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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


JUSTIÇA DE CATAMOUNT / Albert Bonneau
JUSTIÇA DE CATAMOUNT / Albert Bonneau

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

- Ezequiel, traz-me as provas!...
O preto a quem fora dada esta ordem, apressou-se a obedecer ao director, e instantes depois depunha na mesa, cheia de papelada, as folhas ainda úmidas da tinta de impressão.
Marcos Manway encavalitou os óculos no nariz adunco, e absorveu-se na leitura dos granéis. De vez em quando soltava murmúrios de aprovação, e com o lápis azul ia corrigindo os erros de composição que era necessário rectificar, ou riscava as passagens que convinha suprimir.
Há mais de vinte anos que Marcos Manway dirigia O Farol de Brownsville, apaixonado pela sua difícil tarefa, muitas vezes perigosa, porque fazer jornalismo, no Texas, no fim do século xix, tinha os seus perigos!...
O excelente homem vivia apenas para a empresa que dirigia e para a filha - Carolina. Alto, magro, de farta cabeleira, tinha o rosto de pergaminho, bastante enrugado, enquadrado por uma barba grisalha pouco cuidada; sempre em mangas de camisa, com as mãos e braços peludos manchados de tinta, o colete cheio de caspa, ia e vinha constantemente do seu gabinete até à tipografia onde se imprimia diariamente o Farol. . Nesta atmosfera quente, por vezes abafadiça, protegidos por transparentes contra os pérfidos raios de sol, o director era secundado pelos seus colaboradores: o preto Ezequiel e Benny, rapaz de catorze anos aPenas, mas audaz e temerário como um homem.

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Os dois outros auxiliares de Marcos Manway eram ainda mais da sua intimidade. Nat Bender, um órfão de vinte-e-três anos que em tempos tinha adoptado, e que lhe servia
de informador, e Carolina, a sua própria filha, e secretária, cujo valor era apreciado por todos, e que com o seu sorriso iluminava e tornava mais fácil o trabalho
jornalístico, muitas vezes ingrato.
- Ó Nat... Carolina!... Venham cá ver isto! O director do Farol interrompeu a leitura das provas e lançou uma vista de olhos furtiva para o fundo da sala. Bender
estava de pé junto da banca de Carolina.
Os dois jovens compraziam-se sempre na companhia um do outro; companheiros de infância, cultivaram uma simpatia mútua que pouco a pouco se transformara num sentimento
mais terno. E não tardaria o dia em que Nat se tornasse o verdadeiro filho do seu benfeitor. Há muito tempo que estava resolvido o seu casamento com Carolina quando
esta completasse dezoito anos. E esta data atingiria o seu termo, exactamente, daí a quarenta-e-dois dias.
Nat amava profundamente a sua querida noiva; nunca se cansava de lhe contemplar o rosto fresco, de côr mate, os cabelos negros, e os grandes olhos escuros e profundos.
Um e outro davam largas à sua fantasia sobre projectos de futuro, quando a voz rude do director os interrompeu. E imediatamente se apressaram a ir ter com êle.
- O que há, Paizinho? preguntou a rapariga.
- Lê isso, querida!... E diz-me a tua opinião!... Carolina pegou na folha e começou a ler o artigo de
fundo que se seguia logo abaixo do título do jornal. Nat Bender, inclinado por cima do ombro da rapariga, tomou, igualmente, conhecimento de algumas linhas impressas
em
normando.
Marcos Manway, num gesto que lhe era peculiar, meteu os polegares nas cavas do colete e levemente inclinado para trás, com os óculos colocados na testa larga, esperava,
assobiando uma velha canção do Kentucky.
Um relâmpago de satisfação brilhou nas pupilas do director enquanto contemplava o par imóvel no outro lado
da mesa. Carolina era pequena de estatura, e franzina, Nat Bender, ao contrário, era alto e forte. Ultrapassava-a cerca de palmo e meio, de fisionomia máscula e
resoluta, loiro, de bela musculatura, fazia lembrar esses atletas que se vêem lutando nos estádios.
Além disso, é conveniente saber que o rapaz possuía todas as qualidades necessárias para ser um excelente repórter, sangue-frio, coragem e também, o que não é para
desprezar, um golpe de vista seguro, e um punho sólido... Alguns adversários do Farol tinham aprendido à sua custa as consequências -desagradáveis de desafiar temeràriamente
o jornalista.
Porém, Carolina e o seu companheiro não dando conta sequer da inspecção a que se entregava Marcos Manway, continuavam a ler:
"É tempo de acabar o escândalo. Um homem tão venal como Ben Stockton não deveria aspirar a defender os interesses dos cidadãos de Brownsville. Buscando, apenas,
no seu próprio interesse, este homem viveria e enriqueceria em detrimento da comunidade. Conviria pois afastá-lo e demitir, igualmente, sem hesitação, todos os seus
apaniguados. Infelizmente, são numerosos no território do nosso distrito. ímpõe-se numa obra de depuração, e o Farol está decidido a pôr-se à frente dessa campanha,
e a levá-la a bom termo, sejam quais forem as ameaças que surjam."
Depois de lerem estas linhas, os dois jovens entreolharam-se sem dizer palavra.
- Então! Qual é a vossa opinião? Bate certo? --Certamente, replicou Nat Bender, tudo isso está
escrito com boa intenção, mas já pensou que por esse facto se expõe a sofrer represálias desagradáveis?
- Conheces-me há bastante tempo, Nat, para saberes que sou um velho jornalista de combate. Não tenho feito fortuna com a minha modesta folha de couve, e os habitantes
de Brownsville tão-pouco ignoram que sempre lutei pelos seus interesses... Há verdades que é necessário dizer! Os progressos de Ben Stockton, nos últimos meses,
e as manobras que desenvolve sem cessar para ser eleito brevemente administrador
do concelho de Brownsville, tornam-se cada vez mais inquietadores para a gente honesta!... Faz um trabalho de sapa que prossegue sem descanso... Se não tomarmos
cautela, Brownsville despertará um dia sob a pata desse patife abominável e será então para nós o regime do terror, da injustiça e do arbítrio! Num país que se jacta
de ter podido conservar intactas todas as suas liberdades, ninguém mais poderá exprimir livremente o que pensa, sem recear pela vida! É por isso que convém extirpar
o abcesso antes que seja demasiado tarde! Marcos Manway exaltava-se cada vez mais, à medida que pronunciava essas palavras; no entanto, compreendeu bem depressa,
pela atitude céptica do seu interlocutor, que Nat Bender não compartilhava, inteiramente, da mesma opinião.
- Vamos meu rapaz! murmurou... Censurar-me-ias por publicar este artigo? Tu, de quem conheço a coragem e a audácia, tremerias, só por pensar que irias magoar esse
maldito canalha?
- O senhor sabe bem que o perigo nunca me assustou, replicou logo Nat Bender, mas receio que este artigo vá pegar fogo ao rastilho!
- Foi escrito justamente para isso, interrompeu o director do Farol. Vivemos há muito tempo numa atmosfera de tempestade. Abafa-se, aqui! O ar de Brownsville está
empestado ! E preciso abrir de par em par todas as janelas e fazer entrar um pouco de ar puro!
- Certamente, aprovou o jornalista, sou também da sua opinião. No entanto, conheço a força de Ben Stockton. Esse velhaco tem sabido encontrar apoios terríveis, mesmo
entre os políticos que nos governam. Sob a máscara da honorabilidade, pode a seu bel-prazer continuar nas suas malandrices. Os seus sequazes infiltram-se em todas
as engrenagens do Estado. Conseguiu comprar um bom número daqueles que antigamente lhe eram hostis... Se na sequência deste artigo, êle abrir guerra contra o Farol,
seremos implacàvelmente esmagados! Stockton não recuará diante de meio algum para nos aniquilar!... Creio-o capaz dos piores crimes, e das mais monstruosas violências!
- Nat tem razão, interveio Carolina, que, até aqui tinha
estado calada... Esse homem tem grande influência. Possui numerosos ranchos no distrito e é conhecido em todos os mercados do Texas. Aos nossos ataques, responderá,
sem dúvida, com uma guerra sem tréguas! E tu sabes, infelizmente, que a opinião tem sempre a tendência para aderir ao partido mais forte!
- Então, se assim é, replicou Marcos Manway, a quem essas palavras tinham irritado, teremos de cruzar os braços e assistir sem reagir às piores concussões, sofrer
a lei dum indivíduo cuja consciência está certamente conspurcada por crimes sem conta!
- Longe de mim o pensamento de te aconselhar a inércia, Paizinho, objectou Carolina, mas confesso que a publicação desse artigo equivalerá a uma declaração de guerra
entre ti e Stockton... Nessas condições, não posso deixar de recordar o apólogo da luta do pote de ferro contra o pote de barro!... Só receio pela tua vida... E
temo, também, pela nossa felicidade!...
- Decididamente, desconheço a minha filha, resmungou o director do Farol... E tu? És também da mesma opinião, Nat?...
O rapaz ficou um pouco embaraçado com a pregunta do futuro sogro. Sem dúvida alguma êle partilhava inteiramente do desprezo que Marcos Manway nutria por Ben Stockton,
e era de opinião que se opusesse às exacções desse homem venal e sem escrúpulos uma resistência tenaz, mas os argumentos que Carolina acabava de expor, não deixavam
evidentemente de se justificar.
- Muita vez o tens afirmado, meu rapaz, insistiu Marcos Manway com energia, que é preciso sempre correr o risco se se quiser obter a vitória. E eu, estou convencido
que se esperarmos um dia só que seja, encontrar-nos-emos completamente à mercê desse bandido!... Ver-nos-emos constrangidos a submeter-nos aos seus menores caprichos!
E então os tímidos saberão, meu Deus! que é demasiado tarde para arriscar a menor reacção! Teremos deixado escapar a ocasião de destruir o flagelo, antes que se
tenha desencadeado em toda a região!... E lamentaremos amargamente a nossa estúpida inércia!
O director do Farol pontuou estas declarações com vigorosos murros na mesa. O seu olhar lançava chispas e os dois jovens estavam interditos na sua frente. Compreendiam
agora que nada faria serenar Marcos Manway... A sua decisão estava tomada e o artigo seria publicado.
Nat Bender dispunha-se a falar, quando bateram discretamente à porta.
- Entre, resmungou o director, cada vez mais irritado.
A porta que comunicava com a oficina de composição abriu-se logo, dando passagem a Ezequiel, que saíra pouco tempo antes.
- O que há ? disse Marcos Manway voltando-se para o preto. Gostaria bem de não ser incomodado constantemente !...
- Um cavaleiro acaba de trazer esta carta para o senhor! declarou simplesmente o preto, estendendo um sobrescrito ao pai de Carolina.
As sobrancelhas cabeludas do director carregaram-se.
- Um cavaleiro? resmungou pegando na carta e começando a abrir o sobrescrito com um corta-papéis... Como era êle ?
- Como todos os cavaleiros... Eu nunca o vi! Marcos Manway não respondeu, tomando conhecimento
da missiva, e imediatamente as três pessoas presentes se aperceberam da impressão profunda que lhe ocasionavam as poucas linhas caligrafadas na folha branca.
- Com mil raios! exclamou por fim o director do Farol, ainda assim é um pouco violento !...
E como Carolina e o noivo se aproximassem dele e se inclinassem, Marcos Manway leu-lhes o conteúdo da estranha carta:
"Tomai cautela. Se atacardes Ben Stockton, expor-vos-eis a sofrer terríveis represálias da parte dos Vingadores das Trevas. O vosso jornal, os vossos bens, aqueles
que vos são queridos e a vossa própria existência encontrar-se-ão ameaçados. A bom entendedor, meia palavra basta!"
Não tinha assinatura; mas mal o director acabou de ler, a rapariga gritou:
- Vês, como eu tinha razão, Paizinho! Essa gente toma-te a dianteira!...
- Não têm que se adiantar. Há muito tempo que Ben Stockton e a sua quadrilha devem estar suficientemente edificados a meu respeito! Sabem muito bem que me não prestarei
a qualquer entendimento. Não sou, graças a Deus, daqueles que se vendem por um punhado de dólares!...
Longe de impressionar Marcos Manway, a carta que acabava de receber mais excitava a sua irritação e o desejo de se opor, custasse o que custasse, às manigâncias
sinistras de Ben Stockton.
- Imbecis!... Julgam que vou recuar à primeira ameaça... Vê-se bem que não sabem de que têmpera sou e Eu lho farei sentir sem perda de tempo!
- Então, vais publicar o teu artigo, mesmo depois disso ? ousou Carolina, cujo rosto exprimia a mais profunda inquietação.
- Esta intimação é suficiente para dissipar as minhas últimas hesitações, respondeu o director do Farol, dando um novo murro na mesa. Depois, voltando-se para Nat
Bender, Marcos Manway disse :
- Serás tu de opinião que me arraste sob as Forças Caudinas e me submeta a este ultimatum? Se assim fôr, meu rapaz, considerar-te-ia como um cobarde !
- Vejo que a cólera o cega, protestou indignado o informador, que não mediu o sentido exacto das suas palavras! Eu nunca soube o que era medo e estou resolvido a
lutar a seu lado para resistir à odiosa opressão de Ben Stockton!...
- Ora ainda bem! Assim mesmo é que é falar!...
Pela atitude firme do seu interlocutor, Marcos Manway compreendeu que Nat estava inteiramente a seu lado; então, puxou-o para si. Trocaram um vigoroso aperto de
mão. E Carolina sentiu as suas inquietações agravarem-se. Compreendeu rapidamente que dora-avante a sorte estava lançada... Ia começar a guerra entre o pai dela
e Stockton, uma guerra implacável. E todas as probabilidades de êxito
não estavam, certamente, do lado do Farol de Brownsville.
Era fora de dúvida, que as simpatias da gente da terra iam para Marcos Manway, de quem conheciam, de longa data, o aprumo e desinteresse... Stockton era para eles,
a bemdizer, apenas um estrangeiro, recentemente chegado da Flórida, mas o velhaco sabia manobrar, comprar as consciências, e prodigalizar, com liberalidade, os dólares.
Ao menor franzir de sobrancelhas, toda a gente tremia na sua frente. Se a situação se agravasse, ninguém teria a audácia de tomar abertamente partido por Marcos
Manway.
- Sabes, insistiu Carolina, que o xerife se vendeu a Stockton, cujos interesses sempre favorece!
"Em caso de luta, não esperes a intervenção dele, a sua atitude tornar-se-á passiva! Fechará complacentemente os
olhos!...
"E é por isso que esta situação inverosímil tem de acabar! A existência, nestas condições, torna-se intolerável! Mas, basta de palavreado!... Actos... Primeiro que
tudo, quem são, com exactidão, esses Vingadores das Trevas?
Nat Bender fêz um gesto evasivo. Era, a primeira vez, -com efeito, que ouvia pronunciar essas palavras.
- Nunca ouvi falar de semelhante grupo! Houve os Moonshiners, há os Ka-Klux-Klan...
- É simplesmente um espantalho que esses cães quiseram agitar aos nossos olhos. Imaginam que isso conseguirá fazer-nos recuar e dissimular a verdade... Mas que importa!
Tenho em lugar seguro as provas acumuladas contra Stockton ... Essas provas serão publicadas à medida que fôr necessário. Os cidadãos honestos compreenderão, por
fim, a sorte que os espera, se persistirem na sua atitude passiva perante esse bandido!... Os argumentos que empregarei serão mais decisivos que todas as violências
esses canalhas possam procurar opor-me. Desde hoje, a verdade está em marcha, e nada, nem ninguém, conseguirão detê-la! O Farol de Brownsville saberá mostrar aos
seus leitores o caminho do dever, e, portanto, o da salvação!
Apesar das suas apreensões, Carolina não podia dissimular
a admiração profunda que sentia pelo pai... Marcos Manway tinha cinquenta e cinco anos e no entanto desenvolvia a mesma energia combativa de um rapaz.
- Sou da sua opinião, declarou por fim Nat Bender, mas vai ser muito duro. Numerosos obstáculos...
- Esses obstáculos, serão por nós derrubados, interrompeu logo o director do Farol. A nossa consciência em nada nos acusa e sabemos que contribuiremos para fazer
a limpeza moral do país. Pouco a pouco as pessoas honestas enfileirarão ao nosso lado, e o seu número crescerá tanto mais quanto melhor soubermos manifestar energia
e vontade!
- Estou à sua disposição, disse Nat Bender, com ardor, pode contar inteiramente comigo na luta que vai travar!
- E comigo também, patrão !
Ezequiel avançava com a mão estendida. Marcos Manway apertou-lha com força. O preto ria às gargalhadas mostrando os dentes brancos.
E neste momento, Benny, o rapaz dos recados, atreveu-se a entrar no gabinete.
- Ouvi o que acabou de dizer, sr. Manway!... Stockton e o bando serão levados de vencida, aqui o afirmo! E, endireitando com altivez o corpo, o rapaz arregaçou as
mangas da camisa, como se se dispusesse a administrar uma boa sova em qualquer adversário.
- Muito bem!... Eis aqui os primeiros voluntários, disse Marcos Manway, apertando com energia a mão do Benny...
"Outros virão e o êxito premiará os nossos esforços. Mas nada de efusões, por agora...
"Basta de palavras e vamos aos actos!
O director inclinou-se de novo sobre a mesa e pegando nas provas, estendeu-as ao preto.
- Façam a impressão imediatamente!
É necessário que amanhã saiam dez mil exemplares.
- Isso é o dobro da tiragem! objectou o preto.
- Precisamente... E quero que o artigo sobre Stockton saia em normando!
E quando Benny e o preto se preparavam para passar à sala próxima, com Nat Bender, Marcos Manway deteve com um gesto o noivo de Carolina.
- Olha!... retira o eco referente ao acidente de cavalo de Sam Golder... Pode esperar muito bem até amanhã... Substitui-o pelas linhas que te vou ditar e que deverão
figurar em normando, também, imediatamente abaixo do meu artigo.
O interpelado apressou-se em tomar alguns linguados e escreveu a lápis o que o director ditou:
"Julgaram, com certeza, que o Farol, ameaçado, hesitaria em proclamar a verdade. É uma pretensão ridícula. A verdade está em marcha. Ninguém, dora-avante, a poderá
deter, nem mesmo a interessante associação que se intitula Os Vingadores das Trevas. A nossa pena justiceira mostrar-se-á mais forte que todas as violências!..."
Marcos Manway parou de ditar e disse para Nat Bender:
- Lê isso outra vez!
O jornalista apressou-se em obedecer, e logo um sorriso de satisfação se desenhou no rosto duro do director.
- Manda-me compor tudo isso imediatamente, meu rapaz, e que dê bem na vista !
"Esses famosos Vingadores das Trevas, verão a pouca importância que ligamos às suas ameaças !...
Imóvel, na sua mesa, Carolina não dizia palavra, deixando-transparecer no rosto as preocupações profundas que sentia.
Ela estava, com efeito, bem longe de compartilhar do optimismo dos seus quatro companheiros. Depois da publicação desse desafio, esperava as mais dramáticas complicações.
O seu céu, até aí tão límpido, cobria-se de nuvens sombrias ; e foi com verdadeira angústia que esperou a aparição do sensacional artigo do Farol de Brownsville,
que ia suscitar um interesse apaixonado, e desencadear acontecimentos trágicos numa região que até ali só tinha gozado paz e sossego.
II
A Lagoa dos Jacarés
O artigo de Marcos Manway, logo que apareceu, provocou a sensação considerável que o seu autor esperava...
Formavam-se grupos nas praças e ruas da cidade os quais discutiam com calor. Comentavam os termos empregados pelo director do Farol. Nessa mesma tarde, o jornal
antagonista, A Lanterna do Texas, generosamente financiado por Stockton, replicou ao artigo fazendo um apelo ao público para se precaver contra insinuações caluniosas,,
as quais seriam rapidamente refutadas.
Durante todo o dia a gente do Farol esteve de sentinela. Nat Bender suspeitava que grupos de partidários a soldo de Stockton tentariam praticar as máximas violências.
Nada, no-entanto, sucedeu. Não apareceram grupos suspeitos nem houve gritos hostis na vizinhança das instalações do jornal; todavia esta tranquilidade prolongada
não foi suficiente para sossegar Carolina. Ela calculava, e bem, que se tratava da calmaria que precede a tempestade. A todos os momentos esperava a visita de Ben
Stockton, mas o adversário de Marcos Manway não apareceu. Parecia que o golpe que recebera o tinha desorientado. Mas a rapariga não alimentava ilusões a seu respeito.
Stockton não era criatura que deixasse esses ataques tão directos sem resposta.
As sete horas, fecharam-se, como de costume, as empanadas do edifício do jornal. Marcos redigiu um segundo artigo-maior que o primeiro, que mandou compor. Nat Bender,,
conservava o revólver na algibeira e Ezequiel e Benny estavam
prontos a intervir em caso de necessidade... Os receios do pequeno grupo não se efectivaram. Afora a assistência, mais numerosa que nos outros dias, que se acotovelava
em frente dos jornais afixados na entrada, nada mais se notou de particular.
À noite, durante o jantar, o director mostrou-se bem disposto. Foi-se deitar depois de ter beijado a filha; por seu lado o preto e o groom recolheram à casa vizinha
onde tinham residência. Apenas Nat Bender se estendeu no sofá-cama que ocupava no rés-do-chão. O groom deitou-se perto do telefone, para tomar conta das notícias
que transmitissem para o jornal durante a noite.
À meia-noite, Carolina ainda não tinha adormecido. O sossego continuava nos arredores, e Brownsville parecia entregar-se inteiramente ao sono reparador; todavia
à rapariga não saía da lembrança a ameaça que seu pai recebera. O menor ruído sobressaltava-a, mas de nada mais deu fé do que da respiração regular do seu noivo
que em baixo dormia, E, já, Carolina se abandonava a um entorpecimento cada vez mais forte, quando, bruscamente se levantou na cama, com a face úmida de suor...
Vindo da rua calcetada ouvia-se um tropel. Parecia que um grupo de cavaleiros se aproximava cada vez mais. Tratava-se dum grupo numeroso; a rapariga julgou ser algum
grupo dum rancho que recolhia, mas um tremor a invadiu quando ouviu uma voz seca gritar lá fora:
- Alto, é aqui!
Os cavaleiros pararam as montadas em frente da residência dos Manway; desmontaram rapidamente. Um deles bateu repetidamente à porta.
- Quem é? interrogou, com voz surda, Nat Bender, que acordara sobressaltado.
- Abra, é urgente!... respondeu o desconhecido. Acaba de se dar um acidente !
Carolina, retendo a respiração, esperou sentada na cama. Ouviu os passos apressados do noivo que depois de calçar à pressa os chinelos se dirigia para a porta, sentiu
o ranger da mesma ao abrir-se e por fim, de repente, um ruído surdo, como a queda dum corpo no sobrado.
Incapaz de esperar mais tempo, Carolina saltou abaixo da cama mas já a maior parte dos cavaleiros invadia as dependências do Farol de Brownsville. Passos pesados
se ouviam na escada de madeira.
- Marcos Manway? Onde está Marcos Manway? interrogou o mesmo indivíduo que comandara até ali.
- Estou aqui! Que significa todo este barulho ?
O director do Farol apareceu no patamar. Bruscamente acordado vestira as calças e saía precipitadamente do seu quarto com o revólver na mão.
Apenas Marcos Manway apareceu ouviu esta ordem seca:
- Mãos ao ar, ou fuzilamo-lo como um cão !
Carolina, que se encontrava nesse momento encostada à porta, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha; estendeu a mão, pegou no revólver que colocara na mesa de
cabeceira, ao começo da noite, mas já no corredor vizinho soavam duas detonações logo seguidas duma terceira. Seguiu-se tumulto e depois a mesma voz que ordenara
ao director o levantar das mãos, bradou:
- Estás à nossa mercê ! Neste momento quatro colts estão apontados ao teu peito !
- Que querem de mim ? interrompeu Marcos Manway, com voz cava.
- Vais seguir-nos, imediatamente !
E como o director do Farol parecesse hesitar, o mesmo indivíduo, prosseguiu :
- Somos os Vingadores das Trevas! Não tentes resistir-nos, somos mais fortes ! O rapaz que nos abriu a porta acaba de ser prontamente prostrado sem sentidos. Não
contes pois com socorro desse lado!
Apenas o intruso acabava de pronunciar estas palavras,. Carolina abriu sem ruído a porta e apareceu no limiar. A rapariga, sentindo o pai em perigo, dispôs-se a
intervir. A cena que se apresentou a seus olhos, petrificou-a.
Cinco homens estavam à entrada do corredor, mas a infeliz apenas pôde distinguir-lhes os vultos; os seus rostos estavam cobertos por capuzes negros; além disso vestiam
grandes
balandraus, negros também, semelhantes aos dos monges, onde se destacavam como insígnias pingos de prata e tíbias entrecruzadas... Toda essa gente, armada de revólveres,
ameaçava Marcos Manway, que muito pálido, de pé, no meio do corredor, amparava com a mão direita o braço esquerdo que acabava de ser atravessado por uma bala...
Do ferimento jorrava sangue.
- Meu Deus! Miseráveis, que o mataram!
Com a voz estrangulada pela emoção, Carolina dispunha-se a apontar o revólver contra o desconhecido mais próximo. Ia a disparar, quando sentiu a mão agarrada por
um punho de ferro; dois dos intrusos precipitaram-se sobre ela e em breve a desarmaram e reduziram à mais completa impotência.
Ofegante, com os olhos esgaseados pelo terror, viu os homens negros obrigarem seu pai a segui-los. Com passo hesitante, Marcos Manway desceu os degraus da escada.
- Socorro! gritou a rapariga... Soc...
Duas mãos taparam a boca da pobre rapariga e evitavam que continuasse a gritar.
- Amarrem-na, comandou o chefe misterioso, e estendam-na na cama do quarto dela. Solidamente amarrada, Carolina resolveu-se a permanecer imóvel; durante esse tempo
o director do Farol de Brownsville, cercado de perto e amordaçado, era constrangido a sair do seu domicilio,
- Subam-no para a sela!
Dois dos desconhecidos levantaram o prisioneiro e obrigaram-no a montar a cavalo...
Marcos Manway viu uns dez cavaleiros que esperavam, cobertos de capuzes e balandraus negros. O grupo, visto à luz do luar, apresentava um espectáculo surpreendente.
Batendo com os tacões os flancos da montada, o director do Farol tentou dessa maneira escapar-se, mas os cavaleiros mais próximos inutilizaram-lhe rapidamente a
manobra.
Colocaram-se à volta dele, de forma a enquadrarem-no completamente. O chefe pôs-se à frente do grupo, e, após uma ordem rápida, o grupo partiu.
Algumas cabeças curiosas apareceram às janelas das casas vizinhas, mas, apenas viram os cavaleiros com os capuzes, os habitantes recolheram-se, apressadamente e
cheios de medo, para dentro das casas. O prisioneiro compreendeu em breve que não poderia esperar socorro algum, e que se encontrava completamente à discrição dos
seus raptores.
Brownsville está situada na extremidade sudeste do Texas, a pouca distância do pequeno porto de Isabel, no golfo do México, mesmo na fronteira que separa o Texas
da província mexicana de Tamaulipas. Em pouco tempo o pequeno grupo afastou-se do aglomerado urbano e aventurou-se pela planície que se prolonga até ao mar.
Uma brisa salgada soprava do largo e misturava-se com o cheiro acre, característico dos terrenos pantanosos. Aqui e além, apareciam algumas plantações de algodão.
Rios serpenteavam pela planície semeada de pântanos e regatos. Os mosquitos pululavam.
Marcos Manway conhecia demasiado bem a região para se interessar pela paisagem. O seu olhar perscrutava sobretudo os singulares companheiros. Todos cavalgavam observando
o mais profundo silêncio.
A sua sinistra indumentária fazia lembrar os adeptos do Ku-Klux-Klan, cuja acção prosseguia ainda nas províncias do Sul.
O director do Farol não duvidava sequer das intenções dos seus raptores. Embora ignorasse a sua identidade, estava persuadido mais que nunca que agiam neste momento
por conta de Ben Stockton.
A execução da ameaça e a facilidade com que aqueles bandidos o puderam assaltar e raptá-lo do seu próprio domicílio, revelava, por certo, bem estranhas cumplicidades.
Era certo, que muita gente em Brownsville não duvidava que alguma coisa de anormal se passava em casa dos Manway; e no entanto ninguém ousara levantar o dedo e avisar
o xerife, tal era o temor de represálias!
O sangue continuava a gotejar do braço esquerdo do prisioneiro, mas a ferida era apenas superficial; com os dentes cerrados, dominava facilmente o sofrimento. A
única
inquietação que o mortificava, era o que podia acontecer a Carolina. Recordava-se constantemente da atitude de terror da pobre rapariga quando, surgindo no limiar
da porta do quarto, vira o pai à mercê dos Vingadores das Trevas.
A cavalgada prosseguia há mais de meia hora; os cavaleiros chegavam agora a uma zona muito próxima do mar e da famosa Laguna Grande, que se prolonga numa extensão
perto de duzentas milhas ao abrigo de Padre Island, singular muralha natural que constitui o litoral, na costa meridional do Texas.
Na ocasião não se via casa alguma nas proximidades, apenas plantações... Um cheiro nauseabundo invadia-lhe a garganta.
Este cheiro, muito característico, bem depressa fêz lembrar ao director do Farol, que os jacarés pululavam na região. Apesar das numerosas caçadas que se faziam
a estes animais não se tinha ainda conseguido fazê-los desaparecer. Em certos sítios, constituíam mesmo perigo sério.
Alguns desses monstros deviam rodar na vizinhança, porque os cavalos manifestavam uma repugnância, cada vez maior, em seguir mais além. Com as orelhas fitas, o pêlo
a tremer, empinavam-se muitas vezes e davam frequentes saltos de lado; era preciso que os cavaleiros reagissem com toda a energia para evitar serem lançados por
terra, em resultado desses bruscos recuos intempestivos das montadas.
Por fim o grupo chegou a uma vasta lagoa. Ciprestes de raízes torcidas, algodoeiros e outros arbustos erguiam-se nas margens.
- Alto! ordenou o chefe dos Vingadores. Imediatamente os cavaleiros desmontaram; tinham chegado a uma espécie de praia baixa e arenosa.
- Tragam-me esse cão!
Dentro de instantes, desceram o prisioneiro do cavalo, e depois, agarrado por punhos sólidos, foi arrastado até ao chefe que o esperava de braços cruzados, imponente
no seu grande balandrau negro. O seu olhar chispava através dos buracos do capuz.
A mordaça que tinham aplicado à bôca do director do Farol foi desapertada e tirada. Então o pai de Carolina pôde dar largas à sua indignação.
- Cobardes !... Bandidos !...
- Silêncio ! interrompeu a voz autoritária do chefe. Prevenimos-te, Marcos Manway... Sabias que te expunhas a sofrer os efeitos da nossa cólera e da nossa vingança
se teimasses na tua imprudência de publicar os artigos que sabes! Desafiaste-nos abertamente! Agora é demasiado tarde... Prepara-te para morrer!...
- Querem assassinar-me? Isto vai de bom a melhor! respondeu com voz vibrante o director do Farol.
- Nós não assassinamos, interrompeu o chefe. Fazemos justiça. Porém, haverá talvez ainda um meio de nos entendermos !
O homem do capuz tinha adocicado um pouco a voz ao pronunciar estas últimas palavras; inclinando-se para o prisioneiro, que esperava imóvel e que o fitava com altivez,
continuou:
- Se dás a tua palavra de honra que a campanha infame anunciada no teu jornal não vai por diante, e se consentes em reconsiderar e em publicar em toda a primeira
página do Farol de amanhã uma retratação completa das tuas acusações e calúnias, perdoamos-te a vida e permitimos-te que voltes para a tua casa de Brownsville. Mas
fica entendido que antes nos entregarás os documentos a que aludes, referentes a Ben Stockton...
- Vejo bem o ponto onde lhes dói, replicou o prisioneiro, sem parecer grandemente impressionado com as palavras do seu interlocutor. Querem que lhes entregue as
famosas provas! Pois bem! Podem esperar! Só eu conheço o lugar onde estão escondidas...
- Vais-nos dizer imediatamente onde é que estão...
- Vão para o diabo!
Por várias vezes ainda, o chefe misterioso voltou à carga; esbarrou sempre com a decisão firme e obstinada de Marcos Manway. A ameaça das piores torturas não conseguiu
abalar a decisão do director do Farol, e como os outros
cavaleiros juntassem os seus rogos aos do chefe, o prisioneiro exclamou:
- Já falámos de mais!... Recuso! Nada saberão e só lamento uma coisa, é de não ter aberto a minha campanha •contra um homem que é ao mesmo tempo um bandido, um
ladrão e um assassino, alguns meses mais cedo!...
- É a tua última palavra ?...
- A última! Se és Stockton, fica sabendo que te escarro •o meu desprezo. Por mais poderoso que sejas, por mais favoráveis que as aparências te pareçam, a justiça
imanente não tardará em ferir-te!
- Eu não sou Stockton, sou o chefe dos Vingadores das Trevas.
- Diz antes que és o chefe duma quadrilha de bandidos; está mais certo e é mais verdadeiro!
- Vamos, é preciso acabar com isto; já sabem o que temos a fazer a este canalha!
Os cavaleiros precipitaram-se logo sobre Marcos; apesar da sua forte resistência, Marcos Manway foi de novo amordaçado; dois dos seus agressores ergueram-no e transportaram-no
até junto duma árvore cujas raízes retorcidas se enterravam no lodo.
- Depressa, tragam as cordas !
O prisioneiro foi estendido no solo e os seus adversários apressaram-se em passar-lhe as cordas pelos sovacos e à volta dos tornozelos. Em vão se esforçava por lhes
escapar, mas dois punhos sólidos o colaram ao solo lamacento, e a seguir dois sacripantas subiram aos ramos da árvore e ali passaram as extremidades das cordas.
- Icem-no! ordenou então o chefe.
Os outros agarraram-se às cordas e Marcos Manway sentiu-se elevar pouco a pouco, aos sacões; ficou então suspenso entre o céu e a terra.
- Vamos-te deixar numa posição que te permitirá, sem dúvida, pensares melhor e fazer uma ideia mais exacta da situação! Amanhã ao romper da aurora, se as tuas reflexões
forem salutares, nós voltaremos, se por acaso os teus bons •vizinhos te tiverem poupado a vida e não tiverem conseguido
apanhar-te!... Porque os há em quantidade por estes sítios!...
Pronunciando estas palavras com tom sarcástico, o malandrim apontava os vestígios que se encontravam impressos recentemente na areia. O pai de Carolina não pôde
deixar de sentir um estremecimento. Essas pegadas tinham sido deixadas ali pelos jacarés.
- Diverte-te e reflecte! Concedemos-te ainda, pela última vez, a ocasião de te mostrares razoável! Não a deixarás fugir, com certeza!
Com um gesto, o chefe apontou aos seus sequazes os cavalos que esperavam, e manifestavam continuamente grande nervosismo. E todos se juntaram às suas montadas, deixando
o prisioneiro a baloiçar, fortemente ligado, a mais de vinte pés de altura.
Marcos Manway tentou, sem resultado, libertar-se; a cada novo sacão que dava, a sua situação tornava-se pior ainda; por isso resignou-se a observar a imobilidade
mais completa possível.
Dentro de instantes os Vingadores das Trevas desapareceram na escuridão e o prisioneiro ficou só, na sombra, que se enchia, agora, de deslizes sinistros e borbulhas
de água furtivas.
O cheiro a musgo aumentava, mais nauseabundo que nunca, e nuvens de mosquitos voltejavam por cima do charco. A lua reflectia-se na superfície tranquila da lagoa...
E por toda a parte se ouvia o coaxar monótono das rãs.
Pouco a pouco, formas alongadas e escuras afloraram à superfície da lagoa.
Os jacarés lá estavam. Durante algum tempo, tinham fugido, espantados pela aproximação e presença dos homens, mas agora, que o perigo parecia ter passado, aventuravam-se
até à margem, em busca de alguma presa.
O director do Farol sentiu um suor frio umedecer-lhe as fontes; estava suspenso pelas pernas e por debaixo dos braços, pelos laços que os Vingadores das Trevas tinham
solidamente prendido à volta dos ramos altos da árvore. O seu corpo balanceava levemente; por baixo, em quantidade
cada vez maior, agrupavam-se os jacarés que levantavam as monstruosas cabeças em direcção a êle.
Em menos de um quarto de hora juntaram-se mais de vinte que se entrechocavam com ruído, na maré baixa. Alguns deles abriam as mandíbulas armadas de dentes temíveis.
No entanto, se as cordas estavam bem presas, o mesmo não sucedia à mordaça... Marcos Manway sentiu o lenço que os Vingadores das Trevas lhe aplicaram à boca desapertar-se
um pouco; então, sacudindo a cabeça, conseguiu fazê-lo deslizar, e apenas o sentiu cair à volta do pescoço,, começou a gritar, repetidas vezes, e com toda a força:
- Socorro!... A mim!... Socorro!
III
Catamount intervém
Dez vezes o prisioneiro repetiu os seus gritos; apenas lhe respondeu o formidável bater das caudas dos jacarés, que continuavam a fender a água por baixo dele.
Aos monstros que já ali estavam, vieram juntar-se mais alguns retardatários.
A maior parte deles eram de dimensões impressionantes, medindo, pelo menos, cinco metros de comprido; faziam esforços desesperados para se erguerem e atingirem o
desgraçado pendurado nos ramos da árvore.
Marcos Manway, no entanto, não desanimava; na noite clara, continuou a pedir socorro. Com os membros lassos, o corpo fatigado, os pulsos e os tornozelos rasgados
pelas cordas, o rosto e o dorso reluzentes de suor, o infeliz esperava sempre a chegada dum próximo socorro. Ao cabo de um quarto de hora de inúteis esforços, começava
a desesperar, quando, de súbito, a sua face constrangida se desafogou. A pouca distância dali, na margem, alguém acabava de lhe responder:
- Olá - quem chama ?
- Socorro! auxílio! por amor de Deus!
Os deslizes e as borbulhas de água ouviam-se nitidamente por baixo do cativo, porém, este, sentindo as suas forças decuplicadas pela esperança duma próxima libertação,
endireitou-se.
- Olá!... onde está, amigo ? insistiu a voz seca do desconhecido... Acaso se perdeu neste atoleiro?
- Os bandidos penduraram-me numa árvore. Os jacarés pululam à minha volta... Venha depressa !
- Para a frente, Mesquita !
Marcos Manway viu então, a cerca de trinta passos, um cavaleiro que saía de entre os algodoeiros da margem.
Era um homem de boa figura, vestido à moda da gente do Oeste. Chapéu de abas largas, chaparejos de coiro protegiam-lhe as calças contra os espinhos dos cactos. Montava
um cavalo alazão que parecia mostrar repugnância em avançar, desconfiado certamente pelo cheiro a musgo que empestava as imediações da lagoa.
Porém, Marcos Manway não perdia tempo em observar o recém-vindo. A angústia que se tinha apoderado dele e lhe fazia prever o pior, seguiu-se uma esperança redentora.
O cavaleiro de novo prosseguiu :
- Onde está? Ainda não o vejo!
- Levante um pouco a cabeça e certamente me verá por cima desse bando de jacarés que o diabo leve!
O desconhecido aproximou-se ainda mais; todavia teve que esporear com força a montada que se empinava, de orelhas fitas, relinchando, e adivinhando a vizinhança
dos jacarés, cuja presença o seu instinto já denunciara.
- Calma, Mesquita! Sê valente como de costume... Pronunciando estas palavras, o cavaleiro levou a mão à
bolsa do revólver que pendia da sua anca direita; tirou o colt, apontou-o na direcção dos jacarés que se debatiam por baixo do prisioneiro. Soaram seis detonações
e as balas foram ricochetear nas espessas peles escamosas dos jacarés. Imediatamente, como por encanto, os reptis, tomados de pânico, apressaram-se em abandonar
a zona que ocupavam com tanta insistência.
Do seu lugar o cavaleiro viu aquelas formas alongadas afastarem-se e mergulhar sem ruído. Então, esporeou vigorosamente o alazão.
- Desta vez não tens desculpas a dar, Mesquita! Avante!
O animal venceu a repugnância que se tinha apoderado
dele e aventurou-se no terreno lamacento e incerto, dirigido-pela mão do dono.
- Finalmente que o vejo! Está, na verdade, numa bela. situação! Mas, sossegue, que o vou tirar daí!
Já Mesquita se encontrava no mesmo lugar em que os-jacarés há pouco tempo se achavam agrupados. O punho forte do cavaleiro obrigava-o a obedecer, apesar da repugnância
sempre crescente que manifestava em marchar nesta zona frequentemente percorrida pelos jacarés. Dentro de instantes, Marcos Manway sentiu uma mão forte agarrá-lo,
e ouviu a voz do estrangeiro dizer:
- Atenção! Vou cortar as cordas que lhe prendem as-pernas!
O prisioneiro, que ficou suspenso apenas pelos sovacos,, balanceou-se, mas a mão firme do seu salvador depressa o reteve..
- Tente saltar para a garupa...
"Entretanto, tratarei de lhe libertar os pulsos e desatar os últimos nós.
A tentativa era bastante delicada, em virtude do nervosismo que o alazão continuava a manifestar, mas, com perseverança, os dois homens conseguiram levar a manobra
a bom termo. Em breve, Mesquita teve de aguentar uma carga dupla, depois, vigorosamente esporeado pelo seu dono, afastou-se cerca de uma centena de passos desse
lugar sinistro onde o director do Farol de Brownsville acabava de passar momentos atrozes.
- Desmontemos, agora!
Com um rápido golpe de vista, o cavaleiro assegurou-se que o lugar a que acabara de chegar era propício para fazer um curto alto; saltou, lestamente, abaixo da sela,
e ajudou Marcos Manway a descer, por sua vez; a seguir, pegando num frasco de whisky, que pendia da sela, estendeu-o aodirector do Farol.
- Beba, agora! Isso o aliviará das comoções sofridas! Em seguida contar-me-á como foi levado para ali!
Marcos Manway agradeceu do fundo da alma ao seu salvador; bebeu, repetidos goles, e dando, depois, um suspiro de satisfação, declarou:
- Malditos cães ! hão-de pagar-me caro...
- Vamos, conte-me tudo!... Eu sou um amigo !
Os dois homens estavam acocorados junto dum algodoeiro ; Mesquita, refeito das suas recentes emoções, pastava a pouca distância.
Marcos Manway recolheu-se durante alguns instantes antes de começar a narrativa das suas aventuras dramáticas.
A atitude e o tom enérgico desse salvador desconhecido inspiravam-lhe a maior confiança. Sentia que se encontrava na presença de um homem para quem o perigo era
a coisa mais natural do mundo. O que mais transparecia na fisionomia rude do homem do Oeste, era sobretudo a expressão dos seus olhos claros, e a energia serena
que emanava de todo a sua pessoa.
-Trata-se de um malandro que se quis vingar de mim e que urdiu todo este trama, declarou.
Depois, pausadamente, parando repetidas vezes, para tomar fôlego, o pai de Carolina expôs toda a situação ao companheiro. O homem de olhos claros soltava de vez
em quando um murmúrio de aprovação e fazia em seguida um sinal ao seu companheiro para continuar.
Quando este acabou, limitou-se a declarar:
- Creio, na verdade, que esta pequena aventura de que foi vítima é obra desse Ben Stockton... Esse trama espectaculoso, esse rapto nocturno, foram organizados para
o aterrorizar econstrangê-lo a abandonar a campanha!
- Vê-se bem que esses odiosos canalhas não conhecem Marcos Manway! replicou o director do Farol de Browns-ville, com a voz a tremer... Mais do que nunca estou decidido
a desmascarar as odiosas maquinações desse político ávido e sem escrúpulos!
Depois, dando uma gargalhada, Marcos Manway prosseguiu :
- Quem me dera ver as caras que esses cavalheiros farão, quando voltarem, ao romper da aurora, para se certificarem que conseguiram reduzir-me à obediência aos seus
caprichos. Mas, estou inquieto pela sorte de minha filha e
dos meus companheiros, para perder tempo a esperar por eles. Que se Passará, agora, em Brownsvile?
Esquecendo as angústias por que acabara de passar e a sorte que lhe tinham destinado os Vingadores das Trevas, Marcos Manway pensava em Carolina, em Nat Bender,
tão cobardemente atacados pelos intrusos... Que teria acontecido a esses desgraçados enquanto êle era torturado junto da lagoa dos jacarés? Não correriam, também
os piores perigos ?
Marcos Manway, interrompeu os seus pensamentos, e dirigindo-se ao homem que o salvara, exclamou:
- Deve com razão considerar-me um ingrato. Ainda lhe não preguntei o nome, nem lhe testemunhei, como devia, o meu ilimitado reconhecimento.
- Por Deus, fosse qual fosse o vagabundo que o tivesse encontrado nesta situação, teria tratado de o libertar, disse com simplicidade o cavaleiro.
Apertando a mão que lhe estendia o seu protegido, o homem de olhos claros, disse:
- Chamo-me Catamount!
- Catamount? repetiu o director do Farol de Browns-ville. Creio que já ouvi pronunciar esse nome!
Marcos Manway pareceu rebuscar na memória antigas reminiscências, e uma exclamação se lhe escapou:
- Que estúpido sou! Não pertence ao Corpo de Polícia Rural do Major Morley, cujo quartel general é em El Paso?
- Isso mesmo!
- Várias vezes me aconteceu falar a seu respeito no meu jornal, continuou o pai de Carolina, mas confesso que estava bem longe de pensar que ainda interviria a meu
favor! E em geral os rangers não frequentam muito a costa do Texas. Encontram-se mas é na fronteira do México!
- Efectivamente assim é, mas tinha uma missão a cumprir nestas paragens. A Providência quis que eu viajasse de noite... Isso permitiu que ouvisse os seus gritos.
Mas, seja como fôr, mentir-lhe-ia se lhe dissesse que os Vingadores das Trevas me não interessam! Experimento desejos de os enfrentar e combater no seu próprio terreno.
