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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LUA DAS FADAS / Eddie Van Feu
LUA DAS FADAS / Eddie Van Feu

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Era uma sala de móveis avermelhados e estantes repletas de livros de muitas histórias. Bianca já lera muitos deles e viajara em navios piratas e cavalos com asas. Não sabe dizer se o hábito de viajar nas letras veio de sua mãe ou de seu pai, já que ambos amavam livros, mas sabia que amava livros tanto quanto eles. Talvez até um pouco mais, já que quanto mais os lia, mais sentia a necessidade urgente de viver algumas de suas aventuras. O problema é que viver as aventuras em sua mente já não lhe aquecia tanto o coração. A cada livro, a cada página, a cada ato heroico, ela se decepcionava um pouco mais com a mesmice do mundo trivial. Onde estavam os heróis? Onde estavam os grandes feitos? Onde estava toda aquela emoção que as histórias lhe traziam?
Talvez por esse anseio pela emoção, talvez por essa urgência de viver os mistérios e fantasias das histórias, lia agora um livro totalmente diferente, um livro que todos que conhecia na escola diziam ser perigoso, um livro que poderia lhe contar tudo o que quisesse saber, se tivesse coragem para perguntar.
Naquela tarde de primavera, quando uma brisa fresca levava o perfume dos jasmins do jardim para dentro de sua casa, Bianca dava o primeiro passo para os mistérios do famoso e mal falado tabuleiro oui-ja . Mas ela não estava sozinha. Sua curiosidade tinha um limite, assim como sua coragem. Sempre que tinha uma nova aventura ou descoberta, não se metia nessa sozinha. Por isso, naquela tarde de primavera, Bianca estava com Analice, sua melhor amiga.
Analice não era tão curiosa quanto Bianca, mas era tão tímida e insegura que, se não fosse a amiga, ainda estaria lanchando sozinha na escola e passaria seus domingos vendo programas de auditório com sua tia. Analice morria de medo de metade das coisas malucas que Bianca lhe apresentava e não acreditava na outra metade, mas não tinha coragem de lhe dizer isso. E se a amiga se cansasse dela e fosse embora? Tantas pessoas já foram embora de sua vida que Analice estava disposta a aturar algumas esquisitices para evitar que isso acontecesse de novo. Isso incluía assistir realities shows insuportáveis com sua tia, fazer dieta quando estivesse com sua mãe e comer sanduíches quando estivesse com seu pai. Ah, sim, e participar de alguns rituais estranhos com sua melhor amiga.
E lá estavam elas, melhores amigas tentando fazer uma experiência macabra. Queriam falar com os mortos. Por isso, compraram numa banca de jornal um livro de aparência assustadora que acompanhava o tabuleiro oui-ja , o telégrafo dos mortos. Leram as instruções, planejaram com detalhes como fariam e, agora, finalmente, davam início à experiência. As cortinas foram fechadas, uma vela foi acesa e as meninas respiraram profundamente. Analice observou Bianca. Gostaria de ser como ela (mas nunca a deixaria saber disso). Bianca sempre parecia saber o que estava fazendo.
Mas a verdade é que Bianca nunca sabia o que estava fazendo...

 


 


Capítulo 1

Um resultado inesperado


V ocê já viveu um dia de caos? Não é só um dia em que tudo dá errado, mas um dia realmente caótico, com pessoas desconhecidas invadindo a sua casa e lhe fazendo perguntas sem, no entanto, ouvir suas respostas, numa confusão de cheiros de colônia barata e cigarro que faz sua cabeça doer. Um dia de muitas vozes, muitas perguntas, muitos rostos, nenhuma resposta. Esse era o dia de Bianca.

Sua mãe conversava com um detetive que tinha um bloco nas mãos e um óculos na ponta do nariz. A mulher de longos cabelos escuros semi presos lançou-lhe um olhar e tentou sorrir, para tranq uilizar a filha adolescente, mas a preocupação era evidente.

– Você viu alguém seguindo vocês duas nos últimos dias, algum estranho?

Bianca olhou novamente para a detetive de cabelos enrolados e curtos que lhe fazia as mesmas perguntas há pelo menos 300 horas. Tudo bem, eram 45 minutos. Bianca sempre foi meio exagerada. Mesmo assim, podemos dizer que, numa situação como aquela, aquele caos dentro de sua casa e dentro de sua cabeça pareciam realmente ter começado há mais de 300 horas.

– Não... Não vi ninguém...

Bianca respirou profundamente enquanto a moça anotava alguma coisa em seu bloco.

– Conversaram com alguém, um vendedor, uma pessoa no ônibus ou...

Nesse momento, as vozes na casa pareceram tão altas que Bianca achou que sua cabeça ia explodir. As perguntas se repetiam eternamente sem chegar a nenhum lugar. Parecia Lost! Foi quando a adolescente de cabelos escuros e ondulados se levantou e gritou, calando todas as vozes ao mesmo tempo.

– Não! Não vimos ninguém! Não falamos com ninguém! Eu já disse o que aconteceu! Analice não foi raptada por humanos! Ela foi levada por seres invisíveis! Ela estava aqui num minuto e, no minuto seguinte, não estava mais!!! Quantas vezes vou ter que explicar a mesma coisa até vocês, suas to upeiras, entenderem o que aconteceu?!

Bianca olhou em volta. Cerca de cinco homens, a detetive que tomava seu depoimento e sua mãe olhavam paralisados para ela. Sentiu-se invadida pelos olhares que pareciam julgá-la louca. Foi nesse momento que um homem de cabelos negros como as asas da graúna e barba finamente feita entrou com uma maleta, o olhar preocupado se encontrando com o olhar assustado da menina. Bianca então correu para o pai como quando era uma menininha e, abraçada a ele, chorou. Chorou porque ninguém acreditava nela, chorou porque estava assustada, chorou porque sua melhor amiga sumira e chorou, principalmente, porque achava que tudo aquilo era culpa sua.

 


Cerca de três horas antes do caos, a casa estava em absoluto silêncio. As duas meninas estavam na sala cercadas por livros, testemunhas mudas e atentas do estranho experimento. Depois de um delicioso lanche com o incomparável bolo gelado trufado que a mãe de Bianca sempre fazia, as duas meninas correram para a sala e leram as instruções no bizarro livro de capa preta. Então, acenderam a vela, colocaram perto um copo com água e a fumaça de um incenso de mil flores espiralou por toda a sala, fazendo desenhos e espalhando seu perfume. Respiraram profundamente e se concentraram. Tocaram os dedos no copo e fizeram a pergunta que dá início a toda sessão de oui-ja :

– Há alguém presente?

Quando o copo se moveu, Bianca gritou e quase saiu correndo, não fosse a amiga segurar seu pulso e fazê-la se comportar decentemente.

– Não fuja! – disse Analice – Não se esqueça de que não podemos deixar o portal aberto, ou seres podem vir aqui e não voltar para o lugar deles!!!

Bianca, apavorada, olhou nos olhos da amiga e se acalmou, voltando a pousar o dedo sobre o copo invertido. Surpreendeu-se como Analice, que sempre parecia tão tímida, podia ser tão firme em situações inesperadas, como da vez em que uma professora as acusou de colar. Analice debateu firmemente com a professora e provou seu ponto, sem baixar os olhos ou se intimidar.

Você deve estar achando que Analice é uma adolescente esquisita. Bom, até é. Mas se você me apontar um adolescente que não seja esquisito, eu te dou um doce. Porém, é preciso admitir. Há níveis de esquisitices, tanto em adolescentes quanto em adultos. Digamos que o ponteiro do esquisitômetro oscilava acima da média com Analice e Bianca, embora fossem esquisitices diferentes. Analice, por exemplo, parecia uma pessoa paradoxal. Preciso lhe explicar como ela consegue ter duas facetas aparentemente opostas. Em primeiro lugar, a timidez tem várias raízes e não implica em covardia, hesitação ou insegurança, embora muitos tímidos sejam todas essas coisas. E Analice nem sempre fora tímida. Podemos dizer que ela estava tímida.

Analice estava vivendo uma fase muito estranha. Seus pais haviam se separado há pouco mais de um ano. Mudara de escola. Mudara de casa. Mudara de vida. Tudo isso em um único mês. Mas a sua maior surpresa mesmo foi a conversa que seus pais tiveram com ela quando se decidiram pela separação. Ela esperava que lhe perguntassem com quem gostaria de ficar, o que por si só fez seu coração partido se desesperar. Como se escolhe isso? Estava tão absorta em como iria fazer essa escolha que não entendeu quando os pais lhe deram a resposta pronta.

–...e por isso sua mãe e eu achamos melhor você ficar com sua tia Agnes...

Analice piscou várias vezes enquanto seu pai continuava falando. Então ela o interrompeu.

– Como é?

Os pais se entreolharam, como se tivessem sido descobertos no flagrante em algum tipo de esquema.

– Compreenda, minha amada – continuou sua mãe, segurando suas mãos, – seu pai tem o trabalho dele e a mamãe finalmente tem a oportunidade de realizar o sonho da vida dela de ter sua própria empresa e fazer uma faculdade... Você já é uma mocinha, e sua tia Agnes vai adorar ter você por perto.

– Minha tia Agnes pensa que o micro -ondas é a televisão!

– Mais um motivo para vocês morarem juntas! – continuou seu pai. – Ela precisa da sua juventude, você precisa da experiência dela. E você passará os fins de semana comigo e sua mãe!

– A não ser que estejamos viajando, claro, mas seu pai tem razão! Teremos fins de semana e férias juntas! Não será ótimo?

Bem, foi assim o início da timidez de Analice. Até então, ela era popular e feliz. Tinha uma família perfeita e uma casa bonita. De repente, tudo virou fumaça. Até ela.

 


Bianca estava em sua cama, finalmente em silêncio. Seu pai entrou com uma caneca de chocolate quente cremoso que só ele sabia fazer. Sentou-se na beirada da cama e a menina se ajeitou, pegando a caneca da mão dele. Aquilo sempre a fizera se sentir melhor.

– Como vamos fazer então? Pra achar Analice? – perguntou ela.

– Acho que devemos deixar isso com a polícia, meu anjo.

– A polícia não vai encontrá-la! Eu lhe disse o que aconteceu!

Seu pai, um belíssimo moreno de rosto quadrado e olhos penetrantes e um leve sotaque do qual nunca conseguira se livrar, olhou para baixo por alguns segundos.

– Não acredita em mim... – deduziu Bianca, nitidamente magoada.

– Acredito, meu anjo, acredito... Mas preciso que você veja o mesmo evento por outros ângulos. Lembra que sempre lhe disse que isso a ajudará a resolver problemas por toda a sua vida? Então, tente pensar nisso: vocês estavam lidando com uma experiência sobrenatural, como nos filmes de terror. Uma ventania abriu a porta, Analice se assustou e correu, e você simplesmente não a viu sair.

– Mas...

– Quero que me diga se isso pode ter acontecido! Apenas pense se pode ter acontecido.

Bianca pensou por alguns segundos. De fato, não vira Analice sumir, literalmente. E sabia que ela própria podia saltar e correr tão rápido quando uma barata aparecia que muita gente podia jurar que ela desapareceu. Concordou levemente com a cabeça.

– Então, não se precipite. Aposto que amanhã teremos notícias de Analice e tudo ficará bem.

Ele lhe deu um beijo na testa e deixou o quarto. Na porta, sua mãe observava recostada no batente. Entrou e lhe deu um beijo também, dizendo-lhe que precisava descansar. As coisas sempre pareciam mais claras depois de uma noite de sono. Bianca terminou o chocolate e apagou a luz do abajur que espalhava estrelas pelo quarto.

 


“SIM”.

Foi a primeira resposta. O copo se moveu, primeiro com hesitação e depois cada vez mais rápido, ligando letras que formavam palavras e palavras que formavam sentenças. De repente, nem Bianca, nem Analice estavam com medo ou nervosas. Estavam, na verdade, muito animadas com aquela divertida conversa com alguém “do outro lado”.

– Como é aí? – perguntou Analice.

– B-O-N-I-T-O.

– Você pode ver o futuro? – perguntou Bianca, muito mais preocupada com seu próprio mundo do que com o mundo dos outros.

– “SIM”.

– Pode nos dizer algumas coisas? – perguntou novamente, animada.

– “TALVEZ”.

Não é difícil imaginar as perguntas que elas fizeram a partir daí. Se você tivesse a oportunidade de perguntar coisas a alguém que podia ver além, o que perguntaria? As duas amigas perguntaram o que quase todo mundo perguntaria. Se iriam casar, com quem, se continuariam amigas, se Jônatas, o garoto que senta lá na frente, gosta mesmo de uma delas, e quais os números da Mega Sena para essa semana. Quando os números dados pelo espírito foram 1, 2, 3, 4, 5 e 6, elas desanimaram. Se ele estava brincando com aquilo, poderia estar brincando com elas o tempo todo.

– Ah, qual é? – reclamou Bianca. – Vai querer que a gente acredite nesses números?

Subitamente, o copo pareceu se mover muito mais rapidamente, como se tivesse muita pressa em dizer alguma coisa.

– C-U-I-D-A-D-O

Elas se entreolharam confusas.

– Cuidado? Cuidado com o quê? – perguntou Bianca.

– F-A-D-A-S

Nesse exato instante, a porta da sala que dava para o jardim e que Bianca jurava que estava trancada se abriu com grande estardalhaço, deixando entrar uma ventania que parecia preceder uma grande tempestade. As meninas gritaram e, ao se levantarem, derrubaram o tabuleiro e o copo se partiu. A vela se apagou e o vento entrou como se fosse uma cavalgada de valquírias ensandecidas, derrubando vasos e jogando livros longe, enquanto folhas verdes e marrons faziam redemoinhos diante de seus olhos.

Das profundezas de sua memória, Bianca desenterrou, empurrada pela emergência, um pedido de socorro que lera em algum desses livrinhos de banca sobre magia wicca.

– Em nome das bruxas ancestrais e de todos os elementais, eu te ordeno que vá embora e não volte nunca mais!!!

A ventania cessou. Bianca, mal sentindo as pernas e suando frio, olhou a sala cheia de folhas, com alguns vasos derrubados e livros pelo chão. Respirou fundo, aliviada.

– Ainda bem que estamos sozinhas, Analice... Já imaginou se minha mãe vê essa bagunça?

Não houve resposta. Olhou em volta, procurando pela amiga.

– Analice?

Procurou pela sala, chamando a amiga. Correu pela casa, gritando seu nome. Não a encontrando, voltou para a sala e correu para o jardim bem cuidado para o qual a porta se abrira tempestuosamente. E ali gritou o nome da amiga até ser sufocada pelos soluços e lágrimas.

 

 

 

Capítulo 2

Mãe Tetéia da Encruza


O céu estava azul e nuvens douradas flutuavam nele. Ela estava com Analice. A amiga lhe sorria. Já tinham estado ali, mas agora Bianca tinha uma estranha sensação de que apenas ela percebia o estranho déja vu . Havia diferenças. Apesar de saber tudo o que ia acontecer, não conseguia agir de maneira diferente. Tudo também parecia mais iluminado e belo.

– Das suas maluquices, essa foi a mais legal, sabia?

Analice sorria com o balão azul nas mãos. Bianca olhou para o balão vermelho na sua. Lembrava-se perfeitamente desse dia. Depois de ler um livro sobre fadas, Bianca resolveu chamar Analice, sua parceira de crimes, para fazerem um pedido para os elementais do ar. Convenceram os pais de Bianca e fizeram um piquenique em um lugar bonito, embora difícil de chegar. Era uma montanha alta e verdejante com ar puro e silêncio, um lugar belo e leve, ideal para o que queriam fazer. Levaram papel amarelo e canetas coloridas e passaram algumas horas discutindo sobre o que deveriam pedir. No final, decidiram que o melhor era cada uma fazer seu próprio pedido e pronto. Bianca era curiosa e claro que tentou esticar a cabeça para ver o que a amiga havia escrito, mas esta logo enrolou o papel na fita amarela e amarrou na linha de seu balão azul.

– Pediu? – perguntou Analice, que gostava de usar um chapéu diferente ou um adorno na cabeça. Naquele dia, era um chapéu com flores que a protegia do sol, diferente dos lenços negros de bucaneiro que costumava usar na escola.

Bianca amarrou seu pedido e as duas ficaram de pé no topo da montanha. A alguns metros, os pais de Bianca aguardavam em volta da toalha repleta de guloseimas.

– Você não acha que é perigoso deixarmos que ela experimente essas coisas? – perguntou seu pai.

– Que mal pode haver? São meninas, gostam de acreditar em outros mundos. São apenas brincadeiras...

Eles ficaram alguns instantes em silêncio. Então seu pai pareceu ficar sério, como se lembrasse de algo muito grave.

– Foi uma brincadeira que levou você a outro mundo... – disse ele.

Sua mãe olhou-o com os longos cabelos sedosos sendo penteados pelo vento.

– O outro mundo me trouxe você – respondeu ela com um sorriso.

– O outro mundo quase a matou... – respondeu ele.

Sua mãe ficou mais séria. Então simplesmente se inclinou e o beijou.

– A vida sem você seria um tipo triste de morte. Não se preocupe, querido. Sua filha é esperta, sabe se manter longe de problemas, neste ou em outros mundos. Puxou a mãe!

– E então? Vamos? – perguntou Analice.

Bianca voltou a olhar para o balão vermelho em suas mãos. Contemplou a amiga que, de olhos fechados, formalizava o pedido. Então, Bianca fez o mesmo. Pensou em seu desejo e sentiu uma onda de euforia a invadir. Soltaram os balões que flutuaram para o céu azul carregando seus papéis amarelos. Riram, felizes com a sensação de serem atendidas por seres mágicos de uma terra distante, com castelos nas nuvens e colinas encantadas. Um vento mais forte levou o chapéu com flores de Analice e as duas meninas correram para buscá-lo, rindo e brincando na relva verde.

 


Abriu os olhos ainda ouvindo os risos e sentindo a felicidade tranq uila daquele dia.

– Aquele foi um dia perfeito... – murmurou.

Ainda com a cabeça no travesseiro, suspirou profundamente. Sim, tinha sido um dia perfeito. Reunira naquele piquenique as pessoas que mais amava no mundo e juntos contaram piadas, riram e comeram bolo. Analice esteve presente em sua vida no último ano com tal intensidade que parecia estarem juntas a vida inteira. Lera num livro que talvez fossem almas antigas que se reencontraram e se reconheceram.

Levantou-se desanimada para enfrentar sua segunda-feira. Por que sonhara com aquele dia em especial? Tiveram outros dias perfeitos. Que tipo de jogo cruel o Mestre dos Sonhos lhe fizera? Por que fazê-la sonhar com o que não podia mais ter?

Sentiu os olhos se encherem d’água, mas engoliu o choro. Não ia começar seu dia chorando, era muito vergonhoso. Saiu do quarto em silêncio e ouviu uma conversa na cozinha. Apurou os ouvidos, procurando saber se era alguma notícia da amiga.

– Sabe que nunca gostei dela se envolvendo com essas coisas! – dizia seu pai, aborrecido.

– Não sabemos se foi isso... – respondeu sua mãe. – E como íamos saber? Eram apenas brincadeiras de meninas!

– Foi uma brincadeira que levou você a outro mundo... – disse ele.

Bianca, encostada na parede, lembrou da cena do sonho que acabara de ter.

– O outro mundo me trouxe você – respondeu sua mãe, tocando levemente a mão de seu pai sobre a mesa.

– O outro mundo quase a matou... – respondeu ele.

Cacau latiu, denunciando a presença de Bianca, que, não tendo mais como se esconder, apareceu.

– Do que estavam falando? – perguntou.

– Está ouvindo atrás das paredes agora? – ralhou seu pai.

– Não, vocês é que estavam falando atrás das paredes! – respondeu ela.

Cacau latiu de novo. O latido de Cacau, uma vira-latas marrom de rabo enrolado, era alto e estridente. O suficiente para dispersar qualquer conversa.

– Venha tomar seu café, Bianca – chamou sua mãe.

A menina sentou-se à mesa e pegou seu pão, enquanto a mãe lhe servia o café com leite.

– Do que estavam falando? – voltou a perguntar.

– De nada, meu anjo... – respondeu seu pai, pegando sua maleta e se levantando. – Bem, preciso ir, meus alunos terão prova hoje. Me ligue se tiver qualquer notícia. Voltarei assim que puder.

Beijou a filha na testa e a esposa nos lábios e saiu.

Ficaram em silêncio por algum tempo.

– Preciso ir à escola hoje? – perguntou Bianca.

– Não... – respondeu sua mãe. – Se não quiser, não precisa. Descanse hoje.

Descansar... Isso até que seria bom, pois se sentia muito exausta ainda. Levara uma surra emocional que a deixara fisicamente exausta. Mas havia muito a fazer para sequer pensar em gastar um dia descansando. Precisava começar sua investigação e encontrar Analice.


Naquele dia, sua mãe não fora trabalhar. Era restauradora de livros antigos e tinha um horário flexível. Seu pai ensinava história francesa na universidade. Não era à toa que viviam cercados de livros por todos os lados. Bianca se sentia mais segura em ter a mãe em casa e ficou feliz de saber que ela estaria na sala ao lado, caso algo acontecesse. Pegou o livro negro que ela e Analice compraram e o observou com cuidado. Sua capa trazia uma cara demoníaca num gargalhada que quase podia ser ouvida. Era, evidentemente, um chamariz. O livro, em si, não trazia nada demais, além de casos sobre comunicação com outros mundos. Era um livro de “causos”, como dizia seu tio Marcos. Passou a tarde lendo-o, acreditando que teria alguma informação sobre o poder real do tabuleiro oui-ja . Talvez aquele fosse um livro mágico. Ouvira muitas histórias de amigas suas que haviam encontrado um determinado livrinho de magia wicca de maneiras impossíveis. Sua mãe acreditava que livros escolhiam as pessoas, convidados especiais para seus mundos. Leu o livro até a metade, acreditando que ele fosse especial, que ele fosse afinal um “convite”.

Três horas depois, fechou o livro impaciente. Era, definitivamente, um livro de “causos” e nada mais. Lançou o olhar para o tabuleiro oui-ja , encostado atrás de outros livros. Pegou-o para analisar melhor. Diferente dos tabuleiros que já vira em filmes, este não era de madeira, mas de papelão. Coberto por papel brilhante, trazia letras coloridas e a representação do Sol e da Lua, além dos habituais “SIM”, “NÃO” e “TALVEZ”. Também tinha as letras do alfabeto e números. O máximo que conseguiu descobrir sobre ele no livro era que o tabuleiro podia abrir portais. “Mas portais pra onde?”, pensou. “Para o reino dos mortos, claro!”. A ideia de que Analice havia caído no mundo dos fantasmas a apavorou. Passou o dia pesquisando sobre mortais que foram ao submundo, como Perséfone e Deméter. No fim do dia, alugou Percy Jackson e o Ladrão de Raios.

Foi dormir tarde, infeliz em não ter tido nenhuma notícia do aparecimento de Analice. “As buscas continuam”, era só o que ouvia. Sua mente vagava entre as possibilidades. Fechou os olhos e se concentrou para fazer um pedido especial.

– Anjos, eu lhes peço que, por favor, me ajudem a encontrar minha amiga. Mandem direções, pistas, qualquer coisa! Seguirei as pistas que aparecerem e sei que me ajudarão a encontrá-la sã e salva!


Não conseguiu fugir da escola na terça-feira. Sua mãe, na verdade, achou que ir para a aula a distrairia de toda aquela situação. Todos estavam preocupados com a menina desaparecida e o caso já chegara à televisão. Sua foto estava estampada em cartazes espalhados pela cidade e, até o momento, nenhuma pista. Parecia que ela tinha desaparecido no ar.

Bianca foi para a escola, mas não exatamente para a aula. Meteu-se na biblioteca nas duas primeiras aulas. Na terceira, fugiu. Na biblioteca, encontrou muitas informações sobre o céu e o inferno. Nenhuma realmente útil. Para ir para qualquer um deles, precisaria morrer, e ela, definitivamente, não queria morrer. Continuava pedindo, enquanto andava pela calçada, que lhe mandassem uma pista. Era do que precisava. Uma pista, somente uma pista.

Foi quando um papel surgiu na sua mão. Não, ele não apareceu magicamente. Um garoto o entregara enquanto ela passava distraída. Olhou para o papel, que dizia:


“Mãe Tetéia da Encruza


Trago a pessoa amada de volta em três dias, viva ou morta!

Resolvo qualquer problema, tiro nome do SPC e renovo carteira de habilitação”


Abaixo, um endereço para uma consulta grátis que custava Dez Reais (!!?). Bianca olhou para cima.

– Isso não pode ser sério...

Sabe quando não conseguimos encontrar nossas chaves? Nós começamos a procurar pelos lugares habituais. Quando não encontramos, começamos a procurar pelos lugares improváveis. Se o desespero bater, partimos para os lugares impossíveis, como dentro da geladeira ou na gaveta do banheiro. Bianca estava investigando há apenas um dia, mas continuava sem a menor ideia de onde procurar ou do que fazer. Achou que o panfleto era mesmo uma pista dos anjos atendendo ao seu pedido. E quem somos nós para dizer o contrário?

Não se sentia bem mentindo. Sua mãe achava que ela ainda estava na escola. Estava, no entanto, em uma casa humilde numa rua onde nunca esteve. Estava insegura e preocupada. E se ela sumisse ali? Como é que alguém ia saber de seu paradeiro? Estava sentada num banquinho de madeira esperando a médium chamá-la, quando o bom senso a atingiu como uma martelada e ela se levantou para ir embora. Nesse exato momento, a Mãe Tetéia da Encruza surgiu, totalmente paramentada, com uma saia cigana cheia de lenços e flores artificiais no cabelo, despedindo-se de uma mulher que saía animada.

– Aguarde que ele vai voltar, viu, minha filha! Mãe Tetéia não falha!

– Obrigada, Mãe Tetéia! Que Deus a ilumine!

A mulher foi embora e Mãe Tetéia olhou para a menina sentada no banco de madeira.

– Essas mulheres... – disse. – Cismam que querem esses trastes e fazem tudo pra conseguir, quando estariam tão melhores sozinhas!... Mas fazer o quê, né? Eu só trabalho aqui! Se ela quer o bolha, então a gente traz o bolha de volta pra ela... Pode vir minha filha, pode vir que Mãe Tetéia vai te atender agora.

Bianca levantou-se insegura e seguiu a mulher. Entraram num quartinho decorado com muitas imagens. Imagens demais. Tinha Iemanjá, Nossa Senhora de Aparecida, um quadrinho com uma prece irlandesa, uma imagem de Saint Germain e mais um monte de coisas que Bianca nem reconheceu. Diante dela, uma peneira com búzios cercada por colares de contas coloridas.

– Muito bem, minha filha? Qual o seu problema?

– Estou procurando uma pessoa...

– AH, claro! – a mulher jogou os búzios na peneira. – Uma menina na sua idade tem mesmo é que procurar um namorado! Mas tome cuidado, minha filha, porque namorar é bom, mas não pode atrapalhar os estudos! O importante é estudar e ter emprego bom! Cada coisa tem sua hora, não namora demais, não, ou vai dar muito trabalho pro seu pai e sua mãe! Mas deixa eu ver... Tem um rapaz no seu caminho, minha filha! Ele vai aparecer pra você! Vai sentar do seu lado! E ele vai estar segurando uma caneta vermelha... E ele virá de muito longe só pra encontrar com você! Acho que ele é piloto, porque ele costumava voar muito... Mas pra ficar com você, ele vai ficar no chão por um tempo. Viu que bonito, minha filha? São Dez Reais a consulta.

Bianca deu um longo suspiro... “Bem-feito”, pensou para si mesma. Pegou o dinheiro do lanche e entregou para a mulher. Levantou-se para ir embora e, quando estava na porta, Mãe Tetéia a chamou novamente.

– Ô, menina!

Bianca a olhou sem muito interesse. A mulher olhava atentamente os búzios na peneira como se assistisse a um final de jogo.

– A amiga que você procura não está onde você acha que ela está.

Bianca arregalou os olhos.

– É... Não está, não... – a mulher confirmou. – Ela não está no mundo dos mortos.

– Ela está viva? Ela está bem? – Bianca deu um passo em sua direção novamente.

– Não sei lhe dizer se ela está bem... Mas posso lhe dizer que ela não está morta!


Naquela noite, Bianca não conseguiu dormir. As palavras de Mãe Tetéia ainda a perseguiam... Mas será que ela sabia mesmo do que estava falando? Infelizmente, Mãe Tetéia não pôde mais dizer nada sobre sua amiga. Só lhe disse isso. Ela não estava no Reino dos Mortos. E ela estava viva. Considerando isso, talvez Analice tivesse realmente saído correndo e estivesse em algum lugar no mundo delas. Seu pai lhe garantia que ela não tinha ido para outro mundo. Todos a estavam procurando neste mundo. A ideia de procurá-la em outro era absurda. E se estivessem todos certos? E se Analice não tivesse ido para mundo nenhum? E se a ventania tivesse sido apenas uma ventania? E se tudo não passasse de... coisas da sua cabeça?

Foi até a janela e olhou para o céu. A Lua tinha um sorriso aberto entre as estrelas.

– Mais pistas, gente... – murmurou ela. – Mais pistas...

 

 


Capítulo 3

Os Índios Apaches Peruanos da Pracinha


Acordou com Cacau gritando. Não, ela não estava ferida, era o jeito dela dizer bom dia. Ela latia de maneira desafinada e estridente, sapateando e sem permitir que alguém a segurasse. Cacau era uma cachorra muito estranha...

O latido ecoou em sua cabeça e teve vontade de trocar Cacau por um gato. Levantou-se e, depois de escovar os dentes, arrastou-se até a mesa da cozinha. Seu pai lia o jornal. Sua mãe tomava o café tranq uilamente.

– Bom dia, meu anjo! – disse-lhe o pai, largando o jornal para lhe dar um beijo.

Sua mãe a beijou também e voltou para seu café.

– Você andou comprando livros pela Internet de novo? – perguntou sua mãe. – Cuidado para não estourar sua mesada! Ainda estamos no meio do mês.

Bianca a olhou confusa.

A mãe lhe entregou um pacote que estava sobre a mesa. Bianca o pegou intrigada.

– Chegou hoje de manhã, deve ter tido uma taxa de urgência pra chegar tão cedo!

Bianca abriu o pacote, estranhando não ter remetente. Não comprara nada recentemente. O que seria aquilo?

– Que lindo! – sua mãe esticava o pescoço para ver melhor a capa colorida.

Era um livro de capa dura que trazia belas ilustrações de um mundo antigo. O título era “No Mundo das Fadas”. Bianca o folheou. Dentro, tinha informações sobre o mundo dos elementais com ricas ilustrações. De belas fadas com asas de borboleta a bizarras criaturas com aparência de morcegos demoníacos, o livro era um compêndio de seres que supostamente viviam em outro mundo. Definitivamente, não comprara aquele livro. Então, de onde ele viera?

Nesse dia, esteve em todas as aulas, embora estivesse de fato em outro lugar muito distante. Por dentro do livro de Matemática ou História, o livro das fadas revelava seus segredos à menina curiosa.

Quando chegou em casa, já tinha lido o livro praticamente inteiro. Tentou juntar as peças. Ela pedira pistas, as pistas estavam chegando. De maneira bizarra e inesperada, mas estavam chegando. Mãe Tetéia disse que Analice não estava no Reino dos Mortos. Mas fosse lá onde ela estivesse, Mãe Tetéia não conseguia ver se ela estava bem ou mal. Talvez, Mãe Tetéia só tivesse acesso ao Reino dos Mortos e ao Reino dos Vivos. Poucas pessoas têm acesso ao Reino das Fadas, por exemplo. No dia seguinte, recebera pelo correio um livro falando do Mundo das Fadas e dos elementais do Ar. Não podia ser coincidência! E não podia se esquecer da pista mais importante, justamente a primeira que foi ignorada. A última mensagem do espírito com quem falavam no tabuleiro oui-ja foi “Cuidado! Fadas!”.

Bianca entrou em seu quarto sem acreditar que pudesse ter ignorado algo tão óbvio! Logo ela que era tão boa em adivinhar finais de filmes! Bom, então agora estava no caminho certo. Mas e daí? O livro falava de muitas lendas irlandesas, muitos contos de fadas, muitas criaturas, mas não era muito preciso sobre como chegar até esse reino. Se Analice estivesse realmente lá, como poderia chegar até ela? Esticou a cabeça pela janela e gritou para o alto:

– MAIS PISTAS!!!

Então, desceu para o almoço, onde a mãe a esperava.


Comiam em silêncio enquanto a cabeça de Bianca não parava de funcionar com as infinitas e loucas possibilidades.

– No que está pensando? – perguntou a mãe.

– Hum? – Bianca saía de suas complicadas engrenagens pensantes. – Em nada. Quer dizer, em tudo. Mãe, já ouviu alguma coisa sobre o reino das fadas?

– Só o que dizem os contos de fadas... Por quê? Está planejando suas férias?

Bianca achou melhor não falar muito sobre o que estava pensando. Sabia que seu pai não estava muito feliz com essas incursões em mundos invisíveis e coisas inexplicáveis e temia que os pais a proibissem de continuar sua busca.

– Não, só estava curiosa sobre aquele livro que comprei.

– Se quiser, podemos ir na locadora e ver se tem filmes a respeito.

– Eu adoraria!


Era uma quarta-feira, dia de desconto na locadora e também o dia em que seu pai ia mais cedo pra casa. Junto com sua mãe, Bianca escolheu quatro filmes sobre fadas ou algo parecido. As Crônicas de Spiderwick , Tinker Bell , O Labirinto do Fauno e O Encanto das Fadas, filme que contava a história real do caso das duas meninas que tiraram fotos com fadas em Conttingley .

Viram os três primeiros juntos, numa maratona que não faziam há muito tempo. Seu pai e sua mãe estavam sempre fazendo comentários animados e sempre terminavam rindo muito. Comeram pipoca e tomaram refrigerante. Depois, pediram pizza e seu pai fez suco de frutas bem gelado. Terminaram a noite com sorvete com bolo de chocolate. Foi um dia de excessos, mas foi muito bom. Durante aquelas horas, Bianca chegou a esquecer porque estava vendo aqueles filmes. Esqueceu-se do vazio ao seu lado, da falta de notícias, da preocupação pela amiga desaparecida. Por algumas horas, despediu-se do mundo e refugiou-se nos braços de seus pais e no mundo de fadas e duendes. E como precisava disso!...

Depois de seis horas de filme, seus pais pediram clemência e foram dormir. Bianca lamentou, mas compreendeu. Era tarde e não era sábado. Era quarta. Como a promoção era apenas para um dia, Bianca recarregou as baterias com mais um pouco de sorvete com bolo de chocolate e encarou o último. Com certeza, seria mais uma experiência animada sobre este reino amigável que é o mundo das fadas.

Ela não poderia estar mais enganada. Deixado por último, O Labirinto do Fauno foi levado por parecer mais uma fábula infantil de fadas e criaturas encantadas. Sua mãe tinha por hábito não ler as sinopses atrás das caixas, mania que adquiriu depois que dois ou três filmes foram estragados para sempre porque um imbecil não sabia o que revelar e o que ocultar ao escrever uma simples sinopse. Assim, todo filme que entrava naquela casa era uma surpresa.

Bianca encerrou seu dia encolhida de olhos arregalados e abraçada a uma almofada. Desligou a TV e correu miudinho para seu quarto, acendendo a luz assim que chegou. Fugiu pra cama e agarrou Cacau, que não gostava de ser agarrada e logo a empurrou de volta, fazendo força nas patas, mostrando como era desagradável que aquela humana a apertasse. Bianca não a soltou. Depois daquele filme, depois do que vira, precisava de algo que lhe desse coragem para ir até o mundo das fadas em busca da amiga. Naquela noite, teve muitos pesadelos.


A quinta-feira chegou e Bianca decidiu finalmente visitar os pais de Analice. Para sua surpresa, nenhum deles estava na cidade. O pai chegara a vir no primeiro dia das investigações, assim que ela desaparecera, mas teve que partir em uma viagem de negócios dois dias depois. A mãe estava na Suíça e ainda não pudera voltar. Quem lhe contara o paradeiro dos dois fora Tia Agnes, que passava tempo demais olhando para o microondas. Bianca deixou o apartamento de Tia Agnes com um nó no estômago. Como os pais de Analice podiam ser tão... indiferentes? Lembrou-se de um dia em que Analice tinha ido ao cinema com ela e seus pais. Flagrara a amiga olhando longamente para sua família na hora do lanche. Mais tarde, ela lhe confidenciara como gostaria de ter os pais de Bianca.

– Você gostaria de ser eu, então? – perguntou Bianca.

– Não, você é maluca – respondeu a amiga. – Mas gostaria que seus pais fossem os meus... Eles são tão perfeitos! Eles se amam de verdade, dá pra sentir. E são tão bonitos!... E estão sempre com você! Vocês parecem um comercial de televisão... Bianca, você não sabe a sorte que tem...

Na época, Bianca achou que a amiga estava apenas saudosa da antiga família, agora desfeita. Era comum que as pessoas se separassem. Cada vez mais incomum eram as pessoas que ficavam juntas. Seu pai costumava lhe dizer, com seu sotaque francês ainda evidente, que o mundo moderno era muito rápido e as pessoas tinham pouca paciência umas com as outras. Por isso, preferiam desistir assim que um defeito viesse à tona. Mas quando as pessoas se amam de verdade, elas acabam percebendo isso e voltando para a pessoa amada. No fundo, no fundo, Bianca sempre acreditou que os pais de Analice voltariam a ficar juntos e ela voltaria a ter sua família. Agora, no entanto, percebia que era pura ilusão. Aquelas pessoas nunca se amaram de fato. Não amavam ninguém além de si mesmas. A única filha sumira e o que eles faziam? Continuavam suas vidas...

Bianca parou no meio da calçada. E o que ela estava fazendo de diferente? Também ela não voltara às aulas? Não estava ela também vendo filmes com sua família, comendo pipoca como se Analice nunca tivesse feito parte de sua vida? O que ela estava de fato fazendo, além de ver filmes e ler livros?

E o que ela poderia fazer?...

Ouviu uma música. Estava na cidade, era normal ouvir música. Mas essa música era diferente. Tinha flauta e violão e acordes muito suaves. Seguiu a música e chegou na praça, onde um grupo de peruanos vestidos de índios apaches tocavam músicas com inspiração indígena. Não era tão estranho como se poderia pensar. Eles já faziam parte da cidade. Bianca ficou diante deles, ouvindo a música, procurando um pouco de consolo em suas notas. Então, algo bizarro aconteceu. Um dos índios se aproximou dela e perguntou:

– Bianca?

– Sou eu!...

O índio então deu sinal para os outros, que imediatamente trocaram a canção. Começaram a cantar e tocar Blue Moon.

Bianca ficou paralisada. Olhou em volta e não viu ninguém conhecido. Alguém estava lhe mandando um recado. Quem?

Tentou se concentrar na música. Se era um recado, era importante que prestasse atenção.


Blue moon, you saw me standin’ alone
Without a dream in my heart, without a love of my own
Blue moon, you knew just what I was there for
You heard me sayin’ a prayer for
Someone I really could care for


And then there suddenly appeared before me
The only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper “please adore me”
And when I looked, the moon had turned to gold


Blue moon, now I’m no longer alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own...


Quando terminaram, Bianca continuou parada, esperando algo acontecer. Nada aconteceu. Ela agradeceu e saiu. A música tinha juntado um aglomerado de pessoas e Bianca estava constrangida, imaginando que todas aquelas pessoas estivessem pensando que ela recebia uma jura de amor de algum namorado muito romântico. Somente em casa, de noite, pensou que poderia ter perguntado aos índios quem lhes encomendara a música. Infelizmente, quando pensasse nisso, já seria tarde demais para conseguir a informação (o que teria feito toda a diferença nessa história).

Chegou em casa e entrou na Internet. Havia uma mensagem importante nessa música. Só precisava descobrir. Baixou a letra e a tradução, pois seu inglês não era lá essas coisas.


Lua triste, você me viu esperando sozinho

Sem um sonho em meu coração, sem um amor que fosse só meu

Lua triste, você sabia exatamente por que eu estava ali

Você me ouviu pedindo em oração

Por alguém com quem eu pudesse realmente me importar


E então, de repente, apareceu diante de mim

A única pessoa que meus braços irão abraçar

Eu ouvi alguém sussurar “por favor, me ame”

E quando eu olhei, a lua tinha se transformado em ouro


Lua triste, agora eu não estou mais só

Sem um sonho em meu coração

Sem um amor que seja só meu...


Leu a canção. Fez um bico enquanto franzia as sobrancelhas. Leu de novo. O que diabos aquilo queria dizer? Será que era um recado para dizer que Analice estava sozinha e infeliz? Talvez fosse um pedido de socorro! Apavorou-se, deixando a música de lado e procurando alguma coisa sobre o reino das fadas. Era para onde suas pistas apontavam.

Um site lhe chamou a atenção. Nele, um pequeno texto informava os reis elementais de cada reino e seu anjo responsável. Mikhael ou Miguel, o anjo guerreiro, era o regente do Reino Elemental do Fogo, onde Djinn era o Rei. Uriel era o regente do Reino Elemental da Terra, onde Chobb era o Rei. Gabriel era o regente do Reino Elemental da Água, onde Niksa era a Rainha. E Rafael era o regente do Reino Elemental do Ar, onde Paralda era a Rainha.

Então, deduziu, para chegar ao Reino das Fadas, teria que pedir a ajuda de um anjo? E como faria isso? Talvez, se conseguisse falar com Rafael, ele pudesse simplesmente devolver Analice e pronto! Não seria ótimo?

Um barulho de vidro estilhaçado a vez instintivamente se abaixar. No meio do seu quarto, uma pedra embrulhada em um papel, aguardava parada no tapete. Bianca correu até a janela para ver se conseguia ver o vândalo, mas não viu nada. Foi até a pedra e desembrulhou-a. O papel era uma propaganda sobre a Floresta da Tijuca e seus recantos.

– Esse é o marketing mais agressivo que já vi...

Jogou a pedra e o papel na lixeirinha e foi pegar a vassoura para varrer a bagunça, antes que sua mãe chegasse em casa.

 

 


Capítulo 4

Rafael não pode atender no momento...


A sexta-feira lhe trouxe um gosto amargo. No domingo, faria uma semana que Analice estava desaparecida e nada havia mudado. No mundo são, a hipótese de fuga havia sido levantada. A família não tinha inimigos (ao menos, não no nível de sequestrar a filha) e nenhum pedido de resgate havia sido feito. No diário da menina, muitas fantasias sobre ir embora para um lugar distante onde pudesse conhecer coisas novas apontavam para seu desejo de partir. A polícia afrouxava as investigações, sem saber mais onde procurar. Mas este era o atual cenário, como disse, no mundo sensato. No seu mundo, no entanto, onde a sanidade estava mais para visita do que para moradora, as pistas pareciam cada vez mais malucas. Segundo elas, Analice estava no mundo das fadas e precisaria de um anjo para chegar lá. E não era um anjo qualquer, tinha que ser um anjo importante, desses que devem receber milhares de e-mails por dia. Estava sentada em sua carteira, sem conseguir prestar atenção na aula, observando a carteira vazia de Analice. Olhou em volta. Ninguém parecia ligar. Os colegas conversavam normalmente, o professor prosseguia sua aula, o relógio continuava a marcar a hora. Nada mudara. Nada parara. Aparentemente, somente ela estava realmente preocupada com Analice.

Bianca se lembrou como foi difícil romper a barreira que a amiga construiu ao seu redor. Analice vinha de uma outra escola, de uma outra cidade e era evidentemente uma novidade. Os outros adolescentes a olhavam com curiosidade, mas Analice permanecia séria e distante. Analice usava muito preto. Insistia em usar lápis e batom negros e manter a imagem de gótica chic. Falava baixo e nunca sorria. A maldade peculiar do ambiente de escola logo lhe deram um apelido óbvio: Vandinha. Analice não pareceu se importar, mas Bianca sabia que era só uma atuação. Ela mesma, que recebera muitos apelidos no decorrer da vida, sabia que eram apenas rótulos que os colegas usavam para tentar compreender outras pessoas. Bianca por exemplo, era a Bianca Maluca. Quando estavam mais dispostos, usavam seu nome completo: Bianca Maluca Pirada da Silva. Bianca não se importava. Seu pai lhe explicara que as melhores e mais brilhantes pessoas que já conhecera eram malucas. Bianca aprendeu muito cedo a ser livre e não depender da aprovação de ninguém para seguir o caminho que escolhesse. Por isso, escolheu se aproximar da garota mais esquisita da escola.

Achou que ia encontrar uma dessas wiccanas e, para puxar assunto, comprou uma revistinha na banca chamada Wicca e leu. Gostou e, num intervalo de aula, ofereceu a revista para Vandinha, tendo o cuidado de chamá-la de Analice. Espantada, a menina aceitou a revista, pegou suas coisas e, sem agradecer, levantou e foi para uma carteira vazia lá atrás. O professor entrou e a aula começou. Bianca temeu que tivesse cometido uma gafe, mas não havia nada que pudesse fazer naquele momento.

Ao fim da aula, enquanto arrumava suas coisas, Bianca foi surpreendida por uma Analice de pé ao seu lado, devolvendo-lhe a revista.

– Gostei muito! Obrigada – disse a menina.

– De nada...

Analice ficou parada diante dela e Bianca não sabia bem o que dizer, pega de surpresa pela atitude amistosa.

– Você quer lanchar comigo? – perguntou Bianca.

Analice ficou parada algum tempo, como se pensasse longamente sobre o assunto.

– Talvez outro dia.

E foi embora. Bianca poderia lamentar a derrota, mas ela não era esse tipo de pessoa. Bianca era o tipo que comemorava vitórias, mesmo quando elas eram pequenininhas. Tinha dado um passo na direção certa. O objetivo só estava mais longe do que pensara. Teria que dar mais alguns passos, só isso. Assim, nos dias seguintes, levou uma revistinha Wicca diferente para ela por dia. Descobriu que tinha mais 100 números diferentes, então podia fazer isso por, no mínimo, 100 dias. Felizmente, não precisara de tanto. No terceiro dia, Analice lhe sorriu e aceitou seu convite para lanchar.

Bianca sorriu ao lembrar de sua cara quando descobriu que Analice não era wicc ana, nem mesmo sabia o que era wicca, mas que tinha gostado tanto das revistinhas que estava pensando seriamente no assunto. Não demorou muito e se tornaram boas amigas. Não, um pouco mais do que isso: melhores amigas.


Um som chamou a atenção da turma, tirando também Bianca de seu passeio pelo passado. O professor foi até a janela e os alunos acabaram por fazer o mesmo assim que a música começou. Bianca foi até lá e viu um grupo de mexicanos vestidos à caráter com seus enormes chapéus cantando Blue Moon. Uma placa dizia “Feliz Aniversário Bianca! Domingo é o dia!”

Toda a turma começou a rir e cumprimentar Bianca pelo seu dia, enquanto a melodia se espalhava por todo o lugar e a menina continuava olhando abismada. Alguém estava insistindo na mesma pista. Só precisava entender o que significava.


Assim que a aula acabou, saiu correndo para casa. Entrou esbaforida e foi direto para o computador. A casa estava vazia, os pais estavam trabalhando, mas ela não iria parar para almoçar. Não podia perder mais tempo. A placa dizia “Feliz Aniversário, Bianca! Domingo é o dia!”. Sabia que seu aniversário só aconteceria dali a seis meses. Então, o que isso queria dizer? O que aconteceria domingo?

A primeira coisa que fez foi ligar seu computador e imprimir a letra da música e sua devida tradução. Algo lhe tinha escapado, a pista estava ali. Entrou na Internet e baixou algumas versões da música, não sabendo exatamente como isso ia ajudar. Era uma mulher desesperada. Precisava entender o que aquilo queria dizer.

Um carro de som estacionou na frente de sua casa e começou a tocar alguma coisa.

Bianca apurou os ouvidos, acreditando que fossem tocar o raio da música de novo. Mas dessa vez, não houve música, mas uma voz anasalada e unicórdica dizendo:

– Pamoonha! Pamoonha! Olha a pamooonha quentinha! Quem quer pamoonha...

Bianca voltou à sua busca, percebendo que nem todo som era direcionado para ela. Continuou procurando alguma coisa referente à música, mas nada lhe tocava algum sino. Já estava imprimindo quando ouviu lá fora:

– Pamoonha! Fadas gostam de frutas! E gostam de doces! Fadas gostam de pamoonha!

Bianca correu novamente para a janela. O carro da pamonha já virava a esquina, repetindo sua cantilena, mas sem citar fadas novamente.

“Essas pistas estão muito estranhas... Não pode ser o Universo! Tem que ser alguém...”, pensou.

A resposta veio claramente em sua cabeça.

“Analice! Analice está me mandando as pistas de onde ela está! Não sei como, mas ela está!”

Bianca pegou seu caderno e as impressões da música. Pegou também o livro que recebera sobre o mundo das fadas e foi para sua cama, onde sempre pensava melhor. Começou a colocar as pistas em ordem. Espalhou-as sobre a cama em papéis separados e as observou:


1. Cuidado! Fadas!

2. O Tabuleiro abre portais.

3. Analice não está no reino dos mortos.

4. Analice está em outro mundo. Viva, espera-se.

5. Os índios apaches peruano da pracinha tocaram Blue Moon para ela.

6. Livro das Fadas que chegou misteriosamente pelo correio.

7. O Arcanjo Rafael rege o Reino das Fadas, juntamente com Paralda.

8. Os mexicanos, provavelmente peruanos da mesma família dos índios, tocaram Blue Moon para ela pela segunda vez.

9. Fadas gostam de pamonha.


Essas eram as pistas que tinha. Não sabia o que a última queria dizer. Mas sabia que precisava falar com Rafael. Como fazer isso? Levantou-se e foi até a imensa biblioteca da casa. Tinha uma parte sobre misticismo, magia e bruxaria. Bianca já tinha lido algo sobre isso e acreditava que era possível falar com seres de outros mundos através da magia. Com Rafael não deveria ser diferente. Pegou os livros que abordavam o tema e procurou o que lhe interessava. Ao fim daquele dia, falaria com um anjo e teria uma resposta sobre Analice.


Gostaria de esperar todos irem dormir para começar o ritual. Temia que alguém irrompesse no aposento e a encontrasse cercada de velas e incensos. Sabia que sua mãe era mais aberta a esse tipo de coisa, mas seu pai não gostava muito dessas coisas que ele mesmo chamava de bruxaria. Bianca achava que por vezes seu pai era tão religioso que poderia ser um padre, embora não conseguisse imaginar um homem como aquele, do tipo que chamava a atenção onde quer que fosse, mantendo-se fora de problemas com paroquianas.

Infelizmente, a hora adequada para chamar Rafael era nove horas da noite na sexta-feira. Teve que contar com a sorte, então. Trancou a porta e aguardou a hora certa, segundo uma tabela de horas relacionadas a gênios ou anjos. Olhava para o relógio ansiosa. Nunca tinha feito isso antes e estava nervosa. O rádio tocava uma música ambiente, trilha sonora de algum filme. Começara de forma inspiradora, mas quando o relógio acusou a hora certa, a música imediatamente se tornou mais sombria. Bianca acendeu as cinco velas coloridas sobre a mesa onde um pentagrama havia sido desenhado. Acendeu os incensos e começou a recitar o encantamento no livro, tentando ignorar a música de terror assombrando seu quarto.

– Tu autem Domine susceptor meus et gloria mea et exaltans caput meum...

Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Eram 72 salmos em latim para, somente então, chamar especificamente por Rafael. Não podia se distrair, nem errar. Concentrou-se e continuou. A fumaça do incenso espiralou e dançou, como se acompanhasse a música. Envolveu-a como se fossem pequenos dragões do ar, enquanto sua voz continuava a recitar as palavras em latim.

Quando terminou, chamou por Rafael sete vezes. Na última vez, as chamas das velas cresceram e se tornaram azuladas e a fumaça do incenso se tornou reta como uma corda esticada.

Bianca ficou parada, esperando algo mais acontecer. Não sentia mais calafrios, pelo contrário, estava morrendo de calor, como se houvesse uma lareira acesa no quarto. As chamas das velas voltaram ao seu tamanho e cor normais e a fumaça do incenso voltou a dançar e formar desenhos no ar. Bianca relaxou os ombros, decepcionada. Não havia funcionado.

Foi quando ouviu uma voz.

– Foi você quem chamou?

Bianca não respondeu de pronto. Estava confusa, porque a voz parecia clara, mas vinha de dentro de sua cabeça.

– Foi você? – repetiu a voz.

– F-foi... – gaguejou ela, achando estranho responder aparentemente para si mesma, já que a voz continuava dentro de sua cabeça.

– Bom... O que posso fazer para ajudá-la?

­ – Você é Rafael?

– Não, ele está muito ocupado no momento. Mas vim em nome dele, pode dizer o que você quer.

Bianca tinha um monte de perguntas, mas sabia que precisava ir direto ao ponto.

– Minha amiga Analice desapareceu domingo passado. Eu acho que ela está no Reino das Fadas. Pode me ajudar a encontrá-la?

A voz não respondeu de imediato, como se não esperasse aquele tipo de pergunta.

– Alô? – Bianca temia ter caído a linha.

– Estou aqui. Estou apenas verificando seu pedido. Aguarde um momento, por favor.

Bianca achou ter ouvido algo em outra língua, mas foi muito rápido. Tudo ficou em silêncio e ela continuou esperando, achando que aquilo estava parecendo com um serviço de telemarketing . Algum tempo se passou em que Bianca não ouviu absolutamente nada além da música que ecoava no quarto e algum cachorro latindo ao longe.

– Você conhece os perigos do Mundo das Fadas? – perguntou finalmente a voz.

– Conheço... – Bianca não estava muito segura.

– Então sabe que ao ir para lá, pode nunca mais voltar?

Bianca não respondeu. A voz parecia jovial, mas muito séria.

– Sabe que ao tentar recuperar o que perdeu, pode perder tudo o que tem?

– Não procuro tesouros! – respondeu Bianca de repente. – Não quero ir porque estou curiosa, embora esteja mesmo. Não quero ir para ver uma fada de verdade. Quero ir porque minha melhor amiga foi levada para lá e pode estar sozinha ou em apuros agora! Sou a única amiga de verdade dela, ela só tem a mim para ir até lá. Se você fosse arrastado para um outro mundo, e estivesse em perigo, ou sofrendo, não gostaria que alguém que o amasse o bastante fosse até lá resgatá-lo?

Houve um breve silêncio.

– Você aceita os riscos, então? – disse a voz, em tom mais baixo, e Bianca quase notou um traço de decepção.

Bianca respirou fundo.

– Aceito.

Fechou os olhos, esperando que uma ventania adentrasse o quarto e ela fosse sugada para uma outra dimensão. Mas nada aconteceu. Abriu os olhos novamente. A fumaça branca do incenso ainda dançava, as velas ainda aguardavam tranq uilamente.

– Muito bem... – tornou a voz. – Você deverá escolher o momento certo, do dia certo, no lugar certo e fazer o que tem que fazer. Não deverá levar consigo nenhum aparelho eletrônico. Mas deve levar o seguinte:

Bianca ficou atenta esperando o resto.

– Anote! Ou você pode esquecer!

Ela pegou atarantada um bloco e uma caneta e começou a anotar o que a voz lhe dizia.

– Você deve levar frutas, doces e coisas que você coma, além de uma garrafa de água. Não precisa ser em grande quantidade, apenas o bastante para uma refeição. Não leve carne de nenhum tipo.

“Puxa, que pena, não poderei levar 20 kg de costela pra fazer um churrasco...”, pensou Bianca, achando o conselho um tanto idiota.

– Você pode não levar costela, mas bem que ia gostar de levar um frango assado com farofa, sua farofeira! – disse a voz, surpreendendo-a.

– Você pode ouvir o que eu penso???

– Posso ouvir e posso ver. Então é melhor tomar cuidado com seus pensamentos.

– E lá se foi minha privacidade... – murmurou a contragosto. – Muito bem, não levar carne, e o que mais?

– Você não deve comer nenhum tipo de carne a partir de agora. Nem beber bebidas alcoólicas. Você deve levar, e isso é muito importante, uma coisa que a lembre de quem você é e de onde você veio. Você deve levar algumas joias, não precisam ser verdadeiras, mas precisam ser brilhantes e bonitas. Não vá de preto. Nos encontraremos lá!

– Peraí! Lá onde?

– Você não estava prestando atenção? No lugar certo, no momento certo do dia certo!

Bianca sentiu a energia à qual já estava se acostumando começar a se afastar.

– Espere! Qual o seu nome?

– Zacariel.

E foi a última coisa que ouviu da voz, que desapareceu logo depois. Bianca foi até o interruptor e acendeu a luz. Foi apagar as velas e se surpreendeu em como elas estavam menores. Olhou o relógio. Começara o ritual às nove horas da noite, exatamente. Era agora quase uma hora da manhã. Como não percebera que já haviam se passado quase quatro horas? Apagou as velas e recolheu tudo. Deitou-se, exausta. Queria pensar mais no assunto, mas assim que encostou a cabeça no travesseiro, o sono a levou.

 

 

 


Capítulo 5

O lugar certo, na hora certa, do dia certo


O problema das coisas invisíveis é que não podemos vê-las. Isso pode parecer o óbvio ululante pra você nesse minuto, mas para Bianca, ao acordar com uma poderosa ressaca, com seu pai falando, sua mãe rindo e Cacau latindo, pareceu uma grande descoberta filosófica. Deveria estar dormindo até mais tarde naquele sábado, mas não teve nem tempo de colocar as informações da noite anterior em ordem.

– Bom dia, alegria! Hoje é o dia!

Piscou várias vezes enquanto olhava para seu pai sentado na beirada de sua cama. Já ouvira isso antes... Mas porque seu pai estava ali, afinal?

– O quê? – foi só o que conseguiu formular às sete horas da manhã.

– Vamos, maluquinha, é hora de se divertir um pouco!

Ele jogou uma roupa em cima dela e sua mãe andava pelo quarto de short e camiseta. Ninguém respondeu suas perguntas, embora não tivesse certeza se tinha conseguido realmente formulá-las. Colocou a roupa, fresca e confortável, lavou o rosto e escovou os dentes. Foi apressada para o carro, onde Cacau também entrou. Cacau entrava em qualquer carro que abrisse a porta perto dela. Muitas vezes, foram chamados pelo vizinho para retirar uma vira-lata de dentro do carro dele.

– Pra onde estamos indo? – perguntou novamente.

– Sua mãe e eu achamos que há muito tempo não saímos juntos, nós três.

Cacau deu seu latido estridente de indignação.

– Nós quatro... – ratificou seu pai. – Então, tivemos a ideia de passar um dia juntos.

– Ah... – Bianca não parecia muito animada. Tinha feito planos para aquele dia. Precisava descobrir o lugar certo, o dia certo e o momento certo...

– Não precisa disfarçar sua empolgação! – disse sua mãe, notando que a menina não parecia muito feliz.

– Não é isso! – explicou. – É que eu tinha planejado ler hoje.

– Você lê todo dia! – continuou seu pai, ao volante.

– Pra onde nós vamos? – perguntou ela, percebendo que estava cedo demais para irem ao shopping.

Viu os olhos negros de seu pai pelo espelho retrovisor, enquanto ele respondia:

– Para o lugar certo.


Havia verde. Muito verde. Bianca morava perto, mas nunca tinha ido até a Floresta da Tijuca. Em dado momento, deixaram o carro e seguiram a pé, com suas cestas de piquenique e bolsas térmicas. Cacau ia na coleira, porque era muito burra e, sem coleira, saía correndo ensandecida para qualquer direção. Claro que Bianca não conseguia parar de pensar no que seu pai dissera no carro. “Para o lugar certo”. O que ele quis dizer com aquilo? Será que ele sabia das mensagens que estava recebendo? Ou faria ele parte das mensagens? E se Analice simplesmente o tivesse inspirado a dizer aquilo para dar uma dica para ela? E como diabos ela conseguiria fazer isso?! Bianca estava muito confusa. Ao chegar num restaurante que fica no caminho da subida, alguém gritou seu nome. Virou-se e viu aquele homem magro e alto acenando escandalosamente para ela.

– Tio Marcos?!! – Bianca não esperava encontrá-lo ali. Na verdade, não esperava encontrar ninguém ali.

– Achei que não viesse! – disse seu pai com um largo sorriso, estendendo-lhe a mão animado.

– O quê? E eu ia lá perder a oportunidade de achar mais um portal?

Sua mãe lhe deu um cutucão. Bianca percebeu, claro.

– Um portal? – perguntou a menina.

– É o nome de um livro que ele gosta e vive procurando...

– Mas se ele já tem, pra que quer mais um? – insistiu Bianca, percebendo as imensas crateras daquela história.

– É pra ler duas vezes! – respondeu Marcos. – Pra fixar melhor a história!

– Ele nunca entende da primeira vez, mesmo... – concluiu seu pai. – E Marcel, não vem?

– Estava viajando, mas disse que assim que voltar, combina algo conosco!

Seguiram estrada acima, com as imensas árvores como testemunhas, conversando sobre amenidades. Bianca seguiu em silêncio, levando Cacau na coleira, prestando atenção e com a pulga atrás da orelha. Seus pais pareciam saber mais sobre outros mundos e portais do que ela. Mas por que nunca disseram nada antes? E como fazê-los falar agora?...

Chegaram a um largo cercado por árvores e plantas e com mesas de pedras. O clima era fresco e as árvores farfalhavam ao vento. Sua mãe forrou a mesa com uma toalha vermelha e colocaram as coisas sobre ela. Ninguém tinha tomado café e a fome já batia à porta. Havia pão, requeijão, mortadela, manteiga, sucos e bolo. Tio Marcos contribuiu com uns bolinhos Ana Maria e alguns biscoitos. Bianca comeu, pois estava faminta desde o fim do ritual que fizera na noite anterior.

