.
- Que horror...
- O que eu quero dizer - interrompi - é que devemos sempre dar ouvidos aos nossos instintos.
- E eu dou - disse Charlotte. - Eu dei. Ouviste o que a Marin disse. A maior parte destes casos resolve-se fora do tribunal. É dinheiro. Dinheiro que podíamos gastar
com a Willow.
- Pois, e a Piper é que paga por isso. Charlotte ficou calada.
- A Piper tem um seguro contra negligência médica.
- Não me parece que isso a proteja de ser apunhalada pelas costas pela melhor amiga.
Puxou os lençóis à sua volta, sentando-se na cama.
- Ela faria o mesmo se fosse a filha dela. Fiquei a olhar para ela.
- Não me parece. Acho que a maioria das pessoas não o faria.
- Bem, não quero saber o que pensam os outros. A opinião da Willow é a única que conta - disse Charlotte.
Apercebi-me de que era precisamente por isso que ainda não tinha assinado aqueles malditos documentos. Tal como Charlotte, estava a pensar só em ti. Estava a pensar
no momento em que te apercebesses de que não sou um cavaleiro andante. Sabia que isso acabaria por acontecer - faz parte do crescimento. Mas não queria apressar
as coisas. Queria ser o teu cavaleiro enquanto acreditasses em mim.
- Se a opinião da Willow é a única que conta - disse eu como vais explicar-lhe o que vais fazer? Quero dizer, se quiseres
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mentir no banco das testemunhas, dizer que tê-la-ias abortado, isso é contigo. Mas à Willow isso vai parecer-se muito com a verdade.
Os olhos de Charlotte encheram-se de lágrimas.
- Ela é inteligente. Vai compreender que não importa o que as coisas parecem à superfície. Ela vai saber bem lá no fundo que a
amo.
Era um paradoxo. A minha recusa em assinar aqueles documentos não implicava que Charlotte não tentasse avançar sem mim. Se me recusasse a assinar aqueles documentos,
o abismo entre nós magoar-te-ia também. Mas, e se as previsões de Charlotte se concretizassem, se o dinheiro que recebêssemos de indemnização quase justificasse
o mal que tivéssemos feito para obtê-lo? E se este processo legal te possibilitasse teres todos os instrumentos adaptativos de que precisasses, toda a fisioterapia
que o seguro não cobria?
Se queria mesmo o melhor para ti, como podia assinar aqueles documentos?
Como podia não os assinar?
De repente, queria fazer Charlotte ver como tudo aquilo estava a dilacerar-me por dentro. Queria que ela sentisse aquele nó nauseante que eu sentia de cada vez que
abria o porta-luvas e via o envelope. Era como a caixa de Pandora - ela abrira-a, e de lá só saíra a solução para um problema que nunca imaginámos que pudesse ser
solucionado. Fechar a tampa não ia alterar nada; não podíamos ignorar o que agora sabíamos ser possível.
Acho que, para ser sincero, queria castigá-la por me ter colocado naquela situação, onde não havia preto e branco mas sim mil tons de cinzento.
Ela ficou surpreendida quando a agarrei e beijei. De início recuou, olhando para mim, e depois inclinou-se para junto do meu corpo, confiando em mim para a levar
a percorrer aquela estrada estonteante aonde a levara milhares de vezes antes.
- Amo-te - disse eu. - Acreditas?
Charlotte acenou com a cabeça e, assim que o fez, cerrei os dedos nos cabelos dela, forçando-a a baixar a cabeça para trás, prendendo-a ao colchão.
- Sean, estás a esmagar-me - sussurrou, e eu tapei-lhe a boca com uma mão e arranquei-lhe as calças do pijama com a outra. Forcei o caminho para dentro dela, mesmo
quando lutou contra mim, mesmo quando vi as costas dela arquearem-se de surpresa e talvez dor, mesmo quando os olhos dela se encheram de lágrimas.
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- Não importa o que as coisas parecem à superfície - sussurrei, as suas próprias palavras a fustigarem-na como um chicote. Bem lá no fundo sabes que te amo.
Tinha começado aquilo por querer que Charlotte se sentisse mesmo mal, mas também eu acabei por ficar a sentir-me mesmo mal. Por isso saí de cima dela, puxando as
boxers para cima. Charlotte virou-se para o outro lado, enrolando-se numa bola.
- Seu sacana - soluçou ela. - Seu sacana de merda.
Ela tinha razão; era um sacana. Tinha de ser, se não não teria sido capaz de fazer o que fiz a seguir: fui até ao carro para ir buscar aqueles documentos ao porta-luvas.
Fiquei sentado às escuras, na cozinha, toda a noite, a olhar para eles, como se as palavras pudessem reorganizar-se em algo mais aceitável. Bebi um shot de whisky
por cada linha em que Marin Gates colocara uma pequena seta amarela Post-it, apontando para o espaço onde devia estar a minha assinatura.
Adormeci na mesa da cozinha, acordando antes de o Sol nascer. Quando entrei em bicos de pés no quarto, Charlotte ainda estava a dormir. Estava deitada de lado, enrolada
como um caracol, com o lençol e o edredão amachucados numa bola aos pés da cama. Puxei-os para cima dela delicadamente, como às vezes te fazia quando soltavas os
cobertores.
Deixei os documentos, assinados em todos os sítios certos, na almofada ao lado dela. com um bilhete preso com um clipe na parte de cima. "Desculpa", escrevi. "Perdoa-me."
Depois fui de carro para o trabalho, sempre a pensar se aquele bilhete seria para Charlotte, para ti ou para mim próprio.
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Amélia
Fim de Agosto de 2007
O melhor é dizer logo que vivemos nas berças, e embora os meus pais parecessem achar que isso seria uma enorme vantagem para a minha vida futura (Porquê? Para eu
saber reconhecer o cheiro da relva? Por não termos de trancar a porta de casa?), pelo menos eu desejava ter direito a dar a minha opinião relativamente ao sítio
para onde fôssemos morar. Fazem alguma ideia do que é não podermos ter um modem de banda larga quando até os esquimós os têm? Ou ir comprar roupa para levar para
a escola no Wal-Mart porque o centro comercial mais próximo fica a hora e meia de caminho? No ano passado, em estudos sociais, quando estávamos a estudar os castigos
cruéis e desumanos, escrevi uma composição inteira sobre viver num sítio em que a oferta de lojas variava entre zero e nada, e embora toda a gente da minha turma tivesse concordado totalmente comigo, só tive um bom, porque a minha professora era daquele género de hippy de Birkenstock e cereais integrais que achava que Bankton,
no New Hampshire, era o melhor lugar da terra.
Mas hoje todos os planetas deviam estar alinhados, porque a minha mãe tinha concordado em ir ao Target contigo, com a Piper e com a Emma.
A ideia foi da Piper - mesmo antes do ano lectivo começar; às vezes decidia ir às compras com a filha. A minha mãe normalmente tinha de ser convencida a ir também, porque parecia que estava sempre com falta de dinheiro. Como seria inevitável, Piper acabaria por comprar-me coisas, e a minha mãe sentir-se-ia culpada jurando que nunca mais voltaria a ir às compras com a Piper "Qual é o problema?" diria Piper "Gosto de fazer as miúdas felizes." E qual era o problema? Se Piper queria aumentar o meu guarda-roupa, não ia negar-lhe essa pequena alegria.
Quando Piper telefonou naquela manhã, achei que a mãe ia aproveitar a oportunidade. Tinhas conseguido mais uma vez que um par de sapatos que nem sequer tinhas usado
te deixasse de servir Normalmente - era
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só um deles - o esquerdo era usado enquanto o pé direito estava engessado durante alguns meses - mas com o molde de gesso que usaste naquela Primavera, ambos os
pés aumentaram um número e as solas dos sapatos antigos estavam praticamente novas. A verdade - passados seis meses, quando estavas oficialmente a voltar a aprender
a andar - é que a mãe tinha demorado uma semana para perceber que a razão por que te retraías sempre que ela te obrigava a usar o andador para ires à casa de banho sozinha, não tinha nada a ver com dores nas pernas, mas sim com os pés estarem enfiados em ténis muito apertados.
Para meu espanto, a mãe não queria ir. Estava mesmo esquisita; quase deu um salto quando eu apareci por trás dela enquanto bebia um café e lia uns documentos legais que pareciam completamente entediantes e cheios de palavras como NO QUE DIZ RESPEITO e QUEM QUER QUE SEJA. E quando a Piper telefonou e eu lhe passei o telefone,
a mãe deixou-o cair duas vezes.
- Não posso - ouvi-a dizer a Piper-Tenho umas coisas mesmo muito importantes para fazer
- Por favor, mãe! - disse eu, saltitando à volta dela. - Prometo, nem sequer vou aceitar uma pastilha da Piper. Não vai ser como da última vez.
Qualquer coisa que eu disse deve ter surtido efeito porque ela olhou para aqueles documentos e depois para mim.
- Pela última vez - repetiu distraidamente e, quando dei por mim, íamos a caminho de Concord para ir às compras.A nossa mãe ainda estava um bocado ausente, mas eu
não reparei. A carrinha da Piper tem um sistema de DVD e tu, a Emma e eu tínhamos auscultadores sem fios para podermos ouvir De Repente, já nos 30!, que é o melhor filme de sempre. Vira-o da última vez em nossa casa e a Piper fizera a coreografia toda do Thriller com a Jennifer Garnen levando a Emma a declarar que ia morrer ali mesmo de vergonha, embora eu achasse, em segredo, que era mesmo fixe que a Piper se lembrasse de todos os passos.
Passadas duas horas, a Emma e eu estávamos na secção dos jovens. Embora a maior parte das roupas parecessem ter sido criadas pela Rameira Rasca, Lda, com decotes em V que chegavam ao umbigo e calças tão descaídas que pareciam meias pelo joelho, era emocionante fazer compras numa secção que não era a das crianças. Do outro lado do corredor, Piper estava a empurrar a tua cadeira de rodas. Entretanto, a mãe - que estava ainda de pior humor; se é que é possível - estava sempre a ajoelhar-se para experimentar sapatos nos teus pés.
- Sabias que aquelas coisinhas de plástico nas pontas dos atacadores se chamam agulhetas?
- Por acaso até sabia - disse ela, exasperada - porque me disseste da última vez que fizemos isto.
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Vi Emma pôr-se em bicos de pés para pegar numa camisola que, como diria a minha mãe, mostrava tudo a toda a gente.
- Emma! - disse eu. - Deves estar a brincar!
- Usa-se com uma camisola justa - disse ela, e eu fingi que já sabia. A verdade é que a Emma provavelmente podia vesti-la e parecer que tinha dezasseis anos, porque já media um metro e sessenta e cinco e era alta e magra como a mãe. Eu não usava camisolas justas. Era demasiado deprimente saber que o pneu na minha barriga sobressaía mais do que as mamas.
Enfiei a mão no bolso da camisola. Lá dentro estavam sacos de plástico com fecho. Andava com eles desde a semana anterior. Já me tinha obrigado a vomitar em lugares
que não eram casas de banho, duas vezes - uma vez por trás do ginásio da escola, outra vez na cozinha da Emma, enquanto ela estava lá em cima à procura de um CD.
Fazia-o quando chegava a um ponto em que não conseguia pensar noutra coisa "Seria descoberta? Faria passar a dor que sentia na barriga?" e só passava quando cedia e fazia isso logo de uma vez, só que quando isso acontecia, ficava a odiar-me a mim própria por não ter aguentado.
- Isto ia ficar-te bem - disse Emma, mostrando um par de calças de fato de treino que serviriam a um elefante.
- Não gosto de amarelo - disse eu, e deambulei pelo corredor.
Piper e a mãe estavam a meio de uma conversa. Bem, não era bem assim. Piper estava a meio de uma conversa e a mãe estava fisicamente presente no mesmo espaço. Estava
completamente distraída, acenava com a cabeça nas alturas certas mas não estava propriamente a ouvir. Pensava que era capaz de enganar as pessoas, mas não era assim
tão boa actriz. Como tu, por exemplo. Quantas discussões ela e o pai tiveram sobre se deviam ou não contratar um advogado, enquanto tu estavas na sala ao lado? E
depois, quando perguntavas porque estavam a discutir, ela insistia que não estavam. Pensaria realmente que estavas assim tão absorta pelos episódios de Drake josh que não estivesses a escutar cada palavra?
Quem me dera que ela ouvisse. Quem me dera que ela ouvisse as coisas que me perguntavas quando estávamos deitadas na cama à noite, antes de adormecermos: "Amélia, vamos viver todos aqui para sempre? Amélia, ajudas-me a lavar os dentes para eu não ter de pedir à mãe? Amélia, os nossos pais podem voltar a mandar-nos para o sítio de onde viemos?"
Era assim tão surpreendente que eu desse por mim a olhar para o meu rosto repugnante e para o meu corpo ainda mais repugnante no espelho? A minha mãe ia contratar um advogado para instaurar um processo por causa de uma filha que não tinha nascido perfeita.
- Onde está Emma? - perguntou Piper
- Na secção dos jovens, a ver fops.
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- Decentes, ou daqueles que parecem anúncios de pornografia? perguntou Piper - Algumas roupas que fazem para as miúdas da vossa idade devem ser ilegais.
Ri.
- A Emma pode sempre contratar um advogado. Nós conhecemos um bom.
-Amélia! - gritou a minha mãe. - Olha o que me fizeste fazer! - Mas disse isto antes de derrubar todo o suporte de cabides das camisolas.
- Oh, bolas - disse Piper, apressando-se a arranjar os cabides. Por cima da cabeça dela, a nossa mãe abanou a cabeça de lábios cerrados.
Estava zangada comigo e eu nem sequer sabia porquê. Passei pela floresta de roupas para raparigas, de mãos abertas a roçarem nas lianas das pernas das calças e das mangas. Baixei a cabeça ao passar outra vez pela Emma. O que teria eu feito de mal?
Por outro lado, o que é que eu não fazia mal? ,
Era quase como se ela estivesse zangada comigo por ter mencionado o advogado em frente de Piper Mas Piper é a melhor amiga dela. Aquele assunto legal estava no centro de tudo em nossa casa, como um dinossáurio à mesa de jantar que todos fingíamos não estar a enfiar a grande cabeça peçonhenta no puré de batata. Era impossível ter-se esquecido de referir o assunto à Piper, não era?
A menos que... não o tivesse feito propositadamente.
Teria sido por isso que não queria ir às compras com a Piper? Que não tinha ido a casa dela recentemente quando estávamos lá perto, como costumávamos fazer? Quando a nossa mãe falava em danos e em receber o dinheiro suficiente para poder tomar conta de ti e ajudar-te ao máximo, eu não tinha pensado muito na pessoa que estava
do outro lado do processo legal. Se era o médico que ela tinha consultado durante a gravidez... bem, esse médico era Piper.
De repente eu não era a única pessoa na vida da minha mãe que se tinha revelado uma desilusão. Mas, em vez de me sentir livre desse peso, senti-me apenas enjoada.
Levantei-me, virando as esquinas às cegas, até dar por mim na secção de lingerie. Nessa altura estava a chorar; e que sorte a minha, a única empregada da Target que não estava nas caixas registadoras por acaso estava mesmo à minha frente.
- Querida - perguntou. - Estás bem? Estás perdida?
Como se eu tivesse cinco anos e tivesse sido separada da minha mãe. O que, realmente, não estava assim tão longe da verdade.
- Estou bem - disse eu, baixando a cabeça. - Obrigada. - Passei por ela, dirigindo-me para os sutiãs, quando um me ficou preso na manga. Era
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cor-de-rosa, de cetim, com pintinhas castanhas. Parecia daquele tipo de coisas que Emma costumava usar
Em vez de voltar a colocá-lo no cabide, enfiei-o no bolso, junto aos sacos de plástico. Apertei-o com os dedos e verifiquei se a empregada estava a olhar. O cetim
era frio entre os dedos. Era capaz de jurar que pulsava num bater de coração secreto.
-Tens a certeza de que estás bem? - voltou a perguntar-me a mulher -Tenho - disse eu, e a mentira saiu com facilidade, lembrando-me de que, por muito que a detestasse
naquele momento, eu era filha da minha mãe.
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Piper
Setembro de 2007
Sempre disse que a melhor coisa na minha profissão é que não sou eu que tenho de fazer o trabalho: isso é com a futura mãe e eu basicamente vigio o que está a acontecer e faço com que as coisas corram bem.
- Muito bem, Lila - disse eu, retirando a mão de entre as pernas dela. - Está com dez centímetros. Está quase. Agora tem de fazer força.
Ela abanou a cabeça.
- Faça a doutora - disse ela entre dentes.
Estava em trabalho de parto há dezanove horas; compreendia perfeitamente porque queria descartar-se.
- És tão bonita - disse o marido numa voz doce, segurando-lhe nos ombros.
- E tu és um mentiroso - rosnou Lila, mas quando uma contracção se abateu sobre ela como uma rede, debruçou-se para a frente e fez força. Vi a cabeça do feto aproximar-se e segurei-a com a mão para impedir que saísse demasiado depressa e rasgasse o períneo.
- Outra vez - insisti. Desta vez, a cabeça do feto avançou como uma maré, e quando a boca e o nariz passaram pela pele de Lila, aspirei-os. O resto da cabeça saiu e passei o cordão por cima dela, apoiando-a enquanto virava o bebé para controlar os ombros. Passados cinco segundos, o bebé estava equilibrado na balança das minhas mãos.
- É um rapaz - disse eu, enquanto ele anunciava a sua presença com um choro saudável.
Prendi o cordão com pinças e o marido de Lila cortou-o.
- Oh, querida - disse ele, beijando-a na boca.
- Oh, querido - repetiu Lila, enquanto a enfermeira parteira lhe colocava o filho recém-nascido nos braços.
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Sorri e voltei para o meu lugar aos pés da cadeira de partos. Agora vinha a parte pouco cerimoniosa do evento feliz: ficar à espera que surgisse a placenta, como
um convidado retardatário; verificar a vagina, o colo do útero e a vulva para ver se há lacerações e repará-las se necessário; fazer um exame digital rectal.
Para
ser sincera, os pais normalmente estavam tão absortos com o novo membro da família que nem sequer reparavam que eu continuava a trabalhar abaixo da cintura.
Passados dez minutos, dei os parabéns ao casal, descalcei as luvas, lavei as mãos e fui lá para fora para preencher o monte de papelada. Mas mal tinha dado dois passos fora da sala de partos, um homem de calças de ganga e pólo aproximou-se. Parecia perdido, como um pai a entrar no bloco de partos à procura da mulher.
- Posso ajudá-lo? - perguntei.
- É a Dr.a Reece? A Dr.a Piper Reece?
- Culpada.
Tirou o que parecia uma brochura azul dobrada do bolso de trás das calças e entregou-ma.
- Obrigado - disse ele, e deu meia volta.
Abri o documento e vi as palavras "ACÇÃO LEGAL POR NEGLIGÊNCIA MÉDICA NO DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL."
"Nascimento de uma criança doente.
O direito dos pais a serem indemnizados baseia-se no facto de a arguida ter privado, por negligência, os pais do seu direito de não conceberem uma criança ou de impedirem o nascimento da mesma.
Negligência médica.
A arguida não prestou os cuidados devidos.
Os queixosos sofreram perdas ou danos."
Nunca tinha sido processada antes embora, tal como quase todos os obstetras, tivesse seguro contra negligência médica. Até certo ponto sabia que o facto de ainda
não ter sido processada se devia a pura sorte - que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Só que não estava à espera que parecesse uma afronta tão pessoal.
Sem dúvida que tinham ocorrido tragédias ao longo da minha carreira - bebés nados-mortos, mães cujas complicações durante o
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parto conduziram a hemorragia excessiva e até mesmo a morte cerebral. Esses acidentes estavam sempre comigo, todos os dias; não precisava de um processo legal para
revivê-los vezes sem conta e pensar no que podia ter sido feito de maneira diferente.
Que tragédia teria precipitado aquilo? Os meus olhos examinaram novamente a página, lendo os nomes dos queixosos, em que não reparara da primeira vez.
"SEAN E CHARLOTTE O'KEEFE contra PIPER REECE."
De repente deixei de ver. O espaço entre os meus olhos e o papel ficou vermelho, como o sangue que latejava tão alto nos meus ouvidos que não ouvi uma enfermeira perguntar-me se estava tudo bem. Fui a cambalear até ao fundo do corredor e entrei na primeira porta que encontrei - um dispensário cheio de gaze e roupa de cama.
A minha melhor amiga ia processar-me por negligência médica.
Por negligência médica no diagnóstico pré-natal.
Por não lhe ter falado mais cedo na tua doença para que pudesse abortar a criança que me implorara que a ajudasse a conceber.
Atirei-me para o chão e apoiei a cabeça nas mãos. Há uma semana tínhamos ido ao Target com as miúdas. Convidei-a para almoçar num restaurante italiano. Charlotte experimentou um par de calças pretas e rimos das cinturas descaídas e de como devia haver tangas com suporte para mulheres com mais de quarenta anos. Comprámos pijamas iguais para Emma e Amélia.
Tínhamos passado sete horas juntas e ela nunca me disse que ia processar-me.
Tirei o telemóvel do cinto e liguei para ela com marcação rápida era a tecla número 3, depois de Casa e do consultório do Rob.
- Está? - Charlotte atendeu. Demorei um instante a recuperar a voz.
- O que é isto?
- Piper?
- Como foste capaz? Esteve tudo bem durante cinco anos, e agora de repente processas-me sem mais nem menos?
- Não me parece que devêssemos estar a falar sobre isto ao telefone...
- Por amor de Deus, Charlotte. Achas que mereço isto? O que foi que eu te fiz?
Fez-se um silêncio.
- Foi o que não fizeste - disse Charlotte, e desligou.
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Os ficheiros clínicos de Charlotte estavam no meu consultório, a dez minutos de carro do bloco de partos do hospital. Quando entrei, a minha recepcionista olhou
para cima.
- Pensava que estava a fazer um parto - disse ela.
- Já acabou - passei por ela e entrei na sala de registos, depois fui outra vez lá para fora, para o carro.
Sentei-me atrás do volante com a pasta no colo. "Não penses nisto como sendo a Charlotte", disse para comigo. "Trata-se apenas de uma paciente qualquer." Mas depois tentei arranjar coragem para abrir a pasta de cartão castanho-amarelado com as etiquetas de cores vivas na ponta, e não consegui.
Fui ao consultório do Rob. Era o único ortodontista em Bankton, no New Hampshire, e podia dizer-se que detinha o monopólio do mercado de adolescentes, mas mesmo assim esforçava-se por transformar a ida ao dentista em algo que os miúdos gostassem. A um canto do consultório havia um televisor com um grande ecrã onde na altura estava a dar uma comédia de adolescentes. Havia uma máquina de pinball e um computador onde os pacientes podiam jogar videojogos. Dirigi-me à recepcionista dele, Keiko.
- Olá, Piper - disse ela. - Uau, acho que já não a via aqui há uns bons seis meses...
- Preciso de falar com o Rob - interrompi. - Já. - Agarrei na pasta que tinha nas mãos com mais força. - Pode dizer-lhe que estou à espera no gabinete?
Ao contrário do meu, que era de todas as cores do mar e projectado para deixar as mulheres à vontade, apesar dos moldes de gesso a ilustrar o desenvolvimento fetal, nas prateleiras, como pequenos Budas, o de Rob era luxuoso, forrado com painéis, masculino. Tinha uma secretária enorme, estantes de mogno, fotografias de Ansel Adams nas paredes. Sentei-me na cadeira estofada de cabedal e girei-a uma vez. Ali sentia-me pequena. Inconsequente.
Fiz a única coisa que desejava fazer há duas horas: comecei a chorar.
- Piper? - disse Rob quando entrou e me encontrou a soluçar. O que foi? - passado um segundo estava ao meu lado, a cheirar a pasta de dentes e café quando me abraçou. - Estás bem?
- vou ser processada - consegui dizer. - Pela Charlotte. Ele afastou-se.
- O quê?
- Negligência médica. Por causa da Willow.
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- Não percebo - disse Rob. - Nem sequer assististe ao parto.
- É por causa do que aconteceu antes - olhei para a pasta, ainda em cima da secretária. - Do diagnóstico.
- Mas diagnosticaste-a. Encaminhaste-a para o hospital onde descobriram.
- Aparentemente a Charlotte acha que devia ter-lhe dito mais cedo, porque assim podia ter abortado.
Rob abanou a cabeça.
- Pronto, isso é ridículo. Eles são católicos fundamentalistas. Lembras-te daquela vez em que tu e o Sean começaram a discutir sobre a lei do aborto e ele saiu do
restaurante?
- Isso não importa. Tenho outras pacientes que são católicas. Aconselhamos a terminar a gravidez independentemente disso, se constituir uma opção. Não tomamos a
decisão pelo casal com base naquilo que pensamos acerca deles.
Rob hesitou.