- Ben Stockton deve certamente estar à testa desta criminosa organização, replicou Marcos Manway. Visto que esses miseráveis defendem com tanto ardor os seus interesses,
e se opõem com tal energia à campanha de revelação que me proponho desencadear.
Os processos que acabavam de empregar contra êle, e a noite de angústia por que passara, pareciam não ter enfraquecido a energia do director do Farol de Brownsville.
- Não se dirá que recuarei como uma galinha choca, ou que capitularei perante um ultimatum desses bandidos.
Agora mais do que nunca lhes declaro guerra e nós veremos se o meu jornal não conseguirá triunfar dos seus colts e dos seus processos ignóbeis!
- Aceitaria o meu auxílio para fazer luz sobre este assunto e desmascarar as manobras pérfidas dos Vingadores das Trevas?
- Como?... Consentiria em tal?
O olhar do pai de Carolina fixava-se agora no seu salvador. Leu na fisionomia de Catamount uma decisão tão enérgica que se sentiu comovido.
O ranger replicou então, sem nem por um momento se desfazer da sua calma:
- O meu papel foi sempre defender os fracos contra os poderosos! As circunstâncias actuais fizeram com que me encontrasse em presença de um caso bastante obscuro
e que exigia solução dentro de curto prazo; é por isso que lhe ofereço o meu auxílio !
E como o seu interlocutor parecesse cada vez mais admirado, Catamount, sorrindo, explicou-se melhor:
- Oh! Asseguro-lhe, Sr. Manway, que não quero escrever artigos, porque "isso é o seu mister! Mas julgo que as instalações do seu jornal têm necessidade de ser cuidadosamente
protegidas, depois do alarme que se produziu esta madrugada!
- É verdade, murmurou em surdina o director do Farol, a menos que esses facínoras me não tenham incendiado a casa durante a minha ausência!
- Não creio, afirmou o homem de olhos claros...
"A prova por que eles o fizeram passar deve representar apenas um aviso... Lembre-se que hão-de voltar a fim de se assegurarem se estará em melhores disposições
...
"Na realidade, faríamos talvez melhor, creio eu, em esperar a vinda desses senhores!
Não foi essa, no entanto, a opinião de Marcos Manway:
- Tratemos mas é de voltar imediatamente para Browns-ville, antes do romper de alva, se fôr possível! Estou cheio de cuidado pela sorte da Carolina e de Nat!
- Muito bem! Sente-se bastante forte para suportar a viagem ?
- Naturalmente! Quando a segurança de minha filha se encontra em jogo, iria, se preciso fosse, ao fim do mundo... Ficar-lhe-ia infinitamente grato se partíssemos
já.
- Ao seu dispor! Lamento apenas que não possamos ver as caretas que esses miseráveis farão quando derem pelo seu desaparecimento!
Catamount levantou-se e assobiou. Imediatamente Mesquita se aproximou. O cavaleiro agradeceu-lhe com uma pancadinha amigável, e em seguida pôs o pé no estribo e
saltou para a sela; um minuto depois Marcos Manway achava-se atrás dele, na garupa.
- A caminho de Brownsville! disse, então, o ranger. O alazão partiu; sob o enérgico impulso do cavaleiro,
torneou a galope a margem da lagoa dos jacarés. O director do Farol, que se segurava com força ao seu salvador, lançou um último olhar ao sinistro local onde se
desenrolara a perigosa cena; depois de se ter aventurado por entre os algodoeiros, Mesquita picou direito a leste, e seguiu em direcção oposta à do mar.
Durante algum tempo, os dois homens conservaram-se em silêncio. Catamount parecia mergulhado em profundas reflexões.
Por fim, não se podendo conter, com a sua voz seca abafou o tropear do cavalo e quebrou o silêncio:
- Diga-me uma coisa, sr. Manway! Permita-me que lhe faça uma pregunta ?
- Diga!...
- Há um xerife em Brownsvílle!... Vai imediatamente apresentar-lhe a sua queixa!
- Simeão Garlett! exclamou o pai de Carolina. É uma criatura de Ben Stockton; pode estar certo que fará todo o possível para que a verdade se não descubra... Longe
de pensar em me proteger, tentará, sem dúvida, secundar os manejos criminosos dos Vingadores das Trevas!
Catamount não respondeu. Situações idênticas eram muito frequentes no Texas. Bastas vezes o xerife devia a eleição, ou vantagens semelhantes, à protecção de qualquer
personagem influente; e então sobrepunha o interesse dessa personagem ao respeito devido à lei. Quantas vezes, no decorrer da sua longa e aventurosa carreira, o
ranger se vira obrigado a desmascarar os que se diziam representantes da autoridade e que afinal eram apenas os testas de ferro dos piores facínoras !
- No entretanto deve haver cidadãos honrados em Brownsville! ousou comentar Catamount, após curto silêncio.
- Naturalmente, os bons sobrepujam os maus, se forem mais numerosos! Porém o Sr. Catamount conhece o provérbio : A razão do mais forte é sempre a melhor! Essa boa
gente não se sente protegida, e por isso conserva-se prudentemente afastada e lava as mãos como o Pôncio Pilatos de triste memória, ou então, na esperança que a
deixem em paz, faz por vezes coro com os, lobos!... É humano, embora seja bastante desprezível!
- O seu jornal tinha muitos leitores ?
- Tirávamos cerca de dez mil exemplares... mas estou convencido que a ameaça que agora pesa sobre mim fará hesitar a maior parte dos meus leitores! Se, todavia,
Stockton e os seus sequazes não puderem impedir a publicação do jornal, venderemos pelo menos algumas centenas de Faróis.
- Veremos isso!
O tom enérgico com que o ranger pronunciara estas palavras, impressionou profundamente Marcos Manway. O homem de olhos claros era, com efeito, de outra têmpera,
diferente da dos medrosos a que acabava de fazer alusão; alguma coisa de novo se ia passar em Brownsville.
Já as listas pálidas da aurora franjavam o céu no horizonte. As estrelas desmaiavam pouco a pouco. O dia estava próximo; quando os dois companheiros chegaram à cidade,
os primeiros raios de sol iluminavam a região.
Sempre solidamente agarrado ao seu salvador, Marcos Manway olhava com insistência em direcção a leste; sem se importar com a paisagem incolor e monótona que se estendia
agora sob os seus olhos, cismava no que teria acontecido a Carolina e aos seus três companheiros. Admitindo mesmo que se encontrassem sãos e salvos, deveriam estar
cheios de angústia ao pensarem no que lhe teria acontecido.
Por fim, a região tornou-se mais aprazível; Mesquita trotava agora na estrada de Brownsville, depois de ter galopado ao acaso pela planície cortada de regatos e
pântanos. Ranchos e explorações agrícolas iam aparecendo, cercados de pedras brancas ou por arame farpado. A paisagem lembrava a Catamount os distritos mais longínquos
do Far-West. Aqui e além, rebanhos pastavam sob a vigilância de cowpunchers a cavalo.
- Lá está Brownsville!
Marcos Manway estendeu a mão por cima do ombro de Catamount, e apontou para o aglomerado urbano que começava a destacar-se, não obstante um leve nevoeiro que chegava
por vezes à superfície da terra.
Com um estalido da língua, o homem de olhos claros fêz acelerar um pouco o andamento da montada; aproximavam-se das primeiras casas de Brownsville.
O sol, que acabava de erguer-se, dispersava as últimas cortinas de névoa. O ranger ia meter pela rua principal, quando viu um grupo de cavaleiros que vinha em sentido
contrário.
Imediatamente Catamount deu conta que o primeiro desses cavaleiros apresentava no colete a insígnia de xerife.
- Olá! disse êle, dirigindo-se ao companheiro.
Aquele não é Simeão Garlett?
- O próprio! replicou Marcos Mauweay. E vai acompanhado pelos subordinados!
O director do Farol pôde verificar nesse momento que o grupo se achava completo, sem faltar ninguém.
- Com certeza vão à sua procura ? lembrou o ranger.
Sem esperar a resposta do companheiro, Catamount colocou-se deliberadamente atravessado na estrada; e a seguir, levantando a mão direita, fêz sinal aos representantes
da autoridade para parar.
- Alto... Um minuto, se faz favor!
IV
O Xerife Simeão Garlett
Simeão Garlett endireitou-se bruscamente na sela. O seu rosto rude, e enquadrado por forte barba grisalha, mostrou-se à luz plena do dia. As suas espessas sobrancelhas
carregaram-se, e fácil era adivinhar que a atitude inopinada de Catamount o desconcertava.
Ia prosseguir no seu caminho, mas o ranger sem perder a calma, insistiu:
- Que é lá isso, ó xerife! Parece que está com pressa?
E como o interpelado abrandasse sensivelmente o andamento da montada, e se resignasse a parar, imitado imediatamente pelos auxiliares, o homem de olhos claros declarou:
- Sou Catamount, pertenço ao Corpo de Polícia do Major Morley!
- Eu não convoquei, que saiba, ninguém das tropas do Major Morley para vir a Brownsville, resmungou Simeão Garlett, sempre de sobrancelha carregada.
Catamount observou que as fisionomias dos agentes eram, nesse momento, tão pouco agradáveis como a do chefe. Fixaram-no com insistência, olhavam de soslaio para
o director do Farol sempre sentado na garupa do Mesquita.
- Estamos com pressa, insistiu o xerife... Se tem qualquer coisa a tratar comigo, vá ter à minha repartição.
- Trabalhamos pouco mais ou menos no mesmo ofício, xerife, respondeu friamente Catamount; e sabe bem que há certos assuntos que não podem esperar, e convém regularizá-los
o mais depressa possível.
A atitude enérgica do homem de olhos claros, pareceu impor-se a Simeão Garlett e aos companheiros.
- Está bem! seja! tartamudeou o xerife...
Visto que tem uma comunicação a fazer-me, fale; mas
seja breve...
- Levo aqui o Sr. Manway, o director do Farol de Brownsville...
- Há muito tempo que conheço o Sr. Manway, replicou o xerife.
O pai de Carolina dispunha-se a falar, mas Catamount fêz-lhe sinal para que continuasse calado. Preferia ser êle próprio a discutir com o xerife.
- Pois bem! O Sr. Manway foi vítima de uma odiosa agressão por parte dum grupo de bandidos que se intitulam pomposamente Vingadores das Trevas!... Esses miseráveis,
imitando certas práticas de intimidação do Ka-Klux-Klan, procuram impressionar as vítimas.
Admira-me que tenham podido cometer o seu criminoso atentado com toda a tranquilidade, durante a noite, em pleno coração de Brownsville!
- Eu sei, replicou o xerife, e dispúnhamo-nos precisamente, eu e os meus homens, a começar as pesquisas...
- E a simples presença do Sr. Manway, que trago na garupa, não lhes indicaria que alguma novidade há?
- Nós não procuramos apenas o Sr. Manway, mas também os que o agrediram e raptaram!...
- Estranha maneira de proceder, comentou Catamount.
Simeão Garlett estremeceu; o director do Farol observou que êle dirigiu a mão para a bolsa do colt, mas a voz seca de Catamount bradou de novo:
- Vamos, xerife ! Sempre tem cada gesto!
- Saiba, no entanto, que me encontro atento e que me não deixo atacar impunemente. Além disso a sua conduta tem qualquer coisa que me parece bastante singular.
- Acabemos com isto, peço-lhe! interrompeu com voz surda o representante da autoridade. Não percebe que estamos a perder um tempo precioso! Enquanto discutimos
aqueles quê queríamos apanhar podem com todo o vagar pôr-se definitivamente fora do nosso alcance!
- Longe de mim o pensamento de proteger a retirada desses cobardes, replicou o bomem de olhos claros. Pelo contrário, creio que lhe deixou até tempo de sobra para
se escapulirem. Porém o qie importa é que eu lhe aconselhe a ser mais vigilante no cumprimento do seu dever!
Simeão Garlett de novo levantou o punho fechado.
- Um xerife nenhuma observação tem a receber de um ranger, resmungou. Não está nas suas atribuições meter o nariz nos negócios do distrito, e que só a mim dizem
respeito !
- Indubitavelmente, xserife, conheço a lei tão bem como
o senhor! Nada represento se tiver necessidade disso,
em Brownsville mas juro-lhe, que envidarei todos os meus esforços para fazer respeitar os direitos dos cidadãos pacíficos tão odiosamente maltratados!
Estas declarações, que Catamount pronunciara com voz firme, pareceram provocar uma profunda impressão nos subordinados do xerife. No entanto, ao cabo de alguns instantes,
Simeão Garlett replicou:
- Se alguns tumultos se deram em Brownsville, ranger, o Sr. Manway não é estranho a isso! Foi êle, com o seu maldito jornal, quem pegou fogo ao rastilho ! E no entanto-sabia
bem quem atacava!
- Sabia, certamente, que enfrentava o mais abominável facínora! E a agressão odiosa de que fui vítima esta noite não me impedirá que estigmatize mais que nunca a
sua atitude; antes pelo contrário! Estamos na América, num país livre, onde todo o cidadão tem o direito de manifestar a sua opinião, conforme o seu critério, dentro
da lei, e do respeito devido à liberdade e consciência dos outros !
Era Marcos Manway quem respondia agora. Catamount sentia as mãos do companheiro crisparem-se-lhe nos ombros. Incapaz de se dominar por mais tempo, atacava.
Simeão Garlett não se surpreendeu muito com esta resposta vigorosa.
- Parece-me que não quere fazer diferença entre a profissão da fé e a calúnia, Sr. Manway, declarou. As insinuações
com que quis atingir um dos homens mais respeitáveis e dos mais considerados do nosso distrito, parecem-me de natureza a provocar as mais graves complicações. E
por isso, na minha qualidade de representante da ordem em Browns-viile, ordeno-lhe que observe, dora-avante, a maior reserva... De contrário não responderei pelo
que se passar!
- Perdão, xerife, interrompeu por sua vez Catamount, o senhor está aqui para assegurar a protecção e o restabelecimento da ordem !
E como Simeão Garlett ia protestar ainda com veemência, o ranger prosseguiu, sem perder nem um só momento o sangue-frio:
- Convenha em que é bastante singular que empregue a mesma linguagem desses cavalheiros, Vingadores das Trevas. As suas funções obrigam-no, repito, a assegurar a
liberdade de pensamento e de opinião...
"Será inútil voltar o bico ao prego!
- Não me compete defender os maitre-chanteurs contra as vítimas deles!
- Nem tão-pouco estar de peito feito unicamente para se aproveitar duma situação que parece neste momento bastante confusa!
- Quere acusar-me de obcecação e de venalidade ?
- Longe de mim tal pensamento, xerife! Não veja nas minhas palavras outra intenção que não seja o cuidado de colocar as coisas no seu verdadeiro pé. Esta rectificação
tornava-se dispensável! Além disso, pode contar com o meu auxílio desinteressado! Esforçar-me-ei, na medida dos meios de que disponho, por desmascarar os culpados!
Tal oferecimento pareceu não agradar a Simeão Garlett, que respondeu com dissimulação:
- Nunca recorri aos rangers... Além disso, os meus auxiliares podem-lhe dizer se estão habituados a receber lições, conhecendo muito bem os deveres do seu cargo
Um murmúrio de aprovação acolheu esta declaração do xerife; todos os cavaleiros do grupo apoiavam o chefe e Catamount pôde verificar que a atitude deles nada tinha
de favorável a seu respeito. Todavia o ranger não se intimidou!
Tinha-se encontrado em situações bem mais delicadas do que esta.
- Não duvido da sua dedicação em proteger a gente honesta, declarou, mas receio que desde o início tivesse enveredado por mau caminho, e por isso me não fartarei
de gritar-lhe: "Cautela que pode escorregar!"
- Ainda uma vez lhe digo, que não percamos tempo em discutir moral! exclamou Simeão Garlett, rubro de cólera.
- Seja feita a sua vontade, xerife. Todavia, repito-lhe, que cada vez mais desejo tenho em o auxiliar... Se preciso fôr, agirei contra a sua vontade, e creio bem,
que na sequência, só terá que se felicitar pela minha decisão!
Marcos Manway parecia bastante atónito com a atitude do seu salvador. A insistência que Catamount punha em querer envolver-se na luta contra os Vingadores das Trevas,
surpreendia-o evidentemente. No entanto, não apresentou a menor objecção. A atitude firme do homem de olhos claros dava-lhe uma satisfação profunda. Pela primeira
vez sentia encontrar-se junto de um homem que não hesitaria no combate, e a decepção experimentada por Simeão Garlett, e pelos seus subordinados, apenas contribuíam
para aumentar a satisfação do director do Farol de Brownsville.
No entanto, o xerife não se considerou vencido. Longe de parecer seduzido com a oferta que lhe fazia Catamount, replicou, após breve silêncio :
- Não carecemos dos seus serviços, repíto-o!
"Se fôr preciso, escreverei ao seu chefe, e pedir-lhe-ei para lhe fazer as admoestações necessárias!
- O meu chefe tem em mim confiança plena, e deu-me a liberdade de me ocupar de todos os casos que me pareçam interessantes, e susceptíveis de proteger inocentes...
Ora este assunto dos Vingadores das Trevas intriga-me particularmente, e por isso continuo a repetir-lhe que a minha decisão está tomada! Fico em Brownsville até
que a verdade inteira seja aclarada!
O representante da autoridade compreendeu, então, que nem argumentos, nem ameaças, convenceriam o homem dos olhos claros.
- Muito bem! Faça como quiser, murmurou... Mas desde já o aviso que a sua qualidade de ranger lhe não será reconhecida! Se a sua actividade, pelo menos importuna,
provocar tumultos, tratá-lo-ei como um vulgar perturbador da ordem!
Um sorriso malicioso aflorou aos lábios do ranger.
- Desafio-o a que me ponha as algemas, xerife, declarou... Porque também eu o aviso, que ainda que seja o representante da lei, não o considero, dora-avante, no
exercício das suas funções de xerife de Brownsville. Que os seus homens igualmente o saibam! E agora, seria de mau gosto retê-lo mais tempo. Vá e traga amarrados
de pés e mãos os membros da sinistra associação dos Vingadores das Trevas.
Catamount, que durante toda esta discussão estivera atravessado na estrada, afastou-se rapidamente.
- Nós nos tornaremos a ver! Gritou-lhe Simeão Garlett lançando-lhe um olhar cheio de ameaças... Ha-de lamentar, então, a atitude atrevida que hoje tomou!
O ranger encolheu desdenhosamente os ombros, e os cavaleiros, metendo esporas às montadas, afastaram-se a todo o galope.
Em breve desapareceram sob uma nuvem de poeira.
Durante momentos seguiu com o olhar o grupo que se afastava, e em seguida, voltando-se para Marcos Manway, declarou :
- O seu xerife é decididamente um tipo curioso! Tem o coração ao pé da boca!
- Acho-o empenhado demais em sustentar a defesa da reputação de Ben Stockton, respondeu o pai de Carolina.
- Sabe-se lá? quando Stockton fôr desmascarado, esse pobre homem, apressar-se-á certamente em voltar, a casaca!...
"Neste momento canta louvores ao seu protector.
- Acautele-se! Poderá causar-lhe contrariedades aborrecidas. Seria bom que se não comprometesse demais nesta aventura!
- Que quere? Acho-a interessante! Quando me contou a sua história, senti-me profundamente impressionado. E a
atitude desse Simeão Garlett decidiu-me a entrar, também, na luta. A não ser, evidentemente, que veja nisso um grave inconveniente e que tema...
- Eu, temer esses celerados sem vergonha? interrompeu, imediatamente, o director do Farol de Brownsville. Vê-se bem que me conhece há pouco tempo, Sr. Catamount!
Ainda que tivesse de combater na proporção de um contra cinquenta, far-lhes-ia sempre frente! sucumbirei, se preciso fôr, mas tentarei o impossível para fazer brilhar
a verdade!... E a verdade brilhará, ou eu não me chame Marcos Manway! Há-de ver o artigo que vou escrever para o Farol a respeito dos Vingadores das Trevas! Quanto
ao senhor, é a Providência que o envia. Nem sempre se encontram auxiliares com tal autoridade... Ainda há pouco, quando vi a cara que Simeão Garlett fazia, experimentei
uma das maiores satisfações da minha vida!
Os dois homens tinham continuado o caminho e seguiam, agora, pelo centro da cidade. Mesquita, sem dar mostras de fadiga pela sua dupla carga, avançava sempre com
bom andamento.
- Então, não censura a minha iniciativa? preguntou Catamount.
- Se eu tivesse a meu lado dez valentes como o senhor, os outros não iriam muito longe!
Pararam de falar; à medida que avançavam para o centro da cidade, numerosos grupos estacionavam aqui e além e os circunstantes apontavam para Marcos Manway...
Dentro de momento os dois homens eram alvo da curiosidade geral dos habitantes da cidade.
Mesquita e os seus dois cavaleiros aproximavam-se cada vez mais das instalações do Farol, quando um homem pequeno, de blusa branca, saindo de uma mercearia, correu
agitando a mão com insistência em direcção a Marcos Manway.
- Que nos quere esse indivíduo? inquiriu Catamount.
- É Gravina, o merceeiro italiano, um bom homem, respondeu o director.
- O ranger parou o alazão e Gravina veio ter com eles;
sempre a gesticular, o italiano declarou, dirigindo-se ao pai de Carolina:
- Madonna!... Não vá para diante., Sr. Manway!
- Perdão! Estou ansioso por chegar a casa, replicou o interpelado, minha filha deve estar muito inquieta por minha causa.
- Mas senhor, não poderá entrar lá!
E porquê ? Terão incendiado o edifício ?
- Ainda não, até agora, signor Manway, mas gente armada guarda a porta e não permitem a entrada a ninguém.
- Isso é demasiado desaforo! Quero verificar isso, com os meus próprios olhos.
- Está lá a pior escória da cidade, capitaneada por Pedro Zopilote.
Catamount parecia conhecer já esse nome, porque os olhos brilharam-lhe ao ouvi-lo, mas Gravina prosseguiu, cheio de inquietação:
- Afixaram um letreiro dizendo "É proibido passar"!
- Mas a minha filha?... Os meus colaboradores?
- Estão lá dentro, mas não podem sair!
E o italiano continuou, enquanto o ajuntamento crescia à roda deles:
- O xerife acaba de sair, signor... Ninguém poderá meter na ordem esses canalhas!
- Está enganado! Saber-nos-emos impor a esses facínoras, custe o que custar!
Gravina, aterrado, levantou os olhos para Catamount, que acabava de pronunciar essas palavras.
- Vê-se bem que não é de Brownsville, insistiu; Pedro Zopilote ainda não encontrou quem o dominasse... É um atirador maravilhoso!
- Julga que tenho os dedos paralisados ? Afaste-se, por favor, e deixe-nos seguir! Visto que o xerife está ausente saberemos substituí-lo com vantagem.
O italiano levou as mãos à cabeça... O ranger via-se bem, era um rapaz valente; todavia a imprudência de que dava provas, desarmava-o inteiramente.
- Acautele-se! Pedro Zopilote pode reduzi-lo a pedaços.
- Eu sei tão bem como êle confeccionar um picado!
E sem se demorar a ouvir o merceeiro, Catamount apertou os flancos do cavalo.
Marcos Manway não tentara interromper o homem de olhos claros: todavia, enquanto cavalgavam juntos, segredou-lhe ao ouvido:
- Pedro Zopilote é um malfeitor da pior espécie... Tanto se serve do colt como de faca, ou navalha!
- Respondo-lhe, o que já respondi ao italiano: julga que estou paralítico dos braços ? A Providência proporciona-me a ocasião de me encontrar com Pedro Zopilote,
e eu ia perdê-la ! Seria loucura! Atenção que vai assistir a uma cena divertida.
A perfeita segurança que o ranger manifestava desarmava literalmente o director do jornal.
Entretanto, a notícia de que o estrangeiro ia ousar afrontar Zopilote, espalhara-se por toda a rua com a rapidez dum rastilho; de todos os lados afluía gente; e
nos dois passeios, a distância respeitosa, os curiosos seguiam em direcção ao local onde estavam situados os escritórios e a tipografia do Farol de Brownsville.
A agressão de que Marcos Manway, a filha e o colaborador tinham sido vítimas durante a noite, era, desde o romper da manhã, o assunto de todas as conversas. O regresso
do director do Farol dava lugar a várias conjecturas; a presença desse homem do Oeste, de olhar resoluto, provocou igualmente uma sensação intensa, tanto mais que
o desconhecido afirmava que Pedro Zopilote lhe não metia medo.
Na sua maioria, a gente de Brownsville compartilhava da opinião de Gravina. Era preciso ser louco para desafiar o facínora cuja reputação já passara a fronteira!
Havia quem apostasse um contra vinte e todas as probabilidades pareciam, evidentemente, estar do lado de Zopílote. a segurança manifestada pelo cavaleiro desconhecido,
parecia anormal. Expunha-se a sofrer uma derrota esmagadora.
No entanto, Catamount parecia não fazer caso algum dos
olhares de piedade que a maioria lhe deitava. A sua fisionomia impassível não denunciava o menor temor. Reconheceu, em breve, o edifício em que o Farol de Brownsville
era redigido e impresso todos os dias; e, então, deu conta que se tinha organizado à sua volta um verdadeiro serviço de ordem; mas longe de pertencer aos grupos
encarregados de manter o sossego na cidade, toda a gente que ali estava eram criaturas de aspecto suspeito e equívoco, com os peitos e os cintos cheios de cartucheiras.
Ocupavam o terreno tomando posições estratégicas, e esperavam.
"Decididamente, pensou o ranger, Simeão Garlett, tem uma singular ideia dos deveres do seu cargo.
Parte em busca dos Vingadores das Trevas, e muito bem, mas não deixa em Brownsville ninguém que o substitua e a cidade encontra-se, durante a sua ausência, à completa
mercê dos piores malfeitores!..."
Catamount teve de interromper o seu monólogo. A afluência tornava-se tão intensa nesta parte da cidade, que Mesquita só podia marchar a passo. Em breve, os grupos
obstaram a que avançasse mais.
- Afastem-se! Dêem lugar! gritou.
Protestos acolheram a entrada em cena do ranger.
- Não se pode passar! objectou timidamente uma voz.
- E porquê? pregunto eu?
- Zopilote não consente!...
- Zopilote não tem categoria, que eu saiba, para ditar a lei em Brownsville? Vamos, afastem-se!
Mesquita relinchou; então, alguns dos circunstantes receando ser mordidos ou escouceados pelo alazão, apressaram-se em dar passagem. Catamount, que continuava a levar na garupa Marcos Manway, foi de encontro à barragem constituída pelos acólitos do malandrim.
- Não pode passar!
Uma voz rude acolheu o homem de olhos claros. Úm punho sólido agarrou as rédeas e obrigou Mesquita a parar. No entanto, Catamount não se impressionou com esta intervenção.
Observava o individuo que o acabava de interpelar.
Era um grandalhão esguio que agitava na mão um colt de tamanho impressionante.
- Vamos, basta de graças! disse o ranger, trago aqui
o sr. Manway.
- Mais uma razão! Essa peste de Manway não poderá entrar em sua casa, assim como os ocupantes da casa não poderão sair da sua toca... Recebemos ordem para fazer
respeitar a senha!
- E quem lhes deu essa ordem ? - O chefe!
- Qual chefe ?
- Isso não lhe diz respeito!
O homem colocara-se firmemente à frente do cavaleiro e o revólver dirigido contra êle não podia deixar dúvidas sobre as intenções agressivas de que estava disposto.
Mas Catamount conservava sempre a sua desconcertante imperturbabilidade que causava espanto aos seus vizinhos mais próximos.
- O teu chefe é Pedro Zopilote! declarou. Que venha aqui, pois desejo falar-lhe imediatamente.
V
Zopilote em Cheque
- Pedro Zopilote ? Presente!...
Apenas o ranger acabara de se dirigir ao malandrim e de saltar abaixo do Mesquita, logo um indivíduo alto e espadaúdo, se afastou do grupo que guardava as instalações
do Farol de Brownsville...
Vestido à mexicana, calçado com botas altas ornadas de grandes esporas, uma banda de crepe da China encarnado debaixo da cartucheira, com um chapéu de aba larga,
ornado de medalhas de ouro e prata, este indivíduo era bem o espécime desses mestiços tão numerosos no México e na fronteira do Texas.
Cabelos negros de azeviche emergiam debaixo do chapéu; a fisionomia, de olhos brilhantes, e maçãs do rosto salientes, lembrava um mongol; o que impressionava, sobretudo,
era a sua expressão de maldade feroz.
Destacou-se dos companheiros e sempre a bambolear-se, com as pernas arqueadas, devido ao hábito de montar a cavalo, aproximou-se do ranger.
- Catamount não se mexeu; sem se ocupar mais do homem com quem até agora falara, sustentou com altivez o olhar de Pedro Zopilote. Um silêncio sepulcral fizera-se
em redor; os murmúrios deixaram de se ouvir. Os olhares de todos os circunstantes convergiam para os dois homens. A serenidade de que o ranger dava provas desconcertava
os mais valentes, e todos pensavam que se esse estrangeiro
conhecesse a reputação e o passado de Pedro Zopilote, teria certamente observado muito mais circunspecção.
O ranger conhecia, no entanto, a sinistra reputação do bandido, mas isso não o fazia recuar. Tinha atrás de si, um longo passado de experiência e nunca a coragem
e a temeridade o abandonaram. E por isso mesmo, o próprio Pedro Zopilote se sentiu chocado com a tranquilidade que o ranger manifestava.
- Desejas falar-me ? preguntou o mestiço.
"Aqui estou ao teu dispor! Que tens de interessante a dizer-me ?
- Uma coisa muito simples... Os teus homens incomodam-me e por isso vais dar-lhes ordem para se retirarem e deixar-nos o campo livre!
- Só isso!
Uma risada pontuou esta breve resposta de Pedro Zopilote. Colocara-se a dois passos do ranger, com as mãos, apoiadas nas ancas, esforçando-se por obrigar Catamount
a baixar os olhos, mas este não abandonou a sua atitude impassível.
Nem um só músculo da face se lhe contraiu.
E foi ainda com voz muito calma que insistiu:
- Marcos Manway é o proprietário desta casa, e vais çeder-lhe o lugar imediatamente!
- E com que direito, pregunto?
- Com o direito que todo o cidadão honesto tem de entrar em sua casa sem que um grupo de canalhas o possa impedir.
Desta vez, um leve arrepio contraiu a fisionomia de Zopilote; a sua mão direita aproximou-se da bolsa do colt, mas Catamount fêz o mesmo gesto. Mais rápido que o
seu antagonista, os dedos apertaram a coronha do revólver.
Pedro Zopilote fêz uma careta. O homem de olhos claros levava vantagem. Prevenia todo o ataque e em caso de conflito, seria o mais rápido. Por isso o mestiço preferiu
buscar rodeios e declarou :
- Recebi ordens para impedir a passagem seja a quem. fôr...
- Uma só pessoa pode actualmente arrogar-se tal direito: o representante da autoridade em Brownsville!... Tu não és, que eu saiba, o xerife.
- É certo, mas tenho por hábito, cumprir até ao fim as missões que me confiam!
- Mesmo que essas missões sejam ordenadas pelo mais miserável dos canalhas?
Pedro Zopilote, de novo tremeu ao ouvir esta enérgica réplica. Os seus vizinhos mais próximos esperavam que êle se lançasse contra o interlocutor para o punir pelo
atrevimento, mas êle ficou imobilizado, como se uma força misteriosa o retivesse.
Os olhos claros de Catamount, que não deixavam de o fixar, pareciam fasciná-lo. E todos os malandrins que pertenciam ao grupo !e Zopilote admiravam-se da passividade
e da paciência de que o mestiço se revestia na ocorrência.
Tinham-no visto, doutras vezes, corrigir ou abater pessoas que manifestaram muito menos audácia que o ranger.
Marcos Manway, esperava, por seu lado, sempre montado em Mesquita, que o seu companheiro abandonara momentos antes.
O director do Farol de Brownsville estava também espantado com o sangue-frio que Catamount manifestava, E à sua volta a multidão, que se comprimia cada vez mais,
guardava absoluto silêncio, silêncio percursor de furacão ou tempestade.
- Pela última vez te declaro que é proibido passar! resmungou por entre dentes Pedro Zopilote... Sabes ler? Vê esse letreiro!
Estendendo a mão, o mestiço apontou para um cartaz, que os seus homens tinham pregado numa estaca: "Proibida a entrada".
Mas esse novo gesto não impressionou Catamount.
- Que me importa a mim isso. . Intimo-te a que me deixes passar! declarou, com voz ainda mais imperativa.
Desta vez os assistentes tiveram a impressão que a situação se ia agravar imediatamente. Um clarão sinistro brilhou nas pupilas de Pedro Zopilote; atrás dele uma
dúzia de
acólitos, todos de saco e corda, se agrupavam em semicírculo, a fim de se oporem à passagem do audacioso estrangeiro.
- Ninguém entrará! interrompeu o mestiço.
"E tu menos de que os outros !
Mas já o homem de olhos claros avançava um passo e como Pedro Zopilote lhe tomasse deliberadamente o passo, assim ficaram, ombro com ombro, os olhares cruzados,
músculos distendidos, cada qual reunindo os seus esforços para tentar fazer ceder o antagonista.
Pedro Zopilote era dotado duma força pouco vulgar e esperava, imediatamente, impor-se ao seu temerário interlocutor ; com todo o seu peso carregou sobre êle, mas
bateu contra um obstáculo inabalável.
Parecia que Catamount se tinha transformado numa estátua de bronze e que os seus pés estavam incrustados no solo; todos os esforços do mestiço não conseguiram fazê-lo
arredar uma polegada.
Uma sombra passou no olhar do malandrim, e uma gota de suor aflorou-lhe na testa ; soltando uma surda exclamação, voltou à carga, mas desta vez o homem de olhos
claros, perdendo a paciência, ripostou. Furioso, Pedro Zopilote levou a mão à coronha do colt; não teve tempo de acabar o gesto. Uma mão de ferro caíu-lhe sobre
o punho, apertando-o como num torno.
- Abaixo canalha!
O grandalhão e alguns dos seus sequazes iam atirar-se a Catamount, mas a voz clara do ranger fêz-se ouvir. Dirigia se a Pedro Zopilote.
- Olá, malandrão! Ordena aos teus amigos que fiquem quietos ?
O mestiço quis recusar obedecer-lhe, mas o torno apertou mais forte; em vão tentou libertar-se, o aperto aumentou quási a quebrar-lhe os ossos... E um grunhido de
dor se lhe escapou.
- Vamos, ordena! insistiu Catamount.
- Para trás! Este assunto é só regulado entre nós dois! Com a face crispada por uma tremenda careta, Pedro
Zopilote resignava-se; mas logo, enquanto os seus cúmplices
se afastavam numa prudente reserva, levou a mão esquerda à sua segunda bolsa.
- Atenção! gritou Marcos Manway, que lhe surpreendera o gesto.
Por felicidade, o ranger estava alerta; Desta vez ainda o mestiço viu o seu ataque frustrar-se; no próprio momento em que se propunha apontar a arma ao peito do
inimigo e a premir o gatilho, o braço esquerdo do ranger estendeu-se como uma mola. Soou uma detonação; a bala foi perder-se no espaço.
Pedro Zopilote, vergava, agora, sobre a pressão do ranger, A confiança arrogante que manifestara no começo deste encontro transformava-se em raiva indizível. A sua
máscara bronzeada estava agora toda reluzente de suor. Mudos de espanto, os habitantes de Brownsville assistiam à derrota daquele que sempre tinham considerado como
um terror e que lhes parecia invencível. Quanto aos acólitos do mestiço ficaram paralisados, de tal modo a realidade do facto lhes parecia inacreditável.
Durante minutos ainda, Pedro Zopilote porfiou em resistir; o chapéu caira-lhe ao chão e teve que abandonar os seus dois colts; arqueando-se com todas as suas forças,
tentava evitar estatelar-se. Catamount apertava-o sempre implacàvelmente. As veias da testa inchavam quási a estalar, mas nada nos seus olhos impassíveis deixava
adivinhar que pudesse fraquejar. Parecia que praticava um acto dos mais vulgares. Por fim, o mestiço soltou um grunhido surdo; incapaz de sustentar por mais tempo
a pressão do seu antagonista, cedeu; dobrando os joelhos, tombou por terra.
Então, as exclamações fizeram-se ouvir; voltando a si do entorpecimento em que os mergulhara essa proeza inacreditável do estrangeiro, os assistentes manifestaram
abertamente a sua admiração; até vivas de entusiasmo soltaram, mas que bruscamente foram interrompidas para dar lugar a gritos de terror. Apenas Pedro Zopilote acabava
de morder o pó estendeu rapidamente a mão, e apoderando-se do colt que estava junto dele, apontou-o ao seu vencedor e premiu o gatilho repetidas vezes.
Atravessado por três balas, o chapéu do ranger foi rolar a alguns passos de distância; uma quarta bala raspou a fronte de Catamount e o sangue correu ao longo da
face, mas, por felicidade, o mestiço estava ofegante demais para atirar com segurança; antes que pudesse atirar a quinta bala, Catamount atacava, estendendo a perna
com rapidez irresistível; atingiu o miserável em pleno peito, e atirou-o pela segunda vez por terra; mas agora, antes mesmo que o mestiço tivesse tempo de se levantar,
o ranger tirou os dois colts e, assim imóvel, ameaçava Pedro Zopilote e os seus mais próximos acólitos.
- Mãos ao ar! Eu ensinar-vos-ei a ser correctos!
Desta vez, um dos colt do ranger ladrou; dentro de segundos o grande esgrouviado e os seus dois vizinhos, que se dispunham a atirar por sua vez sôbre o homem dos
olhos claros, ficaram com a cabeça descoberta; cada uma das balas, admiravelmente dirigidas, raspou o couro cabeludo e tirou um chapéu.
- Agora, apontarei um pouco mais abaixo! replicou Catamount!... Aviso aos imprudentes que se obstinarem a fazer orelhas moucas!
Este simples exemplo bastou aos malandrins.
Verificaram logo que o ranger era um atirador de primeira ordem; além disso a lição ao chefe, produzira uma impressão inapagável.
Todavia, Catamount não ficou por aí; dirigindo-se a Pedro Zopilote, que se levantava praguejando, e coberto de pó:
- A pé, ordenou, e depressa!
O mestiço tentou ainda resistir, mas soou uma detonação, seguida por outras duas; as balas de Catamount, habilmente dirigidas lavraram o terreno depois de ter roto
as botas de Zopilote. Então o bandido perdeu a bazófia... Num momento se pôs a pé e levantou as ;mãos para o ar, como os seus acólitos reduzidos à obediência.
De mais, já não era só Catamount que continha os bandidos em respeito. Marcos Manway tinha saltado ràpidamente
abaixo do alazão; e apoderando-se em seguida do segundo revólver de Zopilote, que estava no chão, o director do Farol de Brownsville apontava-o contra três dos malfeitores
que pareciam mais resistentes e de cuja equívoca atitude era útil desconfiar.
- Vocês também, patas ao ar!
A cena apaixonava as centenas de curiosos que se agrupavam ao redor das instalações do jornal. À janela da sua residência, Marcos Manway viu aparecer Carolina e
Nat Bender, enquanto Ezequiel e Benny assomavam à porta do rés-do-chão. Porém o director estava agora ocupado demais, para dar atenção ao pessoal.
A partida renhida que se jogava, era preciso ganhá-la a todo o custo.
Abençoando a hora em que a Providência colocara no seu caminho tão valente lutador, Marcos Manway esquecia as recentes emoções e o sangue-frio de Catamount dava-lhe
toda a confiança; teria enfrentado todos os canalhas que oferecessem a menor resistência e abatido implacàvelmente todos os recalcitrantes.
Por felicidade, o serviço de vigilância rigorosa que o grupo armado exercia ainda há pouco parecia completamente desorganizado com a ousada intervenção do ranger.
Todos os malandrins que faziam, pouco antes, de cães de guarda, e proibiam a aproximação das instalações do jornal, apresentavam um aspecto desolador.
A derrota do chefe, em que tinham absoluta confiança, tirara-lhes toda a veleidade de resistência.
- É pena que o xerife esteja ausente! disse uma voz. Êle que nunca pôde dominar este bando, poderia aprender, e aproveitar esta lição !
Os circunstantes, que antes se mostravam timoratos, expandiam, agora, os seus sentimentos. Bastara que alguém tivesse tomado a iniciativa de agir. A intervenção
de Catamount dissipava a atmosfera de terror que Pedro Zopilote fizera pairar sobre Brownsville.
Porém, o homem de olhos claros, parecendo não dar importância a toda essa gente, há pouco ainda hesitante, e
agora, aprovando nitidamente o seu gesto, não tirava os olhos do mestiço, que se conservava de pé, na sua frente, com o rosto congestionado pelo furor. - Arranca
esse letreiro! A voz seca do ranger quebrou o silêncio. Catamount apontou-lhe o letreiro a que o mestiço há pouco aludira.
Pedro Zopilote teve um calafrio. Custava-lhe horrivelmente submeter-se, dessa maneira, na presença de toda aquela gente que há pouco aterrorizava.
-Hás-de pagar-me isso tudo! resmungou, em surdina. - Não te peço que profiras ameaças, com que não me importo, interrompeu, calmamente, o ranger. Ordeno-te que vás
buscar esse letreiro; julgo que falo claro!
O gesto de Catamount, nesse momento, aproximando o colt do seu interlocutor, fêz compreender a Pedro Zopilote que se não tratava de uma brincadeira.
- Vamos, depressa !... insistiu Catamount. O mestiço cerrou os punhos com raiva. Via os olhares irónicos dos circunstantes, que avançavam para ele e compreendeu
quais seriam as inevitáveis consequências da sua submissão. Se se vergasse à vontade do ranger, perderia o prestígio; apenas o considerariam em Brownsville como
um espantalho.
- Vai para o Diabo ! começou... recuso... O canalha não acabou a frase. Catamount premiu o gatilho da arma e as balas começaram a chover-lhe aos pés. Então, sob
o riso geral, Pedro Zopilote, pôs-se a saltitar para evitar ser atingido. Quando o excelente atirador acabou de descarregar a arma, êle não esperou que lhe dirigisse
nova intimação.
Cabisbaixo, foi direito à estaca, tirou o letreiro, e depois, lentamente, dirigiu-se ao homem de olhos claros.
- Não é a mim que o deves entregar, mas ao Sr. Manway, tornou ainda Catamount.
-Obediente, Pedro Zopilote assim fêz; entregou ao director do Farol de Brownsville o aviso em questão. Então o ranger soltou um murmúrio de aprovação:
- Muito bem! Estamos perfeitamente de acordo...
"E agora ide dispersar, mas como possam cometer imprudências, queiram deixar-me aqui todos esses brinquedos!
Ao pronunciar estas palavras, Catamount, designava os revólveres e as carabinas, que os malandrins ainda conservavam.
- É uma indignidade! protestou Pedro Zopilote. "Héi-de queixar-me ao xerife.
- Ainda há pouco estive com o estimável Simeão Garlett, interrompeu o ranger, e êle não me disse que te tinha encarregado de manter a ordem na cidade. Mas, sossega,
que não perdes nada. Carabinas, revólveres e cartucheiras, será tudo entregue ao próprio xerife.
Êle tomará a decisão que julgar mais conveniente. Por agora, nada mais tenho que fazer aqui, e previno-vos que será perigoso para vocês, rondar perto das imediações
do Farol de Brownsville, e importunar os que aqui residem! Até nova ordem, eu próprio me encarregarei de assegurar a protecção dos habitantes...
E como um dos malandrins negasse ao homem de olhos claros o direito de agir dessa maneira, recebeu logo esta resposta:
- Chamo-me Catamount e pertenço ao corpo de rangers de El-Paso.
Desta vez, ninguém ousou insistir. Numerosos assistentes justificaram, então, a cena a que assistiram. Catamount, não era um desconhecido para grande número deles,
que já tinham ouvido falar das proezas do célebre corpo de cavaleiros da fronteira.
Porém, Catamount continuava indiferente aos movimentos da multidão, que se sucediam na sua vizinhança imediata. Enquanto Marcos Manway rasgava o letreiro que Pedro
Zopilote acabava de lhe entregar, êle ocupou-se em desarmar o mestiço e os acólitos.
Todos passaram, de cabeça baixa, olhar rancoroso, diante do ranger, depondo a seus pés as armas e cartucheiras. Quando o desarmamento estava terminado, Catamount
declarou simplesmente;
- Agora, podeis retirar-vos!
Os malandrins não esperaram que a ordem se repetisse; foram-se embora, mas os olhares que lançavam sobre o homem de olhos claros deixavam bem perceber que as coisas
não ficariam certamente por ali. Sem dúvida alguma, êle encontraria, qualquer dia, de novo, no seu caminho, Pedro Zopilote e o seu grupo de rufias.
- Atenção! murmurou Qravina, que tinha chegado junto do ranger, depois de ter assistido, cheio de admiração, a esta lição magistral. O senhor deve ter muita cautela!
Pedro Zopilote não é homem que possa perdoar um cheque tão humilhante.
Catamount encolheu desdenhosamente os ombros.
- Isso não importa! tenhho-os domado mais terríveis. Demais, esse canalha sabe bem que disponho de argumentos irresistíveis... O senhor mesmo pôde avaliar o valor
desses cavalheiros.
O italiano não respondeu. A proeza que o ranger acabava de cometer, causava-lhe espanto. Era preciso que o homem de olhos claros gozasse dum prestígio e sangue-frio
extraordinários para se impor assim a todo esse bando de malfeitores!
- Vamos, dispersem-se, peço-lhes.
O ranger incitava, agora, os curiosos a irem para suas casas e a não atrancarem os passeios e a rua, neste momento cheios de gente, mas muitos deles estacionaram
ainda durante algum tempo por aquelas paragens.
A rapidez com que esse homem, sozinho, tinha conseguido deitar por terra o espantalho, que até aí o mestiço sempre fora, surpreendia os pacíficos cidadãos de Brownsville.
No entanto, se Catamount se demorasse a ouvir os comentários que se trocavam nesse momento, a seu respeito, teria ficado lisonjeado pela unanimidade com que declaravam
que se êle ocupasse o lugar de Simeão Garlett, as coisas teriam certamente corrido melhor e que o direito das gentes, não haveria, certamente, sido tantas vezes
escarnecido, com uma persistência que escandalizava toda a população.