Talvez fosse o contato com as coisas reais do dia, talvez fosse o próprio amanhecer, mas o acontecido da noite anterior parecia perder a cada hora sua realidade. As chamas das velas cresceram mesmo ou fora sua imaginação? Um anjo lhe falara ou era só uma voz em sua cabeça? Aquelas informações eram reais ou só um truque do seu subconsciente? Talvez nada daquilo fosse mesmo real. “O problema das coisas invisíveis é que não podemos vê-las”, disse para si mesma. Tinha que se apoiar na fé de que não estava louca e pronto. Era muito para se pedir.

Nesse momento, fez uma escolha. O dia estava lindo e estava com as pessoas que amava. Aquilo era real. Era aquilo que iria viver, então. Entrou na conversa e se divertiu, comeu bolo e brigou pelo último biscoito. Bianca sempre foi sociável, embora do seu jeito por vezes bizarro. Sempre se dera especialmente bem com seus pais e com Tio Marcos. Era um dia perfeito. A única coisa de que sentia falta ali era Analice...

Depois do café, arrumaram tudo e recolheram o lixo, prosseguindo na sua caminhada para o topo. Enquanto seus pais caminhavam lentamente abraçados, ela, Cacau e tio Marcos ficaram para trás, observando-os. Ninguém tocara no assunto do desaparecimento da melhor amiga dela até aquele momento.

– Estão fazendo isso por você, sabia?

Bianca olhou para o seu tio, intrigada.

– Sabem que está triste e preocupada com sua amiga... – continuou ele.

– Ah... – suspirou ela, insatisfeita. – Querem me distrair, então... Como se eu fosse uma criança cujo sorvete caiu no chão.

– Não, não é isso. Querem lembrá-la de que há pessoas que a amam aqui. Você sabe que nós a amamos muito, não?

– Claro que sei! – respondeu Bianca, um tanto irritada, embora não soubesse por quê.

– Pois bem. Às vezes esquecemos. Dias como esse são para nos lembrar. Sua amiga pode não está mais com você. Mas nós estamos.

Caminharam em silêncio por mais algum tempo, até que ararinhas azuis cruzaram os céus, fazendo grande estardalhaço. O lugar era lindo e muito calmo, parecia parte de um outro mundo e ninguém poderia dizer que estavam no centro de uma das mais agitadas cidades do mundo.

– Tio Marcos?...

Ele olhou para ela, sem prever a pergunta que viria.

– Minha mãe e meu pai já estiveram em uma outra dimensão?

Tio Marcos arregalou os olhos e voltou a olhar pra frente.

– Todos nós vivemos, hora ou outra, em outras dimensões! – filosofou.

– Não enrola! – disse a menina. – Estiveram, não estiveram?

Um bando de quatis correu na frente deles, distraindo-os completamente.

– Olha! Uma cachoeira!

Bianca conhecia muito bem esse artifício de seu tio de mudar de assunto. Mas ele não iria escapar. Cedo ou tarde, iria descobrir a verdade.

A cachoeira era belíssima, lembrando um véu de noiva sob o Sol. Tiraram muitas fotos nela. Também tiraram fotos dos quatis. Bianca voltou a pensar em sua missão de resgate. Se seus pais estiveram em outro mundo, então era possível que suas pistas estivessem corretas e não fossem simples imaginação. Bom, o anjo dissera que precisava encontrar o lugar certo. Seria aquele? Mas era um lugar enorme! Onde exatamente?

– Olha! – seu tio chamou a atenção para uma placa. – O Lago das Fadas!

Bianca correu até lá, sem acreditar. Comprovou com seus próprios olhos. Havia um local chamado Lago das Fadas. Se isso não era um sinal, não sabia o que era. Pediu para irem até lá e foi prontamente atendida. Ninguém esperava que fosse tão longe. Subiram, subiram, subiram mais e Tio Marcos já estava pedindo para o deixarem para trás e pedirem ajuda, pois ele ia ficar e morrer ali mesmo.

Mas chegaram. Era um lago com árvores dentro dele e rastros de luz atravessando a densa folhagem. Silencioso, possuía um ar bucólico e misterioso. Flores preenchiam o lugar com perfume forte e um leão vertia água pela boca numa fonte antiga.

– Que lugar lindo!... – exclamou sua mãe.

“Este é o lugar”, pensou Bianca, sem a menor dúvida, ao lembrar do panfleto que envolvia a pedra que atravessou sua janela. “Agora, só preciso achar o dia certo e o momento certo”.

Trouxera no bolso as folhas amassadas impressas com a letra da música. Lia e relia tentando achar uma pista, mas parecia apenas uma canção de um apaixonado. Foi quando leu o texto que veio junto com Blue Moon que não tinha lido antes. Depois da letra da canção e de sua tradução, um pequeno texto em um comentário desejava feliz Lua Azul a todos. Lua Azul? Achou que a tradução correta seria Lua Triste.

– O que é Lua Azul? – perguntou, lembrando que seus pais eram devoradores de livros e talvez soubessem.

– Já ouvi isso... Acho que tem a ver com fadas... – disse sua mãe.

– Calma, que eu já descubro isso!

Seu tio pegou seu celular de última geração, do qual tinha muito orgulho e adorava exibir, e entrou na Internet. Em alguns segundos, apareceu com a resposta.

– “Lua Azul ou Lua das Fadas é a segunda Lua cheia de um mês, considerada mágica por abrir portais para os reinos elementais. Diz-se que todo ritual feito nesse dia tem seu efeito multiplicado sete vezes.” Nossa! Vou fazer uma simpatia pra ganhar dinheiro!

– E quando um mês tem duas luas cheias? – perguntou Bianca. – Achei que só tinha uma em cada mês.

Tio Marcos mexeu novamente nos botões de sua máquina mágica.

– Ahn... Só acontece de dois em dois anos...

Bianca desanimou. Teria que esperar dois anos para resgatar a amiga?

– Mas, olha só!!! Teremos uma Lua Azul amanhã!!!

– Sério?!

Bianca esticou o pescoço e conferiu a informação.

– Então – disse ela, – “domingo é o dia...”


Estiveram juntos por toda a manhã, até que, depois de chegar ao topo e ver a vista maravilhosa da cidade, voltaram. Deixaram Cacau em casa, almoçaram num shopping e esticaram para um cinema. Bianca não reclamou. No dia seguinte, partiria para um lugar do qual não sabia se ia voltar. Queria curtir o máximo que podia. Aproveitou uma passadinha no mercado para comprar as coisas que o anjo lhe pedira: doces e frutas.

Quando a noite chegou, arrumou suas coisas. O livro de fadas que recebera misteriosamente pelo correio lhe deu a última informação que faltava. O momento certo. Segundo ele, certos momentos do dia são especialmente mágicos, pois os portais para determinados mundos são abertos. Para o mundo dos seres encantados, dois momentos eram particularmente poderosos: o nascer do sol e sua partida, o crepúsculo. Depois de muito pensar, Bianca decidiu que a aurora seria o melhor momento para ela. Assim, arrumou as coisas numa pequena mochila, preparou sua roupa e foi dormir, o coração apertado entre a excitação de uma aventura e o medo de nunca mais voltar pra casa. Sentiu-se sozinha e teve vontade de chorar. O coração tremeu de medo. Pensou em desistir. Então, pensou também que Analice poderia estar sozinha em algum lugar também. Renovou sua coragem e disse para si mesma:

– Eu vou, encontrarei Analice e voltarei, custe o que custar!


Não dormira muito. Na verdade, quando achou que tinha finalmente dormido, o despertador do celular a acordou com sua musiquinha irritante. Eram quatro e meia da manhã. Arrumou-se em silêncio, pegou sua mochila e as coisas na geladeira. Mesmo sendo arriscado, foi até o quarto dos seus pais e os espiou longamente. Eles dormiam abraçados, como poucos casais com tanto tempo de casados ainda faziam. Os cabelos negros dos dois se misturavam belamente.

– Eu volto... – sussurrou.


Cacau a esperava na porta sentada como se lhe fizesse uma cobrança. Ela lhe fez um longo carinho e a abraçou, sussurrando:

– Eu volto!...

E, então, com os olhos cheios de lágrimas e o coração apertado, deixou a casa.

 

 

Capítulo 6

Nos braços da brisa


N ão foi difícil chegar até a floresta. O ônibus estava vazio e o caminho estava livre. Bianca pensara em deixar um bilhete, mas ficou imaginando se tudo desse errado e aquela empreitada não fosse a lugar nenhum. Como é que ela chegaria em casa depois de seus pais lerem um bilhete que dizia que ela tinha ido para outra dimensão atrás da amiga perdida? Não. Preferiu ir sem avisar. Tinha certeza absoluta que, quando voltasse, com a amiga ao lado, tudo lhe seria perdoado.

Saltou na frente da entrada da floresta. Teria que subir um bom pedaço a pé e não poderia demorar muito. O Sol já ia nascer.

Chegou ao Lago das Fadas e o céu já tinha aquele ar acinzentado de quem deseja acordar. Sentou-se perto da fonte onde o leão vertia água e esperou, a cabeça pululando de dúvidas. E se nada acontecesse? E o que deveria acontecer? O anjo não lhe falara nada sobre um ritual, então trouxera apenas o que ele pediu. Sentia-se nua sem celular e ficou saudosa do seu I Pod. Olhava em volta e nada acontecia. Começou a se sentir estúpida.

– Você veio!...

Espantou-se com a voz em sua cabeça.

– Claro que vim! Você não me mandou vir?

– É que a maioria desiste assim que pensa melhor nos riscos... O que me leva a crer que você não deve ser muito esperta...

– Para um anjo, você é meio abusado...

Ela ouviu uma risada.

– E então? – perguntou ela. – O Sol já vai nascer. O que eu faço agora?

– Pense na sua amiga e cante uma canção.

– Que canção?

– Qualquer uma. Pode começar.

“ E essa agora!”, pensou. Não lembrava de nenhuma música no momento. Estava tão nervosa!... De tanto ler, acabou decorando Blue Moon . E foi ela que cantou.


– Blue moon, you saw me standin’ alone / Without a dream in my heart, without a love of my own...


Pensou em Analice e em tudo o que tinham vivido juntas. Como se conheceram, seus passeios, suas conversas, a quedinha que ela tinha pelo garoto da sala ao lado, seus medos e seus anseios e desejos para o futuro.


– Blue moon, you knew just what I was there for / You heard me sayin’ a prayer for / Someone I really could care for...


O Sol começou a surgir, banhando a floresta com uma suave luz dourada. No entanto, o lago começou a brilhar, como se fosse feito de platina e todas as árvores pareceram dançar ao som da melodia.

Espantada com o efeito, Bianca interrompeu a canção.

– Não pare!

Ela continuou, percebendo a beleza do lugar crescendo e todas as coisas vivas emitindo luz, pulsando em seu ritmo próprio. Sentiu que seu coração, antes acelerado, começou a entrar no ritmo do lugar.


– And then there suddenly appeared before me / The only one my arms will ever hold / I heard... / ...somebody whisper “please...


Sentiu-se parte de tudo e uma imensa paz a invadiu. Seus olhos pesaram. Sua voz ficou mais baixa e mais enrolada.

– Não pare!

Ouviu o anjo e se esforçou por continuar, mas os olhos pesavam muito e a cada vez que os abria, mais o lugar parecia irreal. Até que, em algum momento, seus olhos fecharam e ela não conseguiu mais abri-los. Sentiu-se amparada por uma brisa suave e flutuou até o chão numa queda lenta.


Acordou, sem lembrar como ou quando tinha perdido a consciência. Seus olhos foram se acostumando com a luz e percebeu que o lugar onde estava era bem diferente do Lago das Fadas. A relva era verde clara e primaveril e as árvores pareciam ter luz própria. O céu era azul, mas tinha vários rastros coloridos, como se um pintor muito criativo tivesse lhe dado mais cores. Viu pássaros voarem... Apurou os olhos. Aqueles pássaros pareciam pessoas pequenas com asas!

Levantou-se espantada e olhou em volta. Além das pessoinhas voadoras que já tinham sumido de vista, não havia mais ninguém ali. Ao menos, ninguém que pudesse ver.

– Você parece surpresa.

Olhou em volta, mas a voz continuava em sua cabeça.

– Achei que você viesse comigo!

– Eu estou com você.

– Não, não está, não. Ainda é só uma voz na minha cabeça...

– Pare de reclamar. Eu sou seu guia. Vou estar com você durante sua estada neste mundo. Não é preciso estar presente fisicamente ao seu lado. Basta que você simplesmente ouça e obedeça.

Bianca não gostou da ideia, mas não tinha muita escolha. Levantou-se, olhando em volta.

– Nossa! Este lugar é estonteante!...

– É, mais siga estritamente as minhas instruções ou esse lugar estonteante pode acabar te matando.

Bianca não sentiu nenhum tipo de perigo. Muito pelo contrário, sentia-se encantada em poder viver aquela aventura fora das páginas de um livro.

– Você é sempre tão dramático, Zac?

– Só em missões suicidas. Agora, preste atenção. Isso é importante, se você planeja sair daqui algum dia.

Bianca prestou atenção.

– Não coma nem beba nada aqui! Nunca! Se comer ou beber alguma coisa deste mundo, nunca mais poderá sair dele.

– Por isso me mandou trazer comida?

– Sim. E mais uma coisa. Não beije ninguém desse mundo.

Bianca fez uma cara de quem foi ofendida.

– Por acaso você acha que vou sair beijando o primeiro que aparecer?! Que tipo de garota acha que eu sou?!

– E por último, me obedeça! – continuou a voz, ignorando a indignação dela. – Se fizer isso, talvez consiga voltar para casa.

– Você é o anjo mais pessimista que eu já vi... – comentou Bianca. – Por acaso você pegou esse trabalho agora?

– Quer achar sua amiga ou não?

Bianca suspirou e concordou.

– Ótimo. Então, vamos.

Bianca ficou parada, esperando alguma instrução mais específica.

– Pra onde? – perguntou, ao perceber que o anjo não falara mais nada.

– Ah, desculpe. Pra frente. Siga seu nariz.

Bianca começou a andar, a pequena mochila nas costas.


Estava extasiada pela beleza do lugar. Tudo era muito colorido, muito claro e iluminado. Sentia-se leve e feliz, como se nada pudesse sair errado. Quase podia ouvir uma música com tambores ao fundo, marcando o compasso de sua vitória.

– Pare.

Ignorou a voz em sua cabeça. Estava tão animada, tão certa da vitória, tão confiante que sabia em seu íntimo que não precisava parar. Podia e devia continuar até seu mais absoluto sucesso.

– Pare!

Se antes andava, agora corria, sentindo o vento em seu rosto e a relva macia sob seus pés. Podia voar, se quisesse! Aquele lugar era mágico!

Um galho bateu em seu nariz com tamanha violência que a jogou para trás de costas no chão. Levou a mão ao nariz dolorido. Alguém – alguém que não podia ver – segurara um galho e o largara bem quando ela passava correndo.

– Eu mandei parar.

– Você fez isso?!

– Fiz! Agora, pegue a coisa que eu lhe disse pra trazer! Rápido!

S entindo pela primeira vez a urgência na voz de Zacariel, Bianca sentou-se e abriu a mochila. Pegou as joias, bijuterias bonitinhas que tinha.

– Não, não isso! A coisa que a faz lembrar de quem é e de onde veio!

Bianca então pegou uma foto onde ela estava com seu pai, sua mãe e Cacau, sorrindo como se o mundo fosse sempre ensolarado. Assim que pegou a foto, sentiu-se diferente. Era como se seu coração voltasse a bater no lugar certo, no ritmo certo. A empolgação que sentia subitamente desapareceu e o lugar, apesar de continuar belíssimo, agora lhe parecia tão real quanto ela.

– Desculpe, eu precisava pará-la. Este lugar possui uma atração especial para algumas pessoas. Elas se encantam de tal forma que se esquecem de quem as espera do outro lado, no seu mundo. Acabam distraindo-se e ficando aqui para sempre. Por isso, sempre que sentir que algo assim está acontecendo, quero que olhe para esta foto e se lembre de quem você é.

Bianca olhou longamente a foto. Então a guardou, levantando-se.

– Tudo bem. Terei cuidado. Vamos continuar.


Caminharam por uma planície tão verde que parecia esmeralda até chegarem a uma floresta de grandes árvores com frutos de aparência maravilhosa. Bianca sentiu a boca encher-se d’água, mas sabia que tudo naquele reino lhe era proibido.

– Estou com fome...

Ouviu um suspiro impaciente.

– Está bem, vamos parar um pouco.

– “Vamos”? “Vamos” quem, cara pálida? Sou eu que estou andando que nem uma mula! Você está muito bem aí sei lá onde comendo salgadinhos e me vendo pela sua televisão de 700 polegadas!

– Olhe, eu não estou fisicamente aí porque é o jeito mais seguro!

– Seguro pra quem? Pra mim ou pra você?

– Pra nós dois! Agora pare de choramingar e coma logo!

Bianca sentou-se embaixo de uma árvore e retirou um sanduíche de queijo e um suco de pêssego numa garrafa térmica. Estava comendo em silêncio quando sentiu que alguém a observava. Pelo rabo do olho, viu uma criatura a espreitá-la atrás das árvores e arbustos.

Olhou diretamente e a criatura se escondeu. Voltou a comer, esperando alguma instrução do anjo.

– Tem um ser ali... – disse baixinho.

– Tem um ser em qualquer lugar aqui...

– O que eu faço?

– Nada. Ignore-o. Com sorte, ele irá embora.

Como sempre, Zacariel não tinha sido muito confortador.

– Zac, você precisa fazer um curso de relações interpessoais urgentemente – disse ela, dando uma mordida em seu sanduíche.

Voltou a ver a criatura se mover por trás dos arbustos. Ficou em silêncio e virou-se devagar. Mais uma vez, a criatura se escondeu. Então, ignorando o conselho do anjo, Bianca estendeu a metade de seu sanduíche para a criatura.

– O que está fazendo??? É muito difícil ficar quieta e seguir seu caminho?!

Bianca não respondeu. Não queria assustar o ser que começava a surgir de trás dos arbustos. Deus do céu, ele era muito feio! Bianca não esboçou nenhuma reação de pavor. Apenas sorriu e manteve a oferta do sanduíche. A criatura foi se aproximando devagar e com cautela da moça. Ele tinha a estatura de um homem baixo, patas de bode e orelhas enormes. Seus olhos, no entanto, pareciam inofensivos. Ele se aproximou, hesitante e surpreso até pegar o sanduíche. Com um sorriso e um gesto de mão, Bianca o convidou para sentar-se. Ele se sentou diante dela, comendo o sanduíche. Ela também dividiu o suco, pois tinha trazido dois copos, na certeza de achar Analice e na esperança d e que aquele anjo covarde a acompanhasse de verdade.

E assim, Bianca fez sua refeição, não com um anjo, nem com sua melhor amiga, mas com uma criatura feia e esquisita. Mesmo assim, foi uma excelente companhia. Quando terminaram, Bianca sorriu e fez um gesto com a cabeça.

– Eu tenho que ir. Foi um prazer!

Ela se levantou e o ser saiu correndo, trotando desengonçadamente.

– Eu disse que essas criaturas são inesperadas! E você se arriscou muito! Ele podia ter avançado em você, tê-la feito em pedaços!

Bianca continuou andando, sem responder. Talvez ele tivesse razão. Melhor seria então seguir adiante enquanto nenhuma tragédia acontecesse. Foi quando ouviu trotes atrás de si. Virou-se e viu o ser de antes correndo assustadoramente em sua direção.

– Corra!

Bianca, no entanto, paralisou. Não foi teimosia, muito menos coragem. Simplesmente, suas pernas não obedeciam. Em alguns segundos, o ser parou a centímetros dela. Então, estendeu-lhe um cordão com uma pequena garrafinha. Dentro, um líquido colorido fosforescente balançava de um lado para o outro.

Ela pegou o cordão. O ser fez uma careta horrorosa, o que Bianca interpretou como uma tentativa de sorriso. Então ele virou-se e correu de volta para a mata. Refeita do susto, Bianca olhou para a interessante garrafinha com o líquido verde fosforescente.

– O que será isso? – perguntou ela.

– Sei lá... Césio, talvez...

– Seja lá o que for, foi um presente – disse ela, colocando o colar no pescoço. – Viu? Este lugar não é tão perigoso quanto você achou.

 

 


Capítulo 7

Entrando na Roda


Se fosse uma pessoa qualquer, Bianca estaria constrangida ao se flagrar falando sozinha, respondendo a uma voz dentro de sua cabeça. Após seu primeiro encontro com um ser do Reino das Fadas, ela e Zacariel iniciaram uma interminável discussão sobre os perigos do mundo (daquele e de muitos outros). Bianca simplesmente achava que Zacariel, para um anjo, era um tanto pessimista demais. Zacariel achava que Bianca, para uma humana, era um tanto otimista demais. Bianca estava disposta a prosseguir na discussão quando uma vista lhe tirou o fôlego. Estavam no alto de uma montanha. Abaixo dela, estendia-se um vale verdejante, com rios azuis serpenteando entre bosques e campos. Havia casas construídas ao estilo medieval, mas muito mais coloridas. No céu, nuvens coloridas se amontoavam no horizonte, misturando-se com outras montanhas.

– Noooossaaa!... – exclamou Bianca, que nunca vira um lugar tão fantástico.

Zacariel se calou por um momento. Não se sabe se estava tão maravilhado quanto Bianca, se escolheu lhe dar um momento para ela se deslumbrar, ou se simplesmente tinha se cansado.

– Analice está lá? – perguntou Bianca, olhando para a pequena cidade abaixo da montanha, de onde filetes de fumaça se desenhavam acima de algumas chaminés.

– Não sei.

– Não sabe?! Como assim não sabe? Achei que sabia pra onde estávamos indo!

– Eu sei pra onde estamos indo.

– Então sabe onde está Analice!

– Não. Não estamos indo para onde Analice está, seja lá onde isso for. Estamos indo para o Castelo de Paralda.

– E por que estamos indo para esse castelo?

– Porque se você pretende voltar para casa, para o seu mundo, precisamos do Elixir de Tir Nan Og. Só com ele você poderá voltar no tempo correto.

Bianca se lembrou de algumas das histórias que leu no livro das fadas. Uma lenda falava de um rapaz chamado Shon Ap Shenkin que foi capturado por uma melodia encantada numa linda manhã de verão. Ele se sentou ao pé de uma árvore para ouvir e, quando ouviu o último acorde, levantou-se para ir embora. Espantou-se da árvore em cuja sombra estava ter crescido assustadoramente. Voltou para casa e viu um velho sentado na porta que lhe perguntou o que desejava. Shon respondeu surpreso que deixara seu pai e sua mãe ali alguns minutos antes. O velho perguntou seu nome e, quando Shon lhe respondeu, ficou pálido. “Eu sempre ouvi o meu avô, seu pai, me falar sobre como você desapareceu!”.

E nesse instante, Shon virou pó.

Em outra lenda famosa, um jovem guerreiro chamado Oisin, filho de um dos lendários chefes guerreiros fenianos da Irlanda chamado Finn, encontrou, enquanto caçava com os fenianos, uma belíssima donzela chamada Niamh dos Cabelos Dourados, filha de Manannan. Ela o escolheu como marido e lhe deu carona em seu belo cavalo encantado que cavalgou até o mar, através das ondas, até chegar à terra encantada de Tir Nan Og. Depois de viver aventuras, Oisin viveu feliz com sua amada na Terra dos Jovens por 300 anos, com fartura e felicidade, até que um dia sentiu saudades de casa e pediu para voltar. Foi lhe dada a permissão, mas Niamh lhe advertiu seriamente para não pisar no solo quando chegasse. Ela lhe deu um cavalo encantado e ele partiu, depois de prometer que seus pés não tocariam o solo. Quando chegou, a Irlanda não era mais como antes. Seu pai e seus feitos eram lendas do passado e São Patrício já convertera a terra. Oisin achou que os homens, outrora muito maiores, agora pareciam anões. Ele viu três desses homens tão pequenos tentando erguer uma pedra. Oisin ergueu a pedra com uma só mão, mas quando a ergueu, seu selim de ouro arrebentou e ele caiu no chão, se transformando imediatamente de um jovem forte e garboso em um velho cego. Versões mais recentes dessa lenda contam que São Patrício o ajudou e tentou convertê-lo, fazendo-o negar tudo em que acreditava. Mas ele insistiu em sua fé, dizendo que não queria ir para um céu onde seus iguais não poderiam entrar e que não podia conceber um Deus que não quisesse tais bravos e nobres guerreiros ao seu lado. Assim, Oisin dizia a São Patrício que preferia ir para o inferno, onde pelo menos teria a companhia de seus amigos, que São Patrício garantia que tinham ido todos para o inferno.

E, como esta, muitas outras histórias irlandesas e celtas se espalhavam desde o mundo antigo até os dias de hoje. Bianca teve um ligeiro tremor diante de um vento mais frio e da visão de se ver 70 anos mais velha ao voltar ou simplesmente virar pó.

– E onde é este castelo? – perguntou então.

– Onde o Vento Faz a Curva – respondeu Zacariel.

– Olha aqui, seu grosso, se não quer responder, não responda! Não precisa ser mau educado!

– Eu não fui grosso! O nome do lugar é esse mesmo, eu juro! “Onde o Vento Faz a Curva”.

– E onde seria isso? Depois de “Onde Judas Perdeu as Botas”?

– Não pre cisa ficar tão irritadiça! Os lugares aqui possuem nomes estranhos, vá se acostumando...

– O quê? – Bianca franziu o rosto, enquanto a voz de Zacariel ficava cada vez mais distante, abafada por uma música de flautas, bandolins, gaitas e tambores que parecia cada vez mais alta.

– Bianca! Não siga a música!

– Zac? Essa música está muito alta! Eu não consigo ouvi-lo!
Bianca começou a caminhar pela montanha, tentando descobrir a origem da música, ao mesmo tempo em que tentava ouvir melhor Zacariel, acreditando que alguma antena na sua cabeça estivesse com interferência. Até que chegou num lugar onde a música estava particularmente alta e a grama se mexia. Curiosa, ficou observando. Retirou a pequena mochila das costas e a deixou no chão, enquanto tentava ver o que fazia a grama se mover.

– Não entre nessa roda! Bianca, não entre nessa roda!!!

Por mais que o anjo se esforçasse, não conseguia suplantar o som da música. Bianca olhava intrigada a grama se mover estranhamente sozinha, quando de repente pôde vê-los. Primeiro, eles piscaram, como se fossem uma ilusão de ótica, um rápido reflexo num espelho. Então, depois de algumas vezes piscando, como uma televisão tentando achar sua sintonia, eles se tornaram visíveis. Mediam cerca de um metro e vinte e se assemelhavam a duendes, ou algo muito parecido. Tinham casacos e boinas, a maioria verde, e, enquanto alguns deles, com barbas brancas, tocavam instrumentos, outros rodopiavam em círculos numa dança animada. Bianca ouvia a voz de Zacariel muito distante, já não compreendia mais nada do que ele dizia. Aquela música, no entanto, era tão contagiante, pulsante e viva que sentia seus pés batendo levemente no ritmo. Foi quando foi convidada pelos seres para fazer parte da roda. Bianca balançou a cabeça negativamente, recusando com um sorriso o convite, embora sentisse seu corpo inteiro ser atraído para a dança. Um dos elementais que dançava em círculos passou por ela e a puxou pelo braço.

Bianca entrou num único salto, começando imediatamente a pular e dançar, como se seu corpo só obedecesse às ordens das notas musicais e das batidas do tambor. Sentia-se bem e frenética, imaginando que é assim que alguém deve se sentir seguindo um trio elétrico ou desfilando na Marquês de Sapucaí. Ela não sabia, o máximo que fazia era pular no quarto ao som de My Chemical Romance, Offspring, Queen ou Madonna, cuja coleção completa ganhara de Tio Marcos. Pular em seu quarto se imaginando uma rock star não tinha nada a ver com aquilo. Aquilo ali era totalmente diferente.

Girava animada, batendo os pés no ritmo cada vez mais rápido, sentindo aquele impulso de ir mais longe, de se entregar totalmente à dança. Os duendes a sua volta rodopiavam e dançavam, rindo e saltando, e ela era um deles. A paisagem maravilhosa que tinha a sua volta era agora um borrão verde girando ao seu redor. Sentiu as pernas doerem e o peito arfar, o cansaço já dava seus primeiros sinais. Aborreceu-se por estar em tão má forma e, como se fosse um protesto, dançou ainda mais rápido. Sentiu o coração se acelerar, mas não conseguia parar. Continuou a dançar, rodar, saltar, jogar os braços pra cima, sentindo-se muito pouco elegante, mas incrivelmente livre.

Depois de algumas horas saltando e pulando sem parar, algo se destacou naquele borrão verde que a cercava. Não conseguiu discernir da primeira vez que passou por ele, mas parecia uma mancha branca de luz. Dançando em roda, tentou prestar mais atenção quando passasse pela mancha de novo. Da segunda vez, conseguiu ver claramente uma mão estendida para ela. E, dessa vez, também ouviu algo muito distante, como se alguém estivesse falando de uma outra sala, numa outra casa, numa outra cidade e sem telefone. Sim, era isso! Era alguém sem telefone gritando-lhe uma mensagem. Mas seu grito lhe chegava fraco como passarinho recém-saído do ovo e ela só ouvia um sussurro. Na próxima vez que passasse pela mão, prestaria mais atenção.

Na terceira volta, viu a mão novamente, dessa vez mais perto, pois podia ver também um braço. Era uma mão clara e delicada e lhe inspirava confiança. Para uma mão, tinha bastante personalidade. Também conseguiu ouvir um pouco mais da voz que tentava lhe falar.

– PEGUE A MINHA MÃO!!!

Instintivamente, Bianca estendeu a mão para tocar aquela outra mão que parecia nascer de um rasgo no borrão, mas um dos seres acabou puxando-a para dançar e ela girou na direção contrária. Antes que se afastasse demais, Bianca continuou girando, soltando-se do ser e se atirando para a direção de onde achava que estava aquela mão. Não mirou muito bem, mas em sua tentativa, perdeu o equilíbrio e já ia cair, quando a mão a agarrou pelo braço e a puxou violentamente.

Sentiu-se voar, os pés saindo do chão, enquanto era puxada. Esperou cair no chão, mas, ao invés disso, sentiu-se cair em algo macio e quente. Com o cabelo no rosto, levantou a cabeça para ver onde tinha caído. Um jovem de cabelos escuros e olhos incrivelmente azuis a havia amparado ao cair. Ele era a coisa macia e quente que amortecera sua queda. Ele era o dono da mão. E do braço. Ele devia ser...

– Zac? É você? – balbuciou ela, sentindo a língua enrolar um pouco, como quando você acaba de acordar mais cedo do que gostaria.

O jovem levantou a cabeça e a olhou com aqueles olhos azuis que pareciam estrelas num céu muito escuro. Ele tinha os traços muito finos e usava simplesmente uma calça jeans e uma camiseta branca.

– Você está bem? – perguntou ele, parecendo preocupado.

De repente, Bianca percebeu que o estava encarando e o fato de tê-lo achado o rapaz mais bonito que já vira na vida fora de uma televisão a fez enrubescer e sair de cima dele o mais rápido que podia.

– Claro! Estou ótima!

Assim que disse isso, já de pé, caiu sentada. As pernas estavam bambas, tremiam. Foi então que percebeu que o dia, claro e quente, agora era início de noite, e uma brisa fria anunciava a hora de voltar pra casa – caso você tivesse uma.

– Como você veio... Você não era só uma voz?... Você...

Ela não conseguia colocar as palavras em ordem. Um profundo cansaço a tomou por inteiro e agora, não só as pernas tremiam, mas seu corpo inteiro doía e o peito parecia cansado de tanto arfar. Ele se aproximou dela, tocando suavemente seu ombro e examinando seu rosto.

– Não me diga... – balbuciou ela. – Não me diga que eu virei uma velhinha de 200 anos...

Ele sorriu, parecendo iluminar aquele início de noite. Somente então ela percebeu que ele não tinha asas. Talvez não fosse o anjo afinal.

– Não se preocupe, você não está mais do que algumas horas mais velha. Mas seu corpo está cobrando o preço por tanto esforço. Se ficasse mais tempo lá, acabaria morrendo de cansaço.

Ele a ajudou a se levantar.

– Vamos, precisamos ir.

– Precisamos mesmo? Estou tão cansada!...

– Eu sei, mas se há círculos encantados aqui, não é um bom lugar pra ficar – respondeu ele, pegando a mochila do chão. – Só precisamos caminhar um pouquinho até achar um lugar pra passar a noite.

Bianca tentou dizer alguma coisa, mas desistiu no meio e emitiu apenas um gemido incompreensível. Zacariel a amparava, enquanto ela tropeçava a cada passo, sentindo um cansaço tão poderoso que começava a doer fisicamente. Quando achou que não ia aguentar mais, sentiu-se sendo erguida nos braços dele, como os mocinhos fazem com as mocinhas nos filmes mais antigos (porque nenhuma mocinha se deixa carregar por mocinho nenhum nos filmes mais modernos). Ficou pensando por alguns segundos se estava traindo algum movimento feminista ao amar aquele ato, sentindo as dores nas pernas se aliviarem e encostando a cabeça em seu ombro.

Achou que apagou por alguns minutos. Ou horas. Não sabia ao certo, mas acordou ao sentir que estava sendo colocada delicadamente no chão. A relva tentava disfarçar, mas o chão continuava duro e frio. Sentiu que o rapaz deitara-se ao seu lado. Lembrava que ele era quente e macio. Arrastou-se um pouco, esperando que seu gesto não fosse mal compreendido. Assim que sentiu novamente o cheiro dele – “um cheiro de maçãs frescas”, ela pensou – adormeceu, ainda ofegante, os olhos pesados e a mente totalmente embotada. O último pensamento que lhe passou pela cabeça foi: “Amanhã, ou sei lá quando eu acordar, porque agora acho que posso dormir pra sempre, acordarei sozinha, porque ele voltará a ser só uma voz... Que pena...”

 

 

Capítulo 8

Morro Abaixo


H á dias na sua vida que são tão estranhos, tão fora do comum, tão inesperados, que se tornam impensáveis. Acordamos na manhã seguinte com a firme convicção de que tudo não passou de um sonho. E foi assim para Bianca. Antes de acordar, quando a consciência fazia ainda seu lento caminho para a realidade, Bianca revia as cenas do dia anterior como fragmentos de um estranho sonho. Viu-se na Floresta da Tijuca, viu o Lago das Fadas, viu o estranho ser que lhe deu uma garrafinha amarrada a uma corda, viu a surpreendente paisagem daquele outro mundo de seres encantados, viu a roda de duendes, e a voz em sua cabeça ganhou um rosto. Sorriu pra si mesmo ao lembrar do anjo. “E que rosto!”, pensou, gostando da lembrança daquele sonho. Ainda estava muito cansada e não queria abrir os olhos. Quando abrimos os olhos, nos despedimos de vez do sonho da noite. Não, ficaria mais um pouco com aquela sensação gostosa, tentando se lembrar de mais detalhes na aventura, pois assim poderia contar para Analice quando a encontrasse na escola.

Seu sorriso se desfez. Lembrou que Analice não ia mais à escola. Isso não tinha sido sonho. Algo a incomodou perto do pescoço. Apalpou, achando ser algum cordão que esquecera de tirar antes de ir dormir. Ao sentir o pingente, no entanto, a impressão de sonho começou a se desfazer com enorme velocidade. Sentiu uma pequena garrafinha com tampa de rolha amarrada a uma corda fina. Abriu os olhos e sentiu que dormia sobre algo que respirava. Sentiu o cheiro de maçãs frescas e uma brisa matutina a despertou por completo.

Levantou-se abruptamente, acordando também o jovem ao seu lado.

– O que foi? O que houve? – Zac procurava sobressaltado algum perigo iminente, mas só se deparou com a menina a olhá-lo com olhos muito arregalados.

– Você é real? Tudo isso aqui é real? Não foi um sonho? – perguntou ela, já sabendo a resposta.

O jovem se sentou, apoiando as costas no tronco da enorme árvore que lhes dera guarida. Ele passou as mãos nos cabelos castanhos e a olhou com um quase sorriso.

– Sim, tudo é real, nada foi um sonho.

– Como vou saber, se o sonho enquanto sonhamos parece tão real quanto quando estamos acordados? Talvez eu esteja sonhando agora!

O anjo ficou em silêncio por alguns segundos.

– Arrependida? – perguntou ele.

Bianca pareceu mais conformada.

– Ainda não – respondeu ela.

– Então, é hora de prosseguirmos!

Ele se levantou e deu a mão para ajudá-la. Então, voltou-se para a enorme árvore e encostou sua mão direita nela.

– Obrigado, por nos abrigar, minha irmã. Receba meu amor e gratidão.

Uma suave luz irradiou da mão dele e se estendeu por todo o tronco, galhos e folhas da árvore, que começou a farfalhar, como se fosse uma canção. Bianca olhou maravilhada a luz unificar o anjo e a árvore, tornando-os um só. Quando terminou, Zac se afastou e se deparou com o olhar curioso de Bianca.

– Além de nos dar abrigo, ela também curou seu cansaço – explicou ele, achando que era isso que a intrigava. – As raízes das árvores, assim como as dríades que nelas vivem, têm o poder de reciclar energia e por isso dormir embaixo de uma árvore pode renovar nossas forças.

Apesar da explicação, Bianca continuava olhando-o intrigada.

– Anjos dormem? – perguntou ela, finalmente.

– Às vezes, cochilamos um pouco! – respondeu ele, começando a caminhada.

Bianca o seguiu, parecendo ter confirmado algo de que já desconfiava.

– Isso explica muita coisa...


Olhando para trás, Bianca via que a árvore em que estavam era realmente enorme. E também única. Ela se elevava acima da montanha que agora desciam com seus enormes galhos acenando adeus. A relva era tão verde que parecia uma cor digitalmente inventada e o céu estava determinado a ser azul. Era uma manhã linda. Bianca ficou feliz da árvore ter-lhe feito essa caridade, pois imaginou como seria terrível descer montanha, andar, procurar e provavelmente subir outra montanha toda dolorida e amargando uma tremenda ressaca de primeiro dia de academia. Foi quando algo doeu profundamente dentro dela.

– FOME! – gritou Bianca, parando subitamente de andar.

Zac olhou pra ela, meio surpreso. Parecia se esquecer que humanos comem.

– Tudo bem, vamos parar aqui e você pode comer um pouco.

– Comer o quê? Eu só trouxe um sanduíche e uma garrafa de suco. Agora, só tem bolinhos, doces e fru...

Bianca parou de falar ao, remexendo a mochila, encontrar novamente e intactos o sanduíche e o suco.

– Como isso é possível? Nós voltamos no tempo?

Zac sentou-se no chão e riu.

– Não, não voltamos no tempo. Por isso lhe pedi para trazer sua própria comida. Ela se renovará automaticamente, até que esteja pronta para ir embora. A menos que coma algo deste mundo. Nesse caso, sua comida não retornará pra você, nem você para seu mundo.

Antes da explicação acabar, Bianca sentou-se na relva e devorou o sanduíche. Pegou metade e ofereceu ao anjo, que recusou polidamente. Bianca sabia que estava comendo como um bicho, sem a menor finesse ou elegância, mas estava faminta. Tomou a garrafa de suco de uma só vez e, dessa vez, comeu também os bolinhos e frutas que levara. Quando terminou, largou-se de costas na grama.

– Espero que neste mundo não existam calorias...


Sentiu que o anjo deitou-se ao lado dela e ficaram ambos olhando o céu da manhã, sentindo a brisa fresca e a sensação de contentamento.

– É um lugar realmente belo... – disse ela.

– Sim, é... – concordou o anjo.

– Zac?

– Hum?

– Eu quero lhe perguntar uma coisa, mas estou um pouco sem graça...

Ele virou o rosto para ela, curioso.

– Pode perguntar o que quiser.

– Quer dizer, é como perguntar para um anão cadê o resto dele, algo muito desagradável, e eu não quero que pense que eu sou grossa ou coisa assim.

– O que você quer saber?

– Cadê suas asas?

Zac não respondeu. Ao invés disso, voltou a olhar o céu azul.

– Estão aqui – respondeu finalmente.

– Onde? – insistiu Bianca, que nunca desistia até ter uma resposta.

– Recolhidas. Estão aqui, apenas não há razão para que elas se mostrem agora.

– Sério? – Bianca se levantou, ficando sentada diante dele. – Poderíamos ir voando até sei lá onde você quer ir! Pouparíamos muito tempo!

O anjo se sentou também, olhando firmemente para ela.

– Bianca, você ainda não sabe, mas há muitos seres aqui e nem todos são amistosos. No momento, é melhor que ajamos com discrição. Não se preocupe com o tempo. Temos um monte de tempo aqui. Bem ou mal, você já perdeu sete anos naquela roda de duendes e nem sentiu!

Bianca arregalou os olhos e se levantou num único salto, puxando todo o ar de uma só vez até quase ficar tonta.

– O-o-o quê?!!! Como assim sete anos??! Você disse que só tinham se passado algumas horas!

O anjo manteve a tranquilidade.

– Algumas horas aqui. No seu mundo, passaram-se sete anos.

Bianca surtou. Começou a andar em círculos, falando sem ouvir.

– SETE ANOS?! Isso significa que meus pais já devem ter ido à polícia, já devem ter surtado, devem estar desesperados, e eu perdi todas as minhas aulas, quer dizer, eu agora tenho 2 3 anos, e nem mesmo dei um primeiro beijo, e nem tenho a porcaria de um diploma de segundo grau, eu perdi sete anos, sete anos inteirinhos, como alguém consegue fazer isso e nem perceber, eu sou uma idiota!!!

Ela parou quan do o anjo a segurou firmemente obrigando-a a olhar para ele.

– Bianca, por favor, não surte! – disse ele.

Ela começou a falar tudo de novo numa voz tão aguda que parecia um violino desafinado tocado por alguém ligeiramente irritado. O anjo a fez se calar novamente.

– Shhh! Ouça-me! Nós vamos até o Castelo de Paralda e vamos pegar o Elixir de Tir Nan Og. Com ele, você voltará no tempo certo e não terá perdido um minuto não vivido.

A moça relaxou os ombros, mas ele ainda podia ouvir seu coração batendo. Então ele sorriu.

– Confie em mim, OK?

– OK... – disse ela por fim. Não havia propósito em se desesperar.

– Vamos!

Ela começou a seguir o anjo, até perceber que estavam descendo.

– Nós vamos descer andando? – perguntou ela.

Ele se virou para ela confuso.

– Como você gostaria de descer? – perguntou ele.

Ela mandou ele esperar. Saiu correndo até algo que tinha visto perto de umas pedras antes de se sentarem para comer. Em alguns minutos, voltou com um pedaço de casca de árvore que tinha secado e se desprendido. Era grande, do tamanho de...

– ...Um trenó!...

O anjo sorriu ao entender o plano. Porém, quando Bianca colocou a casca de árvore no chão, ele não se sentiu muito seguro. Olhou para o destino, montanha abaixo.

– É uma descida e tanto... – disse ele. – Acha que vai dar certo?

– Claro que vai! – respondeu ela, se ajeitando na parte da frente e encolhendo os pés. – Eu sempre fazia isso quando era criança num morrinho lá perto de casa!

Ainda desconfiado, Zacariel subiu e ficou atrás dela. Preocupou-se quando o pedaço em que se segurou saiu na sua mão.

– Você tem cert...

Não conseguiu terminar. Bianca deu o impulso com as mãos. A relva ainda estava ligeiramente úmida com o orvalho da manhã e era, certamente, oleosa, pois o trenó improvisado rapidamente ganhou velocidade. Como numa montanha russa, eles gritaram com o vento no rosto e sentindo o cheiro de mato enquanto passavam.

E, como numa montanha russa, os primeiros momentos foram maravilhosos, até perceberem que aquilo estava um tanto rápido demais.

– Diminua! – gritou Zac.

– O quê?

– Diminua, sua louca!

Bianca perdeu alguns segundos tentando descobrir como ele achava que ela tinha algum freio de mão escondido na casca de árvore. Enquanto pensava, passaram por uma elevação no solo e o trenó voou. Quando pousaram, ainda estavam juntos, e o trenó ainda estava inteiro, mas a velocidade estava ainda maior. Então, enquanto gritavam e pedacinhos de relva passavam pelos seus rostos, uma nova elevação, razoavelmente maior que a primeira, surgiu em seu caminho e em um segundo eles estavam voando.

Dessa vez, voaram alto. O trenó se perdeu e os dois jovens foram lançados para o ar num voo desengonçado. Quando pousaram, continuaram descendo, mas dessa vez aos tombos. Caíram como frutas de um caminhão de feira em alta velocidade e foram quicando até diminuírem o ritmo. Quando finalmente pararam, Bianca se preparou para ouvir uma grande bronca do anjo. Caindo toda torta, tinha finalmente percebido que tinha sido uma ideia inconsequente.

Ao invés da bronca, no entanto, ouviu uma gargalhada. Bianca virou-se ainda no chão para tentar ver Zac. Talvez ele tivesse batido de cabeça.

Caído no chão, sujo de relva e de um pouco de terra, o anjo estava rindo. Gargalhando, na verdade. Olhou para Bianca e riu ainda mais. Bianca não entendeu, mas acabou sendo contagiada e começou a rir também. Tombos são engraçados. Até mesmo os seus.

Riram por algum tempo, até a barriga doer e finalmente conseguiram se levantar e conferir que não tinham quebrado nada. Zac retirou algumas folhinhas dos cabelos desgrenhados de Bianca, sem perceber que se perdera um pouco nesse ato, como quando olhamos o mar e nos esquecemos da vida.

– Isso foi divertido! – disse ele, voltando a si.

– Que bom que achou! – respondeu ela, feliz dele ter levado numa boa.

– Bem, pelo menos descemos! Agora, podemos seguir até a Vila.

– Que vila?

– A Vila das Fadas D’Água. Fica por aqui...

Eles caíram num lugar onde mato e relva se misturavam com pequenos arbustos e árvores magras, o iní cio de um bosque aberto onde o Sol iluminava as verdes copas e pequenas flores brancas exalavam um perfume suave. Bianca deu alguns saltos animados para acompanhar o rapaz, pronta para fazer uma pergunta, mas deteve-se ao perceber que o jovem parara com uma expressão preocupante.

– O que foi? – perguntou ela.

Ele pareceu ficar atento, tentando ouvir algo com mais atenção. No silêncio, Bianca acabou ouvindo uma espécie de gritaria alucinada, mas muito distante. Então Zac pegou sua mão e correu floresta adentro. Ela perguntou o que tinha acontecido, mas ele não respondeu. Ao invés disso, continuou correndo, arrastando-a até uma ravina. Achou um buraco na lateral da ravina, oculto por alguns galhos secos. Não era muito grande, mas teria que ser o suficiente. Empurrou a menina lá dentro e entrou, puxando os galhos, para a entrada.

– O que está acontecendo? – perguntou ela, assustada.

– Shhh!

Ela ficou quieta e sentiu calafrios percorrerem-lhe a espinha quando viu o ambiente ficar ainda mais escuro, como se o céu lá fora tivesse sido subitamente encoberto. Uma bizarra cantoria se elevou e uma ventania arrastou folhas e galhos lá fora. O anjo e a menina se afastaram ainda mais da entrada, apertando-se no fundo da pequena caverna. Bianca estava assustada, mas o que lhe deu mais medo foi ver que Zac apertava firmemente sua mão. Seus olhos não saíam da entrada da caverna, como se a qualquer momento uma criatura animalesca e imbatível fosse entrar e destroçá-los. Bianca sentiu o coração pular e as pernas tremerem. Se ele, que era um anjo, estava morrendo de medo, que chance tinha ela contra fosse lá o que fosse aquilo?

O vento parecia causado por uma revoada de morcegos gigantes, cujas asas os dois conseguiam ouvir, como se saídas de um filme de horror. A moita seca utilizada para fechar a entrada da caverna finalmente cedeu ao vento e rolou para longe, fazendo os dois pararem de respirar por alguns segundos.

A cantoria ficou mais distante, o vento diminuiu. Zac afrouxou sua mão, soltando Bianca, e respirou aliviado.

– O que foi isso? – perguntou Bianca, ainda assustada.

– A Corte Unseelil... – respondeu ele.

 

 


Capítulo 9

A Vila das Fadas D’água


Saíram de dentro da caverna cautelosamente, mas o Sol já voltara a brilhar e não havia mais sinal da cantoria macabra. Ainda assim, não era como se nada tivesse acontecido. Uma aura de medo e terror parecia ter ficado para trás e até as árvores pareciam mais quietas.

– Corte Unseelil? – Bianca nunca tinha ouvido falar de nada parecido.

– É um exército de goblins do pior tipo – explicou Zac em voz baixa, como se contasse alguma coisa nefasta demais para ser dita em voz alta. – São seres monstruosos, cruéis e terríveis. Espalham dor e destruição por onde passam. Tivemos sorte. Não estavam atentos dessa vez...

– Mas por que eles iriam nos fazer mal? Nós não fizemos nada!

– Isso nunca os impediu...

Ouviram um gemido. Parecia uma criança. Zac mandou Bianca esperar e seguiu o som com cuidado. Encontrou atrás de uma árvore uma fada-menina de uns cinco anos. Tinha o tamanho de uma criança normal, mas não tinha roupas e suas asas estavam destroçadas. Quando ele se aproximou dela, ela tentou se arrastar, mas ele a tranquilizou assim que a tocou. Quando ela o viu, caiu em prantos em seu ombro. Seu pequeno e frágil corpo estava coberto por hematomas e marcas profundas de arranhões e mordidas ferozes.

– O que aconteceu com ela?

Zac se assustou ao ver Bianca quase ao seu lado.

– Eu lhe disse para esperar!

– E ficar lá sozinha? Nem morta!

Percebendo que a menina estava nua, Bianca pegou algo em sua mochila. Tinha levado uma canga de praia que, apesar do pouco espaço que ocupava, tinha um bom tamanho e servia em múltiplas funções. Quando ia entregá-la para Zac, viu uma suave luz emanando do anjo e envolvendo a menina fada. A luz cresceu até se tornar esverdeada como uma esmeralda e Bianca se sentiu leve como uma pluma. Bianca fechou os olhos, sentindo-se tão leve que achou que estava saindo do chão. Abriu os olhos quando sentiu que a luz se tornou tão poderosa que parecia um sol. Foi então que viu Zac abrindo imensas asas brancas tão claras que iluminaram toda a floresta, sem, no entanto, cegá-la.

Foi como uma explosão. Em poucos segundos, a luz se foi, as asas voltaram a se fechar em si mesmas e desapareceram. Os ferimentos do corpo da menina tinham desaparecido, mas suas asas ainda pareciam sem vida, como uma borboleta meio amassada. Voltando a si, Bianca entregou a canga, ajudando o anjo a cobrir a menina, que adormecera. Bianca percebeu que alguns hematomas e arranhões que ganhou descendo inteligentemente o morro numa casca de árvore seca tinham simplesmente desaparecido.

– Como você fez isso?

Zac se ergueu com a menina enrolada na canga em seus braços.

– Sou um anjo de Rafael. É o que faço.

– Que incrível!...

– Nem tanto... Tenho minhas limitações... – disse o anjo, com ar tristonho.

– Como assim?...

– Não sei se consegui salvar as asas dela...

Bianca sentiu o coração se partir ao imaginar uma fada sem asas. Começou a andar ao lado do anjo.

– Quem fez isso?

– A Corte Unseelil...

Bianca não conseguia compreender. A menina era como uma criança humana normal, só que muito bonita e com delicadas asas de borboleta amarelas com detalhes em vinho e laranja.

– Por quê?...

O anjo olhou para ela com olhos duros.

– Porque é o que eles fazem...


Caminharam em silêncio por algum tempo. A menina fada dormia e parte de suas asas amarrotadas escapavam pelo fino tecido que a envolvia. Bianca não tinha muita noção de tempo, mas acreditou que andaram por cerca de duas horas até avistarem uma pequena vila de casas. Um garoto magrinho saiu correndo, avisando que forasteiros estavam chegando. Dois vira-latas surgiram e os receberam latindo e abanando o rabo. Havia algumas pessoas na rua que os olhavam com curiosidade, parando seus afazeres. Bianca não pôde deixar de notar que todas elas se vestiam como os camponeses nos livros de contos de fadas, mas com roupas melhores, mais coloridas. Um pequeno sátiro correu ao seu encontro. Parecia uma criança comum com ar matreiro e levado, mas tinha orelhas ligeiramente pontudas e, claro, pernas e pés de cabra. Logo atrás dele, veio um homem negro e alto que trazia em seu peito um medalhão vermelho com um brasão.

– Bem-vindos sejam! – disse o homem negro. – Pelo Rei e Rainha das Fadas, por Paralda e Rafael, vocês vêm em paz?

– Pelo Rei e Rainha das Fadas, por Paralda e Rafael, nós viemos em paz – respondeu Zacariel.

O homem logo se aproximou, procurando então saber a situação da fada nos braços do rapaz.

– O que aconteceu? – perguntou ele.

– Nós a encontramos na floresta vindo pra cá. Acho que ela foi uma presa da Corte Unseelil.

O homem os olhou surpreso.

– Corte Unseelil?! A essa hora do dia?!

O homem então os guiou para uma casa grande, enquanto mandava chamar o médico e a bruxa. Entraram e a casa era tão bonita por dentro quanto por fora, com uma enorme mesa de madeira na sala principal e muitas pinturas nas paredes. O homem os guiou para um quarto, onde Zac colocou a fada com cuidado numa cama. Uma mulher de longos cabelos negros com uma cesta de ervas entrou correndo e, logo atrás dela, um jovem trazendo uma maleta.

– Vamos deixá-los trabalhar – disse o homem negro, guiando-os para fora do quarto.

Chegaram a um jardim que ficava atrás da casa, onde havia flores de todas as cores e de todos os tipos.

– Como a Corte não pegou vocês? – perguntou o homem.

– Nos escondemos assim que os pressentimos – respondeu Zacariel.

– Então são daqui?

– Não exatamente – respondeu o anjo.

Bianca percebeu que Zacariel estava relutando em revelar sua identidade. Não sabia por que, mas ele devia ter um motivo. Então, resolveu lhe dar cobertura.

– Eu sou do mundo dos homens – disse. – Ele é daqui mesmo, está me guiando.

– Ah!... – o homem pareceu mais tranquilo. – E de que Vila você é?

– De um lugar depois daquela montanha – respondeu vagamente o anjo, sabendo que não deveria mentir, mas torcendo um pouco a lei ao saber que, de certa forma, ele vinha mesmo de algum lugar além daquela montanha. Muito além.

– Sei onde fica! O Alcaide de lá ainda é Rodolfo Olhos Azuis?

Bianca veio em socorro.

– Desculpe, estou confusa! Você parece humano!

O homem, que tinha um lindo sorriso e aquela energia que diz que podemos confiar nele, percebeu sua própria indelicadeza.

– Nossa! Como sou rude! Me perdoem, eu nem me apresentei. Meu nome é Danzir, sou o Alcaide da Vila das Fadas D’água. Me desculpem parecer tão desconfiado, mas, ultimamente temos tido muitos casos de seres que chegam aqui dizendo ser o que não são, lobos em pele de cordeiro. Mas, respondendo a sua pergunta, minha pequena, eu pareço humano porque sou humano.

– Mas como?

Eles caminharam ao redor do jardim, contornando a casa, e voltando para a entrada, onde podiam ver a vila e seus habitantes ocupados em seus afazeres.

– Há muitos humanos aqui. A Vila das Fadas D’água é, como outras vilas, predominantemente formada por humanos. São pessoas que desapareceram do seu mundo ao atravessarem o portal para o Reino das Fadas.

– Elas vieram sozinhas? – perguntou Bianca, observando as pessoas trabalhando, andando, conversando, como se sempre tivessem vivido ali.

– Algumas, sim. Mas a maioria foi raptada.

Bianca o olhou apavorada.

– E você fala isso com essa naturalidade toda? Raptar pessoas não deveria ser contra a lei?

Danzir deu uma risada.

– É contra a lei dos homens. Aqui, as leis são outras. Quando um ser encantado se apaixona por um humano, não há lei contra trazê-lo para cá – ele parou de sorrir. – Assim como não há lei contra raptar humanos para simples diversão...

Ele se virou para Bianca.

– Você tem sorte em ter um guia, que espero que tenha lhe dito as regras principais, caso você queira voltar. A maioria não tem essa sorte.

Danzir olhou para as nuvens quando um vento mais forte soprou em seu rosto e sua expressão pareceu mudar rapidamente para preocupação, mas em fração de segundos voltou a exibir seu belo sorriso.

– Lamento, mas tenho que deixá-los agora. Tenho algumas coisas a resolver, como colocar a vila em alerta. Se a Corte Unseelil ronda por aqui, é melhor que nos preparemos. Mas peço que fiquem aqui por hoje, como meus convidados.

– Não podemos...

– Seria um prazer! – Bianca interrompeu Zac, que ficou na pista.

– Ótimo! Fiquem à vontade! Voltarei daqui a pouco e lhes mostrarei a cidade.

Danzir se retirou e Zac encarou Bianca.

– Pensei que estivesse com pressa – disse ele, em tom de reprovação.

– Pensei que o tempo não contasse aqui – respondeu ela.

Não havia cercas que separassem casas e jardins da rua. Tudo era incrivelmente florido e colorido e parecia um quadro vivo de um lugar perfeito. Eles se puseram a andar.

– Não quero partir até saber como está a menina... – disse Bianca.

Zac suspirou.

– Nem eu...

Ficaram em silêncio por algum tempo. Claro que a cabeça de Bianca fervilhava com um monte de perguntas, mas não achava que aquele era o momento certo para fazê-las. As pessoas os olhavam com curiosidade, mas também com simpatia.

– Não é estranho haver uma vila de humanos aqui? – comentou ela, mais para puxar assunto do que p or qualquer outra coisa.

– A maioria vem por amor... O amor faz umas coisas muito loucas mesmo... – respondeu ele, com um tom melancólico.

Havia um pequeno movimento de curiosos na porta da fadinha ferida e Zac e Bianca puderam ver quando a porta da frente se abriu e o doutor saiu. Correram até lá para ter notícias. Chegaram a tempo de ver a feiticeira de cabelos escuros sair com lágrimas nos olhos e asas embrulhadas em um lençol.

– Não pudemos salvar suas asas... – disse o médico.

A tristeza se instalou nos corações dos presentes e era clara como o sol nos rostos de cada um.

– Mas ela vai viver, não vai? – perguntou Bianca.

Doutor e feiticeira trocaram um olhar que perguntava quem ia dar a má notícia. Sobrou para o doutor.

– Fisicamente, ela está bem. O que é um milagre, pois ninguém sai inteiro de um ataque da Corte Unseelil. Mas fadas sem asas ficam deprimidas e acabam morrendo de tristeza. Raramente vemos uma fada sem asas sobreviver a essa perda.

O médico e a feiticeira pediram licença e saíram. As pessoas também foram embora, voltando às suas vidas, que, mesmo com o peso de uma notícia triste, ainda cobrava seus deveres. Bianca tinha os olhos cheios d’água, mas não aceitava a derrota.

– Você pode fazer alguma coisa? – perguntou ela para o anjo.

Ele olhou para ela com olhos igualmente tristes e desapontados.

– Gostaria de poder fazer alguma coisa... – disse ele. – Mas o que eu podia fazer, já fiz.

Bianca entrou na casa e foi até o quarto. Encontrou a menina já acordada enrolada num lençol. Tirando a íris que era maior do que um olho humano normal, era muito parecida com uma criança humana. Tinha cabelos loiros da cor do mel e um rosto belíssimo. Bianca se sentou na beirada da cama e tocou-a gentilmente. A menina se encolheu, como se fossem machucá-la.

– Eu sei que está triste... – disse Bianca. – Mas, isso vai passar. Você ainda tem pernas que correm, braços que abraçam, ouvidos que ouvem, olhos que veem... E muito mais!

Lágrimas sentidas rolaram pela face da criança, fazendo o coração de Bianca se apertar ainda mais, até que ela mesma teve que lutar contra as próprias lágrimas.

– Não desista, fadinha... – murmurou Bianca. – O mundo fica tão mais bonito com você nele!...

A menina começou a soluçar e então levantou-se e procurou o abraço de Bianca, que a abraçou apertado, desejando ardentemente que seu abraço a protegesse de tudo, para sempre, a partir daquele momento. Ficaram assim por uns instantes, até que Bianca resolveu dizer algo para elevar seu ânimo.

– Não se preocupe... Com o tempo, suas asas crescerão novamente.

A menina parou de soluçar e olhou para ela, os olhos espantados.

– Mesmo?

Bianca não tinha a menor ideia se isso era possível e, considerando o que sabia sobre borboletas, asas não nasciam de novo. Mesmo assim, encheu seu coração de uma verdade que passou a sê-la naquele instante.

– Sim. Suas asas crescerão, junto com você, e voltará a ser tudo como antes!

A menina então sorriu. Enxugou as lágrimas e abraçou novamente Bianca. Ficaram juntas por algum tempo, até que a menina novamente adormeceu ouvindo uma canção sobre uma Lua Azul nos braços daquela humana que tinha um quê de encantada.

Bianca saiu com cuidado do quarto para não acordá-la e quase morreu de susto ao se deparar com os olhos inquisidores de Zac que a esperava do lado de fora.

– Você sabe que as asas dela não vão crescer de novo, não sabe?

Bianca pegou Zac pelo braço e o levou para longe do quarto. Pararam na sala de entrada ricamente decorada de Danzir.

– Sei lá. Talvez cresçam. Quem vai saber? – respondeu ela, ainda sussurrando.

– Você mentiu pra ela!

– Menti para ela viver!

Ele não disse nada, mas não deixou de encará-la com ar de reprovação.

– Se ela acreditar que vai viver rastejando como uma lagarta por aí, não vai querer viver, e quem ia querer viver assim? Mas ela ainda pode ter uma vida maravilhosa, Zac! Ela pode correr, pular, brincar, encontrar um amor, sorrir, cantar! Há tanto o que ela pode fazer que lhe dará asas, mas ela não vai descobrir nada disso se desistir antes...

O anjo suspirou.

– Mentir nunca é bom... – concluiu ele. – Mas você tem um ponto.

A porta se abriu e Danzir entrou, acompanhado de uma bela mulher de corpo esguio e roupas claras. Apesar de estar entre aparentes camponeses, ela tinha porte de princesa. Seus cabelos desciam leves pelos ombros e alcançavam as costas, sendo de uma tonalidade clara, como os primeiros raios da manhã.