- Talvez seja por causa do dinheiro.
- Ias arruinar a reputação médica do teu melhor amigo só para receberes uma indemnização?
Rob olhou para a pasta.
- Se bem te conheço, documentaste aí, até ao mais ínfimo pormenor, a gravidez da Charlotte, não foi?
- Não me lembro.
- Bem, o que está escrito na ficha?
- Não... não consigo abri-la, Rob.
- Querida, se não te lembras, provavelmente não há nada para te lembrares. Isto é um disparate. Examina a ficha, e entrega o caso aos advogados. É para isso que tens seguro, não é?
Acenei com a cabeça.
- Queres que fique contigo? Abanei a cabeça.
- Estou bem - disse eu, embora não acreditasse. Quando a porta se fechou atrás dele, respirei fundo e abri a pasta. Comecei mesmo pelo princípio, com a história clínica de Charlotte.
"Que não deve ser confundida", pensei para comigo, "com a nossa história pessoal."
ALTURA: 1,57 m
PESO: 66 kg
A paciente tentou conceber, sem êxito, durante um ano.
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Virei a página - resultados de análises laboratoriais que confirmavam a gravidez; as análises ao sangue para VIH, sífilis, hepatite B, anemia; análises à urina para
bactérias, açúcar, proteínas. Estava tudo normal, até ao triplo teste e ao risco elevado de síndroma de Down.
A ecografia da décima oitava semana fazia parte dos exames de rotina na gravidez, mas também a examinei para confirmar síndroma de Down. Estaria tão concentrada nessa tarefa que nunca tivesse pensado em procurar outras anomalias? Ou elas simplesmente não estariam lá?
Examinei o relatório da ecografia, escrutinei as imagens à procura do mínimo sinal de fractura que pudesse ter-me passado despercebido. Fique a olhar para a coluna vertebral, para o coração, para as costelas, para os ossos longos. Um feto com 01 pode apresentar fracturas nessa fase da gestação, mas o defeito no colagénio nos ossos teria dificultado ainda mais a sua identificação. Não se pode realmente culpar um médico por não assinalar algo que parece normal, para todos os efeitos.
A última imagem do relatório da ecografia era do crânio do feto.
Coloquei as mãos abertas de cada um dos lados da página, enquadrando a imagem de um cérebro nítida e bem focada.
Absolutamente nítida.
Não se devia à qualidade do nosso novo equipamento, como eu presumira na altura, mas a uma cúpula craniana desmineralizada, um crânio que não ossificara correctamente.
Como médicos, somos ensinados a procurar coisas que pareçam anómalas - e não coisas que sejam demasiado perfeitas.
Saberia na altura, muito antes de te conhecer a ti e à tua doença, que uma cúpula craniana desmineralizada era uma das características distintivas de OI? Devia saber?
Teria carregado delicadamente na barriga de Charlotte para ver se o crânio do feto cedia à pressão? Não me lembrava. Não me lembrava de nada, só me lembrava de lhe
ter dito que a bebé dela não parecia ter síndroma de Down.
Não me lembro se tinha tomado medidas que pudessem agora ser usadas para provar que eu não tive culpa.
Procurei na mala e tirei a carteira. Mesmo lá no fundo, entre os papéis das pastilhas e canetas de companhias farmacêuticas, havia uma pilha de cartões-de-visita enrolados num elástico que eu tinha acumulado. Procurei entre eles até encontrar aquele que procurava. Agarrando no telefone do Rob, marquei o número do escritório de advocacia.
- Booker, Hood Coates - disse a recepcionista.
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- Sou uma das suas clientes com seguro contra negligência médica - respondi. - E acho que preciso de ajuda.
Naquela noite não conseguia dormir. Fui à casa de banho e fiquei a olhar para a minha imagem no espelho, tentando ver se já estaria diferente desde o início do dia. Seria possível ver dúvida estampada num rosto? Instalar-se-ia nas rugas finas em volta dos olhos, aos cantos da boca?
Rob e eu decidimos não dizer nada à Emma sobre o que tinha acontecido, pelo menos até termos qualquer coisa de concreto para dizer. Lembrei-me de que Amélia podia mencionar o assunto agora que já tinham começado as aulas mas, por outro lado, Amélia podia nem sequer saber o que os pais estavam a fazer.
Sentei-me no tampo da sanita e fiquei a olhar para a Lua. Cheia, alaranjada, parecia estar pousada no parapeito. A luz banhava a casa de banho, espalhando-se pelo chão de ladrilhos, acumulando-se na banheira. Já não faltava muito para o alvorecer, e depois devia ir trabalhar e cuidar de pacientes que estavam grávidas ou a tentar engravidar, e já não podia confiar no meu discernimento.
As poucas vezes que estive tão perturbada que não conseguia dormir - como depois de o meu pai morrer e quando o chefe de escritório roubou vários milhares de dólares do consultório - telefonei a Charlotte. Embora eu é que costumasse receber chamadas telefónicas a meio da noite por causa de uma emergência, ela não se tinha queixado. Foi como se estivesse à espera que eu lhe telefonasse e, apesar de eu saber que ela tinha milhares de coisas para fazer no dia seguinte com a Willow ou com a Amélia, ficou acordada durante horas, a falar sobre tudo e nada, até finalmente eu deixar de ter a cabeça a andar à roda e poder relaxar.
Estava a lamber as feridas e queria telefonar à minha melhor amiga. Só que, desta vez, tinha sido ela que as causara.
Um aranhiço estava a trepar pela parede. Fiquei quase sem fôlego. Tudo o que sabia sobre física e gravidade dizia-me que ele devia cair para o chão. Quanto mais se aproximava do tecto, mais eu estava fascinada. Enfiou duas patas na saliência na parte de cima do papel de parede, onde este começara a descolar-se.
Já tinha pedido ao Rob para arranjá-lo, milhares de vezes e ignorou-me. Mas agora que estava a olhar para ele - a olhar com atenção
- apercebi-me de que não gostava mesmo nada daquele papel de parede. Precisávamos era de começar de novo. De uma boa camada de tinta nova.
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Pus-me de pé na borda da banheira, estiquei a mão direita e com um puxão rápido arranquei uma longa língua de papel.
Mas a maior parte da faixa ainda estava colada à parede.
O que sabia eu sobre remover papel de parede?
O que sabia eu sobre alguma coisa?
Precisava de um vaporizador. Mas, às três da manhã, não ia conseguir arranjar nenhum, por isso abri as torneiras de água quente da banheira e do lavatório, deixando
o vapor inundar a casa de banho. Tentei enfiar as unhas debaixo do papel, para soltar a faixa.
Senti uma lufada de ar frio.
- Mas que raio estás tu a fazer? - perguntou Rob, ensonado, de pé, à porta.
- A arrancar o papel de parede.
- A meio da noite? Piper - suspirou.
- Não conseguia dormir. Fechou as torneiras.
- Tens de tentar - Rob levou-me pela mão, de volta para a cama, onde me deitei e me tapei com os cobertores. Enrolei-me virada de lado e ele colocou-me o braço em
volta da cintura.
- Podia remodelar a casa de banho - sussurrei quando, pela respiração regular dele, percebi que já estava outra vez a dormir.
Charlotte e eu tínhamos passado o Verão anterior a ler todas as revistas de remodelação de cozinhas e casas de banho nos escaparates do Barnes at Noble. "Talvez
devesses optar pelo minimalismo", sugerira Charlotte, e depois, virando a página, "estilo francês?"
"Compra uma banheira de hidromassagem", sugerira ela. "Uma sanita TOTÓ. Um toalheiro aquecido."
Ri. "Uma segunda hipoteca?"
Quando me encontrasse com Guy Booker no escritório de advocacia, ele faria um inventário desta casa? Dos nossos fundos mútuos, PPRs, poupanças para a universidade
da Emma e dos outros bens que nos podiam ser retirados para pagar uma indemnização?
Resolvi que amanhã ia arranjar um daqueles vaporizadores e todas as outras ferramentas necessárias para arrancar o papel de parede. Ia fazer tudo sozinha.
- Acho que cometi um erro - admiti ao sentar-me em frente de Guy Booker a uma mesa de reuniões lustrosa e imponente.
O meu advogado fazia-me lembrar o Cary Grant - cabelos brancos com negro asa de corvo nas têmporas, fato feito por medida e até aquela covinha no queixo.
- Porque não me deixa ser eu a avaliar isso? - disse ele.
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Tinha-me dito que dispunha de vinte dias para entregar uma resposta à queixa que fora instaurada - um apelo formal ao tribunal.
- Diz que a osteogénese imperfeita pode ser diagnosticada às vinte semanas de gravidez? - perguntou.
- Sim, pelo menos a de tipo letal, através de uma ecografia.
- Mas a filha da paciente sobreviveu.
- Pois - disse eu. Graças a Deus.
Gostava do facto de ele se referir a Charlotte como "a paciente." Fazia-me sentir o processo mais impessoal. Colocava uma maior distância.
- Então ela sofre do tipo mais grave: o Tipo III.
- Sim.
Ele voltou a folhear novamente o ficheiro.
- O fémur estava no percentil seis?
- Estava. Isso está documentado.
- Mas não se trata de um sinal definitivo de OI.
- Pode significar muitas coisas. Síndroma de Down, displasia esquelética... ou um dos pais com baixa estatura, ou uma medida mal feita. Muitos fetos com desvios
à média padrão, como a Willow às dezoito semanas, acabam por ser absolutamente saudáveis. Só numa ecografia posterior, quando esse número sair fora das tabelas, é que sabemos que estamos a lidar com alguma anomalia.
- Então o seu conselho seria esperar para ver, independentemente de qualquer outra coisa?
Fiquei a olhar para ele. Dito assim, parecia que eu não tinha cometido erro nenhum.
- Mas o crânio - disse eu. - A minha técnica assinalou-o...
- Ela disse-lhe que achava que podia ser um problema médico?
- Não, mas...
- Disse que era uma imagem muito nítida do cérebro - olhou para mim. - Sim, a sua técnica de ecografías chamou a atenção para uma coisa invulgar: mas não necessariamente sintomática. Podia ser uma questão técnica relacionada com a máquina, ou com a posição do transdutor, ou então era uma imagem mesmo muito boa.
- Mas não era - disse eu, sentindo as lágrimas arranharem-me a garganta. - Era OI e eu não reparei.
- Está a falar sobre um procedimento que não é um teste conclusivo para detectar a presença de OI. Ou, por outras palavras, se a paciente fosse consultar outro médico,
teria acontecido a mesma coisa. Isso não é negligência médica, Piper. É despeito por parte dos pais. - Guy franziu o sobrolho. - Conhece algum médico que tivesse
diagnosticado OI baseando-se numa ecografia às dezoito semanas de
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gestação que revelasse uma cúpula craniana desmineralizada, um fémur curto e nenhuma fractura óbvia?
Olhei para a mesa. Quase conseguia ver o meu reflexo.
- Não - admiti. - Mas teriam mandado Charlotte fazer mais exames: uma ecografia mais avançada e uma biópsia coriónica.
- Já tinha sugerido que a paciente fizesse mais exames - fez notar Guy - quando os resultados do teste triplo dela mostraram uma probabilidade maior do que o normal
de ter um bebé com síndroma de Down.
Olhei directamente para ele.
- Aconselhou-a a fazer uma amniocentese nessa altura, não aconselhou? E qual foi a resposta dela?
Pela primeira vez desde que me entregaram aquela pastinha azul, senti o nó que tinha no peito soltar-se.
- Ela ia ter a Willow, acontecesse o que acontecesse.
- Bem, Dr.a Reece - disse o advogado. - Não há dúvida de que isso não me parece ser negligência médica no diagnóstico pré-natal.
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Charlotte
Comecei a mentir a toda a hora.
De início eram apenas mentiras inofensivas: respostas a perguntas como, "Minha senhora, sente-se bem?" quando a recepcionista do consultório do dentista me chamou
três vezes e eu não a ouvi; ou quando o operador de telemarketing telefonou e eu disse que estava demasiado ocupada para responder a uma sondagem, quando, na verdade, estava sentada à mesa da cozinha a olhar para o ar. Depois comecei a mentir a sério. Fazia um assado para o jantar, esquecia-me completamente dele no forno e dizia ao Sean, enquanto cortava a carne enegrecida e carbonizada, que de certeza que era da carne de má qualidade que agora vendiam no mercado. Sorria aos vizinhos e dizia-lhes, quando me perguntavam, que estávamos todos bem. E quando a tua professora da pré-primária me telefonou a pedir-me que fosse à escola porque tinha havido um incidente, fingi que não fazia ideia do que podia ter-te perturbado.
Quando cheguei, estavas sentada na sala de aulas vazia, numa cadeirinha ao lado da secretária da professora Watkins. A transição para a escola pública tinha sido menos divinal do que eu esperava. Sim, tinhas uma auxiliar a tempo inteiro paga pelo Estado de New Hampshire, mas tive de negociar cada direito teu
- desde a possibilidade de ires à casa de banho sozinha, à oportunidade de interagires na aula de ginástica quando o jogo não fosse demasiado extenuante e não corresses perigo de sofreres uma fractura. O aspecto positivo era que isso me distraía do processo legal. O aspecto negativo era que eu não podia ficar para me certificar
de que estavas bem. Estavas numa turma com colegas novos que não te conheciam - e que não sabiam nada sobre OI. Quando te perguntei como tinha corrido o primeiro
dia de aulas,
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disseste-me que tu e a Martha brincaram com barras Cuisenaire e que ficaram na mesma equipa no jogo de Apanhar o Lenço. Fiquei muito entusiasmada por ouvir falar
naquela nova amiga e perguntei se querias convidá-la para ir a nossa casa.
- Acho que ela não pode vir, mãe - disseste-me. - Tem de fazer o jantar para a família.
Tanto quanto sabia, a única amiga que tinhas naquela turma era a tua auxiliar.
Olhaste para mim quando apertei a mão à professora, mas não disseste nada.
- Olá Willow - disse eu, sentando-me ao teu lado. - Ouvi dizer que hoje tiveste um problema.
- Queres contar à tua mãe o que aconteceu ou queres que seja eu a contar? - perguntou a professora Watkins.
Cruzaste os braços e abanaste a cabeça.
- A Willow foi convidada a participar numa encenação com duas crianças, hoje de manhã.
O meu rosto iluminou-se.
- Mas... isso é fantástico! A Willow adora representar - virei-me para ti. - Fingiram que eram animais? Ou médicos? Exploradores espaciais?
- Estavam a brincar às casinhas - explicou a professora Watkins. - A Cassidy fazia de mãe; o Daniel era o pai...
- E queriam que eu fosse o bebé - explodiste. - Não sou um bebé.
- A Willow é muito sensível em relação à altura - expliquei.
- Nós gostamos de dizer que ela é espacialmente eficiente.
- Mãe, estavam sempre a dizer que, como eu sou a mais pequena, tenho de ser o bebé. Eu queria ser o pai.
Também percebi que isso era novo para a professora Watkins.
- O pai? - disse eu. - Porque não queres ser a mãe?
- Porque as mães vão para a casa de banho chorar e põem a água a correr para que ninguém consiga ouvir.
A professora Watkins olhou para mim.
- Sr.a O'Keefe - disse ela - porque não vamos conversar um pouco lá para fora?
Ficámos no carro em silêncio durante cinco minutos.
- Não está certo pregares uma rasteira à Cassidy quando ela passa por ti para ir buscar o lanche - apesar de ter de conceder-te algum mérito por seres tão engenhosa, visto que para ti era muito difícil magoar alguém sem te magoares também, e aquela táctica
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ser bastante astuciosa, até mesmo diabólica. - A última coisa que deves querer é que a professora Watkins ache que causas problemas depois de uma semana de aulas.
Não te disse que, quando fomos para o corredor e a professora Watkins perguntou se estava a acontecer alguma coisa em casa que pudesse influenciar o teu comportamento na escola, menti-lhe descaradamente. "Não", disse eu, depois de fingir estar a reflectir por um minuto. "Não imagino onde ela terá ido buscar isso. Mas, por outro lado, a Willow sempre teve uma imaginação notável."
- Então? - incitei, ainda à espera que reconhecesses que tinhas ultrapassado um limite que não devias ter ultrapassado. Tens alguma coisa a dizer?
Olhei pelo espelho retrovisor para ver a tua reacção. Acenaste com a cabeça, com os olhos cheios de lágrimas.
- Por favor, não te vejas livre de mim, mamã.
Se não estivesse parada num sinal vermelho, provavelmente teria embatido no carro da frente. Os teus ombros estreitos tremiam; tinhas o nariz a pingar.
- vou portar-me melhor - disseste. - vou ser perfeita.
- Oh, Willow, minha querida. Tu és perfeita - senti-me presa pelo cinto de segurança, pelos dez segundos que o semáforo demorou a ficar verde. Depois, virei para a primeira rua secundária que encontrei. Desliguei o motor e sentei-me no banco de trás para te tirar da tua cadeirinha. Tinha sido adaptada, tal como o teu berço de bebé para ser transportado no automóvel - a cadeira ficava direita mas o cinto era forrado com espuma, porque senão até uma travagem podia provocar-te uma fractura. Soltei-te delicadamente e embalei-te nos braços.
Não tinha falado contigo sobre o processo legal. Disse para mim mesma que estava a tentar salvaguardar-te o máximo tempo possível - a mesma razão por que não dissera nada à professora Watkins. Mas quanto mais adiasse essa conversa, mais provável seria que ficasses a saber através de um colega e não podia deixar que isso acontecesse.
Estaria realmente a proteger-te? Ou estaria apenas a proteger-me a mim própria? Seria aquele o momento que identificaria, meses mais tarde, como sendo o início da nossa separação: sim, estávamos em Appleton Lane, debaixo de um ácer, no momento em que a minha filha começou a detestar-me.
- Willow - disse eu, com a garganta de repente tão seca que não conseguia engolir. - Se alguém se portou mal, fui eu.
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Lembras-te de quando fomos visitar aqueles advogados depois das tuas fracturas no Disney World?
- O senhor ou a senhora?
- A senhora. Ela vai ajudar-nos. Pestanejaste.
- Ajudar-nos em quê?
Hesitei. Como é que ia explicar o sistema legal a uma criança de cinco anos?
- Sabes que existem regras? - disse eu. - Em casa, e na escola? O que é que acontece se alguém quebrar essas regras?
- Fica de castigo.
- Bem, também há regras para os adultos - continuei. - Por exemplo, não podemos magoar ninguém. E não podemos tirar uma coisa que não é nossa. E, se quebrarmos as regras, somos castigados. Os advogados podem ajudar-nos quando alguém quebra uma regra e nos magoa por causa disso. Certificam-se de que a pessoa que fez uma coisa errada assuma a responsabilidade.
- Como quando a Amélia me roubou o verniz com purpurinas e a obrigaste a comprar-me outro com o dinheiro que recebeu por ficar a tomar conta de crianças?
- É precisamente isso - disse eu.
Os teus olhos encheram-se novamente de lágrimas.
- Eu quebrei as regras na escola e a advogada vai obrigar-me a sair de casa - disseste.
- Ninguém vai sair de casa - disse eu num tom firme. Muito menos tu. Não quebraste as regras. Foi outra pessoa que as quebrou.
- Foi o papá? - perguntaste. - É por isso que ele não quer contratar um advogado?
Fiquei a olhar para ti.
- Não foi o papá. E também não foi a Amélia - respirei fundo.
- Foi a Piper.
- A Piper roubou alguma coisa de nossa casa?
- É aqui que as coisas se tornam mais complicadas - disse eu.
- Ela não roubou uma coisa, como um televisor, ou uma pulseira. Só que não me disse uma coisa que devia ter dito. Uma coisa muito importante.
Olhaste para o colo.
- Foi uma coisa sobre mim, não foi?
- Sim - disse eu. - Mas não é nada que fosse alguma vez mudar o que sinto por ti. Há só uma Willow O'Keefe neste planeta,
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e eu tive a sorte de ficar com ela - beijei-te o alto da cabeça, porque não tive coragem de olhar-te nos olhos. - Mas é engraçado disse eu com a voz a enrolar-se à volta de um fio de lágrimas. Para que esta advogada possa ajudar-nos, tenho de jogar um jogo. Tenho de dizer coisas que na realidade não sinto. Coisas que podiam magoar-te se as ouvisses e não soubesses que na verdade eu estava apenas a representar.
Naquele momento, observei-te com atenção para ver se estavas a compreender-me.
- Como quando alguém leva um tiro na televisão mas na vida real não? - perguntaste.
- Isso - disse eu. São balas falsas, então porque me parece que estou a esvair-me em sangue! - Vais ouvir coisas, e talvez ler coisas, e vais pensar para contigo, "A minha mãe nunca diria isto." E tens razão. Porque quando estiver no tribunal, a falar com aquela advogada, estarei a fingir que sou outra pessoa, apesar de ter o mesmo aspecto e a mesma voz. Posso enganar toda a gente, mas não quero enganar-te a ti.
Olhaste para mim, pestanejando.
- Podemos treinar?
- O quê?
- Para poder distinguir se estás a representar ou não. Respirei fundo.
- Está bem - disse. - Fizeste muito bem em pregar uma rasteira à Cassidy hoje.
Olhaste para mim intensamente.
- Estás a mentir. Quem me dera que não estivesses, mas estás a mentir.
- Linda menina. A professora Watkins precisa de depilar a sobrancelha única.
Passou-te um sorriso no rosto.
- Essa é uma questão traiçoeira, mas ainda estás a mentir porque, apesar de ela parecer mesmo que tem uma lagarta peluda entre os olhos, isso é uma coisa que a Amélia era capaz de dizer em voz alta, mas tu não.
Desatei a rir.
- Sinceramente, Willow.
- Verdade!
- Mas eu ainda não disse nada!
- Não tens de dizer adoro-te para dizeres adoro-te - disseste, encolhendo os ombros. - Só tens de dizer o meu nome que eu sei.
- Como?
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Quando olhei para ti, fiquei impressionada por ver tanto de mim própria no formato dos teus olhos, na luz do teu sorriso.
- Diz Cassidy - instruíste.
- Cassidy.
- Diz... Ursula.
- Ursula - repeti.
- Agora... - e apontaste para o teu próprio peito.
- Willow.
- Não ouves? - disseste. - Quando gostamos muito de uma pessoa, dizemos o nome dela de maneira diferente. Como se estivesse em segurança dentro da nossa boca.
- Willow - repeti, sentindo a almofada de consoantes e o balançar das vogais. Terias razão? Poderia abafar tudo o resto que eu tivesse para dizer? - Willow, Willow, Willow - entoei, uma canção de embalar, um pára-quedas, como se pudesse amparar-te dos golpes que estavam para vir.
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Marin
Outubro de 2007
Para se levar a cabo um processo legal é necessária uma quantidade de tempo interminável. Uma vez, durante um processo legal contra um padre por abuso sexual, assisti ao depoimento de um psiquiatra que durou três dias. A primeira pergunta era: "O que é a psicologia?" A segunda: "O que é a sociologia?" A terceira: "Quem foi Freud?" O especialista estava a ser pago a 350 dólares por hora e queria fazê-lo sem pressas. Acho que perdemos três estenógrafas devido à síndroma do túnel cárpico antes de finalmente termos os registos das respostas dele.
Tinham passado oito meses desde que me reunira com Charlotte O'Keefe e com o marido pela primeira vez e ainda estávamos na fase de aprendizagem. Basicamente, os clientes continuavam a viver as suas vidas quotidianas e, de vez em quando, recebiam um telefonema meu a dizer que precisava de um determinado documento ou de uma determinada informação. Sean fora promovido a tenente. Willow começara a ter aulas a tempo inteiro na pré-primária. E Charlotte passava as sete horas em que a Willow estava na escola à espera que o telefone tocasse, caso a filha sofresse outra fractura.
A preparação para os depoimentos envolve, em parte, questionários chamados interrogatórios que ajudam os advogados como eu a perceber os pontos fracos e os pontos fortes do caso, e se será provável receber uma indemnização. A instrução tem um nome apropriado: devemos averiguar se o nosso caso é um caso perdido e onde se encontram os buracos negros, antes de sermos sugados por eles.
O interrogatório de Piper Reece aparecera no meu correio electrónico naquela manhã. Ficara a saber, através de rumores, que estava de licença sem vencimento no consultório e que o mentor dela tinha interrompido a reforma para a substituir.
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Todo este processo legal se baseava no pressuposto de que ela não tinha informado Charlotte sobre o estado clínico do bebé logo de início - não lhe dera as informações
que podiam ter conduzido à interrupção da gravidez. E uma pequena parte de mim interrogava-se se fora um lapso da parte da obstetra ou se fora um deslize subconsciente.
Haverá obstetras que - em vez de recomendarem abortos
- recomendam a adopção? Teria um desses médicos cuidado da minha
mãe?