VI
Âlea jacta est!
- Querido paizinho, ora até que enfim que te vejo!
- Se soubesses as angústias por que passei durante toda a noite!
Carolina Manway, com o rosto iluminado pela alegria, beijava o pai, que acabava de transpor o limiar da residência. Atrás dela, Nat Bender, Ezequiel e Benny regozijavam-se
ruidosamente pela sua libertação e pelo severo castigo que o ranger inflingira a Pedro Zopilote.
- Esses canalhas feriram-te! exclamou o director do Farol de Brownsville, apontando para a ligadura que envolvia a cabeça do repórter.
Mas Nat Bender apressou-se em ratificar:
- Sossegue! trata-se apenas de uma arranhadura. Os malandrins surpreenderam-me pelas costas e aturdiram-me com uma pancada...
- Mas agora já readquiri a minha lucidez... "E espero que não voltarão tão cedo !...
O rapaz e a noiva sacudiam com vigor as mãos de Catamount, mas o ranger recebeu todos esses cumprimentos com a sua fleuma costumada, e depois, como Ezequiel e Benny
começassem a elogiar-lhe a coragem, deteve-os com um gesto:
- Basta de palavras inúteis, declarou. Espero que não julguem o perigo já passado !
- Esteja sossegado, senhor! Agora, com o seu auxílio, ainda menos os tememos!
O ladrar repetido de um cão, partindo da oficina de impressão fêz-se ouvir; então o preto ausentou-se por momentos; voltou, conduzindo um bull-dog, que puxava desesperadamente
pela trela.
- Diabo! disse sorrindo Catamount, que figura tão simpática!
- Aqui, Miml! anunciou triunfalmente Ezequiel, é o meu cão... Ainda há pouco impediu esses canalhas de entrarem aqui!
Carolina apressou-se a fazer, ao pai e a Catamount, a narrativa dos incidentes que se desenrolaram em Brownsville, depois que se produzira a repentina agressão nocturna
dos Vingadores das Trevas. Transtornada pelo drama que acabara de se passar, e pelo rapto do director, a rapariga tinha gritado por socorro.
Ezequiel e Benny haviam acorrido, bem como alguns vizinhos, mas a intervenção de Pedro Zopilote e dos seus acólitos bem depressa fizeram dispersar essa boa gente.
Carolina ficou só em casa com o noivo, desmaiado desde o começo da acção, e que voltou a si graças aos cuidados enérgicos que lhe tinham sido prodigalizados.
O preto, que trouxera o seu bull-dog, postara-se junto da porta. Foi assim que interditaram num dado momento a entrada ao grupo do mestiço.
Entrincheirado junto das janelas e da porta solidamente barricada, o núcleo do Farol de Brownsville conheceu horas atrozes. Todos cogitaram no que teria sido feito
de Marcos Manway.
Carolina receava que o pai tivesse sido vítima dos miseráveis. Em vão, Nat Bender se esforçava por tranquilizá-la.
- É Ben Stockton que está à frente de tudo isso, afirmou repetidas vezes a rapariga.
O informador, o preto e o rapaz continuavam igualmente persuadidos, que Stockton, pondo todos os meios em acção para acabar com a campanha iniciada pelo director
do Farol, envidaria todos os seus recursos para impedir as revelações anunciadas por Marcos Manway.
Não recuaria perante os processos mais criminosos e odientos.
Por várias vezes, Nat Bender tentou comunicar com o xerife, e informá-lo da situação em que se encontravam, mas Pedro Zopilote e os seus acólitos montaram em volta
do domicílio um serviço de vigilância; toda a saída foi rigorosamente proibida. Em número tão reduzido, os desgraçados não conseguiram forçar a barragem. Carolina
quis telefonar, mas logo deu conta que os malandrins tinham cortado os fios que permitiam comunicar com o exterior.
Os cercados prepararam-se para repelir os ataques. Armaram-se e ficaram alerta, mas não se deu assalto algum. É possível que Pedro Zopilote temesse complicações
ou esperasse novas ordens antes de levar mais longe a sua manobra.
Uma vez mais Carolina Manway e os seus companheiros puderam verificar que nem o xerife, nem nenhum dos seus agentes se davam pressa em aparecer.
Parecia, decididamente, que Brownsville fora entregue à completa discrição do bando... E o terror que só o nome de Pedro Zopilote inspirava, bastava para manter
os pacíficos habitantes da cidade a uma distância respeitável do edifício violado.
Por isso se concebe a alegria que se apoderou dos sitiados, quando assistiram ao regresso de Marcos Manway e à enérgica intervenção do ranger.
A princípio, espreitando pelas janelas, esperavam ver Catamount sucumbir perante o número dos seus temíveis adversários. O espanto cresceu, quando viram o homem
de olhos claros tomar pouco a pouco a ascendência sobre o mestiço, e depois impor a sua vontade a todo o grupo vencido.
É preciso não perder um momento, meus amigos, declarou então Marcos Manway.
O Farol deve aparecer como de costume! E será certamente arrancado das mãos dos vendedores, porque só publicará notícias sensacionais!
Esquecendo a fadiga que o invadia pela dupla marcha a cavalo e pela incómoda posição em que os Vingadores das trevas ó deixaram, suspendendo-o por cima da lagoa
dos jacarés, o pai de Carolina dirigiu-se à pressa para o seu gabinete.
- Vamos a isto, Nat, faz-me uma reportagem sobre o
assalto dos Vingadores das Trevas, e sobre a agressão de que foste vítima...
Insistirás em seguida sobre o incidente que acompanhou o meu regresso e a lição magistral inflingida ao Zopilote! Eu vou narrar a minha odisseia nocturna e aproveitarei
a ocasião para fazer uma pequena alusão à actividade febril de Simeão Garlett, que deve, certamente, ter deitado a mão, neste momento, aos culpados!
Dentro de momentos, o pequeno grupo metia mãos à obra. Catamount deu mostras de surpresa, não isenta da simpatia. A insistência com que essa gente, ameaçada, porfiava
em estigmatizar os processos criminosos e manobras de Stockton e consortes, seduzia-o enormemente. Mais que nunca se sentia resolvido a auxiliar os seus novos amigos
com toda a sua energia.
Carolina servira ao ranger uma xícara de café bem quente. Catamount reconfortava-se, comendo ao mesmo tempo um pedaço de bolo confeccionado na véspera pela rapariga,
quando sentiu roçar-lhe as pernas qualquer coisa. Baixou-se logo. Era Mimi, o bull-dog, que lhe pedia um pouco de bolo.
- Tu és bem feio, meu valente, murmurou o ranger passando-lhe a mão acariciadora pelo pêlo, mas creio bem, que apesar disso, seremos excelentes amigos, porque deves
ser um adversário de respeito!...
Pronunciando estas palavras, Catamount deu-lhe um pequeno pedaço de bolo, que o cão devorou gulosamente; depois, acabou de beber à pressa o seu café ; voltando-se
Para Ezequiel, que com as mangas da camisa arregaçadas até ao cotovelo se preparava, com Benny, para compor as notícias que Marcos Manway e Nat Bender lhes iam mandando
- Até já! Vou fazer a ronda, declarou.
Apenas o ranger acabava de pronunciar estas palavras, ouviu-se um estrondo, acompanhado de estilhaços de vidros, Uma pedra fora atirada de fora e caiu junto de uma
das máquinas de impressão.
- A dança recomeça! disse o ranger correndo para fora. Depressa, ponha os taipais. . Esses canalhas farão todo o possível para impedir a saída do jornal.
Armado com o seu colt, Catamount apareceu logo no limiar; alguns grupos estacionavam ainda; todavia foi em vão que tentou descobrir entre êles o autor do novo ataque.
Mimi precedia imediatamente o homem de olhos claros e mostrava, rosnando, a dentuça. Perto dali, Mesquita, que Catamount ligara pouco tempo antes a uma argola de
ferro chumbada na parede, puxava obstinadamente pela correia.
- Quem foi que atirou uma pedra para dentro de casa?
A voz clara do ranger fêz-se ouvir, dominando os murmúrios ; logo todos os olhares se voltaram para êle. Só recebeu respostas evasivas.
Alguns ousaram dizer-lhe que lhes parecia ter visto alguém deslizar nas proximidades imediatas da oficina de impressão, e deitar a correr, depois de ter atirado
qualquer Coisa.
- Muito bem! Juro que tal coisa se não tornará a repetir.
O ranger guardou o seu colt na bolsa e a seguir, metendo a mão no cinturão, tirou a bolsa do tabaco; num momento, fêz um cigarro que levou à boca e acendeu; depois,
limpando o rebordo do passeio, sentou-se fazendo um sinal a Mimi para se deitar junto dele. O bul-dog obedeceu logo.
Os taipais tinham sido corridos nas instalações do Farol de Brownsville, Febrilmente Marcos Manway e os seus colaboradores procediam à factura do jornal cujas revelações
iam ser sensacionais.
Impassível, sentinela vigilante, Catamount continuava Observando o exterior, atento ao menor movimento que se produzisse na vizinhança.
Passaram-se duas horas. Por três vezes Carolina saiu e trocou algumas palavras com o ranger. Catamount esperava sempre pacientemente, mas a indolência que afectava
não impedia que a sua vigilância estivesse sempre alerta; era fora de dúvida que a presença do ranger incitava os importunos manifestar mais prudência, porque nenhum
outro acidente se produziu. Somente, por vezes, os que passavam, paravam e olhavam para o ranger como para um animal curioso.
Alguns tentavam travar conversa com êle, mas o homem de olhos claros mantinha sempre uma completa reserva e a sua indiferença depressa desanimava os curiosos.
Catamount saboreava um pastel que a rapariga lhe trouxera; junto dele, Mesquita acabava uma ração de aveia, quando, de repente, o ranger levantou a cabeça. Um tropel
de cavalos ouvia-se, cada vez mais próximo. Os cavaleiros aproximavam-se.
O homem de olhos claros interrompeu a refeição e em seguida um sorriso furtivo aflorou-lhe aos lábios, quando reconheceu os cavaleiros. Eram Simeão Garlett e os
subordinados que o acompanhavam quando se cruzara com eles à entrada de Brownsville.
O xerife parecia estar de muito mau humor.
Com o sobrecenho carregado, cavalgava alguns passos à frente dos seus auxiliares. À primeira vista, Catamount percebeu logo que era a êle que se dirigia o representante
da autoridade.
O ranger continuou a comer, afectando a mais completa indiferença. Simeão Garlett parou o cavalo a três passos do passeio onde Catamount se achava sentado; fêz sinal
aos companheiros para esperarem, e aproximou-se dele.
Um ladrar furioso se ouviu logo... Mimi lançou-se ao encontro do recém-vindo... O xerife, que não tinha dado conta da presença do bull-dog entre as pernas de Catamount,
recuou proferindo uma praga.
- Está sossegado, Mimi! sossega meu valente!
E enquanto o xerife se imobilizava com a mão na coronha do revólver, o ranger continuava, com a maior tranquilidade possível:
- Nada tem a temer, xerife. Mimi só quere mal aos bandidos! Os guardas da segurança pública nada têm a recear dos seus dentes!
Depois, como o cão continuasse a rosnar em surdina Catamount, com um gesto, fê-lo deitar.
- Vamos! Mr. Mimi, tem juízo... E faz cara alegre! A cara alegre que nesse momento o animal deixava ver era a mais rabugenta das expressões,, mas o bull-dog resignou-se
a estar quieto e o ranger continuou com a sua voz calma:
- Muito prazer em o tornar a ver, xerife! Mas onde diabo estão metidos os energúmenos que constituem o bando dos Vingadores das Trevas?
Ao pronunciar estas palavras, Catamount lançou uma vista de olhos em direcção ao grupo de cavaleiros. Só ali estavam os auxiliares que escoltavam o xerife quando
o encontrara de manhãzinha.
No meio deles não viu prisioneiro algum.
- Eu não vim aqui para brincar, interrompeu Simeão Garlett mordendo os lábios com azedume... O que faz aí?
Esta pregunta foi feita sem delicadeza; no entanto o ranger pareceu não se magoar com o tom arrogante do seu interlocutor.
- O que faço? Meu Deus, espero, bem vê!
- E quem espera?
- A volta do simpático Pedro Zopilote, que mantinha, na sua ausência, a ordem na boa cidade de Brownsville! Travámos conhecimento e pareceu-me que esse cavalheiro
ficaria contente em me tornar a ver...
"E por isso estou aqui à inteira disposição dele! A calma que Catamount continuava a manifestar irritava Simeão Garlett.
- Já lhe disse que não temos necessidade do seu auxílio para manter a ordem em Brownsville !
- A rua é de toda a gente, xerife! Encontro-me muito
bem aqui. Vê algum inconveniente em que eu tome o fresco?
Era bem visível que o xerife perdia, cada vez mais, a serenidade.
- Não, não vejo nisso inconveniente, repetiu, mas receio que a sua presença aqui seja tomada por uma verdadeira provocação!
- O senhor é muito engraçado, xerife...
"Eu julgava, pela minha parte, que a minha presença significava exactamente o contrário, e até que me felicitassem pela destreza com que a ordem, perturbada durante
horas neste bairro, foi restabelecida por efeito da minha intervenção. Alguém, por certo, lhe disse o que se passou, e que a questão fêz bastante alarido...
O xerife não disse que estava ao corrente. Parecia profundamente embaraçado. A calma do ranger impunha-se-lhe, tal como se impusera, algum tempo antes, a Pedro Zopilote
e aos acólitos.
- Além disso, prosseguiu Catamount, se nada sabe não tardará a ser informado...
O Farol de Brownsville vai sair. Publicará todos os pormenores indispensáveis para edificação dos bons cidadãos! Um momento de espera, e as folhas ainda frescas
sairão da impressão! Tudo leva a crer que terão um bom acolhimento!
- É um escândalo, um verdadeiro escândalo, vociferou Simeão Garlett. Já lhe disse que as provocações intoleráveis de Marcos Manway poderão causar verdadeiros tumultos!
O sangue correrá... Todas as vezes que tentei avisar o director do Farol, não quis ouvir-me !
- Como todo o bom jornalista que se preza, gosta de pôr os seus leitores ao corrente de toda a actividade do distrito !
- Marcos Manway não é um jornalista mas um maitre-chanteur abominável. Põe em causa personalidades das mais respeitáveis, pessoas que se têm mostrado verdadeiros
benfeitores da região! Nestas condições, acha razoável que essa gente seja arrastada na lama?
- Se Marcos Manway puder produzir provas do que afirma, replicou Catamount, acho que está perfeitamente no seu direito! Além disso, se quere um conselho de amigo,
xerife, creia que faria melhor em se ocupar dos tratantes que
vão suspender durante horas, um ente inofensivo, por cima. dum atoleiro, cheio de jacarés... Esses malandrins são bem mais temíveis para a segurança pública do que
os jornalistas do Farol de Brownsville.
Simeão Garlett ficou durante alguns momentos sem responder, com o sangue a afluir-lhe às faces. Com os punhos cerrados, parecia querer atirar-se ao seu interlocutor;
porém, nada fêz. Os olhos de aço de Catamount fixaram-se nele como se procurassem adivinhar os seus mais íntimos pensamentos.
- Uma vez mais, ranger, murmurou por entre dentes, peço-lhe que trate dos seus afazeres e me deixe cumprir o meu dever como bem me pareça!... O senhor tem mais que
fazer nas regiões vizinhas da fronteira para vir semear entre nós a perturbação e a desordem.
- Na verdade, não vejo que desordem possa ter provocado, xerife, replicou o ranger imperturbável. O sossego reina em Brownsville e se alguns desordeiros quisessem
vir perturbá-lo dou-lhe a minha palavra de honra que seria o primeiro a pôr-me a seu lado para os meter em respeito...
- É a sua última palavra ?
- A última.
- Continua a obstinar-se em ser-me desagradável.
- De maneira alguma, xerife; acho-o mesmo particularmente atraente e precisamente, porque muito me interessa, é que eu persisto em ficar aqui... Demais, não há lei
alguma no mundo que me obrigue a deixar Brownsville...
- Nenhuma, efectivamente.
A lógica irrefutável do homem de olhos claros desconcertava o representante da autoridade... Lançando um rápido olhar para trás de si, viu os seus auxiliares que
esperavam, montados, e que pareciam muito interessados na conversa que prosseguia entre os dois homens.
- Afinal, sou tolo em insistir, exclamou, por fim, à falta de argumentos.
- Faça como quiser, e só se queixe de si pelos incómodos que lhe possam sobrevir.
- Espero as complicações com o coração sereno e a consciência tranquila, xerife!
E como o cão se pusesse a rosnar, o ranger ordenou-lhe:
- Quieto, Mimi! Estás hoje muito resmungão!
Simeão Garlett não se demorou mais tempo; sem mesmo estender a mão ao ranger, saltou rapidamente para a sela e fazendo sinal aos subordinados, afastou-se. Impassível,
Catamount viu afastar-se o grupo, e em seguida, recomeçando a refeição interrompida, continuou alerta. Logo que o grupo de cavalos se distanciou a porta da casa
abriu-se por trás dele e Carolina apareceu.
- Que lhe queria o xerife? preguntou a rapariga... Espreitei por uma fenda do taipal e vi que discutia consigo.
O homem de olhos claros teve um gesto evasivo.
- Falávamos simplesmente sobre as nossas obrigações, declarou. Creio que consegui convencê-lo, suficientemente, sobre as minhas intenções... Mas deixemos isso e
esperemos que o estimável Simeão Garlett cumpra sem hesitação o seu dever de cão de guarda das pessoas honestas... O jornal está pronto ?
- Está a imprimir-se! exclamou a rapariga. Dentro de uma hora poderemos lançar uma edição especial.
Apenas Carolina acabava de pronunciar estas palavras ouviu-se um assobio. Bruscamente, Catamount levou a mão ao revólver, que retirou dá bolsa, pronto para qualquer
eventualidade. Mimi ladrava furiosamente; quanto a Mesquita, de orelhas fitas, puxava desesperadamente, pela rédea como se pressentisse perigo.
A rapariga foi a primeira a soltar uma exclamação.
- Uma flecha! gritou... alguém atirou uma flecha contra os nossos taipais!
E enquanto o ranger, de revólver na mão, percorria com o olhar investigador os arredores, Carolina apressou-se a correr para o dardo que continuava a vibrar, solidamente
enterrado na madeira.
-Traz um papel!... tornou ela.
Com a mão trémula, a rapariga agarrou na folha de papel que vinha enrolada à haste do dardo, e em seguida desdobrou-a, e veio ao encontro de Catamount:
- Leia, disse ela.
O ranger apressou-se a pegar na singular mensagem, imediatamente a sua fisionomia se ensombrou, ao ler, alto, e martelando as sílabas, as poucas palavras escritas
no papel;
O Farol de Brownsville não sairá hoje.
VII
Edição Especial
- O que diz a esta ameaça? ousou preguntar Carolina.
- julgo que se lhe não deve dar importância, respondeu Catamount. O seu jornal sairá como de costume.
- Mas eles vão opor-se à distribuição ?
- Eu próprio me encarregarei desse serviço.
O ranger parecia tão resoluto e tão seguro de si que a rapariga sentia dissiparem-se as apreensões que a atormentavam.
- Devo mostrar esta mensagem a meu pai?
- Certamente, para que êle a reproduza em última hora, respondeu Catamount, mas diga-lhe que o Farol de Browns-ville será, apesar de tudo, vendido hoje aos seus
leitores !...
A rapariga afastou-se logo e o ranger continuou de guarda; inspeccionou com toda a atenção os arredores e não notou nada de suspeito; no entanto, se o autor da ameaça
se encontrasse na vizinhança, devia verificar com despeito a constante serenidade que o bravo cavaleiro conservava. Ora brincava com Mimi, ora fumava um cigarro.
Catamount verificava em breve que os grupos aumentavam em frente das instalações do jornal e que a atitude de certos transeuntes parecia mais inquietadora que antes.
As pessoas que apareciam não eram, com efeito, notava-se bem, pacíficos habitantes de Brownsville, mas tipos cujo aspecto se confundia com o de Pedro Zopilote e
dos seus dignos acólitos; todos vinham munidos de cartucheiras e colts enterrados nas bolsas de couro, que lhes pendiam das
ancas. E simulando não dar atenção alguma ao ranger, sempre firme no seu posto, lançavam, repetidas vezes, às furtadelas, um olhar em direcção a êle.
Catamount não se deixou lograr pela manobra. A chegada desses indivíduos tinha, evidentemente, qualquer relação com o envio da mensagem ameaçadora. Ben Stockton
(a não ser que se tratasse de Pedro Zopilote) tomava as suas precauções para impedir a saída do jornal; todavia, uma tal exibição de forças, que teria impressionado
qualquer outra pessoa, deixava o ranger perfeitamente indiferente; em certos momentos, até, um sorriso malicioso aflorava-lhe aos lábios.
Benny saiu, por fim, e aproximou-se do homem de olhos claros; trazia debaixo do braço um enorme maço de jornais, úmidos de tinta de impressão; atrás dele vinha Ezequiel
ainda mais carregado.
- Olá, meu rapaz! disse Catamount... O Farol está pronto ?
- O Farol está pronto! respondeu o rapazito; vamos vender a primeira tiragem pela cidade !
O preto sorria com todos os seus dentes, e já os dois companheiros iam afastar-se do edifício do jornal, como era costume todas as tardes, a fim de gritarem as últimas
notícias, e eis que de repente Benny estacou.
- Então? que há? interrogou Catamount.
- Olhe! não podemos passar!
O ranger voltou-se; viu logo que alguns homens dos que passeavam há pouco para trás e para diante se juntavam na mesma zona onde, há pouco, Pedro Zopilote tinha
estabelecido a barragem.
- Espera! Creio que nos vamos divertir! declarou o ranger.
A porta do gabinete abriu-se, dando passagem a Marcos Manway, à filha e a Nat Bender. O trio apercebeu-se logo da gravidade da situação. A manobra desenvolvia-se
nitidamente e o sossego de que tinham gozado durante algumas horas para compor e imprimir o número sensacional do Farol, constituía apenas uma trégua. Agora, depois
do primeiro episódio, cujo desfecho fora em seu desfavor, os adversários
do director iam entrar em acção e opor-se, por todos os meios, à difusão e à venda do número que relatava as proezas sinistras dos Vingadores das Trevas, e publicava
as acusações violentas do director contra Ben Stockton.
Em breve se ouviram os gritos dos vendedores entre os grupos, a apregoar : A Lanterna do Texas! O jornal de Stockton tinha tirado uma edição especial destinada a
refutar os argumentos dos seus adversários. Todavia parecia que o êxito, até àquela altura, não fora brilhante. Os curiosos iam chegando, cada vez em maior número,
abstendo-se na sua maioria de o comprar, mas também de tomar partido... Boatos incontroláveis tinham corrido em Brownsville no decorrer das horas precedentes. Ávidos
de imprevisto, agrupavam-se, ficando porém a distância respeitosa das oficinas de impressão; à volta das quais, tinham a convicção disso, qualquer coisa de importante
se iria passar!
A atmosfera tornava-se cada vez mais pesada; grupos saíam dos estabelecimentos de bebidas mais próximos e vinham engrossar a multidão que enchia a rua; a circulação
já se tornava difícil; no entanto, foi sem êxito que Catamount procurou descobrir qualquer agente de segurança entre a populaça inquieta. Como de costume, o serviço
de ordem abstinha-se de intervir.
Simeão Garlett, temia, sem dúvida, comprometer-se, e punha-se prudentemente de largo.
Na primeira fila dos curiosos, o ranger reconheceu, em breve, Pedro Zopilote; o canalha esperava, indubitavelmente, tirar a desforra da sua recente derrota; todavia
a sua presença e a de numerosos acólitos seus, não conseguiram impressionar o ranger.
Abandonando por instantes Benny e Ezequiel, aproximou-se de Marcos Manway, que se mantinha, preocupado, à porta da oficina de impressão.
- Sossegue, Sr. Manway, declarou o ranger, que eu próprio me encarregarei da venda do seu Farol.
O director não teve tempo de preguntar ao seu corajoso aliado como esperava triunfar dos obstáculos cada vez maiores que se levantavam à sua volta. Catamount foi
direito
ao lugar onde Mesquita estava preso e desatou a rédea que o prendia à argola.
O alazão martelava nervosamente o chão com as ferraduras; parecia enervado pela vizinhança dessa multidão ruidosa.
Um relinchar alegre se lhe escapou quando sentiu a mão do dono passar acariciadoramente ao longo das crinas.
- Vai ser preciso que faças figura, velho camarada!... Num instante Catamount saltou para a sela.
A atenção geral concentrava-se nesse momento sobre êle; os curiosos, impressionados pela presença dos indivíduos estacionados ao redor das oficinas de impressão,
a si próprios preguntavam o que o ranger premeditava, mas já Catamount fazia parar o cavalo junto de Ezequiel e Benny, que esperavam, indecisos, com o maço de jornais
debaixo do braço.
- Dá-me o teu pacote, velhote! gritou o ranger ao preto.
E enquanto o rapagão obedecia, com a boca aberta, não
sabendo ainda o que o cavaleiro queria fazer, Catamount ordenou-lhe:
- Tu vais ficar aqui mesmo com Mimi, e defenderás a entrada das oficinas contra qualquer assalto. Quanto a Benny, vai montar atrás de mim, na garupa, com os jornais!
O rapazito obedeceu prontamente; o ranger dando-lhe a mão, ajudou-o a subir para a garupa; depois pegou nos jornais que o preto guardara durante instantes.
Agora os rumores e os alaridos que se ouviam na vizinhança tinham cessado.
Um silêncio pesado, de inquietação, reinava em toda essa populaça. Adversários ou simples curiosos, interrogavam-se, não sem temor, sobre o que se iria passar.
Catamount dispôs, rapidamente, na sua frente, o maço que acabava de receber de Ezequiel, e em seguida, voltando-se para Benny, que se lhe segurava ao ombro com a
mão direita, preguntou:
- Estás pronto, rapaz?
À resposta afirmativa do seu jovem companheiro, o homem de olhos claros levou a mão à bolsa e pegou tranquilamente
no colt; por fim, dando de esporas a Mesquita, dirigiu-se para a multidão.
- Quem quere o Farol? Edição especial! Pormenores sensacionais sobre os acontecimentos que se desenrolaram durante a noite!... Responsabilidades esmagadoras!...
Quem quere o Farol?
A voz rude do ranger dominava agora os murmúrios; imediatamente Benny se apressou em secundá-lo; agitando uma das folhas que tirou do seu maço, o rapazito estendia-a
aos compradores.
A situação não deixava de ser curiosa; pela primeira vez a venda de um jornal se efectuava, assim, sob a protecção de um revólver. Era preciso que o cavaleiro dispusesse
dum extraordinário sangue-frio para tomar tal decisão.
Parecia insensatez atrever-se assim contra a multidão... De um momento para outro, Zopilote e os acólitos não tardariam em atacá-lo. Levado para o meio do turbilhão
humano, o ranger expunha-se a ser derrubado, calcado aos pés, ferido cobardemente pelas costas. No entanto o homem de olhos claros parecia não se aperceber do perigo.
Continuava a cavalgar como se o caminho estivesse absolutamente livre na sua frente. E no entanto, a alguns passos apenas, Pedro Zopilote e os seus cúmplices esperavam,
imóveis, sombrios, prontos a proibir a passagem ao audacioso cavaleiro.
- Afastem-se!
A voz enérgica de Catamount dominou todos os sussurros. Com o dedo no gatilho do revólver, o ranger animava, sem cessar, Mesquita, que parecia hesitar, aterrado
por tal afluência... E já Benny entregava os primeiros números do jornal em troca das moedas que lhe davam...
Pedro Zopilote levou a mão à coronha do revólver; Catamount foi direito a êle, e uma vez mais a intimação se fêz ouvir:
- Dás passagem, se não...
O mestiço viu o cano do revólver na sua direcção; leu no olhar do seu enérgico adversário a vontade inabalável de transpor o caminho custasse o que custasse. Em
redor do
miserável, outros indivíduos esperavam, prontos a opor uma barreira ao homem de olhos claros...
- Afasta-te ou não respondo por mim!...
O momento era crítico. Alguns dos assistentes apontavam as suas armas ao ranger o qual eles se dispunham a abater a um sinal do chefe, mas Pedro Zopilote viu-se
directamente ameaçado pelo colt do seu intrépido antagonista. Uma vez mais, Catamount, depois de ter medido a ameaça, tomava a única decisão que se impunha: segurar
o chefe! Os seus mais próximos vizinhos ouviram-no declarar :
- Olá, Zopilote ! Sei que sou um alvo excelente, mas fica sabendo que cairás antes que eu seja tocado...
E, como o mestiço deixasse escapar um grunhido furioso, o ranger prosseguiu:
- Se não ordenas aos teus acólitos que metam os revólveres nas bolsas, queimo-te os miolos.
"A rua pertence a toda a gente! Visto que os mantenedores da ordem se atemorizam e não pensam em cumprir o seu dever, estou resolvido mais que nunca a fazer respeitar
os meus direitos. Estamos entendidos?
Um silêncio de chumbo pesava à volta dos dois homens. Não se ouvia voar uma mosca. Catamount e Zopilote desafiavam-se com o olhar.
Foi o mestiço o primeiro a romper o silêncio:
- Não lhe queremos mal algum... Apenas desejamos que a folha de couve de Manway se não venda... E, no fundo, que lhe interessa isso?
- Tenho por costume fazer respeitar as liberdades ameaçadas pelos mais infames miseráveis, replicou Catamount com voz vibrante. Não sei quem te manda e atenta contra
a liberdade, de modo tão flagrante, mas estou decidido a assegurar a venda do Farol! Desgraçado do que ousar colocar-se no meu caminho !... Até aqui tenho-me divertido
com vocês, mas juro-te que as coisas, desta vez, tomarão outro aspecto mais sério... E por isso se têm amor à vida, afastem-se!... E tu mais que os outros, Zopilote...
Nunca a tua vida se encontrou tão directamente ameaçada!
O olhar do mestiço não perdia de vista o cano do revólver, sempre apontado ao seu peito.
Durante instantes hesitou; custava-lhe capitular segunda vez na presença do homem de olhos claros ; no entanto como a ameaça persistia e Catamount conservava o dedo
no gatilho, pronto a disparar em caso de recusa, resmungou:
- Não temos intenção de atentar contra a liberdade dos outros, antes pelo contrário...
- Ora ainda bem ! Visto que assim é, vais-te afastar para provar a tua boa fé !...
Um frémito percorreu a multidão. Pedro Zopilote cedia, por fim, perante a ameaça; recuou lentamente, enquanto o ranger, aumentando a pressão na sua montada, progredia
cada vez mais, e abria, finalmente, passagem por entre o grupo.
Fêz-se uma leve ondulação no mar humano que cercava de todos os lados o cavaleiro, e Catamount ia prosseguir a marcha, quando ouviu a voz de Benny dizer-lhe:
- Atenção! Zopilote vai atacá-lo pelas costas! Apenas o rapazito acabara de pronunciar essa frase, logo
o cavaleiro se voltou na sela com a rapidez do relâmpago. E duas detonações soaram ao mesmo tempo. Uma bala atravessou a aba do chapéu de Catamount, mas Pedro Zopilote,
que acabava de praticar essa cobarde agressão, soltou um grito doloroso. O ranger atirou melhor do que êle. O projéctil do seu colt acabava de lhe fracturar o braço
direito. Deixando cair a arma, o mestiço proferiu uma praga terrível.
- Quem se segue agora ? interrogou então Catamount brandindo o seu revólver ainda fumegante.
Este exemplo bastou para resfriar o zelo dos outros malandrins; todos se apressaram a meter na bolsa os seus revólveres, que empunhavam há pouco, e alguns deles
correram para junto do chefe ferido.
Durante alguns instantes, apoiado nos estribos, Catamount fixou os grupos que o cercavam e dirigindo-se a Benny, disse-lhe:
- Obrigado, rapaz! Agora para a frente, a vender o jornal, e ai daquele que se atravessar no nosso caminho!
Mesquita partiu e os grupos abriram alas na sua frente. O incidente que acabava de se desenrolar semeou a confusão nos pescadores das águas turvas que esperavam,
uma vez mais, intimidar Marcos Manway e o seu pequeno grupo. E enquanto Pedro Zopilote era levado a uma farmácia próxima para ser pensado, o alazão afastava-se,
conduzindo os seus dois cavaleiros.
- Olha o Farol!... Edição especial... Pormenores sensacionais sobre a criminosa actividade dos Vingadores das Trevas...
A nova proeza de Catamount conseguira que a venda tivesse um êxito colossal.
O ranger e o rapazito não tiveram necessidade de percorrer todas as ruas. Os quinhentos exemplares que levavam foram rapidamente arrancados pelo público. Esse êxito
não lhes abrandou o zêlo, antes pelo contrário; por quatro vezes voltaram à redacção, em frente da qual Ezequiel e o seu bull-dog estavam sempre de sentinela. E
de todas as vezes conseguiram esgotar rapidamente os exemplares.
Agora, uma efervescência indescritível reinava em Brownsville. Reuniam-se nas cervejarias e cafés e comentavam com paixão os artigos de Marcos Manway e Nat Bender.
A cidade inteira estava dividida em dois grupos, os leitores da Lanterna do Texas e os do Farol de Browns-ville... De costume, os primeiros eram mais numerosos,
mas nessa tarde a tese defendida e tão corajosamente sustentada por Marcos Manway parecia ter ganho um número impressionante de partidários. Longe de intimidar a
população, a sinistra proeza dos Vingadores das Trevas produzira uma indignação geral.
A atitude corajosa de Catamount conseguira numerosos adeptos.
Alguns, certamente, não tinham ficado contentes com a aventura. Primeiro, Simeão Garlett; os dois jornalistas não se incomodaram, com efeito, em dizer que uma cidade,,
como Brownsville, não podia estar sujeita a uma política de funil. Os cidadãos honestos não tinham, como outrora, a
impressão que os seus direitos e as suas liberdades estivessem protegidas.
A presença de bandidos como Pedro Zopilote constituía um verdadeiro desafio à justiça.
Ao cair da noite, Simeão Garlett e os seus auxiliares apareceram, mas não para acalmar a efervescência, antes pelo contrário!
O xerife defendia com veemência a sua causa entre os grupos; atacava com violência Marcos Manway a quem acusava de chantagem.
Uma edição especial da Lanterna do Texas foi distribuída, mas os seus artigos indignados, os argumentos de que se serviram os seus cronistas não conseguiram apagar
a impressão inteiramente deplorável, provocada pelas revelações do pai de Carolina e do seu corajoso colaborador.
Os boatos mais contraditórios correram logo desde o princípio da noite. Alguns afirmavam que Ben Stockton tinha chegado a Brownsville e que tinha tido uma longa
conferência com Simeão Garlett; outros afirmavam que Pedro Zopilote e o seu grupo tinha abandonado a cidade; outros, por fim, chegaram a insinuar que um entendimento
não tardaria a fazer-se entre os dois partidos em presença. Porém, os espíritos continuavam sobressaltados e indignados contra os Vingadores das Trevas, cujos criminosos
processos reprovavam.
Uma multidão compacta estacionava à volta das instalações do Farol de Brownsville, mas ninguém tentou, nesse dia, incomodar o director ou o seu pessoal.
Marcos Manway recebeu um grande número de amigos e partidários que vieram felicitá-lo pela sua corajosa campanha.
O jornalista agradecia, muito comovido; não se cansava de elogiar Catamount, cuja corajosa atitude lhe permitira assegurar esse primeiro êxito.
O ranger continuou sempre na beira do passeio em permanente sentinela.
Os passeantes que se juntaram em frente do edifício do Farol, olhavam-no como se fosse um verdadeiro fenómeno.
Ele parecia não dar por isso; surdo às aclamações que alguns lhe prodigalizavam, insensível aos olhares ameaçadores com que outros o gratificavam, conservava a sua
calma, sempre indiferente, como se se encontrasse só no meio de um vasto prado. O seu olhar fixava-se por vezes em Mesquita, de novo preso à argola, e em Mimi, a
quem esta afluência insólita fazia rosnar de vez em quando. Os dentes do ball-dog e a sua atitude ameaçadora obrigavam, muitas vezes, os importunos a manterem-se
a distância.
A afluência prolongou-se pela noite adiante, depois, pouco a pouco, os grupos dispersaram-se...
Então, depois de ter partilhado do jantar dos Manway, o ranger dispôs a sela no passeio, à laia de travesseiro, embrulhou-se na sua manta, e preparou-se para dormir
plàcidamente ao ar livre, pronto para qualquer eventualidade, enquanto, na casa vizinha, Carolina e os seus companheiros esqueciam, por fim, no meio de sono profundo,
as dramáticas aventuras de que tinham sido protagonistas.
VIII
A visita de Ben Stockton
As horas da noite decorreram na maior calmaria. Mimi, que se deitara junto de Catamount, não ladrou, nem rosnou. Parecia, decididamente, que a presença do ranger
desanimara, por completo, os adversários de Marcos Manway.
Quando o director saltou abaixo da cama, ao romper da manhã, pôde verificar que Catamount já estava a pé. Enquanto as persianas das casas próximas estavam ainda
hermeticamente fechadas, o ranger já tinha feito as suas abluções numa fonte próxima; agora limpava conscienciosamente Mesquita. O bull-dog, deitado na borda do
passeio, olhava-o contente.
- Então, nada de novo? preguntou o director inclinan-do-se à janela do quarto.
Calmaria podre!... Dormi profundamente! replicou o ranger sorridente... O senhor sonhou com os jacarés ?...
- Não, senhor; passei uma noite excelente ; os Vingadores das Trevas não vieram causar-me pesadelos !... Estou pronto, agora, a redigir o meu segundo artigo... Este
tratará da liberdade de imprensa e da maneira como tivemos ontem de assegurar a venda do nosso Farol... Brownsville será, certamente, a primeira cidade dos Estados
da União em que se teve de proceder à venda de um jornal, a cavalo, e de armas na mão!... Os grandes diários hão-de falar nisso, certamente!
Marcos Manway parecia, agora, alegrar-se com a dramática aventura. As notícias dos acontecimentos que se tinham dado iam certamente espalhar-se nos Estados vizinhos,
e isso
dar-lhes-ia extraordinária publicidade. Os colegas do Texas, do Arizona e da Luisiana não tardariam em mandar saber notícias. O escândalo tomaria tais proporções
que as autoridades se veriam obrigadas, quer quisessem quer não, a pôr cobro ao desaforo. O começo da manhã passou-se calmamente. Catamount preguntava a si próprio
se a sua presença ainda seria necessária, quando dois cavaleiros se apresentaram em frente do edifício do jornal.
O ranger, que fumava, sentado num banco portátil, reconheceu imediatamente o primeiro dos dois homens. Tratava-se de Simeão Garlett. O companheiro dele era um homem
pequeno, vestido de preto. Uma enorme corrente de ouro barrava-lhe o peito.
"Uma verdadeira cadeia de algemas", disse, de si para si, Catamount.
Porém, o homem de olhos claros interrompeu as suas reflexões ; chegados junto do passeio, os dois cavaleiros pararam, e em seguida Simeão Garlett e o companheiro
saltaram rapidamente para o chão.
Catamount parecia não ter dado pelos recém-vindos; continuava a fumar tranquilamente, enviando para o céu azul o fumo do cigarro. No entanto, a atenção dispensada
por certos curiosos, que estacionavam nas proximidades, ao segundo cavaleiro, fizeram crer ao ranger que se tratava de personagem bem conhecida.
- Olá! ranger!
O interpelado levantou tranquilamente a cabeça. O xerife parara a dois passos dele.
- Ah! é o senhor, xerife ? Seja bem-vindo!
- Bom-dia ! respondeu Oarlett, Catamount compreendeu pela atitude carrancuda do seu
interlocutor, que não devia alimentar a seu respeito uma simpatia excessiva, mas o xerife continuou :
- Marcos Manway, está ?
- Está a trabalhar, e creio que neste momento não desejará muito que o importunem.
Simeão Garlett manifestou certo nervosismo. A calma e a indiferença do ranger não lhe agradavam. Esta atitude
desagradou, sem dúvida, ao seu companheiro, porque avançou por sua vez e, com o sorriso mais amável, disse:
- Lastimamos deveras importunar o Sr. Manway, mas é indispensável que eu lhe fale... E mesmo urgente.
Pela atitude cortês desse novo interlocutor, o homem de olhos claros disse logo de si para si que aquele tipo devia ser muito mais inteligente e menos "urso" do
que o xerife, mas uma sombra toldou-lhe o olhar quando ouviu o desconhecido prosseguir:
- Anuncie-me a Marcos Manway, faça favor... Receber-me-á, certamente, quando souber quem sou!
E em seguida, com um piscar de olhos, significativo, o homenzinho acrescentou:
- Sou Ben Stockton!
Esta visita tinha, sem dúvida, qualquer coisa de surpreendente; no entanto, Catamount não perdeu a fleugma, e levantou-se sem manifestar a menor pressa.
- Esperem ambos um instante, declarou. De costume, é Benny quem se encarrega de anunciar os clientes... Vou ver, no entanto, se o Sr. Manway os pode receber.
Catamount entrou com as mãos nos bolsos, e com o cigarro na boca; apenas tinha desaparecido, o xerife voltou-se para o companheiro:
- Este maldito ranger! Viu a arrogância dele? Pagaria bem caro para me ver livre dele. Um sorriso irónico aflorou à face de Bem Stockton.
- O senhor está nervoso Garlett! É sinal de fraqueza! As suas funções de xerife exigem mais sangue-frio! Em lugar de praguejar contra esse Catamount, faria melhor
em seguir-lhe o exemplo... E enquanto o representante da autoridade mastigava quaisquer palavras incompreensíveis, Ben Stockton, insistiu:
- Ali está, sem dúvida, um rapaz valente, como eu gosto! Sozinho impôs-se a toda uma malta hostil. Zopilote não foi mais do que um boneco na frente dele. Substituíu-o
com inegável autoridade e conseguiu executar as proezas mais inacreditáveis ! Conhecia, é certo, a reputação dele, mas não julguei que pudesse exercer uma tal influência
sobre os
seus concidadãos. Desde que se encontra em Brownsville, todos os espíritos estão literalmente alarmados, mas infelizmente, no sentido em que nós não desejaríamos.
Por isso convém evitar o perigo, por maiores que sejam os sacrifícios a fazer.
- É uma capitulação, objectou Simeão Garlett.
- Ainda não aprendeu a diferença que existe entre uma manobra e uma capitulação ! Esta decisão impunha-se como necessária, e mais que nunca queira não perder a oportunidade...
Senão, não respondo por nada! Mas antes de empregar a força, vale mais recorrer à diplomacia. É uma tática que sempre me deu resultado!
Os dois homens não prosseguiram na conversa. Catamount reaparecia no limiar.
- Queiram seguir-me, declarou o ranger. Um novo sorriso de satisfação aflorou ao rosto de Ben Stockton. Acompanhou Catamount, imediatamente seguido por Simeão Garlett,
cada vez mais aborrecido.
Dois minutos depois os visitantes estavam no gabinete de Marcos Manway. O director do Farol de Brownswle encontrava-se sentado à mesa atulhada de papelada. Em mangas
de camisa, os cabelos despenteados, escrevia apressadamente num linguado que já se encontrava todo rabiscado.
Marcos Manway pareceu não dar pela presença do xerife e de Ben Stockton, e escrevia com nervosismo. Os dois visitantes entreolharam-se, um tanto interditos, mas
Catamount inclinou-se para a mesa:
-Sr. Manway! Aqui estão os dois homens que o procuram. O director do Farol tossícou, e depois, com um gesto que lhe era habitual, levantou os óculos para a testa.
Da sala vizinha Carolina e Nat Bender surgiram, olhando com desconfiança os recém-vindos.
Catamount ficou próximo da porta, encostado à parede, com as mãos nos bolsos e esperava, pronto a intervir se surgisse qualquer complicação. Porém, nesse momento,
parecia que o sossego não seria alterado. Longe de se espraiar em recriminações e censuras contra aquele que se tinha sempre conduzido para consigo, como o mais
irredutível dos adversários, Ben Stockton estendeu-lhe a mão.
- Vamos lá, Manway, toque nestes ossos e acabemos com esta situação absurda.
O director do Farol não se mexeu. Continuava a observar o visitante, com o sobrecenho carregado e uma expressão de desprezo nos lábios.
- Estendo-lhe a mão, Manway, insistiu Ben Stockton com um sorriso amável. Repare que sou muito mais conciliador do que o senhor! Avaliei, com efeito, as consequências
deploráveis a que podia levar uma luta prolongada entre nós dois. Nascemos para nos entender e não para combatermos. Pense nas coisas grandiosas que poderíamos executar
se nos apoiássemos mutuamente!
Ben Stockton era todo doçura; no entanto, os seus argumentos pareceram não ter produzido impressão no pai de Carolina, pois foi com voz seca e hostil que lhe respondeu
- Sou honesto, Stockton, e não tenho por hábito ligar-me a malfeitores sem escrúpulos!
O visitante empalideceu, e o xerife cerrou os punhos; com um olhar, Simeão Garlett tentou fazer compreender ao vizinho que era inútil insistir mais tempo; este início
da discussão anunciava-se suficientemente significativo, mas Ben Stockton depressa se refez da decepção; afectando a maior calma, retirou a mão, e meteu o polegar
na cava do colete.
- Esperava, talvez, Manway, que eu me atirasse a si, e o insultasse! Vai por mau caminho, meu velho! Não agirei de maneira tão tola! O senhor obstina-se em agarrar-se
aos velhos métodos; acredite que, em breve, reconhecerá que já não são do nosso tempo! Actualmente é preciso mais realismo e mais compreensão!
- Marcos Manway sacudiu negativamente a cabeça.
- Não, Stockton, reflecti maduramente, nunca conseguirá convencer-me! Admiro o progresso, certamente, não tenho dúvida em mostrar-me realista, em caso necessário,
mas não confundo a palavra realista com a de ladrão. Há longos anos que dirijo o Farol e o que sou devo-o ao meu trabalho, e à minha perseverança! Posso orgulhar-me
de ter as mãos
limpas e quando olho para o passado felicito-me pelo caminho percorrido!