– O Doutor me contou... – disse Danzir. – Eu sinto muito... Faremos tudo para ela ficar confortável.

– Parem com isso! – irritou-se Bianca. – Ficam agindo como se ela já estivesse morta! Ela não morreu e nem vai morrer! As asas dela vão crescer de novo e, até lá, ela será uma criança feliz!

Danzir e a moça de cabelos claros se entreolharam confusos.

– Como assim as asas dela vão crescer de novo?

– Foi... um encanto que eu fiz! – respondeu Bianca. – Eu fiz e vai funcionar. As asas dela vão crescer de novo...

– Bom... Se você diz, nós acreditamos. Ah, eu me esqueci novamente das minhas maneiras! Esta é Ariene, minha esposa! Se precisarem de algo, podem falar com ela. É uma excelente anfitriã.

A bela moça inclinou a cabeça em cumprimento com um sorriso gentil.

– Nós gostaríamos que almoçassem conosco!

– Seria um prazer! – respondeu Bianca, que já estava com fome mesmo.

Conversaram um pouco enquanto a mesa era posta por serviçais que Bianca não tinha certeza de serem humanos ou não, pois tinham baixa estatura e membros excessivamente magros. Serviram um licor, que Bianca já ia aceitar se não fosse a interferência de Zac, que tirou a taça de sua mão e pediu uma taça vazia. Então, pegou o suco de sua bolsa e derramou o conteúdo na taça, entregando para ela.

– Mas então... – começou Bianca, que tinha mesmo muita coisa para perguntar. – Há quanto tempo você vive aqui?

– 300 anos.

Bianca se engasgou e acabou cuspindo um pouco de suco em todo mundo.

– Desculpe! – disse, entre uma tosse e outra. – Eu não ouvi direito.

– Eu vim pra cá há 300 anos... Eu tinha um barco e gostava de viver no mar. Um dia, numa tempestade, meu barco virou. Ariene me resgatou. Ela me deu a opção de voltar para o meu mundo, mas eu a amei assim que pus meus olhos nela.

– Então ela é uma...

– Sim, ela é uma sereia.

– Eu sabia que alguém tão bonito tinha que ser um ser mágico!

O almoço foi servido e Bianca ficou muito deprimida. A mesa estava repleta de coisas coloridas, frutas, pães, queijos, doces, sucos, saladas e grãos de todo tipo. Tudo cheirava fantasticamente bem! E ela não podia tocar em nada. Quer dizer, podia tocar, mas não podia comer. Então, diante do banquete posto, ela comeu seu sanduíche de queijo e seus bolinhos sem graça...


Capítulo 10

Bean-Nighl, a Lavadeira


A tarde na Vila das Fadas D’água era muito tranquila. Depois do almoço, as pessoas e seres encantados que nela viviam se recolhiam para um descanso sob as copas das árvores que pareciam sussurrar doces canções. Bianca admitia que estava um tanto exausta e que foi muito bom poder tomar um banho numa bela banheira na casa de Danzir e Ariene. Estranhou algo em seu segundo dia e teve vergonha de perguntar para o anjo.

– As pessoas não vão ao banheiro aqui? – perguntou baixinho assim que saiu do seu banho e se deparou com Ariene a esperá-la com uma nova muda de roupas.

A pergunta de Bianca não vinha apenas do fato dela não ter sentido vontade de ir ao banheiro nenhuma vez desde que chegaram no Mundo das Fadas, mas também por não ter encontrado no enorme banheiro nenhuma coisa parecida com um vaso. O banheiro era, na verdade, uma sala de banhos, com óleos aromáticos, sais, perfumes e velas perfumadas.

– Não, não temos. Nesse mundo, nossos corpos utilizam tudo o que consomem, não sobra nada para expelir.

– Que interessante! – exclamou Bianca. – Isso é muito prático! Isso tem a ver com o tempo de vocês durar muito mais do que o nosso? Talvez gastemos mais energia aqui.

– Talvez... Sinceramente, eu não faço a menor ideia. Eu só moro aqui.

Ariene riu e entregou uma roupa para a moça.

– Suas roupas estavam sujas, eu as mandei lavar. Pode usar essas enquanto isso.

Bianca agradeceu e foi até seu quarto, onde se desembrulhou da toalha e se vestiu com o levíssimo vestido de seda. Tinha lavado os cabelos num longo banho e sentia-se realmente muito leve. Pegou uma maquiagem básica em sua bolsa e passou um batom. Aquelas pessoas eram tão bonitas que ela não queria ficar pra trás. Quando guardou o batom na mochilinha que estava em cima da cama percebeu que era uma cama de casal. “Zac vai dormir aqui também?”, perguntou-se. O que seu pai diria se soubesse! Falaria tantos palavrões em francês que ela teria que procurar um dicionário e com certeza mataria o pobre rapaz. Envergonhou-se de pensar nisso. Zac era, afinal, um anjo. Anjos não pensam nessas coisas. Nem fazem. Bom, ao menos era o que achava. Além do mais, já tinham dormido juntos embaixo de uma árvore. Ele tinha cheiro de maçã...

Parou no meio do quarto preocupada consigo mesma. Estava se apaixonando por ele?

– Não, Bianca... – disse para si mesma. – Você não está fazendo isso... Ninguém pode ser tão burro... Apaixonar-se por alguém que nem mesmo é da mesma dimensão que você é um convite para o desastre. Tire isso da sua cabeça, agora!

Então, como se quisesse expulsar os pensamentos à tapa, estapeou sua própria cabeça várias vezes. Uma risada infantil chamou sua atenção. Foi até a janela e viu Zac com a fadinha. Não entendeu muito bem o que estavam fazendo, mas logo compreendeu quando voaram sem asas pelos ares num trenó improvisado e se esborracharam no chão. Ela tinha visto a menina quando Ariene a acompanhou para a casa. Ela estava sentadinha com um vestido colorido, uma menina humana perfeita. Perfeita e triste. Estava simplesmente parada, olhando o nada. Agora, no entanto, ela estava gargalhando com Zac, enquanto subiam correndo a elevação coberta de verde relva para descer mais uma vez em seu tobogã.

– Ele conseguiu... – murmurou ela, encantada com a cena que via.

Os dois riam e brincavam, enquanto dentes de leão eram levados pelo vento em uma dança de primavera. Bianca recostou-se na janela e bebeu um pouco daquele momento. Queria se lembrar daquilo. Para sempre.

Pequenas batidas na porta precederam a entrada de Ariene. A mulher era alta e muito graciosa, um tipo elegante, daqueles que já devem ter nascido de salto alto. Seu sorriso gentil estava sempre desenhado em seu rosto.

– Oh, como você ficou linda!

Bianca sorriu também, pois um elogio lhe caía muito bem naquele momento de ligeira insegurança com sua aparência ao seu ver comum. Olhou-se no espelho. O vestido era longo, mas muito leve, com aberturas nas pernas onde um outro tecido transparente formava uma segunda saia. Um espartilho com fitas cruzadas afunilava sua cintura em tom mais escuro. O vestido flutuava entre o rosa e o branco, enquanto o espartilho era de um vermelho alegre.

– Ficou ótimo em você! E então? Adoraria exibir você pela vila. Me acompanha?

Lisonjeada, Bianca acompanhou Ariene pela vila. As casas eram muito aconchegantes e pareciam perfeitas, embora muito reais. Tinham jardins na frente e muitas árvores ao seu redor. Passaram por vacas, cabras e galinhas, o que surpreendeu Bianca.

– Vocês comem carne aqui?

– Oh, não... Consumimos ovos e leite. Praticamente tudo aqui é feito à base de ovos e leite. Não derramamos sangue, e aqui os animais vivem tanto quanto nós.

– Nossa! Que lindo!

– Claro que há alguns dos encantados que não seguem essas regras...

– Deixe-me adivinhar... Como a Corte Unseelil.

Ariene concordou com a cabeça, enquanto uma vaca se aproximava para ela lhe fazer um carinho na cabeça.

– Não só eles. Temos encantados bem cruéis por aqui, como o Gorro Vermelho, que usa sangue humano para tingir o gorro que usa. E Jack, o Acorrentado, um gigante que coleciona as cabeças de todos que tentam passar pelas estradas guardadas por ele.

– Nossa!... Mundinho perigoso esse seu, hein?

– Pois é... Nem tudo são flores, mesmo no reino das fadas.

Como a cidade estava em sua hora de siesta para a maioria, Ariene decidiu levar Bianca a um passeio pela floresta, onde poderia lhe contar sobre as coisas que ela queria tanto saber. Podia sentir a curiosidade da menina pulsando em sua cabecinha. Achou que era isso que fazia com que seus cabelos encaracolassem tão rápido. Não que Ariene também não tivesse sua curiosidade. Seres encantados são, geralmente, muito curiosos.

– Muito bonito você vir resgatar sua amiga... – disse Ariene. – Poucos fariam isso.

Bianca se surpreendeu. Tinha se esquecido completamente de Analice. Era seu segundo dia no Mundo das Fadas e parecia que já fazia uma semana. Analice se tornou uma missão a cumprir e pareceu ficar distante de seu coração, até ser mencionada por Ariene. Sentiu-se mal por não ter se preocupado com a amiga, que poderia muito bem ter sido vítima da Corte Unseelil.

– Fale-me mais sobre a Corte Unseelil.

Ariene lamentou que a conversa não tivesse ido aonde ela queria. Mas, como um ser encantado, podia ser curiosa, mas sabia que tinha muito tempo e podia esperar o momento certo.

– São um exército voador de goblins.

– E o que são goblins? – tornou Bianca.

– São seres encantados, geralmente muito feios. Alguns podem mudar de forma, enquanto outros podem mudar de tamanho. Nem todos são maus, alguns são apenas travessos, como o Hedley Kow. É um ser dos pântanos que adora pregar peças nos humanos. Quando encontra alguma mulher catando gravetos para a lenha, ele se mostra como um feixe de palha para que ela o pegue. Depois que ela o faz, ele vai se tornando cada vez mais pesado, até que ela seja obrigada a deixá-lo no chão. Então, assim que ela o coloca lá, ele se levanta e dança pra ela, pregando-lhe o maior susto! Ele sempre termina suas brincadeiras com uma estrondosa gargalhada e um grito.

Bianca riu, imaginando o inusitado da cena.

– Porém, na Corte Unseelil, não há goblins travessos. A Corte reúne os piores goblins que puderem encontrar, os que não possuem nenhum tipo de moral e adoram destruir. Não se engane, minha menina... Nada de bom pode sair da Corte Unseelil...

– Não entendo... O que eles fizeram com a fadinha... Não são todos irmãos, de certa forma? Por que ferir de tal forma alguém tão... belo?

– Eles odeiam a beleza... E você não deveria estar tão espantada. No seu mundo, homens ferem outros homens o tempo todo. Nunca parecem se lembrar que são irmãos. Aqui não é muito diferente...

– Mas é possível escapar deles, não é? Afinal, a fadinha escapou!

Ariene riu da ingenuidade, sem entender que Bianca estava desesperadamente procurando uma brecha para acreditar que Analice, caso tenha sido pega pela Corte Unseelil, ainda estivesse viva.

– A fada não escapou, Bianca! Ninguém escapa da Corte Unseelil. O que deve ter acontecido é que a pegaram na floresta e a torturaram no caminho. Quando perdeu a graça, a jogaram com as asas destroçadas para a morte. Há fadas aqui como folhas nas árvores. A maioria consegue se esconder quando pressente a passagem da Corte. Às vezes, fadas-crianças mais incautas continuam brincando e não percebem a aproximação deles, até ser tarde demais...

Uma revoada de asas coloridas assustou Bianca. Eram fadas, medindo cerca de 15 centímetros que saíram das árvores e a rodeavam. Elas emanavam um brilho suave e eram lindas.

– O que estão fazendo? – perguntou Bianca, enquanto as criaturinhas voavam ao seu redor.

– Estão curiosas! Seres encantados sempre são muito curiosos sobre os humanos.

Elas mexeram em seus cabelos, deram pequenas risadinhas, até que um som agudo de sino as fez voarem para outro lugar.

– O que foi esse som?

– Fadas desse tamanho podem ser muito dispersas também... Há um sino de vento em algum lugar e elas são atraídas por este som. O som é a maneira que elas conseguem chegar mais facilmente ao seu mundo.

– A Corte Unseelil captura qualquer coisa que esteja em sua frente ou eles possuem alvos específicos?

Ariene gostaria que Bianca fosse tão dispersa quanto as fadas. Não gostava muito de falar da Corte Unseelil.

– Eles odeiam coisas bonitas e por isso não perdem a oportunidade de destruir o que acharem bonito. Porém, possuem uma predileção por humanos. Não sabemos porque, talvez seja a mesma curiosidade que todos os encantados sentem, ou talvez seja o Dízimo.

– Que dízimo?

– A cada sete anos, eles precisam pagar um Dízimo para o inferno. Humanos valem muito nesse Dízimo e, quando chega a época, eles tentam raptar humanos para a troca. Como os humanos daqui são muito espertos e, geralmente têm amigos, maridos, esposas e filhos dispostos a resgatá-los ou defendê-los, eles se aproveitam dos incautos que vagueiam pelo mundo dos homens.

– E quando não estamos na época do Dízimo?

– Eles raptam pessoas assim mesmo.

– E o que acontece com elas?

Ariene a olhou seriamente.

– Não sei. Ninguém sabe. Ninguém nunca voltou para contar.

Bianca deixou a preocupação transparecer com o peso em seu rosto. Se Analice tinha sido uma das vítimas da Corte Unseelil, não tinha esperanças de encontrá-la viva novamente.

– Seu amigo, Zac...

Bianca saiu de seu sombrio devaneio para olhar para Ariene, que tinha um sorriso maroto.

– Ele é um anjo, não é?

Bianca arregalou os olhos, pega de surpresa.

– Por que acha isso? – Bianca aprendeu em algum lugar que quando se encontrasse em uma saia justa, poderia tentar responder uma pergunta com outra pergunta, como os psicólogos.

– Bem... A fada que vocês trouxeram tinhas as asas destroçadas, mas não tinha um arranhão em seu corpo. Não é típico da Corte Unseelil não ferir uma garotinha tão linda quanto ela. E, considerando que ela não podia mais voar, ela deveria ter se machucado na queda. Meu palpite é que um de vocês curou seu corpo, e só não curou as asas porque...

– ...elas já estavam mortas... – Bianca terminou a frase, percebendo que não teria como esconder a verdade de Ariene.

– Desconfiei de você, no começo, mas vendo como ele toma conta de você, como ele se preocupa em não deixá-la comer nada deste mundo, e como ele é o guia nessa estranha expedição, mudei minhas suspeitas...

– Sim, ele é um anjo – confessou Bianca. – Mas, sinceramente, não sei por que ele está tentando manter isso em segredo.

– Bem, ele deve ter os seus motivos. Mas você deu sorte em encontrar um guia como ele. Estaria perdida se não o encontrasse.

– Não o encontrei... Na verdade, acho que era a vez dele de atender o telefone quando liguei para o telemarketing angélico...

Ouviram o som de água, revelando que atrás de algumas árvores havia um córrego de água pura e limpa. Bianca nunca tinha visto água tão cristalina, onde era possível ver os peixes coloridos e flores d’água entre as pedras. Uma pequena cachoeira fazia o som que ouviam.

– Você era uma sereia, não era?

– Sim...

– Não foi triste abrir mão de todo o seu mundo para andar em duas pernas?

Ariene suspirou e se abaixou, tocando a água com a longa mão branca.

– Foi... Mas eu não poderia mais viver sem Danzir.

Ariene olhou para Bianca com um sorriso tranquilo, o brilho do sol na água refletindo em seu rosto, deixando-a ainda mais bela.

– O amor move mundos.

Bianca pensou sobre o que ela disse, imaginando se teria coragem de fazer o mesmo e, não tendo, se seria merecedora de um amor de verdade. Olhou para a água e viu pequenas e delicadas mulheres nadando junto com os peixes. Abaixou-se para ver melhor, encantada com a visão.

– Essas são as asrais – explicou Ariene.

Curiosa, Bianca tentou pegar uma, mas ela imediatamente virou uma poça d’água.

– Ai, meu Deus! Eu a matei?!

– Não, não se preocupe! Olha lá ela de novo!

A pequena nereida acenava sorrindo de dentro da água. Fez-lhe um salto gracioso e, no meio do ar, ao atingir a luz do sol, virou novamente uma poça d’água que caiu no riacho em milhares de pontos de luz refletida.

Era uma visão linda e ficaram apreciando a dança das asrais por algum tempo, sem nada dizer. Tocando a água, Bianca acalmou seu coração, sentindo que as asrais tinham alguma contribuição em seu súbito consolo. Agradeceu em pensamento e notou que quando fez isso, elas brilharam, espalhando seu brilho pela água.

Ariene riu.

– Elas disseram “De nada”.

Bianca ficou surpresa em como um simples sentimento podia refletir em tudo o que existia.

– Elas também querem lhe dar um presente... – continuou Ariene.

As pequeninas ninfas d’água saltaram em círculo por três vezes, fazendo a água saltar no rosto das duas. Então, de mãos dadas, fizeram um círculo que se transformou em luz platinada, o Sol refletindo-se bem no meio dele.

– Pegue agora um pouco dessa água e beba – instruiu Ariene.

Bianca se lembrou de todas as instruções de Zac sobre comer ou beber algo naquele mundo, sobre como isso poderia prendê-la ali para sempre e impedi-la de voltar para casa. Olhou para Ariene. Ela parecia muito sábia e confiável. Deveria saber o que estava fazendo. Mergulhou as mãos em concha e encheu-as de água, levando-a aos lábios e bebendo. Era a água mais deliciosa que já bebera. Sentiu-se refrescar por dentro, além de se acalmar completamente.

– Pronto! – disse Ariene. – Agora você está livre.

– Livre do quê? – perguntou Bianca, esperando não ter cometido um erro sem volta.

– Da regra do Mundo Encantado que a prende aqui para sempre se comer ou beber algo do Reino. Pode comer e beber a vontade, do que quiser. As asrais lhe deram esse presente. Lembre-se, isso não elimina as regras do tempo. Mas ao menos, poderá comer e beber algo que esteja fora de sua mochila...

Bianca sorriu, feliz com o presente inesperado. Foi quando uma asrai saltou repentinamente e lhe deu um beijo nos lábios, virando imediatamente uma poça brilhante de água que caiu novamente no riacho.

– E já pode beijar também! Isso é um verdadeiro passe livre! As asrais não fazem isso com qualquer um!

– E porque estão fazendo isso por mim? Eu não fiz nada!

– Não sei... Elas podem ver além do tempo. Podem estar agradecendo por algo que você ainda vá fazer. Não questione seus presentes, menina! Aqui no Mundo das Fadas, é uma gafe.

– Desculpe. Eu agradeço, pequeninas! Mesmo!

As pequenas ninfas continuaram a sorrir e dançar, até que, subitamente, como se tivessem todas ouvido alguma coisa ao mesmo tempo, saíram a nadar o mais rápido possível para longe, até desaparecem. Os peixes também desapareceram e um vento mais frio balançou as copas das árvores próximas. O sol ficou momentaneamente escondido em uma nuvem, como se não quisesse ver algo. Bianca e Ariene perceberam alguém do outro lado do riacho. Era uma mulher de longos cabelos escorridos escuros e um rosto pesado e triste. Suas feições eram estranhas, não parecendo muito humana, embora não fosse muito possível ver por causa do cabelo que lhe escondia quase todo o rosto. Era, certamente, um ser encantado. Suas vestes humildes a faziam parecer uma mulher muito pobre e ela estava lavando roupas com um olhar desolado. Não olhava para as duas moças. Estava concentrada em seu trabalho.

– Quem é essa?

– Bean-Nighl... – disse Ariene, que tinha a expressão de quem recebera uma má notícia. – É a Lavadeira... Um tipo de banshee.

O nome pareceu tocar um sino de alarme na cabeça de Bianca, que o reconhecia do livro que lera sobre fadas. Banshees nunca não portadoras de boas novas.

– Ela lava roupas manchadas de sangue daqueles que estão prestes a morrer – explicou Ariene. – São sempre mau agouro...

Bianca tentou ver que roupa ela estava lavando. Era, sem dúvida, uma roupa branca e estava muito manchada de sangue, que era levado pela água a cada mergulho. Bianca sentiu o coração gelar ao perceber que o que ela lavava parecia-se muito com uma camiseta branca. Camisetas brancas são a roupa mais comum que se pode encontrar e ela poderia estar anunciando o destino fatal de qualquer um, naquele mundo ou em outro. Mas Bianca não conseguia deixar de pensar que Zac usava um jeans e uma camiseta branca.

Em certo momento, a banshee sacudiu a roupa que lavava, mostrando-a por inteiro. Bianca nem piscou para não perder nenhum detalhe e não ter nenhuma dúvida. Respirou aliviada. A roupa, manchada de vermelho e voando contra o ar em câmera lenta não era uma camiseta branca, mas uma camisa de linho, de manga comprida e detalhes na gola. Era uma roupa parecida com as que vira na vila. Um fio de ouro brilhou contra o sol no detalhe da gola, pois era uma daquelas camisas medievais com uma pequena abertura abaixo do pescoço, onde um fio grosso e dourado se cruzava num belo acabamento em bordado.

Ariene a chamou para irem. Bianca a seguiu, olhando para trás mais uma vez. E dessa última vez, teve certeza que a banshee olhava para ela.

 

 

Capítulo 11

A Festa na Vila das Fadas D’água


A cidade estava acordada e produzindo quando Ariene e Bianca retornaram. Havia movimentos nas ruas e muitas pessoas e seres encantados se ocupavam em enfeitar o centro da vila, onde uma fogueira estava sendo preparada.

– Vão fazer um churrasco? – perguntou Bianca.

– Não, nós não comemos carne.

Bianca sentiu-se frustrada em não ter seu senso de humor compreendido, mas deixou pra lá. Bem ou mal, poucos entendiam seu senso de humor no seu próprio mundo, por que seria diferente no mundo dos outros?

– Estamos preparando uma festa! – disse Ariene.

– Festa? Pra quem?

– Para vocês!

Bianca ficou confusa.

– Gostamos de visitas e raramente as recebemos. Quando isso acontece, gostamos de comemorar com uma bela festa sob as estrelas.

Bianca ficou feliz, já que adorava festas. Olhou para o lugar onde Zac e a fada brincavam quando partiu. Agora, para sua surpresa, havia uma média de 20 crianças, encantadas ou não, não conseguia discernir com certeza, rindo e brincando com Zac e seus trenós, jogando-se morro abaixo numa festa só deles. Perdeu-se olhando a cena e nem percebeu que Ariene notara seu encanto.

– Sabe? – disse a sereia. – Agora que você está livre da regra do beijo, deveria aproveitar...

Bianca ruborizou e lhe deu um ar de reprovação.

– Ariene! Ele é um anjo! Deve ser até pecado pensar nessas coisas!

Elas admiraram o rapaz de longe, até que Ariene concluiu.

– Bem, você é quem sabe... O que eu sei é que se eu fosse uns 300 anos mais nova e já não tivesse encontrado meu amor, esse rapaz teria sérios problemas... Tenho que verificar alguns preparativos. Divirta-se por aí, está bem? Nos vemos mais tarde.

Bianca suspirou, lamentando de certa forma ver Ariene partir. Agora, ou achava algo para fazer sozinha, ou...

Zac a viu e acenou para ela, chamando-a com um movimento.

Isso facilitou sua decisão. Correu para o morro e se misturou com as crianças que brincavam.

 

O nome da menina fada era Eileen. Ela recebeu um lindo vestido de seda e Bianca penteou seus cabelos, colocando algumas presilhas coloridas que ela mesma estava usando e que a menina tinha gostado muito. O crepúsculo era um festival de dourado e vermelho, com pássaros coloridos atravessando os céus para retornar aos seus ninhos. A cidade tinha improvisado uma festa para os visitantes.

– Você vai ficar comigo? – perguntou a menina.

– Tenho que fazer uma coisa, Eileen. Não posso ficar.

A menina se calou e Bianca terminou seu penteado. Virou-se para ela, admirando-a.

– Se ele ficar, você fica? – tornou a menina.

– Acho que não poderia, meu bem... Mas não pense nisso agora. Estão fazendo uma festa para nós! E tenho certeza de que haverá muitas guloseimas coloridas! E sabe do melhor? Eu vou poder comer todas!

A fogueira foi acesa assim que o Sol se despediu e as primeiras estrelas começaram a aparecer. Havia muitas flores envolvendo árvores e guirlandas que se transformavam em coroas à escolha de quem as usasse. Uma estranha banda se formara, com um sátiro tocando violino, Danzir tocando banjo (ou algo parecido), um elfo tocando flauta e um anão tocando tambor. Uma mulher vestida de cigana tocava pandeiro, enquanto animava a dança.

– Aquela é Morena, uma bruxa cigana – contou-lhe Ariene. – Veio para cá para fugir da perseguição no Mundo dos Homens. E, quem diria, acabou encontrando alguém e se apaixonando! Ela é casada com aquele lindo elfo ali!

Bianca olhou o elfo tocando flauta que realmente era lindo, com orelhas ligeiramente pontudas e cabelos loiros e longos. Uma revoada de fadas entrou na festa. Tinham vários tamanhos, mas a maioria era do tamanho de um humano normal. Com suas asas coloridas, enchiam tudo de cor. As menores, fadas crianças, avançavam nos doces e tortas sobre a mesa. Eileen correu para elas, como se reconhecesse a própria família.

– De onde vieram tantas fadas? – perguntou Zac, que não esperava por esta agradável surpresa.

– Há uma Morada de Fadas na floresta – explicou Danzir. – Sempre que damos uma festa, elas nos honram com sua beleza e alegria.

As crianças fadas cercaram Eileen e a estudaram, confusas pelo fato dela não ser uma criança humana, mas também não ser uma fada. Bianca percebeu que aqueles não eram conhecidos da fadinha, mas apenas outras crianças-fadas com as quais ela queria interagir. Infelizmente, as crianças-fadas se voltaram contra ela e a hostilizaram. Puxaram seus cabelos e seu vestido, deram-lhe tapas, como se a menina fosse uma aberração. Zac e Bianca correram para interferir. Bianca chegou primeiro, colocando-se na frente de Eileen. As crianças pararam, espantadas com aquela humana que elas nunca viram. Bianca teve vontade de espancar todas elas, mas sabia que eram crianças e, como as crianças do seu mundo, não compreendiam muito bem como suas ações podiam magoar. Desistiu de espancá-las, pois achou que não seria a solução adequada e também não seria de bom tom. Ao invés disso, virou-se para Zac ao seu lado e lhe deu a mão. Pegou a mão de Eileen e começou a dançar em roda com eles, isolando as outras crianças. Os músicos, percebendo o plano, animaram a música e se levantaram, indo até onde eles estavam. As crianças-fadas pareceram primeiro confusas, para então se sentirem excluídas e frustradas. Tentaram entrar na roda, rompendo o elo entre Zac e Bianca. Bianca sinalizou para Zac que ele não deveria soltá-la. Zac entendeu. Assim, por mais que as crianças tentassem, não conseguiam entrar na roda. Até que Eileen, que parecia se divertir, soltou a mão e a estendeu para elas. As crianças se entreolharam e, então, uma delas tomou a iniciativa e segurou a mão de Eileen. As outras foram em sequência, formando uma grande roda. Bianca soltou Zac e guiou a roda em uma espiral, passando por baixo de mãos unidas. Novos desenhos foram criados enquanto humanos e fadas, asas, pés e mãos entravam no mesmo ritmo.

Festas unem pessoas. Nesse caso, essa festa em especial unia pessoas, sátiros, fadas, elfos e anões. Todo tipo de criatura que quisesse se aproximar e participar era bem-vindo, desde que se comportasse de acordo. Danzir lhes contou que vez ou outra tinham a presença de algum anão brigão ou algum Cluricaun, um tipo de Leprechaun bêbado, mas não era nada grave. Lembrava mais uma briga de saloon que terminava com o quizumbeiro sendo chutado para fora. Houve mais música e, então, Bianca tentou atacar a mesa. Ariene apostou com Danzir quanto tempo levaria para que Bianca revelasse o presente das asrais.

Q uando ela julgou que Zac estava distraído, Bianca fugiu para a maravilhosa mesa de comida. Havia tanta coisa colorida e apetitosa que sua boca encheu d’água e ela babou um pouquinho. Nem sabia por onde começar. Escolheu um bolinho, algo coberto de açúcar e frutas vermelhas, com uma nata no meio, que ocupava quase sua mão inteira. Pegou e apreciou sua escolha. Sentiu o aroma fabuloso de bolo feito na hora e geléia de amoras. Levou o bolinho à boca.

– O que está fazendo??!

Alguém segurara sua mão antes que pudesse abocanhá-lo. Bianca olhou surpresa para Zac. Tinha certeza de que ele estava distraído.

– Você é pior que um cão de guarda! – reclamou ela.

– Estou tentando garantir que você volte para casa, sua tonta! O que lhe passou pela cabeça?

– Está tudo bem, Zac – confessou ela. – Eu recebi um presente e estou livre das regras do comer e beber.

– E beijar! – completou Ariene, que se aproximava abraçada a Danzir.

Zac pareceu confuso e Ariene se apressou em explicar o que ocorrera no riacho. Mesmo depois da explicação, ele não parecia muito convencido.

– E como vamos saber se é verdade? Se você comer algo agora pode nunca mais voltar e tudo por causa de uma brincadeira de ninfas.

Bianca hesitou. Um dos motivos pelo qual não queria que Zac soubesse era essa teoria. Ela mesma tinha pensado nisso, mas sentia-se mal em pensar o pior daqueles que lhe deram um presente tão valioso. Não queria acreditar que fariam uma brincadeira que poderia lhe custar sua vida. Ou seu mundo.

– Não há com o que se preocupar, Zac – intercedeu Danzir. – As asrais podem fazer isso. Já fizeram antes. Mas há uma forma de confirmar. Se ela comer um fruto daqui e a comida de sua bolsa continuar se renovando quando for retirada, é porque as asrais não mentiram.

– Ótimo! – respondeu Zac. – Podemos fazer o teste agora e se a comida não se renovar, apenas descobriremos mais cedo a brincadeira de mau gosto.

– Zac! – reclamou Bianca. – Deixa de ser chato! Você não é o meu pai!

– Que bom que ainda se lembra dele! Guarde bem na memória, porque pode nunca mais vê-lo de novo!

Bianca fez um bico. Era o mesmo bico que fazia sempre que tinha uma discussão acalorada com o pai, que terminava com portas sendo batidas. Mas numa coisa tinha razão. Zac não era seu pai. Logo, podia fazer certas coisas que lhe custariam a vida se fizesse com seu pai. Como, por exemplo, enfiar aquele delicioso bolinho cujo gosto ela nunca ia saber na cara dele.

E foi exatamente o que ela fez. Então virou as costas e saiu.


Danzir fez um sinal para que os músicos retomassem as canções, e Ariene seguiu Bianca, sabendo o que devia fazer. Encontrou-a mais adiante, longe da fogueira, onde não havia pessoas ou encantados e só a luz das estrelas e da enorme Lua a iluminavam. Ariene a tocou gentilmente no ombro. Bianca estava zangada e constrangida.

– Desculpe – disse ela. – Eu não queria estragar a festa.

– É preciso muito mais do que isso para acaba com nossas festas! – respondeu Ariene, com seu sorriso doce.

– É que ele é tão... ggrrr! Às vezes eu quero derrubá-lo no chão e chutá-lo até ele morrer!

– Por que ele pensa em você?

– Ele não pensa em mim! Esse covarde preferiu ser uma voz por um bom tempo antes de dar o ar de sua presença! E sabe Deus quando é que ele pode desaparecer de novo! Ele desconfia de tudo e de todos! Que tipo de anjo é esse que não consegue ver boa intenção em nada? Se eu continuar andando com ele, vou acabar ficando paranoica!

Quando Bianca finalmente parou de falar, Ariene esperou alguns momentos antes de dizer alguma coisa.

– Nossa, garota, você está numa encrenca danada...

Bianca olhou pra ela sem entender.

– Você está caidinha por ele!...

– Quem? O quê? Não, de jeito nenhum!

Ariene riu alto.

– Minha querida, ninguém odeia tanto sem ter a mesma quantidade de amor aí dentro... Vamos voltar, mas antes, deixe-me falar uma coisa pra você.

A bela mulher que já foi sereia se aproximou ainda mais da menina e olhou em seus olhos.

– Aqui no Mundo Encantado, nós vivemos muito. Alguns vivem há tanto tempo que achamos que estavam aqui quando o mundo foi criado. No seu mundo, no entanto, vive-se muito pouco. Você pode perder esse tempo precioso chateada com alguém que só está preocupado com você, ou usá-lo em momentos como o que tivemos há pouco, quando dançamos numa roda. A escolha é sua, mas se quiser o conselho de alguém que vive há muito, muito tempo... Nenhum tempo gasto em brigas e mágoas jamais compensou...

Ariene então deixou Bianca sozinha. Sabia que pensamentos, quando são atrapalhados por sentimentos, precisam de espaço.

Quando Bianca voltou, estava acontecendo uma peça com crianças que contava a origem do nome da vila. Olhou em volta e viu Zac com Eileen, sentados assistindo a peça. Assim que a viu, Zac desviou os olhos e voltou a olhar a peça. Bianca queria dizer que não se importava, mas sabia que era mentira. Seu coração doeu naquele momento.

No centro, as crianças continuavam sua interpretação. Um jovem costumava levar seu gado para pastar perto de um belo lago perto das Montanhas Negras. Um dia, ele viu navegando nesse lago uma linda donzela em um barco dourado. Encantado com sua beleza, ele lhe ofereceu o pão que tinha trazido para seu almoço. A donzela, no entanto, disse: “Duro está seu pão! Não vou comê-lo!” E desapareceu nas profundezas da água. No dia seguinte, a mãe do jovem lhe entregou uma massa crua, e ao encontrar a donzela no mesmo lugar, o rapaz lhe ofereceu essa massa. Porém, ela disse: “Mole está seu pão! Não vou comê-lo.” E voltou para as águas. No terceiro dia, a mãe do enamorado lhe preparou um pão pouco assado. Dessa vez, a donzela aceitou. Então, o rapaz viu saindo da água um homem mais velho com três donzelas idênticas. Ele disse que lhe daria a filha em casamento se o jovem acertasse por qual delas estava apaixonado, a qual delas havia oferecido seu pão. O jovem se desesperou, mas uma das moças moveu discretamente o pé e ele reconheceu a sandália. Então, o rapaz conquistou sua bela noiva, mas havia uma condição. Ele não poderia bater nela. Se o fizesse por três vezes, ele a perderia. Ele a amava, jamais a tocaria. Foram muito felizes por muitos anos, com muita prosperidade e fartura. O problema é que a donzela era uma gwragedd annwn, um tipo de fada d’água muito graciosa, que possui um comportamento estranho às vezes. Em enterros, ria. Em ocasiões felizes, chorava. Em algumas dessas vezes, tentando repreendê-la porque as pessoas já estavam estranhando, o marido a estapeou. Não foi forte, pois ele queria apenas que ela parasse de se comportar como louca, mas foi o suficiente para que ela o olhasse com os olhos cheios de água, pois na terceira vez em que ele bateu nela, ela voltou para as águas e ele ficou só. Ela deixou filhos, aos quais visitava de vez em quando e ensinou muitas coisas do Reino Encantado sobre cura. No mundo dos homens, seus filhos, de posse desses conhecimentos secretos, se tornaram grandes médicos.

Quando a peça terminou, todos aplaudiram as crianças. Bianca saiu de seu devaneio. Percebeu Danzir ao lado dela.

– E o que aconteceu depois? – perguntou a moça.

– Com o marido? Quando os filhos já estavam grandes e ele, velho, desapareceu. Dizem que morreu nas águas num dia de tormenta enquanto pescava. Mas aqui nós sabemos a verdade. Ele veio para o Mundo das Fadas em busca de sua amada. Aqui foi o lugar onde ele chegou primeiro, onde começou sua busca. Por isso a Vila recebeu este nome.

– E eles ficaram juntos?

Danzir sorriu.

– Não sabemos. Talvez sim, talvez não... Talvez vocês dois descubram em sua busca.

A música recomeçou e Bianca viu Zac entregando uma sonolenta Eileen para Ariene. Então ele deixou a festa. Bianca o seguiu. Não poderia dormir sem dizer alguma coisa. Sentia-se muito mal.

Havia uma pequena ponte curva de madeira que cruzava um córrego. A luz refletida na água deixava tudo incrivelmente claro e azul. Foi nessa ponte, olhando a Lua, que Bianca encontrou Zac.

– Desculpe... – disse ela.

Ele se virou para ela. Então sorriu, sinalizando que não estava zangado. Mas ela viu em seus olhos que ele estava magoado. Ela se aproximou.

– Eu não sei o que deu em mim... Nunca fiz esse escândalo todo por um bolinho.

– E nem estava tão bom! – disse ele.

Eles riram, aquele riso sem graça, já que estavam ambos constrangidos até a alma. Eles se apoiaram na ponte e observaram o brilho da água passando por baixo deles.

– Você tem razão – disse ele. – Eu evitei ao máximo vir para este mundo. Por isso quis acompanhá-la como uma presença espiritual, ao invés de uma presença física.

Bianca franziu o cenho, imaginando onde ele tinha conseguido essa informação. Ele se virou para ela.

– Eu a segui assim que saiu. Queria consertar as coisas. Ouvi parte do que falou.

Bianca não precisava lembrar palavra por palavra do que tinha dito num momento de raiva para perceber o estrago que tinha feito. Fechou os olhos e mordeu o lábio inferior, pensando em como poderia se desculpar por palavras jogadas no ar como pedras, com a diferença de que pedras podem ser recuperadas. Já as palavras...

– Não fique assim – pediu ele, percebendo que ela estava arrependida. – Só queria que soubesse que não precisa se preocupar. Estarei com você de agora em diante.

– Zac... Estou tão... chateada por ter dito o que disse. Eu só estava com raiva, por favor, me desculpe. Nossa! Me sinto tão mal agora que se essa ponte não fosse tão baixa, eu pularia dela agora. Olha, eu não quero obrigar você a ficar comigo. Se quiser voltar a ser só uma voz, eu vou entender.

– Eu não posso fazer isso – respondeu ele. – Quando entrei nesse mundo, me tornando físico, fiquei ligado irremediavelmente a você. Não poderei sair, a não ser quando você completar sua tarefa e estiver pronta pra voltar.

Bianca abaixou a cabeça.

– E só piora... Pelo visto, eu devo ter colocado seu nome no Serasa e no SPC também...

Zac riu, tentando tornar o clima mais ameno.

– Não fique chateada – disse ele, segurando-a pelos ombros para que olhasse diretamente para ele e tirasse os olhos do chão. – Eu gosto de estar com você! É sério!

– Mas você parece chateado...

– Um pouco, mas não é por isso – ele voltou a olhar para a Lua. – Estou chateado porque acho que você merecia um guia melhor... Um anjo melhor.

Ele olhou para ela com expressão séria.

– Como anjo, tenho muitas limitações ainda, tanto no seu mundo quanto neste. Há muitos perigos e eu gostaria de ser mais forte ou ter mais poderes para que você... Eu nem sei dizer com certeza se você pode comer um bolinho ou não! Nesse mundo, sou tão físico e vulnerável aos encantos e magias daqui quanto você... E isso me deixa...

– ...preocupado – completou ela.

– ...triste. Você realmente merece algo melhor.

Bianca pensou um pouco.

– Você solta raios pelos olhos? – perguntou ela.

– Não.

– Tem alguma espada flamejante de fogo?

– Só querubins e arcanjos avançados da guarda de Mikael têm uma dessas.

– Hum... Por acaso você teria super força?

– Não mais que um humano normal...

– Pode ler pensamentos?

– Não, desde que deixei sua cabeça.

– Então você é o anjo perfeito pra mim! – concluiu ela.

Ele não entendeu. Ela explicou.

– Qualquer anjo com super força ou com espada flamejante teria cortado minha cabeça quando eu metesse um bolinho na cara dele. E eu gosto de ter alguns pensamentos só pra mim, me dá a chance de surpreender as pessoas de vez em quando. Então, acho que você é um anjo perfeito! E se precisar de uma carta de recomendação, pode contar comigo.

– Obrigado – respondeu ele com um sorriso gentil.

– Eu tenho um trato – propôs ela. – Você esquece que eu meti um bolinho na sua cara e eu prometo não comer ou beber nada neste mundo enquanto você não permitir.

– Feito!

Ele deu o braço para ela e juntos retornaram à festa. Participaram da dança, ouviram histórias e se divertiram. Bianca bebeu suco de pêssego e comeu sanduíche de queijo. E achou ótimo.

 

 

Capítulo 12

Pé na estrada e cuidado onde pisa


O que Bianca achou que ia ser um dilema, não foi. Quando chegaram no quarto, estavam tão cansados da festa que cada um deitou de um lado da cama e pronto. Ao acordar, quando o Sol já estava alto, Bianca ficou olhando Zac dormindo, sentindo-se idiota por ter achado que a cama de casal pudesse ser um problema. É claro que não ia acontecer nada. Afinal, ele era um anjo.

As coisas que Ariene lhe disse, no entanto, ficavam cutucando essas teorias. Mas Ariene era uma sereia. Ou uma ex-sereia. Mesmo vivendo na forma humana, ela ainda era uma encantada e suas escolhas podiam ser diferentes. Quanto a Bianca, era apenas uma garota normal. Por que um anjo se apaixonaria por ela? Considerando que não tinha resposta para essa pergunta, decidiu que não ia se apaixonar por um anjo. Precisava se distanciar emocionalmente dele, ou acabaria chorando no ombro de Analice o amor não correspondido e impossível até o fim dos tempos.

Não deu tempo para que ela mudasse de posição quando os olhos dele se abriram de repente e deram de cara com ela. Ele tomou um susto, claro. Ela continuou paralisada.

– O que está fazendo?! – perguntou ele, tentando se recuperar.

– Err... Nada! Acabei de acordar e estava pensando se te acordava também ou não.

– O S ol já está alto lá fora?

Perguntou ele, olhando para a janela coberta por uma fina cortina clara.

– Não sei. Como disse, acabei de acordar.

Bianca pulou da cama e foi para a sala dos banhos se trocar. Depois do café da manhã, onde Bianca comeu, adivinhe, sanduíche de queijo, suco de pêssego e alguns de seus próprios bolinhos, eles se prepararam para partir. Pela janela, ela viu Eileen brincando com outras crianças e encantados. Sorriu, feliz de ter ajudado.

Na porta da casa, Ariene e Danzir se despediam amigavelmente.

– Tem certeza que não querem ficar mais um dia ou dois? – perguntou Danzir, não por simples cordialidade, mas porque se divertira muito com o jovem casal disfuncional.

– Temos uma missão ainda a cumprir – explicou Zac.

Eileen os viu e correu em sua direção. Ariene estendeu um pacote embrulhado em uma folha de parreira e cipós.

– Gostaria de lhe dar um presente. Acho que vai gostar muito!

Bianca desembrulhou e não pôde esconder a surpresa. Em suas mãos estava o livro das fadas que recebera pelo correio antes de ir para o Mundo Encantado.

– Você gostou?

– Eu adorei! – respondeu Bianca, sem mencionar que já tinha esse livro em casa. Em algum lugar...

Eileen puxou Bianca e Zac, que se abaixaram para ouvi-la melhor.

– Fica!

Ainda de joelhos, Bianca sentiu o coração apertar ao ver a pequenina com olhos ansiosos esperando uma resposta positiva. Zac olhou-a com olhos doces.

– Não podemos... Mas você vai ficar em boa companhia!

Eileen ficou desapontada, mas já pressentia que seu pedido seria negado.

– Eu tenho um presente pra vocês dois.

Então ela se esticou e deu um beijo no rosto de Zac, abraçando-o longamente. Bianca esperou seu beijo e abraço também, mas quando a menina o soltou, pegou Bianca pela mão e a puxou para um canto no jardim onde os outros não as ouvissem.

– Pra você, tenho outro presente – explicou a menina.

Ela se inclinou e falou sussurrando, em tom de segredo, tendo o cuidado de olhar em volta para ver se ninguém a ouvia.

– Eu vou lhe dar meu encantamento! Com ele, você poderá atrair para te ajudar todas as criaturas que voam que estiverem por perto.

– Nossa! Isso é muito bom!

– Mas não pode contar pra ninguém! E não pode repetir nem escrever o encantamento. Tem que decorar e só usar na hora que precisar de ajuda. Então eles vêm voando!

Então Eileen se inclinou e recitou o encantamento com cuidado. Bianca prestou atenção, decorando cada palavra. Levou alguns minutos para fixar na cabeça, mas o fato de ser rimado ajudou muito. Então, Eileen a abraçou e também deu seu beijo. Bianca apertou aquele corpinho quente nos braços, perguntando-se como podia amar aquela pequena criatura se mal a conhecia.

– Você volta pra me ver? – perguntou Eileen.

– Vou tentar.

Eileen ficou com Ariene e Danzir, enquanto Zac e Bianca seguiram seu caminho. As crianças, fadas e pessoas que estavam nas ruas lhes acenaram, e até as árvores pareciam lamentar sua partida. Bianca tinha devolvido o belo vestido e retomado seu short com camiseta de babadinhos. Não quis olhar pra trás porque isso tornaria tudo mais difícil. Lembrou -se de Eileen e sentiu urgência de voltar. Sentiu Zac segurando gentilmente seu braço.

– Pode me dar sua bolsa?

Ela não entendeu, mas entregou a pequena mochila que trazia nas costas. Zac remexeu dentro e pegou uma coisa. Então, mostrou para ela a foto que tinha levado.

Bianca olhou longamente a foto de sua família. Pareciam cada vez mais distantes, embora só tivessem se passado dois dias. Sentiu o coração doer. Estava morta de saudades.

– Obrigada...

– Este lugar faz a gente esquecer muita coisa – disse ele, devolvendo-lhe a bolsa. – Mas algumas coisas não podem ser esquecidas.

– Ainda bem que você está aqui para lembrar!

Bianca ficou com a foto nas mãos por um tempo, até que decidiu guardá-la no bolso do short, onde ficaria mais fácil de pegar. E então seguiram caminho, sem olhar pra trás.


Atravessaram o bosque onde Bianca tinha passeado com Ariene. Não passaram pela cachoeira, mas atravessaram um córrego de águas límpidas. O bosque terminou e se transformou numa pradaria verdejante. Durante todo esse tempo, Bianca esteve calada. Não que não tivesse nada para falar. Bianca já nasceu falando. E tinha perguntas, claro, até você teria. E como ela tinha perguntas! Queria saber por que Zac tentava ser tão discreto e por que tinha tantas reservas quanto ao povo encantado. Queria saber como ele se tornara um anjo e como é o lugar onde ele vive. Queria saber se, a exemplo dos encantados, anjos já se apaixonaram por humanos... E o que aconteceu depois disso...

– Você está aborrecida?

Bianca saiu de seu mundo e se deparou com os olhos acesos e azuis de Zac. Ele tentara puxar conversa algumas vezes, até que se entregou ao silêncio da caminhada.

– Não – respondeu ela. – Por quê?

– Está calada desde que saímos.

– Só estou pensando...

– Em quê?

– Às vezes eu gosto de ter pensamentos só pra mim, lembra?

Zac parou de andar e a olhou confuso.

– Eu fiz alguma coisa errada?

Bianca relaxou os ombros e deu um longo suspiro.

– Não... Não fez... Desculpe, eu estou com coisas na cabeça...

– Dividir ajuda.

Bianca não queria e não iria dizer que a coisa na cabeça dela era ele. Então pensou rápido.

– Estou preocupada em não acharmos Analice. E se ela foi pega por um dos inúmeros seres hostis que existem aqui? E se ela não foi avisada da regra do três: comer, beber ou beijar aqui fecha para sempre a porta de volta para casa?

– Ei, ei, ei! Calma! É muita coisa para uma cabecinha tão pequena! Não admira que você estivesse andando de cabeça baixa esse tempo todo! Essas coisas devem pesar. Nós viemos encontrar Analice. E vamos encontrá-la. Qualquer coisa que venha depois disso, nós decidiremos quando chegarmos lá, tudo bem?

Bianca concordou. Respirou profundamente de novo. Zac sorriu e continuaram a andar. Parou de repente.

– Não tinha uma árvore grande ali na frente?

– Onde?

– Ah! Ela está ali! Achei que estávamos andando na direção dela, mas ela está à nossa direita.

Voltaram a andar e Zac voltou a puxar conversa.

– Sabia que há uma morada de fadas no bosque de onde acabamos de sair?

– Anrã...

– Danzir contou ontem! Sabe o que isso significa? – ele olhou pra ela ansioso.

– Que fadas moram lá?

– Isso! E onde há fadas, há um círculo de fadas!

– E isso é bom? – perguntou ela.

– Isso é ótimo! Precisaremos de um círculo de fadas para você voltar pra casa. Saber que tem um aqui já nos dá um ponto de referência quando encontrarmos Analice.

– Que bom...

– Cadê a árvore?

Zac parou de novo, muito confuso. Bianca ergueu a cabeça e dessa vez também ficou confusa. Havia uma enorme árvore para onde estavam indo, tinha certeza disso. Agora, só havia relva e alguns arbustos. Olharam em volta e encontraram a árvore na direção oposta.

– Árvores andam? – perguntou ela.

– Não tão rápido!

Olharam em volta, tentando se localizar. O bosque estava agora à esquerda deles. A árvore que deveria estar na frente, agora estava atrás deles. Precisavam seguir para a árvore, pois ela era a referência que Danzir tinha lhes dado para chegarem até a cidade. Lá, tomariam uma carruagem para um lugar distante, onde teriam que saltar no meio do caminho e procurar o Lago Azul de Vayu. Sim, era uma longa viagem que tinham pela frente. Confusos, mas sem opção, prosseguiram na direção da árvore. Dessa vez, não conversaram para não se distraírem.

– Não deveríamos estar indo na direção da árvore grande? – perguntou Bianca no meio do caminho.

– É o que estamos fazendo! – retrucou Zac.

– Mas a árvore está lá, na nossa esquerda!

Zac olhou para o outro lado e viu a árvore lá, a mesma árvore que tinha certeza de ter visto uma fração de segundos antes bem na frente deles. Quando a procurou no antigo lugar, só viu o bosque de onde tinham acabado de sair.

– O que está acontecendo?

Eis a situação. Estavam os dois, com o Sol a pino, no meio de uma pradaria verdejante. Para todas as direções, havia uma saída, mas sempre que olhavam em outra direção, ou piscavam, tudo parecia mudar de lugar, e eles se encontravam no mesmo lugar de antes.

– Mas que diabo! – Zac estava realmente irritado. Sabia que anjos não deviam praguejar.

– Não é melhor pedirmos informação? – perguntou Bianca.

Ele a olhou por alguns segundos.

– Você está brincando, não está?

Bianca não estava brincando. Só não sabia mais o que dizer ou fazer. Estavam há horas andando em círculos, literalmente, e ela estava muito confusa.

– Alguém está fazendo isso... – murmurou Zac.

– Você não teria algum tipo de GPS de anjo ou coisa assim aí com você, teria? – Bianca olhava dentro da própria bolsa pra ver se encontrava alguma coisa que pudesse ajudar. Tinha separado uns cacarecos que acreditou poderem ser úteis.

Zac começou a andar olhando para o chão. Não ligava mais pra que lado estava a maldita árvore. Queria achar quem estava fazendo aquilo. De repente, ele saltou em cima de alguma coisa. Bianca fechou a bolsa e tentou entender o que ele estava fazendo. Zac pulou e saltou, tentando pegar algo que Bianca não conseguia ver. Só havia relva e grama.

– Você está bem? – perguntou ela, preocupada do anjo ter pego alguma insolaç ão. Olhou para cima para ver o Sol e percebeu que ele estava numa direção completamente diferente de onde estava antes.

Zac andou devagar, pé ante pé, olhando algo no chão. Então, deu uma corrida rápida e um salto no ar, indo cair aparentemente de cara no chão, mas de posse de sua presa.

– Peguei! Peguei o safado ordinário cretino sem-vergonha!

Bianca correu para ver o que ele tinha pego, mas se decepcionou ao ver que ele tinha nas mãos apenas um tufo de touceira arrancada com raiz e tudo.

– Parabéns, Zac! Você agarrou um pé de mato! E quase não tem nenhum por aqui, né?

– Não é um pé de mato – disse o anjo, orgulhoso do feito.

Então ele mostrou o mato por inteiro para Bianca. A menina deu um salto para trás quando viu a raiz amarronzada se mexer. Olhou de perto e viu que era um pequenino ser de uns 15 centímetros de altura, de olhos grandes e orelhas pontudas que tinha no cabelo e nas costas um tufo idêntico à relva onde estavam pisando.

– Que diabo é isso? – perguntou Bianca, tentando ver melhor o pequeno ser que tentava se livrar das mãos de Zac.

– Um stray sod . Parece uma relva comum, mas é um danadinho que libera um tipo de encanto quando pisamos nele que nos dá a direção do duende.

– Nos dá o quê?

– Direção de duende é como chamamos quando elementais nos tiram do caminho e fazem com que nos percamos, mesmo em um lugar muito conhecido para nós.

Bianca olhou de novo para os arredores. Tudo tinha mudado de lugar de novo.

– Não adiantou... As coisas continuam mudando de lugar – disse ela.

Zac jogou o elemental longe e este saiu correndo como uma ratazana. Então ele tirou a camisa.

– Tire a camisa – disse ele.

– O quê?!

– Tire e vire do avesso!

Enquanto ele fazia isso, Bianca ficou parada olhando.

– Anda logo!

– Er... Se você achar o caminho, eu só preciso segui-lo.

– Não enrola. Tire a blusa!

Bianca viu que ele não ia desistir e estava ficando impaciente. Virou-se de costas e tirou a mochila. Tirou a blusa e a vestiu pelo avesso. Virou-se de novo e se decepcionou ao ver que ele nem estava olhando. Zac estava voltado para a direção oposta, vendo os arredores e procurando a direção certa.

– Por aqui!

Seguiram a árvore grande e dessa vez ela não se moveu.


Chegaram numa floresta mais densa que o bosque que tinham atravessado. As copas das árvores impediam a chegada do Sol e ela era um tanto úmida. Desviraram a roupa, uma vez que o efeito do stray sod já os tinha deixado.

– Perdemos horas por causa daquele diabinho... – reclamou Zac.

– Ainda bem que você sabia o que fazer. Eu já estava pronta para sentar e chorar.

Bianca ouviu um estalo atrás de si e parou um segundo para olhar pra trás. Foi o suficiente para perder Zac de vista. Chamou seu nome, mas ele não respondeu. Seguiu o caminho que lhe pareceu mais óbvio, preocupada.

– Zac? Não tem graça! Cadê você?

Não muito longe dali, Zac chamava por ela.

– Estávamos a dez centímetros um do outro! – murmurou ele pra si mesmo. – Como ela conseguiu sumir?

Viu uma silhueta feminina passando entre as árvores mais adiante.

– Bianca!

Correu atrás dela, passando entre troncos escuros, até chegar numa grande árvore cercada por outras, como se fosse uma clareira sagrada.

– Procurando alguém?

Zac tomou um susto e se virou para ver quem tinha falado com ele. Deparou-se com uma belíssima mulher de olhos penetrantes e vestido ricamente bordado. Seus cabelos cascateavam pelos ombros e costas e seu sorriso era encantador. Nunca tinha visto, mesmo em sua vida de anjo, uma mulher tão bonita.

– Uma garota... – respondeu ele. – O nome dela é Bianca.

A mulher se aproximou e ele sentiu o perfume dela, um misto de rosas e mel.

– E qual é o seu nome?

– Zac... – murmurou ele, sem perceber o nome que dera. Ele estava perdendo-se nos olhos dela, azuis e progunfos como o mar em seu encontro com o céu..

– Belo nome...

Agora ela estava bem perto e ele sentiu seu hálito doce e fresco. Os lábios carnudos pareciam atraí-lo. Sabia que não devia ficar tão perto, mas não conseguia se afastar. Sua mente ficou embotada. Precisava se lembrar de algo importante que viera fazer... O que era mesmo? Os lábios dela flutuavam diante dele como se tivessem vida própria. Tudo bem... Não devia ser nada importante...

Ela caminhou graciosamente em volta dele.

– Você tem olhos lindos, sabia?...

Ela disse isso perto, muito perto. Ele tentou responder algo, mas só saíram murmúrios incompreensíveis num gaguejar ligeiramente constrangedor. Ele se inclinou para beijá-la, sentindo que era impossível não fazê-lo. Não conseguia mais pensar em nada além de mergulhar naqueles lábios grossos cor de fruta madura.

Um solavanco o acordou. Tomou um susto ao ver Bianca diante dele. De onde ela veio? Ela o empurrou com tal força que ele tropeçou numa raiz atrás de si e caiu. Bianca não se comoveu.

– Não dá pra acreditar em vocês, homens! É só a gente se afastar um minuto, um minutinho só, e vocês vão atrás do primeiro rabo de saia que aparece!

Zac se levantou, confuso. Achou que tinha sonhado acordado com a mulher mais linda do universo, mas ela estava bem atrás de Bianca, de braços cruzados, esperando o desenrolar da situação.

Depois de dar sua bronca nele, Bianca se virou para a mulher.

– E você! Devia ter vergonha! Não pode sair cantando todo mundo por aí!

– Não?... – perguntou a mulher, sorrindo e se aproximando de Bianca.

– Não! Quer dizer... – Bianca notou como ela era linda. – Talvez possa, se a pessoa não tiver... não for...

– Não tiver o quê?

– Um compromisso.

– Ah! – a mulher começou a caminhar entre Bianca e Zac, exalando seu perfume e olhando-os de perto. – Então vocês dois são um casal?

Zac e Bianca estavam ainda embasbacados e só conseguiram responder após alguns segundos.

– Não! Não temos compromisso nenhum! – disse ele.

– Imagine! Não foi esse tipo de compromisso que eu disse – explicou Bianca. – É que Zac e eu temos... uma missão!

A mulher parou diante deles e ficou observando com ar crítico, como quem observa um exposição de quadros.

– Hum... Entendo... Engraçado vocês não terem nada, porque a aura que emanam é quase igual. Quando estão juntos, a luz a sua volta fica da mesma cor.

Bianca e Zac olharam um para o outro e então ficaram oficialmente desconcertados. A mulher riu. Abriu suas asas e agora viam que ela era uma fada. Uma fada lindíssima. Suas asas aumentavam mais ainda sua beleza, pois tinham tons púrpuras e emanavam luz.

– Meu nome é Leanan-Sidhe. No mundo dos homens, sou mais conhecida como a musa da inspiração...

– Ah... – foi só o que deu pra dizer.

– E qual é essa missão?

– Não lembro... – respondeu Zac.

– Resgatar minha amiga – respondeu Bianca. – Ela foi trazida para o Mundo das Fadas. Eu vim buscar. Ele é meu guia. Temos que ir para um lago. Eu não posso comer. Pisamos num mato estranho...

– Estão procurando o Castelo de Paralda? – perguntou Leanan. – Estão bem longe ainda, meus queridos...

Eles não responderam.

– Eu posso indicar um atalho... em troca de um presente.

– Um atalho? Atalho é bom... – murmurou Bianca. – Mas que presente?

– Ah! Uma coisinha simples serve! Como, por exemplo... um beijo...

Eles arregalaram os olhos.

– Ah, que pena... – respondeu Bianca, desapontada. – Eu não posso beijar nenhum ser daqui...

– Eu posso! – respondeu Zac.

– Então, temos um trato?

Zac se animou e se aproximou da beldade, enquanto Bianca pôs-se a procurar algo em sua mochila.

Anjo e fada se aproximaram na expectativa do beijo que fez o coração de Zac bater mais forte e sua mente apagar qualquer outra coisa, pessoa, dever, divindade ou o que quer que fosse. Quando estava a apenas alguns milímetros de se tocarem, ouviu uma voz estridente cortando o clima.

– Leanan! Acho que você poderia gostar mais disso aqui!

A fada olhou para a menina, com um olhar ligeiramente irritado. Então, passou à curiosa ao ver algo brilhando em suas mãos. Quando olhou melhor, vislumbrou um par de brincos com muitas pedras brilhantes e de um dourado tão reluzente que parecia ter luz própria. As pedras refletiam todas as cores e pareciam mágicas. Leanan largou Zac e foi até Bianca pegando os brincos em suas mãos. Seu rosto se iluminou ao ver o brilho.

– Isso é bem melhor que um beijo, né? – disse Bianca com um sorriso.

Leanan olhou para ela e sorriu.

– Certamente que sim... É um presente excelente! Pra nós duas... – e lhe deu uma piscadela de cumplicidade.

Enquanto colocava os brincos, Leanan continuou a falar.

– Vocês estão indo ao Castelo de Paralda... É um lugar difícil de achar se já não se conhece o caminho... Sabem como entrar?

– Por quê? Tem alguma senha? – preocupou-se Bianca.

– Não exatamente... Mas vamos ao atalho. Se tivessem que seguir o caminho tradicional, teriam que ir até a cidade mais próxima, que fica a dias de distância, e pegar uma carruagem até o Prado Leste. Teriam que saltar no meio do caminho e ainda andar muito... Porém, como eu disse, há um atalho...

Ela se aproximou, como quem conta um segredo. Os brincos já estavam em suas orelhas e tinham caído muito bem nela. Bianca pegou um caderninho e uma caneta e começou a anotar.

– Sigam nessa direção e não saiam dela. Evitem distrações, há muitos seres brincalhões por aqui. Seguindo essa direção, sairão dessa floresta até o sol se pôr. Parem e esperem o dia clarear. Caminhem um pouco mais e verão três caminhos. Sigam o do meio. Esse caminho levará a uma estrada. Tomem cuidado, pois ela é assombrada. Sigam essa estrada e verão um castelo em ruínas. Lá, encontrarão uma chave que abrirá a porta da grande pedra. Entrem por essa porta e chegarão aonde o Vento Faz a Curva.