Finalmente recebera a carta com informações não identificativas do Registo dos Tribunais do Condado de Hillsborough. "Cara Sr.a Gates", estava escrito na carta.
"A informação seguinte foi compilada do registo do tribunal onde decorreu a sua adopção. A informação que se encontra no registo indica que o obstetra da mãe biológica contactou o seu advogado em busca de aconselhamento para uma paciente que estava a ponderar a adopção. O advogado tinha conhecimento do interesse dos Gates em adoptarem
uma criança. O advogado reuniu-se com os pais biológicos após o seu nascimento e tratou da adopção.
Nasceu num hospital em Nashua às 17h34 no dia 3 de Janeiro de 1973. Teve alta do hospital no dia 5 de Janeiro de
1973 e foi entregue aos cuidados de Arthur e Yvonne Gates. A sua adopção, por parte deles, tornou-se oficial no dia 28 de Julho de 1973, no Tribunal do Condado de Hillsborough.
A informação registada na certidão de nascimento original indica que a mãe biológica tinha dezassete anos quando deu à luz. Residia no Condado de Hillsborough na altura. Era caucasiana e estudante. O pai biológico não está identificado na certidão de nascimento. Na altura da adopção, ela vivia em Epping, New Hampshire. A petição de adopção identifica a sua afiliação religiosa como Católica Romana. A mãe biológica e a avó materna assinaram o consentimento para a sua adopção.
Por favor, não hesite em me contactar se entender que a posso ajudar em mais alguma coisa.
com os melhores cumprimentos, Maisie Donovan."
Apercebi-me de que o propósito de uma carta com informações não identificativas era dar informações que não fossem específicas -
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mas havia tantas outras coisas que eu desejava saber. O meu pai e a minha mãe ter-se-iam separado durante a gravidez? A minha mãe teria tido medo, ali sozinha naquele hospital? Ter-me-ia pegado ao colo sequer uma vez ou teria deixado que a enfermeira me levasse?
Interroguei-me se os meus pais adoptivos, que me criaram inegavelmente como protestante, saberiam que eu tinha nascido católica.
Interroguei-me se Piper Reece teria percebido que, se Charlotte O'Keefe não quisesse criar uma criança como Willow, outra pessoa podia ter ficado mais do que satisfeita por ter essa oportunidade.
Desanuviando a cabeça, agarrei no interrogatório que ela tinha preenchido e folheei as páginas para ler a sua versão da história. Comecei com perguntas genéricas, tornando-as clinicamente mais específicas para o fim do documento. Por acaso, a primeira fora muito fácil: "Quando conheceu a Charlotte O'Keefe?"
Examinei a resposta e pestanejei, certa de que tinha lido mal.
Agarrando no telefone, liguei a Charlotte.
- Estou? - disse ela, sem fôlego.
- Fala Marin Gates - disse eu. - Temos de conversar sobre os interrogatórios.
- Oh! Ainda bem que telefonou. Deve haver um erro, porque recebemos um com o nome de Amélia.
- Não é um erro - expliquei. - Ela consta da lista das nossas testemunhas.
- Amélia? Não, isso é impossível. Ela não vai de maneira nenhuma testemunhar em tribunal - disse Charlotte.
- Pode descrever a qualidade de vida da vossa família e como a OI a afectou. Pode falar sobre a viagem ao Disney World e como foi traumático ser levada sob custódia e colocada num lar de acolhimento...
- Não quero que ela reviva isso...
- Quando o julgamento começar, ela será um ano mais velha disse eu. - E pode não ser chamada a testemunhar. Está na lista só como precaução, faz parte do protocolo.
- Então talvez nem sequer devesse dizer-lhe nada - murmurou Charlotte, o que me fez lembrar a razão pela qual lhe tinha telefonado.
- Tenho de conversar consigo sobre o interrogatório da Piper Reece - disse eu. - Perguntei-lhe quando a conheceu, e ela disse que eram as melhores amigas desde há oito anos.
Fez-se um silêncio do outro lado da linha.
- Melhores amigas?
- Bem - disse Charlotte. - Sim.
- Sou sua advogada há oito meses - disse eu. - Já nos encontrámos
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pessoalmente meia dúzia de vezes e falámos três vezes mais ao telefone. E nunca achou que pudesse ser um bocadinho importante informar-me desse pequeno pormenor?
- Não tem nada a ver com o caso, pois não?
- Mentiu-me, Charlotte! - disse eu. - Isso tem tudo a ver com
o caso!
- Não me perguntou se eu era amiga da Piper - argumentou Charlotte. - Não menti.
- É uma mentira por omissão.
Agarrei no interrogatório de Piper e li em voz alta.
- "Em todos estes anos em que fomos amigas, nunca tive nenhuma indicação de que Charlotte se sentisse assim relativamente aos seus cuidados pré-natais. Até fomos às compras com as nossas filhas na semana anterior a ter sido alvo do que considero ser um processo legal sem nenhum fundamento. Deve imaginar como fiquei chocada." Foi às compras com ela na semana antes de a processar? Faz alguma ideia de como isto a faz parecer fria e calculista diante de um júri?
- Que mais disse ela? Ela está bem?
- Não está a trabalhar. Já não trabalha há dois meses - disse eu.
- Oh - disse Charlotte, num fio de voz.
- Olhe, sou advogada. Sei muito bem que a minha profissão implica destruir as vidas das pessoas. Mas parece que a Charlotte tem uma relação pessoal com esta mulher, para além da relação profissional. Isso não vai fazê-la parecer simpática.
- E dizer em tribunal que não queria a Willow também não disse Charlotte.
Bem, não podia discordar.
- Pode conseguir o que quer deste processo legal, mas vai pagar caro por isso.
- Quer dizer que toda a gente vai pensar que sou uma cabra disse Charlotte. - Por lixar a minha melhor amiga e por servir-me da doença da minha filha para receber dinheiro. Não sou estúpida, Marin. Sei o que vão dizer.
- E isso vai ser um problema? Charlotte hesitou.
- Não - disse com firmeza. - Não vai.
Já tinha confessado que estava a ter dificuldades em fazer o marido participar no processo legal. Agora descobri que tinha um passado oculto com a arguida. O que
não dizemos às pessoas é tão debilitante como o que dizemos; bastava-me olhar para a minha estúpida carta não identificativa para sentir isso em primeira mão.
- Charlotte - disse eu - basta de segredos.
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O objectivo de um depoimento é averiguar o que acontece a uma pessoa quando esta é lançada nas trincheiras de uma sala de audiências. Conduzido pelo advogado da outra parte, envolve tentar arruinar a credibilidade de uma testemunha baseando-se em afirmações tiradas dos interrogatórios. Quanto mais sincera - e imperturbável - for uma pessoa, melhores as perspectivas do nosso caso.
Naquele dia, Sean O'Keefe ia depor, e isso deixava-me aterrorizada.
Era alto, forte, atraente - e completamente imprevisível. De todos os encontros cara a cara que tivera com Charlotte para a preparar, ele assistira apenas a um.
-Tenente O'K.eefe - perguntei - está empenhado neste processo legal?
Ele olhou para Charlotte e houve uma conversa inteira entre eles, num silêncio absoluto.
- Estou aqui, não estou? - disse ele.
Achava que Sean O'Keefe preferia ser esquartejado do que conduzido ao banco das testemunhas para depor e o problema não devia ser meu - só que era. Porque ele era pai da Willow e, se metesse os pés pelas mãos no banco das testemunhas, o meu caso ficaria arruinado. Para que este processo fosse bem-sucedido, os advogados especializados em negligência médica tinham de acreditar que, no caso de negligência médica no diagnóstico pré-natal, os O'Keefe constituíam um bloco.
Charlotte, Sean e eu subimos juntos no elevador. Tinha marcado especificamente o depoimento durante o teu período de aulas, para que não fosse preciso alguém ficar a tomar conta de ti.
- Faça o que fizer - disse eu, dando-lhe instruções de última hora - não relaxe. Eles vão levá-lo ao Inferno. Vão distorcer as suas palavras.
Ele sorriu.
- Vá lá, faça-me ganhar o dia.
- Não pode armar-se em Dirty Harry com estes tipos - disse eu, entrando em pânico. - Eles já conhecem isso bem e vão apanhá-lo com a sua própria ousadia. Lembre-se de que tem de se manter calmo, e de contar até dez antes de responder a qualquer pergunta. E...
As portas do elevador abriram-se antes que conseguisse terminar a frase. Entrámos nos escritórios luxuosos onde uma assistente jurídica de fato azul já estava à espera.
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- Marin Gates?
- Sim - respondi.
- O Dr. Brooker está à sua espera - conduziu-nos pelo corredor até uma sala de reuniões, com janelas panorâmicas do chão até ao tecto que davam para a cúpula dourada
do Capitólio. A estenógrafa estava enfiada a um canto. Guy Brooker estava absorto a conversar, com a cabeça grisalha curvada. Levantou-se quando nos aproximámos,
deixando ver a sua cliente.
Piper Reece era mais bonita do que eu esperava. Era loira, alta e magra, com olheiras escuras debaixo dos olhos. Não estava a sorrir; observava Charlotte como se tivesse sido trespassada por uma espada.
Charlotte, por seu lado, estava a fazer todos os possíveis para não olhar para ela.
- Como foste capaz? - acusou Piper. - Como foste capaz de fazer isto?
Sean semicerrou os olhos.
- É melhor parares por aqui, Piper... Coloquei-me entre ambos.
- Vamos despachar isto, está bem?
- Não tens nada para dizer? - continuou Piper, quando Charlotte se instalou à mesa. - Nem sequer tens a decência de me olhar nos olhos e de o dizer na minha cara?
- Piper - disse Guy Brooker, pousando-lhe a mão no braço.
- Se a sua cliente for verbalmente abusiva com a minha - anunciei - vamos já embora.
- Ela quer ser abusiva? - perguntou Sean entre dentes. - Eu mostro-lhe o que é ser abusivo...
Agarrei-lhe no braço e fi-lo sentar-se.
- Cale-se - murmurei.
Era talvez a primeira e única vez na minha vida em que teria qualquer coisa em comum com Guy Brooker - nenhum de nós desejava estar presente neste depoimento.
- Tenho a certeza de que a minha cliente é capaz de se controlar
- disse ele, virando-se para Piper enquanto sublinhava aquela última palavra. Virou-se para a estenógrafa. - Claudia, está pronta para começar?
Olhei para Sean e pronunciei silenciosamente com os lábios a palavra "calma." Ele acenou com a cabeça e fez estalar o pescoço de cada um dos lados, como um lutador pronto para entrar no rinque.
Aquele estalido, aquele ruído audível: fez-me lembrar-me de ti, a fracturares um osso.
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Guy Brooker abriu uma pasta de cabedal. Era macia, muito provavelmente italiana. Em parte, a razão pela qual Brooker, Hood Coates ganhavam tantos casos era por causa
do factor intimidação - pareciam vencedores, desde os gabinetes opulentos aos fatos Armani e às canetas Waterman. Provavelmente os blocos jurídicos deles eram feitos
à mão e gravados com uma marca de água com o selo da firma. Seria de admirar que metade dos seus adversários reconhecesse a derrota após um único olhar?
- Tenente O'Keefe - disse ele. A voz era suave, sem fricção entre as palavras, "Sou seu amigo, sou seu companheiro", sugeria este tom.
- Acredita na justiça, não acredita?
- Acredito, sou agente da polícia - respondeu Sean com orgulho.
- Acha que a justiça pode ser feita através de processos legais?
- Claro - disse Sean. - É assim que este país funciona.
- Considera-se particularmente litigioso? -Não.
- Então presumo que deve ter tido uma boa razão para processar a Ford Motor Company em 2003?
Voltei-me para Sean chocada.
- Processou a Ford?
Ele estava de sobrolho franzido.
- O que é que isso tem a ver com a minha filha?
- Recebeu uma indemnização, não recebeu? De vinte mil dólares? - procurou na pasta de cabedal. - Pode explicar a natureza da sua queixa?
- Fiz uma hérnia discal por estar sempre sentado no carro o dia todo. São projectados para bonecos de testes de colisão e não para pessoas de carne e osso que
estão a trabalhar.
Fechei os olhos. "Teria sido mesmo bom", pensei, "se qualquer um dos meus clientes tivesse sido sincero comigo."
- Relativamente à Willow - disse Guy - quantas horas por dia diria que passa com ela?
- Talvez doze - disse ele.
- Dessas doze horas, quantas passa a dormir?
- Não sei, oito, numa noite boa.
- Se não for esse o caso, quantas vezes diria que tem de se levantar para ir ter com ela?
- Depende - disse Sean. - Uma ou duas vezes.
- Então, quer dizer que a quantidade de tempo que passa com ela, sem estar a tentar adormecê-la outra vez, provavelmente serão cerca de quatro ou cinco horas por dia?
- Acho que sim.
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- Durante essas horas, o que é que o senhor e a Willow fazem?
- Jogamos Nintendo. Ela ganha-me sempre no Super Mário.
E jogamos às cartas... - corou um pouco. - tem um dom natural para jogar ao Stud de cinco cartas.
- Qual é o programa de televisão preferido dela? - perguntou Guy Brooker.
- Lizzie McCuire, esta semana.
- Cor preferida?
- Magenta.
- Que tipo de música costuma ouvir?
- A Hannah Montana e os Jonas Brothers - disse Sean. Lembrava-me de estar sentada no sofá com a minha mãe a ver
The Cosby Show. Fazíamos uma taça de pipocas no microondas e comíamo-la toda. Nunca mais foi o mesmo desde que a Keshia Knight Pulliam cresceu e foi substituída
pela Raven-Simone. Se eu tivesse sido criada pela minha mãe biológica, a minha infância teria sido colorida de forma diferente? Teríamos ficado viciadas em telenovelas,
documentários da televisão pública, na Dinastia!
- Sei que a Willow agora está na pré-primária.
- Sim, começou há dois meses - disse Sean.
- A Willow costuma divertir-se na escola?
- Às vezes é difícil para ela, mas diria que sim.
- Ninguém contesta que a Willow seja uma criança com incapacidades - disse Guy - mas essas incapacidades não a impedem de ter uma experiência pedagógica positiva,
pois não?
-Não.
- E não a impedem de partilhar momentos de diversão com a família, pois não?
- Certamente que não.
- Na verdade, como pai da Willow, diria que foi bem-sucedido em garantir que ela viva uma vida boa e enriquecedora?
"Oh não", pensei.
Sean endireitou-se um pouco, orgulhoso.
- Claro que fui.
- Então, por que razão - perguntou Guy, atirando a matar está a dizer que ela nunca devia ter nascido?
As palavras trespassaram Sean como uma bala. Inclinou-se para a frente, colocando as mãos abertas sobre a mesa.
- Não coloque palavras na minha boca. Eu nunca disse isso.
- Por acaso, até disse - Guy tirou uma cópia da queixa que tinha na pasta e empurrou-a para o outro lado da mesa, para Sean. Está aqui mesmo.
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- Não - Sean cerrou o maxilar.
- A sua assinatura neste documento representa a verdade, tenente.
- Repare, eu adoro a minha filha.
- Adora-a - repetiu Guy. - Tanto que acha que seria melhor que estivesse morta.
Sean agarrou na queixa e amachucou-a na mão.
- Não vou fazer isto - disse ele. - Não quero isto; nunca quis.
- Sean... - Charlotte levantou-se, agarrou-lhe no braço e ele virou-se contra ela.
- Como podes dizer que isto não vai magoar a Willow? - disse ele, com as palavras arrancadas a custo da garganta.
- Ela sabe que são só palavras, Sean, palavras que não têm significado nenhum. Ela sabe que a adoramos. Sabe que é por isso que estamos aqui.
- Sabes uma coisa, Charlotte - disse ele. - Isso também são palavras. - E ao dizer isso, saiu da sala de reuniões.
Charlotte ficou a olhar para ele e depois olhou para mim.
- Eu... eu tenho de ir - disse ela. Levantei-me, sem ter a certeza se devia segui-la ou ficar ali para tentar minimizar os estragos com Guy Brooker. Piper Reece tinha o rosto vermelho, olhava para o colo. Os sapatos de salto raso de Charlotte pareciam disparos, enquanto se dirigia apressadamente para o fundo do corredor.
- Marin - disse Guy, recostando-se na cadeira. - É impossível que ache que tem um caso viável.
Sentia uma gota de suor escorrer-me entre as omoplatas.
- Eis o que sei - disse eu, com muito mais convicção do que realmente tinha. - Acabou de ver em primeira mão como esta doença dilacerou esta família. Parece-me que um júri também vai ver isso.
Reuni as minhas notas, agarrei na pasta e dirigi-me para o fundo do corredor de cabeça erguida, como se realmente acreditasse no que tinha dito. E só quando estava sozinha no elevador e as portas se fecharam atrás de mim, é que fechei os olhos e admiti que Guy Brooker tinha razão.
O meu telemóvel começou a tocar.
- Merda - murmurei, limpando os olhos e enfiando a mão na pasta para atender. Não que quisesse fazê-lo; ou era Charlotte a pedir desculpa pelo que devia ser o maior fiasco da minha carreira até ao momento, ou Robert Ramirez a despedir-me porque as más notícias espalham-se depressa. Mas não havia nenhum número a piscar no ecrã; era um número privado. Pigarreei.
- Estou a falar com Marin Gates?
196
- É a própria.
As portas do elevador abriram-se. Ao fundo da entrada vi Charlotte tentar convencer Sean, que abanava a cabeça.
Por um instante quase esqueci que ainda estava a falar ao telefone.
- Fala Maisie Donovan - disse uma voz débil. - Sou secretária
de...
- Eu sei quem é a senhora - disse muito depressa.
- Sr.a Gates - respondeu - tenho aqui a morada actual da sua mãe biológica.
197
Amélia
Estava à espera que rebentasse a bomba. A melhor parte daquele estúpido processo legal era ter sido instaurado mesmo quando as aulas estavam a começar - quando saber
quem andava com quem era muito mais interessante do que uma batalha legal qualquer, por isso a notícia não se tinha espalhado pelos corredores como electricidade
através de um condutor. As aulas já tinham começado há dois meses, estávamos a estudar vocabulário e a assistir a reuniões sobre assuntos entediantes, com pessoas
entediantes e a fazer os testes de avaliação e, todos os dias, quando tocava a campainha pela última vez, ficava maravilhada com o facto de ter escapado mais uma
vez.
Nem será preciso dizer que Emma e eu já não andamos juntas. No primeiro dia de aulas, encostei-a à parede quando íamos para o ginásio.
- Não sei o que os meus pais andam a fazer - disse. - Sempre disse que eles eram extraterrestres e isto vem prová-lo. - Normalmente, isso teria feito Emma rir, mas, em vez disso, limitou-se a abanar a cabeça.
- Pois, isso é mesmo muito engraçado, Amélia - disse ela. - Lembra-me de dizer piadas da próxima vez que alguém em quem tu confies te lixe.
Depois disso, fiquei demasiado envergonhada para lhe dirigir a palavra. Mesmo que lhe dissesse que estava do seu lado e que achava ridículo que os meus pais estivessem a processar a mãe dela, porque haveria ela de acreditar? Se estivesse no seu lugar; presumiria que andava a espiar e que qualquer coisa que dissesse podia ser usada contra mim. Não contava às pessoas o que tinha acontecido entre nós - afinal, isso também a envergonharia - por isso achei que devia dizer apenas que tínhamos tido uma enorme discussão. E foi isto que fiquei a saber por manter-me afastada de Emma: que as pessoas que sempre achara que eram minhas amigas, na realidade eram amigas dela, e que se limitavam a tolerar a minha
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presença. Não posso dizer que tivesse ficado surpreendida ao descobrir isso, mas não quer dizer que não tivesse ficado magoada quando passava de tabuleiro na mão
à hora de almoço pela mesa onde estavam todas sentadas sem que nenhuma delas arranjasse espaço para mim. Ou quando tirava a minha sandes de manteiga de amendoim
e geleia que, como habitualmente, ficava esmagada pelo livro de matemática no cacifo e a geleia escorria como sangue a empapar a roupa de uma vítima, sem que Emma dissesse, "Toma, come metade da minha sandes de atum."
Passadas algumas semanas, quase me tinha habituado a ser invisível. Por acaso, tornei-me bastante hábil nisso. Ficava sentada na sala de aulas tão quieta que, às vezes, as moscas pousavam-me nas mãos; sentava-me na parte de trás do autocarro, afundando-me tanto no assento que, um dia, o motorista regressou novamente à escola sem sequer se dar ao trabalho de parar na minha paragem. Mas uma manhã, entrei na sala de estudo e imediatamente soube que alguma coisa estava diferente. A mãe de Janet Effingham era recepcionista num escritório de advocacia e contou a toda a gente que os meus pais tinham tido uma discussão acesa numa sala de reuniões durante um depoimento. Toda a gente na escola sabia que a minha mãe ia processar a mãe da Emma.
Achei que isto ia voltar a colocar-nos às duas no mesmo barco patético e miserável, mas tinha-me esquecido de que a melhor defesa é um bom ataque. Estava sentada na aula de matemática, que para mim era a mais difícil porque a minha cadeira estava atrás da da Emma e costumávamos trocar bilhetinhos ("O professor Funke não está mais giro agora que está em processo de divórcio? A Verónica Thomas fez implantes de silicone durante o fim-de-semana prolongado do Dia de Colombo, ou quê?"), quando Emma decidiu tornar o assunto público - angariando a simpatia de toda a gente na escola.
O professor Funke tinha um acetato no ecrã.
- Então se estivermos a referir-nos a vinte por cento dos ganhos do Marvin Milionário, e ele tiver ganho seis milhões de dólares este ano, qual é a pensão que terá de pagar à Vanda Vencedora?
Foi nessa altura que Emma disse:
- Pergunte à Amélia. Ela sabe tudo sobre como ser uma caçadora de fortunas.
Seja como for, o professor Funke parecia não ter ouvido o comentário - embora o resto da turma tivesse começado a rir e eu sentisse as faces arderem.
-Talvez ajudasse se a idiota da tua mãe aprendesse a fazer o estúpido trabalho dela - ripostei.
- Amélia - disse o professor Funke secamente. -Vai ao gabinete da directora Greenhaus.
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Levantei-me e agarrei na minha mochila - mas a bolsa da frente onde guardava os lápis e o dinheiro do almoço ainda estava aberta e uma chuva de moedas de vinte e cinco e dez cêntimos espalhou-se pelo chão em frente da minha secretária. Quase me ajoelhei para apanhá-las, mas depois achei que toda a gente acharia isso ainda mais hilariante - a filha de uma caçadora de fortunas a apanhar moedas? - e em vez disso limitei-me a deixar as moedas para trás e a sair a correr.
Não tinha intenções de ir ao gabinete da directora. Em vez disso, virei à direita quando devia ter virado à esquerda e dirigi-me para o ginásio. Durante o dia, os
professores de educação física deixavam a porta dupla aberta para ventilação. Entrei em pânico por um instante, por um professor poder ver-me a sair da escola, depois lembrei-me de que ninguém reparava em mim. Não era suficientemente importante.
Lá fora, coloquei a mochila às costas, e comecei a correr. Corri pelo campo de futebol e pelas árvores que ladeavam o bairro mais próximo da escola. Corri até chegar
à estrada principal que atravessava a cidade e então finalmente abrandei.
A loja de conveniência CVS era o último edifício por que se passava quando se saía da cidade e não pensem que isso não me ocorreu. Deambulei pelos corredores. Enfiei uma barra de Snickers no bolso. E depois vi uma coisa ainda melhor.
O único problema em ser invisível na escola é que, quando chegava a casa, ainda conseguia ver-me. Podia correr muito depressa que não conseguiria escapar a isso.
Os meus pais pareciam não querer as filhas que tinham. Então talvez lhes mostrasse uma filha completamente diferente.
200
Charlotte
- Hoje de manhã estive num site - argumentei - e soube que uma rapariga do Tipo III partiu o pulso ao tentar levantar dois litros de leite, Sean. Como podes dizer
que a Willow não vai precisar de cuidados especiais ou de ajuda? E de onde virá esse dinheiro?
- Então passa a comprar dois pacotes de leite de um litro disse Sean. Sempre dissemos que não íamos deixá-la definir-se a si própria pelas suas incapacidades: mas aqui estás tu, a fazer precisamente isso.
- Os fins justificam os meios. Sean virou para a nossa casa.
- Pois. Diz isso ao Hitler - desligou o motor; lá atrás ouvia o som suave do teu ressonar; o que quer que fosse que tivesses feito na escola naquele dia deixara-te completamente esgotada. - Não te reconheço - disse ele num tom suave. - Não compreendo a pessoa que está a fazer isto.
Tentei acalmá-lo depois do depoimento no escritório do advogado de Piper - o depoimento que não chegara realmente a acontecer - mas ele não estava disposto a isso.
- Dizes que farias qualquer coisa pela Willow, mas se não consegues fazer isto, então estás a mentir a ti próprio - disse eu.