- Ninguém lhe diz o contrário, replicou Ben Stockton; toda a gente sabe, em Brownsvílle, que é um homem íntegro... No entanto, uma vez mais verifico que se engana
redondamente a respeito das minhas intenções! Não se trata, para si, de cometer a menor acção repreensível, mas apenas de pôr fim a uma situação que, a prolongar-se,
só pode tornar-se prejudicial aos interesses da região!... Proponho-lhe a concórdia, o esquecimento das injúrias... Esqueço as palavras duras que acaba de pronunciar
a meu respeito, à laia de bom acolhimento... Peço-lhe para abandonar os seus projectos de campanha, que poderia tornar-se em seu prejuízo, pois tenho toda a razão
para assim o julgar.
Os dois homens fitaram-se. Fèz-se silêncio na sala. Catamount, o xerife e os outros circunstantes observaram com atenção o jornalista. Nem um só músculo do rosto
estremeceu; no entanto, a mesma expressão de altivo desprezo dominava-lhe a fisionomia. Mas, Ben Stockton, não se confessou vencido. Parecia que a rigidez hostil
que o seu interlocutor manifestava o incitava a tornar-se mais amável e mais conciliador.
- Por isso lhe digo que nos poderíamos entender facilmente! insistiu.
Levando a mão ao bolso interior do casaco, Ben Stockton tirou um livro de cheques.
Deliberadamente, sentou-se na borda da mesa, atirou o chapéu para a nuca, e depois, inclinando-se para Marcos Manway, que o observava sempre com a imobilidade de
uma estátua:
- Quanto? preguntou, simplesmente.
A resposta não se fêz esperar. O braço do director do Farol estendeu-se com rapidez desconcertante. Antes mesmo de ter tempo de se pôr na defensiva, o visitante
sentiu saltar-lhe das mãos o livro de cheques que foi cair no soalho. E enquanto êle se imobilizava, interdito, o pai de Carolina, levantara-se, e em seguida estendendo
a mão, e apontando-lhe a porta, disse :
- Saia! Saia imediatamente!...
Sob a sobrecasaca preta, Catamount viu a mão direita de Ben Stockton deslizar para a bolsa do revólver que trazia dissimulado sob o vestuário, mas o ranger deu três
passos em frente e veio colocar-se junto do visitante. Este não acabou o gesto; vendo o olhar claro do vizinho fixar-se nele com insistência, compreendeu que o ranger
estava pronto a frustrar qualquer ataque.
- Visto que assim o quere, resmungou surdamente Stockton, não torno senão a si as culpas das catástrofes que possam sobrevir.
"Vim até aqui como amigo, de mão estendida, e o senhor repeliu-me odiosamente!
- Uma vez mais lhe digo, Stockton, o senhor não me conhece suficientemente, para imaginar que eu entraria nas suas combinações ! Entre nós dois existe um abismo...
Certamente, para muitos, o senhor é o protector e o benfeitor do povo; infelizmente, eu sei com quem lido, e possuo as provas iniludíveis da sua infâmia criminosa...
Neste mesmo instante, escrevo para fazer brilhar a luz...
- Essas provas não existem, replicou Ben Stockton, são falsas ! Demais, de que se trata, na verdade?
Marcos Manway sacudiu, ironicamente, a cabeça.
-Não, Stockton, não cairei na armadilha que me estende ! Esperava que impelido pela cólera lhe fornecesse esclarecimentos referentes às armas de que disponho contra
si, e que saberei empregar em tempo oportuno? Pois bem, não, nada lhe direi, basta que saiba que o seu poder e a sua influência não resistirão à campanha em que
me empenhei. É preciso que a justiça se faça e que os infelizes sacrificados ou perseguidos sejam vingados! Dedicar-me-ei, com toda a energia, a esta tarefa de salvação
pública; nem as ameaças, nem as tentativas de suborno, conseguirão fazer-me recuar!
Ben Stockton readquirira rapidamente a calma; muito sossegado, baixou-se para apanhar o livro de cheques. Junto dele, Simeão Garlett esperava, com o punho crispado!
Ia a arriscar uma palavra quando o director do Farol se lhe adiantou:
- Permita-me, xerife, que me espante com a sua atitude. A sua presença junto de Stockton, faz-me supor que o senhor apoia com toda a influência as suas manobras
tão suspeitas!... Não era esse o papel que deveria manter. Longe disso! Os cidadãos de Brownsvile elegeram-no para proteger a gente honesta e para assegurar a manutenção
da ordem, e não para favorecer intrigas odiosas.
- É na manutenção da ordem que penso, quando lhe peço para pôr termo a uma campanha de pérfidas insinuações, as quais podem transformar a cidade num campo de carnificina!
Sabe bem já as complicações que causaram as suas absurdas manias. É no interesse dos seus concidadãos que lhe peço para escutar a voz da razão...
- Antes que escute a voz da razão, ouvirei a da justiça. A réplica foi directa ao alvo. Menos senhor de si que
Stockton, o xerife fêz menção de se precipitar sobre o director.
- Parabéns, xerife! disse então Marcos Manway; vem levantar a mão para pessoas honestas e ameaçá-las na sua própria casa!
Ben Stockton compreendeu que a atitude desastrada do seu companheiro podia comprometer tudo.
- É inútil insistir, xerife! Fêz o seu dever. Quanto a mim tenho a consciência tranquila... E visto que um representante do célebre corpo de rangers se encontra
aqui, e que se viu envolvido inopinadamente nos incidentes que acabam de se desenrolar em Brownsville, creio que fará uma ideia exacta da situação.
Um homem de sua envergadura tem mais que fazer do que servir o ódio de um jornalista, demasiadamente parcial.
Ao pronunciar estas palavras, Ben Stockton voltava-se para Catamount. O ranger não se moveu. Então o visitante insistiu:
- Ouviu, Catamount, eu sei que até aqui tem defendido causas nobres, mas não quero crer que tome a deliberação propositada de se fazer cúmplice de um maitre-chanteur!
- Pode estar certo, Sr. Stockton, replicou calmamente o ranger, em todos os assuntos em que me meto escuto
sempre a voz da consciência, e procuro sempre saber de que lado está a razão... Se o Sr. Manway fôr um maitre-chanteur, pode estar certo que não poderá contar muito
tempo com o meu apoio! Mas, em caso contrário, envidarei todos os meus esforços, para fazer brilhar a verdade e castigar implacàvelmente os culpados!
- Saia! nem mais um instante em minha casa. Marcos Manway de novo estendeu o ,braço, e apontava a
Stockton a porta do gabinete. Ben Stockton encolheu ironicamente os ombros, e depois de ter metido no bolso o livro de cheques, afastou-se assobiando. Dentro de
instantes estava na rua.
O xerife demorou-se um momento, antes de seguir o companheiro.
- Faz mal, Manway, declarou com voz sibilante ao director do Farol de Brownsville... Stockton ofereceu-lhe a tábua de salvação, o senhor repeliu-a, sem sequer imaginar
as consequências incalculáveis do seu gesto.
Não posso deixar de o deplorar do fundo de alma. E como as suas palavras parecessem não produzir efeito no seu interlocutor, Simeão Garlett prosseguiu:
- Por minha parte, diga o que disser, sinto que cumpri o meu dever, todo o meu dever! E se sofrer os inconvenientes da sua inexplicável obstinação, lembre-se que
não pode contar comigo nem com os meus homens para o livrar de embaraços.
Evitando cumprimentar Marcos Manway, o representante da autoridade enterrou mais ainda o chapéu, mas Catamount esperava em frente da porta ; apressou-se pois, a
sair. Apenas franqueou o limiar, o director do Farol, rubro de cólera, continuou a escrever o artigo.
- Esse miserável tentou comprar-me ! Ousou acreditar que eu poderia entender-me com êle! Não tardará a lamentar a sua imprudência!
- Peço-te, pai, que sossegues !...
Marcos Manway ergueu a cabeça. Carolina tinha-se aproximado sem ruído. A rapariga, testemunha da dramática cena que se desenrolara na sala, não tentara intervir
na discussão;
todavia, a expressão preocupada que lhe sombreava o rosto, denunciava quanto estava inquieta. Lembrava-se da noite trágica em que os Vingadores das Trevas tinham
invadido a pacífica residência. Passando os braços ao redor do pescoço do pai, depôs-lhe um beijo na testa.
- Essa gente é poderosa, pai, murmurou.
"Tenho muito medo que eles não se demorem a pôr em execução as suas ameaças !,
- Não me impedirão de fazer toda a luz! declarou Marcos Manway com firmeza.
E como a filha esboçasse um gesto de dúvida, o jornalista insistiu com energia:
- Esta visita veio provar que, pelo contrário, esses canalhas tremem com a aproximação do castigo! Até agora eram igualmente poderosos e as suas tentativas falharam
e o simples facto de eles tentarem um entendimento connosco, constitui uma prova de fraqueza que nos dá boas esperanças ...
Carolina abanou a cabeça e olhou para Nat Bender. A rapariga não alimentava ilusões, a luta, efectivamente, seria ainda mais renhida do que Marcos Manway imaginava,
e infelizmente a força não estava ainda do lado da gente honrada.
- Se não fosse a intervenção de Catamount, suspirou... o que seria de nós ?
Mas o ranger estava ali, e só com a sua presença incitava os dois jovens a não perderem a coragem.
IX
O telegrama
O dia passou-se sem que novo incidente se produzisse. Zopilote e os seus acólitos pareciam ter abandonado definitivamente a cidade; todavia, nos numerosos ajuntamentos
que se formavam em Brownsville, e nas discussões apaixonadas que prosseguiam nos centros de cavaco, poder-se-ia verificar que a efervescência persistia sempre.
Partidários ou adversários de Ben Stockton, degladiavam-se. A edição especial do Farol provocara enorme sensação.
Alguns falavam em organizar, como nos tempos heróicos dos pioneiros, um corpo de vigilância para defender os direitos ameaçados dos cidadãos pacíficos; outros, pelo
contrário, aconselhavam a destruição das instalações do jornal de Marcos Manway, a quem acusavam de chantagem.
Todavia, nesta situação confusa, havia um pormenor, que surgia nas conversas, e que provocava uma impressão considerável: a presença e a atitude de Catamount. A
qualquer partido que pertencessem, os habitantes de Brownsville, concordaram em reconhecer que o ranger não era um homem vulgar.
A maneira expedita como infiingira uma lição a Pedro Zopilote, a calma que dominava todas as suas atitudes, tudo isso causara espanto e admiração. Parecia que esse
homem do diabo era protegido por um encantamento, e a sua coragem fizera mesmo esquecer as primeiras proezas dos Vingadores das Trevas.
Grupos dirigiam-se para junto do edifício do Farol de Brownsville, na esperança de encontrarem o herói do dia; havia mesmo quem chegasse a tentar entabular conversação
com o ranger.
Catamount, desde que acompanhara até à porta o xerife e Ben Stockton, não parecia disposto a cavaquear com os seus ruidosos admiradores. Conservava-se afastado,
prudentemente, reflectindo nos últimos factos que se acabavam de produzir, e em particular na dupla visita que Marcos Manway recebera. Hábil fisionomista, o ranger
pôde surpreender na máscara de Ben Stockton traços da mal contida inquietação. Apesar da amabilidade que afectara para vergar a resistência do jornalista, o visitante
estava inquieto. E Catamount admitia serem as provas, que o director do Farol possuía, de importância capital para que Stockton se tivesse decidido a entender-se
com êle, e se propusesse comprar-lhe o silêncio. Nesse momento, essas provas, cuja natureza Marcos Manway não revelara, constituíam a única salvaguarda do jornalista
e dos seus. Se o seu poderoso adversário não receasse a sua divulgação, e não desconfiasse das precauções tomadas por Marcos Manway, não teria hesitado em suprimir
o director do jornal, fosse lá de que maneira fosse.
O ranger persuadira-se que Ben Stockton não ficaria, certamente, por ali. O aventureiro não descansaria, com certeza, enquanto se não assegurasse do silêncio do
seu rijo adversário. Mais que nunca convinha estar de olho aberto, apesar da calma podre que sucedera à borrasca.
A noite passou-se em sossego, e Brownsville parecia ter recuperado o seu aspecto habitual. Catamount, que continuava alerta, não precisou de intervir, e ninguém
foi visto rodar nas imediações do edifício do Farol.
Marcos Manway, a filha e Nat Bender, de novo puderam gozar um bom descanso. Quanto a Ezequiel e Benny, tinham-se recusado a abandonar o director, e dormiam na tipografia.
O jornal foi composto como de costume. Catamount e o rapazito encarregaram-se, tal como na véspera, de o apregoar e vender. Os números esgotaram-se rapidamente.
O homem de olhos claros regressara ao seu posto; dispunha-se a fumar um cigarro, quando, de repente, levantou bruscamente a cabeça. Um cavaleiro apareceu na calçada,
e dirigia-se ao seu encontro.
- Olá... O xerife? disse o ranger.
Era com efeito, Simeão Garlett quem assim chegava, e imediatamente Catamount percebeu que era êle próprio quem o representante da autoridade procurava.
O ranger riscou um fósforo e enquanto o xerife parava à borda do passeio, entreteve-se a chupar o cigarro e a expelir fumaças para o ar; mas Simeão Garlett, inclinou-se
na sela, e estendendo a mão, pousou-lha no ombro.
- Olá, xerife! proferiu Catamount, levantando-se subitamente e esmagando com o tacão o fósforo, meio consumido, e que acabava de atirar ao chão.
- Desejo falar-lhe, ranger! declarou, sem mais rodeios, Simeão Garlett.
- Muito bem!... Sou todo ouvidos... Meus ouvidos estão abertos como dizem os nossos bons amigos índios!...
O xerife levou a mão ao cinto e tirou de lá um papel que estendeu imediatamente ao seu interlocutor.
- Está aí um telegrama que acabo de receber para o senhor.
- Para mim ? repetiu Catamount, um pouco intrigado. Ora aí está uma coisa bastante bizarra... Tenho o costume excelente de não deixar a minha direcção a ninguém.
É o único meio de não ser incomodado.
- Esse telegrama vem do seu chefe, do Major Morley, actualmente em Del-Rio.
- O Major Morley ignorava, por completo, o ponto onde eu me encontrava.
- Certamente, disse o xerife, piscando o olho, mas eu encarreguei-me de o informar!... Telefonei-lhe!
E como Catamount abanasse levemente a cabeça, o representante da autoridade, precisou:
- O senhor afirmou-me que era Catamount, e eu encontrei-o pela primeira vez. Nestas condições, era de bom aviso que me informasse junto do seu chefe.
Uma transformação completa parecia ter-se operado no xerife; quanto antes se mostrava reservado, mais amável parecia agora. Mas, Catamount, que abria rapidamente
o envelope que o xerife acabava de lhe entregar, não pareceu nada satisfeito com essa atitude.
- Era de meu dever informar-me, insistiu Simeão Garlett; podia muito bem encontrar-me em presença dum impostor, dum homem que poderia ter-se apoderado dos papéis
e da insígnia dum ranger, para se fazer passar por Catamount !
- Naturalmente, é sempre bom desconfiar! Contentou-se em murmurar ironicamente Catamount.
- Vamos, não vai formalizar-se, com certeza, por ter cumprido o meu dever.
- O seu dever ordenar-lhe-ia, creio eu, que se mostrasse mais desconfiado de certas criaturas de quem as aparências são muito suspeitas!
Esta alusão a Ben Stockton fêz esboçar ao xerife uma contracção da face; no entanto, depressa se refez da sua penosa impressão.
- Leia, primeiro, declarou... Depois discutirá. Catamount tomou conhecimento do telegrama, e sem dúvida o seu conteúdo não o satisfez, porque franziu levemente as
sobrancelhas.
"Pede-se a Catamount, releu a meia voz, para se pôr à inteira disposição do xerife de Brownsville. Assunto interessante, (a) Major Morley."
O ranger ficou durante alguns momentos sem dizer palavra. Uma tal decisão surpreendia-o evidentemente. Habitualmente, o Major Morley dava-lhe toda a liberdade de
agir.
- O que significa este telegrama? tartamudeou... O senhor reclamou o meu concurso.
- Precisamente, temos, actualmente, uma necessidade urgente dos seus bons ofícios!...
- Não vai, certamente, imaginar, que vou colocar-me contra Marcos Manway ?
- Não se trata de Marcos Manway! Deixemos a política, meu rapaz, e ocupemo-nos antes das funções que ambos exercemos, e cujo fim principal consiste em procurar e
castigar os criminosos!
E como o seu interlocutor ficasse profundamente contrariado, e esfregasse, nervosamente, nas mãos a lacónica mensagem, que lhe chegava de modo tão desconcertante,
Simeão Garlett insistiu:
- Acaba de se passar durante a noite, um caso estranho, nos limites do nosso distrito.
- Quere aludir, certamente, às proezas dos Vingadores das Trevas?
- Trata-se, com efeito, dum assassínio, em que os vossos famosos Vingadores poderiam muito bem ter representado um papel sangrento!
Abordando, sem esperar mais tempo, o assunto, o xerife, preguntou:
- Conhece a Laguna Madre ?
- Naturalmente que conheço, replicou o homem de olhos claros... Ainda não há muito tempo que passei por lá a cavalo.
- Pois bem! Foi descoberto lá o cadáver dum homem com duas balas nas costas. O desgraçado foi assassinado traiçoeiramente!
- Em tudo isso, nada noto de particular. Os crimes são infelizmente, frequentes demais, no Estado do Texas. Sem dúvida, o assassino quis roubar a vítima.
- Não se trata disso ! A vítima é Clean Barbett, um dos meus agentes. O desgraçado foi morto no desempenho das suas funções!
- Deploro o fim trágico dessa vítima do dever, xerife, mas a si é que compete vingar o seu agente!
- Tudo isso não é assim tão fácil como supõe. Reuni a gente do meu posto, efectuaram-se buscas durante a noite; até agora, ainda não descobrimos pista alguma...
- Agora, compreendo! Pediu ao Major Morley autorização para que o auxilie?
- O senhor o disse! exclamou Simeão Garlett, cujo rosto se desanuviou logo.
- Em qualquer outro momento, xerife, ficaria muito satisfeito por lhe dar uma ajuda, mas na ocasião, posso afirmar sem receio, que o momento é muito mal escolhido...
- Não tem obrigação alguma, creio eu, que o retenha noutra parte!
- Engana-se, xerife!... Temo que a minha presença seja indispensável aqui mesmo!
- Ora, adeus! O senhor não vai fazer muito tempo de cão de guarda do Farol de Brownsville... Se o Major soubesse!...
- Esse papel de cão de guarda é, sem dúvida, susceptível de me fazer descobrir muitas outras coisas, xerife, e é por isso que o não abandonarei de boa vontade...
É curioso, que quanto mais reflectir mais convicção tenho, que estou actualmente numa pista da mais alta importância...
- No entanto, não recusará executar as ordens do seu chefe ?
Catamount ficou, durante alguns instantes, sem responder ; a chegada do telegrama mudava todos os seus projectos e destruía os seus planos. Até aqui a sua presença
tinha sido indispensável a Marcos Manway e ao seu pequeno núcleo. Apreciava a franqueza do jornalista. Além disso a sanha com que os seus adversários procuravam
que êle abandonasse a corajosa campanha, tinha produzido no ranger uma profunda impressão. Agora, Catamount, preguntava a si próprio, apreensivo, o que aconteceria
ao pequeno núcleo do Farol de Brownsville se êle se visse obrigado a abandonar a cidade. Os perturbadores da ordem e o chefe misterioso dos Vingadores das Trevas
não aproveitariam a ocasião para tirar a desforra, cientes de que não iriam encontrar um homem enérgico e decidido atravessado no seu caminho? E havia, ainda, Pedro
Zopilote; o malandrim acariciava, certamente, projectos de desforra, e cedo ou tarde, voltaria.
- Peço-lhe, interrompeu, então, Simeão Garlett, a quem a indecisão do ranger parecia inquietar profundamente, que se não demore! Quanto mais esperarmos, mais os
culpados terão tempo de se colocar fora do nosso alcance.
-Queira esperar alguns momentos, xerife, vou prevenir o Sr. Manway.
- Muito bem!... Mas vá depressa!
O xerife pareceu sossegar; as palavras do ranger faziam prever o seu próximo acordo. Resignou-se, pois, a ter paciência, enquanto Catamount entrava na tipografia.
Marcos Manway estava absorvido a elaborar o seu artigo; junto dele, Nat Bender acabava de reler as provas; Ezequiel, Benny e Carolina trabalhavam atarefadamente
pelo seu lado.
- Desculpe-me, Sr. Manway... Tenho uma coisa a dizer-lhe.
O director do Farol, ergueu a cabeça. Um sorriso furtivo iluminou-lhe a fisionomia, quando reconheceu a voz do ranger.
- Fale, disse... Que se passa? alguma contrariedade? Logo à primeira vista, Marcos Manway surpreendeu a
atitude embaraçada do seu interlocutor.
- Tranquilize-se, Sr. Manway, disse o ranger, nada se passa de inquietante. O sossego persiste e coisa alguma autoriza a supor que possa ser perturbado. Sou constrangido
a ausentar-me, pelo menos durante algumas horas.
A fisionomia do director, sombreou-se logo.
- O senhor, ausentar-se? murmurou, coçando a cabeça com insistência. Diabo... isso vai complicar as coisas.
Carolina e os seus três companheiros interromperam bruscamente o trabalho, ao ouvirem estas palavras, e Catamount pôde ver os seus olhares fixarem-se nele com expressão
de manifesta ansiedade. A rapariga, abandonando o seu lugar, apressou-se a vir para junto do ranger.
- Isso não é possível! comentou ela... O senhor não pode deixar-nos neste momento.
- E no entanto, é necessário, miss Manway. Acabo de receber uma ordem do meu chefe, do Major Morley.
O homem de olhos claros estendeu então o telegrama à sua vizinha. Ela Ieu-o rapidamente; e depois, erguendo a. cabeça, disse:
- Mas, então, estamos perdidos... Logo que se tenha afastado, todos esses miseráveis recomeçarão os seus ataques. E eles são os mais fortes.
- Não é bem assim, replicou Catamount, que procurava a melhor maneira de sossegar Carolina... A opinião, está suficientemente agitada em Brownsville e a reacção
é cada vez mais intensa... Se os Vingadores das Trevas tentarem renovar a cobarde agressão, encontrarão na sua frente, com certeza, resistência que antes senão teria
manifestado.
- É certo, insistiu Marcos Manway, eles não se atreverão mais. E, além disso, nós não podemos abusar mais tempo da gentileza de Catamount.
- O xerife espera em frente da porta, pedir-lhe-ei para os proteger.
O director do Farol encolheu os ombros.
- O xerife! Creio bem que a protecção dele e a sua imparcialidade são muito duvidosas.
- Vou impor-lhe essa condição para a minha partida, objectou o ranger; será obrigado a satisfazer-me.
- Seja; mas acredite, Sr. Catamount, que durante a sua ausência só teremos que contar connosco... Sossegue, porém, que temos aí argumentos susceptíveis de fazer
recuar esses canalhas.
Com o dedo apontou para o colt pousado junto dele sobre a mesa. Pelo seu lado, Nat Bender, Ezequiel e Benny, trabalhavam com os revólveres e carabinas ao alcance
da mão. As mesas e as cadeiras tinham sido colocadas perto da porta de entrada, para poderem barricá-la sem demora, em caso de perigo.
- Vamos, Sr. Catamount, pode partir tranquilo, disse o director do Farol... Em caso de ataque, saberemos resistir eficazmente e dar tempo à gente de bem de Brownsville,
para vir em nosso socorro.
- E nós também estamos aqui e Mimi também, Sr. Catamount.
Ezequiel levantava-se e mostrava os seus enormes punhos; quanto a Nat Bender e ao rapazito pareciam igualmente resolutos.
Só Carolina parecia não estar animada da mesma confiança. Considerava o afastamento do ranger como a pior
das catástrofes. Logo que êle partisse, a ameaça surgiria violenta e imediata. Mais do que nunca se sentiu atormentada por lancinantes apreensões.
- Que seja bem sucedido, Sr. Catamount, e que volte depressa!
Marcos Manway estendeu a mão ao ranger. Os dois homens trocaram um cordial aperto de mão; depois seguiu-se a vez de Nat Bender, Ezequiel e Benny.
- O senhor é um tipo admirável, Sr. Catamount, declarou o rapazito. É preciso voltar, para vender comigo o Farol... Que sucesso nós tivemos!
- Tem a certeza, meu rapaz, em breve estarei de volta a Brownsville.
- Que Deus o proteja e o traga para junto de nós o mais rapidamente possível.
Foi Carolina quem pronunciou estas palavras comoventes. Os olhos da rapariga estavam embaciados pela emoção quando, por sua vez; apertou a mão do ranger. Enquanto
os companheiros retomavam o trabalho, ela acompanhou-o até ao limiar.
Simeão Garlett esperava, sempre montado, junto do passeio. Começava a impacientar-se, e fêz sinal a Catamount de que era preciso apressar-se, mas o homem de olhos
claros aproximou-se dele.
- Acompanho-o xerife, declarou, mas com uma condição !
- Qual? disse Siimeão Garlett, cuja fisionomia se sombreou de repente.
- É que me prometa assegurar, durante a minha ausência, a protecção das instalações do Farol de Brownsville e dos seus moradores.
O xerife calou-se durante segundos, pareceu hesitar, mas o olhar de aço do ranger fixou-se nele com tal insistência que se resolveu a declarar:
- Pois bem, seja! Tem a minha promessa.
- Ouviu, miss Manway ?
Catamount voltou-se para Carolina, sempre de pé no meio da porta de entrada.
A rapariga disse "sim", com um sinal de cabeça, mas a sua expressão preocupada provou ao ranger que essa atitude não bastara para lhe dissipar os receios.
O ranger, no entanto, não se demorou mais; dirigiu-se rapidamente para o alazão, e saltando, depois, para a sela, com ligeireza, juntou-se ao representante da autoridade.
- Onde vamos? preguntou.
À minha repartição, imediatamente... depois veremos; convém que seja posto ao corrente do caso em questão.
- É natural.
Os dois homens puseram-se a cavalgar a par. Catamount voltou-se na sela para dizer adeus a Carolina.
A rapariga respondeu-lhe com um sorriso cheio de melancolia. E, quando os dois cavaleiros desapareceram, numa volta da rua, ela ficou ainda alguns momentos imóvel,
como perdida num sonho... A pouca confiança que conservava ainda pareceu-lhe muito mais fraca e foi com um gesto cansado que voltou para dentro de casa, fechando
a porta atrás de si, com o coração oprimido pela iminência da ameaça que pesava sobre ela, e sobre os que lhe eram queridos.
X
A armadilha
O primeiro cuidado do xerife quando chegou à repartição, foi enviar, imediatamente, três dos seus agentes, com a missão de vigiar os arredores do edifício de Marcos
Manway.
Quando os auxiliares partiram, Simeão Garlett disse ao ranger:
- Vamos! Espero que fique sossegado a respeito da segurança dos seus bons amigos do Farol!
- Agradeço-lhe... E agora vamos ao nosso caso. Catamount não tinha o hábito de perder tempo em
palavras inúteis. Com um volver de olhos, observou os cinco subordinados que ainda tinham ficado na sala.
O recinto apresentava a costumada decoração das esquadras de polícia; numerosos editais afixados nas paredes; por baixo dos retratos dos malfeitores e criminosos
procurados pela justiça, expunham-se os prémios mais ou menos tentadores, prometidos pela sua captura. Alguns já estavam amarelecidos pelo tempo. Os facínoras continuavam
à solta.
Com um gesto, Simeão Garlett fèz sinal ao ranger para se sentar na sua frente; depois, dirigindo-se a um dos seus auxiliares:
- Olá! Stan Hunter, disse, aproxima-te. Conta ao ranger como descobriste o cadáver do teu camarada Clean Barbett.
Os modos do agente, homem de estatura meã, com a face cheia de cicatrizes, pareceram a Catamount bastante constrangidos; por várias vezes tartamudeou.
- Com mil raios... O senhor intimida Stan, Catamount, exclamou, então, Simeão Garlett, e no entanto é um dos meus mais valentes auxiliares... Visto que assim êle
se arrisca a fazer-nos perder um tempo precioso, deixe-me expor-lhe o caso... Lembra-se em que condições nos encontramos, quando saímos de Brownsville, anteontem?
- Perfeitamente, eu chegava, trazendo na garupa Marcos Manway, que descobrira, suspenso, junto da lagoa dos jacarés.
- Exacto! Clean Barbett achava-se, então, connosco... Sabe que tínhamos partido em busca dos Vingadores das Trevas.
- Certamente!... Até achei que já iam muito tarde.
- É possível; mas não podíamos tê-lo feito antes, dada a efervescência que reinava em Brownsville.
- Brownsville, onde Pedro Zopilote mandava como senhor absoluto.
O xerife fêz uma careta, ao ouvir esta reflexão irónica do seu interlocutor.
- Na verdade, Catamount, se continua a interromper-me, nunca mais acabamos.
Simeão Garlett, pareceu fazer, nesse momento, um grande esforço sobre si mesmo, para se dominar. Catamount, imóvel, continuava a observá-lo com calma. Para falar
com franqueza, a atitude amável do representante da autoridade contrastava duma maneira absoluta com as suas maneiras arrogantes anteriores. Sem dúvida alguma, essa
mudança era devida à comunicação telefónica que tivera a respeito do ranger com o Major Morley.
- O nosso grupo tinha chegado às margens da lagoa, prosseguiu o xerife. Não tivemos grande trabalho para encontrar os vestígios do bando dos cavaleiros que tinham
raptado o director do Farol. Os miseráveis não tinham mesmo procurado dissimular o rastro que se prolongava em direcção da Laguna Madre.
Desta vez, a narrativa do xerife pareceu despertar no ranger vivo interesse.
O simples facto de o caso parecer apresentar evidente
relação com o dos Vingadores das Trevas, intrigava-o e fazia-lhe esquecer a decepção real que acabava de experimentar em separar-se de Carolina e dos seus corajosos
companheiros.
- Disse bem, em direcção da Laguna Madre? repetiu.
- Exactamente... Durante largo tempo, eu e os meus homens, ocupamo-nos a examinar o terreno ; esperávamos já encontrarmo-nos com os cavaleiros, quando nos apercebemos,
em breve, que as pistas se emaranhavam; os malandrins pareciam ter reunido em conselho junto dum maciço de algodoeiros, e depois tinham dispersado em todas as direcções.
- Caso aborrecido! opinou Catamount.
- O senhor o disse... Essa manobra impedia-nos de continuar a perseguição, tanto mais que as pistas se perdiam, umas após outras, no terreno muito menos movediço.
Depois de pesquisas inúteis, decidi deixar ali um dos meus mais hábeis auxiliares, para descobrir os vestígios e referenciar as pistas; encarreguei disso Clean Barbett...
A situação em Brownsville não nos permitia demorarmo-nos mais tempo nas proximidades do mar... o resto é fácil ao senhor adivinhá-lo.
O ranger soltou um murmúrio de aprovação.
- Creio compreender, declarou... O seu Clean Barbett conseguiu descobrir a pista segura, muito segura sem dúvida, pois que a sua actividade lhe custou a vida.
- Exactamente. Foi Stan Hunter, a quem enviei um pouco mais tarde de Brownsville, quem descobriu o corpo de Barbett... O desgraçado jazia, levemente dobrado sobre
si mesmo, num banco de areia da Laguna Madre... A morte devia ter sido fulminante... Recebeu duas balas nas costas.
- Trouxeram o cadáver ? preguntou o ranger.
- Não, senhor... Ficou lá... Stan fêz bem em o deixar ali; é indispensável que o senhor proceda às investigações necessárias. Espero que compreenda, agora, porque
é que eu recorri aos seus bons ofícios e pedi ao seu chefe para lhe confiar o inquérito deste caso !
- Compreendo, disse Catamount sem mais rodeios.
- As proezas dos Vingadores das Trevas tinham parecido interessá-lo prodigiosamente; ninguém me parece, pois, melhor indicado.
- Muito bem! interrompeu o ranger... Estou ao seu dispor! Confesso que terei grande prazer em desmascarar o chefe dessa sinistra organização.
- É bem o que eu pensava. Por isso, Stan vai conduzi-lo imediatamente à Laguna Madre, ao mesmo sítio em que descobriu o cadáver do seu infeliz camarada... Quatro
dos meus subordinados acompanhá-lo-ão. Todos desejarão cordialmente vingar esse abominável assassínio.
- Vamos pois! partamos imediatamente! Eu estou pronto!... O senhor, não vem, xerife ?
- Desde o momento em que o senhor toma conta do caso, a minha presença torna-se perfeitamente inútil... Estou convencido que o senhor fará um excelente trabalho.
- Farei todo o possível... É tudo o que eu posso dizer-lhe.
- Nessas condições... Felicidades.
Simeão Garlett pareceu encantado com a partida do ranger; gratificou-o com um caloroso aperto de mão e depois teimou em acompanhá-lo ele próprio, até à borda do
passeio, enquanto Stan Hunter e os três outros agentes se apressavam a ir buscar as suas montadas à cavalariça próxima.
Catamount, cavalgava Mesquita.
Dois minutos depois, os cinco homens afastavam-se a toda a brida de Brownsville e picavam rapidamente para leste.
O tempo estava pesado, nuvens grossas passavam muito baixas no céu.
- Vamos ter tempestade, murmurou Stan Hunter, que galopava à direita do ranger.
- É possível... Devemos, pois, apressar-nos.
A chuva apagaria as pistas e tornaria impossível toda e qualquer investigação.
Os cavalos seguiam a todo o galope, excitados por uma nuvem de moscas e moscardos que caíam constantemente sobre eles e os importunavam sem piedade, Um vento morno
vinha acariciar a face dos cavaleiros. A toda a volta se divisava a paisagem da região pantanosa, cortada por numerosos atoleiros. No ar flutuava monótono o cheiro
nauseabundo do lodo.
- Chegaremos antes da tempestade, disse em breve o homem de olhos claros.
Catamount e os seus quatro companheiros, atravessavam a região que o ranger percorrera anteriormente, depois de ter socorrido o director do Farol. No terreno, umedecido
pelas chuvas recentes, desenhavam-se pistas bastante numerosas. Em breve, o pequeno grupo deixou à sua esquerda a lagoa dos jacarés... No horizonte, podia ver-se,
agora, a costa baixa, arenosa e rectilínea do golfo do México.
O avanço tornou-se mais difícil, em virtude da incerteza do terreno; por vezes, os cascos dos cavalos enterravam-se na lama ou na areia movediça que ameaçava engoli-los.
Era preciso toda a energia dos cavaleiros para os animar a prosseguir nessa difícil cavalgada.
Um rugido surdo se fêz ouvir e repercutiu por cima das cabeças dos agentes e do ranger.
A tempestade estava próxima. Um relâmpago iluminou o céu escuro. Assustado, Mesquita levantou-se hirto nas patas traseiras. Catamount apertou os flancos do alazão
e conseguiu dominá-lo. Um dos seus companheiros, menos feliz, destribou-se e foi estatelar-se, lastimosamente, na lama.
- Estamos a chegar ? preguntou Catamount a Stan Hunter.
- Só temos cerca de duas milhas a percorrer.
Duas milhas! Era uma distância pequena, na verdade, mas a cavalgada tornava-se cada vez mais difícil. Os cinco cavaleiros viram-se obrigados a efectuar numerosas
voltas, a fim de evitar os terrenos perigosos. Nuvens de mosquitos zumbiam acima do solo insalubre e de inúmeros charcos de água amarelada.
A direita estava a Laguna Madre, separada do mar pela ilha plana, arenosa e imensamente comprida de Padre Island. Toda essa zona, habitada por uma população de pescadores,
bastante disseminada, apresentava um aspecto sinistro e
miserável. Grassava ali a febre, em virtude da presença de numerosos pântanos e da pululação dos mosquitos. E ninguém ignorava a presença de tubarões na Laguna Madre,
que toda a gente se esforçava em perseguir, sem êxito.
Fraca vegetação cobria alguns pontos da margem. Árvores cujas raízes, semelhantes a répteis, se entrecruzavam antes de se enterrarem na terra mole; aí se encontravam
também fetos e orquídeas cujo cheiro activo indispunha, e faziam dores de cabeça, canaviais -que serviam de abrigo a uma fauna perigosa... Escorpiões, serpentes,
caranguejos e formigas, eram os hóspedes mais vulgares dessa região de morte e terror.
Mas Catamount estava de há muito familiarizado com tão desagradável cenário. Quantas vezes tinha percorrido todas aquelas regiões do Texas, desde as baixas-costas
do golfo do México, até aos desertos escaldantes, onde serpenteia o Rio Grande do Norte... E a região, era sobretudo considerada como zona de contrabando; por vezes,
ali se tinham refugiado alguns malfeitores, a quem era preciso fazer uma caçada em regra.
Desta vez, a partida parecia como uma das mais apaixonantes que o homem de olhos claros empreendera.
Simeão Garlett não se tinha enganado, ao julgar que Catamount se interessasse particularmente pelas actividades dos misteriosos Vingadores das Trevas.
E enquanto os quatro auxiliares cavalgavam atrás dele, no maior silêncio, Catamount reflectia. Lembrava-se da visita recente de Ben Stockton ao escritório do Farol
de Brownsville. Tinha cada vez mais o pressentimento que Stockton não devia ignorar a nefasta actividade dos cavaleiros mascarados. Mas, primeiro, era preciso descobrir
as provas suceptíveis de confundir o miserável.
O homem de olhos claros lamentava que Marcos Manway tivesse ainda hesitado em confiar-lhe quais eram, exactamente, os documentos que possuía e com os quais contava
para confundir Ben Stockton. isso lhe teria permitido, sem dúvida, avançar com mais segurança para a solução desse misterioso problema.
- Acho lamentável que tenha deixado o corpo nestas paragens, declarou, bruscamente, o ranger, voltando-se para Stan Hunter, que viera colocar-se à sua direita...
As formigas ou os caranguejos tê-lo-ão, decerto, devorado.
- Não há perigo! replicou o agente...
Nós depositamo-lo lá em baixo, naquela cabana, que vê, à beira da laguna.
- Não me tinha precisado esse pormenor, objectou o ranger.
- Parecia-nos de pouca importância, replicou Stan Hunter. Agora eis-nos chegados ao local... Estamos certos que poderá realizar um bom trabalho.
Catamount, não surpreendeu, nesse momento, o sorriso fugaz que iluminou a máscara bronzeada do seu interlocutor. Nem tão-pouco se apercebeu dos olhares de inteligência,
que trocaram entre si, os três outros auxiliares, os quais continuavam a cavalgar atrás dele; parecia que desaparecera nesses homens a impressão desagradável que
mostraram desde o começo desta diligência.
No céu escuro, o trovão continuou a ribombar com mais força; ainda, e de novo, a atenção dos cavaleiros teve de se concentrar nas montadas, apavoradas pelo iminente
desencadear das forças da natureza. Aos ribombos do trovão sucedia um silèncioimpressionante.
Grossas gotas de chuva começavam a cair, mas a cabana estava, agora, muito próxima. Seguia-se-lhe uma espécie de coberto.
- Deixemos ali os cavalos! gritou Stan Hunter.
Sob as rajadas do vendaval, o pequeno grupo chegou em frente do refúgio. Era uma cabana de aspecto mais que miserável, semelhante às que ocupam as famílias dos pescadores,
ao longo da Laguna Madre... O teto era constituído por ramos de árvores. À sua volta o ranger pôde perceber pegadas que ainda se distinguiam no solo.
- Maldita chuva! murmurou... Não podemos descobrir coisa alguma!
O homem de olhos claros saltou abaixo do cavalo. Mesquita sentia-se muito enervado. Com o pêlo a tremer
e a escorrer suor, o nobre animal dificilmente se deixou conduzir pelo dono até ao retiro próximo, e no próprio momento em que Catamount se dispunha a fazê-lo entrar
no interior do abrigo, o alazão deu um salto brusco.
Antes que o ranger tivesse tempo de reagir, Mesquita fugiu galopando ao longo da Laguna. Em vão, o dono o chamou. O fogoso animal, desvairado pelos ribombos sucessivos
dos trovões e pela deslumbrante claridade dos relâmpagos, que se repetiam quási sem descanso, partiu a galope, fazendo jorrar a água das poças, pelas quais passava
como uma tromba.
Catamount, no entanto, não tentou ir buscar o alazão.
- Não faz mal, disse... Quando o seu desvairo tenha passado, êle voltará... Por agora, não há pedidos nem ameaças que consigam fazê-lo voltar.
Stan Hunter não respondeu. Enquanto o ranger ocupou a sua atenção com o cavalo, os quatro homens tinham trocado entre si novos sinais de inteligência.
No entanto, a chuva redobrava de violência, e por isso os cinco homens apressaram-se a ir para a entrada da cabana. Uma das tábuas, meio deslocada, estava suspensa.
- É o que eu dizia, murmurou então o ranger... Os caranguejos e as formigas devem entrar aqui como em sua casa.
- Entre, Sr. Catamount.
Stan Hunter afastou-se para deixar passar o homem de olhos claros. Catamount inclinou-se para não dar com a cabeça na porta, demasiado baixa. Um cheiro nauseante
acolheu-o, mas não era o cheiro dum cadáver em decomposição. O interior da cabana cheirava a peixe fumado.
Dentro de instantes, os cinco homens estavam no interior do abrigo, mas o refúgio não tinha janelas e havia lá dentro uma escuridão quási completa.
- Não se vê nada! resmungou o ranger; onde está o corpo?
- Estendi-o ali! declarou Stan Hunter.
O agente levantou a mão e apontou para uma forma imóvel, que se encontrava estendida numa cama de fetos secos. Intrigado, Catamount deu dois passos para a frente e inclinou-se. Uma manta cobria o vulto imobilizado. O ranger dispunha-se a retirá-la, quando, de repente, sentiu uma dor na nuca, acompanhada duma pancada violenta!
O homem que se encontrava imediatamente na sua retaguarda, acabava de pegar numa espécie de matraca, que estava suspensa num prego, ao seu alcance, e brandindo-a
com toda a força, descarregou-a sobre Catamount.
O desgraçado deixou escapar um gemido surdo, depois caiu por terra, com as mãos para a frente. Imóvel, com a mão levantada, o agressor dispunha-se a vibrar nova
pancada, mas Stan Hunter, que se tinha inclinado sobre o ranger, declarou:
- É inútil. Já tem a sua conta!
A chuva corria como um rio no teto do reduto; rugia fora a tempestade. Aos ribombos ensurdecedores do trovão e aos clarões deslumbrantes dos relâmpagos, misturara-se
o impressionante murmúrio das ondas, as quais, sacudidas pelo vento furioso, vinham quebrar-se a pouca distância., na margem.
- Durante instantes, Stan Hunter e os seus três colegas, guardaram silêncio; os seus olhares ficaram pregados no corpo inerte de Catamount que lhes aparecia com
mais nitidez, a cada novo relâmpago.
O chapéu do ranger rolara para um canto.
Stan Hunter resolveu-se por fim a quebrar o silêncio:
- Bom trabalho! declarou, o chefe ficará contente. O mariola não voltará a meter o nariz onde não é chamado.
- Quando penso que êle julgava ir-se encontrar na presença dum cadáver, chacoteou um dos auxiliares.
Tirando a manta, o homem descobriu um montão de palha enrolado em roupas velhas, de modo que desse a impressão dum corpo estendido; um par de botas emergia por baixo
da manta.
- Com mil raios!... deixou-se cair facilmente na ratoeira.
- Estava com medo que êle suspeitasse... porque era um valente rapaz. Ninguém o pode negar.
- Fazer cair, assim, Catamount numa armadilha, era uma proeza de que bem poucos se podiam gabar.
- É possível!... Mas o mariola tem apenas os sentidos perdidos.
Stan Hunter ajoelhou-se e examinava de mais perto o corpo imobilizado... A fisionomia máscula do ranger, apareceu-lhe, com os olhos fechados. Catamount parecia dormir.
Colando o ouvido contra o peito, o agente sentia o bater regular do coração.
- Não será por muito tempo! Os tubarões se encarregarão de lhe dar uma sepultura decente.
Os quatro homens calaram-se de novo; insensíveis à tempestade que lá fora se desencadeava, continuadamente, com extrema violência, os seus olhares fixavam-se cheios
de curiosidade no ranger, desmaiado. Uma ordem breve de Stan Hunter, arrancou-os à imobilidade.
- Vamos !... tirem-lhe as armas.
Os agentes apressaram-se em fazer mão baixa à cartucheira e aos colts de Catamount e igualmente se apoderaram das botas e dos chaparejos de couro, e do lenço de
seda vermelho com pintas brancas. Em menos de cinco minutos, o desgraçado achava-se despojado de tudo que tinha em cima dele, excepto as calças e a camisa de flanela.
- E agora, tragam o fardo! insistiu Stan Hunter.
- Não esperamos que passe a chuva? ousou dizer um dos homens.
- É inútil! O chefe espera-nos... É preciso regressar e avisá-lo imediatamente que tudo correu bem.
Sem esperarem mais nada, os três homens levantaram o corpo inerte do ranger; a seguir, debaixo duma chuva copiosa, aventuraram-se a sair; em breve alcançaram a margem;
então, conjugando os seus esforços, balancearam por três vezes aquele fardo vivo e precipitaram-no nas ondas, que se fecharam sobre êle.
- Desta vez, tem a sua conta! disse, rindo, Stan Hunter,. que acompanhara os seus acólitos.
O pequeno grupo não se demorou muito à beira da laguna; retomou, correndo, o caminho da cabana. A chuva que corria alagadora, apagava as pegadas. E três minutos
depois, montados nos seus cavalos, os agentes dispuseram-se a regressar a Brownsville.
No próprio momento em que Stan Hunter se punha à frente dos seus homens, um deles estendeu a mão em direcção à margem.
- Veja, lá em baixo! gritou... O alazão.
