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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


HALT EM PERIGO / John Flanagan
HALT EM PERIGO / John Flanagan

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Havia um vento soprando para fora do pequeno porto. Ele carregava o sal do mar junto com o cheiro da iminente chuva. O cavaleiro solitário encolheu os ombros. Mesmo que fosse o fim do verão, parecia ter chovido constantemente ao longo da semana passada. Talvez neste país chovesse o tempo todo, não importando qual a época.
"Verão e inverno, nada além de chuva", disse calmamente ao seu cavalo. Ele não ficou surpreendido que o cavalo não disse nada.
"Exceto é claro, quando neva", continuou o cavaleiro. "Presumivelmente, isso serve para confirmar que é inverno‖. Desta vez o cavalo sacudiu a cabeleira desgrenhada e vibrou suas orelhas, da forma como os cavalos fazem. O cavaleiro sorriu para ele. Eles eram velhos amigos.
"Você é um cavalo de poucas palavras, Puxão‖, Will disse. Refletindo sobre isso, ele decidiu que a maioria dos cavalos provavelmente era. Houve um tempo, muito recentemente quando se perguntou sobre esse hábito, de falar com seu cavalo. Logo depois, mencionou isso a Halt ao redor de uma fogueira, quando em uma noite estavam no acampamento e, descobriu que era um traço comum entre os Rangers.

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"É claro que falamos com eles‖, O Ranger grisalho lhe falou. "Nossos cavalos mostram muito mais bom-senso que a maioria das pessoas. E, além disso,‖, ele enfatizou com uma nota de seriedade em sua voz, "contamos com os nossos cavalos. Nós confiamos neles e eles confiam em nós. Falar com eles fortalece a ligação especial que há entre nós‖.
 
Will cheirou o ar novamente. Havia agora outros cheiros aparentes, subjacentes ao sal e à chuva. Havia o cheiro de alcatrão. De corda nova. De algas secas. Mas, estranhamente havia um cheiro faltando - um cheiro que teria esperado sentir em qualquer porto, ao longo da costa oriental de Hibernia.
 
Não havia cheiro de peixe. Nenhum cheiro proveniente de redes secando.
 
"Então, o que eles fazem aqui se não pescam?", Ele meditou. Além da lenta batida dos cascos no calçamento irregular, fazendo eco nos edifícios que ladeavam as ruas estreitas, o cavalo novamente não respondeu. Mas Will achava que já sabia. Depois de tudo, era por isso que ele estava aqui. Port Cael era uma cidade de contrabandistas.
 
As ruas das docas eram estreitas e sinuosas, em contraste com as amplas e bem definidas ruas do resto da cidade. Havia apenas uma ocasional lanterna, fora de um
edifício para iluminar o caminho. As construções eram principalmente de dois andares, com portas de carga definidas no segundo andar e portais que abaixavam de modo que os fardos e barris poderiam ser trazidos baixo com carrinhos. Armazéns, Will adivinhou. Com espaço para as mercadorias, que os armadores contrabandeavam para dentro e fora do porto de armazenamento.
 
Ele estava quase nas docas agora e, na abertura que marcava o final da rua, ele podia ver os contornos de vários navios de pequeno porte, atracados ao cais e sacudindo nervosamente sobre os esforços das ondas agitadas, que conseguiam forçar seu caminho através da entrada do porto.
 
"Deve ser por aqui em algum lugar", ele disse e depois localizou. Um edifício de piso único no final da rua, com um telhado baixo de palha, não muito mais do que acima da altura da cabeça. As paredes, alguma vez deviam ter sido pintadas de branco, mas agora elas estavam cor cinza sujo. Uma luz amarela e intermitente brilhava através das pequenas janelas ao longo da parede lateral da rua e uma placa pendurada rangia no vento por cima da baixa porta. Desenhada grosseiramente na placa, havia uma ave marinha de algum tipo.
 
"Pode ser uma garça", disse ele. Olhou em volta curioso. Os outros edifícios eram todos escuros e anônimos. Seus negócios já estavam finalizados nesse dia, enquanto que, em uma taberna como a da garça, estava apenas começando.
 
Ele desmontou em frente ao prédio, batendo distraidamente no pescoço de Puxão para que ficasse ali. O pequeno cavalo considerou a taverna com, em seguida virou para olhar seu mestre.
 
Você tem certeza que quer ir lá?
 
Para um cavalo de poucas palavras, havia momentos que Puxão poderia se expressar com clareza cristalina. Will sorriu feliz para ele. 
 
"Eu vou ficar bem. Eu sou um menino grande agora, você sabe disso‖. Puxão bufou com desprezo. Ele tinha visto o pequeno estábulo ao lado da pousada e ele sabia que ia ficar lá. Ele sempre ficava pouco à vontade, quando não estava por perto para manter seu mestre longe de problemas. Will o levou até o portão no estábulo. 
 
Presos lá havia outro cavalo e um velho burro cansado. Will não se preocupou em amarrar Puxão. Ele sabia que seu cavalo ficaria ali, até que ele retornasse.
 
"Espere aqui. Fique fora do vento", disse ele apontando para a parede distante. Puxão o olhou novamente, abanou a cabeça e foi a passos lentos para o ponto que Will tinha indicado.
 
Grite se você precisar de mim. Eu irei correndo.
 
Por um momento, Will se perguntou se estava sendo muito fantasioso em atribuir esse pensamento para o seu cavalo. Então ele decidiu que não. Por um segundo ou dois, se divertiu com a imagem de Puxão, irrompendo pela estreita porta da taverna, jogando os bêbados de lado para vir em auxílio de seu mestre. Ele sorriu com o pensamento, em seguida fechou o portão do estábulo, levantando-o para que não arrastasse sobre os paralelepípedos irregulares. Em seguida, moveu-se para a entrada da taberna.
 
Will não era de nenhuma maneira uma pessoa alta, mas mesmo ele, sentiu-se obrigado a se inclinar um pouco sob o batente da porta. Quando abriu a porta, ele foi atingido por uma parede de sensações. Calor. Cheiro de suor. Fumaça. Cerveja estragada derrubada no chão.
 
Quando o vento entrou pela porta aberta, as lamparinas piscaram e o fogo de turfa na lareira que estava na parede do fundo, de repente queimou com energia renovada. Ele hesitou e analisou a situação. A fumaça e a luz bruxuleante do fogo tornavam a visão difícil, principalmente para quem tinha estado fora, na rua escura.
 
"Feche a porta, idiota!" Gritou uma voz áspera e ele adentrou pela porta, permitindo que se fechasse atrás dele. Logo acima no telhado de palha, havia um manto grosso de fumaça branca e dúzias de canos de escape. Will se perguntou se a fumaça alguma vez teve a chance de dispersar-se, ou simplesmente ficava lá, se acumulando de um dia para outro, crescendo cada vez mais a cada noite que se passava. A maioria dos fregueses da taverna o ignorou, mas alguns poucos rostos hostis, viraram para ele avaliando o recémchegado.
 
Eles viram uma figura esguia e franzina, envolto em um maçante manto cinza e verde, com o rosto escondido sob um largo capuz. Enquanto eles observavam, ele empurrou o capuz para trás e viram que o seu rosto era surpreendentemente jovem. Pouco mais de um menino. Então observaram a longa faca Saxônica em sua cintura, com uma pequena faca montada sobre ela e, o enorme arco na mão esquerda. Por cima do ombro, eles viram pontas de penas de mais de uma dúzia de flechas, saindo da alijava colocada em suas costas.
 
O desconhecido podia parecer um menino, mas ele carregava armas de um homem. E fazia isso inscoscientemente e sem alarde, como se estivesse completamente familiarizado com elas.
 
Ele olhou ao redor da sala, acenando para os que tinham virado para estudá-lo. Mas seu olhar passou rapidamente sobre eles, era evidente que ele não oferecia nenhuma ameaça – aqueles eram homens que estavam bem acostumados a medir, as potenciais ameaças dos recém-chegados. A pequena tensão que havia no ar da taverna passou e as pessoas voltaram para suas bebidas. Will, após uma rápida inspeção do ambiente, não viu
nenhuma ameaça para si e cruzou o salão em direção ao grosseiro bar - três tábuas pesadas, serradas rudemente e colocadas sobre dois enormes barris.
 
O taverneiro era um homem magro com um nariz afilado, rosto redondo e orelhas proeminentes, esta combinação dava a ele uma aparência de roedor. Ele ficou olhando distraidamente para Will, enquanto enxugava uma caneca com um pano sujo. Will levantou uma sobrancelha quando notou isso. Ele poderia apostar que o pano estava sujando muito mais a caneca do que a limpando.
 
"Bebida?‖ Perguntou o taberneiro. Ele colocou a caneca em cima do bar, como se estivesse preparando para enchê-la com qualquer coisa que o estranho pudesse pedir.
 
"Nada disso‖, Will disse calmamente empurrando a caneca com seu polegar. O cara de rato encolheu os ombros, virou-se para pegar algo em uma estante acima do bar.
 
―Escolha você mesmo. Cerveja ou Uísque?‖.
 
Will sabia que Uísque era uma bebida destilada muito forte que eles bebiam em Hibernia. Em um boteco como este, poderia ser mais apropriado para remover ferrugem do que beber.
 
"Eu gostaria de café", disse ele notando uma jarra desgastada, junto ao fogo no final do bar.
 
"Eu tenho cerveja ou Uísque escolha‖. O cara de rato estava se tornando mais imperativo. Will fez um gesto para o pote de café. O taberneiro sacudiu a cabeça.
 
"Nada feito", disse ele. "Eu não vou fazer uma jarra nova só porque você quer‖.
 
"Mas ele está bebendo café‖, Will disse, acenando para um lado.
 
Era inevitável que o taberneiro olharia para o lado, para ver de quem ele estava falando. No momento em que seus olhos desviaram de Will, sentiu uma mão de ferro segurar em seu colarinho da camisa, torcendo-o em um nó que o sufocava e ao mesmo tempo o puxava para frente, tirando seu equilíbrio por cima do bar. Os olhos do estranho, de repente estavam muito perto. Ele não parecia um menino. Os olhos eram castanhoescuro, quase pretos naquela fraca luz e o taberneiro compreendeu que havia perigo ali. Um grande perigo. Ele ouviu um suave chiado de aço e, olhando para baixo, vislumbrou no final do punho do estranho, a pesada lamina da faca saxônica que ele colocou entre os dois sobre o bar.
 
Engasgado, olhou ao redor por uma possível ajuda. Mas não havia ninguém no bar e nenhum dos clientes das mesas havia notado o que estava acontecendo.
 
"Uuu... faz ca'hee", ele engasgou.
 
A tensão em seu colarinho diminuiu e o estranho disse baixinho: "O Que disse?‖.
 
"Eu vou... fazer... café", ele repetiu ofegante.
 
O estranho sorriu. Era um sorriso agradável o taberneiro percebeu, mas o sorriso não se estendia aos seus olhos negros. "Então, isso é maravilhoso. Vou esperar aqui‖. Will afrouxou o aperto na camisa do taberneiro, o que lhe permitiu deslizar para trás e por cima do bar, recuperando o equilíbrio. Will bateu no punho da faca Saxônica. "Não vai mudar de idéia, vai?‖.
 
Havia um grande caldeirão próximo da grelha no fogo, apoiado em um braço giratório de ferro, que o movia para dentro das chamas. O taberneiro puxou-o do fogo e ocupouse com pote de café, medindo a quantidade de grãos, então derramou água fervente sobre ele. O rico cheiro de café encheu o ar e por um momento, sobrepondo-se aos odores menos agradáveis que Will havia notado quando entrou.
 
O taberneiro colocou o pote em frente de Will, em seguida pegou uma caneca de trás do bar. Ele o limpou com o seu pano. Will franziu a testa, pegou a caneca e a limpou cuidadosamente com um canto de seu manto e derramou o café.
 
"Eu vou querer açúcar, se você tiver", disse ele. "Se não, pode ser mel‖.
 
"Eu tenho açúcar‖. O taberneiro virou-se para pegar a taça e uma colher de metal. 
 
Quando ele se voltou para o estranho, parou. Havia uma moeda de ouro, brilhando forte sobre o bar entre eles. Era mais dinheiro que ele faria em uma noite de trabalho, então hesitou em pegá-la. Afinal, a faca saxônica ainda estava sobre o bar, perto da mão do estranho.
 
"Dois penn'orth pelo café está bom", disse ele com cuidado.
 
Will assentiu com a cabeça e enfiou a mão no bolso, selecionou duas moedas de cobre e soltando-as no bar. "Isso é mais do que justo. Você faz um bom café", ele acrescentou inconseqüentemente.
 
O taberneiro assentiu com a cabeça e engoliu ainda incerto. Cautelosamente, ele pegou as duas moedas de cobre do bar, observando atentamente qualquer sinal de movimento do enigmático estranho. Por um momento, ele sentiu-se vagamente envergonhado de ter sido dominado por alguém tão jovem. Mas olhando novamente para aqueles olhos e as armas do jovem, ele descartou o pensamento. Ele era um taberneiro. Sua noção de violência era nada mais que dar porretadas na cabeça de alguns bêbados e normalmente fazia isso pelas costas.
Ele embolsou as moedas e olhou timidamente para a brilhante moeda de ouro, ainda reluzindo para ele sob a luz das lamparinas. Então tossiu. O estranho levantou uma sobrancelha.
 
"Aconteceu alguma coisa?".
 
Levando as mãos para as costas, para que não houvesse nenhum mal-entendido e o estranho não pensasse que ele estava querendo pegar o ouro, o taberneiro inclinou sua cabeça para ele algumas vezes.
 
"O... ouro. Eu queria saber... isso é... para mais alguma coisa?‖.
 
O estranho sorriu. Mas como da outra vez, o sorriso não chegou a seus olhos.
 
"Bem, realmente é sim. É para obter informações‖.
 
Agora, o sentimento de aperto no estômago que o taberneiro sentia, pareceu deixá-lo com facilidade. Isso era algo que ele entendia, em especial nesse bairro.
 
As pessoas muitas vezes pagavam para obter informações em Port Cael. E geralmente, eles não prejudicavam as pessoas que davam informação a eles.
 
"Informação, certo?‖ Ele perguntou permitindo-se um sorriso. "Bem, este é o lugar para perguntar e eu sou o homem para responder. O que você quer saber, sua honra?‖.
 
"Eu quero saber se Black O‘malley esteve aqui nesta noite‖, disse o jovem.
 
E de repente, o sentimento de aperto no estomago do taberneiro estava de volta.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2
 
"O'Malley, não é? E por que você está procurando por ele?‖ Perguntou o taberneiro. 
Aqueles olhos escuros e entediados foram ao encontro dele novamente. A mensagem em si foi clara. A mão do estranho moveu-se para cobrir a moeda de ouro. Mas naquele momento, ele não fez nenhum movimento para apanhá-la e removê-la do bar.
"Bem‖, O estrangeiro disse calmamente: "Eu estava imaginando, por que esse ouro está aqui? Por acaso foi você que o colocou?" Antes que o taberneiro pudesse responder, ele continuou. ―Não. Não me lembro de que isso tenha acontecido. Pelo que me lembro, eu o coloquei aqui, em troca de informações. Não foi assim que você entendeu?‖.
O taberneiro pigarreou nervosamente. A voz do jovem era calma e mantinha-se num tom baixo, mas de fato, não menos ameaçadora.
"Sim. Foi isso mesmo‖, respondeu ele.
O estrangeiro assentiu com a cabeça várias vezes, como se considerando sua resposta. 
"E me corrija se eu estiver errado, geralmente aquele que está pagando é quem dá o tom. Ou neste caso, faz as perguntas. Você vê dessa forma também?‖.
Por um segundo, Will se perguntava se não estava exagerando no tom silencioso de ameaça. Depois descartou a idéia. Com uma pessoa como esta, cuja vida provavelmente era centrada em torno de informação e negociatas, ele precisava impor certo nível de autoridade. E a única forma de autoridade disponível que esse bajulador podia entender, era baseada no medo. A menos que Will conseguisse dominá-lo, o taberneiro seria encorajado a lhe contar toda uma sorte de mentiras que lhe viesse à mente.
"Sim, senhor. É assim que eu vejo‖.
O ‗senhor‘ era um bom começo, Will pensou. Respeitoso, sem ser muito insinuante. Ele sorriu de novo.
"Portanto, a menos que você queira empatar minha moeda por uma das suas novamente, vamos continuar, comigo perguntando e você respondendo‖.
Sua mão deslizou para longe da moeda de ouro mais uma vez, deixando-a reluzir sobre a superfície áspera do bar.
―O Black O'Malley. Ele está aqui esta noite?‖ O estranho perguntou.
O cara de rato permitiu-se deslizar o olhar pela taverna, apesar de que ele já sabia a resposta. Pigarreou novamente. Era estranho como a presença deste jovem parecia deixá-lo sem ação.
"Não senhor. Ainda não. Ele geralmente chega um pouco mais tarde‖.
―Então eu vou esperar", disse Will. Ele olhou ao redor e escolheu uma pequena mesa afastada dos outros fregueses. Estava em um canto, um local devidamente discreto e ele estaria fora da linha de visão, de quem entrasse na taberna.
"Vou esperar lá. Quando O'Malley chegar, você não vai dizer nada para ele sobre mim.
E também não vai olhar para mim. Mas você vai dar um puxão em sua orelha por três vezes, para deixar-me saber que ele chegou. Está claro?‖―.
"Sim, senhor. Está‖.
―Bom. Agora...‖ Ele pegou a moeda e com a outra mão a faca Saxônica, por um instante o dono da taverna pensou que ia ficar com o dinheiro. Mas Will a segurou pela borda e passou o fio de sua faca bem no meio da moeda, cortando-a em dois semicírculos. Dois pensamentos ocorreram ao dono da taverna. O ouro deveria ser muito puro para cortar tão facilmente. E a faca deveria ser assustadoramente afiada, para atravessá-la com tão pouco esforço.
Will deslizou metade da peça de ouro ao longo do bar.
"Aqui está uma metade, entenda como um gesto de boa-fé. Terá a outra metade quando você fizer o que eu pedi‖.
O taberneiro hesitou por um segundo. Então, engolindo nervoso, ele pegou a metade mutilada do ouro.
―Você vai querer alguma coisa para comer enquanto espera senhor?‖ Ele perguntou.
Will recolocou a outra metade da moeda de ouro em sua bolsa presa ao cinto, em seguida, esfregou os dedos e o polegar juntos. Eles estavam levemente cobertos com graxa, por causa do breve contacto com a parte superior do bar. Ele olhou mais uma vez o pano sujo sobre o ombro do taberneiro e balançou a cabeça.
"Eu acho que não‖.
Will sentou-se, ficou cuidando de seu café enquanto esperava o homem que entraria no bar.
Quando Will chegou pela primeira vez em Porto Cael, ele tinha encontrado um quarto em uma pousada, a alguma distância da beira-mar, numa das áreas mais bem guardadas da cidade. O estalajadeiro era um homem taciturno, não dado para o tipo de boatos que sua espécie normalmente gostava. Fofocar era uma forma de vida para os estalajadeiros, Will pensou. Mas este parecia decididamente atípico. Melhor parte da cidade ou não, ele
percebeu que esta ainda era uma cidade que dependia em grande parte do contrabando e outras formas de comércio ilegal. As pessoas tenderiam a ter suas bocas-fechadas com estranhos.
A menos que esse estranho oferecesse ouro, assim como Will fez. Ele disse ao estalajadeiro que ele estava procurando por um amigo. Um grande homem de cabelos longos e grisalhos, vestido com uma túnica branca e com um grupo de cerca de vinte seguidores. Haveria dois entre eles que usavam mantos púrpuros e chapéus de abas largas, da mesma cor. Possivelmente carregando bestas.
Enquanto descrevia Tennyson e os assassinos, os olhos do estalajadeiro deixaram escapar a verdade. Tennyson tinha estado ali, então tudo certo. Seu pulso subiu um pouco ao pensar que talvez ele ainda estivesse aqui. Mas as palavras do estalajadeiro acabaram com essa esperança.
"Eles estavam aqui sim", disse ele. "Mas já se foram‖.
Aparentemente, o homem havia decidido que se Tennyson já tinha saído de Porto Cael, não haveria nenhum mal em dizer ao jovem que perguntava por ele. Will apertou os lábios com a notícia, permitindo que a moeda de ouro caísse sobre a extremidade final entre os dedos da mão direita - um truque que ele passava horas aperfeiçoando para matar o tempo, em torno de incontáveis fogueiras. O metal refletia a luz e brilhava convidativo, a moeda ia de uma extremidade dos dedos de Will para a outra e viceversa, atraindo os olhos do estalajadeiro.
―Foram onde?‖.
O estalajadeiro voltou os olhos para ele. Então sacudiu a cabeça na direção do porto. ―Foram para o mar. Onde não sei‖.
"Alguma idéia de quem poderia saber?‖.
O estalajadeiro encolheu os ombros. "Sua melhor aposta, seria perguntar ao Black O'Malley. Ele poderia saber. Quando há pessoas querendo sair com certa pressa, ele seria a pessoa indicada para o serviço‖.
―Um nome muito estranho. Como ele conseguiu?‖.
"Houve uma luta no mar há alguns anos. Seu navio foi atacado. Por...‖ O homem hesitou momentaneamente, em seguida continuou, "por piratas. Houve uma briga e um deles bateu-lhe na cara com uma tocha flamejante. A tocha agarrou à sua pele e a queimou, deixando uma marca negra no lado esquerdo de seu rosto‖.
Will estava balançado a cabeça pensativo. Se tivesse havido qualquer pirata envolvidos nessa luta, ele apostaria que eles estavam velejando em companhia de O'Malley. Mas isso era irrelevante.
"E como eu encontro este O'Malley?‖ ele perguntou.
"Na maioria das noites, você vai encontrá-lo na taberna de Heron, nas docas. O estalajadeiro havia pegado a moeda e quando Will se virou, ele acrescentou:
―É um lugar perigoso. Não é uma boa idéia você ir sozinho – Ainda mais sendo um estranho como é. Eu tenho uma dupla de grandes rapazes, que fazem algum trabalho para mim de vez em quando. Pode ser que eles estariam dispostos a ir junto com você‖.
- Por uma pequena taxa ―
 
O jovem olhou para trás, considerou a sugestão e balançou a cabeça sorrindo lentamente.
"Eu acho que posso cuidar de mim", disse.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3
 
Não havia nenhum sentimento de arrogância que o levou a recusar a oferta do estalajadeiro. Andar em um lugar como a Taverna da garça em companhia de dois rapazes fortes, provavelmente de segunda classe, só mostraria aos durões que freqüentavam o bar, que ele era fraco e medroso e iria ser desprezado. Será melhor ficar sozinho e confiar em sua própria habilidade e inteligência para ver o que acontece.
A taberna estava pouco cheia quando ele chegou. Ainda era início da noite e a maioria dos clientes ainda estava para chegar. Mas enquanto esperava, começou a ficar movimentado. A temperatura subiu com a quantidade cada vez maior de pessoas, que com certeza não tomavam banho há muito tempo. O cheiro de suor azedo e rançoso invadia o ambiente quente e esfumaçado. O nível de ruído aumentou, pois as pessoas levantaram suas vozes para serem ouvidas sobre o clamor crescente.
A situação lhe convinha. Quanto mais pessoas presentes e mais ruidosas fossem, menor a possibilidade que haveria de ser notado.
A cada nova pessoa que chegava, ele olhava para o dono da Taverna. Mas toda vez, o homem de rosto fino apenas balançava a cabeça.
Foi entre onze horas e meia-noite quando a porta foi aberta e três homens volumosos adentraram a Taverna, empurrando por entre a multidão até o bar, onde o dono da Taverna começou imediatamente a bombar três enormes copos de cerveja, sem que uma palavra fosse trocada. Quando encheu a segunda caneca, colocou-a sobre o balcão e olhou para baixo como que fazendo uma pausa, nesse momento puxou ferozmente sua orelha três vezes. Então ele continuou enchendo a ultima caneca.
Mesmo sem o sinal, Will saberia que este era o homem que ele procurava. Havia uma grande marca preta de queimadura na parte lateral do rosto, estendendo-se desde logo abaixo do olho esquerdo até o queixo. Ele esperou enquanto O'Malley e seus dois companheiros pegaram seus copos e, foram em direção a uma mesa próxima ao fogo de turfa. Havia dois homens que já estavam sentados lá e eles olhavam ansiosamente enquanto o contrabandista chegava.
"Ah, chegou O'Malley‖, um deles começou em um tom de lamentação: "Estamos sentados aqui só por –‖.
 ―Fora‖.
O'Malley fez um gesto com o polegar e os dois homens sem maior objeção, pegaram suas bebidas e levantaram, deixando a mesa para os três contrabandistas. Eles se instalaram em seus assentos, olharam ao redor da sala e deram saudações para vários
conhecidos. As reações aos recém-chegados, Will observou, foram mais cautelosas do que amigáveis. O'Malley parecia incutir medo nos outros fregueses.
O olhar de O'Malley tocou brevemente a figura encapuzada, sentada sozinha em um canto. Ele estudou Will durante vários segundos, então deixou de lado. Avançou sua cadeira para frente e, ele e seus companheiros se inclinaram sobre a mesa, falando em voz baixa com as cabeças próximas.
Will levantou-se de seu assento e moveu-se na direção deles. Passando pelo bar, ele permitiu que sua mão trilhasse ao longo da superfície, deixando a moeda de ouro cortada ao meio para trás. O taverneiro correu para pegá-la. Ele não fez nenhum sinal de reconhecimento ou agradecimento, mas nenhum deles esperava por isso. O taberneiro não estava ansioso, para que ninguém soubesse que ele tinha identificado O'Malley a este estranho.
O'Malley tornou-se consciente da presença de Will, quando ele se aproximou da mesa. 
O traficante havia estado murmurando algo em tom baixo a seus dois companheiros e agora parou, os olhos girando para o lado, considerando o corpo esguio de pé a menos de um metro de distância. Houve uma longa pausa.
―Capitão O'Malley?‖ Will finalmente perguntou. O homem era de musculoso, embora não excessivamente alto. Ele deveria ser alguns centímetros mais alto que Will, entretanto, a maioria das pessoas era.
Seus ombros eram bem musculosos e suas mãos estavam calejadas. Esses sinais mostravam uma vida de trabalho árduo, transportando e puxando cordas para levar cargas a bordo, cuidando do leme de algum barco em vendavais. Seu estômago dava sinais de uma vida de bebedeiras. Ele estava com sobrepeso, mas ainda era um homem poderoso e um adversário a ser respeitado. Seus cabelos negros caíam em cachos irregulares em seu pescoço e ele tinha deixado crescer a barba, possivelmente em uma tentativa frustrada de disfarçar a marca desfigurante na face esquerda. Seu nariz tinha sido quebrado tantas vezes que agora ela não possuía forma definida. Era um pedaço de cartilagem e ossos esmagados. Will imaginava que O'Malley tinha dificuldade para respirar através daquele nariz.
Seus dois companheiros eram espécimes menos interessantes. Barriga grande, ombros largos e compleição forte, eles eram maiores e mais altos do que o seu líder. Mas O'Malley tinha o ar inconfundível de autoridade sobre eles.
―Capitão O'Malley?‖ Will repetiu. Ele sorriu com facilidade. O'Malley franziu a testa em troca.
"Eu acho que não", disse brevemente e se voltou para seus dois companheiros.
"Eu acho que sim‖, Will disse ainda sorrindo.
O´malley sentou para trás, olhou em volta por um segundo ou dois, então virou-se para encarar Will com um olhar ameaçador. Havia um brilho perigoso ali.
―Filho‖ ‗, disse sem esforço e com um tom desdenhoso e insultuoso, ―por que você não corre agora?‖.
A sala ao redor deles havia ficado silenciosa quando os fregueses se viraram para assistir a este confronto inusitado. O estranho jovem estava armado com um arco poderoso, todos podiam ver. Mas, no espaço confinado da taverna, não era a arma mais adequada.
"Eu estou à procura de informações‖, Will disse. "Eu estou disposto a pagar por ela‖.
Ele tocou a bolsa em seu cinto e um som leve e musical foi ouvido. Os olhos de O'Malley se estreitaram.
Isso poderia ser interessante.
"Informação, não é? Bem, depois de tudo talvez possamos conversar. Carew!‖ Ele virou-se para um homem sentado na mesa ao lado. "Dê ao menino aqui seu banco".
O homem chamado Carew, não fez nenhuma menção de argumentar quanto ao pedido. 
Ele rapidamente se levantou e empurrou o banquinho para Will. Seu olhar de ressentimento ele reservou para o jovem Arqueiro. Mas assegurou que O'Malley não o viu fazendo aquilo.
Will acenou com gratidão, recebeu em troca uma carranca, em seguida puxou o banco até a mesa de O'Malley.
"Portanto, informação não é?" O contrabandista começou. "E o que você poderia estar querendo saber?‖.
 "Você transportou um homem chamado Tennyson há poucos dias‖, Will disse. "Ele e cerca de vinte dos seus seguidores‖.
"Eu transportei?‖ As sobrancelhas desgrenhadas de O'Malley se reuniram em uma carranca escura de raiva. "Você já parece ter um monte de informações, não é? E quem lhe disse isso?‖.
"Ninguém nesta sala‖, Will disse. Então, antes de O'Malley continuar o interrompendo, disse rapidamente, "Eu preciso saber onde você o levou‖.
As sobrancelhas do contrabandista subiram novamente, mas agora em uma simulada surpresa.
―Oh, você precisa saber não é? E se eu não precisar te dizer? Supondo que eu não levei essas pessoas a lugar nenhum. – O que eu não fiz mesmo‖.
Will deixou escapar um lampejo de desespero, então percebeu que isso foi um erro. Ele recompôs suas feições, mas sabia que O'Malley tinha notado.
"Eu disse, eu estou disposto a pagar pela informação‖, disse isso tentando fortemente manter seu nível de voz.
"E você estaria disposto a pagar outra moeda de ouro - como a que eu vi você deixar para Ryan, quando passou pelo bar?‖ Ele olhou furiosamente para o taberneiro, que até o momento observava com interesse a conversa deles e agora se encolhia um pouco. 
"Falaremos mais tarde sobre isso, Ryan‖, ele adicionou.
Will apertou os lábios surpreso. Ele poderia apostar que a atenção de O'Malley estava direcionada para outro lugar, quando tinha colocado a metade da moeda no bar.
"Você não perde nada, não é?" Ele permitiu escapar um tom de admiração. Não haveria nenhum mal em um pouco de bajulação. Mas O'Malley não era uma pessoa tão simples assim.
 "Eu não perco nada, rapaz‖. Sua raiva era agora direcionada para Will. ―Não tente me amaciar com palavras suaves‖, disse.
Will mudou de posição em seu banco. Ele estava perdendo o controle da conversa, ele pensou. Em seguida, teve certeza. Ele nunca teve o controle da conversa. Desde a primeira palavra, O'Malley estava conduzido à conversa. Tudo que Will fez até agora foi reagir a ele. Então tentou novamente.
"Está certo. Mesmo assim eu estaria disposto a pagar com ouro pela informação‖.
"Eu já fui pago", disse O'Malley. Pelo menos agora, não havia nenhuma pretensão de que ele não transportara Tennyson e seus seguidores.
"Então você será pago duas vezes. Isso soa como um bom negócio para mim", disse Will sendo razoável.
"Soa, não é? Bem, deixe-me contar um pouco sobre o meu negócio. Para começar, eu ficaria muito feliz em cortar sua garganta, por essa bolsa que carrega. E eu não tenho nenhuma simpatia por esse seu tal de Tennyson que você fala. Se eu tivesse a chance, eu o teria matado e jogado para fora do barco e ninguém nunca saberia. Mas os amigos dele de manto de púrpura, me observavam como falcões o tempo todo. Digo isso para salientar, que a confiança não significa nada para mim. Nada mesmo‖.
"Então...‖ Will começou, mas o traficante o parou com um gesto ríspido.
"Mas aqui está o meu negócio, rapaz. Peguei o dinheiro do homem para tirá-lo de Clonmel. Esse é o tipo de negócio que eu faço. Agora se eu pegar o seu dinheiro para dizer onde o levei ainda mais na frente de todos por aqui, quanto tempo você acha que o meu negócio vai durar? As pessoas vêm a mim por um motivo. Eu sei como manter minha boca fechada‖.
Ele fez uma pausa. Will ficou sem jeito. Não havia resposta razoável que ele poderia pensar.
"Eu não acredito em honestidade‖, O'Malley continuou. "Ou confiança. Ou lealdade. Eu acredito no lucro, isso é tudo. E o lucro significa que sei manter minha boca fechada quando é necessário‖. Sem aviso, ele olhou ao redor da taverna. Os olhos que estavam os observando com interesse se viraram rapidamente para longe.
"E todo mundo nesta sala sabe muito bem disso‖, disse ele erguendo a voz.
Will estendeu as mãos num gesto de derrota. Ele não podia ver nenhuma maneira de inverter esta situação. De repente, se viu desejando que Halt estivesse aqui. Halt saberia o que fazer, ele pensou. E com esse pensamento, ele se sentiu completamente inadequado para o trabalho.
"Bem, então seguirei meu caminho‖. Ele começou a levantar.
"Só um minuto!" A mão de O'Malley bateu em cima da mesa entre eles. ―Você não me pagou‖.
Will deu um suspiro com um riso incrédulo. "Pagar você? Você não respondeu minha pergunta‖.
"Sim, eu respondi. Simplesmente não era a resposta que você estava procurando. Agora me pague‖.
Will olhou ao redor da sala. Todos os presentes estavam assistindo o embate e a maioria deles estava sorrindo.
O'Malley podia ser temido e indesejado por aqui, mas ele era um estranho e eles estavam felizes em vê-lo subjugado. Ele percebeu que o traficante tinha criado este confronto com a finalidade de aumentar a sua própria reputação. Não foi tanto pelo dinheiro que estava interessado, foi apenas para mostrar a toda essa gente quem mandava por aqui. Tentando esconder sua fúria, ele enfiou a mão na bolsa e tirou outro pedaço de ouro. Isso estava ficando caro, pensou, e não descobriu nada que valesse o esforço. Ele deslizou a peça sobre a mesa. O'Malley a pegou, testou com os dentes e sorriu maliciosamente.
"É bom fazer negócios com você, garoto. Agora de o fora daqui‖.
Will sabia que seu rosto estava queimando em uma fúria reprimida em seu interior. Ele levantou-se abruptamente, derrubando o banquinho atrás de si. De algum lugar da sala, havia uma risada baixa. Então ele se virou e fez seu caminho através da multidão até a porta.
Conforme bateu a porta por detrás dele, O'Malley se inclinou para frente a seus dois discípulos e disse baixinho: "Dennis, Nialls. Traga-me aquela bolsa‖.
Os dois brutamontes levantaram e seguiram Will em direção à porta. Com uma idéia astuta do que iam fazer, os clientes da taverna abriram caminho para os dois. Alguns fizeram com certa relutância. Eles mesmos tinham planejado ir atrás do jovem.
Dennis e Nialls saíram para a noite clara e fria, olhando para cima e para baixo pela rua estreita, para ver o caminho que o estranho havia tomado. Eles hesitaram. Havia vários becos que davam naquela rua. O jovem podia estar escondido em um deles.
―Vamos tentar...‖.
Nialls não continuou a falar. O ar entre os dois homens foi dividido por um silvo quando algo passou perto do nariz de Nialls e foi parar no batente da porta. Os dois homens empurraram um ao outro em surpresa, então olharam incrédulos para a flecha cinza enterrada e ainda tremendo na madeira.
De algum lugar acima da rua, uma voz chegou até eles.
"Um passo a mais e a próxima flecha irá para seu coração‖. Houve uma ligeira pausa, depois a voz continuou com certo veneno: "E eu estou com raiva o suficiente para fazêlo‖.
 "Onde ele está?" Dennis cochichou com o canto da boca.
"Deve estar em um dos becos‖, Nialls respondeu. A ameaça da flecha era inconfundível. Mas ambos sabiam do perigo envolvido em voltar de mãos vazias até O'Malley.
Sem aviso, houve outro silvo entre eles. Só que desta vez, a mão de Niall voou para o seu ouvido direito, onde a flecha havia a cortado em seu caminho. O sangue quente corria pelo seu rosto. De repente, enfrentar O'Malley parecia ser a melhor alternativa.
"Vamos sair daqui!‖ ele disse e se acotovelavam para voltar pela porta, batendo-a por trás deles.
De um beco mais acima na rua, uma figura escura surgiu. Will imaginou que teria só alguns minutos antes que alguém saísse. Ele correu rapidamente de volta para a taberna, recuperou suas flechas, em seguida pegou Puxão no estábulo. Pulou sobre a sela e partiu a galope. Os cascos do pequeno cavalo ecoavam nos prédios laterais, enquanto tocavam o calçamento da rua.
Ao todo, havia sido um encontro muito insatisfatório.
 
 
 
 
 
 
 
4
 
Halt e Horace alcançaram o cume de uma pequena subida e frearam seus cavalos. A menos de um quilômetro de distância, o Porto Cael estendia-se diante deles. Edifícios pintados de branco, amontoados no alto de uma colina e se estendendo para baixo até o porto - um quebra mar feito pelo homem, adentrava para o oceano, em seguida, virava em ângulo reto para formar uma baía em forma de L, um paraíso para a pequena frota ancorada no interior das muralhas. De onde estavam, sentavam em seus cavalos, os navios podiam ser vistos apenas como uma floresta de mastros, misturados e indistintos como embarcações individuais.
As casas no morro eram pintadas e pareciam cuidadosamente mantidas. Mesmo sob o céu nublado, pareciam brilhar. Descendo o morro e mais perto do cais, uma visão mais clara dos edifícios, mostrava que a cor predominante era cinza opaca. Típico de qualquer porto, Halt pensou. As pessoas mais distintas viviam na colina, em suas casas impecáveis. A ralé perto da água.
Ainda assim, ele apostaria que nas casas impecáveis da colina, continham a sua quota de vilões e comerciantes sem escrúpulos. As pessoas que lá viviam não eram mais honestas do que os outros, apenas mais bem sucedidas.
"Aquele não é alguém que conhecemos?" perguntou Horace. Ele apontou para o lugar onde uma figura encapuzada estava sentada à beira da estrada, a algumas centenas de metros de distância, com os braços em volta dos joelhos. Perto dele, um pequeno cavalo desgrenhado pastava na grama, que crescia na borda da vala de drenagem que corria ao lado da estrada.
―É sim‖, Halt respondeu. ―E ele parece ter trazido Will com ele‖.
Horace olhou rapidamente para o seu companheiro. Ele sentiu que seu animo havia melhorado. Halt não era de fazer muitas piadas, mas essa foi a primeira que ele fez desde que haviam deixado o túmulo de seu irmão em Dun Kilty. O Arqueiro nunca foi um companheiro tagarela, mas ele tinha estado ainda mais calado do que o habitual, ao longo dos últimos dias. Compreensível, pensava Horace. Afinal, ele tinha perdido seu irmão gêmeo. Agora, o Arqueiro parecia preparado para sair de sua depressão. Possivelmente isso tinha algo a ver com a perspectiva de ação iminente, o jovem cavaleiro pensou.
"Parece que ele perdeu uma moeda de ouro e encontrou um centavo", disse Horace, depois acrescentou desnecessariamente, "Will, eu quero dizer‖.
Halt virou-se na sela considerando o homem mais jovem e levantou uma sobrancelha.
"Eu posso parecer senil aos seus olhos Horace, mas não há nenhuma necessidade de explicar o óbvio para mim. Eu dificilmente pensaria que você estivesse referindo-se à Puxão.‖
"Desculpe-me, Halt‖. Mas Horace não pôde evitar um sorriso no canto da boca. Primeiro uma brincadeira e agora uma resposta mordaz. Era melhor do que o silêncio taciturno que envolveu Halt, desde a morte de seu irmão.
"Vamos ver o que está o incomodando", disse Halt. Ele não fez nenhum movimento ou sinal visível para seu cavalo, que Horace pudesse perceber, mas Abelardo seguiu imediatamente em um trote lento. Horace tocou os calcanhares nas costelas de Kicker e o cavalo de batalha respondeu rapidamente, alcançando o cavalo menor e ficando ao lado dele.
À medida que eles se aproximaram, Will se levantou escovando-se. Puxão relinchou uma saudação para Abelardo e Kicker e os outros cavalos responderam do mesmo jeito.
"Halt, Horace," Will os saudou enquanto puxavam as rédeas ao seu lado. "Eu esperava que vocês chegassem aqui mais tarde."
"Nós recebemos a mensagem que você deixou em Fingle Bay," Halt lhe disse, ―então saímos bem cedo esta manhã."
Fingle Bay havia sido o destino original de Tennyson. Era um próspero comércio e um porto de pesca ficava a alguns quilômetros ao sul de Port Cael. A maioria dos armadores e capitães de lá eram homens honestos. O Porco Cael era o lar de operações mais obscuras, como Tennyson e então Will, haviam descoberto.
"Teve alguma sorte?‖ Horace perguntou. Enquanto ele e Halt tinham ficado para arrumar as coisas em Dun Kilty, Will tinha ido em frente e seguido as pistas de Tennyson, para descobrir onde ele estava indo. O Arqueiro jovem agora encolhia os ombros.
"Alguma", disse ele. "Eu temo que boa e ruim. Tennyson fugiu do país, como você achou que faria Halt."
Halt assentiu. Ele tinha esperado isso. "Para onde ele foi?‖
Will mudou de posição desconfortavelmente de um pé para o outro. Halt sorriu para si mesmo. Ele sabia que seu ex-aprendiz odiava falhar em qualquer tarefa que Halt dava a ele.
"Eu temo que esta seja a notícia ruim. Eu não consegui descobrir. Eu sei quem o levou. Foi um contrabandista chamado Black O'Malley. Mas ele não me falou para onde. Sinto muito Halt", ele acrescentou. Seu antigo mentor encolheu os ombros.
"Tenho certeza que você fez tudo que podia. Marinheiros em um lugar como este podem ser notórios em fechar a boca. Talvez eu tenha uma conversa com ele. Onde é que podemos encontrar este exótico personagem, chamado O'Malley?‖
"Há uma taverna no cais. Ele está lá quase todas as noites."
―Então eu vou falar com ele hoje à noite", disse Halt.
Will deu de ombros. "Você pode tentar. Mas ele é um caso difícil, Halt. Eu não tenho certeza que você vai tirar alguma coisa dele. Ele não está interessado em dinheiro. Tentei fazer isso."
"Bem, talvez ele vá fazê-lo só pela bondade de seu coração. Tenho certeza que ele vai se abrir para mim", disse Halt facilmente. Horace observou um rápido brilho nos olhos de Halt. Ele estava certo, a perspectiva de ter algo a fazer, tinha levantado o animo de Halt. Ele tinha contas a acertar e Horace pensou que não seria nada bom estar na pele desse tal de Black O'Malley.
No entanto, um Will duvidoso ainda observava Halt. "Você acha?"
Halt sorriu para ele. "As pessoas adoram falar comigo", disse ele. "Eu sou uma pessoa bem sociável e tenho uma personalidade brilhante. Pergunte a Horace, eu vim falando em seu ouvido ao longo de todo caminho de Dun Kilty, não vim?‖
Horace assentiu em confirmação. "Ele ficou falando sem parar por todo o caminho", disse ele. "Ficarei feliz em vê-lo usar essa eloqüência com outra pessoa."
Will considerou os dois malignamente. Ele odiava admitir o fracasso para Halt. Agora, seus dois companheiros pareciam pensar que toda a questão era uma piada e ele simplesmente não estava no melhor estado de espírito para apreciá-la. Ele tentou pensar em algo esmagador para dizer, mas não conseguiu. Finalmente, ele pulou na sela de Puxão e saiu para a estrada com eles.
"Eu tenho quartos reservados para nós, em uma pousada na parte alta da cidade. É bem limpa, e com preço razoável", disse a eles. Isso chamou a atenção de Horace.
"Como é a comida?" ele perguntou.
Eles ficaram para trás, alguns metros a partir do final do beco escondidos nas sombras. De sua posição, eles tinham uma visão clara da entrada da taberna e podiam ver os clientes indo e vindo, sem serem vistos. Até agora, não havia sinal de O'Malley e seus dois amigos.
Will se movia irrequieto. Estava chegando perto da meia-noite.
―Eles estão atrasados - se é que estão vindo", disse ele baixinho. "Eles estavam aqui mais cedo na ultima noite."
"Talvez eles tivessem vindo cedo demais na noite passada", sugeriu Horace. Halt não disse nada.
―Por que não esperar lá dentro, Halt?‖ Horace perguntou. A noite estava fria e ele podia sentir o frio úmido subindo para seus pés e pernas, através de suas botas. Suas batatas da perna estavam começando a doer. Frio e paralelepípedos molhados, ele pensou. A pior superfície possível para ficar de vigia. Ele queria mexer seus pés para fazer o sangue fluir, mas ele sabia que tal ação iria ganhar uma repreensão rápida de Halt. "Eu quero surpreendê-los", disse Halt. "Se eles entrarem e nos ver esperando, perderemos a surpresa.
Vamos esperar até que se sentem, em seguida, chegaremos rapidamente, nós vamos pegá-los antes que tenham muitas chances de reagir. Além disso, se esperarmos por eles lá dentro, há chance de alguém sair e lhes contar. ‖―.
Horace assentiu. Tudo fazia sentido. Ele não tinha grandes sutilezas, mas podia reconhecê-la nos outros.
"E Horace," Halt começou.
"Sim, Halt?‖
"Se eu lhe der o sinal, eu gostaria que você cuidasse dos dois capangas do contrabandista.‖
Horace sorriu amplamente. Não soava como que Halt, esperasse que ele fosse sutil quanto a isso.
"Por mim tudo bem, Halt", disse ele. Então, um pensamento lhe ocorreu: "Qual vai ser o sinal?‖
 Halt olhou para ele. "Eu provavelmente vou dizer algo como, Horace".
O guerreiro alto inclinou a cabeça para um lado. "Horace... o quê?‖
―É isso," Halt disse a ele. "Apenas Horace.‖
Horace pensou por alguns segundos, depois assentiu, como se entendendo a lógica.
"Bem pensado Halt. Manter as coisas simples. Sir Rodney diz que é a melhor maneira de agir."
"Qualquer coisa particular que você quer que eu faça?‖ Will perguntou.
"Assista e aprenda", disse-lhe Halt.
Will sorriu ironicamente. Ele estava decepcionado com sua incapacidade de fazer O'Malley falar. Agora estava estranhamente ansioso, para ver como Halt lidaria com o assunto. Ele não tinha nenhuma dúvida de que Halt faria isso, de um jeito ou de outro.
"Isso nunca muda, não é?" disse ele.
Halt olhou para ele, sentiu a mudança em seu humor, à ansiedade tinha substituído o seu desapontamento.
"Somente um tolo pensa que sabe tudo", disse ele. "E você não é um tolo."
Antes que Will pudesse responder, ele fez um gesto em direção à rua estreita. "Eu acredito que os nossos amigos chegaram."
O'Malley e seus dois comparsas estavam fazendo seu caminho até a rua do cais. Os três Araluens o viram, conforme eles entraram na taberna. Os dois grandões ficando de lado, para permitir que seu capitão entrasse primeiro. Houve um breve burburinho de vozes, quando a porta se abriu, derramando a luz na rua. Em seguida, o ruído e a luz foram cortados quando a porta fechou novamente por trás deles.
Horace começou a avançar, mas Halt colocou a mão em seu braço o segurando.
"Dê-lhes um ou dois minutos", disse. "Eles vão pegar suas bebidas e, em seguida tirar alguém que pode estar sentado em sua mesa. Onde eles estão em relação à porta, Will?" ele perguntou. O Arqueiro jovem franziu a testa enquanto ele imaginou o layout da sala. Halt já sabia a resposta à sua pergunta. Ele interrogou Will no início da tarde. Mas ele queria manter a mente do jovem ocupada.
―Entrando. Dois passos para frente e meio para direita. Cerca de três metros da porta, junto à lareira. Cuidado com a cabeça na moldura da porta, Horace," ele adicionou.
Ele sentiu Horace acenar nas sombras. Halt estava de pé, olho fechado e contando os segundos, imaginando a cena dentro da taverna. Will se mexia, querendo entrar em ação. A voz baixa de Halt veio a ele.
"Acalme-se. Não há pressa."
Will respirou fundo várias vezes, tentando acalmar a sua pulsação acelerada.
"Você sabe o que eu quero que você faça?‖ Halt o perguntou. Ele já tinha falado isso aos dois nessa tarde na pousada. Mas não faria mal ter certeza.
Will engoliu várias vezes. "Eu vou entrar e ficar de olho no recinto."
"E lembre-se, não tão perto da porta, você pode ser derrubado se alguém entrar inesperadamente," Halt lembrou. Mas não havia necessidade dessa lembrança. Nessa tarde, Halt havia feito Will imaginar o quão estranho poderia ser, se ele de repente fosse apanhado por um indivíduo ansioso, empurrando a porta com força para entrar.
"Entendi", disse Will. Sua boca estava um pouco seca.
"Horace, tudo entendido?‖
"Ficar com você. Manter-me em pé enquanto você se senta. Observar os dois meninos valentões e se você disser "Horace‖, derrubá-los."
"Muito sucinto" Halt disse. ―Não poderia ter colocado isso melhor." Ele esperou mais alguns segundos, depois saíram das sombras.
Eles atravessaram a rua e Halt abriu a porta. Will sentiu a onda de calor, o ruído e a luz mais uma vez, então entrou depois de Halt e se moveu para o lado. Ele ouviu um baque surdo e um rosnado ―droga!‖ de Horace, quando ele se esqueceu de baixar ao passar pela porta.
O'Malley, de costas para o fogo, olhou para os recém-chegados. Ele reconheceu Will e aquilo o distraiu por alguns segundos, até que fosse tarde demais para reagir a Halt que caminhou rapidamente pela Taverna, pegou um banquinho e sentou-se diante dele.
―Boa noite‖, disse o estranho barbudo. "Meu nome é Halt e é hora batermos um papo.‖
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5
 
Nialls e Dennis se levantaram imediatamente, mas O'Malley levantou a mão para impedi-los de tomar qualquer ação.
―Está tudo bem, meninos. Calma, calma."
Eles não retomaram seus lugares, se posicionaram atrás dele, formando uma parede sólida de músculos e carne entre O'Malley e à lareira. O'Malley, recuperando-se da surpresa inicial, estudou o homem sentado à sua frente. Ele era pequeno. E havia mais cinza do que preto em seu cabelo. Ao todo, não era alguém que normalmente causaria muita preocupação ao contrabandista. Mas O'Malley por muitos anos havia avaliando potenciais inimigos e ele sabia olhar além do lado físico das pessoas. Este homem tinha os olhos duros. E um ar de confiança nele. Tinha acabado de entrar na cova de um leão, encontrou a cabeça e balançou sua cauda. E agora estava sentava em sua frente, frio como um pepino. Despreocupado. Desaforado. Era um tolo ou um homem muito perigoso. E ele não parecia um tolo.
O'Malley olhou rapidamente para cima, para a companhia do homem. Alto, ombros largos e atléticos, ele pensou. Mas o rosto era jovem - quase pueril. E ele não tinha o ar calmo e confiante do homem pequeno. Seus olhos estavam em constante movimento, entre O'Malley e seus dois companheiros. Julgando. Medindo. Mas descartou o jovem. Não havia nada a temer. Esse erro, muitos haviam cometido antes dele – para depois se arrependerem.
Agora, ele olhou para trás em direção à porta e viu o jovem que se aproximou dele na noite anterior. Ele estava um pouco para o lado da porta, seu arco longo na mão e uma flecha pressionada na corda. Mas o arco estava sem tensão no momento, não ameaçando ninguém. Isso poderia mudar em um segundo, pensou O'Malley. Dennis e Nialls lhe tinham contado da habilidade do jovem com o arco. A orelha de Nialls ainda estava fortemente enfaixada, onde a flecha do menino tinha acertado, quando passou perto de sua cabeça.
Este - ele procurou lembrar o nome do recém-chegado, então lembrou – Halt – Ele tinha um arco semelhante. E agora O'Malley percebeu que ele estava vestindo uma capa semelhante também, malhada e com capuz. Mesmas armas, mesmas capas. Havia algo oficial neles e O'Malley decidiu que não gostava daquilo. Ele não queria ter qualquer contato com qualquer oficial.
"Você é um Homem do Rei?‖ ele disse para Halt.
Halt encolheu os ombros. "Não o seu rei." Ele viu os lábios do contrabandista contrairse em desprezo com essas palavras e suprimiu uma pequena chama de raiva, por que seu
falecido irmão deixou o reino ficar tão degradado. Mas não demonstrou nenhum sinal de emoção em seu rosto ou nos olhos.
"Eu sou Araluense", ele continuou.
O'Malley ergueu as sobrancelhas. "E eu suponho que todos nós devemos ficar extremamente impressionados com isso?‖, perguntou sarcasticamente.
Por alguns segundos Halt não respondeu. Ele considerava o outro homem com o seu olhar, medindo-o, julgando-o.
"Se você quiser ficar!" disse ele. "É irrelevante para mim. Falo isso apenas para assegurar-lhe, que não tenho interesse em suas atividades de contrabando."
Esse tiro pegou no alvo. O'Malley não era um homem de discutir abertamente o seu trabalho. Uma carranca formou-se no rosto do Hiberniano.
"Cuidado com suas palavras! Nós não somos gentis com as pessoas que andam aqui nos acusando de contrabando e coisas do gênero."
Halt encolheu os ombros, indiferente. "Eu não disse nada sobre coisas do gênero," ele retrucou. "Eu simplesmente disse que eu não estou preocupado pelo fato de que você é um contrabandista. Eu só quero alguma informação, isso é tudo. Diga-me o que eu quero saber e eu não vou incomodá-lo mais."
O'Malley tinha se inclinado sobre a mesa, para enfatizar o aviso para Halt. Agora, ele sentou-se para trás irritado.
"Se eu não disse para o menino", falou ele, sacudindo o polegar para a figura silenciosa junto à porta, "o que faz você pensar que eu vou dizer para seu avô?"
Halt levantou uma sobrancelha. "Ah, isso foi um pouco duro. Tio pode estar mais perto da verdade, eu acho." Mas agora o traficante decidiu que já era o suficiente.
―Saia‖, O'Malley ordenou categoricamente. "Eu já terminei com você."
Halt sacudiu a cabeça e olhou com tédio para O'Malley.
"Talvez", disse ele. "Mas eu não terminei com você."
Houve uma ameaça e um desafio implícito nas palavras. E eles foram entregues em um tom de desprezo velado. Foi demais para O'Malley.
"Nialls. Dennis. Jogue esse idiota na rua", disse ele. "E se o amiguinho deles ao lado da porta, puxar uma polegada daquele arco, corte sua garganta antes que consiga."
Seus dois capangas avançaram ao redor da mesa sobre Halt, Nialls indo para a direita, Dennis à sua esquerda. Halt esperou até que eles estivessem quase em cima dele e depois disse uma palavra.
"Horace...‖
Ele estava interessado em ver como o jovem guerreiro ia cuidar do problema. Horace começou com um soco de direita na mandíbula de Dennis. Foi um golpe sólido, mas não um nocaute. Horace, simplesmente teve a intenção de ganhar um pouco de espaço e de tempo. Dennis cambaleou para trás e antes que Nialls pudesse reagir, Horace tinha girado e o acertado com um gancho esmagador no queixo com sua esquerda. Os olhos de Niall viraram e os joelhos cederam. Ele caiu como um saco de batata e bateu no chão desmaiado.
Mas agora, Dennis estava voltando, balançando a mão direita selvagemente, indo para cima de Horace. O jovem abaixou-se sob ele, martelando dois socos de esquerda nas costelas do contrabandista, então veio com um golpe poderoso de baixo na mandíbula de Dennis.
O golpe de baixo tinha todo o poder das pernas de Horace, do tronco, ombros e braço, subido com força.  Ele bateu no queixo de Dennis e enviou uma mensagem instantânea para seu cérebro. Por trás dos olhos de Dennis, uma luz se apagou como uma vela em um furacão. Seus pés realmente levantaram alguns centímetros do chão sob a força do golpe terrível. Então ele também simplesmente dobrou no lugar e caiu para a áspera cobertura de serragem no chão.
A seqüência inteira demorou um pouco menos de quatro segundos. O'Malley arregalou os olhos de espanto, do jeito que seus dois guarda-costas foram despachados com tanta facilidade e desprezo - e por um jovem que ele tinha julgado não oferecer nenhuma ameaça. Ele começou a levantar. Mas um punho de ferro segurou seu colarinho, arrastando-o para baixo e por cima da mesa. Ao mesmo tempo, ele sentiu algo afiado - muito afiado - contra a sua garganta.
"Eu disse, eu não terminei com você ainda. Então, sente-se.‖
A voz de Halt era baixa e muito persuasiva. Ainda mais convincente era a faca Saxônica afiada, que estava pressionando com firmeza contra a garganta do contrabandista. O'Malley não o tinha visto desembainhar a arma. Ocorreu-lhe que este velho indivíduo deveria ser capaz de mover-se com alarmante velocidade - assim como seu jovem companheiro tinha feito.
O'Malley olhou para os olhos do homem, em primeiro lugar viu a imagem reluzente do aço assassino que descansava contra sua garganta.
―Agora, eu vou deixar seu comentário sobre, avô, passar", disse Halt. ―E eu não vou mesmo tomar como ofensa, o fato de você ter mandado seus meninos me bater. Mas vou te fazer uma pergunta e vou perguntar uma vez. Se não me responder, eu vou matar você. Bem aqui. Agora mesmo. Will!" ele falou abruptamente para o lado. "Se aquele sujeito grande der mais um passo em minha direção, coloque uma flecha nele."
"Já o vi Halt", respondeu Will. Ele levantou o arco na direção que Halt havia mencionado. O marinheiro fortemente construído pensou que ele não tinha sido visto e de repente levantou as duas mãos. Como a maioria dos outros na sala, tinha ouvido sobre as duas flechas que foram atiradas entre Nialls e Dennis na noite anterior. 
Inicialmente, ele pensou que talvez valesse a pena dar uma mão para O'Malley. Mas definitivamente não valia a pena tomar um tiro.
Will fez um gesto com a flecha e o homem afundou-se em um banco comprido. A flecha brilhante era o suficiente para preocupá-lo. Mais preocupante ainda foi o fato de que o homem de barba grisalha, não parecia ter olhado nenhuma vez em sua direção.
―Agora‖, disse Halt, "onde estávamos mesmo?"
O'Malley abriu a boca para responder, em seguida a fechou novamente. Esse era um território novo. Ele estava acostumado a mandar, acostumado aos outros cuidando das coisas para ele. Ele não se enganava, os homens que freqüentavam a Taverna da Garça, não gostavam muito dele. Mas sabia que era temido, o que era ainda melhor. Ou assim ele pensava. Agora que o povo da lotada taverna, viu alguém colocar medo nele, como ele próprio jamais fez, ficaram impotentes. Se pelo menos ele fosse querido por aqui, talvez, alguém o ajudaria. Mas sem Nialls e Dennis, ele sabia que estava sozinho.
Halt o estudou por um momento, viu a compreensão do processo por parte de O'Malley, acontecendo por trás dos olhos do homem. Ele viu o lampejo de dúvida e incerteza e sabia que ele estava em vantagem. Tudo o que Will disse a ele, sobre seu primeiro confronto com o traficante, levava a crer que O'Malley não era uma figura bem quista. Halt entrou nessa briga apostando nisso e agora ele viu que era verdade.
"Alguns dias atrás, você transportou um homem chamado Tennyson e mais um grupo pessoas, para algum lugar fora do país. Você se lembra disso?"
O'Malley não deu nenhum sinal de lembrava. Seus olhos estavam cravados em Halt. Halt podia ver a fúria reprimida há pouco - a fúria alimentada pelo desamparo de O'Malley, na situação atual.
"Eu espero que você lembre," Halt continuou, "porque sua vida pode depender disso. Agora preste atenção no que eu vou falar. Eu farei esta pergunta uma única vez. Se você quiser continuar vivendo, você vai me dizer o que eu quero saber. Está claro?"
Ainda não houve resposta do contrabandista. Halt respirou fundo e continuou.
"Onde é que você levou Tennyson?‖
Houve um silêncio quase palpável, quando todo mundo na sala parecia se inclinar para frente em expectativa, esperando para ver o que O'Malley ia dizer. O contrabandista engoliu várias vezes, esta ação fez a ponta da faca Saxônica cravar dolorosamente na carne macia da garganta. Em seguida, com a boca seca, sua voz parecia quase um coaxar, ele respondeu.
―Você não pode me matar."
A sobrancelha esquerda de Halt subiu. Um meio sorriso de surpresa torceu sua boca.
"Realmente?" disse ele. "E por que eu não faria isso?"
"Porque se você me matar, nunca vai saber o que quer," O'Malley disse a ele.
Halt soltou um suspiro com uma breve risada. "Você não pode estar falando sério."
A testa de O'Malley enrugou-se em uma carranca. Ele jogou sua única carta e o estranho estava tratando com desprezo. Ele estava blefando, decidiu O'Malley e sua confiança que estava baixa, começou a crescer mais uma vez.
"Não tente blefar", disse ele. "Você quer saber onde esse tal de Tennyson foi. E quer muito saber, senão nunca teria voltado aqui esta noite. Então tire a faca da minha garganta e eu vou considerar em falar para você. Embora isso vá custar. Ele acrescentou as últimas quatro palavras, posteriormente refletindo. Ele tinha a mão forte, pensou ele e poderia muito bem usá-la para um contra ataque. Halt não disse nada por um segundo ou dois. Então se inclinou sobre a mesa. A ponta da faca permaneceu na garganta de O'Malley.
"Eu quero que você faça algo para mim, O'Malley. Olhe nos meus olhos e me diga se você pode ver qualquer sinal, que eu seja incapaz de te matar."
O'Malley fez como lhe foi dito. Ele teve que admitir que os olhos de Halt eram uma coisa arrepiante de se ver. Lá não havia nenhum sinal de piedade ou fraqueza. Este homem seria capaz de matá-lo em um instante, ele sabia.
Exceto pelo fato de que Halt precisava dele vivo. O que fazia sua vitória ainda mais doce. Este desgraçado de barba grisalha iria matá-lo em um instante. Ele provavelmente queria matá-lo agora. Mas ele não podia, precisava dele.
O'Malley não pode deixar de sorrir, enquanto pensava sobre isso.
―Claro, estou convencido de que seria capaz", disse ele quase jovialmente. "Mas você não pode, pode?"
Eu nunca jogaria poker com esse cara, O'Malley pensou. Os olhos de Halt não mostraram nenhum sinal da frustração e incerteza, ele sentia que agora O'Malley tinha começado a blefar.
"Vamos rever isso, certo?" Halt disse suavemente. "Você diz que eu não posso matá-lo, porque então eu nunca vou descobrir o que você sabe. Mas, ao mesmo tempo, você já disse que não vai revelar essa informação.‖
―Ah... certo, agora isso pode estar aberto à negociação," O'Malley começou, mas Halt o interrompeu.
"Então, se eu te matar, não estarei perdendo nada, não é verdade? Então vai haver alguma compensação para os problemas que você causou. Em resumo, eu acho que realmente eu quero te matar. Você é uma pessoa chata, O'Malley. Na verdade, agora que eu penso sobre isso, eu estou feliz que você não tenha me dito nada, porque então eu me sentiria no dever de poupar sua vida miserável."
"Agora, olhe aqui...‖ A confiança de O'Malley tinha ido embora novamente. Ele foi muito longe ao pressionar aquele homem, ele percebeu. Mas agora a ponta da faca pesada, deixou sua garganta e foi parar na ponta do seu nariz.
"Não! Você que vai me escutar!‖ Halt disse. Ele falou baixinho, mas sua voz cortava como um chicote. "Olhe ao redor desta sala e me diga se há aqui alguém que lhe deve qualquer sentimento de lealdade ou amizade. Existe alguém aqui que vai protestar por um segundo que seja, se eu simplesmente cortar sua garganta?"
Os olhos de O'Malley vagaram rapidamente para os rostos atentos. Ele não viu nenhum sinal de ajuda.
―Agora me responda isso: quando você estiver morto, você tem certeza que não haverá ninguém nesta sala, que possa saber onde você levou Tennyson e, que poderia estar disposto a compartilhar essa informação?"
E esse foi o ponto onde O'Malley sabia que havia perdido. Certamente havia pessoas na sala, que sabiam onde ele havia levado o homem de vestes brancas. Na época, isso não tinha sido nenhum grande segredo. E se ele, O'Malley, não estivesse por perto para garantir seu silêncio, eles passariam um por cima do outro para contar para esse algoz, tudo o que queria saber.
"Rio Craiskill", disse ele, quase num sussurro.
 A faca vacilou. ―O quê?‖ Halt perguntou a ele.
Os ombros de O'Malley caíram e ele baixou o olhar. ―Rio Craiskill. É em Picta, abaixo do banco de areia de Linkeith. É um dos nossos pontos de encontro onde entregamos a carga.‖
Halt franziu o cenho, incrédulo por um momento. "Por que diabo Tennyson estaria querendo ir para Picta?‖
O'Malley deu de ombros. "Ele não queria ir especificamente para lá. Ele queria sair daqui. É onde eu estava indo, de modo que é onde eu o levei.‖
Halt estava acenando lentamente a si mesmo.
"Eu poderia levá-lo lá", sugeriu O'Malley esperançoso.
Halt riu com desdém. ―Ah, eu tenho certeza que você pode! Meu amigo, eu confio em você tanto quanto sei que Horace não poderia chutá-lo - e estou tentado descobrir o quão longe será. Agora saia da minha vista."
Ele soltou o pescoço do outro homem e o empurrou para trás. Desequilibrado, O'Malley tentou recuperar-se e então Halt o deteve.
―Não. Só mais uma coisa. Esvazie a bolsa sobre a mesa."
"Minha bolsa?‖
Halt não disse nada, mas suas sobrancelhas se uniram em uma linha escura. O'Malley notou que a faca Saxônica ainda estava em sua mão direita. Ele correu para soltar a bolsa e derramou o seu conteúdo em cima da mesa. Halt tocou as moedas com o dedo indicador e escolheu uma peça de ouro. Ele ergueu-a.
"Isso é seu, Will?"
"Parece que sim, Halt" Will falou alegremente. Depois de ter sido humilhado por O'Malley, ele tinha gostado do confronto desta noite.
"Cuide melhor disso na próxima vez," Halt disse a ele. Então se voltou para O'Malley, com a cara fechada, olhos escuros e ameaçadores. "Quanto a você, de o fora daqui."
O'Malley, finalmente vencido, ergueu-se. Ele olhou ao redor, não viu nada além de desprezo nos rostos daqueles que o observavam. Então foi embora.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6
 