- Eu estou a mentir - repetiu Sean. - Eu estou a mentir? Tu é que estás a mentir! Ou pelo menos dizes que estás e que a Willow vai compreender que, quando disseres todas aquelas coisas horríveis em frente ao juiz, ora bem, nunca estiveste a falar a sério. Ou pelo menos espero sinceramente que estejas a mentir porque senão andaste a mentir-me todos estes anos quando dizias que querias ficar com o bebé.
201
Saímos ambos do carro; fechei a porta com mais força do que era preciso.
- É tão conveniente armares-te em superior quando vives no passado, não é? E daqui a dez anos? Estás a dizer-me que quando a Willow tiver uma cadeira de rodas topo de gama e estiver inscrita num campo de férias para Pessoas com Baixa Estatura, quando tiver uma piscina no quintal para poder fortalecer a massa óssea e os músculos e um carro adaptado para poder conduzir como os outros jovens da sua idade, quando não fizer diferença que a companhia de seguros se recuse a pagar outro conjunto de suportes porque sempre podemos pagá-los do nosso bolso sem teres de fazer turnos extra: estás a dizer que ela vai lembrar-se do que foi dito numa sala de audiências quando ainda era criança?
Sean ficou a olhar para mim.
- Sim. Por acaso estou.
Recuei um passo, afastando-me dele.
- Amo-a demasiado para perder esta oportunidade.
- Então tu e eu - disse Sean - temos maneiras muito diferentes de mostrar amor.
Debruçou-se sobre o assento de trás e soltou o cinto da cadeirinha. Tinhas o rosto afogueado; emergias lentamente dos teus sonhos.
- Estou fora disto, Charlotte - disse Sean simplesmente enquanto te levava ao colo para casa. - Faz o que tiveres de fazer, mas não me arrastes contigo para o fundo.
Não era a primeira vez que pensava que, noutras circunstâncias, uma discussão como aquela levar-me-ia directamente a falar com Piper. Ter-lhe-ia telefonado para
contar a minha versão da história e não a de Sean. Sentir-me-ia melhor ao saber que ela me tinha ouvido.
E teria feito o que aprendi contigo: deixar que o tempo cure a fractura que surgira entre o teu pai e eu, uma fractura que doía sempre, independentemente do lado para que se virasse.
- Mas que raio? - perguntou Sean, olhei para cima e vi Amélia de pé no corredor.
Estava a comer uma maçã e tinha os cabelos pintados de um azul eléctrico artificial. Sorriu-me com desdém.
- Radical - disse ela. Ficaste a olhar para ela.
- Porque é que a Amélia tem algodão doce no cabelo? Respirei fundo.
202
- Agora não posso lidar com isto - disse eu - não posso. E subi as escadas como se cada degrau fosse feito de vidro.
Durante as últimas oito semanas de gravidez, todas as manhãs havia três segundos que eram perfeitos. Flutuava até à superfície da consciência e, durante esses fugazes momentos de felicidade, esquecia-me de tudo. Sentia o teu movimento lento, o tamborilar dos teus pontapés e pensava que tudo ia correr bem.
A realidade fechava-se sempre sobre mim como uma cortina: aquele pontapé podia ter provocado uma nova fractura na tua perna. Aquela volta que deste dentro de mim podia ter-te magoado. Ficava deitada muito quieta na almofada a pensar se morrerias durante o parto, ou momentos a seguir. Ou se teríamos a sorte de ganhar a lotaria: sobreviverias e ficarias gravemente incapacitada. Era uma grande ironia, pensei, que os teus ossos se partissem e o meu coração também.
Uma vez, tive um pesadelo. Tinha dado à luz e ninguém falava comigo, ninguém me dizia o que estava a acontecer. Em vez disso, a obstetra, a anestesista e as enfermeiras viravam-me todas
as costas.
- Onde está o meu bebé? - perguntava, e até mesmo Sean abanava a cabeça e afastava-se. Esforçava-me para me sentar para poder ver entre as pernas e olhar para ele: o que devia ser um bebé era apenas um monte de vidros estilhaçados; entre os estilhaços via as tuas unhas minúsculas, o cérebro, uma orelha, uma curva do intestino.
Acordei a gritar; demorei horas a voltar a adormecer. Naquela manhã, quando Sean me acordou, disse que não era capaz de me levantar da cama. E estava a falar a sério: estava certa de que o próprio acto de viver, para mim, seria uma ameaça à tua sobrevivência. A cada passo que dava podias sofrer um impacto; por outro lado, com cuidado, podia impedir que te partisses.
Sean telefonou a Piper, que foi lá a casa e falou-me na logística da gravidez como a descreveria a uma criança pequena: o saco amniótico, o fluído, a protecção entre o meu corpo e o teu. Sabia isso tudo, claro, mas por outro lado, também achava que sabia outras coisas que afinal estavam erradas: que os ossos ficavam cada vez mais fortes, e não mais fracos; que um feto que não sofresse de síndroma de Down era saudável. Ela disse a Sean que talvez eu precisasse de um dia a dormir para que me passasse, que mais tarde viria ver como eu estava. Mas Sean ainda estava preocupado e, depois de ter telefonado para o trabalho a dizer que estava doente, telefonou ao nosso padre.
203
Ao que parece, o padre Grady fazia visitas ao domicílio. Sentou-se numa cadeira que Sean trouxera para o quarto.
- Ouvi dizer que está um pouco preocupada.
- Isso é um eufemismo - disse eu.
- Deus não dá às pessoas fardos que elas não consigam carregar - fez notar o padre Grady.
Isso era muito bonito de dizer, mas que tinha feito o meu bebé para irritá-Lo? Porque teria de passar pela provação de sofrer mesmo antes de vir a este mundo?
- Sempre acreditei que Ele guarda os bebés mesmo especiais para os pais em que confia - disse o padre Grady.
- O meu bebé pode morrer - disse secamente.
- O seu bebé pode não ficar neste mundo - corrigiu ele. - Em vez disso poderá ficar com Jesus.
Senti lágrimas nos olhos.
- Ora bem, Ele que leve o bebé de outra pessoa qualquer.
- Charlotte! - disse Sean.
O padre Grady olhou para mim com grandes olhos calorosos.
- O Sean achou que podia ajudar se eu benzesse o bebé. Importa-se? - levantou a mão, deixando-a a pairar sobre o meu abdómen.
Acenei com a cabeça; não ia recusar uma bênção. Mas enquanto ele rezava por cima da colina da minha barriga, rezei a minha oração em silêncio: Deixai-me ficar com
ela e podeis ficar com tudo o resto que é meu.
Deixou-me uma pagela na mesa-de-cabeceira e prometeu rezar por nós. Sean acompanhou-o até lá abaixo e eu fiquei a olhar para a pagela. Jesus estava pregado ao crucifixo.
Ele sofreu dores, apercebi-me. Sabia como era sentir um prego perfurar a pele, estilhaçar o osso.
Passados vinte minutos, depois de ter-me vestido e tomado um duche, encontrei Sean sentado à mesa da cozinha com a cabeça apoiada nas mãos. Parecia tão abatido,
tão indefeso. Estava tão ocupada a preocupar-me comigo própria, que não tinha percebido como ele estava a sofrer. Imaginem como será fazer carreira a proteger as
outras pessoas e depois não ser capaz de salvar a própria filha.
- Estás levantada - afirmou o óbvio.
- Pensei em ir dar um passeio.
- Óptimo. Ar fresco. vou contigo - levantou-se demasiado depressa, abanando a mesa.
- Sabes - disse eu, tentando sorrir - preciso de estar sozinha.
204
- Oh... está bem, não há problema - disse, mas parecia um pouco magoado. Não conseguia perceber aquela situação: estávamos juntos na confusão mais inextricável,
mais sufocante; como podíamos sentir-nos tão distantes um do outro?
Sean presumiu que eu quisesse desanuviar a cabeça, pensar, reflectir. Mas a visita do padre Grady tinha-me feito pensar numa mulher que deixara de ir à igreja há
um ano. Vivia ao fundo da rua, a seiscentos metros, e de vez em quando via-a pôr o lixo cá fora. Chamava-se Annie, e só sabia que tinha estado grávida, que um dia deixou de estar, e que depois disso nunca mais voltou a ir à missa. Dizia-se que tinha feito um aborto.
Tinha sido criada como católica. Fui ensinada por freiras. Havia raparigas que engravidaram, mas, ou desapareciam da lista de nomes da turma ou iam para fora durante um semestre, regressando mais caladas e nervosas. Mas, apesar disso, voto nos Democratas desde os dezoito anos. Pode não ser a minha escolha pessoal, mas acho que as mulheres devem poder escolher.
No entanto, ultimamente, interrogava-me se esta minha escolha pessoal seria por ser católica ou simplesmente porque nunca fora obrigada a fazê-la na prática, só em teoria.
A casa de Annie era amarela, com decorações de conto de fadas e jardins cheios de lírios de São José no Verão. Dirigi-me à porta de entrada e bati, pensando no que lhe diria se atendesse. "Olá, sou a Charlotte. Por que razão fez aquilo?"
Fiquei aliviada quando ninguém atendeu; parecia-me cada vez mais uma ideia estúpida. Tinha começado a descer a via de acesso quando de repente ouvi uma voz atrás de mim.
- Oh, olá. Achei que tinha ouvido alguém no alpendre. Annie estava de calças de ganga, blusa vermelha sem mangas e luvas de jardinagem. Tinha os cabelos presos num nó na nuca, e sorria. - Vive ao cimo da rua, não vive?
Olhei para ela.
- O meu bebé tem um problema - desabafei.
Cruzou os braços por cima do peito e o sorriso desapareceu-lhe do rosto.
- Lamento - disse, rigidamente.
- Os médicos disseram-me que se sobreviver, se, será tão doente! Tão, tão doente! E eu não devo pensar nisso, mas não sei porque há-de ser pecado amar uma pessoa
e querer impedir que ela sofra - limpei o rosto com a manga. - Não posso dizer nada ao meu marido. Nem sequer posso dizer-lhe que pensei nisto.
Ela levantou a terra com o sapato de ténis.
205
- A minha bebé teria hoje dois anos, seis meses e quatro dias de idade - disse ela. - Ela tinha um problema, um problema genético. Se tivesse sobrevivido seria deficiente mental profunda. Como um bebé de seis meses, para sempre - respirou fundo. - Foi a minha mãe que me convenceu. Disse-me: "Annie, mal consegues tomar conta de ti própria. Como vais tomar conta de um bebé assim? És jovem. Vais ter outro." Por isso cedi e o médico fez o aborto às vinte e duas semanas - Annie desviou o rosto, de olhos brilhantes. - Mas o que ninguém nos diz - continuou ela - é que quando damos à luz um feto, recebemos uma certidão de óbito, mas não recebemos uma certidão de nascimento. E depois surge o leite e não podemos fazer nada para impedi-lo - olhou para mim.
- Não é possível ganhar. Ou temos o bebé e envergamos o nosso sofrimento exteriormente, ou não temos o bebé e mantemo-lo dentro de nós para sempre. Sei que o que fiz não foi errado. Mas também não me parece que tivesse sido certo.
Apercebi-me de que há legiões de mulheres como nós. As mães de bebés dilacerados, que passam o resto da vida a pensar se não deviam tê-los poupado. E as mães que abdicaram dos seus bebés, que olham para os nossos filhos e vêem os rostos daqueles que nunca chegaram a conhecer.
- Eles deixaram-me escolher - disse Annie - e, mesmo hoje, quem me dera que não o tivessem feito.
206
Amélia
Naquela noite deixei-te escovar o meu cabelo e pôr-lhe elásticos em todo o lado. Normalmente fazias uns nós enormes e aborrecias-me, mas adoravas fazer isto - tinhas os braços demasiado curtos para poderes sequer fazer um rabo-de-cavalo, por isso, enquanto as meninas da tua idade faziam penteados, punham fitas e faziam tranças, tu estavas à mercê da Mãe, cuja experiência em tranças se limitava às tranças doces. Não penses que de repente desenvolvi uma consciência ou qualquer coisa assim - só que me sentia mal por causa de ti. A mãe e o pai tinham estado aos gritos a falar de ti como se não estivesses em casa desde que tinham chegado. Quero dizer; a maioria das vezes tens um vocabulário melhor do que o meu - por amor de Deus, era impossível que achassem que não ias perceber tudo.
- Amélia? - chamaste, agarrando numa trança que estava pendurada mesmo por cima do meu nariz. - Gosto do teu cabelo desta cor.
Examinei-me ao espelho. Não parecia uma miúda punk cheia de estilo, apesar das minhas melhores intenções. Parecia mais o Gualter da Rua Sésamo.
- Amélia? A mãe e o pai vão divorciar-se? Cruzei o olhar com o teu no espelho.
- Não sei.Wílls.
Já estava à espera da pergunta seguinte.
- Amélia? - perguntaste. - A culpa é minha?
- Não - disse ferozmente. - A sério. -Tirei os ganchos e os elásticos do cabelo e comecei a desembaraçar os nós. - Pronto, já chega. Não tenho jeito para ser modelo. Vai para a cama.
Toda a gente se esquecera de vir aconchegar-te na cama naquela noite - embora eu já estivesse à espera disso, com o nível patético de cuidados parentais a que andava
a assistir ultimamente. Subiste para a cama
207
pela parte aberta - ainda tinha grades de cada lado do colchão, que detestavas, porque dizias que eram para bebés, mesmo que te mantivessem em segurança. Debrucei-me
e aconcheguei-te. Até te beijei na testa desajeitadamente.
- Boa noite - disse eu, e enfiei-me debaixo dos cobertores, desligando a luz.
Às vezes, no escuro, a casa parecia que tinha um coração. Ouvia-o bater, uaa uaa uaa, nos meus ouvidos. Naquela altura estava ainda mais alto. Talvez o meu cabelo
fosse uma espécie de supercondutor.
- Sabes o que a mãe costuma dizer, que posso ser o que quiser quando for grande? - sussurraste. - É mentira.
Apoiei-me num cotovelo.
- Porquê?
- Não posso ser um rapaz - disseste. Sorri.
- Pergunta isso à mãe um dia destes. ,
- E não posso ser a Miss América.
- Porquê? , ;:
- Não podemos usar suportes para as pernas num concurso de beleza - disseste.
Lembrei-me daqueles concursos com raparigas demasiado bonitas para serem reais, altas e magras, com uma perfeição plástica. E depois pensei em ti, baixa, atarracada e torta, como uma raiz a sair do tronco de uma árvore, com uma faixa colocada sobre o peito.
MISS COMPREENSÃO.
MISS INFORMADA.
MISS ERRO.
Isso fez o meu estômago doer
- Dorme - disse eu, num tom mais áspero do que desejava, e contei até 1036 antes de começares a ressonar
Lá em baixo, fui em bicos de pés até à cozinha e abri o frigorífico. Não havia comida absolutamente nenhuma naquela casa. Provavelmente teria de comer sopa de massa ao pequeno-almoço. Sinceramente, estava a chegar ao ponto em que se os meus pais não fossem à mercearia, poderiam ser castigados por maus tratos infantis.
Isso não era novidade,
Procurei no compartimento das frutas e encontrei um limão fossilizado e um pedaço de gengibre.
Fechei a porta do frigorífico e ouvi um gemido.
Aterrorizada - as pessoas invadiam casas para violarem raparigas de cabelos azuis? - dirigi-me sorrateiramente para a porta da cozinha e olhei para a sala. Enquanto os meus olhos voltavam a adaptar-se à escuridão, vi: a
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colcha pendurada nas costas do sofá e a almofada que o pai colocara por cima da cabeça ao virar-se.
Senti a mesma dor no estômago que senti quando estavas a falar sobre as rainhas da beleza. Voltando à cozinha, silenciosa como a neve, passei os dedos pela bancada
até se cerrarem sobre o cabo de uma faca de trinchar. Levei-a comigo lá para cima, para a casa de banho.
O primeiro corte ardeu. Observei o sangue a emergir como uma maré e a escorrer-me pelo cotovelo. Merda, o que fui eu fazer? Abri a torneira da água fria, colocando
o braço lá debaixo até o sangue abrandar
Depois fiz outro corte paralelo.
Não estavam nos pulsos, não acho que estivesse a tentar suicidar-me. Só queria sofrer e saber precisamente por que razão me doía. Aquilo fazia sentido: cortamo-nos,
sentimos dor; ponto final. Senti tudo a acumular-se dentro de mim como vapor e estava apenas a soltar uma válvula. Fez-me lembrar a minha mãe, quando fazia bases
para tartes. Fazia buraquinhos por todo o lado. "Para poder respirar", dizia ela.
Eu estava só a respirar.
Fechei os olhos, antecipando cada corte fino, sentindo aquela vaga de alívio quando estava terminado. Meu Deus, era tão bom - aquela acumulação, e o doce alívio.
Teria de esconder aquelas marcas, porque preferia morrer a deixar alguém ver que tinha feito aquilo. Mas também estava orgulhosa de mim própria, um pouco. As raparigas
doidas faziam-no - as que escreviam poesia sobre os seus órgãos serem preenchidos com alcatrão e que usavam tanto eyeliner preto que pareciam egípcias - e não
raparigas bem-comportadas de boas famílias. Isso também queria dizer que ou eu não era uma rapariga bem-comportada, ou que não vinha de boas famílias.
É só escolher.
Abri o reservatório do autoclismo e enfiei a faca lá dentro.Talvez voltasse a precisar dela.
Fiquei a olhar para os cortes, que agora estavam a latejar tal como o resto da casa, uaa uaa uaa. Pareciam os carris de uma linha de caminho de ferro. Como um escadote,
daqueles que existem nos palcos. Imaginei um desfile de pessoas feias como eu, nós as rainhas da beleza que não éramos capazes de andar sem suportes. Fechei os olhos e imaginei aonde conduziriam esses degraus.
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"Não há dúvida de que nesta terra abundante Quase não há lugar para as coisas gastas: Desdenhamo-las, quebramo-las, deitamo-las fora! E se antes de os dias se terem tornado difíceis Outrora fomos amados, usados - está certo, Acho que nos afastámos, o meu coração e eu."
- ELIZABETH BARRETT BROWNING, "MY HEART AND I"
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Ponto de rebuçado: um dos pontos do açúcar para a preparação de doces, que ocorre de 120?C a 130?C.
Os nougats, os marshmallows, os rebuçados, as gomas - todos são cozinhados em ponto de rebuçado, quando a concentração de açúcar é muito elevada e o xarope
forma fios grossos ao escorrer da colher. (Cuidado. O açúcar continua a queimar muito depois de entrar em contacto com a pele; é fácil esquecer que uma coisa tão doce
possa deixar uma cicatriz.) Para testar a solução, deixar cair um pouco em água fria. Está pronto quando formar uma bola rija que não se achate quando é retirada,
mas cuja forma ainda consiga ser alterada aplicando uma pressão considerável.
O que, claro, nos leva à definição mais coloquial de ponto de rebuçado'4 diz-se que uma pessoa está em ponto de rebuçado quando está pronta a aceitar ser moldada
à vontade de outros; também significa o ponto mais quente de uma discussão.
DIVINITY
2 chávenas de açúcar
2 chávena de xarope de milho '/ chávena de água Pitada de sal
3 claras grandes
1 colher de chá de baunilha
0,2 chávena de nozes pecas picadas
meia chávena de cerejas, mirtilos ou arandos secos.
Sempre achei interessante que um doce com um nome como DivinityH seja feito com tanta brutalidade.
Numa frigideira de dois litros, misturar o açúcar, o xarope de milho, a água e o sal. Usando um termómetro de cozinha, aquecer até ao ponto de rebuçado, mexendo
apenas até o açúcar estar
14. Harclhall, na versão original em inglês, não tem exactamente o mesmo significado de ponto de rebuçado em português. (N. da T.)
15. Divindade. (N. da T.)
213
dissolvido. Entretanto, bater as claras em castelo. Quando o xarope atingir os 130?C, adicionar gradualmente às claras batendo em alta velocidade numa batedeira
eléctrica. Continuar a bater até o doce tomar forma - cerca de 5 minutos. Juntar a baunilha, as nozes e as frutas secas. Deixar cair rapidamente o doce de uma colher
de chá para papel vegetal, terminando cada um com uma espiral, e deixar arrefecer à temperatura ambiente.
Ponto de rebuçado, bater, bater novamente. Talvez este doce devesse chamar-se Submissão.
214
Charlotte
Janeiro de 2008
Tinha começado por ser uma mancha com a forma de uma raia no tecto da sala de jantar - uma mancha de humidade, uma indicação de que havia algum problema nos canos da casa de banho lá de cima. Mas a mancha de humidade alastrou-se até já não se parecer com uma raia mas com uma maré inteira, e metade do tecto parecer ter sido mergulhado em folhas de chá. O canalizador andou a ver debaixo dos lavatórios e debaixo da banheira durante cerca de uma hora e só depois apareceu na cozinha, onde eu estava a fazer molho para esparguete.
- Ácido - anunciou.
- Não... é só molho de tomate.
- Nos canos - disse ele. - Não sei o que anda a deitar ali, mas está a corroê-los.
- A única coisa que andamos a deitar é o que toda a gente deita. As miúdas não andam propriamente a fazer experiências químicas no duche.
O canalizador encolheu os ombros.
- Posso substituir os canos, mas se não solucionar o problema, vai voltar a acontecer.
Só a visita dele já estava a custar-me 350 dólares, pelos meus cálculos - mal podíamos pagá-la, quanto mais uma segunda visita.
- Está bem.
Seriam mais trinta dólares pela tinta para pintar o tecto e isso era se fôssemos nós a pintá-lo. E ali estávamos nós a comer massa pela terceira vez naquela semana porque era mais barato do que carne, porque tinhas precisado de comprar sapatos novos. Estávamos realmente sem dinheiro.
Eram quase seis horas - a hora a que Sean normalmente chegava a casa. Já se tinham passado cerca de três meses desde o seu
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depoimento desastroso, embora, a avaliar pelas nossas conversas, parecesse que nunca tinha chegado a realizar-se. Falávamos sobre o que o comandante da polícia tinha
dito a um jornal local sobre um acto de vandalismo no liceu, sobre se Sean devia fazer o exame para ser detective. Falávamos sobre Amélia, que dias antes tinha entrado
em greve de palavras e insistia em fazer mímica. Falávamos sobre como, naquele dia, tinhas dado a volta ao quarteirão sem que fosse preciso ir buscar a cadeira por
as tuas pernas não estarem a ceder.
Não falávamos sobre este processo legal.
Eu cresci numa família em que, se não se discutisse uma crise, ela não existia. A minha mãe já estava doente com cancro da mama há meses quando eu percebi, e então
já era tarde de mais. O meu pai perdeu três empregos durante a minha infância, mas isso não era assunto de conversa - um dia voltava a vestir um fato e a dirigir-se
para um escritório novo, como se não tivesse havido nenhuma interrupção na rotina. O confessionário era o único sítio a que devíamos recorrer, com os nossos medos
e preocupações; Deus dava-nos o único conforto de que precisávamos.
Jurei que, quando tivesse a minha família, as cartas estariam todas na mesa. Não teríamos objectivos ocultos, segredos ou óculos cor-de-rosa que nos impedissem de
ver todos os nós e sinuosidades dos problemas de uma família vulgar. Mas esqueci-me de um elemento fundamental: as pessoas que não falavam sobre os seus problemas
podiam fingir que não tinham nenhuns. Por outro lado, as pessoas que discutiam o que estava mal, brigavam, sofriam e sentiam-se miseráveis.
- Meninas - gritei. - Jantar!
Ouvi o ruído distante dos teus pés a moverem-se ao longo do corredor lá em cima. Hesitavas - um pé num degrau e depois o outro - enquanto Amélia quase entrou na
cozinha a patinar.
- Oh, meu Deus - gemeu ela. - Outra vez esparguete?
Para ser honesta, não tinha propriamente aberto um pacote de Prince. Fiz a massa, tendia-a, cortei-a às tiras.
- Não, desta vez é fettuccine - disse eu, imperturbável. - Podes pôr a mesa.
Amélia enfiou a cabeça no frigorífico.
- Notícia de última hora, não há sumo.
- Esta semana bebemos água. Faz-nos melhor.
- E é mais barata, convenientemente. Fazemos assim. Tiras vinte dólares do meu fundo universitário e esbanjamo-los em panados de frango.
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- Humm, que é isto? - disse eu, olhando em volta de sobrolho franzido. - Oh, é verdade. Sou eu que não estou a rir-me.
Ao ouvir isto, Amélia esboçou um sorriso.
- Amanhã é melhor arranjarmos algumas proteínas.
- Lembra-me de comprar um pouco de tofu.
- Que nojo - colocou alguns pratos em cima da mesa. - Então lembra-me que tenho de suicidar-me antes de jantar.