Ao clarão fulgurante dum relâmpago, os quatro cavaleiros divisaram Mesquita. O cavalo de Catamount tinha-se aproximado um pouco; todavia, apenas viu o grupo, voltou
para trás.
- Maldito animal! Vociferou um dos agentes... Vou-lhe ensinar... ,
Sem acabar a frase, o homem pegou na carabina que levava à bandoleira. Metia a arma à cara, e em seguida, apontando-a. ao alazão, dispunha-se a abatê-lo, visto não
o poder capturar, quando um novo relâmpago que rasgou as nuvens, acompanhado dum tremendo trovão, fêz empinar a montada do agente. O tiro partiu, mas a bala foi-se
enterrar na areia, a uma dezena de metros de Mesquita.
O atirador soltou um grito de raiva; esporando vigorosamente o cavalo, de novo se dispunha a atirar sobre o alazão, quando Stan Hunter interveio:
- É inútil, Dick!... Proibo-te!...
Stan Hunter que não tinha escrúpulo algum em assassinar um homem (acabara de o demonstrar ainda há pouco), insurgia-se contra a ideia que se procedesse, assim, cobardemente,
contra um cavalo. O seu auxiliar não insistiu. Deixando Mesquita vagabundear sobre a margem baixa, os quatro homens retomaram, sob uma chuva persistente, o caminho
de Brownsville, absolutamente convencidos que, dora-avante, nada mais teriam a recear de Catamount.
XI
Os tubarões da Laguna Madre
Lançado com violência pelos seus agressores, o ranger tinha desaparecido nas ondas.
Ainda aturdido pelo choque violento que lhe tinha provocado a cobarde agressão, Catamonnt não tentara reagir a princípio, mas o contacto frio da água arrancou-o,
depressa, à imobilidade... As vagas levaram-no ao acaso. Animado pelo instinto de conservação, endireitou-se e principiou a nadar.
Se os acólitos de Simeão Garlet, não tivessem tanta pressa em regressar a Brownsville, não deixariam de ter visto a cabeça do ranger aparecer à superfície; meio
cego pela água que lhe entrava nos olhos e na boca, Catamount esforçava-se por dominar o entorpecimento que ainda lhe dificultava os movimentos. Conseguiu os seus
desígnios ao cabo de pouco tempo e desesperadamente empreendeu a luta.
O ranger era um notável nadador. Tendo-lhe tirado as armas, o cinto e a maior parte do vestuário, os seus adversários, permitiram-lhe maior liberdade de movimentos,
e agora, depois dum inevitável desfalecimento, o homem de olhos claros de novo se dispunha a combater. Nesse momento não procurava explicar como se produzira o ataque
odioso de que fora vítima; a sua existência estava em perigo: Só isso importava agora... Mais tarde, se se conseguisse salvar, trataria disso.
As vagas levantavam-se à volta de Catamount.
A Padre Island estendia-se a pouca distância, e protegia a Laguna Madre contra a fúria do mar, desencadeada nessa ocasião, mas o vento levantava constantemente as
águas, provocando violentos redemoinhos.
Catamount fendia as ondas com os seus braços robustos; com o cabelo colado à testa, nadava a maior parte das vezes de olhos fechados, com as maxilas contraídas,
animado por uma vontade de ferro. Incapaz de se orientar, nesse momento, tentava referenciar um ponto de abrigo. A chuva continuava a cair em torrentes, e fustigava-lhe
a cara. A frequência dos relâmpagos permitia-lhe, por intermitências, discernir melhor os arredores; ao cabo de pouco tempo, viu uma linha escura, que emergia à
superfície da laguna; então, reunindo todas as suas forças, procurou atingir esse lugar, que outra coisa não era, que uma lingueta de areia, minúscula ilhota no
meio da Laguna Madre.
Três vezes o ranger julgou atingir os seus fins; três vezes as ondas o atiraram para trás, mas a sua perseverança conseguiu, por fim, triunfar dos obstáculos, vencer
a violência dos elementos desencadeados, e sentiu sob os pés uma resistência... Esgotado, saiu da água e foi-se refugiar na estreita nesga de terra.
A princípio, sem forças, Catamount imobilizou-se; parecia que a sua vontade o abandonava. A tempestade prosseguia devastadora. A pequena distância, uma faísca caiu
numa árvore enorme, e rachou-lhe o tronco de alto a baixo. Um clarão sinistro iluminou o céu escuro; não prestou, porém, a menor atenção, nem tão-pouco tentou ver
o sítio onde tinham ficado os seus adversários. Teria atravessado a laguna em toda a largura? Ter-se-ia refugiado, pelo contrário, em qualquer ilhota próxima da
margem, onde pouco tempo antes cavalgava com os agentes? Pouco lhe importava isso... A vida estava salva.
Durante quanto tempo o fugitivo se manteve assim, incapaz de tomar a menor iniciativa ?
Foi-lhe impossível calcular. Os ouvidos zumbiam-lhe, tinha os membros exaustos e a nuca dorida fazia-o sofrer imenso...
Mantinha, porém, a intuição de que a sua existência estava, agora, fora de perigo, e só lhe restava ter paciência, e esperar o fim da tempestade, que continuava,
ainda, furiosamente.
O espectáculo que se desenrolava aos olhos do ranger, era, na verdade, grandioso... Em todos os pontos do horizonte, o céu, parecia, em brasa.
O ribombar do trovão, sucedia-se com uma rapidez atordoadora. Parecia que milhares de peças de artilharia, colocadas ao longo da costa, não paravam de troar.
Mas, Catamount não se movia; ali estava, inconsciente, agachado na areia, tranzido de frio, o leve vestuário colado ao corpo, fustigado, sem cessar, pela ventania
daquelas bátegas de chuva. Nesse momento não pensava nos Vingadores das Trevas, nem se preocupava com a segurança de Manway, nem com a perfídia dos agentes de Simeão Garlett.
Por fim, o céu aclarou-se. Um vento bastante forte, vindo do largo, fêz dissipar um pouco as nuvens negras, que cobriam o céu... A tempestade afastou-se e os trovões
tornavam-se cada vez menos violentos.
Então, Catamount começou a sair do entorpecimento que o paralisava, e que o tornava tão fraco como uma criança. Agora, que a borrasca passara, ia pôr as coisas em
ordem, e tentar reunir as suas ideias.
Pouco a pouco, o ranger retomou a consciência da situação.
As últimas reminiscências que ainda conservava, reportavam-se à sua entrada na cabana...
Inclinava-se sobre o cadáver do agente, quando, de repente, recebera uma pancada, seguida de uma dor violenta na nuca... E depois, mais nada. Quando recobrara um
pouco a lucidez, era levado à mercê das ondas, na Laguna Madre.
"Miseráveis canalhas! resmungou o homem de olhos claros."
Catamount entrevia a verdade. Agora compreendia que Stan Hunter e os três acólitos o tinham atraído a uma odiosa armadilha e que essa emboscada só podia ter sido
organizada por Simeão Garlett.
Simeão Garlett!... O ranger, lembrava-se agora das suas palavras melífluas, e a insistência com que lhe pedira auxílio.
Reflectindo bem, o famoso telegrama devia ter sido falsificado. Ao pensar que tinha sido tão magistralmente ludibriado pelo xerife, o desgraçado sentia-se preso
dum desespero cada vez maior. Censurava-se de não ter descoberto o ardil e não ter pensado em telefonar, êle próprio, ao Major Morley, para obter a confirmação do
telegrama.
Agora, Catamount podia verificar que a sua situação era das mais precárias: estava só e desarmado, no meio da Laguna Madre, que sabia infestada de tubarões. Além
disso, tudo levava a crer que os agentes se tinham apoderado de Mesquita. Nessas condições, como poderia tirar-se de apuros ?
Na verdade, o ranger acabava de escapar à morte; todavia, apertava-se-lhe o coração, quando encarava as circunstâncias em que se encontrava. Evidentemente, os seus
adversários saberiam utilizar, com vantagem, a sua ausência. Nesse momento, em que êle estava ali, sozinho e desprovido de tudo, deviam ter retomado a ofensiva.
Então, o pensamento, cheio de ansiedade, do homem de olhos claros, foi para Brownsville e para as instalações do Farol... Privado do seu corajoso defensor, Marcos
Manway, a filha e os companheiros, deviam, com certeza, debater-se na mais crítica das situações.
Um a um, Catamount mediu os perigos que ameaçavam os desgraçados; Pedro Zopilote e o seu bando, os Vingadores das Trevas, o xerife Garlett e os seus auxiliares...
E, naturalmente, o todo poderoso Ben Stockton, saberia aproveitar a ocasião. Em presença de tantos adversários, que poderia fazer o pequeno grupo ? Pouca coisa,
evidentemente. Esmagado pelo número, não tardaria em sucumbir, a não ser que capitulasse, o que parecia pouco provável, em face da energia indomável do seu chefe.
Mas o ranger conhecia suficientemente Marcos Manway para estar certo que nunca se resignaria a passar sob as Forças Caudinas. Havia, certamente, uma boa parte da
população de Brownsville, entre a qual os recentes artigos do Farol tinham suscitado uma real sensação e um indiscutível sobressalto;
todavia, a audácia e a crueldade dos malandrins, sobrelevavam a passividade das pessoas honradas, as quais, apesar de muito mais numerosas, mais uma vez manifestariam
uma nefasta hesitação.
"Não posso ficar assim.É preciso que os salve a todo o custo, que eu os proteja!"
Na lamentável situação em que se debatia nesse momento, o ranger apenas mantinha uma só vantagem no seu activo: a de viver, agora que os seus inimigos estavam convencidos
da sua morte. Mas, meu Deus! os meios que restavam para a luta, eram bem precários... Sem cavalo, sem armas, abandonado a mais de trinta milhas de Brownsville, que
poderia fazer?... Os bandidos tinham, cem vezes mais que tempo para se desfazer dos seus amigos e quando êle regressasse, as suas piores apreensões, ter-se-iam tornado
em realidades.
O ranger não se demorou mais tempo em reflexões. Era homem de acção e nunca a acção lhe pareceu mais necessária que nesse instante... O repouso forçado a que fora
constrangido na ilhota, permitira-lhe recuperar algumas forças... Tratava-se, agora, de alcançar a margem; e em seguida procurar um meio de chegar a Brownsville
no mais curto prazo de tempo.
Os primeiros alvores da aurora, clareavam agora, no horizonte. Levadas pelo vento, as nuvens passavam, ainda muito baixas no céu.
A claridade imprecisa, permitiu a Catamount observar a paisagem que o cercava. A cerca de quinhentos metros à sua direita, distinguia-se a margem, mas para lá da
fita da terra, o ranger viu o mar que se prolongava a perder de vista.
Então, percebeu que dera à costa muito mais perto do Padre Island do que do litoral onde os agentes, há pouco tempo antes, o tinham precipitado nas ondas da Laguna
Madre.
O ranger soltou uma exclamação surda.
O que acabava de verificar, contrariava fortemente os seus projectos e demorá-lo-ia muito mais. Eu preciso atravessar na sua largura, quási completa, a laguna, para
alcançar a zona onde se erguia a cabana em que fora atacado.
No entanto, Catamount não era daqueles que recuassem diante duma empresa, por mais árdua que fosse. Apesar do esgotamento de que ainda sofria, resolveu tentar a
aventura.
Por várias vezes se levantou, retesou os músculos a fim de se poder mexer melhor; depois, quando sentiu que a circulação do sangue estava suficientemente restabelecida,
esboçou algumas passadas, para trás e para diante.
"E agora, para a frente!"
Incapaz de esperar mais tempo, o ranger meteu-se de novo à água. Um vento leve enrugava a superfície da laguna. Um silêncio absoluto sucedia, agora, ao tumulto ensurdecedor,
que não parara um momento, durante as últimas horas da noite. Esta tranquilidade, pareceu de excelente augúrio a Catamount, e, em breve, perdendo o pé, começou a
nadar picando deliberadamente sobre a direita, pronto a transpor a distância de mais de uma milha, pelo menos, que o separava da margem.
A princípio o fugitivo pôde esperar pôr o seu projecto em execução; avançava regularmente, mas, em breve, uma exclamação se lhe escapou. A algumas braças, apenas,
à esquerda, à superfície, viu um sulco que se desenhava. Uma forma escura, comprida, vinha em direcção a êle.
O perigo afirmava-se imediato... Um tubarão tinha surpreendido a presença do homem e dispunha-se a atacá-lo.
A presença do esqualo incitou logo Catamount a voltar para trás, tanto mais que o monstro não estava só, porque algumas outras formas, dentro de instantes, apareceram
na laguna... Meia dúzia de tubarões chegaram, prontos a disputar a presa que se lhes oferecia.
"E nada! mastigou Catamount por entre os dentes. Nem mesmo uma simples faca."
Afrontar os esqualos não teria feito recuar o ranger, antes pelo contrário; mas, nas circunstâncias actuais, encontrava-se completamente desarmado e à mercê deles...
Apenas um meio lhe restava para escapar à voracidade dos tubarões; bater, rapidamente em retirada, e tentar alcançar a ilhota donde tinha partido.
Catamount voltou, pois, para trás. O primeiro esqualo carregava sobre êle.
Com uma habilidade desconcertante, o ranger mergulhou; no próprio momento em que o bicho julgava agarrá-lo, esboçou um movimento lateral. As mandíbulas do monstro
passaram-lhe a algumas polegadas do braço direito, sem o atingir.
O homem de olhos claros voltou à superfície; todavia verificou, com um rápido volver de olhos, que todo o regresso à ilhota, que lhe servira até agora de refúgio,
lhe estava interdito, porque os esqualos, cada vez mais numerosos nessa direcção, lhe barravam o caminho. Forçoso lhe foi bater em retirada para a margem da Padre
Island, oposta precisamente à costa que desejava alcançar instantes antes.
No entanto Catamount não teve tempo de se lastimar deste novo contratempo que assim retardava o seu regresso a Brownsville. Enquanto o primeiro esqualo, furioso
com o seu revés, voltava à carga, os outros atacavam também.
Então uma luta implacável se travou entre o homem e os tubarões; incapaz de se defender, Catamount procurou, unicamente, furtar-se aos ataques dos seus vorazes adversários.
Animado duma energia sôbre-humana, mergulhou várias vezes; depois, reaparecendo à superfície, pôs-se a nadar em ziguezague, a fim de frustar as tentativas dos esqualos.
Os reveses sucessivos apenas fizeram decuplicar a fúria dos monstros, agora já em número superior a dez, embaraçados nos seus movimentos, chocando-se, por vezes,
debaixo da água que faziam repuxar sob as pancadas repetidas das suas caudas possantes.
Nem um só segundo Catamount perdeu a coragem. A cada novo ataque que frustrava, aproximava-se cada vez mais da margem. Em breve, apenas faltavam algumas braçadas
e o homem de olhos claros esperava, finalmente, colocar-se fora de alcance, quando sentiu, repentinamente, o seu pé esquerdo prender-se numa superfície resistente.
O ranger, tentou afastar-se por várias vezes; parecia que uma corda se tivesse, subitamente, apertado à volta do tornozelo.
A si próprio preguntara o que poderia ser essa ratoeira desconcertante que o punha, assim, tão inoportunamente, à discreção dos seus vorazes agressores, no próprio
momento em que estava a ponto de se escapar, quando chocou com uma espécie de barragem.
O desgraçado compreendeu, então, que tinha, infelizmente, dado de encontro a uma rede que os pescadores de Padre Island tinham estendido e de que não dera fé, com
a pressa de se pôr a salvo.
Agora, esforçava-se por se desembaraçar das cordas entrelaçadas que o retinham preso.
Os segundos que se sucederam, pareceram ao ranger intermináveis, mas no mesmo momento em que via atrás dele os sulcos feitos pelos esqualos na sua direcção, várias
detonações soaram a pequena distância. Balas caíram na superfície das águas, fazendo-as ressaltar em vários pontos. Sem dúvida alguma um dos monstros foi atingido,
porque uma larga mancha púrpura, apareceu na proximidade do local em que Catamount se debatia com toda a energia do desespero.
Profundamente surpreendido, o ranger não explicava ainda a natureza do socorro que lhe advinha no próprio momento em que a sua existência se achava irremediavelmente
comprometida... Novas detonações estalaram, e as balas sibilavam de novo à sua volta, mas essas descargas sucessivas bastaram para afugentar os tubarões. Em pouco
tempo, mergulharam e desapareceram.
Então, dominando a agitação da água que continuava na sua vizinhança imediata, Catamount ouviu uma voz que gritava:
- Olá!... Onde está?
- Aqui, berrou o ranger... Socorro!
Um vulto apareceu então, na margem plana e arenosa da Padre Island. Era um homem de estatura meã, pobremente vestido com umas calças de pano, uma camisola e calçado
com botas altas de borracha. O indivíduo cobria a cabeça com um barrete de pala de couro, toda quebrada. O seu passo era hesitante; na mão direita, conservava
ainda a carabina com que acabava de atirar sobre os monstros.
O recém-vindo adivinhou, rapidamente, a situação critica em que Catamount se encontrava; reparando numa piroga que estava encalhada a pouca distância na areia, pôs
a arma à bandoleira; depois vergando-se com toda a força, empurrou o esquife para a água, pegou numa vara e afastou-se rapidamente da margem, para alcançar o náufrago.
Catamount experimentou uma profunda sensação de alívio quando viu o desconhecido aproximar-se dêle; agarrando-se com toda a força aos rebordos da rede, que o tinha
tão importunamente detido nas suas evoluções, esperou que o homem que vinha ao seu encontro chegasse ao seu alcance. - Espere! declarou então o indivíduo... Vou
libertá-lo.
Desembaraçando-se do seu vestuário, o recém-chegado, deixou-se deslizar ao longo da embarcação; em seguida, mergulhando, tateou a rede; depois de três tentativas
infrutuosas, conseguiu agarrar o pé do ranger e desprendê-lo da rede que se lhe enrolara em volta do tornozelo.
Liberto, Catamount pôde facilmente alcançar a piroga, e elevando-se saltou para dentro dela, depois, esgotado pelos constantes esforços que não cessara de desenvolver
desde que saíra da ilhota, estendeu-se ao comprido no interior do esquife; por fim ficou imóvel, incapaz de dizer uma palavra ou esboçar o menor movimento.
O desconhecido, que reaparecera à superfície, não tardou em alcançar por sua vez a piroga.
Depois de se ter sacudido e de ter feito repuxar a água à sua volta, nem mesmo se ocupou, primeiro, em vestir-se; inclinou-se sobre Catamount, que ofegante, com
os olhos fechados, parecia não o ver.
O homem procurou, então, qualquer coisa no seu vestuário ; tirou um frasco que lá estava, e que tinha pousado com o seu cinto antes de se aventurar a socorrer o
ranger; desrolhou-o e levou-o aos lábios de Catamount; depois, passando-lhe o braço à roda do pescoço, levantou-lhe, levemente, a cabeça:
- Beba! disse simplesmente.
Catamount obedeceu... O frasco estava cheio de velho rum. Apenas o ranger absorveu o primeiro gole, sentiu-se preso dum súbito estremecimento. Teve a impressão de
receber um choque eléctrico. Sentiu-se reviver...
Por isso, endireitou-se um poucochinho, e arriscou uma só palavra:
- Mais!...
O homem apressou-se em fazer engolir ainda quatro-goladas ao seu protegido. Podia verificar o excelente resultado dos seus cuidados.
A fisionomia contraída de Catamount corou ligeiramente. As pálpebras do ranger, entreabriram-se, agora, e o seu olhar de aço, fixava-se nesse vizinho providencial
com uma-expressão de infinito reconhecimento.
- Obrigado, meu velho! murmurou, com voz apenas-perceptível!...
O ranger quis estender a mão, mas não teve forças para acabar o gesto.... Os olhos fecharam-se-lhe e a cabeça caíu-lhe bruscamente para trás. O cenário que o cercava
pare-ceu-lhe andar à roda. Aniquilado, perdeu os sentidos e esqueceu tudo o que se acabava de passar.
XII
Os pescadores de Padre Island
Quando Catamount voltou a si, a primeira coisa que o chocou, foi um cheiro forte de peixe seco, um cheiro que lhe recordou imediatamente a atmosfera da cabana, onde
se tinha produzido a cobarde agressão dos agentes de Simeão Garlett... Uma irresistível vontade de espirrar se apoderou bruscamente dele... Espirrou por três vezes;
depois abriu os olhos... E logo uma exclamação de espanto se lhe escapou. Estavam ali três pessoas, duas mulheres e um velho. Em vão o ranger tentou reconhecê-las.
Todavia, pela sua atitude, logo compreendeu que se encontrava na presença de amigos.
A mais velha das duas mulheres, percebendo que recuperara a lucidez, estendeu-lhe uma tegela cheia de caldo quente e como Catamount quisesse dizer qualquer coisa:
- Esteja calado! Não tenha receio... Somos amigos! disse simplesmente a desconhecida.
Catamount agradeceu com um leve sinal da cabeça e a sua vizinha aproximou-lhe dos lábios a vasilha. Era um caldo de tomate e batatas que lhe pareceu suculento. E
à medida que assim se ia reconfortando, mais à sua vontade podia observar o humilde cenário que o rodeava.
O ranger percebeu que se achava estendido num catre pobre. Uma manta toda remendada cobria-lhe as pernas. O quarto para onde fora transportado parecia de dimensões
singulares, quanto ao comprimento, e apenas de três metros de largura; as paredes eram constituídas por tábuas alcatroadas,
o teto de uma forma muito curva.... Escotilhas serviam de janelas e deixavam peneirar os raios do sol.
O náufrago compreendeu imediatamente o que era esta estranha habitação. Era, simplesmente, um barco de pescadores, que teria sido virado na areia e transformado
em casa de habitação...
Refúgios desta espécie eram numerosos em Padre Island... Suspensos dum cordel que atravessava a estranha moradia, a todo o comprimento, os peixes acabavam de secar,
e era isso que impregnara a atmosfera desse cheiro característico. Um pouco mais longe cebolas e espigas de milho pendiam em cachos... O calor suave dum fogareiro,
que a mais nova das mulheres parecia vigiar com cuidado...
- Onde está o homem que me salvou?interrogou, logo, Catamount, lançando à sua volta um olhar investigador.
- Joe saiu para o mar... Voltará esta noite.
- Esta noite ? repetiu maquinalmente o ranger. Depois, voltando-se para o velho, que observava com
visível interesse, Catamount preguntou-lhe:
- Esta noite ? Mas, então, há quanto tempo me trouxeram para aqui ?
- Ontem à noite, respondeu o interpelado.
- Não é possível. Mas então está tudo perdido. Catamount ergueu-se, logo, na cama... As angústias que
o mortificavam ainda há pouco, voltaram de repente, a dominar-lhe o espírito... Calculava a enorme perda de tempo que acabava de sofrer; não restava dúvida alguma
que os miseráveis, que tão perfidamente tinham tramado a sua perda, deviam ter aproveitado o ensejo para fazer evoluir a situação em seu favor.
Ben Stockton não era homem para desprezar uma tal vantagem.
- Não posso ficar assim... É preciso que parta.
- Isso não é possível! objectou o velho, o senhor está extenuado.
O ranger sentia-se, é certo, esgotado, sofrendo ainda as consequências da luta travada para escapar aos tubarões da Laguna Madre; mas agora que tinha recuperado
toda a
sua lucidez, esquecia os perigos passados para só pensar em agir.
- É absolutamente necessário que eu regresse a Browns-ville o mais depressa possível, repetiu com força.
- Como é que quere partir para Brownsville nesse estado ? ousou dizer a mulher mais nova.
Catamount reparou, então, que tinha apenas as calças e a camisa, e estas mesmo rotas, em consequência dos recentes esforços que fora obrigado a fazer. Todavia, o
que acabava de verificar, em nada atenuou a sua energia.
- É urgente que eu regresse a Brownsville, insistiu... Pagar-vos-ei mais tarde... Podem arranjar-me com que me vestir e também um cavalo ?
Os três interlocutores do ranger trocaram entre si olhares embasbacados.
- Eu tenho uma camisola toda remendada que lhe posso emprestar, disse a mulher mais velha. Tenho igualmente um barrete de lã... Mas quanto a arranjar um cavalo,
não é possível... Actualmente não há um só cavalo em Padre Island.
Catamount abanou a cabeça. Compreendia, com efeito, que todos os pescadores que residiam na ilha e na laguna próxima", não sabiam para que lhes servia um cavalo.
E lamentou, amargamente, a ausência de Mesquita... Quem saberia, ao certo, nesse momento, o que seria feito do fiel animal ? O ranger recordava-se que o alazão lhe
fugira no próprio momento em que se dispunha a metê-lo no barracão com os outros cavalos dos agentes... Aterrado pelas faíscas e pelo ribombar do trovão, o nobre
animal afastara-se ao longo da margem e tudo levava a crer que tivesse sido capturado, pouco tempo depois, por Stan Hunter e os seus acólitos-.
Decididamente, tudo parecia ligar-se, actualmente, contra o homem de olhos claros. A sorte favorecia Ben Stockton e os seus cúmplices !
Catamount não duvidava disso, um só instante; depois das edificantes aventuras de que acabava de ser o protagonista, Simeão Qarleít, os seus agentes, Pedro Zopilote
e os Vingadores das Trevas constituíam os elos da mesma cadeia.
Todos favoreciam as facinorosas empresas do aventureiro; por isso o ranger não pôde deixar de estremecer, quando compreendeu que todas essas forças nefastas e criminosas
poderiam ter-se desencadeado, nessa oportunidade, contra Marcos Manway, Carolina e os seus três valentes companheiros.
" Chegarei tarde demais!... murmurou. "
Catamount cerrou os punhos num gesto de profundo desalento. Nunca as circunstâncias pareceram servi-lo tão mal. Conseguira escapar à morte pavorosa a que o tinham
condenado os quatro agentes, mas de que lhe servia isso, visto que se encontrava, actualmente, obrigado a observar a mais completa inacção.
Padre Island, ilha sem recursos, da margem do golfo do México, não lhe permitia comunicar nem telefonar ao seu chefe.
Além disso, reflectindo, o ranger teve de convencer-se que ignorava absolutamente onde se encontrava o Major Morley... Simeão Garlett tinha-lhe afirmado que Morley
estava actualmente em Del-Rio, mas que fé poderia dar às palavras do xerife, visto que o telegrama não passava duma falsificação, destinado a fazê-lo cair na mais
abominável das armadilhas.
Por mais que o desgraçado matasse a cabeça, apenas verificou que estava unicamente entregue às suas próprias forças... Sem Mesquita, privado das suas armas, estava,
por agora, reduzido à impotência.
No entanto, Catamount depressa reagiu, não querendo desanimar; voltando-se para os seus três vizinhos que o observavam com inquietação, declarou :
- Sou um ranger, estava na pista de perigosos facínoras quando caí numa emboscada... Esses miseráveis, aturdiram-me com uma pancada na cabeça, e atiraram-me à Laguna
Madre...
"É preciso que a todo o custo prossiga na luta, porque várias existências se encontram neste momento em perigo, e só dependem da rapidez com que os vá socorrer.
- Nós bem queríamos ser-lhe úteis, replicou o velho muito comovido pelo tom de sinceridade do ranger; todavia, a não ser um barco e víveres, nada mais lhe podemos oferecer.
- Aceito o barco! respondeu Catamount... Não posso ficar aqui mais tempo.
E como as duas mulheres o observavam interditas:
- Agradeço-lhes do fundo da alma, tudo o que acabam de fazer por mim, e lamento não poder manifestar todo o meu reconhecimento ao homem corajoso que me socorreu.
- Joe era um pouco responsável pela sua situação. Foi êle que estendeu a rede em que o senhor se veio emaranhar. .. A Providência quis que êle interviesse a tempo
em seu favor; nunca mais se consolaria, se os tubarões tivessem conseguido alcançá-lo.
- Joe é seu filho ? interrogou o ranger.
- É meu filho, disse o velho, e junto de mim pode o senhor ver a mulher e a mãe.
"Ainda há quatro filhos pequenos mas foram perto daqui pescar caranguejos... Com certeza não devem tardar.
- É preciso que eu parta, custe o que custar, insistiu Catamount endireitando-se e fentando sacudir o entorpecimento que ainda lhe dominava o corpo e, os membros.
As duas mulheres e o seu companheiro compreenderam que nada faria nesse momento vergar a vontade decidida do seu hóspede, por isso apressaram-se a ajudá-lo a levantar-se.
- Creio que poderei caminhar, disse o ranger, depois de ter ensaiado alguns passos no recinto pelo braço da mãe de Joe.
- Está bem, mas não o deixaremos partir sem que tenha partilhado da nossa modesta refeição.
Catamount teve de resignar-se a aceitar o convite.
Sentia, além disso, que tinha grande necessidade de recuperar as forças, e esse frugal alimento era-lhe indispensável para levar a bom termo os esforços que se dispunha
a fazer.
Então, enquanto a mulher do pescador se apressava a preparar o jantar e que um bom cheiro de cebola frita se espalhava no interior do refúgio, dissipando durante
algum tempo o persistente fedor do peixe seco, o ranger conversava com o velho.
- A sete milhas para além da Laguna Madre, explicou o bom homem, há uma quinta... Howard, o proprietário, ocupa-se em domesticar jacarés. Ali, poderá sem dúvida,
encontrar um cavalo e armas.
- Espero-o ansiosamente!
Risos e uma vozearia alegre vieram interromper a conversa; a porta do retiro abriu-se, dando logo passagem a quatro pequenos, dos quais o mais velho não tinha certamente
mais que dez anos; vinham com os pés descalços, trazendo nas mãos linhas e redes.
O maior, um rapazelho de cabelos ruivos e de face picada de sardas, carregava um saco úmido que conservava nos ombros.
Formas confusas moviam-se no interior e imediatamente o ranger teve a explicação da natureza do misterioso fardo:
- Apanhei nove caranguejos na Enseada das Gaivotas! declarou com altivez o rapazinho.
"Quando eu te dizia que mais tarde seria um pescador como o pai Joe!...
Logo protestos se fizeram ouvir; as outras crianças, dois rapazes de carinhas adoráveis e uma rapariguinha, afirmaram que tinham ajudado à pesca e que o seu irmão
mais velho não teria certamente conseguido tanto, se eles não estivessem ao seu lado.
Estas discussões infantis divertiram, por momentos, o ranger, e fizeram-lhe esquecer as suas graves apreensões. Os recém-chegados não pareciam assustados com a sua
presença. Estavam em casa, quando, algumas horas antes, Joe trouxera o náufrago inanimado.
E o primeiro, o mais velho, aproximou-se dele:
- Olá!... O estrangeiro já está curado!
- Inteiramente restabelecido, meu rapaz! exclamou Catamount, pegando na mão da criança e sacudindo-a vigorosamente, acrescentou: e felicito-os a todos pela sua habilidade!
O rapaz pousou na mesa os caranguejos, com os quais, os irmãos e a irmã se apressaram a brincar; divertiam-se em meter pedaços de madeira nas presas dos crustáceos
ou então-em obrigar a fazer correr os animais capturados.
Deixando as crianças nas suas absorventes ocupações, foi vestir as roupas que os pescadores tinham posto à sua disposição.
Se o ranger tivesse um espelho, nesse momento, teria verificado como a sua miserável indumentária, diferia da sua apresentação habitual.
As suas botas, o seu chapéu e o seu cinto de armas, faziam-lhe uma falta enorme. Achou-se desajeitado e ridículo com essas calças de pano e essa camisola emprestada
tão obsequiosamente.
- Para a mesa! gritou, em breve, a mulher do pescador. Catamount instalou-se com toda a família. Joê, só devendo
regressar à noite, não contaram com êle, na humilde choupana. O ranger comeu com grande apetite os feijões e o peixe, que constituíam toda a refeição.
Os miúdos apressaram-se em narrar todos os episódios da sua caminhada recente... O mais velho, sobretudo, tomava a palavra e, muitas vezes, era alcunhado de mentiroso
pela irmã e irmãos mais novos. O ranger, divertido com essas discussões, restaurava as suas forças, sem dizer palavra, quando, bruscamente, se endireitou... Um clarão
brilhou nas suas pupilas.
- Calcule, avô, declarou o rapazinho, que vimos um cavalo que errava no outro lado da Laguna Madre, parecendo muito aflito ao longo da margem.
- Que dizes, pequeno ?
O homem de olhos claros inclinava-se para o rapaz e pegava-lhe na mão. Os outros convivas, intrigados por esta súbita intervenção do ranger, que até aqui tinha estado
calado, trocaram entre si olhares interrogadores.
Mas Catamount, sem largar o punho do seu pequeno interlocutor, insistiu com força :
- Estás certo de que te não enganaste? Era bem um •cavalo que viste ao longo da margem?
- Tenho a certeza disso! Até que devia ter sido abandonado pelo cavaleiro, porque lhe distinguimos, perfeitamente, a sela que ainda levava!
- Qual era a côr do cavalo?
- Não sei,.. Amarelo-laranja, creio eu... Um pouco vermelho...
- Alazão, então ?
O rapaz abanou evasivamente a cabeça; não sabia, ao certo, o que era um cavalo alazão, mas Catamount não teve necessidade de obter mais explicações :
- É êle, estou certo! É Mesquita!
E antes que os seus outros vizinhos, surpreendidos, tivessem podido fazer-lhe a menor pregunta, o ranger declarou:
- É o meu cavalo que vagueia por lá. Peço-lhes... É preciso encontrá-lo imediatamente!
- Nós vamos ajudá-lo! declarou, então o velho. O meu neto virá connosco e indicar-nos-á o ponto onde viu o animal.
- Já te disse que era muito perto da Enseada das Gaivotas, avô!
Catamount surpreendeu nesse instante o trejeito que se desenhou na fisionomia do velho.
- É longe daqui, a Enseada das Gaivotas? preguntou.
- Não é muito longe, replicou o homem; mas é um terreno traiçoeiro! Se o seu cavalo se aventurar um pouco mais, arrisca-se a perder-se.
- Saberemos encontrá-lo!
- Hum! Isso depende do estado do terreno !
E como o ranger fixasse nele o seu olhar interrogador, o velho precisou:
- A zona que cerca a Enseada das Gaivotas, e que se interna pelo menos três milhas no interior das terras, é semeada de pântanos onde formigam as sanguessugas e
onde se sucedem as areias movediças! O seu animal corre o risco de se enterrar e desaparecer para sempre.
- Com muito mais razão é preciso salvá-lo, e encontrá-lo imediatamente.
Só com a ideia de perder o seu Mesquita, tão providencialmente encontrado, o ranger deixou logo o seu lugar. Por felicidade, o pai de Joe apressou-se a pôr o barrete
de lontra, e depois, fazendo passar o neto à frente dele :
- A caminho, declarou, vamos tentar encontrar o seu Mesquita!
Catamount despediu-se rapidamente das duas mulheres e prometeu-lhes voltar sem demora, a fim de testemunhar de viva voz, e pessoalmente, o seu reconhecimento ao
pescador que tinha, tão corajosamente, corrido em seu socorro; depois apressou-se a juntar-se aos seus dois companheiros.
Os arredores imediatos da cabana eram dificilmente praticáveis. Joe tinha, com efeito, estendido numerosas redes na areia para secar; por isso, o ranger teve de
tomar certas precauções para se não emaranhar aborrecidamente nas malhas.
O petiz ajudou o avô a pôr na água uma canoa, que estava encalhada na areia nas proximidades da cabana. A toda a volta, uma nuvem de gaivotas e outras aves marinhas,
voavam soltando pequenos gritos.
Um tal cenário parecia bem diferente daqueles que o homem de olhos claros costumava frequentar; mas Catamount não lhe prestava a menor atenção: Não desviava o olhar,
do longe, para lá da Laguna Madre, tentando avistar o cavalo.
No entanto, o ranger parou de olhar e apressou-se a juntar os seus esforços aos do avô e do neto. Rapidamente o barco foi lançado à água; fazendo instalar o rapazinho
e Catamount, o pai de Joe foi o último a saltar, com a agilidade dum rapaz e apoderando-se dos remos, começou a remar vigorosamente. As águas da Laguna Madre estavam
tranquilas; no entanto Catamount notou alguns sulcos à sua superfície. Os tubarões continuavam a percorrer as águas sossegadas ; mas desta vez os monstros não eram
para recear e o ranger, que pegara em dois outros remos, começou por sua vez a remar com firmeza, a fim de alcançar a margem oposta.
Durante alguns minutos, prosseguiu a navegação; antes de tentar acostar, o velho esperou que o neto lhe designasse o lugar exacto onde tinha descoberto o cavalo
errante.
A Enseada das Gaivotas não estava a mais de quinhentas braças. Pelo número incalculável de aves marinhas que sobrevoavam esta zona, Catamount compreendeu a razão
do nome
com que a "tinham baptizado. As gaivotas voando agrupadas, obscureciam por vezes o céu.
Por fim o rapaz que se mantinha de pé na proa da embarcação, estendeu a mão e depois apontando para a margem próxima:
- Estava ali! declarou.
Catamount endireitou-se logo, e olhou na direcção que o rapazinho indicara. No entanto, foi sem resultado, que se esforçou por descobrir a menor sombra. Alguns azinheiros
se erguiam à borda de água e canaviais abanavam ruidosamente nas ervas altas; mas de Mesquita, não se via o menor vestígio.
- Não importa! disse o velho, vamos acostar! E como Catamount abanara aprovativamente a cabeça, o pai de Joe apressou-se a insistir:
- E_ sobretudo, muita atenção, que o terreno não é segurTSv
Em menos de dois minutos, um leve empurrão se produziu. O barco, depois de ter passado o maciço dos canaviais, acabara de encalhar na margem.
Ágil como um esquilo, o pequeno foi o primeiro a saltar em terra; depois, voltando-se, deu a mão a Catamount. Alguns instantes depois os dois homens estavam em terra
firme, junto da criança.
Este pareceu procurar, arriscando alguns passos para a esquerda, depois pôs-se a examinar o solo com escrupulosa atenção. Catamount seguia-o como a uma sombra, tentando
referenciar, pelo seu lado, as pegadas do seu companheiro de quatro patas; mas, apenas, as impressões numerosas das aves marinhas e pernaltas, eram recentes e desenhavam-se
distintamente na areia.
XIII
À procura de "Mesquita"
Toda esta zona próxima da Laguna Madre era frequentada por colónias numerosas de aves.
Garças, flamingos, grous e patos selvagens povoavam os maciços de canaviais e davam caça tenaz aos vermes e parasitas de toda a espécie que viviam na areia e nos
charcos de água estagnada.
Catamount não se preocupava com o pânico provocado nesses animais, pouco habituados à presença do homem, continuando a procurar com insistência; com o olhar fixo
no solo, por vezes enterrava-se até aos joelhos no atoleiro secundado activamente nas suas investigações pelo velho e pelo rapaz.
Por fim, ao cabo dum quarto de hora de tentativas infrutuosas, a criança soltou um grito de alegria e fêz sinal aos companheiros para virem para junto dele o mais
rapidamente possível. Acabava, com efeito, de descobrir as pegadas do cavalo que se destacavam muito distintamente.
Dentro de instantes, Catamount estava ao lado do rapaz. Logo à primeira vista, o ranger percebeu que se achava bem em presença de vestígios deixados pela sua montada
fiel. Reconhecia a forma das ferraduras, que teria identificado entre mil.
- Não deve estar muito longe! exclamou; as pegadas são recentes.. Deve ter passado aqui, o máximo há meia hora!
Catamount tomava agora a dianteira do pequeno grupo. Não foi sem custo, que seguiu a pista que se prolongava entre os arbustos, no terreno alagadiço e incerto. Mesquita
errara ao acaso, voltando várias vezes para trás, em diferentes lugares, tendo patinado no local, batendo no solo com os cascos.
No entanto, o ranger teve de retardar o seu andamento; enterrava-se perigosamente no terreno alagadiço, que produzia inquietadores gru-grus na sua passagem; em breve
sentiu a mão do velho passar-lhe no braço:
- Cuidado! murmurou. As areias movediças! Arrisca-se a ser engolido!
O velho tinha trazido com êle uma corda comprida, a fim de se servir em qualquer eventualidade, mas convinha que o trio tomasse as maiores precauções, para evitar
afastar-se da zona perigosaEra difícil orientar-se entre esses pântanos, sobrevoados por inúmeras legiões de mosquitos. Por toda a parte se sentia esse cheiro nauseante
que Catamount já conhecia tão bem, e até por várias vezes o homem de olhos claros reconheceu os grandes traços deixados na lama e na areia pelos jacarés que povoavam,
igualmente, em grande número, estas paragens.
O ranger imaginava facilmente os perigos de toda a espécie, que ameaçavam, nesse momento, o seu valente Mesquita.
Entregue a si próprio, o animal podia encontrar nos arredores uma morte terrível. E as inquietações de Catamount recrudesceram quando ouviu o velho declarar:
- Maldição!... Afastou-se para o grande pântano! Catamount dispunha-se a seguir ainda a pista que se
prolongava no solo incerto, quando o pescador insistiu:
- Não vá tão depressa! Toda essa região é semeada de poças de água e pauis. Seria prudente ligarmo-nos uns aos outros, para o caso de um de nós se enterrar mais
perigosamente.
Esta precaução tornava-se, com efeito, indispensável, por isso os três companheiros pararam; dentro de minutos ligaram a mesma corda, à volta das suas cintas. Catamount
pegou em seguida uma vara com que tateava o terreno.
O avanço foi, então, consideravelmente abrandado; a cada momento, Catamount, recuava para se não enterrar no atoleiro. Por vezes, distinguia, entre os fetos e os
canaviais, que se cruzavam em frequentes intervalos, as formas alongadas dos jacarés. Por felicidade, os feios bichos, não manifestavam desejo algum de lutar, e
apressavam-se a escapulir-se, ao ouvirem os ruídos provocados pela passagem dos três intrusos.
A pista do Mesquita prosseguia sempre, muito caprichosa; Catamount pôde verificar que o alazão, aterrado pela vizinhança dos sáurios, dera inúmeras voltas. As pegadas
pareciam cada vez mais recentes. Aproximavam-se, sem dúvida alguma, do lugar onde o nobre animal se tinha refugiado. Se não fosse a espessa vegetação e a linha dos
azevinhos cujas raízes torcidas entravavam, ainda, a marcha do pequeno grupo, talvez tivessem já descoberto o animal errante!
Catamount aventurava-se sempre com a mais extrema circunspecção, quando, de repente, se endireitou e fêz sinal aos seus dois companheiros para pararem um instante.
Durante alguns segundos, ficaram imóveis, de ouvido à escuta.
O ranger surpreendeu um relincho de terror a cerca de algumas dezenas de passos.
- É êle! exclamou, a tremer. Reconheço-o! Catamount ia lançar-se para a frente, quando o velho o reteve, uma vez mais, pela manga:
- Em nome do Céu, tenha cuidado ! gritou. Esse terreno é de areias movediças!
- Mas então, Mesquita teria ido meter-se nesta zona? O pescador disse que sim com a cabeça, enquanto o
rapaz ficava de atalaia, com o rosto contraído pela inquietação.
- Não importa!... Não posso deixá-lo sucumbir desse modo!
O ranger revoltava-se, só com a ideia de que tivesse de deixar morrer Mesquita, sem tentar tudo para o socorrer. Lembrava-se do fim trágico do seu outro cavalo,
o fiel King, metralhado pelos bandidos. Experimentava sempre uma grande mágoa, ao recordar-se do drama, que o tinha privado para
sempre do seu mais fiel amigo. E por isso, por preço algum, queria renovar tão cruel experiência.
- Mesquita! gritou com toda a sua força... Olá Mesquita!
Um novo relincho, perturbou o silêncio.
O alazão tinha ouvido a voz do dono.
Catamount não se conteve mais :
- Que me importa! disse aos seus dois vizinhos.
- Esperem por mim, se quiserem. Pela minha parte, vou tentar tirá-lo de lá, custe o que custar.
- É uma loucura! protestou o velho. Expõe-se a ser engolido sem sequer se aproximar desse desgraçado animal.
No entanto, esses argumentos não conseguiram convencer o homem de olhos claros. Rapidamente desligou a corda que o ligava aos companheiros.
- Que quere fazer ? ousou dizer o pescador.
- Irei lá abaixo, sozinho. Não quero que se exponham. Essas poucas palavras provocaram, logo, protestos do avô e do neto.
- Espere! Disse o velho; vamos tentar tornear esse grupo de azevinheiros, saltando para cima das raízes, e talvez consigamos chegar à vista do seu cavalo!...
O trio prosseguiu na perigosa marcha, que se tornava cada vez mais difícil; os pés escorregavam na superfície polida das raízes, que se envencilhavam por vezes de
maneira inextricável e nas quais os três companheiros tropeçavam, muitas vezes desastradamente.
Repetidas vezes, Catamount escorregou e enterrou-se até às ancas no atoleiro, e os seus companheiros não foram mais felizes e, todavia, conjugando os seus esforços,
e ajudando-se mutuamente, com solicitude, nos momentos críticos, conseguiram progredir uma centena de passos. Por três vezes, ainda, o ranger ouviu os relinchos
do alazão, por três vezes gritou, tentando fazer compreender ao seu fiel companheiro de quatro patas, que trabalhava para o tentar tirar da sua perigosa posição.
Por fim, agarrando-se nos ramos baixos duma árvore de tronco nodoso e torcido, Catamount, que ia sempre
na frente, viu o animal, e imediatamente soltou uma exclamação :
"O desgraçado está perdido!..."
Mesquita parecia, com efeito, em posição bastante embaraçosa. .. Tinha ido encalhar no grande pântano e enterrando-se já até às espáduas, multiplicava os sacões
furiosos para tentar sair da fossa e apenas conseguia enterrar-se cada vez mais.
"Como diabo foi êle ali parar?..."
Catamount, em breve, compreendeu as razões que tinham arrastado o cavalo; a pouca distância, nas margens planas e arenosas, que circundavam o atoleiro, vários jacarés
esperavam tranquilamente estendidos ao sol.
Apavorado pela sua presença, Mesquita quis bater em retirada, e tinha ido encalhar no próprio coração da zona perigosa.
"É pena que não tenha os meus revólveres! resmungou o homem de olhos claros; depressa obrigaria esses monstros a dispersar."