Bianca ainda estava anotando quando teve uma dúvida. Levantou a cabeça para perguntar e já não havia mais ninguém.

– Pra onde ela foi?

– Acho que pra casa... – respondeu Zac, voltando a si, um tanto decepcionado.

Bianca olhou pra ele.

– Seu cérebro já voltou? Já consigo ver alguma luz aí por trás dos seus olhos.

– Ela é uma fada muito poderosa, sabia? – defendeu-se ele, percebendo que tinha feito um papelão.

– E bonita também, né?

– Melhor seguirmos logo. Ou vai anoitecer e ainda estaremos nessa floresta.

 

 


Capítulo 13

Palavras no caminho


O silêncio do início da caminhada na floresta era perturbador. Vez por outra, Zac olhava Bianca de rabo de olho e se deparava com aquele olhar apertadinho de reprovação. Para evitar isso, ele passou a olhar unicamente para frente e falar sobre assuntos irrelevantes.

– O clima aqui é muito bom!

Ela não respondeu.

– Apesar das súbitas quedas de temperatura de vez em quando... – murmurou ele.

– Se eu não chegasse a tempo, você a teria beijado!

Zac a olhou confuso.

– E daí?! As três regras não se aplicam a mim. Eu não sou humano.

– Então isso quer dizer que pode sair beijando qualquer uma por aí?

– É! Algum problema? E afinal, por que está tão aborrecida com isso?

Bianca pegou sua mochila e bateu com ela nele várias vezes. Então, saiu marchando na frente.

– O que está acontecendo?! – perguntou ele, cada vez mais confuso.

Bianca estava, sim, furiosa. O problema é que não tinha motivos para estar. Então achou um!

– E se ela fosse uma vampira ou coisa assim? E se ela te transformasse em um bode, ou em um sapo, ou te teleportasse para longe de mim? Você se arriscou à toa!

Ele pareceu compreender.

– Desculpe – disse por fim. – Não foi porque eu quis. Você deve ter notado que eu estava sob um encanto. Aliás, você também!

Bianca ficou vermelha como uma maçã.

– E se não fossem as três regras, teria adorado beijá-la tanto quanto eu!

– Tá bom! Fim de caso! Não vamos mais falar disso!

– Foi você quem começou!

Voltaram a andar, cada um em seu passo, sem nada dizer. Caminharam por horas, até que Bianca se cansou. Dentro da floresta, não tinham como saber que horas eram. Bianca só sabia dizer que estava com fome. Sentou-se e pegou seu pão com queijo.

– Quando eu voltar, nunca mais vou comer um sanduíche de queijo... Nem beber suco de pêssego...

Aproveitando que a menina estava comendo, Zac deu uma volta para verificar os arredores. Não vendo nada de suspeito, voltou para onde Bianca estava. Encontrou a canga estendida no chão e a bolsa.

– Bianca?


Assim que o anjo se afastou alguns passos, Bianca viu um vulto entre as árvores. Colocou o último pedaço de sanduíche na boca e se levantou. Deu um passo e pôde ver quem era.

Bianca não acreditava no que estava vendo. Ali, diante dela, estava Analice.

– Analice? É você?

Analice, ou o que quer que fosse, virou-se e saiu. Bianca a seguiu, chamando seu nome. Correu na direção da amiga até que a viu parada a apenas alguns passos. Analice lhe sorriu e a chamou com um aceno. Bianca deu um passo e então parou. Algo não estava certo. Analice estava com a mesma roupa que usava quando desapareceu. A essa altura, já não estaria usando outra roupa? E por que ela não falava? Analice insistiu em chamá-la com um movimento de mãos. Dessa vez, Bianca não se moveu. Analisou o lugar. Não viu nenhum perigo imediato. Era um caminho de apenas alguns passos.

– Você é Analice? – perguntou Bianca, desconfiada.

– Claro que sou! – respondeu a outra. – Quem mais eu haveria de ser além de eu mesma?

Bianca respirou aliviada.

– Analice! Que bom encontrá-la! Eu já estava com medo de nunca mais te ver!

– Eu também! Me dê um abraço!

Bianca levantou o pé direito lentamente.

– Bianca, pare!!!

Zac estava a alguns passos dela e parecia muito assustado.

– Zac! Veja, é Analice!

– Não, não é! É um goblin!

Bianca olhou de novo e viu Analice fazer novamente o movimento com as mãos, como se a estivesse apressando.

– Vamos, Bianca! Sou eu! Venha até aqui!

– Bianca, não se mexa! – insistiu Zac, tentando se aproximar com muito cuidado.

Bianca estava confusa. Zac agia como se ela estivesse em perigo mortal, mas ela não via nada de perigoso ao seu redor.

– Não acredite nele, Bianca! – voltou Analice, vendo o anjo se aproximar. – Venha até aqui! Ele só quer nos separar! Enquanto andar com ele, jamais vai me achar!

O anjo ergueu sua mão direita na direção do ser que dizia ser Analice e recitou um encantamento.


– Criatura mentirosa, eu evoco a luz divina!

Que nesse minuto, nesse instante, nessa hora,

A verdade que tudo ilumina

Cubra a ti e as tuas mentiras AGORA!


Ao ouvir o encantamento do anjo, a criatura então deixou de ser Analice. Gritou e se contorceu e então se transformou em um ser grotesco, com um nariz enorme e sobrancelhas gigantescas. E, então, simplesmente virou uma fumaça preta e desapareceu. Desapareceu também o chão e Bianca viu, apavorada que estava na ponta de um precipício. Qualquer movimento a levaria à morte. A simples visão do abismo fez com que Bianca se desequilibrasse. Zac deu um salto e a pegou, antes que caísse, puxando-a de volta para a segurança. Abraçou-a, respirando aliviado. Então, sacudiu-a pelos ombros com olhos furiosos.

– O que pensa que está fazendo?!

Bianca não respondeu. Tentou, mas acabou soluçando e começou a chorar. Zac voltou a abraçá-la e ficaram assim por algum tempo.

– Nunca mais faça isso, está bem? – disse ele, num tom mais calmo. – Tudo aqui é muito... traiçoeiro. Nem todos gostam de humanos.

Ela se acalmou e os soluços diminuíram o ritmo. Afastou-se dele, secando as lágrimas. Sentia-se muito envergonhada de ter se colocado em perigo e de ter desabado como uma garotinha.

– Promete? – insistiu ele.

Ela o olhou nos olhos e concordou com a cabeça.

Voltaram para onde tinham deixado as coisas e ele lhe deu um pouco da água que tinha na mochila. Recolheram tudo e se puseram novamente a andar. Não demorou muito para que ele tentasse puxar conversa.

– Você quase me matou de susto... – disse ele.

– Eu sinto muito...

Ele pensou em dizer mais alguma coisa, algo sobre como foi estúpido seguir uma ilusão, como ela podia ter morrido por nada, e mais um monte de outras coisas, mas ao olhar para a menina cabisbaixa, desistiu.

– Eu sei que foi burrice... – disse Bianca.

– Então por que fez?

Bianca parou um pouco.

– Sabe por que estou indo atrás de Analice?

– Porque é sua melhor amiga...

– É. E também única. É a minha única amiga. Eu não tenho muitos amigos, Zac. Meu mundo ficou vazio sem Analice. No final, estou indo buscá-la porque sou egoísta. Quero que ela volte para o meu mundo.

Ele não disse nada.

– Você já teve alguém assim? – perguntou ela. – Alguém que preenchesse o seu mundo?

– Não... – respondeu ele. – Gostaria de ter tido. Mas esse é um dos motivos pelos quais os encantados invejam os humanos. Amar é um talento tipicamente humano.

Voltaram a andar, pois não podiam perder tempo, mas Bianca ficou curiosa.

– Como assim?

– Por que você acha que alguns seres aqui amam tanto os humanos e outros os odeiam tanto a ponto de matá-los com requintes de crueldade?

– Não faço ideia.

– Pelo mesmo motivo. Todos gostariam de ser humanos.

– Jura??! Pois, sinceramente, ter asas e poderes mágicos me parece muito mais interessante do que estudar para o ENEM!

Ele riu.

– Se vocês soubessem o que têm!... O que todos os seres em várias dimensões gostariam de ter. Anjos, fadas, goblins, espíritos de todo o tipo, todos gostariam de viver as experiências que só os humanos compartilham. Amar do jeito que vocês amam, viver paixões, realizar grandes feitos, escrever grandes obras, compor grandes sinfonias, tocar canções imortais que encantam o próprio Deus, dançar, correr, se superar, sentir, criar!... E até nas tragédias vocês têm essa oportunidade fantástica de exercer a compaixão, a solidariedade, o amor incondicional, a criatividade! Alguns dos seres de outras dimensões, como anjos, dragões e fadas, possuem algumas dessas coisas, mas não todas juntas! Vocês humanos têm escolhas, podem viver uma aventura nova a cada dia de suas vidas, podem mudar o mundo e se tornarem deuses! Posso lhe garantir que todos aqui gostariam de ser humanos...

Bianca estava tão espantada que parou de andar. Zac parou com ela. Os olhos dele brilhavam como ela nunca viu.

– E vocês ainda têm sorvete! – finalizou ele.

– Nossa! – disse ela, rindo. – Eu nunca imaginei que ser humano fosse tão interessante.

– Infelizmente, a maioria dos humanos também não... Sabe? Eu daria as minhas asas se pudesse ter as suas...

Voltaram a andar e o clima estava fresco e ameno. A conversa voltou a dar o ritmo da caminhada e ele explicou pra ela o que sabia daquele mundo. Era um mundo grande. Ainda havia muita coisa que ele não conhecia. Mas o que ele sabia já era o bastante para fazer os olhos dela brilharem de entusiasmo e curiosidade. E ele gostava disso.


O dia ainda estava claro quando chegaram ao fim da floresta e encontraram os três caminhos que Leanan-Sidhe tinha dito. O céu era de um anil a perder de vista e havia montanhas muito distantes pintadas de azul num tom mais escuro. Os três caminhos eram de terra, feitos pela grande frequência de uso. Bianca pegou o papel.

– Ela disse para pegarmos o do meio – disse.

– Então, o do meio será.

Começaram a andar, continuando a animada conversa. Não lembraram – e Bianca não tivera tempo de anotar – que Leanan tinha lhes dito para não prosseguirem depois de saírem da floresta, para pararem e esperarem o Sol se pôr e prosseguirem apenas no dia seguinte. O dia ainda estava claro e eles não tinham relógio. A informação ficou então perdida na floresta que ficou pra trás.

 

 


Capítulo 14

Sombria é a Noite


S eguiram o caminho do meio, até que, de repente, estava escuro. Não tinham notado, mas entardecera muito rápido e agora se viam no meio do nada, sem ter onde se abrigar durante a noite.

– Devíamos ter parado antes! – disse Zac, claramente preocupado.

– Temos Lua cheia. Podemos andar mais até encontrar alguma coisa. Será que tem uma... pousada, taberna ou algo assim?

– Sei lá... Talvez.

– Então vamos continuar até achar!

Zac não estava muito certo disso, mas também não queria ficar parado num caminho absolutamente deserto. Bianca sentiu que ele segurava sua mão. Ficou feliz, embora soubesse que ele só fizera isso para não perdê-la de vista.

Mais a frente, viram luzes cercando o caminho.

– O que é aquilo? – perguntou Bianca.

– Não sei, mas vamos com cautela.

As luzes não se moviam, mas tremulavam, e perceberam ser tochas acesas para iluminar o caminho. Entre cada uma delas, havia uma fada verde sentada observando-os passar. Não disseram nada, apenas os fitaram longamente. Eram 26 fadas, 13 de cada lado, e quando terminaram de passar, elas simplesmente desapareceram.

– O que foi isso?

Zac pareceu confuso.

– Não tenho certeza... Acho que eram um tipo estranho de fadas...

– Olhe!

Eles não tinham notado, mas tinham chegado na estrada que Leanan disse para ter cuidado. Era larga e tinha árvores imensas ao longo dela, assim como grandes formações de pedras e muito matagal. Uma fina neblina baixou e eles sentiram o coração gelar.

– Essa é a estrada assombrada... – disse Bianca.

– O problema é... Assombrada pelo quê?

Um som assustador os fez tremer, seguido de um estranho tilintar.

– O que foi isso? O que foi isso? – Bianca estava pronta para correr na direção oposta, mas não conseguia discernir de onde vinha o som.

Não sabiam para onde correr. O som ecoava e não tinham noção de que direção ele vinha. Era um barulho como um grande martelo no chão que fazia as pedras tremerem.

– Estou com medo, Zac!

– Eu também!

Se deram as mãos e ele a puxou para a lateral da estrada. O lugar era mais escuro ainda, e ele não quis se afastar muito, pois sabia que podiam cair num precipício ou num pântano e nunca mais serem vistos. Ficaram atrás de uma grande pedra, ouvindo o som se aproximar. A cadência começou a revelar o que era aquele barulho e não era uma boa revelação. Aqueles sons que faziam o chão tremer, que pareciam trovões, eram passos!

Os sons pararam. Sentiam, no entanto, que havia algo muito próximo deles, algo esperando que cometessem um único erro. O silêncio se estendeu como a neblina que agora cobria todo o chão a perder de vista. Zac se esticou um pouco para tentar ver o que era e voltou a se encostar na pedra como se tivesse visto Godzila.

– O que foi? – sussurrou Bianca.

– É Jack!

– Que Jack?

– Jack, o Acorrentado!

– Amigo seu?

– Ele não é amigo de ninguém...

O gigante voltou a se movimentar e passou para uma posição em que Bianca também pode ver. Era tão assustador que Zac teve que tapar sua boca para que ela não gritasse. O gigante merecia este nome, pois media cerca de cinco metros. Seus braços encostavam nos joelhos e ele carregava uma clava repleta de pregos. Havia correntes por todo o seu corpo, o que fazia o barulho de tilintar a cada vez que ele andava. Seus olhos eram maus e sua boca era enorme. Mas nada dava o requinte de terror como as 16 cabeças que ele trazia penduradas em sua cintura.

Zac foi puxando Bianca para que contornassem sutilmente a pedra, saindo da visão do gigante que parecia saber que havia alguém ali. Quando conseguiram sair de seu campo de visão, tentaram pensar no que fazer.

– Precisamos sair daqui – sussurrou Zac. – Se ficarmos, ele vai nos descobrir.

– Mas se corrermos, ele vai nos pegar! – retrucou Bianca.

– Não temos escolha! Ele está vindo pra cá.

Zac correu, puxando Bianca, que não teve outra alternativa além de correr com todas as suas forças. Suas pernas estavam trêmulas, mas sabia que não podia fraquejar. Corriam pelas suas vidas. Ouviram o gigante correr atrás deles, fazendo tudo tremer e emitindo um grunhido de desagrado. Atravessaram a enorme estrada até o outro lado, onde árvores e pedras poderiam ser um obstáculo, mas foi pura ilusão. O gigante os perseguia derrubando tudo o que estivesse em seu caminho, fazendo barulho com suas correntes . Como se não bastasse todo o terror que ele causava com sua simples presença, um estranho coro de gemidos o seguia, fazendo com que o coração de suas presas gelasse e suas pernas tremessem.

– Vamos nos separar! – gritou Bianca.

– Ficou maluca?!

– Precisamos confundi-lo!

Então ela se soltou da mão dele e saiu correndo na outra direção. Apesar da neblina, era possível ver tudo a sua volta, o que tornava o fato de tentar se esconder muito complicado. O gigante não pareceu ter alguma dúvida sobre a direção a tomar e continuou atrás de Zac. Este correu, esperando que Bianca soubesse o que estava fazendo. Zac entrou num vão entre duas enormes pedras, tentando se esconder. Jack o encurralou e tentou alcançá-lo com aquela enorme mão cabeluda. O rapaz se espremeu no fundo e sentiu as pontas dos dedos do gigante roçarem sua camisa.

Frustrado, Jack ergueu sua clava com um grito e acertou uma das pedras com toda a força. Um estrondo se fez ouvir e pedrinhas caíram na cabeça de Zac, que se protegeu com os braços, imaginando qual o destino pior. Sair e ser esmagado pelo gigante ou ficar e ser esmagado pelas pedras, o que não demoraria muito a acontecer. O gigante ergueu novamente a clava.

– Ei, seu monstro horroroso! Ninguém te ensinou a não quebrar as coisas, não?

Bianca estava atrás do gigante, gritando-lhe imprecações. Zac não acreditou. Ela ia acabar se matando, tinha certeza disso.

Jack, furioso, começou a correr atrás dela, dando tempo a Zac de sair de seu esconderijo. Bianca correu desesperada e a única coisa que lhe veio à cabeça foi o encanto que Eileen lhe deu.

– Ventos dos Ventos, ventos que ventam,

Apóiem as asas que voam nessa hora,


Sentiu os passos pesados atrás dela, aproximando-se perigosamente.


– Que a praga assole os que me atormentam,

E asas...


Pisou em falso e quase caiu. Corria tanto que estava quase caindo pra frente.


– E asas...


Não se lembrava do resto. A clava bateu bem ao seu lado, a apenas alguns centímetros dela. Com o impacto e o susto, caiu para o lado e se arrastou de costas, vendo a morte nos olhos de Jack, o Acorrentado. Somente então viu que os gemidos vinham das cabeças penduradas em sua cintura. Eram todas cabeças de homens, alguns, pelas costeletas e penteados, de muito tempo atrás. E todas gemiam e pediam ajuda.

O gigante ergueu a clava mais uma vez para esmagar Bianca, que não sabia mais pra onde correr. “Só um milagre pode me salvar agora”, pensou.

Foi então que um anjo apareceu. Literalmente. Zac surgiu com enormes asas brancas e brilhantes bem na frente do gigante, parecendo, pela proporção, um simples passarinho inconveniente. Porém, antes que Jack baixasse sua clava, Zac jogou-lhe algo nos olhos e ele levou as mãos ao rosto com um grito. Irritado, tentou acertar o anjo sem enxergar, batendo com sua enorme clava a esmo. Zac pousou ao lado de Bianca e a puxou, levando-a para uma árvore muito alta que estava logo ao lado. Ficaram escondidos nas folhagens. Jack parecia ainda incomodado, esfregando os olhos toda hora.

– Que pó mágico foi aquele que você usou? – perguntou Bianca.

– Terra do chão.

Voltando a enxergar, o gigante voltou a procurá-los. Olhou para o céu e não viu nada. Então voltou a procurar no chão.

– O que vamos fazer? – sussurrou ela.

– Vamos esperar... Talvez ele vá embora.

O gigante estava furioso. Não gostava de perder uma presa e ser feito de tolo. Gruniu, enquanto afastava brutalmente as moitas e procurava atrás das árvores. Foi quando parou de repente, parecendo farejar alguma coisa. Virou a cabeça para a árvore onde estavam. Então, começou a andar na direção dela, procurando algo entre as folhagens.

– É, ele não vai desistir.

E dizendo isso, Zac a ergueu nos braços e num impulso, voou. O gigante tentou correr e saltou o mais alto que pôde. Zac forçou suas asas sem olhar pra baixo. Com peso extra e contra o vento, tinha todas as chances contra ele, mas se esforçou o máximo que pôde. Bianca olhou pra baixo e o agarrou ainda mais forte. Viu o gigante saltar e sua enorme cabeça crescer, a bocarra contorcida em uma careta de ódio, a enorme mão de unhas escuras chegar perto, até roçar os tênis do anjo.

Sim, ele quase conseguira e teria sido uma morte muito infeliz para Bianca e Zac. Mas, por alguns centímetros, ele falhara e isso era tudo o que importava. Jack ainda pulou e gritou muitos palavrões bizarros, além de promessas de um dia mastigar seus ossos. Não foi uma visão bonita, mas para Bianca, foi a melhor visão que poderia ter. A visão de Jack ficando bem pequenininho e, finalmente, desaparecendo entre as folhagens.

Voaram bem alto, para evitar surpresas, onde a Lua poderia alertá-los sobre qualquer aproximação. Bianca, agarrada ao pescoço dele, via o céu escuro como breu pontilhado de estrelas tão brilhantes que pareciam as luzes da cidade à noite. O vento batia em seus rostos e ela ouvia o bater de asas de Zac. Olhou para ele e ele sorriu para ela. Ela quis beijá-lo. Quis muito. Estava tão perto. Seria o momento perfeito. Mais que perfeito. Quem, além de Lois Lane, poderia dizer que voou nos braços do amado? Ela podia dizer isso! Aproximou-se dos lábios dele, semicerrando os olhos.

– Pronto! Chegamos!

Zac, sem nem mesmo olhar pra ela, desceu e a colocou no chão.

– Por que descemos? – perguntou Bianca, muito frustrada.

– Porque chegamos! – respondeu ele apontando o castelo em ruínas do qual Leanan Sidhe havia falado.

Bianca olhou para o castelo com uma careta de muxoxo.

– Parece a casa da Família Addams...

– Não fique mal humorada! – disse ele. – Outra hora, eu levo você para outro passeio, OK?

Isso colocou um sorriso no rosto de Bianca. Percebeu então que Zac não tinha mais asas. Da mesma forma que elas desapareceram quando ele curou Eileen, elas se recolheram assim que ele tocou o chão.

– Não entendo... – comentou ela. – Se eu fosse você, usaria essas asas magníficas o tempo todo! Por que não podemos ir voando para qualquer lugar?

Ele parou e se virou pra ela.

– Porque há seres aqui que não vão gostar muito de ver essas asas. Então, é melhor sermos discretos.

Ele continuou andando e ela o seguiu.

– Detesto ser discreta!


O castelo estava abandonado há muito tempo, mas ainda tinha teto, paredes e porta. Quando pisaram na soleira, a porta se abriu sozinha.

– Isso não pode ser bom... – disse Bianca.

– Acho que esse lugar é assombrado... – concluiu Zac.

– Jura? ! Não brinca! De onde você tirou essa conclusão brilhante?

– Da porta que abriu sozinha, ué?

Bianca balançou a cabeça. Se tivesse que viver por mais tempo com pessoas que não entendiam uma piada, acabaria voltando para a estrada assombrada e pedindo que Jack a esmagasse.

 

 

 


Capítulo 15

O homem que caía


H ouve uma breve discussão na soleira da porta. Não sabiam se deviam entrar ou não. Que o castelo era assombrado, isso já era evidente. Mas o que eram alguns fantasmas perto de Jack, o Acorrentado, ou da Corte Unseelil, que costumava voar de noite? Zac não tinha medo de fantasmas. Disse que Bianca não se preocupasse, pois se um fantasma aparecesse, ele jogaria seu sapato nele. Então, agarrada a ele, ela entrou.

Um súbito vento os recepcionou. O lugar estava um breu, pois a luz da lua não conseguia chegar ali, salvo por algumas frestas no teto quase destruído. Bianca pegou um isqueiro em sua bolsa e o acendeu. Também levara fósforos, pois achou que não seria demais. Com a ajuda da pequena chama, acharam tochas penduradas nas paredes. Acenderam algumas e o lugar ficou imediatamente mais claro. Não viram movimento, mas começara a ventar lá fora, fazendo as janelas e portas caquéticas tremerem de maneira desagradável.

– Podemos procurar a tal chave... – disse Zac, que realmente parecia imune à atmosfera de filme de terror.

– Eu não quero procurar nada! – respondeu Bianca.

– Não seja medrosa, só temos que fazer uma busca no lugar e...

Somente então ele percebeu que ela estava tremendo, agarrada ao braço dele. Ela estava, de fato, aterrorizada.

– Não, este lugar é assombrado e estamos no meio da noite! Não quero procurar nada de noite! Só quero ir embora! Vamos embora, por favor, vamos embora agora!

– Tudo bem – disse ele. – Façamos o seguinte, então. Nos abrigamos aqui, que é o salão principal. Se acontecer alguma coisa, voamos como loucos por aquela porta ou por uma dessas janelas capengas, tudo bem?

Bianca estava mesmo apavorada. Tinha medo de fantasmas e especial horror a casas assombradas. Não, não vivera nenhuma experiência com qualquer um dos dois. Apenas tinha medo. Talvez fosse algo de vida passada. Além do mais, o estresse com Jack, o Acorrentado, iria cobrar seu preço em algum momento. Aquilo também a apavorara até a alma.

Acharam alguns cotocos de vela e as acenderam. Havia quadros assustadores nas paredes. As pessoas pareciam olhar para eles. Zac a abraçou e ficou com ela até que parasse de tremer, o que levou algum tempo.

– De quem será que era esse lugar? – perguntou ela, quando já estava mais calma.

– Não sei... Pelos quadros nas paredes, de um humano com certeza. Provavelmente um mago...

– Um mago?

– Sim, eles podem fazer castelos em outros reinos. E então vêm pra cá sempre que desejam, ou sempre que dormem. Alguns artistas também fazem isso. Por isso conseguem compor, escrever ou criar obras incríveis.

– Que coisa!...

– É... Que coisa!...

Ficaram em silêncio por algum tempo, ouvindo apenas o tremor assustador das janelas e o assobio fantasmagórico do vento nas frestas. Ele a puxou para si, passando-lhe segurança e conforto.

– Durma um pouco. Vai ser bom descansar...

– Tá bom...

Não era muito fácil dormir ali. Na verdade, Bianca só soube que dormiu porque, em algum momento, de repente acordou.

– Eu vou cair...

– O que foi isso?! – perguntou assustada, acreditando ter sonhado. Zac porém estava em alerta, procurando algo com os olhos, o que indicava que não apenas ela ouvira a voz cavernosa.

– Eu vou cair...

Bianca pegou sua mochila e a colocou nas costas, preparando-se para uma fuga imediata sem negociação. Zac porém tentou acalmá-la.

– Espere um pouco – disse ele, segurando-a pelo braço e olhando em seus olhos.

– O que querem na minha casa? – perguntou a voz arrastada, mas firme.

– Viemos procurar uma chave – respondeu Zac.

Um estrondo fez a casa tremer e Bianca saltar de susto, agarrando-se ainda mais em Zac, que também se assustou. Queria tanto levantar e sair correndo, mas suas pernas não a obedeciam mais.

– MENTIRA! Vocês querem o meu tesouro!

– Não estamos mentindo – Zac manteve o tom de voz calmo. – Só precisamos da chave.

Houve silêncio. Então a voz retornou, em tom de ameaça.

– Eu vou cair.

– Então caia, ué! – respondeu Zac, não se intimidando.

Uma perna caiu do nada bem na frente deles. Bianca gritou e não conseguia parar de gritar. Zac tentou acalmá-la, alarmado com a fragilidade dela naquela situação. Obrigou-a a olhar pra ele. Ela tinha lágrimas nos olhos e estava pálida. Continuavam sentados contra a parede e a perna decepada estava ali, física, diante deles.

– Bianca, olhe pra mim, olhe pra mim! Ouça! Você enfrentou um gigante!

– Não enfrentei, não! – respondeu ela, começando a chorar. – Eu corri e se não fosse você ele ia me esmagar como uma barata no canto da cozinha ou uma daquelas francesinhas em cima de mesa de boteco!

– Não, você foi corajosa lá! Eu vi! Então me escute. Confie em mim, não vou deixar nada te acontecer, entendeu? Apenas fique calma.

A menina respirou rápido algumas vezes, olhando para ele. Então, limpou as lágrimas do rosto e tentou se acalmar.

Acreditaram que a perna fosse uma ilusão que desapareceria em alguns segundos, mas ela continuava lá. Uma perna humana, decepada e morta. E nua. Uma visão horrível. Não demorou muito, a voz voltou.

– Eu vou cair!

– Então caia! – respondeu firmemente Zac.

E um braço caiu diante deles. Bianca tentou não gritar, mas não conseguiu. Fechou os olhos e tentou se controlar.

– Eu vou cair!

– Pode cair! Eu não ligo! – respondeu o rapaz.

Outra perna caiu. Bianca tinha fechado os olhos e só tremia ao ouvir o som de um pedaço de corpo caindo.

– Eu vou cair!

– Pois caia!

E dessa vez, caiu o outro braço. Demorou um pouco até que a voz voltasse. Os pedaços de corpo continuaram ali, a um metro deles. Bianca abriu os olhos e voltou a fechá-los novamente ao ter a horrível visão.

– Eu vou cair!

– Caia de uma vez, homem! – respondeu Zac.

E dessa vez caiu um tronco sem membros, fazendo um som surdo ao tocar a madeira do chão.

Algum tempo se passou onde apenas o vento, seu assobio assombroso e as janelas batendo foram ouvidos. O lugar estava gelado e as velas estavam acabando.

– EU VOU CAIR!

Dessa vez, a voz gritou e mesmo Zac não pôde evitar tremer, denunciando para Bianca que ele também estava com medo. No entanto, não mudou sua resposta.

– Então caia!

E uma cabeça caiu diante deles. A cabeça tinha os olhos esbugalhados com o susto da morte e olhava fixamente para eles.

Então, algo inesperado aconteceu.

Uma moeda caiu. Era uma moeda de ouro. Logo depois, caiu outra. E mais outra. E uma chuva de moedas de ouro se fez, cobrindo o corpo com uma montanha de ouro. Então, caíram joias, pedras preciosas e todo tipo de fortuna e tesouro. Por último, uma chave de ferro escurecido e sem valor caiu e ficou sobre a pilha.

Bianca estava olhando desde que a primeira moeda caiu e agora estava mais espantada do que assustada. Ainda assim, não conseguia se mover. Zac se levant ou, e ela ficou sentada no chão. Ele foi até o alto da pilha, que já tinha quase a sua altura, e pegou a chave. Então, voltou para o seu lugar ao lado dela e sentou-se.

A pilha de ouro se moveu. Bianca se encolheu, agarrando-se a ele. Debaixo da pilha de tesouro surgiu então um homem. Não aos pedaços, não nu, não morto. Era, com certeza, o mesmo homem, só que agora ricamente vestido e penteado. Olhou atentamente para eles.

– Podiam pegar o que quisessem... – disse.

– Só queremos a chave, obrigado – respondeu educadamente Zac.

O homem sorriu.

– Nunca houve alguém de coragem para passar a noite nesse castelo. Nem alguém de honra para não roubar. Vocês serão os primeiros a saírem vivos daqui. Não se preocupem. Por hoje, vocês serão meus hóspedes.

O homem bateu palmas três vezes e então todo o castelo em ruínas se transformou. Um enorme lustre de cristal se acendeu e sua luz cobriu todo o ambiente, transformando decadência em luxo, abandono em beleza, fazendo as marcas do tempo desaparecerem. Pessoas apareceram, bem vestidas, belas, observando-os com curiosidade. Zac e Bianca se levantaram, espantados.

O homem, o senhor daquele castelo, chamou um criado e disse-lhe para lhes dar o melhor quarto. Perguntou se estavam com fome. Bem, até estavam, mas depois daquilo tudo, tinham perdido o apetite. O homem sorriu e compreendeu. Então, o criado os guiou escadas acima até um luxuoso quarto com uma cama tão grande que Bianca calculou que só a cama era o seu quarto inteiro. Não sentia mais medo. Tudo parecia real e seguro.

– Durmam o quanto quiserem – disse o criado. – Descansem. Amanhã, serviremos o café da manhã.

Havia roupas de dormir confortáveis e muito bonitas e o quarto tinha tapetes macios e quadros de belas paisagens e flores nas paredes. Um banheiro com banheira e produtos de beleza fazia parte do quarto e a cama era macia, com travesseiros limpos e perfumados.

– Estou confusa... – disse Bianca.

– Eu também.

– E aí? Devemos ficar? – perguntou ela.

– Não vejo porque não... Sim, acho que podemos confiar... Além do mais, parece bem melhor do que lá fora.

Tomaram banho e colocaram suas roupas de dormir. Se enfiaram debaixo dos cobertores e dormiram, deixando a luz de um abajur acesa.

 

 

Capítulo 16

O Castelo Encantado


Dormiram pesadamente e não acordaram nenhuma vez. Tanto Zac quanto Bianca foram dormir imaginando que todo aquele luxo se tratava de uma ilusão. É muito comum que seres encantados utilizem uma ilusão como essa, conforme ele lhe explicara e ela mesma lera no livro. Então, foram dormir imaginando que acordariam em um feixe de palha, cobertos por folhas secas, no mesmo castelo decadente em que entraram na fria noite anterior. No entanto, não foi o que aconteceu.

Zac acordou primeiro. Abriu os olhos lentamente e então viu o teto com um belo lustre de cristal. Piscou algumas vezes, acreditando ainda estar sonhando. O lustre continuava lá. Balançou levemente Bianca, que resmungou alguma coisa e virou para o outro lado, ignorando-o. Ele se levantou e foi até a janela. O dia estava lindo e pássaros coloridos pontilhavam as frondosas árvores que cercavam o castelo. Ele se lembrava muito bem que aquelas árvores eram esqueletos de galhos secos que não respiravam vida há muito, muito tempo. Agora, no entanto, eram árvores com flores e frutos, pássaros e borboletas. Pensou em sair e explorar o local, mas se virou para Bianca. Ela tinha realmente surtado na noite anterior. Humanos são tão imprevisíveis!... Não podia deixá-la sozinha. Então ela tinha que ir junto. Voltou para a cama e sacudiu-a para que ela acordasse.

Faltava-lhe um pouco de tato. Bianca pulou da cama gritando e saltando, embrulhada no lençol, dando um susto nele também, que acabou dando um salto para trás e caindo do outro lado da cama.

– Por que fez isso? – gritou ela.

– Fiz o quê?! – disse ele, ainda no chão, do outro lado da cama. – Eu não fiz nada!

– Você me assustou! Por que me assustou?

– Eu não queria...

– Não faça mais isso! Não faça mais isso!

– Tá bom, tá bom, agora respire! – disse ele, passando rapidamente por cima da cama e indo até ela. – Vamos, respire...

Ela seguiu a respiração dele até parecer uma pessoa normal de novo.

– Nossa! Esse lugar mexeu mesmo com você, hein? – disse ele, espantado.

– Eu tenho medo de fantasmas...

– Sério?! Eu quase não notei...

Somente então ela olhou em volta, se deparando com aquele quarto de princesa, ricamente decorado, agora com seus detalhes de bom gosto à vista por causa da luz do dia que invadia suavemente o ambiente através de finas cortinas.

– Como... O que é esse lugar?

– Sinceramente, eu acho que é um castelo encantado.

– Então ontem ele se confundiu e virou um castelo assombrado só pra gente.

– Na verdade, é o contrário – respondeu Zac. – Acho que ele era assombrado e se tornou encantado para gente. Poderemos descobrir isso quando descermos. Se o encanto continua, vamos encontrar nosso anfitrião na mesa do café.


Eles se trocaram rapidamente e desceram as escadarias cobertas por tapetes vermelhos que afundavam ao serem pisados, de tão macios que eram. Nas paredes, os quadros que antes pareciam assustadores agora sorriam e representavam cenas bucólicas, como uma donzela correndo com cães à beira de um riacho, um jovem pescador em um barco tranq uilo, uma menina com um gato e crianças brincando com fadas em uma roda. Lá embaixo, foram recebidos pelo criado que os levara até o quarto. Ele os guiou até à grande sala onde uma mesa farta os esperava. Na mesa, o anfitrião e uma menina tomavam tranquilamente seu café. Assim que os viu, o homem de rosto rechonchudo e olhos profundos que pareciam sempre sorrir se levantou e os convidou para sentar.

– É um prazer tê-los aqui! Esta é minha filha Karla.

A menina de cabelos presos em uma maria-chiquinha com grandes laços acenou para eles e tentou sorrir com a boca cheia de bolo.

– Por favor, fiquem à vontade e comam. Mandei preparar um café especial hoje. Não é sempre que temos visitas.

O aroma de pão fresco e bolos subiu, fazendo com que a boca de Bianca se enchesse d’água. Então, ela pegou sua mochila e pegou seu pão com queijo, seus bolinhos e o suco de pêssego. O homem a olhou confuso.

– Não vai comer?

– Não, ela está de dieta! – respondeu Zac. – Está meio gordinha...

Bianca o fuzilou com os olhos. Ele realmente não sabia nada sobre humanos. Não se chama uma mulher frustrada de gorda. Muitos crimes acontecem assim.

– Oh, que pena... Bom, ao menos você pode comer!

Zac sorriu e pegou um enorme pedaço do bolo que estava bem na frente de Bianca, enchendo a boca, fazendo com que ela o odiasse um pouco mais naquele minuto.

– Dormiram bem?

– Como pedras! – respondeu Zac.

– Mas também, depois do susto que o senhor nos deu, a gente ficou exausto, né? – reclamou Bianca.

– Oh, desculpem por isso! Mais suco?

Esperaram algum complemento, alguma explicação, qualquer coisa, mas seu anfitrião continuou animado conversando sobre amenidades. Perguntou se ficariam para o almoço, pois teriam uma receita especial de sopa e uma brincadeira nos jardins à tarde.

– Senhor, se não for incômodo, poderia nos explicar o que houve ontem? – pediu Zac, o mais polidamente que conseguiu.

O homem sorriu e limpou a boca com um guardanapo que tinha o monograma FB.

– Meu nome é Frabatto, sou o senhor desse castelo. Ele esconde sua verdadeira forma para nos proteger dos criminosos e ladrões.

– Então é um tipo de encanto... – Bianca tentava entender como um castelo caindo aos pedaços virou de repente o Plaza.

– De certa forma. Ele se apresenta apenas aos merecedores. A ideia é espantar os invasores. Os que se atreverem a ficar, passam pelo teste da ganância. Se tivessem pego uma única moeda, teriam sido mortos e enterrados no meu quintal.

Todos ficaram em silêncio tenso, com Zac e Bianca olhando para ele com olhos arregalados, até que o homem explodiu numa gargalhada. Eles riram também, mas o homem voltou a falar, ficando sério de novo.

– É sério, estariam mortos agora.

E voltou a se servir de bolo, como se não fosse nada.

– Vocês são... assim... tipo... fantasmas? – perguntou Bianca, sem saber exatamente como formular a questão sem parecer ofensiva.

– Oh, sim! Estamos todos mortinhos da silva!

Bianca gemeu e deixou os talheres caírem no prato. Zac tocou sua perna, tentando tranquilizá-la.

– Mas, como eu disse, vocês não precisam se preocupar! Agora, são meus convidados. Mas, me digam... Pra que querem a chave?

– Para chegar ao Castelo de Paralda – respondeu Zac.

– Oh! E o que vão fazer lá?

– Ela veio resgatar uma amiga que foi raptada por seres encantados. Vamos pedir à Paralda o Elixir de Tir Nan Og, para que ela possa voltar no tempo certo dela.

– Ooh... Isso é muito sábio... Você é muito sábio para alguém da sua idade, rapaz!

– Obrigado.

– Vocês têm alguma pista sobre onde possa estar sua amiga, meu doce?

Bianca parecia catatônica, mas acordou quando a palavra foi dirigida a ela.

– Não, senhor... Nenhuma... Queria que ela tivesse algum tipo de sinalizador, ou coisa assim.

– Então, eu tenho uma dica para vocês! – o homem se inclinou um pouco sobre a mesa. – Peçam à Paralda que lhes mostrem onde ela está. O elixir, este sim vocês terão que negociar. Ela pode dar ou não a vocês. Mas se pedirem para mostrar onde está um humano raptado, ela não poderá negar. É a lei.

– Isso é ótimo! – comemorou Zac.

– E tem mais uma coisa... Cuidado com o Lago Vayu. Há muitos habitantes nele que não têm por hábito deixar humanos, ainda mais os belos como vocês, saírem de suas águas. Dêem um jeito de chegar ao castelo, sem tocar na água.


As informações foram realmente muito úteis e Bianca já tinha até esquecido que estava conversando com gente morta. Frabatto os levou para um tour pelo castelo, que era magnífico. Ele contou como o construiu com sua magia quando era vivo e como sempre ia pra lá. Agora, podia viver ali com abundância e alegria, e permitia que alguns amigos compartilhassem de sua hospitalidade.

– Pensei que os mortos iam para o Céu! – disse Bianca, soando um tanto ingênua.

– Os mortos vão para onde eles quiserem, minha cara – respondeu Frabatto. – O problema é que a maioria das pessoas não tem a menor ideia de pra onde ir quando estão vivas, quanto mais mortas!

Caminharam pelos jardins onde uma brisa fresca levava o cheiro de rosas de todas as cores. O pomar estava repleto de frutas maduras e algumas pessoas faziam a colheita. Pareciam felizes, embora tivessem vestes mais simples do que a de Frabatto e das pessoas que o cercavam na noite anterior. A menina corria para pegar uma bela maçã. Bianca notou que ali tudo parecia do seu mundo, diferente da Vila das Fadas D’água, onde havia frutas e doces que nunca vira antes.

– Essas pessoas estão...

– Mortas? Ah, não! Só algumas! Quando alguém vem a mim pedindo abrigo e a pessoa é merecedora, eu permito que fique, desde que trabalhe. Algumas são almas perdidas mesmo. Outros são humanos que chegaram ao Reino das Fadas e não sabiam o que fazer ou fugiram de algum goblin.

– Parecem felizes... – comentou Zac.

– E estão. Temos uma boa vida aqui!

– Mesmo estando mortos – completou Bianca.

– Mesmo estando mortos!


Frabatto os guiou para uma enorme pedra que ficava dentro das propriedades do castelo. Media uns três metros de altura por uns três de largura e parecia enterrada no chão.

– Pronto! Esta é a pedra que procuram!

– Mas não tem porta nenhuma! – observou Bianca.

– Isso é porque há um segredo. Mas antes, vocês têm certeza de que não querem ficar mais um pouco? Recebo tão poucas visitas!

– Talvez, se o senhor tornasse o teste de admissão um pouquinho mais fácil, recebesse mais visitas... – respondeu Bianca.

– Ah, mas aí, que qualidade teriam essas visitas? – respondeu o homem com um sorriso simpático. – Mantenha os padrões elevados, minha pequena! O mundo que se esforce para alcançá-los!

Ele deu uma risada gostosa e então ensinou aos dois como deviam fazer. Tinham que escolher a face leste da pedra e então dar sete voltas no sentido horário em torno dela. Assim fizeram. Para sua surpresa, na sétima volta, encontraram uma porta de madeira com uma fechadura.

Zac e Bianca se olharam. Então, ele enfiou a chave na fechadura e a porta se abriu. Era escuro lá dentro. Não dava pra ver nem um centímetro. Viraram-se para Frabatto que simplesmente apontou a porta, com um sorriso. Despediram-se e agradeceram pela boa noite de sono e pelos conselhos. E então, de mãos dadas, entraram na escuridão dentro da pedra.

 

 

Capítulo 17

Onde o Vento Faz a Curva


Continuaram andando no escuro sem nem mesmo ver um ao outro.

– Isso está certo mesmo? – desconfiou Bianca.

– Espero que sim... – respondeu Zac, que não tinha muita certeza de nada àquela altura.

– Talvez devamos voltaAA AA AA AA AA AHH!!!

Os dois estavam gritando porque estavam caindo. De repente, o chão sumiu debaixo de seus pés e eles estavam em queda livre sabe-se Deus pra onde.

– Abre as asas! Abre as asas!!!! – gritou Bianca.

– Não tem espaço!!!

Estavam caindo em alguma espécie de poço e podiam sentir as paredes quando esticavam as mãos.

E então, de repente, alcançaram o chão. Um chão fofo de relva alta e verdejante. Levantaram-se com o coração acelerado.

– Você está bem? – perguntou Zac.

– Não.

Bianca estava começando a perder o humor para com aquele lugar repleto de surpresas assustadoras.

Eles se levantaram e olharam em volta. Estavam num lindo campo onde ventava muito. O vento fazia com que a relva mudasse de cor ao receber sua carícia e havia um frescor no ar. À esquerda deles, um enorme lago do azul mais profundo do que se pode imaginar os recebia.

– Acho que chegamos... – disse Zac, com um sorriso.

Dentes de leão voavam por toda a parte, fazendo uma dança própria, como se estivesse nevando. Um deles passou bem diante do nariz de Bianca e ela percebeu uma pequena criaturinha presa a ele.

– Há fadas sem asas?

– Há, claro! Asas são ganhas conforme a evolução. É como um prêmio... – ele amparou uma pequenina fadinha sem asas delicadamente na palma da mão e a mostrou para Bianca. Era perfeita, mas media cerca de meio centímetro. Não usava roupas e tinha longos cabelos castanhos claros. O vento fez o trabalho de levá-la embora em seu dente de leão.

Bianca achou que era onde encontrariam o castelo. Olhou em volta e não viu castelo nenhum.

– E onde está o Castelo de Paralda?

Zac sorriu para ela.

– Olhe para cima!

A visão era estupenda. Acima do lago, um imenso castelo flutuava, tendo como chão nuvens tão brancas que os olhos chegavam a doer quando olhávamos para elas. O castelo tinha torres imensas e muitos detalhes em vidro ou cristal, pois ele parecia brilhar como se fosse cravejado de diamantes. Zac fechou a boca aberta de Bianca que não conseguia parar de olhar aquela maravilha impossível.

– É incrível, não? – disse ele. – É uma das mais fantásticas construções do Reino.

– Como isso fica aí em cima?... – murmurou ela boquiaberta.

– Como tudo aqui, tem a ver com a mente. Aqui mora Paralda, a Rainha do Reino Elemental do Ar. Essa criação é dela.

Olhando em volta, Zac chamou a atenção de Bianca para um fenômeno que acontecia a alguns metros deles. Em uma parte do campo verdejante, muito perto do lago, a relva ia e vinha, num comportamento errante, como se o vento não se decidisse pra onde deveria soprar.

– O vento está diferente lá! – disse Bianca, verbalizando o óbvio.

– Isso é porque ali é...

E ambos falaram juntos, naquela cumplicidade deliciosa de quando conseguimos acertar alguma coisa.

– Onde o Vento Faz a Curva!

Correram para lá como duas crianças, competindo para ver quem chegava primeiro, abrindo caminho na relva alta com cor de primavera e indo contra o vento que ali era constante. Os dentes de leão passavam por eles lentamente, flutuando com seus passageiros improváveis que sorriam ao passar pelos dois jovens que corriam e riam em uma alegria genuína e pura.

Chegaram no local e sentiram, admirados, o vento brincar com seus cabelos. Naquele minuto, eles se olharam, felizes com a conquista. Acharam que tinham que dizer alguma coisa, mas não disseram. Apenas mergulharam nos olhos um do outro e não desviaram. Era como se estivessem flutuando...

Bianca olhou para o chão e ele estava longe. Assustou-se e agarrou-se no rapaz diante dela. Estavam mesmo flutuando. O vento os erguera de maneira tão suave que nem tinham sentido que ele os levava para o castelo. Enquanto subiam nas asas do vento, podiam ver os arredores. Havia grandes campos verdejantes e, no horizonte, apenas nuvens em infinitas formas e cores. Apesar de terem aparentemente caído ao passarem pela porta na pedra, estavam num lugar incrivelmente alto.

– É como uma dança! – disse Bianca, maravilhada.

– Sem o perigo de pisarmos no pé um do outro! – respondeu ele, sorrindo, muito perto dela, pois continuava segurando-a.

Foram deixados em um jardim sobre as nuvens. Era, definitivamente, o jardim mais fenomenal que Bianca já tinha visto.

– Os Jardins Suspensos da Babilônia foram inspirados em uma visita aos jardins de Paralda – explicou Zac.

Bianca notou que o jardim tinha várias camadas, como se fossem enormes degraus, e as flores se espalhavam em tantas cores que tinha certeza que não conhecia algumas delas.

– Percebi que aqui há muitas cores! Em alguns lugares, como este, mais cores do que temos no nosso mundo.

– Quanto mais elevada a dimensão, mais cores ela tem. É uma regra simples.

Caminharam calmamente pelos jardins, observando as flores e os seus habitantes. Em um copo de leite, Bianca viu uma fada adormecida. Em outras flores, borboletas e fadas disputavam o néctar. Era possível ficar horas olhando tudo aquilo, tal a calma que o lugar passava, tal a beleza estonteante que tudo ali emanava. Zac a puxou gentilmente.

– Não podemos ficar um pouco?

– Não, Bianca, não podemos. Esse lugar pode nos prender aqui por décadas se não ficarmos atentos.

Chegaram a uma grande entrada marcada por dois grifos de mármore, um de cada lado. Bianca os observou de perto. O trabalho era perfeito. As penas das asas pareciam reais e os detalhes da cabeça de águia eram incrivelmente precisos. Além dos grifos, puderam ver a entrada do castelo, depois de um caminho cercado por um outro jardim, onde não havia flores, mas apenas grama bem cuidada.

Deram um passo na direção do castelo, mas assim que passaram pelos grifos, perceberam algo estranho. Viraram-se devagar e viram, abismados, os grifos de pedra se movendo.

– Ai, meu Deus... – murmurou Bianca, começando a dar passos para trás.

Zac a segurou pelo braço.

– Não fuja, não se mexa. Não teremos chance se corrermos.

Os animais haviam perdido a coloração de mármore. As penas de suas asas gigantescas haviam se tornado douradas, enquanto o corpo opulento de leão assumia uma cor amarela-parda. As cabeças de águia tinham olhos fulminantes e avermelhados e um bico extremamente afiado. As patas dianteiras eram de águia, com garras curvas capazes de arrancar o coração de alguém em alguns segundos e suas asas tinham uma envergadura de mais de sete metros. Deviam pesar mais de 500 quilos. Cada. Bianca percebeu porque Zac a segurara. Mesmo que ele levantasse voo, não haveria como escapar daqueles animais.

Os dois grifos começaram a cercá-los, observando-os.

– Sou um anjo de Rafael e viemos ver Paralda – disse o anjo, não parecendo muito seguro.

Os animais não pareceram escutá-lo. Continuaram observando-os, andando em volta deles.

– Precisamos...

Zac não terminou. Um dos grifos emitiu um guincho agudo e o outro sacudiu as asas.

– Acho que você os irritou! – avisou Bianca.

Zac pensou por um minuto. Se não pensasse rápido, a jornada deles terminaria ali.

– Cante – disse ele.

– Hã?

– Cante!

– Cantar o quê?

– Qualquer coisa calma e afinada. Precisamos comovê-los.

Bianca pensou novamente em Blue Moon. Mas quando Zac disse que precisavam comovê-los, outra música lhe veio a mente. Sua mãe costumava cantá-la ao piano que seu pai tocava e chegou a ver algumas visitas enxugarem uma lágrima delatora ao final. Claro que ela pediu para a mãe ensiná-la e era uma das poucas músicas que gostava de cantar para si mesma quando queria se sentir...comovida. Não tinha muito tempo e seu repertório era muito básico, então fechou os olhos e respirou fundo.

Sua voz começou bem baixa, insegura, e então ela foi se encontrando na canção que não tinha refrão e mal rimava, mas cuja história que contava sempre a comovia. Começava com um soldado indo bater às portas da rainha, pois queria conversar com ela. Ele lhe disse que não lutaria mais por ela e a rainha o reconheceu de algum lugar. Lentamente ela abriu a porta e deixou o soldado entrar.

Bianca tinha a voz suave quando cantava e via em sua mente o soldado e a rainha, o castelo e a conversa, e sentia em seu coração a frustração do soldado e a dor da rainha. Decidiu que não abriria os olhos para melhor se concentrar e não esquecer as palavras, como acontecera no encantamento de Eileen. Se aquela canção podia salvar suas vidas, ou se fosse a última que cantaria em sua vidinha pequena, que fosse então uma canção cantada com o coração.

Nos primeiros versos, os grifos pararam de cercá-los e os olharam fixamente. Poderia ser um sinal de que iam atacar ali mesmo ou...

Algo muito especial aconteceu naquele momento, algo que nem Zac poderia prever. Diante deles, diante dos guardiões dos portais de Paralda, tudo o que Bianca cantava se tornava realidade, como um holograma. Bianca, que mantinha os olhos fechados, não podia ver, mas tudo o que ela imaginava se materializava diante deles. Não foi planejado, foi quase automático, como se sua mente tivesse feito a escolha antes dela mesma. Havia o castelo no alto da colina, um quarto rico com tapeçarias vermelhas, um jovem soldado e uma bela rainha. Em sua imaginação, que era o que Zac e os grifos viam, Bianca era a rainha e Zac era o soldado. De olhos fechados, ficou feliz disso estar apenas dentro de sua cabeça, pois se sentiria muito constrangida se alguém mais, especialmente Zac, soubesse disso.

O soldado disse então que sempre via o palácio dela na colina mais alta e precisava conhecer a mulher pela qual todos eles estavam matando. Ele lhe disse também que estava partindo. Não via mais sentido na batalha e ela poderia fazer o que quisesse, mas antes ele precisava saber por quê. Ele foi guiado por ela por um longo corredor, até os seus aposentos com tapetes vermelhos. Até então, ela nunca tinha tirado a coroa de sua cabeça. Ela lhe pediu para que se sentasse, mas ele lhe disse: “Eu vejo você agora, e você é tão jovem! Mas eu vi mais batalhas perdidas do que ganhas e tenho essa intuição de que é tudo para a sua diversão. E agora, você poderia me dizer por quê?”

Os grifos deitaram-se, olhando atentos. Zac observava a cena se desenrolando diante dele sem saber o que pensar. Bianca poderia ter escolhido qualquer um como soldado. Por que ele?

A jovem rainha o olhou com olhos arrogantes e respondeu: “Você não compreenderia, e é melhor nem tentar.” Mas seu rosto era o de uma criança e ele pensou que ela fosse chorar. E nesse momento, ela se fechou como um leque. E ela disse que havia engolido uma promessa secreta em chamas, e ela a corta por dentro e frequentemente ela sangra. Ele pegou gentilmente a coroa em sua cabeça e a jogou no chão, como se fosse um peso, como se fosse algo sem importância. E ele disse: “Diga-me: o quão faminta você está, o quão fraca você deve se sentir, vivendo aqui tão sozinha, sem jamais se revelar? Mas nos seus campos de batalha, eu não vou mais marchar.”

Ele a levou par a a janela para ver. E havia o Sol, e ele era dourado, embora o céu estivesse cinzento. Ela o quis mais do que ela jamais poderia dizer, mas ela sabia o quanto isso a assustava e virou as costas para ele. E ela não olharia para seu rosto novamente.

O soldado não desistiu. Disse a ela: “Eu quero viver como um homem honesto, ter tudo o que eu mereço e dar tudo o que eu puder. E amar uma jovem mulher que eu não compreendo. Majestade, seus caminhos são muito estranhos”.

A coroa tinha caído e a rainha achou que ia fraquejar. Ela ficou ali de pé, com vergonha do quanto seu coração doía. Ela o levou até os degraus da porta e lhe pediu para esperar. Ela levaria apenas um momento lá dentro.

E à distância sua ordem foi ouvida.

E o soldado foi morto, ainda esperando pelas palavras dela.

E enqua nto a rainha voltava para a solidão que ela preferira, a batalha continuou.


Bianca terminou a canção e respirou profundamente, esperando algum resultado. A cena se diluiu como fumaça. Não ouvindo ou percebendo nada, abriu os olhos lentamente e viu os grifos a olhando, deitados como cachorros esperando comida. Olhou para Zac, esperando uma direção, mas este ainda tinha os olhos vidrados em algo a sua frente que já não estava ali.

Então, os grifos se levantaram. Zac voltou para o momento e e la se apavorou um pouco. Talvez só sua mãe conseguisse comover as pessoas com aquela canção. Os animais se aproximaram e os empurraram gentilmente com as cabeças. Bianca começou a fazer carinho em um deles e Zac a seguiu, surpreso daquelas feras permitirem isso. Bianca sorriu, vitoriosa e procurou o mesmo sorriso de cumplicidade que tinha visto no rosto amigo antes. Ao invés disso, porém, encontrou um olhar diferente, confuso, e que ela não teve muito tempo para identificar, pois ele logo o desviou.

 

 

Capítulo 18

No Castelo de Paralda


Caminhavam em silêncio pelo jardim impecavelmente cuidado num longo caminho até as portas do castelo. Bianca estava tão eufórica de estarem vivos, de sua canção ter dado resultado, que nem notava a construção esplendorosa que se erguia diante deles.

– Você viu isso?! Eu consegui comover feras assassinas! Talvez até possa participar do American Idol!

– Você mora no Brasil...

– E daí? Eu poderia viajar! No momento, eu acredito que eu possa fazer qualquer coisa! Me sinto tão viva!

Bianca estava realmente feliz com essa vitória. Era o primeiro passo na direção da realização da sua missão e esperava um pouco mais de apoio do anjo. No entanto, não sentia a menor empolgação em Zac, que continuava seguindo o caminho sem olhar pra ela.

– Você está bem? – perguntou ela.

– Por que matou o soldado? – perguntou ele, como se tirasse alguma satisfação.

– Que soldado? – Bianca preocupou-se, imaginando se não teria pisado ou engolido algumas daquelas fadas e silfos minúsculos.

– O soldado da canção!

– Eu não o matei!

– Mas ele morreu.

– Zac, ele não morreu porque ele não existe! É só uma canção!

Zac parecia chateado e não respondeu.

– Você não está bravo comigo por causa disso, está? – perguntou Bianca, em tom incrédulo.

Ele não respondeu.

– Vocês anjos têm algum código contra matar pessoas em histórias, filmes e canções? Porque se têm, vocês vão ter muito trabalho – continuou ela, começando a ficar irritada em não compreender porque ele estava assim.

– Não é isso!

Ele parou e a olhou nos olhos.

– Só achei a sua escolha cruel e egoísta! Ele lutou por você, sacrificou-se por você e depois de tudo você o elimina, o dispensa, dá uma ordem para matá-lo na soleira de sua porta!

Bianca olhou pra ele procurando um sentido naquela conversa maluca.

– Eu não o matei! Se alguém o matou, foi a rainha! E se vamos falar de interpretação de texto aqui, podemos supor que a rainha o matou porque preferiu manter sua independência!

– Ou o poder!

– A rainha era uma covarde, Zac! Ela teve medo de se entregar a uma coisa que parecia mais forte do que ela!

Aquela conversa estava tão bizarra que Bianca não acreditou que estivesse mesmo acontecendo. Há uma coisa estranha com os sentimentos. Nem sempre eles são claros. Muitas vezes, eles usam máscaras e fantasias e nos confundem por completo. Achamos que amamos, odiamos, desejamos, mas na maioria das vezes é tudo ilusão. O problema é que quanto mais confusos ficamos, mais besteiras falamos, tentando entender por que estamos frustrados, por que o coração está doendo, por que a mente está embaralhada. Era óbvio que Zac estava totalmente desorientado depois do que vira e que não entendia o que estava acontecendo dentro dele. Anjos não deviam se apaixonar por humanos, embora acontecesse. Era uma tarefa complicada, já que anjos também deviam amar os humanos. Amar sem se apaixonar era como entrar na água sem se molhar. E agora ele estava vendo isso bem de perto.

– Olha, me desculpe! – Bianca desistira de tentar fazer sentido. Uma coisa sua mãe tinha lhe ensinado. Quando o outro está irredutível numa discussão que foge à sua compreensão, peça desculpas e deixe o assunto morrer. Com sorte, ele morre mesmo. Se a sorte não for tanta, ele pode ressuscitar no terceiro dia, mas aí as duas cabeças estarão mais frescas para buscar a raiz do problema.

Ele a olhou. Mais uma coisa sobre sentimentos confusos. Como precisamos saber o que são – e precisamos com um desespero quase palpável – insistimos na conversa que vira uma discussão em busca de uma resposta. Quando a outra pessoa se recusa a continuar, nos sentimos mais frustrados ainda, quase traídos. Como o outro pode nos deixar à deriva, sem uma explicação, perdidos em nós mesmos? E por isso é muito difícil terminar algumas discussões. Por isso ouvir Bianca desistir sem nem saber exatamente pelo que o deixou mais frustrado ainda.

– Me desculpe, eu prometo entrar na Internet quando voltar e falar com a compositora, pedindo-lhe que mude imediatamente esse final trágico!

Apesar de parecer uma ironia, ela estava mesmo falando sério. Mas Zac não pareceu se importar e continuou andando.

– Ah, Zac, você não pode estar zangado comigo por causa de uma música que nem fui eu quem escreveu!

– Chegamos – respondeu ele secamente.

Sem entender, Bianca o acompanhou. As enormes portas do castelo se abriam e eles seguiram um caminho de mármore amarelado com um imenso tapete azul marinho no caminho. Havia muitas peças de cristal e grandes colunas com rosas amarelas. Mais a frente, alguém num trono cravejado de cristais e pedras preciosas os aguardava. Quatro soldados elfos estavam ao redor da rainha, uma mulher linda, extremamente alta, com longos cabelos cor de prata e olhos azuis como um dia de inverno. Seus lábios eram finos e esboçavam um sorriso, enquanto ela apoiava o fino rosto sobre a delicada mão que trazia uma pulseira de diamantes que se ligavam a um anel no dedo do meio. Ela tinha dois soldados de cada lado e eles eram mais altos do que ela, com olhos duros e cabelos claros. Suas orelhas ligeiramente pontudas e seus corpos esguios faziam a diferença entre eles e humanos comuns. Além da altura, claro. Imediatamente ao lado dela, um quinto homem de uniforme mais elaborado parecia aguardar ordens. Bianca imaginou que ele fosse algum tipo de conselheiro, mas suas vestes pareciam as de um militar. Ele tinha o rosto lindo, com orelhas pontudas e tanta altivez que poderia ser um príncipe.

Quando eles entraram, a rainha os observou com seu sorriso enigmático. A Rainha Paralda virou o rosto discretamente para o elfo ao seu lado.

– Isso vai ser interessante... – disse ela.

Zac se apoiou em um joelho e fez uma reverência, abrindo suas asas e assustando Bianca.

– Eu sou Zacariel, anjo de Rafael, Príncipe das Virtudes, sexta categoria na hierarquia angélica, Regente da Cura e dos Ventos e vim ver a Rainha Paralda.

Sem saber exatamente o que fazer, Bianca fez uma desengonçada reverência e se apresentou:

– E eu sou Bianca, filha do meu pai e da minha mãe, moradora da Tijuca e eu vim lá do mundo dos homens pra fazer o mesmo que ele.

A rainha sorriu mais ainda.

– Acabou de ficar ainda mais interessante! – disse ela ao seu conselheiro.

Então, ela se levantou, mostrando-se uma mulher enorme, de formas perfeitas. Seu vestido era colante e coberto de pequenas pedras preciosas, fazendo com que ela brilhasse conforme andava. Ela desceu os degraus que separavam seus visitantes de seu trono.