Entraste na cozinha e subiste para a tua cadeirinha. Não a chamávamos de cadeirinha - tinhas quase seis anos e eras rápida a fazer notar que eras uma menina crescida - mas não chegavas à mesa sem ter algo que te elevasse; eras simplesmente demasiado pequena.
- Para cozer quinhentos milhões de quilos de massa é preciso água suficiente para encher setenta e cinco mil piscinas disseste.
Amélia sentou-se na cadeira ao teu lado, afundando-se nela.
- Para comer quinhentos milhões de quilos de massa, só temos de pertencer à família O'Keefe.
- Se continuarem a queixar-se, talvez faça um prato gourmet amanhã à noite... como lulas. Ou haggis. Ou mioleira. São proteínas, Amélia...
- Há muito tempo, havia um homem, Sawney Beane, na Escócia, que comia pessoas - disseste. - Para aí umas mil.
- Bem, felizmente não estamos assim tão desesperados.
- Mas se estivéssemos - disseste, de olhos radiantes - eu nem teria ossos.
- Muito bem, já chega - coloquei-te uma dose de massa fumegante no prato. - Bon appetit.
Olhei para o relógio; eram 18h10.
- Então e o pai? - disse Amélia, lendo os meus pensamentos.
- Vamos esperar por ele. Tenho a certeza de que deve estar a chegar.
Mas passados cinco minutos, Sean ainda não tinha chegado. Estavas a remexer-te no assento e Amélia estava a brincar com o monte de massa coagulada que tinha no prato.
- A única coisa mais nojenta do que massa, é massa gelada resmungou ela.
- Comam - disse eu, e tu e a tua irmã lançaram-se sobre o jantar como dois falcões.
Olhei para o meu prato, já sem fome. Passados alguns minutos, vocês levaram os vossos pratos para o lava-loiça. O canalizador desceu as escadas para dizer que tinha acabado e deixou-me
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uma conta em cima da bancada da cozinha. O telefone tocou duas vezes, e uma de vocês atendeu.
Às sete e meia, telefonei para o telemóvel de Sean, que passou imediatamente para o gravador de chamadas.
Às oito, deitei o conteúdo do meu prato para o caixote do lixo.
Às oito e meia, fui aconchegar-te à cama.
Às oito e quarenta e cinco, telefonei para a central, para a linha que não era das emergências.
- Fala Charlotte O'Keefe - disse eu. - Sabe dizer-me se o Sean está a fazer outro turno hoje à noite?
- Ele saiu por volta das dezoito e quarenta e cinco - disse a operadora da central.
- Oh, sim, claro - respondi de ânimo leve, como se já soubesse, porque não queria que ela pensasse que eu era daquele tipo de mulheres que não faz ideia de onde
anda o marido.
Às 23:06, estava sentada às escuras no sofá da nossa sala, a pensar se ainda poderia chamar-se nossa sala quando a nossa família se está a separar, quando a porta
de entrada se abriu suavemente. Sean entrou no vestíbulo em bicos de pés e eu liguei o candeeiro que estava ao meu lado.
- Uau - disse eu. - O trânsito devia estar mesmo horrível, - Ele ficou petrificado.
- Estás acordada.
- Esperámos por ti para jantar. O teu prato ainda está na mesa, se te apetecer fettuccine fossilizado.
- Fui ao O'Boys com alguns dos rapazes depois de ter terminado o turno. Ia telefonar...
Acabei-lhe a frase.
- Mas não querias falar comigo.
Então ele aproximou-se e eu senti o cheiro do aftershave. Alcaçuz e um ligeiro aroma a fumo. Era capaz de distinguir Sean no meio de uma multidão, de olhos vendados, com os meus outros sentidos. Mas a identificação não é o mesmo do que conhecer a fundo uma pessoa - o homem por quem nos apaixonámos há anos pode parecer o mesmo, dizer o mesmo, e ter o mesmo cheiro, mas ser completamente diferente.
Acho que Sean também podia dizer o mesmo de mim.
Sentou-se numa cadeira à minha frente.
- O que queres que te diga, Charlotte? Queres que minta e diga que estou ansioso por voltar para casa à noite?
- Não - engoli. - Quero... queria só que as coisas voltassem a ser como eram.
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- Então pára - disse ele num tom suave. - Larga aquilo que começaste.
As escolhas são curiosas - se perguntarem às pessoas de uma tribo nativa, que sempre comeram larvas e raízes, se são infelizes, encolherão os ombros. Mas dêem-lhes
filet mignon e molho de trufas e depois peçam-lhes para voltarem a viver do que a terra lhes oferece, e ficarão sempre a pensar naquela refeição requintada.
Se não
soubermos que existe uma alternativa, não sentimos falta dela. Marin Gates ofereceu-me um anel de bronze em que nunca teria pensado, nem nos meus sonhos mais loucos
- mas agora que o fizera, como poderia não tentar agarrá-lo? A cada fractura futura, a cada dólar que fazia aumentar a nossa dívida, pensaria em como devia tê-lo agarrado.
Sean abanou a cabeça.
- Bem me parecia.
- Estou a pensar no futuro da Willow...
- Bem, eu estou a pensar no presente. Ela está-se nas tintas para o dinheiro. Preocupa-se é se os pais gostam dela ou não. Mas não é isso que ela vai ouvir quando estiveres naquela maldita sala de audiências.
- Então diz-me tu, Sean, qual é a solução? Devemos ficar sentados na esperança de que a Willow deixe de sofrer fracturas? Ou que tu... - interrompi a frase bruscamente.
- Que eu o quê? Arranje um emprego melhor? Ganhe a merda da lotaria? Porque não o dizes de uma vez, Charlotte? Achas que não sou capaz de sustentar-vos a todas.
- Nunca disse isso...
- Não foi preciso dizeres. Percebi perfeitamente - disse ele. Sabes, costumavas dizer que eu te tinha salvo, a ti e à Amélia. Mas acho que, a longo prazo, desiludi-vos.
- Não és tu, Sean. É a nossa família.
- Que estás a destruir. Meu Deus, Charlotte, o que achas que as pessoas vêem quando olham para ti agora?
- Uma mãe - disse eu.
- Uma mártir- corrigiu Sean. - Nunca ninguém trata tão bem da Willow como tu. Não confias em mais ninguém. Não percebes como isso é perverso?
Senti um aperto na garganta.
- Ora bem, desculpa por não ser perfeita.
- Não - disse Sean. - Mas esperas que os outros sejam. Suspirando, aproximou-se da lareira onde estavam uma almofada e uma colcha cuidadosamente colocadas. - E, se me dás licença, estás sentada na minha cama.
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Consegui conter o soluço até chegar lá acima. Deitei-me do lado de Sean no colchão, tentando encontrar o sítio onde ele costumava dormir. Virei o rosto para a almofada, que cheirava ao champô dele. Embora tivesse mudado os lençóis da cama quando ele passara a dormir no sofá, não tinha lavado a fronha, de propósito - e agora interrogava-me porque não o fizera. Para fingir que ele ainda estava ali? Para ter alguma coisa dele se nunca mais voltasse?
No dia do nosso casamento, Sean disse-me que se colocaria diante de uma bala para me salvar. Sabia que ele queria que eu dissesse o mesmo, mas não podia. Amélia precisava que eu tomasse conta dela. Por outro lado, se aquela bala se dirigisse para a Amélia, não pensaria duas vezes antes de me atirar para a frente.
Isso tornava-me muito boa mãe, ou péssima esposa?
Mas isto não era uma bala e não foi disparada contra nós. Era um comboio que se aproximava e, para salvar a minha filha, tinha de lançar-me para os carris. Só havia um contratempo: a minha melhor amiga estava presa a mim.
Uma coisa é sacrificarmos a nossa vida pela de outra pessoa. Outra coisa completamente diferente é envolver uma terceira pessoa - uma terceira pessoa que nos conhece, que tem uma confiança cega em nós.
Parecia tão simples: um processo legal que reconhecia como a vida era difícil para nós e que melhoraria tanto as coisas. Mas, na minha pressa de ver os aspectos positivos, não reparei nos negativos: o facto de que acusar Piper e convencer Sean cortaria as minhas relações com eles. E agora era demasiado tarde. Mesmo que telefonasse a Marin e lhe dissesse para pôr termo a tudo, Piper não me perdoaria. Sean não deixaria de julgar-me.
Podemos dizer a nós próprios que estaríamos dispostos a perder tudo para ter uma coisa que desejamos. Mas é um paradoxo: todas essas coisas que estamos dispostos a perder são o que nos definem. Se as perdemos, perdemo-nos a nós próprios.
Durante um instante imaginei que descia as escadas em bicos de pés e me ajoelhava em frente de Sean para lhe pedir desculpa. Imaginei que lhe pedia para começarmos de novo. Depois olhei para cima e vi que a porta se entreabrira um pouco e o teu pequeno rosto triangular espreitava.
- Mamã - disseste, aproximando-te mais no teu passo desajeitado e a subir para a cama - tiveste algum pesadelo?
Aconchegaste-te, com as costas encostadas a mim.
- Tive, Wills. Tive sim.
- Precisas que fique aqui contigo?
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Envolvi-te nos meus braços, como um parêntese.
- Para sempre - disse.
O Natal tinha sido demasiado quente naquele ano, verde em vez de branco, a confirmação da Mãe Natureza de que a vida não estava como devia estar. Após duas semanas
de temperaturas a rondar os cinco graus, o Inverno regressou em força. Naquela noite, nevou. Acordámos com as gargantas secas e o calor a sair dos radiadores. Lá fora, o ar cheirava a fumo de lareira.
Sean já tinha saído quando desci as escadas às sete horas. Deixara uma pilha de roupa de cama bem dobrada na divisão de tratamento de roupas e uma caneca de café vazia no lava-loiça. Desceste as escadas, a esfregar os olhos.
- Tenho os pés frios - disseste.
- Então calça as pantufas. Onde está Amélia?
- Ainda está a dormir.
Era sábado; não havia nenhuma razão para acordá-la cedo. Observei-te a esfregares a anca, provavelmente nem sequer tinhas consciência de que estavas a fazê-lo. Tinhas de exercitar os músculos da pélvis, apesar de ainda te doerem por causa das fracturas dos fémures.
- Fazemos assim. Se fores buscar o jornal, podemos comer waffles ao pequeno-almoço.
Vi-te fazer cálculos mentais - a caixa do correio ficava a trezentos metros de casa, na via de acesso; estava um frio de rachar lá fora.
- com gelado?
- Morangos - negociei.
- Está bem
- Foste ao bengaleiro para vestir o casaco por cima do pijama, e eu ajudei-te a apertar os suportes antes de enfiares os pés em botas de cano baixo onde estes cabiam.
- Tem cuidado na via de acesso. - Apertaste o casaco. Willow? Estás a ouvir?
- Sim, ter cuidado - repetiste, abriste a porta de entrada e saíste lá para fora.
Fiquei à porta a observar-te por alguns instantes, até que te viraste para trás na via de acesso, de mãos nas ancas, e disseste:
- Não vou cair! Pára de olhar!
Por isso recuei e fechei a porta - mas, pela janela, segui-te por mais alguns momentos. Na cozinha, comecei a tirar os ingredientes do frigorífico e liguei a chapa para fazer waffles. Tirei a tigela de
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plástico de que gostavas tanto, por ser suficientemente leve para poderes pegar nela e verter o polme.
Dirigi-me novamente para o alpendre, à tua espera. Mas quando saí lá para tora, tinhas desaparecido. Tinha a visão total da via de acesso até à caixa do correio
e tu não estavas em lado nenhum. Em pânico, enfiei os pés num par de botas e corri pela via de acesso. A meio caminho, vi pegadas na neve, que ainda cobria a erva espetada, a dirigirem-se para o lago de patinagem.
- Willow! - gritei. - Willow!
Maldito Sean, que não enchera o lago de terra como lhe tinha pedido.
De repente, ali estavas tu, à beira dos juncos que bordejavam o gelo fino.
Tinhas um pé apoiado na superfície.
- Willow - disse numa voz suave, para não te assustar, mas quando te voltaste, a bota escorregou e inclinaste-te para a frente de mãos estendidas para amparar a queda.
Já estava a prever que isso ia acontecer. Já estava a prever e, por isso, já estava a aproximar-me quando te viraste para mim. Pus os pés no gelo, que ainda era demasiado recente e fino para aguentar qualquer peso, e senti a borda frisada estilhaçar-se debaixo do pé. A bota encheu-se de água gelada, mas consegui envolver-te nos braços, para impedir que caísses.
Fiquei encharcada até meio da coxa, e o teu corpo ficou pendurado do meu braço como uma saca de farinha, sem fôlego. Cambaleei para trás, tirando o pé do lodo e das ervas que cobriam o fundo do lago, e sentei-me pesadamente para amparar-te a queda.
- Estás bem? - arquejei. - Partiste alguma coisa? Fizeste uma rápida avaliação interna e abanaste a cabeça.
- Qual foi a tua ideia? Já devias saber...
- A Amélia pode andar no gelo - disseste, num fio de voz.
- Primeiro, não és a Amélia. E segundo, este gelo não está suficientemente forte.
Torceste-te.
- Como eu.
Virei-te delicadamente, para ficares sentada ao meu colo, com as pernas de cada lado das minhas. Uma aranha, era isso que as crianças lhe chamavam quando faziam o mesmo nos baloiços, apesar de nunca te deixarmos. Era muito fácil prenderes uma perna numa corrente ou ficar entrelaçada nos membros de uma amiga.
- Não é como tu - disse num tom firme. - Willow, és a pessoa mais forte que eu conheço.
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- Mas mesmo assim desejavas que eu não tivesse de usar uma cadeira de rodas. Ou estar sempre a ir para o hospital.
Sean insistira em que estivesses bem consciente do que se passava à tua volta; eu presumira, ingenuamente, que, depois da conversa que tínhamos tido há meses, se duvidasses das minhas palavras, essas dúvidas tivessem sido esclarecidas pelos meus actos. Mas estava preocupada com as coisas que me ouvirias dizer - e não com as mensagens que poderias ler nas entrelinhas.
- Lembras-te quando te disse que tinha de dizer coisas que não sentia? É isso, Willow - hesitei. - Imagina que estás na escola e uma amiga te pergunta se gostas dos ténis dela, e tu não gostas: achas que são absolutamente horrorosos. Não ias dizer-lhe que os detestas, pois não? Porque ela ficaria triste.
- Isso é mentir.
- Eu sei. E não se deve fazer, na maior parte das vezes, a menos que seja para evitar ferires os sentimentos de outra pessoa.
Ficaste a olhar para mim.
- Mas tu estás a ferir os meus sentimentos.
A faca que tinha cravada no estômago torceu-se.
- Não é essa a minha intenção.
- Então - disseste, reflectindo bastante - é como quando a Amélia joga ao Dia do Oposto?
Amélia tinha inventado esse jogo quando tinha mais ou menos a tua idade. Beligerante já nessa altura, recusava-se a fazer os trabalhos de casa, e depois desatava a rir quando lhe gritávamos, dizendo que era o Dia do Oposto e que já tinha acabado de fazê-los. Ou aterrorizava-te, chamava-te Miúda de Vidro, e quando vinhas ter connosco lavada em lágrimas, Amélia insistia que, no Dia do Oposto, isso queria dizer que eras uma princesa. Nunca fui capaz de perceber se Amélia inventou o Dia do Oposto por ter muita imaginação ou por ser subversiva.
Mas talvez fosse uma maneira de desenredar o emaranhado intricado que era a negligência médica no diagnóstico pré-natal, dourando uma mentira, como Rumpelstiltskin.
- Precisamente - disse eu. - Tal e qual o Dia do Oposto. Sorriste-me com um sorriso tão doce que senti o gelo
derreter-se à nossa volta.
- Então está bem - disseste. - Também desejava que tu não tivesses nascido.
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Quando Sean e eu começámos a namorar, deixava-lhe iguarias na caixa de correio. Biscoitos com a forma das iniciais dele, uma torta babka, pãezinhos doces com nozes,
peca cobertas de açúcar, nougat de amêndoas com cobertura de chocolate. Levei à letra o termo o amor é doce. Imaginava-o a meter a mão para tirar as contas e catálogos
e, em vez disso, tirar uma torta de geleia, um bolo de mel, cubos de caramelo.
- Vais continuar a amar-me depois de engordar quinze quilos? - perguntava Sean, e eu ria dele.
- O que te faz pensar que te amo? - dizia eu.
Amava, claro. Mas para mim sempre foi mais fácil mostrar amor do que afirmá-lo. A palavra fazia-me lembrar pralinés: pequenos, preciosos e quase insuportavelmente
doces. Ficava radiante na presença dele; sentia-me um sol na constelação do seu abraço. Mas quando tentava exprimir o que sentia por ele em palavras, o sentido tornava-se
de certa forma amesquinhado. Era como espalmar uma borboleta debaixo de um vidro ou filmar um cometa com uma câmara de vídeo. Todas as noites me abraçava e me dizia
aquela frase ao ouvido, bolhas que rebentavam ao mínimo contacto: "Amo-te." E depois ficava à espera. Esperava, e embora soubesse que não queria pressionar-me antes
de eu estar preparada para fazer a minha confissão, sentia a desilusão dele naquele silêncio.
Um dia, quando saí do trabalho ainda a sacudir a farinha das mãos para poder ir a correr buscar Amélia à escola, encontrei um pequeno cartão entalado debaixo do
limpa pára-brisas. "AMO-TE", dizia.
Enfiei-o no porta-luvas e, naquela tarde, fiz trufas e deixei-as na caixa de correio de Sean.
No dia a seguir, quando saí do trabalho, estava um papel de vinte e dois por vinte e oito centímetros preso no limpa pára-brisas: "AMO-TE."
Telefonei a Sean.
- vou ganhar - disse eu.
- Acho que vamos ganhar os dois - respondeu ele.
Tinha feito uma panna cotta de lavanda e deixara-a em cima da conta do seu MasterCard.
Ele contra-atacou com um poster. Conseguia ler-se a mensagem da janela do restaurante, o que me transformou no alvo de muitas piadas da parte do chefe de mesa e
do chefe de cozinha.
- Qual é o teu problema? - perguntara Piper. - Diz-lhe o que sentes e pronto. - Mas Piper não compreendia e eu não conseguia explicar-lhe. Quando mostramos a alguém
o que sentimos, é
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espontâneo e sincero. Quando dizemos a alguém o que sentimos, por trás das palavras pode haver apenas hábito ou expectativa. Aquelas palavras são as que toda a gente
usa; simples sílabas não podem conter algo tão raro como o que eu sentia por Sean. Queria que ele sentisse o que eu sentia quando estava com ele: aquela incrível
combinação de consolo, habituação e admiração; saber que bastaria provar para ficar viciada nele. Por isso fiz tiramisú e deixei-o entre uma encomenda da Amazon.com
e um prospecto de uma empresa de pinturas.
Dessa vez, Sean telefonou-me.
- Abrir a caixa de correio de outra pessoa é um crime, sabias?
- perguntou ele.
- Então prende-me - respondi.
Naquele dia, saí do trabalho - seguida pelo resto dos empregados que vinham assistir ao nosso namoro como se fosse algum espectáculo desportivo - e encontrei o meu carro completamente embrulhado em papel plastificado. A mensagem de Sean estava escrita em letras do meu tamanho: "ESTOU A FAZER DIETA."
E sim, fizera-lhe scones com sementes de papoila, e estes ainda estavam na caixa do correio no dia seguinte quando lhe deixei uns biscoitos de gengibre. E, no outro dia, visto que ambos permaneciam intactos, a tarte de morango nem sequer cabia. Então levei-a a casa dele e toquei à campainha. Os seus cabelos loiros estavam iluminados por trás e a T-shirt branca esticada sobre o peito.
- Porque não comeste o que eu fiz para ti? - perguntei. Ele esboçou um sorriso vagaroso.
- Porque não o dizes também?
- Não vês?
Sean cruzou os braços.
- Vejo o quê?
- Que te amo?
Ele abriu a porta, agarrou-me e beijou-me intensamente.
- Já não era sem tempo - disse ele, sorrindo. - Estou a morrer de fome.
Naquela manhã tu e eu não nos limitámos a fazer waffles. Fizemos pão de canela, biscoitos de aveia e blondies. Deixei-te lamber a colher, a espátula, a tigela. Por volta das onze, Amélia entrou na cozinha acabada de sair do duche.
- Temos um exército para almoçar? - perguntou ela, mas então agarrou num pãozinho de milho, abriu-o e inspirou o vapor.
- Posso ajudar?
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Fizemos bolo aveludado de framboesa e uma tarte Tatin de ameixas, folhados de maçã, bolachas em espiral e macaroons. Cozinhámos até quase não haver nada na
despensa,
até me esquecer do que disseste junto ao lago, até se acabar o açúcar mascavado, até não repararmos que o teu pai esteve fora o dia todo, até não conseguirmos comer
nem mais uma garfada.
- E agora? - perguntou Amélia, quando cada centímetro da bancada estava coberto por qualquer das coisas que tínhamos feito.
Já não fazia isto há tanto tempo que, quando comecei, não fui capaz de parar. E acho que uma parte de mim ainda estava a cozinhar para um restaurante e não para
uma única família - ainda por cima à qual faltava um dos membros.
- Podíamos dar aos vizinhos - sugeriste.
- Nem pensar - disse Amélia. - Eles que os comprem.
- Não temos uma pastelaria - fiz notar.
-Porque não? Podia ser como uma banca de verduras, ao fundo da via de acesso. A Willow e eu podíamos fazer um grande letreiro a dizer Doces da Charlotte, e podias embrulhar tudo em película aderente...
- Podíamos tapar uma caixa de sapatos - disseste - e fazer uma ranhura na tampa para receber o dinheiro e depois cobrávamos dez dólares por cada um.
- Dez dólares? - disse Amélia. - É mais um dólar, cérebro de ervilha.
- Mãe! Ela chamou-me cérebro de ervilha...
Estava a imaginar paredes pintadas de branco, uma montra de vidro, mesas de ferro forjado com tampo de mármore. Imaginava fileiras de pãezinhos de pistáchio num
fogão industrial, merengues que se derretiam na boca, o tilintar da caixa registadora, como o som das asas de um anjo.
- Syllabub - interrompi, e ambas se viraram para mim. - É esse o nome que deve estar escrito no letreiro.
Naquela noite, quando Sean chegou a casa, eu estava a dormir profundamente e, quando acordei, ele já tinha saído. Só sabia que ele tinha realmente vindo a casa porque estava uma caneca suja, sozinha, no lava-loiça.
Senti um nó no estômago; fingi que era fome e não ressentimento. Na cozinha fiz uma torrada e coloquei um filtro novo de café na máquina.
Quando Sean e eu éramos recém-casados, ele fazia café para mim todas as manhãs. Ele não bebia café, mas levantava-se cedo
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para ir Para o trabalho e programava a máquina de café Krups para que, quando eu saísse do duche, tivesse uma cafeteira de café acabado de fazer à minha espera.
Descia as escadas e via uma caneca à espera, com duas colheres de chá de açúcar já lá dentro. Às vezes, estava em cima de um bilhete: "ATÉ LOGO" ou "JÁ ESTOU com
SAUDADES."
Naquela manhã a cozinha estava fria, a máquina de café silenciosa e vazia.
Medi a água e os grãos de café, carreguei num botão para que o líquido escorresse para a cafeteira. Fui buscar uma caneca ao armário e depois, pensando melhor, tirei a que Sean usara do lava-loiça. Lavei-a e servi-me de café. Estava demasiado forte, amargo. Pensei se os lábios de Sean teriam tocado no mesmo sítio da caneca do que os meus.
Sempre suspeitei das mulheres que descreviam a dissolução dos seus casamentos como qualquer coisa que tivesse acontecido de um dia para o outro. "Como é possível que não saibam?" pensava. "Como é possível não repararem em todos os sinais?" Bem, deixem-me que vos diga como: estamos tão ocupadas a apagar o fogo que temos à nossa frente que não vemos o incêndio a deflagrar atrás de nós. Nem me lembrava da última vez que Sean e eu rimos de qualquer coisa juntos. Nem me lembrava da última vez que o beijei, só por me apetecer. Estava tão concentrada em proteger-te que fiquei completamente vulnerável.
Às vezes tu e a Amélia jogavam jogos de tabuleiro e, quando lançavas os dados, ficavam presos numa reentrância do sofá ou rebolavam para o chão. "De novo", dizias, e era tão fácil teres uma segunda oportunidade. Era isso que agora eu queria: fazer de novo. Só que, para ser sincera para comigo própria, não sabia por onde começar.
Deitei o café para o lava-loiça e observei-o a escorrer num turbilhão pelo cano abaixo.
Não precisava de cafeína. E também não precisava que alguém me fizesse café de manhã. Saindo da cozinha, agarrei num casaco (o de Sean, tinha o cheiro dele) e fui lá fora buscar o jornal.