No entanto, os saúrios rapidamente o fizeram; apenas os vultos dos três companheiros apareceram debaixo dos ramos da árvore, apressaram-se a deixar o campo livre...
E Mesquita ficou só, a relinchar desesperadamente.
- Coragem, velho camarada... Vou tentar o impossível.
Um relincho prolongado, respondeu a estas palavras. Mesquita tinha avistado o dono. Olhava com insistência em direcção a êle; por desgraça os novos esforços que
esboçou, fizeram-no enterrar ainda mais.
"Era-me preciso um laço, ousou dizer o ranger para tentar arrancá-lo do atoleiro."
Mas, meu Deus! O laço de Catamount, estava nesse momento, enrolado e preso na relva que o alazão conservava. Com um golpe de vista, o ranger mediu a distância que
separava a árvore do local onde o cavalo lutava desesperadamente contra a morte.
- Quinze passos, pelo menos! murmurou, voltando-se para o velho, instalado num ramo, imediatamente atrás de si. Calcula que a nossa corda seja suficientemente comprida?
O interpelado teve um gesto evasivo.
- Podemos, sempre, tentar, ousou dizer, mas receio bem...
- Não importa! - Desligue!... Aventurando-me alguns passos...
Catamount, pousava já os pés no atoleiro, mas enterrou-se desastradamente e se o velho não se tivesse apressado a agarrá-lo por debaixo dos braços expunha-se a desaparecer por sua vez.
- Veja lá, disse o pescador, já o avisei.
Catamount mordeu os lábios; depois, escolhendo o ramo da árvore, que se estendia um pouco mais longe sobre o pântano:
- Avançando às-cavaleiras em cima dele, conseguirei talvez ganhar um metro ou mais e atingir Mesquita com a corda que vou transformar em laço.
A empresa parecia bastante arriscada e o velho ficou duvidando do resultado, mas o tempo urgia; Catamount sabia que cada segundo perdido, podia comprometer irremediavelmente
as probabilidades que o alazão conservava ainda, de sair dali; dentro de instantes, abandonando as raízes em que se tinha aventurado, executou uma rápida subida
e pôs-se às-cavaleiras no ramo baixo.
Um leve estalido se produziu, crispando as sobrancelhas do ranger; no entanto, fazendo várias vezes uma forte pressão, certificou-se que o ponto de apoio era bastante
sólido; então, trazendo consigo a corda que a criança e o avô acabavam de desligar completamente, com uma destreza espantosa, começou a transformá-la em laço.
O pescador e o neto estavam muito duvidosos, quanto ao resultado favorável da empresa; todavia maravilharam-se da rapidez com que agia o homem de olhos claros. Catamount
era um mestre na arte de lançar o laço, tinha-o provado muitas vezes, quer no decorrer das dramáticas caçadas aos criminosos, quer participando em torneios onde
tinha conquistado o primeiro lugar, batendo por largo, três hábeis concorrente
A tremenda agonia do cavalo, prosseguia durante esse tempo. Mesquita ia-se enterrando pouco a pouco. O atoleiro subia-lhe agora até ao peito e dentro de meia hora,
desapareceria, completamente engolido pela lama.
Com o coração oprimido, Catamount vivia momentos atrozes, no entanto, sabendo que a sorte do cavalo se achava nas suas mãos, endireitou-se; depois, brandindo o nó
corredio que acabava de confeccionar, tentou prender o cavalo ; atrás dele, encostados ao tronco da árvore, o velho e o rapaz esperavam, para o ajudar, se tirasse
êxito na sua tentativa e auxiliá-lo a trazer o animal para terra firme.
Por cinco vezes, a corda, vigorosamente lançada, foi assobiar muito perto do alazão... Por cinco vezes, roçou por êle... O rosto, coberto de suor, arriscando-se,
a cada sacão, a perder o equilíbrio e estatelar-se por sua vez no atoleiro, Catamount desanimava, já, de conseguir os resultados desejados, quando, pela sexta vez,
o nó corredio, foi enrolasse no pescoço de Mesquita.
Uma dupla exclamação de alegria se elevou então por baixo do ranger. O rapaz e o avô, espantaram-se da destreza de Catamount, mas este, com os dentes cerrados, inclinava-se
agora para trás; arfando vigorosamente, encarniçava-se por arrancar o alazão ao seu túmulo de lama. - Depressa! Ajudem-me! gritou ofegante. A criança e o velho apressaram-se,
logo; esfolando as palmas da mão no tronco áspero, conseguiram, a custo, ínstalar-se imediatamente atrás do ranger; agarrando-se, então, afincadamente, à extremidade
da corda com que Catamount acabava de laçar o cavalo, retesaram-se solidamente; depois, puxando com toda a força de que dispunham, encarniçaram-se em apressar a
salvação do alazão.
Não foi tarefa fácil; parecia, na verdade, que a fossa, por sua vez, se esforçava tenazmente em conservar a sua presa. Os sacões sucessivos que os três companheiros
imprimiam à corda não tinham dado outro resultado, até agora, do que suster o enterramento do animal.
Muito seria, se o cavalo prisioneiro se tivesse soerguido duas polegadas.
- Coragem! gritou o ranger... Um esforço mais!
Com as maxilas contraídas, o rosto reluzente de suor, os três companheiros prosseguiam sempre com perseverança. Mesquita multiplicava os esforços; o inteligente
animal compreendia as intenções dos seus salvadores.
Pouco a pouco Catamount sentiu que ganhava terreno. Polegada a polegada a corda era puxada e o velho apressava-se logo a enrolá-la no ramo próximo para evitar um
recuo que podia tornar-se irreparável.
Depois de meia hora de esforços interrompidos e extenuantes, Mesquita, liberto da ganga de lama, deslizou sobre o flanco; depois, vigorosamente puxado, aproximou-se
da árvore onde os seus salvadores prosseguiam tenazmente no seu trabalho.
- Hurra! Nós cá estamos ! gritou o ranger. Catamount compreendeu desta vez, que o êxito estava
iminente, o alazão aproximava-se do seu refúgio, e em breve estava ao seu alcance; deixando-se, então, deslizar rapidamente pelo ramo abaixo, e com os seus dois
vizinhos, agarrados ainda solidamente à corda, desceu ao longo desta e, aguentando-se o melhor que pôde, conseguiu agarrar a rédea de Mesquita.
Assim mesmo, a empresa se afirmava, muito difícil; as raízes da árvore apresentavam uma superfície muito escorregadia, na qual os cascos do alazão, cobertos por
uma camada de lama, não se podiam manter. Além disso, o cavalo dava sacudidelas desastradas, que complicavam, desta vez, o trabalho insano dos salvadores.
Por felicidade, a perseverança tenaz do trio conseguiu triunfar dos últimos obstáculos.
Extenuados, a criança e os dois homens conseguiram conduzir para lugar seguro o fiel animal.
O aspecto que Mesquita então apresentava, era com efeito, lamentável; numerosas manchas negras se destacavam ao longo das pernas e do pescoço. Catamount viu, imediatamente,
que se tratava de sanguessugas; os minúsculos animais tinham-se precipitado, bruscamente, sobre a presa, que, assim, tão inadvertidamente lhe era oferecida, e quando
o ranger, ajudado pelos seus dois companheiros, conseguiu libertar inteiramente o nobre animal desses parasitas, o sangue corria-lhe ao longo das pernas. - Meu querido
e velho camarada ! Catamount passava a mão acariciadora nas narinas frementes do cavalo. O animal, ofegante, esgotado pelos esforços que acabava de dispender, tremia
todo.
- Neste momento, não o poderá levar para muito longe, ousou dizer o velho.
O ranger abanou a cabeça, Êste novo infortúnio ia retardá-lo, ainda, algumas horas.
Não poderia partir, na verdade, antes de cair a noite. Durante esse tempo, o que se passaria em Brovrasvílle ? Mais do que nunca tinha a intuição de que os seus
amigos corriam tremendos perigos.
No entanto, Catamount depressa compreendeu que não poderia abandonar Mesquita. O alazão era-lhe indispensável. .Triste e silencioso conduziu o cavalo até à margem
da Laguna Madre.
- É preciso voltar à cabana, disse o velho apontando para o barco que os levara até ali.,. Deixará o cavalo descansar nos arredores.
Catamount recusou, apesar da amabilidade com que a oferta lhe era feita; certamente, que ficaria contente em tornar a ver Joe e testemunhar-lhe de viva voz o seu
profundo reconhecimento, mas recusava-se abandonar de novo o seu fiel companheiro tão provídencialmente encontrado. Ia repousar um pouco mais longe, apartado dos
atoleiros e dos poços frequentados pelos mosquitos; depois, quando ambos se sentissem bem dispostos, retomariam, implacàvelmente, a luta travada contra os bandidos
de Brownsville e contra os misteriosos Vingadores das Trevas.
Foi por isso, que depois de ter prendido Mesquita a um azinheiro, o ranger despediu-se do avô e do neto. Prometeu-lhe, formalmente, voltar a vir vê-los na Padre
Island, quando já tivesse sido feita justiça aos sinistros criminosos. Neste momento, só devia consagrar-se, inteiramente, à sua tarefa.
- Nós só lamentamos, não ter com que o vestir melhor e armar.
- O pescador pedia desculpa das vestes que antes fornecera a Catamount, mas o homem de olhos claros apontou para a sela e para os coldres que continuavam fixos no
seu cavalo.
- Terei ali com que me equipar suficientemente; tenho o meu laço, e quanto às armas eu me arranjarei de modo a consegui-las dentro de pouco tempo. E antes da minha
partida, tenho muito que fazer para limpar a lama que cobre tudo isto.
O caso de Mesquita estar enterrado no pântano tinha posto, com efeito, o equipamento num estado lamentável. Quando o barco se afastou da margem, o ranger fêz um
último gesto de despedida amigável ao petiz, que se mantinha de pé à ré, enquanto que o velho se curvava vigorosamente, sobre os remos. Por fim desapareceu por trás
dos canaviais, e Catamount achou-se só com o seu fiel companheiro de quatro patas.
"E agora, ambos, firmes como sempre!" murmurou, acariciando com meiguice o alazão.
Mesquita relinchou, e pousou a cabeça no ombro do seu cavaleiro. Durante momentos, ficaram, assim, juntos um do outro, e depois o ranger apressou-se a tirar a cilha
que prendia a sela. Agachado na erva, limpou, o melhor que pôde, a sela e os coldres, ainda cheios duma espessa camada de lama.
O tempo foi passando, e o alazão pôde refazer-se das recentes emoções e das fadigas...
Meia hora antes do pôr do sol, o cavaleiro, que se sentia perfeitamente refeito, compreendeu que o cavalo poderia igualmente, levá-lo até Brownsville; então, sem
mais demora, impaciente por recomeçar a luta e conhecer com exactidão a situação, cavalgou o alazão... Mesquita relinchou, depois saltou, e parecendo, por fim, ter
recuperado todo o seu vigor, afastou-se deliberadamente da Laguna Madre e picou a toda a brida para Brownsville.
XIV
Os vingadores reaparecem
Durante esses dois dias e duas noites, no decorrer dos quais Catamount tinha sido o herói de novas aventuras, os acontecimentos em Brownsviile tinham-se, com efeito,
precipitado. A princípio, a partida inopinada do ranger provocou uma impressão das mais dolorosas na tipografia do Farol... A chegada do xerife, o telegrama do Major
Morley, a decisão tomada por Catamount, obedecendo às ordens do chefe, tudo era indício de mau agouro.
Até aqui, graças ao apoio do homem de olhos claros, o pequeno ndcieo podia conter os seus adversários em respeito, e proceder à venda do jornal. O que iria acontecer,
daí em diante, privados do seu protector? Ben Stockton devia encontrar-se, indubitavelmente, ao corrente da situação, e quem sabe, se não fora êle próprio que provocara
a partida de Catamount, que considerava como um adversário incómodo demais ?
De todo o grupo, Carolina era a mais preocupada; à medida que as horas passavam, a rapariga vinha frequentes vezes à janela, junto da qual se instalara, revendo
as provas. O tempo ia correndo e o ranger não voltava.
O xerife tinha, é certo, enviado os três agentes para vigiar os arredores do prédio e não permitir novos tumultos, mas os três homens contentavam-se em tagarelar,
durante meia hora, no passeio, sem mesmo combinarem com Marcos
Manway as medidas a adoptar, para assegurar a venda do Farot.
Tínham-se retirado, quási logo, e Benny tinha-os visto entrar num café próximo.
O director do Farol, não tinha, além disso, ilusão alguma sobre o auxílio que poderia receber de Simeão Garlett, em caso de complicação. O xerife estava demasiadamente
ligado aos interesses do seu poderoso adversário, para conceder o menor, apoio a um homem a quem acusara, abertamente, de praticar uma chantagem vergonhosa.
O futuro não tardava a provar a Marcos Manway que se não enganara. Pouco tempo depois da retirada dos três agentes, novos grupos se formaram em frente da casa, e
os vendedores da Lanterna do Texas, espalharam-se pelas ruas da cidade, apregoando o jornal de Ben Stockton.
- Nós o veremos, quando o jornal sair da tipografia! exclamou o director do Farol... Gesticularão com menos entusiasmo! Essa verdade, que proclamam com tanta energia,
ser-lhes-á fatal.
Nat Bender, Ezequiel e Benny trabalhavam com tenacidade; todavia poder-se-ia surpreender muita inquietação nas suas fisionomias; de tempos a tempos, afastando-se
dos prelos, arriscavam uma rápida vista de olhos à janela, e em breve deram conta de que a afluência se tornava cada vez mais considerável.
- Não há dúvida! esperam a saída do jornal, declarou Iogo Marcos Manway.
- Receio bem, meu Deus! que se não trate de compradores ! objectou Carolina.
A rapariga indicou, então um homem, que ia dum grupo para outro, e que se distinguia facilmente, pelo braço direito ao peito, cercado por ligaduras. Imediatamente,
os quatro companheiros reconheceram Pedro Zopilote. Durante todo o tempo que Catamount vigiou as instalações do Farol, o mestiço conservara-se prudentemente afastado,
receando enfrentar tão valente adversário, mas agora, que nada o incomodava, a sua presença e atitude desembaraçada aumentavam mais as apreensões do pequeno grupo...
Cada vez mais
se convenciam, na verdade, que o ranger não voltaria tão cedo.
- Oxalá que não tenha caído nalguma armadilha! ousou dizer, Carolina, abanando tristemente a cabeça.
- Esses canalhas são capazes de tudo.
No entanto Marcos Manway resolveu proceder à venda do jornal, como de costume. Desta vez, Ezequiel acompanharia Benny, com Mimi; mas, apenas os dois amigos saíram
da tipografia com os maços debaixo do braço, chocaram-se com homens alinhados no passeio... Zopilote aproximou-se do preto.
- Onde vão vocês dois ? interrogou com tom ameaçador.
- Deixe-nos passar, somos homens livres! respondeu Ezequiel.
- Alto lá! Proibimos a venda da tua folha de couve.
- Em nome de que direito? replicou Benny.
- Em nome do direito que os cidadãos honestos têm de se defender do mais odioso dos caluniadores.
- Deixe-nos passar! Estamos sob a protecção de Catamount.
Uma risada sarcástica, acolheu as palavras que o rapazote acabava de soltar.
- Catamount, chacoteou Pedro Zopilote, com um sorriso tenebroso, está longe, dora-avante, e creio que fariam bem melhor, todos vocês, em não contar demasiadamente
com os seus bons ofícios... Esse mata-mouros, pode não tornar mais a pôr os pés em Brownsville!
Enquanto esta curta discussão prosseguia, outras pessoas vinham aparecendo. Rapidamente a barragem que o ranger tinha recentemente desfeito, refazia-se; Marcos Manway,
Carolina e o seu noivo, que observavam a cena da janela, podiam verificar que se tratava dos mesmos malandrins que pouco tempo antes os hostilizavam, A atitude cada
vez mais desembaraçada desses miseráveis, fazia compreender que já não receavam a enérgica intervenção do homem de olhos claros.
- É exactamente o que eu pensava! disse a rapariga... Fizeram cair esse desgraçado numa emboscada.
Fora, o tumulto tomava aspecto desolador; sem deixar a Benny e ao preto ocasião para protestarem, os acólitos de Pedro Zopilote atiraram-se a eles... Uma desordem
seguiu-se-lhe, os maços que os desgraçados levavam, foram-lhes arrancados, rasgados e espalhados no passeio... Vociferações e gritos de morte, partiram dos grupos
excitados.
O rapazote e Ezequiel defenderam-se valentemente; ao murro e ao pontapé, conseguiram desenvencilhar-se, tendo encontrado no bull-dog um precioso auxiliar; um bom
número de assaltantes bateu em retirada com as barrigas das pernas a escorrer em sangue, pouco desejosos de travar conhecimento, durante mais tempo, com os dentes
do valente cão de guarda.
Mas, ai deles! Os cúmplices de Zopilote eram em maior número... O mestiço, tomando, sem dúvida, como pretexto o seu ferimento, ficava, prudentemente, afastado do
tumulto e limitava-se a incitar os seus acólitos.
Redemoinhos numerosos se produziram, no entanto, na multidão; os partidários do Farol, e aqueles a quem a política de Ben Stockton tinha indignado, eram igualmente
numerosos, e a intervenção recente de Catamount tinha convencido muitos dos habitantes ; mas os pescadores de águas turvas mostravam-se firmemente resolvidos a entravar
esses progressos da opinião pública; tinham decidido aproveitar a partida do ranger, para tentar um golpe decisivo. Para começar, proibiam, uma vez mais, o acesso
às imediações do Farol.
- Para a frente! rugiu Marcos Manway, que se apercebeu da situação difícil dos seus auxiliares. Não podemos, por forma alguma, deixá-los esmagar por esses patifes!
O director avançou com os punhos levantados, imediatamente seguido de Nat Bender, armado de um revólver. Logo a voz enérgica do rapaz dominou os alaridos ameaçadores
e os morras que se sucediam, vindos de todos os lados.
- Parem, ou atiro! Deixem esses desgraçados. Ouviram-se vários tiros dados para o ar pelo noivo de
Carolina; pouco desejosos de servir de alvo ao recém-chegado,
os mais excitados recuaram, alguns empunharam os seus revólveres, preparando-se para a luta. Mas, a atitude resoluta de Nat Bender, impôs-se-lhes ; em breve, sob
a protecção da arma, Benny e Ezequiel, com os fatos rotos e os rostos ensanguentados, puderam regressar à tipografia, não sem ter deixado, antes, com a ajuda de
Mimi, em lamentável estado, meia dúzia de adversários, que caíram, gemendo, na calçada.
- O xerife! Chamou, por várias vezes, Marcos Manway. Exijo a presença do xerife e dos seus agentes! Só a eles pertence manter a ordem quando há tumultos ! Ouviram-se
vários gritos de aprovação. Os cidadãos indignados chamavam por Simeão Garlett; mas, espalhou-se logo a notícia que o xerife não estava, e que partira, com toda
a sua gente, para cumprir uma missão delicada.
Durante um momento Marcos Manway e os seus companheiros esperaram que os que protestavam indignadamente lhe prestariam auxílio eficaz, mas a brutal ofensiva de Pedro
Zopilote e da sua gente, tornava inútil, nesse momento, toda a iniciativa.
A esses cidadãos, dispersos, faltava um chefe. Ausente, Catamount com Simeão Garlett em viagem, como poderiam organizar um plano para restabelecer a ordem, tanto
mais que grupos armados ocupavam, firmemente, os cruzamentos das ruas ?
Por duas vezes Marcos Manway tentou fazer sair os vendedores; os maços de jornais foram tirados e rasgados tão brutalmente como os primeiros. De todos os lados partiam
tiros. Uma multidão ameaçadora cercava a sede do Farol, e os vendedores apregoavam alto a Lanterna do Texas, que refutava com energia os argumentos empregados pelo
director do Farol na sua precedente edição.
Em breve pedradas caíram nas janelas do jornal, sendo preciso correr as empanadas, e Marcos Manway foi atingido, ao de leve, na cabeça por um dos projécteis; mas
dominando a dor, organizou o melhor que pôde a defesa das suas instalações.
Veio à noite!... Carolina que acreditava, ainda, ardentemente, na volta próxima de Catamount, o único homem que podia, actualmente, modificar a situação num sentido
favorável, não viu realizarem-se as suas esperanças. Também os ataques, que a rapariga receava, não se realizaram. O pequeno grupo, tendo-se barricado na casa, esperava,
em vão, repelir o adversário.
Um silêncio profundo substituiu os alaridos e os morras que encheram durante tanto tempo as ruas da cidade. Vigilantes, Carolina e os seus companheiros verificaram
no entanto que o inimigo organizava apertado bloqueio, impedindo que o núcleo do Farol comunicasse fosse com quem fosse: Pedro Zopilote e os seus quadrilheiros estacionavam
sempre nas imediações.
- Olho alerta! recomendou, apesar de tudo, Marcos Manway. O ataque será para esta noite.
As horas que, então, se passaram, pareceram intermináveis à rapariga e aos seus quatro companheiros. Atentos ao menor ruído, erguiam-se de arma nas mãos, cada vez
que Mimi, deitado junto da porta de entrada, rosnasse em surdina; mas o sossego persistia. Quando rompeu a aurora, nada se tinha produzido. Os malandrins continuavam
sempre a exercer vigilância apertada sobre o edifício.
- Sem dúvida esperam triunfar de nós, pela fome? ousou dizer Nat Bender.
- Se assim fôr, replicou Marcos Manway, enganam-se redondamente! Temos aí provisões que nos permitem sustentar um cerco em regra. E só pelo diabo, é que não receberemos,
brevemente, qualquer socorro ! Não haverá alguém que possa avisar o governador e dizer-lhe qual é a nossa situação exacta ! Tal escândalo não poderá eternizar-se
num país livre.
E o director do Farol acrescentou que os seus adversários tinham, certamente, medo de se envolverem a fundo na acção; essa expectativa parecia-lhe de excelente augúrio.
Carolina não respondeu. A rapariga sentia-se atormentada, na verdade, pelos mais sombrios pressentimentos. O seu
pensamento vagabundeava para Catamount, e o coração oprimia-se-lhe atrozmente ao pensar que o homem de olhos claros tivesse podido sucumbir numa luta desigual. A
atitude da gente de Pedro Zopilote deixava suspeitar o pior!
Aos primeiros raios do sol, Marcos Manway verificou que o cerco continuava à volta das instalações do Farol... Os grupos de vigilância estavam atentos, prontos para
qualquer eventualidade. Em vão o director tentou reconhecer entre eles agentes da autoridade. Os representantes da ordem pareciam ter-se volatilizado, e quanto aos
cidadãos indignados, que antes tinham manifestado abertamente a sua reprovação por tais processos, não se via, nem um só, e a sua ausência causou a Marcos Manway
uma profunda tristeza. Que Simeão Garlett tivesse partido, estava previsto, pois que o xerife tratava sempre de favorecer Beu Stockton ; mas essa ausência da gente
honesta, cuja revolta podia por si só pôr fim a esse odioso estado de coisas, desanimava o director, que sempre tinha enérgica e tenazmente lutado para que a verdade
fosse conhecida.
Do mesmo modo que a noite, o dia não trouxe modificações. Limitaram-se a vigiar de parte a parte. A circulação não era impedida nas principais artérias de Brownsville,
mas as proximidades da tipografia continuavam guardadas. Algumas pessoas que quiseram alcançar o domicílio de Marcos Manway, viram-se, imediatamente, repelidas e  mandadas afastar, rapidamente, senão quisessem ser mortas.
Mais uma vez as trevas da noite caíram sobre a cidade excitada. Os partidários da ordem pareciam ter-se prudentemente metido em casa, unicamente desejosos de evitar
complicações desagradáveis. Quanto a Catamount, Carolina e os seus companheiros estavam persuadidos que não podiam já contar com o seu concurso. De qualquer maneira,
Simeão Garlett, aconselhado por Ben Stockton, tinha procedido de forma a afastar, definitivamente, esse perigoso adversário.
Os ocupantes da tipografia fizeram a guarda por turnos; esse assédio tomava proporções enervantes, mas os sitiantes
haviam tido o cuidado de impedir toda e qualquer comunicação telefónica, e a própria energia eléctrica fora cortada aos sitiados.
- Esse canalha de Garlett deve ter tomado precauções, igualmente, para que ninguém, no governo do Estado, saiba da nossa situação.
E assim chegaram à noite, entregues a simples conjecturas, matando a cabeça, inutilmente, a cismar como poderiam sair dessa situação. As provisões que conservavam,
permitiam-lhes comer à vontade; todavia esta reclusão prolongada tornava-se cada vez mais enervante. A inacção e a incerteza amoleciam pouco a pouco as energias.
- Que se resolvam a lutar! exclamou o director, fora de si, e que isto acabe dum ai vez.
Os desejos de Marcos Manway não tardaram em ser atendidos. Apenas caiu a noite vultos inquietadores vieram juntar-se aos grupos que faziam a guarda lá fora. E os
sitiados, que observavam ansiosamente pelas fendas das persianas, reconheceram, imediatamente, a estranha indumentária dos cavaleiros que paravam, cada vez em maior
número, em frente do seu refúgio.
- Os Vingadores das Trevas! murmurou o director.
Não podia subsistir dúvida alguma. Os recém-chegados saltavam abaixo dos seus cavalos e conversavam em seguida com Pedro Zopilote e os seus acólitos.
- Atenção ! Exclamou Marcos Manway. "Preparem-se ! Desta vez vão certamente atacar-nos. No entretanto não atacaram, imediatamente, calculando bem a sorte que os
esperava e as perdas que sofreriam seguindo a terreno descoberto contra a tipografia. Passaram duas horas, e o pequeno grupo cismava o que podia, ainda, significar
uma tal expectativa, quando a voz de Ezequiel veio interromper todas as meditações :
- Fogo!... A casa está a arder!
Num volver de olhos, os defensores da tipografia ergueram-se; o preto acabava de notar uma nuvem de fumo espesso, que saía da cave. Tiveram de recuar, sufocados
pelo fumo que se espalhava por tôda a casa, logo seguido de grandes chamas.
Mimi ladrava enfurecido, e atirava-se contra a porta de entrada; os sitiados compreenderam, imediatamente, o terrível perigo que corriam. Um dos adversários, aproveitando
o sossego e a escuridão que reinava nas vizinhanças, devia ter deslizado, arrastando-se até junto dum dos respiradores da cave e, dissimulado na sombra, deitara
fogo ao edifício.
- Miseráveis! Querem assar-nos como a porcos !
Durante um momento, ajudado pelos seus três auxiliares, deixando Carolina a vigiar o rés-do-chão, o director procurou circunscrever o sinistro, mas o fogo, que se
propagara a latas de gasolina, progrediu com mais força; o calor tornou-se sufocante.
Outra catástrofe veio cair sobre os infelizes; Ezequiel que se ocupava sem resultado a abrir a torneira da cozinha, logo ficou ciente que tinham cortado a água...
Agora, a sorte estava lançada! A não ser que se resignassem a sair, os desgraçados estavam condenados a ser queimados vivos.
Marcos Manway correu, pois, para a porta; tirando a tranca sólida que a barricava, abriu as duas portadas; depois, arrastando Carolina que se colocara por detrás
dele e os seus três auxiliares que seguiam com o cão, saíram para a rua.
Mas apenas o pequeno grupo acabava de aparecer,
fugindo ao sinistro que tomava terríveis proporções, logo os
cavaleiros se enfileiraram à volta deles. Todos se cobriam com
as famosas cogulas e vestiam os balandraus negros decorados
com pingos de prata e tíbias entrecruzadas.
- Vamos, entreguem as armas! Estão presos ! Ordenou o chefe.
Meios asfixiados em consequência da luta tenaz que acabavam de travar contra o incêndio, Marcos Manway e os seus companheiros quiseram resistir.
Muito pálida, Carolina sentiu-se levada no meio do tumulto e viu o pai cair por terra, à sua direita; desorientada, quis correr para êle, e socorrê-lo, mas não teve
tempo.
Sentiu-se agarrada por punhos sólidos.
Com desespero, quis defender-se ; um lenço caíu-lhe em frente dos olhos e tapando-lhe a boca cegou-a e impediu-a de articular o mais leve som.
Os Vingadores das Trevas cercavam, agora, o pequeno grupo, e cortavam-lhe a retirada; um bom número de malandrins de Pedro Zopilote juntaram-se-lhes. Ao clarão sinistro
das chamas que subiam agora para o céu estrelado, transformando a tipografia e as instalações do Farol de Brownsville num imenso braseiro, não tiveram grande trabalho
em triunfar da resistência dos desgraçados... Nat Bender, jazia, estatelado no meio da rua. Mimi, apesar dos ataques repetidos, não conseguiu abrir brecha por entre
os grupos dos bandidos.
- Conduzam Manway e a filha! ordenou, de novo, o chefe misterioso, cujas pupilas cintilavam por detrás do capuz.
Carolina arranhou, debateu-se, mas os seus agressores mantinham-na solidamente; dentro de instantes sentiu-se levantada como uma pena, e depois deitada, atravessada
num dos cavalos que esperavam a alguns passos dali. Vozearia e um ruído de passos precipitados ressoaram na sua imediata vizinhança.
- A cavalo! ordenou, por fim, o chefe.
Com os olhos vendados, incapaz de resistir mais tempo, a rapariga teve que se resignar... A toda a brida, o grupo •dos Vingadores das Trevas galopou, pela calada
da noite, abandonando Brownsville, onde a tipografia acabava de arder, espalhando ao seu redor clarões sinistros, enquanto que, sob uma chuva de faúlhas, Pedro Zopilote
e os seus cúmplices, tentavam conservar a distância os habitantes que acorriam, cada vez mais numerosos, e que protestavam, com indignação, contra esse infame atentado.
XV
Demasiado tarde
- Deixem-me passar... Afastem-se em nome do Céu!
A voz bem timbrada do ranger dominou todos os ruídos e gritos que se sucediam nas ruas de Brownsvile. Catamount tinha vindo em carreira desordenada desde a Laguna
Madre ; e cada vez mais obcecado pelos mais funestos pressentimentos; e os seus receios confirmaram-se quando, chegado à vista da pequena cidade do Texas, surpreendeu
um clarão avermelhado que se elevava para o céu, em direcção do local onde se encontrava a tipografia de Marcos Manway. Desde então, metendo as esporas nas ilhargas
do alazão, o ranger lançou-se pelas ruas fora, atropelando os grupos que encontrava na passagem, e que não se afastavam tão depressa como êle queria.
O atentado cometido pelos Vingadores das Trevas provocara em Brownsville uma efervescência considerável. A princípio a barragem impressionante, organizada por Pedro
Zopilote e pelos seus acólitos, tinha feito excitar os honrados cidadãos de Brownsville. Contidos em respeito pelos malandríns, haviam deixado raptar o director
e Carolina pelos misteriosos assaltantes, mas, pouco a pouco, refizeram-se da surpresa; procurou-se o xerife, chamaram-no com insistência, mas, como sempre, Simeão
Garlett continuava incógnito.
- Afastem-se em nome do Céu!
Catamount aproximava-se do domicílio dos Manway; o edifício era agora, apenas, um vasto braseiro, que acabava de
abater entre chamas, no meio duma chuva de faúlhas... À sua volta, bombeiros e voluntários faziam cerco, a fim de circunscrever em o sinistro e impedir que as centelhas,
que caíam sem cessar, pegassem fogo às casas próximas.
Quando chegou às primeiras filas, Catamount pôde medir a importância do desastre, mas em breve teve de interromper-se no exame do local do drama. Mesquita empinava-se,
porque um punho firme acabava de se apoderar da rédea.
O ranger, rubro de cólera, ia ripostar, quando ouviu uma voz familiar que lhe gritava :
- Mimi! é Catamount... Mimi! é Catamount...
- Ezequiel! exclamou, logo, o homem de olhos claros, reconhecendo o preto, que com o fato roto e chamuscado, acabava de se erguer na sua frente e obrigava o alazão
a parar.
- Em nome do Céu! depressa... Conta-me tudo... Catamount ínclinava-se para o preto, que em poucas
palavras, bem depressa lhe relatou os trágicos incidentes que se desenrolaram durante a ausência do ranger.
- Oh! Mimi! é Catamount, acabou o preto, proceda rapidamente! Só o senhor será capaz de os salvar!... Marcos Manway e miss Carolina foram levados pelos homens de
cogula!
- E Nat Bender ? e Benny ?
- Vêm ali os dois, respondeu o preto, apontando para os dois companheiros que se enfiavam por entre a multidão, para se virem juntar ao ranger...
O noivo de Carolina Manway, tinha escapado de boa; ferido, no decorrer da luta que o pequeno grupo travara com o grupo dos Vingadores das Trevas, ficara estendido,
durante momentos; mas Benny e Ezequiel correram em socorro dele, logo depois da partida dos seus adversários. Agora, descobrindo o ranger, correram para junto dele,
com o rosto crispado pela angústia.
Mas o preto voltou-se rapidamente, e apontando a Catamount um grupo no meio do qual Pedro Zopilote pontificava, declarou:
- Aqueles, cúmplices dos Vingadores!
Até aqui, devido à ausência das autoridades, os malandrins tinham podido conservar a vantagem e manter os habitantes a distância, enquanto as chamas devoravam as
instalações do Farol de Brownsville, mas agora, que a destruição se consumara, tinham-se afastado um pouco. A atitude da população causava-lhes apreensões cada vez
maiores, e já alguns se preparavam para se raspar.
Mas Catamount, não querendo ouvir mais explicações, e reconhecendo o rufia a quem já infligira severa lição,
endireitou-se, e depois, vendo o revólver que empunhava
Ezequiel :
- Empresta-me a tua arma, meu rapaz,.. disse.
O negro apressou-se logo a obedecer e instantes depois Catamount picou, deliberadamente, sobre o grupo compacto, formado por Pedro Zopilote e os seus acólitos.
- Quem são os vossos cúmplices, e quem é o vosso chefe ? O que fizeram de Manway e da filha ?
Sem parecer recear os revólveres que a maioria dos bandidos empunhavam, o ranger parou a três passos de Zopilote. O miserável, que conservava ainda o braço ao peito,
ficou um pouco desorientado pela aparição inesperada do ranger que êle imaginava definitivamente fora de acção.
- Que lhe importa isso! resmungou. Sei tanto como você.
- Vais-me dizê-lo, imediatamente.
Várias detonações interromperam esta frase pronunciada por Catamount; Mesquita empinou-se, e como se ,o ranger fosse protegido por qualquer coisa de sobrenatural,
nenhum dos projécteis que lhe foram dirigidos o atingiu; pelo contrário, premindo por várias vezes o gatilho da arma que o preto lhe emprestara, três dos malandrins
caíram por terra.
- Quem se segue, agora ?
Esta firme atitude do recém-vindo provocou na multidão uma impressão considerável... Até aqui os honrados habitantes de Brownsville tinham-se contentado, simplesmente,
em protestar, e nenhum ousara entrar, abertamente, em conflito com esse bando de salteadores; sem fé nem lei.
Faltava um chefe para coordenar a resistência e reunir todas as boas vontades.
Catamount, cujas recentes proezas tinham provocado emoção intensa na cidade, era alvo, agora, de todos os olhares; um frémito percorreu a assistência, quando ouviu
de novo a sua voz muito calma declarar :
- Pedro Zopilote, na ausência do xerife, e em nome da lei, estás preso!
- Perdão! Não tem esse direito, protestou o canalha. Eu não fiz nada! Além de que eu não podia fazer fogo, há pouco! Por sua causa, seu mariola, encontro-me, momentaneamente,
privado do uso da mão direita.
- Tenho razões de sobra para te ter debaixo de mão! Representas em todo este caso um papel de primeira ordem. Vamos, aproxima-te!
Dirigindo-se, então, a Ezequiel, que se achava junto dele, o ranger declarou:
- Olá, meu rapaz! procura nos meus coldres, um par de algemas que passarás, imediatamente, aos pulsos deste cavalheiro! Tem de ficar, desde já, à completa disposição
da justiça!
Pedro Zopilote quis protestar de novo, e alguns dos seus companheiros invectivaram o ranger, e preparavam-se para o defender; mas, sempre muito senhor de si, Catamount
apontou o revólver ao bandido.
- É muito simples! Ao primeiro gesto de ameaça, atiro, e Zopilote pagará por todos!
Estas declarações do homem de olhos claros anularam, cerce, todas as veleidades de resistência.
Ezequiel, que acabava de meter as mãos nos coldres do ranger, retirou logo as algemas, e Pedro Zopilote, sempre estrictamente contido em respeito por Catamount,
teve de se resignar a deixar prender o pulso válido.
- E, agora, depressa! A casa do xerife! declarou o ranger.
Da multidão dos assistentes partiram objecções:
- O xerife está ausente de Brownsville !
- É lamentável, replicou o ranger; mas, nesse caso, poderemos tomar todas as precauções que as circunstâncias
exigem. Não se concebe, na verdade, que uma cidade da importância de Brownsville fique abandonada, sem defesa, aos ataques dum bando de malandrins sem escrúpulos.
Se Simeão Garlett foi negligente a ponto de não deixar quem o substituísse, convém reparar imediatamente essa falta! Em seguida, será preciso correr em perseguição
desses facínoras e libertar Marcos Manway e a filha !
Imediatamente os grupos se dirigiram para casa de Simeão Garlett. A atitude corajosa de Catamount fazia dissipar as últimas hesitações. Os acólitos de Pedro Zopilote
depressa compreenderam que o vento soprava agora em seu desfavor e que seria prudente desaparecerem, antes que Catamount conseguisse retomar o comando da luta travada
contra os Vingadores das Trevas. Muitos deles trataram de se escapar e de se perder no meio da confusão.
Quando o ranger e os seus companheiros chegaram ao domicílio do xerife, um só agente se encontrava lá, confortavelmente instalado numa poltrona, absorvido na leitura
da Lanterna do Texas; no entanto, quando a porta foi abalada por pancadas violentas, precipitou-se para a abrir. Uma surda exclamação se lhe escapou quando viu Catamount
surgir no limiar.
- Como vai essa saúde ? disse simplesmente o ranger. Ou eu me engano muito, ou você é o meu excelente amigo Stan Hunter!
Era, efectivamente, o agente que tão traiçoeiramente atacara o ranger junto da Laguna Madre, com os três auxiliares. Durante alguns instantes, pela surpresa que
sofrera, ficou imobilizado, de boca aberta; mas, antes mesmo que • pudesse esboçar o menor movimento, Catamount, apontava-lhe o revólver.
- Estou positivamente desolado por ter de o incomodar, meu rapaz, continuou plàcidamente o homem de olhos claros; mas é tempo de verificar que a situação em Brownsville
deveria exigir da parte do xerife a máxima vigilância.
"Além disso, como os tubarões não quiseram nada de mim lá em baixo, creio que seria curioso obter algumas pequenas explicações indispensáveis da boca de Simeão Garlett.
- Não sei o que quere dizer! balbuciou Stan Hunter.
- O caso não importa, falaremos de tudo isso mais tarde ! interrompeu Catamount; neste instante, convém, antes de mais nada, socorrer os dois desgraçados que estão
em poder dos Vingadores das Trevas. Sem dúvida, pode-nos fornecer alguns dados interessantes, referentes a esta sinistra organização.
- Na verdade, não sei o que quere insinuar! balbuciou o agente que perdia, pouco a pouco, a serenidade, sob a ameaça constante que fazia pesar sobre êle, o seu visitante.
O gabinete do xerife era invadido, agora, por uma multidão ruidosa e hostil. E a emoção que se afirmava, já, intensa, cresceu ainda, quando Catamount, depois de
ter feito introduzir por Ezequiel, Pedro Zopilote, ordenou que pusessem algemas aos pulsos do agente.
- É-uma indignidade! quis protestar Stan Hunter, na minha qualidade de substituto do xerife...
- Este homem tentou assassinar-me ante-ontem, interrompeu o ranger, apontando com o dedo o agente... Pude escapar milagrosamente à morte, mas jurei pôr a verdade
a descoberto.
Prosseguindo, então, energicamente, na sua ofensiva, o ranger colocando-se na frente de Stan Hunter, e depois fíxando-o com o olhar:
- Onde está o xerife ? interrogou com voz calma.
- Não sei! replicou simplesmente Stan Hunter. Então, Catamount voltando-se para os assistentes :
- Ouvem? O xerife ausente de Brownsville, deixa um só agente para o substituir, e nem sequer se dá ao trabalho de o informar, com exactidão, para onde vai... Tal
procedimento é por acaso compatível com a manutenção da ordem ?
- Não, certamente, não é!
- É preciso que isto se modifique!
- Queremos ser defendidos contra os ataques da canalha de toda a espécie.
- Organizemos um comité de vigilância! Discussões calorosas se travaram na sala, e ninguém mais
procurava tomar o partido de Stan Hunter e de Zopilote, que Catamount se apressou a encerrar num calabouço.
Mas o ranger apressou-se a pôr termo às discussões:
- Basta de palavras inúteis, é preciso agir depressa. Não se esqueçam que os dois desgraçados se encontram actualmente em poder dos piores dos bandidos !
E Nat Bender, saltando sobre a mesa do gabinete, e dirigindo-se em seguida aos homens que se agrupavam à sua volta e que discutiam com largos gestos, impôs-lhes
silêncio:
- O ranger tem razão !,.. Peço-lhes... Corramos em socorro da minha noiva e do pai! E visto que é necessário um chefe, não vejo razão para que não escolham o próprio
Catamount! Com êle as coisas correrão, certamente, sem entraves e os culpados, por mais alta que seja a sua posição, não tardarão em comparecer perante os tribunais!
- Hurra! por Catamount.
Em breve, num entusiasmo unânime, os habitantes de Brownsville, reunidos na sala e nos arredores imediatos da residência do xerife, aclamaram ruidosamente o nome
de Catamount. Com um gesto, o ranger, que se tinha ausentado, por momentos, para proceder ao encarceramento dos dois prisioneiros, que deixou sob a guarda de dois
rapazes valentes, agradeceu aos seus vizinhos e depois apontou para um cinto de armas que acabava de descobrir num gabinete pegado:
- A Providência faz as coisas pelo melhor, declarou com um sorriso; os meus agressores da Laguna Madre tinham feito mão baixa ao meu cinturão e aos meus revólveres,
que acabo de encontrar num armário. Aqui está ainda um caso confuso que importará esclarecer no mais curto prazo possível; mas, neste momento, duas existências encontram-se
em perigo e devemos lançar-nos rapidamente na peugada dos Vingadores das Trevas e das suas vítimas.
Aclamações delirantes acolheram estas palavras. A gente de Brownsville estava saturada da atmosfera de terror que já há bastante tempo reinava na sua boa cidade.
A passividade e a desconcertante atitude de Simeão Garlet, enojava-os o mais possível. Desejosos de tirarem a desforra, foram buscar os seus cavalos.
Em menos de cinco minutos Catamount pôde reunir uma força de trezentos cavaleiros, pelo menos, que armados até aos dentes, se agruparam atrás dele e se lançaram
na pista dos Vingadores das Trevas.
A passagem dos misteriosos raptores de Carolina Manway e de seu pai foi assinalada por várias vezes, e por isso o ranger conseguiu referendar, com exactidão, a direcção
que tinham tomado; num galope desesperado, partiu, levando atrás de si os improvisados justiceiros.
Mesquita galopava a toda a brida. Ezequiel, Nat Bender e Benny, seguiam-no, imediatamente, montados em cavalos de empréstimo.
Os três companheiros estavam extenuados, ainda marcados pela luta tenaz que tinham sustentado com os seus cobardes assaltantes, mas ardendo em desejos de se vingarem
e de libertarem o seu director e a filha.
Durante um grande lapso de tempo, os cavaleiros seguiram numa marcha infernal.
Catamount examinava atentamente o terreno úmido e semeado de poças de água.
Não teve grande trabalho em referendar com exactidão as pegadas que os Vingadores das Trevas deixaram atrás de si. Os canalhas, nem se deram ao trabalho de fazer
desaparecer os seus traços. Julgavam-se, indubitavelmente, senhores incontestáveis da situação.
Catamount percebeu logo que os miseráveis, abandonando a estrada que seguia para Laguna Madre, tinham obliquado através dos campos de algodoeiros. O ranger teve
de retardar o seu andamento.
A lua aparecia agora, entre as nuvens, e permitia aos cavaleiros orientarem-se facilmente. Caminhavam, trocando entre si, apenas, breves palavras, desejosos, unicamente,
de encontrar os celerados e impedi-los de se tornarem culpados dum duplo crime.
A cavalgada nocturna prosseguia, assim, há meia hora, quando Catamount parou, bruscamente, Mesquita; voltando-se na sela, o ranger levantou o braço direito, dando,
assim, sinal aos seus companheiros para fazerem alto.
- O que há?... interrogou Nat Bender.
- Não nota nada lá em baixo ?
O rapaz e os seus vizinhos mais próximos ergueram-se nos estribos e olharam com insistência na direcção que lhes indicava o homem de olhos claros.
- Vejo vários pontos luminosos, disse Nat Bender... Parecem fogos-fátuos ?
- A mim parecem-me archotes, ousou dizer uma voz. Na planície baixa, algumas árvores grandes estendiam
os seus frondosos ramos. Eram magnólias seculares... A meia milha dali, sombras confusas pareciam agitar-se à volta dum grupo de árvores.
- Estão ali! arriscou um dos cavaleiros. É preciso atacá-los.
- Não com essa pressa, objectou o ranger.
" Convém, primeiro, certificarmo-nos se se trata, de facto, dos Vingadores e qual é, rigorosamente, a sua situação.
Sem deixar tempo aos seus companheiros de o interromperem, o ranger prosseguiu.
- Dois homens vêm comigo: Ezequiel e Nat Bender.
Murmúrios se levantaram ao derredor; todos queriam
fazer parte do grupo de reconhecimento, mas Catamount, cortou, cerce, os protestos:
- Se ouvirem dois tiros, corram em nosso auxílio, mas não antes disso. Esse sinal indicar-vos-á que podeis atacar; mas antes disso, enquanto que nós três fazemos
o reconhecimento, procurareis manobrar de modo a cercar por todos os lados a zona das magnólias onde esses miseráveis parecem ter parado para acampar. Admiro-me,
apenas, que tenham acendido tantos archotes.