"Seu amigo não parece muito feliz."
O comandante do navio cutucou Will com o cotovelo e fez um gesto com um sorriso para a figura encolhida na proa do Sparrow, encostado ao baluarte com o capuz jogado por cima da sua cabeça.
Era um dia nublado, com vento soprando em cima deles do sudeste e as ondas agitadas imprevisíveis surgindo a partir do norte. O vento soprava o topo das ondas e as arremessava de volta para o navio que mergulhava e era arremessado contra o mar cinzento.
"Ele vai ficar bem," Will disse. Mas o comandante do navio parecia estar excepcionalmente divertido, só de pensar que alguém sofria de enjôo num navio. Will pensou que talvez isso lhe desse um sentimento de superioridade.
"Nunca falha‖, o capitão continuou alegremente. "Em terra, esses tipos são fortes e quietos, mas se transformam em rostos verdes e gritam como bebês, uma vez que sentem o movimento do navio, balançando uma ou duas polegadas debaixo de seus pés."
Na verdade, o Sparrow estava balançando muito mais do que isso. Ele estava mergulhando, saltando e lutando contra as forças opostas do vento e das ondas.
"Aquelas pedras são um problema?‖ Horace perguntou, apontando para onde uma fileira de pedras se projetava do mar. Conforme cada nova onda passava por elas, a água parecia ferver por causa da espuma que formava. Estavam a várias centenas de metros a bombordo do navio e o vento os empurrava na diagonal em direção as pedras.
O capitão considerou a linha de pedras enquanto elas desapareciam e reapareciam com o movimento das ondas.
"Isso é o Recife Paliçada", disse a eles. Ele apertou um pouco os olhos, medindo as distâncias e ângulos em sua mente, vendo que a situação não mudou desde a última vez que ele tinha verificado - que tinha sido apenas alguns minutos atrás.
"Parece que estamos chegando cada vez mais próximo dele", disse Horace. "Ouvi dizer que não é uma boa idéia."
"Nós vamos chegar perto, mas vamos resistir bem", respondeu o capitão. "As pessoas da Terra como você, sempre ficam um pouco nervosos ao ver o Recife Paliçada.‖
"Eu não estou nervoso", Horace disse a ele. Mas o tom duro da sua voz desmentia suas palavras. ―Eu só queria ter certeza de que sabe o que está fazendo."
"Bem, agora meu rapaz, olhe para lá, por isso que nós colocamos os remos para fora. A vela está impulsionando o barco, mas a força do vento está nos enviando para perto do recife. Com a força dos remos, conseguimos corrigir nosso curso tempo suficiente para nos chegarmos ao back-lift."
―O back-lift? Will perguntou.‖ "O que poderia ser?"
―Veja como a linha de recifes corre para a Borba do Paredão?‖ O capitão disse a ele, apontando. Will assentiu com a cabeça. Ele podia ver a linha de águas turbulentas que marcavam o recife. Ela corria do pé do pontal para o noroeste – O Paredão de Linkeith.
"E veja como o vento está vindo por cima do meu ombro aqui, nos empurrando para o recife propriamente dito?‖
Mais uma vez, Will assentiu.
―Bem, os remos nos manterão longe o suficiente para o leste, a fim de evitar o recife. Assim poderemos chegar mais perto do paredão. O vento vai bater nele e voltar nos empurrando para a rota correta – isso é o back-lift. Com esse efeito inverso, o vento nos soprará para longe dos recifes. Depois, só faltará uma simples corrida por mais alguns quilômetros, abaixo da baía até a foz do rio. Teremos que continuar remando, porque o back-lift só vai durar por algumas centenas de metros - suficiente para nos tirar do recife"
"Interessante" Will disse pensativo, estudando a situação e avaliando as distâncias e os ângulos por si próprio. Agora que ele entendeu o processo, podia ver que o Sparrow passaria tranqüilo pelo fim do recife, conforme tivessem passado por baixo do paredão. O capitão poderia ter falta de sensibilidade, mas ele parecia conhecer o seu negócio.
―Talvez eu deva ir até o seu amigo e mostrar o recife", disse o capitão sorrindo. "Isso vai ser uma boa piada. Aposto que ele ainda não viu." Ele riu de sua própria sagacidade. 
"Eu vou ficar olhando preocupado, se você fizer isso?"
O capitão assumiu uma aparência pseudo-preocupada, franzindo as sobrancelhas e fingindo mastigar suas unhas. Will o considerou friamente.
―Você até pode fazer isso", ele concordou. E acrescentou: "Diga-me, o seu primeiro imediato é um bom marinheiro?"
"Bem, é claro que ele é! Eu não o traria comigo, caso contrário," respondeu o capitão. 
―Por que você pergunta?‖
"Nós podemos precisar dele para levar o navio, quando Halt jogar você ao mar," Will respondeu suavemente. O capitão começou a rir, então viu o olhar no rosto de Will e parou indeciso.
"Halt torna-se muito mal-humorado quando está enjoado," Will disse. "Particularmente quando as pessoas tentam fazer piada dele."
"Especialmente quando as pessoas tentam fazer piada dele," Horace acrescentou.
O capitão de repente, não parecia tão seguro de si. "Eu estava só brincando."
Will balançou a cabeça. "Foi assim com aquele Escandinavo que riu dele." Ele olhou para Horace. "Lembra-se do que Halt fez com ele?‖
Horace assentiu com seriedade. ―Não foi bonito."
O capitão olhava agora de um para o outro. Ele negociou com os Escandinavos ao longo dos anos. A maioria dos marinheiros negociava. E ele nunca encontrou alguém que os superasse.
"O que ele fez? Seu amigo eu quero dizer?" ele perguntou.
"Ele vomitou no capacete dele," Will disse.
"E vomitou bastante" Horace acrescentou.
A mandíbula do capitão caiu enquanto tentava imaginar a cena. Will e Horace, não se preocuparam em explicar que na época Halt estava usando o capacete emprestado, nem que ele estava sob a proteção do enorme Erak, futuro Oberjarl dos Escandinavos. Portanto, o comandante partiu do princípio, que o homem de barba grisalha que estava na proa, tinha arrancado o capacete de uma gigante cabeça de um Escandinavo e vomitado dentro dela - uma ação que normalmente seria equivalente ao suicídio.
"E o Escandinavo? O que ele fez?‖
Will deu de ombros. "Ele se desculpou. O que mais ele poderia fazer?‖
O capitão olhou de Will para Halt e voltou para Will. O rosto do jovem estava sério, sem nenhum sinal de que ele estava zoando o capitão. O capitão engoliu várias vezes, então decidiu que mesmo se ele estivesse sendo enganado, talvez fosse mais sensato deixar Halt sofrer seu enjôo em paz.
―Vela!‖
O grito veio do olheiro no mastro. Instintivamente, todos os três olharam para ele. Ele estava apontando para trás, o braço estendido para o sudeste. Depois moveram suas cabeças para olhar aonde o braço apontava. Havia um rápido movimento no mar, por entre a neblina mais adiante. Conforme olhavam, uma forma escura começou a surgir saindo dela, mantendo um firme curso.
"Você pode vê-lo?‖ gritou o capitão.
O vigia protegeu os olhos, olhando mais atentamente para o navio distante.
"Seis remos um lado... e uma forma quadrada. Ele está vindo para cima de nós rapidamente. Parece que vai nos alcançar!"
O navio estranho estava velejando com o vento por trás e remando fortemente também. Aquele navio era capaz de apontar para um ponto na frente do Sparrow e alcançá-lo antes deles. Não havia nenhuma maneira que eles poderiam evitar.
"Você pode ver quem é?‖ repetiu o capitão. Houve um momento de hesitação.
"Eu acho que ela é o Garra. O navio do Black O'Malley!" o vigia gritou. Will e Horace trocaram um olhar preocupado.
"Então Halt estava certo," Will disse.
Pela manhã, após o confronto com O'Malley na Taverna, Halt despertou os seus dois companheiros mais cedo.
"Vistam-se", disse-lhes brevemente. "Nós vamos voltar para Fingle Bay".
"E o café da manhã?" Horace perguntou irritado, sabendo qual resposta viria.
"Nós vamos comer no caminho."
"Eu odeio quando comemos no caminho", Horace resmungou. "Isso é terrível para minha digestão." No entanto, ele era um militar experiente. Vestiu-se rapidamente, organizou suas coisas e guardou a sua espada. Will estava pronto alguns segundos depois dele. Halt olhou-os, verificando se eles tinham todos os seus equipamentos.
"Vamos", disse ele e liderou o caminho para baixo das escadas. Ele pagou o estalajadeiro pela sua estadia e eles fizeram os seus caminho para os estábulos. Os cavalos relincharam uma saudação conforme entraram.
 "Halt", Will perguntou quando eles já estavam na estrada, "porque Fingle Bay?"
"Precisamos de um navio," Halt disse.
Will olhou por cima do ombro, para a cidade de onde tinham acabado de sair. Eles estavam quase no topo da colina e a floresta de mastros era claramente visível.
"Há navios aqui", ele ressaltou e Halt olhou de soslaio.
"Claro que sim", ele concordou. "E O'Malley está aqui também. Ele já sabe para onde estamos indo. Eu não quero que ele saiba quando iremos.‖
"Você acha que ele vai tentar nos impedir, Halt?" Horace perguntou.
O Arqueiro assentiu. ―Creio que poderia sim. Na verdade, eu tenho certeza que ele vai‖.
Mas se ele não souber quando partimos, significa que podemos ganhar tempo. Além disso, os comandantes em Fingle Bay são um pouco mais honestos do que aquele ninho de ladrões e contrabandistas.‖
"Mas só um pouco?‖ Will perguntou escondendo um sorriso. Ele sabia Halt tinha uma má opinião dos comandantes em geral – provavelmente, devido ao fato de que ele odiava viajar pelo mar.
"Nenhum comandante é muito honesto", Halt respondeu severamente.
Em Fingle Bay, eles contrataram o capitão do Sparrow, um mercador sorridente com espaço suficiente para eles e seus três cavalos. Quando o capitão ouviu o seu destino, ele franziu a testa.
"Craiskill River?" disse ele. ―Um antro de contrabandistas. Ainda assim, é um bom local para desembarcar. Provavelmente porque os contrabandistas o usam com tanta freqüência. Eu vou querer um extra se vamos para lá.‖
―De acordo‖, disse Halt. Ele sentiu que era razoável pagar o homem pelo risco que ia assumir. Mas o extra não foi tão bom como o capitão queria, para que o risco valesse à pena. Eventualmente, eles acordaram um valor e Halt o pagou. Então, ele acrescentou mais três pedaços de ouro na pilha, em cima da mesa na frente deles.
O capitão levantou os olhos para ele. "O que é isso?"
Halt empurrou o dinheiro para ele. "Isso é para você manter a boca fechada", disse ele. "Eu gostaria de sair depois de escurecer e eu não quero que as pessoas saibam para onde estamos indo."
O comandante deu de ombros.
"Meus lábios estão selados", disse ele, em seguida, virando-se, gritou uma coleção de palavrões e instruções para um grupo de tripulantes que estavam carregando barris no porão do navio.
Will sorriu. "É muito barulho para alguém que vai ficar de boca fechada", observou ele.
Agora, lá estavam eles, a poucos quilômetros de seu destino e O'Malley tinha os encontrado.
O navio de O'Malley navio era mais rápido e mais navegável. Ele foi projetado para vencer os navios do rei, enviados para interceptá-lo. E levava um grupo maior de homens do que o Sparrow. Will podia ver suas cabeças que se alinhavam no baluarte e enxergar ocasionalmente o brilho das armas. Na proa elevada, ele poderia ver até O'Malley, esforçando-se no leme para manter o Garra no curso.
"Nós não podemos vencê-los, podemos?"
Will se assustou em surpresa com a voz de Halt, logo atrás dele. Ele se virou para ver que o Arqueiro tinha deixado seu posto na proa e estava agora olhando o navio que os perseguia. Estava pálido, mas parecia no controle de si mesmo.
Anos atrás, na longa viagem para Hallasholm, Will se lembrou de discutir sobre o enjôo com Svengal, o primeiro imediato de Erak.
―Você precisa de algo para desviar sua mente," o Escandinavo corpulento lhe tinha dito. "Quando se tem algo para distraí-lo, não tem tempo para ficar enjoado."
Parecia que ele estava certo. A atenção de Halt estava fixa no barco do contrabandista, que vinha por trás deles. Ele parecia ter esquecido seu estômago embrulhado.
O capitão estava balançando a cabeça em resposta à pergunta de Halt. ―Não. Nós não podemos vencê-los. É mais rápido do que nós e com aquele barco ele pode aproveitar mais o vento do que eu. Ele quer nos empurrar para baixo em direção ao recife ou...‖ Ele parou, não gostando da alternativa.
"Ou o quê? Horace perguntou. Ele soltou a espada na bainha. Ele também tinha visto os homens armados a bordo do Garra.
"Ou então ele virá para cima de nós. A proa do seu navio é reforçada. O boato é que ele já afundou mais de um navio desse jeito." Ele olhou para Halt. "Se você tivesse me dito que O'Malley viria atrás de você, eu nunca teria o trazido a bordo."
A mais leve sugestão de um sorriso tocou o rosto pálido de Halt.
"É por isso que eu não te disse", falou. ―Então o que você pretende fazer?‖
O capitão encolheu os ombros impotente. "O que posso fazer? Eu não posso fugir dele. Não é possível lutar contra ele e não podemos nem sequer te entregar. Ele não deixaria testemunhas. Nós apenas vamos ficar aqui e esperar que ele nos afunde."
Halt levantou uma sobrancelha.
"Eu creio que podemos fazer um pouco melhor do que isso", disse ele. "Deixe-o chegar um pouco mais perto.‖
O capitão encolheu os ombros. "Eu não posso impedi-lo de chegar um pouco mais perto.‖ E acrescentou: ―O que você vai fazer?‖
Halt estava retirando o arco que estava sobre seu ombro esquerdo. Ao mesmo tempo, ele levou a mão a alijava no seu ombro direito e pegou uma flecha. Will, vendo o movimento, retirou seu próprio arco.
"Uma ou duas flechas não vão parar o navio", o capitão disse.
Halt o encarou com alguma curiosidade. "Eu perguntei o que você pretendia fazer. Aparentemente você ficou contente em esperar aqui, enquanto O'Malley nos arrebenta, nos afunda e nos deixa afogar."
O capitão se mexeu desconfortavelmente. "Podemos chegar à praia", disse ele. "Posso jogar barris vazios e madeira para aliviar o peso. Poderíamos ser capazes de chegar à praia."
"O mais provável é que vamos ser arrastados para o recife", disse Halt. Mas ele não estava olhando para o capitão. Ele aproximou-se do parapeito e tinha uma flecha pressionada na corda. Seus olhos estavam fixos na figura ao leme do Garra. O'Malley tinha os pés apoiados e afastados conforme ele arrastava a barra de madeira, segurando o navio contra o vento lateral, mantendo pressão nas velas e ao mesmo tempo sua tripulação remando. O navio inteiro estava em um delicado estado de equilíbrio. Vento, remos e leme, criado um triângulo de forças em conflito, que resultava no navio seguir rapidamente ao encontro deles. Halt sabia que se um desses elementos fosse perturbado, o resultado seria alguns momentos de caos, conforme as forças restantes tomassem conta da situação.
Ele aferiu a distância e os movimentos do navio sob seus pés. Estranho, agora que ele estava se concentrando no problema de acerta esse tiro, a náusea causada por este movimento, tinha diminuído. Ele franziu o cara. O Garra estava subindo e descendo também. Ele teria que pensar nesse fator para o cálculo do tiro. Sentiu Will ao se lado, com o arco pronto.
"Bom rapaz", disse ele. ―Quando eu der o sinal, nós dois vamos atirar."
"Eu lhe disse,‖ exclamou o capitão. "Um par de flechas não vai parar esse navio. Temos poucas chances como está agora. Se você hostilizar O'Malley, ele vai conferir que todos nós estejamos mortos, antes que vá embora.‖
"O meu modo de ver," Halt disse, ―ele não vai embora. Tudo bem Will. Agora!‖
Como se eles estivessem ligados por uma força invisível, os dois Arqueiros levantaram seus arcos, pressionaram, miraram e atiraram. As duas flechas cortaram o ar, meio segundo de diferença uma da outra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7
 
As duas flechas, uma um pouco à frente da outra, arquearam longe no céu cinzento. Horace, observando seu vôo, perdeu-as de vista contra as nuvens. Ele estava consciente do fato de que Halt e Will, já tinham preparado novas flechas, e estavam prontos para o próximo tiro.
Então, os olhos atentos na figura corpulenta na popa do Garra, pegou um pequeno movimento quando as duas flechas caíram. Ele não poderia dizer qual flecha atingiu O'Malley. Halt era melhor arqueiro, Horace sabia, mas Will era tão bom quanto.
Uma flecha bateu no baluarte e ficou tremendo a pelo menos um metro do leme. A outra se enterrou dolorosamente na parte carnuda do braço esquerdo de O'Malley - o lado que estava virado para eles.
Com o barulho do vento e do mar, Horace não pôde ouvir o grito de dor do contrabandista. Mas ele o viu cambaleando, soltando o leme e segurando o braço esquerdo ferido.
O efeito sobre o Garra foi quase instantâneo e desastroso. Livre da pressão do leme que o equilibrava, de repente foi empurrado a favor do vento, à vela quadrada arqueou e as cordas estalarão, como cordas de uma harpa super esticadas com o aumento da pressão, enquanto a força vinha agora da popa fora de controle. O balançar do navio atirou O'Malley para o convés. Ao mesmo tempo, vários remadores falharam completamente o golpe dos remos na água e caíram para trás nos bancos. Um remo caiu do barco. Vários outros embaralharam com seus vizinhos. O resultado foi caos.
O balanço preciso das forças que Halt havia observado foi totalmente interrompido. 
O Garra oscilava com a força do vento, já está passando pela popa do Sparrow, correndo loucamente em direção às águas em ebulição do Recife Paliçada.
Um dos tripulantes estava cambaleando através da plataforma de mergulho, indo para a cana do leme, que estava se debatendo para trás e para frente, fora de controle.
―Pare ele Will," Halt disse brevemente. Eles atravessaram para o lado oposto da plataforma, onde tinham uma visão mais clara do navio contrabandista fora de controle. Novamente eles atiraram. Desta vez, as duas flechas encontraram seu alvo e o homem caiu para frente, rolando nos embornais enquanto o navio se inclinava.
O capitão do Sparrow assistiu de boca aberta.
"Ninguém pode atirar assim," ele disse suavemente. Horace, ao lado dele se permitiu um sorriso sem humor.
"Esses dois podem", disse.
A bordo do Garra, a equipe percebeu que era tarde demais para salvar o navio, que ia à direção dos recifes. Eles começaram a disputar entre si para chegar à proa, tentando instintivamente evitar o primeiro ponto de impacto. O navio descontrolado atingiu a primeira das rochas, escondida debaixo da água efervescente. Houve um estrondo e o navio estremeceu, seus movimentos foram controlados por um momento pela rocha que os havia parado. O mastro se curvou para frente sob o súbito impacto, em seguida, quebrou um metro acima do convés. Ele desabou sobre o navio em um emaranhado de cordas, lona e madeira lascada, esmagando e prendendo alguns que tinham sido apanhados por debaixo. O peso extra de um lado levantou o navio e isso parecia libertálo momentaneamente das garras da primeira pedra. Ele subiu, ainda cambaleou no emaranhado do recife e bateu com força contra outra irregular massa preta que saia do mar. Uma onda quebrou sobre o casco e vários dos homens a bordo foram varridos para o mar. Halt e Will tinham abaixado seus arcos.
O Arqueiro barbudo virou-se agora para o capitão.
"Nós devemos fazer algo para ajudá-los", disse. O capitão sacudiu a cabeça com medo. 
"Eu não posso levar meu barco para tão perto dos recifes!‖ protestou ele.
"Eu não estou sugerindo que faça isso. Mas nós poderíamos lançar alguns barris no mar para ajudá-los. Pode dar-lhes uma chance." Halt olhou friamente de volta para o navio naufragado.
"O que é mais do que eles nos dariam."
Horace balançou a cabeça sério. A visão do Garra, tão recentemente rápido e ágil como uma criatura do mar, agora se transformou em um naufrágio, estilhaçado e indefeso, era um fato terrível. Mas ele sabia que os homens a bordo, estavam dispostos a dar a ele, seus amigos e a tripulação do Sparrow, exatamente o mesmo destino. Em uma palavra do capitão, alguns dos tripulantes do Sparrow deixaram os remos e começaram a colocar barris vazios sobre o trilho e Horace moveu-se para ajudá-los. No momento seguinte, uma linha de barris flutuantes estava descendo em direção ao navio afundando.
O capitão virou-se para Halt, com medo em seus olhos. ―Eu preciso de meus homens agora para voltar aos remos", disse ele, "ou vamos nos juntar a eles no recife.‖
Halt assentiu. "Nós fizemos tudo o que podíamos. Vamos sair daqui".
Os marinheiros voltaram aos seus bancos e começaram as alçadas nos remos novamente.
Lentamente, o Sparrow começou a arrastar-se para longe do terrível recife. Mas foi por um triz. Uma das pedras irregulares passou a poucos metros da proa, desapareceu escondida pelo baluarte, ressurgindo na popa quando à medida que iam passando. 
Horace estremeceu ao vê-la. Ele não tinha idéia de como chegaram tão perto, em sua mente, ele podia ver o Sparrow de repente se esmagando contra a rocha, preso contra ela pelo vento, depois girando ao redor, com seu mastro desabando sob o choque, os homens sendo jogado em todas as direções, conforme as ondas cinzentas quebravam acima do convés. Ele afastou a imagem para longe de seu pensamento, enquanto o navio se afastava em segurança. Então sentiu uma sensação estranha quando o vento que batia em sua bochecha direita vacilou e morreu, sendo substituído por uma rajada de vento vinda da esquerda, depois mais outra, então se tornou uma brisa constante. Eles chegaram ao back-lift!
"Vamos agora!" o capitão estava gritando e a equipe deixou os remos e correu para as adriças. A vela grande começou a balançar pesadamente, em seguida, com um estalo se encheu ao contrário. Como se ela estivesse ciente do perigo que tinha acabado de enfrentar, o Sparrow se afastou em gratidão para longe do recife.
Eles pararam o navio, na margem sul da foz do largo rio, passando a proa sobre a areia para que o navio diminuísse gradualmente sua parada. Enquanto a equipe montava uma tipóia no mastro para rebocar os três cavalos a terra, o capitão confrontou Halt.
―Você deveria ter me avisado", disse ele em tom acusador. ―Você deveria ter me dito que O'Malley era seu inimigo."
Surpreendentemente, Halt apenas balançou a cabeça.
"Você está certo", disse. "Mas eu sabia que você nunca iria nos levar, se eu contasse e que eu precisava chegar até aqui."
O capitão sacudiu a cabeça e começou a dizer algo mais. Em seguida, ele hesitou, lembrando-se da habilidade incomum dos dois arqueiros, quando eles tinham enviado suas flechas cruzando a água para o navio do contrabandista. Talvez ele não pudesse mostrar muita indignação com esses homens, ele pensou. Halt viu a luta em seu rosto e tocou em seu braço levemente. Ele entendeu os sentimentos do homem e admitiu para si mesmo que tinha usado ele e sua tripulação e colocado todos em perigo.
"Eu te pago mais", disse ele se desculpando. "Mas eu preciso de todo o ouro que me resta." Ele pensou por um momento, então disse: ―Traga-me uma caneta e papel.‖
O capitão hesitou por um momento, até que Halt lhe deu um aceno de cabeça e ele desapareceu dentro da baixa cabine na popa. Passaram vários minutos antes que ele surgisse, com uma folha áspera de gumes de pergaminho e uma pena tinteira de escrever. Ele não fazia idéia do que Halt pretendia e sua expressão mostrava isso.
Halt pegou os instrumentos de escrita, olhou em volta por um lugar onde apoiar o papel e viu o cabrestante na proa do navio. Caminhou até ele, o capitão seguiu-o curiosamente, então Halt espalhou o papel na superfície plana de madeira. A parte superior do tinteiro estava presa no lugar por tinta seca e levou alguns segundos para soltá-la.
"Qual é seu nome?‖ ele disse de repente. A questão tomou o capitão de surpresa.
"Keelty. Ardel Keelty.‖
Halt pensou por um segundo ou dois, então escreveu rapidamente. Cobriu o pergaminho fino com meia dúzia de linhas, recostou-se para ler o que tinha escrito, com a cabeça em um pequeno ângulo, em seguida assentiu satisfeito. Ele assinou a folha com um floreio e o balançou no ar para permitir a secagem da tinta. Então ele entregou ao capitão, que olhou para aquilo e encolheu os ombros.
"Eu não sou bom em leitura", disse ele.
Halt assentiu. Isso explicava o tempo que Keelty tinha levado para encontrar o papel e a caneta, bem como o estado do tinteiro. Ele pegou o papel por trás e leu em voz alta.
―O Capitão Keelty e a tripulação do navio Sparrow, foram fundamentais para a tomada e o afundamento do notório navio pirata e de contrabando chamado Garra, ao largo da costa de Picta. Eu peço que a esses homens, seja dada uma recompensa adequada dos cofres reais. Assinado Halt, Arqueiro de Araluen. Ele olhou para cima, e acrescentou: "É dirigida ao Rei Sean.‖ ―Apresente isso para ele e fará valer o seu tempo.‖―.
O capitão rosnou ironicamente, quando Halt entregou-lhe novamente a folha. "Rei Sean? Nunca ouvi falar dele. Ferris é o Rei de Clonmel.‖
"Ferris está morto‖, Horace acrescentou. Ele queria poupar Halt da angústia de discutir a morte de seu irmão. "Estamos seguindo os homens que o mataram. Seu sobrinho Sean assumiu o trono."
O capitão virou-se para Horace. Ele ficou um tanto surpreso com a notícia da morte do Rei. Fingle Bay ficava a um longo caminho a partir da capital, depois de tudo. Ele olhou com ceticismo para as palavras que Halt havia escrito.
"Então, se ele morreu", disse ele, "porque é que este novo Rei daria alguma atenção a você?"
"Porque ele é meu sobrinho," Halt disse. Seus olhos escuros queimavam nos de Keelty e o capitão soube instintivamente, que ele estava dizendo a verdade. Então um pensamento ainda o feria.
―Mas você disse... Ele era sobrinho de Ferris?‖ falou. "Então isso significa que você é...‖ Ele parou, não tinha certeza se a sua linha de pensamento estava correta, pensando se havia perdido alguma coisa.
"Isso significa que eu estou interessado em sair desta banheira com cheiro de esgoto e continuar meu caminho," Halt disse rapidamente. Ele olhou em volta, viu que Will tinha trazido suas bagagens e as selas de cima dos pequenos beliches, que eles haviam partilhado. Ele acenou com gratidão e moveu-se para a proa. Os marinheiros tinham colocado uma escada de mão, para que os três passageiros pudessem descer pela queda
de dois metros até a areia com mais facilidade. Halt balançou a perna por cima da amurada e olhou para Keelty, que estava com a folha de papel tremulando ao vento.
"Não perca isso", advertiu ele.
Keelty, ainda de boca aberta enquanto ele tentava juntar todos os fatos, assentiu distraidamente. "Eu não vou.‖
Halt olhou para seus dois companheiros. "Vamos", disse ele e desceu ligeiramente pela escada até a areia. Ele ficou grato com a sensação do chão sob seus pés mais uma vez.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
8
 
Eles cavalgaram para o interior, seguindo uma trilha grosseira e irregular, serpenteando através de moitas baixas e matagais que cobriam o terreno. O vento era uma força constante sobre eles, soprando vindo do mar, dobrando o capim atrás deles. 
Will olhou ao redor. Nenhuma árvore à vista. Por um momento, o som do vento sussurrante pela grama, o levou de volta à noite terrível que ele passara na solitária planície, em seu primeiro ano como aprendiz, quando ele, Gilan e Halt estavam caçando o Kalkara.
Ele deu de ombros mentalmente e se corrigiu. Quando o Kalkara estava os caçando, seria mais exato dizer.
―Seria legal ver uma árvore", disse Horace, ecoando o pensamento anterior de Will.
Halt olhou para ele. ―Elas não vão crescer aqui. O vento traz o sal do mar e as mata‖.
Nós precisamos chegar mais para o interior para ver as árvores. ‖―.
O que levantou um ponto que vinha incomodando Will. ―Halt, para onde estamos indo?‖.
Você tem alguma idéia?‖―.
Halt encolheu os ombros. "Nós sabemos que Tennyson desembarcou no Rio Craiskill. E este é o único caminho a partir do local de desembarque. Assim, a razão diz que ele deve ter seguido por esse caminho."
"O que acontece quando encontrarmos outro caminho?" Will perguntou. Halt deu-lhe um leve sorriso.
"Então nós vamos ter que pensar em outra coisa."
―Não é possível vocês encontrarem suas trilhas ou algo assim?‖ Horace perguntou. "Eu achei que vocês Arqueiros deveriam ser bons nisso."
"Nós somos bons", disse-lhe Halt confortavelmente. "Mas não somos infalíveis." No minuto que as palavras deixaram sua boca, ele as lamentou. Ele viu o olhar de falsa surpresa no rosto de Horace.
―Bem‖, disse o jovem guerreiro, "é a primeira vez que eu ouço você admitir isso." Sorriu facilmente para Halt, que fez cara feia para ele.
"Eu preferia quando você era jovem e tinha um pouco de respeito pelos mais velhos", disse Halt.
Na verdade, havia sinais de que pessoas passaram ao longo desta trilha, mas Halt e Will não tinham nenhuma maneira de saber, se haviam sido deixados pelo grupo de Tennyson, ou por outras pessoas. Esse era afinal, um caminho muito popular para os contrabandistas. Por essa razão que os Escoceses a utilizavam constantemente, trazendo mercadorias para a terra e negociando com os contrabandistas, principalmente uísque e fardos de lã. Lã era valiosa nesta parte de Picta, onde o clima era muito frio e úmido para a criação bem sucedida de ovelhas. O gado era mais resistente e mais adequado para o clima e os Escoceses negociavam couros e chifres pela lã macia.
Por enquanto, ficaram satisfeitos em cavalgaram por aquela trilha, na verdade, não havia nenhuma alternativa melhor para escolher outra direção.
Eles haviam começado sua jornada no final da tarde, e a noite já estava chegando quando encontraram uma bifurcação na trilha. Um caminho continuava na direção leste que tinham seguido até agora. A outra forçava para o sul. Ambas pareciam ser igualmente utilizadas.
"Nós decidiremos o caminho amanhã", disse Halt. Levou-os para fora da trilha, pelo meio do capim alto e do matagal. Encontraram um acampamento mais ou menos adequado, atrás de uma grande moita e alguns pés de amoras-pretas, que se elevavam um pouco mais alto que suas cabeças. Conduziram os três cavalos em uma série de círculos por alguns minutos, para pisotear a grama alta, em seguida, tiraram suas selas, deram água e os estabeleceram, deixando os animais para cortar a grama ao redor deles. Kicker estava afinado em viajar com os dois cavalos. Tanto os Arqueiros como Horace, não tinha necessidade de amarrá-los. Ele ia ficar por perto dos seus dois companheiros.
Horace ouvia o som dos três cavalos mastigando enquanto comiam, e olhou ao redor com uma carranca no rosto.
"Não sei onde vou encontrar lenha.‖
Halt o encarou com um leve sorriso. "Em nenhum lugar que você olhar," disse. "Não há nada a nossa volta e de qualquer maneira não podemos fazer uma fogueira. Uma vez que estiver escuro mesmo um pequeno braseiro seria visível por milhas e nunca saberemos quem poderá estar nos olhando."
Horace suspirou. Comida fria novamente. E nada além de água fria para beber. Ele era quase tão viciado em café como os dois Arqueiros.
"Deixe-me saber quando começaremos a nos divertir", disse ele.
Houve uma chuva fina durante a noite e eles acordaram debaixo de cobertores úmidos. 
Halt levantou, esticou-se e gemeu, conforme seus músculos doloridos o incomodavam.
"Eu realmente estou ficando velho demais para isso", disse. Ele olhou ao redor para o horizonte baixo, delimitado por arbustos e capim alto, e não viu nenhum sinal de qualquer pessoa que poderia estar os observando. Ele gesticulou em direção ao mato e os pés de amora-preta e disse a Will, ―eu acho que podemos correr o risco de fazer uma fogueira esta manhã. Veja se você pode cortar alguns galhos secos do meio do mato.‖
Will assentiu com a cabeça. Ele ficaria grato por uma bebida quente para começar o dia. Ele se arrastou para dentro do mato e de repente xingou baixinho, quando um espinho do pé de amora o prendeu.
"Cuidado com as amoras", disse Halt.
"Obrigado por me dizer o óbvio," Will disse. Mas ele começou a trabalhar com a faca Saxônica e cortou um feixe de caules finos e secos. Halt estava certo. O emaranhado espesso mantinha a chuva fora e Will saiu do túnel que ele tinha cortado, com um pacote substancial de varas. Nenhuma delas iria queimar por muito tempo e vão fazer pouca fumaça.
"Deve ser o suficiente para ferver um pote de café", disse ele. Halt assentiu. Eles comeram o café da manhã frio novamente - pão duro, frutos secos e carne. Mas seria mais palatável com uma caneca de café quente e doce.
Um pouco depois, sentaram-se e saborearam o segundo copo.
"Halt", Will disse: "posso te perguntar uma coisa?‖
Ele viu a boca do seu velho mentor começar a formar a mesma resposta de sempre e se apressou antes que Halt pudesse falar.
"Sim, eu sei, eu sei. Mas eu quero lhe perguntar algo mais, tudo bem?‖
Um pouco irritado porque Will tinha antecipado sua resposta padrão, Halt apontou para ele ir em frente.
"Para onde acha que Tennyson está indo?"
"Eu diria que," O Arqueiro respondeu, após alguns segundos de deliberação, "de que estará indo para o sul, agora que ele tem a chance. De volta para Araluen."
"Como você sabe disso?" Horace perguntou. Ele estava interessado em ouvir a resposta. Ficava sempre impressionado com a capacidade dos dois Arqueiros, de entender uma situação e chegar a uma resposta correta para um problema. Às vezes, pensava ele, que eles quase pareciam ter uma orientação divina.
"Eu estou supondo," Halt disse.
Horace ficou um pouco decepcionado. Ele esperava uma análise detalhada da situação. 
O fantasma de um sorriso apareceu no rosto de Halt. Ele estava bem ciente de que, ocasionalmente, Horace ficava entretido com idéias exageradas das competências e habilidades dos Arqueiros.
"Às vezes, isso é tudo que podemos fazer", disse Halt, com uma nota de desculpa em sua voz. Então decidiu que poderia ser uma boa idéia explicar a sua linha de pensamento. Deu a volta por trás deles, pegou seu alforje e tirou um mapa de couro. 
Ele abriu um mapa da metade do norte do país, mostrando a fronteira entre Araluen e Picta. Os dois jovens se posicionaram um de cada lado dele.
"Eu acredito que estamos por aqui", disse, batendo com o dedo indicador em um local a vários centímetros a partir da costa. Will e Horace podiam ver a marca da muralha de Linkeith e o Rio Craiskill, que serpenteava voltando para nordeste e no outro sentido para o lado oriental que era o caminho por onde tinham vindo. Horace se inclinou para frente, olhando mais de perto.
"Onde está a trilha que estamos agora?" ele perguntou. Halt o considerava pacientemente.
"Sabe, nós não marcamos as pequenas trilhas nesses mapas", disse ele. Horace estendeu o lábio inferior e encolheu os ombros. A ação dizia que ele achava que essas coisas deviam ser marcadas. Halt decidiu ignorá-lo.
"Tennyson, provavelmente está indo para o sul", disse. "E esta bifurcação na trilha, foi à primeira oportunidade que tiveram para seguir esse caminho."
Will coçou a cabeça, pensativo. "Por que sul? Você disse isso na noite passada. O que te faz ter tanta certeza?"
"Eu não tenho certeza", disse Halt. "Mas é um pressuposto razoável."
Horace bufou com desprezo. ―Palavra chique para uma suposição."
Halt olhou para ele, mas Horace assegurou de não manter contato visual com o Arqueiro. Halt sacudiu a cabeça e continuou.
"Nós sabemos que Tennyson particularmente não queria vir para Picta", disse ele. 
"O'Malley disse-nos isso, lembra?‖
Um entendimento estava começando a despontar no rosto de Horace. Sua fé na infalibilidade do Arqueiro estava lentamente sendo restaurada.
"Isso mesmo", disse. "Você perguntou e ele disse que Tennyson só queria sair de Hibernia.‖
"Exatamente. E Picta era o lugar para onde O‘malley estava indo. Então ele deixou Tennyson no Rio Craiskill. Eu posso apostar que os Renegados não têm nenhuma influência em Picta.‖
"O que te faz dizer isso?" Will quis saber.
"O Escoceses não são particularmente tolerantes com novas religiões", disse-lhe Halt. 
"A intolerância é uma marca aqui e também são um povo mais violento do que em Araluen. Tente começar uma nova religião neste país e eles os pendurarão pelos polegares - especialmente se você lhes pedir ouro como o preço de conversão".
"Realmente não é uma má política," Horace disse.
Halt o considerou calmamente. "Exatamente. No entanto, é razoável supor que há bolsões de influência espalhadas nas partes remotas de Araluen. Eu ficaria surpreso, se Selsey fosse o único lugar que eles se infiltraram.‖
Selsey era uma isolada aldeia de pescadores na Costa Oeste, onde Halt tinha descoberto pela primeira vez a atividade dos Renegados.
"Se esse for mesmo o caso, então ele realmente não tem outra escolha, não é?" Will disse. "Ele não pode ficar em Hibernia, porque ele sabe que estávamos atrás dele. Ele não pode ficar em Picta...‖
"... ou eles os pendurarão pelos polegares," Horace acrescentou, sorrindo. Ele gostou da imagem mental do gordo Tennyson pendurado pelos polegares. "Então Araluen é a escolha lógica," Halt finalizou. Ele bateu novamente no mapa, indicando uma localização mais ao sul, da posição que tinha inicialmente apontado. "E este é o caminho mais próximo, que passa através das montanhas de volta para Araluen. A Passagem do Corvo.‖
A fronteira entre Araluen e Picta, era delineada por uma série de montanhas. Elas não eram particularmente altas, mas eram íngremes, e os caminhos mais fáceis através delas, eram uma série de passagens por entre as montanhas.
"A Passagem do Corvo?‖ Horace repetiu. "Porque um corvo?‖
"Um corvo simboliza desgraça," Will disse distraidamente, repetindo o velho provérbio.
Halt assentiu. "Isso está certo. A passagem é o local de uma antiga batalha ocorrida há muitos anos. Um exército Escocês foi emboscado na passagem e foi dizimado a um só homem. Diz a lenda, que desde então nenhum pássaro vive lá. Exceto por um corvo solitário, que aparece todos os anos no aniversário da batalha e cujos gritos soam como viúvas Escocesas, chorando por seus homens."
"Há quantos anos que isso aconteceu?‖ Horace perguntou. Halt encolheu os ombros, enquanto ele enrolava o mapa e o recolocava no seu alforje.
―Ah trezentos ou quatrocentos anos atrás, eu acho", disse ele despreocupadamente.
"E quantos anos um corvo vive?" Horace perguntou franzindo o cenho. Halt revirou os olhos para o céu, vendo o que estava por vir.
Will tentou entrar em cena ―Horace...‖
Horace levantou a mão para evitá-lo.
"Quero dizer, não é como se ele fosse reproduzir-se ali, esse seu corvo seria o bis-bisbis-bis-bis-neto, certo?" disse ele. "Afinal de contas, é um corvo, e um corvo dificilmente pode ter tatara-tatara-tatara-netos por conta própria, pode?"
"É uma lenda, Horace," Halt disse deliberadamente. "Não é para ser tomado literalmente."
"Ainda assim", disse Horace obstinadamente, ―por que não chamá-lo de algo sensato? Como Passagem da Batalha? Ou Passagem da Emboscada?‖
Halt o considerou. Ele amava Horace como a um irmão mais novo. Mesmo um segundo filho, depois de Will. Ele admirava sua habilidade com a espada e sua coragem em batalha. Mas às vezes, só às vezes, sentia um desejo irresistível de bater a cabeça do jovem guerreiro, contra uma árvore.
"Você não tem senso de drama ou de simbolismo, não é?" ele perguntou.
"Hã?" respondeu Horace, sem entender. Halt olhou ao redor procurando uma árvore. Felizmente para Horace, não havia nenhuma à vista.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9
 
Tennyson, o autoproclamado profeta do deus Alseiass, fez uma carranca para o prato que foi colocado em sua frente. O conteúdo era escasso - um pequeno pedaço de carne salgada e fibrosa, algumas cenouras e nabos murchos - não ajudavam em nada para melhorar o seu humor. Tennyson era um homem que gostava de conforto. Mas agora ele estava desconfortável e com frio. E o pior de tudo, com fome.
Ele pensou amargamente no contrabandista Hiberniano, que tinha deixado ele e o seu grupo em terra, na selvagem costa oeste de Picta. Ele cobrou uma taxa exorbitante dos estranhos, e depois de uma feroz barganha, concordou com má vontade, em fornecer provisões para a viagem ao Sul por terra. Quando chegou o momento deles desembarcarem, foram praticamente enxotados para fora do navio como um lastro indesejado, depois jogaram à praia meia dúzia de sacos.
Quando Tennyson descobriu que pelo menos um terço da comida dos sacos estava estragada, o navio de contrabando já estava longe da costa, balançando sobre as ondas como uma gaivota. Ele se enfurecera impotente na praia, imaginando o contrabandista rindo enquanto contava as moedas de ouro, que tinha extorquido deles.
No começo, Tennyson ficou tentado a reivindicar a maior parte dos alimentos para si, mas a cautela prevaleceu. Seu domínio sobre seus seguidores era tênue. Nenhum deles era crente em Alseiass. Formavam o núcleo duro do seu grupo, seus colegas criminosos, que sabiam que o culto dos Renegados, não era nada mais do que uma oportunidade para extorquir dinheiro do povo simples. Eles viam Tennyson como seu líder, só porque ele era hábil em convencer os ingênuos agricultores e moradores a partilhar seu dinheiro. Mas no momento, não havia fazendeiros ou moradores nas proximidades e eles não sentiam nenhuma deferência para o homem de cabelos brancos volumosos, vestido com manto branco esvoaçante. Ele poderia ser seu líder, mas agora ele não estava dando nenhum lucro para eles, para que deixassem ficar com a melhor parte dos alimentos.
A verdade era que ele precisava deles, tanto quanto eles precisavam dele. As coisas eram diferentes, quando estavam cercados por centenas de convertidos, ansiosos para
agradar todos os caprichos de Tennyson. Quando isso acontecia, todos viviam muito bem e ele melhor ainda. Mas agora? Agora ele teria de compartilhar com o resto.
Ele ouviu passos se aproximando e olhou para cima, ainda com uma expressão azeda em seu rosto. Bacari, o mais velho dos dois assassinos Genoveses, ainda permanecia entre seu pessoal - parou a poucos passos de distância. Ele sorriu sarcasticamente olhando para a bandeja de comida, sobre o joelho de Tennyson.
"Não é exatamente um banquete, sua Santidade.‖
A testa Tennyson escureceu de raiva. Ele precisava dos Genoveses, mas não gostava deles. Eram arrogantes e autoconfiantes. Quando ele lhes ordenava uma tarefa, faziam com um ar de relutância, como se estivessem fazendo um favor. Ele lhes pagava bem para protegê-lo, e esperava que pudessem lhe mostrar uma pequena deferência. Mas isso era um conceito que eles pareciam desconhecer.
"Você encontrou alguma coisa?‖ ele perguntou.
O assassino deu de ombros. "Há uma pequena fazenda a cerca de três quilômetros de distância. Há animais lá, pelo menos vamos ter carne."
Tennyson tinha enviado os dois Genoveses para explorar a área circundante. A pouca comida que restava era quase intragável e eles estavam indo para encontrar mais. 
Agora, com a menção de carne fresca, seu ânimo melhorou.
"Legumes? Farinha? Grãos?‖ ele perguntou. Bacari encolheu os ombros novamente. Foi um movimento desdenhoso, Tennyson pensou. Isso transmitia o desprezo pela pessoa que o estava abordando.
"Possivelmente", disse Bacari. "Parece um pequeno lugar próspero."
Os olhos de Tennyson se estreitaram. Próspero pode significar também que é bem povoado. "Quantas pessoas?‖
Bacari fez um gesto de desprezo. "O tanto que pude ver apenas duas pessoas", disse. 
"Podemos lidar com eles facilmente."
"Excelente!" Tennyson levantou-se com entusiasmo renovado. Ele olhou para o conteúdo de mau gosto do prato e atirou-os para junto de um arbusto. ―Rolf!‖ ele gritou para seu capanga-chefe. "Prepare todos para continuar! Os Genoveses encontraram comida."
O bando começou a se preparar para sair. A menção de comida tinha animado todos eles. Os olhares mal-humorados e resmungos irritados haviam se tornado rotina nos últimos dias. Incrível o que a perspectiva de uma barriga cheia, fazia pelo espírito das pessoas, Tennyson pensou.
Era uma casa de palha bem cuidada, com um celeiro ao lado. A fumaça subia numa onda preguiçosa pela chaminé. Um campo cultivado se apresentava com topos verdes das hortaliças - couve ou repolho, Tennyson supôs. Quando eles se aproximaram, um homem estava saindo do celeiro, puxando uma vaca preta atrás dele em uma corda. 
Estava vestido com o traje típico da região - uma manta longa cobrindo a parte superior do seu corpo e um saiote pesado enrolado em volta de sua cintura. Ele não os notou no início, mas quando o fez, parou de caminhar, a vaca deixou caiu à cabeça para pastar o capim alto.
Tennyson levantou a mão em sinal de paz e continuou em direção ao agricultor Escocês. Rolf e seus outros seguidores se espalharam em uma linha de cada lado dele. Bacari e Marisi, que era o segundo Genovês, ficaram perto também, um passo atrás dele. Ambos tinham suas bestas armadas, segurando-as discretamente ao lado de seus corpos.
O agricultor virou-se e gritou de volta para a casa. Poucos segundos depois, uma mulher apareceu na porta e moveu-se para se juntar ao marido, mostrando estar pronta para defender sua casa contra esses estranhos.
"Nós viemos em paz", Tennyson gritou. "Não queremos nenhum mal."
O fazendeiro respondeu em sua língua nativa. Tennyson não tinha idéia do que as palavras queriam dizer, mas o significado era claro - fique longe. O homem se inclinou e tirou algo da calça, de dentro de uma capa de couro, presa à sua perna direita. Ele endireitou-se e puderam ver uma longa adaga de lâmina negra em sua mão. Tennyson sorriu tranqüilamente e continuou a avançando.
"Nós precisamos de comida", disse ele. "Nós pagaremos bem.‖
Ele não tinha intenção de pagar e, não tinha idéia se o agricultor poderia compreender a língua comum que ele falava. Provavelmente não, estavam longe da civilização. O importante era manter o tom calmo e apaziguador.
Mas o agricultor não estava convencido. Ele virou-se e empurrou a vaca violentamente, tentando a enviar de volta para o celeiro. O animal negro levantou a cabeça em alarme e começou a se virar pesadamente.
"Mate-o", Tennyson disse calmamente.
Quase imediatamente, ele ouviu o whizzz das duas bestas e duas setas riscaram o campo, enterrando-se nas costas do homem. Ele ergueu as mãos, deu um grito sufocado e caiu de bruços na grama. Sua esposa deu um grito e caiu de joelhos ao lado dele, chamando-o e tentando acordá-lo. Mas Tennyson sabia que do modo como o homem tinha caído, estava morto quando bateu no chão. Demorou um minuto ou mais para a mulher chegar à mesma conclusão. Quando fez, ela levantou, gritou o que era obviamente uma maldição para eles e virou-se para correr. Ela tinha dado três passos,
quando Bacari, que já havia recarregado, disparou novamente e ela se esparramou no chão com o rosto para baixo, a poucos metros de seu marido.
A vaca, nervosa com os gritos e o cheiro metálico de sangue, ficou indecisa, balançando a cabeça, oferecendo uma ameaça indiferente à aproximação dos estranhos.
Nolan, um homem corpulento do círculo íntimo de Tennyson, moveu-se para frente e agarrou a cabeça da vaca, trazendo-a sob controle. A vaca olhou com curiosidade, depois Nolan com uma faca, cortou sua garganta. O sangue jorrou para fora e a vaca cambaleou alguns passos, antes de suas pernas cederam e ela cair na grama.
Os Renegados formaram um circulo ao redor do animal que se debatia, considerando tudo com satisfação. Haveria bastante carne para mantê-los alimentados por algum tempo.
"Limpe e empacote," Tennyson disse a Nolan. Antes de ingressar no bando de Tennyson, o grande homem tinha trabalhado como açougueiro. Ele balançou a cabeça satisfeito.
"Dê-me uma mão," ele ordenou a três dos homens ao seu redor. Ele precisaria deles para manter a carcaça estável, enquanto ele esfolava e a cortava. Tennyson o deixou com a tarefa e entrou na fazenda. A porta era baixa e ele teve que se abaixar para entrar. Uma rápida pesquisa pelo local revelou algumas batatas, nabos e cebolas. Seus homens reuniam-se e ele enviou dois deles para pegar alguns dos repolhos, que estavam crescendo na área cultivada. Olhou ao redor da casa bem cuidada. Estava tentado a passar a noite aqui, sob um telhado para variar. Mas não tinha idéia se o agricultor poderia ter amigos, que morassem nas proximidades. Seria mais seguro recolher os alimentos e seguir em frente.
Outro de seus seguidores o encontrou quando saia da casa.
"Há mais dois animais no celeiro", disse ele. ―Vamos precisar?"
Tennyson hesitou. Eles tinham muita carne agora, assim como as batatas e as cebolas da casa. Se eles fossem levar mais alguma coisa, iria apenas atrasá-los. Olhou através para Nolan, onde estava trabalhando na carcaça. Ele havia retirado a longa pele e colocado sobre a grama. Eviscerou e limpou o corpo, estava cortando a carne em pedaços, empilhando sobre a pele sangrenta.
―Não‖, disse ele. ―Queime o celeiro quando fomos sair. E a casa também." Não havia nenhuma razão para queimá-la, pensou ele. Mas tampouco não havia razão para que não fizesse. E o ato de destruição gratuita iria restaurar seu humor depois dessa longa caminhada.
O Renegado assentiu. Em seguida, ele hesitou, não sabia se havia entendido muito bem as ordens de Tennyson.
"E as vacas?‖ ele perguntou. Tennyson encolheu os ombros. Se ele não pudesse utilizálas, não via qualquer sentido em deixá-las para mais ninguém.
―Queime-as também."
 
 
 
10
 
O caminho levou Halt, Will e Horace um pouco a Leste do sentido Sul que estavam seguindo - e o litoral dobrava sentido Oeste. Então, conforme viajaram, eles se afastavam para mais e mais longe do mar. O vento constante e cheio de sal acabara há algum tempo e eles começaram novamente a ver as árvores.
A terra era selvagem e montanhosa, a maior parte coberta por tojo (*) e arbustos. 
Faltava-lhe a beleza suave do verde da parte sul de Araluen, que Will e Horace estavam acostumados. Mas não deixava de ter sua forma própria de beleza – selvagem, pedregosa e inóspita. Mesmo as árvores, quando começaram a aparecer com maior freqüência, pareciam desafiar os elementos da natureza, com suas raízes grandes enterradas no solo arenoso e seus ramos grossos como braços musculosos.
Eles viajaram talvez um quilômetro, quando Halt deu um baixo gemido. Ele pulou da sela e saiu da trilha para analisar alguma coisa. Will e Horace, que estavam montados em fila atrás dele, desceram do cavalo e foram espreitar por cima de seu ombro. Ele estava estudando um pequeno tufo de pano, pegou-o com um ramo duro de arbusto que crescia ao lado da trilha.
"O que você acha disso, Will?"
"Pano", Will disse, então, conforme Halt o olhou de forma penetrante, ele percebeu que havia falado o óbvio e seu mentor esperava mais dele. Ele estendeu a mão e tocou o pequeno fragmento, sentindo-o, rolando-o suavemente entre o dedo indicador e o polegar. Era uma tecelagem de linho liso, talvez de uma camisa, ele pensou.
"Não é nada como aquele tecido colorido áspero e desgastada que os Escoceses usam", disse ele, pensativo. Agora havia percebido porque eles vestiam aquele tecido grosso e áspero. O tojo e os arbustos de sua pátria rasgariam qualquer coisa mais fina em poucas semanas.
"Bom trabalho", disse Halt em aprovação.
Horace sorriu, quando viu os seus dois amigos agachados ao lado da trilha. De certa forma, ele sabia que Halt nunca pararia de ensinar o jovem Arqueiro. Will seria sempre seu aprendiz. E conforme ele pensava sobre isso, também percebeu que Will mesmo sem consciência queria que sempre fosse assim.
―Então o que mais pode me dizer?‖ Halt perguntou.
Will olhou ao redor, estudando o caminho de areia por onde estavam viajando, vendo vestígios de que pessoas tinham passado por esse caminho, há poucos dias atrás. Mas a chuva e o vento, tinham tornado quase impossível deduzir se todos haviam viajado juntos ou estavam em grupos separados.
"Eu estou me perguntando, porque o dono deste tecido, não estava andando na trilha em si. Por que ele estaria andando através dos arbustos, quando há um caminho claro?‖
Halt não disse nada. Mas com a linguagem corporal, se inclinou para Will e assentiu de modo encorajador, dizendo ao jovem arqueiro que estava no caminho certo. Ele olhou para o caminho novamente, na confusão de pegadas uma sobre a outra.
"A trilha é estreita", disse ele finalmente. "Sem espaço para mais do que duas pessoas lado a lado. A pessoa que vestia isso", ele indicou o pequeno pedaço de tecido, ―foi empurrada para fora do caminho, por causa do número de pessoas. Talvez eles tenham se espalhado, para não ficar batendo lado a lado uns com os outros."
"Então, nós estamos seguindo um grande grupo de viajantes. Eu diria que há mais de uma dúzia deles", disse Halt.
―O hospedeiro, falou que Tennyson tinha cerca de vinte pessoas com ele," Will disse.
Halt assentiu. "Exatamente. E eu acho que estamos um dia ou dois para trás."
Eles estavam de pé. Horace balançou a cabeça em admiração.
"Quer dizer que você pode descobrir tudo isso, só a partir de um pouco de pano?‖
Halt o considerava ironicamente. Ele ainda estava um pouco ressabiado por Horace ter dito ―Isso é um termo bonito para suposição", no dia anterior. Halt não esqueceu as críticas.
―Não‖, disse ele. "Nós estamos supondo. Só queríamos que soasse mais científico."
Halt parou por alguns segundos, como se convidando Horace a fazer algum tipo de comentário, mas sabiamente, Horace escolheu ficar quieto. Finalmente, o Arqueiro apontou para o caminho à frente deles.
"Vamos andando", disse.
O vento levou as nuvens de chuva da noite anterior, o céu acima deles era de um azul brilhante, mesmo que a temperatura do ar ainda estivesse fria e fresca. Os arbustos que
os cercavam, variava da cor de um profundo marrom, para roxo maçante. Sob a luz do sol, a cor parecia brilhar. Will avistou o próximo fragmento de tecido, quase por acaso. Não era nada mais do que um fio na verdade, preso em outro ramo, desta vez, próximo ao caminho. E esse teria sido fácil de perder no arbusto roxo, porque se misturava com ele.
Também era roxo.
Will sinalizou a Horace, que estava andando atrás para parar. Então ele se inclinou na sela e arrancou o fio do mato.
"Halt", ele chamou.
O Arqueiro barbudo parou Abelardo e girou na sela. Olhou de soslaio para o fio cor púrpura sobre o indicador de Will e sorriu lentamente. "E quem é que sabemos que veste roxo?‖ ‗
"Os Genoveses,‖ Will respondeu.
Halt respirou fundo. "Portanto, parece que estamos no caminho certo."
Isso foi confirmado por eles, poucos quilômetros depois. Sentiram o cheiro primeiro. O vento estava muito forte para a fumaça pendurar no céu. Era espalhada quase instantaneamente. Mas o cheiro de queimado, madeira e palha carbonizadas - e também algo mais – era levada para eles.
―Fumaça‖, Will disse, virando o rosto para o vento, para tentar capturar o odor de forma mais clara. Havia um leve rastro de algo mais - algo que ele já tinha cheirado antes, quando estava seguindo o rastro de um dos grupos de Tennyson, que estavam invadindo ao longo do sul de Hibernia. Era o cheiro de carne queimada.
Então Halt e Horace sentiram o cheiro também. Will trocou um olhar com seu professor, e sabia que ele também reconheceu o sinistro cheiro.
"Venha", disse Halt, e colocou Abelardo em galope, embora soubesse que já era demasiado tarde.
A fazenda ficava em uma clareira, a poucas centenas de metros do caminho.
Agora era um amontoado de ruínas enegrecidas, ainda cheio de fumaça, mesmo um dia depois de terem sido consumidas pelo fogo. Uma parte do telhado de palha permanecia parcialmente intacta. Mas a sua estrutura de apoio tinha desmoronado e ela estava em um ângulo, apoiado pelos restos carbonizados de um muro.
―O sapé deveria estar estado úmido", disse Halt. "Ele não se queimou completamente."
Eles pararam a poucos metros da casa. Não havia nenhum sobrevivente. Os corpos de um homem e uma mulher estavam deitados de bruços na longa grama.
Havia uma segunda construção ao lado da casa de campo - um celeiro, Will adivinhou. 
Ele também tinha sido reduzido a cinzas. Não havia nada de suas paredes, embora, como aconteceu com a casa de campo, algumas partes da palha úmida, sobreviveram apenas para tampar as ruínas. Puxão evitou nervosamente, quando Will insistiu para ele ir em direção do celeiro. O cheiro de carne queimada era muito mais forte aqui e o cavalo se opunha a chegar mais perto. Entre as cinzas, Will podia ver dois grandes corpos carbonizados. Gado, ele pensou.
"Calma rapaz", Will disse a Puxão. O pequeno cavalo sacudiu a cabeça, desconfortável, como se pedisse desculpas por sua reação nervosa. Então, ele se firmou. Will desceu da sela, e ouviu uma advertência baixa vindo do peito Puxão.
"Está tudo certo", disse ao cavalo. "Quem fez isso está muito longe."
E logo ficou claro quem tinha feito isso. Will se ajoelhou ao lado do corpo do fazendeiro e gentilmente moveu a roupa xadrez do homem para o baixo, a partir de onde tinha se enrolado, quando o homem caiu. Escondido pelas dobras da lã áspera, ele encontrou os ferimentos que tinha matado ele: duas setas de besta, apenas um centímetro de distância uma da outra, enterrada nas costas do homem. Havia pouco sangue. Pelo menos uma das setas deve ter atingido o coração do homem, matando-o quase instantaneamente. Isso era algo a ser grato, pelo menos foi rápido, Will pensou. 
Ele olhou para cima. Halt e Horace ainda estavam sentados em seus cavalos, observando-o.
"Besta", disse ele.
"Não é uma arma Escocesa," Halt observou.
Will balançou a cabeça. ―Não. Eu vi setas como estas antes. São os Genoveses. Tennyson esteve aqui."
Horace olhou ao redor da trágica cena. Sua expressão era uma mistura de tristeza e desgosto. Picta e os Escoceses poderiam teoricamente ser inimigos de Araluen, mas essas pessoas não eram soldados ou invasores. Eles eram gente simples do campo, cuidando de seus afazeres do dia-a-dia, trabalhando duro e lidando com a vida pobre desta terra dura do norte.
"Por quê?" disse ele. "Por que matá-los?"
Em sua jovem vida, Horace tinha visto sua quota de batalhas e sabia que não havia glamour na guerra. Mas pelo menos na guerra, os soldados sabiam que o destino estava em suas próprias mãos. Eles podem matar ou ser mortos. Eles tinham a chance de se defender. Isto foi um abate cruel de civis inocentes e desarmados.
Halt indicou outro cadáver, mais longe e metade escondido pela longa grama. Havia uma pequena nuvem de moscas zumbindo e um corvo pulando em cima dele,
arrancando com seu bico afiado, alguma carne da carcaça. Era tudo o que restava de outra vaca do fazendeiro. Mas esta tinha sido morta e cortada pela sua carne.
"Eles queriam comida", disse ele. ―Então vieram. Quando os fazendeiros se opuseram, mataram ele e sua esposa e incendiaram a casa e o celeiro‖.
―Mas por quê? Poderiam ter dominado eles facilmente. Por que matá-los?"
Halt encolheu os ombros. "Eles ainda tem um longo caminho a percorrer até a fronteira", disse ele. "Eu acho que não querem deixar ninguém para trás, que poderia alertar outras pessoas contra eles." Olhou em volta, mas não viu sinal de outra habitação. "Eu aposto que há meia dúzia de outras pequenas fazendas como esta, a poucos quilômetros daqui. As chances são de que há uma aldeia ou uma vila também. Tennyson não gostaria de assumir o risco, de que estas pessoas poderiam se juntar e vir atrás deles."
"Ele é um porco assassino", disse Horace baixinho, enquanto ouvia o raciocínio de Halt. O Arqueiro barbudo deu um suspiro de leve desgosto.
―Você descobriu isso só agora?" ele perguntou.
*Tojo – Tipo de planta leguminosa.
 