A caixa verde onde costumava estar o jornal da região estava vazia; Sean devia tê-lo levado ao sair, para onde quer que fosse. Frustrada, virei-me e reparei no carrinho de mão cheio de produtos de pastelaria que tínhamos colocado ontem ao fundo da via de acesso.
O carrinho de mão estava vazio, só lá estava uma caixa de sapatos. Amélia transformara-a numa caixa registadora baseada num sistema de honestidade e o letreiro de cartolina, que tinhas pintado com purpurinas, dizia "SYLLABUB."
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Agarrei na caixa de sapatos e corri para casa, para o teu quarto.
- Meninas - disse eu - vejam!
Ambas se viraram, ainda ensonadas. :,
- Meu Deus - gemeu Amélia, olhando para o relógio. Sentei-me na tua cama e abri a caixa de sapatos.
- Onde foste arranjar esse dinheiro todo? - perguntaste, " bastou isso para que Amélia se sentasse na cama.
- Que dinheiro? - perguntou.
- É das coisas que fizemos - disse eu.
- Dá-me isso - Amélia agarrou na caixa e começou a organizar o dinheiro em montes. Havia notas e moedas de todos os valores. - Estão aqui para aí cem dólares!
Saíste da cama e subiste para a da Amélia.
- Estamos ricas - disseste, e agarraste num punhado de dólares e atiraste-os para o ar.
- O que vamos fazer com isto? - perguntou Amélia.
- Acho que devíamos comprar um macaco - disseste.
- Os macacos são muito mais caros do que isto - disse Amélia num tom desdenhoso. - Acho que devíamos comprar uma televisão para o nosso quarto.
E eu pensei que devíamos pagar a conta do MasterCard, mas duvidava que vocês concordassem.
- Já temos uma televisão lá em baixo - disseste. .
- Ora bem, não precisamos de um macaco!
- Meninas - interrompi. - Só há uma maneira de termos tudo o que queremos. Fazemos mais bolos para recebermos mais dinheiro. - Olhei para as duas, uma de cada vez. - Bem, de que estamos à espera?
Tu e Amélia correram para a casa de banho adjacente, e depois ouvi a água a correr e o esfregar metódico das escovas de dentes. Puxei os lençóis da tua cama e entalei os cobertores. Fiz o mesmo na cama de Amélia, mas desta vez, quando alisei a colcha debaixo do colchão, os meus dedos soltaram dezenas de papéis de rebuçados, o saco de plástico de um pão, pacotes de bolachas. "Adolescentes", pensei, deitando tudo no caixote do lixo.
Na casa de banho, ouvi-as discutirem sobre quem tinha deixado o tubo de pasta de dentes sem tampa. Enfiei a mão na caixa de sapatos e lancei outra mancheia de dinheiro ao ar, ouvindo o tilintar de moedas de prata, a melodia da possibilidade.
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Sean
Provavelmente não devia ter levado o jornal. Foi isso que pensei para comigo quando estava sentado à mesa de um restaurante a duas cidades de distância de Bankton,
agarrado a um copo de sumo de laranja à espera que o cozinheiro fritasse os meus ovos. Afinal era a primeira coisa que Charlotte fazia todas as manhãs: bebia um
café enquanto lia os títulos. Às vezes até lia as cartas ao editor em voz alta, sobretudo aquelas que pareciam ter sido escritas por malucos a um passo de igualarem
os confrontos de Ruby Ridge16. Quando saí de casa às seis da manhã, hesitando antes de agarrar no jornal, apercebi-me de que isso ia deixá-la irritada. E, é verdade,
talvez isso tivesse bastado para que eu o levasse. Mas agora que o abri e examinei a primeira página, soube categoricamente que devia tê-lo deixado onde estava,
na caixa.
Porque ali mesmo, por cima da dobra, estava uma notícia sobre mim e a minha família.
AGENTE DA POLÍCIA LOCAL INSTAURA PROCESSO LEGAL DE NEGLIGÊNCIA MÉDICA NO DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL
Willow O'Keefe é, em muitos aspectos, uma menina normal de cinco anos. Frequenta a pré-primária da Escola Primária de Bankton, a tempo inteiro, onde estuda leitura,
matemática e música. Brinca com os colegas no recreio. Almoça na cantina da escola. Mas, num aspecto, Willow não é como as outras meninas de cinco anos. Às vezes
Willow anda numa cadeira de rodas, outras vezes com uma bengala e, outras ainda, com
16. Local de um polémico cerco policial a uma família em Idaho. (N. da T.)
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suportes para as pernas. Isso deve-se a ter sofrido mais de sessenta e duas fracturas ao longo da sua curta vida, por causa de uma doença chamada osteogénese imperfeita, de que Willow sofre desde a nascença e que os pais, alegadamente, acham que devia ter sido diagnosticada pela obstetra numa fase inicial da gravidez e que permitisse fazer um aborto. Embora os O'Keefe adorem a filha, as despesas médicas ultrapassaram em muito o total coberto por uma apólice de seguro normal, e agora os pais - o tenente Sean O'Keefe, do Departamento da Polícia de Bankton e Charlotte O'Keefe estão entre o número crescente de pacientes que estão a processar os ginecologistas obstetras por não fornecerem a informação sobre anomalias fetais que, segundo afirmam, os teria levado a terminar a gravidez.
Mais de metade dos estados nos EUA reconhecem os processos legais por negligência médica no diagnóstico pré-natal e, muitos destes casos, resolvem-se fora dos tribunais com indemnizações menores do que as que um júri poderia atribuir, porque as companhias de seguros contra negligência médica não querem que uma criança como Willow seja colocada diante de um júri. Mas os processos legais como este muitas vezes trazem consigo um verdadeiro manancial de complicações éticas: o que sugerem estes processos legais relativamente ao valor que a sociedade atribui às pessoas com incapacidade? Quem pode julgar os pais, que assistem ao sofrimento diário dos filhos com incapacidade? Quem terá o direito - se é que alguém o tem - de escolher que tipo de incapacidade deve justificar um aborto? E qual é o efeito que surtirá numa criança como Willow que já tem idade suficiente para ouvir o testemunho dos pais?
Lou St. Pierre, presidente da delegação da Associação Americana de Pessoas com Incapacidade de New Hampshire, afirma que compreende a razão que leva pais como os
O'Keefe a decidirem instaurar um processo legal. "Pode ajudar a aliviar os encargos financeiros incrivelmente elevados que uma criança com incapacidade exerce sobre
uma família", diz St. Pierre, que nasceu com spina bífida e anda numa cadeira de rodas. "Mas fica aqui um aviso relativamente à mensagem que está a ser transmitida a essa criança: que as pessoas com incapacidade não podem ter uma vida rica e preenchida; que se não formos perfeitos, não devíamos estar aqui."
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Mais recentemente, em 2006, o Supremo Tribunal de New Hampshire revogou uma indemnização de 3,2 milhões de dólares relativa a um caso, instaurado em 2004, de negligência
médica no diagnóstico pré-natal.
Até havia uma fotografia nossa, dos quatro - que tinha sido tirada para uma circular emitida há dois anos pelo Departamento de Polícia de Bankton numa iniciativa
para que todos ficassem a conhecer o agente da polícia da vizinhança. Amélia ainda não usava aparelho.
Tinhas um braço engessado.
Atirei o jornal para o outro lado da mesa, aterrando no assento mais afastado. Jornalistas de merda. O que andariam a fazer, à espera à porta do tribunal, para ver o que viria a seguir na lista dos julgamentos? Qualquer pessoa que lesse aquele artigo (E quem não o leria? Era o jornal da região!) pensaria que estava envolvido nisso por causa do dinheiro.
Não estava e, para prová-lo, tirei a carteira e deixei vinte dólares em cima da mesa para pagar uma refeição de dois dólares que nem sequer ainda fora servida.
Passados quinze minutos, após uma paragem rápida na esquadra para ver qual era o endereço de Marin Gates, fui a casa dela. Não era nada do que esperava. Tinha estatuetas
de gnomos no jardim e a caixa do correio era um porco cujo focinho se abria. As portadas das janelas estavam pintadas de púrpura. Parecia o estilo de casa em que Hansel e Gretei viveriam e não onde uma advogada séria viveria.
Quando toquei à campainha, Marin veio à porta. Vestia uma T-shirt "Revolver" dos Beatles e calças de fato-de-treino com a sigla UNH impressa na perna.
- O que está aqui a fazer?
- Preciso de falar consigo.
- Devia ter telefonado - olhou em volta, tentando encontrar Charlotte.
- Vim sozinho - disse. Marin cruzou os braços.
- O meu número não está na lista telefónica. Como descobriu onde vivo?
Encolhi os ombros.
- Sou polícia.
- Isso é invasão de privacidade...
- Óptimo. Pode processar-me quando acabar de processar a Piper Reece - mostrei-lhe o jornal matutino. - Leu esta porcaria?
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- Li. Não podemos fazer quase nada relativamente à imprensa, a não ser declarar: "Não comento."
- Estou fora disto.
- Desculpe?
- Desisto. Quero desistir deste processo legal - só por dizer aquelas palavras senti-me como se tivesse passado todo o peso do mundo para as costas de outro tanso.
- Assino tudo o que quiser que eu assine, só quero tornar isto oficial.
Marin hesitou.
- Entre para podermos conversar - disse ela.
Se fiquei surpreendido pelo exterior da casa, o interior deixou-me estupefacto. Havia uma parede inteira coberta por figurinhas de porcelana Hummel em prateleiras e as outras paredes estavam cheias de quadros com bordados. Os naperons floresciam como algas na superfície do sofá.
- Linda casa - menti.
Ela limitou-se a olhar para mim, impassível.
- Aluguei-a completamente mobilada - explicou. - A dona da casa vive em Fort Lauderdale.
Em cima da mesa da sala de jantar estava uma pilha de pastas, e um bloco jurídico. Havia pedaços de papel amachucados espalhados pelo chão; o que quer que fosse que estava a escrever, não estava a correr bem.
- Olhe, tenente O'Keefe, sei que o senhor e eu não começámos muito bem, e sei que o depoimento foi... difícil para si. Mas vamos fazer mais uma tentativa, e as coisas vão correr de maneira diferente quando estivermos em tribunal. Sinto-me realmente confiante que a indemnização que o júri estará disposto a atribuir...
- Não quero dinheiro sujo - disse eu. - Ela pode ficar com tudo.
- Acho que estou a perceber qual é o problema - respondeu Marin. - Mas a questão aqui não é o senhor nem a sua mulher. É a Willow. E se realmente quer dar-lhe a vida que ela merece, tem de ganhar um processo legal como este. Se desistir agora, só vai dar à defesa mais uma vantagem...
Ela apercebeu-se, demasiado tarde, de que isso talvez fosse o que eu realmente queria.
- A minha filha - disse rigidamente - lê como uma criança do sexto ano. Ela vai ver esse artigo no jornal e dúzias de outros semelhantes, suponho. Vai ouvir a mãe dizer a toda a gente que não era desejada. Diga-me, Dr.a Gates. Prefere que eu me sente na sala de audiências a aniquilar activamente as hipóteses que tem de vencer
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este caso, ou que me afaste, para que a Willow tenha uma pessoa a quem recorrer quando precisar de saber que alguém a ama como
ela é?
- Tem a certeza de que está a fazer o melhor para sua filha?
- E a senhora? - perguntei. - Não vou sair daqui enquanto não me der os documentos para assinar.
- Não pode estar à espera que eu escreva qualquer coisa num domingo de manhã quando nem sequer estou no escritório...
- Vinte minutos. vou lá ter consigo - tinha acabado de abrir a porta para sair quando a voz de Marin me deteve.
- A sua mulher? - perguntou. - O que pensa ela de si, por estar a fazer isto?
Virei-me devagar.
- Ela não pensa em mim - disse eu.
Naquela noite não vi Charlotte, nem na manhã seguinte. Achei que Marin ia demorar esse tempo a comunicar à minha mulher que eu tinha desistido do processo legal. Mas até um homem de convicções fortes tem uma noção de auto-preservação; nem pensar que ia para casa falar com a tua mãe sem umas quantas bebidas fortificantes - e, visto que sou um polícia, deixei passar o tempo suficiente para que o álcool fosse eliminado do organismo de forma segura antes de conduzir.
Talvez então tivesse a sorte de ela estar a dormir.
- Tommy - disse eu, fazendo sinal ao empregado do bar, e empurrei o copo de cerveja vazio na direcção dele. Viera ao O'Boys com alguns colegas de patrulha depois de acabar o turno, mas já tinham todos ido embora para casa, para irem jantar com as mulheres e os filhos. Era demasiado tarde para um aperitivo antes de jantar e demasiado cedo para os noctívagos; para além de Tommy e de mim, a única pessoa que estava no bar era um senhor de idade que tinha começado a beber às três da tarde e só parou quando a filha o veio buscar ao fim da noite.
A campainha por cima da porta tilintou e uma mulher entrou no bar. Despiu o casaco justo com padrão de pele de leopardo para revelar um vestido cor-de-rosa vivo ainda mais justo. Eram vestidos daqueles que lixavam sempre os casos de violação para a acusação.
- Está frio lá fora - disse ela, sentando-se num banco ao lado do meu. Fiquei resolutamente a olhar para o copo de cerveja vazio. "Experimenta usar alguma roupa", pensei.
Tommy deu-me outra cerveja e virou-se para a mulher.
- O que deseja tomar?
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- Um martini - disse ela, e depois virou-se para mim e sorriu.
- Nunca experimentou?
Dei um golo na cerveja.
- Não gosto de azeitonas.
- Gosto de chupar os pimentos - admitiu ela. Soltou os cabelos loiros, encaracolados, caindo como um rio pelo meio das costas.
- Cá para mim a cerveja sabe a areia para gatos.
Ri do que ela disse.
- Quando foi a última vez que provou areia para gatos? Ela arqueou as sobrancelhas.
- Nunca olhou para uma coisa e soube logo o gosto dela? Ela disse uma coisa, não disse? Não disse uma pessoa? Nunca enganei Charlotte. Nem sequer pensei em enganá-la.
Deus sabe que já me cruzei com muitas mulheres jovens na minha carreira e, se quisesse aproveitar-me, tinha tido essa oportunidade. Para ser sincero, Charlotte era tudo o que eu sempre quis - mesmo agora, passados oito anos. Mas a mulher com quem tinha casado a que prometera comprar-me gelado de baunilha nos votos de matrimónio, apesar de ser um fraco substituto do de chocolate não era a mesma que ultimamente via lá em casa. Aquela mulher era obcecada e distante, tão concentrada no que podia obter que nem sequer via o que tinha.
- Chamo-me Sean - disse eu, virando-me para a mulher.
- Taffy Lloyd - disse ela, e bebeu um gole de martini. - Como o doce. Taffy, Lloyd não.
- Pois, eu percebi. Semicerrou os olhos.
- Não o conheço?
- Tenho a certeza de que não ia esquecer-me de si se a tivesse visto antes... :,
- Não, tenho a certeza. Nunca esqueço um rosto... - interrompeu a frase a meio, estalando os dedos. - Apareceu no jornal disse ela. - Tem uma filha muito doente, não é? Como está ela?
Ergui o copo, interrogando se ela conseguiria ouvir o meu coração bater tão alto como eu ouvia. Reconheceu-me do artigo? Se esta mulher me reconheceu, quantas mais pessoas me reconheceriam?
- Ela está bem - disse secamente, terminando a cerveja com um longo trago. - Por acaso, tenho de ir para casa ter com ela. Que se lixasse a condução; ia a pé.
Comecei a levantar-me do banco mas a voz dela deteve-me.
- Ouvi dizer que já não vai avançar com um processo.
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Virei-me devagar.
- Isso não vinha no jornal.
De repente, não parecia nada tonta. Os olhos eram de um azul-penetrante e estavam fixos nos meus.
- Porque quis desistir?
Seria jornalista? Seria uma cilada? Demasiado tarde, pus-me na defensiva.
- Estou só a tentar fazer o que é melhor para a Willow - disse entre dentes, vestindo o casaco, praguejando quando a manga ficou presa.
Taffy Lloyd colocou um cartão-de-visita em cima do balcão à minha frente.
- O melhor para a Willow - disse ela - é que este processo legal não chegue a existir. - Acenando com a cabeça, atirou o casaco de leopardo por cima do ombro e saiu porta fora, deixando ficar o martini quase todo.
Agarrei no cartão e passei o dedo por cima das letras pretas com relevo:
Taffy Lloyd, Investigadora Jurídica Booker, Hood Coates
Conduzi. Conduzi por estradas que costumava percorrer com o meu carro da polícia, grandes oitos sinuosos que chegavam cada vez mais perto do centro de Bankton. Observei
as estrelas cadentes e conduzi para onde pensava que aterravam. Conduzi até quase não conseguir manter os olhos abertos, até depois da meia-noite.
Entrei em casa num sussurro e, no escuro, segui às apalpadelas até à divisão de tratamento de roupas para ir buscar os lençóis e a fronha para o sofá. De repente, fiquei tão exausto, tão cansado que nem sequer era capaz de ficar de pé. Deitei-me no sofá e escondi o rosto nas mãos.
Não percebia como tinha chegado àquele ponto, tão depressa. Num instante estava a sair do escritório de advogados; no instante seguinte, Charlotte tinha marcado outra entrevista. Não podia proibi-la de o fazer - mas, para ser sincero, nunca pensei que avançasse com um processo legal. Charlotte não era pessoa de correr riscos. Mas foi aí que me enganei: a questão que ela tinha em mente aqui, não era a Charlotte. Eras tu.
- Papá?
Olhei para cima e vi-te de pé à minha frente, com os pés descalços, brancos como os de um fantasma.
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- O que estás a fazer acordada? - disse eu. - Ainda é de noite.
- Fiquei com sede.
Entrei na cozinha, contigo atrás de mim. Estavas a apoiar-te mais na perna direita - apesar de outro pai talvez se limitar a pensar que a filha ainda estava meio a dormir, eu estava a pensar em micro fracturas e deslocamentos da anca. Dei-te um copo de água e encostei-me à bancada enquanto bebias.
- Muito bem - disse eu, pegando-te ao colo por não conseguir ver-te subir as escadas. - Já passa muito da tua hora de deitar.
Colocaste-me os braços em volta do pescoço.
- Papá, por que é que já não dormes na tua cama? Parei, a meio das escadas.
- Gosto do sofá. É mais confortável.
Entrei sorrateiramente no teu quarto, com cuidado para não incomodar Amélia, que ressonava suavemente na cama ao lado da tua. Enfiei-te debaixo dos cobertores.
- Aposto que se eu não fosse assim - disseste -, se os meus ossos não fossem doentes, ainda dormias aqui em cima.
No escuro, via o brilho dos teus olhos, a curva da face, como uma maçã. Não respondi. Não tinha resposta.
- Dorme - disse. - É demasiado tarde para falar sobre isto. De repente, sem mais nem menos, como se alguém tivesse
colocado um frame futuro num filme, vi em quem te tornarias quando crescesses. Aquela determinação obstinada, a aceitação tranquila de uma pessoa resignada a lutar uma batalha desigual bem, a pessoa com quem mais te parecias nessa altura era com a tua mãe.
Em vez de descer as escadas, entrei no quarto de casal. Charlotte estava a dormir virada para o lado direito, para o lado vazio da cama. Sentei-me cuidadosamente na beira do colchão, tentando fazer com que não se mexesse quando me deitei em cima dos cobertores. Virei-me de lado, para ficar de frente para ela.
Estar ali, na minha cama, parecia inevitável e confortável ao mesmo tempo - como chegar ao fim de um quebra-cabeças e forçar a última peça a encaixar-se, embora os contornos não sejam iguais como deviam ser. Fiquei a olhar para a mão de Charlotte, cerrada num punho por cima dos cobertores, como se ainda estivesse pronta para lutar mesmo quando estava inconsciente. Quando lhe toquei ao de leve no pulso, os dedos abriram-se como uma rosa. Quando olhei para cima, vi que ela me observava.
- Estou a sonhar? - sussurrou.
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- Estás - disse eu, e a mão dela fechou-se em volta da minha. Observei Charlotte a voltar a adormecer, tentando localizar o
momento em que estava ali comigo e se perdeu no sono, mas aconteceu demasiado rápido para eu conseguir detectar. Tirei delicadamente a minha mão da dela. Esperava
que ela se lembrasse de que eu estivera lá, por um momento, quando acordasse. Esperava que compensasse o que estava prestes a fazer.
Havia um tipo no departamento cuja mulher tinha tido cancro da mama há alguns anos. Por solidariedade, alguns de nós raparam a cabeça quando ela fez quimioterapia; todos fizemos o que podíamos para ajudar George a ultrapassar aquele inferno. E depois a mulher recuperou, e todos comemoraram e, uma semana depois, ela disse-lhe que queria o divórcio. Na altura, pensei que era a coisa mais insensível que uma mulher podia fazer: abandonar o homem que ficou do lado dela nos maus momentos. Mas agora, estava a começar a perceber que o que parece lixo visto de uma perspectiva, pode ser arte visto de outra. Talvez fosse mesmo necessária uma crise para ficarmos a conhecer-nos; talvez precisássemos que a vida nos desse um grande abanão para ficarmos a compreender o que queremos.
Não me agradava estar ali - era como reviver um mau momento. Agarrando num guardanapo que estava debaixo de um jarro, a meio da enorme mesa envernizada, limpei a testa. Mas o que eu queria mesmo fazer era admitir que aquilo era um erro e fugir. Saltar pela janela, talvez.
Mas antes que pudesse concretizar aquela ideia tão ponderada, a porta abriu-se. Entrou um homem de cabelos prematuramente grisalhos - não tinha reparado da primeira vez? - seguido por uma jovem loira de óculos sofisticados e fato abotoado quase até ao pescoço. Fiquei de boca aberta; Taffy Lloyd estava completamente diferente. Acenei-lhe silenciosamente com a cabeça e depois a Guy Booker - o advogado que me fez fazer figura de parvo naquele mesmo gabinete há alguns meses.
- Vim para lhe perguntar o que posso fazer - disse eu. Booker olhou para a investigadora.
- Não sei bem se compreendi o que disse, tenente O'Keefe...
- Quero dizer - disse eu - que agora estou do vosso lado.
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Marin
O que podemos dizer à mãe que nunca chegámos a conhecer?
Desde que Maisie me contactara a dizer que tinha um endereço válido para a minha mãe biológica, escrevi centenas de rascunhos de cartas. Era assim que funcionava: apesar de Maisie aparentemente ter localizado a minha mãe biológica, eu não podia contactá-la directamente. Em vez disso, devia escrever-lhe uma carta e enviá-la a Maisie, que serviria de intermediária. Contactaria a minha mãe e dir-lhe-ia que tinha um assunto pessoal, muito importante, para discutir e deixaria um número de telefone. Supostamente, quando a minha mãe biológica ouvisse isso, saberia de que assunto pessoal se tratava e telefonaria. Logo que Maisie verificasse que a mulher era realmente a minha mãe biológica, ler-lhe-ia ou enviar-lhe-ia a carta que eu escrevesse.
Maisie enviara-me uma lista de orientações que deviam ajudar-me a escrever a carta.
Esta é a sua apresentação à mãe biológica que procurava. Para si é virtualmente uma desconhecida, por isso a sua carta deixará uma primeira impressão. Para não confundir a mãe biológica, recomenda-se que a carta não tenha mais de duas páginas. Desde que a letra seja legível, é preferível receber uma carta escrita à mão, visto que dá uma noção da sua personalidade à destinatária.
Deve decidir se quer que este contacto a identifique ou não. Se desejar usar o seu nome, por favor compreenda que isso torna possível que a outra parte a localize. Pode querer esperar até conhecer a outra parte antes de revelar a sua morada ou número de telefone.
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A carta deverá conter informações gerais sobre si - idade, educação, profissão, talentos ou passatempos, estado civil e se tem ou não filhos. É muito preferível
incluir fotografias suas e da sua família. Pode desejar explicar porque procura a sua mãe biológica nesta altura.
Se os seus antecedentes incluírem alguma informação difícil, esta não será a melhor altura de a revelar. Informações negativas acerca da adopção - tais como a inserção
numa família abusiva - não são apropriadas. É melhor partilhar estas informações mais tarde, depois de se estabelecer uma relação. Muitos pais biológicos comunicam
sentimentos de culpa relativamente a terem dado um filho para adopção e receiam que a decisão, feita em benefício do mesmo, talvez não tenha resultado tão bem quanto desejariam. Se a informação negativa for partilhada numa fase inicial, poderá ensombrar todos os aspectos positivos de estabelecer uma relação consigo no futuro.
Se se sentir grata para com a sua mãe biológica devido à decisão que tomou, pode partilhá-lo sucintamente. Se desejar obter informações sobre os antecedentes médicos familiares, poderá referi-lo. Talvez seja melhor esperar para perguntar pelo pai biológico. De início, poderá ser um assunto incómodo.