Catamount não se demorou mais tempo a discutir; saltando abaixo da sela, fêz ainda sinal a Ezequiel e a Nat Bender que acabavam de desmontar; deixando os seus cavalos
à guarda dos companheiros, os três homens afastaram-se logo na direcção que os raptores dos Manway pareciam ter tomado.
Obedecendo escrupulosamente às recomendações do ranger, os cavaleiros, entre os quais se encontrava Benny, reuniram-se.
depois dividindo-se por grupos, executaram um movimento envolvente que devia permitir-lhes cercar aqueles que perseguiam, a fim de lhes impedir a retirada, se a
acção se travasse dentro de pouco tempo.
O ranger já se não preocupava com os cavaleiros que se tinham posto, voluntariamente, às suas ordens; munido do seu cinto de armas e dos revólveres, finalmente encontrados,
e do seu laço, aventurava-se, arrastando-se; Nat Render seguia-lhe, imediatamente, na peugada e Ezequiel fechava a marcha.
Os arbustos eram muito numerosos nesse lugar, por isso o trio podia rodear e dissímular-se o melhor possível... Por quatro vezes parou para tomar fôlego, e inspeccionar
com atenção o ponto que se propunha atingir.
Catamount depressa se pôde assegurar que um grupo de trinta cavaleiros estava ali reunido. Os homens tinham desmontado e agrupado os cavalos à distância; juntavam-se,
agora, à volta duma magnólia, a maior de todas.
Prosseguindo sempre, o ranger e os seus dois companheiros deram conta que as estranhas personagens se agrupavam ao pé da árvore, parecendo deliberar; alguns deles
brandiam archotes cujas chamas tinham precedentemente atraído a sua atenção.
- Os Vingadores das Trevas, balbuciou, em breve, Nat Bender, inclinando-se para Catamount. Reconheço-os... Veja, todos trazem capuz.
- E cercar duas pessoas, insistiu Ezequiel com a voz a tremer... Misericórdia... Tratar-se de minina e do patrão.
O preto falava verdade. Carolina Manway e o pai, achavam-se ali, imóveis, no centro dum círculo formado pelos homens dos capuzes. Os dois prisioneiros tinham as
mãos ligadas atrás das costas, e esperavam, muito pálidos, sob um ramo baixo da magnólia.
- Meu Deus! murmurou, ainda Nat Bender, ao ranger... O senhor não vê? Ambos têm um nó corredio à volta do pescoço... Esses miseráveis preparam-se para os enforcar.
Incapaz de se conter, o rapaz ia apontar o revólver na direcção dos Vingadores, quando Catamount o conteve:
- Peço-lhe que não cometa imprudências! Eles ainda não estão entre o céu e a terra! Aproveitemos a circunstância desses canalhas nos voltarem as costas, para proceder.
-O que quere fazer ? ousou preguntar Nat Bender, mais impaciente que nunca.
-Vamos, simplesmente, aproximarmo-nos da árvore que esses cavalheiros querem transformar em forca; depois trataremos de subir aos ramos sem despertar a atenção dos
homens dos capuzes.
E antes mesmo que o vizinho pudesse responder-lhe, Catamount murmurou:
- Venha daí Bender, e vem tu também, Ezequiel... teremos de jogar as últimas, mas não desespero de conseguir o que desejo.
Os três homens principiaram a arrastar-se na sombra; em pouco tempo estavam próximos da magnólia, junto da qual os Vingadores das Trevas se encontravam reunidos
em volta das suas duas vítimas.
XVI
Ao pé da magnólia
Arrebatada a galope, Carolina não tentara resistir. Como que dominada por um espantoso pesadelo, sentiu-se atirada violentamente contra o peito do seu raptor. O
cavaleiro quási que a abafava, paralisando-lhe os movimentos ; desvairada, a rapariga meditava no que acontecera a seu pai... O martelamento constante dos cascos
dos cavalos, os abalos brutais com que várias vezes era sacudida, fizeram-lhe saber que os seus raptores seguiam por um terreno irregular.
De vez em quando fazia-se ouvir uma ordem de comando, enérgica e seca, mas os cavaleiros não tentavam trocar entre si a menor frase que permitisse à cativa fazer
uma simples ideia das suas intenções.
Seguiam num andamento certo, parecendo conhecer, exactamente, o fim dessa caminhada. Sem dúvida alguma, este ataque nocturno, acompanhado do incêndio, devia ter
sido planeado com bastante antecedência.
Carolina sentia-se oprimida por atroz desânimo; com efeito, para qualquer lado que se voltasse, nenhuma esperança de libertação lhe era permitida. O seu coração
apertou-se-lhe brutalmente, quando se recordou de ter visto cair Nat Bender no decorrer da luta... Julgando o noivo morto e Catamount afastado, a desgraçada não
se podia conformar com o seu destino cruel. Por vezes os seus lábios balbuciavam preces. Só Deus, em quem acreditava do fundo da alma, poderia ainda salvá-la.
A infeliz sentia os membros fatigados pela posição incómoda em que seguia. Quási que abafava sob o pano com que lhe taparam os olhos e a boca.
Perdendo a noção do tempo, meditava, apenas, na vingança atroz desses desconhecidos.
"Quem seria o chefe da tenebrosa organização?"
Carolina supunha que só poderia tratar-se de Ben Stockton. Só o aventureiro tinha interesse em pôr termo à campanha de revelações tão corajosamente empreendida pelo
Farol de Brownsville.
A visita recente à redacção do jornal, provava a pressa que tinha em pôr termo à campanha... Visto que Marcos Manway recusara submeter-se, não hesitaria mais em
suprimi-lo.
Uma nova ordem interrompeu as tristes meditações de Carolina Manway. Os cavaleiros pararam; depois saltaram rapidamente abaixo das montadas.
- Podem tirar-lhe a mordaça! gritou o chefe. Ninguém, aqui, ouvirá os seus apelos, se tentar gritar.
Carolina sentiu, então, uma mão brutal arrancar-lhe a venda.
Imediatamente uma brisa fresca acariciou a face úmida da rapariga.
Ainda muito aturdida, olhou à sua volta, e a cena que se apresentou a seus olhos foi tão impressionante, que a imobilizou, cheia de pavor.
Grandes árvores se erguiam ao derredor, e as suas copas desenhavam-se no céu estrelado. Os Vingadores das Trevas reuniram-se à volta dos dois prisioneiros, alguns
empunhando archotes, cujos clarões vacilantes, iluminavam caprichosamente os arredores, e davam aos vultos, e às sombras dos guardas, relevo bizarro.
- Tragam-nos aqui! continuou o chefe misterioso.
Sem delicadeza, Marcos Manway e a filha foram agarrados e obrigados a descer dos cavalos; a seguir, bem enquadrados, foram conduzidos para junto da maior das árvores,
uma enorme magnólia. Os Vingadores agruparam-se, então, à volta dêles, no mais profundo silêncio.
- Ora bem! Marcos Manway! Vês onde te conduziu a tua estúpida teimosia?
O chefe aproximou-se dos dois cativos, com o olhar brilhando sempre de modo estranho por detrás do capuz.
Observava o director e a rapariga, esperando que esta cavalgada nocturna, bem como as cenas trágicas que a precederam, os tivessem impressionado convenientemente.
Todavia os dois prisioneiros mantinham-se firmes, erguendo, altivamente, a cabeça, e sustentando orgulhosamente os olhares do carrasco.
- Não tenho de que me arrepender, replicou Marcos Manway com voz máscula.
"E mais uma vez declaro que sois cobardes e assassinos!
Gargalhadas sarcásticas acolheram esta corajosa resposta do director do Farol; mas, de novo, o silêncio se fêz a um sinal do chefe.
- Liguem-lhes as mãos! ordenou a misteriosa personagem.
Dominando o melhor possível a emoção profunda que experimentavam, os dois cativos tentaram, sem resultado, identificar o seu interlocutor. Por mais que buscassem,
não parecia que fosse a voz nem o olhar de Ben Stockton. O indivíduo parecia de estatura mais pequena do que o aventureiro. Mas não tiveram ocasião de levar mais
longe as suas investigações.
O chefe, que os observava sempre com insistência, continuou:
- Não estarias aqui, Marcos Manway, se tivesses dado ouvidos aos avisos dos Vingadores das Trevas!
- Não tenho importância a dar às ordens de miseráveis bandidos, replicou friamente o director, a quem um homem acabava de amarrar apertadamente os punhos.
O chefe encolheu os ombros :
- Essa atitude obstinada, tanto mais desagradável, quanto não só a ti compromete! Pensaste, uma vez sequer, Marcos Manway, enquanto desencadeavas a campanha falsa
e caluniosa, que acumulavas as piores ameaças sobre a cabeça de alguém que te é extremamente querido? Quero falar da
tua filha... Nunca meditaste uma só vez que as tuas culposas divulgações poderiam exercer uma influência nefasta no futuro e até na existência de Carolina Manway?...
Um leve estremecimento agitou a fisionomia do prisioneiro. O chefe tinha certamente tocado o ponto sensível. Marcos não temia a morte e vê-la-ia aproximar-se com
calma, firme no seu bom direito e forte na sua consciência; mas Carolina corria os mesmos riscos que êle próprio, ela, que êle estremecia, como bem acabava de declarar
o miserável.
- Então ? Como vês, tens sido demasiadamente imprudente, Marcos Manway! continuou o chefe, adivinhando a angústia que oprimia nesse instante o coração do seu interlocutor...
Consideraste a situação, como um velho egoísta, e agora verificas que as consequências se tornam muito mais graves do que supuseste a princípio !
- Meu pai tem toda a razão no combate que travou. Tem toda a minha aprovação e eu escarro-te em plena cara o meu desprezo!
Incapaz de se conter por mais tempo, Carolina gritara essas palavras ao bandido.
Ela também se apercebeu da fraqueza que se apoderara do pai; temendo um desfalecimento de que era a responsável, contra a sua vontade, intervinha com voz vibrante.
- Eu não lhe preguntei nada, miss Manway, interrompeu secamente o chefe.
- Pois bem! Quero dizer-lhe tudo o que penso! Mais do que nunca aplaudo o meu pai! Que êle não sinta o menor pesar pela situação em que nos debatemos; a nossa profissão
tem os seus riscos, mas é a mais bela das profissões, pois nos permite muitas vezes fazer triunfar a verdade ! Ben Stockton poderá fazer o que quiser, mas já não
conseguirá abafar a campanha começada contra êle.
- Os Vingadores se encarregarão de vos paralisar.
- O que principiámos, outros o continuarão, e por mais poderoso que seja Ben Stockton, não conseguirá evitar o castigo. Incêndios e assassínios não permitirão que
se ponha ao abrigo da justiça dos homens!
- Mais uma vez, miss Manway, lhe tenho a observar que não é a Ben Stockton que tem de referir-se, mas aos Vingadores das Trevas.
" Nós só temos actuado para pôr termo à tarefa abjecta de seu pai! O Farol de Brownsville tinha que desaparecer. E agora, que isso se fêz, e se o seu director não
está disposto a retratar-se e a apresentar publicamente desculpas dos seus erros, ver-nos-emos na obrigação de proceder a uma dupla e indispensável execução!
- O quê ? exclamou logo Marcos Manway, ousariam matar uma inocente? Façam de mim o que quiserem; mas minha filha não, tem nada que ver em tudo isto!
- Sinto-me desolado, Sr. Manway, mas visto que tem tanto empenho na existência de sua filha, apenas lhe resta submeter-se, e dou-lhe a minha palavra que ambos serão
postos imediatamente em liberdade!
"Bastará para isso que escreva um documento em regra, que aparecerá na Lanterna do Texas, e que destruirá todas as calúnias acumuladas a seu belprazer, na sua miserável
folha de couve!
O prisioneiro ficou durante instantes sem responder; uma angústia cruel alterava-lhe a fisionomia.
- Então? resolva, que estamos com pressa, insistiu o chefe. Nós esperamos! Consente e é a vida para ambos, senão, vêem este ramo da magnólia? Antes dum quarto de
hora são os dois pendurados e os seus despojos descarnados pelos abutres servirão de exemplo a todos os maitre-chanteurs que tentem imitá-los.
- Não aceites, pai! Custe o que custar devemos defender a verdade, ainda que o paguemos com a vida.
A rapariga exprimira-se com voz vibrante.
Um murmúrio percorreu o grupo dos homens que a cercavam. A energia e o sangue-frio que a rapariga manifestava, em tal ocorrência, provocara, apesar de tudo, uma
certa admiração entre esses homens a quem os escrúpulos não embaraçavam.
- Não lhe dê ouvidos, Manway! insistiu o chefe, senão comete a pior das loucuras! Pense nos zelosos cuidados com
que sempre cercou esta filha única, que constitui a principal alegria da sua existência. Então! vai destruir tudo para sustentar tolamente uma opinião em cuja inanidade
o senhor mesmo acredita!
- Mais vale morrer do que viver oprimido pela vergonha, replicou de novo a rapariga...
- Nunca foi vergonhoso reconhecer os erros, insistiu o desconhecido. O mais elementar bom-senso os aconselha a submeterem-se!
- Talvez, mas a honra proíbe-no-lo! E meu pai sabe bem que eu o desprezaria se procedesse desse modo !
Os olhares que a prisioneira fixou nesse momento em Marcos Manway, fizeram-lhe saber que a sua decisão estava firmemente tomada ; então, o director endireitou-se
- Carolina tem razão, declarou. Repilo a oferta infamante que acaba de fazer-me !
- A sua filha é uma criança, Manway, insistiu ainda o chefe ; ela não entrevê mesmo as terríveis consequências dos seus actos. Terá adiantado mais quando os vossos
cadáveres se baloiçarem ambos no ramo dessa magnólia com sólidas gravatas de cânhamo à volta do pescoço ?
Esses novos argumentos não conseguiram, apesar de tudo, vergar a vontade dos dois cativos. O movimento de fraqueza que se tinha apoderado do director, em breve se
dissipou. Dominando a dor atroz que lhe ia na alma, endireitou-se :
- Recusamos. Façam de nós o que quiserem; esse duplo crime cairá sobre as vossas cabeças! Porque a justiça de Deus chegará, tenho a certeza disso !
- Seja! Assim o quiseram !
Compreendendo que era inútil toda a discussão, o chefe voltou-se para os seus homens :
- Sabem agora o que têm a fazer, declarou ! Despachem-se que não temos tempo a perder!
Logo cinco dos homens se destacaram do grupo; em pouco tempo, treparam ao longo do tronco da magnólia, depois dois deles puseram-se às-cavaleiras no ramo bastante
alto, que devia servir de forca; tinham-se munido
de dois laços bastante compridos que em breve colocaram ao longo do ramo e que ficaram suspensos, a baloiçar, na altura dos dois prisioneiros.
Marcos Manway e Carolina não pestanejaram enquanto prosseguiam esses sinistros preparativos. A sua decisão estava tomada e sabiam-se em paz com Deus e com a sua
consciência.
- Então! pela última vez, está bem decidido? preguntou ainda o chefe. Recusam? E tu Manway, não consentes em dizer, onde se encontram, exactamente, as famosas provas
de que te vangloriavas de publicar um dia no teu jornal?
Um irónico sorriso aflorou, então, aos lábios do condenado :
- Eis aí onde te dói! murmurou, muito calmo. Querias saber... Mas esses documentos de capital importância foram confiados a pessoa segura! A nossa morte só fará
apressar a publicação de documentos que restabelecerão imediatamente a verdade. É nesse momento que a justiça poderá tirar de vocês toda a sua impiedosa desforra.
A vossa macabra encenação e a vossa indumentária de espantalhos não bastarão para vos livrar do castigo...
Sob as largas mangas do balandrau os punhos do chefe cerraram-se furiosamente. As palavras do director tinham acertado no alvo; todavia a perspectiva de inevitáveis
complicações não contiveram o miserável.
- A sorte está lançada! resmungou. Passem-lhes a gravata de cânhamo à volta do pescoço.
Em menos de dois minutos os dois prisioneiros sentiram a colocação dos nós corredios, e no entanto não esboçaram a menor resistência.
- Deus nos vingará! murmurou simplesmente Marcos Manway.
- Deus! Faria bem melhor em acudir-lhes antes do enforcamento, chacoteou o chefe. A sua intervenção seria muito oportuna, na verdade!
E o miserável dispunha-se a ordenar aos seus acólitos para procederem à dupla execução. Já quatro dos homens de capuz se retesavam e se dispunham a puxar as cordas,
quando, de repente, se produziu um incidente singular... Antes mesmo
que o chefe tivesse podido abrir a boca, um silvo ligeiro se ouviu. Os olhares dos bandidos, que convergiam nesse momento sobre os condenados, desviaram-se, ligeiramente,
para o seu carrasco, e logo exclamações de espanto ressoaram perante o espectáculo inacreditável que nesse instante se desenrolava ante os olhos dos Vingadores.
Lançado dos altos ramos da magnólia, um nó corredio acabava de se enrolar, bruscamente, à volta do pescoço do chefe, dos Vingadores das Trevas, e logo arrebatado
por uma força misteriosa, o miserável debateu-se, pendurado, alguns pés acima do solo.
Durante segundos, o miserável ficou assim, semelhante a grotesco fantoche, depois, de novo se produziu um brusco sacão e os seus pés tocaram o chão; mas o nó corredio
continuava sempre estreitamente apertado à volta do seu pescoço.
Então, vindo do alto da copa da árvore, uma voz clara se fêz ouvir:
- Mãos no ar, todos sem excepção, senão o vosso chefe ficará enforcado, até que a morte sobrevenha!
Ouviram-se vários protestos. Esta intervenção produzia-se de maneira tão assombrosa, que os bandidos não acreditavam no que os seus olhos viam, imaginando-se vítimas
de qualquer alucinação; mas Carolina, que se conservara sempre imóvel, à direita do pai, soltou uma exclamação de alegria. .. Acabava de reconhecer a voz do homem
que intervinha tão oportunamente a seu favor:
- Catamount, disse ela, estamos salvos ! Imediatamente, a máscara contraída do director do Farol de Brownsville, se desanuviou. A simples revelação da presença do
ranger bastava para dissipar todas as suas angústias ; pois se Catamount entrava em cena, tudo autorizava a pensar que a libertação estava próxima.
No entanto os Vingadores das Trevas, refeitos um pouco do seu terror, empunharam os revólveres, pesquisando com o olhar os altos ramos da magnólia. Três vultos imóveis
ali esperavam. Catamount, Ezequiel e Nat Bender acabavam de assistir, deste observatório imprevisto, à curta cena que se
desenrolara entre os prisioneiros e os bandidos. Aproveitando o momento em que estes concentravam a sua atenção em Carolina e no pai, tinham podido aproximar-se
do outro lado da magnólia; a seguir, conjugando os seus esforços, os três homens tinham trepado aos ramos mais altos. No próprio momento em que a situação dos condenados
parecia irremediavelmente comprometida, intervieram.
- Repito-lhes que- se não mexam, insistiu o ranger, percebendo que algumas sombras se dirigiam para o lugar onde os cavalos estavam acampados. Repito-lhes: o primeiro
de vocês que esboce um único movimento, é homem morto, fica entendido.
Mas apenas o ranger acabava de falar, uma voz gritou :
- São apenas três! Vamos, assim, capitular? Seria cómico! Soaram duas detonações; o ranger acabava de atirar
para o ar duas vezes e continuou:
- Enganam-se! Estamos três na magnólia, que conseguimos iludir-lhes a vigilância: é quanto basta para executar o vosso chefe em caso de resistência da vossa parte!
Porém não estamos sós. Os Vigilantes de Brownsville acompanham-nos! A eles compete testemunhar os vossos crimes e o vergonhoso atentado desta noite, de que sois  culpados!
Apenas Catamount pronunciara estas palavras, sombras de cavaleiros apareceram de todos os lados. Avisados pelos dois tiros que Catamount acabava de dar, os homens
de Brownsville acorreram ao sinal, como fora anteriormente combinado. E, em breve, cerca de trezentas carabinas foram apontadas aos Vingadores das Trevas.
- Vamos, rendam-se, e mãos ao ar! insistiu o homem de olhos claros. Vejam que toda a resistência será inútil! O círculo dos cavaleiros apertava-se à volta da magnólia.
Durante alguns instantes fêz-se um profundo silêncio; agarrados na armadilha, os bandidos não sabiam se deviam resignar-se a capitular; quanto ao chefe, mantendo-se
imóvel, em lastimosa posição, esperava a todo o instante que o enforcassem no grosso ramo, e que se renovasse a cruel experiência de ainda há pouco.
XVII
O Chefe misterioso
Os Vigilantes de Brownsville cumpriram- à risca as ordens que Catamount lhes dera.
Depressa se aperceberam que toda a retirada estava agora cortada. Um para dez, que poderiam fazer contra essa importante força armada, da qual, alguns minutos antes,
ignoravam a existência.
- Desapertem os cinturões e lancem-los aos pés !
A voz imperativa do ranger de novo partiu da árvore. Vendo a linha dos cavaleiros que se formava em círculo àsua volta, e os canos das carabinas apontados em sua
direcção, os bandidos compreenderam que só lhes restava submeterem-se; num silêncio raivoso, resignaram-se. Quarenta cavaleiros saltaram abaixo da sela, e avançando
de revólver em punho, apressaram-se em desarmar os homens dos capuzes que levantavam todos as mãos! Os archotes tinham sido atirados a terra, mas os raios da lua
iluminavam suficientemente esta cena impressionante. Imóveis, junto um do outro, Marcos Manway e Carolina assistiam a esta mutação admirável de cenário. A intervenção
produzira-se de modo tão fulminante, que ainda julgavam sonhar; junto deles, viam o chefe, que não se atrevia a mexer no laço, sempre solidamente apertado à volta
do pescoço.
Nos ramos da magnólia, Ezequiel e Nat Bender, estavam preparados, prontos a puxar o cabo, ao menor sinal do ranger, mas o prisioneiro mantinha-se dócil e tinha as
mãos levantadas como os outros.
- Ora ainda bem! Até que enfim têm juízo!
Catamount decidiu-se a abandonar o poleiro, saltou do ramo e veio cair a dois passos do ponto onde estava a rapariga; pegando, em seguida, na faca de mato, apressou-se
a cortar as cordas que prendiam os punhos de Carolina e do director do Farol de Brownsville.
Já Marcos Manway, depois de ficar desembaraçado do nó corredio que lhe apertava o pescoço, agradecia calorosamente ao seu salvador; mas o ranger deteve-o com um
gesto e depois, dirigindo-se ao chefe, que esperava sempre, triste e silencioso:
- Agora nós, meu velho! Tenho um grande prazer em travar contigo relações mais íntimas!
O desconhecido não se mexeu, os seus olhares fixaram-se no ranger, que lentamente se aproximava dele. Depois, arriscou uma vista de olhos pela sua vizinhança imediata.
Talvez esperasse poder escapar-se, mas, depressa se apercebeu que os Vigilantes de Brownsville estavam atentos, enquanto que os seus acólitos vigiados com segurança,
esperavam a distância; a atenção geral concentrava-se nele.
Um impressionante silêncio reinava nesse momento à volta da magnólia. O director e Carolina nada mais disseram. Sabiam que o véu do mistério ia ser desvendado e
que iam conhecer o chefe da sinistra organização, que desde há pouco tempo contra eles tinha desencadeado uma luta implacável.
Catamount estava agora a dois passos do bandido; durante momentos, observou-o ainda. O homem mantinha a imobilidade duma estátua. Por fim, o ranger, estendeu a mão
com espantosa destreza e conseguiu arrancar o capuz que lhe dissimulava a fisionomia. E, logo, exclamações de espanto partiram dos grupos dos Vigilantes de Brownsville-O
luar bateu em cheio no rosto do miserável, e todos os assistentes reconheceram nele Simeão Garlett!
- Os meus cumprimentos, xerife! disse então, Catamount... Agora, compreendo a razão das suas ausências constantes de Brownsville. É sempre muito melindroso representar
dois papéis ao mesmo tempo!
Simeão Garlett não respondeu; ficou assim, muito pálido, com os punhos cerrados, desesperado por o terem desmascarado. E Catamount prosseguiu com voz pausada :
- Está explicado porque partiu tão tarde naquela noite em busca dos Vingadores das Trevas.
"Tinha-se lançado na sua própria pista...
"E, calculo, que desmascarando os malandrins que o acompanham, esta boa gente de Brownsville encontrará numerosas fisionomias do seu antigo conhecimento.
O representante da autoridade não respondeu. Tentar negar, era dora-avante coisa inútil.
- Vamos, xerife! estenda os punhos... Em nome da lei, está preso!
Simeão Garlett esboçou, nesse instante, um gesto de resistência, mas três rapazes valentes, que estavam junto dele, e que o enquadravam a fim de prevenir qualquer
tentativa de , fuga, apressaram-se a mantê-lo em respeito e obrigaram-no a estender os punhos. Em menos de dois minutos o balandrau que vestia, foi-lhe arrancado
e um dos seus vizinhos apressou-se em tirar-lhe a estrela que ainda lhe decorava o colete.
As algemas que Catamount tirara do bolso, fecharam-se logo, com um estalido seco, ao redor dos punhos do miserável. Com os dentes cerrados, Simeão Garlett mantinha-se
sempre em silêncio. A intervenção de Catamount, que julgara desaparecido, desorientava-o por completo.
- Agora, os outros!
Sem mais preâmbulos, os homens do capuz, que se mantinham ainda sob a ameaça das carabinas dos Vigilantes, foram desmascarados e desembaraçados da sinistra indumentária.
E a indignação dos companheiros de Catamount, aumentou, consideravelmente, ao darem conta que toda essa gente pertencia ao posto do xerife; eram agentes ou auxiliares
de Simeão Garlett Desde então, se explicava facilmente, como esses homens, que tinham prestado juramento de defender a segurança e os bens dos habitantes de Brownsville
conseguiam, a coberto das suas funções, actuar dessa maneira indigna.
Quem poderia suspeitar, com efeito, que êles constituíam a organização, que há pouco tempo assim se manifestara, e que tinha o nome de Vingadores das Trevas ?
- Creio bem que acabamos de fazer boa caçada! Catamount não continha a sua alegria.
O ranger, no entanto, não era de temperamento expansivo, mas, mesmo assim, não conseguia dominar a intensa satisfação que experimentava por ter salvo os dois prisioneiros,
confundindo os seus cobardes adversários.
- É preciso reduzir primeiro esses malandrins à impotência, declarou por fim o ranger, à volta do qual se agrupava um bom número dos seus auxiliares improvisados;
depois, antes de voltar a Brownsville, procederemos a um indispensável interrogatório.
Acendeu-se uma grande fogueira junto da magnólia. Carolina e o pai, que se encontravam num estado de esgotamento completo, foram reconfortados pelos cavaleiros.
Nat Bender, todo contente por encontrar a noiva, narrou-lhe como tinha podido escapar à morte. A rapariga, de olhos brilhantes, não cabia em si de contente. As terríveis
angústias que a tinhamatormentado, durante longas horas, e que lhe fizeram acreditar na morte daquele que amava, dissiparam-se... Esquecida dos dramáticos acontecimentos,
só pensava nessa união tão ardentemente desejada. Por seu lado, Ezequiel e Benny manifestavam ruidosamente o seu contentamento.
- O Farol reaparecerá! exclamava o rapazote... E o Sr. Manway escreverá um artigo sensacional! Arrancar-nos-ão das mãos os pormenores concernentes à prisão do bando
dos Vingadores das Trevas, acusados de terem atacado pacíficos cidadãos e de terem provocado um incêndio.
Uma grande animação reinava nas proximidades; os Vigilantes discutiam com calor o assunto dos acontecimentos rápidos, que acabavam de se produzir, e todos eram concordes
em louvar a habilidade e; o sangue-frio de Catamount, e queriam para o xerife traidor o pior dos castigos.
A intervenção do ranger, veio, no entanto, pôr termo a essas discussões; enquanto todos os seus companheiros se comprimiam à sua volta, e os Vingadores das Trevas
ficavam a alguns passos de distância sob boa guarda, Catamount declarou:
- Pudemos conseguir pôr fim às actuações criminosas dum perigoso bando de malfeitores. Todavia, persisto em crer que esses canalhas, são apenas cúmplices. O próprio
Simeão Garlett deve actuar na qualidade de lugar-tenente dum homem que tem todo o interesse em pescar nas águas turvas.
O nome de Ben Stockton, veio muitas vezes nesse instante aos lábios dos Vigilantes; todavia, Catamount pediu discrição aos seus vizinhos.
- Não nos apressemos, objectou... O principal culpado não tem necessidade de ser avisado. Os factos que acabam de se desenrolar, demonstram quanto Stockton, se Stockton
é, na verdade, o chefe oculto desta temível organização, pode dispor de meios para entravar a acção da justiça. Se fôr avisado do que se passa, encontrará facilmente
o meio de se furtar. Ora é preciso evitar isso a todo o custo... O abcesso deve ser extirpado até ao fim, senão novas perturbações se produzirão inevitavelmente
noutra qualquer parte do Texas.
E enquanto os seus vizinhos o observavam em silêncio, o ranger prosseguiu:
- Há uma revelação, que agora preciso fazer-lhes, meus amigos, visto que chegámos ao fim da carreira; fui enviado a Brownsville pelo meu chefe, o Major Morley, para
inquirir unicamente do caso Stockton, cuja nefasta actividade tinha despertado nas altas esferas muitas suspeitas... As circunstâncias quiseram que eu interviesse,
justamente no momento em que Marcos Manway ia ser vítima da vingança dos cavaleiros dos capuzes. Isso permitiu-me entrar imediata e francamente no assunto. E a minha
presença importunou a tal ponto esses cavalheiros, que não hesitaram em me atrair a uma emboscada.
Marcos Manway, que se encontrava nesse momento à direita do ranger, não pôde deixar de observar:
- O que eu não chego a compreender é porque o major Morley lhe tenha mandado um telegrama para Brownsville.
- Tratava-se duma mensagem inventada em todos os seus pormenores por esse estimável Simeão Garlett. O xerife não deixará, certamente, de nos fornecer dados precisos
sobre este assunto.
- Depressa, tragam aqui o xerife.
Ezequiel e Benny encarregaram-se de conduzir o prisioneiro; enquanto o negro, agarrando-o pela gola, o impelia para Catamount, morras partiam de todos os lados,
soltados pelos Vigilantes de Brownsville.
- A lei de Lynch para esse canalha.
- O nó corredio está pronto!
- Devemos fazer justiça.
Punhos furiosos se ergueram contra o xerife, numerosas mãos se crisparam, e os seus guardas, com grande custo, contiveram toda essa boa gente, impaciente por lhe
infligir severo castigo. Perante essas ameaças, Simeão Garlett mantinha-se, orgulhosamente, de cabeça erguida. Anteriormente abatido, tentava reagir e desafiava
com o olhar os seus adversários indignados.
Em instantes, o prisioneiro foi conduzido para junto da fogueira, em volta da qual Catamount e seus companheiros esperavam! O ranger teve que intervir e levantou
as mãos, para fazer parar o concerto dos morras, cada vez mais ameaçador, e das invectivas de toda a espécie.
-- Aproxime-se, disse simplesmente o homem de olhos claros. Vê bem, agora, qual é a sua situação ? O seu caso é dos mais graves! Não deve esperar atenuante alguma
na sorte que os seus juízes lhe destinam, senão mostrando para com eles lealdade e franqueza.
- Vá para o diabo! replicou, rudemente, o prisioneiro, com a face enrugada. Nada direi!
- Não percamos tempo em discussões inúteis, Garlett, continuou o ranger. Possuo os poderes necessários para conduzir a bom termo este assunto. Recebi a missão de
fazer este inquérito, e aconselho-o a mostrar-se razoável.
E como o representante da autoridade se encerrasse num silêncio de raiva, Catamount insistiu:
- Diga-me o nome do seu chefe?
- Não tenho chefe, negou furioso Simeão Garlett; agimos, unicamente, por nossa própria conta.
- Não espera, assim mesmo, fazer-me acreditar que tivesse interesse na destruição das instalações do jornal Farol de Brownsville...
"Além disso os recursos de que dispunha Marcos Manway afirmavam-se, na verdade, bastante modestos. Desde já, devemos afastar a hipótese, que trabalhasse apenas em
seu interesse pessoal... O senhor queria obrigar os jornalistas a não desencadear o escândalo que só era prejudicial a um único indivíduo.
- Escusa de gastar inutilmente o seu latim, disse com impertinência o prisioneiro. Repito-lhe que nada direi.
- No entanto sabe a que se expõe ?
- Sei, mas não temo a morte.
- Os seus cúmplices mostrar-se-ão, sem dúvida, mais condescendentes.
- Duvido... Tenho fé na sua discrição e sei que nada obterá deles, mesmo em face das piores ameaças.
Catamount compreendeu que nada conseguiria do seu interlocutor. Simeão Garlett desafiava-o com o olhar e as ameaças de morte, que se levantavam à sua volta, pareciam
não o impressionar muito. A sua arrogância e a sua atitude hostil irritaram a tal ponto os Vigilantes de Brownsville, que se Catamount não estivesse ali para o proteger,
ter-se-iam atirado furiosamente sobre o miserável.
- Peço-lhes que não queiram tomar o passo à justiça! Cedo ou tarde, é preciso que esse malandrim se resolva a entrar no caminho das confissões !
Um sorriso irónico aflorou à face do xerife.
Nesta emergência, dava provas de real bravura e Catamount compreendeu que teria, sem dúvida, mais trabalho ainda a levá-lo ao arrependimento do que teve em desmascará-lo
e em arrancar-lhe as vítimas.
Os Vigilantes de Brownsville manifestavam à sua volta
uma certa impaciência, e os partidários da lei de Lynch tornavam-se cada vez mais numerosos. Por isso o ranger mandou proceder imediatamente ao interrogatório dos
agentes presos com o xerife.
Simeão Garlett não se enganou quando afirmou ao seu vencedor que os seus acólitos manteriam, apesar de toda e qualquer ameaça, a máxima discrição, e todos se recusaram,
obstinadamente, a confessar o nome do verdadeiro chefe da temível organização.
Após uma hora de esforços infrutuosos, o ranger con-venceu-se da inutilidade da sua energia.
- Acabemos com isto, interrompeu um rapagão esguio, que tinha tomado, na detenção dos bandidos, uma parte muito activa. Já estamos fartos de ser escarnecidos por
esses canalhas!
- Um pouco de paciência! A experiência é suficiente, replicou Catamount. Vêem que a violência não produz resultado algum sobre eles. No entanto, não desespero de
alcançar o que desejo!
E como os seus vizinhos mais próximos parecessem incrédulos, e lhe preguntassem, com insistência, como esperava triunfar duma tão tenaz teimosia, o ranger respondeu,
com um sorriso furtivo:
- Isso é segredo meu, deixem-me conduzir o assunto! Parece-me que, até aqui, não há razão de queixa dos métodos que tenho empregado!
Um murmúrio de aprovação mostrou ao homem de olhos claros o imenso prestígio que gozava junto de toda essa boa gente exasperada pelos processos criminosos do xerife
e do seu bando.
Então, enquanto os prisioneiros eram distanciados, o ranger reuniu à sua volta uma dezena de Vigilantes, escolhidos entre os mais activos e também entre aqueles
que ocupavam os mais altos cargos em Brownsville.
- Vamo-nos demorar algumas horas ainda e acampar neste mesmo lugar, declarou Catamount.
Tais intenções desconcertaram os Vigilantes; Marcos Manway manifestou por seu turno o mais vivo espanto.
- Pois que... Hesita ainda? Acredita, pois, que o chefe oculto se lhe venha entregar?
Basta a presença da nossa força para o incitar a conservar-se prudentemente afastado, e preparar a fuga!
- O canalha não fugirá enquanto não souber, exactamente, o que se passou à volta da magnólia, afirmou o ranger.
"Se voltarmos imediatamente para Brownsville, será rapidamente posto ao corrente, porque possui numerosas ligações na praça!
"Os recentes incidentes nos demonstraram que sabia assegurar-se do concurso dos próprios • representantes da autoridade.
- É justo, opinou Nat Bender que também estava agachado junto de Catamount, mas que pensa fazer, esperando assim?
-Simplesmente fazer-me conduzir por Simeão Garlett para junto daquele a quem desejamos desmascarar e deitar a mão.
Um tal propósito provocou certo cepticismo no auditório. Não se explicava, na verdade, como é que o xerife, que se mostrara tão tenaz e tão obstinado, ia servir
de guia ao ranger.
Mas Catamount, advinhando os seus pensamentos, apressou-se a explicar:
- Escutem-me bem! Decidimos passar aqui as últimas horas da noite. Nessas condições, julgam, sem dúvida, os pensamentos que vêm ao espírito dos prisioneiros e sobre
tudo o que obcecará em particular o nosso estimável xerife ? Ponham-se um pouco no seu lugar!... Ei-lo desmascarado, preso, exposto a sofrer os rigores mais duros
da justiça, que êle traiu tão indignamente.
"Poderia salvar-se, entrando imediatamente no caminho das confissões. No entanto não o fêz; conta, por certo, ainda, com qualquer coisa. Deveremos, por isso, e por
enquanto, guardá-lo à vista, e aqui.
- Mais uma razão para nos desembaraçarmos desse traste, e dos seus acólitos, enforcando-os, observou um dos auditores de Catamount. Assim, não mais poderão constituir
ameaça para a gente pacífica e honrada. De outra maneira,
mais tarde ou mais cedo, em Brownsville, ou em qualquer outro ponto do Texas, retomarão a sua sinistra actividade.
"E naturalmente, durante esse tempo, o principal responsável fugirá e poderá gozar da mais escandalosa impunidade ! Não, não sou dessa opinião, as coisas não devem
arrastar-se muito tempo, e é preciso esvaziar o abcesso dentro de horas.
Retomando em seguida o curso do seu raciocínio, o homem de olhos claros declarou:
- Imaginem, que mão misteriosa consegue dar fuga a Simeão Garlett. O que é que êle fará?
- Mas, naturalmente, apressar-se-á a juntar-se ao seu chefe, e pô-lo ao corrente dos acontecimentos que acabam de dar-se, declarou o director do Farol de Brownsville.
"Logo que lhe seja dado o alarme, o chefe tratará de pôr-se em fuga, e quando a justiça quiser agir, já êle estará fora do seu alcance!
- Exactamente, Manway, o senhor o disse! O xerife, libertado, apressar-se-á a juntar-se àquele de quem nós queremos descobrir a identidade!
- Para que servem tantos rodeios? insistiu o pai de Carolina. Estou certo que o culpado é Ben Stockton!
- É mais que possível; todavia não dispomos actualmente de provas suficientes para demonstrar que Stockton organizou, êle próprio, esse grupo dos Vingadores das
Trevas, com o único fim de se desembaraçar dos seus mais perigosos adversários!
Marcos Manway abanou lentamente a cabeça.
- Sim, mas para isso, seria preciso que o xerife fosse socorrido.
- Nada mais fácil!
- Que quere dizer ?
- Um dentre nós se encarregará dessa tarefa!
Estas palavras desencadearam imediatamente protestos indignados. Ninguém queria habituar-se à ideia de que o miserável, que acabava de ser desmascarado, pudesse
de novo gozar a liberdade que aproveitaria, decerto, para cometer novos e tenebrosos crimes.
XVIII
A evasão de Simeão Garlett
Catamount conseguiu, no entanto, convencer os seus interlocutores; enquanto eles esperavam imóveis, insistiu:
- Pode acontecer, muito bem, que entre trezentos cavaleiros que me seguiram desde Brownsville, exista um que se mostre menos refractário às actuações de Simeão Garlett
e do seu chefe oculto. Nessas condições encontraremos um homem, que arrastando-se, consiga chegar ao lugar onde o xerife está guardado.
"Nós procederemos de maneira que o prisioneiro se encontre um pouco afastado dos seus agentes. Então, o nosso homem chegará junto dele e dir-lhe-á que um cavalo
o espera, perto daqui, e depois apressar-se-á a tirar-lhe as algemas, e a ajudá-lo a evadir-se. E até lhe entregará os revólveres e o cinto de armas !
- O senhor perdeu a cabeça! interrompeu Marcos Manway.
Mas o ranger, sem se desconcertar pela atitude pouco animadora dos seus vizinhos, prosseguiu :
- Enquanto se favorece, deste modo, a evasão de Simeão Garlett, um cavaleiro esperará dissimulado, muito perto dali, atrás dum arbusto. Esse cavaleiro sou eu! Desde
que o fugitivo se tenha afastado a toda a brida, lançar-me-ei na sua peugada e estou convencido que encontrarei, assim, o meio de apanhar o chefe, porque êle irá
direitinho preveni-lo.
- Somos muito estúpidos! exclamou, então, o director do Farol de Brownsville: Tem razão, é um meio admirável para conhecer, enfim, a verdade! Mas porque há-de partir
só? Poderíamos escolher uma centena de homens para se lançarem no rastro do malandrim.
- Julga, então, que tal aparato de força não despertaria as suspeitas do xerife? Um só homem basta para levar a bom termo esta missão, e sinto-me com envergadura
para a cumprir.
"Não é a primeira vez que empreendo acções desta espécie, e Garlett sentir-se-á tão apressado em pôr entre nós e êle a maior distância possível que não duvidará
da nossa astúcia !
Os Vigilantes aprovaram logo a ideia do ranger, inquietando-se, no entanto, de o deixarem seguir só, tendo apreensões das perigosas consequências da sua decisão;
entretanto sentiram-se mais sossegados, quando o homem de olhos claros lhes recordou que tinha triunfado igualmente sozinho das recentes dificuldades, e que os obstáculos
de toda a espécie não bastaram para o fazer recuar.
Um rápido conselho se seguiu logo a esta discussão.
Mac Sornin, um dos Vigilantes, que participava da conversa, foi designado para deslizar até junto do xerife prisioneiro. Trataria em seguida de favorecer esta evasão,
que devia, assim o esperava Catamount, conduzir, o mais rapidamente possível, ao desfecho desta dramática aventura.
Os Vigilantes instalaram-se, pois, para passar a noite. Uma tal decisão parecia bizarra à maior parte deles, que preferiam muito mais voltar para Brownsville. Foram
colocadas sentinelas nos arredores e os prisioneiros concentrados a pouca distância uns dos outros. Só Simeão Garlett ficou isolado.
A princípio, o xerife pareceu embaraçado, por se ver, assim, separado dos seus auxiliares. Estendido no chão coberto de erva, deixava divagar a sua imaginação. A
recente vitória de Catamount tinha provocado nele uma impressão considerável. Era preciso que o canalha possuísse um sangue-frio a toda a prova para assim desafiar
os seus vencedores. Agora, a partida parecia perdida. Os Vigilantes conduziriam os seus prisioneiros a Brownsville, e no xerife traidor pairavam poucas probabilidades de
escapar ao seu destino.
Passou-se meia hora. Sobre o acampamento o mais absoluto sossego.
Aqui e além um ressonar sonoro se fazia ouvir, provando que os Vigilantes se deixavam vencer por um sono profundo.
"Que ideia esquisita que tiveram em me instalar aqui, resmungou Simeão Garlett."
Por várias vezes o prisioneiro puxou pelas algemas, mas a corrente resistiu, e só conseguiu magoar os punhos. Além de que a presença do guarda fêz compreender ao
miserável que lhe não era possível escapar-se. A vinte passos dali os agentes prisioneiros, tristemente silenciosos, encostavam-se uns aos outros... E um pouco mais
longe, na ourela do acampamento, Garlett divisava uma massa escura ao luar; a brisa nocturna trazia-lhe o cheiro forte e característico dos cavalos.
O xerife mais uma vez meditou na sua impotência, Ah! se ao menos pudesse chegar ali, mesmo algemado, e montar um dos cavalos! Mas a sentinela vigiava encostada à
carabina, e à menor tentativa de fuga, o cativo arriscava-se a ser morto pelo Vigilante, que devia ter ordens severas.
Simeão Garlett matava inutilmente a cabeça, para achar um meio de pregar uma partida a Catamount e aos seus companheiros, quando, de repente, estremeceu. A sentinela,
de pé, a menos de cinco passos, deitou uma vista de olhos à sua volta, como se acabasse de surpreender qualquer coisa de suspeito.
O prisioneiro endireitou-se logo no seu ninho; com o coração apressado, olhou à sua volta, mas nada viu de anormal. Um ligeiro nevoeiro cobria a superfície do terreno
pantanoso, tornando mais baças as sombras das árvores da planície.
O vigia parecia ainda preocupado e a admiração do
xerife transformou-se em espanto, quando viu o guarda passar com a carabina em bandoleira; depois, usando de mil precauções, dirigiu-se deliberadamente para êle.
Simeão Garlett, com o coração aos pulos, esperou, de olhos fechados, simulando um sono profundo.
O Vigilante aproximava-se cada vez mais. A êle se dirigia, não restava dúvida.
O prisioneiro sentiu um estremecimento desagradável percorrer-lhe o corpo. Recordava-se, na verdade, dos morras que a gente de Brownsville soltara contra êle; sem
dúvida, tratar-se-ia dum desses exaltados, que ia proceder à sua execução pura e simples, abatendo-o cobardemente com um tiro.
O miserável continuou, no entanto, a manter-se imóvel. Teve a impressão que o homem estava ali, junto dele, inclinado para o ver dormir... E eis que, de repente,
sentiu uma mão no ombro... Uma voz apenas perceptível murmurou-lhe ao ouvido:
- Xerife, acorde, é um amigo que fala!
Um amigo !... Simeão Garlett sentiu o coração bater-lhe ainda mais apressado. Entreabriu as pálpebras. O indivíduo continuava inclinado sobre êle e observava-o com
insistência.
E a esperança confusa que essas primeiras palavras provocaram no prisioneiro, transformaram-se em profunda alegria, quando ouviu o seu vizinho prosseguir:
- Venho da parte do chefe !
Da parte do chefe! Desta vez, não podia subsistir a menor dúvida. Simeão Garlett endireitou-se e examinou com atenção esse auxiliar inesperado.