– Levante-se, anjo – ordenou ela.

Zac obedeceu e ela caminhou entre eles calmamente, até parar diante dos dois e fazer uma pergunta inusitada.

– Vocês estão juntos?

– Sim, chegamos juntos, e como o problema é o mesmo, pode dar a mesma senha que podemos ser atendidos ao mesmo tempo – respondeu Bianca.

– Não, querida... Quero saber se são enamorados...

Os dois ficaram imediatamente surpresos, ofendidos e constrangidos, tudo ao mesmo tempo.

– Não, não, não, imagine! Ele é só o meu guia! Não temos nada a ver um com o outro – respondeu Bianca.

– Não, Majestade, isso é totalmente irregular. Sou apenas um anjo em sua missão com uma humana muito irritante, só isso.

Bianca se virou para o anjo espantada com a grosseria gratuita.

– AAAH! Eu sou irritante?! Até parece que sou eu quem não aguenta uma história! É melhor você nunca ver Titanic! Ou Romeu e Julieta! Ou O Morro dos Ventos Uivantes! O mocinho ou a mocinha ou os dois morrem no final!!!

Zac pareceu se esquecer de que estava na frente da Rainha do Reino do Ar.

– Você é uma garota mimada que quer tudo do seu jeito! Ignora todas as regras e depois fica tentando consertar tudo! E quer saber? Nem tudo pode ser como você quer! E você nunca vai ser a próxima American Idol!!!

Paralda se virou novamente para o seu conselheiro.

– Cada vez mais interessante...

Então, ela voltou para o seu trono.

– Bem, suponho então que tenham feito um longo caminho até aqui – disse ela enquanto se sentava graciosamente. – O que desejam?

Zac e Bianca interromperam a discussão e foi Zac quem falou.

– Essa tonta perdeu a amiga dela aqui no Reino. Precisamos do Elixir de Tir Nan Og para que ela possa voltar para sua família de comercial de ração de cachorro e nos deixe em paz!

– Ah... Só isso? – perguntou a Rainha, segurando o riso.

– E preciso achar minha amiga, porque esse anjo idiota não veio com GPS! – disse Bianca. – Se a senhora puder nos mostrar onde Analice foi parar, resolvemos isso o mais rápido possível e posso voltar pra minha vida e o anjo aí pode voltar a tocar harpa numa nuvem!

– Ótimo! – disse Zac.

– Ótimo! – retrucou Bianca.

Ficaram em silêncio com suas trombas. A Rainha olhou-os longamente.

– Isso vai ser divertido... Bem, se você quer o Elixir de Tir Nan Og, precisa ir pegá-lo. Basta atravessar aquela porta.

Os dois olharam para a porta apontada por Paralda. Era uma imensa porta de madeira polida em uma das laterais do grande salão.

– Só isso? – perguntou Bianca.

– É o primeiro passo. Se o trouxer, discutiremos o preço.

Bianca e Zac se viraram para a direção da porta e deram alguns passos, quando ouviram novamente a voz da Rainha.

– Não, anjo... Você não.

Eles se voltaram para ela. Paralda, com um movimento da delicada mão, o chamou de volta.

– O elixir não é pra ela? – perguntou a rainha, vendo a hesitação do anjo.

– Sim, mas...

– Então isso é uma coisa que ela deve fazer sozinha. Você fica aqui e me faz companhia.

Zac olhou para Bianca preocupado. Bianca se manteve no seu salto alto. Achou que era importante manter a pose. Entregou a ele sua mochila.

– Fique e esfrie essa sua cabeça dura. Eu volto já!


Enquanto Bianca se colocava diante da porta que abria pesadamente, Zac voltou para perto da Rainha, deixando transparecer que o coração estava apertado.

– Calma, anjo... – disse a rainha. – Poderemos assistir tudo daqui.

Uma bola de cristal enorme surgiu diante deles mostrando Bianca a partir do momento em que ela cruzou a porta.

– É sua primeira missão, não é?

– A dela? Ah, sim, ela nunca esteve aqui. É uma idiota, na verdade.

– Não, querido, a sua. É a sua primeira missão, estou certa?

Zac olhou para ela surpreso e um tanto envergonhado. Paralda sorriu e recostou-se no trono.

– Cuidado, anjo... Sabe que não deve se envolver tanto assim com humanos... Pode ser o seu fim...

Zac não respondeu. Ao invés disso, voltou a olhar para a grande bola de cristal que parecia mais uma bolha de sabão gigante, de tão leve e translúcida. Dentro da bola, Bianca caminhava por um longo corredor. Ele sabia que ir buscar o elixir não é simplesmente como ir comprar pão na padaria. Cruzou os braços e respirou tenso. Teria que confiar em Bianca. E isso não era muito tranquilizador.

 

 

Capítulo 19

O Raio de Lua


Quando Bianca abriu a imensa porta, achou que encontraria do outro lado um salão tão luxuoso quanto o que estava. Quis acreditar, embora fosse muito difícil, que no centro desse salão, encontraria uma linda mesinha de cristal e, sobre ela, uma graciosa garrafinha de vidro colorido cheia de purpurina com o tal elixir. Ela também quis acreditar que pegaria o vidrinho e o chão não se abriria sob seus pés, nenhuma fera assassina de três bocas cheias de dentes sairia correndo atrás dela e nenhuma rede de raio laser de um computador homicida a cortaria em mil pedacinhos. Ela simplesmente entraria no aposento contíguo, pegaria a garrafinha e sairia.

Mas no fundo, no fundo, ela sabia que não seria assim.


A porta se abriu e Bianca encontrou algo que não esperava: uma cozinha. Entrou e a porta se fechou atrás dela. Estava numa cozinha que parecia ter fugido dos tempos de outrora. Tinha um fogão à lenha, uma enorme mesa de madeira com muitos pratos e hortaliças sobre ela e ervas penduradas que enchiam o lugar com os mais diversos cheiros. O lugar era iluminado naturalmente pelas janelas que davam para um campo. Era como se estivesse numa cozinha da fazenda. Bianca deu alguns passos, desconfiada. Começou a achar que tinha entrado na porta errada. O que seria ridículo, dado o tamanho da porta, com cerca de quatro metros, pela qual passara, com adornos e desenhos que eram uma verdadeira obra de arte.

Se tivesse errado uma porta daquele tamanho, teria que voltar e dar de cara com o olhar zombeteiro de Zac. Porém, era melhor isso do que continuar perdida na cozinha. Virou-se na direção em que veio e percebeu que não havia nenhuma porta de quatro metros. Tinha, no mesmo lugar, uma porta simples de madeira.

Foi até lá e tentou abri-la, mas estava trancada. Poderia tentar sair pelas janelas, mas qual seria o propósito disso? Quer dizer, se Paralda a tinha mandado para lá, tinha que ter algum motivo. Olhou para as hortaliças em cima da mesa. Será que ela queria que lhe preparasse uma salada? Foi quando percebeu algo sobre a mesa além das hortaliças. Aproximou-se e olhou para um grande livro de receitas que repousava em silêncio entre uma alface e uns brócolis.

Bianca o analisou com atenção. Em sua capa de couro estava escrito “Receitas Mágicas do Reino Encantado” e desenhos delicados de folhas, flores e frutas, com alguns elfos e fadas entre eles, faziam sua moldura. Bianca abriu e começou a folheá-lo. Encontrou coisas deveras interessantes, como o Elixir da Beleza, o Bolo da União (para pessoas que brigaram), o Elixir dos Lábios Ardentes (para beijos inesquecíveis), o Pudim de Amoras de Pan (que desperta e espalha alegria), e outras coisas que gostaria de anotar e experimentar ela mesma. E, de repente, encontrou uma receita que, com certeza, era o motivo dela estar ali. Em uma página simples, com alguns desenhos em volta, estava a receita para o Elixir de Tir Nan Og (para os que desejam voltar no tempo certo ao seu mundo). Bianca percebeu que teria que preparar o elixir e aquele livro lhe dava as instruções. Eis o que ele dizia:


Elixir de Tir Nan Og

(para os que desejam voltar no tempo certo ao seu mundo)


Ingredientes:

Um raio de Sol

Um raio de Lua

Água da Fonte Sagrada


Modo de fazer:

Quando tiver todos os ingredientes, misture-os. Este elixir só pode ser tomado em dose única e segundos antes do visitante pisar na terra de seu mundo. Apesar do procedimento simples, esse elixir possui alguns segredos. Fique atento a eles:


1. Passo a frente não se volta atrás.

2. Sem um dos ingredientes, o elixir não tem efeito.

3. Estes ingredientes rendem apenas uma dose.


Bianca franziu o cenho.

– Não podia ser um simples chazinho? – falou pra si mesma. – Ou um bolo de caixa que qualquer imbecil consegue fazer? Onde vou arrumar um raio de sol?

Colocou as mãos na cintura e olhou em volta. Procurou nos armários na esperança de encontrar um pote escrito “Raios de Sol” ou “Raios de Lua”, mas não achou nada. Voltou para a porta fechada e tentou abri-la de novo. Dessa vez, para sua surpresa, a porta estava destrancada. Bianca abriu devagar a porta, imaginando que voltaria ao salão onde estava a rainha, a guarda élfica e Zac, mas, ao invés disso, encontrou uma pequena sala branca. Entrou, ouvindo a porta fechar atrás dela. Virou-se e tentou abri-la, já que não sabia o que a esperava ali e gostaria de ter uma rota de fuga. A porta, no entanto, já estava trancada novamente.

– “Passo a frente não se volta atrás...” – disse pra si mesma, compreendendo a primeira dica do livro de receitas.

Olhou em volta. Era uma sala simples e vazia, exceto por uma mesinha de cristal no centro com pequenos vidros coloridos.

– Que ótimo... Parece a Fortaleza da Solidão...

Caminhou até lá e viu que havia algo escrito sobre a mesa que só se mostrava com o reflexo. Mexeu a cabeça, mudou de posição, até que conseguiu ler por completo.


“Três de sete você pode escolher,

Mais do que isso não pode levar

Use o certo quando algo temer

Ou algo medonho no caminho encontrar.

Mas escolha com sabedoria,

Pois se o errado você escolher,

Encontrará a morte e a agonia.”


– Nossa! Que encorajador...

Bianca então se concentrou nos vidrinhos coloridos. Eram muito bonitos, pequenos e presos por um cordão. Pareciam pequenos vidros de perfume de extremo bom gosto. Cada qual possuía uma forma e uma cor e eram sete no total. Bianca apoiou o rosto na mão, analisando. Como saberia qual escolher? Deveria pegar o mais bonito, simplesmente, e contar com a sorte? Não... Um erro e teria que morrer em agonia e isso era muito ruim. Devia ter algum jeito de saber o que cada um fazia. Deu uma volta na mesa e percebeu que as letras escritas no tampo de cristal transparente apareciam e sumiam. Quando voltou a ficar de frente para a mesa, teve uma ideia e esperou apenas não ser mal interpretada. Pegou um vidrinho e colocou-o delicadamente no lugar onde as letras apareciam. Esperou ardentemente que simplesmente tocar no vidro não determinasse sua escolha. Não ouviu nenhuma sineta ou alarme tocando, então achou que estava tudo bem. Voltou a olhar para o tampo.

Sorriu ao perceber que a mensagem que surgiu era outra. Diante daquela garrafinha, apareceu o seguinte: “O AR É INCOLOR.”

Não apareceu mais nada, o que foi frustrante para ela, pois esperava uma bula mais precisa. Foi colocando as outras garrafinhas, uma a uma, e lendo o que aparecia em baixo, em um brilho azul fosforescente do reflexo. Eis o que descobriu, ao final da experiência:


O Ar é incolor.

O Ar não tem peso.

O Ar não tem forma.

O Ar não tem cheiro.

O Ar não tem gosto.

O vento é o ar com muita pressa.

A chuva é o Ar que chora.


– São sete virtudes do Ar... – murmurou Bianca. – Quais devo escolher?...

Deduziu que a primeira garrafinha, a verde, a deixaria sem cor, o que quer dizer que ficaria invisível. Isso poderia ser muito útil ao tentar passar por algum guardião. Pegou-a para si. Imaginou que a segunda, a azul, retiraria o peso, tornando-a mais leve, o que poderia ser necessário caso ficasse na beira de um precipício, como já ficara antes. Dessa vez, não poderia contar com Zac para salvá-la. Faltava apenas uma. Não viu vantagem nenhuma em não ter cheiro. Seu anti-transpirante que trouxera na bolsa estava fazendo um bom trabalho até o momento e não tinha queixas. Também não viu ganho nenhum em ter gosto de nada. Qualquer criatura que fosse devorá-la não ia aceitar sua palavra e lhe arrancaria uns pedaços antes de perceber que ela realmente tinha gosto de papel. Não entendeu o que o vidro que dizia que a chuva é o ar que chora poderia fazer. Talvez fizesse chover. Ficou entre o vidro amarelo e o vermelho. O amarelo dizia que o ar não tinha forma. Talvez ele a tornasse maleável a ponto de passar por qualquer buraco. Isso era interessante. O outro, no entanto, dizia que o vento é o ar com muita pressa. Bianca achou que ele lhe conferiria velocidade. Pareceu bom o bastante. Pegou o vidro vermelho. Imediatamente, os outros evaporaram diante dos seus olhos.

Olhou em volta e viu uma porta prateada com lindos desenhos de sereias e ninfas do outro lado. Colocou os três vidros no pescoço e avançou para o primeiro desafio. Estava determinada a conseguir o tal elixir. Não ia deixar Zac jogar na sua cara como ela era incompetente.


Abriu a porta e finalmente se convenceu de que poderia esperar qualquer coisa daquelas portas. Depois da cozinha perdida no tempo, da sala branca com os vidros coloridos, esperava uma outra sala esquisita. No entanto, quando abriu a porta, sentiu a brisa fresca da noite diante de uma linda praia de areias brancas. Olhou para o alto e viu a Lua brilhar, enorme, totalmente cheia, tão bela que poderia ficar horas olhando para ela. No lugar onde ela se refletia no mar, viu uma taça flutuando. Ela era de prata e brilhava intensamente enquanto parecia estar cheia de...

– Raios de Lua... – murmurou Bianca, maravilhada com o belo lugar que lhe dava a sensação de estar sonhando.

Precisava chegar à taça. Olhou em volta e logo avistou um barco de pescador na areia da praia. Foi até lá e, vendo que tinha um remo lá dentro, empurrou-o para a água de ondas mansas e saltou dentro dele. Começou a remar na direção da taça sob o reflexo da lua.

Estava totalmente concentrada em chegar até a taça que flutuava na Lua refletida, mas quando se viu naquele barco, num mar negro sem fim, sob um céu que certamente tinha mais estrelas do que todos os pedacinhos de céu que já vira em seu mundo, sentiu falta de Zac. Por mais de uma vez, teve vontade de virar para o lado e tecer um comentário, ou fazer uma pergunta, ou simplesmente olhar para o lado e ver o belo rosto dele, cujo sorriso sempre a fazia se sentir melhor. Sentiu-se culpada por ter sido rude, embora ainda não entendesse por que ele estava tão sensível. O fato é que sentiu falta dele. Parou de remar um pouco, olhando para a Lua imensa acima dela. O coração apertou. Estava realmente com saudades. Franziu o cenho, preocupada. Como podia estar com saudades de uma pessoa que acabara de deixar numa outra sala. Há quanto tempo tinham se separado? Uma hora, no máximo. Mas parecia tão mais!...

Uma pancada no seu barco a tirou do devaneio. Pegou o remo, olhando em volta. A água era escura e brilhante, mas pôde ver algo passar por ela. O coração acelerou enquanto tentava se levantar para ver mais longe. Outra pancada balançou o barco e quase a derrubou. Voltou a se sentar, segurando o remo com firmeza. Olhou para a taça. Precisava pegá-la logo e sair dali o mais rápido possível.

Colocou o remo na água e pôs-se a remar com toda a força que tinha. Mais duas pancadas quase a tiraram do rumo, mas ela não parou de remar. Alguma coisa agarrou seu remo e começou a puxá-la para a água. Se perdesse o remo, ficaria sem direção. Puxou o remo, apoiando o pé na lateral do barco. Quando finalmente conseguiu puxá-lo de volta, deu de cara com um ser medonho que veio junto, com uma cara de peixe, olhos esbugalhados e uma boca que atravessava metade da cabeça. Seus dentes pareciam espinhos e estavam todos à mostra quando tentou saltar em cima de Bianca.

Ela gritou com o susto e quase caiu para trás. A criatura tentou subir no barco e Bianca não pensou muito. Bateu com toda a força com o remo na cabeça dela. Rezou para que ele tivesse ido embora, mas pancadas mais fortes revelavam que ela tinha apenas conseguido irritá-lo ainda mais.


Na sala da rainha, todos acompanhavam a cena pela grande bola cristalina. Zac não conseguia disfarçar o nervosismo.

– Use uma das virtudes! Vamos lá, abra um dos vidros! – murmurava ele, sem perceber que a rainha e seu conselheiro estavam prestando mais atenção nele do que na menina em sua luta pela vida.

Zac pensou que Bianca não conseguiria. Ela era meio desligada, ele já tinha visto isso. Precisava que alguém lhe dissesse para usar a virtude, e tinha que ser a virtude certa, ou poria tudo a perder do mesmo jeito. Talvez, ele pudesse lhe dar uma dica da maneira que os anjos fazem, mandando uma intuição, um sopro divino, um insight . Ninguém iria perceber e...

– Nem pense nisso, anjo!

Zac se assustou e se virou para a rainha, que mantinha o sorriso, mas dessa vez lhe pareceu um tanto ameaçadora.

– Você conhece as regras – finalizou ela.

Zac respirou fundo e voltou a olhar para a cena. No castelo de Paralda, as regras eram dela.


Bianca estava numa situação difícil. Estava a alguns metros da taça, mas não conseguiria chegar lá sofrendo um ataque tão feroz. As pancadas aumentaram tanto que ela percebeu que eram feitas por mais de uma criatura. Contou pelo menos três, mas podiam ser mais. Quando alguma delas tentava entrar no barco, ela lutava com o remo, até que uma criatura agarrou o remo e conseguiu tomá-lo dela. As pancadas voltaram e Bianca sentou-se no chão para não cair. Estava apavorada, não sabia mais o que fazer. Foi quando lembrou dos vidrinhos que trazia no pescoço. Como tinha se esquecido disso? Bom, o pânico faz a gente se esquecer até de respirar. Uma pancada mais forte jogou água para dentro do barco ao mesmo tempo em que uma das criaturas saltou diante dela dentro da água. Ela pôde ver que tinham essa forma humanóide de braços com três dedos com membranas na parte de cima, mas da cintura para baixo eram peixes. Espinhos percorriam sua coluna e algo parecido com algas era seu cabelo. Voltou a se concentrar nos vidros, tentando se lembrar de quem era quem. Qual deles deveria usar?

– O amarelo tira a cor, o azul tira o peso e o vermelho dá velocidade – disse pra si mesma, tentando se concentrar.

Uma das criaturas saltou para dentro do barco e se arrastou em sua direção. Ela gritou pela cena dantesca e chutou-a várias vezes na cara, jogando-a para trás. Pegou o vidro azul e abriu, rezando para ter razão sobre sua dedução. Um filete de fumaça azul saiu de dentro dele e ela cheirou. O vidro evaporou-se em sua mão, transformando-se também em uma fina fumaça azul que a envolveu. Era um perfume maravilhoso, mas não deu tempo pra curtir o momento. A criatura que estava no barco ainda estava atrás dela. Bianca arrastou-se para trás, para se afastar dela, mas não tinha muito espaço. Foi quando sentiu algo acontecer.

Não estava tocando a madeira do barco. Era como se estivesse começando a flutuar. A criatura usou o rabo para dar impulso e saltou em cima dela. Bianca usou as pernas de novo para se defender, não para chutar, mas para deter a criatura e jogá-la de volta para trás. Seus pés bateram no peito do ser monstruoso e ela pôde ver de perto a carranca feroz e furiosa por alguns segundos. Quando o jogou para trás, ele tentou agarrá-la, e arranhou suas pernas com suas garras, fazendo-a gritar. O monstro bateu com força na parede do barco e caiu na água. Bianca levantou-se, sentindo o sangue quente escorrer pelos arranhões. Atrás dela, mais dois seres tentavam subir, desestabilizando o barco.

Então ela tomou uma decisão. Se ficasse, morreria e de maneira horrível. Deu três passos largos correndo no pouco espaço que o barco tinha e confiou nos seus instintos. Saltou o mais alto que pôde.

Na sala de Paralda, Zac parou de respirar. Tudo poderia acabar ali mesmo. Nunca sentira isso. Era como se uma garra invisível apertasse seu coração até esmagá-lo.

 

 

Capítulo 20

O Raio de Sol


Q uantas vezes seguimos nossa intuição? Não estou falando de um palpite na loteria, mas num sentido mais geral. São pequenas coisas que se tornam grandes. Não pegar aquele caminho, não aceitar aquele convite, ir naquela festa, comprar aquele livro... São pequenos gestos que podem mudar completamente o curso de nossa história. A intuição é algo fantástico e pode fazer grande diferença. Felizmente, todos a temos. Infelizmente, nem todos a usamos.

Bianca sempre foi muito intuitiva. Parecia farejar quando aquela festa seria uma tremenda furada ou quando aquele passeio seria maravilhoso. Sim, Bianca sempre soube usar sua intuição.

E essa foi sua sorte. Quando saltou, só tinha dois caminhos a seguir. Para cima ou para baixo. Para cima, tinha as estrelas, a Lua, a liberdade e, um pouco a frente, a taça que precisava pegar. Para baixo, tinha seres medonhos com bocas repletas de dentes afiados ávidos por devorá-la viva. Pois, por mais que a lógica lhe dissesse que o salto a levaria para baixo e, consequentemente, para a morte, sua intuição lhe disse ao contrário. E, como muitas vezes antes, ela acertou.

Abriu os olhos com o coração aos saltos, esperando a queda iminente. Mas nada aconteceu. Ouviu sons horríveis de madeira se partindo e olhou para baixo. As criaturas marinhas estraçalhavam o barco com pancadas das caudas espinhosas. Perceber-se voando foi mais do que surreal. Foi físico. Ela se desequilibrou ao ver que nada a sustentava, mas não caiu. Então, procurou se acalmar e recuperar o controle. Olhou para a taça, brilhando prateada a poucos metros dela. Com um impulso mental, voou até lá. Voar era maravilhoso, como imaginara. Parou diante da taça e ficou imaginando se podia simplesmente pegá-la. As criaturas lá embaixo ainda rodeavam, esperando uma chance para dar o bote.

Esticou a mão delicada e pegou a taça com cuidado. Se ela caísse na água, era o fim. Não houve resistência e seu brilho prateado, como se ela emitisse luz própria, continuava, iluminando o rosto surpreso da garota. Um som de água alertou Bianca para um rápido salto de uma das criaturas que por pouco não a alcançou. A menina então subiu um pouco mais e olhou em volta. Havia duas possibilidades. Voltar para a praia de onde viera ou seguir adiante, onde só via uma ilha sob a luz da lua.

– “Passo a frente não se volta atrás” – disse para si mesma.

Então, seguiu seu nariz o mais rápido que pôde na direção da mancha escura que estava alguns quilômetros a frente. Sentiu o vento no rosto e a liberdade de voar junto das estrelas e, apesar da adrenalina ainda fazendo seu trabalho, do susto enorme que levara e das pernas arderem nos arranhões que lhe tiraram sangue, ainda sorria. Como Zac podia dizer que abriria mão disso só pra ser um simples humano? O que humanos fazem de tão especial afinal? Certamente, nada que se comparasse a voar.

Olhou para baixo e viu as criaturas ainda a acompanhando, saltando eventualmente, tentando a sorte. Ela estava alto demais para que a alcançassem, mas Bianca começou a perceber que estava perdendo altitude. O efeito estava terminando.

Olhou para a ilha e ela já estava bem mais perto, mas ainda longe. Aumentou a velocidade, tentando usar o poder da mente para poder parar de descer, mas a cada minuto, voava mais baixo. As criaturas continuavam saltando, cada vez mais ávidas, esticando os braços compridos e ossudos na sua direção. Bianca agarrou os dois vidros restantes, pensando que talvez tivesse que usar um deles. Um deles falava da velocidade do vento, isso poderia ajudar. Ou o que a deixaria invisível. Porém, eram apenas três vidros para três ingredientes. Não podia usar dois numa única tarefa. Uma criatura conseguiu arranhar sua barriga, rasgando sua blusa e fazendo-a gritar. Por outro lado, se morresse ali, aqueles vidrinhos não teriam muito uso mesmo.

Avistou as areias brancas e, mais do que isso, avistou uma porta dourada. Não tinha paredes em volta dela. Era, literalmente, uma porta sozinha no meio do nada.

– Vou conseguir! – disse pra si mesma, com convicção.

Ignorou os sons de água e os saltos das criaturas e focou na porta. Conseguiria. Quando já estava baixo demais, começou a ziguezaguear, confundindo os monstros d’água. Até que finalmente o efeito acabou e ela caiu de cara na areia macia.

Deu algumas cambalhotas até parar totalmente, pousando menos graciosamente que um albatroz. Mas assim que parou de rolar, agarrou a areia com as mãos, feliz em ter conseguido a tão poucos metros da água. As ondas baixas estouravam em espuma branca a apenas alguns passos dela.

– Acho que vocês vão ter que comer peixe hoje no jantar! – gritou ela, dando uma banana para a água e as criaturas que a perseguiram.

Levantou-se e sacudiu a areia das pernas, que ardiam. Viu o estrago. É. Estava feio. Melhor não pensar nisso agora. Foi quando ouviu um som esquisito, como se alguma coisa rastejasse. Levantou a cabeça e viu horrorizada cinco daquelas criaturas monstruosas saindo da água e se arrastando em grande velocidade em sua direção.

Bianca virou-se e saiu correndo imediatamente, apavorada com a visão. Correu o quanto pôde, as pernas começando a falhar, a areia puxando-a pra baixo, ao mesmo tempo em que facilitava para os seres rastejantes. Sentiu algo roçar suas pernas e correu ainda mais com a taça na mão e lágrimas nos olhos, achando que talvez não fosse conseguir.

E então sua mão tocou a maçaneta e ela entrou sabe-se lá pra onde sem olhar pra trás. Do outro lado, fechou a porta e encostou-se nela, sentindo os seres trombarem contra ela em fúria incontida.

Até que, finalmente, só ouve silêncio.

Bianca deixou-se escorregar, ainda encostada na porta, tomando fôlego. Limpou a testa que suava e uma ou duas lágrimas de desespero. Somente então, olhou com atenção o lugar onde estava.

A primeira coisa que lhe chamou a atenção é que era dia. Acabara de sair de uma noite de Lua alta e agora estava num lugar onde o Sol regia soberano no alto do céu. Levantou-se, sentindo-se ainda trêmula. Respirou fundo duas vezes e se recompôs. Pegou um lenço do bolso, um que tinha suas iniciais bordadas, e amarrou a taça dentro dela, fazendo uma espécie de bolsa improvisada. Deu nós seguros, para se certificar de que a taça não cairia em hipótese alguma. Então, amarrou firmemente no cinto de seu short. Depois do que acabara de viver, tinha que contar que precisaria de toda a sua atenção, de todas as suas pernas e de todas as suas mãos. Então, depois de mais um suspiro para tomar coragem, passou as mãos nos cabelos fartos e escuros e seguiu em frente.

Estava desconfiada de tudo. Qualquer folhinha que encostasse em sua pele já a sobressaltava. Passou por um trecho de mata densa, até perceber um brilho dourado por trás de alguns arbustos. Ao passar por eles, deparou-se com uma enorme pirâmide dourada. O Sol parecia brilhar bem em cima dela, onde algo refletia sua luz como um diamante.

– Espero que não seja aquilo lá! – disse Bianca, olhando para cima.

Não demorou muito para perceber que a pirâmide tinha uma porta. Com muito cuidado, entrou. Dentro, ela era muito maior por dentro do que por fora, seguindo um clichê de mundos fantásticos que não chegou a surpreender Bianca. No centro da pirâmide, havia uma enorme escultura de um sol de ouro. Algumas torres cercavam o lugar e desenhos egípcios habitavam as paredes. Bianca caminhou lentamente, sem fazer barulho, esperando não disparar nenhuma armadilha mortal, porque ela não era Indiana Jones e temia não conseguir correr mais do que uma pedra gigante rolante. Rodeou o lugar, sem, no entanto, disparar qualquer tipo de alarme ou coisa do tipo. Então, entrou no círculo iluminado pelo Sol através do grande cristal acima da pirâmide. Naquele instante, enormes leões dourados com asas gigantescas saltaram diante dela. Bianca virou-se e contou seis. Eles emitiram um rugido ameaçador e mostraram suas enormes presas. Cada um devia medir cerca de três metros e seus corpos eram opulentos e musculosos.

Lembrou-se dos grifos, mas algo lhe dizia que não adiantaria muito cantar para aqueles animais. Então, lentamente pegou um dos vidrinhos, olhando rapidamente para ver se era o certo. Os animais a rodeavam, rosnando e se aproximando, preparando o salto mortal. Bianca tirou a tampa sem problemas e uma fumaça verde fosforescente subiu pelas suas narinas, ao mesmo tempo em que o vidro evaporou e desapareceu em sua mão.

Uma das feras saltou sobre Bianca, mas não havia mais nada lá. Confusos, os animais começaram a procurar e farejar o ar. Três deles levantaram voo, procurando por trás das torres ou qualquer recanto onde o brilho do sol não fosse tão intenso.

Enquanto isso, Bianca, que tinha saltado segundos antes da fera atingi-la, se arrastava rapidamente tentando evitar as criaturas. Correu até a grande escultura de sol dourado esperando encontrar ali o que procurava. No entanto, uma das feras a ouviu e outra a farejou. Ambas correram em sua direção, no trotar típico dos leões, balançando suas asas. Bianca estava invisível, mas ainda era feita de carne e osso. Se a pegassem, seria destroçada. Pegou um dos raios da escultura e se surpreendeu ao ver que eram adagas douradas encaixadas. De posse da adaga, que agora a tornara um alvo, já que a adaga era um objeto dourado que flutuava sozinho, Bianca correu para trás do enorme sol, fora da vista das feras. Havia uma mesa semelhante a um altar, coberta com um tecido dourado. Bianca enfiou-se ali embaixo, enquanto as feras a procuravam.

Procurou a próxima porta. Só precisava ser rápida e encontrar uma brecha. Viu um brilho surgir num dos lados da pirâmide. Era uma porta de cristal, parecida com um espelho. Bianca quase chorou ao ver que a porta ficava do outro lado de onde estava e que teria que passar pelas feras para chegar até ela.

Pensou por um segundo. Precisava mudar o foco da atenção deles para correr na direção oposta. Ainda invisível, saiu de debaixo da mesa e viu uma urna na lateral. Deitou-a rapidamente e deu-lhe um empurrão, fazendo-a rolar na direção de uma das feras. Sem esperar o resultado, correu e pegou o tecido que cobria a mesa e o jogou em cima da segunda fera, deixando-a momentaneamente cega. A primeira fera alçou voo para evitar a urna que rolou e se partiu do outro lado. A segunda se enrolou e tentando se livrar do pano, sacudiu-se e quebrou mais dois vasos. Todas as outras feras voaram para aquele canto que ficava atrás da enorme escultura do sol, enquanto Bianca correu na direção oposta.

A primeira fera, no entanto, a que tinha levantado voo para se livrar da urna, ainda observava e viu uma adaga dourada correndo sozinha. Deu um rasante, esperando pegar alguma coisa com suas garras afiadas. Ouviu-se um grito e um tombo, mas a fera não tinha nada consigo. Sentira que roçara algo, mas não calculara bem o bastante para pegar sua presa, erro que não se repetiria. Deu uma volta para pegar impulso e tentou de novo. Só precisava mirar a adaga dourada que agora jazia no chão.

Bianca tinha caído, sentindo as costas em fogo. Levantou-se com dificuldade, só para se atirar de novo no chão ao ver o leão alado num novo rasante. Dessa vez, no entanto, ele não a acertou. Tentou pegar algo no chão que não estava lá, fazendo com que ele apenas pegasse o nada. Frustrado, voara novamente com um urro voraz. Bianca rapidamente entendeu que a adaga dourada era o que a denunciava. Então, correu e chutou-a para frente. Como esperara, o leão tentara mais uma vez pegar alguma coisa que não estava lá. Bianca repetiu o plano. Correu mais um pouco e chutou-a o mais longe que pôde, até que ela fosse parar perto da porta de espelho. O leão dessa vez demorou, parado no ar, tentando ver algo além da adaga. Viu a porta espelhada se abrir sozinha. Investiu num mergulho para abocanhar mortalmente sua presa. A adaga voou em poucos segundos do chão para o outro lado da porta, que imediatamente se fechou, fazendo o leão bater com tudo na parede que surgiu em seu lugar.


A rainha e seu conselheiro observavam Zac, que parecia a ponto de pular dentro da bola cristalina para interferir. Percebendo que ela tinha conseguido escapar das feras aladas, o anjo agitou nervosamente suas asas, sem tirar os olhos dos próximos passos de sua protegida.

– Ela é boa, anjo... – disse a rainha. – O último que tentou não chegou a tocar aquela taça...

O anjo a olhou de lado, sem querer parecer desrespeitoso, mas visivelmente nervoso em estar de mãos atadas.

– Poderia ter me deixado ir com ela – pediu o anjo.

– Poderia, mas não seria justo – respondeu a rainha em seu trono. – Veja bem, o elixir é para ela, então é ela quem deve conseguir.

Zac já imaginava a resposta, mas achou que não custava nada tentar. Voltou a olhar para a bola. Faltava pouco agora.

– Não deveria estar tão nervoso, anjo – disse o conselheiro, cuja voz ecoava grave pelo aposento. – Se ela falhar, você estará livre da missão a que está preso. E ela estará livre desse corpo mortal e cheio de limitações.

– Ela não vai falhar! – respondeu o anjo.

Ele voltou a olhar Bianca, caindo do outro lado daquela porta. O Conselheiro e Paralda trocaram um olhar de cumplicidade. Então, todos voltaram a acompanhar o jogo.

 

 

Capítulo 21

A garrafa de prata


A ssim que bateu a porta, Bianca se tornou novamente visível. Segurou a porta com as costas, tentando impedir que a fera atravessasse e uma pancada atrás dela a jogou para frente, onde ela caiu de joelhos. Imaginou que o enorme e persistente leão dourado que a perseguia tivesse batido com tudo na porta quando ela a fechou. Virou-se para olhar, mas a porta já havia sumido. Percebeu que podia ver suas mãos e pernas. Preferia não se ver. Estava horrível. Levantou-se sentindo uma terrível e aguda dor nas costas. Passou a mão nas costas e ela voltou manchada de vermelho. Sua barriga também estava arranhada e os ferimentos nas coxas já começavam a parecer mais feios do que deveriam. Imaginou que talvez as criaturas do mar que a atacaram tivessem algum tipo de veneno nas garras. Também imaginou porque a divindade daria veneno a criaturas como aquelas. O estrago que causavam já não era grande o bastante? Mas lembrou que, em seu mundo, pessoas com grande capacidade de fazer estragos também pareciam ter facilidades desnecessárias, como recursos, dinheiro e poder. São os caminhos divinos que ela provavelmente nunca entenderia.

Estava toda dolorida. Olhou para sua conquista. O raio que retirara da grande escultura de ouro era uma adaga de lâmina ondulada, também dourada, provavelmente de ouro. Conferiu se a taça ainda estava amarrada à cintura, embrulhada no lenço. Sim, estava. Guardou a adaga no meio do sutiã, onde costumava guardar o celular numa época que já lhe parecia distante, quando não era perseguida por monstros do mar e leões voadores assassinos.

Olhou em volta. Estava num bosque de beleza estonteante. Havia flores e árvores imponentes de um verde primaveril sob um céu de nuvens coloridas. Caminhou devagar, imaginando que terrível e enorme criatura estaria espreitando, pronta para atacá-la e arrancar seu fígado. Era sua última tarefa. Imaginou qual seria o guardião da tal Fonte Sagrada. Provavelmente, seria uma coisa enorme e mortal. Um dragão, talvez. Ou um gigante. Sentiu calafrios ao se lembrar do sufoco com Jack, o Acorrentado, que a teria esmagado se não fosse por Zac. Ouviu algo. Apurou os ouvidos e percebeu que era som de água.

Continuou seguindo em frente, cada vez mais em alerta, seguindo o barulho de água. Foi então que, depois de afastar algumas folhagens, viu o lugar mais fabuloso que já vira, e isso incluía o castelo de Paralda, algo que não se via todo dia.

Num jardim de flores de mil cores que pareciam ter luz própria, uma gigantesca fonte se erguia. Feita de pedras douradas, ela tinha três andares e a água que jorrava era cristalina e brilhante. Devia medir cerca de 30 metros de diâmetro e pelo menos dez metros de altura.

Bianca sorriu, absorta com a beleza do lugar, quando algo a picou. Bateu no braço por instinto e viu que era um inseto, algo parecido com uma vespa preta. A picada começou a arder imediatamente, como se alguém tivesse lhe enfiado uma fina agulha em brasas no braço. Pensou em ir até a fonte e lavar o ferimento, mas outra vespa lhe picou a perna. Bateu com raiva dessa vez, matando a meliante. Foi quando percebeu um outro som além da água. Apurou ou ouvidos e percebeu o zumbido de milhares de pequenas asas se aproximando. Olhou para sua direita e viu uma nuvem preta vindo do céu.

Sem pensar muito, pegou o vidro que sobrara e abriu. Uma névoa vermelha subiu por suas narinas, enquanto ela via milhares de vespas negras se aproximando velozmente a um segundo de alcançá-la. Esperava correr o mais rápido que pudesse para longe dali, mas tudo foi tão rápido que simplesmente não pôde. Assim que abriu o vidro, as primeiras vespas a alcançaram.

E passaram direto. Milhares de insetos continuaram passando por ela, atravessando-a como se ela fosse feita de ar. Bianca olhou para suas mãos e percebeu-se numa nova forma. Deu um passo e percebeu que isso desestabilizou os insetos que ainda tentavam encontrá-la. De fato, aquilo lhe dava velocidade, mas não do jeito que ela pensara. Era muito melhor!

Correu, ou voou, não sabe ao certo, e ela era o vento que balançava as folhagens. Aumentou sua velocidade e se transformou numa ventania. Investiu contra os insetos, banindo-os dali com um sorriso no rosto. Quando era vento, era leve e selvagem. Sentia-se ainda a Bianca de sempre, mas sem limites, sem dor, nem medo. Uma fortíssima ventania reuniu os insetos em um movimento centrífugo até finalmente jogá-los na água da fonte. Bianca poderia simplesmente ter “ventado” os insetos para longe, mas estava irritada com as picadas e não queria que eles voltassem. Além do mais, detestava vespas!

Quando o serviço estava terminado, parou para observar o trabalho. Milhares de asas negras debatiam-se na angústia da morte, quando algo aconteceu. Um dos insetos perdeu sua cor negra e voou e, quando fez isso, passou diante de Bianca. A vespa negra tinha se transformado numa linda borboleta de asas laranja com manchas verde-metálicas. Outras vespas passaram pela sua transformação e voaram como borboletas, numa nova experiência, numa nova vida. Assim, Bianca ficou assistindo, maravilhada, milhares de borboletas saírem da Fonte Sagrada e ganharem os céus, enchendo o azul de tantas cores que não seria capaz de contar.

Foi então que percebeu que desejava muito que Zac estivesse vendo aquilo com ela. Era uma cena mágica, belíssima e que certamente não se repetiria. Queria muito que ele estivesse ao seu lado naquele instante. O coração deu uma ordem repentina e ela se apressou. Precisava voltar. Era com urgência que precisava estar ao lado dele de novo. Foi até a fonte e mergulhou suas mãos etéreas na água.

Ficou olhando a água na fonte e suas mãos vazias. Tentou de novo, em vão. Como poderia pegar a água se não tinha um corpo? Naquele momento, ela era vento. “Tudo bem”, pensou. “O efeito de voar passou rápido. É só esperar um pouco.”

Rodeou o lugar para passar o tempo. Foi vento por algumas horas, voando ora baixo, ora alto, beijando flores e brincando nas nuvens. Mas não se esqueceu de quem era e nem do que estava fazendo. A todo instante, voltava à fonte e tentava novamente pegar a água sem um corpo, do mesmo jeito que nós sempre voltamos a procurar as chaves no primeiro lugar que procuramos, embora saibamos que se não encontramos antes, não será diferente nas vezes seguintes.

O efeito não estava passando. Lembrou que o efeito do segundo vidro, o que lhe conferira invisibilidade, só passara quando ela atravessou a porta para a tarefa seguinte. Porém, a porta só surgiria quando ela estivesse em posse do que fora buscar. Como vento, sentou-se desolada na beira da fonte. Então, num ataque de fúria, virou ventania que arrancou flores e desorientou borboletas ao redor da fonte. Voou tão rápido que se transformou em um pequeno furacão. Foi até a fonte e tentou puxar a água para si.

Fez isso várias vezes, insistindo no desespero, sem saber mais o que fazer, até que se sentiu cansada e parou de rodar. Queria continuar, mas sentia-se pesada e infeliz. Percebeu que também não conseguia mais descer. Olhou seu reflexo nas águas cristalinas e trêmulas da fonte. Havia virado uma nuvem. Uma nuvem negra.

Estava ali há horas, estava exausta e frustrada, porque não conseguiria pegar a água, não conseguiria voltar para Zac, não conseguiria voltar para casa e nem mesmo conseguiria achar Analice. Tudo tinha sido em vão. Sentiu vontade de chorar. E então chorou. Fizera uma aposta alta demais e perdera. Agora, seria vento, nuvem e brisa por toda sua existência. Chorou em desvario, lamentando a vida que não viveu.


E assim, em lágrimas de chuva, a nuvem negra desapareceu.


O lugar ficou alguns segundos em silêncio. Na sala de Paralda, Zac deu um passo a frente, os lábios entreabertos diante do final infeliz. Continuou olhando para a água da fonte, esperando algo acontecer.

De repente, Bianca emergiu da fonte buscando o ar que lhe faltava. Sentiu-se respirar de novo e olhou para suas mãos. Começou a rir e a brincar com a água quando viu que era uma garota de novo, com todos os seus problemas, com alguns quilos a mais, com um cabelo que embaraçava muito e algumas sardas inconvenientes, mas era ela de novo. Saiu da fonte, percebendo que não sentia mais dor. Olhou para as pernas e os lanhados haviam desaparecido. As picadas também. A roupa continuou rasgada, mas ela não reclamou. Então, pegou a taça embrulhada no lenço e encheu-a com a água da fonte. Imediatamente, uma porta de cristal surgiu.


Atravessou a porta com um sorriso e se deparou com a sala de Paralda, onde todos esperavam por ela. Zac abriu um imenso sorriso, ainda com o coração disparado pelos últimos instantes, e tentou ir até ela, mas foi impedido por dois dos guardas que estava perto dele. Olhou para Paralda sem entender. Tinha seguido as regras. Ambos tinham. Bianca percebeu a situação, mas não se apavorou. Provavelmente, a rainha queria ver se ela tinha conseguido mesmo o que se propôs.

Paralda se levantou graciosamente, sorrindo.

– E então? Conseguiu os ingredientes?

Bianca retirou a adaga do decote e mostrou a taça com água sagrada e a adaga para a rainha.

– Bom... Então você já tem o seu elixir.

Bianca lembrou que para fazer o elixir, bastava misturar os ingredientes. Então, mergulhou a adaga na água da taça. Imediatamente a água borbulhou e girou dentro da taça, mudando de prata e para ouro, até, finalmente, estabilizar em um belíssimo mesclado de ouro e prata.

Paralda desceu os degraus e se aproximou de Bianca. Pediu a taça, que Bianca prontamente lhe entregou. A rainha verteu com cuidado o conteúdo da taça dentro de uma garrafinha de prata que media uns 15 cm e possuía diversas pedras brilhantes em seus enfeites. Então a rainha tampou a garrafa com uma rolha e entregou-a à menina.

– Parabéns! – disse ela. – Há tempos não vemos alguém conseguir o Elixir de Tir Nan Og.

– Obrigada! – respondeu Bianca. – Nem foi tão difícil!...

A rainha sorriu, percebendo a brincadeira.

– É só isso? – perguntou a rainha.

– Não – respondeu prontamente Bianca. – Nos disseram que sua majestade pode ver onde minha amiga Analice está.

– É mesmo? E “quem” disseram?

– Um cara morto num castelo assombrado.

A rainha se virou surpresa para o anjo.

– Vocês dois parecem ter muita história pra contar!... Pois bem, sua amiga foi capturada pela Corte Seelie. Vão encontrá-la na Cidade Encantada da Colina do Amor Perfeito.

Bianca teve um nó na cabeça, pois o nome citado pela rainha era muito parecido com o temível nome dos monstros que fazia todos tremerem. Mas antes que ela pudesse fazer a primeira das muitas perguntas que tinha, a rainha a interrompeu.

– Mas antes que se vão, precisamos acertar o preço!

Bianca esqueceu as primeiras perguntas para se concentrar na nova questão.

– Preço?

– Claro – respondeu a rainha, levantando as sobrancelhas. – Você está levando um elixir poderoso do meu castelo. É justo que pague um preço, não?

Bianca ficou nitidamente desapontada. Achou que todo o sacrifício pelo que passara já era o preço. E o que fizera a rainha? Colocara o elixir numa garrafinha bonitinha. Sentia-se pagando 10% pro garçom num restaurante self service onde tinha que lavar a própria louça. Enquanto pensava no que poderia dar como pagamento, a rainha continuou.

– Bem, vamos ver... Esse elixir vai salvar sua vida quando voltar pra casa... Então, uma vida pela outra parece ser um preço justo, não acha?

Com um movimento da mão da rainha, dois dos guardas elfos agarraram Zac e o obrigaram a se curvar. Do chão, surgiu um pequena estrutura de cristal, contra a qual eles forçaram sua cabeça. Enquanto um o segurava, o outro puxou a espada, fazendo o som do correr da lâmina tão alto quanto um grito.

– O quê?! Pare! Pare! PARE!

Tudo foi tão rápido que Bianca precisou gritar para que parassem.

– O que está fazendo?! – perguntou ela, totalmente surpreendida pela atitude hostil. – Ele é um anjo de Rafael!

– Rafael tem milhares como este – respondeu a rainha, impassível. – Nem vai sentir falta.

Então ela mandou que continuassem, e o elfo ergueu a espada.

– Espere! Espere!! PARE AGORA COM ISSO!!!

A espada ficou no ar de novo com os gritos da garota. A rainha mandou os elfos pararem e olhou para ela.

– Toma! Eu não quero mais! Se este é o preço, é alto demais pra mim! Soltem ele agora!

E Bianca tentou entregar a garrafinha de prata para a rainha, mas ela não a pegou.

– Sem isso, você não poderá voltar.

– Também não poderia voltar sem ele – respondeu ela, sem pensar.

– Ah... Entendo... Então, façamos o seguinte. Cortem-lhe apenas a mão direita.

Um dos elfos ergueu o anjo e puxou seu braço, apoiando-o sobre o cristal, na mira da lâmina que brilhava ameaçadora no ar. Zac tentava se soltar, debatia-se com as asas agitadas, mas eles eram bem maiores. A espada se ergueu pela terceira vez.

– NÃO! Parem com isso agora! Eu não quero mais o elixir! Não o machuquem! Tome, fique com isso e soltem meu amigo agora!

E Bianca estendeu a garrafa de volta para a rainha.

Lentamente, a rainha pegou a garrafa prateada de volta e os elfos soltaram o anjo. Bianca correu até ele e o abraçou. Eles ficaram juntos por algum tempo, até que Zac olhou novamente para a rainha. Viu que o conselheiro lhe deu alguma coisa que ela aceitou sorrindo vitoriosa e guardou no decote.

– Era uma aposta? – sussurrou ele.

Soltou Bianca, que não entendeu a pergunta, e virou-se para a rainha, surpreso.

– Tudo isso foi por uma aposta? – perguntou ele diretamente para a rainha.

– Até uma rainha precisa se divertir, querido! – respondeu ela sorridente. – A propósito, eu ganhei!

Zac estava furioso. Dava pra ver pela veia saltando em sua testa. Estava bufando e, mesmo sabendo que não podia ir contra a Rainha Paralda em seus próprios domínios, queria arrumar uma briga. Os dois grifos que guardavam os portais do castelo entraram no aposento.

– Não fique tão mau humorado anjo. Você foi o que mais ganhou aqui... – disse a rainha, se aproximando. – Estes são Ipso e Facto e eles levarão vocês dois até a humana que estão procurando na Cidade Encantada. Ao menos assim, poderão chegar sem correr nenhum perigo.

– Bem... – disse Bianca, desapontada, mas conformada em saírem vivos. – Obrigada...

– Menina!

Bianca se virou. A rainha estendeu para ela sua bolsa. Bianca foi até ela e a pegou. Sentiu um peso extra e viu que uma coisa prateada aparecia da bolsa mal fechada. Olhou surpresa para a rainha, que lhe sorria.

– Vá. E aproveite bem sua estadia aqui.

Bianca sorriu e agradeceu. Então correu e agarrou Zac, puxando-o para sua montaria. O anjo resistiu, querendo ainda enfrentar os elfos e a rainha, mas Bianca o arrastou com urgência. Então, montados nos grifos, eles deixaram o castelo de Paralda.

 

 

Capítulo 22

Escura Noite


E les voaram e atravessaram as nuvens douradas do entardecer. Bianca estava sorridente, e Zac não tinha a menor ideia de por quê. De repente, ele gritou para ela que precisavam voltar e puxou o grifo, comandando-o para a direção contrária. Bianca voltou com ele, juntando os animais.

– O que você está fazendo?! – gritou ela.

– Precisamos voltar! – respondeu ele de cenho franzido e cabelos contra o vento. – Você conquistou o elixir! Não é justo sair sem ele!

– Desça aqui! – disse ela, indicando o alto de uma colina verdejante.

Ele a acompanhou e eles pousaram na relva verde. Desceram dos animais que brilhavam com o Sol da tarde. Zac estava zangado. Já tinha recolhido as asas e andava nervosamente como se não soubesse pra onde ir e com a necessidade de quebrar alguma coisa ou bater em alguém. Estava seguindo as regras que lhe foram impostas e, ainda assim, sentia-se totalmente injustiçado.

– Acalme-se, Zac, ou você vai ter um treco!

– Como pode estar tão calma?! – perguntou ele, achando que Bianca não tinha noção da situação. – Isso foi... injusto!

Ele olhou um pouco para o céu como se tirasse satisfação com alguém muito acima dele.

– Eu sei que as coisas no Mundo Encantado tem seu próprio ritmo, suas próprias leis, e que eu devia respeitar isso, mas mesmo fazendo tudo certo, você foi perseguida, ferida e quase morreu tentando fazer o que mandaram. Eu fui feito de refém, fui agredido e ameaçado, e tudo isso pra quê?

Ele se voltou para Bianca, agitando os braços com os olhos cheios de raiva.

– Pra nada! Pra, no final, você abrir mão da única coisa que pode levar você de volta pra casa! Não podia ter aberto mão do elixir, Bianca!

– Ah! Desculpe, eu devia ter deixado que cortassem sua cabeça! – respondeu ela, que esperava um pouco mais de gratidão e não uma bronca. – Tá vazia mesmo, não ia fazer diferença!

– Você não entende! Sem aquilo, você não pode voltar! – ele respirou fundo, deixando os ombros caírem. – Sem aquilo, você está presa aqui... Pra sempre...

Bianca se comoveu porque ele realmente parecia frustrado.

– Eu jamais mandaria matar o soldado, Zac... – disse ela.

Ele se virou para ela, surpreso.

– E eu jamais deixaria que o ferissem... – continuou ela.

Então, ele pareceu entender. A frustração deu lugar a um brilho diferente que ela não tinha visto antes nele.

– Obrigado – disse ele.

–Não tem de quê – ela respondeu.

E finalmente ele pareceu se conformar com a derrota.

– Nunca pensei que Paralda pudesse ser tão...

– Paralda é maravilhosa, a mulher mais linda que já vi e não vou deixar que fale mal dela!

Ele a olhou confuso enquanto ela pegava algo dentro de sua mochila.

– Afinal, que tipo de rainha dá lembranças bonitinhas como essa para seus visitantes? A garrafa de prata brilhou nas mãos dela e o queixo de Zac caiu, enquanto seus olhos se arregalaram, primeiro de espanto e depois de pânico.

– Você roubou? Você roubou isso? Não pode roubar a rainha!!! Ela vai te destruir!

– Calma, Zac! Eu não roubei! Ela me deu!

Ele não pareceu acreditar. Inclinou ligeiramente o rosto com o cenho franzido.

– Por que ela faria isso?

– Acho que ela não é tão má assim. Afinal, você tem razão. Eu mereci!

Então ele abriu um imenso sorriso, daqueles que iluminam o rosto inteiro e a agarrou pela cintura, erguendo-a e girando. Comemoraram a vitória da qual tudo dependia e se abraçaram. Quando ele a colocou de volta no chão, seus olhares se encontraram e não desviaram. Bianca tinha agora certeza de que estava apaixonada, porque ao olhar para ele, sua visão embaçou e seus ouvidos se tamparam, como se tudo ficasse muito, muito distante.

Ele a segurou antes que ela caísse e ela voltou a ouvir sua voz, embora tudo ainda parecesse meio escuro a sua volta. Ele a ajudou a se sentar e lhe deu um pouco de suco. Imediatamente, a visão clareou.

– O que foi isso? – perguntou ela, imaginando se era efeito da paixão ou de algum dos estranhos habitantes daquele mundo.

– Fome – respondeu ele. – Você não comeu nada o dia inteiro. E pode apostar que gastou toda a sua energia lutando contra os merrows e os leões alados.

Ela o olhou se perguntando quando tinha contato sobre suas aventuras para conseguir o elixir.

– Melhor comermos alguma coisa.

Sentaram diante do pôr do Sol, que dava seu adeus dourado no vale distante, onde o ouro também cobria rios e lagos. Os grifos permaneciam deitados graciosamente aguardando seus cavaleiros, dando um ar ainda mais fantástico àquele momento. Bianca deu um sanduíche para Zac e ele aceitou. De fato, ela já o vira comer de tudo naquele mundo, algo que alimentava sua inveja, mas não o vira ainda comer de sua comida. Talvez porque ela não tivesse oferecido. Ofereceu-lhe também o suco de pêssego, que ele prontamente aceitou. “Vamos beber da mesma garrafa...”, pensou ela. “Será que isso conta como um beijo?”

Ficou vermelha sozinha, pensando em como seria beijá-lo de verdade. Não acreditou quando ouviu sua própria voz.

– Senti sua falta.

Ele a olhou longamente, como se tentasse entender alguma coisa. Bianca ainda não acreditava que tinha dito aquilo.

– Queria estar ao seu lado lá – respondeu ele.

Bianca sorriu.

– Eu teria ajudado com os merrows , com certeza. Sabe o que são merrows ?

Bianca não sabia o que eram merrows , mas eles tinham quebrado completamente o clima. Voltou a comer seu sanduíche, decepcionada. Sentiu-se estúpida. Por que ele iria sentir algo por ela? Ele era um anjo. Um anjo lindo de morrer. Ela? Ela era uma humana desengonçada que falava mais do que a boca, que não tinha absolutamente nada de especial, que estava numa missão em busca de sua única amiga porque era de fato uma criaturinha patética e carente. Zac continuou explicando que merrows eram o povo do mar no Mundo Encantado e que as sereias, as fêmeas, frequentemente se apaixonavam por pescadores e marinheiros humanos, enquanto os machos eram feios e hostis.

– Eu fiquei preocupado com você...

Bianca o encarou ao ouvir a última frase. E dessa vez, foi ele quem desviou, um tanto tímido, o olhar, voltando a comer seu sanduíche.

Comeram dois sanduíches, cada um. Também comeram bolinhos e frutas. Bianca levara uma maçã, um pêssego, uma laranja, algumas uvas, nozes e passas. Não tinha muito de cada, mas felizmente, tudo se renovava assim que saída da bolsa. Beberam água e admiraram o pôr do Sol, enquanto Bianca contava animada sobre sua aventura, sem saber que Zac acompanhara cada passo seu com o coração na mão.

– Como sabia que a música funcionaria com eles? – perguntou Bianca, dando metade de seu sanduíche para um dos grifos, enquanto o outro se aproximava para pegar seu pedaço também.

– Não sabia – respondeu Zac, sorrindo. – É que muitos seres aqui no Mundo Encantado são suscetíveis à música. Naquele momento, era a única coisa que poderíamos fazer.

Ele afagou os grifos, que se mostraram muito fãs de sanduíche de queijo. Quando o dourado virou um tom mais escuro de violeta, voltaram às suas montarias e alçaram voo. Em circunstâncias normais, Zac não teria prosseguido de noite, quando as piores criaturas do reino vagam em busca de vítimas desavisadas. Mas com os grifos, a história era diferente. Eram animais muito bravos que lutavam praticamente até a morte. Poucas criaturas se atreveriam a enfrentá-los.

Assim, voaram pelo céu até que as estrelas começassem a salpicá-lo em sua negritude crescente. Voaram por horas e Zac estava pensando em parar em algum lugar para que pudessem descansar um pouco, mas os animais começaram a descer antes que ele dissesse qualquer coisa. Bianca o olhou sem saber o que estava acontecendo.

– Já chegamos?

– Acho que não!

Os animais sabiam para onde deveriam ir. Eram inteligentes. Também sabiam que podiam pegar um atalho. Voaram baixo por um campo onde apenas duas árvores se entrelaçavam, formando um arco. Passaram por baixo, e Bianca e Zac abaixaram a cabeça para não ficarem para trás. Quando ergueram novamente a cabeça, o campo havia desaparecido e se transformado em um bosque. Subiram e perceberam estar num lugar totalmente diferente.

– Eles pegaram um atalho! – disse Zac, animado com a boa surpresa.

– Adorei esses bichos! Posso levar um comigo pra casa?

– Nem pense nisso...

Continuaram voando sobre as árvores, vendo pontos coloridos brilhantes em círculos, fadas dançando em roda. Uma luminosidade mais adiante, no entanto, não parecia tão graciosa.

– O que é aquilo?

Somente então perceberam que aquele bosque era o mesmo que atravessaram ao sair da Vila das Fadas D’Água. Não precisaram de muito raciocínio para perceber que a luminosidade que viam eram chamas na vila que os acolhera. Quanto mais se aproximavam, mais viam que havia gente em pânico, luta e seres monstruosos atacando.

– É a Corte Unseelil! – gritou Zac.

Comandaram os animais para um ataque pelo ar e desceram como raios sobre os monstros que atacavam pessoas, fadas, anões e sátiros nas ruas, erguendo-os e soltando-os no ar, vendo-os cair às gargalhadas. O grifo de Zac agarrou um goblin que estava sobre uma mulher, estrangulando-a. Com o bico afiado, o grifo rasgou o monstro e jogou sua carcaça sangrando no chão. O grifo de Bianca se limitou a agarrar dois monstros de uma vez, erguê-los e jogá-los contra uma casa em chamas. Zac viu que Ariene e outras mulheres tentavam defender seus lares com arcos e flechas, enquanto Danzir comandava os homens num confronto direto. Apesar de Danzir ter instalado um sistema de alerta na Vila assim que soubera que a Corte andava por ali, isso não impedira um ataque maciço e cruel no meio da noite.

A situação não era boa. Várias casas estavam em chamas, havia muitos feridos e talvez alguns mortos, já que alguns seres no chão não se mechiam. Ao que parecia, a Corte ainda estava escolhendo sua presa. Num primeiro momento, tudo o que queriam era destruir. Zac pousou com seu grifo bem na frente de Danzir e seus homens no exato momento em que iam ser atacados por uma horda de goblins com dentes afiados e asas de morcego. Um guincho estridente do grifo foi o bastante para assustar as criaturas que voaram estabanadas para longe.

– Uma espada! – pediu Zac.

Danzir jogou-lhe sua própria espada, que tinha um cabo negro e uma lâmina experiente. Imediatamente, Zac voltou a levantar voo e usar a espada e o grifo para investir contra os monstros. Eram mais de cem e todos voavam, todos tinham garras e dentes e isso lhes dava uma vantagem assustadora sobre uma vila onde havia apenas famílias e crianças de humanos e outros seres pouco dados a lutas em campo. Após um golpe de espada, Zac viu o corpo e a cabeça de um goblin caírem dos céus, enquanto seu grifo despedaçava outro com suas garras. Zac procurou por Bianca. Tinha que mandá-la se esconder, ficar fora disso, pois aquilo era perigoso demais para uma humana, a caça principal daquelas feras assassinas. No entanto, o que viu foi Bianca usando o grifo para resgatar pessoas que ainda tentavam escapar. Não podia mandá-la sair da batalha. Pra começar, ela não o obedeceria. Pra terminar, não podia abrir mão dela na batalha com o grifo. Sabia que ninguém, além deles, conseguiria montar aqueles animais.

Então, continuou atacando e se defendendo ao mesmo tempo em que mantinha os olhos nela. Não demorou muito para que os seres mais poderosos da Corte Unseelil percebessem os dois humanos e suas montarias raras. Em poucos minutos, investiram contra eles. Felizmente, Ariene e as outras mulheres estava prontas com seus arcos e flechas. Uma flecha incandescente acertou um goblin monstruoso que tentou arrancar Zac de sua montaria e o monstro caiu em gritos e em chamas, batendo suas asas de morcego.

Bianca se ocupava em tirar as pessoas do caminho e devolvê-las para uma enorme casa onde todos estavam se abrigando. Para fazer este trabalho, precisava voar baixo. Num desses voos, um goblin de mais de dois metros trombou violentamente contra seu grifo, derrubando-a no chão. Bianca rolou várias vezes no chão de terra, até conseguir parar. Levantou-se rapidamente, procurando por sua montaria, à qual já tinha se afeiçoado. O grifo estava agora voando alto, atracado com um goblin que mordia seu pescoço.