Para garantir à sua mãe biológica que deseja uma relação mutuamente proveitosa, pode referir que gostaria de telefonar ou marcar um encontro, mas que respeitará a sua escolha da altura certa para o fazer.
Já tinha lido as orientações de Maisie tantas vezes que praticamente conseguia dizê-las de cor, palavra por palavra. Parecia-me que a informação realmente útil tinha ficado de fora. Quanto devíamos partilhar para mostrarmos quem realmente somos, mas de maneira a não afastar ninguém? Se lhe dissesse que era Democrata, por exemplo, e ela fosse Republicana, deitaria a minha carta para o lixo? Devia referir como participei na manifestação para angariar fundos para a investigação relativamente à SIDA e que defendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo? E já para não falar nas decisões que teria de tomar quando chegasse a altura de escrever a carta, preto
no branco. Queria enviar um cartão, causaria melhor impressão, em vez de ser só uma missiva rabiscada num bloco jurídico. Mas os cartões que eu tinha exibiam imagens
tão diferentes como Picasso, Mary Engelbright e Mapplethorpe. O Picasso parecia demasiado comum; o Engelbright com demasiados frufrus; mas Mapplethorpe - bem, e
se ela o detestasse por
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princípio? "Deixa-te disso, Marin", disse para comigo. "O cartão não tem nus; é uma maldita flor."
Agora só tinha de arranjar um conteúdo para colocar lá dentro.
Bnony abriu a porta do meu gabinete e apressei-me a enfiar as notas numa pasta. Talvez não fosse totalmente correcto dar azo à minha obsessão pessoal no horário
de trabalho, mas quanto mais me envolvia no caso O'Keefe, mais difícil era tirar a minha mãe biológica da cabeça. Por muito disparatado que parecesse, contactá-la
fazia-me sentir como se estivesse a salvar a minha alma. Se tinha de representar uma mulher que desejava ter-se visto livre da filha, então o mínimo que eu podia
fazer era encontrar a minha própria mãe e elogiá-la por ter pensado de maneira diferente.
A secretária atirou um envelope castanho para cima da minha secretária.
- Correspondência do diabo - disse ela. Olhei para baixo e vi o remetente: Booker, Hood Coates.
Abri-o e li a lista de interrogatórios corrigida.
- Só podem estar a brincar - murmurei, e levantei-me para ir buscar o casaco. Era altura de fazer uma visita a Charlotte O'Keefe.
Uma rapariga de cabelos azuis abriu a porta e fiquei a olhar para ela por uns bons cinco segundos antes de reconhecer a filha mais velha de Charlotte, Amélia.
- Seja o que for que está a vender - disse ela - não queremos comprar.
- És a Amélia, não és? - forcei um sorriso. - Eu sou a Marin Gates. A advogada da tua mãe.
Ela escrutinou-me.
- Como queira. Ela agora não está. Deixou-me a fazer de ama-seca.
De dentro de casa ouviu-se um berro:
- Não sou nenhum bebé! Amélia voltou a olhar para mim.
- O que eu queria dizer era que ela me deixou a tomar conta de uma inválida.
De repente o teu rosto espreitou pela ombreira da porta.
- Olá - disseste, e sorriste. Não tinhas um dente da frente. Pensei: "O júri vai adorar-te."
Depois fiquei a odiar-me por ter pensado isso.
- Quer deixar recado? - perguntou Amélia.
Bem, não podia propriamente dizer-lhe que o pai se tornara numa testemunha da defesa.
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- Queria falar pessoalmente com a tua mãe. Amélia encolheu os ombros.
- Não devemos deixar entrar desconhecidos.
- Ela não é uma desconhecida - disseste, estendeste a mão e puxaste-me para dentro de casa.
Não tinha muita experiência com crianças e, ao ritmo que ia, talvez nunca viesse a ter, mas havia algo em ter a tua mão na minha, macia como uma pata de coelho,
e talvez igualmente afortunada. Deixei-me levar para o sofá da sala e olhei em volta, para o tapete oriental feito à máquina, o ecrã poeirento do televisor, as caixas
de cartão de jogos usados em pilhas altas junto à lareira. Pelos vistos o Monopólio era o que estava a dar; havia um tabuleiro colocado em cima da mesa de café em
frente ao sofá.
- Pode substituir-me - disse Amélia, de braços cruzados. - Em todo o caso, sou mais comunista do que capitalista.
Desapareceu escadas acima, deixando-me a olhar para o tabuleiro do jogo.
- Sabe em que rua acertamos mais?
- Hum - sentei-me. - Não deviam ser todas iguais?
- Não quando consideramos os cartões Saia da Prisão e coisas assim. E Illinois Avenue.
E Amélia deixara-me sessenta dólares.
- Como é que sabes? - perguntei.
- Leio. E gosto de saber coisas que mais ninguém sabe. Aposto que sabias muitas coisas que nenhum de nós sabia, nem
chegaria a saber. Era um pouco desconcertante estar ao pé de uma criança com quase seis anos cujo vocabulário seria provavelmente equivalente ao meu.
- Então diz-me qualquer coisa que eu não saiba - disse eu.
- Foi o Dr. Seuss que inventou a palavra nerd17. Ri à gargalhada.
- A sério?
Acenaste com a cabeça.
- Em If I Ran the Zoo. Que não é tão bom como Green Eggs and Ham. Mas que de qualquer forma é para bebés - disseste. - Gosto mais da Harper Lee.
- Harper Lee? - repeti.
- Pois. Nunca leu Por Favor Não Matem a Cotovia!
- Claro. Só não acredito é que tu o tenhas lido.
17. Pessoa desinteressante, empenhada e versada em conhecimentos científicos ou técnicos, mas socialmente desajustada. (N. da T.)
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Foi a primeira conversa que tive com a menina que estava no centro daquele processo legal tempestuoso, e apercebi-me de uma coisa extraordinária: gostava de ti. Gostava muito de ti. Eras genuína, divertida e inteligente, e os teus ossos talvez se partissem de vez em quando. Gostava de ti por rejeitares a tua doença, tornando-a a parte menos importante de ti - quase tanto quanto a tua mãe me desagradava por realçá-la.
- Então, era a vez da Amélia. O que quer dizer que é a sua vez de lançar os dados - disseste.
Olhei para o tabuleiro.
- Sabes uma coisa? Detesto Monopólio - e detestava, a sério. Tinha más recordações de infância, de um primo que roubava dinheiro quando era banqueiro, de jogos que duravam quatro noites seguidas.
- Quer jogar a outra coisa?
Virando-me novamente para a lareira, e para o monte de brinquedos, vi uma casa de bonecas. Era uma miniatura da vossa casa, com as portadas negras e a porta pintada de um vermelho-vivo; até havia arbustos floridos e longos tapetes tecidos.
- Uau - disse eu, tocando nas telhas com reverência. - Isto é espantoso.
- Foi o meu pai que fez.
Peguei na casa de bonecas, na sua plataforma, e coloquei-a em cima do tabuleiro de Monopólio.
- Antigamente tinha uma casa de bonecas.
Era o meu brinquedo preferido. Lembro-me das cadeiras estofadas a veludo vermelho na sala de estar em miniatura e do piano antigo que tocava quando dava à manivela.
Uma banheira com pés em forma de patas de animal e papel de parede às riscas, como um chupa-chupa. Parecia completamente vitoriana, muito diferente da casa moderna
em que cresci; mas costumava fingir, enquanto organizava as camas, os sofás e os armários da cozinha, que era um universo alternativo, a casa onde podia viver se não tivesse sido adoptada.
- Olhe para isto - disseste, e mostraste-me como o assento da pequena sanita de porcelana se levantava. Interroguei-me se os bonecos do sexo masculino que viviam na casa de bonecas também se esqueceriam de voltar a baixá-lo.
No frigorífico havia pequenos bifes e garrafas de leite de madeira, e uma pequena caixa de ovos alinhados como pequenas pérolas. Levantei a tampa de um cesto e vi duas agulhas de tricotar e um novelo de lã.
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- É aqui que as irmãs vivem - disseste, e colocaste colchões nas camas de bronze iguais no quarto lá em cima. - E é aqui que a mãe delas dorme. - No quarto ao lado,
na cama grande, colocaste duas almofadas e uma colcha incrível do tamanho da palma da minha mão. Depois agarraste noutro cobertor e noutra almofada e fizeste uma
cama no sofá de cetim cor-de-rosa da sala. - E esta - disseste é para o papá.
"Oh, meu Deus", pensei. "O que te fizeram."
De repente, a porta de entrada abriu-se e Charlotte entrou, com um ar gelado de Inverno nas pregas do casaco. Trazia mercearias em sacos verdes reciclados presos
nos braços.
- Oh, é o seu carro - disse ela pousando os sacos no chão. Amélia! - gritou lá para cima. - Já cheguei!
- Boa - ouviu-se a voz de Amélia vinda lá de cima, sem nenhum entusiasmo.
Talvez não estivessem a destruir-te só a ti. Charlotte debruçou-se e beijou-te na testa.
- Como estás, fofinha? Estás a brincar com a casa de bonecas? Já não te via ir buscar isso há uma eternidade...
- Temos de conversar - disse eu, levantando-me.
- Está bem - Charlotte dobrou-se para apanhar alguns sacos com as mercearias; fiz o mesmo e segui-a para a cozinha. Começou a tirar as coisas dos sacos: sumo de
laranja, leite, brócolos. Macarrão com queijo, detergente para lavar a loiça, sacos de plástico com fecho.
Bounty. Joy. Life:18 marcas que são a receita para a existência.
- O Guy Booker acrescentou uma testemunha a favor da defesa
- disse eu. - O seu marido.
Num momento, Charlotte tinha um boião de picles na mão e, no momento seguinte, estava estilhaçado no chão.
- O quê?
- O Sean vai testemunhar contra si - disse eu secamente.
- Ele não pode fazer isso, pois não?
- Bem, visto que pediu para ser liberado do processo legal...
- Ele fez o quê?
Sentiu-se o cheiro a vinagre, o líquido espalhou-se pelo chão de ladrilhos.
- Charlotte - disse eu, estupefacta. - Ele disse-me que tinha falado consigo primeiro.
18. Marcas de produtos bastante conhecidas nos EUA, que significam dádiva, alegria e vida, respectivamente. (N. da T.)
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- Já não fala comigo há semanas. Como foi capaz de fazer isto? Como foi capaz de fazer-nos isto, a nós?
Nessa altura entraste na cozinha.
- Partiu-se alguma coisa?
Charlotte pôs-se de gatas e começou a apanhar os pedaços de vidro.
- Não entres na cozinha, Wíllow - agarrei num rolo novo de toalhas de papel precisamente no momento em que Charlotte soltou um grito agudo; um pedaço de vidro cortara-lhe o dedo.
Estava a sangrar. Ficaste de olhos muito abertos e voltei a levar-te para a sala de estar.
- Vai buscar um penso rápido para a tua mãe - disse eu. Quando voltei a entrar na cozinha, Charlotte estava com a mão
a sangrar agarrada à camisola.
- Marin - disse ela, olhando para mim. - O que devo fazer?
Provavelmente foi uma experiência nova para ti, ir ao hospital sem ser por tua causa. Mas rapidamente se tornou claro que o corte da tua mãe era demasiado fundo, que só um penso rápido não era a solução. Levei-a às urgências, contigo e Amélia sentadas no banco de trás do carro, os teus pés apoiados em caixas de cartão cheias de documentos legais. Fiquei à espera enquanto um médico deu dois pontos na ponta do dedo anelar de Charlotte, contigo sentada ao lado dela e agarrada com força à mão sã. Ofereci-me para parar na farmácia e aviar a receita de Tylenol com codeína, mas Charlotte disse que ainda tinham bastantes analgésicos em casa, que tinham sobrado da tua última fractura.
- Estou bem - disse-me. - A sério.
Quase acreditei nela, também, e depois lembrei-me de como agarrara a tua mão quando estava a levar os pontos, e daquilo que pensava em dizer diante de um júri sobre ti, dali a algumas semanas.
Voltei para o escritório apesar de o dia já estar estragado. Tirei da gaveta de cima da secretária as orientações de Maisie para se escrever uma carta à mãe biológica e li-as uma última vez.
As famílias nunca são como desejamos que sejam. Todos queremos o que não podemos ter: a filha perfeita, o marido devotado, a mãe que abdicou de nós. Vivemos nas nossas casas de bonecas para adultos completamente alheios a que, a qualquer momento, uma mão possa lá entrar e alterar tudo a que estamos acostumados.
"Olá", escrevi.
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"Provavelmente escrevi esta carta mil vezes na minha cabeça, reformulando-a para me certificar de que ficava bem. Demorei trinta e um anos a iniciar a minha busca,
embora sempre me tivesse interrogado de onde vinha. Acho que primeiro tinha de perceber a razão da minha busca - e, finalmente, sei a resposta. Devo um agradecimento aos meus pais biológicos. E, quase tão importante como isso, acho que têm o direito de saber que estou viva, bem e feliz.
Trabalho num escritório de advocacia em Nashua. Frequentei a Universidade de New Hampshire e depois estive na faculdade de Direito da Universidade do Maine. Voluntario-me mensalmente para prestar aconselhamento jurídico àqueles que não o podem pagar. Não sou casada, mas espero um dia ser. Gosto de andar de caiaque, de ler e de comer tudo o que tenha chocolate.
Durante muitos anos tive relutância em procurá-la porque não queria intrometer-me nem destruir a vida de ninguém. Depois tive um problema médico e apercebi-me de que não sabia o suficiente sobre as minhas origens. Para isso, gostaria de encontrar-me consigo para poder agradecer-lhe pessoalmente por ter-me dado a oportunidade de me tornar na mulher que agora sou - mas também respeitarei a sua vontade se não estiver preparada para se encontrar comigo agora ou se nunca vier a estar.
Escrevi e reescrevi esta carta, li-a e reli-a. Não é perfeita, e eu também não o sou. Mas, finalmente, arranjei coragem e gostaria de pensar que talvez tenha herdado isso de si.
Afectuosamente, Marin Gates."
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Sean
Os homens que estavam a repavimentar aquele trecho da Route 4 tinham passado os últimos quarenta minutos a debater" quem era mais sexy, a Jessica Alba ou a Pamela Anderson.
- A Jessica é cem por cento real - disse um dos homens, de luvas sem dedos e sem um terço dos dentes na boca. - Não tem implantes.
- Como se soubesses - disse o capataz da equipa de trabalhadores.
Junto da fila de trânsito, outro trabalhador segurava num sinal de Andamento Lento que podia servir de aviso aos carros, mas que também se podia aplicar a ele próprio.
- A Pam é um trinta e seis triplo D, oitenta e seis-sessenta-oitenta e seis - disse ele. - Sabes quem mais tem essas medidas? Uma boneca Barbie.
Encostei-me ao capo do meu carro da polícia, embrulhado na farda de Inverno, a tentar fingir que era surdo como uma porta. Policiar obras era o trabalho que menos gostava de fazer, mas eram um mal necessário. Sem as luzes azuis a piscarem, as probabilidades de algum idiota atropelar um dos trabalhadores aumentavam drasticamente. Aproximou-se outro homem com a expiração assemelhando-se a balões brancos a saírem da boca.
- Não ia escorraçar nenhuma delas da minha cama - disse ele.
- E era ainda melhor se estivessem lá as duas ao mesmo tempo.
Aí estava o mais engraçado: se perguntassem a qualquer um daqueles homens, eles diriam que eu era um tipo duro. Que o meu distintivo e a minha Glock bastavam para que me tivessem em alta conta. Fazem o que eu lhes disser para fazerem, e estão à espera que os condutores também façam o que eu lhes disser para fazerem. O que eles não sabem é que sou um cobarde da pior espécie. No
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trabalho talvez possa dar ordens, deter criminosos e impor respeito; em casa, acostumei-me a sair antes de qualquer outra pessoa acordar; abandonara o processo legal
de Charlotte sem sequer ter tido coragem para lhe dizer.
Tinha passado demasiado tempo acordado à noite a tentar convencer-me de que isso era ser corajoso - que estava a tentar encontrar um meio-termo para saberes que eras amada e desejada - mas a verdade era que isto também era vantajoso para mim. Tornei-me outra vez num herói, em vez de ser um homem que não consegue cuidar da sua própria família.
- Quer dar a sua opinião, Sean? - perguntou o capataz.
- Não quero estragar-vos o divertimento - disse diplomaticamente.
- Oh, não faz mal. O Sean é casado. Não pode passar os olhos, nem no Google...
Ignorando-o, avancei alguns passos quando um carro passou pelo cruzamento a acelerar, em vez de abrandar. Bastava-me apontar para o condutor para que tirasse o pé do acelerador. Era simples: o medo de que lhe passasse realmente uma multa era suficiente para fazê-lo pensar duas vezes no que estava a fazer. Mas este condutor não tinha abrandado e quando os travões chiaram até o carro parar a meio do cruzamento, apercebi-me de duas coisas em simultâneo: (1) era uma mulher que estava ao volante e não um homem; e (2) era o carro da minha mulher.
Charlotte saiu da carrinha e bateu com a porta atrás dela.
- Seu filho da puta - disse ela, avançando até estar suficientemente perto para me bater.
Agarrei-lhe nos braços, bem consciente de que, não só fizera parar o trânsito, como também os trabalhos na estrada. Sentia os olhos deles fixos em mim.
- Desculpa - disse entre dentes. - Tinha de fazê-lo.
- Achas que podia ficar em segredo até ao julgamento? - gritou Charlotte. - Talvez nessa altura toda a gente pudesse assistir a quando eu ficasse a saber que o meu marido é um mentiroso.
- Qual de nós é mentiroso? - disse eu, incrédulo. - Desculpa-me por não estar disposto a prostituir-me por causa do dinheiro.
As faces de Charlotte ficaram intensamente afogueadas.
- Desculpa-me por não estar disposta a deixar a minha filha sofrer por estarmos sem dinheiro.
Nesse instante reparei em algumas coisas: que o farol traseiro direito da carrinha de Charlotte estava fundido. Que tinha um penso no dedo da mão esquerda. Que começara de novo a nevar.
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- Onde estão as meninas? - perguntei, tentando espreitar pelas janelas escuras da carrinha.
- Não tens o direito de perguntar - disse ela. - Abdicaste desse direito quando foste ao escritório do advogado.
- Onde estão as meninas, Charlotte? - exigi.
- Em casa - afastou-se de mim, de olhos brilhantes de lágrimas. - Um sítio onde não te quero voltar a ver.
Dando meia volta, voltou a dirigir-se para o carro. Mas antes que conseguisse abrir a porta, bloqueei-lhe o caminho.
- Como é que não percebes? - sussurrei. - Até dares início a isto, a nossa família não tinha nenhum problema. Nenhum. Tínhamos uma casa decente...
- com infiltrações no telhado...
- Eu tenho um emprego estável...
- Que não dá dinheiro nenhum...
- E as nossas filhas tinham uma vida boa - terminei.
- O que sabes tu sobre isso? - perguntou Charlotte. - Não és tu que costumas estar com a Willow quando passamos pelo recreio na escola e ela vê as outras crianças fazerem coisas que ela nunca poderá fazer, coisas simples, como saltar dos baloiços ou darem pontapés na bola. Deitou fora o DVD de O Feiticeiro de Oz, sabias? Estava no caixote do lixo da cozinha porque um miúdo horrível, na escola, disse que ela era um Munchkin.
Sem mais nem menos, tive vontade de desancar aquele estuporzinho - apesar de só ter seis anos de idade.
- Ela não me disse nada.
- Porque não queria que viesses em defesa dela - disse Charlotte.
- Então - perguntei - porque estás fu a fazer o mesmo? Charlotte hesitou e percebi que tocara num ponto sensível.
- Podes enganar-te a ti próprio, Sean, mas a mim não me enganas. Vá lá, deixa que eu seja a cabra, a má da fita. Finge que és uma espécie de cavaleiro andante, se te sentes bem assim. Parece bem à primeira vista, e podes dizer a ti próprio que sabes a cor preferida dela, o nome do seu peluche favorito e de que geleia gosta de pôr nas sandes de manteiga de amendoim. Mas isso não é o que a define. Sabes do que ela costuma falar quando vamos a caminho de casa depois da escola? Ou do que tem mais orgulho? com que se preocupa? Sabes porque desatou a chorar ontem à noite e porque, há uma semana, se escondeu debaixo da cama durante uma hora? Admite, Sean. Pensas que és o herói dela, mas na verdade não sabes nada sobre a vida da Willow.
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Retraí-me.
- Sei que é uma vida que vale a pena ser vivida. Afastou-me da frente e entrou no carro, batendo com a porta
e avançando. Ouvi as buzinas furiosas dos carros que tinham ficado parados atrás da carrinha de Charlotte e virei-me e vi que o capataz ainda estava a olhar para
mim.
- Fazemos assim - disse ele -, pode ficar com a Jessica e a
Pam.
Nessa noite fui a Massachusetts. Não tinha nenhum destino em mente, mas saí em desvios ao acaso e passei por bairros bem aconchegantes para passar a noite. Desliguei as luzes dos faróis e percorri as ruas como um tubarão nas profundezas do oceano. Há tantas coisas que podemos ficar a saber sobre uma família a partir do lugar onde habita: os brinquedos de plástico informam-nos acerca das idades das crianças; luzes de Natal comunicam a sua religião; os tipos de carro estacionados à porta revelam-nos uma mãe doméstica dos subúrbios, um adolescente ou um adepto de NASCAR. Mas mesmo nas casas incaracterísticas, não tinha qualquer problema em imaginar as pessoas que estavam lá dentro. Fechava os olhos e imaginava um pai à mesa de jantar, a fazer as filhas rirem. Uma mãe a levantar a mesa, depois de tocar no ombro do homem ao passar. Via uma estante cheia de contos para adormecer, um pisa-papéis de pedra, toscamente pintado para parecer uma joaninha, a prender a correspondência do dia, um monte de roupa lavada. Ouvia o jogo dos Patriots numa tarde de domingo, e o iTunes de Amélia a tocar através de um altifalante parecido com um donut, e os teus pés descalços a percorrerem o corredor.
Devo ter ido a cinquenta casas destas. Ocasionalmente, encontrava uma luz acesa - normalmente no andar de cima, habitualmente via uma cabeça de adolescente recortada contra o brilho azul de um ecrã de computador. Ou um casal que adormecera com a televisão ainda acesa. A luz de uma casa de banho, para manter os monstros afastados de uma criança. Não importava se estava num bairro de brancos ou de negros, se era uma comunidade rica ou muito pobre - as casas são como as paredes de uma célula, impedem que os nossos problemas se alastrem para os problemas dos outros.
O último bairro que visitei naquela noite foi o que me atraiu como um iman, o polo magnético do meu coração. Estacionei ao fundo da rampa da nossa garagem, de luzes apagadas, para não denunciar a minha presença.
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A verdade é que Charlotte tinha razão. Quanto mais turnos extra fazia para pagar os teus acidentes, menos tempo passava contigo. Uma vez, pegueí-te ao colo enquanto dormias, vendo os sonhos passarem-te pelo rosto; nessa altura amava-te na teoria mesmo que isso não acontecesse na prática. Estava demasiado ocupado a proteger e a servir o resto de Bankton para me concentrar em proteger-te e servir-te; essa tarefa tinha cabido a Charlotte. Era uma tarefa sem fim, e eu fui afastado dela por este processo legal para vir a descobrir o que era impossível de negar: que estavas a crescer.
Isso ia mudar, jurei. Continuar aquilo que começara quando me dirigi a Brooker, Hood Coates, implicava que ia passar mais tempo contigo. Ia voltar a deixar-me cativar por ti.
Precisamente nessa altura, o vento entrou pela janela aberta da carrinha, enrolando os papéis dos bolos e fazendo-me lembrar por que tinha voltado ali naquela noite. Os biscoitos, bolos e doces" que tu, Amélia e Charlotte tinham feito nos últimos dias.
Meti-os todos na carrinha - à vontade umas trinta embalagens, cada uma atada com um cordel verde e um coração de papel de lustro. Foste tu que os cortaste; conseguia perceber. Doces de Syllabub, estava escrito. Imaginei as mãos da tua mãe a amassar a massa dos bolos, a expressão no teu rosto ao partires um ovo com cuidado, Amélia frustrada a dar um nó num avental. Vinha aqui algumas vezes por semana. Comia os primeiros três ou quatro; o resto deixava à porta do lar mais próximo para pessoas sem-abrigo.
Agarrei na carteira e tirei o dinheiro todo que tinha, a soma de todos os turnos extra que fizera no trabalho para não ter de vir para casa. Enfiei-o, nota a nota, na caixa de sapatos, pagando a Charlotte na mesma moeda. Antes que conseguisse conter-me, tirei o coração de papel de um embrulho de biscoitos. com um lápis, escrevi uma mensagem nas costas em branco: "Adoro."