 
 
 
 
 
 11
 
 Halt olhou cautelosamente o horizonte. ―Nós temos que sair daqui.‖ ele disse, mas Horace já havia descido da cela.
―Nós não podemos abandoná-los assim, Halt,‖ ele disse calmamente. ―isso não é correto.‖
 Ele começou a desatar sua enxadinha que fazia parte de seu equipamento de camping. Halt inclinou-se na cela.
 ―Horace, você quer estar aqui se algum amigo desses Escoceses aparecer?‖ ele perguntou. ―Porque eu não acho que eles estarão interessados em ouvir explicações‖
Mas Horace já estava examinando o chão, procurando por um ponto macio para cavar.
 ―Nós devemos enterrá-los, Halt. Não podemos deixá-los aqui apodrecendo. Se eles tiverem algum amigo por perto, eles apreciarão o fato de que nós resolvemos o problema.‖
 ―Acho que você está esperando muito da capacidade racional dos Escoceses,‖ Halt disse. Mas ele percebeu que não faria Horace mudar de idéia. Will tinha desmontado e tinha sua própria pá também. Ele olhou para Halt.
 ―Halt, se nós não os enterrarmos eles irão atrair mais corvos. E isso irá atrair a atenção dos amigos deles.‖ Ele explicou.
―E quanto a isso?‖ Halt perguntou indicando as carcaças massacradas. Will deu de ombros.
―Podemos arrastá-los para as cinzas no celeiro.‖ Ele disse. ―E cobri-los com partes do telhado.‖
 Halt suspirou, desistindo da discussão. De certa forma, ele pensou, Horace estava certo. Era a coisa certa a fazer – e era o que os diferenciava de pessoas como Tennyson. 
 E, além disso, o argumento de Will fazia sentido. Talvez, Halt pensou, ele tenha se tornado um pouco sangue frio e pragmático em sua velhice. Ele desceu da cela, tirou sua própria pá e começou a cavar.
 ―Estou muito velho para começar a fazer a coisa certa.‖ Ele explicou. ―você é uma má influência, Horace.‖
 Eles cobriram os dois corpos com as mantas grossas que eles estavam usando e os colocaram lado a lado na cova rasa. Enquanto Will e Horace cobriam a cova, Halt engatou uma corda em Abelard e ele levou a outra carcaça para os restos do celeiro. Em seguida, ele soltou várias partes do telhado de palha meio queimadas sobre o corpo. As outras duas feras estavam tão gravemente queimadas que não havia mais nada para atrair corvos.
Horace amaciou a terra com a pá e pôs-se ereto, massageando as costas.
 ―Essas pás são muito curtas.‖ Ele disse. Ele olhou para seus companheiros. ―Devemos falar algo sobre as sepulturas?‖ Ele perguntou hesitante.
 ―Eles não nos ouviriam se o fizermos‖ Halt respondeu e apontou o polegar para os cavalos. ―Vamos andando. Nós já demos muito tempo para Tennyson ficar longe de nós.‖
 Horace assentiu, percebendo que Halt tinha razão. Além disso, ele pensou, seria estranho dizer palavras de despedida para duas pessoas cujos nomes ele nem mesmo sabia.
Halt esperou até que seus dois companheiros estivessem montados novamente.
  ―Vamos pegar o ritmo.‖ Disse ele, direcionado a cabeça de Abelard para o sul novamente. ―Nós temos muito caminho para cobrir.‖
 Eles mantiveram os cavalos num galope constante ao longo do resto da tarde. Puxão e Abelard é claro, poderia manter esse ritmo por dias se necessário. Kicker não têm a mesma resistência, mas a sua passada maior significava que ele estava fazendo o mesmo progresso devido a um esforço muito menor. O céu claro da manhã tinha ido assim como o vento havia mudado e trouxe com ele os bancos de nuvens a partir do oeste. Halt inalou o ar.
―Talvez chova hoje à noite.‖ Ele disse. ―Seria bom já estar na passagem enquanto isso.‖
―Que passagem?‖ Will quis saber.
 ―Cavernas,‖ Halt explicou sucintamente. ―As paredes da passagem são alinhadas, lá passaremos a noite numa caverna quente e seca. Melhor do que dormir na chuva novamente.‖
 Eles chegaram a Passagem do Corvo com a última luz do dia. Primeiramente, Will e Horace não viram nenhum sinal dela. Em seguida, eles perceberam que a poucos metros após a entrada, a passagem fez uma brusca virada de noventa graus para a esquerda, de modo que a parede de pedra impedia a visão da abertura. Eles cavalgaram com cautela, as batidas dos cascos dos cavalos ecoando pelas paredes de pedra que subiam ao redor deles. Pelos primeiros cinqüenta metros o caminho era estreito, uma trilha sinuosa entre as altas montanhas. Depois, gradualmente, ela se abriu, até o piso da passagem ficar com trinta ou quarenta metros de largura. O chão ainda estava subindo e a superfície era áspera. Dentro da passagem com sombras profundas e o curso era traiçoeiro. Kicker tropeçou várias vezes, e Halt levantou a mão.
―Deveremos acampar pela noite‖ ele disse. ―Os cavalos podem quebrar a perna nessas condições e ai sim estaremos em grande problema.‖
Will olhou para as paredes cobertas por sombras. ―Não vejo nada da caverna quente e seca que você mencionou,‖ ele disse.
Halt estalou a língua em aborrecimento. ―As notas no mapa dizem que deveria estar aqui.‖ Em seguida, ele apontou. ―Essa saliência terá de satisfazer-nos‖.
 Uma grande saliência de pedra se projetava para fora da parede da passagem, proporcionando um espaço de abrigo embaixo. Havia muito espaço. Na ausência de uma caverna, isso é melhor que nada, Will pensou.
―Pelo menos vai nos proteger da chuva,‖ ele disse.
 Eles montaram acampamento. Will e Horace tinham trazido um carregamento de lenha do acampamento anterior, e Halt decidiu que eles deveriam acender uma fogueira. Eles estavam com frio e deprimidos e, ele percebeu, era possível que começassem a brigar uns contra os outros no estado em que se encontravam. Um fogo, um pouco de comida quente e café iria restaurar seus espíritos novamente. Havia apenas um risco que devia ser considerado, ele pensou, mas as várias voltas da passagem iriam escondê-los muito efetivamente. Além disso, Não haviam visto nenhum sinal que alguém os estava seguindo. E mover-se na escuridão pelo piso irregular e pedregoso da caverna seria perigoso para qualquer perseguidor. E fazê-lo silenciosamente seria praticamente impossível. Em resumo, ele pensou que os ganhos em potencial não compensariam os perigos.
 Estabeleceram-se em seus cobertores e casacos cedo, cobrindo o fogo com a areia antes disso. Uma coisa era aquecer os alimentos e água por alguns minutos, outra completamente diferente seria deixar o fogo aceso para sinalizar as suas presenças enquanto dormiam. Horace se ofereceu para vigiar pelo primeiro turno e Will e Halt aceitaram com gratidão.
 
Will acordou com a mão de Horace em seu ombro. Por um segundo ele se perguntou onde estava e porque havia uma pedra pressionando seu quadril. Depois ele lembrou.
―Já é meu turno?‖ ele murmurou. Mas Horace agachou-se sobre ele, com os dedos nos lábios pedindo silêncio.
―Escute,‖ ele murmurou. Ele virou-se para encarar a passagem. Will bocejou, e sentouse em seus cobertores, apoiado no cotovelo.
 Um grito longo e áspero ecoou pela passagem, ecoando de uma parede à outra, então, os ecos continuaram muito tempo depois que o ruído original tinha cessado. Will empalideceu com o som. Era um som de tristeza, um grito de dor.
―Que diabos foi isso?‖ ele sussurrou.
 Horace sacudiu a cabeça. Então, ele inclinou-se novamente para escutar, sua cabeça inclinada levemente para o lado.
 ―É a terceira vez que eu escuto isso,‖ ele disse. ―As primeiras duas vezes foram tão baixos que nem tive certeza de ouvi-los. Mas agora está mais perto.‖
 O grito veio de novo, só que agora, de outra direção. O primeiro havia vindo da passagem, Will pensou. Este veio definitivamente de trás deles. De repente, ele reconheceu o som.
―É um corvo,‖ Ele disse. ―O corvo da Passagem do Corvo.‖
 ―Mas aquele veio daqui,‖ Horace começou, apontando pela passagem, em seguida, virando para a direção do primeiro grito. ―Deve haver dois deles.‖
―Ou um voando.‖ ‗ Will introduziu.
 ―Você acha?‖ Horace perguntou. Ele iria enfrentar qualquer inimigo com firmeza. Mas ficar sentado aqui, nesta fenda sombria nas montanhas e ouvir aquele som triste deixou seus nervos à flor da pele.
 Uma longa voz de sofrimento veio da pilha de cobertores de Halt. ―Eu ouvi corvos voando por aí,‖ ele disse. ―Agora vocês poderiam gentilmente calar a boca e me deixar dormir?‖
 ―Desculpe Halt.‖, disse Horace, envergonhado. Bateu com vontade sobre o ombro de Will. ―Você pode voltar a dormir também. Eu ainda tenho uma hora de vigia.‖
Will deitou-se novamente. O grito veio novamente de outra direção. 
 ―Sim,‖ Horace afirmou para si mesmo. ―isto é definitivamente um corvo voando pela caverna. É isto mesmo, definitivamente tudo certo.‖
 ―Não vou avisar mais uma vez...‖ Halt murmurou. Horace abriu sua boca para desculpar-se, mas depois achou melhor permanecer em silêncio. 
 
 O corvo continuou com seu contínuo lamento durante a noite. Will pegou seu turno de Horace, depois o entregou para Halt algumas horas antes do amanhecer. Assim que a luz começou a tocar as bordas da caverna onde eles estavam o corvo silenciou gradualmente.
 ―Agora que ele se foi,‖ Horace disse, enquanto extinguia o fogo do café da manhã, ―Eu quase sinto falta dele.‖
 ―Não foi assim que você se sentiu na noite passada‖ Will disse, sorrindo. Ele arregalou os olhos e sacudiu as mãos num falso susto. ―Ooooh, Will! Socorro! Um corvo grande e malvado veio me levar.‖
 Horace sacudiu a cabeça, um tanto envergonhado. ―Bem, acho que fiquei um pouco assustado‖, disse ele. ―Mas ele me pegou de surpresa, isso é tudo.‖
―Eu estou contente de estar aqui para te proteger‖, disse Will, com um tom ligeiramente superior.
 Halt, assistindo eles enquanto arrumava suas coisas, pensou que seu antigo aprendiz estava levando isso longe demais. ―Você sabe,‖ ele disse tranqüilo, ―logo após você ouvir o corvo pela primeira vez, Will, eu realmente ouvi um estranho barulho também. ‗―.
Will considerou-o curiosamente. ―Jura? Eu não percebi... O que você acha que era?‖
―Não tenho certeza,‖ o arqueiro falou pensativo, ―Mas eu suspeito que era o som do seu cabelo em pé de medo.‖
Horace teve um rápido ataque de risos e Halt permitiu-se um de seus rápidos sorrisos. 
 Will virou-se e foi desarmar seu saco de dormir, sentindo suas bochechas corar. ―Ah claro. Muito engraçado Halt. Muito engraçado,‖ Ele disse. Mas como o arqueiro barbudo soube que seu cabelo fez exatamente isso?
Eles continuaram pela passagem, movendo-se levemente para cima.
 Depois de um momento, o caminho nivelou-se, e então, começou gradualmente a inclinar-se para baixo novamente. Uma hora depois de eles terem levantado
acampamento, Halt apontou um pequeno e de topo liso amontoado de pedras na parede leste da passagem.
―Esse deve ser o motivo do nosso amigo corvo estar chorando,‖ ele disse.
 Eles circundaram a pilha de perto para examiná-la, que lembrava um pequeno e rústico altar. As pedras eram muito antigas e suas bordas estavam gastas. Na parede de pedra ao lado delas haviam esculturas gastas, marcadas pelos anos de vento e chuva.
―É um memorial para os homens que morreram aqui.‖ Halt contou-lhes.
Will inclinou-se para frente um pouco para estudá-las. ―O que elas dizem?‘‖.
 Halt encolheu os ombros. ―elas estão muito difíceis de decifrar, desgastadas como estão. E eu não consigo ler essas runas escocesas de qualquer maneira. Eu suspeito que elas contenham a história da batalha.‖ Ele indicou as paredes íngremes. Neste ponto, a passagem tinha diminuído novamente então estava a aproximadamente vinte metros de largura. ―Há bordas onde o inimigo posicionou seus arqueiros,‖ ele disse. ―Eles abriram fogo nas linhas dos Escoceses enquanto eram embalados juntos bem aqui. Eles atiraram flechas, rolaram pedras, jogaram lanças. Os soltados Escoceses usavam sua própria maneira para recuar. Quando eles estavam irremediavelmente inclinados à confusão, a cavalaria inimiga veio virando a próxima curva para combatêlos.‖ Seus dois jovens companheiros seguiam seu relato sobre a antiga batalha, olhando de um lugar a outro enquanto ele descrevia-o. Jovens como eles eram, os dois tinham experiência em batalha e eles podiam imaginar o terrível massacre que deve ter tomado lugar neste aglomerado rochas, nas fendas da caverna. 
 ―Quem foram eles, Halt?‖ Horace perguntou. Ele manteve sua voz baixa em um gesto de respeito pelos guerreiros que morreram aqui. Halt olhou para ele, sem entender a pergunta, então Horace elaborou. ―Quem foram os inimigos?‖
 ―Fomos nós,‖ Halt contou a ele. ―Os Araluenses. Este antagonismo entre as duas nações não é algo recente, você sabe. Ela remonta há séculos. É por isso que eu estou interessado em sair de Picta e voltar para o solo de Araluan.‖
 Foi uma dica óbvia, e os dois jovens homens levaram seus cavalos depois dele enquanto ele rumava para sul, em direção à saída da passagem. Horace espiou o pequeno memorial uma ou duas vezes, mas logo uma curva na passagem o escondeu de vista.
Uma hora depois, eles descobriram um segundo rastro.
 
 12
 
 Halt e Will, inspecionando as pegadas deixadas por Tennyson e seus seguidores, perceberam a diferença de padrões quase simultaneamente. 
―Halt...‖ Will disse. Mas seu antigo mentor já estava balançando a cabeça.
 ―Eu estou vendo.‖ Ele freou Abelard. Will e Horace pararam também e os dois Arqueiros desmontaram para estudar a evidencia dos recém-chegados. Horace, sentindo certa tensão no ar, soltou subconscientemente sua espada da bainha. Ele estava estourando para questionar os Arqueiros, mas sabia que qualquer distração não seria bem-vinda. Eles iriam informá-lo quando avaliassem a situação, ele sabia.
 Will olhou para trás na trilha. Havia um pequeno desfiladeiro no lado esquerdo da passagem a poucos metros atrás – uma fenda nas rochas que se juntava à principal rota para Araluen. Eles haviam montado de volta quase sem perceberem. Eles tinham visto muitas pegadas estreitas levando para fora do caminho principal. A maioria delas sumiu após vinte ou trinta metros terminando em paredes de pedra lisa.
Este outro era diferente. As pegadas vinham dele. 
Will correu levemente para trás e desapareceu na fissura. Ele desapareceu por alguns minutos e então, para o alívio de Horace, ele reapareceu. O alto e jovem guerreiro estava inconformado assim tão de repente. Então foi Puxão, ele percebeu. O pequeno cavalo tinha se deslocado nervosamente e batido com seu casco quando seu mestre pareceu sumir dentro da rocha.
 ―Foi de lá que eles vieram,‖ Will disse pensativo, posicionando seu polegar na abertura da pedra. ―A trilha volta bastante. Eu fui quarenta ou cinqüenta metros e não pareceu ter fim. E ela se alargava um pouco.‖
Halt coçou a barba pensativo. ―Há dezenas de trilhas que levam para a passagem principal,‖ ele disse. ―Essa é, obviamente, uma delas.‖ Ele olhou para o chão arranhado diante dele, virando sua boca pensativamente para um lado. Horace decidiu que seus companheiros tinham tido tempo suficiente pra avaliar a situação.
 ―Quem são eles?‖ ele perguntou.
Halt não respondeu imediatamente. Ele olhou para Will. ―O que você diria?‖
Os dias seriam longos quando Will iria deixar escapar uma resposta considerável à pergunta de Halt. Melhor ser preciso do que rápido, ele sabia. Ele ajoelhou-se num joelho, tocando uma das pegadas com seu dedo indicador, traçando seu contorno na areia. Ele olhou para a esquerda e direita estudando o fraco contorno das outras pegadas.
 ―Todas as pegadas são grandes,‖ ele disse. ―e estão bem profundas nessa superfície dura. Então quem quer que seja é realmente grande.‖
 ―Então?‖ Halt solicitou. 
―Então eles são todos homens. Não posso ver nenhuma pegada menor. Nenhuma mulher ou criança com eles. Eu diria que é um grupo de guerra‖
 ―Seguindo Tennyson?‖ Horace perguntou. Sua mente retornando para a cena patética na cabana do arrendatário
 Will mordeu seu lábio pensativo. Ele olhou para Halt, mas o Arqueiro mais velho fez um gesto para ele continuar com seu pensamento.
 ―Talvez,‖ ele disse. ―Eles vieram várias horas após Tennyson. Você pode ver onde suas pegadas se sobrepõem. E elas estão mais frescas. Eu diria que essas foram feitas mais cedo essa manhã.‖
―Bem, teremos esperanças de capturá-los,‖ Horace disse. Para sua maneira de pensar, se um partido de guerra vingativo Escocês dizimasse Tennyson e seus Renegados, isto seria uma solução clara para toda a situação.
 ―Talvez,‖ Will repetiu. ―Mas... se eles estão perseguindo Tennyson, porque eles entraram na estrada principal aqui pelo leste?‖ Ele indicou o caminho lateral novamente. ―Qualquer um seguindo Tennyson depois do que ele e seus homens fizeram seria preferível que viessem por baixo pela passagem atrás de nós – pelo norte.‖
―Talvez isto seja um atalho,‖ Horace sugeriu, mas Will já estava balançando a cabeça.
 ―Se você pudesse ver a maneira que ele serpenteia e vira lá, saberia que não é um tipo de atalho. Eu diria que se origina de algum lugar inteiramente. Algum lugar mais ao leste.‖ Ele olhou para Halt por confirmação e o Arqueiro barbudo assentiu.
 ―Eu concordo‖ ele disse. ―Eu acho que é só coincidência que corremos através deles. As probabilidades são de que, eles não têm idéia que Tennyson e seus capangas estão à frente deles.‖
―Eles não poderiam ver os rastros?‖ Horace perguntou acenando vagamente para a superfície rochosa coberta por areia. Halt permitiu a si mesmo um breve sorriso. 
―Você poderia?‖ ele perguntou.
Horace teve que admitir que se os dois Arqueiros não estivessem lá para apontar as impressões na areia, ele provavelmente não teria. Ele balançou a cabeça.
 ―Os Escoceses não são boa coisa em rastreamento,‖ Halt contou para ele. Ele gesticulou para Will remontar e virou-se na cela de Abelard. 
―Então, se os Escoceses não estão atrás de Tennyson o que eles estão fazendo aqui?‖ Horace perguntou.
―Meu palpite é que, eles estão planejando um cerco em Araluen. Existem muitas aldeias junto à fronteira e eles podem estar se encaminhando para uma delas.‖
 ―E se eles estiverem?‖ Will perguntou.
Halt encarou-o sem pestanejar. ―Se eles estiverem, nós teremos que desencorajá-los. O que poderia ser um incomodo.‖
 
As intenções do grupo Escocês tornaram-se claras logo após eles emergirem da Passagem do Corvo em Araluen propriamente dita.  O grupo de Tennyson virou ligeiramente para leste, mas basicamente continuaram seguindo uma rota ao sul. Os invasores Escoceses viraram quase que imediatamente para uma rota sudeste, levando a uma posição de quase noventa graus dos renegados.
 Halt suspirou profundamente quando ele interpretou os sinais no chão. Ele olhou para o sudeste, hesitando, depois relutantemente voltou para Abelard para seguir os atacantes. ―Não podemos deixá-los à própria sorte,‖ Ele disse. ―Teremos que cuidar para que eles voltem à trilha de Tennyson novamente.‖
―Os moradores locais não podem cuidar de si mesmos?‖ Will perguntou. Ele estava relutante em deixar Tennyson e seus seguidores, apenas porque algumas vacas poderiam ser roubadas. Halt balançou a cabeça cansado.
 ―Este é um grupo bastante grande, Will. Talvez quinze ou dezesseis homens armados. Eles vão escolher uma pequena fazenda com apenas dois ou três homens para defendê-la. Eles vão matar os homens, queimar as construções e plantações e levar o gado. E eles vão provavelmente levar as mulheres como escravas também, se eles estiverem de bom humor.‖
―E se não estiverem?‖ Horace perguntou.
 ―Eles vão matá-las.‖ Halt disse friamente. ―Você quer deixar isto acontecer?‖ Os dois jovens homens balançaram a cabeça. Eles poderiam ver a cena na cabana do arrendatário como se fosse ontem. 
―Vamos atrás deles,‖ Will disse com o rosto sombrio.
 Montado como estavam eles iam rapidamente ganhando terreno sobre os atacantes Escoceses. A paisagem deste lado da fronteira mudou drasticamente e eles estavam movendo-se através de terras com árvores densas.
Halt chamou Will ao lado dele. ―Vá à frente e olhe o caminho,‖ Ele disse. ―Eu não quero alcançá-los sem perceber.‖
 Will concordou compreendendo e levou Puxão à frente. Cavalo e cavaleiro desapareceram na bruma entre as árvores. Halt não tinha dúvidas sobre a habilidade de Will de acompanhar os Escoceses sem ser visto ou ouvido. Os dois – Ele e puxão – foram treinados para esta tarefa. Horace não tinha tanta certeza.
 ―Talvez nós devêssemos ir com ele,‖ ele disse alguns minutos após seu amigo desaparecer entre as árvores. 
―Três de nós iríamos fazer quatro vezes mais barulho do que ele,‖ Halt disse. 
Horace franziu a testa, sem entender a equação. ―Não seria três de nós fazer três vezes mais barulho?‖
Halt balançou a cabeça. ―Will e Puxão não farão qualquer ruído. Muito menos Abelard e eu. Mas do jeito que você se move nesse terremoto que chama de cavalo...‖ Ele apontou para Kicker sem terminar a frase.
 Horace estava subitamente ofendido com esse insulto ao seu fiel cavalo. Ele gostava muito de Kicker. 
―Isto foi um pouco grosso, Halt!‖ ele protestou. ―De qualquer maneira não é culpa do Kicker. Ele não foi treinado para mover-se em silencio...‖ Ele calou-se, percebendo que ele só estava reforçando o que Halt disse. O Arqueiro alcançou seu olhar e inclinou a cabeça de forma significativa. Às vezes, Horace pensou um simples olhar ou inclinação de cabeça pode transmitir mais sarcasmo que uma torrente de palavras.
 Halt, compreendendo a preocupação com Will que estava por trás da sugestão de Horace, decidiu tranqüilizá-lo. Mas não por alguns minutos, ele pensou. Estava divertindo-se pegando no pé do jovem guerreiro novamente. Isto é como nos velhos tempos, ele pensou. Depois ele fez uma careta. Estava ficando sentimental. 
―Will sabe o que está fazendo,‖ Ele contou a Horace. ―Não se preocupe com ele.‖
 Uma hora depois, Abelard subitamente ergueu a cabeça e bufou. Alguns poucos segundos depois, Will e Puxão deslizaram fora da névoa. Mais uma vez, galopando na direção deles. Cavalos Arqueiros são incrivelmente ágeis – Horace pensou. Os cascos de Puxão faziam o mínimo de barulho possível no chão macio.
 Will freou ao lado de Halt.
 ―Eles pararam,‖ ele disse. ―Eles estão acampados nas árvores a cerca de dois quilômetros à frente. Eles já comeram e a maioria deles está dormindo agora. Mas eles têm sentinelas, naturalmente.‖
Halt balançou a cabeça pensativo. Ele olhou para o sol. 
―Eles vem viajando duro o dia inteiro,‖ ele disse. ―Eles vão provavelmente descansar por uma ou duas horas antes do ataque. Você viu sinal de alguma fazenda à frente?‖
 Will balançou a cabeça. ―Eu não passei deles, Halt. Achei que seria melhor informá-lo do que está acontecendo primeiro,‖ ele disse desculpando-se. Halt fez um rápido gesto com a mão, mostrando que não precisava desculpar-se.
 ―Não importa,‖ ele disse. ―Haverá uma fazenda próxima, é pra lá que eles estão se dirigindo. Eles vão atacar mais tarde de noite, quando o sol quase se por.‖
―Como você tem certeza?‖ Horace perguntou. Halt virou-se para olhá-lo.
―Procedimento padrão,‖ ele disse. ―Eles vão ter luz suficiente para o ataque, mas os fazendeiros não serão capazes de vê-los claramente. E então estarão surpresos e confusos. E uma vez que tenham roubado o gado, a escuridão irá cobrir suas pegadas de algum rastreador. Eles terão a noite inteira para sua fuga.‖
 ―Isso faz sentido,‖ Horace observou.
―Eles tem isto como uma arte fina, acredite,‖ Halt contou para ele. ―Eles vem praticando por centenas de anos.‖
―Então, o que nós vamos fazer Halt?‖ Will perguntou.
O Arqueiro de barba grisalha considerou-o por um momento depois disse, falando quase que com si mesmo, ―Não podemos pegá-los a distancia neste país arborizado, da maneira que fizemos em Craikennis.‖ Na Hibernia, ele e Will tinham dizimado um ataque com seus tiros rápidos e de longa distancia. ―E a ultima coisa que queremos é entrar em combate direto com eles.‖ Ele olhou para Will. ―Quanto você contou?‖
―Dezessete,‖ O jovem Arqueiro respondeu prontamente. Essa era uma das respostas que ele sabia que Halt iria querer respondida.
Halt alisou a barba pensativo. ―Dezessete. E as chances são que haverá apenas dois ou três homens válidos no sentido de estarem preparados para defender a fazenda.‖
 ―Se ficarmos nas construções da fazenda, nós poderíamos segurá-los com bastante facilidade,‖ Horace sugeriu.
Halt encarou-o, concedendo o ponto. ―Isto é verdade, Horace. Mas se eles são teimosos, e os Escoceses tendem a ser assim, poderíamos amarrar por um dia ou mais. E todo esse tempo, Tennyson estará mais longe. Não,‖ ele disse, chegando a uma decisão. ―Eu não quero apenas segurá-los. Eu quero enviá-los numa embalagem.‖
 Os dois jovens homens o assistiram esperançosamente, esperando ouvir o que ele tinha em mente.
Após um rápido silencio, ele falou. ―Vamos ignorar o acampamento Escocês e chegar à frente deles. Eu quero ver onde eles estão indo. Pode nos levar até eles, Will?‖
Will assentiu e virou Puxão para as árvores novamente. Halt o parou.
 ―Um momento.‖ Ele se virou na sela e remexeu em seus alforjes por alguns momentos, retirando uma peça de roupa dobrada em marrom e cinza. Ele passou para Horace. ―Você deve colocar isto, Horace. Vai ajudar a esconder você.‖ Horace pegou a roupa e desdobrou-a, revelando uma capa de camuflagem similar a que os Arqueiros usavam.
 ―Pode ficar um pouco apertado. É uma reserva minha‖ Halt explicou. Horace balançou a capa ao redor dele deliciado. Mesmo que ela tenha sido feita para os pequenos quadris de Halt, as capas de Arqueiro eram de um design tão espaçoso que lhe servia razoavelmente bem. Seria demasiado curto, claro, mas a cavalo não importa muito.
 ―Sempre quis uma dessas‖, Horace disse, sorrindo na capa. Ele puxou o capuz para sua cabeça, escondendo seu rosto nas sombras, e reuniu as pontas da capa cinzamarrom em volta dele. ―Vocês ainda podem me ver?‖ ele perguntou.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13
 
 Eles fizeram um desvio para circundar o acampamento dos Escoceses. Então, quando Will julgou que estavam seguros, voltaram ao caminho novamente. As árvores começaram a rarear nos últimos cem metros, até que chegaram a uma pequena clareira. Havia uma casa de fazenda e um grande celeiro no outro lado, situado no meio de um bosque de árvores mais grossas. Um fio de fumaça subia da chaminé da casa.
 
Entre a casa e o celeiro, havia um cercado onde se podia-se ver formas marrom escuro se movendo lentamente.
 
 ―É disso que eles vieram atrás‖ Halt disse. ―O gado. Deve haver vinte cabeças ou mais naquele cercado‖.
 
Horace farejou um cheiro agradável de fumaça de madeira queimada, que vinha da chaminé.‖Espero que eles estejam cozinhando alguma coisa‖, disse. ―Estou com fome‖.
 
 ―Quem disse isso?‖ Will perguntou fingindo surpresa e olhando ao redor em todas as direções. Então ele fingiu relaxar. ―Ah, é você Horace. Eu não o vi por causa da capa‖.
 
Horace devolveu a Will um olhar de sofrimento. ―Will, já não foi engraçado nas primeiras meia dúzia de vezes que você falou isso, por que acha que seria agora?‖.
 
E para desgosto de Will, Halt soltou um curto riso pela resposta de Horace. Então voltaram ao assunto novamente. ―Onde será que todos estão?‖.
 
Nessa hora do dia – no meio da tarde – seria de esperar que as pessoas estivessem trabalhando em torno da fazenda. Mas não havia ninguém à vista.
 
 ―Talvez eles estejam dormindo‖, sugeriu Horace. Halt olhou de soslaio para ele. ―Os agricultores não tiram um cochilo‖, disse ele. ―Cavaleiros sim‖.
 
 ―Então é daí que vem a expressão ‗um bom sono de cavaleiro‘‖, Will disse sorrindo de sua piada. Halt lançou um olhar maligno sobre ele.
  ―Horace está certo. Você não é nada engraçado. Venha‖.
 
Ele abriu caminho através do pequeno campo. Horace observou que ambos os seus companheiros já tinham seus longos arcos a mão, descansando atrás de suas selas. E as abas de suas capas que protegiam suas aljavas da umidade, foram dobradas para trás. Ele tocou o punho da espada com a mão direita. Por um momento, considerou pegar o escudo que estava pendurado atrás dele, do lado esquerdo da sela. Logo deixou de lado essa idéia. Estavam agora quase chegando na casa.
 
O telhado de palha era inclinado para baixo, formando um pequeno pórtico ao lado da casa, de onde eles estavam vindo. Halt puxou as rédeas e inclinou-se na sela para olhar sob a borda do telhado.
 
 ―Ô de casa‖, experimentou chamar. Mas não houve resposta. 
 
Ele olhou para seus companheiros e sinalizou para que desmontassem. Normalmente, um cavaleiro chegando em uma fazenda não faria isso sem um convite, mas parecia que ninguém iria recepcioná-los.
 
Horace e Will seguiram Halt, enquanto ele caminhava até a porta. Ele bateu com os nós dos dedos na porta pintada e, ela balançou entreaberta sob o impacto, com o couro das dobradiças rangendo.
 
 ―Alguém em casa?‖ ele chamou.
 
 ―Aparentemente não‖, Will falou após alguns segundos de silêncio.
 
 ―Ninguém em casa e a porta destravada‖, disse Halt. ―Muito curioso‖.  Ele foi entrando na pequena casa de fazenda. Eles se encontravam em pé em uma pequena cozinha conjugada a uma sala de estar. Era equipada com uma mesa de madeira bruta e várias cadeiras de madeira entalhada – obviamente feitas em casa. Uma panela pendia em um braço giratório ao lado da lareira. O fogo ainda ardia, mas já estava apenas em brasas. Fazia algum tempo que havia sido colocada alguma madeira naquela fogueira.
Dois outros cômodos davam naquela grande sala central e uma pequena escada ao lado conduzia a um sótão abaixo do telhado de palha. Will subiu a escada e olhou ao redor, enquanto Horace verificou os outros quartos.
 
 ―Nada‖, relatou Will.
 
Horace concordou. ―Nada em nenhum lugar. Onde eles podem ter ido?‖.
 
Era evidente que, a partir da condição da casa, do fogo, dos utensílios domésticos, inclusive de alguns pratos e talheres sobre a mesa, a casa havia sido habitada até recentemente. Não havia sinal de luta, nenhum estrago aparente. O chão tinha sido varrido e a vassoura repousava ao lado da porta. Halt passou o dedo sobre uma estante ao lado da lareira, onde os utensílios de cozinha estavam dispostos. Ele inspecionou a ponta do dedo procurando sinais de sujeira, mas não havia nenhuma.
 
 ―Eles fugiram‖, disse Halt. ―Eles devem ter sido avisados que os escoceses estavam chegando e foram embora‖.
 
 ―E deixariam tudo aqui?‖ Horace perguntou, acenando com o braço ao redor da sala.
 
 Halt encolheu os ombros. ―Bem, na verdade não há muita coisa aqui. E se você observar, não há capas ou casacos ali ao lado da porta – só tem aquele cabideiro vazio‖.
 
Ele indicou uma fileira de pinos suspensos na parede ao lado da porta de entrada – seria o local onde pendurariam seus casacos ao entrar na sala. Ou onde os pegariam se estivessem saindo, Will percebeu.
 
 ―Mas por quê deixar a criação para os escoceses? Horace perguntou‖.
 
 ―Eles não podiam levá-los junto, não é?‖ Halt respondeu. Ele foi até a porta e saiu. Horace e Will, o seguiram até o pátio cercado com o gado.
 
 ―Eles tentaram expulsá-los‖, disse indicando o portão do cercado que estava aberto. ―O comedouro ainda tem alimento e também há água. Acho que quando as pessoas se foram, o gado que estava vagando por aí, simplesmente voltou‖.
 
As vacas os olhavam pacificamente. A maioria delas estava ocupadas mastigando e pareciam completamente calmas com a presença deles ali. Eram animais encorpados e sólidos, com pelos felpudos para protegê-los dos meses de inverno do norte. E acima de tudo, eles eram animais mansos.
 
 ―Talvez pensaram que se os escoceses ficassem com o gado, não se dariam ao trabalho de queimar a casa e o celeiro‖, Will sugeriu.
 
Halt levantou uma sobrancelha. ―Talvez. Mas não ia ser trabalho nenhum. Queimar a casa e o celeiro seria uma diversão para os escoceses‖.
 
 ―Então o que faremos?‖ Horace perguntou. ―Simplesmente vamos embora? Afinal, agora o agricultor e sua família vão estar a salvo dos invasores‖.
 
 ―Verdade‖, disse Halt. ―Mas se o gado se for, e se a casa e o celeiro forem perdidos e a plantação for queimada, provavelmente no inverno vão morrer de fome‖.
 
 ―Então o que você sugere que façamos, Halt?‖ Will perguntou.
 
Halt hesitou. Ele parecia estar considerando um plano de ação. Então disse: ―Eu acho que devemos dar-lhes o gado‖.
 
Will ficou observando seu mentor, querendo saber se estava brincando com ele.
 
 ―Se era para fazer isso, então porque nos incomodamos em voltar aqui?‖ ele perguntou. 
 
 ―Nós podíamos ter continuado a seguir Tennyson. Então, notou que Halt estava com um sorriso cruel em seu rosto‖.
 
 ―Quando digo dar-lhes o gado, não me refiro como um presente. Vamos jogar o gado bem na cara deles‖.
 
Will e Horace começaram a entender a situação. Will estava preste a dizer algo mais, quando Halt o deteve e apontou para o outro lado da clareira.
 
 ―Volte lá e vigie. Eu quero saber quando eles estiverem vindo. Quando aparecerem na clareira, vamos estourar a boiada em cima deles‖.
Will assentiu com a cabeça, um sorriso aparecendo em seu rosto conforme imaginou a surpresa que os escoceses teriam. Ele pulou para a sela de Puxão e galopou para o outro lado da clareira, depois entrou uns trinta ou quarenta metros para dentro da linha das árvores. As árvores aqui são mais espaçadas do que dentro da floresta, observou ele. E os troncos eram mais finos e pequenos. Provavelmente foi uma área explorada ao longo dos anos, proporcionando madeira para construção e lenha para o fogo. As mudas espaçadas dariam pouco abrigo aos escoceses, contra um rebanho de gado enlouquecido.
 
 Ele encontrou um arbusto grande entre duas mudas, colocou Puxão atrás dele e desmontou. Olhou para trás rapidamente na direção da fazenda, podia ver as duas figuras distantes de seus dois amigos, de pé ao lado do cercado do gado. Ocorreu-lhe que não tinha idéia de como provocar um estouro de um rebanho de gado. Mas deu de ombros para esse fato, com certeza Halt saberia. Afinal, não havia nada que Halt não soubesse.
 
 
 
―Como vamos espantar o gado? Horace perguntou‖.
 
 ―Você os assusta. Grita com eles. Depois vamos montar e guiá-los direto para os Escoceses quando despontarem na clareira‖, disse-lhe Halt. Ele caminhava entre o rebanho, que o observava sem curiosidade. Empurrou um deles. Era como se encostasse ao lado de uma casa e tentasse mexê-la, ele pensou. Acenou com os braços experimentalmente.   ―Xô!‖ disse. Uma vaca quebrou o silêncio com um peido ruidoso mas não se moveu.
 
 ―Certamente estão apavoradas com você‖, disse Horace sorrindo.
 
Halt olhou para ele. ―Talvez se você arrancasse sua capa, elas poderiam se assustar com sua cara feia‖ sugeriu ele com azedume.
 
Horace abriu um largo sorriso. Ele de fato tirou a capa, mas não pareceu ter efeito sobre o rebanho. Uma ou outra vaca virou para olhá-lo. Várias outras peidaram.
 
 ―Elas fazem muito isso, não é?‖ observou ele. ―Talvez se nós conseguíssemos apontar todas de uma vez para os escoceses, poderíamos explodi-los de volta pelo caminho?‖.
 
Halt fez um gesto impaciente. ―Vamos em frente com isso. Afinal, você foi criado em uma fazenda‖.
 
 Horace balançou a cabeça. ―Eu não fui criado em uma fazenda. Fui criado numa casa em Redmont‖, disse ele. ―Você foi um príncipe Hiberniano. Vocês não tinham rebanhos de gado?‖.
 
 ―Nós tínhamos. Mas também tínhamos grandes idiotas como você para cuidar deles‖.Ele franziu a testa pensativo. ―O touro é a chave. Se espantarmos o touro, as vacas irão segui-lo‖.
 
Horace olhou ao redor do pequeno rebanho. ―Qual deles é o touro?‖.
 
As sobrancelhas de Halt subiram imediatamente - uma rara expressão de emoção do Arqueiro.
 
 ―Você realmente cresceu no castelo, não foi?‖ Então ele apontou. ―Aquele, que se parece com um touro‖.
 
Horace olhou para o animal que Halt estava indicando. Seus olhos se arregalaram.
 
 ―Certamente que é‖, ele concordou. ―Então o que faremos com ele?‖. ―Assustá-lo. Aborrecê-lo. Espantá-lo‖, disse Halt.
 
Horace parecia em dúvida. ―Eu não estou certo se quero fazer isso‖.
 
Halt bufou de desgosto. ―Não seja tolo!‖ disse. ―Afinal, o que ele pode fazer com você?‖.
 
Horace, considerou o touro de um jeito desconfiado. Ele não era tão grande quanto alguns touros que tinha visto, nas pastagens em torno de Redmont.
 
Mas ele era solidamente construído e bem musculoso. E ao contrário das vacas, ele não olhava para os dois estranhos com um olhar plácido e dócil. Horace acreditava que podia ver uma luz de desafio em seus pequenos olhos.
  ―Você quer dizer alem de me chifrar?‖ ele perguntou e Halt acenou em protesto e desdém.
 
 ―Com esses pequenos chifres? Eles parecem mais dois galos saindo de testa dele‖.
 
Na verdade, embora os chifres não sendo tão grandes como as do gado de outras propriedades do norte, tinham um bom tamanho. As extremidades eram arredondadas e sólidas, em vez de pontiagudas. Mas ainda parecia que seriam capazes de machucar muito.
 
 ―Venha!‖ Halt pediu a ele. ―Tudo o que você tem a fazer, é enrolar sua capa e bater na cara dele. Isso deve aborrecê-lo‖.
 
 ―Eu já disse, eu não quero mexer com ele‖, Horace protestou.
 
 ―Pelo amor de Deus! Você é o famoso Guerreiro da Folha de Carvalho! Você é o matador do maligno Morgarath! O vencedor de uma dúzia de duelos!‖ Halt disse.
 
 ―Nenhum daquelas batalhas eram contra touros‖, Horace lembrou Halt. Ele definitivamente não gostou do que viu no olhar do touro, pensou.
 
 ―Você acha que depois disso, todos os touros do norte vão querer enfrentá-lo?‖ ·Halt disse. ―Acerte-o com sua capa e ele vai fugir. E as vacas vão atrás dele‖. Mas antes que Horace pudesse responder, ouviram um assobio cortante. Olhando de volta para a clareira, eles podiam ver Will, vindo na direção deles com Puxão trotando atrás. Mais adiante entre as árvores finas, eles podiam ver sinais de movimento.
 
Os escoceses estavam chegando.
 
 
 
14
 
Halt saltou para sela de Abelard enquanto Horace ainda se mostrava indeciso, sem certeza do que fazer.
 
 ―Suba logo!‖ Halt gritou. ―Eles estão vindo‖.
 
Na mesma hora, Will chegou de volta ao estaleiro.
 
 ―Eles estão vindo, Halt‖. Ele disse desnecessariamente. Havia uma nota de tensão em sua voz e o tom era um pouco mais alto do que o normal.
 
 ―Monte no seu cavalo. Uma vez que os touros estão correndo, nós vamos conduzi-los‖. Halt lhe falou. Então ele se voltou para Horace. ―Faça-os se mover, Horace!‖.
 
Horace finalmente estava reanimado para fazer alguma ação. Ele deu um passo á frente e pendurou sua capa dobrada, e colocando-a exatamente entre os chifres do touro e atravessando sua face.
 
Então tudo parece acontecer muito rápido.
 
O touro guinchou de raiva, piscou três ou quatro vezes, então abaixou sua cabeça e investiu as patas rígidas, contra seu atormentador. Ele acertou Horace com sua cabeça bem no meio de sua barriga e se levantou, lançou o azarado guerreiro vários metros, aterrissando pesadamente sobre suas costas com um baque enfadonho e um ―Ooooof!‖ de fôlego escapado.
 
Por um momento, parecia que o touro poderia dar seguimento aproveitando sua vantagem. Mas então Kicker interferiu. Treinado por anos para proteger o seu mestre contra ataques em combates, o imenso cavalo de batalha se colocou entre Horace e o touro. O touro bufou um desafio, dando patadas no chão a sua frente, rasgando a grama e a terra sacudindo sua cabeça em fúria.
 
Era muito para o Kicker. No mundo animal de Araluen havia certa ordem de superioridade, e os cavalos de batalha cuidadosamente criados e treinados se classificavam muito acima do que um touro peludo do interior e de raça indefinida. O poderoso cavalo se elevou sobre suas patas traseiras e movimentou para frente, respondendo ao desafio, as patas dianteiras cortando o ar a sua frente.
 
Suas patas calçadas com ferro passavam na frente do rosto do touro e ele percebeu que era superado. Berrando de frustração, ele se virou, tomando alguns passos preparando para se retirar.
 
Mas ele havia desafiado Kicker, o provocado ainda mais, e na cabeça do cavalo, aquele insulto deveria ser pago. Ele se arremessou para frente e rangeu seus grandes e bruscos dentes para o touro, o pegando pelo traseiro e removendo um doloroso pedaço de carne e couro.
 
O touro uivou de dor, fúria e medo. Deu um coice para trás numa tentativa vã de acertar seu agressor. Mas Kicker foi treinado numa escola dura, e já havia recuado. Enquanto o touro ouvia suas patas de trás tocarem o chão de novo, Kicker deu uma pirueta e avançou para sua vez, batendo com força com suas patas traseiras no traseiro já machucado do touro.
 
Aquele foi o golpe final. Medo, dor e agora o impacto trovejante de um chute duplo. O touro berrou e foi embora, correndo pelo campo. Alarmados por seus gritos, o rebanho foi com ele, com os seus mugidos de pânico e o barulho trovejante de suas patas enchendo o ar.
 
 ―Vamos lá!‖ Halt gritou. Ele impulsionou Abelard para frente para ir atrás dos touros correndo, batendo no último com seu arco. Will seguiu o exemplo, cavalgando para o outro lado do rebanho para mantê-los juntos.
 
O primeiro dos Escoceses havia surgido das árvores desbastadas no chão aberto do campo quando o tumulto começou. Os Escoceses viram o conjunto apertado do gado correndo em sua direção. Uns poucos, mais rápidos do que os outros tentaram correr para o lado para escapar da investida. Halt os viu e freou Abelard, elevando-se nos estribos enquanto ele colocava uma flecha no arco e atirava, fazendo isso rapidamente mais três vezes.
 
Dois dos assaltantes caíram na grama. Do outro lado do rebanho, Will viu os movimentos de Halt e o copiou.  Os Escoceses logo perceberam o perigo de correr para o lado. Ameaçados pela rajada de flechas, eles se amontoaram, incertos. Poucos segundos depois, o louco rebanho se chocou contra eles.
 
O impacto de chifres bruscos, afiados cascos fendidos e corpos de músculos duros mandaram os cavaleiros Escoceses girando e caindo como se fossem pinos de boliche. Enquanto eles caíam, à parte de trás do rebanho continuava a investir neles, machucando ainda mais aqueles que já haviam caído.
 
Quando a fuga causada pelo pânico passou, pelo menos metade do grupo invasor estava caído, seriamente machucados no campo. O resto havia conseguido escapar para o ponto onde as árvores eram mais densas.
O rebanho chegando ás árvores desbastadas viraram para a direita e foram embora berrando calmamente. Halt colocou uma flecha preparada na corda de seu arco, com Abelard virado apenas pela metade para os assaltantes que os olhavam das árvores. 
A sua volta, alguns sobreviventes estavam vagarosamente voltando mancando ou rastejando para seus companheiros. Praticamente ninguém do grupo de invasores havia escapado sem nenhum tipo de machucado. Três deles ainda estavam deitados imóveis, derrubados pela flecha do Arqueiro.
 
 ―Voltem para Picta!‖ Halt avisou a eles. ―Metade de seus homens estão mortos ou seriamente machucados. Uma vez que o povo local souber disso, eles irão caçá-los. Agora vão embora daqui‖.
 
O líder do grupo invasor estava caído morto no chão, pisoteado por meia dúzia do rebanho depois que ele foi jogado de seus pés. Seu ex-segundo em comando encarava a figura sinistra sob seu cavalo peludo. Enquanto ele observava, o segundo cavaleiro cinza camuflado subiu ao seu lado, com seu longo arco os ameaçando também.
 
Os Escoceses sabiam que o sucesso de um grupo como aquele depende da velocidade e da surpresa. Atacar rapidamente. Queimar, matar e fazer o gado correr. Então voltar pelo outro lado da fronteira antes que os inimigos pudessem se organizar. Antes mesmo que eles saibam que havia um grupo de assaltantes na área.
 
Velocidade e surpresa já eram. E uma vez que os Araluenses locais sabiam de sua presença, seus homens seriam alvos fáceis enquanto mancavam e cuidavam de seus feridos e carregavam outros, de volta para a Passagem do Corvo. O pensamento de abandonar seus homens feridos nunca passou pela sua cabeça. Esse não era o estilo dos Escoceses.
 
E mais, ele viu a precisão e a velocidade de dois arqueiros que o encaravam agora. Se eles começassem a atirar, ele poderia perder mais meia dúzia de homens em questão de segundos. Balançando sua cabeça em frustração e desespero, ele fez um sinal para seus homens e eles viraram e tomaram seu doloroso rumo para o norte.
 
Will deixou escapar um suspiro bem profundo, e relaxou em sua sela.
 
 ―Bem pensado Halt‖, ele disse. ―Aquilo certamente funcionou como um feitiço‖.
 
Halt se encolheu timidamente.
 ―Oh, não é nada se você sabe como fazer‖, ele disse. ―Pare que temos companhia‖, ele acrescentou, apontando com a cabeça pela fazenda, onde Horace estava encostado com dor em Kicker, e suas mãos segurando suas costelas quebradas.
Atrás da casa de fazenda, várias figuras estavam visíveis entres a densas árvores. Enquanto Halt e Will os observavam, eles tomaram seus caminhos de volta por entre os edifícios da fazenda.
 
 ―Eles deviam estar escondido nos assistindo‖, Will disse.
 
Halt concordou severamente. ―Sim. Muito gentil da parte deles nos dar uma mãozinha, não?‖ Ele tocou Abelard com os calcanhares e começou a ir vagarosamente para o estaleiro. Puxão, sentindo o movimento enquanto seu dono enrijecia os músculos, seguiu Abelard alguns passos atrás.
 
Horace balançou a cabeça os cumprimentando enquanto eles desmontavam.
 
Will franziu um pouco o cenho. Seu amigo ainda estava segurando as costelas e parecia estar tendo problemas para respirar sem sentir dor. ―Você esta bem?‖.
 
Horace agitou seu machucado de lado, então estremeceu enquanto fazia isso. ―Contusões‖, ele disse. ―Isso é tudo. Aquele pequeno touro certamente sabia como usar sua cabeça‖.
 
As pessoas da fazendo os alcançaram e Halt os saudou.
 
 ―Sua fazenda está a salvo‖, ele disse. ―Eles não voltaram por um tempo‖. Ele não conseguia evitar uma pequena nota de satisfação em sua voz.
 
Havia cinco pessoas. Um velho e uma mulher, com seus cinqüenta anos, Will julgou. Então um jovem casal com seus trinta anos e um garoto com aproximadamente dez. Avós, pais e filho, ele pensou. Três gerações.
 
O velho falou agora.
 
 ―O rebanho todo foi embora. Você os enxotou‖. Ele disse o acusando. Will levantou uma sobrancelha.
 
 ―Isso é verdade‖, Halt disse racionalmente. ―Mas você será capaz de pegá-los de volta. Eles pararão de correr logo‖.
 
 ―Levará dias para juntá-los‖, disse o fazendeiro tristemente.
Halt respirou fundo. Will o conhecia por anos. Ele sabia que Halt estavam fazendo um enorme esforço para manter seu temperamento controlado.
―Provavelmente‖, ele concordou. ―Mas pelo menos você não terá de reconstruir sua casa nesse meio tempo‖.
 
 ―Hmph‖, o fazendeiro bufou. ―Isso também. Nós vamos ficar dias juntando as vacas de novo. Elas estarão por toda a floresta‖.
 
 ―Isso é melhor do que estarem na barriga dos Escoceses‖, Halt disse. Sua limitação se tornando menor e menor.
 
 ―E quem vai ordenhá-las enquanto elas estão na floresta, hein?‖ Era o jovem que estava falando. Apesar de sua idade, ele parecia igualmente triste como seus companheiros mais velhos. ―Elas precisam ser ordenhadas todos os dias senão elas ficaram secas‖.
 
 ―É claro que isso pode acontecer‖, Halt disse. ―Melhor vacas secas do que ficar sem vacas, certamente‖.
 
 ―Isso é uma questão de opinião‖, disse o avô. ―Imagine, se tivéssemos a ajuda de alguns homens a cavalo para encontrá-las, terminaríamos isso rapidamente‖.
 
 ―Homens a cavalo?‖ Halt disse. ―Você quer dizer nós?‖ Ele se virou para Will e Horace desacreditado. ―Ele quer. Ele quer dizer nós‖.
 
O fazendeiro estava meneando a cabeça. ―Claro. Afinal, vocês foram quem as enxotou em primeiro lugar. Se não fosse por vocês, elas estariam aqui de volta‖.
 
 ―Se não fosse por nós‖, Halt lhe falou, ―elas estariam na metade do caminho para Picta agora!‖.
 
Ele olhou para Will e Horace e percebeu que os dois estavam escondendo sorrisos. Era muito óbvio na verdade. Parecia que eles estavam fazendo um bom trabalho escondendo seus sorrisos para que ele percebesse que eles estavam realmente escondendo os sorrisos.
 
 ―Eu não acredito nisso‖, ele disse a eles. ―Eu não espero exatamente gratidão. Mas ser culpado pelos problemas desse homem é um pouco demais‖. Então ele pensou sobre o que ele tinha acabado de dizer. ―Não. Mude isso. Eu realmente espero gratidão, droga!‖ Ele se virou para o fazendeiro.
 
 ―Senhor‖, ele disse severamente, ―é graças ao nosso esforço que o senhor ainda tem a sua casa, o seu celeiro e seu gado. São graças a nós que suas vacas estão seguras, se elas estão espalhadas. Durante o curso de salvar sua propriedade, meu companheiro aqui sofreu um ataque covarde de seu pequeno touro rancoroso. Agora o senhor pode ter a
graciosidade de dizer obrigado. Ou eu pedirei para meus amigos colocarem fogo na sua casa antes de seguirmos nossos caminhos‖.
 
O fazendeiro o fitou com teimosia.
 
 ―Apenas uma palavra‖, Halt disse. ―Obrigado‖.
 
 ―Bem, então...‖ O fazendeiro hesitou, se mexendo pesadamente de um lado para o outro. Ele pensou em Horace e o touro. ―Obrigado... Eu acho‖.
 
 ―O prazer foi nosso‖. Halt cuspiu as palavras nele, então virou Abelardo para o oeste. ―Horace, Will, vamos lá‖.
 
Eles estavam na metade do campo quando eles ouviram o fazendeiro adicionar, ―Mas eu não vejo porque vocês tiveram que enxotar o gado‖.
 
Will sorriu da figura ereta do Arqueiro ao seu lado. Halt estava obviamente fingindo que não tinha ouvido as palavras de despedida do fazendeiro.
 
 ―Halt?‖ ele disse. ―Você não iria realmente queimar a casa, iria?‖.
 
Halt lhe deu uma olhada triste.
 
 ―Não aposte nisso‖.
 
 
 
 
15
 
Halt tinha esperança de pegar os rastros de Tennyson de novo antes do anoitecer, mas o fato do dia ser mais curto no norte o derrotou. Quando o sol finalmente afundou atrás das árvores, e as sombras inundaram o campo, ele freou e apontou para um trecho aberto no terreno ao lado dos vestígios que eles estavam seguindo para o Leste.
 
 ―Nós vamos acampar aqui‖. Ele disse. ―Não tem por que andar cegamente por ai no escuro. Nós iremos começar cedo e procurar na redondeza por suas pistas‖.
 
 ―Podemos arriscar acender um fogueira, Halt?‖ Horace perguntou.
 
O Arqueiro meneou a cabeça. ―Não vejo porque não. Eles estão muito a nossa frente agora. E mesmo se eles realmente virem um fogueira, não nenhum motivo para eles suspeitarem que alguém está os seguindo‖.
 
Assim que eles cuidaram de seus cavalos, Horace construiu um local para a fogueira e fez uma ronda por volta do acampamento procurando por madeira. Nesse meio tempo, Will se ocupou em tirar a pele e limpar dois coelhos que ele matou na ultima tarde. Os coelhos eram carnudos e estavam em boas condições, sua boca se encheu de água na expectativa de um saboroso guisado. Ele cortou os coelhos, mantendo as patas e coxas carnudas e descartando algumas das costelas. Dava muito trabalho para tirá-las, ele decidiu. Abriu o saco, que ficava na sela, onde eles mantinham seus suprimentos de comida fresca. Normalmente, quando estavam na estrada, Arqueiros se alimentavam de carne seca, frutas e pão duro. Quando tinham a chance de comer mais confortavelmente, eles se garantiam para que estivessem pronto para isso. Por um momento ele considerou a idéia de jogar os coelhos no fogo e assá-los, mas descartou a idéia. Ele sentiu como se fosse mais gratificante.
 
Ele cortou as cebolas bem fininhas, fatiou varias batatas em pequenos pedaços. Pegou uma panela de metal da pequena variedade de utensílios de cozinha, posicionou na beira da fogueira que Horace havia acendido, colocando-a na brasa. Quando ele julgou que o aço da panela estava aquecido, ele derramou um pouco de óleo, e então jogou as cebolas alguns segundos depois.
 
Elas começaram a chiar e a ficar marrons, enchendo o ar com um aroma delicioso. Ele adicionou um dente de alho, esmagando-o até virar uma pasta, com o final da vara que ele estava usando para mexer a panela. Mais aromas deliciosos surgiram. Ele borrifou um bocado de temperos que eram sua mistura especial e o cozido cheirava mais e mais. Então ele jogou os picados do coelho e os mexeu para ficarem amarronzados e revestidos pela cebola e sua mistura especial.
Nessa hora, Halt e Horace sentaram um de cada lado da fogueira, assistindo-o famintos enquanto ele trabalhava. O rico cheiro do cozido de carne, cebola, alho, e temperos encheram o ar e fizeram seus estômagos roncarem. Havia sido um longo e difícil dia, afinal.
 
 ―É por isso que eu gosto de viajar com Arqueiros‖. Horace disse depois de alguns minutos. ―Quando se tem a chance, você acaba comendo muito bem‖.
 
 ―Muito poucos Arqueiros comem tão bem assim‖, Halt lhe disse. ―Will tem meio que uma aptidão para guisados de coelhos‖.
 
Will adicionou água na panela e, quando ela começava a ferver, jogou os pedaços de batata também. Quando o líquido com cara boa começou a borbulhar de novo, ele o mexeu e deu uma olhada para Halt. O velho Arqueiro meneou a cabeça e foi até sua própria sacola de onde ele tirou um frasco de vinho tinto. Will adicionou uma dose generosa no guisado.
 
Ele exalou o aroma do vapor que subia da panela, e balançou a cabeça, satisfeito com o resultado. ―Talvez precise de um pouco disso depois, para cobrir o guisado‖. ele disse, colocando o frasco de vinho de um lado.
 
 ―Use o quanto quiser‖, Halt disse. ―É pra isso que serve‖.
 
Halt assim como a maioria dos Arqueiros bebia vinho apenas moderadamente.
 
Duas horas depois, o guisado estava pronto e eles comeram com gosto. A fragrância, a carne abundante literalmente caiando dos ossos enquanto eles comiam. Halt misturou farinha, água, e sal juntos em um flácido circulo e colocou a massa nas cinzas quentes de um lado da fogueira. Quando Will serviu o guisado, ele fez um pão coberto de cinzas, e limpou-o para revelar uma dourada crosta externa. Ele quebrou o pão em pedaços e passou para seus companheiros. Era perfeito para encharcar com o saboroso caldo do guisado.
 
 ―Esse pão é bom‖. Horace murmurou, com a boca cheia dele. ―Nunca tinha comido dele antes‖.
 
 ―Pastores de Hibernia fazem pães assim‖. Halt lhe contou. ―Fica gostoso quando é aquecido em fogueiras como essa. Quando ele esfria fica bem liso. É chamado de abafador‖.
 
 ―Por quê?‖ Horace perguntou.
Halt encolheu os ombros. ―Provavelmente porque ele é mais úmido do que o pão de verdade‖. Ele disse e isso pareceu satisfazer Horace. Afinal, ele não se importava muito como o pão era chamado, contanto que ele tivesse vários deles para tomar o delicioso caldo do guisado.
 
Depois de terem comido, eles se juntaram perante o mapa de Halt.
 
 ―Tennyson e seus companheiros estavam indo por esse caminho‖, Halt disse, traçando um caminho do sul para o sudeste. ―No momento nós estamos indo para o leste, no ponto onde nós os deixamos para ir atrás dos Escoceses. Eu acho que nós devemos tentar recuperar a distância perdida e supor que eles continuarão o seu caminho para onde estavam indo. Se nós pegarmos um atalho e formos por este caminho‖, ele indicou uma direção à sudeste que iria cruzar com a trilha dos Forasteiros em um ângulo, ―nós devemos cruzar seu caminho amanhã por volta do meio dia‖.
 
 ―A menos que eles mudem a direção‖, Will disse.
 
 ―É um risco, é claro, mas eu não vejo porque eles deveriam. Eles não fazem idéia de que os estamos seguindo. Não há nenhuma razão para que eles não fossem diretamente para o destino final. Mas se eles mudarem, nós apenas teremos que voltar ao ponto onde eles deixaram as primeiras pegadas e os seguirmos de lá‖.
 ―Se estivermos errados, nós perderemos boa parte de dois dias‖, Will o alertou.
 
Halt meneou a cabeça. ―E se estivermos certos, nós economizaremos a melhor parte do dia‖.
 
Horace assistiu distraidamente a discussão. Ele estava feliz em cooperar com qualquer um dos planos que os colegas decidissem. E ele sabia que, ultimamente, Halt estava disposto a ouvir o ponto de vista de Will. Os dias demoravam a passar quando Halt tomava todas as decisões sem consultar ninguém. Will havia conquistado o respeito de Halt e Horace sabia que ele apreciava a opinião do jovem Arqueiro.
 