Ela olhou em volta, procurando Zac para pedir sua ajuda para o grifo, mas acabou vendo uma cena terrível. Eileen estava no meio da rua, paralisada, enquanto uma horda voava em sua direção.

– Eileen!!! – gritou ela, mas a menina não se mexia, os olhos vidrados lembrando os horrores que passara nas garras daqueles seres hediondos.

Bianca correu desesperadamente na direção da menina. Neste momento, Zac a viu e gritou seu nome. Bianca pegou Eileen e a jogou para Ariene, que estava a apenas alguns passos de distância, pois também tinha corrido para salvar a menina. Bianca a jogou porque sabia que não teria tempo para mais nada. No exato momento em que jogou a menina-fada, sentiu garras a tirarem do chão e gargalhadas ecoarem como gritos em sua cabeça. O chão se afastou e em sua tentativa de se livrar dos monstros, sua mochila caiu. Gritou, tentando segurá-la, mas a visão que tinha dos seres que a arrastavam a encheu do mais profundo pavor, fazendo-a gritar e se debater.

No chão, Ariene colocara Eileen atrás de si e lançou várias flechas na direção das criaturas que se afastavam enquanto Zac passava com seu grifo por ela.

– Bianca!

A moça olhou e viu Zac lutando com as criaturas ao seu lado, tentando libertá-la. Ela teve esperança, embora o pânico que a assolava parecesse simplesmente maior que qualquer sentimento que pudesse ter naquele momento. As garras a feriam e rasgavam suas roupas, puxavam seus cabelos e as presas afiadas em bocarras escancaradas em risadas insanas ou gritos de vitória eram o pior pesadelo que qualquer ser, deste ou de outro mundo, poderia ter.

Zac lutou com ferocidade, como se luta por algo mais precioso que sua própria vida, mas eles eram muitos e ele era um só. Além do mais, aqueles seres podiam não estar habituados à resistência, mas isso não quer dizer que não estivessem preparados para ela. Quando se juntavam, as criaturas eram praticamente imbatíveis e essa era a verdadeira força e terror da Corte Unseelil. Zac matou uma e feriu outras duas, e foi só o que pôde fazer até o agarrarem e o tirarem de sua montaria. O grifo começou a descer, perdendo altitude e equilíbrio com três goblins enfiando-lhe facas e dentes. Zac gritou quando sentiu uma mordida em seu ombro. A espada caiu, decretando o fim da luta e selando um infeliz destino. Bianca olhou para ele, o rosto coberto de lágrimas. Viu os olhos dele, olhos que lamentavam profundamente que tivesse falhado com ela, olhos que ele não tirou dos olhos dela, até que fosse completamente envolvido pelas criaturas.

 

 

Capítulo 23

Asas que pesam


O mergulho na escuridão calou por alguns instantes os gritos, as gargalhadas e o desespero. Não sabe dizer por quanto tempo, mas foi tempo o bastante para ir até em casa e ver Cacau esperando-a na porta. Viu seu pai tocando o piano e sua mãe cantando a canção do Soldado e da Rainha. Cacau latiu para ela, mas ninguém mais parecia vê-la. Quis correr e abraçá-los, dizer que teve um pesadelo terrível com criaturas que tiravam tudo o que lhe era mais caro. Mas quando tentou dizer algo, foi puxada para trás. Foi sugada até o belo jardim bem cuidado de sua casa, onde encontrou Zac. Ele parecia triste.

– Arrependida? – perguntou ele.

Não teve tempo para responder. Caiu novamente na escuridão e quando chegou ao chão, acordou. Seu corpo estremeceu, como se tivesse acabado de cair em si mesma. Então abriu os olhos e sentiu alguém afagar-lhe delicadamente os cabelos. Estava no colo de alguém. Levantou-se e se deparou com o anjo.

– Olá... – disse ele, forçando um sorriso.

Zac estava recostado numa parede e tinha os olhos tão tristes quanto os que vira em seu sonho. Bianca olhou em volta. Estavam numa cela cuja única iluminação vinha de tochas acesas no corredor. Bianca não teve certeza, mas achou que as manchas brancas abandonadas nos cantos eram ossos. Ela voltou a olhar para o anjo, cujo ombro estava manchado de sangue e tinha diversos arranhões pelos braços. Ele acariciou-lhe os cabelos novamente.

– Me perdoe... – disse ele.

– Por quê?

– Porque eu falhei com você – respondeu. – Você fez tudo certo, mas eu não pude ser um bom guia.

Bianca sentiu o pesar na voz dele. O pesar de quem sabe que não há mais saída.

– Ainda não acabou, Zac... – disse ela, tentando disfarçar a voz trêmula.

Ele recostou a cabeça na parede.

– Ninguém sai daqui, Bianca... Uma vez nas garras deles, não há... não há mais nada...

Um movimento de passos se aproximando interrompeu a conversa. Eles se levantaram e, em alguns segundos, três goblins apareceram para abrir a porta da cela.

– Mas isso é que é sorte mesmo! O Rei ficará tão satisfeito que com certeza será muito generoso conosco!

A porta se abriu e eles amarraram as mãos do anjo para trás.

– E a garota? – perguntou um deles.

– Ela não precisa! – respondeu o que parecia o comandante. – É só uma humana.

Levaram os dois por corredores escuros e Bianca prestava atenção na conversa. Diziam que era noite de festa e a festa duraria muitos dias, porque tinham conseguido algo que ninguém achava ser possível. “Certamente”, pensou ela, “devem estar se referindo a terem capturado um anjo”. Perguntou-se se Rafael poderia intervir, mas considerando que ele não mexeu uma asa quando Zac teve o pescoço sob uma lâmina no Castelo de Paralda, não poderia contar muito com isso. Zac permanecia com o olhar baixo e não dizia uma palavra.

Foram empurrados para dentro de um grande salão repleto de goblins de todos os tamanhos e formas. Alguns pareciam animais, enquanto outros eram simplesmente aberrações fugidas de pesadelos. Todos gritaram quando eles entraram, batendo suas canecas em um festejo assustador. Diante deles, uma criatura de quase dois metros e enormes asas negras estava sentada num trono. Seus pés eram de bode e ele possuía chifres enormes. Seus dentes eram afiados como dentes de piranha e seu nariz eram dois buracos no meio da cara. Suas garras eram enormes e Bianca achou que se existia um diabo, acabara de encontrá-lo.

– Ora, ora, ora, vejam quem voltou pra casa...

A criatura se levantou e, com um simples gesto de mão, o silêncio se fez imediatamente. Ele andou até os dois, mas parecia especialmente interessado no anjo. Segurou seu rosto e o obrigou a olhar para ele.

– E então, irmãozinho? É hora de prestar contas para a família que você deixou pra trás...

Bianca olhava para eles sem entender. O rei percebeu a confusão da garota e soltou o rosto de Zac.

– O quê? Não contou para sua amiguinha quem você realmente é?

O anjo não respondeu. Ao invés disso, continuou olhando para o chão.

– Tudo bem, irmãozinho. Deixe que eu conto então.

A criatura se voltou para Bianca. Sua voz era rouca e penetrante, assustadora porque era também muito convincente.

– Sabe esse rostinho bonito, menina? É tudo mentira! Uma máscara, eu diria! O anjo que está do seu lado não passa de uma farsa. Ele era um de nós! Meu irmão, na verdade! Matou muita gente em nossas rondas noturnas...

Bianca esperava que Zac dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Se ele dissesse naquele momento que era mentira, ela acreditaria. Só precisava que ele dissesse algo. Mas ele continuava calado e via em seu rosto a vergonha que cada palavra do rei provocava em sua alma.

– Sabe qual era a especialidade dele? Arrancar asas de fadas e deixá-las para morrer! Ah, esse safado era bom nisso!

Todos riram, enquanto Zac fechou os olhos, assolado por um passado que não estava pronto para reencontrar. O rei, seu irmão, agarrou seu rosto de novo e obrigou-o a olhar para Bianca.

– Qual o problema, anjo? O gato comeu sua língua? Olhe pra ela e diga quem você é! Vamos! Diga!

Ele não disse nada, mas lágrimas desceram pelo seu rosto. A criatura então o esbofeteou e foi tão forte que quase o derrubou.

– Você acha que nós esquecemos quem você é? Acha que pode mudar de casca e se esconder pra sempre de nós?

O ser continuou a esbofeteá-lo, aumentando as gargalhadas e gritos das centenas de criaturas monstruosas que tudo assistiam.

– Pare, pare, pare, por favor, pare... – Bianca não conseguia projetar sua voz, então era como um sussurro. As lágrimas desciam em seu rosto e sua voz a estava traindo.

A criatura continuou atacando Zac, até que ele caiu. O rei surrou-o e outros se juntaram ao espancamento. Então, Bianca conseguiu sair do chão e se enfiou no meio dos monstros, socando e empurrando, gritando para que parassem.

A surpresa de sua reação fez com que as criaturas parassem e o silêncio se instalou novamente. Bianca se colocou entre o rapaz caído no chão e as criaturas. Não tinha armas, não tinha nem mesmo força física contra aqueles monstros. Não tinha chance.

– Então... Você ainda o defende, mesmo sabendo que ele é um monstro? – perguntou o rei.

– Vejo muitos monstros aqui... – respondeu ela, rouca, a respiração descontrolada. – Ele não é um deles.

O rei ficou parado. Ninguém se moveu ou emitiu qualquer som, à espera de sua decisão.

– Uma humana e um anjo... – disse ele, finalmente. – Já temos o pagamento do próximo Dízimo... E até lá, vamos nos divertir um bocado... Levem-nos!

Um goblin agarrou Bianca, que se debateu por instinto e porque não queria sair de perto de Zac. Outro goblin agarrou o rapaz e o obrigou a andar. Foram guiados a uma outra cela, bem maior, na direção contrária de onde vieram. Empurraram Bianca para dentro e então, desamarraram o Zac e o chutaram. Ele caiu de quatro dentro da cela e ouviu as risadas dos goblins, enquanto trancavam a porta.

Zac não ergueu os olhos. Continuou parado, reunindo forças para se levantar, até que sentiu que pequenas mãos o ajudavam. Ele olhou para ela, envergonhado, mas ela apenas lhe sorriu e disse que estava tudo bem.

Ajudou-o a se sentar contra a parede da cela. Ela pegou seu lenço e começou a limpar o sangue do rosto dele. Não lhe fez nenhuma pergunta. Cuidando dos ferimentos dele, Bianca lembrou que ela mesma tinha se ferido bastante em virtude de sua luta nos céus contra a Corte, mas que acordara sem nenhum arranhão.

– Você me curou, não foi?

Ele tentou sorrir.

– Você estava um caco...

– Por que não faz isso em você mesmo? – perguntou ela.

– Porque não posso... Só funciona com os outros.

– Que nem conselho...

– Que nem conselho...

Ficaram em silêncio e ela terminou. O rosto dele ainda estava vermelho e machucado, mas nenhum ferimento parecia tão profundo quanto o que ele deixava transparecer em seus olhos.

– Ele tem razão... – disse ele finalmente.

Olhou para ela fixamente.

– Eu sou um monstro...


Há muito tempo, a Corte Unseelil raptou um jovem do mundo dos homens. Já haviam pago o Dízimo para o Inferno, então não foi por isso que o pegaram. Foi por diversão. A diversão dos membros da Corte sempre teve a ver com dor e humilhação. E foi o que fizeram. Torturaram e humilharam o rapaz e deleitaram-se com sua dor. Isso durou dias, semanas, até que um dia ele fugiu. Claro que nenhum humano ou qualquer outra criatura que fosse tomada prisioneira da Corte jamais conseguira escapar. Exceto esse rapaz. Ele fora a exceção. Ele fora o erro que a Corte Unseelil jamais perdoaria.

Zac contava a história para Bianca em voz baixa e triste. Não era algo que gostasse de lembrar.

– Esse rapaz... – continuou ele. – Nós fizemos atrocidades com ele e, a cada noite, quando o devolvíamos para a cela, ele implorava para saber de seus pais e de seu filho pequeno. Era eu quem o levava para a cela. Ele nunca implorou pela própria vida. Nunca. Mas toda noite, me pedia para cuidar de sua família. Que tipo de pessoa louca pede para um monstro como eu para tomar conta da família?

– Alguém que vê mais longe... – respondeu Bianca. – Você o ajudou, não foi?

Zac anuiu com a cabeça.

– Não sei o que me deu. Só sei que um dia, eu simplesmente o levei de volta. Quando o raptamos, ele tinha água e comida, pois estava numa viagem para outra cidade para conseguir trabalho. Ele comia essas coisas apenas, como você. Os pais eram idosos e doentes, a esposa morrera e o deixara com uma criança pequena. Ele só se importava em voltar para eles. Então, eu o devolvi pra família. E lhe dei um saco de moedas de ouro do rei, nosso pai. Ele tinha uma montanha, e estou falando literalmente, uma montanha de moedas como aquelas. Não ia sentir falta de um saco.

– Mas sentiu.

– Sentiu. Eu sabia que iam atrás de mim, então fugi. Passei anos me escondendo nos charcos e pântanos, até que me encontraram.

A expressão dele mudou e ficou muito sombria e distante.

– Como eu lhes tirei a diversão, “roubando” o humano deles, me colocaram em seu lugar... Passei por tudo o que costumava fazer com os humanos. Fizeram isso por semanas, até que achei que era melhor morrer. Pedi piedade ao rei, meu pai. Isso só piorou. Não há compaixão nele. Ou em meu irmão. E então, numa noite, tinham acabado de me devolver à cela depois de mais uma noite de tortura inimaginável. Eu nem conseguia me levantar mais. Foi quando uma luz apareceu. Era um anjo. Ele disse que o humano que eu salvara tinha pedido que intercedessem por mim. Então ele me levou para um outro lugar. Trataram meus ferimentos e comecei a trabalhar com eles. Durante cem anos, fui um elemental que realizava pequenas tarefas para ajudar os humanos, sempre sob as ordens dos anjos. Até que um dia Rafael disse que já estava na hora de ganhar asas.

– E você virou um anjo... Isso foi lindo!...

Zac se levantou, incomodado, ignorando o corpo dolorido da surra.

–Pois eu não acho que tenha merecido! – disse ele, olhando para ela com olhos duros. – Sabe quando você fez o ritual e eu a mandei esperar? Eu estava pedindo para que outro fosse em meu lugar, porque eu não queria voltar pra cá. Era minha primeira missão e eu já estava tentando me esquivar. Sabe quando eu era só uma voz na sua cabeça? Era pra ter deixado de ser uma voz assim que você pisou nessas terras, mas eu era egoísta demais pra pensar em alguém antes de mim e arrisquei sua vida só pra me proteger! Sabe o círculo encantado em que você caiu? Eu poderia ter interferido muito antes, mas não tive coragem! Eu curei Eileen, mas sabe quantas iguais a ela eu destruí? Eles têm razão! Eu ainda sou o mesmo monstro, só estou numa casca mais bonita!

Bianca se levantou e foi até ele.

– Você defendeu a vila – disse ela. – Você fez inúmeras coisas fantásticas antes disso, mas você arriscou sua vida pela vila e por mim. E monstros não fazem isso.

Ela tocou delicadamente o rosto dele com suas mãos, obrigando-o a olhar para ela.

– Pra mim, você é um anjo. Ganhou suas asas no momento em que salvou aquele rapaz. Nada que eles digam vai mudar isso.

Os olhos dele se encheram d’água. Ela se comoveu com as lágrimas banhando o rosto ferido e então ele buscou um ombro amigo, que prontamente encontrou. Abraçaram-se e ela ficou quieta, enquanto ouvia os soluços afogados em seus cabelos.

 

 

Capítulo 24

Na arena


A situação estava exatamente como aquela cela: fria, úmida e aparentemente sem saída. As perspectivas eram negras e Zac parecia ter desistido. Enquanto Bianca tentava pensar em alguma forma de saírem dali, o anjo de asas recolhidas se mantinha sentado contra a parede, com os olhos perdidos na derrota.

Depois de quase duas horas investigando a cela, uma espécie de gruta com uma única saída gradeada, Bianca começava a se dar conta da realidade. Encostou o rosto na grade fechada com pesadas correntes, vendo o corredor iluminado pelas tochas sem viva alma, embora ouvisse sons de risos e comemorações ao fim dele.

Não havia saída. Nem da cela, nem daquele mundo. Essa era sua conclusão. Mesmo que saísse dali, havia perdido sua mochila. Não teria comida ou água do seu mundo. Supondo que o presente das asrais fosse verdadeiro, esse problema estaria resolvido, mas na bolsa também ficara o Elixir de Tir Nan Og. Se pisasse em seu mundo sem ele, provavelmente viraria uma velhinha cega e senil ou simplesmente viraria pó. Estava presa ali. Para sempre. E, pelo visto, o para sempre duraria muito mais do que poderia imaginar. Retirou a foto de dentro do bolso de trás do short. Apesar do péssimo estado dela, já que foi molhada, amassada e arranhada, Bianca agradeceu por tê-la levado consigo. Olhou longamente o rosto de seu pai, o sorriso de sua mãe, o sorriso arreganhado de Cacau e seu próprio rosto entre eles. Parecia tão feliz ali. Quando foi que tudo ficou complicado, quando foi que a brincadeira perdeu a graça? “Deveria ter deixado um bilhete...”, pensou, agora encarando a perspectiva de que provavelmente não pudesse mais voltar.

Olhou para Zac, perdido em seu próprio fracasso. Teve pena dele, mas não poderia deixá-lo se afundar em autocomiseração. Se fossem cair, melhor que fosse de pé. Foi até ele e sentou-se ao seu lado.

– Como eles sabiam que você era um anjo? – perguntou ela, tirando-o de seu mundo e tentando distraí-lo.

– Seres evoluídos, como Paralda, podem ver que eu sou um anjo.

– Aquele cara não parece evoluído.

– E não é. Mas é um parente. Todos os que forem meus parentes poderão ver o que sou. E todos com quem convivi poderão ver também o que eu fui.

– Tsc... Parentes, hein... É como eu já li em algum lugar... “Os parentes distantes são os melhores. E quanto mais distantes, melhores...”


Zac se virou para ela com um olhar muito sério e a expressão dura.

– Bianca, me prometa uma coisa.

Ela prestou atenção, esperando o que ele ia dizer de tão grave.

– Quando você sair daqui, vai voltar até a Vila e procurar sua bolsa. Vai encontrar Analice e então vai voltar pra casa, com ou sem ela.

– Não era esse o plano desde o começo? – perguntou ela, feliz com o otimismo do anjo.

– Prometa!

– Tá bom, eu prometo. Mas você não precisa da minha palavra. Estará lá pra me guiar até a porta de saída desse circo de horrores. Eu te contratei pelo serviço completo, lembra?

As correntes do portão se moveram e seu som os fez se levantarem. Os três goblins os levaram rispidamente, empurrando-os pelo corredor na direção do burburinho que Bianca tinha ouvido antes. Não amarraram Zac e Bianca achou que isso era bom. Agora, era só esperarem uma chance de estarem com poucos goblins em volta e se rebelarem. Em sua cabeça, coreografou uma luta digna de filmes de Jack Chan e Jet Li.

Infelizmente, essa chance pareceu ser sumariamente eliminada do plano das possibilidades quando foram empurrados para uma arena lotada. Todos os goblins da Corte Unseelil e centenas de outros goblins, espectros e seres de má índole estavam ali para assistir ao espetáculo. O Rei dos goblins estava em seu trono de madeira retorcida, com uma caneca cheia de bebida, rindo com seus dentes horrivelmente afiados e olhos ávidos por dor e sangue.

Bianca não pôde evitar estremecer. Havia centenas deles, em arquibancadas de madeira toscamente feitas. Vigas gigantescas seguravam o teto que era tão alto que Bianca não conseguia ver além da escuridão. Dois goblins vieram e colocaram uma corrente no pé de Zac e uma no pé de Bianca.

– Que a diversão comece em grande estilo! – gritou o Rei de seu trono, sendo ovacionado pelos monstros ansiosos.

– Espere!

A voz de Zac chamou a atenção do Rei que, com um gesto de mão, mandou os outros se calarem. O rapaz se aproximou, arrastando a corrente atrás de si.

– Eu tenho uma proposta para o Rei! – disse o anjo, em alto e bom tom.

– Eu sou o Rei, insolente! Nosso pai morreu há muito tempo e só lamento que ele não esteja aqui para tirar pessoalmente cada uma de suas penas!

– Pois bem, então, Majestade, ouça minha proposta. Liberte a humana e eu serei seu prisioneiro.

Uma estrondosa gargalhada ecoou pelo estádio de monstros. O anjo continuou em sua posição, inabalável. O Rei se inclinou com seu sorriso sombrio.

– Você nunca foi muito esperto, irmãozinho... Você já é meu prisioneiro, idiota! Já tenho tudo o que quiser de você, não tem nada a me oferecer que eu já não possa tomar à força!

– Está enganado, irmão! – respondeu o anjo. – Você pode fazer o que quiser, mas nunca terá uma coisa:

O Rei esperou interessado, embora tentasse disfarçar.

– Minha cooperação – finalizou o anjo.

Ninguém riu dessa vez. O Rei franziu o cenho, perscrutando o jovem, analisando a proposta.

– E no que isso me ajuda, anjo? – perguntou o Rei, em tom baixo e rouco.

– Poderá fazer o que quiser. Eu não lutarei contra você. Não impedirei. Não tentarei fugir.

– Está me dizendo que vai me obedecer, não importa o que eu faça ou mande você fazer, se eu soltar a humana?... – perguntou o Rei.

– Você sabe que um anjo é mais do que suficiente para o pagamento do Dízimo – continuou o anjo. – Deixe ela ir, e serei o pagamento ao inferno, quando chegar a hora.

O Rei recostou no trono, passando a mão ossuda no queixo, pensando na proposta.

– Ainda faltam três anos para o próximo Dízimo... Você sabe que até lá será nossa diversão. Serão três anos de tortura para então uma eternidade no inferno... E sua nova forma tornará tudo muito mais interessante... Tem certeza de que não tentará fugir ou lutar se libertarmos a humana?

O anjo nem piscou.

– Solte-a, e eu serei submisso a você, não importa o que faça.

O Rei continuou em silêncio, enquanto a horda de goblins aguardava a sua resposta.

– Bem... – disse finalmente o Rei. – Temos um acordo então. Tragam a garota!

Um goblin foi até Bianca e retirou as correntes dela.

– O que está fazendo, Zac? – disse ela, enquanto era arrastada pelo goblin para fora da arena.

Bianca foi levada até o Rei, que mandou-a se sentar ao seu lado.

– Antes de soltá-la, porém, quero ver se você está mesmo falando sério e vai se esforçar para se manter vivo até o pagamento do Dízimo. Armas!

Uma espada foi jogada aos pés de Zac, no mesmo momento em que o rei dava outra ordem.

– Soltem a fera!

Uma porta gigantesca do outro lado foi aberta com ajuda de correntes e um urro poderoso ecoou pela arena, enquanto passos pesados, seguidos de correntes, eram ouvidos. Bianca se lembrou imediatamente do horrível gigante que tinham enfrentado e tentou se levantar, mas o rei a empurrou de volta.

– E você, fique quieta, antes que eu mude de ideia e a jogue lá com ele!

Zac pegou a espada e esperou o que ia surgir da escuridão. Uma enorme pata com garras apareceu primeiro, seguida de uma enorme cabeça com presas à mostra. Era um dragão, coisa que Bianca nunca vira naquele mundo. Ele tinha grandes asas que para Bianca pareceram negras, mas ao alcançar a luz das tochas, percebeu serem violetas. Era um dragão violeta escuro, com algumas matizes de lilás. Apesar da bela escolha de cores, era uma criatura assustadora, medindo cerca de 15 metros de comprimento, da cabeça ao rabo.

– Você está louco? – perguntou Bianca, dirigindo-se ao Rei. – Ele não tem chance! Essa fera vai matá-lo!

O Rei abriu os dentes no que seria um sorriso.

– Se isso acontecer, então você vira a diversão. Mas, não se preocupe. Não pretendo acabar tão cedo com esse brinquedo. Ainda temos muito tempo para o Dízimo e o Inferno nunca exigiu mercadoria não violada!

Ele gargalhou, sendo seguido pelos outros a sua volta. Bianca sentiu algo desagradável e áspero roçar sua perna e viu um pequeno goblin com pernas finas e bico de corvo agarrado à sua perna. Chutou-o por instinto, mas a criaturinha hedionda insistia em voltar. Devia medir cerca de 50 cm e tinha a pele preta, conseguindo se passar por um pássaro muito feio em algumas posições. Bianca ignorou a criatura nojenta se esfregando nela e voltou a olhar para a arena.

Zac encarou a fera e ambos se rodearam, como se estivessem estudando o inimigo. Ambos arrastavam correntes, Zac em seu pé, a fera em seu pescoço. A primeira investida foi do dragão, que tentou abocanhar o jovem. Zac se defendeu com a espada, ferindo a criatura com um corte. Um urro foi ouvido e o dragão atacou com as patas. Tentando se desvencilhar, o anjo abriu suas asas e tentou voar. Não foi muito longe, pois a corrente em seu pé era exatamente para isso.

No ar, defendeu-se contra as bocadas do dragão, que, não conseguindo abocanhar sua presta, atacou-o com o rabo. Zac foi jogado contra a parede com violência, caindo no chão, atordoado. Essa era a chance que o dragão esperava. Investiu contra o anjo e dessa vez conseguiu abocanhá-lo. Bianca gritou, vendo Zac ser sacudido na bocarra do Dragão, enquanto penas voavam por toda a parte.

Mas ele nunca largara a espada e foi com ela que espetou o focinho do animal. A espada atingiu a narina do dragão que imediatamente jogou sua presa longe. Zac caiu e tentou se levantar, mas não conseguiu. As asas brancas estavam manchadas de vermelho e com a mão no estômago, ele tentava se erguer. Tudo indicava que os dentes do dragão tinham feito um estrago. O dragão mostrou as presas, mais irritado do que nunca, e deu-lhe um golpe com a pata. Zac foi jogado mais uma vez contra a parede e dessa vez cuspiu sangue.

Bianca estava paralisada, vendo o espetáculo sangrento. Sua mente tentava encontrar uma saída, mas tudo o que via era Zac lutando pela vida e se esvaindo em sangue no combate com a fera.

O dragão tentou abocanhá-lo novamente, acreditando que sua presa estivesse finalmente derrotada, mas o anjo se defendeu ainda no chão com a espada que não saíra de sua mão. Por três investidas, a fera não conseguiu seu intento, pois o anjo continuava se arrastando no chão, usando a espada para se defender, e tentando se afastar. Até que, numa patada, o anjo foi novamente jogado longe e, dessa vez, sua espada foi ao chão.

Bianca esperava que o Rei interrompesse a matança. Mas ele ria, os olhos injetados de ódio, divertindo-se com a dor e morte do anjo que já fora seu irmão. Bianca parou de pensar. Não estava adiantando. Olhou para Zac. Ele ainda tentava se levantar, coberto de sangue, mas não estava mais conseguindo. Olhou para a criaturinha nojenta se esfregando em sua perna. Então, sem pensar, pegou a criatura e enfiou seu bico pontudo no olho do rei, que deu um urro de dor.

A garota saltou pelas cabeças e passou pela bancada que a separava da arena. Uma pequena confusão se armou em volta do rei que arrancara o goblin de si mesmo, arrancando junto seu próprio olho. Irado, estraçalhou o goblin ali mesmo e se levantou para dar a ordem.

Em seu salto para a arena, Bianca caiu na areia e rolou no chão. Então correu o máximo que pôde, vendo o dragão se preparar para um golpe final no anjo indefeso, ao mesmo tempo em que ouvia a ordem do rei.

– MATE! DESTROCE OS DOIS! OS DOIS!!!!

Ela chegou derrapando e se interpôs entre o anjo e o dragão.

– PARE! Pare, por favor, eu imploro! – gritou ela, com os braços estendidos para a fera.

A cabeça da fera avançou para ela com os dentes arreganhados num golpe certamente fatal. Bianca não saiu do lugar. Manteve-se em sua posição e fechou os olhos, esperando o fim inevitável.

Alguns segundos se passaram e ela só ouviu a própria respiração. Abriu os olhos e se deparou com a cara do dragão a apenas alguns centímetros dela. Suas pernas tremiam, mas ela não se moveu. O dragão então se aproximou ainda mais, farejando o cordão que ela trazia consigo, aquele com a garrafinha misteriosa que o estranho elemental que encontrara assim que chegara lhe dera.

– Onde conseguiu isso?

Bianca piscou várias vezes, lágrimas descendo pelo rosto sem que ela sentisse. O dragão estava falando com ela por telepatia.

– E-eu ganhei – respondeu ela, numa voz trêmula.

O dragão então se sentou e ficou olhando para ela.

– O que está esperando, seu lagarto estúpido?! – gritou o rei, com sangue negro escorrendo pela órbita vazia. – Eu já disse para matar os dois!!! AGORA!!!

A voz grave do dragão foi então ouvida por todos.

– Ela traz o presente de um velho e caro amigo. Não atacarei um amigo de meu amigo.

Bianca se virou e se abaixou para ver como Zac estava. Ele estava consciente,mas bastante ferido.

– Você é maluca? – perguntou ele, num fiapo de voz. Então, ele apontou para a espada, caída a alguns metros dele.

O Rei emendara uma discussão com o dragão, que continuava impassível e irredutível. Até que, furioso, o Rei ordenou que matassem o dragão. Uma horda de goblins armada com espadas e lanças se lançou contra o dragão, que se defendeu com mordidas, rabadas e patadas. Suas asas batiam a cada vez que era atingido por uma lança que o feria e o sangue vertia, mas não conseguia sair do chão por causa da corrente em seu pescoço.

Bianca correu até a espada e a trouxe para Zac, mas ele não a queria para ele exatamente.

– Corte isso, rápido! – disse ele, apontando para a corrente em seu pé.

Bianca ergueu a lâmina e acertou a corrente, fazendo um barulho metálico, mas não conseguindo rompê-la. Outros goblins estavam vindo em sua direção e o dragão estava levando uma surra da horda.

– Mais uma vez! Rápido! – gritou Zac, que parecia ficar cada vez mais alerta, apesar do péssimo estado.

Bianca ergueu a espada de novo e tentou acertar no mesmo lugar. Dessa vez, a corrente se partiu e ela ajudou Zac a se levantar. Ao menos, foi o que ela achou. Em segundos, ela estava voando, sendo levada por ele a um lugar bem alto, onde as vigas de madeira que faziam a sustentação do teto estavam. Ele a colocou sobre uma delas, oculta pelas sombras.

– Fique aqui!

– E pra onde eu iria?! – respondeu ela para o nada, já que o anjo não esperara resposta e partira em velocidade para cima do dragão.

Bianca se agarrou na viga, com medo de cair e tentando entender o que o anjo ia fazer. Viu Zac descer com velocidade e espada em riste na direção do dragão até acertar em cheio a corrente que o prendia. O dragão virou-se para ele no exato instante em que se viu livre. E então, o dragão abriu suas asas e levantou voo, fazendo uma volta completa na arquibancada onde centenas de goblins tentavam correr e escapar de suas garras.

O dragão furioso investiu contra as vigas de sustentação, dando rabadas poderosas que fizeram toda a estrutura estremecer. O Rei e outros goblins mais fortes voaram para atacar o dragão, mas retrocederam ao perceber que ele estava preparando um golpe que não viam há muito tempo.

Uma baforada de fogo violeta e azul incinerou dezenas de goblins que tentavam escapar, assim como a madeira da arquibancada. Zac voou para pegar Bianca, mas no caminho, foi pego por goblins que o jogaram de volta ao chão. Bianca gritou por seu nome, mas não podia fazer nada daquela altura. Foi quando viu o rei sem olho voando diante dela.

– Ao menos, essa alegria eu vou ter – disse ele. – Fazê-lo olhar enquanto eu destroço você!

Ele avançou para cima dela, mas a moça se assustou e, tentando se desvencilhar, caiu. Sua queda foi amortecida por algo que ainda se movia. O dragão salvou sua vida e agora voava em direção ao anjo, que estava tendo problemas com os goblins que o agrediam. Com patadas e bocadas, cinco goblins foram lançados longe, deixando o anjo ferido livre. O dragão abaixou a cabeça, mandando-o subir, o que ele fez segurando na mão de Bianca, que o puxou com rapidez. Não podiam perder tempo.

O teto começou a cair, matando goblins que não conseguiram sair, espalhando ainda mais o pânico que já estava instalado. O dragão voou baixo, desviando dos grandes pedaços de pedra e terra que caíam, até entrar em sua prisão, aquilo que tinha sido seu lar pelos últimos 10 anos. Dentro, o lugar prosseguia em uma espécie de túnel tortuoso. Voaram na escuridão, até ver a luz da lua ao final. E então, voaram para a liberdade, sentindo a brisa fria da noite nas asas violetas do dragão.

– Conseguimos! – disse Bianca, sem acreditar. – Conseguimos, Zac!

O anjo não respondeu.

– Zac?

Tocou o anjo ao seu lado e ele caiu suavemente. Ela o agarrou antes que ele caísse do dragão e o puxou de volta. Sua cabeça recostou no ombro dela. Ela chamou seu nome.

Mas ele não respondeu.

 

 

Capítulo 25

Mundo pequeno este...


O voo que seria de vitória se tornou sombrio e preocupante. Bianca trazia Zac em seus braços. Ele respirava, mas não tivera forças nem para retrair as asas, que estavam muito feridas. Sachti era o nome do dragão que os ajudara. Havia sido capturado há dez anos e, graças à corrente presa a uma pedra mágica, não podia usar nenhum dos seus poderes, como voar ou baforar fogo. Preso, era usado como diversão nas arenas. Já fazia tanto tempo que estava no escuro que começara a se esquecer de quem era. O pequeno vidro que Bianca usava no pescoço o ajudou a lembrar.

Finalmente, Bianca soubera o nome da criatura que encontrara antes. Era o Urisk. Um ser bondoso, mas cuja aparência sempre assustava fadas e homens. Urisk não era só generoso, mas portador de um dos maiores mistérios da magia do Reino, um líquido mágico que até o momento não encontrara comparação ou explicação. Sachti não podia dizer o que o líquido fazia, pois variava de pessoa para pessoa, mas foi com a ajuda do Urisk que Sachti encontrara seu filhote perdido.

No Mundo Encantado, portais para o Reino dos Dragões podem ser encontrados. Filhotes não avisados às vezes passam e facilmente se perdem. Com um pouco de azar, podiam ser capturados por magos, bruxas ou feiticeiras, todos visitantes frequentes deste mundo. Com um pouco mais de azar, podiam ser capturados pela Corte Unseelil.

Por algum tempo, houve apenas silêncio. Bianca queria saber mais e a conversa com Sachti era agradável. Mas estava preocupada com Zac.

– Acharemos uma cidade ou vila – disse o dragão, percebendo a angústia da menina. – Lá poderemos encontrar ajuda para seu amigo.

O silêncio continuou e Sachti o interpretou mal.

– Eu sinto muito – disse a voz grave. – Eu fiz isso. Sinto muito.

– E você também nos tirou de lá – respondeu Bianca. – O Rei tinha questões familiares e pessoais muito complicadas com Zac. Iria fazer um estrago nele com ou sem sua ajuda. Além do mais, ele já estava ferido...

Bianca olhava para o rapaz em seus braços, o rosto machucado, as asas feridas, as roupas manchadas de vermelho. Acariciou seus cabelos e o puxou para mais perto, sentindo as lágrimas subirem. Não podia perdê-lo. Não podia viver num mundo sem ele, fosse este mundo ou outro qualquer.

– Como vocês se conheceram? – perguntou Sachti, interessado na história na qual acabara de entrar.

Bianca deixou seus pensamentos sombrios e tristes de lado. Eles não a ajudariam em nada. Disse para si mesma que ele ficaria bem, que encontrariam ajuda, que o pior já tinha passado. Então, contou para Sachti um pouco de suas aventuras. E suas histórias embalaram o voo na noite escura.


– Veja!

Bianca estava quieta há algum tempo quanto Sachti chamou sua atenção. Ela olhou lá embaixo e viu uma cidade no alto de uma colina, com um belo castelo no meio e casas a sua volta. Havia iluminação por lampiões e lanternas nas ruas.

– Um reino!

– É onde podemos conseguir ajuda. Mas antes, devo avisar que dragões nem sempre são bem recebidos por aqui.

– Por quê?

– Nossa dieta exigente.

– Ah... Bom, não se preocupe. Qualquer coisa, eu defendo você.

– Que bom...

O dragão sobrevoou a cidade e, não vendo perigo, pousou na grande praça deserta. Com a ajuda do dragão, Bianca desceu com Zac, ainda inconsciente. Ela desceu primeiro e o dragão fez com que o anjo ferido escorregasse gentilmente por suas asas, até ser amparado por ela. Assim que tocaram o chão, guardas surgiram correndo, apontando lanças, cercando o pequeno e estranho grupo.

O capitão da guarda, um homem alto e de cabelos escuros, se aproximou de espada em riste.

– Quem são vocês e o que querem?

– Somos amigos – respondeu Bianca, emocional e fisicamente exausta. – E queremos ajuda.


Não foi exatamente uma recepção calorosa. Os guardas estavam muito, muito, MUITO preocupados com a presença do dragão. O capitão se aproximou, guardando a espada, mas ainda de olho no dragão. Abaixou-se para verificar o estado do anjo. Balançou o rosto preocupado, vendo que o estrago tinha sido muito grande.

– Quem fez isso com ele? – perguntou o capitão.

– EU – respondeu o dragão.

– Mas foi sem querer – explicou Bianca, tentando não assustar o homem.

– Homens! Ajudem aqui!

Outros guardas se aproximaram e levaram Zac para o castelo. Bianca se virou para o dragão.

– Vou ficar por perto, até ter certeza de que estão bem e seguros – disse Sachti.

– Obrigada.

O dragão levantou voo, provocando uma ventania ante os olhos espantados dos guardas. Somente então Bianca notou que os guardas eram todos humanos. Ou, ao menos, pareciam.

Bianca viu Sachti desaparecer no negro do céu e então correu atrás dos guardas que levavam Zac para dentro do castelo.


Seguiram por corredores e Bianca ouviu o Capitão dando ordens para chamar Muriele. Entraram num quarto simples onde havia uma grande cama, alguns móveis e cortinas simples na única janela. Os guardas colocaram o anjo ferido na cama com cuidado.

– Devemos avisar ao Rei e à Rainha, senhor? – perguntou um dos guardas.

O Capitão pensou por um minuto e Bianca não gostou da preocupação em seu rosto. Uma mulher de tez morena envolta num roupão marrom entrou apressada no aposento, seguida de outras mais jovens.

– O que aconteceu? – perguntou ela, abrindo caminho entre os guardas para olhar o rapaz.

– Ao que parece, uma briga com um dragão – respondeu o Capitão.

A mulher colocou a mão na testa de Zac e fechou os olhos. Bianca viu o rosto dela se contorcer, como se constatasse algo muito ruim. Seu rosto balançou negativamente. Bianca sentiu o corpo gelar e então segurou a mão de Zac e apertou. O rosto da mulher mudou e passou para uma curiosa surpresa. Abriu os olhos e viu a menina segurando a mão do anjo. Então, virou-se para o Capitão:

– Pode ir, Capitão. Agora é comigo e as meninas. Pode ir.

– Deixarei dois guardas, caso precise.

– Não preciso, pode levá-los.

A mulher, que Bianca identificou como uma xamã, pelo tom de pele e cabelos lisos e negros de uma índia, virou-se então para ela.

– Menina, qual é o seu nome?

– Bianca. E o dele é Zac. Zacariel.

– Muito bem, Bianca. Você está ferida? Precisa de alguma coisa?

Bianca negou com a cabeça.

– Ótimo, porque preciso que você ajude aqui. Tudo bem pra você?

– Faço o que você quiser, mas por favor, ajude-o.

A mulher concordou com a cabeça sem sorrir. Pegou uma tesoura e cortou a camisa ensang uentada do rapaz, revelando ferimentos muito feios no estômago. A mordida no ombro estava negra. Bianca tentou se controlar. Não ia desabar. Olhou para o rosto dele e acariciou seus cabelos.

– Fique... – murmurou ela. – Por favor, fique...

Uma das moças tirou os tênis e meias e Muriele terminou de cortar as roupas. As pernas do anjo também estavam machucadas, mas era evidente que a maior gravidade estava nos ferimentos do estômago. As três moças que acompanhavam Muriele começaram a limpar o sangue dos ferimentos e das asas, enquanto a xamã pegou um monte de ervas e queimou, enchendo o quarto com um perfume de alecrim.

– O que eu faço? – perguntou Bianca.

– Já está fazendo, filha – respondeu Muriele, começando a entoar um cântico enquanto passava a fumaça do facho de ervas pelo corpo do anjo.

Bianca não tirou os olhos de seu rosto e jamais soltou sua mão. Não chorou nenhuma vez, por mais que as lágrimas lhe subissem e a sufocassem. Tentou não pensar em como seria seu mundo sem ele. Seria um mundo triste e vazio, sem perspectiva ou propósito. Como conseguiria viver assim? Ela não pensou que todos perdemos pessoas amadas em algum momento de nossas vidas. Ou partem eles, ou partimos nós. E todos continuam, a vida prossegue. Mas, quando se está diante da dor e da iminência de uma perda inimaginável, o coração não concebe a sobrevivência. Simplesmente, não é possível acreditar que a vida pode continuar sem alguém por quem bate nosso coração. Seu coração pararia. Bianca teve certeza disso. Ele pararia. Talvez não imediatamente no momento em que ele partisse, porque a vida tem seu apreço pela crueldade e não teria tanta misericórdia. Mas em algum momento, cedo ou tarde, seu coração, sem ele, simplesmente pararia.

Afastou esses pensamentos assustadores e tristes que a fizeram brigar contra as lágrimas. Fechou os olhos e respirou profundamente. Viu seu sorriso, ouviu sua voz e olhou em seus olhos, não ali, não enquanto ele estava às portas da morte em uma cama, mas quando desceram a montanha numa casca de árvore, quando ele tirou as folhas de seu rosto, quando dançou em roda e espiral na Vila, quando ele fez Eileen sorrir de novo, quando correram pelos campos de Paralda, quando voaram juntos pelo céu de estrelas...

Abriu os olhos lentamente e fez uma escolha. Escolheu imaginar como seria quando ele ficasse bom, quando pudessem estar juntos de novo. Imaginou seu mundo e sua vida com ele, e não se importava se ele era um anjo e ela era uma humana, se ele era de Marte e ela era de Vênus. Em sua imaginação, não havia barreiras nem limites.

A cantilena continuou por horas e ervas maceradas foram colocadas nos ferimentos. As moças começaram a enfaixá-lo e Muriele tocou levemente Bianca, chamando-a para o mundo real.

– Fizemos o possível. Agora, vamos cuidar um pouco de você...

Bianca resistiu. Disse que não sairia do lado dele. Mas Muriele a tranquilizou, prometendo que em alguns minutos estariam juntos de novo. Então, Bianca soltou pela primeira vez sua mão e foi levada para fora do quarto, onde deu sua última olhada no anjo que era cuidado pelas moças e por Muriele.

Foi guiada por uma das moças até uma sala de banhos onde havia um grande espelho de corpo inteiro. A moça lhe mostrou a banheira redonda de madeira, já com água. Bianca viu uma pessoa esfarrapada observando-a e olhou um tanto assustada. Levou alguns segundos para perceber que essa pessoa era seu reflexo em um espelho. Começou a tirar a roupa, toda rasgada, até ficar completamente nua. Entrou com cuidado na banheira e deixou que a moça, cujo nome se esque ceu de perguntar e não ouviu quando ela disse, a ajudasse. A moça verteu água fria em sua cabeça lentamente. Bianca estremeceu e sentiu-se anestesiada. Aquela noite jamais teria fim.

Quando terminou, recebeu uma toalha e um vestido simples, mas confortável. A moça estava levando suas roupas em frangalhos quando ela se lembrou de uma coisa. Deu alguns passos rápidos para alcançá-la e pegou em seu short a foto, já muito amassada. Olhou para a imagem brevemente e ela lhe pareceu distante, como se já tivessem se passado cinquenta anos. Colocou em cima de uma cômoda com cuidado e terminou de se secar.

Quando estava pronta, a mesma moça a esperava na porta. Guiou-a de volta até o quarto do anjo. Bianca viu Zac na cama, agora com lençóis limpos e com uma fina calça de algodão, sendo coberto por uma das meninas que tinham ficado. Muriele não estava mais lá e as moças simplesmente saíram e deixaram Bianca com ele, sem maiores explicações. Ela caminhou lentamente até ele. O cinza da madrugada anunciava um novo dia, mas dentro dela ainda era noite e temeu ficar na escuridão para sempre. Ele não tinha camisa e as faixas cobriam o estômago e se cruzavam no ombro. Bianca se ajeitou com cuidado ao lado dele, encolhendo-se e recostando a cabeça cansada ao seu lado.

Ela ficou ao seu lado o tempo inteiro. Estava determinada a não pregar os olhos antes que o anjo abrisse os dele. No entanto, o corpo e a mente estavam cansados demais para obedecer e, depois de algumas horas, quando o dia já estava claro, adormeceu ao lado dele, antes que ele acordasse.

 

Zac abriu os olhos com dificuldade. As memórias do dia anterior pareciam um grande borrão que lhe deixavam um gosto amargo na boca. Olhou em volta e viu Bianca. Não quis acordá-la, já que ela parecia extremamente cansada. Com cuidado, sentou-se na cama, recostando-se na cabeceira. Respirou fundo, sentindo dores ao se mover e levou a mão aos ferimentos enfaixados. Bianca se moveu ao seu lado e acordou de uma só vez, já em alerta. Quando o viu, ela não conseguiu dizer nada. As lágrimas contra as quais tanto lutou começaram a cair pesadamente.

– Arrependida? – perguntou o anjo, lhe dando o sorriso do qual ela tanto se lembrou e do qual tanto sentiu falta.

Ela não conseguiu responder. Com cuidado, abraçou-o e chorou. Ele a consolou, puxando-a para si, como se ela fosse uma criança, cobrindo-a com suas grandes asas brancas e embalando-a enquanto ela desabava em pranto.


Uma das moças lhes trouxe sopa. Bianca colocou o prato dela de lado e ajudou Zac a tomar a dele. Esperavam que Muriele viesse vê-los, mas foi o Capitão quem surgiu à porta assim que Zac terminou de comer.

– Está melhor? – perguntou o Capitão.

– Sim, senhor – respondeu o anjo. – Agradeço a ajuda.

O Capitão fez um movimento cordial com a cabeça, mas não estava sorrindo.

– O Rei Oldebaran e a Rainha Nistka desejam vê-los. Pode andar?


Zac ganhou uma camisa que acompanhou as calças de algodão. Bianca o ajudou a calçar os tênis. Não era uma roupa muito formal para estar na presença da realeza, mas era o que tinha. Foram escoltados até o rei e a rainha. Bianca apoiava Zac, que andava com dificuldade, e achava um tanto estranho que exigissem de alguém tão ferido tal esforço. Não podiam rei e rainha irem lá no quarto dele? Lera no livro das fadas sobre o protocolo dos encantados e como suas regras de educação eram diferentes e exigidas a todos, mesmo aos que não tinham conhecimento delas. Mesmo assim, achou aquilo uma tremenda grosseria, seja neste mundo ou em qualquer outro.

– Você está bem? – perguntou Zac.

– Estou zangada. Não deveriam ter tirado você da cama.

– Estou bem – mentiu ele. – Tudo vai ficar bem.

Passaram por um caminho ao ar livre que mostrou o Sol se despedindo. Pela primeira vez, Bianca teve uma noção mais clara de tempo. A noite que achou que nunca mais terminaria já tinha se transformado em dia e em alguns momentos, se transformaria em noite de novo.

Chegaram numa sala de tapete vermelho e colunas de pedra. Muitos curiosos, entre humanos e elfos, os observavam enquanto eles passavam. No final do tapete, duas figuras imponentes os aguardavam no trono. Os guardas se mantinham a postos.

– Estou preocupada... – murmurou Bianca, que começava a se preocupar com tudo.

– Fique calma – respondeu o anjo. – Estamos num reino grande e não numa pequena vila. É normal que tenham esse cuidado todo...

O rei e a rainha os olharam curiosos. A Rainha Nistka era linda e suas orelhas ligeiramente pontiagudas denunciavam sua natureza de ser encantado. O Rei Oldebaran, no entanto, de rosto quadrado e moreno, tinha o porte real, mas parecia humano. Zac, que ainda não conseguia recolher as asas por causa dos ferimentos, tentou fazer uma reverência, mas não conseguiu muito mais do que baixar um pouco a cabeça.

– Sou Zacariel, anjo de Rafael – disse ele. – E agradeço a acolhida.

– Uma humana, um anjo e um dragão chegaram às nossas portas em plena madrugada – disse o rei. – Estamos curiosos em saber como isso aconteceu. Especialmente, porque sabemos que o dragão continua nos arredores e nos espreita.

– Não, não precisam se preocupar! – disse Bianca. – Ele é amigo! Só está preocupado conosco, só isso!

– Seu amigo come elfos – respondeu a rainha, com voz firme e fria.

O silêncio foi constrangedor.

– Claro... – resmungou Zac, que não esperava por essa. – Todo mundo tem um passado... Por que não estou surpreso?...

– Bom... – disse Bianca. – Poderiam nos dar abrigo só mais alguns dias, só o bastante para que ele se recupere?

–– Lamento, menina – respondeu secamente o rei. – Temos muitos elfos aqui e estão todos muito nervosos. Por isso, pedimos que se retirem imediatamente de nossas terras. Nossos guardas vão escoltá-los até os limites do reino.

Bianca e Zac ficaram em silêncio, imaginando que logo escureceria e não teriam abrigo lá fora.

– Agora! – ordenou o rei.

Os guardas se aproximaram e Zac pegou no braço de Bianca, puxando-a para saírem. Viraram-se e começaram a andar, ante os olhares de dezenas de elfos e humanos que os observavam. Bianca se sentiu mal. Ninguém gosta de ser expulso, seja lá de onde for. Então, de repente, ficou brava. Desvencilhou-se facilmente do anjo e se virou-se para o rei e a rainha, dando alguns passos a frente.

– Vocês estão expulsando um anjo, sabiam? – disse ela, em alto e bom tom. – Um anjo ferido! Lá na minha terra isso é pecado e dá pelo menos umas sete vidas de azar! E estão com medo de um dragão que, junto com o anjo que estão expulsando, acabou com a Corte Unseelil! Eles fizeram um serviço de detetização eliminando aquelas pragas do seu mundo e é assim que vocês agradecem? Só porque estão com medo de ferir os sentimentos de alguns elfos frutinhas!

Um elfo alto e de vestes pomposas surgiu, saído de algum lugar na frente, onde havia pessoas ricamente vestidas. Seus olhos eram verdes e profundos e colocou sua mão sobre o sabre na cintura.

– O que você disse sobre os elfos?

– Bianca... – disse Zac, totalmente consciente de que não estava em condições de entrar em outra briga tão cedo. – Vamos embora antes que nos matem...

Bianca podia ter ouvido Zac. Podia ter se lembrado do quanto ficou preocupada com ele, do quanto ele se machucou nas garras da Corte Unseelil e das terríveis consequências de ofender as pessoas mais poderosas de um reino daquele tamanho. Sim, ela podia ter pensado nisso tudo. Mas não pensou. Deu um passo a frente e aumentou o tom de voz, olhando diretamente para o elfo que tentara intimidá-los.

– Falei que vocês são frutinhas!!! – gritou Bianca, com as mãos nas cadeiras e balançando a cabeça provocativamente. – Por quê? Vai jogar purpurina em mim?

Os olhos do elfo brilharam por um segundo e então ele deu passos firmes em sua direção. Bianca, vendo o elfo crescer diante dela, deu alguns passos pra trás até sentir alguém puxá-la. Zac segurou o seu braço e tomou a sua frente, encarando o elfo e abrindo as asas.

– Bianca?

O elfo parou ao ouvir a voz conhecida para ele. Bianca achou ter reconhecido, mas lhe pareceu tão fora de contexto que não soube quem era no começo. Foi então que uma donzela ricamente vestida e com uma coroa de princesa na cabeça surgiu alguns passos atrás do elfo, saindo da pequena platéia que assistia o quase duelo. Com um toque gentil no ombro do elfo, a moça empurrou-o para o lado para que saísse do caminho, enquanto olhava de perto a estranha que ofendera todo mundo em umas três frases. Só conhecia uma pessoa com este talento.

– Bianca! É você!

Bianca continuou olhando, sem entender como aquela princesa a conhecia.

– Sou eu! Não lembra de mim?

E quando ela sorriu, a imagem se completou em sua cabeça, preenchendo dezenas de fotos da memória onde aquele sorriso sempre estava.

– Analice?

Bianca saiu devagar de trás do anjo que continuava a protegendo e se aproximou da amiga que lhe estendia os braços com um sorriso aberto.

Elas se abraçaram e choraram juntas. O elfo tirou a mão do sabre, quase decepcionado em não ter podido brigar, enquanto rei, rainha, anjo e platéia observavam o desfecho inesperado daquela estranha audiência.

 

 

 

Capítulo 26

Os Indesejados


Durante a tensa audiência, o rei, a rainha, o elfo antipático que descobriram se chamar Asram e Analice discutiram sobre a permanência deles no reino, com prós e contras, até que Zac tonteou e teve que se apoiar em Bianca para não cair. Então, Analice bateu o pé. Bianca já a tinha visto fazer isso e era sempre uma surpresa quando aquela moça doce e tranquila simplesmente brigava pelo que achava certo. Bianca sentiu uma tensão evidente entre Analice e Asram. Por fim, o rei permitiu que ficassem mais uma noite, já que o anjo não estava em condições de deixar o reino. Os guardas os escoltaram de volta ao quarto, deixando a família real e o salão do trono para trás.

Naquela noite, Bianca e Zac dormiram pesadamente. Muriele passou apenas para verificar o rapaz e não disse muita coisa. Dessa vez, ela usava um manto com símbolos e penas nos cabelos. Pouco antes de dormirem, Zac murmurou algo. Bianca, ainda acordada, perguntou o que foi e tentou prestar atenção.

– Você é inacreditável...

E foi só o que ele disse. Bianca não entendeu se era um elogio, uma crítica, ou só um comentário solto no ar de alguém muito cansado. Estava exausta demais para pensar nisso e preferiu deixar pra lá. Dormiram, esperando que o dia seguinte fosse um pouco melhor.


E foi. Acordaram já com o Sol alto com Analice lhes trazendo as boas notícias. O rei tinha permitido que ficassem, desde que o dragão não atacasse ninguém. Ficaram felizes, embora se sentissem um tanto desconfortáveis. O motivo era simples. Havia sentimentos contraditórios no ar. De um lado, os humanos achavam interessantíssimo ter um anjo e uma humana juntos, especialmente o anjo, um ser bíblico e sagrado para algumas culturas. Já os elfos... Estes não estavam muito animados com a presença de nenhum dos dois, especialmente depois do confronto desrespeitoso com Asram, príncipe do reino. Sachti eventualmente sobrevoava a cidade, só voltando depois de ver Bianca. Isso fez muitos elfos ficarem em suas casas e as reclamações nos ouvidos do rei e rainha aumentarem consideravelmente. Assim, de visitas inconvenientes, expulsas e enxotadas, Bianca e Zac passaram a personagens curiosos que renderiam muita fofoca.

Apesar dos problemas que estavam causando, Bianca e Zac não foram envolvidos por eles. Zac realmente precisava de cuidados e descanso, ficando quase todo o tempo no quarto. Bianca, quando não estava com ele, estava com Analice.

Depois do meio-dia, tomaram uma sopa e Zac dormiu novamente, garantindo antes à Bianca que estava bem. Pela insistência dele, Bianca então passou a tarde inteira na companhia de Analice. A amiga estava diferente. Muito diferente. Antes, costumava usar roupas pretas e maquiagem pesada, parecia ter saído de algum filme do Tim Burton. Agora, Analice era uma moça exuberante, sempre com um sorriso. Usava um belíssimo vestido de seda tão fina que qualquer brisa o fazia dançar graciosamente. Ela também usava joias e uma delicada coroa de safiras. Cada qual estava interessada na história da outra, e cada qual queria contar sua própria história, então as horas foram poucas para tantas novidades.

Analice contou para Bianca como tinha sido levada para aquele reino e como tinha se apaixonado pelo príncipe. Felizmente, ele também se apaixonara por ela. Bianca contou como seguiu as pistas até descobrir como entrar no Mundo Encantado, e como conseguira, com a ajuda do anjo, chegar até ali.

– Aliás, que anjo, hein, Bianca!

Bianca enrubesceu na hora, o que provocou boas risadas na companheira. Estavam no quarto de Analice, um aposento enorme, com uma cama gigantesca, tapetes macios e belos quadros nas paredes.

– Você já o beijou? – perguntou Analice, empolgada.

– Claro que não! – respondeu Bianca, como se isso jamais tivesse passado pela sua cabeça. – Ele é um anjo! Além do mais, não se pode beijar alguém daqui se você deseja voltar.

– Em primeiro lugar, ele não é daqui! – respondeu Analice. – Em segundo, quem falou em voltar?

Bianca congelou, olhando a amiga que ainda sorria.

– Você não quer voltar?... – perguntou Bianca.

– Claro que não! – Analice riu alto. – Eu tenho aqui tudo o que sempre sonhei! Tenho uma família de novo! Tenho um noivo lindo! Sou uma verdadeira princesa! Por que eu voltaria?

– Por mim... – murmurou Bianca, de coração partido.

Analice percebeu onde tinha errado. Parou de sorrir por um momento, vendo a amiga com os olhos cheios d’água.

– Bianca... Eu amo você. Você é minha melhor amiga. Mas eu estou muito feliz aqui. Eu não quero voltar.

– Mas eu vim pra buscar você!

– Eu tentei te avisar que estava bem!

Bianca ficou confusa.

– Como?!

– Com o sonho dos balões! Fui eu que mandei aquele sonho pra você! – explicou Analice, segurando suas mãos e olhando nos seus olhos. – Você se lembra?

– Claro que eu me lembro!

– Naquele sonho, eu tentei lhe dizer que tinha realizado o pedido que eu fiz naquele dia, o pedido no balão! Eu pedi para ter uma família que me amasse e que eu pudesse amar de volta. Uma família como a sua...

Uma lágrima rolou no rosto de Bianca que não podia esconder a decepção.

– Achei que eles tinham te raptado... – disse ela.

– Eles realizaram o meu desejo... Desculpe, achei que tivesse entendido que eu estava feliz.

– Mas, e as outras pistas, Blue Moon, os índios, os mexicanos, a Mãe Tetéia da Encruza, a pedra na janela, o carro da pamonha?...

– Eu não tenho ideia do que você está falando, Bianca. Só lhe mandei o sonho. Nada mais.

As amigas se abraçaram.

– Você me perdoa? – perguntou Analice. – Por eu não querer voltar?

– Perdôo... Se você me perdoar por eu querer...

Analice a afastou para olhá-la nos olhos.

– Você vai voltar?!

Bianca anuiu com a cabeça.

– Eu tenho pra quem voltar, Analice...

E dessa vez, foi Analice quem derramou lágrimas. Abraçaram-se de novo e ficaram juntas por algum tempo, numa despedida dolorosa.

Quando se separaram, Analice se levantou e enxugou as lágrimas.

– Há muito para mostrar e muito para contar. Minha festa de noivado será em alguns dias. Gostaria que você ficasse.

– Eu não sei...

– O anjo...

– Zac – corrigiu Bianca. – O nome dele é Zac. Quer dizer, é Zacariel, mas eu o chamo de Zac.

– Pois bem, Zac precisa se recuperar. São apenas alguns poucos dias. Você passará o resto da sua vida no mundo dos homens. Pode passar alguns dias aqui.

Bianca concordou e assim enxugaram as lágrimas e saíram do quarto, pois Analice queria lhe mostrar as belezas do castelo e do reino. Ela lhe mostrou jardins e colinas verdejantes, uma cidade com vendedores e movimento. Ao entardecer, ela mostrou à Bianca a Parada Encantada, um desfile da Corte Seelie. Então ela lhe explicou que a Corte Seelie e seus imponentes cavalos de pecoço curvado eram descendentes dos Tuatha de Danann, os filhos de Danna, uma tribo de gigantes e heróis que viveu antes dos homens.

– Você está distante...

Bianca voltou a si.

– Hum?

– Você não estava aqui. Onde você estava?

– Desculpe. Estou preocupada com Zac, só isso.

– Eu lhe disse que estão cuidando bem dele. Temos feiticeiras e curandeiros, temos até um médico do mundo dos homens.

– Sinto falta dele.

Analice sorriu.

– É... Você está de quatro mesmo... Vamos voltar para o castelo. Você poderá vê-lo, enquanto mandarei providenciar roupas melhores para vocês dois. Teremos um jantar para recepcioná-los devidamente e nos desculpar da grosseria de Asram. Se Zac estiver melhor, claro. Aliás, você está meio pálida. Deveria ter almoçado! Não entendo como não está com fome. Você vivia com fome!

Bianca sorriu sem falar nada. Analice então a observou longamente.

– Você está diferente... – disse.

– Você também.

O vento brincou com os cabelos delas enquanto crianças jogavam pétalas na Parada Encantada a alguns metros.

– Acho que crescer é isso – finalizou Bianca, antes de voltarem para o castelo.


Zac estava na j anela admirando a despedida do Sol quando Bianca entrou. Ele sorriu e ela ficou feliz dele parecer bem melhor.

– Você parece bem – disse ela.

– Me sinto melhor – respondeu ele. – indo ao encontro dela. – você é que parece meio pálida.

Bianca o puxou e sentou-se com ele na cama.

– Analice não vai voltar.

Zac não pareceu surpreso.

– Você já sabia, né? – disse ela, percebendo pelo rosto dele.

– Não sabia, mas imaginava – respondeu ele. – Seria difícil ela passar tanto tempo aqui sem ter comido ou bebido algo daqui.

– Então, por que veio? Por que não disse logo que era uma viagem em vão?