- Quem sois? interrogou.
- Sou Mac Sornin, de Brownsville. Esse nome nada dizia ao xerife, todavia sentiu desvanecerem-se as últimas desconfianças, quando o Vigilante prosseguiu:
- Foi Stan Hunter que me preveniu, quando partimos de Brownsville... O seu agente também foi preso, mas teve tempo de me dizer, antes disso, algumas palavras. E
prometi-lhe auxiliá-lo.
- Isso é que é falar... Ande, depressa...
- Sossegue, preparei-lhe um cavalo e armas. Um sorriso de vitória iluminou a face feroz do prisioneiro. A iniciativa desse amigo inesperado, vinha a propósito. Parecia
nada ter abandonado ao acaso. Lançando ao acampamento uma rápida vista de olhos, certificou-se que tudo estava em sossego. Os Vigilantes dormiam a sono solto.
- Mas, os meus agentes? ousou dizer, no entanto, inclinando-se para o homem agachado à sua direita.
- É impossível ocupar-me deles... Já não foi sem custo que consegui ficar de sentinela.
-É justo... uma fuga em conjunto, podia ser-nos funesta; não tardaríamos em ser alcançados e o alarme seria dado logo.
- É por isso, precisamente, que pensei, que antes de tudo, importava libertá-lo.
- E fêz muito bem... Vou pôr o chefe alerta. Não estará já ao corrente de todas estas complicações?
- Não sabe, absolutamente, coisa alguma. Se Simeão Garlett, pudesse ter surpreendido o sorriso furtivo que aflorou, então, aos lábios do seu interlocutor, talvez
suspeitasse que lhe armavam uma cilada, mas o Vigilante reconquistou rapidamente a fleugma, obedecendo à letra as instruções que lhe dera Catamount. O estratagema
obtinha pleno êxito. E as últimas palavras que acabava de trocar com o cativo, demonstravam a Mac Sornin, que Simeão Garlett conduziria o ranger à pista do homem
que desejava surpreender e desmascarar.
- Deixe ver os pulsos, tenho aqui a chave das algemas. O xerife apressou-se a obedecer; esse auxiliar inesperado
tinha pensado em tudo; dentro de momentos, Mac Sornin libertou-o das pulseiras de aço que lhe entravavam, desagradàvelmente os movimentos; em seguida apontando-lhe
uma magnólia próxima:
- Espera-o ali um cavalo e armas. Mas, cautela que as outras sentinelas podem surpreendê-lo e dar o alarme.
Evitando fazer o menor ruído, Simeão Garlett aventurou-se, arrastando-se imediatamente atrás do seu libertador.
As outras quatro sentinelas que Catamount colocara não se mexeram em consequência das ordens recebidas... Em menos de cinco minutos os dois homens rodearam os vultos
estendidos enrolados nas mantas. Os Vigilantes dormiam com as cabeças pousadas nas selas, que lhes serviam de travesseiras. Nenhum se mexeu enquanto o xerife ia
avançando, de gatas.
Uma vez chegados aos limites do acampamento, Mac Sornin e Garlett continuaram a arrastar-se para um maciço de algodoeiros que se desenhava, vagamente, esfumado pelo nevoeiro.
- O cavalo está ali, murmurou o Vigilante, voltando-se para o seu protegido.
Dois minutos depois, os dois homens podiam levantar-se, porque as árvores novas constituíam uma barreira suficiente para os dissimular ante olhares indiscretos.
O xerife parou alguns instantes para tomar fôlego. O seu coração batia apressadamente; por várias vezes temera complicações, mas agora, ao alcançar o cavalo, pronto
à sua isposição, que escarvava com impaciência preso a um algodoeiro, sentia desvanecerem-se as suas últimas apreensões.
- Aí está o animal... Poderá levá-lo duma só carreira, a cinquenta milhas daqui, se preciso fôr.
- O chefe não está, assim, tão longe, objectou Garlett. Que eu saiba, ainda não mudou de residência.
- Não, não mudou, repetiu Mac Sornin. Espera no lugar combinado.
Pronunciando estas palavras, o Vigilante chegara junto do cavalo. O xerife pôde verificar que o animal estava perfeitamente aparelhado; agarrando num objecto que
se ac ava colocado na sela, Mac Sornin entregou-lho, dizendo:
- Aqui estão dois revólveres e o cinturão.
- Muito bem! Com isso estou salvo.
Simeão Garlett, apressou-se a cingir o cinturão e depois examinou um após outro os revólveres, colts, calibre Mas, já o seu companheiro o incitava :
- Depressa, despache-se, não tem tempo a perder!
- Como! objectou o xerife, não me acompanha ?
- Impossível! É preciso que eu ceda o lugar a outros e que os ponha numa pista falsa, logo que o alarme seja dado, o que não deve tardar.
O fugitivo compreendeu o bom senso dessas palavras e não insistiu; estendeu a mão ao seu libertador, que respondeu, logo, ao seu gesto, e enquanto trocavam um vigoroso
aperto de mão, Garlett declarou :
- Salvou-me a vida, meu amigo... Nunca o esquecerei, esteja certo disso... Se, mais tarde, puder, pagar-lhe-ei esta dívida...
- Sabe-se lá?! disse simplesmente o Vigilante que continha, dificilmente, um vivo desejo de rir.
Mac Sornin sabia, efectivamente, que enquanto se despedia do seu interlocutor, Catamount esperava perto dali, montado em Mesquita. Imóvel, dissimulado atrás dum
arbusto, o ranger estava decidido a agir e a manobrar o xerife. Impaciente, durante minutos, profundamente inquieto meditando se tudo se passaria conforme os seus
desejos... Um profundo alívio o acalmou quando reconheceu a curta distância a sombra de dois homens... Então, a sua mão passou acariciadoramente nas narinas de Mesquita:
- Atenção, velho camarada! Temos que nos portar condignamente !
Do seu refúgio, o ranger viu a sombra de Garlett que acabava de saltar, lestamente, para a sela. O xerife, pondo os pés nos estribos, inspeccionou rapidamente os
arredores... O sossego continuava no acampamento para o qual Mac Sornin se afastava, de novo, para retomar as suas funções.
- Adeus e boa fortuna !
Foram as últimas palavras que o xerife ouviu ao seu libertador. Agora só havia que aproveitar o mais depressa possível a treva que ainda durava. Esporeou vigorosamente
o cavalo, que saltou relinchando, depois, partiu a toda a brida pela planície.
Catamount soubera tomar todas as precauções para não ser pressentido por aquele que desejava seguir. Antes de montar, envolveu os cascos de Mesquita com tiras de
pano, para evitar ouvir-se o bater nas pedras. E apenas a sombra do xerife e do seu cavalo se esfumaram através da bruma que flutuava à superfície do solo, seguiu por
seu turno a mesma direcção.
Simeão Garlett, seguia a toda a brida, esporeando sem cessar a montada. Desejoso de se afastar o mais depressa possível dos Vigilantes, dos quais receava a iminente
intervenção, desses adversários que não deixariam de se lançar na sua peugada, desde que a notícia da sua fuga fosse conhecida; o xerife, animava sem parar o cavalo,
lançando à sua retaguarda três rápidos golpes de vista.
Catamount prosseguia no seu caminho, conservando-se a distância suficiente, para não ser pressentido pelo miserável. O luar permitia-lhe distinguir suficientemente
os traços que o cavalo do fugitivo deixava atrás dele. Obstinadamente, o homem de olhos claros seguia, pronto para qualquer eventualidade... Percebia, que longe
de tomar a direcção de Brownsville, onde qualquer demora se lhe tornava evidentemente perigosa, Simeão Garlett corria em direcção da fronteira mexicana, que ficava
a vinte milhas dali.
O ranger, teve, por momentos, uma grande apreensão. Procuraria o fugitivo, sem se importar com o seu chefe, alcançar território mexicano para garantir a sua segurança?
A insistência com que o malandrim se mantinha na mais absoluta reserva a respeito do chefe animava, no entanto, Catamount, de que êle o guiava, sem dúvida alguma,
para o chefe supremo do tenebroso bando.
Além disso, o ranger não ignorava que o Major Morley tinha tomado todas as precauções para tornar mais apertada a vigilância da fronteira. O Rio Grande do Norte
constituía nesse lugar barreira muito difícil de transpor. Todavia a facilidade de uma fuga por mar poderia efectuar-se. Numerosas ilhotas afloravam na foz do grande
rio. Utilizando uma embarcação, os fugitivos poderiam alcançar Bagdá, situado •em território mexicano.
Mas Catamount interrompeu as suas reflexões.
O xerife fazia, com efeito, executar uma volta ao seu cavalo; abandonando a direcção sul, que desde o começo
tomara, obliquava agora para leste, isto é, para o mar ou para a foz do Rio Grande.
"Atenção, é preciso jogá-las duras!" monologou o ranger.
A galopada prosseguiu, durante um quarto de hora, sem que Simeão Garlett suspeitasse um só momento que era assim obstinadamente seguido. Passando por um caminho
que serpenteava na região pantanosa, o fugitivo continuava a afastar-se a bom andamento, parecendo querer evitar os pequenos aglomerados da região, e em breve Catamount,
que o não perdia de vista, verificou que êle picava direito a uma casa de modesta aparência, situada no centro da planície, a cerca de cinco milhas de distância
do litoral.
"Aproximar-nos-emos do fim?" conjecturou o homem de olhos claros.
Catamount abrandou um pouco o andamento do seu cavalo, porque Garlett meteu o cavalo a passo. O nevoeiro dissipara-se quási por completo e o perfil claro do cavalo
aparecia, distintamente, ao luar. O cavaleiro aproximava-se cada vez mais da casa; quando chegou em frente à porta saltou, com ligeireza, abaixo da sela.
O ranger tinha parado Mesquita. Um souto de carvalheiras, que se erguia à esquerda do caminho, permitiu-lhe camuflar-se.
Inclinado na sela, distinguiu, confusamente, o xerife, que depois de bater à porta entrou na casa. Uma luz furtiva se desenhou, no entreabrir da porta, depois tudo
mergulhou, em silêncio. Então, sem esperar mais nada, Catamount desmontou por sua vez, e depois de prender Mesquita a um arbusto, empunhou o revólver; a seguir,
apressadamente, dirigiu-se para a vivenda onde Garlett acabava de desaparecer. Avançando com cuidado ao longo dos arbustos que marginavam o caminho, aventurou-se
até às proximidades da habitação.
Os arredores estavam desertos, apenas o cavalo que levara o xerife esperava em frente da casa.
Continuando sem ruído a avançar, Catamount chegou até à fachada. As persianas das janelas estavam fechadas,
mas os raios de luz que se viam através duma delas, fizeram compreender ao ranger que aquela sala estava ocupada. Aproximou-se na ponta dos pés e depois, muito levemente,
espreitou pela frincha, e imediatamente pôde verificar que dois homens se encontravam no refúgio.
O primeiro, estafado pela carreira desorientada que acabava de fazer, era Simeão Garlett; o segundo, Catamount reconheceu-o imediatamente por o ter encontrado anteriormente
na redacção do Farol de Brownsville. Tratava-se, com efeito, de Ben Stockton.
XIX
A partida
- Então, Garlett, está tudo pronto? Conseguiu fazer falar Manway? Acedeu a entregar-lhe os documentos?
Com estas palavras, acolheu Ben Stockton o xerife, que acabava de entrar na casa isolada onde êle já o esperava há largo tempo. Mas o recém-chegado, esbaforido,
contentou-se apenas em responder, atirando-se para uma cadeira:
- Agora, já não se trata de Manway! Está tudo perdido! Esse diabo do ranger conseguiu escapar à voracidade dos tubarões. Agora, comanda o ataque e todo o meu grupo
está em seu poder.
O aventureiro julgou por momentos que o seu visitante tinha enlouquecido; grossas gotas de suor corriam ao longo da sua face empoeirada e tinha os olhos esgaseados
dum homem que acaba de experimentar violentas emoções. E enquanto repousava ofegante, e passava um lenço sujo na testa úmida, Stockton disse-lhe:
- Vejamos, isso não é possível, Garlett, trata-se com certeza duma brincadeira de mau gosto... e de muito mau gosto, asseguro-lhe!
- Sr. Stockton, replicou logo o representante da autoridade, acredite que não tenho vontade nenhuma, na verdade, de brincar neste momento. Se tem amor à sua pele,
faria bem em pôr-se ao fresco o mais depressa possível, porque, dum momento para outro, esse Catamount e os cavaleiros de Brownsville, que constituíram sob o seu
comando um corpo de Vigilantes, podem, muito bem, alcançar nos.., Então, não responderei por nada.
- Explique-se, Garlett, peço-lhe.
Ben Stockton pousara as duas mãos nos ombros do seu acólito e sacudia-o com força.
Então, com voz açodada, o fugitivo apressou-se a relatar a cena que acabava de dar-se na zona das magnólias: o incêndio e a pilhagem do Farol, o rapto de Marcos
Manway e Carolina, depois a intervenção de Catamount e dos seus auxiliares, no próprio momento em que os Vingadores das Trevas se preparavam para enforcar os dois prisioneiros!
Uma mudança rápida se operava na fisionomia do aventureiro, enquanto o xerife ia falando. Ainda há pouco hesitava em acreditar na derrocada da situação, tanto essa
intervenção lhe parecia ruinosa; mas, agora, media toda a gravidade do perigo que o ameaçava.
- Eu nada disse, e os outros tão-pouco! acabou o xerife; êsses mariolas ter-me-iam torturado se soubessem que conseguiam fazer-me denunciar o seu refúgio. Catamount
e os seus acólitos ignoram absolutamente que o senhor me esperava, e que nos juntámos neste local perdido; mas isso não obsta a que cada segundo seja precioso...
A menor perda de tempo pode ser-nos fatal. É preciso agir, senão estamos perdidos.
- Ainda não estamos perdidos !
Ben Stockton pronunciara estas palavras esboçando um sorriso furtivo, e essa atitude confiante pareceu confundir um pouco o fugitivo, que julgava, agora, tudo comprometido,
Ia falar quando o aventureiro o deteve com um gesto:
- Eu não sou nenhum imbecil, Garlett, declarou; há já algum tempo que sabia que a tempestade se fazia sentir; segundo certos relatórios que recebia, não ignorava
que os rangers começavam a ocupar-se importunamente dos meus negócios !... Esses diabos não acederam em aceitar um entendimento, como nós fizemos, e devo acrescentar
que nada tem a lamentar em me ter servido; sem o meu apoio e a minha influência, nunca teria sido eleito... Foi preciso que
lhe desse uma ajuda séria... Sem falar, bem entendido, dos dólares e cheques que lhe fiz embolsar...
- Peço-lhe que não falemos agora disso, interrompeu o representante da autoridade, a quem tais reminiscências pareciam incomodar... Neste instante corremos perigo
tremendo. Que conta fazer?
- É fácil de compreender; por agora, é necessário refugiarmo-nos em território mexicano. Todavia, devemos pensar que os nossos adversários devem ter tomado as suas
precauções ; se nos dispomos a transpor o Rio Grande, corremos o risco de nos chocar com os grupos dos rangers, que nos impedirão a passagem.
O xerife abanou a cabeça, mas o seu interlocutor insistiu:
- Para vilão, vilão e meio, xerife! Se a partida por terra apresenta dificuldades insolúveis, o mesmo se não dá pela via marítima. A Sylphide fundeia actualmente
nas vizinhanças do Cabo Isabel!
A Sylphide era um brigue-galeota que Ben Stocktou utilizava para exercer o comércio de algodão e isso permitia-lhe passar, em caso de necessidade, por honrado comerciante.
- Não preveni ninguém, a fim de não despertar a atenção dos nossos inimigos. Um ajuntamento importante teria contrariado os meus projectos de fuga. E depois eu contava
com os Vingadores. Visto que caíram nas mãos dos Vigilantes, nada podemos fazer para os tirar de embaraços... Êles se arranjarão como puderem. Seremos os dois últimos
a escorregar por entre os dedos desses cavalheiros!
E sem esperar que o seu visitante lhe fizesse a menor objecção, Ben Stockton, insensível à sorte que esperava aquêles que eram seus cúmplices, prosseguiu:
- Vou buscar o meu cavalo que está na cavalariça e seguiremos ambos para a costa. Em menos de dez minutos estamos lá. Calculo bem que essa gente de Brownsvile e
esse maldito ranger não terão tempo de nos alcançar!
O xerife teve um gesto evasivo; desde o prosseguimento da conversa, estava inquieto, sem parar num lugar,
sempre com o ouvido atento ao menor ruído, mas o silêncio persistia nos arredores.
- O capitão Percy espera-nos, pronto para qualquer eventualidade; na Enseada Verde está amarrado um escaler. Não me acusará ter ficado inactivo perante os acontecimentos;
apesar de esperar um êxito completo, tinha-me preparado para enfrentar o pior !
A calma que o aventureiro manifestava, em tal emergência desorientava Simeão Garlett, que estava bem longe de se sentir tão seguro. Ben Stockton apagou o candeeiro
de petróleo que iluminava a sala, tirou dum cabide próximo a carabina e colocou-a à bandoleira, e depois, pondo o chapéu de abas largas, dirigiu-se para a porta
de entrada.
Os dois homens aventuraram-se no exterior. Simeão Garlett não estava sossegado; dirigiu-se ao lugar onde deixara o cavalo, e depois, enquanto o companheiro foi buscar
a sua montada à cavalariça, observou com atenção os arredores.
Catamount estava a cerca de quinze passos, mas o ranger achava-se inteiramente camuflado na sombra, de modo que o aventureiro nem sequer suspeitou da sua presença;
Ben Stockton voltou, rapidamente, trazendo pela rédea um soberbo cavalo preto.
-Está pronto, Garlett? preguntou o aventureiro,
- Certamente!... É preciso partir o mais depressa possível, disse o xerife que já estava montado.
- Não há cavaleiro nenhum à vista?
- Nem um só, mas não deverão, decerto, tardar !
- Pouco importa ! temos agora o tempo necessário para chegar à Enseada Verde, muito antes desses mariolas. E quando tivermos embarcado no escaler, nada mais teremos
a recear! Por muito numerosos-que sejam, não conseguirão apanhar a Sytphide !
Os dois cavaleiros afastaram-se, a par um do outro, a todo o galope. Apenas os seus vultos desapareceram na noite, em direcção ao mar, já Catamount saíra da escuridão
que o protegia há algum tempo.
O ranger não tentara prender os dois fugitivos, no entanto ser-lhe-ia fácil intervir; conservando sempre o revólver
na mão, tinha provavelmente o seu plano, porque um sorriso furtivo lhe iluminou o olhar.
"O último a rir, é o que melhor se ri", murmurou entre dentes.
Depois, com passo rápido, o homem de olhos claros voltou, apressadamente, ao lugar onde deixara preso Mesquita.
- Agora vai jogar-se a partida decisiva, velho camarada ! Se o major tomou as precauções necessárias, Ben Stockton nunca mais terá vagar para exercer a sua criminosa
tirania! Momentos depois o ranger galopava na mesma direcção que os fugitivos levavam.
Ainda há pouco, com o ouvido à escuta, tinha surpreendido algumas frases trocadas entre os dois cúmplices; "ia" não teve grande trabalho em adivinhar as suas intenções.
Se a atitude calma de Ben Stockton era mais difícil de decifrar, o mesmo não acontecia com o xerife, que acompanhava as palavras com gestos largos, e cuja face iluminada
em cheio pela luz do candeeiro traía as mais vivas apreensões.
Por isso, quando os dois. cúmplices saíram, o ranger não duvidava do destino que levavam. O aventureiro evadia-se; recusando aceitar a luta e socorrer aqueles que
até aqui se tinham exposto por êle, ia procurar na fuga, a salvação. A direcção que tomava, levava a crer que pretendia escapar-se a bordo dum navio.
Catamount afastou-se, pois, seguindo as duplas pegadas que os fugitivos deixavam atrás deles.
Não procurava ganhar terreno, apesar do avanço que levavam actualmente; o homem de olhos claros tinha a convicção que não poderiam ir longe.
O ranger atingiu o litoral, em menos de dez minutos. O mar vinha morrer na praia baixa e arenosa, onde os rochedos marcavam, aqui e além, manchas escuras. Um vento
acariciador soprava do largo, todavia Catamount não se importava com o cenário que o rodeava, nem tão pouco se interessava em observar a extremidade de Padre Island
que se destacava nitidamente, a meia milha, para a sua esquerda.
Êste lugar recordava ao ranger recentes e perigosas aventuras. A Laguna Madre não estava longe. Além escapara à voracidade dos tubarões, e a humilde choupana de
Joé e de sua família, onde passara longas horas mergulhado em perfeita inconsciência, erguia-se a pouca distância.
No entanto toda a atenção do cavaleiro concentrava-se nesse momento nas marcas das ferraduras dos cavalos de Ben Stockton e do xerife. Esses traços desenhavam-se
nitidamente na areia úmida, e os dois fugitivos, depois de terem parado alguns instantes, retomaram o caminho, a passo, em direcção à margem. Imediatamente Catamount
parou Mesquita, e o seu olhar penetrante acabava de distinguir duas sombras paradas a pouca distância da praia. Os dois cavalos estavam ali; os seus donos não os
quiseram levar consigo.
Quási logo, Catamount distinguiu a forma escura dum escaler, que se afastava rapidamente duma pequena enseada situada a algumas dezenas de metros do lugar onde estava
... Ben Stockton e Garlett haviam embarcado sob o impulso de quatro vigorosos remadores e agora, ganhavam o largo.
A cerca de quinhentas braças da margem o perfil dum brigue-galeota desenhava-se confusamente no céu, onde apareciam os primeiros alvores da manhã. O navio balouçava
suavemente com as luzes apagadas, nas ondas calmas. Era para êle, que os remadores dirigiam agora o escaler.
- Por muito que se apressem, murmurou o ranger, não terão para muito tempo !...
O ranger, parecendo muito pouco impressionado com esta fuga, desmontou, e depois deu alguns passos na praia; as vagas vinham quebrar-se a seus pés. No céu extinguiam-se
as últimas estrelas; mas Catamount desprezando o esplêndido cenário que se desenrolava ante" os seus olhos, perscrutou atentamente o horizonte, e uma exclamação
de alegria se lhe escapou, quando descobriu à sua direita um ponto negro, que aparecia sobre as ondas, na direcção da fronteira mexicana.
- Deus seja louvado! murmurou... O major está lá. Agora, vamos dar o sinal de alarme.
Catamount apressou-se então a procurar mato seco e pedaços de madeira. Em pouco tempo, fêz um montão sofrível, e a seguir, pegando no isqueiro, acendeu a improvisada
fogueira. A chama fêz torcer os ramitos, depois elevou-se, provocando uma nuvem espessa de fumo que o vento repeliu em direcção a terra.
O homem de olhos claros inclinado durante momentos activou o fogo; depois, quando viu que as chamas se elevavam a altura suficiente, parou, tirou o chapéu, e enxugou
o suor que lhe corria pela face enérgica.
- A minha missão está cumprida... Compete agora aos outros cumprir a sua.
A embarcação acostou ao brigue e os seus ocupantes apressavam-se a agarrar os cabos e as escadas de corda que lhes lançavam de bordo, para subir para o navio.
Com todo o sossego o ranger, que vira um rochedo próximo, sentou-se, e depois, acendendo um cigarro, pôs-se a fumar e esperou tranquilamente.
Todavia um observador atento que ali se encontrasse, teria verificado que Catamount, longe de observar a embarcação a bordo da qual os fugitivos tomaram lugar, fixava
com insistência o ponto negro que aumentava, na direcção da costa mexicana... Era um outro navio, um guarda-costas, que começava a distinguir-se. Aproximava-se com
rapidez; os marinheiros do brigue também o tinham descoberto; uma viva efervescência reinava nesse momento, na coberta do brigue.
- Um ruido que dominava o murmúrio da ressaca, fêz voltar Catamount; à confusa claridade do romper do dia, viu um pequeno grupo de cavaleiros que se aproximavam
a todo o galope em direcção à praia.
A primeira vista o ranger reconheceu logo uns trinta Vigilantes de Brownsvile; à frente galopavam Mac Sornin, Marcos Manway e Nat Bender; desde que reconheceram
Catamount só pararam junto da fogueira que acabava de extinguir-se provocando espessa fumarada.
- Então?! interrogou logo Nat Bender, voltando-se para o homem de olhos claros, conseguiu alcançá-los?
- Veja, replicou simplesmente o ranger.
"Acabam de embarcar abordo daquele brigue, deixando aqui os cavalos.
- Mas, então, vão escapar-se-nos ?
- É provável! A embarcação vai levantar ferro e partir dum momento para outro.
O sossego com que Catamount pronunciava essas palavras, espantava, na verdade, os recém-vindos.
- Era Ben Stockton a quem o xerife se vinha juntar ? ousou preguntar Mac Sornin.
- Exactamente! Tratava-se, é certo, de Ben Stockton! Os dois malandros eram cúmplices. Todas as nossas suspeitas tinham fundamento.
- Mas, então, podia ter preso esses patifes?
- Podia!
- E por que o não fêz ?
- Simplesmente porque prefiro que a caçada seja ainda mais importante! Capturámos há pouco os Vingadores das Trevas, e agora trata-se de apanhar o capitão e a tripulação
que presta tão dedicado concurso aos nossos dois fugitivos!
- No entanto, objectou Nat Bender, que ainda se não refizera da surpresa, não supõe, com certeza, que com os nossos cavalos os poderemos agarrar! Eles escapam-se-nos!
- Não por muito tempo!
O ranger estendeu a mão e apontou aos cavaleiros, que se agrupavam à sua volta, o perfil da segunda embarcação que aumentava rapidamente de volume... O brigue-galeota
acabava de se fazer ao mar; mas o outro navio picava, rapidamente, sobre êle; em breve os vizinhos de Catamount puderam examiná-lo bem:
- Um guarda-costas! exclamou Nat Bender.
- Exactamente, meu rapaz, e creio que poderá, sem custo, impedir toda a retirada ao brigue e aos seus ocupantes. Podem verificar que não permitirá ao navio aventurar-se
nas águas mexicanas.
Os olhares do rapaz e dos Vigilantes convergiam agora para o navio de guerra. Nat Bender não tentava pronunciar uma palavra. Há uma hora, desde que Mac Sornin anunciara
a fuga do xerife, o noivo de Carolina tinha conduzido o pequeno grupo; Marcos Manway juntara-se-lhe, sem entravar as evoluções de Catamount, o qual tinha recomendado
que o deixassem só seguir a peugada do fugitivo, a fim de melhor poder desmascarar o chefe; tinham pois esperado um momento, e a seguir, incapazes de se conterem
por mais tempo, deixaram a rapariga à guarda de Ezequiel e de Benny, tomando a pista do ranger.
O grupo não teve grande trabalho em seguir os traços de Mesquita, e assim chegaram à casa isolada onde Simeão Garlett fora encontrar Ben Stockton; depois de rápidas
pesquisas no interior do refúgio, que lhes não permitiu descobrir grande coisa, os cavaleiros seguiram o seu caminho em direcção ao mar. Intrigados pela presença
da fogueira acesa por Catamount, apressaram-se a juntar-se ao ranger, que esperava, isolado, na praia.
Desde então as discussões que travaram interromperam-se imediatamente. A atenção geral concentrava-se nas duas embarcações.
O brigue com todas as velas desfraldadas, favorecido por um vento favorável, tentava, visivelmente, ganhar o largo; todavia, a aparição do guarda-costas, fazia-o
desviar sensivelmente do caminho que a princípio se dispunha a seguir, evitando picar para a costa mexicana que se distinguia para além da foz do Rio Grande. Passaram-se
minutos. O brigue abrandou ainda o seu andamento. A chegada do navio de guerra embaraçava profundamente a sua tripulação e mais inquieta ficou, quando, perturbando
o silêncio que reinava há momentos, uma detonação surda se ouviu, e fêz voar nuvens de aves marinhas.
-O tiro de aviso! disse simplesmente Catamount. O guarda-costas intima o brigue a parar!
XX
O guarda-costas "Carolina"
Enquanto a embarcação em que tomaram lugar se afastava da Enseada Verde, Ben Stockton e Garlett viram um cavaleiro que picava a todo o galope para a praia onde tinham
abandonado os cavalos. O xerife carregou as sobrancelhas e com um gesto maquinal empunhou um dos revólveres.
- Maldição! resmungou. É êle!... É ainda o ranger!
- Era tempo! exclamou o aventureiro. Cinco minutos mais tarde, impedia-nos de embarcar!
Simeão Garlett ia a descarregar a arma na direcção do recém-chegado, quando Ben Stockton lhe agarrou na mão.
- Para que serve gastar cartuchos, meu velho! Bem vê que o não pode atingir! Está agora muito longe de nós!
E como o representante da autoridade mastigasse uma praga surda, Ben Stockton insistiu :
- Agora, por muito fogoso que seja o alazão desse mariola, não poderia impedir que alcancemos a costa mexicana !...
Simeão Garlett fêz uma careta. Apesar de parecer, dora-avant;:, que Catamount não poderia causar o menor embaraço, a sua presença nesse lugar, não lhe pareceu de
bom augúrio. Ficava ciente que o homem de olhos claros conseguira encontrar-lhes a pista. Longe de partilhar da franca serenidade do companheiro, sentia-se obcecado,
uma vez mais, por graves apreensões.
- Faz mal em sorrir, declarou. Tenho a impressão que, com esse cão, ainda não está tudo acabado... Veja... dir-se-ia que acende uma fogueira?
A máscara de Ben Stockton sombreou-se. Também êle seguia as idas e vindas do ranger.
- Parece que quere fazer um sinal! ousou dizer, logo.
- Não há dúvida alguma... Vai chamar todos os cavaleiros de Brownsville.
Os dois homens interromperam a conversa.
A embarcação acabava, efectivamente, de acostar à Syl-phide. Deixando, momentaneamente, de pensar em Catamount, os fugitivos agarraram as escadas de corda que lhes
lançaram de bordo; depois subiram para a amurada, e imediatamente punhos vigorosos os agarraram pela gola, içando-os para bordo.
Estavam ali quinze marinheiros e no meio deles um homem pequeno com um boné de galões de ouro.
- Bom-dia, Capitão Percy! gritou, logo, Ben Stockton, dirigindo-se ao homem com a mão estendida.
- Seja bem-vindo, patrão, replicou o marinheiro, agarrando a mão do passageiro e apertando-a efusivamente. Era tempo que embarcasse; começávamos a recear que tivesse
havido borbulha!
Ben Stockton sorriu; depois, apontando para o grupo dos cavaleiros que, agora, chegavam à praia, e se agrupavam à volta do ranger:
- Creio que nada receia daqueles mariolas?
- Não se trata, agora, desses mariolas, replicou o capitão. Há já algum tempo que o guarda-costas Carolina voga ao largo... Dir-se-á que procura atacar-nos.
A fisionomia do aventureiro sombreou-se logo com esta declaração. Imediatamente percebeu, pelo silêncio que reinava na coberta, que os homens da tripulação partilhavam
dos receios do capitão, e ainda mais apreensivo ficou, quando Percy, sem sequer dar atenção à presença do xerife, se dirigiu à amurada; depois, apontando para um
ponto que se destacava ao largo, a pouca distância da costa mexicana:
- Veja, patrão, ainda ali está essa maldita casca de noz ! Creio bem que se prepara para nos dar que fazer.
- Porque tantas inquietações? Não tem os seus papéis em regra desde que aparelhou em Galveston ?
- Certamente, estavam regularizados, respondeu o marinheiro, mas há já cinco dias e cinco noites que fundeámos ao largo; a insistência com que ficámos aqui, a pouca
distância da costa e de Padre Island, pode ter despertado a atenção, tanto mais que o lugar presta-se muito pouco a um tal estacionamento... A tripulação começava
a sofrer duma neurastenia muito grave... Veja, quem são os nossos companheiros? Há-de convir, que é bastante desanimador!
O capitão inclinou-se e mostrou ao aventureiro numerosas formas alongadas, que passavam, traçando longos sulcos na superfície do mar.
- Toda esta zona está infestada de tubarões! Nem mesmo nos é permitido fazer uma-aguada.,. Nestas condições. ..
-Navio a bombordo!
Estas palavras gritadas pelo homem de vigia, fizeram imediatamente endireitar Percy e os seus companheiros; e logo depois Ben Stockton ouviu o capitão soltar uma
praga violenta :
- Não lho dizia ?é precisamente êle... Eéa nós, directamente, que se dirige.
Percy estendeu o seu óculo a Ben Stockton, que examinou o navio, e imediatamente o aventureiro viu que do guarda-costas Carolina, que arvorava as cores americanas,
faziam sinais ao brigue.
-- Intima-nos a parar! resmungou Percy.
- Nem por sombras!... É preciso passar a todo o custo e alcançar as águas mexicanas.
Executando uma hábil manobra, parece que poderemos consegui-lo, embora nos mandem alguns tiros.
O capitão abanou, lentamente, a cabeça, mas depressa compreendeu que a mínima indecisão, podia comprometer irremediavelmente o seu navio; tomando o porta-voz, gritou
- Larguem todo o pano!... Proa a leste!...
Proa a leste! Era o largo que o marinheiro se resolveu ganhar, evitando, no momento, seguir para a costa mexicana, distante, apenas, algumas milhas.
Uma efervescência profunda reinava na ponte do veleiro. Sem se importar com os sinais que o guarda-costas multiplicava, o brigue afastou-se, em breve; mas apenas
acabava de transpor uma pequena distância, um tiro de aviso partiu do Carolina.
A granada foi perder-se nas ondas, fazendo repuxar a água a cerca de cinquenta brecas do navio; todavia sem procurar sequer dar o sinal que receberam a ordem, os
marinheiros continuaram a manobrar.
- Proa a leste! repetiu com força o capitão.
Um segundo tiro de canhão se ouviu, e desta vez o projéctil cortou a meio o mastro grande que tombou com ruído na ponte, ferindo três homens da tripulação.
Imediatamente a atitude dos marinheiros se modificou; apesar das ordens repetidas de Percy, interromperam a manobra.
- Vamos, depressa, cães! Despachem-se.
- É inútil!... Estamos perdidos... Não lucramos nada em ser enviados para o fundo do mar!
Uma terceira detonação troou. O tiro do Carolina tornava-se cada vez mais preciso; a granada acabava de penetrar um pouco acima da linha de flutuação... O brigue
tremeu em todos os seus fundamentos.
- Depressa! Façam sinal que paramos!
- Em vão Ben Stockton tentou convencer os marinheiros da Sylphide e animá-los à resistência, mas os homens do capitão Percy não deram ouvidos aos seus apelos.
- Que quere que façamos ? objectou Percy, compreendendo que êle dispendia energia em pura perda... Oguarda-costas está admiravelmente armado. Em poucos minutos o
assunto está regularizado! Resistir seria loucura!
O aventureiro cerrou, furiosamente, os punhos.
- Julgava que me seria dedicado até à morte, Percy, resmungou.
- Até à morte, certamente, replicou o marinheiro, mas com a condição que essa morte lhe pudesse ser útil Neste momento, não sei em que o nosso sacrifício lhe pudesse
servir. Não poderia modificar-lhe a situação. A única coisa que podemos fazer, é lançar ao mar os escaleres e alcançar a margem a toda a pressa.
Ben Stockton fèz uma careta, Via, na verdade, os cavaleiros de Brownsville, agrupados à volta de Catamount, seguindo, atentamente, as evoluções dos dois barcos.
Abandonar o brigue, para tentar desembarcar, era cair de Scylla em Caribdes.
- Desta vez tudo acabou, murmurou surdamente, não podemos escapar.
Simeão Garlett que estava encostado à amurada, à direita do aventureiro, surpreendeu-lhe a extrema palidez do rosto. Também êie media toda a gravidade da situação.
Ben Stockton que julgava ter previsto tudo, e que esperava pôr-se rapidamente fora de perigo, certo da cumplicidade das autoridades, via todos os seus planos por
terra, em virtude da intervenção dos rangers,
O Sytphide de quem esperava a salvação, que lhe permitiria alcançar o México, arriscava-se a ser metido no fundo. E a atitude dos marinheiros demonstrava que não
estavam para sujeitar-se a um sacrifício inútil.
- Então, está entendido, que se rende sem condições? ousou dizer Ben Stockton fazendo uma careta hedionda,.. Sabem, no entanto, que a prisão os espera a quási todos.
- Apesar de tudo, preferimos a prisão aos tubarões.
O imediato a que acabava de dar essa resposta, apontava para os esqualos que continuavam a sulcar as ondas à volta do brigue ameaçado. Já o guarda-costas, muito
perto do navio e que o continha agora em respeito sob a ameaça dos seus canhões, parava; um escaler tripulado por uma dúzia de homens armados, dirigiu-se para o
Sylphide.
- Dentro de instantes, estarão aqui, balbuciou Simeão Garlett, espavorido, voltando-se para o aventureiro.
Ben Stockton imobiiizou-se com os dentes cerrados. Seguro de não encontrar à sua volta auxílios, nos quais,
outrora, fundara tantas esperanças, o miserável encarava a situação. Até aqui, apesar dos ataques enérgicos dos seus ferozes adversários, tinha conseguido evitar
ser desmascarado... Com o apoio de Simeão Garlett e dos seus agentes, pudera enganar a justiça, afastando as acusações que sobre êle pesavam, e assegurar-se, à força
de dinheiro, da consideração geral.
Tudo parecia caminhar à medida dos seus desejos de aventureiro se Marcos Manway não tivesse levantado, tão corajosamente, a campanha, que o punha em cheque e denunciava
o escândalo. Apenas o facto do director do Farol, afirmar que possuía provas iniludíveis da infâmia de Ben Stockton, exasperou o miserável. Por todos os meios tentou
abortar a campanha anunciada pelo seu corajoso adversário.
Marcos Manway recusara deixar-se subornar; Ben Stockton pensou em atemorizá-lo, e depois em suprimi-lo. Confiou a Simeão Garlett e aos seus agentes a missão de afastar
o perigo das importunas revelações. Largamente pagos, constituíram a sangrenta organização dos Vingadores das Trevas. Esperavam que em presença dessa ameaça, e sobretudo
em frente do perigo da morte, que faziam pesar sobre a filha querida, o director do Farol, cujas instalações foram incendiadas, cederia e consentiria em entregar
ao aventureiro os documentos comprometedores... Sabe-se com que energia Marcos Manway recusou capitular sob as piores ameaças... E Ben Stockton, que esperava na
vivenda isolada que o xerife e os seus auxiliares lhe trouxessem os prisioneiros, depois de ter obtido a promessa formal que nada mais, dora-avante, seria empreendido
para destruir a sua autoridade, tinha visto chegar o xerife só e fugitivo, desmascarado por esse mesmo Catamount, que julgava ter sido suprimido na emboscada da
Laguna Madre.
Esses reveses, que acabava de sofrer, e que lhe não era possível dissimular, constituíam um golpe decisivo para Ben Stockton. Dentro de instantes, enquanto se aproximava
o escaler do guarda-costas, o miserável entreviu o destino que lhe estava reservado. Dentro em pouco a sua prisão seria
um facto. Marcos, Manway, triunfante, daria publicidade, às claras, das provas da sua infâmia.
Seria para êle a morte a breve prazo, depois dos sensacionais debates no pretório.
- Atenção !... Acostam !
Bem Stockton endireitou-se. Simeão Garlett, que esperava ofegante, junto dele, acabava de lhe tocar no cotovelo. O xerife via aproximar, também, o castigo; estava
desfigurado, e um suor frio lhe inundava a testa.
O capitão Percy e os seus marinheiros não esboçaram o menor gesto de resistência; resignados, lançaram os cabos e escadas aos recém-chegados. E o primeiro homem
de face austera, que pôs pé no tombadilho, disse:
- Sou o major Morley, chefe do corpo de rangers. Venho proceder à prisão de Ben Stockton, acusado de assassínio e infâmia !
O capitão apontou para os dois homens que estavam imóveis junto da amurada. Então o major, seguido imediatamente por seis rangers armados de revólver, avançou para
o lugar em que Ben Stockton esperava com o seu cúmplice.
- É comigo que deseja falar ?
Saindo da excitação que se apoderara dele, o aventureiro voltava-se. Tentava sorrir, enquanto Simeão Garlett se mantinha apoiado à amurada, lívido, incapaz de reagir.
- Em nome da lei, está preso, Ben Stockton!
Com um gesto, o major Morley ia dar ordem aos seus auxiliares para deitar a mão ao miserável, quando no momento em que os seus adversários se aproximavam de Ben
Stockton, soou uma detonação. Durante instantes, o aventureiro ficou de pé, com o rosto contraído; depois, caiu pesadamente para a frente. Na sua mão crispada, apertava,
ainda, um colt fumegante. Recusando a todo o custo, render-se, Ben Stockton acabava de se suicidar!
- Não há nada a fazer!... Tudo acabou !
Um dos rangers, que se ajoelhara sobre o corpo, pôde verificar que a morte fora fulminante. Um leve fio de sangue corria à altura do coração, ao longo da sobrecasaca
preta que o patife vestia.
Simeão Garlett nem por sombras quis imitar o exemplo do seu chefe; deixou-se prender sem opor a menor resistência. O capitão Percy e a tripulação, sob a vigilância
do guarda-costas, que navegava na esteira do brigue, tiveram que alcançar a toda a pressa Galveston, onde deviam ser internados esperando o julgamento.
O caso Ben Stockton teve em todo o Texas uma enorme repercussão. Marcos Manway publicou no Farol, que reapareceu, como a Fénix das próprias cinzas, todos os documentos
que tinha conseguido obter de alguns agentes e vítimas do aventureiro. Tais documentos bastavam para estabelecer a responsabilidade esmagadora do miserável em muitos
negócios escuros.
- Quando o bando de Ben Stockton começou a ser julgado, muitos acusados se comprimiam no banco dos réus. Primeiro, Simeão Garlett e os seus agentes. O caso desses
patifes, era tanto mais grave, pois todos tinham prestado juramento para assegurar a salvaguarda dos cidadãos de Brownsville.
Edificantes depoimentos dos prisioneiros bastaram para estabelecer a cumplicidade de Ben Stockton com o xerife, que era o seu agente dócil, enquanto os auxiliares
não hesitavam constituir-se seus guarda-costas.
Entre as testemunhas que desfilaram, e cujas declarações constituíram acusações esmagadoras a respeito dos acusados, a de Catamount foi particularmente admirada.
O ranger podia orgulhar-se, com justo motivo, de ter, pela sua coragem, tenacidade e energia, dado um golpe mortal na sinistra associação. Só êle conseguira, o que
muitos, antes, se tinham mostrado incapazes de fazer.
Vindo a Brownsville por ordem do seu chefe, o major Morley, que, em consequência de queixas repetidas, se tinha resolvido a ocupar directamente de Ben Stockton e
do papel tenebroso que o aventureiro tentava representar no distrito de Brownsville, o homem de olhos claros tinha tido primeiro ocasião de socorrer Marcos Manway,
que os cavaleiros do capuz procuravam fazer devorar pelos crocodilos. Desde então, os acontecimentos tinham-se sucedido com dramática
rapidez, até ao momento em que o ranger, depois de ter abortado a tentativa dos agentes, disfarçados em Vingadores das Trevas, se lançara na peugada do xerife, tão
oportunamente libertado!
O veredictum foi severo: Simeão Garlett, Pedro Zopilote e Stan Hunter, convictos autores de vários assassínios, foram condenados à pena última, e os seus acólitos
acabaram na prisão a sua existência.
Por outro lado, numerosos políticos se encontravam comprometidos pela revelação dos culpados...
O público pôde explicar, então, como Ben Stockton tinha conseguido, mediante suborno, assegurar a sua supremacia numa vasta região, onde reinava como senhor absoluto,
despedaçando implacàvelmente os temerários que ousavam atravessar-se no seu caminho.
O caso dos Vingadores das Trevas foi fatal à Lanterna do Texas que cessou subitamente a sua publicação; pelo contrário o Farol de Brownsville conheceu tiragens que
o director jamais ousara esperar. O jornal tem gozado duma importância considerável; Nat Bender, desposou Carolina, e é feliz, em breve deve suceder a seu sogro,
que aspira a uma reforma bem ganha. Ezequiel e Benny subiram de posto... Quanto ao lugar de xerife, foi confiado a um homem seguro, que protegerá com toda a sua
energia a boa gente da pequena cidade contra as tentativas dos bandidos de qualquer espécie.
No entanto, por mais profunda que seja a paz que goze, a boa gente de Brownsville, sentindo um imenso reconhecimento, pensa por vezes no homem de olhos claros, cuja
actividade lhes valeu para pôr termo às suas desditas. Muitas vezes esperaram poder homenagear Catamount; mas, depois de ter alcançado a vitória, o ranger apressou-se
em desaparecer.
Brownsville voltara ao sossego de outros tempos; mas quantas regiões vizinhas da fronteira do Texas estavam ainda perturbadas e necessitavam da sua vigilância e
energia a cada momento?
Uma vez, soube-se, de repente, e por acaso, na região, que Catamount tinha passado em Padre Island; fiel à sua
promessa, o ranger fora visitar Joe, o humilde pescador que lhe salvara a vida, no momento em que só, e desarmado, lutava desesperadamente contra os tubarões da
Laguna Madre. Mas foi, em vão, que se tentou encontrar o homem de olhos claros. Em Del-Rio, em El-Paso e no Presídio do Norte, em todos os postos da fronteira, ninguém
sabia, exactamente, por onde tinha passado Catamount.
Na indecisão no meio da qual se debatiam, a respeito do seu amigo, Marcos Manway, Carolina e Nat Bender e todo o corajoso pequeno núcleo do Farol de Brownsville,
tornado agora uma grande família, apenas mantinha uma certeza absoluta; em qualquer parte, nos confins do Texas, montado no seu fiel Mesquita, Catamount continuava,
como no passado, a travar combates com o sinistro exército do crime. Intrépido e audacioso em excesso, cheio de comiseração para com os desgraçados, implacável para
os bandidos, o homem de olhos claros prosseguia na admirável série das suas espantosas aventuras.

 

 

                                                                                                    Albert Bonneau

 

 

 

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