Horace olhou preguiçosamente para o mapa e o nome de um lugar o chamou atenção. Ele se inclinou e colocou seu dedo indicador no pergaminho. 
 
 ―Macindaw‖. Ele disse. ―Eu achei que o campo parecia familiar. A cidade está ao nosso leste. Se fizermos como você diz, estaremos passando bem perto dela‖.
 
 ―Seria divertido passar lá e ver como eles estão‖, Will disse.
 
Halt grunhiu. ―Nós não temos tempo para visitas sociais‖.
 
Will deu um largo sorriso. ―Não achei que tivéssemos. Eu apenas disse que seria divertido... se tivéssemos tempo‖.
 
Halt grunhiu de novo e começou a enrolar o mapa. Will já conhecia o humor do seu exmestre. Ele sabia que essa aspereza repentina era um sinal de que o velho Arqueiro sabia que estava se arriscando indo para o sudeste. Ele nunca iria demonstrar que estava preocupado, com medo de estar cometendo um erro. Mas depois de anos que passaram juntos, Will podia usualmente ler seus pensamentos corretamente. Ele sorriu silenciosamente para si mesmo. Quando ele era mais jovem, ele nunca sonhou que Halt poderia ter dúvidas. Halt sempre pareceu tão infalível. Agora ele sabia que o velho Arqueiro possuía uma força mental ainda maior – a habilidade de decidir o rumo de uma ação e manter-se firme a ele, sem deixar que a dúvida e a incerteza desviassem-no.
 
 ―Nós vamos pegá-los, Halt. Não se preocupe‖, ele disse.
 
Halt deu um sorriso severo. ―Tenho certeza que dormirei melhor depois dessa sua nova afirmação‖. Ele retrucou.
 
 
 
Eles desarmaram o acampamento cedo. O desjejum foi café e o que sobrou do abafador torrado nas brasas da fogueira, recheados com mel. Então, chutando terra em cima da fogueira, eles montaram e saíram cavalgando.
 
As horas passaram. O sol estava a pino, e então começou a descer para o oeste. Uma hora depois do meio dia, eles cruzaram uma trilha que rumava diretamente para o sul. Até onde Horace estava ciente, ela não parecia diferente das outras três ou quatro que haviam encontrado naquele dia, mas Will desceu de sua sela repentinamente. Ele se ajoelhou e estudou o chão a sua frente.
 
 ―Halt!‖ ele chamou e o velho Arqueiro se juntou a ele. Havia sinais definitivos de que um grupo de viajantes passou por aquele caminho. Will tocou em uma pegada, mais clara do que as outras. Ela estava fora da trilha em uma parte úmida do solo. A pegada havia sido deixada por uma bota pesada, com uma parte triangular no solado da parte externa.
 
 ―Já viu isso antes?‖ Will perguntou.
 
Halt se inclinou para trás, suspirando em alivio. ―Na verdade já. Lá pra cima, na Passagem do Corvo. Essa é certamente a trilha do grupo de Tennyson‖.
Agora que suas ações se provaram corretas, ele estava livre da dúvida e da preocupação que o assolou toda manhã. Foi um risco pegar o atalho. Se eles tivessem que voltar para o ponto em que viram os rastros de Tennyson pela primeira vez, qualquer coisa poderia ter acontecido – uma tempestade ou uma chuva pesada poderia ter lavado as pegadas, deixando eles desnorteados, sem nem idéia da direção que Tennyson teria pegado.
 
 ―Pela aparência dessas pegadas, eles estão a menos de dois dias a nossa frente‖. Ele disse, com grande satisfação.
 
Will andou alguns metros analisando as pegadas. ―Eles pegaram alguns cavalos‖. Ele disse repentinamente.
 
Halt o olhou rapidamente, e se moveu para se juntar a ele. Havia traços claros de vários pares de cascos imprimidos na terra fofa e na grama, um pouco fora da trilha.
 
 ―Pegaram mesmo‖. Ele concordou. ―Só Deus sabe que pobre família eles assaltaram para consegui-los. Têm apenas três ou quatro rastros de cavalos, então a maioria deles deve estar a pé. Podemos alcançá-los amanha‖.
 
 ―Halt‖. Disse Horace, ―Estive pensando...‖.
 
Halt e Will trocaram um olhar de divertimento. ―Sempre um passatempo perigoso‖. Eles falaram em coro. Por muitos anos, essa havia sido a resposta infalível de Halt quando Will lhe fazia a mesma afirmação. Horace esperou pacientemente o momento de alegria deles, então continuou.
 
 ―Sim, sim. Eu sei. Mas sério, como dissemos noite passada, Macindaw não é tão longe daqui...‖.
 
 ―E?‖ Halt perguntou, vendo como Horace deixou sua afirmação pendendo.
 
 ―Bem, tem uma guarnição de tropas lá e não deve ser uma má idéia um de nós ir buscar alguns reforços. Não ia doer nada ter uma dúzia de cavaleiros e homens armados para nos dar cobertura quando nós formos atrás de Tennyson‖.
 
Mas Halt já estava balançando sua cabeça.
 
 ―Dois problemas, Horace. Levaria muito tempo para um de nós ir lá, explicar tudo e mobilizar um exército. E mesmo que pudéssemos fazer isso rápido, eu não acho que iríamos querer um monte de cavaleiros se atrapalhando por volta do campo, derrubando samambaias, fazendo barulho e sendo vistos‖. Ele percebeu que sua afirmação havia
sido um pouco sem discernimento. ―Sem ofensas Horace, exceto a companhia atual, claro‖.
 
 ―Ah, claro‖. Horace retrucou rigidamente. Ele não podia realmente se opor à afirmação de Halt. Cavaleiros realmente tendem a fazer trapalhadas pelo campo, fazendo barulho e sendo notados. Mas isso não significava que ele deveria gostar disso.
 
Halt continuou. ―A melhor coisa que temos ao nosso lado é o elemento surpresa. Tennyson não sabe que estamos indo. E isso vale mais que pelo menos uma dúzia de cavaleiros e homens armados. Não. No momento nós vamos continuar do jeito que estamos‖.
 
Horace balançou a cabeça, grunhindo em concordância. Quando eles encontrassem com os Forasteiros, eles teriam uma batalha dura em suas mãos. Will e Halt teriam suas mãos ocupadas, cuidando de dois assassinos Genoveses. Ele iria gostar de ter pelo menos três ou quatro cavaleiros armados atrás dele para cuidar do resto dos seguidores do falso profeta.
 
Mas o tempo com que passou com Halt e com Will, ele tinha aprendido varias vezes o quão importante uma surpresa como aliado pode ser em uma batalha. Relutante, ele decidiu que o que Halt dizia fazia sentido.
 
Os dois Arqueiros montaram e partiram de novo, seguindo os rastros com um novo propósito. O conhecimento de que eles haviam encurtado a distância entrem eles e Tennyson para menos de um dia, os estimulou. Eles checaram o horizonte perante eles com cautela extra, procurando pelo primeiro sinal de que eles haviam pegado suas presas.
 
Will o avistou primeiro.
 
 ―Halt!‖ ele disse. Ele tinha o bom senso de não apontar na direção que ele estava olhando. Ele sabia que Halt iria seguir seu olhar, e se ele tivesse apontado ele estaria avisando a sua presa o fato dela ter sido vista.
 
 ―Na linha do horizonte‖, ele disse em voz baixa. ―A direita daquela árvore bifurcada. Não faça isso, Horace!‖.
 
Ele tinha visto a mão de seu amigo começar a se mover e ele instintivamente, ele soube que Horace estava planejando fazer sombra nos olhos enquanto olhava a figura. Horace mudou seu gesto no ultimo minuto fingindo estar coçando as costas do seu pescoço. Ao mesmo tempo, Halt desmontou e inspecionou a pata dianteira de Abelard. Assim, quem quer que seja não iria pensar que eles pararam porque o haviam avistado.
 
―Não consigo ver nada‖, Halt lhe disse. ―Quem é?‖.
 
 ―Um cavaleiro. Olhando-nos‖. Will falou. Halt olhou de lado para a colina sem mover a cabeça. Ele podia ver vagamente algo que poderia ter o formato de um homem e um cavalo.
 
Ele estava agradecido pelos olhos jovens e aguçados de Will.
 
Will desceu e soltou seu cantil de água do arção da sela. Mas ele tratou de fazer isso sem perder a figura de vista. Ele levou a garrafa de água para seus lábios, ainda assistindo. Então houve um movimento rápido e o cavaleiro moveu seu cavalo e sumiu no horizonte.
 
 ―Tudo bem‖, ele disse. ―Podem relaxar agora. Ele já foi‖.
 
Halt soltou a pata de Abelard e remontou. Seus rígidos músculos e juntas pareciam se lamentar enquanto ele o fazia.
 
 ―Você o reconheceu?‖ ele perguntou.
 
Will balançou a cabeça negativamente. ―Muito longe para ver detalhes. Exceto...‖.
 
 ―Exceto o que?‖ Halt questionou.
 
 ―Quando ele se virou, eu pensei ter visto um flash roxo‖.
 
Roxo, Horace pensou. A cor usada pelos assassinos Genoveses então talvez, ele disse para si mesmo, eles haviam acabado de perder o elemento surpresa.
 
 
 
 
 
 
 
 
16
 
As Condições do acampamento haviam melhorado desde a invasão dos Escoceses nas fazendas. Enquanto o bando se movia para o sul através de Araluen, Tennyson continuava a enviar alguns grupos para invadir as fazendas isoladas por onde passavam. Eles traziam de volta não apenas alimentos, mas também equipamentos para tornar seu acampamento mais confortável - Lonas, madeira e corda para fazer tendas e peles e cobertores para se protegerem do frio das noites geladas do norte.
 
Na última incursão, eles tinham conseguido por acaso quatro cavalos. Eram animais lamentáveis, mas agora pelo menos Tennyson e os dois Genoveses poderiam parar de andar a pé. O quarto cavalo ele precisava para outra finalidade. Agora, sentado no relativo conforto de sua tenda, ele ordenava ao rapaz que ele tinha escolhido para ser seu mensageiro.
 
―Dirkin, eu quero que você vá à frente‖. disse ele. ―Pegue um dos cavalos e siga até esta vila‖.
 
Ele indicou um local em um mapa desenhado rudemente na direção nordeste.
 
―Willey‘s Flat‖, disse o jovem, ao ler o nome do local que Tennyson tinha indicado.
 
―Exatamente. É um pouco além deste conjunto de penhascos, um pouco ao sul deles. Procure por um homem chamado Barrett‖.
 
―Quem é ele?‖ perguntou o mensageiro. Normalmente Tennyson não encorajava os seus seguidores a questionar os motivos de suas ordens, mas, nesta ocasião, seria bom que o rapaz soubesse por que ele precisava fazer contato com Barrett.
 
―Ele é o líder de uma assembléia local de nosso povo. Ele está recrutando convertidos nesta área nos últimos meses. Eu quero que você lhe diga para reunir todos os seguidores que puder e nos encontrar em um acampamento perto dos penhascos‖.
 
 Sempre planejando ganhar terreno em Araluen, Tennyson havia enviado dois grupos de seguidores para estabelecer cultos em áreas remotas, bem longe dos olhos dos soldados. Um local tinha sido estabelecido em Selsey, na vila de pescadores na costa oeste. O segundo aqui, na parte selvagem a nordeste do reino. A última mensagem que havia recebido de Barrett, tinha indicado que ele conseguiu converter, ou melhor, recrutar, uma centena de seguidores para sua religião. Não era muito, mas Barrett também não era uma figura inspiradora. E pelo menos, cem seguidores era um começo. Eles forneceriam ouro e jóias para Tennyson começar a se levantar de novo.
 
O jovem olhou com interesse para o mapa.
 
―Eu achava que éramos o único grupo‖, disse ele. Tennyson levantou suas sobrancelhas com raiva.
 ―Então você pensou errado‖, disse. ―Um homem sábio sempre tem alguma reserva caso as coisas não corram de acordo com o plano. Agora vá‖.
 
Dirkin encolheu com a repreensão e se levantou para sair. ―Provavelmente vai demorar alguns dias para esse Barrett reunir todos os seguidores‖.
 
―É por isso que eu estou te mandando na frente‖, disse Tennyson arrastando uma nota sarcástica em sua voz. ―Mas se você pretende ficar por aí falando sobre isso, eu terei que encontrar outra pessoa para o trabalho‖.
 
Dirkin notou o tom e capitulou. Verdade seja dita, ele ficaria feliz em ir à frente. Enfiou o mapa dentro do casaco e virou-se para a entrada da tenda.
 
―Eu estou a caminho‖, disse ele. Um grunhido irritado foi a única resposta de Tennyson.
 
Dirkin dirigiu-se para a entrada e foi forçado a recuar com outra figura batendo nele e entrando apressadamente. Uma queixa irritada já estava saindo de sua boca, mas logo em seguida a engoliu quando reconheceu o recém-chegado. Era um dos assassinos Genoveses que Tennyson tinha mantido como guarda-costas. Dirkin sabia que eles não eram pessoas para se insultar ou molestar. Rapidamente, ele murmurou um pedido de desculpas e diminuiu em torno da figura de manto roxo, deixando a tenda tão rapidamente quanto podia.
 
Marisi contraiu os lábios com desprezo quando olhou para o rapaz. Ele estava bem consciente de que muitos dos estrangeiros o evitavam e também seu compatriota. Tennyson olhou para ele agora, franzindo a testa ligeiramente. Desde que adquiriram os cavalos, os Genoveses começaram a verificar sua trilha todos os dias, para ter certeza de que ninguém estava os seguindo. Era uma medida de rotina que Tennyson havia insistido até agora, porém sem retorno. Mas agora que Marisi estava aqui, Tennyson suspeitava que houvesse más notícias. Bacari, o mais alto dos dois, informava só quando a notícia era boa.
 
―O que aconteceu?‖ Tennyson exigiu.
 
―Estamos sendo seguidos‖, Marisi respondeu, com um inevitável e irritante encolher de ombros.
 
Tennyson bateu com o punho na pequena mesa dobrável que havia sido roubado de uma fazenda há alguns dias.
 
―Droga! Sabia que as coisas estavam muito bem até agora. Quantos são?‖.
 
―Três‖, o Genovês disse com um ar um pouco mais leve.
 
 Três pessoas os seguindo não era nada para se preocupar. Mas a próxima palavra do assassino mudou sua idéia.
 
 ―São os três de Hibernia. Os dois Arqueiros encapuzados e o cavaleiro‖ Tennyson pulou de sua cadeira com o choque da notícia. Ela caiu de costas sobre a grama, mas ele nem percebeu.
 
 ―Eles?‖, gritou. ―O que estão fazendo? Como diabos fizeram para chegaram até aqui?‖.
 
 Novamente, o Genovês encolheu os ombros. Como chegaram aqui era irrelevante. Eles estavam aqui, e eles estavam seguindo o pequeno grupo de forasteiros. E eles eram perigosos. Há muito já sabia. Ele esperou o autoproclamado profeta continuar.
 
 A mente de Tennyson trabalhava. O contrabandista! Ele deve ter contado para eles. Claro, o teriam subornado e em troca do dinheiro os havia traído.
 
 Ele começou a andar para cima e para baixo, no espaço restrito do interior da tenda improvisada. Esta era uma má notícia. Ele precisava reunir os fiéis em Willey´s Flat. Precisava de ouro e jóias e começaria por lá. Eles haviam se atrasado em incursões nas distantes fazendas. Não poderia correr o risco de que os três Araluenses os alcançassem.
 
 ―Qual a distância que estão de nós?‖ ele perguntou. Deveria ter feito essa pergunta logo de início, pensou.
 
 Marisi enrolando os lábios, pensativo. ―Não muito. Um dia, no máximo‖. Tennyson considerou a resposta, então chegou a uma decisão.
 
 Um dia não era tempo o suficiente. Especialmente quando ele era pressionado a manter um ritmo mais lento. Então olhou para o assassino.
 
―Você vai ter que se livrar deles‖, disse abruptamente.
 
 As sobrancelhas de Marisi subiram de surpresa. ―Livrar-se deles‖, repetiu.
 
Tennyson se inclinou sobre a mesinha, os punhos plantados na madeira áspera.
 
―Isso mesmo! Isso é o que vocês fazem, não é? Se livrar deles. Você e seu amigo. Matálos. Use essas bestas que vocês tão orgulhosamente carregam e certifique-se que iram parar de nos seguir‖.
 
 Malditos, Tennyson pensou. Esses arqueiros encapuzados e seu amigo musculoso tinham sido nada mais que um problema para ele. Agora, quanto mais pensava nisso, mais queria vê-los mortos.
 
 Marisi estava considerando a sua ordem. Ele balançou a cabeça, pensativo. ―Há um bom lugar onde podemos emboscá-los. Vamos ter que voltar e plantar uma trilha para seguirem. É claro que...‖ Ele fez uma pausa significativa.
 
 Por alguns segundos Tennyson não havia entendido, então rosnou: ―É claro o quê?‖.
 ―Eles são inimigos perigosos, e nosso contrato não dizia nada sobre livrar-se de pessoas como eles‖.
 
 A implicação era óbvia. Tennyson respirava com dificuldade, tentando controlar sua raiva crescente. Ele precisava destes dois homens, não importava o quanto eles o enfureciam.
 
 ―Eu vou te pagar um extra‖, disse ele com os dentes cerrados.
 
Marisi sorriu e estendeu a mão. ―Agora? Você vai pagar agora?‖.
 
 Mas Tennyson sacudiu a cabeça violentamente. Ele não ia arrastar esse assunto por mais tempo.
 
 ―Quando você fizer o trabalho‖, disse ele. ―Eu vou te pagar depois. Não antes‖.
 
 Marisi encolheu os ombros novamente. Não esperava mesmo que o corpulento pregador concordaria em pagar antecipadamente, mas valia à pena tentar.
 
 ―Você vai pagar mais tarde‖, disse ele. ―Vamos acertar um preço. Mas... se você paga depois, paga mais‖. Tennyson varreu o fato de lado descuidadamente com uma mão.
 
 ―Tudo bem. Informe Bacari para vir me ver e nós vamos acertar o pagamento‖. Ele fez uma pausa e depois acrescentou com ênfase, ‗mais tarde‘.
 
Afinal, ele pensou, com alguma sorte, eles poderiam se matar uns aos outros e economizaria no pagamento extra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17
 
―Temos de assumir que ele nos viu‖, Halt disse enquanto eles andavam.
 
Eles estavam cavalgando em fila única, mas agora Horace e Will levaram os cavalos deles para o lado de Halt para que pudessem conferir mais facilmente.
 
 ―Mas ele nos reconheceu?‖ Will disse. ―Afinal, estamos muito longe e nós poderíamos ser apenas três cavaleiros‖.
 
Halt virou levemente na sela para o seu antigo pupilo. O que Will disse estava correto. Contudo, Halt viveu muito mais do que Will para se dar ao luxo de assumir que os seus inimigos pudessem errar assim.
 
 ―Se ele nos viu, também temos de assumir que ele reconheceu-nos‖.
 
 ―Afinal de contas‖, Horace intrometeu-se, ―quando vocês dois não estão se escondendo nos arbustos, vocês são bastante reconhecíveis. Não tem muitas pessoas cavalgando no campo carregando grandes arcos de madeira e vestindo capas com capuz‖.
 
 ―Obrigado por lembrar-me disso‖, Halt disse secamente. ―Mas na verdade, você está certo. E os Genoveses não são tolos. Agora Tennyson vai saber que estamos atrás dele‖.
 
Ele parou, coçando a barba, pensativo, enquanto considerava a situação.
 
 ―A questão é‖, ele disse, mais para si mesmo do que para os outros, ―o que fazer depois?‖.
 
 ―Deveríamos ir um pouco para trás?‖ Will sugeriu. ―Se sairmos de vista, Tennyson pode assumir que o Genovês estava errado e que eram apenas três cavaleiros sem interesse nele?‖.
 
 ―Não. Eu acho que não. É esperar demais. E se sairmos do caminho, damos mais tempo para ele nos passar a perna. Acho que deveríamos fazer o oposto. Ir para cima dele‖.
 
 ―Ele saberá que estamos aqui‖, Horace disse.
Halt assentiu para ele. ―Ele sabe que estamos aqui, de qualquer modo. Então vamos empurrá-lo. Dessa maneira ele terá que continuar andando, e um alvo se mexendo é mais fácil de ver do que um oculto‖. Ele chegou a uma decisão e adicionou, num tom positivo: ―Vamos colocar pressão nele. Pessoas sob pressão cometem erros e isso poderia funcionar para nós‖.
 
 ―É claro...‖ Horace começou, mas hesitou. Halt gesticulou para ele continuar. ―Bem, eu estava pensando, nós ficaremos sob pressão também, não é? E se nós cometermos o erro?‖.
 
Halt fitou-o por vários segundos sem falar.
 
Então virou para Will. ―Ele é um raio de sol, não é?‖.
 
Eles continuaram em silêncio por alguns minutos. Eles estavam cavalgando ladeira acima ao ponto onde eles viram o Genovês na linha do horizonte. Eles ainda tinham aproximadamente cem metros para percorrer antes de alcançar o cume quando Halt levantou a mão para sinalizar que os outros parassem.
 
 ―Por outro lado‖, ele disse, numa voz baixa, ―Horace deu um bom ponto. Os Genoveses são assassinos e uma das suas técnicas favoritas é a emboscada. Ocorreu-me que não é uma boa idéia subir até o cume assumindo que não a nada a se preocupar‖.
 
 ―Você acha que eles estarão esperando por nós?‖ Will disse. Os olhos observando o cume.
 
 ―Acho que eles poderiam estar. Então, a partir de agora, não vamos subir nenhum cume sem explorar o caminho à nossa frente‖.
 
Ele fez um movimento para descer da sela, mas Will interrompeu-o, caindo levemente na trilha.
 
 ―Eu vou fazer isso‖, ele disse.
 
Halt fez como se fosse argumentar, então fechou a boca. Sua preferência natural era sempre tirar Will do perigo, mas percebeu que ele tinha que deixar o jovem ter sua quota de risco.
 
 ―Tome cuidado‖, ele disse. Puxão ecoou o pensamento com um estrondo baixo saído do peito. Will sorriu para os dois.
 
―Não sejam um par de vovós‖, ele disse. Então ele escorregou rapidamente pelo arbusto que ladeava o caminho. Curvando-se, ele subitamente desapareceu de vista. Horace soltou um leve som de surpresa.
 
Halt olhou para ele. ―O que foi?‖.
 
Horace gesticulou para a moita rolante e grossa que cobria a encosta. Não havia sinal de Will, não havia sinal de nada se movendo nos arbustos, nada além do vento.
 
 ―Não importa quantas vezes eu o vejo fazer isso, ainda me assusta todas às vezes. É sinistro‖.
 
 ―Sim‖, disse Halt, observando a encosta acima deles. ―Suponho que seria. Ele é muito bom nisso. Naturalmente‖, ele adicionou modestamente, ―eu ensinei tudo o que ele sabe. Sou conhecido como o especialista em movimento invisível no Corpo Arqueiro‖.
 
Horace franziu as sobrancelhas. ―Pensei que Gilan era o verdadeiro especialista‖. Ele disse. ―Will me contou uma vez que ele aprendeu os pontos mais sensíveis com Gilan‖.
 
 ―Ah, é mesmo?‖ Halt disse, com uma sugestão de frieza na voz. ―E quem você acha que ensinou Gilan?‖.
 
Aquilo não ocorreu a Horace. Não pela primeira vez, ele encontrou-se desejando que a sua língua não fosse mais rápida do que seu cérebro.
 
 ―Ah... sim. Você ensinou, suponho‖, ele disse e Halt curvou-se levemente na sela.
 
 ―Exatamente‖, Halt disse, com grande dignidade.
 
 ―Então você pode ver onde ele está no momento?‖ Horace perguntou com curiosidade. Ele questionou-se como isso funcionava. Se você ensinou alguém a andar sem ser visto e se você sabe todos os seus truques, você poderia vê-los? Ou seriam invisíveis até para a pessoa que os ensinou?
 
 ―Naturalmente‖, Halt respondeu. ―Ele está ali‖.
 
Horace seguiu a direção do dedo indicador e viu Will ereto no cume da encosta. Segundos depois, eles ouviram seu assobio e acenou para eles andarem.
 ―Bem, agora você pode vê-lo‖, disse Horace. ―Eu posso vê-lo agora! Mas você podia vê-lo antes de levantar?‖.
―Claro que sim, Horace. Como você pode duvidar de mim?‖ Halt disse. Então mandou Abelard à frente, gesticulando para Puxão o seguir. Seu rosto estava escondido de Horace, dessa forma o jovem guerreiro nunca veria o sorriso que crescia ali.
 
 ―Ele parece ter continuado andando‖, Will disse quando os alcançou. ―Embora ele possa estar em qualquer lugar por aí‖.
 
Abaixo deles, a terra gradualmente inclinou-se, coberta pelo mesmo arbusto grosso e samambaias. Will estava certo. Um besteiro poderia estar escondido em qualquer lugar naquela confusão.
 
Halt olhou a área, pensativo.
 
 ―Droga‖, ele disse. ―Só vai nos fazer diminuir o passo‖.
 
 ―Essa é a idéia‖, Will disse.
 
 ―Precisamente‖. Halt soltou um suspiro de exasperação.
 
 ―Suponho que isso dê um fim à idéia de pôr pressão sobre ele‖, Horace disse. Halt fitou-o friamente por alguns segundos. O bom humor dos Arqueiros pareceu deixá-lo quando os planos deles foram frustrados, Horace pensou. Ele também pensou que poderia ser uma boa idéia não dizer nada a mais por enquanto.
 
Halt, satisfeito que sua mensagem não dita foi registrada, virou para Will quando chegou a uma decisão.
 
 ―Muito bem. Você faz o reconhecimento à frente. Vou lhe dar cinqüenta metros e aí vamos atrás de você. Você sabe as regras: Olhar. Gritar. Atirar‖.
 
Will assentiu. Ele sinalizou para Puxão ficar onde estava e seguiu pela trilha, os olhos no chão, atento as pegadas deixadas ali. Halt fez Abelard avançar lentamente, se posicionou em um ângulo da trilha onde tivesse espaço para atirar e colocou uma flecha no arco. Seus olhos escanearam o chão de um lado a outro da trilha conforme Will prosseguia.
 
 ―Tudo bem se eu perguntar-lhe uma coisa, Halt?‖ Horace disse timidamente. Ele não tinha certeza se deveria interromper a concentração do Arqueiro com uma pergunta. Mas Halt simplesmente assentiu, sem tirar a atenção dos arbustos.
 
 ―Olhar. Gritar. Atirar. O que é isso?‖ Horace perguntou.
Halt começou a responder. Se Horace fosse trabalhar com eles no futuro, seria muito bom explicar para ele os métodos assim que perguntasse. ―É o jeito que nós...‖
 
Aí, avistando um sinal pequeno de movimento nos arbustos à direita de Will, ele parou de falar e levantou-se levemente dos estribos, seu arco na posição de mira, a flecha começando a escorregar para um tiro direto.
 
Um pequeno pássaro agitou-se para fora do arbusto que ele estava observando, voou poucos metros, então pousou cuidadosamente em outro galho, enterrando o bico nas pétalas de uma flor.
 
Halt relaxou, abaixando a flecha novamente. Horace notou que Will percebera o movimento também. Ele havia abaixado. Agora, cautelosamente, ele levantou-se novamente, e olhou para onde Halt e Horace estavam observando.
 
Halt acenou para ele. Ele assentiu e começou a andar de novo, analisando o chão enquanto isso.
 
 ―Desculpe Horace‖, Halt disse. ―Você queria saber sobre o ‗Olhar. Gritar. Atirar. ‘ É como nós abordamos uma situação como essa. Will está procurando pelas pegadas deles, e por qualquer sinal de que alguém poderia ter deixado a trilha e se escondido para armar uma cilada. Enquanto ele faz isso, sua atenção é distraída. Então eu continuo observando cada lado da trilha, apenas no caso de alguém deixar um caminho novo, então recuo atrás dele, ou seja, se eu ver um besteiro erguer-se dos arbustos, eu grito e Will vai ao chão imediatamente. Na mesma hora, eu atiro no besteiro. Olhar. Gritar. Atirar‖.
 
 ―Ele olha. Você grita e atira‖, Horace disse.
 
 ―Exatamente. E fazemos isso em cinqüenta metros de distância porque se houver uma emboscada, minha flecha irá atingir quem fez a emboscada mais rapidamente. O problema vai ser quando chegarmos àquelas árvores à frente de nós‖.
 
Horace olhou. A área coberta de tojo continuava por outros dois ou três quilômetros. Mas em seguida ele podia ver a linha escura de uma grossa floresta.
 
 ―Suponho que você não possa ver a cinqüenta metros ali‖, ele disse.
 
Halt assentiu. ―Certo. Vamos ter que nos precipitar vinte metros quando chegarmos lá. Vamos‖, ele acrescentou. ―Will está nos chamando adiante‖.
Eles cavalgaram para a inclinação onde Will estava esperando por eles. Ele sorriu para Halt quando os dois cavaleiros paravam. Puxão se aninhou e relinchou. Ele nunca ficava feliz enquanto Will estivesse longe dele.
 
 ―Você se preocupa à toa‖, Will falou para ele, dando um tapinha no nariz macio de Puxão. Mas Halt aprovou a reação do cavalo.
 
 ―Leve-o com você desta vez‖, ele disse. ―Devia ter pensado nisso antes. Ele vai sentir alguém nos arbustos mais rápido do que nós‖.
 
Will pareceu um pouco preocupado sobre a idéia. ―Eu não quero arriscar Puxão ser atacado por um daqueles besteiros‖.
 
Halt sorriu para ele. ―Agora quem está preocupado?‖.
 
Will deu de ombros. ―Dá no mesmo‖, ele disse, ―eu ficaria mais confortável se ele estivesse com vocês se alguém começasse a atirar‖.
 
 ―E eu estarei mais confortável se ele estiver com você‖, Halt disse para ele. Então ele pegou o arco de onde jazia, sobre os joelhos. ―Não se preocupe. O único que vai começar qualquer tiroteio sou eu‖.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18
 
Como Halt havia previsto, o progresso deles foi ficando cada vez mais devagar conforme eles se aprofundavam na densa floresta que tinham avistado no horizonte. Aqui várias árvores cresciam numa confusão imprevista em cada lado do caminho estreito. Conforme Horace andava através delas, os diferentes ângulos de cada um que ele viu numa fileira de troncos pareciam criar uma sensação de movimento nas sombras, por causa disso ele estava constantemente parando para olhar de novo, tendo certeza que ele não havia visto ninguém se mexendo.
 
Eles eram ajudados pelos dois cavalos Arqueiros, é claro. Puxão e Abelard eram treinados para avisar aos senhores se sentissem a presença de estranhos. Mas até suas habilidades dependiam da direção do vento. Se alguém estivesse a favor do vento, seu cheiro não seria carregado até eles.
 
Eles prosseguiram numa série de curtos tumultos. Primeiro Will iria adiantar-se dez a vinte metros enquanto Halt esperava com o arco preparado, até Will ganhar a aparência de um tronco. Então Will iria examinar a floresta enquanto Halt avançava, aí passava por ele para outro ponto vinte metros mais longe. E assim eles iriam repetir o processo, pulando carniça, um assistindo enquanto o outro avançava. Freqüentemente, eles paravam para deixar os cavalos sentir o ar e ouvir qualquer barulho de fora da floresta ou odores das árvores ao redor.
 
Horace ficava na retaguarda. Ele tinha seu escudo pendurado nas costas para proteção. Se precisasse dele numa emergência, ele poderia facilmente puxá-lo pelo braço esquerdo. Sua espada estava desembainhada. Quando primeiro ele puxou a arma, sentiuse um pouco autoconsciente – preocupado se iria fazê-lo parecer nervoso. Mas Halt havia assentido em aprovação quando ele apanhou o brilho da lâmina afiada na luz escura sob as árvores.
 
 ―Nada mais inútil do que uma espada deixada na bainha‖, ele havia dito.
 
Halt também havia instruído para ele virar subitamente de vez em quando e observar o caminho atrás dele, tendo certeza que não havia ninguém para atacá-los por trás.
 
 ―Não faça isso em intervalos regulares‖, Halt tinha contado-o quando eles estavam prestes a entrar no pequeno mundo verde da floresta. ―Qualquer um nos seguindo vai reconhecer um padrão regular, combinar e andar mais livremente. Misture as coisas. Continue mudando‖.
Assim agora, de tempos em tempos, Horace iria virar para olhar o caminho, voltar, depois olhar de novo imediatamente. Halt contou-o que esse era o melhor jeito de pegar um perseguidor inconsciente.
 
Mas cada vez que ele fazia isso, não havia ninguém ali.
 
Aquilo não fez nada para diminuir a tensão. Ele estava tão prevenido que, a qualquer momento, ele podia virar e poderia haver alguém andando na trilha atrás deles. Ele percebeu que sua mão no cabo da espada estava úmida em tensão e ele secou-a cuidadosamente na jaqueta. Numa batalha, Horace iria encarar qualquer inimigo, e qualquer número de inimigos, sem hesitar. Era a incerteza dessa situação que o perturbava – saber que, não importando quantas vezes não houvesse ninguém atrás deles, essa poderia ser a vez que tudo desse errado.
 
Ele também se sentia completamente vulnerável na companhia de Will e Halt. Ele observava-os enquanto agiam como fantasmas entre as árvores, as capas ajudando-os a se misturarem nas sombras cinza e verdes da floresta que às vezes ele tinha problemas vendo-os claramente.
 
Ele estava usando a capa que Halt havia dado para ele, naturalmente. Mas ele sabia que a habilidade de se esconder dependia mais do que apenas as formas de camuflagem na capa. Era resultado de anos de prática, de aprender como usar a menor quantidade de cobertura possível. Como mover-se rapidamente sem quebrar galhos ou farfalhar folhas mortas no chão. Sabendo quando andar e quando ficar absolutamente em silêncio, embora seus nervos gritem para você mergulhar num esconderijo. Comparado as duas quase silenciosas sombras que o acompanhavam, ele sentia-se como um grande e desajeitado cavalo de carga, balançando e batendo nas árvores e na vegetação rasteira. Um pensamento repugnante ocorreu a ele que qualquer pessoa com metade de um cérebro iria procurar pelo mais fácil e visível alvo para o primeiro tiro.
 
E seria ele.
 
Inconscientemente, ele secou a mão molhada na jaqueta novamente.
 
À frente, conforme Halt avançava diante dele, Will olhava rapidamente para trás para o seu melhor amigo, tomando a retaguarda. Era só uma precaução extra, aproximando-se de Horace. O homem no centro do grupo, independentemente de ser Halt ou Will, tinha a responsabilidade de checar à frente, atrás e os lados conforme progrediam. Ele estava impressionado com a calma de Horace, pela forma que ele parecia ter essa situação sobre controle. O jovem guerreiro não fora treinado para esse tipo de tática escura e nervosa. Contudo ele pareceu estar tranqüilo e inabalado. Will, por outro lado, estava surpreso que nenhum dos amigos podia ouvir o seu coração martelando dentro de sua caixa torácica. A tensão sob as árvores estava quase concreta. A expectativa de que um besteiro pudesse pular da floresta escura, a inquietação que a mais leve distração de sua parte poderia custar à vida dos seus amigos, estava perto do intolerável. Ele balançou a
cabeça furiosamente. Esse tipo de pensamento o levaria para exatamente a distração que ele estava preocupado.
 
Limpe sua cabeça. Limpe sua mente de qualquer distração, Halt tinha falado para ele centenas de vezes durante os anos que eles tinham treinado juntos. Torne-se parte da situação. Não pense. Sinta e perceba o que está ao seu redor.
 
Ele tomou um grande fôlego e ajeitou-se, esvaziando a mente de dúvidas e preocupações, focando a atenção e o subconsciente na floresta em torno dele. Depois de alguns segundos, ele começou a ouvir os pequenos sons da floresta mais claramente. Um pássaro passando de uma árvore a outra. Um esquilo tremendo. Um ramo caindo. Puxão e Abelard pisavam silenciosamente ao lado dele, os ouvidos puxando enquanto eles ouviam por algum risco potencial. Adiante, ele podia ouvir os passos suaves de Halt à frente. Atrás, os sons mais altos provocados por Horace e Kicker, sem importar quanto o alto garoto tentasse mover-se silenciosamente.
 
Esse era o estado de atenção que ele precisava. Ele tinha de ouvir todos os sons na floresta para que algo anormal, qualquer irregularidade, fosse registrada imediatamente. Se um pássaro tomasse vôo, por exemplo, e não pousasse em outra árvore dentro de alguns segundos, isso indicava que algo havia o assustado. Ele estava escapando ou fugindo, e não simplesmente indo para um lugar mais promissor de alimento. Se houvesse uma aguda nota de alerta no tremor do esquilo, indicaria a presença de algo, ou alguém, indesejável no território.
 
A maioria dos outros animais menores iria responder àquele tipo de declaração territorial recuando, ele sabia. Um predador não iria. Um predador humano definitivamente não iria.
 
Halt tinha parado, pisando na sombra de um olmeiro velho e coberto de fungos. Will examinou o chão à frente dele, escolhendo um caminho para que pudesse andar numa linha reta e previsível, então deslizou de trás da árvore que o escondia e andou silenciosamente outra vez.
 
Puxão e Abelard andavam em passos suaves atrás dele.
 
Enfim, a luz escura começou a clarear-se e as árvores tornaram-se mais longamente espaçadas. Com cada passo rápido, Will e Halt poderiam cobrir mais território até ter quase alcançado a borda da floresta. Will começou a avançar em direção ao urzal aberto e coberto de capim, mas Halt levantou uma mão e o fez parar.
 
 ―Olhe primeiro‖, ele disse suavemente. ―Esse poderia ser justamente o lugar onde eles preparassem uma emboscada, sabendo que relaxaríamos por estarmos fora da floresta‖.
 
A boca de Will secou quando notou que Halt tinha razão. A sensação de alívio que ele sentiu, a súbita diminuição de tensão havia quase o deixado no que poderia ter sido um erro fatal. Ele agachou-se ao lado de Halt e juntos estudaram o terreno perante eles. Horace esperou pacientemente, poucos metros atrás deles, com os cavalos.
 
 ―Consegue ver algo?‖ Halt perguntou calmamente.
 
Will sacudiu a cabeça, os olhos ainda mexendo.
 
 ―Nem eu‖, Halt concordou. ―Mas não significa que eles não estejam aqui‖. Ele olhou para a árvore que eles haviam se escondido atrás. Era uma das árvores mais alta, mais estabelecida do que as vizinhas.
 
 ―Suba a árvore e dê uma olhada‖, ele disse, e continuou, ―Fique desse lado do tronco enquanto faz isso‖.
 
Will sorriu maliciosamente para ele. ―Eu não nasci ontem‖.
 
Halt levantou uma sobrancelha. ―Talvez não. Mas você poderia ter morrido hoje se eu deixasse você expressando-se na clareira alguns minutos atrás‖.
 
Não havia resposta àquilo. Will olhou a árvore, selecionou os apoios para os pés e para as mãos que usaria, e pegou os galhos. Ele sempre foi um excelente escalador e só levou poucos segundos para ele estar dez metros acima da superfície da floresta. Desse ponto de vantagem, ele tinha uma clara visão da terra que os cercava.
 
 ―Sem sinal‖, ele falou discretamente.
 
Halt grunhiu. ―Você pode arranjar uma boa posição de tiro aí?‖.
 
Will olhou os arredores. Poucos metros acima dele havia um grande ramo que o daria uma boa posição, com uma visão limpa da região à frente. Ele viu o sentido da pergunta de Halt. De um ponto elevado, ele veria qualquer movimento inimigo antes que estivessem numa posição de tiro.
 
 ―Dê-me um momento‖. Ele subiu mais na árvore. Halt observava-o, sorrindo com a facilidade que ele podia escalar. É porque ele não está nervoso, ele percebeu. Ele sentese em casa lá em cima e não está com medo de cair.
 
 ―Pronto‖, Will disse. Ele tinha uma flecha pronta na corda e os olhos olhavam de um lado até o outro.
Halt levantou-se de sua posição e foi até o terreno aberto perante ele. Ele decifrou as pegadas dos Forasteiros mais uma vez – um calcanhar aqui, uma mancha de grama cortada e pisada ali – tão fraca que só um investigador especializado veria.
 
Ele andou dez metros. Depois vinte. Depois cinqüenta. Inconscientemente, ele havia andado curvado, cada um dos seus músculos prontos para mergulhar numa sombra ou disparar um tiro de volta no momento em que notasse. Gradualmente, conforme ele andava mais ele percebia que o perigo havia passado. Ele ficou mais ereto, então, parando, ele gesticulou para Will e Horace juntarem-se a ele.
 
A grama aqui estava apenas na altura do joelho. Não provia de nada como a cobertura que o tojo da altura dos ombros dava. Qualquer um esperando numa emboscada aqui estaria em mais perigo do que suas vítimas pretendidas, Halt pensou. Teriam que ficar agachados para esconderem-se, e assim eles iriam gastar preciosos segundos levantando para ver a caça e preparando-se para atirar. Os Genoveses eram muito hábeis para colocarem-se numa desvantagem.
 
Eles montaram e cavalgaram mais relaxados agora, mas ainda observando o chão cuidadosamente e ainda virando de tempos em tempos para checar a retaguarda. O gramado continuou por vários quilômetros. Então eles alcançaram um cume e olharam para um largo vale abaixo dele.
 
 ―Agora é onde vamos ter que ser cuidadosos‖, Halt disse.
 
 
 
 
 
 
 
 
19
 
A planície à sua frente se estendia por quilômetros. À distância, eles podiam ver um rio brilhante torcendo seu caminho através dos campos, fluindo para pontos mais baixos.
 
Imediatamente atrás deles, na base do cume onde eles se encontravam, a grama se inclinava gradualmente para baixo. Então, a terra mudava drasticamente.
 
Troncos de árvores finos subiam da terra plana e descampada, reunidas em fileiras irregulares. Suas pontas nuas chegavam ao céu, recortadas e irregulares, desprovidas de qualquer cobertura de folhas, trançadas em formas bizarras, como se estivessem em agonia e súplica. Havia milhares delas. Possivelmente dezenas de milhares, uma massa cinza de árvores sem folhas e todas mortas.
 
Para os olhos de Will, acostumados com os tons de verde das florestas ao redor do castelo de Redmont e Seacliff, a visão era indescritivelmente triste e desolada. O vento atravessava por entre os troncos e galhos mortos, sussurrando um audível som desesperado. Sem a cobertura de folhas e com os troncos secos desprovidos de seiva, os ramos não balançavam graciosamente ao sabor do vento.  Eles permaneciam severos e rígidos, sua linha feia e afiada permanecia inabalável à força suave da brisa.
 
Will achava que se um vento forte soprasse por entre os troncos mortos, poderia derrubar dúzias de árvores, deitando-as no chão e ficando parecidas com um monte de lanças cinza desarrumadas e deformadas.
 
―O que é isso Halt?‖ ele perguntou. Saiu quase como um sussurro. De alguma forma parecia mais correto tão próximo de tantas árvores mortas.
 
―É uma floresta afogada‖, disse-lhes Halt.
 
Horace inclinou-se para frente, cruzando as mãos sobre o cabeçote da sela enquanto avaliava a cena de total desolação que se estendia diante deles.
 
―Como é que uma floresta pode se afogar?‖ ele perguntou. Igual a Will manteve sua voz baixa, como se não quisesse perturbar a trágica cena. As formas esbeltas e cinzentas abaixo deles, pareciam exigir sua cota de respeito. Halt apontou para o distante e brilhante rio além das milhares de árvores.
 
―Eu diria que o rio deve ter inundado esta área‖, disse. ―Creio que foi há muitos anos atrás e teria sido uma estação chuvosa muito especial. A enchente se espalhou pela planície e basicamente cobriu as árvores. Elas não são capazes se sobreviver se suas raízes estivessem abaixo d‘água, portanto, gradualmente elas morreram‖.
 
―Mas eu já vi inundações antes‖, disse Horace. ―As águas dos rios sobem. Algum tempo depois elas recuam e tudo volta praticamente ao normal‖.
 
Halt estudava o relevo do terreno e acenou com a cabeça em reconhecimento a declaração de Horace.
 
―Normalmente, esperamos que aconteça dessa forma‖, ele disse. ―Se a enchente durasse um curto período de tempo, as árvores sobreviveriam. Mas se olharmos melhor. O rio é contido por aquela crista e a floresta está em um nível mais baixo. Uma vez que as águas passaram por cima da crista, a planície foi inundada e não haveria nenhuma maneira de que as águas pudessem recuar depois que a chuva passasse e o rio voltasse ao normal. E eu suspeito que a chuva continuou caindo por muito tempo. A enchente ficou presa entre as árvores. Isto foi o que as matou‖.
 
Will balançou a cabeça tristemente. ―Há quanto tempo?‖.
 
Halt franziu os lábios. ―Cinqüenta, sessenta anos talvez. Aqueles troncos estão completamente secos. Eles estão apodrecendo em silêncio aqui há décadas‖.
 
Ele vinha procurando o caminho ladeira abaixo enquanto estavam conversando. Agora que havia achado, encorajou Abelard para começar a descer. Os outros seguiram atrás dele. Quando chegaram ao nível mais baixo onde estava a floresta, perceberam uma formidável barreira formada pelas árvores afogadas. Os troncos cinza eram todos torcidos e irregulares, tornando-se impossível distinguir uns dos outros. Parecia um paredão mesclado de cinza. Era quase impossível discernir detalhes ou perspectivas.
 
―Agora sim, isso é o que eu chamo de um bom lugar para uma emboscada‖, disse Halt. Então, alguns segundos depois, ele desceu da sela e andou alguns passos à frente, estudando o terreno. Ele chamou os outros para se juntarem a ele.
 
―Will‖, ele disse, ―você viu a trilha que Tennyson e o seu bando deixaram na pastagem quando saímos da floresta?‖.
 
Will assentiu com a cabeça e Halt fez um gesto apontando para o chão ao redor dele. ―Dê uma boa olhada por aqui e veja se você consegue encontrar alguma diferença‖.
 
Havia um fio de lã pendurado num arbusto na grama. Mais adiante, algo brilhava no chão. Will foi até ele e pegou. Era um botão feito de chifre. Um pouco mais adiante, viu uma distinta marca de calcanhar em um local macio no chão. A grama em si estava bastante pisoteada e amarrotada.
 
―Então, o que você acha?‖ Halt perguntou.
 
Algo definitivamente estava errado, Will pensou, e pelo questionamento de Halt parecia confirmar que o outro Arqueiro achava a mesma coisa.  Mentalmente, ele imaginou as trilhas que tinham visto no topo da subida atrás deles. Impressões vagas na poeira, machucados ocasionais na relva, quase invisíveis a olhos destreinados. Agora aqui, convenientemente, havia fios, botões e uma pegada profunda - justamente o tipo de coisa que Tennyson estava evitando fazer a poucas centenas de metros atrás. E essas pistas agora estavam bem claras tentando colocá-los em uma única direção – para dentro da floresta morta.
 
―Isso tudo parece um pouco... óbvio‖, ele disse devagar. E nesse momento ele percebeu o que estava incomodando sobre estas marcas. Em um momento eles estavam deixando pistas que só um rastreador altamente treinado poderia ver, mais a frente, as pistas estavam tão claras que até Horace poderia seguir.
 
―Exatamente‖, Halt disse, olhando para o fundo cinza da floresta morta. ―É tudo muito conveniente, não é mesmo?‖.
 
―Eles querem que nós sigamos as pistas‖, Will disse. Isso era um fato, não uma questão. Halt balançava a cabeça lentamente.
 
―A pergunta é, por quê? Por que eles querem que a gente os encontre?‖.
 
―Eles querem que apenas os sigamos‖, disse Horace, ligeiramente surpreendido. Halt lhe deu um sorriso.
 
―Bem pensado Horace. Essa capa deve estar fazendo você pensar como um Arqueiro‖. Ele fez um gesto em direção à floresta à frente deles.
 
 ―Querem ter certeza de que nós saibamos que este é o caminho a ser seguido‖.
 
―E só há uma razão para eles terem feito isso‖.
 
―Estão nos esperando em algum lugar lá dentro‖, disse Will. Como Halt, ele estava olhando firmemente para a paisagem cinzenta a sua frente, franzindo a testa um pouco enquanto tentava discernir algum sinal de movimento ou alguma coisa fora do lugar entre as árvores mortas. Will piscou várias vezes, os troncos unidos formavam um borrão cinzento e cansativo para seus olhos.
 
―É o que eu faria‖, Halt disse calmamente. Então, com um toque de desprezo, acrescentou: ―Embora, eu seria um pouco mais sutil ao fazer isso. Esses sinais são quase um insulto à minha inteligência‖.
 
―Elas não sabem, é claro‖, Horace emendou. ―Nenhum deles tiveram que lidar com Arqueiros antes. Como poderiam imaginar que um dos Arqueiros pode ver as pegadas deixadas por um pardal voando baixo sobre um terreno rochoso‖.
 
Halt e Will olharam para ele com desconfiança.
 
―Isso foi sarcasmo?‖ Halt perguntou.
 
―Foi o que pareceu‖, Will disse.
 
―Certo Horace, você estava sendo sarcástico?‖ Halt insistiu.
 
Horace tentou não sorrir. Não foi muito bem sucedido. ―De modo algum Halt. Eu estava sendo apropriadamente respeitoso à vista de suas habilidades surpreendentes. Quase sobrenaturais eu diria‖.
 
 ―Isso foi sarcasmo‖, Will disse em tom definitivo.
 Horace encolheu timidamente. ―Mais irônico do que sarcástico eu diria‖, ele concluiu.
 
Halt assentiu lentamente. ―No entanto‖, ele disse, ―nosso amigo sarcástico - não, nosso amigo irônico - tem razão em ponto. Os Genoveses não têm idéia de quanto sabemos sobre rastrear trilhas. Podem até suspeitar. Mas eles não sabem nada‖. Ele indicou a pegada, o fio e o botão de chifre. ―Fácil demais‖.
 
―Então, o que faremos agora?‖ Horace perguntou.
 
―O que fazemos agora‖, Halt respondeu ―Você pega os cavalos e volta umas poucas centenas de metros e fica esperando‖. Will e eu vamos acabar com esses malditos Genoveses de uma vez.
 
Horace avançou para reclamar com o Arqueiro com as mãos estendidas.
 
―Oh vamos, espere um pouco! Certo, admito que eu estava sendo sarcástico – só um pouco. Mas isso não é razão para me deixar para trás. Você pode confiar em mim!‖.
 
Halt já estava balançando a cabeça e colocou uma mão no antebraço de Horace para tranqüilizá-lo.
 
―Horace, isso não é nenhum castigo. E eu confio em você da mesma maneira que confio em Will. Mas esta não é o tipo de luta para qual você foi treinado. E também não está convenientemente armado‖, acrescentou.
 
Sem perceber, em um gesto intuitivo, a mão de Horace caiu sobre o punho de sua espada que estava na bainha ao seu lado.
 
―Estou sim!‖ ele insistiu. ―Deixe-me chegar perto o suficiente e vou mostrar a esses malditos assassinos o quão bem estou armado! Acho que eu gostaria de ter os assassinos que mataram Ferris bem na ponta de minha espada‖.
 
Halt não soltou o braço do rapaz. Sacudiu-o suavemente para ele entender sua razão.
 
―É por isso que eu quero que você espere um pouco mais para trás. Esta não será uma luta corpo a corpo. Esses homens matam a distância. Will e eu temos nossos arcos, assim estaremos em condições de lutar contra eles. Mas você não vai conseguir chegar perto deles. Irão atirar tantas flechas em você com aquelas bestas, que antes de chegar a vinte metros deles irá parecer um porco espinho‖.
 
―Mas...‖ Horace começou.
 
―Pense nisso, Horace. Você não será capaz de ajudar quando a luta começar‖. Eles vão estar à distância. Será apenas um alvo extra para eles. E se for, eu terei que vigiá-lo e não serei capaz de me concentrar em encontrá-los e matá-los antes que eles nos matem. Agora, por favor, pegue os cavalos e leve-os para longe da área de tiro e nos deixe fazer o trabalho para o qual fomos treinados. ‖―.
 
A luta interior era por muito evidente na face do jovem guerreiro. Foi contra a vontade que ele aceitou e deixou os seus amigos enfrentarem a difícil e perigosa tarefa que estava à frente deles.
 
No entanto, no fundo de seu coração, ele sabia que Halt estava certo. Ele poderia não contribuir em nada nessa missão. Seria na verdade, um impedimento, ou ainda pior, uma distração para seus amigos.
 
―Tudo bem‖, disse ele relutantemente. ―Eu acho que o que você disse faz sentido. Mas eu não gosto nada disso‖.
 
Will sorriu para ele. ―Eu também não gosto disso‖, disse. ―Eu preferia ficar para trás com você e os cavalos. Mas Halt não me dá escolha‖.
 
Horace sorriu para seu velho amigo. Ele podia ver uma luz de determinação nos olhos de Will. Já era hora deles irem ao combater dos Genoveses e Horace sabia que, apesar dos protestos de Will, ele estava pronto para fazer exatamente isso.
 
Sentindo-se pior do que inútil Horace pegou o cabresto de Puxão, ―Vamos rapaz‖.
 
Por um momento, o pequeno cavalo resistiu, virando um olhar inquisidor para o seu mestre, e dando vazão a um relincho aborrecido.
 
―Vá com ele Puxão‖, Will disse, acompanhando a ordem com um sinal da mão. O pequeno cavalo trotou relutantemente atrás de Horace e Kicker.
 
―Abelard siga‖, disse Halt. Seu cavalo balançou a cabeça com rebeldia, mas seguiu para acompanhar os outros dois cavalos de volta da linha cinzenta dos troncos retorcidos.
 
Horace se virou e falou suavemente para seus amigos. ―Se vocês precisarem de mim, é só chamar que eu irei...‖.
 
Sua voz estacou. Não havia nenhum sinal dos dois Arqueiros. Eles tinham simplesmente desaparecido na floresta afogada. Horace sentiu uma emoção de nervosismo subir pela sua espinha. Ele olhou para Puxão.
 
―Dá-me arrepios quando eles fazem isso‖, ele disse. Puxão balançou a cabeça violentamente, sacudindo sua crina em concordância.
 
 ―Ainda assim‖, disse Horace, ―Eu fico contente que eles estão do nosso lado‖.
 
Com a cabeça inclinada para o lado, Puxão considerou Horace com um olho. Isso é o que eu estava tentando lhe falar, parecia querer dizer.
 
 
 
 
20
 
 
Will e Halt estavam separados por cerca de cinco metros, para que não oferecessem um alvo fácil para os Genoveses, deslizavam silenciosamente pela floresta morta. Seus olhos corriam de um lado para outro, esquadrinhando, buscando, olhando novamente pelo caminho por aonde vieram, os dois Arqueiros pareciam fantasmas trabalhando como um único ser, procurando algum sinal de movimento ou um flash de cor entre as árvores que lhes indicasse a presença de alguém.
 
Will procurava da esquerda para o centro e repetia o movimento. Halt procurava da direita para o centro e também ficava constantemente repetindo o movimento. Os dois abrangiam cento e oitenta graus da esquerda, centro e direita.
 
Faziam estes movimentos várias vezes sem criar qualquer padrão previsível, de vez em quando uma rápida olhada na retaguarda.
 
Eles tinham avançado cerca de quarenta metros para o interior da floresta, quando Halt encontrou um lugar que provia uma cobertura melhor do que o normal. Uma árvore havia crescido com múltiplos troncos provendo suficiente proteção para os dois.  Havia também duas outras características na topografia perto da árvore que tomou sua atenção. Verificou a trilha de onde tinha vindo e tendo certeza que estava livre, fez um gesto para Will se juntar a ele. Olhou com aprovação o seu ex-aprendiz deslizar por entre as árvores, tirando vantagem de cada cobertura existente. Ele parecia um borrão, nunca claramente visível, mesmo para olhos treinados como os de Halt. 
 
Os dois agacharam juntos atrás dos grandes troncos. Agora que estavam dentro da floresta, Will percebeu que as árvores emitiam um som próprio. Normalmente em uma densa floresta, seria de se esperar ouvir o sussurro suave do vento através das folhas, o canto dos pássaros e o movimento de pequenos animais. Aqui não havia folhas, pássaros ou animais. Mas, apesar do que tinha achado anteriormente, os troncos e os galhos das árvores não eram tão parecidos. Gemiam e rangiam em protesto, por causa da constante brisa passando por entre as suas articulações secas. Às vezes um galho roçava em sua vizinha, estalando e rangendo. Era como se a floresta gemesse em agonia. 
 
―Que som horrível, não?‖ Halt perguntou. 
 
―Me dá nos nervos‖, Will admitiu. ―O que fazemos agora?‖.
 
Halt indicou um caminho estreito na frente deles que seguia para dentro da floresta por entre os troncos. Era uma trilha sinuosa e deformada, encontrando o seu caminho por entre a massa de troncos cinzentos, mas sempre retornando ao sentido original que era sentido sudeste. 
 
―Ainda estão deixando um rastro bem claro para seguirmos‖, Halt afirmou.
 
Will olhou na direção que ele indicou. Podia ver um pequeno pedaço de tecido, preso na extremidade afiada de um ramo partido.
 
―E não estão sendo nada sutis‖, ele respondeu.
 
Ambos mantiveram a voz baixa, apenas ligeiramente acima de um sussurro. Não tinham idéia de quão perto o inimigo poderia estar. ―Realmente não‖, Halt concordou. ―Eu também tenho visto muitas pegadas ao longo do caminho. Da para jurar que foram feitas por um gigante devido sua profundidade‖.
 
Will estendeu a mão e sentiu o solo com dois dedos. A grama era curta aqui entre as árvores mortas e o solo abaixo delas estava seco e duro. ―Tampouco esta terra não é nada macia‖, falou.
 
―Não, esta terra secou a muitos e muitos anos atrás. Eles estão fazendo isso novo de modo intencional. Deixando-nos saber exatamente qual caminho que eles seguiram‖. 
 
―E que sigamos do jeitinho que eles querem‖, disse Will.
 
Um leve sorriso apareceu no rosto de Halt. ―Isso também‖.
 
―Mas nós não faremos isso, certo?‖ Will disse. Parecia lógico para ele. Se o teu inimigo queria que você fizesse algo, fazia sentido fazer algo completamente diferente.
 
―Nós não faremos‖, Halt concordou. ―Eu sim‖.
 
Will abriu a boca para protestar, mas Halt levantou a mão para evitá-lo de fazer.
 
―Se parecer que estamos fazendo o que eles querem, podem ficar muito confiantes. E isso pode ser bom para nós‖. Enquanto falava, seus olhos esquadrinhavam a floresta sem cessar, procurando qualquer rastro de movimento, qualquer sinal de que os Genoveses estivessem por perto.
 
―Verdade‖, Will admitiu. ―Mas eu...‖.
 
Mais uma vez, Halt erguera a mão e o parou no meio da frase.
 
―Will, nós poderíamos ficar aqui dias procurando por eles, temos que fazer alguma coisa para se mostrarem. E nesse meio tempo, Tennyson estaria cada vez mais distante de nós. Temos que correr o risco. Afinal de contas, apenas supomos que eles estão por aqui. E também podem estar nos enganando – deixando convenientemente todos esses sinais para nós os seguirmos e em seguida dão o fora daqui, deixando-nos rastejar por aí tentando encontrá-los e perdendo horas do dia para isso‖.
 
Will franziu a testa. Isso não ocorreu a ele. Mas era possível.
 
―Você acha que eles fariam isso?‖ ele perguntou.
 
Halt balançou a cabeça propositalmente devagar. ―Não. Eu acho que eles estão aqui. Eu posso senti-los. Mas é uma possibilidade‖.
 Atrás deles, um ramo moveu-se com um ruído mais alto que o normal, gemendo como se a madeira estivesse sendo envergada. Will virou com seu arco surgindo rapidamente em suas mãos. Mais uma vez, ele sentiu um nó apertado na boca do estômago, enquanto se perguntava onde o inimigo estaria, quando eles iriam se mostrar. Halt inclinou-se para falar um pouco mais perto, sua voz ainda mais silenciosa do que antes.
 
―Vamos esperar uma hora ou coisa assim. Temos aqui uma boa posição e estamos muito bem cobertos de todos os lados. Vamos ver o que eles fazem agora que sabem que estamos aqui‖.
 
―Você acha que eles vão se mover?‖ Will perguntou.
 
―Não. Eles são muito bem treinado para isso. Mas vale a pena tentar. Em uma hora, o sol estará mais baixo e a sobras mais profundas e longas. Isso vai funcionar para nós‖.
 
―Para eles também‖, Will sugeriu, mas Halt sacudiu a cabeça.
 
―Eles são bons‖, disse ele. ―Mas não são treinados do jeito que nós fomos. Estão mais acostumados a trabalhar nas cidades, misturando-se no meio da multidão. E têm mais, nossas capas nos darão uma grande vantagem aqui. As nossas cores combinam com o ambiente muito melhor do que aquele púrpura maçante que estão vestindo‖. Então vamos esperar por uma hora e ver o que acontece. ‖―.
 
―E o que fazemos depois?‖.
 
―Então eu vou me mover novamente, seguindo essa trilha óbvia que deixaram‖. Halt viu uma grande ingestão de ar de Will e sabia que o jovem Arqueiro estava prestes a protestar. Mas não lhe deu oportunidade. ―Serei cuidadoso Will, não se preocupe. Eu já fiz este tipo de coisa antes, você sabe‖, acrescentou suavemente. E ele foi recompensado por um relutante sorriso de seu aprendiz.
 
―Eu disse algo divertido? ele perguntou‖.
 
Will balançou a cabeça, parecia refletir sobre se deveria dizer alguma coisa, então decidiu ir em frente.
 
―Bem, nada de mais... antes de sairmos de Redmont, Lady Pauline falou comigo. Sobre você‖.
 
A sobrancelha de Halt disparou para cima. ―E exatamente o que ela falou sobre mim?‖.
 
―Pois bem...‖ Will deu de ombros desconfortavelmente. Agora desejou que não houvesse trazido este assunto à tona.
 
 ―Ela me pediu para manter os olhos em você‖.
 
Halt balançou a cabeça assentindo várias vezes, digerindo a informação antes de começar a falar de novo. ―É tocante saber que ela tem tanta fé em você‖. Ele fez uma pausa. ―E tão pouca em mim‖.
 Will pensou que não deveria ter dito nada. Agora Halt não ia deixar este assunto de lado.
 
―Eu acredito que esta instrução não veio acompanhada por algum tipo de declaração como esta‖ Ele não está mais tão jovem você sabe?‖―.
 
Will hesitou por algum tempo. ―Não. Claro que não‖.
 
Halt bufou com desprezo. ―Essa mulher acha que eu sou senil‖. Mas a despeito disso, ele pensou nela, alta e graciosa, então sorriu com carinho. Em seguida recuperou-se e voltou aos negócios.
 