No dia seguinte, lê-la-iam. As três ficariam radiantes, presumiriam que o escritor anónimo se referia aos bolos, e não às pasteleiras.
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Amélia
A caminho de casa, vindas de Boston, num fim-de-semana, a minha mãe reinventou-se como o raio de uma nova Martha Stewart Para isso, tivemos de fazer um desvio brutal para Norwich, em Vermont, para King Arthur Flour, para podermos comprar um monte de formas industriais para pastelaria e farinhas especiais. Já estavas de mau humor por teres tido de passar a manhã no Hospital Pediátrico para experimentares novos suportes para as pernas - eram quentes e rígidos e deixavam marcas e equimoses onde o plástico roçava na pele, o que os especialistas tentaram solucionar com uma pistola de calor; mas parecia não estar a resultar. Querias ir para casa e tirá-los, mas em vez disso, a Mãe subornou-nos com uma ida ao restaurante - uma recompensa que nenhuma de nós podia recusar.
Podia parecer que não era nada de especial, mas para nós era. Não costumávamos comer fora. A nossa mãe sempre disse que cozinhava melhor do que a maior parte dos
chefes de cozinha, e era verdade, mas isso apenas nos fazia parecer menos desgraçados do que éramos: não tínhamos dinheiro para isso. Por essa razão não dizia nada
aos nossos pais quando as calças de ganga começavam a ficar curtas, porque nunca comprava almoço, embora as batatas fritas da cantina tivessem um aspecto incrivelmente delicioso; era por essa razão que a Viagem ao Inferno do Disney World foi uma desilusão tão grande. Tinha vergonha de ouvir os nossos pais dizerem que não tínhamos dinheiro para comprar o que eu precisava ou queria ter; se não pedisse nada, não tinha de ouvi-los dizerem que não.
Uma parte de mim estava zangada por a mãe estar a usar o dinheiro dos bolos para comprar aquelas formas todas quando podíamos estar a comprar uma camisola com capuz, de caxemira, da juicy Couture, que faria as outras raparigas da escola olharem para mim com inveja, em vez de me olharem como se eu fosse alguma coisa colada às solas dos sapatos delas.
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Mas não, era fundamental que tivéssemos essência de baunilha mexicana e cerejas Bing secas do Michigan. Tínhamos de ter formas de silicone para queques, uma forma
para bolachas de manteiga e tabuleiros sem bordas para biscoitos. Estavas totalmente alheia ao facto de que cada cêntimo que gastávamos em açúcar turbinado e farinha
para bolos era menos um cêntimo gasto em nós, mas por outro lado, de que estava eu à espera: também ainda acreditavas no Pai Natal.
Por isso, devo admitir que fiquei um pouco surpreendida quando me deixaste escolher o restaurante onde fomos almoçar
- A Amélia nunca pode escolher - disseste e, embora me detestasse por isso, achei que ia chorar
Para compensar isso, e porque toda a gente estava à espera que eu fosse uma idiota, e para quê desiludir, disse:
- McDonald's.
- Bah - disseste tu. - Fazem quatrocentos hambúrgueres de uma vaca.
- Fala comigo quando fores vegetariana, hipócrita - respondi.
- Amélia, já chega. Não vamos ao McDonalcTs.
Por isso, em vez de escolher um restaurante italiano simpático de que todas provavelmente teríamos gostado, obriguei-a a parar num sítio absolutamente reles.
Parecia o tipo de restaurante com baratas na cozinha.
- Bem - disse a minha mãe, olhando em volta. - É uma escolha interessante.
- É nostálgico - disse eu, e lancei-lhe um olhar zangado. - Que mal tem isso?
- Nada, desde que o botulismo não seja uma das tuas recordações há muito perdidas.
Depois de olhar para o letreiro que dizia Sente-se Num Lugar À Escolha, dirigiu-se a uma mesa vazia.
- Quero sentar-me ao balcão - disseste.
A mãe e eu olhámos para os bancos instáveis, para a altura deles.
- Não - dissemos em simultâneo.
Arrastei uma cadeirinha de bebé para a mesa para poderes sentar-te. Uma empregada de mesa mal-humorada atirou-nos as listas com o menu e uma caixa de lápis de cera para ti.
-Volto já para anotar o vosso pedido.
A mãe enfiou-te as pernas na cadeirinha, o que era uma provação porque, com os suportes, as tuas pernas não se mexiam assim tão facilmente. Viraste imediatamente o individual e começaste a desenhar no lado em branco.
- Então - disse a mãe -, que bolos vamos fazer quando chegarmos a casa?
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- Donuts - sugeriste. Estavas bastante fascinada com a forma que tínhamos comprado, que parecia ter dezasseis olhos de alienígena.
- Amélia, e tu?
Escondi o rosto nos braços.
- Bolos de haxixe.
A empregada voltou com um bloco de notas na mão.
- Ora bem, és tão querida que apetece pôr-te numa bolacha e comer
- disse ela, olhando para ti. - E também és uma grande artista!
Olhei para ti e revirei os olhos. Enfiaste dois lápis de cera no nariz e deitaste a língua de fora.
- Queria um café - disse a mãe. - E uma sandes de peru.
- Uma chávena de café tem mais de cem substâncias químicas - disseste, e a empregada quase caiu para o lado.
Visto que não costumávamos sair muito, tinha-me esquecido de como os estranhos reagem à tua presença.Tens a altura de uma criança de três anos, mas falas, lês e desenhas como uma criança com muito mais do que a tua idade real - quase seis anos. Era de certo modo sinistro, até as pessoas te conhecerem.
- E é tão faladora! - disse a empregada, recompondo-se.
- Queria o queijo grelhado, por favor - respondeste. - E uma Coca-Cola.
- Pois, parece-me bem. São dois - disse eu, quando o que me apetecia mesmo era mandar vir um de cada coisa que estava no menu. A empregada observava-te enquanto fazias um desenho mais ou menos normal para uma criança de seis anos, mas que era praticamente um Renoir para o bebé que ela achava que eras. Parecia que ia dizer-te qualquer coisa, por isso virei-me para a mãe.
-Tens a certeza de que queres peru? Isso é uma intoxicação alimentar iminente...
- Amélia!
Estava zangada, mas consegui fazer a empregada deixar de fitar-te e sair dali.
- Ela é uma idiota - disse eu assim que a empregada se foi embora.
- Ela não sabe que... - a mãe interrompeu a frase abruptamente.
- O quê? - disseste num tom acusador- Que eu tenho um problema?
- Eu nunca diria isso.
- Pois, está bem - disse entre dentes. - Só quando o júri estiver presente.
- Podes ter a certeza, Amélia, se não mudares de atitude...
Fui salva pela empregada, que voltou com as bebidas em copos que provavelmente numa vida anterior foram de plástico transparente, mas que agora pareciam opacos. A tua Coca-Cola vinha num copo de bebé.
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Automaticamente a mãe agarrou nele e começou a desatarraxar a parte de cima. Pegaste num dos copos e depois agarraste no lápis de cera e começaste a escrever na
parte de cima do desenho: Eu, Amélia, Mamã, Papá.
- Oh, meu Deus - disse a empregada. - Tenho uma menina de três anos em casa e, deixe-me que lhe diga, mal consigo fazê-la deixar as fraldas. Mas a sua filha já escreve?
E bebe num copo normal. Minha querida, não sei o que anda a fazer assim tão bem, mas quero que me conte.
- Não tenho três anos - disseste.
-Três anos e meio, não? Esses meses contam quando são bebés...
- Não sou bebé!
- Willow - a mãe pousou-te a mão no braço, mas afastaste-a, derrubando o copo e espalhando Coca-Cola por todo o lado.
- Não sou!
A mãe agarrou num monte de guardanapos de papel e começou a limpar.
- Desculpe - disse à empregada.
- Ora, isto - a empregada acenou com a cabeça - parece mais próprio dos três anos.
Uma campainha tocou, e ela voltou para a cozinha.
- Willow, já devias saber - disse a nossa mãe. - Não podes ficar zangada com uma pessoa por ela não saber que tens OI.
- Porque não? - perguntei. - Tu estás.
A minha mãe ficou de boca aberta. Recompondo-se, agarrou na mala e no casaco e levantou-se.
-Vamos embora - anunciou, e tirou-te da cadeira. No último instante lembrou-se das bebidas e escarrapachou uma nota de dez dólares em cima da mesa. Depois levou-te
para o carro, comigo atrás.
Afinal fomos ao McDonald's, a caminho de casa, mas em vez de ficar satisfeita, fez-me ter vontade de desaparecer por baixo dos pneus, do pavimento, de tudo.
Também usava aparelho, mas não servia para evitar que as minhas pernas ficassem curvadas. O meu era vulgar; daqueles que alteravam a forma do maxilar ao progredirem
de expansor palatal para os elásticos ortodônticos e arames. Tinha isso em comum contigo: assim que coloquei o aparelho, comecei a contar os dias para poder tirá-lo. Para aqueles que nunca experimentaram o desconforto, é esta a sensação de usar aparelho: sabem aqueles dentes brancos de vampiro, postiços, que enfiamos na boca no Dia das Bruxas? Bem, imaginem isso, e depois imaginem que não os podem tirar durante os próximos três anos, a babarem-se e a cortarem as gengivas nos pedaços de plástico irregulares, e é assim o aparelho.
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E foi por isso que numa determinada segunda-feira de finais de janeiro, tinha o maior e mais tolo sorriso no rosto. Não me importei quando Emma e o grupo dela escreveram
a palavra PUTA no quadro atrás de mim, na aula de matemática, com uma seta a apontar para a minha cabeça. Não me importei que tivesses comido os cereais de chocolate
e que eu tivesse de comer os de trigo integral ao lanche, depois das aulas. A única coisa importante era que às 16h30 ia tirar o aparelho, depois de trinta e quatro
meses, duas semanas e seis dias.
A minha mãe estava incrivelmente tranquila - parecia que não percebia como isto era importante. Tinha verificado; estava marcado na agenda dela, tal como nos últimos
cinco meses. Mas comecei a entrar em pânico quando ela enfiou um cheesecoke no forno às quatro horas. Quero dizer, como podia levar-me de carro à cidade para ir
ao ortodontista sem se preocupar se a faca saía limpa dali a uma hora, quando fosse ver se já estava pronto?
O meu pai, era essa a resposta. Ultimamente não estava muito tempo em casa, mas por outro lado, isso não era nada de especial. Os polícias trabalhavam quando tinham
de trabalhar, e não quando queriam - pelo menos era o que ele costumava dizer-me. A diferença era que, quando estava em casa, o ar entre ele e a minha mãe podia
ser cortado com a mesma faca que ela usava para ver se o cheesecoke já estava pronto.
Talvez isto tudo fizesse parte de um plano delineado para se verem livres de mim. O meu pai ia chegar a tempo de me levar ao ortodontista; a minha mãe acabaria de
fazer o cheesecoke (que era o meu preferido) e tudo terminaria num jantar à antiga com coisas como maçarocas de milho assadas, maçãs caramelizadas e pastilha elástica
- tudo comidas proibidas que estavam escritas num íman colado ao frigorífico com uma grande cruz por cima e, para variar, seria de mim que ninguém conseguiria tirar
os olhos.
Estava sentada à mesa da cozinha, a roçar com o sapato de ténis no chão.
- Amélia - suspirou a minha mãe. Guincho.
- Amélia, por amor de Deus. Estás a causar-me dores de cabeça. Eram 16h04.
- Não estás a esquecer-te de nada? Limpou as mãos a um pano da loiça.
- Que eu saiba não...
- Bem, quando é que o pai chega? Ela ficou a olhar para mim.
- Querida - disse ela, uma palavra doce, para ficarmos a saber que o que se segue tem de ser horrível. - Não sei onde o teu pai está. Ele e eu... nós não temos...
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- A minha consulta - desabafei, antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. - Quem vai levar-me ao ortodontista?
Por um momento, ficou sem fala.
- Deves estar a brincar
- Passados três anos? Não me parece - levantei-me, espetando o dedo no calendário que estava na parede. - Hoje vou tirar o aparelho.
- Não vais ao consultório do Rob Reece - disse a minha mãe. Pronto, foi esse o pormenor que não referi; o único ortodontista de
Bankton - aquele que tinha andado a consultar durante todo aquele tempo
- por acaso era casado com a mulher que ela estava a processar Claro, devido àquele drama todo, tinha faltado a duas consultas desde Setembro, mas não tinha nenhuma intenção de faltar àquela.
- Lá por teres embarcado numa cruzada para arruinares a vida da Piper, eu tenho de ficar com o aparelho até aos quarenta anos!
A minha mãe levou a mão à testa.
- Até aos quarenta anos não. Só até arranjar outro ortodontista. Por amor de Deus, Amélia, esqueci-me. É óbvio que ultimamente tenho tido muito em que pensar.
- Pois, tu e qualquer outra pessoa do planeta, mãe - gritei. - Sabes uma coisa? Nem tudo gira à tua volta, nem daquilo que queres e do que faz com que toda a gente
tenha pena da tua triste vida com uma triste...
Deu-me uma estalada na cara.
A minha mãe, nunca, nunca me bateu. Nem quando eu fui para o meio da estrada aos dois anos, nem quando entornei acetona para cima da mesa da sala de jantar, destruindo o acabamento. Doía-me a face, mas o peito doía-me mais. O meu coração transformara-se numa bola de elásticos, e estavam a rebentar, um por um.
Queria magoá-la tanto quanto ela me magoara a mim, por isso proferi as palavras que me queimavam a garganta como ácido.
- Aposto que também querias que eu não tivesse nascido - disse, e saí a correr.
Quando cheguei ao consultório de Rob (nunca lhe chamei Dr Reece), estava a suar e afogueada. Acho que nunca tinha corrido oito quilómetros na minha vida, mas era
isso que acabara de fazer. A culpa dá-nos mais energia do que aquilo que podemos imaginar. Eu era praticamente o Coelhinho Duracell, e tinha mais a ver com o desejo
de fugir da minha mãe do que com a vontade de chegar ao consultório do ortodontista. Ofegante, dirigi-me à secretária da recepcionista, onde havia um fabuloso quiosque
com um computador para nos registarmos. Mas mal tinha acabado de pousar os dedos no teclado reparei que a recepcionista estava a olhar para mim. E a higienista. E todas as pessoas que estavam no consultório.
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- Amélia - disse a recepcionista. - O que estás aqui a fazer? -Tenho uma consulta marcada.
- Acho que todos nós pensámos...
- Pensaram o quê? - interrompi. - Que por a minha mãe ser uma idiota, eu também sou?
De repente, Rob apareceu na recepção, tirando um par de luvas de látex das mãos. Costumava enchê-las de ar para a Emma e para mim, e desenhar-lhes pequenos rostos.
Os dedos pareciam a crista de um galo e eram macios como a pele de um bebé.
- Amélia - disse ele numa voz tranquila. Não estava a sorrir, nem um bocadinho. - Acho que estás aqui por causa do aparelho.
Parecia que estivera a vaguear por uma floresta ao longo dos últimos meses, por um lugar onde até as árvores podiam estender os ramos para nos agarrar e onde ninguém
falava a minha língua - e Rob dissera a primeira frase racional e normal que ouvia desde há muito tempo. Ele sabia o que eu queria. Para ele era tão fácil, por que
razão mais ninguém percebia?
Segui-o para o gabinete, passando pela recepcionista e a higienista antipáticas que abriram tanto os olhos que parecia que iam saltar-lhes das órbitas. "Ah", pensei,
caminhando orgulhosamente ao lado dele. "É para aprenderem."
Estava à espera que Rob dissesse qualquer coisa como, "Olha, vamos despachar isto e manter uma relação exclusivamente profissional", mas em vez disso, enquanto me
colocava a protecção de papel por cima dos ombros, disse:
- Está tudo bem contigo, Amélia?
Meu Deus, porque é que o Rob não era meu pai? Porque é que eu não vivia em casa dos Reece e a Emma vivia na minha, para eu poder detestá-la em vez de ela me detestar
a mim?
- Comparado com o quê? O Armagedão?
Tinha uma máscara, mas estou convencida que por baixo dela esboçou um sorriso. Sempre gostei do Rob. Era um bocado cromo e franzino, nada parecido com o meu pai.
Quando dormíamos em casa uma da outra, Emma costumava dizer-me que o meu pai era lindo como um actor de cinema e eu dizia-lhe que era nojento que ela sequer pensasse
nele daquela maneira; e ela dizia que se o pai alguma vez participasse num filme, seria a A Vingança dos Nerds. E talvez fosse verdade, mas ele também não se importava
de nos levar ao cinema para ver filmes com a Amanda Bynes ou a Hilary Duff, e deixava-nos brincar com a cera dos aparelhos e moldá-la em ursinhos e póneis
quando estávamos aborrecidas.
- Já me tinha esquecido de como eras engraçada - disse Rob. Muito bem, abre a boca... Podes sentir um pouco de pressão. - Agarrou
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num alicate e começou a cortar as ligações entre os bráquetes e os meus dentes. Era estranho, como se eu fosse biónica. - Dói-te? Abanei a cabeça.
- A Êmma ultimamente não tem falado muito de ti.
Não podia falar porque ele tinha as mãos na minha boca aberta. Mas isto era o que teria dito: "Porque se tornou numa megacabra que me detesta."
- É óbvio que é uma situação muito desconfortável - disse Rob. Tenho de admitir que nunca pensei que a tua mãe te deixasse voltar aqui para as consultas de ortodontia.
"E não deixou."
- Sabes, a ortodontia é apenas física - disse Rob. - Se colocássemos só bráquetes ou elásticos nos dentes tortos, não serviria de nada. Mas quando aplicamos força em sentidos diferentes, as coisas mudam - olhou para mim, e eu sabia que já não estava a falar sobre os meus dentes. - Cada acção tem uma reacção oposta igual.
Rob estava a retirar a substância adesiva e o cimento dos dentes. Levantei a mão e coloquei-a no pulso dele, para que tirasse a escova de dentes eléctrica. A minha saliva tinha um gosto metálico.
- Ela também estragou a minha vida - disse eu e, por causa da saliva, parecia que estava a afogar-me.
Rob desviou o rosto,
- Vais ter de usar um retentor, senão pode haver deslocamentos. Vamos fazer umas radiografias e moldes para podermos fazer-te um... depois franziu a testa, tocando na parte de trás dos meus dentes da frente. -Aqui o esmalte está muito gasto.
Bem, claro que estava; estava a forçar-me a vomitar três vezes por dia, embora não soubesses. Estava mais gorda do que nunca, porque quando não estava a vomitar, estava a empanturrar-me. Sustive a respiração, interrogando-me se seria aquele o momento em que alguém descobriria o que eu andava a fazer. Pensei se não estaria
à espera daquele momento desde o início.
-Tens bebido muitos refrigerantes?
A desculpa fez-me sentir fraca. Apressei-me a acenar com a cabeça.
- Não bebas - disse Rob. - Usa-se Coca-Cola para limpar as manchas de sangue nas auto-estradas, sabias. Queres que isso entre no teu corpo?
Parecia daquelas coisas que costumas dizer dos teus livros de curiosidades. E os meus olhos encheram-se de lágrimas.
- Desculpa - disse Rob, levantando as mãos. - Não quis magoar-te. "Eu também não", pensei.
Ele concluiu o polimento dos dentes com uma pasta que parecia areia e deixou-me bochechar
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- É uma oclusão linda - disse ele, e segurou num espelho. - Sorri,
Amélia.
Passei a língua pelos dentes, uma coisa que já não podia fazer há quase três anos. Os dentes pareciam enormes, lisos, como se fossem de outra pessoa. Mostrei-os - não era um sorriso, era mais o esgar de um lobo. A rapariga no espelho tinha lindas fileiras de dentes, como o colar de pérolas que estava na caixa de jóias da minha mãe e que eu roubara e escondera numa das minhas caixas de sapatos. Nunca o usei, mas gostava do toque delas, tão macias e uniformes, como um pequeno exército a marchar em volta do pescoço. A rapariga no espelho quase podia ser bonita.
O que queria dizer que não podia ser eu.
- Tens aqui uma coisa que costumamos dar aos jovens que terminaram o tratamento - disse Rob, entregando-me um pequeno saco de plástico com o nome dele.
- Obrigada - murmurei, e saltei da cadeira, arrancando a protecção de papel.
- Amélia, espera. O teu retentor.. - disse Rob, mas nessa altura, já tinha corrido para a recepção e saído porta fora. Mas em vez de descer as escadas e sair do edifício, corri lá para cima, onde ninguém se lembraria de vir procurar-me (Mas não iam procurar-me. Eu não era assim tão importante, pois não?), e tranquei-me na casa de banho. Abri o saco. Havia caramelos Twizzlers, ursinhos de goma e pipocas, todos os alimentos que eu já não comia há tanto tempo que já nem me lembrava do seu paladar. Havia uma T-shirt que dizia: OS DESLOCAMENTOS ACONTECEM, POR ISSO USA O TEU RETENTOR.
A sanita tinha um tampo preto. Segurei nos cabelos com uma mão e com a outra, enfiei o indicador pela garganta abaixo. Aqui está aquilo em que Rob não tinha reparado:
a pequena crosta naque e dedo, por raspar nos dentes da frente de cada vez que fazia isto.
Depois, os meus dentes pareciam ásperos e sujos, novamente familiares. Limpei a boca com água no lavatório e olhei para o espelho. Tinha as faces coradas, os olhos brilhantes.
Não parecia uma pessoa cuja vida estava a desmoronar-se. Não parecia uma rapariga que se forçava a vomitar para sentir que era capaz de fazer alguma coisa certa.
Não parecia uma filha que era detestada pela mãe, ignorada pelo pai.
Para ser sincera, já nem sabia quem eu era.
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Piper
Em quatro meses, renasci. Antigamente, usava uma fita métrica de papel para medir a linha média do abdómen, agora usava-a para calcular aberturas para janelas. Antigamente,
usava um estetoscópio Doppler para ouvir os batimentos cardíacos fetais; agora uso um magnetómetro para localizar os pontos mais favoráveis por trás de uma parede falsa. Antigamente, fazia rastreios pré-natais com múltiplos marcadores bioquímicos, agora fechava alpendres. Tinha-me aplicado na tarefa de aprender tanto sobre remodelações como sobre medicina, podendo já ser certificada como empreiteira.
Primeiro remodelei a casa de banho, depois a sala de jantar. Arranquei a alcatifa dos quartos para colocar chão de parquet. Naquela semana estava a pensar em começar a pintar a cozinha com pinturas decorativas. Depois de acabar uma divisão, voltava a colocá-la na lista para eventualmente vir a ser remodelada outra vez.
Claro que a minha loucura tinha um método. Em parte fazia-me sentir novamente especialista em alguma coisa - alguma coisa que eu não sabia fazer antes ser-me-ia
impossível estragá-la. E em parte pensava que se mudasse tudo o que estava à minha volta, talvez encontrasse um lugar onde voltasse a sentir-me confortável.
Aubuchon Hardware transformou-se no meu refúgio de eleição. Enquanto podia encontrar-me casualmente com pacientes na mercearia ou na farmácia, no Aubuchon deambulava
alegremente pelos corredores num estado de absoluto anonimato. Ia lá três ou quatro vezes por semana e ficava a olhar para os níveis laser e para as brocas, as filas de bitolas perfiladas como soldados, os tubos de PVC e as suas primas mais delicadas, os canos de cobre. Sentava-me no
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chão com amostras de tintas, sussurrando os nomes das cores: Vinho de Amora, Azul Riviera, Lava Fria. Pareciam fotografias de férias de lugares que sempre quis visitar.
Azul Newburyport pertencia à colecção de Cores Históricas de Benjamin Moore. Era um azul-escuro-acinzentado, como o oceano quando chove. Por acaso já tinha estado em Newburyport. Num Verão, Charlotte e eu alugámos uma casa em Plum Island para as nossas famílias. Ainda eras suficientemente pequena para poderes ser transportada, com todo o equipamento, através das ervas altas até à praia. Em teoria, pareciam ser as férias perfeitas: a areia era suficientemente macia para te amparar as quedas; Emma e Amélia podiam fingir que eram sereias, com cabelos de algas que vinham dar à costa; e era suficientemente perto para Sean e Rob puderem vir ter connosco nos
dias de folga. Só havia um senão que nos tinha escapado: a água era tão fria que até pelos tornozelos nos fazia doer até ao âmago. Vocês passavam o dia a chafurdar
em pocinhas suficientemente rasas para serem aquecidas pelo sol, mas Charlotte e eu éramos demasiado grandes.
E foi por isso que, num domingo, quando os homens levaram as crianças ao Mad Martha para tomarem o pequeno-almoço, Charlotte e eu decidimos experimentar fazer bodyboard,
apesar de poder resultar em hipotermia grave. Enfiámo-nos nos fatos ("Devem ser apertados", disse eu a Charlotte quando ela se queixou do tamanho das ancas) e levámos
as pranchas para a beira de &aacut