– Porque... porque você merecia dizer adeus. E merecia saber o que aconteceu de verdade. Pessoas desaparecem todos os dias. A dor de perder alguém para a morte é excruciante, mas não se compara a dor de simplesmente perder alguém e nunca saber o que aconteceu. Você viveria sob a sombra da dúvida, alimentando uma esperança cruel de que ela poderia voltar, ou imaginando todas as coisas horríveis que poderiam ter acontecido. Essa viagem não foi por Analice. Foi por você.

Bianca estava triste e frustrada. Também estava faminta e sedenta. Zac a acolheu e ela chorou um pouco em seu ombro. Estava vulnerável demais para se consolar com a felicidade da amiga.

– Eu sou uma pessoa horrível!... – remoeu-se. – Ela está feliz, dá pra ver isso estampado na cara dela. E mesmo assim, eu lamento que ela não queira vir comigo...

– Você não é uma pessoa horrível. Você é uma pessoa, só isso.

Ela recostou a cabeça no ombro dele e respirou profundamente.

– E o que acontece agora?

Ele demorou para responder.

– Depende do que você quiser fazer. Se quiser voltar, iremos até a Vila das Fadas D’água e procuraremos sua bolsa. E então, você poderá voltar.

– Analice quer que fiquemos alguns dias para a festa de noivado dela.

– Se quiser, podemos ficar.

– Podemos?

– Por que não?

Bianca demorou para responder.

– Não como ou bebo nada desde ontem, Zac. Estou com tanta sede que nem sinto mais a fome...

O anjo ficou quieto um momento, como se pensasse. Então, levantou-se da cama e foi até uma cômoda, onde havia uma jarra cristalina de água. Ele encheu uma taça e levou para ela.

– Vamos confiar nas asrais... – disse ele.

Bianca hesitou, mas não podia mais ficar sem água. Pegou a taça da mão dele, tocando-o gentilmente, e então bebeu avidamente.

– Se as asrais mentiram...

– Não importa – cortou ele, tentando afastar pensamentos pesados. – Se elas mentiram, daremos nosso jeito.

Ela sorriu. Confiava nele. Sim, se houvesse algum problema, eles dariam um jeito.

 

 

 

Capítulo 27

Amigos e inimigos


No dia seguinte, Zac já conseguira recolher as asas e parecia bem mais disposto, o que deixou Bianca radiante. Depois de uma noite bem dormida e tendo finalmente podido comer, o mundo não parecia mais tão tenebroso. Aceitou que Analice não iria voltar com ela e que seus planos para um dia conhecerem juntas Paris nunca se realizariam. Achou que estaria muito mais deprimida – ou até zangada – com isso. Mas não estava. O fato é que estava feliz demais por ter Zac ao seu lado. Tê-lo quase perdido foi um golpe tão forte que mudou muita coisa dentro dela. Analice tinha razão. Ambas tinham mudado. E mudado muito.

Como Zac já se sentia melhor, quis sair um pouco do quarto e podia passear por curtos períodos de tempo com Analice, Bianca e o mal humorado elfo de poucas palavras, Asram. Era um elfo muito garboso e elegante, mas não falava muito. Talvez fosse o jeito dele, mas Zac não simpatizou com Asram. Achou que o elfo irradiava arrogância e não havia digerido muito bem as palavras rudes de Bianca. Se o anjo nutria por Asram uma leve antipatia, este detestou Zac imediatamente. Basicamente, por tabela, mas também por alguma coisa mais arraigada que nos faz amar e odiar sem sabermos exatamente porque, numa causa além do conhecimento de homens, elfos ou anjos. Porém, algo podemos dizer em sua defesa. Ele realmente gostava de Analice. Por ela, estava tentando confraternizar com aquela gentalha.

Se havia uma certa tensão entre anjo e elfo, Analice e Bianca pareciam não notar ou simplesmente não se importar. Conversavam animadas e o silêncio era uma preciosidade rara quando estavam por perto. Analice quis mostrar a cidade e deram um passeio de carruagem até o centro dos mercadores, que parecia de fato o centro nervoso do reino, com barracas de frutas, ervas, flores e lojas de roupas, sapatos e outras quinquilharias.

Enquanto as meninas viam vestidos, Asram e Zac aguardaram do lado de fora.

– Está quente hoje – disse o elfo. – Bebe alguma coisa?

Zac aceitou e foram até uma taberna que ficava ao lado. O elfo pediu duas canecas de vinho. Assim que Zac tomou o primeiro gole, Asram resolveu deixar as coisas claras.

– Não gosto de você.

O anjo continuou com a caneca na boca, sem desviar os olhos do elfo. Até que engoliu o gole que já tinha tomado e pousou a caneca na mesa de madeira.

– Devo me preocupar? – perguntou o anjo.

– Depende. Se você e essa garota irritante forem embora sem causar nenhum transtorno ou atrapalhar meu casamento, não tem com o que se preocupar.

Zac respirou profundamente. Gostava cada vez menos do elfo.

– Analice decide se vai ou fica. Quanto a nós, não se preocupe. Não temos intenção nenhuma de causar um transtorno.

O elfo fixou os olhos verdes no anjo.

– Ótimo. Assim não terei que machucar você.

E tomou seu vinho.

Quando Analice e Bianca se encontraram com eles, a temperatura estava mais baixa. Zac se inclinou para Bianca e lhe disse algo em seu ouvido. Bianca então disse à Analice que iriam voltar ao castelo e podiam se encontrar mais tarde. Analice lamentou, mas Asram lhe disse que o anjo precisava descansar de sua última surra, num tom evidentemente sarcástico. Analice pareceu não notar. Mas Bianca não era assim tão distraída.

Voltaram à pé porque Zac preferiu andar. Assim que se afastaram do burburinho da cidade, Bianca falou do elefante na sala.

– O que aconteceu entre vocês dois?

Zac olhou pra ela, um tanto irritado, pensando se deveria falar ou não. Os olhos dela se apertaram, do jeito que ela fazia quando tentava ver mais longe. Era também um sinal de que ela não o deixaria em paz se não falasse.

– Não sei se devemos ficar para a festa.

– O que houve lá atrás?

– Asram me ameaçou.

Bianca abriu a boca de espanto.

– Na sua cara?

– No meu nariz! E se eu não fosse um anjo... E não estivesse todo quebrado, eu arrebentava a cara dele!

Bianca olhou para o chão, pensativa.

– Tudo bem, se você quiser ir, podemos ir – disse finalmente.

– Sério?

Ela concordou com a cabeça.


Quando Analice chegou no castelo, foi direto ao quarto de Bianca. Tinha uma surpresa para ela. Tinha comprado um vestido lindo de cor lilás e uma roupa de festa linda também para Zac. Depois de leves batidas na porta, viu Bianca e Zac de pé. Ela não sabia, mas estavam prontos para partir e só a estavam esperando para que Bianca pudesse dizer adeus. Antes de dizerem qualquer coisa, porém, Analice entrou com animação no quarto.

– Eu trouxe uma surpresa! Fiquei triste de terem ido embora tão cedo, mas no final, foi até melhor porque eu pude comprar meu presente para vocês!

– Presente? – Bianca não viu essa vindo. – Puxa, Analice, eu não tenho nada pra te dar...

– Você atravessou dimensões e enfrentou monstros pra me achar! Bianca, ninguém pode dar um presente maior que esse! Vejam! Quero que os dois experimentem para que eu possa mandar fazer uns acertos!

Analice tirou de uma bolsa um lindo vestido lavanda com um corpete de pedrinhas que brilhavam como estrelas. Os olhos de Bianca brilharam mais que as pedrinhas. De boca aberta, pegou o vestido que Analice lhe estendia e sentiu a textura sedosa do tecido. Era um vestido de princesa, um como nunca tinha tido antes.

Recostado na parede do quarto, Zac notou o quanto ela ficou encantada com o vestido. Analice se encaminhou para ele então e lhe deu também um belíssimo conjunto de calça azul escura, botas negras brilhantes e uma camisa de linho com detalhes em dourado. Ele ficou um tanto sem jeito, mas a alegria de Analice apagava qualquer traço de constrangimento ou timidez.

– Eu preparei uma surpresa para vocês na festa de amanhã!

– Mas é a festa do seu noivado! – argumentou Bianca. – É você quem deve brilhar!

– E eu vou! Mas justamente por ser uma festa para mim, quero que minha melhor amiga esteja lá.

Analice pegou nas mãos de Bianca.

– Este será um dos momentos mais importantes da minha vida, não por ser meu noivado, mas porque talvez seja a única festa em que eu tenha a pessoa mais importante de minha outra vida presente.

Bianca desmontou. Não sabia como ia dizer que tinham decidido partir naquele mesmo dia. Olhou para o chão por um momento.

– Analice... – começou. – Eu preciso lhe dizer uma coisa...

Mas Zac interrompeu.

– Ela quer lhe dizer que estamos muito felizes por você. Será um prazer estarmos aqui amanhã!

Analice não pareceu ver a surpresa no rosto de Bianca. Abraçou os dois e os deixou, avisando que se encontrariam mais tarde, pois ela tinha que experimentar seu próprio vestido depois do almoço.

Quando ficaram sozinhos, Bianca olhou para Zac.

– Achei que queria ir embora.

– Mudei de ideia. Eu sou um anjo, não posso ficar arrumando briga por aí à toa. Então, que melhor forma de irritar aquele elfo idiota do que ficando pra festa dele?

– Ótimo! Vamos comer às custas dele!


Depois do almoço, que foi agradável e divertido, Zac e Bianca foram até a colina onde Sachti aguardava.

– Ora! – disse o dragão quando os viu chegar. – Que alegria, anjo! Eu não o matei!

– Não foi por falta de tentativas... – respondeu o anjo, sorrindo.

– Vejo que está melhor – continuou o dragão. – Já recuperou aquele senso de humor estranho das esferas superiores.

Zac se aproximou dele com um olhar agradecido.

– Eu sei que você era tão prisioneiro quanto nós. E se não fosse por você, estaríamos todos mortos. Por isso, sem ressentimentos.

– Obrigado. Devo a você minha liberdade. E a você, menina, a lembrança de quem eu costumava ser. Por isso, agradeço aos dois. Vocês ficarão bem?

– Sim, estamos entre amigos agora – respondeu o anjo.

– Mas você precisa mesmo ir? – perguntou Bianca, que já se afeiçoara ao enorme animal.

– Tenho família. E não os vejo há dez anos.

– Nossa... Talvez seu filhote já esteja no segundo-grau – comentou Bianca.

– Vivemos mais de três mil anos. Ele deve estar igualzinho à última vez que o vi. Mas dez anos ainda são dez anos, viva você 50 anos ou viva para sempre.

Bianca beijou o focinho do dragão, bem onde Zac o cortara e onde já estava cicatrizando. Sachti não estava acostumado a esse tipo de afeição e não sabia bem o que era um carinho humano. Mas gostou. Eles se despediram e o grande dragão voou, balançando as árvores e pintando o céu de violeta, púrpura e lilás.


O dia da festa do noivado de Analice finalmente chegou. Quando a noite recebeu as estrelas, estavam todas as pessoas importantes do reino em suas roupas mais belas no grande salão. Quando Bianca desceu para o grande salão de baile, todos a olharam, tanto por ser uma novidade, quanto por ser uma bela visão. Seu vestido era de sonho, bordado no corpete apertado e amplo na grande saia rodada. As fadas do castelo também fizeram um lindo penteado em Bianca, prendendo um pouco o cabelo para trás com enfeites brilhantes e soltando cachos que emolduravam o rosto.

Do alto da escada, ela viu Zac. Ele estava com uma roupa de festa também. Uma camisa branca com detalhes em dourado, presa na cintura por um cinto. A calça azul escura quase negra brilhava, assim como as botas. Ela olhou tudo isso muito rapidamente, porque assim que encontrou o olhar dele, não conseguiu mais desviar. Eles se encontraram e ele lhe deu o braço para que a acompanhasse à cerimônia.

Como melhor amiga da noiva, Bianca teve um lugar de honra, assim como Zac. Assistiram à bela e simples cerimônia que terminava com as mãos do casal enlaçadas com uma bela fita azul. Bianca tentou, mas não conseguiu segurar uma lágrima. A amiga estava mesmo feliz, podia ver pelo jeito que olhava o noivo. A lágrima, dessa vez, foi de felicidade. O coração ficou mais leve. Aceitou a perda e deixou que aquele amor voasse para o lugar onde seria mais feliz.

Houve então uma grande festa, não no salão, mas no pátio do castelo, onde estrelas e fadas se confundiam em seu brilho. A Lua não estava mais cheia e era um sorriso no céu. Os casais dançavam e se divertiam e Bianca queria chamar Zac para dançar, mas tinha vergonha. Provavelmente, ele diria não. Então, ficaram recostados numa grade que separava o pátio do jardim, observando os outros bailarem ao redor dos noivos.

– Você parece bem com isso tudo – disse o anjo.

– É... – disse ela. – Acho que meu amor cresceu. Amadureceu, ficou maior de idade e foi pra faculdade.

– O amor que dá a liberdade é o amor perfeito.

– Não é este o nome da colina onde está o reino? – lembrou Bianca.

Analice interrompeu os músicos e chamou a atenção de todos. Então, disse que tinha um presente para a amiga que atravessou dimensões por causa dela. Chamou Bianca e Zac até o meio do pátio, que os outros convidados deixaram livre. Quando estavam bem no meio, Analice continuou.

– Bianca e Zac, eu lhes agradeço pelo amor que os trouxe até aqui. A música une e eleva e o povo daqui sabe muito bem disso. Por isso, como presente, gostaria de lhes dar uma música, embora eu acredite que ela já seja de vocês e eu esteja apenas formalizando isso.

Analice sinalizou para os músicos, um grupo bem vestido de elfos, humanos e fadas tocando todo tipo de instrumento com alguns anões começaram a tocar e cantar Blue Moon, música que Analice sabia pelas histórias que Bianca contara que tivera uma importante participação na história dela com Zac.

Bianca olhou para Analice, e então olhou para a banda, para então olhar para Zac. Achou que ele ia recusar e ela ia morrer de vergonha, então resolveu recusar primeiro para não passar vexame.

– Desculpe, eu não sei dançar.

Ela tentou sair, mas ele segurou sua mão e a trouxe de volta, segurando-a firmemente pela cintura e olhando bem em seus olhos. A canção os envolveu e eles dançaram sob a luz, com fadas brilhando e estrelas cintilando, com olhares sobre eles que eles nem sentiram, pois estavam concentrados um no outro.

Bianca sentiu o coração batendo tão rápido que temeu que ele o escutasse. Zac fez passos de dança que ela jamais esperava que ele soubesse fazer. Não tirou os olhos dela e nunca desfez o sorriso. Não foi difícil para ela mergulhar em seus olhos e aproveitar o momento, sem se preocupar se ele ia perceber ou não o quanto ela o amava. Entregou-se de corpo e alma àquela dança nos braços dele e sorriu, deixando transparecer nos olhos brilhantes os sentimentos que os faziam brilhar.

A música terminou, cedo demais, ela diria, mas outra começou, mais animada, e todos começaram a dançar. Zac e Bianca, no entanto, simplesmente paralisaram e assim ficaram por alguns segundos. Ela sentindo as mãos dele em sua cintura e segurando delicadamente a outra mão e ele admirando o rosto dela. Ele se inclinou levemente e seus lábios se aproximaram. Subitamente, ela se assustou e levou as mãos à boca, segurando um grito.

– O que foi?! – perguntou ele, assustado.

– Sua camisa! – ela disse, começando a entrar em pânico. – Sua camisa!

Ela se lembrou de Bean-Nighl, a Lavadeira, no riacho perto da Vila das Fadas D’Água. A lembrança era nítida da roupa ensang uentada que ela estava lavando, anunciando a morte de alguém. A roupa que ela lavava era a camisa que Zac usava naquele momento.

– Ela estava lavando essa camisa! Ela estava lavando essa camisa! Eu me lembro dos detalhes em dourado! Era essa! Era essa!

– Sshh! Calma, Bianca! – pediu Zac. – Quem estava lavando?

– A Lavadeira, a Banshee que lava roupas manchadas de sangue de pessoas que vão morrer! Ela estava lavando essa camisa! Essa camisa!

Ela tinha começado a chorar e ele a puxou para saírem dali. Então, com um sorriso tranquilo, procurou acalmá-la.

– Bianca, fique calma! Tem certeza que era essa a camisa que ela lavava?

– Tenho, tenho, tenho!

– Tem certeza? Não seria mais parecida com aquela ali?

Ele apontou para um elfo usando uma camisa muito parecida.

– Ou aquela?

No meio do salão, um jovem dançava feliz com uma linda elfa, usando a mesma camisa.

– E que tal aquela?

Bianca percebeu que eram realmente muito parecidas, se não fossem idênticas de fato.

– Viu? – Zac sorriu. – Esse é um tipo de roupa muito comum aqui. Não se preocupe com isso, está bem?

Bianca pareceu se acalmar. Limpou as lágrimas, ficando sem graça.

– Desculpe o chilique – disse ela.

– Eu sei o que pode te animar! – ele se inclinou para ela e sussurrou um segredo. – Estão servindo doces no salão!

Ela sorriu e eles correram até lá, rindo e brincando enquanto passavam pelos casais que dançavam sob as estrelas que brilhavam e a Lua que sorria.


Quando o dia raiou, a festa estava no seu fim e Zac e Bianca estavam prontos para se despedirem. Analice fez questão que ficassem com as belas roupas que usavam e Bianca não se opôs. Os sapatos eram confortáveis e a roupa também. Além do mais, gostava de se sentir uma princesa (e todas as mulheres são princesas, embora algumas já tenham se esquecido). No mais, era uma viagem rápida. Havia um círculo de fadas nos jardins do palácio. Este círculo podia levá-los a qualquer outro círculo de fadas do Reino Encantado. Também poderia levá-los para casa. Bianca e Zac, no entanto, não podiam voltar ainda. Precisavam fazer uma última visita à Vila das Fadas D’Água e procurar a mochila perdida com seu conteúdo precioso.

Analice abraçou Bianca longamente.

– Nunca esquecerei você... – disse ela.

– É bom mesmo! – respondeu Bianca.

Olharam-se longamente. Os olhos das duas se encheram d’água porque sabiam, lá no fundo, embora não parecesse, que era a última vez que estavam se vendo. Era hora de dar adeus.

Os dois entraram no círculo e Analice, do outro lado, ficou embaçada. Uma brisa ergueu os cabelos deles e seus pés saíram do solo por alguns centímetros. Então, quando tocaram novamente o solo, estavam no bosque da Vila das Fadas D’Água.

– Nossa! – disse Bianca. – Isso é incrível! Melhor que Metrô!

– Vamos! Será bom também termos notícias de como a Vila ficou depois do ataque. Espero que ninguém tenha morrido ou se machucado gravemente.

Um pequeno ser voou diante do nariz deles, pregando-lhes um susto. Bianca quase caiu pra trás porque achou que era um insetão, mas quando percebeu as cores, olhou melhor.

Zac estendeu a mão e sorriu ao ver um pequeno dragão das fadas pousar graciosamente em seus dedos.

– O que é isso? – perguntou Bianca, sorrindo.

– É um dragão das fadas! É incrivelmente raro!

Bianca e Zac viram a pequena criatura que media cerca de 15 cm, com olhos grandes e focinho comprido, batendo delicadamente as asas furta-cor de uma libélula.

– Ele é uma gracinha!

A criaturinha voou para as árvores, deixando os dois jovens encantados.

– Sabe o que isso quer dizer? – perguntou Zac, que nunca tinha visto um daqueles antes. – Que deve haver um portal para o Reino dos Dragões por aqui. Talvez Sachti já o tenha encontrado e já esteja em casa agora!

– Tomara que ele não tenha comido ninguém na Vila.

– É, tomara... – disse o anjo. – Mas, por via das dúvidas, vamos perguntar primeiro se não tiveram problemas com um dragão roxo antes de dizermos que conhecemos Sachti, OK?

 

 

 

Capítulo 28

Despedida


Assim que chegaram na vila, sinos tocaram anunciando visitantes. Danzir e Ariene logo surgiram e correram ao seu encontro. Eileen correu e saltou no colo de Zac que a rodou no ar. Todos os receberam felizes e avisavam para os outros que Bianca e Zac estavam vivos. A notícia se espalhou com rapidez. Zac e Bianca receberam os abraços de Danzir e Ariene, que os julgavam mortos, o que deixou todos inconsoláveis até aquele momento.

– Como estão as coisas? – perguntou Zac, preocupado com possíveis perdas no ataque.

– Graças a vocês, não tivemos nenhuma baixa – respondeu Danzir.

– E os nossos grifos? – perguntou Bianca.

– Quais? Aqueles?

E dois grifos pousaram bem ao lado deles, fazendo algo parecido com uma festinha, empurrando suas cabeças contra eles pedindo carinho, o que prontamente receberam. Foram até a casa de Danzir, onde se sentaram à mesa.

– Vocês estão com fome? Sede?

Eles pediram um pouco de água e Ariene e Danzir perceberam que Bianca estava bebendo também.

– Parece que resolveram aceitar o presente das asrais – disse Ariene.

– Não foi bem uma opção... – respondeu Zac.

– Bem, talvez queira conferir se elas estavam lhes pregando uma peça ou não.

– Como?

– Se a comida na sua mochila continuar se renovando, é porque elas disseram a verdade.

Zac e Bianca se olharam.

– Bom, sobre isso... – disse ele. – Perdemos a bolsa...

– Qual? Essa aqui?

E Ariene ergueu a boa e velha mochilinha-cabe-tudo de Bianca, que imediatamente pulou da cadeira e correu até ela aos saltos.

– Eu não acredito! Vocês acharam! Vocês acharam!!!

Danzir e Ariene lhes contaram como ficaram desesperados quando viram a Corte levá-los. Os grifos lutaram bravamente contra os goblins que os atacaram, matando todos, mas não conseguiram alcançar a Corte antes que ela desaparecesse em seu covil, que ninguém sabe onde fica e ninguém também quer descobrir. Zac e Bianca contaram, resumidamente, como conseguiram fugir e como a Corte Unseelil provavelmente não seria vista novamente tão cedo. Bianca omitiu a complicada história da família disfuncional de Zac, embora não tivesse conseguido omitir que ele era um anjo, coisa que já tinha dito à Ariene. Ninguém ali pareceu surpreso. Disseram que Zac era um anjo escondido com a asa de fora.

Então, chegou a hora da verdade. Bianca retirou da mochila o sanduíche eterno de queijo e entregou para Zac. Enfiou a mão de novo e lentamente puxou... outro sanduíche de queijo! Ela e Zac comemoraram e pularam juntos.

– Nunca fiquei tão feliz com um sanduíche de queijo! – disse ele.

Eileen entrou correndo e pulou em Bianca.

– Eu tenho uma coisa pra mostrar! – disse a menina.

Então ela saltou no meio da sala e levantou os cabelos. Como estava usando um vestidinho de costas nuas, puderam ver pequenas asas de fada nascendo. Zac não acreditou e precisou ver de perto. Eileen se virou para Zac.

– Você disse que se eu me divertisse bastante, e risse bastante, e fosse muito feliz, minhas asas iam nascer de novo! Viu? Nasceram! – e ela deu um beijo nele. – Obrigada!

Bianca não sabia que Zac tinha dito isso para a fadinha. Ficou feliz ao ver os olhos dele se encherem d’água com a notícia. Chegou perto dele e sussurrou:

– A redenção é assim mesmo... Começa com asas pequenas que vão crescendo...


Claro que a Vila queria fazer uma festa para eles. Havia uma coisa no Mundo Encantado. Todos queriam fazer festa o tempo inteiro. Parecia o Brasil. Mas, dessa vez, Bianca e Zac se desculparam e se limitaram a ficar para o almoço. Foi uma grande mesa, com muitos amigos e risos, e Bianca quis gravar aquilo em sua memória e nunca mais esquecer.

À tarde, despediram-se com abraços de seus anfitriões. Eileen correu e saltou no colo de Bianca.

– Fica! – pediu ela.

– Ah, meu bem... – Bianca nunca foi dada a instintos maternos, mas aquela menininha tinha algo que fazia seu sino tocar. – Eu não posso...

Eileen fez a carinha mais triste que pôde e então abraçou-a fortemente. As crianças levaram-lhes flores enquanto cantavam para eles. Foi uma despedida bela e Bianca não queria, mas seu coração estava se entristecendo em dar adeus a tantas pessoas queridas no mesmo dia. Quando já estavam longe, Eileen correu até eles e puxou Bianca de novo. Ela achou que era para um abraço final, mas a menina queria dizer-lhe algo no ouvido, como se fosse um segredo. Quando terminou, correu de volta para Ariene e Danzir, que, junto com os outros, lhes acenavam adeus.

– O que ela disse? – perguntou Zac.

– Uma coisa engraçada... – disse Bianca, rindo. – Disse que gostaria de ser nossa filha.

Eles sorriram, olhando-se longamente, cada qual imaginando como poderiam ser as coisas se não houvessem tantas coisas entre eles.

E assim, a Vila das Fadas D’Água ficou para trás. Entraram no bosque e caminharam em silêncio por algum tempo.

– Está acabando... – disse ela.

– Sim, está...

– Eu não queria que acabasse...

– Sua história não acabou. Vai continuar, só que em outro mundo. Veja, chegamos...


Bianca não acreditou que já tinham chegado. Na verdade, tinha torcido para algo acontecer, caírem num buraco, irem parar na Caverna do Dragão ou qualquer coisa que atrasasse o fim. Queria voltar pra casa. Mas não queria deixar Zac. E lá estava o círculo de fadas, um círculo de pedras brancas na relva marcada.

– E o que acontece com você? – perguntou ela.

– Eu volto para o meu mundo, para uma próxima missão.

Bianca olhou-o longamente, tentando lembrar de todos os detalhes de seu rosto.

– Vai me esquecer? – perguntou ela.

– Isso será muito difícil! – respondeu ele com um grande sorriso. – Afinal, você foi minha primeira missão.

Bianca desfez o sorriso. Não era bem isso que esperava ouvir. Então, ela achou que não devia mais prolongar o sofrimento.

– Tome... – ela lhe entregou a foto em que ela sorria com sua família. – Pra que você não se esqueça de mim.

Ela olhou-o longamente.

– Porque eu nunca vou me esquecer de você... – finalizou ela.

Deu-lhe um abraço apertado, os olhos cheios d’água, sentindo pela última vez o cheiro de maçã. Então, ela se virou e entrou no círculo das fadas, sem olhar para ele de novo, porque não queria que ele a visse chorando.

Um inesperado puxão em seu braço a trouxe de volta para ele, que lhe deu um longo e inesperado beijo. Suas asas se abriram e se iluminaram. O beijo dele era doce e suave e ela não queria que terminasse nunca mais. Soube, naquele momento, que quantas vezes ele a beijasse, seria para ela como a primeira vez. Sentiu as mãos dele em sua cintura e em seus cabelos, e puxou-o para si, sentindo os pés saírem do chão. Estavam voando, acima das árvores, no céu azul da tarde. Quando seus lábios se separaram finalmente, ele a olhou com olhos brilhantes.

– Eu lhe disse que ainda iríamos voar de novo...

Desceram suavemente e ele a empurrou levemente para o círculo, embora não quisesse soltá-la.

– Eu posso ficar! – disse ela.

– Você tem para quem voltar...

– Você pode vir! – respondeu ela.

– Talvez um dia, quando eu merecer ter suas asas...

E então ela entrou de costas no círculo, enquanto suas mãos ainda estavam unidas. Ela sentiu-se flutuar levemente e seus dedos finalmente deixaram de se tocar.

Uma sombra escura bateu nele com violência, jogando-o no chão.

– Não!

Bianca se jogou para fora do círculo e caiu, pois já estava meio metro acima do solo. Cinco goblins com marcas de queimaduras atacavam o anjo caído no chão. Bianca correu para ele, mas o anjo gritou:

– Vá embora, Bianca! Não chegue perto deles!

Ela não obedeceu e um sexto goblin a pegou por trás, impedindo-a de chegar no anjo. Bianca virou-se, tentando chutar quem a segurava, mas congelou ao ver a carranca de órbita vazia encarando-a com ar de vitória.

Os goblins seguraram o anjo, imobilizando-o.

– Você... – rosnou o rei sem reinado para o anjo de joelhos no chão. – Você destruiu tudo o que eu tinha! Agora... Eu vou destruir tudo o que você tem!

Ele mostrou a garota para o anjo, que se agitou, mas não conseguiu se soltar dos cinco monstros que o seguravam.

– Não se preocupe, irmãozinho... Você não a verá morrer, porque esse privilégio eu não vou lhe dar. Bem, vamos ver... Por onde começo a destruir aquele que me tirou tudo? Pelo óbvio! ARRANQUEM ESSAS ASAS!!!

Bianca gritou ensandecida, sem conseguir se soltar do monstro. Horrorizada, ela viu Zac se debater enquanto dois goblins o seguravam e os outros três o atacavam com mordidas e garras, arranhando e mutilando suas asas. O anjo gritou de dor e pássaros voaram quando sua asa direita foi covardemente arrancada, esguichando sangue nas feras que gargalhavam com a cena dantesca. Bianca gritava e implorava para pararem, prometeu qualquer coisa, mas o monstro apenas a olhou friamente.

– A época das negociações acabou – respondeu ele friamente.

A segunda asa foi arrancada, e mais sangue jorrou. Os goblins erguiam as asas ensanguentadas como se fossem troféus enquanto o anjo gritava de dor e as lágrimas desciam pelo seu rosto. Os goblins que o seguraram o soltaram, deixando que ele caísse com o rosto no chão. Bianca parou de se debater. Procurou algo que pudesse fazer, qualquer coisa. A única coisa que lhe ocorreu foi o encanto que Eileen lhe ensinara e que ela nunca usou. Engoliu os soluços e gritou o encantamento.

– Ventos dos Ventos, bons ventos que ventam,

Apóiem as asas que voam nessa hora,

Que a praga assole os que me atormentam,

E asas...


Precisava lembrar! Precisava lembrar!

– Arranquem-lhe a língua agora! Esses gritos me incomodam! E depois, depois vamos arrancar os olhos! – gritou o monstro que a segurava.

Ergueram o anjo do chão e puxaram seu rosto, forçando-o a abrir a boca.

– E ASAS EM MEU SOCORRO VENHAM AGORA! – gritou ela.


Os monstros pararam ao ouvir o grito, percebendo que era um encanto. Então, começaram a rir.

– O que você acha que esse encanto de crianças pode fazer, sua garota estúpida? O que você acha que vai acontecer agora? Borboletas e joaninhas virão nos atacar?

Eles gargalharam enquanto o sangue tingia o chão de vermelho. Voltaram a tentar pegar a língua do anjo, quando ouviram um som. Pararam, esperando alguma coisa, mas era apenas um monte de besouros e borboletas, tal como o rei sem reinado tinha previsto. Eles voltaram a rir. Quando iam pegar a língua de Zac de novo, um vulto enorme passou e levou um goblin para longe.

Antes que pudessem compreender o que estava acontecendo, dragões passaram por eles e os agarraram com dentes e garras, arrancando-os do chão e levando-os para o ar, onde eram divididos em duas ou mais partes, dependendo da disposição do dragão. Foi tudo muito rápido. Quatro dos cinco goblins foram levados e destruídos em segundos. O quinto tentou correr, mas logo foi pego também e levado. O anjo, enfraquecido e se esvaindo em sangue, caiu por terra. O rei virou Bianca para si mesmo com o rosto contorcido de ódio e apertou seu pescoço.

– Você! Você nunca mais vai...

E ele não terminou a frase, pois um último dragão passou e o levou, mastigando-o no ar e cuspindo os restos. Bianca caiu no chão com a mão no pescoço, tossindo para recuperar o ar. Então se arrastou rapidamente para onde estava Zac. O belo vestido lavanda manchou-se de vermelho quando ela segurou o rapaz nos braços. Retirou a mochila das costas e pegou a garrafa prateada.

– Calma, Zac! Você vai ficar bom! Nós vamos consertar isso!

Ela derramou uma parte de seu conteúdo em suas costas que sangravam. Onde antes haviam asas, a água prateada-dourada imediatamente lavou o sangue, cicatrizando os ferimentos. Zac se agitou e tentou se virar. Bianca o virou e ele ficou no seu colo. Ela tentou lhe dar a água, mas ele a afastou.

– Não... – disse ele com esforço. – Você precisa disso!

– Não, eu preciso de você! Beba isso! Depois conseguimos mais!

Ele segurou as mãos dela com a garrafa no meio. Naquele momento, já não passavam dragões, besouros ou borboletas. Havia apenas silêncio e algo quase concreto que Bianca pôde sentir.


Há um momento, um momento fugidio e eterno, que dura um segundo e uma vida inteira, em que você finalmente vê a verdade. Nesse momento, você percebe que não há mais nada que possa fazer para mudar o rumo das coisas. O que está feito, está feito e “passo dado não se volta atrás”. Não se pode voltar para a porta anterior, não se pode desfazer, não se pode desdizer, não se pode desaprender, não se pode des-saber... Não se pode... não se pode fazer nada. Algumas pessoas lutam contra esse momento e acabam perdendo a chance de dizer adeus. Bianca viu esse momento. Viu nos olhos dele, viu no sangue a sua volta, viu nas asas partidas, viu no silêncio ensurdecedor que os envolveu naquela tarde de céu azul.


Ele olhou para ela, as lágrimas banhando o rosto. Era um olhar de despedida e naquele momento ela soube que não havia nada a fazer. Suas lágrimas caíram sobre ele.

– Não se engane nem por um minuto... – disse ele com dificuldade, tocando o rosto dela. – Eu faria tudo de novo...

E então, seus olhos azuis perderam o brilho e se cerraram lentamente. Bianca continuou segurando-o, de joelhos num grande círculo vermelho, com asas partidas ao seu redor. Seu choro virou grito e então, lentamente, enquanto ela ainda o abraçava, não conseguiu mais segurá-lo. Seu corpo virou luz e simplesmente partiu, deixando-a sozinha com sua dor, enquanto seu pranto ecoava pela floresta silenciosa.

 

 

Capítulo 29

Perdas irreparáveis


Não sabe quanto tempo ficou ali. Mas ficou até o pranto lhe dar uma chance de respirar de novo. Estava de joelhos no sangue de Zac que a terra tomava para si, paralisada, destroçada, sem rumo. Não se movia, apenas olhava para o vermelho que manchava seu vestido. Então, o vento levou uma foto amassada até ela. A foto pousou na terra carmesim. Lentamente, ela pegou e viu sua família.

Segurou a foto por algum tempo. Então, devagar, se levantou. Pegou a garrafa numa mão e a foto na outra. Pegou a bolsa e não olhou para trás. Entrou no círculo das fadas e partiu.

Não pôde dizer que sentiu seus pés saírem do chão. Não estava mais sentindo nada. Estava fazendo o que tinha que fazer. Zac não podia ter morrido por nada. Iria até o fim. Bebeu o restante do líquido da garrafa enquanto ainda flutuava, pensando no jardim de sua casa do qual sua mãe cuidara tão bem. Quando pisou em terra firme de novo, imaginou onde poderia estar. Olhou em volta e não reconheceu.

Deu alguns passos e tropeçou numa pequena estátua grega de Vênus partida coberta de musgo. Abaixou-se e se lembrou daquela estátua. Tinham comprado numa viagem e ela costumava enfeitar o jardim. Mas só se lembrava dela nova.

O coração se acelerou. Virou-se novamente para o lugar e reconheceu o jardim, agora um terreno cheio de mato, sem nenhum tipo de cuidado. Olhou pra frente e reconheceu sua casa, mas sem pintura e com algumas vidraças quebradas. Caminhou com seu vestido manchado até a entrada dos fundos. Estava aberta.

Entrou e encontrou sua casa em estado lastimável. Estava tão abandonada que se perguntava se era habitada. Olhou-se num espelho quebrado e percebeu que ainda estava jovem. Não virara pó, mas certamente aquele não era o seu tempo. Subiu as escadas, chamando por Cacau, que não fora recebê-la. Entrou em seu quarto, aparentemente intocado desde que partira, embora coberto de poeira. Tudo estava igual, com exceção do mural onde costumava colar fotos de seus ídolos juvenis. Ao invés deles, havia recortes de notícias de jornal, misturados a fotos suas, de sua mãe, de Cacau, de seu tio e da família unida.

Passou os olhos pelas notícias, tentando seguir a ordem pelas datas. Havia a notícia do desaparecimento de Analice em um jornal que ela lera e ela mesma recortara e colara ali. Então, havia notícias do desaparecimento dela mesma. Seguiam-se vários recortes, cada vez menores, falando das buscas. Até que uma notícia mostrava um carro destruído. Dois meses depois que ela desaparecera, houve um acidente de carro. Sua mãe estava dirigindo, seguindo uma pista do paradeiro da filha. Tio Marcos estava no carro. Morreram ambos no local.

Bianca começou a andar para trás, o vestido lilás manchado de sangue a fazendo parecer a personagem de uma história triste, se afastando das notícias que apunhalavam seu coração. Virou-se, sentindo tudo rodar e o ar faltar. Correu pela casa, descendo as escadas, procurando seu pai. Foi até a entrada da casa, onde podia ver a rua silenciosa. Chamou por seu pai, mas ninguém respondeu. No chão, um jornal ainda enrolado num saco plástico não tinha sido recolhido. Pegou-o lentamente e olhou a data. Trinta anos haviam se passado. Voltou para dentro de casa, procurando pelo pai, até que encontrou um velho sentado diante da janela. Caminhou até ele e pousou as mãos em seu braço. O velho tinha os olhos de seu pai. E era só o que ela poderia reconhecer nele. E não era pela idade. Era a tristeza que o envelhecera.

– Pai?

Ele olhou para ela e simplesmente não a reconheceu.

– Minha filha desapareceu... – murmurou ele, voltando a olhar para a janela. – Como a cachorrinha dela no Natal. Nunca achei nenhuma das duas... Mas ela vai voltar... Eu sei que vai...

Ela não controlou as lágrimas e elas vieram abundantes. Beijou a face do pai e voltou para o jardim, no ponto onde tinha chegado. Deixou-se cair, chorando alto. Eram muitas perdas para um coração só. Estava em pedaços, estava destruída. Não restara nada...

Encolheu-se em si mesma e, nesse movimento, algo pendulou. Segurou a garrafinha que Urisk lhe dera. O verde dentro dela continuava fosforescente. Segurou o vidrinho nas mãos e se concentrou. Pensou em sua mãe, em seu pai, em Cacau, em seu tio, na vida com eles que nunca viveu e, principalmente, pensou em Zac.

Então, abriu a diminuta rolha e bebeu todo o conteúdo. Fechou os olhos, esperando algo acontecer. Quando os abriu, nada havia mudado. Com olhos tristes, levantou-se e caminhou para a casa. Só lhe restara cuidar de seu pai. Era o que faria. Ela não viu, mas enquanto entrava em casa, o matagal atrás dela se transformava em um bem cuidado jardim.

Entrou e foi para a cozinha. Precisava de um pouco de água. Abriu a geladeira, pegou a garrafa, bebeu no copo, e devolveu a garrafa para a geladeira. Apoiou-se na bancada da pia por alguns instantes. Precisava que a dor lhe desse um tempo, alguns segundos que fosse, para que voltasse a pensar. Foi quando algo lhe pareceu fora do lugar. Voltou à geladeira.

Havia um bolo lá dentro. Um bolo do qual se lembrava, porque era o bolo gelado trufado que sua mãe costumava fazer. Lembrou que a última vez que o comera foi justamente com Analice.

Ouviu vozes na casa. Seguiu-as com cuidado. Vinha m da sala do piano com porta para o jardim. Conforme ia seguindo os corredores, percebeu que a casa parecia mais nova do que da primeira vez que entrou, lembrando muito mais a casa que conhecera. Escondeu-se atrás da parede e prestou atenção nas vozes. Deu uma espiadinha e voltou rápido, sem acreditar no que via.

– Há alguém presente?

– Não fuja! Não se esqueça de que não podemos deixar o portal aberto, ou seres podem vir aqui e não voltar para o lugar deles!!!

Bianca não acreditava. Estava a alguns metros dela mesma, minutos antes de Analice desaparecer.

Então, era isso? Essa era a segunda chance? E o que faria com ela? Deveria interromper a sessão e impedir o desaparecimento de Analice? Com certeza, tudo se resolveria!


– Como é aí?

– B-O-N-I-T-O.


Sua mente ficou subitamente clara. Lembrou-se de Analice sorrindo, em como ela estava feliz no mundo das fadas. Lembrou-se de Zac, que ela nunca conheceria. Lembrou-se de Eileen, de Danzir, de Ariene, de Sachti... Lembrou-se das pessoas que eles salvaram da Corte Unseelil. Nada daquilo jamais aconteceria.


– Você pode ver o futuro?

– “SIM”.

– Pode nos dizer algumas coisas?

– “TALVEZ”.


Se nada daquilo acontecesse, Zac estaria vivo. Jamais teriam se conhecido, mas ele estaria vivo...

“Não se engane nem por um minuto... Eu faria tudo de novo...”


– Cuidado? Cuidado com o quê?


Então, ela segurou a garrafinha pendurada no pescoço, agora vazia, recostada na parede, e fechou os olhos. As lágrimas voltaram a banhar o rosto. A cada vez que dizia para si mesma “Ele estaria vivo”, ouvia a voz de Zac em suas últimas palavras.


“Não se engane nem por um minuto... Eu faria tudo de novo...”

 

E quando a ventania irrompeu, nada impediu que Analice desaparecesse.

 

 

 

Capítulo 30

A caneta vermelha


Foi uma decisão da qual esperava não se arrepender. Teve a chance de mudar tudo, e percebeu, com certo pânico, que não queria apagar tudo o que acontecera. Por mais dolorosa que tivesse sido a morte de Zac, não quis abrir mão de tê-lo tido em sua vida. Sentiu-se egoísta, mas assumiu seu lado humano e aumentou as apostas. Se estivesse errada, perderia tudo. Por isso, escolheu não impedir que a amiga desaparecesse. Não tinha o direito de impedir Analice de seguir seu caminho.

A partir daquele di a, mudou-se para o porão. Sabia que o porão, que ia ser um estúdio de pintura em alguma época numa dessas obras que não saem do planejamento, nunca era usado por ninguém, tendo se transformado num depósito de móveis velhos e coisas em caixas que ninguém tinha tempo para saber o que era. Também conhecia os horários e sabia quando a casa estaria vazia. Sabia também onde guardavam as chaves reservas e que não sentiriam falta delas tão cedo.

Assim, depois da ventania, saiu por algum tempo, pois sabia que a polícia iria revistar cada canto daquela casa. Pegou a chave reserva e ficou no quintal do vizinho que estava viajando. Sabia pular muros e não foi difícil. O pior foi se livrar de Cacau que tinha que latir o mais alto que podia sempre que via qualquer coisa. Quando a polícia se foi, Bianca usou a chave novamente e foi para o porão. Tomou um banho de madrugada, com todo o cuidado do mundo, e usou algumas roupas velhas que estavam em caixas, esperando uma triagem para se encaminharem para a doação. Pegou um monte de comida na geladeira e então, de cabeça mais fria e banho tomado, sentou-se no sofá velho e traçou seu plano.

Precisava enviar pistas para si mesma, pois sabia que precisaria de ajuda. Então, começou pegando o livro que Ariane lhe dera. Pegou-o nas mãos.

– Meu amigo, você não é uma coincidência, você é um paradoxo!

Envelopou o livro e mandou-o para si mesma. Sabia que precisaria dele. Aproveitou quando não havia ninguém em casa para dar uma olhada em seu quarto e pegar algumas roupas melhores. Levou a pequena mochila consigo e colocou-a em cima da mesa, enquanto procurava algo para vestir. Foi quando achou a mesma mochila dentro do guarda-roupa. Assim que se virou com a mochila nas mãos, algo bizarro aconteceu. As duas mochilas se fundiram em uma só. Bianca abriu e percebeu que o conteúdo era a soma das duas bolsas. Perguntou-se se isso aconteceria também com pessoas...

Durante a semana, foi colocando seu plano em andamento. Pegou dinheiro em sua gaveta, um dinheiro que estava guardando para uma viagem sonhada, e usou-o para encomendar uma música com um grupo de índios que sempre cantava no caminho dela. Contratou um conjunto de mexicanos também, porque sabia que teria que ser insistente. Ambos cantariam Blue Moon, e sabia que isso a levaria ao dia certo. Jogou uma pedra em sua própria janela e pagou o carro da pamonha para dizer que fadas gostam de doces e coisas brilhantes. Infelizmente, o cara perdeu o papel e se limitou a dizer que Fadas gostam de Pamonha. Quanto à Mãe Tetéia, essa tinha sido realmente uma peça do destino, pois ela nunca plantara essa dica.

Por fim, escreveu a mais importante pista. Escreveu que Zac morreria se ficasse lá mais tempo. Explicou com detalhes. Dobrou o papel e colocou dentro do bolso do short que ela sabia que iria pegar. Aquilo seria o suficiente para evitar a tragédia que coroou o fim de sua aventura. Tinha que ser...

Quando havia pessoas na casa, Bianca se limitava a ouvir as vozes... Seu coração estava apertado de saudades. Mas sabia que era preciso ter paciência. Seria apenas uma semana.

E conforme o esperado, no domingo, quando ouviu a porta da cozinha se fechar, Bianca apareceu vinda do porão, dando um susto em Cacau, que ficou muito confusa, olhando ora para a porta, de onde jurara ter visto Bianca acabar de sair, ora para sua dona que surgia no lado oposto, vindo do porão. Ao receber um carinho, Cacau se esqueceu de seu dilema. Com cuidado, Bianca subiu as escadas lentamente. Entrou em seu quarto e deitou-se em sua cama.

Tinha que dar certo. Tinha que dar...


Seu pai e sua mãe não entenderam quando ela desceu correndo as escadas e encontrou com eles na cozinha com os olhos cheios d’água. Abraçou sua mãe e depois seu pai, tentando não chorar.

– O que houve? – perguntou seu pai.

Bianca não respondeu. Preferiu dizer com um gesto de mão que não era nada.

– Marcel chega hoje! Ele vem almoçar com o Marcos – disse sua mãe.

Bianca sentou -se à mesa, dando o biscoito para Cacau, como sempre fizera. Sua mãe colocou um sanduíche de queijo em seu prato. Bianca perguntou se poderia comer outra coisa, e então se levantou e fez um ovo mexido com pão. Naquele domingo, curtiu embriagada a companhia das pessoas que achou ter perdido. E não se arrependeu nem por um minuto. Tinha dado certo.

Seu dia foi perfeito. Tinha certeza que tinha conseguido. Seu plano funcionara! Tinha certeza agora que Zac não morreria. Mandaria-o voltar com ela, ou pediriam escolta das pessoas da cidade. Fariam alguma coisa, dariam um jeito. Entrou na Internet para fazer a última coisa de sua lista. Escreveu um e-mail para Suzane Vega, a cantora que escrevera a canção do soldado e da rainha. E lhe pediu para escrever um final mais feliz.

Em seu quarto, pensava empolgada nas possibilidades. Quando abriu o armário para pegar seus pijamas, porém, viu um papel dobrado no chão. O coração parou por um segundo. Abaixou-se e o pegou. Quando o abriu, sentiu as pernas tremerem e precisou se sentar na cama. As lágrimas subiram e ela chorou dolorosamente,amassando o papel onde escrevera como Zac iria morrer para que ela soubesse como impedir.


Talvez não se possa ter tudo. Talvez a vida seja assim mesmo. Quem tem dinheiro, não tem amor, quem tem amor, não tem amigos, quem tem amigos, não tem dinheiro... Talvez a vida fosse para ser vivida pela metade, porque recebemos tudo pela metade. Talvez a divindade estivesse tentando nos ensinar uma lição, a de que não se pode ter tudo. É uma triste lição para se ensinar e para aprender. E Bianca lutava contra essa ideia. Não acreditava que a divindade quisesse ensinar uma lição assim. Talvez só precisasse esperar e confiar um pouco mais.

Os dias se passavam e começaram a se tornar iguais. A tristeza faz isso. Transforma dias coloridos em um único tom de cinza. Sua mãe tentou conversar com ela, sem sucesso. Seu pai estranhou seu gosto por duas únicas canções que ouvia sem parar. Blue Moon e The Queen and The Soldier. Bianca tentava disfarçar, mas a tristeza estava cada vez mais presente, como se a possuísse aos poucos e por completo, e era cada vez mais difícil fingir que estava tudo bem.

E o pior é que não tinha com quem falar. Como explicar que sentia falta de alguém que viveu com ela algo que ninguém poderia saber, num mundo que ninguém acredita que exista, numa época que ainda não aconteceu?

Depois da tristeza, se tornou amarga. Tentava disfarçar quando estava com a família. Mas tudo perdera a cor e o sabor. A escola tinha gosto de papel. Alguns dias depois, o lugar de Analice foi tomado por um outro aluno novo e Bianca não relutou. Passava seus dias olhando através do quadro, imaginando, lembrando... Sofrendo. Lamentando. Um caderno a ajudava a passar as longas horas de agonia na escola. Nele, desenhava o que vira e vivera num mundo encantado.

Um dia, chegou em casa, arrastando os pés como se tivesse um piano amarrado nela, e ouviu uma música vinda da sala. Passou pelo corredor e recostou-se na parede, vendo seus pais dançando ao som de Por Una Cabeza , de Carlos Gardel, do filme Perfume de Mulher. Não era a primeira vez que via essa cena. Seus pais estavam sempre fazendo algo juntos. Às vezes, liam em silêncio. Às vezes, falavam pelos cotovelos. Às vezes, discutiam. E, às vezes, dançavam à meia-luz. Bianca fitou-os longamente, lembrando tudo o que vivera com aquelas duas pessoas e como ela tinha tido sorte. Viu seu pai, um moreno galante de cabelos negros e brilhantes na altura do pescoço, a barba sempre impecavelmente perfeita, inclinando sedutoramente sua mãe, que tinha os cabelos soltos a quase encostar no chão, num movimento gracioso e confiante.

Algo a deixou triste. Não soube o que, até que se lembrou do que escrevera no papel amarelo e amarrara no balão vermelho. Enquanto Analice pediu para ter o que Bianca tinha, esta pedira para ter o que os pais encontraram: um amor de verdade. Parece que todos conseguiram realizar seu desejo. O que sentia por Zac não parou quando ele deu seu último suspiro. Nada se apagou. Pelo contrário, tudo ganhou mais importância. Então, ela encontrara um amor de verdade, desses que são para vida inteira, quando seu par é também seu cúmplice, parceiro, consorte e comparsa, aquela pessoa que você gostaria de ter ao seu lado em qualquer lugar, em qualquer momento. Ela encontrara. E perdera.

As lágrimas rolaram por seu rosto e ela voltou pelo corredor de onde viera, segurando os soluços. Sentou-se no degrau da entrada da casa e chorou. Alguém pousou suavemente a mão em seu ombro. Virou-se e viu sua mãe com seu sorriso gentil. Ela sentou-se ao seu lado.

– O que houve, Bianca? – perguntou ela com voz suave.

Bianca olhou para o nada, os ombros caídos, cansada de lamentar sua perda e se perguntando se conseguiria algum dia se recuperar.

– Você está gostando de alguém, não está? – perguntou sua mãe.

Bianca olhou para a Lua cheia sobre elas. O céu não se comparava com as milhares de estrelas e cometas do céu do Mundo das Fadas. Parecia opaco e esmaecido. Como ela.

– Ele partiu... – disse finalmente. – Eu nunca terei o que você e o pai têm, porque tive e perdi.

A mãe pareceu pensar um pouco. Bianca achou que ela falaria sobre o quanto ela era jovem, e que tinha a vida toda pela frente, e que a pessoa certa apareceria, blá blá blá. Porém, sua mãe foi numa direção diferente.

– Você acredita em milagres?

– Não mais.

– Entendo... Você sabia que seu pai era um padre?

Bianca olhou-a surpresa. Sabia de piadas que falavam sobre essa vocação para a Igreja de seu pai, mas nunca achou que passassem disso.

– Pois quando eu o conheci, ele era totalmente inacessível, não só por ser padre, mas por um monte de outros fatores. Tudo indicava que jamais poderíamos viver um amor de verdade. E aqui estamos nós. Não pense que não tivemos momentos difíceis, em que acreditamos que ne m um milagre nos salvaria.

Bianca estava surpresa, mas ainda infeliz. Seja lá qual tivesse sido o obstáculo para o amor de seus pais, certamente não envolvia a morte de um deles. Mesmo assim, recostou a cabeça no ombro da mãe e ali se acalentou.

– Querida, confie um pouco mais!... Muitas coisas incríveis acontecem o tempo todo...

Era um domingo e algumas colegas de classe tinham lhe feito um convite para ir ao cinema. Sua mãe insistiu tanto para que ela aceitasse que não quis desapontá-la. Bianca costumava passar muito tempo em seu quarto, ouvindo música e rabiscando. Nunca tivera nenhum talento para desenho, mas, estranhamente, quando voltou, sentiu necessidade de fazer alguma coisa e pegou-se desenhando como nunca o fizera. Tinha um caderno que se tornara seu companheiro, onde registrava coisas que tinha medo de esquecer, pessoas, rostos, sorrisos, dragões, amigos que pareciam viver agora apenas dentro de suas lembranças. Por mais que doesse, não queria esquecer.

“Muitas coisas incríveis acontecem o tempo todo...”

Lembrou-se das palavras de sua mãe e parou um pouco o desenho. Folheou o caderno e viu todas as coisas incríveis que vivera. Ela tinha razão. Coisas incríveis acontecem o tempo todo e ela era a última pessoa a ir contra aquela máxima. Lembrou que Zac foi salvo da horda dos goblins, antes de virar um anjo, por causa de uma oração. Talvez funcionasse de novo. Foi até a janela aberta onde uma brisa fresca balançava as cortinas finas de quarto de menina e fechou os olhos. Então, conversou com Deus, com a Deusa, com o Universo, com a Força Superior que sabia existir e tinha aqueles estranhos caminhos e planos que ela não compreendia.

Algumas pessoas podem não concordar que aquilo foi uma oração. Não tinha palavras mágicas, nem nada retirado de um livro. Foram palavras banhadas em lágrimas e repletas de sentimento. Em alguns pontos, um pouco de cobrança e frustração. Falou com Rafael e lhe disse que ele estava lhe devendo essa, porque nunca sequer apareceu para tentar ajudar. Quando abriu os olhos, sentia-se melhor, mas nada lhe pareceu diferente.

Sua mãe bateu na porta levemente e entrou, avisando que iria se atrasar para o cinema e seu pai lhe daria uma carona. Arrumou-se sem vontade e colocou o caderno, o lápis e a borracha, seus fiéis companheiros, dentro da bolsa. No carro, seu pai puxou conversa.

– Pensei em sairmos amanhã, o que acha?

– Não tem trabalho? – perguntou ela, sem muito interesse.

– É feriado, desligada... Pensei em fazermos um piquenique na Floresta da Tijuca. Dessa vez, seu tio Marcel disse que também iria.

Bianca não respondeu. Ao invés disso, olhou pela janela, onde pessoas passeavam com seus cachorros e crianças brincavam numa praça.

– E então?

– Então o quê?

– Vem conosco amanhã?

– Vou.

Seu pai deu um suspiro quando o sinal ficou vermelho e eles esperavam. Um menino de uns seis anos atravessava a rua e olhou para Bianca. Deu-lhe um grande sorriso e lhe mostrou o brinquedo que carregava orgulhoso, um dragão púrpura e violeta. Bianca o acompanhou até que o sinal abrisse e ela o perdesse de vista.

Pouco depois, seu pai estacionava para deixá-la na frente do shopping.

– Me avise que eu venho de buscar.

– OK.

Ela já ia sair quando ele a puxou pelo braço levemente. Ela esperou que ele falasse, mas as palavras pareciam ter fugido.

– Eu queria poder ajudar – disse por fim. – Ver você triste me parte o coração e eu queria poder ajudar. Mas, meu anjo, não faço a menor ideia de como. Então, se você puder ajudar seu velho pai e dizer o que eu posso fazer, por favor, diga.

Bianca sorriu gentilmente, grata pela atenção que nem sempre percebia que recebia. Então se inclinou e abraçou o pai, dando-lhe um beijo carinhoso no rosto.

– Eu aviso.

E saiu do carro. Acenou para ele enquanto partia. Parou na frente das grandes portas de vidro onde pessoas entravam e saíam, falando sem ouvir, comprando sem precisar, mas parecendo infinitamente mais felizes do que ela. Não sentiu vontade de entrar. Então, simplesmente virou-se e andou na outra direção. Ligou para as amigas – na verdade, colegas que se comoveram com sua tristeza e tentavam introduzi-la sem muito sucesso ao grupo – e avisou que não iria. Não queria que elas ligassem para sua casa e preocupassem todo mundo. Caminhou calmamente, sem rumo, até que parou numa encruzilhada. Olhou para todas as opções e não sabia para onde ir.

Foi quando uma pena branca flutuou diante dela. Provavelmente de algum pombo, mas para Bianca era um pouco mais do que isso. A pena se ergueu novamente e dançou com o vento na direção da praça. Bianca a seguiu, atravessando as ruas com cuidado, até chegar na mesma pracinha que vira antes. Um cachorro grande, um collie, pulou nela para lhe fazer festinha, como se já a conhecesse. Ela o acariciou e o dono o chamou, pedindo desculpas caso ela tenha se assustado.

– Quem se assusta com um co llie?... – murmurou Bianca, vendo-os se afastarem.

Perdera a pena de vista. Caminhou pela praça, vendo amorosamente as enormes árvores e as crianças nos brinquedos. Achou um banco vazio e sentou-se. Amigos de idade jogavam damas. Um casal de velhinhos passeava de mãos dadas. Uma criança perdera o balão vermelho que subira aos céus. Pegou o caderno onde os desenhos lhe faziam companhia.

Começou a rabiscar. Nuvens, olhos, asas, castelos... Uma pena branca flutuou novamente diante de seu nariz, e dessa vez pousou graciosamente em cima do caderno. Bianca parou. Pegou a pena e sentiu tanta saudade que achou que ia gritar. Mas não gritou. Simplesmente, ficou ali parada. Por vezes, pensava se estava louca. Se tinha inventado tudo aquilo, se tinha sonhado e agora achava que o sonho era a realidade. Então, abria o baú no porão e olhava para o vestido lilás, agora lavado, com o qual dançara com ele. Levou horas para retirar as manchas de sangue, e pode-se dizer que o lavou com lágrimas, pois queria lembrar dele apenas na dança, não na morte. Também via a foto quase destruída que a acompanhou por toda a viagem. Era só o que tinha, mas era o bastante para lembrá-la que não estava louca.

Só estava triste...

– Com licença, posso me sentar aqui?

– Bianca concordou com a cabeça sem olhar. Continuou olhando para a pena em sua mão. O som de crianças a fez olhar além da pena. Viu meninas brincando e os pombos brigando por algumas pipocas d a carrocinha próxima. Uma das crianças no carrossel lhe chamou a atenção. Levantou a cabeça e tentou ver melhor. Jurou ter visto Eileen e seus cabelos dourados. Mas quando olhou melhor, era apenas uma criança.

Algo caiu aos seus pés e ela se inclinou por instinto para pegar. Ao mesmo tempo, a pessoa que sentara ao seu lado fez o mesmo e ambos acabaram pegando ao mesmo tempo uma caneta vermelha. Enquanto fez isso, soltou sem querer a pena que voou para longe

– Obrigado! – disse a pessoa ao seu lado.

Bianca ainda estava olhando para a pena, lamentando tê-la soltado.

– Arrependida? – perguntou novamente seu companheiro de banco de praça.

Bianca não conseguiu responder. O coração parou por um momento e então ela finalmente olhou para quem estava ao seu lado. O rapaz apontou para o caderno.

– Arrependida de ter vindo para cá buscar inspiração? – explicou-se ele. – Você não está desenhando...

Ela lhe entregou a caneta vermelha, sem conseguir deixar de olhar. Era ele. Tinha certeza. Os mesmos olhos, o mesmo cabelo, o mesmo sorriso. No entanto, ele olhava para ela como se a estivesse vendo pela primeira vez. Tinha uma camiseta vermelha e um blusão aberto leve por cima e tinha um livro nas mãos.

– O que você desenha? – perguntou ele, percebendo que a moça continuava o encarando.

– Hum?

O rapaz apontou para o caderno.

– Só rabisco... – respondeu ela.

– Posso ver?

Ela entregou, esquecendo que no caderno também tinha desenhos de Zac. Será que ele lembrava? Será que ele se reconheceria? E se ele fosse só um rapaz normal e não um anjo e achasse que ela era uma “personal stalker”?

Ele olhou tudo com atenção e não pareceu notar que alguns desenhos realmente se pareciam com ele.

– Você acredita nessas coisas? – perguntou ele. – Fadas, duendes, anjos?

– Coisas incríveis acontecem o tempo todo – respondeu ela, sem deixar de olhá-lo, desejando que ele a reconhecesse.

Ele lhe entregou o caderno.

– Você desenha bem. Tem muita imaginação.

E voltou a sua leitura. A moça continuou encarando, começando a deixá-lo desconfortável. Bianca percebeu e desviou o olhar. Olhou seus desenhos. Então sorriu, fechando-o. Voltou a olhar para o rapaz lendo ao seu lado.

– Eu nunca o vi por aqui...

– Na verdade, acabei de chegar na cidade, ainda não conheço nada, então estou meio perdido...

Ele se virou para ela com um sorriso.

– Não me entenda mal, mas você poderia ser minha guia? Eu realmente não conheço nada por aqui!

Ela abriu um grande sorriso.

– Eu adoraria!...

Ele lhe estendeu a mão num cumprimento.

– Prazer, meu nome é Zacarias.

– Zacarias?

– É, eu sei, Os Trapalhões, a peruca, a risadinha... rende muita piada... A escola foi um inferno...

– Eu sou Bianca.

Eles sorriram e ele pareceu reconhecer algo nela que não conseguia identificar.

– Nós já nos vimos antes? – perguntou ele, genuinamente intrigado.

– Quem sabe? – respondeu ela com um sorriso. – É um mundo pequeno... Pequeno e cheio de coisas incríveis!