―Tudo bem. Vamos dar um crédito a ela então. A razão por que eu estou indo na frente é que eu preciso de suas habilidades de se movimentar em silêncio. Você é menor e mais ágil do que eu, então terá uma chance melhor de passar despercebido. Eu vou quebrar o silencio e me moverei á frente deles. Você espera aqui por cinco minutos, em seguida mova-se em círculo pela esquerda. Eles devem prestar atenção em mim e em seguida, se você é tão bom quanto diz, não vão notar você‖.
 
Ele indicou um declive raso no chão, seguindo pela a esquerda. Cerca de dez metros depois, uma árvore havia caído e seu maciço tronco cinzento estava em ângulo sobre o caminho. Estes foram os dois itens que havia percebido quando se abrigou atrás da grande árvore. Ele havia procurado algo desse tipo desde que eles entraram na floresta.
 
―Rasteje de barriga por esta pequena vala até o tronco caído. Então por trás dele continue indo em frente. Isso deve te levar a pelo menos trinta metros daqui sem que eles possam te ver. Com alguma sorte, eles deverão pensar que você ainda estará aqui, pronto para me dar apoio se eu precisar. Durante todo o tempo, você estará circulando por trás deles‖.
 
―Mesmo que não saibamos onde eles estão?‖ Will perguntou. Mas ele estava começando a ver a inteligência do plano de Halt.
 
Halt estudou a floresta à sua frente mais uma vez, os cantos dos olhos cerrados em concentração.
 
―Eles não estão longe da trilha‖, disse. ―Veja estas árvores. É muito difícil disparar com alguma precisão através destes troncos, a mais de cinqüenta metros. Mas com trinta é possível. Se você for por esse caminho, de maneira que alcance uma centena de metros para a esquerda e em seguida, começa a se mover paralelamente a mim, você deve ficar fora da visão deles. E isso vai colocá-lo bem atrás deles‖.
 
Will concordava com os detalhes. Parecia um bom plano. Mas havia um obstáculo em potencial.
 
―Eu ainda não gosto do fato de você estar indo chamar a atenção deles‖, disse.
 
Halt encolheu os ombros. ―Não consigo pensar em outro jeito de fazer isso. Mas acredite em mim, eu não vou andar de qualquer jeito deixando meu peito exposto, como
se eu estivesse dizendo‖ Coloque uma flecha aqui, por favor. ‖Eu vou me esquivar de uma árvore para outra. E as sombras irão me ajudar. Você deve se certificar, de que se tentarem atirar esteja pronto para abatê-los. Se você não estiver lá para me ajudar, estarei condenado‖.
 
Will respirou profundamente várias vezes. Em sua mente, ele poderia visualizar a evolução da situação, com ele se aproximando pelo flanco dos Genoveses e Halt se movendo por entre as árvores. Era um plano bastante simples, o que era bom. Planos simples funcionavam melhor do que aqueles complexos que se baseavam em uma cadeia de eventos que tinham que se encaixar. As coisas não deveriam correr mal, por experiência própria ele já havia aprendido, melhor assim. Ele imaginou um dos assassinos surgindo do esconderijo. A probabilidade pensou, é que estariam atrás de algum tronco caído. Suas bestas seriam mais adequadas para disparar em nível mais baixo, perto do chão.
 
Ao contrário de um homem armado com um arco, eles não teriam que ficar de pé para atirar. E estariam menos expostos do que se tivessem se escondendo atrás de uma árvore em pé, para dar seu tiro. Halt observou que mente do jovem amigo estava trabalhando e ele deixou que refletisse sobre o assunto. Ele não tinha pressa para se mover. As sombras ainda não estavam longas o suficiente para seu gosto e ainda poderia ver que Will estava assimilando o plano de ação, para ter certeza de não haver mal-entendido.
 
Depois de um ou dois minutos, ele falou de novo.
 
―Nós temos várias coisas a nosso favor Will. Primeiro: esses assassinos não estão familiarizados com a formação de um Arqueiro nem com nossa habilidade. Se eles não conseguirem ver você saindo detrás desta árvore, irão pensar que ainda está aqui - o que lhe dará uma vantagem‖.
 
―Segundo: eles estão usando bestas. Vai ser relativamente uma luta de curto alcance, assim não teremos nenhuma vantagem em particular na precisão. Mas, por outro lado, eles também não‖.
 
As bestas mais poderosas poderiam ser superiores a um arco. Uma flecha curta é menos estável do que uma seta longa de acordo com a distância que teria que percorrer seria menos precisa. Neste curto espaço, dentro dessas árvores essa flechas curtas são melhores.
 
―Eles não estão usando bestas muito poderosas de qualquer maneira‖, Will afirmou. Bestas realmente poderosas são grandes e as cordas seriam grossas. Para recarregá-las um homem precisaria das duas mãos e ainda teria que sentar no chão para apoiar os pés também. E isto pode levar vários minutos entre cada tiro. Os Genoveses estão usando uma versão menos potente, com um estribo na parte da frente do arco. O arqueiro coloca o pé no estribo para manter a besta presa ao chão e em seguida usa as duas mãos e os músculos das costas para puxar a corda e engatilhar. O tempo entre o tiro e o recarregamento da besta, duraria cerca de vinte ou trinta segundos. E o arqueiro teria que ficar ereto durante este procedimento. Eles poderiam primeiro atirar de baixo, deitados sob um tronco, ele percebeu.  Mas então eles teriam que se expor aos tiros dos Arqueiros.
 
―Eles iram se mostrar depois do primeiro tiro‖, afirmou.
 
Halt apertou os lábios. ―Podem ter mais de um arco cada um‖, lembrou Will. ―Portanto não arrisque. Mas de qualquer jeito nossa esperança é que sejamos mais rápido que eles.‖ 
 
Levaria cerca de vinte segundos para os besteiros recarregar. Então eles teriam que mirar e atirar novamente. Will poderia colocar uma flecha no arco, puxar a corda, apontar e disparar em menos de cinco segundos. Halt era um pouco mais rápido. No momento que os Genoveses estivessem prontos para um segundo tiro, os dois Arqueiros poderiam ter mais de uma dúzia de flechas no ar, todas indo diretamente para eles. Os Genoveses tinham a vantagem do tiro em uma emboscada. Mas se errassem as primeiras flechas, as chances de repente se virariam a favor dos Arqueiros.
 
Pela décima vez, Halt estudava a floresta ao seu redor. Movendo a cabeça ligeiramente, olhou para oeste, podendo ver o brilho do sol entre os troncos. Agora as sombras estavam alongadas e a visibilidade entre as árvores cada vez mais incerta. Se ele esperasse mais um pouco, ficariam presos no interior de uma floresta escura.  Já era tempo de se mover.
 
―Tudo bem‖, disse ele. ―Lembre-se: cinco minutos, em seguida saia agachado por essa vala‖.
 
Will sorriu ironicamente. Era mais uma pequena depressão do que uma vala, ele pensou. Mas Halt não viu essa reação. Mais uma vez, estudava a floresta a sua frente e ao lado de sua posição. Levantou-se de joelhos para um semi-agachamento.
 
―Vamos convidar nossos colegas para dançar‖, ele disse, e deslizou silenciosamente para fora do esconderijo, um borrão verde e cinza que rapidamente se fundiu com as sombras da floresta entre as árvores.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
21
 
 
Os olhos de Halt eram fendas em conseqüência da concentração, conforme ele se movia para frente entre as árvores, seguindo o caminho estreito e indistinto. Analisando constantemente seu caminho, no chão, para os lados e em frente. Ele notou com um sorriso sarcástico, as pistas ocasionais deixadas pelos homens que seguia – um pedaço de pano jogado ocasionalmente em um galho, uma muito óbvia pegada no chão. Ele manteve-se pretensamente olhando estes sinais e seguindo as trilhas que tinham deixado. Não deixaria que sua presa soubesse que ele estava a par de seu pequeno jogo, pensou.
 
O chão estava recheado de galhos e mais galhos mortos que o vento tinha arrancado das árvores e jogado no chão da floresta. Eles formavam um quase contínuo tapete debaixo de seus pés, hábil como era em se mover em silêncio, porém, mesmo Halt não podia evitar algum ruído de estalo dos galhos rachando entre seus pés e o chão macio. Ele podia fazê-lo, se movendo muito lentamente, testando o chão pé a pé antes de colocar seu peso sobre ele. Mas se mover lentamente era uma opção perigosa. Ele precisava de velocidade. Movendo-se rapidamente, se tornava indistinto, um borrão cinza deslizando entre os troncos nus - que faria dele um alvo mais difícil. Além disso, não havia muito sentido se mover em silêncio, ele queria que os Genoveses soubessem que estava aqui.
 
Ele escorregou para a cobertura de um tronco grosso, cinzento. Havia muitos anos que as árvores tinham se afogado, algum mato já tomava conta do chão da floresta e alguns pequenos arbustos haviam se estabelecido sobre a base das árvores mortas. As folhas verdes e os troncos cinzentos se misturavam com as cores da sua capa e colaboravam para escondê-lo.
 
Ele se agachou observando a floresta à sua frente. Longos anos de treinamento garantiam que sua cabeça mau se movesse enquanto seus olhos iam de um lado a outro, buscando, testando, consciente de mudar o foco de sua análise de perto para as profundezas da floresta. Seu rosto permanecia na sombra do fundo de seu capuz. Se os Genoveses estivessem olhando, veriam um rápido movimento atrás da árvore. Mas agora eles o teriam perdido de vista enquanto se misturava com a paisagem e se ele não se movesse ficariam incertos se ainda estava lá ou não.
 
Isso significava que eles estariam procurando por ele, e não por Will. Ele sentiu uma cruel sensação de satisfação, sabendo que Will estaria chegando por trás. Halt imaginava agora que Will teria começado a se mover, serpenteando para longe dos três troncos de árvore que os haviam abrigado a pouco, arrastando-se de bruços ao longo da vala rasa para o abrigo do tronco caído.
 
Ele não conseguia pensar em qualquer outra pessoa melhor para estar com ele. Gilan talvez. Suas habilidades de se mover em silêncio eram incomparáveis entre os Arqueiros. Claro, talvez Crowley, seu velho camarada.
 
Mas, por mais hábil que ambos fossem, ele sabia que Will seria sua primeira escolha. Crowley era experiente e calmo sob pressão. Mas ele não poderia se comparar a se mover tão invisível quanto Will. Gilan poderia ser mais silencioso que Will, não muito mais é claro. E Will tem uma vantagem sobre Gilan. Sua mente trabalha mais rápido e ele podia ver alternativas não-convencionais antes do que Gilan. Se acontecesse algo inesperado, ele sabia que Will poderia agir por iniciativa própria e dar a melhor solução para o assunto. De maneira nenhuma isso denegria Gilan, pois ele era um dos Arqueiros mais qualificados e habilidosos. Só que Will tinha uma ligeira vantagem em tomar uma decisão rápida e assertiva. Gilan pensaria um pouco sobre a situação e provavelmente chegaria à mesma conclusão. Em Will, essa habilidade era instintiva.
 
Havia outro ponto que era muito importante para a presente situação. Halt sabia, embora Will provavelmente não, que seu tiro com o arco era melhor do que o de Crowley ou Gilan.
 
Na verdade, ele pensou com um sorriso, isso poderia se revelar o ponto mais importante nesse momento.
 
Esperou mais alguns segundos, deixou sua respiração e sua freqüência cardíaca se acalmarem. Apesar de ele ter falado para Will - que já havia feito este tipo de coisa antes - ele não gostava da idéia de ficar intencionalmente se mostrando para o inimigo. Mover-se assim, como estava fazendo por entre as árvores, ficando na expectativa de receber uma flecha nas costas a qualquer segundo. A idéia de ficar se mostrando para seu inimigo era profundamente contra tudo que havia aprendido em sua formação. Halt preferia se mover sem ninguém vê-lo, ou de nunca ficarem ciente de que ele havia estado ali.
 
Ele sabia que mesmo nessas condições, somado a proteção de sua capa, seria um alvo ruim. Mas os Genoveses eram atiradores qualificados. Seriam mais do que capazes de acertar em um alvo pequeno. É para isso que eles eram tão bem pagos pelas pessoas que os contratavam.
 
"Você está perdendo tempo", ele murmurou. "Não quer voltar lá de novo, não é?‖.
 
E a resposta era óbvia. Não. Ele não queria. Mas não havia alternativa. Ele examinou o caminho mais uma vez, calculando sua rota para os próximos cinco ou dez metros, em seguida deslizou rapidamente de seu esconderijo e foi em frente para o labirinto cinza de árvores mortas.
 
 
 
De barriga no chão, usando os cotovelos, tornozelos e joelhos, deslizando para frente e não levantando a cabeça para não denunciar sua posição, Will havia deixado para trás seu esconderijo nas múltiplas árvores mortas. Era uma técnica chamada rastejar de cobra, que ele havia treinado por horas a fio quando aprendiz, deslizando por baixo dos esconderijos, tentando manter-se despercebido do olhar afiado de seu professor. Vez por outra ele sentia que estava começando a dominar a técnica, só para ter o seu ego frustrado por uma voz sarcástica: Será que eu estou vendo um traseiro
ossudo aparecendo por entre a grama atrás desta rocha negra? Eu acho que sim. Talvez eu deva colocar uma flecha nele, se o seu dono não ABAIXAR AGORA!
 
Hoje, é claro, não havia mais o risco da zombaria sarcástica do seu professor. Na situação atual, a vida de Halt e a sua, dependiam de Will manter-se bem abaixado, perto do chão. Ele rastejava lentamente, afastando os ramos e os galhos secos do seu caminho. Ao contrário de Halt, não podia se dar ao luxo de fazer o menor ruído. Verdade, a floresta era repleta de sons de arranhões, gemidos e rangidos. Mas o som agudo de um galho sendo partido, diria a um ouvinte interessado que alguém estava em movimento por ali.
 
Perto da terra como estava, sua visão se mantinha focada nas curtas folhas de grama que estavam a apenas alguns centímetros de seu nariz. Seu mundo se tornou um pequeno espaço de pó, grama e galhos cinza. Assistiu a um pequeno besouro marrom passando apressado a alguns centímetros do seu rosto, o ignorando completamente. Um grupo de formigas marchava firmemente sobre a sua mão esquerda, recusando-se a serem desviadas de seu destino. Deixou-as ir, em seguida moveu-se à frente devagar, afastando um ramo delicadamente para o lado. Fazendo um pequeno ruído, aumentado pelos seus nervos à flor da pele, ele parou por um momento. Então disse a si mesmo que ninguém poderia ter ouvido esse leve barulho, ainda por cima misturado com todos os sons da floresta, então continuou. Will estava agora a poucos metros de distância da cobertura que a árvore caída fornecia. Uma vez que estivesse por detrás do tronco, poderia se dar ao luxo de mover-se mais rapidamente - e com mais conforto. Não haveria necessidade de manter esta postura de bruços, depois de estar oculto atrás do tronco de um metro de espessura.
 
Mas por enquanto, ele resistia ao impulso de ir mais depressa até o tronco. Se fizesse isso, poderia colocar todo seu trabalho em risco. Um movimento brusco poderia denunciá-lo. Em vez disso, ele se concentrou nas velhas técnicas que aprendeu sozinho quando aprendiz, buscando a sensação de que seu corpo estava realmente colado no chão, tornando-se consciente de seu peso pressionando a grama áspera, a terra e os gravetos.
 
Sentia-se completamente vulnerável, porque pela primeira vez ele estava efetivamente desarmado. A fim de rastejar de bruços, ele tirou a corda de seu arco, empurrando-o através de duas pregas em sua capa, feitas exatamente para este propósito. Se tentasse rastejar com o arco montado, o ângulo formado entre a corda e a madeira poderia enroscar em um ramo ou um galho ou até mesmo numa moita de capim. O arco montado também era muito grande, tornando-o susceptível a movimentos bruscos. Agora estava preso firmemente em linha reta ao longo de suas costas, um simples pedaço de madeira de teixo, que agora o acompanhava suavemente sem causar obstruções.
 
Pela mesma razão, ele inverteu seu cinto, fazendo com que o estojo duplo das facas ficasse nas costas, abaixo da capa. Novamente, isso permitia um progresso suave e silencioso. Porém também significava que se ele fosse descoberto, perderia preciosos segundos tentando pegar suas facas.
 
Era um contra censo se mover na presença de inimigos, desarmado dessa maneira. Em particular, pelo seu arco estar sem corda. Como dizia o velho provérbio Arqueiro,
um arco sem corda é uma vara de pau. Pareceu uma piada na primeira vez que ouvira, cinco anos atrás. Nesse momento não tinha graça nenhuma.
 
Finalmente, ele estava entrando no abrigo fornecido pelo tronco caído em posição horizontal à trilha. Permitiu-se um pequeno suspiro de alívio. Não houve gritos de alarme, nem a agonia repentina de um dardo de besta cravado em suas costas. Sentiu a tensão aliviar ao longo de seu corpo. Sem perceber, seus músculos haviam se contraído instintivamente, na vã tentativa de aliviar a dor de uma ferida imaginária em suas costas.
 
Levantando-se vagarosamente - embora não demais - começou a fazer progresso mais rápido. Quando se afastou um pouco, levantou-se com cuidado na posição ereta, deslizou para trás da maior árvore que ele pode encontrar e colocou a corda em seu arco. Sentiu outro alívio da tensão. Agora, ele não era o único que estava em risco. Os Genoveses também.
 
 
 
Halt abaixou-se sobre um joelho, fingindo estudar outra pista, deixada intencionalmente pelos Genoveses. Na verdade, apesar de sua cabeça abaixada, seus olhos estavam levantados, analisando o emaranhado de troncos cinzentos e sombras na sua frente.
 
Em resumo, entre as árvores à sua esquerda, ele viu um ligeiro movimento e talvez uma pitada de um maçante roxo entre as sombras. Permaneceu imóvel. Agachado como estava, oferecia um alvo ruim para os besteiros, se de fato estavam lá. A probabilidade era que os assassinos iriam esperar ele se levantar para ter um alvo maior.
 
Olhou para a esquerda. As árvores que ele havia passado a poucos metros atrás eram estreitas – deveria ser um bosque novo quando foi atingido pelo alagamento. Alguns eram pouco mais do que mudas e nenhum fornecia um esconderijo muito bom. Ele sorriu sombriamente. Então foi por isso que os Genoveses tinham escolhido este lugar para deixar outra pista. Eles saberiam que a pessoa que os estava seguindo, iria se ajoelhar aqui para estudar a pista deixada por eles, então teria que se levantar em algum momento.
 
E nesse momento totalmente vulnerável, ele seria um alvo perfeito para eles. Halt olhou procurando a fonte de movimento e cor roxa novamente, mas não viu nada. Agora fazia sentido. Quando ele parou, o besteiro teria levantado sua arma mirando para o ponto de tiro. Esse foi o pequeno flash de movimento que havia notado. Agora, ele teria que se mover novamente e os besteiros bem treinados estariam esperando que ficasse de pé. Os músculos de Halt estavam tensos se preparando para se mover.
 
Ele olhou à sua esquerda e viu uma árvore que era marginalmente mais espessa do que suas vizinhas, embora não espessa o suficiente para escondê-lo totalmente. No entanto, ele pensou, teria que arriscar. Esperava que Will estivesse agora em posição. Ele olhou para a esquerda algumas vezes - não o suficiente para alertar os Genoveses – e não viu nenhum sinal dele.
 
O que podia significar que ele estava lá. Por outro lado, ele poderia estar atrasado por causa de algum imprevisto. Afinal de contas, também poderiam não estar em nenhum lugar por aqui. Então Halt pensou em Will. Tinha a certeza e segurança de que ele estaria em sua posição. Sem aviso, lançou-se para o lado do joelho dobrado, rolando suavemente para o abrigo parcial da árvore que tinha escolhido. E esperou. Os nervos estavam tensos.
 
Nada. 
 
Nenhum sombrio som de bestas sendo disparadas. Nenhum zumbido seguido de batidas atrás da árvore. Nada. Só o gemido assustador das árvores mortas que se torciam e se esfregavam umas contra as outras. Isso lhe disse algo. Os Genoveses não iam ser enganados a arriscar um tiro apressado, apenas por causa de um movimento súbito. Sua disciplina era muito boa e não permitiria isso. 
 
Em contrapartida, pensou, o movimento que havia visto entre as árvores, poderia ser apenas sua imaginação. Afinal de contas não haveria ninguém lá.
 
No entanto, de alguma forma, ele sabia que os Genoveses estavam lá, esperando. Algum sexto sentido lhe dizia que este era o lugar e o momento certo. A combinação de fatores - os indícios evidentes deixados na trilha, as árvores baixas e finas – eles estavam a poucos metros dali, esperando para fazer sua próxima jogada. Halt estava deitado atrás da árvore. No momento estava seguro. Mas logo que ficasse de pé, seria visível. Ele olhou ao seu redor. Poderia rastejar até outra árvore, mas a maior estava a uma boa distância. Com todas estas árvores finas, ele estaria exposto se tentasse se mover.
 
O que era, disse a si mesmo pela segunda vez, o motivo pelo qual os Genoveses haviam escolhido este local. Não havia mais dúvidas, havia visto mesmo o movimento por entre as árvores. Era um local perfeito para emboscadas. E ele estava em uma situação de desvantagem. Estava relativamente seguro no momento e permaneceria desta maneira enquanto estivesse de barriga no chão. Mas também não podia ver nada. Ele sabia que se levantasse a cabeça para estudar a situação, estaria se expondo a levar uma flechada bem entre os olhos. Ele estava preso aqui e definitivamente cego. Todas as vantagens estavam com os Genoveses. Eles tinham visto aonde tinha ido. Seu movimento brusco rolando para o lado deveria tê-los alertado que a presença deles já era conhecida. Tudo que precisavam fazer era esperar que ele se movesse e depois matá-lo.
 
Não importa o quanto pensava nisso, a situação não ficava melhor. Se ele permanecesse aqui, mais cedo ou mais tarde, um dos assassinos se deslocaria para o flanco, enquanto o outro mantinha a besta apontada para o local onde ele estava escondido. Lembrou com um humor sombrio da discussão que tivera com Will, apenas uma hora atrás.
 
Depois do primeiro tiro, todas as vantagens estariam conosco.
 
Exceto por um pequeno detalhe. Depois do primeiro tiro, ele provavelmente estaria morto.
 
Fechou os olhos e concentrou-se ferozmente. Tinha uma chance que dependia de que Will estivesse em posição atrás dos Genoveses. Então, sentiu uma inundação de segurança passando por ele. Will estaria lá porque Halt precisava que estivesse. Estaria lá porque era Will - e ele nunca o havia deixado na mão.
 
Halt abriu os olhos. Ainda deitado, ele tirou uma flecha de sua aljava e na seqüência, colocou-a no seu arco. Em seguida, contraiu seus pés e pernas para baixo do corpo e se agachou. Considerou seu próximo movimento. Todos os seus instintos gritavam para subir lentamente sob seus pés e adiar o momento em que os Genoveses iriam puxar o gatilho. Mas ele descartou o pensamento. Um movimento lento, simplesmente daria aos Genoveses mais tempo para alinhar sua mira.
 
Um movimento brusco pode assustá-los e levá-los a apressar seu tiro. Não era provável, admitiu para si mesmo. Mas era possível. E esta seria a melhor escolha.
 
"Espero que você esteja aí, Will‖, ele murmurou para si mesmo. Então, arremessou-se sobre os seus pés, arco na mão e corda puxada, buscando desesperadamente por algum sinal, algum lampejo de movimento por entre as árvores.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
22
 
A floresta parecia uma extensa área morta, mas, como Halt havia previsto, havia um matagal recentemente estabelecido nos troncos cinza. Enquanto Will se afastava silenciosamente do sólido abrigo fornecido pela árvore caída, ele encontrou uma nova variedade. 
 
Uma trilha de gavinhas da videira encontrou o seu caminho até uma das árvores antigas da floresta, em espiral ao longo de um galho morto, em seguida, permitiu que sua ponta caísse em direção ao caminho. Ele roçou-a quando passou a árvore que foi o seu abrigo.
 
Imediatamente, quatro dos espinhos em forma de gancho se prenderam no material da sua capa, segurando a capa e Will firmemente no lugar. Will soltou um xingamento em voz baixa. Ele não tinha tempo para lidar com essa demora, mas não tinha escolha. Estendeu sua mão para trás e pegou um punhado da capa. Delicadamente, no começo, e em seguida, com mais força, ele tentou puxar a roupa livre da furiosa videira.
 
No começo, Will achou que teria sucesso, pois sentiu a videira ceder um pouco, mas era apenas a elasticidade natural da videira sendo testada. Então ela ficou totalmente esticada e ele ainda estava preso. Na verdade, Will percebera que agora estavam mais presos ainda, seus movimentos fizeram os espinhos irem mais fundo ainda na roupa. Pior ainda era o fato de que a videira espinhenta o mantinha em uma posição meio agachada. 
 
Não tinha saída. Ele teria que tirar a capa e cortar a videira. Preso por trás como estava não conseguia alcançar a irritante trepadeira. Isso significava que ele teria que tirar sua aljava, que ele vestia sobre a capa, e depois tirar a capa em si. 
 
Tudo isso significava mais movimentos, que poderiam entregar sua posição para os assassinos que o aguardavam em uma armadilha mais adiante. Will xingou em voz baixa novamente. Vagarosamente, com extremo cuidado, ele passou a alça da sua aljava sobre sua cabeça e colocou-a de lado. Soltando o fecho que prendia a capa ao seu pescoço, ele soltou-se da capa. 
 
―Depressa!‖, ele pensou, ―Halt está dependendo de você estar em posição!‖ ·.
Mas ele resistiu ao pânico e moveu-se com uma paciência interminável, sabendo que um movimento apressado poderia traí-lo. Estava sem a capa agora, e sacou sua faca saxônica. A capa havia ficado presa na vinha na altura de suas escápulas. Will cortou facilmente a vinha com a lâmina afiada e vagarosamente, a capa amontoada em suas mãos, caiu ao chão. 
 
Ainda mantendo os movimentos dolorosamente lentos, ele recolocou a capa. Por um momento considerou deixá-la para trás, mas a camuflagem extra que ela proporcionava decidiu por ele. Passou a alça da aljava sobre sua cabeça e ajeitou-a com as flechas nos seus ombros, ajustando a aba da capa que cobria as penas de suas flechas. Colocou o fio no seu arco e estava pronto para continuar. Deu uma olhada para trás, pelo caminho que veio. Nenhum sinal de movimento, de que havia sido visto. Afinal, ele pensou, o primeiro sinal disso seria possivelmente uma seta de uma besta. 
 
Ele tinha que assumir que não havia sido detectado e seguiu adiante, andando agachado agora, sempre perto do chão, andando de uma cobertura para a outra. Diversas vezes desviou-se do caminho mais rápido para evitar mais das ‗inocentes‘ videiras. Aprendi essa lição do jeito difícil, ele pensou. 
 
Quando achou que tinha ido uns 70 metros à esquerda, virou-se um pouco para a direita para ficar paralelo ao caminho que Halt estava seguindo. Se fosse mais longe, não conseguiria fazer nada caso algo acontecesse. A densidade das árvores o impediria de ver qualquer coisa. E conforme andava, Will foi angulando em direção ao caminho que seu mentor pegou. 
 
Caminhava ereto agora, trocando a camuflagem pela velocidade, torcendo para que conseguisse compensar o tempo perdido com a videira. A essa distância, ele podia arriscar isso. A não ser que ele e Halt estivessem completamente errados, os assassinos estavam agora a sua direita, no mesmo lado do caminho e olhando para o outro lado. Seu maior inimigo era o barulho e ele andava sobre o manto de galhos, cuidando para não quebrar nenhum e chamar a atenção para si. 
 
Cinqüenta metros à direita ele percebeu uma mudança na floresta, as árvores eram mais espaçadas umas das outras e seus troncos consideravelmente mais finos. Moveu-se para um novo ponto de vantagem e estudava o terreno detrás de uma árvore. 
 
Nenhum movimento. Mas seus instintos lhe diziam que este era o local certo. Andou uns 5 metros para frente e se escondeu atrás de outra árvore, nunca tirando os olhos da área onde as árvores ficaram mais finas. 
 
Will tinha até levantado seu pé direito quando percebeu uma movimentação rápida e parou completamente. Esperando, pé ainda levantado, olhos cuidando das árvores cinza, esperando para ver se haveria outra movimentação. 
 
Então ele os viu. E depois que os viu, ficou imaginando como não havia os visto antes. Tinha que admitir, no entanto que o fraco púrpura das capas misturava-se bem ao ambiente sombrio da floresta. 
 
Ele sorriu sombriamente. Foi o movimento que os traiu. Mova-se e quase certamente serás visto. Halt o disse certa vez quando treinavam.
 
―Você tinha razão, Halt‖. disse silenciosamente.
 
Como esperava, os dois assassinos estavam agachados atrás de um tronco de árvore morto. Aumentaram a altura do tronco adicionando uma pilha de galhos mortos, criando uma barreira maior, mas que ainda passaria despercebida. Ambos os homens tinham suas bestas apoiadas no topo da barreira. Eles estavam de lado para Will, ambos olhando fixamente num ponto a uns 30 metros de onde estavam. 
 
Will seguiu a linha de visão deles, mas não conseguiu enxergar nada. Possivelmente foi onde eles avistaram Halt, e onde ele se escondeu, pensou ele. 
 
Ouviu um som - um corpo movendo-se rapidamente, seguido do barulho de galhos se quebrando. Parecia vir do lugar que eles estavam olhando e um deles chegou a se levantar um pouco sobre a barreira, sua besta pronta e procurando um alvo. 
 
As árvores serviam como um escudo entre ele e os Genoveses. Estava mais longe deles do que gostaria de estar. Se tivesse que atirar uma flecha, provavelmente a flecha acertaria uma de dúzias de galhos que estavam no caminho. Estimou que estivesse 60 metros distante do caminho principal, e que precisava chegar mais perto para ter um tiro certeiro. 
 
O que quer que tenha se movido momentos antes agora tinha capturado toda a atenção dos assassinos e, a não ser que Will pisasse em um galho, era praticamente impossível que eles o vissem. Will tirou uma flecha da sua aljava e a preparou no arco e começou seu caminho, silencioso como uma raposa, saindo da árvore que o protegia e em direção aos Genoveses. 
 
Cinco metros. Dez metros. Mais cinco metros. Ainda assim eles mantiveram toda sua atenção nas árvores do caminho principal. Se não estivessem prestando tanta atenção, provavelmente teriam o visto na visão periférica. Will se aproximava em ângulo, não diretamente às costas deles, mas sabia que pela linguagem dos seus corpos eles tinham toda a atenção focada em outro lugar. Eram como dois cães de caça, seus corpos tremendo de excitação como quando sentem o cheiro de sua presa pela primeira vez. 
 
Mais um passo. Sinta o galho embaixo do pé, use os dedos para mover o galho sem quebrá-lo, verifique se seu pé está em piso firme agora e somente depois, mova seu peso para o pé em questão. Comece o processo novamente. As árvores não eram tão densas agora e não serviam tanto como obstáculo entre Will e os assassinos, em mais alguns passos ele estaria...  
 
Halt se levantou. 
 
Não houve aviso nenhum, em um momento, a floresta parecia vazia, e no momento seguinte, o Arqueiro de barba acinzentada apareceu do chão com seu arco pronto e uma flecha já preparada.
 
Will escutou um grito de surpresa de um dos dois homens, viu Halt mudar sua posição levemente conforme o som revelou a posição do assassino. Ambas as bestas ergueramse um pouco e Will atirou sua flecha no homem que estava mais perto. Enquanto fazia isso escutou o barulho da corda do arco de Halt, seguido de perto pelo barulho da corda batendo no parador do arco. 
 
A primeira seta errou completamente o alvo. Tinha sido disparada pelo Genovês que Will tinha escolhido como alvo e no segundo antes dele apertar o gatilho, a flecha de Will o acertou, atirando-o de lado, em direção ao seu companheiro e fazendo-o perder a mira. Aí a flecha de Halt o acertou no peito e ele apertou o gatilho já morto, enquanto caía para trás. Um galho saindo de um tronco o segurou meio em pé, estirado. 
 
Will xingou ao perceber que haviam feito um erro perigosamente amador. Ambos haviam escolhido o mesmo alvo, deixando um dos Genoveses ileso e parcialmente camuflado pelo seu companheiro morto. Viu a besta virar em sua direção agora. Atirou uma flecha a esmo, percebeu que errou e voltou a se esconder atrás da árvore. Ouviu Halt atirar novamente, sua flecha rebatendo em uma das árvores ao redor. Então uma seta arrancou um pedaço da árvore que Will usava pra se proteger, indo parar entre os galhos mortos no chão sem causar dano nenhum. 
 
‗Duas bestas, dois tiros‘, Will pensou exultante, ‗Agora nós pegamos ele‘.
 
Saindo de seu esconderijo pelo outro lado, Will ficou com a boca seca ao perceber o Genovês apontar outra besta na direção de Halt, ouviu o barulho da corda soltando. Halt o havia alertado que os assassinos poderiam ter mais de uma besta pronta para atirar e estava certo.
 
Então o coração de Will parou ao escutar o barulho mais aterrorizante que jamais havia escutado em sua curta vida: o grito de dor de Halt, seguido pelo barulho de seu arco caindo ao chão.
 
‗Halt!‘, gritou. Os assassinos completamente fora de seus pensamentos no momento. Procurou em vão, olhando na direção onde Halt havia aparecido, mas não havia sinal dele agora. Halt havia caído, havia sido atingido e caído. 
 
Ouviu um movimento súbito, virou-se e viu o Genovês desaparecer sob a proteção das árvores. Não era mais visível a não ser por um breve movimento púrpura no meio dos troncos das árvores. Will atirou três flechas na direção do movimento, ouvindo-as
acertar três árvores. Ouviu então o barulho de cascos de cavalo. Os assassinos logicamente haviam preparado uma rota de fuga, não havendo chance de alcançá-lo agora. 
 
Não havia necessidade de silêncio ou camuflagem agora. Correu para o local onde vira Halt pela última vez, quebrando galhos e folhas ao longo do caminho, passando pelas malditas videiras quando elas apareciam na sua frente e tentavam impedir de seguir adiante. 
 
Seu coração bateu mais forte ao ver o Arqueiro no chão, sua capa manchada de sangue fresco, parecendo ter muito sangue. 
 
‗Halt!‘ Ele gritou sua voz falhando de medo. ‗Está tudo bem?‘.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
23
 
Por um segundo, não houve resposta e uma terrível escuridão se apoderou do coração de Will. Ela foi dissipada assim que o Arqueiro barbudo virou-se para encará-lo, sua mão direita apertava seu antebraço esquerdo, detendo parcialmente o fluxo do sangramento. Halt deixou escapar uma careta de dor.
 
 ―Eu estou bem‖. ele disse através de seus dentes meio cerrados. ―Aquela maldita flecha apenas raspou no meu braço, mas dói como um demônio‖.
 
Will abaixou-se ao lado de seu mestre apoiando-se em um de seus joelhos, e, facilmente afastou a mão de Halt do ferimento.
 
 ―Deixe me dar uma olhada‖. ele disse. Primeiro afastou a mão de Halt, com certo medo de que pudesse sair um jato de sangue pulsante que lhe indicasse que uma artéria principal houvesse sido cortada. Ele ficou aliviado a constatar que havia apenas um fluxo pequeno e constante de sangue. Tranqüilamente ele pegou sua faca saxônica e cortou a manga da camisa do Arqueiro a certa distância em volta do ferimento. Olhando por certo tempo, Will colocou a mão no kit de primeiro socorros que cada Arqueiro leva em seu cinto e puxou um pedaço de tecido limpo, para assim limpar e ver a extensão dos danos causados pelo ferimento.
 
 ―Ele quase errou‖. Will disse. ―Um centímetro para a esquerda e ele teria realmente errado‖.
 
Houve um corte superficial na pele do antebraço – tinha quatro centímetros de comprimento, mas não era profundo o suficiente para cortar músculos ou tendões. Will destampou o cantil de Halt e lavou a ferida com água, limpando o ferimento com a ajuda do tecido limpo. O sangue foi limpo momentaneamente, mas logo depois começou a jorrar novamente. Will deu os ombros. Ao menos a ferida estava limpa. Ele passou um pouco de pomada, pegou uma roupa de campo da mochila e colocou sobre o ferimento de Halt.
 
 ―Você arruinou minha jaqueta‖. Disse Halt em tom acusador olhando os rasgos na manga que caiam por qualquer um dos lados de seu braço. Will soltou um sorriso, aquela voz mal-humorada com aquele tom queixoso o tranqüilizara mais que qualquer outra coisa era um sinal de que o Arqueiro só estava ligeiramente ferido.
 
 ―Você poderá costurá-la hoje à noite‖. Disse a Halt.
Halt bufou indignado ―Eu estou ferido. Você pode costurar isso para mim depois‖. Em seguida adicionou em um tom mais sério ―Bem isto fica para outra hora. Ouço um cavalo‖.
 
Will puxou seu braço direito ajudando-o com os pés, embora isso não fosse realmente necessário. Halt havia sido ferido levemente, mas o Arqueiro mais velho reconheceu a preocupação de mãe que Will teve após ver seu professor ser atingido, e aceitou a ajuda sem resistir. Pela mesma razão ele deixou Will retirar seu arco longo e entregá-lo a ele.
 
 ―Sim‖. Will disse, já respondendo uma pergunta. ―Parece que eles amarraram seus cavalos nas árvores mais atrás Eu atirei em um deles, mas errei. Sinto muito Halt‖.
 
Ele estava abatido, sentindo que deixaria seu mentor desanimado. Halt afagou-o no ombro.
 
 ―Não poderia ter ajudado‖. ele disse. ―A precisão nesta floresta é impossível, muitas árvores e galhos no caminho‖.
 
 ―Nós cometemos um erro‖. Disse Will, e quando Halt levantou a sobrancelha em uma pergunta silenciosa, ele continuou. ―Nós dois atiramos no mesmo homem, isso deixou claro que o outro homem ia atirar em você‖.
 
Halt encolheu os ombros ―Isso não poderia ser previsto. Eu sempre te digo que alguma coisa sempre dá errado em uma luta. Sempre há algo que você não pode planejar‖.
 
 ―Suponho que sim. É justo...‖ Will parou, incapaz de articular seus pensamentos. Ele sentia de alguma forma que poderia ter feito melhor, que poderia ter livrado Halt da dor desta ferida – e do fato dele ter chegado tão perto da morte. Halt colocou uma mão em seu ombro e o sacudiu levemente.
 
 ―Não se preocupe com isso, olhe o resultado. Um deles está morto e tudo que temos para mostrar é um arranhão no meu braço. Eu acho muito razoável se considerar que eles começaram com todas as vantagens. Você não acha?‖.
 
Will não disse nada. Ele estava imaginando Halt deitado no chão da floresta com uma flecha de besta enterrada no peito, os olhos olhando vazios por entre os ramos austeros acima da sua cabeça. Halt o sacudiu novamente com um pouco mais de vigor.
 
 ―Não é?‖ Perguntou Halt permitindo que um sorriso cansado aparecesse em seu rosto.
 
 ―Suponho que sim‖. Ele concordou.
 
Halt balançou a cabeça satisfeito, embora secretamente, ele desejasse ter matado ou capturado o segundo Genovês também. Sua tarefa seria certamente mais fácil se esse fosse o caso. ―Vamos voltar e encontrar Horace, provavelmente ele está enlouquecendo pensando o que aconteceu a nós.‖ 
 
 
 
Horace estava rendido de fato. Ele havia montado um pequeno acampamento, mas tinha acabado de sentar para relaxar nele. Ele passeou tanto para cima e para baixo, esperando um sinal de seus amigos que formou um sulco na grama alta. Os três cavalos estavam menos interessados, comendo a grama em volta do local.
 
Naturalmente os Arqueiros avistaram Horace antes de ele os perceber. Mesmo se aproximando de um acampamento amigo, os Arqueiros se movimentavam discretamente, se camuflando com o fundo da paisagem. Will deu um assovio. Puxão levantou sua cabeça, eriçou as orelhas e relinchou em resposta. Horace os viu e correu através da grama para encontrá-los. Parou a alguns metros, vendo a manga rasgada e o curativo no antebraço de Halt.
 
 ―Está tudo...‖.
 
Halt levantou a mão para tranqüilizá-lo ―Eu estou bem. Nada além de um arranhão‖.
 
 ―Literalmente‖ Disse Will que, após o choque e medo de ver seu mestre ferido, se deu ao luxo de brincar com a situação. Halt olhou de soslaio para ele.
 
 ―Isso foi um pouco rude‖. disse ele ―É realmente muito doloroso‖.
 
 ―O que aconteceu?‖ interrompeu Horace, sentindo que poderia ocorrer uma longa troca de brincadeiras nas quais os Arqueiros mostram afeição. ―Vocês os pegaram?‖.
 
 ―Um deles‖. Disse Will com seu sorriso desaparecendo ―O outro fugiu‖.
 
 ―Só um?‖ Disse Horace antes que pudesse se controlar. Ele não estava acostumado com sucesso parcial vindo dos Arqueiros, então ele observou a expressão dos dois e percebeu que sua indagação poderia ter soado indelicada.
 ―Quero dizer‖, emendou rapidamente ―Excelente, muito bom‖. Ele fez uma pausa constrangedora, esperando por uma resposta sarcástica, mas surpreendeu-se quando ela não veio.
A verdade era que tanto Halt quanto Will concordavam evidentemente com o sentimento que Horace expressou. Ambos desejavam ter tido um resultado melhor, e mesmo o pensamento não sendo tão forte, o sentimento deles era de um trabalho feito pela metade.
 
Horace fitou-os por um segundo ou dois, perplexo com a falta de reação deles, então decidiu chamá-los para perto do acampamento, onde havia um pequeno fogo queimando.
 
 ―Sentem-se‖. disse ele ―Vou fazer um café e vocês me contam o que aconteceu‖.
 
Eles contaram brevemente os acontecimentos dentro da floresta fechada. Nenhum deles mencionou o medo causado por um inimigo invisível, sabendo que o primeiro sinal dele poderia ser um clarão de setas de bestas vindo em sua direção. Will também omitiu os momentos de agonia que passou se livrando dos espinhos de um arbusto. E percebeu que um atraso de mais alguns segundos fazendo isso, e ele não teria chegado a tempo de salvar Halt da primeira seta. Ele afastou esses pensamentos, era o tipo de detalhes que não merecia ponderação.
 
 ―Então o que faremos agora?‖ Disse Horace, sentado em volta do fogo pequeno com suas pernas cruzadas e bebendo café. ―Vocês acham que o sobrevivente poderá criar outras emboscadas?‖.
 
Horace e Will olhavam para Halt enquanto o mesmo analisava a questão.
 
 ―Eu duvido‖. disse ele após certo tempo ―Genoveses são mercenários, lutam apenas por dinheiro e não por qualquer razão ou motivo que esteja à parte do compromisso, e o nosso amigo sabe que agora as vantagens são nossas. Se ele nos espera pode pegar um de nós, mas as chances são de que outro de nós vá pegá-lo, e isso é um mau negócio. Ele poderia servir aos propósitos de Tennyson, mas duvido que conseguiria convencer nosso amigo roxo a servir uma ‗causa forasteira‘‖.
 
Ele olhou para o oeste, o sol já estava abaixo das copas das árvores mortas, a noite não demoraria a cair sobre eles.
 
 ―Vamos acampar aqui esta noite‖. Declarou ele.
 
 ―E amanhã?‖ Perguntou Will.
 
Halt virou-se e alcançou seu alforje. Ele sentiu um extremo desconforto ao esticar o seu braço esquerdo para pegá-lo. A ferida estava seca e endurecida e o sangue agora marcava o novo curativo. Horace se levantou rápido e pegou o alforje para ele.
―Obrigado Horace‖. Disse ele. Ele tirou seu mapa de dentro do alforje e o estendeu.
 
 ―Pena que o mapa não indica esta floresta morta‖. Disse Will.
 
Halt concordou.
 
 ―Será depois daqui‖. Disse ele. ―O mapa indica que estamos na floresta de Ethelsten, não menciona todas as árvores mortas, mas deve mostrar algo de importante para nós‖.
 
Will virou o mapa para ver mais claramente e Horace se ajoelhou atrás de Halt olhando por cima do ombro do mesmo.
 
 ―Eu não acho que nosso amigo esteja a nossa espera novamente, mas eu posso estar errado. E ‖Eu estava errado‖ são as últimas palavras de muitos viajantes descuidados, então não pretendo segui-lo cegamente nesta floresta novamente. Nós iremos mais adiante até aqui – um quilômetro a oeste ou mais- e seguiremos de lá o nosso caminho.
 
 ―Como vamos pegar a trilha deles novamente?‖ Will perguntou ―Eles podem ter pegado qualquer direção já que estão dentro da floresta‖.
 
 ―Poderiam ter pegado‖. Disse Halt ―Mas qualquer que seja a direção que tomem estarão cercados pelo mesmo rio que causou todo este problema‖.Ele indicava as ramificações cinza, fantasmagóricas nas sombras da noite. ―Não importa a direção que tomem, eles terão de atravessá-lo, e só existe um píer num raio de 15 quilômetros. É para lá que estão indo‖.
 
 ―É verdade‖. Disse Horace. ―Não imagino Tennyson estando tão ansioso a ponto de atravessar a nado um rio tão profundo que deixe suas roupas molhadas‖.
 
 ―Ele é realmente um homem que adora o seu próprio conforto, não é?‖ Disse Halt secamente. ―Mas há outras razões para irmos um pouco pelo oeste antes de entrar na floresta novamente. Além de nos livrarmos de quaisquer armadilhas preparadas por aquele assassino roxo, iremos contornar por fora para chegar ao píer‖.
―Onde devemos pegar seus rastros novamente‖. disse Will com satisfação.
 
 ―Com alguma sorte‖. concordou Halt, enrolando o mapa e guardando-o em seu alforje.
 
 ―Eu acho que houve uma mudança de sorte para o nosso lado, e o outro lado foi jogado aos leões‖.
 ―Exceto para aquele que está na floresta‖. Disse Will
Halt assentiu ―Sim, exceto para ele. Acho que estou sendo mal agradecido. Nós já tivemos nossa cota de boa sorte por hoje‖.
 
A ironia se mostrou sob a luz da manhã seguinte.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
24
 
O dia começou normal o suficiente. Os três viajantes acordaram cedo. Ia ser um dia de longa caminhada então comeram um substancial café da manhã, arrumaram o campo e cavalgaram para o oeste pela grama ao redor da margem da floresta. Depois de muitos quilômetros, Halt descobriu uma apertada passagem entre as arvores, puxou Abelard para o sul e liderou o caminho adentro da floresta.
 
Will e Halt estavam acostumados com a sensação sepulcral do cinza e das formas sem vida ao seu redor. Horace, por outro lado, estava um pouco temeroso pela redondeza. Seus olhos iam de lado a lado tentando perfurar a paisagem de troncos mortos.
 
 ―Como vocês conseguiram ver alguém nessa confusão?‖ ele perguntou. Os dois Arqueiros sorriram para ele.
 
 ―Isso não foi. fácil‖ Will disse. A cor monótona das árvores tendem a destruir qualquer senso de perspectiva, como ele notou um dia antes.
 
 ―Gilan fez muito bem em acertar a primeira‖. Halt disse distraidamente
 
Will olhou para ele com uma pequena careta. ―Gilan?‖.
 
Halt olhou para ele curioso ―O que tem ele?‖ ele perguntou, com a cara limpa.
 
 ―Você disse, ‗Gilan fez muito bem em acertar a primeira‖. Horace explicou. Agora era vez de Halt fazer careta.
 
 ―Não eu não disse‖. ele disse. Então adicionou ―Eu disse?‖.
 
A expressão nos rostos dos seus dois companheiros disse a ele que ele disse Gilan. Balançou a cabeça e deu uma pequena risada.
 
 ―Eu queria dizer você Will‖. ele disse ―Desculpa, Will. Você sabe que estou sempre confundindo vocês dois‖.
 ―Não importa‖ disse Will. Mas enquanto eles continuaram, ele sentiu uma pintada de preocupação na sua mente. Ele nunca viu Halt confundir ele com Gilan. Ele olhou de leve para Horace, mas o grande guerreiro estava satisfeito com a explicação.
Então ele deixou passar.
 
Houve poucas oportunidades para discutir isso enquanto eles atravessavam a floresta. Halt liderava uma fila única de 5 metros de intervalos entre eles, só para prevenir caso o Genovês vivo tenha descoberto o caminho que eles estavam pegando e tenha colocado outras armadilhas. Dessa vez sentindo simpatia por Horace, Will assumiu a retaguarda, regulamente checando a trilha por trás deles por qualquer sinal de perseguição.
 
Todos os três deram sinais de satisfação quando eles finalmente saíram da floresta afogada. À frente deles estava um gramado, e, assim que eles chegaram ao topo de uma pequena cordilheira no final da floresta, os troncos mortos de árvores estavam ao redor do rio atrás deles.
 
 ―Estou feliz em estar fora dessa floresta‖. disse Horace.
 
Halt sorriu para ele ―Sim, não podia parar de pensar aqueles malditos Genoveses teriam algo pronto para nós‖.
 
De novo Will fez uma careta. ―Aqueles Genoveses? Quantos você acha que eles são?‖.
 
Halt olhou para ele em um momento de pequena confusão.
 
 ―Dois‖. ele disse. Então balançou a cabeça ―Não, apenas um é claro. Você pegou o outro, não pegou?‖.
 
 ―Nós dois o pegamos‖. Will relembrou e Halt olhou vazio por um momento, então assentiu, como se tivesse lembrado.
 
 ―Claro‖; ele parou, fez uma careta e disse ―Eu disse dois?‖.
 
 ―Sim‖. disse Will. Halt deu uma pequena risada e balançou a cabeça, como quem quer se para limpar a mente.
 
 ―Devo está ficando muito distraído‖ disse alegremente.
 
Agora era vez de Will fazer careta, ele começou a sentir que alguma coisa estava muito errada. Halt normalmente não é tão afável. E ele definitivamente não estava distraído. Ele falou tentativamente agora, sem querer ofender seu professor.
 
 ―Halt? Tem certeza de que você está bem?‖.
―Claro que estou‖. disse Halt com um traço de aspereza ―Agora vamos achar aquela passagem‖.
 
Ele tocou Abelard com os calcanhares e saiu à frente, cortando a conversa. Enquanto ele cavalgava, Will notou que ele estava coçando seu braço ferido.
 
 ―Seu braço está bem?‖ Ele chamou.
 
Halt imediatamente parou de coçar. ―Está bom‖ ele respondeu rapidamente, num tom que quebrou qualquer chance de conversar sobre aquilo. Atrás dele cavalgando lado a lado Will e Horace olharam confusos um para o outro. Então Horace deixou para lá. Não era a primeira vez que a maneira de Halt agir o deixava confuso. Ele estava acostumado com o imprevisível jeito do velho Arqueiro. Will estava menos inclinado a esquecer a questão, mas hesitou em dizer algo para Horace sobre sua crescente preocupação - em parte porque não estava muito certo sobre o que estava preocupado.
 
Eles acharam a passagem, um lugar onde o rio alargava então a rápida água corrente desacelerava um pouco e se separava formando alguns pequenos bancos. Halt cavalgou a frente até Abelard estar com os pés embaixo d‘água. Ele se inclinou para o lado e olhou para a água limpa atrás e a frente dele.
 
 ―Areia limpa no fundo pelo jeito‖. ele disse ―Parece estar firme o bastante‖.Ele mexeu Abelard para frente andando no centro do rio. A água crescia devagar até os joelhos do cavalo enquanto eles moviam a frente, então chegou à sua profundidade máxima.
 
 ―Venham‖. ele chamou Will e Horace e eles andaram pela água depois dele. Quando chegaram ao mesmo nível que ele, eles diminuíram a velocidade e prosseguiram, checando o fundo com cuidado enquanto iam. Deixavam ir alguns metros à frente então seguiam, mantendo uma distância atrás dele em caso de um buraco inesperado. Mas não havia nenhum e o nível da água começou a cair de novo depois que passaram pelo meio. Alguns minutos depois eles passaram por um banco de areia grande.
 
 ―Ora, ora o que vemos aqui?‖ Halt perguntou. Ele estava apontando para o banco que emergia gentilmente acima da água. A terra estava lamacenta e foi pesadamente atravessada recentemente. Havia múltiplos sinais saindo do banco de areia.
 
Will desmontou e ajoelhou-se para estudar as pistas, ele achou vários sinais similares entre eles, assim notando que a maioria do bando ainda estava a pé.
 
 ―São eles‖ disse Will, olhando para Halt. O Arqueiro de barba cinzenta assentiu e olhou para o horizonte.
―Ainda estão indo para o sul?‖ ele disse.
―Ainda estão indo para o sul‖. disse Will.
 
Halt trabalhou a informação por alguns segundos então afagou sua barba. ―Talvez devêssemos acampar aqui à noite‖.
 
Will olhou afiadamente para ele, não tendo certeza se escutara corretamente.
 
 ―Acampar?‖ ele disse, sua voz subindo de tom. ―Halt, é quase meio dia. Ainda temos horas de luz!‖.
 
O Arqueiro pareceu absorver a informação e assentiu.
 
 ―Certo. Vamos continuar então. Lidere o caminho‖.
 
Halt parecia vago, Will pensou enquanto subia na sela de Puxão. Ele assentia de tempo a tempo como se houvesse muita informação na mente. E enquanto assentia, ele sussurrava para si mesmo, num tom tão baixo que Will não compreendia as palavras. A pequena preocupação que Will sentia mais cedo era agora uma ampla faixa de preocupação. Com certeza havia algo de errado com seu mestre. Em todos esses anos que eles estiveram juntos Will nunca havia visto ele tão... ele procurou a palavra certa e achou... desconectado do mundo a sua volta.
 
Eles atravessaram as árvores que percorriam o rio e agora estavam atravessando um terreno aberto - um amplo gramado com poucas árvores e arbustos.
 
Eles saíram do clima grosseiro e áspero do país atrás deles e a terra agora era mais macia e gentil. À distância, Will podia ver uma linha escura que marcava o começo de um vale. Ele estimou que estivessem a pelo menos um dia de distância ou talvez mais. O ar puro fazia distâncias parecerem enganosas.
 
 ―Parece que eles estão indo para as colinas‖. ele disse.
 
 ―Isso faz sentido‖. Halt respondeu ―O mapa diz que há cavernas para lá. E os Forasteiros adoram se esconder em lugares escuros. Acho que iremos em formação de combate‖.ele adicionou.
 
Will olhou de leve para ele, mas a sugestão fazia sentido. O terreno aqui era aberto e o andar era fácil. Não havia motivos para andarem juntos numa trilha. Formação de Combate significava que eles iriam cavalgar numa larga linha de frente, separados por trinta metros. Isso os tornava alvos difíceis e possibilitava que cada um pudesse cobrir e ajudar o outro companheiro se necessário.
Will foi com Puxão para esquerda enquanto Horace ia para direita. Halt ficou no meio e cavalgaram calmamente, numa estendida e longa linha por mais ou menos uma hora. Então Halt assobiou e pôs os punhos cerrados acima de sua cabeça, era o sinal para de campo para ‗juntem-se a mim‘.
 
Curioso, porque ele não havia visto nada que indicasse uma razão para eles andarem juntos novamente, Will trotou Puxão através do longo gramado até onde Halt estava sentado em Abelard. Horace chegou alguns momentos depois e Will esperou Horace chegar antes de perguntar a Halt.
 
 ―O que foi?‖.
 
Halt olhou para ele confuso ―O que foi o que?‖.
 
Os sinais de alarme estavam ainda mais altos no cérebro de Will. Ele falou com paciência e calma.
 
 ―Halt, você nos colocou em formação de combate há uma hora ou mais e agora você nos chama. O que aconteceu para você mudar de idéia?‖.
 
 ―Ah, isso!‖ Um olhar compreensão apareceu no rosto de Halt quando ele percebeu o porquê da pergunta de Will. ―Eu só achei que nós poderíamos cavalgar juntos por um tempo. Eu estava me sentindo um pouco... sozinho eu acho‖.
 
 ―Solitário?‖ Foi Horace que disse, sua voz em claro tom de descrença ―Halt, do que você está...?‘‖.
 
Will fez um rápido gesto com a mão para Horace e o jovem guerreiro desistiu da pergunta.
 
Will moveu Puxão para mais perto de Abelard e inclinou se para perto de Halt, olhando com cuidado sua face e seus olhos. Ele estava um pouco pálido, pensou. Ele não conseguia ver os olhos direito. A sombra do capuz da capa de Halt os cobria.
 
Abelard se movia nervosamente, dando pequenos passos. Ele soltou um ronco profundo do peito. Não era pela proximidade de Will e Puxão, o jovem Arqueiro sabia. Abelard estava completamente acostumado com ambos. Então ele percebeu que o cavalo sentiu algo de errado com Halt e estava nervoso com isso.
 
 ―Halt olhe para mim, por favor. Deixe- me ver seus olhos‖ ele disse.
Halt olhou para ele e moveu Abelard alguns passos para longe.
 ―Meus olhos? Não há nada de errado com meus olhos! E não fique tão perto assim, você está incomodando Abelard!‖ Inconscientemente ele coçou seu braço ferido.
 
 ―Como está o braço?‖ Will perguntou, mantendo sua voz calma e despreocupada.
 
 ―Está bem‖. Halt gritou raivosamente para ele e de novo Abelard movia-se nervosamente.
 
 ―É porque você está cutucando ele‖. Will disse num tom pacificador. Mas Halt já estava muito nervoso.
 
 ―Sim. Eu estava. Porque machuca. Deixe-se levar um tiro de arco algum dia desses e você vai descobrir! Agora vamos jogar papo furado o dia inteiro sobre meus olhos e meu braço e preocupar meu cavalo? Fique parado, Abelard!‖ ele gritou.
 
A boca de Will despencou. Ele nunca, nunca em todo tempo que ele passou com Halt havia ouvido o Arqueiro levantar voz com Abelard. Arqueiros simplesmente não faziam isso.
 
 ―Halt‖. ele começo, mas Halt interrompeu.
 
 ―Porque enquanto nos estamos desperdiçando tempo aqui, Farrell e seus capangas estão indo cada vez mais longe!‖.
 
 ―Farrell?‖ Dessa vez era vez de Horace estar totalmente preocupado ―Halt, estamos seguindo Tennyson, não Farrell. Farrell era o líder dos Forasteiros na Selsey Village!‖.
 
Ele estava certo. Farrell liderava um grupo de Forasteiros e tentava atacar uma pequena isolada vila de pescadores na costa Oeste de Araluen. Foi esse evento que primeiro alertou Halt para os planos dos Forasteiros em Hibernia. Halt olhou para Horace.
 
 ―Eu sei disso!‖ gritou. ―Você acha que eu não sei disso? Você acha que estou ficando louco?‖.
 
Houve uma pausa. Nem Will nem Horace sabiam o que dizer a seguir. Halt balançou sua cabeça com um olhar furioso para um e para outro, os desafiando.
 
 ―E ai? Você acha?‖ ele repetiu, quando ninguém disse nada, ele bateu com força os calcanhares em Abelard e partiu em um trotar lento.
 
Para o oeste.
 
 ―Will, o que está acontecendo?‖ Horace perguntou enquanto Halt cavalgava para a direção errada.
 
 ―Eu não sei, mas é ruim isso eu posso dizer‖. Will respondeu. Moveu Puxão perseguindo Abelard, chamando seu mestre.
 
 ―Halt! Volte!‖.
 
Horace seguiu incerto. O Arqueiro barbudo não se incomodou de virar para responder Will. Mas eles o ouviram chamando
 
 ―Venham logo, se vocês estão vindo! Nós estamos perdendo tempo e esses Temujai não podem está muito longe de nós agora!‖.
 
 ―Temujai?‖ Horace disse a Will ―Os Temujai estão a mil quilômetros de distância!‖.
 
Will balançou sua cabeça com tristeza, fazendo Puxão trotar mais rápido.
 
 ―Não na mente dele‖. ele disse asperamente. Ele entendeu agora. Alguma coisa fez Halt perder todos os sentidos da situação e do tempo. Ele estava vendo inimigos e eventos passados dos meses ou anos antes.
 
 ―Halt! Espere-me!‖ ele chamou.
 
Então, de repente, ele colocou Puxão a um galope completo enquanto seu mestre levantava os braços e deixou sair um grito enquanto batia no chão ao lado de um alarmado e preocupado Abelard.
 
E ficou lá sem se mover.
 
 
 
 
 
 
25
 
Halt!
 
Will gritou angustiado enquanto ele forçava Puxão a um galope completo. Chegando até a figura parada no longo gramado, se jogou da cela e ajoelhou se ao lado dele. Abelard se movia nervosamente ao lado de seu mestre com cabeça baixa tentando empurrar ele com seu focinho, procurando por sinal de vida. O pequeno cavalo relinchava constantemente, mais havia um tom de ansiedade no som – Um tom que Will nunca escutou antes.
 
 ―Calma Abelard‖. ele disse calmamente. Ele sinalizou com as costas da mão para o cavalo se afastar. ―Afaste-se garoto‖.
 
O cavalo não estava fazendo nenhum bem a Halt se movendo e empurrando, só iria atrapalhar. Relutante, Abelard afastou-se poucos passos. Normalmente ele só responderia a Halt, mas ele era inteligente o suficiente para reconhecer que seu mestre estava incapacitado e que Will era o próximo na linha de comando. Tranqüilizado pelo tom calmo na voz de Will, ele parou de fazer os pequenos barulhos e ficou parado. Ele manteve levantado suas orelhas e os seus olhos em Halt.
 
Halt estava com a face para baixo e gentilmente Will o virou e retirou o manto de sua face. Seus olhos estavam fechados e sua face estava mortalmente pálida. Ele não parecia estar respirando e Will sentiu uma repentina onda de terror passar por ele.
 
Halt estava morto? Não podia ser! Era impossível. Ele não poderia imaginar um mundo sem Halt.
 
Então a figura parada estremeceu e recomeçou a respirar e Will sentiu um grande alívio passar por ele. Horace chegou, descendo da sela e ajoelhando se no outro lado do Arqueiro caído. A preocupação era óbvia em sua face.
―Ele está...‖ Ele hesitou.
Will balançou a cabeça. ―Ele está vivo, mais inconsciente‖.
 
Halt deixou entrar outra respirada estremecida que parecia mexer seu corpo todo. Então sua respiração acalmou um pouco. Mas ele estava respirando forçadamente, e só algumas breves respiradas. Então é por isso, Will percebeu, ele estava respirando daquele jeito estranho que o estremecia, porque ele precisava de oxigênio extra nos seus pulmões.
Rapidamente Will retirou sua capa e a dobrou para formar uma pequena almofada.
 
 ―Levante a cabeça dele‖. Disse para Horace. O guerreiro gentilmente levantou a cabeça de Halt e Will colocou a capa dobrada embaixo. Horace abaixou a cabeça na capa. Ele estudou a figura parada do Arqueiro, com seu senso de inutilidade a mostra em sua face.
 
―Will‖. ele disse, ―O que faremos? O que aconteceu com ele?‖.
 
Will balançou a cabeça, então inclinou se para frente e gentilmente levantou uma das pálpebras de Halt. Não houve nenhuma reação do inconsciente Arqueiro. Mas Will notou que sua pupila estava dilatada mesmo o dia ainda estando relativamente claro. Ele sabia que era uma reação automática a pupila se retrair um pouco quando exposta a uma luz inesperada. Aparentemente, o sistema de Halt não estava reagindo aos estímulos comuns.
 
 ―E então?‖ Horace perguntou. Ele esperava que Will já tivesse alguma idéia sobre qual seria o problema. De novo Will balançou a cabeça.
 
 ―Eu não sei‖ ele disse.
 
Ele deixou o olho se fechar de novo. Ele colocou um dedo na garganta de Halt, sentindo o pulso na grande artéria ali. Estava oscilante e irregular, mas pelo menos ainda estava ali. Sentou-se e começou a pensar sobre a situação. Todos os Arqueiros eram treinados para administrar um tratamento médico básico, no caso de um colega estar ferido. Mas isso estava além de bandagem e costura. Não era um ferimento que ele poderia isolar e...
 
Um ferimento! No momento que ele pensou ele se lembrou que Halt estava constantemente tocando e coçando seu ferimento no antebraço. Ele afastou a manga de Halt até a linha que ele havia costurado noite passada e rasgou a costura deixando a manga cair do braço de Halt.
 
A atadura ainda estava no lugar. Uma pequena mancha mostrava de onde o sangue saia antes do sangramento parar. Ele se inclinou para frente e cheirou o ferimento, recolhendo-se rapidamente com uma exclamação de nojo.
 
―O que foi?‖ Horace perguntou rapidamente.
 
 ―Seu braço. Está cheirando a podre. Eu acho que é aqui que o problema mora‖. Mentalmente ele se repreendeu. Ele devia ter pensado nisso antes. Então deixou passar o momento de crítica. A ferida parecia comum. Não teria motivos para suspeitar de uma ligação com o comportamento de Halt. Sacou sua faca e espetou a ponta afiada no final da atadura. Abelard gemeu um aviso.
―Está tudo bem Abelard‖. ele disse, sem tirar os olhos da tarefa. ―Calma garoto, calma‖.
 
Puxão moveu-se para perto do seu companheiro oferecendo conforto e suporte para Abelard. Ele relinchou gentilmente como se estivesse afirmando a Abelard que Will tinha a situação sobre controle. Will queria ter a mesma confiança em si mesmo.
 
Ele cortou o curativo e levantou-o para longe do braço de Halt. O curativo saiu facilmente, mas onde o corte ainda estava aberto, ele parecia ter colado. Isso o deixou curioso. Ele não achou que teria sangue o suficiente para o ferimento secar deixando o curativo preso assim. Ele estava relutante em simplesmente rasgar o curativo dali. Ele não saberia quanto mais dano aquilo poderia causar.
 
Ele levantou uma mão para Horace.
 
―Pegue um cantil para mim‖. ele disse e o alto jovem correu para pegar o cantil que estava amarrado à sela de Kicker. Abelard estava mais próximo, mas em seu estado de nervosismo Horace não tinha certeza de como ele reagiria se ele chegasse perto. Ele deu o cantil para Will, que começou a derramar água cuidadosamente no curativo, fazendo-o ficar encharcado para descolar de qualquer que seja o que estava colando o curativo ali.
 
Depois de mais ou menos um minuto, ele começou a puxar gentilmente a ponta e sentiu que estava descolando. Halt se moveu, resmungando quieto. Abelard reclamou.
 
―Calma‖. Will disse gentilmente, ―Calma ai‖.Ele não tinha certeza se as palavras eram para Abelard ou Halt. Ele decidiu que estava falando com os dois. Horace ficou de joelhos de novo com os olhos abertos e fascinados enquanto assistia seu amigo trabalhar no curativo que estava preso.
 
Levou vários minutos encharcando e enxugando e gentilmente retirando o tecido, mas eventualmente eles limparam a ferida e puderam ver o problema que estavam enfrentando.
 
―Oh meu deus!‖ Horace disse. O terror na sua voz era óbvio. Will fez um som estranho sair de sua garganta e por um momento virou os olhos para longe da terrível visão do antebraço de Halt.
 
O corte em si, que ele esperava que já estivesse seco e fechado ainda estava sangrando. A carne em torno estava revestida com uma massa de pus sem cor. O cheiro de podre que Will notou antes agora estava evidente. Os dois jovens instintivamente recolheramse. Mas talvez o pior de tudo fosse a pele em volta do resto do braço. Estava inchado a quase o dobro do tamanho normal. Isso explica Halt coçando e tocando seu braço o dia inteiro, Will pensou. Todo o antebraço inchado estava sem cor. Um amarelo doentio estava ao redor do machucado que ia criando um tom azul-preto com partes de vermelho vivo. Ele tocou o antebraço de Halt gentilmente com um dedo. A pele estava quente ao toque.
 
―Como isso aconteceu? Você limpou e enfaixou a ferida quase imediatamente!‖ Horace disse chocado, em voz baixa. Ele e Will já viram várias batalhas e ferimentos nos últimos anos. Mas nunca algo parecido com isso. Nenhum deles nunca vira uma infecção nesse nível. Ainda mais em uma ferida limpa e tratada em tão pouco tempo.
 A face de Will estava severa enquanto ele examinava o machucado. Halt se movia constantemente, gemendo e tentando tocar na ferida. Will o parou gentilmente, forçando seu braço livre para baixo.
 
―Devia ter alguma coisa no dardo daquela besta‖. ele disse finalmente, então Horace olhou para ele não compreendendo.
 
―Alguma coisa?‖.
 
―Veneno‖. Will disse brevemente. Ele sentiu a falta de esperança e incerteza crescer dentro de si de novo. Ele não tinha menor idéia do que deveria fazer agora. Nenhuma idéia de como tratar esse terrível ferimento. Nenhuma idéia de como contra-atacar o veneno – ele tinha certeza de que era veneno.
 
Ele sentiu a falta de esperança sendo submersa pela onda de pânico. Halt poderia perder seu braço ou pior, ele poderia morrer aqui, a milhas de qualquer lugar. E tudo por que Will, seu confiante protegido, o famoso Will Treaty, renomado entre o reino de Araluen pelo seu pensamento rápido e decisivo, não tinha a menor idéia do que fazer. Ele tocou de novo o ferimento no braço e percebeu que sua mão estava tremendo. Tremendo de medo, pânico e o sentimento de ser inútil.
 
Ele tinha que fazer alguma coisa. Tentar alguma coisa. Mas o que? De novo ele se viu encurralado pela resposta inevitável. Ele não sabia o que fazer. Halt podia estar morrendo e ele não sabia como ajudá-lo.
 
―Você tem alguma idéia do que é isso? Quer dizer, o veneno?‖ perguntou Horace. Seu olhar horrorizado fixo no braço de Halt. Horace era um guerreiro que enfrentava seu inimigo em um combate justo. Qualquer idéia de veneno era um enigma para ele.
 
―Não! Eu não tenho a menor idéia do que é isso!‖ Will gritou com ele. ―O que eu sei sobre venenos? Eu sou um Arqueiro, não um curandeiro!‖ O pânico estava ameaçando tomar conta dele agora e seus olhos estavam cheio de lágrimas. Ele foi à direção de Halt de novo, pausou incerto, então afastou sua mão. Qual era o sentido de tocar nele? Ou gritar e chorar nele? Ele precisava de cuidado e um tratamento profissional.
 
Talvez incomodado com o som da voz de Will, Halt tossiu e murmurou algo incompreensível.
 
―Talvez devêssemos limpar o ferimento?‖ Horace disse. Parecia lógico que Halt poderia se sentir melhor sem todo aquele líquido nojento em seu braço. E água limpa poderia ajudar o inchaço na sua pele descolorida.
 
Com um gigantesco esforço, Will tomou controle dele mesmo. Horace como sempre fazia foi direto ao coração da questão. Quando o todo resto falhar, volte aos princípios básicos. O tratamento básico para um ferimento era limpá-lo. Para remover o máximo de sujeira e veneno possível. Isso ele poderia fazer por Halt. Agora que ele tinha um caminho para seguir e agir, ele sentiu o pânico retrocedendo. Ele olhou para sua mão e viu que tinha parado de tremer.
 
―Obrigado Horace, boa idéia‖. Ele olhou para cima e deu um sorriso triste para seu amigo. ―Você poderia começar uma fogueira? Eu vou precisar de água fervente para esterilizar os panos e limpar seu braço‖.
 
Horace assentiu e ficou de pé. ―Vou montar acampamento‖. ele disse. ―Acho que vamos ficar por aqui por um tempo‖.
 
―Acho que sim‖. disse Will. Enquanto Horace se movia e começava a juntar pedras para a fogueira, Will notou outro par de olhos olhando para ele. Ele olhou para cima e lá estava Abelard, sua cabeça se movendo de lado a lado. Ele deixou sair um gemido quando Will olhou para ele.
 
―Não chore‖. Will disse a ele. ―Ele vai ficar bem‖.
 
Ele tentou botar o máximo de convicção possível nas palavras. Ele desejou acreditar em si mesmo.
 
Uma vez que o fogo estava alto e a água fervendo, Will começou a tarefa de limpeza. Ele encharcou as ataduras na água fervente e então, esperando esfriar um pouco, ele a usou para retirar o pus ao redor da ferida. Enquanto trabalhava, limpando o mais gentilmente possível, ele foi recompensado pelo sinal de sangue limpo e fresco saindo da ferida. Ele pensou que isso seria uma coisa boa. Ele se lembrou de ter escutado em algum lugar que sangue fresco limpava o ferimento. Pelo menos não apareceu mais pus.
 
Ele esfregou gentilmente a ferida com as ataduras limpas até que o sangramento parasse. Então ele aplicou um pouco da pomada contra dor que todos os Arqueiros carregavam no seu kit de primeiros socorros. Era altamente efetiva, ele sabia, mas ele sempre se sentia pouco confortável usando. Era derivada da droga ―erva do calor‖ e o aroma trazia más recordações para ele.
 
Pelo menos agora que limpara o ferimento, o cheiro de putrefação e podridão havia desaparecido. ―Isso deve ser um bom sinal também‖. ele pensou.
 
Ele decidiu não enfaixar a ferida novamente. As ataduras poderiam conter restos do veneno, ele pensou, em vez disso ensopou um pano na água fervente e esperou esfriar um pouco, colocou em cima do ferimento, cobrindo-o, se necessário ele prenderia o pano com uma pequena atadura.
 
Ele molhou mais pano em água fria e então a colocou em cima do braço de Halt que antes parecia estar muito quente.
 
―Isso é tudo que podemos fazer por enquanto‖. Ele disse
 
―Você parece ter feito muito‖. Halt respondeu. Sua voz estava fraca, mas seus olhos estavam abertos e a cor estava voltando a sua face. Quer fosse o efeito da limpeza, da erva ou apenas coincidência, ele recuperou a consciência.
 
Desta vez Will não pode parar as lágrimas que caíram de seus olhos e correram livremente entre suas bochechas.
 
Halt estava vivo e parecia estar melhorando.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26
 
 Depois que Horace montou o acampamento, estendeu o cobertor de Halt e o deitou cuidadosamente sobre ele.
 
De início, ele protestou acenando que queria tentar ficar de pé. Mas sua força falhou antes mesmo de conseguir se sentar. No momento em que se deitava novamente, Will viu um rápido flash de medo em seus olhos.
 
―Talvez seja melhor vocês me carregarem‖, ele falou e eles obedeceram. Horace colocou uma de suas tendas como cobertura, para proteger Halt do sol. Will olhou ao redor, estudando o céu e as condições do tempo.
 
―Parece que esta noite será agradável‖, disse. ―Vamos deixá-lo aqui fora. O ar fresco fará muito bem a ele‖.
 
Estava apenas presumindo, ele sabia. Porém, estava convencido de que o interior de uma pequena tenda abafada não seria um bom lugar para se estar nas próximas horas. Will estava consciente de que a ferida de Halt ainda exalava um pequeno odor de infecção, embora nem de longe fosse tão forte quanto antes. Poderia muito bem tornarse insuportável, se Halt ficasse confinado dentro de uma pequena barraca feita para um homem apenas.
 
Tão logo o moveram, Halt perdeu a consciência novamente. Ele resmungou e caiu no sono. Mas agora pelo menos, sua respiração parecia mais regular. Will se debruçou ao lado dele, vigiando-o como um falcão.
 
Nesse momento, Horace colocou a mão em seu ombro. ―Eu vou ficar com ele por enquanto. Você precisa descansar‖.
 
Mas Will balançou negativamente a cabeça. ―Eu estou bem. Vou ficar aqui‖.
 
Horace acabou concordando. Entendia como seu amigo se sentia. ―Avise-me quando precisar de uma pausa‖. Will grunhiu em resposta, assim que Horace ocupou-se em fazer uma sopa rala com suas provisões. Ele pensou que poderia dar a Halt quando este acordasse novamente. Sopa era ótimo para homens feridos, ele sabia. Manteve aquecida na beira do fogo, enquanto Will e ele faziam uma refeição simples, acompanhada por pão achatado, um pouco de carne fria e os picles que haviam levado. Ele ofereceu um prato a Will, que ainda estava sentado olhando seu professor. O jovem Arqueiro pegou o prato e olhou para cima.
 
―Obrigado Horace‖, disse brevemente. Então seus olhos se voltaram para Halt e começou a comer sua refeição mecanicamente.
 
Perto do por do sol, Halt abriu os olhos novamente. Por um momento ou dois, ele olhou em volta perplexo, enquanto tentava recordar o que tinha acontecido, porque estava deitado aqui, com Will cochilando encolhido em sua capa ao seu lado. Em seguida caiu em si. Olhou vagamente para o braço enfaixado. Ele podia ver a carne inchada e descolorida, sentiu também um calor pulsante percorrendo seu braço. Uma mão gelada apertou seu coração, percebendo o que tinha acontecido.
 
Ele soltou um fraco som, vindo do fundo de sua garganta e Will levantou imediatamente sua cabeça, plenamente desperto.
 
―Halt!‖ ele disse com um evidente alívio em sua voz. O Arqueiro mais velho fez um pequeno gesto com a mão direita. A uma curta distância, as orelhas de Abelard levantaram e ele soltou um breve relincho, aproximando-se da figura reclinada. O pequeno cavalo não tinha ficado mais do que poucos metros longe de seu dono nas últimas três horas.
 
Halt sorriu fracamente para ele.
 
―Hei velho amigo‖, disse ele. ―Andou preocupado comigo, não foi?‖.
 
Abelard moveu-se para frente, inclinando a cabeça para baixo e acariciou a bochecha dele. 
 
Halt disse algumas palavras para ele, falando em gaulês, como sempre fazia quando estava confidenciando algo a Abelard. Will, assistindo esta simples interação entre eles, percebeu o profundo vínculo que compartilhavam, seus olhos se enchendo de lágrimas mais uma vez. Mas desta vez, eram de alívio.
 
Finalmente, Halt apontou gentilmente com seu braço bom, para que Abelard se afastasse.
 
―Pode ir garoto. Will e eu precisamos conversar um pouco‖.
 
O cavalo recuou alguns passos. Mas suas orelhas ainda estavam em pé e ele ainda estava atento a qualquer movimento ou ruído que Halt pudesse fazer. Will se aproximou e pegou a mão boa de Halt. O aperto em retorno foi surpreendentemente tão fraco que ele ficou emocionado e alarmado com o estado de Halt. Colocou o pensamento de lado. Halt esteve perto da morte. Ele iria demorar algum tempo para se recuperar.
 
―Você está bem agora‖, ele disse.
 
Halt olhou ao redor, tentando ver mais do acampamento. ―Horace está aqui?‖.
 
Will concordou com a cabeça. ―Ele saiu para colocar algumas armadilhas. Há uma lagoa próxima daqui, ele acha que os patos irão aparecer no crepúsculo, então foi tentar a sorte. Nosso alimento fresco está escasso‖. Will com um aceno rápido, deixou para lá esta questão sem importância de Horace. ―Meu deus Halt, é bom vê-lo acordado de novo! Por um tempo pensamos que o havíamos perdido. Mas agora você está se recuperando‖.
 
Ele pegou um rápido flash de apreensão nos olhos Halt, sua face estava sombria e de repente lhe ocorreu uma dúvida terrível.
 
―Halt? Está tudo bem, não é? Claro que está. Você está acordado e conversando. Talvez um pouco fraco, mas vai recuperar sua força e antes que perceba, nós vamos...‖.
 
Ele parou, consciente de que estava tagarelando, falando apenas para convencer a si mesmo e não ao Arqueiro barbudo que estava diante dele. Houve um longo silêncio entre eles. 
 
―Diga-me‖.
 
Halt hesitou, depois olhou para o braço lesionado. Ele suspirou profundamente antes de falar.
 
―Você compreende que a flecha estava envenenada, certo?‖.
 
Will concordou com a cabeça desconsoladamente. ―Eu achei que estava. Mas deveria ter pensado nisso antes‖.
 
Halt balançou a cabeça suavemente. ―Não havia razão para você ter suspeitado. Eu é que antes deveria ter considerado esta opção. Aqueles Genoveses bastardos sabem tudo sobre venenos. Eu deveria ter percebido que eles teriam mergulhado suas flechas nele‖.
 
Halt fez uma pausa. ―Eu me lembro vagamente de ter ficado um pouco descontrolado‖.
 
Eu achei que os Temujai estavam atrás da gente?‖―.
 
Will concordou com a cabeça. ―Foi quando começamos a nos preocupar. Então você saiu a galope na direção errada e caiu de seu cavalo. Estava inconsciente quando o alcançamos. Minha primeira impressão foi de que estivesse morto‖.
 
―Eu não estava respirando?‖ Halt perguntou.
 
―Não. Então deu uma espécie de suspiro profundo e começou a respirar novamente. Daí que pensamos em olhar o seu braço. Isso só me ocorreu porque o havia incomodado o dia todo‖.
 
Ele descreveu brevemente a situação da condição do braço, à medida que Halt o encorajava, e quais ações que ele havia tomado. Seu professor inclinou-se pensativo, enquanto Will descrevia como havia limpado a ferida e aplicado repetidas vezes o ungüento da erva de calor.
 
―Sim‖, disse ele pensativo ―isso poderia ter baixado um pouco a febre. A erva de calor tende a ter várias propriedades, além de reduzir a dor. Eu ouvi dizer que algumas pessoas têm usado para o tratamento de picada de cobra - que é uma coisa muito similar, você deve ter pensado em usá-la por este motivo‖.
 
―E funcionou?‖ Will perguntou. Ele não gostou da pausa que Halt deu antes de responder.
 
―Até certo ponto. Ela diminuiu o efeito do veneno. Mas a vítima ainda precisava de tratamento. O problema é que existe uma grande variedade de venenos, eu não sei qual o tratamento correto que deve ser aplicado‖.
 
―Mas Halt, você está melhorando! Você está muito melhor do que estava esta tarde! Eu posso ver que está se recuperando...‖.
 
Will parou quando Halt colocou a mão em seu braço. ―Essa é a maneira como os venenos agem. A vítima parece se recuperar, então, tem uma recaída. A cada vez que perde a consciência, fica um pouco pior que antes. E gradualmente...‖ Ele parou e fez um gesto de incerteza no ar.
 
Will sentia que estava olhando para as profundezas de um buraco negro, bem atrás dele. O que Halt estava dizendo, apertava sua garganta e ele mal conseguia falar.
 
―Halt? ele engasgou‖. Você está dizendo que você está...?‖―.
 
Ele não conseguiu terminar a frase. Halt a completou.
 
―Morrendo? Eu receio que seja uma possibilidade, Will. Eu vou ter crises de consciência igual à última. Então acordarei novamente. Cada vez vou demorar um pouco mais para me recuperar. E quando eu conseguir estarei mais fraco que antes‖.
 
―Mas Halt!‖ As lágrimas jorraram dos olhos de Will, cegando-o. ―Você não pode morrer! Você não deve! Como eu poderia viver sem...‖ De repente, ele estava além da fala e seu corpo foi tomado por grandes soluços. As lágrimas corriam facilmente pelo seu rosto. Ele curvou-se para frente sobre seus joelhos, balançando para trás e para frente e soltando um terrível lamento vindo do fundo de sua garganta.
 
―Will?‖ A voz de Halt era fraca e não conseguiu penetrar na dor de Will. O Arqueiro mais velho respirou fundo várias vezes e reuniu sua força.
 
―Will!‖.
 
Desta vez, a tom da familiar autoridade estava lá e trouxe Will de volta à consciência. Parou de balançar e olhou para cima, enxugando os olhos e o fluxo nasal com a bainha de seu manto. Halt sorriu para ele, um sorriso torto e cansado.
 
―Eu prometo que vou fazer o meu melhor para não morrer. Mas você tem que estar preparado para qualquer coisa. Eu diria que nas próximas doze horas, ou algo assim, será o período mais crítico. E se eu me sentir mais forte amanhã de manhã, quem sabe?‖.
 
Eu poderia estar reagindo. Lidar com venenos não é uma ciência exata. Algumas pessoas são afetadas mais do que outras. Eu vou precisar de toda a minha força para lutar e preciso que você seja forte por mim.‖
 
Com os olhos vermelhos e vergonha de si mesmo, Will concordou com a cabeça. Suas costas endireitaram. Chorar e lamentar não ajudaria Halt em nada.
 
―Sinto muito‖, disse ele. ―Eu não vou deixar isso acontecer novamente. Existe alguma coisa que posso fazer por você?‖.
 
Halt olhou para seu braço ferido. ―Talvez trocar minha bandagem daqui à uma hora ou coisa assim. E use um pouco mais de ungüento. Faz quanto tempo desde que você aplicou pela última vez?‖.
 
Will considerou a questão. Ele sabia que o remédio não poderia ser usado com muita freqüência. ―Quatro, talvez cinco horas atrás‖.
 
Halt assentiu. ―Ótimo. Dê-me uma hora e depois aplique mais. Não tenho certeza o quanto isso vai ajudar, mas mal não fará. Talvez agora um pouco de água, se você tiver alguma?‖.
 
―É claro‖, disse Will. Ele destampou seu cantil e levantou Halt um pouco para que pudesse beber devagar. O Arqueiro barbudo era experiente o suficiente para saber que não deveria beber a água com avidez.
 
Ele suspirou enquanto a água escorria pela sua boca e garganta que estavam secas.
 
―Oh, isso é muito bom‖, disse. ―As pessoas sempre subestimam a água‖.
 
Will olhou rapidamente para a fogueira, onde a cafeteira se encontrava em cima das brasas.
 
―Eu posso pegar um café, se quiser. Ou sopa?‖ Ele sugeriu. Mas Halt sacudiu a cabeça, estava deitado de costas contra a sela, preenchido com o seu próprio manto todo dobrado, que estava servindo como um travesseiro.
 
―Não. Não. Água está ótimo. Talvez um pouco de sopa mais tarde‖. Sua voz estava soando cansada, como se o esforço para conversar o tivesse esgotado. Seus olhos se fecharam e ele disse algo. Mas ele falou tão baixinho que Will teve que se inclinar para frente e pedir para repetir.
 
―Onde está Horace?‖ ele perguntou com seus olhos ainda fechados.
 
―Ele está arrumando as armadilhas. Eu te...‖.
 
Ele ia dizer, ―eu te disse isso‖, mas percebeu que Halt já estava perdendo a consciência de novo, exatamente como ele havia previsto. Haveria um breve período de lucidez, então ele iria cair lentamente de volta para a inconsciência.
 
―Sim. Sim. É claro. Você me disse. Ele é um bom menino. Assim como Will é claro. Ambos são bons meninos‖.
 
Will não disse nada. Ele simplesmente agarrou a mão boa de Halt e a apertou, não confiando em sua voz, se ele tentasse falar alguma coisa.
 
―Não posso deixá-lo lutar com Deparnieux, é claro. Todos lutam de acordo com as regras, o jovem Horace também...‖.
 
Mais uma vez, Will apertou a mão de Halt, apenas para que soubesse que não estava sozinho. Ele esperava que o contato ficasse registrado na mente de Halt. Deparnieux
havia sido um guerreiro gaulês, que manteve Halt e Horace em cativeiro, quando estavam à procura de Will e Evanlyn.
 
O veneno tomou sua mente de novo e ele já não estava vivendo mais no presente. Suas palavras cessaram com um resmungo e ele finalmente dormiu. Will sentou e ficou observando. A respiração estava profunda e uniforme. Talvez ele se recupere. Talvez uma boa noite de descanso fosse tudo o que precisava. Em uma hora ele trocaria as bandagens. O ungüento de erva de calor faria sua magia. De manhã, Halt estaria no caminho da recuperação.
 
Horace retornou logo após o anoitecer com um par de patos e encontrou Will agachado ao lado de seu professor. Ele o achou com o rosto coberto de lágrimas e os olhos vermelhos. Delicadamente levou-o para perto do fogo. Deu café a ele, pão achatado e o fez tomar um pouco do caldo que havia preparado para Halt.
 
Quando Will recuperou a compostura, contou para Horace tudo o que Halt dissera sobre o veneno e as possíveis conseqüências que enfrentaria. Horace decidiu manter uma atitude positiva sobre o assunto, avaliou as condições de Halt enquanto Will limpava sua ferida e trocava os curativos.
 
―Mas ele disse que poderia melhorar?‖ insistiu.
 
―É verdade‖, disse Will, que substituiu a bandagem de linho sobre a ferida. Não parecia haver nenhuma melhora aparente. Mas não piorou também, estava igual. ―Ele me disse que as próximas doze horas serão críticas‖.
 
―Está dormindo pacificamente agora‖, Horace observou. ―Nada de sono agitado. Acho que ele está ficando melhor. Eu definitivamente acho que está ficando melhor‖.
 
Will fez uma expressão de determinação, balançando a cabeça afirmativamente várias vezes. Então, respondeu energicamente: ―Você está certo. Tudo que ele precisa é uma boa noite de descanso. Pela manhã, ele estará bem‖.
 
Eles se revezaram para vigiar o abatido Arqueiro durante a noite. Ele dormiu tranqüilamente, sem qualquer sinal de perigo.
 
Cerca de três da manhã, Halt brevemente se manteve acordado e conversou com calma e lucidez com Horace, que estava no turno. Em seguida, adormeceu novamente e parecia que estava ganhando a batalha contra o veneno. Na manhã seguinte, eles não conseguiram acordá-lo.
 
 
 
 
 
 
 
27
 
 
―Halt! Halt! Acorde!‖.
 
O grito de Horace despertou Will de um sono profundo. Por um segundo, estava confuso, procurando saber onde estava e o que acontecia. Lembrou-se então dos acontecimentos do dia anterior, jogou seus cobertores para baixo, chegando rapidamente aos seus pés.
 
Horace estava agachado sobre Halt, que estava deitado de costas do jeito que o havia deixado. Quando Will chegou ao seu lado, Horace olhou para ele, com os olhos amedrontados, depois voltou a gritar novamente.
 
―Halt! Acorde!‖.
 
Abelard, que tinha permanecido perto de seu mestre durante a noite, sentiu o ar de preocupação e relinchou nervosamente, batendo no chão com seus cascos. Halt mexeuse inquieto sobre o fino colchonete de dormir, tentando livrar-se do cobertor que estava em cima dele. Seus olhos permaneceram fechados e ele estava resmungando para si mesmo. Enquanto o observavam, ele reclamava como se estivesse com dor.
 
Horace estendeu as mãos num gesto impotente.
 
―Ele me pareceu bem‖, disse, sua voz carregada de emoção. ―Eu estava falando com ele algumas horas atrás e parecia bem. Depois voltou a dormir. Apenas há alguns minutos atrás, ele começou a ficar nervoso e se debater, aí eu tentei acordá-lo, mas... ele não acordou‖.
 
Will inclinou-se para chegar mais perto do Arqueiro barbudo e colocou a mão em seu ombro.
 
―Halt?‖ ele disse hesitante. Sacudiu-o suavemente tentando acordá-lo. Halt reagiu ao toque, mas não do jeito que Will esperava que fizesse. Ele empurrou e gritou alguma coisa de forma inarticulada e com o braço bom tentou tirar a mão de Will do seu ombro. No entanto permanecia inconsciente.
 
Will tentou novamente, sacudindo-o um pouco mais forte desta vez.
 
―Halt! Acorde! Por favor!‖ Novamente, Halt reagiu contra o toque da mão de Will.
 
―Você acha que deve chacoalhá-lo desse jeito?‖ Horace perguntou ansiosamente.
 
―Eu não sei!‖ Will respondeu com raiva por causa da impotência que sentia. ―Você acha que pode fazer melhor?‖.
 
Horace não disse nada. Mas era óbvio que Will chacoalhando Halt daquele jeito não ia conseguir nada - era apenas mais angustiante. Ele tirou a mão do ombro do velho Arqueiro e parou de incomodá-lo. Em vez disso, colocou a mão suavemente em sua testa. A pele estava quente sob o toque e sentiu que estava estranhamente seca.
 
―Ele está febril‖, disse ele. Todas as suas esperanças de que Halt iria melhorar após uma noite de descanso de repente foram frustradas. Ele havia piorado nas últimas horas. E piorado muito.
 
Ainda mantendo seu toque tão gentil quanto podia, Will removeu o curativo de linho que cobria o antebraço de Halt. Inclinou-se para ficar mais perto e cheirou a ferida. O odor da infecção era quase imperceptível e não parecia pior. A descoloração ainda era evidente. Mas, como o odor, não tinha piorado durante a noite. Mas havia mais uma coisa, o inchaço havia diminuído um pouco. Com o dedo, encostou delicadamente a pele inchada. Ontem, estava quente ao toque. Hoje, a temperatura parecia normal.
 
―Ainda quente?‖ Horace perguntou.
 
Will balançou a cabeça um pouco intrigado. ―Não. Parece tudo certo‖, disse ele. ―Mas a testa está ardendo. Eu não entendo‖.
 
Sentou-se e considerou a situação. Ele queria desesperadamente saber mais sobre cura.
 
―A menos que‖, disse lentamente, ―Signifique que o veneno saiu de seu braço e agora está circulando... Atravessando o corpo‖. Ele olhou para cima e encontrou o olhar preocupado de Horace, então balançou a sua cabeça, desamparado. ―Eu não sei Horace‖.
 
Eu só não sei o suficiente sobre nada disso. ‖―.
 
Will ocupou-se em colocar tiras de linho imersas em água fria, na testa de Halt, tentando abaixar sua temperatura. Ele tinha algumas cascas secas de salgueiro em seu kit médico, que ele sabia que reduziria a febre. Mas o problema seria dá-lo a Halt. O Arqueiro ainda estava agitado e gemendo, e mantinha sua mandíbula bem fechada.
 
Horace levantou-se e foi pegar o alforje de Halt, que estava a poucos metros de distância. Ele desamarrou a bolsa e remexeu em seu interior, pegando um mapa da área que Halt tinha com ele. Ele o estudou por alguns minutos, depois voltou para o lado Will, que estava ocupado cuidando de Halt.
 
―O que você está procurando? Will perguntou a ele, atento a sua tarefa. Horace mordia os lábios enquanto ainda estudava o mapa‖.
 
―Uma cidade. Ou uma grande aldeia. Deve haver algum lugar aqui perto, onde poderíamos encontrar um farmacêutico ou algum tipo de curandeiro‖.
 
Ele bateu com o dedo indicado sobre o mapa. ―Provavelmente, eu acho que estamos em algum lugar por... aqui‖, disse. ―Que não esteja longe. Que tal aqui? Drift Maddler? Não podia ser mais do que meio dia de viagem‖.
 
―Você está propondo que devemos levar Halt até lá? Will perguntou‖.
 
Horace mastigava suas bochechas, pensativo. ―Transportar Halt pode não ser uma boa idéia. Seria melhor ver se alguém de lá poderia nos ajudar. Um curandeiro local. Vá até lá e traga-o aqui‖. Ele olhou para Will, viu uma expressão de dúvida em seu rosto. ―Eu vou se você quiser‖, ele se ofereceu.
 
Mas Will estava balançando a cabeça lentamente. ―Se há alguém que deveria ir, sou eu‖, ele disse. ―Posso chegar lá muito mais rápido‖.
 
―Sim. Eu sei‖, Horace admitiu. ―Mas eu pensei que você não queria deixá-lo. Então, eu só...‖.
 
―Eu sei Horace. E eu agradeço muito. Mas acho que este lugar é apenas um vilarejo. As probabilidades são de que não encontrarei um curandeiro lá. E se existe você acha que um curandeiro deste país terá a menor idéia de como curar isso?‖ ele apontou o polegar para Halt, que estava gemendo, resmungando e rangendo os dentes.
 
Horace suspirou profundamente. ―Vale à pena tentar‖. Mas sua voz confirmava que ele mesmo não acreditava nas próprias palavras.
 
Will colocou a mão em seu antebraço. ―Vamos enfrentar os fatos. Mesmo um bom curandeiro local, não seria muito mais que um herbolário. E os maus, são pouco menos que charlatães e feiticeiros. Eu não quero alguém cantando e soltando fumaça colorida sobre Halt, enquanto ele está morrendo‖.
 
A palavra finalmente surgiu antes que ele pudesse se conter. Morrendo. Halt estava morrendo. A esperada recuperação de que Halt havia falado, deveria correr em um período vital de doze horas, mas simplesmente não aconteceu.
 
Horace foi atingido quando ouviu Will dizer a palavra. Ele passou horas recusando-se a enfrentá-la. Recusando-se a sequer pensar nela.
 
―Halt não pode morrer. Ele não pode! Ele é...‖ Ele fez uma pausa, não sabia o que dizer, então terminou: ―Ele é Halt‖. Ele deixou o mapa cair de seus dedos e afastou-se, não querendo que Will visse as lágrimas que escorriam em seu rosto. Halt era... Indomável. 
 
Ele era indestrutível. Ele sempre fez parte do seu mundo, desde que Horace podia se lembrar. Mesmo antes de ele saber que o Arqueiro carrancudo, na verdade, era um sujeito gentil e bem humorado, também estava consciente de que ele fazia parte da vida do castelo Redmont.
 
Ele parecia ser maior que a vida, uma figura misteriosa de quem as pessoas contavam histórias fantásticas e os rumores voavam. Ele havia sobrevivido a várias batalhas. 
 
Havia enfrentado senhores da guerra e monstros aterrorizantes e triunfou em todas às vezes. Ele não poderia morrer por causa de um leve arranhão no braço. Não podia! Era simplesmente impossível.
 
Como Will, Horace ficou órfão quando era pequeno, e nos últimos anos, ele havia crescido ao lado de Halt e passou a olhá-lo como uma pessoa especial em sua vida. Ele sabia que Will considerava Halt como a um Pai, que por sua vez retribuía o sentimento. A estreita relação pessoal entre mestre e aprendiz era óbvia para qualquer pessoa que os conhecia.
 
Horace nunca presumiu ter a mesma relação que eles compartilhavam. Uma relação única. Mas Halt tinha assumido um papel na vida de Horace, semelhante a um tio muito amado e muito respeitado. Ele virou para trás, não se preocupando se Will veria as lágrimas em seu rosto. Halt merecia essas lágrimas, ele pensou. Não havia motivo para se envergonhar.
 
Will estava agachado. Ele não conseguia pensar em nada mais que poderia fazer por Halt. As tiras molhadas de linho pareciam que havia melhorado um pouco a febre. Os gemidos haviam cessado já há algum tempo e não via mais os músculos da mandíbula de Halt se contraindo. Talvez Halt estivesse mais relaxado, agora ele poderia fazer Halt tomar alguns goles da infusão de casca de salgueiro, para baixar a febre. E ele poderia colocar mais ungüento na ferida, embora ele tenha percebido que o ferimento em si, já não era mais o problema. Tinha sido a fonte dos problemas, mas agora o veneno havia seguido em frente.
 
A brisa soprou o mapa de Horace para longe dele. Inconscientemente, Will o pegou e começou a dobrá-lo. Mas tinha que ser dobrado de certa forma, para não deixar vincos. Quando olhou e começou a corrigir o problema, uma palavra pareceu saltar da página.
 
Macindaw.
 
Castelo Macindaw. Cena de sua batalha com os invasores escoceses. E perto de Macindaw, claramente marcado no mapa, fica a floresta de Grimsdell, casa de Malcolm, que achavam ser a reencarnação do feiticeiro Malkallam, mas agora conhecido por ser um dos mais qualificados curandeiros, conhecido em toda Araluen.
 
―Horace?‖ ele disse olhando fixamente para o mapa.
 
Eles eram velhos amigos. Eles já haviam passado por várias situações juntos, Horace conhecia o suficiente de Will para sentir uma mudança na voz do amigo. Esperança. Mesmo com essa única palavra, Horace sabia que Will tinha uma idéia em mente. Ele pulou para o lado de seu amigo e olhou por cima do ombro, estudando a parte do mapa que estava aberto diante dele. Também viu o nome.
 
―Macindaw‖, ele sussurrou. ―Malcolm. Mas é claro!‖.
 
―Alguns dias atrás, você disse que iríamos passar por perto, se pegássemos esse desvio‖, Will ressaltou. ―Onde acha que estamos agora?‖.
 
Horace pegou o mapa e desdobrou-o para abrir a próxima seção. Ele encontrou os pontos de referência que tinha usado antes - o rio, a floresta afogada.
 
―Por aqui‖, disse ele, indicando uma posição sobre o mapa. ―Nós percorremos um bom caminho a sul desde que falei do desvio para você‖.
 ―Verdade. Percorremos também uma parte para leste. E Macindaw estava a leste de nós quando conversamos. O que perdemos vindo pelo Sul ganhamos vindo para leste‖.
 
Horace franziu os lábios indecisos. ―Não é bem assim‖, disse ele. ―Mas provavelmente estamos a apenas um dia e meio de distância. Talvez dois‖.
 
 
―Vou fazê-lo em um‖, disse Will. Horace ergueu as sobrancelhas sem acreditar. ―Um dia? Eu sei que Puxão pode correr durante todo dia e noite. Mas, mesmo para ele é muito longe. E você ainda tem que fazer a viagem de volta‖.
 
―Eu não estarei cavalgando Puxão o caminho todo‖, Will disse. ―Vou levar Abelard também. Posso alternar entre eles para descansá-los‖.
 
Horace sentiu uma onda de esperança. Will poderia cobrir aquela distância se montasse os dois cavalos, ele percebeu. Naturalmente, a viagem de volta trazendo Malcolm seria mais lenta.
 
―Então leve Kicker também‖, disse ele. Viu Will abrir a boca para julgar a sugestão e se apressou a explicar sua idéia. ―Não monte nele no caminho para Macindaw. Conserve sua força para a viagem de regresso. Dessa forma, um cavalo sempre estará descansado, enquanto você e Malcolm viajam nos outros dois‖.
 
Will balançou a cabeça lentamente. A sugestão de Horace fazia sentido. Ele retornaria com Malcolm e isso iria significar que o curandeiro teria que montar Abelard. Mas com o Kicker junto, bem, eles sempre teriam um cavalo relativamente descansado. E nem ele nem o curandeiro franzino pesam tanto quanto Horace de armadura completa.
 
―Boa idéia‖, disse ele finalmente. Ele estudou o mapa novamente e chegou a uma decisão. ―Eu posso ganhar um tempo, se eu cortar todo o País por aqui. Ele indicou um local, onde a trilha fazia um grande desvio numa extensa elevação do terreno‖.
 
Horace concordou, então notou algo marcado no mapa nesse ponto, inclinou-se para ler a anotação.
 
―Barrows?‖ Ele disse. ―O que são barrows?‖.
 
―Eles são túmulos antigos‖, Will disse. ―Você os encontra de vez em quando, em áreas pouco povoadas como esta. Ninguém sabe quem está enterrado lá. Supõe-se que seja uma raça antiga que morreu há muito tempo‖.
 
―E por que o mapa faz um desvio nesse local?‖ Horace perguntou, embora achasse que sabia a resposta.
 
Will deu de ombros, tentando parecer despreocupado.
 
―Ah... É que algumas pessoas acham que é mal-assombrado‖.
 
 
 
28
 
 
Horace observava Will, enquanto se preparava para viagem a Macindaw. Ele tirou todo peso extra dos três cavalos, os equipamentos de acampar, pacotes de provisão e alforjes, depois os colocou em uma pilha bem organizada perto da fogueira.
 
Abelard e Puxão carregavam flechas reservas para Halt e Will e ele também deixou para trás. Provavelmente não teria necessidade de lutar e as duas Aljavas com uma dúzia de flechas cada, seria suficiente no caso dele se deparar com problemas inesperados. 
 
Kicker geralmente carregava o escudo de Horace, sua cota de malha pesada, capacete e mais um capuz pesado de malha, que ele usava quando ia para a batalha. Deixou-os para trás também. Os cavalos ficaram relativamente aliviados, com apenas suas selas e arreios.
 
Ele montaria Puxão na primeira parte da viagem, assim, afrouxou as selas de Abelard e de Kicker. Eles viajariam mais confortáveis, pensou. Abelard relinchou de gratidão. Kicker, como era o costume de sua raça, aceitou o gesto impassível.
 
Will selecionou uma mochila pequena de seu kit, esvaziou as roupas sobressalentes e a encheu com provisões para a viagem: um naco de pão achatado que Halt chamava de almofada de sela, agora um pouco velho, mas ainda comestíveis, um pouco de frutas secas e várias tiras de carne defumada. Este último item era duro de roer, mas ele sabia por experiência passada que aquela carne fornecia bastante energia quando precisava recuperar as forças. Além disso, permitia-lhe comer na sela sem a necessidade de parar.
 
―Vou levar os nossos três cantis‖, disse a Horace enquanto enfiava as rações na mochila. 
 
―Vocês tem a lagoa aqui perto e eu não quero ficar procurando por água quando estiver viajando‖. Ciente de que tinha comida suficiente, amarrou a pequena mochila na sela de Puxão, onde ele pudesse alcançá-la facilmente enquanto viajava.
 
Horace concordou e recolheu os três cantis. Balançou-os experimentando.
 
―Vou trocar a água para você‖, disse. ―Assim poderá começar sua viagem com água fresca‖. Depois de algumas horas, ambos sabiam muito bem, que a água começaria a pegar o gosto do couro do cantil.
 
Will sorriu agradecido. ―Obrigado‖, ele disse. ―Vou comer um pouco enquanto você faz isso. Não será nada mau eu partir com alguma comida debaixo de meu cinto‖.
 
Horace olhou para a mochila e fez uma careta. Ele tinha visto o que seu amigo havia colocado lá.
 
―Esteja à vontade, aproveite mesmo‖, ele disse. Dirigiu-se para a lagoa, segurando os três cantis pelas alças que ocasionalmente chocalhavam juntos.
 
Eles haviam aprontado dois patos assados na noite anterior e um deles ainda estava relativamente inteiro. Will arrancou uma perna e um pedaço de carne do peito e comeu rapidamente, caminhando para frente e para trás em agitação. Ele pegou um pouco do pão achatado e comeu com a carne. A massa do pão seco e a carne grudavam em sua garganta e boca e ele olhou em volta procurando algo para beber.
 
O pote de café estava quase cheio e permanecia aquecido nas brasas ao lado do fogo. 
 
Encheu uma caneca e bebeu o preparado agradecido, sentindo a energia fluindo através dele. Tentou respirar profundamente e relaxar. Havia um nó apertado na boca de seu estômago e tudo o que queria fazer, era saltar para a sela e partir o mais rápido possível. 
 
Ele lamentava o tempo que estava perdendo, comendo e se preparando. Mas sabia que no final do dia, ele ficaria grato pela energia que o alimento poderia oferecer e alguns poucos minutos perdidos agora, iria poupar-lhe muito tempo depois. Assim, ele lutou contra a impaciência que fervia dentro dele e forçou-se a pensar e planejar com calma. E se ele estivesse esquecido alguma coisa?
 
Ele checou mentalmente sua lista e assentiu para si mesmo. Tinha tudo que precisava. Os cavalos foram alimentados e a sede saciada com bastante água. Estavam prontos para viajar. O pouco material que havia separado estava fixado firmemente nas selas.
 
Horace voltou com os três cantis. Prendeu um na sela de Kicker e outro em Abelard, amarrando suas tiras firmemente para que não balançassem com o movimento dos cavalos. Quando estava se afastando, Abelard bateu seu estribo de ferro no terceiro cantil e produziu um som oco.
 
Will franziu a testa intrigado. ―Isso soa vazio‖.
 
Horace sorriu e caminhou até a fogueira.
 
―No momento sim. Os outros dois são para os cavalos. Este é para você‖. Ele pegou o pote de café e cuidadosamente derramou o líquido perfumado na boca estreita do cantil. 
 
Com seus olhos ainda fixos em sua tarefa, continuou: ―Seria bom levar um pouco de café. Você não vai parar para acampar, vai?‖.
 
Will balançou a cabeça. ―Só para alguns minutos de sono quando precisar. Mas eu não vou montar acampamento, apenas me enrolar em minha capa‖.
 
―Sendo assim‖. Horace terminou de preencher o cantil e empurrou a tampa. 
 
―Seria bom você levar bastante café. Ele vai ficar quente por um tempo e mesmo o café frio é melhor do que água com gosto de couro‖. Ele sorriu quando disse isso e Will sorriu de volta.
 
―Bem pensado Horace‖.
 Horace pareceu satisfeito. Ele desejou ter feito mais pelo seu amigo, mas pensou que com esse pequeno gesto de apoio, já falava muito de sua amizade pelo jovem Arqueiro.
 
―Além disso, ele vai dar-lhe o tipo energia que precisará ao longo do caminho‖.
 
Seus sorrisos desapareceram à medida que pensavam sobre a viagem que Will enfrentaria. A terra era selvagem e eles conheciam os tipos de perigos que um viajante podia enfrentar. Em partes isoladas do Reino como esta, os moradores tendem a ressentir-se de estranhos e era possível haver bandidos no caminho para Macindaw. 
 
Uma vez que estivesse perto do castelo, é claro, haveria chances de cair em alguma emboscada de grupos escoceses, como o que haviam evitado vários dias atrás. E Will iria se concentrar na velocidade e não na invisibilidade.
 
―Eu queria ir com você‖, Horace disse calmamente. A preocupação era evidente em seus olhos. Will bateu em seu ombro e sorriu.
 
―Você só iria me atrasar, desajeitado como é vindo atrás de mim‖. Sem querer, ele usou a expressão que Halt havia falado vários dias atrás. Ambos perceberam e os sorrisos desapareceram uma vez mais, enquanto olhavam para a figura ainda deitado sob o alpendre. Houve silêncio entre eles.
 
―Estou feliz que você estará aqui para vigiá-lo‖, Will disse finalmente. ―Sabendo disso, fico mais tranqüilo em partir‖.
 
Horace acenou várias vezes, não confiando em si mesmo para falar. De repente, Will se virou e caminhou até onde Halt estava caindo de joelhos e segurando a mão direita do Arqueiro com suas duas mãos.
 
―Eu voltarei Halt. Eu prometo a você. Voltarei em três dias. Se mantenha firme e certifique-se que estará esperando por mim, ouviu?‖.
 
Halt se agitou e murmurou, então, acalmou-se novamente. Era possível que o som da voz de Will, tenha penetrado através da névoa de veneno, que mantinha a mente de Halt cativa. Will esperou que sim. Balançou a cabeça tristemente. Apertava seu coração em ver Halt, normalmente tão forte, tão capaz e incansável, reduzido a esse resmungo, uma sombra de si mesmo. Ele tocou a testa do Arqueiro. Sua temperatura parecia ter abaixado. Ele estava quente, mas não ardia em febre como antes. Will se levantou e após um último triste olhar, virou-se para Horace.
 
―Fique de olho na febre. Se ele ficar quente novamente, use panos molhados em água fria e coloque na testa dele. E limpe a ferida a cada quatro horas ou coisa assim. Use o ungüento a cada vez‖.
 
Ele duvidou que o tratamento da ferida ajudasse a melhorar a condição geral agora. A doença tinha ido para mais além no corpo de Halt. Mas pelo menos Horace iria sentir que estava fazendo algo positivo e Will sabia como isso era importante.
 
Ele agarrou a mão direita de Horace, em seguida, os dois se aproximaram e se abraçaram. ―Eu vou cuidar dele, Will. Vou guardá-lo com minha vida‖, disse Horace.
 
Will assentiu com a cabeça, o rosto enterrado no ombro de seu melhor amigo.
 
―Eu sei que você vai. E vigie durante a noite. Nunca se sabe, o assassino Genovês pode decidir voltar‖.
 
Ele afastou-se do abraço. Horace sorriu, mas era um sorriso sem humor.
 
―Sabe, eu quase espero que ele faça isso‖, ele disse.   Eles andaram juntos até onde os cavalos esperavam. Abelard estava agitado, nervoso e revirando os olhos, emitindo um ruidoso barulho de seu peito. Will aproximou-se dele, colocou as mãos nos lados de sua boca, como ele tinha visto Halt fazer e soprou delicadamente em suas narinas, para chamar a atenção do cavalo.
 
―Eu sei que você está preocupado‖, disse suavemente. ―Mas você tem que vir comigo‖.
 
Entendeu? Você está vindo para podermos ajudá-lo. ‖―.
 
O pequeno cavalo sacudiu a cabeça e a juba subitamente, vibrando de uma forma muito comum aos cavalos Arqueiros. Ele parou o ritmo nervoso e os relinchos e ficou pronto.
 
Horace balançou a cabeça em espanto. ―Sabe, eu poderia jurar que ele entendeu o que você disse‖, comentou.
 
Will bateu suavemente no nariz macio de Abelard e sorriu para ele com carinho.
 
―Ele entendeu‖, Will respondeu. Então pulou na sela de Puxão e segurou as rédeas de Kicker quando Horace passou para ele. Abelard é claro, ia os seguir sem a necessidade de ser conduzido.
 
―Tome cuidado Will‖, disse Horace e Will assentiu.
 
―Três dias‖, disse. ―E eu estarei de volta. Mantenha os olhos abertos enquanto eu estiver fora‖.
 
Ele tocou seu calcanhar no lado de Puxão e o pequeno cavalo partiu, Kicker seguindo facilmente conduzido pela rédea. Parecia que depois de passar tanto tempo na companhia dos dois cavalos Arqueiros, contentou-se em segui-los sem precisar ser encorajado. Abelard olhou mais uma vez para a figura deitada sob os cobertores, jogou a cabeça num gesto de despedida e se virou trotando para chegar junto dos outros cavalos.
 
Por um longo tempo, Horace ficou observando enquanto eles trotavam para longe, depois aumentaram a velocidade para um galope lento. Finalmente, eles passaram sobre a crista e Horace os perdeu de vista.
 
 
 
A tentação é claro, era de bater os calcanhares ao lado de Puxão e instá-lo a um galope rápido. Mas Will sabia que a longo prazo, eles fariam um tempo melhor mantendo um ritmo mais lento. Ele segurou o pequeno cavalo a um galope constante, uma marcha que os cavalos Arqueiros poderiam manter por horas. Abelard acompanhou o ritmo de Kicker, que estava livre de sua carga normal e mantinha facilmente o ritmo dos outros cavalos com seus passos mais largos. O grande cavalo de batalha quase parecia estar se divertindo, correndo livre e descarregado.
 
Will chegou ao rio e voltou-se para o leste, seguindo à margem e procurando outro lugar para cruzá-la. Havia uma marca de travessia de cavalo no mapa a leste - demasiado profundo para o tráfego a pé, razão pela qual Tennyson e o seu grupo tinham sido incapazes de usá-la. Mas os cavalos passariam com bastante facilidade. Teria a vantagem de atravessar o rio, em um ponto que o colocava numa parte mais clara da floresta afogada. Não tinha vontade de voltar a entrar naquele deserto cinza novamente, principalmente com pressa.
 
Três horas em ritmo constante o levou para a passagem. Ele guiou Puxão na frente em direção à água. Abelard seguiu-o prontamente, embora Kicker empacou de primeira, quando viu a água passando por cima dos ombros de Puxão e quase desistiu. Em seguida, o cavalo de batalha pareceu perceber que ele era bem mais alto que seus companheiros e avançou correndo, espirrando água para os lados, mergulhou para frente em uma série de saltos, ameaçando bater em Puxão e Will.
 
―Acalme-se Kicker!‖ Will mandou. Mais uma vez, ele teve a sensação de que Kicker estava se divertindo. Isso era algo que não acontecia com freqüência na vida de um cavalo de batalha. Mas Kicker acalmou-se e andou mais facilmente através do rio, até que os três atravessaram a água, saindo do outro lado da margem.
 
Will parou por alguns minutos. Ele deixou os três cavalos beberem, mas não muito para não ficarem pesados e sobrecarregados quando partissem. Abelard e Puxão naturalmente pararam ao comando de Will. Kicker bebia sofregamente a água fresca do rio e teve de ser afastado do rio. Ele sacudiu a juba e olhou para Will por um segundo ou dois. O jovem Arqueiro olhou-o por um momento.
 
―Kicker! Faça o que lhe é dito!‖.
 
Disse firmemente. Não gritou, mas havia um tom de comando em sua voz, que deixou o grande cavalo em dúvida, quanto a quem estava no comando. Kicker olhou para rio relutante, mas deixou-se levar embora. Quando ele fez isso, Will esfregou seu focinho delicadamente.
 
―Bom rapaz‖, disse ele baixinho. ―Nós ainda vamos transformá-lo em um cavalo Arqueiro‖.
 
A poucos metros, Puxão relinchou de escárnio.
 
Você me diverte às vezes.
 
 
29
 
Will cavalgou em Puxão por várias horas e agora que havia atravessado o rio, parecia uma boa hora para trocar de cavalo. Ele afrouxou a correia da sela de Puxão. O pequeno cavalo parecia um pouco insultado.
 
Você sabe que posso continuar.
 
 ―Eu sei que você agüenta muito mais‖, Will disse gentilmente. ―Mas quero contar com você mais tarde, quando o resto de nós estiver cansado até os ossos‖.
 
Puxão sacudiu a juba. Ele concordou. Mas não tinha que gostar. Mesmo Abelard sendo seu amigo, ele preferia levar Will. Ele sabia que mesmo se Will não conseguisse, ele poderia cavalgar dia após dia, hora após hora, sem se desgastar.
 
Will apertou a correia em volta de Abelard. Não houve necessidade de olhar se ele ia fazer algum truque. Ao contrário de outras raças, os cavalos Arqueiros, nunca encheriam os pulmões para expandir seus corpos enquanto a correia estivesse sendo apertada e depois soltariam o ar deixando a correia frouxa novamente. Will testou a sela e começou a levantar o pé esquerdo para o estribo, quando percebeu que Abelard virou sua cabeça para olhá-lo ansiosamente.
 
 ―É claro‖, ele disse suavemente. ―Desculpe minha falta de educação‖. Ele olhou firmemente para o cavalo e disse às palavras que Halt o havia ensinado há tantos anos atrás, na casa de Bob no meio da floresta.
 
 ―Permettez moi?‖ Ele esperava que a pronúncia estivesse correta. Seu Gaulês não era dos melhores. Abelard sacudiu a cabeça algumas vezes de modo encorajador e Will colocou o pé no estribo e subiu montando no cavalo de Halt. Por um segundo ele esperou, perguntando-se se tinha dito corretamente a senha, em dúvida se Abelard estava simplesmente à espera dele relaxar, para depois jogá-lo no ar, desabando sobre a grama. Estranhamente, em todos os anos que ele e Halt estiveram juntos, nunca teve a oportunidade de montar Abelard antes. Era certo que o cavalo o conhecia há anos e sabia que ele era um amigo de Halt e duvidava que fosse jogá-lo longe. Mas treinamento é treinamento.
 
Após alguns segundos, ele percebeu que não haveria nenhuma explosão violenta do cavalo rodopiando sobre ele. Abelard estava esperando pacientemente o sinal para avançar. Will puxou a rédea de Kicker para chamar sua atenção, em seguida, bateu os
calcanhares ao lado do corpo de tambor de Abelard e afastou-se evoluindo para um galope familiar.
Atravessaram com facilidade a planície fértil que delimitava o rio. As árvores começaram a rarear, de modo que chegaram a ser, apenas agrupamentos ocasionais de pequenos brotos sobre a grama. Seguiam por uma trilha quase invisível, por vezes difícil de enxergar, mas havia poucos obstáculos e os cavalos mantinham um passo firme, até mesmo Kicker. Eles viajaram por um bom tempo, enquanto o sol chegava mais perto do horizonte ocidental, incendiando por detrás das nuvens baixas com um brilho alaranjado e arroxeado. De tempos em tempos, enquanto subia para a crista da colina, ele podia ver de relance o dramático cinza, composto pela grande extensão da floresta afogada ao leste que ia desaparecendo à medida que faziam progresso.
 
Quando a noite caiu, novamente ofereceu pouca água aos cavalos, deixando-lhes beber com moderação a partir de um pequeno balde de couro, que trazia dobrado para este propósito. Ele tomou um grande gole de café, agora quase sem vestígios de calor. Mas o gosto e a doçura do perfumado líquido o reanimou. A lua deveria levantar-se em mais ou menos uma hora e decidiu esperar por ela. Ele estava viajando em terreno desconhecido e com o passo firme que estavam mantendo, não quis arriscar que um dos cavalos tropeçasse e caísse. Ele novamente montou em Puxão. De qualquer maneira já era hora de trocar, Puxão e Abelard eram semelhantes, a marcha de Abelard era só um pouco diferente - mais dura e mais abrupta. Ele sabia que com o tempo iria se acostumar. Mas como iria viajar a noite, preferiu liderar o caminho com Puxão.
 
Depois de um tempo, a lua subiu ao leste, enorme, silenciosa e vigilante. Enquanto se afastava do horizonte, cada vez mais alto no céu noturno, dava a impressão que recuava e se encolhia. Ele colocou um braço em volta do pescoço de Abelard, deixando o cavalo encostar o nariz nele.
 
 ―Obrigado Abelard‖, disse, então, num impulso, ―Merci bien, mon ami. Você fez bem‖.
 
O pequeno cavalo rugiu em reconhecimento e bateu contra ele várias vezes. Kicker, pastando por perto, ficou olhando Will pegar sua rédea que estava amarrada na árvore e montar em Puxão.
 
Mais uma vez estava em sua familiar sela - mesmo a de Halt era um pouco diferente da dele - olhou para os outros dois cavalos que estavam esperando pacientemente pelo seu comando.
 
 ―Tudo bem rapazes‖, disse ele. ―Vamos embora‖.
 
 
 
Ele estava cansado. Muito cansado. Centenas de diferentes músculos doíam em seu corpo. Mais tarde mudou de novo para Abelard, depois de novo para Puxão e até mesmo sua sela que lhe era familiar, torturava suas pernas e seu traseiro.  Ele estimou que já houvesse passado da meia noite, mesmo com algumas breves paradas, estava montado à bem mais do que 12 horas. Enquanto viajava, mantinha uma feroz concentração. Concentrava-se no curso que estavam seguindo, se orientando pelas estrelas. Observava atentamente o solo à frente deles, alerta para quaisquer obstáculos ou perigos.
 
O esforço mental ao qual estava sendo exposto era quase tão cansativo quanto o físico.
 
A lua tinha desaparecido horas atrás, mas ele continuou com a luz das estrelas. As árvores estavam se tornando raras, enquanto ele ia subindo gradualmente um platô. O terreno era agora uma série de colinas nuas, cobertas apenas por capim e expostas ao vento. Logo, ele resolveu que teria que parar para um breve descanso. Mais uma vez, teria que escolher a melhor de duas indesejáveis alternativas. Se continuasse andando por muito tempo, a fadiga e a falta de atenção poderiam induzi-lo a um erro - tomar a direção errada ou escolher mal seu caminho. No fundo de sua mente alimentava o temor de que um dos cavalos poderia se machucar ao tropeçar e cair, por causa de algum erro que ele cometesse - um erro que não cometeria se estivesse em juízo perfeito.
 
Ele também havia se assustado com um grande animal que estava na trilha que ele seguia. Houve um grunhido de surpresa e o animal correu, desaparecendo antes que pudesse dar uma boa olhada nele. Os cavalos estavam nervosos. Kicker relinchou de alarme e puxou a rédea que Will segurava, quase tirando o jovem e esgotado Arqueiro de sua sela. Will não tinha idéia de qual animal poderia ter sido. Um lobo talvez, ou um felino grande caçando. Ele tinha ouvido dizer que havia uma espécie de lince nesta parte do país que poderia crescer tão grande quanto um urso pequeno.
 
Ou até poderia ter sido um urso.
 
Fosse o que fosse, se eles se encontrassem um com o outro, precisava ter seu juízo perfeito. Ele percebeu, com um sentimento de culpa, que havia cochilado na sela, quando deixou passar esse erro estúpido. Certamente, Puxão e Abelard teriam dado o aviso. Mas ele estava demasiado exausto para ter notado.
 
Puxou as rédeas de Puxão, era hora de parar e tirar um bom descanso. Precisava fechar os olhos e dormir, mesmo que fosse por apenas meia hora, seu corpo iria se recuperar. A idéia de uma boa meia hora de sono, se esticar no chão, enrolar-se em seu manto quente e deixar os olhos fechar foi demais para ele resistir.
 
Ele olhou ao redor da paisagem circundante. O terreno vinha subindo há algum tempo e agora eles estavam perto do topo de uma colina grande e nua. À distância, ele viu várias
formas turvas e irregulares à luz das estrelas e por um momento franziu a testa, perguntando-se o que eram.
 
Então percebeu. Eram túmulos. Os antigos túmulos de guerreiros mortos há muito tempo.
 
Ele lembrou a leviana observação que havia feito para Horace: Algumas pessoas pensam que são mal-assombrados. Ele tinha falado aquilo tão facilmente durante o dia, a dezenas de quilômetros de distância. Agora, aqui nesta colina nua, apenas com a luz tênue das estrelas, a idéia parecia bem mais ameaçadora e os túmulos pareciam ameaçadores.
 
 ―Ótimo lugar que você escolheu para descansar‖, ele murmurou para si mesmo. Gemendo com o esforço, desceu da sela de Puxão. Seus joelhos doeram um pouco quando tocou o solo e acabou cambaleando um passo ou dois. Em seguida, amarrou a rédea de Kicker na sela de Puxão, afrouxou a correia da barriga do pequeno cavalo e procurou um espaço liso na grama. Com fantasmas ou não, tinha que dormir.
 
O chão era duro e frio e o pressionou através de sua capa. Mas no momento em que deu a primeira esticada, gemeu baixinho de prazer, parecia tão macio quanto o mais macio dos colchões de penas de ganso. Ele fechou os olhos. Iria acordar dentro de meia hora, ele sabia. Se por acaso não fizesse, Puxão iria acordá-lo. Mas tinha meia hora pela frente.
 
Por enquanto, ele poderia dormir. 
 
 
 
Acordou.
 
Instintivamente, ele sabia que não tinha dormido durante todos os trinta minutos que havia programado para si. Algo o havia despertado. Algo estranho.
 
Algo hostil.
 