Ele sorriu e fechou o livro. Ela o convidou para comer alguma coisa e ele aceitou. Levantaram-se e caminharam sob os fachos de luz que atravessavam as copas das árvores naquela tarde tranquila.

– O que você gostaria de comer? – perguntou ela.

– Sei lá... Você gosta de sanduíche de queijo? – perguntou ele.

– Gosto – respondeu ela, sorrindo. – Mas prefiro bolinhos!

 


FIM

 

 

 

Algumas palavrinhas


Cada livro é uma aventura, para quem lê e para quem escreve. Se essa aventura tiver tirado seus pés do chão, terá cumprido sua missão. Antes de você se despedir do mundo de Lua das Fadas, no entanto, gostaria de lhe contar algumas coisinhas.

Toda história tem seus bastidores. Nem sempre, o leitor se interessa por saber como aquela história foi criada, qual o processo de criação do autor e tudo o mais, mas essa história tem algo peculiar que acho que você gostará de saber, especialmente se for curioso.

Em primeiro lugar, devo destruir suas ilusões de que essa história foi um longo trabalho de pesquisa árdua. Não, não foi. Tudo começou, com uma encomenda. A editora me pediu um livro de fantasia, algo com anjos, ou fadas, ou vampiros, ou lobisomens, ou outros mundos... Eu tinha acabado de escrever Uma Guerra de Luz e Sombras, um livro de terror e violência, e estava escrevendo Lua Carmesim, o segundo volume de Alcateia. Assim, nenhuma ideia conseguia penetrar minha cabeça que não estivesse relacionada com esses dois livros. Algumas semanas depois do pedido, ainda empacada, tive uma noite de insônia. Pessoas têm insônia o tempo todo. Mas não eu. Durmo de qualquer jeito, até em pé. Já dormi empurrando um carrinho de compras e bati na parede, fazendo o segurança rir num mercado onde eu trabalhava. Então, insônia não é uma coisa comum para mim. Mas durante essa noite de insônia, recebi uma história. Vozes me contavam uma história, com personagens e situações. No dia seguinte, comecei a escrever e ela fluiu imediatamente.

Sete dias depois, tive outra insônia. Dessa vez, não lutei contra ela, pois sabia que viriam mais coisas. E vieram! Dessa vez, foram imagens, seq uências completas com diálogos. No dia seguinte, sem um pingo de cansaço pela noite insone, escrevi quatro páginas de tudo o que vi. Assim, em apenas três semanas, Lua das Fadas estava pronto.

Ou quase. Percebi, depois de escrever a palavra FIM, que o livro estava menor do que deveria, dado o número de páginas combinado. Me desesperei, pois não sabia o que ia escrever. Falando com meu pai por telefone, choraminguei que o livro estava menor do que deveria.

– Sumiram páginas antes do “FIM”?

– Não! – respondi. – A história precisa ser maior. Eu preciso escrever mais.

– Sobre o que é a história? – perguntou meu pai, tentando ajudar.

– Sobre o mundo das fadas.

– Por que você não escreve a história do Roberto Carlos?

– ??!... O quê?!

– Escreve a história do Roberto Carlos!

– Acho que não vai dar, pai...

– É, né?... Essa gente cobra muito!...

– É... É por isso... – respondi, conformada.

– Mas daqui a 30 anos você já pode escrever a história dele que é domínio público!


Pois é. Depois de 15 anos fazendo a mesma coisa, ainda tenho certeza de que meus familiares jamais entenderão o que diabos eu faço. Mas fica a boa vontade de tentar ajudar. O mundo do escritor é muito solitário. Ficamos às voltas com nossas Vozes, nossos personagens que têm vida própria e decidem o que farão ou não, e quando nos deparamos com uma encruzilhada, precisamos de uma peninha flutuando para nos guiar e mostrar o caminho. Felizmente, as penas sempre aparecem quando estamos dispostos a olhar. Naquela mesma noite, vi uma sequência curta envolvendo o anjo Zac. No dia seguinte, comecei a escrever aquela cena, o que daria um simples parágrafo. Surpreendi-me em ver que a linguagem estava diferente, embora não tivesse havido pausa entre o último capítulo e aquele. Para minha surpresa, a pequena cena se transformou num texto interessante com personagens ricos que simplesmente surgiam. Ao fim desse texto, uma história a parte, escrevi pela segunda vez a palavra FIM.

Durante esse período, pesquisei livros sobre o mundo das fadas, usei meu conhecimento de anos sobre lendas e histórias, sonhei com fadas em mais cores do que posso contar. Ao mesmo tempo em que escrevia esse livro, também traduzia o livro Magia Prática, de Franz Bardon, um dos maiores magos de nosso tempo. Ou seja, ao mesmo tempo, eu escrevia uma história que parecia ter sido soprada diretamente do mundo das fadas e traduzia um livro que falava sobre como acessar os reinos elementais e travar contato com ondinas, gnomos, silfos, fadas e salamandras. Assim, apesar de ter sido uma história escrita em poucas semanas, ela possui conteúdo real. Todas as criaturas aqui descritas existem e todas as histórias aconteceram. São lendas, verdades esquecidas, que enriquecem nosso pobre mundo de shoppings e cartões de crédito. A história do Homem que Caía, no capítulo 15, foi inspirada em uma lenda do interior da Bahia, de uma casa assombrada onde algo similar aconteceu, segundo contam minha mãe e minha madrinha, Tia Conceição. As demais histórias são lendas celtas, irlandesas e escocesas. Por isso, apesar de adorar o crédito de ter toda essa imaginação, nem tudo aqui (talvez, quase nada) é mérito meu, mas sopros de terras distantes para que alguém conte histórias que não merecem ser esquecidas.

No final, acho que as Vozes que atuaram aqui só queriam que nos lembrássemos de que existem mais coisas entre o céu e a terra do que nos dá nosso fatídico dia a dia, e que podemos abrir asas e voar, se estivermos dispostos a olhar um pouquinho além das fronteiras ilusórias que nos limitam.

Deixo você com minha gratidão por ter estado comigo e ter visitado meu mundo. A seguir, você acompanha o texto final do qual falei aqui. Se você gostou e quiser continuar visitando este mundo, pode fazer isso pelo blog do livro, onde você encontrará com riqueza muitos detalhes e informações sobre a obra, como as músicas que inspiraram as cenas, as curiosidades, os filmes citados e o que pintar na minha cabeça maluca. O blog é:

luadasfadasolivro.blogspot.com


E você encontra os links nos sites alcateia.com, eddievanfeu.com e omundodeeddie.com.

Um bater de asas pra você, iluminadas, doces e com cheiro de maçã!


Eddie Van Feu

 

 

 

Quando um anjo ganha asas


E le era chamado apenas de Z. Quando os anjos o resgataram do Mundo Encantado a pedido de um humano, era uma criaturinha feia e combalida que só zumbia. Rafael, o arcanjo responsável pelos elementais do ar, o observou longamente, enquanto Thomas, o anjo que o resgatara, aguardava um parecer.

– Coloque-o para trabalhar – disse enfim, Rafael. – Vamos ver no que dá.

E assim foi feito. Z começou a trabalhar. O ato de trabalhar não era algo a que estava acostumado, mas qualquer coisa era melhor do que voltar para o inferno de onde saíra. Além do mais, não podia deixar de se sentir muito bem entre os anjos e toda aquela luz. No começo, ele era um leva e traz. Era encarregado de levar pedidos dos humanos até o anjo responsável por aquele setor. Para isso, ganhou outra forma. Deixou de ser um goblin para se tornar um ser etéreo. Isso facilitava seu trabalho de ir e vir e de atravessar dimensões. Podia andar nos ventos, nas brisas, nas nuvens, e levar os pedidos. Depois de quarenta anos nessa função, a qual cumpriu com mérito, foi promovido. A partir daquele momento, trabalharia diretamente com os humanos, não apenas levando seus pedidos, mas trazendo os resultados.

Z ficou muito empolgado. Já não zumbia desde que perdera sua antiga forma, mas o apelido acabou ficando. Ele preferiu assim, pois seu antigo nome era algo que ele gostaria de esquecer para sempre, assim como sua antiga vida. A alegria do novo serviço não era por uma questão de status, mas por outro motivo. Z adorava o mundo dos homens. Gostava de ver e ouvir as incríveis criações humanas e descobrir que poderia agora fazer parte disso o fez saltar de felicidade.

Assim, Z era encarregado de um humano e, ouvindo seu problema ou questão, levava ao anjo responsável. Este lhe dizia qual a melhor solução. Z então voltava para perto do humano e tentava lhe soprar os melhores caminhos para que ele conseguisse o que desejava. Infelizmente, poucos humanos eram tão intuitivos ou autoconfiantes para receber uma informação dessa maneira e segui-la. Se essa primeira abordagem falhasse, Z então tecia uma teia de acontecimentos e coincidências para tentar passar as pistas, o que exigia uma grande dose de criatividade e imaginação.

Depois de 60 anos de Z nessa função, Thomas se reuniu novamente com Rafael, dizendo-lhe que gostaria de levar o nome de Z para o Conselho. Rafael pensou por um minuto e anuiu com a cabeça, mas lembrou-lhe de que encontraria dificuldades. Z ainda tinha muitas falhas para dar um próximo passo tão cedo. Ainda mais um passo tão grande.

 

 

Thomas


Thomas aceitou o desafio. Era um anjo paciente e amoroso. Você pode achar que essa é a descrição de todos os anjos, mas eles são tão diferentes entre si quanto nós, humanos, uns dos outros. Acreditar que todos os anjos são iguais é como pensar que todo brasileiro sabe sambar, todo italiano gosta de macarrão e todo japonês se veste de samurai. Thomas tinha os cabelos castanhos na altura do pescoço e um olhar sempre tranquilo. Mesmo os anjos mais estressados sempre se sentiam melhor quando conversavam com Thomas. Sua estrada era longa, mas com alguns percalços. Ele sabia que isso seria levado em conta quando se encontrasse com o Conselho. Então, deixou o grande templo celeste, onde milhares de anjos trabalhavam dia e noite sem parar, para pensar um pouco.

Deixou Charlie, um anjo novato, mas muito responsável, em seu lugar e se ausentou por algumas horas. Abriu suas enormes asas prateadas e subiu. Thomas era um anjo com asas. Pode parecer loucura pra você, mas muitos anjos ainda não possuem asas. Ganhar asas é um grande passo, uma prova de que o ser alcançou grande valor. Mas não ter asas não fazia tanta diferença assim quanto nós poderíamos pensar aqui embaixo. Afinal, com asas ou sem asas, todos no Grande Templo podiam voar quando bem entendessem. Mas Thomas já era anjo há muito, muito tempo e já tinha ganho suas grandes asas há eras. Com elas, ergueu-se acima do tempo, acima do céu, no meio do Universo, entre buracos negros e supernovas. E então, o anjo meditou.

Z fizera muitas coisas ruins no mundo das fadas. Muitas mesmo! A criaturinha tinha sido uma peste. Destruíra fadas, torturara humanos, roubara e causara muito estrago, tanto em seu próprio mundo quanto no mundo dos homens. É muito difícil imaginar que uma criatura dessas seja algo mais do que um monstro. É preciso ter visão. E visão era uma coisa que Thomas tinha. Ele viu que Z, antes de ser um goblin, era uma centelha divina. Uma centelha que se apagou por muito tempo e reacendeu quando ele decidiu ajudar o humano capturado, Nate. Aquela centelha que todos possuíam permitiu que ele fosse resgatado. De outra forma, o anjo nem mesmo o encontraria, pois a centelha age também como um farol. Por isso às vezes é tão difícil resgatar certas criaturas ou pessoas. Não é por falta de vontade dos anjos. Apenas é muito difícil para eles encontrar algo sem luz em escuridão tão profunda.

E fora por pouco que Thomas chegara até ele. Antes de Thomas chegar até Z, era preciso que o pedido de Nate chegasse até Thomas. E tínhamos aí um longo caminho burocrático e, por causa dele, a petição quase não chegou às mãos de Thomas. Das milhares de orações recebidas por hora no departamento mais movimentado do Grande Templo, esta não pareceu importante para Marziel. Mas não acuse Marziel cedo demais. Compreenda que, em certas épocas, há mais pedidos de ajuda do que anjos para atender, mesmo havendo milhares de milhares deles. A prioridade dos anjos era os humanos e isso sempre ficou claro. Então, assim que um atarefado e sobrecarregado Marziel recebeu um pedido humano para ajudar um elemental, ainda mais um goblin, criaturas desprezíveis e muito burras para entender o quanto atrasam sua própria existência, colocou o pedido na seção de “rejeitados”.

Nesse tempo, os pedidos chegavam em várias formas. Pedidos feitos por magia chegavam por imagens e os anjos responsáveis por isso tinham instrumentos especiais para decifrá-las, podendo interagir com o humano em questão. Esse era um dos departamentos mais invejados no Grande Templo. Você pode imaginar que anjos não sentem inveja ou ciúme e são feitos apenas de virtudes. Os mais evoluídos são assim, mas, como disse, há milhares e milhares de anjos no universo e muitos deles ainda são muito jovens e carecem de certas lições que terminarão por polir seu caráter. A diferença entre nós e eles é que eles, os anjos, possuem uma boa vontade muito maior do que a nossa para esse polimento. O fato é que Marziel não fazia parte desse setor admirável com equipamentos modernos e recursos que ele não tinha. O que ele tinha eram papéis. Papéis com orações que não paravam de chegar. E ele, como os outros de seu setor, não tinha autonomia para ir lá e resolver, mesmo o caso mais simples. Ele precisava selecionar, separar, catalogar e levar cada lote para um anjo mais elevado. E isso deixa qualquer anjo estressado.

Felizmente para Z, o Universo é um grande conspirador, seja no mundo dos homens, das fadas ou dos anjos. Syl, uma elemental que ajudava os anjos na organização do setor de Marziel, passou por sua mesa e levou a caixa com os rejeitados. Syl era uma fada muito aplicada, de cabelos castanhos e curtinhos cortados à la chanel. Syl também gostava do mundo dos homens e sempre estava espiando por lá, usando roupas e penteados de acordo com a moda. Syl, no entanto, tinha o sonho de ser mais do que uma fada e um dia trabalhar mais diretamente com os humanos. Então, depois que terminava seu serviço, ela ia para o jardim, num recanto de flores coloridas onde ninguém a encontrava. Ali, ela revia todos os pedidos negados. Então, por conta própria, tentava ajudar os casos mais simples, sem que ninguém soubesse.

Quando pegou a petição de Nate sobre o goblin que o ajudara a fugir da Corte Unseelil, Syl gelou. Ela mesma conhecera a Corte Unseelil e compreendeu melhor que Marziel os extremos daquele pedido. Em primeiro lugar, nenhum goblin da Corte Unseelil ajudaria um humano capturado. Em segundo lugar, nenhum humano que tivesse passado pelas atrocidades que a Corte Unseelil impinge aos seus prisioneiros pediria por qualquer um deles. Em terceiro lugar, ninguém conseguiria resgatar esse pobre goblin, a não ser um anjo de alto escalão.

Syl pensou longamente sobre o pedido de Nate. Até que, enfim, tomou uma decisão.

 

 

O Pedido Negado


Marziel pegou sua pilha de pedidos urgentes e se apressou. Os cabelos loiros curtos não condiziam com os longos cabelos dos anjos que aparecem nos quadros, mas entenda que Marziel era um anjo que trabalhava como um louco e cabelos longos exigem trabalho e paciência. Trabalho ele já tinha demais e paciência tinha cada vez menos. Então, seus cabelos eram bem curtos, mas ele era belo como qualquer anjo, pois anjos são belíssimos, não importava como escolhessem se apresentar.

Ele correu e chegou na sala de reuniões onde Thomas, Farel e Jonas, três dos anjos superiores a quem prestava contas, já analisavam os pedidos de outros quatro anjos. Marziel detestava chegar atrasado e entrou já pedindo desculpas, mas nem foi ouvido, porque Jonas estava cobrando um pouco mais de eficiência de um dos anjos que lhe apresentava a pasta de pedidos urgentes.

– André, desde quando ganhar na Loteria é um caso de urgência?

– Mas esta mulher está prestes a ser despejada e tem seis filhos pequenos – defendeu-se Jonas. – Ela não tem emprego e os parentes não a querem. Se não conseguir dinheiro logo, irá parar na rua.

Jonas tinha os cabelos loiros encaracolados e parecia um surfista, mas era justamente um dos anjos mais exigentes com os quais Marziel já tinha trabalhado. Jonas olhou diretamente para André.

– Você não acha então que ela poderia ter pedido por um trabalho, ou por alguém que pudesse ajudá-la, por compaixão e misericórdia, ou por inteligência para enxergar um caminho? – Jonas voltou a olhar a petição, colocando o óculos do qual não precisava, mas que gostava de usar quando estava em reunião. Talvez porque lhe tirasse um pouco do ar de surfista.

– Pelo que vejo aqui, essa mulher é saudável, tem duas pernas, dois braços e uma cabeça perfeitamente funcionais. Por que ela não está fazendo alguma coisa? Lamento, André, mas a Loteria nunca foi uma urgência e raramente resolve o problema de alguém. Preste mais atenção da próxima vez! Metade dos seus pedidos urgentes são choramingos de humanos mimados e preguiçosos!

André recolheu a pasta que Jonas lhe entregou e aguardou de cabeça baixa.

– Próximo! – gritou Jonas.

Marziel entregou-lhe sua pasta confiante de ter feito um bom trabalho. Marziel se orgulhava de sempre ter tido um bom nível de discernimento.

– Resgatar um elemental de um bando de goblins baderneiros??! – Jonas jogou o papel em cima da mesa irritado. – Vocês estão brincando comigo?

Thomas riu, pois sempre se divertia com o jeito de Jonas. Marziel lembrou imediatamente do caso – afinal, era inusitado – e lembrou perfeitamente que o tinha banido para a pilha de rejeitados.

– Deve ter havido um engano! – defendeu-se. – Eu jamais aceitaria um pedido como esse! Eu o coloquei na pilha de rejeitados, tenho certeza!

– E como ele veio parar na minha mão? – perguntou Jonas.

– Eu não sei! Mas não fui eu!

Thomas observou que uma fadinha de cabelos curtos espiava a discussão atrás da porta. Isso despertou sua curiosidade.

– Posso dar uma olhada nisso? – perguntou Thomas.

– Pode olhar o quanto quiser, contanto que tire da minha frente.

Jonas entregou o papel para Thomas que começou a ler com atenção. Os outros pedidos aprovados por Marziel eram bastante aceitáveis, o que acalmou o anjo mais exigente da mesa. Farel passou a acompanhar os pedidos analisados e pré-aprovados juntamente com Jonas, onde discutiram quais eram as urgências. Aqueles pedidos chegavam estritamente em forma de oração. Havia um outro setor para pedidos desesperados, aqueles que não se caracterizam exatamente por uma oração, mas por um pedido de socorro, algo como um “AAAAHHHHH!” de alguém caindo de uma ribanceira. Outro setor cuidava dos pedidos eclesiásticos, orações e petições feitas por membros das mais diversas organizações religiosas. E aquele setor que já citamos e do qual muitos anjos gostariam de fazer parte atendiam os pedidos feitos através da magia.

Enquanto discutiam o caso de uma garotinha doente que pedia pela sua cura, Thomas de repente falou.

– Esse caso é urgente!

Farel e Jonas concordaram.

– Essa menininha precisa urgentemente de mais saúde! Vamos ajudá-la!

– Não, não esse caso! – ratificou Thomas. – Esse aqui!

E mostrou o papel com o pedido de Nate para resgatarem o goblin. Todo mundo ficou em silêncio olhando para o anjo, na dúvida se ele falava sério ou se era mais uma de suas brincadeiras.

– Está brincando, não? – perguntou finalmente Jonas.

– Não, não estou! Esse goblin precisa de ajuda urgente, ele não vai durar muito nas mãos da Corte Unseelil. Precisamos ajudá-lo!

Jonas olhou para Thomas por vários segundos e então dispensou todos os outros anjos, agradecendo pelo trabalho. Marziel saiu muito confuso daquele papel ter ido parar ali. Passou por Syl, mas não a viu, pois a fada era esperta e sabia se disfarçar. Então, ela continuou ali para ouvir a decisão dos anjos sobre o destino do goblin.

– Thomas... – disse Farel. – Não é como se não tivéssemos problemas o suficiente aqui... Por que quer se meter nesse novelo?

– Porque não deveríamos escolher os problemas pela facilidade, Farel – respondeu o anjo.

– Exatamente, Thomas – interveio Jonas. – Devemos escolher os pedidos baseados em fatores como urgência, relevância e merecimento. Vai me dizer que este goblin tem mais urgência, relevância e merecimento que todas essas pessoas mencionadas nessas centenas de pedidos?

Thomas se inclinou sobre a mesa.

– Esse goblin fez algo muito raro e muito especial! Sua ação foi de compaixão, misericórdia e generosidade. Ele salvou o humano e garantiu a subsistência de sua família.

– Por remorso, Thomas! – retrucou Jonas.

– Essas criaturas só se arrependem de serem pegas! Há algo mais aqui. O humano que fez o pedido é um exemplo de honestidade e bondade. Se não querem ajudar o goblin por que ele é um monstro, levem em consideração o pedido do humano.

– Eu não sei, Thomas... – Farel estava hesitante. – Goblins raramente conseguem se emendar. Se o resgatarmos, o que faremos depois? Vamos devolvê-lo ao Mundo Feérico e em pouco tempo ele se tornará a mesma peste de antes. Talvez até pior!

Thomas ficou em silêncio, pensando um pouco. Farel não deixava de ter razão. Quando Jonas achou que o assunto estava encerrado, sua voz foi ouvida novamente.

– E se não o devolvermos pra lá? – sugeriu Thomas.

– Como assim? – perguntou Farel.

– E se o trouxéssemos para cá, para trabalhar conosco?

– Ficou louco? Um goblin da Corte Unseelil, aqui?

Thomas continuava olhando firmemente os colegas. E então tomou a iniciativa. Selou com seu símbolo o pedido e colocou o papel diante dos outros dois. Farel então pegou e colocou seu selo. Jonas deu um suspiro irritado e resmungou algo sobre como aquele goblin dos infernos ainda ia dar o maior trabalho pra eles e como ele ia dizer pra todo mundo que a culpa era dele. E então, o pedido de Nate para uma coisa absurda recebeu o terceiro selo necessário para mover as engrenagens cósmicas.

 

 

Política


Quando os anjos saíram, Thomas tinha agora o trabalho de mover certas peças para tirar o goblin do Reino Encantado. Há uma ordem no universo e certas ações não são permitidas. Anjos não podem simplesmente invadir outros reinos e levar seus habitantes. Não sem falar com seus regentes antes. Assim, Thomas teria que falar com Rafael e Paralda e usar com eles seu poder de persuasão. Quando deixou a sala, parou perto da fadinha que disfarçava sua presença fingindo cuidar de uma planta. Percebendo o anjo parado ao lado dela, Syl olhou pra ele se encolhendo, percebendo ter sido descoberta. Syl tinha o tamanho de uma humana baixinha. Parecia uma adolescente magrinha e delicada, com asas transparentes furta-cor.

– Você fez isso, não foi? – perguntou o anjo, com um sorriso.

A fada abaixou a cabeça e assumiu a culpa com um movimento tímido.

– Por quê? – perguntou o anjo.

Syl ficou confusa. Então pensou um pouco.

– Porque boas ações merecem ser recompensadas – respondeu ela.

– Mesmo quando feitas por criaturas más? – tornou o anjo.

A fada pensou.

– Somos a natureza de nossas ações. Somos o que fazemos. Quando fazemos algo mau, somos maus naquele momento. Quando fazemos algo bom, somos bons, ao menos naquele momento. O goblin fez uma coisa boa.

Thomas anuiu com a cabeça e despediu-se da fada gentilmente. Caminhou pelos corredores iluminados e cercados por paredes de vidro que deixavam à vista enormes jardins que cercavam o Grande Templo. Estava satisfeito com sua nova missão. Sentia que uma grande história nasceria dali.

 


O Conselho


Depois de uma complicada manobra política que envolveu troca de favores entre Rafael e a Rainha Paralda, Thomas finalmente teve permissão para resgatar a pobre criatura atormentada. E assim o fez. Levou-o e o goblin trabalhou com ele como um obediente elemental durante 100 anos. Agora, Thomas queria elevar o nível do desafio. Assim, depois de meditar longamente nos confins do universo – e isso não é uma metáfora, – ele voltou preparado para enfrentar o Conselho.

O Conselho era formado por arcanjos de alta patente encarregados de grandes decisões. A eles que eram levados os casos envolvendo governantes, presidentes, reis, rainhas, avatares, inventores importantes e todas as pessoas que eram capazes de mudar o mundo. O caso de Thomas não tinha a ver com mudar o mundo, começar guerras ou inventar o foguete, mas envolvia uma quebra de protocolo que fatalmente teria que passar pelos arcanjos. Então, munido de sua confiança de fazer o que achava certo, o anjo visionário entrou e apresentou seu caso.

Uma tela flutuava diante da grande mesa de cristal branco onde os arcanjos estavam. Nessa tela, podiam ver em três dimensões os fatos narrados por Thomas. Assim, viram a vida de destruição do goblin, seu ato de bondade, sua dor e, finalmente, sua vida junto aos anjos, como um elemental obediente.

– Por que acha que ele será um bom anjo, Thomas? – perguntou Uriel. – Obediência não é o bastante para fazer o nosso trabalho.

– Ele não é só obediente, Uriel. É também bastante corajoso e focado na realização de uma missão.

– Não me oponho a princípio – disse Raziel, – mas não acha que é cedo demais?

Thomas se inclinou sobre a mesa cristalina.

– O mundo está mais rápido, irmãos. Somos poucos, precisamos de mais anjos. Em toda parte.

Os arcanjos se entreolharam. Thomas tinha razão. Era hora de acelerar a Roda para acertar o ritmo. Então, votaram. Infelizmente, não houve unanimidade. Dos nove arcanjos na mesa, quatro votaram que o elemental deveria continuar como estava e quatro votaram que ele deveria ser promovido a um anjo. Um anjo não votou. E era nas mãos deles que repousava o destino de Z.

Todos olharam para Uriel, que pensava sobre o assunto. Então, finalmente, ele tomou sua decisão.

– Eu proponho o seguinte... – disse ele, calmamente, os olhos violeta brilhando com o desafio. – Vamos colocar o elemental para trabalhar num dos setores de pedidos. Então, pouco depois, vamos lhe dar asas.

Um burburinho se fez na mesa, pois todos ali sabiam que havia anjos no Grande Templo trabalhando há séculos sem nunca ter ganho asas. Uriel expôs então seu plano.

– Eu vi que Z fez ótimos trabalhos junto aos humanos. Mas ele nunca se envolveu. Nunca fez um pedido mais apaixonado para que ajudássemos alguém. Ele fez o seu trabalho, e o fez muito bem, mas nunca sentiu algo pelas pessoas. Para ser um anjo, precisamos amar. É o amor que sopra a brasa da Centelha Divina transformando-a em fogo sagrado. Vocês sabem disso. Acho que Thomas tem razão. Z tem grande potencial. Mas precisa trilhar o caminho de volta pra casa e encontrar seu coração. Somente quando isso acontecer, podemos dizer que ele cresceu.

 

 

O Funcionário


E assim foi feito. Z assumiu em tempo integral sua forma física. Era um jovenzinho muito bonito, com sobrancelhas retas e olhos muito azuis, cuja presença era sempre agradável. Uma grande evolução do goblin que costumava ser há 100 anos. Foi mandado para o setor de Marziel, que agora comandava toda a seção. Marziel lhe mostrou sua mesa e lhe explicou o básico. Z estava feliz, mas inseguro e naturalmente cometeu muitos erros. Em seu julgamento, certas causas eram urgentes e outras não. Na metade das vezes, estava redondamente enganado. Z não conhecia muito da natureza humana. Ainda não sabia que nem sempre o que as pessoas pedem deve ser dado, pois nem sempre o que elas querem é de fato o que precisam. Marziel lhe deu muitas broncas, deixando-o mais nervoso ainda. Marziel chegou a fazer queixas pessoalmente à Thomas.

Na verdade, Marziel não gostava de Z porque ele era a lembrança viva de um fracasso seu, de sua própria falta de visão. Marziel também não concordava em dar um trabalho angélico a um elemental. Elementais não foram feitos para tomar decisões desse porte. Thomas ouviu pacientemente e disse que pensaria a respeito.

Ele não mentiu. Pensou mesmo. Por cinco segundos. Então, percebeu que Marziel estava lidando com problemas antigos e que, com sorte, encontraria em Z um jeito de resolver. Thomas gostava de observar Z trabalhando e interagindo. Fazia isso à distância pela sua tela no ar, ou pessoalmente, quando visitava o setor.

Algo que observou foi como Syl, a fada, parecia brilhar mais quando estava perto dele. Percebeu que ela lhe lançava olhares e lhe dava doces. Z aceitava de bom grado os doces e parecia não entender os olhares. Thomas logo percebeu que a fadinha havia se apaixonado. Cem anos depois, ela não era mais uma organizadora, mas uma fada da inspiração. Ia ao mundo dos homens soprar inspiração para os que estivessem sintonizados com as esferas mais altas. Depois que Z foi transferido para o setor, ela passou bem mais tempo lá do que quando trabalhava recolhendo papéis.

Este era o teste perfeito para Z. Apaixonar-se é um passo gigante na direção certa. Depois, haveria o desafio de controlar essa paixão até que ela se tornasse amor puro. Era como lapidar um diamante bruto.

 

 

Asas


Uriel e Thomas observavam através do vidro o trabalho de Z, passados alguns meses. Syl continuava derretida, mas já demonstrava sinais de frustração ante a indiferença dele. Z continuava entregando-se ao trabalho e tentava fazê-lo com perfeição, embora às vezes de maneira meio bruta, justamente por não se envolver emocionalmente com nada.

– Ele não está evoluindo... – disse Thomas, um tanto decepcionado.

– Então, vamos dar um empurrãozinho! – respondeu Uriel, com um grande sorriso.

Os dois anjos entraram no setor, chamando a atenção de todos. Uriel nunca aparecia por lá. Era um dos grandões. Seu porte era altivo e tinha longos cabelos negros e brilhantes. Seus olhos eram desenhados e pareciam lanternas violetas acesas. Sua túnica era vermelha com detalhes em ouro e prata. Era um anjo muito chique.

– Gostaria de pedir a atenção de vocês! – disse Uriel. – Hoje, é dia de alegria! Vamos fazer uma festa, porque hoje o Céu ganhará um anjo e um anjo ganhará asas!

Todo mundo festejou. Primeiro, porque teriam festa, embora festas não fossem tão incomuns assim. O Grande Templo situava-se numa enorme cidade astral com muito espaço e lugares belíssimos para quando não se estava trabalhando, o que incluía algumas festas. Segundo, porque cada um ali imaginou que poderia ser este anjo que ganharia asas! Houve aplausos e, então, Uriel anunciou o felizardo.

– Nosso novo anjo que ganhará asas hoje é nosso querido Z!

A sala ficou em silêncio. Pareciam não ter entendido. O elemental, o ex-goblin, aquele lá ia ganhar asas??! Sério?! Marziel ficou boquiaberto. Então, aplausos foram ouvidos. Era Syl, aplaudindo animada. Outros anjos seguiram a fada e aplaudiram. De fato, Z não fizera muitos amigos. Vivia basicamente para trabalhar.

Quando Uriel e Thomas saíram, olharam surpresos um para o outro.

– Não imaginei ver tanta aura de inveja num lugar repleto de anjos! – disse Thomas.

– Seu elemental pode vir a ser um instrumento de crescimento muito mais amplo do que tínhamos pensado...

 

 

A Promoção


Foi uma bela cerimônia nas nuvens. Z se ajoelhou como um cavaleiro e a Grande Mãe o ungiu com óleo sagrado. Anjos crianças cantavam a música do paraíso e todos os anjos e elementais presentes se embeveciam com a beleza e emoção daquele momento. Z disse seus votos solenemente, acreditando em cada palavra.

– Serei honesto. Serei sincero. Serei gentil. Acima de tudo, velarei pela verdade e pela vida, e serei o guia dos caminhos retos.

A mulher de manto azul e vermelho, de coroa na cabeça e longos cabelos escuros, cujo rosto era o mais belo do mundo porque não há nada mais belo que a bondade, cobriu-o de luz num gesto de mão.

– És agora Zacariel, anjo de Rafael, príncipe das Virtudes, e és um anjo à serviço da Divindade!

E ao ouvir essas palavras, Zacariel sentiu algo mudar dentro de si. Algo surgiu em suas costas. À princípio, era apenas luz. Mas então ganhou consistência, forma e peso. E penas. Zacariel era agora um belo anjo de enormes asas brancas.

Depois da cerimônia, o anjo foi encaminhado para seu novo trabalho. Trabalharia agora no Setor dos Pedidos Enviados Através da Magia. Marziel não pôde esconder a surpresa quando soube. E então, ficou muito chateado.

No Setor dos Pedidos Enviados Através da Magia, as mesas eram maiores e havia mais espaço entre elas. Muitos anjos alados estavam concentrados em suas atividades. Diante deles, uma tela de cristal líquido mostrava os pedidos e o histórico de quem os fez. Zacariel foi ensinado a sempre consultar o Arquivo Akáshico antes de atender um pedido. No Arquivo Akáshico, uma biblioteca gigantesca, ele encontraria todos os arquivos de todos os seres do universo, desta vida, das vidas passadas e das prováveis vidas futuras. A magia também estava sujeita às leis kármicas. Não se pode atender prontamente qualquer pedido só porque alguém lá no mundo dos homens descobriu como ligar para o número certo.

Depois da consulta, que poderia ser feita por uma tela de cristal lateral, Zacariel precisaria atender ao pedido. Pessoalmente. E essa era a melhor parte. Quando um anjo deixava sua mesa e saía, sempre o fazia sorrindo e animado. Era uma chance de ir a outros mundos e usar a criatividade. Assim, Zacariel ficou ansioso, esperando sua primeira missão.

Aguardava uma luz verde piscar em sua mesa. Isso queria dizer que havia um pedido direcionado a ele. Somente então algo apareceria na tela, e então ele daria início ao seu trabalho.

– Ouço o pedido, identifico a pessoa, pesquiso no Arquivo Akáshico pendências kármicas, dou início ao processo... Ouço o pedido, identifico a pessoa...

Zacariel repetia os passos, com medo de se confundir. Não estava acreditando que aquilo estava acontecendo com ele. Sempre desejara do fundo de seu coração ser um anjo, mas julgava que isso seria impossível, dado o seu histórico tenebroso. Então, de repente, ganhara asas.

Anabele, uma bela anja de cabelos ruivos lisos, levantou-se animada de sua mesa.

– Até mais, galera! Acabei de receber um pedido para proteger uma expedição para salvar as baleias!

Os outros anjos acenaram para ela, desejando-lhe sorte e felizes pela sua inspiradora e emocionante missão. Todo anjo fica feliz em sair de seu setor para fazer trabalho em campo. Como há métodos de realizar pedidos à distância, nem sempre isso acontece. Por isso a animação da anja, o que despertava também um pouco de inveja em quem ficava. Mas não uma inveja feia como monstro que ataca Tókio. Uma invejinha verde-clara, daquelas inofensivas, do tipo que todo mundo sente quando assiste ao Oscar.

Zacariel voltou a se concentrar na luz verde de sua mesa. Em alguma hora, ela iria acender.

 

 

A Primeira Missão


Também no Grande Temp lo amanhecia e escurecia. Na Cidade das Estrelas, o nome do lugar onde ficava o Grande Templo, havia muito mais a fazer do que simplesmente trabalhar. Não havia horários. Anjos trabalhavam o quanto queriam, porque queriam. Geralmente, elementais podem ser preguiçosos se o serviço não for interessante e facilmente dispersam e perdem sua atenção. Thomas acreditou que um pouco da natureza elemental de Zacariel provocaria um abandono de emprego em poucos dias, pois dia após dia, a mesa do anjo novato permanecia apagada e sem novidades, enquanto todos a sua volta se moviam alegremente em missões cada vez mais interessantes.

Mas o anjo não abandonou o trabalho. Continuou indo, dia após dia, chegando cedo e ficando até tarde, esperando ansiosamente que a luz verde acendesse. Até que numa noite, finalmente, ela acendeu.

A grande sala estava vazia. Todos tinham seus afazeres em campo e só restava um anjo debruçado sobre uma mesa. Zacariel estava quase cochilando quando a luz e o som leve de um sino agudo o acordaram. Confundiu-se e por alguns segundos não soube o que fazer. Tocou a tela de cristal diante dele e uma imagem apareceu. Viu uma jovenzinha de cabelos castanhos de pé num quarto, diante de velas. Zacariel esfregou as mãos animado. Estava prestes a ganhar sua passagem para um passeio no Mundo dos Homens para ajudar essa moça a conseguir sei lá o quê. Respirou fundo e aguardou que ela dissesse o pedido.

A moça ficou parada, olhando em volta, esperando algo acontecer. Zacariel então tomou a iniciativa.

– Foi você quem chamou?

A menina não respondeu de pronto. Parecia confusa em ouvir a voz do anjo em sua cabeça. Zacariel não compreendeu o motivo da confusão. Afinal, se ela chamou, por que a surpresa de alguém atender? Lembrou que Thomas havia lhe explicado que nem todos que fazem um pedido através da magia são verdadeiros magos, bruxas ou feiticeiras. Algumas são pessoas que seguem as instruções como quem segue um livro de receitas. Zacariel insistiu.

– Foi você?

– F-foi... – gaguejou a moça.

– Bom... O que posso fazer para ajudá-la?

­ – Você é Rafael? – perguntou ela.

– Não, ele está muito ocupado no momento. Mas vim em nome dele, pode dizer o que você quer.

A garota pensou. Zacariel não tirava os olhos da tela, empolgado com sua primeira missão. Com certeza, seria algo relacionado ao amor, curar um coração partido ou unir um casal. Como era um anjo de Rafael, talvez ela o tivesse chamado para um trabalho de cura, ou para espalhar uma notícia. Eram tantas as possibilidades que a mente dele não parava de funcionar, como quem imagina os prêmios que pode ganhar ainda com o bilhete na mão.

– Minha amiga Analice desapareceu domingo passado. Eu acho que ela está no Reino das Fadas. Pode me ajudar a encontrá-la?

Zacariel não respondeu. O rosto desmontou e a empolgação evaporou. Recostou-se na cadeira, enquanto imagens há muito esquecidas voltavam como punhaladas no coração. Coisas que ele fizera, coisas que fizeram com ele, coisas que só queria esquecer.

– Alô? – disse a menina.

– Estou aqui – respondeu ele, suando frio. – Estou apenas verificando seu pedido. Aguarde um momento, por favor.

Então, com um movimento de mãos, disse:

– Tempus suspensus.

Talvez não precisasse pegar aquela missão. Zacariel precisava averiguar a menina no Arquivo Akáshico. A tela lhe deu o nome dela. Então, esqueceu-se completamente de que podia verificar isso na tela ao lado, saltou da cadeira e saiu correndo, levantando alguns papéis com sua correria. Atravessou corredores, esbarrou em outros anjos, entrou estabanadamente na imensa biblioteca e pediu informações. Infelizmente, ali não era o Arquivo Akáshico. Era a Biblioteca Universal, com todos os livros de todos os autores de todos os tempos, incluindo uma seção com livros nunca escritos em vida, mas sonhados ou escritos em outros planos por autores depois de sua morte. Aquele, aos olhos de muitos, era o lugar mais interessante do mundo, mas Zacariel não ficou nele nem por três segundos. Correu na direção oposta e voltou a esbarrar em mais meia dúzia de anjos ocupados, mas distraídos. Entrou finalmente na imensa biblioteca de cristal. Parou na anja que atendia.

– Preciso achar uma pessoa!

– Ah, querido! Todos precisamos! O amor é uma necessidade em qualquer esfera de existência!

– Não, sou um anjo de Rafael e estou com um pedido na linha. Preciso saber se a pessoa tem dívidas pendentes com o Karma.

– Ah, sim! Você prefere o método tradicional ou o atlante?

– O mais rápido!

– Bom, depende de você. No método antigo, temos livros. No método atlante, temos cristais em pequenos discos que...

– Os livros! Os livros!

A moça apontou uma direção e deu instruções que Zacariel mal ouviu. Correu escorregando pelos enormes corredores com prateleiras que subiam a mais de cinco metros. Procurou pelo nome e achou uma direção. Seguiu atarantado até encontrar a estante certa. Voou graciosamente, quase flutuando, para pegar o último livro da última prateleira com as informações que queria. Folheou o livro rapidamente, para terminar com um grunhido de desagrado. A maldita não tinha restrições kármicas para aquele pedido. Recolocou o livro no lugar e voou de volta.

Pousou assim que identificou anjos conhecidos no pátio. Estavam conversando tranquilamente quando o anjo intrometeu-se entre eles, perguntando quem gostaria de pegar um pedido de magia para ir ao Mundo das Fadas. Infelizmente, a oferta não parecia tão boa e Zacariel nunca fora bom vendedor. Depois de várias tentativas, seu tempo acabou e ele voltou para a sala vazia onde apenas sua mesa tinha imagens na tela.

Sentou-se na mesa e viu a garota esperando na tela de cristal flutuante. Respirou fundo e tirou o cabelo do rosto.

– Você conhece os perigos do Mundo das Fadas? – perguntou finalmente o anjo.

– Conheço... – Bianca não parecia muito segura.

– Então sabe que ao ir para lá, pode nunca mais voltar?

A menina não respondeu.

– Sabe que ao tentar recuperar o que perdeu, pode perder tudo o que tem?

– Não procuro tesouros! – respondeu ela de repente, sentindo-se por certo ameaçada por algum castigo divino por querer ir mais longe. – Não quero ir porque estou curiosa, embora esteja mesmo. Não quero ir para ver uma fada de verdade. Quero ir porque minha melhor amiga foi levada para lá e pode estar sozinha ou em apuros agora! Sou a única amiga de verdade dela, ela só tem a mim para ir até lá. Se você fosse arrastado para um outro mundo, e estivesse em perigo, ou sofrendo, não gostaria que alguém que o amasse o bastante fosse até lá resgatá-lo?

Zacariel gelou. O rosto estava branco e o silêncio que se fez pareceu esmagá-lo.

– Você aceita os riscos, então? – perguntou o anjo, finalmente.

Bianca respirou fundo.

– Aceito.

Zacariel fechou os olhos em desalento. Teria que voltar para o último lugar que gostaria de ir, correndo o risco de se deparar com antigos e fatais inimigos. Pior que isso, teria que se deparar com quem ele mesmo foi e suas ações vergonhosas. Sentiu o coração apertar e desejou que a luz na sua mesa não tivesse se acendido. Talvez ela desistisse. Muitas dessas bruxas de primeira viagem desistem no meio do caminho. Porém, se ela fosse mesmo, ia fazer a coisa certa. Levaria a mocinha até a amiga dela, em segurança, e a traria de volta ao seu mundo, em segurança. Esperava que ela desistisse, mas se não... Essa seria a sua primeira missão. E ele teria que cumpri-la.

– Muito bem... – disse o anjo – Você deverá escolher o momento certo, do dia certo, no lugar certo e fazer o que tem que fazer. Não deverá levar consigo nenhum aparelho eletrônico. Mas deve levar o seguinte:

A garota ficou parada prestando atenção.

– Anote! Ou você pode esquecer! – ordenou o anjo.

Ela pegou estabanadamente um bloco e uma caneta e começou a anotar.

– Você deve levar frutas, doces e coisas que você coma, além de uma garrafa de água. Não precisa ser em grande quantidade, apenas o bastante para uma refeição. Não leve carne de nenhum tipo.

Zacariel ouviu o pensamento da guria: “Puxa, que pena, não poderei levar 20 kg de costela pra fazer um churrasco...”. Que ousadia! Ainda era sarcástica! Essa tal de Bianca era mesmo muito abusada!

– Você pode não levar costela, mas bem que ia gostar de levar um frango assado com farofa, sua farofeira! – retrucou o anjo.

– Você pode ouvir o que eu penso???

– Posso ouvir e posso ver. Então é melhor tomar cuidado com seus pensamentos.

– E lá se foi minha privacidade... – murmurou a contragosto. – Muito bem, não levar carne, e o que mais?

– Você não deve comer nenhum tipo de carne a partir de agora. Nem tomar bebidas alcoólicas. Você deve levar, e isso é muito importante, uma coisa que a lembre de quem você é e de onde você veio. Você deve levar algumas joias, não precisam ser verdadeiras, mas precisam ser brilhantes e bonitas. Não vá de preto. Nos encontraremos lá!

– Peraí! Lá onde?

– Você não estava prestando atenção? No lugar certo, no momento certo do dia certo!

Zacariel já estava desligando e finalizando o contato, quando ouviu uma última pergunta.

– Espere! Qual o seu nome?

Espantou-se. Quase nunca perguntaram seu nome, nem no Mundo das Fadas, nem no Mundo dos Anjos. Não esperava esse tipo de pergunta. Então, antes da imagem se apagar completamente, respondeu:

– Zacariel.

 

 

Esquivando-se


Quando o anjo do Setor dos Pedidos Enviados por Magia recebia sua missão, nenhum outro pedido seria transferido a ele até que resolvesse o primeiro. Zacariel deixou sua mesa com o peito pesado. Voltar ao Reino Encantado era, ao seu ver, a pior coisa que poderia lhe acontecer. Naquela noite, fez uma pesquisa. Conversou com Thomas, já que Marziel sempre parecia pouco paciente para falar com ele. Nessa conversa, descobriu que não poderia passar a missão adiante, pois se ela caíra em suas mãos, havia um caminho misterioso e cósmico que deveria ser seguido. Também descobriu que qualquer parente seu saberia que era um anjo e qualquer um que tenha convivido algum tempo com ele quando era um goblin, veria o que ele foi. Uma vez no Reino Encantado, seria um ser físico, sujeito a todos os efeitos daquele mundo, mágico ou físico. Estaria por conta própria e não poderia voltar até que a missão fosse encerrada.

Thomas não pretendia deixar o novato à própria sorte num lugar repleto de tantos perigos para ele. Mas precisava fazer com que o anjo entendesse que estaria sozinho. Geralmente, isso faz toda a diferença no comportamento de alguém. Saber que ninguém o estará observando o fará agir como sua natureza, testará seu caráter e o fará dar um salto para frente ou um salto para trás.

Apesar de Zacariel ter sido designado para Rafael, Uriel parecia muito mais interessado nele do que o príncipe das Virtudes. Thomas achou isso bom, pois Uriel tinha uma maneira muito peculiar de trabalhar e confiava nele. Com certeza, Uriel não jogaria Zacariel aos lobos.

Depois de muito pensar, Zacariel começou a trabalhar. Ainda de noite, visitou o quarto de Bianca, a autora do pedido. A presença do jovem anjo iluminou suavemente o quarto. Nem Cacau, nem Bianca acordaram. Zacariel olhou a moça longamente. Então, perambulou pelo quarto. Observou o mural, no qual viu fotos de família, cachorros e de uma outra menina, provavelmente a que desapareceu. Leu notícias de jornal presas no mural. Sabia o quão perigoso era, não só para ele, mas também para ela, ir ao Reino Encantado. Não tinha muita esperança de que, se encontrasse a amiga, pudesse trazê-la de volta. O mais provável era que nenhuma das duas conseguisse voltar.

Faz parte do trabalho do anjo encarregado fornecer algumas pistas que guiem a pessoa na direção do pedido feito. Zacariel pensou então em fazer esse serviço de uma maneira menos eficiente do que de costume. Com poucas pistas, talvez ela desistisse, ou perdesse a janela que se abriria para aquele mundo em poucos dias. No fim, seria o melhor para todo mundo. Menos para Analice, que ele não fazia ideia de onde estava.

Assim, Zacariel moveu suas peças, sutilmente, como fazem os anjos, e soprou um sonho nos pais de Bianca. Esse sonho viraria uma ideia e essa ideia viraria uma ação. A ação a levaria, pela manhã ao lugar certo. No entanto, não lhe diria qual o momento certo, nem o dia certo. Se ela fosse uma maga, uma bruxa, uma xamã, qualquer pessoa há algum tempo na estrada da magia, poderia descobrir outro momento. Mas como era uma garota comum fazendo magia com algum livro de receitas, ela precisaria da Lua Azul, o momento em que os portais para o Reino Encantado estariam escancarados. Decidiu que essa pista, ele não daria.

 

 

A Câmara


Marziel explicava com uma certa má vontade como se utilizava a Câmara.

– E enquanto você estiver aqui dentro, poderá acompanhar tudo o que acontece com o humano que o solicitou à distância. Se quiser interferir diretamente, basta entrar na imagem. Mas lembre-se de que esse caminho é só de ida. Uma vez fisicamente no outro mundo, seja lá qual for, só é possível voltar por outro caminho. Mas a maioria dos casos se resolve aqui mesmo.

– E, caso eu precise de ajuda daqui, eu posso...

– Zacariel, você não é mais um elemental! – retrucou Marziel. – Você é um anjo agora, veja se não nos envergonha! Se lhe deram a missão, deve ser porque você pode cumprir.

Zacariel engoliu em seco e baixou os olhos envergonhado.

– É só isso? Porque eu tenho trabalho a fazer.

– Sim, senhor. Obrigado.

Marziel saiu e Zacariel observou a câmara. Era uma sala em forma de ovo no teto, muito branca. Não havia absolutamente nada a sua volta, a não ser aquelas paredes brancas, uma pequena mesa redonda e uma cadeira confortável. Nunca tinha entrado numa, não sabia muito bem como ia funcionar. Ficou de pé no meio da sala, respirou fundo, fechou os olhos e então pensou em Bianca. Quando abriu os olhos de novo, tinha um mundo inteiro a sua volta. Era como se realmente estivesse lá. Estava no Lago das Fadas, numa floresta do Mundo dos Homens. O lugar era belíssimo e logo viu a garota chegando. Ela se sentou e esperou.

– Você veio!... – disse Zacariel, com uma certa surpresa, já que não tinha se esforçado em dar pistas de como ela chegaria ali na hora certa.

– Claro que vim! Você não me mandou vir?

– É que a maioria desiste assim que pensa melhor nos riscos... O que me leva a crer que você não deve ser muito esperta...

– Para um anjo, você é meio abusado...

Zacariel riu. Raramente ria. Mas algo naquela garota o divertia.

– E então? – perguntou ela. – O Sol já vai nascer. O que eu faço agora?

– Pense na sua amiga e cante uma canção.

– Que canção?

– Qualquer uma. Pode começar.

Enquanto ela cantava, Zacariel se concentrou na abertura de portais. Sentiu o vento agitar-lhe os cabelos, mesmo estando numa sala fechada. Não demorou muito. Mandou-a continuar cantando, pois a música ajudava na passagem. Era uma questão apenas de tornar o corpo dela sutil o bastante por uma fração de segundos para se materializar no Reino Encantado, enquanto desaparecia por completo no Mundo dos Homens.

O anjo moveu graciosamente as mãos, o vento em seus cabelos e asas, os olhos fixos na cena a sua frente. Até que o mundo mudou. As árvores ficaram mais verdes, o lago desapareceu e o chão sob os pés dela se transformou em relva sem que ela sentisse. A passagem para outro mundo frequentemente causa algum desequilíbrio. Sentiu que a menina ia cair. Então, com mais um movimento de mãos, fez o vento ampará-la gentilmente, pousando-a com cuidado na relva verde primaveril.

 

 

Ordens


Uriel e Rafael observavam tudo em uma outra sala, muito mais ampla.

– Sua ideia é meio descabida – disse Rafael.

– Acho que pode ser um grande avanço para muitos aqui.

Rafael deixou a sala.

– Talvez. Espero que consiga – disse Rafael. – Verei no que deu assim que voltar. Tenho alguns assuntos urgentes na Terra.

Na porta, Rafael parou e se voltou para Uriel.

– Se quer que isso dê certo, é melhor evitar interferências. Thomas não vai sossegar. Diga-lhe que ele virá comigo para o trabalho em campo.

Thomas estava indo verificar Zacariel sem saber que o jovem já estava na Câmara, quando Uriel surgiu do nada diante dele, dando-lhe um susto.

– Odeio quando você faz isso!

– 450 anos aqui e ainda não se acostumou?! Bem, Thomas, você mudará de ares. Rafael quer sua ajuda num trabalho de campo na Terra.

Thomas se animou por um segundo e meio, e então pareceu se lembrar de alguma coisa que tinha que fazer.

– Ele está saindo agora. Melhor se apressar!

Uriel desapareceu. Thomas sempre gostara de trabalhos de campo, mas pretendia acompanhar Zacariel em sua primeira missão. Porém, ordens são ordens. Então, foi até o setor de Marziel.

– Marziel, vou lhe dar uma função extra. Você pode fazer?

– Claro! O que eu preciso fazer?

– Preciso que dê uma olhada em Zacariel – respondeu Thomas.

– Zacariel? – Marziel não conseguiu disfarçar sua decepção com a tarefa dada.

– Ele tem uma missão no Reino Encantado. Quero que fique de olho nele e dê uma ajuda se ele precisar, está bem?

– Tudo bem – respondeu o anjo.

Thomas então levantou voo assim que alcançou o grande salão de entrada do Grande Templo, cujo teto em abóbada chegava a mais de 200 metros de altura.

Marziel foi até a Câmara. Podia-se ficar meses ali dentro, acompanhando algum humano. Do lado de fora, uma pequena tela mostrava seu interior. Marziel observou o novato por algumas horas.

– Esse covarde não vai entrar no Reino Encantado – disse entre dentes para si mesmo. – Ele fará todo o trabalho daqui mesmo... Não há perigo nenhum nisso.

E então voltou aos seus afazeres.

Pouco depois que Marziel saiu, Zacariel levou as mãos a cabeça com o que via diante dele. Bianca tinha caído num círculo encantado. Zacariel gritou para ela o mais alto que pôde, mas ela não o ouvia mais. Rodava e dançava junto aos elementais da terra numa ciranda sem fim. Zacariel andou em círculos pela sala, nervoso e agitado. Tentou se lembrar de algum feitiço de seu tempo de elemental, algo para quebrar o encanto e tirá-la dali. Disse o encanto, mas nada aconteceu. Ela não o ouvia e, sem a conexão com ela, praticamente não tinha muito o que fazer. Então Zacariel ficou parado. Esperou algo acontecer. Até que não viu outra alternativa a não ser tomar distância e saltar para dentro da imagem.

As imagens continuavam acontecendo, mas não havia mais ninguém na câmara para assistir.

 

 

Asas partidas


Dias se passaram em que Rafael e Thomas trabalharam arduamente, junto a centenas de outros anjos e elementais, numa grande tragédia. Um furacão arrancou pessoas, animais e casas do chão numa imensa região de um país na Ásia. Muitos feridos e doentes se lamentavam e gemiam em barracas improvisadas, enquanto auxílio chegava de cidades vizinhas e países distantes. Rafael dividira seus anjos e elementais entre os que protegeriam quem estava indo ajudar e os que ficariam para o trabalho direto, tanto de encaminhamento para os que partiram, quanto para alívio e cura aos que fossem prosseguir em sua jornada humana. Os primeiros dias, como sempre, foram os piores. Mas a ajuda começou a chegar e a presença dos anjos dava alívio, mesmo que invisível aos mais fechados.

Rafael estava a poucos passos de Thomas quando aconteceu. Uma fina e delicada pétala branca caiu sobre eles, a primeira de muitas. Pétalas brancas caíam do céu, lentamente, flutuando. Thomas abriu a mão e viu aquelas pétalas pousarem suavemente, quando sentiu uma pontada profunda em seu coração. Olhou para Rafael como quem procura um olhar que negasse o que estava sentindo. Rafael ergueu a cabeça lentamente e o olhou com olhos graves e pesados. Então, com um leve sinal de cabeça, mandou o anjo voltar.

Thomas subiu em um salto imediato, abrindo as asas prateadas que passaram pelas pétalas que continuavam a cair.

Em fração de segundo chegou à Cidade nas Estrelas. Pousou nos jardins do Grande Templo, onde anjos surpresos assistiam à chuva de pétalas. Alguém tentou falar com ele, mas Thomas não ouviu. Correu para dentro do Templo, seguindo o caminho que sempre gelara seu coração.

Chegou diante de uma porta grande de madeira escura com arabescos em volta e um ankh no meio. Alguns anjos estavam lá e olharam para ele sem nada dizer. Thomas passou por eles e tocou na porta, abrindo-a lentamente. Lá dentro, uma sala de luz suave e branca o recebeu. Um anjo estava de pé diante de uma mesa comprida. Sobre a mesa, havia um corpo.

Thomas fechou a porta atrás de si e caminhou lentamente para o centro. Aproximou-se e viu o corpo de Zacariel. As asas estavam partidas e ensang uentadas numa mesa mais afastada. As lágrimas subiram, assim como um furacão de sentimentos que misturavam frustração, impotência e desejo de vingança. Thomas fechou os olhos. Nenhum daqueles sentimentos eram dignos de um anjo. Quando os abriu novamente, fez um afago nos cabelos do anjo morto e disse ao anjo que estava ao seu lado, sem olhar para ele.

– Chame Marziel.

O anjo saiu sem nada dizer, deixando Thomas sozinho com sua dor. Thomas então tocou o peito do anjo e fechou os olhos. O anjo viu tudo o que Zacariel vivera até o momento de sua morte. Viu como se fosse um filme, com detalhes, com cores, com sentimentos, porque estava vendo através do coração dele. Os olhos podem enganar de vez em quando, mas o coração nunca mente. Quando terminou, lágrimas desceram pelo rosto de Thomas.

– Você conseguiu... – sussurrou para o jovem anjo que não tivera tempo de aproveitar suas asas. – Você descobriu como amar de verdade...

A porta se abriu e Marziel entrou. Assim que deu os primeiros passos, ficou claro que ele não sabia o que ia encontrar. Todos os anjos sabiam que alguém especial havia morrido, um anjo querido da Grande Divindade havia perecido injustamente. Quando isso acontecia, as lágrimas da Grande Mãe caíam como pétalas de rosas. No entanto, ninguém sabia de quem se tratava. Nos jardins, especulava-se ter sido um dos nove do Conselho, os anjos mais antigos e próximos da Divindade. Ninguém, muito menos Marziel, jamais imaginara que era o jovem Zacariel.

Marziel parou a alguns passos, perdendo por um momento toda a orientação.

– Eu lhe pedi para tomar conta dele... – disse Thomas, levemente debruçado sobre seu protegido, com a mão em seus cabelos.

Marziel não falava. Continuava olhando o corpo sobre a mesa como se não fosse real, como se houvesse outra explicação.

– Por que não o fez? – perguntou Thomas, calmamente sem olhar para Marziel.

Marziel poderia dizer que se distraiu, que tinha outros trabalhos a fazer, que não acreditou que o anjo deixaria a câmara... Mas, no final, deparou-se com uma verdade muito mais sombria dentro de si mesmo. Lágrimas começaram a descer sem que ele pudesse controlá-las.

– Porque eu o invejei – respondeu finalmente. – Porque eu queria que ele falhasse.

Thomas olhou-o decepcionado.

– Mas eu não queria que ele morresse... – soluçou Marziel. – Eu não queria! Eu não queria que ele morresse!...

Marziel chorou como nunca chorara. Thomas voltou a olhar para o jovem na mesa.

– Saia – disse friamente.

– Me perdoe... – implorou o anjo.

– Apenas saia.

Marziel então saiu, sem poder levantar a cabeça. Thomas se viu só novamente com o jovem anjo sem vida. Colocou a mão em sua testa, e preparou-se para se despedir.

– Me perdoe, meu amigo... – disse, num murmúrio sentido. – E adeus...

Thomas beijou a testa do garoto e suas lágrimas caíram sobre o rosto dele. Sentiu que alguém mais o observava. Uriel estava parado a alguns passos, observando em silêncio.

– Ele fez tudo certo, Thomas... – disse Uriel. – Você devia se orgulhar. Criou um anjo maravilhoso.

– E querendo que ele fosse mais, mandei-o para a morte... – respondeu Thomas.

– Como anjo, você sabe que não existe morte – respondeu Uriel, aproximando-se e tocando o ombro de Thomas. – Morrer aqui é renascer em outro lugar. Alguns voltam para casa, para os braços da Divindade... Outros, simplesmente continuam.

– Anjos não continuam, Uriel... Anjos voltam para a Fonte Universal.

Uriel olhou Zacariel longamente.

– Nem sempre... Regras são quebradas o tempo todo.

Então Uriel se aproximou de Zacariel e colocou suas mãos sobre ele. Suas asas se abriram e a sala se tornou um grande universo. Vento sustentava os três anjos, balançando seus cabelos e suas asas. As estrelas se tornaram violetas e uma espiral de luz branca envolveu o jovem, que agora flutuava no ar sob as mãos de Uriel. Não havia mais mesa, ou paredes, ou limites.

Um clarão se fez, cegando momentaneamente Thomas, que nunca havia visto nada igual. Quando abriu os olhos novamente, estava de volta à Sala das Asas. Era como chamavam a sala para onde os corpos de anjos mortos iam. Uriel estava ao seu lado. A mesa estava vazia.

– O quê... Pra onde... O que aconteceu?

– Zacariel cumpriu seu papel com excelência – respondeu Uriel. – Ele foi o instrumento de aprendizado para todos aqui. E para si mesmo. Alguém assim não pode ser perdido.

– Pra onde ele foi? – perguntou Thomas.

Uriel fez um movimento de mãos e mostrou para o anjo um encontro numa praça no Mundo dos Homens. Thomas, boquiaberto, não acreditava no que via. Aquela era uma graça, um presente, um milagre que muito poucos receberam.

– Havia um coração partido no Mundo dos Homens... E corações partidos aqui... – disse Uriel. – Já temos corações partidos demais...

Uriel se virou para sair, enquanto Thomas continuava aprisionado na imagem que via flutuando no ar. Então, virou-se, como se tivesse acordado de repente, e perguntou para o anjo que já se aproximava da porta.

– Por quê?

Uriel se virou para ele. Pareceu pensar por um momento e então respondeu com um sorriso.

– Porque boas ações merecem ser recompensadas.

 

 

                                                                  Eddie Van Feu

 

 

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