Não havia nenhum barulho, se conscientizou que outra coisa alertara sua mente. Nenhum som havia penetrado em sua consciência para despertá-lo. Era outra coisa. Algo que ele poderia sentir ao invés de ver ou ouvir. Uma presença. Algo, ou alguém estava por perto.
Não havia nenhum sinal físico de que ele estava acordado. Seus olhos estavam entreabertos para que ele pudesse ver, sem que qualquer observador percebesse que eles estavam abertos. Sua respiração mantinha o mesmo ritmo constante, do mesmo jeito que estava há alguns segundos atrás, quando deitou.
 
Ele avaliou sua situação, lembrando-se de tudo que estava ao seu redor. O cabo da faca saxônica do seu lado direito, onde tinha ficado dentro da bainha dupla quando deitou para dormir. Os dedos da mão esquerda tocaram a superfície lisa do seu arco, envolvido com ele dentro da capa para protegê-lo da umidade do ar da noite.
 
Se havia alguém por perto, a grande faca saxônica seria a melhor escolha, ele pensou. 
Ele poderia pular sobre seus pés e estar preparado em questão de segundos. O arco seria mais complicado. Ele concentrou nos seus sentidos, tentando determinar uma direção. 
Alguma coisa o havia perturbado. Ele tinha certeza disso. Agora, tentava sentir de onde. Entregou-se ao puro instinto.
 
Onde ele está? De qual lado?
 
Concentrou-se com toda força que podia, esvaziando sua mente, removendo todas as distrações exteriores, da mesma forma como fazia instantes antes de lançar uma flecha. Seus sentidos lhe disseram esquerda. Ele moveu seus olhos para o lado, sem mexer a cabeça. Ele respirava pausadamente, fingindo dormir, mas ainda não conseguia ver nada.
 
Não daquele ângulo. Ele se jogou e murmurou, como se ainda estivesse dormindo, e conseguiu virar a cabeça para a esquerda. Em seguida, começou a respiração do mesmo jeito pausado, como se estivesse num sono profundo.
 
Algo estava lá. Ele não podia vê-lo claramente, mas estava lá. Uma forma enorme, indistinta. Talvez um homem. Mas maior do que qualquer homem que ele já tinha visto. Ele tinha uma vaga impressão de armadura. Antiga armadura, com altos protetores de ombro e um capacete decorado com enormes asas angulares.
 
De alguma forma, parecia familiar. Ele tentou se lembrar onde o tinha visto antes, mas sua memória fugia à medida que se esforçava na tentativa. Concentrou-se em continuar a respirar profunda e uniformemente. A tentação era de parar de respirar daquele jeito forçado, enquanto analisava a situação.
 
Ele se preparou, forçando o oxigênio a percorrer seus membros, assegurando-se que sua mente estivesse sóbria e focada no que estava prestes a fazer. Ensaiou os movimentos em sua mente. A mão direita estaria sobre a grande faca saxônica. Puxaria sua faca da bainha enquanto dava o impulso para ficar de pé, usaria a mão esquerda para se apoiar e ajudar no impulso necessário. Gingaria para o lado, para evitar qualquer ataque que a
estranha figura tivesse desferido.  O movimento lateral forçaria o inimigo a reconsiderar o curso de seu primeiro golpe e daria a ele segundos vitais de sobrevivência.
 
Ele preparou seus músculos. Sua mão se fechou silenciosamente ao redor do cabo de sua grande faca.
 
E então pulou para cima. Em um movimento suave e fluído, sem qualquer aviso ou preparação visível, ele estava sob seus pés, deslocou-se para sua direita evitando um possível golpe da espada ou machado do inimigo. A faca saxônica brilhava em sua mão, enquanto ele a retirava com velocidade da bainha. Ficou em posição de combate, a faca estendida para frente com a ponta ligeiramente levantada, seus joelhos flexionados e prontos para saltar, músculos relaxados para responder ao movimento que precisasse, fosse ataque ou defesa.
 
Puxão e Abelard bufaram em alarme ao movimento brusco de Will. Kicker também se assustou um pouco mais atrás deles, levantando sua cabeça e puxando as amarras.
 
Não havia nada. Nenhum guerreiro gigante, nenhuma armadura antiga. Nenhum inimigo pronto para atacar.
 
Havia apenas a noite estrelada e o suave sussurro do vento balançando a grama alta. 
Devagar ele relaxou, levantando-se da posição de combate e deixando cair sua mão e a faca ao lado de sua coxa.
 
Lembrou-se então porque a forma parecia-lhe familiar. O guerreiro noturno, a terrível ilusão que Malcolm havia criado na floresta de Grimsdell, tinha a mesma aparência. 
Tomando consciência da situação, Will permitiu-se deixar a tensão fluir fora de seu corpo. Deixou cair sua faca de ponta no solo mole e desabou de cansado.
 
Será que ele havia sonhado? Teria sua imaginação sido alimentada pelos sombrios túmulos e as lendas antigas de fantasmas, simplesmente criando essa situação? Ele franziu a testa pensando. Tinha certeza de que ele estava completamente acordado pouco antes de ficar de pé. Será mesmo? Ou teria sido enganado por estar neste estado de metade acordado e metade dormindo, que às vezes tomava conta de uma mente e um corpo exausto? Teria sido uma lembrança antiga se agitando dentro dele?
 
Ele balançou a cabeça. Não sabia. Ele não sabia dizer quando havia despertado totalmente. Dirigiu-se para os cavalos. Eles definitivamente pareciam alarmados. 
Percebeu que era normal. Afinal, ele tinha acabado dar um pulo de forma inesperada, balançando uma enorme faca como se fosse um louco. Aproximou-se de Puxão e Abelard. Ambos estavam tensos, com as orelhas levantadas, alertas e nervosos. Puxão
deslocava seu peso de um pé para outro. Kicker havia relaxado novamente, mas não estava treinado para estar sempre alerta como os cavalos Arqueiros.
 
Puxão fazia aquele barulho familiar, ruidoso e grave vindo de seu peito. Muitas vezes isso era um sinal de perigo. Ou estava simplesmente confuso. Will acariciou seu nariz, falando gentilmente com ele.
 
 ―O que é isso rapaz? Você está sentindo alguma coisa?‖.
 
Sem dúvida, o pequeno cavalo sentia. Mas se era alguma presença por perto, ou se ele simplesmente reagiu ao alarme de Will, ele não poderia dizer. Gradualmente Puxão se acalmou e parou de mexer seus olhos de um lado a outro em direção à escuridão que os circundava, Will decidiu então pela última alternativa. Puxão e Abelard ficaram nervosos e alertas simplesmente porque reagiram ao sentimento de alarme dele. Afinal, eles não deram nenhum aviso quando estava deitado e fingindo estar dormindo. 
 
Gradualmente o pulso de Will voltou ao normal e aceitou que não havia nada de mais. Tudo havia sido fruto de sua imaginação, alimentada pela exaustão. O fato de que o intruso se parecia com o guerreiro noturno, finalmente convenceu-o que tinha imaginado tudo e se sentiu um pouco tolo.
 
Ele pegou a sua faca saxônica, colocou-a na bainha e a afivelou em volta de sua cintura. 
 
Então vestiu seu manto, antes, balançou-o um pouco para tirar a umidade, colocou sua aljava no ombro e pegou seu arco.
 
 ―Imaginação ou não‖, ele disse baixinho: ―Eu não vou ficar aqui nem mais um segundo‖.
 
Apertou a correia da sela de Abelard e montou. Então, segurando a rédea de Kicker e com Puxão trotando ao seu lado, se afastou rapidamente do lugar em que havia temporariamente descansado. Os cabelos da nuca se eriçaram um pouco, mas não olhou de volta.
 
Atrás dele, na escuridão, as presenças invisíveis dos antigos habitantes do morro voltaram silenciosamente para seu local de descanso, satisfeitos de que mais um intruso havia seguido em frente.
 
 
 
 
30
 
De volta ao acampamento, as horas demoraram a passar para Horace. Na maioria do tempo, Halt ficava calmo. De tempos em tempos ele iria despertar para mexer-se e virar, murmurando poucas palavras, nenhuma delas fazendo muito sentido.
 
De vez em quanto, Horace ouvira o nome de Will mencionado e, uma vez, o seu próprio. Mas na maioria do tempo, a mente de Halt parecia estar num lugar muito longe e muito tempo atrás. Ele mencionou nomes e lugares que Horace nunca havia ouvido antes.
 
Toda a hora que Halt começava esse ataque de murmúrios, Horace se apressava a ajoelhar-se ao lado dele. Ele mantinha um estoque de tecidos molhadas num balde de água gelada, pois ele notou que os movimentos de Halt quase sempre coincidiam com um aumento na sua temperatura. Nunca esteve tão seco e queimando do que no primeiro dia, mas ele obviamente estava inconfortável e Horace secaria seu rosto e a testa com os tecidos frios e molhados, sussurrando uma canção sem palavras de conforto enquanto fazia isso. Parecia acalmar o Arqueiro e depois de uns minutos dessas administrações, ele cairia num sono profundo e tranqüilo mais uma vez.
 
Sem muita freqüência, ele levantava e ficava lúcido. Geralmente, ele sabia quem e onde ele estava e o que aconteceu a ele. Numa dessas ocasiões, Horace aproveitou a oportunidade para persuadi-lo a comer um pouco. Ele fez mais do caldo de carne, usando um pouco do bife esfumaçado e jogado, molhando e fervendo-o. Parecia bem gostoso e ele esperou que tivesse algum nutriente ali. Halt precisava de nutrientes, ele sentiu. Ele estava parecendo mais fraco todas as vezes que ele acordava. Sua voz não era nada mais do que um pequeno sussurro.
 
Uma vez, ele ficou acordado e consciente por mais de uma hora e as esperanças de Horace aumentaram. Ele usou o tempo para induzir Halt a dar-lhe instruções de como fazer o pão da fogueira que ele chamava de apagador. Era simples demais: farinha, água e sal, moldados numa forma e então deixar-se enterrar nas brasas por aproximadamente uma hora. Infelizmente, na hora que estava pronto para comer, Halt havia adormecido novamente. Horace, desconsolado, ficou com o pão queimado para ele mesmo. Estava pastoso e grosso, mas ele falou para si mesmo que estava delicioso.
 
Ele limpou sua armadura e afiou suas facas. Elas já estavam afiadas como navalhas, mas ele sabia que ferrugem podia rapidamente formar-se nelas se ele não desse a devida atenção. E ele praticou com a faca também, trabalhando por várias horas até sua camisa estar encharcada de suor. Por todo o tempo, seus ouvidos estiveram em alerta pelo som mais leve do Arqueiro abatido, apenas alguns metros de distância.
Ele queria saber onde Will estava, e quanto ele tinha percorrido. Ele sabia que os cavalos Arqueiros eram capazes de viajar extraordinárias distâncias num dia. Mas Will tinha que considerar a viagem de volta também e seria um tempo precioso para dar descanso aos cavalos no meio do caminho. Ele não poderia gastar suas reservas de energia numa viagem de mão única.
 
Ele olhou para o mapa e tentou projetar o caminho de Will e progredir nele. Mas era um esforço em vão. Havia muitas incertezas. Trilhas poderiam estar bloqueadas ou apagadas. Margens poderiam ser cobertas ou rios poderiam inundar devido à chuva de quilômetros de distância. Uma dúzia de diferentes coisas poderiam forçar um viajante a dar uma volta em área desconhecida. Will disse que voltaria em três dias. Significava que ele planejava chegar a Macindaw, e na floresta Grimsdell, onde ficava a casa de Malcolm, em apenas um dia. A viagem de volta iria demorar mais. Malcolm não poderia esperar cavalgar sem paradas sem nenhum descanso adequado como Will podia. 
 
Will permitiu viagem sólida de dois dias, com uma noite inteira de descanso no meio. Seria rígido para o curador idoso, mas seria suportável.
 
Horace percebeu que o seu estoque de lenha estava diminuindo. Pelo menos, enchê-lo novamente daria algo para ele fazer. Ele verificou Halt, observando o Arqueiro dormir por alguns minutos até decidir que ele não iria mexer-se. Então ele pegou o machado e um cortador de lenha e foi em direção a um bosque de árvores duzentos ou trezentos metros de distância. Estava cheio de árvores mortas que iria supri-lo, pronto para fazer a fogueira.
 
Ele recolheu gravetos suficientes, então procurou pedaços pesados, cortando-os em comprimento manuseável com rápidos golpes do machado. Quase sempre, ele iria parar e virar para ver o acampamento. Ele podia perceber a figura inclinada dormindo perto do fogo ardente. As chances eram, é claro, que se Halt gritasse, ele não conseguiria ouvi-lo dessa distância. Já era difícil ouvi-lo através da fogueira.
 
Satisfeito que ele já tinha pedaços pequenos o bastante para cozinhar e um estoque de lenhas pesadas e que demorariam acesas para as próximas horas escuras, ele desceu a madeira no carregador de lenha e empurrou os cabos de vez, segurando os galhos e a lenha cortada juntos dentro do saco de lona. Com o machado no ombro e a lenha no outro lado, andou com dificuldade para o acampamento.
 
Halt ainda estava dormindo e, até aonde Horace podia dizer, ele não tinha se movido na meia hora que o alto guerreiro estivera ausente. No fundo da sua mente, Horace mantinha uma vaga esperança que ele voltaria e encontraria Halt totalmente desperto e recuperado - ou pelo menos, no caminho para recuperar-se. A visão da forma imóvel e quieta encheu-o de tristeza.
 
De mau humor, ele sentou-se sobre os pés e jogou alguns dos pequenos ramos nas brasas, soprando-os de modo que finas labaredas começaram a subir do carvão que
finalmente chegaram à madeira. O bule estava de cabeça para baixo onde ele havia deixado, depois de jogar fora a sujeira do último bule que ele havia feito mais cedo no dia. Ele encheu o bule e colocou-o para ferver, depois selecionou o estoque de café do pacote de comida.
 
Ele pesou o pequeno saco de algodão de forma experimental. Estava quase vazio e ele não tinha idéia onde conseguiriam mais nessa floresta.
 
 ―Melhor ir devagar‖, ele disse em voz alta. Ele se pegava falando sozinho desde que Will havia partido. Afinal de contas, não tinha ninguém por perto para ouvi-lo. ―Você não pode deixar Will voltar e não haver café para dar a ele‖.
 
Quando a água começou a borbulhar e vaporizar, ele mediu um pouco menos que a quantidade normal de café na palma da mão e jogou cuidadosamente na água fervendo.
 
Então ele afastou o bule das chamas um pouco, o que fez a água estabilizar-se enquanto o café começava a impregnar. O aroma delicioso e inconfundível subiu do bule, apesar da tampa fortemente fechada.
 
Mais tarde, ele quis saber se foi o cheiro familiar que despertou Halt. Certamente deve ter sido, julgando pelas suas primeiras palavras.
 
 ―Eu quero um copo desse quando estiver pronto‖.
 
Horace balançou assustado pelo som da voz de Halt. Halt soava mais forte e mais positivo do que na última vez que ele tinha falado. Horace foi para mais perto dele, segurando sua mão direita.
 
 ―Halt! Você está acordado! Como está se sentindo?‖.
 
Halt não respondeu imediatamente. Ele olhou para a figura inclinada perto dele e tentou levantar a cabeça um pouco, mas depois a deixou cair, derrotado.
 
 ―Quem é esse?‖ ele disse. ―Não posso ver muito claramente por algum motivo. Devo ter batido a cabeça, não foi?‖.
 
 ―Sou eu, Halt. E não, você estava…‖ Antes que Horace pudesse continuar a explicar o que aconteceu, Halt começou a falar novamente e o coração do jovem guerreiro afundou quando ele percebeu que, apesar da aparente força na voz de Halt, ele estava pior agora de um jeito que nunca esteve antes.
 
 ―Aquilo destruiu Thorgan, não é? Ele e sua clava. Eu não o vi vindo até que estivesse em mim‖.
Horace na verdade recuou um pouco em choque. Thorgan? Ele já tinha ouvido o nome. 
 
Ele ouviu quando era um garotinho no Departamento em Redmont. Era uma famosa história de coragem e lealdade por toda Araluen e que havia ajudado a fortificar a extraordinária lenda do Corpo de Arqueiros.
 
Thorgan, o Esmagador, tinha sido um bandido infame que aterrorizou a região norte oriental de Araluen vários anos atrás. Sua equipe de assassinos roubou e mutilou viajantes e até invadiu pequenas aldeias, queimando, roubando e aterrorizando todos os lugares em que ia. O próprio Thorgan carregava uma imensa clava de guerra, de onde ele derivou seu apelido.
 
Halt e Crowley tendo revitalizado e reformado o Corpo dos Arqueiros haviam jurado derrubar o bando de Thorgan, e trazer Thorgan para frente do tribunal de justiça do Rei Duncan. Mas numa corrida fugitiva numa floresta, Crowley havia sido emboscado por três dos homens de Thorgan e estava lutando desesperadamente pela sua vida. Halt foi à sua ajuda, atirando em dois dos bandidos e cortando o terceiro com sua faca saxônica. Mas salvando Crowley, ele falhou em ver Thorgan escondido nas árvores até que fosse tarde demais. O grande bandido balançou um terrível golpe com a sua dura clava. Halt trabalhou para evadir toda a sua força dela, escorregando como um gato para um lado no último momento. Porém, um golpe indireto pegou-o na cabeça e só conseguiu administrar a faca a perfurar profundamente o corpo de Thorgan antes de cair inconsciente acima de Crowley. Até mesmo naquele movimento, ele estava tentando proteger o amigo.
 
Os dois amigos foram encontrados algumas horas depois por uma patrulha da cavalaria de Duncan. Eles foram aconchegados, inconscientes. Perto dali, o corpo de Thorgan estava encostado na raiz de uma árvore com uma cara surpresa no rosto, e o punho da faca de Halt projetando-se das suas costelas.
 
Esse foi o evento, de tanto tempo atrás, que agora estava à frente na mente itinerante de Halt. Suas palavras seguintes confirmaram a suspeita de Horace.
 
 ―Você está bem, Crowley? Pensei que fosse tarde demais alcançando você, velho amigo. Espero que você não pense que eu deixaria você caído‖.
 
Crowley? Horace entendeu, com uma sensação enjoada na boca do estômago, que Halt havia confundido-o com o Comandante Arqueiro. Parecia não haver jeito tentando convencê-lo do contrário. Ele tampouco perceberia seu erro ou não. Horace apertou sua mão. 
 
 ―Você nunca me deixaria no chão, Halt. Eu sei que não‖.
Halt sorriu e fechou os olhos brevemente. Então ele abriu-os mais uma vez e havia uma estranha calma neles.
 ―Não sei se vou conseguir dessa vez, Crowley‖, ele disse, numa voz trivial. Horace sentiu o coração recuar de tristeza - mais no tom de aceitação do que nas próprias palavras.
 
 ―Você vai conseguir, Halt. É claro que você vai conseguir! Precisamos de você. Eu preciso de você‖.
 
Mas Halt sorriu novamente, um pequeno e triste sorriso que dizia que ele não acreditava nas palavras que estava ouvindo.
 
 ―Foi uma longa estrada, não é? Você tem sido um bom amigo‖.
 
 ―Halt...‖ Horace começou, mas Halt levantou uma mão para pará-lo.
 
 ―Não. Não pode ter sido muito tempo, Crowley. Cheguei a dizer algumas coisas...‖ Ele pausou, respirando profundamente, reunindo sua força. Por um terrível momento, Horace pensou que ele tinha sido levado. Mas depois ele reanimou-se.
―O garoto, Crowley. Você irá tomar conta dele, não vai?‖.
 
Instintivamente, Horace soube que ele estava falando de Will. O sentido de tempo e eventos de Halt pareciam misturados. Mas ele estava procurando o rosto de Horace agora, obviamente vendo somente um borrão e esperando por resposta.
 
 ―Crowley? Você ainda está aí?‖.
 
 ―Estou aqui, Halt‖, Horace disse. Ele engoliu a saliva, desesperadamente forçando as lágrimas quentes e picantes a voltarem quando elas ameaçavam forçarem-se para fora dos seus olhos.
 
 ―Estou aqui. E vou tomar cuidado com ele, nunca sentir medo‖. Ele sentiu uma dor aguda de culpa na decepção, mas ele considerou que era para o melhor. Halt havia ficado preocupado quando pensou que ―Crowley‖ não havia ouvido seu pedido. Ele relaxou um pouco quando Horace respondeu-o.
 
 ―Pensei que talvez você tivesse partido‖, Halt disse, então, com um pouco do seu riso mordaz, adicionou, ―Pensei que talvez eu tivesse partido‖. Então o riso perdeu força quando ele se lembrou do que estava dizendo.
―Ele poderá ser o maior de todos nós, você sabe‖. Horace abaixou a cabeça, mas ele sabia que tinha que responder. Ele tinha que manter Halt falando. Se ele estava falando ele estava vivo. Era tudo o que Horace sabia.
―Ele teve um grande professor, Halt‖, Horace disse a voz falhando.
 
Halt acenou uma fraca mão em recusa. ―Não precisei ensiná-lo. Só precisava apontar o caminho‖. Foi uma longa pausa, então ele continuou: ―Horace também. Um dos bons ali. Observe-o. Ele e Will juntos… eles podem ser o futuro desse Reino‖.
 
Dessa vez Horace não podia falar. Ele sentiu uma entorpecente onda de tristeza, mas ao mesmo tempo, um calor de orgulho estava no seu coração – orgulho que Halt falara sobre ele em alguns termos.
 
Incapaz de falar, ele apertou a mão do Arqueiro mais uma vez. Halt fez outro esforço para levantar a cabeça e conseguir mantê-la alguns centímetros do travesseiro. 
 
 ―Mais uma coisa... fale para Pauline...‖ Ele hesitou e Horace estava prestes a estimulálo quando ele conseguiu continuar. ―Ah... não importa. Ela sabe que nunca teve mais ninguém para mim‖.
 
Aquele último esforço pareceu exaustá-lo e seus olhos lentamente se fecharam. Horace abriu a boca para soltar seu grito de pesares, mas ele percebeu que o tórax com cabelos cinza do Arqueiro ainda estava levantando e caindo. O movimento era lento. Mas ele ainda estava respirando. Ainda vivo.
 
E Horace abaixou a cabeça e chorou. Talvez de medo. Talvez de angústia. Talvez de alívio pelo amigo continuar a vivo.
 
Talvez por todos os três.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31
 
Exausto, Will tombou na sela e puxou o arreio de Abelard para parar. A viagem pela noite, desde que havia deixado os túmulos, era como um borrão em sua mente: Uma seqüência constante de duas horas de galope, em seguida desmontando e andando por quinze minutos, depois trocando de cavalo e galopando outra vez. Ele parou duas vezes para um rápido descanso, sem nenhuma interrupção para dormir. Os descansos o haviam reanimado um pouco. Mas também serviu para lembrar-lhe das dores e da rigidez nos músculos. A cada vez que reiniciava sua marcha, ele sofria alguns minutos de agonia até que seus sentidos se acostumassem com o desconforto.
 
Agora estava quase no final da sua jornada. Ou pelo menos da primeira parte dela. À sua esquerda, ele podia ver a maior parte do sólido Castelo de Macindaw. À sua direita, estava a massa escura que delineava o início da floresta Grimsdell.
 
Por um momento, foi tentado a ir em direção ao castelo. Seria bem-vindo lá, ele sabia. Lá encontraria comida quente, banho quente e uma cama macia. Ele olhou para Abelard. O pequeno cavalo estava de cabeça baixa e cansado. Puxão, que não tinha carregado o peso de Will nas últimas duas horas, parecia um pouco melhor, mesmo assim parecia cansado. Até Kicker, que viajou sem carga até agora, deveria estar com as pernas cansadas. Se ele fosse para o castelo os cavalos seriam tratados, alimentados e alojados com conforto.
 
Ele poderia enviar um mensageiro até Malcolm quando recuperasse a sua força. 
 
Certamente, Orman o senhor do castelo, deve ter alguma maneira de entrar em contato com o velho excêntrico curandeiro, pensou. Apenas algumas horas. Não faria nenhum mal, faria?
 
A tentação o balançou - literalmente. Ele percebeu que estava realmente balançando na sela, com os olhos impossíveis de se manterem abertos. A qualquer momento ele cairia no chão e ficaria deitado na grama, ele sabia que se isso acontecesse, ele não teria força física ou mental para subir na sela novamente.
 
Ele se sacudiu, balançando sua cabeça violentamente, piscando os olhos rapidamente para rebater a sonolência que ameaçava engoli-lo.
 
―Não!‖ disse de repente, Abelard levantou a cabeça e subiu as orelhas ao som repentino da sua voz. O cavalo não estava tão cansado quanto parecia, Will percebeu. Ele estava simplesmente conservando sua força para uma necessidade adicional.
 
Will sabia no fundo de seu coração, que se fosse para Macindaw, ele seria atrasado e por muito mais do que algumas horas. Ele teria que explicar a situação, responder a uma centena de perguntas e convencer Orman a enviar um mensageiro para a floresta.
 
Supondo, é claro, que tal mensageiro pudesse encontrar a casa de Malcolm - Will conhecia o caminho e ele apenas supunha que o senhor do castelo devia ter alguma maneira de entrar em contato com o curandeiro - e ele ainda teria que convencer Malcolm da urgência da situação. E essa urgência perderia o sentido se não fosse o próprio Will que explicasse a situação. Atrasos em cima de atrasos, daí estaria escuro e muito tarde para partir. Isso pode custar-lhe horas e ele sabia que Halt não poderia esperar. Halt morreria simplesmente porque seu aprendiz havia decidido que tirar uma soneca, em um colchão de penas era mais importante que a vida de seu melhor amigo.
 
Seria mais rápido se ele mesmo fosse até Malcolm e explicasse a situação. E se o curandeiro mostrasse alguma relutância ou hesitação em segui-lo, viajar por dois dias para ajudar alguém que não conhecia - simplesmente Will poderia agarrá-lo pelo pescoço e trazê-lo a força.
 
A decisão estava tomada, ele sentou um pouco mais reto na sela e virou a cabeça de Abelard em direção a floresta Grimsdell.
 
Fazia algum tempo desde que estivera ali, mas aos poucos ele começou a reconhecer os marcos.
 
Este foi o local onde havia se encontrado com Alyss, quando pela primeira vez decidiu achar a casa de Malcolm. Ou a toca de Malkallam, como havia pensado na época. 
 
Dentro da linha das árvores, havia uma pequena clareira onde tinha ficado de tocaia e depois atirado em Jack Buttle, ferindo o assassino na coxa, mas sem grandes danos.
 
―Deveria ter atirado um pouco mais para cima‖, ele murmurou para si mesmo.
 
As orelhas de Abelard se contraíram. O que aconteceu?
 
Parece que, na ausência de Halt, o cavalo tinha decidido que deveria compartilhar seus pensamentos com Will. Ou talvez Will simplesmente o estivesse conhecendo melhor e podia adivinhar seus pensamentos com mais clareza.
 
―Nada‖, Will respondeu. ―Apenas me ignore‖.
 
Ele desmontou duramente, gemendo da dor que o movimento lhe causou. Ele afrouxou as correias de Abelard e afagou-lhe o pescoço.
 
―Bom rapaz‖, disse ele. ―Você fez muito bem‖.
 
Havia muita grama na clareira. Ele amarrou Kicker em uma pequena árvore. A rédea daria espaço para o grande cavalo circular e pastar, se ele quisesse. Abelard é claro, não precisava ser amarrado. Will simplesmente levantou a palma da mão, em seguida apontou para o chão.
 
―Fique aqui‖, disse ele calmamente. O cavalo empinou a cabeça em confirmação.
 
Ele decidiu montar em Puxão, naquele absurdo emaranhado de vegetação da floresta de Grimsdell. Ele não estava completamente certo de que seria capaz de encontrar o
caminho para a casa da floresta de Malcolm. A trilha que ele conhecia, poderia estar coberta agora. Novas trilhas poderiam ter se formado. Ele achava que sabia o caminho, mas Puxão também o iria ajudar com seus sentidos. Brevemente pensou no cão, Shadow, amargamente desejando que estivesse com ele. Com certeza iria encontrar a cabana sem hesitação.
 
Apertou as cintas de Puxão e montou na sela, gemendo novamente quando os músculos rígidos foram esticados e exigidos pelo movimento. Ele hesitou, olhando para a parede de árvores ao redor dele. Então achou que poderia seguir aquela trilha quase apagada. 
 
Pareceu-lhe vagamente familiar. Tinha certeza que era por ali que ele e Alyss tinham seguido da última vez.
 
―Vamos‖, ele falou para Puxão e seguiram para dentro da floresta de Grimsdell.
 
O caminho era obviamente algum rastro deixado por pequenos animais, que ficavam mais próximos do solo que Puxão. Conseqüentemente, cerca de um metro e meio do chão, a trilha era obstruída por galhos pendurados, videiras e trepadeiras, tudo conspirando para atrasar Will, obrigando-o a abaixar na sela ou até cortá-los fora. Por várias vezes teve que desviar de uma espécie de vinha cheia de espinhos que estava por todo o lugar.
 
As copas das árvores se tocavam de um jeito que bloqueava a luz do sol, apenas alguns feixes de luz conseguiam penetrar na floresta. Ele andava no escuro, em um mundo de sombras, não sabia de que lado estava o sol, perdendo rapidamente todo o senso de direção. Ele pensou amargamente no seu procurador de norte, deixou no acampamento a quilômetros de distância, empacotado junto com suas outras coisas. Na pressa de encontrar ajuda para Halt, tinha esquecido o quanto a floresta de Grimsdell era traiçoeira e ficou cego em confiança que acharia o caminho mais uma vez.
 
Ele sentiu que Puxão também estava confuso, sem dúvida devido ao fato de que ele não podia ver o sol e não tinha nenhuma maneira de se orientar. A trilha que seguia, se dobrava, virava e torcia de novo, de modo que, após alguns minutos, não havia nenhuma maneira de saber para onde, exatamente, estavam indo. Tudo o que podiam fazer era seguir em frente.
 
―Pelo menos desta vez, não temos de lidar com os bichos-papões de Malcolm‖, disse a Puxão.
 
A primeira vez que ele entrou nessa floreta, Malcolm a tinha marcado com sinais assustadores, sons e luzes que apareciam e depois desapareciam. Não havia nenhuma evidência delas agora. Esse pensamento o afetou, ele percebeu que possivelmente Malcolm se sentia mais seguro no bosque nestes dias. E talvez isso significasse que sua rede de observadores já não estava mais ativa entre as árvores. Era uma desvantagem. 
 
Se alguém contasse ao curandeiro que o Arqueiro havia retornado, sem dúvida mandaria alguém para guiá-lo até a clareira, onde ficava a casa de Malcolm. Mas se não houvesse observadores, ele poderia vagar sem rumo o dia inteiro e ninguém seria avisado.
 
Gentilmente, freou Puxão quando chegaram a uma parte ligeiramente mais ampla da trilha. Ficou parado por um momento considerando sua posição. Após alguns segundos, foi forçado a aceitar a verdade. Eles estavam perdidos. Pelo menos ele estava.
 
―Você tem alguma idéia de onde estamos?‖ perguntou a Puxão. O cavalo sacudiu a cabeça e relinchou fortemente. Era um som incerto. Pela primeira vez, os sentidos quase sobrenaturais de Puxão foram derrotados.
 
―Não podemos estar muito longe‖, disse Will esperançoso. Embora, na verdade eles poderiam ter caminhado na direção errada durante a última hora. Nada era familiar para ele. Fez uma pausa, observando cuidadosamente as árvores que cresciam ao redor. 
 
Empurrou o capuz para trás e escutou, ficou alerta para qualquer som que pudesse lhe dar uma idéia de sua posição.
 
Então ouviu sapos.
 
Vários sapos, coaxando.
 
―Ouça!‖ disse ele com urgência para Puxão e apontando na direção de onde tinha ouvido o insistente som. As orelhas de Puxão se levantaram e ele virou sua cabeça para seguir o som. Ele ouviu também.
 
―Encontre-os‖, Will ordenou. Com uma tarefa definida em mente, Puxão partiu em direção as árvores, afastando diversas mudas, forçando seu caminho através de alguns arbustos baixos, até que surgiu outra trilha. Caminharam apenas dez metros de onde estavam e parecia que tinham feito uma longa viagem. Após mais alguns metros, Puxão virou em direção de onde vinha o som dos sapos.
 
Com a crescente certeza ele avançou, em seguida, sem aviso, as árvores se abriram e eles saíram na borda de um grande espaço, um grande lago de águas negras.
 
―O lago Grimsdell‖, Will disse triunfante. A partir daqui, ele sabia que eram apenas dez minutos de distância até a clareira do curandeiro. Mas, dez minutos em que direção? O lago negro era familiar, porém, o lado do lago que eles saíram não era. Uma vez que perdessem o lago de vista, quando começassem a se embrenhar na mata, após alguns minutos eles estariam perdidos novamente.
 
Puxão virou a cabeça olhando para ele. Há sapos aqui. Eu fiz a minha parte.
 
Will deu um tapinha no pescoço dele em gratidão. ―Muito bem. Agora é hora de eu fazer alguma coisa‖.
 
Uma idéia veio a ele, colocou dois dedos em sua boca e soltou um estridente e agudo assobio. Puxão reagiu ao som inesperado.
 
―Desculpe‖, Will disse. ―Aqui vai outra vez.‖
 
Novamente ele assobiou longo, alto e estridente. O som parecia ser engolido pela massa escura da floresta ao redor deles. Esperou, contando os segundos até um minuto se passar, então assobiou mais uma vez.
 
Ele repetiu a ação mais quatro vezes, permitindo que um minuto se passasse entre cada assobio. E a cada vez, ele observava as árvores ao redor, esperando que sua idéia funcionasse.
 
Ele estava posicionando os dedos para o sétimo assobio, quando ouviu por perto um farfalhar no mato. Puxão retumbou em um aviso, que logo se transformou em um som de saudação. Em seguida, um vulto branco e negro surgiu, o corpo rente ao chão, pesado, com a ponta branca da cauda balançando lentamente de um lado para outro, dando boas vindas.
 
Will desmontou dolorosamente e abaixou para cumprimentá-la, acariciar seu pêlo macio da cabeça, coçando debaixo do queixo onde os cães adoram. Ela levantou a cabeça ao seu toque, um de seus olhos era marrom e o outro surpreendentemente azul, e estavam semi serrados de prazer.
 
―Olá Shadow‖, ele disse. ―Você não têm idéia de como estou encantado em vê-la‖.
 
 
 
 
 
 
 
32
 
Do alto de uma serra, Bacari vigiava o pequeno campo abaixo.
 
Ele se perguntava por que o jovem arqueiro tinha ido embora. Talvez tenha desistido da perseguição? Ele sacudiu a cabeça. Isso não parece se encaixar, com o que tinha observado desses três até agora. O mais provável, é que ele tivesse saído em busca de algum remédio ou um curandeiro local.
 
O barbudo estaria em mau estado agora, ele sabia. Bacari ouviu-o gritar e ouviu também quando deixou seu arco cair. Significava que sua flecha, pelo menos havia ferido o inimigo.
 
E uma simples ferida na carne, era tão eficiente quanto um tiro mortal, visto o veneno que tinha usado na flecha. Ficou surpreso que o estranho barbudo havia sobrevivido por tanto tempo. Ele deve estar em excelente condição física, para resistir aos efeitos do veneno por tanto tempo. O Genovês sorriu amargamente para si mesmo. A busca do jovem por um curandeiro seria em vão. Nenhum farmacêutico do país teria a menor idéia de como neutralizar o veneno. Na verdade, pensou ele, a maioria dos curandeiros das grandes cidades também não saberia.
 
Está tudo certo então, pensou. O local do acampamento que Tennyson tinha arranjado para se reunir com seus seguidores, era cerca de quatro horas de distância dali. Se os seus perseguidores continuassem a segui-los, perderiam meio dia de marcha. E com a morte de Marisi na floresta afogada, as chances estavam se inclinando para seus perseguidores. Bacari não gostava da idéia de um confronto aberto com os dois jovens, mesmo que o mais velho estivesse em mau estado.
 
Por alguns segundos, ele considerou chegar mais perto, ao alcance de sua besta e acertar o jovem guerreiro. Mas logo abandonou a idéia. Ele estaria cruzando terreno aberto, onde poderia facilmente ser visto. Se ele errasse o tiro, teria que enfrentar o espadachim e ele vira sua grande habilidade em Hibernia. Além disso, não havia nenhuma maneira de saber quando o jovem arqueiro iria retornar. Não, ele decidiu. Deixe estar. Eles não representavam nenhum perigo imediato e suas próprias prioridades haviam mudado.
 
Era hora de apresentar um relatório ao Tennyson, pensou. Ele já havia decidido, que o seu tempo com o autoproclamado profeta, poderia estar chegando ao fim. Mas antes de ir, ele queria descobrir onde Tennyson mantinha o ouro e as pedras preciosas que tinha trazido de Hibernia. Então, por enquanto, manteria o papel de guarda costa fiel.
 
 
No momento em que ele chegou ao longo acampamento, percebeu que o número de pessoas havia crescido. Devia ter chegado pelo menos mais cinqüenta pessoas. Ele andava lentamente pelo meio do acampamento, até a tenda de Tennyson. Sorriu quando viu que a simples barraca de lona foi substituída por uma enorme tenda. Os convertidos recém-chegados, obviamente tinham trazido material adicional com eles.
 
Um dos homens, que usava uma veste branca montava guarda fora da tenda. Quando Bacari desmontou e caminhou em direção à entrada, o guarda foi para cima dele, como se estivesse indo para barrar seu caminho. Bacari sorriu para ele, mas havia algo naquele sorriso que disse ao homem que ele não era uma pessoa para confrontar. Rapidamente, o guarda deu um passo para trás e acenou-lhe para entrar.
 
Tennyson estava sentado em frente a uma mesa dobrável, escrevendo em um pedaço de pergaminho. Ele olhou para cima, aborrecido, quando Bacari entrou sem aviso prévio.
 
 ―Você nunca bate?‖ Tennyson perguntou acidamente.
 
O Genovês, ironicamente olhou para os lados, procurando algum lugar na tenda de lona para bater. De má vontade, Tennyson indicou uma cadeira de lona em frente dele, no lado oposto da mesa.
 
 ―Então, o que você tem a informar?‖ o profeta disse, terminando as últimas palavras no pergaminho.
 
 ―Eles pararam‖, disse Bacari. Isso deveria chamar a atenção de Tennyson, pensou ele. O homem corpulento largou a caneta de pena e olhou para cima.
 
 ―Parados? Onde?‖.
 
 ―Cerca de quatro, talvez cinco horas de viagem de distância. O mais velha está doente. Ele vai morrer logo‖.
 
 ―Você tem certeza disso?‖ Tennyson retrucou.
 
 ―Sim. O veneno tomou seu corpo. Ele está enrolado em seus cobertores por quase dois dias. Eu não o vi se mover. Não há como sobreviver. Ninguém poderia‖.
 
Tennyson assentiu com a cabeça várias vezes. Um sorriso cruel formou-se em seus lábios. ―Bom‖, disse ele. ―Espero que ele morra com muita dor‖.
 
 ―E vai‖, Bacari assegurou.
 
 ―E os outros? Os dois jovens?‖.
 
Bacari franziu a testa enquanto respondia. ―Um já se foi. O outro ficou com o velho de barba grisalha‖.
 
 ―O que você quer dizer com, se foi?‖ Tennyson perguntou, franzindo a testa.
 
 ―Se foi, significa se foi‖, disse insolentemente Bacari. ―Ele foi embora. O outro ficou para trás. Ele parece estar cuidando do barbudo‖.
 
Tennyson se levantou e começou a andar pela tenda, a sua mente assimilando a estranha reviravolta dos acontecimentos. Ele se voltou para o Genovês. ―Ele levou alguma coisa com ele?‖.
 
Bacari fez um pequeno gesto com as mãos - parecia indicar que a informação não era importante.
 
 ―Não que eu pudesse ver. Além dos dois outros cavalos‖. Ele notou que a face de Tennyson estava começando a expressar raiva quando ouviu esta notícia.
 
 ―Ele levou todos os cavalos?‖.
 
Bacari deu de ombros e concordou. Mas não disse nada.
 
 ―Será que lhe ocorreu‖, disse Tennyson, com a voz carregada de sarcasmo, ―que obviamente ele planeja trazer alguém de volta com ele?‖.
 
 ―É por isso que ele levou os cavalos‖.
 
 ―Ele pode estar planejando trazer um curandeiro de volta com ele. Eu pensei nisso. Mas e daí se ele trouxer? Será inútil. O barbudo não tem chance. Além disso, o maior povoado próximo que poderia esperar encontrar um curandeiro é Collings Vale - e isso é mais do que um dia de viagem. Isso significa que eles não se moveram por pelo menos três dias - mais ainda, se eles esperarem que seu amigo seja curado‖.
 
Tennyson refletiu sobre isso, sua raiva lentamente passando. Mas o jeito arrogante do Genovês, ainda era um espinho no seu lado.
 
 ―É verdade. Tem certeza que não há cura para seu veneno?‖.
 
 ―Há uma cura. Mas eles não vão encontrá-la. No entanto, quanto mais tempo o barbudo sobreviver, melhor para nós‖.
 
 ―Por que você acha isso? Tennyson perguntou. A carranca pensativa voltando a seu rosto‖.
 
 ―Eles não vão viajar para muito longe, enquanto ele estiver doente. Assim, mesmo se encontrarem um curandeiro e adiar o inevitável, isso será uma vantagem. Pelo menos para nós‖, acrescentou com um sorriso cruel. ―Adiar as coisas não vai fazer nada bem ao barbudo‖.
 
Tennyson pensou sobre o que o Genovês havia dito e acenava com a cabeça várias vezes. Finalmente ele tomou uma decisão. ―Eu acho que você está certo‖, disse ele. ―Mas eu quero que você volte lá e fique de olho nas coisas, só para conferir‖.
 
O assassino reprimiu com raiva. ―Para quê?‖, perguntou ele. ―Eu viajei por quatro horas. Eu falei, eles não vão a lugar nenhum. E eu vou passar mais uma noite fora, na grama molhada, só porque você está com medo de sombras! Se quiser vigiá-los hoje à noite, vá você mesmo‖.
 
Tennyson olhou para ele. Cedo ou tarde, ele sabia que chegaria a essa situação com os Genoveses. Eles estavam muito orgulhosos, arrogantes e muito seguros de si.
 
 ―Ponha um pouco de respeito nessa boca enquanto fala comigo, Signor Bacari‖, advertiu. O Genovês soltou um grunhido curto com um sorriso de desprezo.
 
 ―Ou o quê? Eu não tenho medo de você, seu gordo. Eu não tenho medo nenhum de seus homens ou do seu falso deus. A única pessoa neste campo que é para ser temida sou eu. Entendeu?‖.
 
Tennyson segurou a raiva que estava brotando dentro dele.
 
O Genovês estava certo, ele percebeu. Mas isso não significava que, logo que a oportunidade surgisse, Tennyson ia matá-lo. Porém, no momento iria manter a aparência que concordava com ele.
 
―Você está certo‖, disse. ―Deve estar cansado e com frio. Precisa de um pouco de comida e descanso‖.
 
Bacari balançou a cabeça, convencido de que seu objetivo havia sido alcançado. Agora, ele podia dar-se o luxo de manter o compromisso com Tennyson, para manter boas relações - até descobrir onde ele tinha escondido o ouro.
 
 ―Eu vou dormir esta noite‖, disse apressadamente. ―Amanhã, antes do amanhecer, eu voltarei para vigiá-los‖.
 
 ―É claro‖, Tennyson disse em tom de seda. Ele questionou se Bacari sabia o quanto o odiava naquele momento, mas tomou cuidado para não deixar transparecer qualquer sinal físico ou no tom de sua voz. ―Está certo então. Afinal, neste momento eles não irão a lugar nenhum, como você disse‖.
 
Bacari assentiu satisfeito. Mas ele não poderia resistir a uma última alfinetada.
 
 ―Isso mesmo‖, disse. ―É como eu falei‖.
 
Ele virou-se e saiu rapidamente para fora da tenda com seu manto púrpura girando em volta dele. Tennyson olhou por detrás dele por alguns minutos, os punhos abrindo e fechando em fúria.
 
 ―Um dia meu amigo‖, disse ele num sussurro, ―a sua vez vai chegar‖. ―E vai ser longa, lenta e dolorosa. Eu prometo-lhe isso‖.
 
 
 
 
 
33
 
Alguém estava observando-os.
 
Horace não tinha certeza de como sabia. Ele simplesmente sabia. Algum sexto sentido, o mesmo sentido extra que tinha mantido ele vivo numa dúzia de combates, dizia que alguém estava observando. Ele pensou que sentiu uma presença no dia anterior, quando Will havia partido. Hoje, ele tinha certeza.
 
Ele continuou a circular o acampamento, preocupando-se com as tarefas que precisavam de sua atenção. Ele limpou os utensílios do café da manhã e a frigideira que usara, escovando-os com areia e depois os lavando em um balde de água do lago. Halt ainda estava dormindo e ele parecia estar descansando facilmente. Horace pensou que preferia Halt daquele jeito, comparado ao jeito que ele estivera - confundindo Horace com Crowley e falando sobre uma batalha antiga com bandidos. Havia decididamente algo preocupante naquilo. Isso forçou a admitir que Halt estava seriamente doente, até perto de morrer.  A visão dele descansando pacificamente era mais encorajadora. Ele podia acreditar - ou pelo menos esperar - que o Arqueiro estava realmente recuperando-se dos efeitos do veneno. Logicamente, ele sabia que era só uma questão de tempo antes de Halt acordar novamente e passear nos eventos passados. Mas esperança nem sempre segue a lógica e ele se apegara a isso desesperadamente.
 
Além disso, havia a pequena questão de alguém estar observando-os. Aquilo precisaria ser endereçado antes que fosse tarde. Ele avaliou a situação. Ele sabia que seria um erro deixar o observador saber que havia sido detectado. Mas aqui ao ar livre, não havia jeito de examinar os arredores do campo para procurar algum sinal do observador sem alertálo.
 
As possibilidades eram que o observador incógnito estava em algum lugar na cadeia de montanhas do sudeste - a direção que Tennyson e seu grupo estivera viajando. Essa, afinal de contas, era a direção de maior perigo. É claro, poderia ser alguém que não tinha conexões com a presente situação deles - um viajante qualquer que havia cruzado o caminho deles. Ou talvez um ladrão, esperando sua chance de roubar o acampamento, avaliando suas chances contra os desconhecidos, medindo suas forças e fraquezas.
 
Mas a maior chance era que ele estava sendo observado por um dos seguidores de Tennyson. E se realmente estivessem, provavelmente seria o Genovês sobrevivente. Por um momento, seu corpo atingiu o pensamento de um besteiro escondido em algum lugar ali fora. Então ele relaxou. A menor cadeia de montanhas estava a mais de trezentos metros de distância e Will havia informado que os Genoveses estavam armados com bestas relativamente fracas. A pontaria exata máxima não podia ser mais que cento e cinqüenta metros.
Mas ainda, o pensamento que ele estava sendo observado irritava. Era como uma coceira que ele não podia alcançar para coçar. Ele espiou casualmente para o terreno envolvente. A cobertura mais próxima onde ele podia examinar o horizonte sem ser visto era pelo lago, uns cinqüenta metros distante. Era numa depressão e haviam várias árvores e arbustos crescendo ao lado da água. Dali, ele poderia facilmente encontrar um ponto de observação escondido. O único problema era que ele já tinha trazido água fresca para o acampamento. Foi a sua primeira tarefa na manhã, antes de ficar ciente dos olhos sobre ele. O observador não poderia ter estado ali naquela hora. Mas se estivesse, ele iria querer saber por que Horace estava trazendo água tão brevemente. E se ele começasse a querer saber, ele poderia criar suspeitas.
 
Então ele partiria ou iria contra eles, e Horace não estava preparado para nenhuma dessas alternativas. Ele queria saber quem estava ali fora. E por quê. Ele queria que Will voltasse. Porém o mais cedo que ele podia esperá-lo seria no próximo dia - assumindo que ele conseguiria manter o ritmo que havia planejado.
 
Uma idéia acertou-o. Ele andou até o fogo e selecionou alguns ramos de tamanho médio da pilha de lenha. Colocando-os no fogo, ele virou-se e chutou o balde cheio d‘água. O balde inclinou-se para o lado e ele abaixou-se rapidamente, como se tentasse evitar que virasse. Na realidade, ele terminou o serviço, empurrando o balde no seu lado, derramando a água.
 
Parte da água caiu no recente fogo alto, criando uma nuvem de vapor e fumaça que seria facilmente visível ao observador. Só para ter certeza que ele veria tudo, Horace acertou um chute no balde, mandando girando, e disse em voz alta:
 
 ―Droga!‖.
 
Ele estava particularmente orgulhoso daquela pequena cena. Ele recordou-se de uma conversa no Castelo Araluen alguns meses antes, com um membro de uma companhia de turismo e atuação. O ator aconselhara Horace a pegar uma vaga um pouco abaixo no corredor para seu desempenho, nada certo para frente.
 
 ―Nós temos que representar para o fundo da casa‖, ele explicara, ―então nossas expressões e gestos são um pouco maiores que a vida. Acomode-se muito e isso se torna irreal‖.
 
Na hora, Horace pensou que ele estava simplesmente criando uma desculpa para o que parecia ser excessiva atuação. Mas agora ele viu o sentido disso.
 
Eu certamente representei para o fundo da casa então, ele pensou com satisfação rígida.
Halt havia se mexido e murmurado brevemente quando Horace xingou e chutou o balde. 
Horace checou-o agora, assegurando-se que o Arqueiro havia tranqüilizado. Ele retrocedeu enquanto andava. Seus dedos do pé estavam machucados por causa do sólido contato com o balde e ele sabia que isso iria doer por um dia ou dois. Ele deu de ombros filosoficamente. Às vezes, um ator tinha que sofrer por sua arte.
 
Ele foi levantar o balde e depois, andando pelo acampamento, ele curvou-se rapidamente para sua sacola e pegou sua espada e bainha, segurando-as próximo ao seu lado, fora de vista. Com sorte, o observador distante não veria o que ele pegou.
 
Tentando parecer casual, ele passeou pela grama até o lago. Ele desceu a rasa inclinação até a borda, caindo sob o nível do chão enquanto fazia isso. Assim que o horizonte estava oculto do seu olhar - e, pelo mesmo sinal, ele estava oculto de alguém vigiando dali - ele agachou-se e pôs o balde no chão. Ficando agachado, ele andou rapidamente para a sombra das árvores e arbustos, onde ele caiu de barriga no chão.
 
Prosseguindo sobre os cotovelos e joelhos, ele contorceu-se cuidadosamente nos pequenos arbustos até que pudesse ver as distantes montanhas.
 
Ele começou a examiná-la com cuidado, dividindo-a em setores e procurando metodicamente de um lado ao outro, mantendo os olhos em movimento para que não ficassem fixos em um só foco. Durou vários segundos, mas finalmente ele viu um rápido movimento. Ele captou-o com sua visão perimetral, depois movimentou os olhos e focou-se naquilo. O observador havia avançado. Talvez, depois de Horace sumir de vista, ele estava tentando encontrar um melhor ponto de vantagem para avistar o jovem guerreiro novamente.
 
Agora sua cabeça e ombros estavam visíveis acima da linha de montanhas. Se ele não tivesse visto aquele pequeno movimento, as chances eram que Horace nunca teria notado. Mas agora ele podia ver a figura claramente. E ele podia imaginar que podia também ver uma cor indefinida de roxo pesado.
 
 ―Então você voltou, hein?‖ ele murmurou. Ele olhou em torno dele, examinando o campo envolvente, procurando um jeito que pudesse aproximar o observador sem ser visto.
 
 ―Eu preciso de um barranco pequeno ou uma extensão de terra morta em algum lugar‖, ele disse para si. Mas não podia ver nada parecido no campo entre ele e as montanhas. 
Lamentavelmente, ele decidiu que se ele fosse um Arqueiro, ele teria a habilidade de avançar invisível e inaudível através do grande gramado. Mas, embora Halt desse uma roupa de camuflagem, ele sabia que a tarefa estava fora de seu alcance. E pensar em se aproximar de um besteiro experiente atravessando campo aberto não era algo convidativo.
 
Além disso, demoraria muito. O Genovês estaria esperando ele aparecer nos próximos poucos minutos, visando o acampamento com um balde de água cheio. Se ele se tornasse suspeito, quem saberia qual poderia ser sua próxima ação? Não, Horace decidiu, desde ele não chegasse perto do homem, o melhor era fingir que ele não havia reconhecido-o. Seria uma noite sem sono hoje, ele pensou.
 
Ele pegou o balde e, no último minuto, lembrou-se de reenchê-lo. Sua mente estava tão preocupada com o problema do observador Genovês que ele chegou perto de esquecer aquele pequeno detalhe. Se ele tivesse que fazer uma viagem de volta, aquilo realmente teria levantado as suspeitas do observador, ele pensou.
 
Quando chegou ao acampamento, o problema do observador escondido foi empurrado de sua mente por alguns minutos. Ele estava encantado e surpreso de encontrar Halt acordado e lúcido.
 
Conforme conversavam, tornou-se aparente que Halt sabia onde eles estavam e o que acontecera. Ele não mais confundiu Horace com Crowley e sua mente estava completamente de volta ao presente.
 
Sua garganta estava seca, de qualquer jeito, e Horace lhe trouxe um copo de café. Ele podia ver a cor voltando ao rosto de Halt enquanto ele bebia a bebida revitalizante. Após alguns goles apreciativos, Halt olhou para o limpo acampamento.
 
 ―Onde está Will? Eu assumo que ele continua atrás de Tennyson?‖.
 
Horace balançou a cabeça. ―Ele partiu para trazer Malcolm‖, ele respondeu e, quando Halt momentaneamente embaralhou o nome, ele adicionou ―O curandeiro‖.
 
Aquilo trouxe uma expressão de desaprovação para o rosto de Halt e ele balançou a cabeça.
 
 ―Ele não deveria ter feito isso. Ele deveria ter me deixado com meus próprios planos e seguido os Forasteiros. Eles estarão a quilômetros de distância agora! Por quanto tempo você disse que eu estive inconsciente?‖.
 
 ―Amanhã será o terceiro dia‖, Horace disse e a expressão de desaprovação de Halt aprofundou-se.
 
 ―É uma diferença muito grande para dar a eles. Eles podem escorregar de vocês. Ele não deveria ter perdido tempo indo atrás de Malcolm‖.
 
Horace notou a frase eles podem escorregar de vocês. Obviamente, Halt havia se excluído de mais ação contra os Forasteiros. Ele hesitou, pensando em como contar para ele sobre o Genovês que estava mantendo-os em vigilância. Se o Genovês estava mandando relatórios para Tennyson, os Forasteiros não podiam estar tão longe assim, ele pensou. Mas decidiu, em equilíbrio, que seria melhor não perturbar Halt com a notícia de que estavam sendo vigiados. Em vez disso, ele respondeu:
 
 ―Você teria feito isso no lugar dele? Você o deixaria ter ido embora?‖.
 
 ―É claro que eu iria!‖ Halt respondeu imediatamente. Mas algo na sua voz soou errada e Horace olhou para ele, levantando uma sobrancelha. Ele esperara um longo tempo por uma oportunidade de usar aquela expressão de descrença com Halt.
 
Depois de uma pausa, a raiva do Arqueiro afundou.
 
 ―Tudo bem. Talvez eu não fosse‖ ele admitiu. Então olhou para Horace. ―E pare de levantar essa sobrancelha para mim. Você nem consegue fazer isso corretamente. Sua outra sobrancelha mexe com ela!‖.
 
 ―Sim, Halt‖, disse Horace, num tom de brincadeira. Ele sentiu uma maré indescritível de alívio envolvendo-o agora que Halt parecia estar voltando ao normal. Talvez eles não precisassem de Malcolm afinal, ele pensou.
 
Ele preparou para Halt uma refeição leve de sopa de carne e abafador. Primeiramente, ele tentou alimentar o Arqueiro de barba cinza. A recusa indignada de Halt ligou seu estado de espírito ainda mais.
 
 ―Eu não sou um inválido! Dê-me essa maldita colher!‖ o Arqueiro disse e Horace virou-se para esconder seu sorriso. Aquilo era mais parecido com o amável Halt das antigas, ele pensou.
 
À tarde, com Halt dormindo calmamente, ele ficou ciente de uma estranha sensação. Ou, mais corretamente, uma falta de sensação. Desde a manhã, ele sentira o olhar constante dos olhos do Genovês. Agora, subitamente, a sensação se foi.
 
Com aparente casualidade, ele examinou o horizonte ao redor do acampamento. Ele sabia onde o Genovês escondia-se durante o dia. Várias vezes, sem aparecer para olhar, ele havia visto um brilho breve de movimento das montanhas enquanto o homem mudava de posição ou relaxava seus músculos com cãibras.
 
 ―Você nunca daria um Arqueiro‖, ele murmurou. Novamente ele havia visto a estranha habilidade de Halt e Will de manterem-se numa posição sem se moverem por horas sucessivamente. ―Então novamente‖, ele continuara, sorrindo, ―nem eu conseguiria‖.
Ele sabia que não tinha a paciência ou a autodisciplina que os Arqueiros pareciam possuir em grandes quantias.
Enquanto as sombras começavam a alongar e o sol descia inexoravelmente em direção ao horizonte, ele chegou a uma decisão. Seria lógico para ele fazer uma rápida patrulha da área antes de escurecer. Tal movimento não iria crescer as suspeitas do Genovês, se ele ainda estivesse ali.
 
Conseqüentemente, vestiu sua camisa de viagem e capacete, afivelou a espada e pegou seu escudo e saiu do acampamento. Ele começou num ponto nas montanhas uns duzentos metros à esquerda da última posição do Genovês. Dali, ele patrulharia em curvas pela cadeia de montanhas, checando a terra até o sul.
 
Ele se sentiu um pouco mais seguro agora que tinha o escudo no seu braço esquerdo. Aquilo pararia uma flecha facilmente e ele tinha confiança nas suas próprias reações. Se o Genovês ainda estivesse em posição, e se ele levantasse para atirar, Horace teria tempo amplo para defender a flecha com o escudo. E então, com a besta descarregada, ele poderia simplesmente acertar no comprimento da espada no assassino traiçoeiro. Ele iria realmente gostar daquilo. Ele marchou duramente à linha da cadeia, fez uma análise na terra da sua esquerda, então virou para a esquerda e começou a trabalhar no seu caminho ao longo da cadeia de montanhas. Ele alcançou o lugar em que havia visto movimento e olhou cuidadosamente ao redor. A grama estava rebaixada pela forma de alguma coisa, ou alguém, estando ali abaixado por um período estendido. Era um ponto de observação ideal. O cume aqui era um pouco maior e dava uma vasta visão do campo diante dele. Ele olhou de volta para o acampamento, vendo a mancha de fumaça do fogo, soprando para os lados e silenciosa perto do chão na brisa refrescante da noite, e a figura quieta, enrolada em cobertores, dormindo do lado dele. 
 
Num impulso, ele desceu para o lado mais longe da montanha e examinou a esquerda e a direita. Só demorou alguns minutos para encontrar o que ele estivera procurando. Havia uma pilha de fezes frescas de cavalo na grama, e evidência de onde uma estaca fora posta no chão, então removida. O Genovês amarrara seu cavalo aqui — atrás do cume e escondido do acampamento, mas perto o bastante se ele precisasse fazer uma escapada precipitada.
 
 ―Ele certamente estava aqui‖, ele disse. ―E agora ele partiu. A questão é ele irá voltar? E se voltar, quando?‖.
 
Ele desceu duramente de volta ao acampamento, colocando o problema de lado na sua cabeça. Enquanto a escuridão caía, ele preparava uma refeição. Ele sacudiu Halt gentilmente e ficou surpreso e aliviado quando os olhos do Arqueiro abriram quase imediatamente.
 
 ―Jantar‖, Horace falou para ele.
 
Halt deu um pequeno bufo. ―Demorou. Serviço por aqui é muito lento‖.
Mas ele aceitou o prato de comida impacientemente e comeu rapidamente. Após satisfazer sua fome imediata, ele pegou um pedaço do abafador que Horace cozinhara nas brasas.
 
 ―Você fez isso?‖ ele perguntou.
 
Horace, com algum prazer na sua nova habilidade, assegurou que foi ele que fez. Não demorou muito para Halt reclamar.
 
 ―O que é isso?‖ ele perguntou.
 
Horace olhou para ele por um longo segundo. ―Acho que preferia você quando estava doente‖.
 
Mais tarde, quando Halt estava dormindo novamente, Horace aterrou o fogo, então lentamente retirou-se do círculo tremeluzente e irregular de luz que atirou. Havia uma árvore caída uns quinze metros de distância e ele sentou-se com as costas apoiadas nela, uma coberta enrolada nos ombros e sua espada puxada descansando pronta nos joelhos. 
 
Ele gastou uma noite sem sono, esperando um inimigo que nunca apareceu.
 
Na manhã o Genovês estaria de volta.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
34
 
 
Os dois cavaleiros, conduzindo um terceiro e grande cavalo atrás deles, apareceram no horizonte ao norte.
 
Horace sentiu uma sensação esmagadora de alívio enquanto eles se aproximavam, ele podia distingui-los mais claramente a esta distância. Havia uma pequena probabilidade de que outros dois cavaleiros pudessem se aproximar, naturalmente, mas o tempo todo que ele estivera sozinho, ele se preocupara com a possibilidade de que Will chegasse à clareira do curandeiro para descobrir que Malcolm havia sido afastado para outra parte do feudo, ou estava incapacitado de algum jeito. Ou tivesse simplesmente se negado a vir.
 
―Eu deveria ter pensado melhor‖, ele falou para si, quando começou a sair do acampamento para recebê-los. Eles o viram vindo e passaram os cavalos de um lento trote para um meio galope. Os cavalos, como seus cavaleiros, estavam sujos da viagem e cansados. Mas Puxão ainda tinha energia para levantar a cabeça e mandar um relincho de saudação para Horace. Era como se ele estivesse fazendo Kicker se lembrar de suas responsabilidades, e quando o grande cavalo de batalha ergueu os olhos para o som, e reconheceu seu mestre, ele relinchou brevemente.
 
Eles diminuíram o passo até pararem ao lado de Horace, este ergueu sua mão em cumprimento, e envolveu a mão magra do curandeiro, que lhe lembrava um pássaro, na sua própria.
 
―É bom vê-lo‖, ele disse. ―Obrigado por vir, Malcolm‖.
 
Malcolm recuperou sua mão, recuando levemente da pressão do aperto de Horace.
 
―Como eu poderia recusar? Você sempre tenta esmagar a mão dos seus amigos nessas suas patas pesadas?‖.
 
―Desculpe. É só alívio por ver vocês, eu suponho‖. Horace sorriu.
 
―Como está Halt?‖ Will perguntou ansiosamente. Era a pergunta que estivera atormentando-o o tempo todo que esteve fora. Os modos de Horace eram tranqüilizadores. Will sabia que ele não estaria tão alegre se Halt estivesse pior. Mas ele precisava ouvir isso.
 
―Na verdade, eu acho que ele está melhorando‖, Horace disse para eles. Ele viu os ombros de Will levantarem-se em alívio. Mas ele estava surpreendido pela reação de Malcolm. O curandeiro franzira a testa levemente.
 
―Melhorando?‖ ele perguntou rapidamente. ―De que jeito?‖.
 
―Bem, dois dias atrás ele estava falando coisas sem sentido e delirando. Não tinha idéia de onde estava e do que estava acontecendo. Ele pensou que era algum tempo há vinte anos atrás. E ele pensou que eu era outra pessoa também‖.
 
Malcolm assentiu. ―Entendo. E o que lhe faz pensar que ele está melhorando?‖.
 
Horace fez um gesto vago com suas mãos. ―Bem, ontem, ele saiu dessa. Ele acordou e estava totalmente ciente de onde estava e do que acontecera e de quem eu era‖.
 
Ele sorriu para Will. ―Ele estava irritado por você ir buscar um curandeiro. Disse que você devia ter continuado atrás de Tennyson e deixá-lo‖.
 
Will bufou. ―Tenho certeza de que é exatamente o que ele faria se eu estivesse envenenado‖.
 
Horace riu. ―Eu disse quase a mesma coisa para ele. Ele enrolou um pouco, mas admitiu que eu estava certo. Depois ele se queixou sobre meus métodos culinários‖.
 
―Soa como se ele estivesse se recuperando‖, Will concordou. Eles alcançaram o acampamento e Malcolm desmontou de Abelard. Ele não era um cavaleiro habilidoso e completou o feito balançando um pé sobre o estribo e deslizando pelo lado errado. Horace segurou-o quando ele tropeçou, suas pernas duras cedendo atrás dele.
 
―Obrigado‖, disse o curandeiro. ―Seria melhor dar uma olhada nele imediatamente. Ele está dormindo há muito tempo?‖.
 
Horace pensou antes de responder. ―Várias horas. Ele acordou nessa manhã. Aí voltou a dormir. Depois acordou de novo à tarde. Ele está dormindo muito mais calmo‖, ele adicionou. Ele queria saber por que havia uma vaga expressão de preocupação no rosto de Malcolm. Talvez estivesse chateado porque viajara de tão longe e tão rápido só para descobrir que ele não era necessário afinal de contas, ele pensou. Ele descartou a questão e virou para Will.
 
―Por que você não descansa um pouco?‖ ele disse. ―Eu vou cuidar dos cavalos‖.
 
Mas Will fora treinado numa escola rígida. Ele sempre se sentia vagamente culpado em concordar que alguém mais cuidasse do seu cavalo.
 
―Eu vou cuidar de Puxão‖, ele disse. ―Você pode cuidar dos outros‖.
 
Eles deixaram os cavalos um pouco distantes da fogueira e deram a eles água do balde que Horace enchera só uns minutos atrás. Depois tiraram as selas dos cavalos e começaram a lavá-los. Kicker parecia excessivamente satisfeito por ver seu dono. Na verdade, ele tivera o trabalho mais fácil de todos os três cavalos na viagem. Malcolm olhara para ele com horror quando o viu pela primeira vez.
 
―Você espera que eu monte isso?‖ ele havia perguntado. ―Ele é do tamanho de uma casa!‖.
 
Conseqüentemente, ele passou a maior parte da viagem montado em Abelard. O pequeno cavalo mal notou seu peso. Malcolm era pequeno e magro, a ponto de ser esquelético e, conseqüentemente, não muito pesado.
 
―Alguma coisa aconteceu enquanto eu estava fora?‖ Will perguntou. ―Além da melhora de Halt?‖.
 
―Na verdade, sim‖, Horace disse para ele. Ele percorreu os olhos para onde Malcolm estava curvado ao lado de Halt, inclinando-se sobre ele e atendendo-o. Ele decidiu que o curandeiro não estava ao alcance da voz, embora não entendesse totalmente o porquê daquilo importar. Em voz baixa, ele rapidamente falou para Will sobre o observador nas montanhas ao sul.
 
Will, experiente em tais assuntos, não cometeu o erro principiante de olhar para a cadeia de montanhas. Ele permaneceu com os olhos abaixados.
 
―Você tem certeza que é o Genovês?‖.
 
Horace hesitou. ―Não. Eu não tenho certeza. Eu acho que é ele. Estou certo que é alguém. Encontrei o lugar onde ele estava se escondendo‖.
 
―E você diz que ele partiu ao anoitecer?‖ Will continuou. Isso estava ficando mais e mais difícil de entender.
 
―Isso mesmo. E voltou essa manhã‖, Horace falou para ele. Will enrugou os lábios, acabou de enxugar Puxão e deu uns tapinhas distraidamente no seu pescoço várias vezes.
 
―Mostre-me onde‖, ele disse.
 
Horace também não era principiante. O alto guerreiro andou para pegar uma roupa seca, então, virou-se para Will, de costas para a linha de montanhas ao sul.
 
―Deve ser exatamente acima do meu ombro‖, ele disse. E Will, fingindo olhar para ele enquanto conversavam, deixou os olhos escanearem sobre o ombro de Horace, sondando o horizonte. Horace, observando seu rosto, viu seus olhos pararem de se mexer e a pele ao redor deles apertando-se subitamente.
 
―Eu o vejo‖, Will disse. ―Só a cabeça e os ombros. Agora ele está de cabeça abaixada‖.
 
Se ele não tivesse feito isso, eu não poderia localizá-lo. ‖―.
 
―Ele está ficando convencido‖, Horace disse para ele. ―Ele não está tentando se esconder muito. E ele se mexe muito, também‖.
 
―Hum‖, Will disse. ―Que diabo ele está tramando? Por que ele não partiu simplesmente?‖.
 
―Estive pensando sobre isso‖, Horace disse. ―Talvez Tennyson esteja atrasado, e nosso amigo aqui esteja se certificando de que nós não o estamos seguindo rapidamente‖.
 ―Atrasado pelo quê?‖ Will perguntou e Horace encolheu os ombros.
 
―Pode ser que ele esteja doente ou ferido. Talvez ele esteja esperando alguém. Eu não sei. Mas ele deve estar escondido em algum lugar por perto, porque o espião dele ali em cima desloca-se à noite e depois volta aqui na luz do dia‖.
 
―Ele está esperando para ver o que faremos‖, Will disse, conforme se tornava claro para ele. ―Ele sabe que Halt está envenenado. Ele ouviu-o gritar quando a flecha acertou-o‖.
 
Então ele assume que Halt morrerá. Ele não sabe quem Malcolm é ou como ele é hábil.‖―.
 
Engraçado, ele pensou como ele simplesmente assumiu que Malcolm conseguiria salvar Halt.
 
Horace estava confirmando com a cabeça. ―Poderia ser isso. Se eles tivessem de parar, só faz sentido que eles deveriam continuar vigiando a gente. Ele pode muito bem assumir que se Halt morrer, nós vamos desistir e voltar para casa. E, obviamente, ele não tem jeito de saber que Halt está ficando melhor‖.
 
―Não seja tão rápido com essa suposição‖, Malcolm disse atrás deles. Eles viraram para encará-lo e sua expressão era grave.
 
―Mas ele parecia estar!‖ Horace protestou. ―Eu pude ver isso com meus próprios olhos e certamente não sou um curandeiro. Ele estava muito melhor essa manhã e ontem à tarde. Totalmente lúcido‖.
 
Mas Malcolm estava balançando sua cabeça e Horace parou seu protesto.
 
―Ainda não tenho certeza de qual é o veneno. Mas se eu estiver certo, esses são os sintomas‖.
 
―Do quê?‖ Will perguntou. Sua boca estava numa linha apertada.
 
Malcolm olhou para ele desculpando-se. Como um curandeiro ele odiava vezes como essa, quando tudo que ele tinha para oferecer eram más notícias.
 
―Começa com delírio e febre. Um minuto ele está no presente, depois ele está no passado. Então ele está totalmente no passado e alucinando. Esse é o segundo estágio‖.
 
Quando você disse que ele lhe confundiu com alguém. Então há o estágio final: clareza e conhecimento mais uma vez e uma aparente recuperação.
 
―Uma aparente recuperação?‖ Will repetiu. Ele não gostava do som daquela frase.
 
Malcolm deu de ombros. ―Também tenho medo. Ele já está em um estágio avançado‖.
 
Não sei quanto tempo pode ter lhe restado. ‖―.
 
―Mas... você pode cuidar dele?‖ Horace perguntou. ―Tem um antídoto para esse veneno, não tem? Você disse que sabe qual é‖.
 
―Eu acho que sei qual é‖, Malcolm disse. ―E tem um antídoto‖.
 
―Então eu não vejo o problema‖, Horace disse.
 
Malcolm tomou um profundo fôlego. ―O veneno parece de dois possíveis tipos - ambos do gênero aracoina‖, ele disse. ―Um é derivado da planta aracoina que possui flores azuis. A outra vem da espécie de flores brancas. As duas causam virtualmente os mesmos sintomas - os que eu acabei de descrever aqui‖.
 
―Então...‖ Will começou, mas Malcolm parou-o.
 
―Há dois antídotos. Eles são muito comuns. Tem eficácia quase que imediata e eu tenho os ingredientes para os dois. Mas se eu tratá-lo com aracoina branca e ele estiver envenenado com a espécie azul, isso irá, quase certamente, matá-lo. E vice-versa‖.
 
Horace e Will ficaram num silêncio surpreso enquanto Malcolm falava. Aí ele continuou.
 
―É por isso que porcos assassinos como esses Genoveses preferem veneno de aracoina‖.
 
Mesmo que um curandeiro possa preparar um antídoto, ainda há uma chance paralela que a vítima morra. ‖―.
 
―E se nós não sabemos qual foi usado?‖ Will perguntou.
 
Malcolm sabia que a pergunta estava vindo e agora ele tinha que mostrar para esse jovem que ele estava admirando um dilema sinceramente terrível.
 
―Se não o tratarmos, ele certamente morrerá. Se nos rebaixarmos a isso, prepararei ambos os remédios, então vamos tirar cara ou coroa e decidir qual usar‖.
 
Will levantou os ombros caídos e fitou Malcolm nos olhos.
 
―Não‖, ele disse. ―Não haverá nenhum cara ou coroa. Se uma decisão tem que ser tomada, eu irei tomá-la. Não terei a vida de Halt decidida em um lance de sorte assim‖.
 
Eu nunca poderia voltar e contar para Lady Pauline como que fizemos isso. Eu quero isso feito por alguém que ama ele. E esse sou eu. ‖―.
 
Malcolm assentiu com o reconhecimento do estado.
 
―Eu esperava ter uma coragem como a sua em um momento como esse‖, ele disse.
 
Mais uma vez, como ele fizera há vários meses, ele observou o Arqueiro diante dele e admirou-se com a força e a profundidade de caráter de alguém tão jovem. Horace foi para mais perto do amigo e colocou sua mão gigante no ombro de Will. Malcolm viu as
articulações dele brancas com a pressão do agarramento enquanto ele apertava, deixando Will saber que não estava sozinho.
 
Com um triste e pequeno sorriso, Will colocou sua mão sobre a dele e cobriu a mão do amigo. Eles não precisavam falar nesse momento.
 
E naquela noite, por volta da meia-noite, depois de horas gastas fitando sem palavras as brasas lânguidas do fogo, Will tomou sua decisão.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35
 
O sol nasceu a mais de uma hora atrás. Seria um belo dia, mas o grupo ficou ao redor do baixo monte de terra recém-virada com suas cabeças abaixadas em aflição. Eles não tinham olhos para o tempo bom ou a promessa de um dia claro que seria.
 
Cabeça inclinada, Will colocou um marcador de madeira para a terra recentemente escavada na cabeça da rasa sepultura, depois se afastou para dar espaço para Horace remover as últimas pazadas de barro no lugar. Horace afastou-se também, apoiando-se na pá.
 
 ―Alguém quer falar algumas palavras?‖ ele perguntou como tentativa.
 
Malcolm olhou para Will por uma resposta mais o jovem Arqueiro balançou sua cabeça.
 
 ―Não sei se estou pronto para isso‖.
 
 ―Talvez seja apropriado se nós só ficarmos aqui parados por uns instantes?‖ Malcolm sugeriu. Os outros dois trocaram olhares de assentimento concordando.
 
 ―Eu acho que seria o melhor‖ Will disse.
 
Horace se ajeitou numa posição de atenção e os três olharam de cabeças abaixadas, para a sepultura. Finalmente, Will quebrou o silêncio.
 
 ―Muito bem. Vamos lá‖.
 
Eles pegaram as roupas, carregando nos cavalos. Horace chutou sujeira no fogo para apagá-lo e eles montaram. Will olhou por um momento para a terra fresca que formava um baixo monte sobre a sepultura. Então ele virou a cabeça de Puxão e partiu sem olhar para trás. Os outros o seguiram.
 
Eles cavalgavam lentamente indo para o norte, longe da trilha que eles estiveram seguindo por dias. Eles deixaram à sepultura e Tennyson e seus seguidores para trás. Ninguém falou quando alcançaram a primeira montanha. Então, enquanto saíam de vista de qualquer um que estivesse vigiando, Will fez um breve sinal com a mão.
 
 ―Vamos lá‖, ele disse e os três impeliram os cavalos num meio-galope. Uns cem metros de distância onde o terreno tornava-se horizontal, e antes de erguer-se para ainda outra linha de montanhas, havia um pequeno bosque de árvores. Ele foi em direção ao bosque, virando levemente para a direita, os outros seguindo de perto por trás dele. 
Conforme alcançavam o bosque, ele olhou para trás sobre o ombro, para ver se havia alguém a vista atrás deles ainda. Mas a linha do horizonte estava vazia.
 
 ―Depressa!‖ ele gritou. Eles tinham de estar sob cobertura na hora que o espião Genovês alcançasse aquele cume.
 
Ele puxou as rédeas de Puxão para pará-lo na beira das árvores e conduziu os outros dois atrás dele. Eles cavalgaram para o abrigo do bosque por uns metros, então desmontaram. Will, checando mais uma vez se ainda não havia sinal de um perseguidor, seguiu eles. Ele desmontou também.
 
 ―Deixe os cavalos bem embaixo das sombras‖, ele disse.
 
Horace deixou Kicker mais distante nas árvores. Num gesto de Will, Abelard e Puxão seguiram o cavalo maior.
 
 ―Eu vou dar uma olhada em Halt‖, Malcolm disse.
 
O Arqueiro descansava, ainda dormindo, no seu saco de dormir no centro do bosque. Eles o trouxeram aqui depois do anoitecer, numa cama pendurada entre Abelard e Puxão, e o deixaram confortável. Malcolm ficou com ele durante a noite. Antes do amanhecer, eles se arrastaram de volta ao acampamento para estar presente no ―funeral‖, durante o qual ele ficou de pé, fingindo um comportamento desolado, enquanto Will e Horace enterravam um pedaço de madeira enrolado num cobertor.
 
 ―Sem mudanças‖, Malcolm falou suavemente agora para Will, depois de examinar Halt.
 
Will assentiu, satisfeito. Ficou preocupado sabendo que Halt foi deixado aqui desacompanhado por algumas horas, enquanto eles pretendiam acordar, encontrar o ―corpo‖ e enterrá-lo com todos os sinais externos de tristeza que eles pudessem reunir. Mas Malcolm tinha que voltar para o acampamento antes do espião retornar logo após o amanhecer, e eles decidiram que isso era um risco necessário. Ele esperava agora, quase dentro das árvores, mas atrás o suficiente de forma que estava numa profunda sombra e estaria invisível para qualquer um vigiando à distância. Ele examinou o horizonte ao sul zelosamente.
 ―Algum sinal?‖ Horace disse baixinho, enquanto ele e Malcolm andavam para juntarem-se a Will. Horace vestia a capa que Halt dera a ele, e Malcolm estava vestindo
a capa do próprio Halt. Cada pedaço de esconderijo ajudara, e Will os instruíra a manterem o capuz na cabeça e continuarem à frente.
 
 ―Não! E pelo amor de Deus, pare de berrar!‖.
 
Horace não podia ajudar sorrindo para a resposta irritada de Will. Mau fora um berro, Horace sabia. Mas ele perdoou o amigo pelo exagero. Will estava tenso de excitação. 
 
Esse seu truque tinha que funcionar para que Halt tivesse uma chance de sobreviver.
 
 ―O que é exatamente que você tem em mente?‖ Malcolm disse, tomando cuidado para manter a voz baixa. Will e Horace discutiram o plano de Will na noite passada, mas como Malcolm gastara o tempo mantendo o olhar sobre Halt, ele não estava certo dos detalhes.
 
 ―Estou esperando que ele venha checar se realmente partimos‖, Will disse.
 
 ―E então você vai sair precipitadamente e capturá-lo?‖ Malcolm perguntou. Ele soou duvidoso sobre a ciência daquele plano casual e a firme resposta de Will confirmou suas dúvidas.
 
 ―Eu certamente não vou! Não tenho desejo de me matar. Os Genoveses são atiradores experientes. Se me jogar contra ele, ele terá tempo o suficiente para colocar uma flecha em mim‖.
 
 ―Você atira melhor do que ele‖, Malcolm disse. Mas ele estava esquecendo um detalhe vital.
 
 ―Talvez. Mas eu quero pegá-lo vivo. Ele só irá me querer morto‖.
 
 ―Você não poderia atirar para feri-lo?‖ Malcolm sugeriu.
 
Will estava sacudindo a cabeça antes que ele terminasse de falar.
 
 ―Muitos riscos. Eu estaria galopando muito rápido em Puxão. Um tropeço, um passo em falso e eu poderia perder o alvo. Se eu errar por alguns centímetros, eu poderia matar o Genovês. E, além disso, mesmo se eu conseguisse feri-lo, ele ainda poderia me matar‖.
 
 ―Então... o que você vai fazer?‖ Malcolm perguntou.
 ―Eu tenho que esperar até que ele não esteja esperando problemas. Quando ele vier procurar-nos, ele estará completamente alerta‖, Will explicou. ―Ele estará olhando para ter certeza que realmente partimos. Suponho que ele vá cavalgar para a próxima montanha. Aí, se ele não conseguir ver nenhum sinal de nós, estou esperando que ele vá rumar para o acampamento de Tennyson‖.
 
 ―Isso soa lógico‖, Malcolm disse. Mas Will pôde sentir que ele ainda estava confuso pela situação então ele explicou mais.
 
 ―Quando ele rumar para casa, ele provavelmente irá olhar para trás pelas próximas horas aproximadamente. Então ele relaxará um pouco quando se convencer de que realmente partimos. O mais distante que ele estiver mais ele relaxará. Isso significa que eu terei a chance de pegá-lo de surpresa. Eu vou deixar começar primeiro, depois correr e ficar paralelo ao seu curso até apanhá-lo. Então vou para a frente dele e chegar o mais próximo possível antes dele me ver‖.
 
 ―Você ainda tem que capturá-lo‖.
 
Will assentiu. ―Sim. Mas ele estará cansado e ele não estará me esperando. Terei chances muito melhores de pegá-lo vivo se eu esperar algumas horas‖.
 
Malcolm assentiu, entendendo. Mas havia uma expressão preocupada no seu rosto.
 
 ―Halt pode não ter algumas horas, Will‖, ele disse discretamente e o jovem Arqueiro suspirou.
 
 ―Eu sei disso, Malcolm. Mas não vai fazer nenhum bem se eu me matar aqui, vai?‖.
 
De repente, ele levantou uma mão para cortar qualquer resposta possível. Puxão soltou um baixo som de alerta, mal audível, e ele sabia que o pequeno cavalo ouvira alguma coisa.
 
Will assentiu para ele. ―Bom garoto‖, ele sussurrou. ―Eu ouvi isso também‖.
 
Era o som de cascos de um cavalo tamborilando o chão liso. O som cresceu e Will agachou-se, gesticulando para os outros fazerem o mesmo.
 
 ―Lembrem-se‖, ele advertiu, ―se ele olhar nessa direção, não mexa um músculo‖.
 
Por vários segundos, não havia nada, então a batida dos cascos diminuiu e Will viu movimento no horizonte. Lentamente, um cavalo e cavaleiro elevaram-se na linha do horizonte. Os lábios de Will franziram em desprezo. O Genovês poderia ser um inimigo
perigoso nos becos e ruas de trás de uma cidade ou metrópole, ele pensou. Mas suas habilidades de campo eram miseravelmente deficientes. Se você fosse se mostrar na linha do horizonte daquele jeito, não havia nada a ser ganho por fazer isso lentamente.
 
 O Genovês estava fazendo isso e ele o reconheceu facilmente, notando o roxo pesado na capa e a besta nas mãos, carregada e pronta, atravessando a sela. O homem fincou os pés nos seus estribos, defendendo os olhos com uma das mãos, e examinou o chão abaixo dele, procurando algum sinal dos três cavaleiros. O terreno continuava por quilômetros numa série de pequenos cumes ondulados. Para o Genovês, parecia que Horace, Will e Malcolm já haviam partido juntos para o norte e estavam fora de vista. Aquilo fazia sentido, enquanto ele estava alguns minutos antes de partir atrás deles, no caso de estarem atrasados.
 
O Genovês agora impulsionou o cavalo para frente, subindo o cume e atropelando a rasa inclinação diante dele. Ele não era nenhum rastreador, Will podia ver os sinais pesados que o Genovês deixava através da floresta o que dizia que ele sabia pouco sobre habilidades de perseguição verdadeiras. Ele observava enquanto o assassino passava trotando, aproximadamente a cento e cinqüenta metros de onde eles se agachavam em segredo, depois subiu para o próximo cume. Novamente, ele repetiu a manobra inútil de reduzir a velocidade antes de alcançar o cume, aí expondo a si mesmo e ao seu cavalo completamente para olhar mais longe.
 
Obviamente, ele também não viu nenhum sinal dos três cavaleiros daquele ponto de observação. Ele hesitou por alguns minutos, então deu meia-volta com o cavalo para o sul e cavalgou de volta para o caminho que viera, passando pelo bosque de árvores mais uma vez.
 
Assim como antes, ele não deu atenção ao lugar onde os três estavam se escondendo. Ele cavalgou para a montanha sem pausar e eles ouviram o seu galope enfraquecendo lentamente. Will esperou alguns minutos, aí olhou para Puxão, afastado entre as árvores.
 
 ―Alguma coisa?‖ ele perguntou. O cavalo relinchou suavemente e sacudiu a cabeça. 
 
Suas orelhas levantaram, depois baixou de novo, não havia nenhum som para ele ouvir. 
 
Pela primeira vez em aproximadamente trinta minutos, Will relaxou os músculos tensos. 
 
Ele podia sentir o efeito da tensão através dos ombros.
 
 ―Você acha que ele caiu nessa?‖ Horace perguntou.
 
Will hesitou um segundo, então assentiu. ―Eu acho que sim. Ao menos que esteja nos enganando. Mas duvido que seja o caso. Ele não é muito bom em campo aberto‖.
 
Provavelmente até você poderia enganá-lo, Horace, ele acrescentou com um riso.
 
 ―Bem, muito obrigado‖, Horace disse, levantando uma sobrancelha para ele. Ele estava começando a divertir-se com aquela expressão.
 
 ―Você devia fazer isso sem mexer a outra sobrancelha‖, Will falou para ele. ―Caso contrário, você só vai parecer tonto e surpreso‖.
 
Horace fungou em orgulhosa descrença. Ele estava convencido que atuara muito bem agora e os Arqueiros estavam simplesmente com inveja que ele dominava um das suas expressões de estimação.
 
 ―Então o que vem depois?‖ Malcolm interrompeu. Ele conhecia esses dois e sentia que essa discussão poderia continuar em outra hora.
 
Will virou para ele, sua mente de volta a situação atual.
 
 ―Eu vou esperar por meia hora mais ou menos‖, ele disse. ―Eu quero que ele fique completamente convencido de que partimos. Depois eu vou fazer uma grande curva, correr para encontrar sua trilha e alcançá-lo antes dele chegar no acampamento de Tennyson‖.
 
 ―E aí você vai capturá-lo‖, Horace disse.
 
Will assentiu para ele. ―Com alguma sorte, sim‖.
 
Malcolm sacudiu a cabeça em admiração.
 
 ―Assim à toa‖, ele disse. Tudo parecia muito simples.
 
Will olhou para ele, uma expressão séria no rosto. ―Assim à toa‖. Então, percebendo que pode ter soado um pouco orgulhoso, ele explicou melhor. ―Eu não tenho escolha, Malcolm, tenho? Você precisa saber qual veneno foi usado na flecha e ele é o único cara que pode nos dizer‖.
 
 ―Então agora esperamos?‖ Horace disse e Will assentiu.
―Agora esperamos‖.
36
 
Apesar das longas distâncias que eles viajaram nos dias passados, Puxão estava surpreendentemente descansado. Will cavalgou com ele lentamente até o lugar onde o Genovês alojou-se, observando o acampamento. Quando se aproximou, ele desmontou e avançou agachado. Perto do ponto mais alto, ele se deitou de bruços e rastejou a frente para ver sobre o cume, expondo somente alguns centímetros da sua cabeça enquanto fazia isso.
 
Não havia nenhum sinal do Genovês, embora ele tivesse descoberto o lugar muito facilmente. A grama estava esmagada num grande círculo, como o ninho de algum animal grande. Will podia ver claras pegadas na grama levando para fora do cume, onde o Genovês partira a cada anoitecer. Ele seguira o mesmo caminho cada vez e sua trilha estava evidente aos olhos treinados de Will. Ele havia se dirigido para o sudeste - a mesma direção que o grupo dos Forasteiros estava seguindo. Não parecia haver nenhuma razão agora para pensar que eles possam ter alterado o curso.
 
Will considerou a situação rapidamente. O Genovês estava obviamente satisfeito que eles haviam partido depois de enterrar Halt. Então não havia motivo para ele estar colocando uma trilha falsa e não havia motivo para que pudesse suspeitar que ainda estivesse sendo seguido. Mas ele não era nenhum tolo, mesmo que suas habilidades de campo deixassem muito a desejar. Ele iria provavelmente checar a trilha atrás dele de tempos em tempos, pelo menos nas primeiras horas, e se Will fosse pegá-lo vivo, ele teria que apanhá-lo com a guarda baixa. Conseqüentemente, Will conduziu Puxão num longo arco por dois quilômetros ao oeste. Então ele virou para ficar paralelo ao curso para o sudeste do assassino e passou os passos de Puxão para rápidos meio-galopes. Era um passo eficiente. Eles progrediram rapidamente, ainda mais que os cascos desferrados de Puxão faziam muito menos barulho no chão macio do que eles teriam num galope completo.
 
Eles cavalgaram em direção ao sudeste. Conforme atravessavam cada linha de montanhas, Will tomou as mesmas precauções contra ser visto, mas não havia nenhum sinal do Genovês.
 
Depois de uma hora e meia, ele desviou-se para cruzar a trilha do Genovês. Ele a encontrou depois de alguns minutos, satisfazendo-se ao ver que o homem continuava no mesmo curso. Ele cavalgou para o oeste dessa vez, então virou de forma que ele estivesse mais uma vez paralelo ao curso.
 
Foi no meio da tarde quando ele viu o Genovês. Ele estava em passo lento adiante, seu cavalo mourejando, cabeça baixa, em marcha. Will sorriu. O cavalo era um que eles deviam ter roubado de uma fazenda local e parecia em pobre condição. Nada
comparado à força e velocidade de Puxão. E agora que ele estava tão perto quanto antes, ele sabia que o último quilômetro aproximadamente iria provavelmente tornar-se uma corrida.
 
Will dirigiu Puxão para trás, liderando para interceptar o outro cavaleiro. O homem estava jogado na sela. Obviamente, ele estava quase tão cansado quanto seu cavalo. 
 
Agora, ele estaria confiante que não havia nenhuma perseguição. Quando foi mais perto, Will pôde ver que a besta do homem agora estava pendurada no seu ombro. Seus pensamentos estariam focados no acampamento em algum lugar à frente dele, na comida quente e bebidas que o esperavam ali.
 
 ―Gentilmente, garoto‖, Will sussurrou para Puxão enquanto ele inclinava-se, sobre seu pescoço, impulsionando-o para mais velocidade. O pequeno cavalo respondeu. As batidas do casco estrondaram pesadamente no chão, mas elas foram silenciadas pela grama e a terra úmida abaixo e Will esperou que pudessem chegar mais perto antes do Genovês ouvisse eles e percebesse que estava em perigo.
 
Era uma equação perfeitamente balanceada. Se eles fossem rápidos, ele poderia fechar a área mais rapidamente. Mas eles também iriam fazer um grande barulho e aumentar o risco de descoberta. Will resistiu ao desejo de deixar Puxão correr ao máximo. O tempo para aquilo viria.
 
Enquanto cavalgava, ele jogou o arco de madeira no ombro e, deixando as rédeas sobre o pescoço de Puxão, enfiou a mão no casaco para pegar suas duas strikers.
 
No início, o movimento de Puxão tornava difícil para ele fixar os dois pedaços de latão juntos. Ele começaria a inserir uma dentro da outra e uma súbita guinada iria separá-las antes de ter os pedaços de fio presos nas strikers. Ele parou e concentrou-se em igualar os movimentos do corpo exatamente ao ritmo de Puxão. Então, permanecendo relaxado e fluido nos seus movimentos, ele tentou novamente e sentiu os fios prenderem. Depois das primeiras voltas cuidadosas, ele girou mais rápido, colocando as duas strikers juntas como uma longa peça. Ele suspendeu-a na sua mão direita, sentindo o equilíbrio familiar. As strikers estavam designadas a ter as mesmas características de lançamento da sua faca. Mas para usá-las, ele teria que se aproximar uns vinte metros - e aquilo poderia provar ser difícil.
 
Ele viu que o Genovês estava quase em outro cume. Um sexto sentido alertou Will e ele percebeu que só seria natural para o homem lançar um último olhar para trás quando alcançasse o topo. Ele fez com que Puxão desse uma parada deslizante, saiu da sela e puxou de lado nas rédeas enquanto ele descia ao chão. Puxão, treinando para responder a uma grande variedade de sinais de quem o monta, reagiu instantaneamente. Ele foi aos joelhos, depois rolou de lado na grama, deitado imóvel enquanto Will colocava um braço sobre seu pescoço. Eles ficaram deitados inertes, escondidos em parte pela grama e em parte pela própria falta de movimento deles. De uma distância, o cavalo cinza e
seu cavaleiro encapuzado iriam parecer nada mais ameaçadores que uma grande pedra rodeada por arbustos. De baixo do seu capuz, Will viu o Genovês refrear no topo do cume. Ele ofegou um suspiro de alívio por ter previsto esse momento.
 
O cavaleiro virou, suavizando os músculos tensos pra fora da sela, e lançou um rápido olhar sobre o terreno atrás dele. Mas só foi um olhar apressado. Ele fizera a mesma coisa de tempos em tempos nas passadas quatro horas. Ele não viu nenhum sinal de perseguição antes e ele não esperava ver algum sinal agora.
 
Assim ele inspecionou o gramado atrás dele sem nenhum grande cuidado. Na verdade, o movimento era mais designado para suavizar os músculos tensos de trás do que para procurar por perseguidores. Como Halt havia falado tanto para Will durante seu treino, noventa por cento do tempo, as pessoas só vêm o que elas esperam ver. O Genovês esperava ver um gramado vazio atrás dele, e foi isso o que ele viu. O monte irregular de cores verde e cinza indeterminados longe ao oeste não incitava nenhum interesse.
 
Depois de um minuto ou dois, ele regressou para o sudeste e desceu do cume. Will esperou. O truque mais velho no livro era parecer partir, então subitamente retornar para olhar mais uma vez. Mas o Genovês parecia satisfeito que a terra atrás dele estava livre de qualquer ameaça e ele não reapareceu.
 
Will deu um tapinha em Puxão no ombro e, enquanto o cavalo girava a de volta, e vinha aos seus pés, ele deu um passo, montando-o de forma que eles levantaram juntos. Com o som dos cascos de Puxão agora escondidos pelo cume entre ele e o Genovês, ele tomou a oportunidade para impulsionar o cavalo num galope. Quando eles chegaram ao topo, eles esperariam estarem somente algumas centenas de metros do outro cavaleiro.
 
Dessa vez, ele não parou no topo. Era hora de confiar. Eles estiveram viajando por quase quatro horas e a lógica o dizia que eles deviam estar perto do objetivo do Genovês. Eles alcançaram o cume a todo galope e Will deu um pequeno grito de surpresa. 
 
As orelhas de Puxão subiram com o som, mas Will apressadamente tranqüilizou.
 
 ―Continue andando!‖ ele disse. As orelhas do pequeno cavalo abaixaram novamente e ele manteve o galope, nunca perdendo o ritmo.
 
À frente deles, a paisagem havia mudado. A série de cumes ondulados agora deu lugar a um longo e gradual declive conduzindo para baixo até abrir-se num vale amplo e comprido. O acampamento de Tennyson era visível, uns três quilômetros de distância. Os números haviam crescido de vinte ou quinze pessoas que estiveram com ele originalmente. Agora, ele estimou, devia ter cem pessoas reunidas ali.
Mas o problema mais imediato de Will era o Genovês, agora menos que duzentos metros adiante. Ele não podia acreditar na sorte. O assassino não ouviu as batidas dos
cascos de Puxão na grama. Ele continuou num passo lento, seu cavalo mourejando pesadamente.
 
Então Will viu a cabeça do homem estremecer e virar na direção dele enquanto, inevitavelmente, ele os ouvia. Will estava perto o bastante para ouvir seu súbito grito de surpresa e viu-o colocar os calcanhares nas costelas do cavalo, instigando-o a um meiogalope pesado, então num galope cansado. Era um erro tático, Will pensou. O choque de vê-lo havia alarmado o homem num erro. Armado com uma besta, ele teria feito melhor em desmontar e atirar em seu perseguidor assaltante.
 
Mas aí, ele não estava ciente que Will precisava pegá-lo vivo. Talvez ele não estivesse pronto para ficar frente a frente com a fenomenal precisão e velocidade do Arqueiro mais uma vez. Ele devia estar ciente que só a sorte havia salvado ele no encontro passado deles.
 
Will viu o oval rosto pálido do Genovês enquanto ele olhava sobre o ombro. Puxão estava fechando a área rapidamente agora e o homem estava chutando desesperadamente com os calcanhares para acelerar seu próprio cavalo. Mas o cansado cavalo de fazenda nunca teria uma chance de escapar do ligeiro cavalo dos Arqueiros e Puxão estava ganhando velocidade a cada passo largo.
 
O Genovês lutava agora para desamarrar a sua besta. No momento que ele viu o que o homem estava fazendo, Will empurrou as strikers unidas através da cinta e desamarrou o próprio arco. A mão do Genovês foi à aljava, escolhendo uma flecha e colocando-a no encaixe da besta. A garganta de Will contraiu-se e sua boca secou assim que percebeu que estava prestes a encarar uma das flechas envenenadas fatais do homem. Sob circunstâncias normais, ele teria atirado primeiro. Todas as vantagens estavam do seu lado. O outro homem tinha que se torcer na sela para escapar de um tiro, enquanto Will podia atirar direto sobre as orelhas de Puxão. Nessa distância, ele poderia acertá-lo facilmente.
 
Mas ele precisava do homem vivo.
 
O Genovês havia finalmente conseguido colocar a flecha. Ele virou desajeitadamente, lutando contra os passos com solavancos e irregulares do seu cavalo, virando a besta para atirar. Ele estava torcendo-se na sua direita, então Will guiou Puxão com os joelhos, virando-o para a esquerda, forçando o Genovês a torcer-se mais, ficando mais difícil para ele acertar o alvo.
 
O Genovês percebeu o que estava fazendo e girou subitamente para o outro lado, torcendo-se a sua esquerda para um tiro mais claro. Mas assim que ele fez isso, Will ziguezagueou novamente, levando Puxão de volta para a direita. A manobra estava bem sucedida. O Genovês descobriu que seu alvo estava novamente fora do seu campo de visão. E Puxão fechou a área por outros vinte metros no processo.
O Genovês torceu-se para a direita novamente. Dessa vez, Will continuou galopando firmemente, sem ziguezaguear. Mas agora ele tinha uma flecha encaixada e cavalgava com as rédeas enroladas no pescoço de Puxão, guiando o cavalo com seus joelhos. Ele não podia arriscar matar o Genovês, mas sua caça não sabia disso. O assassino conseguiria uma chance para um tiro. Não haveria tempo para ele recarregar, mesmo se ele pudesse administrar a tarefa nas costas do cavalo.
 
Quando ele foi atirar, Will planejou estragar seu alvo. Ele estava confiante que poderia disparar várias flechas em rápida sucessão, colocando-as perto o bastante à cabeça do Genovês para fazê-lo recuar. Ele lembrou o duelo com o compatriota do homem. Esses homens eram principalmente assassinos, acostumados a atirar de coberturas num alvo impotente, alguém que não estava ciente da presença deles. Eles não estavam acostumados a combate aberto, fitando um inimigo que atira de volta - e que atira com pontaria mortal.
 
Ele estava mais perto agora. O passo de Puxão estava regular e controlado, ao contrário do cavalo de fazenda, que estava desajeitado e cansado e tinha o Genovês pulando desigualmente na sela.
 
Aqui vai! A besta apontou e ele viu a mão do Genovês começar a esticar-se sobre o gatilho. As mãos de Will mexeram-se numa falta de clareza, puxando, soltando e jogando uma nova flecha para fora da aljava e para a corda do arco em tal rápida sucessão que ele tinha três flechas no ar nos segundos antes do Genovês soltar.
 
Enquanto sua mão esticava-se no gatilho da besta, o assassino de repente tornou-se ciente do perigo. Algo sibilou ferozmente passando sua cabeça, aparentemente só alguns centímetros de diferença. E ele ficou ciente que mais dois tiros estavam a caminho, uma fração de segundo atrás do primeiro. Isso teria pego mais nervos confiantes do que ele possuía para parar um alvo frio e cauteloso - mesmo se ele não estivesse sendo sacudido e agitado pelo cavalo galopante. Ele abaixou-se, gritando uma maldição involuntária, e sua mão espalmou-se, empurrando dificilmente o gatilho e mandando a flecha em linha curva alto no ar, de forma que caiu inofensivamente na longa grama quase a cem metros distante.
 
O perigo passou. Will jogou o seu arco de lado. Não tinha tempo para amarrá-lo e ele podia retomá-lo mais tarde. Ele tirou as strikers do cinto e acelerou Puxão para um último estouro de velocidade. O assassino, vendo-o a somente quarenta metros de distância, batia freneticamente com os calcanhares nas costelas do cavalo. O animal exausto havia diminuído a um trote enquanto seu cavaleiro estivera preocupado e agora ele precisava de velocidade novamente. O cavalo respondeu tanto quanto pôde, mas Puxão estava diminuindo a distância entre eles agora. Atrasado demais, o assassino começou a pegar uma das várias adagas que carregava. Mas o braço direito de Will subiu e então foi para frente num lance direto e poderoso.
As strikers reluziram na luz do sol enquanto elas viajavam fim sobre fim. Por um segundo, o assassino não as viu, não registrou o perigo. Então ele viu o metal voador e abaixou-se sobre o pescoço do cavalo.
O homem tinha reflexos como um gato, Will pensou. As strikers voaram sem perigo sobre sua cabeça e desapareceram na longa grama. Will praguejou. Ele nunca as encontraria novamente. Ele puxou a faca saxônica da sua bainha.
 
 ―Vá pegá-lo, Puxão‖, ele disse e sentiu a reação do seu cavalo quando ele acelerou mais uma vez, agora se movendo tão rápido quanto Will nunca havia sentido ele mover.
 
Ele viu um brilho de aço na mão do Genovês, reconheceu como uma das adagas de lâmina extensa que os assassinos carregavam. Ele segurou a faca saxônica pronta e dirigiu Puxão para frente. O Genovês começou a virar o cavalo para encontrar o perseguidor, mas ele estava muito atrasado. Ele lançou uma vez, mirando Puxão, mas Will inclinou-se para frente sobre o pescoço do seu cavalo e desviou a fina lâmina com sua faca.
 
Então o ombro de Puxão atirou-se em total velocidade contra o exausto e desequilibrado cavalo de fazenda e mandou-o espatifando-se, de forma que ele chocou-se contra o chão no seu lado e deslizou por vários metros ao longo da superfície lisa de grama. O violento movimento prendeu a perna direita do Genovês sob o corpo do cavalo. Os cascos do cavalo agitaram-se fracamente no ar, mas não fez nenhuma tentativa de se levantar. Estava acabado.
 
Instantaneamente, Will estava fora da sela. Ele correu para o assassino preso. O Genovês perdera sua adaga na colisão e ele estava lutando freneticamente sob sua capa roxa para puxar outra. Sem um segundo de hesitação, Will interviu e empurrou o pesado punho de metal da sua faca saxônica no lado da cabeça do homem. Então, sem esperar para ver se o primeiro golpe foi bem sucedido, ele repetiu a ação, um pouco mais duro.
 
Os olhos do homem rolaram na sua cabeça. Ele soltou um fraco gemido e caiu para trás, sua perna direita ainda presa sob o cavalo caído. Will recuou para recuperar o fôlego. O segundo golpe provavelmente foi desnecessário, ele percebeu. Mas ele se divertiu.
 
 ―Tanto por você‖, ele disse para a figura quieta. ―E o cavalo em que você passeava‖.
 
 
 
 
 
 
 
 
37
 
Malcolm estava preocupado. O veneno estava no sistema de Halt por vários dias e a qualquer momento ele poderia ir para os estágios finais. Ele estava tranqüilo para o momento, e sua temperatura estava normal. Mas se ele ficasse agitado e febril novamente, se sacudindo e se contorcendo e gritando, isso poderia sinalizar que o seu fim seria daqui a algumas horas. Will estava correndo contra o tempo para trazer de volta o Genovês antes que Halt chegasse a esse estágio. Na melhor das hipóteses o acampamento de Tennyson ficava a aproximadamente quatro horas de distância. Quatro horas para ir e quatro horas para voltar.
 
Em uma hora, Halt poderia estar morto.
 
Ele olhou para o guerreiro jovem e alto, sentado debruçado sobre os joelhos, olhando para o espaço. Ele desejava que houvesse algo a fazer para ajudar Horace, algum incentivo que ele pudesse oferecer. Mas Horace conhecia a situação, assim como ele conhecia. Malcolm não tinha o hábito de oferecer falsas esperanças ou palavras tranquilizadoras em um momento como aquele. Ter falsas esperanças era pior do que ter a pouca esperança que eles tinham.
 
Halt deu um gemido baixo e virou-se para o lado. Instantaneamente, Malcolm ficou alerta, observando-o como um falcão. Ele havia apenas se mexido enquanto dormia ou isso seria o início do estágio final? Por alguns segundos, Halt ficou imóvel e sua ansiedade diminuiu. Então ele murmurou novamente, desta vez mais alto, e começou a agitar-se, tentando jogar fora os cobertores. Malcolm correu para seu lado, se ajoelhando e colocando a mão na testa do Arqueiro barbudo. Sua testa estava quente ao toque - demasiado quente para ser normal. Os olhos de Halt estavam fechados, mas ele continuou gritando. No início, eram apenas sons inarticulados. Então de repente ele gritou um aviso:
 
 ―Vai! Não tenha pressa! Não apresse o tiro!‖.
 
Malcolm ouviu os passos rápidos de Horace como se ele tivesse se mexido para ficar atrás dele.
 
 ―Ele está bem?‖ Horace perguntou. Nas circunstâncias, foi uma pergunta ridícula. Halt não estava nada bem. Malcolm respirou fundo para dar resposta. Então ele parou. Foi uma reação natural da parte de Horace.
 ―Não‖.disse ele. ―Ele está em apuros. Horace, me passa o meu remédio que está na bolsa‖.
A mochila estava ao alcance de Malcolm, mas Horace sabia que seria melhor para Malcolm pensar que ele estava ajudando. Horace passou a bolsa de couro para Malcolm, que procurou rapidamente, através dela, seus dedos foram rapidamente para o frasco que ele precisava. O frasco continha um líquido marrom claro e Malcolm usou os dentes para remover a rolha.
 
 ―Mantenha a boca dele aberta‖.Ele disse brevemente. Horace ajoelhou do outro lado de Halt e forçou a boca do Arqueiro para ficar aberta. Halt lutou contra ele, tentando sacudir a cabeça de um lado para o outro para evitar o remédio. Mas ele estava enfraquecido pelas provações dos últimos dias e Horace era forte para ele. Malcolm se inclinou para frente e deixou algumas gotas do líquido marrom caírem sobre a língua de Halt. Novamente, o Arqueiro reagiu, arqueando as costas e tentando se soltar.
 
 ―Mantenha a boca dele fechada até que ele engula‖.disse Malcolm laconicamente. Horace apertou suas grandes mãos sobre a boca do Arqueiro, fechando-a. Halt se sacudiu e gemeu. Mas depois de algum tempo, eles viram sua garganta se movendo e Malcolm soube que ele havia engolido a bebida.
 
 ―Tudo bem‖.disse ele. ―Você pode soltá-lo‖.
 
 Horace soltou sua mão de ferro da mandíbula de Halt. O Arqueiro gaguejou, tossiu e tentou se levantar. Mas agora Horace tinha as mãos em seus ombros, segurando-o para baixo. Após mais ou menos um minuto, seus movimentos começaram gradualmente a enfraquecer. Sua voz se extinguiu a um murmúrio, e ele dormiu desengonçadamente.
 
 Malcolm sinalizou para Horace relaxar. Havia suor na testa do jovem guerreiro e o curandeiro sabia que era mais do que esgotamento. Era transpiração de nervosismo causada pelo seu medo por Halt e sua incerteza. Emoções poderosas, Malcolm sabia, e capazes de causar danos ao seu corpo.
 
 ―Malcolm‖.disse Horace. ―O que está acontecendo?‖.
 
Ele reconheceu que esta era uma nova fase do sofrimento de Halt. Malcolm lhes havia dito que Halt iria passar por várias fases, mas ele não tinha descrito isso, a fase final, em detalhes. Mas Horace sabia que qualquer mudança no comportamento ou nas condições só poderia ser uma má notícia naquele momento. Halt estava piorando e Horace quis saber o quão ruim a situação era.
 
Malcolm olhou para cima e encontrou seu olhar preocupado.
 
 ―Eu não vou mentir para você, Horace. Ele está mais calmo agora por causa da droga que eu dei a ele. O efeito vai passar em mais ou menos uma hora e ele vai começar a agitar-se novamente. Cada vez vai ser pior. Ele vai conduzir o veneno mais e mais fundo através do seu sistema e então será o fim‖.
―Por quanto tempo você pode continuar dando-lhe a droga?‖ Horace perguntou. Will poderia estar de volta aqui a qualquer momento.
 
Malcolm encolheu os ombros.
 
 ―Talvez mais duas vezes. Talvez três. Mas ele está fraco, Horace, e é uma droga poderosa. Se eu der a ele muitas vezes, poderia matá-lo tão facilmente como o veneno‖.
 
 ―Não há nada que você pode fazer?‖ Horace disse, sentindo lágrimas ardendo nos olhos. Ele se sentiu assim... incapaz, tão inútil, parado assistindo Halt afundar mais e mais. Se o Arqueiro estivesse em uma batalha, cercado por inimigos, Horace não hesitaria em ir ao seu auxílio. Ele entendeu aquele tipo de situação e pode lidar com isso.
 
Mas isso! Era terrível ficar parado, esperando e observando, torcendo as mãos em angústia e incapaz de fazer qualquer coisa. Isso era pior do que qualquer batalha que pudesse imaginar.
 
Malcolm não disse nada. Não havia nada para dizer. Ele viu raiva nos olhos de Horace, viu o seu rosto ruborizar de raiva.
 
 ―Vocês curandeiros! Vocês são todos os mesmos! Vocês têm suas poções e seus feitiços e suas histórias mentirosas e, no final, tudo isso não serve pra nada! Tudo o que você pode dizer é espere e veja!‖.
 
A acusação era injusta. Malcolm não era como a maioria dos curandeiros, muitos dos quais eram mentirosos e charlatões. Malcolm lidava com ervas e medicamentos e com o conhecimento do corpo humano e seus sistemas. Ele foi sem dúvida o mais qualificado e melhor aprendiz curador em Araluen. Mas às vezes, habilidade e conhecimento, simplesmente não eram suficientes. Afinal, se os curandeiros eram infalíveis, ninguém jamais morreria. No fundo, Horace sabia disso, e Malcolm, sabendo que ele sabia, não se ofendeu. Ele compreendeu que a ira do guerreiro foi dirigida à situação e no seu próprio sentimento de absoluto desamparo, e não no próprio Malcolm.
 
 ―Sinto muito, Horace‖ ele disse simplesmente. Horace parou seu discurso e soltou um longo suspiro, seus ombros curvados. Ele sabia que suas palavras tinham sido mal interpretadas. E ele sabia também que Malcolm devia sentir uma sensação ainda pior de desamparo do que ele sentia. Afinal, foi para isso que Malcolm fora treinado e ele não poderia fazer nada. Horace fez um pequeno gesto com a mão.
 
 ―Não. Não‖.ele disse. ―Não tem nada que pedir desculpas. Eu sei que você fez o seu melhor para ele, Malcolm. Ninguém poderia ter feito melhor. É que...‖.
Ele não pôde terminar a frase. Ele não tinha nem certeza do que estava prestes a dizer. 
 
Mas ele percebeu que suas palavras significavam a sua aceitação ao fato de que Halt iria morrer. Não havia mais nada que pudessem fazer por ele. Se Malcolm não pudesse ajudá-lo, ninguém poderia.
 
Ele virou-se, a mão aos olhos escondendo as lágrimas, e se afastou. Malcolm começou a ir atrás que ele, então decidiu que seria melhor deixá-lo. Ele se voltou para Halt e se ajoelhou ao lado dele mais uma vez. Ele franziu a testa em concentração, olhando para o Arqueiro. Em meia hora, o líquido marrom iria começar a perder efeito e Halt teria outro ataque. Ele poderia facilitar isso, mas seria uma solução temporária. Os ataques continuariam e piorariam. Era um caminho sem volta.
 
A menos que...
 
Uma idéia estava se formando em sua mente. Era uma idéia desesperada, mas esta era uma situação desesperadora. Ele respirou profundamente várias vezes, fechando os olhos e se concentrando. Ele forçou sua mente a ignorar as coisas ao redor e concentrarse no problema principal, revirando a idéia em sua mente, buscando as falhas e os perigos e encontrando muito de ambos.
 
Então, ele considerou a alternativa. Ele poderia manter Halt confortável por mais algumas horas - talvez duas ou três - na esperança de que Will voltasse. Mas ele sabia que era uma chance remota. Mesmo se Will pegasse o Genovês antes disso, ele iria viajar mais lentamente no caminho de volta com um prisioneiro. Em quatro horas, Halt provavelmente estaria morto. Não provavelmente, ele corrigiu, quase com certeza.
 
Ele tomou uma decisão e levantou-se, caminhando em direção ao jovem guerreiro que estava encostado tristemente contra uma árvore a alguns metros de distância. Ele viu os ombros caídos, a cabeça inclinada, a linguagem corporal que lhe disse que Horace havia desistido. Então ele sentiu uma pontada de dúvida. Será que ele tinha o direito de darlhe esta nova esperança - esperança que poderia ser incerta? Se ele melhorasse as expectativas de Horace e Halt ainda assim morresse, como ele poderia se perdoar?
 
Seria melhor simplesmente aceitar a situação, fazer o que ele pudesse por Halt e deixar a natureza seguir seu curso?
 
Ele balançou a cabeça, formando uma nova resolução na sua mente. Aquele não era seu caminho. Nunca seria. Se houvesse a menor chance de salvar um paciente, então ele iria usá-la. Ele lutaria até o fim.
 
 ―Horace?‖ ele disse suavemente. O rapaz virou-se para ele e Malcolm viu as lágrimas que escorriam por seu rosto.
―Pode haver alguma coisa...‖ ele começou. Ele viu a esperança nos olhos de Horace e ergueu a mão para impedi-lo de se animar.
 
 ―Não é uma chance muito boa. E poderia não funcionar. Poderia até mesmo matá-lo‖ ele alertou. Por um momento, ele viu Horace recuar mentalmente, pensando nesse resultado, então o guerreiro se recuperou.
 
 ―O que você tem em mente?‖.
 
 ―É algo que eu nunca fiz antes. Mas poderia funcionar. O remédio que eu dei a ele é muito perigoso. Como eu disse, poderia matá-lo, mesmo sem o veneno. Mas se eu desse o suficiente de modo que ele estivesse quase morto, isso poderia salvá-lo‖.
 
Horace franziu a testa, sem entender.
 
 ―Como você pode salvá-lo, se pode quase matá-lo?‖.
 
 E Malcolm teve que admitir que, posto desta forma, parecia um plano louco. Mas ele manteve-se firme.
 
 ―Se eu der a ele a dose certa, tudo em seu corpo irá desacelerar. Seu pulso. Sua respiração. Seu sistema inteiro. E os efeitos do veneno vão desacelerar também. Nós vamos dar tempo a ele. Talvez oito horas. Talvez mais‖.
 
Ele viu o efeito que essas palavras tiveram sobre Horace. Em oito horas, Will certamente estaria de volta - se ele tivesse conseguido capturar o Genovês. De repente, Horace sentiu uma dúvida terrível. E se o Genovês tivesse matado Will? Ele empurrou o pensamento de lado. Ele tinha que acreditar em alguma coisa hoje.
 
Will estaria de volta. E se Halt ainda estivesse vivo, Malcolm poderia curá-lo. De repente, havia uma esperança, onde havia apenas um desespero escuro.
 
 ―Como você faz isso?‖ perguntou ele lentamente. Malcolm mordeu o lábio por um segundo ou dois, então decidiu que não havia nenhuma maneira fácil para expressar o que ele tinha em mente.
 
 ―Vou dar-lhe uma overdose massiva do remédio. Mas não o suficiente para matá-lo‖.
 
 ―E quanto isso vai ser? Você sabe? Você já fez isso antes?‖.
Mais uma vez, Malcolm hesitou. Então ele aceitou o desafio.
 ―Não‖.ele disse ―Eu nunca fiz isso antes. E não conheço ninguém que tenha feito‖.
 
Quanto à quantidade que devo dar-lhe, francamente, eu vou estimar uma quantidade. Ele já está fraco. Eu acho que sei o quanto lhe dar, mas não posso ter certeza.‖
 
Houve um longo silêncio entre eles. Então, Malcolm continuou.
 
 ―Não é uma decisão que eu quero fazer, Horace. Deve ser feita por um amigo‖.
 
Horace encontrou seu olhar e balançou a cabeça lentamente, compreendendo.
 
 ―E deve ser feita pelo Will‖.
 
Malcolm fez um pequeno gesto de concordância.
 
―Sim. Mas ele não está aqui. E você é amigo de Halt também. Você pode não ser tão próximo a ele como Will é, mas você o ama e eu estou pedindo a você pra tomar essa decisão. Eu não posso fazer isso por você‖.
 
Horace soltou um suspiro profundo e se virou, olhando para fora através das árvores até o horizonte vazio, como se Will pudesse aparecer de repente e tornar isso tudo desnecessário. Ainda olhando, ele disse lentamente:
 
 ―Deixe-me perguntar-lhe isto. Se este fosse seu amigo, seu amigo mais próximo, então você faria isso?‖.
 
Agora foi a vez de Malcolm fazer uma pausa e considerar o que responder.
 
 ―Eu acho que sim‖.ele disse após alguns segundos. ―Gostaria de ter a coragem. Eu não tenho certeza se eu iria ter, mas eu gostaria que tivesse‖.
 
Horace se virou para ele com o fantasma de um sorriso triste em seu rosto.
 
 ―Obrigado por uma resposta honesta. Sinto muito sobre o que eu disse antes. Você merece coisa melhor do que isso‖.
 
 Malcolm deixou as desculpas de lado.
―Já esqueci‖.disse ele. ―Mas qual é a sua decisão?‖ Ele indicou Halt e, quando ele fez isso, o Arqueiro começou a se mexer novamente, resmungando em voz baixa. A
primeira dose do remédio estava começando a perder o efeito. Malcolm percebeu que este era um momento importante, uma janela de oportunidade.
 
 ―A droga está perdendo o efeito‖.ele continuou. ―Está fora do seu sistema. Isso torna mais fácil para eu trabalhar com a dosagem certa. Eu não tenho que levar em conta o que eu já tinha dado a ele‖.
 
Horace olhou de Malcolm para Halt, e chegou a uma decisão.
 
 ―Faça‖.ele disse.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38
 
O pôr do sol estava por cima das montanhas quando Abelard levantou a cabeça e deu um longo relincho. 
 
Horace e Malcolm olharam surpresos para o pequeno cavalo. Os cavalos dos Arqueiros normalmente não faziam barulhos desnecessários. Eles eram muito bem treinados. 
 
Kicker ergueu os olhos, também curioso, e depois abaixou a cabeça e voltou para o seu pasto. 
 
 ―O que há de errado com Abelard?‖ Perguntou Malcolm
 
Horace deu os ombros. ―Ele deve ter ouvido ou cheirado alguma coisa.‖ Ele estava sentado perto da fogueira, fitando a brasa e como ela alternadamente produzia calor e entorpecia com o inconstante vento através das árvores.
 
 Ele se ergueu, sua espada estava pronta na mão, andou pelo limite do bosque onde estavam acampados.
 
Quando fez isso, ele ouviu um remetente relinchar de algum lugar distante. Então, uma figura incerta apareceu no horizonte. 
 
 ―Aquele é Will!‖ Ele disse ―E traz um prisioneiro.‖
 
O traço do cavalo e do cavaleiro tinha sido embaçado pelo fato de que Will estava cavalgando com o Genovês, mãos e pés amarrados, barriga virada para baixo do outro lado da sela, na frente dele.
 
Ele corria devagar com Puxão pelo limite do bosque, balançando a mão como cumprimento quando viu Horace caminhar pelas árvores. Na frente dele, o Genovês gemia desconfortavelmente com cada galope de Puxão.
 
Malcolm tinha deixado o acampamento para se juntar a Horace, abriu e esfregou a mão com expectativas quando ele viu que o jovem guerreiro estava bem. Will tinha um prisioneiro e a capa roxa deixava claro que esse era o Genovês.
 
Will freou perto deles. Ele parecia exausto, Horace notou, embora não estivesse surpreso, considerando o que o jovem Arqueiro tinha passado nos últimos dias.
 
 ―Como está Halt?‖ Perguntou Will.
 
Horace fez um gesto tranqüilizador. ―Ele está bem. Mas Malcolm o colocou em um sono profundo com o veneno lento.‖ Ele pensou que isso era melhor ser dito assim do que falar Malcolm estava perto de matá-lo com o efeito do veneno. ―Ele ficará bem agora que você está de volta.‖
 
O rosto de Will aparentava cansaço e seus olhos estavam vermelhos. Mas agora que sua preocupação sobre o que Halt tinha sido respondida, existia um claro ar de satisfação nele.
 
 ―Sim, eu estou de volta.‖ Ele disse. ―E olha com quem eu cavalguei.‖ Horace forçou uma risada para ele. ―Espero que tenha corrido severamente com ele.‖
 
 ―O mais severo que pude.‖ Horace deu passos à frente para erguer o Genovês, mas Will o puxou de volta.
 
 ―Afaste-se.‖ Ele agarrou a gola da capa do prisioneiro, levantando-o e fazendo com que Puxão desse um coice na direção oposta. O assassino escorregou do cavalo como um saco da batata. Ele bateu contra o chão, tentou evitar a queda com os pés, mas falhou.
―Cuidado!‖ Disse Malcolm ―A gente precisa dele, lembre disso!‖
 
Will pigarreou com zombaria do Genovês, que tentava debilitadamente alcançar os pés.
 
 ―Ele está bem.‖ Ele disse ―Precisa mais do que isso para matá-lo. E a gente só precisa dele falando, não em pé.‖
 
Ao sinal de Malcolm, Horace deu passos à frente e levantou o prisioneiro pelos pés. O prisioneiro resmungou. Alguma coisa nos olhos do guerreiro pareceu encontrar com os do assassino e ele parou com o abuso.
 
 ―Qual seu nome?‖ Malcolm perguntou para ele, usando a língua comum. O Genovês mudou seu brilho e deu os ombros desdenhosamente, sem dizer nada. Isso era uma ação ofensiva e era também um erro. Horace abriu sua mão e bateu diretamente no lado da cabeça dele, balançando-o de um lado para o outro. 
―Não cometa nenhum erro, seu imbecil.‖ Disse Horace ―Nós não gostamos de você.
Não temos nenhum interesse em deixar você confortável. De fato, quanto mais desconfortável você tiver, mais eu irei gostar.‖
―Seu nome?‖ Malcolm repetiu.
 
Horace sentiu que o ombro do homem estava subindo novamente, no mesmo movimento desprezível. A mão direita dele subiu, e dessa vez foi em forma de soco.
 
 ―Horace!‖ Malcolm gritou. Ele precisava do homem consciente para responder as questões. Horace continuou com a mãe levantada. Os olhos do Genovês estavam fixos na mão dele. Ele sentiu o poder por trás do tapa do homem. Um soco poderia ser muito pior, ele sabia.
 
 ―Ele ainda pode falar com o nariz quebrado‖ Falou Horace. Mas agora o Genovês parecia ter decidido que não havia sentido em ter mais punição para o bem de ocultar seu nome.
 
 ―Sono Bacari.‖
 
Novamente ele deu os ombros. Essa parecia ser a ação favorita do homem, e ele podia fazer isso com enorme desprezo.
 
Horace percebeu. Como ele estava dizendo ―Então, meu nome é Bacari, e daí? Eu só contei porque eu quis fazer isso.‖ A atitude arrogante e a ação desprezível que acompanhou, fez Horace ficar mais nervoso. Ele abaixou o punho, e viu Bacari rindo para si mesmo, de repente chutou a perna do homem por baixo dele, fazendo-o cair no chão. Horace posicionou a sola de seu pé no peito do homem e o imobilizou.
 
 ―Fale uma língua que entendo.‖ Ele ordenou
 
Horace olhou para Will, que tinha desmontado e estava cansado, encostado ao lado de Puxão, assistindo com um suspeito sorriso no rosto. Como Horace, ele não sentiu nenhuma compaixão do Genovês. E ele sabia que isso era importante para o homem entender que eles não poupariam nenhuma dor quando quisessem alguma informação.
 
 ―Se ele não se comportar, chute a costela dele.‖ Disse Will.
 
 Horace acenou ―Com prazer.‖ Ele se inclinou novamente para o homem, que tinha recuperado a respiração ―Agora vamos tentar de novo. Na língua comum. Seu nome?‖
 
Houve um momento de hesitação, o olhar furioso encontrou com os olhos de Horace. 
Então ele resmungou. ―Meu nome é Bacari.‖
 
Horace se ajeitou e olhou para Malcolm ―Tudo bem, ele é todo seu.‖
 
O curandeiro assentiu e gesticulou em direção ao acampamento, e a figura desmaiada ao seu lado. 
 
 ―Traga-o aqui, sim, Horace?‖ Ele pergunt